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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


AS MULHERES DE CÉZAR / Colleen McCullough
AS MULHERES DE CÉZAR / Colleen McCullough

 

 

                                                                                                                                   

  

 

 

 

 

                               De junho de 68 a.C. a março de 66 a.C.

- Não estou a gostar nada do aspecto da tua pele, Bruto. Chega-te aqui à luz, se fazes favor.

Dir-se-ia que o rapaz, então com quinze anos, nada ouvira. De facto, permaneceu exactamente como estava debruçado sobre uma folha de papel de Fano, com a pena, há muito seca, na mão.

— Bruto, anda cá. Imediatamente — disse a mãe, com a maior serenidade.

Ele conhecia-a bem: por isso, largou logo a pena; embora não tivesse um medo extremo da mãe, a verdade é que não se sentia nada tentado a desagradar-lhe. Podia ignorar sem problemas uma primeira ordem; mas uma segunda significava que ninguém, nem mesmo ele, poderia desobedecer-lhe. Levantou-se e foi ter com a mãe, que estava junto à janela, completamente aberta, pois Roma sufocava sob uma onda de calor que viera cedo de mais.

Embora Servília fosse uma mulher pequena e Bruto tivesse crescido bastante nos últimos anos (correspondendo assim ao anseio da mãe de que viesse a ser um homem de elevada estatura), a cabeça dele não ficava muito acima da dela; agarrando no queixo do filho com uma mão, Servília examinou com todo o cuidado umas quantas borbulhas, vermelhas de assanhadas, que cresciam sob a pele, à volta da boca. Feito o exame, Servília libertou o queixo do filho e afastou-lhe da testa os rebeldes cachos de cabelo negro. outra vez aquelas erupções!

— Dava tudo para que usasses o cabelo curto, meu filho! — disse ela, lutando com um cacho mais rebelde que com toda a certeza não o deixava ver em condições — e puxando-o com tal força que as lágrimas assomaram aos olhos do rapaz.

— Mas, mamã, o cabelo curto é tão pouco intelectual...! — protestou ele.

— O cabelo curto é prático. Não te tapa a cara e não te irrita a pele. Ah, Bruto, os problemas que tu me dás!

— Se querias um filho com ar de guerreiro, sempre com o cabelo cortado à escovinha, devias ter tido mais filhos varões. Silano só te deu raparigas...

— Um só filho varão é uma carga leve. Em contrapartida, para dois filhos varões, e por muito que se estique, o dinheiro nunca chega. Além disso, se tivesse dado um rapaz a Silano, não poderias juntar a herança dele à do teu pai. — Servília abeirou-se da secretária onde ele estivera a trabalhar e, com dedos impacientes, desatou a mexer nos diversos rolos de pergaminho espalhados pelo tampo. — Repara bem na confusão que para aqui vai! Não admira que tenhas os ombros caídos e as costas curvadas. Devias sair, meu filho, devias ir para o Campo de Marte com Cássio e os outros rapazes da escola, em vez de perderes o teu tempo a tentar condensar toda a obra de Tucídides numa única folha.

— Não te esqueças de que estás a falar com o melhor autor de epítomes de toda a Roma — retorquiu o filho, não escondendo o seu orgulho.

Servília lançou-lhe um olhar irónico. — Tucídides — disse ela — não era propriamente um esbanjador, no que toca às palavras. No entanto, teve de escrever muitos livros para contar a história do conflito entre Atenas e Esparta. Que vantagem há em destruir o belo grego em que ele escreveu, só para que os preguiçosos Romanos possam copiar e decorar um mero resumo e vangloriar-se de que sabem tudo sobre a Guerra do Peloponeso?

— A literatura — teimou Bruto — tornou-se demasiado vasta. Nenhum homem poderá abarcá-la sem recorrer a sumários.

— A tua pele está um horror — disse Servília, regressando ao que realmente lhe interessava.

— O que é bastante comum nos rapazes da minha idade.

— Mas não nos planos que tenho para o meu filho.

— Só espero que esses planos nunca contem com a ajuda dos deuses! — gritou ele, de súbito furioso.

— Veste-te, vamos sair — foi tudo o que ela lhe respondeu, retirando-se imediatamente.

 

 

 

 

Quando chegou ao atrium da ampla residência de Silano, Bruto vestia a toga da infância debruada a púrpura, visto que só se tornaria oficialmente um homem em Dezembro, durante a festa de Juventas. A mãe estava já à espera dele. Ao vê-lo aproximar-se, examinou-o com olhos críticos.

Sim, não havia dúvida, tinha os ombros caídos, as costas curvadas. Ele que era tão bonito em criança! Ainda, em Janeiro passado, era um rapaz encantador... Sim, fora em Janeiro que ela encomendara um busto do filho a Antenor, o melhor escultor de bustos de toda a Itália. Agora, porém, a puberdade afirmava-se mais agressivamente e a beleza da infância esfumava-se. Até mesmo os seus olhos de mãe podiam ver isso. Os olhos eram ainda grandes, negros, sonhadores, com pálpebras pesadas, o que, no caso dele, constituía um traço sedutor, mas o nariz parecia não querer transformar-se no imponente edifício romano com que ela sonhara, permanecendo obstinadamente curto e com a ponta em forma de bolbo, ou seja, igualzinho ao dela. E a pele, aquela pele que em tempos fora perfeita, de um belo tom mate, de uma suavidade inexcedível, deixava-a agora positivamente apavorada — e se ele se transformasse num daqueles horrendos infelizes cheios de asquerosas pústulas que depois deixavam na pele cicatrizes feíssimas? Quinze anos... Tão novo ainda e já com tantas borbulhas! Se aos quinze anos já estava assim, como não seria mais tarde? Borbulhas! Que coisa mais nojenta... nojenta e vulgar...! Pois bem, para tudo havia remédio — consultaria imediatamente físicos e ervanários. E, quisesse ele ou não, teria mesmo de ir todos os dias para o Campo de Marte, a fim de praticar exercícios que só lhe faziam bem e de aprender as técnicas marciais de que viria a precisar quando fizesse dezassete anos e tivesse de alistar-se nas legiões de Roma. Como contubernalis, é claro, e nunca como um mero soldado raso; sim, porque o seu filho seria forçosamente um cadete no estado-maior de algum comandante consular, que o trataria pelo seu nome. O nascimento e o estatuto social de Bruto eram garantia suficiente de que as coisas se passariam assim.

O chefe dos criados abriu-lhes a porta, que dava para a estreita rua do Palatino; Servília tomou imediatamente o caminho do Fórum. Era muito rápido o seu passo. O filho tinha de fazer um grande esforço para a acompanhar.

— Onde vamos? — perguntou ele, ainda irritado por a mãe o ter impedido de continuar o seu trabalho.

- A casa de Aurélia.

Se não tivesse estado tão embrenhado na tarefa de condensar uma verdadeira mina de informações numa única frase — e se o tempo estivesse mais clemente —, Bruto teria por certo dado saltos de contente. Agora, porém, tudo o que fazia era queixar-se. — Ah, não, mãe, hoje não! Por favor, não me leves àquele bairro miserável!

— Levo, sim.

— É tão longe...! E aquela casa é tão sombria...!

— Meu filho, a casa pode ser sombria, mas a dona da casa tem magníficas relações. Toda a gente vai lá estar. — Parou por um momento e lançou um olhar matreiro ao filho. — Toda a gente, Bruto, toda a gente.

Bruto calou-se.

Facilitada a caminhada por dois escravos que abriam alas para ela passar, Servília desceu a toda a pressa as Escadas dos Vendedores de Anéis para se embrenhar depois no pandemónio do Fórum Romanum, onde toda a gente adorava reunir-se, escutar, observar, deambular, aproximar-se dos poderosos. Naquele dia não havia reuniões do Senado, nem das Assembleias, e os tribunais estavam fechados para um curto período de férias, mas mesmo assim era possível encontrar alguns dos poderosos, que se distinguiam pelos feixes de varas, atados com fios vermelhos de couro, que os lictores levavam à altura dos ombros para proclamarem o seu imperium.

— É uma subida tão íngreme, mamã! Não podes ir mais devagar? — queixou-se Bruto, já ofegante, enquanto subiam a Clivus Orbis, do outro lado do Fórum. O pobre rapaz estava encharcado de suor.

— Se fizesses mais exercício, já não te queixavas — disse Servília, indiferente aos problemas do filho.

Um fedor nauseabundo invadiu as narinas de Bruto mal se internaram no bairro de Subura, com os seus prédios elevados e ruas estreitas, onde não chegava a luz do sol; pelas paredes escamadas, escorria um líquido lodoso, e os algerozes conduziam pingos negros e viscosos até às sarjetas; as inúmeras lojas mais pareciam minúsculas cavernas mal iluminadas. Bruto só encontrava uma vantagem naquele bairro: aquela sombra húmida, que o fazia esquecer-se do calor. Dispensaria de bom grado as visitas àquela zona de Roma, não obstante o “toda a gente” que a mãe referira.

Deram finalmente com uma porta de carvalho tratado de muito bom aspecto, com painéis talhados na perfeição e uma aldraba de orichalcum polido que tinha a forma de uma cabeça de leão com as mandíbulas abertas. Um dos escravos de Servília bateu com toda a força à porta, que logo foi aberta por um velho e gordo liberto grego, o qual saudou as visitas com respeitosas vénias.

Era uma reunião de mulheres, evidentemente; se Bruto tivesse idade para vestir a toga virilis, a toga inteiramente branca dos adultos do sexo masculino, não teria sido autorizado a acompanhar a mãe. Esse pensamento deixou-o em pânico — sim, sim, a mãe tinha forçosamente de obter uma resposta positiva, porque ele queria continuar a ver a sua querida depois de Dezembro, depois de se tornar adulto, enfim, queria vê-la toda a vida! Porém, sem denunciar a sua inquietação, deixou as saias da mãe logo que começaram as efusivas saudações e escapuliu-se para um canto mais sossegado da sala, longe dos gritinhos das mulheres, na esperança de passar despercebido naquele despretensioso cenário.

— Bruto, ave — disse um fiozinho de voz rouca.

Bruto virou a cara, baixou os olhos, sentiu o coração afundar-se no peito. — Ave, Júlia.

— Vem comigo — ordenou a filha da casa, conduzindo-o para um par de pequenas cadeiras que estavam ali perto. Júlia sentou-se numa das cadeiras, tão graciosa e serena como um cisne aninhado; Bruto imitou-a, mas sentou-se desajeitadamente, embaraçado pela vergonha.

Júlia tinha apenas oito anos — como era possível que fosse já tão bela?, perguntou-se o deslumbrado Bruto, que a conhecia bem, pois Servília era uma grande amiga da avó dela. Branca como a neve, o queixo aguçado, os ossos da face arqueados, os lábios de um rosa ligeiro, tão deliciosos como morangos, um par de olhos azuis, muito grandes e despertos, que fitavam com uma gentil vivacidade tudo aquilo em que pousavam; se Bruto mergulhara na poesia do amor, era por causa daquela menina que ele amava há... há quanto tempo? Há anos, sim, há anos! Mas só há pouco tempo compreendera verdadeiramente o que era o amor — num dia em que ela o fitara com o mais doce dos sorrisos. Tão doce fora o sorriso que, como que abalado pelo choque de um trovão, Bruto entendera, nesse preciso instante, o que era afinal o amor.

Nessa mesma noite, foi ter com a mãe e informou-a de que desejava casar com Júlia. Quando esta fosse mais crescida, evidentemente.

Servília ficou a olhar para ele, estupefacta. — Meu querido Bruto, Júlia não passa de uma criança! Vais ter de esperar nove ou dez anos!

— Júlia ficará noiva muito antes de ter idade para se casar — respondeu ele, revelando toda a sua ansiedade. — Por favor, mamã, pede a mão de Júlia logo que o pai dela regresse a casa!

— Podes mudar de ideias.

— Nunca! Nunca!

— O dote dela é insignificante.

— Mas a linhagem dela não poderia ser melhor.

— É verdade. — Os olhos negros da mãe, capazes da maior dureza, fixaram-se no rosto dele, não sem simpatia; Servília apreciava a força daquele argumento. Reflectiu por um momento e logo assentiu. — Muito bem, Bruto. Quando o pai dela regressar, pedirei a mão de Júlia. Não precisas de uma noiva rica, mas é essencial que a linhagem da tua noiva seja tão notável como a tua. Uma Júlia seria ideal. Especialmente esta Júlia, que é patrícia tanto pelo lado do pai, como pelo lado da mãe.

E foi assim que deixaram o caso, na expectativa de que o pai de Júlia regressasse da Hispânia Ulterior, onde se encontrava em missão na qualidade de questor. Entre as magistraturas importantes, o cargo de questor era o mais baixo dos degraus. Mas Servília depressa ficou a saber que o pai de Júlia desempenhara extremamente bem essas funções. Era estranho que nunca o tivesse encontrado, tendo em conta que os verdadeiros aristocratas de Roma formavam, afinal, um grupo tão restrito. Ela era um desses aristocratas; ele era outro. Contudo, segundo certos rumores femininos, o pai de Júlia era uma espécie de marginal entre os da sua classe, um homem demasiado ocupado para se dedicar à vida social que quase todos os seus pares cultivavam sempre que estavam em Roma. Ter-lhe-ia sido mais fácil solicitar a mão de Júlia, se por acaso já conhecesse o pai. No entanto, Servília tinha muito poucas dúvidas quanto à resposta que iria ouvir. Bruto tinha tudo a seu favor, mesmo aos olhos de um Júlio.

A sala onde Aurélia recebia não tinha comparação possível com um atrium do Palatino, mas era vasta o bastante para albergar confortavelmente a dúzia de mulheres que a invadira. As janelas abertas davam para um jardim que todos consideravam um encanto, graças aos esforços de Caio Macio, que residia no outro andar térreo; era sua a mão que encontrava rosas capazes de florescerem na sombra, que conseguia que videiras escalassem as paredes e as varandas dos doze andares, que transformava os buxos em globos perfeitos, que inventara uma engenhosa distribuição de água que permitia que, no meio de uma fonte de puro mármore, o fresco líquido jorrasse da temível boca de um golfinho.

As paredes da sala de estar haviam sido pintadas no usual tom de vermelho e revelavam uma cuidada manutenção, o chão de tijoleira barata fora polido até ganhar um agradável brilho rosa-avermelhado, e o tecto, graças aos esforços de bons artífices, simulava um céu do meio-dia por onde passeavam suaves nuvens, embora não ostentasse qualquer douradura, um ornamento mais dispendioso. Enfim, não era a residência de um dos poderosos, mas era a moradia adequada para um senador júnior, magicava Bruto enquanto os seus olhos observavam ora Júlia, ora as mulheres reunidas na sala. Como Júlia o apanhou a olhar para ela, Bruto decidiu-se a atentar um pouco naquelas mulheres.

A mãe dele instalara-se num divã, ao lado de Aurélia, onde não passava despercebida, apesar de a sua anfitriã continuar a ser, aos cinquenta e cinco anos, uma das mais belas mulheres de Roma. A figura de Aurélia permanecia esguia e elegante e o repouso assentava-lhe na perfeição, já que, quando em movimento, a excessiva diligência lhe roubava encanto. Na sua cabeleira castanho-clara não se descortinava ainda nenhum salpico grisalho e a sua pele continuava suave e sedosa. Fora ela que recomendara a escola que Bruto frequentava, o que não tinha nada de surpreendente pois Aurélia era a grande confidente de Servília.

O pensamento de Bruto deteve-se então na escola, uma digressão típica numa mente que tendia a vaguear. Servília não quisera mandá-lo para a escola, com medo de que o seu querido menino tivesse de dar-se com crianças de estatuto social (e riqueza, naturalmente) inferior e acabasse por ser vítima da troça dos outros, por causa da sua inclinação para o estudo. Servília preferiria que Bruto tivesse o seu próprio preceptor em casa. No entanto, o padrasto de Bruto defendia que o seu único filho precisava do estímulo e da competição da escola.

Actividades saudáveis e colegas normais: é disso que ele precisa argumentava Silano, não por ciúmes do indiscutível primeiro lugar que Bruto ocupava no coração da mãe, mas porque desejava que Bruto, ao chegar a adulto, tivesse pelo menos alguma experiência de relacionamento com vários tipos de pessoas. Claro que a escola recomendada por Aurélia era frequentada maioritariamente por filhos da aristocracia romana. No entanto, os pedagogos que dirigiam as instituições escolares tinham uma visão da educação (uma visão de uma independência lastimável, segundo Bruto) que os levava a aceitar rapazes inteligentes de classes menos refinadas ou mesmo duas ou três raparigas mais notáveis.

Tendo por mãe uma mulher como Servília, era inevitável que Bruto odiasse a escola, embora Caio Cássio Longino, o colega do filho que Servília mais apreciava, viesse de famílias tão boas como as de Marco Júnio Bruto. Este, porém, tolerava Cássio unicamente porque isso agradava à mãe. Que tinha ele em comum com um rapaz barulhento e turbulento que adorava a guerra, a competição, os feitos ousados? Só o facto de se ter tornado rapidamente o preferido do professor o levara a suportar a terrível provação que era, para ele, a escola. A escola e rapazes como Cássio.

Infelizmente, a pessoa com quem Bruto mais desejaria fazer amizade era o seu tio Catão; Servília, porém, recusava-se terminantemente a ouvi-lo discorrer sobre os seus desejos de intimidade com um meio-irmão que abominava. Não se cansava de lembrar ao filho que o tio Catão tinha por antepassados um camponês de Túsculo e uma escrava celtibera, ao passo que, em Bruto, se uniam duas sublimes e antiquíssimas linhagens até então separadas: uma delas derivava de Lúcio Jânio Bruto, o fundador da República (que depusera o último rei de Roma, Tarquínio Soberbo); a outra vinha de Caio Servílio Aala (que matara Mélio, quando este tentara tornar-se rei de Roma, algumas décadas depois da instauração da República). Assim sendo, um Júnio Bruto que, através da mãe, era também um patrício Servílio, nunca poderia dar-se com a escória, ou seja, com o tio Catão.

— Mas a tua mãe casou-se com o pai do tio Catão e deu-lhe dois filhos, a tia Pórcia e o tio Catão! — protestara Bruto certa vez.

— E dessa forma desgraçou-se para todo o sempre! —atirou-lhe Servília com toda a rispidez. — Eu não reconheço essa união, nem a prole que dela resultou — e tu, meu rapaz, farás como eu!

E ponto final na discussão. E ponto final nas esperanças de Bruto de ver o tio Catão mais frequentemente do que obrigavam as meras convenções familiares. E que pessoa maravilhosa era o seu tio! Um verdadeiro estóico, apaixonado pelos velhos e austeros usos de Roma, adverso a ostentações, rápido a criticar as pretensões tirânicas de homens como Pompeu. Pompeu, o Grande. Outro novo-rico, outro que tinha uma linhagem desoladora. Pompeu, que assassinara o pai de Bruto, que fizera da sua mãe uma viúva, que permitira que um indivíduo insignificante e repulsivo como Silano se metesse na cama dela e lhe fizesse duas raparigas de cabeça oca a que Bruto relutantemente chamava irmãs.

— Em que estás a pensar, Bruto? — perguntou-lhe Júlia, com um sorriso.

— Ah, em nada de especial — respondeu ele.

— Estás a fugir à minha pergunta. Dize-me a verdade!

— Estava a pensar no meu tio Catão. É uma pessoa maravilhosa.

A testa larga de Júlia toda se franziu. — Catão?

— Não deves conhecê-lo, porque ele ainda não tem idade para estar no Senado. Na idade, o meu tio está tão próximo de mim como da minha mãe.

— É aquele que não deixou que os tribunos da plebe deitassem abaixo uma coluna na Basílica Pórcia?

— É esse mesmo!

Júlia encolheu os ombros. — O meu pai disse que era uma estupidez. Se a coluna tivesse sido demolida, os tribunos da plebe teriam agora uma sede muito mais confortável.

— O tio Catão é que estava certo. Catão, o Censor, pôs a coluna em causa quando construiu a primeira basílica de Roma. E, segundo as normas da mós maiorum, a coluna deve ficar onde está. Catão, o Censor, autorizou os tribunos da plebe a usar o seu edifício como sede porque compreendia os problemas desses tribunos — porque eles são magistrados eleitos unicamente pela plebe, não representam todo o povo, e não podem usar um templo como sede. Mas a verdade é que não lhes deu o edifício. Apenas os autorizou a usar uma parte do edifício. E eles, na altura, agradeceram-lhe. Agora, querem alterar aquilo que Catão, o Censor, mandou construir com o seu dinheiro. O tio Catão não tolerará atentados à obra e ao nome do seu bisavô.

Como era uma criatura naturalmente conciliadora e detestava discussões, Júlia fitou-o com um sorriso e pôs a mão no braço dele, apertando-o afectuosamente. Mas que rapaz mais mimado!, pensou ela. Mimado, antiquado e presumido! No entanto, conhecia-o há já muito tempo e tinha imensa pena dele, embora não percebesse bem porquê. Talvez fosse por causa da mãe, que era uma pessoa tão... como dizer... venenosa?

— Bom, isso aconteceu já há bastante tempo, antes da morte da tia Júlia e da minha mãe. Por isso, atrevo-me a dizer que, agora, já ninguém pensará em demolir a coluna — disse ela.

— O teu pai deve estar prestes a voltar — disse ele, lembrando-se de súbito do casamento.

— Sim, um dia destes estará de volta — disse Júlia, toda feliz. — Ah, tenho tantas saudades dele!

— Diz-se que ele tem provocado conflitos na Gália Italiana, do outro lado do rio Pó — disse Bruto, ecoando, sem o saber, o tema da viva discussão que nesse momento animava o grupo das mulheres.

— E porque haveria ele de fazer uma coisa dessas? — perguntava Aurélia, as sobrancelhas negras muito franzidas. Os seus famosos olhos cor-de-púrpura faiscavam. — Francamente, há momentos em que Roma e os nobres romanos me deixam revoltada! Porque escolhem sempre o meu filho como alvo das suas críticas e dos seus mexericos políticos?

— Porque ele é demasiado alto e bonito, porque tem demasiado êxito com as mulheres e também porque é demasiado arrogante — disse a mulher de Cícero, Terência, tão directa quanto amarga. — Além disso — acrescentou aquela que era casada com um famoso artista da palavra e orador —, maneja maravilhosamente tanto a palavra escrita como a palavra falada.

— Essas qualidades são inatas! Nenhuma delas justifica as calúnias de alguns indivíduos cujos nomes eu podia perfeitamente trazer à baila aqui! — disparou Aurélia.

— Estás a pensar em Lúculo? — perguntou a mulher de Pompeu, Múcia Tércia.

— Não, esse pelo menos não pode ser acusado de espalhar tais calúnias — disse Terência. — Deve estar tão ocupado com o rei Tigranes e com a Arménia que já nem tem tempo para pensar nas coisas de Roma; exceptuando, é claro, o problema dos cavaleiros que não conseguem cobrar os impostos nas províncias que ele governa.

— É em Bíbulo que estás a pensar, não é, Aurélia? Tanto mais que ele está de regresso a Roma... — disse uma figura majestática, sentada na melhor cadeira da sala. Sozinha no meio de um colorido grupo, aquela mulher estava vestida de branco da cabeça aos pés, e tão coberta estava que dificilmente se poderiam adivinhar os encantos femininos que eventualmente possuísse. Sobre a régia cabeça erguia-se uma coroa feita com sete rolos de cabelo presos com lã virgem; o diáfano véu que cobria essa coroa flutuou quando ela, virando o rosto, fitou as duas mulheres que estavam no divã. Perpénia, chefe das virgens vestais, não deixou escapar um risinho. — Ah, pobre Bíbulo! Nunca conseguirá esconder a violência da sua animosidade...

— E isto prende-se com o que eu disse, Aurélia — insistiu Terência. — Se o teu filho, belo, alto e elegante como é, resolve fazer inimizade com indivíduos pequeninos e insignificantes como Bíbulo, só poderá censurar-se a si mesmo quando for vítima de calúnias. Haverá maior loucura que ridicularizar um homem diante dos seus pares, pondo-lhe a alcunha de Pulga? O teu filho encontrou em Bíbulo um inimigo para toda a vida.

— Mas que disparate! — disse Aurélia. — Isso aconteceu já lá vão dez anos, eram ambos tão jovens ainda...!

— Ora! Sabes perfeitamente que os homens pequeninos são muitíssimo sensíveis às piadas relativas à sua baixa estatura — retorquiu Terência. — Tu vens de uma velha família política, Aurélia. E, como muito bem sabes, a imagem pública de um homem é um elemento essencial na política. O teu filho feriu a imagem pública de Bíbulo. As pessoas ainda lhe chamam a Pulga. Bíbulo nunca perdoará, nem esquecerá.

— Isto para não falar — disse Servília, num tom mordaz — da ávida audiência que Bíbulo sempre encontra, quando quer espalhar as suas calúnias. Nomeadamente Catão.

— O que é que Bíbulo anda para aí a dizer? — perguntou Aurélia, quase sem mexer os lábios.

— Que em vez de regressar directamente a Roma, depois da missão em Espanha, o teu filho preferiu fomentar a rebelião entre as gentes da Gália Italiana que não têm a cidadania romana — retorquiu Terência.

— Mas isso é um disparate pegado! — exclamou Servília.

— Porque achas que é um disparate? — perguntou a voz grave de um homem.

A sala ficou quieta e calada até que a pequena Júlia saltou da cadeira onde estava e correu para o recém-chegado. — Tatá! Oh, tatá!

César ergueu-a nos seus braços, beijou-lhe os lábios e as faces, abraçou-a, afagou-lhe ternamente a cabeça. — Como está a minha menina? — perguntou o pai, sorrindo só para ela.

Mas “Oh, tatá!”

era tudo o que Júlia conseguia dizer, a cabeça colada ao ombro do pai.

— Porque achas que é um disparate? — repetiu César, pegando na filha com o braço direito. Agora que fitava Servília, a sua expressão já não era sorridente; os olhos de César fitavam os dela como que a dizer-lhe que apreciava o seu sexo, mas que não lhe atribuía a menor importância.

— César, deixa-me apresentar-te Servília, mulher de Décimo Júnio Silano — disse Aurélia, que não parecia nada ofendida pelo facto de o filho nem sequer lhe ter falado.

— Porquê, Servília? — perguntou ele uma vez mais, cumprimentando-a com um breve aceno da cabeça no momento em que pronunciou o seu nome.

Servília manteve um tom de voz sereno e regular e mediu as suas palavras como um joalheiro mede o seu ouro. — Esse boato não tem a mínima lógica. Porque haverias de te dar ao trabalho de fomentar a rebelião na Gália Italiana? Se fosses ter com aqueles que não têm a cidadania e lhes prometesses que os ajudarias a obtê-la, estarias a ter um comportamento adequado a um nobre romano que aspira ao consulado. Estarias muito simplesmente a angariar clientes, o que é uma iniciativa louvável e admirável num homem que pretenda chegar aos mais altos cargos políticos. Eu fui casada com um homem que fomentou a rebelião na Gália Italiana e por isso sei muito bem que se trata de uma alternativa desesperada. Lépido e o meu marido Bruto consideravam intolerável viver na Roma de Sila. As suas carreiras tinham chegado ao fim, ao passo que a tua está apenas a começar. Sendo assim, que ganhos poderias esperar obter, ao fomentar a rebelião na Gália Italiana ou em qualquer outro sítio?

— Tens toda a razão — disse ele, um traço de divertimento assomando àqueles olhos que, até então, Servília achara algo frios.

— Estou certa de que tenho — retorquiu ela. — A tua carreira, tanto quanto a conheço, leva-me a pensar que, se percorreste a Gália Italiana e mantiveste reuniões com não-cidadãos, foi unicamente para angariar clientes.

César riu-se, inclinando a cabeça para trás. Tinha um aspecto magnífico e, pensou Servília, sabia que o tinha. Aquele homem nunca faria nada sem antes calcular o efeito dos seus actos ou palavras na sua audiência, concluiu ela, ainda que essa conclusão fosse motivada apenas por um mero instinto; de facto, César não denunciava minimamente a frieza, o calculismo, do seu comportamento. — Sim, é verdade que angariei clientes — disse ele,

— Como eu pensava! — disse Servília, esboçando um sorriso na sua boca pequena e dissimulada. — Ninguém poderá censurar-te por isso, César — após o que acrescentou, com um ar grandioso, e no tom mais condescendente que se possa imaginar: — Não te preocupes, eu farei com que a versão correcta do que se passou comece já a circular.

Tal afirmação, porém, era intolerável. César não admitia que um Servílio (fosse ele do ramo patrício do clã ou não) lhe falasse com um ar superior. Num jeito rápido, e carregado de desdém, os seus olhos largaram Servília e fixaram-se em Múcia Tércia, a qual, como todas as outras mulheres, seguira fascinada aquele diálogo. César pôs a filha no chão e apertou afectuosamente as mãos de Múcia Tércia.

— Como estás, mulher de Pompeu? — perguntou.

Com um ar confuso, Múcia Tércia murmurou qualquer coisa de inaudível. E logo César tratou de saudar Cornélia Sila, filha de Sila e sua prima direita. E assim, uma a uma, foi saudando as mulheres. Conhecia-as a todas, excepto Servília, que acompanhava os seus movimentos com grande admiração, agora que já tinha digerido parcialmente o choque de um diálogo tão bruscamente interrompido. Até mesmo Perpénia sucumbia aos encantos daquele homem. Ah, e quanto a Terência, a temível matrona, toda ela se desfazia em sorrisos! Por fim, César saudou a mãe.

— Estás com bom aspecto, mater.

— Estou bem. E tu — disse ela, com a sua voz grave e áspera, tão pouco refinada —, pareces-me curado.

Um comentário que o magoou, pensou Servília. Não sei como nem porquê, mas magoou-o! Ah! Afinal, sempre há coisas ocultas nesta casa!

— Estou completamente curado — disse ele, calmamente, enquanto se sentava ao lado dela no divã, mas do lado oposto ao de Servília. — A que se deve esta reunião? — perguntou ele.

— É uma reunião do nosso clube. Encontramo-nos todos os oito dias numa das nossas casas. Hoje foi a minha vez.

E César logo se retirou, desculpando-se com a sujidade própria da viagem, embora Servília pensasse para com os seus botões que nunca havia visto viajante tão imaculado. Porém, antes que conseguisse deixar a sala, Júlia foi ter com ele, levando Bruto pela mão.

— Tatá, quero apresentar-te o meu amigo. Marco Júnio Bruto. O sorriso e a saudação foram efusivos. Bruto estava claramente impressionado com o pai de Júlia (só podia ficar impressionado!, pensou Servília, ainda magoada). — É teu filho? — perguntou César, por cima do ombro de Bruto. - É.

— Não tens nenhum filho de Silano? — perguntou ele.

— Não, só tenho duas raparigas.

Uma das sobrancelhas de César ergueu-se, enquanto o seu sorriso todo se abria. E logo se foi embora.

E depois de César, a reunião transformou-se, não propriamente numa provação, mas num acontecimento absolutamente insípido. Muito antes da hora do jantar já estava terminada. Servília, deliberadamente, deixou-se ficar para o fim.

— Há um assunto que gostaria de discutir com César — disse ela a Aurélia, quando se despediu; Bruto, atrás da mãe, mirava Júlia com um olhar tão amoroso quanto tolo. — Não seria correcto se eu viesse ao mesmo tempo que os seus clientes. Estava a pensar, por isso, que talvez pudesses arranjar-me uma entrevista em privado. Tão depressa quanto possível.

— Com certeza, Servília — disse Aurélia. — Eu mando-te recado.

Aurélia não perguntou qual a razão da entrevista; aliás, não demonstrou a mínima curiosidade pelo assunto. Aqui está uma mulher que não se mete onde não é chamada, pensou a mãe de Bruto com alguma gratidão, e com esse pensamento partiu.

Era bom estar de volta a casa? Mais de quinze meses fora. Não fora a primeira vez, não fora sequer o mais longo período de ausência; desta feita, porém, fora em missão oficial, e isso fazia a diferença. Como o governador Antístio Veto não levara um legado para a Hispânia Ulterior, César acabara por ser o segundo mais importante Romano em toda a província — tendo a seu cargo a justiça, as finanças e a administração. Uma vida solitária, com viagens constantes por toda a Hispânia Ulterior, sempre a um ritmo veloz, porque César não conhecia outro ritmo. Não tivera tempo para fazer amizade com outros Romanos. Não deixava de ser sintomático que tivesse feito um único amigo: precisamente um estrangeiro. Também era sintomático que Antístio Veto não se tivesse tornado amigo do seu braço direito, embora se dessem bastante bem e partilhassem algumas conversas, fundamentalmente sobre assuntos de estado, sempre que, por um mero acaso, se encontravam na mesma cidade. O facto de ser um patrício do ramo dos Júlios Césares implicava uma dificuldade esperada: todos os seus superiores tinham perfeita consciência de que a linhagem de César era muito mais grandiosa e augusta do que a deles. Para um Romano, fosse qual fosse o seu estatuto social, os antepassados ilustres tinham mais peso do que qualquer outro factor. Por outro lado, aos olhos dos seus superiores, César parecia-se demasiado com Sila. A linhagem, uma eficiência e um brilho óbvios, o impressionante aspecto físico, os olhos glaciais...

Seria mesmo bom estar de volta a casa? César atentou no maravilhoso asseio do seu gabinete, na limpeza impecável de todas as superfícies, na arrumação perfeita dos pergaminhos, no elaborado padrão de folhas e flores do tampo marchetado da sua secretária, uma obra-prima da arte da marchetaria que se oferecia aos seus olhos, e que só era obscurecida por um tinteiro de chifre de carneiro e por uma caneca de barro onde guardava as penas.

Pelo menos os primeiros momentos tinham sido mais suportáveis do que pensara. Quando Eutico abrira a porta para aquele quadro de mulheres em amena cavaqueira, o seu primeiro impulso fora fugir; mas logo percebeu que aquele era um magnífico começo; o vazio de uma casa sem a sua querida Cinila não ultrapassaria as fronteiras do seu coração, não seria referido para já. Sim, mais tarde ou mais cedo a pequena Júlia acabaria por falar de Cinila, mas não naqueles primeiros momentos, não enquanto os seus olhos não se acostumassem à ausência de Cinila e não se enchessem de lágrimas. Custava-lhe imaginar os seus aposentos sem ela, pois Cinila sempre lá estivera, primeiro como irmã, depois como esposa; Cinila marcara a sua infância e acabara também por marcar a sua idade adulta. Uma mulher encantadora que agora não passava de cinzas num túmulo escuro e frio.

A sua mãe entrou nesse momento, formal e distante como sempre.

— Quem é que anda a espalhar boatos sobre a minha visita à Gália Italiana? — perguntou ele, puxando uma cadeira para ela se sentar.

— Bíbulo.

— Estou a ver — disse ele, com um suspiro. — Outra coisa não era de esperar. Quando se insulta uma pulga como Bíbulo da forma como eu o insultei, é natural que se ganhe um inimigo para toda a vida. Ah, como eu detestava aquela criatura...!

— E como ele continua a detestar-te!

— São vinte os questores, e eu tive sorte. O sorteio deu-me um posto longe de Bíbulo. Mas ele tem mais dois anos do que eu, o que significa que estaremos sempre juntos à medida que formos subindo o cursus honorum.

— Portanto, tencionas aproveitar o regime especial que Sila concedeu aos patrícios e disputar um cargo curul dois anos antes de plebeus como Bíbulo — disse Aurélia, com a maior das certezas.

— Seria idiota se não o fizesse, e idiota é que eu não sou, mater — retorquiu o filho. — Se disputar o cargo de pretor quando fizer trinta e sete anos, terei estado no Senado durante dezasseis desses anos, isto sem contar com os anos em que fui flamen Dialis. É demasiado tempo para um homem, qualquer homem, esperar.

— Mesmo assim, ainda terás de esperar seis anos. Que vais fazer, entretanto?

César mexeu-se nervosamente na cadeira. — Já me sinto numa prisão e ainda agora cheguei! As paredes de Roma, sinto-as como se fossem as paredes do cárcere. Daria tudo para poder regressar ao estrangeiro.

— Os tribunais vão estar cheios de casos, como sempre. Tu és um advogado famoso, ao nível de um Cícero ou de um Hortênsio. É de esperar que te proponham alguns belos casos.

— Mas dentro de Roma, sempre dentro de Roma...! A Hispânia — disse César, inclinando-se para a frente, impaciente — foi para mim uma revelação. Antístio Veto revelou-se um governador letárgico, feliz por me dar tanto trabalho quanto o que eu estivesse disposto a aceitar, apesar do meu estatuto inferior. Fiquei com a justiça de toda a província a meu cargo, para além de ter administrado os fundos do governador.

— A administração dos fundos deve ter sido para ti uma verdadeira provação. O dinheiro não te fascina — comentou secamente a mãe.

— Curiosamente, descobri que o dinheiro também me pode fascinar. Desde que seja dinheiro de Roma. Aprendi contabilidade com um indivíduo notável, um banqueiro de Gades, de origem púnica, Lúcio Cornélio Balbo Major. Ele tem um sobrinho quase tão velho como ele, Balbo Minor, que é seu sócio. Trabalharam para Pompeu Magno quando ele esteve na Hispânia e agora parecem possuir quase toda a cidade de Gades. Balbo Major sabe tudo o que importa no mundo financeiro e fiscal. Ah, é claro que o erário público estava uma desgraça. Mas, graças a Balbo Major, pus tudo em ordem. Fiquei a gostar dele. — César encolheu os ombros. Havia alguma tristeza na sua expressão. — Para dizer a verdade, foi o único amigo digno desse nome que fiz em toda a Hispânia.

— A amizade — disse Aurélia — não depende só dos outros; também depende de nós. Tu conheces mais gente do que todos os nobres romanos juntos, mas não permites que nenhum Romano da tua própria classe se torne teu íntimo. É por isso que os poucos amigos que fazes são sempre estrangeiros ou Romanos das classes baixas.

César pôs um sorriso de todo o tamanho. — Que disparate! Eu dou-me melhor com estrangeiros, porque cresci no teu bloco de apartamentos, rodeado de Judeus, Sírios, Gauleses, Gregos e só os deuses sabem quem mais...

— Pois, agora deita as culpas para mim — ripostou ela. César preferiu ignorar tal observação. — Marco Crasso é meu amigo e é tão nobre quanto eu.

— Ganhaste por acaso algum dinheiro, durante a tua estada na Hispânia? — foi assim que ela ripostou.

— Sim, ganhei, um pouco aqui, um pouco acolá, graças a Balbo. Infelizmente, a província esteve em paz. Não houve daquelas guerras fáceis, de fronteira, contra os Lusitanos. De qualquer modo, se as houvesse, suspeito que Antístio Veto teria comandado os exércitos. Mas não te inquietes, Mater. O meu pecúlio de pirata continua a crescer. Já tenho de parte o suficiente para disputar as magistraturas séniores.

— Incluindo o cargo de edil curul? — perguntou ela, num tom aziago.

— Como sou um patrício e, portanto, não posso ganhar nome como tribuno da plebe, não tenho muito por onde escolher — disse ele, e pegou numa das penas que estavam na taça, colocando-a de seguida em cima da secretária, onde a deixou ficar; não era seu costume brincar com os objectos, mas já estava cansado de olhar para os olhos da mãe: assim, sempre poderia olhar de quando em quando para a pena. Curioso. Tinha-se esquecido de como a mãe podia realmente tornar-se irritante.

— Mesmo tendo esse pecúlio de reserva, o cargo de edil curul é terrivelmente dispendioso. Eu conheço-te bem, César! Não ficarás satisfeito se os teus jogos forem apenas razoavelmente bons. Farás tudo o que estiver ao teu alcance para que os teus jogos sejam os melhores de que há memória.

— Provavelmente. Preocupar-me-ei com essa questão, quando for edil curul, ou seja, daqui a três ou quatro anos — retorquiu ele, tranquilamente. — Entretanto, tenciono disputar as eleições do próximo mês para o cargo de zelador da Via Ápia. Ao que sei, não há nenhum Cláudio que queira essas funções.

— Outro cargo tremendamente dispendioso! O Tesouro conceder-te-á um sestércio por cada cem milhas e tu gastarás cem denários por cada milha.

César estava farto daquela conversa; a mãe, como costumava acontecer sempre que os seus diálogos se prolongavam um pouco mais do que o habitual, começava a bater na tecla do dinheiro e da pouca importância que ele atribuía às questões financeiras. — Sabes uma coisa? — disse ele, pegando na caneta e devolvendo-a à caneca de barro. — Nunca nada se altera. Tinha-me esquecido dessa verdade. Quando estava fora, cheguei a imaginar que eras como todas as mães com que os filhos sonham. E agora eis-me confrontado com a realidade. Um sermão perpétuo sobre a minha tendência para a extravagância. Desiste, mãe! Aquilo que é importante para ti não é importante para mim.

Os lábios de Aurélia franziram-se, mas manteve-se silenciosa por um momento; depois, enquanto se levantava, disse: — Servília quer ter uma entrevista privada contigo logo que possível.

— Por que raio é que ela quer uma entrevista? — perguntou ele, surpreendido.

— Ela to dirá quando a receberes.

— Sabes de que se trata?

— Eu não faço perguntas a ninguém, a não ser a ti. Dessa forma, nunca oiço mentiras.

— Ou seja, pelo menos de mentir não me acusas.

— Claro que não.

César começou a levantar-se, mas logo se voltou a sentar. Pensativo, tirou outra pena da caneca de barro. — É uma mulher interessante — inclinou a cabeça e acrescentou: — O comentário que ela fez acerca do boato de Bíbulo não podia estar mais certo.

— Não sei se estás lembrado, mas eu própria te disse, já lá vão alguns anos, que, entre todas as mulheres que conheço, Servília era sem dúvida a mais astuta em questões de política. Mas tu não ficaste impressionado e não quiseste conhecê-la.

— Bom, mas agora já a conheço. E estou impressionado — mas não com a sua arrogância. Atreveu-se mesmo a tratar-me com uma superioridade insuportável.

Algo na sua voz fez deter Aurélia, que se encaminhava já para a porta. Virou-se e fitou atentamente o filho. — Silano não é teu inimigo — disse ela, num tom severo.

Tal observação provocou um riso, que logo se esbateu. — Mas eu por vezes gosto de mulheres que não são casadas com meus inimigos! E acho que gosto um bocadinho dela. Claro que tenho de saber o que ela pretende. Sabe-se lá... talvez me queira a mim...!

— Com Servília, é impossível saber. É uma mulher enigmática.

— Fez-me lembrar vagamente Cinila.

— Não te deixes enganar pelas inclinações amorosas, César. Não há a melhor semelhança entre Servília e a tua falecida esposa. — Os olhos de Aurélia ficaram húmidos. — Cinila era a mais doce das raparigas. Aos trinta e seis anos, Servília já não é nenhuma rapariga e será tudo menos doce. Para dizer a verdade, acho-a tão fria e dura como uma laje de mármore.

— Não gostas dela?

— Gosto muito dela. Mas pelo que ela é. — Desta feita, Aurélia conseguiu chegar à porta antes de se virar. — O jantar vai ser servido. Comes em casa?

A expressão dele suavizou-se. — Não posso desapontar a minha Júlia, mãe! É evidente que, hoje, não saio de casa. — Lembrando-se de outra coisa, acrescentou: —- É um rapaz curioso, aquele Bruto. À superfície, parece azeite; mas suspeito que, lá no fundo, há um tipo muito especial de ferro. Júlia pareceu-me muito ligada a ele. Nunca me teria passado pela cabeça que um rapaz como Bruto a pudesse atrair.

— Duvido que atraia. Mas são velhos amigos. — Desta feita, foi a expressão dela que ganhou suavidade. — A tua filha é extremamente amável e bondosa. Nesse capítulo, sai à mãe. Não há mais ninguém na família a quem ela pudesse ter ido buscar essas qualidades.

Como não sabia andar devagar, Servília regressou a casa no seu costumeiro passo rápido. O filho esforçava-se por acompanhá-la, mas já sem queixas; o calor abrandara e, além disso, Bruto voltara a concentrar-se no seu infortunado Tucídides. Júlia era temporariamente esquecida. Tal como o tio Catão.

Em tais corridas pela cidade, Servília costumava falar com o filho uma vez por outra; naquela corrida, porém, era como se não desse pela presença dele. Todos os seus pensamentos se fixavam em Caio Júlio César. No momento em que o vira, ficara boquiaberta, atordoada, fulminada, incapaz de se mexer. Como era possível que nunca o tivesse visto antes? Era tão pequeno o seu círculo que não se justificava que não se conhecessem. Mas a verdade é que nunca o vira! Ah, sim, claro, claro que ouvira falar dele — todas as nobres romanas tinham ouvido falar de César. A maior parte tratava logo de descobrir algum estratagema para travar conhecimento com ele; mas Servília não era dessas. Considerara-o muito simplesmente um outro Mémio ou Catilina, alguém que, com um sorriso, destroçava os corações das mulheres, e que tirava partido disso. Porém, mal viu César, concluiu que não havia quaisquer semelhanças entre ele e homens como Mémio ou Catilina. Ah, sim, sem dúvida, bastava-lhe um sorriso para destroçar os corações das mulheres; e é claro que se aproveitava disso. Mas César não era só isso, bem pelo contrário. Era um homem distante, altivo, inatingível. Agora compreendia por que razão as mulheres com quem ele acedia a manter breves ligações, acabavam por definhar de saudades, lágrimas e desespero. César dava-lhes algo que para ele não era importante; na verdade, porém, nunca se dava a si mesmo.

Capaz como era de alguma distância em relação a si mesma, Servília tratou então de analisar a forma como reagira a César. Porquê ele, quando, durante trinta e seis anos, nenhum homem significara para ela mais do que segurança e estatuto social? Claro que tinha uma inclinação evidente por homens de pele clara. Bruto fora escolhido para ela; conhecera-o no dia do casamento. O facto de ele ser moreno constituíra uma grande decepção; aliás, tudo o mais foram decepções. Silano, um homem de uma beleza extrema, louro e de tez clara, fora escolhido por ela. Uma escolha que continuava a satisfazê-la de um ponto visto meramente visual, mas que, em todos os outros campos, se revelara também uma triste decepção. Era um homem fraco, a todos os níveis: saúde, intelecto, carácter. Não admirava que não tivesse conseguido fazer-lhe filhos varões! Servília acreditava sinceramente que o sexo dos seus filhos dependia apenas dela, e a primeira noite que passou com Silano levara-a a decidir que Bruto seria o seu único filho varão. Dessa forma, a considerável fortuna que Bruto herdara do pai seria acrescida da considerável fortuna que Silano lhe deixaria.

Pena que não pudesse garantir uma terceira e ainda mais considerável fortuna para o filho! Esquecido César, porque o filho penetrara nos seus pensamentos, a mente de Servília deteve-se com prazer nos quinze mil talentos de ouro que o seu avô, Cepião, o Cônsul, conseguira roubar de um comboio, na Gália Narbonense, trinta e sete anos antes. Para as mãos de Servílio Cepião tinha passado mais ouro do que aquele que havia no Tesouro Romano. Esse ouro, contudo, há muito que fora convertido em bens e propriedades de todo o tipo: cidades industriais na Gália Italiana, vastos campos de trigo na Sicília e na província de África, edifícios de apartamentos de uma ponta à outra da Península da Itália, e parcerias comanditarias em negócios que o posto de senador proibia. Quando Cepião, o Cônsul, morreu, tudo isso foi para o pai de Servília, e quando este morreu na Guerra Italiana, a fortuna foi parar às mãos do irmão dela, o terceiro a usar o nome de Quinto Servílio Cepião desde que Servília nascera. Ah, sim, toda aquela fortuna fora para Cepião! O tio Druso tudo fizera para que Cepião herdasse, apesar de saber a verdade. E que verdade era essa? Que Cepião era apenas meio-irmão de Servília: na realidade, Cepião fora o primeiro filho que a mãe de Servília tivera de Catão Saloniano, apesar de, na altura, estar ainda casada com o pai de Servília. O qual acolhera assim um cuco no ninho dos Servílios Cepiões: um cuco alto, de pescoço comprido e cabelo ruivo, e com um nariz que proclamava, diante de toda a Roma, que o seu pai só podia ser Catão Saloniano. Agora que Cepião chegara aos trinta anos, toda a gente em Roma, ou pelo menos toda a gente que importava, conhecia as suas verdadeiras origens. Que ridículo! E que justiça! O Ouro de Tolosa, no fim de tudo, passara para as mãos de um cuco que fora criado no ninho dos Servílios Cepiões.

Bruto estremeceu, de súbito arrancado aos seus pensamentos; a mãe rangera os dentes, um som horrendo, tão horrendo que, quem o ouvisse, empalidecia e fugia. Mas Bruto não podia fugir. Só podia esperar que a mãe rangesse os dentes por um motivo que não tivesse nada a ver com ele. O mesmo esperavam os escravos que a precediam, lançando olhares de terror um ao outro enquanto os seus corações desatavam num tropel incontrolável e a sua pele ficava de súbito encharcada de suor.

Servília, porém, não se dava conta dos efeitos que o seu ranger de dentes produzia; continuava a andar, apressadamente, desvairadamente, abrindo e fechando as pernas curtas e robustas como se fossem a tesoura de Átropo. Maldito Cepião! Bom, agora já era demasiado tarde para Bruto herdar. Cepião casara com a filha de Hortênsio, o advogado, vinda de uma das mais velhas e ilustres famílias plebeias de Roma, e Hortênsia estava saudavelmente grávida do seu primeiro filho. E haveria muito mais filhos; a fortuna de Cepião era tão vasta que nem uma dúzia de filhos acabaria com ela. Quanto a Cepião, era um homem tão forte e saudável como toda a linhagem dos Catões que descendia do segundo casamento de Catão, o Censor, esse ridículo e ignominioso matrimónio que o septuagenário Catão contraíra com a filha do seu escravo Salónio. Tudo isso acontecera cem anos antes, e Roma, na altura, rira a bandeiras despregadas da paixão do velho; mais tarde, porém, Roma perdoara ao velho devasso e admitira os filhos da escrava no seio das famílias famosas. Claro que Cepião podia morrer num acidente, tal como morrera o seu pai de sangue, Catão Saloniano. De novo aquele ranger de dentes: vãs esperanças! Cepião sobrevivera ileso a várias guerras, apesar de ser um homem valente. Não, não havia dúvida: o melhor era dizer adeus ao Ouro de Tolosa. Bruto nunca herdaria as coisas que esse ouro comprara. Mas não era justo! Bruto, pelo menos, era um genuíno Servílio Cepião do lado da mãe! Ah, se ao menos Bruto pudesse herdar essa terceira fortuna...! Se isso acontecesse, seria mais rico do que Pompeu Magno e Marco Crasso, os dois juntos!

A poucos metros da casa de Silano, os dois escravos dispararam na direcção da porta, bateram e desapareceram mal entraram. Por isso, quando Servília e o filho entraram, o atrium estava deserto; toda a casa sabia já que Servília rangera os dentes. Daí que nenhum criado a avisasse de que um homem a esperava na sua sala de estar; quando irrompeu pela sala, vituperando ainda a má sorte de Bruto no que tocava ao Ouro de Tolosa, os seus olhos furiosos deram com a inesperada visita, que era nem mais nem menos que o seu meio-irmão Marco Pórcio Catão. O tio que Bruto idolatrava.

Marco Pórcio Catão adoptara um novo estilo: não usava túnica sob a toga, porque, nos primeiros tempos da República, ninguém usava túnica sob a toga. E, se os seus olhos não estivessem tão cheios de ódio, Servília teria sido até capaz de admitir que aquela espantosa e extraordinária moda — que dificilmente encontraria seguidores — lhe ficava extremamente bem. Aos vinte e cinco anos, Catão estava no auge da saúde e da forma física, vivera duramente e frugalmente como um soldado raso durante a guerra contra Espártaco, e, para além de só beber água, resistia a toda e qualquer tentação gastronómica. Embora o seu cabelo curto e ondulado fosse de um tom castanho tingido de ruivo e os seus olhos fossem grandes e cinzento-claros, a sua pele era suave e bronzeada e por isso Catão ficava tão bem só com a toga vestida, revelando uma boa parte do lado direito do seu tronco, desde o ombro até à anca. Seco, rijo e pouco provido de pêlos, Catão exibia notáveis músculos peitorais, uma barriga perfeita e um braço direito cujos músculos se tinham desenvolvido numa harmoniosa proporção. A cabeça, sobre um pescoço muito comprido, tinha uma bela configuração, e a boca era espantosamente bela. De facto, se não fosse o surpreendente nariz, Catão poderia ter rivalizado com César ou Mémio ou Catilina, no que tocava à beleza física. Mas o nariz reduzia toda essa beleza à mais total insignificância, tão grande, aguçado e bicudo ele era. Um nariz que parecia ter vida própria, como se não pertencesse ao seu dono — era o que as pessoas diziam, assombradas com o estranho espectáculo.

— Estava já para me ir embora — anunciou Catão, numa voz alta, agreste, nada musical.

— É pena que não tenhas ido — disse Servília entre dentes (dentes que não rangeu, embora não lhe apetecesse outra coisa).

— Onde está Marco Júnio? Disseram-me que o tinhas levado contigo.

— Bruto! Chama-lhe Bruto, como toda a gente!

— Não aprovo as mudanças que esta última década introduziu nos nossos nomes — disse ele, ainda mais alto. — Um homem pode ter um ou dois ou mesmo três apelidos, mas a tradição exige que seja referido unicamente pelo primeiro nome e pelo nome de família. Nunca por um apelido!

— No que me toca, estou muitíssimo contente com essa mudança, Catão! E quanto a Bruto, não o podes ver. O meu filho não está disponível para te receber.

— Julgas que vou desistir, não é? — acrescentou Catão, num tom que atingira já o máximo da agressividade. — Pois bem, nunca desistirei, Servília! Enquanto houver vida em mim, nunca desistirei de nada. O teu filho é meu sobrinho de sangue e, no seu mundo, não há nenhum homem. Estejas ou não de acordo, tenciono cumprir o meu dever em relação a ele.

— O padrasto de Bruto é o paterfamilias, não tu.

Catão riu-se, um riso estridente, mais fazendo lembrar um relincho. — Décimo Júnio não passa de um pobre tolo que passa o tempo a vomitar, tão incapaz de educar o teu filho como um pato moribundo!

No sólido edifício que era a vida de Catão, poucas seriam as fissuras; no entanto, por poucas que fossem, Servília conhecia-as a todas. Emília Lépida, por exemplo. O amor que Catão lhe dedicara quando tinha dezoito anos! Tão tolo como um Grego apaixonado por um efebo...! Mas Emília Lépida acabara por usá-lo para submeter Metelo Cipião aos seus desejos.

— Vi hoje Emília Lépida em casa de Aurélia — disse Servília de repente, sem mais nem menos. — Está com tão bom aspecto...! Quem bem que ela está na pele de esposa e mãe! E diz a quem a quer ouvir que nunca esteve tão apaixonada por Metelo Cipião!

A farpa atingiu em cheio o seu alvo; Catão ficou branco. — Ela usou-me como isco para atrair Metelo Cipião — disse ele, amargamente. — Uma mulher típica — dissimulada, traiçoeira, sem princípios.

— É isso que pensas da tua esposa? — perguntou Servília com um sorriso imenso, os olhos dançando de alegria.

— A minha esposa é Atília. Se Emília Lépida tivesse cumprido a sua promessa e casado comigo, depressa teria descoberto que eu não tolero artimanhas femininas. Atília faz o que lhe mando e leva uma vida exemplar. Nunca permitirei que tenha uma conduta menos do que perfeita.

— Pobre Atília! Mandarias matá-la se o seu hálito cheirasse a vinho? As Doze Tábuas permitem-te fazer isso e tu és um ardente defensor das leis antigas.

— Eu sou um ardente defensor dos velhos usos, dos costumes e das tradições da mós maiorum romana — atroou Catão, o nariz comprimindo as suas narinas até estas mais parecerem duas bolhas de cada lado da cana. — Os meus filhos, a minha mulher e eu comemos refeições cuja preparação Atília dirige, vivemos em quartos cuja arrumação ela controla, e usamos roupas que ela fiou, teceu e costurou.

— É por isso que estás tão despido? Mas que raio de escrava é a tua mulher?

— Atília leva uma vida exemplar — repetiu ele. — Eu não admito que se entreguem os filhos aos cuidados dos criados e das amas. Atília é inteiramente responsável pela educação dos nossos filhos. Tem todo o seu tempo ocupado.

— Como eu disse, o que ela é, é uma escrava. Tens dinheiro que chegue para ter muitos criados e ela sabe isso perfeitamente. Em vez disso, porém, portas-te como um forreta e fazes da tua mulher uma criada. Olha que ela não te vai agradecer. — Servília ergueu as espessas pálpebras brancas e os seus olhos negros apreciaram ironicamente o meio-irmão da cabeça aos pés. — Um dia, Catão, chegas a casa mais cedo do que o costume e descobres que a tua mulher anda à procura de algum consolo extramarital. Quem poderá censurá-la? Ficarias tão bem de cornos!

Esta seta, porém, passou muito longe do alvo; Catão reagiu com uma segurança que roçava a presunção. — Ah, quanto a isso nem pensar, minha cara! — replicou ele, cheio de confiança. — Mesmo nestes tempos em que tudo custa muito mais caro, é muito possível que não pague mais por um escravo do que o meu bisavô; no entanto, garanto-te que escolho pessoas que me temem. Sou escrupulosamente justo — nenhum escravo que valha o pão que come poderá queixar-se do tratamento que lhe dou! — mas todos os meus criados me pertencem e eles sabem disso.

— Enfim, um cenário doméstico positivamente idílico...! — retorquiu Servília, sorrindo para o meio-irmão. — Hei-de chamar a atenção de Emília Lépida para aquilo que perdeu...! — e, com um ar entediado, virou as costas a Catão. — Vai-te embora, Catão! Terás de passar por cima do meu cadáver se quiseres falar com Bruto! Podemos não ter o mesmo pai — e dou graças aos deuses por essa mercê! — mas somos feitos do mesmo aço. E eu, Catão, sou muito mais inteligente do que tu. — E, produzindo um som semelhante ao ronronar de um gato, acrescentou: — Para dizer a verdade, sou muito mais inteligente do que qualquer dos meus dois meio-irmãos.

Esta terceira farpa penetrou até à medula. Catão todo se empinou e as suas belas mãos cerraram-se furiosas. — Posso tolerar a tua maldade quando o alvo sou eu, Servília, mas não quando o alvo é Cepião! — berrou ele, fora de si. — É uma calúnia imerecida! Tu e Cepião são filhos do mesmo pai! Ah, quem me dera que o nosso pai tivesse sido o mesmo! Não há pessoa no mundo que eu mais ame! Mas não permitirei essa calúnia, especialmente vinda de ti!

— Consulta o teu espelho, Catão. Toda a Roma sabe a verdade.

— A nossa mãe tinha sangue dos Rutílios — Cepião herdou a cor da pele e do cabelo desse lado da família!

— Não digas disparates, Catão! Os Rutílios são brancos, com apenas um nada de ruivo, e nunca vi um Rutílio com um nariz comparável aos dos Catões Salonianos! — replicou Servília, sorrindo desdenhosamente. — Cepião dedicou-se inteiramente a ti desde o momento em que nasceste. O que não admira, pois vocês são iguais em tudo! Iguais, sempre juntos, os dois fazem um todo! Nunca se separaram, nunca discutiram uma única vez — Cepião é filho do teu pai, não do meu!

Catão levantou-se. — Tens a maldade na alma, Servília.

Ela bocejou ostensivamente. — Perdeste a batalha, Catão. Adeus e bons ventos te levem!

Porém, antes que se retirasse, Catão ainda lhe atirou: — Pois vencerei no fim! Eu venço sempre!

— Só depois de passares por cima do meu cadáver! Mas não poderás passar, pois morrerás primeiro...

Após o que Servília teve de se ocupar de outro dos homens da sua vida: o marido, Décimo Júnio Silano; tinha de admitir que Catão o definira exemplarmente: de facto, Silano não passava de um pateta que por tudo e por nada vomitava. Fosse qual fosse o mal que tinha nas entranhas, era verdade que Silano vomitava por tudo e por nada; além disso, era indiscutivelmente um homem tímido, resignado, sem carácter. Os seus poucos bens estão bem à vista, pensou ela, enquanto o via comer. Não passa de um rosto bonito; para além disso, não há nada. Já o mesmo não se pode dizer de um outro belo rosto, Caio Júlio César... César... César fascina-me! Por um momento, pensei que também eu o fascinava. Mas acabei por falar de mais... e ofendi-o. Porque me esqueci de que ele é um Júlio? Nem mesmo uma patrícia Servília como eu pode arrogar-se a pretensão de organizar a vida de um Júlio...

As duas raparigas que tinha dado a Silano estavam também a jantar, atormentando Bruto, como de costume (achavam-no um fracote, um imprestável). Júnia, com sete anos, era um pouco mais nova do que a filha de César; Junila tinha quase seis. Ambas tinham uma tez de um tom mate claro e eram extremamente atraentes; não era de esperar que desagradassem aos maridos! Beleza física e um bom dote faziam uma combinação irresistível. Já tinham casamento combinado com os herdeiros de duas grandes casas. Apenas Bruto estava livre de compromissos, embora tivesse feito a sua própria escolha de uma forma muito clara. A pequena Júlia. Que estranho que era aquele rapaz! Apaixonar-se por uma criança...! Naquela noite, Servília estava disposta a enfrentar a verdade. De tal forma que acabou por reconhecer que Bruto, por vezes, era para ela um enigma. Por exemplo: por que raio persistia o filho em imaginar-se um intelectual? Se não se libertasse dessa pele de intelectual que resolvera vestir, a sua carreira pública nunca prosperaria. A menos que tivessem fama de soldados corajosos, como César, ou de notáveis advogados, como Cícero, os intelectuais eram pura e simplesmente desprezados. Bruto não era vigoroso, rápido e brilhante como César ou Cícero. Sim, talvez fosse bom se ele se tornasse genro de César... Aquele encanto mágico, aquela energia mágica, não durariam toda a vida... César...

E César enviou-lhe uma mensagem no dia seguinte. Teria todo o gosto em vê-la em privado, nos seus aposentos da baixa Vicus Patricii, no segundo andar do edifício de apartamentos entre a Tinturaria Fabricius e os Banhos Suburanos. A quarta hora da manhã do dia seguinte, um tal Lúcio Decúmio estaria à espera dela na entrada do edifício, a fim de a conduzir ao segundo andar.

Embora o mandato de Antístio Veto como governador da Hispânia Ulterior tivesse sido prolongado, César não se vira obrigado a permanecer a seu lado; César não se dera ao trabalho de obter uma nomeação pessoal: submetera-se inteiramente ao sorteio e o sorteio atribuíra-lhe aquela província por um prazo determinado. Não lhe teria desagradado ficar mais tempo na Hispânia Ulterior; contudo, o cargo de questor era demasiado baixo para servir de base a uma reputação consolidada no Fórum. César estava perfeitamente consciente de que os seus próximos anos teriam de ser passados o mais possível em Roma: Roma tinha de ver constantemente o seu rosto, Roma tinha de ouvir constantemente a sua voz.

Como ganhara a Coroa Cívica, por extraordinários actos de bravura, com apenas vinte anos, fora admitido no Senado dez anos antes da idade habitual (trinta anos); do mesmo modo, fora desde logo autorizado a discursar no Senado, em vez de se ter de submeter à lei do silêncio (obrigatória para quem não tinha subido mais alto do que o cargo de questor). Não que tivesse abusado desse privilégio extraordinário; César era astuto o bastante para perceber que, se acrescentasse o seu nome à interminável lista de oradores, acabaria por aborrecer de morte os seus colegas do Senado. Para atrair as atenções, não precisava da oratória; bastava-lhe trazer o símbolo bem visível do seu invulgar estatuto. A lei de Sila estipulava que, no desempenho de funções públicas, César deveria usar sempre a Coroa Cívica, feita com folhas de carvalho. E todos aqueles que o vissem eram obrigados a levantar-se e a aplaudi-lo, mesmo que fossem os mais veneráveis consulares ou censores. Tais disposições davam a César um lugar à parte e acima de todos os outros

— uma situação que ele muito apreciava. Outros escolhiam cultivar o maior número possível de amizades influentes; César preferia caminhar sozinho. Ah, sim, claro que um homem tinha de ter hordas de clientes, tinha de ser conhecido como um patrono de extrema distinção. Mas subir ao topo — e ele estava decidido a lá chegar!

— ligando-se a uma facção, não fazia parte dos planos de César. As facções controlavam os seus membros.

Havia os boni, por exemplo:

os “homens de bem”. Das muitas facções que havia no Senado, eram os boni quem tinha mais influência. Podiam amiúde dominar as eleições, preencher os lugares dos principais tribunais, gritar mais alto nas assembleias. Contudo, os boni não representavam rigorosamente nada! O máximo que se podia dizer deles era que a única coisa que tinham em comum se resumia a uma arreigada oposição à mudança. Ao passo que César defendia a mudança. Eram tantas as coisas que exigiam alteração, revisão, abolição! De facto, se alguma coisa César aprendera na Hispânia Ulterior, era que a mudança tinha forçosamente de ocorrer. A corrupção e a rapacidade dos governadores liquidariam o império caso não fossem reprimidas; e essa era apenas uma das mudanças que ele queria ver instauradas. Que ele queria pôr em prática. Todos os aspectos da situação de Roma precisavam desesperadamente de ser pensados, de ser regulados. Os boni, no entanto, opunham-se, por tradição e também por inflexibilidade, à mais pequena mudança. Não eram o tipo de pessoas de que César gostava. César, aliás, também não era popular entre eles; há muito que os narizes sensíveis dos boni tinham farejado o radical que havia em César.

De facto, para chegar ao seu destino, César dispunha apenas de uma estrada segura: a via do comando militar. Contudo, antes que pudesse comandar legalmente um dos exércitos de Roma, teria de chegar pelo menos ao cargo de pretor; e se queria vir a ser um desses oito homens que supervisionavam os tribunais e o sistema de justiça, teria forçosamente de passar os próximos seis anos dentro dos limites da cidade. Aliciando votos, fazendo campanha, enfrentando a caótica cena política. Mantendo-se na primeira linha do seu mundo, acumulando influência, poder, clientes, apoios entre os cavaleiros, adeptos de todos os tipos. Mas sempre sozinho e pelos seus próprios meios, e não como um dos boni ou como membro de qualquer outro grupo, pois todos os grupos queriam que os seus elementos pensassem o mesmo — ou, de preferência, que não pensassem rigorosamente nada.

No entanto, a ambição de César ia muito além da eventualidade de dirigir a sua própria facção; César, com efeito, queria tornar-se uma instituição, aquela instituição a que chamavam o Primeiro Homem de Roma. Primus inter pares, o primeiro entre os seus iguais (e cada um no seu lugar), aquele que reunia em si a máxima auctoritas e a máxima dignitas; o Primeiro Homem de Roma era a influência personificada. Tudo o que dizia era atentamente escutado, e ninguém podia derrubá-lo porque ele não era rei, nem ditador; mantinha a sua posição graças ao seu poder pessoal e a nada mais, era o que era não por ter este ou aquele cargo, não por ter um exército a apoiá-lo. O velho Caio Mário conseguira lá chegar pela via dura, vencendo os Germanos, já que não tivera antepassados que o levassem a merecer o título de Primeiro Homem de Roma.

Sila tivera os antepassados, mas não ganhara o título por se ter tornado ditador. Ganhara-o muito simplesmente porque era Sila — um grande aristocrata, autocrata, vencedor desse venerado trofeu que era a Coroa de Erva, general nunca derrotado. Uma lenda militar incubada na arena política: isso era o Primeiro Homem de Roma.

Assim sendo, aquele que viria a ser o Primeiro Homem de Roma não podia pertencer a uma facção; tinha de criar uma facção, tinha de aparecer no Fórum Romanum como um temível aliado e nunca como lacaio fosse de quem fosse. Na Roma daquela época, ser-se patrício tornava tudo mais fácil, e César era um patrício. Os seus antepassados já eram membros do Senado quando este não passava de uma assembleia de cem homens que aconselhava o rei de Roma. Ainda antes de Roma existir, já os seus antepassados eram reis: de Alba Longa, no Monte Albano. E antes disso, muito tempo antes, vivera o mais ilustre dos seus antepassados, a própria deusa Vénus (dizia César que Vénus era sua bisavó trinta e nove vezes); Vénus dera à luz Eneias, rei da Dardânia, que atravessara os mares e aportara à Itália Latina e fundara um novo reino naquele que viria a ser o território original de Roma. Uma linhagem tão extraordinária predispunha as pessoas a ver o possuidor de tal linhagem como o chefe da sua facção; os Romanos gostavam dos homens que tinham antepassados e, quanto mais augustos estes fossem, maiores eram as possibilidades de um homem criar a sua própria facção.

Nestas condições, César compreendia o que tinha de fazer até chegar ao consulado, nove anos mais tarde. Tinha de predispor os homens a encará-lo como merecedor do título de Primeiro Homem de Roma. O que não significava conquistar os seus pares; significava dominar aqueles que não eram seus pares. Os seus pares temê-lo-iam, odiá-lo-iam, como temiam e odiavam todos aqueles que aspiravam àquele título. Os seus pares lutariam com unhas e dentes contra as suas ambições, fariam tudo para o derrubar antes que ele se tornasse demasiado poderoso para poder ser derrubado. Era por isso que odiavam Pompeu, o Grande, que se imaginava o actual Primeiro Homem de Roma. Pois bem, Pompeu não imaginaria isso por muito mais tempo. O título pertencia a César, e nada no mundo o impediria de alcançá-lo. César sabia isso porque se conhecia a si mesmo.

Um dia depois de ter chegado a casa, era gratificante descobrir que um pequeno grupo de clientes o visitara para apresentar cumprimentos; a sua sala de recepção estava cheia de clientes, o que deixara Eutico, o chefe dos criados, com uma expressão radiosa. Radioso estava também o velho Lúcio Decúmio, radioso, feliz e cheio de vontade de trabalhar. Estava ansioso por ver César e todo o seu corpo traiu essa ansiedade quando César emergiu dos seus aposentos.

Um beijo na boca de Lúcio Decúmio, assim o saudou César, para grande espanto das muitas pessoas que testemunhavam o reencontro.

— Foi de ti que tive mais saudades, pai — disse César, envolvendo Lúcio Decúmio num poderoso abraço. — Tirando Júlia, é claro.

— Roma sem ti não é Roma, Pavo! — assim lhe respondeu Lúcio Decúmio, usando a velha alcunha de Pavão que dera a César quando este não passava de um menino pequeno.

— Parece que a idade não quer nada contigo, pai.

O que era verdade. Ninguém sabia de facto quantos anos Lúcio Decúmio contava, embora estivesse certamente mais próximo dos setenta do que dos sessenta. Provavelmente viveria uma eternidade. Pertencendo apenas à Quarta Classe e à tribo urbana Suburana, nunca seria suficientemente importante para votar em qualquer assembleia; apesar disso, Lúcio Decúmio era um homem de grande influência e poder em certos círculos. Era o zelador do colégio das encruzilhadas, que tinha a sua sede na ínsula de Aurélia, e todos os homens que viviam nas proximidades, por muito alta que fosse a sua classe, eram obrigados a prestar as suas homenagens, pelo menos uma vez por outra, no interior de um espaço que era tanto uma taberna como um local de reunião religioso. Como zelador do seu colégio, Lúcio Decúmio alcançava uma certa autoridade; conseguira também acumular uma considerável riqueza, devido a actividades menos honestas, e não se mostrava avesso a emprestar dinheiro a taxas muito razoáveis àqueles que, um dia, poderiam vir a servir os seus propósitos — ou os propósitos do seu patrão, César. César, que ele amava mais do que os seus robustos filhos, César, que em rapaz partilhara algumas das suas questionáveis aventuras, César, César...

— O teu apartamento já está pronto — disse-lhe o velho, com um sorriso imenso. — Até tem uma cama nova... Uma maravilha de cama...

Os gélidos olhos azul-pálidos iluminaram-se; César retribuiu o sorriso de Lúcio Decúmio com outro sorriso e uma piscadela de olho. — Irei vê-lo antes de dar o meu veredicto acerca da cama. Ah, agora me lembro... Levas-me uma mensagem à mulher de Décimo Júnio Silano?

Lúcio Decúmio franziu o sobrolho. — Servília?

— Estou a ver que essa senhora é famosa.

— Tinha mesmo de ser. É horrível para os seus escravos!

— Como é que sabes disso? Não me digas que os escravos dela frequentam algum colégio das encruzilhadas do Palatino?

— As pessoas falam, César... sabe-se sempre tudo! Essa senhora é muito capaz de ordenar a crucificação de um escravo quando acha que eles precisam de uma lição. E o escravo é crucificado no jardim aos olhos de toda a gente. Mas primeiro manda açoitá-lo, de maneira que o desgraçado pouco dura na cruz.

— Ora aí está uma medida simpática da parte dela — disse César, e tratou de mandar o recado a Servília. Não cometeu o erro de pensar que Lúcio Decúmio estava a tentar adverti-lo contra qualquer envolvimento com ela, ou que teria a presunção de criticar os seus gostos; Lúcio Decúmio estava simplesmente a cumprir o seu dever e a fornecer-lhe informações relevantes.

César pouco ligava à comida — não era nenhum gourmet e por certo não abraçara a filosofia dos epicuristas. Daí que, enquanto conversava com os clientes, se limitasse a mastigar sem grande convicção um pãozinho tostado e ainda quente do padeiro que fornecia Aurélia e que ficava ao fundo da rua; tão simples como o pão era a bebida: água, apenas água. Ciente da generosidade de César, o chefe dos criados fizera já a ronda de todos os clientes, com bandejas cheias dos mesmos pãezinhos, vinho misturado com água para aqueles que preferiam essa mistura a um simples copo de água, pequenas tigelas de azeite ou mel para molhar o pão. Que bom que era ver a clientela de César crescer, crescer cada vez mais!

Alguns tinham-se deslocado a casa de César apenas para mostrar ao patrono que estavam inteiramente ao seu dispor, mas outros haviam vindo com um objectivo específico: referências para um emprego que pretendiam, um lugar no Tesouro ou nos Arquivos para um filho com as habilitações necessárias, ou, por exemplo, para lhe perguntar o que ele achava de determinada oferta por uma filha, ou de determinada oferta por um bocado de terra. Poucos lá estavam para pedir dinheiro e também esses eram atendidos com a maior jovialidade, como se a bolsa de César estivesse tão recheada como a de Marco Crasso, quando, na realidade, estava muito, muito vazia.

A maior parte dos clientes partiu depois das cortesias e de alguma conversação. Aqueles que ficaram, ficaram porque precisavam que ele lhes escrevesse umas linhas; e por um momento esperaram, enquanto ele, sentado à secretária, ia distribuindo as almejadas recomendações com a sua assinatura. Com o resultado de que mais de quatro horas tinham passado quando o último dos visitantes se retirou. O resto do dia pertencia a César. É claro que os clientes não tinham ido longe; quando César deixou o seu apartamento uma hora mais tarde, depois de ter despachado a correspondência mais urgente, aqueles fiéis seguidores propuseram-se escoltá-lo pelas ruas de Roma, fosse qual fosse o local para onde César se dirigisse. Um homem com clientes tinha de mostrá-los publicamente!

Infortunadamente, não havia no Fórum Romanum nenhuma personalidade importante quando César e a sua comitiva chegaram ao fim do Argileto e transpuseram a distância entre a Basílica Emília e os degraus da Cúria Hostília. Ali estava ele, o centro absulto de todo o mundo romano: o baixo Fórum Romanum, um espaço generosamente salpicado de objectos de reverência, antiguidade ou utilidade. Há quinze meses que não via o Fórum Romanum. Não que alguma tivesse mudado. O Fórum nunca mudava.

O Poço dos Comitia abria-se à frente deles, um anfiteatro de degraus largos, ilusoriamente pequeno, que descia abaixo do nível do chão: a estrutura onde se reuniam a Assembleia Plebeia e a Assembleia Popular. Quando a abarrotar, era capaz de albergar três mil pessoas. Na sua parede do fundo, virada para os degraus da Cúria Hostília, ficavam os rostra, ou rostros, a tribuna de onde os políticos se dirigiam à multidão concentrada lá em baixo, no Poço. E lá estava a venerável, a antiquíssima Cúria Hostília, sede do Senado desde que o rei Tulo Hostílio a construíra, demasiado pequena para o número de senadores previsto por Sila, e com uma aparência pobre, apesar do maravilhoso mural que exibia num dos lados. O Lago Cúrcio, as árvores sagradas, Cipião Africano sobre a sua alta coluna, os esporões de navios capturados sobre outras colunas, um sem número de estátuas em imponentes plintos, algumas delas resplandecentes, como a do velho Ápio Cláudio, o Cego, outras elegantemente serenas, como a do astuto e brilhante Escauro Princeps Senatus. As lajes da Sacra Via estavam mais gastas do que o pavimento de travertino que as rodeavam (Sila substituíra esse pavimento, mas a mós maiorum proibia todo e qualquer melhoramento da Via). Do outro lado desse espaço aberto, um tanto tapadas por dois ou três tribunais, ficavam as duas desinteressantes Basílicas Opímia e Semprónia, com o glorioso templo de Castor e Pólux à sua esquerda. Como reuniões e tribunais e assembleias conseguiam funcionar no meio de tantos obstáculos era um verdadeiro mistério, mas a verdade é que funcionavam — sempre assim tinha sido, e assim continuaria a ser.

Para norte, erguia-se a massa imensa do Capitólio, uma corcova mais alto que o seu gémeo, bem como a mais total confusão de templos com pilares de cores vistosas, frontões, estátuas douradas espreitando em cima de telhados. A nova casa de Júpiter Óptimo Máximo (a velha fora destruída por um incêndio alguns anos antes) ainda não estava pronta, reparou César com alguma irritação; Catulo, encarregado da supervisão da obra, revelara-se demasiado indolente. O enorme Tabulário de Sila, em contrapartida, estava já acabado, enchendo todo o lado frontal e central do monte de pisos com arcadas e de galerias, destinados a albergar todos os arquivos, leis e contas de Roma. E, aos pés do Capitólio, havia outros edifícios públicos — o Templo de Concórdia e, ao seu lado, o pequeno e velho Senáculo, onde o Senado recebia as delegações estrangeiras.

No canto extremo para lá do Senáculo, entre a Vicus lugarius e a Clivus Capitolinus, ficava o destino de César; ali se situava o Templo de Saturno, muito antigo e enorme e severamente dórico, à excepção das cores berrantes que maculavam os seus pilares e paredes, sede de uma antiga estátua do deus, a qual tinha de ser constantemente coberta de óleo e enfaixada em panos, a fim de não se desintegrar. Também nesse local se situava a sede do Tesouro de Roma, mais apropriado aos objectivos de César.

