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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


AS VINHAS DA IRA / John Steinbeck
AS VINHAS DA IRA / John Steinbeck

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

AS VINHAS DA IRA

Primeira Parte

 

     Por toda a região vermelha e parte da região cinzenta de Oklahoma, as últimas chuvas caíram suavemente, sem penetrarem fundo na terra escalavrada. Os arados cruzaram e recruzaram os campos molhados. As últimas chuvas deram um avanço rápido ao milho e espalharam à beira das estradas moitas de ervas daninhas e de relva, de modo que a região vermelha e a região cinzenta começaram a desaparecer sob um tapete verde. Nos últimos dias de Maio, o céu tornou-se pálido, e as nuvens, que tinham pairado em altos flocos por tanto tempo, durante a Primavera, dissiparam-se. O Sol faiscava sobre o milho em crescimento dia após dia até que, ao longo do gume de cada baioneta verde, se estendeu uma linha acastanhada. As nuvens apareceram e fugiram, e, durante algum tempo, não voltaram a surgir. As ervas daninhas tornaram-se de um verde mais escuro para se protegerem e não se alastraram mais. A superfície da terra tornou-se dura, com uma crosta leve, e, assim como o céu se descorou, assim a terra empalideceu, tornando-se rosada, na região vermelha, e branca, na região cinzenta.

     Nos barrancos cortados pela água, a terra esboroava-se, caindo em pequenos fios secos. Roedores e formigas pululavam. E, à medida que o sol se tornava mais intenso, as folhas tenras do milho perdiam rigidez e verticalidade; inclinavam-se a princípio numa curva, e, depois, quando a força central enfraquecia, cada folha pendia desanimadamente. Chegou junho. O Sol queimava mais incisivamente. A linha acastanhada das folhas do milho alargava-se, deslocando-se para o centro. As ervas daninhas tombavam enlanguescidas. O ar era transparente, e o céu estava mais pálido, e, de dia para dia, a terra perdia cor.

     Nas estradas, onde o gado transitava e onde as rodas dos carros moíam o chão e as patas dos cavalos calcavam a terra, rompia-se a crosta de lama e formava-se a poeira. Tudo o que se movia lançava a poeira no ar; um viandante levantava uma camada, que lhe chegava à cintura, uma carroça fazia-a subir até aos taipais e um automóvel deixava uma nuvem atrás de si. E só muito tempo depois a poeira acabava por assentar.

     Em meados de junho, apareceram dos lados do Texas e do Golfo nuvens muito densas, carregadas de chuva. Os homens, nos campos, olhavam para as nuvens, fungavam e estendiam os dedos húmidos, a ver de onde soprava o vento. E os cavalos ficavam nervosos, com as nuvens assim a pairar. Então, estas deixaram cair uns borrifos de água e abalaram para outra região. Por detrás delas, o céu ficou outra vez pálido, e o Sol flamejou. Na poeira havia pequenos buracos abertos pelas gotas de chuva, que tinham enchido o milho de salpicos, e foi tudo.

     Uma brisa suave seguiu-se às nuvens de chuva, impelindo-as para o norte, uma brisa que sacudiu brandamente o milho em vias de secar. Decorreu um dia, e o vento aumentou, constante, sem rajadas. A poeira das estradas subiu, espraiou-se e caiu sobre as ervas da margem dos campos, descendo também em pequena quantidade sobre esses mesmos campos. O vento agora tornava-se mais forte, soprando sobre a terra húmida nas áreas do milho. Pouco a pouco, o céu escureceu com as nuvens de poeira, e o vento revolveu a terra, desprendeu a poeira e levou-a consigo. O vento tornou-se mais forte. A crosta formada pela chuva ressecou, e a poeira levantou-se dos campos e ergueu no ar plumas cor de cinza, semelhantes a fumo que se espraiasse lentamente. O milho oscilava com o vento, emitindo um som seco e tumultuoso. A poeira mais fina não voltou a fixar-se na terra, desaparecendo no céu enegrecido.

     O vendaval tornou-se ainda mais furioso; abalou as pedras, arrebatou as palhas, as folhas ressequidas e até os pequenos torrões, deixando assinalada a sua viagem através dos campos. O ar e o céu escureceram, e, através deles, o Sol rompia numa mancha vermelha. Pairava um cheiro acre na atmosfera. Durante uma noite, a rajada fustigou ainda mais a terra, ferindo as radículas do milho; as folhas, enfraquecidas, lutaram com o vento, até que as raízes se desprenderam e depois, cada haste se inclinou indolentemente para o chão, na direcção do temporal.

     Surgiu a madrugada, mas não a claridade do dia. No céu pardo apareceu um sol sangrento, um círculo vermelho opaco que dava uma luz crepuscular; e, à medida que o dia avançava, o crepúsculo convertia-se em escuridão e o vento uivava e gemia sobre os grãos caídos.

     Homens e mulheres refugiavam-se precipitadamente nas casas e, quando saíam, atavam lenços ao nariz e punham óculos para proteger os olhos.

     Essa noite foi uma noite negra, porque as estrelas não logravam perfurar a poeira com o seu clarão, e as luzes das janelas não conseguiam brilhar para além do seu pequeno círculo. A poeira tinha-se misturado inteiramente com o ar; era uma confusão de ar e de poeira. As casas estavam hermeticamente fechadas, com trapos a tapar as frestas das portas e janelas, mas a poeira infiltrava-se tão subtilmente que se não via no ar, depositando-se como pólen nas mesas, nas cadeiras e nos pratos. As pessoas sacudiam-na dos ombros. Pequenos riscos de poeira depositavam-se nas soleiras das portas.

     A meio dessa noite, o vento passou e deixou a terra sossegada. O ar, impregnado de poeira, velava tudo mais completamente que um nevoeiro cerrado. As pessoas, deitadas em suas camas, ouviram cessar a ventania. Despertaram com o retirar daquele vento impetuoso. Ficaram quietas, perscrutando intensamente o silêncio. Depois cantaram os galos, mas o seu canto era abafado, e a gente remexia-se na cama sem descanso, ansiando pela manhã. Sabiam que, durante muito tempo, o ar se não libertaria daquele pó. Pela manhã, a poeira pairava como um nevoeiro, e o Sol estava vermelho como sangue fresco. Todo o dia a poeira se escorreu do céu e, no dia seguinte, continuou a escorrer da mesma forma. A terra cobriu-se de um manto uniforme. Pousava sobre o milho, amontoava-se nas estacas das vedações e nos fios telegráficos; assentava sobre os telhados e ocultava as plantas e as árvores.

     As pessoas saíam de suas casas e, depois de aspirarem o ar quente e picante, tapavam o nariz com desgosto. As crianças também saíam de casa, mas sem correrem ou gritarem, como fariam se tivesse caído uma bátega de chuva. Os homens postavam-se junto das suas vedações, a olharem para os milheirais devastados, agora a secarem inteiramente, apenas com fiapos verdes a mostrarem-se através da camada de pó. Os homens conservavam-se calados e pouco se moviam. E as mulheres saíam das casas, para se porem ao lado dos homens a ver se desta vez eles desanimavam. As mulheres perscrutavam os rostos dos maridos porque o milho podia desaparecer, contanto que o resto ficasse. As crianças mantinham-se por ali, desenhando figuras na poeira com os dedos dos pés nus, e elas próprias olhavam às vezes para os homens e para as mulheres, a ver se o desânimo se estampava na cara dos pais. Os cavalos chegavam-se às selhas e abriam com o focinho as camadas de pó que cobriam a água. Não tardou muito que os rostos dos homens perdessem a confusa indecisão e se tornassem duros, irados e persistentes. Então as mulheres perceberam que estavam salvas e que não havia desânimo. E perguntaram: “Que vamos fazer?” E os homens responderam: “Não sei.” Mas tudo acabava em bem. As mulheres sabiam que não havia dúvida e as crianças também sabiam que assim era. As mulheres e as crianças tinham a convicção profunda de que não havia desgraça, por mais inclemente, que não fossem capazes de sofrer, se os seus homens se conservassem à altura. As mulheres foram para dentro das casas trabalhar e as crianças puseram-se a brincar, embora a princípio o fizessem cautelosamente. À medida que o dia avançava, o Sol perdia a vermelhidão, faiscando sobre a terra coberta de poeira. Os homens sentaram-se à soleira das portas; as mãos dedilhando nos gravetos e pedregulhos. Mantinham-se imóveis, sem, no entanto, deixarem de meditar e de fazer conjecturas.

    

     Um enorme caminhão pintado de vermelho parou em frente do pequeno restaurante que ficava à beira da estrada. O tubo do radiador arfava brandamente, deixando escapar uma leve fumarada azul-cinzenta, quase invisível. Era um caminhão novo, de um vermelho brilhante, que trazia dos dois lados, em letras de doze polegadas, a seguinte inscrição: “Companhia de Transportes da cidade de Oklahoma”. Os pneus duplos eram novos e um cadeado de metal sobressaía do anel, nas grandes portas traseiras. Dentro do restaurante, abrigado por um guarda-vento, tocava um rádio, e a música de dança, cadenciada, vibrava monotonamente, como sucede sempre que ninguém está a ouvir. À entrada, um pequeno ventilador girava em silêncio no seu nicho circular, e as moscas zumbiam excitadamente em volta das portas e das janelas, arremetendo contra as vidraças. Dentro, um homem - o motorista do caminhão - estava sentado num banco, com o cotovelo apoiado no balcão e olhava por cima da chávena do café para a criada magra e solitária. Falava-lhe na pitoresca e descuidada linguagem dos transeuntes da estrada.

     - Vi-o há três meses. Fez uma operação. Cortaram-lhe não sei o quê. Não me lembro o que foi.

     E ela respondia-lhe:

     - Parece-me que ainda não há uma semana que o vi. Estava fino, então. É um bom tipo quando não está tachado!

     De vez em quando, as moscas esvoaçavam de encontro ao guarda-vento. A máquina de café vomitava vapor e a criada, sem olhar para ela, fechou-lhe a válvula.

     Lá fora, um homem que passava na berma da estrada atravessou e aproximou-se do caminhão. Com passo lento, acercou-se da frente do veículo, poisou a mão no radiador brilhante e ficou a olhar para o aviso pregado no pára-brisas, onde se lia: “Não se aceitam passageiros”. Por um momento esteve quase para prosseguir no seu caminho, mas, em vez disso, sentou-se no estribo que estava do lado contrário ao restaurante. Não devia ter mais de trinta anos. Os olhos eram castanho-escuros, com uma pigmentação amarelada no globo ocular; as maçãs do rosto eram altas e largas, e linhas fundas e vigorosas corriam-lhe ao longo das faces, encurvando-se aos cantos da boca. O lábio superior era comprido, e, como os dentes sobressaíam, os lábios alongavam-se para os cobrir, porque o homem mantinha-se de boca fechada. As mãos eram ásperas, com dedos grossos e unhas espessas e estriadas como pequenas cascas de ostra. O espaço entre o polegar, o indicador e as palmas das mãos estava coberto de calosidades brilhantes.

     As roupas do homem eram novas - todas elas novas e ordinárias. O boné cinzento era de uso tão recente que a pala ainda se mantinha rígida e o botão no seu lugar, sem qualquer amolgadura ou deformação, que inevitavelmente adquiriria depois de ter prestado as serventias habituais de um boné, como sejam as de saco, de toalha e de lenço. O fato era de pano cinzento grosseiro, e tão novo que ainda conservava o vinco das calças. Na camisa de cambraia azul, a goma persistia. O casaco era demasiado grande, e as calças muito pequenas para o homem alto que ele era. Os ombros do casaco descaíam-lhe para os braços, e, mesmo assim, as mangas ficavam-lhe curtas, e a frente do casaco dançava-lhe no ventre. Usava um par de sapatos novos, grosseiros, da espécie chamada “alcatruzes”, brochados e com protectores semelhantes a ferraduras, para preservar do uso as orlas dos tacões. O homem sentou-se no estribo, tirou o boné e limpou o rosto com ele. Depois, tornou a pô-lo na cabeça e começou a futura ruína da pala, puxando-a com força. Lembrou-se então dos pés. Inclinou-se e desapertou os atacadores, não os tornando a atar. Acima da sua cabeça, o motor Diesel exalava rápidas baforadas de fumo azul.

     A música parou no restaurante e a voz de um homem fez-se ouvir do alto-falante, mas a criada não desligou, porque não dera pela suspensão da música. Os seus dedos exploradores haviam encontrado um alto atrás do ouvido. Tentava vê-lo num espelho por detrás do balcão, sem que o motorista desse por isso e fingiu alisar uma madeixa de cabelo. O motorista disse:

     - Houve um baile de arromba em Shawnee. Disseram-me que mataram lá um gajo. Você ouviu dizer alguma coisa?

     - Não - respondeu a criada, ao mesmo tempo que tacteava, cuidadosamente o alto do ouvido.

     Lá fora, o homem sentado levantou-se, olhou por cima da capota do caminhão e observou o restaurante durante um momento. Em seguida, tornou a sentar-se, tirou uma bolsa de tabaco e um livro de mortalhas do bolso do casaco. Enrolou o cigarro, lenta e cuidadosamente, mirou-o, alisou-o. Por fim, acendeu-o e atirou o fósforo aceso para a poeira a seus pés. O sol varreu a sombra do caminhão ao aproximar-se o meio-dia.

     No restaurante, o motorista pagou a conta e meteu as duas moedas de troco num “caça-níqueis”. Os cilindros giraram sem lhe darem prémio algum.

     - Eles arranjam uma tal trapaça que a gente não ganha nunca - disse ele para a criada.

     E ela replicou:

     - Um sujeito limpou a máquina ainda não há duas horas. Fez três e oitenta. Quando é que você volta?

     O motorista deteve-se um instante junto da porta entreaberta.

     - Daqui a uma semana ou dez dias - respondeu ele. - Tenho de dar uma corrida a Tulsa e nunca volto tão depressa como quero.

     Ela disse mal-humorada:

     - Não deixe entrar as moscas. Ou entre ou saia.

     - Até à volta - rematou ele, ao sair, batendo com o guarda-vento, que ficou a oscilar.

     Deteve-se ao sol, tirando o invólucro de uma pastilha elástica. Era um homem pesado, largo de ombros, com o ventre enorme. Tinha o rosto vermelho, e os seus olhos azuis eram fendidos e rasgados por terem olhado sempre de través para a luz crua. Usava calções de soldado e botas de cano alto com atacadores. Com a pastilha elástica na ponta dos lábios, gritou ainda para dentro do restaurante:

     - Agora tenha juízo, não me vão contar alguma coisa a seu respeito!

     A criada estava de costas, voltada para o espelho da parede. Grunhiu uma resposta. O motorista pôs-se a trincar lentamente a pastilha, abrindo largamente os maxilares e os lábios a cada dentada. Empastou-a na boca e rolou-a debaixo da língua, enquanto avançava para o grande caminhão vermelho.

     O vagabundo levantou-se e olhou para ele através dos vidros:

     - Não me pode dar uma boleia, patrão?

     - Você não viu o aviso do pára-brisas? “Não se aceitam passageiros”?

     - Decerto que vi. Mas às vezes há camaradas que querem ser fixes, mesmo quando os ursos dos patrões os obrigam a trazer escritos desses.

     O motorista, entrando vagarosamente no caminhão, pôs-se a considerar aquela saída. Se recusasse o pedido, não só não era um bom camarada, como parecia que era forçado pelo aviso a viajar sempre sozinho. Se aceitasse o vagabundo, tornava-se automaticamente um bom camarada e demonstrava também não pertencer ao número daqueles que qualquer patrão se dá ao luxo de espezinhar. Sabia que estava dentro de um dilema, de onde não via meio de sair. E ele queria ser bom camarada. Olhou outra vez para o restaurante.

     - Acocore-se aí, até passarmos a curva.

     O vagabundo agachou-se no estribo e agarrou-se ao manípulo da porta. O motor rugiu por um momento, as engrenagens começaram a oscilar e o camião entrou em movimento, adquirindo velocidade a pouco e pouco. Debaixo do homem aferrado ao manípulo, a estrada fazia remoinhos de entontecer. Era uma milha até à primeira volta e aí o carro abrandou a marcha. O vagabundo ergueu-se, abriu a porta e deslizou para o assento. O motorista mirou-o de soslaio, continuando a mascar, como se os seus pensamentos e impressões estivessem sendo escolhidos e arranjados pelas maxilas até finalmente lhe tomarem forma no cérebro. Começou a examinar o passageiro, a partir do boné novo, descendo depois pelo fato até aos sapatos novos. O vagabundo recostou-se comodamente no assento, tirou o boné e pôs-se a limpar com ele o suor da testa e do queixo.

     - Obrigado, compincha - disse ele. - Os presuntos estavam avariados.

     - Sapatos novos - comentou o motorista. A ironia dos olhos comunicara-se-lhe à voz. - Você não devia andar de sapatos novos com este calor.

     O vagabundo olhou para os sapatos amarelos empoeirados.

     - Não tinha outros - explicou. - A gente tem de usar o que tem.

     O motorista olhou cautelosamente para a frente e acelerou um pouco a marcha do carro.

     - Vai para longe?

     - Hum... Tinha ido a pé se os presuntos não estivessem tão avariados.

     As perguntas do motorista assumiam o aspecto de um interrogatório subtil. Parecia estender redes, abrir alçapões com elas.

     - Anda à procura de emprego? - inquiriu.

     - Não, o meu velho tem umas terras, uns quarenta acres. É rendeiro, mas já lá estamos há muito tempo.

     O motorista olhou significativamente para os campos ao longo da estrada, onde o milho pendia com a poeira empilhada sobre as folhas. Por entre o solo empoeirado rolavam pedrinhas. O motorista disse como para si:

     - Um rendeiro de quarenta acres, sem ter sido expulso pela poeira e pelos tractores?

     - Há já tempo que não tenho notícias - respondeu o vagabundo.

     - Deve ter sido há muito tempo - comentou o motorista.

     Uma abelha zumbiu dentro do carro e esvoaçou atrás do pára-brisas. O motorista estendeu a mão e, com cuidado, expulsou-a para a corrente de ar que zumbia fora do veículo.

     - Os rendeiros estão a abandonar as terras - disse ele. - Cada tractor expulsa dez famílias. Há tractores por toda a parte, agora. Rasgam a terra e enxotam os rendeiros. Como é que se aguenta o seu velho?

     A língua e as maxilas tornaram a ocupar-se da goma esquecida na boca, revirando-a e mascando-a. De cada vez que descerrava os dentes, via-se a língua a revolver a pastilha.

     - Sim, já há tempo que não tenho notícias. Nunca fui dado a escrever, nem eu nem o meu velho.

     E acrescentou pressurosamente:

     - Mas não é por não sabermos, nem um nem outro. Tem estado empregado? - perguntou, prosseguindo na mesma forma velada de investigação.

     E ficou a olhar os campos, o ar tremeluzente, e, juntando a goma dentro da bochecha, cuspiu para a estrada.

     - Pois claro! - respondeu o vagabundo.

     - Foi o que pensei ao ver as suas mãos. Tem manejado uma picareta, um machado ou um malho. Bem se vê, pelas mãos. É uma coisa que eu descubro logo à primeira vista. E tenho orgulho nisso.

     O vagabundo encarou-o. Os pneus cantavam na estrada.

     - Quer saber mais alguma coisa? Não faço questão em lha dizer. E escusa de se pôr a adivinhar.

     - Não se abespinhe. Não me queria meter na sua vida.

     - Digo-lhe tudo sem fazer caixinha.

     - Não se abespinhe. Gosto apenas de saber coisas. Ajuda a passar o tempo.

     - Vou dizer-lhe tudo. Chamo-me Joad, Tom Joad. O velho é o velho Tom Joad.

     Os seus olhos mediram o motorista.

     - Não se abespinhe. Não foi por mal.

     - Eu também não foi por mal - disse Joad. - Estou apenas tentando seguir o meu caminho sem importunar ninguém.

     Parou e olhou para os campos ressequidos, para as árvores famintas, a penderem penosamente na distância escaldante. Da algibeira do casaco tirou o tabaco e as mortalhas. Enrolou o cigarro entre os joelhos para que o vento lhe não chegasse.

     O motorista mascava ritmicamente, pensativamente, como uma vaca. Esperou até desaparecer a má impressão do que havia dito. Por fim, quando lhe pareceu que o ambiente voltara a ser neutral, disse:

     - Um tipo que nunca guiou um caminhão não sabe o que isto é. Os patrões não querem que a gente leve ninguém. E assim temos de andar sempre sozinhos, a não ser que nos arrisquemos a ser despedidos, como pode suceder agora, por causa do que lhe fiz.

     - E que muito lhe agradeço - replicou Joad.

     - Tenho conhecido tipos que fazem coisas do arco-da-velha quando guiam. Lembro-me de um que até fazia versos. Passava assim o tempo.

     Olhou de soslaio para ver se Joad ficara interessado ou surpreso. Mas Joad mantinha-se calado, olhando em frente, ao longo da estrada branca, que ondulava suavemente. O motorista retomou a palavra:

     - Lembro-me de uma poesia que o tal gajo escreveu. Falava dele e de mais outros dois que andavam a correr mundo, a beber, a zaragatear e a fazer partidas. Tinha palavras que nem Jesus Cristo seria capaz de compreender. Uma parte era assim: “E ali avistámos um negro com uma alavanca que era maior que o probóscide de um elefante.” Probóscide é uma coisa parecida com nariz. O tipo mostrou-me isso no dicionário. Levava sempre o dicionário para toda a parte. Consultava-o até quando estava a comer e a tomar o café.

     Parou, sentindo-se desacompanhado no seu longo discurso. Volveu os olhos enigmáticos para o seu passageiro. Joad continuava calado. Novamente o motorista tentava forçá-lo a participar da conversa.

     - Já conheceu algum tipo que dissesse palavras tão arrevesadas como estas?

     - Os pregadores - respondeu Joad.

     - Sim, mas ficamos malucos quando ouvimos um tipo a falar assim difícil. Sem dúvida que comum pregador é diferente, porque ninguém se põe a magicar no que diz um pregador. Mas este tipo era engraçado. A gente não se danava quando ele dizia esses palavrões, porque era de paródia. Não era lá para armar em sabichão.

     O motorista ficou mais satisfeito. Sabia que, pelo menos, Joad o estava escutando. Virou o carro abruptamente numa curva e os pneumáticos guincharam.

     - Como ia dizendo - prosseguiu este - um tipo que guia um caminhão faz coisas do arco-da-velha. E tem de as fazer. Senão, dá em doido, aqui sentado, com a estrada a fugir debaixo das rodas. Há quem diga que os motoristas de caminhão andam sempre a comer nas tabernas ao longo da estrada.

     - Costumam parar - sentenciou Joad.

     - Decerto que param, mas não para comer. Quase nunca têm fome. O que estão é fartos de guiar. As tabernas são o único lugar onde a gente pode esticar as pernas e, quando paramos, somos obrigados a comprar qualquer coisa, senão, o homem que está ao balcão atira-nos olhares de fogo. E assim tomamos uma chávena de café e uns bolos. E descansamos um pouco.

     Mascou lentamente a pastilha e virou-a com a língua.

     - Deve ser uma chatice - observou Joad, sem convicção.

     O motorista lançou-lhe um rápido olhar, para ver se o outro estava zombando.

     - Sim, não é lá muito agradável - insistiu. - Parece fácil ficar aqui umas oito, dez e às vezes catorze horas. Mas a estrada chateia um homem. Tem de se fazer qualquer coisa. Alguns cantam; outros assobiam. A Companhia não nos deixa trazer rádio. Alguns bebem a sua pinga, mas esses não se aguentam,

     E acrescentou com presunção:

     - Eu nunca bebo em serviço.

     - O quê? - ironizou Joad.

    - É o que lhe digo. Um homem tem de progredir. Ando a pensar em seguir um daqueles cursos por correspondência. Engenharia mecânica. É fácil. Basta estudar algumas lições fáceis em casa. Ando cá a magicar nisso. Depois, não torno a guiar caminhões. Os outros que os guiem.

     Joad tirou um frasco de whisky do bolso do casaco.

     - Tem a certeza de que não quer um golo? A sua voz era provocante.

     - Não, Deus me livre de lhe tocar. Um homem não pode andar sempre a beber e então quem tem de estudar como eu tenciono.

     Joad desrolhou o frasco, tomou duas goladas rápidas, tornou-o a rolhar, metendo-o depois na algibeira. O cheiro quente e aromático do whisky espalhou-se no carro.

     - Vocês estão todos atados de pés e mãos. Há mulher no caso, não?

       - Sim, também é verdade. Mas, de qualquer maneira, quero progredir. já ando a treinar o cérebro há uma porção de tempo.

     O whisky pareceu animar Joad. Enrolou outro cigarro e acendeu-o.

     - Já não falta muito para chegar - declarou ele.

     - Não me quero emborrachar - atalhou precipitadamente o motorista. Ando sempre a treinar o cérebro. Tirei um curso desse género há dois anos. - Acariciou o volante com a mão direita. - Suponha que eu passo por um sujeito na estrada. Olho para ele, e, quando já estou distante, tento lembrar-me de tudo o que vi: das roupas, dos sapatos e do chapéu, da forma como ele andava, da altura, do peso provável e de alguma cicatriz. E faço isso muito bem. Sou capaz de fazer um perfeito retrato do homem, de cabeça. Às vezes, penso que devia ter tirado um curso de perito em impressões digitais. Você ficaria admirado de ver como a gente pode ter boa memória.

     Joad bebeu outra rápida golada do frasco. Expeliu a última baforada do cigarro quase desfeito e, então, com o polegar e o indicador, esmagou a ponta acesa. Fê-la numa bola, e, depois, atirou-a pela janela, deixando que a brisa lha arrebatasse dos dedos. Os pneus enormes entoavam uma canção estrídula sobre o caminho. Os olhos tranquilos e escuros de Joad tornaram-se maliciosos enquanto olhava ao longo da estrada. O motorista esperou e lançou à sua volta um olhar inquieto. Por fim, o comprido lábio inferior de Joad arreganhou-se e ele riu-se silenciosamente, com o peito sacudido de riso.

     - Você tem andado a ver se descobre, seu macacão.

     O motorista nem olhou.

     - Se descubro o quê? Que quer você dizer?

     Os lábios de Joad cerraram-se por um momento sobre os grandes dentes, e depois lambeu-os como um cão, com duas lambedelas, uma em cada direcção, partindo do meio. A voz tornou-se-lhe áspera.

     - Você sabe o que eu quero dizer. Você pôs-se a sondar logo que eu entrei. Bem percebi.

     O motorista olhou bem em frente; apertou o volante de tal maneira que as palmas das mãos fizeram bojo e as costas das mãos empalideceram.

     - Você sabe de onde eu venho?

     O motorista manteve-se calado.

     - Não sabe? - insistiu Joad.

    - Sim, decerto. Isto é: talvez. Mas nada tenho com isso. Trato da minha vida. O resto não é da minha conta. - E continuou precipitadamente: - Não meto o nariz onde não sou chamado.

     De repente, calou-se e esperou. As mãos continuavam brancas sobre o volante. Um gafanhoto adejou através das janelas e pousou sobre o quadro dos instrumentos, onde se instalou e se pôs a limpar as asas com pernas angulosas e saltitantes. Joad estendeu a mão e esmagou-lhe a cabeça dura e semelhante a um crânio com os dedos, lançando-o à corrente do vento, pela janela fora. Joad riu-se outra vez, enquanto sacudia, das pontas dos dedos, os restos do insecto.

     - Você enganou-se comigo - disse ele. - E não descanso enquanto lho não disser. Estive em MacAlester (Penitenciária do Estado de Oklahoma). Estive lá quatro anos. Estas roupas deram-mas eles quando saí. E não me importa que saibam. Vou para casa do meu velho e por isso não tenho de mentir para arranjar trabalho.

     - Bem, isso não é da minha conta. Não sou intrometido - atalhou o motorista.

     - Não é o diabo! Esse grande nariz andou a farejar a mais de oito milhas à frente da sua cara. Não se despegou de mim como um carneiro se não despega de um campo relvado.

     O rosto do motorista endureceu.

     - Você está enganado - começou ele com voz sumida. Joad soltou uma risada.

     - Você foi bom camarada. Deu-me uma boleia. E depois, já cumpri a pena. então? Quer saber porque fui condenado, não?

     - Não tenho nada com isso.

     - Você não tem senão que guiar essa geringonça para a frente, e, no fim de contas, é o que menos lhe importa. Agora escute. Vê aquele caminho, ali adiante?

     - Hum...

     - Bem, é ali que eu me apeio. Eu sei que você tem estado para aí a moer a cabeça para saber o que eu fiz. Mas não quero deixá-lo intrigado.

     O ronco do motor entorpeceu e o canto dos pneus afrouxou. Joad sacou do whisky e tomou outra golada. O caminhão estacou num sítio onde um caminho de terra desembocava na estrada real.

     Joad saiu e postou-se ao lado da janela. Do tubo de escape saíam golfadas de um vapor azulado, quase imperceptível. Joad inclinou-se para O Motorista.

     - Homicídio - disse rápido. - É uma palavra levada da breca. Quer dizer que matei um homem. Sete anos. Mas só fiz quatro por me ter portado bem lá dentro.

     Os olhos do motorista fixaram-se no rosto de Joad para o reter na memória.

     - Não lhe perguntei nada da sua vida - replicou ele. - Só me importo com a minha.

     - Você pode assoalhar isso em todas as tabernas daqui até Texola. - E sorriu-se. - Até à vista, compadre. Você foi um camaradão. Mas, olhe, quando a gente já esteve preso, fareja uma Pergunta, nem que venha da boca do inferno. Você começou a meter o nariz assim que abriu o carro. - Bateu na porta de metal com a mão. - Obrigado pela boleia - disse ele. - Até mais ver. - Voltou-se e meteu pelo caminho de terra.

     Durante um momento, o motorista ficou-se a olhá-lo e depois gritou:

     - Boa sorte!

     Joad acenou com a mão, sem se virar. Então o motor tornou a roncar; a engrenagem emitiu uma série de sons rápidos e o grande caminhão vermelho foi rolando pesadamente pela estrada fora.

    

     De ambos os lados da estrada de cimento corria um tapete de erva emaranhada, seca e partida, com as pontas carregadas de fiozinhos ténues, daqueles que se prendem ao rabo dos cães, de “rabos de raposa” prontos a penetrar nos cascos dos cavalos e de ouriços hábeis em insinuar-se na lã dos carneiros; a vida, adormecida, aguardava que a sacudissem e dispersassem; todas as sementes armadas com uma força de dispersão, arremessavam dardos e pára-quedas ao vento; os espíritos arvoravam-se em pequenas lanças e balas minúsculas, e tudo isto aguardava o vento ou a passagem de um animal, uma vira de calça de homem, uma bainha de saia de mulher, tudo passivo e, no entanto, bem apetrechado para uma futura actividade; quieto, mas carregado de ânsia de movimento.

     O sol brilhava sobre a erva, penetrando-a com o seu calor, e, na sombra, sob a vegetação, os insectos moviam-se enquanto as formigas lhes armavam ratoeiras; os gafanhotos davam pulos no ar, sacudindo por um instante as asas amarelas e os escaravelhos, semelhantes a pequenas armadilhas, debicavam afanosamente as hastes tenras. E sobre a relva, à beira da estrada, avançava um cágado, virando-se de lado sem qualquer razão aparente, arrastando a concha abaulada na erva. As suas pernas duras e as patas de unhas amarelas moviam-se lentamente sobre a relva, não para propriamente caminharem, mas para arrastarem a concha. As praganas de cevada resvalavam-lhe pela concha e as folhas de trevo caíam sobre ela e rolavam para o chão. Avançava com a boca coriácea semiaberta e os olhos vivos e ferozes olhavam para a frente sob as pálpebras em forma de unha. Ia pela relva, deixando atrás de si um trilho bem vincado, e a colina, que era à margem da estrada, surgia-lhe na frente. Parou por um momento, com a cabeça bem esticada para cima. Pestanejou e olhou para cima e para baixo. Por fim, dispôs-se a transpor a colina. As patas da frente deixaram ver as garras, mas não tocaram no chão. As patas traseiras impeliram a concha, que se arrastava dificultosamente pela erva e pelo cascalho. À medida que a colina se tornava mais íngreme, mais frenéticos eram os esforços do cágado. As patas traseiras moviam-se esforçadamente, escorregavam, puxando a concha, e a cabeça córnea esticava-se, tanto quanto lho permitiam as dimensões do pescoço. Pouco a pouco, a concha subiu a colina, até que, por fim, na sua linha de marcha, surgiu um parapeito, o contraforte da estrada - um muro de cimento de quatro polegadas de altura. Como se trabalhassem independentemente, as patas traseiras impeliram a concha contra o muro. A cabeça soergueu-se e espreitou por cima do muro para a superfície larga e lisa de cimento. Agora as patas, ferradas no cimo da parede, içavam-se penosamente; a concha subiu devagar e apoiou-se por diante na parede. Durante um momento, o cágado descansou.

     Uma formiga vermelha insinuou-se-lhe por debaixo da concha, na pele macia; de repente, cabeça e pernas sumiram-se na armadura, enquanto o rabo couraçado se escapulia de lado. A formiga vermelha foi esmagada entre o corpo e as pernas. Um pé de aveia brava meteu-se dentro da concha, impelido por uma pata dianteira. Durante um longo momento, o cágado ficou quieto, e depois a cabeça avançou de novo cautelosamente; os olhos piscos e franzidos miraram em redor, e as pernas e o rabo saíram, aparecendo por seu turno. As pernas traseiras puseram-se em acção, movendo-se como pernas de elefante, e a concha elevou-se tanto que as pernas da frente não alcançavam a superfície de cimento. Mas as pernas traseiras ergueram-se tanto e tanto que, por fim, o cágado conseguiu equilibrar-se e, com a cabeça inclinada para baixo e as pernas dianteiras a roçarem pelo pavimento, conseguiu içar-se completamente. Mas o pé de aveia brava enrolara-se-lhe às pernas da frente.

     Agora o caminho era fácil; todas as pernas trabalhavam, e a concha movia-se para a frente, meneando-se para um e outro lado. Nessa altura, surgiu um Sedan guiado por uma mulher de uns quarenta anos. Ela viu o cágado e desviou-se para a direita, já fora da estrada, provocando um guinchar de rodas e um turbilhão de poeira. As duas rodas ergueram-se por um momento e depois assentaram. O carro voltou novamente para a estrada e prosseguiu mais lentamente. O cágado tinha-se metido dentro da concha, mas agora andava mais depressa porque a estrada escaldava como lume.

     Depois surgiu um caminhão ligeiro, e, ao aproximar-se, o motorista, vendo o cágado, desviou-se, no intuito de o atropelar. A roda da frente apanhou a orla da concha, atirou com o animal ao ar com a rapidez de um relâmpago e fê-lo rodopiar, como se fosse uma moeda, para fora da estrada. O caminhão manobrou, a fim de retomar a direita. Deitado de costas, o cágado manteve-se muito tempo dentro da concha. Mas, por fim, as pernas oscilaram no ar, à procura de uma coisa onde pudessem firmar-se. O pé dianteiro agarrou-se a um pedaço de quartzo e, pouco a pouco, o cágado conseguiu voltar-se. O pé de aveia brava desprendeu-se, deixando cair no chão três sementes. E, ao arrastar-se na descida da colina, a concha foi carreando estrume para as sementes. Depois, entrou numa estrada poeirenta, saracoteando-se e desenhando com a concha um trilho ondulado na poeira. Os olhos trocistas e experientes olharam em frente e a boca, couraçada, abriu-se um pouco. Os dedos amarelos das patas soltaram uma camada de pó.

    

     Quando Joad ouviu o caminhão afastar-se, com a engrenagem a resfolegar e fazendo estremecer o solo batido pelos pneus, parou e voltou-se, a vê-lo desaparecer. Depois de o perder de vista, ainda observava o horizonte e a luz azul e vacilante do ar. Pensativo, sacou o frasco do bolso, libertou-o da rolha e sorveu delicadamente o whisky, metendo a língua no gargalo da vasilha e depois passando a língua pelos lábios, para não deixar escapar nem uma sombra de gota da esplêndida bebida. E disse, à laia de experiência: “Ali avistámos um negro” e era tudo quanto podia evocar. Por fim, voltou-se e meteu-se na estrada poeirenta, que cortava, recta, os campos de cultura. O sol estava quente e nenhum vento movia a poeira fina, que se diria peneirada. Via-se a estrada cheia de sulcos, de onde a poeira resvalara para se instalar nas marcas das rodas dos caminhões. Joad deu alguns passos e a poeira, fina como farinha, esparrinhou-se-lhe à frente dos sapatos amarelos, tornando-lhos pardacentos.

     Abaixou-se, desapertou os atacadores; descalçou primeiro um sapato, depois o outro. E mergulhou os pés suados com ar de alívio na poeira quente, até que pequenas partículas se lhe infiltraram entre os dedos e a pele dos pés se encortiçou de todo. Tirou o casaco e enrolou nele os sapatos, metendo o embrulho debaixo do braço. Por fim, pôs-se a caminho, sacudindo a poeira na sua frente, deixando uma nuvem de poeira caindo atrás de si.

     À direita do caminho, atadas a varas de salgueiros, corriam duas filas de arame farpado. As varas eram curtas e mal ajeitadas. Onde os ganchos chegavam à altura conveniente, o arame assentava neles; mas onde os não havia, a vedação farpada fora simplesmente ligada aos postes com arame ferrugento de fardos. Atrás da cerca, o milho jazia abatido pelo vento, pelo calor e pela seca, e as pontas, nos sítios onde as folhas se uniam aos caules, estavam cobertas de pó.

     Joad foi caminhando penosamente, arrastando a nuvem de poeira atrás de si. Um pouco adiante, viu a concha abaulada de um cágado, a arrastar-se lentamente através da poeira, num esforço obstinado e espasmódico. Parou a observá-lo e a sua sombra incidiu sobre o animal. Imediatamente, a cabeça e as pernas se recolheram e a cauda curta e grossa se uniu à concha. Joad pegou nela e virou-a. As costas eram de um trigueiro acinzentado como a poeira, mas a parte inferior da concha era de um amarelo creme, limpo e uniforme. Joad puxou o embrulho mais para cima e premiu a parte inferior e lisa da concha com o dedo. Era mais mole do que as costas. A cabeça, velha e dura, do bicho surgiu e tentou olhar para o dedo que a premia enquanto as pernas oscilavam inquietas. O cágado urinou na mão de Joad, lutando desesperada e inutilmente para se desprender. Joad tornou a virá-lo de costas para cima e enrolou-o no casaco com os sapatos. Sentia-o agitar-se e lutar debaixo do braço. Continuou a andar mais apressado agora, arrastando um pouco os calcanhares na areia fina.

     Mais adiante, ao lado da estrada, um salgueiro ressequido, poeirento, projectava uma sombra mosqueada. Joad via-o bem na sua frente, com as pobres ramadas tombando sobre o caminho, com as folhas fendidas e ásperas como uma galinha na muda. Joad estava agora a suar; a camisa azul escurecia nas costas e nos sovacos. Puxou pela pala do boné, vincando-a, ao meio, quebrando de tal maneira o forro de cartão que nunca mais pareceria novo. E os seus passos apressaram-se em direcção à sombra do salgueiro distante. Ali sabia que haveria sombra, pelo menos uma orla de verdadeira sombra projectada pelo tronco, visto que o sol tinha passado o zénite. Agora os raios solares castigavam-lhe a nuca, causando-lhe um certo zumbido na cabeça. Não podia ver a base do tronco, porque ele irrompia de uma pequena depressão pantanosa que conservava a água mais tempo do que os lugares planos, Joad dirigiu-se para o lado do sol e começou a descer o declive, mas teve de abrandar a marcha cautelosamente, porque a sombra estava ocupada. No chão sentava-se um homem, encostado ao tronco da árvore. Tinha as pernas cruzadas e um dos pés, descalço, elevava-se quase ao nível da cabeça. Não ouviu Joad aproximar-se assobiava solenemente a melodia de “Sim senhor, esta é pequena”. Movia o tal pé ao compasso da música. Mas aquilo não ia em ritmo de dança. Parou de assobiar e cantou numa voz agradável de primeiro tenor:

    

                     Sim, senhor, este é o meu Salvador,

                     Jesus é o meu Salvador.

                     Jesus é o meu Salvador agora.

                     Na minha vida não está o diabo,

                     Jesus é o meu Salvador agora.

    

     Joad parou sob a sombra escassa das folhas enlanguescidas antes que o homem desse por ele, parasse de cantar e voltasse a cabeça. Era uma cabeça comprida, ossuda, de pele esticada, assente num pescoço tão enrugado e musculoso como um pé de aipo. Os olhos eram grandes e salientes e as pálpebras, vermelhas e descarnadas, esforçavam-se por cobri-los. Tinha as faces morenas, lustrosas e imberbes e uma boca grossa, alegre ou sensual. O nariz, adunco e duro, esticava-lhe tanto a pele que se viam as cartilagens brancas. Não se lhe via suor no rosto, nem mesmo na testa alta e pálida. Era uma testa anormalmente alta, sulcada de velas delicadas nas fontes. Quase metade da cabeça estava por cima dos olhos. Tinha os cabelos duros, grisalhos, repuxados para trás, em desordem, como se os tivesse penteado com os dedos. Vestia um fato-macaco e camisa azul. A seu lado, no chão, estava um casaco de algodão grosseiro e riscado, com botões de latão e um chapéu castanho, manchado e amarrotado como um salpicão; perto, uns sapatos de lona cobertos de poeira, demonstravam, pela posição, que o homem os atirara de qualquer maneira ao desembaraçar-se deles.

     O homem lançou um olhar prolongado a Joad. A luz parecia inundar-lhe os olhos castanhos salpicados de pontinhos doirados. Os músculos retesados do pescoço sobressaíam.

     Joad deteve-se na sombra, aqui e acolá manchada de luz. Tirou o boné; enxugou o rosto suado com ele e deixou-o cair no chão, juntamente com o casaco enrolado.

     O homem que estava na sombra descruzou as pernas e escavou o chão com os dedos dos pés.

     Então Joad disse:

     - Hi! Está um calor dos diabos na estrada!

     O homem sentado encarou-o interrogativamente:

     - Você não é o Tom Joad, filho do velho Tom?

     - Sim, sou eu - respondeu Joad. - Em toda a parte, Vou para casa.

    - Aposto que você já se não lembra de mim.

     O homem sorriu-se e os seus lábios grossos mostraram grandes dentes de cavalo.

     - Oh, não, não se lembra! Você estava sempre entretido a puxar as tranças de uma rapariguinha quando eu lhe dava a Sagrada Comunhão. Você até parecia que lhe queria arrancar as tranças pela raiz. Talvez se não recorde, mas recordo-me eu. Por causa dessas tranças, vieram ambos, você e ela, a presença de Jesus; foram baptizados untos na vala de irrigação, Esbracejavam e bramiam como dois gatinhos.

     Joad olhou para ele com ar pensativo e depois desatou a rir.

     - Ah, o senhor é o pregador! Ainda não há uma hora que me referi ao senhor numa conversa com um sujeito.

     - Fui pregador - declarou o homem em tom sério. - Reverendo Jim Casy da Sarça Ardente (Seita religiosa escocesa, fundada em fins do século XVIII e conhecida pelo nome de Burning Busle. O ritual consiste, especialmente, na invocação do Espírito Santo por meio de línguas estranhas, tal como no milagre do Pentecostes) para glorificar o nome de Jesus. Costumava ter a vala de irrigação tão cheia de pecadores em penitência que metade deles morriam afogados. Mas isso acabou. Agora sou apenas Jim Casy e mais nada, e cheio de ideias que são um pecado... contudo parecem-me razoáveis.

     - Se a gente pensa, decerto que há-de ter ideias. Claro que me recordo do senhor. Fazia belas pregações. Lembro-me de uma vez que o senhor fez um sermão a andar de gatas e a berrar como um possesso. A minha mãe gostava muito de si. E a avó dizia que o senhor estava tocado pelo Espírito.

     Joad remexeu no casaco e tirou o wisky. O cágado moveu uma perna, mas ele envolveu-o com mais cuidado, Destapou o frasco e ofereceu-o a Jim Casy.

     - Vai uma gota?

     Casy pegou na vasilha e olhou-a pensativo.

     - Já não prego mais sermões. O Espírito já não está com o povo, e, pior ainda, o Espírito já não está comigo. Sem dúvida que, de vez em quando, ainda o Espírito me sacode e, nessa altura, faço uma reza, ou, quando me dão comida, dou-lhes a benção, mas o meu coração fraqueja. Faço isso apenas porque o povo assim mo pede.

     Joad tornou a limpar o rosto com o boné.

     - O senhor já não é tão santo que recuse uma bebida, não é assim? - perguntou.

     Casy parecia ver uma garrafa pela primeira vez. Inclinou-a e tornou três boas goladas.

     - Esplêndida bebida - elogiou ele.

     - Pudera não! É bebida de fábrica. Custou um dólar.

     Casy tomou outra golada antes de entregar a garrafa.

     - Sim, senhor! Sim, senhor! - exclamou ele.

     Joad pegou na vasilha e, por delicadeza, não limpou o gargalo com a manga antes de beber. Acocorou-se e pôs a garrafa junto do rolo do casaco. Achou então uma varinha boa para escrever os seus pensamentos no chão. Varreu as folhas, fazendo um quadrado e alisou a poeira. E pôs-se a desenhar ângulos e pequenos círculos.

     - Há muito que o não via - disse ele.

     - Ninguém me tem visto - explicou o pregador. - Tenho andado por aí sozinho, a meditar... O Espírito ainda é forte em mim, embora já não seja o mesmo. já não estou tão convencido de muita coisa.

     Encostou-se mais à árvore. A sua mão ossuda penetrou como um esquilo no bolso do fato-macaco e tirou de lá um cigarro de tabaco negro, picado. Cuidadosamente, limpou o cigarro a que palhinhas e cotão haviam aderido, antes de morder uma das pontas e de meter o pedaço cortado na boca. Joad respondeu negativamente com a vara quando o cigarro lhe foi oferecido. O cágado agitou-se no casaco enrolado. Casy olhou para a roupa em movimento e perguntou:

     - Que tem você ali? Uma galinha? Assim, morre abafada.

     - Um cágado velho - respondeu. - Apanhei-o na estrada. Levo-o ao meu irmãozito. As crianças gostam de cágados.

     O pregador abanou a cabeça vagarosamente.

     - Todas as crianças arranjam um cágado em qualquer altura. Mas ninguém o conserva sempre. Tanto fazem, tanto fazem, até que, um dia, encontram uma aberta e safam-se por onde calha. São corno eu. Não me satisfiz com o velho Evangelho, que me estava à mão. Tanto lhe mexi, tanto lhe fiz, até que o rasguei. As vezes ainda sinto o Espírito, mas já não tenho nada para pregar. Tenho a vocação de guiar o povo, mas não sei para onde o guiar.

     - Guie-o para onde calhar - disse Joad. - Mergulhe-o na vala de irrigação. Diga-lhe que vai arder no inferno se não pensa como o senhor. Para onde diabo quer o senhor guiá-lo?

     A sombra recta do tronco da árvore alongara-se pelo terreno. Joad instalou-se agradavelmente, acocorou-se e alisou de novo a terra, para nela escrever os seus pensamentos, com a vara. Um cão de gado, de pêlo espesso e amarelo, descia a estrada a trote, de focinho baixo, com a língua pendente, a gotejar. Trazia o rabo caído, embora ligeiramente encurvado na ponta e arquejava profundamente. Joad assobiou-lhe, mas ele apenas olhou de lado e continuou a trotar como se levasse um rumo definido.

     - Vai para qualquer lado - explicou Joad um pouco contrariado. - Talvez para casa.

     O pregador voltara à sua preocupação.

     - Vai para qualquer lado - repetiu ele. - Está bem, vai para qualquer lado. Eu não sei para onde vou. Quer que lhe diga? Eu fazia aquela gente pular e falar e proclamar a glória de Deus até todos caírem no chão exaustos. E a alguns, baptizava-os. E depois, sabe você o que eu fazia? Levava uma daquelas raparigas para o mato e deitava-me com ela. Era o que sempre fazia. Depois, arrependia-me e rezava, rezava, mas sem proveito. Daí a pouco ela e eu estávamos cheios do Espírito e acontecia a mesma coisa. Pensei que nada havia a esperar de mim, que era um rematado hipócrita. Mas era sem querer.

     Joad sorriu-se e, mostrando os dentes grandes e ralos, lambeu os beiços.

     - Não há nada como uma reunião de culto bem animada para aquecer as raparigas - disse ele. - Já tenho experimentado isso. - Casy inclinou-se para a frente excitado. - Você está a ver; eu compreendi que era assim e pus-me a pensar. - Agitou a mão ossuda e nodosa num movimento de vaivém semelhante a uma carícia. - Pus-me a pensar desta maneira: aqui estou eu pregando a graça divina. E eis aqui gente que obtém tanta graça que até salta e grita. Mas há quem diga que dormir com uma rapariga é obra do diabo. Mas, quanto mais cheia de graça se sente uma rapariga, mais depressa quer ir para o mato. E pus-me a pensar como diabo - desculpe a expressão! - é que o espírito do mal entra numa moça tão cheia do Espírito Santo que até este lhe jorra do nariz e dos ouvidos. justamente quando o diabo não devia ter oportunidade para tal! E, no entanto, era quando ele mais se manifestava.

     Os seus olhos brilhavam de excitação. Revolveu as bochechas por um momento e depois cuspiu na poeira, e o jacto de cuspo rolou, aderindo ao pó, até formar uma pequena bola seca e redonda.

     O pregador estendeu a mão e olhou para a palma como se estivesse lendo um livro.

     - E eis o que eu fiz - prosseguiu ele. - Eis o que eu fiz com todas aquelas almas de gente na minha mão, responsável e sentindo a, responsabilidade, e sempre a deitar-me com uma das raparigas.

     Olhou para Joad e no seu rosto havia uma expressão de desânimo. Parecia que pedia socorro.

     Joad desenhou o tronco de uma mulher na poeira, peitos, ancas e pélvis.

     - Nunca fui pregador - disse ele. - Nunca deixei fugir nada que pudesse agarrar. E sobre isso nunca tive outras ideias senão que me sentia muito contente quando arranjava uma rapariga.

     - Mas você não era pregador - insistiu Casy. - Uma rapariga, para você, era apenas uma rapariga. Não era mais nada. Mas, para mim, elas eram vasos sagrados. Andava a salvar-lhes as almas. E, com essa responsabilidade em cima de mim, incutia-lhes o Espírito Santo e depois levava-as para o mato.

     - Talvez que eu desse um bom pregador - disse Joad.

     Tirou para fora o tabaco e as mortalhas e enrolou o cigarro. Acendeu-o e, através das fumaças, disse ao pregador:

     - Já há muito que estou sem mulher. Tenho de ver se engato uma.

     Casy continuou:

     - A coisa apoquentava-me tanto que cheguei ao ponto de não dormir. E, de cada vez que ia pregar, dizia para mim: Meu Deus, desta vez não faço isso. Mas, mesmo enquanto o dizia, eu sabia o que ia acontecer.

     - O senhor devia ter-se casado - observou Joad. - Na nossa casa esteve uma vez um pregador e a mulher. Eram jeviotas. Dormiam na parte de cima da casa. Faziam as pregações no celeiro. Nós, os garotos, escutávamos. A mulher do pregador, depois de cada sermão, levava pancada de criar bicho.

     - Folgo muito que me dissesse isso - declarou Casy. - Pensava que tosse só eu. Finalmente, afligi-me tanto que não fazia outra coisa senão magicar.

     Dobrou as pernas e pôs-se a esgaravatar entre os dedos dos pés secos e poeirentos.

     - Dizia para mim: o que é que te está a roer? É uma broca? Não; é o pecado. E eu dizia: porque é que quando um homem está quase à prova de fogo contra o pecado e cheio de Jesus, é que lhe dá para desapertar os botões das calças?

     Pôs-se a bater ritmicamente com dois dedos na palma da mão, como se ali estivesse colocando cada palavra lado a lado.

     - E eu dizia: Talvez não seja pecado. Talvez seja a maneira de ser natural da gente. Talvez que estejamos a sacudir o diabo de nós mesmos para nada. E eu pensei como algumas irmãs se flagelavam com um açoite de pontas de arame que é quase do tamanho de um metro. E pensei que, como elas gostavam de se mortificar, talvez também eu gostasse. Estava debaixo de uma árvore, quando me pus a magicar nisto, e adormeci. E veio a noite e era ainda escuro quando acordei. Perto uivou um lobo. E eu, sem pensar, disse em voz alta: Que vão para o inferno! Não há pecado nem virtude. Há apenas o que a gente quer fazer. Tudo z parte da mesma coisa. E algumas das coisas que a gente faz são boas e outras não são boas, mas isto é como cada um as aprecia.

     Parou e ergueu os olhos da palma da mão, onde parecia ter colocado as palavras.

     Joad fixava-o, arreganhando os dentes, mas os seus olhos mostravam-se penetrantes e interessados.

     - O senhor acabou com isso. Deixou de magicar.

     Casy voltou a falar com voz dolente e confusa:

     - E eu dizia: o que é este chamamento, este Espírito? E eu dizia: é o amor; amo tanto esta gente, a ponto, às vezes, de rebentar. Eu dizia: não amas Jesus? Então pensava, tornava a pensar e finalmente dizia: não, não conheço ninguém com o nome de Jesus. Conheço um chorrilho de histórias, mas eu só amo o povo. E, algumas vezes, amo-o a ponto de rebentar, e, por isso, tenho pregado alguma coisa que eu pensava que o faria feliz. E depois creio que já falei demais. Talvez você se espante de eu empregar palavras más. São apenas palavras que o povo usa, e nada de mau quero dizer com elas. E, seja como for, tenho de lhe dizer mais uma coisa que pensei; dita por um pregador é a coisa mais irreligiosa que pode haver; já não posso ser pregador exactamente porque a pensei e acreditei.

     - Que foi? - perguntou Joad.

     Casy olhou-o acanhado.

     - Se não lhe soar bem, você não se ofende, não?

     - Eu nunca me ofendo, a não ser que me dêem um murro no nariz. Que pensou o senhor?

     - Pensei qual seria o caminho para o Espírito Santo e para Jesus. Pensei: porque é que nós devemos depender de Deus ou de Jesus? Talvez - pensei eu - seja melhor amar todos os homens e todas as mulheres; talvez que o Espírito Santo seja apenas o. espírito humano. Talvez que todos os homens tenham em conjunto uma ú nica alma grande de que toda a gente faz parte. Sentei-me ali a magicar nisso e, de repente, vi tudo. Vi perfeitamente que isso era verdade e continuo a ver da mesma forma.

     Os olhos de Joad abaixaram-se, como se não pudesse enfrentar a honestidade crua do pregador.

     - O senhor não pode ter igreja com ideias como essa - disse ele. - O povo correria consigo. Eles querem é saltar e gritar. É disso que o povo gosta. Sente-se bem assim. Quando a avó se punha a falar de religião, ninguém a podia segurar. Era capaz - e derrubar uma parede com um murro.

     Casy olhou-o pensativo.

     - Queria perguntar-lhe uma coisa. Uma coisa que me anda cá a morder.

     - Diga; não se acanhe.

     - Olhe-o pregador falava vagarosamente- aí está você que eu baptizei quando ainda estava em plena glória. Nesse dia, Jesus até me saía aos pedaços pela boca. Você não se lembra porque estava a puxar pela trança da tal pequena.

     - Lembro-me - afirmou Joad. - Era a Suzy Little. Um ano depois trincou-me o dedo.

     - E então, você tirou algum partido desse baptismo? Correu-lhe a vida melhor?

     Joad, pensou um bocado.

     - Não, nem dei por isso.

     - Então, e mal? Você ficou pior? Pense bem.

     Joad pegou na garrafa e tomou um trago.

     - Nem bem nem mal. Para mim, foi uma brincadeira.

     Entregou o frasco ao pregador. Este suspirou, bebeu, olhou para o nível baixo do whisky e tomou outro pequeno gole.

     - Ainda bem - disse ele. - Estava com receio de que, nessas práticas, eu tivesse prejudicado alguém.

     Joad olhou para o casaco e viu o cágado livre do embrulho e caminhando pressuroso na direcção que seguia quando o havia encontrado. Joad observou-o por um momento e apanhou-o, tomando a envolvê-lo no casaco.

     - Não tenho presente para levar aos miúdos. Nada, além deste velho cágado.

     - É engraçado - interpôs o pregador. - Estava a pensar em Tom Joad quando você chegou. Pensava em lhe fazer uma visita. Eu antigamente supunha que ele era um homem sem Deus. Como está Tom?

     - Não sei. Há quatro anos que não vou a casa.

     - Mas ele não lhe escreveu?

     Joad ficou embaraçado.

     - Sabe, o meu pai não é homem para escrever. Assinava o seu nome tão bem como qualquer outro e até lambia o lápis. Mas cartas, nunca escreveu. Dizia muitas vezes que aquilo que se não podia dizer de boca, também não valia a pena pôr no papel.

     - Você tem andado a viajar? - perguntou Casy.

     Joad olhou-o desconfiado.

     - Ninguém lhe disse nada de mim? Pois olhe que o meu nome veio em todos os jornais.

     - Não, nunca. Porquê?

     Passou uma perna sobre a outra e chegou-se mais à árvore. A tarde avançava rapidamente e o sol adquirira uma tonalidade mais rica.

     Joad falou em ar de brincadeira:

     - É melhor que eu lho diga agora para acabar com isto. Mas, se o senhor ainda andasse na pregação, nada lhe dizia, com medo que se pusesse a rezar por mim.

     Esvaziou o resto do whisky e atirou fora a garrafa castanha e achatada que rolou no pó.

     - Estive em MacAlester, estes quatro anos.

     Casy voltou-se para ele e as suas sobrancelhas desceram tanto que a testa parecia ainda mais alta.

     - Não há necessidade de falar nisso, hein? Não quero fazer perguntas se você fez alguma coisa de mal...

     - Tornava a fazer o que fiz - asseverou Joad. - Matei um gajo numa briga. Estávamos bêbedos num baile. Apontou-me uma navalha e eu matei-o com uma pá que apanhei ali à mão. Rachei-lhe a cabeça de meio a meio.

     As sobrancelhas de Casy subiram ao nível normal.

     - Você não tem então nada de que se envergonhar?

     - Não - respondeu Joad. - Não tenho. Gramei sete anos por via da navalha que ele me apontou. Mas saí ao fim de quatro anos, sob liberdade condicional.

     - Então você já não sabe da sua gente há quatro anos?

     - Oh, soube! A minha mãe mandou-me um postal há dois anos, e, no Natal passado, a avó mandou-me um cartão. Jesus, como se riram os gajos lá do chilindró! Tinha uma árvore e uma coisa brilhante que parecia neve. E os versos eram assim:

    

                           Alegre total, criança pura,

                           Jesus meigo, Jesus doce,

                           Sob a árvore do Natal,

                         Há um presente para ti.

    

     Creio que a avó nunca leu aquilo. Naturalmente, comprou-o a algum vendedor ambulante e escolheu o mais vistoso. Os tipos lá da minha camarata quase se mijaram a rir. Começaram depois a chamar-me o Jesus meigo. A minha avó, coitada, não queria rir-se à minha custa, ela pensou que o cartão era tão inocente que nem valia a pena incomodar-se a lê-lo. Perdeu os óculos no ano em que eu fui catrafilado. Talvez que nunca os tornasse a achar.

     - Como é que o trataram em MacAlester?

     - Oh, muito bem! Come-se regularmente, tem-se roupa limpa e há muito onde tomar banho. E muito bom em alguns sentidos. Mas o que custa é não haver mulheres.

     Nesta altura riu-se.

     - Havia lá um gajo que saiu em liberdade condicional. Ainda não tinha passado um mês e já estava de volta por ter quebrado a palavra. Um outro gajo perguntou-lhe porque quebrara a palavra. “Foi por isto - disse ele -: Não há comodidades em casa do meu velho. Não há luz eléctrica nem chuveiro. Não há livros e a comida é asquerosa.” E disse que voltara para onde tinha algumas comodidades e onde comia regularmente. Sentia-se desolado em liberdade, sem saber o que havia de fazer. E, por isso, roubou um automóvel para voltar.

     Joad puxou pelo tabaco, tirou uma mortalha do livro e enrolou um cigarro.

     - O tipo tem razão - continuou ele. - A noite passada, ia ficando maluco, a pensar onde havia de dormir. Pus-me a pensar na minha tarimba, no que faria o meu companheiro de cela. Eu e alguns tipos tínhamos lá uma orquestra. E boa. Um deles disse que devíamos ir para a rádio. E esta manhã não sabia a que horas me levantar. Fiquei deitado, à espera do toque da sineta.

     Casy riu-se.

     - Quando a gente se habitua, até o barulho de uma serração nos faz falta.

     A luz amarelada, poeirenta, da tarde estendeu sobre a terra um colorido de ouro. As hastes do milho pareciam doiradas. um bando de andorinhas passou no ar, em direcção a alguma poça de água. O cágado ensaiou nova tentativa de escapar do casaco de Joad. Joad dobrou a pala do boné, que parecia agora a curva do longo bico de um corvo.

     - Vou-me chegando - disse ele. - Não gosto de andar ao sol, mas já não está tão quente.

     Casy endireitou-se.

     - Há que tempos que não vejo o velho Tom! Tenho de estar com ele, seja como for. Preguei Jesus à sua gente durante muito tempo e nunca exigi dinheiro nem nada, a não ser uma côdea para comer.

     - Venha daí - convidou Joad. - O meu pai vai ficar satisfeito de o ver. Ele sempre disse que o senhor era passarão de mais para ser pregador.

     Levantou a trouxa do casaco e apertou bem o cágado à volta dos sapatos.

     Casy agarrou os sapatos de lona e meteu neles os pés.

     - Nunca tive a vossa confiança - disse ele. - Ando sempre com medo de que haja arame ou vidro debaixo do pó. Não há nada que me aborreça tanto como ter um dedo do pé cortado.

     Hesitaram na orla da sombra e depois mergulharam na luz amarela do sol, como dois nadadores apressados em chegar à praia. Após algumas passadas rápidas, abrandaram a marcha, num ritmo compassado, meditativo. As hastes do milho projectavam sombras acinzentadas, oblíquas, e no ar havia o cheiro cru da poeira quente. Acabara o campo de milho e começava o do algodão, verde-escuro, folhas verde-escuras através de uma cortina de poeira, com os casulos em formação. Era algodão sujo, denso, nos lugares baixos, onde tinha havido água, e falho nos lugares altos. As plantas lutavam com o Sol. E, à distância, o horizonte tornava-se quase invisível. A estrada estendia-se na frente deles, serpeando em subidas e descidas. Os salgueiros de um regato alinhavam-se a oeste, e, a noroeste, uma mancha de terra inculta começava a cobrir-se de mato. Mas havia no ar um odor de poeira e tamanha secura que o muco do nariz se endurecia numa crosta e os olhos choravam para evitar que as pupilas secassem.

     Casy observou:

     - Veja como o milho cresceu até vir a poeira. Tinha sido uma estupenda colheita.

     - Todos os anos - comentou Joad - todos os anos, desde que me lembro, havia promessas de uma boa colheita que nunca vinha. O avô diz que foi boa nas primeiras cinco lavras, enquanto havia mato nas terras.

     A estrada descia uma colina e subia em direcção a outra.

     Casy disse:

     - A casa do velho Tom não pode estar a mais de uma milha. Ela não fica para lá daquela terceira subida, pois não?

     - Não, não fica - disse Joad. - A não ser que alguém a tivesse roubado, como meu pai a roubou.

     - O seu pai roubou-a?

     - Roubou, sim. Topou-a a milha e meia a leste daqui e levou-a. Vivia lá uma família que a abandonou. O meu avô, o meu pai e o meu irmão Noah queriam levar a casa toda, mas não era possível. Só levaram parte. É por isso que ela tem um aspecto tão engraçado de um lado. Racharam-na ao meio e trouxeram-na às costas de doze cavalos e de duas mulas. Voltaram à procura da outra metade, para a juntarem à primeira, mas, quando chegaram, já o Wink Matiley tinha vindo com a gente dele e roubado essa metade. O pai e o avô ficaram danados, mas, pouco depois, o Wink apareceu e emborracharam-se todos, rindo a bandeiras despregadas do caso. O Wink disse que a casa dele era o garanhão e que podíamos trazer a nossa casa para a cruzar com a dele e assim parir uma ninhada de casas. O Wink era um grande pândego quando estava tachado. Depois disso, ele, o meu pai e o meu avô ficaram amigos. Embebedavam-se sempre que se encontravam.

     - O Tom era um camaradão - afirmou Casy.

     Tinham alcançado, embora a custo, o fundo de uma encosta afrouxaram o passo para a subida. Casy limpou a testa com manga do casaco e pôs outra vez o chapéu de copa amarrotada na cabeça.

     - Sim - repetiu. - Tom era um camarada. Para um homem sem religião, era um bom camarada. Via-o às vezes nas rezas, quando o Espírito entrava nele um poucochinho e vi-o dar saltos de três metros e mais. É o que lhe digo: quando o velho Tom tomava uma dose de Espírito Santo, toda a gente tinha de correr para não ser derrubada e pisada. Pulava corno um garanhão no picadeiro!

     Chegaram ao cimo da outra encosta. A estrada descia em direcção a um regato feio e agreste, de curso desigual, com cicatrizes na terra de ambas as margens, a atestar antigas inundações. Joad passou em bicos de pés as pedras que o atravessavam.

     - O senhor fala assim do meu pai - disse ele. - Talvez não tivesse visto o tio John na ocasião em que o baptizaram em casa dos Polks. Pôs-se a pular e a saltar. Saltou sobre um arbusto do tamanho de um piano. Saltou e tornou a saltar, uivando como um cão à Lua. Então, o meu pai viu-o, o meu pai, que imagina que é o melhor saltador em honra de Jesus nestes sítios. O que há-de ele fazer? Escolhe um arbusto duas vezes do tamanho do do tio John e, soltando uns grunhidos como uma porca, que estivesse parir cacos de sangue, corre para ele, salta-lhe em cima e quebra perna direita. Isso tirou o Espírito todo ao meu pai. O pregador queria curá-lo com rezas, mas ele disse que não, por Deus, o que queria era um médico. Bem, médico não havia, mas arranjou-se um dentista ambulante e foi esse que o tratou. O pregador sempre fez qualquer reza, lá como ele entendeu.

     Subiram a pequena elevação do outro lado do regato. Agora, que o Sol estava no ocaso, dissipara-se parte da sua força, e, apesar e o ar estar quente, os raios fustigantes tornavam-se mais fracos. A estrada era ainda marginada por cercas de arame, com paus torcidos. A linha de arame estendia-se do lado direito, através de um campo de algodão e o algodão, verde e empoeirado, tinha o mesmo aspecto de ambos os lados, seco, verde-escuro e coberto de pó.

     - Aquela terra cercada é a nossa - informou Joad, apontando para lá. - Nós, verdadeiramente, não precisávamos de cerca, mas, como tínhamos o arame, o meu pai quis aproveitá-lo de qualquer maneira. Ele disse que aquilo lhe dava um sentido de posse. Não teria posto a cerca se o tio John não tivesse vindo uma noite com seis rolos de arame na carroça. Vendeu-lhos por um porco. Nunca soubemos onde ele arranjou aquele arame.

     Afrouxaram o passo na subida, movendo os pés na poeira funda e mole, sentindo o contacto da terra. Os olhos de Joad, achavam-se concentrados nas suas recordações. Parecia estar-se a rir interiormente.

     - O tio John era um grande ratão - disse ele. - O que ele fez com aquele porco!

     E, rindo, continuou a andar.

     Casy esperou impacientemente pelo fim da história que não vinha. Por fim, perguntou, um tanto irritado:

     - Bem, mas que fez ele com o porco?

     - Anh? Ora! Matou o porco ali mesmo e fez com que a mãe acendesse o forno. Cortou umas fatias, pô-las na caçarola e pôs costeletas e uma perna no forno. Comeu as fatias enquanto as costeletas assavam e engoliu as costeletas enquanto a perna aloirava. Nós, os miúdos estávamos de roda, a babar-nos, e ele deu-nos uns pedaços, mas não quis dar nada ao meu pai. Comeu tanto que teve de ir para a cama. Enquanto estava a dormir, nós, os miúdos, e o nosso pai acabámos com a perna. Pois, quando o tio John acordou, de manhã, meteu a outra perna no forno. Então, o meu pai disse-lhe: “John, tu vais comer o porco todo sozinho?” E ele respondeu: “Sim, faço tenção disso, Tom, porque tenho medo que ele se estrague, antes de eu o comer, danado como sou por carne de porco. Agora, se tu quiseres, torna-me a passar dois rolos de arame que eu dou-te um prato bem cheio.” Mas o meu pai não era tanso. Deixou o tio John comer do porco até se enfastiar e, quando ele se foi embora, com a carroça, pouco mais de metade tinha engolido. O pai disse-lhe: “Porque não o salgas tu?” Mas isso não era com o tio John; quando ele quer porco, há-de ser um porco inteiro, e, quando está farto, nem admite que lhe falem em porco sequer. E, assim que ele se foi, o pai salgou o que restava.

     Casy comentou:

     - Quando eu tinha ainda o espírito de pregador, teria tirado disso uma lição para lha dar a você. Mas agora isso já lá vai. Você faz uma ideia do que teria levado seu tio a fazer isso?

     - Não sei - respondeu Joad. - Era muito guloso de carne de porco. Quando me lembro disso, até fico com fome. Em quatro anos, apenas comi quatro fatias de carne de porco assada, uma fatia em cada Natal.

     Cassy sugeriu delicadamente:

     - Talvez o Tom mate o bezerro gordo, como na parábola do filho pródigo, quando você chegar.

     Joad teve um sorriso de desdém:

     - O senhor não conhece o meu pai. Se ele matar uma galinha, quem chia, não é a galinha, é ele. A experiência não lhe serve de nada. Anda sempre a poupar um porco para o Natal e o bicho morre em Setembro, inchado de, tanta comida ou com qualquer doença que não deixa meter-lhe o dente. Quando o tio John queria trabalho, comia carne de porco. E arranjava-a sempre.

     Chegaram, enfim, à curva da colina e viram a casa de Joad lá em baixo. Joad parou.

     - Já não é a mesma - exclamou. - Olhe para aquela casa. Aconteceu alguma coisa. Não há lá ninguém.

     Os dois homens pararam, de olhos fixos no pequeno grupo de edifícios.

    

     Os senhores chegavam às terras ou, mais frequente mente, mandavam alguém por eles. Vinham em carros fechados, e apalpavam a terra ressequida com os dedos, mas algumas vezes traziam brocas grandes, que perfuravam o solo para o analisar. Os rendeiros, à porta dos seus pátios, batidos pelo sol, observavam, inquietos, a marcha dos carros através dos campos. E, por fim, os proprietários entravam nos pátios e, sentados nos seus carros, falavam para fora das janelas. Os rendeiros paravam ao lado dos carros por um momento e, depois, punham-se de cócoras a esgravatar a poeira com paus.

     Nas portas abertas, as mulheres olhavam para fora e, por detrás delas, as crianças - crianças de cabelo cor de milho e de olhos muito abertos, com um pé descalço por cima do outro pé descalço, remexendo os dedos. As mulheres e as crianças observavam os homens a falar com os senhorios. Mantinham-se silenciosas.

     Alguns dos senhorios eram afáveis, porque detestavam o que estavam a fazer; outros mostravam-se irritados, porque lhes repugnava serem cruéis, e ainda outros eram frios, porque de há muito tinham descoberto que se não podia ser proprietário de terras sem se ser frio. Mas todos eles se sentiam apanhados numa teia mais poderosa do que eles próprios. Alguns odiavam os algarismos que os impeliam, outros tinham medo, e outros adoravam os algarismos porque lhes serviam de refúgio para não pensarem nem sentirem. Se um banco ou uma empresa financeira era o dono da terra, o seu delegado dizia: “O Banco - ou a Companhia - precisa, quer, insiste, exige”, como se o Banco ou a Companhia fosse um monstro, com ideias e sentimentos, que os tivesse apanhado na rede. Estes não tomavam responsabilidades em nome dos bancos ou das companhias porque eram homens e escravos, ao passo que os bancos eram ao mesmo tempo máquinas e patrões. Alguns dos delegados sentiam-se um tanto orgulhosos de serem escravos de patrões tão frios e tão poderosos. Os senhorios ou os seus representantes sentavam-se nos carros e explicavam:

     - Vocês sabem que a terra é pobre. Vocês já a revolveram bastante tempo, como Deus sabe.

     Os rendeiros, acocorados no chão, acenavam com a cabeça, meditavam e desenhavam figuras no pó. Sim, eles sabiam, Deus sabia também. Se não fosse a poeira! Se, ao menos, eles pudessem adubar a terra, não seria tão mau.

     Os senhorios continuavam a chegar a brasa à sua sardinha:

     - Vocês sabem que a terra está cada vez mais pobre. Vocês sabem o que o algodão faz à terra: rouba-a, suga-lhe todo o sangue.

     Os colonos acenavam com a cabeça, que sabiam, que Deus sabia. Se pudessem alternar as plantações, podiam tornar a insuflar sangue na terra.

     - Sim, mas é muito tarde. E os senhorios explicavam os actos e os pensamentos do monstro, que era mais forte que eles. Um homem pode ter terra de renda, se ela lhe dá para comer e pagar impostos: assim pode tê-la.