O templo propriamente dito ficava sobre um pódio com vinte degraus de altura, uma infra-estrutura de pedra que albergava um labirinto de corredores e salas. Parte dessa infra-estrutura de pedra era um depósito de leis, depois de estas terem sido gravadas em pedra ou bronze, já que a Constituição de Roma, em grande parte não escrita, exigia que todas as leis fossem depositadas naquele local; agora, porém, o tempo e a abundância de tábuas obrigava a que qualquer nova lei entrasse por uma porta e saísse por outra, a fim de ser guardada noutro sítio.

O grosso do espaço pertencia, de longe, ao Tesouro. Aí, nas casas-fortes, para lá de grandes portas interiores de ferro, estava a riqueza tangível de Roma — sob a forma de lingotes de ouro e prata que valiam muitos milhares de talentos. Aí, em sombrios gabinetes iluminados por lamparinas bruxuleantes e janelas de grades situadas a boa altura das paredes exteriores, trabalhava o núcleo de funcionários públicos que tratava da contabilidade de Roma, desde aqueles que, sendo suficientemente séniores, podiam chegar a tribuni aerarii, até aos humildes escriturários e aos ainda mais humildes escravos públicos que varriam o muito pó que se acumulava no chão, mas que normalmente conseguiam ignorar as teias de aranha que afestoavam as paredes.

Há muito que o crescimento das províncias e dos lucros de Roma tornara Saturno demasiado pequeno para os seus objectivos fiscais, mas os Romanos mostravam-se sempre relutantes em abandonar qualquer edifício que, outrora, fora concebido para satisfazer um determinado objectivo governamental. E por isso Saturno continuava a ser, e com que dificuldades, a sede do Tesouro. Sub-reservas de moeda cunhada e de lingotes de ouro e prata haviam sido relegadas para outras casas-fortes sob outros templos, as contas relativas a anos transactos tinham sido levadas para o Tabulário de Sila, e, em consequência disso, os funcionários e empregados subalternos do Tesouro tinham proliferado. Um outro anátema romano, os funcionários públicos. Só que o Tesouro era sempre o Tesouro. O dinheiro público tinha de ser devidamente plantado, cultivado e colhido, mesmo que isso implicasse um número desmesurado de funcionários públicos.

Enquanto a sua comitiva ficava para trás, observando-o com olhos radiantes e orgulhosos, César avançou na direcção da grande porta entalhada da parede lateral do pódio de Saturno. Vestia uma imaculada toga branca, com a larga faixa púrpura de senador no ombro direito da sua túnica, e levava uma grinalda de folhas de carvalho na cabeça, porque aquela era uma ocorrência pública e ele tinha de usar a Coroa Cívica em todas as ocorrências públicas. Outro qualquer teria ordenado a um criado ou assistente que batesse à porta; César, porém, procedia de outro modo — ele próprio bateu à porta. Esta foi aberta com todas as cautelas. Uma cabeça espreitou.

— Caio Júlio César, questor da província da Hispânia Ulterior sob o governo de Caio Antístio Veto, deseja apresentar as contas da sua província, de acordo com a lei e os usos — disse César, num tom de voz uniforme.

Foi admitido, e a porta fechou-se atrás dele; todos os clientes permaneceram na rua.

— Chegaste ontem, não foi? — perguntou Marco Víbio, chefe do Tesouro, quando César entrou no seu sombrio gabinete.

— Sim, de facto cheguei ontem.

— Sabes, é que não há pressa nenhuma nestas coisas...

— No que me diz respeito, há pressa... — retorquiu César, — Os meus deveres como questor só terminam quando eu apresentar as minhas contas.

Víbio pestanejou. — Nesse caso... apresenta-as!

César tirou imediatamente sete rolos de pergaminho de dentro da toga, cada um deles selado duas vezes, primeiro com o anel de César e depois com o de Antístio Veto. Quando Víbio se preparava para romper os selos do primeiro rolo, César deteve-o, tirando-lho das mãos.

— Que se passa, Caio Júlio?

— Não há testemunhas.

Víbio pestanejou de novo. — Ah, bom, é que nós, normalmente, não nos preocupamos muito com bagatelas dessas — disse ele, com a maior descontracção, após o que, com um sorriso amarelo, voltou a pegar no rolo.

A mão de César, num ápice, dominou o pulso de Víbio. — Sugiro-te que comecem a preocupar-se com estas bagatelas — disse César, num tom amável. — Estas são as contas oficiais do meu questorado na Hispânia Ulterior e exijo que a sua apresentação seja acompanhada por testemunhas. Se não é este o melhor momento para arranjar testemunhas, marca-me outra hora, mais conveniente, e eu regressarei a essa hora precisa.

A atmosfera no gabinete de Víbio tornara-se gelada. — Claro, Caio Júlio.

Mas as quatro primeiras testemunhas não eram do agrado de César; uma dúzia de testemunhas passaram pelo gabinete até César encontrar quatro que o satisfizessem. A partir desse instante, porém, a entrevista decorreu com uma rapidez e um brilhantismo que deixou Marco Víbio boquiaberto, pois não estava acostumado a questores que dominassem as complicadas matérias contabilísticas, nem a uma memória que, de tão notável que era, permitia ao seu possuidor desfiar verdadeiras ladainhas de dados sem uma única vez ter de recorrer ao material escrito. Quando César terminou, Víbio estava coberto de suor.

— Posso dizer, com toda a franqueza, que raramente vi um questor apresentar tão bem as suas contas — admitiu Víbio, limpando a testa. — Está tudo em ordem, Caio Júlio. Para dizer a verdade, a Hispânia Ulterior devia dar-te um voto de agradecimento por teres resolvido tantas embrulhadas. — Isto foi dito com um sorriso conciliador; Víbio começava a perceber que aquele altivo camarada tencionava chegar a cônsul: convinha-lhe, por isso mesmo, lisonjeá-lo.

— Se está tudo em ordem, deverás passar-me um documento oficial afirmando isso. E com testemunhas.

— Ia precisamente fazer isso.

— Excelente! — disse César, cordialmente.

— E quando é que chega o dinheiro? — perguntou Víbio, conduzindo o incómodo visitante até à saída.

César encolheu os ombros. — Não é a mim que me compete controlar esse aspecto. Suponho que o governador aguardará pelo final do seu mandato para trazer o dinheiro.

Um toque de amargura tingiu a expressão de Víbio. — É mesmo típico...! — exclamou. — Aquilo que devia ser de Roma já este ano, continuará a ser de Antístio Veto, durante um período de tempo suficientemente longo para ele transformar o dinheiro num investimento em seu nome e, dessa forma, arrecadar os lucros.

— Esse processo é absolutamente legal e não me cabe a mim criticá-lo — replicou afavelmente César, piscando os olhos ao enfrentar o sol.

— Ave, Caio Júlio! — atirou-lhe Víbio, e fechou a porta. Durante a hora que esta entrevista durara, o baixo Fórum enchera-se um pouco mais, sobretudo de gente que, apressadamente, procurava tratar dos seus assuntos antes que chegasse o meio da tarde e a hora da refeição. Reparou César com satisfação que, entre os novos rostos, estava o de Marco Calpúrnio Bíbulo, o mesmo que ele em tempos erguera facilmente do chão e pespegara no alto de um armário enorme, diante de seis colegas de armas. E que depois apostrofara de pulga. E tinha razões para isso! Olharam uma única vez um para o outro e logo se detestaram; não era caso invulgar. Bíbulo oferecera-lhe o tipo de insulto que exigia a retaliação física; mas tal retaliação nunca seria demasiado brutal, pois Bíbulo era tão pequeno que César dificilmente se sentiria tentado a bater-lhe. Bíbulo sugerira que César obtivera uma frota magnífica do velho rei Nicomedes da Bitínia, porque se prostituíra, cedendo aos desejos do rei. Noutras circunstâncias, talvez César não se tivesse excedido; a verdade, porém, é que o comentário de Bíbulo surgira logo a seguir a idêntica insinuação por parte do general Lúculo. Duas vezes já era de mais; e, num ápice, César atirou com Bíbulo para cima do armário, apesar dos pungentes protestos do colega. Assim começara praticamente um ano de difícil convivência entre Bíbulo e César, enquanto Roma, na pessoa de Lúculo, mostrava à cidade de Mitilene, na ilha de Lesbos, que não podia desafiar o seu suserano. Desde então, os campos ficaram definidos. Bíbulo era um inimigo.

Bíbulo não mudara nada nos dez anos que entretanto tinham passado, pensou César, vendo o novo grupo aproximar-se, com Bíbulo na dianteira. O outro ramo da família famosa dos Calpúrnios, cognominado Pisão, tinha alguns dos mais altos indivíduos de Roma; contudo, o ramo cognominado Bíbulo (palavra que significava semelhante a esponja, mas com uma evidente conotação alcoólica) era, fisicamente, o oposto. Nenhum membro da nobreza romana teria dificuldade em reconhecer a que ramo Bíbulo pertencia. Não era apenas pequeno, era minúsculo, e possuía um rosto cuja excessiva brancura lhe dava um ar frio e triste — ossos malares salientes, cabelo descolorido, sobrancelhas invisíveis, um par de olhos de um tom cinzento-prateado. Não era feio: era assustador.

Tirando os clientes, Bíbulo não seguia sozinho; a seu lado, vinha um homem extraordinário que não usava túnica debaixo da toga. Só podia ser o jovem Catão, com aquele nariz e aquele tom de pele e cabelo. Pois bem, aquela amizade fazia sentido. Bíbulo estava casado com uma Domícia que era prima direita do cunhado de Catão, Lúcio Domício Aenobarbo. Não deixava de ser curioso que as criaturas detestáveis acabassem sempre por juntar-se, inclusivamente no casamento. E como Bíbulo era um membro dos boni, Catão teria forçosamente de pertencer também a esse grupo.

— A procura de uma sombra, Bíbulo? — perguntou César, num tom perfeitamente afável, logo que se encontraram; os seus olhos viajaram do velho inimigo para o seu alto companheiro, o qual, devido à posição do sol e do grupo, lançava de facto a sua sombra sobre Bíbulo.

— Não é preciso procurar, pois Catão deixa-nos a todos na sombra sem qualquer dificuldade — foi a resposta, friamente proferida.

— O nariz ajuda muito — retorquiu César.

Catão afagou o seu traço mais proeminente; não ficara ofendido, mas também não achara graça; ditos espirituosos não eram com ele. — Pelo menos, ninguém confundirá as minhas estátuas com as de outros ilustres Romanos — observou.

— Lá isso é verdade — disse César, após o que se virou para Bíbulo. — Tencionas disputar algum cargo este ano? — perguntou.

— Eu? Não, nem pensar!

— E tu, Marco Catão?

— Tribuno dos soldados — respondeu Catão, e não podia ser mais conciso.

— Vais sair-te bem. Ouvi dizer que ganhaste uma vasta colecção de condecorações como soldado do exército de Poplicola, na guerra contra Espártaco.

— Pois ganhou! — atirou-lhe Bíbulo. — No exército de Poplicola, nem todos eram cobardes!

As sobrancelhas louras de César ergueram-se. — Não foi isso que eu disse.

— Nem precisavas de dizer. Porque tu, tu escolheste Crasso para fazer a campanha.

— Não tinha qualquer possibilidade de escolha nessa matéria, tal como Marco Catão não terá hipóteses de escolher quando for eleito tribuno dos soldados. Como magistrados militares, vamos para onde Rómulo nos manda.

A conversa só não acabou nesse momento devido à chegada de um outro par, muito mais agradável, pelo menos aos olhos de César: Ápio Cláudio Pulcro e Marco Túlio Cícero.

— Pelos vistos, Catão, também aqui andas despido! — comentou Cícero, extremamente divertido.

Bíbulo já estava pelos cabelos. Num ápice, desandou, levando Catão atrás de si.

— Extraordinário... — disse César, atentando em Catão. — Porque é que ele não usa túnica?

— Catão acha que a mós, maiorum obriga a que não usemos túnica e tenta convencer-nos a todos a regressarmos aos velhos usos — disse Ápio Cláudio, um membro típico da sua família: moreno, de estatura média e muito bem parecido. Passou com a mão pela barriga de Cícero e pôs um sorriso arreganhado. — É uma moda que fica bem a indivíduos como Catão ou César, mas não creio que a exibição da tua barriga impressionasse favoravelmente um júri — disse ele a Cícero.

— Pura vaidade, não mais do que vaidade — comentou Cícero.

— Catão acabará por cansar-se — Os olhos escuros e imensamente inteligentes detiveram-se em César. — Mas olha que ainda não me esqueci das tuas manias, César. Os boni ficaram furiosos com os debruns púrpura das tuas mangas...!

César riu-se. — Para dizer a verdade, nessa altura eu andava aborrecido com muitas coisas — retorquiu. — Além disso, pareceu-me que essa história das mangas era muito capaz de irritar Catulo.

— E irritou mesmo! Como chefe dos boni, Catulo imagina-se o zelador dos costumes e tradições de Roma.

— Falando de Catulo... quando é que ele tenciona acabar o templo de Júpiter Optimus Maximus? Não creio que a obra tenha progredido...

— O templo já foi consagrado, há cerca de um ano — disse Cícero. — Resta saber quando será aberto... Como deves saber, Sila, ao confiar-lhe a obra, deixou o pobre Catulo com grandes problemas financeiros. A maior parte do dinheiro vem da sua própria bolsa.

— Creio que tem dinheiro que chegue, pois, enquanto Sila estava no exílio, Catulo ficou em Roma e fartou-se de ganhar dinheiro, graças a Cina e a Carbão. Sila vingou-se, confiando-lhe a obra.

— Ah, sim, claro! As vinganças de Sila ainda são famosas, apesar de ele já ter morrido há dez anos.

— Sila era o Primeiro Homem de Roma — disse César.

— E agora temos Pompeu Magno reivindicando o título — comentou Ápio Cláudio, num tom de visível desprezo.

César não chegou a responder a Ápio Cláudio, pois Cícero falou primeiro.

— Estou muito contente por te ver de volta, César. Hortênsio está a ficar velho. Nunca mais foi o mesmo desde que o derrotei no caso Verres. Daria tudo para voltar a ter rivais à minha altura nos tribunais.

— Velho aos quarenta e sete anos? — perguntou César.

— Vive luxuosamente — disse Ápio Cláudio.

— Naquele círculo, todos vivem luxuosamente.

— Não me parece que Lúculo viva assim agora.

— Deves ter razão, pois regressaste há pouco do Oriente, onde serviste sob o seu comando — disse César, preparando-se para partir e acenando por isso com a cabeça para a sua comitiva.

— E estou muito contente por ter regressado — disse Ápio Cláudio com uma sinceridade evidente. Soltando um risinho, acrescentou: — Mas mandei um substituto para Lúculo!

— Um substituto?

— O meu irmão mais novo, Públio Clódio.

— Ah, isso vai agradar-lhe, sem dúvida! — disse César, rindo-se também.

César deixou assim o Fórum mais satisfeito com a ideia de ter de passar os próximos anos em Roma. Não ia ser fácil, e isso agradava-lhe. Catulo, Bíbulo e os outros bani tudo fariam para que ele sofresse. Mas também podia contar com amigos; Ápio Cláudio não estava ligado a nenhuma facção e, sendo um patrício, defenderia certamente um outro patrício.

E quanto a Cícero? Toda a gente conhecia Cícero, desde que o seu brilhantismo e a sua capacidade de inovação tinham mandado Caio Verres para o exílio permanente; porém, à carreira que estava a construir deparava-se um grande obstáculo — o facto de não ter antepassados importantes. Cícero era um homo novus, um homem novo. Era o primeiro da sua respeitável família rural a sentar-se no Senado. Vinha da mesma região de Mário e ainda era seu parente; mas um defeito qualquer na sua natureza impedia-o de ver que, fora do Senado, a maior parte de Roma continuava a adorar a memória de Caio Mário. Cícero recusava-se a tirar partido dessa relação de parentesco, evitava todas as referências às suas origens (a cidade de Arpino), e passava o tempo a fingir que era um Romano de gema. Tinha até no atrium as máscaras de cera de muitos antepassados, mas todos eles pertenciam à família da mulher, Terência; como Caio Mário, também Cícero casara com uma representante da mais alta nobreza e contava com as amizades da mulher para chegar mais facilmente ao consulado.

Cícero era uma pessoa que tudo fazia para subir na escala social: o mesmo não se podia dizer do seu parente Caio Mário. Mário casara com a irmã mais velha do pai de César, a tia Júlia, que César tanto amara, e, pelas mesmas razões, Cícero casara com a feia Terência. No entanto, para Mário, o consulado significara apenas um meio de obter um grande comando militar. Ao passo que, para Cícero, o consulado era o auge das suas ambições. Mário quisera ser o Primeiro Homem de Roma. Cícero queria apenas pertencer de direito à mais alta nobreza de Roma. Ah, claro, claro que chegaria lá! Nos tribunais, Cícero não tinha rival, o que implicava que tivesse a seu lado um grupo impressionante de gratos vilões, todos eles com uma influência colossal no Senado. Além disso, Cícero era o maior orador de Roma, o que implicava que fosse assediado por outros homens de colossal influência para que falasse em seu nome.

Como não sofria da doença do snobismo, César aceitava de bom grado Cícero pelos seus próprios méritos e esperava atraí-lo para a sua facção. Havia, porém, um problema: Cícero padecia de um mal incurável, a hesitação. Aquele homem notável via à sua frente tantos perigos potenciais que, no fim, deixava que a timidez tomasse as suas decisões por ele. E para um homem como César, que nunca deixara que o medo dominasse os seus instintos, a timidez era o pior de todos os amos. Com Cícero do seu lado, a vida política de César tornar-se-ia mais fácil. Conseguiria Cícero descortinar as vantagens que a fidelidade a César lhe traria? A uma tal pergunta, só os deuses poderiam responder.

Por outro lado, Cícero era um homem pobre e César não tinha o dinheiro suficiente para o comprar. A única fonte de rendimentos do célebre orador, para além das terras da família, em Arpino, era a sua mulher; Terência, de facto, era extremamente rica. Infelizmente para ele, Terência controlava os seus próprios fundos e recusava-se a satisfazer as inclinações do marido por obras de arte e mansões no campo. Ah, o dinheiro! O dinheiro removia tantas dificuldades...! Especialmente para um homem que queria ser o Primeiro Homem de Roma. Bastava ver o caso de Pompeu, o Grande, senhor de incontáveis riquezas. Pompeu comprava apoiantes. Ao passo que César, por muito ilustre que fosse a sua linhagem, não tinha o dinheiro necessário para comprar apoiantes ou votos. Nesse particular, Cícero e César estavam ao mesmo nível. Se alguma coisa podia derrotá-lo, pensou César, só poderia ser a falta de dinheiro.

No dia seguinte, César despediu-se dos seus clientes após o ritual das primeiras horas da manhã e desceu sozinho a Vicus Patricii, até chegar aos aposentos que alugara numa ínsula bastante alta, situada entre a Tinturaria Fabricius e os Banhos Suburanos. Esse apartamento transformara-se no seu refúgio desde que regressara da guerra contra Espártaco; de facto, a presença da mãe, da esposa e da filha faziam da sua própria casa um local esmagadoramente feminino e, por isso mesmo, insuportável. Toda a gente em Roma estava habituada ao barulho — até mesmo aqueles que viviam em casas espaçosas do Palatino ou Carinas. Os escravos gritavam, cantavam, riam e discutiam enquanto trabalhavam, os bebés choravam, as crianças pequenas berravam, e as mulheres tagarelavam incessantemente, quando não se intrometiam nos assuntos dos homens para os importunarem com censuras ou queixas. Era uma situação tão normal que a maioria dos homens não a contestava. César, porém, agastava-se com esse estado de coisas, pois, para além de gostar genuinamente da solidão, não dispunha de muita paciência para aquilo que considerava como coisas triviais. Sendo um verdadeiro Romano, não procurara reorganizar a sua atmosfera doméstica, proibindo o barulho e as intrusões femininas; limitara-se a fugir-lhes, concedendo-se um refúgio.

César adorava os objectos belos e, por isso, as três salas que alugara no segundo andar daquela ínsula contradiziam claramente a sua localização. O seu único amigo verdadeiro, Marco Licínio Crasso, era um comprador incurável de bens e propriedades; por uma vez, porém, sucumbira a um impulso generoso, vendendo, a um preço muito baixo, os mosaicos que cobriam o chão das duas salas que César, de facto, usava. Quando comprara a casa de Marco Lívio Druso, Crasso detestara a antiguidade do chão; mas o gosto de César era infalível: ele sabia que, em cinquenta anos, nada de tão bom fora produzido. Do mesmo modo, Crasso pudera usar o apartamento de César para seu próprio proveito; de facto, muitos foram os seus escravos que, não possuindo qualificações específicas, ganharam alguma prática, trabalhando naquele apartamento; Crasso preparava-os (e, mais tarde, obtinha elevados lucros por isso mesmo) para valiosas e dispendiosas artes, desde o estuque de paredes à pintura de frescos, passando pela douradura de molduras e pilastras.

Quando entrou no apartamento, César deu um suspiro de pura satisfação, ao contemplar a perfeição da sala de recepção e gabinete e também do quarto. Excelente! Lúcio Decúmio seguira à letra as suas instruções e dispusera vários móveis novos nos sítios certos. Eram móveis da Hispânia Ulterior, que César mandara para Roma antecipadamente: um consolo magnífico, de mármore avermelhado, com pernas terminando em garras de leão, um divã dourado, com estofos de púrpura de Tiro, duas cadeiras esplêndidas. Ah, reparou ele, divertido, e ali estava a nova cama de que Lúcio Decúmio falara, uma cómoda estrutura de ébano, embelezada por uma coberta de púrpura de Tiro. Quem poderia adivinhar, olhando para Lúcio Decúmio, que os seus gostos eram tão requintados como os de César?

César não se deu ao trabalho de apreciar a terceira sala, que não passava de uma secção do vasto balcão que orlava o saguão da ínsula. Essa secção fora fechada, para que os vizinhos não perturbassem a privacidade de César; mas, além de fechada, encontrava-se protegida por pesadas persianas, que permitiam a entrada do ar, mas obstavam a que olhares mais curiosos espiassem o que quer que fosse. Essa secção do balcão da ínsula albergava aquilo que se assemelhava a uma casa de banho, contendo elementos vários, desde uma banheira de bronze a uma cisterna para o armazenamento de água, passando por um bacio. Não havia um espaço para cozinhar e César não tinha nenhum criado permanente no apartamento. As limpezas estavam a cargo dos criados de Aurélia e Eutico mandava-os lá regularmente para esvaziarem a banheira e manterem a cisterna cheia, o bacio perfumado, as roupas lavadas, o chão varrido e o pó limpo.

Lúcio Decúmio já lá estava, empoleirado no divã, as pernas balançando por sobre o tntão, requmtadamente colorido, que decorava o chão, os olhos fitando um rolo de pergaminho que segurava nas mãos.

— Estás a ver se as contas do Colégio estão em ordem para a auditoria do pretor urbano? — perguntou César, fechando a porta.

— Mais ou menos... — respondeu Lúcio Decúmio, fechando o rolo.

César consultou o cilindro de um relógio de água. — Segundo esta coisa abominável, são horas de ires lá para baixo, pai. Talvez ela não seja pontual, especialmente se Silano não gostar de cronómetros. Mas quer-me parecer que a senhora em questão não é daquelas que ignoram a passagem do tempo.

— Não me vais querer aqui, Pavo, e por isso vou para casa, mal traga a senhora, é claro — disse Lúcio Decúmio, saindo nesse mesmo momento. César sentou-se à sua secretária, a fim de escrever uma carta à rainha Oradaltis da Bitínia; porém, embora escrevesse tão depressa como fazia tudo o mais, acabara apenas de pôr o papel à sua frente quando a porta se abriu e Servília entrou. Tinha razão: ela não ignorava o tempo.

Levantando-se, César deu a volta à secretária a fim de a saudar, mas ficou intrigado quando ela lhe estendeu a mão tal e qual como qualquer homem faria. Apertou-a com a energia cortês que tão pequenos ossos justificavam, mas exactamente da mesma forma como teria apertado a mão de um homem. Havia uma cadeira para Servília se sentar diante da secretária, ainda que, antes de ela chegar, César não soubesse se havia de pôr a cadeira do outro lado da secretária ou mais perto da sua própria cadeira. Sim, a sua mãe tinha razão: Servília não era propriamente uma mulher transparente, bem pelo contrário. Conduziu-a por isso para a cadeira diante da secretária, após o que regressou à sua cadeira. Apertando descontraidamente as mãos sobre a secretária, César fitou-a solenemente.

Está bem conservada, se é que realmente já tem quase trinta e sete anos, decidiu César, e elegantemente vestida, com um vestido vermelho, de um tom de vermelho que se aproximava perigosamente do vermelho-fogo das togas das prostitutas e que, no entanto, conseguia a proeza de parecer impecavelmente respeitável. Não havia dúvida, aquela mulher era esperta! Farto e tão negro que os seus reflexos eram mais azuis do que vermelhos, o cabelo de Servília fora puxado para trás a partir de uma risca central, caindo depois para os lados até à ponta superior das orelhas e prendendo-se atrás, à altura da nuca, num rolo perfeito. Invulgar, mas também respeitável. Uma boca pequena, algo franzida, uma bela pele, muito clara, olhos negros, de pálpebras cheias e pestanas também negras, fartas e encaracoladas, sobrancelhas que, suspeitava ele, eram regularmente depiladas, e — esse era o traço que lhe parecia mais interessante — uma ligeira flacidez nos músculos da face direita que encontrara também no rosto do filho Bruto.

Era tempo de ele quebrar o silêncio, pois parecia que ela não estava com vontade de o fazer. — Em que posso ser-te útil, domina? — perguntou ele, com um ar formal.

— Décimo Silano é o nosso paterfamilias, Caio Júlio, mas há certas coisas, relacionadas com os assuntos do meu falecido primeiro marido, Marco Júnio Bruto, que prefiro ser eu a tratar. O meu actual marido não é um homem saudável e, por isso, procuro poupá-lo, não o expondo a certos problemas. É importante que não interpretes mal as minhas acções, as quais, à superfície, talvez pareçam usurpar deveres que normalmente cabem ao paterfamilias — disse ela, com um ar ainda mais formal.

A expressão de distante interesse, que o rosto de César exibia desde que se sentara, não mudou; César limitou-se a encostar-se um pouco mais na cadeira. — Não interpretarei mal — disse ele.

Impossível dizer se Servília ficou mais descontraída, já que nunca parecera contraída desde que entrara. Contudo, um toque de segurança iluminou-lhe os olhos cautelosos. — Anteontem, conheceste o meu filho, Marco Júnio Bruto — disse ela.

— Um belo rapaz.

— É também o que eu penso.

— Embora, tecnicamente, seja ainda uma criança.

— Terá de esperar ainda alguns meses para se tornar adulto. O problema que aqui me traz diz-lhe respeito e ele insistiu comigo para que a sua solução não demorasse. — Um vago sorriso desenhou-se no canto esquerdo da sua boca, o qual, enquanto ela falava, parecia mover-se mais facilmente do que o direito. — A juventude é sempre impetuosa.

— O teu filho não me pareceu impetuoso — observou César.

— E não o é, em relação à maior parte das coisas.

— Devo portanto concluir que a tua missão tem por objectivo conseguir algo para Marco Júnio Bruto.

— Precisamente.

- Pois bem — disse César, exalando profundamente —, depois de estabelecido o necessário protocolo, talvez me possas dizer agora que pretende o teu filho.

— Marco Júnio Bruto quer casar com a tua filha, Júlia. Magistral autodomínio!, aplaudiu Servília, incapaz de detectar

qualquer reacção nos olhos, no rosto, no corpo de César.

— Júlia tem apenas oito anos — lembrou César.

— E o meu filho ainda não é oficialmente um homem. Contudo, deseja casar-se com Júlia.

— Pode mudar de ideias...

— Foi precisamente isso que lhe disse. Garantiu-me que não mudaria de ideias e acabou por me convencer da sua sinceridade.

— Francamente, não sei se quero tratar já do casamento de Júlia.

— E porque não? As minhas filhas já têm noivo e são mais novas do que Júlia.

— O dote de Júlia é muito pequeno.

— Isso não é novidade para mim, Caio Júlio. No entanto, a fortuna do meu filho é bastante grande. Marco Júnio Bruto não precisa de uma noiva rica. O pai dele deixou-o muito bem e, além disso, Bruto é também herdeiro de Silano.

— Podes vir a ter um filho de Silano.

— Não é impossível.

— Mas é pouco provável?

— Silano só faz filhas.

César inclinou-se um pouco para a frente, mantendo ainda um ar distante. — Dize-me por que razões devo aceitar uma tal proposta, Servília.

Servília ergueu muito as sobrancelhas. — Pensava que as razões eram evidentes! Que melhor marido poderá ter Júlia? Pelo meu lado, Bruto é um patrício Servílio; do lado do pai, a sua ascendência vai até Lúcio Júnio Bruto, o fundador da República. Mas estes são dados que conheces bem. Por outro lado, a fortuna de Bruto é esplêndida, a sua carreira política leva-lo-á certamente ao consulado e é muito provável que acabe por ser censor, agora que esse cargo foi reinstaurado. Há uma consaguinidade através dos Rutílios, bem como através dos Servílios Cepiões e dos Lívios Drusos. Há também amicitia, através da devoção do avô de Bruto a Caio Mário, teu tio por casamento. Sei que estás intimamente ligado à família de Sila, mas nem a minha família, nem o meu marido, tiveram quaisquer conflitos com Sila. A tua própria dicotomia entre Mário e Sila é mais pronunciada do que a que poderão ter sentido os Brutos.

— Muito bem! Argumentas como um advogado! — disse César num tom apreciativo, e sorrindo por fim.

— Tomarei isso como um cumprimento.

— É um cumprimento.

César levantou-se, deu a volta à secretária, estendeu a mão para a ajudar a levantar-se.

— Dar-me-ás uma resposta, Caio Júlio?

— Sem dúvida, mas não hoje.

— Quando, então? — perguntou ela, encaminhando-se para a porta, à frente de César.

Desprendia-se do corpo dela um vago mas sedutor perfume. César, que estava prestes a dizer-lhe que daria uma resposta depois das eleições, reparou, de súbito, em algo que o fascinou e que o levou a querer vê-la antes disso. Embora estivesse irrepreensivelmente vestida, de acordo com as exigências da sua classe e estatuto, as costas do vestido de Servília tinham descido um nada, expondo a pele desde o pescoço e o alto da espinha até ao meio das omoplatas; e, nesse espaço desnudado, como que formando um caminho de delicadas plumas, uma penugem negra descia da cabeça, acompanhava a espinha e desaparecia sob o tecido vermelho do vestido. Era um caminho sedoso, e bem rente à pele branca, mas algo revolto; a criada que secara Servília depois do banho não se preocupara, por certo, em alisar aquela penugem negra, dando-lhe a forma de uma crista ao longo das saliências bem almofadadas da espinha. Pobre penugem, que estava mesmo a precisar de uma pequena atenção!

— Volta amanhã, se te convém — disse César, adiantando-se a ela para lhe abrir a porta.

Não havia nenhum criado à espera deles no pequeno patamar e por isso César desceu com ela os dois andares, até à entrada do prédio. Mas quando ele mostrou vontade de a acompanhar até à rua, Servília deteve-o.

— Obrigada, Caio Júlio, não precisas de me acompanhar mais — disse ela.

— Tens a certeza? A minha vizinhança não é das melhores...

— Eu trouxe uma escolta. Até amanhã.

César subiu as escadas e entrou no apartamento, onde pôde sentir os últimos vestígios daquele perfume subtil e aperceber-se de que a sala estava agora mais vazia do que nunca. Servília... Uma mulher secreta, recôndita, escondida sob várias camadas, todas elas de uma dureza diferente: ferro, mármore, basalto, adamas. Nada agradável. E também muito pouco feminina, apesar dos seios fartos e bem torneados. Virar as costas àquela mulher podia ser muito perigoso; de facto, na imaginação de César, Servília tinha dois rostos como Jano, um para ver para onde ia e outro para ver quem vinha atrás. Um verdadeiro monstro. Não admirava que toda a gente dissesse que Silano estava com um ar cada vez mais doentio. Nenhum paterfamilias intercederia em favor de Bruto; ela não precisara de explicar isso. Era evidente que Servília tratava dos seus próprios assuntos, incluindo o filho, apesar do que a lei dizia. Seria o casamento com Júlia ideia da mãe ou do filho? Aurélia devia saber. Iria para casa e falaria com ela.

E foi logo para casa, pensando ainda em Servília, pensando em como seria agradável dominar e disciplinar aquela ténue linha de penugem negra que lhe corria pelas costas.

— Mater — disse César, irrompendo pelo gabinete da mãe —, preciso de falar contigo urgentemente. Interrompe o teu trabalho e vem ter comigo ao meu gabinete!

Aurélia largou logo a pena; fitou o filho com evidente espanto.

— Hoje é dia de recebimento de rendas — disse ela.

— Estou-me marimbando para o dia que é...

E desapareceu antes de acabar a frase, obrigando Aurélia a abandonar as suas contas num estado de choque. Aquilo nem parecia dele! O que é que lhe tinha dado?

— Então? — perguntou ela, entrando com um passo decidido no tablinum do filho e dando com ele de pé, com as mãos atrás das costas, os pés balançando, ora sobre os calcanhares, ora sobre as pontas dos dedos. A toga dele estava no chão, numa pilha. Aurélia pegou nela e atirou-a para a sala de jantar contígua, antes de fechar a porta.

Por um momento, César agiu como se ela não tivesse ainda chegado; depois, fitando-a com um misto de divertimento e algo que Aurélia julgou ser euforia, pediu-lhe que se sentasse na cadeira que costumava reservar para ela.

— Meu querido César, não podes estar quieto, mesmo que não consigas sentar-te? Pareces um gato dos telhados com o vento a dar-lhe na cauda...!

César achou a comparação extremamente divertida; e rompeu a rir desalmadamente. — Se calhar é mesmo assim que me sinto, mater!

As tarefas contabilísticas desapareceram nesse momento; Aurélia apercebeu-se de que o filho devia ter vindo de uma certa entrevista.

— Ah, estou a ver...! Servília...!

— Servília — repetiu ele, e sentou-se, recuperando subitamente daquela esfuziante agitação.

— Amor? — perguntou a mãe, cinicamente.

César reflectiu um pouco, abanou a cabeça. — Duvido. Desejo, talvez, mas nem disso estou certo. Acho que não gosto dela.

— Um começo prometedor. É no que dá o tédio.

— Sem dúvida. O tédio em que me deixam todas essas mulheres que me lançam olhares de adoração e que são capazes de se deitar no chão para eu limpar os pés.

— Servília não fará isso, César.

— Eu sei, eu sei.

— Para que queria ela ver-te? Para se envolver numa ligação?

— Ah, não, não fomos tão longe, mater. Para dizer a verdade, não faço ideia se o meu desejo é retribuído. Pode muito bem não ser... tanto mais que tudo começou quando ela me virou as costas para se ir embora.

— Estou cada vez mais curiosa, meu filho. Que queria ela afinal?

— Adivinha — disse ele, com um sorriso imenso.

— Não brinques às adivinhas comigo!

— Não queres adivinhar?

— Farei pior do que recusar-me a adivinhar, César. Se não paras de te portar como um rapazinho de dez anos, podes crer que te deixo aqui sozinho.

— Não, não te vás embora, mater, eu porto-me bem. É que é tão agradável enfrentar um desafio, enfrentar um nada de terra incógnita...

— Sim, isso compreendo eu — disse ela, e sorriu. — Mas agora conta-me o que se passou.

— Ela veio falar-me em nome de Bruto. Veio perguntar-me se consentia em dar a Bruto a mão de Júlia.

Aurélia, como seria de esperar, ficou surpreendida; não parava de pestanejar. — Que coisa mais extraordinária!

— Resta saber, mater, de quem é a ideia... Será dela, ou de Bruto?

Aurélia reflectiu por um momento, após o que respondeu ao filho: — Creio que a ideia é de Bruto. Sendo a minha querida neta apenas uma criança, nunca me passou pela cabeça que tal pudesse acontecer. Porém, reflectindo um pouco, devo dizer que Bruto tem mostrado certos sinais da sua inclinação. De facto, tenho dado muitas vezes com ele a olhar para ela como a mais doce e tola das ovelhinhas...

— Mas tu hoje só falas por metáforas, mater! E que metáforas...! Gatos do telhado, ovelhinhas...

— Deixa-te de brincadeiras. Lá por estares doido pela mãe do rapaz, não me parece que o momento seja para graças. O futuro de Júlia é demasiado importante.

César reencontrou de súbito a sobriedade. — Claro, claro. Vendo a questão o mais cruamente possível, não há dúvida que é uma oferta maravilhosa, mesmo para uma Júlia.

— Concordo. Especialmente vinda nesta altura, pois a tua carreira política encontra-se ainda muito longe do zénite. Um casamento com um Júnio Bruto, cuja mãe é uma Servília Cepião, atrairá vastos apoios por parte dos boni. De todos os Júnios, dos Servílios patrícios e plebeus, de Hortênsio, de alguns dos Domícios, de uns quantos Cecílios Metelos — até mesmo Catulo teria de parar para pensar.

— Sim, é tentador — disse César.

— Muito tentador, se o rapaz for sincero.

— A mãe garante que é.

— Sim, também me parece. Creio, aliás, que Bruto não é daqueles que mudam facilmente de opinião ou afectos. É um rapaz muito ajuizado e circunspecto.

— Júlia gostará dele? — perguntou César, franzindo o sobrolho. Aurélia ergueu as sobrancelhas. — É uma estranha pergunta,

vinda de ti. És o pai dela. O destino conjugal da tua filha está inteiramente nas tuas mãos e nunca me deste nenhum motivo para pensar que poderias deixá-la casar por amor. Júlia é demasiado importante, é a tua única filha. Além disso, Júlia fará o que lhe mandares. Eduquei-a na compreensão de que certas coisas como o casamento não dependem das inclinações dela.

— Mas gostaria que ela gostasse da ideia.

— Não costumas deixar levar-te pelos sentimentos, César. Ou será que não gostas muito do rapaz? — perguntou ela, judiciosamente.

César suspirou. — Em parte será isso. Quer dizer, não gosto dele, mas por motivos diferentes dos que me levam a não gostar da mãe. Bruto pareceu-me um cachorrinho feio, é por isso que não gosto dele...

— Metáforas animais!

César desatou a rir, mas foi um riso breve. — Ela é tão querida, tão doce, tão viva. Eu e a mãe dela fomos tão felizes que gostaria que a nossa filha também fosse feliz no casamento.

— Cachorrinhos feios dão bons maridos — disse Aurélia.

— És favorável ao compromisso.

— Sou. Se deixamos escapar esta oportunidade, talvez Júlia nunca venha a ter outra tão boa. As irmãs de Bruto apanharam o jovem Lépido e o filho mais velho de Vátia Isaurico, ou seja, dois belos partidos. Com esses, já não podemos contar. Preferias dá-la a um Cláudio Pulcro ou a um Cecílio Metelo? Ou ao filho de Pompeu Magno?

César estremeceu, só de ouvir falar naquelas hipóteses, em particular a última. — Tens toda a razão, mater. Antes um cachorrinho feio do que um lobo voraz ou um cão sarnento! Não, eu tinha pensado num dos filhos de Crasso.

Aurélia sorriu com alguma ironia. — Crasso é teu amigo, César, mas sabes perfeitamente que não permitiria que um dos seus filhos casasse com uma rapariga sem um dote capaz.

— Dou-te razão, mater — retorquiu César, batendo com as mãos nos joelhos, um sinal de que já se tinha decidido. — Pois bem, então que seja Marco Júnio Bruto! Sabe-se lá, até pode ser que o cachorrinho feio se torne um irresistível Paris depois da fase das borbulhas.

— Daria tudo para que não fosses tão ligeiro, César...! — disse a mãe, levantando-se para regressar aos seus livros. — Essa frivolidade perturbará a tua carreira no Fórum, tal e qual como acontece a Cícero de vez em quando. O pobre rapaz nunca será bonito, César...! Nem bonito, nem brilhante.

— Nesse caso — disse César, com a maior gravidade — Bruto é um rapaz afortunado. As pessoas nunca confiam nos homens demasiado bonitos.

— Se as mulheres pudessem votar — disse Aurélia com alguma malícia —, tudo isso mudaria. Qualquer Mémio seria rei de Roma.

— Qualquer Mémio ou qualquer César, não é, mãe? Obrigado, mãe, mas prefiro as coisas tal qual elas estão.

Quando voltou a casa, Servília não falou ao filho nem ao marido da entrevista que acabara de ter. Também não lhes disse que, na manhã seguinte, voltaria a encontrar-se com César. Na maior parte dos lares, tais notícias teriam transpirado graças à indiscrição dos criados. Na casa de Servília, no seu domínio, essa era uma hipótese impossível. Os dois Gregos que usava como escolta sempre que saía estavam já há muito tempo ao seu serviço. Conheciam-na demasiado bem para se atreverem a falar, mesmo que fosse com os seus compatriotas. A história da ama que Servília mandara açoitar e crucificar, porque a pobre mulher deixara cair Bruto, era este ainda bebé, continuava bem presente nas memórias de todos. E ninguém achava que Silano tivesse a força suficiente para enfrentar o temperamento ou o génio da mulher. Desde então, Servília não condenara mais ninguém à cruz; contudo, eram tão frequentes os castigos de chicote que ninguém se atrevia a desobedecer-lhe ou a falar mais do que devia. Por outro lado, os escravos daquela casa sabiam que nunca seriam emancipados, que nunca usariam o gorro da liberdade, que nunca alcançariam o estatuto de liberto. Quando se era vendido a Servília, era-se escravo para toda a vida.

Assim, quando a acompanharam à Vicus Patricii, na manhã seguinte, os dois Gregos não fizeram rigorosamente nada para descobrir o que havia dentro daquele edifício, nem lhes passou pela cabeça subirem as escadas um pouco mais tarde para escutarem às portas ou espreitarem pelo buraco da fechadura. Não que suspeitassem de uma ligação proibida; o comportamento de Servília era comummente considerado como acima de qualquer suspeita. A mulher de Silano padecia de presunção; o mundo em que se movia, desde os seus iguais aos mais humildes escravos, sabia que Servília era muito capaz de jurar que Júpiter Optimus Maximus era menos virtuoso do que ela.

E talvez o tivesse feito, se o Grande Deus por acaso resolvesse abordá-la. Contudo, no momento em que subia aquelas escadas, não era nisso que Servília pensava. Todos os seus pensamentos se concentravam numa eventual ligação com César. Daí que tenha achado significativo que o estranho e malcheiroso homenzinho que, no dia anterior, a conduzira ao apartamento, não estivesse agora à sua espera. A convicção de que a entrevista com César levaria a algo mais do que um contrato de casamento, só a teve Servília no instante em que ele a conduzira à porta, no instante em que detectara nele uma mudança palpável, suficientemente palpável para justificar alguma esperança — ou melhor, alguma certeza. Claro que Servília sabia aquilo que toda a Roma sabia: que César era de uma exigência extrema no que respeitava ao aspecto, arranjo e limpeza das mulheres. Daí que se tivesse lavado com o máximo cuidado e que tivesse limitado o seu perfume a um vestígio incapaz de disfarçar os cheiros naturais. Felizmente, suava muito pouco. Por outro lado, nunca usava um vestido duas vezes antes de o mandar lavar. No dia anterior, escolhera o vermelho; para aquele dia, porém, escolhera um tom de âmbar muito quente para o seu traje e pusera brincos e um colar também cor de âmbar. Vestida para seduzir, pensou ela, e bateu à porta.

Foi o próprio César que lhe abriu a porta, conduzindo-a depois à sua cadeira e sentando-se atrás da secretária, tal e qual como fizera no dia anterior. Mas César já não olhava para ela da mesma forma; os seus olhos já não se mostravam frios e distantes. Havia neles algo que Servília nunca vira nos olhos de um homem, uma centelha de intimidade e posse que não excitava a sua indignação, nem a levava a rejeitá-lo como obsceno ou grosseiro. Porque achava ela que aquele fogo a honrava, a distinguia de todas as outras mulheres?

— Que decidiste, Caio Júlio? — perguntou ela.

— Aceitar a proposta do jovem Bruto.

Tal resposta agradava-lhe; pela primeira vez, desde que se conheciam, um sorriso largo iluminou-lhe o rosto, revelando, ao mesmo tempo, que o canto direito da sua boca era, sem dúvida, menos forte do que o esquerdo. — Magnífico! — disse ela, suspirando com um sorriso mais pequeno, mais tímido.

— O teu filho significa muito para ti — disse César.

— O meu filho significa tudo para mim — disse ela, simplesmente.

Havia uma folha de papel na secretária; César olhou de relance para ele. — Elaborei já o texto de um acordo legal tendo em vista o casamento dos nossos filhos — disse. — Porém, se preferires, poderemos manter as coisas num âmbito mais informal durante algum tempo. Pelo menos até que Bruto chegue à idade adulta. Pode acontecer que ele mude de ideias...

— O meu filho não mudará de ideias, e eu também não — retorquiu Servília. — Concluamos o contrato aqui e agora.

— Se assim desejas — disse César. — Mas devo avisar-te de que, uma vez um contrato assinado, ambas as partes e os seus representantes legais são passíveis de acção judicial por quebra de compromisso e do pagamento de uma indemnização igual ao montante do dote.

— A quanto monta o dote de Júlia? — perguntou Servília.

— Cem talentos, segundo os meus cálculos.

Servília ficou espantada. — Mas tu não tens cem talentos para o dote da tua filha, César!

— Por ora, não. Mas Júlia não chegará à idade de casar antes de eu me tornar cônsul, pois não tenho a mínima intenção de a deixar casar antes que faça dezoito anos. Quando esse dia chegar, terei os cem talentos para o dote dela.

— Acredito que sim — retorquiu Servília, recuperando lentamente do seu espanto. — Contudo, isso significa que se o meu filho mudar de ideias ficará cem talentos mais pobre.

— Já não estás tão segura da constância do teu filho? — perguntou César, com um sorriso de todo o tamanho.

— Estou perfeitamente segura — disse ela. — Assinemos o contrato.

— Tens poderes para assinar em nome de Bruto, Servília? Não deixei de reparar que, ontem, chamaste a Silano paterfamilias do rapaz.

Servília humedeceu os lábios. — O tutor legal de Bruto sou eu, e não Silano. Ontem, estava preocupada com o que pudesses pensar de mim por ter vindo tratar directamente do caso, em vez de mandar o meu marido. Nós vivemos na casa de Silano e nessa casa é ele, de facto, o paterfamilias. Mas o tio Mamerco foi o executor do testamento do meu falecido marido e do meu próprio dote. Antes de me casar com Silano, o tio Mamerco e eu pusemos em ordem todos os meus bens, os quais incluíam os bens e propriedades do meu falecido marido. Silano concordou que eu ficasse com o que era meu e agisse como tutor legal de Bruto. O acordo tem resultado bem e Silano não interfere.

— Nunca? — perguntou César, piscando os olhos.

— Bom, para dizer a verdade, interferiu uma vez. Uma única vez — admitiu Servília. — Queria que eu mandasse Bruto para a escola, em vez de o manter em casa, com um preceptor. Entendi a força dos seus argumentos e concordei em fazer a experiência. Para minha grande surpresa, verifiquei que a escola só fazia bem a Bruto. O meu filho tem uma tendência natural para aquilo a que ele chama actividades intelectuais. Se tivesse um pedagogo só para ele, essa tendência seria naturalmente reforçada.

— Sim, normalmente os preceptores privados têm esse efeito — disse César num tom grave. — Continua na escola, por certo.

— Até ao fim do ano. No próximo ano, irá para o Fórum e estudará sob a direcção de um grammaticus. Sob os auspícios do tio Mamerco.

— Uma esplêndida escolha e um esplêndido futuro. Mamerco é também das minhas relações. Posso contar com a tua permissão para participar na educação retórica de Bruto? No fim de contas, estou condenado a ser seu sogro — disse César, levantando-se.

— Ficaria encantada — disse Servília, consciente de uma profunda e perturbadora decepção. Não ia acontecer nada! Os seus instintos tinham-na enganado! Tudo não passara afinal de um horrendo equívoco? De um miserável equívoco?

César deu a volta à secretária e pôs-se atrás da cadeira dela, a fim de a acompanhar até à porta, pensou ela; porém, fosse lá pelo que fosse, as pernas dela recusavam-se a mexer-se; sentia-se como uma estátua, e sentia-se horrivelmente.

— Sabias — disse a voz dele, ou melhor, uma voz, uma outra voz, completamente diferente, gutural — que tens nas costas a mais bela crista de penugem que alguma vez vi? Mas ninguém cuida dela como deve ser... Pobrezinha, precisa que a alisem, que a amaciem...

Tocou-lhe no pescoço, imediatamente abaixo do grande rolo de cabelo. Servília pensou de início que eram os dedos dele, suaves e langorosos. Mas era a cabeça dele que estava por detrás da dela e, no que toca às mãos, logo se transformaram em conchas em torno dos seios dela. A respiração dele refrescou-lhe o pescoço como uma brisa na pele molhada e foi então que ela percebeu o que estava ele a fazer. Estava a lamber aqueles pêlos supérfluos que ela tanto odiava, que a mãe dela desprezara e ridicularizara até ao dia da sua morte. A lambê-los primeiro de um lado, depois do outro, sempre na direcção da espinha, e sempre descendo, devagar, devagar. E tudo o que Servília podia fazer era render-se a sensações que nunca imaginara que poderiam existir, incendiada e inundada por um turbilhão de sentimentos.

Apesar de casada, durante dezoito anos, com dois homens muito diferentes, nunca conhecera, em toda a sua vida, nada que se assemelhasse àquela abrasadora e penetrante explosão dos sentidos, que se espalhava a partir daquela língua e que depois mergulhava em todo o seu corpo, invadindo-lhe os seios, o ventre, a vida. A certa altura, conseguiu levantar-se, não para o ajudar a desapertar a faixa sob os seus seios, não para desprender os ombros e libertar-se do vestido — quanto a isso, ele não precisava de ajuda —, mas simplesmente para que ele seguisse aquela penugem negra com a sua língua até ao ponto onde ela se desvanecia, um nada acima das nádegas. E se neste momento ele pegasse num punhal e o espetasse até ao punho no meu coração, pensou ela, eu não conseguiria mover-me um milímetro que fosse para o deter, eu nem sequer teria vontade de o deter. Nada lhe importava a não ser aquele prazer, a plenitude de uma parte de si mesma que nunca sonhara que existisse.

A roupa dele, tanto a toga como a túnica, permaneceu vestida até que a língua dele chegasse ao termo da sua viagem; nesse instante, Servília sentiu-o recuar, mas não podia virar-se para o ver; se largasse as costas da cadeira, cairia.

— Ah, assim está melhor... — ouviu-o dizer. — É assim que deve estar, sempre. Perfeito.

Abeirou-se dela e virou-a para si, puxando os braços dela para que apertassem a sua cintura (e foi então que finalmente ela sentiu a sua pele), segurando-lhe o rosto para o beijo que ainda não lhe dera. Em vez disso, porém, pegou nela e levou-a para o quarto, instalando-a sem esforço nos lençóis que antecipadamente deixara descobertos. Servília continuava de olhos fechados. Não o via, apenas o sentia, pairando sobre ela. Só os abriu quando ele colou o nariz ao umbigo dela e inalou profundamente.

— Doce — disse ele, e o seu rosto abeirou-se do monte de Vénus. — Carnudo, doce e suculento — disse, e riu-se.

Como podia ele rir-se? Mas a verdade é que se ria; depois, enquanto ela olhava espantada para o sexo dele, César colou-a a si e beijou-lhe finalmente a boca. Não era como Bruto, que lhe enterrava a língua na boca de uma forma que a deixava enojada. Não era como Silano, cujos beijos eram tão reverentes como os mais castos ósculos. Aquele beijo era perfeito, era um beijo que a deixava deliciada, que lhe apetecia retribuir, que desejava que nunca mais acabasse. Uma mão afagava-lhe as costas, desde as nádegas aos ombros; os dedos da outra exploravam suavemente entre os lábios da vulva, provocando-lhe arrepios de gozo. Ah, quanta luxúria! A absoluta glória de não se preocupar com o que ele pudesse pensar dela, com a impressão que pudesse dar, com a eventualidade de estar a exceder-se ou a retrair-se! Servília não se importava com nada, com nada, com nada. Aquilo era só para ela, só dela. E num instante pôs-se em cima dele e agarrou no sexo dele e conduziu-o para onde ele queria ir; e as suas ancas não mais se detiveram enquanto não gritou bem alto o seu êxtase, tão presa e paralisada como um animal da floresta trespassado pela lança de um caçador. Depois, deixou-se cair para a frente e descansou o seu rosto contra o peito dele, tão lassa e exaurida como o animal da floresta dando o último suspiro. Não que ele estivesse saciado. Continuaram a fazer amor durante muito tempo, durante horas, pelo menos assim lhe parecia a ela, embora não fizesse ideia se ele tinha atingido o orgasmo, ou se tivera vários ou apenas um, já que ele não gritara e permanecera erecto até parar de súbito.

— É mesmo muito grande — disse ela, erguendo o pénis dele e deixando-o depois bater-lhe na barriga.

— E está todo pegajoso — disse ele, erguendo-se agilmente e desaparecendo do quarto.

Quando voltou, Servília recuperara já a visão o suficiente para se aperceber de que ele tinha tão poucos pêlos como a estátua de um deus e que era tão bem proporcionado como um Apolo de Praxíteles.

— És tão belo — disse ela, contemplando-o.

— Se achas que sim, limita-te a achar, mas não o digas — foi a resposta dele.

— Como podes gostar de mim se tu próprio não tens pêlos?

— És doce, carnuda e suculenta e essa linha de penugem preta deixa-me encantado. — Sentou-se na beira da cama e lançou-lhe um sorriso que fez com que o coração dela batesse mais depressa.

— Além disso, tiveste prazer. Para mim, isso é pelo menos metade do gozo.

— São horas de ir andando? — perguntou ela, sensível ao facto de que ele nada tinha feito para se deitar novamente.

— É verdade, são horas de ir andando — disse ele, e riu-se.

— Pergunto-me se, tecnicamente, isto não será incesto... Os nossos filhos acabam de contrair uma promessa de casamento...

Mas a ironia era um terreno que Servília desconhecia; com uma expressão de espanto, retorquiu:

— Claro que não!

— Eu estava a brincar, Servília... — disse ele, afavelmente, e levantou-se. — Espero que a tua roupa não esteja amarrotada. Está tudo no chão da sala.

Enquanto ela se vestia, César começou a encher a banheira com a água da cisterna. Usava um balde de couro para passar a água da cisterna para a banheira. E não parou quando ela entrou para ver.

— Quando podemos voltar a ver-nos? — perguntou ela.

— Não demasiadas vezes, para que isto não perca encanto. Preferia que isso não acontecesse — disse ele, continuando a encher a banheira.

Embora ela não soubesse, aquele era um dos seus testes; se a resposta fossem lágrimas ou muitos protestos de amor, o seu interesse esfumava-se.

— Concordo contigo — disse ela.

O balde parou a meio do caminho; César fitou-a, suspenso.

— A sério?

— Absolutamente — disse ela, certificando-se de que os brincos estavam bem. — Tens outras mulheres?

— Não por ora, mas isso pode mudar de um dia para o outro. — Este era o segundo teste, mais rigoroso do que o primeiro.

— Sim, claro, tu tens uma reputação a manter. Eu percebo isso.

— Percebes mesmo?

— Claro — embora o seu sentido de humor fosse mínimo, Servília sorriu um nada e acrescentou: — Agora compreendo o que dizem acerca de ti. Vou ficar toda dorida durante dias.

— Nesse caso... porque não nos encontramos um dia depois das eleições da Assembleia Popular? Eu vou disputar o cargo de zelador da Via Ápia.

— E o meu irmão Cepião disputará o cargo de questor. Silano, antes, disputará o cargo de pretor nas Centúrias.

— E o teu outro irmão, Catão, deverá ser eleito tribuno dos soldados.

O rosto dela contraiu-se, a boca endureceu, os olhos pareciam pedra.

— Catão não é meu irmão, é meu meio-irmão — disse ela.

— Também dizem isso de Cepião. A mesma égua, o mesmo garanhão.

Servília respirou fundo, olhou-o nos olhos.

— Eu estou a par do que se diz, César, e creio que é verdade. Mas não é menos verdade que Cepião tem o mesmo nome de família que eu. Como tal, tenho de reconhecê-lo como meu irmão.

— É muito sensato da tua parte — disse César, e esvaziou o balde.

Depois do que Servília, segura de que estava apresentável, embora um pouco mais amarrotada do que horas antes, se despediu e partiu.

Pensativo, César meteu-se na banheira. Sim, era uma mulher invulgar. Um tormento, aquela atracção por penugens negras! Se desejasse a sua própria ruína, dificilmente poderia encontrar um motivo mais estúpido do que aquela penugem negra. Não se sabia se gostava mais dela agora que eram amantes, mas sabia que não ia dar-lhe tréguas. Por uma razão muito simples: Servília era uma raridade, não no que tocava ao carácter, claro, mas a outros níveis. Mulheres da sua própria classe capazes de um comportamento desinibido na cama eram tão escassas como os cobardes num exército de Crasso. Até mesmo a sua querida Cinila preservara sempre o pudor e o decoro. Bom, era assim que eram educadas, pobres mulheres. E como ganhara o hábito de ser honesto consigo mesmo, tinha de admitir que nada faria para que Júlia fosse educada de um modo diferente. Ah, sim, claro que havia rameiras na sua própria classe, mulheres que eram tão famosas pelas suas proezas sexuais como qualquer prostituta, desde a grande Colubra, já falecida, à famosa Précia, agora uma velha. Porém, quando queria divertimentos sexuais livres de qualquer inibição, César preferia procurar entre as mulheres de subura, honestas e abertas, simples e decentes. Até àquele dia, até Servília. Quem poderia adivinhar? Além disso, ela não falaria a ninguém daquela aventura. Procurou a pedra-pomes; na água fria, a stngilis não resultava, um homem precisava de suar se queria esfregar-se com a strigilis.

— E de tudo isto — perguntou ele ao minúsculo bocado de pedra-pomes — quanto hei-de contar à minha mãe? Que estranho...! Ela é uma criatura tão desprendida, tão desligada, que normalmente não tenho a menor dificuldade em falar com ela de outras mulheres. No entanto, creio que só lhe falarei de Servília quando vestir a toga púrpura de censor.

As eleições decorreram, esse ano, na data prevista, primeiro na Assembleia Centurial, tendo em vista a nomeação dos cônsules e pretores, depois na Assembleia Popular, para a escolha de magistrados menos importantes, e por fim nas tribos da Assembleia Plebeia, que se limitava a eleger os edis plebeus e os tribunos da plebe.

Embora, segundo o calendário, o mês fosse Quinctilis (o que, em princípio, significaria que se estava no auge do Verão), as estações estavam todas atrasadas porque Metelo Pio Pontifex Maximus não quisera intercalar, durante muitos anos, aqueles vinte dias extra que era costume intercalar, de dois em dois anos, após o mês de Fevereiro. Estando ainda o tempo tão primaveril e agradável, talvez não fosse surpreendente que Cneu Pompeu Magno — Pompeu, o Grande — se sentisse tentado a visitar Roma, a fim de acompanhar o processo eleitoral na Assembleia Plebeia.

Embora reclamasse o título de Primeiro Homem de Roma, Pompeu detestava a cidade, preferindo viver nas suas vastíssimas terras do norte do Piceno. Aí, Pompeu era como um rei; em Roma, tinha a desconfortável noção de que a maior parte do Senado o detestava ainda mais do que ele detestava Roma. Entre os cavaleiros que controlavam o mundo dos negócios de Roma, Pompeu era extremamente popular e dispunha de um largo apoio, mas esse facto não chegava para mitigar a sua vulnerabilidade, exacerbada quando certos membros dos boni e de outras facções aristocráticas lhe atiravam à cara que o achavam um novo-rico presumido, um intruso que seria tudo menos Romano.

Tinha uma linhagem medíocre, mas não propriamente vazia, já que o seu avô fora membro do Senado e casara com a filha de uma família impecavelmente romana, os Lucílios, e o seu pai fora o famoso Pompeu Estrabão, o cônsul, general vitorioso da Guerra Italiana, protector dos elementos conservadores do Senado quando Roma fora ameaçada por Mário e Cina. Mas Mano e Cina tinham ganho e Pompeu morrera de doença no seu acampamento às portas da cidade. Culpando Pompeu Estrabão da epidemia de febre entérica que devastara a cidade cercada, os habitantes do Quirinal e do Viminal haviam arrastado o seu corpo nu pelas ruas, depois de o terem atado a um burro. O jovem Pompeu nunca perdoara esse ultraje.

A sua grande hipótese surgiu quando Sila regressou do exílio e invadiu a Península Italiana; apenas com vinte e dois anos, Pompeu recrutou três legiões de veteranos do falecido pai e com elas marchou ao encontro de Sila, nas terras da Campânia. Ciente de que Pompeu o chantageava para obter um comando comum, o astucioso Sila usou-o para algumas das suas dúbias acções, enquanto avançava com passos seguros para o cargo de ditador. Sila morreu entretanto, mas deixou uma lei que premiava precisamente aquele que ele considerava um fedelho presunçoso; de facto, essa lei permitia que o comando dos exércitos de Roma fosse confiado a um homem que não estivesse no Senado, e Pompeu recusara-se a integrar o Senado. Seguiram-se os seis anos da guerra de Pompeu contra o rebelde Quinto Sertório, na Hispânia, seis anos durante os quais Pompeu foi obrigado a reafirmar a sua habilidade militar; fora para a Hispânia seguro de que bateria rapidamente Sertório, mas viu-se confrontado com um dos melhores generais de toda a história de Roma. Só pelo desgaste conseguiu vencê-lo. Não admira que Pompeu tenha regressado a Itália muito mudado: manhoso, sem escrúpulos, decidido a mostrar ao Senado (que o deixara sem dinheiro e reforços na Hispânia) que ele, não sendo senador, era capaz de esmagar a venerável instituição.

E Pompeu tratou de fazer isso, com a conivência de dois homens: Marco Crasso, que vencera Espártaco, e nada menos do que César. Com César, então com vinte e nove anos, mexendo os cordelinhos, Pompeu e Crasso usaram a existência dos seus dois exércitos para forçarem o Senado a autorizá-los a disputar o consulado. Nenhum homem fora alguma vez eleito para a mais elevada das magistraturas sem que antes tivesse sido, pelo menos, membro do Senado; Pompeu, contudo, foi eleito cônsul sénior, tornando-se Crasso seu colega. E foi assim que este homem extraordinário, e muito novo ainda, atingiu o seu objectivo da forma mais inconstitucional possível, ainda que tivesse sido César, seis anos mais novo, quem lhe mostrou como havia de atingi-lo.

Para agravar a infortunada situação do Senado, o consulado de Pompeu, o Grande, e Marco Crasso foi um triunfo, um ano de festas, circo, diversões e prosperidade. E quando terminou, os dois homens declinaram ficar à frente de províncias; em vez disso, retiraram-se para a vida privada. A única lei significativa que promulgaram restaurava todos os poderes dos tribunos da plebe, que Sila condenara a uma impotência virtual.

Agora Pompeu estava em Roma para acompanhar a eleição dos tribunos da plebe do ano seguinte, e isso intrigava César, que o encontrou, bem como à sua multidão de clientes, na esquina da Sacra Via com a Clivus Orbius, mesmo à entrada do baixo Fórum.

— Não esperava ver-te em Roma — disse César, cumprimentando-o. Examinou Pompeu da cabeça aos pés e, com um sorriso imenso, acrescentou: — Estás com bom aspecto, com um ar saudável. Consegues manter a tua figura, apesar de já teres chegado à meia-idade...

— Meia-idade? — reagiu Pompeu, indignado. — Lá porque já fui cônsul, isso não quer dizer que esteja senil...! Caramba, vou fazer trinta e oito anos em fins de Setembro!

— Ao passo que eu — disse César, com um ar presumido — fiz trinta e dois anos há muito pouco tempo... Com essa idade, Pompeu Magno, tu ainda não eras cônsul.

— Ah, pois, estás a entrar comigo...! — retorquiu Pompeu, mais calmo. — És tal e qual Cícero. Hás-de ir a brincar a caminho da pira...!

— Quem me dera ser tão espirituoso assim, Pompeu Magno! Mas não respondeste à única questão séria que te pus. Que estás tu a fazer em Roma? Terás vindo acompanhar a eleição dos tribunos da plebe? Nunca me passaria pela cabeça que, actualmente, precisasses de recorrer aos tribunos da plebe.

— Um homem precisa sempre de um ou dois tribunos da plebe, César.

— Ah sim? Que andas tu a congeminar, Magno?

Os vívidos olhos azuis abriram-se muito, numa exibição de ingenuidade.

— Não ando a congeminar nada, César.

— Ah! Olha! — exclamou César, apontando para o céu. — Viste aquilo, Magno?

— O quê? — perguntou Pompeu, examinando as nuvens.

— Aquele porco cor-de-rosa a voar como uma águia...!

— Não acreditas em mim!

— Precisamente. Não acredito em ti. Não seria melhor se desabafasses? Não sou teu inimigo, como muito bem sabes. De facto, até te ajudei muito no passado, e não há nenhuma razão para não vir a apoiar a tua carreira no futuro. Não sou mau orador, pelo menos isso tens de admitir.

— Bom... — começou Pompeu, mas logo se calou.

— Bom o quê?

Pompeu parou, olhou para trás, para a multidão de clientes que o seguia, abanou a cabeça e afastou-se um pouco, encostando-se a uma das belas colunas de mármore que sustentavam a arcada à saída da principal sala da Basílica Emília. Compreendendo que aquela era a melhor maneira de Pompeu evitar os abelhudos, César pôs-se ao lado do Grande Homem para escutar as suas palavras, ao passo que a horda de clientes ficava onde estava, de olhos brilhantes e morrendo de curiosidade, mas demasiado longe para ouvir uma palavra que fosse.

— E se eles conseguem ler nos teus lábios? — perguntou César.

— Estás a brincar outra vez...!

— Não propriamente. Mas podíamos virar-lhes as costas e fingir que estávamos a mijar para o corredor central da Basílica Emília.

Aquela ultrapassava tudo... e Pompeu desatou à gargalhada. Contudo, quando sossegou, e César não deixou de reparar nisso, virou-se o suficiente para ficar de perfil para os clientes, e moveu os seus lábios tão furtivamente como um vendedor de pornografia do Fórum.

— Para dizer a verdade — murmurou Pompeu —, tenho um bom amigo entre os candidatos deste ano.

— Aulo Gabínio?

— Como é que adivinhaste?

— Ele vem de Piceno e pertenceu à tua equipa na Hispânia. Além disso, é meu amigo. Fomos tribunos militares juniores no cerco a Mitilene. — César pôs uma expressão de desagrado, lembrando-se de uma certa pessoa. — Gabínio também não gostava de Bíbulo. Além disso, continua a não gostar dos boni.

— Gabínio é a melhor das pessoas — disse Pompeu.

— E muitíssimo eficiente.

— Sem dúvida.

— Que vai ele legislar em tua intenção? Vai retirar o comando a Lúculo e entregar-to numa bandeja de ouro?

— Não, não! — atirou-lhe Pompeu. — É demasiado cedo para isso! Primeiro, preciso de uma campanha breve para exercitar os músculos.

— Os piratas — disse imediatamente César.

— Adivinhaste outra vez! É mesmo isso...!

César dobrou o joelho direito para enroscar a perna na coluna; quem olhasse para ele, diria que os dois homens mantinham uma agradável conversa sobre os velhos tempos.

— Aplaudo-te, Magno. É uma decisão não só muito inteligente, mas também muito necessária.

— Não estás impressionado com o que Metelo Cabrito tem feito em Creta?

— Nunca vi criatura mais obstinada! E ainda por cima é um corrupto dos piores! Por alguma razão foi cunhado de Verres...! Com três boas legiões, só conseguiu vencer uma batalha em terra contra vinte e quatro mil cretenses, mal preparados e das mais diversas origens, que eram chefiados por marinheiros e não por soldados.

— Terrível — disse Pompeu, abanando a cabeça com um ar triste. — Por que raio é que se travam batalhas em terra quando os piratas operam no mar? Está muito certo que se diga que é preciso erradicar as suas bases em terra, mas se não os apanharmos no mar, nunca conseguiremos destruir aquilo que realmente os sustenta — ou seja, os seus navios. A guerra naval moderna não tem nada a ver com a velha guerra de Tróia. Não podemos incendiar os navios dos piratas quando estão atracados. Enquanto a maior parte deles resiste aos nossos ataques, os restantes formam tripulações mínimas e levam a frota para outro lado.

— Claro — disse César, acenando com a cabeça. — É aí que todos têm errado até agora, desde os dois Antonios até Vatia Isáurico. Incendiar aldeias e saquear cidades...! Não, a guerra contra os piratas precisa de um homem com um verdadeiro talento organizativo.

— Exactamente! — exclamou Pompeu. — E eu sou esse homem, podes crer que sou! Se a inércia a que me forcei nos últimos anos serviu para alguma coisa, foi precisamente para reflectir. Na Hispânia, limitei-me a baixar os cornos e a investir cegamente. O que eu devia ter feito era planear cuidadosamente a minha vitória antes de ter saído de Mutina. Devia ter investigado tudo antecipadamente; tudo, e não apenas a eventual abertura de uma nova estrada nos Alpes. Se o tivesse feito, teria ficado a saber quantas legiões precisava, quantos cavaleiros me faziam falta, quanto dinheiro havia no meu cofre de guerra — e teria aprendido a compreender o inimigo. Quinto Sertório era um táctico brilhante. Mas as boas tácticas não chegaram para ganhar as guerras. A estratégia é o mais importante, César!

— Devo então concluir que tens estudado a questão dos piratas.

— Claro que tenho. Exaustivamente. Todos os aspectos, desde o mais importante ao mais insignificante. Mapas, espiões, navios, dinheiro, homens. Estou perfeitamente qualificado para tal missão — disse Pompeu, revelando uma confiança que não lhe era usual. A Hispânia fora a última campanha do Miúdo Carniceiro. De futuro, não mais seria um carniceiro, miúdo ou graúdo.

Não admira, pois, que César tenha seguido com grande interesse a eleição dos dez tribunos da plebe. Aulo Gabínio tinha a eleição garantida. De facto, foi ele o candidato mais votado, o que significava que seria presidente do novo Colégio dos Tribunos da Plebe, o qual tomaria posse no décimo dia de Dezembro desse ano.

Como eram os tribunos da plebe que promulgavam a maior parte das leis novas, para além de serem tradicionalmente os únicos legisladores que se abriam à mudança, todas as facções poderosas do Senado precisavam de controlar pelo menos um tribuno da plebe. Incluindo os boni, que usavam os seus homens para bloquear qualquer nova legislação; a arma mais poderosa de um tribuno da plebe era o veto, que ele podia exercer contra os seus colegas, contra todos os outros magistrados, e mesmo contra o Senado. O que significava que os tribunos da plebe ligados aos boni nunca aprovariam novas leis; vetá-las-iam, pura e simplesmente. E, como seria de esperar, os boni conseguiram eleger três homens — Glóbulo, Trebélio e Otão. Nenhum deles era um homem brilhante, mas um tribuno da plebe ligado a essa facção não precisava de ser brilhante; precisava apenas de ser capaz de articular a palavra Veto!.

Pompeu conseguiu eleger dois homens excelentes, sem os quais dificilmente poderia alcançar os seus fins. Aulo Gabínio podia ser pobre e relativamente desprovido de uma boa linhagem, mas iria longe; César estava consciente disso desde os tempos do cerco de Mitilene. Claro que o outro homem de Pompeu era também de Piceno: um tal Caio Cornélio que, sobre não ser patrício, também não era membro da venerável gens Cornélia. Talvez não estivesse tão ligado a Pompeu como Gabínio, mas não vetaria nenhum plebiscito que Gabínio eventualmente propusesse à Plebe.

Tudo isto podia ser muito interessante para César, mas não eram os homens de Pompeu que lhe davam matéria para reflexão; de facto, o único homem que o preocupava não estava ligado nem aos boni, nem a Pompeu, o Grande. Esse homem era Caio Papírio Carbão, um radical com os seus próprios interesses a defender. Há já algum tempo que Carbão espalhava pelo Fórum que tencionava processar o tio de César, Marco Aurélio Cota, pela retenção ilegal do saque de Heracleia, durante a campanha de Marco Cota contra o velho inimigo de Roma, o rei Mitrídates, nas terras da Bitínia. Marco Cota regressara a Roma em triunfo no final do famoso consulado de Pompeu e Crasso e, nessa altura, ninguém pusera em causa a sua integridade. Agora, Carbão não fazia outra coisa senão revolver águas passadas e, como tribuno da Plebe (agora com todos os direitos restaurados), poderia processar Marco Cota num tribunal da Assembleia Plebeia especialmente convocado para o efeito. Porque amava e admirava o tio Marco, César não podia deixar de ficar inquieto com a eleição de Carbão.

Contado o último voto, os dez eleitos subiram aos rostra, agradecendo os aplausos; César virou costas e foi para casa. Estava cansado: muito pouco sono, demasiada Servília. Só se tinham voltado a encontrar um dia depois das eleições na Assembleia Popular, realizadas seis dias antes, e ambos tinham algo para celebrar. César era zelador da Via Ápia.

Mas o que é que te deu para aceitares esse cargo?

perguntara-lhe Ápio Cláudio Pulcro, estupefacto.

Essa é a estrada dos meus antepassados, mas eu não sou idiota ao ponto de aceitar o cargo! Num ano, vais ficar pobre, César!) e Cepião, o irmão ou meio-irmão de Servília, era já um dos vinte questores. O sorteio atribuíra-lhe funções em Roma como questor urbano, o que implicava que não teria de servir numa província.

Por isso, quando se reencontraram, para além de expectantes, estavam satisfeitos. E tanto gostaram do encontro que nenhum deles quis mais adiamentos. Passaram a encontrar-se todos os dias para uma festa de lábios, línguas, pele, e todos os dias encontravam algo novo para fazer, algo diferente para explorar. Até àquele dia, em que novas eleições obstavam a que se vissem. E, muito provavelmente, só voltariam a ver-se nas Calendas de Setembro, pois Silano ia levar Servília, Bruto e as meninas para a estância balnear de Cumas, onde tinha uma villa. Também Silano tivera êxito nas eleições daquele ano; também ele seria pretor urbano no ano seguinte. Essa importante magistratura faria ressaltar também o perfil público de Servília; entre outras coisas, Servília esperava que a sua casa fosse escolhida para os ritos (reservados às mulheres) de Bona Dea, uma cerimónia em que as mais ilustres matronas de Roma deixavam a Boa Deusa a dormir durante todo o Inverno.

E era também tempo de César dizer a Júlia que lhe arranjara casamento. A cerimónia formal de compromisso de casamento só teria lugar depois de Bruto ter vestido a toga virilis, em Dezembro. No entanto, todas as outras formalidades haviam já sido cumpridas e o destino de Júlia estava traçado. Porque adiara César esse momento, quando não era seu costume adiar fosse o que fosse? Pedira a Aurélia que informasse Júlia, mas Aurélia, defensora intransigente do protocolo doméstico, recusara. Ele é que era o paterfamilias; era ele que devia informar a filha. Ah, as mulheres! Porque tinha de haver tantas mulheres na sua vida? e porque pensava ele que o futuro lhe reservava ainda mais mulheres? E ainda mais problemas por elas causados?

Júlia estivera a brincar com Macia, a filha do querido amigo de César, Caio Macio, que vivia no outro apartamento térreo da ínsula de Aurélia. Contudo, Júlia voltou para casa bastante tempo antes do jantar e César já não tinha mais desculpas para fugir ao anúncio de casamento. Júlia voltou das brincadeiras a dançar como se fora uma jovem ninfa, os panos das roupagens flutuando à volta da sua imatura figura numa névoa de azul-lavanda. Aurélia vestia-a invariavelmente de azuis ou verdes pálidos e tinha razão em fazê-lo. Que bela que ela será, pensou César, observando-a; talvez não competisse com a avó na pureza quase grega da ossatura; porém, possuía essa qualidade mágica das Júlias que Aurélia, tão pragmática e sensata (e nisso era uma verdadeira Cota), não podia ter. Dizia-se das Júlias que faziam os seus homens felizes e César tinha razões para acreditar nisso sempre que atentava na filha. O adágio não era infalível; a sua tia mais nova (primeira mulher de Sila) suicidara-se após uma prolongada história de alcoolismo e a sua prima Júlia Antónia ia já no segundo marido e em crises de depressão e histeria cada vez mais pronunciadas. Contudo, Roma continuava a citar o adágio e não era César que se ia opor à força dos adágios; qualquer nobre suficientemente abastado para dispensar uma noiva rica pensaria numa Júlia como primeira escolha para o seu filho.

Quando viu o pai encostado ao peitoril da janela da sala de jantar, o rosto de Júlia iluminou-se; correu para ele e, com movimentos graciosos, saltou para o colo dele.

— Como é que está a minha menina? — perguntou ele, levando-a para um dos três divãs da sala e instalando-a ao lado dele.

— Tive um dia maravilhoso, tatá. E tu, gostaste dos tribunos da plebe que foram eleitos? Foram eleitos os homens certos?

César sorriu e os cantos exteriores dos seus olhos franziram-se em verdadeiros leques de vincos; embora a sua pele fosse naturalmente muito pálida, os muitos anos de vida ao ar livre, nos fóruns e tribunais e em acções militares, tinham bronzeado as superfícies expostas, excepto o interior daqueles vincos, onde a pele permanecia muito branca. Este contraste fascinava Júlia, que gostava mais de o ver precisamente quando ele não estava a sorrir ou a piscar os olhos, já que, assim, exibia aqueles leques de listras brancas como se fosse um bárbaro com pinturas de guerra. Pondo-se de joelhos sobre o divã, beijou primeiro um dos leques e depois o outro, enquanto ele inclinava a sua cabeça para receber os mimos dos lábios dela e todo se desfazia e todo se enternecia, mais do que alguma vez se enternecera com qualquer outra mulher. Nem mesmo com Cinila.

— Sabes muito bem — respondeu ele, terminado o ritual — que nem sempre os homens certos são eleitos. O novo Colégio é a mistura do costume: homens bons, maus, indiferentes, sinistros, intrigantes. Mas creio que se mostrarão mais activos do que os tribunos deste ano. É natural que, por volta do Ano Novo, já haja grande azáfama no Fórum.

Júlia era versada em questões de política, o que não admirava, pois tanto o pai como a avó vinham de grandes famílias políticas. Porém, o facto de viver no bairro de Subura significava que os seus amigos (até mesmo Macia) não pertenciam à mesma classe social e mostravam muito pouco interesse pelas maquinações e permutações do Senado, das assembleias, dos tribunais. Aurélia, por esse motivo, mandara-a para a escola de Marco António Gnifão mal ela chegara aos seis anos; Gnifão fora preceptor privado de César, mas quando César vestira a laena e o apex do flamen Dialis (e quando se tornara, oficialmente, um adulto), Gnifão decidira abrir uma escola destinada a uma clientela nobre. Júlia revelara-se uma aluna brilhante e diligente, com o mesmo amor do pai pela literatura, mas com menos queda para a matemática e a geografia. Por outro lado, não possuía a espantosa memória de César. Aí está uma boa coisa, concluíram, sensatamente, todos os que a amavam; raparigas espertas e desenvoltas são excelentes, mas as brilhantes e intelectuais são um problema, para os outros e para elas mesmas.

— Porque estamos aqui, tatá? — perguntou ela, algo confusa.

— Tenho notícias para ti, notícias que gostaria de te dar num sítio tranquilo — respondeu César, que já sabia como tratar do problema, agora que decidira enfrentá-lo.

— Boas notícias?

- Não sei ao certo, Júlia. Espero que sim, mas eu não posso sentir por ti. Talvez não sejam notícias excepcionais, mas creio que, depois de te habituares à ideia, não a acharás intolerável.

Esperta e desenvolta como era, Júlia, apesar de não possuir as qualidades de uma intelectual nata, compreendeu imediatamente. — Arranjaste-me um marido — disse ela.

— É verdade. Agrada-te?

— Muito, tatá. Júnia já está comprometida e porta-se connosco como se fosse uma rainha. Quem é, tatá?

— O irmão de Júnia, Marco Júnio Bruto.

César olhava-a nos olhos e por isso pôde detectar no olhar da filha o rápido clarão do susto. Mas Júlia virou logo a cabeça e olhou em frente. Um espasmo revolveu-lhe a garganta; engoliu em seco.

— Não te agrada? — perguntou ele, de coração aflito.

— É uma surpresa, nada mais — disse a neta de Aurélia, que fora educada, desde o berço, para aceitar tudo o que o destino lhe reservasse, desde os mandos aos muito reais riscos da gravidez. Virou-se para o pai, os grandes olhos azuis sorrindo já. — Estou muito contente. Bruto é um bom rapaz.

— Tens a certeza?

— Oh, tatá, claro que tenho a certeza! — disse ela, a voz vibrando de sinceridade. — De verdade, tatá...! É uma boa notícia. Bruto gostará de mim e tomará conta de mim, quanto a isso não tenho dúvidas.

César sentiu-se mais confortado. Suspirou, sorriu, pegou na mãozinha dela e deu-lhe um suave beijo antes de a envolver num abraço apertado. Nunca lhe ocorreu perguntar à filha se poderia vir a amar Bruto, pois o amor não era um sentimento de que César gostasse. Nem mesmo o amor que dedicara a Cinila e que dedicava agora àquela excelente menina. Amar alguém fazia-o sentir-se vulnerável e César odiava sentir-se vulnerável.

Não demorou muito Júlia a correr dali para fora; César podia ouvi-la chamar pela avó, pois era para o gabinete desta que a filha se dirigia.

— Avó, avó, vou casar com o meu amigo Bruto! Não é uma maravilha? Não é mesmo uma boa notícia?

E nesse instante César pôde ouvir o prolongado gemido que anunciava um acesso de choro. E ouviu-a chorar como se o seu coração tivesse sido despedaçado e não sabia se era a alegria ou fé: a tristeza que provocavam as lágrimas. Encaminhou-se para a sala de recepção e cruzou-se com Aurélia, que conduzia a neta para o quarto desta. Júlia tinha o rosto colado ao corpo da avó.

Na expressão de Aurélia, não havia o menor sinal de perturbação. — Daria tudo — disse ela para o filho — para que as mulheres rissem quando estão felizes! Em vez disso, a maior parte chora. E Júlia não escapa à regra.

A deusa Fortuna continuava sem dúvida a favorecer Cneu Pompeu Magno, concluiu César nos primeiros dias de Dezembro, sorrindo para si mesmo. O Grande Homem formulara o desejo de erradicar a ameaça dos piratas, e a deusa Fortuna, obedientemente, consentira em satisfazê-lo quando a colheita de cereais da Sicília chegasse a Óstia, o porto que servia Roma, situado no estuário do rio Tibre. Nesse porto, descarregavam os navios a sua preciosa e pesada carga para as barcaças que a transportavam rio acima, até ao silo do porto de Roma. Aí, no silo, a carga estaria finalmente em absoluta segurança.

Várias centenas de navios de carga convergiram para Óstia para descobrirem que não havia barcaças nenhumas à sua espera; o questor de Óstia organizara tão mal as coisas que permitira que as barcaças fizessem uma viagem imprevista até Túder e Ocrículo, a fim de que transportassem também para Roma a colheita do vale do Tibre. Por isso, enquanto os capitães e os grandes magnatas dos cereais explodiam de raiva e o infortunado questor fervia de impaciência, um Senado furioso ordenava que o único cônsul em funções, Quinto Márcio Rei, rectificasse imediatamente as coisas.

Aquele fora um ano horrível para Márcio Rei, cujo colega consular morrera pouco depois de ter tornado posse. O Senado nomeara imediatamente um cônsul substituto, mas também este morrera, de tal forma que nem chegara a sentar-se na cadeira curul. Uma apressada consulta aos Livros Sagrados levou o Senado a concluir que não devia proceder a mais substituições, pelo que Márcio Rei ficou a governar sozinho. Tal decisão estragou por completo os planos de Márcio Rei, que pretendia instalar-se, durante o consulado, na sua província, a Cilícia; de facto, o governo desta província fora-lhe concedido depois de hordas de poderosos homens de negócios (os cavaleiros, em Roma) terem conseguido retirá-lo das mãos de Lúculo.

Precisamente quando Márcio Rei se preparava para partir finalmente para a Cilícia, rebentou a crise dos cereais em Óstia. Vermelho de raiva, convocou dois pretores e mandou-os a toda a velocidade para Óstia, a fim de esclarecerem o caso. Precedidos por seis lictores, vestindo túnicas vermelhas e empunhando as machadinhas nos seus fasces, Lúcio Belieno e Marco Sextílio seguiram para Óstia. E, precisamente no mesmo momento, uma frota pirata, constituída por mais de cem galeras, aproximava-se de Óstia, vinda do mar Toscano.

Os dois pretores encontraram metade da cidade a arder e os piratas forçando as tripulações dos navios cerealíferos a levar as suas embarcações para o mar. A audácia deste ataque rápido — quem ousaria pensar que os piratas invadiriam um local que ficava a poucas milhas de distância da poderosa Roma? — apanhara toda a gente desprevenida. As tropas mais próximas estavam em Cápua e os soldados de Óstia estavam demasiado ocupados a apagar fogos para pensarem em organizar a resistência. Ninguém pensara sequer em mandar uma mensagem urgente para Roma.

Nenhum dos pretores era um homem resoluto; ficaram parados, estupefactos e desorientados, no meio do turbilhão que ia no porto. Até que um grupo de piratas os descobriu e logo os fez prisioneiros, bem como aos lictores, conduzindo-os depois a uma galera que imediatamente se fez ao mar, na esteira da desaparecida frota cerealífera. A captura dos dois pretores (e um deles era o tio do grande nobre patrício Catilina), dos lictores e, naturalmente, dos fasces que estes levavam, implicaria um resgate de pelo menos duzentos talentos!

Este ataque de surpresa teve em Roma efeitos tão previsíveis quanto inevitáveis: os preços dos cereais subiram em flecha imediatamente; multidões furibundas de mercadores, moleiros, padeiros e consumidores desceram ao baixo Fórum para se manifestarem contra a incompetência governamental; e o Senado reuniu secretamente, com as portas da Cúria bem fechadas, a fim de que, lá fora, ninguém se apercebesse da desolação que reinava entre os paires conscripti. E, de facto, o debate não podia ter sido mais desolador. Para começar, ninguém queria usar da palavra.

Depois de Quinto Márcio Rei ter apelado por várias vezes, e sem qualquer êxito, à intervenção dos senadores, um homem levantou-se para falar, aparentemente com grande relutância. Era o tribuno da plebe indigitado Aulo Gabínio, o qual, concluiu César, àquela luz escassa, filtrada, parecia ainda mais Gaulês do que era. Esse era, aliás, o problema de todos os homens de Piceno — o Gaulês que neles havia era muito mais visível do que o Romano. A essa norma não escapava Pompeu. Não era tanto o ruivo ou o louro dos seus cabelos, nem os olhos azuis ou verdes; muitos eram os Romanos impecavelmente romanos que tinham pele branca e cabelos louros. Incluindo César. O problema estava na ossatura característica dos Picentinos. Rostos bem redondos, queixos fendidos por uma covinha, narizes curtos (o de Pompeu era até um tanto abatatado), lábios finos. Todos esses traços eram gauleses, não romanos, e deixavam os seus possuidores numa situação de inferioridade, pois proclamavam, diante de todo o mundo, que, por muito que protestassem ser descendentes de migrantes sabinos, os Picentinos, na realidade, descendiam de Gauleses que se haviam instalado em Piceno mais de trezentos anos antes.

Quando Gabínio, o Gaulês, se levantou, a reacção da maioria dos senadores que estavam sentados nos assentos dobradiços foi clara: aversão, reprovação, desânimo. Em circunstâncias normais, ou seja, se fossem respeitadas as normas hierárquicas, Gabínio teria usado da palavra muito mais tarde. Naquela altura, tinha à sua frente catorze magistrados em exercício, catorze magistrados eleitos e uns vinte consulares — isto se toda a gente estivesse presente. Mas nem toda a gente lá estava, porque nunca compareciam todos. Contudo, um magistrado tribunício a abrir um debate era um caso praticamente sem precedentes.

— Não tem sido um bom ano, pois não? — perguntou Aulo Gabínio ao Senado depois de ter cumprido a formalidade de saudar os que estavam acima e abaixo dele na hierarquia. — Nos últimos seis anos, tentámos combater apenas os piratas de Creta, embora os piratas que acabam de saquear Óstia e de capturar a frota cerealífera — para além de terem raptado dois pretores e as suas insígnias — tivessem vindo, afinal, de locais muito mais próximos de Roma, não é verdade? De facto, os piratas patrulham já a parte central do Nosso Mar, a partir de bases na Sicília, Ligúria, Sardenha e Córsega. Conduzidos, sem dúvida, por Megadates e Farnaces, os quais, em anos recentes, têm desfrutado de um pacto, para eles muito agradável, com vários governadores da Sicília, entre os quais o exilado Caio Verres; segundo esse pacto, os piratas podem movimentar-se à vontade nas águas e nos portos da Sicília. Imagino, pois, que juntaram todos os seus aliados e seguiram a nossa frota cerealífera a partir de Lilibeu. Talvez a sua intenção original fosse atacá-la no mar. Até que, em Óstia, algum indivíduo mais empreendedor, em troca de uma bela soma, os informou de que, naquele porto, não havia barcaças nenhumas, nem haveria, muito possivelmente, nos oito ou nove dias seguintes. Pois bem, pensaram os piratas, porque havemos nós de capturar apenas uma parte da frota cerealífera, atacando-a no mar? Será melhor lançar o ataque no porto de Óstia, já que, assim, ficaremos com toda a frota e, naturalmente, com toda a carga! Pois se todo o mundo sabe que Roma não tem legiões no território do Lácio! Que força havia para detê-los em Óstia? Que força os deteve em Óstia? A resposta é muito curta e simples — força nenhuma!

Estas duas últimas palavras foram gritadas; toda a gente se sobressaltou, mas ninguém respondeu. Gabínio olhou à sua volta e, nesse momento, só pensou em como seria bom que Pompeu estivesse ali para o ouvir. Que pena! De qualquer modo, Pompeu adoraria a carta que Gabínio tencionava enviar-lhe nessa mesma noite.

— Algo tem de ser feito — prosseguiu Gabínio. — E, com isto, não quero dizer a derrocada do costume, magnificamente personificada pela campanha que o nosso chefe, Metelo Cabrito, continua a travar em Creta. Primeiro, limita-se a derrotar alguns dignos representantes da ralé cretense numa batalha em terra, depois, cerca Cidoneia, que acaba por capitular — mas deixa fugir o grande almirante pirata Panares! Caem mais umas quantas cidades, após o que o nosso chefe cerca Gnosso, em cujas muralhas se refugiou o grande almirante pirata Lastenes. Quando a queda de Gnosso parece inevitável, Lastenes destrói todos os tesouros que não pode levar consigo e foge. Um cerco eficiente, não acham? Porém, qual é o desastre que deixa mais triste o nosso chefe Metelo Cabrito? A fuga de Lastenes ou a perda do tesouro? Pois bem, a perda do tesouro, é claro! Lastenes é apenas um pirata e piratas não pagam resgates por piratas. Os piratas esperam apenas ser crucificados como os escravos que em tempos foram!

Gabínio, o Gaulês de Piceno, fez uma pausa, e fitou a audiência com um sorriso feroz, como só um Gaulês podia fazer. Respirou fundo e, por fim, exclamou: — Algo tem de ser feito!

Dito isto, Gabínio sentou-se. Ninguém falou. Ninguém se mexia.

Quinto Márcio Rei suspirou. — Alguém tem algo a dizer? — Os seus olhos viajaram de bancada em bancada, sem se deterem em rosto nenhum. Até que encontraram uma expressão de sarcasmo. Em César, precisamente. Mas por que raio César o olhava assim?

— Caio Júlio César — disse Márcio Rei. — Tu em tempos foste capturado pelos piratas e acabaste por levar a melhor sobre eles. Não tens nada a dizer sobre o assunto?

César levantou-se do seu assento na segunda bancada. — Apenas uma coisa, Quinto Márcio. Algo tem de ser feito — e sentou-se.

O único cônsul daquele ano ergueu as mãos num gesto de derrota e deu por terminados os trabalhos.

— Quando é que estás a pensar atacar? — perguntou César a Gabínio, ao deixarem a Cúria Hostília.

— Não vai ser para já — retorquiu Gabínio, bastante animado. — Tenho outras coisas para fazer primeiro, tal como Caio Cornélio. Eu sei que é costume os tribunos da plebe começarem os seus anos de mandato com gestos espectaculares, mas, francamente, acho que essa é uma má táctica. Deixemos que os nossos estimados cônsules eleitos Caio Pisão e Manio Acílio Glabrião aqueçam os seus traseiros nas cadeiras curuis. Quero que eles pensem que eu e Cornélio esgotámos o nosso repertório... Só depois voltarei ao assunto de hoje.

— Nesse caso, será em Janeiro, ou em Fevereiro.

— De certeza que não será antes de Janeiro — disse Gabínio.

— Então Magno está perfeitamente preparado para atacar os piratas.

-— Em todos os aspectos. Não falta uma flecha, não falta um único odre de água. Posso garantir-te que Roma nunca terá visto coisa assim.

— Então que venha Janeiro! — César fez uma pausa, virou-se para Gabínio, fitou-o com um ar interrogativo. — Magno nunca conseguirá o apoio de Caio Pisão, pois Caio Pisão está demasiado próximo de Catulo e dos boni. Mas Glabrião é um caso prometedor. Ainda não se esqueceu do que Sila lhe fez.

— Quando Sila o obrigou a divorciar-se de Emília Escaura?

— Precisamente. Ele será o cônsul júnior do próximo ano, mas é conveniente ter na mão pelo menos um cônsul.

Gabínio deu um risinho. — Pompeu tem algo em mente para o nosso querido Glabrião.

- Óptimo. Se conseguires dividir os cônsules, poderás ir muito mais longe, e muito mais depressa.

César e Servília reataram a sua ligação depois de esta ter regressado de Cumas, no final de Outubro. Aquela relação continuava a absorvê-los tanto como antes. Embora Aurélia tentasse, de vez em quando, obter indícios sobre o que se passava, César limitava as suas informações ao mínimo e não deixava transparecer a seriedade e a intensidade do caso. Continuava a não gostar de Servília, mas isso não afectaria o seu relacionamento porque, para César, gostar não era necessário. Gostar, pensava ele, talvez tivesse retirado algo de vital à sua ligação com Servília.

— Gostas de mim? — perguntou ele a Servília, um dia antes de os novos tribunos da plebe assumirem as suas funções.

Servília ofereceu-lhe os seios, um de cada vez, e atrasou a sua resposta até os seus mamilos estarem bem erectos, até sentir o calor descendo impetuoso pelo seu ventre.

— Eu não gosto de ninguém — disse ela então, pondo-se em cima dele. — Ou amo, ou odeio.

— É confortável?

Como não possuía sentido de humor, Servília não pensou, nem por um momento, que César pudesse estar a referir-se à posição sexual por que ela optara. — Creio que é muito mais confortável do que gostar. Quando duas pessoas gostam uma da outra, ficam incapazes de agir como devem. Evitam dizer verdades desagradáveis para o outro, por exemplo. Receiam que essas verdades magoem o outro. O amor e o ódio, pelo contrário, permitem-nos dizer essas verdades desagradáveis.

— Queres ouvir uma verdade desagradável? — perguntou ele, sorrindo, absolutamente quieto; e tal pergunta, mais o sorriso e o sossego de César, deixaram-na confusa e perturbada, já que ardia de desejo e o seu fogo exigia um fogo idêntico.

— Porque é que não te calas e me deixas continuar, César?

— Porque quero dizer-te uma verdade desagradável.

— Pronto, está bem, dize! — disparou ela, afagando os seus próprios seios, já que ele não o fazia. — Ah, o que tu adoras atormentar uma pessoa...!

— Gostas muito mais de estar em cima do que estar em baixo, ou de lado, ou de qualquer outra maneira — disse ele.

— É verdade, gosto. Já estás satisfeito? Podemos continuar?

— Ainda não. Porque é que gostas mais de estar em cima?

— Porque estou em cima, é claro — retorquiu ela, sem entender bem a pergunta.

— Aha! — disse ele, e, dando uma volta, pôs-se em cima dela. — Agora estou em cima.

— Preferia que não estivesses.

— Gosto muito de te dar prazer, Servília, mas não quando isso significa que te faço sentir mais poderosa.

— Que outra maneira tenho eu de me sentir mais poderosa? — perguntou ela, debatendo-se. — Não vês que, assim, ficas demasiado grande e pesado?

— Tens toda a razão quanto ao conforto — disse ele, prendendo-a. — Não gostar de alguém significa que não se é tentado pela compaixão.

— Cruel — disse ela, os olhos faiscando.

— O amor e o ódio são cruéis. Só o gostar é amável. Mas Servília, que não gostava de ninguém, tinha o seu próprio método para se vingar; e, com as suas unhas cuidadosamente arranjadas, desenhou cinco linhas paralelas de sangue desde a nádega esquerda até ao ombro esquerdo dele.

Embora preferisse não o ter feito, pois ele prendeu-lhe logo os pulsos e com tal força a esmagou que os ossos dos dois pareciam roçar-se; depois, obrigou-a a permanecer debaixo dele por uma eternidade, enterrando-se cada vez mais fundo, cada vez mais violentamente, dentro dela; quando gritou e chorou no fim, Servília não sabia se era de agonia ou êxtase que chorava e gritava, e, por algum tempo, ficou certa de que o seu amor se transformara em ódio.

O pior desse encontro só veio depois de César ter ido para casa. Aqueles cinco rastos carmesins doíam-lhe muito; quando tirou a túnica, verificou que as feridas ainda sangravam. As feridas e os arranhões que sofrera no campo de batalha uma vez por outra, levavam-no a pensar que seria melhor chamar alguém para lavar e tratar aquelas cinco linhas de sangue; caso contrário, correria o risco de infecção. Se Burgundo estivesse em Roma, teria sido fácil, mas Burgundo estava na villa de César, em Bovilas, com Cardixa e os seus oito filhos, tratando dos cavalos e das ovelhas que César criava. Lúcio Decúmio não servia; deixava muito a desejar no que tocava à limpeza. E Eutico contaria logo a história ao seu namorado, aos namorados do namorado e a metade dos membros do colégio das encruzilhadas. Teria, então, de pedir ajuda à mãe. Não tinha alternativa.

A mãe olhou para as feridas. — Deuses imortais! — exclamou.

— Quem me dera ser um deles. Não me doeria tanto. Aurélia foi buscar duas tigelas, uma delas meio cheia de água e a outra meio cheia de vinho fortificado mas azedo, bem como alguns chumaços de puro linho egípcio.

— O linho é melhor do que a lã, pois a lã deixa felpa no fundo das feridas — disse ela, começando com o vinho forte. As mãos dela não eram ternas, mas eram suficientemente meticulosas para que os olhos de César humedecessem; estava deitado de barriga para baixo, tão coberto quando a decência mandava, e suportou o tratamento sem um protesto. Consolou-se, pensando que infecção que escapasse à perícia de Aurélia daria em gangrena pela certa.

— Servília? — perguntou ela, passado um momento, finalmente satisfeita com a quantidade de vinho que espalhara pelas feridas e que, com toda a certeza, mataria qualquer agente infeccioso. Começaria agora com a água.

— Servília.

— Que género de ligação? — perguntou ela.

— Não propriamente confortável — disse ele, revolvendo-se de riso.

— Isso já eu percebi. Essa mulher ainda te mata.

— Espero que a minha vigilância chegue para impedir isso.

— Bom, pelo menos enfastiado não estás.

— Quanto a isso não há dúvida, mater.

— Não me parece — declarou ela por fim, secando a água — que essa ligação seja saudável. Talvez fosse sensato acabar com ela, César. O filho dela casará com a tua filha, o que significa que tu e Servília terão de preservar o decoro nos anos posteriores ao casamento. Por favor, César, acaba com essa ligação.

— Acabarei quando estiver preparado para isso, não antes.

— Não, não te levantes já! — exclamou Aurélia. — Deixa secar bem e depois veste uma túnica lavada. — Aurélia deixou-o e pôs-se a procurar no baú do filho. Ao fim de algum tempo, encontrou uma túnica que satisfazia o seu exigente nariz. — Vê-se que Cardixa não está cá. A lavadeira não está a trabalhar bem. Amanhã de manhã vou ter de falar com ela. — Voltou para a cama do filho, pôs a túnica ao lado dele. — Esta ligação não te trará nada de bom. Não é saudável — disse ela.

Ao que ele nada respondeu. Quando se ergueu da cama e enfiou os braços na túnica, a mãe já não estava lá. E isso, disse ele para si mesmo, era uma verdadeira mercê.

Ao décimo dia de Dezembro, os novos tribunos da plebe assumiram funções, mas não era Aulo Gabínio quem dominava os rostra. Esse privilégio pertencia a Lúcio Róscio Otão, um homem dos boni, que anunciou a uma animada multidão de cavaleiros que chegara a hora de lhes devolver as bancadas que, noutros tempos, lhes eram destinadas nos teatros. Até à ditadura de Sila, os cavaleiros podiam dispor das catorze filas situadas atrás das duas filas da frente, reservadas aos senadores. Sila, que odiava os cavaleiros, acabara com tal prerrogativa, para além de ter acabado com as vidas, as propriedades e as fortunas de mil e seiscentos cavaleiros. A medida de Otão era tão popular que foi imediatamente aprovada. César, que assistia a tudo dos degraus do Senado, não ficou nada surpreendido. Os boni eram brilhantes quando se tratava de agradar aos cavaleiros; esse era um dos pilares do seu constante sucesso.

A reunião seguinte da Assembleia Plebeia interessava muito mais a César do que a prenda de Otão aos cavaleiros: Aulo Gabínio e Caio Cornélio, homens de Pompeu, assumiram a direcção dos trabalhos. O primeiro ponto da ordem de trabalhos referia a redução dos cônsules do ano seguinte de dois para um. A forma como Gabínio conduziu o caso revelou-se deliciosamente inteligente. Pediu à Plebe que desse ao cônsul júnior, Glabrião, o governo de uma nova província no Oriente, a qual seria denominada Bitínia-Ponto; depois, propôs à Plebe que enviasse Glabrião para o governo desta província um dia depois de ele ter assumido as funções de cônsul. Dessa forma, Caio Pisão ficaria à vontade para governar Roma e a Itália. O ódio a Lúculo predispunha os cavaleiros que dominavam a Plebe a apoiar tais medidas, já que estas retiravam poder a Lúculo e às quatro legiões que lhe restavam. Embora continuasse oficialmente a combater os reis Mitridates e Tigranes, Lúculo ficaria apenas com um título vazio.

Os sentimentos de César em relação a esta medida eram ambivalentes. Pessoalmente, detestava Lúculo, um defensor tão intransigente da correcção de processos que preferia premiar a incompetência a ignorar as formalidades instituídas. Era verdade, porém, que Lúculo recusara aos cavaleiros de Roma liberdade para espoliar os povos locais das suas províncias. Era evidentemente por isso que os cavaleiros nutriam por ele um ódio tão aceso. Era também por isso que se mostravam favoráveis a toda e qualquer lei que afectasse Lúculo. É pena, pensou César. Essa parte de si mesmo que desejava melhores condições para os povos locais das províncias de Roma queria que Lúculo sobrevivesse, ao passo que a terrível ofensa com que Lúculo manchara a sua dignitas, insinuando que ele se tinha prostituído com o rei Nicomedes, reclamava a queda de Lúculo.

Caio Cornélio não estava tão ligado a Pompeu quanto Gabínio; Cornélio era um daqueles raros tribunos da plebe que acreditavam genuinamente na possibilidade da eliminação dos males mais gritantes de Roma. E disso, César gostava. Daí que desse consigo manifestando, embora em silêncio, o desejo de que Cornélio não desistisse depois da derrota da sua primeira reforma. O novo tribuno pedira à Plebe que proibisse as comunidades estrangeiras de contraírem empréstimos junto dos usurários de Roma. As suas razões eram tão sensatas quanto patrióticas. Embora os agiotas não fossem funcionários romanos, a verdade é que empregavam funcionários de Roma quando era preciso cobrar as dívidas. Com o resultado de que muitos estrangeiros pensavam que o Estado estava envolvido no negócio de emprestar dinheiro. O prestígio de Roma, obviamente, sofria com isso. Porém, as crédulas ou desesperadas comunidades estrangeiras eram uma preciosa fonte de rendimentos para os cavaleiros; não admirava que Cornélio tivesse falhado, concluiu César com evidente tristeza.

A segunda medida de Cornélio quase falhou, e revelou a César que aquele Picentino era capaz de compromissos, o que era raro em homens daquela região. A intenção de Cornélio era deter o poder do Senado para aprovar decretos que isentavam determinados indivíduos do cumprimento de determinadas leis. Claro que só os muito ricos ou os grandes aristocratas conseguiam tais isenções, concedidas usualmente quando o porta-voz senatorial convocava uma reunião especial e tratava de encher o Senado de apoiantes seus. Sempre cioso das suas prerrogativas, o Senado opôs-se tão violentamente a Cornélio que este percebeu que iria perder. Por isso tratou de rectificar a sua proposta: manteve o poder de isenção nas mãos do Senado, mas com uma condição — para aprovar tais medidas, o Senado teria de ter um quórum de duzentos senadores. E o texto acabou por passar.

O interesse que César sentia por Caio Cornélio não parava de crescer. Os pretores foram a razão da intervenção seguinte do novo tribuno. Desde a ditadura de Sila que os deveres dos pretores estavam definidos na lei, tanto civil como criminal. E a lei dizia que, ao assumir funções, um pretor tinha de publicar os seus edicta, ou seja, as normas e os regulamentos através dos quais administraria pessoalmente a justiça. O problema é que a lei não dizia que um pretor tinha de obedecer aos seus edicta — e quando um amigo precisava de um favor ou havia a possibilidade de fazer dinheiro, os edicta eram ignorados. Cornélio pediu apenas à Plebe que suprisse esta falha e obrigasse os pretores a obedecer aos seus próprios edicta. Desta vez, a Plebe entendeu a medida tão claramente como César e transformou a proposta em lei.

Infortunadamente, tudo o que César podia fazer era seguir estes desenvolvimentos. Nenhum patrício podia participar nos trabalhos da Plebe. Daí que César não pudesse estar presente no Poço dos Comitia, nem votar na Assembleia Plebeia, nem falar nela, nem tão-pouco participar num julgamento que nela decorresse. Ou disputar as eleições para tribuno da plebe. Por isso ficava, com os outros patrícios, nos degraus da Cúria Hostília, ou seja, tão perto da assembleia quanto a lei permitia.

As actividades de Cornélio revelavam um aspecto intrigante de Pompeu; de facto, César nunca pensara que Pompeu pudesse estar interessado na correcção do que estava mal. Mas provavelmente até estava: bastava pensar na persistência com que Caio Cornélio se batia por medidas que não poderiam afectar, nem para o bem, nem para o mal, os planos de Pompeu. Contudo, César achava mais provável que Pompeu estivesse unicamente a condescender com os desejos de Cornélio, a fim de atirar areia para os olhos de homens como Catulo e Hortênsio, dirigentes dos boni. É que os boni eram adversários ferozes dos comandos militares especiais e Pompeu pretendia, uma vez mais, um comando especial.

A mão do Grande Homem tornou-se mais evidente — pelo menos aos olhos de César — na proposta seguinte de Cornélio. Caio Pisão, condenado a governar sozinho, agora que Glabrião ia para o Oriente, era um indivíduo colérico, medíocre e vingativo, que pertencia por inteiro a Catulo e aos boni. Seria capaz de arengar contra todo e qualquer comando militar especial para Pompeu até que o caibro do telhado do Senado tremesse, com Catulo, Hortênsio, Bíbulo e o resto da matilha ladrando em uníssono. Possuindo poucos atractivos, exceptuando o nome, Calpúrnio Pisão, e uma linhagem eminentemente respeitável, o novo cônsul tivera de subornar muita gente para garantir a sua eleição. Agora, porém, Cornélio apresentava uma nova lei contra o suborno; Pisão e os boni sentiram um vento gelado nas nucas, em particular quando viram a Plebe reagir de uma forma claramente positiva à proposta. Claro que um tribuno da plebe dos boni podia vetar a lei, mas Otão, Trebélio e Glóbulo não estavam suficientemente seguros da sua influência para se disporem a um veto puro e simples. Daí que os boni tivessem decidido manipular a Plebe — e Cornélio — para que fosse acordado que a nova lei sobre o suborno fosse elaborada pelo próprio Caio Pisão. O que, pensou César com um suspiro, conduziria a uma lei que não assustaria ninguém (e muito menos Caio Pisão). Não havia dúvida: o pobre Cornélio caíra que nem um patinho.

Quando tomou a direcção da Assembleia da Plebe, Aulo Gabínio não disse uma única palavra sobre os piratas ou um comando especial para Pompeu, o Grande. Preferiu concentrar-se em assuntos menos importantes, pois era muito mais subtil e inteligente do que Cornélio. E menos altruísta, pela certa. Conseguiu fazer aprovar uma lei que proibia os enviados estrangeiros de contraírem empréstimos em Roma, uma versão menos radical da medida proposta por Cornélio e que proibia o empréstimo de dinheiro a comunidades estrangeiras. Mas que pretendia Gabínio quando legislou para obrigar o Senado a ocupar-se apenas das delegações estrangeiras durante o mês de Fevereiro? Quando percebeu tudo, César riu-se para si mesmo. Que esperto, aquele Pompeu! O que ele mudara, desde que entrara no Senado, já cônsul, levando na mão o manual de protocolo de Varrão, a fim de não cometer lapsos embaraçosos! É que esta última lex Gabinia informava César de que Pompeu planeava ser cônsul uma segunda vez e tratava de garantir o seu domínio quando esse segundo ano chegasse. Ninguém voltaria a votar e por isso ele seria cônsul sénior. Isso significava que teria os fasces — e a autoridade — em Janeiro. Fevereiro era a vez do cônsul júnior e, em Março, os fasces regressariam ao cônsul sénior. Abril era de novo o mês do cônsul júnior. Mas se, em Fevereiro, o Senado estivesse confinado aos negócios estrangeiros, então o cônsul júnior só em Abril teria possibilidades de fazer sentir a sua presença. Brilhante!

No meio de toda esta agradável turbulência, um outro tribuno da plebe acabou por imiscuir-se, de um modo muito menos agradável, na vida de César. Esse homem era Caio Papírio Carbão, que apresentou uma proposta à Assembleia Plebeia no sentido de que processasse Marco Aurélio Cota, o tio do meio de César, em consequência das acusações de roubo dos despojos da cidade bitínia de Heracleia. Infelizmente, o colega de Marco Cota no consulado desse ano não fora outro senão Lúculo; a amizade entre os dois homens era bem conhecida. O ódio que os cavaleiros votavam a Lúculo não podia deixar de levar a Plebe a sentir a maior animosidade em relação a qualquer aliado ou amigo de Lúculo. Não admira, pois, que a Assembleia Plebeia tivesse acabado por aprovar a proposta de Carbão. O tio que César adorava teria de ir a julgamento por extorsão, mas não no excelente tribunal que Sila criara. O júri de Marco Cota seria constituído por vários milhares de homens, todos eles ansiosos por derrubarem Lúculo e os seus amigos.

— Não havia nada para roubar! — disse Marco Cota a César. — Mitridates usara Heracleia como sua base durante meses, depois a cidade sofreu o cerco durante mais uns quantos meses, e, quando entrei por aquelas portas, Heracleia estava tão despida de tudo como um rato acabado de nascer! E toda a gente sabe disso! Que achas tu que deixaram os trezentos mil soldados e marinheiros de Mitridates? Saquearam Heracleia! Deixaram a cidade ainda mais vazia do que Caio Verres deixou a Sicília!

— Não precisas de protestar a tua inocência diante de mim, tio — disse César, com uma expressão severa. — Eu nem sequer posso defender-te porque o julgamento é realizado pela Plebe e eu sou um patrício.

— Claro. Mas Cícero defender-me-á.

— Não creio, tio. Não sabes o que se passa com Cícero?

— Não. Que se passa com ele?

— Desgraças, só desgraças. Primeiro, foi a morte de Lúcio, seu primo. Depois, há poucos dias, morreu-lhe o pai. Para não falar de Terência, que sofre de um problema de reumatismo que só piora com o tempo que faz em Roma nesta altura. E como naquela casa é ela que manda, Cícero foi obrigado a ir para Arpino.

— Nesse caso, pedirei a Hortênsio, ao meu irmão Lúcio e a Marco Crasso que me defendam — disse Cota.

— Não são tão bons, mas creio que chegam para uma boa defesa.

— Duvido. Francamente, duvido. A Plebe quer o meu sangue.

— Bom, qualquer homem que seja amigo do pobre Lúculo é um alvo certo para as setas dos cavaleiros.

Marco Cota olhou ironicamente para o sobrinho. — Pobre Lúculo? — perguntou. — Mas ele não é teu amigo...!

— De facto, não o é, tio — disse César. — No entanto, não posso deixar de aprovar as suas medidas financeiras no Oriente. Sila abriu-lhe o caminho, mas Lúculo foi ainda mais longe. Em vez de permitir que os publicam deixassem as províncias orientais de Roma sem pinga de sangue, Lúculo tratou de garantir que os impostos e tributos fossem não apenas justos, mas também populares no seio das comunidades locais. O velho processo permitia aos publicam uma impiedosa corrida ao dinheiro desses povos, mas conduzia simultaneamente a uma tremenda animosidade contra Roma. Sim, tio, é verdade que detesto o homem. Lúculo, para além de me ofender de uma forma imperdoável, negou-me o crédito militar a que eu tinha direito. Contudo, tenho de reconhecer que é um administrador fora de série e, com toda a franqueza, lamento o que lhe aconteceu recentemente.

— É pena que vocês não se tenham dado bem, César. Em muitos aspectos, vocês são como gémeos.

Espantado, César fitou o meio-irmão da mãe. Nunca vira grandes semelhanças entre Aurélia e qualquer um dos seus três meio-irmãos, mas aquele comentário seco e incisivo era típico de Aurélia! Esta estava também presente nos olhos grandes, de um tom cinzento-púrpura, de Marco Cota. E se o tio estava para ali para lhe fazer observações iguais às da mãe, então o melhor era desandar. Além do mais, tinha um encontro com Servília.

Encontro que também se veio a revelar particularmente infeliz.

Quando Servília chegava primeiro, César encontrava-a sempre despida e na cama, à espera dele. Mas não naquele dia. Com efeito, Servília estava sentada numa cadeira do gabinete de César e não tirara uma única peça de roupa.

— Precisamos de falar de um assunto — disse ela.

— Problemas? — perguntou ele, sentando-se em frente dela.

— Um problema muitíssimo básico e, vendo bem as coisas, praticamente inevitável. Estou grávida.

Nenhuma emoção identificável penetrou no olhar frio de César. — Estou a ver — disse ele, após o que a fitou com um ar perscrutador. — E é um problema?

— A muitos níveis. — Servília molhou os lábios, um sinal de nervosismo que nela era invulgar. — Que achas?

Ele encolheu os ombros. — Tu és casada, Servília. Isso resolve o teu problema, não resolve?

— Sim. E se for um rapaz? Tu não tens filhos.

— Tens a certeza de que o filho é meu? — contrapôs ele rapidamente.

— Quanto a isso — disse ela, enfaticamente — não tenho a menor dúvida. Há mais de dois anos que não durmo na mesma cama que Silano.

— Mesmo nesse caso, o problema continua a ser teu. Teria de arriscar se ele fosse um rapaz, porque não poderia reconhecê-lo como meu filho, a menos que te divorciasses de Silano e casasses comigo antes do seu nascimento. Se a criança nascer enquanto fores casada com Silano, será naturalmente dele.

— Estarias preparado para arriscar? — perguntou ela. César não hesitou. — Não. A minha sorte diz-me que é uma rapariga.

— Não sei se será um rapaz ou uma rapariga. Nunca pensei que isto pudesse acontecer e, por isso, não me concentrei na possibilidade de gerar um rapaz ou uma rapariga. Em suma, é impossível prever qual será o sexo da criança.

Se o comportamento dele era distante e desprendido, também o era o dela, admitiu César com alguma admiração. Um autodomínio perfeito, concluiu.

— Nesse caso, o que tens a fazer é meter Silano na tua cama o mais depressa possível. De preferência ontem.

Servília abanou lentamente a cabeça: um não que não deixava dúvidas. — Isso está fora de questão — disse ela. — Silano é um homem doente. Garanto-te que não foi por minha causa que deixámos de dormir juntos. Silano é incapaz de manter uma erecção e isso aflige-o.

A esta notícia, César já reagiu: o ar assobiou por entre os seus dentes. — Então, o nosso segredo deixará em breve de o ser.

Servília, verdade seja dita, não ficou furiosa com a atitude de César; tão pouco o considerou egoísta, ou indiferente à provação por que ela passava. Eram iguais em muitas coisas e talvez fosse por isso que César não conseguia ligar-se emcionalmente a ela: duas pessoas cujas cabeças dominariam sempre os seus corações — e as suas paixões.

— Não necessariamente — disse ela, com um sorriso. — Esperarei hoje por Silano quando ele vier do Fórum. Pode ser que consiga convencê-lo a manter o segredo.

— Sim, isso seria melhor, tanto mais que os nossos filhos casarão daqui a uns anos. Não me custa nada suportar as consequências das minhas acções, mas não posso sentir-me bem com a ideia de magoar Júlia ou Bruto. E eles ficariam magoados se as consequências da nossa ligação se tornassem tema de todos os mexericos da cidade. — Inclinou-se para a frente para lhe pegar na mão, que beijou, e sorriu, fitando-a nos olhos. — Não é uma ligação muito vulgar, pois não?

— Não — disse Servília. — Será tudo menos vulgar. — Molhou de novo os lábios. — Eu ainda estou no princípio. Por isso, podemos continuar a ver-nos até Maio ou Junho. Se quiseres.

— Claro que quero, Servília — retorquiu César.

— Depois disso, receio que não possamos encontrar-nos durante sete ou oito meses.

— Vou ter saudades disto. E de ti também.

Desta feita, foi ela que lhe pegou na mão, embora não a tenha beijado; limitou-se a pegar nela e a sorrir para César. — Podias fazer-me um favor durante esses sete ou oito meses, César.

— Que favor?

— Seduzir a mulher de Catão, Atília.

César desatou a rir. — Queres manter-me ocupado com uma mulher que não tem a mínima hipótese de suplantar-te, ha? Muito inteligente!

— É verdade, sou inteligente. Faze-me esse favor, peço-te! Seduz Atília!

De sobrolho muito franzido, César reflectiu sobre a proposta.

— Catão não é alvo que valha a pena, Servília. O que é que ele vale, aos vinte e seis anos? Concordo que, no futuro, é muito capaz de se transformar num verdadeiro espinho para a minha pessoa, mas, francamente, prefiro esperar por esse momento.

— Por mim, César, por mim! Por favor! Por favor!

— Odeia-lo assim tanto?

— O bastante para querer vê-lo despedaçado — disse ela, com os dentes quase cerrados, cheia de ódio. — Catão não merece uma carreira política.

— A eventualidade de eu vir a seduzir Atília não impedirá Catão de ter uma carreira política, como muito bem sabes. Contudo, se isso significa tanto para ti... Está bem, Servília.

— Ah, que maravilha! Obrigada, César! — exclamou ela, inchada de felicidade; mas logo se lembrou de outra coisa. — Porque é que nunca seduziste Domícia, a mulher de Bíbulo? Com certeza que gostarias de vê-lo com cornos, já que é um perigoso inimigo. Além disso, Domícia é prima do marido da minha meia-irmã Pórcia. Seria também um rude golpe para Catão.

— Creio que ainda não seduzi Domícia porque reajo um pouco como as aves de rapina. A expectativa de seduzir Domícia é tão forte que tenho sempre adiado o momento crucial.

— Catão — disse ela — é muito mais importante para mim. Ave de rapina, uma ova!, pensou Servília, já de regresso ao Palatino. Ele vê-se como uma águia, pensou Servília, mas o seu comportamento em relação a Domícia é claramente felino.

Gravidez e crianças eram uma parte da vida, e, com a excepção de Bruto, apenas um factor mais que tinha de ser suportado da forma menos desagradável possível. Bruto fora só dela; fora ela que o aleitara, que lhe mudara as fraldas, que lhe dera banho, que brincara com ele, que o fizera rir. Porém, a sua atitude em relação às duas filhas fora completamente diferente. Depois de as ter tido, entregou-as aos cuidados de amas, e esqueceu-se praticamente delas, até ao momento em que as meninas chegaram a uma idade em que precisavam de uma orientação mais severamente romana. Uma orientação que ela providenciava sem grande interesse e ainda menos amor. Quando fizeram seis anos, mandou-as para a escola de Marco António Gnifão, porque Aurélia a considerou recomendável para raparigas; e Servília não tivera até hoje qualquer motivo para lamentar tal decisão.

Agora, sete anos volvidos, ia ter uma criança gerada pelo amor, o fruto de uma paixão que dominava a sua vida. Aquilo que sentia por Caio Júlio César não era algo de estranho à sua natureza, uma natureza intensa e poderosa, aberta à possibilidade de um grande amor; não, o grande problema estava na natureza de César; Servília apercebera-se, e nisso tinha razão, de que César evitava tenazmente deixar-se dominar pelas emoções decorrentes de relações pessoais de qualquer tipo. Este entendimento rápido e instintivo da natureza de César salvara-a dos erros que as mulheres costumavam cometer; de facto, ao contrário das outras mulheres de César, Servília não pusera os sentimentos dele à prova, não estava à espera da sua fidelidade e nunca lhe passou pela cabeça que ele pudesse interessar-se por algo mais do que os seus encontros sexuais naquele discreto apartamento de Subura.

Por isso, quando lhe foi anunciar a gravidez, Servília não estava à espera de que César manifestasse alegria ou que se sentisse, por assim dizer, mais dono dela. Fizera bem em disciplinar-se ao ponto de eliminar toda e qualquer réstea de esperança. Ele não ficou contente, nem descontente; como César dissera, o problema era só dela, não tinha nada a ver com ele. Teria ela, lá muito no fundo, alimentado a esperança de que ele viesse a querer perfilhar aquela criança? Não, não lhe parecia. Daí que tivesse regressado a casa sem qualquer sintoma de decepção ou tristeza. Como César não tinha esposa, só uma união teria de submeter-se à legalidade do divórcio — a sua união com Silano. Mas bastava pensar na condenação que Roma inflingira a Sila por este se ter divorciado sumariamente de Élia. Não que Sila tivesse ficado preocupado com essa condenação; a única coisa em que Sila pensava era que a jovem esposa de Escauro acabara de ficar viúva e livre. César também não teria ficado preocupado. Só que César tinha um sentimento de honra que Sila desconhecia em absoluto; ah, não, não era um sentimento de honra excepcional, porque, em César, a honra, como tudo o mais, era determinada pelo que ele pensava de si mesmo e pelo que ele queria de si mesmo. César definira para si mesmo um padrão de conduta que abarcava todos os aspectos da sua vida. Não subornava os seus júris, não extorquia dinheiros na sua província, não era um hipócrita. Sinais evidentes de que faria tudo segundo a maneira dura; não recorreria a artifícios para facilitar a sua progressão política. A sua autoconfiança era indestrutível; nunca por um momento duvidava da sua capacidade para chegar onde queria chegar. Mas reclamar aquela criança como sua, pedindo-lhe que se divorciasse de Silano, a fim de que ele pudesse casar-se com ela antes de a criança nascer? Não, isso nem pensar! E Servília sabia porquê.

Muito simples: se César fizesse isso, estaria a mostrar aos seus pares do Fórum que era dominado por uma criatura inferior — uma mulher.

Claro que Servília desejava desesperadamente casar-se com ele; mas não queria esse casamento para que a paternidade da criança fosse reconhecida. Queria casar-se com ele porque o amava com a mente tanto como com o corpo, porque nele reconhecia um dos grandes Romanos, um marido capaz, um marido que corresponderia sempre às expectativas dela relativamente aos seus feitos políticos e militares, um marido cujas linhagem e dignitas serviriam para realçar ainda mais a linhagem e a dignitas dela. Ele era um Público Cornélio Cipião Africano, um Caio Servílio Ahala, um Quinto Fábio Máximo Cuntactor, um Lúcio Emílio Paulo. Um membro da verdadeira aristocracia patrícia — um Romano perfeito — dotado de uma profundidade intelectual, de uma energia, de uma capacidade de decisão, de uma força, absolutamente extraordinárias. O marido ideal para uma Servília Cepião. O padrasto ideal para o seu querido Bruto.

Já faltava pouco para o jantar quando chegou a casa, e Décimo Júnio Silano, informou-a o chefe dos criados, estava no seu gabinete. Que se passava com aquele homem?, perguntou-se Servília quando entrou no gabinete e deu com ele a escrever uma carta. Aos quarenta anos, parecia ter cinquenta: eram bem nítidas as linhas de sofrimento físico de cada lado do nariz, e o cabelo prematuramente grisalho parecia combinar com o cinzento da pele. Embora fizesse o possível por se sair bem como pretor urbano, as exigências desse cargo estavam a minar uma vitalidade já frágil. A sua doença era tão misteriosa que nenhum dos físicos de Roma chegara a um diagnóstico cabal, ainda que houvesse o consenso de que a progressão da doença era tão lenta que dificilmente seria fatal; ninguém encontrara um tumor palpável e, por outro lado, o fígado não aumentara de volume. Daí a dois anos, estaria em condições de disputar o consulado, mas Servília não acreditava que ele tivesse a energia necessária para conduzir uma campanha vitoriosa.

— Como vai isso hoje? — perguntou ela, sentando-se na cadeira em frente da secretária.

Silano erguera a cabeça e sorrira para a esposa quando ela entrara e agora arrumava a pena com algum prazer. O seu amor por ela não parara de crescer ao longo daqueles quase dez anos de casamento, mas a sua incapacidade sexual minava-o mais do que a doença. Consciente dos seus defeitos inatos de carácter, Silano pensara, quando a doença se manifestara pela primeira vez, logo após o nascimento de Junila, que Servília o perseguiria com censuras e críticas; mas Servília nunca o fizera, nem mesmo quando as dores e a ardência que sentia no estômago durante a noite o obrigaram a ir dormir para outra cama. Como todas as suas tentativas amorosas acabavam sempre no horrendo embaraço da impotência, a mudança de cama parecera-lhe uma decisão caridosa e menos mortificadora do que qualquer outra; ele teria ficado contente com beijos e abraços, mas Servília, no acto amoroso, não era propriamente a ternura em pessoa e meras carícias não a satisfaziam.

Silano respondeu sinceramente à pergunta da mulher. — Nem pior nem melhor do que o costume.

— Marido, preciso de falar contigo — disse ela.

— Certamente, Servília.

— Estou grávida e tens sérios motivos para pensar que a criança não é tua.

O tom de pele de Silano passou de cinzento a branco. Todo o seu corpo parecia vacilar. Servília levantou-se num ápice e dirigiu-se imediatamente ao consolo, onde havia duas garrafas e algumas taças de prata; encheu uma das taças de vinho sem água e, enquanto ele o bebia, com ligeiros sinais de ânsias de vómito, não deixou de apoiá-lo e segurá-lo.

— Oh, Servília! — exclamou ele, depois de o estimulante ter produzido os seus resultados e de a mulher ter regressado à sua cadeira.

— Se te serve de consolo — disse ela —, o que aconteceu não tem nada a ver com a tua doença ou incapacidade. Mesmo que fosses tão viril como Príapo, eu teria procurado este homem.

As lágrimas encheram-lhe os olhos e começaram a descer—lhe pelas faces.

— Usa o teu lenço, Silano! — disparou Servília.

Ele tirou o lenço e limpou as lágrimas. — Quem é? — conseguiu perguntar.

— Dir-to-ei quando achar bem. Primeiro, preciso de saber o que tencionas fazer quanto à minha situação. O pai não se quer casar comigo. Se o fizesse, a sua dignitas sairia diminuída. E a sua dignitas interessa-lhe muito mais do que eu. Não posso censurá-lo.

— Como podes ser tão racional? — perguntou ele, espantado.

— Não vejo a menor razão para ser outra coisa! Preferias que eu tivesse entrado aqui a gritar e a chorar, transformando um problema unicamente nosso num problema de toda a gente?

— Creio que não — retorquiu ele, cansado, com um suspiro. Guardando o lenço, acrescentou: — Não, claro que não. Só que os gritos e o choro talvez provassem que és humana. Se há alguma coisa que me preocupa em ti, Servília, é essa falta de humanidade, é a tua incapacidade para entender a fragilidade. Tu moldas a armação da tua vida com um trado, com a perícia e a diligência do melhor dos carpinteiros.

— Essa é uma metáfora muito confusa — comentou Servília.

— Pois bem, foi sempre assim que eu te vi — e talvez seja isso que eu invejo em ti, porque me falta essa capacidade. Uma capacidade que admiro imenso. Mas que acaba por ser perturbadora, para além de destruir um sentimento precioso: a compaixão.

— Não precisas de ter compaixão de mim, Silano. Ainda não respondeste à minha pergunta. Que tencionas fazer, quanto à minha situação?

Silano levantou-se, agarrando-se às costas da cadeira até ter a certeza de que as suas pernas aguentariam. Depois de ter dado algumas passadas pelo quarto, parou e fitou-a. Tão calma, tão fria, tão indiferente ao desastre!

— Como não tencionas casar-te com esse homem, creio que o melhor será mudar-me para o nosso quarto, pelo menos o tempo suficiente para que se pense que a criança é minha — disse ele, voltando para a cadeira.

Ah, por que razão não lhe concedia ela pelo menos a satisfação de a ver descontrair-se, de a ver aliviada, ou feliz? Não, não Servília! Servília continuava exactamente na mesma; nem mesmo os seus olhos se haviam transformado.

— É uma decisão sensata, Silano — disse ela. — Era o que eu faria se estivesse no teu lugar, mas nunca se sabe como um homem reage quando o seu orgulho é molestado.

— O meu orgulho foi molestado, Servília, mas prefiro que o meu orgulho permaneça intacto aos olhos do nosso mundo. Ninguém sabe?

— Ele sabe, mas não contará a ninguém.

— Está muito adiantada, a gravidez?

— Não. Se recomeçarmos já a dormir juntos, quando a criança nascer toda a gente pensará que é tua.

— Deves ter sido muito discreta, pois não ouvi nenhum rumor e há sempre pessoas desejosas de espalhar boatos sobre um marido cornudo.

— Não haverá rumores nenhuns.

— Quem é ele? — perguntou de novo Silano.

— Caio Júlio César, evidentemente. Eu não teria manchado a minha reputação com mais ninguém.

— Não, claro que não. A sua linhagem é tão importante como, a acreditar no que se diz, o seu equipamento procriador — comentou amargamente Silano. — Estás apaixonada?

— Ah, sim, estou!

— Compreendo, por muito que deteste o homem. As mulheres costumam fazer as mais tristes figuras por causa dele.

— Eu não fiz tristes figuras — retorquiu secamente Servília.

— Sem dúvida. Tencionas continuar a vê-lo?

— Sim. Não deixarei nunca de vê-lo.

— Um dia há-de saber-se, Servília.

— É provável, mas não convém a nenhum de nós que a nossa ligação se torne pública. Por isso, tentaremos impedir que isso aconteça.

— Deveria agradecer-vos por esse esforço de secretismo, não é verdade? Com alguma sorte, morrerei antes que a vossa história seja conhecida de toda a gente.

— Eu não desejo a tua morte, marido.

Silano riu-se, mas não havia no seu riso o mínimo sinal de divertimento. — Mais uma razão para te agradecer! Não me admiraria que apressasses o meu fim, se por acaso isso servissse os teus propósitos.

— Mas não serve os meus propósitos.

— Compreendo. — Silano tomou fôlego e acrescentou: — Por todos os deuses, Servília, o teu filho e a filha de César contraíram um compromisso formal de casamento! Como podes esperar manter secreta a vossa ligação?

— Não me parece que Bruto e Júlia possam constituir um factor de perigo. Eu e César não nos encontramos nas proximidades nem do meu filho, nem da filha dele.

— Nem nas proximidades de qualquer outra pessoa, como é evidente. Além disso, os teus criados têm medo de ti. — Claro.

Silano descansou a cabeça entre as mãos. — Gostaria de ficar sozinho, Servília.

Ela levantou-se imediatamente. — O jantar vai ser servido daqui a pouco.

— Eu hoje não janto.

— Devias comer — disse ela, já a caminho da porta. — Ficas com menos dores quando comes. Especialmente quando comes bem.

— Hoje não! Vai-te embora, Servília, vai-te embora! Servília retirou-se, extremamente satisfeita com a entrevista,

e sentindo mais compaixão por Silano do que alguma vez esperara.

A Assembleia Plebeia considerou Marco Aurélio Cota culpado de peculato, aplicou-lhe uma multa superior à sua fortuna e proibiu-lhe residência num raio de quatrocentas milhas à volta de Roma.

— O que me impede de ir para Atenas — disse ele ao irmão mais novo, Lúcio, e ao sobrinho César. — Mas ir para Massília, nem pensar! Creio que o melhor será ir para Esmirna, juntar-me ao tio Públio Rutílio.

— É melhor companhia do que Verres — disse Lúcio Cota, chocado com o veredicto.

— Ouvi dizer que a Plebe quer dar as insígnias consulares a Carbão em sinal de apreço — disse César.

— Incluindo lictores e fasces? — perguntou Marco Cota, boquiaberto.

— Admito que estaríamos melhor com um segundo cônsul, agora que Glabrião foi governar a nova província, mas a Plebe, até agora, só pôde atribuir togas debruadas a púrpura e cadeiras curuis. Nunca me passou pela cabeça que pudesse conceder imperium! — disparou César, tremendo ainda de raiva. — E tudo isto graças aos publicani da Ásia...!

— Deixa lá, César... — disse Marco Cota. — Os tempos mudam, pura e simplesmente. O que acaba de acontecer será talvez a última reacção ao tremendo castigo que Sila infligiu à Ordo Equester. Ainda bem que todos nós nos apercebemos a tempo do que poderia vir a acontecer. Caso contrário, não teria transferido as minhas terras e o meu dinheiro para Lúcio.

— Em Esmirna receberás todo o teu dinheiro, bem como as rendas — disse Lúcio Cota. — Foram os cavaleiros que te derrubaram, mas houve elementos do Senado que também deram o seu contributo. Desta acusação absolvo Catulo e Caio Pisão e o resto do seu grupo, mas Públio Sila, o seu lacaio Autrónio e toda essa gente que anda em volta de Públio Sila apoiaram assiduamente Carbão na condução do julgamento. Tal como Catilina. Não me esquecerei disso.

— Nem eu — disse César. Tentou sorrir. — Gosto muito de ti, tio Marco, como tu bem sabes. Mas nem mesmo por ti enfeitaria a cabeça de Públio Sila, seduzindo aquela megera em que se tornou a irmã de Pompeu.

O comentário de César provocou finalmente risos bem-dispostos; e os três homens sentiram-se reconfortados só de pensar que Públio Sila tinha castigo suficiente em casa, pois era obrigado a viver com a irmã de Pompeu, a qual já não era jovem nem atraente, para além de nutrir uma paixão incontrolável pelo vinho.

Aulo Gabínio desferiu finalmente o seu golpe em fins de Fevereiro. Só ele sabia quão difícil tinha sido estar parado; mas só assim pudera levar Roma a pensar que ele, o presidente do Colégio dos Tribunos da Plebe, não passava afinal de um homem fraco e sem qualquer importância. Embora muitos o detestassem por ser um homem de Piceno (e de Pompeu), Gabínio não era propriamente um Homem Novo. O pai e o tio haviam sido senadores e nas veias dos Gabínios corria muito sangue romano, e do mais respeitável. A sua ambição era libertar-se do jugo de Pompeu e tornar-se senhor de si mesmo, embora o senso comum, que possuía em abundância, o advertisse de que nunca conseguiria ser suficientemente poderoso para chefiar a sua própria facção. Ou talvez o problema fosse outro: Pompeu, o Grande, não era suficientemente grande. Gabínio almejava aliar-se a um homem mais romano, pois havia muitas coisas em Piceno e nos Picentinos que o exasperavam, em particular a atitude que adoptavam em relação a Roma. Pompeu julgava-se (e os Picentinos julgavam-no) mais importante do que Roma, e isso, Gabínio não podia aceitar. Ah, claro, claro que era natural que os Picentinos e Pompeu tivessem essa ideia! No Piceno, Pompeu era um rei; em Roma, detinha imensa influência. A maioria dos homens de uma determinada cidade sentia orgulho em seguir um conterrâneo que conseguia impor-se a gente de outra cidade que, de um modo geral, era considerada superior.

O facto de Aulo Gabínio, tão claro e belo de rosto como de corpo, não gostar de ter Pompeu como seu amo e senhor, só poderia ser imputado a Caio Júlio César. Praticamente da mesma idade, Gabínio e César tinham-se conhecido no cerco de Mitilene; haviam gostado logo um do outro. Verdadeiramente fascinado, Gabínio vira o jovem César demonstrar uma tal capacidade e energia que logo concluíra ser um privilégio ter por amigo um homem que, um dia, teria imenso peso em Roma. Outros homens tinham também uma bela aparência física, a altura, o físico, o encanto, até mesmo a linhagem; mas César tinha muito mais do que isso. Possuir um intelecto como o dele e, ao mesmo tempo, ser o mais bravo entre os bravos, era distinção mais do que suficiente, já que os homens formidavelmente inteligentes costumavam enxergar demasiados riscos na valentia. Era como se César fosse capaz de eliminar tudo aquilo que pudesse ameaçar qualquer empresa em que estivesse envolvido. Fosse qual fosse a empresa, César era capaz de encontrar a maneira mais correcta de utilizar, entre todas as qualidades, apenas aquelas que levariam a um resultado brilhante. E tinha um poder que Pompeu nunca teria, algo que se desprendia dele e que tudo moldava à forma que ele queria. César não levava em conta os custos, e não tinha sombra de medo de nada.

E embora pouco se tivessem visto desde o cerco de Mitilene, a verdade é que Gabínio continuava obcecado por César. De tal forma que decidiu que, quando César chefiasse a sua própria facção, ele seria um dos seus mais leais adeptos. Só não sabia como havia de se libertar das suas obrigações clientelares em relação a Pompeu. Este era seu patrono; logo, Gabínio teria de trabalhar para ele como um cliente digno desse nome. Tudo isto somado, Gabínio lançou-se ao ataque pensando mais em impressionar César, ainda relativamente jovem e obscuro, do que em cair nas graças de Cneu Pompeu Magno, o Primeiro Homem de Roma. E seu patrono.

Não se deu ao trabalho de ir primeiro ao Senado; desde que os poderes dos tribunos da plebe haviam sido integralmente restaurados, tal formalidade deixara de ser necessária. Seria preferível apanhar o Senado desprevenido, informando primeiro a Plebe e num dia em que ninguém suspeitasse que pudessem ocorrer mudanças importantes.

Apenas uns quinhentos homens estavam reunidos no Poço dos Comitia quando Gabínio subiu aos rostra para falar; esses homens eram os Plebeus profissionais, esse núcleo que nunca faltava a uma reunião e que era capaz de recitar de cor os discursos memoráveis, para além de conhecer os resultados de todas as votações importantes das últimas décadas.

Os degraus do Senado também não tinham muita gente; só lá estavam César, alguns clientes senatoriais de Pompeu, incluindo Lúcio Afrânio e Marco Petreio, e Marco Túlio Cícero.

— Se alguma vez precisássemos de nos lembrarmos da gravidade do problema dos piratas, então o saque de Óstia e a captura da nossa primeira carga cerealífera, há apenas três meses, teriam sido um estímulo mais do que suficiente para a nossa memória! — começou Gabínio, atentamente ouvido pela Plebe e pelos observadores que se encontravam nos degraus da Cúria Hostília.

— E que fizemos nós para libertar o Nosso Mar de tão maligna infecção? — atroou Gabínio. — Que fizemos nós para salvaguardar o abastecimento de cereais, para defender da fome os cidadãos, ou para não os obrigar a pagar mais do que podem pelo pão, que é a base do seu regime alimentar? Que fizemos nós para proteger os nossos mercadores e os seus navios? Que fizemos nós para obstar ao rapto das nossas filhas e ao sequestro dos nossos pretores? Muito pouco, membros da Plebe! Muito, muito pouco!

Cícero abeirou-se de César, tocou-lhe no braço. — Estou intrigado — disse. — Mas creio não me enganar. Sabes qual é a ideia dele, César?

— Oh, se sei...

E Gabínio prosseguiu, deliciado com o seu próprio discurso.

— O pouco que fizemos desde que António, o Orador, há mais de quarenta anos, tentou libertar-nos do perigo pirata, surgiu na sequência do reinado do nosso ditador, quando o seu leal aliado e colega Públio Servílio Vátia foi governar a Cilícia, com ordens para escorraçar os piratas. Públio Servília Vátia tinha um imperium proconsular e toda a autoridade para recrutar e organizar frotas em todas as cidades e regiões afectadas pelos piratas, incluindo Chipre e Rodes. Começou pela Lícia, onde atacou Zenicetes. Precisou de três anos para derrotar um único pirata! E esse pirata tinha a sua base na Lícia, e não no meio dos rochedos e penhascos da Panfília e da Cilícia, onde se refugiam os piores piratas. O resto do seu tempo no palácio do governador, em Tarso, foi consagrado a uma encantadora e mísera guerra contra os Isauros, uma tribo de camponeses que vivia no interior — no interior, precisamente! — da Panfília. Quando Públio Servílio Vátia os derrotou e se apossou das suas duas únicas e patéticas cidadezinhas, o nosso precioso Senado tratou logo de recompensá-lo com um cognome. E que cognome era esse? Isáurico, pois então...! Bom, Vátia não é lá muito inspirador, pois não? Cambaio não é, de facto, um cognome muito agradável...! Poderemos nós censurar o pobre coitado por querer passar de Públio da família plebeia Servília que tem muitos Cambaios no seu seio, a Públio Servília Cambaio, o Conquistador dos Isauros? Temos de admitir que Isáurico dá um certo brilho a um nome que, de outra forma, nunca deixaria de ser insípido...!

Para ilustrar este ponto, Gabínio ergueu a toga para mostrar as suas bem proporcionadas pernas a partir de meio da coxa, e pôs-se a andar de um lado para o outro, com os joelhos muito juntos e os pés bem separados; a audiência rompeu em gargalhadas e vivas.

— O capítulo seguinte desta saga — prosseguiu Gabínio — passou-se na ilha e no mar de Creta. Pelo mero motivo de que o seu pai, o Orador, um homem muito mais capaz, mas que, mesmo assim, não conseguira levar a bom termo a sua missão, recebera ordens do Senado e do Povo de Roma para eliminar a pirataria no Nosso Mar, o filho Marco António agarrou com unhas e dentes a mesma comissão, já lá vão sete anos; desta feita, porém, foi apenas o Senado que tomou a decisão, em consequência das novas regras do nosso ditador. No primeiro ano da sua campanha, António passou o tempo a mijar vinho puro para todos os mares da ponta ocidental do Nosso Mar; chegou mesmo a reivindicar uma ou duas vitórias, mas nunca trouxe para Roma provas tangíveis da sua acção, como despojos ou esporões. Então, enfunando as suas velas com arrotos e peidos, António seguiu na direcção da Grécia, não se sabe bem como, pois estava sempre bêbedo. Na Grécia, durante dois anos, fez guerra aos almirantes piratas de Creta, com as desastrosas consequências que todos conhecemos. Lastenes e Panares infligiram-lhe uma pesada derrota! E, no fim de tudo, este Homem de Barro — pois Creticus também significa isso! — preferiu suicidar-se a enfrentar o Senado de Roma, que lhe entregara a comissão.

Depois, veio um outro homem com um apelido brilhante — Quinto Cecílio Metelo, que é neto do Macedónico e filho do Bode — Metelo Cabrito. Dá a impressão, contudo, que Metelo Cabrito pretende ser outro Creticus! No caso dele, Creticus virá a significar Conquistador dos Cretenses ou Homem de Barro? Que acham, amigos plebeus?

— Homem de Barro! Homem de Barro! — foi a resposta imediata.

Gabínio concluiu o seu discurso num tom o mais informal possível. — E isso, meus queridos amigos, conduz-nos ao momento presente. Conduz-nos ao desastre de Óstia, ao beco sem saída em Creta, à inviolabilidade de todos os refúgios dos piratas, desde Gades, na Hispânia, até Gaza, na Palestina! Nada foi feito! Nada de nada!

Como ficara com a toga algo amarrotada depois da sua imitação de um cambaio, Gabínio parou para a compor.

— Que sugeres que façamos, Gabínio? — perguntou Cícero dos degraus do Senado.

— Viva, Marco Cícero! — disse Caio Gabínio, num tom extremamente jovial. — Viva, César! Pelo que vejo, os dois maiores oradores de Roma seguem com atenção a humilde arenga de um homem do Piceno...! Sinto-me muito honrado, sobretudo porque vocês estão praticamente sozinhos nos degraus do Senado...! De facto, não vejo Catulo, nem Caio Pisão, nem Hortênsio, nem Metelo Pio Pontifex Maximus...!

— Continua! — pediu Cícero, no melhor dos humores.

— Obrigado. Assim farei, Cícero. Que havemos de fazer, estarão vocês a perguntar neste momento. A resposta é simples, membros da Plebe. Procuramos um homem. Um único homem. Um homem que já tenha sido cônsul, para que não possa haver dúvidas quanto à sua posição constitucional. Um homem cuja carreira militar não tenha sido construída nos lugares da frente do Senado, como aconteceu com alguns cujos nomes poderia citar. Encontramos esse homem. E quando digo encontramos

estou a pensar apenas nesta assembleia e não no Senado! O Senado tem feito todas as experiências possíveis e imaginárias, recorrendo a cambaios e a criaturas argilosas, e sempre sem êxito, e por isso vos digo que o Senado deve desistir do seu poder nesta matéria, que nos afecta a todos. Repito: temos de encontrar um homem, um homem que seja um consular de comprovada capacidade militar. Incumbimos então esse homem da missão de limpar o Nosso Mar de todos os piratas, desde as Colunas de Hércules até à foz do Nilo, e para limpar também o mar Euxino. Damos-lhe três anos para o fazer e, ao fim de três anos, deverá tê-lo feito — pois, caso contrário, membros da Plebe, julgá-lo-emos e exilá-lo-emos de Roma para sempre!

Alguns dos boni tinham entretanto aparecido, largando tudo o que estavam a fazer, chamados por clientes que mandavam para o Fórum a fim de controlarem todas as reuniões da assembleia, mesmo a menos suspeita. Corria já o rumor de que Aulo Gabínio estava a falar sobre a necessidade de um comando contra os piratas, e os boni — para além de muitas outras facções — sabiam que isso significava que Gabínio ia pedir à Plebe para dar o comando a Pompeu. E não podiam permitir que isso acontecesse. Pompeu nunca mais devia receber outro comando! Nunca! Isso levá-lo-ia a pensar que era melhor e mais poderoso do que os seus iguais.

Com a liberdade de olhar à sua volta que Gabínio não tinha, César reparou que, nesse momento, Bíbulo estava a descer até ao fundo do Poço, acompanhado por Catão, Aenobarbo e, um pouco atrás, o jovem Bruto. Um quarteto interessante. Servília não ia ficar contente quando soubesse que o filho estava ligado a Catão. Um facto que Bruto obviamente compreendia; tinha um ar acossado, furtivo. Talvez por causa disso, Bruto parecia não ouvir aquilo que Gabínio estava a dizer, embora Bíbulo, Catão e Aenobarbo tivessem a raiva bem escrita nos rostos.

Gabínio prosseguiu. — Esse homem deve ter uma autonomia absoluta. Não deve sofrer restrições, venham elas do Senado ou do Povo. O que, evidentemente, significa que lhe concederemos um imperium ilimitado — mas não apenas no mar! O seu poder deve estender-se até cinquenta milhas para o interior, e em todas as costas. E dentro dessa faixa, os seus poderes devem suplantar o imperium de qualquer um dos governadores provinciais afectados. Esse homem deve ter pelo menos quinze legados com estatuto pró-pretoriano e deve ter a liberdade de os escolher e distribuir, sem obstáculos de nenhum género. Se necessário, deve ter acesso a todo o conteúdo do Tesouro e deve ter o poder de recrutar tudo o que precise, desde dinheiro a navios, passando por milícias locais, em todos os locais que o seu imperium abranja. Deve ter tantos navios, frotas e flotilhas, quantos os que exigir, e tantos soldados romanos quantos os que achar necessário.

Nesse momento, Gabínio reparou nos recém-chegados, e todo ele estremeceu de surpresa; obviamente, a surpresa e o tremor eram puramente teatrais. Olhou Bíbulo nos olhos e pôs um imenso e deliciado sorriso. Catulo e Hortênsio não tinham ainda aparecido, mas Bíbulo, um dos seus herdeiros, chegava-lhe e sobrava-lhe.

— Se dermos este comando especial contra os piratas a um homem — disse bem alto Gabínio — é possível que acabemos finalmente com a pirataria! Mas se permitirmos que certos elementos do Senado nos intimidem ou nos impeçam de o fazer, então só nós seremos responsáveis por todos os desastres que se seguirem! Libertemo-nos de vez da pirataria! É tempo de acabarmos com as meias medidas, com os compromissos, com a reverência perante a presunção de certas famílias e de certos indivíduos que insistem que o direito a defender Roma só a eles pertence! É tempo de acabarmos com este não fazer nada! É tempo de cumprirmos devidamente a missão de acabar com os piratas!

— Não nos vais dizer tudo, Gabínio? — gritou Bíbulo do fundo do Poço. Gabínio pôs um ar inocente.

— Tudo o quê, Bíbulo?

— O nome, o nome, o nome!

— Não tenho nome nenhum, Bíbulo, apenas uma solução.

— Não tens agora...! — atroou a voz estridente de Catão. — Tu tens um nome! O nome do teu patrão, do teu patrão picentino, esse que veio do nada e cujo maior deleite consiste em destruir todas as tradições e todos os usos de Roma! Tu não vieste para aqui dizer isso por patriotismo, pois estás muito simplesmente a servir os interesses do teu patrão, Cneu Pompeu Magno.

— Um nome! Catão disse um nome! — exclamou Gabínio, que não cabia em si de contente. — Marco Pórcio Catão disse um nome! — Gabínio inclinou-se para a frente, dobrou os joelhos, aproximou a sua cabeça de Catão tanto quanto podia, e disse-lhe num tom perfeitamente afável: — Não foste eleito tribuno dos soldados para este ano, Catão? O sorteio não te deu serviço na Macedónia, sob a chefia de Marco Rúbrio? E Marco Rúbrio não partiu já para a sua província? Não achas que seria melhor ires para a Macedónia chatear Rúbrio, em vez de andares a chatear Roma? De qualquer modo, obrigado por nos teres sugerido um nome! Antes de sugerires Cneu Pompeu Magno, não fazia a menor ideia de quem poderia ser o eleito.

Após o que deu por encerrada a reunião, antes que aparecessem os tribunos da plebe ligados aos boni.

Bíbulo virou costas e, com um abrupto aceno de cabeça, fez sinal para que os outros o acompanhassem. Tinha os lábios cerrados, os olhos glaciais. Mal chegou à superfície do baixo Fórum, agarrou Bruto pelo braço.

— Leva-me uma mensagem, rapaz — disse ele —, e depois vai para casa. Procura Quinto Lutácio Catulo, Quinto Hortênsio e Caio Pisão, o cônsul. Dize-lhes que vão ter a minha casa.

Pouco tempo depois, já os três chefes dos boni estavam sentados no gabinete de Bíbulo. Catão também estava, mas Aenobarbo fora-se embora; Bíbulo achava que Aenobarbo estaria a mais, pois, para intelectual, bastava Caio Pisão. Dois intelectuais naquela reunião seria um verdadeiro desastre.

— Tudo tem estado demasiado calmo, à imagem e semelhança de Pompeu Magno — disse Quinto Lutácio Catulo, um homem franzino e ruivo-claro; havia sinais dos Césares no seu físico, mas os sinais predominantes, herdara-os da mãe, uma Domícia Aenobarba.

O pai de Catulo, Catulo César, fora um homem mais importante e notável que o filho, e que lutara contra um inimigo mais importante e notável, Caio Mário; Catulo César perecera defendendo as suas convicções, durante a hedionda carnificina que Mário infligira a Roma no início do seu abominável sétimo consulado. O filho vira-se numa posição desagradável por ter escolhido permanecer em Roma durante os anos do exílio de Sila; de facto, Catulo nunca acreditara que Sila viesse a vencer Cina e Carbão. Por isso, depois de Sila se ter tornado ditador, Catulo avançou com todas as cautelas até conseguir convencer o ditador da sua lealdade. Foi Sila que o nomeou cônsul juntamente com Lépido, o qual viria a rebelar-se — mais um acontecimento infeliz para Catulo. Embora Catulo tivesse derrotado Lépido, foi Pompeu quem ficou com a missão de combater Sertório na Hispânia, uma empresa muito mais importante. De certo modo, todos estes acontecimentos revelavam como que um padrão constante na vida de Catulo: nunca estava na primeira linha o bastante para superar a magnífica personalidade que o pai fora.

Amargurado e já na casa dos cinquenta, escutou a história que Bíbulo contou, sem fazer a mínima ideia de como combater aquilo que Gabínio propunha, para além da tradicional técnica de unir o Senado na oposição a todos os comandos especiais.

Muito mais novo, e alimentado por um reservatório muito maior de ódio aos homens brilhantes e capazes de subir até ao topo da escala hierárquica, Bíbulo sabia que demasiados senadores se sentiriam inclinados a aprovar a nomeação de Pompeu, tendo em conta que a erradicação dos piratas era uma tarefa absolutamente vital.

— Não resultará — disse ele a Catulo, sem mais.

— Tem de resultar! — exclamou Catulo. — Não podemos permitir que Pompeu, esse Picentino idiota, e todos os seus lacaios, transformem Roma numa dependência do Piceno! O que é o Piceno senão um remoto estado italiano, cheio de pretensos Romanos que, na realidade, descendem de Gauleses? Reparem em Pompeu Magno

— ele é um Gaulês! Reparem em Gabínio — outro Gaulês! Alguém espera que nós, genuínos Romanos, nos rebaixemos perante Pompeu Magno? Alguém espera que o elevemos de novo a uma posição prestigiosa? Isso é intolerável para os verdadeiros Romanos! Magnus! Como pôde um patrício romano como Sila permitir que Pompeu assumisse um nome que significa grande?

— Concordo! — disparou Caio Pisão. — É intolerável! Hortênsio suspirou.

— Sila precisava dele e Sila ter-se-ia prostituído com Mitridates ou Tigranes se essa fosse a única forma de deixar o exílio e voltar a governar Roma — disse ele, encolhendo os ombros.

— De nada nos vale agora bater em Sila — disse Bíbulo.

— Temos de manter a cabeça bem fria, caso contrário perderemos esta batalha. Gabínio dispõe de condições favoráveis. É um facto, Quinto Catulo, que o Senado não conseguiu resolver o problema dos piratas e não me parece que o bom do Metelo consiga ter algum êxito. O saque de Óstia foi precisamente o pretexto de que Gabínio precisava para propor esta solução.

— Estás a dizer — perguntou Catão — que não conseguiremos evitar que Pompeu fique com o comando?

— Precisamente.

— Pompeu não conseguirá derrotar os piratas — disse Caio Pisão, com um sorriso azedo.

— Exactamente — disse Bíbulo. — Talvez tenhamos de esperar que a Plebe aprove esse comando especial e que Pompeu falhe rotundamente. Então, derrubá-lo-emos para sempre.

— Não — retorquiu Hortênsio. — Há uma maneira de evitar que Pompeu consiga o comando. Apresentar um outro nome à Plebe, um nome que a Plebe prefira ao de Pompeu.

Fez-se um breve silêncio, quebrado pelo ruído estrondoso da mão de Bíbulo batendo no tampo da secretária. — Marco Licínio Crasso! — exclamou. — Brilhante, Hortênsio, brilhante! Ele é tão bom como Pompeu e dispõe de um apoio maciço entre os cavaleiros da Plebe. Os cavaleiros só se preocupam com eventuais perdas de dinheiro e os piratas custam-nos milhões todos os anos. Ninguém em Roma esquecerá alguma vez a forma como Crasso dirigiu a sua campanha contra Espártaco. O homem é um génio na organização, tão violento e imparável como uma avalancha, tão implacável como o velho rei Mitridates.