     Sim, pode tê-la até que um dia as colheitas falham e ele tem de pedir dinheiro emprestado ao banco.

     - Vocês bem vêem; um banco ou uma companhia não podem viver assim, porque essas entidades não respiram ar, não comem carne. Respiram lucros; comem os juros sobre o dinheiro. Se os não obtiverem, morrem do modo por que vocês morrem: sem ar e sem carne. É uma coisa triste, mas é assim mesmo. Precisamente assim.

     Os homens, agachados, erguiam os olhos para compreender. Não seria possível esperar mais algum tempo? Talvez que o próximo ano seja um bom ano. Sabe Deus se haverá muito algodão no próximo ano? E, com todas as guerras, sabe Deus o preço a que o algodão chegará. Não se fazem explosivos de algodão? E uniformes? Arranjem bastantes guerras e o algodão subirá até ao tecto. No próximo ano, talvez. Olhavam para os senhorios com ar interrogativo.

     - Não podemos estar atidos a isso. O banco - o monstro - tem de recolher sempre lucros. Não pode esperar. Senão, morre. Não, os juros estão continuamente a subir. Quando o monstro pára de crescer, morre. Não pode estar sempre no mesmo tamanho.

     Dedos finos começavam a tamborilar no peitoril da janela do carro e dedos calosos apertavam mais os paus que esgaravatavam nervosamente no chão. Às portas das casas batidas pelo sol, onde moravam os rendeiros, as mulheres suspiravam e mudavam os pés, de modo que o que tinha estado para baixo, estava agora para cima, com os dedos a bulir. Os cães chegavam, farejavam perto dos carros dos senhorios e mijavam sucessivamente em todos os pneumáticos. E as galinhas agachavam-se na poeira quente e sacudiam as penas para que a poeira lhes descesse até à pele. Nas pequenas pocilgas, os porcos grunhiam, pedindo qualquer coisa, remexendo os restos enlodados das lavagens.

     Agachados, os homens tornavam a ferrar os olhos no chão.

     - Que querem os senhores que a gente faça? Não podemos tirar partilha menor da colheita; estamos quase a morrer de fome. As crianças andam sempre esfomeadas. Não temos roupas ; só farrapos. Se todos os vizinhos não estivessem na mesma, teríamos vergonha de ir ao culto.

     E, por fim, os senhorios chegaram ao ponto crucial.

     - O sistema de arrendamento não pode vigorar mais. Um só homem a guiar um tractor pode fazer o trabalho de doze ou catorze famílias Paguem-lhe um salário e ele toma para si toda a colheita. Temos de ver isso. É contra a nossa vontade. Mas o monstro exige-o. Não nos podemos opor a ele.

     - Mas vão matar a terra com algodão.

     - Bem sabemos. Temos de cultivar algodão depressa, antes que a terra morra. Depois vendemos a terra. Há centenas de famílias no Este que querem possuir um bocado de terra.

     Os rendeiros olharam para os carros, alarmados.

     - E, depois, o que vai suceder? Como havemos de comer?

     - Vocês têm de deixar a terra. Os arados rasgarão os vossos quintais.

     E agora os homens agachados ergueram-se, coléricos.

     O avô havia-se apoderado da terra; tivera de matar os índios e de os expulsar. E o pai nascera ali e matara ervas ruins e cobras. Depois, viera um ano mau e ele tivera de pedir algum dinheiro emprestado.

     - E nós nascemos aqui. Esses que estão ali às portas - os nossos filhos - nasceram aqui. E o pai teve de pedir dinheiro emprestado. O banco achou-se então dono da terra, e nós ficámos, mas apenas com uma pequena parte daquilo que colhíamos.

     - Nós sabemos isso, tudo isso. Não somos nós, é o banco. Um banco não é um homem. E um proprietário de cinquenta mil acres também não é como um homem. É um monstro.

     - Decerto - exclamaram os rendeiros - mas é a nossa terra. Medimo-la e rasgámo-la. Nela nascemos; fazemo-nos matar nela; Morremos nela. Apesar de não ser boa, mesmo assim é nossa. E isso que faz que ela seja nossa: termos nascido nela, trabalhado nela, morrido nela. Isto é que justifica o direito de propriedade e não um papel com algarismos escritos.

     - Sentimos muito. Mas não somos nós. É o monstro. O banco não é como um homem.

     - Sim, mas o banco só se compõe de homens.

     - Não, vocês enganam-se nisso; enganam-se redondamente. O banco é alguma coisa mais do que homens. Acontece que todos os homens odeiam o que o banco faz, e todavia o banco fá-lo. O banco é alguma coisa mais do que os homens, acreditem. É o monstro. Os homens fizeram-no mas não podem controlá-lo.

     Os rendeiros bramaram:

     - O avô matou índios, o pai matou cobras por causa da terra. Talvez nós possamos matar os bancos; são piores do que os Índios e as cobras. Talvez nós nos disponhamos a combater para conservar a nossa terra, corno fizeram o pai e o avô.

     E então chegou a vez de os senhorios ficarem zangados.

     - Vocês têm de sair daqui.

     - Mas a terra é nossa - vociferavam os rendeiros. - Nós...

     - Não é. O banco, o monstro, é o dono. Vocês têm de sair daqui.

     - Pegamos nas nossas espingardas, como o avô quando os Índios vieram. Que é que nos poderá acontecer?

     - Primeiro vem o xerife e depois a tropa. Serão ladrões se teimarem em ficar; serão assassinos se matarem para ficar. O monstro não é homem, mas pode arranjar homens para fazerem o que ele quer.

     - Mas, se sairmos daqui, para onde iremos? E como iremos? Estamos sem dinheiro.

     - Sentimos muito - disseram os senhorios. - O banco, o dono de cinquenta mil acres, nada tem com isso. Vocês estão em terra que não é vossa. Talvez que, para lá da divisa, vocês consigam arranjar trabalho no Outono, na colheita do algodão. Talvez consigam ser socorridos como indigentes. Porque não vão para o Oeste, para a Califórnia? Há lá muito trabalho e nunca faz frio. Ali, em qualquer parte, podem estender a mão e apanhar uma laranja. Ali há sempre uma ou outra plantação onde trabalhar. Porque não hão-de vocês de ir?

     E os senhorios puseram os carros em movimento e foram-se embora.

     Os rendeiros agachavam-se de novo para fazerem garatujas na poeira, para pensarem, para ponderarem. Os seus rostos queimados estavam sombrios e os olhos batidos de sol coruscavam. As mulheres saíram cautelosamente das portas das casas para o pé dos homens e as crianças arrastavam-se atrás das mães, cautelosas, prontas e fugir. Os rapazes mais crescidos agachavam-se ao lado dos pais, porque isso os fazia homens. Daí a pouco, as mulheres perguntavam:

     - Que é que eles querem?

     E os homens olhavam para elas um instante, com uma sombra de dor nos olhos.

     - Temos de sair daqui. Um tractor e um capataz. Como nas fábricas.

     - Para onde vamos? - perguntavam as mulheres.

     - Não sabemos. Não sabemos.

     E as mulheres iam-se embora, muito de mansinho, para dentro das casas, levando as crianças â sua frente. Sabiam que um homem assim aflito e embaraçado até é capaz de se zangar com as pessoas que ama. Deixavam os homens sozinhos, a pensar e a desenhar na poeira.

     Passado um bocado, o rendeiro ia dar uma vista de olhos à bomba posta há dez anos, com um manípulo em forma de pescoço de ganso e flores de ferro na boca, a um cepo onde centenas de galinhas tinham sido mortas, a um arado de mão pousado no telheiro e a uma grade suspensa por cima dele, nas vigas.

     As crianças arrebanhavam-se junto das mães, nas casas.

     - Que vamos fazer, mãe? Para onde vamos?

     As mulheres diziam:

     - Não sabemos ainda. Vão brincar. Mas não se aproximem do vosso pai. É capaz de vos bater se vocês se chegarem para o pé dele.

     E as mulheres continuavam a trabalhar, mas sem perderem de vista os homens agachados na poeira - perplexos e pensativos.

    

     Os tractores calcaram as estradas e invadiram os campos, como se fossem grandes répteis de ferro que se moviam como insectos e que tinham a força incrível dos insectos. Rastejavam pelo chão, cavando sulcos, rolando sobre eles e levantando-os tractores Diesel, vibrando quando parados, trovejando quando se moviam, baixando depois para uma zoada monótona. Monstros, de nariz chato, erguendo a poeira e enterrando o focinho nela, marchando a direito pelas terras, cruzando as terras através de cercas, de portais, dentro e fora de barrancos, em linhas rectas. Não corriam pelo solo, mas por estradas que eles próprios cavavam. Não faziam caso de colinas, nem de barrancos, de correntes de água, de valados ou de casas.

     O homem que se sentava no assento de ferro não parecia um homem; enluvado, de óculos, com uma máscara de borracha empoleirada sobre o nariz e a boca, era uma parte do monstro, um autómato no assento. O estrondo dos cilindros reboava pelos campos fora, em comunhão com o ar e com a terra, e assim, o ar e a terra ecoavam numa só vibração. O condutor não o podia controlar, ia através dos campos, cortando por uma dúzia de quintas e voltando horizontalmente. Um puxão nas alavancas podia desviar o monstro, mas as mãos do condutor eram impotentes para isso, porque o monstro que construíra o tractor, o monstro que expedira o tractor, tinham-se de qualquer modo introduzido nas mãos do condutor, no seu cérebro e nos seus músculos; tinham-no torcido e açamado - torcido o espírito, açamado a fala, torcido a sua percepção e açamado o seu protesto. Ele não podia ver a terra tal qual era, não podia sentir o cheiro que ela exalava; os seus pés não calcavam os torrões nem sentiam o calor nem a força do solo. Sentava-se num assento de ferro, e calcava pedais de ferro. Ele não podia estimular, fustigar, amaldiçoar ou incitar a extensão do seu poder, e, por causa. disso, não se podia estimular, fustigar, amaldiçoar ou incitar a si mesmo. Não conhecia nem possuía a terra, e nem nela confiava nem por ela implorava. Se uma semente lançada não germinasse, eis uma coisa que nada lhe dizia. Se uma tenra planta brutalizada secasse, mirrada pela estiagem. ou afogada numa avalanche de chuva, tanto caso fazia disso o condutor como a sua máquina.

     Ele nutria pela terra a mesma indiferença que o banco tinha por ela. Podia admirar o tractor - a sua estrutura mecânica, a plenitude da sua força, o rugido dos seus cilindros de detonação; mas o tractor não era seu. Atrás do tractor rolavam os discos brilhantes, cortando a terra com as lâminas - não era lavragem mas cirurgia, que repuxava a terra para a direita, quando a segunda fila de discos cortava e repuxava para a esquerda - lâminas brilhantes e aguçadas, polidas pela terra dilacerada. E, impelidas atrás dos discos, as grades penteavam com dentes de ferro os pequenos torrões, quebrando-os e deixando a terra lisa. Por detrás das grades, os semeadores compridos - doze ganchos recurvos de ferro saídos da fundição - ligados por engrenagens, movendo-se metodicamente, movendo-se sem paixão. O condutor sentava-se no seu assento de ferro e sentia-se orgulhoso das linhas rectas que ele não traçara, do tractor que ele não possuía nem amava e do poder que ele não podia controlar. E, quando aquela plantação crescia e era colhida, nenhum homem havia esmagado um torrão quente nem peneirado a terra por entre as pontas dos dedos. Nenhum homem tinha tocado a semente ou sentido alegria com a maturação. Os homens comiam o que não tinham cultivado não tinham ligação com o pão. A terra gerava debaixo de ferro e debaixo de terra gradualmente morria, porque não era amada nem odiada; não recebia bênçãos nem maldições.

    

     Ao meio-dia, o condutor do tractor parava, às vezes perto da casa de um rendeiro e abria a bolsa onde trazia a merenda: sanduíches embrulhadas em papel encerado, pão branco, conservas, queijo, um bocado de empada marcada como uma peça de máquina. Comia sem apetite. Os rendeiros, que se não tinham ainda mudado, vinham observá-lo, olhando curiosamente, enquanto ele tirava os óculos e a máscara de borracha, que lhe deixavam círculos brancos à volta do nariz e da boca. O escape do tractor baforava, porque o combustível é tão barato que é mais prático deixar o motor a trabalhar do que aquecer o Diesel para nova empreitada.

     Crianças curiosas apinhavam-se perto, crianças esfarrapadas, que comiam massa de farinha frita, a observarem. Observavam esfomeadamente o desembrulhar das sanduíches e os seus narizes, aguçados pela fome, aspiravam o cheiro da conserva, do queijo e da empada. Não falavam para o condutor. Observavam a mão dele ao levar o alimento à boca. Não o observavam quando mastigava; os seus olhos seguiam a mão que segurava a sanduíche. Decorrido algum tempo, um rendeiro que não se decidia a deixar aquele sítio, aproximou-se, acocorando-se na sombra, ao lado do tractor.

     - Olhe lá, você não é o filho do Joe Davis?

     - Pois claro que sou - respondeu o condutor.

     - Então porque anda a fazer esse maldito trabalho contra a sua própria gente?

     - Três dólares por dia. Estava farto de me consumir para conseguir o jantar. Tenho mulher e filhos. Precisamos de comer. Três dólares por dia, sem falhar um dia.

     - Não há dúvida - disse o rendeiro. - Mas, por causa dos seus três dólares por dia, ficam quinze ou vinte pessoas sem comer. Perto de uma centena de pessoas tem de sair daqui e de vaguear pelas estradas por via dos seus três dólares por dia. Acha justo?

     - Não quero saber disso. Tenho de pensar nos meus filhos. Três dólares por dia, sem falhar um único. Os tempos mudaram, amigo. Você não sabe? Não se pode viver da terra, a não ser que se possuam dois, cinco ou dez mil acres e um tractor. As plantações já não são para pobretanas como nós. Você não se põe a gemer porque não pode fabricar Fords ou porque não é a companhia dos telefones. A agricultura, agora, é assim. Não se pode fazer nada. A gente tem de ver se obtém três dólares por dia nalguma parte. É a única forma.

     - Sim, tudo isso é muito estranho - ponderou o rendeiro.

     - Mas, se um homem possui uma pequena propriedade, essa propriedade é parte dele, é semelhante a ele. Se ele possui uma propriedade assim, pode andar sobre ela, tratar dela e ficar triste quando ela não produz e sentir-se alegre quando a chuva a rega; essa propriedade é ele, é parte dele, é semelhante a ele. Mesmo que não seja bem sucedido, ele sente-se grande com a sua propriedade isto.

     E, parando um pouco, prosseguiu:

     - Mas, se um homem adquire uma propriedade que não vê, nem dispõe de tempo para lhe pôr os dedos, nem lá pode ir para a sentir debaixo dos pés, então, a propriedade sobrepõe-se ao homem. A propriedade é mais forte do que ele. E ele, em vez de ser grande, torna-se pequeno. Só as suas possessões são grandes e ele é o servo da sua propriedade. Esta é que é a verdade.

     O condutor devorou o resto da empada e atirou a côdea fora.

     - Você não vê que os tempos estão mudados? A pensar assim, você não dá de comer aos filhos. Veja se consegue ganhar três dólares por dia, para matar a fome aos filhos. Ninguém lhe passou procuração para se ralar com os filhos dos outros. Trate mas é dos seus. Daqui a pouco está para aí tudo cheio do que você diz e assim nunca chega a ganhar três dólares por dia. Os patrões não lhe dão três dólares por dia se se incomodar com outra coisa que não seja os seus três dólares por dia.

     - Por causa dos seus três dólares há bem umas cem pessoas na estrada. Para onde havemos de ir?

     - Isso faz-me lembrar que é melhor você tratar depressa da mudança. Tenho de atravessar o pátio da sua casa depois do jantar.

     - Você obstruiu o poço esta manhã.

     - Bem sei. Tinha de seguir em linha recta. Mas? depois de jantar, vou atravessar o pátio. Tenho de manter as linhas rectas. E, enfim, eu aviso-o disto por você conhecer o Joe Davis, lá o meu velho. Tenho ordens para, em toda a parte onde haja uma família que ainda se não tenha mudado, me chegar para bem perto assim como que seja por acidente, percebe você? - e escavacar um bocadito a casa, e, deste modo, meto no bolso uns dois dólares. E o meu filho mais novo ainda não soube o que eram sapatos.

     - Construi-a por minhas mãos. Endireitei pregos velhos para lhe pôr o forro. Liguei os barrotes às traves com arame de rolo. É minha. Construí-a eu. Se você vem para a derribar, eu apareço à janela com uma espingarda. Se você se aproxima muito, mato-o como a um coelho.

     - Mas se não sou eu o culpado! Nada posso fazer. Perco o meu emprego se não cumpro as ordens. E, olhe: suponhamos que você me mata. Que acontece? Enforcam-no a você, mas muito antes mesmo de você ser enforcado, aparece outro sujeito no tractor e ele então deitará a casa abaixo. Você não pode matar o verdadeiro responsável.

     - Sim, tem razão - assentiu o rendeiro. - Então quem lhe deu ordens? Vou procurá-lo. É esse tipo que eu devo matar.

     - Ai é que você se engana. Esse recebeu ordens do banco. O banco disse-lhe: expulse essa gente toda, senão, perde o seu emprego.

     - Sim, mas deve haver um presidente do banco. Deve haver um conselho de administração. Vou encher a espingarda de balas e entro no banco.

     - Mas ouvi dizer que o banco recebeu as ordens do Este - explicou o condutor. - E essas ordens eram: fazer com que a terra dê lucro ou então fechamo-vos a porta.

     - Aonde vai então isso parar? Quem devemos alvejar? Não quero morrer de fome sem matar o homem que me está a tirar o pão.

     - Não sei. Talvez que não haja ninguém a alvejar. Talvez que não seja de modo algum questão de homens. Talvez, como você disse, seja culpa da propriedade. Seja como for, já lhe disse as ordens que me deram.

     - Deixe-me pensar - disse o rendeiro. - Todos nós temos de pensar. Talvez haja maneira de evitar isto. Não pode ser como o relâmpago e o terramoto. Se os homens fizerem uma coisa má, haverá, por Deus, alguma coisa que se possa alterar.

     O rendeiro sentara-se à porta de sua casa e o condutor pôs o maquinismo, em movimento. Trilhos a abrirem-se e a encurvarem-se, as grades desterroando e os falos do semeador perfurando o solo. O tractor cortou através do pátio da casa, e o terreno duro, pisado pelos pés, tornou-se campo semeado, e o tractor continuou a retalhar; o espaço não cortado tinha dez pés de largo. E voltou para trás. A guarda de ferro enfiou no ângulo da casa, derrubou a parede e arrancou a pequena casa dos seus alicerces, de modo que ela caiu de lado, esmagada como um percevejo. E o condutor tinha óculos e uma máscara de borracha cobria-lhe o nariz e a boca. O tractor prosseguiu para a frente em linha recta; o ar e a terra vibraram com o seu fragor. O rendeiro olhava espantado para aquilo, de espingarda na mão, com a mulher ao lado e os filhos, quietos, atrás. E todos eles ficaram de olhos pasmados para o tractor.

    

     O reverendo Casy e o jovem Tom detiveram-se na colina, a olhar para a habitação dos Joads. A pequena casa, que nunca havia sido pintada, achava-se esmagada num dos cantos e tinha sido de tal modo deslocada dos seus alicerces que se afundara num dos ângulos, com. as janelas da frente apontando para um ponto do céu bastante acima do horizonte. As cercas tinham desaparecido; o algodão crescia no pátio, encostado à casa e também em volta do celeiro. Ao lado via-se o telheiro e, mesmo cosido com ele o algodão ia-se desenvolvendo. Onde o pátio tinha sido bem pisado pelos pés descalços das crianças, pelos cascos dos cavalos e pelas grossas rodas dos carros, o terreno achava-se agora cultivado, crescendo aí o algodão verde-escuro e coberto de poeira. O jovem Tom olhou espantado durante algum tempo para o salgueiro esgalhado ao lado do bebedouro seco do cavalo e para a base de cimento onde outrora existia a bomba.

     - Jesus! - exclamou ele por fim. - Andou por aqui o inferno. Não há por cá ninguém vivo.

     Depois, desceu pressurosamente a colina, com Casy atrás dele. Olhou para o celeiro abandonado, com um pouco de palha pelo chão e para o estábulo da mula a um canto. E, ao espreitar para dentro, viu uma família de ratos, que brincava no chão, esgueirar-se para debaixo da palha.

     Joad. parou à entrada do depósito de ferramentas onde nada viu, além do seguinte: um bico de arado partido, um molho de arame a um canto, uma roda de ferro de um ancinho e uma cabeçada de mula roída pelos ratos, uma lata achatada em que o óleo e a sujidade haviam depositado uma crosta e dois fatos-macacos pendurados num prego.

     - Não resta nada - disse Joad. - Tínhamos boas ferramentas. Não resta nada.

     - Eu, se ainda fosse pregador, diria que o golpe fora desferido pelo braço do Senhor - observou Casy. - Mas agora não sei o que aconteceu. Tenho andado por longe. Não ouvi falar em nada.

     Caminharam para a boca do poço de cimento, atravessando o algodão para lá chegar; as cápsulas estavam-se formando nos algodoeiros e a terra estava cultivada.

     - Nós nunca plantámos aqui - asseverou Joad. - Sempre conservámos este terreno limpo. Não podemos agora atrelar um cavalo neste sítio sem que ele pise os algodoeiros.

     Pararam junto ao manancial seco e as próprias ervas que deviam crescer à sua beira tinham desaparecido e a velha e densa vegetação encontrava-se ressequida e mutilada. Na boca do poço, os parafusos que rendiam a bomba estavam despregados com as enferrujadas e ás porcas desaparecidas. Joad olhou para do poço, cuspiu e escutou. Atirou um torrão para dentro do poço e escutou.

     - Era um bom poço - disse ele. - Não ouço a água. Pareceu pouco disposto a entrar em casa. Lançou torrão sobre torrão para o poço.

     - Talvez tivessem morrido todos. Mas, se fosse assim, alguém mo teria mandado dizer. Alguém me havia de informar de qualquer maneira.

     - Talvez tivessem deixado alguma carta ou indicação dentro de casa - observou Casy. - Eles sabiam que você estava para chegar?

     - Não sei. Não é natural. Nem eu mesmo o sabia antes da semana passada – respondeu Joad.

     - Vamos ver dentro de casa. Está toda fora dos eixos. Parece que andou o diabo por aqui.

     Desceram lentamente para a casa escalavrada. Dois dos suportes do telhado da varanda haviam sido arrancados, de modo que o telhado pendia para um lado. E o canto da casa estava metido para dentro. Através de uma barafunda de madeira esfrangalhada, via-se o quarto do canto. A porta da frente descaía para dentro e uma cancela baixa e forte, ligada à porta da frente, pendia para fora, nos seus gonzos de couro.

     Joad parou num degrau, um degrau de madeira de doze polegadas por doze.

     - Estão aqui os degraus da porta - disse ele. - Mas ou eles se foram, ou a mãe morreu. - Apontou para a cancela da porta da frente. - Se a minha mãe andasse por aqui perto, aquela cancela estaria fechada com a aldraba. Era uma coisa que ela fazia sempre: ver se aquela cancela estava fechada. - Os seus olhos estavam vermelhos. - Foi desde que o porco se escapuliu para casa do Jacobs e comeu a criança. Milly Jacobs tinha saído naquele momento para o celeiro. Quando voltou, ainda o porco estava a comer o menino. Milly Jacobs, que estava outra vez grávida, nunca mais recuperou o juízo. Mas a mãe apanhou uma lição. Nunca deixava a cancela do porco aberta, a não ser que ela estivesse em casa. Nunca mais se esqueceu. Não; eles, ou tinham ido embora ou morreram.

     Trepou à varanda desmantelada e olhou para a cozinha. As janelas estavam partidas e havia pedras dispersas pelo chão; as paredes e o soalho estavam desencaixados da porta e as tábuas cobertas de fina poeira.

     Joad apontou para os vidros quebrados e para as pedras, dizendo:

     - Os miúdos! São capazes de andar vinte milhas para quebrar uma janela. Eu também já fiz isso. Adivinham quando uma casa está vazia; oh, se adivinham! É a primeira coisa que os garotos fazem quando alguém se muda.

     A cozinha não tinha mobília; o fogão tinha-se ido, e o buraco do cano do fogão na parede deixava entrar a luz. Na prateleira da pia estava um abridor velho de garrafas de cerveja e um garfo partido sem o cabo de madeira. Joad entrou cautelosamente no quarto e o soalho rangeu sob o seu peso. Um exemplar velho do Cura de Filadélfia, estava no chão, encostado à parede, com as Páginas amarelecidas e enroladas. Joad olhou para o quarto de dormir, sem cama, sem cadeiras, sem nada. Da parede, pendia uma estampa a cores de uma rapariga indiana, com o título: “Asa vermelha”. Havia, encostada à parede, uma tábua de cama. A um canto, uma bota de mulher, das de botões até acima, retorcida na frente e rachada no peito do pé. Joad apanhou-a e pôs-se a mirá-la.

     - Bem me lembro - disse ele. - Era da mãe. Está toda rota agora. A mãe gostava destas botas. Usou-as durante anos. Não; eles foram-se e levaram tudo.

     O Sol tinha baixado, ao ponto de entrar agora pelas janelas de canto, faiscando nos recortes do vidro quebrado. Joad voltou-se por fim e saiu atravessando a varanda. Sentou-se à entrada e descansou os pés descalços no degrau de doze por doze. A luz da tarde incidia sobre os campos e as plantas de algodão projectavam longas sombras no solo; o mesmo acontecia com o salgueiro esgalhado.

     Casy sentou-se ao lado de Joad.

     - Eles nunca lhe escreveram nada? - perguntou.

     - Não. Como disse, não era gente para escrever. O meu pai sabia - escrever, mas não escrevia. Não gostava. Quase lhe davam calafrios só de pensar nisso. Sabia encomendar um catálogo tão bem como qualquer outro, mas lá cartas é que não escrevia.

     Estavam sentados lado a lado, olhando ao longe. Joad pôs o casaco enrolado na varanda, ao seu lado. Com as mãos livres enrolou um cigarro, alisou-o e acendeu-o; engoliu fundo o fumo e deitou-o pelo nariz.

     - Aconteceu coisa grave - disse ele. - Mas não consigo adivinhar o que foi. Cheira-me a catástrofe. Esta casa desmantelada e a minha gente desaparecida!

     - Ali mesmo era o fosso onde eu f azia os baptizados - observou Casy. - Você não era mau mas era muito teimoso. Agarrou-se à trança da rapariguinha como um buldogue. Baptizei-os a ambos em nome do Espírito Santo, mas você não largava a trança. O velho Tom disse: “Mergulhe-o debaixo de água.” E, assim, eu afocinhei-lhe a cabeça até que você começou a fazer bolhas debaixo de água e só então é que largou a rapariga. Você não era mau, mas era muito teimoso. Às vezes um rapaz teimoso cresce com uma grande dose de espírito dentro de si.

     Um gato magro e cinzento saiu do celeiro e arrastou-se através dos algodoeiros até à entrada da varanda. Pulou silenciosamente para cima e arrastou-se de barriga baixa para junto dos homens. Parou atrás dos dois e então sentou-se com o rabo estendido e direito no chão, com a ponta a chicotear cadenciadamente o chão. O gato olhava para o ponto distante para que os homens olhavam também...

     Joad voltou-se e viu-o.

     - Por Deus! Veja o que está ali. Houve alguém que ficou. Estendeu a mão, mas o gato fugiu do seu alcance e sentou-se a lamber as calosidades da pata levantada. Joad olhou para ele meditativo.

     - Já sei o que houve - exclamou. - Este gato acaba de anunciar o que aconteceu.

     - Parece que aconteceram muitas desgraças - sentenciou Casy.

     - Sim, mas há mais famílias que saíram além da minha. Porque é que este gato se não mudou para cá com os vizinhos, com os Rance, por exemplo? Porque é que ninguém veio arrancar uns bocados de madeira a esta casa? já não mora aqui ninguém há uns três ou quatro meses e ninguém roubou nada. Belas pranchas no alpendre do celeiro, pranchas de estalo na casa, caixilhos de janela e ninguém os levou. Isto não está certo. E isto que me está a fazer confusão, e que eu não posso perceber.

     - Então o que é que você tira disto tudo?

     Casy curvou-se, tirou os sapatos de lona e revolveu os dedos dos pé s no degrau.

     - Não sei. O que me parece é que já não há vizinhos. Se houvesse, estariam aqui todas essas belas pranchas? Não, por Jesus Cristo! Alberto Rance levou uma ocasião, pelo Natal, toda a família: crianças, cães e tudo para a cidade de Oklahoma. Foram visitar UM primo de Alberto. Então a gente daqui pensou que o Alberto se tinha mudado sem dizer nada; imaginou talvez que ele tinha dívidas ou que trazia alguma mulher à perna. Quando o Alberto voltou uma semana depois, nada restava na casa: o fogão desaparecera, as camas também, os caixilhos das j anelas e oito pés de tabuado do lado sul da casa sumiram-se, de modo que se podia ver a luz por ela. Apareceu precisamente quando o Muley Graves se estava escapulindo com as portas e a bomba do poço e Alberto levou duas semanas a farejar pelas casas dos vizinhos, a fim de lhe restituírem o que era seu.

     Casy esfregou os dedos dos pés com volúpia.

     - Ninguém se opôs a isso? Todos lhe restituíram o que tinham levado?

     - Sem dúvida. É que eles não tinham roubado. Pensaram que aquilo estava abandonado e pegaram-lhe. Apanhou tudo menos uma almofada de sofá, de veludo com uma ânfora de índio. Alberto afirmava que quem a tinha era o avô. Dizia que o avo tinha sangue índio e que, por isso, é que gostava daquela ânfora. Sim, o avô é que a tinha, mas queria ele lá bem saber da ânfora pintada! Do que gostava, e muito, era da almofada. Costumava andar com ela e colocava-a onde se ia sentar. Nunca a restituiu ao Alberto. Dizia: “Se o Alberto tem tanto empenho nesta almofada, que ma venha tirar. Mas é melhor que venha armado, porque lhe dou um tiro naquela cabeça fedorenta se ele se atreve a mexer na minha almofada.” E foi assim que o Aberto cedeu e fez presente daquela almofada ao avô. Mas meteu-lhe uma cisma na cabeça. Pôs-se a juntar penas de frango. Dizia que ia arranjar uma cama toda de penas. Mas nunca a arranjou. Um dia, o pai ficou maluco com um zorrilho que andava debaixo da cama. O pai matou-o à paulada e a mãe teve de queimar todas as penas que o avô juntara para que nós pudéssemos continuar a viver na casa. - E riu-se. - O avô era um tipo teimoso como um raio. Mal se sentava na almofada, dizia: “Que o Alberto ma venha tirar. Pego naquele gasnete e torço-o como um par de ceroulas.”

     O gato tornou a arrastar-se pelo meio dos dois homens com o rabo estendido e os bigodes eriçados de quando em quando. O Sol descia, avizinhando-se do horizonte, e o ar poeirento tornou-se vermelho e doirado. O gato estendeu uma pata interrogativa e tocou no casaco de Joad. Este olhou em redor.

     - Diabo, esqueci-me do cágado! Não vou carregar com ele toda a vida!

     Desenrolou o animal e empurrou-o para dentro da casa. Mas, num momento, o animal estava cá fora, com a cabeça virada para sudoeste, como estivera desde o princípio., O gato pulou sobre ele, bateu-lhe na cabeça resistente, e deu-lhe sapatadas nos pés, que se agitavam. A cabeça velha, dura e escarninha enfiou-se para dentro, o rabo abrigou-se debaixo da concha, e, quando o gato se cansou de esperar e se raspou, o cágado tornou a voltar-se para sudoeste.

     O jovem Tom Joad e o pregador observavam o cágado a marchar, ondeando as pernas e carregando com a concha pesada e abaulada rumo a sudoeste. O gato seguiu-o de rastos por algum tempo, mas, dentro de umas doze jardas, arqueou o dorso numa grande curva, escancarou a boca num bocejo e regressou furtivamente para junto dos homens sentados.

     - Para onde diabo supõe o senhor que ele vá? - interrogou Joad.

     - Tenho visto cágados toda a minha vida. Levam sempre qualquer destino. Parece que têm sempre pressa de lá chegar.

     O gato cinzento tornou a sentar-se entre eles. De vez em quando, piscava os olhos. A pele das espáduas estremeceu à mordedura de uma pulga e depois assentou de novo. O gato levantou uma pata, examinou-a, moveu as garras e lambeu os bigodes com a língua rosada como uma concha. O sol escarlate tocava o horizonte e espraiava-se como uma actínea; o céu, em cima, parecia muito mais brilhante e mais vivo do que anteriormente. Joad desenrolou o casaco, tirou os sapatos novos e, antes de os calçar, escovou os pés empoeirados com a mão.

     O pregador, espraiando o olhar ao longo dos campos, disse:

     - Vem ali gente. Olhe! Ali em baixo, mesmo no meio do algodoal.

     Joad olhou para onde o dedo de Casy apontava.

     - Vem a pé. Não o vejo por causa da poeira que ele levanta. Quem diabo virá para aqui?

     Observaram a figura a aproximar-se à luz da tarde e a poeira que ela levantava tomava os reflexos do sol poente.

     - É um homem - anunciou Joad.

     O homem aproximou-se e, quando ia a passar o celeiro, Joad disse:

     - Mas eu conheço-o. O senhor conhece-o. É o Muley Graves. - E chamou. - Ó Muley! Como estás?

     O homem que vinha a aproximar-se estacou sobressaltado pelo chamamento e pôs-se a andar mais depressa. Era um sujeito magro, um tanto baixo. Tinha movimentos sacudidos e rápidos. Trazia um saco de juta na mão. As suas calças azuis estavam desbotadas nos joelhos e no assento, e usava um casaco preto, velho, sujo e manchado, com as mangas quase arrancadas dos ombros e com grandes buracos nos cotovelos. O chapéu preto estava tão sujo como o casaco, e a fita, quase solta, ondeava ao vento conforme ele caminhava. O rosto de Muley era liso e sem rugas, mas o seu olhar era agressivo como o de uma criança mal comportada, com a boca pequena e cerrada, os olhos meio escarninhos, meio petulantes.

     - Lembra-se do Muley? - perguntou Joad, em voz baixa, ao pregador.

     - Quem está aí? - interrogou o homem que avançava.

     Joad não respondeu. Muley chegou-se mais perto, muito perto, antes de conseguir identificar os rostos.

     - Oh, quem havia de dizer! - bradou ele. - É o Tom Joad. Quando é que saíste, Tommy?

     - Há dois dias - respondeu Joad. - Levou-me pouco tempo a chegar a casa. Consegui que me dessem umas boleias pelo caminho. E olha o que eu venho encontrar! Onde pára a minha gente, Muley? Porque é que a casa está toda mutilada e há algodão plantado no pátio?

     - Por Deus, felizmente que te encontro! - disse Muley. - Porque o velho Tom ficou muito apoquentado. Quando se estavam a mudar, eu estava sentado aí na cozinha. Eu dizia a Tom que não me mudava nem por ordem de Deus. Dizia-lhe isso e Tom ia-se queixando: “Estou muito apoquentado por causa do Tommy. Suponhamos que ele chega e não acha ninguém aqui. Que irá ele pensar?” E eu digo: “Por que não lhe escreve você uma carta?” E o Tom disse: “Talvez escreva. Vou pensar nisso. Mas, se não escrever, fica de olho alerta ao Tommy, se ainda por aqui estiveres.” “Estarei por aqui”, disse eu. “Estarei por aqui, até que o inferno se gele de todo. Não há ninguém com forças de expulsar desta terra um homem com o nome de Graves.” E ninguém se atreveu a isso.

     Joad inquiriu impacientemente:

     - Mas onde está a minha gente? Disseste que estiveste com eles até ao fim; mas onde está a minha gente?

     - Bem, eles estiveram até à última, quando o banco meteu o tractor por dentro do terreno. O teu avô saiu para a rua com uma espingarda e estilhaçou os faróis do tractor, mas este fez a sua obra na mesma. O teu avô não quis matar o homem que o conduzia, que era o Willy Freely. E o Willy bem o sabia? por isso ele avançou e pintou a manta em volta da casa, dando-lhe uma sacudidela como um cão sacode um rato. Foi um golpe tremendo para o Tom. Nunca mais foi o mesmo.

     - Mas onde pára a minha gente? - bramiu Joad, em tom irado.

     - É o que te ia a dizer. Levaram tudo em três viagens na carroça do tio John. Levaram o fogão, a bomba e as camas. Devias tê-los visto com todos os miúdos em cima das camas, a tua avó e o teu avô encostados ao espaldar, o teu irmão Noah sentado a fumar um cigarro e a cuspir para o lado da carroça.

     Joad abriu a boca para falar.

     - Estão todos em casa do tio John - informou. finalmente Muley.

     - Oh! Todos em casa do John. Mas que estão a fazer lá? Espera um segundo, Muley. Daqui a um minuto podes continuar o teu caminho. Que estão eles lá a fazer?

     - Olha, estiveram a colher algodão, todos eles - até as crianças e o teu avó. A ver se, trabalhando todos, arranjavam dinheiro, para se mudarem para o Oeste. - comprar um carro e mudar-se para o Oeste, onde a vida é mais fácil. Aqui não presta para nada. Cinquenta centavos por um acre de algodoeiros e a gente anda a pedir trabalho por amor de Deus.

     - Mas ainda não foram?

     - Não - respondeu Muley. - Não, que eu saiba. Da última vez que tive notícias deles foi há quatro dias, quando encontrei o teu irmão Noah a caçar lebres e que me disse que faziam tenção de partir dentro de duas semanas. O John também recebeu ordem de despejo, São oito milhas daqui até à casa do John. Encontras a tua gente empilhada como esquilos numa lura de inverno.

     - Bem - disse Joad. - Agora podes seguir o teu caminho. Não estás nada mudado, Muley. Se pretendes dar informações de alguma coisa que aconteceu no Noroeste, viras logo o nariz para o Sudoeste.

     Muley replicou, em represália:

     - E tu também não mudaste. Eras um garoto muito atrevido e ainda és muito atrevido. Não me queiras ensinar a tirar as castanhas do lume, não?

     Joad arreganhou os dentes.

     - Decerto que não. Se magicares em meter a cabeça numa pilha de vidros partidos, ninguém te pode desviar disso. Não conheces este pregador, Muley? O reverendo Casy.

     - Oh, muito bem. Não tinha dado por ele. Lembro-me perfeitamente.

     Casy ergueu-se e os dois homens apertaram as mãos.

     - Muito prazer em tornar a vê-lo - cumprimentou Muley. - Há um ror de tempo que não aparece por aqui.

     - Tenho andado por fora, a ver o mundo - disse Casy. - Que aconteceu aqui? Porque estão escorraçando a gente desta terra?

     A boca de Muley cerrou-se tão hermeticamente que a parte central do lábio superior se sumiu dentro do inferior. E vociferou:

     - Esses filhos da mãe! Esses malvados desses filhos da mãe! É o que eu lhes digo: eu cá, fico. Não se vêem livres de mim. Se me expulsarem, volto, e, se imaginam que me podem tirar o fôlego, levo três filhos da mãe comigo de companhia. - Bateu num volume grosso que trazia num dos bolsos do casaco.- Eu não vou. Meu pai veio para aqui há cinquenta anos. E eu, não saio.

     Joad perguntou:

     - Que ideia foi essa de escorraçarem a gente?

     - Oh! Treta não lhes falta. Tu sabes que anos nós temos tido. A poeira a estragar tudo e um homem sem colheita que chegue para encher um cesto. E toda a gente fez dívidas na mercearia. Sabes como isso é. Bem, os tipos que possuem a terra, dizem: “Não podemos ter rendeiros.” E dizem: “A parte que um rendeiro tem é precisamente a margem de lucro que não podemos perder.” E dizem: “Se pusermos a terra num bloco, nem assim o rendimento dela é vantajoso.” E, por isso, enxotaram com o tractor todos os rendeiros da terra. Todos, excepto eu, que, por Deus, não saio. Tommy: tu conheces-me. Toda a tua vida me tens conhecido.

     - Não há dúvida, Muley, toda a minha vida.

     - Bem, tu sabes que não sou nenhum parvo. Bem sei que esta terra pouco presta. Para quase mais nada serve senão para pastagens. Nunca produziu bem. E agora quase a matam com o algodão. Se me não dissessem que devia ir-me embora, era provável que eu, a estas horas, estivesse na Califórnia, a papar uvas e a descascar uma laranja quando me apetecesse. Mas, mandarem-me embora esses filhos da mãe, isso não, por Jesus Cristo. Um homem como eu não se submete assim.

     - Certamente - disse Joad. - A mim admira-me como o meu pai saiu com tanta facilidade. Espanta-me como o meu avô não matou ninguém. Nunca ninguém fez imposições ao avô. E a minha mãe também não é para brincadeiras. Uma vez vi-a bater desalmadamente num funileiro ambulante com uma galinha viva, porque ele se pôs a berrar com ela. Tinha a galinha numa mão e o machado na outra, pronto para lhe cortar a cabeça. Ela tencionava alvejar o funileiro com o machado, mas esqueceu-se em que mão o tinha e pespegou-lhe com a galinha em cima. Deu cabo da galinha a zurzir o homem e não a pôde comer, porque lhe ficaram só as pernas na mão. O avô quase se mijou a rir. Como se foi então a minha gente embora com tanta facilidade?

     - O tipo que veio falava com a doçura de um pastel de nata. “Vocês têm de sair. A culpa não é minha.” “Então, disse eu, de quem é a culpa, que eu vou dar cabo do sujeito?” “E da Companhia Shawnee de Terras e de Gado. Eu apenas recebi ordens.” “Quem é a Companhia Shawnee de Terras e de Gado?” “Não é ninguém. É uma companhia.” Punham um homem maluco. Não havia ninguém a quem a gente pudesse deitar a mão. Toda a gente se cansou de andar à procura de alguém contra quem se assanhar. Todos excepto eu. Eu conservei-me sempre assanhado. E por isso fiquei.

     Uma faixa larga e vermelha de sol demorou-se no horizonte, depois estreitou-se e desapareceu. O céu ficou brilhante no lugar onde ela havia desaparecido, e uma nuvem, esfarrapada como um trapo ensanguentado, ficou suspensa sobre o ponto onde o sol se sumira. O crepúsculo começou, pouco a pouco, a invadir o céu, vindo de leste, e a escuridão assenhoreava-se da terra, vinda do oriente. A estrela da tarde faiscava e cintilava no crepúsculo. O gato cinzento esgueirou-se para o celeiro aberto e passou para dentro como uma sombra.

     Joad disse:

     - Bem, nós não vamos esta noite andar oito milhas para chegar a casa do tio John. Tenho os pés a arder. E se nós fôssemos para tua casa, Muley? É apenas uma milha.

     - Não sei como há-de ser. - parecia embaraçado. - A minha mulher, os pequenos e meu cunhado foram todos para a Califórnia. Não havia nada que comer. Não estavam tão assanhados como eu, e, por isso, foram-se. Não havia nada que comer aqui.

     O pregador mexeu-se, nervoso.

     - Você também devia ter ido. Não devia ter deixado a família dividir-se.

     - Não pude - respondeu Muley Graves. - Havia o que quer que fosse que me prendia.

     - Por Deus, que estou com fome - disse Joad.- Há quatro anos inteirinhos que eu comia a horas certas. Estou com tanta fome que até me parece que comia um homem. Que vais tu comer, Muley? Como é que arranjas de jantar?

     Muley confessou envergonhado:

     - Durante algum tempo comi rãs, esquilos e algumas vezes cães do mato. Não tive outro remédio. Mas, agora, ponho armadilhas de arame no matagal do riacho seco. Apanho coelhos e, às vezes, uma galinha do mato. Também apanho zorrilhos e coatis.

     Abaixou-se, pegou no saco e esvaziou-o na varanda. Dois coelhos e uma lebre caíram do saco e rolaram, macios e felpudos, molemente pelo chão.

     - Deus do céu! - exclamou Joad. - Há mais de quatro anos que não como carne assim fresca!

     Casy pegou num dos coelhos e segurou-o na mão.

     - Vamos comer contigo, não, Muley Graves? - perguntou ele.

     Muley mostrou-se embaraçado.

     - Não há outro remédio. - Inquietou-se com o tom pouco delicado das suas palavras. - Não é bem isso o que eu queria dizer. Não é bem isso - gaguejou-o que eu queria dizer é que, se um sujeito está com fome, então o primeiro sujeito não tem outro remédio. Quero dizer: suponhamos que eu apanho os meus coelhos e vou para qualquer lado e os como. Compreendes?

     - Compreendo muito bem - respondeu Casy. - Compreendo muito bem. O Muley teve qualquer ideia. Mas nem ele a pode explicar nem eu posso percebê-la.

     O jovem Tom esfregou as mãos.

     - Quem tem uma navalha? Vamos esfolar esses miseráveis roedores. Vamos a eles!

     Muley procurou no bolso das calças e tirou uma grande navalha de cabo de chifre. Tom Joad pegou nela, abriu a lâmina e cheirou-a. Enterrou mais de uma vez a lâmina no chão e tornou a cheirá-la, limpou-a à perna da calça e experimentou-lhe o fio no polegar.

     Muley tirou uma garrafa de água do bolso traseiro da calça e pô-la na varanda.

     - Poupa essa água - advertiu ele. - É tudo o que há. Este poço aqui está obstruído.

     Tom tomou um coelho na mão.

     - Um de vocês vai buscar um pouco de arame de enfardar ao celeiro. Faremos lume com um bocado de madeira da casa. - Olhou para o coelho morto. - Não há nada tão fácil de aprontar como um coelho.

     Levantou a pele das costas do animal, golpeou-a, meteu os dedos no buraco e puxou-a. Escorregava do corpo como uma meia; assim esfolou o corpo até ao pescoço e as pernas até às patas.

     Joad tornou a pegar na navalha e cortou a cabeça e as patas. Pôs a pele de lado, golpeou o coelho ao longo das costelas, tirou os intestinos para fora, atirou-os para cima da pele e depois jogou toda aquela miscelânea para o meio dos algodoeiros. E o pequeno corpo de músculos nus estava pronto. Joad retalhou as pernas e a carne do dorso em duas partes. Estava deitando a mão ao segundo coelho quando Casy voltou com um rolo de arame de fardo na mão.

     - Agora preparem um lume e preguem umas estacas no chão - ordenou Joad. - Jesus Cristo, que fome eu tenho destes bichos!

     Limpou e cortou o resto dos coelhos e enfiou a carne no arame. Muley e Casy racharam tábuas do canto arruinado da casa e principiaram a fazer lume; pregaram também uma estaca no chão de cada lado, para segurar o arame.

     Muley voltou-se para Joad.

     - Vê lá se a lebre tem algum tumor - disse ele. - Não gosto de comer lebres com tumores.

     Tirou uma pequena saca de pano da algibeira e pô-la na varanda.

     Joad respondeu:

     - A lebre estava tão limpa como um assobio. Também trazes sal, graças a Deus! Não terás também pratos e uma barraca de campanha no bolso? Tirou uma porção de sal e espalhou-o sobre os pedaços de coelho esticados no arame,

     O fogo pulava, lançando sombras vermelhas pela casa e a madeira seca estalava, crepitando. Agora o céu escurecia quase por completo e as estrelas brilhavam com limpidez. O gato cinzento saiu do alpendre do celeiro e trotou, a miar, para o pé do fogo, mas, quase ao chegar ali, voltou-se e correu para um dos pequenos montes de entranhas de coelho que estavam no chão. Mastigava e engolia as entranhas que lhe pendiam da boca. Casy sentou-se no chão, ao lado do fogo, alimentando-o com gravatos, metendo as tábuas grandes para dentro, à medida que as chamas lambiam os ramos. Os morcegos atiravam-se para a luz do fogo, mas depressa tornaram a afastar-se. O gato tornou a aproximar-se do lume, lambeu os beiços e lavou o focinho e os bigodes.

     Joad segurou o arame cheio de carne de coelho entre as mãos e caminhou para o lume.

     - Pega aqui nesta ponta, Muley! Enrola a tua ponta naquela estaca. Fixe! Estica daí. Devíamos esperar até que o fogo estivesse em brasido, mas não tenho coragem, para isso.

     Retesou o arame, depois pegou num pau e espalhou os bocados de carne ao longo do arame até ficarem todos bem ao calor, do lume. As chamas subiam em volta da carne e endureciam e vidravam as superfícies. Joad sentou-se ao pé do lume; com o pau movia e virava o coelho para que ele se não colasse ao arame.

     - Isto é um banquete - disse ele. - O Muley trouxe tudo: o sal, a água e os coelhos. Só faltou trazer um prato de papas de milho na algibeira. Tornara-o eu!

     Muley falou do lado de lá do lume:

     - Vocês hão-de pensar talvez que eu ando maluco, por causa da maneira como vivo.

     - Maluco, tu? Quem pensa nisso? - atalhou Joad. - Se estás maluco, então toda a gente está maluca.

     Muley continuou:

     - Sim, é um caso curioso. Realmente fiquei quase fora de mim quando me intimaram a abandonar estes sítios. Primeiro, só me davam ganas de matar uma porção de gajos. Depois, toda a minha família debandou para o Oeste. E eu pus-me a vaguear por estas redondezas. A vaguear sem destino. Mas nunca ia para longe. Dormia onde calhava. Esta noite ia dormir aqui. Eis a razão por que vim. Dizia de mim para mim: “Ando a fazer guarda para que, quando todos voltarem, encontrem tudo em ordem.” Mas eu sabia que isso não era verdade. Não há nada a que fazer guarda. E a gente nunca mais volta. Continuo a vaguear por aqui como uma alma penada.

     - Quando um homem se acostuma a um lugar, custa-lhe a deixá-lo. já não sou pregador, mas ando sempre a fazer pregações, sem mesmo saber que as estou a fazer.

     Joad revirou os pedaços de carne no arame. A gordura pingava e cada gota que caía no lume levantava um esguicho de chama. A superfície lisa da carne engelhava e adquiria um tom bronzeado.

     - Cheirem-na! - convidou Joad. - Abaixem a cabeça e cheirem-na.

     Muley prosseguiu:

     - Como uma alma penada. Andei a frequentar os lugares onde a coisa aconteceu. Para lá da nossa casa há um barranco com uma mata. A primeira vez que estive com uma rapariga foi ali. Tinha catorze anos e pulava, corria e resfolegava como um veado e espirrava como um bode. E, por isso, fui ali, deitei-me no chão e tornei a ver tudo tal como tinha acontecido. Ainda lá está o lugar ao pé do celeiro onde o meu pai foi ferido de morte por um touro. E o seu sangue ainda tinge aquele chão. Ainda deve tingir. Ninguém o lavou. E eu pus a mão naquele terreno ensopado pelo sangue de meu pai. - Parou inquieto. - Vocês pensam talvez que eu ando maluco?

     Joad virou a cara e ficou a meditar. Casy, de pés erguidos, olhava para o fogo. A quinze pés dos homens, o gato, regalado, sentara-se, com o rabo cinzento e comprido muito bem arrumado sobre as patas da frente. Uma coruja grande guinchou ao passar e o lume iluminou-lhe o ventre branco e o leque das asas.

     - Não - comentou Casy. - Podes estar desolado, mas maluco, não.

     O pequeno rosto contraído de Muley imobilizara-se:

     - Pus a mão no terreno onde aquele sangue ainda se vê. E vi o meu pai com um buraco no peito, e senti-o tremer contra o meu corpo, exactamente como tremeu, e vi-o cair, inteiriçando as mãos e os pés. E vi os seus olhos enevoados pela dor, e ficar depois sem se mexer e com os olhos tão claros a olhar para cima... E eu, que era um garoto, ali estava sentado à beira, sem chorar nem nada, para ali sentado.

     Sacudiu a cabeça bruscamente. Joad virou e revirou a carne.

     - E entrei no quarto onde nasceu o meu Joe. A cama já lá não estava, mas estava o quarto. E todas estas coisas eu vi, precisamente no lugar onde aconteceram. O Joe veio ali à luz. Soltou um suspiro e depois deu um berro que se podia ouvir a uma milha e a avó, que estava lá, disse: “Que beleza de menino, que beleza!” Ficou tão inchada que até partiu três chávenas nessa noite.

     Joad pigarreou:

     - E melhor irmos já a essa comida.

     - Deixa-a assar bem, como deve ser, até ficar quase preta - obtemperou Muley, um tanto irritado. - Preciso de falar. já há muito que não falo com ninguém. Se estou maluco, estou maluca e pronto. Tenho andado para aí como uma alma penada, a visitar as casas dos vizinhos, de noite. A do Peter, a do Jacob, a do Rance, a do Joad, e estavam todas escuras como tocas miseráveis de ratos. Mas houve lá bons jantares e bailes; rezas e cânticos sagrados. Houve casamentos em todas essas casas. Quando me lembrava disto, apetecia-me ir à cidade e dar cabo de uma porção de gente. Que é que eles vão ganhar, expulsando a gente da terra com o tractor? Que fazem eles para que lhes fique a tal margem de lucro? Escorraçam-me do terreno onde meu pai morreu, onde Joe soltou o primeiro vagido e da mata onde eu de noite espinoteava como um bode. Que lucram eles? Deus sabe que a terra não presta. Há anos que ninguém consegue uma colheita. Mas esses filhos da mãe, à secretária, acabam por cortar-nos ao meio por causa da sua margem de lucro. É isso: cortam a gente ao meio. O lugar onde as pessoas vivem - isso é que é a família. Agora, sozinhas na estrada, as pessoas, num carro apinhado de gente, já não são bem elas. já não estão vivas. Esses filhos da mãe mataram-nas.

     E ficou calado, com os lábios delgados ainda a agitarem-se, e com o peito a arfar. Sentou-se e olhou para as mãos, à luz do fogo.

     - Há muito tempo que não falo com ninguém - disse ele com o ar amável de quem pede desculpa. - Tenho estado perdido para aí como um fantasma.

     Casy empurrou as tábuas grandes para o lume; logo as chamas as lamberam, pulando outra vez em direcção à carne. A casa rangeu alto quando o ar mais frio da noite contraiu a madeira. Casy disse compassadamente:

     - Tenho de ir ao encontro dessa gente que anda por essas estradas. Sinto que tenho de ir ter com eles. Eles precisam de auxílio, que nenhum pregador lhes pode dar. Esperança no Céu, quando as suas vidas já não são vidas? Espírito Santo, quando o seu próprio espírito está abatido e triste? Precisam de auxílio. Precisam de viver antes que lhes seja dado morrer.

     Joad exclamou nervosamente:

     - Jesus Cristo, comamos esta carne antes que ela fique mais pequena do que um rato assado. Olhem para ela. Cheirem-na. - Pôs-se em pé e fez escorregar os pedaços de carne ao longo do arame até os afastar do fogo; pegou na navalha de Muley e cortou um pedaço de carne até o libertar do arame. - Esta é para o pregador - disse ele.

     - Já lhe disse que não sou pregador.

     - Bem, então aqui está para o homem. - Cortou outro pedaço. - Este é para ti, Muley, se não estás demasiado acabrunhado para comeres. Isto é lebre. Mais dura que carne de vaca. - Voltou a sentar-se, fincou os dentes na carne, arrancou um pedaço e pôs-se a mastigá-lo. - Jesus Cristo! Corno ela está gostosa! - E, arrancando outro pedaço, mordeu-o sofregamente.

     Muley ainda estava a olhar para o pedaço dele.

     - Talvez que não devesse ter falado assim - disse. - Devia talvez ter guardado isto só para mim.

     Casy olhou-o com a boca atafulhada de coelho. Mastigava, e a sua garganta musculosa convulsionava-se ao engolir.

     - Não, você fez bem em falar. Às vezes, um homem que está triste deita com a conversa a tristeza pela boca fora. Ás vezes, um homem que se encontra a pontos de matar, deita com o falar, o assassínio pela boca fora e já não mata. Você fez bem. Não mate ninguém se o puder evitar.

     E mordeu outra lasca de coelho. Joad jogou os ossos ao lume, ergueu-se e tirou mais um bocado de carne do arame. Muley comia agora compassadamente, e os seus olhitos nervosos corriam de um dos companheiros ao outro. Joad comia, carrancudo como um animal, enquanto um anel de gordura se lhe formava em torno da boca.

     Durante muito tempo, Muley olhou para ele quase timidamente. Abaixou a mão que segurava a carne.

     - Tommy! - disse ele.

     Joad olhou sem parar de deglutir.

     - Que é? - interrogou com a boca cheia.

     - Tommy, tu não ficaste zangado por eu falar em matar gente? Não ficaste zangado, Tom?

     - Não - respondeu Tom.- Não estou zangado. São apenas coisas que acontecem.

     - Toda a gente sabe que a culpa não foi tua. O velho Turnbull disse que te ia esperar quando saísses da cadeia. Que ninguém podia matar um filho dele sem mais nem menos. Toda a gente da vizinhança lhe tirou isso da cabeça.

     - Nós estávamos bêbedos - explicou Joad afavelmente. E bêbedos num baile. Nem sei como começou. Do que me lembro é de a navalha vir sobre mim, e de me ter passado logo a bebedeira. A primeira coisa que vejo é o Herb a crescer novamente para mim com a navalha. Havia uma pá encostada à casa da escola e eu peguei nela e apontei-lha à cabeça. Nunca tinha tido nada contra o Herb. Era bom rapaz... Brincava com a minha irmã Rosasharn quando era pequeno. Não, eu gostava do Herb.

     - Sim, toda a gente disse isso ao pai, até que ele esfriou. Há quem diga que, pelo lado da mãe, há sangue de Hartfield no velho Turnbull. E que ele tem de lhe sofrer as consequências. Nada sei a esse respeito. Ele e a sua gente emigraram para a Califórnia há já uns seis meses.

     Joad tirou o último pedaço de coelho do arame e passou-o em roda. Tornou a sentar-se e comia agora mais devagar, mastigando mais compassadamente e limpando a gordura da boca com a manga do casaco. E os seus olhos, escuros e meio cerrados, pareciam meditativos, a olhar para o fogo moribundo.

     - Agora toda a gente vai para o Oeste - disse ele. - Eu estou sob liberdade condicional. Não posso deixar o Estado.

     - Liberdade condicional? - perguntou Muley. - Já ouvi falar nisso! Que é?

     - É que saí três anos antes. Tenho de obedecer a certas regras, senão prendem-me de novo. E tenho que dar notícias de vez em quando.

     - Como te trataram lá em MacAlester? O primo de minha mulher esteve em MacAlester e disse que aquilo era o inferno.

     - Não é assim tão mau como isso - explicou Joad. - É como todas as outras prisões. É inferno para quem provoca o inferno. Um sujeito tem de se portar bem. Senão, os guardas caem-lhe em cima. Então é que é o inferno. Eu portei-me sempre bem. Não me metia em nada que me não dissesse respeito e deixava correr. Aprendi a escrever muito bem. A desenhar pássaros e outras coisas; não apenas a escrever palavras. O meu velho vai ficar maluco quando me vir fazer um pássaro de um traço. O pai vai ficar maluco quando me vir fazer isso. Ele não gosta de fantasias como essa. Nem gosta de escrita de palavras. Parece que tudo isso lhe mete medo. Todas as vezes que o pai via alguém a escrever, tinham de lhe tirar alguma coisa que lhe estivesse ao alcance da mão.

     - Nunca te bateram nem maltrataram?

     - Nunca. Eu só tratava do que tinha a fazer. Sem dúvida que a gente se chateia de fazer sempre a mesma coisa todos os dias, durante quatro anos. Se a gente fez alguma coisa de que se envergonha, tem tempo para pensar e arrepender-se. Mas - diabo! - se visse o Herb Turnbull a crescer agora mesmo para mim com uma faca, tomava a abrir-lhe a cabeça com uma pá.

     - E quem o não faria? - comentou Muley.

     O pregador fitava o lume e a sua testa alta branquejava na escuridão. A cintilação das pequenas chamas punha-lhe em relevo as cordas do pescoço. Nas mãos, cruzadas em volta dos joelhos, avultavam os nós dos dedos. Joad jogou os últimos ossos para o lume, lambeu os dedos e depois limpou-os às calças. Levantou-se, da varanda, trouxe a garrafa de água, bebeu um gole parcimoniosamente e passou a garrafa antes de voltar a sentar-se. E prosseguiu:

     - A coisa que me preocupou mais foi que aquilo não tinha pés nem cabeça. A gente não se põe a pensar se a coisa está certa quando um raio mata uma vaca ou nos cai em cima uma inundação. já se sabe que é assim mesmo. Mas, quando uma porção de homens nos agarram e nos fecham à chave durante quatro anos, deve haver nisso alguma significação. Dizem que os homens meditam sempre no que fazem. Para ali me meteram, me conservaram e me alimentaram durante quatro anos. Isso, ou deve fazer com que eu não queira voltar a praticar o crime, ou então deve ser um castigo para que eu fique com medo de voltar a praticá-lo. - Aqui Tom fez uma pausa... - Mas, se o Herb ou qualquer outro se virasse contra mim, tornava a fazer o mesmo. Fazia-o até antes de poder pensar. Especialmente se estivesse bêbedo. Essa falta de sentido é que aborrece um homem.

     Muley observou:

     - O juiz disse que te dava uma pena leve porque a culpa não era toda tua.

     - Sim - confirmou Joad. - Há um tipo em MacAlester por toda a vida. Passa o tempo a estudar. Secretaria o director, escreve as cartas dele e outras coisas que é preciso escrever. É um tipo muito atilado, que sabe Direito e muitas coisas mais. Um dia, falei-lhe acerca do meu caso, por ele ter lido tantos livros. E ele disse-me que a leitura de livros não serve para nada. Que já tinha lido tudo sobre as prisões, agora e nos tempos antigos, e disse que lhes achava menos sentido agora do que quando começara a ler. Que as leis eram uma coisa que nos fazia ir ao inferno e voltar, e ninguém parecia ter força para lhes pôr freio, e que ninguém tinha juízo bastante para as modificar. Pediu-me por amor de Deus que as não lesse, porque ele diz que, por um lado, a gente mete-se numa embrulhada e fica a ver navios e, por outro, perde o respeito pelos tipos que estão no governo.

     - Pouco respeito posso ter por eles agora - disse Muley.

     - Só temos uma espécie de governo: aquele que nos esmaga por causa da margem de lucro. Houve uma coisa que me indignou: foi ver esse Willy Feely a guiar aquele bicho e a armar em patrão -uma espécie de espantalho na terra que os seus próprios pais cultivaram. Isso, é que me indignou. Não me custava tanto se fosse um indivíduo de fora, que nada soubesse destas coisas, mas o Willy, que nasceu aqui, não. Indignei-me tanto que fui ao pé dele perguntar-lhe porque é que ele fazia aquilo. E ele danou-se todo. “Tenho dois filhos pequenos”, disse ele. “Tenho mulher e sogra. Essa gente precisa de comer.” E ainda se pôs mais danado. a única coisa em que tenho de pensar é na minha própria família”? disse. “O que acontece às outras pessoas é lá com elas”. Parece que estava envergonhado e por isso se escamou todo.

     Jim Casy tinha estado a fitar o fogo moribundo; os olhos haviam-se-lhe dilatado e os músculos do pescoço sobressaíam mais. De repente, exclamou:

     - Cá está ele! Se alguma vez um homem sentiu o Espírito Santo a inspirá-lo, esse homem fui eu!

     Ergueu-se e pôs-se a andar para diante e para trás, balouçando a cabeça.

     - Eu já tive a minha congregação. Reunia umas quinhentas pessoas todas as noites. Isto foi antes de vocês me conhecerem. - Parou e encarou-os. - Lembram-se que eu nunca fiz peditórios enquanto pregava aqui, em celeiros e ao ar livre?

     - Por Deus que nunca! - confirmou Muley.- A gente daqui estava por isso tão habituada a não dar dinheiro que ficava danada quando outro pregador estendia o chapéu. Sim, senhor!

     - Eu aceitava qualquer coisa de comer - prosseguiu Casy. - Aceitava um par de calças quando as minhas estavam rotas e um par de sapatos velhos quando andava descalço, mas não era como quando eu tinha a congregação. Havia dias em que recebia uns dez ou vinte dólares. Não me sentia feliz? de modo que acabei com aquilo, e durante algum tempo fui feliz. Mas, agora, parece-me que achei o que precisava. Não sei se o deva dizer. Mas será melhor dizer: talvez haja lá lugar para um pregador. Talvez eu possa voltar a pregar. Anda gente tão desolada nas estradas, gente sem terra, sem casa para onde ir! Eles precisam de ter alguma espécie de casa. Talvez...

     Parou diante do lume. A centena de músculos daquele pescoço desenhava-se em alto relevo e a luz do fogo penetrava fundo nos seus olhos, palhetando-os de cintilas vermelhas. Especou-se a olhar para o lume, com o rosto tenso, como se estivesse a escutar, e as mãos, que tinham estado activas, a gesticular, a agitar ideias, imobilizaram-se e, de repente, sumiram-se nos bolsos. Os morcegos esvoaçavam, entrando e saindo da zona do fogo em vias de esmorecer, e, dos campos, vinha o pio de uma coruja, que soava brando como escorrer de água.

     Tom meteu a mão no bolso e, tirando o tabaco, enrolou vagarosamente um cigarro, a olhar para as brasas. Não fez caso do discurso do pregador, como se este fosse coisa privada que lhe não interessasse. E disse:

     - Todas as noites, na minha tarimba, eu pensava em como tudo estaria quando eu chegasse. Pensava que talvez o avô ou a avó tivessem morrido, e que talvez houvesse mais crianças. Talvez que o pai não estivesse tão rijo. Talvez que a mãe se achasse mais Irada e deixasse que a Rosasharn fizesse o trabalho. Eu bem sabia que não iria encontrar o mesmo. Bem, será melhor dormirmos aqui e, de madrugada, vamos até casa do tio John. Eu, pelo menos, tenho de ir. O senhor não quer vir, Casy?

     O pregador ainda estava a olhar para as brasas. Respondeu arrastadamente:

     - Sim, vou consigo. E quando a sua gente se puser a caminho na estrada, irei também com eles. E onde houver gente na estrada, irei com eles.

     - O senhor será bem-vindo - disse Joad. - A mãe sempre gostou do senhor. Dizia que o senhor era um pregador em quem se podia acreditar. Rosasharn ainda não era crescida. - Voltou a cabeça. - Muley, não queres vir connosco?

     Muley olhou para a estrada de onde eles tinham vindo.

     - Vens connosco, Muley? – repetiu.

     - Hum? Não. Não vou para parte nenhuma, nem deixo isto. Vês aquela luzinha acolá, a dançar para cima e para baixo? Se calhar, é o superintendente desta plantação de algodão. Talvez que visse o fogo que nós fizemos.

     Tom olhou. A luz aproximava-se.

     - Não estamos a fazer mal nenhum - disse ele. - Apenas nos sentámos aqui. Não estamos a fazer nada.

    Muley cacarejou:

     - Ai, não? Pois estamos a fazer alguma coisa só pelo facto de estarmos aqui. Estamos a transgredir. Não podemos ficar. Andam a ver se me apanham há dois meses. Agora olha: se aquilo que ali vem for um automóvel, metemo-nos no meio do algodoal e deitamo-nos. Não precisamos de ir para longe. Então, por Deus! - que nos procurem, a ver se nos encontram! Têm de esquadrinhar as leiras uma por uma. O que é necessário é conservar a cabeça bem baixa.

     Joad perguntou:

     - Que bicho é que te mordeu, Muley? Nunca foste homem para fugires e te esconderes. Foste sempre valente.

     Muley observava a aproximação das luzes.

     - Sim - disse ele. - Era valente como um lobo. Agora sou valente como uma doninha. Quando andas à caça de qualquer coisa, és caçador; és forte. Ninguém se pode atrever com um caçador. Mas quando és tu o caçado, o caso muda de figura. já não és o mesmo. Não és forte; talvez sejas feroz, mas não és forte. Ando a ser caçado há muito tempo. já não sou caçador. Talvez seja capaz de dar um tiro a um sujeito na escuridão, mas já não sou capaz de malhar em ninguém com um fueiro. Não vale a pena enganar-te a ti, ou a mim. É assim mesmo.

     - Bem, então vai-te esconder - assentiu Joad. - Deixa-me a mim e ao Casy para dizermos algumas coisas a esses malandros.

     A irradiação da luz estava agora mais perto e projectava-se no céu. Tão depressa desaparecia como tornava a resplandecer. Os três homens observavam.

     Muley disse:

     - Há mais uma coisa a respeito de ser caçado. A gente põe-se a magicar em todas as coisas perigosas. Se a gente anda a caçar, não pensamos nelas e não sentimos medo. É como aquilo que tu me disseste: se te meteres em sarilhos, mandam-te outra vez para MacAlester completar o teu tempo.

     - Está bem - assentiu Joad. - Foi isso o que lá me disseram, mas sentar-me aqui a descansar ou a dormir no chã o, isso não é meter-me em sarilhos. Não é patifaria nenhuma. Não é como embebedar-se a gente ou armar zaragatas.

     Muley riu-se.

     - Verás. Fica aí sentado à espera do carro. Talvez seja o Willy Feely e Willy é agora o delegado do sheriff. “Porque estão vocês aí, sabendo que é proibido?”, perguntará o Willy. Bem, tu bem sabes que o Willy foi sempre um pulha, e então dizes: “Que é que você tem com isso?” Willy fica danado e há-de dizer: “ou você sai ou eu o prendo”. E tu não vais deixar que nenhum Feeley te empurre para diante, lá porque ele está danado e com medo. Ele. põe-se a fazer um berreiro dos diabos, porque tem de ir com a coisa por diante; tu ficas na tua e arranjas um sarilho. Olha; é melhor ficares deitado no algodoal e deixá-los farejar. É também mais engraçado porque eles ficam piores que uma barata, sem poderem fazer nada e tu ficas-te a rir deles. Mas, se deres trela ao Willy ou a qualquer outro mandão, catrafilam-te e levam-te outra vez para MacAlester, a cumprir mais três anos.

     - Tens razão no que dizes - concordou Joad. - Tudo o que dizes está certo. Mas - Santo Deus! - repugna-me que me expulsem. Prefiro dar um soco no Willy.

     - Ele traz espingarda - disse Muley. - Pode usá-la porque é autoridade. E então, ou ele te mata, ou tu tens de lhe tirar a espingarda e de o matar. Vem daí. Tommy. Regala-te em dizer com os teus botões que os estás logrando, bem escondido entre os algodoeiros. E o que tem valor é aquilo que a gente diz consigo próprio. As luzes fortes voltavam-se agora para o céu e ouvia-se o ronco uniforme do motor.

     - Vem daí, Tommy. Não tens de ir muito longe, apenas umas catorze ou quinze fieiras daqui, e de lá podemos observar o que eles fazem.

     Tom levantou-se.

     - Por Deus! Tens razão! - disse ele. Não tenho nada a perder nem a ganhar.

     - Vem então, Tommy. Por aqui.

     Muley rodeou a casa e meteu-se nos algodoeiros, percorrendo umas cinquenta jardas.

     - Aqui está mesmo a calhar - indicou ele. - Agora deita-te. A única coisa que tens a fazer é abaixar a cabeça se eles puserem os faróis a girar. Olha que tem piada.

     Os três homens estenderam-se ao comprido e apoiaram-se nos cotovelos. Muley pôs-se de pé de um salto e correu para casa, voltando daí a pouco, com uma trouxa de casacos e sapatos.

     - Podiam levá-los com eles só para se vingarem - explicou.

     As luzes haviam atingido o monte e baixavam agora sobre as paredes da casa.

     Joad disse:

     - São muito rapazes de vir aqui à procura da gente com os holofotes. Quem me dera ter um pau nas unhas!

     Muley sufocou uma risada.

     - Não, não vêm. Eu disse-te que era valente como uma doninha. Willy fez isso uma noite e eu ataquei-o por detrás com uma estaca de vedação. Dei-lhe uma paulada que o deixou zonzo. Foi depois dizer que tinha sido assaltado por cinco homens.

     O carro aproximou-se da casa e a luz dos faróis varreu-a toda

     - Abaixem as cabeças! - ordenou Muley.

     A faixa de luz crua e branca dançou-lhes sobre as cabeças e cruzou o campo. Os homens escondidos não podiam ver nenhum movimento, mas sentiram bater a porta do carro, e um rumor de vozes.

     - Apagaram a luz - murmurou Muley. - Uma vez, atirei uma pedra aos faróis. Agora, o Willy tem mais cuidado. Traz alguém consigo esta noite.

     Ouviram passadas no soalho e, depois, viram o clarão de uma lâmpada eléctrica.

     - Querem que atire uma pedra para dentro de casa? - cochichou Muley.- Não ficavam a saber de onde vinha. Dava-lhes que pensar.

     - Sim, atira - assentiu Joad.

     - Não atire- aconselhou Casy. - Não servia de nada. Era tempo perdido. Temos mas é de pensar em alguma coisa que nos seja útil.

     Estalidos soaram perto da casa.

   - Estão a apagar o lume - segredou Muley. - Estão a cobri-lo de terra.

     As portas do carro bateram com força, os faróis iluminaram-se, tornando a enfrentar a estrada.

     - Abaixem-se agora! - ordenou Muley.

     Abaixaram as cabeças, e a faixa de luz passou por cima deles; cruzou e recruzou o campo de algodão, e depois, o carro partiu, subiu o monte e desapareceu.