— Não gosto dele, nem do que ele representa, mas não há dúvida que é um homem com a linhagem certa — disse Caio Pisão, satisfeito. — Por outro lado, tem tantas hipóteses de ser escolhido como Pompeu.

— Pois bem, vamos pedir a Crasso que se apresente como candidato ao comando especial contra os piratas — disse Hortênsio, satisfeito. — Quem vai falar com ele?

— Eu falo — disse Catulo. Olhou gravemente para Pisão. — Entretanto, cônsul sénior, sugiro que os teus funcionários convoquem o Senado para amanhã ao nascer do dia. Gabínio não convocou outra reunião da Plebe. Por isso, teremos tempo para levantar o problema no Senado e obter um consultam visando a nomeação de Crasso pela Plebe.

Mas alguém chegara primeiro, como Catulo pôde descobrir quando se encontrou com Crasso, na casa deste, algumas horas mais tarde.

César deixara apressadamente os degraus do Senado e fora directamente para os escritórios de Crasso, que ficavam numa ínsula por detrás do Macellum Cuppedenis, o mercado de flores e especiarias que o Estado fora obrigado a vender em hasta pública alguns anos antes; fora essa a única maneira de obter fundos para as campanhas de Sila no Oriente contra Mitridates. Crasso, que por essa altura era ainda um jovem, não tivera o dinheiro suficiente para comprar o mercado; na sequência das proscrições de Sila, o mercado foi posto uma vez mais em hasta pública e, nessa altura, Crasso já tinha dinheiro que chegasse para comprar uma boa parte do mercado. Possuía, por isso, uma boa série de óptimos imóveis, situados atrás da franja oriental do Fórum, incluindo uma dúzia de armazéns onde os mercadores guardavam a preciosa pimenta em grão, o nardo, o incenso, a canela, bálsamos variados, perfumes e aromas.

Crasso era um homem corpulento, mais alto do que parecia, pois era muito largo, e nesse corpo poderoso não havia um resquício de gordura. Pescoço, ombros e tronco formavam um conjunto formidável que, combinado com uma certa placidez do rosto, levava todos aqueles que o conheciam a compará-lo a um boi — mas um boi que investia com cornos temíveis. Casara com a viúva dos seus irmãos mais velhos, uma Sabina de boas famílias, de seu nome Áxia, mas que acabara por ser conhecida como Tertula por ter casado com três irmãos; tinha dois filhos prometedores, embora o mais velho, Públio, fosse na realidade filho de um dos irmãos de Crasso, também chamado Públio. O jovem Públio estava a dez anos de entrar para o Senado, ao passo que o verdadeiro filho de Crasso, Marco, era alguns anos mais novo. Ninguém poderia apontar faltas a Crasso como chefe de família; o seu carinho e devoção por mulher e filhos eram famosos. Mas a família não era a sua grande paixão. No fundo, Marco Licínio Crasso só tinha realmente uma paixão — o dinheiro. Diziam alguns que ele era o homem mais rico de Roma, mas César, que nesse instante subia as estreitas e sombrias escadas que levavam à toca de Crasso, no quinto andar da ínsula, não acreditava. A fortuna dos Servílios Cepiões era infinitamente maior, e o mesmo se podia dizer da fortuna do homem que o levava a falar com Crasso: Pompeu, o Grande.

O facto de ter escolhido um quinto andar (com cinco lanços de escadas que tinha de subir todos os dias), em vez de se instalar comodamente num andar mais baixo, era típico de Crasso. É que, quanto mais alto fosse o piso, mais baixa seria a renda. Para quê desperdiçar uns bons milhares de sestércios consigo mesmo, usando andares que podia alugar a outros? Além disso, subir escadas era um bom exercício. Crasso também não se preocupava nada com as aparências; sentava-se a uma secretária, a um canto de uma sala em permanente turbilhão, com toda a equipa diante dos seus olhos, e tanto se lhe dava que os seus subalternos lhe dessem algum encontrão ocasional ou gritassem em vez de falar.

— Pausa para um pouco de ar fresco! — gritou César, fazendo sinal para que Crasso o acompanhasse até à rua.

Crasso levantou-se imediatamente e desceu com César as escadas; e logo se viram envolvidos num turbilhão diferente, o do Macellum Cuppedenis. César e Crasso eram bons amigos desde que o primeiro servira sob as ordens do segundo, durante a guerra contra Espártaco. Muitas pessoas ficavam intrigadas com esta peculiar ligação, pois as diferenças entre os dois homens as deixavam cegas para as semelhanças, que eram muito mais fortes. Sob aquelas fachadas tão diferentes, havia o mesmo tipo de aço — e Crasso e César compreendiam isso, ainda que o mundo à sua volta não o entendesse. Nenhum deles fez o que a maior parte teria feito: ir a uma taberna famosa e comprar um folhado deliciosamente leve e estaladiço com um recheio de carne de porco picada e abundantemente condimentada; o segredo do folhado estava na judiciosa combinação da farinha de trigo com a banha de porco; depois de amassada e tendida uma primeira vez, a massa recebia um pouco mais de banha, e este processo era repetido até que a massa folhada estivesse em condições de ir para o forno. César, como de costume, estava sem fome, e Crasso achava que comer fora de casa era uma perda de dinheiro. De maneira que lá acabaram por encontrar um muro para se encostarem, entre uma ruidosa escola mista, com aulas ao ar livre, e uma tenda que vendia pimenta em grão.

— Muito bem, aqui estamos protegidos de ouvidos indiscretos — disse Crasso, coçando o couro cabeludo; ficara quase completamente calvo depois do ano em que fora colega de Pompeu no consulado — um facto que Crasso atribuía à preocupação de obter uma soma de mil talentos, para compensar o que gastara para garantir que terminasse o seu mandato gozando da melhor reputação possível entre o povo. Não lhe ocorria que a sua calvície se devesse à idade; de facto, faria cinquenta anos em breve. Mas isso, para ele, era irrelevante. Para Marco Crasso, tudo era causado pelas preocupações com o dinheiro.

— Prevejo — disse César, mirando uma das alunas, uma adorável morenita, daquela escola ao ar livre — que recebas uma visita ainda hoje, mas mais para o fim da tarde. Prevejo ainda que o teu visitante será, imagina só, o nosso muito caro Quinto Lutácio Catulo.

— Ha?! — retorquiu Crasso, de olhos fixos no preço exorbitante da pimenta da Taprobana, desenhado a giz num bocado de madeira encostado ao jarro de barro vidrado que continha a preciosa especiaria. — O que é que se passa, César?

— Devias ter abandonado a tua contabilidade e comparecido hoje à reunião da Assembleia Plebeia — retorquiu César.

— Foi uma reunião interessante?

— Fascinante, embora não propriamente inesperada — bom, eu, pelo menos, estava à espera. Tive uma conversa com Magno o ano passado e por isso estava preparado. Mas duvido que mais alguém estivesse, à excepção de Afrânio e Petreio, que me fizeram companhia nos degraus da Cúria Hostília. Atrevo-me a dizer que eles pensaram que alguém poderia ficar a saber para que lado os ventos estão soprando, se por acaso aparecessem no Poço dos Comitia. Cícero também lá estava, mas movido unicamente pela curiosidade. Cícero tem um faro espantoso para assembleias importantes.

Crasso, que, politicamente, nada tinha de estúpido, desviou finalmente o olhar da dispendiosa pimenta e fitou César. — Oh! O que é que o nosso amigo Magno anda a tramar?

— Gabínio propôs à Plebe que aprove um imperium ilimitado e tudo rigorosamente ilimitado — para um homem. Como seria de esperar, não referiu nenhum nome. O objectivo desta total ausência de limitações é só um: acabar com os piratas — disse César, sorrindo quando a menina da escola deu com a sua tábua na cabeça do miúdo ao lado.

— Uma missão ideal para Magno — disse Crasso.

— Claro. Soube, por acaso, que ele tem estado a preparar-se para o efeito nos últimos dois anos ou mesmo mais. Contudo, o Senado não vai gostar nada de uma tal comissão, não é verdade?

— Catulo e o seu grupo não vão gostar mesmo nada.

— Prevejo que a maior parte dos membros do Senado não gostará. Nunca perdoarão a Magno que os tenha obrigado a legitimar o seu desejo de ser cônsul.

— Eu também nunca lhe perdoarei — disse Crasso, com um ar soturno. Respirou fundo. — Pensas, portanto, que Catulo me vai pedir que dispute o comando em oposição a Pompeu... É isso, não é?

— É mais do que provável.

— É tentador... — disse Crasso, reparando agora na escola, pois o miúdo estava aos berros e o pedagogo procurava evitar uma guerra generalizada entre os seus alunos.

— Não te deixes tentar, Marco — pediu suavemente César.

— Porque não?

— Não resultaria, Marco. Acredita, não resultaria. Se Magno está preparado como eu penso que está, deixa-o ficar com o comando.

Os teus negócios, tal como os negócios de toda a gente, sofrem, e de que maneira, os efeitos da pirataria. Se queres tomar uma atitude inteligente, fica em Roma e colhe os frutos que não deixarão de vir quando os mares ficarem livres de piratas. Tu conheces Magno. Ele fará o trabalho, e fa-lo-á em condições. Mas toda a gente esperará para ver. Podes usar os muitos meses que durar o cepticismo geral para te preparares para melhores tempos — disse César.

Como César muito bem sabia, esse era o argumento mais atraente que poderia ter invocado.

Crasso aquiesceu, endireitou-se. — Convenceste-me — disse ele, olhando para o sol. — São horas de voltar à contabilidade, César, antes de ir para casa e esperar por Catulo.

Os dois homens avançaram despreocupadamente pelo caos em que se transformara a aula ao ar livre. César sorriu amavelmente para a menina que causara aquela guerra. — Adeus, Servília! — disse ele à rapariga.

Crasso, prestes a deixar César e a seguir outro caminho, ficou espantado. — Conhece-la? — perguntou. — É uma Servília, a miúda?

— Não, não a conheço — respondeu-lhe César, já um pouco afastado dele. — Mas faz-me lembrar a futura sogra de Júlia!

E foi assim que, quando Pisão, o cônsul, convocou o Senado para as primeiras horas da manhã do dia seguinte, as grandes personalidades senatoriais não tinham encontrado ainda nenhum general rival para opor a Pompeu; a entrevista de Catulo com Crasso fora um fracasso.

As notícias correram céleres pelas bancadas do Senado. Para grande deleite dos boni muitas eram as facções que manifestavam já uma violenta oposição às pretensões de Pompeu. A morte de Sila era ainda demasiado recente e nenhum daqueles homens esquecera que Sila fizera dos senadores seus reféns e que Pompeu fora o favorito de Sila, bem como o seu carrasco. Pompeu matara demasiados senadores ligados a Cina e a Carbão, e depois matara também Bruto, e forçara o Senado a autorizar a sua eleição como cônsul, sem que nunca houvesse sido senador. Este último crime era o mais imperdoável de todos. Os censores Lêntulo Clodiano e Poplicola continuavam a dispor de uma influência favorável a Pompeu, mas os seus representantes mais poderosos, Cetego e Filipe, haviam já deixado o Senado, um deles porque se retirara por convicções epicuristas, o outro porque a morte o retirara.

Não surpreendeu, por isso, que, depois de terem entrado na Cúria Hostília, vestidos com as suas togas púrpura de censores, e de terem visto uma imensidão de rostos contraídos, Lêntulo Clodiano e Poplicola tivessem decidido não defender a causa de Pompeu, o Grande, naquele dia. Curió, um outro representante de Pompeu, também não o faria. Quanto a Afrânio e ao velho Petreio, as suas capacidades retóricas eram tão limitadas que tinham ordens expressas para não abrir a boca. Crasso estava ausente.

— Pompeu não vem já a caminho de Roma? — perguntou César a Gabínio quando se apercebeu de que Pompeu também não estava presente.

— Vem — retorquiu Gabínio. — Mas só vai aparecer quando o seu nome for mencionado na Plebe. Sabes bem como ele odeia o Senado.

Depois de terem sido interpretados os augúrios e de Metelo Pio Pontifex Maximus ter conduzido as orações, Pisão (que empunhava os fasces em Fevereiro porque Glabrião tinha ido para o Oriente) deu início aos trabalhos.

— Sei muito bem — disse ele da sua cadeira curul, na plataforma elevada situada numa das pontas da sala — que a reunião de hoje, segundo a recente legislação de Aulo Gabínio, tribuno da plebe, foge aos objectivos fixados para o Senado durante o mês de Fevereiro. Em parte, isso é verdade. Mas só em parte, porque, na realidade, o assunto que aqui nos traz é um comando estrangeiro. No fundo, porém, nada disso interessa. Nada nessa lex Gabinia pode impedir esta reunião de discutir assuntos urgentes, sejam eles de que tipo forem, durante o mês de Fevereiro!

Levantou-se então. Era um Calpúrnio Pisão típico: alto, muito moreno, com sobrancelhas farfalhudas. — Ontem, este mesmo tribuno da plebe, Aulo Gabínio, de Piceno — e, com um gesto, apontou para Gabínio, que estava abaixo dele e na ponta esquerda do banco tribunício —, sem ter notificado o Senado, convocou a Assembleia da Plebe e disse aos seus membros — ou aos poucos que lá estavam — como havíamos de nos ver livres da pirataria. Sem nos ter consultado, sem ter consultado ninguém! Disse ele que deveríamos atribuir a um único homem um imperium ilimitado, bem como dinheiro e forças igualmente ilimitados! Nunca referiu um nome. Mas quem duvidará de que, na sua cabeça picentina, apenas um nome ressoava? Este Aulo Gabínio e o seu amigo picentino, e igualmente tribuno da plebe, Caio Cornélio, que, apesar do seu nome, não vem de nenhuma família distinta, causaram-nos já a nós, que herdámos Roma como nossa responsabilidade, demasiados problemas, desde que assumiram as suas funções. Eu, por exemplo, fui obrigado a elaborar contra-legislação sobre eventuais subornos nas eleições curuis. Eu, por exemplo, já fui astuciosamente privado do meu colega consular. Eu, por exemplo, fui acusado de inúmeros crimes relacionados com suborno eleitoral.

Todos os que aqui compareceram estão por certo conscientes da gravidade desta nova lex Gabinia que ontem foi proposta, como estão por certo conscientes de que ela infringe todas as normas da mós maiorum. Mas não é meu dever abrir este debate, apenas conduzi-lo. Por isso, como o ano ainda vai no princípio e os magistrados eleitos não estão ainda todos presentes, ouvirei em primeiro lugar os pretores deste ano e pedir-lhes-ei que nomeiem um porta-voz.

Como a ordem das intervenções fora já combinada, nenhum pretor ofereceu os seus serviços; o mesmo fizeram os edis, curuis ou plebeus. Caio Pisão virou-se então para os consulares, sentados na fila da frente, de cada um dos lados do Senado. Isso significava que a mais poderosa peça de artilharia oratória daquela casa seria precisamente a primeira a disparar: Quinto Hortênsio era o seu nome.

— Ilustres cônsul, censores, magistrados, consulares e senadores — principiou Hortênsio. — É tempo de acabarmos, de uma vez por todas, com as chamadas comissões militares especiais! Todos sabemos por que motivo o ditador Sila incorporou essa cláusula na sua constituição revista. O seu objectivo era obter os serviços de um homem que não pertencia a esta augusta e venerável instituição, um cavaleiro do Piceno que teve a presunção de recrutar e comandar tropas, a mando de Sila, quando pouco mais tinha do que vinte anos, e que, depois de ter saboreado o mel de uma gritante inconstitucionalidade, continuou a deleitar-se com ele — embora sempre se tenha recusado a pertencer ao Senado! Quando Lépido se revoltou, esse indivíduo resolveu controlar a Gália Italiana e teve mesmo a ousadia de mandar executar um membro de uma das mais velhas e notáveis famílias de Roma — Marco Júnio Bruto. Cuja traição, se traição era, esta instituição definiu cabalmente, incluindo Bruto na lei que proscrevia Lépido. Uma lei que não dava a Pompeu o direito de ordenar a um dos seus lacaios que cortasse a cabeça de Bruto no meio do mercado de Régio Lépido! Tão pouco lhe dava o direito de cremar a cabeça e o corpo e de enviar calmamente as cinzas para Roma, com uma nota explicativa tão breve quanto mal escrita!

Depois, Pompeu manteve as suas preciosas legiões picentinas em Mutina, até que obrigou o Senado a dar-lhe uma comissão — a ele que não era senador, nem magistrado! — com um imperium pró-consular. E assim foi para a Hispânia governar a província citerior em nome do Senado e travar guerra contra o renegado Quinto Sertório. Quando, na Hispânia Ulterior, tínhamos já um homem eminente, com a linhagem certa e uma família irrepreensível, o bom Quinto Cecílio Metelo Pio Pontifex Maximus, combatendo Sertório — um homem que, acrescento, fez mais para derrotar Sertório do que esse extraordinário Pompeu que nunca foi senador! Embora tenha sido Pompeu quem colheu os louros da glória!

Hortênsio, um homem bem-parecido, com uma presença imponente, virou-se lentamente, descrevendo um círculo; parecia olhar para todos os olhos, um truque que usava, e com bons resultados, há mais de vinte anos, nos tribunais. — E que faz essa nulidade picentina chamada Pompeu, quando regressa à nossa querida pátria? Contra tudo o que manda a constituição, atravessa o Rubicão com o seu exército, e instala-se em território italiano, onde trata de nos forçar, por via da chantagem, a autorizá-lo a disputar o cargo de cônsul! Não tivemos alternativa. Pompeu tornou-se cônsul. E mesmo hoje, Patres Conscripti, recuso-me, com toda a fibra do meu ser, a conceder-lhe esse abominável cognome de Magno que ele atribuiu a si mesmo! Porque ele não é grande! Ele é um furúnculo, um carbúnculo, uma chaga pútrida na pele injuriada de Roma!

Como se atreve Pompeu a pensar que poderá vergar o Senado pela chantagem, uma vez mais? Como se atreve Pompeu a mandar o seu lacaio e lambe-botas Gabínio abrir-lhe o caminho? Imperium ilimitado e forças ilimitadas e dinheiro ilimitado, calculem só! Quando o Senado tem um comandante capaz em Creta, fazendo um trabalho excelente! Um trabalho excelente, repito! Um trabalho excelente! Excelente, excelente! — o estilo oratório asiático, característico de Hortênsio, estava agora a atingir o seu auge, e todo o Senado escutava em silêncio (sobretudo porque estava de acordo com tudo o que ele vinha dizendo) um dos seus maiores oradores de todos os tempos. — Oiçam bem o que ora vos digo, Paires Conscripti: eu nunca, nunca, nunca consentirei este comando, seja qual for a designação que possam vir a dar-lhe! Em toda a sua história, Roma nunca precisou de recorrer a um imperium ilimitado, a um comando ilimitado! Porque há-de fazê-lo agora, no nosso tempo? Tais poderes são inconstitucionais, imoderados e inaceitáveis! Nós libertaremos o Nosso Mar dos piratas, mas fá-lo-emos à maneira romana, e não à maneira picentina!

Nesse momento, Bíbulo começou a dar vivas e a bater com os pés e todo o Senado se associou a essa manifestação de agrado. Hortênsio sentou-se, inchado com aquela doce vitória.

Aulo Gabínio escutara impassível o discurso de Hortênsio e, no final, limitou-se a encolher os ombros, após o que, erguendo as mãos, deu início à sua resposta.

— A maneira romana — disse ele bem alto, quando os vivas se esbateram — degenerou numa tal ineficácia que talvez seja melhor chamar-lhe a maneira pisidiana! Se é do Piceno que esta missão precisa, então terá de ser o Piceno a cumpri-la. Pois afinal que é o Piceno, se não Roma? O teu problema, Quinto Hortênsio, é que traças fronteiras geográficas que não existem!

— Cala-te! Cala-te! — gritou Pisão, erguendo-se de um salto e descendo a correr o estrado curul e só parando em frente do banco tribunício. — Atreves-te a dizer disparates sobre Roma, tu que não passas de um Gaulês nascido num ninho de Gauleses? Atreves-te confundir a Gália com Roma? Então tem cuidado, Gabínio, o Gaulês, pois podes vir a ter o destino de Rómulo e não mais regressar da tua caçada!

— Uma ameaça! — gritou Gabínio, erguendo-se num ápice. — Ouviram o que ele disse, Paires Conscripti? Ele ameaça matar -me, pois isso foi o que aconteceu a Rómulo! Rómulo foi morto à traição, por homens que estavam emboscados no Campo de Marte, junto à Lagoa da Cabra.

Um verdadeiro pandemónio tomou logo conta da sala, mas Pisão e Catulo trataram de acalmar os ânimos, pois não queriam que a reunião fosse dissolvida sem terem conseguido os seus objectivos. Gabínio voltara ao banco onde se sentavam os tribunos da plebe e observava animadamente as manobras do cônsul e do consular, sossegando os mais exaltados, apelando à calma, tentando persuadir os senadores a devolverem os traseiros aos assentos.

E então, quando a calma parecia ter voltado ao Senado e Pisão se preparava para pedir a Catulo a sua opinião, Caio Júlio César levantou-se. Como usava a Corona cívica e, por isso mesmo, tinha tanto direito a usar da palavra como um consular, Pisão, que o detestava, lançou-lhe um olhar fuzilante que era um convite claro a que se voltasse a sentar. César permaneceu de pé, apesar da ferocidade do olhar do cônsul.

— Deixa-o falar, Pisão! — exclamou Gabínio. — Ele tem direito a falar!

Embora não exercesse com muita frequência o seu privilégio oratório no Senado, César era conhecido como o único rival de Cícero, o único que, de facto, estava à altura deste; o estilo asiático de Hortênsio fora ultrapassado pelo estilo ateniense de Cícero, mais simples, mas mais poderoso, e César também preferia a tendência ática. Se alguma coisa os membros do Senado tinham em comum, era a capacidade de avaliação das qualidades de um orador. Apesar de todos estarem à espera de Catulo, a verdade é que optaram por César.

— Como Lúcio Belieno e Marco Sextílio não regressaram ainda a Roma, creio que sou o único dos senadores hoje aqui presentes que foi efectivamente capturado por piratas — disse César, com a voz sonora e absolutamente clara que usava nos discursos públicos. — Essa experiência tornou-me, por assim dizer, uma autoridade na matéria, isto se considerarmos a experiência directa como a mãe de todo o conhecimento. Não, de facto não foi uma experiência particularmente elevada; a minha aversão acendeu-se no momento em que vi aquelas duas magníficas e velozes galeras abordando o meu pobre e lento navio mercante. Porque, Paires Conscripti, informou-me o meu capitão de que qualquer tentativa de resistência armada não só seria a mais vã das acções, como a todos condenaria à morte. E eu, Caio Júlio César, tive de me render a um indivíduo rude e grosseiro chamado Polígono, que há mais de vinte anos atacava mercadores nos mares da Lídia, da Lícia e da Caria.

Aprendi muito durante os quarenta dias em que fui prisioneiro de Polígono — prosseguiu César, num tom mais informal. — Aprendi que há uma escala de resgates, acordada entre os piratas, para todos os prisioneiros que, por serem demasiado preciosos, não são enviados para os mercados de escravos ou acorrentados enquanto os piratas não regressam aos seus covis e não tomam uma decisão sobre a sua sorte. Um mero cidadão romano não tem outra alternativa senão a escravatura. Um mero cidadão romano não chega a valer dois mil sestércios, que é o preço mínimo que ele poderá valer nos mercados de escravos. Para um centurião romano ou um cidadão de Roma que se situe a meio da hierarquia dos publicam, o resgate é de meio talento. Para um publicanus romano do topo da hierarquia, o preço é de um talento. Para um nobre romano de ilustres famílias, mas que não seja membro do Senado, o preço é de dois talentos. Para um senador romano com estatuto de pedarius, o resgate é de dez talentos. Para um senador romano com um estatuto de magistrado júnior — questor ou edil ou tribuno da plebe — o resgate é de vinte talentos. Para um senador romano que seja ou tenha sido pretor ou cônsul, o resgate é de cinquenta talentos. Quando capturado com lictores e fasces, como é o caso das duas últimas vítimas dos piratas, o preço atinge os cem talentos, como ficámos a saber há poucos dias. Censores e cônsules famosos atingem também os cem talentos. Embora não esteja certo quanto ao valor que os piratas atribuiriam a cônsules como o nosso caro Caio Pisão — talvez um talento? Eu não pagaria mais por ele, garanto-vos...! Só que eu não sou um pirata, embora me pergunte por vezes quanto pediriam os piratas se sequestrassem Caio Pisão...!

Durante a detenção — prosseguiu César, no mesmo tom informal —, espera-se que empalideçamos de medo e que supliquemos de joelhos que nos poupem a vida. Não é coisa que estes meus joelhos julianos estejam acostumados a fazer; e, de facto, durante todo o tempo em que estive preso, os meus joelhos não cederam. Passei o tempo espiando a região, estudando uma possível resistência para mais tarde lançar um ataque, descobrindo o que estava guardado e onde estava guardado. Passei também o meu tempo assegurando a toda a gente que, depois de o meu resgate — cinquenta talentos — ter sido pago, voltaria àquela região para a conquistar, enviaria as mulheres e as crianças para os mercados de escravos e crucificaria os homens. Todos pensavam que eu gracejava, todos se riam como se estivessem a ouvir uma boa piada. Eu nunca conseguiria encontrá-los, diziam-me eles. Mas afinal encontrei-os, Patres Conscripti, e conquistei a região e mandei as mulheres e as crianças para os mercados de escravos e crucifiquei todos os homens. Podia ter trazido os esporões de quatro navios piratas para adornar os rostra, mas como recorri aos Rodenses para lançar a minha expedição, os esporões encontram-se agora numa coluna em Rodes, ao lado do novo templo de Afrodite, que mandei construir com a minha parte dos despojos.

Ora bem: Polígono era apenas um entre centenas de piratas, nessa extremidade do Nosso Mar, e nem sequer era um dos grandes piratas, se é que podemos conceder-lhes uma hierarquia. Mas atentem bem nisto: Polígono conseguia tão elevados lucros operando sozinho, com apenas quatro galeras, que nunca lhe passou pela cabeça associar-se a outros piratas e formar com eles uma pequena esquadra, chefiada por um almirante competente como Lastenes ou Panares — ou Farnaces ou Megadates, para ficarmos mais próximos de casa. Polígono pagava de bom grado quinhentos denarii a um espião de Mileto ou Priena, por informações seguras sobre os navios que valia a pena atacar. Esses espiões revelavam uma assiduidade, uma persistência invulgares. As cargas preciosas nunca lhes escapavam. No tesouro de Polígono, havia muitos artigos de joalharia do Egipto, um sinal seguro de que esse pirata também atacava navios entre Pelúsio e Pafos. Portanto, a sua rede de espiões devia ser enorme. Como é evidente, os espiões só eram pagos se as suas informações conduzissem a boas capturas. Não esbanjar dinheiro com os espiões para que eles mantivessem o faro apurado: esse parecia ser o lema de Polígono. Saía-lhe mais barato, e os espiões trabalhavam melhor.

Todavia, por muito nocivos e prejudiciais que piratas como Polígono possam ser, a verdade é que eles não são nada, se comparados com as frotas piratas comandadas por almirantes. Estas frotas piratas não precisam de esperar que surjam no horizonte navios solitários ou frotas desarmadas. De facto, têm capacidade para atacar frotas cerealíferas escoltadas por galeras fortemente armadas. Depois, tratam de vender a intermediários romanos aquilo que pertenceu a Roma, aquilo que Roma comprou e pagou. Não admira que as barrigas dos Romanos estejam vazias: metade desse vazio deve-se à falta de cereais; a outra metade, deve-se ao facto de o cereal que aparece no mercado ser vendido a preços três e quatro vezes superiores ao preço justo, mesmo quando é distribuído aos mais pobres pelo edil.

César fez uma pausa, mas ninguém o interrompeu, nem mesmo Pisão, que ainda tinha o rosto vermelho de raiva, por causa do insulto de que fora alvo. — Não preciso de discorrer muito sobre um certo ponto — prosseguiu tranquilamente César —, porque não vejo qualquer vantagem em discorrer sobre ele. Basta-me referi-lo de passagem. É verdade que certos governadores provinciais, nomeados por esta casa, cooperaram activamente com os piratas, concedendo-lhes facilidades portuárias, alimentos, ou mesmo vinhos de qualidade invulgar, em faixas de costa que, de outro modo, teriam escapado ao domínio pirata. Tudo isso veio ao de cima durante o julgamento de Caio Verres, e aqueles que hoje aqui se sentam e que se envolveram nessas práticas ou deixaram outros envolver-se, sabem muito bem que esse crime há-de persegui-los toda a vida. E se a sorte do meu pobre tio Marco Aurélio Cota pode servir de exemplo a alguém, não se esqueçam de que a passagem do tempo não constitui garantia de que, um dia, não venham a ser julgados pelos crimes que cometeram ou que terão cometido.

Também não vou discorrer longamente sobre um outro ponto que, além de óbvio, é antigo, e já foi mil vezes discutido. É que, até agora, Roma, e quando digo Roma quero dizer o Senado e o Povo!, nem sequer tocou seriamente no problema da pirataria; de facto, Roma ainda nem sequer começou a desferir golpes importantes nos piratas. Um homem, instalado num local insignificante, seja ele a ilha de Creta ou as Baleares ou a Lícia, nunca poderá ter a esperança de acabar com as actividades dos piratas. Poderá atacar num determinado local, que logo os piratas pegam nas suas coisas e embarcam para outro local. Metelo, que está em Creta, conseguiu, até agora, cortar uma única cabeça pirata? Lastenes e Penares não são mais do que duas das cabeças que esta hidra possui, e as cabeças desses almirantes continuam intactas, navegando nos mares em torno a Creta.

O que é preciso — exclamou César, erguendo a voz —, não é apenas a vontade de vencer, não é apenas o desejo de vencer, não é apenas a ambição de vencer! O que é preciso é um esforço sem reservas em todos os locais e exactamente no mesmo momento, uma operação arquitectada por uma mão, por uma mente, por uma vontade. E essa mão, essa mente, essa vontade, devem pertencer a um homem cujas proezas a nível de organização sejam bem conhecidas e tenham já sido testadas; só a esse homem poderemos nós, o Senado e o Povo de Roma, dar a missão em causa, com a certeza de que, finalmente, o nosso dinheiro, os nossos efectivos e o nosso equipamento não serão desbaratados!

Respirou fundo e prosseguiu: — Aulo Gabínio sugeriu um homem. Um homem que seja consular e cuja carreira sugira que ele poderá cumprir devidamente a missão. Mas eu irei mais longe que Aulo Gabínio e nomearei esse homem! Proponho que o Senado dê o comando contra os piratas, com imperium ilimitado em todos os campos, a Cneu Pompeu Magno!

— Três vivas para César! — gritou Gabínio, saltando para cima do banco tribunício com os braços acima da cabeça. — Eu apoio o que ele disse! Dêem o comando da guerra contra a pirataria ao maior dos nossos generais, Cneu Pompeu Magno!

Os olhares furibundos (com destaque para Pisão) largaram por um momento César e concentraram-se em Gabínio. O cônsul saltou nesse mesmo instante do estrado curul, agarrou com violência em Gabínio e obrigou-o a descer do banco. Mas o corpo de Pisão forneceu temporariamente a Gabínio a cobertura de que ele precisava; baixou-se, escapando aos murros de Pisão, puxou a toga até às coxas pela segunda vez em dois dias e disparou na direcção das portas com meio Senado no seu encalce.

César abriu caminho entre bancos virados de pernas para o ar e foi juntar-se a Cícero, que continuava sentado, reflectindo sobre tudo o que acabara de passar-se; César puxou do banco que estava ao lado de Cícero e sentou-se também.

— Foste magistral, César — disse Cícero.

— Gabínio teve uma atitude simpática: fez com que a ira desta gente se voltasse contra ele, e não contra mim — disse César, suspirando e estendendo as pernas.

— É mais difícil linchar-te a ti do que linchar Gabínio. Há uma barreira nas mentes deles, pelo facto de seres um patrício Júlio. Quanto a Gabínio, bom, Gabínio é — como é que disse Hortênsio? — um lacaio lambe-botas, não foi? Ou seja, um Picentino e um homem de Pompeu. Portanto, pode ser linchado impunemente. Além disso, Gabínio estava mais perto de Pisão do que tu. Finalmente, Gabínio não ganhou isso — concluiu Cícero, apontando para a coroa de folhas de carvalho que César usava. — Creio que haverá muitas ocasiões em que meia Roma quererá linchar-te, César. Mas, para o fazer realmente, terá de ser um grupo muito, muito interessante. Nunca um grupo chefiado por gente como Pisão.

Os gritos e os ruídos indiciadores de violência tornavam-se cada vez mais fortes, nas proximidades do Senado; momentos depois, Pisão irrompia pelo Senado com vários membros da Plebe profissional no seu encalço. Catulo, que vinha na esteira de Pisão, escapou-se por uma das portas abertas; Hortênsio fugiu pela outra. Pisão, porém, tropeçou e foi arrastado para fora, com a cabeça a sangrar.

— Parece que isto é a sério — observou Cícero com um interesse clínico. — Pisão é muito capaz de ser linchado.

— Espero bem que sim — disse César, sem se mexer. Cícero deu um risinho. — Bom, se tu não te mexes para ajudar,

não vejo por que razão eu deva fazê-lo.

— Ah, Gabínio convence-os a deixarem em paz o cônsul. A sua intervenção só lhe trará louros. Além disso, as coisas estão muito mais tranquilas aqui.

— Foi por isso que instalei aqui a minha carcaça.

— Devo concluir que és favorável à entrega do comando a Magno?

— Sem dúvida. É um bom homem, apesar de não ser um dos boni. É a nossa única esperança. De acabar com os piratas, claro.

— Sabes muito bem que não é a nossa única esperança. O problema é que, a mim, nunca dariam tal missão, e acho sinceramente que Magno está à altura dela.

— Mas que presunção, César...! — exclamou Cícero, espantado.

— Há uma diferença entre verdade e presunção.

— E tu conhece-la?

— Claro.

Ficaram em silêncio por um bocado. Depois, quando os gritos e ruídos já se tinham esbatido, Cícero e César levantaram-se e encaminharam-se para o pórtico.

Aí chegados, puderam verificar que a vitória era dos adeptos de Pompeu; Pisão estava sentado num degrau, todo ele sangrando, assistido por Catulo. De Quinto Hortênsio, nem sinal.

— Tu! — exclamou o furioso Catulo quando César se abeirou. — Um traidor à tua própria classe, é o que tu és, César! Tal e qual como eu te disse, já lá vão muitos anos, quando me vieste pedir para servir no meu exército contra Lépido! Não mudaste nada. Nunca mudarás, nunca! Sempre do lado destes demagogos, desta gente que veio do nada e que está decidida a destruir a supremacia do Senado!

— Com a idade que tens, Catulo, sentir-me-ia inclinado a pensar que serias capaz de perceber que são vocês, os ultra-conservadores, com as vossas bocas tão franzidas como o ânus de um gato, quem poderá destruir a supremacia do Senado — retorquiu César, com a maior calma. — Eu acredito em Roma, e no Senado. Mas o pior que vocês podem fazer é contrariar as mudanças que a vossa incompetência tornou necessárias.

— Eu defenderei Roma e o Senado contra gente como Pompeu, até ao dia da minha morte!

— A qual, pelo teu aspecto, é capaz de já não estar muito longe! Cícero, que fora ouvir o que Gabínio anunciava nos rostra,

regressou nesse momento aos degraus do Senado. — Outra reunião da Plebe depois de amanhã! — informou ele, despedindo-se de imediato.

— Ali está outro que nos há-de destruir! — disse Catulo, com uma expressão de desprezo. — Um Homem Novo que veio do nada, mas que sabe falar e que tem uma cabeça tão grande que nem cabe nestas portas!

Quando a Assembleia Plebeia voltou a reunir-se, Pompeu encontrava-se nos rostra, ao lado de Gabínio, que propunha agora a sua lex Gabinia de piratis persequendis, dando finalmente um nome ao eleito: Cneu Pompeu Magno. O eleito de todos — pelo menos era o que se podia concluir dos aplausos generalizados. Apesar de ser um orador medíocre, Pompeu tinha algo em si que era mais valioso do que os dotes oratórios — uma expressão aberta, sincera, cativante, desde os grandes olhos azuis ao sorriso largo e franco. E essa é uma qualidade, reflectiu César, observando e escutando nos degraus do Senado, que eu não possuo. Embora não creia que o inveje por isso. É o estilo dele, não o meu. E o meu também resulta bem com o povo.

A oposição à Lex Gabinia de piratis persequendis ia ser mais formal, embora, possivelmente, não menos violenta; os três tribunos da plebe conservadores estavam bem em evidência nos rostra, Trebélio um pouco à frente de Róscio Otão e de Glóbulo, como que proclamando que o chefe era ele.

Porém, antes de abordar em pormenor a sua lei, Gabínio pediu a Pompeu que falasse, e nenhum dos elementos pró-senatoriais, desde Trebélio a Catulo, passando por Pisão, tentou detê-lo; toda a multidão estava com Pompeu. Uma ideia muito acertada. Pompeu começou por protestar que combatia ao serviço de Roma desde a sua adolescência e que estava cansado de ser chamado para assumir comandos especiais. Passou a enumerar as suas campanhas (tinha já mais campanhas do que anos, disse ele com um triste suspiro), após o que explicou que, de cada vez que salvava Roma, ganhava mais e mais ódios, atraía mais e mais ciúmes. Ah, e ele não queria, não, ele não queria mais ciúmes, ele não queria mais ódio! Deixassem-no ser aquilo que ele mais queria ser — um chefe de família, um proprietário rural, um cidadão privado! Procurem outro homem, suplicou ele a Gabínio e à multidão, com as mãos esticadas. É evidente que ninguém levou isto a sério, embora toda a gente tivesse aprovado entusiasticamente a modéstia e a autodesvalorização exibidas por Pompeu. Lúcio Trebélio pediu então a Gabínio, presidente do Colégio, autorização para falar. A autorização foi-lhe recusada. Trebélio ainda tentou falar, mas a multidão afogou as suas palavras com vaias, assobios e apupos. Vendo que Gabínio prosseguia, Trebélio atacou-o com a única arma que Gabínio não podia ignorar.

— Oponho o meu veto à lex Gabinia de piratis persequendis! — gritou Lúcio Trebélio.

Fez-se imediatamente silêncio.

— Retira o teu veto, Trebélio — disse-lhe Gabínio.

— Não retiro. Eu veto a lei do teu patrão!

— Não me obrigues a tomar medidas, Trebélio.

— Que medidas podes tu tomar, a não ser atirar-me da Rocha Tarpeia? E isso não alterará o meu veto. Eu morrerei, mas a tua lei não passará — atirou-lhe Trebélio.

Este era o teste decisivo, pois já tinha passado o tempo em que as assembleias podiam degenerar em violência, sem que o homem que convocava a assembleia fosse castigado por isso, o tempo em que os irados Plebeus podiam intimidar fisicamente os tribunos para que estes retirassem os seus vetos, enquanto o presidente do Colégio da Plebe a tudo assistia como o mais inocente dos observadores. Gabínio sabia que, se rebentasse um motim naquela assembleia, teria de responder perante a lei. Por isso, resolveu o seu problema seguindo as vias constitucionais: ninguém poderia impedi-lo de fazer isso.

— Posso pedir a esta assembleia que te afaste do teu cargo, Trebélio — retorquiu Gabínio. — Retira o teu veto!

— Recuso-me a retirar o meu veto, Aulo Gabínio.

Havia trinta e cinco tribos de cidadãos romanos. E eram precisamente as tribos que votavam nas assembleias; ou seja, depois de vários milhares de homens terem votado, apenas trinta e cinco votos eram registados. Nas eleições, todas as tribos votavam simultaneamente; porém, quando se tratava de aprovar ou rejeitar leis, as trinta e cinco tribos votavam uma após a outra; e aquilo que Gabínio pretendia era precisamente a aprovação de uma lei que depusesse Trebélio. Assim sendo, Gabínio chamou de imediato as trinta e cinco tribos para que votassem sucessivamente; uma após a outra, as tribos começaram a votar — a favor da deposição de Trebélio. Dezoito era a maioria: Gabínio precisaria apenas de dezoito votos. Numa ordem solene e perfeita, a votação foi decorrendo inexoravelmente: Suburana, Sérgia, Palatina, Quirina, Horácia, Aniense, Menénia, Ufentina, Mécia, Pontina, Estelatina, Clustumina, Tromentina, Voltínia, Papíria, Fábia... A décima sétima tribo a votar era a Cornélia, e o voto foi o mesmo. Deposição.

— Então, Lúcio Trebélio? — perguntou Gabínio, virando-se para o seu colega com o maior dos sorrisos. — Dezassete tribos votaram contra ti. Chamo os homens de Camília para chegarmos aos dezoito votos e portanto à maioria, ou retiras o teu veto?

Trebélio molhou os lábios, olhou desesperado para Catulo, Hortênsio, Pisão, e depois para o longínquo e altivo Pontifex Maximus, Metelo Pio, o qual deveria ter honrado a sua ligação aos boni, mas que, desde que regressara da Hispânia, quatro anos antes, era um homem completamente mudado — um homem sossegado, um homem resignado. Apesar de tudo, foi a Metelo Pio que Trebélio dirigiu o seu apelo.

— Pontifex Maximus, que devo fazer? — perguntou ele, mas a pergunta mais parecia uma súplica.

— A Plebe revelou a sua posição nesta matéria, Lúcio Trebélio — disse Metelo Pio, numa voz clara, cheia de autoridade, sem sinal de gaguez. — Retira o teu veto. A Plebe informou-te de que deves retirar o teu veto.

— Retiro o meu veto — disse Trebélio, após o que virou costas e se retirou para o fundo da plataforma dos rostra.

Porém, depois de ter descrita em linhas gerais a sua lei, Gabínio parecia não ter agora a mínima pressa em aprová-la. Pediu a Catulo que falasse, e não se ficou por Catulo; fez o mesmo pedido a Hortênsio.

— O rapaz é esperto, ha? — disse Cícero, um tanto aborrecido por ninguém lhe pedir para falar. — Oiçam-me aquele Hortênsio...! Ainda anteontem, no Senado, dizia que teriam de matá-lo se quisessem aprovar comandos especiais com imperium ilimitado! Hoje, continua a manifestar-se contra comandos especiais com imperium ilimitado, mas, diz ele, se Roma insiste em criar essa fera, então deverá ser Pompeu, e só Pompeu, a segurar na trela do animal! Quem ainda tivesse dúvidas, agora só tem certezas: todos sabemos agora para que lado sopram os ventos do Fórum!

Cícero tinha toda a razão. Pompeu concluiu a reunião derramando algumas lágrimas e anunciando que, perante a insistência de Roma, não tinha outra alternativa senão carregar com este novo fardo, por muito terrível que fosse a exaustão a que estava condenado. Após o que Gabínio deu por encerrada a sessão, sem que a lei tivesse sido votada. Contudo, o tribuno da plebe Róscio Otão teve ainda a última palavra. Irado, frustrado, capaz de matar toda a Plebe, Otão avançou até à frente dos rostra, ergueu o punho direito e, depois, muito lentamente, espetou o dedo medicus e agitou-o com toda a força.

— Mete-o no cu, Plebe! — exclamou Cícero, rindo a bom rir, traduzindo aquele gesto fútil, que pareceu apreciar.

— Resolveste portanto dar um dia à Plebe para reflexão — disse ele a Gabínio, depois de o Colégio ter descido dos rostra.

— Farei tudo exactamente como deve ser feito.

— Quantas leis?

— Uma lei geral, uma outra lei concedendo o comando a Cneu Pompeu, e uma terceira pormenorizando os termos do seu comando.

Cícero enfiou o braço no braço de Gabínio e começou a andar. — Adorei aquela parte no final do discurso de Catulo. Quando Catulo perguntou à Plebe o que aconteceria se Magno fosse morto, quem é que a Plebe escolheria para o substituir.

Gabínio riu-se a bom rir. — E a multidão respondeu-lhe em uníssono,

Tu, Catulo! Tu só e mais ninguém!

— Pobre Catulo! O veterano de uma derrota fragorosa, numa batalha travada à sombra do Quirinal e que não durou mais do que uma hora!

— Ele percebeu o que estava em causa — disse Gabínio.

— Perceber, não sei se percebeu. Mas que foi castigado, lá isso foi! E de que maneira...! — disse Cícero. — É o problema de se ser o rabo É que é no rabo que fica aquele precioso orifício que nos é tão caro.

No fim de tudo, Pompeu obteve mais do que aquilo que Gabínio pedira: o seu imperium era maius no mar e estendia-se por uma faixa de cinquenta milhas para o interior, em todas as costas, o que significava que a sua autoridade suplantava a autoridade de todos os governadores provinciais e daqueles que tinham comandos especiais, como Metelo Cabrito, em Creta, e Lúculo, na sua guerra contra os dois reis. Ninguém poderia contrariá-lo, a menos que a lei fosse revogada na Assembleia Plebeia. Deveria ficar com quinhentos navios pagos por Roma, mais todos aqueles que achasse necessário recrutar em cidades e estados costeiros; teria cento e vinte mil soldados romanos, mais todos aqueles que considerasse necessário recrutar nas províncias; teria ainda cinco mil cavaleiros; e vinte e quatro legados com estatuto propretoriano, todos escolhidos por ele, e dois questores; e cento e quarenta e quatro milhões de sestércios do Tesouro, entregues imediatamente, e mais ainda, sempre que ele assim quisesse. Em suma, a Plebe concedia-lhe um comando sem precedentes na história de Roma.

Porém, justiça seja feita, Pompeu não perdeu tempo com fátuas vaidades ou a enfatizar a sua vitória sobre homens como Catulo e Pisão; estava demasiado impaciente para lançar o que planeara até ao último pormenor. E, se precisasse de mais provas da fé do povo na sua capacidade para acabar, de uma vez por todas, com a pirataria, poderia encarar com orgulho o facto de o preço dos cereais ter baixado em Roma, no dia em que as leges Gabiniae foram aprovadas.

Embora alguns tivessem ficado intrigados com tal decisão, a verdade é que Pompeu não escolheu como legados os seus dois velhos lugares-tenentes na Hispânia, ou seja, Afrânio e Petreio. Procurou, pelo contrário, mitigar os receios dos boni, escolhendo homens irrepreensíveis como Sisena e Varrão, dois dos Mânlios Torquatos, Lêntulo Marcelino e o mais novo dos meio-irmãos da sua mulher Múcia Tércia, Metelo Nepos. Contudo, foi aos seus fiéis censores, Poplicola e Lêntulo Clodiano, que Pompeu deu os comandos mais importantes: Poplicola ficou com o mar Toscano e Lêntulo Clodiano obteve o mar Adriático. A Itália repousava entre eles, tranquila e segura.

Dividiu o mar Médio em treze regiões, atribuindo a cada uma delas um comandante e um vice-comandante, frotas, tropas, dinheiro. E, desta feita, não haveria insubordinação, tal como não haveria iniciativas particulares de nenhum dos seus legados.

— Arausio não se pode repetir — disse ele, no mais grave dos tons, na sua tenda de comando, com os legados reunidos, antes do início da grande empresa. — Se algum de vocês der um peido que seja numa direcção oposta às minhas instruções pessoais, pode estar certo de que lhe cortarei os tomates e de que o mandarei para o mercado de eunucos em Alexandria — disse Pompeu, e estava a falar a sério. O meu imperium é maius, o que significa que posso fazer o que muito bem entender. Todos, sem excepção, receberão ordens escritas tão pormenorizadas e completas, que ninguém terá de decidir qual será a ementa do jantar de depois de amanhã. Vocês vão fazer exactamente o que eu lhes mandar. Se algum de vós não está preparado para fazer o que eu mandar, então que fale já! Caso contrário, acabará a cantar com uma vozinha de soprano na corte do rei Ptolemeu! Entendido?

— Ele pode não ser elegante no estilo ou nas metáforas — disse Varrão ao seu colega literatas Sisena —, mas não há dúvida que tem um jeito notável para convencer as pessoas de que está a falar a sério.

— Não consigo deixar de imaginar um aristocrata todo-poderoso como Lêntulo Marcelino, executando trinados para grande deleite do rei Ptolemeu, o Flautista, em Alexandria — disse Sisena, com um ar ironicamente sonhador.

E desataram ambos a rir.

Ainda que a campanha não fosse propriamente motivo de riso, bem pelo contrário. De facto, a campanha avançou com uma velocidade estonteante e uma total eficiência, tal e qual como Pompeu havia planeado, e nenhum dos seus legados se atrevia a desrespeitar as ordens escritas que ele lhes enviava. Se a campanha que Pompeu conduzira em África para Sila deixara toda a gente surpreendida, por causa da sua rapidez e eficácia, a campanha contra os piratas deixava a campanha de África rigorosamente na sombra.

Pompeu começou pela ponta ocidental do mar Médio, e usou as suas frotas, os seus soldados e, acima de tudo, os seus legados, para varrer, naval e militarmente, aquelas águas. Não paravam de varrer, os Romanos, e os piratas, confusos e impotentes, procuravam fugir da potente vassoura; sempre que um destacamento pirata procurava refúgio nas costas de África, da Gália, da Hispânia ou da Ligúria, verificava, com espanto, que não havia refúgio nenhum, pois tinha um legado de Pompeu à sua espera. Governador indigitado de ambas as Gálias, o cônsul Pisão ordenara que nenhuma das províncias fornecesse a Pompeu auxílio de nenhum tipo, o que significava que o legado de Pompeu na região, Pompónio, teria de lutar duramente para conseguir obter bons resultados. Mas também Pisão teve de ceder, pois Gabínio ameaçou-o de que apresentaria lima lei para o afastar das suas províncias, caso ele não desistisse dos seus intentos. Como as suas dívidas estavam a crescer com uma rapidez assustadora, Pisão precisava dos Gauleses para recuperar das suas perdas. Por isso acabou por desistir.

O próprio Pompeu acompanhou a acção da poderosa vassoura romana desde a ponta ocidental à ponta oriental, visitando Roma a meio da campanha, de forma a que a sua visita coincidisse com as acções de Gabínio contra Pisão. E nunca teve tanto êxito como quando pediu a Gabínio, publicamente, que não fosse tão severo.

— Mas que actor que ele me saiu...! — disse César à mãe, embora não houvesse ponta de censura no seu comentário.

Aurélia, contudo, não estava interessada nos acontecimentos do Fórum. — Preciso de falar contigo, César — disse ela, afundada na sua cadeira, no tablinum do filho.

Adeus ao divertimento; César reprimiu um suspiro. — Sobre quê?

— Servília.

— Não há nada a dizer, mater.

— Falaste a Crasso de Servília? — foi a resposta da mãe. César franziu o sobrolho. — A Crasso? Não, claro que não.

— Então porque é que Tertula veio ontem ter comigo, pensando que conseguia pescar alguma coisa? — disse Aurélia, incapaz de reprimir um breve riso. — Coitada, a verdade é que não tem jeito nenhum para a pesca...! Deve ser por causa dos seus antecedentes sabinos. Os montes não são bons para a pesca, excepto quando o pescador é mesmo bom... Costumam usar uma varinha de salgueiro.

— Juro que não disse nada a Crasso, mater.

— Pois bem, Crasso suspeitou e comunicou a suspeita à mulher. Continuas a preferir manter essa união secreta, não é verdade? E pensas reatá-la depois de a criança nascer?

— É essa a minha intenção.

— Nesse caso, sugiro-te que atires alguma poeira para os olhos de Crasso. Não estou preocupada com o homem, nem com a sua esposa sabina, mas os boatos começam sempre por algum lado e isto já é um começo.

O rosto de César franzia-se cada vez mais.

— Malditos boatos! Não estou especialmente preocupado com o meu papel nesta história, mas não nutro qualquer ressentimento contra o pobre Silano, e, além disso, seria incomparavelmente melhor se os nossos filhos ignorassem por completo esta situação. A paternidade não deverá ser posta em causa, pois eu e Silano somos brancos e louros e Servília é muito morena. Seja qual for o aspecto da criança, por certo será tão parecida comigo como com Silano, isto se não sair à mãe.

— Sem dúvida. Concordo contigo. Embora preferisse, César, que tivesses arranjado outra mulher!

— E arranjei, agora que Servília está demasiado grávida.

— A mulher de Catão? César pôs um ar contrafeito.

— Sim, a mulher de Catão. Uma chata.

— Coitada. Para sobreviver na casa de Catão, só podia ser uma chata.

César descansou as mãos sobre a secretária; de súbito, porém, assumiu um tom pragmático.

— Muito bem, mater, tens sugestões a fazer?

— Acho que devias casar-te outra vez.

— Não quero.

— Isso sei eu! Mas é a melhor maneira de atirar alguma poeira para os olhos de toda a gente. Se esperamos que um boato se espalhe, será melhor criarmos um outro boato capaz de eclipsar o primeiro.

— Muito bem, eu caso.

— E há alguma mulher com quem gostasses de casar?

— Nem uma, mater. Considera-me barro nas tuas mãos. Esta resposta agradou imenso a Aurélia; soprou de satisfação.

— Óptimo! — exclamou.

— Dize lá o nome dela. Quem é?

— Pompeia Sila.

— Por todos os deuses, mater, todas menos essa!

— Que disparate! Pompeia Sila é a mulher ideal para ti.

— Pompeia Sila tem a cabeça tão vazia que até podíamos usá-la como caixa de dados — ripostou César, irado. — Além disso, é uma mulher dispendiosa, preguiçosa e um monumento de estupidez.

— A esposa ideal — contrapôs Aurélia. — Os teus casos extramatrimoniais não a apoquentarão, pois ela é demasiado tonta para entender seja o que for; além disso, possui uma fortuna que chega para todas as suas necessidades. Por outro lado, é tua segunda prima, pois é filha de Cornélia Sila e neta de Sila, e os Pompeus Rufos são um ramo mais respeitável dessa família picentina do que o ramo de Magno. Finalmente, Pompeia Sila já não é nenhuma menina — mas eu também não te proporia uma noiva inexperiente.

— Nem eu a queria...! — retorquiu César. — Pompeia Sila tem filhos?

— Não, apesar de o seu casamento com Caio Servílio Vátia ter durado três anos. Mas não creio que Caio Vátia fosse um homem saudável. O pai dele — o irmão mais velho de Vátia Isáurico, não sei se estás lembrado — morreu demasiado jovem e nem chegou a entrar para o Senado. Quanto ao filho, não passou do cargo de cônsul substituto. E morreu antes de assumir funções — o que é típico da sua carreira. No entanto, isso significa que Pompeia Sila é viúva, logo, mais respeitável do que uma mulher divorciada.

Não há dúvida, pensou Aurélia, ele já está a aceitar melhor a ideia... De facto, César já não rebatia violentamente os argumentos da mãe; finalmente acolhera a ideia, e, depois do acolhimento, viria a reflexão. — Que idade tem ela? — perguntou César lentamente.

— Vinte e dois anos, creio.

— E Mamerco e Cornélia Sila aprovam? Bom, isto para não falar dos dois Quintos Pompeus Rufos, o meio-irmão e o irmão inteiro de Pompeia Sila...

— Mamerco e Cornélia Sila perguntaram-me se tu estarias interessado em casar com ela... e foi assim que me ocorreu esta ideia

— disse Aurélia. — Quanto aos irmãos, o meio-irmão só não quer que Mamerco mande Pompeia Sila para casa dele, e o outro é demasiado jovem para ser consultado.

César riu-se, mas o seu riso traduzia um claro desagrado.

— Estou a ver que essa família decidiu conspirar contra mim...!

e acrescentou, já num tom mais sério: — No entanto, há um problema, mater. Não estou a ver que uma ave jovem e exótica como Pompeia Sila queira viver num rés-do-chão, mesmo no meio do bairro de Subura. É muito capaz de te dar grandes, terríveis dores de cabeça. Cinila era tanto tua filha como tua nora, nunca teria disputado o teu lugar de chefia, nem mesmo que vivesse cem anos. Ao passo que uma filha de Cornélia Sila é capaz de ter ideias mais grandiosas...

— Não te preocupes comigo, César — disse Aurélia, levantando-se; estava satisfeita, pois sabia que ele ia aceitar. — Pompeia Sila fará o que eu lhe mandar e terá de me suportar a mim e a este apartamento.

E foi assim que Caio Júlio César se casou pela segunda vez, precisamente com a neta de Sila. O casamento foi uma cerimónia tranquila e reservada, a que apenas assistiu a família mais próxima, e decorreu no domus de Mamerco, no Palatino; quem mais rejubilava era o meio-irmão da noiva, que assim se via livre do terror de a albergar em sua casa.

Pompeia era muito bela: quanto a isso, toda a Roma concordava. E César, um noivo nada apaixonado, decidiu que Roma tinha razão. Pompeia tinha um cabelo ruivo-escuro e uns olhos de um verde muito vivo, uma espécie de compromisso, concluiu César, entre o louro-arruivado da família de Sila e o ruivo-cenoura dos Pompeus Rufos; o rosto era o clássico rosto oval, a estrutura óssea era boa; a figura era decididamente interessante, e a estatura considerável. Porém, naqueles olhos tão verdes como a erva orvalhada, não brilhava uma centelha que fosse de inteligência. A suavidade da pele dava ao seu rosto o aspecto do mármore polido. Um rosto vazio. Uma casa vazia, para alugar, pensou César, enquanto a levava nos seus braços, no meio de um divertido grupo de convidados, desde o Palatino até Subura, fazendo o possível por dar a impressão de que não lhe custava nada transportá-la daquela maneira. Nada o obrigava a levá-la assim; de facto, a tradição mandava apenas que o noivo pegasse na noiva quando esta entrasse na sua nova casa, mas César sentia a compulsão de provar que era melhor do que todos os outros, e isso incluía proezas físicas que não eram as mais adequadas ao seu corpo esguio.

Quem ficou muito impressionada com a proeza foi Pompeia, que, no meio de risinhos e arrulhos, não parava de atirar mancheias de pétalas de rosa para o chão que César ia pisando. A noite nupcial, em contrapartida, foi tudo menos uma proeza; Pompeia pertencia àquela escola de mulheres que acreditava que, na cama, bastava deitarem-se de costas, abrir as pernas e deixar que as coisas acontecessem. Ah, sim, pensou César, claro que aqueles belos seios e aqueles deliciosos pêlos púbicos ruivo-escuros — uma novidade! — o excitavam. Só que... só que Pompeia Sila não era propriamente... suculenta. Nem grata era, pensou César; essa ausência de gratidão, segundo César, deixava-a a milhas de distância de uma imensidão de mulheres, incluindo a pobre Atília, a insípida Atília, que quase nem peito tinha, e cujo fogo amoroso fora inteiramente extinto por cinco anos de casamento com aquele horrível Catão.

— Não te apetece — perguntou ele a Pompeia, erguendo-se sobre um cotovelo para a fitar — um talo de aipo?

As pestanas absurdamente longas e negras de Pompeia agitaram-se de surpresa. — Um talo de aipo? — perguntou ela, sem entender.

— Sim, um talo de aipo. Podias ir roendo o talo de aipo, enquanto eu faço o trabalho todo — disse ele. — Ficavas com alguma coisa para fazer e eu sempre ouviria algum ruído teu.

Pompeia desatou num risinho nervoso, porque um jovem que em tempos se apaixonara por ela lhe dissera que os seus risinhos eram o mais belo som do universo, tão belo como o som da água a correr sobre as pedras do leito de um riacho. — Ai que tonto que tu és...! — disse ela.

César deixou-se cair de novo na cama.

— Quanto a isso, tens toda a razão — disse ele. — Sou mesmo tonto.

E à mãe, de manhã, só disse isto: — Não esperes ver-me muito cá por casa, mater.

— Não me digas... — disse Aurélia, tranquila. — Foi assim tão mau?

— Preferia masturbar-me! — atirou-lhe ele, e desapareceu antes que recebesse uma descompostura pela sua grosseria.

César verificara já que o cargo de zelador da Via Ápia lhe estava a custar muito mais dinheiro do que esperara, apesar dos avisos da mãe. A grande via que ligava Roma a Brindísio clamava por atenções e carinhos, já que nunca fora adequadamente mantida. Embora tivesse de suportar os passos de inúmeros soldados e as rodas de incontáveis carros de transporte de bagagens, a Via Ápia existia há já tanto tempo que ninguém lhe ligava muito; e era sobretudo para lá de Cápua que a velha estrada mais sofria.

Os questores do Tesouro daquele ano mostraram-se surpreendentemente compreensivos, apesar de um deles ser o jovem Cepião, cuja ligação a Cato e aos boni predispusera César a pensar que teria de lutar incessantemente por fundos. Estes acabaram por aparecer, mas não chegavam, nunca chegariam. Por isso, quando os custos da reconstrução de pontes e da repavimentação excederam os fundos públicos, César contribuiu com o seu próprio dinheiro. Não havia nada de invulgar nisso; de facto, Roma estava sempre à espera de dádivas privadas.

Como seria de prever, esta obra exerceu sobre César uma enorme atracção; daí que a tenha supervisionado pessoalmente e que tenha executado todos os projectos de engenharia. Depois de se ter casado com Pompeia, quase não visitava Roma. Claro que acompanhava os progressos de Pompeu na fabulosa campanha contra os piratas; e tinha de admitir que dificilmente teria feito melhor. Chegou mesmo a aplaudir a clemência de Pompeu quando a guerra assolou a costa da Cilícia; de facto, Pompeu pegou nos seus milhares de cativos e reinstalou-os em cidades desertas longe do mar. Na realidade, Pompeu fizera tudo bem, desde garantir que o seu amigo e amanuense Varrão fosse condecorado com uma Coroa Naval, até controlar a partilha dos despojos para que nenhum legado levasse mais do que aquilo a que tinha direito (e contribuindo assim para que o Tesouro enchesse consideravelmente os seus cofres). Conquistara a elevada cidadela de Coracésio usando o melhor processo, ou seja, recorrendo ao suborno de alguns dos elementos que a ocupavam; e quando a cidadela caiu, os poucos piratas que foram poupados ficaram sem dúvidas quanto a uma realidade evidente: Roma tinha razão quando chamava àquele mar Maré Nostrum, o Nosso Mar. A campanha estendeu-se ao Euxino e também aí Pompeu devastou o inimigo. Megadates e o seu irmão gémeo Farnaces foram executados; o abastecimento cerealífero a Roma estava garantido e livre de futuros perigos.

Só em Creta Pompeu falhara, e isso ficara a dever-se a Metelo Cabrito, o qual se recusara terminantemente a aceitar o imperium de Pompeu, tratara rudemente o seu legado Lúcio Octávio quando este aparecera para resolver os conflitos, e fora considerado o causador da morte de Lúcio Cornélio Sisena. Pompeu poderia ter afastado Metelo, mas isso significaria uma guerra entre os dois generais romanos, como aliás Metelo deixou bem claro. Por isso, Pompeu acabou por escolher uma via sensata: deixou Creta a Metelo e, desse modo, concordou tacitamente em partilhar uma minúscula porção de glória com o inflexível neto de Metelo Macedónico. É que, como Pompeu dissera a César, aquela campanha contra os piratas era, para ele, apenas um exercício, uma maneira de aquecer os músculos antes de se lançar numa missão mais grandiosa.

Pompeu não fez por isso nada para regressar a Roma; permaneceu na província da Ásia durante o Inverno, tratando de a controlar e de a levar a aceitar uma nova onda de cobradores de impostos que os seus próprios censores tinham tornado possível. Claro que Pompeu não tinha qualquer necessidade de regressar a Roma. Preferia não estar em Roma. Tinha outro tribuno da plebe da sua confiança, agora que Aulo Gabínio se retirara — para dizer a verdade, tinha até dois. Um deles, Caio Mémio, era filho da sua irmã e do primeiro marido desta, aquele Caio Mémio que morrera na Hispânia ao serviço de Pompeu, na guerra contra Sertório. O outro, Caio Manílio, era dos dois o mais capaz, e aquele que tinha a tarefa mais espinhosa: obter para Pompeu o comando contra os reis Mitridates e Tigranes.

Essa tarefa — pensava César, depois de ter achado mais prudente residir em Roma durante esses meses de Dezembro e Janeiro — era mais fácil do que aquela que Gabínio tivera de enfrentar — simplesmente porque Pompeu derrotara a sua oposição senatorial, liquidando os piratas no espaço de um curto Verão, gastando muito menos do que poderia ter gasto, e com tal rapidez que nem precisou da doação de terras para os militares, nem de bónus para as cidades e os estados contribuintes, nem de compensações para frotas emprestadas. No final desse ano, Roma estava pronta para dar a Pompeu tudo o que ele quisesse.

Em contraste, Lúcio Licínio Lúculo suportara um ano terrível no campo de batalha, sofrendo derrotas, revoltas, desastres. Uma tal situação deixava-o a ele e aos seus agentes em Roma sem capacidade para contrariar as reivindicações de Manílio, a saber, que a Bitínia, o Ponto e a Cilíciadeviam ser entregues imediatamente a Pompeu, e que Lúculo devia ser despojado do seu comando e regressar a Roma em desgraça. Glabrião perderia o controlo da Bitínia e do Ponto, mas isso não poderia impedir a nomeação de Pompeu, pois Glabrião, movido pela ganância, correra para a sua província nos primeiros tempos do seu consulado e, por isso mesmo, não prestara qualquer serviço a Pisão. Quanto a Quinto Márcio Rei, governador da Cilícia, também não fizera nada de nota. O Oriente estava nas mãos de Pompeu, o Grande.

Não que Catulo e Hortênsio não tivessem tentado opor-se. Travaram uma batalha oratória no Senado e nos Comitia, continuando a opor-se a comandos extraordinários e ilimitados. Manília propôs que fosse concedido uma vez mais a Pompeu um imperium maius (o que o deixaria acima de qualquer governador) e que fosse aprovada uma cláusula que permitiria a Pompeu fazer a paz e a guerra sem precisar de consultar ou pedir autorização ao Senado ou ao Povo. Desta feita, porém, César não foi o único a apoiar Pompeu. Recentemente nomeado pretor do Tribunal de Concussão, Cícero fez também ouvir a sua voz no Senado e nos Comitia; o mesmo fizeram os censores Poplicola e Lêntulo Clodiano, e Caio Escribónio Curió, e — um verdadeiro triunfo! — os consulares Caio Cássio Longino e nem mais nem menos do que Públio Servílio Vátia Isáurico! Como poderiam o Senado ou o Povo resistir? Pompeu obteve o seu comando e até derramou uma ou duas lágrimas quando soube das novidades. Ah, o peso terrível daquelas comissões especiais! Ah, daria tudo para poder voltar para casa, para poder levar de novo uma vida pacífica e tranquila! Ah, quanto cansaço!

Servília deu à luz a sua terceira filha no princípio de Setembro, uma menina de tez branca e cabelo louro cujos olhos prometiam permanecer azuis. Como Júnia e Junila já eram crescidas e já estavam, portanto, habituadas aos seus nomes, esta Júnia seria chamada Tertia, que significava Terceira e, além disso, tinha um belo som. A gravidez arrastara-se terrivelmente depois de César, em meados de Maio, ter decidido deixar de vê-la; além disso, os últimos meses coincidiram com o tempo quente e Silano achou que não seria prudente partir para a beira-mar, porque Servília já não era propriamente uma rapariga. Silano continuara a mostrar-se afável e compreensivo. Quem os visse, nunca suspeitaria que as coisas estavam mal entre eles. Apenas Servília reconhecia um novo olhar nos olhos do marido, um olhar magoado e triste; porém, como a compaixão não fazia parte da sua natureza, limitou-se a considerar aquela mudança no olhar de Silano como um facto normal da vida e, por conseguinte, não se comoveu com a mágoa e a tristeza do marido.

Sabendo que os mexericos acabariam por levar a notícia do nascimento da filha a César, Servília não fez qualquer tentativa para entrar em contacto com ele. De qualquer forma, não seria fácil, tanto mais que César tinha agora uma nova esposa. Fora um choque terrível para Servília. De súbito, num céu muito azul, surgira uma bola de fogo que a escolhera como alvo, que a matara, que a reduzira a cinzas. O ciúme consumia-a, tanto mais que conhecia a jovem que casara com César. Uma mulher sem inteligência, sem profundidade

— mas que era tão bela, com aquele cabelo ruivo-escuro e aqueles olhos verdes tão cheios de vida! E ainda por cima neta de Sila. Rica. Todas as relações certas e um pé em cada campo senatorial. Que decisão inteligente, a de César! Além de satisfazer os sentidos, elevaria, pelo casamento, o seu estatuto político! Não tendo maneira de conhecer o estado de espírito do seu amado, Servília concluiu automaticamente que aquele era um casamento por amor. Maldito César! Como poderia viver sem ele? Como poderia viver, sabendo que ele gostava mais de outra mulher? Como poderia ela viver?

Bruto via Júlia regularmente, como seria de esperar. Com dezasseis anos, e já oficialmente um homem, Bruto sentia-se revoltado com a gravidez da mãe. Ele, um homem, tinha uma mãe que ainda... que ainda... Por todos os deuses, que constrangimento, que humilhação!

Mas Júlia via as coisas de uma maneira diferente. — É bom para ela e para Silano — disse a menina de nove anos, com um terno sorriso. — Não devias estar zangado com ela, Bruto. Que acontecerá se, depois de termos estado casados durante vinte anos, tivermos um filho inesperado? Entenderás a ira do teu filho mais velho, se isso acontecer?

A pele de Bruto estava ainda pior do que um ano antes, sempre num estado de erupção, com feridas amarelas e vermelhas, feridas que lhe doíam ou lhe faziam comichão, que ele arranhava ou espremia ou dilacerava. O ódio que sentia por si mesmo alimentara o ódio que sentia perante o estado da mãe, e era difícil livrar-se dele, perante aquela questão razoável e impregnada de tolerância.

— Eu entenderia a ira do meu filho, porque a sinto agora. Mas percebo onde queres chegar.

— Então, já é um bom começo — disse a pequena sábia.

— Servília já não é nenhuma rapariga, explicou-me a minha avó.

E também me disse que, por isso mesmo, a tua mãe precisava de muita ajuda e simpatia.

— Vou tentar — disse Bruto. — Por ti, Júlia — e logo foi para casa, convencido a tentar.

Mas as tentativas de Bruto passaram para um plano muito secundário, quando surgiu a grande oportunidade de Servília, menos de duas semanas depois de ter dado à luz Tércia. O seu irmão Cepião foi visitá-la, levando-lhe notícias muito interessantes. Como fora eleito questor urbano, Cepião tinha sido escolhido, algum tempo antes, para assistir Pompeu na campanha contra os piratas; nunca pensara, porém, que essa tarefa o obrigasse a deixar Roma.

— Mandaram-me chamar, Servília! — exclamou ele, com um olhar e um sorriso radiantes. — Cneu Pompeu quer receber em Pérgamo uma boa soma de dinheiro e também as últimas contas e eu fui escolhido para fazer a viagem. Não é uma maravilha? Posso ir por terra, pela Macedónia, e visitar o meu irmão Catão. Tenho imensas saudades dele!

— Uma bela notícia para ti — disse Servília, com o ar mais indiferente deste mundo, pois se havia coisa que não lhe interessava era aquela paixão de Cepião por Catão, que já durava há vinte e sete anos.

— Pompeu não me espera antes de Dezembro. Por isso, se for já, poderei estar muito tempo com Catão antes de seguir para Pérgamo — prosseguiu Cepião, tão feliz como desde que recebera a notícia. — O tempo aguentar-se-á até eu deixar a Macedónia e poderei continuar por terra. Odeio o mar!

— Mas o mar, pelo que ouvi dizer, já está livre de piratas.

— Obrigado, mas prefiro terra firme.

Cepião quis depois conhecer Tércia; e muito pairou e brincou com a criança, tanto por genuína afeição como por dever, não deixando de comparar a filha da irmã com a sua própria filha.

— Que maravilha de criança! — disse ele, preparando-se para partir. — Tem uma constituição física soberba. A ossatura, em particular, é notável. A quem é que ela sairá?

Ah, pensou Servília, afinal não sou só eu que vejo semelhanças com César! A verdade, porém, é que, embora lhe corresse nas veias o sangue dos Pórcios Catões, Cepião desconhecia por completo a malícia, e o seu comentário fora inteiramente inocente.

A essa suspeita, associou Servília uma sequela usual, a indignação que sentia por Catão ter herdado os frutos do Ouro de Tolosa, seguida de um tremendo rancor pelo facto de Bruto não ter podido herdar rigorosamente nada. Cepião, o cuco no ninho da sua família! Cepião, irmão de Catão, e seu meio-irmão apenas.

Há meses que Servília não conseguia concentrar-se noutra coisa senão na perfídia de César, que casara com aquela jovem e bela pateta; mas estas reflexões sobre o destino do Ouro de Tolosa fluíam agora por um canal completamente diferente, liberto de todas as nuvens das emoções desencadeadas por César. Nesse instante, de facto, Servília olhou pela janela aberta e viu Sinão correndo alegremente pela colunata, no outro extremo do jardim do peristilo. Servília adorava aquele escravo, embora não num sentido carnal. Sinão pertencera ao seu marido, mas, pouco tempo depois do casamento, Servília, com os modos mais doces de que era capaz, pedira a Silano que lhe desse o escravo. Transferida a propriedade, Servília chamara Sinão e informara-o da alteração do seu estatuto; previra que ele reagisse horrorizado, mas, no fundo, tinha a esperança de que a reacção não fosse bem essa. E, de facto, não foi; por isso ficara a adorar Sinão. Na realidade, o escravo acolhera a notícia com alegria e não com terror.

— Nós somos feitos da mesma massa — comentara ele, impudentemente.

— Se isso é verdade, Sinão, então não te esqueças disto: eu estou acima de ti, eu é que detenho o poder.

— Eu compreendo — respondeu ele, com um sorriso inchado de orgulho. — É uma boa notícia. Enquanto Décimo Júnio foi meu amo, senti sempre a tentação de me exceder e isso poderia ter resultado na minha queda. Sendo tu agora a minha ama e senhora, nunca me esquecerei de vigiar tudo o que faço. É uma óptima notícia! Mas não te esqueças, por favor, de que estou inteiramente às tuas ordens.

E, de quando em quando, Servília não se esquecia de lhe dar certas ordens. Catão, como ela sabia desde a infância, não tinha medo de nada, excepto de aranhas grandes e peludas, que o deixavam em tal estado de pânico que nem conseguia dizer coisa com coisa. Mandou por isso Sinão para fora de Roma, a fim de procurar as maiores e mais peludas das aranhas; Sinão encontrou-as e recebeu uma bela maquia por as ter espalhado pela casa de Catão, desde a cama ao divã, passando pelas gavetas da secretária. E nem uma única vez foi descoberto. A irmã de Catão, Pórcia, que estava casada com Lúcio Domício Aenobarbo, tinha um horror incurável de besouros. Sinão apanhou besouros dos maiores e espalhou-os pela casa dela. Servília ordenou-lhe, mais tarde, que despejasse milhares de vermes ou pulgas ou moscas ou grilos ou baratas nas residências de Catão ou Pórcia; e, por cada uma dessas acções, enviou mensagens anónimas contendo maldições relacionadas com cada um dos bichos envolvidos. Porém, desde que César entrara na sua vida, tais diversões tinham-se tornado desnecessárias e Sinão ficara praticamente desempregado. Não fazia rigorosamente nada, pois o manto de Servília, sua ama e senhora, protegia-o.

— Sinão! — chamou ela.

Ele parou, virou-se, continuou a correr pela colunata até chegar à sala de estar de Servília. Sendo um homem bonito, Sinão possuía uma certa graça e despreocupação que o tornavam agradável, mesmo aos olhos daqueles que não o conheciam bem; Silano, por exemplo, continuava a ter por ele a maior consideração, e o mesmo sucedia com Bruto. Franzino de constituição, era moreno de pele e os seus olhos e cabelo eram castanho-claros. Orelhas pontiagudas, queixo pontiagudo, dedos pontiagudos. Não admirava que muitos dos criados de Silano ou Servília fizessem o sinal para afastar o mau olhado, sempre que se cruzavam com Sinão. Havia nele algo de sátiro.

— Domina? — perguntou ele, da soleira da porta.

— Fecha a porta, Sinão. E depois corre as persianas.

— Que bom, que bom! Trabalho! — exclamou ele, obedecendo.

— Senta-te.

Sinão sentou-se, fitando-a com uma mistura de descaramento e expectativa. Aranhas? Baratas? Quem sabe, talvez ela agora tivesse decidido subir um pouco mais... Cobras?

— Que me dizes se eu te desse a liberdade, mais uma bolsa bem recheada de ouro? — perguntou ela.

Disso é que ele não estava à espera. Por um momento, o sátiro desapareceu, revelando uma criatura quase-humana ainda que menos sedutora, uma criatura que parecia saída de um pesadelo de criança. Depois, também essa criatura desapareceu; Sinão parecia apenas atento e interessado.

— Gostaria muito que isso acontecesse, domina.

— Tens alguma ideia do que eu te pediria em troca?

— Assassínio, no mínimo — respondeu ele, sem hesitar.

— Precisamente — disse Servília. — Sentes-te tentado? Sinão encolheu os ombros. — Quem não se sentiria, na minha posição?

— Para matar alguém é preciso coragem.

— Eu sei. Mas coragem não me falta.

— Tu és Grego e os Gregos ignoram a honra. Quero dizer com isto que os Gregos não costumam cumprir os contratos que assumem.

— Eu cumprirei, domina, se tudo o que tenho a fazer é matar alguém e desaparecer com a minha bolsa bem recheada de ouro.

Servília estava reclinada num divã e, até esse instante, não alterou nem um pouco a sua posição. Porém, ao receber tal resposta, endireitou-se; os seus olhos não podiam estar mais frios e fixos. — Eu não confio em ti, porque não confio em ninguém — disse ela. — No entanto, este assassínio não deverá ser cometido em Roma, nem mesmo em Itália. Terá de ser cometido algures entre Tessalónica e o Helesponto, um local ideal para qualquer pessoa desaparecer. Mas haverá sempre alguma maneira de te controlar, Sinão. Não te esqueças disso. Receberás agora uma parte do teu prémio; o restante, ser-te-á enviado para um determinado local na província da Ásia.

— Ah, domina, mas como é que eu sei que cumprirás a tua parte? — perguntou Sinão, no tom mais brando possível.

As narinas de Servília incharam, um sinal inconsciente de altivez. — Eu sou uma patrícia da família dos Servílios Cepiões — disse ela.