     Muley ergueu o tronco.

     - Willy faz sempre no fim esse truque dos faróis. Tem feito isso tantas vezes que eu já sei quando ele o vai fazer. E ainda pensa que é um tipo esperto!

     Casy ponderou:

     - Pode ser que tivessem deixado alguns tipos na casa, para nos prenderem ao voltarmos.

     - Talvez. Esperem vocês aqui. Eu já conheço o jogo.

     Pôs-se a caminhar com tanta cautela que apenas um ligeiro esmagamento de torrões se ouvia à sua passagem. Os dois homens, à espera, tentavam captar qualquer ruído mas ele já se fora. Pouco tardou que lhes falasse de dentro de casa.

     - Não deixaram ninguém. Podem voltar.

   Casy e Joad levantaram-se e avançaram para a massa negra da casa. Muley encontrou-se com eles junto da pilha fumegante que restava da fogueira.

     - Não me cheira que deixassem alguém - disse ele orgulhosamente. - A paulada que ferrei no Willy e a pedrada que atirei aos faróis meteram-nos nos eixos. Não sabem ao certo quem foi, e eu não caio em me deixar apanhar. Nunca durmo perto das casas. Se vocês querem vir comigo, eu mostro-lhes onde podemos dormir, sem que ninguém vá dar connosco.

     - Vai à frente, então - assentiu Joad. - Nunca me passou pela cabeça que tivesse de andar escondido nas terras do meu pai.

     Muley meteu através dos campos, com Joad à frente e Casy atrás. Tropeçavam nos algodoeiros ao caminharem.

     - Ainda terás de te esconder de muitas coisas - disse ele.

     Puseram-se a marchar em fila indiana e, por fim, chegaram a um barranco, e deixaram-se resvalar até ao fundo.

     - Por Deus, ia a apostar que sei onde estou! - exclamou Joad. - Não há uma caverna aí na margem?

     - Há. Como é que sabes?

     - Fui eu que a abri - respondeu Joad. - Eu e o meu irmão Noah. Dizíamos que andávamos a pesquisar ouro, mas era apenas para nos divertirmos a escavar cavernas como os rapazes costumam fazer.

     As paredes do barranco ficavam-lhes acima das cabeças.

     - Deve estar bem perto - acrescentou Joad. - Lembro-me que era bem perto daqui.

     Muley disse:

     - Cobri-a de mato. Ninguém é capaz de a descobrir.

     O fundo do barranco aplanara-se e o piso era de areia. Joad. sentou-se na areia limpa.

     - Não vou dormir em nenhuma caverna. Durmo mesmo aqui. - Enrolou o casaco e pô-lo debaixo da cabeça.

     Muley puxou o mato para fora e arrastou-se para a sua caverna.

     - Sinto-me bem aqui. Aqui ninguém me pode incomodar.

     Jim Casy sentou-se na areia, ao lado de Joad.

     - Durma um bocado - disse Joad. - Partimos de madrugada para casa do tio John.

     - Não tenho sono - respondeu Casy. - Tenho muito em que pensar.

     Levantou os pés e dobrou as pernas. Deixou pender a cabeça para trás e pôs-se a contemplar as estrelas reluzentes. Joad bocejou e pôs uma mão debaixo da cabeça. Ficaram em silêncio e, de novo, começou gradualmente a vida oculta da terra; das covas, das luras e do mato; os esquilos do prado agitavam-se e os coelhos punham-se a roer coisas verdes; os ratos pulavam sobre os torrões e os caçadores alados esvoaçavam silenciosamente no ar.

    

     Nas cidades, nos subúrbios das cidades, nos campos, nos terrenos baldios, nos depósitos de ferro velho e de carros usados, nas garagens ostentavam-se cartazes: “Automóveis usados quase novos. Transporte barato. Três roulottes Ford, 1927, em perfeito estado. Carros garantidos. Carros verificados. Rádios de graça. Automóvel com cem galões de gasolina grátis. Agradece-se uma visita. Carros usados. Livres de despesas suplementares”.

     Um pequeno espaço de terra e uma casinha suficientemente grande para comportar uma secretária, uma cadeira e um livro de capa azul. Um maço de contratos, de papéis dobrados e amarrotados nas pontas, seguro por um grampo de aço e uma pilha de formulários para contratos ainda em branco. A caneta - conservem a caneta sempre cheia, sempre pronta a trabalhar. - Já se tem deixado de fazer um negócio por causa de uma caneta falhar.

     Aqueles filhos da mãe não compram nada com certeza. Toda a gente os conhece. Não fazem mais do que olhar. Passam a vida a olhar. Não compram nenhum carro; nem pensar nisso é bom. O que eles querem é fazer perder tempo aos outros. Aqueles dois... não, os que estão com as crianças. Mete-os num carro. Começa em duzentos para depois baixares. Têm cara de quem está bem para cento e vinte e cinco. Teima com eles. Fá-los girar. Obriga-os a comprar. Estão para aqui a roubar-nos o tempo.

     Proprietários de mangas arregaçadas. Vendedores bem arranjados, de olhos implacáveis, fixos, à espera de um momento de fraqueza por parte do comprador. Repara na cara da mulher. Se ela gostar, o velhote escorrega. Mostra-lhe esse Cadillac. Depois, podes levá-los nesse Buick 1926. Se começares com um Buick, eles querem um Ford. Arregaça as mangas e vamos ao trabalho. Isto não pode durar muito tempo. Mostra-lhes esse Nash, enquanto eu vou arranjar o rombo daquele Dodge, 1925, Quando estiver pronto, faço-te um sinal.

     O senhor quer um carro para uma viagem, não é? Pois claro, não precisa de um carro de luxo. Sim, o estofo está um pouco usado, mas não são as almofadas que fazem andar as rodas.

     Carros enfileirados, com os focinhos para a frente, focinhos ferrugentos, pneus ressequidos, gastos. Em filas bem unidas.

     Quer ver este? Claro que não dá incómodo nenhum. Vamos tirá-lo da fila.

     Fá-lo compreender que está a roubar-nos o tempo. Faz com que ele se sinta na obrigação moral de comprar. As pessoas, em geral, têm sentimentos. Não gostam de prejudicar ninguém. Faz com que elas sintam que estão a dar prejuízo, a fazer-nos perder tempo. Depois, impinge-lhes um calhambeque.

     Carros enfileirados. Modelo T, alto e quadrado, rodas que chiam, braçadeiras- gastas. Buicks, Nashes e De Sotos.

     Sim, senhor. E um Dodge 22. É o melhor tipo de carro que a Dodge já fabricou. Dura toda a vida. Compressão baixa. A compressão alta dá grande velocidade, a princípio, mas, depois, o motor não aguenta. Plymouths, Rocknes e Stars.

     Jesus, de onde veio esse Apperson, essa arca? E um Chalmers e um Chandler? Já há anos que se não fabricam. Não são carros que a gente venda... isso é sucata. Mas, enfim, sempre é preciso ter alguns calhambeques. Não quero nada que me custe mais do que vinte e cinco a trinta dólares. Posso-os vender por cinquenta, setenta e cinco. E um bom lucro. Carros novos para quê? Do que eu preciso é de calhambeques. Vendem-se num abrir e fechar de olhos. Não quero nada acima de duzentos e cinquenta. Jim, agarra-te àquele palerma, ali no passeio. É daqueles que não percebem nada disto. Talvez fique com o Apperson. É verdade, onde está o tal Apperson? Foi vendido? O que convém é a gente arranjar outros calhambeques desse tipo, senão, acabamos por não ter nada que vender.

     Flâmulas, encarnadas e brancas, brancas e azuis, todas enfeitando os radiadores. Carros usados. Bons carros usados.

     Hoje! Uma ocasião excelente - ali no estrado. Nunca me vendas aquilo. É o chamariz da clientela. Se vendêssemos aquilo pelo preço marcado, não metia um chavo na algibeira. Diz-lhe que já está vendido. Tira-me daí essa bateria, antes de fazeres a expedição. Põe-me aí essa pilha. Mas, que querem eles por dez réis de mel coado, Santo Deus?! Arregaça as mangas e pega-os de caras, anda! Uf! Até que enfim! Se eu tivesse uma boa porção de calhambeques, daqui a seis meses poderia retirar-me dos negócios.

     Olha, Jim, estou a ouvir aquele Chevrolet lá do fim. Parece que está a moer cacos de garrafa. Despeja-lhe dentro duas libras de serradura. Atira-lhe também um bocado para a engrenagem. Temos de impingir essa bodega por trinta e cinco dólares. O patife intrujou-me com aquilo. Ofereci-lhe dez, levou a coisa até quinze, e, depois, o filho da mãe bilou-me as ferramentas. Santo Deus! Ah, que se eu tivesse cem calhambeques! Isso afinal não vai, hein? Não gosta dos pneus? Diz-lhe que têm dez mil milhas e abate-lhe dólar e meio, anda!

     Pilhas de sucata enferrujada. Fileiras de restos lamentáveis, ao fundo, pára-choques, peças negras de óleo, blocos pelo chão e ervas crescendo entre os cilindros. Cabos de travões, tubos de escape enrodilhados como serpentes. óleo e gasolina.

     Vê se me encontras aí uma vela em bom estado. Ai, Cristo, que se eu tivesse para aí uns cinquenta roulottes, estava-me nas tintas para tudo isto! Que diabo quer esse fulano? Claro que lhos vendemos mas não lhos pomos em casa. Que fique bem entendido! Não há entregas ao domicílio. Ora! Põe-se isto na “Revista do Automóvel”, até aposto. Não te parece que ele se resolva? Nesse caso, põe-no a andar. Temos mais que fazer do que perder o tempo com um tipo que não sabe o que quer. Tira-me o pneu direito da frente a esse Graham. Volta o lado remendado para a parte de dentro. O resto está catita. Tem tudo o que é preciso.

     Claro que só tem ainda cinquenta mil. Deita-lhe bastante óleo. Bom. Até mais ver, Boa sorte!

     Quer um carro? Que marca desejava? Vê alguma coisa que lhe agrade? Mas, olhe, tenho a garganta seca. E, se bebêssemos uma pinga? Vamos até ao bar, enquanto a sua senhora vai examinando? esse La Salle. O senhor decerto não quer nenhum La Salle. É um carro de aspecto feio. Além disso, gasta muito óleo. Adquira um Lincoln 1924, que o senhor vai ver. Isso sim, é que é um carro! Corre como o diabo. Tem tanta força como um caminhão.

     Sol ardente sobre os metais enferrujados. óleo entornado no chão. Gente que anda por ali, desnorteada, à procura de um carro.

     Limpe os pés. Não se encoste a esse carro; está muito sujo. Por quanto é que se compra um automóvel? Quanto custará? Olha, toma cuidado com as crianças. Qual será o preço deste? Temos de perguntar. Perguntar não custa dinheiro. Acho que perguntar não ofende ninguém. Não podemos pagar nem um cêntimo além de setenta e cinco dólares, senão, o dinheiro não nos chegará até à Califórnia.

     Santo Deus! Quem tivera aí uns cem calhambeques! Que me importava a mim que andassem ou não!

     Pneus, pneus gastos e avariados, enfiados em grandes cilindros; câmaras-de-ar vermelhas, cor de cinza, penduradas como salsichas.

     Remendos para pneus? Limpadores de radiador? Intensificadores de combustão? Deite essa pílula no seu tanque de gasolina e conseguirá dez milhas mais por cada galão. Não quer pintar o carro? Por cinquenta cêntimos, fica como novo. Limpadores? Correias de ventilador, empanques?

     Talvez seja a válvula. Leve uma nova. - Muito bem, Joe. Manda-me esses tipos, que eu cá me ajeito com eles. Agarro-me a eles, que hão-de acabar por comprar.

     Sim, senhor. Pode entrar. O senhor vai ter um carro que é uma beleza. E sabe por quanto? Por oitenta dólares apenas. Sim senhor.

     Não, só posso pagar cinquenta. Aquele homem que está lá fora disse que por cinquenta já se pode ter um bom carro.

     Cinquenta? Cinquenta? Ele está maluco. Setenta e oito e meio foi quanto eu dei por ele. Joe, tu estás maluco! Queres rebentar connosco?! Tenho de ter cuidado com este tipo. Ainda se fossem sessenta, vá lá, Agora, ouça: eu sou negociante, não quero perder tempo. Tem alguma coisa para dar em troca?

     Tenho uma parelha de muares que não me importava de trocar...

     O quê?! Trouxe uma parelha de muares para trocar? Muares! O Joe, estás a ouvir esta? Este tipo quer negociar com muares? Então nunca lhe disseram que vivemos no tempo da máquina? Hoje em dia, dos machos só se aproveita a pele.

     São animais bem bonitos. Cinco e sete anos cada um. É melhor a gente ver noutro lado...

     Ver noutro lado?! O senhor vem aqui roubar-me um tempo tão precioso e depois vai-se embora? Joe, não sabias que estavas a lidar com gente que não ata nem desata?

     Mas eu não quis incomodá-lo, não, senhor. Vim para comprar um carro. - Nós queremos ir para a Califórnia. Preciso de um carro.

     Bem, eu sou um trouxa. Pelo menos, é o que o Joe está sempre a dizer. E diz que só venho a ter juízo quando perder a camisa ou morrer. Sabe o que lhe digo? Talvez me dêem cinco dólares por cada um dos machos; vão aproveitar-lhes a carne para dar de comer aos cães.

     Eu não quero que a carne deles seja para os cães.

     Bem, talvez me dêem dez ou sete dólares por cada um. Então como vem a ser? Bem, vou dar-lhe vinte pelos dois machos. A carroça vem incluída, não vem? O senhor acrescenta mais cinquenta e terá um carro que é uma beleza. Pelo resto, o senhor vai assinar um contrato, comprometendo-se a pagar dez dólares por mês, até liquidar a dívida.

     Mas o senhor disse que eram oitenta.

     O senhor nunca ouviu falar em riscos e em seguro e outras taxas? Tudo isso aumenta um pouco o preço. Em cinco meses fica tudo pago. Assine o nome aqui mesmo. Nós encarregamo-nos de tudo o mais.

     Eu... eu não sei... se... Olhe lá, ouça. já lhe fiz esse preço de amigo, sem ganhar quase nada. Podia ter feito pelo menos três negócios durante todo o tempo que perdi com o senhor. Francamente, já estou aborrecido. Sim senhor, assine aí mesmo. Muito bem. Ó Joe! Enche o depósito a este senhor. A gasolina é de graça.

     Safa, Joe, este tipo era duro de roer. Quanto demos por essa geringonça? Trinta ou trinta e cinco dólares, não foi? E ele deixou a parelha de muares, que há-de dar, pelo menos, uns setenta e cinco dólares; se não der isso, podem dizer que não sou negociante. E arranquei-lhe mais cinquenta à vista e um contrato de quatro prestações mensais de dez dólares cada uma. Sim senhor! Sei que nem todos eles são honestos, mas chega a espantar como ainda há tantos que pagam até ao fim. Um parolo, uma vez, veio pagar-me cem dólares dois anos depois de eu lhe ter escrito a descompo-lo. Ia apostar em como este tipo manda a massa. O que a gente precisava- caramba! - era de uns quinhentos calhambeques assim. Anda lá, Joe, arregaça as mangas, vai lá fora e manda-me os trouxas. já ganhaste vinte neste último negócio. Não estás a ir nada mal, não, Joe.

     A pechincha do dia: Bandeiras pendendo molemente ao sol da tarde: Ford 1929. Em bom estado. Corre que é uma beleza.

     O que é que o senhor quer por cinquenta dólares? Um Zefir?

     Crina dura, furando os acolchoados dos assentos, fenders amachucados e endireitados à força de martelo. Pára-choques deslocados e pendentes. Um Ford roadster com luzinhas coloridas dos lados, no radiador e três atrás. Guarda-lamas e um grande dado sobre o cabo da alavanca das velocidades. Uma pequena bonita, chamada Cora, pintada a cores num invólucro de pneu. O sol da tarde incidia nos pára-brisas cobertos de poeira.

     Agora me lembro de que nem comi nada. Joe, manda o rapaz ir buscar uma sanduíche.

     Ruído intermitente de velhas máquinas.

     Lá está um pacóvio a olhar para aquele Chrysler. Ora vê se é tipo de massa. Ás vezes, esses saloios têm dinheiro. Passa-lhe a mão por cima do pêlo e manda-mo cá, Joe. já vais percebendo disto.

     Pois claro que lho vendemos. E demos-lhe garantia, sim, senhor. Garantia de que lhe vendíamos um automóvel. Não lhe dissemos que íamos tratar dele como se fosse um bebé. Escute; o senhor comprou um carro e agora vem para aqui pôr-se a refilar. Bem me rala a mim que o senhor não pague as prestações! O seu contrato já aqui não está; mandámo-lo para a companhia de finanças. Ela agora é que vai tratar do caso. Não temos cá o papel, ouviu? Se se põe para aí a armar em teso, chamo um polícia. Não senhor, não trocámos os pneus. Põe-me este tipo daqui para fora, Joe. Comprou um carro e agora não está satisfeito. P, o mesmo que eu comprar um bife, comer a metade e devolver a outra, querendo novamente o dinheiro. Isto aqui é uma casa comercial, não é uma instituição de caridade. Estás a ver o tipo, Joe! Olha para ali! Tem um dente de EIk (Dente de ELK. Emblema de membro do círculo dos ELKS. Este círculo é uma das ramificações que, nos Estados Unidos, possui o Clube dos Rotários). Despacha-te e mostra-lhe esse Pontiac 36. Sim, sim...

     Capots quadrados, carros arredondados, ferrugentos, em forma de pá, de compridas curvas aerodinâmicas e superfícies chatas, anteriores às linhas aerodinâmicas. Velhos monstros, com os estofos lá no fundo - facilmente transformáveis em caminhões. Roulottes de duas rodas, com os eixos enferrujados sob a luz crua da tarde. Carros usados. Bons carros usados. Limpos. Correm bem. Não largam óleo.

     Santo Deus! Olha para aquilo! Aquilo é que é um carro bem tratado! Cadillacs. La Salles, Buicks, Plymouths, Chevrolets, Fords, Pontiacs. Em fileiras cerradas, com os faróis cintilando à luz do sol. Bons carros usados.

     Vai segurando os fregueses, Joe! Jesus, quem me dera ter mil calhambeques! Põe-nos em condições de fechar o negócio e depois manda-os ter comigo.

     Vai para a Califórnia? Então temos aqui o que o senhor precisa. Parece muito gasto, mas ainda pode fazer alguns milhares de milhas. Lado a lado, filas atrás de filas. Bons carros usados. Pechinchas. Carros limpos que correm bem.

    

     O céu tornava-se cinzento entre as estrelas e o quarto crescente, pálido, distante, diluía-se no espaço. Tom Joad e o reverendo Casy caminhavam rapidamente pela estrada que fora formada pelos sulcos das rodas do caminhão e do tractor através de um algodoal. Apenas o céu, de claridade dúbia, um céu que não formava horizonte a oeste e não traçava mais do que uma linha apagada a leste, denunciava a aproximação da aurora. Os dois homens caminhavam em silêncio, aspirando a poeira que os seus pés levantavam do chão.

     - Deus permita que você conheça bem o caminho - disse Jim Casy. - Seria o diabo andarmos por aqui perdidos ao alvorecer.

     No algodoal, a vida despertava, fervilhando: aves que, alvoroçadas, se precipitavam a debicar no chão e coelhos que, sobressaltados, se esgueiravam por cima dos torrões. Os passos mansos dos caminhantes na poeira, o estalido dos torrões secos sob os pés, dominavam os secretos ruídos do alvorecer.

     - Eu até de olhos fechados ia lá ter - disse Tom. - Só me enganaria se me pusesse a pensar no caminho. Mas, se não pensar nisso, vou lá ter direitinho. Diabo, pois se eu nasci aqui! Ali adiante deve haver uma árvore. Olhe, ali, vê-a? Até uma vez o meu pai pendurou um lobo morto naquela árvore. O bicho ficou lá pendurado até cair de podre. É uma coisa engraçada ver a carne a apodrecer. Agora, por falar nisso, espero que minha mãe tenha alguma coisa de comer. Tenho o estômago colado às costas.

     - Eu também - disse o pregador. - E se mascássemos um bocado de tabaco? Faz esquecer a fome. Tinha sido melhor se a gente não tivesse partido tão cedo. Devíamos ter deixado clarear o dia. - Parou para meter um pedaço de tabaco comprimido na boca.- Estou com um sono danado.

     - Foi aquele maluco do Muley - disse Joad. - Deu-me uma sacudidela. Acordou-me e disse: “Bem, Tom, adeus, eu vou indo. Tenho que ir aí a um sítio. E depois, disse: “É melhor tu ires também, de modo a estares longe daqui quando for dia.” Está a fazer-se medroso que nem um coelho, com aquela vida que leva. Dir-se-ia que andam os índios atrás dele. Não acha que ele perdeu o juízo?

     - Bem, para falar verdade, não sei. Você viu aquele carro que chegou quando acendemos a fogueira? Não viu como a casa estava escangalhada? As coisas estão bem feitas. O Muley tem razão e mais que razão para dar em maluco. Ele corria de medo como um coelho mas tudo aquilo é de dar com uma pessoa em doido. Não tarda muito que ele não mate por aí alguém, e que lhe façam uma verdadeira caçada. Estou a ver que vai acontecer isso. Ele vai de mal a pior. Não quis vir connosco, pois não?

     - Não - disse Joad. - Acho que está com medo de ver gente. Até estou admirado de ele ter estado connosco... Antes de o Sol nascer, pomo-nos em casa do tio John.

     Caminharam algum tempo em silêncio. As corujas retardatárias sobrevoavam os campos, em direcção às árvores escavadas, aos celeiros, aos vãos de telhados, fugindo à luz do dia. Para as bandas do oriente, o Sol ia clareando e já se distinguiam os algodoeiros e a cor pardacenta da terra,

     - Diabos me levem se eu atino como conseguem dormir todos em casa do tio John! Lá só há um quarto, uma cozinha imunda e um celeiro pequeno. Deve ser uma balbúrdia danada.

     - Não me recordo se o John é casado. Ele vive sozinho, não vive? - perguntou Casy. - Não me lembro muito bem dele.

     - É o tipo mais solitário do mundo - disse Joad.- É um maluco, aquele filho da mãe, como o Muley, mas muito pior em certas coisas. Quem o quer ver é bêbedo lá para Shawnee, ou de visita a uma viúva que mora a vinte milhas de distância, ou então a trabalhar no que é dele à luz de uma lanterna, É maluco. Toda a gente pensava que ele não viveria muitos anos. Um homem só não vive muito tempo. Mas o tio John é mais velho que o pai e, no entanto, está cada vez mais forte e mais selvagem. Mais selvagem que o meu avô.

     - Olhe, o Sol está a romper - disse o pregador. - Até parece prata.. O John nunca teve família?

     - Ora, tinha, sim e isso mostra que qualidade de tipo ele é... e a maneira como se conduz, O meu pai é que costuma contar. O tio John tinha mulher, e bastante nova. Estavam casados havia quatro meses. Ela ficou prenhe e, então, uma noite, teve uma dor de barriga e disse para o meu tio: “Olha, John, o melhor chamares o médico.” Pois o tio John nem se mexeu. Só disse: “O que tu tens é uma dor de estômago. Comeste muito. Toma uma pílula. Encheste o estômago e agora dói-te.” Pois na manhã seguinte, ela piorou e acabou por morrer às quatro horas da tarde.

     - Morreu de quê? - perguntou Casy. - Envenenou-se com alguma coisa que comeu?

     - Não, foi qualquer coisa que lhe rebentou. Ap... apendricique ou qualquer coisa assim. Então o tio John, que era um tipo que se não ralava com coisa nenhuma, teve um grande abalo com aquilo. Achou que tinha cometido um pecado. Durante muito tempo não falou com ninguém. Só andava para trás e para diante e às vezes parecia que rezava. Levou dois anos para se recompor e, mesmo assim, nunca ficou bom de todo. Ficou como um selvagem, e difícil de aturar. Cada vez que uma criança, lá em casa, aparecia com lombrigas ou dores de barriga, chamava logo o médico. As crianças andavam sempre com dores de barriga. O pai teve de lhe dizer que acabasse com aquilo. O tio John tem a mania de que teve a culpa da morte da mulher. É um tipo engraçado. Está sempre a querer ajudar os outros, dá guloseimas às crianças e deixa sacos de provisões ou de comida à porta dos mais necessitados. Dá, quase tudo o que tem e, mesmo assim, não vive nada feliz. As vezes, anda por aí a rondar, sozinho, de noite. Mas é um bom lavrador: sabe cuidar da terra.

     - Coitado! - disse o pregador. - Coitado, tão só! Ele passou a ir mais vezes à igreja quando a mulher lhe morreu?

     - Não, senhor. Nunca mais se quis aproximar muito das pessoas. Queria estar sozinho. Mas as crianças, isso sim, nunca vi uma criança que não gostasse dele! Às vezes, ele ia lá a casa, de noite, e, quando vinha, já a gente sabia que, com certeza, havia um cartucho de pastilhas na cama para cada um de nós. As crianças julgavam que era Jesus em pessoa.

     O pregador foi caminhando de cabeça baixa. Não disse mais nada. E a luz da madrugada iluminava-lhe a testa, e as mãos, balouçando ao ritmo dos seus passos, tão depressa surgiam à luz como saíam dela.

     Tom mantinha-se igualmente silencioso, com o aspecto da pessoa arrependida de ter contado uma coisa demasiado íntima. Apressou o passo e o pregador imitou-o. já podiam avistar o caminho. uma cobra saiu, coleando lentamente dos renques de algodão, para a estrada. Tom parou perto dela a observá-la. “É uma cobra rateira, vamos deixá-la em paz.” Passaram ao lado da cobra e continuaram o seu caminho. Um débil colorido despontou a oriente, e, quase sem transição, veio a solitária luz do amanhecer estender-se pelo campo. Os algodoeiros retomaram a cor verde e a terra o seu tom castanho acinzentado. As faces dos homens perderam a tonalidade pardacenta. O rosto de Joad parecia escurecer à medida que o dia clareava.

     - É uma boa hora, esta - disse Joad, mansamente. - Quando eu era criança, gostava de me levantar cedo e de andar à solta pelos campos, por estas alturas do dia. Que é aquilo ali adiante?

     Um bando de cães reunira-se na estrada em honra de uma cadela. Cinco machos, mestiços de cão de pastor e de galgo da serra, cujas raças se haviam confundido, graças à liberdade da sua vida social, empenhavam-se em cortejar a fêmea. Cada um dos cães fungava delicadamente e, depois, de pernas rígidas, caminhava para uma planta de algodão, e regava-a, alçando cerimoniosamente uma das pernas traseiras. Depois, voltava-se, a cheirá-la. Joad e o pregador pararam para olhar a cena e, de repente, Joad pôs-se a rir com todo o gosto.

     - Ih, que pândega! - disse. Agora, os cães reuniam-se, de dentes arreganhados. Todos rosnavam, empertigados, prontos ao combate. Finalmente, um deles encavalitou-se na cadela, e agora, que o facto ia consumar-se, os outros cediam, observando com interesse, de línguas pendentes, a gotejar. Os dois homens seguiram o caminho.

     - Meu Deus! - exclamou Joad. - Aquele cão que apanhou a cadela é o nosso Flash. Pensei que já tinha morrido. Vamos, Flash! - e riu novamente. - Ora! Ora! - Se alguém me chamasse numa ocasião daquelas, também não ia. Isto faz-me lembrar uma coisa que aconteceu com o Willy Feely, quando ele era um rapazinho, ainda. O Willy era espantosamente tímido. Ora, um dia, ele levou uma novilha para o touro do Graves. Toda a gente tinha saído, a não ser a Elsie Graves e a Elsie, essa, não tem vergonha nenhuma. O Willy ficou para ali apalermado e vermelho que nem um pimentão e sem coragem para falar. E vai a Elsie diz-lhe assim: “Já sei para que vieste cá. O touro está atrás do celeiro.” Bem, levaram a novilha e sentaram-se na vedação a ver. Claro que o Willy daí a pouco perdia a cabeça. Elsie olhou para ele e disse, como se não percebesse a coisa: “Que é isso, Willy?” O Willy estava de tal maneira que nem podia estar quieto, “Meu Deus! - disse ele - até eu estou com vontade de fazer o mesmo.” E a Elsie disse: “Então faz, Willy. A novilha é tua.”

     O pregador riu brandamente.

     - Sabe que é uma coisa boa a gente já não ser pregador? Quando eu era ainda o reverendo Casy, ninguém contava histórias dessas na minha presença, ou, quando alguém as contava, eu não podia rir, porque não me ficava bem. E também não podia praguejar. Agora, praguejo quando quero e ainda bem; é uma coisa que alivia a gente.

     Um clarão vermelho cresceu das bandas do oriente, e os passarinhos, no solo, começaram a chilrear, alegremente.

     - Olhe - disse Joad. - Ali mesmo em frente é o poço da casa do tio John. Ainda não vejo o moinho de vento, mas aquilo ali é o poço dele, com certeza. Não o vê de encontro ao céu? - Acelerou o passo. - Estarão lá todos?

     O rebordo do poço via-se no alto de uma elevação. Joad, que ia quase a correr, levantou uma nuvem de poeira até aos joelhos.- Quem sabe se a minha mãe...- Eles viam, agora, a cegonha do poço tosco, e a casa, uma pequena construção parecida com um caixote sem pintura, e o celeiro, de tecto baixo e mal amanhado. O fumo ascendia pela chaminé da casa. No terreiro ia uma desordem: peças de mobiliário amontoadas, as hélices e o motor de um nicinho de vento, armações de camas, cadeiras e mesas.

     - Deus do céu, eles estão de abalada! - exclamou Joad.

     Um caminhão estacionava também em frente da casa, um caminhão de taipais altos, mas muito esquisito, porque a frente era a de um Sedan, cuja parte de cima fora cortada a meio para se lhe adaptar a carrosserie de um caminhão. E, à medida que se aproximavam mais, os dois homens iam distinguindo marteladas vindas do terreiro; e, quando o rebordo deslumbrante do Sol surgiu no horizonte, iluminando o caminhão, viram um homem e o fulgurar de um martelo que ora se baixava ora se erguia no ar. E o Sol ofuscante incidia agora nas janelas da casa, fazendo rebrilhar o madeiramento. Duas galinhas ruças esgaravatavam o chão e as suas penas vermelhas reflectiam os raios solares.

     - Não dê nenhum grito - disse Joad.- Vamos até lá.

     E pôs-se a andar tão depressa que levantava poeira até à cintura. Assim chegou à extremidade do algodoal. Encontravam-se agora junto do terreiro, de chão duro, batido e reluzente, com alguns pés de grama cobertos de pó. Então, Joad afrouxou o andamento, como se receasse avançar. O pregador, notando isso, acertou o passo com ele. Tom continuou lentamente, e deu a volta ao caminhão. Era um Hudson Super-Six, Sedan, cuja parte de cima fora cortada a meio com um escopro. O velho Tom Joad estava na carrosserie do caminhão, batendo pregos nos varões cimeiros dos lados do veículo. O rosto, coberto por uma barba grisalha, estava debruçado sobre o trabalho e os seus dentes apertavam um punhado de pregos de seis pence. Assentou um, fazendo o martelo trovejar sobre ele, De casa, veio o som do bater da tampa do fogão e o choro de uma criança. Joad. encostou-se ao caminhão. Seu pai olhou-o sem o ver. Pegou noutro prego e meteu-o na madeira. Um bando de pombos ergueu voo da beira do poço, esvoaçou e veio de novo poisar no rebordo, em atitude de observação; eram pombos brancos, azuis e cinzentos, com asas da cor do arco-íris.

     Joad segurava-se à borda do caminhão com os dedos convulsos; fixou a vista no homem grisalho, que começava a envelhecer e que via instalado na carrosserie do caminhão. Passando a língua pelos lábios grossos, balbuciou:

     - Pai!

     - Que é que tu queres? - grunhiu o velho Tom Joad, por entre os dentes que seguravam os pregos.

     Usava um chapéu preto, sujo, de abas reviradas e uma camisa azul de trabalho, sem colarinho, sobre a qual trazia um colete de botões ausentes. As calças de fustão mantinham-se no seu lugar, graças a um largo cinto de couro, fechado por uma enorme fivela quadrada de metal, tudo polido por longos anos de uso, e sapatos rebentados, de solas inchadas, completamente deformados por anos de sol, de humidade e de poeira. As mangas arregaçadas da camisa mantinham-se presas nos antebraços pelos músculos salientes e poderosos. O ventre e as ancas do velho eram enxutos de carnes e as pernas, curtas, grossas e fortes. As faces, emolduradas por uma rude barba sal e pimenta, descaíam para o queixo voluntarioso - um queixo proeminente, acentuado pela barba hirsuta, menos grisalha naquela parte do rosto. Nos malares, sem pêlo, a epiderme morena, cor da espuma das boquilhas tinha-se coberto de rugas divergentes em torno dos olhos, de tanto que estes haviam piscado. Tinha os olhos castanhos, cor de café e inclinava a cabeça para a frente cada vez que tinha de examinar bem qualquer coisa, porque aqueles olhos escuros e brilhantes começavam a enfraquecer. Os lábios que retinham os pregos eram delgados e vermelhos.

     O velho suspendeu o martelo pronto a descarregar a pancada e lançou a Tom um olhar por cima do caminhão? com o ar contrariado de quem se vê interrompido a meio de uma tarefa. Depois, o queixo deslocou-se para a frente e os seus olhos encararam o rosto de Tom; então, gradualmente, o cérebro foi compreendendo aquilo que os olhos enxergavam. Pousou o martelo devagar e os dedos da mão esquerda tiraram os pregos todos da boca. E o velho falou, admirado, hesitante, como se estivesse a contar a si mesmo aquele caso:

     - Mas é o Tommy... - E, logo, como se continuasse aquela espécie de auto-afirmação: - O Tommy voltou para casa.- A boca abriu-se-lhe novamente e um lampejo de temor surgiu nos seus olhos. - Tommy - disse brandamente - tu não fugiste, pois não? Não tens de te esconder? - E ficou à espera da resposta, ansiosamente.

     - Não - disse Tom. - Fui perdoado. Liberdade condicional. Tenho aqui os docu-mentos. Tudo em ordem. Segurou-se às traves inferiores do caminhão e olhou para cima.

     O velho Tom Joad colocou o martelo mansamente no chão e meteu os pregos no bolso. Passou as pernas pela borda do caminhão e deixou-se cair agilmente no solo, mas, uma vez ao lado do filho, ficou-se alheado e cheio de embaraço. Tom seguiu-o.

     - Tommy – disse - nós vamos para a Califórnia. Mas íamos escrever-te uma carta antes. - E falou, ainda incrédulo: - Tu voltaste, Tommy. Então podes ir com a gente. Tu podes vir!

     Ouviu-se, vindo de casa, o estampido de uma tampa de cafeteira. O velho olhou por cima dos ombros.

     - Vamos fazer-lhes uma surpresa - disse, e os seus olhos brilhavam de excitação. - Tua mãe teve um pressentimento; ela disse para aí que nunca mais te via. Andava-me com aquele olhar fixo próprio dos mortos. Nem queria ir para a Califórnia, com medo de nunca mais te ver. Uma tampa de cafeteira estrondeou novamente em casa.- Ele vai ter uma destas surpresas! - repetiu o velho Tom. - Vamos entrar corno se nunca te tivesses ido embora daqui. Vamos ver o que a tua mãe diz... - Tocou finalmente no ombro do filho com timidez, retirando a mão logo em seguida. Olhou para Jim, Casy.

     - O senhor lembra-se do reverendo, não se lembra, pai? Ele veio comigo - disse Tom.

     - Esteve na cadeia também? - Não. Encontrei-o na estrada. Andava sozinho por aí.

     O velho apertou gravemente as mãos do pastor.

     - Seja bem-vindo, senhor - disse.

     - Gostei muito de vir aqui - disse Casy. - É coisa digna de se ver um filho que regressa a casa. É uma linda coisa.

     - A casa, - disse o velho.

     - Sim, isto é, que volta para junto da família - emendou o pregador, rapidamente.- A gente esteve na outra casa a noite passada.

     O queixo do velho avançou e ele olhou pela estrada fora um instante. Depois, virou-se para Tom.

     - Como é que a gente vai fazer? - começou, excitado.- Talvez seja melhor eu entrar primeiro e dizer assim: “Olha, estão aqui uns camaradas; pediram qualquer coisa de comer”. Ou então, tu entras e ficas lá até ela te reconhecer. Que é que te parece melhor, hem? - E as suas faces reflectiam uma emoção intensa.

     - É melhor a gente evitar-lhe um choque - disse Tom.? - Pode fazer-lhe mal.

     Dois cães de pastor, muito semelhantes, chegaram, correndo alegremente mas, ao farejarem os estranhos, estacaram cautelosos e vigilantes a distância, movendo lentamente as caudas, porém, com os olhos e os focinhos prontos para a agressão ou para enfrentarem o perigo. Um dos animais, esticando o pescoço, avançou, pronto no entanto a fugir, chegando-se a pouco e pouco das pernas de Tom que, ruidosamente, farejou. Depois, voltou para trás e ficou a olhar o velho, como que à espera de um sinal. O outro cão era menos audaz. Foi procurar qualquer coisa que o divertisse e encontrou-a numa galinha de penas vermelhas, atrás da qual começou a correr afectadamente. Ouviu-se então o cacarejar estridente próprio de uma galinha ameaçada; penas vermelhas redemoinharam no ar e finalmente o animal conseguiu escapar-se, batendo as asas atarracadas num esforço de velocidade. O cão olhou emproado para os homens e deitou-se na poeira, batendo alegremente com a cauda no chão.

     - Vamos entrar - disse o velho. - Ela tem que te ver de qualquer forma. Sempre quero ver a cara dela quando der por ti. Vamos. A comida deve estar pronta, com certeza. Há um bocado que a vi às voltas com o porco salgado na frigideira.

     E foi-os encaminhando através do terreiro coberto de fina camada de pó. Naquela casa não havia varanda: apenas um degrau e uma porta e, ao lado desta, um cepo de carniceiro de superfície amassada e polida por anos e anos de uso. Via-se distintamente o grão da madeira; a poeira havia arruinado a parte mais macia. Um aroma de folhas de salgueiro queimadas pairava no ar; à medida que os três homens se aproximavam da porta, a esse aroma ia-se misturando o da carne frita, do pão de centeio fresco e do café, fervilhando na cafeteira. O velho subiu o degrau bloqueou a porta de entrada com o corpo atarracado e largo. E disse:

     - Ó velhinha, estão aqui uns camaradas que chegaram agora mesmo e perguntam se não há por aí umas sobras para eles.

     Tom ouviu a voz de sua mãe, voz calma e arrastada, amigável e humilde, que tantas vezes recordara:

     - Que entrem - disse ela. - Há comida que chegue. Dize-lhes que vão lavar as mãos. O pão está pronto. Estou agora às voltas com a carne. - Do fogão irrompia o sibilar agudo da banha quente.

     O velho entrou em casa, entreabrindo a porta e Tom pôde ver a mãe, que estava a tirar da frigideira as fatias de porco meio enroladas e fritas. A porta do forno estava aberta, à espera de um grande tabuleiro de pães escuros. A velha deu uma olhadela à porta, mas o sol incidia por detrás de Tom, de modo que ela não viu mais do que um vulto escuro que se recortava na luz solar, de um amarelo brilhante. Fez um sinal amistoso e disse:

     - Entrem, rapazes. Tiveram sorte porque fiz bastante pão esta manhã.

     Tom parou, olhando-a. A mãe era corpulenta, mas não gorda; simplesmente engrossara devido aos muitos filhos e ao excesso de trabalho que tivera na vida. Trazia uma bata cinzenta, onde outrora houvera flores coloridas, agora desbotadas, de modo que as flores miúdas se tinham tornado cinzentas, embora mais claras que o tom fundamental. A bata descia-lhe até aos tornozelos, e os pés robustos, largos, descalços, moviam-se rápida, vivamente, no chão. Os cabelos ralos, de um cinzento cor de aço, estavam apanhados na base do crânio, formando um nó largo e bojudo. Os braços grossos e sardentos estavam nus até ao cotovelo, e as mãos eram polpudas mas delicadas como as das meninas gorduchas. Ela olhou para fora, contra a luz do Sol. O seu rosto cheio não era flácido, mas sim firme, conquanto de expressão indulgente. Os olhos, cor de avelã, parecia terem experimentado todas as tragédias possíveis e terem atingido a dor e o sofrimento subindo, degrau a degrau, até alcançarem uma calma elevada e uma sobre-humana compreensão. Ela parecia saber aceitar e acolher alegremente a sua posição como baluarte da família, lugar que ninguém saberia ocupar como ela. E, visto que o velho Tom e as crianças não conheciam moléstia ou receio, desde que a mãe os não sentisse, ela acabara por não conhecer, praticamente, hesitações. E, corno, quando algo de alegre ou de agradável se lhes deparava, eles olhavam primeiro para ela, a fim de ver se ela se mostrava alegre, a mãe habituara-se a extrair alegria das coisas menos alegres. Melhor que a alegria, era porém a calma que ela demonstrava. Sabia mostrar-se imperturbável. E, dessa sua posição simultaneamente grande e humilde, extraíra não só dignidade como uma calma superior, Da sua posição de médica de almas, haurira segurança, tranquilidade e domínio de gestos; pela sua posição de árbitro, tornara-se distante e impecável como uma deusa. Parecia saber que dependia dela o edifício da família; e que, se ela se mostrasse verdadeiramente perturbada ou dominada pelo desespero, todo esse edifício se desmoronaria ao menor sopro de ventos adversos.

     Olhou outra vez para fora, para o vulto escuro do homem. O pai mantinha-se próximo, tremendo de excitação.

     - Entrem! - gritou ele. - Vão entrando, senhores! E Tom, um pouco envergonhado, atravessou a soleira. A mãe desviou, com ar amável, a atenção da frigideira. As suas mãos desceram lentamente e o garfo que segurava caiu com estrondo no chão. Os olhos abriram-se-lhe desmesuradamente e as pupilas dilataram-se-lhe. Respirava ofegante, pela boca aberta. Depois, fechou os olhos:

     - Graças a Deus! - disse. - Oh, graças a Deus!- E logo o seu rosto assumiu um ar preocupado. - Tommy, tu fugiste, Tommy? Tu não fugiste, pois não?

     - Não, mãe. Fui perdoado. Tenho aqui os papéis. - E indicou o peito.

     Então, ela aproximou-se do filho rapidamente, sem fazer barulho com os pés descalços, e a sua fisionomia reflectiu todo o seu encantamento. A mão pequena procurou o braço do filho, a tocar-lhe a rijeza dos músculos. E então os dedos ascenderam até ao rosto, com um tactear próprio de cego. E a sua alegria parecia aproximar-se da mágoa. Tom prendeu o lábio inferior com os dentes e mordeu-o. Os olhos da mãe seguiram, numa interrogação, o gesto do filho e ela viu o pequeno fio de sangue que lhe tingia os dentes e descia pelo canto dos lábios. Então compreendeu; tomou posse de si mesma, deixando cair a mão. Respirou ofegante e disse, num suspiro:

     - Bem! Quase nos íamos embora sem ti. E quem sabe se nos tornarias a encontrar? - Apanhou o garfo do chão, meteu-o na banha que fervia na frigideira, retirando-o com um rolo escuro de carne de porco espetado na ponta. E puxou a cafeteira, em riscos de cair, para a beira do fogão.

     O velho Tom Joad disse, abafando o riso:

     - Então, velhota, enganámos-te, hein? Queríamos enganar-te e enganámos mesmo. Ficaste aí quieta que nem uma ovelha com uma bordoada. Só queria que o avô visse! Parecia que tinha levado uma paulada com um malho entre os dois olhos. O avô daria tanta pancada nas coxas que até desconjuntaria as cadeiras... como ele fez quando viu o Al aos tiros àquele avião do exército que passou por aqui - lembras-te? Pois foi assim, Tommy. Um dia, ele passou por nós - era quase do tamanho de meia milha! - e o Al pôs-se aos tiros a ele. O avô gritou: “Não atires, Al, espera que passe um já crescido!” E deu uma palmada nas coxas que desconjuntou as cadeiras.

     A mãe riu e tirou da prateleira uma pilha de pratos de estanho.

     - Onde está o avô, aquele velho diabo? - perguntou Tom. A mãe dispôs os pratos sobre a mesa da cozinha e colocou copos ao lado de cada um. E disse confidencialmente:

     - Oh, ele e a avó dormem no celeiro! Tinham de ir lá fora muitas vezes de noite e estavam sempre a tropeçar nos pequenos.

     O pai intrometeu-se:

     - Hum... todas as noites o avô ficava fulo. Caía sobre o Winfield e, se o Winfield berrava, o avô ficava danado e urinava nas ceroulas e então mais danado ficava; daí a pouco acordava toda a gente aos berros. Os seus ralhos chocavam-se com as nossas gargalhadas. Oh, às vezes, fartávamo-nos de rir! Uma noite, quando toda a gente gritava e praguejava, em casa, o teu irmão Al, que é agora um rapagão crescido, disse assim: “Diabo, avô, porque e que não foge e dá em pirata?” Ora o avô ficou danado; até quis pegar na espingarda. O Al, naquela noite, até teve de dormir no campo. E agora o avô e a avó dormem ambos no celeiro.

     - Ali podem dormir e acordar quando quiserem - disse a mãe. - O pai, vai lá e diz que o Tommy está aqui. O avô sempre gostou mais do Tommy que dos outros netos.

     - Vou, sim - disse o pai. - Até já devia ter ido. - E saiu porta fora, atravessando o terreiro, balouçando largamente os braços.

     Tom viu-o afastar-se e depois a voz de sua mãe chamou-lhe a atenção. Ela deitava café nas chávenas, e não olhava para o filho.

     – Tommy - disse, hesitante e tímida.

     - Que é? - A timidez da mãe contagiou-o, deixando-o embaraçado. Sabiam daquela mútua timidez, o que mais concorria para a aumentar.

     - Tommy - disse ela - tenho de te perguntar isto: tu não sentes ódio, não?

     - Ódio a quê, mãe.

     - Não te fizeste um revoltado? Não odeias ninguém? Não te fizeram mal lá na prisão, que pudesses ter ódio às pessoas?

     Tom olhou-a de esguelha, pôs-se a observá-la com olhos que pareciam perguntar-lhe onde é que ela aprendera coisas como aquelas.

     - Não - disse. - Estive lá pouco tempo. Não sou orgulhoso como certos homens. Deixo as coisas passar. Mas, que foi, mãe?

     Ela olhava para o filho de boca aberta, como para ouvir melhor; os olhos bem mergulhados nos dele para bem apreender tudo. Esperava descobrir a resposta que a linguagem sempre oculta. Disse confusa:

     - Eu conheci o Floyd-Cara-Bonita. Conheci também a mãe dele. Era boa gente. Naturalmente, o rapaz era endiabrado como todos são. - Fez uma pausa e depois as palavras escoaram-se com mais fluência: - Não sei bem como é que aquilo aconteceu, mas foi mais ou menos assim: O rapaz fez qualquer coisa, e eles bateram-lhe e meteram-no na cadeia; bateram-lhe de tal maneira que ele ficou furioso; estava nesse estado de espírito, quando tornou a fazer outra coisa má e então bateram-lhe de novo. Atiraram-lhe como a um bicho ruim e ele fez o mesmo; depois deram-lhe caça como a um coiote e ele mordia e rosnava como um lobo. Estava doido. já não era um rapaz nem um homem, era um animal perigoso. Mas os que o conheciam, não lhe faziam mal nenhum. Para eles, o rapaz não era mau. Finalmente, deitaram-lhe a mão e mataram-no. Os jornais disseram que ele era mau, mas assim é que se passaram as coisas.- Ela parou de falar e molhou a língua com os lábios secos e todo o seu rosto era um doloroso ponto de interrogação.- Eu tenho de saber, Tommy - disse. - Eles também te bateram muito? Também te tornaste mau?

     Tom apertou os lábios e baixou o olhar para as mãos enormes e, chatas.

     - Não - disse. - Eu não sou assim. - Parou e ficou a olhar as unhas curtas e partidas.- Durante o tempo em que estive na cadeia, portei-me sempre bem, Não tenho raiva a ninguém.

     - Graças a Deus! - Aliviada, a mãe suspirou.

     Tom ergueu a cabeça rapidamente.

     - Mãe – disse - quando vi o que fizeram à nossa casa...

     Ela aproximou-se do filho e disse com inflexão apaixonada:

     - Tommy, não vais lutar contra eles sozinho. Eles apanhavam-te como a um coelho, Tommy. O que eu tenho pensado e repensado! Disseram-me que são mais de cem mil as pessoas que eles expulsaram desta terra. Tommy, se todos juntos tivessem lutado, eles não conseguiam expulsar ninguém. Mas, sozinho, nada consegues...

     Tommy, olhou-a, foi gradualmente baixando as pálpebras, até que somente um furtivo clarão se lhe coava entre elas.

     - Há muita gente que pensa desse modo? - perguntou. - Não sei. Eles estão atordoados. Andam por aí como se estivessem a dormir.

     De fora, do fundo do pátio, vinha uma voz lamurienta e aguda de velha:

     - Louvado seja Deus pela vitória!... Louvado seja Deus pela vitória!

     Tom voltou a cabeça em direcção à voz e fez um trejeito.

     - A avó já sabe que eu estou cá em casa. Mãe - disse-a senhora dantes não era assim.

     O rosto dela endureceu enquanto os olhos se tornavam gélidos.

     - É que dantes, ninguém tentara derrubar a minha casa. É que a minha família nunca tinha sido posta na estrada desta maneira. Nunca tive de vender tudo o que me pertencia. Aí vêm eles.- Voltou para junto do fogão e colocou o grande tabuleiro de pão em dois pratos de estanho. Deitou depois farinha na frigideira cheia de gordura a ferver, e as mãos ficaram brancas de farinha.

     Tom ficou a olhá-la por um instante, depois, dirigiu-se para a porta.

     Quatro pessoas atravessavam o terreiro. O avô de Tom à frente. Era um velho magro, vivaz e esfarrapado, que andava apressadamente, arrastando a perna direita, que tinha deslocada. Vinha atarefado, a abotoar as calças, e as mãos enrugadas e trémulas tinham dificuldade em realizar a tarefa, porque enfiara o botão de cima na casa de baixo e, assim, o último botão não tinha onde ser enfiado. Trajava calças escuras, muito rotas, e camisa azul, aberta de alto a baixo, que deixava à mostra a camisola, muito comprida e igualmente desabotoada. O peito magro e branco, em que se emaranhavam fios de cabelo branco, via-se através da abertura da camisola. O velho desistiu de abotoar as calças, para se ocupar da camisola, mas depressa abandonou também essa tentativa e pôs-se a puxar os suspensórios castanhos. Possuía um rosto magro, facilmente excitável, de olhinhos brilhantes e maldosos como os de uma criança endiabrada. Era um rosto desagradável, rabugento, maldoso e escarninho; um rosto que combatia e argumentava, que contava histórias feias. Tinha traços de luxúria, vício, crueldade e impaciência. E, acima de tudo, de satisfação. Era um velho que, quando podia, bebia até cair, comia o mais que podia, quando para tal se lhe proporcionava ocasião e falava sem cessar.

     Atrás dele, vinha a avó coxeando: era uma criatura que apenas sobrevivera porque era tão má como o marido. Mantinha-se numa religiosidade aguda, feroz; era tão luxuriosa e selvagem como o próprio marido. Certa vez, depois do culto, ainda em êxtase, agarrou na espingarda do marido e fez fogo contra ele, com ambos os canos e quase lhe ia levando as nádegas, mas, daí em diante, ele passou a respeitá-la e não tentou torturá-la como as crianças torturam os bichinhos. Coxeando atrás do marido, levantava a bata até aos joelhos e soltava, em tom agudo, o grito de guerra:

     - Louvado seja Deus pela vitória!...

     Os dois velhinhos esforçavam-se cada qual por atravessar rapidamente o pátio. Disputavam por qualquer motivo; sentiam o prazer e a necessidade da disputa.

     Atrás deles, movendo-se com passos iguais e vagarosos, vinham o velho Tom Joad e seu filho Noah, o primogénito, alto, tranquilo e extravagante e que andava sempre com ar de pasmo no rosto tranquilo e perplexo. Nunca se irritava. Olhava admirado para as pessoas encolerizadas, admirado, inquieto como uma pessoa normal olha para um louco. Noah movia-se devagar, raramente falava e, quando o fazia, era com tamanha lentidão que os que o não conheciam bem o julgavam um idiota. Era pouco orgulhoso e não tinha problemas sexuais. Trabalhava e dormia segundo um ritmo curioso que, não obstante, o satisfazia. Gostava imensamente da família, mas nunca lhe demonstrava o seu amor. Embora o observador não pudesse dizer por quê, Noah dava a impressão de que era um aleijado, aleijado de corpo; da cabeça, das pernas, ou do espírito, mas a verdade é que ninguém podia apontar-lhe qualquer membro disforme. O velho Tom Joad pensava que sabia a razão por que Noah assim era, mas o velho Tom Joad tinha vergonha de o dizer. Na noite em que Noah havia nascido, seu pai, apavorado com a distensão das coxas da mulher, sozinho em casa, horrorizado com os gritos agudos do sofrimento dela, ficou louco de apreensão. Usando as próprias mãos e os dedos robustos como forceps, puxou e deu um estorcegão à criança. A parteira, que chegara atrasada, viera encontrar a cabeça do menino deformada, o pescoço distendido, o corpo torcido; colocara então a cabeça no seu lugar e moldara com as mãos o corpinho frágil. O velho Tom Joad, sempre que se lembrava dessa cena, sentia vergonha. E era mais carinhoso com Noah do que com os outros filhos. Por detrás daquela face larga, de olhos muito apartados um do outro e de queixo alongado e frágil, o velho pensava ver ainda o crânio torcido e deformado do recém-nascido. Noah poderia fazer o que lhe apetecesse; sabia ler e escrever, trabalhar ou ficar a magicar no que quisesse, que nunca parecia ligar importância a essas coisas; não apreciava nada do que as outras pessoas apreciam ou precisam. Vivia enclausurado numa torre de silêncio, de onde olhava para fora com olhos calmos. Era um estranho para todos, mas não podia ser considerado um solitário.

     Os quatro atravessavam o terreiro e o avô perguntava:

     - Onde está ele? Diabo, onde é que ele está?

     Os seus dedos procuravam os botões das calças e esqueciam-nos; depois remexiam as algibeiras. Finalmente viu o neto, Tom, parado à porta. Parou e fez com que os outros, que vinham atrás dele, também parassem. Os seus olhitos brilhavam maliciosos.

     - Vejam! - disse. - Um que esteve engaiolado. Há muito que um Joad não estava na cadeia. - Os seus pensamentos deram uma reviravolta. - Prenderam-no injustamente. Fez o que eu também faria. Esses filhos da mãe não tinham razão para o prender.- Os seus pensamentos deram um novo salto.- E o velho Turnbull, esse zorrilho fedorento, a pensar que te havia de matar, quando saísses da prisão! Disse que tinha sangue dos Hatfield. Bem, eu também não o deixei sem resposta. Disse-lhe assim: “Olhe não se meta com os Joad, ouviu? Eu tenho sangue dos MacCoy, está a ouvir? Meta-se com o Tommy e há-de arrepender-se. Pego numa espingarda e dou-lhe um tiro no rabo”. E é que ficou cheio de medo.

     A avó, sem prestar atenção às palavras do avô, continuou a berrar:

     - Louvado seja Deus pela vitória!

     O avô aproximou-se de Tom e deu-lhe uma palmada no peito, contemplando-o com afecto e orgulho.

     - Como vais, Tommy?

     - Bem - disse Tom. - E o senhor?

     - Cheio de mijo e de vinagre - disse o avô. O seu pensamento voou outra vez. - E como disse, eles não iam conservar o Tommy engaiolado por muito tempo. Sempre disse: o Tommy vai sair daquela cadeia; vocês vão ver, vai sair que nem um touro derrubando uma cerca. E tu fizeste isso mesmo. Bem, sai daí, que estou com fome.- Entrou, sentou-se à mesa, encheu o prato de estanho de carne de porco, pegou em duas grossas fatias de pão, pô-las também no prato e espargiu sobre tudo aquilo o molho gorduroso. E, antes que os outros começassem a comer, já ele estava com a boca cheia.

     Tom fez um trejeito afectuoso.

     - Esse velho não vale nada - disse. - Mas o avô estava com a boca tão cheia que nem sequer gaguejar podia; porém os olhitos maus sorriram, e meneou a cabeça violentamente.

     A avó disse, pomposamente:

     - Nunca existiu homem mais perverso do que o teu avô, Tom. Ele vai direitinho para o inferno, que Deus seja louvado. Agora, até quer guiar o automóvel, mas isso é que eu não deixo - disse com desdém.

     O avô engasgou-se, lançou um bom pedaço de comida mastigada sobre as pernas. Tossiu fracamente.

     A avó sorriu para Tom.

     - É um trapalhão, não é? - observou com inflexão satisfeita. Noah estava parado no patamar e olhava para Tom; os seus olhos muito apartados do nariz pareciam não o ver. As feições continuavam como sem expressão.

     - Como vais tu, Noah? - perguntou Tom.

     - Bem - respondeu Noah. - Tu como vais? - Não era muito, mas já era reconfortante.

     A mãe enxotou as moscas do prato do molho da carne.

     - Não há lugar para todos - disse. - O melhor é cada um encher o prato e sentar-se onde puder. No quintal ou em qualquer outro lado.

     De repente, Tom exclamou:

     - Espera! Onde está o reverendo? Ele estava aqui agora mesmo. Aonde é que ele foi?

     - Eu vi-o - disse o pai. - Mas agora não sei onde está.

     E a avó falou em voz aguda:

     - Reverendo? Tu trouxeste um reverendo? Trá-lo para aqui. Pode rezar-nos a acção de graças.- Apontou para o marido. - Para ele já não adianta, já comeu. Traz para cá o reverendo.

     Tom foi à porta.

     - Eh Jim! - gritou. - Jim Casy! - E saiu para o terreiro, chamando: - Ó Casy!

     O pregador saiu de trás da cisterna, endireitou-se e foi andando em direcção da casa.

     - Que é que o senhor estava ali a fazer? - perguntou-lhe Tom.

     - Bem, não estava a fazer nada. Mas um camarada não deve meter o nariz numa reunião íntima de família. Estava sentado, a pensar.

     - Vamos entrar e comer - convidou-o Tom.- A minha avó quer uma reza.

     - Mas eu já não sou pregador - protestou Casy. - Ora, deixe-se disso. Que é que custa rezar uma oração.

     Para si não tem importância e a ela faz-lhe bem. - Entraram os dois na cozinha.

     - Seja bem-vindo -, cumprimentou a mãe.

     O pai disse:

     - Seja bem-vindo. Ora coma qualquer coisa.

     - Primeiro vamos rezar - clamou a avô. - Primeiro a reza.

     O avô assestou ferozmente os olhos até que reconheceu Casy.

     - Oh, eu conheço este pregador - disse. - Ele é dos bons. Sempre gostei dele; desde que o vi. - E pestanejou tão libidinosamente que sua mulher pensou que ele tivesse dito outra coisa e replicou:

     - Cala a boca, meu bode velho!

     Casy passou, nervoso, as mãos pelos cabelos.

     - É preciso que saibam que eu já não sou pregador. Se é só para dizer algumas palavras de gratidão, por me encontrar aqui, no meio de gente boa, generosa, está certo... mas... está bem, vou fazer do meu agradecimento uma prece. Mas, repito, já não sou pregador.

     - Então diga - pediu a avó. - E diga umas palavras sobre a nossa viagem para a Califórnia.

     O pregador baixou a cabeça e todos os outros fizeram o mesmo. A mãe cruzou os braços sobre o ventre e baixou a cabeça. A avó baixou-a tanto que quase tocou com o nariz no prato de pão com molho gorduroso. Tom encostado à parede, com o prato na mão, baixou-a com força, e o avô inclinou-a de lado, de maneira que pudesse observar o reverendo com os olhos maliciosos e alegres. Nas faces do pregador havia traços, não de quem reza, mas de quem está cismando pensativo; e no tom da sua voz não havia súplica, mas apenas reflexão.

     - Estive a pensar - disse o reverendo. - Eu estava nas colinas, cismando, tal qual Jesus devia ter cismado quando se internou no deserto para encontrar uma solução para as suas aflições.

     - Deus seja louvado pela vitória! - disse a avó, e o pregador olhou-a surpreendido.

     - Jesus estava atormentado de aflições e não sabia como havia de sair delas; então ficou a pensar para que diabo, afinal, valeria a pena lutar e pensar. Ficou fatigado, então, e o Seu espírito consumiu-se. Foi por isso que Ele chegou à conclusão de que não valia a pena ralar-se. E internou-se no deserto.

     - A... mém - disse a avó, numa espécie de balido. Tinha a mania de se meter sempre nas pausas. Assim fizera sempre, quer compreendesse ou não o que ouvia. .

     - Não quero dizer que eu seja como Jesus - continuou o pregador.- Mas eu também me senti fatigado como Ele, e estava aturdido como Ele e meti-me nos ermos como Ele sem nada para me abrigar. À noite, deitava-me de costas e olhava para as estrelas; pelas madrugadas, sentava-me à espera que o Sol nascesse; pelo meio-dia, contemplava, do alto de uma colina, a extensão de terras vastas e secas; pela tarde, acompanhava com os olhos o pôr do Sol. Às vezes, rezava, como fazia antigamente. Só não sabia o que rezava e porquê. Ali estavam os outeiros e ali estava eu e não havia separação entre nós. Éramos uma só coisa. E essa coisa unida era uma coisa sagrada.

     - Aleluia - disse a avó, balouçando a cabeça para a frente e para trás, tentando assumir uma posição de êxtase.

     - E eu fiquei a pensar, mas não era bem a pensar, era mais profundo que o simples pensar. Fiquei a cismar em como é que nós éramos sagrados quando éramos uma só coisa, e o género humano era sagrado quando era uma só coisa. E só deixava de ser sagrado, quando um mísero companheiro cerrava os dentes e ia para a frente, seguindo o seu caminho, batendo com os pés, aos arrancos e a lutar. Criaturas assim perturbam a santidade. Mas, quando eles trabalham em conjunto, não um para o outro, mas um só para toda a comunidade - então sim, está tudo certo; é sagrado. E depois fiquei a pensar que, afinal, nem sei o que quero dizer com isto de sagrado. - Parou, mas as cabeças continuaram baixas, porquanto estavam treinados, como cães, a erguerem-se apenas ao sinal de “amém”. - Eu não sei dizer preces como antigamente. Estou satisfeito com a santidade desta refeição. Estou satisfeito por encontrar o amor neste lugar. É tudo.- As cabeças continuaram baixas. O pregador olhou em redor. - Fiz com que a comida esfriasse - disse; e depois, lembrou-se. - Amém. - concluiu, e as cabeças ergueram-se todas.

     - Amém - disse a avó, e caiu sobre a comida, mordendo o pão com as gengivas desdentadas.

     Tom comia depressa e o pai empanturrou-se. Ninguém falou até acabar a comida e engolir o café: só se ouvia, nesse meio tempo, o mastigar da comida e o borbulhar do café a descer pelas gargantas. A mãe observava o pregador a comer, com olhos interrogadores de investigação compreensiva. Ela observava-o como se o reverendo se tivesse transformado de repente num espírito, não fosse um ser humano, mas uma voz oriunda das profundezas.

     Os homens acabaram de comer; foram poisar os pratos sobre a mesa e entornaram pela garganta o último gole de café; depois, saíram, o pai e Tom, o reverendo, Noah e o avô, e foram andando direitos ao caminhão, evitando o montão de móveis, as armações de madeira das camas, o maquinismo do moinho de vento e a velha charrua. Pararam ao lado do caminhão, junto dos taipais, de pinho novo, do veículo.

     Tom abriu a tampa e olhou para o grande motor todo besuntado de óleo. O pai aproximou-se e disse:

     - O teu irmão Al esteve a examiná-lo antes de o comprarmos e disse que era bom.

     - Que é que ele sabe disso? - perguntou Tom. Ele é ainda um garoto.

     - Trabalhou numa companhia. Andou a guiar caminhões o ano passado. já sabe um bocado do ofício. É um rapaz desempenado; até sabe ajustar um motor; o Al é entendido, isso é.

     - Onde é que ele está agora? - perguntou Tom.

     - Bem - disse o pai - anda por aí... já está um rapagão dos seus dezasseis anos; só pensa em raparigas e em máquinas. Um belo rapaz! Há uma semana que não vem a casa.

     O avô, apalpando o peito, conseguiu enfiar os botões da camisa azul nas casas da camisola. Os dedos sentiram que qualquer coisa não estava certa, mas não se preocupou muito com isso. E continuou a explorar o labirinto das roupas.

     - Eu era pior - disse alegremente. - Era um demónio que nem calculas. Sabes? Havia uma reunião campestre em Sallisaw quando eu tinha a idade de Al, um pouco mais do que ele. Ele é uma criança ainda, não entende nada, mas eu era um pouco mais velho. Havia umas quinhentas pessoas nessa reunião e uma boa porção de raparigada.

     - O senhor continua sendo um demónio, avô - disse Tom.

     - Bem, na verdade sou, mas já não sou o que era, nem por sombras. Deixem-me ir para a Califórnia, onde a gente pode apanhar laranjas quando quer. Ou então uvas. São coisas de que nunca consegui fartar-me. Vou apanhar um grande cacho de uvas e esfregá-lo na cara até que o sumo me escorra pela barba abaixo.

     - Onde está o tio John? Onde está a Rosasharn? E a Ruthie e o Winfield? - inquiriu Tom. Ninguém me falou deles ainda.

     - É porque ninguém perguntou - disse o pai.- John foi a Sallisaw com um carregamento de mercadorias para vender: uma bomba, ferramentas, galinhas, tudo o que a gente trouxe de lá de nossa casa. Levou a Ruth e o Winfield com ele. Saiu de madrugada.

     - E engraçado; não o encontrei - disse Tom.

     - Bem, foi porque vieste pela estrada, não foi? Ele foi por outro caminho, por Cowlington. E a Rosasharn está em casa do Connie. E verdade, tu não sabes que a Rosasharn casou com o Connie Rivers. Lembras-te do Connie? É um bom tipo. E a Rosasharn está para ter uma criança, daqui a três, quatro ou cinco meses. Já se conhece bem. Mas está fina.

     - Jesus - exclamou Tom. - Rosasharn era uma criança! E já à espera de um bebé! Quantas coisas aconteceram nestes quatro anos em que estive fora! Quando é que o senhor pensa em partir para o Oeste, meu pai?

     - Bem, a gente primeiro tem de vender as coisas. Se o Al voltar logo, eu acho que a gente pode carregar o caminhão e partir amanhã ou depois. Ainda não temos bastante dinheiro, e o pessoal diz que são perto de duas mil milhas daqui à Califórnia. Quanto mais cedo a gente partir, mais cedo lá chegará. O dinheiro escorre das mãos que nem água. Tu trouxeste algum?

     - Pouca coisa. Como foi que o senhor conseguiu dinheiro?

     - Bem - disse o pai - vendemos as coisas de casa e andámos todos na safra do algodão, até o avô.

     - Se andei! - disse o avô. - Juntámos uns duzentos dólares. O caminhão custou setenta e cinco, e eu e o Al serrámo-lo ao meio e fizemos-lhe nova carrosserie. O Al ia ajeitar as válvulas, mas, como andou para aí na brincadeira, ainda não teve tempo. Acho que temos uns cento e cinquenta dólares para sair daqui, O diabo são esses pneus velhos; não sei se vão aguentar a viagem toda. Temos dois sobresselentes que não valem um caracol. Vamos ter saxilhos pela estrada fora, com certeza.

     O sol, caindo. a prumo, queimava como lume. As sombras da carrosserie do camião desenhavam-se em barras negras no solo, e o veículo tresandava a óleo quente e a panos sujos e engordurados. As poucas galinhas que esgaravatavam no chão deixaram o terreiro e procuraram abrigo contra o sol no alpendre das ferramentas. No chiqueiro, os porcos jaziam arquejantes, encostados à cerca, que projectava uma sombra estreita, e, de vez em quando, grunhiam em tom lamentoso e agudo. Os dois cães achavam-se estirados na poeira vermelha, debaixo do caminhão, com a língua gotejante coberta de pó. O pai puxou o chapéu para os olhos e acocorou-se no chão. E, como se esta fosse a sua natural atitude de observação e pensamento, encarou Tom com ares de crítica, examinando-lhe o boné novo, mas já deformado, o fato e os sapatos novos.

     - Gastaste dinheiro nessas roupas? - perguntou. - São boas para te incomodar.

     - Não, deram-mas - disse Tom.- Deram-mas quando saí. - Pegou no boné e olhou-o com admiração, depois limpou com ele a fronte e pô-lo descuidadamente na cabeça, puxando pela pala.

     O pai observou-o:

     - São bonitos esses sapatos que te deram.

     - São - concordou Tom. - São muito bonitos, mas não prestam para caminhar num dia quente como o de hoje. - E acocorou-se ao lado do pai.

     Noah entrou na conversa, falando arrastadamente: - Era melhor se a gente pusesse as coisas todas no caminhão... Assim, quando o Al chegar, já...

     - Eu sei guiar, se é isso que vocês querem - disse Tom. - Guiei caminhões em MacAlester.

     - Bom - disse o pai, e os seus olhos fixaram-se na estrada. - Se não me engano, vem aí esse vagabundo do Al. Olhem, parece que está cansado.

     Tom e o pregador olharam para a estrada. E o femeeiro do Al, vendo que já tinha sido notado, levantou os ombros, e entrou, todo empertigado e alegre, como um galo de briga, pronto para cantar. Muito direito, aproximou-se até reconhecer Tom; então, mudou a expressão de fanfarronice; admiração e respeito surgiram nos seus olhos. Toda a sua bazófia caiu por terra. As calças de lustão bem esticadas e um pouco levantadas, para mostrarem as botas de salto, o cinturão de três polegadas com incrustações de cobre e mesmo as braçadeiras vermelhas sobre a camisa azul e a inclinação boémia do chapéu não conseguiam elevá-lo à envergadura do irmão, pois que este matara um homem e ninguém esqueceria semelhante feito. Al sabia que tinha inspirado alguma admiração aos rapazes da sua idade, pelo facto de o irmão ter morto um homem. Vira em Sallisaw olharem-no e apontarem-no a dedo, dizendo: “Vêem, aquele é o Al; o irmão dele matou um tipo com uma pá.”

     E agora Al via ao aproximar-se humildemente, que o irmão não era o valentão, o fanfarrão que ele supunha que fosse. Al via os olhos sombrios e pensativos do irmão, a calma fria, o rosto duro e inexpressivo, treinado no sentido de nada indicar aos guardas da prisão; nem resistência, nem submissão. E, instantaneamente, Al mudou. Inconsciente-mente, imitou o irmão, e o rosto bonito tomou uma expressão meditativa; os ombros descaíram. Não se lembrava de como Tom era.

     - Olá! - disse Tom. - Viva, Al, estás alto que nem uma árvore! Quase que te não reconheço.

     Al, com a mão pronta para a estender, a fim de que o irmão a apertasse, parou, esboçando um gesto de pessoa compenetrada. Tom estendeu a mão e a de Al avançou igualmente para a receber. Era uma prova de amor fraternal entre os dois.

    - Disseram-me que tu eras um alho para guiar um caminhão - disse Tom.

     E Al, sentindo que o irmão não era um fanfarrão, quis imitá-lo:

     - Nada disso; conheço muito pouco de caminhões - respondeu.

     - Andaste por aí na paródia, Al - disse o pai. - Pareces estoirado. Bem, ainda tens que levar umas coisas para vender em Sallisaw.

     Al olhou para o irmão.

     - Vens comigo? - perguntou, esforçando-se por dizer aquilo com naturalidade.

     - Não, não posso - disse Tom. - Tenho de ajudar aqui. Mas vamos viajar juntos.

     Al fingiu dar pouca importância à pergunta que ia fazer:

     - Tu fugiste da cadeia, hein, Tom?

     - Não - disse Tom. - Fui perdoado.

     - Ah! - E Al ficou um pouco desapontado.

    

     Nas casinhas em que moravam, os arrendatários examinavam o que lhes pertencia e o que pertencera a seus pais e a seus avós. Reuniam tudo para a grande viagem lá para o Oeste. Os homens mantinham-se impassíveis porque o passado fora destruído, mas as mulheres sabiam que o passado clamaria por elas nos dias futuros. Os homens entravam nos celeiros e nos alpendres.

     Aquele arado, aquela grade - lembram-se? Durante a guerra, quando plantámos a mostarda? Lembras-te daquele tipo que nos queria meter era cabeça que plantássemos aquela planta de borracha a que eles chamam guayule? Ficam ricos - dizia ele - comprem essas ferramentas. Podem render alguns dólares, mas verão... Oitenta dólares pelo arado mais as despesas do transporte. São Sears-Roebuck.

     Carroças, arreios, semeadores, enxadas em pilha. Tragam tudo. Juntem tudo. Ponham tudo no caminhão. Levem tudo para a cidade. Vendam tudo por quanto puderem. Vendam a parelha dos animais e a carroça também. Não precisamos deles para nada.

     Cinquenta cents não é bastante por um arado. Esse semeador aí custou trinta e oito dólares. Dois dólares é muito pouco. Mas não o posso levar... bem, fique com ele, que o diabo o leve. Fique com essa bomba e com os arreios também. Fique com os cabrestos, cabeçadas, cangalhas e rédeas.