— Eu tenho isso em conta, domina.

— É a única garantia de que precisas para saber que cumprirei a minha parte.

— Que tenho de fazer?

— Em primeiro lugar, tens de obter um veneno da melhor qualidade. Ou seja: um veneno que não falhe e que não levante suspeitas.

— Não será difícil.

— O meu irmão, Quinto Servílio Cepião, parte muito em breve para o Oriente — disse Servília, mantendo um tom de voz firme, sem o mínimo sobressalto. — Pedir-lhe-ei que te deixe acompanhá-lo, pois preciso que me vás tratar de certos assuntos na província da Ásia. Ele estará de acordo em levar-te, obviamente. Não há nenhuma razão para que me dê uma resposta negativa. Cepião levará documentos e contas para Cneu Pompeu Magno, que se encontra em Pérgamo. Aviso-te desde já que não levará dinheiro: escusas, por isso, de alimentar tentações. É que, Sinão, é imperativo que faças aquilo que te mando e que depois desapareças sem causar a menor perturbação. Catão, o irmão de Cepião, é tribuno dos soldados na Macedónia. Catão é um indivíduo completamente diferente de Cepião. Desconfiado e duro, implacável quando ofendido. Não tenho a mínima dúvida de que Catão irá para leste a fim de tratar das exéquias do meu irmão Cepião. E quando ele lá chegar, Sinão, não deverá nutrir a menor suspeita quanto à morte do irmão. Ou seja, terá de ficar a pensar que foi a doença que pôs termo à vida do meu irmão Quinto Servílio Cepião.

— Compreendo — disse Sinão, sem mover um único músculo.

— Compreendes mesmo?

— Completamente, domina.

— Só deves ter um dia para obter o veneno. Consegues?

— Consigo.

— Óptimo. Agora, vai a casa do meu irmão e pede-lhe que me visite ainda hoje, porque tenho um assunto urgente a tratar com ele — disse Servília.

Sinão retirou-se. Servília deitou-se no divã, fechou os olhos e sorriu. Estava ainda assim deitada quando Cepião reapareceu; de facto, os dois irmãos eram quase vizinhos.

— Que se passa, Servília? — perguntou ele, preocupado. — O teu criado pareceu-me muito nervoso.

— Não me digas...! Espero que não te tenha assustado! — retorquiu Servília, rispidamente.

— Não, não, garanto-te que não me assustou.

— Ficaste aborrecido com ele? Cepião pestanejou.

— Por que havia de ficar?

— Não sei, podias ter ficado — disse Servília, afagando a beira do divã. — Senta-te, irmão. Queria pedir-te um favor e certificar-me de que já fizeste uma certa coisa.

— Qual é o favor?

— Sinão é o criado em que mais confio e acontece que tenho de o mandar a Pérgamo para me tratar de certos assuntos. Devia ter-me lembrado disso quando aqui estiveste, ainda há pouco, mas a verdade é que não me ocorreu. Peço-te desculpa por te ter obrigado a voltar cá. Importas-te que Sinão viaje na tua comitiva?

— Claro que não! — exclamou Cepião, sincero como sempre.

— Esplêndido... — ronronou Servília.

— E de que querias certificar-te?

— Queria certificar-me de que fizeste o teu testamento — disse Servília.

Cepião riu-se.

— Ai era isso? Mas tu sabes perfeitamente que qualquer Romano sensato deposita o seu testamento nas vestais logo que chega à idade adulta...!

— Mas é um testamento normal? Tens mulher e uma filha, mas não te esqueças de que, na tua casa, não tens qualquer herdeiro.

Cepião suspirou.

— Fica para a próxima, Servília, fica para a próxima. Hortênsia ficou desapontada por ter tido uma menina, mas ela é tão querida que Hortênsia logo esqueceu a decepção. Por outro lado, teve um parto maravilhoso. De maneira que é muito provável que tenhamos mais filhos e, entre eles, uma série de rapazes.

— Nesse caso, deixaste tudo para Catão — disse Servília, como se não tivesse dúvidas quanto a isso.

Naquele rosto, tão parecido com o de Catão, espelhou-se o horror. — Para Catão? — perguntou ele, com uma voz aguda. — Eu não posso deixar a fortuna dos Servílios Cepiões a um Pórcio Catão, por muito que o ame! Não, Servília! Eu deixei-a a Bruto, porque Bruto não se importará de ser adoptado como um Servílio Cepião, nem de ficar com o nome da família. Mas Catão?! — e desatou a rir. — Achas que o nosso irmão mais novo consentiria em usar um nome que não fosse seu?

— Não, de facto não me parece que ele consentisse... — disse Servília, e riu-se também um pouco. Depois, os seus olhos ficaram húmidos e os seus lábios tremeram até. — Ah, mas que conversa mais mórbida! De qualquer modo, foi melhor assim. Tinha de falar contigo. É que... nunca se sabe o que pode acontecer...

— Mas Catão é o meu executor testamentário — disse Cepião, preparando-se para deixar a mesma sala pela segunda vez no espaço de uma hora. — Se eu morrer, ele fará o que for necessário para que Hortênsia e a nossa filha herdem tanto quanto a lex Voconia permite e para que Bruto seja devidamente contemplado.

— Mas que assunto mais ridículo...! — disse Servília, levantando-se para o acompanhar até à porta e surpreendendo-o com um beijo. — Obrigada por teres consentido em levar Sinão contigo e sobretudo por teres apaziguado os meus receios. São receios disparatados, eu sei. Tu hás-de voltar!

Servília fechou a porta e por um momento sentiu-se tão fraca que chegou a vacilar. Sim, ela sempre tivera razão! Bruto era herdeiro de Cepião porque Catão nunca admitiria ser adoptado por um clã patrício, como era o caso do clã dos Servílios Cepiões! Ah, que dia maravilhoso! Já nem se sentia tão magoada com o abandono de César...

Ter Marco Pórcio Catão na sua equipa (ainda que os seus deveres se limitassem às legiões dos cônsules) era uma provação que o governador da Macedónia nunca imaginara possível. Se o jovem tivesse sido nomeado graças a algum empenho pessoal, por certo tê-lo-ia mandado para casa, mesmo que o seu protector fosse Júpiter Optimus Maximus; mas fora o Povo a nomeá-lo na Assembleia Popular e, por isso mesmo, o governador Marco Rúbrio só tinha uma solução: suportar até ao fim a presença de Catão.

Como poderia alguém lidar com um jovem que se metia onde não era chamado, que a todo o momento fazia perguntas, que queria saber porque é que as coisas iam passar-se assim e não assado, porque é que determinado artigo era mais caro nos livros de contabilidade do que no mercado, porque é que fulano ou sicrano reivindicava isenções fiscais? Catão nunca parava de perguntar porquê. Se lhe lembravam, com todo o tacto, que as suas investigações não tinham qualquer interesse para as legiões dos cônsules, Catão respondia que tudo na Macedónia pertencia a Roma, e que Roma, personificada por Rómulo, o elegera como um dos seus magistrados. Logo, tudo na Macedónia lhe dizia respeito, tanto do ponto de vista legal, como do ponto de vista ético.

Mas o governador Marco Rúbrio não estava sozinho. Os seus legados e tribunos militares (eleitos ou não), os seus escribas, funcionários administrativos, publicani, amantes e escravos, todos eles detestavam Marco Pórcio Catão. O qual, ainda por cima, era um verdadeiro fanático por trabalho; para se ver livre dele, o governador chegara a mandá-lo para um posto remoto da província; ao fim de dois ou três dias, já Catão estava de volta, pois não precisara de mais tempo para executar cabalmente a sua missão.

A maior parte das suas conversas — se se podia chamar conversas àquelas arengas aos berros típicas de Catão — girava em torno do bisavô, Catão, o Censor, por cujos hábitos antiquados e incrível frugalidade Catão sentia um apreço sem limites. E como Catão era Catão, não deixava de copiar o Censor em todos os aspectos, excepto um; assim, seguindo o exemplo do bisavô, caminhava em vez de cavalgar, comia pouco e só bebia água, tinha um modo de vida igual ao de um soldado raso e limitava-se a usar um escravo para atender às suas necessidades.

Qual era então a sua única infracção aos princípios do bisavô? Catão, o Censor, odiara a Grécia, os Gregos, tudo o que fosse grego, ao passo que o jovem Catão admirava os Gregos e não escondia a sua admiração. Esta inclinação valia-lhe o escárnio daqueles que tinham de suportar a sua presença na Macedónia grega, todos eles desejosos de se verem livres de tão incómoda personagem. Não havia, porém, escárnio capaz de perturbar as sólidas posições de Catão; se alguém o acusava de ter traído os princípios do bisavô, ao adoptar a mentalidade grega, Catão limitava-se a ignorar o crítico, considerando-o uma criatura insignificante. Infelizmente, aquilo que Catão considerava importante era precisamente o que mais irritava os seus superiores, pares e inferiores. Catão criticava toda a gente que, segundo ele, vivia confortavelmente, e era muito capaz de detectar sinais desse suposto conforto tanto no modo de vida do governador como no dia-a-dia de um centurião. Como residia numa casa de adobe, com apenas duas divisões, nos arredores de Tessalónica, e a partilhava com o seu caro amigo Tito Munácio Rufo, também tribuno dos soldados, ninguém podia dizer, com efeito, que Catão vivia confortavelmente.

Chegara a Tessalónica em Março e, em fins de Maio, o governador já tinha concluído que, se não se visse livre de Catão pelos meios normais, teria de matá-lo. As queixas continuavam a acumular-se na sua secretária: queixas de publicam cobradores de impostos, mercadores de cereais, contabilistas, centuriões, legionários, legados e uma série de mulheres que Catão acusara de não serem castas.

— Teve mesmo o descaramento de me dizer que se tinha mantido casto até ao casamento! — queixou-se certa dama a Rúbrio, de quem era íntima. — Marco, ele fez-me parar no meio da ágora, e, diante de um milhar de Gregos sorridentes de gozo, acusou-me de ter um comportamento inadequado a uma mulher romana vivendo numa província! Livra-te dele, ou juro que pagarei a alguém para o matar!

Felizmente para Catão, foi nesse mesmo dia, algumas horas depois, que, em conversa com Marco Rúbrio, se referiu à presença em Pérgamo de um tal Atenodoro Cordilião.

— Adorava ouvi-lo! — berrou Catão. — Normalmente, reside em Antióquia e Alexandria. Não costuma fazer digressões.

— Porque não tiras dois ou três meses e vais ouvi-lo a Pérgamo? — disse imediatamente Rúbrio, pondo em prática a brilhante ideia que acabara de ter.

— Mas eu não poderia fazer uma coisa dessas! — retorquiu Catão, positivamente escandalizado. — O meu dever prende-me aqui.

— Qualquer tribuno dos soldados tem direito a um período de descanso, meu caro Marco Catão, e ninguém merece mais do que tu esse descanso. Vai, vai! Insisto que vás! E leva Munácio Rufo contigo.

E Catão lá acabou por ir, acompanhado por Munácio Rufo. O contingente romano em Tessalónica quase enlouquecia de alegria, pois Munácio Rufo tinha tal adoração por Catão que não fazia outra coisa senão tentar imitá-lo. Porém, exactamente dois meses depois de ter partido, Catão regressava a Tessalónica; Rúbrio falara-lhe em dois ou três meses e concluía agora que nunca conhecera um oficial romano que levasse tão à letra uma sugestão de um seu superior quanto ao período de descanso. E, com ele, vinha nem mais nem menos do que Atenodoro Cordilião, um filósofo estóico com algum renome, disposto a ser o Panécio do Cipião Emihano de Catão. Sendo um estóico, não estava à espera (nem queria) dos luxos com que Cipião Emiliano inundara Panécio — não queria mais do que aquilo a que tinha direito. A única mudança que introduziu no modo de vida de Catão foi uma mudança de casa: de facto, o filósofo, Munácio Rufo e Catão alugaram uma casa de adobe com três divisões; e, em vez de dois escravos, havia agora três. O que levara o eminente filósofo a juntar-se a Catão? Um motivo muito simples: Cordilião acreditava que Catão viria a ser uma personalidade importante no mundo romano; se vivesse com Catão, o seu nome seria eternamente lembrado. Se não fosse Cipião Emiliano, quem se lembraria de Panécio?

Os Romanos de Tessalónica não esconderam a sua raiva quando Catão regressou de Pérgamo; e Rúbrio mostrou que não estava disposto a suportar por muito tempo as ingerências de Catão, partindo a toda a pressa para Atenas, onde, segundo dizia, tinha assuntos urgentes a tratar. Tal atitude, porém, era fraco consolo para aqueles que Rúbrio deixava em Tessalónica! Foi então que Quinto Servílio Cepião chegou a Pérgamo, no cumprimento das ordens de Pompeu, e logo Catão se esqueceu dos cobradores de impostos e das vidas confortáveis que os outros levavam, de tão feliz que ficou com a chegada do seu querido irmão.

O forte laço que os unia fora criado pouco depois do nascimento de Catão, altura em que Cepião tinha apenas três anos. A mãe, já então muito doente (viria a morrer dois meses depois), acedeu aos desejos de Cepião, entregando o bebé aos seus cuidados. Desde então, nada os separara, a não ser o cumprimento do dever; seria de esperar que, à medida que fossem crescendo e sendo chamados a cumprir esta ou aquela missão, o laço que os unia enfraquecesse; mas tal não aconteceu, sobretudo porque, tinha Cepião seis anos e Catão apenas três, um acontecimento veio reforçar ainda mais esse elo: o assassínio do seu tio Druso na casa que todos partilhavam. Essa horrenda provação fortaleceu ainda mais a união entre os dois irmãos; o fogo do horror e da tragédia deu-lhe um novo alento. A infância de Catão e Cepião fora solitária, dilacerada pela guerra, desprovida de amor e de humor. Não tinham parentes próximos e os seus tutores mostravam-se distantes e severos; por outro lado, das seis crianças afectadas, as duas mais velhas, Servília e Servilila, odiavam as mais novas, Catão e sua irmã Pórcia. Não que a batalha entre os mais velhos e os mais novos se decidisse a favor das duas Servílias! Catão podia ser o mais pequeno, mas era também o mais agressivo e destemido.

Sempre que perguntavam a Catão,

De quem gostas mais?

a resposta era sempre a mesma:

Gosto do meu irmão. E se insistiam, pedindo-lhe que dissesse os nomes das outras pessoas de quem gostava, Catão repetia:

Gosto do meu irmão.

Na realidade, Catão nunca amara outra pessoa a não ser o irmão; o irmão e a filha do tio Mamerco, Emília Lépida, mas este último amor veio a revelar-se uma horrível experiência. O amor que dedicara a Emília Lépida ensinara-lhe pelo menos uma coisa: as mulheres eram criaturas detestáveis e um homem devia sempre desconfiar delas. Uma atitude para que muito contribuíra também uma infância passada com Servília.

Em contrapartida, o amor que sentia por Cepião era absolutamente inerradicável, inteiramente retribuído, profundamente sentido, visceral, essencial. Ainda que Catão nunca pudesse admitir (nem sequer para si mesmo) que Cepião era, para ele, mais do que um meio-irmão. Não há maior cego do que aquele que não quer ver; e não haveria por certo maior cego do que um Catão que não queria ver.

Passearam pela região, viram tudo o que havia para ver; Catão era, por uma vez, o guia. E se Sinão, o humilde liberto que integrava a comitiva de Cepião a pedido de Servília, se tivesse sentido tentado a ignorar os avisos desta acerca de Catão, bastar-lhe-ia olhar uma única vez para o tribuno dos soldados para perceber por que razão Servília o considerara um perigo fatal para os seus projectos assassinos. Não que Sinão tivesse chamado as atenções de Catão; um membro da nobreza romana não se dava ao trabalho de travar conhecimento com inferiores. Sinão limitara-se a apreciar a temível criatura do meio de uma multidão de assistentes e criados e a fazer tudo o que podia fazer para passar despercebido.

Porém, como tudo o que é bom sempre tem um fim, os dois irmãos acabaram por separar-se em princípios de Dezembro. A despedida foi na Via Egnácia, por onde Cepião seguiu, acompanhado pela comitiva. Catão chorou rios de lágrimas; para ele, não era vergonha chorar por um irmão que tanto amava. Lágrimas que Cepião retribuiu e que ameaçavam nunca mais secar, pois Catão foi atrás dele e da comitiva durante muitas milhas, dizendo adeus, chorando, gritando para o irmão que tivesse cuidado, que tivesse cuidado, que tivesse cuidado...

É possível que Catão pressentisse que Cepião corria perigo iminente; o que é certo é que, um mês depois, quando recebeu uma mensagem de Cepião, não ficou tão surpreendido como seria de esperar.

Meu querido irmão:

Adoeci em Atenas e temo pela minha vida. Seja qual for a doença que me atacou — e nenhum dos físicos locais parece capaz de identificá-la — estou a piorar de dia para dia.

Por favor, meu querido Catão, peço-te que venhas a Enos. Quero que estejas comigo quando eu morrer. Isto aqui é tão ermo, tão deserto, que em ninguém posso encontrar o consolo que tu me darias. A quem poderei dar a mão, quando exalar o último suspiro? Não haverá uma mão tão querida como a tua, nessa hora derradeira. Vem, peço-te, não demores. Tentarei viver até tu chegares. O meu testamento está em ordem e devidamente depositado nas vestais. Como acordámos, o jovem Bruto será o meu herdeiro. Tu és o executor testamentário e, como estipulaste, não te deixei mais do que dez talentos. Vem.

Quando soube que Catão precisava de se ausentar imediatamente, o governador Marco Rúbrio não levantou o mínimo problema. Limitou-se a avisá-lo de que devia ir por terra, pois a costa trácia estava a ser assolada pelas usuais tempestades do fim do Outono e houvera já vários naufrágios. Mas Catão recusou-se a levar em conta os avisos; por terra, a viagem não duraria menos de dez dias, ao passo que os ventos poderosos de noroeste enfunariam as velas de um navio e dar-lhe-iam tal velocidade que era até provável que, em três, quatro ou, no máximo, cinco dias, chegasse a Enos. E, tendo encontrado um capitão ousado o bastante para aceder aos seus desejos (depois de lhe ter pago uma boa soma), o febril e desvairado Catão embarcou. Atenodoro Cordilião e Munácio Rufo seguiram com ele, tal como os escravos, não mais do que três, um para cada homem.

A viagem foi um pesadelo de ondas alterosas, mastros partidos, velas esfarrapadas. Contudo, o capitão levara mastros e velas sobressalentes, e a pequena embarcação lá foi avançando, de tal modo que Atenodoro Cordilião e Munácio Rufo chegaram a pensar que uma força inescrutável, impulsionada pela mente e pelo querer de Catão, empurrava o navio rumo a Enos. Mal aportaram a Enos, ao quarto dia, Catão nem esperou que procedessem à amarração do barco. Saltou deste para o cais e desatou a correr como um louco, enfrentando a copiosa chuva impelida por um vento forte. Uma única vez parou, para perguntar a um transeunte estupefacto onde ficava a casa do etnarca, pois sabia que era aí que Cepião se encontrava.

Irrompeu pela casa e depois pelo quarto onde jazia o irmão; tivesse chegado uma hora antes e teria satisfeito o desejo de Cepião de segurar aquela mão querida na hora da morte. Quinto Servílio Cepião estava morto.

Rodeado de poças de água da chuva, Catão permaneceu junto à cama, fitando a razão e o consolo de toda a sua vida, uma figura gelada e horrível, desprovida de toda a cor, de todo o vigor, de toda a força. Os olhos tinham sido fechados e sobre eles haviam sido colocadas as moedas; uma ponta curva de prata espreitava entre os lábios ligeiramente separados; alguém oferecera a Cepião o preço da sua viagem pelo rio Estige, pensando que Catão não viria.

Catão abriu a boca e produziu um som que deixou aterrados todos aqueles que o ouviram, um som que não era um uivo, nem um gemido, nem um guincho, mas uma sobrenatural fusão dos três, um som animal, selvagem, medonho. As pessoas que estavam no quarto recuaram instintivamente, e estremeceram de horror quando Catão se atirou para a cama, para cima do falecido irmão, e cobriu o rosto exangue de beijos, o corpo sem vida de carícias, enquanto as lágrimas lhe brotavam imparáveis dos olhos e se confundiam depois com o ranho e a saliva, e aqueles sons horrendos irrompiam incessantemente das suas entranhas. E esse paroxismo de dor prolongou-se sem mercê, pois Catão chorava a morte da pessoa que, no seu mundo, significava tudo, daquele que fora o seu consolo numa infância terrível, daquele que fora âncora e terra firme para o rapaz e para o homem. Fora Cepião quem afastara o seu olhar de menino do pobre tio Druso, que gritava e sangrava no chão, e que encostara esses olhos arrepiados de medo ao calor do seu corpo e que carregara o fardo dessas horas medonhas nos seus ombros, que, então, não tinham mais de seis anos de vida; fora Cepião quem se armara de uma paciência infinda, para ensinar ao seu irmão ainda pequeno, e muito lento a aprender, tudo o que ele precisava de saber; fora Cepião quem o chamara à razão e à vida e o mimara e consolara depois do insuportável abandono de Emília Lépida; fora Cepião quem o levara para a sua primeira campanha, que lhe ensinara a ser um soldado valente e corajoso, fora Cepião quem o premiara com o mais radiante dos sorrisos, quando ele recebera armillae e phalerae por actos de bravura num campo de batalha mais propenso a estimular a cobardia, já que ambos haviam pertencido ao exército de Clodiano e Poplicola, três vezes derrotado por Espártaco; fora Cepião quem sempre estivera com ele, em todos os momentos, em toda a sua vida.

Agora, Cepião deixara de viver. Morrera sozinho e sem amigos, sem ninguém a quem dar a mão no último momento. A culpa e os remorsos deixaram Catão tresloucado, naquele quarto onde Cepião jazia morto. Quando as pessoas presentes tentavam levá-lo dali para fora, debatia-se e empurrava-as. Quando tentavam convencê-lo a sair dali, respondia com uivos. Durante quase dois dias, recusou-se a mexer-se um palmo que fosse, durante quase dois dias, o seu corpo cobriu, protegeu, o cadáver de Cepião. E o pior de tudo era que ninguém — nem uma só alma! — compreendia ou poderia compreender o terror daquela perda, a solidão absoluta que a sua vida passaria a ser. Cepião morrera e, com Cepião, tudo morrera: o amor, a razão, a segurança.

Por fim, Atenodoro Cordilião, com um discurso sobre as atitudes próprias de um estóico e o comportamento adequado a um homem que, como Catão, professava o Estoicismo, conseguiu vencer a loucura que se apoderara do jovem tribuno dos soldados. Catão levantou-se e começou a preparar o funeral do irmão, vestido ainda com a mesma túnica andrajosa e a mesma laena fedorenta, com a barba por fazer, o rosto imundo e incrustado dos muitos vestígios secos dos muitos rios de dor. Os dez talentos que Cepião lhe deixara seriam gastos no funeral; porém, depois de muitas tentativas para gastar essa soma com os agentes funerários e os mercadores de especiarias locais, Catão verificou que não conseguira gastar mais do que um talento; assim, gastou mais um talento numa caixinha de ouro, incrustada de jóias, onde guardaria as cinzas de Cepião, e os restantes oito talentos numa estátua de Cepião que seria erigida na ágora de Enos.

— Mas vocês nunca conseguirão reproduzir correctamente a cor da sua pele, nem o seu cabelo, nem os seus olhos — disse Catão, na mesma voz áspera e agreste, ainda mais agreste agora por causa dos ruídos que a sua garganta produzira. — E eu não quero que a sua estátua se assemelhe a um homem vivo. Quero que toda a gente que a vir saiba que ele está morto. Fá-la-ão com mármore cinzento de Tasos e poli-la-ão até que o meu irmão brilhe mesmo ao luar. Ele é uma sombra e eu quero que a sua estátua pareça uma sombra.

As exéquias de Cepião constituíram a mais impressionante cerimónia fúnebre que aquela pequena colónia grega, situada a leste da foz do Hebro, alguma vez presenciara; todas as mulheres foram chamadas a participar como carpideiras profissionais e todos os aromas e fragrâncias existentes em Enos foram queimados na pira de Cepião. Quando as exéquias terminaram, Catão recolheu as cinzas e guardou-as na requintada caixinha, da qual nunca se separou até ao dia em que chegou a Roma, um ano depois, e, como era seu dever, a entregou à viúva de Cepião.

Escreveu ao tio Mamerco, em Roma, com instruções para executar o testamento de Cepião tanto quanto fosse necessário até ao seu regresso, e ficou extremamente surpreendido quando descobriu que não precisava de escrever para Rúbrio. O etnarca, fazendo o que lhe competia, informara Rúbrio do sucedido no próprio dia da morte de Cepião e Rúbrio não desperdiçara uma tal oportunidade. Por isso, para além de uma mensagem de condolências, enviou para Enos todos os pertences de Catão e Munácio Rufo. O vosso ano de serviço está prestes a terminar, dizia a mensagem escrita pelo escriba do governador, e eu não seria capaz de vos pedir para regressarem com um tempo tão horrível e numa altura em que os Bessos regressaram ao Danúbio para passar o Inverno! Passem uns longos meses de férias no Oriente, aproveitem-nos da melhor maneira.

— Assim farei — disse Catão, segurando a caixa. — Iremos para oriente, e não para ocidente.

Mas Catão mudara, como Atenodoro Cordilião e Tito Munácio Rufo já se tinham apercebido, com evidente tristeza. Catão sempre fora uma luz, um farol, um feixe de luz forte e firme, girando sem cessar. Agora, não havia luz nenhuma. O rosto era o mesmo, o corpo saudável e musculado não se curvava mais do que antes, e tinha ainda a mesma força. Agora, porém, a voz agressiva de outros tempos tornara-se estranhamente monocórdica; Catão já não se excitava, já não se entusiasmava, nem se indignava ou enraivecia. Pior do que tudo, a paixão desaparecera.

Só Catão sabia de quanta força precisara para continuar a viver. Só Catão sabia aquilo que Catão decidira: que nunca mais se disporia a sofrer aquela tortura, aquela devastação. Amar era perder para sempre. Portanto, amar era um anátema. Catão nunca mais voltaria a amar. Nunca mais.

E enquanto o seu pobre e andrajoso grupo de três homens livres e de três escravos avançava a pé pela Via Egnácia na direcção do Helesponto, um liberto chamado Sinão debruçava-se sobre a amurada de um belo barco que o levava para Atenas. Daí partiria para Pérgamo, onde encontraria o resto da sua saca de ouro. Quanto a isso, não tinha dúvidas. Ela, a grande dama patrícia, era demasiado astuciosa para não cumprir a sua parte. Por um momento, Sinão pensou na possibilidade de fazer chantagem, mas depois riu-se, encolheu os ombros, e atirou uma expiatória dracma para a espuma das águas, como oferenda a Poseidon. Leva-me em segurança, Pai das Profundidades! Não só estou livre, como estou rico. A leoa, lá em Roma, está sossegada. Não a acordarei, pedindo mais dinheiro. Em vez disso, farei crescer aquilo que, legalmente, já é meu.

A leoa que estava em Roma soube da morte do irmão através do tio Mamerco, que foi vê-la mal recebeu a carta de Catão. Servília derramou lágrimas, mas não demasiadas; o tio Mamerco seria talvez a pessoa que melhor sabia como ela se sentia. Servília mandara instruções para os seus banqueiros em Pérgamo pouco depois de Cepião ter deixado Roma, um risco que ela decidira correr antes mesmo do envenenamento ter sido consumado. Uma decisão inteligente. Dessa forma, nenhum banqueiro, mesmo que muito curioso, ficaria intrigado com o facto de a irmã de Cepião ter enviado uma soma avultada para um liberto chamado Sinão que a levantaria em Pérgamo.

— Parece que vou ter de mudar de nome... não é mesmo incrível? — disse Bruto a Júlia, mais tarde nesse dia.

— Por causa de algum testamento? — perguntou Júlia, que sabia que a mudança de nome decorria normalmente da execução de um testamento.

— O meu tio Cepião morreu em Enos e eu sou seu herdeiro. — Os tristes olhos castanhos contiveram uma ou outra lágrima. — Era um bom homem e eu gostava dele. Sobretudo, creio, porque o tio Catão o adorava. Coitado do tio Catão...! Chegou a Enos uma hora depois de ele ter morrido. Entretanto, anunciou que não voltará tão cedo para Roma... Vou ter muitas saudades dele.

— Já tens — disse Júlia, sorrindo e apertando-lhe a mão. Ele sorriu e apertou-lhe também a mão. Aliás, os contactos físicos destes noivos não passavam disso. Não havia razões para a avó ficar preocupada com a conduta do noivo; Bruto não podia ser mais circunspecto. Aurélia desistira do papel de pau-de-cabeleira pouco depois de o contrato de casamento ter sido assinado. Bruto era, sem dúvida, um motivo de orgulho para a mãe e para o padrasto. E Júlia, que acabara de fazer dez anos (o seu aniversário era em Janeiro), não podia sentir-se mais satisfeita pelo facto de Bruto ser um motivo de orgulho para a mãe e o padrasto. Quando César lhe anunciara o seu destino conjugal, a menina ficara aterrorizada, pois, embora sentisse pena de Bruto, sabia perfeitamente que, por mais tempo que passasse com ele, esse sentimento de pena nunca se transformaria naquele tipo de afeição que consolidava os casamentos. O melhor que podia dizer dele era que era um bom rapaz. O pior que podia dizer era que Bruto era um verdadeiro chato. Embora a sua idade excluísse todo e qualquer sonho romântico, Júlia, como a maior parte das meninas da sua classe, estava muito atenta ao que a sua vida adulta poderia vir a ser; daí que estivesse perfeitamente consciente do significado e importância do casamento. Sofrera horrores no dia em que contara às colegas da escola de Gnifão que já tinha casamento combinado, tanto mais que, até então, sempre desejara ficar a par de Júnia e Junila, as duas únicas raparigas da sua turma que já estavam comprometidas. O problema é que o noivo de Júnia, Vátia Isáurico, era um rapaz delicioso, e o noivo de Junila, Lépido, um dos mais belos exemplares da sua geração. Mas Bruto... que se podia dizer de Bruto? Nenhuma das suas meias-irmãs o suportava. Tal como Júlia, também elas o achavam um maçador e um pomposo. E agora era ela, Júlia, quem se via condenada a casar com ele! Ah, as amigas dela iam fartar-se de escarnecer dela! E teriam pena dela, sem dúvida.

— Pobre Júlia! — comentou Júnia, rindo a bom rir. Contudo, não fazia sentido rebelar-se contra o seu destino. Tinha de casar com Bruto e ponto final.

— Já sabes das notícias, tatá? — perguntou ela ao pai mal ele chegou a casa, pouco depois do jantar.

Tudo era horrível, agora que Pompeia vivia com eles. O pai nunca vinha dormir a casa, raramente comia com a família, limitava-se a passar por lá. Ter notícias que pudessem detê-lo um pouco mais era uma oportunidade maravilhosa; e Júlia não a desperdiçou.

— Notícias? — perguntou ele com um ar ausente.

— Adivinha quem me veio ver hoje... — pediu ela, toda contente.

Os olhos do pai pestanejaram. — Bruto?

— Errado! Tenta outra vez!

— Júpiter Optimus Maximus?

— Mas que pai mais tonto...! Júpiter Optimus Maximus não vem ter connosco como se fosse uma pessoa, mas apenas como uma ideia.

— Então quem foi? — perguntou ele, mexendo-se nervosamente. Pompeia estava em casa; ouvia-a no tablinum, de que ela se apoderara porque César já não trabalhava lá.

— Oh, tatá, por favor, fica um bocadinho mais! Por favor...!

Nos enormes olhos azuis, os indícios de ansiedade eram evidentes; o coração e a consciência de César não podiam ficar impassíveis. Pobre menina, era ela quem mais sofria por causa de Pompeia, já que, agora, pouco estava com o pai.

Com um suspiro, César pegou nela e sentou-se numa cadeira, sentando-a sobre os seus joelhos. — Estás a ficar crescida! — disse ele, surpreendido.

— Espero bem que sim — respondeu ela, logo começando a beijar-lhe aqueles leques brancos nos cantos dos olhos.

— Afinal, quem é que veio ver-te hoje? — perguntou ele, conseguindo manter-se calmo.

— Quinto Servílio Cepião.

César sacudiu a cabeça, surpreso. — Quem?

— Quinto Servílio Cepião.

— Mas isso é impossível! Quinto Servílio Cepião está ao serviço de Cneu Pompeu, como seu questor!

— Não está, não.

— Júlia, o único membro dessa família que está vivo não se encontra em Roma! — disse César.

— Infelizmente — disse Júlia, num tom pesaroso —, o homem de quem estás a falar já não está vivo. Morreu em Janeiro, na cidade de Enos. Mas agora há um novo Quinto Servílio Cepião, porque o testamento nomeia-o e, em breve, ele deverá ser formalmente adoptado.

César fitou a filha estupefacto. — Bruto?

— Sim, Bruto. Ele diz que, a partir de agora, será conhecido como Quinto Servílio Cepião Bruto, em vez de Cepião Juniano. O nome Bruto é mais importante do que Júnio.

— Por Júpiter...!

— Tatá... Pareces muito chocado com esta notícia... Porquê?

César ergueu a mão e deu-se uma leve bofetada de espanto.

— Olha que esta...! Quem diria...! — depois, desatou a rir.

— Júlia, tu vais casar com o homem mais rico de Roma! Se Bruto é o herdeiro de Cepião, então a terceira fortuna que ele vai herdar torna as outras duas perfeitamente insignificantes. Vais ser mais rica do que uma rainha.

— Bruto não disse nada disso.

— Provavelmente porque não sabe. Não é um rapaz muito curioso, o teu noivo... — disse César.

— Acho que ele gosta de dinheiro.

— Toda a gente gosta... — retorquiu César, com evidente amargura. Levantou-se e sentou Júlia na cadeira. — Eu volto já — disse ele e logo disparou para a sala de jantar e, depois, assim julgou Júlia, para o seu gabinete.

Logo a seguir, de facto, apareceu Pompeia, numa corrida, toda indignada. O seu olhar não escondia que se sentia profundamente ofendida.

— Que foi? — perguntou Júlia à madrasta, com quem, na verdade, se dava muito bem. Pompeia representava um bom exercício prático para quem tinha de lidar com Bruto, ainda que Júlia fizesse a Bruto a justiça de não o achar tão estúpido como Pompeia.

— Ele pôs-me na rua...! — choramingou Pompeia.

— É só por um bocado, com certeza.

De facto, foi só por um bocado. César sentou-se e escreveu uma mensagem para Servília, que não via desde Maio do ano anterior. Claro que quisera vê-la antes (corria o mês de Março), mas o tempo fora passando e ele tivera outros assuntos para tratar. Assombroso! O jovem Bruto tornara-se herdeiro do Ouro de Tolosa!

Não havia dúvida: era preciso ser simpático com a mãe de Bruto. Aquele noivado não podia ser rompido por razão nenhuma.

O grande problema de Públio Clódio não era a ausência de uma linhagem distinta, de capacidades intelectuais ou outras, tão-pouco a falta de dinheiro; o que lhe faltava era direcção, tanto no sentido do rumo que pretendia seguir, como no sentido de uma firme orientação por parte dos familiares mais velhos. Dizia-lhe o instinto que nascera para ser diferente, mas isso não era propriamente uma novidade nos rebentos dos patrícios Cláudios. Estranho sentimento, dado que, de todas as Famílias Famosas patrícias, os Cláudios eram a mais jovem: de facto, surgira a quando da deposição do rei Tarquínio Soberbo por Lúcio Júnio Bruto e da subsequente implantação da República. Claro que os Cláudios eram Sabinos, e os Sabinos eram impetuosos, orgulhosos, independentes, indomáveis, guerreiros; e não podiam deixar de ser assim, pois provinham dos Apeninos, no norte e no leste do Lácio Romano, uma região cruelmente montanhosa cujas bolsas de afabilidade eram poucas e muito isoladas.

O pai de Clódio fora aquele Ápio Cláudio Pulcro que nunca conseguira recuperar a fortuna da sua família, depois de o seu sobrinho, o censor Filipe, o ter expulso do Senado, confiscando ao mesmo todos os seus bens e propriedades, como castigo pela sua obstinada lealdade ao exilado Sila. A mãe, Cecília Metela Baleárica, representante da melhor nobreza romana, morrera ao dar à luz Clódio, o sexto filho em seis anos — três rapazes e três raparigas. As vicissitudes da guerra e o facto de conseguir estar sempre no sítio errado e no momento errado explicavam que Ápio Cláudio Sénior nunca estivesse em casa, o que explicava, por seu turno, que o irmão mais velho de Clódio, Ápio Cláudio Júnior, fosse, normalmente, a única autoridade naquele lar. Embora os seus cinco irmãos fossem todos turbulentos, rebeldes e propensos à destruição do que quer que fosse, não havia dúvida que Públio, o mais novinho, era também o pior de todos. Se Ápio Cláudio Júnior tivesse imposto uma disciplina mais firme, talvez Públio cedesse menos aos caprichos que dominaram a sua infância; porém, como todos os seus irmãos, sem excepção, o estragavam com todos os mimos imagináveis, Públio fazia sempre o que muito bem lhe apetecia; de tal forma que, era ainda criança, e já se havia convencido de que, de todos os Cláudios da história de Roma, era ele, sem dúvida, o mais diferente e original.

Por altura da morte do seu pai, na Macedónia, disse ao irmão Ápio que passaria a usar a versão popular do seu nome, Clódio, e que dispensaria o cognome de família, Pulcro. Pulcro significava belo e era um facto que quase todos os Cláudios Pulcros, se não eram belos, eram pelo menos bem parecidos; contudo, o primeiro Cláudio a quem fora conferido tal cognome, recebera-o precisamente por possuir um carácter de uma fealdade singular.

Mas que beleza! - comentavam as pessoas, e Pulcro ficou.

Claro que Públio Clódio fora autorizado a optar pela versão popular do seu nome; o precedente surgira com as suas três irmãs, a mais velha das quais se chamava Cláudia, a do meio Clódia e a mais nova Clodila. O irmão mais velho, Ápio, idolatrava de tal modo os mais novos que nunca conseguia dizer-lhes que não. Por exemplo: se o adolescente Públio Clódio gostava de dormir com Clódia e Clodila, porque tinha uns pesadelos horríveis, deixá-lo dormir, coitado...! Pobrezitos, não tinham pai nem mãe! Ápio sentia por eles uma compaixão sem fim. O irmãozinho mais novo sabia disso e não se coibia de explorar os nobres sentimentos de Ápio.

Mais ou menos na mesma altura em que o jovem Públio Clódio vestiu a toga virilis, tornando-se oficialmente um homem, o primogénito Ápio recuperou brilhantemente a vacilante fortuna da família, casando com uma solteirona, Servília Cnéia; fora ela quem cuidara de outros seis órfãos nobres, os que pertenciam aos lares de Servílio Cepião, Lívio Druso e Pórcio Catão. Era tão avultado o seu dote como feia a sua cara. Mas tinham um ponto em comum, os longos anos que haviam dedicado a órfãos, e Servília Cnéia acabou por servir na perfeição ao sentimental Ápio, que depressa se apaixonou pela sua noiva trintona (ela tinha trinta e dois anos; ele apenas vinte e um), passando a ser um marido baboso, e muito cumpridor das tradições dos Cláudios, pois todos os anos Servília Cnéia dava à luz uma criança.

Ápio conseguira também arranjar três belos casamentos para as suas irmãs, as quais podiam ser muito nobres, mas não tinham dote: Cláudia casou com Quinto Márcio Rei, que em breve se tornaria cônsul; Clódia, por seu turno, contraiu matrimónio com o seu primo direito Quinto Cecílio Metelo Célere (que era também meio-irmão da mulher de Pompeu, Múcia Tércia); e Clodila desposou o grande Lúculo, três vezes mais velho do que ela. Três homens imensamente ricos e prestigiosos, dois dos quais com idade bastante para terem já cimentado o seu poder familiar, e um terceiro que não precisava de o fazer pois era o neto mais velho de Metelo Baleánco, bem como neto do distinto Crasso Orador. Este quadro acabara por revelar-se bastante proveitoso para o jovem Públio Clódio, já que Rei não conseguira engravidar Cláudia, mesmo depois de vários anos de casamento; daí que Públio Clódio esperasse ser o herdeiro de Rei.

Aos dezasseis anos, Públio Clódio deu início ao seu tirocinium fori, a sua aprendizagem como advogado e aspirante a político no Fórum Romano, após o que passou um ano na praça de armas de Cápua exercitando-se nas artes militares, regressando à vida do Fórum aos dezoito anos. Sentindo-se importante e sabendo que as raparigas o achavam um espanto, Clódio procurou conquistar uma jovem que se enquadrasse nas suas ideias sobre a sua própria singularidade, as quais não paravam de crescer a olhos vistos. E foi assim que concebeu uma paixão por Fábia — que era uma virgem vestal. As fixações amorosas nas vestais eram de um modo geral muito mal vistas, mas esse era precisamente o género de aventura amorosa por que Clódio ansiava. Na castidade de cada uma e de todas as vestais residia a sorte de Roma; a maior parte dos homens recuava de horror, só de pensar na eventualidade de seduzir uma vestal. Mas não era esse o caso de Públio Clódio.

Ninguém em Roma esperava ou pedia que as virgens vestais levassem uma vida de reclusas. Podiam ir a festas particulares, desde que o Pontifex Maximus e a chefe vestal aprovassem o local e a companhia, e participavam em todos os banquetes clericais com um estatuto idêntico ao dos sacerdotes e augures. Podiam receber visitas masculinas nas zonas públicas da Domus Publica, a residência do Estado que partilhavam com o Pontifex Maximus, embora esses encontros tivessem sempre alguém a vigiá-los. Por outro lado, o facto de serem vestais não implicava, de forma nenhuma, uma situação de pobreza. Para qualquer família, era uma boa coisa ter uma vestal; por isso, as raparigas de que as famílias não precisavam para cimentar alianças através do casamento, eram frequentemente oferecidas ao Estado como vestais. A maior parte delas tinha excelentes dotes; aquelas que os não tinham recebiam um dote do Estado.

Fábia, que tinha também dezoito anos, era uma rapariga bela, meiga, alegre e apenas um nadinha estúpida. O alvo perfeito para Públio Clódio, que adorava fazer todo o tipo de asneiras que escandalizavam as pessoas. Cortejar uma vestal seria tão divertido! Não que Clódio tencionasse exceder-se, ou seja, chegar a desvirginar Fábia, pois isso teria repercussões legais sobre a sua muito querida pele. Tudo o que realmente queria era ver Fábia definhar de amor e de desejo.

Os problemas começaram quando descobriu que tinha um rival na disputa pelo afecto de Fábia: Lúcio Sérgio Catilina, um homem alto, moreno, bem parecido, vistoso, encantador — e perigoso. Os encantos de Clódio eram consideráveis, mas estavam longe dos de Catilina; primeiro que tudo, faltavam-lhe o físico e a estatura imponentes; e, por outro lado, Catilina irradiava um poder rigorosamente ameaçador, traço que Clódio não possuía de todo. Não havia dúvida: Catilina era um rival de peso. Acerca da sua pessoa corriam muitos boatos nunca provados, boatos que falavam de crimes e estranhas perversões. Toda a gente sabia que Lúcio Sérgio Catilina fizera a sua fortuna durante as proscrições de Sila, proscrevendo não apenas o seu cunhado (executado), mas também o seu irmão (exilado). Dizia-se que tinha assassinado a sua esposa da época; se de facto o tinha feito, a verdade é que ninguém tentara levá-lo a responder pelo seu crime. E, pior ainda, dizia-se que matara o seu próprio filho, porque a sua actual mulher, a bela e rica Orestila, se recusara a casar com um homem que já tinha um filho. Que o filho de Catilina morrera e que Catilina casara com Orestila, toda a gente sabia. Mas teria ele morto a pobre criança? Ninguém poderia sabê-lo ao certo. A verdade, porém, é que a falta de confirmação não impedia um excesso de especulação.

Provavelmente, eram idênticos os motivos que levavam Catilina a assediar Fábia e Clódio a tentar assediá-la. Ambos gostavam de pisar o risco, de irritar o puritanismo de Roma, de provocar escândalo. Mas entre um homem do mundo, com trinta e quatro anos, chamado Catilina, e um jovem de dezoito anos pouco experiente chamado Clódio, ficava o êxito de um e o fracasso do outro. Não que Catilina tivesse assediado o hímen de Fábia; esse venerado tecido permanecia intacto e Fábia, portanto, continuava, na prática, casta. Contudo, a pobre rapariga apaixonara-se desesperadamente por Catilina, e cedera em tudo o mais. No fim de contas, que mal havia nuns quantos beijos, no desnudamento dos seios que ele premiava com mais uns quantos beijos, ou mesmo nas carícias de um dedo ou da língua nas partes mais deliciosamente sensíveis dos seus genitais? Com Catilina segredando-lhe ao ouvido, tudo aquilo parecera a Fábia perfeitamente inocente, e o êxtase que sentira era algo que nunca mais esqueceria, enquanto fosse vestal e muito depois disso.

Infelizmente, a chefe das vestais, Perpénia, não primava pelo rigor. Por outro lado, o Pontifex Maximus não se encontrava em Roma nessa altura — Metelo Pio estava na Hispânia, dirigindo a guerra contra Sertório. Fonteia era, em idade, a segunda vestal; depois, vinham Licínia, que tinha vinte e oito anos, Fábia, com dezoito, e Arúncia e Popília, ambas com dezassete. Perpénia e Fonteia tinham quase a mesma idade, à volta de trinta e dois anos, e planeavam já a sua retirada nos cinco anos seguintes. Portanto, aquilo que mais preocupava as duas vestais mais velhas era precisamente a sua retirada, a desvalorização do sestércio e a eventualidade de as suas antigas fortunas não chegarem, agora, para uma velhice tranquila; nenhuma delas pensava casar-se depois de abandonar o cargo sacerdotal, embora o casamento não fosse proibido às ex-vestais (cria-se, todavia, que seria sempre um casamento infeliz).

E era aí que Licínia entrava. Sendo a terceira em idade, era a que se encontrava numa situação mais confortável, e, embora estivesse mais próxima, do ponto de vista familiar, de Licínio Murena do que de Marco Licíno Crasso, o grande plutocrata era seu primo e grande amigo. Licínia recorria a Crasso sempre que precisava de ajuda em matérias financeiras, e as três vestais mais velhas tinham muitas e agradáveis reuniões com Crasso, discutindo negócios, investimentos, ou mesmo pais inábeis que não sabiam pôr a render dotes prometedores.

Enquanto isso, mesmo nas suas barbas, por assim dizer, Catilina namorava com Fábia, e Clódio esforçava-se por lá chegar. De início, Fábia não compreendera o que pretendia aquele jovem, já que, comparados com a mestria de Catilina, os avanços de Clódio eram desajeitadamente inexperientes. Assim, quando Clódio pela primeira vez se agarrou a ela, sussurrando-lhe meiguices e espalhando-lhe beijinhos pelo rosto, Fábia cometeu o erro de desatar a rir daquela situação absurda; e foi ainda a rir que o mandou embora. Clódio obedeceu, mas, nos seus ouvidos, o som daqueles risinhos não parava de ressoar. Aquilo não era maneira de tratar Públio Clódio, que estava habituado a ter tudo o que queria e que, em toda a sua vida, nunca fora alvo do escárnio alheio. Tão forte foi a ofensa à sua auto-imagem que Clódio decidiu vingar-se imediatamente daquela mulher.

Escolheu um método de vingança muito romano: o litígio. Mas não o género de litígio relativamente inofensivo que Catão, por exemplo, escolhera depois de Emília Lépida ter acabado o namoro com ele. Catão invocara quebra de compromisso. Públio Clódio, em contrapartida, lançava acusações de não castidade. Numa comunidade que, de um modo geral, abominava a pena de morte como castigo para os crimes, mesmo que estes fossem contra o Estado, a ausência de castidade de uma vestal era a única infracção que ainda levava à pena capital.

E não tentou vingar-se apenas de Fábia. De facto, para além de Fábia (a qual, segundo ele, manteria relações sexuais com Catilina), Clódio acusou ainda Licínia (cujo amante seria Marco Crasso), e Arúncia e Popília (que também iriam para a cama com Catilina). Foram convocados dois tribunais, um para julgar as vestais, com o próprio Clódio a desempenhar o papel de advogado de acusação, e outro para julgar os presumíveis amantes, com um amigo de Clódio, Plócio (versão popular de Pláucio), acusando Catilina e Marco Crasso.

Todos os réus foram absolvidos, mas os julgamentos causaram uma grande agitação em Roma; e o sentido de humor característico dos Romanos encontrou nutrido alimento quando Crasso, numa das sessões, declarou que não era a virtude de Licínia que o tentava, mas sim uma modesta propriedade que ela possuía nos arredores. Crível? O júri achou que sim.

Clódio trabalhou duramente para que as mulheres fossem condenadas, mas deparou-se-lhe um advogado de defesa particularmente capaz e experiente, Marco Púpio Pisão, assistido por uma impressionante comitiva de advogados em princípio de carreira. A juventude de Clódio e a ausência de provas concludentes acabaram por derrotá-lo; o maior golpe foi-lhe infligido por um vasto painel de nobres matronas romanas, as quais juraram solenemente que as três vestais acusadas eram todas virgo intacta. Como se os infortúnios de Clódio não bastassem, o juiz e o júri tomaram-no de ponta; a petulância e a brutal agressividade de que dava provas, invulgares num homem tão novo, deixaram toda a gente escandalizada. Esperava-se que os jovens advogados de acusação fossem brilhantes, mas também humildes, e humilde

era uma palavra que não constava do vocabulário de Clódio.

— Desiste da carreira de advogado de acusação — foi o aviso de Cícero — um aviso bem-intencionado — quando tudo aquilo acabou. Claro que Cícero apoiara o trabalho de Púpio Pisão, já que Fábia era meia-irmã da sua mulher. — O teu rancor e os teus preconceitos são demasiado evidentes. Falta-te a distância necessária para teres êxito na carreira de advogado de acusação.

Com esta observação, Cícero não ganhou um lugar no coração de Clódio; de qualquer modo, para Clódio, Cícero não passava de uma criatura pouco mais do que insignificante. Clódio desejava ardentemente que Catilina pagasse, tanto porque o derrotara na luta pelo coração de Fábia, como porque se livrara da pena capital.

Para piorar ainda mais as coisas, depois dos julgamentos, as pessoas em cuja ajuda confiava começaram a evitá-lo. Por fim, teve de suportar uma rara reprimenda do irmão Ápio, muito aborrecido e embaraçado com o que se passara.

— Toda a gente acha que agiste unicamente por despeito — disse-lhe Ápio. — E eu não posso mudar as opiniões das pessoas. Tens de compreender que, no nosso tempo, as pessoas recuam de horror, só de pensar no destino de uma vestal condenada à morte... Enterrada viva com um jarro de água e um pão...! E que acontece ao amante, se for condenado? É atado a um poste e chicoteado até à morte! É horrível, horrível! Para que qualquer um deles fosse condenado, seria preciso apresentar uma montanha de provas irrefutáveis, e tu nem um montículo de provas conseguiste apresentar...! As quatro vestais estão ligadas a famílias poderosas que hostilizaste mortalmente. Não te posso ajudar, Públio, mas posso ajudar-me a mim mesmo, deixando Roma por uns anos. Vou para o Oriente, combater sob a chefia de Lúculo. E sugiro-te que faças o mesmo.

Mas Clódio não permitiria que ninguém — nem mesmo o irmão — decidisse como havia de ser o seu futuro. Com um sorriso trocista, virou-lhe as costas. E, dessa forma, condenou-se a quatro anos de deambulações por uma cidade que o tratava com a maior rudeza, enquanto o irmão Ápio, no Oriente, realizava feitos que mostravam a toda a Roma que ele é que era um verdadeiro Cláudio, quando se tratava de criar problemas. Só que Ápio estava a criar problemas, e sérios, ao rei Tigranes, e Roma não podia deixar de sentir por ele uma imensa admiração.

Incapaz de convencer fosse quem fosse de que era capaz de acusar um vilão qualquer, e rejeitado pelos vilões que precisavam de defesa, Públio Clódio passou um dos mais horríveis períodos da sua vida. Noutros, a censura e a humilhação teriam levado a um auto-exame, susceptível de produzir frutos positivos; em Clódio, porém, contribuíam apenas para ampliar as suas fraquezas. Privado de uma consolidação da sua experiência no Fórum, acabou na companhia de um pequeno grupo de jovens que a sociedade rejeitava como inúteis. Durante quatro anos, Clódio não fez outra coisa senão beber nas tabernas mais ordinárias, seduzir raparigas de todas as posições sociais, jogar aos dados, e partilhar a sua insatisfação com todos os outros que guardavam ressentimentos em relação à Roma nobre.

No fim de tudo, foi o tédio que o levou a fazer algo de construtivo, já que Clódio não possuía, de facto, um temperamento que lhe permitisse sentir-se feliz com uma vida ociosa e sem objectivos. Imaginando-se diferente, sabia que tinha de ser excelente nalguma coisa. Se não conseguisse ser excelente nalguma coisa, em qualquer coisa, morreria tal e qual como estava a viver naquela altura: esquecido e desprezado. E isso não lhe servia. Onde estava a grandiosidade da sua vida? Para Públio Clódio, o único destino aceitável era chegar ao título de Primeiro Homem de Roma. Como lá ia chegar, não fazia a mínima ideia. Só que, certa manhã, acordou, cheio de dores de cabeça por causa do muito vinho que bebera na noite anterior, e com a bolsa vazia porque perdera demasiadas moedas aos dados, e decidiu que não suportaria, nem mais um momento, continuar a viver naquele tédio. Do que precisava era de acção. Acção! Iria, pois, ao encontro da acção. Iria para o Oriente, onde poderia integrar a equipa do seu cunhado Lúcio Licínio Lúculo. Mas não o faria para ganhar fama de militar corajoso e brilhante! Nem pensar...! Os feitos militares não exerciam sobre ele a menor sedução. Porém, estando integrado na equipa de Lúculo, sabe-se lá quantas oportunidades não surgiriam à sua frente...! O seu irmão Ápio não ganhara a admiração de Roma por feitos militares, mas porque causara tantos problemas a Tigranes, em Antióquia, que o rei dos reis acabara por arrepender-se da sua decisão de pôr Ápio Cláudio Pulcro no seu lugar, obrigando-o a esperar meses por uma audiência.

E foi assim que Públio Clódio foi para o Oriente, não muito tempo antes do regresso de Ápio; era o princípio do ano imediatamente após o consulado de Pompeu e Crasso. O mesmo ano em que César partira para o seu questorado na Hispânia Ulterior.

Escolhendo cuidadosamente uma rota que o não levasse a cruzar-se com Ápio, Clódio, mal chegou ao Helesponto, descobriu que Lúculo estava envolvido na pacificação do reino recentemente conquistado ao rei Mitridates, o reino do Ponto. Depois de atravessar o estreito canal que ligava a Europa à Ásia, avançou para o interior, na expectativa de encontrar rapidamente o cunhado Lúculo. Que Clódio julgava conhecer: um aristocrata urbano e formalista, com um genuíno talento para a diversão, uma riqueza imensa, sem dúvida em rápido crescimento, e uma lendária inclinação por boas comidas, bons vinhos, boas companhias. Precisamente o género de chefe que Clódio adoraria! Participar numa campanha dirigida por Lúculo, pensava Clódio, devia ser a mais agradável das experiências...!

Encontrou Lúculo em Amiso, uma cidade magnífica junto ao mar Euxino, no coração do Ponto. Amiso sofrera um cerco e acabara muito maltratada; Lúculo procurava agora reparar os danos e reconciliar os habitantes com Roma.

Quando Públio Clódio lhe apareceu à porta, Lúculo tirou-lhe a sacola com as cartas oficiais (Clódio abrira-as e lera-as todas) e fez o possível por se esquecer de que o cunhado existia. Limitou-se a dar-lhe ordens para se apresentar ao serviço do legado Sornácio, após o que regressou àquilo que, naquele momento, mais o preocupava: a iminente invasão da Arménia, o reino de Tigranes.

Furioso com a frieza do tratamento, Clódio apressou-se a agir. Contudo, não se foi apresentar ao legado Sornácio, pois não se via a obedecer às ordens de um zé-ninguém como Sornácio. Assim, enquanto Lúculo se preparava para partir com o seu pequeno exército, Clódio explorava as ruelas de Amiso. Como falava fluentemente grego, era-lhe fácil fazer amizade com muitas das pessoas que encontrava na suas deambulações; e muitas dessas pessoas ficavam seriamente intrigadas com aquele estranho indivíduo, tão dado e tão pouco romano.

Foi dessa forma que Clódio obteve muitas informações acerca de um lado de Lúculo que desconhecia — acerca do seu exército e das campanhas que até então dirigira.

O rei Mitridates fugira, dois anos antes, para a corte do seu genro Tigranes, pois concluíra que era incapaz de enfrentar os implacáveis Romanos, tanto mais que havia perdido duzentos e cinquenta mil militares experientes no Cáucaso, numa disparatada expedição punitiva contra os selvagens albaneses que haviam atacado Cólquida. Mitridates precisara de vinte meses para convencer Tigranes a recebê-lo; e precisara de mais tempo ainda para o convencer a ajudá-lo a recuperar as suas terras perdidas do Ponto, Capadócia, Arménia Parva e Galácia.

Claro que Lúculo tinha os seus espiões, e sabia muito bem que os dois reis se tinham reconciliado. Porém, em vez de esperar que eles invadissem o Ponto, Lúculo decidira-se pela via ofensiva: invadiria a Arménia, atacaria Tigranes e impedi-lo-ia de ajudar Mitridates. A sua intenção inicial fora não deixar nenhum tipo de guarnição militar no Ponto, confiando que Roma e a influência romana bastariam para manter a calma nessa região. É que Lúculo acabara de perder o governo da província da Ásia e, graças às cartas que Públio Clódio lhe trouxera, ficara a saber que a inimizade que a Ordo Equester lhe dedicava não parava de crescer. Quando verificou que as cartas anunciavam que Dolabela era o novo governador da província da Ásia e que Dolabela iria também Supervisionar a Bitínia, Lúculo entendeu perfeitamente a situação. Era óbvio que os cavaleiros de Roma e os senadores que estavam ao seu serviço preferiam a incompetência ao êxito na guerra. Públio Clódio, concluiu Lúculo com tristeza, era sem dúvida um mensageiro de más novas.

Os nove comissários enviados por Roma antes de o seu poder começar a declinar, estavam espalhados pelo Ponto e pela Capadócia, incluindo o homem que Lúculo mais amava no mundo, agora que Sila estava morto — o seu irmão mais novo, Varrão Lúculo. Mas os comissários não dispunham de tropas e, pelo tom das cartas que Públio Clódio lhe trouxera, parecia que não permaneceriam por muito tempo nesses cargos. Portanto, decidiu Lúculo, não tinha outra alternativa senão deixar duas das suas quatro legiões no Ponto, para o caso de Mitridates tentar recuperar o seu reino sem a assistência de Tigranes. O legado que mais estimava estava a reparar os danos provocados na ilha de Delos, e, embora soubesse que Sornácio era um bom homem, Lúculo não tinha confiança suficiente nas suas capacidades militares para o deixar sem ninguém a seu lado. O outro legado sénior, Marco Fábio Adriano, teria de ficar também no Ponto.

Tendo decidido que duas das suas quatro legiões teriam de ficar no Ponto, Lúculo sabia também quais as duas legiões que teria de escolher para tal missão — e, de facto, não era uma perspectiva animadora. As legiões pertencentes à província da Cilícia ficariam no Ponto. E ele marcharia para sul, com as duas legiões de Fimbrianos. E que legiões...! Lúculo odiava os Fimbrianos. Estavam no Oriente há já dezasseis anos e haviam sido condenados a não regressar a Roma ou à Itália, porque tinham uma tal história de motins e assassínios que o Senado se recusara a permitir-lhes o regresso. Sempre em ebulição, os Fimbrianos eram homens perigosos, mas Lúculo, que recorrera aos seus serviços ao longo de muitos anos, lidava com eles fustigando-os impiedosamente durante as campanhas e satisfazendo todos os seus caprichos sensuais durante as tréguas de Inverno. Daí que os Fimbrianos aceitassem de bom grado o comando de Lúculo e sentissem mesmo por ele, apesar de toda a sua má vontade, uma evidente admiração. Mesmo assim, preferiam continuar a ser conhecidos como Fimbrianos, designação que derivava do nome do seu primeiro comandante, Fímbria. E Lúculo não se importava nada com isso. Detestaria, isso sim, que aqueles homens ficassem conhecidos como os Licinianos ou os Luculianos.

Clódio apaixonou-se de tal forma por Amiso que decidiu que ficaria no Ponto, com os legados Sornácio e Fábio Adriano; quando ouviu dizer que Lúculo planeava uma marcha de mil milhas, perdeu todo o interesse pelas campanhas do cunhado.

A realidade, porém, viria a contrariar os desejos de Clódio. De facto, recebeu ordens para acompanhar Lúculo, integrando a sua comitiva pessoal. Pois bem, pensou Clódio, pelo menos viveria numa relativa luxúria! Depressa descobriu que ideias tinha Lúculo quanto ao seu conforto e ao conforto dos seus homens durante as campanhas. Ou seja: que não havia conforto nenhum. O epicurista sibarítico que Clódio conhecera em Roma e Amiso desaparecera por completo; Lúculo, ao longo daquela dura marcha, à frente dos Fimbrianos, não dispunha de mais conforto do que qualquer soldado raso; e, se com Lúculo era assim, com os membros da sua equipa pessoal não poderia ser de outro modo. Marchavam, não recorriam a cavalgaduras — os Fimbrianos nunca montavam. Comiam papas de cereais e pão duro — era isso o que os Fimbrianos comiam. Dormiam no chão com uma laena por coberta e uma almofada de terra — porque os Fimbrianos dormiam no chão com uma laena por coberta e uma almofada de terra. Banhavam-se em rios gelados ou então não se banhavam e tresandavam a imundície — porque, com os Fimbrianos, era assim mesmo. O que era bom para os Fimbrianos era bom para Lúculo.

Não o era, porém, para Públio Clódio, o qual, poucos dias depois de terem deixado Amiso, aproveitou o seu parentesco com Lúculo para se queixar amargamente.

Os olhos cinzento-claros do general fitaram-no de alto a baixo, sem qualquer expressão, tão frios como as terras, agora no degelo, que o exército atravessava. — Se queres conforto, Clódio, vai para casa — disse Lúculo.

— Eu não quero ir para casa. Eu só quero conforto! — disse Clódio.

— Ou uma coisa ou outra. Comigo, nunca as duas — retorquiu o cunhado, e virou-lhe as costas com o maior desprezo.

Esta foi a última conversa que Clódio teve com ele. Por outro lado, o pequeno grupo de severos legados juniores e tribunos militares que rodeava o general também não encorajava o tipo de camaradagem por que Clódio ansiava e sem a qual, sabia-o agora, dificilmente passaria. Amigos, vinho, dados, mulheres, patifarias várias; essas eram as coisas por que Clódio ansiava, à medida que os dias iam passando, dias que, a ele, pareciam anos, à medida que a paisagem se ia revelando sempre a mesma — tão fria e agreste como Lúculo.

Fizeram uma breve pausa em Eusebeia Mazaca, onde Ariobarzanes Filoromaios, o Rei, contribuiu com o que pôde para o comboio das bagagens, e desejou a Lúculo, com o ar mais desconsolado possível, as maiores felicidades. E retomaram logo a marcha, numa paisagem convulsionada por abismos e gargantas de todas as cores, por uma massa confusa de torres e penedos de tufo calcário precariamente empoleirados sobre frágeis colos de pedra. Contornar estas gargantas mais do que duplicava a extensão da marcha, mas Lúculo não se compadecia, insistindo na necessidade de o seu exército fazer, por dia, um mínimo de trinta milhas. Isso significava que marchavam desde o nascer ao pôr do Sol, montando o acampamento na semi-escuridão da noite e levantando-o na semiescuridão das primeiras horas da manhã. E todas as noites era montado um acampamento notável, com trincheiras e fortificações contra — contra quem? Sim, contra QUEM? Clódio queria gritar essa pergunta contra o pálido céu, que não tinha o direito de estar tão alto, tão longe dele! E a seguir, vinha um PORQUÊ?, um PORQUÊ? que atroava mais alto do que os trovões das infindáveis tempestades de Primavera.

Chegaram finalmente ao Eufrates, atravessando-o por alturas de Tomisa; as águas do rio, conhecidas pela sua misteriosa cor azul-leitosa, eram agora uma agitada massa de neves derretidas. Clódio soltou um suspiro de alívio. Não havia alternativa! O general teria de esperar que o rio amansasse; logo, teria de parar e descansar. Parou? Nem pensar! Mal o exército se deteve, o Eufrates começou a acalmar e, em pouco tempo, transformou-se num curso navegável. Lúculo e os Fimbrianos seguiram de barco até Sofena. Tinha o último homem posto o pé em terra quando o rio se transformou de novo numa torrente furiosa.

— Que sorte a minha! — exclamou Lúculo, satisfeito. — É um bom augúrio.

Penetravam agora numa região mais agradável: as montanhas eram menos altas, erva verdejante e espargos selvagens cobriam as encostas, e árvores cresciam em pequenos bosques onde bolsas de humidade vinham em auxílio das suas raízes. Mas que significava isso para Lúculo? Apenas isto: num terreno tão fácil, e ainda por cima com espargos para ir roendo, o exército podia marchar ainda mais depressa! Clódio sempre se considerara tão capaz e ágil como qualquer outro Romano; estava habituado a andar a pé, raramente usava outro meio de transporte. Afinal, ali estava Lúculo, um homem com quase cinquenta anos, dando cartas, e de que maneira, a um jovem de vinte e dois.

Atravessaram o Tigre — pouca coisa, se comparado com o Eufrates, já que o seu leito não era tão largo, nem as correntes eram tão rápidas. Por fim, depois de ter marchado mais de mil milhas em dois meses, o exército de Lúculo avistou Triganocerta.

Aquela cidade não existia trinta anos antes. O rei Tigranes construíra-a para satisfazer os seus sonhos de glória e consolidar um reino muito mais vasto: uma magnífica cidade de pedra com muralhas elevadas, cidadelas, torres, praças e pátios, jardins suspensos, requintados ladrilhos vidrados, em tons de água-marinha e amarelo-enxofre e vermelho-brônzeo, e estátuas gigantescas de touros alados, de leões, de reis com barbas encaracoladas e enormes tiaras na cabeça. O local fora escolhido tendo em conta todos os factores, desde a facilidade de defesa até às fontes internas de água, passando por um afluente do Tigre que corria perto e que levava o conteúdo dos vastos esgotos que Tigranes construíra, copiando o exemplo de Pérgamo. Nações inteiras tinham caído para financiar a construção de Triganocerta; e a riqueza era bem visível, mesmo ao longe, mesmo no cume de onde os Fimbrianos viram pela primeira vez a cidade. Vasta, elevada, bela. Porque sonhava com um reino helenizado, o rei dos reis começara a construir a cidade segundo o estilo grego, mas a influência dos Partos, presente na sua infância e adolescência, era demasiado forte; achando a perfeição dórica e jónica demasiado insípida, Tigranes mandou acrescentar os vistosos ladrilhos vidrados, os touros alados, os monolíticos soberanos. Insatisfeito ainda com os edifícios gregos, todos tão baixos, acrescentou os jardins suspensos, as torres de pedra, os pilares e a energia da sua educação parta.

Em vinte e cinco anos, nunca ninguém se atrevera a levar más notícias ao rei Tigranes; ninguém queria ficar sem a cabeça ou sem as mãos, e era isso o que acontecia, no reino de Tigranes, aos mensageiros de más novas. Todavia, alguém teria de informá-lo de que um exército romano estava a aproximar-se rapidamente da cidade, vindo das montanhas a oeste. Compreensivelmente, a instituição militar (dirigida por um filho de Tigranes, o príncipe Mitrabarzanes) preferiu mandar um oficial muito subalterno dar a horrenda nova a Tigranes. O rei dos reis ficou em pânico — mas ainda teve a presença de espírito suficiente para mandar enforcar o mensageiro. Depois, fugiu, e com tal pressa fugiu, que deixou na cidade a rainha Cleópatra, mais as suas outras esposas, concubinas, filhos, tesouros e uma guarnição dirigida por Mitrabarzanes. Foram imediatamente enviadas ordens para todas as regiões, desde as margens do mar Hircaniano às margens do mar Médio, onde Tigranes reinava: mandem tropas em auxílio do rei, mandem-lhe catafractos, mandem-lhe Beduínos do deserto à falta de melhor! É que, a Tigranes, nunca lhe passara pela cabeça que Roma, tão assediada, pudesse invadir a Arménia e bater às portas da sua capital acabadinha de construir.

Enquanto o pai se refugiava nas montanhas entre Tigranocerta e o lago Tospite, Mitrabarzanes conduziu as tropas disponíveis ao encontro dos invasores romanos, assistido por algumas tribos de Beduínos que se encontravam por perto. Lúculo venceu-os e instalou-se diante de Tigranocerta para a cercar, ainda que o seu exército fosse tão pequeno que nem chegava para dar a volta às muralhas; daí que Lúculo decidisse concentrar-se nas portas e nas patrulhas de vigilantes. Como era também um general extremamente eficiente, pouco era o tráfego que passava de dentro para fora das muralhas da cidade; e, no sentido contrário, não passava nenhum. Lúculo estava certo, porém, de que Tigranocerta era capaz de aguentar um longo cerco; mas confiava, ao mesmo tempo, que Tigranes não quisesse suportar um cerco prolongado. O primeiro passo era derrotar o rei dos reis no campo de batalha. Esse primeiro passo conduziria ao segundo, a rendição de Tigranocerta, uma cidade cheia de gente que não sentia a menor afeição por Tigranes (bem pelo contrário, o que sentiam era o mais puro terror). Tigranes povoara esta nova capital, situada muito longe do norte da Arménia e da velha capital, Artaxata, com Gregos importados, contra sua vontade, da Síria, da Capadócia, da Cilícia oriental; esse era um ponto vital do programa de helenização que Tigranes queria impor aos seus povos, de etnia média. Ser Grego na cultura e na língua era ser civilizado. Ser Médio na cultura e desconhecer a língua grega era ser inferior, primitivo. A solução encontrada por Tigranes foi raptar Gregos.

Embora os dois grandes reis se tivessem reconciliado, Mitridates era demasiado astuto para se aliar a Tigranes — em vez de o ajudar, instalou-se, com um exército de apenas dez mil homens, a noroeste da zona para onde Tigranes fugira; Mitridates achava que Tigranes era um péssimo militar. Com Mitridates, encontrava-se o seu melhor general, o seu primo Taxiles; quando soube que Lúculo sitiara Tigranocerta, e que Tigranes estava a convocar todas as tropas disponíveis e indisponíveis para libertar a cidade, Mitridates mandou o primo Taxiles avistar-se com o rei dos reis.

Não ataquem os Romanos! tal era a mensagem de Mitridates.

Tigranes sentia-se inclinado a seguir este conselho, apesar de já ter reunido cento e vinte mil soldados de infantaria, vindos de regiões tão distantes umas das outras como a Síria e as montanhas do Cáucaso, e vinte e cinco mil daqueles temíveis cavaleiros conhecidos pela designação de catafractos, pois tanto eles como os cavalos se vestiam da cabeça aos pés com cota de malha. Encontrava-se num vale aprazível, a cerca de cinquenta milhas da sua capital, mas precisava de fazer qualquer coisa. A maior parte dos seus abastecimentos estava nos celeiros e armazéns de Tigranocerta; logo, teria de estabelecer um contacto fortificado com a cidade, se queria dar de comer ao seu imenso exército. E isso talvez não fosse muito difícil, já que, segundo as informações dos espiões, o exército romano não conseguia sequer abarcar todo o perímetro das muralhas de Tigranocerta.

No entanto, Tigranes não acreditara nas informações segundo as quais o exército romano se reduzia a uma meia dúzia de homens. Só depois de ter visto o acampamento romano, do alto de um monte perto da capital, é que Tigranes acreditou que as forças inimigas não passavam de um mosquito que, impudentemente, se propunha picá-lo.

— Demasiado grande para ser uma embaixada, mas demasiado pequeno para ser um exército — foi este o comentário de Tigranes, após o que deu ordens para atacar.

Porém, os vastos exércitos orientais eram entidades que um Mário ou um Sila nunca teriam querido do seu lado, mesmo que Roma alguma vez lhos tivesse oferecido. Os exércitos deviam ser pequenos, flexíveis, fáceis de manobrar — fáceis de abastecer, de controlar, de movimentar. Lúculo tinha duas legiões de soldados magníficos, ainda que mal-afamados, soldados que conheciam as suas tácticas tão bem como ele, para além de um belo contingente de dois mil e setecentos cavaleiros da Galácia que o acompanhavam há muitos anos.

O cerco provocara algumas perdas entre os Romanos, sobretudo por causa de um misterioso fogo zoroastriano que o rei Tigranes possuía. Os Gregos chamavam-lhe naphtha, e vinha de uma fortaleza persa situada algures na margem sudoeste do mar Hircaniano. Pequenas bolas dessa estranha matéria eram lançadas sobre as torres sitiantes e os telhados de protecção das torres logo se incendiavam e se esparramavam no chão, tão quentes e incandescentes que nada nem ninguém conseguia extinguir esse fogo, nem os outros que ele propagava. Aquela arma queimava e mutilava — e, pior do que isso, aterrorizava. Os militares romanos nunca tinham visto nada assim.

Então, quando Tigranes fez avançar o seu poderoso exército para atacar o mosquito, esqueceu-se de que um mosquito ressabiado pode ser um inimigo mortal. Todos os membros do pequeno exército romano estavam literalmente fartos — fartos de uma dieta monótona, do fogo zoroastriano, da ausência de mulheres, dos catafractos que, montados nos seus corpulentos cavalos de Neso, perseguiam os grupos que iam à procura de alimentos, fartos da Arménia em geral e de Tigranocerta em particular. Lúculo, os Fimbrianos, os cavaleiros da Galácia — todos, sem excepção, ansiavam pela batalha. E romperam em ruidosos vivas quando os batedores vieram anunciar que o rei Tigranes se preparava finalmente para atacar.

Prometendo a Mars Invictus um sacrifício especial, Lúculo aprontou-se para a acção às primeiras horas do sexto dia do Outubro romano. Abandonadas as linhas de cerco, o general ocupou um monte que ficava entre o gigante arménio, cada vez mais próximo, e a cidade, e tomou as suas disposições. Embora não pudesse saber que Mitridates avisara o rei dos reis de que não devia atacar os Romanos, Lúculo sabia muito bem o que havia de fazer para levar Tigranes a envolver-se numa batalha: comprimir ainda mais a sua pequena força e dar a impressão de que estava aterrorizado com o tamanho do gigante arménio. Como todos os reis orientais estavam convencidos de que a força de um exército residia no número de soldados, Tigranes atacaria.

E Tigranes atacou, de facto. E o que se seguiu foi uma verdadeira derrocada. Do lado arménio, ninguém (nem mesmo Taxiles) parecia entender a importância, a especificidade, da montanha. Por outro lado, na cadeia de comando arménia, como Lúculo pôde constatar logo que o exército inimigo começou a subir o seu monte, ninguém pensara em desenvolver uma táctica ou uma estratégia. Pensavam que bastava libertar o monstro.

Sem pressas, e sem deixar o alto do monte, Lúculo infligiu ao inimigo uma terrível punição, preocupando-se apenas com o facto de as montanhas de mortos poderem encurralar os seus homens, impedindo assim uma vitória esmagadora. Porém, depois de ter mandado os seus cavaleiros da Galácia desimpedir as linhas, os Fimbrianos puderam espalhar-se à vontade, como se fossem foices num campo de trigo. A frente arménia desintegrou-se, empurrando milhares de soldados de infantaria sírios e caucasianos contra os catafractos, o que acabou por provocar a queda de cavalos e cavaleiros e o esmagamento dos militares de infantaria. Dessa forma, morreram mais militares arménios do que aqueles que os frenéticos Fimbrianos poderiam alguma vez ter liquidado.

No seu relatório para o Senado de Roma, Lúculo mandou dizer:

Mais de cem mil Arménios mortos, cinco Romanos mortos.

O rei Tigranes fugiu então pela segunda vez, tão certo de que seria capturado que deu mesmo a tiara e o diadema a um dos seus filhos, exortando-o a que galopasse mais depressa, já que era mais novo e mais leve. Mas o jovem confiou a tiara e o diadema a um escravo muito estranho, com o resultado de que os símbolos da soberania arménia, passados dois dias, estavam já nas mãos de Lúculo.

Os Gregos obrigados a viver em Tigranocerta abriram as portas da cidade, tão radiantes que levaram Lúculo em ombros. As privações eram uma coisa do passado; os Fimbrianos mergulharam, com igual júbilo, em meigos braços e meigas camas, comeram e beberam, pilharam e não mais largaram as prostitutas da cidade. O saque era impressionante. Oito mil talentos de ouro e prata, trinta milhões de medimni de trigo, tesouros e obras de arte de um valor incalculável.

E o general tornou-se humano! Fascinado, Públio Clódio viu o Lúculo que conhecera em Roma despontar sob aquela capa inflexível, fria, implacável, que o acompanhava há meses. Manuscritos foram reunidos para seu deleite; crianças, as mais belas, foram chamadas para saciarem os prazeres do homem; o auge da felicidade, para Lúculo, era iniciar sexualmente as raparigas que tinham acabado de chegar à puberdade. Mas eram sempre raparigas médias, e nunca gregas! Os despojos foram divididos, com a equidade característica de Lúculo, numa cerimónia que decorreu na praça do mercado: cada um dos quinze mil homens receberia pelo menos trinta mil sestércios em dinheiro, embora só viesse a dispor dessa soma quando o saque tivesse sido convertido no frio e duro dinheiro romano. O trigo valia doze mil talentos; Lúculo, astuciosamente, vendeu-o ao rei Frates dos Partos.

Públio Clódio não estava disposto a perdoar a Lúculo aqueles infindáveis meses de marcha e vida dura, apesar de o seu quinhão no saque atingir os cem mil sestércios. Algures entre Eusebeia Mazaca e a travessia do Eufrates, Clódio juntou o nome do cunhado à lista daqueles que um dia pagariam por o terem ofendido. Catilina. Cícero, essa nulidade. Fábia. E agora Lúculo. Tendo visto o ouro e a prata empilhados nos cofres — e participado mesmo na contagem de tais valores — Clódio tratou, em primeiro lugar, de descobrir como é que Lúculo conseguira enganar toda a gente a quando da divisão dos despojos. Apenas trinta mil para cada legionário e cavaleiro? Ridículo! Até que o seu ábaco lhe comunicou que oito mil talentos, divididos por quinze mil homens, dava apenas treze mil sestércios para cada um — sendo assim, de onde é que tinham vindo os restantes dezassete mil? Da venda do trigo, respondeu-lhe laconicamente o general, quando Clódio lhe pediu que o elucidasse.