     Os objectos usados empilhavam-se no pátio.

     Já se não consegue vender arados manuais; ninguém os compra. Apenas dou cinquenta cents pelo peso do metal. Tractores é só o que se usa agora.

     Bem, leve tudo, toda essa tralha, dê-me cinco dólares por tudo. Está bem? O senhor não está a comprar só velharias, o senhor está a comprar vidas arruinadas. O senhor está a comprar amargura. A comprar um arado para esmagar os seus próprios filhos, aquilo que poderia salvar-lhe a alma. Cinco dólares, a comprar aqui não, quatro. Não posso levar tudo, bem, aceito os quatro dólares. Mas eu estou a preveni-lo: o senhor está a comprar aquilo que há-de esmagar os seus próprios filhos. O senhor não vê isso, não vê, não. Bem, leve tudo por quatro dólares. E, agora, quanto é que o senhor dá pela carroça e pela parelha dos animais? Esses baios são bons a valer, iguaizinhos, iguais na cor, iguais no trotar! Puxam que é uma beleza - retesando as pernas o a garupa - velozes e certos, que até dá gosto! De manhã, quando lhes dava a luz! Ficavam atrás da cerca, de orelhas fitas para ouvir a gente. E as crinas pretas! Tenho uma filhinha. Ela gostava de lhes entrançar a crina com listinhas vermelhas. O que ela gostava daquilo! E agora acabou-se. Eu poderia contar ao senhor uma história engraçada sobre essa minha filhinha e aquele cavalo baio. O senhor havia de rir-se à farta. O de lá tem oito anos; o outro, dez, mas dir-se-ia que são gémeos, tão bem puxam ao lado um do outro! Olhe os dentes deles. Todos sãos. E os pulmões, então, nem se fala! Pulmões fortes! As pernas também; são bem rijas, finas e musculosas. Quanto? Dez dólares? Pelos dois? E pela carroça?... Oh, Jesus Cristo! Prefiro matá-los e dar a carne aos cães. Vá lá, fique com eles pelos dez dólares. Leve-os depressa. O senhor está a comprar uma menina que entrançava a crina deles, tirando a fita dos seus próprios cabelos para a amarrar à crina dos cavalos, uma menina de cabecinha encostada ao pescoço dos animais, de cabeça erguida, a esfregar-lhes o focinho no rosto dela. O senhor está a comprar anos de trabalho e de lides de sol a sol; está a comprar uma aflição que nem eu sei contar. Mas olhe, há uma coisa que vai junto com esse montão de objectos que o senhor comprou, junto com esses baios tão lindos - é uma carga de amarguras, que crescerá na sua casa e florescerá um dia. Nós poderíamos salvá-lo, mas o senhor desprezou-nos, esmagou-nos e também será esmagado; então, nenhum de nós estará aqui para o salvar.

     E os arrendatários iam-se embora, de mãos nos bolsos e chapéus puxados para os olhos. Alguns compravam aguardente e sorviam-na com sofreguidão, para resistir com ânimo ao golpe. Não riam, não se alegravam. Não cantavam, nem tocavam viola. Voltavam para as fazendas, de mãos nos bolsos, cabeça baixa, as botas rangendo raivosamente na poeira vermelha.

     Quem sabe se a gente pode começar de novo, lá naquela terra tão rica, na Califórnia, de onde brotam frutos saborosos? Sim, vamos recomeçar.

     Mas vocês já não podem recomeçar! S6 uma criança pode encetar uma tarefa assim. O senhor e eu, bem; nós somos o passado. A irritação de um momento, as mil visões - eis o que nós somos. Esta terra, esta terra vermelha, eis o que nós somos; e os anos de chuva e os anos de seca; eis o que nós somos. Não podemos começar de novo. A amargura que vendemos com os nossos bens ao ferro-velho, ele comprou-a, sim, mas nós ficámos também com ela. Somos apenas a raiva que sentimos quando nos expulsaram das nossas terras, quando o tractor derrubou as nossas casas. E assim seremos até à morte. Para a Califórnia ou para outra região qualquer - cada um de nós é um tambor a dirigir uma carga de amarguras, caminhando com a nossa desgraça. E, algum dia, os exércitos de amargura irão pelo mesmo caminho. E todos caminharão juntos, e haverá, então, um terror de morte.

     Os arrendatários arrastavam-se até às suas terras, através da poeira avermelhada.

     Depois de vendido tudo o que podia ser liquidado: fogões e camas, cadeiras e mesas, pequenos armários de canto, canos e tanques, ainda havia pilhas de tralha, e as mulheres sentavam-se em torno dessas pilhas, remexendo-as e olhando-as pela frente e por detrás, fotografias, espelhos quadrados e olha, está ali um vaso!

    Bem, vocês sabem o que a gente pode levar e o que não pode levar, Nós vamos acampar sempre ao ar livre - algumas panelas para se cozinhar, colchões e outras comodidades, uma lanterna, baldes e uma peça de lona. É para fazer a tenda. Esta lata de querosene vai. Sabe o que é isto? É o fogão. E roupas... levem todas as roupas. E... a espingarda? Não nos vamos embora sem a espingarda. Quando tudo se for, calçado e roupas e comida e até mesmo a esperança- teremos ainda a espingarda. Quando o avô veio para aqui -j à lhes contei? - só trazia sal, pimenta e uma espingarda. Mais nada. Isso vai. É uma garrafa com água. É o que basta para satisfazer uma pessoa. Dá um jeito a esse caminhão; os miúdos vão no atrelado e a avó vai no colchão. Ferramentas: uma enxada, uma serra, uma chave de parafusos e alicates. E uma machadinha também. Temos esta machadinha há mais de quarenta anos. Vejam como está gasta. O resto? Deixem-no para aí ou queimem-no.

     Depois, vinham as crianças.

     Se a Mary levar aquela boneca, aquela boneca velha, e suja, então também eu levo o meu arco indiano. Isso é que eu levo. E esse bordão grande, quase do meu tamanho. Posso precisar dele. Tenho-o há tanto tempo; há um mês ou talvez um ano. Tenho de o levar, isso é que tenho. Como será a Califórnia?

     As mulheres sentavam-se junto das coisas condenadas, que não poderiam levar e viravam-nas por todos os lados. Esse livro! já era de meu pai. Ele gostava tanto de livros! A Marcha do Peregrino. Gostava muito de o ler. Escreveu o nome dele na capa de dentro. E esse cachimbo, ainda a cheirar a fumo! E esse quadro,... um anjo. Eu olhava para ele sempre que os três primeiros estavam para nascer... mas não lucrei nada com isso. Acham que podemos levar este cachorrinho de porcelana? A tia Sadie trouxe-o da feira de S. Luís. Vêem o que ela escreveu nele? Não, acho que não. Aqui está uma carta que o meu irmão escreveu na véspera da sua morte. E aqui, um chapéu de outros tempos. E estas penas. nunca as usámos. Não, não há lugar.

     Como poderemos viver sem tudo isto que representa a nossa vida? Como é que havemos de continuar a ser os mesmos sem o nosso passado? Não, deixem tudo. Queimem tudo.

     Ficavam sentadas, olhavam todos esses restos e gravavam-nos na memória. Que futuro as esperaria lá longe? Como poderão acordar todas as manhãs, sabendo que já não têm o velho salgueiro no pátio? Poderemos viver sem o salgueiro? Não, não poderemos. Aquela mancha - prova de uma dor - no colchão - aquela dor horrível - aquilo que faz parte de mim mesma.

     E as crianças... se o Sam levar o arco indiano e o bastão comprido, eu também hei-de levar duas coisas. Eu escolho aquela almofada de penas. E minha.

     De repente, todos ficavam nervosos. Tinham de abalar rapidamente. Não nos podemos demorar mais. Não podemos ficar aqui mais tempo. E amontoavam os restos no terreiro e largavam fogo a tudo. E quedavam-se a olhar as labaredas; depois, freneticamente, carregavam os carros e metiam pelas estradas poeirentas. A poeira ficava no ar muito tempo depois da passagem dos carros ajoujados.

    

     Quando o camião se fora, carregado de utensílios, cheio de ferramentas pesadas, de camas e de colchões com possibilidades de venda, Tom deu uma volta pela casa. Vagou pelo celeiro ' pelas cocheiras vazias, entrou no alpendre das ferramentas, deu um pontapé no montão de restos inúteis e empurrou com o pé o dente quebrado de uma máquina de cortar a erva. Andou pelos lugares de que se recordava-a encosta vermelha onde as andorinhas construíam os ninhos, o salgueiro atrás do curral dos porcos. Dois leitões grunhiram e roncaram do lado de lá da vedação, como se o cumprimentassem, dois leitões de pêlo preto, que gozavam, confortavelmente estirados, as carícias do sol.

     Logo depois, terminou a peregrinação e sentou-se nos degraus da porta, cobertos de sombra fresca. Atrás dele, na cozinha, sua mãe andava atarefada a lavar numa selha as roupas dos filhos e os seus braços fortes e cobertos de sardas escorriam água de sabão até aos cotovelos. Parou de trabalhar quando o filho se sentou à porta. Olhou-o por longo tempo, fixando-lhe a nuca quando ele se voltou de costas para ela e se pôs a contemplar a claridade do Sol. Depois, voltou ao trabalho.

     - Tom - disse ela, por fim - espero que as coisas lá na Califórnia sejam boas.

     Tom voltou-se e encarou-a.

     - Porque supõe que não sejam? - inquiriu.

     - Bem, por nada. É que tudo me parece bom demais. Vi passar os distribuidores de impressos, que havia lá muito trabalho e bons salários e tudo o mais; li no jornal que precisam de gente para a colheita das laranjas e dos pêssegos. Isso seria um belo trabalho, Tom, apanhar pêssegos. Mesmo que não nos deixem comer nenhum, sempre se há-de poder deitar a mão a um já tocado. E seria bom ficar debaixo das árvores, a trabalhar à sombra. Mas tudo isso é bonito demais, Tom. Tenho medo. Não tenho fé nisso. Acho muita sorte junta.

     - Não eleves a fé até à altura do voo dos pássaros e não rastejarás depois como os vermes - recitou Tom.

     - Sim, eu sei que é assim. Está nas Escrituras, não está?

     - Suponho que sim - disse Tom.- Confundo sempre as Escrituras com um livro chamado A Vitória de Bárbara Worth.

     A mãe riu suavemente, passando a roupa na selha. Ia torcendo “macacos” e camisas e os músculos dos antebraços retesavam-se.

     - O pai de teu pai vivia sempre às voltas com as Escrituras, fazendo citações. Fazia cada confusão! Misturava sempre as frases das Escrituras com coisas do Almanaque do Dr. Mile. Costumava ler alto tudo o que vinha no almanaque: cartas de pessoas que não conseguiam dormir ou que eram marrecas. Depois tirava pedaços dessas cartas e dizia: isto vem nas Escrituras. Teu pai e o tio John riam a valer e ele ficava danado. - Empilhou a roupa torcida como cordas sobre a mesa. - São duas mil milhas daqui até ao lugar para onde vamos. Tu achas que isso é verdade, Tom? Vi a Califórnia no mapa; tinha montanhas altas como num postal que eu vi, e a gente tem de passar por essas montanhas todas. Quanto tempo achas que levaremos até lá, hein, Tommy?

     - Não sei - disse o filho. - Duas semanas, talvez dez dias se a gente tiver sorte. Olhe, mãe, não se preocupe, ouviu? Faça como eu, como todos os que estão na cadeia. A gente não pode pôr-se a pensar no dia em que será solto. Endoidecia. A gente pensa no dia de hoje, no dia de amanhã, depois, no jogo de futebol de sábado e assim por diante. É o que a senhora deve fazer. Os mais velhos fazem assim. Só os novatos encostam a cabeça às grades da cela e ficam a cismar, a pensar quanto tempo ainda vai durar aquele inferno. A senhora faça como os presos antigos; pense só rio dia de hoje.

     - E um bom processo, esse - disse a mãe, enchendo a selha com a água que estivera a aquecer em cima do fogão. Meteu mais roupa suja na selha e começou a esfregá-la na espuma. - Sim, é um bom processo. Mas eu gosto de pensar que talvez seja bom para nós irmos para a Califórnia. Lá nunca faz frio. E há tanta luta, em toda a parte, e as pessoas moram em casas bonitas, em casas pequeninas e brancas no meio de laranjeiras! Eu imagino que, se nós arranjássemos trabalho e todos trabalhassem, talvez pudéssemos comprar uma casinha assim. E às crianças, bastava-lhes pôr o pé fora de casa para apanharem quantas laranjas quisessem. Seria demais para elas; passavam a vida a gritar por causa disso.

     Tom via a mãe trabalhar e os seus olhos sorriam.

     - Faz-lhe bem pensar assim. Tive um camarada que era lá da Califórnia. Não falava como nós. Bastava ouvi-lo falar para se ver que ele não era daqui, que era de longe. E então contava que havia gente de mais à procura de trabalho lá na terra dele. E disse que o pessoal que trabalha na safra das frutas vive em lugares imundos e que mal arranja o suficiente para comer. Os salários são baixos e, mesmo assim, é difícil arranjar trabalho.

     Uma sombra perpassou pelo rosto dela.

     - Oh, não, não é assim! - disse.- O teu pai recebeu um impresso em papel amarelo, dizendo que procuravam gente para trabalhar. Eles não iam escrever isso se não tivessem bastante trabalho. Custa muito dinheiro mandar fazer esses impressos. Não iam mentir e gastar dinheiro em mentiras!

     Tom sacudiu a cabeça.

     - Não sei, mãe. A gente não pode saber porque fazem isso. Quem sabe?... - Olhou para fora; o sol quente torrava a terra vermelha.

     - Quem sabe o quê?

     - Talvez aquilo lá seja bom como a senhora diz. Aonde foi o avô, hein? E o reverendo?

     A mãe saiu para o pátio com os braços cheios de roupa; Tom afastou-se para o lado, a fim de a deixar passar.

     - O reverendo disse que ia dar uma volta. O teu avô está a dormir aí dentro. Ele costuma vir aqui durante o dia e deitar-se para dormir uma soneca. - Dirigiu-se a um fio estendido no terreiro e pendurou nele calças de fustão e camisas azuis a secar.

     Tom ouviu umas passadas cautelosas atrás de si e virou-se a ver quem seria. Era o avô, que safa do quarto de dormir, e, como de manhã, mostrava-se atrapalhado com os botões das calças.

     - Ouvi-os falar - disse. - Não deixam um velho dormir, seus filhos da mãe. Quando vocês também forem velhos, seus velhacos, vão aprender a deixar os outros dormir. - Os seus dedos furiosos procuravam desabotoar os dois únicos botões da braguilha que ainda se mantinham abotoados. E as mãos esqueceram-se do que pretendiam fazer, e penetraram no vão das calças para coçarem regaladamente os testículos.

     A mãe, com as mãos húmidas e as palmas enrugadas e inchadas pela acção da água quente e do sabão, tornou a entrar em casa.

     - Pensei que o senhor estivesse a dormir. Espere aí; deixe-me abotoar-lhe as calças. - E embora o velho recusasse, ela segurou-o firmemente e abotoou-lhe as calças, a camisa e o colete.- Com franqueza, sempre estava numa figura... - disse ela, libertando-o.

     E o velho resmungou, colérico:

     - Bonito... bonito, quando a gente já tem que ser abotoado pelos outros, Eu não quero que ninguém me abotoe as calças, ouviu?

     - Lá na Califórnia, não deixam ninguém andar assim - retrucou ela, brincando.

     - Ai, não deixam? Pois eu lhes direi como é que se anda. Se pensam que podem mandar na gente, estão muito enganados. Se me der na gana, até posso andar com a coisa de fora e ninguém tem nada com isso.

     - A língua dele está cada vez pior - observou a mãe.

     O velho espetou o queixo áspero e encarou-a com os olhinhos astutos e brilhantes.

     - Bem – disse - daqui a pouco estamos de abalada. E, Deus do céu, as uvas, ali, chegam a debruçar-se sobre as estradas. Têm cada cacho! Sabes o que eu vou fazer? Encho um balde de uvas, sento-me no balde e esfrego-me todo até o suco escorrer pelas calças.

     Tom riu.

     - O avô é assim mesmo - disse. - Ninguém o endireita. Então, avô, está mesmo decidido a vir connosco, hein?

     O velho puxou de um caixote e deixou-se cair sobre ele, pesadamente.

     - Sim, senhor - respondeu - E quanto mais depressa, melhor. O meu irmão também para lá foi há mais de quarenta anos. Nunca mais ouvi falar dele. Além disso, levou um bom Colt que eu tinha. Mas, se eu o encontrar agora, ou os filhos dele, se os tiver, a primeira coisa que vou fazer é perguntar pelo meu Colt. Mas, da maneira como eu o conheço, se ele fez algum filho, entregou-o a alguém para o criar. De qualquer maneira, estou satisfeito por sair daqui. Acho que até vou ficar diferente saindo daqui. Tratarei logo de ir apanhar fruta.

     A mãe acenou com a cabeça.

     - E está disposto a isso. Aqui também trabalhou até há uns três meses, mas, quando deslocou a anca, teve de parar.

     - Pois foi - disse o avô.

     Tom lançou um olhar para fora da porta.

     - Aí vem o reverendo - disse. - Ali, por detrás do celeiro.

     A mãe informou:

     - A reza que ele fez esta manhã foi a reza mais engraçada que ouvi na minha vida. Na verdade, nem foi uma reza. Foi só um discurso, mas parecia uma oração.

     - Ele é muito engraçado - disse Tom.- Está sempre a dizer coisas engraçadas. E muitas vezes fala sozinho. Mas não quer tornar ao que foi.

     - Vejam o olhar dele - disse a mãe. - Parece inspirado. Tem um olhar que, como se diz, atravessa tudo. Sim, sim, é um inspirado. E anda sempre de cabeça baixa, de olhar no chão. É, com toda a certeza, um homem inspirado.- E calou-se porque Casy se aproximara da porta.

     - O senhor, a andar assim exposto de um lado para o outro, apanha uma insolação pela certa - disse Tom.

     Casy respondeu:

     - Sim, é possível. De repente, dirigiu-se a todos, à mãe, ao avô e a Tom. - Tenho de ir para o Oeste. Tenho de ir. Gostaria de saber se me permitem que vá com vocês. E deixou-se ali ficar, como que embaraçado pelo próprio discurso.

     A mãe olhou para Tom, à espera de que ele falasse, visto que era um homem. Dera-lhe essa oportunidade, que era afinal o seu direito, e depois disse:

     - É claro que nos sentiremos muito honrados com a sua companhia. Mas, por agora, não posso dizer nada de positivo. O pai disse que os homens se vão reunir hoje à noite para combinarem a data da partida. Acho que é melhor não dizermos nada antes de os homens regressarem todos. John e o pai, o Noah, o Tom, o avo, o Al e o Connie vão tratar disso logo que chegarem. Mas eu acho que, se houver lugar, o senhor poderá vir connosco; teremos muito prazer com isso.

     O pregador suspirou.

     - Eu vou de qualquer maneira - disse. - Vai acontecer alguma coisa. Eu subi àquele alto e fiquei a olhar; todas as casas estão vazias e toda a terra está vazia. Não posso continuar mais tempo aqui. Tenho de ir para onde vão os outros. Trabalharei nos campos e talvez então me sinta feliz.

     - Então não faz mais prédicas? - inquiriu Tom.

     - Não, não tenciono pregar.

     - Nem tenciona baptizar? - perguntou a mãe.

     - Não vou baptizar, não. Vou trabalhar nos campos, nos campos verdes e ficar mais perto de toda a gente. Não vou tentar ensinar-lhes nada. Eu é que vou tratar de aprender. Vou saber porque é que os homens andam pelos campos, vou ouvi-los falar e cantar. Vou observar as crianças a comerem papas e os homens e as mulheres moerem os colchões à noite. Vou comer com eles e aprender com eles.- Os seus olhos tornaram-se húmidos e brilhantes.- Vou deitar-me na relva, aberta e honestamente, com quem me queira. Vou gritar e praguejar à vontade e vou ouvir as canções populares. E isto que é sagrado, isto tudo que eu não pude até agora compreender. Isto é que está certo e bem feito.

     A mãe disse:

     - A... mém.

     O pregador sentou-se humildemente no cepo, ao lado da porta.

- Que é que um homem sozinho pode fazer?

     Tom tossiu com delicadeza:

     - Para um homem que já não prega... - começou.

     - Oh, sou muito falador - disse Casy. - Este meu feitio já não pode mudar. Mas não quero pregar para o povo. Pregar é contar coisas. Mas eu não conto nada, eu faço perguntas. Isto não é pregar, pois não?

     - Não sei - disse Tom. - Pregar é ter um tom especial na voz e um modo diferente de ver as coisas. Pregar é fazer bem às pessoas, mesmo quando as pessoas se sentem capazes de matar quem lhes faz o sermão. Na última noite de Natal, o Exército de Salvação foi a MacAlester para nos distrair. Três horas de música de cornetim e nós ali sentados, a ouvir. Foram muito gentis para connosco. Mas, se um de nós tentasse sair da sala, daí a pouco irão haveria lá ninguém. Isto é que é pregar. Fazer bem a alguém que está mal o que não pode evitar de qualquer maneira que lho façam. Não, o senhor não é um pregador. O senhor não obriga ninguém a ouvir a música de cornetim.

     A mãe atirou algumas achas para o fogão. - Vou-lhe arranjar de comer, mas não será grande coisa.

     O avô levou o caixote para fora e sentou-se em cima dele; encostou-se à parede, e também Casy e Tom se encostaram à parede. E a sombra da tarde abandonou a casa.

    

     A tarde já ia avançada quando o camião voltou, roncando e bufando, através do pó; havia um lençol de poeira a cobrir a carrosserie e a tampa do motor; a luz dos faróis obscurecera-se sob um véu de poeira vermelha. Punha-se o Sol quando o caminhão chegou, e a terra sangrava à luz do poente. Al vinha sentado ao volante, sério e diligente; o pai e o tio John, numa atitude condigna de chefes de clã, ocupavam o lugar de honra, ao lado do motorista. De pé, na carrosserie, segurando-se às bordas do caminhão, vinham os outros: Ruthie, de doze anos; Winfield, de dez, selvagem de cara suja; ambos de olhos cansados, mas cheios de entusiasmo, dedos e cantos da boca negros e pegajosos das bagas de alcaçuz que lhes dera o pai na cidade, Ruthie, com um bonito vestido de musselina rosada que lhe chegava abaixo dos joelhos, parecia uma senhorita, muito compenetrada. Mas Winfield continuava a ser um pouco o rapaz ranhoso que aproveitava qualquer oportunidade para se esconder atrás dos outros e fumar uma beata de cigarro. E, enquanto Ruthie sentia a força da responsabilidade que lhe davam os pequeninos seios a eclodir, Winfield mostrava-se malcriado e sonso. Ao lado deles, apoiando-se levemente nas grades, estava Rosa de Sharon, que se bamboleava, apoiada nos calcanhares e aparava nos joelhos e nas coxas os solavancos do veículo. É que Rosa de Sharon estava grávida e mostrava-se prudente. Os seus cabelos, entrançados e enrolados em volta da cabeça, pareciam uma coroa cendrada. O rosto redondo e suave, que fora voluptuoso e convidativo havia poucos meses, trazia as marcas da gravidez, o sorriso dos que se consideram importantes, o olhar de quem se sabe perfeito, e o seu corpo arredondado-os seios rijos e o ventre firme, as ancas e as nádegas duras, que ela havia meneado tão deliberada e provocadoramente, como que convidando a palmadas ou carícias - todo o seu corpo adquirira um ar de reserva e de seriedade. Até os seus pensamentos convergiam totalmente para a criança que estava para nascer. Ela balouçava-se nos dedos dos pés para dar mais conforto ao bebé. E o mundo inteiro - para ela - estava grávido - pois ela só pensava em gravidez, nas funções da reprodução da espécie e da maternidade. Connie, o seu marido de dezanove anos, que se casara com uma rapariga gorducha, atrevida e ardente, ainda se mostrava algo assustado e confundido com a mudança que nela se operara, pois agora já não havia aquelas lutas bravias na cama; não havia arranhões nem mordeduras, entre risos abafados, que terminavam em lágrimas. Havia, sim, uma criatura de gestos cuidadosos, de atitudes discretas, que lhe sorria meiga e firmemente. Connie sentia orgulho e, ao mesmo tempo, receio de Rosa de Sharon. Cada vez que podia, colocava as mãos nos ombros da mulher ou postava-se ao lado dela, bem junto, de maneira que os ombros e as coxas se tocassem e sentia que assim se mantinha uma ligação que, de outra maneira, poderia vir a ser abalada. Era um rapaz magro, de rosto afilado, originário do Texas, e os seus olhos, de cor azul pálida, eram às vezes inquietantes; outras vezes mansos ou assustados. Era um bom trabalhador e devia dar um bom marido. Bebia bastante, mas não demais; brigava quando o não podia evitar, mas nunca provocava ninguém. Numa reunião qualquer, mantinha-se calado, e, embora não desse mostras da sua presença, fazia-se notar de modo indubitável.

     Se o tio John não tivesse cinquenta anos, e não fosse por isso mesmo um dos naturais chefes da família, teria preferido não se sentar no lugar de honra ao lado do condutor. Por vontade dele, seria Rosa de Sharon quem ali estaria sentada. Isso era impossível, porque ela, além de muito jovem, ainda por cima era mulher. Mas o tio John não se sentia à vontade; os seus olhos, que se diria assombrados de solidão, não achavam paz e o corpo magro agitava-se. Quase sempre, o espírito solitário do tio John mantinha-o afastado dos homens e dos apetites. Comia pouco, bebia, e vivia em estado de celibato. Mas, sob esta crosta de aparências, os apetites martirizavam-no tanto que acabavam por se expandir. As vezes, comia coisas indigestas, ao ponto de cair doente, ou então bebia aguardente ou whisky, até ficar como um paralítico agitante, de pernas trémulas e olhos lacrimosos e vermelhos; ou então afundava-se no deboche com uma meretriz qualquer de Sallisaw. Contava-se que, uma vez, fora a Shawnee e se deitara com três mulheres ao mesmo tempo, demorando-se uma hora inteira, a resfolegar e a bramar, às voltas com os corpos insensíveis das meretrizes. Mas, quando satisfazia um dos seus apetites, sentia-se novamente triste, solitário e cheio de vergonha. Escondia-se das pessoas e procurava conquistar-lhes a amizade, enviando-lhes presentes. Então, entrava nas casas e colocava pastilhas elásticas sob os travesseiros das crianças, depois, cortava lenha e não deixava que lhe pagassem o trabalho. Por fim, desfazia-se de tudo o que possuía: a sela, o cavalo, um par de sapatos novos. Não se lhe podia falar nessas ocasiões, pois fugia de todos, ou, se lhe era possível, enfronhava-se dentro de si mesmo, mostrando somente os olhos cheios de inquietação. A morte da mulher, seguida de meses de isolamento, deixar-lhe um sentimento de culpa e de vergonha, transformando-o num solitário sem remédio.

     Mas havia coisas a que não podia escapar. Sendo um dos chefes da família, tinha de governar, e, naquele momento, não tinha outro remédio senão sentar-se no lugar de honra, ao lado do motorista.

     Os três homens, no assento da frente, mostravam-se de mau humor, enquanto o caminhão os levava para casa, através da estrada poeirenta. Al, debruçado sobre o volante, ora olhava o caminho, ora o quadro, vigiando o amperómetro, cuja agulha oscilava de modo suspeito; o mostrador de óleo e o termómetro. O seu cérebro registava todos os aspectos fracos do veículo. Escutava os queixumes do motor, resultantes provavelmente do estado ressequido do diferencial, e ouvia atentamente o vaivém dos pistões. Punha a mão sobre a alavanca das velocidades, para sentir o girar da engrenagem, às vezes, verificava se a embraiagem se fazia normalmente e se o travão não prendia. Ele podia, de vez em quando, levar vida de vagabundo, mas, agora, a responsabilidade era sua: o caminhão, a maneira como funcionava e a sua conservação. Se a viagem não corresse bem, a culpa seria dele, e, embora ninguém o culpasse, todos - e principalmente Al - sentiriam que a culpa era realmente dele. Por isso, se mostrava atento e cuidadoso, de rosto tenso à força de atenção. E todos o respeitavam, bem como à sua responsabilidade. Até o pai, que era o chefe, agarraria uma chave inglesa e receberia ordens de Al.

     Vinham todos fatigados no caminhão. Ruthie e Winfield estavam cansados de ver tanto movimento e tantas caras, cansados de tanto brigarem por causa das bagas de alcaçuz e por causa da excitação causada pelo facto de o tio John lhes ter secretamente introduzido pastilhas elásticas nos bolsos.

     Os homens, no assento da frente, estavam cansados, aborrecidos e indignados por terem recebido apenas dezoito dólares por todos os objectos que tinham levado de casa para vender: os cavalos, a carroça, as ferramentas e os móveis. Dezoito dólares! Tinham procurado obter mais; tinham procurado convencer o comprador, mas haviam capitulado quando este declarara que não lhe interessava a mercadoria, fosse por que preço fosse. Então, deram-se por vencidos e fecharam o negócio, vendendo tudo por dois dólares a menos do que o preço previamente oferecido. E agora estavam cansados e cheios de susto porque se tinham revoltado contra um sistema cujo mecanismo não conheciam e que os vencera. Sabiam que a carroça e a parelha de animais valia mais, muito mais. Sabiam que o comprador iria ganhar muito dinheiro, revendendo os objectos que lhes comprara, mas não sabiam como deveriam ter agido para obter preço melhor. Negociar, para eles, era um segredo.

     Al, com os olhos saltando da estrada para o quadro, disse:

     - Aquele tipo não é daqui. Não falava como a gente da região. E também usava roupas diferentes das da nossa gente.

     O pai explicou:

     - Quando eu estava na loja de ferragens, falei com uns sujeitos que conheço. Eles disseram-me que estes homens vieram de propósito para comprar as coisas que a gente tem de vender. Disseram que fazem verdadeiros negócios da China. Mas, que havemos nós de fazer? Talvez tivesse sido bom que Tommy tivesse vindo connosco. Talvez ele tivesse conseguido mais.

     John disse:

     - Mas o fulano já não queria nada. Não podíamos trazer aquilo tudo outra vez.

     - As pessoas com quem falei disseram que eles fazem isso sempre- esclareceu o pai. Eles assustam a gente, de modo que um tipo nem sabe o que há-de fazer. A mãe vai ficar desiludida. Desiludida e arreliada.

     - Quando podemos partir, pai? - perguntou Al.

     - Não sei. Vamos falar sobre isso hoje à noite e combinar tudo. Estou satisfeito por o Tom ter regressado. É um consolo. O Tom é uma jóia de rapaz.

     Al disse:

     - Pai, houve aí uns sujeitos que falaram do Tom; disseram que ele estava em liberdade condicional. E disseram que isso significa que ele não pode sair do Estado. Se o fizer, apanha mais três anos de cadeia.

     O pai mostrou-se alarmado.

     - Disseram isso? Achas que eles terão razão? Ou estariam apenas a brincar?

     - Não sei - disse Al - Eles disseram isso e eu não dei a perceber que era irmão do Tom. Fiquei só a ouvir.

     - Deus do Céu! - disse o pai - espero que isso não seja verdade. Nós precisamos do Tom. Vou perguntar-lhe. Já temos bastantes encrencas mesmo sem isso. Espero que não seja verdade. Temos de tirar o caso a limpo.

     O tio John disse:

     - O Tom deve saber isso. Recaíram em silêncio enquanto o caminhão rodava sobre a estrada. O motor fazia muito barulho; de momento a momento, ouviam-se pequenos estouros e a bracagem dos freios emitia som de pancadas. Sentia-se um ranger como de madeira que vinha das rodas, e um esguicho de vapor escapou-se pela abertura do radiador. O caminhão levantou um turbilhão de poeira vermelha atrás de si. Subiram a última elevaçãozita já o Sol estava semi-oculto no horizonte e, ao chegarem defronte da casa, já ele se havia sumido completamente. Os freios chiaram quando o veículo estacou, e o som que emitiram gravou-se no cérebro de Al - as cintas dos freios estavam gastas.

     Ruthie e Winfield saltaram, aos gritos, pelos lados do caminhão. E, em terra, desataram a berrar:

     - Onde está ele? Onde está o Tom?

     Depois, viram-no parado perto da porta e quedaram-se embaraçados; caminharam lentamente na sua direcção, olhando com acanhamento.

     E quando ele disse: «Olá, meninos, como vão?» - responderam em voz baixa: «Olá! Bem»

     E ficaram imóveis, um pouco afastados, olhando-o disfarçadamente, ao irmão crescido que matara um homem e que estivera na prisão. E lembravam-se de como brincavam às cadeias lá no galinheiro e de como brigavam porque ambos queriam ser o preso.

     Connie Rivers baixou um dos lados da carrosserie; desceu e ajudou a mulher a descer; ela aceitou o auxílio com muita dignidade, arregaçando afectadamente os cantos da boca num sorriso de satisfação compenetrada.

     Tom falou:

     - Olhem, é a Rosasharn! Não sabia que tu também vinhas com eles.

     - Vínhamos andando a pé e o caminhão alcançou-nos na estrada - disse ela.- E acrescentou, com ar majestoso: Este é o Connie, o meu marido.

     Os dois apertaram as mãos, examinando-se mutuamente, olhando fundo nos olhos um do outro, e, num instante, ambos ficaram satisfeitos com o exame, e Tom comentou:

     - Bem, vejo que vocês não perderam tempo.

     Ela olhou para o chão.

     - Mas ainda não se percebe. Não se percebe nada.

     - Foi a mãe que me disse. Está para quando?

     - Oh, ainda vai demorar. Só lá para o Inverno.

     Tom riu.

     - Então ele vai nascer mesmo nos laranjais, hein? Numa dessas casinhas brancas cercadas de laranjeiras.

     Rosa de Sharon apalpou o ventre com as mãos.

     - Não se vê nada. - Deu um risinho complacente e fugiu para dentro de casa.

     A tarde estava quente, e, de leste, jorrava ainda um facho de luz. Sem aviso algum, reuniram-se todos em torno do caminhão e o congresso, a reunião do conselho de família, começou.

     A luz do crepúsculo fazia brilhar a terra vermelha, de maneira que as suas dimensões se aprofundavam. Uma pedra, um poste, uma construção adquiriam mais profundidade e mais consistência então do que à luz do dia; e todos esses objectos se tornavam estranhamente mais individuais: um poste era mais essencialmente um poste; elevava-se com mais firmeza da terra e destacava-se melhor do campo de milho que lhe servia de fundo. E as plantas adquiriam mais individualidade. Não eram apenas um conjunto de cereais, e o salgueiro desfolhado era mais ele próprio, bem diferente dos outros salgueiros. A terra também contribuía com uma parte de luz para a tarde. A frontaria da casa, parda, sem pintura, voltada a oeste, brilhava palidamente com um fulgor semelhante ao da lua. O caminhão cinzento e empoeirado, imóvel no terreiro, destacava-se magicamente àquela luz, na perspectiva exagerada de um estereoscópio.

     Os homens também surgiram alterados ao anoitecer - estavam como que apaziguados. Parecia fazerem parte de uma organização do inconsciente. Obedeciam a impulsos que mal se registavam nos seus cérebros. Dir-se-ia que olhavam para dentro de si próprios, e também os seus olhos brilhavam na luz da tarde, brilhavam-lhes nos rostos cobertos de poeira.

     A família reunira-se no local mais importante, junto do caminhão. A casa estava morta, mortos os campos, mas aquele caminhão era algo de activo, como um princípio vital. O velho Hudson, de radiador torcido e riscado, com verrugas de óleo e de pó em todos os pontos gastos do mecanismo, sem tampões de rodas e com tampões de poeira a substituí-los, era agora o novo coração, o centro vivo da família; meio automóvel, meio caminhão, tão desproporcionado como tosco.

     O pai andava à volta do veículo, olhando-o e tornando a olhá-lo; depois, sentou-se no chão, na poeira, e procurou um graveto para desenhar garatujas. Tinha um dos pés bem assentes no chão; o outro descansava sobre o calcanhar, de maneira que um dos joelhos ficava mais alto do que o outro, O antebraço esquerdo repousava no joelho esquerdo que ficava mais baixo; o antebraço direito apoiado no joelho direito, e, portanto mais alto; o punho direito servia de apoio ao queixo. Deixou-se ficar assim, a olhar para o caminhão. E o tio John aproximou-se dele, devagarinho e acocorou-se a seu lado. Os olhos de ambos estavam pensativos. O avô saiu de casa e viu-os ali acocorados; foi no seu passo desigual até ao caminhão e sentou-se no estribo, defronte deles. Estava formada a sessão. Tom, Connie e Noah vieram juntos e também se acocoraram, formando todos um semicírculo, em cuja abertura se via o avô sentado. Depois, a mãe veio também de dentro de casa com a avó e, atrás, vinha Rosa de Sharon, andando com passinhos curtos, cuidadosos. Tomaram lugar atrás dos homens acocorados, de pé, com as mãos nas ancas. E as crianças - Ruthie e Winfield - andavam aos saltinhos diante delas; distraíam-se, metendo os pés na poeira vermelha, mas não diziam nada. Somente o pregador se não encontrava ali presente. Por delicadeza, fora sentar-se no chão, atrás da casa. Era um bom pregador, e conhecia aquela gente.

     A luz da tarde tornara-se mais branda, e, por alguns instantes, a família manteve-se calada. Depois, o pai, não se dirigindo a ninguém em especial, mas ao grupo todo, fez o seu relatório.

     - Fomos comidos com a venda dessa trapalhada. Aquele bandido sabia que a gente não podia esperar. Não conseguimos mais de dezoito dólares por tudo.

     A mãe esboçou um gesto de indignação, mas dominou-se.

     Noah, o filho mais velho, perguntou:

     - Quanto dinheiro temos ao todo?

     O pai desenhou garatujas na poeira e murmurou para si qualquer coisa de ininteligível.

     - Cento e cinquenta e quatro - disse. - Mas aqui o Al diz que temos de comprar pneus melhores. Ele acha que estes aqui não vão aguentar muito tempo.

     Esta era a primeira conferência em que Al tomava parte. Dantes, ele ficava sempre atrás, junto das mulheres. E assim. a sua informação revestiu-se de solenidade:

     - Esta geringonça que nós temos é velha e bem ordinária - disse com gravidade... - Examinei-a antes de a termos comprado. Nem prestei atenção ao sujeito que dizia que era um veículo bom, perfeito. Meti o dedo no diferencial e não havia limalha nele. Também não havia limalha na engrenagem. Experimentei o travão e fiz girar as rodas. Também me meti por baixo e verifiquei que o chassis estava em ordem. Vi que a bateria tinha uma pilha partida, mas fiz com que o tipo a substituísse por outra. Os pneus não valem um caracol, naturalmente, mas são de bom tamanho. Podem substituir-se facilmente em qualquer parte. Vai balançar que nem um barco, mas não gasta muito óleo. Comprei-o porque era um camião bom para essas estradas Os cemitérios de automóveis estão cheios de Hudsons Super-Sixes e a gente pode comprar peças baratas. Pelo mesmo dinheiro, podia ter-se comprado um carro maior e mais elegante, mas, depois, as peças seriam mais difíceis de arranjar e mais caras. Por isso, eu pensei: o melhor é a gente comprar este mesmo.- Esta sua observação era uma forma de submissão à autoridade da família. Ficou calado, à espera da opinião dos mais velhos.

     O avô era ainda o cabeça da família, mas já não tinha voz ,activa. Era uma peça honorária, uma obediência à tradição. Porém, tinha o hábito de se manifestar primeiro, por mais atontado que estivesse. E os homens acocorados e as mulheres de pé estavam à espera que ele falasse.

     - Fizeste bem, Al - disse o avô. - Eu também já fui um rapazola brincalhão como tu, mas, quando se tratava de alguma coisa séria, eu sabia ser sério. Tu agora estás um homem, Al. Muito bem.

     O velho terminou num tom de quem abençoava, e Al corou de satisfação.

     A seguir, falou o pai:

     - Também me parece que foi bem resolvida esta história do carro. Se se tratasse de cavalos, a gente não precisava de meter nisto o Al, mas Al é o único que percebe de automóveis.

     E depois, Tom:

     - Eu também percebo um pouco disso. Trabalhei com carros em MacAlester. O Al tem razão. Fez o que devia. - Al, agora, estava todo vermelho de prazer. Tom continuou: - Eu queria dizer ainda... bem... se o reverendo... ele quer vir connosco. - Ficou calado; as suas palavras caíram no meio dos homens e das mulheres, e todo o grupo permaneceu calado. - Ele é bom sujeito. - acrescentou Tom. - A gente já o conhece há muito tempo. Ás vezes é um pouco extravagante, mas só diz coisas inteligentes. - E, com aquelas frases, estava a proposta apresentada à família.

     A luz desaparecia aos poucos. A mãe deixou o grupo e entrou em casa, da qual em breve chegava aos homens o bater das tampas de ferro do fogão. Um instante depois, ela estava de volta à reunião em que toda a gente meditava. O avô disse:

     - A coisa pode encarar-se por dois lados. Antigamente todos diziam que um pregador dava azar.

     Tom retorquiu:

     - Mas ele diz que já não é pregador.

     O avô agitou a mão num gesto de vaivém:

     - Quem uma vez foi pregador, será sempre pregador. Disso podem vocês estar certos. Mas também muita gente dizia antigamente que era bom ter um pregador sempre connosco. Quando alguém morre, pode ele fazer o enterro. Quando alguém casa, lá está o pregador. Quando nasce uma criança, é o pregador quem a baptiza. Eu sempre disse que há pregadores e pregadores. E só saber escolher o que presta. E este aqui, até eu gosto dele. Não é nada burro.

     O pai enfiou o gravato que tinha na mão debaixo de um montículo de poeira e ficou a girá-lo entre os dedos, abrindo um pequeno túnel.

     - Não se trata de saber somente se ele traz sorte ou azar - disse lentamente. - Precisamos de fazer os cálculos. É o diabo quando a gente precisa de fazer cálculos assim tão apertados. Ora vamos a ver: estão aí o avô, a avó - são duas pessoas. E eu, o John e a mãe... são cinco, E Noah e Tommy e Al, são oito. E Rosasharn e Connie, são dez. E a Ruthie e o Winfield, são doze. E também temos de levar os cães. Senão, que é que vamos fazer deles? Não se pode dar um tiro num bom cão, e por aqui não há ninguém a quem os dar. Então, são catorze ao todo.

     - Não contando com as galinhas e os dois porcos - disse Noah.

     Mas o pai sugeriu:

     - Acho melhor a gente salgar os dois porcos para a viagem. Vamos precisar de carne. E, assim, só temos que levar as barricas de carne salgada. Mas a questão é saber se nós todos cabemos no caminhão, nó s e o pregador também. E se podemos dar comida a mais uma pessoa. - Sem virar a cabeça, perguntou à mulher: - Achas que podemos?

     A mãe respirou profundamente:

     - A questão não é saber se podemos; a questão é saber se queremos - disse com firmeza. - Quanto a poder, acho que não podemos nem ir para a Califórnia nem para outro lado qualquer. Mas, quanto a querer, a gente, querendo, faz o que pode. E, por falar nisso, vivemos aqui muitos anos e nunca ninguém disse que um Joad ou um Wazlet recusasse comida, tecto ou transporte a alguém necessitado. Houve Joads maus, mas não tanto como isso.

     O pai interrompeu-a:

     - Mas, se não houver lugar para ele? - Virara a cabeça para olhar para ela e estava envergonhado por causa do tom da mulher. - Se a gente não couber toda no camião?

     - Nem agora há lugares que cheguem, com ele ou sem ele - replicou ela. - O caminhão só dá bem para seis pessoas, e são doze, pelo menos, que têm de viajar dessa maneira. uma pessoa a mais não faz diferença, e um homem forte e saudável nunca é demais. De qualquer maneira, a gente, tendo dois porcos, e mais de cem dólares, não deve ficar a pensar se pode sustentar mais uma pessoa...- Ela interrompeu-se e o pai sentou-se, mortificado com aquela lição. Tinha sido vencido.

     E a avó comentou:

     - É uma coisa bonita termos um pregador na nossa companhia. Ele fez uma bonita reza, hoje de manhã.

     O pai olhou o rosto de cada um dos presentes, à espera de qualquer protesto e depois disse:

     - Chama-o para aqui, Tommy. Se ele for, deve estar aqui junto de nós.

     Tom levantou-se e dirigiu-se para casa, gritando:

     - Casy! ó Casy!

     Uma voz abafada respondeu detrás da casa. Tom foi até ao canto da construção e viu o pregador sentado, encostado à parede, mirando a estrela da tarde no céu luminoso.

     - Chamou? - perguntou Casy. - Sim. já que o senhor vem com a gente, é melhor vir para o pé de nós e ajudar a combinar a viagem.

     Casy ergueu-se. Ele conhecia os regulamentos de família e viu que tinha sido admitido nesta e com uma posição elevada, pois que o tio John se afastava para o lado, a fim de lhe dar lugar no conselho, entre a sua pessoa e a do pai de Tom. Casy também se acocorou como os outros, em frente do avô, que estava entronizado no estribo do caminhão.

     A mãe tornou a entrar em casa. Ouviu-se o riscar de um fósforo e logo a luz amarela, fraca de uma lanterna iluminou a cozinha escura. Quando ela ergueu a tampa do panelão, o odor excitante da carne cozinhada com legumes espalhou-se através da porta aberta. Esperaram que a mãe regressasse ao quintal cada vez mais escuro, pois que a mãe tinha posição de relevo na reunião.

     O pai continuou:

     - Precisamos de combinar o dia da partida. Quanto mais cedo, melhor. O que a gente tem de fazer antes, é matar e salgar os porcos e embrulhar as nossas coisas. Agora, quanto mais depressa, melhor.

     Noah concordou:

     - Se a gente se apressar, podemos. terminar tudo amanhã mesmo e partir depois de amanhã.

     Mas o tio John não foi do mesmo parecer:

     - Um dia não dá para a carne esfriar. Agora não é época de matança. E a carne vai-se estragar, se não esfriar bem.

     - Bom, então vamos matar os porcos esta noite mesmo. Já haverá mais tempo para a carne esfriar. Vamos comer e começar depois. Há sal suficiente?

     - Há sim. E temos também duas boas barricas.

     - Bem, então é só começar - disse Tom.

     O avô começou a querer agarrar-se a qualquer coisa que lhe servisse de apoio para se erguer do estribo.

     - Está a escurecer - disse. - E estou com fome. Quando a gente chegar à Califórnia, vou ter cachos de uvas nas mãos para comer quando quiser, sim senhor. - Levantou-se e os homens imitaram-no. Como dois maluquinhos, Ruthie e Winfield saltitavam alegres na poeira. Ruthie sussurrou numa voz rouca:

     - Matar porcos e ir para a Califórnia. Matar porcos e ir para a Califórnia...

     Winfield estava louco de alegria. Meteu os dedos na garganta, fez uma careta terrível e começou guinchando debilmente e aos tropeções:

     - Eu sou um porco velho. Olhem. Eu sou um porco velho. Olha o sangue, Ruthie! - E cambaleou e caiu no chã o, agitando molemente os braços e as pernas.

     Mas Ruthie era mais velha e já compreendia a seriedade da situação.

     - E ir para a Califórnia - disse ela, outra vez. E sabia que era esse o momento mais importante da sua vida.

     Os adultos foram andando em direcção à cozinha iluminada, na escuridão crescente do crepúsculo, e a mãe serviu-lhes carne e hortaliça em pratos de estanho. Mas, antes que ela própria comesse, colocou sobre o fogão a grande banheira redonda para aquecer água. Carregou baldes e baldes de água até encher a banheira, e, depois, colocou baldes cheios de água à volta dela. Meteu mais lenha no fogão, para alimentar as chamas. A cozinha em breve ficou quente e cheia de vapor de água. Toda a família comeu à pressa. Depois, saíram para o terreiro, e ficaram à espera que a água fervesse. Olhavam para a escuridão, contemplando o quadrilátero de luz que a cozinha iluminada projectava na noite e no meio da qual se desenhava a sombra recurvada do avô. Noah limpava os dentes com uma palha. A mãe e Rosa de Sharon lavaram os pratos e empilharam-nos sobre a mesa. E, de repente, lançaram-se todos ao trabalho. O pai trouxe outro lampião e acendeu-o. Noah tirou de uma gaveta da cozinha uma faca curva e aguçada usada nas matanças, e começou a afiá-la numa pedra de amolar gasta e pequena. Colocou a raspadeira sobre o cepo e pôs a faca ao lado. O pai trouxe dois paus fortes, de três pés de comprimento cada um, afiou-lhes as extremidades com a machadinha e amarrou-os uns aos outros a meio, com cordas resistentes de dupla meia volta.

     Pôs-se então a murmurar:

     - Não se deviam ter vendido os varais todos.

    A água na panela fervia e borbulhava.

     - Vamos trazer os porcos para aqui, ou levamos a água para lá? - perguntou Noah.

     - Trazemos os porcos para aqui - disse o pai.- Aqui a gente. pode escaldá-los melhor. A água está pronta?

     - Está a ferver - disse a mãe.

     - Bom. Noah, tu, o Tom e o Al, venham daí. Eu levo a luz. Vamos matá-los lá e depois trazemo-los para aqui.

     Noah pegou na faca; Al, na machadinha, e os quatro homens caminharam em direcção ao chiqueiro; o lampião iluminava-lhes frouxamente as pernas. Ruthie e Winfield corriam e saltavam por ali. Ã porta do chiqueiro, o pai debruçou-se sobre a cerca, segurando o lampião. Os porcos, sonolentos, puseram-se de pé com esforço, grunhindo, desconfiados. O tio John e o reverendo Casy chegavam, dispostos a ajudar.

     - Bem, vamo-nos a eles - disse o pai.- A gente mata-os aqui e deixa escorrer o sangue; depois, escaldamo-los em casa.

     Noah. e Tom saltaram a cerca. Fizeram o serviço rápida e eficientemente. Tom desferiu dois golpes com o gume rombo da machadinha e Noah, debruçando-se sobre os animais atordoados, sangrou-os, rasgando-lhes a veia com a faca curva e deixando que o sangue escorresse em liberdade; depois arrastaram os dois porcos, que guinchavam medonhamente, para fora, erguendo-os sobre a cerca. O pregador e o tio John arrastaram um dos porcos pelas pernas traseiras e Tom e Noah fizeram o mesmo ao outro. O pai iluminava o caminho com a lanterna e o sangue negro traçou dois carreiros no pó.

     Chegados a casa, Noah enfiou a faca entre o tendão e os ossos das pernas traseiras; as varas aguçadas mantinham as pernas bem afastadas uma da outra; pouco depois, os porcos estavam pendurados nos caibros, do lado de fora da casa. Os homens trouxeram da cozinha a panela da água a ferver e despejaram-na sobre os corpos negros dos animais. Noah abriu-lhes as barrigas de alto a baixo e extraiu-lhe as entranhas, deixando-as cair no chão. O pai aparou mais dois paus para manter os corpos bem abertos, enquanto Tom, com a raspadeira, e a mãe, com uma faca sem ponta, lhes raspavam os pêlos. Al trouxe um balde e juntou nele as entranhas dos dois porcos e deitou-as para o mato, longe de casa. Dois gatos seguiram-no, miando, e os cães também lhe foram na cola, rosnando sumidamente por causa dos gatos.

     O pai, sentado nos degraus da porta, olhava os porcos pendurados no terreiro, à luz da lanterna. A raspagem já tinha terminado, e apenas algumas gotas de sangue continuavam a cair das carcaças na poça negra que se formara no chão. O pai ergueu-se, abeirou-se dos porcos e pôs-lhes a mão, a ver como estavam; tornou depois a sentar-se no mesmo lugar. O avô e a avó iam a caminho do celeiro para dormir; o avô levava uma vela na mão. Os restantes quedaram-se em volta da porta, Connie, Al e Tom, no chão, encostados à parede da casa; o tio John sentado num caixote e o pai no limiar da porta. Somente a mãe e Rosa de Sharon ainda andavam atarefadas. Ruthie e Winfield lutavam contra o sono. Noah e o reverendo acocoraram-se lado a lado, em frente da casa. O pai coçava-se nervosamente; tirou o chapéu e passou os dedos pelos cabelos.

     - Amanhã, bem cedo, vamos tratar de salgar a carne de porco e depois carregamos o camião; só deixamos de fora as camas e, depois de amanhã, partimos, hein? Com um dia de trabalho, faz-se tudo - disse excitado.

     Tom interveio:

     - Vamos ficar, então, todo o dia sem fazer nada... - O grupo agitava-se desassossegado. - A gente podia terminar tudo até de madrugada e partir depois - acrescentou Tom. - O pai esfregou o joelho com a mão. O desassossego comunicava-se a todos.

     Noah. disse:

     - Talvez a carne se não estragasse se a metêssemos já no sal. É cortá-la, que arrefece mais depressa.

     Foi o tio John quem, incapaz de se conter por mais tempo, agarrou a ocasião pelos cabelos:

     - Para que andamos nós aqui a perder o tempo? O melhor é acabar com isto. Se temos de ir, porque é que não vamos o mais depressa possível?

     O espírito revolucionário comunicou-se aos outros.

     - Sim, porque não Vamos? Podemos dormir pelo caminho.

     Um sentimento de pressa dominava-os a todos.

     O pai disse:

     - Dizem que são duas mil milhas. É uma caminhada longa como o diabo. A gente tem de ir. Noah, tu e eu vamos cortar a carne e depois carregamos o caminhão.

     A mãe assomou à porta:

     - E se nos esquecemos de alguma coisa? Não se vê nada nesta escuridão.

     - A gente pode verificar tudo ao romper do dia - disse Noah.

     Então ficaram todos silenciosos a pensar no caso. De repente, Noah ergueu-se e começou a amolar a faca de lâmina curva na pedra gasta.

     - Desembarace a mesa, mãe. - E foi-se a um dos porcos; rasgou-lhe as costas, junto da espinha, de ponta a ponta, e começou a separar a carne das costelas.

     O pai levantou-se, excitado:

     - Temos de reunir as coisas - disse. - Vamos, gente!

     Agora, que estavam decididos a partir, a pressa comunicava-se a todos. Noah. levou os pedaços de carne para a cozinha e cortou-os para os salgar. A mãe passou-os pelo sal e colocou-os lado a lado, nas barricas, com cuidado, para que os pedaços não ficassem em contacto uns com os outros; dispô-los como tijolos e encheu de sal os intervalos que os separavam. Então Noah. cortou a carne dos lados e as pernas. A mãe alimentou o lume do fogão e, à medida que Noah. ia limpando de carne as costelas, a espinha e os ossos das pernas o melhor que podia, ela ia pondo no fogão esses ossos a assar para se roerem os pedaços de carne que tinham ainda agarrados.

     No pátio e no celeiro moviam-se os círculos luminosos das lanternas, e os homens juntavam todos os objectos que iriam levar na viagem e empilhavam-nos ao lado do caminhão. Rosa de Sharon trouxera para fora todas as roupas que a família possuía: os fatos-macacos, os sapatos de sola grossa, as botas de borracha, os fatos melhores, os sweaters, e os casacos de pele de carneiro. Meteu todas essas coisas bem apertadas dentro de um caixote, e, saltando para dentro dele, pisou tudo muito bem, para arranjar mais espaço. Depois, trouxe os vestidos de fantasia, os chales, as meias pretas de algodão, as roupitas das crianças - macaquitos e vestidos de chita; meteu tudo no caixote e pisou tudo muito bem outra vez.

     Tom foi ao depósito de ferramentas e trouxe todos os utensílios que valia a pena levar - um serrote, uma colecção de chaves de parafusos, um martelo, um sortimento de pregos de diversos tamanhos, dois alicates, uma lima plana e dois limatões redondos.

     Rosa de Sharon trouxe para fora um grande rolo de lona e desenrolou-o no chão, atrás do carro. Teve dificuldade em cruzar a porta com os colchões, três colchões de casal e um de pessoa só. Empilhou-os sobre a lona e trouxe depois braçadas de velhos cobertores dobrados e pô-los também uns por cima dos outros.

     A mãe e Noah afadigavam-se à volta das carcaças dos porcos; da cozinha vinha o cheiro da carne agarrada aos ossos que a mãe pusera a assar no forno. As crianças tinham adormecido alta noite. Winfield dormia enrodilhado na poeira em frente da porta e Ruthie, sentada num caixote da cozinha, aonde fora ver esquartejar o porco, de cabeça encostada à parede. Respirava tranquilamente e tinha os lábios ligeiramente entreabertos.

     Tom acabou de arrumar as ferramentas e entrou na cozinha com a lanterna na mão, seguido do reverendo Casy.

     - Deus do céu! - exclamou ele. - Que cheiro formidável! E oiçam como ela crepita!

     A mãe achava-se ainda ocupada em colocar os pedaços de carne nas barricas; cobria de sal todas as camadas enchendo bem com ele os espaços vazios, entre cada uma delas; punha-lhes bastante sal e apertava-as bem contra o fundo da barrica. Levantou a vista para Tom e sorriu-se ligeiramente, mas os seus olhos, esses, estavam cansados e sérios.

     - E bom a gente ter ossos de porco para o almoço - disse ela.

     O pregador aproximou-se:

     - Deixe-me salgar essa carne - disse ele.- Eu sei fazer isso. E a senhora tem outras ocupações.

     Ela interrompeu o trabalho e lançou um olhar singular ao pregador, como se este tivesse sugerido algo de extraordinário. As mãos dela estavam sujas de sal molhado e avermelhadas pelo sangue da carne fresca.

     - Não, isto é trabalho de mulher - disse, finalmente.

     - É trabalho – replicou o pregador. – Há muito que fazer, para estabelecer diferenças entre trabalho de homem e de mulher. A senhora tem muitas outras coisas a resolver. Deixe, que eu salgo esta carne.

     Durante mais alguns segundos, ela encarou-o e depois deitou um balde de água numa pequena bacia de folha de lavar as mãos e começou a lavar-se. O pregador pegou nos pedaços de carne de porco e foi deitando sal sob as vistas dela. Colocava-os na barrica, tal como, ela fizera antes. Só depois de ver que ele acabava uma camada, procedendo exactamente como ela, é que se sentiu tranquila. Então enxugou as mãos ásperas e vermelhas.

     - Mãe, que é que a gente vai levar daqui da cozinha? - perguntou Tom.

     Ela olhou rapidamente em volta.

     - O balde - disse. - Tudo o que for preciso para comer: pratos, copos, colheres, garfos e facas. Põe tudo na gaveta e leva-a para o caminhão. E também aquela frigideira, a chaleira e a cafeteira. E, quando a grelha esfriar, tira-a do fogão. Podemos precisar dela, quando fizermos carne assada. Por mim, também levava a tina, mas acho que já não há lugar. Vou ter de lavar a roupa no balde. As outras coisas nem vale a pena levá-las. Pode-se cozinhar coisas pequenas em vasilhas grandes, mas não se pode cozinhar coisas grandes em vasilhas pequenas. O que convém é levar todas as formas do pão. Cabem umas dentro das outras. - Ficou parada, a olhar demoradamente a cozinha. - Bom, Tom, traz as coisas que te disse. Eu vou ver o resto, a lata grande da pimenta, o sal, a noz-moscada e o ralador. Pegou numa lanterna e caminhou pesadamente para o quarto de dormir; os seus pés nus não produziam som algum ao pisar o chão.

     O pregador disse:

     - Parece que ela está cansada.

     - As mulheres andam sempre cansadas - disse Tom. - São assim mesmo. Só não se cansam quando estão no culto.

     - Sim, mas ela está demasiado cansada. Como se estivesse doente até.

     A mãe ainda não tinha fechado a porta atrás de si, por isso, ouvira aquelas palavras. Lentamente, o relaxamento dos músculos das suas faces sumiu-se, para dar lugar à antiga expressão de energia. Os olhos brilhavam-lhe e os ombros endireitaram-se. Lançou um olhar ao quarto nu. já não havia nada ali dentro, a não ser trastes sem o menor valor. Os colchões, que haviam sido postos no chão, já tinham sido levados para fora. As mesas tinham sido vendidas. Via-se um pente quebrado caído no chão; ao lado, uma caixa de pó de talco - vazia e um montículo de fezes de rato. Ela colocou a lanterna no chão. Meteu a mão por detrás de um caixote que servira de cadeira e tirou de lá uma caixa de papel de escrever, já bastante velha e suja e quebrada nos cantos. Sentou-se e abriu s caixa. Lá dentro havia cartas, recortes, fotografias, um par de brincos, um anel de ouro, pequeno, de sinete, uma corrente de relógio feita de cabelos entrançados e entremeados de fios de ouro. Pegou nas cartas com os dedos, tocou-as ao de leve e alisou um recorte de jornal que tratava do julgamento de Tom. Segurou durante algum tempo a caixa, olhando-a; depois os seus dedos espalharam o maço de cartas e tornaram a ordená-lo. Mordeu o lábio inferior, pensativa, recordando coisas. E, por fim, tomou uma decisão. Tirou da caixa o anel, a corrente de relógio, os brincos, meteu a mão por baixo do maço de coisas e achou o elo de uma pulseira de ouro. Tirou uma carta de um sobrescrito e pôs todos esses pequenos objectos no sobrescrito. Fechou-o e guardou-o no bolso do vestido. Depois, delicada, ternamente, tornou a pôr a tampa na caixa, e acariciou-a com dedos subtis. Os seus lábios entreabriram-se. Em seguida, levantou-se, pegou na lanterna e voltou à cozinha. Ergueu uma das tampas de ferro do fogão e enfiou, devagar a caixa para dentro do braseiro. Depressa o calor chamuscou a caixa de papelão. Tornou a fechar o fogão e imediatamente o fogo espirrou, tomando posse da caixa. Uma chama viva envolveu-a.

    

     Fora, no terreiro escuro, trabalhando à luz de uma lanterna, o pai e Al carregavam o caminhão. As ferramentas por baixo de tudo, no entanto, fáceis de localizar para o caso de avaria do motor. Depois, os caixotes com as roupas e os utensílios de cozinha num saco de juta; a seguir, o caixote com os pratos e os talheres. Depois, o cântaro atado atrás. Esforçavam-se por tornar esta base do carregamento tão nivelada quanto possível, enchendo os vãos com cobertores enrolados. Depois, cobriram tudo com os colchões e assim ficou cheio todo o fundo do caminhão. Finalmente, estenderam a lona por cima da carga e Al fez buracos nas extremidades, à distância de dois pés uns dos outros, enfiou-lhes pequenas cordas e atou-as às barras laterais do veículo.

     - Agora, se chover - disse ele - podemos amarrar a lona nas barras de cima e nós ficamos debaixo sem nos molharmos. Quem for à frente, ficará bem abrigado.

     E o pai aplaudiu:

     - É uma boa ideia.

     - Ainda não é tudo - disse Al - Assim que puder, compro uma prancha e faço dela um mastro e coloco-lhe em cima o encerado. Assim, não apanharemos sol.

     E o pai tornou a dizer:

     - É uma boa ideia, Mas, porque é que tu não pensaste logo nisso?

     - Não tive tempo.

     - Não tiveste tempo? Mas para andar por aí a vadiar, tiveste tempo. Deus sabe por onde andaste estas duas semanas.

     - A gente tem de tratar de muita coisa quando se despede da sua terra - disse Al. Depois perdeu um pouco da sua firmeza. - Pai - perguntou - o senhor está satisfeito por nos irmos embora?

     - Hein? Sim... naturalmente. Pelo menos, assim me parece. A vida aqui não foi nada fácil. E lá na Califórnia, vai ser tudo diferente... há muito serviço para se ganhar dinheiro, e lá tudo é verde e bonito e as casas são branquinhas e cercadas de laranjeiras.

     - É verdade, que há lá laranjeiras por toda a parte?

     - Bom, talvez não seja por toda a parte, mas em quase todos os lugares, há, isso de certeza.

     O primeiro véu cinzento da madrugada surgiu e espalhou-se pelo céu. O trabalho já estava feito: ao carne salgada e os galinheiros prontos para irem no cimo do camião. A mãe abriu o forno e tirou os ossos de porco, que tinham bastante carne e carne bem assada e apetitosa. Ruthie estava meio acordada; depois, escorregou do caixote e adormeceu de novo. Mas os adultos estacionavam junto da porta, a tremerem de frio e a roerem os ossos de porco tostados.

     - Acho que devemos acordar o avô e a avó - disse Tom. - Vamos partir logo que seja mais dia.

     A mãe opinou:

     - É melhor acordá-los só no fim. Eles precisam de descansar. E também a Ruthie e o Winfield não dormiram convenientemente.

     - Bem, eles podem dormir em cima da carga, depois - disse o pai.- Aquilo está muito bem preparado.

     De repente, os cães ergueram-se da poeira e ficaram à escuta, de orelhas espetadas. Depois, latindo raivosamente, lançaram-se na escuridão.

     - Que diabo é isto agora? - perguntou o pai.

     Um instante depois ouviram uma voz que procurava apaziguar os cães e os latidos enfraqueceram. Soaram passos e então um homem surgiu diante deles. Era Muley Graves, com o chapéu muito puxado para os olhos.

     Aproximou-se timidamente:

     - Bom dia, gente! - disse.

     - Mas é o Muley! - exclamou o pai, fazendo um gesto de saudação com a mão, que ainda segurava o osso.- Entra, Muley, e come qualquer coisa com a gente.

     - Não, obrigado - disse Muley. - Não tenho fome.

     - Ora, deixa-te disso, Muley. Toma lá! - E o pai entrou em casa e trouxe de lá uma mão-cheia de costeletas.

     - Não vim para comer do que é vosso - disse ele - Passei por aqui, e então lembrei-me de ver como estavam todos e de me despedir.

     - Daqui a pouco vamos partir - disse o pai. - Se tivesses vindo daqui a uma hora, já não encontravas ninguém. Está tudo pronto para a viagem, vês?

     - Tudo pronto.- Muley olhou para o caminhão carregado. - Às vezes, também tenho vontade de ir à procura da minha gente.

     A mãe perguntou:

     - Tu não tiveste notícias deles lá da Califórnia?

     - Não - disse Muley.- Não tenho notícias nenhumas. Mas talvez seja porque nem fui ao correio saber se tinha alguma coisa. Qualquer dia tenho de lá ir.

     O pai disse:

     - Al, vai acordar o avô e a avó. Dize-lhes que venham comer. Daqui a bocadinho vamos partir.- E, quando Al já ia em direcção ao celeiro, o pai virou-se para o recém-chegado: - Muley, se tu quiseres, podes vir com a gente. Há-de arranjar-se mais um lugarzinho.

     Muley deu uma dentada numa das costeletas e ficou a mastigar a carne.

     - Às vezes, sinto vontade de ir. Mas sei que nunca irei - disse. - No último instante, desapareço que nem um fantasma.

     Noah disse:

     - Aqui no campo acabas por esticar o pernil qualquer dia, Muley.

     - Eu sei. já pensei nisso também. Às vezes sinto-me sozinho que nem o diabo, e isso não me custa nada; até gosto. Não tem importância. Mas, se falarem lá com a minha gente na Califórnia, digam-lhe que estou bem. Digam-lhe que passo bem. Não lhes contem como eu vivo aqui. Digam-lhe que vou ter com eles assim que arranjar dinheiro.

     A mãe perguntou:

     - Mas sempre vais, Muley?

     - Não - disse Muley, brandamente. - Não quero, nem posso sair daqui. Agora tenho de ficar por aqui. Há pouco tempo, ainda seria capaz de ir. Agora já não. Uma pessoa começa a matutar e acaba por saber o que quer. Nunca irei para a Califórnia.

     A luz da alvorada, agora mais viva, empalidecia a das lanternas. Al voltara e, ao lado dele, agitado e coxeando, vinha o avô.

     - Ele não estava a dormir - disse Al - Estava sentado no chão, atrás do celeiro. Acho que lhe aconteceu qualquer coisa.

     Os olhos do avô, baços, não reflectiam aquela antiga maldade que lhe era peculiar.

     - Não tenho nada - disse ele. - Já não quero ir.

     - Não vem? - perguntou o pai. - Que é que o senhor quer dizer com isso? Mas a gente já arrumou tudo. Temos de ir. já não temos onde ficar.

     - Eu não disse para vocês ficarem - disse o avô. - Vocês podem ir à vontade. Eu é que fico. Estive quase toda a noite a pensar nisso. A minha terra é esta. Eu sou daqui. E tanto se me dá que as laranjas e as uvas por lá até caiam na cama de uma pessoa como não. Não vou. Esta região não presta, mas é a minha terra. Vão vocês. Eu fico aqui na terra a que pertenço.

     Reuniram-se todos em volta do avô. O pai disse:

     - Não pode ser, avô. Os tractores vão ocupar estas terras. Quem é que há-de cozinhar para si? Como é que o senhor vai viver? Não pode ficar aqui. Sem ninguém que tome conta de si, vai morrer de fome.

     O avô gritou:

     - Que diabo! Eu sou um velho, mas ainda posso tomar conta de mim! O Muley como é que se arranja? Posso tratar tão bem de mim como ele. Já lhes disse que não vou. Agora peguem-lhe com um trapo quente. Podem levar a avó, se quiserem, mas a mim é que ninguém me arranca daqui. E acabou-se!

     - Mas escute, avô - disse o pai desalentado. - Escute só um instantinho.

     - Não tenho nada que escutar. já disse o que tenciono fazer.

     Tom tocou no ombro do pai.

     - Ó pai, vamos lá dentro. Quero dizer-lhe uma coisa. E, quando iam direitos a casa, chamou:

     - Mãe, venha cá um momentinho, sim?

     Uma lanterna iluminava a cozinha e o prato de costeletas estava bastante cheio ainda. Tom disse:

     - Olhe, eu sei que o avô tem o direito de dizer que não quer ir com a gente, mas ele não pode ficar. É uma coisa que toda a gente sabe.

     - Claro que não pode ficar - disse o pai.

     - Olhe, eu pensei o seguinte: se a gente o agarrar e o amarrar à força, podemos magoá-lo, ou ele fica tão danado que se magoa a si mesmo. Também não adianta estar a discutir com ele agora. Mas, se se embebedar, muda de ideias. O senhor tem whisky, pai?

     - Não - disse o pai.- Nem uma gota... - O John também não tem. Quando não bebe, é porque não tem whisky.

     A mãe disse:

     - Tom, eu tenho meia garrafa daquele remédio calmante que comprei para o Winfield, quando ele tinha aquela dor de ouvidos. Talvez sirva. O Winfield, mesmo com muitas dores, dormia logo que tomava aquilo.

     - Quem sabe? - aventurou Tom. - Não custa nada a gente experimentar. Traga-o lá.

     - Já deitei a garrafa ao lixo - disse a mãe. - Pegou na lanterna e saiu, e, um momento depois, voltou com a garrafa de remédio cheia até metade, de um líquido escuro.

     Tom tirou-lha das mãos; desarrolhou-a e bebeu um gole.

     - Não tem mau gosto - disse. - Faça uma chávena de café forte. Deixe ver... Aí diz para se tomar uma colher de chá. Mas é melhor a gente deitar mais, pelo menos, duas colheres de sopa.

     A mãe tirou a tampa do fogão e pôs-lhe dentro uma chaleira, mesmo em cima das brasas, e deitou-lhe água e café.

     - Tem de tomar o café numa lata de conserva vazia - disse. - As chávenas já estão todas embrulhadas.

     Tom e o pai tornaram a sair da cozinha.

     - A gente tem o direito de falar naquilo que tenciona fazer. Eh lá, quem é que está a comer costeletas? - disse o avô.

     - Fomos nós - disse Tom.- A mãe está a preparar uma chávena de café para si e também lá tem carne de porco.

     O avô entrou, bebeu o café e comeu a carne de porco. O grupo, lá fora, na claridade crescente, ficou a vigiar-lhe os movimentos, através da porta aberta. Viu-o bocejar, cambalear um pouco, estender em seguida os braços sobre a mesa, inclinar a cabeça e adormecer profundamente.

     - Estava cansado - disse Tom. - Deixem-no agora...

     Estava tudo pronto. A avó, um tanto atordoada e estranha, perguntou:

     - Que é isto, afinal de contas? Que é que vocês todos andam aqui a fazer tão cedo!?

     Mas ela estava vestida e com bom aspecto. E Ruthie e Winfield estavam também acordados, mas ainda se mantinham quietos, devido aos efeitos do cansaço, e a um estado de semi-adormecimento. A claridade espalhava-se rapidamente sobre os campos. O vaivém da família cessara. Ali estavam todos, sem coragem para esboçar o primeiro movimento de abalada. Agora, que chegara a hora, estavam todos com medo... sentiam o mesmo temor que se apossara do avô. Viram o alpendre tomar forma contra a luz e viram as lanternas empalidecerem a ponto de o facho amarelo que projectavam se desfazer por completo. As estrelas sumiam-se umas atrás das outras, para os lados do ocidente. E a família continuava no mesmo lugar, como um grupo de sonâmbulos, com os olhos mergulhados no vácuo, sem nada verem em pormenor, mas agarrados ao aspecto geral da madrugada, a toda a terra, ao conjunto panorâmico daquela região.

     Somente Muley Graves rondava sem descanso, olhando para o interior do caminhão, através das frestas do lado, batendo nos pneus de reserva, pendurados nas traseiras do veículo. Afinal, Muley aproximou-se de Tom:

     - Tu vais passar a fronteira do Estado, hein? Vais quebrar a liberdade condicional.

     Tom sacudiu o torpor que o dominara e disse em voz alta:

     - Jesus! já é quase dia claro! Temos de ir andando... - E os outros também saíram daquela apatia que os acometera e foram andando em direcção ao caminhão.

     - Venham - disse Tom.- Vamos buscar o avô. - O pai, o tio John, Tom e Al entraram na cozinha, onde o avô dormia com a cabeça repousada nos braços. Na mesa escorria um fio de café. Seguraram-no pelas axilas e puseram-no em posição vertical; ele resmungou, praguejando com a voz entaramelada de um bêbedo. Arrastaram-no para fora e, ao chegarem junto do caminhão, Tom e Al subiram para o carro e, passando-lhe as mãos por debaixo dos braços, puxaram-no cuidadosamente para cima, depondo-o sobre a carga. Al desatou o toldo de lona e fizeram-no deslizar para baixo, colocando-lhe um caixote ao lado, para que o pesado toldo lhe não caísse sobre o rosto e lhe impedisse a respiração.

     - Tenho de arranjar o tal mastro - disse Al - Vai ser esta noite, quando a gente parar para descansar.

     O avô grunhiu qualquer coisa, mas, assim que se ajeitou na posição do costume, tornou a adormecer pesadamente.

     O pai disse:

     - Mãe, tu e a avó vão um bocado ao lado do Al, no assento da frente. Depois, trocam-se os lugares; assim é mais fácil viajar. - As mulheres subiram para o assento do motorista e os outros treparam para a carrosserie: Connie e Rosa de Sharon, o pai, o tio John, Ruthie e Winfield Tom e o pregador. Noah ficou em baixo, a olhar aquela carrada no alto do caminhão.

     Al deu uma volta em torno do veículo, examinando as molas.

     - Deus do céu! - exclamou. - Estas molas estão frouxas corno o diabo! Foi uma sorte eu deixá-las bem suspensas.

     - E os cães, pai? - perguntou Noah.

     - Ai, que me ia esquecendo deles! - disse o pai. Deu um assobio agudo e um dos cães veio a correr. Noah pegou nele e atirou-o para cima; o animal deixou-se ficar rígido e trémulo, com medo da altura.

     - Os outros têm de ficar - disse o pai.- Muley, queres olhar por eles? Senão, morrem de fome.

     - Pois não! - disse Muley. - Até fico satisfeito por ter dois cães comigo. Podes ficar descansado, que eu tomarei conta deles.

     - Fica também com as galinhas - disse o pai.

     Al sentou-se no lugar do condutor. Calcou o arranque; o motor roncou, parou e tornou a roncar. Depois, ouviu-se o matraquear rítmico de seis cilindros e um fumozinho azul libertou-se do escape.

     - Até mais ver, Muley - disse Al.

     E toda a família gritou:

     - Adeus, Muley!

     Al engrenou em primeira e destravou. O caminhão estremeceu e começou a rodar pesadamente pelo terreiro fora. E Al engrenou em segunda. Começaram a subir a pequena encosta e a poeira vermelha elevou-se atrás deles.

     - Eia, pai, que carregamento tão pesado! - disse Al.- Assim, não vamos andar muito depressa, não!

     A mãe tentou olhar para trás, mas a altura da carrosserie impedia a visão. Endireitou a cabeça e pôs-se a observar, de olhos fixos, a estrada que se desenrolava à sua frente. E o seu olhar reflectia um imenso cansaço.

     Os outros, que estavam na carrosserie, puderam olhar para trás. Viram a casa e o celeiro e um ténue fio de fumo que se desprendia da chaminé. Viram as janelas tingirem-se de vermelho aos primeiros fulgores da manhã. Viram Muley com um ar de abandono, de pé, no limiar da porta, a acompanhá-los com o olhar. Depois, a colina encobriu tudo. Os campos de algodão marginavam a estrada. E o caminhão rodava vagarosamente, através da poeira, rumo a oeste.

    

     As casas, nos campos, tinham sido abandonadas, e os campos consequentemente, também haviam sido abandonados. Somente nos depósitos dos tractores, cujas chapas onduladas brilhavam como prata polida, havia vida e esta vida era alimentada com metal, gasolina e óleo, enquanto os discos das charruas reverberavam ao sol. Os tractores tinham luzes brilhantes, visto que, para um tractor, não existe noite ou dia, e os seus discos de arar revolvem a terra na escuridão e luzem à claridade do dia. Quando um cavalo deixa de trabalhar e recolhe à cocheira, a vitalidade continua nele, há respiração e calor, e as patas pisam a palha caída, as mandíbulas trituram o feno e as orelhas e os olhos continuam a agitar-se. Um calor vital reina na cocheira: o calor e o cheiro da vida. Mas, quando o motor de um tractor suspende a sua actividade, tudo pára e tudo se torna morto como o metal de que o tractor é feito. O calor abandona-o, como o calor vital abandona o cadáver. E então as chapas onduladas fecham-se e o motorista do tractor vai para a cidade de onde veio, talvez a uma distância de vinte milhas e não precisa de voltar por semanas ou meses, pois que o tractor está morto. Isto assim é simples e cómodo: Tão simples, que a sensação de prodígio que o trabalho proporciona desaparece, tão eficiente, que a sensação de deslumbramento desaparece também dos campos, daí resultando que se esquece a profunda compreensão que o homem possui da terra bem como a sua ligação com ela. E no motorista do tractor cresce, vai aumentando o desprezo, que só domina um estranho, que não tem amor, nem sente a sua comunhão com a terra. E que a terra não é só o nitrato nem o fosfato, nem mesmo o tamanho que atinge a fibra do algodão. O homem não é somente. carvão, sal, água ou cálcio. É tudo isto e também muitíssimo mais que o simples resultado da sua análise. O homem, que é mais do que a sua composição química, caminhando na terra, desviando a charrua de uma pedra, abaixando a rabiça do arado no intuito de poupar um rebento temporão, vergando os joelhos na terra para engolir a merenda - esse homem, que é mais que os elementos que o compõem, sabe também que a terra é mais que o simples resultado da sua análise química. Mas o homem da máquina, fazendo rodar um tractor morto através das terras que não ama nem conhece, apenas entende de química; desdenha da terra e desdenha de si próprio. Quando as portas de chapa ondulada se fecham, vai para casa e a sua casa nada tem que ver com a terra.

    

     As portas das casas vazias pendem abertas; vão e vêm ao sabor do vento. Bandos de crianças saem das cidades para lhes quebrar as vidraças das janelas e procuram tesouros ocultos nas ruínas. Aqui está uma faca de lâmina partida. É uma coisa boa. E... olhem, cheira a ratos mortos aqui. Vejam o que o Whitey escreveu na parede. A mesma coisa escreveu ele na retrete da escola e o professor obrigou-o a raspar tudo.

     Logo na noite que se seguiu ao êxodo daquela gente, os gatos, que andavam a caçar nos campos, regressaram e ficaram a miar às portas. E, como ninguém atendesse, os gatos penetraram nas casas vazias e percorreram, miando, os quartos desabitados. Depois, voltaram para os campos e, desde então, transformaram-se em gatos selvagens e passaram a caçar coatis e ratazanas e a dormir de dia nas cavidades do solo. Quando a noite chegava, os morcegos, que se haviam ocultado nos vãos das paredes com medo da luz do dia, esvoaçavam livremente nos quartos vazios e depois tornavam a ocultar-se nos cantos escuros e ali ficavam durante todo o dia, com as asas fechadas, de cabeça para baixo, entre o vigamento, e o cheiro da sua urina enchia as casas vazias.

     Os ratos entravam e acumulavam provisões aos cantos, nas caixas e ao fundo das gavetas, nas cozinhas. E as doninhas entravam e caçavam os ratos, e as corujas pardas esvoaçavam, guinchando e tão depressa entravam como saíam.

     Veio então um aguaceiro. O joio brotou nos degraus das portas, zona que outrora lhe fora proibida e a relva crescia por entre as varandas e as portas de entrada. As casas estavam abandonadas e as casas abandonadas ruem rapidamente, Começaram, pois, a abrir fendas nos revestimentos de madeira, a partir de buracos de pregos enferrujados. A poeira, acamando-se no chão, era perturbada apenas pelas pegadas dos ratos, das doninhas e dos gatos.

     Certa noite, o vento arrancou uma ripa, lançando-a ao chão. Outro golpe de vento penetrou na abertura deixada pela ripa, e arrancou mais três, depois, mais doze. O sol do meio-dia brilhou e lançou uma mancha doirada no pavimento, através do enorme buraco do tecto. Os gatos selvagens regressavam à noite dos campos, mas já não miavam nos degraus. Moviam-se como sombras de nuvens, que passam em frente da Lua, e esgueiravam-se para dentro dos quartos. E, nas noites de ventania, as portas batiam com estrondo nos umbrais e as cortinas esvoaçavam, esfarrapadas, de encontro às vidraças partidas.

    

     A estrada 66 é a rota principal das populações em êxodo. A estrada 66-a longa faixa de cimento que corta as terras, ondulando para cima e para baixo, no mapa, de Mississipi a Bakersfield - atravessa as terras vermelhas e as terras pardas, galga as elevações, cruza as Montanhas Rochosas, penetra no luminoso e terrificante deserto e, cruzando este, torna a entrar nas regiões montanhosas até alcançar os férteis vales da Califórnia.

     A 66 é o caminho de um povo em fuga, a estrada dos refugiados das terras da poeira e do pavor, do trovejar dos tractores, dos proprietários assustados com a invasão lenta do deserto pelas bandas do norte e com os ventos que vêm ululando aos remoinhos do lado do Texas, com as inundações que não traziam benefícios às terras e ainda acabavam com o pouco de bom que ainda possuíam. De tudo isso os homens fugiam e encontravam-se na estrada 66, vindos dos caminhos tributários e das estradas sulcadas de calhas e de marcas fundas de rodas, que cortavam todo o interior. A 66 é a estrada-mãe, a estrada do êxodo.

     Clarksville e Ozark e Van Buren e Fort Smith na estrada 64, e aí finda o Arkansas. E todos os caminhos vão dar a Oklahoma City - a estrada 66, que desce de Tulsa, a 270, que vem de MacAlester, a 81, de Wichita Falls, ao sul, de Enid, ao norte. Edmond, McLoud, Purcell. A 66, à saída de Ok1alioma City, El Reno e Clinton vão dar, a oeste, à 66. Hydro, EIk City e Texola, e eis o fim de Oklahoma. A 66, através do Cabo de Frigideira do Texas. Shamrock e McLean. Conway e Amarillo. Wildorado, Vega e Boise, e chega-se ao fim do Texas. Tucunicari e Santa Rosa e, depois, pelas montanhas do Novo México até Albuquerque, onde a estrada vem de Santa Fé. Daí para baixo, até ao desfiladeiro do Rio Grande e até Los Lunas, e novamente para oeste, pela 66, até às fronteiras do Novo México.

     E então surgem as altas montanhas. Holbrook, Winslow e Flagstaff, nos cumes elevados do Arizona. Depois, o Grande Plateau, que se alteia como uma forte intumescência. Seguem-se Aslifork e Kingman e, de novo, montes pedregosos, onde a água vem de longe e se consegue à força de dinheiro. Depois, pelas montanhas batidas de sol do Arizona até ao Colorado, de margens bordadas de verdes canaviais; então termina o Arizona. A Califórnia fica logo junto ao rio e tem uma cidadezinha por marco: Needles, mesmo à beira do rio. Mas o rio, nessas paragens, é um estranho. Acima de Needles, surge uma cordilheira calcinada, a anunciar o deserto. E a 66 corta o terrível deserto, onde o ar tremula a distâncias incríveis? e as negras montanhas se alcandoram na lonjura insuportável. Finalmente, vem Barstow e depois mais deserto, até que as montanhas de novo se perfilam, as boas montanhas pelas quais serpenteia a 66. Depois, de repente, uma garganta e, lá em baixo o vale maravilhoso com os seus pomares, vinhedos e casinhas e, à distância, uma cidade. E acabou-se a jornada, Santo Deus!

     Os homens em êxodo rompiam na 66; às vezes, um carro solitário, outras vezes, uma pequena caravana. Andavam o dia inteiro vagarosamente pela estrada e, à noite, paravam onde houvesse água. De dia, velhos radiadores expeliam colunas de vapor e frouxas varetas de ligação matraqueavam os ouvidos no seu contínuo martelar. E os homens que guiavam os caminhões e os carros sobrecarregados escutavam, apreensivos. Quanto falta para chegarmos à cidade mais próxima? Há um verdadeiro terror pelas distâncias entre as cidades. Se alguma coisa se quebra... Bem... nesse caso temos de acampar por aqui mesmo, enquanto o Jim vai a pé até à cidade, para comprar a peça que falta e torna a voltar... Que comida temos ainda?

     Ouve o motor. Dá atenção às rodas. Examina com os olhos e com os ouvidos e com as mãos a roda do volante. Observa com a palma da mão a alavanca das velocidades e apreende com os pés o tremor do pavimento. Escuta com todos os sentidos concentrados o velho calhambeque ruidoso, porque uma alteração de ruídos, uma variação de ritmo pode significar uma semana de atraso na viagem. Esse matraquear? São as válvulas. Não tem importância. As válvulas podem fazer barulho até ao dia em que Jesus torne à terra, que não haverá dúvida. Mas essas pancadas que a gente ouve quando o carro anda, não tens ouvido? - isso sim. Talvez o óleo não chegue a todas as peças. Talvez uma das molas esteja gasta. Meu Deus, se for uma mola, que é que a gente vai fazer? O dinheiro some-se tão depressa!

     E por que raio está hoje o motor assim tão quente?! Não estamos a fazer nenhuma subida. Deixa ver. Deus todo poderoso. Rebentou a correia do ventilador. Olha, faz uma correia desse pedaço de corda. Deixa ver que tamanho é preciso. Eu ajusto as pontas. Bem, agora vamos devagarinho, para ver se chegamos a alguma cidade. Esta corda mão vai aguentar muito. Oh, se a gente chegasse à Califórnia onde as laranjas nascem, antes que esta geringonça se desfizesse! Se a gente conseguisse chegar!

     E os pneus - duas camadas já estão gastas, e, ao todo, só há quatro. Talvez a gente ainda arranque umas cem milhas com eles, se antes não dermos nalguma pedra. Que é que havemos de fazer? Viajar essas cem milhas assim mesmo e arriscarmo-nos a furar as câmaras-de-ar? Sim. Bem, vocês é que sabem. A gente tem remendos para pneus. Talvez, quando rebentar, o furo seja pequeno e a gente possa aguentar umas quinhentas milhas. Pois vamos andando até rebentar!

     Temos de arranjar um pneu novo, mas- Deus do céu! - eles querem tanto dinheiro por um pneu usado! Eles põem-se a olhar para nós e sabem que a gente tem de viajar de qualquer maneira, que não podemos perder tempo. Então, aumentam o preço.

     É pegar ou largar! Pensa que eu estou aqui no negocio para me divertir? Estou aqui para vender pneus. Não lhos posso dar de presente. Não tenho culpa nenhuma do que lhes aconteceu. Eu também tenho cá as minhas arrelias.

     A que distância fica a próxima cidade?

     Ontem passaram por aqui quarenta e dois carros, cheios de gente como vocês. De onde vêm eles? E aonde vão?

     Bem, a Califórnia é um grande estado.

     Mas também não é assim tão grande. Os Estados Unidos juntos não são assim tão grandes como isso. Não há lugar para vocês e para mim, para a sua gente e para a minha, para ricos e pobres, todos num só país, ladrões e gente honesta. Para os esfomeados e para os fartos. Porque não voltam para o sítio de onde vieram?

     Isto aqui é um país livre... A gente vai para onde quiser.

     Isso é o que você pensa! já ouviu alguma vez falar das patrulhas da polícia na fronteira da Califórnia? É a polícia de Los Angeles - prende-os e manda-os voltar para trás. Eles dizem: se vocês não vêm para cá com a ideia de comprar terras, não os queremos cá. E dizem: você tem carta de motorista? Deixe ver. Então, rasgam a carta e dizem: sem carta de motorista, você não pode entrar no estado com esse caminhão.

     Mas estamos num país livre!

     Vá atrás disso, vá! Já houve alguém que disse: a liberdade depende da massa que a gente pode pagar por ela.

     Mas na Califórnia, eles pagam salários altos. Eu tenho até um impresso que diz isso mesmo.

     Ora! Isso não passa de uma cantiga! Vi gente que regressava de lá. Vocês foram intrujados. Afinal, quer levar esse pneu ou não quer?

     Tenho de o levar, tenho mas - por Deus! - Isso leva-nos o dinheiro quase todo.

     Bem, isto aqui não e nenhuma casa de caridade. Leva-o ou não?

     Sim, acho que tenho de o levar. Deixe-me primeiro vê-lo melhor. E melhor abri-lo um Pouco. Quero ver como está o forro. ó seu filho da mãe, você não disse que o forro estava perfeito? Olhe para aqui, está quase furado!

     Diabo, você tem razão! Como é que eu não vi isto?

     Viu, sim, seu filho da mãe! E quer arrancar-nos quatro dólares por um pneu quase furado. Tenho vontade de lhe pregar com tudo na cara!

     Ora deixe-se de armar em valente. Já lhe disse que não tinha visto isso. Sabe uma coisa? Dou-lhe este por três dólares e cinquenta; pode levá-lo.

     Levo o diabo! Vou mas é chegar até à cidade mais próxima de qualquer maneira.

     Você acha que o pneu aguentará até lá?

     Tem de aguentar. Prefiro gastar o pneu até à jante a dar um tostão que seja àquele bandido.

   Que é que você pensa afinal que seja um negociante? Ele já disse que não estava ali para se divertir. E isto é que é negócio. Pois o que é que você pensava? Um negociante tem que... o que é chama-lhe outra coisa. Olhe: vê ali aquela tabuleta, à margem da estrada? “Service Club”. Almoço às terças-feiras. Hotel Colmado? Seja bem-vindo. É um clube de refeições. Faz-me lembrar uma história que ouvi a um tipo. Ele tinha ido a uma daquelas reuniões e então contou a tal história a todos aqueles homens de negócios que lá estavam. Quando eu era miúdo - disse ele - O meu pai mandou-me levar uma vitela pela arreata e disse-me: “Anda, leva-a lá abaixo para que a cubram (Trocadilho entre to get serviced: ser servido e to get served: ser coberto). E eu assim fiz. E agora, depois daquela partida, quando um negociante se põe a falar de serviço, pergunto sempre aos meus botões quem é que ele pretende levar com aquela cantiga. Quem está metido nos negócios, tem de mentir e de aldrabar; o que é chama-lhe outra coisa. Isso é que interessa. Se você roubasse o pneu, seria considerado um ladrão e ia preso; ele tentou roubar-nos quatro dólares em troca de um pneu furado: a isso chama-se negócio.

     Danny, ali no assento traseiro, quer um copo de água.

     Tem que esperar. Aqui não há água. Escute... aquele barulho na parte de trás do carro. Parece o telégrafo nos postes. Lá se vai o remendo da jante! Mas temos de continuar. Olhe como assobia! Quando encontrarmos um sítio bom, vamos parar e reparar tudo isso. Mas, meu Deus, a comida é cada vez menos e o dinheiro também está no fim! Como iremos nós arranjar-nos quando já não pudermos comprar gasolina?

     O Danny, no assento traseiro, quer um copo de água. O rapazinho está com sede. Lá está a jante a chiar. O remendo parece que não foi bem feito. Bolas! Pronto, lá se foi tudo! Pneu, câmara-de-ar e tudo! É preciso fazer a reparação. E vamos aproveitar esse material para pôr isto à prova de pregos. Corta-se e mete-se por dentro, a reforçar as partes mais fracas.

     Carros estacionando nas estradas, motores desmontados, pneus remendados. Carros estropiados, arrastando-se ao longo da 66, como animais feridos, arquejantes, mas ainda assim lutando. Motores sobreaquecidos, de juntas frouxas, mancais bambos, carrosseries barulhentas.

     O Danny quer um gole de água.

     Gente que emigra pela estrada 66. O espelho de cimento armado reflecte os raios solares e, à distância, a estrada parece cheia de poças de água.

     O Danny quer um copo de água.

     Ele tem que esperar, coitadinho. Está cheio de calor. No primeiro posto de gasolina. Posto de serviço, como dizia o tal tipo.

     Duzentos e cinquenta mil homens na estrada. Cinquenta mil calhambeques fumegantes, mais ou menos avariados. Carcaças de automóveis abandonados ao longo da estrada. Que lhes teria acontecido? E que teria acontecido aos donos daqueles carros? Teriam ido para diante, a pé? Onde estarão eles? Como é que possuem tanta coragem? De onde lhes veio uma tamanha fé?

     Eis uma história em que mal se pode acreditar - no entanto, é verdadeira, engraçada e linda. Era uma vez uma família composta de doze pessoas que foi forçada a deixar a sua terra. A família não possuía nenhum veículo. Construíram então uma roulotte com material de sucata e carregaram-na com todos os objectos que lhes pertenciam. Arrastaram-na depois até à margem da estrada 66 e ficaram à espera. Daí a pouco apareceu uma possante limousine, que se encarregou da tal família. Cinco foram no automóvel e sete ficaram na roulotte. Sete pessoas e mais um cão na roulotte.

     O homem que os levou até de comer lhes deu. E olhem que isto é a pura verdade. Mas de onde vem essa coragem e essa fé na solidariedade humana? Bem poucos são os factos capazes de ensinarem tamanha fé.

     Os homens em êxodo, fugindo do terror que campeava atrás deles, sofreram coisas estranhas, algumas cruelmente amargas, é certo, mas outras tão belas que a fé se lhes reanimou para sempre.

    

     O velho Hudson transbordante de carga, arrastou-se, gemendo, até atingir a estrada principal em Sallisaw e voltou para o oeste.

     O sol cegava. Mas, sobre a faixa de cimento armado, Al calcou o acelerador, porque as molas, demasiado apertadas, já não ofereciam perigo. De Sallisaw a Gore são vinte e uma milhas, e o Hudson fazia trinta e cinco milhas por hora. De Gore a Warner, treze milhas; de Warner a Checotali, catorze milhas; de Checotali, é um bom bocado até Henrietta - trinta e quatro milhas - mas, ao fim, encontra-se uma cidade autêntica. De Henrietta a Castle dezanove milhas, e o Sol brilhava alto, e, sobre os campos vermelhos, batidos pelos raios de sol, vibrava o ar.

     Al, ao volante, rosto concentrado, todo o corpo atento aos ruídos, os olhos sempre inquietos, fixando, ora a estrada, ora o instrumental. Al formava um só corpo com o seu motor, com todos os nervos vigiando todas as fraquezas daquele, os estampidos, os guinchos, os rangidos que pudessem denunciar uma falha qualquer, que fosse susceptível de determinar uma avaria. Tornara-se a alma do veículo.

     A avó, sentada ao lado dele, estava meio adormecida e gemia fracamente em sonho. Às vezes, abria os olhos, olhava em frente e tornava a fechá-los. A mãe estava sentada ao lado da avó, com um dos cotovelos fora da janela do caminhão, deixando que o sol, implacável, lhe queimasse a pele. Também a mãe olhava em frente, mas os seus olhos, vazios de expressão, parecia nada verem, nem o caminho, nem os campos, nem os postos de gasolina, nem os barracões de comida. Nem sequer erguera os olhos quando o Hudson passara por eles.

     Al ajeitou-se no banco de molas avariadas e mudou a forma de segurar o volante. Suspirou:

     - Faz um barulho dos diabos, mas acho que vai bem. Mas só Deus sabe o que acontecerá se tivermos de subir uma colina com esta carga toda. õ mãe, há algumas elevações daqui até à Califórnia?

     A mãe voltou a cabeça lentamente e os seus olhos voltaram à vida.

     - Acho que sim - disse.- Mas não tenho a certeza disso. Parece-me que ouvi dizer que há umas colinas e até umas montanhas bem grandes, antes de chegarmos à Califórnia.

     A avó emitiu um longo suspiro, queixosa e sonolenta.

     Al disse:

     - O caminhão é capaz de arder se tiver de subir uma montanha. Só se a gente atirar fora algumas coisas. Talvez fosse melhor não trazer o reverendo.

     - Não! A gente ainda vai dar graças a Deus por o ter trazido - disse a mãe.- Ele vai ajudar-nos bastante.- E pôs-se de novo a olhar para a frente, fixando a estrada fulgurante.

     Al ia guiando com uma mão e colocara a outra na vibrante alavanca das mudanças. Falava com dificuldade. A boca formava silenciosamente as palavras antes que as pronunciasse em voz alta.

     - Mãe... - Ela encarou-o devagar, e a cabeça tremia-lhe um pouco por causa da trepidação do veículo.- Mãe ... a senhora está com medo da viagem, não está? Está com medo desses sítios que não conhece?

     Os olhos dela tornaram-se pensativos e brandos.

     - Um pouco, sim - disse. - Mas não tanto como tu estás aí a pensar. Estou à espera. Quando houver alguma coisa a fazer, cá estou para isso.

     - E não pensa no que nos vai acontecer quando lá chegarmos? Não tem medo de que não seja tão bom como a gente imagina?

     - Não - respondeu ela rapidamente. - Não tenho medo. Não há-de ser assim. Nem quero pensar nisso. Seria o mesmo que viver muitas vidas ao mesmo tempo. Há mil vidas que nós poderíamos viver, quando chega o momento de escolhermos uma, apenas. Se eu me puser a pensar em tudo o que poderá acontecer, não aguento. Tu podes viver do futuro, porque és muito novo ainda, mas, para mim, o futuro resume-se na estrada que corre a meus pés. E em pensar que, daqui a pouco, chega a hora de se comerem mais umas costeletas de porco. - As feições dela tornaram-se duras. - Mais do que isso não posso fazer. Tudo caminhará mal se eu fizer mais do que isso. Eles dependem do que eu fizer nesse sentido.

     A avó bocejou em tom agudo e abriu os olhos. Lançou em volta um olhar esgazeado.

     - Tenho de ir lá fora! Meu Deus, tenho de ir lá fora! - disse.

     - Um momento. Deixe a gente chegar a umas moitas - disse Al. - Ali adiante.

     - Haja moitas ou não, não quero saber disso. Tenho de ir lá fora... já te disse... tenho de ir lá fora. - E começou a guinchar: - Quero sair! Quero sair!

     Al acelerou a marcha., indo estacar em frente de umas moitas. A mãe abriu a porta e arrastou a velhota, que barafustava, para dentro do mato. Segurava-a bem, enquanto ela se acocorava, para que não caísse.

     No alto do caminhão, os outros começavam a remexer-se. As suas faces reluziam sob a acção escaldante do sol a que não podiam escapar. Tom, Casy, Noah e o tio John estenderam-se fatigados. Ruthie e Winfield precipitaram-se pelos bordos do caminhão abaixo e sumiram-se entre as moitas. Connie ajudou a cautelosa descida de Rosa de Shawn. Debaixo do encerado, o avô acordara e deitava a cabeça de fora, mas os seus olhos, ainda chorosos, sob o efeito da droga, não revelavam compreensão. Olhava os outros, mas não parecia reconhecê-los.

     Tom chamou-o:

     - Quer descer, avô?

     Os velhos olhos cansados voltaram-se inexpressivos na sua direcção.

     - Não - disse o avô. Por um momento, a antiga malícia pareceu iluminá-los. - Já disse que não vou com vocês. Quero ficar aqui como o Muley. - Depois, tornou a desinteressar-se.

     A mãe estava de volta, ajudando a avó a subir para a estrada.

     - Tom - disse ela - vai buscar a panela que tem as costeletas. Está ali, debaixo do toldo, mesmo atrás. Precisamos de comer qualquer coisa. - Tom chegou a panela, fê-la circular em volta e a família quedou à margem da estrada, a mastigar as aparas de carne de porco arrancadas aos ossos.

     - Que bom a gente ter trazido isto! - disse o pai.- Fiquei tão teso ali em cima que quase não posso andar. Onde está a água?

     - Não está ali em cima, com vocês? - perguntou a mãe. - Foi lá que eu pus o cântaro.

     O pai trepou pelo lado do caminhão e espreitou para debaixo do toldo.

     - Aqui não está. Se calhar, ficou lá.

     Imediatamente, a sede começou a dominar todos. Winfield choramingou:

     - Quero beber água. Quero beber água!

     Os homens passaram a língua pelos lábios, subitamente conscientes da sede que tinham. Estabeleceu-se então um certo pânico.

     Al sentiu que o medo crescia.

     - Vamos arranjar água no próximo posto de serviço. E temos de comprar gasolina também.

     A família correu para o veículo. A mãe ajudou a avó a entrar e sentou-se ao lado dela. Al pôs o motor em movimento e começaram a rodar de novo.

     Vinte e cinco milhas de Castle a Paden. O Sol passara o zénite, iniciando a sua marcha descendente. E a tampa do radiador começou a oscilar e o vapor a sair. Próximo de Paden havia uma barraca à margem da estrada e duas bombas de gasolina defronte dela e, ao lado, diante de uma cerca, uma torneira de água e uma mangueira. Al dirigiu para lá o Hudson, de maneira que o radiador do caminhão ficasse bem junto da mangueira. Assim que travou, um homem corpulento, de rosto e braços vermelhos, ergueu-se de uma cadeira colocada atrás das bombas de gasolina e veio ao encontro dele. Vestia calças de belbutina castanha, com suspensórios e uma camisa de malha, de mangas curtas e tinha sobre os olhos uma pala quebra-luz prateada. O suor borbulhava-lhe no nariz e, sob os olhos, formando pequenos fios nas rugas do pescoço. Aproximava-se lentamente do camião, com ar truculento e severo.

     - Querem comprar alguma coisa? Gasolina ou quê? - perguntou.

     Al já tinha saltado e estava desatarraxando a tampa do radiador que se achava envolta em vapor, utilizando-se da ponta dos dedos para que o vapor quente lhe não queimasse a mão quando brotasse em jacto forte.

     - Preciso de gasolina, amigo.

     - Tem dinheiro?

     - Naturalmente. Pensa que andamos a pedir?

     A expressão truculenta abandonou as faces do homem.

     - Bom, então está bem, rapaziada. Podem servir-se da água. E tratou de explicar:- A estrada está cheia de gente. Chegam aqui, querem água, sujam a privada e depois - co'os diabos! roubam o que podem e não compram coisa nenhuma. Não têm dinheiro para comprar nada. Mendigam um galão de gasolina e passam adiante.

     Tom pulou colérico do camião e postou-se em frente do homem da bomba de gasolina.

     - Nós pagamos, compreende? - exclamou, exaltado. - Você não tem o direito de nos interrogar, nem de falar connosco dessa maneira, ouviu? Meta-se com a sua vida!

     - Não estou a meter-me com ninguém - desculpou-se rapidamente o homem. O suor começava a ensopar-lhe a camisa de malha. - Podem tirar água à vontade. E servir-se do toilette, se quiserem.

     Winfield já tinha descoberto o bico da mangueira. Bebeu, mergulhando a boca no jacto de água; depois, regou a cabeça e o rosto, ficando a escorrer.

     - Está quente - disse.

     - Não sei onde vamos parar - disse o homem da bomba de gasolina, com um ar que mostrava bem não pretender atingir os Joads. - Cinquenta a sessenta carros cheios de gente passam todos os dias por aqui, todos os dias, a caminho do Oeste com os filhos e a tralha da casa. Para onde é que eles vão assim? Que é que eles vão fazer?

     - Vão fazer o mesmo que nós - disse Tom. - Procurar um sítio onde possam viver. Aqui tem.

     - Bem, eu não sei onde é que isto assim vai parar. Não sei, francamente. Olhe eu, por exemplo. Também ando cá a ver se trato da minha vida. O senhor pensa que algum dos carros grandes e novos que passam por esta estrada param na minha bomba? É o páras! Vão direitos à cidade onde há aqueles postos pintados de amarelo da companhia de gasolina. Não param em sítios destes. Aqueles que param, em geral, não têm dinheiro para comprar.

     Al tinha afrouxado a tampa do radiador, que, impelida por um jacto de vapor forte, saltou no ar. Um som cavo, murmurante, subiu pelo tubo. No alto da carrosserie, o cão sofredor foi-se esgueirando timidamente para um dos extremos da carga e pôs-se a olhar, ganindo, para a água. O tio John subiu e puxou-o para baixo, segurando-o firmemente pela pele do pescoço. Por um instante, o animal ficou imóvel, de pernas retesadas; depois, correu para a poça de água que se formara junto ao bico da mangueira. Pela estrada, deslizavam os carros, cintilando ao calor, e o vento quente que provocavam na corrida, atingia o posto de gasolina. Al encheu o radiador de água.

     - Não é que eu me queira aproveitar da gente rica - continuou o homem do posto de gasolina.- Mas preciso de clientes, claro. E aqueles que param aqui, vivem a mendigar gasolina ou pretendem fazer trocas. Posso mostrar-lhe aí, naquele quarto, ao fundo, a data de coisas que tenho recebido em troca de gasolina e de óleo; camas, carrinhos de criança, panelas e frigideiras. Uma família trocou até a boneca de uma filha por um galão de gasolina. Que é que eu vou fazer dessa porcaria toda? Abrir uma loja de ferro-velho? Até me apareceu um sujeito que queria dar-me os sapatos em troca de um galão de gasolina. E, se eu não fosse um tipo decente, até as... - Olhou para a mãe e não continuou a frase.

     Jim Casy atirara água sobre a cabeça e as gotas caíam-lhe ainda pela testa ampla; o pescoço musculoso e a camisa estavam molhados. Depois, foi pôr-se ao lado de Tom.

     - É assim mesmo. Eles não têm culpa - disse. - Você gostaria de vender até a cama onde dorme por um pouco de gasolina?

     - Eu sei que a culpa não é deles. Todos com quem tenho falado tinham razões de sobra para se meterem a caminho. Mas aonde é que o país vai parar? Isso é que eu queria saber. Aonde é que isto tudo nos vai levar? Um homem já não pode ganhar a vida decentemente. já nem as terras se podem cultivar. Eu pergunto: como é que isto vai acabar? Não faço a menor ideia. E ninguém - dos que interroguei a esse respeito - soube dizer-me qualquer coisa. Um sujeito até quis vender os sapatos para poder ir mais umas cem milhas para diante. Francamente não sei, não compreendo nada. - Tirou a pala prateada da testa, limpando a fronte com ela.

     E Tom fez o mesmo com o boné. Foi à mangueira, molhou o boné, espremeu-o e colocou-o novamente na cabeça. A mãe tirou um copo de folha de Flandres de entre a carga do camião, encheu-o de água e levou-o ao avô e à avó, que ainda se encontravam sentados no topo da carga. Encostou-se às grades do veículo, deu o copo ao avô, que molhou os lábios e sacudiu a cabeça, dizendo que não queria mais. Os seus velhos olhos miraram a mãe, doloridos e desvairados, até que, um instante depois, o brilho da inteligência tornou a sumir-se.

     Al pôs o motor em movimento e recuou até à bomba de gasolina.

     - Bom, encha o tanque - disse. - Deve levar cerca de sete, mas só quero seis, não vá a gasolina entornar-se por aí.

     O homem da bomba introduziu a mangueira no orifício do depósito.

     - Francamente - continuou - não sei como é que este país vai acabar. Mesmo com o auxílio aos desempregados e tudo.

     Casy interrompeu-o:

     - Eu já percorri a região. E toda a gente me perguntou o mesmo. Aonde vamos parar? Acho que não vamos parar a parte nenhuma. Estamos sempre de viagem. Sempre a caminho. Por que é que ninguém pensa nisso? E um movimento que não pára nunca. As pessoas andam, andam sempre. Nós sabemos porquê e sabemos como. Caminham porque são obrigados a caminhar. É o único motivo por que todos caminham. Porque querem alguma coisa melhor do que têm. E caminhar é a única oportunidade que têm de a conseguir. Se querem e precisam, têm de ir buscar. A fome mete o lobo a caminho. Eu já percorri o país todo e ouvi muita gente falar como você fala.

     O homem da bomba de gasolina encheu o tanque. O ponteiro do medidor marcou a quantidade do combustível pedido.

     - Sim, mas aonde nos vá levar tudo isto? Isso é que eu gostava de saber.

     Tom interrompeu-o, irritado:

     - Pois nunca o virá a saber. O Casy já esteve a ver se lhe explicava e você continua na mesma. Conheço muita gente como você. Não querem saber de nada, mas vivem repetindo a mesma cantiga: aonde vamos parar? A você isso não interessa. As pessoas saem da sua região; vão para aqui e para acolá. Talvez você morra de um momento para o outro, mas nem quer pensar nisso. Conheço muita gente assim. Não querem saber de nada. Mas vivem a embalar-se com a mesma cantiga: aonde, vamos parar? - Olhou para a bomba de gasolina, velha e enferrujada, e para a barraca que lhe ficava atrás, construída de madeira velha, em que se viam ainda os buracos dos pregos usados pela primeira vez, salientando-se na pintura amarela já desbotada, que pretendia imitar a dos grandes postos da cidade. Mas a pintura não conseguia ocultar os buracos dos pregos antigos, nem as velhas rachas da madeira, e não podia ser renovada. A imitação não passava de um malogro; demais o reconhecia o dono daquilo. No interior da barraca, de porta aberta, Tom viu as latas de óleo; havia só duas latas e o balcão dos doces em que havia bombons retardados, paus de alcaçuz que o tempo enegrecera e cigarros. Viu a cadeira quebrada e a tela de protecção contra as moscas com um buraco enferrujado ao centro. O quintal, atravancado, estava mesmo a pedir saibro e, atrás, um campo de cereais secava e morria à soalheira. Ao lado da casa, um pequeno sortido de pneus usados ou renovados. E, pela primeira vez, reparou nas calças que o gorducho trazia calças baratas e já muito lavadas, uma camisa igualmente ordinária e uma pala de cartão. Então, disse:

     - Isto não é para o ofender. É o calor, sabe? O senhor não tem nada. Daqui a pouco também se põe aí a calcorrear as estradas. A si não são os tractores que o põem a andar; são as bonitas estações de serviço da cidade. Vai-lhe acontecer o mesmo.

     O homem da bomba de gasolina foi diminuindo a ginástica com que accionava a alavanca da bomba e parou de vez, enquanto Tom falava. Pôs-se a encará-lo com ar de preocupação:

     - Afinal de contas, como é que você sabe que nós também estamos em preparativos de viagem para o Oeste? - perguntou, desalentado.

     Foi Casy quem lhe deu a resposta:

     - É porque todos vão para lá. Veja eu, por exemplo. Dantes lutava com todas as minhas forças contra o demónio, porque pensava que o demónio era o inimigo. Mas agora é outra coisa muito pior que o demónio o que está dominando o país, uma coisa que não acabará enquanto a gente não acabar com ela. O senhor já viu um, monstro de Gila (O monstro de Gila - assim chamado por ser originário do rio Gila, no Arizona- E. Unidos - é um grande lagarto das regiões áridas do Novo México, Arizona, etc., e cuja mordedura é venenosa) aferrar-se a alguma coisa? Ferra os dentes com uma força extraordinária e podem cortá-lo em dois, que a cabeça ainda fica agarrada. Corta-se-lhe o pescoço, e a cabeça ainda fica presa. A gente tem de enfiar a ponta de uma chave de parafusos na cabeça do bicho para que as presas se abram e soltem a carne e, entretanto, o veneno vai caindo gota a gota no buraco que ele tenha feito com os dentes.- Casy interrompeu-se e olhou Tom de soslaio.

     O homem gordo pregou num desalento os olhos no chão. Recomeçou com a mão a movimentar a alavanca da bomba.

     - Não sei mesmo aonde vamos parar - disse com brandura.

     Adiante, perto da mangueira, Connie e Rosa de Sharon palestravam juntos em voz baixa. Connie lavou o copo de folha e deixou a água escorrer entre os dedos, antes de o encher. Rosa de Sharon observava a passagem dos veículos na estrada. Connie empunhou o copo, oferecendo-lho:

     - A água não está muito fresca, mas sempre é água - disse, sorrindo.

     Ela olhou-o com um risinho misterioso. Era toda segredinhos, agora que estava grávida, segredinhos e pequenos silêncios que parecia terem muita significação. Estava satisfeita consigo mesma e queixava-se de coisas que, na verdade, não tinham importância alguma. E exigia que Connie a ajudasse nas coisas mais ridículas, que ambos sabiam serem ridículas. Connie também estava satisfeito com ela, e sentia-se maravilhado por a mulher estar grávida. Gostava & se sentir incluído nos mistérios dela. Quando a mulher ria dissimuladamente, ele fazia o mesmo e os dois trocavam confidências, sussurrando. O mundo estreitara-se ao redor deles, e eles figuravam no centro desse mundo, ou melhor, Rosa de Sharon é que figurava ao centro e Connie andava em volta dela corno um satélite. Tudo o que diziam parecia constituir uma espécie de segredo.

     Ela desviou o olhar da estrada.

     - Não tenho grande sede - disse afectadamente - mas talvez seja bom eu beber um pouco de água.

     E ele anuiu, pois sabia bem o que ela queria dizer. Ela pegou no copo, enxaguou primeiro a boca, cuspiu em seguida e depois bebeu um copo cheio de água tépida.

     - Queres mais? - perguntou ele.

     - Sim. Dá-me mais meio copo.

     Então ele encheu o copo até metade e deu-lho. Um Lincoln-Zephir, prateado e baixo, passou como um veludo. Ela voltou-se para ver onde estavam os outros da família e viu-os agrupados junto do caminhão. Tranquilizada, disse:

     - Que bom seria a gente viajar num automóvel daqueles, hein?

     Connie suspirou:

     - Quem sabe, mais tarde?- Ambos sabiam o que ele queria dizer. - Se a gente encontrar serviço na Califórnia, já sabes: vamos ter o nosso carro. Mas um desses - e apontou para o Zephir que se sumia ao longe - custa quase tanto como uma casa, e eu, nessas circunstâncias, preferia comprar uma casa.

     - E eu queria uma casa e um automóvel - disse ela.- Mas, naturalmente, a casa está em primeiro lugar, porque... - E ambos sabiam o que ela queria dizer. Estavam terrivelmente excitados com aquela história da gravidez.

     - Sentes-te bem? - perguntou ele.

     - Estou cansada. Cansada de viajar ao sol...

     - Mas tem de ser. Senão, nunca mais chegamos à Califórnia.

     - Eu sei - disse ela.

     O cão correu, fungando, passou pelo caminhão, trotou em direcção à mangueira, começou a lamber a água lamacenta. Depois, afastou-se, com o focinho quase pelo chão e as orelhas caídas. Na margem da estrada abriu caminho, farejando, por entre a vegetação seca e poeirenta, rente ao caminho. Ergueu a cabeça, lançou um olhar para a frente e começou a atravessar. Rosa de Sharon deu um grito agudo. Um carro enorme e veloz aproximava-se, com os pneus rangendo fortemente. O cão hesitou, atarantado e acabou por se meter, com um uivo, que não chegou a acabar, mesmo por debaixo das rodas. O veículo diminuiu a marcha por um instante; houve rostos que olharam para trás; depois, a velocidade tornou a aumentar e o carro desapareceu.

     O cão, num monte de sangue e de carne, com os intestinos à mostra, ainda se mexia. Os olhos de Rosa de Sharon estavam desmedidamente abertos.

     - Tu achas que o choque me vai fazer mal? - perguntou ela. - Achas que o choque me vai fazer mal?

     Connie passou-lhe o braço em volta dos ombros.

     - Vem sentar-te - disse. - Não é nada.

     - Mas eu sei que me vai fazer mal. Eu senti um choque, assim que dei aquele grito.

     - Vamos; anda sentar-te. Não tem importância. Não te há-de acontecer nada. - Conduziu-a até ao lado do caminhão de onde se não via o cão agonizante. Fê-la sentar-se no estribo.

     Tom e o tio John aproximaram-se daquele montão de carne sangrenta. Ia-se o último frémito de vida do corpo esmagado. Tom segurou-o pelas pernas e arrastou-o até à beira da estrada. O tio John, embaraçado e abatido, olhou-o como se a culpa fosse sua.

     - Devia tê-lo prendido - observou ele.

     O pai lançou um olhar ao corpo do cão e depois desviou a vista.

     - Vamo-nos embora daqui. Talvez tivesse sido bom. Daqui a pouco não sei como lhe daríamos de comer.

     O homem gordo surgiu por detrás do caminhão.

     - Sinto muito - disse. - Numa estrada assim movimentada não há cão que dure muito. A mim, num ano, ficaram-me três atropelados. Agora já não quero mais nenhum. Não se prendam mais com o assunto. Eu encarrego-me de o enterrar aí no campo.

     A mãe dirigiu-se para Rosa de Sharon, que continuava sentada no estribo... Ela ainda tremia.

     - Que há, Rosasharn? - perguntou-lhe. - Sentes-te mal?

     - Vi tudo aquilo e deu-me um grande choque!

     - Sim, eu ouvi o teu grito - disse a mãe.- Mas sossega; já passou.

     - Acha que pode fazer mal à criança?

     - Não - disse ela. - Mas, se tu começares a preocupar-te constantemente e te quiseres meter numa redoma, então é que tudo te poderá fazer mal. Vamos, levanta-te e vem ajudar-me a tratar da avó. Esquece a criança ao menos por um momento. Ela cuida de si própria.

     - Onde está a avó? - perguntou Rosa de Sharon.

     - Não sei. Deve andar por aí. Talvez esteja na retrete.

     A rapariga foi até ao toilette e voltou um instante depois, conduzindo a avó pelo braço.

     - Adormeceu lá dentro - contou Rosa de Sharon.

     A avó riu.

     - É tudo tão bonito lá dentro - disse. - Há uma retrete mecânica; quando a gente puxa uma correntinha, a água vem para baixo. Achei muito bonito - disse, satisfeita. - Fazia uma boa soneca se vocês não me acordassem.

     - Mas ali não é lugar para se dormir - comentou Rosa de Sharon, ajudando a avó a entrar no caminhão. A velhinha instalou-se com ar feliz.

     - Talvez não seja lugar para se dormir, mas é muito bonito.

     Tom disse:

     - Bem, vamos indo. Ainda temos um bocado de caminho pela frente.

     O pai deu um assobio agudo.

     - Onde estão as crianças? - E tornou a assobiar, com dois dedos na boca.

     Num instante, as crianças surgiram, correndo, vindas da plantação de cereais. Ruthie vinha à frente com Winfield na peugada.

     - Ovos! - gritou Ruthie. - Achei ovos! - Já estava bem próxima, com Winfield colado a ela. - Olha! - Nas suas mãozitas sujas, trazia uma dúzia de ovos, uns ovos lisos e de uma cor branco-acinzentada. E, ao estender as mãos, os seus olhos deram com o cão morto, que jazia à beira da estrada. - Oh! - exclamou ela. Ruthie e Winfield encaminharam-se vagarosamente para o animal e puseram-se a observá-lo.

     O pai chamou-os.

     - Venham depressa, senão, ficam aqui mesmo.

     As duas crianças voltaram-se lentamente e seguiram em direcção ao caminhão. Ruthie olhou mais uma vez para os ovos de réptil que tinha na mão e depois deitou-os fora. Treparam para o caminhão por um dos lados.

     - Ainda tinha os olhos abertos - disse Ruthie baixinho.

     Mas para Winfield aquilo fora uma sensação. Exclamou corajosamente:

     - As tripas dele estavam espalhadas por toda a parte... - Calou-se por um instante. Por toda a parte... - repetiu. Depois, voltou-se rapidamente e pôs-se a vomitar pela borda do caminhão. Ao acabar, tinha os olhos chorosos e corria-lhe o ranho pelo nariz. - Não é a, mesma coisa que uma matança de porcos - disse, à maneira de explicação.

     Al erguera a tampa do motor do Hudson e verificava o nível do óleo. Trouxe depois uma lata, que guardava junto do assento da frente, deitou um pouco do óleo escuro e barato no tubo, verificando de novo, o nível do lubrificante.

     Tom veio postar-se junto dele.

     - Tu queres que eu guie um bocado? - perguntou.

     - Não, ainda não estou cansado - respondeu Al.

     - Mas tu não dormiste nada esta noite. Eu, pelo menos, já passei pelas brasas esta manhã. Vamos, sobe, que eu guio um bocado.

   - Bom - disse Al com relutância. - Mas repara sempre no nível do óleo. E convém não ir muito depressa. E preciso uma cautela danada para se evitar um curto-circuito. Deita de vez em quando os olhos ao ponteiro. Se ele chegar ao fim, é curto-circuito garantido. E não se pode correr, porque o caminhão vai muito carregado.

     Tom riu.

     - Não te incomodes, que eu tenho cuidado. Descansa à tua vontade.

     A família ajeitou-se de novo no cimo da carga. A mãe sentou-se na frente, ao lado da avó.- Tom ocupou o lugar do motorista e o caminhão pôs-se em movimento.

     - Está largo que se farta - comentou, ao embraiar.

     O caminhão ia rolando na estrada.

     O motor roncava com regularidade, e o Sol, em frente do veículo, descia lentamente para oeste. A avó dormia a bom dormir e até a mãe deixou descair a cabeça e passou pelo sono. Tom puxou o boné para os olhos, a fim de os preservar do sol fulgurante.

     De Paden a Meeker são treze milhas; de Meeker a Harrah, são catorze milhas; depois vem Oklahoma City - a grande cidade. Tom atravessou-a sem parar. A mãe despertou da modorra por um instante e lançou um olhar rápido às ruas. E a família, em cima da tralha, olhava os armazéns, os grandes estabelecimentos e as repartições públicas. Depois, começaram a surgir edifícios e armazéns mais pequenos. Pátios de depósito de lixo, barracas de cachorros quentes e cabarés do género dos que se encontram nos arredores das cidades.

     Ruthie e Winfield viam tudo isso, e tudo isso os embaraçava com a sua grandeza e a sua estranheza; sentiam-se assustados de ver tanta gente luxuosamente vestida. Não falavam um ao outro sobre isso. Mais tarde? sim, mais tarde haviam de falar, mas não naquele momento. Viam os guindastes de óleo da cidade e os dos subúrbios, velhos guindastes negros, e sentiam o cheiro do óleo e da gasolina, pairando no ar. Mas riem sentiam coragem de lançar a mais pequena exclamação. Aquilo era tão grandioso e estranho que os assustava.

     Rosa de Sharon viu na rua um homem com um fato claro. Trazia sapatos brancos e chapéu de palha. Deu uma cotovelada a Connie, apontou o homem com o olhar, e depois Connie e Rosa de Sharon ficaram rindo baixinho, mas acabaram por não se poderem conter. Tapavam a boca. E sentiam-se tão satisfeitos que se puseram à procura de outras pessoas que lhes pudessem despertar a hilaridade. Ruthie e Winfield notaram esses risinhos e era tão engraçada a maneira como eles riam que procuraram imitá-los mas não o conseguiram. Não havia maneira. As gargalhadas não vinham. E Rosa de Sharon e Connie perdiam o fôlego e estavam vermelhos de tanto sufocar o riso. Não conseguiam parar. E o pior é que bastava olharem. um para o outro para desatarem às gargalhadas.

     Os subúrbios espalhavam-se. Tom guiava devagar e com mais cuidado no meio do tráfego intenso e depois alcançou a estrada 66 - o grande caminho para o Oeste. O Sol descia mesmo sobre a fita da estrada. O pára-brisas estava coberto de poeira. Tom empurrou o boné ainda mais para os olhos, e tanto, que só erguendo a cabeça conseguia ver alguma coisa. A avó tinha adormecido; o sol batia-lhe nas pálpebras; as rugas da face coloriam-se de cor de vinho e as manchas escuras do rosto tornavam-se ainda mais escuras.

     - Agora, não saímos desta estrada até chegarmos - disse Tom.

     A mãe, que se mantivera longamente em silêncio, observou:

     - É bom procurarmos um lugar para acampar, antes que anoiteça. Tenho de cozinhar uma porção de carne de porco e de fazer o pão. E isso leva tempo.

     - Tem razão - concordou Tom. - Não se pode fazer esta viagem de uma só estirada. A gente tem de descobrir um lugar para estender as pernas.

     De Oklahoma City a Bethany são catorze milhas.

     Tom disse:

     - Acho bom a gente parar aqui mesmo, antes que o sol desapareça. O Al tem de preparar o toldo sem falta. O sol dá cabo dos que vão lá em cima. - A mãe que tornara a cair em modorra, ergueu de novo a cabeça num movimento rápido:

     - Tenho de cozinhar o jantar - disse. - Tom: o teu pai falou-me a respeito do teu caso quanto ao passar a fronteira...

     Tom conservou-se um bocado em silêncio.

     - Sim? E, depois, mãe?

     - Bem - Confesso que tenho medo. É como se fugisses da prisão. E se te apanham?

     Tom alçou a mão sobre os olhos, a fim de os proteger do sol cada vez mais baixo.

     - Não se preocupe, mãe - disse. - Eu já pensei nisso. Há muita gente assim como eu, em liberdade condicional a andar pelo país todo. Cada vez há mais. Se eu for preso por fazer alguma coisa na Califórnia, isso sim; como têm a minha fotografia e as minhas impressões digitais em Washington, então prendem-me outra vez. Mas, se eu andar direito, bem se ralam eles comigo!

     - Bem, mas, mesmo assim, tenho medo. Às vezes, a gente faz uma coisa e nem sabe que Isso é um crime. Talvez na Califórnia, considerem crime coisas de que a gente nem sabe. Tu podes fazer uma coisa e pensar que não é nada de mau e, no entanto, ser considerado um crime lá na Califórnia.

     - Num caso desses, tanto fazia eu estar em liberdade condicional como não - retorquiu Tom. - Se me agarrarem, é que vai ser pior do que para os outros. Mas a senhora não se preocupe. Já nos bastam as preocupações que temos com razão, quanto mais arranjarmos ainda mais outras.

     - Que queres? Não está mais na minha mão. No momento em que passares a fronteira, cometes um crime.

     - Sempre é melhor do que ficar em Sallisaw e acabar por morrer de fome - disse ele. - Bem, vamos tratar de arranjar um lugar para acampar.

     Atravessaram Bethany e continuaram pelo campo fora. Numa vala, onde um canal passava por baixo da estrada, estava um velho carro de turismo, e, ao lado dele, uma tenda armada, da qual se escapava um fumozinho originário de um cano de fogão. Tom apontou nesse sentido.

     - Há gente acampada ali. Parece que não encontraremos melhor sítio para descansar. - Diminuiu a marcha do veículo e encostou à margem da estrada.

     O “capot” do velho carro de turismo estava aberto e um homem de meia-idade debruçava-se sobre o motor. Trazia um chapéu de palha ordinário, envergava camisa azul e colete preto, muito manchado, e as calças ostentavam o brilho e a rigidez próprios da muita sujidade. O rosto era magro; as rugas profundas abriam nele verdadeiros sulcos, de maneira que as faces avultavam exageradamente. Ele ergueu a cabeça e olhou para o camião dos Joads, com olhos irritados e perplexos.

     Tom debruçou-se pela janela do caminhão.

     - Escute, amigo, haverá alguma lei que nos proíba de pernoitar aqui? - perguntou.

     O homem, até aí, só tinha reparado no caminhão. Olhou então para Tom.

     - Não sei - respondeu. - Parei aqui porque não pude continuar a viagem.

     - Não há água por aqui?

     O homem apontou para um posto de serviço com barraca, que podia estar a uma distância de cerca de meia milha daquele sítio.

     - Ali há água; eles deixam tirar um balde dela.

     Tom hesitou.

     - Então o senhor acha que não faz mal a gente pernoitar aqui, não é verdade?

     O homem magro mostrou-se embaraçado:

     - Eu não sou o dono disto - disse. - Nós parámos aqui porque o estafermo desta lata velha resolveu não ir mais para diante.

     Tom insistiu:

     - De qualquer maneira, quem chegou aqui primeiro foi o senhor. Tem o direito de dizer se nos aceita como vizinhos ou não.

     Esse apelo à hospitalidade surtiu efeito imediato. Um sorriso perpassou pelo rosto magro.

     - Mas decerto. Terei muito prazer. - E chamou: - Sairy, há aqui gente que vem para o pé de nós. Vem, cumprimenta estes senhores. Sairy não se sente bem - explicou.

     A lona da tenda abriu-se e deu passagem a uma senhora de aspecto fanado, rosto vincado de rugas como uma folha seca e olhos que parecia arderem, uns olhos negros que se diria terem contemplado um mundo de horrores. Era de pequena estatura e tremia. Apoiava-se a uma aba da tenda, e a mão que se agarrava à lona parecia a de um esqueleto coberto de pele apergaminhada.

     Ao falar, a voz dela revelou-se de um belo timbre doce e modulado, grave e, no entanto, de tonalidades límpidas.

     - Diz-lhes que são bem-vindos - disse. - Diz-lhes que temos muito prazer em tê-los connosco.

     Tom accionou o motor, desviando o carro da estrada de cimento e veio alinhá-lo no campo com o carro de turismo. Todos desceram logo do caminhão; Ruthie e Winfield fizeram-no tão depressa que as pernas se foram abaixo. Puseram-se então a gritar porque sentiam mil formigueiros nas pernas.

     A mãe entregou-se logo à sua tarefa. Tirou do caminhão o balde de três galões e entregou-o às crianças, que ainda não haviam parado de guinchar.

     - Bem; vocês agora vão buscar água ali adiante, vêem? Mas sejam bem educados. Digam assim: «O senhor dá licença de tirarmos um balde de água?» E depois digam: «Muito obrigado.» E peguem ambos no balde e tomem cuidado para não entornarem a água. E, se acharem lenha no caminho, é bom trazerem também, que é para a gente fazer lume, ouviram?

     As crianças obedeceram e foram batendo com os pés até ao posto de serviço.

     Ao pé da tenda instalara-se o embaraço; era como se as relações sociais se tivessem interrompido antes de verdadeiramente haverem começado. O pai perguntou:

     - São de Oklahoma, os senhores?

     Al, que estacionara junto do camião, olhou para a placa do automóvel de turismo.

     - Kansas - respondeu ele.

     - Somos de Galena, isto é, de perto de Galena; chamo-me Wilson. Ivy Wilson - esclareceu o homem magro.

     - Nós chamamo-nos Joad - disse o pai. - Vimos de perto de Sallisaw.

     - Muito prazer em conhecê-los - disse Ivy Wilson. - Sairy, estes são os Joads.

     - Eu vi logo que não eram de Ok1ahoma. Têm um sotaque engraçado... sem ofensa, é claro.

     - Todas as pessoas pronunciam as palavras de maneira diferente - explicou Ivy. - O povo de Arkansas fala de uma forma e o de Ok1ahoma de outra maneira. Nós conhecemos uma senhora de Massachussets e a fala dela é muito diferente. Quase não percebíamos nada do que ela dizia.

     Noah, o tio John e o pregador começaram a descarregar o caminhão. Ajudaram o avô a descer e fizeram-no sentar no chão; o velho deixou-se ficar apático, a olhar em frente.

     - O senhor está doente? - perguntou-lhe Noah.

     - Sinto-me mal com o diabo - respondeu o avô, com voz fraca.

     Sairy Wilson dirigiu-se a ele, vagarosa e prudentemente.

     - O senhor não quer entrar na nossa tenda? - inquiriu ela. - Podia deitar-se um bocado no nosso colchão e descansar.

     Ele encarou-a, atraído pela sua voz suave.

     - Venha, não faça cerimónia - disse ela.- O senhor precisa de descansar. Eu ajudo-o.

     Repentinamente, o avô desatou a chorar. Tremia-lhe o queixo, bem como os Velhos lábios contraídos, enquanto deixava escapar roucos soluços. A mãe precipitou-se para ele e lançou-lhe os braços em volta. Depois, ajudou-o a erguer-se, demonstrando o esforço despendido nas largas costas retesadas, e levou-o quase pelo ar.

     O tio John disse:

     - Ele deve estar muito doente. Nunca chorou. Nunca o vi lagrimejar em dias da minha vida. - Subiu para o camião e atirou um colchão para baixo.

     A mãe deixou a tenda, indo falar com Casy.

     - Sr. Casy, o senhor já tratou de doentes, não tratou? O avô sente-se mal. Não quer ver o que ele tem?

     Casy foi rapidamente até à tenda e entrou. Um colchão de cama de casados estava estendido no chão, com os cobertores bem esticados. Ao lado, um pequeno fogareiro de estanho, de pés de ferro, onde o fogo ardia frouxamente. Havia ainda na tenda um balde cheio de água, um caixote com géneros alimentícios e outro caixote que servia de mesa, e era tudo. Os raios do sol poente coavam-se, avermelhados, através das paredes da tenda, Sairy Wilson estava ajoelhada junto do colchão onde o avô se encontrava deitado de costas. Tinha as faces muito coradas, os olhos abertos e fitava o tecto. Respirava com dificuldade.

     Casy tomou-lhe o velho pulso esquelético entre os dedos.

     - Cansado, avô? - perguntou.

     Os olhos fixos voltaram-se na direcção da voz, mas nada pareciam ver. E os lábios ensaiaram palavras que não conseguiram pronunciar. Casy escutou a pulsação, deixou o pulso do doente e passou a palma da mão pela testa do avô. O corpo do velho começou a contorcer-se; as pernas moviam-se incessantemente; as mãos agitavam-se também. Emitiu sons confusos, inarticulados, o rosto mantinha-se rubro sob as suíças brancas e ásperas.

     Sairy Wilson dirigiu-se suavemente a Casy:

     - O senhor sabe do que se trata?

     Ele olhou para as faces enrugadas e para os olhos ardentes:

     - A senhora sabe?

     - Acho que sim.

     - Que é? - perguntou Casy.

     - Posso-me enganar. Será talvez melhor não dizer.

     Casy tornou a olhar as faces rubras e crispadas do velho.

     - A senhora acha... Será talvez um ataque?

     - Creio que sim - disse Sairy. - Já vi, por três vezes, ataques destes.

     De fora, vinha o barulho dos que armavam o acampamento: cortava-se lenha e as panelas chocavam-se ruidosamente. A mãe enfiou a cabeça pela entrada da tenda.

     - A avó quer vir para cá - disse. - Pode vir?

     - Acho que sim. Senão, ninguém a segura para aí - disse o pregador.

     - E ele está melhor? - perguntou a mãe.

     Casy sacudiu a cabeça vagarosamente. A mãe baixou imediatamente o olhar e fixou o velho rosto convulso. Retirou a cabeça e ouviu-se-lhe a voz, dizendo:

     - Está bom, avó. Mas precisa de descansar um pouco.

     E a avó berrou, zangada:

     - Mas eu quero vê-lo. Esse velho é sabido como o diabo. A gente nunca sabe o que é que ele tem... - E entrou intempestivamente na tenda; pôs-se diante do colchão, olhando para o marido: - Que é que tu tens? - perguntou.

     E novamente os olhos do avô se dirigiram para aquela voz e os seus lábios se contraíram.

     - Está amuado - disse a avó.- Eu não disse que ele é um sabido? Hoje, de manhã, fez a mesma coisa para não vir coma gente. De repente, começou a doer-lhe a anca - prosseguiu quase com desprezo. - Está a fingir. já lhe conheço a manha; é para não falar com ninguém.

     Casy replicou brandamente:

     - Não está amuado, não, avó. Está doente.

     - Oh! - Ela olhou novamente para o marido. - Mas... muito doente?

     - Sim, bastante doente, avó.

     Por um instante, ela hesitou, perplexa:

     - Bem - disse depois com rapidez - então porque é que o senhor não reza? O senhor não é um pregador?

     Os dedos fortes de Casy cerraram-se novamente em torno do pulso do avô.

     - Eu já disse à senhora que não sou pregador.

     - Mas reze de qualquer maneira - ordenou ela. - O senhor sabe todas as rezas de cor.

     - Não sei, não - respondeu Casy. - Não sei porque hei-de rezar, nem a quem rezar.

     O olhar da avó desprendera-se de Casy para se fixar em Sairy.

     - Ele não quer rezar - disse. - Já contei à senhora como a Ruthie rezava quando era pequenina? Ela dizia: «Nesta cama me quero deitar, para meu corpo descansar. E quando ele chegou, o armário estava vazio e o pobre do cão ficou sem nada. Amém» Era assim que ela rezava.

     A sombra de alguém que passava entre a tenda e o sol veio projectar-se na lona.

     O avô parecia travar uma luta tremenda; todos os músculos se contraíram. E, de repente, estremeceu, corno se tivesse sido atingido por uma tremenda pancada. Estava imóvel, agora, e a respiração suspendera-se. Casy debruçou-se sobre a face do velho e viu que esta escurecia. Sairy tocou no ombro de Casy e sussurrou:

     - A língua dele... a língua... olhe a língua...

     Casy fez um sinal afirmativo.

     - Ponha-se à frente da avó - disse.

     A seguir, entreabriu as mandíbulas fortemente comprimidas do velho e meteu-lhe a mão na boca, à procura da língua. E, quando a ia a puxar para fora, um ronco saiu do peito paralisado, seguido de uma inspiração semelhante a um soluço. Casy achou um pauzinho no chão e com ele comprimiu a língua do avô para baixo, e a respiração recomeçou, desordenada e ruidosa.

     A avó saltitava como uma galinha.

     - Reze! - intimou ela. - Reze, já lhe disse! Reze!

     Sairy tentou contê-la.

     - Reze já , seu danado de uma figa! - gritou a avó.

     Casy olhou-a um momento. A respiração penosa tornava-se mais aguda e desigual.

     - Pai Nosso, que estais no céu, santificado seja o Vosso nome.

     - Glória a Deus! - gritou a avó.

     - ...Venha a nós o Vosso reino, seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no Céu.

     - Amém.

     Um suspiro estridente saiu da boca aberta do velho, seguido de um ronco sibilante.

     - O pão nosso de cada dia... nos dai hoje... e perdoai...

     A respiração cessou bruscamente. Casy examinou os olhos do avô, que se mostravam agora claros, profundos e penetrantes, com um reflexo de serena inteligência.

     - Aleluia! - disse a avó . - Continue.

     - Amém - rematou Casy.

     A avó sossegou. E, fora da tenda, todas as vozes emudeceram. Um carro deslizou na estrada. Casy continuava ajoelhado diante do colchão. Os outros, lá fora, estavam quietos, à escuta, profundamente atentos aos sons da morte. Sairy agarrou a avó pelo braço e conduziu-a para fora da tenda, e a avó caminhava com dignidade e com a cabeça alta. Foi ao encontro da família, e, diante desta, manteve a cabeça bem erguida. Sairy levou-a para um colchão estendido na relva e sentou-a nele. A avó quedou-se a olhar fixamente diante de si, inundada de orgulho, pois era agora ela o alvo da atenção de todos. Na tenda, tudo era silêncio, e, por fim, Casy afastou as abas da tenda com as mãos e saiu também.

     O pai perguntou baixinho:

     - Como foi?

     - Uma apoplexia - disse Casy. - Um ataque fulminante.

     A vida recomeçou. O Sol, que tocava a linha do horizonte, perdera o relevo. E pela estrada passava uma longa fila de camiões, com os lados pintados de vermelho. Avançavam com estrondo, comunicando à terra ruídos de terremoto em miniatura, e soltando pelos tubos de escape a fumaça azul do óleo Diesel. Um homem ia ao volante da cada camião, e os respectivos ajudantes achavam-se deitados nas tarimbas, empoleirados junto do tejadilho. Os veículos não paravam; passavam monótonos, constantemente, de dia e de noite, fazendo estremecer o chão com a sua pesada marcha.

     A família reuniu-se instintivamente. O pai agachou-se no chão, e o tio John acocorou-se ao lado dele. O pai era agora o chefe da família. A mãe ficou de pé, atrás dele. Noah, Tom e Al acocoraram-se, e o pregador sentou-se e depois reclinou-se sobre os cotovelos. Connie e Rosa de Sharon passeavam mais adiante. Ruthie e Winfield, que, palrando alto, traziam o balde de água a meias, notaram qualquer coisa. Baixaram o tom de voz, poisaram o balde no chão e foram ajuizadamente postar-se ao lado da mãe.

      A avó mantinha-se sentada, com ar solene e orgulhoso, enquanto o grupo se formava e ninguém olhava para ela. Então, deitou-se e cobriu o rosto com os braços. O Sol desaparecera, deixando os campos mergulhados num crepúsculo brilhante, de maneira que os rostos reluziam à luz da tarde e os olhos reflectiam também a irradiação do firmamento. O fim da tarde juntava toda a luz que conseguia encontrar.

     - Foi na tenda do senhor Wilson - esclareceu o pai.

     O tio John anuiu:

     - Ele emprestou-nos a tenda.

     - É uma gente muito boa, muito amiga - disse o pai, em voz baixa.

     Wilson estava diante do seu carro desmantelado, e Sairy foi para junto da avó e sentou-se ao lado dela, no colchão, evitando tocar-lhe.

     O pai chamou:

     - Ó sr. Wilson!

     O homem aproximou-se e também se acocorou no meio do grupo. Sairy levantou-se do colchão e colocou-se ao lado dele.

     - Agradecemos muito a sua ajuda - afirmou o pai.

     - Tivemos muito prazer em ajudá-los - respondeu Wilson.

     - Estamos-lhe muito gratos - disse o pai.

     - Não se fala em gratidão quando alguém morre - observou Wilson.

     E Sairy fez coro:

     - Nem se pensa em gratidão.

     - Nós vamos arranjar o seu carro. Eu e o Tom - atalhou Al.

     Al sentia-se orgulhoso por poder pagar a dívida da família.

     - Isso não seria mau - disse, Wilson, aceitando a retribuição do favor. O pai disse:

     - Agora temos de pensar no que vamos fazer. Existem leis, não existem? Quando alguém morre, tem de se dar parte às autoridades. E, quando se faz isso, eles, ou querem quarenta dólares para o funeral, ou fazem o enterro de graça, como a um indigente.

     O tio John interveio:

     - Na nossa família, ainda ninguém foi enterrado como indigente.

     - Talvez sejamos forçados a começar. Também nunca tínhamos sido expulsos da nossa terra - disse Tom.

     - A gente sempre procedeu como deve ser. - disse o pai. - Venha o primeiro que nos acuse. Sempre pagámos as coisas que comprámos; não aceitamos a caridade de ninguém. Quando houve aquela história com o Tom, também pudemos manter a cabeça levantada. O que ele fez, qualquer homem teria feito.

     - Bem, mas que vamos fazer? - perguntou o tio John.

     - Se a gente fizer como manda a lei, eles vêm aqui buscar o corpo. A gente só tem cento e cinquenta dólares. Eles levam quarenta por enterrar o avô e a gente nunca chegará à Califórnia. A não ser que se enterre o avô como indigente.

     Os homens sentiam-se inquietos e olhavam fixamente em frente dos joelhos o chão cada vez mais escuro.

     O pai prosseguiu, baixando a voz:

     - O avô enterrou o pai dele com as próprias mãos; fez isso com decência, ajeitando uma bonita cova com a própria enxada. Naquele tempo, ainda existia o direito de um pai ser enterrado pelo próprio filho e de um pai enterrar o próprio filho.

     - Sim, mas agora a lei já não é assim - disse o tio John.

     - Mas, às vezes, a lei não pode ser respeitada - retorquiu o pai. - Pelo menos, não o pode ser decentemente. Há uma porção de casos em que não pode ser respeitada. Quando o Floyd fugiu e se tornou perigoso, eles queriam que a gente o entregasse, mas ninguém se prestou a isso. As vezes, uma pessoa não pode obedecer à lei. Eu digo que tenho o direito de enterrar o meu próprio pai. Há alguém que ache que não?

     O pregador alçou-se sobre os cotovelos.

     - As leis mudam - afirmou ele.- Mas, quando há necessidade de se fazer uma coisa, uma pessoa tem o direito de fazer o que é necessário. Eu acho que tem de se fazer mesmo.

     O pai virou-se para o tio John:

     - E tu, John? Também estás no teu direito de falar. Não és da mesma opinião?

     - Eu acho bem - respondeu o tio John.- O que é, dá-me a impressão de que o estamos a esconder de noite. E tão contrário à maneira de ser do avô, ele que desatava logo aos tiros por qualquer coisa!

     O pai disse, envergonhado:

     - Nós não podemos fazer o que o avô faria. Temos de chegar à Califórnia antes que se acabe o dinheiro.

     Tom interveio:

     - Às vezes, um trabalhador qualquer desenterra um corpo, e então isso dá um sarilho danado; pensam que a pessoa foi assassinada. O governo interessa-se mais por um morto que por um vivo. São capazes de ir ao inferno para saber quem era o morto e de que morreu. Eu acho bom a gente pôr um papel dentro de uma garrafa ao lado do avó, explicando tudo: quem era, como morreu e por que o enterrámos aqui.

     O pai meneou a cabeça, concordando:

     - É uma boa ideia, sim senhor. Então tu escreves tudo num papel, mas escreve bem. Assim nem fica tão sozinho, sabendo que tem lá o seu nome, que não é um velho solitário debaixo da terra. Têm mais alguma coisa a dizer?

     A família manteve-se silenciosa.

     O pai virou-se para a mãe:

     - Tu queres vesti-lo?

     - Quero, sim - disse a mãe.- E quem faz o jantar?

     Sairy Wilson acudiu:

   - Eu preparo o jantar. Vão, vão à vossa vida. Eu faço o jantar e mais aquela vossa filha crescida.