No entanto, este inútil exercício de aritmética acabou por dar uma ideia a Clódio. Se ele pensara que Lúculo enganara os seus homens, que pensariam eles se alguém semeasse uma ou duas sementes de descontentamento?

Antes de Tigranocerta ter sido ocupada, Clódio não tivera qualquer possibilidade de se dar com outros homens, para além do pequeno e mais do que discreto grupo de legados e tribunos. Lúculo era rigoroso no protocolo e rejeitava todo e qualquer tipo de confraternização entre soldados rasos e a sua equipa de oficiais. Mas agora, com a chegada do Inverno e com este novo Lúculo disposto a proporcionar todos os prazeres da vida a todos os que o serviam, esse controlo desaparecera. Ah, sim, claro que havia tarefas para cumprir, mas tarefas mínimas: por exemplo, Lúculo ordenou que os soldados reunissem todos os actores e bailarinos e obrigou-os a actuar para o seu exército. Diversões longe de casa para homens que nunca voltariam a casa. Diversões, aliás, não faltavam. E vinho também não.

O chefe dos Fimbrianos era um centurião primus pilus que comandava a mais sénior das legiões fimbrianas. O seu nome era Marco Sílio e, tal como todos os outros, também ele marchara (era ainda um vulgar legionário, tão jovem que ainda nem fazia a barba) rumo ao Oriente, através da Macedónia, sob o comando de Flaco e Fímbria, dezassete anos antes. Quando Fímbria ganhara a supremacia no comando do exército, Marco Sílio aplaudira o assassínio de Flaco em Bizâncio. Penetrara depois na Ásia, combatera contra o rei Mitridates, fora entregue a Sila quando Fímbria se suicidara depois de ter perdido o poder, e lutara por Sila, por Murena, e finalmente por Lúculo. Tal como todos os outros, também Marco Sílio cercara Mitilene; nessa altura, era já pilus prior, um lugar muito alto na tortuosa hierarquia dos centuriões. E os anos iam passando e as batalhas sucediam-se às batalhas. Todos eles eram adolescentes quando deixaram a Itália, pois a Itália, nessa altura, tinha falta de tropas experientes; metade da sua vida fora passada no exército romano, e todos os seus pedidos, tendo em vista uma saída honrosa para o seu caso, haviam sido rejeitados. Marco Sílio, o chefe dos Fimbrianos, era um homem amargo de trinta e quatro anos que não queria outra coisa senão voltar para casa.

Clódio não precisara de esperar muito tempo para confirmar tal informação; até mesmo legados tão azedos como Sextílio falavam do caso de quando em quando, e normalmente referiam Sílio ou o centurião primas pilus da outra legião fimbriana, Lúcio Cornifício, que não pertencia à família com o mesmo nome e que, nos últimos tempos, havia subido na hierarquia social romana.

Também não era difícil encontrar o refúgio de Sílio em Tigranocerta; Sílio e Cornifício haviam requisitado um pequeno palácio pertencente a um filho de Tigranes e tinham-se mudado para lá, acompanhados de belas mulheres e de um número de escravos que chegaria para servir uma corte.

Públio Clódio, um patrício pertencente a um augusto clã, foi visitá-los, e, tal como os Gregos diante de Tróia, levou-lhes presentes. Claro que não eram ofertas tão imponentes como o cavalo de madeira, mas apenas um saquinho de cogumelos que Lúculo (o general adorava experimentar tais substâncias) dera a Clódio, e um garrafão do melhor dos vinhos, tão grande que foram precisos três criados para o transportar.

A recepção foi cautelosa. Os dois centuriões sabiam muito bem quem ele era; que laços o ligavam a Lúculo; e como ele se havia comportado durante a marcha, no acampamento diante da cidade, e durante a batalha. O comportamento de Clódio impressionava-os tão pouco como a pessoa de Clódio, já que este tinha uma estatura média e um físico demasiado medíocre para que alguém desse por ele no meio de uma multidão. O que os impressionou foi o seu desplante; de facto, Clódio irrompeu pelo pequeno palácio como se fosse o proprietário, refastelou-se descontraidamente sobre uma enorme almofada, entre os divãs onde cada um dos centuriões se divertia com a companheira do momento, mostrou o saquinho de cogumelos e tratou de lhes explicar o que aconteceria quando provassem aquele invulgar alimento.

— São extraordinários, estes cogumelos! — disse Clódio, agitando muito as sobrancelhas, num trejeito cómico. — Experimentem... Mas têm de mastigar muito lentamente... Quanto aos efeitos, vão ter de esperar um bocado...!

Sílio não reagiu ao convite; e não deixou de reparar que Clódio também não se predispunha a dar o exemplo, já que não o via mastigar os pequenos fungos mirrados, lentamente ou de outra maneira qualquer.

— Que queres? — perguntou Sílio, rispidamente.

— Falar — disse Clódio, e sorriu pela primeira vez.

Para quem nunca vira Clódio sorrir, aquele seria sempre um momento de choque; o sorriso transformava por completo um rosto particularmente tenso e ansioso; a sua expressão tornava-se tão agradável, tão sedutora, que os seus interlocutores dificilmente resistiriam a retribuir o sorriso. E os dois centuriões, mais as mulheres com quem estavam, não resistiram.

Mas não era assim tão fácil apanhar um Fimbriano. Clódio era o inimigo, um inimigo muito mais terrível do que qualquer Arménio, Sírio ou Caucasiano. Por isso, depois de os sorrisos se terem esbatido, Sílio manteve a sua independência de espírito e o seu cepticismo em relação aos motivos de Clódio.

Clódio estava à espera daquela reacção, contava com ela. Durante os quatro anos de errância e humilhações que passara em Roma, não deixara de reparar que as pessoas de alta linhagem eram sempre vistas com extrema desconfiança por aqueles que, na escala social, se encontravam numa posição inferior; por outro lado, as pessoas das classes mais baixas não viam razão nenhuma para que alguém de estirpe nobre se interessasse por elas. Desorientado, ostracizado pelos seus pares, e desesperado por fazer alguma coisa, Clódio procurou vencer a desconfiança dos seus inferiores. Quando tinha êxito, a emoção da vitória era algo de muito agradável; mas também era verdade que Clódio gostava genuinamente de companhias inferiores; gostava de ser o mais cultivado e o mais inteligente do grupo, pois isso dava-lhe uma supremacia que nunca teria entre os seus pares. Sentia-se um gigante. E, aos seus inferiores, transmitia a mensagem de que era um indivíduo de nobre estirpe que realmente se interessava pelas pessoas simples, que realmente se sentia fascinado pela vida simples e difícil dessas pessoas. Aprendeu a insinuar-se nesses meios, a sentir-se à vontade com essa gente. A desfrutar de um novo tipo de adulação.

A sua técnica consistia em conversar. Nada de grandes discursos, nenhuma alusão inadvertida a obscuros poetas ou dramaturgos gregos, nenhum sinal de que a sua companhia, ou as bebidas, ou o sítio, não lhe agradavam. E, enquanto conversava, ia oferecendo vinho aos seus ouvintes, ao mesmo tempo que fingia beber ainda mais do que eles — fingia, apenas, já que, no final, era sempre o mais sóbrio de todos. Não que o parecesse; de facto, era freqüente vê-lo cair do seu banco, aparentemente inanimado, ou disparar para a rua, aparentemente para vomitar. Da primeira vez que elegera vítimas para o seu teatro, estas tinham conseguido manter um certo cepticismo; mas Clódio voltara, uma, duas, três vezes, até que, por fim, mesmo o mais desconfiado dos presentes tivera de admitir que Públio Clódio era um camarada maravilhoso, um homem igual aos outros, mas que tivera o infortúnio de nascer na esfera errada. Depois de estabelecida a confiança, Clódio descobriu que poderia manipular toda a gente a seu bel-prazer, desde que nunca traísse os seus pensamentos e sentimentos mais íntimos. Depressa se apercebeu de que aqueles homens inferiores que tão ardilosamente cativava eram gente inculta, ignorante, iletrada — ansiando desesperadamente pela estima dos seus superiores, não desejando outra coisa senão a aprovação dos seus superiores. Enfim: gente que seria facílimo moldar.

Marco Sílio e Lúcio Cornifício não eram diferentes do povo de Roma que enchia as tabernas, apesar de terem deixado a Itália com dezassete anos. Podiam ser muito duros, cruéis, implacáveis. Mas, para Públio Clódio, eram tão maleáveis como o barro nas mãos de um mestre escultor. Aquilo ia ser canja..., era o que ele dizia para si mesmo.

Depois de Sílio e Cornifício terem admitido para si mesmos que gostavam daquele patrício, que ele os divertia, Clódio tratou de se mostrar deferente com eles, de lhes pedir as suas opiniões sobre este ou aquele assunto — escolhendo sempre campos que eles conheciam bem, matérias que eles dominavam. De seguida, mostrou-lhes que os admirava — pela sua firmeza, pela energia com que desempenhavam as suas funções, com que executavam o seu trabalho de soldados, um trabalho da máxima importância para Roma. Por fim, tornou-se seu igual, bem como seu amigo, um dos rapazes, uma luz na escuridão; ele era um dos deles, mas, sendo um dos nossos, estava em condições de chamar a atenção deles, do Senado, das assembleias, do Palatino, de Carinas, para os problemas que nos atormentavam. Ah, sim, ele era um jovem, pouco mais do que um rapaz! Mas os rapazes cresciam e, quando chegasse aos trinta, Públio Clódio entraria pelas sagradas portas do Senado; e subiria o cursus honorum tão suavemente como a água deslizando pelo mármore polido. Era preciso não esquecer que ele era um Cláudio, um membro de um clã que sempre estivera presente nos consulados ao longo das muitas gerações da República. Embora fosse um dos deles, Clódio era, ao mesmo tempo, um dos nossos.

Só na sua quinta visita é que Clódio abordou o assunto do saque e da divisão dos despojos a que Lúculo procedera.

— Miserável sovina! — disse Clódio, algo indistintamente.

— O quê? — perguntou Sílio, todo ele ouvidos.

— O meu estimado cunhado Lúculo, que vos impingiu um prémio miserável, a vocês, que lutaram tão duramente... Trinta mil sestércios para cada um, quando havia oito mil talentos em Tigranocerta!

— Achas que ele nos enganou? — perguntou Cornifício, estupefacto. — Ele sempre disse que preferia dividir os despojos no campo, em vez de os dividir depois de um triunfo, porque assim o Tesouro não poderia ludibriar-nos!

— Isso é o que ele quer que vocês pensem — disse Clódio, bebendo vagarosamente o seu vinho. — Sabem fazer contas?

— Contas?

— Sim, somar e subtrair, multiplicar e dividir.

— Ah... mais ou menos — disse Sílio, que não queria dar parte de ignorante.

— Pois bem, uma das vantagens de termos um pedagogo quando somos novos é que somos obrigados a fazer contas atrás de contas. E somos açoitados se não as fizermos! — disse Clódio, com um risinho. — De maneira que eu pus-me a fazer as minhas contas e transformei os talentos em sestércios e depois dividi por quinze mil. E uma coisa posso garantir-te, Marco Sílio: os homens das tuas legiões deviam ter recebido dez vezes mais do que receberam, ou seja, trezentos sestércios, em vez de trinta! Aquele mentula do meu cunhado, sempre arrogante e altivo, resolveu mostrar-se generoso quando apareceu na praça do mercado... Mas a generosidade dele foi só uma: enfiou-vos o punho pelo cu acima! — Clódio bateu com o punho direito na palma da mão esquerda. — Ouviram o som? Pois não é nada, se comparado com o barulho que Lúculo fez quando vos enrabou a todos com o punho dele!

Os dois centuriões acreditaram nele, não só porque queriam acreditar, mas também porque ele falava com a autoridade de quem tudo sabia; depois, Clódio lançou-se numa exaustiva recitação de números, desfiando a litania de peculatos que Lúculo teria cometido desde que, seis anos antes, fora para o Oriente comandar os Fimbrianos. Como poderia enganar-se um homem que tanto sabia? E por que raio haveria um homem como ele de mentir? Sílio e Cornifício acreditavam em Clódio.

Depois, tudo foi fácil. Enquanto os Fimbrianos se divertiam em Tigranocerta, Públio Clódio segredava intrigas aos centuriões, os quais passavam os segredos aos soldados rasos, os quais faziam chegar as novidades aos cavaleiros da Galácia. Alguns dos homens tinham deixado as mulheres em Amiso, e quando as duas legiões da Cilícia, comandadas por Sornácio e Fábio Adriano, marcharam de Amiso até Zela, as mulheres vieram atrás do exército, como costumavam fazer as mulheres dos soldados. Raros eram os homens que sabiam escrever e, no entanto, depressa se espalhou o rumor, desde Tigranocerta ao Ponto, de que Lúculo enganara os seus soldados, atribuindo-lhes menos do que devia. Ninguém se preocupou em verificar a aritmética de Clódio. Era preferível acreditar que tinham sido enganados, pois o prémio para a sua credulidade era dez vezes superior ao que Lúculo lhes queria dar. Além disso, Clódio era brilhante...! Não havia nunca um erro nas suas contas...! O que Clódio dizia tinha forçosamente de estar certo! Lá esperto, era ele, sem dúvida. Descobrira o segredo da demagogia: dizer às pessoas aquilo que elas mais querem ouvir, e nunca lhes dizer aquilo que elas não querem ouvir.

Entretanto, Lúculo não estivera parado, apesar das suas viagens por manuscritos raros e raparigas com idade para serem suas netas. Fizera também algumas viagens rápidas à Síria e mandara para as suas terras todos os Gregos deslocados para Tigranocerta. O império meridional de Tigranes estava a desmtegrar-se e Lúculo queria assegurar que Roma herdasse esse império. É que havia um terceiro rei oriental que representava uma ameaça para Roma, o rei Frates dos Partos. Sila concluíra um tratado com o pai de Frates que dava a Roma todas as terras a oeste do Eufrates, e ao reino dos Partos todas as terras a leste desse rio.

Quando vendeu aos Partos os trinta milhões de medimni de trigo que encontrara em Tigranocerta, Lúculo tinha em mente impedir que o cereal acabasse por encher as barrigas dos Arménios. Porém, enquanto as barcaças iam descendo o Tigre na direcção da Mesopotâmia e do reino dos Partas, o rei Frates enviou-lhe uma mensagem solicitando um novo tratado com Roma, idêntico ao primeiro: todas as terras a oeste do Eufrates seriam de Roma, todas as terras a leste pertenceriam a Frates. Depois, Lúculo soube que Frates estava também a negociar com o refugiado Tigranes, que prometia devolver-lhe setenta vales da Média Atropatene, em troca de auxílio farto contra Roma. Aqueles reis orientais não eram de fiar; seguiam os seus próprios valores, os valores do Oriente, e os valores do Oriente eram tão movediços como a mais movediça das areias.

Foi por essa altura que, na mente de Lúculo, se começaram a esboçar visões de riqueza que suplantavam todo e qualquer sonho romano. Imagine-se o que os Romanos encontrariam em Selêucia-sobre-o-Tigre, em Ctesifonte, em Babilónia, em Susa! Se duas legiões romanas e três mil cavaleiros galacianos tinham praticamente eliminado o grandioso exército arménio, quatro legiões romanas e os cavaleiros galacianos conquistariam facilmente todas as terras da Mesopotâmia e nada os deteria até chegarem ao mar Eritreu! Como poderiam resistir os Partos, se Tigranes não tinha resistido? Desde catafractos a fogos zoroastrianos, o exército de Lúculo tudo aguentara. Não havia dúvida, Lúculo só precisava de uma coisa: de juntar ao seu pequeno exército as duas legiões cilicianas do Ponto.

Lúculo tomou rapidamente uma decisão. Na Primavera, invadiria a Mesopotâmia e esmagaria o reino dos Partos. Seria um choque tremendo para os cavaleiros da Ordo Equester e os seus partidários senatoriais! Lúcio Licínio Lúculo mostrar-lhes-ia quem era. A eles e ao mundo inteiro!

Enviou imediatamente uma mensagem a Sornácio, que se encontrava em Zela: traze as legiões cilicianas para Tigranocerta, sem demora. Marcharemos na direcção de Babilónia e Elimaide. Seremos imortais. Transformaremos todo o Oriente numa província de Roma e eliminaremos o último dos nossos inimigos.

Claro que Públio Clódio estava ao corrente destes planos, pois visitava frequentemente a ala do principal palácio da cidade onde Lúculo instalara a sua residência. De facto, Lúculo mostrava-se ultimamente mais receptivo em relação ao cunhado, pois Clódio não procurara atrapalhar os seus movimentos, nem tentara semear a discórdia entre os tribunos militares juniores, um hábito a que se entregara periodicamente durante a marcha do ano anterior.

— Farei com que Roma seja mais rica do que alguma vez foi em toda a sua história — disse Lúculo com uma expressão radiante, tão diversa daquela expressão dura e fechada dos tempos de guerra. — Marco Crasso fala muito da riqueza que o Egipto nos traria, mas, comparado com o reino dos Partos, o Egipto mais parece um país pobre. O rei Frates cobra tributos desde o Indo ao Eufrates. Porém, depois de eu ter acabado com Frates, todos esses tributos irão parar aos cofres da nossa querida Roma. Teremos de construir um novo edifício do Tesouro para albergar tanta riqueza! Clódio apressou-se a visitar Sílio e Cornifício.

— Que acham da ideia dele? — perguntou-lhes Clódio com a mais simpática das expressões.

Os dois centuriões não gostavam nada da ideia, como Sílio deixou bem claro.

— Tu não conheces a planície — disse ele a Clódio —, mas nós conhecemos. Já estivemos em todo o lado. Uma campanha de Verão, ao longo do Tigre, até Elimaide? Com aquele calor e humidade? Os Partos nascem e crescem naquele clima. Ao passo que nós... nós morreremos...!

Clódio não pensara noutra coisa senão no saque; agora, porém, todos os seus pensamentos iam para o clima. Uma marcha sob um sol impiedoso, com tão forte humidade, e ainda por cima conduzida por Lúculo? E o perigo de uma insolação? E as cãibras? Seria pior do que tudo o que até então suportara!

— Pois bem — disse ele, animadamente. — Nesse caso, teremos de fazer com que a campanha não chegue a começar!

— As legiões cilicianas! — disse Sílio de repente. — Sem essas legiões, não conseguiremos marchar sobre uma região que é tão plana como uma prancha de madeira. Lúculo sabe disso. Quatro legiões para formar um quadrado defensivo perfeito.

— Ele já mandou uma mensagem para Sornácio — disse Clódio, franzindo o sobrolho.

— O seu mensageiro viajará como o vento, mas Sornácio terá de esperar pelo menos um mês para dar início à sua marcha — disse Cornifício, com toda a segurança. — Sornácio está sozinho em Zela, pois Fábio Adriano foi para Pérgamo.

— Como é que sabes disso? — perguntou Clódio, curioso.

— Nós também temos as nossas fontes — retorquiu Sílio, com um sorriso imenso. — O que nós temos de fazer é mandar algum dos nossos a Zela.

— Para quê?

— Para dizer aos Cilicianos que fiquem onde estão. Quando souberem para onde vai o exército, não mexerão nem mais uma palha. Se Lúculo lá estivesse, conseguiria convencê-los. Mas Sornácio não tem a influência e a energia suficientes para enfrentar um motim. Clódio fingiu-se horrorizado. — Motim?! — disse ele, com uma vozinha abafada. — Bom, não é propriamente um motim... — acalmou-o Sílio. — Aqueles homens querem combater por Roma... mas desde que não saiam do Ponto...! Por isso, ninguém poderá dizer que se trata de um motim!

— Tens razão — disse Clódio, fingindo alívio. — Quem vais mandar a Zela? — perguntou.

— O meu próprio ordenança — disse Cornifício, levantando-se. — Não temos tempo a perder. Vou dizer-lhe que parta imediatamente.

Clódio e Sílio ficaram sós.

— Tens-nos ajudado imenso — disse Sílio, sinceramente grato. — Estamos muito felizes por te termos conhecido, Públio Clódio.

— Não tão felizes como eu por te ter conhecido, Marco Sílio.

— Em tempos, conheci um outro jovem patrício que era mesmo um tipo fixe... — disse Sílio, com um ar pensativo, enquanto fazia girar a taça de ouro entre as mãos.

— Conheceste? — perguntou Clódio, genuinamente interessado; nunca se sabia onde tais conversas poderiam levar e o proveito que Clódio poderia tirar delas. — Quem? Onde?

— Em Mitilene, já lá vão uns onze ou doze anos... — Sílio cuspiu no chão de mármore. — Noutra campanha de Lúculo...! Parece que nunca me vou ver livre dele. Fomos reunidos numa coorte, os tipos que Lúculo achava demasiado perigosos, os tipos em quem não tinha confiança... Naqueles tempos, Fímbria ainda estava bem presente na cabeça de toda a gente... De maneira que Lúculo decidiu atirar-nos às setas inimigas e pôs aquele miúdo todo boneco a comandar-nos...! Tinha vinte anos, acho eu. Caio Júlio César.

— César? — Clódio soergueu-se, atento. — Eu conheço-o, quer dizer, tenho ouvido falar dele... Lúculo odeia-o.

— Já nessa altura o odiava. Foi por isso que o mandou para as setas connosco. Mas as coisas não se passaram como Lúculo pensava... Nós pensamos que somos duros e frios como aço, mas aquele rapaz era como gelo! E quanto a lutar? Por Júpiter, o que ele lutava! E nunca parava de pensar, era por isso que ele era tão bom. Salvou-me a vida nessa batalha. Salvou a vida de toda a gente.

Mas o meu caso foi muito especial. Ainda estou para saber como é que ele conseguiu. Pensei que era o meu fim, Públio Clódio! Mas estava enganado...

— Ele ganhou a Coroa Cívica — disse Clódio. — É por isso que me lembro dele tão bem. Não há muitos advogados que apareçam nos tribunais com uma coroa de folhas de carvalho na cabeça. É sobrinho de Sila.

— E sobrinho de Caio Mário — disse Sílio. — Ele disse-nos isso no início da batalha.

— Sim, é verdade, uma das suas tias casou com Mário e a outra casou com Sila. — Clódio parecia satisfeito. — Bom, de certo modo ele é também meu primo, e isso explica tudo.

— Explica o quê?

— A coragem dele e o facto de teres gostado dele!

— E gostei mesmo. Fiquei triste quando ele regressou a Roma com Termo e os soldados da Ásia.

— E os pobres Fimbrianos tiveram de ficar...! — disse Clódio, num tom terno. — Pois bem, animemo-nos! Vou escrever a toda a gente que conheço em Roma para que esse decreto senatorial seja revogado!

— Tu — disse Sílio, os olhos marejados de lágrimas —, és o Amigo dos Soldados, Públio Clódio. Nós não nos esqueceremos disso.

Clódio parecia emocionado. — O Amigo dos Soldados? É isso que vocês me chamam?

— É isso que te chamamos.

— Eu também não esquecerei, Marco Sílio.

Em meados de Março, um mensageiro exausto e enregelado chegou do Ponto para informar Lúculo de que as legiões cilicianas se tinham recusado a abandonar Zela. Sornácio e Fábio Adriano tinham feito rigorosamente tudo para os convencer, mas os Cilicianos não vergaram. Nem mesmo depois de o governador Dolabela lhes ter enviado uma séria advertência. Mas não eram essas as únicas notícias perturbadoras que o mensageiro trazia de Zela. Segundo a mensagem de Sornácio, as duas legiões cilicianas, sem que se percebesse muito bem porquê, estavam convencidas de que Lúculo nunca lhes dera a parte dos saques a que tinham direito, durante os últimos seis anos que passara no Oriente. A perspectiva do calor e da humidade ao longo do Tigre fora, sem dúvida, a causa directa da rebelião, mas a ideia de que Lúculo era um mentiroso e um impostor não ajudara nada.

A janela para que dava a secretária de Lúculo oferecia-lhe uma vista larga da cidade e dos campos adjacentes, na direcção da Mesopotâmia; com um ar ausente, Lúculo fitou o distante horizonte de montanhas baixas e tentou enfrentar a dissolução daquilo que se tornara um sonho possível, tangível. Estúpidos, idiotas...! Ele, um Licínio Lúculo, subtraindo somas miseráveis aos homens sob o seu comando? Ele, um Licínio Lúculo, descendo ao nível daqueles publicani gananciosos que faziam fortunas rápidas? Quem propagara tal ideia? Quem espalhara tal boato? E porque é que eles não tinham sido capazes de ver, de entender, que aquilo não era verdade? Bastavam umas simples contas, umas simples contas, nada mais.

O seu sonho de conquistar o reino dos Partos chegava ao fim. Levar menos de quatro legiões para uma região absolutamente plana seria um suicídio e Lúculo não tinha inclinações suicidas. Com um suspiro, levantou-se e foi à procura de Sextílio e Fânio, os seus principais legados em Tigranocerta.

— Que vais fazer? — perguntou Sextílio, atordoado ainda com as notícias.

— Farei o que puder com as forças que tenho — disse Lúculo, de novo o general firme e duro. — Irei para norte, atrás de Tigranes e Mitridates. Obrigá-los-ei a fugir, encurralá-los-ei em Artaxata e reduzi-los-ei a pó.

— O ano ainda está muito no princípio. Ainda é demasiado cedo para fazermos uma tão longa marcha rumo a norte — disse Lúcio Fânio, com uma expressão preocupada. — Só poderemos partir... bom, talvez em Sextilis, pelo calendário. Depois, teremos apenas quatro meses. Ao que parece, as terras mais baixas têm cinco mil pés de altura e a estação de cultivo não dura mais do que um Verão. E não poderemos levar connosco muitos abastecimentos, pois creio que todo o terreno é montanhoso. Mas suponho que marcharemos para oeste do lago Tosfite, ou não?

— Não. Marcharemos para leste do lago Tosfite — respondeu Lúculo, que já recuperara inteiramente a sua capa de aço das campanhas. — Se quatro meses é tudo o que temos, não podemos dar-nos ao luxo de nos desviarmos duzentas milhas só porque a caminhada seria um pouco mais fácil.

Os legados pareciam seriamente preocupados, mas nenhum deles o contrariou. De há muito acostumados àquela expressão fria e férrea de Lúculo, não acreditavam que houvesse argumentos capazes de o fazerem mudar de ideias. — Entretanto, que vamos fazer? — perguntou Fânio.

— Nada. Deixaremos os Fimbrianos chafurdar à vontade em Tigranocerta — disse Lúculo, com desprezo. — Ficarão todos contentes quando souberem das notícias!

E foi assim que, no início do mês de Sextilis, o exército de Lúculo deixou finalmente Tigranocerta, mas não para marchar para sul e para o calor. Esta nova direcção (como Clódio ficou a saber, graças às informações de Sílio e Cornifício) não agradou propriamente aos Fimbrianos, que teriam preferido ficar a flanar em Tigranocerta, fazendo de conta que estavam a desempenhar o papel de guarnição militar da cidade. Mas pelo menos o tempo seria suportável e não havia montanhas na Ásia capazes de assustarem um Fimbriano! Tinham-nas escalado a todas, disse Sílio, complacentemente. Além disso, quatro meses significava uma campanha curta. No Inverno, estariam de volta à bela Tigranocerta.

O próprio Lúculo conduzia a marcha num silêncio fúnebre, pois descobrira, numa visita a Antióquia, que lhe fora retirado o cargo de governador da Cilícia; a província ia ser entregue a Quinto Márcio Rei, cônsul sénior desse ano, e Rei estava ansioso por partir para o Oriente durante o seu consulado. Lúculo ficou furioso quando soube que Rei seria acompanhado por três legiões novas. Ao passo que ele não conseguiria arrancar a Roma uma única legião, nem mesmo se disso dependesse a sua própria vida!

— Para mim, são boas notícias — disse Públio Clódio, com uma expressão presumida. — Não te esqueças de que Rei também é meu cunhado. Eu sou como um gato — aterro sempre nas minhas quatro patas! Se não me quiseres, Lúculo, vou já ter com Rei, que está agora em Tarso.

— Não tenhas pressa! — rosnou-lhe Lúculo. — O que eu não te disse foi que Rei não pode partir para o Oriente tão cedo como previra. O cônsul júnior morreu e, pouco tempo depois, morreu o cônsul substituto. Rei está preso a Roma até acabar o seu consulado.

— Oh! — foi tudo o que disse Clódio, que logo desandou.

Com o início da marcha, Clódio deixou de poder contactar com Sílio e Cornifício sem ser notado; durante esta fase inicial, manteve-se cabisbaixo entre os tribunos militares, sem nada dizer ou fazer. Tinha o pressentimento de que, com a passagem do tempo, as oportunidades acabariam por chegar, já que estava convicto de que Lúculo perdera a sua boa estrela. E não era o único que pensava isso; os tribunos, e até mesmo os legados, começavam também a murmurar acerca da pouca sorte de Lúculo.

Os guias de Lúculo aconselharam-no a seguir o curso do Canirites, o afluente do Tigre que corria perto de Tigranocerta e que vinha desde o maciço a sueste do lago Tosfite. Mas os guias eram todos árabes das planícies; por muito que procurasse, Lúculo não encontrara, na região de Tigranocerta, ninguém que fosse originário do maciço a sueste do lago Tosfite. Tal facto deveria ter-lhe servido de aviso quanto à região em que se ia aventurar; mas Lúculo nem pensou nisso, de tão magoado que estava com o comportamento das legiões cilicianas. Contudo, conseguiu manter a cabeça fria pelo menos o suficiente para mandar alguns dos seus cavaleiros galacianos à frente. Regressaram ao fim de um intervalo entre dois mercados e informaram-no de que o Canirites tinha um curso curto que terminava numa verdadeira muralha montanhosa que nenhum exército conseguiria atravessar, nem mesmo a pé.

— Vimos um pastor nómada — disse o chefe da patrulha — e ele sugeriu-nos que marchássemos na direcção do Lico, o próximo afluente do Tigre, a sul. Tem um curso longo e serpenteia entre a mesma muralha montanhosa. O pastor acha que a nascente do Lico é menos agreste e que, quando lá chegarmos, conseguiremos atravessá-la sem grandes dificuldades e entrar nas terras mais baixas em torno do lago Tosfite. E a partir daí, segundo ele, tudo será mais fácil.

Lúculo ficou furioso por causa do tempo que tinham perdido e despediu imediatamente os Árabes. Quando pediu que lhe trouxessem o pastor para fazer dele o novo guia, os Galacianos informaram-no de que o patife se tinha escapulido com as suas ovelhas e que ninguém conseguia encontrá-lo.

— Pois bem, marcharemos na direcção do Lico — disse o general.

— Já perdemos dezoito dias — disse Sextílio, timidamente.

— Eu sei — foi a resposta.

Depois de terem encontrado o Lico, os Fimbrianos e a cavalaria seguiram o curso do rio por alturas cada vez maiores. Nenhum deles estivera com Pompeu quando este abrira uma nova estrada nos Alpes ocidentais, mas, se algum deles lá estivesse estado, por certo diria aos outros que o caminho de Pompeu era uma brincadeira de criança se comparado com este. E o exército continuava a subir, abrindo caminho por entre enormes penedos deixados na margem pelo rio, o qual era agora uma torrente ruidosa impossível de atravessar e que se tornava cada vez mais estreita, profunda e selvagem.

À saída de uma penedia, deram com uma faixa verdejante, a qual, pelo menos, oferecia algum pasto para os cavalos, cada vez mais magros e esfomeados. Mas ninguém ficou contente, já que a extremidade dessa faixa — que devia corresponder à nascente do Lico — era absolutamente aterradora. Por outro lado, Lúculo não lhes permitiria permanecer ali mais do que três dias; há mais de um mês que marchavam e, na realidade, pouco se tinham afastado de Tigranocerta.

Aquela montanha, cujo cume ficava para a direita, era um gigante com dezasseis mil pés de altura, e eles tinham já subido dez mil pés, espantados com o peso das suas cargas, intrigados com as dores de cabeça, sem perceberem por que razão os seus peitos pareciam estar sempre sequiosos de ar. Um novo riacho constituía a sua única saída e as muralhas erguiam-se de ambos os lados do curso de água e erguiam-se a tais alturas que nem mesmo a neve poderia ajudar à escalada. Por vezes, levavam um dia inteiro a fazer menos de uma milha, escalando rochas, caminhando sobre rochas, avançando à beira das agitadas cataratas que seguiam, tentando desesperadamente não cair naquele abismo, pois uma queda daquela altura faria deles, instantaneamente, uma polpa indistinta.

Ninguém se apercebia da beleza da paisagem; os perigos eram demasiados. E não pareciam declinar à medida que os dias iam passando e as cataratas se tornavam cada vez mais furiosas, cada vez mais largas e profundas. A noite era mortalmente gelada e, embora estivessem no auge do Verão, durante o dia nunca sentiam o sol, tão portentosas eram as muralhas montanhosas que os limitavam. Nada poderia ser pior do que aquilo, nada.

Até que viram a neve manchada de sangue, no preciso momento em que a garganta que tinham estado a atravessar começou a alargar-se um nada e os cavalos puderam ter alguma erva para mordiscar.

Menos verticais agora, embora tão altas como antes, as montanhas albergavam nas suas fendas lençóis e rios de neve. Uma neve igual à neve dos campos de batalha depois de terminada a carnificina, uma neve rosa-acastanhada por causa do sangue derramado.

Clódio foi logo ter com Cornifício, cuja legião precedia a legião sénior, comandada por Sílio.

— Que significa aquilo? — perguntou Clódio, aterrado.

— Significa que vamos a caminho de uma morte certa — retorquiu Cornifício.

— Alguma vez viste uma neve assim?

— Como poderia tê-la visto, se é um augúrio de morte para todos nós?

— Temos de voltar para trás! — exclamou Clódio, tremendo de medo.

— Demasiado tarde...!

Continuaram a avançar, mais facilmente agora porque o rio conseguira esculpir duas margens dignas desse nome e também porque a altitude estava a diminuir. Mas Lúculo anunciou que se encontravam demasiado a leste e, por isso, o exército, ainda rodeado pelas neves manchadas de sangue, fez-se uma vez mais à subida. Até então, nunca haviam encontrado sinal de vida humana, apesar de terem recebido ordens para capturar qualquer nómada que por ali aparecesse. Mas como podia viver alguém num local onde a neve parecia manchada de sangue?

Por duas vezes subiram até dez e onze mil pés, por duas vezes desceram, mas a segunda das subidas foi como que um bálsamo, pois a neve manchada de sangue desaparecera, transformando-se em vulgar neve branca; e, no alto do segundo cume, avistaram finalmente o lago Tospite, com as suas águas maravilhosamente azuis dormindo sob os raios quentes do Sol.

Com os joelhos enfraquecidos por tanta subida e descida, o exército desceu até uma zona que mais parecia os Campos Elíseos, embora a altitude fosse ainda de cinco mil pés e não houvesse sinal de cultivos, já que, ali, não vivia ninguém, já que, ali, o solo permanecia gelado até ao Verão e voltava a gelar com os primeiros sopros do vento outonal. Não se via uma árvore, mas relva não faltava; os cavalos podiam desforrar-se da fome, mas o mesmo não se podia dizer dos homens, cuja ementa se reduzia a espargos silvestres.

Lúculo ordenou que não parassem, pois sabia que, ao fim de dois meses, estava apenas a sessenta milhas a norte de Tigranocerta. Mesmo assim, o pior já tinha passado; agora, poderia movimentar-se mais depressa. Contornando o lago, deparou-se-lhe uma pequena aldeia de nómadas que haviam plantado cereais. Lúculo levou-lhes toda a colheita, pois os seus abastecimentos tinham minguado assustadoramente. Algumas milhas à frente, encontrou mais campos cultivados: levou todo o cereal e também as ovelhas. Por essa altura, o ar já não parecia tão rarefeito, unicamente porque todos eles se tinham habituado à altitude.

O rio que descia de picos cobertos de neve, situados a norte, até às águas do lago, era um belo rio, largo e plácido, e o seu curso apontava na direcção que Lúculo pretendia seguir. Os aldeãos, que falavam um dialecto aparentado com a língua média, disseram ao intérprete de Lúculo, um médio cativo dos Romanos, que teriam de passar apenas mais uma cordilheira para chegarem ao vale do rio Araxes, onde ficava Artaxata. Como eram essas montanhas?, perguntou Lúculo. Não eram tão más como aquelas de onde viera aquele estranho exército, foi a resposta dos aldeãos.

Pouco tempo depois, quando os Fimbrianos deixavam o vale do rio para escalarem montanhas muito mais suaves, um destacamento de catafractos atacou-os. Como os Fimbrianos estavam desejosos de travar um bom combate, depressa esmagaram os cavaleiros das cotas de malha sem precisarem da ajuda dos Galacianos. De seguida, foi a vez dos Galacianos, que enfrentaram capazmente uma segunda leva de catafractos. E as tropas romanas ficaram à espera de mais.

Mas não houve mais ataques. Ao fim de um dia de marcha, perceberam porquê. O terreno era perfeitamente plano, mas, tanto quanto os olhos conseguiam enxergar, havia um novo obstáculo, tão estranho e horrendo que todos se perguntaram que deuses teriam ofendido para os terem amaldiçoado com tal pesadelo. E as manchas de sangue voltaram a aparecer — desta feita, não na neve, mas espalhadas pela paisagem.

Aquilo que viam eram rochas. Rochas com pontas como lâminas, com dez a quinze pés de altura, encostadas umas às outras, encavalitadas umas nas outras, sem qualquer abertura entre elas, sem um padrão, sem lógica nem sentido na sua estranha distribuição.

Sílio e Cornifício pediram uma entrevista ao general.

— Não podemos atravessar aquelas rochas — disse Sílio, sem mais rodeios.

— Este exército pode atravessar tudo. Já o provou noutras alturas — retorquiu Lúculo, furioso com aquele protesto.

— Não há nenhum caminho — disse Sílio.

— Nesse caso, abriremos caminho — ripostou Lúculo.

— É impossível abrir caminho entre aquelas rochas — disse Cornifício. — Eu sei, porque mandei alguns soldados investigarem. Não sei do que elas são feitas, mas são mais duras do que as nossas dolabrae.

— Se assim é, escalaremos as rochas — disse Lúculo. Lúculo não vergaria. O terceiro mês estava a aproximar-se do fim; custasse o que custasse, Lúculo tinha de chegar a Artaxata. E foi assim que o seu pequeno exército penetrou naquele campo de lava, fracturado por um mar interior em longínquas eras. E que tremeu de medo porque aquelas rochas tinham a cobri-las líquenes tão vermelhos como o sangue. Era um trabalho dolorosamente lento: formigas lutando contra um terreno de cacos. Só que os homens não eram formigas; aquelas rochas cortavam, magoavam, puniam cruelmente quem por lá passava. E também não havia maneira de contorná-las, já que, em todas as direcções, montanhas cobertas de neve pairavam no horizonte, algumas mais perto, outras mais longe, mas todas elas condenando os homens àquela tremenda provação.

Pouco tempo depois de terem passado o lago Tospite, Clódio decidira que, a partir desse instante, deixaria de ligar ao que Lúculo dizia ou fazia e passaria a viajar com Sílio. E quando soube, através de Sextílio, que Clódio abandonara o seu posto para confraternizar com um centurião, o general ordenou-lhe que regressasse à frente da marcha. Clódio recusou.

— Dize ao meu cunhado — disse ele ao tribuno que o fora buscar — que estou muito bem onde estou. Se ele quer que eu vá na frente da marcha, então terá de me pôr a ferros.

Uma resposta que Lúculo achou melhor ignorar. Para dizer a verdade, a equipa do general até ficou satisfeita por se ver livre daquela criatura que, para além de provocar conflitos, não fazia outra coisa senão queixar-se. Não se suspeitava ainda da participação de Clódio na rebelião das legiões cilicianas; por outro lado, como os Fimbrianos haviam limitado os seus protestos contra aquelas rochas a uma entrevista oficial, pedida pelos centuriões-chefes, ninguém suspeitava da eventualidade de um motim fimbriano.

E talvez nunca tivesse havido um motim fimbriano se não fosse o monte Ararat. Ao longo de cinquenta milhas, o exército suportou aquele campo de lava fragmentado; depois, encontraram de novo vastos campos relvados. Que maravilha! O pior era que, de leste a oeste, atravessava-se no seu caminho uma montanha como nunca tinham visto. Dezoito mil pés de neve sólida, a mais bela e a mais terrível montanha do mundo, com um outro cone, mais pequeno, mas não menos horrendo, no seu flanco leste.

Os Fimbrianos deixaram cair escudos e lanças e fitaram aquele gigante. E choraram.

Desta feita, foi Clódio quem conduziu a comissão que foi falar com o general, e Clódio não estava disposto a deixar-se intimidar.

— Não daremos nem mais um passo — disse ele, e Sílio e Cornifício, atrás dele, aquiesceram.

Foi quando viu Bogitaro entrar na tenda que Lúculo percebeu que perdera, pois Bogitaro era o chefe dos cavaleiros galacianos, um homem cuja lealdade nunca poderia pôr em causa.

— Tens a mesma opinião que eles, Bogitaro? — perguntou Lúculo.

— Tenho, Lúcio Licínio. Os meus cavalos não podem vencer aquela montanha, sobretudo depois de terem atravessado aquelas rochas. Têm as patas magoadas, as ferraduras precisam de ser reparadas, não tenho ferreiros que cheguem para tanto trabalho e, ainda por cima, não temos metal suficiente. Isto para não falar da falta de carvão, pois desde Tigranocerta que não temos carvão. Seguir-te-emos até ao Hades, Lúcio Licínio, mas não atravessaremos contigo aquela montanha — disse Bogitaro.

— Obrigado, Bogitaro — disse Lúculo. — Podes ir. E vocês também — disse ele para os centuriões fimbrianos. — Mas gostaria de falar com Públio Clódio.

— Isso quer dizer que voltamos para trás? — perguntou Sílio, desconfiado.

— Para trás, não, Marco Sílio, a menos que queiras mais rochas. Seguiremos para oeste, na direcção do Arsanias, a fim de nos abastecermos de cereais.

Bogitaro já se tinha retirado; os dois Fimbrianos seguiram-no, deixando Lúculo a sós com Clódio.

— Qual foi a tua participação em tudo isto? — perguntou Lúculo.

Radiante, jubiloso, Clódio mirou o general de alto a baixo, com o maior desdém. Quão gasto parecia agora aquele homem! Via-se bem que tinha cinquenta anos... E o olhar perdera qualquer coisa, sim, perdera aquela fixidez fria com que sempre encarara todos os obstáculos. Aquilo que Clódio viu foi uma crosta de cansaço e, para além dela, um reconhecimento da derrota.

— A minha participação em tudo isto? — perguntou Clódio, e riu-se. — Meu caro Lúculo, eu é que fiz isto tudo! Achas que algum destes homens teria capacidade para organizar, para realizar o que foi realizado? Ou a ousadia? Eu sou o único responsável, mais ninguém.

— As legiões cilicianas — disse Lúculo, lentamente.

— Elas também. Tudo é obra minha — retorquiu Clódio, erguendo-se nos seus pés. — Não vais querer que eu fique depois disto, pois não? Partirei. Quando chegar a Tarso, o meu cunhado Rei já lá deve estar.

— Não, Clódio, não irás para sítio nenhum, excepto para o meio dos teus lacaios fimbrianos — disse Lúculo, com um sorriso triste. — Eu sou o teu comandante e tenho um imperium proconsular para combater Mitridates e Tigranes. Não te dou autorização para partires e, sem essa autorização, terás de ficar. Permanecerás comigo até que eu sinta vómitos só de olhar para ti.

Não era esta a resposta que Clódio queria ou esperava. Lançou um olhar furioso a Lúculo e desandou.

Os ventos e a neve começaram a fazer-se sentir na altura em que Lúculo virou para oeste, já que a estação das campanhas tinha acabado. O general gastara os seus quatro meses naquela marcha até ao monte Ararat, não mais do que duzentas milhas desde que deixara Tigranocerta. Quando chegou ao rio Arsanias, o maior dos afluentes do Eufrates na região, já as colheitas tinham sido feitas e a escassa população da zona correra a esconder-se nas suas casas de trogloditas, cavadas no tufo calcário, levando consigo todos os alimentos disponíveis. Lúculo podia ter sido derrotado pelas suas próprias tropas, mas a adversidade era algo que ele conhecia bem e não estava disposto a parar naquela região, onde Mitridates e Tigranes poderiam encontrá-lo com toda a facilidade logo que a Primavera chegasse.

Seguiu por isso na direcção de Tigranocerta, onde havia abastecimentos e amigos à sua espera; mas se os Fimbrianos esperavam passar o Inverno na cidade, depressa perderam as ilusões. A cidade estava calma e parecia satisfeita com o homem que Lúculo deixara a governar, Lúcio Fânio. Abastecido de cereais e outros alimentos, Lúculo marchou para sul, com a intenção de cercar a cidade de Nisibe, situada junto ao rio Migdónio, numa região mais seca e mais plana.

Nisibe caiu numa noite escura e chuvosa de Novembro, proporcionando aos conquistadores um saque magnífico e a perspectiva de uma temporada inesquecível. Extasiados, os Fimbrianos instalaram-se na cidade, com Clódio como a sua mascote, o seu feitiço da sorte, para passarem um Inverno delicioso longe da linha de neve. E quando Lúcio Fânio apareceu, menos de um mês depois, com a notícia de que Tigranocerta caíra de novo nas mãos do rei Tigranes, os Fimbrianos levaram aos ombros a sua mascote, enfeitada com hera, passeando-a pela praça do mercado de Nisibe. Atribuíam a sua sorte a Clódio; em Nisibe, estavam a salvo; se tivessem ficado em Tigranocerta, teriam sido sujeitos a um cerco terrível.

Em Abril, com o fim do Inverno e a reconfortante perspectiva de uma nova campanha contra Tigranes, Lúculo ficou a saber que Roma lhe havia retirado tudo, excepto um título vazio: comandante na guerra contra os dois reis. Os cavaleiros tinham usado a Assembleia Plebeia para lhe retirarem as suas últimas províncias, Bitínia e Ponto, e para o privarem das suas quatro legiões. Os Fimbrianos iriam finalmente voltar para casa, e Mânio Acílio Glabrião, o novo governador de Bitínia-Ponto, ficaria com as tropas cilicianas. O comandante na guerra contra os dois reis ficava sem exército para continuar o combate. Tudo o que Lúculo tinha era o seu imperium.

Lúculo decidiu não comunicar aos Fimbrianos a notícia da sua absolvição. Mas é claro que os Fimbrianos acabaram por saber que poderiam voltar para casa; Clódio interceptara as cartas oficiais e descobrira o seu conteúdo antes que elas chegassem a Lúculo. Logo a seguir às cartas de Roma, chegaram cartas do Ponto informando Lúculo de que o rei Mitridates o invadira. Glabrião não herdaria as legiões cilicianas, pois estas tinham sido aniquiladas em Zela.

Quando foram dadas ordens para marchar sobre o Ponto, Clódio foi ter com Lúculo. — O exército recusa-se a deixar Nisibe — anunciou.

— O exército marchará sobre o Ponto, Públio Clódio, para salvar os seus compatriotas que sobreviveram à invasão — replicou Lúculo.

— Ah, mas este exército já não é teu! Tu já não és o seu comandante! — exclamou Clódio, exultante. — Os Fimbrianos concluíram o seu serviço no exército e poderão ir para casa logo que trates da sua desmobilização. E vais fazer isso aqui mesmo em Nisibe. Assim, já não poderás enganá-los quando os despojos de Nisibe forem divididos.

E foi nesse momento que Lúculo compreendeu tudo. A sua respiração parecia um assobio, a sua boca abriu-se, exibindo os dentes cerrados até às gengivas. Avançou para Clódio com um olhar verdadeiramente assassino. Clódio correu a esconder-se atrás de uma mesa, certificando-se de que estava mais perto da porta do que Lúculo.

— Não me toques! — gritou. — Se me tocares com um dedo que seja, eles lincham-te!

Lúculo parou. — Gostam assim tanto de ti? — perguntou, incapaz de acreditar que mesmo néscios como Sílio e os outros centuriões fimbrianos pudessem ser tão ingénuos.

— Eles adoram-me, eles serão capazes de morrer por mim! Eu sou o Amigo dos Soldados.

— Não passas de uma reles rameira, Clódio! Serias capaz de te vender à mais reles escória deste mundo se isso pudesse valer-te algum amor! — atirou-lhe Lúculo, com todo o desprezo que sentia por ele.

Clódio nunca viria a entender por que razão, no meio de tanta raiva, lhe surgiu precisamente aquela ideia, uma ideia tenebrosa. Virando-se para Lúculo, respondeu-lhe, exultante, cheio de desdém: — Comparas-me a uma rameira? Pois olha que rameira, e que rameira!, é a tua mulher, Lúculo! A minha querida irmãzinha Clodila, que eu amo tanto quanto te odeio! Mas ela é uma rameira, Lúculo. Acho que é por isso que a amo tanto. Pensavas que eras o primeiro quando casaste com ela, o que não admira pois ela tinha só quinze anos...! Lúculo, o pederasta, o desflorador de raparigas e rapazinhos! Pensavas que eras o primeiro, não era? Pois não foste, Lúculo, não foste o primeiro! — berrou Clódio, tão desvairado que já tinha espuma nos cantos da boca.

Lúculo estava cinzento. — Que queres dizer com isso? — murmurou.

— Quero dizer que eu é que fui o primeiro, altivo e poderoso Lúcio Licínio Lúculo! Eu é que fui o primeiro, e muito antes de ti! E Clódia também foi minha, antes de ser do marido! Nós dormíamos juntos, mas fazíamos outras coisas, para além de dormir! Brincávamos muito, Lúculo, e as brincadeiras tornaram-se cada vez melhores à medida que eu fui crescendo! Possuí-as às duas, possuí-as centenas de vezes, brinquei com os meus dedos dentro delas, primeiro, e depois brinquei com outra coisa dentro delas! Chupei-as, mordi-lhes, fiz coisas com elas que nem te passam pela cabeça! E sabes que mais? — perguntou ele, rindo-se. — Clodila acha que és um fraco substituto para o seu irmãozinho!

Havia uma cadeira junto à mesa que separava Clódio do marido de Clodila; Lúculo pareceu perder de súbito toda a vida que o animava e caiu contra a cadeira e afundou-se nela. Ameaçava vomitar. — Liberto-te do meu serviço, Amigo dos Soldados, porque me causas vómitos! Maldito sejas! Vai, vai-te embora, para a Cilícia, para junto de Rei!

E Clódio foi-se embora, depois de uma chorosa despedida de Sílio e Cornifício. Como seria de esperar, os centuriões fimbrianos encheram o Amigo de presentes, alguns deles muito preciosos, todos eles úteis. Tanto ele como a sua comitiva levavam bons cavalos, para além de várias dúzias de mulas, que carregavam os despojos a que Clódio tinha direito. Pensando que seguia para uma região que não oferecia perigos, Clódio declinou a oferta de uma escolta que Sílio lhe fizera.

Tudo correu bem até atravessar o Eufrates em Zeugma. Depois de Zeugma, seguiria na direcção da Cilícia Pedia e, finalmente, Tarso. Mas entre o Eufrates e as férteis planícies da Cilícia Pedia ficavam os montes Amano, uma cordilheira costeira que era a sequência natural dos maciços por onde Clódio e o exército de Lúculo haviam andado a penar poucos meses antes. Clódio limitou-se a encarar aquela tremenda barreira com o maior desdém. Até que, ao atravessar uma ravina, foi vítima de uma emboscada de um bando de Árabes, que lhe roubaram todas as suas prendas, mais as sacas de dinheiro e as belas cavalgaduras. Clódio terminou a sua jornada sozinho e montando uma mula, embora os Árabes (que o acharam muitíssimo divertido) lhe tivessem deixado moedas suficientes para concluir a viagem até Tarso.

Para cúmulo do azar, Rei ainda não tinha chegado! Clódio usurpou uma suite do palácio do governador e a primeira coisa que fez foi completar a sua lista de ódios privados: Catilina, Cícero, Fábia, Lúculo — e agora os Árabes. Os Árabes também acabariam por pagar.

Foi em fins de Quinctilis que Quinto Márcio Rei e as suas três novas legiões chegaram a Tarso. Viajara com Glabrião até ao Helesponto, após o que preferira marchar através da Anatólia, em vez de navegar numa costa infestada de piratas. Em Licáon, comunicou a um ávido Clódio que recebera um pedido de ajuda de Lúculo, o qual conseguira convencer os Fimbrianos a avançar na direcção do Ponto, depois de o Amigo dos Soldados ter partido. Em Talaura, Lúculo fora atacado por um cunhado de Tigranes que também se chamava Mitridates e ficara a saber que os dois reis se preparavam para lançar um ataque iminente.

— É inacreditável...! Como é possível que tenha o desplante de me pedir ajuda? — disse Rei a Clódio.

— Ele também é teu cunhado — retorquiu Clódio, maliciosamente.

— Ele é persona non grata em Roma e, por isso, não tive outra alternativa senão recusar. Creio que também pediu ajuda a Glabrião, mas suponho que Glabrião também recusou. Segundo as últimas notícias que tive dele, estava a retirar e tencionava regressar a Nisibe.

— Não chegou lá — disse Clódio, melhor informado acerca do final da marcha de Lúculo do que sobre os acontecimentos de Talaura. — Quando se preparava para atravessar o rio em Samosata, os Fimbrianos opuseram-se. Segundo as últimas notícias que chegaram a Tarso, Lúculo marcha agora para a Capadócia e, daí, pretende seguir para Pérgamo.

Claro que Clódio, porque tinha lido o correio de Lúculo, sabia que Pompeu, o Grande, recebera um imperium ilimitado para acabar com os piratas do mar Médio; por isso, abandonou o tema Lúculo e saltou imediatamente para aquele novo tema chamado Pompeu.

— E que tens tu de fazer para ajudar o detestável Pompeu Magno a acabar com os seus piratas? — perguntou.

Quinto Márcio Rei pôs uma expressão de desprezo. — Parece que nada. As águas cilicianas estão sob o comando do nosso mútuo cunhado e irmão de Célere, o teu primo Nepos, que ainda nem tem idade para entrar para o Senado. A minha missão é governar a minha província e manter-me longe da questão dos piratas.

— Ora, ora! — disse Clódio, maquinando mais alguma tramóia.

— Absolutamente — retorquiu Rei, com um ar que não deixava margem para dúvidas.

— Ainda não vi Nepos em Tarso.

— Depressa verás. As frotas já estão à espera dele. Ao que parece, a Cilícia é o derradeiro destino da campanha de Pompeu.

— Nesse caso — disse Clódio —, acho que devíamos fazer um bom trabalho nas águas cilicianas antes de Nepos cá chegar... Não achas?

— Como? — perguntou o marido de Cláudia, que conhecia Clódio, mas desconhecia ainda a sua habilidade para provocar os maiores estragos. Os defeitos que encontrava em Clódio, considerava-os unicamente como loucuras da juventude.

— Eu podia levar uma dessas belas frotas e fazer guerra aos piratas em teu nome — disse Clódio.

— Bom...

— Ah, vá lá, Rei...!

— Não vejo qualquer problema... — disse Rei, vacilando.

— Por favor...!

— Pronto, está bem. Mas não importunes mais ninguém, para além dos piratas!

— Prometo-te que assim farei — disse Clódio, que não pensava noutra coisa senão nos despojos que iria arrancar aos piratas; talvez assim conseguisse compensar as perdas infligidas por aqueles miseráveis Árabes que o tinham atacado nos montes Amano.

Passados oito dias, Clódio, o almirante, fez-se ao mar, à frente de uma frota que era mais uma flotilha: cerca de dez birremes dispondo de boas tripulações. Rei e Clódio achavam que esses navios não fariam falta a Metelo Nepos quando este chegasse a Tarso.

No entanto, Clódio não levara em conta o facto de que a eficiente e furiosa vassoura de Pompeu tinha já varrido uma multidão de piratas; de tal modo que as águas de Chipre e Cilícia Traqueia (a ponta oeste da Cilícia, onde tantos piratas tinham as suas bases) estavam agora infestadas de piratas refugiados, com frotas muito superiores aos dez birremes de Clódio. Não tinha ainda cinco dias de mar quando avistou uma dessas frotas; a frota pirata depressa cercou e capturou a flotilha de Clódio, almirante por apenas cinco dias. Sem demoras, os piratas conduziram-no para uma base em Chipre que não ficava muito longe de Pafos, a capital da ilha e sede do seu regente, Ptolemeu, o Cipriota. Claro que Clódio conhecia a história de César e dos piratas e, na altura, achara-a brilhante. Pois bem, se César conseguira, por que raio é que Públio Clódio não havia de conseguir? Num tom arrogante, começou por informar os seus captores de que o seu resgate deveria ser de dez talentos e não de dois, que era o preço recomendado pelos usos e pelas tabelas dos piratas para um jovem nobre como ele. E os piratas, que conheciam melhor a história de César do que Clódio, concordaram solenemente em pedir um resgate de dez talentos.

— E quem pagará o meu resgate? — perguntou Clódio, com uma expressão altiva.

— Nestas águas, terá de ser Ptolemeu, o Cipriota — foi a resposta.

Clódio bem tentou imitar César, mas faltava-lhe o físico impressionante de César; as suas ameaças, a sua bazófia, tudo soava ridículo; e embora soubesse que os sequestradores de César também se tinham rido das ameaças deste, Clódio era suficientemente esperto para perceber que os seus captores se recusavam terminantemente a acreditar que ele fosse capaz de se vingar. Abandonou por isso essa táctica e tratou de fazer algo em que não tinha rival: seduzir os mais humildes, pô-los do seu lado, intrigar, provocar conflitos. E teria tido êxito — se os chefes dos piratas, que eram dez, não tivessem sabido do que se passava. A reacção dos chefes foi simples e eficiente: meteram-no numa cela e deixaram-no sem audiência, para além dos ratos que com ele competiam por um bocado de pão seco e uma tigela de água.

Fora capturado no princípio de Sextilis e enfiado na cela menos de dezasseis dias depois. E nessa cela viveu, com os ratos por companhia, durante três meses. Quando finalmente o libertaram, foi apenas porque a vassoura de Pompeu estava já tão perto que a base dos piratas não tinha outra alternativa senão desmantelar-se. Foi também então que Clódio descobriu que Ptolemeu, o Cipriota, ao saber do resgate que o jovem sugerira, desatou a rir, recusando-se a pagar mais do que dois talentos. Públio Clódio não vale mais do que dois talentos, foi a resposta de Ptolemeu aos piratas.

Em circunstâncias normais, os piratas teriam morto Clódio, mas Pompeu e Metelo Nepos estavam demasiado perto para que eles se arriscassem a uma sentença de morte: com efeito, espalhara-se o boato de que a captura deixara de ser castigada com a crucificação, que Pompeu preferia mostrar-se clemente. E foi assim que Públio Clódio foi pura e simplesmente abandonado, quando a frota dos seus sequestradores partiu. Vários dias depois, passou por aquela praia uma das frotas de Metelo Nepos; Públio Clódio foi salvo e imediatamente devolvido a Tarso e a Quinto Márcio Rei.

A primeira coisa que fez, depois de ter tomado um bom banho e de ter comido uma lauta refeição, foi rever a sua lista de ódios particulares: Catilina, Cícero, Fábia, Lúculo, os Árabes — e agora Ptolemeu, o Cipriota. Mais tarde ou mais cedo, todos eles pagariam — não interessava quando, não interessava quanto tempo teria de esperar. A vingança era uma perspectiva tão deliciosa que o quando pouco interessava. Para Clódio, só uma coisa era importante: a certeza da vingança.

Quinto Márcio Rei estava furioso, não com o fracasso de Clódio, mas com o seu próprio fracasso. Pompeu e Metelo Nepos tinham-no eclipsado por completo. Depois de terem requisitado todas as suas frotas, haviam-no deixado em Tarso sem nada que fazer. Pompeu e Metelo Nepos, nesse momento, já não varriam; limitavam-se a apanhar as migalhas. Em suma: a guerra contra os piratas acabara e Quinto Márcio Rei não lucrara rigorosamente nada com ela.

— Fui informado — disse Rei, furibundo, para Clódio — de que, depois de uma grandiosa digressão pela província da Ásia, tenciona deslocar-se à Cilícia a fim de fazer o ponto da situação como ele diz.

— Quem? Pompeu ou Metelo Nepos? — perguntou Clódio, aturdido.

— Pompeu, é claro! E como o imperium dele suplanta o meu, inclusivamente na minha própria província, terei de andar atrás dele para onde quer que ele vá, com uma esponja numa mão e um penico na outra!

— Que perspectiva... — comentou Clódio, cinicamente.

— Uma perspectiva que não posso tolerar! — rosnou Rei. — E por isso mesmo, Pompeu não me encontrará na Cilícia. Invadirei a Síria, agora que Tigranes se mostra incapaz de controlar o que quer que seja a sudoeste do Eufrates. Lúculo deixou no trono sírio uma marioneta sua — Antíoco Asiático, tal é o nome que o fantoche deu a si mesmo! Pois bem, farei o que tem de ser feito. A Síria pertence ao governador da Cilícia, a Síria será minha.

— Posso ir contigo? — perguntou Clódio, desejoso de participar na expedição.

— Não vejo por que não. — O governador sorriu. — No fim de contas, Ápio Cláudio causou sensação em Antióquia, enquanto esperava que Tigranes lhe desse uma audiência. Imagino que o seu irmão mais novo terá uma bela recepção!

Só quando Quinto Márcio Rei chegou a Antióquia é que Clódio começou a ver que tinha possibilidades de se vingar pela primeira vez de alguém.

Invasão

era o termo que Rei usara, mas a verdade é que, até então, não houvera um único combate; o fantoche de Lúculo, Antíoco Asiático, fugira, deixando Rei a reinar, através de um outro fantoche, Filipe. Graves tumultos assolavam a Síria, em particular porque Lúculo libertara muitos milhares de Gregos, a maior parte dos quais regressara a casa. Para sua grande surpresa, haviam descoberto que os seus negócios e casas tinham sido usurpados pelos Árabes que Tigranes arrancara ao deserto e a quem legara os bens e propriedades dos Gregos que raptara para helenizar a sua Arménia Média. Rei pouco se importava com quem possuía o quê na cidade de Antióquia, em Zeugma, em Samosata, em Damasco. Mas o seu cunhado Clódio importava-se, e muito! Porque ele odiava os Árabes!

Clódio lançou-se logo ao trabalho, intrigando junto de Rei contra os Árabes, essa pérfida gente que usurpara as casas e os negócios dos Gregos, e, ao mesmo tempo, visitando todos os Gregos influentes, furiosos por se verem desapossados de tudo. E muitas visitas fez: em Antióquia, Zeugma, Samosata, Damasco. Nem um Árabe devia ficar na civilizada Síria!, declarava o inflamado Clódio. Eles que voltassem para o deserto e para as rotas comerciais do deserto, pois o deserto era a sua nação!

Foi uma campanha coroada de êxito. Ao fim de pouco tempo, começaram a aparecer cadáveres de Árabes nas ruas das principais cidades sírias ou levados pelas águas do grande rio Eufrates. Uma delegação árabe deslocou-se a Antióquia para falar com Rei, mas este recebeu-a o pior possível, influenciado como estava pelas intrigas de Clódio.

— Vão queixar-se ao rei Tigranes — disse Rei. — Há seiscentos anos que os Gregos vivem nas regiões férteis e colonizadas da Síria. Antes deles, o povo que cá vivia eram os Fenícios. Vocês são Esquenitas vindos de regiões a leste do Eufrates. Não pertencem por isso às terras do Nosso Mar. O rei Tigranes foi-se para todo o sempre. De futuro, a Síria pertencerá única e exclusivamente a Roma.

— Nós sabemos — retorquiu o chefe da delegação, um jovem árabe esquenita que se chamava a si mesmo Abgaro; Rei não sabia que Abgaro não era propriamente um nome, mas sim o título hereditário dos reis esquenitas. — Tudo o que pedimos é que o novo senhor da Síria nos conceda aquilo que se tornou nosso. Não pedimos que nos trouxessem para aqui, não pedimos que nos transformassem em cobradores de impostos ao longo do Eufrates, não pedimos para viver em Damasco. Também nós fomos roubados às nossas origens e o nosso destino é muito mais cruel do que o dos Gregos.

Quinto Márcio Rei olhou-o com um ar altivo. — Não estou a ver como.

— Grande governador, os Gregos sempre foram amavelmente tratados. Receberam as maiores honras e os melhores prémios em Tigranocerta, em Nisibe, em Amida, em Singara, em todo o lado. Nós, em contrapartida, viemos de uma terra tão agreste e madrasta, tão estéril e tão assolada por ventos e tempestades de areia que, à noite, só conseguíamos manter-nos quentes dormindo com as nossas ovelhas ou graças às fogueiras fumarentas que fazíamos com a bosta seca dos animais. Era assim a nossa vida, já lá vão vinte anos. Agora, porém, já nos habituámos à relva dos prados, ao pão de trigo que todos os dias comemos, à água pura e fresca destas fontes, a luxos diversos, às camas em que finalmente dormimos... Até aprendemos a falar grego! Mandar-nos de volta para o deserto é uma crueldade sem sentido. A prosperidade da Síria chega e sobra para todos! Deixa-nos ficar, é tudo o que te pedimos. E deixa que os Gregos que nos perseguem saibam que tu, grande governador, não consentirás uma barbaridade que é indigna de qualquer homem que se diga Grego — disse Abgaro, com a simplicidade dos dignos.

— Não posso fazer nada para vos ajudar — retorquiu Rei, inflexível. — Não vou decretar que vos devolvam a todos ao deserto, mas quero paz na Síria. Sugiro-lhes que se encontrem com os mais encarniçados dos chefes gregos e que negoceiem directamente com eles.

Abgaro e os restantes delegados tomaram nota da sugestão, mas nunca mais se esqueceram da duplicidade romana, da conivência romana com o massacre do povo árabe. Em vez de se encontrarem com os chefes gregos, os Esquenitas trataram primeiro de se organizar em grupos bem protegidos, após o que começaram a investigar a verdadeira origem do descontentamento dos Gregos. É que corria o rumor de que o verdadeiro culpado era, não um Grego, mas um Romano.

Depressa descobriram um nome: Públio Clódio. E ficaram a saber que este jovem era cunhado do governador, vinha de uma das mais velhas e augustas famílias de Roma, e era primo, pela via do casamento, do homem que liquidara os piratas, Cneu Pompeu Magno. Logo, Públio Clódio não poderia ser morto. O secretismo era possível nas areias do deserto, mas não em Antióquia; alguém acabaria por revelar a conjura.

— Não o mataremos — disse Abgaro. — Dar-lhe-emos, porém, uma severa lição.

Investigações posteriores revelaram que Públio Clódio era realmente um nobre romano muitíssimo estranho. Vivia numa casa igual a tantas outras, num bairro modesto de Antióquia, e frequentava os locais que os nobres romanos costumavam evitar. Mas isso, evidentemente, tornava-o acessível. E Abgaro não esperou mais para atacar.

Com as mãos atadas, uma venda nos olhos e uma mordaça na boca, Públio Clódio foi levado para um quarto sem janelas, um quarto sem pinturas murais, nem decorações, nem qualquer outro elemento que o diferenciasse de meio milhão de quartos iguais em Antióquia. Aliás, Públio Clódio só pôde ver qualquer coisa quando lhe tiraram a venda, bem como a mordaça, e lhe enfiaram uma saca na cabeça, que prenderam à volta da garganta. Paredes nuas, mãos morenas, foi tudo o que Públio Clódio pôde ver antes de voltar a uma cegueira não tão extrema como a primeira; apesar de tudo, agora conseguia distinguir umas formas muito vagas, movendo-se para lá da grosseira serapilheira da saca. Mas nada mais enxergava.

O seu coração batia mais rápido do que o coração de um pássaro; o suor corria por ele abaixo; faltava-lhe o ar, sentia-se sufocar. Nunca em toda a sua vida se sentira tão mal, tão cheio de medo. Tinha a certeza de que ia morrer. Mas às mãos de quem? E que tinha ele feito para merecer tal castigo?

Por fim, ouviu uma voz, uma voz que falava grego, embora com um sotaque árabe; Clódio percebeu então que não tinha saída, que a morte estava à sua espera.

— Públio Clódio, da grande família dos Cláudios Pulcros — disse a voz —, gostaríamos muito de te matar, mas sabemos que isso não é possível. A menos que, depois de te libertarmos, procures vingar-te daquilo que te vamos fazer esta noite. Se procurares vingar-te, concluiremos que nada teremos a perder se te matarmos. E juro-te, por todos os nossos deuses, que te mataremos. Portanto, comporta-te como um homem sensato e deixa a Síria depois de te libertarmos. Deixa a Síria e nunca mais cá voltes enquanto viveres.

— O... o que é que... me vão... fazer? — conseguiu perguntar Clódio, sabendo que, na melhor das hipóteses, seria torturado e açoitado.

— Nada de mais, Públio Clódio — respondeu a voz, claramente divertida. — Vamos tornar-te um dos nossos. Vamos transformar-te num Árabe.

Mãos ergueram-lhe a túnica (Clódio não usava toga em Antióquia; a toga tolhia-lhe demasiado os movimentos) e tiraram-lhe a tanga que os Romanos usavam quando saíam vestindo apenas uma túnica. Lutou, esperneou, sem compreender o que se passava, mas muitas, muitas mãos ergueram-no, deitaram-no numa superfície dura e chata, prenderam-lhe as pernas, os braços, os pés.

— Não tentes resistir, Públio Clódio — disse a voz, ainda divertida. — Não é muito frequente o nosso sacerdote ter uma coisa tão grande para operar, e por isso o trabalho será mais fácil do que o costume. Mas se te mexeres, ele é muito capaz de cortar mais do que tenciona cortar.

De novo mãos, agarrando-lhe o pénis, puxando-lhe o pénis — que estava a acontecer? De início, Clódio pensou que iam castrá-lo. Urinou-se todo, borrou-se, enquanto, à sua volta, só ouvia risos; depois, deixou-se ficar quieto e gritou, guinchou, disparatou, suplicou, gemeu. Onde estava ele, se não precisavam de amordaçá-lo?

Não o castraram, mas fizeram-lhe algo de horrendamente doloroso, qualquer coisa, não sabia bem o quê, na ponta do pénis.

— Já está! — disse a voz. — Portaste-te muito bem, Públio Clódio! A partir de agora, serás um Árabe para todo o sempre! A ferida cicatrizará lindamente... desde que, nos dias mais próximos, não metas o teu pau nalgum buraco mais porco...!

Sem se preocuparem em limpá-lo das fezes que se colavam ao seu corpo, vestiram-lhe a tanga e a túnica; depois, Clódio perdeu o conhecimento; nunca soube se tinha desmaiado ou se os seus sequestradores lhe tinham dado alguma pancada que o deixara sem sentidos.

Acordou na sua própria casa, na sua própria cama, com uma dor de cabeça terrível e uma dor tão grande entre as pernas que só passado um bocado se lembrou do que tinha acontecido. Esquecida a dor, saltou da cama e, aterrorizado com a possibilidade de lhe terem cortado tudo, pôs as mãos em concha sob o pénis para ver como é que ele estava, para ver se lhe tinham tirado alguma coisa. Mas não: estava lá tudo. Só havia uma coisa estranha, algo com um brilho púrpura entre veios de sangue já em crosta. Algo que só costumava ver quando estava erecto. Apesar de tudo, não entendera ainda o que lhe tinham feito, pois só ouvira falar de dois povos que seguiam aquela prática, os Judeus e os Egípcios, e ele não conhecia nem Judeus, nem Egípcios. Só muito lentamente se foi apercebendo do que lhe acontecera e então Públio Clódio não conseguiu conter por mais tempo as lágrimas. Os Árabes também o faziam, pois tinham-no transformado num dos deles. Tinham-no circuncidado, tinham-lhe cortado o prepúcio.

Públio Clódio partiu no primeiro navio para Tarso, vogando serenamente em águas finalmente livres dos piratas, graças a Pompeu, o Grande. Em Tarso, embarcou num outro navio que seguia para Rodes, e, de Rodes, seguiu para Atenas. Por essa altura, o seu pénis já tinha cicatrizado tão bem que só quando ia urinar é que se lembrava do que os Árabes lhe tinham feito. Era já Outono, mas os ventos fortes do mar Egeu não o incomodaram e desembarcou sem grandes problemas em Atenas. Daí seguiu para Patras, fez a travessia até Tarento e encarou o facto de que estava prestes a chegar a casa. Ele, um Romano circuncidado.

A jornada pela Via Ápia foi a parte mais difícil da sua viagem, pois só então se apercebeu da brilhante e severa lição que os Árabes lhe tinham dado. Enquanto vivesse, não deixaria que ninguém lhe visse o pénis; se isso alguma vez acontecesse, a história espalhar-se-ia num instante e ele seria coberto de escárnio. Nunca conseguiria enfrentar a troça, os risos, as gargalhadas. Quanto a urinar e defecar, não havia problemas; teria apenas de se controlar até dispor da mais total privacidade. Mas... e o sexo? O sexo era uma coisa do passado. Nunca mais poderia divertir-se nos braços das mulheres, a menos que pagasse a uma mulher que não conhecesse, a menos que a possuísse na mais total escuridão e na mais total escuridão a expulsasse.

Chegou em princípios de Fevereiro a casa, que era a casa que o seu irmão mais velho, Ápio Cláudio, tinha no Palatino, graças ao dinheiro da mulher. Mal entrou, Ápio Cláudio rompeu a chorar, por ver o irmão tão gasto e envelhecido; o pequenino da família tinha crescido, e era evidente que fora um crescimento doloroso. Clódio, naturalmente, também chorou; por isso, só ao fim de algum tempo começou a desfiar a sua história de infortúnios e penúria. Depois de três anos no Oriente, regressava mais pobre do que quando partira; para voltar para casa, tivera de pedir dinheiro emprestado a Quinto Márcio Rei, que não ficara nada satisfeito, em parte por causa do pedido de dinheiro, em parte devido àquela inexplicável e sumária deserção.

— E eu que cheguei a ter tanto dinheiro! — lastimou-se Clódio. — Duzentos mil em moedas, jóias, ouro, cavalos que podia ter vendido em Roma por cinquenta mil cada um — tudo isso perdi! Tudo me foi roubado por um bando de imundos Árabes!

Ápio afagou o ombro do irmão, espantado com o valor dos despojos: de facto, enquanto servira no exército de Lúculo, Ápio nem metade conseguira! Mas, como é evidente, Ápio não sabia do relacionamento de Clódio com os Fimbrianos, nem desconfiava que fora graças aos Fimbrianos que o irmão obtivera a maior parte dos seus proveitos. Ápio estava agora no Senado e a sua vida corria o melhor possível, tanto do ponto de vista doméstico, como do ponto de vista político. O seu trabalho como questor para Brundísio e Tarento fora oficialmente louvado, o que era um magnífico começo para, assim o esperava, uma grande carreira. Além disso, tinha óptimas notícias para Públio Clódio, notícias que só revelou quando as emoções do reencontro esfriaram.

— Não tens de te preocupar com questões de dinheiro, meu querido irmão — disse Ápio Cláudio, afectuosamente. — Nunca mais terás falta de dinheiro!

— Nunca mais? Que queres dizer com isso? — perguntou Clódio, aturdido.

— Propuseram-me um belo casamento para ti — e que casamento...! Nunca tal me passou pela cabeça, francamente...! Só teria pensado em tal possibilidade se Apolo me aparecesse em sonhos — e Apolo nunca me apareceu. É maravilhoso, Públio! Maravilhoso e incrível!

Quando viu Clódio empalidecer, Ápio Cláudio atribuiu tal reacção à felicidade que o irmão sentia, nunca imaginando que, em vez de felicidade, era terror.

— Quem é? — conseguiu dizer Clódio. — Porquê eu?

— Fúlvia! — atroou Ápio. — Fúlvia! Herdeira dos Gracos e dos Fúlvios; filha de Semprónia, a única filha de Caio Graco; bisneta de Cornélia, a mãe dos Gracos; parente dos Emílios, dos Cornélios Cipiões.

— Fúlvia? Conheço-a? — perguntou Clódio, estupefacto.

— Bom, podes não ter reparado nela, mas ela reparou — disse Ápio Cláudio. — Foi quando processaste as vestais. Nessa altura, ela não tinha mais de dez anos... agora tem dezoito.

— Por todos os deuses! Semprónia e Fúlvio Bambálio são o casal mais venerável de Roma — disse Clódio, confuso. — Podiam escolher à vontade. Porque é que me escolheram a mim?

— Compreenderás melhor quando conheceres Fúlvia — disse Ápio Cláudio, sorridente. — Por alguma razão, ela é neta de Caio Graco! Nem todas as legiões de Roma conseguiriam obrigá-la a fazer algo que não quisesse. Foi Fúlvia quem te escolheu!

— E quem é que vai herdar todo o dinheiro? — perguntou Clódio, começando a recuperar — e nutrindo já a esperança de colher aquela divina jóia, apesar da circuncisão.

— Fúlvia. A fortuna dela é maior do que a de Marco Crasso.

— Mas... e lex Voconia? Ela não pode herdar!

— Meu caro Públio, claro que pode! — disse Ápio Cláudio. — Cornélia, a mãe dos Gracos, obteve uma isenção senatorial da lex Voconia para Semprónia, e Semprónia e Fúlvio Bambálio obtiveram uma outra isenção para Fúlvia. Porque é que achas que Caio Cornélio, o tribuno da plebe, fez tudo para retirar ao Senado o direito de conceder isenções pessoais? Um dos seus alvos era o casal constituído por Semprónia e Fúlvio Bambálio, porque estes pediram ao Senado que Fúlvia herdasse.

— Pediram? Quem? — perguntou Clódio, cada vez mais aturdido.

— Ah, pois claro...! Tu estavas no Oriente quando isso aconteceu, e demasiado ocupado para prestar atenção ao que se estava a passar em Roma — disse Ápio Cláudio, radiante. — Tudo isso aconteceu já lá vão dois anos.

— Então, Fúlvia vai herdar tudo... — disse Clódio lentamente.

- Fúlvia vai herdar tudo. E tu, meu querido irmãozinho, herdarás toda a fortuna de Fúlvia.

Mas iria mesmo herdar toda a fortuna de Fúlvia? Depois de ter verificado com toda a atenção se a toga lhe caía bem e de se ter certificado de que estava impecavelmente barbeado, Públio Clódio dirigiu-se na manhã seguinte a casa de Semprónia e Fúlvio Bambálio, o qual era o último membro desse clã dos Fúlvios que tão ardentemente apoiara Caio Semprónio Graco. Não era, constatou Clódio enquanto o velho chefe dos criados o conduzia ao atrium, uma casa especialmente grande ou luxuosa ou mesmo bela, nem se situava na melhor zona do bairro das Carinas. O templo de Tellus (uma velha estrutura condenada à ruína) tapava-lhe as vistas para o lago Cerolias e o monte do Aventino, e as ínsulas do Esquilino ficavam a dois passos dali.

O chefe dos criados informara-o de que Marco Fúlvio Bambálio não poderia recebê-lo porque estava indisposto; Semprónia recebê-lo-ia. Conhecendo o ditado segundo o qual todas as mulheres seriam parecidas com as mães, Clódio sentiu um choque quando viu pela primeira vez a ilustre e esquiva Semprónia. Uma Cornélia típica, roliça e feia. Nascida pouco tempo antes de Caio Semprónio Graco se ter suicidado, e única criança sobrevivente dessa infeliz família, Semprónia fora dada em casamento, como dívida de honra, à única criança sobrevivente dos aliados fulvianos de Caio Graco, já que estes tinham perdido tudo em consequência dessa fútil revolução. Casaram-se durante o quarto consulado de Caio Mário; e enquanto Fúlvio (que preferira assumir um novo cognome, Bambálio) tratava de construir uma nova fortuna, a sua mulher fazia todos os possíveis para se tornar invisível — e com tal êxito que nem mesmo Juno Lucina conseguia encontrá-la: de facto, Semprónia parecia ser estéril. Contudo, já com trinta e nove anos, Semprónia decidiu certo dia assistir às Lupercais; e, enquanto os sacerdotes do Colégio dançavam e corriam nus pela cidade, um dos bocados de pele de cabra que eles atiraram foi precisamente cair em cima de Semprónia. Esta cura para a infertilidade nunca falhava. E Semprónia não foi excepção: nove meses depois, dava à luz a sua única filha, Fúlvia.

— Bem-vindo sejas à nossa casa, Públio Clódio — disse ela, indicando uma cadeira.

— É para mim uma honra enorme, Semprónia — disse Clódio, com as maneiras mais delicadas que conhecia.

— Suponho que Ápio Cláudio te informou, não é verdade? — perguntou ela, apreciando-o, mas sem deixar transparecer qualquer veredicto.

— Precisamente.

— E estás interessado em casar com a minha filha?

— É mais do que alguma vez poderia ter esperado.

— O dinheiro, ou a aliança?

— Ambos — disse ele. Para quê dissimular? Ninguém sabia melhor do que Semprónia que ele nunca vira Fúlvia.

Semprónia aquiesceu, sem mostrar desagrado. — Não é o casamento que eu teria escolhido para ela, nem Marco Fúlvio rejubilou com a notícia. — Um suspiro, um encolher de ombros, e logo prosseguiu: — Contudo, por alguma razão Fúlvia é neta de Caio Graco. Eu nunca possuí o espírito e o ardor que eram apanágio dos Gracos. O meu marido também não herdou nem o espírito, nem a paixão, que eram usuais nos Fúlvios. E isso deve ter irritado profundamente os deuses. De tal maneira que Fúlvia herdou tudo o que havia para herdar, tanto de um lado, como de outro. Não sei por que razão os seus devaneios de rapariga a encaminharam para ti, mas a verdade é que encaminharam, e já oito anos são passados. A sua determinação em casar contigo — contigo e com mais ninguém! — já então se notava. E nunca, em momento algum, se esbateu. Nem eu, nem Marco Fúlvio, conseguimos dobrá-la. Fúlvia é demasiado forte para nós dois. Se quiseres casar com ela, Fúlvia será tua.

— É claro que quer! — disse uma voz jovem, da porta que dava para o jardim do peristilo.

Fúlvia entrou sem mais demoras; mas não caminhava, corria. Era assim mesmo o seu carácter — quando queria uma coisa, não perdia tempo.

Para grande surpresa de Clódio, Semprónia levantou-se imediatamente e retirou-se. Então e não deixavam ninguém a vigiá-los? Até onde ia a determinação de Fúlvia?

Clódio não conseguia falar, pois estava demasiado concentrado no que os seus olhos viam. Fúlvia era bela! Tinha uns olhos azuis escuros, um curioso cabelo castanho pálido, uma boca bem delineada, um nariz perfeitamente aquilino, uma figura voluptuosa e uma estatura média (próxima da de Públio Clódio). Diferente, invulgar, sem paralelo em nenhuma das Famílias Famosas de Roma. De onde viera aquela jovem? Ele conhecia a história de Semprónia nas Lupercais e, de repente, deu consigo a pensar que Fúlvia só podia ser uma aparição.

— Então? Que me dizes? — perguntou-lhe aquela extraordinária criatura, sentando-se no mesmo sítio onde estivera a mãe.

— Só digo que me deixas sem fôlego...

Ela gostou do comentário e sorriu, revelando uns belos dentes, grandes e brancos. — Que bom...!

— Porquê eu, Fúlvia? — perguntou ele, concentrando-se já no seu principal problema, a circuncisão.

— Porque tu não és uma pessoa ortodoxa — disse ela. — E eu também não. Tu sentes. Eu também. Tens pelas coisas o mesmo interesse apaixonado que tinha o meu avô, Caio Graco. Eu venero os meus antepassados! E quando te vi no tribunal, lutando contra tudo e contra todos, com Púpio Pisão e Cícero e os outros escarnecendo de ti, apeteceu-me matar toda aquela gente que queria esmagar-te. Sim, é verdade que tinha então apenas dez anos, mas soube logo que tinha encontrado o meu próprio Caio Graco.

Clódio nunca se imaginara como um dos Irmãos Gracos, mas Fúlvia, com aquela observação, acabara de plantar uma intrigante semente na cabeça do noivo: e se ele se lançasse nesse tipo de carreira — um demagogo aristocrata disposto a vingar os desfavorecidos? Seria uma bela sequência para tudo o que até então fizera...! E seria tão fácil para ele, que tinha muito mais talento do que os Gracos para lidar com aqueles que estavam no fundo da escala social!

— Por ti, tentarei ser um Caio Graco — disse ele, com um sorriso deliciado.

Clódio já recuperara o fôlego, e de que maneira. Mas a resposta que ela lhe deu, era, sem dúvida, estranha. — Eu sou uma pessoa muito ciumenta, Públio Clódio. Não serei, portanto, uma esposa fácil. Se olhares para outra mulher, sou capaz de te arrancar os olhos.

— Não poderei olhar para outra mulher — disse ele gravemente, saltando da comédia para a tragédia mais depressa do que um actor mudava de máscara. — Na realidade, Fúlvia, até é possível que tu não olhes para mim quando conheceres o meu segredo.

Esta resposta não a desanimou nem um pouco; pelo contrário, Fúlvia parecia fascinada. — O teu segredo?

— Sim, é mesmo um segredo. Não te peço que jures que não contarás a ninguém, pois há apenas dois tipos de mulheres: aquelas que juram e depois vão contar e aquelas que guardam um segredo sem nunca jurar. A que género pertences tu, Fúlvia?

— Depende — disse ela, com um sorriso malandro. — Creio que pertenço aos dois géneros. Por isso, é melhor não jurar. Mas sou leal, Públio Clódio. Se o teu segredo não te diminui aos meus olhos, guardá-lo-ei. Tu és o homem que escolhi e ser-te-ei sempre leal. Seria capaz de morrer por ti, Públio Clódio.

— Não morras por mim, Fúlvia, vive para mim! — exclamou Clódio, que estava a apaixonar-se a uma velocidade só superada por um bocado de cortiça levado por uma catarata.

— Dize-me! — disse ela, mas não era uma súplica, era uma exigência.

— Quando estava na Síria com o meu cunhado Rei — começou Clódio — fui sequestrado por um grupo de Árabes Esquenitas. Sabes quem são?

— Não.

— São uma raça originária do deserto árabe e que usurpou muitas das posições e propriedades que os Gregos da Síria detinham antes de Tigranes os ter levado para a Arménia. Quando esses Gregos regressaram, após a queda de Tigranes, constataram que os Árabes Esquenitas controlavam tudo. E eu achei isso tão terrível que decidi ajudar os Gregos a recuperar o que era seu. Era preciso que os Árabes Esquenitas voltassem para o deserto de onde tinham vindo.

— Claro — disse ela, aquiescendo. — A tua natureza é mesmo assim: estás sempre pronto a lutar pelos que nada têm.

— O meu prémio — disse Clódio, amargamente — foi ser sequestrado por essa gente do deserto e submetido a algo que, para um Romano, é absolutamente insuportável — algo tão horrendo e ridículo que, se se tornar conhecido, nunca mais poderei viver em Roma.

Fúlvia pôs-se logo a analisar as alternativas. Os seus olhos azul-escuros, muito intensos, pareciam não ter paragem. — Que poderão ter-te feito? — perguntou ela por fim, na maior confusão. — Com certeza não foi violação, sodomia, bestialidade. Isso seria entendido, perdoado.

— Como é que tu sabes dessas coisas... sodomia, bestialidade? — Ela pôs um ar presumido. — Eu sei tudo, Públio Clódio.

— Pois bem, não foi nada disso. Eles... circuncidaram-me.

— Eles o quê?

— Afinal não sabes tudo...

— Bom, essa palavra, de facto, não conheço. Que significa?

— Significa que me cortaram o prepúcio.

— O pré... quê? — perguntou ela, mais ignorante do que pensava.

Clódio suspirou. — Seria melhor para as virgens romanas que as pinturas murais não mostrassem tantos Príapos — disse ele.

— Os homens nem sempre estão erectos.

— Isso sei eu!

— Mas, pelos vistos, não sabes que quando os homens não estão erectos, a glande, ou seja, a ponta do pénis, é coberta por uma dobra a que se chama prepúcio — disse Clódio, já com suor na testa. — Há alguns povos que cortam o prepúcio, deixando a glande do pénis permanentemente exposta. A essa excisão, dá-se o nome de circuncisão. Os Judeus e os Egípcios praticam-na. E, pelos vistos, também os Árabes. E foi isso mesmo que me fizeram a mim. Transformaram-me num proscrito, num não Romano!

O rosto dela parecia um céu tempestuoso, inquieto, volúvel.

— Oh! Oh, meu pobre Clódio, meu pobre Clódio! — exclamou. A língua mexeu-se veloz, molhando os lábios. — Deixa-me ver! — pediu.

Só de pensar em tal perspectiva, Clódio sentiu um fogo delicioso entre as pernas, descobrindo nesse mesmo instante que, afinal, a circuncisão não provocava a impotência, um destino a que uma persistente debilidade parecia condená-lo desde os últimos dias em Antióquia. Descobriu também que era muito mais pudico do que pensava. — Não, de modo nenhum, Fúlvia! — protestou, embaraçado.

Mas Fúlvia estava já de joelhos diante dele, e as suas mãos separavam já as dobras da toga e afastavam a túnica. Olhou para o sexo dele numa mistura de malandrice, deleite e decepção, após o que apontou para uma lamparina de bronze, que representava um Príapo descomunal, com o pavio saindo do sexo erecto. — Pareces mesmo ele! — disse ela, com um risinho. — Mas ouve lá... Para eu perceber o que te fizeram, tenho de te ver mole e não todo teso!

Clódio levantou-se num ápice e deu um jeito rápido na roupa, sempre de olhos na porta, não fosse Semprónia aparecer de repente. Mas a verdade é que Semprónia não apareceu. Aparentemente, ninguém vira a filha da casa a inspeccionar a mercadoria que lhe estava destinada.

— Mas para me veres mole, vais ter de casar comigo — disse ele. — Oh, meu querido Públio Clódio, é claro que caso contigo! — exclamou ela, levantando-se. — O teu segredo está seguro comigo. E, se para um homem romano, a circuncisão é uma desgraça tão grande, nunca poderás interessar-te por outra mulher, pois não...?

— Sou todo teu, Fúlvia! — exclamou Públio Clódio, limpando as lágrimas com um novo vigor. — Adoro-te! Adoro até o chão que tu pisas!

Clódio e Fúlvia casaram-se em fins de Quinctilis, depois da última das eleições. Nestas eleições não faltaram as surpresas, a começar pela intenção de Catilina de disputar in absentia o consulado do ano seguinte. Porém, embora o regresso de Catilina da sua província estivesse atrasado, outros homens vieram de África muito antes das eleições. Parecia ser indubitável que o governo de Catilina em África só se distinguia pela corrupção; os cobradores de taxas e impostos africanos que tinham vindo a Roma não escondiam a sua intenção de processar Catilina por extorsão, logo que este regressasse. Por isso, o cônsul que organizava e dirigia as eleições curuis, Vulcácio Tulo, recusara-se prudentemente a aceitar a candidatura in absentia de Catilina, tendo em conta que pairava sobre ele a ameaça de um processo judicial.

Depois, rebentou um escândalo muito pior. Com efeito, descobriu-se que os candidatos triunfantes ao consulado do ano seguinte, Públio Sila e o seu querido amigo Públio Autrónio, tinham subornado uma imensidão de eleitores. A lex Calpurnia de Caio Pisão, que se aplicava a tais casos, podia ser muito fraca, mas a verdade é que as provas contra Públio Sila e Autrónio eram de tal modo consistentes que nem mesmo as brandas leis de Caio Pisão poderiam salvá-los. Conscientes dessa perspectiva, Sila e Autrónio confessaram imediatamente a sua culpabilidade e propuseram um acordo aos cônsules em funções e aos novos cônsules entretanto eleitos, Lúcio Cota e Lúcio Mânlio Torquato. E o desfecho desta astuciosa negociação só podia ser um: as acusações eram retiradas, em troca do pagamento de pesadas multas e de um juramento, solenemente prestado pelos dois infractores, de que nunca mais voltariam a disputar um cargo público; os subornadores safavam-se assim de uma pena terrível, graças à lei de Caio Pisão, que permitia tais soluções. Lúcio Cota, que pretendia um julgamento, ficou lívido quando viu os seus três colegas votarem a favor de tal solução, permitindo assim que os celerados conservassem a cidadania e a residência, bem como a maior parte das suas imensas fortunas.

Nada disto interessava verdadeiramente a Clódio, cujo alvo, tal como oito anos antes, se chamava Catilina. Consumido pelos seus sonhos de vingança, Clódio convenceu os queixosos africanos a entregar-lhe a acusação contra Catilina. Que maravilha! Catilina receberia o justo castigo, agora que ele, Clódio, casara com a mais bela e excitante rapariga do mundo! Todos os seus prémios tinham afinal surgido simultaneamente, e em grande parte porque Fúlvia se revelara uma ardente partidária e apoiante, sem nada em comum com as mulheres reservadas e caseiras que outros homens (mas não Clódio) teriam preferido.

De início, Clódio trabalhou freneticamente para reunir provas e testemunhas, mas Catilina era um daqueles casos irritantes em que nada acontecia com a rapidez necessária. Tudo era lento, tanto encontrar provas, como localizar testemunhas. Uma viagem a Útica ou Adrumeto demorava dois meses e aquele caso exigiria muitas viagens a África. Clódio já andava furioso e impaciente. Até que Fúlvia lhe disse: — Pensa um pouco, meu querido Públio. Porque não arrastas eternamente o caso? Se não houver um desfecho antes do próximo Quinctilis, Catilina não poderá disputar o consulado pela segunda vez sucessivamente, não é verdade?

Clódio entendeu imediatamente a pertinência do conselho e abrandou o mais que pôde o ritmo do seu trabalho. Acabaria por condenar Catilina, mas, até lá, muitas luas teriam ainda de passar! Brilhante!

Teve depois tempo para pensar em Lúculo, cuja carreira estava a terminar de uma forma desastrosa. Em consequência da lex Manilia, Pompeu recebera o comando de Lúculo contra Mitridades e Tigranes e logo tratara de exercer os seus direitos. Encontrara-se com Lúculo em Danala, uma remota cidadela galaciana. Os dois homens tiveram uma discussão tão viva e amarga que Pompeu (até então relutante em esmagar Lúculo sob o peso do seu imperium maius) resolveu logo promulgar um decreto que ilegalizava as acções de Lúculo e o bania da Ásia. Depois, tratou de recrutar novamente os Fimbrianos; embora tivessem a liberdade de regressar finalmente a casa, a verdade é que os Fimbrianos dificilmente poderiam custear uma viagem tão longa e para tanta gente. Por outro lado, o serviço nas legiões de Pompeu, o Grande, era uma magnífica perspectiva.

Banido em circunstâncias humilhantes, Lúculo regressou imediatamente a Roma e postou-se no Campo de Marte, à espera do triunfo que — quanto a isso não tinha a mínima dúvida — o Senado lhe concederia. Mas o tribuno da plebe de Pompeu, o seu sobrinho Caio Mémio, disse ao Senado que, se tentasse conceder um triunfo a Lúculo, faria aprovar na Assembleia Plebeia a legislação necessária para negar todo e qualquer triunfo a Lúculo; o Senado, acrescentou Mémio, não tinha qualquer direito constitucional para conceder tais privilégios. Catulo, Hortênsio e os restantes boni atiraram-se a Mémio com unhas e dentes, mas não conseguiram atrair os apoios necessários; a maior parte do Senado pensava que o seu direito a conceder triunfos era mais importante do que Lúculo — por que haviam de preocupar-se com Lúculo se isso poderia levar Mémio a criar um precedente indesejável?

Lúculo não desistiu. Sempre que o Senado reunia, apresentava uma petição para que o triunfo lhe fosse concedido. O seu irmão, Varrão Lúculo, estava também com problemas com Mémio, que pretendia condená-lo por peculato (alegadamente cometido muitos anos antes). Tendo em conta todos estes dados, só se poderia concluir que Pompeu se tornara um encarniçado inimigo dos dois Lúculos — e dos boni. Quando Pompeu e Lúculo se haviam encontrado em Danala, Lúculo tinha-o acusado de vir receber os louros de uma campanha que, afinal, fora conduzida, e de forma brilhante, por ele. Um insulto mortal para Pompeu. Quanto aos boni, continuavam a manifestar-se energicamente contra aqueles comandos especiais atribuídos ao Grande Homem.

Seria de esperar que a mulher de Lúculo, Clodila, o fosse visitar na sua luxuosa villa do Monte Pinciano, fora do pomerium, mas a verdade é que ClodiLa não o fez. Aos vinte e cinco anos, Clodila era agora o que se podia chamar uma mulher do mundo; tinha a riqueza de Lúculo inteiramente à sua disposição e uma única pessoa, o irmão mais velho, a controlar as suas actividades. Quanto a amantes, tinha muitos, o que lhe valia fama de licenciosa.

Dois meses após o regresso de Lúculo, Públio Clódio e Fúlvia foram visitá-la, mas sem o mínimo intuito de tentarem uma reconciliação entre os esposos. Em vez disso (e com Fúlvia escutando avidamente as suas palavras), Clódio contou à sua irmã mais nova aquilo que dissera a Lúculo em Nisibe — que ele, Clódia e Clodila faziam mais coisas na cama, para além de dormirem juntos. Clodila achou imensa graça.

— Queres reconciliar-te com o teu marido? — perguntou-lhe Clódio.

— Reconciliar-me?! — os grandes olhos negros de Clodila abriram-se muito, faiscaram. — Não, claro que não! É um velho, já era um velho quando casou comigo há dez anos! Para se excitar, tinha de se empanturrar de cantárida!

— Nesse caso, porque não vais visitá-lo ao Pinciano e lhe comunicas que te vais divorciar dele? — perguntou Clódio, muito sério. — Se queres vingar-te, podes confirmar o que eu lhe disse em Nisibe, embora ele possa tornar a história pública e isso possa ser duro para ti. Eu e Clódia gostaríamos muito de tirar o máximo proveito possível do ultraje. Mas ambos compreenderemos se tu não estiveres disposta a isso.

— Disposta?! — exclamou Clodila. — Eu adoraria! Ele que espalhe a história! Tudo o que temos a fazer é negá-la, com muitas lágrimas e declarações de inocência. As pessoas ficarão sem saber em quem hão-de acreditar. Toda a gente sabe dos problemas que existem entre ti e Lúculo. Os que estão do lado dele acreditarão na sua versão. Os que estão no meio vacilarão. E os que estão do nosso lado, como o irmão Ápio, dirão que fomos injuriados de uma forma abjecta!

— Então, ataca primeiro e divorcia-te dele — disse Clódio. — Dessa forma, e mesmo que ele se divorcie também de ti, Lúculo não poderá retirar-te uma boa porção da sua riqueza. Tu não tens nenhum dote a que recorrer.

— Aí está uma proposta inteligente... — disse Clodila, satisfeita.

— E poderás casar de novo — disse Fúlvia.

O rosto moreno e fascinante da cunhada contorceu-se num trejeito, ganhou uma expressão viciosa. — Eu, casar de novo? Nem pensar! — rosnou ela. — Um marido já me chegou! Muito agradecida, mas prefiro ser senhora do meu destino! Foi maravilhoso, enquanto Lúculo esteve no Oriente. Aproveitei para pôr de lado uma pequena fortuna à custa dele. Mas gosto da ideia de ser eu a divorciar-me primeiro. O nosso irmão Ápio poderá negociar um acordo que me deixará o suficiente para o resto da vida.

Fúlvia deu um risinho de prazer. — Ah, Roma não vai falar de outra coisa!

E, de facto, durante muito tempo, Roma não falou de outra coisa. Embora Clodila se tivesse divorciado de Lúculo, este, posteriormente, divorciou-se dela, pedindo a um dos seus clientes séniores que lesse a sua proclamação nos rostra. As suas razões para se divorciar, dizia ele, não se limitavam ao facto de Clodila ter cometido adultério com uma infinidade de homens durante a ausência do marido; é que, para além disso, Clodila mantivera relações incestuosas com o seu irmão Públio Clódio e a sua irmã Clódia.

Naturalmente, a maior parte das pessoas queria acreditar no que ouvia, em particular porque tudo aquilo era saborosamente tenebroso, mas também porque os CláudiosClódios Pulcros eram criaturas estranhas, brilhantes, imprevisíveis, erráticas. Há gerações que assim eram! Enfim, eram patrícios, e estava tudo dito.

Foi um rude golpe para Ápio Cláudio, o qual, no entanto, não cometeu o disparate de se bater para reabilitar o nome dos irmãos; a sua melhor defesa era deambular pelo Fórum, com o ar de quem queria falar de tudo menos de incesto, e as pessoas, de um modo geral, procuraram poupá-lo. Rei permanecera no Oriente como um dos legados séniores de Pompeu, mas Cláudia, a sua esposa, adoptou a mesma atitude que o seu irmão Ápio. O irmão do meio, Caio Cláudio, tinha um intelecto demasiado embotado para um Cláudio, e por isso não era considerado como um alvo digno dos ditos sarcásticos do Fórum. Felizmente, o marido de Clódia, Célere, também estava no Oriente, tal como o seu irmão Nepos; Célere e Nepos teriam sido mais incisivos e terríveis, teriam posto algumas questões bem difíceis de responder. Nestas circunstâncias, os três acusados apareciam em público com um ar inocente e indignado e, em privado, rebolavam de riso! Mas que escândalo magnífico!

Cícero, contudo, foi quem teve a última palavra. — O incesto — disse ele, gravemente, para uma vasta audiência de frequentadores do Fórum — é um jogo a que toda a família pode brincar.

Clódio viria a arrepender-se da sua temeridade quando finalmente se realizou o julgamento de Catilina, já que muitos dos membros do júri olhavam para ele de soslaio, permitindo mesmo que as suas dúvidas em relação ao advogado de acusação colorissem o veredicto. Foi uma batalha dura e amarga que Clódio travou com toda a valentia; seguira o conselho de Cícero relativamente aos seus preconceitos e despeito, e conduzira habilmente a acusação. O facto de ter perdido e de Catilina ter sido absolvido não podia sequer ser atribuído ao suborno de alguns membros do júri; e ele aprendera já o suficiente para não desconfiar de eventuais subornos quando o veredicto de ABSOLVO foi pronunciado. Um tal desfecho, concluiu, devia-se apenas a um mero acaso — o sorteio que proporcionara tais jurados — e à extrema qualidade da defesa.

— Portaste-te muito bem — disse-lhe César, depois do julgamento. — Não foi por culpa tua que perdeste. Até mesmo os tribuni aerarii daquele júri eram tão conservadores que, ao pé deles, Catilina é capaz de passar por radical! — Encolheu os ombros e acrescentou: — Não podias vencer contra Torquato chefiando a defesa, sobretudo depois do boato de que Catilina planeava assassiná-lo no Ano Novo findo. Defender Catilina foi a forma de Torquato dizer que decidira não acreditar em tais boatos. E o júri ficou impressionado. Mesmo assim, saíste-te muito bem.

Públio Clódio gostava sinceramente de César, reconhecendo nele um outro espírito inquieto, e invejando-lhe o autocontrole que sabia não possuir. Quando o veredicto foi pronunciado, sentira vontade de gritar e chorar. Depois, os seus olhos encontraram César e Cícero e houve algo nas expressões destes que o sossegou. Teria a sua vingança, mas mais tarde. Comportar-se como um mau perdedor só beneficiaria Catilina.

— Pelo menos, já é demasiado tarde para que ele dispute o consulado — disse Clódio a César, suspirando. — Sempre é uma vitória.

— Sim, Catilina terá de esperar mais um ano.

Subiram a Sacra Via, na direcção da estalagem que ficava na esquina da Clivus Orbius, com a fachada imponente do arco de Fabius Alloborogicus, sobre a Via Sacra, diante dos seus olhos. César ia para casa e Clódio para a estalagem, onde estavam alojados os seus clientes de África.

— Conheci um amigo teu em Tigranocerta — disse Clódio.

— Por todos os deuses... quem terá sido?

— Um centurião chamado Marco Sílio.

— Sílio? Sílio de Mitilene? Um Fimbriano?

— Precisamente. Ele tem uma grande admiração por ti.

— É admiração mútua. É um bom homem. Pelo menos agora pode voltar para casa.

— Parece que não, César. Recebi recentemente uma carta dele, da Galácia. Os Fimbrianos decidiram participar na campanha de Pompeu.

— Pois é, esses velhos soldados choram com saudades de casa, mas quando lhes aparece uma campanha interessante, lá se vão as saudades...! — César estendeu a mão, com um sorriso. — Ave, Públio Clódio. Tenciono seguir atentamente a tua carreira.

Clódio permaneceu por algum tempo à porta da estalagem, com um olhar ausente. Quando finalmente entrou, parecia o reitor da sua escola — íntegro, honesto, incorruptível.

Marco Licínio Crasso era agora tão rico que resolvera atribuir-se um segundo cognome, Dives, que significava precisamente rico. E quando foi eleito censor, juntamente com Quinto Lutácio Catulo, a única coisa que faltava na sua carreira era uma grande e gloriosa campanha militar. Sim, claro que derrotara Espártaco e ganhara por isso uma ovação, mas seis meses no campo contra um gladiador cujos soldados eram, em grande parte, escravos, tirava muito do brilho à sua vitória. Aquilo que Crasso almejava era algo mais ao jeito de Pompeu, o Grande — salvador da pátria, esse género de campanha. E o mesmo tipo de reputação. Doía-lhe ser eclipsado por um indivíduo que viera do nada!

Por outro lado, Catulo não era propriamente um colega amistoso, por motivos que escapavam ao perplexo Crasso. Nunca um Licínio Crasso fora apostrofado de demagogo ou considerado um radical; por isso, qual era o problema de Catulo?

— O problema de Catulo é o teu dinheiro — disse César, a quem Crasso pusera tão incómoda questão. — Catulo é um dos boni e por isso não tolera que os senadores tenham actividades comerciais. Ele adoraria ter um colega censor com quem pudesse investigar minuciosamente as tuas actividades. Mas como esse colega és tu, não tem a mínima hipótese, pois não?

— Seria tempo perdido, se tentasse! — replicou Crasso, indignado. — Eu não faço nada que metade do Senado não faça! Ganho dinheiro graças às propriedades que possuo, e isso qualquer senador pode fazer! Sim, admito que possuo algumas participações em companhias, mas não pertenço a nenhum conselho de administração, nem tenho a mínima influência na condução dos negócios de qualquer empresa. Sou, muito simplesmente, uma fonte de capital. E isso, ninguém pode atacar!

— Eu sei muito bem que assim é — disse César, pacientemente. — E o nosso querido Catulo também sabe. Deixa-me repetir a minha opinião: o problema dele é o teu dinheiro. O velho Catulo está farto de mourejar para pagar a reconstrução do templo de Júpiter Optimus Maximus. E nunca consegue aumentar a fortuna da família, porque todos os seus sestércios são consumidos pelo templo. Ao passo que tu continuas a acumular dinheiro. Enfim: o que ele tem é inveja.

— Então que inveje aqueles que realmente merecem a sua inveja! — resmungou Crasso, ainda furioso.

Desde que deixara o consulado que partilhara com Pompeu, o Grande, Crasso envolvera-se num novo tipo de negócio, uma actividade cujo pioneiro fora, quarenta anos antes, um Servílio Cepião: a produção de armas e apetrechos militares para as legiões de Roma numa série de distritos a norte do rio Pó, na Gália Italiana. Fora o seu bom amigo Lúcio Calpúrnio Pisão, o fornecedor de armamentos de Roma durante a Guerra Italiana, quem lhe chamara a atenção para tal negócio. Lúcio Pisão reconhecera as potencialidades desta nova indústria, e dedicara-se a ela com tal entusiasmo que conseguira arrecadar fartos lucros em não muito tempo. As suas raízes estavam todas na Gália Italiana, já que a sua mãe fora uma Calvência originária dessa região. E após a morte de Lúcio Pisão, o filho, outro Lúcio Pisão, mantivera a actividade do pai e uma forte amizade com Crasso. O qual acabara finalmente por entender as vantagens de possuir cidades inteiras consagradas à produção de cota de malha, espadas, dardos, elmos, punhais; além disso, esta actividade não contrariava minimamente a sua qualidade de senador.

Enquanto censor, Crasso encontrava-se agora em posição de ajudar o seu amigo Lúcio Pisão, bem como o jovem Quinto Servílio Cepião Bruto, o herdeiro das manufacturas dos Servílios Cepiões em Feltria, Cardiano, Beluno. A Gália Italiana para lá do Pó era romana há já tanto tempo que os seus cidadãos, muitos deles Gauleses, mas muitos mais fruto de casamentos entre diferentes comunidades, não podiam deixar de sentir um forte ressentimento pelo facto de a cidadania romana continuar a ser-lhes negada. Apenas três anos antes houvera conflitos, que a visita de César, regressado da Hispânia, acabara por acalmar. E Crasso, mal se tornou censor e foi encarregado do censo dos cidadãos romanos, entendeu na perfeição qual era o seu dever: ajudaria os seus amigos Lúcio Pisão e Cepião Bruto e criaria uma multidão de clientes para si mesmo, dando a cidadania romana a todos aqueles que viviam do outro lado do Pó na Gália Italiana. Toda a gente que vivia a sul do Pó tinha a cidadania — não era justo que Roma negasse a cidadania a pessoas do mesmo sangue, só porque viviam na margem errada do rio!

Porém, quando anunciou a intenção de conceder a cidadania a todos os habitantes da Gália Italiana, o outro censor, Catulo, teve tal reacção que dir-se-ia estar a um passo da loucura. Não, não, não! Nunca, nunca, nunca! A cidadania romana era para os Romanos e os Gauleses não eram Romanos! Havia já demasiados Gauleses mtitulando-se Romanos, como Pompeu, o Grande, e os seus amiguinhos picentinos.

— Sempre o mesmo argumento — comentou César, decepcionado. — A cidadania romana deve ser apenas para os Romanos. Mas por que raio é que esses idiotas dos boni não conseguem ver que todos os povos de Itália são Romanos? Que a própria Roma é, de facto, Itália?

— Concordo contigo — disse Crasso. — Catulo é que não concorda.

A ideia seguinte de Crasso também não foi bem sucedida.

Crasso queria anexar o Egipto, mesmo que isso significasse guerra — com ele à frente do exército, evidentemente. Crasso tornara-se uma tal autoridade em assuntos egípcios que mais parecia uma enciclopédia viva sobre a velha nação dos faraós. E tudo o que ia aprendendo servia apenas para confirmar aquilo de que sempre suspeitara: que o Egipto era a mais rica nação do mundo.

— Imagina só...! — disse ele a César, com uma expressão que, por uma vez, não tinha nada de bovino ou de impassível. — O faraó é dono de tudo! No Egipto, não há propriedades pertencentes a este ou àquele — porque todas elas pertencem ao faraó, que as aluga e, naturalmente, cobra as rendas. Todos os produtos do Egipto lhe pertencem, desde os cereais ao ouro, passando pelas jóias, pelas especiarias, pelo marfim! Só o linho está excluído da lista, porque pertence aos sacerdotes. Mas mesmo no caso do linho, o faraó fica com um terço da produção. O seu rendimento privado é de pelo menos seis mil talentos anuais. E os rendimentos que o Egipto lhe proporciona atingem mais seis mil talentos. Isto para não falar dos extras que lhe vêm da ilha de Chipre.

— Ouvi dizer — disse César, unicamente porque queria atazanar aquele boi chamado Crasso — que os Ptolemeus têm sido de tal modo ineptos que acabaram por malbaratar todas as dracmas que o Egipto possuía.

O boi Crasso resfolegou realmente, mas de troça e não de raiva.

— Disparates! Nunca ouvi maior disparate! Nem mesmo o mais inepto dos Ptolemeus conseguiria gastar um décimo do que recebe. Os rendimentos que o país lhe proporciona chegam-lhe para pagar a todos os funcionários — o exército de burocratas, os soldados, os marinheiros, a polícia, os sacerdotes. Até lhe chegam para pagar os palácios. Há anos que não se envolvem em guerras, excepto guerras intestinas, mas, neste caso, o dinheiro vai, muito simplesmente, para o vencedor. Ou seja, não sai do Egipto. Quanto aos rendimentos privados, limitam-se a acumulá-los. Nem se dão ao trabalho de converter em dinheiro todos os seus tesouros — o ouro, a prata, os rubis, o marfim, as safiras, as turquesas, a cornalina, o lápis lazúli. Guardam-nos bem guardados. Só gastam algum dinheiro com os artífices que transformam tais matérias-primas em móveis ou jóias.

— E que me dizes do roubo do sarcófago de ouro de Alexandre, o Grande? — perguntou César, provocativamente. — O primeiro Ptolemeu chamado Alexandre estava tão pobre que pegou no sarcófago, derreteu-o, transformou-o em moedas de ouro e substituiu-o por outro, de cristal de rocha.

— Aí tens outra! — retorquiu Crasso, num tom escarninho.

— Francamente, que histórias mais ridículas! Esse Ptolemeu esteve em Alexandria apenas cinco dias, não mais, antes de fugir. Achas que, no espaço de cinco dias, conseguiu remover um objecto de ouro puro, pesando pelo menos quatro mil talentos, e que depois conseguiu cortá-lo em peças suficientemente pequenas para caberem na fornalha de um ourives e derreteu todas essas peças numa imensidão de fornalhas e, finalmente, cunhou milhões e milhões de moedas? Precisaria de mais de um ano para executar tal trabalho! Mas não é só isso... Onde está o teu senso comum, César? Um sarcófago de rocha de cristal transparente, grande o bastante para conter um corpo humano — sim, sim, eu sei que Alexandre, o Grande, era um homem pequeno! —, custaria doze vezes mais do que um sarcófago de ouro puro. Além disso, são precisos anos para executar tal obra depois de se ter encontrado uma peça suficientemente grande. Pela lógica, podemos concluir que alguém encontrou essa peça e que, por mera coincidência, a substituição se deu quando Ptolemeu Alexandre lá estava. Acontece que os sacerdotes da Sema queriam que o povo visse Alexandre, o Grande.

— Que horror! — disse César. — Não, eles fizeram um trabalho de preservação perfeito. Creio que Alexandre está tão belo hoje como era em vida — disse Crasso, absolutamente empolgado.

— Deixemos esse tema da preservação de Alexandre, que acho muito discutível. Uma coisa é certa, Marco: nunca há fumo sem fogo. Há tanto tempo que ouvimos essas histórias sobre os Ptolemeus que alguma coisa deve ser verdade. Que, quando fogem, não levam um sestércio no bolso, nem uma camisa no corpo... É impossível que haja tanto dinheiro e tantos tesouros como tu crês.

— Aha! — exclamou Crasso, triunfante. — Todas essas histórias, César, baseiam-se numa falsa premissa. O que as pessoas não compreendem é que os tesouros dos Ptolemeus e a riqueza do país não são guardados em Alexandria. Alexandria é um enxerto artificial na árvore egípcia, a qual não tem nada de artificial, bem pelo contrário. Os sacerdotes de Mênfis são os guardiães do tesouro egípcio, que se encontra, evidentemente, em Mênfis. E quando um Ptolemeu — ou uma Cleópatra — precisa de fugir, não foge para Mênfis, não, mas sim para o porto de Ciboto, em Alexandria, de onde parte para Chipre, ou para a Síria, ou para Cos. Ou seja, quando fogem, não podem levar consigo mais fundos do que aqueles que há em Alexandria, e que não são muitos...

César pôs um ar terrivelmente solene, suspirou, recostou-se na sua cadeira e pôs as mãos atrás da cabeça. — Meu caro Crasso, convenceste-me!

Só então é que Crasso se acalmou o suficiente para reparar no brilho de ironia que havia nos olhos de César. Desatou a rir. — Grande malandro! Não tens feito outra coisa senão atazanar-me e eu sem dar por nada!

— No que toca ao Egipto, concordo contigo a todos os níveis — disse César. — O único problema é que nunca conseguirás convencer Catulo a apoiar a tua empresa.

E de facto Crasso não conseguiu convencer Catulo, o qual tratou mesmo, e com êxito, de convencer o Senado a não aprovar tal empreendimento. O resultado foi que, menos de três meses depois de terem assumido os seus cargos e muito antes de terem conseguido rever o censo da Ordo Equester, quanto mais o censo de todo o povo, a censura de Catulo e Crasso deixou de existir. Crasso resignou publicamente e não poupou Catulo a críticas. Fora tão curta esta censura, que o Senado decidiu eleger novos censores no ano seguinte.

César comportou-se como um bom amigo, defendendo no Senado ambas as propostas de Crasso: a cidadania para os Gauleses que viviam para lá do Pó e a anexação do Egipto. No entanto, o seu principal interesse, nesse ano, era outro: fora eleito para um dos dois cargos de edil curul, o que significava que, agora, poderia sentar-se na cadeira curul de marfim e que seria sempre precedido por dois lictores empunhando os fasces. Isto acontecera no ano certo, ou seja, César estava a subir o cursas honorum das magistraturas públicas exactamente como pretendia. Infortunadamente, o seu colega (que recebera muito menos votos) era Marco Calpúrnio Bíbulo.

Tinham ideias muito diferentes relativamente a todos os aspectos do cargo que agora assumiam. Juntamente com os dois edis plebeus, eram responsáveis pela manutenção geral da cidade de Roma: teriam de velar pelo estado de ruas, praças, jardins, mercados, tráfego, edifícios públicos, pela ordem pública, pelo abastecimento de água, incluindo fontes e cursos de água, pelos registos de terras, autorizações para construção, drenagem e esgotos, estátuas em locais públicos, e templos. As funções eram exercidas pelos quatro juntos, ou então, amigavelmente distribuídas por um ou mais dos edis.

Os pesos e medidas também caíam sob a alçada dos edis curuis, que tinham a sua sede no templo de Castor e Pólux, uma localização muito central, na franja vestal do baixo Fórum; o conjunto dos pesos-padrão e medidas-padrão era guardado sob o pódio desse templo, conhecido como o Templo de Castor, já que Pólux era vítima de um profundo esquecimento. Os edis plebeus tinham a sua sede muito longe dali, no belo templo de Ceres, no sopé do Aventino, e talvez por causa disso pareciam prestar menos atenção aos deveres de manutenção do centro público e político de Roma.

Um dos deveres que os quatro partilhavam era particularmente pesado: o abastecimento de cereais em todos os seus aspectos, desde o momento em que eram descarregados das barcaças até ao instante em que desapareciam na saca de um cidadão devidamente autorizado. Eram também responsáveis pela compra de cereais, pelo seu pagamento, pela sua inspecção e etiquetagem à chegada e pela reunião de fundos para tal. Eram eles que detinham a lista dos cidadãos autorizados a comprar cereal do Estado a preços baixos, o que significava que tinham uma cópia do censo dos cidadãos romanos. Distribuíam as senhas na sua tenda, localizada no Pórtico dos Metelos, no Campo de Marte, mas os cereais eram armazenados em enormes silos, os quais acompanhavam os penhascos do Aventino ao longo da Vicus Portae Trigeminae, no porto de Roma.

Os edis plebeus desse ano não poderiam competir com os edis curuis; o irmão mais novo de Cícero, Quinto, era o sénior dos edis plebeus.

— O que quer dizer que os jogos deles não serão brilhantes — disse César a Bíbulo, com um suspiro. — Aliás, parece que também não vão fazer grande coisa pela cidade.

Bíbulo olhou para o seu colega com profundo desagrado. — E já agora desengana-te tu também, César. Escusas de ter pretensões de grandiosidade no que toca aos jogos. Contribuirei para que os jogos sejam bons, mas não para que sejam espectaculares. Da minha bolsa não sairá mais dinheiro do que da tua. Por outro lado, não tenciono proceder a nenhuma vistoria dos esgotos, nem mandarei inspeccionar os bocais ou tubeiras dos muitos ramos de abastecimento de água, nem mandarei pintar de novo a estátua de Castor, nem andarei a correr pelos mercados a inspeccionar as balanças.

— Nesse caso, que tencionas fazer? — perguntou César.

— Tenciono fazer o estritamente necessário, e nada mais.

— Não achas que inspeccionar as balanças é necessário?

— Não, não acho.

— Pois bem — disse César, com um sorriso malicioso. — Creio que é muito apropriado que a nossa sede seja o Templo de Castor. Se queres ser Pólux, vai em frente. Mas não te esqueças do destino de Pólux — nunca mais foi lembrado, nunca mais foi mencionado.

Não era um bom princípio. César, sempre demasiado ocupado e demasiado organizado para se preocupar com aqueles que diziam não estar dispostos a cooperar, tratou de cumprir os seus deveres como se fosse o único edil em Roma. Tinha a vantagem de possuir uma excelente rede de informadores de transgressões, pois recrutara Lúcio Decúmio e os seus confrades para tais funções, e atacava duramente os mercadores que pesavam ou mediam deficientemente (e sempre a seu favor, é claro), os construtores que infringiam limites ou usavam materiais pobres, os proprietários que enganavam a companhia das águas, usando bocais ou tubeiras maiores e indo buscar ao cano principal mais água do que o que a lei previa. Era implacável nas multas, que nunca eram leves. Ninguém escapava. Nem mesmo o seu amigo Marco Crasso escapou.

— Já começas a chatear-me — disse-lhe Crasso, particularmente mal-humorado, no início de Fevereiro. — Já me custaste uma fortuna! Pouco cimento num edifício qualquer, já não me lembro qual, poucas vigas naquela ínsula que estou a construir no Viminal — e que não ultrapassa os limites dos solos públicos, por muito que digas o contrário! Cinquenta mil sestércios de multas só porque eu fiz uma ligação aos esgotos e pus latrinas privadas nos meus novos aposentos nas Carinas? São dois talentos, César!

— Infringe a lei e vais ver se eu não te castigo — disse-lhe César, nada arrependido. — Preciso de muito dinheiro e não vou poupar ninguém. Nem os meus amigos.

— Se continuas assim, não mais terás amigos.

— O que me estás a dizer, Marco, é que só és amigo nos momentos bons — retorquiu César, algo injustamente.

— Isso não é verdade! Mas se tu queres dinheiro para financiar uns jogos espectaculares, então pede emprestado. Não esperes que todos os homens de negócios de Roma paguem a conta das tuas extravagâncias públicas! — exclamou Crasso, irritado. — Eu empresto-te o dinheiro e não te cobro juros.

— Obrigado, mas não quero — disse César, com toda a firmeza. — Se fizesse isso, eu é que seria esse tal amigo dos momentos bons. Se tiver de pedir dinheiro emprestado, falarei com um usurário e pagarei os devidos juros.

— Não podes, estás no Senado.

— Posso, com Senado ou sem Senado. Se for expulso do Senado por pedir emprestado a usurários, o Senado ficará reduzido a cinquenta membros da noite para o dia — disse César. Os seus olhos brilhavam. — Há uma coisa que podes fazer por mim.

— O quê?

— Põe-me em contacto com um mercador de pérolas discreto, um mercador que queira comprar as mais belas pérolas que alguma vez viu por muito menos do que receberá por elas.

— Oh! Eu não me lembro de teres declarado pérolas quando apresentaste o saque dos piratas!

— Não declarei, nem declarei os quinhentos talentos com que fiquei. O que significa que o meu destino está nas tuas mãos, Marco. Tudo o que tens a fazer é levar-me a tribunal. Não tenho escapatória.

— Não quero fazer isso, César... mas tens de acabar com as multas — disse Crasso, astuciosamente.

— Então vai já ter com o praetor urbanus e denuncia-me — disse César, rindo-se. — Porque dessa forma é que tu não me compras!

— Só ficaste com isso? Quinhentos talentos e umas quantas pérolas?

— Nada mais.

— Não te compreendo!

— Deixa lá, porque ninguém compreende — disse César, preparando-se para partir. — Mas sê bonzinho e procura-me um mercador de pérolas. Eu fá-lo-ia — se soubesse por onde começar. Dou-te uma pérola de comissão.

— Ora, fica lá com as tuas pérolas, se fazes favor! — retorquiu Crasso, zangado.

César ficou apenas com uma pérola, aquela pérola enorme, em forma de morango e com cor de morango, embora não soubesse exactamente porquê, já que, se a vendesse, teria provavelmente duplicado os quinhentos talentos que recebeu pelas outras. Não a vendera unicamente por uma questão de instinto, resistindo facilmente ao ganancioso comprador.

— Essa, consigo vendê-la por seis ou sete milhões de sestércios — disse-lhe o homem, ansioso por ficar com aquela preciosidade.

— Não — retorquiu César, avaliando-a na sua mão. — Acho que vou ficar com ela. A deusa Fortuna diz-me que devo ficar com ela...

Por muito gastador que fosse, César também era capaz de fazer contas. E, em fins de Fevereiro, quando somou tudo bem somado, sentiu um baque no coração. O tesouro do edil contribuiria provavelmente com quinhentos talentos; Bíbulo indicara que contribuiria com cem talentos para os primeiros jogos, os ludi Megalenses, em Abril, e com duzentos talentos para os grandes jogos, os ludi Romani, em Setembro; e César decidira entrar com mil talentos do seu próprio bolso — e mil talentos era tudo o que tinha no mundo, para além das suas preciosas propriedades, e dessas é que ele não se separava, pois eram elas que o mantinham no Senado.

Segundo as suas contas, os ludi Megalenses custariam setecentos talentos, e os ludi Romani mil talentos. Um total de mil e setecentos talentos, ou seja, praticamente aquilo que tinha. O problema era que César tencionava fazer algo mais do que proporcionar dois períodos de jogos aos Romanos; qualquer edil curul tinha de organizar jogos e a fama que poderia ganhar dependia da magnificência desses jogos. César queria realizar jogos fúnebres no Fórum, em memória de seu pai, e contava que esses jogos custassem quinhentos talentos. Teria de pedir dinheiro emprestado ou então seria obrigado a ofender todas as pessoas que haviam votado nele, impondo-lhes multas. Não era prudente! Marco Crasso, apesar da sua avareza e da sua convicção de que um homem devia ajudar os seus amigos mesmo que o Estado sofresse com isso, tolerava as multas de César unicamente porque gostava sinceramente dele.

— Se quiseres, dou-te o que tenho, Pavo — disse Lúcio Decúmio, atento às contas de César.

Embora parecesse cansado e algo desencorajado, César dedicou um sorriso muito especial àquele bizarro velho que ocupava um lugar tão importante na sua vida. — Então dá, pai! Mas receio que aquilo que tens não chegue para contratar um único par de gladiadores.

— Tenho quase duzentos talentos.

César assobiou. — Pelos vistos, enganei-me na profissão! Foi isso que poupaste todos estes anos, enquanto garantias paz e protecção aos residentes da Via Sacra exterior e da Vicus Fabricii?

— Ultimamente tem crescido... — disse Lúcio Decúmio com um ar humilde.

— Fica com o dinheiro, pai, não mo dês.

— E onde é que vais buscar o resto?

— Vou pedi-lo emprestado, em troca, digamos assim, do que fiz como pro-pretor numa boa província. Escrevi a Balbo, que está em Gades, e ele está de acordo em dar-me cartas de referência para as pessoas certas aqui em Roma.

— Não podes pedir o dinheiro a Balbo?

— Não, ele é um amigo. Não posso pedir dinheiro emprestado a amigos, pai.

— Mas que rapaz mais estranho...! — disse Lúcio Decúmio, abanando a cabeça embranquecida. — Para que servem os amigos, senão para nos ajudarem em casos destes?

— Os meus amigos, não, pai. Prefiro pedir o dinheiro a estranhos. Imagina que me acontece qualquer coisa e que não posso pagar aos meus próprios amigos...! Não suportaria que os meus disparates provocassem dificuldades financeiras aos meus amigos!

— Se não conseguires pagar, Pavo, então é porque Roma está liquidada.

Já menos tenso, César respirou fundo. — Concordo contigo, pai. Mas não te preocupes, eu pagarei. Portanto — acrescentou ele, mais feliz —, porque é que eu hei-de preocupar-me? Pedirei o dinheiro que for necessário para vir a ser o maior edil curul que já houve em Roma!

E foi isto que César tratou de fazer, embora no final do ano tivesse uma dívida de mil talentos, o dobro do que calculara. Crasso ajudou-o, segredando aos ouvidos dos prestativos usurários que César significava uma boa perspectiva de futuro e que, por isso, não lhe deviam cobrar juros exorbitantes; e Balbo também o ajudou, pondo-o em contacto com homens capazes de discrição e de alguma moderação na ganância. Dez por cento de juro simples, que era a taxa legal. A única dificuldade era que tinha de começar a pagar o empréstimo ao fim de um ano — caso contrário, o juro passaria de simples a composto; passaria a pagar juros sobre os juros que devia, bem como sobre o capital que lhe fora emprestado.

Os ludi Megalenses eram os primeiros jogos do ano e, do ponto de vista religioso, os mais solenes, talvez porque anunciavam a chegada da Primavera (nos anos em que o calendário coincidia com as estações) e também porque tinham sido criados na sequência da segunda e terrível guerra que Roma travara com Cartago, quando Aníbal invadira a Itália. Foi então que a veneração de Magna Mater, a Grande Mãe-Terra Asiática, foi introduzida em Roma; o seu templo foi construído no Palatino, dando para o Vallis Murcia, no qual ficava o Circus Maximus. Sob muitos aspectos, este era um culto desadequado à Roma conservadora; os Romanos detestavam eunucos, ritos flagelatórios e tudo aquilo que era taxado de barbarismo religioso. Tudo começara quando a virgem vestal Cláudia conduzira miraculosamente a barcaça com a Pedra do Altar de Magna Mater pelo Tibre acima, e agora Roma tinha de suportar as consequências dessa façanha, assistindo à marcha dos sacerdotes castrados, sangrando das feridas que se tinham infligido, berrando e guinchando ao longo das ruas de Roma no quarto dia de Abril, arrastando a efígie da Grande Mãe e pedindo esmola a todos os que assistiam a essa introdução aos jogos.

Os jogos propriamente ditos eram mais romanos. Duravam seis dias — do quarto ao décimo dia de Abril. O primeiro dia consistia da procissão, de uma cerimónia no templo de Magna Mater e, por fim, de alguns acontecimentos no Circus Maximus. Os quatro dias seguintes eram consagrados a representações teatrais numa série de estruturas de madeira temporárias, construídas unicamente para os jogos, ao passo que o último dia era dedicado à procissão dos deuses desde o Capitólio até ao Circo e a longas corridas de carros no Circo.

Como edil curul sénior, foi César quem oficiou nos acontecimentos do primeiro dia; foi também César quem ofereceu à Grande Mãe um sacrifício sem sangue, o que era sem dúvida estranho, dado que Cubaba Cibele era uma deusa sequiosa de sangue; a oferenda era um prato de ervas.

Alguns chamavam a estes jogos os jogos patrícios

já que, na primeira noite, as famílias patrícias festejavam unicamente entre si e não convidavam plebeus; o facto de o edil curul que fazia o sacrifício ser um patrício era considerado como um augúrio auspicioso para o Patriciado. Bíbulo, evidentemente, era um plebeu, e não admira que se tenha sentido profundamente ostracizado no dia de abertura; César tinha enchido de patrícios os assentos especiais da grande escadaria do templo, prestando uma homenagem especial aos Cláudios Pulcros, tão intimamente ligados à presença de Magna Mater em Roma.

Embora neste primeiro dia os edis concelebrantes e os convidados oficiais não descessem ao Circus Maximus, assistindo a tudo da escadaria do templo de Magna Mater, César preferira encenar um quadro vivo no Circo, em vez de divertir a multidão que seguira a sangrenta procissão com os costumeiros combates de boxe e torneios de atletismo. Com efeito, César mandara construir um canal a partir do Tibre, canal que atravessava o Fórum Boarium e criava um rio no interior do Circo, com a spina representando a ilha do Tibre, rodeada por este engenhoso curso de água. Perante as exclamações de espanto e encantamento da multidão, foi então representada a notável façanha da vestal Cláudia. A vestal conduzia a barcaça a partir da ponta do Fórum Boarium, onde, no último dia, seriam instaladas as portas usadas para a partida dos carros, dava uma volta inteira à spina, e, por fim, levava a sua embarcação até à ponta da Porta Capena do estádio. A barcaça cintilava de pinturas a ouro e as suas velas enfunadas haviam sido bordadas a púrpura; todos os sacerdotes eunucos estavam reunidos no convés, à volta de uma bola negra muito brilhante, representando a pedra do altar, ao passo que, na popa, se encontrava a estátua de Magna Mater, no seu carro puxado por dois leões que pareciam mesmo leões a sério. Por outro lado, César não utilizou um homem hercúleo, vestido de vestal, para representar o papel de Cláudia; recorreu, pelo contrário, a uma mulher bela e elegante, com o tipo físico das Cláudias, e escondeu os homens que empurravam a barca — os quais, naturalmente, seguiam dentro dela, todos curvados e com água pela cintura — com uma falsa quilha, também pintada a ouro.

A multidão regressou a casa extasiada depois daquele espectáculo que durara três horas. César viu-se rapidamente rodeado por um sem-número de patrícios deliciados, recebendo cumprimentos pelo seu gosto e imaginação. Bíbulo entendeu perfeitamente que fora eclipsado pelo seu colega e desandou furioso.

Havia pelo menos dez teatros entre o Campo de Marte e a Porta Capena, o maior dos quais tinha capacidade para dez mil pessoas e o menor para cinco mil. César não se contentou com o aspecto provisório que, em princípio, os teatros deveriam ter; insistiu, pelo contrário, que fossem pintados, decorados, dourados. Farsas e mimos decorriam nos maiores teatros, Terêncio, Plauto e Énio nos mais pequenos, e Sófocles e Esquilo no mais pequeno de todos, um auditório muito parecido com os teatros gregos; havia espectáculos para todos os gostos. Desde as primeiras horas da manhã até quase ao crepúsculo, os dez teatros ofereceram espectáculos durante quatro dias: um verdadeiro banquete. Literalmente um banquete, já que César oferecia comidas e bebidas gratuitas durante os intervalos.

No último dia, a procissão reunia-se no Capitólio e seguia pelo Fórum Rotnanum e pela Via Triumphalis até ao Circus Maximus, exibindo estátuas douradas de alguns deuses como Marte e Apolo — e Castor e Pólux. Como fora César quem pagara o trabalho de douradura, não seria talvez surpreendente que Pólux fosse muito mais pequeno do que o seu gémeo, Castor. A multidão achou imensa graça a esse pormenor.

Embora os jogos fossem teoricamente financiados pelos dinheiros públicos e as corridas de carros fossem do agrado de todos os espectadores, a verdade é que o Estado nunca tinha dinheiro que chegasse para as diversões. Tal facto não detivera César, o qual, nesse último dia dos ludi Megalenses, apresentou mais corridas de carros do que Roma alguma vez vira. Na sua qualidade de edil curul sénior, tinha o dever de dar a partida para as corridas, cada uma das quais envolvendo quatro carros — o Vermelho, o Azul, o Verde e o Branco. A primeira corrida era para carros puxados por quatro cavalos aparelhados lado a lado, mas havia também corridas com dois cavalos aparelhados lado a lado, ou com dois ou três cavalos aparelhados em tandem, uns atrás dos outros; César organizou mesmo corridas com cavalos sem arreios, montados por postilhões.

Cada corrida tinha uma extensão de cinco milhas, consistindo de sete voltas à divisão central da spina, uma elevação estreita adornada com muitas estátuas, e exibindo, numa extremidade, sete golfinhos de ouro, e, na outra, sete ovos de ouro dispostos em enormes cálices; mal terminava uma volta, baixava-se o focinho de um golfinho, ficando este de cauda para cima, e retirava-se um ovo de ouro do seu cálice. Se o dia tinha as mesmas doze horas que a noite, então cada corrida demorava um quarto de hora, o que significava que o ritmo era rápido e furioso, verdadeiramente endiabrado. As quedas, quando ocorriam, davam-se habitualmente junto às metae, onde cada condutor, com as rédeas enroladas à volta da cintura e um punhal enfiado nelas para se libertar se por acaso chocasse, lutava com perícia e coragem para se manter do lado da cerca interna, pois isso significava que percorreria uma extensão menor.

A multidão adorou aquele dia, pois, em vez de longos intervalos depois de cada corrida, César conseguiu escapar quase por completo às interrupções; os corretores de apostas, que corriam de um lado para o outro, aceitando as apostas dos espectadores excitados, foram obrigados a frenéticos esforços para acompanharem o ritmo das corridas. Não se via um único lugar vazio e as mulheres sentavam-se ao colo dos maridos para que mais espectadores pudessem entrar. As crianças, os escravos ou mesmo os libertos não podiam assistir às corridas, mas as mulheres tinham liberdade para o fazer, desde que acompanhadas. Nos jogos de César, mais de duzentos mil Romanos livres comprimiram-se tanto quanto puderam no Circus Maximus; os milhares que ficaram de fora assistiram às corridas dos locais mais elevados do Palatino e do Aventino.

— São os melhores jogos que já se viram em Roma — disse Crasso a César, no final do sexto dia. — Aquilo que fizeste com as águas do Tibre, fazendo-as depois recuar para que o terreno ficasse de novo seco, por causa das corridas, foi um verdadeiro feito de engenharia.

— Estes jogos não são nada — replicou César, com um sorriso malicioso. — E não foi difícil usar as águas do Tibre, pois o rio encheu muito com as chuvas. Espera até veres os ludi Romani em Setembro. Lúculo ficaria destroçado se pudesse atravessar o pomerium para os ver.

Mas entre os ludi Megalenses e os ludi Romani, César fez algo de tão invulgar e espectacular que Roma falou disso durante anos. Quando a cidade se encontrava já a abarrotar de cidadãos das regiões rurais, desejosos de assistirem aos grandes jogos de princípios de Setembro, César organizou jogos fúnebres em memória do pai e, para tal, usou todo o Fórum Romanum. Como estava muito calor e não se via uma nuvem no céu, César cobriu toda a área com pano de vela cor-de-púrpura, prendendo as suas pontas aos edifícios de ambos os lados, quando estes eram suficientemente elevados; onde não havia edifícios para servirem de suporte, ergueu a maciça estrutura de pano com varas enormes e cordas fortes. Um exercício de engenharia que ele adorava e que não só concebera, como também supervisionava.

Mas quando esta inacreditável construção começou, espalhou-se o boato de que César tencionava exibir mil pares de gladiadores. Catulo convocou imediatamente o Senado.

— Quais são realmente os teus planos, César? — perguntou Catulo, num Senado a abarrotar. — Há muito que percebi que tencionavas minar a República, mas mil pares de gladiadores quando não há legiões para defender a nossa querida cidade? Isto não é cavar secretamente um túnel, mas sim usar um aríete!

— Bom... — começou calmamente César, levantando-se da sua cadeira no estrado curul. — É verdade que possuo um poderoso aríete e também é verdade que cavei secretamente muitos túneis, mas para os cavar usei sempre o meu aríete. — Nesse instante, César afastou o decote da sua túnica, baixou a cabeça para falar através do espaço assim criado, e gritou: — Não é verdade, ó aríete? — a sua mão caiu, a túnica compôs-se e ele ergueu os olhos com o mais doce dos sorrisos. — Ele diz que é verdade.

Crasso emitiu um som algures entre o miado e o uivo, mas antes que o seu riso se tornasse estrondoso, o berro jubiloso de Cícero tapou-o por completo; o Senado transformou-se num vendaval de hilaridade e Catulo ficou roxo e sem fala.

César decidiu-se então a revelar o número em que, de facto, sempre havia pensado: trezentos e vinte pares de gladiadores envergando magníficas armaduras prateadas.

Porém, antes de os jogos fúnebres começarem, um outro acontecimento sensacional ofendeu profundamente Catão e os seus colegas. Quando nasceu o dia, e o Fórum, visto das casas na extremidade da colina do Gérmalo, parecia o suave mar cor de vinho de que falava Homero, aqueles que vieram mais cedo para apanhar os melhores lugares descobriram que o Fórum Romanum, para além da tenda, albergava ainda outras surpresas, não menos espantosas. Durante a noite, César devolvera todas as estátuas de Caio Mário aos seus pedestais ou plintos, e pusera de novo todos os troféus de guerra de Caio Mário no templo dedicado à Honra e à Virtude que ele mandara construir no Capitólio. Mas que poderiam fazer os senadores arquiconservadores? Nada, rigorosamente nada. Roma nunca esquecera — nem deixara de amar — o magnífico Caio Mário. Nesse ano memorável em que César foi edil curul, a reabilitação de Caio Mário foi considerada como o mais grandioso dos seus actos.

Claro que César aproveitou esta oportunidade para lembrar a todos os eleitores quem ele era e aquilo que ele era; em todas as arenas onde alguns dos seus trezentos e vinte pares de gladiadores se batiam — no fundo do poço dos Comitia, no espaço entre os tribunais, em frente do Pórtico Margaritária, na Vélia, uma das eminências do monte Palatino — César não deixou de proclamar a ascendência do seu pai, sem se esquecer de incluir Rómulo e Vénus.

Dois dias depois, César (acompanhado de Bíbulo) deu início aos ludi Romani, os quais, desta feita, duravam doze dias. A parada desde o Capitólio até ao Circo Máximo demorou três horas a passar. Os magistrados-chefes e o Senado vinham à frente, seguidos de grupos de jovens em belas montadas, de todos os carros que participariam nas corridas e dos atletas que competiriam; de muitas centenas de bailarinos e mascarados e músicos; de anões disfarçados de sátiros e faunos; de todas as prostitutas de Roma com as suas togas cor de fogo; de escravos carregando centenas de vasos magníficos, de prata ou ouro; de grupos de actores representando guerreiros, vestidos com túnicas escarlates com cintos de bronze e fabulosos elmos decorados com penachos e brandindo espadas e lanças; dos animais sacrificiais; e, finalmente, e na posição mais honrosa, os doze grandes deuses e muitos outros deuses e heróis, transportados em liteiras abertas, de ouro e púrpura, pintados realisticamente e envergando trajes requintados.

César decorara todo o Circus Maximus e resolvera superar as suas outras diversões: para tal, usara milhões de flores frescas. Como os Romanos adoravam flores, a vasta audiência ficou extasiada, arrebatada (e os mais sensíveis quase desmaiavam), afogada no perfume de rosas, de violetas, de goivos. Distribuiu petiscos e bebidas gratuitos e não deixou de pensar em todo o tipo de novidades, desde funâmbulos a vomitadores de fogo, passando por contorcionistas escassamente vestidas.

Todos os dias os jogos viam algo de novo e diferente. Por outro lado, as corridas de carros foram soberbas.

Disse Bíbulo àqueles que ainda se lembravam dele: — Ele disse-me que eu havia de ser Pólux e ele Castor. Tinha toda a razão! Eu podia ter poupado os meus preciosos trezentos talentos — que só serviram para dar comida e vinho a duzentas mil gargantas ávidas, ao passo que ele ficou com os louros por tudo o mais.

Disse Cícero a César: — De um modo geral, detesto jogos, mas devo confessar que os teus foram esplêndidos. O facto de teres organizado os mais opulentos jogos de todos os tempos já é francamente louvável. Mas houve uma coisa que me levou realmente a adorar os teus jogos: é que eles não foram nem baixos, nem grosseiros.

Disse Tito Pompónio Ático, um plutocrata entre os cavaleiros, a Marco Licínio Crasso, um plutocrata entre os senadores: — Foram uns jogos verdadeiramente brilhantes. César conseguiu promover os negócios de toda a gente. Que ano esplêndido para os floricultores e para todos os comerciantes por atacado! Toda essa gente votará sempre nele! Bom, isto já para não falar dos padeiros, dos moleiros, etc., etc. — ah, sim, César teve de facto uma actuação muito inteligente!

E disse o jovem Cepião Bruto a Júlia: — O tio Catão está furioso. Claro que ele é muito amigo de Bíbulo. Mas porque é que o teu pai tem sempre de causar furor?

Catão odiava César.

Quando finalmente regressou a Roma, na altura em que César assumia as suas funções de edil curul, Catão decidiu executar sem demora o testamento do seu irmão Cepião. O que implicava uma visita a Servília e Bruto, o qual, aos dezoito anos, já estava bem lançado na sua carreira no Fórum, embora ainda não tivesse participado em nenhum julgamento.

— Não me agrada que agora sejas um patrício, Quinto Servílio — disse Catão, formalista ao ponto de tratar o sobrinho pelo seu novo nome. — Mas como eu nunca quis ser outra coisa senão um Pórcio Catão, suponho que devo aprovar. — Curvou-se repentinamente, após o que acrescentou: — Que andas tu a fazer no Fórum? Devias era estar no campo, integrado num exército qualquer, como o teu amigo Caio Cássio.

— Bruto — disse Servília, com um ar severo, pondo toda a ênfase no nome —, recebeu uma isenção.

— Só os aleijados devem ser isentos.

— O meu filho é fraco do peito — retorquiu Servília.

— Depressa ficaria melhor se cumprisse com os seus deveres, ou seja, se servisse nas legiões. Ficaria curado do peito e da pele.

— Bruto servirá nas legiões quando eu achar que ele está em condições.

— Será que o meu sobrinho não tem língua? — perguntou Catão, não com a ferocidade que era seu apanágio antes de partir para o Oriente, mas, apesar de tudo, com alguma agressividade.

— Não tem voz para falar? Asfixias o teu filho, Servília, e isso é contrário a todas as normas romanas!

Tudo isto escutava Bruto no maior silêncio, atormentado por um cruel dilema. Por um lado, adoraria que a mãe perdesse aquela

— ou qualquer outra — batalha; por outro lado, receava os deveres militares. Cássio não queria outra coisa, mas Bruto desenvolvera uma tosse que a todo o momento piorava. Custava-lhe muito sentir-se diminuído aos olhos do tio Catão, mas este não tolerava nenhuma fraqueza ou fragilidade; o tio Catão, que ganhara tantas e tantas condecorações por bravura no campo de batalha, nunca entenderia as pessoas que não sentiam nada quando pegavam numa espada. Não admira que, nesse instante, Bruto começasse a tossir, umas tossidelas secas e curtas que começavam na base do peito e reverberavam ao longo de todo o aparelho respiratório. Tão copiosa era a sua expectoração que, depois de lançar um olhar desnorteado à mãe e ao tio, murmurou uma desculpa e retirou-se.

— Estás a ver o que fizeste? — perguntou Servília, furibunda.

— O rapaz precisa de exercício e ar livre. Suspeito também que estás a tratar muito mal da pele dele. Está com um aspecto horrível.

— Tu não és responsável pelo meu filho!

— Segundo o testamento de Cepião, sou responsável pelo meu sobrinho!

— O tio Mamerco já tratou de tudo o que dizia respeito a Bruto e não precisa da tua ajuda. Aliás, Catão, ninguém precisa da tua ajuda. Vai-te embora. Olha, e já agora atira-te ao Tibre...!

— É evidente que toda a gente precisa de mim. Quando parti para o Oriente, o teu filho tinha começado a ir para o Campo de Marte, e, durante algum tempo, até parecia que aprenderia a ser um homem. E agora, que encontro eu? Um menino da mamã...! E como é possível que o tenhas deixado ficar noivo de uma rapariga que, além de não ter dote, é mais uma miserável patrícia! Que filhos vão eles ter? Umas crianças raquíticas, é claro!

— É de crer — disse Servília, gelidamente — que tenham rapazes como o pai de Júlia e raparigas como eu. Digas o que disseres sobre os patrícios e a velha aristocracia, a verdade é que, no pai de Júlia, podes encontrar tudo o que um Romano deve ser, tanto a nível militar como político ou oratório. Bruto queria casar com Júlia. A ideia não foi minha, mas gostaria que tivesse sido. Um sangue tão bom como o dele...! E o sangue é muito mais importante do que um dote! Mas, para tua informação, devo dizer-te que o pai de Júlia lhe atribuiu um dote de cem talentos. Aliás, Bruto não precisa de uma rapariga com um grande dote, agora que é herdeiro de Cepião.

— Já que está disposto a esperar anos por uma noiva, o meu sobrinho poderia ter esperado um pouco mais e casado com a minha Pórcia — disse Catão. — Essa, sim, essa seria uma aliança que eu teria aplaudido entusiasticamente! O dinheiro do meu querido Cepião teria ido para as crianças dos dois lados da sua família.

— Ah... estou a ver...! — disse Servília, com um sorriso de escárnio. — A verdade vem sempre ao de cima, não é, Catão? Não quiseste mudar o teu nome para ficares com o dinheiro de Cepião, mas já tinhas um plano, um plano brilhante, para ficares com a fortuna através da tua filha...! Francamente! Querias que o meu filho casasse com a descendente de uma escrava? Só depois de passares pelo meu cadáver!

— Ainda pode vir a casar... — disse Catão, complacentemente.

— Se isso acontecer, podes crer que deixarei a tua filha morrer à fome! — Servília começava a ficar nervosa, compreendendo que já não lutava tão bem como dantes contra Catão — ele agora mostrava-se mais frio, mais distante, era mais difícil magoá-lo. Foi então que Servília decidiu cravar a mais terrível das suas farpas. — Tu, o pai de Pórcia, és descendente de uma escrava. Mas também é preciso ter em conta a mãe de Pórcia. E posso garantir-te que nunca deixarei que o meu filho case com a filha de uma mulher que não aguenta as ausências do marido!

Nos velhos tempos, Catão tê-la-ia atacado verbalmente, teria gritado, teria sofrido. Agora, porém, limitava-se a uma expressão severa e a um silêncio demorado.

— Creio que essa afirmação precisa de ser esclarecida — disse ele por fim.

— Terei o maior prazer em ajudar. Atília tem-se portado muito mal.

— Ah, Servília, tu és uma das melhores razões para promulgar uma lei que obrigue as pessoas a terem tento na língua!

Servília pôs o mais doce sorriso. — Pergunta aos teus amigos, se por acaso tens dúvidas. Pergunta a Bíbulo. A Favónio. A Aenobarbo. Eles foram testemunhas da pouca vergonha da tua mulher. Não é segredo nenhum.

A boca de Catão encolheu-se, os lábios desapareceram. — Quem? — perguntou.

— Ora, quem havia de ser? O mais romano dos Romanos, é claro! César...! E não me perguntes que César — sabes muito bem qual é o César que tem fama de destroçar corações... O futuro genro do meu querido Bruto...!

Catão levantou-se sem uma palavra.

Foi imediatamente para casa, uma modesta residência numa rua modesta, no centro do Palatino, mas sem vistas, onde instalara o seu amigo e filósofo Atenodoro Cordilião, no único quarto de hóspedes existente, antes de se lembrar que tinha de saudar a mulher e os filhos.

As reflexões de Catão confirmaram as intrigas de Servília. Atília estava diferente. Raramente sorria e atrevia-se a falar antes de ele lhe dirigir a palavra. Os seus seios tinham-se dilatado e isso, de uma forma muito peculiar, deixava-o revoltado. Embora já tivessem passado três dias desde que chegara a Roma, Catão não dormira ainda com a mulher (preferira dormir sozinho no seu quarto), não satisfizera ainda aquilo que mesmo o seu venerado bisavô Catão, o Censor, considerara um impulso natural, não só permissível entre marido e mulher (ou escrava e senhor), mas também verdadeiramente admirável.

Ah, que deus amigo e benevolente o impedira de penetrar na sua propriedade legal sem saber que ela havia sido ilegalmente invadida por outro? Catão estremeceu com esse pensamento. César. Caio Júlio César, o pior espécime daquele bando decadente e degenerado. Que raio vira ele em Atília, que Catão escolhera porque ela era o absoluto oposto da adorável, da bela, da morena Emília Lépida? Catão reconhecia que, do ponto de vista intelectual, era um pouco lento — desde a sua infância que não ouvia outra coisa a seu respeito. Mas não precisou de reflectir muito para descobrir — imaginava ele — as razões de César. Embora fosse um patrício, César haveria de ser um demagogo, outro Caio Mário. Quantas mulheres de intransigentes tradicionalistas havia ele seduzido? A esse respeito corriam inúmeros boatos. Quanto a ele, Marco Pórcio Catão, era certo que ainda não tinha idade para entrar para o Senado — mas que, obviamente, era considerado por César como um futuro inimigo e um inimigo de peso. Essa era boa! Pelos vistos, Marco Pórcio Catão possuía a energia e a capacidade necessárias para se transformar numa grande força no Fórum e no Senado. César tinha-lhe posto os cornos, a ele! César fizera isso porque Catão era importante! Nunca ocorreu a Catão que Servília era a verdadeira causa, pois não fazia a mínima ideia que Servília tivesse uma ligação íntima com César.

Pois bem, Atília pode ter admitido César na sua cama e entre as suas pernas, mas não admitira Catão desde o dia em que isso acontecera. Aquilo que a morte de Cepião começara, a traição de Atília acabava. Nunca sentir nada! Nunca, nunca sentir nada. Sentir significava dor, uma dor sem fim.

Não falou com Atília sobre o caso. Limitou-se a chamar o chefe dos criados, dando-lhe instruções para que juntasse as coisas da mulher e a pusesse imediatamente na rua. Ela que fosse para casa do irmão. Umas quantas palavras rabiscadas numa folha de papel e tudo estava acabado. Divorciava-se dela e não lhe devolveria um único sestércio do seu dote, pois ela era uma adúltera. Enquanto aguardava no seu gabinete, Catão ouviu a voz dela ao longe, um queixume, um soluço, um grito desvairado chamando pelos filhos, e a voz do chefe dos criados sobrepondo-se à dela, e o barulho dos escravos que executavam a tarefa que o amo lhes ordenara. Por fim, a porta da rua abriu-se, fechando-se logo a seguir. O chefe dos criados bateu então à porta do gabinete de Catão.

— Atília foi-se embora, domine.

— Traze-me os meus filhos.

As crianças surgiram pouco depois, perplexas com a confusão e o alarido, mas ignorantes do que se passara. Que eram seus filhos, Catão não podia negá-lo, mesmo agora que as dúvidas lhe roíam o coração. Pórcia tinha seis anos, era alta, magra e angulosa, com um cabelo castanho igual ao dele, embora numa versão mais espessa e encaracolada, uns olhos cor-de-cinza e bem espaçados, tal e qual os dele, um pescoço comprido, igual ao seu, um nariz também idêntico ao seu. Catão Júnior era dois anos mais novo, um rapazito magrizela que fazia lembrar o pai quando este tinha a sua idade, naqueles dias em que Silão, o Marso, pegara nele e o suspendera da janela, ameaçando atirá-lo para cima de umas rochas aguçadas. A grande diferença era que Catão Júnior era tímido e pouco vigoroso e tinha tendência para chorar. E, infelizmente, já era bem visível que Pórcia, a pequena oradora e filósofa, era mais inteligente do que o irmão. Talentos inúteis numa rapariga.

— Meus filhos — disse Catão, no seu tom de voz normal, áspero e sem expressão. — Divorciei-me da vossa mãe por infidelidade. Ela foi-me infiel e mostrou-se incapaz de ser esposa ou mãe. Proibi a sua entrada nesta casa e não permitirei que nenhum de vós a volte a ver.

O rapazito pouco percebeu daquelas palavras de adulto, excepto que algo de terrível acabara de acontecer e que a mamã estava no centro daquele vendaval. Os seus grandes olhos encheram-se de lágrimas; o seu lábio tremeu. E só não rompeu aos berros porque a irmã lhe agarrou de súbito no braço, sinal de que devia controlar-se. E ela, uma pequena estóica capaz de morrer para agradar ao pai, manteve-se erecta, com um aspecto imperturbável, sem sinal de lágrimas nos olhos ou de tremuras nos lábios.

— A mamã foi para o exílio — disse ela.

— É uma maneira tão boa como qualquer outra de definir o que se passou — disse o pai.

— Continua a ser uma cidadã? — perguntou Pórcia, com uma voz muito parecida com a do pai, sem ritmo nem melodia.

— Não posso privá-la disso, Pórcia, nem desejaria fazê-lo. Privei-a, isso sim, da sua presença nas vossas vidas, já que ela não merece estar presente. A tua mãe é uma criatura horrível. Uma devassa, uma prostituta, uma meretriz, uma adúltera. Teve relações sexuais com um homem chamado Caio Júlio César, um homem que representa na perfeição a sua classe — porque é um homem corrupto, imoral, ultrapassado.

— Nunca mais voltaremos a ver a mamã?

— Enquanto viverem em minha casa, não a verão nunca. Catão Júnior apercebeu-se finalmente do que significavam aquelas palavras de adultos e desatou a chorar desoladamente. — Eu quero a minha mamã! Eu quero a minha mamã! Eu quero a minha mamã!

— É errado chorar — disse o pai — quando se chora por motivos desprezíveis. Comporta-te como um estóico e pára de deitar essas lágrimas pouco próprias de um homem. Não podes ver a tua mãe e está tudo dito. Pórcia, leva o teu irmão. Da próxima vez que o vir, espero ver um homem e não um bebé tonto com o nariz cheio de ranho.