     - Ficamos-lhe muito gratos - volveu a mãe. - Noah, tu vais buscar um pouco de carne salgada lá das barricas, ouviste? Acho que o sal ainda não entrou bem, mas a carne, mesmo assim, deve estar boa.

     - Nós temos meio saco de batatas - esclareceu Sairy Wilson.

     A mãe pediu:

     - Dá-me dois meios dólares.

     O pai meteu a mão no bolso, explorou-o e deu à mãe duas moedas de prata. Ela foi buscar uma bacia, encheu-a de água e levou-a para a tenda. já estava bastante escuro. Sairy também entrou, acendeu uma vela, colocou-a sobre um caixote e tornou a sair. A mãe olhou o velho morto. Depois, cheia de piedade, rasgou uma tira do avental e amarrou-lhe os queixos. Endireitou-lhe a seguir os membros e cruzou-lhe os braços sobre o peito. Baixou-lhe as pálpebras, poisando uma moeda de prata em cada uma delas. Abotoou-lhe a camisa e lavou-lhe o rosto.

     Sairy olhou para dentro da tenda e perguntou:

     - Posso ajudá-la em qualquer coisa?

     A mãe olhou para cima:

     - Entre - disse. - Queria pedir uma coisa à senhora.

     - A senhora tem uma filha muito boazinha - disse Sairy. - Está a descascar batatas. Que posso fazer, para a ajudar a si?

     - Queria lavar o corpo todo do avô - disse a mãe - mas ele não tem outra roupa para vestir. E a sua colcha ficou estragada, claro. O cheiro da morte nunca mais sai das roupas. Olhe que eu vi um cão rosnar e puxar pelo colchão em que a minha mãe tinha morrido dois anos antes. Mas nós vamos remediar o caso. Damos-lhe outra colcha.

     Sairy respondeu:

     - A senhora não deve falar assim. Sabe que nós temos prazer em ajudá-la. Há muito tempo que eu não me sentia assim... assim em paz. Uma pessoa deve ajudar quem precisa.

     A mãe anuiu:

     - Está certo - disse ela.- E isso mesmo.- Olhou longamente o velho rosto barbudo, de queixo amarrado e olhos de prata, brilhando à luz da vela. Não tem um ar natural. Vamos enrolá-lo na colcha, então.

     - Aquela senhora de idade - a esposa dele - não pareceu sentir muito.

     - Oh, coitada, é tão velha! - exclamou. a mãe. - Talvez nem avalie bem o que aconteceu. É capaz de ficar assim muito tempo. Além disso, nós, os Joads, não mostramos essas coisas. O meu pai costumava dizer: chorar é fácil, mas, para se ser um homem, é preciso aguentar. E a gente procura sempre não demonstrar o que sente.

     Armou cuidadosamente a colcha à volta das pernas e dos ombros do avô. Puxou uma das extremidades da coberta e dispô-la à maneira de capuz em redor da cabeça, fazendo-a descair sobre o rosto. Sairy entregou-lhe meia dúzia de alfinetes de segurança e ela utilizou-os para fechar bem a coberta em torno do corpo. Depois, levantou-se, dizendo:

     - Não vai ser um enterro tão ruim como pensávamos. Veio um pregador com a gente; ele pode dizer qualquer coisa, e a família está quase toda aqui reunida.

     Repentinamente cambaleou, e Sairy levantou-se para a consolar.

     - É a falta de sono - explicou ela, envergonhada. - Eu estou bem. Sabe, a gente trabalhou toda a noite para tudo ficar pronto.

     - Vamos sair um bocadinho para o ar livre - disse Sairy.

     - Sim, vamos. já está tudo pronto.

     Sairy apagou a vela e as duas deixaram a tenda.

     Uma fogueira ardia no fundo da vala, à margem da estrada. Tom tinha feito, com estacas e arame, uma armação, de que pendiam duas panelas em que a água borbulhava furiosamente. De sob as tampas das panelas, escapavam-se rolos vigorosos de vapor branco. Rosa de Sharon estava ajoelhada no chão, um pouco afastada da intensidade do lume e tinha uma colher na mão. Ela viu a mãe sair da tenda; ergueu-se e foi ao encontro dela.

     - Mãe, preciso de lhe perguntar uma coisa.

     - Já estás com medo outra vez? - inquiriu a mãe. - Querias passar os nove meses sem ter um aborrecimento?

     - Mas... isto não vai fazer mal à criança?

     - Há um ditado assim: “Quem nascer com amargura, há-de viver com ventura.” Não é, senhora Wilson?

     - Sim, também já ouvi dizer isso - disse Sairy. - E há outro dito assim. “Quem vem ao mundo com prazer, tem certamente que sofrer.”

     - Mas eu estou toda a tremer por dentro! - disse Rosa de Sharon.

     - Todos nós estamos - respondeu a mãe.- Bem, agora vai tomar conta das panelas.

     Os homens haviam-se agrupado à margem do halo, de luz que rodeava a fogueira. Como ferramentas, tinham apenas uma pá e uma picareta. O pai demarcou o lugar - oito pés de comprido por três pés de largura. Revezavam-se no trabalho. O pai rasgava a terra com a picareta e o tio John jogava-a para o lado com a pá. Depois, Al pegava na picareta e Tom na pá, e, após, vinham Noah e Connie e assim sucessivamente. E a cova ia ficando cada vez mais funda, pois eles trabalhavam sempre no mesmo ritmo. As pazadas de terra voavam do buraco em rápida chuva de torrões. Quando já tinham uma cova rectangular, que lhes chegava à altura dos ombros, Tom perguntou:

     - Mais fundo ainda, pai?

     - Tem de ser bastante funda: alguns pés mais. Tu agora sais daí, Tom. Vai escrever o tal papel.

     Tom içou-se para fora da cova e Noah tomou o lugar dele. Tom foi para junto da mãe, que estava arranjando o lume.

     - A senhora tem papel branco e caneta, mãe?

     A mãe sacudiu vagarosamente a cabeça:

     - Não. Foi coisa que não trouxemos... - Lançou um olhar a Sairy.

     A senhora Wilson foi depressa à tenda e voltou com uma bíblia e metade de um lápis.

     - Tome - disse. - Pode tirar a primeira página da bíblia, que está em branco. - E entregou o livro e o lápis a Tom.

     Tom sentou-se junto da fogueira. Enviesou os olhos, piscando-os, num gesto de concentração mental, e começou a escrever lenta e cuidadosamente, desenhando letras largas e bem traçadas, “Este que aqui jaz é William James Joad, que morreu de um ataque, já muito velho e que a família enterrou aqui pruque não tinha Dinheiro pró funeral. Ninguém o matô, é que ele teve um ataque e morreu.”

     Parou.

     - Ó mãe, ouça lá. - E ele leu vagarosamente o que tinha escrito.

     - Acho que soa bem - disse ela. - Mas tu não podias escrever aí alguma coisa da bíblia, para ser um enterro religioso? Procura um pedaço bonito da bíblia e escreve-o também no papel.

     - Sim, mas não pode ser uma coisa muito comprida, porque não dá. O papel é muito pequeno.

     Sairy interveio:

     - Talvez isto: “Deus guarde a sua alma.”

     - Não - disse Tom. - Isso soa como se ele tivesse sido enforcado. Deixe, que eu vou ver se copio um pedaço qualquer da Escritura. - Virou as páginas, leu, movimentando os lábios e murmurando baixinho. - Aqui está um pedaço bonito e bem curto: “E Lot disse-lhe: Oh, não é assim, meu Senhor.”

     - Mas isso não quer dizer nada - objectou a mãe. - Uma vez que vais escrever, escreve qualquer coisa com sentido.

    Sairy atalhou:

     - Veja nos Salmos, mais adiante. Nos Salmos sempre se encontra alguma coisa.

     Tom foi folheando e lendo os versículos.

     - Aqui está um - disse.- É bonito e bem religioso. “Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades são perdoadas e cujos pecados são esquecidos”. Que tal?

     - Esse sim. É bonito - disse a mãe. - Podes escrever esse.

     Tom copiou o trecho cuidadosamente. A mãe enxaguou e limpou um frasco de compota. Tom pôs nele o papel e atarraxou vigorosamente a tampa.

     - Quem sabe? Talvez devesse ter sido o reverendo a escrever isto.

     - Não, o reverendo não é nosso parente - opinou a mãe.

     Pegou no frasco e entrou com ele na tenda escura. Abriu um dos pontos em que o lençol se encontrava seguro pelos alfinetes, meteu o frasco entre as mãos frias do morto e tornou a fechar o lençol. Depois, voltou para junto da fogueira.

     Os homens regressavam da cova, comas faces reluzentes de suor.

     - Pronto! - exclamou o pai.

     Foi com John, Noah e Al à tenda, e voltaram, carregando a longa trouxa até à beira da cova. O pai saltou para dentro, recebeu o fardo nos braços e depositou-o cuidadosamente no fundo. O tio John estendeu a mão e ajudou o pai a subir novamente.

     O pai perguntou:

     - E a avó?

     - Vou vê-la - respondeu a mãe.

     Foi até ao colchão e olhou para a velha por um instante. Depois foi à cova.

     - Está a dormir - disse. - Talvez se volte contra mim depois, mas não tenho coragem de a acordar. Está muito cansada.

     O pai fez nova pergunta:

     - Onde está o pregador? Ele tem que rezar qualquer coisa.

     Tom respondeu:

     - Anda aí pela estrada. Mas ele já não gosta de rezar.

     - Não gosta de rezar?

     - Não - disse Tom. - Ele já não é pregador. E diz que não é justo enganar o povo, fingindo de pregador, quando já o não é. Aposto que fugiu, para que a gente não pudesse pedir-lhe para rezar.

     Casy, que se aproximara subtilmente, ouvira as últimas palavras de Tom.

     - Não fugi, não - disse. - Quero ajudá-los, mas não quero enganar ninguém.

     O pai replicou:

     - Mas o senhor não podia dizer umas palavras ao menos? Ainda ninguém da nossa família foi enterrado sem que se dissessem algumas palavras.

     - Bem, eu digo - condescendeu o pregador. Connie conduziu Rosa de Sharon para junto da cova. Ela seguia contra vontade.

     - Tu tens de vir - advertiu Connie.- Não é justo que não venhas. É só um bocadinho.

     A luz da fogueira caía sobre o grupo, salientando-lhe as faces e os olhos e reflectindo-se fracamente nas suas Vestes escuras. Todos tiraram os chapéus. A luz bailava, saltitante, sobre o grupo.

     Casy disse:

     - Só meia dúzia de palavras. - Baixou a cabeça e os outros seguiram-lhe o exemplo.

     Casy continuou com solenidade:

     - Este ancião viveu longa vida, ao fim da qual morreu. Não sei se era bondoso ou mau, nem isso interessa. Ele viveu e isso é o principal. Agora está morto e acabou-se. Uma vez, ouvi alguém recitar um poema assim: “Tudo o que vive é sagrado.”. Se pensarmos um pouco nestas palavras, depressa descobrimos que significam muito mais do que, à primeira vista, parece. Não quero rezar por um homem que morreu. Cumpriu o seu destino. Ele está como deve estar. Tem uma tarefa a cumprir, mas essa tarefa já está talhada para ele e existe apenas uma maneira de a cumprir. E nós também temos uma missão a cumprir, mas existem mil maneiras de nos desempenharmos dela, e nós ignoramos a melhor maneira de a cumprirmos. E, se eu quisesse rezar, rezaria pelas pessoas que não sabem qual o caminho que devem escolher. O avô já tem o caminho traçado. Portanto, cubram-no e deixem que ele cumpra a sua missão. - E Casy ergueu a cabeça.

     - Amém! - rematou o pai.

     E todos os outros murmuraram: “Amém!”

     Depois, o pai pegou na pá, encheu-a de terra e lançou-a suavemente na cova negra. Entregou a pá ao tio John, que, por sua vez, lançou também uma pá de terra. A pá passou de mão em mão, até que todos os homens tiveram a sua vez. Depois de todos terem cumprido esse dever, e usado do seu direito, o pai tomou de novo a pá e foi lançando terra solta, com o que rapidamente encheu a cova. As mulheres voltaram para junto da fogueira, a fim de preparar a comida. Ruthie e Winfield olhavam para tudo, absortos.

     Ruthie disse solenemente:

     - O avô agora está lá em baixo.

     E Winfield olhou-a com olhos horrorizados. Depois, correu até à fogueira, sentou-se no chão e pôs-se a soluçar.

     O pai tinha enchido a cova até metade. Parou, ofegante de cansaço, e o tio John encarregou-se de terminar a tarefa. John modelava o monte de terra quando Tom o interrompeu:

     - Escute, tio John - disse Tom. - Se der à terra forma de sepultura, hão-de logo querer abri-la. É melhor deixá-la plana e depois espalhar-lhe, erva seca por cima. Tem de ser.

     O pai disse então.

     - Nem pensei nisso. Mas não, está certo que se deixe uma cova sem ser alteada.

     - Não há outro remédio - disse Tom. - Se percebem que é uma cova, desenterram logo o corpo e então a gente pode passar um mau bocado por não ter cumprido a lei. O senhor sabe o que me acontece se eu quebrar a lei...

     - Sim, esquecia-me disso. - Tirou a pá da mão do tio John e começou a aplanar a superfície da cova. - No Inverno vai ceder - comentou.

     - Que é que se há-de fazer? - perguntou Tom. - No Inverno, já a gente estará bem longe daqui. Vamos pisar bem a terra e disfarçá-la com erva.

     Uma vez aprontado o prato de carne de porco com batatas, as famílias sentaram-se em volta da comida, no chão, e começaram a comer. Estavam silenciosos e olhavam para o fogo. Wilson, que acabava de arrancar uma fatia de carne com os dentes, suspirou e satisfação.

     - É bom a gente comer carne de porco - disse.

     - Nós tínhamos dois porcos - esclareceu o pai - e achámos que era melhor comê-los agora. Davam-nos uma ninharia por eles. Depois, quando nos acostumarmos à viagem e a mãe puder fazer pão, então, sim, vai ser bom de verdade; admirarmos a paisagem e sabermos que temos duas barricas de carne de porco na bagagem. Há quanto tempo estão o senhor e a sua mulher de viagem?

     Wilson limpou os dentes com a língua e palitou os resíduos.

     - Nós não tivemos sorte. Há três semanas que estamos fora de casa.

     - Santo Deus! E nós que queremos estar na Califórnia dentro de dez dias, mais ou menos!

     Al interrompeu-o:

     - Não sei, pai. Com este carregamento tão pesado, não vai ser fácil, talvez nem nunca lá cheguemos. Principalmente se encontrarmos montanhas pela frente.

     Calaram-se todos à volta da fogueira. Tinham a cabeça pendida para a frente e cabelos e testas brilhavam à luz das chamas. Acima da pequena cúpula formada pela fogueira, as estrelas daquele céu de Verão luziam fracamente. Sobre o colchão, afastada do lume, a avó choramingava baixo, como um cachorrinho. Todos os olhares convergiram para ela.

     A mãe disse:

     - Rosasharn, sê boazinha; vai-te deitar com a avó. Ela precisa de alguém; já sabe tudo.

     Rosa de Sharon levantou-se e foi para junto da avó. Deitou-se ao lado dela, no colchão, e o murmúrio abafado de ambas chegava até à fogueira. Rosa de Sharon e a avó cochichavam.

     - E engraçado! O avô morreu e eu não sinto nada de especial. Não estou mais triste do que estava - disse Noah.

     - É a mesma coisa - comentou Casy. - O avô e o sítio em que ele vivia era tudo uma só coisa.

     Al interveio:

     - É uma pena, coitado! Costumava dizer que havia de esmagar as uvas por cima da cabeça, até que o sumo lhe escorresse pelas barbas.

     Casy disse:

     - Dizia isso, mas de paródia, sem intenção de o fazer. O avô não morreu esta noite, morreu no instante em que o tirámos de casa.

     - O senhor tem a certeza disso? - perguntou o pai.

     - Bem, a certeza... É claro que respirava- continuou Casy. - O que eu quero dizer é que ele já estava praticamente morto. Ele e a quinta faziam um bloco e ele bem o sabia.

     - E o senhor sabia que ele ia morrer? - perguntou o tio John.

     - Sim - disse Casy - eu sabia.

     John encarou-o fixamente e o horror estampou-se-lhe nas faces.

     - E o senhor não revelou nada a ninguém?

     - Para quê? - volveu Casy.

     - A gente... podia ter feito alguma coisa.

     - Ter feito o quê?

     - Não sei, mas...

     - Não - disse Casy - não se poderia fazer nada. O vosso caminho já estava traçado e o avô não poderia participar dele. Mas não sofreu nada. A não ser quando o movimento começou esta manhã. Ficou aqui na terra, que era a terra dele. Não teve forças para a deixar.

     O tio John suspirou profundamente.

     Wilson disse:

     - Nós tivemos de abandonar o meu irmão Will. - Todos se voltaram para ele. - Tínhamos quarenta acres juntos. Ele é mais velho do que eu. Nenhum de nós sabia guiar bem. Resolvemos abalar e vender tudo o que possuíamos. Will comprou um carro e o vendedor deu-lhe um rapazinho para o ensinar a guiar. Então, na tarde em que íamos partir, um pouco antes da nossa saída, Will e a tia Minnie andavam a praticar no carro. Will, numa curva, pôs-se a gritar: “Aí-oó!” Recuou de encontro a uma cerca. Gritou de novo: “Anda, pileca!” Carregou no acelerador e foi malhar no fundo de um barranco. E, pronto! Ele não tinha mais nada para vender e estava sem carro. Mas a culpa foi dele, Deus louvado! Ficou tão danado que nem quis rir connosco. Lá ficou, a praguejar contra tudo.

     - E agora que vai ser dele?

     - Sei lá. Ficou tão aborrecido que se sentiu incapaz de pensar no que iria fazer. E nós não podíamos esperar. Só tínhamos oitenta e cinco dólares. Não podíamos ficar lá e dividir o dinheiro, mas, no fim de contas, já gastámos quase tudo. Nem sequer tínhamos feito cem milhas quando se partiu um dente do diferencial e tivemos de pagar trinta dólares pelo conserto. Depois, precisámos de comprar um pneu e logo depois estoirou uma vela e Sairy adoeceu. Tudo isto nos reteve mais de dez dias. E agora este calhambeque avariou-se outra vez e o dinheiro está nas últimas. Nem sei se chegaremos à Califórnia. Se, ao menos, eu entendesse de carros e pudesse consertar este!

     Al perguntou com ar de importância:

     - Que é que tem o carro afinal?

     - Bem, resolveu não andar mais. O motor pega e pára logo em seguida. Depois, pega outra vez, mas, antes de se resolver a andar, o motor vai-se abaixo.

     - Então ele só pega um minuto, mais ou menos?

     - Sim, senhor. E não quer andar mais, por mais gasolina que lhe meta. Está cada vez pior, e agora nem para trás nem para diante.

     Al estava muito compenetrado e senhor de si.

     - Isso deve ser o tubo de gasolina entupido. Vou ver se lhe faço uma limpeza.

     O pai mostrava-se também muito ufano.

     - Ele entende um bocado de automóveis - disse, satisfeito.

     - Pois eu ficaria muito agradecido - volveu Wilson. - A gente tem a impressão de que é uma verdadeira criança por não saber lidar com esta coisa. Quando chegar à Califórnia, hei-de comprar um bom? automóvel. Talvez esse se não estrague tão depressa.

     - Sim, se a gente conseguir chegar à Califórnia - comentou o pai. Chegar lá é que são elas.

     - Sim, mas vale pena - retorquiu Wilson. - Eu vi impressos que diziam que precisavam lá de muita gente para trabalhar nas colheitas de trutas e que pagavam óptimos ordenados. Só pensar no que aquilo vai ser: a gente debaixo de árvores de sombra, a apanhar fruta e a dar uma dentada de quando em quando! Ah - caramba! - nem se importam com o que a gente come. A fartura é tanta! E, com os bons ordenados, talvez com o que se venha a economizar, seja possível comprar um pedacinho de terra qualquer. Sim - caramba! - a gente pode ter um bocadinho de seu.

     - Nós também vimos esses impressos - informou o pai. - Até tenho um aqui.

     Tirou a bolsa e de dentro dela um impresso cor de laranja, dobrado. Em caracteres negros, via-se escrito no papel: “Precisa-se de gente para a colheita das ervilhas na Califórnia. Bons salários durante a estação. Procuram-se oitocentos homens.”

     Wilson olhou para o impresso com curiosidade.

     - Sim, é igual ao que eu vi, igualzinho. Foi este mesmo que eu vi. O senhor ach... quem sabe se eles já arranjaram os oitocentos homens?

     - Bom, mas isso é só numa pequena parte da Califórnia, que é o segundo Estado - em tamanho - dos Estados Unidos. Vamos admitir que eles já tenham conseguido os oitocentos homens; mas isso não quer dizer nada, pois há muitas, muitas outras fazendas no Estado. Eu gostava de apanhar frutas. Como diz o senhor, debaixo da sombra das árvores, a apanhar fruta. Até uma criança gosta de um trabalho assim.

     Al levantou-se subitamente e foi até ao carro de turismo dos Wilsons. Examinou-o por um instante e tornou a voltar ao seu lugar.

     - Hoje o senhor não poderá fazer nada - informou Wilson.

     - Eu sei. Vou arranjá-lo amanhã de manhã.

     Tom olhava pensativo para o irmão mais jovem.

     - Estava a pensar uma coisa semelhante, também - disse ele.

     - Afinal, de que é que vocês estão a falar? - perguntou Noah.

     Tom e Al conservavam-se calados, pois um esperava que o outro respondesse.

     - Diz-lhes tu - murmurou Al finalmente.

     - Bem, talvez não seja uma coisa acertada, talvez não seja bem o que o Al quer, mas vou dizer. Aqui está: nós estamos sobrecarregados, mas os senhores Wilsons têm o carro vazio. Se algumas pessoas da nossa família pudessem viajar com eles a gente podia pôr no caminhão algumas coisas mais leves deles e assim não corríamos o risco de partir as molas quando subíssemos as montanhas. Eu e o Al entendemos alguma coisa de automóveis e faremos um jeito para o carro de turismo andar. No caminho, podemos fazer viagem sempre juntos e assim é bom para todos.

     Wilson ergueu-se num pulo:

     - Sim, senhor. Teríamos muito prazer. Eu estou de pleno acordo. Sairy, que é que tu dizes a isto?

     - É uma boa ideia, sim - aprovou Sairy. - Mas não vamos ser pesados aos senhores?

     - Não, por amor de Deus, não! - disse o pai. - Pelo contrário, vai ser até um auxílio.

     - Bem, não sei, não - murmurou Wilson, desanimado.

     - Que foi? Não quer?

     - Bem, sabe... só temos trinta dólares e não queremos ser pesados a ninguém.

     - O senhor e a senhora não nos vão ser nada pesados - disse a mãe. - Uns ajudam os outros, e assim vamos chegar todos à Califórnia. A dona Sairy ajudou ao enterro do avô - concluiu ela.

     A amizade estava firmada.

     Al gritou:

     - No carro vão seis pessoas à vontade. Por exemplo: eu posso guiar e podem vir comigo a Rosa de Sharon, o Connie e a avó. E a bagagem ligeira, que está no carro, passa-se para o camião. Depois a gente pode revezar-se nos lugares. - Falava em voz alta, excitado, pois que se livrava de uma grande preocupação.

     Os outros sorriam acanhados, olhando o chão. O pai remexia a terra poeirenta com as pontas dos dedos. Depois, disse:

     - A mãe quer uma casinha branca, rodeada de pés de laranjeira. Ela viu um quadro assim num calendário.

     - Se eu adoecer outra vez, vocês não esperem por mim - disse Sairy. - Não quero ser pesada a ninguém.

     A mãe olhou-a com atenção e, pela primeira vez, pareceu reparar nos olhos alagados de sofrimento, no rosto de criatura perseguida, crispado pela dor.

     - Tudo se há-de arranjar. Não foi a senhora mesma quem disse que se deve ajudar aqueles que estão em dificuldades?

     Sairy examinava as mãos enrugadas à luz da fogueira.

     - Bem, temos de ir dormir esta noite.- E dizendo isto, levantou-se.

     - O avô... até parece que já morreu há um ano - disse a mãe.

     As duas famílias preparavam-se lentamente para dormir, bocejando vigorosamente. A mãe foi ainda remexer nos pratos de estanho e limpou-lhes a gordura com um pano de linhagem. A fogueira extinguia-se e as estrelas iam descendo no horizonte. Pela estrada quase não passavam carros de passageiros, mas os pesados caminhões faziam, de quando em quando, estremecer a faixa de cimento, provocando verdadeiros terramotos em miniatura. Os dois veículos que estacionavam na vala mal se viam à luz das estrelas. Um cão amarrado uivava lugubremente no pátio do posto de gasolina, ao fundo da rua. Ambas as famílias se haviam já aquietado e dormiam, e os ratos do campo tomaram coragem para deslizar entre os colchões. Apenas Sairy Wilson estava acordada. Contemplava o céu, retesando-se toda, numa resistência à dor.

    

     Inquietavam-se as terras do Oeste sob os efeitos da metamorfose incipiente. Os Estados ocidentais sentiam-se inquietos como os cavalos antes da trovoada. Os grandes proprietários inquietavam-se, pressentindo a metamorfose, sem atinarem, no entanto, com a sua natureza. Os grandes proprietários atacavam o que lhes ficava mais próximo: o governo de poder crescente, a unidade trabalhista cada vez mais firme; atacavam os novos impostos e os novos planos, ignorando que todas essas coisas são efeitos e não causas. As causas escondiam-se bem no fundo e eram simples as causas eram a fome, a barriga vazia, multiplicada milhões de vezes, fome na alma, fome de um pouco de prazer e de um pouco de tranquilidade, multiplicada milhões de vezes; músculos e cérebros que ansiavam por crescer, trabalhar, criar, multiplicados milhões de vezes. A última função clara e definida do homem - músculos que querem trabalhar, cérebros que querem criar para além das simples necessidades - isto é o homem. Construir um muro, construir uma casa, um dique, e pôr nesse muro, nessa casa, nesse dique algo do próprio homem, é retirar para o homem algo desse muro, dessa casa, desse dique. Obter músculos forte,, à força. de os mover, obter linhas e formas elegantes pela concepção. Porque o homem, ao contrário de qualquer coisa orgânica ou inorgânica do universo, cresce para além do seu trabalho, galga os degraus das suas próprias ideias, emerge acima das próprias realizações. E isto o que se pode dizer a respeito do homem. Quando as teorias mudam e caem por terra, quando as escolas filosóficas, quando os caminhos estreitos e obscuros das concepções nacionais, religiosas, económicas, se alargam e se desintegram, o homem arrasta-se para diante, sempre para a frente, muitas vezes cheio de dores, muitas vezes pelo caminho errado. Tendo dado um passo à frente, pode voltar atrás, mas apenas meio passo, nunca o passo todo que já deu. Isto é o que se pode dizer do homem: dizer-se e saber-se. Isto verifica-se quando as bombas caem dos aviões negros sobre a praça do mercado, quando os prisioneiros são tratados como porcos imundos e os corpos esmagados se esvaziam imundos, na poeira. Pode verificar-se deste modo. Não tivesse sido esse passo, não estivesse vivo no pensamento o desejo de avançar sempre, essas bombas jamais cairiam e nenhum pescoço teria nunca sido cortado. Receiem-se os tempos em que as bombas não caiam enquanto existam os bombardeiros, pois que cada bomba é uma demonstração de que o espírito ainda não morreu. E receiem-se os tempos em que as greves cessem, enquanto os grandes proprietários viverem ainda, pois cada greve vencida é uma prova de que se está dando um passo. E isto pode saber-se - receiem a hora em que o homem não queira sofrer mais e morrer por um ideal, pois que esta é a qualidade base da Humanidade, é o que a distingue entre todas as coisas do Universo.

    

     Os Estados ocidentais inquietavam-se sob os efeitos da metamorfose incipiente, Texas e Oklahoma, Kansas e Arkansas, Novo México, Arizona, Califórnia. Uma família isolada mudava de terra. O pai pedira dinheiro emprestado ao banco e agora o banco queria as terras. A Companhia das Terras - é o banco quando ela possui terras - quer tractores em vez de pequenas famílias nas terras. Um tractor é mau? A força que grava os profundos sulcos na terra é uma força errada? Se esse tractor fosse nosso - não meu, nosso - prestaria. Se esse tractor produzisse os sulcos na nossa própria terra, certamente estaria certo. Não nas minhas terras; nas nossas. Então, sim, a gente gostaria do tractor, como gostava das terras quando ainda eram nossas. Mas esse tractor faz duas coisas diferentes: revolve as terras e expulsa-nos delas, Não há quase diferença entre esse tractor e um tank. Ambos expulsam os homens que lhes barram o caminho, intimidando-os, ferindo-os. Há que reflectir sobre isto.

     Um homem, uma família expulsos das suas terras, esse veículo enferrujado arrastando-se, rangendo pela estrada, rumo ao Oeste. Eu perdi as minhas terras; um tractor, um só, roubou-mas. Estou sozinho e desnorteado. E uma família pernoita numa vala e outra família chega e as tendas surgem. Os dois homens acocoram-se no chão sobre os calcanhares e as mulheres e as crianças escutam em silêncio. Aqui está o nó, ó tu, que odeias as mudanças e temes as revoluções. Mantém esses dois homens afastados, faz com que eles se odeiem, se receiem, desconfiem um do outro. Porque aí começa aquilo que tu receias. Aí é que está o germe do que te apavora. E o zigoto. Porque aí transforma-se o “eu perdi as minhas terras” rompe-se uma célula e dessa célula rota brota aquilo que tu tanto odeias: o “nós perdemos as nossas terras”. Aí é que reside o perigo, pois que dois homens nunca se sentem tão sozinhos e tão abatidos como um só. E desse primeiro “nós” nasce algo muito mais perigoso: “eu tenho algum pão” mais “eu não tenho nenhum.” E o resultado desta soma é: “ Nós temos alguma coisa”. Então, a coisa toma um rumo; o movimento passa a ter um objectivo. Basta, nessa altura, uma pequena multiplicação e esse tractor, essas terras são nossas. Os dois homens acocorados numa vala, a pequena fogueira, a carne a fritar numa frigideira comum, as mulheres caladas, de olhos fixos; atrás, as crianças escutando com o coração palavras que o seu cérebro não alcança. A noite desce. A criança constipa-se. Olhe, tome esse cobertor. É de lã. Pertenceu a minha mãe. Tome, fique com ele para a criança. Sim, é aí que tu deves lançar a tua bomba. É este o começo da passagem do “eu” para o “nós”.

     Se tu, que tens tudo o que os outros precisam ter, puderes compreender isto, saberás também defender-te. Se tu souberes separar causas de efeitos, se souberes que Paine, Marx, Jefferson, Lenine, foram efeitos e não causas, sobreviverás. Mas isso é que tu não podes compreender, pois que a qualidade da posse te cristalizou para sempre na fórmula do “eu” e para sempre te há-de isolar do “nós”.

     Os Estados ocidentais inquietam-se sob os efeitos da metamorfose incipiente. A necessidade é um estimulante da concepção; a concepção, o estímulo para a acção. Meio milhão de homens caminha pelas estradas; um milhão mais se prepara para a caminhada; dez milhões mais sentem as primeiras impaciências.

     E os tractores abrem sulcos e sulcos nas terras abandonadas.

    

     Ao longo da estrada 66, restaurantes improvisados. “Casa de Al e Susy” – “Carlos- Refeições ligeiras” – “Will - Comes e Bebes” - “Joe e Minnie”. Barracas mal-amanhadas, de madeira. Duas bombas de gasolina em frente, um guarda-vento, um balcão comprido, tamboretes altos e um tubo de ponta a ponta, em baixo, para descansar os pés. Próximo da porta, três caça-moedas, cujos mostradores deixam ver a porção de moedas que qualquer poderá ganhar. E, ao lado deles, o gramofone de metal, com discos empilhados como grandes bolachas, prontos a deslizarem para o prato giratório e a executarem músicas de dança: “Ti-pi-ti-pi-tin”, “Obrigado pela lembrança”, Bing Crosby, Benny Goodman. Numa das extremidades do balcão, uma redoma de vidro: rebuçados para a tosse, sulfato de cafeína para espantar o sono, bombons, cigarros, lâminas de barba, aspirina, “Bromo-Seltzer, Alka-Seltzer”. Paredes decoradas com cartazes coloridos, representando banhistas loiras, de grandes seios, ancas estreitas e faces de cera, vestindo fatos de banho brancos, segurando na mão garrafinhas de “Coca- Cola” e sorrindo: “Veja o que se consegue com “Coca- Cola”. Balcão comprido, saleiros, pimenteiros, potes de mostarda e guardanapos de papel. Atrás do balcão, barris de cerveja e, ao fundo, as máquinas, de fazer café, reluzentes e fumegantes, com os tubos de vidro mostrando o nível do líquido existente. E doces, em caixas de rede e laranjas em pirâmides de quatro cada uma. E pequenas pilhas de bolos secos e latas de flocos de milho, dispostas de modo a formarem desenhos variados. E, forrados de mica reluzente, letreiros como estes: “Empadas à moda da minha mãe”. “O crédito cria inimizades. Seja nosso amigo”. “As senhoras podem fumar, mas cautela com as pontas de cigarro!” “Poupe trabalho a sua esposa e tome uma bebida com ela”.

     Noutra extremidade, na placa de aquecimento, os artigos de cozinha: panelas, caçarolas de guisado, batatas, carne assada e rosbife de carne de porco, para ser vendido às fatias.

     Minnie, ou Susy ou Mae, geralmente uma mulher de meia idade, atrás do balcão, de cabelos ondulados, rouge e pó de arroz no rosto suado. Recebe as ordens, falando em voz baixa e suave, e transmite-as à cozinha com a voz estridente do pavão. Limpa o balcão, descrevendo movimentos circulares, e areia cuidadosamente as reluzentes máquinas de café. O cozinheiro chama-se Joe, ou Carl ou Al; encalmado no seu casaco e avental branco e sob o boné também branco, goteja-lhe o suor em bagas na fronte. É sorumbático, pouco conversador e lança tini olhar rápido à porta cada vez que entra um novo freguês. Enxuga a frigideira, mete nela outro hamburguês, confirma em voz baixa os pedidos transmitidos por Mae, torna a raspar a frigideira, limpa-a com um pedaço de serapilheira. Sorumbático e silencioso.

     Mae estabelece o contacto, sorridente mas irritada, prestes a explodir; sorrindo, sobretudo quando os seus olhos, voltando do passado, avistam motoristas de caminhões. São eles a espinha-dorsal do estabelecimento. Onde os caminhões param é onde chegam os fregueses. Não se pode tratar mal um motorista de caminhão, já se sabe. Os caminhões trazem os fregueses. já se sabe. Dêem-lhe uma chávena de café a saber a bafio e somem-se para sempre. Tratem-nos bem e eles voltarão. Mae sorri com o seu mais irresistível sorriso para os motoristas. Empertiga-se um pouco, ajeita os cabelos pretos da nuca, de maneira que, com os movimentos dos braços, os seios subam; fala-lhes sobre o tempo, conta-lhes coisas interessantes que cheirem a pândega e lança boas piadas. Al nunca fala. Ele não existe para o público. Às vezes, sorri ligeiramente, ao ouvir alguma boa piada, mas nunca ri alto. Outras vezes, ergue a cabeça, ao captar a tonalidade viva da voz de Mae, e depois raspa a frigideira com uma espátula, retira a gordura, que cerca a frigideira nas bordas, para dentro de uma vasilha de ferro. Comprime o hamburguês que assobia na banha. Coloca o pão cortado em dois sobre a chapa, para o aquecer e torrar. Reúne as cebolas espalhadas no prato e amontoa-as sobre a carne, fazendo-as penetrar com a espátula. Põe metade do pão sobre a carne, besunta a outra metade com manteiga derretida e tiras finas de pickles. Segurando com uma mão o pão que põe sobre a carne, mete a espátula por debaixo daquela, vira-a e coloca por cima a metade do pão amanteigado e põe o hamburguês pronto sobre um pires, colocando-lhe, ao lado, um pedaço de pickles aromatizado com funcho e duas azeitonas pretas. E atira com o prato pelo balcão fora, como se fosse uma malha. E continua a raspar, mal-humorado, a frigideira com uma faca.

     Carros deslizam pela estrada 66. Placas de licença: Mass, Tenn. R. L. Ohio. Todos para o Oeste. Bons carros, correndo a cem à hora.

     Aí vai um desses “Cords”. Parece um caixão de rodas.

     Mas, Santo Deus, como essa gente viaja!

   Vê esse “La Salle”? É o que eu gostaria de ter. Não sou muito exigente. Contento-me com um “La Salle”.

     Já agora, porque não deseja um “Cadillac”? Ainda é mais rápido.

     Cá por mim, queria um “Zephir”. Não vale nenhuma fortuna, mas tem categoria e corre bem. Cá para mim, um “Zephir”.

     Bem, pois eu - já sei que se vai rir de mim - eu contentava-me com um “Buick-Puick”. Para mim, seria o bastante.

     Ora bolas! Esse custa tanto como um “Zephir” e não é tão resistente.

     Não me interessa. Não quero ter negócios com Henry Ford. Não gosto do tipo, nem nunca gostei dele. Um irmão meu andou a trabalhar lá na fábrica. Só queria que ouvisse o que ele me contava!

     Sim, mas um “Zephir” não é nada mau.

     Os grandes carros correm na estrada. Senhoras encalmadas, lânguidas, pequenos núcleos, à volta das quais gravitam milhares de acessórios: cremes, pomadas para se engordurarem, tintas em vidrinhos: pretas, cor-de-rosa, encarnadas,? brancas, verdes, prateadas, para a pintura dos cabelos, dos olhos, dos lábios, das unhas, das sobrancelhas, pestanas e pálpebras. Óleos, sementes e pílulas para a prisão de ventre. Um saco cheio de vidrinhos, seringas, pílulas, pós, líquidos e gelatinas para tornar as relações sexuais seguras, inodoras e estéreis. Isto sem falar nos vestidos. Uma porcaria dos diabos!

     Linhas de fadiga em torno dos olhos, linhas de descontentamento em torno dos lábios, seios pesando nos pequenos soutiens, ventre e ancas apertados em cintas de borracha. E bocas ofegantes e olhos imprecando contra o sol, o vento e a poeira, queixando-se da comida e do cansaço, odiando o tempo, que raramente as torna mais belas e sempre as envelhece.

     Ao lado delas, homenzinhos de ventre em forma de pipa, trajando roupas claras e chapéus Panamá; muito limpos, rosados, com os olhos inquietos, revelando preocupação e embaraço. Preocupação, porque os seus cálculos não dão certos, sequiosos de segurança e, ao mesmo tempo, sentindo que a segurança é coisa que vai desaparecendo da face da terra. Nos carros, as placas e os rótulos de hotéis e service clubs, lugares onde eles vão para verem os outros homenzinhos preocupados e se certificarem que o comércio é uma coisa nobre e não aquela ladroeira comicamente ritualizada que eles, no fundo, reconhecem, e que os comerciantes são homens inteligentes, mau grado os seus records de estupidez, e que eles são bondosos e caritativos, apesar dos princípios do são comércio e que as 'suas vidas são cheias de interesse e não a repetição daquela fatigante rotina que eles bem conhecem, e que chegará o dia em que não precisarão ele continuar a ter medo.

     E esses dois seguem para a Califórnia; vão para lá, a fim de se sentarem no hall do Beverley-Wilshire Hotel, a olhar os que passam e que eles invejam, a olhar as montanhas - montanhas, imaginem e grandes árvores! - ele, com olhos cheios de preocupações e ela, pensando em como o sol vai ressequir-lhe a cútis. Vão ver o Oceano Pacífico, e eu aposto cem mil dólares contra nada, em como ela dirá: “Olha, não é tão grande como eu pensava!” E ela terá inveja dos corpos jovens e frescos que se revolvem na areia das praias. Eles vão à Califórnia, para poderem regressar da Califórnia, e para poderem dizer: “Fulano e Cicrano estiveram sentados ao lado da nossa mesa no Trocadero. Ela não presta para nada, mas veste-se admiravelmente”. E ele: “Encontrei por lá uns negociantes graúdos. Eles dizem que as coisas só melhorarão quando a gente se livrar daquele tipo que ainda está na Casa branca.” E: “Houve uma pessoa que me disse, pessoa bem informada, que ela tem sífilis - sabe? Aquela que entrou naquele filme da Warner. E disse-me que ela conseguiu triunfar no cinema à custa dos homens que tem tido. Enfim, teve o que merecia.” Mas os olhos preocupados não acham paz e a boca mal-humorada nunca se abre num sorriso. O carro enorme e luxuoso passa a cem à hora.

     - Quero uma bebida gelada.

     - Pois, não! Ali adiante há um bar. Queres que eu pare?

     - Achas que será um sítio limpo e decente?

     - Acho que sim; pelo menos o mais limpo que se pode encontrar nestas paragens que até Deus esqueceu.

     - Bem, a soda engarrafada deve ser suportável!

     Os freios rangem e o carro pára. O homenzinho gordo e de olhos preocupados ajuda a mulher a descer.

     Mae vê-os entrar e desvia os olhos. Al lança-lhes um olhar fugidio de entre as suas frigideiras e torna a baixar a cabeça. Mae já sabe. Eles vão pedir uma soda que custa cinco cents e reclamar que não está bem gelada. A mulher vai estragar seis guardanapos de papel e atirá-los ao chão. O homem vai engasgar-se e responsabilizar Mae por isso. A mulher vai torcer o nariz, como se sentisse cheiro de carne podre, e depois, vão-se os dois embora e contam por toda a parte como aquela gente do Oeste é malcriada. E Mae, quando fica sozinha com o Al, tem uma classificação para as pessoas assim: “São uns bardamerdas.”

     Os motoristas de caminhões, esses sim!

     Aí vem um grande caminhão. Espero que pare, para dissipar o cheiro que esses bardamerdas aqui deixaram. Quando eu trabalhava naquele hotel de Albuquerque, Al, só queria que visses o jeito que têm para roubar! Furtam tudo o que lhes cai nas mãos. E, quanto maior e mais potente é o carro deles, mais eles roubam: toalhas, talheres e saboneteiras. Tu nem sequer és capaz de fazer uma ideia!

     E Al, com aspereza:

     - Que é que pensas, então? De que maneira arranjam esses carros assim tão grandes? Nasceram com eles? Tu é que nunca terás nenhum.

     A gente do caminhão - um motorista e o ajudante.

     - Que tal, se a gente parasse para tomar um cafezinho? Eu já conheço aquela tasca.

     - E o nosso horário?

     - Ora! Estamos adiantados...

     - Bem, então vamos a isso. Há lá uma mulher que ainda é bem boa! E o café é de estalo!

      O caminhão pára. Dois homens de calças de montar, de caqui, botas e casacos curtos e bonés militares de pala brilhante. O guarda-vento bate com estrondo.

     - Olá, Mae! Bill?

     - Olhem! É o grande Bill, o Ratazana! Quando voltaste, Bill?

     - Há uma semana. - O outro homem mete uma moeda no gramofone, fica a ver o disco soltar-se e o disco giratório mover-se debaixo dele, para o prato, que começa a girar. A voz de ouro de Bing Crosby “Thanks for the memory” - Obrigado pela lembrança de um banho de sol na praia”. E o motorista canta em voz alta para que Mae o ouça: “You might have been a haddock but you never was a whore” (“Podes ter sido insuportável; mas nunca aborrecida, eis o que diz a canção. O motorista fez a seguinte paródia: Podes ler sido um arenque mas nunca uma pescada...”), parodiando a letra da conhecida canção, que é: “You might have been a headache, but you never were a bore”.

     Mae ri.

     - Quem é este teu amigo, Bill? Vem contigo pela primeira vez, hein?

     O outro enfia uma moeda no “caça-moedas”, ganha quatro fichas e mete-as todas na máquina outra vez. Vai ao balcão.

     - Então que é que vai ser?

     - Cafèzinhos. Que bolos tem aí?

     - De creme de banana, creme de ananás, creme de chocolate e de maçã.

     - De maçã... é bom. Espera... Que é isso aí, tão grande?

     Mae levanta o bolo e cheira. Creme de banana.

     - Corta um pedaço, mas um pedaço bem grande.

     O outro, junto do caça-moedas, diz:

     - Dois!

     - Dois, então. Alguma anedota nova, Bill?

     - Tenho sim, escuta lá.

     - Cuidado, que estás a falar com uma senhora, Bill.

     - Não há perigo. Esta é até bem inocente. Um miúdo chega atrasado à escola. O professor pergunta: “Porque chegaste tão tarde?” O garoto responde: “Tive de ir buscar uma vaca... para cruzar”. E o professor: “Olha lá, o teu pai não podia fazer isso?” Responde o miúdo: “Podia, sim, mas não tão bem como o touro.”

     Mae quase rebenta a rir, num riso agudo e estridente, e Al, que, com ar preocupado, corta cebolas em cima de uma tábua, ergue a cabeça, sorri e torna a baixar a cabeça sobre as cebolas. Motoristas de camião, esses sim! São bons de verdade. Largam, pelo menos, um quarto de dólar cada um. Quinze cents por um café e um bolo e dez cents para Mae. E não exigem nada dela.

     Sentados bem juntos nos altos tamboretes, com as compridas colheres nas canecas do café. Estão a passar o tempo. E Al, que enxuga a sua frigideira, escuta tudo, mas não faz comentários. A voz de Bing Crosby já não se ouve. O prato do gramofone pára e o disco escorrega automaticamente para o seu lugar na pilha. A luz vermelha apaga-se. A moeda que pôs em movimento todo aquele mecanismo, que fez com que se ouvisse a voz de Bing Crosby, acompanhada de orquestra, passa entre os pontos de contacto e cai na caixa, onde se arrecadam os lucros. Essa moeda, ao contrário dos outros dinheiros, provocou uma actividade, tornou-se fisicamente responsável de uma reacção.

     Jactos de vapor irrompem da válvula da máquina de fazer café. O compressor da geleira zune brandamente por algum tempo e depois emudece. A ventoinha eléctrica, a um canto, abana lentamente a cabeça para um e outro lado, distribuindo um vento morno pelo salão. Na estrada-a estrada 66-deslizam carros e mais carros.

     - Há bocadinho estava ali parado um carro de Massachussets - diz Mae.

     Bill, o Ratazana, agarra na xícara pela parte de cima, de maneira que a colher lhe fica entre o polegar e o indicador. Sopra o café, para o esfriar um pouco.

     - Queria que tu visses, aí, na estrada. E, um nunca acabar de carros. De todos os Estados. E vão todos para o Oeste. Nunca vi tantos em dias da minha vida. Devem levar pequenas boas à farta.

     - A gente viu um desastre hoje de manhã - diz o companheiro. - Era um carro formidável - um Cadillac. Uma carrosserie estupenda: baixinha, cor-de-creme, coisa especial. Esbarrou com um caminhão. O radiador amolgou-se de encontro ao tipo que guiava o carro. O volante furou a barriga do homem e deixou-o, a espernear como uma rã espetada num anzol. Ia, pelo menos, a cento e cinquenta à hora. Um carro que era uma beleza! Agora não vale um amendoim. O sujeito ia sozinho no carro.

     Al levantou a cabeça:

     - E o camião, que é que lhe aconteceu?

     - Livra! Aquilo nem era bem um caminhão; era uma dessas geringonças feitas para uma viagem. Um carro velho, cheio de passageiros, transformado em camião de carga. Ia cheio de panelas e colchões, crianças e galinhas. Ia para o Oeste, sabes? Bom, o sujeito vinha a cento e cinquenta à hora, quis ultrapassar-nos; foi nessa altura que viu o outro carro a aproximar-se; deu uma volta ao volante e foi de encontro ao tal carro. O tipo que guiava, parecia que estava bêbedo. Deus do Céu! - Foi um voar de galinhas, por todos os lados, de colchões a rebentar e de crianças a gritar. Um dos miúdos morreu logo. Nunca vi um inferno assim. A gente parou. O velho que guiava o camião ficou parado, a olhar para a criança morta. Não se lhe arrancava nem uma palavra. Ficou que nem surdo-mudo. Pois é isto. A estrada está toda cheia de famílias assim. Vão todas para o Oeste. A coisa está a tornar-se cada vez pior. Só queria era saber de onde vem toda esta gente.

     - E eu gostava de saber para onde é que eles vão - disse Mae. - Às vezes, param, aqui por causa da gasolina, mas raramente compram qualquer outra coisa. O pessoal diz que eles gostam de roubar. Mas a gente não deixa nada à mão; por isso daqui nunca levaram nada.

     Bill, mastigando o pedaço de bolo, lançou um olhar para a estrada através do guarda-vento.

     - É melhor preparares-te. Acho que vem ali gente.

     Um “Nash” 1926 aproximou-se vagarosamente, parando à margem da estrada. No assento traseiro vinham empilhados, quase até ao tecto, sacos, panelas, frigideiras e sobre toda aquela pilha sentavam-se dois meninos. Sobre o tejadilho do carro via-se um colchão e uma lona de tenda enrolada; os paus da barraca vinham fortemente amarrados aos estribos. O carro parou junto às bombas de gasolina. Um homem de cabelos escuros e rosto anguloso saltou com negligência. E os dois meninos escorregaram da pilha e saltaram também do carro.

     Mae contornou o balcão e foi até à porta. O homem trajava calças cinzentas de lã e uma camisa azul, que, sob as axilas e nas costas, escurecera devido ao suor. Os meninos vestiam macacos e nada mais; macacos remendados e esfarrapados. Tinham cabelos louros que se lhes eriçavam no cocuruto, porque lhos haviam cortado muito rentes. Os rostos estavam cheios de poeira. Correram direitos à poça de água suja sob a bica e enterraram os pés na lama.

     O homem perguntou:

     - Podemos tirar um pouco de água, menina?

     Uma sombra de aborrecimento passou pelas faces de Mae:

   - Pois não; pode tirar. - E, por cima dos ombros, disse para trás:- Eu fico a ver.

     Ficou vigiando os movimentos do homem, que, vagarosamente, desaparafusou a tampa do radiador e enfiou nele a ponta da mangueira.

     Uma mulher, dentro do carro, uma mulher de cabelos cor de linho, disse:

     - Vê se consegues arranjar aquilo!

     O homem fechou a torneira de água, retirou a ponta da mangueira do radiador e aparafusou de novo a tampa. Os dois meninos pegaram na mangueira, tornaram a abrir a torneira e beberam água com sofreguidão. O homem tirou o chapéu escuro, manchado, e quedou-se numa postura humilde diante do guarda-vento:

     - A senhora poderia vender-nos um pouco de pão? - perguntou.

     - Isto aqui não é padaria - disse Mae.- O pão que temos é para fazer sanduíches.

     - Eu sei, menina.- A sua humildade tornava-se insistente. - Mas a gente precisa de comer e por aqui não se encontra pão em parte nenhuma.

     - Se a gente vender o pão, depois faz-nos falta.- Mae estava vacilante.

     - Temos fome, menina - tornou o homem.

     - Porque não compra uma sanduíche? Temos boas sanduíches hamburguesas.

     - Seria bom se a gente pudesse, mas, com dez cents, temos de matar a fome a todos nós. - E acrescentou, embaraçado: - Estamos bem mal de dinheiro.

     Mae disse:

     - Mas, por dez cents, o senhor não pode comprar pão aqui. Nós só temos pães de quinze cents.

     Atrás dela, Al grunhiu:

     - Pelo amor de Deus, Mae, deixa-te disso; dá-lhes o pão.

     - Mas vai fazer-nos falta, até que chegue o carro do pão.

     - Pois que faça falta, caramba! - E ele tornou a baixar os olhos para a salada de batatas que estava a preparar.

     Mae deu aos ombros roliços e lançou um olhar aos homens do caminhão, para mostrar que era contra aquele parecer.

     Abriu o guarda-vento e o homem entrou, trazendo consigo um cheiro de suor. Os meninos seguiram atrás dele e trataram logo de correr ao armário de vidro, onde estavam os doces e ficaram-se a fitá-lo, não com olhares de desejo ou mesmo de esperança, mas apenas de admiração de que existissem coisas assim. Um deles coçou o tornozelo carregado de poeira com as unhas dos dedos do outro pé. O outro murmurava-lhe qualquer coisa ao ouvido e ambos estenderam os braços, de maneira que os, punhos cerrados se desenhavam, dentro dos bolsos, através do leve pano azul dos macacos.

     Mae abriu uma gaveta e tirou um pão comprido, embrulhado em papel encerado.

     - Custa quinze cents este pão.

     O homem pôs de novo o chapéu na cabeça. A sua voz mantinha o mesmo tom de inalterável humildade:

     - A senhora... a senhora não podia cortar um pedaço que custasse só dez cents?

     Al disse, com um rosnido:

     - Que diabo, Mae, não te disse já que lhe desses esse pão?

     O homem virou-se para Al:

     - Não, senhor, isso não. Nós queremos comprar... mas só dez cents de pão. Senão, o dinheiro acaba antes de a gente chegar à Califórnia.

     Mae disse, resignada:

     - Tome, leve lá o pão por dez cents.

     - Não, isso seria roubar a senhora.

     - Deixe-se disso... pode levar o pão; o Al mandou. - E empurrou o pão pelo balcão fora.

     O homem puxou de uma funda bolsa de couro do bolso traseiro, desatou-lhe os cordões e abriu-a. Estava cheia de moedas de prata e de notas ensebadas.

     - Pode parecer esquisito que a gente tenha de fazer contas tão apertadas - desculpou-se - mas a viagem é muito longa e a gente nem sabe se, mesmo assim, o dinheiro vai chegar até ao fim.

     Mergulhou o dedo indicador na bolsa, tacteou uma moeda de dez cents e tirou-a. Ao depô-la no balcão, notou que junto à moeda, vinha uma outra agarrada, de um penny. Ia para repor o penny na bolsa quando os seus olhos caíram sobre os dois meninos imobilizados de êxtase, na contemplação dos doces. Dirigiu-se lentamente para eles. Apontou para uns pauzinhos compridos, às riscas, de hortelã-pimenta.

     - Um penny dá para comprar um pauzinho destes, menina? - perguntou.

     Mae aproximou-se e olhou:

     - Qual deles?

     - Esses aí, esses às riscas.

     Os meninos levantaram os olhos para ela e fixaram-na com a respiração suspensa. Tinham os lábios entreabertos e os corpos em grande tensão.

     - Ah, esses? Esses são dois por um penny.

     - Ah, sim? Então dê-me dois, menina.

     Ele colocou o penny de cobre cuidadosamente no balcão. Os meninos respiravam fundo. Mae estendia os pauzinhos.

     - Tomem - disse o homem.

     Eles pegaram nos doces com timidez; cada um tirou um e ficou-se a segurá-lo na mão caída e fortemente unida às calças, sem se atrever a olhar para a guloseima. Depois, os pequenos entreolharam-se e os cantos dos seus lábios mostravam qualquer coisa como um sorriso rígido e embaraçado.

     - Muito obrigado, menina.

     O homem agarrou no pão e saiu, e os meninos foram também atrás dele, em passo rígido, apertando sempre os pauzinhos de riscas vermelhas de encontro às pernas. Como esquilos, saltaram para o cimo da carga empilhada, por cima do assento da frente, e ocultaram-se de novo como se fossem esquilos.

     O homem sentou-se ao volante e pôs o motor em movimento e o velho “Nash” deixou uma réstia de fumo azulado de óleo atrás de si e rodou em direcção ao Oeste.

     De dentro do restaurante, o motorista do caminhão, Mae e Al acompanharam-nos com o olhar.

     Bill rodou sobre os calcanhares.

     - Esses pauzinhos não custam dois um penny - disse.

     - Que é que você tem com isso? - refilou Mae, furiosa.

     - Custam cinco cents cada - retorquiu Bill.

     - Bem, são horas de irmos andando - lembrou o outro homem. Estamos a perder tempo.

     Meteram as mãos nos bolsos. Bill colocou uma moeda no balcão e o seu companheiro lançou-lhe um olhar; tornou a meter a mão no bolso e juntou-lhe outra moeda. Viraram as costas ao balcão, dirigindo-se para a porta.

     - Até qualquer dia - disse Bill.

     Mae chamou-os.

     - Eh! Esperem aí pelo troco.

     - Vá para o inferno - gritou Bill. E fechou o guarda-vento com estrondo.

     Mae viu-os entrar no enorme caminhão, pôr o veículo em primeira, ouviu o roncar do motor e a mudança da embraiagem para segunda velocidade.

     - Al - chamou ela baixinho.

     Ele ergueu a cabeça.

     - Que foi? - perguntou.

     - Olha para aqui.

     Ela apontou para as moedas deixadas ao lado das xícaras, duas moedas de meio dólar. Al acercou-se, olhou e voltou ao seu trabalho.

     - Motoristas de camião - disse Mae, reverentemente. - Que diferença, depois desse bando de bardamerdas!

    As moscas zuniam de encontro ao guarda-vento e tornavam a afastar-se. O compressor sussurrou e tornou a calar-se. Na 66, o tráfego continuava intenso: camiões, lindos automóveis aerodinâmicos e calhambeques - todos rodavam pelo asfalto com um troar fatídico. Mae tirou os pratos do balcão e atirou para um balde as migalhas de doce que neles restavam. Pegou num pano húmido e limpou o balcão com movimentos circulares. Os seus olhos vigiavam a estrada, onde a vida deslizava.

     Al enxugava as mãos ao avental. Olhou para um papel pregado na parede por cima da frigideira. No papel havia três colunas de sinais. Al contou as cifras registadas na coluna mais comprida. Dirigiu-se depois à caixa registadora e premiu o botão. “No sale” (Fora de venda) e tirou uma mão-cheia de moedas.

     - Que é que estás a fazer? - perguntou Mae.

     - E o número três, que está quase a ganhar - respondeu Al. Foi ao terceiro caça-moedas, meteu nele as moedas e deu à manivela. A quinta volta, as três barras apareceram e todo o dinheiro jorrou para a taça. Al apanhou o grosso punhado de moedas e voltou ao balcão. Meteu-as na gaveta da caixa registadora, fechando-a depois com uma pancada seca. Depois, voltou para o seu lugar, riscando a última linha de algarismos traçada no papel.

     - Eles jogam mais no número três,? já reparaste bem? Acho que tenho de arranjar isto.- Ergueu uma tampa e mexeu cuidadosamente o guisado que fumegava.

     - Só gostava de saber que diabo vão eles todos fazer para a Califórnia - disse Mae.

     - Eles, quem? - Ora, quem havia de ser? Essa gente toda, estes, por exemplo, que ainda agora estiveram aqui.

     - Só Deus sabe - comentou Al

     - Tu achas que eles vão arranjar trabalho?

     - Como diabo queres tu que eu saiba? - respondeu Al.

     Ela olhou para a estrada.

     - Aí vêm dois caminhões na direcção de leste. Talvez parem. Deus queira que sim.

     E, quando os dois pesados veículos encostaram pesadamente à porta do estabelecimento, Mae agarrou no pano e pôs-se a limpar o balcão a todo o comprimento. Passou também o pano pela máquina de fazer café e acendeu-lhe os bicos de gás. Al pegou numa porção de pequenos nabos e começou a descascá-los. O rosto de Mae alegrou-se, ao abrir-se a porta para dar passagem a dois motoristas uniformizados.

     - Olá, irmã!

     - Não sou irmã de ninguém, ouviu? - disse Mae. Eles riram e Mae fez o mesmo. - Que é que há-de ser, meninos?

     - Cafezinho. Que bolos têm aí?

     - Creme de ananás, creme de banana, creme de chocolate e de maçã.

     - Venha o de maçã. Não, espere lá. De que é este grande? Aqui...

     - De creme de ananás.

     - Bom, corte um pedaço.

     E, pela estrada 66, os veículos rodavam com um troar fatídico.

    

     Os Joads e os Wilsons lá se iam arrastando juntos, rumo ao Oeste; El Reno e Bridgeport, Clinton, Elk City, Sayre e Texas. Depois, veio a fronteira e Oklahoma ficou para trás. Nesse dia, os carros continuavam a arrastar-se, avançando sempre através do “Cabo de Frigideira” do Texas. Shauirock e Alarireed, Groom e Yarneil. Depois, passaram à tarde por Amarillo e só fizeram alto. quando já era noite escura. Estavam fatigados, cobertos de poeira e cheios de calor. A avó tivera convulsões ocasionadas pelo calor e sentia-se muito fraca ao acamparem.

     Naquela noite, Al furtou uma estaca e armou um toldo no caminhão, bem amarrado nos extremos. Nessa noite, comeram apenas empadas frias e duras que tinham sobrado da refeição da manhã. Deixaram-se cair sobre os colchões e adormeceram vestidos. Os Wilson nem sequer armaram a sua tenda.

     Os Joads e os Wilsons atravessaram desabaladamente o “Cabo de Frigideira” do Texas, a terra ondulada, pardacenta, roída de sulcos e de gretas e cheia de cicatrizes das antigas cheias. Fugiam de Oklahoma através do Texas. Os cágados arrastavam-se pela poeira; o sol fustigava a terra. À noite, o calor deixava o céu e da terra exalavam-se baforadas de calor.

     Dois dias correram as famílias assim desabaladamente, mas, ao terceiro dia, a terra pareceu-lhes demasiada na sua imensidão e tiveram de optar por uma nova maneira de viver; a estrada passou a ser o seu lar e o movimento o seu meio de expressão. Pouco a pouco, habituaram-se à nova vida. Primeiro Ruthie e Winfield, depois, Al, depois Connie e Rosa de Sharon e, finalmente, os mais velhos. A terra estendia-se, ondulante, diante deles; Wildorado e Vega e Boíse e Glenrio. Aí é o fim do Texas. Novo México e as montanhas. Muito distante, sinuosa e elevando-se para o céu, a linha das serras. E as rodas dos veículos rangiam, os motores ardiam e o vapor espirrava das tampas dos radiadores. Arrastaram-se até ao rio Pecos e alcançaram Santa Rosa. E viajaram ainda mais vinte milhas.

     Al Joad guiava o carro de turismo; a seu lado iam sua mãe e Rosa de Sharon. Diante deles, o camião avançava com dificuldade. O calor espalhava-se em nuvens sobre a terra e as montanhas oscilavam na tremulina provocada pela calma. Al guiava despreocupada-mente recostado, a mão frouxa na cruz do volante; tinha o chapéu cor de cinza amarrotado e puxado de forma incrivelmente pretensiosa para os olhos; de vez em quando voltava a cabeça e cuspia para o lado.

     A mãe, ao lado dele, mantinha as mãos enlaçadas no colo, numa luta passiva contra a fadiga. Entregava-se ao abandono, deixando que os solavancos do carro lhe sacudissem à vontade a cabeça e o tronco. Piscava os olhos, para distinguir as montanhas distantes. Rosa de Sharon, com o cotovelo direito encostado à porta, opunha o corpo aos movimentos do carro. O seu rosto redondo endurecia-se na resistência aos solavancos e a cabeça agitava-se em estremeções porque os músculos do pescoço se mantinham rígidos. Procurava, mantendo o corpo assim convulsivamente hirto, transformar-se como num vaso rígido que preservasse o fruto do seu amor. Virou a cabeça para a mãe.

     - Mãe - disse ela. - E os olhos da mãe animaram-se ao dar atenção a Rosa de Sharon. - Fixou o rosto redondo, contraído e fatigado, e sorriu: - Mãe - disse a rapariga - quando agente chegar, vamos todos colher frutas e viver outra vez no campo, não é?

     A mãe esboçou um sorriso ligeiramente irónico.

     - Ainda não chegámos - disse. - Nem sabemos bem como é aquilo lá na Califórnia. Primeiro temos de ver.

     - Eu e o Connie não queremos viver mais no campo - disse a rapariga. - Nós já resolvemos o que iremos fazer.

     Uma nuvem de preocupação deslizou pelas faces da mãe. - Então vocês não querem ficar connosco, com a família? - perguntou ela.

     - Bem, eu e o Connie já resolvemos tudo. Mãe, nós vamos viver numa cidade. - Continuou excitada:- O Connie vai procurar trabalho numa loja ou talvez numa fábrica. E vai estudar em casa, talvez rádio, para vir a ser um técnico e pode ser que mais tarde até possamos ter uma loja nossa. Assim, a gente até pode ir ao cinema de vez em quando. E o Connie disse que, quando eu tiver a criança, vem o médico a casa, e que, conforme as coisas correrem, até posso ir para um hospital. Depois, a gente há-de ter um automóvel pequeno, já se vê. E, de noite, ele fica a estudar em casa e... oh! Vai ser tão bom! Ele arrancou uma página do livro História de amor do Oeste e vai mandá-la para receber o livro do Curso de Correspondência que a casa manda de graça. Está escrito na página que ele arrancou. Eu também vi. Depois... ali, sim, lá onde ele vai tirar o curso, até arranjam emprego para os alunos. A Rádio... sabe... é um serviço limpo, bonito e tem grande futuro. E a gente poderá viver numa cidade e ir ao cinema de quando em quando e ah... sim, vou ter um ferro eléctrico e a criança terá só roupinhas novas. O Connie disse que ela vai ter tudo comprado novo, sabe? - tudo branquinho. À: mãe viu no catálogo, não viu? Têm de tudo o que uma criança precisa. Talvez no princípio seja um pouco difícil, quando o Connie ainda estiver a estudar em casa... mas, quando a criança vier, talvez ele já tenha terminado os estudos e a gente tenha a nossa casa uma casinha modesta, bem entendido. A gente não quer uma casa grande, mas tem que ser bem bonitinha, por causa da criança, não acha?... - O rosto dela resplandecia de entusiasmo. - E eu pensei, até... pensei que nós podíamos ficar todos na cidade, e, quando o Connie tiver uma loja, o Al poderá trabalhar com ele.

     Os olhos da mãe não se afastavam, nem por um momento, do rosto corado de Rosa de Sharon. Foi escutando com a maior atenção o desenrolar do projecto.

     - Mas nós não queremos que tu nos deixes - disse ela. - Não é bom que a família se separe.

     Al rosnou:

     - Eu, trabalhar para o Connie E porque não há-de o Connie trabalhar para mim? Ele julga que é o único gajo capaz de estudar à noite?

     Para a mãe, tudo aquilo lhe pareceu, de repente, um sonho. Tornou a olhar para a frente e o corpo relaxou-se-lhe, mas o sorriso leve ficou a brilhar-lhe nos olhos.

     - Como é que a avó se sentirá hoje? - perguntou.

     Al endireitou-se de repente ao volante. O motor emitia pequenos ruídos. Acelerou a marcha e o ruído tornou-se mais audível. Diminuiu a marcha e escutou; tornou a acelerá-la por um instante e prestou de novo atenção. O ruído transformara-se num crepitar metálico. Al buzinou e encostou o carro à berma. O caminhão que ia à frente, parou e retrocedeu devagar, em marcha atrás. Três carros passaram rumo ao Oeste. Todos eles buzinaram e o motorista do último carro debruçou-se para fora e berrou:

     - Ó seu bruto, então aí é que se pára?

     Tom encostou o camião bem à beira da estrada, saltou e dirigiu-se para o carro de turismo. Da carrosserie do caminhão saíram cabeças curiosas. Al retardou a ignição e pôs-se a ouvir o, motor ao ralenti. Tom inquiriu:

     - Que há, Al?

     Al fez funcionar o motor.

     - Ora escuta! - O crepitar soava mais forte ainda.

     Tom escutou.

     - Experimenta ao ralenti - disse. Levantou a tampa do motor e meteu a cabeça lá dentro. Bem, agora acelera. Ficou um instante a ouvir e depois fechou a tampa. - Sim, acho que tens razão, Al.

     - É o mancal da biela, não é?

     - Pelo menos, é o que me parece - disse Tom.

     - Mas eu pus-lhe bastante óleo - lastimou-se Al.

     - Bem, então foi o óleo que não chegou até lá. Está seco que nem um carapau. Bem; não há remédio senão tirá-lo. Olha, eu vou ver se encontro um bom sítio para a gente estacionar. Vê lá o que fazes ao carter.

     Wilson perguntou:

     - É coisa séria?

     - Bastante, sim - disse Tom. E voltou ao camião, pondo-se a avançar lentamente.

     Al explicou:

     - Nem sei como foi. Tinha bastante óleo.

     Al sabia que a culpa era dele. Sentia que tinha cometido um erro.

     A mãe desculpou-o.

     - Tu não tens culpa, Al. Fizeste o que devias. E, depois, tímida, perguntou:- E coisa importante?

     - Pode-se remediar, mas temos de arranjar outra biela ou então de consertar o mancal. - Respirou profundamente. - Ainda bem que o Tom cá está. Eu nunca ajustei um mancal. Deus queira que ele saiba fazer esse serviço.

     Um grande cartaz vermelho erguia-se à beira da estrada, lançando nela uma sombra alongada. Tom conduziu o caminhão para a vala, atravessou-a e parou à sombra. Saiu e pôs-se à espera que Al se aproximasse.

     - Agora, cuidado! - gritou ele. - Encosta devagar, senão, ainda por cima quebras uma das molas.

     O rosto de Al tornou-se vermelho de raiva. Diminuiu a marcha do motor.

     - Diabos me levem! - gritou. - Já disse que não tenho culpa de o mancal estar seco. Que queres dizer com esse ainda por cima?

     Tom zombou:

     - Não vás à serra, homem. Não queria dizer coisa nenhuma. Só disse que tivesses cuidado com essa vala.

     Al resmungou, ao desviar cuidadosamente o carro de turismo da faixa da estrada e ao levá-lo para o outro lado. Parou ao lado do caminhão.

     - Agora não te vás pôr para aí a dizer aos outros que eu deixei secar o motor, ouviste?

     O motor batia fortemente, e Al, desviando-se para a sombra, desligou-o.

     Tom abriu a tampa do motor, prendendo-a depois em cima.

     - Só podemos começar depois de ele arrefecer - disse.

     As famílias saltaram dos veículos e rodearam o carro de turismo.

     O pai perguntou a Al:

     - Que tal? - E acocorou-se no chão.

     Tom virou-se para Al.

     - Já alguma vez arranjaste algum?

     - Não. Até hoje ainda não. Mas já desmontei carters, é claro.

     Tom destinou o serviço:

     - Bem; é preciso desmontar o carter e retirar a biela; depois, temos de arranjar uma peça de substituição. Depois, é preciso rectificá-la e ajustá-la. E trabalho para um dia, pelo menos. A gente tem de ir a Santa Rosa. Albuquerque fica ainda a umas setenta e cinco milhas... Co'a breca! Amanhã é domingo! Amanhã não se pode arranjar nada.

     A família ouvia a conversa em silêncio. Ruthie aproximou-se e espreitou para dentro do 'motor, na esperança de ver a peça partida.

     Tom continuou em voz baixa:

     - Pois é, amanhã é domingo. Segunda-feira, a gente arranja a peça e só na terça é que podemos acabar de consertar o carro. Nem ferramentas de jeito temos. Vai ser um trabalhão dos diabos.

     A sombra de um gavião projectou-se sobre a terra e todos ergueram a cabeça para ver a ave negra que evolucionava no alto.

     O pai lamentou-se:

     - Só tenho medo é de acabar o dinheiro antes de chegarmos à Califórnia. Afinal, tem de se comer, e é preciso comprar gasolina e óleo. Se se acabar o dinheiro, não sei como há-de ser.

     Wilson atalhou:

     - Acho que a culpa é minha. Desde o princípio que esse calhambeque vinha avariado. Vocês têm sido muito bons para nós. Mas agora é melhor arrumarem as coisas e continuarem a viagem. Não vão empatar o vosso tempo por nossa causa. Eu e a Sairy vamos ficar aqui; a gente cá se arranja. Não queremos incomodá-los mais.

     - Nada disso. Agora somos quase da mesma família. O avô morreu na sua tenda - respondeu o pai devagar.

     - Só lhes temos - causado complicações - disse Sairy, com ar cansado.

     Tom enrolou um cigarro devagar, examinou-o e acendeu-o. Tirou o boné deformado e enxugou com ele a testa.

     - Tenho uma ideia - disse. - Talvez vocês não gostem dela, mas sempre a vou dizer. Quanto mais depressa a gente chegar à Califórnia, mais depressa vai ganhar dinheiro. Este carro aqui corre duas vezes mais que o nosso caminhão. Por isso eu pensei que vocês podiam tirar qualquer coisa do caminhão e levar mais gente. Podiam caber todos, menos eu e o pregador. Nós dois ficávamos aqui e arranjávamos o carro de turismo e depois ainda os íamos alcançar, nem que tivéssemos de viajar de dia e de noite. Se a gente se não encontrasse na estrada, ao menos vocês já estariam a trabalhar. E, se o caminhão tiver alguma encrenca, então vocês acampam na estrada até a gente chegar. Para vocês tanto faz e, se conseguirem fazer o resto da viagem, já estarão a trabalhar, e tudo será mais fácil. O Casy vai-me ajudar a arranjar este carro e nós seguiremos assim que pudermos.

     A família estava a pesar a ideia. O tio John acocorou-se ao lado do pai.

     Al perguntou:

     - Então não precisam de mim para dar uma ajuda no conserto da biela?

     - Pois se tu mesmo me disseste que não sabias fazer esse trabalho!

     - Está bem - confirmou Al - Mas precisas de alguém com força. Talvez o pregador não queira ficar.

     - A mim tanto me faz. Pode ficar quem quiser - disse Tom.

     O pai esgaravatava a terra seca com o dedo indicador.

     - Acho que o Tom tem razão... Não adianta ficarmos todos aqui - acudiu ele. - Antes de anoitecer, ainda podemos fazer umas cinquenta ou mesmo cem milhas.

     A mãe inquiriu preocupada:

     - Como é que tu nos vais encontrar depois?

     - A gente tem de passar pela mesma estrada - disse Tom. - É sempre a 66, até chegar a uma cidade chamada Bakersfield. Vi no mapa. Vocês só o que têm a fazer é seguir sempre pela mesma estrada.

     - Sim, e quando a gente chegar à Califórnia e encontrarmos cruzamentos?

     - Não se incomode, mãe - tranquilizou-a Tom. - A gente há-de encontrar-se com certeza. A Califórnia não é o mundo inteiro.

     - No mapa parece tão grande! - exclamou a mãe.

     O pai apelou para outras opiniões:

     - John, tens alguma coisa a dizer em contrário?

     - Não - respondeu John.

     - Sr. Wilson, o carro é seu. O que é que o senhor diz? Acha mal que o meu filho o arranje e o traga depois?

     - Acho até que é uma boa ideia - opinou Wilson. - Os senhores já fizeram tanto por nós que não vejo razão para não ajudar o seu rapaz.

     - Vocês podem começar a trabalhar e pôr algum dinheiro de parte se nós não conseguirmos apanhá-los - disse Tom. - Imaginem se nós ficássemos todos aqui sem fazer nada! Nem água há neste sítio e o carro desta maneira não pode andar. Mas imaginem vocês todos, lá na Califórnia, a trabalhar? Arranjam dinheiro e vão talvez mesmo conseguir uma casa. Que é que acha, Casy? Quer ficar comigo para me ajudar?

     - Faço o que quiserem - disse Casy. - Vocês trouxeram-me e eu faço tudo o que me pedirem, seja o que for.

     - Sim, mas o senhor terá de ficar de barriga para cima e de sujar a cara de óleo, se ficar aqui - disse Tom.

     - Para mim, vem a calhar.

     O pai interveio:

     - Bom, se já está decidido, o melhor é a gente ir indo já. Quem sabe? Podemos até fazer ainda hoje umas cem milhas.

     A mãe postou-se à frente dele:

     - Eu não vou.

     - Não vens? Que história é essa agora? Tu tens de vir! A gente precisa de ti. Quem vai olhar pela família?

     O pai estava pasmado com aquela revolta.

     A mãe chegou-se ao carro de turismo e procurou qualquer coisa por baixo do assento traseiro. Trouxe de lá um macaco e pôs-se a brandi-lo rapidamente.

     - Não vou - repetiu.

     - E eu digo-te que vens! É coisa decidida.

     Os lábios da mãe apertaram-se. E disse com voz surda:

     - Só saio daqui à pancada. - Continuou a brandir o macaco com ligeireza. - E isso não te convém, não é? Eu não permito que ninguém me toque e também não vou chorar nem pedir nada a ninguém. Salto-te em cima, ouves? E não me parece que tu te atrevas a bater-me. E, se o fizeres, juro-te por Deus que me ouve, que, logo que te apanhe de costas ou sentado, te despejo um balde por cima. juro por Deus Nosso Senhor Jesus Cristo que o faço!

     O pai, desconsertado, olhou o grupo.

     - Ela está maluca! - gritou. - Nunca a vi assim.

     Ruthie soltou um riso agudo.

     O macaco girou raivosamente nas mãos da mãe.

     - Anda, se queres ver - disse ela. - Tu já decidiste, não é verdade? Anda, dá-me uma sova, se és capaz! Ora experimenta. Eu disse quê não ia e, se me obrigares a ir, nunca mais dormirás sossegado, porque, assim que tu pegares no sono, ferro-te uma paulada.

     - Mas que mulher danada! - murmurou o pai. - E já não é nova... Faria se o fosse!

     O grupo acompanhava a revolta. Olhavam o pai, esperando uma explosão de cólera. Olhavam-lhe as mãos frouxas, à espera de que os punhos se erguessem. Mas o pai não se encolerizava e as suas mãos continuavam frouxas, ao longo do corpo. E, num instante, o grupo compreendeu que a mãe tinha vencido. E esta também se apercebeu disso.

     Tom perguntou então:

     - Mãe, então que é isso? Que maneiras são essas? Que é que tem? Então agora põe-se contra nós?

     O rosto da mãe abrandou, mas os seus olhos relampejavam ainda.

       - Fizeste isso sem pensar - disse.- Que é que nos resta na vida? Nada, a não ser a nossa família. Mal a gente deixou a nossa terra, o avô morreu. E agora... agora tu queres que a gente se separe também.

     Tom gritou:

     - Mãe, a gente não ia separar-se. Íamos ter com vocês depois.

     A mãe brandiu o macaco.

     - Imagina que nós estamos acampados num, sítio qualquer e vocês não nos vêem e passam de largo? Imagina até que chegamos à Califórnia. Como é que vocês nos vão encontrar? Onde é que nós poderemos deixar um recado para vocês, dizendo onde estamos? - E continuou: - Temos uma caminhada bem dura ainda na nossa frente. A avó está doente. Ela está deitada lá no caminhão; pode ser que também não dure muito tempo. Se morrer, temos de a enterrar como ao avô. Ela não aguenta mais: está no fim. A caminhada é muito dura ainda.

     O tio John insistiu:

     - Mas lá a gente pode começar a ganhar dinheiro. Poderíamos até economizar alguma coisa, até que os outros chegassem.

     Os olhares do grupo convergiram para a mãe. Ela era a força. Dominava plenamente a situação.

     - O dinheiro que a gente ganhasse dessa maneira não prestava para nada - disse ela. - Tudo o que nos resta é a nossa família, a nossa união. Somos como uma manada de vacas, que se unem todas quando vêem os lobos. Não tenho medo de nada enquanto estivermos todos juntos. Não quero que a gente se separe. Os Wilsons estão connosco e o reverendo também. Se eles se quiserem ir embora, nada posso fazer. Mas, com a minha família, é diferente; se ela se quiser separar, então vai ver o que é uma fera com isto na mão! - A sua voz era fria e decidida.

     Tom disse, em tom apaziguador:

     - Mãe, nós não podemos acampar todos aqui. Não há água. Há poucas sombras e a- avó precisa de sombra.

     - Bem - disse a mãe.- Então, vamos continuar a viagem e parar no primeiro sítio em que haja água e sombra. Em seguida, o caminhão volta para vos levar à cidade, onde comprarão a peça que falta e trá-los de novo. Tu não podes ir a pé com este sol, nem te quero aqui sozinho. Se te acontecer alguma coisa, não terás ninguém que te ajude.

     Tom repuxou os lábios, baixando-os sobre os dentes. Abriu as mãos desconsolada-mente e deixou-as cair ao longo do corpo. Depois, abriu novamente a boca:

     - Pai - disse-se a agarrasse de um lado e eu do outro e os outros por detrás e se a avó lhe saltasse em cima, talvez assim a gente a dominasse, se ela não derrubasse uns dois ou três com o macaco. Mas, se o senhor não quiser ficar com a cabeça rachada, é melhor fazer como a mãe quer. Deus do céu! Uma pessoa que sabe o que quer pode dominar uma porção de gente. A senhora ganhou, mãe. E agora ponha de lado esse macaco antes que magoe alguém.

     A mãe olhou atónita o pedaço de ferro. A mão tremia-lhe. Deixou cair a arma no chão e Tom levantou-a com o maior cuidado e tornou a guardar o macaco no carro, dizendo:

     - Pai, é melhor o senhor voltar para o seu lugar. Al, tu levas todos no caminhão, e páras num sítio bom; depois voltas, e eu e o pregador, durante, esse tempo, vamos desmontando o mancal. Se for possível, a gente vai até Santa Rosa, para ver se arranja um mancal novo. Talvez a gente tenha sorte, visto que é noite de sábado. Trata de andar depressa, a ver se ainda podemos fazer o que pretendemos. Deixa aqui a chave inglesa e a turquês do caminhão. - Meteu a mão debaixo do carro e apalpou o carter besuntado. - Olha, deixa também esse velho balde aí, que é para recolher o óleo. Não podemos perder esse óleo todo.

     Al passou-lhe o balde. Tom colocou-o sob o carro e abriu o tampão do tanque do óleo, com a ajuda da turquês. O óleo negro escorreu-lhe pelo braço, enquanto desatarraxava o tampão com os dedos, e depois o jacto negro caiu silenciosamente no fundo do balde. Al reuniu a família no caminhão em menos tempo do que foi necessário para encher o balde até metade.

     Tom, com o rosto já sujo de óleo, olhou por entre as rodas e disse:

     - Volta depressa, ouviste?

     Começou a tirar os parafusos do carter, enquanto o caminhão passava a pequena vala e se afastava lentamente, no terreno acidentado. O caminhão desapareceu. Tom deu uma volta a cada parafuso, afrouxando-os suavemente, a fim de poupar os empanques.

     O pregador ajoelhara junto às rodas.

     - Posso ajudar? - perguntou.

     - Agora não. Mas, assim que o óleo sair todo e eu soltar os parafusos, pode-me ajudar a tirar o carter.

     Tornou a meter-se debaixo do carro, afrouxando os parafusos com a chave e fazendo-os deslizar com os dedos. Mas não retirou os parafusos das duas extremidades, para evitar que o carter caísse de repente.

     - O chão ainda está bem quente - disse. - E acrescentou: Escute, Casy, o senhor tem andado muito silencioso nestes últimos dias. Porquê, Santo Deus?! Quando a gente se encontrou pela primeira vez, o senhor fez-me um discurso de meia em meia hora. E agora, há bem dois dias que não diz dez palavras seguidas. Que é isso? Está farto disto tudo, hein?

     Casy estava deitado de costas, a olhar para baixo do carro.

     O queixo, áspero, na sua barba mal semeada, descansava nas costas da mão. O chapéu, muito derrubado para trás, cobria-lhe inteiramente a nuca.

     - Quando era pregador, falei que chegou para o resto da minha vida - disse.

     - Sim, mas depois disso, o senhor também tinha sempre assunto...

     - Tenho andado preocupado, muito preocupado - disse Casy. - Quando ainda era pregador, não me apercebera disso, mas o facto é que tenho perdido muito tempo por aí. já que não sou pregador, acho que devo casar-me. Sinto o desejo da carne, sabes,

     - Eu também - disse Tom. - No dia em que saí de MacAlester, estava completamente alucinado. com atrás de uma mulher, uma mulher da vida, como se ela fosse, um coelho. Nem queira saber o que aconteceu; até tenho vergonha de o contar.

     Casy riu.

     - Calculo. uma vez meti-me, no mato e estive muito tempo por lá em jejum. Quando voltei, aconteceu-me o mesmo.

     - Sério? - perguntou Tom.- Bom, de qualquer maneira, poupei o meu dinheiro e ela não se queixou. Pensou que eu era doido. Bem sei que lhe devia ter pago, mas só tinha cinco dólares. Demais a mais, ela nem queria dinheiro... Bom, ponha-se aí debaixo e agarre-se a, qualquer coisa. O senhor tira esse parafuso e eu tiro o outro e a coisa torna-se fácil. Cuidado com o marical! Vê? Lá vem ele todo de uma vez! Estes “Dodges” antigos só tem quatro cilindros. Uma vez eu desmontei um carro assim. Os coxins são grandes que nem melões. Agora... cuidado... devagar... segure bem! Abra as juntas em cima, ali onde estão presas... Atenção... Isso! Muito bem.

     O tanque de óleo, todo besuntado, estava no chão, entre os dois, e ainda havia um pouco de óleo no fundo. Tom meteu a mão num dos vãos e tirou dele alguns pedaços de metal.

     - Ora aqui tem - disse, revirando o metal entre os dedos. - O eixo está solto. Chegue-se para trás e agarre a manivela. Vá andando à volta até eu dizer.

     Casy levantou-se, achou a manivela e ajustou-a.

     - Pronto?

     - Sim... devagar, agora... mais um pouco... um poucochinho, basta!

     Casy ajoelhou-se e tornou a olhar para baixo do carro. Tom fez ressoar a biela de encontro ao eixo.

     - É aqui que está quebrado - disse.

     - O que seria? - perguntou Casy.

       - O diabo é que sabe! Este calhambeque já tem mais de treze anos. Está com sessenta mil milhas, o que quer dizer que correu pelo menos cento e sessenta mil e só Deus sabe quantas vezes eles não desmarcaram já o conta-quilómetros. Aquece muito depressa também. Talvez alguém deixasse o nível do óleo muito baixo. E foi-se...

     Puxou para fora as cavilhas e assestou a chave de parafusos no mancal da biela. Começou a desenroscá-lo e a chave de parafusos escapou da lenda. Um longo corte surgiu nas costas da sua mão esquerda. Tom examinou-o. O sangue brotava abundantemente da ferida; misturava-se com o óleo e pingava no balde.

     - Isso está feio - disse Casy.- É melhor eu continuar, enquanto você liga a mão.

      - Qual o quê! Nunca reparei um automóvel sem me cortar. Agora, que a coisa já aconteceu, é de maneira que não tenho mais preocupações. - Tornou a assestar a chave de parafusos. - Se ao menos tivesse uma chave curva! - disse. E bateu com o punho contra o cabo da chave até que os parafusos deram de si. Tirou-os todos e depositou-os juntamente com as cavilhas no carter. Alargou depois os parafusos e tirou o pistão e colocou-o coma biela no carter. - Graças a Deus! - Saiu debaixo do carro, arrastando-se e levando o carter consigo. Limpou a mão a um pedaço de linhagem e examinou novamente o corte. - Sangra que eu sei cá! - disse.- Mas vai parar num instante. - Urinou no chão, apanhou uma mão cheia de terra embebida de urina e colocou-a à maneira de emplastro sobre a ferida. Por um instante, o sangue correu ainda; depois, parou. - É o que há de melhor para estancar o sangue - explicou Tom.

     - Um pouco de teia de aranha faz o mesmo efeito - disse Casy.

     - Eu sei, mas aqui não há teias de aranha. E mijar é uma coisa que se pode fazer sempre. - Tom sentou-se no estribo e examinou o mancal quebrado. - Se a gente encon-trasse agora um “Dodge” 25 e pudesse comprar uma biela usada e algumas chapinhas, talvez pudéssemos arranjar o carro. O Al deve estar longe como o diabo.

     A sombra do grande cartaz da beira da estrada tinha já um comprimento de sessenta pés. A tarde ia morrendo.

     Casy sentou-se no estribo e olhou em direcção ao Oeste.

     - Estamos quase nas montanhas altas - disse, e ficou em silêncio por alguns momentos. Depois, continuou: - Tom!

     - Que é?

     - Tom, tenho visto os carros que encontrámos aí pela estrada, aqueles que nós ultrapassámos e os que nos ultrapassaram. E tenho estado a pensar...

     - A pensar o quê?

     - Tom, são centenas de famílias como a nossa que vão para o Oeste. É uma coisa em que eu reparei... Compreende? Nenhuma delas para leste; todas para oeste... Não notou ainda?

     - Notei, sim.

     - Bem, isto... isto parece até como quando se foge de soldados inimigos. É como se um povo inteiro fugisse diante de uma invasão.

     - Sim - disse Tom. - É um povo inteiro que foge. Nós também fugimos.

     - Pois é. Agora suponha que toda essa gente não consegue encontrar trabalho por lá?

     - Que vá tudo para o diabo! Como é que eu posso saber? - gritou Tom. - Não faço outra coisa senão pôr um pé adiante do outro. Já fiz o mesmo durante quatro anos em MacAlester entrar e sair da cela; entrar e sair do refeitório. Meu Deus! E eu que pensei que ia ser diferente agora! Que, quando saísse, a coisa mudava! Era incapaz de pensar noutra coisa senão dava em doido. E agora não penso em coisa nenhuma!- Voltou-se para Casy.- Vê? Esse mancal está partido. A gente não sabia que ele se ia quebrar, por isso não tivemos preocupações. Agora, que está quebrado, vamos tratar de o arranjar. E assim com tudo no mundo. Eu é que não quero preocupar-me com coisa nenhuma. Não quero, nem posso. Este pedacinho de ferro aqui, vê-o? Pois este pedacinho de ferro é a única coisa que, neste momento, me preocupa. Só queria saber onde diabo se meteu o Al.

     Casy disse:

     - Ora, ouça, Tom... Mas que inferno! É difícil a gente querer explicar uma coisa e não poder...

     Tom retirou da mão a camada de terra suja, atirando-a para o solo. O sulco da ferida surgiu desenhado a lama. Lançou um olhar ao pregador:

     - O senhor está-se a preparar para fazer um discurso, não é verdade? Eu gosto de ouvir discursos. O nosso carcereiro tinha a mania de fazer discursos a propósito de tudo. Para nós tanto fazia e ele ficava convencido de que era importante como o diabo.

     Casy coçou os dedos de grossas articulações.

     - Alguma coisa vai acontecer e toda a gente anda numa roda viva.. Essa gente, essa que põe um pé adiante do outro, como você diz, não pensa no que está a fazer. Está bem. Mas todos eles atiram os pés na mesma direcção. E, se você prestar atenção, ouve-os mover, sente-os rastejar, sussurrar, cheios de desassossego. Há coisas que acontecem que essa gente toda em movimento não compreende, por agora. Vai acontecer uma coisa, uma coisa que modificará toda a região.

     Tom disse:

     - E, apesar disso, eu continuo a pôr uma pata à frente da outra.

     - Sim, mas quando você encontrar uma cerca pela frente, tem de a saltar.

     - Mas é isso que eu faço quando encontro uma cerca pela frente.

     Casy suspirou:

     - É o melhor que se pode fazer. Tenho de concordar consigo. Mas há cercas diferentes. E gente corno eu que trepa as cercas que ainda nem sequer barram o seu caminho. Não está mais na minha mão.

     - Não é o Al que vem aí? - perguntou Tom.

     - Parece que é ele, sim. Tom levantou-se e enrolou a biela e as duas metades do mancal num pedaço de serapilheira.

     - E necessário que a peça seja bem igual.

     O caminhão parou à margem da estrada e Al debruçou-se pela janela.

     Tom disse:

     - Demoraste-te como o diabo! Até onde foram?

     Al suspirou.

     - Tiraste a biela?

     - Tirei. - Tom ergueu o embrulho de serapilheira. O metal fez-se em pedaços.

     - Bem, mas a culpa não foi minha - disse Al.

     - Não. Para onde levaste o pessoal?

     - Tivemos uma encrenca - disse Al. - A avó começou a berrar e, quando a Rosasharn a ouviu, começou também aos berros. Meteu a cabeça debaixo de um colchão e chorou à farta. A avó então nem se fala: deitou-se no chão e uivou que nem um cão em noite de lua. Tenho cá as minhas impressões de que ela perdeu o juízo. Parece uma criancinha. Não fala com ninguém, nem parece reconhecer a gente. Fala sozinha, como se estivesse falando com o avô.

     - Onde estão? - perguntou Tom novamente.

     - Bem, parámos num acampamento. Havia lá muita sombra e água encanada. Paga-se meio dólar por dia. Mas estavam todos tão cansados e sem coragem, tão desmoralizados que resolveram ficar. A mãe disse que era preciso ficar ali mesmo por causa da avó, que não aguentava mais. Montámos a tenda do Wilson e armámos a nossa lona. Eu acho que a avó endoideceu.

     Tom olhou o Sol que ia declinando.

     Casy disse:

      - Alguém tem de ficar aqui com o carro, senão, podem roubá-lo.

     - O senhor quer ficar?

     - Claro que sim.

     Al trouxe um embrulho de papel do assento do camião.

     - Aqui têm um pouco de carne e de pão - disse.- A mãe mandou isto para vocês. Também trouxe um jarro com água.

     - Ela não se esquece de ninguém - comentou Casy.

     Tom sentou-se no caminhão ao lado de Al.

     - Escute - disse.- A gente volta o mais depressa possível. Mas não posso dizer ao certo o tempo que nos demoraremos.

     - Eu espero.

     - Fixe! E não faça discursos a si mesmo. Vamos, Al! - E o camião começou a rodar na tarde avançada. - É um camarada às direitas - disse Tom.- Está sempre a pensar em coisas esquisitas.

     - Ora! Se tu fosses pregador, fazias a mesma coisa. O pai está danado porque teve de pagar cinquenta cents para poder ficar à sombra de uma árvore. Custou-lhe a engolir. Anda por lá a praguejar. Disse que, daqui a pouco, até nos vendem o ar em bidões. Mas a mãe respondeu-lhe que era preciso agente parar num sítio assim, que tivesse sombra e água, por causa da avó.

     O veículo marchava estrada. fora, e, como ia sem a carga, todo ele era ruídos de matraca e de peças entrechocadas. Todo o madeiramento da carrosserie cortada ao meio rangia como desconjuntado. No entanto, rodava ligeiro e rápido. Ia a sessenta à hora. O motor fazia uma algazarra de ensurdecer; um fumo azul, próprio do óleo queimado, ia-se filtrando através das tábuas do chão do veículo.

     - Mais devagar - disse Tom. - Senão, dás cabo até dos cubos da roda. Afinal que tem a avó?

     - Não sei. Nos últimos dias, ela até parecia que não existia; não falava com ninguém, lembras-te? É por isso que ela agora resolveu falar e gritar, para descontar o tempo perdido. Mas, quando fala, não é com ninguém. Quer dizer: parece que está a falar com o avô. Grita, chamando por ele. Também parece que anda com medo. A gente até parece que vê o avô ali sentado, fazendo caretas como fazia, refilando e procurando ajeitar a roupa. Ela parece que também o vê ali sentado. E então põe-se a descompô-lo. Ah, espera lá; o pai mandou-me entregar-te vinte dólares; disse que não sabe de quanto vais precisar. já viste a mãe discutir com ele como hoje?

     - Que eu me lembre, não. Mas sempre te digo que apanhei uma rica altura para a minha liberdade condicional! E eu que, imaginava que ia passar uma rica vida, levantando-me tarde e enchendo a barriga quando chegasse! E que iria dançar e dormir com boas pequenas! E, afinal, que é do tempo para tudo isso?

     - Já me esquecia- tornou Al. - A mãe mandou-te uma porção de recomendações. Disse para tu não beberes, nem armares discussões nem te pores para aí à pancada. Tem medo que tu voltes para a prisão.

     - Ela tem bastante em que pensar. Não serei eu quem lhe vá causar mais encrencas - prometeu Tom.

     - Bem, mas a gente pode tomar uns copos de cerveja, não pode? Estou morto por isso.

     - Não sei - disse Tom.- O pai vai ficar que nem uma bicha se a gente gastar dinheiro em cerveja.

     - Escuta, Tom, eu tenho seis dólares. A gente podia beber alguma coisa com esse dinheiro e encher-se de pândega. Ninguém sabe que eu tenho esta massa. Caramba, isso é que era pagode, hein?

     - Guarda o teu dinheiro - aconselhou Tom. - Quando chegarmos à costa, então é que nos poderemos divertir à bruta. Talvez quando arranjarmos trabalho... - Voltou-se no assento. - Não sabia que tu perdias tão facilmente a cabeça. julguei que tinhas mais mão em ti...

     - Que é que tu queres? Pois se eu não conheço aqui ninguém... Se isto dura muito tempo, ainda acabo por me casar. Ma---- prefiro divertir-me à farta lá na Califórnia.

     - Oxalá que assim seja - disse Tom.

     - Parece que já não tens a certeza de nada...

     - Confesso que não.

     - Quando mataste aquele tipo, tu... sim... sonhaste com ele mais tarde, ou qualquer coisa assim, hein? Andavas muito preocupado?

     - Não.

     - Não é possível! Lembravas-te daquilo...

     - Lembrava-me às vezes. Sentia-me aborrecido por o saber morto.

     - E... não estavas arrependido? Não estás arrependido ainda?

     - Não. Cumpri a minha pena. Acho que bastou.

     - Era muito ruim aquilo por lá?

     Tom disse nervoso:

     - Vou dizer-te uma coisa, Al. já cumpri a minha pena e agora acabou-se. Não quero estar sempre a falar nesse assunto. Aí está o rio. É só atravessar e estamos na cidade. Vamos procurar uma boa biela e o resto, que o leve o diabo!

     - A mãe gosta de ti a valer! - disse Al.- Quando tu estavas preso, ela vivia numa tristeza constante. Mas não dizia nada a ninguém; era como se chorasse para dentro. Mas todos nós sabíamos o que a consumia.

     Tom puxou o boné para os olhos.

     - Escuta, Al. E se mudássemos de conversa agora?

     - Só estava a contar-te o que a mãe fazia.

     - Eu sei, eu sei... Mas não quero falar nisso agora. Prefiro... prefiro... pôr um pé à frente do outro e seguir.

     Al recolheu-se a um silêncio ofendido.

     - Só queria contar-te... - repetiu daí a um minuto.

     Tom olhou-o e Al fixou os olhos em frente. O caminhão, aligeirado, ribombava com monotonia. Os lábios compridos de Tom arregaçaram-se sobre os dentes, e ele riu com brandura.

     - Eu sei, Al - disse. - Talvez eu ainda esteja debaixo do reflexo da prisão. Um dia falo-te sobre isso. É natural que tu estejas interessado. Mas eu... é engraçado... eu acho que é melhor tratar de esquecer isso por algum tempo, sabes? Mais tarde, talvez seja diferente. Mas, agora, quando penso nisso, tudo me gira na cabeça. Quero dizer-te uma coisa, Al... a prisão é uma coisa que foi feita para nos fazer endoidecer a pouco e pouco. Compreendes? E uma pessoa fica mesmo maluca. As vezes, quando de noite, os que enlouquecem começam a gritar, a gente pensa que é a gente mesmo que grita. E, outras vezes, é assim mesmo.

     Al interrompeu-o:

     - Oh, não falemos mais nisso, Tom.

     - Trinta dias ainda se passam menos mal. Cento e oitenta dias ainda vá lá. Mais do que um ano... não sei, não. E pior do que qualquer outra coisa no mundo. E uma coisa de enlouquecer, verdadeiramente de enlouquecer, essa de fechar alguém numa cadeia. Ora! Quero que tudo vá para o diabo! Não quero falar mais nisso! Olha, ali adiante, o sol a bater nas janelas das casas!

     O camião chegava à área dos postos de gasolina. À direita da rua havia um “cemitério de automóveis”, talvez meio hectare cercado de arame farpado, um barracão coberto de zinco ondulado em frente do qual se amontoavam pneus usados ao pé das portas, com etiquetas ostentando os respectivos preços. Atrás, erguia-se uma barraca pequena, armada com madeiras velhas e chapas de folha de Flandres. As janelas compunham-se todas de pára-brisas emoldurados nas paredes. No terreno, salpicado de erva, havia velhos carros de todos os tipos e com todos os defeitos, de radiadores tortos e arrombados, carros avariados, deitados de lado e sem rodas. Motores enferrujados jaziam encostados ao barracão. Um grande montão de ferro velho, pára-choques, partes laterais de caminhões, rodas e eixos; e, sobre tudo isto, flutuava o espírito da decadência, do bolor e da ferrugem. Ferros retorcidos, motores semiconsumidos: um monte de destroços.

     Al parou o caminhão no terreno oleoso, em frente do cemitério. Tom saltou e lançou o olhar à entrada escura do barracão.

     - Não vejo ninguém - disse. E gritou: - Eh! Não há ninguém aí?!... Deus queira que eles tenham “Dodges 925”.

     Do fundo do barracão, ouviu-se o bater de uma porta. O espectro de um homem surgiu na penumbra, magro, sujo, de pele oleosa, esticada sobre músculos encordoados. Só tinha um olho, em cuja órbita avermelhada e descoberta, palpitavam os músculos quando ele mexia o olho perfeito. As calças e a camisa estavam endurecidas e brilhantes do óleo acumulado durante muito tempo, cheias de rugas, de gretas e de cortes. O lábio inferior, grosso, pendia num jeito de mau humor.

     Tom perguntou:

     - Você é o dono disto?

     O olho único teve um brilho rápido.

     - Não; trabalho aqui - disse o homem com hostilidade. - Que é que o senhor quer?

     - Tem aí algum velho “Dodge 925”. Preciso de uma biela.

     - Não sei se há. Se o patrão estivesse aqui, já lhe dizia, mas ele não está. Foi para casa.

     - A gente pode passar uma vista de olhos?

     O homem assoou-se à palma da mão, limpando-a depois às calças.

     - O senhor é aqui dos arredores?

     - Não. Somos do Leste... e vamos para o Oeste.

   - Pois vejam à vontade. Até podem deitar fogo a essa droga toda. Estou-me nas tintas para tudo isto...

     - Você parece que não gosta muito do seu patrão.

     O homem aproximou-se, arrastando os pés, com o olho único a lançar chispas.

     - Tenho-lhe ódio - disse baixinho.- Tenho ódio àquele filho da mãe. Foi para casa. Para casa dele.- As suas palavras caíam borbulhantes. - Ele tem uma maneira de chatear a gente, esse... esse filho da mãe! Tem linda filha de dezanove anos, uma garota boa a valer! E diz-me assim:- Tu gostarias de casar com ela, hein? Diz-me isto, a mim! E, à noite, volta a dizer-me:- Olha, hoje à noite, há um baile... Não queres ir, hein? Diz-me isto, aquele bandido! As lágrimas brotaram-lhe com violência e pingavam-lhe dos cantos da órbita avermelhada. Um dia, por Deus, ele vai ver! Um dia que eu tenha uma chave de tubos no bolso... Quando diz estas coisas, está sempre a olhar para o meu olho. E eu, um dia, arranco-lhe a cabeça, arranco-lha com esta chave, pedaço a pedaço. - Ofegou de raiva. - Arranco-lha aos bocadinhos.

     O Sol surgira-se por detrás das montanhas. Al passeava entre o ferro velho do pátio e olhava os carros usados.

     - Olha ali, Tom! Aquele parece um “Dodge”, mas não sei se é 925 ou 926.

     Tom virou-se para o zarolho:

     - Posso ver este carro, hein, amigo?

     - Pode ver à vontade. Até pode levar essa merda toda.

     Caminharam entre as carcaças de automóveis até chegarem a uma condulte enferrujada, que se mantinha de pé sobre os pneus esvaziados.

     - É de 25 mesmo - gritou Al. - Olha, para aqui! Podemos tirar-lhe o carter, amigo?

     Tom ajoelhou-se e depois olhou por debaixo do carro.

     - E já foi desmontado; levaram-lhe uma biela. Pelo menos parece. - Meteu-se debaixo do carro. - Traz uma manivela e põe-na a funcionar, Al. - Mexeu na biela de encontro ao fuso. - Está cheia de óleo velho - disse.

     Al girou a manivela devagarinho.

     - Cuidado - avisou Tom.

     Apanhou uma lasca de madeira do chão e foi raspando o óleo que encobria a peça, bem como os parafusos.

     - Que tal está? - perguntou Al.

     - Um pouco lassa mas acho que serve.

     - Lassa?

     - Sim. Mas pode-se apertar. Tem ainda uma porção de chapinhas. Serve bem. Vira com cuidado. Para baixo, ai, Cuidado! Traz-me as ferramentas que estão no carro.

     O zarolho informou:

     - Eu tenho ferramentas aqui. Sumiu-se por entre, os ferros comidos de ferrugem e não tardou a reaparecer, trazendo uma caixa de metal cheia de ferramentas. Tom tirou dela uma chave de parafusos e entregou-a a Al.

     - Desmonta-a, vá. Mas cuidado... não percas nenhuma das chapinhas. E presta atenção ao lugar onde pões os parafusos e os pinos. Aviso-te de que está a escurecer.

     Al enfiou-se debaixo do carro.

     - A gente devia arranjar um jogo de chaves de parafusos. A chave inglesa não serve para nada - disse.

     - Se quiseres que te ajude, chama-me, ouviste? - avisou Tom.

     O zarolho estacionava, inútil, no mesmo local.

     - Se vocês quiserem, posso ajudá-los - disse. - Sabe o que fez aquele filho da mãe? Passou por aqui de calças brancas. E disse assim: - Vem, vamos até ao meu iate. Ai! Um dia rebento com ele! - Respirou com dificuldade. - Eu ainda não saí com uma mulher desde que perdi este olho. E ele diz-me coisas assim!

     E grossas lágrimas abriram sulcos na sujidade que lhe cobria as faces.

     Tom disse com impaciência:

     - Porque é que você se não põe a mexer daqui para fora? Ou há guardas que o prendam aqui?

     - Sim, isso é fácil de dizer. Mas quem é que quer dar trabalho a um homem que tem só um olho?

     - Oiça, companheiro - disse Tom, virando-se para ele. Você tem esse olho bem aberto. Anda porco e cheira mal. É isso mesmo que você quer. Você gosta de andar assim. Se não gostasse, não andava assim. Claro que não arranja uma mulher com esse buraco à mostra. Tape-o com qualquer coisa e lave a cara. Não precisa de rebentar a cabeça a ninguém.

     - É o que você pensa. E porque não sabe o que é ter um olho só - disse o homem. - A gente não vê as coisas como os outros. Não sabe a que distância estão as coisas. Fica tudo corno se fosse chato.

     - Você está a dizer asneiras - disse Tom.- Eu conheci uma mulher da vida que tinha uma perna só. Pensa que ela se incomodava com isso? Qual o quê! Até ganhava meio dólar a mais. Ela dizia assim: “Tu já dormiste com uma mulher que tivesse só uma perna? Ai, não? Fixe! Pois então, já que tens aqui uma especialidade, tens de pagar mais, vai-te custar mais meio dólar.” E toda a gente tinha de gemer com mais cinquenta cents. E ninguém achava mal; pelo contrário. Ficavam muito satisfeitos... Ela costumava dizer que dava sorte... E também conheci um corcunda num sítio onde estive. Ele ganhava a vida, deixando que os outros lhe passassem a mão pela marreca. Pois então! E você, lá porque tem só um olho, já acha que está tudo perdido!

     O homem disse, perturbado:

     - Sim, tem razão, mas se você visse como toda esta gente se afasta de mim, também pensava como eu.

     - Pois tape esse buraco, caramba! Você faz gala em mostrar isso, como uma vaca mostra o rabo. Você gosta de sentir pena de si mesillo, é o que é, fique sabendo. Isso não vale nada. Compre também umas calças brancas. Aposto que você anda por aí a beber, feito desgraçado e depois põe-se a chorar na cairia à noite. ó Al, tu queres que te ajude?

     - Não - respondeu Al. - O mancal já está solto. Estou a desatarraxar o pistão.

     - Cuidado, não te magoes!

     O zarolho disse mansamente:

     - Você então acha... que alguém se poderá interessar por mim?

     - Decerto - respondeu Tom.

     - Para onde vão vocês?

     - Para a Califórnia. Vai a família toda. Procurar trabalho.

     - Você acha que um tipo corno eu poderá encontrar trabalho também, você acha, hein? Com um pano preto no olho?

     - E porque não? Você não é nenhum aleijado.

     - Poderei ir com vocês, hein?

     - Ah, isso agora é que não. já estamos tão sobrecarregados que mal nos podemos mexer. Você arranja outra maneira de sair daqui. Arme uma carcaça dessas e vá sozinho.

     - E é que sou muito capaz de o fazer, caramba! - disse o zarolho.

     Ouviu-se um forte som metálico.

     - Pronto - anunciou Al - Já cá canta.

     - Bom, deixa ver - disse Tom.

     Al entregou-lhe o pistão, a biela e a parte inferior do mancal.

     Tom limpou a superfície metálica e olhou-a de lado.

     - Parece que vai servir. Se a gente tivesse luz, podia montá-la esta noite.

     - Olha, Tom. Eu pensei uma coisa. A gente não tem ganchos de anel. Vai ser um trabalho danado encaixar os anéis, principalmente os da parte de baixo.

     Tom lembrou:

     - Um tipo disse-me em tempos que se pode enrolar um fio de latão fininho em volta do anel para segurar a coisa.

     - Sim, mas depois como é que se vai tirar o fio de latão outra vez?

     - Não é preciso tirar. Ele derrete-se e não estraga nada.

     - Então fio de cobre ainda é melhor.

     - Pois sim, mas não é tão resistente - disse Tom. E virou-se para o zarolho: - Vocês não têm por aí um bocadinho de fio de latão, hein?

     - Não sei. Vou ver. Acho que há um rolo para aí. Escute: onde é que você acha que se pode arranjar um pano preto desses para pôr no olho?

     - Não sei - disse Tom. - Veja lá se acha o tal rolo de fio de latão...

     Revolveram o barracão, virando alguns caixotes, até que encontraram o fio. Tom enfiou a biela num tornilho e enrolou cuidadosamente o fio em torno dos anéis do pistão, forçando-o a ficar bem apertado, e, onde o fio estava torcido, batia-o com um martelo para o achatar. Depois, virou o pistão, e, à medida que o ia virando, ia também batendo com o martelo para o achatar em toda a volta, até conseguir libertar a parede do pistão. Passou-lhe o dedo em volta, para verificar se o anel e o fio achatado estavam ao mesmo nível. Já fazia escuro no barracão. O zarolho trouxe uma lanterna eléctrica e iluminou o local do trabalho.

     - Pronto - disse Tom. - Olhe lá, quanto é que você quer por esta lanterna?

     - Ora, isso não vale quase nada. Tem uma bateria de quinze cents. Posso vendê-la por uns trinta e cinco cents.

     - Fixe! E quanto é essa biela e o pistão?

     O zarolho esfregou a testa com o nó de um dedo, tirando uma placa de sujidade.

     - Eu nem sei quanto isso custa - disse. - Se o patrão estivesse aqui, podia ver no catálogo das peças quanto custa uma peça nova, e, enquanto você trabalhava, já tinha calculado o preço do custo para nós, e quem você era e quanto poderia pagar, e então diria, por exemplo, que o preço que estava no catálogo era de oito dólares, e que você podia levar isso por cinco. E, se você refilasse, ele deixava a coisa por três. Você pensa que tudo depende de mim, mas - Santo Deus! - aquilo é um filho da mãe! Adivinhava logo que você estava atrapalhado com a falta dessa peça e então tratava de o explorar. já o vi levar mais por uma engrenagem do que ele pagou pelo carro inteiro.

     - Bom, mas quanto é que você quer, afinal?

     - Aí um dólar deve estar bem.

     - Bem, então vou dar-lhe mais um quarto de dólar por este par de chaves de parafusos. Tornam o trabalho duas vezes mais fácil. - Entregou o dinheiro. - Muito obrigado. E trate de tapar esse olho desgraçado, ouviu?

     Tom e Al entraram no caminhão. Já estava completamente escuro. Al ligou o motor e acendeu os faróis.

     - Até logo - disse Tom. - Talvez a gente se encontre na Califórnia. - Voltaram para a estrada e retomaram o seu caminho.

     O zarolho seguiu-os com o olhar até que se sumiram e depois encaminhou-se através do barracão de ferro, para a barraca das traseiras. Dirigiu-se, tacteando, para o colchão estendido no solo e atirou-se-lhe para cima, a soluçar. Os sons dos carros que passavam, zunindo, ainda mais reforçavam as muralhas da sua solidão.

    

     - Se tu me dissesses, Al, que a gente arranjava esta peça e a montava ainda esta noite, eu dizia-te que estavas maluco.

     - Pois, Tom, vamos poder montá-la. Mas tu é que vais fazer isso. Eu tenho medo de a apertar demais e que se gaste, ou de a deixar tão larga, que salte do seu lugar.

     - Bem, eu vou fazer isso - disse Tom. - Se se escangalhar, que se escangalhe. Não temos nada a perder.

     Al pôs-se a olhar na escuridão. Os faróis não projectavam luz muito forte, mas, adiante, reflectiram-se nos olhos verdes de um gato, pronto a caçar.

     - Tu fizeste afinar o tipo, hein, Tom? - disse Al - Deste-lhe para baixo...

     - Era o que ele estava a pedir. Ali a encher-se de pena dele mesmo e a atirar as culpas todas para cima do tal defeito! É um preguiçoso e um porcalhão, aquele filho da mãe! Mas, quem sabe? Podia endireitar-se se tivesse alguém que lhe desse conselhos.

     - Tom, eu não tive culpa que se queimasse o mancal, pois não?

     Tom ficou calado por um instante. E depois:

     - Olha, Al, já estou a chatear-me contigo. Porque é que tu tens medo que alguém te ponha as culpas? Eu sei o que é; és um garoto com a mania das grandezas; pensas que vales muito. Mas, escuta. Para que é que tu te defendes sempre, se ninguém te ataca?

     Al não respondeu. Olhava em frente. O caminhão ribombava estrada fora. Um gato atravessou-a correndo e Al procurou atropelá-lo, mas as rodas nem o afloraram e o gato sumiu-se na erva.

     - Ia-o apanhando! - disse Al - Escuta, Tom. Tu ouviste o Connie dizer que queria estudar de noite? Eu pensei também em fazer isso. Podia estudar rádio ou televisão ou motores Diesel. Era um ponto de partida...

     - Talvez - disse Tom. - Mas, primeiro, tens de saber quanto levam para ensinar isso. E depois, saber ao certo se tens vontade de estudar as lições. Havia tipos em MacAlester que estudavam nesses cursos por correspondência, sabes? Mas, até hoje, não vi ninguém que os acabasse. As pessoas cansam-se e desistem.

     - Santo Deus! A gente esqueceu-se de comer qualquer coisa!

     - Para quê? A mãe mandou bastante comida. O reverendo não vai comer tudo aquilo sozinho. Com certeza que deixou alguma coisa para nós. Só queria saber quanto falta ainda para a gente chegar à Califórnia.

     - Sei lá, meu Deus! Sei que é preciso avançar. Recaíram no silêncio e a escuridão aprofundou-se mais. As estrelas cintilavam, finas e brancas.

    

     Casy saiu do assento traseiro do “Dodge” e avançou até à berma da estrada quando avistou o camião.

     - Não esperava que vocês voltassem tão depressa - disse. Tom reuniu as peças todas no pano de serapilheira que estava no chão.

     - Tivemos sorte, muita sorte. Até uma lanterna eléctrica arranjámos. Vamos começar já o trabalho.

     - Vocês esqueceram-se de jantar - disse Casy.

     - Vou jantar depois, quando terminar isto. O Al, convém encostares o caminhão bem à valeta da estrada e ajudares-me um pouco, segurando a lanterna.

     Foi direito ao “Dodge” e meteu-se debaixo dele. Al deitou-se de barriga para baixo e assestou a luz da lanterna sob o motor.

     - Está a bater-me nos olhos. Levanta-a um pouco mais.

     Tom enfiou o pistão no cilindro, fazendo-o girar e empurrando-o devagar. O revestimento de fio de latão roçava ao de leve as paredes do cilindro. Com um impulso brusco, fê-lo atravessar os segmentos.

     - Que sorte não estar muito apertado, senão, a compressão ia prejudicar isto. Acho que vai trabalhar como deve ser.

     - Espero que o fio não vá embaraçar os anéis - disse Al.

     - Pois foi por isso que eu o bati com o martelo. Vai ficar bem fixe, ou vai derreter-se ou espalhar-se, como se fosse um revestimento de chapa.

     - E se arranhar as paredes?

     Tom riu.

     - Santo Deus! Não tem importância; essas paredes aguentam um arranhãozinho. já está a beber óleo como a toca de um arganaz. Um pouco mais não tem importância. - Colocou a articulação da biela debaixo do eixo e experimentou a metade inferior. - Vamos precisar de mais algumas chapinhas. E chamou: - ó Casy!

     - Hein?

     - Vou montar o mancal. Sente-se ao volante e vá rodando com ele devagarinho até eu dizer pare. - Apertou os parafusos. - Agora! Devagar! - E, quando o eixo girou, sacudiu o mancal para lhe experimentar a firmeza. - Tem chapinhas a mais - disse Tom. - Pare, Casy - Retirou os pinos e removeu as chapinhas de cada lado e tornou a colocar os pinos. - Experimente outra vez, Casy - disse.- E tornou a ocupar-se da biela. - Está um pouco frouxo ainda. Se eu tirar mais chapinhas, vai talvez ficar bem assente. Vou experimentar. - Retirou novamente os pinos e outro par de chapinhas. - Rode agora, Casy!

     - Parece que vai! - exclamou Al.

     Tom perguntou:

     - Gira com dificuldade, Casy?

     - Não, acho que está bem.

     - Bom, então creio que está feito o serviço. Deus queira que esteja bom. Porque, se fosse preciso limar alguma coisa, nem ferramenta para isso tínhamos. Essas chaves de parafusos facilitaram o trabalho que foi uma beleza.

     Al disse:

     - O dono daquele ferro velho vai ficar danado da vida quando procurar as chaves de parafusos e não as encontrar.

     - Isso é lá com ele - disse Tom. - Nós não roubámos nada. - Enfiou as cavilhas, bateu-as e virou-lhes as pontas. - Agora sim, acho que está bem. Ouça, Casy. Segure a lanterna agora; o Al e eu vamos levantar o carter.

     Casy ajoelhou-se e pegou na lanterna. Dirigiu o foco de luz sobre as mãos, que, cuidadosamente ajustavam o empanque no seu lugar e faziam coincidir os buracos com as cavilhas do carter. Os dois homens retesavam os músculos ao peso do carter, assentaram as cavilhas dos dois lados; depois, apertaram as outras, e, quando estavam todas no seu lugar, Tom começou a apertá-las a pouco e pouco, até que o carter ficou bem a prumo, depois do que apertou a fundo.

     - Bom, acho que isto está pronto - disse Tom. Colocou o parafuso de fecho, examinou cuidadosamente o carter; depois, pegou na lanterna e pôs-se a olhar para o chão. - Está tudo pronto. Agora vamos encher o depósito novamente.

     Saíram de debaixo do carro e deitaram o conteúdo do balde de óleo no carter... Tom tornou a iluminar a gacheta, para verificar se vertia óleo ou não.

     - Pronto, Al, podemos ir - disse.

     Al entrou no carro e accionou o motor, que emitiu um ronco forte. Um jacto de fumaça azul escapuliu-se do tubo de escape.

     - Pára e deixa o motor a trabalhar! - berrou Tom.- Deixa queimar óleo, até que o fio se derreta. já está mais fino. - Pôs-se a ouvir atentamente o motor. - Está bom, Al - disse. - Pára o motor. Acho que está perfeito. E, agora, onde está essa trincadeira?

     - Tu és um mecânico dos bons, hein? - elogiou Al.

     - Então! Não foi à toa que trabalhei mais de um ano numa garagem. Agora, as primeiras duzentas milhas, a gente tem de andar devagar - o tempo suficiente para fazer a rodagem.

     Limparam as mãos sujas de óleo a punhados de relva e esfregaram-nas por fim nas calças. Caíram esfomeados sobre a carne de porco assada e sorveram a água da garrafa em longos tragos.

     - Estava quase a morrer de fome - disse Al - Que é que vamos fazer agora? Vamos ao acampamento?

     - Não sei - disse Tom. - São capazes de querer meio dólar por nós também. Mas é bom a gente ir até lá e avisar a família. Se for preciso pagar, a gente desanda. Mas o pessoal tem de saber que a gente já arranjou o carro. Meu Deus, estou satisfeito por a mãe nos ter prendido aqui! Olha, Al, acende a lanterna e vê se a gente não deixou nada. Traz essas chaves de parafusos; a gente pode precisar delas outra vez.

     Al examinou o chão com a lanterna.

     - Não vejo nada - disse.

     - Muito bem. Eu é que vou guiar agora. Tu trazes o caminhão, Al.

     Tom accionou o motor. O pregador entrou no carro também. Tom meteu em primeira vagarosamente, para poupar o motor, e Al seguiu-o com o veículo. Atravessou o barranco também vagarosamente. Tom disse:

     - Um “Dodge” destes pode arrastar até uma casa em “primeira”. E está em ponto morto. É bem bom; para nós, assim, não haverá perigo de se partir o mancal outra vez.

     O carro rodava devagar estrada fora. Os faróis de doze volts lançavam uma fraca luz amarelada sobre o cimento.

     Casy virou-se para Tom:

     - E engraçado como vocês foram capazes de consertar o carro. Foi só mexer nele um pouco e pronto. Eu nunca seria capaz de fazer uma coisa dessas. Nem mesmo agora, que vi fazer esse trabalho.

     - É preciso aprender em criança - disse Tom. - É só aprender. Não é nenhum bicho de sete cabeças. Hoje em dia, até uma criança pode desmontar um carro com toda a facilidade.

     Um coelho foi apanhado pela luz dos faróis e fugiu na frente do carro. De vez em quando, procurava esgueirar-se, com grandes saltos que lhe faziam tremer as orelhas, para um lado da estrada, mas a muralha de escuridão atirou-o de novo para o meio. Ao longe, surgiram faróis deslumbrantes, incidindo sobre ele.

     O coelho hesitou, voltou-se e correu como um raio de encontro à luz mais fraca do “Dodge”. Houve um levíssimo choque quando o animal se meteu debaixo das rodas. O carro que se aproximava ultrapassou-os a toda a velocidade.

     - Acho que atropelámos o bicho - disse Casy.

     - Acho que sim - confirmou Tom. - Há motoristas que até gostam de atropelar animais. Eu, sempre que isso acontece, fico com uma tremura cá por dentro. O carro parece que está uma beleza. Os segmentos devem estar à vontade agora. já não deita tanto fumo!

     - Foi um bonito serviço, o seu - disse Casy.

    

     Uma casinha de madeira dominava o acampamento e, na varanda da casa, ardia, ciciante, um candeeiro de gasolina, que projectava um largo círculo de luz branca. Havia meia dúzia de tendas armadas em redor da casinha, e os carros estacionavam perto das tendas. já terminara o preparo da refeição da noite, mas as brasas das fogueiras do acampamento luziam ainda, no chão, junto dos lugares onde as pessoas haviam acampado. Um grupo de homens estava reunido na varanda em volta da lâmpada de gasolina, e as suas faces recortavam-se firmes e musculosas na claridade crua da luz. Os chapéus projectavam sombras negras sobre as frontes e os olhos e os queixos adquiriam um relevo exagerado. Alguns homens estavam sentados nos degraus; outros, no chão, recostavam os cotovelos no piso da varanda.

     O proprietário, um sujeito de rosto magro e rabugento, ocupava uma cadeira na varanda, encostando-se à parede e tamborilando com os dedos no joelhos. Dentro de casa, ardia uma lâmpada de querosene, cuja luz frouxa era neutralizada pelo intenso clarão branco e silvante do candeeiro de gasolina. O, grupo rodeava a cadeira do proprietário.

     Tom dirigiu o “Dodge” para a beira da estrada e parou. Al passou o portão com o seu veículo.

     - Não é preciso levá-lo lá para dentro - disse Tom. Saltou, foi andando, passou o portão e foi em direcção à claridade da lanterna.

     O proprietário deixou os pés dianteiros da cadeira pousarem no chão e inclinou-se para a frente.

     - Querem acampar aqui? - perguntou.

     - Não - disse Tom. - Temos aqui a família. Olá, pai!

     O pai, que estava sentado no primeiro degrau da escada, disse:

     - Pensei que vocês iam ficar fora pelo menos uma semana. Está tudo pronto?

     - A gente teve uma sorte danada - disse Tom. - Arranjámos a peça antes de anoitecer. Podemos continuar a viagem amanhã de manhã.

     - Ainda bem - disse o pai.- A mãe anda preocupada. A avó está fora dos eixos.

     - Sim, o Al já me contou. Não está melhor?

     - Não! Mas, pelo menos, consegue dormir.

     O proprietário interveio:

     - Se vocês quiserem pernoitar aqui, vão ter de gastar um pouco. Mas aqui há muito lugar e água e lenha para fazer fogo. E ninguém os incomodará.

     - Qual o quê? - disse Tom. - Nós vamos dormir mas é lá fora no barranco. Ali não se gasta nem um chavo.

     O proprietário tamborilou com os dedos nos joelhos.

     - O sheriff costuma passar por aqui todas as noites. Pode embirrar com vocês. Há uma lei que proíbe que se durma na estrada. O nosso Estado tem uma lei contra a vagabundagem.

     - Quer dizer que, se eu pagar meio dólar para dormir aqui, não sou um vagabundo, hein?

     - É isso mesmo.

     Os olhos de Tom brilharam de cólera:

     - E se sheriff não será algum cunhado seu?

     O proprietário debruçou-se ainda, mais para a frente.

     - Não, não é. E ainda não chegámos ao ponto - nós, os que somos daqui - de ouvir- desaforos de mendigos da sua espécie, ouviu?

     - Quando se trata de nos esfolar o dinheiro, já não somos mendigos, hein? E, se fôssemos mendigos, que tinha você com isso, desde que lhe não pedíssemos nada? Com que então todos nós somos mendigos, hein? Pois olhe que lhe não estamos a pedir dinheiro para, termos o direito de dormir no chão.

     Os homens esperavam, rígidos e em frio silêncio. Toda a expressão desaparecera das suas faces; e os olhos, sob a sombra projectada pelos chapéus, moviam-se subtilmente em direcção ao proprietário do acampamento.

     O pai resmungou:

     - Acabou-se, Tom!

     - Está bem, acabou-se.

     O círculo de homens que estavam nos degraus ou encostados à varanda, manteve-se em silêncio. Os seus olhos reluziam sob a luminosidade crua do candeeiro de gasolina. Os traços dos seus rostos endureciam sob a luz intensa. Continuavam imóveis. Somente os seus olhares passavam de interlocutor a interlocutor, sem que as faces perdessem a rigidez inexpressiva. Uma borboleta nocturna bateu de encontro ao candeeiro; queimou-se e caiu na escuridão.

     Numa das tendas, uma criança vagia e uma voz branda de mulher procurava aquietá-la. Cantou depois, baixinho: “O Menino Jesus é teu amiguinho durante a noite. Dorme, dorme bem. Jesus vela por ti durante a noite. Dorme, ó dorme!”

     O candeeiro da varanda ciciava. O proprietário coçava o triângulo da abertura da camisa, por onde lhe aparecia o peito coberto de pêlos brancos, todos emaranhados. Mostrava-se atento e receoso. Olhava os homens que o cercavam. Olhava, à espera de alguma manifestação, mas os homens mantinham-se absolutamente imóveis.

     Tom ficou em silêncio por longo tempo. Os seus olhos escuros dirigiram-se lentamente para o dono do acampamento.

     - Não quero fazer barulho - disse. - Mas é duro chamarem-nos mendigos. Fique sabendo que eu não sou nenhum medroso. Se quisesse, saltava em cima de si e do seu sheriff com estes punhos que Deus me deu - disse baixinho.- Mas não vale a pena.

     Os homens começaram a movimentar-se, mudaram de posição e de lugar, e os seus olhos brilhantes fitaram os lábios do dono do acampamento, aguardando que eles se movessem. O homem tranquilizou-se. Sentiu que tinha ganho a partida, mas não com tanta segurança que lhe permitisse. tentar novo ataque.

     - Você não tem meio dólar? perguntou.

     Naturalmente que tenho, sim. Mas vou precisar dele. Não posso desperdiçá-lo só por causa de uma dormida.

     - Toda a gente tem de ganhar a vida.

     - Está certo - disse Tom. - Mas sem tirar para isso a camisa aos outros.

     Os homens tornaram a agitar-se. E o pai atalhou:

     - Nós partimos amanhã de manhã cedo. Mas olhe, senhor, nós pagámos. E este rapaz faz parte da nossa família. Ele não pode ficar? A gente já pagou.

     - É meio dólar cada carro - respondeu o proprietário.

     - Mas ele não trouxe carro. Deixou-o lá fora, na estrada.

     - Mas veio de carro - teimou o proprietário. Se eu fosse a consentir semelhante coisa, toda a gente deixava o carro lá fora e não me pagava nada para dormir aqui.

     Tom interveio:

   - Eu vou levar o carro um pouco mais para lá, e, de manhã, venho buscar o senhor e os outros. O Al pode ficar, o tio John pode vir connosco... - Virou-se para o proprietário. - Convém-lhe assim?

     O dono deu um balanço rápido à situação e resolveu condescender:

     - Desde que fiquem tantos quantos vieram e pagaram, não tenho nada com isso.

     Tom tirou a onça de tabaco, uma onça esfarrapada e desbotada, que tinha no fundo apenas um pouco de moinha. Fez um cigarro fininho e atirou fora o pacote vazio.

     - Nós vamos indo - disse.

     O pai virou-se para o círculo dos homens:

     - E um bocado custoso fazer o que nós fizemos. Nós tínhamos a nossa fazendinha própria. Não andávamos por aí sem eira nem beira. Esses diabos desses tractores acabaram com tudo.

     Um alto e magro, de sobrancelhas amarelecidas pela acção do sol, ergueu vagarosa-mente a cabeça.

     - Caseiros? - perguntou.

     - Colhíamos a meias. Antigamente, a terra era só nossa.

     O jovem tornou a olhar em frente.

     - Como nós - disse.

     - Felizmente já não vai durar muito - disse o pai. - A gente vai para o Oeste, para arranjar trabalho e amanharmos um pedacinho de terra outra vez, com água e tudo.

     A um canto da varanda, estacionava um homem esfarrapado. Do casaco preto, pendiam-lhe tiras de pano rasgado... e os joelhos das calças estavam completamente gastos. Tinha o rosto negro de imundície, e sulcado por onde o suor escorrera. Virou a cabeça na direcção do pai.

     - Então vocês devem ter economizado um bocado.

     - Não, a gente não conseguiu economizar dinheiro nenhum - disse o pai. - Mas a nossa família é grande e todos podem trabalhar. E lá, no Oeste, eles pagam bons salários. A gente economiza e então compra um pedaço de terra outra vez.

     O homem esfarrapado encarou o pai e depois riu, num riso que acabou por se transformar num relincho prolongado. O círculo de rostos virou-se para o homem que ria. O relincho degenerou num acesso de tosse. Os olhos do homem estavam vermelhos e lacrimejavam quando, por fim, conseguiu dominar-se.

     - Vocês vão... vocês vão para o Oeste? O Deus do céu! - Começou a rir novamente.- Vão para o Oeste... bons salários, hein?... Deus do céu! - Parou e acrescentou em tom irónico: - Colher laranjas, não é? E pêssegos, não é?

     O pai disse, cheio de dignidade:

     - A gente faz o serviço que houver. E lá há serviço à farta...

     O homem esfarrapado relinchou com mais discrição. Tom irritou-se:

     - Que é que você acha de engraçado nisto?

     O homem esfarrapado calou a boca e olhou carrancudo para as tábuas do chão da varanda:

     - Aposto que vocês vão todos para a Califórnia - disse, por fim.

     - Olha que admiração! Então não lho disse já? - replicou o pai.

     O esfarrapado disse lentamente:

     - Pois... eu venho justamente de lá. Estive lá algum tempo.

     Todos os rostos se voltaram para ele. Os homens não se mexiam. O cicio do candeeiro degenerou num suspiro e o proprietário do acampamento deixou poisar os pés dianteiros da cadeira no chão; ergueu-se e deu à bomba do candeeiro, até que o silvo vibrou de novo agudo e forte. Voltou para a cadeira, mas não a encostou à parede. O esfarrapado virou-se para os circunstantes:

     - Voltei para morrer de fome. Assim como assim, prefiro morrer de fome o mais depressa possível.

     - Mas que diabo está você a dizer, afinal de contas? - perguntou o pai. - Eu tenho um papel que diz que eles pagam bons salários e li há tempos no jornal que eles precisam de muita gente para a colheita da fruta.

     O esfarrapado perguntou:

     - Vocês não têm para onde ir? Não podem voltar para casa?

     - Não - disse o pai. - Expulsaram-nos. Passaram um tractor por cima da casa.

     - Então não podem voltar para trás?

     - Claro que não.

     - Então não vale a pena desencorajá-los - disse o esfarrapado.

     - Nem nos desencoraja. Pois se eu vi esse papel que dizia que eles precisavam de gente! Se eles não precisassem de gente, era um disparate gastarem dinheiro em impressos. Nem os distribuiriam se não precisassem de gente.

     - Está bem; não quero desencorajá-los.

     O pai gritou colérico:

     - Agora, que já começou a dizer asneiras, não fique calado, ouviu? Estava lá escrito: “Precisa-se de gente.” E você aí a rir-se e a dizer que é mentira. Quem é que mente, afinal de contas?

     O esfarrapado fixou bem os olhos irritados do pai. Parecia triste.

     - O papel diz a verdade - respondeu. - Lá precisar de gente, precisam.

     - Então porque é que você ri tanto?

     - É porque vocês não sabem de que espécie de gente é que eles precisam.

     - Como, que espécie de gente?

     O esfarrapado tomou uma decisão:

     - Ouça, senhor. Quanta gente diz o papel que eles precisam?

     - Oitocentos e isto é só num sítio.

     - É um papel cor de laranja, não é?

     - É sim, porquê?

     - Tem o nome do tipo... fulano de tal... engajador?

     O pai meteu a mão no bolso e retirou o impresso dobrado.

     - É isso mesmo - confirmou. - Como é que você sabe?

     - Ouça - disse o homem. - Isso não faz sentido. Esse tipo quer oitocentos homens. Manda imprimir cinco mil desses papelinhos, que umas vinte mil pessoas lêem. Vão para lá pelo menos umas duas, três mil pessoas, por causa desse papel. Pessoas que já não sabem onde têm a cabeça com tanta preocupação.

     - Mas isso não se compreende - gritou o pai. - Mas vão compreender quando falarem com o tipo que mandou distribuir esses papéis. Com ele ou com qualquer outro que trabalhe para ele. Vocês vão pernoitar nas valas das estradas, juntamente com outras cinquenta famílias mais. E ele vai procurar a vossa tenda, a ver se vocês ainda têm de comer. E quando vocês já não tiverem nada, pergunta-lhes assim: “Querem trabalhar?” E vocês respondem: “Queremos, sim, senhor. Que bom se o senhor nos arranjasse trabalho!” E ele dirá: “Talvez se possa arranjar alguma coisa.” E vocês perguntam: “Quando poderemos começar?” E ele então diz-lhes para onde devem ir e quando e depois vai-se embora. Talvez ele precise de umas duzentas pessoas, mas fala com quinhentas, pelo menos, que contam a coisa a outras, de modo que, quando vocês chegarem ao lugar marcado, já lá encontram umas mil pessoas. Aí, esse sujeito que falou com vocês, diz: “Eu pago vinte cents a hora.” E então, pelo menos metade das pessoas vai-se embora. Mas ainda ficam outras quinhentas que estão a morrer de fome e que querem trabalhar nem que seja para poderem comprar pão. E esse sujeito tem um contrato que o autoriza a mandar colher pêssegos ou algodão. Compreende agora? Quanto mais gente esfomeada eles arranjam, menos precisam de pagar como salário. E eles preferem gente que tenha filhos, porque então... caramba! ... não quero desiludi-los mais. - O círculo de faces encarava-o com frieza. Os olhos mediam-lhe as palavras. O esfarrapado sentiu-se constrangido. - Eu disse que não valia a pena tirar-lhes as ilusões e acabei por dizer tudo. Vocês têm de continuar a viagem, claro. Não podem voltar para trás.- O silêncio caiu sobre a varanda. O candeeiro assobiava e uma nuvem de mosquitos dançava constantemente em torno da luz. O esfarrapado continuava nervoso.- Vou dizer-lhes o que devem fazer quando aquele sujeito vier e disser que tem trabalho para vocês. Perguntem-lhe quanto paga. Digam-lhe para declarar por escrito quanto vai pagar. Digam-lhe isso. Se o não fizerem, vão ser levados ao engano.

     O proprietário inclinou-se na cadeira para ver melhor aquele esfarrapado coberto de sujidade. Coçou a pele entre os cabelos grisalhos do peito e disse com frieza:

     - Ouça lá; você não é um desses agitadores que andam por aí, hein? Um desses que arranjam sarilhos entre os trabalhadores?

     E o esfarrapado clamou:

     - Eu?! juro por Deus que não!

     - E porque andam muitos desses por aqui - disse o dono. - Só vivem provocando ódios .Fazem o pessoal maluco. Só estão bem a meter-se no que lhes não diz respeito. Um dia vão ser todos enforcados, esses derrotistas. Ou então vamos expulsá-los do país. É isto! Se um homem quiser trabalhar... fixe! Se não quiser, que vá para o inferno. Mas que não venha provocar sarilhos.

     O esfarrapado empertigou-se:

     - Bem, eu só quis avisá-los, ouviram? Agora já sabem como é - disse. - A mim levou-me um ano inteiro a saber isso tudo. Custou-me a vida da mulher e de dois filhos. Mas vocês não querem acreditar. Não devia dizer nada, é o que é. Eu também não queria acreditar quando alguém me dizia isso. Não, não, vocês não podem acreditar! Quando as crianças estavam deitadas na tenda, de barriga inchada, que só tinham a pele e o osso, e tremiam e choravam que nem cachorrinhos, eu saí feito louco para arranjar trabalho, nem que fosse para ganhar uma miséria. Não queria salário, não queria dinheiro! - gritou. - Queria só um pouco de leite, um punhado de farinha, uma colherada de banha! Meu Deus!... Depois veio o médico legista. “As crianças morreram do coração” - disse ele. Escreveu isso num papel que trouxe. Tremiam e tinham a barriga inchada, que nem a bexiga de um porco.

     Os homens, em volta, estavam silenciosos, de bocas entreabertas. A sua respiração saía opressa. Escutavam,

     O homem olhou em volta, depois do que virou as costas ao grupo e caminhou rapidamente até se sumir na escuridão. A escuridão tragou-o mas os seus passos arrastados ouviram-se por muito tempo ainda sobre o cimento da estrada, onde um carro o tornou visível à luz dos faróis um instante, arrastando-se pela faixa, de cabeça pendida sobre o peito e mãos nos bolsos do casaco preto.

     Os homens sentiam-se inquietos. Alguém disse:

     - Bom, já é tarde. Vou dormir.

     O proprietário insinuou:

     - Deve ser um tipo sem eira nem beira. Há muitos assim agora pelas estradas.

     Depois, ficou calado. Tornou a encostar a cadeira à parede e pôs-se a mexer com os dedos no pescoço.

     Tom disse:

     - Acho que ainda vou falar um bocadinho com a mãe. Depois, vamo-nos.

     E os Joads saíram dali.

     - Imagina se esse tipo falou verdade... - murmurou o pai.

     O pregador respondeu:

     - Claro que disse a verdade. A verdade do que lhe aconteceu. Não inventou nada.

     - E connosco como é que irá ser? - perguntou Tom. - Irá ser a mesma coisa?

     - Não sei - disse Casy.

     - Não sei - repetiu o pai.

     Foram andando até à tenda, - o pedaço de lona esticado por quatro paus. No interior, reinava a escuridão e havia silêncio. Quando já se encontravam perto, uma massa acinzentada agitou-se perto da entrada e erguendo-se, atingiu proporções humanas. Era a mãe que vinha ao encontro deles.

     - Estão todos a dormir - disse ela.- A avó também, graças a Deus. - Depois viu que era Tom quem vinha. - Como é que tu vieste para cá? - perguntou ansiosa. - Não tiveste aborrecimentos?

     - A gente já fez o conserto - volveu Tom. - Podemos continuar a viagem quando estiverem prontos.

     - Graças a Deus - disse a mãe.- Estou ansiosa por partir. Já quase não aguento mais. Tomara já chegar onde há fartura e vegetação! Quanto mais depressa, melhor.

     O pai pigarreou:

     - Agora mesmo um camarada esteve a dizer...

     Tom agarrou-lhe o braço, sacudindo-o ligeiramente.

     - Engraçado o que ele esteve a dizer... - interrompeu Tom. - Disse que há imensa gente a caminho.

     A mãe lançou-lhe um olhar através da escuridão. Dentro da tenda, Ruthie tossia e ressonava alto.

     - Lavei as crianças - disse a mãe. - Foi a primeira vez que nos deram bastante água para as lavar como deve ser. Deixei o balde lá fora, que é para vocês também se lavarem. A gente suja-se muito nestas viagens...

     - Estão todos lá dentro? - perguntou o pai.

     - Todos, menos o Connie e a Rosasharn. Querem dormir lá fora. Dizem que cá na tenda há muito calor.

     O pai observou em tom rezingão:

     - Essa Rosasharn está muito enjoada, toda não-me-toques.

     - É porque é a primeira vez - disse a mãe.- Ela e o Connie passam a vida a falar nisso. Tu também eras a mesma coisa.

     - Bem, precisamos de ir - tornou Tom.- Vamos estacionar um pouco ali adiante, na estrada. Prestem atenção, caso a. gente os não veja. Vamos ficar do lado direito.

     - E o Al? Fica aqui?

     - Fica. Por isso é que o tio John vem connosco. Boa noite, mãe! Atravessaram o acampamento adormecido. Diante das tendas ardia uma fogueira vacilante e baixa, ao pé da qual rima mulher estava acocorada, a preparar a refeição da manhã seguinte.

     O cheiro do feijão que ela cozinhava era forte e apetitoso.

     - Quem me dera agora um bom prato de feijão! - disse Tom, polidamente, ao passar.

     A mulher sorriu:

     - Está às suas ordens... quando estiver pronto. É só vir até aqui ao alvorecer.

     - Muito obrigado - agradeceu Tom.

     Ele, o tio John e Casy passaram pela varanda. O proprietário ainda lá estava, sentado na cadeira, e a lâmpada sibilante, flamejava. Voltou a cabeça para os três homens que iam passando.

     - Precisa de deitar gasolina nesse candeeiro - disse-lhe Tom.

     - Para quê? Está na hora de fechar.

     - Agora já não há mais nenhum meio dólar a rolar pela estrada - comentou Tom.

     Os pés da cadeira poisaram no chão.

     - Não me chateies! já te conheço! És um desses agitadores que andam por aí.

     - Pois sou mesmo - disse Tom. - Sou um bolchevista.

     - É isso! Há muitos da tua espécie!

     Tom ia a rir quando saíram pelo portão direitos ao “Dodge”. Abaixou-se para apanhar um torrão de terra e atirou-o com força contra a luz que ardia na varanda. Ouviram-no bater de encontro à casa e viram o dono do acampamento erguer-se num pulo e sondar a escuridão. Tom accionou o motor do carro, que retomou a estrada. Escutou com atenção o barulho do motor, no receio de ouvir pancadas estranhas. A estrada desenrolava-se na penumbra, sob a luz débil dos faróis.

    

     Os carros dos emigrantes arrastavam-se pela estrada principal, vindos dos caminhos que a cruzavam, e despejavam populações para o Oeste. À luz do dia, marchavam como percevejos nesse rumo; quando a escuridão baixava, agrupavam-se como percevejos à volta de um abrigo ou em regiões onde a água abundava. E isso, porque todos os que fugiam se sentiam solitários e perplexos, porque tinham vindo de terras, em que reinava a tristeza e a preocupação, porque iam para uma terra nova e misteriosa. Agrupavam-se estreitamente, falavam uns com os outros sobre as esperanças que depositavam na nova terra, dividiam entre si a comida, a própria vida. Às vezes, uma família acampava próximo de uma nascente de água e vinha outra e acampava também no mesmo lugar, por causa da nascente e da companhia e ainda vinha uma terceira por causa das duas famílias que já ali se encontravam, por acharem o sítio bom. E, quando o sol caía no horizonte, já lá havia bem vinte famílias e vinte carros.

     À noite acontecia uma coisa estranha: as vinte famílias tornavam-se uma só família; as crianças eram filhos de todas. A perda de um lar tornava-se uma perda colectiva, e o sonho dourado do Oeste, um sonho colectivo. E podia acontecer que uma criança enferma enchesse de pena os corações de vinte famílias, de cem pessoas; que um parto numa tenda mantivesse cem pessoas em silêncio e em expectativa durante uma noite e que a manhã seguinte encontrasse cem pessoas felizes cora o êxito de um parto de gente estranha. Uma família que, uma noite antes tivesse errado apavorada na estrada, era capaz de procurar entre os seus parcos tesouros, algo que se pudesse dar de presente ao recém-nascido. À noite, sentados em redor da fogueira, os vinte perfaziam um só; uniam-se como um só, nos acampamentos, quer de tarde, quer de noite. Uma guitarra surgia então de sob um cobertor, e soava tristemente e entoavam-se canções - canções populares. Os homens cantavam a letra e as mulheres cantarolavam a melodia.

     Todas as noites, um mundo surgia: amizades se cimentavam; inimizades se criavam; um mundo completo, com gabarolas e covardes, com gente silenciosa, com gente sossegada, gente humilde e gente bondosa. Todas as noites se entabulavam relações, relações que modelavam um mundo, e todas as manhãs esses mundos se desfaziam como circos ambulantes.

     A princípio, as famílias titubeavam nas montagens e desmontagens desses mundos; mas, gradualmente, conseguiam assenhorear-se da técnica. da construção desses mundos. Os chefes surgiam; faziam-se leis e códigos. E, à medida que os mundos se deslocavam para o Oeste, mais e mais completos e bem apetrechados se tornavam, porque os seus construtores já tinham adquirido mais experiência.

     As famílias aprendiam quais as leis que deviam observar as leis da vida privada nas tendas, as leis do encerramento do passado no coração, as leis de ouvir e calar, as leis de aceitar ou recusar auxílio, de oferecer auxílio ou de o recusar; as leis de um filho fazer a corte a uma rapariga e as de uma filha aceitar a corte de um rapaz; as leis que permitiam dar de comer aos famintos; as leis das mulheres grávidas e dos enfermos, que sobrepujavam todas as outras.