— Eu faço-o compreender — disse ela, fitando o pai com cega adoração. — Enquanto estivermos contigo, pater, tudo estará bem. O nosso amor vai todo para ti e não para a mamã.

Catão ficou gelado. — Amor?! Amor, nunca! — gritou. — Nunca, nunca! Um estóico não ama! Um estóico não quer ser amado!

— Não creio que Zenão proibisse o amor, mas apenas os actos errados — disse a filha. — Não é correcto amar tudo o que é bom? Tu és bom, pater. Devo por isso amar-te. Zenão diz que é um acto correcto.

Como responder àquilo? — Nesse caso, tempera o teu amor com o desprendimento e nunca deixes que ele te domine — disse ele. — Aquilo que degrada a mente nunca deve reinar. E as emoções degradam a mente.

Quando as crianças se retiraram, também Catão deixou a sala. Não muito longe, na colunata, encontrava-se Atenodoro Cordilião, com vinho, alguns bons livros e melhor conversação. A partir desse dia, o vinho, os livros e a conversação deveriam preencher todos os vazios.

Ah, mas o que sofria Catão sempre que via o brilhante e festejado edil curul cumprindo tão bem, e com tão grande talento, todos os seus deveres!

— Ele age como se fosse o rei de Roma — disse Catão a Bíbulo.

— Acho que ele acredita que é o rei de Roma, distribuindo pão e circo por toda a gente. Tudo em grande, tudo à maneira de um rei, desde a forma como lida com o povo miúdo até à sua arrogância no Senado.

— É meu inimigo jurado.

— Ele é inimigo de todos os homens que defendem a mós maiorum, que defendem que nenhum homem deve suplantar os seus pares — disse Bíbulo. — Combatê-lo-ei até morrer!

— Ele é um novo Caio Mário — disse Catão.

Mas Bíbulo escarneceu da comparação. — Mário? Não, Catão, não! Caio Mário sabia que nunca conseguiria ser rei de Roma — ele não passava de um proprietário rural de Arpino, tal como o seu primo, o bucólico Cícero. César não é nenhum Mário, isso te garanto. César é outro Sila, e isso é muito, muito pior.

Em Julho desse ano, Marco Pórcio Catão foi eleito questor; e, graças ao sorteio, tornou-se um dos três questores urbanos, mais precisamente o questor urbano sénior; os seus dois colegas eram o grande aristocrata plebeu Marco Cláudio Marcelo e um tal Lólio, mais um membro dessa família picentina que Pompeu, o Grande, ia introduzindo sem problemas no seio do Senado e das assembleias.

Faltando ainda alguns meses para assumir o seu cargo ou para ser autorizado a ingressar no Senado, Catão ocupava os seus dias estudando o comércio e as suas leis; contratou um guarda-livros do Tesouro já na reforma, para que este lhe ensinasse como é que os tribuni aerarii, que controlavam esse domínio, faziam a sua contabilidade; e estudou laboriosamente essas matérias até ficar a saber tanto como César sobre as finanças do Estado — o que Catão não sabia era que César tinha aprendido num instante aquilo que ele demorara meses a aprender.

Os questores cumpriam muito ligeiramente os seus deveres e nunca se preocupavam excessivamente com o policiamento do que se passava no Tesouro; normalmente, a parte mais importante do trabalho do questor urbano era a ligação com o Senado, o qual debatia e depois decidia para onde os dinheiros do Estado deviam ir. Entre os questores, era uma prática aceite lançar um olhar apressado aos livros que a equipa do Tesouro os deixava ver de quando em quando, e aceitar os números do Tesouro quando o Senado estudava as finanças de Roma. Os questores também faziam favores aos amigos e familiares quando estes deviam dinheiro ao Estado, fechando os olhos às dívidas ou ordenando que os nomes deles fossem apagados dos registos oficiais. Em suma, os questores sediados em Roma limitavam-se a permitir que a equipa permanente do Tesouro fizesse o seu trabalho. E nem a equipa permanente do Tesouro, nem os outros dois questores urbanos, Marcelo e Lólio, faziam ideia de que as coisas estavam prestes a alterar-se radicalmente. Catão não tinha a mínima intenção de se mostrar indulgente. Queria ser mais meticuloso com o Tesouro do que Pompeu, o Grande, fora com o Mar Nosso. No quinto dia de Dezembro, o dia em que entrou em funções, Catão dirigiu-se ao Tesouro mal o Sol nasceu. Bateu à porta da cave do templo de Saturno, mas ninguém lhe respondeu. E foi com grande desagrado que Catão constatou que o Sol já ia bem alto quando apareceu o primeiro funcionário.

— O dia de trabalho começa quando o Sol nasce — disse ele ao chefe do Tesouro, Marco Víbio, quando este ilustre funcionário chegou esbaforido, depois de um dos seus empregados, furioso com a perseguição cerrada de Catão, o ter mandado chamar.

— Não há nenhuma norma estabelecida a esse respeito — retorquiu Marco Víbio, tranquilamente. — O nosso horário, somos nós que o definimos. Além disso, é um horário flexível.

— Que disparate...! — replicou Catão com o maior desdém. — Eu fui eleito guardião do Tesouro e quero que o Senado e o Povo de Roma vejam o dinheiro dos impostos devidamente aplicado. É com o dinheiro dos impostos que tu e todos os outros que aqui trabalham são pagos. Não te esqueças disso!

Não foi um bom princípio. E, a partir desse momento, as coisas tornaram-se cada vez piores para Marco Víbio. O chefe do Tesouro estava perante um fanático. Nas raras ocasiões em que tivera de enfrentar um questor mais turbulento, tratara de o pôr no seu lugar, servindo-se para tal dos seus conhecimentos especializados; como não eram peritos em finanças, os questores apenas podiam fazer aquilo que o Tesouro lhes permitia. Infortunadamente para o chefe do departamento financeiro do Estado, Catão revelava saber tanto como Víbio sobre o funcionamento do Tesouro. Possivelmente mais.

Catão trouxera consigo vários escravos, a quem treinara em vários aspectos das actividades do Tesouro, e todos os dias aparecia ao nascer do Sol, acompanhado pela sua pequena comitiva, decidido a enlouquecer Víbio e os seus empregados. O que era aquilo? E porque é que tinham feito assim? E onde é que estava aqueloutro número? E quando é que tal-e-tal tinha acontecido? E como é que pudera acontecer? E as perguntas nunca mais paravam. Catão era persistente ao ponto do insulto, impossível de iludir com respostas prontas, e impermeável à ironia, ao sarcasmo, à ofensa, à lisonja, às desculpas, aos desmaios súbitos.

— Sinto-me — disse Marco Víbio ao fim de dois meses, quando ganhou coragem para procurar alívio e assistência junto do seu patrono, Catulo — como se todas as Fúrias me perseguissem com muito maior dureza do que perseguiram Orestes! Não me interessa saber o que tens de fazer para calar Catão e mandá-lo para bem longe. Só quero que o faças! Há mais de vinte anos que sou teu cliente, um cliente leal e devotado. Sou um tribunus aerarius da Primeira Classe. E agora vejo a minha posição e a minha sanidade mental correndo sérios riscos. Por todos os deuses, Catulo, livra-me de Catão!

A primeira tentativa saldou-se por um terrível fracasso. Catulo propôs ao Senado que desse a Catão uma missão especial: ele que fosse investigar as contas do exército, já que era tão brilhante na investigação contabilística. Mas Catão limitou-se a manter a sua posição, recomendando os nomes de quatro homens que podiam temporariamente executar uma tarefa que não era digna de um questor eleito. Muito obrigado pela sugestão, mas ele continuaria a fazer aquilo para que tinha sido nomeado.

Depois disso, Catulo pensou em estratagemas mais astuciosos, mas nenhum deles resultou. Entretanto, a vassoura que varria todos os cantos do Tesouro não parava, nem dava mostras de cansaço. Em Março, as cabeças começaram a rolar. Primeiro um, depois dois, depois três e quatro e cinco funcionários do Tesouro constataram que Catão os havia destituído depois de lhes ter esvaziado as secretárias. Em Abril, o machado abateu-se: Catão despediu Marco Víbio e, para que a injúria fosse ainda maior, processou-o por fraude.

Apanhado na armadilha, porque era patrono de Víbio, Catulo não teve outra alternativa senão defender o ex-chefe do Tesouro no tribunal. Uma única sessão de apresentação de provas bastou para que Catulo percebesse que ia perder. Era tempo de apelar para o sentido das conveniências de Catão, para os veneráveis preceitos do sistema que unia cliente e patrão.

— Meu caro Catão, tens de parar — disse-lhe Catulo, após essa primeira sessão. — Eu sei que o pobre Víbio não foi tão cuidadoso como devia, mas repara: ele é um dos nossos! Despede todos os funcionários e guarda-livros que quiseres, mas deixa o pobre Víbio em paz, por favor! Dou-te a minha palavra de honra, como consular e ex-censor, que, a partir de agora, Víbio se comportará impecavelmente. Só te peço que desistas desta horrível acusação! Deixa o homem em paz!

Isto fora dito num tom brando e pacífico, mas Catão só conhecia um volume vocal: o máximo. A sua resposta foi gritada no habitual tom estentóreo. Todas as pessoas que estavam por perto ficaram onde estavam. Todos os rostos se viraram para ver; todos os ouvidos ficaram alerta para ouvir.

— Quinto Lutácio, devias ter vergonha! — berrou Catão. — Como podes desprezar a tua própria dignitas, ao ponto de teres o descaramento de me lembrares que és um consular e ex-censor e de tentares influenciar-me para que eu não cumpra o dever que jurei cumprir? Pois bem, deixa-me dizer-te uma coisa: eu teria vergonha se tivesse de chamar os funcionários deste tribunal para te porem na rua, por teres tentado perverter o curso da justiça romana! Porque foi isso que tu fizeste: perverter a justiça romana!

Dito isto, Catão desandou, deixando Catulo sem fala, tão perplexo que, no dia seguinte, nem apareceu no tribunal para assegurar a defesa. Em vez disso, tentou cumprir o seu dever de patrono, procurando convencer o júri a pronunciar um veredicto de ABSOLVO, mesmo que Catão conseguisse apresentar provas ainda mais concludentes do que aquelas com que Cícero condenara Verres. Subornar, nem pensar; conversar, além de sair mais barato, era mais ético. Um dos jurados era Marco Lólio, colega de Catão no questorado. E Lólio concordou em votar a favor da absolvição. No entanto, como estava extremamente doente, Catulo pediu que o levassem de liteira para o tribunal. E o veredicto foi ABSOLVO. O voto de Lólio vinculava o júri e, num caso desses, a sentença só podia ser ABSOLVO.

Mas isso não derrotou Catão. Quando Víbio voltou ao Tesouro, encontrou Catão barrando-lhe o caminho. Catão não consentiria em readmiti-lo. No fim, até mesmo Catulo, chamado para tentar acabar com aquela cena à porta do Tesouro, teve de desistir. Víbio perdera o seu lugar e não havia nada a fazer. Mas Catão foi ainda mais longe: recusou-se a pagar a Víbio os ordenados que lhe devia.

— Tens de pagar! — gritou Catulo.

— Não tenho nada! — gritou Catão. — Ele enganou o Estado, ele deve ao Estado muito mais do que os seus ordenados. Assim, sempre oferece uma compensação a Roma.

— Porquê? Porquê? Porquê? — perguntou Catulo. — Víbio foi absolvido!

— Eu não posso levar a sério o voto de um homem doente! — berrou Catão. — Ele estava desvairado por causa da febre!

E tudo ficou como Catão pretendia que ficasse. Absolutamente seguros de que Catão perderia, os sobreviventes do Tesouro haviam já planeado todo o tipo de celebrações. Porém, depois de Catulo ter conduzido para longe do Tesouro o choroso Víbio, os sobreviventes do Tesouro entenderam muito bem o que os esperava. Como que por artes mágicas, toda a contabilidade do Tesouro entrou na ordem; certos devedores foram obrigados a pagar dívidas que tinham já vários anos de existência; e muitos credores foram inesperadamente reembolsados. Marcelo, Lólio, Catulo e o resto do Senado também entenderam o que os esperava. A Grande Guerra do Tesouro tinha acabado e um único homem continuava de pé: Marco Pórcio Catão. Que toda a Roma louvava, espantada com o facto de o Governo de Roma ter finalmente produzido um homem tão incorruptível que ninguém o conseguia comprar. Catão tornava-se assim famoso.

— O que eu não compreendo — disse o muito abalado Catulo ao seu muito querido cunhado Hortênsio — é o que Catão tenciona fazer da sua vida! Será que ele pensa mesmo que conseguirá atrair muitos votos graças à sua incorruptibilidade? Nas eleições tribais é possível que isso resulte. Mas se ele continua assim, nunca ganhará uma eleição nas Centúrias. Na Primeira Classe, ninguém votará nele.

Hortênsio sentia-se inclinado a contemporizar. — Compreendo que ele te deixou numa posição particularmente desagradável, Quinto. Mas devo confessar que o admiro muito. Porque tu tens razão. Ele nunca vencerá uma eleição consular nas Centúrias. Imagina a paixão que é precisa para produzir a integridade de que Catão dá provas!

— Tu... — rosnou Catulo, perdendo a calma — .. tu não passas de um diletante com mais dinheiro do que juízo!

Porém, depois de ter ganho a Grande Guerra do Tesouro, Marco Pórcio Catão tratou de encontrar novos campos de batalha. E encontrou-os, quando começou a examinar os registos financeiros guardados no Tabulário de Sila. Estes registos podiam estar muito ultrapassados, mas, entre eles, havia um, muito bem preservado, que sugeriu a Catão o tema da sua próxima guerra. Era o registo de todos aqueles que, durante a ditadura de Sila, haviam recebido a soma de dois talentos por terem proscrito indivíduos como traidores ao Estado. Por si só, um tal registo não revelava mais do que os meros números poderiam revelar; no entanto, Catão começou a investigar as pessoas que haviam recebido os dois talentos (e algumas haviam recebido tal soma várias vezes), tendo em vista processar todos aqueles que tinham usado meios violentos para obter tal recompensa. Na altura, era legal matar um homem logo que este fosse proscrito, mas os tempos de Sila já tinham passado, e Catão estava pouco preocupado com as hipóteses legais que esses homens odiados e injuriados teriam nos tribunais de agora — mesmo que os tribunais de agora fossem uma consequência das orientações de Sila.

Lastimavelmente, um pequeno tumor minava a virtude irrepreensível dos motivos de Catão, já que, neste seu novo projecto, via uma oportunidade de tornar a vida muito difícil a Caio Júlio César. Tendo terminado o seu ano como edil curul, César fora já empossado noutro cargo; era agora o iudex do tribunal que julgava os homicídios.

Nunca ocorreu a Catão que César estaria disposto a cooperar com um membro dos bom para levar a tribunal aquelas pessoas que, para receberem dois talentos, tinham assassinado um proscrito; esperando encontrar em César as habituais tácticas obstrutivas que os presidentes dos tribunais usavam para que não fossem julgadas certas pessoas, Catão descobriu, para seu grande pesar, que César estava não só disposto, mas mesmo preparado para colaborar.

— Manda-os para o meu tribunal que eu ordenarei o seu julgamento — disse César a Catão, no tom mais jovial.

Embora toda a cidade de Roma tivesse devorado o caso do divórcio de Catão, esmiuçando todos os pormenores, desde a expulsão de Atília, sem direito ao dote, até ao facto de César ter sido referido como seu amante, não estava na natureza de César sentir-se embaraçado ou constrangido sempre que tinha de tratar de assuntos oficiais com Catão. Também não estava na sua natureza ter problemas de consciência ou sentir compaixão perante o destino de Atília; ela fora para a cama com ele, porque queria — podia sempre ter dito que não. Daí que o presidente do tribunal que julgava os homicídios e o questor incorruptível se entendessem bem quando precisavam de tratar de questões oficiais.

No entanto, Catão depressa desistiu de levar a tribunal o povo miúdo, os escravos, os libertos e os centuriões que tinham recorrido ao prémio de dois talentos para fazerem fortuna. Em vez disso, decidiu acusar Catilina do assassínio de Marco Mário Gratidiano. Este fora morto depois de Sila ter ganho a batalha da Porta Colina, em Roma; na altura, Gratidiano era cunhado de Catilina. Posteriormente, Catilina viria a herdar a fortuna do cunhado.

— Catilina é um indivíduo nocivo. Hei-de apanhá-lo — disse Catão a César. — Se não o apanhar, ele será cônsul no próximo ano.

— Que suspeitas que ele virá a fazer quando for cônsul? — perguntou César, curioso. — Concordo que é um indivíduo nocivo, mas...

— Se ele chegar a cônsul, tentará ser outro Sila.

— Um ditador? Não pode.

Os olhos de Catão, apesar de permanentemente dominados pelo ressentimento, fitaram gravemente os olhos frios e pálidos de César. — Ele é um Sérgio; corre nas suas veias o mais velho sangue de Roma, mesmo mais velho do que o teu, César. Se Sila não tivesse o sangue certo nas veias, nunca teria chegado a ditador. É por isso que eu não confio em vocês, os aristocratas com remotas linhagens. Descendem de reis e querem todos ser reis.

— Estás enganado, Catão. Pelo menos a meu respeito. Quanto a Catilina — bom, as suas actividades durante a ditadura de Sila foram sem dúvida abjectas. Sendo assim, porque não levá-lo a tribunal? Não me parece é que venhas a ter êxito.

— Enganas-te! — gritou Catão. — Tenho dúzias de testemunhas que jurarão que viram Catilina cortar a cabeça a Gratidiano.

— Seria melhor que adiasses o julgamento até pouco tempo antes das eleições — disse calmamente César. — O meu tribunal é rápido e eu não gosto de perder tempo. Se o citares agora, o julgamento estará concluído antes de terminar o prazo de apresentação de candidaturas para as eleições curuis. Isso significa que Catilina poderá disputar as eleições caso seja absolvido. Se o citares mais tarde, o meu primo Lúcio César, supervisor das candidaturas, não permitirá a candidatura de um homem que enfrenta uma acusação de homicídio.

— Isso só servirá para adiar o castigo — retorquiu Catão, obstinadamente. — Eu quero que Catilina seja banido de Roma e que desista de todos os sonhos de se tornar cônsul.

— Pois muito bem, se é assim que queres... Mas se falhares, não te esqueças de que a responsabilidade será toda tua!

O problema de Catão é que as vitórias que vinha obtendo lhe tinham subido à cabeça. Ao fim de algum tempo, o Tesouro começou a receber inúmeras somas de dois talentos, unicamente porque Catão insistia em aplicar a lei que o cônsulcensor Lêntulo Clodiano promulgara alguns anos antes, exigindo que tais somas fossem devolvidas, mesmo que houvessem sido obtidas pacificamente. Catão não previa nenhum obstáculo no caso de Lúcio Sérgio Catilina. Dada a sua qualidade de questor, não processaria Catilina — no entanto, escolheu quem o representasse, Lúcio Luceio, amigo de Pompeu e um distinto orador. Catão sabia que essa era uma escolha sagaz, uma escolha que proclamava que o julgamento de Catilina não era um mero capricho dos boni, mas era, pelo contrário, um caso que todos os cidadãos romanos deviam levar muito a sério, já que um dos amigos de Pompeu aceitara colaborar com os boni. E César também!

Quando Catilina teve conhecimento do que se estava a passar, cerrou os dentes e amaldiçoou os seus inimigos. Por causa de um julgamento, fora-lhe negada, duas vezes seguidas, a possibilidade de se candidatar a cônsul; agora, ali estava ele de novo à espera de um julgamento. Era tempo de acabar com aquelas tortuosas perseguições lançadas por arrivistas como Catão, um descendente de uma escrava, e que, no fundo, visavam o coração do Patriciado. Durante gerações, os Sérgios haviam sido excluídos dos mais altos cargos de Roma por questões de pobreza — algo que também sucedera aos Júlios Césares até que Caio Mário permitiu que eles subissem na hierarquia. Sila permitira que os Sérgios voltassem ao topo e Lúcio Sérgio Catilina ia pôr de novo o seu clã na cadeira curul de cônsul, nem que, para isso, tivesse de aniquilar toda a Roma! Além disso, Aurélia Orestila, a sua bela esposa, era muito ambiciosa; Catilina amava-a loucamente e faria tudo para lhe agradar. Mais uma razão para se tornar cônsul.

Foi quando compreendeu que o julgamento viria muito antes das eleições que Catilina decidiu o que havia de fazer: desta feita, seria absolvido a tempo de se candidatar — se conseguisse garantir a absolvição... Por isso, foi visitar Marco Crasso e concluiu um acordo com o plutocrata senatorial. Em troca do apoio de Crasso no julgamento, Catilina, quando chegasse a cônsul, apoiaria no Senado e na Assembleia Popular aqueles dois planos que eram tão caros a Crasso. Dessa forma, Roma concederia a cidadania aos Gauleses que viviam para lá do Pó e o Egipto seria formalmente anexado pelo Império Romano, tornando-se um feudo privado de Crasso.

Embora nunca fosse referido como um dos grandes advogados de Roma, fosse pela técnica, pelo brilhantismo ou pelas capacidades oratórias, Crasso tinha uma reputação formidável nos tribunais, por causa da sua pertinácia e também porque nunca se recusava a defender um cliente, ainda que este fosse o mais humilde dos Romanos. Era também muito respeitado e venerado nos círculos dos cavaleiros porque tinha muito capital investido numa série imensa de negócios. E, naqueles tempos, todos os júris eram tripartidos, consistindo de um terço de senadores, um terço de cavaleiros pertencentes às Dezoito, e um terço de cavaleiros pertencentes às Centúrias mais júniores, aquelas que incluíam entre os seus membros os tribuni aerarii. Podia-se dizer, portanto, que Crasso tinha uma influência tremenda junto de pelo menos dois terços de qualquer júri, e essa influência estendia-se aos senadores que lhe deviam dinheiro. Ou seja, Crasso não precisava de subornar um júri para assegurar o veredicto que pretendia; o júri estava disposto a acreditar que o veredicto certo era aquele que Crasso desejava.

A defesa de Catilina foi particularmente simples. Sim, de facto matara o cunhado, Marco Mário Gratidiano, sim, de facto cortara-lhe a cabeça; não negava o que havia feito, muito simplesmente porque não podia negar. Porém, nessa altura, Catilina era um dos legados de Sila, e agira de acordo com as ordens de Sila. Este quisera a cabeça de Mário Gratidiano, a fim de a transformar num míssil: com efeito, Sila arremessara a cabeça de Gratidiano para dentro de Preneste, a fim de convencer o jovem Mário a submeter-se ao seu poder.

César, presidente do tribunal, apercebeu-se muito rapidamente de que o tribunal não tinha a mínima intenção de condenar Catilina. E, de facto, não condenou. O veredicto foi ABSOLVO por larga maioria, e mesmo Catão fora incapaz de encontrar provas de que Crasso havia subornado o júri.

— Eu bem te disse — lembrou-lhe César, quando o julgamento terminou.

— Descansa, que isto não foi o fim! — berrou-lhe Catão, e desandou.

Havia sete candidatos ao consulado quando findou o prazo para apresentação de candidaturas. A campanha prometia. Como fora absolvido, Catilina apresentou a sua candidatura e era considerado um dos favoritos. Como Catão dissera, Catilina tinha o sangue certo. Por outro lado, continuava a ser o mesmo homem encantador e persuasivo que conquistara o coração de Fábia, a virgem vestal, e por isso o seu séquito era sempre muito vasto. O facto de muitos desses homens que o apoiavam se encontrarem demasiado perto da ruína não invalidava o seu poder. Além disso, era sabido que Marco Crasso o apoiava, e Marco Crasso tinha nas suas mãos muitos dos eleitores da Primeira Classe.

O marido de Servília, Silano, era também candidato, mas a sua saúde não era boa; se estivesse em perfeitas condições de saúde, a sua eleição seria por certo fácil. Mas o destino de Quinto Márcio Rei, condenado a ser o único cônsul devido às mortes do seu colega júnior e, posteriormente, do cônsul substituto, estava presente em todas as mentes. Silano não estava com aspecto de quem sobrevivesse àquele ano e, apesar de toda a influência de Crasso, ninguém achava sensato que Catilina ficasse sozinho com as rédeas de Roma.

Outro candidato com possibilidades era Caio António Híbrida, que César processara, sem êxito, sob a acusação de ter torturado, estropiado e morto muitos cidadãos gregos durante as Guerras Gregas de Sila. Híbrida conseguira esquivar-se à justiça, mas a opinião pública obrigara-o a um exílio voluntário na ilha de Cefalénia; a descoberta de alguns túmulos valera-lhe uma fortuna fabulosa e, por isso, quando regressou a Roma e verificou que fora expulso do Senado, Híbrida limitou-se a começar tudo de novo. Primeiro, voltou a integrar o Senado, tornando-se tribuno da plebe; no ano seguinte, graças a suborno, tornou-se pretor, ardentemente apoiado por esse ambicioso Homem Novo chamado Cícero, que tinha razões para lhe estar grato. Cícero sofrera severos problemas financeiros, causados pela sua paixão por estátuas gregas, que coleccionava e instalava num sem número de ví’as que possuía no campo; foi Híbrida quem lhe emprestou o dinheiro para se livrar desses problemas. Desde então que Cícero o apoiava; e, agora, apoiava-o com tal fervor que se poderia concluir, com toda a segurança, que Híbrida e Cícero tencionavam disputar em conjunto o consulado. Cícero emprestaria respeitabilidade à campanha; Híbrida emprestaria o dinheiro.

O homem que se podia tornar o principal adversário de Catilina era, sem dúvida, Marco Túlio Cícero. Mas Cícero tinha um problema: a ausência de antepassados. Era um homo novus, um Homem Novo. O seu brilhantismo como orador e advogado tinha-o ajudado a subir firmemente o cursus honorum, mas uma grande parte da Primeira Classe das Centúrias considerava-o um arrivista e um presunçoso, exactamente a mesma opinião que dele tinham os boni. Os cônsules deviam ser homens com origens romanas provadas e vindos de famílias ilustres. Embora toda a gente soubesse que Cícero era um homem honesto e muito capaz (e que Catilina era uma criatura muito, muito estranha), a verdade é que o sentimento geral em Roma era de que Catilina merecia mais o consulado do que Cícero.

Depois da absolvição de Catilina, Catão reuniu-se com Bíbulo e Aenobarbo, o qual fora questor dois anos antes; estavam os três agora no Senado, o que significava que estavam perfeitamente integrados no grupo ultraconservador dos boni.

— Não podemos permitir que Catilina seja eleito cônsul! — gritou Catão. — Ele conseguiu seduzir o ganancioso Marco Crasso, que vai apoiá-lo.

— Concordo inteiramente — disse Bíbulo, com a maior das calmas. — Catilina e Crasso dariam cabo da mós maiorum. O Senado ficaria cheio de Gauleses e Roma ficaria com mais uma província para lhe dar problemas.

— Que havemos de fazer? — perguntou Aenobarbo, um jovem mais famoso pelo seu temperamento do que pelas qualidades intelectuais.

— Pedimos uma entrevista a Catulo e Hortênsio — disse Bíbulo. — E, entre nós, procuramos uma forma de levar a Primeira Classe a desistir da ideia de apoiar Catilina — pigarreou, e prosseguiu: — Contudo, sugiro que nomeemos Catão como chefe da nossa delegação.

— Recuso-me a ser chefe seja do que for! — bramiu Catão.

— Sim, eu sei — disse pacientemente Bíbulo. — Mas a verdade é que, desde a Grande Guerra do Tesouro, tu tornaste-te um símbolo para a maioria dos Romanos. Podes ser o mais novo, mas és também o mais respeitado. Catulo e Hortênsio estão conscientes disso. Portanto, serás o nosso porta-voz.

— Devias ser tu — ripostou Catão, aborrecido.

— Os boni são contra os homens que se julgam melhores do que os seus pares e eu sou um dos boni, Marco. O porta-voz deve ser aquele que mais se adequa a um caso concreto. E, neste caso concreto, acho que o porta-voz deves ser tu.

— O que eu não compreendo — disse Aenobarbo — é por que razão temos de pedir uma entrevista. Catulo é o nosso chefe, ele é que devia ter-nos convocado.

— Catulo já não é o mesmo — explicou Bíbulo. — Depois de César o ter humilhado no Senado com aquela história do aríete, Catulo perdeu muito do seu peso no nosso parlamento. — O olhar frio e prateado fixou-se em Catão. — E tu, Marco, também não mostraste muito tacto, quando o humilhaste em público durante o julgamento de Víbio por fraude. Quanto a César, já se esperava que ele tivesse aquele comportamento em relação a Catulo, mas um homem perde muito do seu poder e influência quando são os seus próprios amigos e adeptos que o censuram.

— Ele não devia ter dito o que me disse!

Bíbulo suspirou. — Por vezes, Catão, és mais um risco do que um trunfo!

A nota pedindo uma entrevista a Catulo tinha o selo de Catão e fora escrita por este. Catulo chamou logo o seu cunhado Hortênsio (Catulo estava casado com a irmã de Hortênsio, Hortênsia, e Hortênsio estava casado com a irmã de Catulo, Lutácia), sentindo um prazer particularmente reconfortante: o facto de Catão pedir a sua ajuda era um bálsamo para o seu orgulho ferido.

— Concordo que não podemos permitir que Catilina se torne cônsul — disse ele, com um ar severo. — A sua aliança com Marco Crasso já é pública, pois Catilina não resiste a falar das suas conquistas, e, nesta fase, está convencido de que não perderá. Tenho pensado muito no problema e cheguei à conclusão de que devíamos usar essa publicidade que Catilina tem feito da sua aliança com Marco Crasso. São muitos os cavaleiros que estimam Crasso, mas apenas porque existem limitações ao poder de Crasso. Prevejo que multidões de cavaleiros se oporão a um aumento da influência de Crasso, provocado por um fluxo tremendo de clientes do lado de lá do Pó, bem como por toda a riqueza egípcia. Se achassem que Crasso partilharia o Egipto com eles, as coisas seriam diferentes; mas, felizmente, toda a gente sabe que Crasso não está disposto a partilhar nada. Embora o Egipto ficasse teoricamente a pertencer a Roma, na realidade, tornar-se-ia um reino privado de Marco Licínio Crasso, que poderia saqueá-lo como muito bem entendesse.

— O problema — disse Quinto Hortênsio — é que os outros candidatos são todos muito pouco atraentes. Silano, sim, seria um bom candidato — se por acaso fosse um homem saudável, e saudável é coisa que ele não é. Além disso, recusou a oferta de uma província depois de ter sido pretor, invocando os seus problemas de saúde, e isso não impressionará favoravelmente os eleitores. Alguns dos candidatos — Minúcio Termo, por exemplo — são pura e simplesmente casos desesperados.

— Há António Híbrida — alvitrou Aenobarbo.

Os lábios de Bíbulo enroscaram-se. — Se aceitarmos Híbrida — um indivíduo nocivo, mas tão inerte que por certo não causará danos ao Estado —, teremos também de aceitar aquele presunçoso que dá pelo nome de Cícero.

Fez-se um soturno silêncio, finalmente quebrado por Catulo.

— Nesse caso, a questão que temos de enfrentar é esta: entre dois homens intragáveis, qual é o menos intragável? — disse ele lentamente. — Os boni querem Catilina, e Crasso atrás dele puxando triunfalmente por todos os cordelinhos, ou querem um fanfarrão típico das classes baixas como Cícero?

— Cícero — disse Hortênsio.

— Cícero — disse Bíbulo.

— Cícero — disse Aenobarbo.

— Cícero — disse, muito relutantemente, Catão.

— Muito bem — disse Catulo. — Será Cícero. Por todos os deuses...! As náuseas que eu vou ter no Senado, no próximo ano! Um Homem Novo, um arrivista, será um dos cônsules de Roma... Francamente!

— Nesse caso — disse Hortênsio, com uma expressão horrorizada — sugiro que comamos todos muito pouco antes de irmos para as reuniões do Senado.

O grupo dispersou para se lançar ao trabalho e, durante um mês, trabalharam de facto arduamente. Para grande pesar de Catulo, tornou-se evidente que Catão, um jovem ainda, pois nem trinta anos tinha, era, de todos, aquele que detinha mais influência. A Grande Guerra do Tesouro e todos os prémios de proscrição devolvidos aos cofres do Estado haviam causado uma impressão tremenda na Primeira Classe, aquela que mais sofrera sob o governo de Sila. Catão era um herói para a Ordo Equester e se Catão lhes dizia para votarem em Cícero e Híbrida, então todos os cavaleiros com um estatuto inferior aos das Dezoito Centúrias votariam em Cícero e Híbrida! O resultado foi a eleição para o consulado de Marco Túlio Cícero (cônsul sénior) e Caio António Híbrida (cônsul júnior). Cícero rejubilou, sem nunca ter compreendido que devia a sua vitória a circunstâncias que nada tinham a ver com os seus méritos, integridade ou influência. Se Catilina não tivesse sido candidato, Cícero nunca teria sido eleito. Mas como ninguém lhe dizia isso, Cícero pavoneava-se pelo Fórum Romano e pelo Senado numa embriaguez de felicidade liberalmente ornada de vaidade. Ah, que ano aquele! Cônsul sénior in suo anno, pai orgulhoso de um rapaz (finalmente), e, para cúmulo, a sua filha Túlia, então com catorze anos, noiva do abastado e augusto Caio Calpúrnio Pisão Frugi. Até Terência se mostrava simpática com ele!

Quando Lúcio Decúmio soube que os presentes cônsules, Lúcio César e Márcio Fígulo, se propunham acabar com os colégios das encruzilhadas, sentiu tão grande raiva e horror, e não menor pânico, que correu a ver o seu patrono, César.

— Não é justo! — disse ele, furioso. — Alguma vez fizemos mal a alguém? Nunca nos metemos onde não éramos chamados!

Uma declaração que deixou César num verdadeiro dilema, pois conhecia as circunstâncias que tinham levado à apresentação da nova lei.

Tudo remontava ao consulado de Caio Pisão, três anos antes, e ao tribunato da plebe de um dos homens de Pompeu, Caio Manílio. Aulo Gabínio fora encarregado por Pompeu de assegurar a erradicação dos piratas; agora, Caio Manílio fora encarregado por Pompeu de assegurar o comando contra os dois reis. Num certo sentido, era uma tarefa mais fácil, graças à brilhante campanha de Pompeu contra os piratas; a um outro nível, porém, era uma tarefa mais difícil, já que aqueles que se opunham a comandos especiais viam claramente que Pompeu, sendo, como era, um homem extremamente hábil, poderia usar esta nova comissão para se tornar ditador, quando regressasse vitorioso do Oriente. E, com Caio Pisão como único cônsul, a Manílio deparou-se no Senado um inimigo irascível e empedernido.

À primeira vista, o texto inicial de Manílio parecia inofensivo e irrelevante para os interesses de Pompeu: limitava-se a pedir à Assembleia Plebeia que distribuísse os cidadãos libertos de Roma pelas trinta e cinco tribos, em vez de os manter confinados a duas tribos urbanas, a Suburana e a Esquilina. Mas ninguém se iludiu com a aparente inocência do texto. A proposta de Manílio afectava directamente os senadores e os cavaleiros séniores, já que estes eram os maiores proprietários de escravos, para além de possuírem, entre os seus clientes, multidões de libertos.

Quem desconhecesse o funcionamento das instituições romanas teria concluído que, pelas leis da aritmética, qualquer medida visando a alteração do estatuto dos libertos de Roma não introduziria nenhuma diferença, já que, em Roma, a miséria era definida como a incapacidade de um homem de ter um escravo — e poucos eram, de facto, os que não tinham um escravo. Portanto, a um nível superficial, qualquer lei que distribuísse os libertos pelas trinta e cinco tribos teria muito poucos efeitos no topo da sociedade. Mas tal não era o caso.

Em Roma, a vasta maioria dos proprietários de escravos não tinha mais do que um escravo, ou, quando muito, dois. Mas estes escravos não eram homens: eram mulheres. Por duas razões: em primeiro lugar, porque o amo podia desfrutar dos favores sexuais da escrava; em segundo lugar, porque um escravo homem era uma tentação para a mulher do amo, e, por isso mesmo, a paternidade do amo poderia tornar-se suspeita. No fim de contas, que necessidade tinha um homem pobre de um escravo homem? As tarefas servis eram domésticas — lavar, ir buscar água, preparar refeições, dar assistência às crianças, esvaziar penicos — e os homens não as faziam bem. As mentalidades não mudavam só porque uma pessoa tinha a infelicidade de ser escravo e não livre; os homens gostavam de fazer coisas de homens e consideravam os trabalhos das mulheres como trabalhos baixos ou servis.

Teoricamente, qualquer escravo recebia um peculium e podia juntar algum dinheiro; a pequena soma que poupavam era usada para comprarem a liberdade. Mas, na prática, a liberdade era algo que só um amo abastado podia conceder, tanto mais que a manumissão obrigava ao pagamento de uma taxa de cinco por cento. Disto resultava que as escravas romanas, na sua grande maioria, nunca eram libertadas enquanto fossem úteis (e, temendo mais a penúria do que um trabalho não pago, procuravam manter-se úteis aos amos mesmo depois de velhas). Por outro lado, essas escravas não se podiam dar ao luxo de pertencer a uma associação funerária, o que lhes permitiria ter um funeral decente. Acabavam na vala comum, sem um único sinal que lembrasse que haviam existido.

Só os Romanos com rendimentos relativamente elevados e uma grande família possuíam muitos escravos. Quanto mais elevado fosse o estatuto social e económico de um Romano, tantos mais criados teria — e, entre esses criados, seria muito provável que tivesse escravos homens. Nessas faixas sociais, a manumissão era comum e o serviço de um escravo limitava-se a um período entre os dez e os quinze anos, após o que esse escravo (normalmente era um homem) se tornava um liberto, integrado na clientela daquele que fora seu amo. Envergava o gorro da liberdade e tornava-se um cidadão romano; se tivesse mulher e filhos adultos, também estes passariam a ser considerados libertos.

O seu voto, contudo, não servia para nada, a menos que — como acontecia de quando em quando — conseguisse juntar dinheiro bastante para comprar a sua entrada para uma das trinta e uma tribos rurais e se tornasse economicamente apto para pertencer a uma classe nas Centúrias. Mas a grande maioria permanecia nas tribos urbanas de Suburana e Esquilina, que eram as duas maiores tribos que Roma possuía, embora só dispusessem de dois votos nas assembleias tribais. Isto significava que um voto de um liberto não poderia afectar o resultado final de uma votação numa assembleia tribal.

A lei que Caio Manílio pretendia ver aprovada tinha, portanto, um grande significado. Se fossem distribuídos pelas trinta e cinco tribos, os libertos romanos poderiam alterar os resultados das eleições tribais e também a legislação, e isto apesar do facto de não constituírem uma maioria entre os cidadãos de Roma. Um perigo provável residia no facto de os libertos viverem dentro da cidade; se viessem a pertencer às tribos rurais, poderiam, ao votar nessas tribos, superar os elementos verdadeiramente rurais presentes em Roma durante as votações. O problema não se punha no caso das eleições, que decorriam no Verão, altura em que muitos rurais se encontravam em Roma. No entanto, no caso da aprovação de leis, os riscos eram muito sérios. As leis eram aprovadas em qualquer altura do ano, mas com especial incidência em Dezembro, Janeiro e Fevereiro, precisamente os meses em que os novos tribunos da plebe mais leis produziam — e em que os cidadãos rurais não se deslocavam a Roma.

A lei de Manílio viria a sofrer uma derrota decisiva. Os libertos permaneceram nas duas gigantescas tribos urbanas, mas, para homens como Lúcio Decúmio, o problema estava em que Manílio procurara junto dos libertos de Roma apoio para a sua lei. E onde se congregavam os libertos de Roma? Nos colégios das encruzilhadas, locais de convívio tão cheios de escravos e libertos como de representantes das classes baixas romanas. Manílio andara de colégio em colégio, falando com os homens a quem essa lei traria benefícios, procurando convencê-los a irem ao Fórum manifestar-lhe o seu apoio. Sabendo que os seus votos eram inúteis, muitos libertos seguiram-no. Mas quando viram aquelas massas de libertos encaminhando-se para o Fórum, o Senado e os cavaleiros séniores das Dezoito aperceberam-se imediatamente do perigo. Os locais onde se reuniam os libertos tinham de ser ilegalizados. Era esse o caso dos colégios das encruzilhadas.

Uma encruzilhada era um viveiro de actividade espiritual e tinha de ser protegida das forças maléficas. Era um local onde os Lares se congregavam e os Lares eram uma miríade de espectros que povoavam o Além e que encontravam nas encruzilhadas um foco natural para as suas forças. Assim, cada encruzilhada tinha um santuário dedicado aos Lares e, uma vez por ano, no princípio de Janeiro, as festas Compitais eram dedicadas ao apaziguamento dos Lares nas encruzilhadas. Na noite anterior às Compitais, todos os residentes livres de um quarteirão conduzindo a uma encruzilhada tinham de pendurar um boneco de lã, ao passo que cada escravo pendurava uma bola de lã; em Roma, os santuários ficavam tão cheios de bonecos e bolas que um dos deveres dos colégios das encruzilhadas consistia em montar cordas para os suspender. Os bonecos tinham cabeças, já que uma pessoa livre era, por assim dizer, uma cabeça contada pelos censores; as bolas não tinham cabeças, já que os escravos não eram contados. Os escravos, no entanto, tinham uma participação importante nas festividades. Nas Saturnais, festejavam, em pé de igualdade, com os homens e mulheres livres de Roma, e era dever dos escravos (nesses dias, sem as insígnias da servidão) oferecer um porco cevado aos Lares. A tudo isto presidiam os colégios das encruzilhadas e o pretor urbano, que supervisionava os colégios.

Um colégio das encruzilhadas era portanto uma confraria religiosa. Cada um tinha um guardião, o vilicus, que assegurava que os homens da sua zona se reunissem regularmente num local (isento de renda) próximo das encruzilhadas e do santuário dos Lares; esses zeladores mantinham os santuários e as encruzilhadas limpos e bem tratados, ou seja, muito pouco atraentes para as forças do mal. Muitos dos cruzamentos de Roma não possuíam santuários; estes apenas existiam nos grandes cruzamentos.

Um desses colégios das encruzilhadas ficava no vértice do rés-do-chão da ínsula de Aurélia e o seu vilicus era Lúcio Decúmio. Antes de Aurélia o ter domado, ao mudar-se para a sua ínsula, Lúcio Decúmio mantivera um negócio subsidiário, mas extremamente proveitoso: era ele quem garantia a protecção dos proprietários de lojas e manufacturas da sua zona; quando Aurélia decidiu empregar a sua espantosa força e tenacidade, demonstrando a Lúcio Decúmio que não admitia contestações, Decúmio resolveu o problema mudando o seu negócio de segurança para a Sacra Via exterior e para a Vicus Fabricii, já que não havia qualquer empreendimento do género nos colégios desses locais. Embora o seu censo fosse da Quarta Classe e a sua tribo fosse a tribo urbana Suburana, Lúcio Decúmio possuía, sem dúvida, um poder que infundia algum respeito.

Aliado aos zeladores dos outros colégios das encruzilhadas, Lúcio Decúmio combatera, com êxito, a tentativa de Caio Pisão para encerrar todos os colégios das encruzilhadas, só porque Caio Manílio os explorara. Por isso, Caio Pisão e os boni tiveram de procurar uma outra vítima e escolheram o próprio Manílio, que conseguiu sobreviver a um julgamento por extorsão, mas que depois foi condenado por traição e exilado para toda a vida, tendo toda a sua fortuna sido confiscada.

Infortunadamente, a ameaça que pairou sobre os colégios das encruzilhadas não se esfumou depois do consulado de Caio Pisão. O Senado e os cavaleiros das Dezoito tinham metido na cabeça que a existência dos colégios das encruzilhadas significava que o Estado fornecia locais isentos de renda, onde os dissidentes políticos podiam reunir-se e confraternizar sob a capa da actividade religiosa. E agora, Lúcio César e Márcio Fígulo pretendiam bani-los.

O que provocou a furiosa irrupção de Lúcio Decúmio pelos aposentos de César na Vicus Patricii.

— Não é justo! — repetiu.

— Eu sei, pai — disse César, suspirando.

— Nesse caso, que vais tu fazer por nós? — perguntou o velho.

— É claro que vou tentar, pai. Mas duvido que possa fazer alguma coisa. Eu sabia que virias ter comigo e, por isso, já tinha falado com o meu primo Lúcio, que me disse que ele e Márcio Fígulo estão decididos a ir em frente. Com muito poucas excepções, tencionam ilegalizar todos os colégios, congregações e associações de Roma.

— Excepções? Que excepções? — clamou Lúcio Decúmio.

— Congregações religiosas como as dos Judeus. Associações funerárias legítimas. Os colégios dos funcionários públicos. Associações comerciais. São essas as excepções.

— Mas nós somos religiosos!

— Segundo o meu primo Lúcio César, não são suficientemente religiosos. Os Judeus não bebem, nem falam da vida alheia nas suas sinagogas, e os Sálios, os Lupercos, a Congregação Arval e outros do mesmo género raramente se reúnem. Os colégios das encruzilhadas possuem instalações onde todos os homens são bem-vindos, incluindo escravos e libertos. Diz-se que isso os torna potencialmente muito perigosos.

— Nesse caso, quem é que vai tratar dos Lares e dos seus santuários?

— O pretor urbano e os edis.

— Já têm tanto que fazer...!

— Concordo, pai, concordo inteiramente — disse César. — Tentei dizer isso mesmo ao meu primo, mas ele não me quis ouvir.

— Não nos podes ajudar, César? A sério que não podes?

— Votarei contra a lei e tentarei persuadir o máximo possível de senadores a fazer o mesmo. Não deixa de ser curioso que vários boni se oponham também à lei — os colégios das encruzilhadas são uma tradição antiquíssima e aboli-los é algo que ofende a mós maiorum. Catão está farto de protestar. Mas creio que a lei acabará por ser aprovada.

— Vamos ter de fechar as portas.

— Não necessariamente — disse César, sorrindo.

— Eu sabia que tu não me desapontarias! Que havemos de fazer?

— Vocês vão perder a vossa posição oficial, mas isso apenas significa que ficarão numa situação menos vantajosa do ponto de vista financeiro. Sugiro que instalem um bar e que adoptem a denominação de taberna, sendo tu o proprietário.

— Não posso fazer isso, César. O velho Róscio vai queixarse imediatamente ao pretor urbano — era eu ainda rapaz e já lhe comprávamos o vinho...

— Nesse caso, oferece a Róscio a concessão do bar. Não será difícil. É que se tu fechares as portas, o pobre Róscio será seriamente afectado.

— E todos os colégios poderão fazer isso?

— Em toda a cidade de Roma?

— Sim.

— Não vejo porque não hão-de poder... Contudo, devido a certas actividades que não vou nomear, o teu colégio é um colégio abastado. Os cônsules estão convencidos de que os colégios serão obrigados a fechar as portas porque, a partir de agora, terão de pagar renda. E tu pagarás também a renda à minha mãe. Ela é uma mulher de negócios e por isso insistirá em receber a renda. Tu até és capaz de conseguir um desconto... mas os outros, achas que conseguem? — César encolheu os ombros. — Francamente, duvido que a quantidade de vinho consumido chegue para cobrir as despesas.

Franzindo muito a testa, Lúcio Decúmio reflectiu naquilo tudo por alguns momentos. — Os cônsules sabem o que nós fazemos para ganhar a vida, César?

— Se eu não lhes disse — e não disse! — não sei como poderão saber.

— Então não há problema nenhum! — disse Lúcio Decúmio, com a mais jovial das expressões. — Nós dedicamo-nos quase todos ao negócio da segurança — acrescentou, orgulhoso e feliz. — E continuaremos a tratar das encruzilhadas. Não podemos permitir que os Lares se zanguem, pois não? Vou já convocar uma reunião de todos os zeladores — nós vamos vencê-los, Povo!

— Assim é que é falar, pai!

E Lúcio Decúmio retirou-se, com uma expressão radiante.

O Outono desse ano trouxe chuvas torrenciais aos Apeninos e o Tibre inundou o seu vale numa extensão de duzentas milhas. Há já várias gerações que Roma não sofria tanto com as intempéries. Só as sete colinas espreitavam sobre as águas; o Fórum Romanum, Velabrum, Circus Maximus, Fórum Boiarum, Fórum Holitorium, toda a Sacra Via até às Muralhas Servias e as manufacturas da Vicus Fabricci — tudo isso foi inundado. Os esgotos não tinham capacidade para tanta água; os edifícios com fundações inseguras desmoronaram-se; as zonas escassamente habitadas do Quirinal, Viminal e Aventino transformaram-se em vastos campos de refugiados; e as doenças respiratórias faziam inúmeras vítimas. Miraculosamente, a antiquíssima Ponte de Madeira sobreviveu, talvez porque ficava mais a jusante, ao passo que a Pons Fabricius, entre a ilha do Tibre e o Circus Flaminius, não aguentou. Como isto aconteceu demasiado tarde nesse ano para que se pudesse candidatar a tribuno da plebe do ano seguinte, Lúcio Fabrício, então o membro mais prometedor da sua família, anunciou que, no ano seguinte, se candidataria ao cargo. A manutenção das pontes e estradas em Roma era da competência dos tribunos da plebe e Fabrício não estava disposto a permitir que outro homem reconstruísse aquela que era a ponte da sua família! Pons Fabricius era o seu nome e Pons Fabricius ficaria!

E César recebeu uma carta de Cneu Pompeu Magno, conquistador do Oriente.

Mas que bela campanha, César! Os dois reis esmagados e tudo correndo pelo melhor. Não consigo entender porque é que Lúculo demorou tanto tempo. Bom, é claro que ele não conseguia controlar as suas tropas. Eu fiquei com todos os homens que serviram no seu exército e, comigo, nunca se portaram mal. A propósito, Marco Sílio manda-te cumprimentos. É um bom homem.

Que estranha terra, este reino do Ponto! Agora é que percebo por que razão o rei Mitridates teve sempre de recorrer a mercenários e a homens do Norte para formar os seus exércitos. Alguma desta gente do Ponto é tão primitiva que ainda vive em árvores! Fazem uma espécie de bebida, uma bebida horrível, de galhos, de todas as coisas. Não sei como ainda estão vivos... Alguns dos meus homens internaram-se na floresta do Ponto oriental e encontraram no chão umas tigelas enormes, cheias dessa bebida. Tu bem sabes como são os soldados! Emborcaram aquilo tudo e parece que gostaram. Até que caíram mortos. Aquela maldita bebida matou-os!

O saque é inacreditável. Conquistei todas aquelas cidadelas, pretensamente inexpugnáveis, que ele construiu na Arménia Parva e no Ponto oriental. Não foi muito difícil. Ah, és capaz de não saber a quem eu me estou a referir quando digo “ele”. É Mitridates. Bom, as cidadelas — setenta e tal — estavam a abarrotar de tesouros, todos os tesouros que ele conseguiu acumular. Vão ser precisos anos para mandar tudo de volta para Roma; tenho um exército de funcionários a fazer o inventário. Ou muito me engano, ou conseguirei duplicar as riquezas que se encontram no Tesouro. Creio também que, a partir de agora, duplicarei os rendimentos de Roma providenciados pelos tributos.

Enfrentei Mitridates num local a que dei um novo nome, Nicópole (já havia uma Pompeiópole), e ele sofreu uma pesada derrota. Fugiu para Sinoria, onde, depois de ter surripiado seis mil talentos de ouro, desceu o Eufrates a fim de se encontrar com Tigranes. E Tigranes também não estava nada bem! Frates, o rei dos Partos, invadiu a Arménia enquanto eu neutralizava Mitridates, e acabou por cercar Artaxaía. Tigranes derrotou-o e os Partos tiveram de voltar para casa. Mas Tigranes estava acabado. Não tinha condições para me aguentar! De maneira que apelou a uma paz separada e não deixou que Mitridates entrasse na Arménia. Mitridates foi para norte, mais exactamente para a Ciméria. O que ele não sabia era que eu trocara correspondência com o filho — um tal Maçares — que ele instalara na Ciméria, como sátrapa.

Em suma, deixei Tigranes ficar com a Arménia, mas tributário em relação a Roma, e tirei-lhe todas as terras a oeste do Eufrates, juntamente com Sofena e Corduena. Obriguei-o a pagar-me os seis mil talentos de ouro que Mitridates surripiara e pedi-lhe duzentos e quarenta sestércios para cada um dos meus homens.

Quer isto dizer que eu não estava preocupado com Mitridates? Não, de facto não estava. Mitridates já há muito que passara os sessenta. Tácticas à Fábio. Deixei o velhote fugir, não me parecia que ele pudesse voltar a constituir um perigo. E, além disso, tinha Maçares nas minhas mãos. Por isso, enquanto Mitridates corria, eu marchava. E tudo por causa de Varrão, que é a curiosidade personificada. Estava doido para molhar os pés no mar Cáspio, de maneira que eu pensei, bom, porque não? Por isso seguimos para nordeste.

Não foi grande o saque. O que mais havia naquelas terras era serpentes, umas aranhas enormes, uns escorpiões gigantescos. É engraçado como os nossos homens combatem valentemente os inimigos humanos, mas se vêem um desses inimigos rastejantes, desatam a gritar que nem uma mulher...! Mandaram-me uma comissão pedindo que voltássemos para trás quando estávamos já a poucas milhas do mar Cáspio...! Bom, e eu voltei para trás. Tinha de voltar para trás. Também eu me punha aos gritos quando via um daqueles escorpiões... E Varrão também, e por isso não se importou nada de não ter molhado os pés.

Já deves saber que Mitridates morreu, mas vou contar-te como tudo aconteceu. Mitridates fugiu para Panticapeu, no Bósforo Cimeriano, e começou a recrutar outro exército. Tomara a precaução de levar consigo uma série de filhas e usou-as como engodo para atrair o apoio dos Citas — ofereceu-as como noivas aos reis e príncipes citas.

Tens de admirar a persistência do velhote. Sabes o que tencionava ele fazer? Juntar duzentos e cinquenta mil homens e marchar sobre a Itália e Roma, seguindo o caminho mais longo! Seguiria junto ao Euxino e depois atravessaria as terras dos Roxolanos até à foz do Danúbio. Marcharia depois ao longo do Danúbio, juntando todas as tribos locais às suas forças — os Dacos, os Bessos, os Dardanos, enfim, essa gente toda. Por fim, atravessaria o Dravo e o Savo e marcharia sobre a Itália depois de transpor os Alpes Carniças!

Ah, esqueci-me de te dizer que quando chegou a Panticapeu, obrigou Maçares a cometer suicídio. Há uma coisa que nunca conseguirei compreender nestes reis orientais: até os próprios filhos são capazes de matar! Enquanto preparava o seu exército, Fanagória (a cidade do outro lado do Bósforo) revoltou-se. O dirigente da revolta era outro filho seu, Farnaces. Eu também lhe tinha escrito. Claro que Mitridates dominou a rebelião, mas cometeu um erro terrível. Perdoou a Farnaces. Provavelmente, porque já lhe restavam poucos filhos... Farnaces pagou-lhe congregando novas forças revolucionárias e atacando a fortaleza de Panticapeu. Era o fim, e Mitridates sabia-o. De maneira que matou as filhas que lhe restavam, mais algumas esposas e concubinas e até alguns filhos ainda crianças. Depois, ingeriu uma dose gigantesca de veneno. Mas não resultou. Tinha já ingerido veneno tantas e tantas vezes que se tornara imune. Foi um dos seus guarda-costas gauleses que lhe deu o golpe fatal. Trespassou-o com uma espada. Enterrei-o em Sinope.

Entretanto, marchei sobre a Síria e tratei de pôr as coisas em ordem nessa região, a fim de que Roma pudesse herdá-la. Acabaram-se os reis da Síria. Estou farto de ditadores orientais. A Síria tornar-se-á uma província romana — é muito mais seguro assim. Também gosto da ideia de pôr boas tropas romanas junto ao Eufrates — é para que os Partos pensem um pouco antes de fazerem algum disparate. Resolvi também a questão entre os Gregos e os Árabes deslocados por Tigranes. Os Árabes serão fáceis de manobrar, creio, e por isso mandei alguns deles de volta para o deserto. Mas, ao mesmo tempo, tratei de os compensar. Abgaro — ouvi dizer que fez tantas e tão poucas ao jovem Públio Clódio que este acabou por fugir a toda a pressa; só não consegui descobrir o que é que Abgaro lhe fez — é o rei dos Esquenitas; depois, nomeei um indivíduo, com o nome incrível de Sampsiceramo, chefe de um outro grupo, e assim por diante. Enfim, organizei-os. Este tipo de trabalho é francamente agradável, César; não calculas o gozo que me dá. Aqui as pessoas não são nada práticas, passam a vida a discutir por dá cá aquela palha. Enfim, um disparate. É um país tão rico que seria de esperar que eles aprendessem a dar-se bem, mas a verdade é que aprendem. Mesmo assim, não me posso queixar. É que Cneu Pompeu do Piceno já tem reis entre a sua clientela! Dize lá se não mereço o congome de Magnus...

O pior de tudo são os Judeus. Uma gente muito, muito estranha. Portaram-se muito bem até à morte da velha rainha Alexandra, ocorrida já lá vão alguns anos. Só que ela deixou dois filhos que trataram logo de lutar pela sucessão. Ainda por cima, a religião, para eles, é tão importante como o seu país. Tanto quanto percebi, um dos filhos teria de ser o sumo sacerdote. O outro queria ser rei dos Judeus, mas o sumo sacerdote, Hircano, achou que seria agradável, para ele, é claro, juntar os dois cargos. Travaram uma guerrazita e Hircano foi derrotado pelo irmão, Aristóbulo. Nesse momento, aparece um príncipe dos Idumeus, de seu nome Antipater, que consegue convencer Hircano a aliar-se ao rei Aretas dos Nabateus. Hircano cederia doze cidades árabes a Aretas, em troca do apoio de Aretas. Os dois juntos cercaram Aristóbulo em Jerusalém.

Mandei o meu questor, o jovem Escauro, resolver o problema. Não foi boa ideia. Escauro considerou que Aristóbulo é que tinha razão e ordenou a Aretas que voltasse para a Nabatéia. Depois, Aristóbulo montou-lhe uma emboscada em Papíron, ou coisa parecida, e Aretas foi derrotado. Desloquei-me então a Antióquia e fiquei a saber que Aristóbulo era o rei dos Judeus e que Escauro não sabia o que fazer. Logo a seguir, começo a receber presentes dos dois lados. Havias de ver o presente que Aristóbulo me mandou — bom, vê-lo-ás a quando do meu triunfo. Uma coisa mágica, César, uma videira feita de ouro puro, com uma quantidade de cachos de uvas de ouro pendurados.

De qualquer modo, ordenei aos dois campos adversários que se encontrassem comigo em Damasco na próxima Primavera. Creio que Damasco tem um clima ameno e por isso acho que vou passar o Inverno nessa cidade e dedicar-me a resolver as questões entre Tigranes e o rei dos Partos. Só há uma pessoa com quem não estou interessado em encontrar-me: o tal Antipater, príncipe dos Idumeus. Parece que é um tipo muito esperto. Provavelmente circuncidado. Os Semitas são quase todos circuncidados. Uma prática muito peculiar. Eu cá por mim sinto-me muito ligado ao meu prepúcio: tanto literalmente como metaforicamente. Que tal? Esta saiu-me mesmo bem, não achas? Estas perfeições de escrita devem-se ao facto de ter comigo Varrão, bem como Leneu e Teófanes de Mitilene. Ouvi dizer que Lúcido está todo inchado porque levou para Itália um fruto fabuloso chamado cereja, mas eu não lhe vou ficar atrás, porque vou levar todo o género de plantas, incluindo esta variedade de limão doce e suculenta que encontrei na Média — um limão laranja, não é mesmo estranho? Deve dar-se bem em Itália, porque gosta de Verões secos e dá frutos no Inverno.

Bom, já chega de conversa. Chegou a hora de tratar de assuntos sérios e de te dizer por que razão te escrevo. Tu és um tipo muito subtil e esperto, César, e acontece que não deixei de reparar que me tens defendido sempre no Senado, e com bons resultados. Ninguém mais o fez quando foi o caso dos piratas. Creio que ficarei mais dois anos no Oriente, e, portanto, deverei voltar para casa mais ou menos na altura em que tu cessarás funções como pretor — isto se aproveitares a lei de Sila que permite aos patrícios candidatarem-se dois anos antes.

Mas tem sido minha política manter pelo menos um tribuno da Plebe no meu campo romano, enquanto não voltar para casa. O próximo tribuno será Tito Labieno, e eu sei que tu o conheces, porque pertenceram ambos à equipa de Vátia Isáurico, na Cilícia, há uns dez, doze anos. Labieno é uma óptima pessoa, e vem de Cingulo, mesmo no meio da minha terra. Além do mais, é inteligente. Disse-me que vocês se dão lindamente. Eu sei que não terás nenhuma magistratura, mas podias dar uma mãozinha a Tito Labieno de quando em quando. E ele também te podia dar uma mãozinha — quanto a isso, sente-te à vontade. Eu disse-lhe tudo isto que te estou a dizer. No ano seguinte — o ano em que te tornarás pretor, imagino eu — o meu homem será o irmão mais novo de Múcia, Metelo Nepos. Devo voltar para Roma pouco depois de ele cessar funções, mas não posso estar completamente certo disso.

Por isso, César, este é o favor que te peço: que te mantenhas atento em relação aos meus interesses e aos meus homens. Eu sei que tu hás-de ir longe, César, apesar de eu não te ter deixado muito mundo para conquistar! Nunca me esqueci de que foste tu quem me ensinou o que havia de fazer para me tornar cônsul, ao passo que o velho e corrupto Filipe não mexeu uma palha para me ajudar.

O teu amigo de Mitilene, Aulo Gabínio, manda-te saudações afectuosas.

Bom, já agora digo tudo. Faze o que puderes para me ajudares a obter terra para as minhas tropas. É demasiado cedo para Labieno tentar, esse trabalho acabará por ir parar às mãos de Nepos. Mandá-lo-ei para casa, em grande estilo, muito antes das eleições do próximo ano. Pena que não possas ser cônsul quando eu tiver de lutar para obter essas terras, mas é demasiado cedo para ti. Mesmo assim, a coisa é capaz de se arrastar até tu seres cônsul eleito e então poderás ser muito útil. É que não vai ser nada fácil para mim, César.

César pôs de lado a longa carta e descansou o queixo sobre a mão: não havia dúvida, tinha mesmo muito que pensar. Embora a achasse ingénua, gostava da prosa de Pompeu e dos seus apartes bem-dispostos; aquela carta revelava mais sobre Pompeu do que todos os burilados ensaios que Varrão escrevia para os despachos informativos que Pompeu enviava ao Senado.

Quando vira pela primeira vez Pompeu — naquele dia memorável em que Pompeu aparecera em casa da tia Júlia para pedir a mão de Múcia Tércia — César detestara-o. E, a um certo nível, provavelmente nunca viria a gostar abertamente daquele homem. Contudo, os anos e a vida tinham suavizado de algum modo a sua atitude — de tal modo que, agora, podia dizer com toda a segurança que gostava de Pompeu mais do que o detestava. Ah, sim, claro, claro que tinha de deplorar o seu carácter vaidoso e as suas origens rústicas, bem como o seu paciente desrespeito pela legalidade. Contudo, era verdade que Pompeu era um indivíduo talentoso e extremamente capaz. Poucas vezes cometera erros e, com a idade, os erros eram cada vez mais raros. Claro que Crasso o abominava — e essa era uma dificuldade evidente. César teria de manejar cuidadosamente o seu barco entre aquelas duas correntes violentas e antagónicas.

Tito Labieno. Um homem cruel e bárbaro. Alto, musculado, com o cabelo encaracolado, um nariz aquilino, uns olhos negros muito vivos. Um perito a montar. Muitos Romanos haviam debatido qual poderia ser a linhagem remota de Labieno; o próprio Pompeu teria dito que Mormólice roubara o recém-nascido à mãe e substituíra-o por um dos seus próprios filhos, para que o criassem sob o nome de Tito Labieno. Não deixava de ser interessante que Labieno tivesse informado Pompeu de que, em tempos passados, se dera muito bem com César. E era verdade. Cavaleiros natos, Labieno e César tinham partilhado muitas corridas nos campos à volta de Tarso e um ror de conversas sobre tácticas de cavalaria na batalha. Contudo, César não conseguia gostar dele, apesar do inegável brilhantismo do indivíduo. Labieno era alguém que podia ser usado, mas no qual ninguém podia confiar.

César compreendia perfeitamente por que razão Pompeu estava preocupado com a sorte de Labieno enquanto tribuno da plebe, ao ponto de lhe pedir ajuda; o novo Colégio era uma mistura particularmente estranha de independentes; provavelmente, iria cada um para o seu lado e passariam a maior parte do tempo a vetar as decisões uns dos outros. Contudo, Pompeu enganava-se num ponto; se César tivesse planeado a escolha dos seus tribunos da plebe, então Labieno teria sido escolhido para o ano em que Pompeu começaria a reivindicar terras para os seus veteranos. César sabia que Metelo Nepos era demasiado um Cecílio; faltar-lhe-ia a força, a dureza necessárias. Para esse tipo de trabalho, o ideal era um Picentino belicoso sem antepassados e desejoso de subir na escala social e política.

Múcia Tércia. Viúva do Jovem Mário, mulher de Pompeu, o Grande. Mãe dos filhos de Pompeu, um rapaz, uma rapariga, outro rapaz. Por que raio é que nunca a cortejara? Talvez porque sentia, em relação a Múcia Tércia, o mesmo que sentia em relação à mulher de Bíbulo, Domícia: a perspectiva de pôr os cornos a Pompeu era tão sedutora que fazia o possível, ainda que inconscientemente, por adiar a façanha. Domícia (prima do cunhado de Catão, Aenobarbo) era já um facto consumado, embora Bíbulo ainda não soubesse de nada. Mas acabaria por saber! Ah, que divertido! Só que... desejaria César vexar Pompeu, sabendo que, indo para a cama com a sua mulher, o vexaria mais do que a qualquer outro? Podia vir a precisar de Pompeu, tal como Pompeu podia vir a precisar dele. Que pena. De todas as mulheres da sua lista, era Múcia Tércia a preferida. E há muito que César sabia que Múcia gostava dele. Mas... valeria a pena? Provavelmente não. Provavelmente não. Embora consciente de algum pesar, César apagou mentalmente o nome de Múcia Tércia da sua lista.

Uma decisão que se revelou de facto a mais adequada. Perto do final do ano, Labieno regressou das suas propriedades no Piceno e mudou-se para uma casa muito modesta que comprara recentemente no Palácio, a zona menos habitada e menos requintada do Palatino. E, no dia seguinte, tratou de visitar César à hora certa para que toda a gente presente no apartamento de Aurélia pensasse que era mais um cliente.

— Não falemos aqui, Tito Labieno — disse César, conduzindo-o à porta. — Eu tenho outros aposentos nesta rua.

— Que agradável...! — disse Labieno, acomodado numa cadeira confortável, depois de César lhe ter oferecido uma taça de vinho misturado com água.

— Agradável e muito mais sossegado — disse César, sentando-se numa outra cadeira, mas não com a secretária entre os dois; não lhe queria dar a impressão de que estavam ali para tratar de negócios. — Gostava de saber — disse ele, sorvendo a sua água — por que motivo Pompeu não te conservou para daqui a dois anos.

— Porque não esperava ficar tanto tempo no Oriente — disse Labieno. — Antes de decidir que não podia abandonar a Síria sem a questão judaica resolvida, Pompeu pensava que estaria de volta na próxima Primavera. Ele não te disse isso na carta que te mandou?

Ah, então Labieno tinha conhecimento da carta. César pôs um sorriso imenso. — Conhece-lo pelo menos tão bem como eu, Labieno. De facto, ele pediu-me que te desse toda a assistência possível, e também me falou dos problemas com os Judeus. Mas esqueceu-se de me dizer que planeara regressar mais cedo.

Os olhos negros brilharam, mas não de riso; Labieno tinha muito pouco sentido de humor. — Bom, a razão é essa, os Judeus.

Por isso, em vez de um brilhante tribunato da plebe, a única coisa que vou ter de fazer é aprovar uma lei que permita a Magno usar nos jogos todas as insígnias triunfais.

— Com ou sem minim na cara?

Esta pergunta lá acabou por provocar um breve riso. — Tu conheces bem Magno, César! Nem mesmo no triunfo ele há-de usar minim.

César começava a compreender a situação um pouco melhor. — És cliente de Magno? — perguntou.

— Ah, sim, claro. Que homem de Piceno não o é?

— No entanto, não foste para o Oriente com ele.

— Ele nem sequer quis recorrer a Afrânío e a Petreio quando se lançou na guerra contra os piratas, embora tenha conseguido nomeá-los, a seguir a alguns dos grandes nomes, é claro, para a guerra contra os dois reis. E Lólio Palicano, e Aulo Gabínio. Não te esqueças de que eu não possuo um censo senatorial e foi por isso que não pude disputar o cargo de questor. A única forma de um homem pobre chegar ao Senado é tornar-se tribuno da plebe e, depois, esperar fazer bastante dinheiro para poder manter-se lá — disse Labieno, num tom áspero.

— Sempre pensei que Magno fosse um mãos abertas. Não se ofereceu para te ajudar?

— Magno guarda a sua liberalidade para aqueles que se encontram em posição de fazer grandes coisas para ele. Pode-se dizer que, segundo os seus planos originais, eu teria algumas hipóteses.

— Hipóteses não muito prometedoras, já que, agora, as insígnias triunfais são a coisa mais importante nos seus projectos para o tribunato.

— Precisamente.

César suspirou, esticou as pernas. — Creio ter percebido — disse — que pretendes deixar uma reputação firmada após concluires o teu ano no colégio.

— Sim, gostaria que isso acontecesse.

— Já muito tempo passou desde que fomos tribunos militares juniores nas tropas de Vátia Isáurico e lamento que os anos que entretanto passaram não tenham sido auspiciosos para ti. Infelizmente, as minhas finanças não me permitem nem mesmo um pequeno empréstimo, e, pelos vistos, não posso tornar-me teu patrono. Contudo, Tito Labieno, dentro de quatro anos serei cônsul, o que significa que, dentro de cinco anos, governarei uma província. Não tenciono ser um governador insípido numa província insípida. Para onde quer que eu vá, haverá certamente muito trabalho militar e é natural que precise de alguns homens excelentes para trabalharem como meus legados. Em particular, vou precisar de um legado que terá um estatuto pró-pretoriano, um legado em quem possa confiar, alguém que seja capaz de fazer uma boa campanha, comigo ou sem mim. Lembro-me muito bem de uma coisa a teu respeito: o teu fino sentido militar. Por isso, proponho-te um pacto aqui e agora. Primeiro: procurarei algo de especial para tu fazeres durante o teu tribunato da plebe, algo que possa transformar o teu ano de tribuno num ano memorável. Segundo: quando for como pró-cônsul para a minha província, insistirei para que me acompanhes como legado-chefe, e com um estatuto pró-pretoriano — disse César.

Labieno respirou fundo. — O que melhor lembro de ti, César, é também o teu fino sentido militar. Curioso...! Múcia disse que tu eras alguém que só visto... Falou de ti, acho eu, com mais respeito do que fala de Magno.

— Múcia?

Os olhos negros, tranquilos agora, fitavam os de César. — Exactamente. Múcia.

— Olá...! E quantas pessoas sabem disso? — perguntou César.

— Ninguém, espero.

— Ele não a fecha na sua fortaleza, quando está fora? Era o que costumava fazer...

— Múcia já não é nenhuma criança — se é que alguma vez o foi — disse Tito Labieno, os olhos brilhando muito de novo. — Ela é como eu, tem levado uma vida dura. Aprende-se muito quando a vida é dura.

— Da próxima vez que a vires, dize-lhe que o segredo está seguro comigo — disse César, sorrindo. — Se Magno descobre que ela fala assim de mim, não obterás nenhuma ajuda dele... Bom, mas voltando ao que interessa: estás interessado na minha proposta?

— É evidente que estou.

Depois de Labieno ter partido, César manteve-se sentado e parado, sem se mover nem um pouco. Múcia Tércia tinha um amante e não precisara de sair do Piceno para o encontrar. Mas que escolha extraordinária! Dificilmente haveria três homens mais diferentes uns dos outros do que o Jovem Mário, Pompeu Magno e Tito Labieno.

Uma mulher muito empreendedora, sem dúvida. Labieno agradar-lhe-ia mais do que os outros dois, ou seria apenas uma diversão suscitada pela solidão e pelo facto de não ter muito por onde escolher?

Certo e seguro era que Pompeu acabaria por descobrir. Os amantes podiam manter à vontade aquela ilusão de que ninguém sabia, mas se a ligação tinha por cenário o Piceno, então a descoberta seria inevitável. A carta de Pompeu não referia nenhum rumor, mas era apenas uma questão de tempo. Tito Labieno arriscava-se a perder tudo o que Pompeu viesse eventualmente a dar-lhe, embora as suas esperanças de obter grandes favores de Pompeu se tivessem já desvanecido. Aquela ligação com Múcia Tércia talvez tivesse nascido da desilusão que Labieno sentia em relação a Pompeu... Sim, era muito possível.

Mas tudo isto eram pormenores apenas, coisas sem importância. O que realmente ocupava a mente de César era a forma de transformar o ano de Labieno no tribunato da plebe num ano memorável. Difícil, se não mesmo impossível, naquele clima de torpor político (ainda por cima com magistrados curuis tão insípidos). A única coisa capaz de excitar aquelas lesmas seria uma lei fundiária extremamente radical, sugerindo que todo e qualquer iugerum do ager publicus de Roma fosse dado aos pobres, e isso não agradaria nada a Pompeu — Pompeu precisava das terras públicas de Roma para as dar de presente às suas tropas.

Quando o novo tribunato da plebe assumiu funções, no décimo dia de Dezembro, a diversidade dos seus membros tornou-se imediatamente gritante. Cecílio Rufo teve mesmo a ousadia de propor que fosse concedida aos ex-cônsules eleitos Públio Sila e Públio Autrónio, entretanto caídos em desgraça, autorização para voltarem a candidatar-se ao consulado; o facto de os seus nove colegas terem vetado não surpreendeu ninguém. Também não foi surpreendente a reacção à lei de Labieno, dando a Pompeu o direito de usar todas as insígnias triunfais em todos os jogos públicos; foi logo aprovada.

A surpresa veio de Públio Servílio Rulo, quando disse que todo e qualquer iugerum do ager publicus de Roma, tanto em Itália como no estrangeiro, devia ser dos pobres. Aquilo fazia lembrar, e de que maneira, os Gracos! As lesmas senatoriais transformaram-se de repente em lobos esfaimados.

— Se Rulo conseguir aprovar a lei, quando Magno voltar não terá terras do Estado para os seus veteranos — disse Labieno a César.

— Ah, mas Rulo esqueceu-se de mencionar esse facto — replicou César, muito calmo. — Como preferiu apresentar a sua lei no Senado antes de a levar aos Comitia, devia ter mencionado os soldados de Magno.

— Não tinha de mencioná-los. Toda a gente sabe.

— É verdade. Mas se há uma coisa que qualquer homem rico detesta, são as leis fundiárias. O ager publicus é sagrado. Demasiadas famílias senatoriais com imensa influência arrendam essas terras e ganham muito dinheiro com isso. Já é mau propor que se dê uma parte dessas terras às tropas de um general vitorioso, quanto mais pedir que todas elas sejam distribuídas pelos vermes dos Capite Censi! É um verdadeiro anátema! Se Rulo tivesse dito claramente que aquilo que Roma, no fundo, já não possui, não pode ser concedido às tropas de Roma, era muito capaz de ter obtido o apoio de alguns grupos muito peculiares. Mas assim, a sua lei acabará por morrer.

— Vais opor-te a ela? — perguntou Labieno.

— Não, não, claro que não! Apoiá-la-ei da forma mais exuberante possível! — disse César, sorrindo. — Se a apoiar, haverá logo uma imensidão de senadores a combater-me, nem que seja pelo facto de não gostarem daquilo que eu gosto. Cícero é um excelente exemplo. Sabes que nome é que ele inventou para homens como Rulo? Popularis — estão do lado do Povo e contra o Senado. É algo que me seduz. Tenho de fazer tudo para passar a ser conhecido como um Popularis.

— Vais aborrecer Magno, se defenderes a lei.

— Ele perceberá tudo, quando receber a carta que lhe vou mandar, acompanhada de uma cópia do meu discurso. Magno entenderá.

Labieno tinha um ar preocupado. — Tudo isto vai demorar imenso tempo, César, e eu vou ficar sempre de fora. Que hei-de fazer?

— Já fizeste aprovar a tua lei, concedendo a Magno o uso das insígnias triunfais, não é verdade? Por isso, agora, deixa-te estar muito quieto até que passe toda esta confusão em torno de Rulo. Acabará por passar... Não te esqueças de que é melhor ser-se o último homem de pé no meio de um campo juncado de cadáveres...

— Já tens alguma ideia...

— Não — disse César.

— Vá lá, conta!

César sorriu. — Tem calma, Labieno. Alguma coisa me há-de ocorrer. Nunca falha.

Mal chegou a casa, César procurou a mãe. O minúsculo gabinete de Aurélia era um território que Pompeia nunca invadia; se havia algo na sogra que a assustava, era o impressionante à vontade com que Aurélia manejava os números. Além disso, César fizera bem em ceder o seu gabinete a Pompeia (tanto mais que tinha outro apartamento onde podia trabalhar). O domínio de que a jovem gozava sobre o território constituído por esse gabinete e pelo quarto do marido afastava-a das outras zonas da casa de Aurélia. Do gabinete de César vieram risos e vozes femininas, mas a verdade é que ninguém apareceu para o deter.

— Quem está com ela? — perguntou César, sentando-se na cadeira do outro lado da secretária da mãe.

O gabinete era de facto tão pequeno que um homem mais robusto do que César dificilmente conseguiria enfiar-se no espaço que a cadeira ocupava. Mas a mão de Aurélia era mais do que evidente na economia e na lógica com que se organizara: prateleiras para rolos e papéis (colocadas de forma a que, quando se levantasse, não batesse com a cabeça nelas), tabuleiros de madeira sobrepostos, colocados nas partes da secretária que não eram indispensáveis para ela executar o seu trabalho, e compartimentos de couro para os livros relegados para os cantos mais remotos do gabinete.

— Quem está com ela? — repetiu ele, já que a mãe não resp