     E as famílias aprendiam, embora ninguém o tivesse ensinado, quais as leis que deviam ser monstruosas e ser destruídas; o direito de se penetrar na vida particular, o direito de falar alto quando no acampamento todos dormiam, o direito da sedução e do estupro, o direito do adultério, do roubo e do assassínio. Esses direitos eram esmagados, porquanto os pequenos mundos não poderiam passar uma só noite sequer desde que eles se mantivessem.

     E, à medida que esses pequenos mundos se moviam rumo ao Oeste, os regulamentos transformavam-se em leis, embora ninguém notificasse as famílias nesse sentido. É contra a lei sujar o local, é contra a lei poluir, de qualquer maneira, a água colectiva, é contra a lei comer coisas boas, suculentas, perto de uma pessoa esfaimada, a não ser que se lhe dê alguma coisa.

     E, com as leis, surgiram as medidas punitivas, que eram somente duas: uma luta rápida, de morte, ou então o exílio; e o exílio era o pior. Porque, quando alguém quebrava as leis e se ia embora, o seu nome e os traços da sua fisionomia depressa se divulgavam, não encontrando, por isso, abrigo em nenhum dos pequenos mundos, onde quer que estes fossem construídos.

     Nesses mundos, a conduta social tornou-se rígida e fixa, de maneira que um homem tinha de responder “bom dia” a quem o cumprimentasse, um homem podia viver com uma pequena e, se ficasse com ela, teria de a proteger e aos filhos que ela tivesse. Mas a ninguém era permitido ter uma pequena uma noite e outra na seguinte, pois tal coisa viria pôr em perigo os mundos.

     As famílias moviam-se rumo ao Oeste, e a técnica da construção dos tais mundos melhorava, de maneira que os homens se sentiam neles em segurança; e tudo era edificado de maneira que uma família, que observava as leis, sabia que estas a protegiam.

     Formavam-se governos, governos com chefes e anciãos. Um homem inteligente descobria logo que a sua inteligência era de utilidade nos acampamentos; um homem imbecil não conseguia colocar a sua imbecilidade no mundo. E uma espécie de seguro se desenvolvia nessas noites. Um homem que tinha de comer alimentava outro que nada tinha, e dessa maneira assegurava a alimentação a si mesmo para quando as suas reservas se esgotassem. E, quando uma criança morria, uma pequena pilha de moedas ia juntar-se à porta da tenda dos país, pois uma criança tem de ter um enterro condigno, já que nada obteve da vida. Um adulto podia ser sepultado na fossa comum; uma criança, nunca.

     Para a construção de um mundo tornam-se indispensáveis certos requisitos naturais: água, a margem de um rio, uma corrente, uma fonte ou mesmo um encanamento sem vigilância. É indispensável certa quantidade de terra plana, onde as tendas e possam armar, certa porção de galhos secos ou de lenha para fazer fogueiras. Se existir perto do local um depósito de lixo, tanto melhor, pois que neles sempre se acham coisas úteis: chapas de fogão, uma grade de chaminé para proteger o fogo, e latas de conserva que podem servir de panelas e de pratos.

     E os mundos eram construídos à noite. Os homens, vindos da estrada, construíam-nos com as suas tendas, os seus corações e os seus cérebros.

     Pela manhã, desarmavam-se as tendas; as lonas enrolavam-se; amarram-se as estacas umas às outras nos estribos dos carros; as camas e os utensílios de cozinha dispunham-se nos veículos. E à medida que as famílias se moviam rumo ao Oeste, a técnica de construção de um lar, à noite, e do seu desarmamento de manhã tornava-se fixa; assim, a tenda arrumava-se em sítio certo, os utensílios de cozinha contavam-se antes de se meterem nas caixas próprias. E, à medida que as famílias se deslocavam rumo a Oeste, cada membro da família sabia qual era o seu lugar, quais os seus deveres; de maneira que todos os referidos membros - velhos e moços - tinham o seu lugar determinado nos veículos, de modo que, nas noites quentes e extenuantes, quando os carros chegavam aos acampamentos, cada membro de família sabia o que tinha a fazer e fazia-o sem esperar instruções: as crianças juntavam lenha ou acarretavam água; os homens armavam as tendas e descarregavam as camas dos veículos; as mulheres preparavam a comida e cuidavam de tudo, enquanto a família comia. E isto era feito sem vozes de comando; as famílias, cujas fronteiras eram uma quinta de dia e uma casa de noite, mudavam as suas fronteiras. Sob a prolongada e quente luz do sol, mantinham-se em silêncio nos carros que as levavam para o Oeste, mas, de noite, uniam-se ao primeiro agrupamento que encontravam.

     Assim modificavam a sua vida social - modificavam-na como só o homem em todo o Universo sabe fazê-lo. Deixara de haver lavradores fazendeiros; o que havia era homens que emigravam. E os pensamentos, os planos, os prolongados silêncios que, até então recaíam sobre o campo, mudavam-se agora para as estradas, para a distância, para o Oeste. O homem que antes pensava em acres, pensava agora em milhas. E os seus pensamentos e as suas preocupações já se não cingiam à chuva, ao vento, à poeira, à sua fé no resultado das colheitas... Os olhos vigiavam o5 pneus; os ouvidos escutavam os roncos dos motores e as suas preocupações concentravam-se em torno do óleo, da gasolina, da fina película de borracha que se ia gastando entre as rodas e o chão. Uma roda de engrenagem partida redundava em tragédia. A água, à noite, e a comida ao lume eram as únicas aspirações, A saúde era indispensável para o prosseguimento da viagem; era a força necessária, o espírito necessário para prosseguir. A vontade antecipava-lhes os passos, e o medo, que outrora só as secas e as inundações provocavam, era agora despertado por tudo o que pudesse opor barreira ao avanço para o Oeste.

     A altura de acampar tornou-se fixa; faziam-no ao fim de cada dia de viagem.

     Nas estradas o pânico dominava algumas famílias, de tal maneira que viajavam de noite e de dia; quando paravam, era para dormir nos próprios veículos, a fim de continuarem depressa a viagem para Oeste. O desejo de, finalmente, se fixarem era tão grande que eles voltavam os rostos para Oeste, e viajavam, viajavam sem cessar, forçando os motores cheios de estalidos.

     Mas a maioria das famílias aceitava a mudança, adaptando-se rapidamente ao novo ritmo de vida. E, quando o Sol tombava no horizonte...

     É tempo de arranjar um sítio para acampar.

     É. Ali adiante há umas tendas...

     O veículo encostava-se à beira da estrada e parava, e, porque os outros haviam chegado antes, impunha-se uma certa delicadeza. E o homem, o chefe de família, debruçava-se do carro:

     A gente pode pernoitar aqui, hein?

     Pois não. Muito prazer. De que Estado são?

     Vimos dos confins do Arkansas. Do Arkansas? Pois olhe, ali adiante, na quarta tenda a contar daqui, mora gente do Arkansas.

     Sim?

     E a pergunta mais importante:

     - Que tal, a água?

     Bem, não é lá grande coisa, está meio suja, mas há bastante.

     Bom, muito obrigado.

     Não tem de quê.

     Mas a cortesia é necessária, indispensável. O veículo anda aos solavancos até à última tenda e pára. Aí todos descem, fatigados, e põem-se a distender os músculos rígidos da viagem. Depois, arma-se a nova tenda; as crianças mais novas vão buscar água e as mais velhas tratam de juntar ramos secos e gravetos para o lume. Acende-se este e põem-se os alimentos a cozer ou a fritar. Os que tinham chegado antes acercam-se dos recém-vindos, interrogam-nos sobre de que Estado são e muitas vezes descobrem-se amigos e até parentes.

     É de Oklahoma? E de que região?

     Cherokee.

     Ah, sim? Pois eu tenho lá parentes. Conhece os Allens? Em Cherokee, há Allens por todos os cantos. Conhece os Willies?

     Se conheço!

     E uma nova unidade se formava deste modo. O crepúsculo avançava, mas, antes que as trevas descessem, já a nova família fazia parte do acampamento. já se haviam trocado palavras com todas as outras famílias. Era gente conhecida, gente boa.

     Conheci os Allens toda a minha vida. Simão Allen, o velho Simão, estava sempre a zaragatear com a primeira mulher. Ela era de Cherokee, por um lado. Era linda que... nem um potro negro.

     Se era! E o filho dele, aquele que casou com uma Rudolph, lembra-se? Parece que eles moram em Enid. Estão bem como bem.

     É o único dos Allens que está bem na vida. Tem uma garagem.

     Acarretada a água e cortada a lenha, as crianças caminhavam acanhadas, cautelosas, entre as tendas. E recorriam a complicada mímica para travarem conhecimentos. Um menino parava perto de outro menino e apanhava uma pedra; examinava-a muito bem, cuspia-lhe em cima e limpava-a, ficando-se a olhá-la tanto tempo que o outro não se tinha sem perguntar:

     Que é que tu tens aí?

     Nada. Uma pedra.- Era a resposta como que casual.

     Então porque olhas tanto para ela?

     Parece-me que tem ouro dentro.

     Como é que tu sabes? O ouro dentro de uma pedra não brilha, é preto.

     Ora! Toda a gente sabe isso.

     Aposto que é porcaria e tu julgavas que era ouro.

     Nada disso. Eu conheço o ouro. O meu pai já achou ouro à farta e ensinou-me a descobri-lo.

     Isso é que era bom descobrir um pedaço de ouro. Era canja.

     Ai, não! Ia comprar um filho da mãe de um chupa-chupa grande como o diabo!

     A mim não me deixam dizer palavrões mas eu cá vou-os dizendo à mesma...

     Eu também. Vamos até à nascente.

     E também as raparigas travavam conhecimento e exibiam, com ar pudico, os seus triunfos e namoricos. As mulheres trabalhavam junto do lume, na pressa de saciarem a fome dos estômagos vazios da família - carne de porco - quando havia dinheiro suficiente, batatas e cebolas. Empadas ou pão de centeio com bastante molho por cima. Bifes ou costeletas, com uma chávena de chá preto, amargo. Sonhos fritos em banha, quando o dinheiro era pouco, sonhos tostados e estaladiços, regados com molho.

     As famílias muito ricas ou gastadoras comiam feijão e pêssegos de conserva, pão e bolos de confeitaria, mas faziam-no às escondidas, nas suas tendas, pois parecia mal servirem-se de tão boas coisas à frente de todos. E, ainda assim, as crianças que comiam sonhos fritos adivinhavam no ar o cheiro das refeições a aquecer e sentiam-se infelizes.

     Terminada a refeição, caía a noite; então, os homens acocoravam-se para conversar.

     E falavam das terras que tinham deixado para trás. Não sei como vai ser, diziam eles. Este país está por conta do diabo.

     Há-de voltar a ser o que era, mas nós é que lá não estaremos.

     Um tipo do administrador disse-me: vocês deixaram a terra encher-se de barrancos. Se tivessem feito os sulcos de través, em vez de tornear a terra, não teriam feito barrancos. Mas eu nunca experimentei. E o tractor deles, esse, não sua com o trabalho. Não dá a volta ao terreno; vai sempre a direito e faz logo um sulco fundo de quatro milhas de comprido e, quanto a tornear alguma coisa, só se for a Deus em pessoa!

     Talvez a gente tivesse pecado sem saber.

     E falavam em voz baixa dos seus antigos lares: havia uma cisterna debaixo da roda do moinho. A gente punha o leite lá dentro, que era para fazer nata, e também as melancias para gelar. Quando fazia um calor de rachar, lá na adega estava um fresco bom a valer. Ali, a gente abria uma melancia e quase que a não podia comer, de tão fria que estava. A água corria da cisterna.

     E cada um contava as tragédias que o haviam afligido:

     Eu tinha um irmão - o Charlie, louro como uma espiga de milho e enorme. Sabia tocar harmónica que era uma beleza. Um dia andava a limpar os sulcos elo arado. Bem, de repente, uma cascavel saltou mesmo junto dele, os cavalos assustaram-se e as grades do arado foram espetar-se-lhe na barriga dele e levaram a cara toda. Que horror, meu Deus!

     Falavam sobre o futuro. Só queria saber como é a vida lá no Oeste.

     Bom, pelas estampas que a gente viu, parece que aquilo por lá é bonito. Eu vi uma linda, que parecia do tempo quente e tinha umas nogueiras e uns pés de groselha... mesmo por detrás, tão perto como os pêlos do rabo de uma mula uns dos outros! Havia umas montanhas enormes cobertas de neve. Era uma estampa bonita a valer,

     O que é preciso é arranjar trabalho. Nunca teremos frio, nem mesmo no Inverno as crianças apanharão frio quando forem para a escola. Hei-de fazer de maneira que os meus filhos não percam nenhuma aula. Eu leio mal, por isso nunca acho tanto prazer tia leitura como os que sabem ler bem.

     Às vezes, um homem puxava da guitarra, sentava-se num caixote, em frente da sua tenda e tocava. Todos se juntavam em volta dele atraídos pela música.

     Muita gente sabe tocar guitarra, mas talvez esse homem seja um artista de verdade. E, então, tudo se torna diferente: os tons baixos ressoam, enquanto a melodia corre a passinhos miúdos pelas cordas. Dedos pesados e dedos que martelam o braço da guitarra. O homem tocava e os outros iam-se reunindo à volta dele, até que o círculo se fechava por completo. Depois ele cantava “Ten Cent Cotton and Forty - Cent Meat”. E o círculo de homens cantava baixinho com ele. E ele cantava “Why do You Cut Yotir Hair, Girls?”. E a roda cantava. Gemia depois uma canção saudosa: “Adeus, meu velho Texas” essa lúgubre canção alucinante que já se cantava antes da chegada dos espanhóis, com a diferença de que, então, a letra era indiana.

     E agora o grupo formava uma só coisa, uma unidade, de maneira que, na escuridão, olhavam para dentro de si mesmos os olhos daquela gente toda, e o pensamento esvoaçava para outras épocas e a melancolia tornava-se reconfortante como o repouso ou o sono. Ele cantava os “McAllester Blues” e depois, para agradar aos velhos, entoava o “Jesus chama-me para o seu lado.” As crianças sentiam sono com a música e iam para as suas tendas e adormeciam e as canções acompanhavam-nas nos seus sonhos.

     E, pouco depois, o homem da guitarra deixava de tocar e bocejava. Boa noite, pessoal - dizia ele.

     E? os outros murmuravam: Boa noite.

     E todos eles sentiam o desejo de saber tocar guitarra, coisa que lhes parecia maravilhosa. Iam então para a cama e o acampamento mergulhava no silêncio. E as corujas esvoaçavam por aqui e por ali; ao longe os coiotes uivavam e, os zorrilhos andavam pelo acampamento, à procura de restos de comida: zorrilhos bamboleantes, desavergonhados, sem medo fosse do que fosse.

     A noite passava, e, aos primeiros raios da alvorada, as mulheres deixavam as tendas, acendiam o lume e punham a água a ferver para o café. E os homens acordavam também e conversavam em voz baixa, na penumbra do alvorecer.

     Quando se cruza o rio Colorado, chega-se ao deserto, dizem eles. Toma cuidado, que é para não teres uma avaria no deserto. Leva bastante água, que é para estares garantido se acontecer alguma coisa.

     Nós vamos atravessá-lo de noite.

     Nós também, senão, a gente acaba com a própria alma ressequida.

     As famílias comiam depressa; enxaguavam-se e limpavam-se os Pratos com um pano. Depois, desarmaram-se as tendas. Todos tinham pressa. E, quando o Sol surgia, o acampamento já se encontrava vazio; somente restavam os seus vestígios. E o sítio ficava pronto para receber um novo mundo, numa nova noite.

     Mas, ao longo da estrada, os veículos dos emigrantes avançavam como percevejos e a estreita fita de cimento alongava-se por milhas e milhas à sua frente.

    

     A família Joad deslocava-se lentamente em direcção ao Oeste, subindo as montanhas do Novo México, para lá dos pináculos e das pirâmides do planalto. Galgou a região montanhosa do Arizona e, através de uma brecha da garganta, avistou, a seus pés, o deserto. Um guarda de fronteira fê-la parar.

      - Aonde vão?

     - Para a Califórnia - disse Tom.

     - Quanto tempo pretendem ficar no Arizona?

     - Só o tempo necessário para o atravessar.

     - Trouxeram algumas plantas?

     - Não. Nenhumas.

     - Tenho de passar revista às vossas coisas.

     - Mas eu já disse que a gente não trouxe plantas.

     Um guarda pregou-lhe um papelzinho no pára-brisas.

     - Fixe! Podem passar, mas andem depressa!

     - Bom. É o que a gente vai fazer.

     A família trepou as encostas cobertas de árvores baixas e torcidas. Holbrook, Joseph City, Winslow, e aí começavam as árvores altas. Os carros cuspiam vapor, marinhavam penosamente as colinas. Surgiu Flagstaff no cimo de tudo. De Flagstaff para baixo, através dos grandes platós, a estrada estendia-se rectilínea, a distância. A água escasseava e comprava-se a cinco, dez e quinze cents o galão. O sol esgotava as terras rochosas, já de si áridas, e, em frente, erguiam-se serras caóticas, de cristas quebradas – a muralha ocidental do Arizona. E agora a família fugia ao sol e à seca. Viajara a noite toda e chegara também de noite às montanhas. Trepara durante a noite as muralhas denteadas e a fraca luz dos faróis errara nas paredes de pedra clara que orlava a estrada. Passou o pico ao anoitecer e desceu vagarosamente através das velhas ruínas pedregosas de Oatman e, quando a madrugada chegou, viu, lá em baixo, o rio Colorado. A viagem continuou até Topock e a família teve de estacionar na ponte, enquanto um guarda da fronteira raspava o papelzinho que havia sido pregado no pára-brisas. Depois, atravessou a ponte e penetrou no deserto selvagem e rochoso. E 'embora estivesse mortalmente cansada e o calor matinal fosse aumentando, resolveu parar.

     O pai avisou:

     - Chegámos... estamos na Califórnia! Olharam, sombriamente, todos os blocos de pedra que resplandeciam ao sol, e olharam, através do rio, a terrível muralha do Arizona.

     - Temos ainda o deserto - disse Tom. - Precisamos de água e de descanso.

   A estrada corre paralela ao rio, e o dia já tinha avançado bastante, quando os veículos, escaldando, chegaram a Needles, onde o rio corre velozmente entre os juncos.

     Os Joads e os Wilsons pararam junto do rio e ficaram sentados nos carros, a olhar o maravilhoso espectáculo da água corrente que fazia inclinar ligeiramente as hastes dos juncos. Na margem do rio havia um acampamento pequeno - onze tendas - à beira de água, junto da relva alagada. Tom debruçou-se pela janela do camião.

     - A gente pode parar aqui um bocadinho, hein?

     Uma mulher obesa, que esfregava roupa num balde, ergueu o olhar.

     - Nós não somos os donos disto, rapaz. Pode ficar, se quiser. Mas não tarda que não venha aí um polícia para ver as suas coisas, ouviu?- E voltou a esfregar a roupa ao sol.

     Ambos os veículos estacionaram numa clareira que havia no meio da relva ensopada. Fixaram as tendas; a dos Wilsons foi armada e a lona dos Joads estendida sobre as estacas ligadas por cordas. Winfield e Ruthie caminharam lentamente através dos salgueiros para onde havia juncos. Ruthie disse com excitação na voz abafada:

     - Califórnia! Isto aqui é a Califórnia e nós cá estamos!

     Winfield arrancou uma haste, desfolhou-a, meteu a polpa branca na boca e mastigou-a. Entraram os dois ria água e ficaram muito quietinhos com água pela barriga das pernas.

     - A gente ainda tem de passar o deserto - disse Ruthie.

     - Como é o deserto?

     - Não sei. Eu vi uma vez uma estampa com um deserto. Havia ossos por todos os lados.

     - Ossos de gente?

     - Acho que sim. Mas a maioria eram de boi.

     - E a gente vai ver esses ossos?

     - Talvez. Eu não sei. Nós vamos viajar de noite. Foi o Tom que disse. Disse até que a alma da gente se estorricava se viajássemos de dia.

     - Que agradável e fresquinho que isto é! - disse Winfield, enterrando os dedos dos pés na areia do fundo.

     Ouviram então a mãe chamar:

     - Ruthie! Winfield! Voltem depressa!

     Voltaram devagar, através dos juncos e dos salgueiros. Havia silêncio nas outras tendas. Por um instante, ao chegarem os dois veículos várias cabeças tinham emergido de entre as cortinas de lona, para logo se retirarem. As tendas das duas novas famílias estavam armadas e os homens achavam-se reunidos.

     Tom disse:

     - Bem, eu vou tomar um banho. É o que vou fazer... antes de ir dormir. Como vai a avó, desde que dorme na tenda?

     - Não sei - respondeu o pai. - Não consegui acordá-la.

     Virou a cabeça em direcção à tenda e ficou um instante à escuta. Uma voz plangente, discorrendo com volubilidade, veio de sob a tenda. A mãe foi depressa ver o que era.

     - Acordou - disse Noah.- Durante toda a noite, julguei que ela ia esticar no carro. Parece que está doida.

     Tom contestou:

     - Com os diabos! Ela está mas é muito cansada. Precisa de descansar. Se o não fizer o mais depressa possível, não vai durar muito. Está muito cansada. Quem vem comigo? Vou-me lavar e depois dormir o dia todo, à sombra.

     Foi andando e os outros seguiram-no. Tiraram a roupa entre os salgueiros e depois entraram na água e sentaram-se. Ficaram assim sentados muito tempo, com os calcanhares enterrados na areia; somente as cabeças se lhes viam à superfície.

     - Caramba! Estava a precisar deste banho! - disse Al.

     Pegou num punhado de areia e começou a esfregar-se com ela. Sentados na água, iam olhando os picos agudos que se chamam agulhas e as montanhas brancas e rochosas do Arizona.

     - E a gente passou tudo aquilo! - exclamou o pai, cheio de admiração.

     O tio John mergulhou a cabeça na água.

     - Bem, cá estamos. Aqui já é a Califórnia e não parece tão próspera como isso.

     - Precisamos ainda de atravessar o deserto - disse Tom. - E ouvi dizer que é uma encrenca levada dos diabos!

     Noah perguntou:

     - Vai ser esta noite?

     - Que é que o senhor acha, pai?

     - Bem, não sei. Um pequeno descanso não seria nada mau para todos, principalmente para a avó. Mas, por outro lado, estou com uma vontade danada de atravessar isto tudo e de começar a trabalhar. A gente, agora, só tem quarenta dólares. E é preciso trabalhar, que é para entrar algum dinheiro.

     Sentados na água, eles sentiam a força da corrente. O pregador deixava os braços e as mãos flutuarem à superfície. Os corpos eram brancos até ao pescoço e pulsos, mas de um trigueiro quase castanho nas mãos e nas faces, com triângulos queimados entre as clavículas. Esfregavam-se todos com areia.

     E Noah divagou indolentemente:

     - Se pudesse, deixava-me ficar aqui mesmo, dentro de água. Não ter fome nem aborrecimentos. Metido dentro de água a vida toda, cheio de preguiça que nem um porco na lama.

     E Tom, alongando o olhar através do rio até aos picos eriçados das montanhas e até às agulhas, do lado de baixo da corrente, disse:

     - Nunca vi montanhas assim. Esta terra aqui é uma terra de morte. Isto são os ossos de um país. Só queria saber se algum dia encontraremos um sítio onde se possa ganhar a vida sem precisarmos de nos arrastarmos por rochedos e pedras enormes. Vi urnas fotografias de uma região plana e verdinha, com casas pequeninas e brancas, daquelas em que a mãe fala. A mãe dava a vida por uma casinha branca. A gente pensa que uma terra assim nem existe. Mas eu vi as fotografias.

     - Espera até chegarmos à Califórnia - disse o pai. - Então vais ver o que é uma terra bonita.

     - Santo Deus, pai! Mas a gente está na Califórnia!

     Dois homens, vestindo calças de algodão e camisas azuis, todas suadas, surgiram de entre os salgueiros e viram os homens nus. Perguntaram:

     - Que tal o banho? Dá para nadar?

     - Não sei - respondeu Tom. - A gente ainda não experimentou. Mas, para ficar sentado, é uma delícia.

     - Podemos ir também?

     - Ora, o rio não é nosso. Podemos ceder um bocadinho, querem?

     Os homens tiraram as calças e as camisas, e foram andando rio adentro. A poeira cobria-lhes as pernas até aos joelhos; tinham os pés esbranquiçados e amolecidos pelo suor. Sentaram-se preguiçosamente na água e começaram a lavar os flancos com lentidão. Queimados pelo sol, ambos - eram pai e filho - grunhiam e rugiam na água.

     O pai perguntou com polidez:

     - Vão também para o Oeste?

     - Nada disso. A gente vem de lá. Vamos para casa. Lá não se consegue ganhar a vida.

     - Onde é a vossa casa? - inquiriu Tom.

     - No “Cabo da Frigideira”, perto de Pampa.

     O pai voltou a perguntar:

     - E lá vocês não conseguem ganhar a vida?

     - Isso sim! Mas, morrer por morrer de fome, mais vale que isso nos aconteça em, casa, junto das pessoas conhecidas, do que no início de gente que nos não pode ver.

     O pai insistiu:

     - Sabe? Você é a segunda pessoa que me diz isso. Porque é que eles têm raiva à gente de fora?

     - Sei lá! - respondeu o homem.

     Tomou a água na concha da mão e esfregou o rosto, fungando e como que gargarejando. Dos cabelos escorreu-lhe uma água suja que lhe foi rolando pelo pescoço.

     - Gostava de ouvir mais alguma coisa a esse respeito - disse o pai.

     - Eu também - acudiu Tom. - Porque é que essa gente do Oeste nos tem ódio?

     O homem encarou Tom firmemente.

     - Vocês vão para o Oeste?

     - Sim, vamos a caminho.

     - Ainda não estiveram na Califórnia?

     - Não, nunca.

     - Bom, então não se incomodem com o que eu disse. Tratem de ver tudo pessoalmente.

     - Sim - disse Tom - mas a gente sempre gostava de saber como é a vida num sítio para onde a gente vai.

     - Bom, se vocês realmente querem saber... eu sou um desses tipos que perguntou muita coisa a esse respeito e que também pensou muito. A Califórnia é uma terra bonita. Mas foi roubada há uma porção de tempo. Quando vocês passarem o deserto, vão chegar às cercanias de Bakersfield. Garanto que nunca viram uma terra tão bonita. Vinhedos e pomares por toda a parte... a mais linda terra que se pode ver. E vocês vão passar por uma terra plana e rica, com água a trinta pés de profundidade. E esses campos estão abandonados. Mas não pensem que lhos vão dar. Pertence tudo à Companhia de Terras e de Gado. E, quando ela não quer cultivar a terra, deixa-a simplesmente abandonada. Mas experimentem vocês ir para lá e plantarem uma porçãozita de milho, que vão logo direitinhos para a cadeia.

     - Terras boas, diz você? E ninguém as cultiva?

     - Não, senhor. E assim mesmo. E quando vocês virem isso, ficam danados. E ainda não viram nada. Aquela gente tem uma maneira de olhar para nós que até faz ferver o sangue. Olham para nós e dizem: “Não gosto de você, seu filho da mãe!” Depois, vêm os delegados do sheriff e vocês são perseguidos. Acampamos em qualquer lugar à beira da estrada, e eles mandam-nos embora. Basta olhar para a cara deles; logo se vê a raiva que têm à gente. E... vou-lhes dizer uma coisa: eles têm-nos raiva porque têm medo. Sabem que, quando alguém sente fome, trata de arranjar comida, ainda que tenha de a roubar. Sabem que deixar as terras abandonadas é um pecado, e que alguém se dispõe logo a tomá-las. Diabo! Ainda ninguém lhes chamou “Okies”?

     Tom perguntou:

     - “Okies”? Que quer isso dizer?

     - Bem, antigamente, “Okie” era aquele que vinha de Oklahoma. Agora é o mesmo que chamar a um tipo filho da mãe. “Okie” quer dizer que o sujeito é um merda. A palavra, em si, não quer dizer nada; o que mete raiva é a maneira como eles a dizem. Mas não vale a pena dizer mais nada. Vocês têm de ver a coisa pessoalmente. Têm que ir para lá. Ouvi dizer que há por, lá agora umas trezentas mil pessoas, da nossa região, gente que vive como, porcos, porque tudo na Califórnia tem dono. Não sobra coisa nenhuma. E os donos disso tudo agarram-se as suas coisas que eu sei cá. Até são capazes de matar. Têm tanto medo que se põem como doidos. Vocês vão ver, vão ouvir o que por lá se diz. É a mais linda terra do Mundo, mas o povo de lá é um bocado ruim. Tem tanto medo e tantos cuidados que até desconfia da sua própria gente.

     Tom olhou a água e enterrou os calcanhares na areia.

     - Mas, se alguém trabalhar e fizer economias, pode comprar um pedacinho de terra, não pode?

     O homem mais idoso riu e olhou para o filho, e o rapaz, calado, arreganhou os dentes numa expressão quase triunfal. E o homem disse:

     - Vocês não conseguirão nenhum trabalho certo. Terão de arranjar dia a dia o dinheiro para a comida. E vão precisar de trabalhar para uma gente mesquinha como o diabo. Se apanharem algodão, podem estar certos de que a balança está viciada. Talvez não aconteça sempre, mas geralmente é o que se dá. Terão, por isso, de partir do princípio que todas as balanças estão viciadas, porque lhes é impossível saber quais é que estão certas. E não poderão fazer nada, mesmo nada.

     O pai perguntou em voz baixa:

     - Então... então aquilo por lá não é nada bom, pois não?

     - É bom, muito bonito tudo aquilo, mas a gente não consegue nada. Há, por exemplo, um pomar cheio de laranjas maduras... e um sujeito armado de revólver, que dá um tiro no primeiro que mexer nelas. E há um sujeito, dono de um jornal, lá perto da costa, que tem um milhão de acres de terra...

     Casy ergueu vivamente a cabeça:

     - Um milhão de acres?! Que diabo faz o homem a tanta terra?

     - Sei lá! Sei que ele é o dono daquilo tudo e pronto. Cria algum gado e tem guardas armados por toda a parte, que é para ninguém entrar nas terras dele. E anda num carro à prova de balas. Já vi retratos dele. Um sujeito mole e gordo, com uns olhos pequeninos e uma boca que parece um rabo de galinha. Tem um medo de morrer que se pela! Um milhão de acres, e com medo da morte!

     Casy perguntou:

     - Mas que diabo faz ele a tanta terra? Para que é que ele quer um milhão de acres?

     O homem tirou as mãos embranquecidas e engelhadas da esticou-as; depois, repuxou o lábio inferior e inclinou a cabeça sobre um dos ombros.

     - Sei lá! - disse. - Talvez seja maluco. Tem que ser maluco por força. Eu vi o retrato dele. Tem tipo de maluco. De maluco e de mau.

     - Você diz que ele tem medo de morrer? - perguntou Casy.

     - Sim, é o que o povo diz.

     - Tem medo que Deus o venha buscar?

     - Não sei. Só sei que tem medo.

     - Mas o que é que o rala? - perguntou o pai. - Assim nem se diverte na vida...

     - O avô não tinha medo - disse Tom.- Quando estava em riscos de morrer, era justamente quando tinha mais graça. Por exemplo, quando o avô e um outro tipo caíram em cima de um bando de índios navajos, uma noite. Foi quando eles mais se divertiram na vida e ninguém dava um vintém pela vida deles.

     Casy interveio:

     - Sim, assim é que deve ser. Quando alguém acha graça às coisas, nem pensa na morte, mas, quando alguém se sente sozinho, e velho e desconsolado então tem medo de morrer.

     O pai perguntou:

     - Mas porque é que ele há-de estar desconsolado, tendo um milhão de acres?

     O pregador sorriu e teve uma expressão perplexa. Remexendo a água, afastou com as mãos um insecto que flutuava na corrente.

     - Se ele precisa de um milhão de acres para se sentir rico, parece-me a mim que é porque se sente pobre lá por dentro e se ele se sente pobre por dentro, não é um milhão de acres que o vai fazer sentir-se rico e talvez se sinta desapontado por nada lhe dar a impressão de ser fico, como a senhora Wilson se sentiu quando cedeu a tenda onde o avô morreu. Eu não quero pregar sermões, mas nunca vi ninguém que tivesse passado a vida inteira a juntar, ajuntar, que, no fundo, se não sentisse desconsolado e desapontado. - Ele riu. - Isto até parece um sermão; parece, parece!

     O Sol flamejava agora com fúria. O pai continuou:

     - Acho melhor a gente meter-se o mais possível dentro de água. Este sol é capaz de nos derreter a alma. - Reclinou-se, deixando, satisfeito, que a corrente suave lhe afagasse o pescoço. - Mas, quando realmente se quer trabalhar, arranja-se trabalho, não é? - perguntou o pai.

     O homem alçou o busto e encarou-o:

     - Ora oiça, amigo: eu também não posso saber tudo. Talvez você chegue e encontre logo um serviço permanente, e então lá ia eu passar por mentiroso. Talvez não encontre nada, e, nesse caso, seria eu que o não avisara de nada. Só posso dizer-lhe o seguinte: a maioria das pessoas que lá estão passam mal como o diabo. - Anichou-se novamente na água. - Uma pessoa não é obrigada a saber tudo - repetiu.

     O pai virou a cabeça e olhou para o tio John.

     - Tu foste sempre um camarada pouco falador - disse o pai. - Mas o diabo me leve se tu já disseste mais do que duas palavras desde que saímos de casa! Que é que tu pensas de tudo isto, afinal?

     O tio John teve uma expressão sombria.

     - Não penso nada. Nós vamos para lá, não vamos? Não adianta dizer nada, porque vamos mesmo. Quando chegarmos, chegamos. Se a gente arranjar trabalhe,, trabalha, e, se o não arranjarmos, ficamos a catar as pulgas. Toda essa conversa não adianta nada.

     Tom deitou-se, encheu a boca de água, soprou-a para o ar e riu-se.

     - O tio John não falta muito, mas o que diz é uma verdade. Sim, senhor. Fala que nem um livro aberto. Vamos continuar esta noite, hein, pai?

     - Acho que sim, O melhor é acabar com isto de uma vez.

     - Bom, eu agora vou passar um bocadito pelas brasas ali no mato.

     Tom ergueu-se e foi a andar, a chapinhar na água, até à margem arenosa. Vestiu a, roupa sobre o corpo molhado e fez uma careta, pois que o sol lhe aquecera muito as roupas. Os outros seguiram-no.

     O outro homem e o filho ficaram a ver os Joads sumirem-se. Então o filho disse:

     - Só os queria ver daqui a seis meses. Deus do céu!

     O homem limpou os cantos dos olhos com o indicador.

     - Eu não lhes devia ter dito nada. Mas a gente tem sempre vontade de mostrar que é mais esperta do que os outros> e toca a avisar as pessoas!

     - Bem, pai, eles perguntaram, caramba!

     - Sim, eu sei. Mas o homem não disse que iam de qualquer maneira? Não adiantou nada contar a verdade. Assim foi pior, pois eles vão sentir-se infelizes ainda antes de lá chegarem.

    

     Tom caminhou por entre os salgueiros, arrastou-se para uma concavidade ensom-brada e deitou-se. E Noah foi atrás dele.

     - Vou dormir aqui - disse Tom.

     - Tom!

     - Que é?

     - Tom, eu já não quero ir com vocês.

     Tom sentou-se.

     - Que é que tu estás a dizer?

     - Tom, eu não deixo este rio. Vou descer por estas margens.

     - Tu estás maluco - disse Tom.

     - Vou arranjar linha e anzóis e vou-me pôr a pescar. Perto de um rio ninguém morre de fome.

     Tom perguntou:

     - E a família? E a mãe?

    - É superior às minhas forças; não posso deixar este rio. - Os grandes olhos de Noah estavam semicerrados.- Tu sabes o que é, Tom. Tu sabes que todos me tratam muito bem. Mas, na verdade, a família não se importa comigo.

     - Tu és doido!

     - Não, Tom. Eu sei como sou. Sei que eles vão ficar tristes. Mas... bem, eu não vou. Tu dizes à mãe, sim, Tom?

     - Ouve - começou Tom.

     - Não, não vale a pena. Estive deitado naquela água. E agora não a deixo. Vou descer o rio, Tom. Posso pescar e nadar. Não vou deixar o rio. Não posso! – Saiu da concavidade de sombra. - Tu dizes à mãe, Tom. - E afastou-se.

     Tom seguiu-o até à beira do rio.

     - Escuta, grandíssimo idiota...

     - Não vale a pena - disse Noah.- Custa-me fazer isto, mas tem de ser. Preciso de ir e acabou-se.

     Voltou-se abruptamente e foi-se por ali abaixo, ao longo da praia. Tom quis ainda segui-lo mas acabou por desistir. Viu-o desaparecer entre os arbustos e depois tornar a surgir, seguindo a margem do rio. O seu vulto foi diminuindo de tamanho pouco e pouco, até se sumir de vez entre os salgueiros. Tom tirou o boné e coçou a cabeça. Voltou para a sombra dos salgueiros e deitou-se para dormir.

    

     Sob o tecto de lona, a avó jazia num colchão, e a mãe estava sentada a seu lado. O ar quente sufocava, e, na sombra da lona, as moscas zuniam. A avó estava nua, coberta por um comprido cortinado cor-de-rosa. Movia incessantemente a cabeça enrugada de um lado para o outro; murmurava e estertorava. A mãe sentara-se no chão, ao lado dela, e, com o auxilio de um pedaço de cartão, mantinha as moscas afastadas e criava uma deslocação de ar quente sobre a velha face rígida. Rosa de Sharon encontrava-se sentada do outro lado e observava a mãe.

     A avó chamou imperiosamente:

     - Will! Will! Vem cá, Will! - Os seus olhos abriram-se num olhar que errou em volta com ferocidade. - Eu disse-lhe que viesse aqui - exclamou. - Mas eu ainda lhe deito a mão. Arranco-lhe os cabelos!

     Tornou a cerrar os olhos, rolou a cabeça para trás e para a frente, murmurando pastosamente. A mãe agitava o leque de cartão, na tarefa de afugentar as moscas.

     Rosa de Sharon olhou desanimada para a avó e disse baixinho:

     - Ela está muito doente.

     A mãe levantou os olhos para o rosto da rapariga. Os olhos da mãe mostravam-se pacientes mas juntavam-se-lhe rugas de preocupação na fronte. A mãe abanava sem cessar e enxotava as moscas com o leque de cartão.

     - Quando se é novo, Rosasharn, tudo o que acontece só interessa à pessoa a quem diz respeito, só a essa. Eu sei, Rosasharn, lembro-me bem disso. - Os seus lábios deleitavam-se em fazer soar o nome da filha. - Tu vais ter um bebé, Rosasharn, e é só isso o que te preocupa. Isso vai doer e só tu é que vais sentir as dores. E esta tenda é a única no mundo, Rosasharn.

     Ela fez um gesto largo com a mão, para afastar um moscardo impertinente e o insecto volumoso, enorme, zumbindo sempre, voou duas vezes dentro da tenda e saiu, perdendo-se no brilho ofuscante do sol.

     A mãe continuou:

     - Lá virá o tempo em que tu verás as coisas de outro modo, em que cada morte fará parte da morte geral e em que a gravidez de cada uma fará parte da gravidez geral. A morte e a gravidez, afinal, são as duas faces da mesma coisa. Então deixarás de ter coisas pessoais. Uma dor não te será, nessa altura, tão difícil de suportar. já não será uma dor pessoal, Rosasharn. Só queria poder explicar-te isto melhor, mas não posso.

     E a sua voz era tão branda, tão cheia de amor, que Rosa de Sharon sentiu as lágrimas brotarem-lhe dos olhos e inundarem-nos ao ponto de lhe perturbarem a visão.

     - Torna: vai abanando - disse a mãe, entregando à filha o pedaço de cartão. - É bom a gente abanar. Só queria poder explicar-te melhor o que eu penso.

     A avó, cujas sobrancelhas se contraíam sobre os olhos fechados, guinchou:

     - Will! Tu estás todo porco! Nunca foste asseado em toda a tua vida!

     Levantou os dedos curtos e enrugados e coçou a face, uma formiga vermelha correu ela coberta e trepou até às rugas flácidas da garganta da velha. A mãe apanhou-a rapidamente entre o polegar e o indicador; esmagou-a e limpou os dedos ao vestido.

     Rosa de Sharon abanava o cartão. Olhou para a mãe.

     - Ela...? - e a frase morreu-lhe na garganta.

     - Limpa os pés, Will, meu porco sujo! - gritou a avo.

     A mãe disse:

     - Não sei. Talvez, se a gente a pudesse levar para um sítio mais fresco... Mas não sei. Não te preocupes, Rosasharn. Precisas de calma.

     Uma mulher gorda, de vestido preto, todo rasgado, olhou para dentro da tenda. Tinha um olhar vago nós olhos remelosos; no pescoço, a pele pendia frouxa. Os lábios estavam apartados, de maneira que o lábio superior formava como que uma cortina de carne sobre os dentes, e o lábio inferior, devido ao peso, pendia solto, deixando à mostra as gengivas.

     - Bom dia, minha senhora - disse ela.- Bom dia, e Deus seja louvado!

     A mãe encarou-a.

     - Bom dia - respondeu.

     A mulher entrou na tenda e debruçou-se para a avó.

     - Disseram-me que há aqui uma alma prestes a ir para o céu. Louvado seja o Senhor!

     As feições da mãe tornaram-se duras e o seu olhar exprimiu desagrado.

     - Ela não tem nada; está é cansada - disse. - Cansaço da viagem e do calor. Com descanso daqui a pouco está boa outra vez.

     A mulher debruçou-se sobre as feições da avó e fungou, parecendo que a estava a cheirar. Depois, virou-se para a mãe e acenou com a cabeça: os lábios e a pele do pescoço tremiam-lhe.

     - É uma pobre e boa alma que vai ver a Nosso Senhor Jesus Cristo - disse ela.

     A mãe gritou:

     - Não! Não!...

     A mulher acenou de novo, desta vez mais vagarosamente, e pôs a mão balofa na testa da avó. A mãe fez um gesto, como que querendo afastar a mão da mulher, más desistiu a meio do caminho.

     - É assim mesmo, irmã - disse a mulher. - Há seis em estado de graça na nossa tenda. Vou buscá-los e a gente vai orar, Jeovitas, todos. São seis, comigo. Vou buscá-los.

     A mãe endireitou-se.

     - Não, não é preciso - disse. - Ela está muito cansada. Não aguenta.

     A mulher insistiu:

     - Não aguenta uma reza? Não aguenta o doce hálito de Nosso Senhor? Não diga isso, irmã!

     A mãe respondeu:

     - Não, aqui não. Ela está muito cansada.

     A mulher encarou a mãe com ar de censura.

     - A senhora não é crente, hein?

     - Nós sempre fomos crentes - disse a mãe.- Mas a avó está muito cansada; a gente viajou toda a noite. Não queremos incomodar ninguém.

     - Não é incómodo, e ainda que fosse, a gente fazia tudo da mesma maneira... por se tratar de uma alma para Nosso Senhor Jesus Cristo.

     A mãe levantou-se.

     - Muito obrigada - disse, com frieza.- Não queremos culto nenhum na tenda.

     A mulher olhou-a demoradamente.

     - Bom, mas a gente não vai deixar morrer uma irmã sem uma oração. Vamos celebrar o culto na nossa tenda. E perdoamos-lhe a dureza de coração.

     A mãe tornou a sentar-se no chão e virou o rosto para a avó; as suas, feições ainda estavam endurecidas.

     - Ela está muito cansada - disse. - Cansada, apenas. A avó mexia a cabeça para um e outro lado e murmurava coisas ininteligíveis.

     A mulher deixou a tenda, toda empertigada. A mãe continuava a olhar o rosto enrugado da velha.

     Rosa de Sharon recomeçou a agitar o cartão, provocando uma deslocação de ar quente. E disse:

     - Mãe!

     - Que é?

     - Porque é que não quis que eles viessem orar aqui?

     - Não sei - disse a mãe. - Os Jeovitas são boa gente. Dão grandes gritos e saltos. Mas não sei. Senti cá dentro uma coisa. Pensei que não podia aguentar. Ia-me abaixo, com certeza.

     De perto vinham os sons do culto, que começava com a melodia arrastada de uma exortação. Não se percebia a letra, mas apenas a melodia, que crescia e diminuía de intensidade, mas. subia de tom em cada ciclo, invariavelmente. Agora tinha parado, e uma voz isolada respondia ao cântico e a exortação subia, triunfal e poderosa. A melodia crescia e parava e, desta vez, a resposta veio num rugido. Agora, gradualmente, as frases da exortação encurtavam-se.; tornavam-se intimativas como vozes de contando; as respostas soavam como queixumes, O ritmo tornou-se mais acelerado. Vozes masculinas e femininas fundiram-se num tom único, mas, depois, no meio de uma resposta, ergueu-se uma voz feminina cada vez mais plangente; feroz, como o grito de um animal ferido; uma voz feminina mais profunda seguiu-a uma voz como um latido - e ouviu-se uma voz masculina como o uivar de um lobo. A exortação parou finalmente; apenas se ouviam os queixumes animalescos, de mistura com o bater dos pés no chão. A mãe tremia. Rosa de Sharon respirava com dificuldade e rapidez e o coro uivante prolongou-se até a um ponto em que parecia que os pulmões iam rebentar.

     A mãe disse:

     - Isto põe-me como doida. Não sei o que tenho.

     A voz uivante degenerara agora em gritos histéricos, gritos regougados de hiena, e o bater de pés cresceu de intensidade. Vozes esganiçavam-se e paravam; então o coro inteiro caiu num soluçar estertorante a meia voz, e ouviu-se o barulho de pés, e de mãos batendo nas coxas; e os estertores tornavam-se ganidos, parecidos com os dos cachorrinhos que lutam para alcançar um prato de comida.

     Rosa de Sharon chorava baixinho, cheia de nervos. A avó sacudiu a coberta, descobrindo as pernas semelhantes a varas nodosas e cor de cinza. Gemia, com gemidos que vinham de longe. A mãe repôs a coberta no seu lugar. Então a avó suspirou .,Profundamente; a respiração tornou-se firme e fácil e as suas pálpebras descidas não mais se contraíram. Mergulhara num sono profundo e ressonava com a boca entreaberta. Os gemidos e uivos, ao longe, tornavam-se mais e mais brandos, até que se desvaneceram por completo.

     Rosa de Sharon voltou-se para a mãe, com os olhos inundados de lágrimas.

     - Fez-lhe bem - disse Rosa de Sharon.- Fez-lhe bem. A avó está a dormir.

     A mãe tinha a cabeça baixa; sentia-se envergonhada.

     - Acho que fui injusta para com aquela gente. A avó adormeceu.

     - Porque é que não pergunta ao nosso pregador se a senhora cometeu algum pecado? - perguntou a rapariga.

     - Vou perguntar, sim... mas ele é um homem esquisito. Talvez tivesse sido por causa dele que eu pedi aos Jeovitas que não rezassem aqui na nossa tenda. Esse pregador... ele acha que tudo o que os homens fazem é bem feito. - Olhou para as mãos e disse: - Rosasharn, precisamos de dormir um bocado. Se quisermos viajar esta noite, temos de descansar um pouco.

     E estirou-se na terra, ao lado do colchão. Rosa de Sharon perguntou:

     - E quem é que abana a avó?

     - Ela está a dormir; não precisa. Deita-te um pouco e descansa.

     - Só queria saber por onde andará o Connie - disse a rapariga. - Há tanto tempo que o não vejo!

     A mãe intimou:

     - Chiu! Dorme!

     - Mãe, o Connie quer estudar de noite para ser alguém na vida.

     - Sim, sim, já me disseste isso. Agora dorme.

     A rapariga deitou-se a um lado do colchão da avó.

     - O Connie tem um novo plano. Está sempre a dar tratos à imaginação. Quando acabar de estudar electricidade, já sei que vai montar uma loja sua. Imagine a mãe o que vamos ter?

     - O quê?

     - Gelo... gelo à farta. Vou ter uma geladeira. Cheia de coisas. As coisas não se estragam quando estão na geladeira.

     - O Connie anda sempre a pensar nessas coisas - disse a mãe com um risinho.- Mas agora, trata de dormir.

     Rosa de Sharon cerrou os olhos. A mãe deitou-se de costas e cruzou as mãos sob a cabeça. Prestou atenção à respiração da avó e à respiração da filha. Tirou uma das mãos de sob a cabeça, para afastar uma mosca que lhe poisara na testa. No calor ardente, o acampamento mantinha-se em silêncio e os ruídos na relva quente, o canto dos grilos e o zunzum das moscas eram ruídos que caíam bem no silêncio. A mãe suspirou profundamente e fechou os olhos. Meio adormecida, ouviu passos que se aproximavam, mas só acordou quando ouviu uma voz masculina:

     - Quem está aí?

     A mãe sentou-se rapidamente. Um homem de rosto moreno surgiu à porta da tenda e olhou para dentro. Calçava botas, calça de caqui e camisa com dragonas, do mesmo material. Do cinto de couro, largo, pendia a bolsa de um revólver e ostentav4 uma grande estrela de prata no lado esquerdo do peito. Trazia um boné militar deitado para trás. Tamborilava com os dedos no pano da tenda e a lona ondeava e vibrava como um tambor.

     - Quem está aí dentro? - tornou a perguntar.

     - Que é que o senhor deseja? - inquiriu a mãe.

     - Que é que a senhora pensa que eu posso desejar? Quero saber quem está aí dentro.

     - Ora! Só nós as três. Eu, minha filha e a avó.

     - E onde estão os homens?

     - Foram lavar-se aí no rio. Viemos de viagem a noite toda.

     - De onde vêm?

     - De perto de Sallisaw. Estado do Oklahoma.

     - Bem, não podem ficar aqui.

     - Nós queremos sair de noite, para atravessar o deserto.

     - É o melhor que têm a fazer. Se amanhã de manhã ainda aqui estiverem, irão todos para a cadeia, ouviu? Não os queremos aqui.

     A mãe fez-se vermelha, de raiva. Devagar, pôs-se de pé e agarrou numa frigideira de ferro.

     - Escute! - disse ela.- O senhor tem uma estrela no peito e um revólver, mas isso não me aquece nem me arrefece. Lá de onde eu venho, as pessoas assim costumam falar delicadamente, ouviu?- Avançou, empunhando a frigideira. Ele afrouxou a arma no coldre. - Saia! - gritou a mãe. - Sim, senhor; a assustar mulheres! Ainda bem que os homens não estão aqui. Faziam-no em postas. Na minha terra, a gente como você tem muito cuidado com a língua!

     O homem deu dois passos para trás.

     - Mas agora você não está na sua terra, percebe? Está na Califórnia, e nós não queremos aqui esses Okies danados como você!

     A mãe parou hirta:

     - Okies? - disse ela, baixinho.

     - Okies?

     - Sim, Okies! E, se vocês amanhã ainda aqui estiverem, vai tudo ara o chelindró.

     Virou as costas, saiu, dirigiu-se para a tenda próxima e bateu na lona cora a mão aberta.

     - Quem está aí dentro? - perguntou.

     A mãe voltou vagarosamente para a tenda. Colocou a frigideira no caixote. Sentou-se de novo, com lentidão. Rosa de Sharon observava-a disfarçadamente. Mas, quando lhe viu as feições alteradas, cerrou os olhos, fingindo que dormia.

    

     O Sol já se tinha aproximado bastante do horizonte, mas o calor não diminuíra. Tom acordou do seu sono à sombra dos salgueiros e sentiu a boca ressequida, o corpo molhado de suor e a cabeça pesada. Levantou-se cambaleante e foi assim até ao rio. Tirou a roupa e meteu-se na água. Mal sentiu esta banhar-lhe o corpo, passou-lhe a sede. Deitou-se de costas num ponto profundo, deixando o corpo flutuar. Mantinha-se em equilíbrio, fincando os cotovelos na areia e ficou-se a olhar os dedos dos pés, que vinham surgindo à superfície.

     Um menino magro, pálido, surgiu, arrastando-se como um bichinho através do juncal e tirou as roupas. O menino mergulhou no rio como um rato almiscarado e como um rato almiscarado ia progredindo na água, só com os olhos e o nariz à superfície. Depois, de repente, viu a cabeça de Tom e notou que este o observava. Parou com a brincadeira, sentando-se na água.

     Tom disse:

     - Olá!

     - Olá!

     - Estavas a imitar o rato almiscarado, hein?

     - Pois estava...

     O menino foi recuando aos poucos para a margem, como quem não quer a coisa; de repente, saltou para fora de água, apanhou as roupas a correr e sumiu-se entre os salgueiros.

     Tom riu de manso. Depois, ouviu chamar pelo seu nome em altos gritos:

     - Tom, ó Tooom! - Sentou-se na água e soltou um assobio por entre os dentes, que terminou num silvo trilado. Os salgueiros agitaram-se e eis Ruthie olhando para o irmão.

     - A mãe chama-te - disse ela.- Para tu vires depressa.

     - Sim, já vou.

     Ele ergueu-se e foi chapinhando na água até à margem. Ruthie observava com espanto e interesse o corpo nu do irmão.

     Tom, dando-se conta da direcção dos olhos dela, ordenou:

     - Vai-te embora, anda!

     E Ruthie foi-se embora a correr. Tom ouviu-a chamar excitadamente por Winfield, enquanto se afastava. Vestiu a roupa quente no corpo refrescado e foi andando através dos salgueiros em direcção à tenda.

     A mãe tinha feito uma fogueira com ramos secos de salgueiro e posto a água a ferver. Mostrou-se visivelmente aliviada ao vê-lo.

     - Que é que há, mãe? - perguntou Tom.

     - Nada, estava com medo - respondeu. - Veio aí um polícia e disse que a gente não podia ficar neste sítio. Eu estava com medo que também tivesse falado contigo e que tu lhe tivesses batido.

     Tom observou:

     - E por que razão havia eu de bater no polícia?

     A mãe sorriu:

     - Bem... ele era um bruto... Até eu tive vontade de lhe ir à cara.

     Tom pegou nos braços dela e sacudiu-a vivamente, a rir. Depois, rindo ainda, sentou-se satisfeito no chão.

     - Santo Deus, mãe! Sempre a conheci de génio brando. Que bicho lhe mordeu?

     Ela olhou-o com seriedade.

     - Não sei, Tom.

     - Primeiro, a senhora quis quebrar a cabeça ao pai; agora quer avançar contra um polícia. Que foi que houve? - Ele riu com brandura, estendeu as mãos e acariciou carinhosamente os pés nus da mãe.- Gata velha - ciciou.

     - Tom!

     - Que é?

     Ela hesitou um bocado.

     - Tom, esse polícia... ele chamou-nos Okies. Disse assim: “Nós não queremos aqui esses Okies danados como você!”

     Tom encarou-a, pensativo e com a mão ainda carinhosamente nos pés nus da mãe.

     - Houve um tipo que já me falou nisso. Eles parece que dizem isso para ofender. - Calou-se por um instante e depois prosseguiu: - Mãe, acha que eu sou mau? Acha que eu devia estar na cadeia, hein?

     - Não - disse ela. - Foste julgado... já pagaste. Não. Mas, porque me perguntas isso?

     - Sei lá! Parece-me que era capaz de quebrar a cara a esse polícia.

     A mãe sorriu, satisfeita.

     - Então também eu devia perguntar-te isso a ti, porque também eu tive vontade de lhe partir a cara com uma frigideira.

     - Mãe, porque é que ele diria que a gente não pode ficar aqui?

     - Disse que não quer nenhum desses danados Okies aqui estabelecidos. Acrescentou que vai pôr a gente na cadeia se amanhã de manhã ainda aqui estivermos.

     - Mas nós não estamos habituados a ser maltratados pelos polícias.

     - Foi o que lhe declarei - disse a mãe. - Ele respondeu-me que a gente não está na nossa casa. Que estamos na Califórnia e que eles aqui fazem o que querem.

     Tom informou a medo:

     - Mãe, preciso de lhe contar uma coisa. O Noah... foi-se embora rio abaixo. Disse que não queria ir com a gente.

     A mãe não compreendeu logo.

     - Porquê? - perguntou ela por fim, baixinho.

     - Não sei. Ele disse-me que tinha de ser. Que não podia sair deste rio. Pediu-me para lhe dizer.

     - E que é que ele vai comer? - perguntou ela.

     - Não sei. Ele disse que ia pescar.

     A mãe ficou calada durante longo tempo.

     - A família está a desfazer-se, aos poucos. Não sei. já nem posso pensar. Não posso pensar mais nada. É demais!

     Tom, para a tranquilizar, disse sem convicção:

     - Não lhe há-de acontecer nada, mãe. E um tipo bem apanhado, ele!

     A mãe voltou os olhos aturdidos para o rio.

     - Não posso pensar mais coisa nenhuma. Tom olhou para a fileira de tendas e viu Ruthie e Winfield diante de uma tenda, em conversa cerimoniosa com alguém que devia estar lá dentro. Ruthie torcia a saia com as mãos, enquanto Winfield fazia um buraco no chão com o dedo do pé.

      Tom chamou:

     - Ruthie, vem cá!

     Ela, olhou para cima, enxergou-o e veio a correr, e Winfield também veio correndo atrás dela.

     Quando a menina chegou Tom disse:

     - Vai buscar o pessoal, Ruthie. Eles estão todos a dormir debaixo dos salgueiros. Vá buscá-los. E tu, Winfield, diz aos Wilsons para se prepararem, que a gente vai-se embora daqui já, já.

     As crianças partiram a correr. Tom inquiriu:

     - Mãe, e a avó? Ela já está melhor?

     - Bem, ao menos hoje dormiu. Pode ser que esteja melhor. Ainda está a dormir.

     - Isso é bom, Que carne temos ainda?

     - Não muita, não. Um quarto de porco, talvez.

     - Bom, então precisámos de encher o outro barril de, água. Convém a gente levar bastante água.

     Ouviram os gritos agudos de Ruthie, chamando os homens entre os salgueiros.

     A mãe pôs ramos de salgueiro na fogueira, que se alteou, lambendo a panela enegrecida. E disse:

     - Só peço a Deus para nos dar descanso. Peço a Jesus que nos permita estabelecer-nos num bom sítio.

     O Sol cala por detrás das colinas dentadas, quebradas no ocidente. O conteúdo da panela fervia penosamente sobre a fogueira. A mãe entrou na tenda; voltou com o avental cheio de batatas e lançou-as na água a ferver.

     - Peço a Deus que me permita lavar um pouco de roupa. Nunca andámos tão sujos como agora. Nem as batatas podemos lavar antes de as cozinharmos. E porquê? Até parece que todos nós perdemos a coragem.

     Os homens vieram em bando, com os olhos cheios de sono, e os rostos vermelhos e inchados, daquele sono feito de dia.

     O pai perguntou:

     - Que foi que houve?

     - Vamo-nos embora - disse Tom. - O polícia disse para a gente sair daqui. Mais vale acabar depressa a viagem. Quanto mais cedo sairmos, mais cedo chegaremos. Só faltam umas trezentas milhas.

     O pai respondeu:

     - Eu pensei, que a gente ia descansar um pouco.

     - Pois era, mas não pode ser. A gente tem que se ir já, pai - disse Tom.- O Noah não vem. Ele foi-se embora rio abaixo.

     - Não vem? Que diabo tem ele? - E depois parou bruscamente.- A culpa é minha - comentou abatido. Aquele rapaz... É culpa minha...

     - Não!

     - Não quero falar nisso - disse o pai.- Não posso; a culpa é minha.

     - Bem, temos de ir de qualquer maneira.

     Wilson aproximou-se, ao ouvir as últimas palavras:

     - Nós não podemos ir, amigos. A Sairy, coitada, não pode mais; ela está esgotada. Precisa de descansar. Se tiver de atravessar o deserto neste estado, morre,

     Todos se calaram ao ouvir isto. Depois Tom informou:

     - Esteve aqui um polícia e disse que nos põe na cadeia se ainda aqui estivermos amanhã.

     Wilson abanou a cabeça. Os seus olhos estavam vidrados de preocupação, e o seu rosto empalideceu sob a tez queimada do sol.

     - Então, se tivermos de ir para a cadeia, vamos para a cadeia, pronto! A Sairy não pode viajar assim. Ela tem de descansar para ganhar forças.

     O pai opinou:

     - E melhor ficarmos todos e esperarmos.

     - Não - disse Wilson. Vocês têm sido muito bons para connosco; não posso permitir que fiquem. Vocês têm de continuar a viagem e de tratar de arranjar trabalho. Não posso permitir que fiquem.

     O pai disse, todo excitado:

     - Mas vocês já não têm nada!

     Wilson sorriu:

     - Quando vocês nos encontraram, também já não tínhamos nada. Vocês é que não devem incomodar-se com isso. Continuem a viagem, senão, eu torno-me ordinário e brigo com vocês.

     A mãe arrastou o pai até ao interior da tenda e falou com ele em voz baixa.

     Wilson voltou-se para Casy:

     - A Sairy pede para o senhor a ir ver.

     - Pois não! - disse o pregador.

     Foi até à pequena tenda cor de cinza que pertencia aos Wilsons, afastou os lados e entrou. Havia obscuridade e calor lá dentro. O colchão estava estendido no solo, e, em volta dele, viam-se espalhadas as coisas do casal, tal como haviam sido descarregadas de manhã. Sairy estava deitada no colchão com os olhos muito abertos e brilhantes. Casy parou e baixou os olhos para ela, com a grande cabeça curvada e os músculos encordoados do pescoço avultando aos lados. Tirou o chapéu que segurou na mão.

     Ela começou:

     - Meu marido já disse que a gente não podia continuar a viagem?

     - Já sim, senhora.

     - Eu queria que fôssemos também. Sabia que não ia viver o suficiente para chegar até onde pretendíamos, mas que ele, ao menos, chegasse. Mas ele não quer. Ele não sabe; pensa que eu me ponho boa. E que ele não sabe.

     - Ele disse que não quer ir.

     - Sim, ele é teimoso. Pedi-lhe que viesse aqui para o senhor rezar por mim.

     - Mas eu já não sou pregador - volveu ele em voz baixa. - As minhas rezas não adiantam nada.

     Ela humedeceu os lábios.

     - Eu vi o senhor fazer uma prece quando o avô morreu.

     - Mas isso não era uma prece.

     - Era, sim. Eu ouvi - disse ela.

     - Pelo menos, não era reza de pregador.

     - Mas foi uma bonita prece. Queria que o senhor dissesse uma assim por mim.

     - Não sei o que hei-de dizer.

     Ela cerrou os olhos por um instante e logo tornou a abri-los.

     - Então diga-a para si mesmo. Não é preciso dizê-la em voz alta. Assim mesmo serve.

     - Eu já não tenho Deus.

     - Tem, sim, eu sei que tem. Não importa o senhor saber ou não o que Ele é, mas tem.

     O pregador curvou a cabeça. A mulher olhou-o com apreensão. E, quando ele tornou a erguer a cabeça, ela parecia aliviada.

     - Assim foi bom - disse ela. - Era o que eu precisava. Alguém perto de mim, para rezar.

     Ele sacudiu a cabeça, como se quisesse acordar de um sonho.

     - Não compreendo... não entendo isto - disse.

     E ela contradisse:

     - Sim, o senhor sabe. Não é verdade?

     - Sei, eu sei, mas não entendo - disse ele. - Eu... bem, daqui a uns dias a senhora com certeza que estará boa e poderá continuar a viagem.

     Ela moveu a cabeça vagarosamente.

     - Não passo de um molho de sofrimentos, coberto de pele. Sei o que é, mas não quero dizer ao meu marido. Ele ia ficar muito triste. De qualquer maneira ficava sem saber o que fazer. Talvez de noite, quando ele estiver a dormir... quando acordar, talvez não lhe custe tanto.

     - A senhora quer que eu fique aqui?

     - Não - disse ela. - Não. Quando eu era criança, gostava muito de cantar. O povo dizia que eu cantava tão bem como Jenny Lind. E toda a gente vinha ouvir-me cantar. Quando me ouviam, ficavam junto de mim e eu sentia-me mais próxima deles do que nunca. E sentia-me muito grata. Não acontece muitas vezes ser-se assim tão feliz, sentir os outros tão próximos de nós... como naquele tempo cm que eles ficavam a ouvir-me cantar. Pensava até em vir um dia a cantar num palco, mas nunca o fiz. Assim nada se meteu entre mim e eles. Por isso, pedi para o senhor vir aqui rezar por mim. Queria sentir mais uma vez que tinha alguém perto de mim. Cantar ou rezar é a mesma coisa. Mas gostaria que o senhor me tivesse ouvido cantar.

     Ele fitou-a bem nos olhos.

     - Bom, até logo - disse.

     Ela sacudiu novamente a cabeça devagar, apertando os lábios.

     O pregador deixou a tenda onde reinava a escuridão, para entrar de novo na luz ofuscante.

     Os homens carregavam o caminhão. O tio John encontrava-se dentro do carro e os outros passavam-lhe as coisas. Agarrava-as com cuidado, prestando atenção a que a superfície do carregamento ficasse ao mesmo nível. A mãe pôs o resto da carne de porco num panelão; Tom e Al levaram as barricas ao rio e lavaram-nas bem. Amarraram-nas depois aos estribos, trouxeram água nos baldes e encheram-nas. Depois, cobriram-nas com um pano de lona para que a água não se entornasse. Só faltava carregar a tenda e o colchão da avó.

     - Com toda esta carga que a gente leva, este calhambeque vai ferver como o diabo. E bom a gente levar bastante água - disse Tom.

     A mãe tirou as batatas da panela, trouxe o saco meio vazio da tenda. A família comeu em pé, passando as batatas de uma mão para a outra, até esfriarem.

     A mãe foi depois à tenda dos Wilsons; demorou-se lá uns dez minutos e voltou silenciosa.

     - É tempo de a gente ir andando - disse ela.

     Os homens entraram na tenda dos Joads; a avó dormia ainda de boca aberta. Agarraram nela com o colchão e tudo, e depuseram-na devagarinho dentro do carro, em cima da carga. A avó encolheu as pernas, fez uma careta mas não acordou,

     O tio John e o pai estenderam a lona sobre os taipais do camião, de maneira a formar uma barraca. As pontas ficaram amarradas às bordas do veículo. Estava tudo pronto. O pai tirou a bolsa do dinheiro e puxou de duas notas amarrotadas. Dirigiu-se a Wilson e estendeu-lhas.

     - A gente gostava que o senhor ficasse com isto e... - apontou para as batatas e para a carne de porco - com isto também.

     Wilson sacudiu energicamente a cabeça.

     - Não, senhor, não quero nada disso. Vocês não têm o suficiente nem para vocês.

     - O que temos dá até chegarmos - disse o pai. O que deixamos não faz falta. Depois, havemos de arranjar trabalho.

     - Não, senhor - teimou Wilson. - Fico aborrecido se vocês não levarem isso.

     A mãe tirou as duas notas das mãos do pai. Alisou-as bem, colocou-as no chão e pôs-lhe em cima o panelão com a carne de porco.

     - Fica aqui - disse ela. - Se o senhor não quiser, outro qualquer se aproveitará.

     Wilson baixou a cabeça, voltou-se, foi para a sua tenda e a lona fechou-se atrás de si.

     Por alguns instantes, a família esperou.

     - Bem, vamos indo - disse Tom. - Ia a apostar que são quase quatro horas.

     A família subiu para o caminhão; a mãe ficou no alto da carga, ao lado da avó; Tom, Al e o pai no assento, e Winfield, ao colo do pai. Connie e Rosa de Sharon fizeram um ninho de encontro à cabina do motorista. O pregador, o tio John e Ruthie iam em montão sobre a carga.

     O pai gritou:

     - Adeus, sr. Wilson; adeus, senhora Wilson! Da tenda, não veio resposta alguma. Tom pôs o motor a funcionar, e o caminhão arrancou. Quando já galgavam a estrada grosseira que conduzia a Needles e à estrada principal, a mãe olhou para trás. Wilson estava parado em frente da sua tenda, acompanhando-os com os olhos. O sol projectava-se-lhe em cheio no rosto. A mãe agitou a mão para o cumprimentar, mas ele não correspondeu ao gesto.

     Tom atravessou a pequena estrada em segunda velocidade, para proteger as molas. Em Needles, parou diante de um posto de serviço, mandou experimentar a pressão de ar dos pneus e encher o tanque de gasolina. Comprou duas latas de gasolina, de cinco galões cada uma, e uma lata de óleo de dois galões. Encheu o radiador, pediu um mapa emprestado e estudou-o.

     O empregado do posto de serviço, de uniforme branco, parecia estar inquieto enquanto lhe não pagaram a conta.

     - Vocês têm coragem - observou ele depois.

     Tom ergueu os olhos de cima do mapa.

     - Porque é que você diz isso? - perguntou.

     - Ora, fazer a travessia num calhambeque destes!

     - Você já fez esta travessia?

     - Já, muitas vezes. Mas não num calhambeque assim.

     - Quer dizer que se se quebrar uma peça qualquer, ninguém nos poderá livrar de uma encrenca?

     - Bem, é possível que sim. Mas, geralmente, todos têm medo de parar de noite. Eu, por exemplo, detesto fazê-lo. É preciso muita coragem para o fazer.

     Tom riu.

     - Não é preciso muita coragem quando se não pode fazer outra coisa. Bom, muito obrigado. Nós vamos indo.

     Subiu para o camião e pô-lo a rodar.

     O empregado de branco entrou na barraca de chapa de ferro, onde o seu ajudante trabalhava num livro-caixa.

     - Livra! Nunca vi um camião tão cheio de cangalhada!

     - Qual? O calhambeque desses Okies? Todos eles são assim...

     - Deus do céu! Eu é que não viajava de semelhante maneira.

     - Bem, é que a gente não é trouxa. Mas esses Okies danados andam completamente malucos, já não têm sentimentos; não são humanos. Um homem não pode viver assim. Nenhum ser humano poderia suportar ver-se assim sujo e miserável. Valem pouco mais do que um gorila.

     - De qualquer modo, ainda bem que eu não sou forçado a atravessar o deserto num Hudson Super-Six. Esses carros fazem barulho que nem uma metralhadora.

     O outro debruçou-se de novo sobre o livro-caixa. Uma grossa baga de suor caiu-lhe no dedo, parando sobre o maço de facturas cor-de-rosa.

     - Sabe, eles não se incomodam muito com isso. São tão estúpidos que nem notam o perigo. Eles não vêem um palmo adiante do nariz, santo Deus!, Para que é que você se incomoda tanto com eles?

     - Eu não me incomodo. Só disse que eu é que não fazia semelhante coisa.

     - É natural. Você sabe o que significa uma viagem dessas. Mas eles não sabem.- E limpou com a manga o suor que caíra na factura cor-de-rosa.

    

     O camião alcançou a estrada principal e agora rodava para o alto das colinas através de fileiras de rochedos quebrados e apodrecidos. O motor não tardou a aquecer e Tom diminuiu a marcha para o não fatigar em excesso. A estrada subia sempre, serpeando, toda torcida, por terras mortas, calcinadas, brancas e cinzentas, sem o menor vestígio de vida. Tom parou por alguns minutos, para esfriar um pouco o motor; depois, prosseguiu. Chegaram ao alto da ladeira quando o Sol ainda ia alto; olharam o deserto a seus pés montes de cinza enegrecida ao longe, e o sol dourado, reflectindo-se no areal cinzento. Alguns arbustos ressequidos, salva e sempre-vivas, lançavam sombras vigorosas sobre a areia nos bordos da rocha. Tinham o sol pela frente, e Tom fez pala com a mão para poder enxergar. Passaram o cume, e, na descida, pararam o motor para ele esfriar. Desceram, rápidos, pelo declive e alcançaram a planura do deserto. O ventilador girava e esfriava a água no radiador. No assento dianteiro, Tom, Al e o pai, com Winfield nos joelhos, olhavam o Sol que descia no horizonte; os seus olhos mantinham-se fixos e as suas faces, tostadas, cobriam-se de suor. A terra ardente e os montes de cinza enegrecidos cortavam a uniformidade da paisagem, dando-lhe um aspecto terrível, à luz do poente.

     Al exclamou:

     - Meu Deus, que sítio! Que me dizem a passar por aqui a pé?

     - Ora, já houve muita gente que o fez - disse Tom. - Muita gente. E, se eles o fizeram, também nós o poderíamos fazer.

     - Pois sim, mas ia jurar que muitos terão esticado o pernil - respondeu Al.

     - Bem, nós também ainda não chegámos ao fim.

     Al permaneceu calado uns instantes, e o deserto vermelho deslizava ao lado do camião.

     - Tu achas que a gente ainda torna a ver os Wilsons, hein? - perguntou Al.

     Tom deitou um olhar ao nível do óleo.

     - Tenho um pressentimento em como ninguém verá a senhora Wilson por muito tempo. É a impressão que tenho.

     - Pai, eu quero ir lá fora - disse Winfield.

     Tom olhou-o.

     - Acho que todos devíamos fazer isso antes do cair da noite. - Diminuiu a marcha e fez parar o veículo.

     Winfield saltou e urinou à beira da estrada. Tom debruçou-se para fora do assento.

     - Alguém mais?

     - A gente aguenta - disse o tio John.

     O pai determinou:

     - Winfield, tu agora passas lá para trás. Tenho as pernas dormentes de te levar nos joelhos.

     O menino abotoou o macaco e trepou obediente, para cima da carga e, arrastando-se por cima do colchão onde ia a avó, foi encolher-se ao lado de Ruthie.

     O camião tornou a rodar a caminho da noite. O Sol tocou aquele horizonte selvagem e tingiu o deserto de vermelho.

     - Eles não te quiseram lá em baixo