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Capítulo 15
ATÉ A CHEGADA DO PÔR DO SOL do dia seguinte, Peyton já decidira que não gostava de nenhum deles.
Veja bem, não que ele se considerasse superior aos outros cinco trainees. É só que havia algo de estranho em cada um deles.
Axe, um forasteiro com estilo punk/gótico que passava aquela impressão “sim, entendemos que você é um cara durão”? Óbvio. O desgraçado estava a apenas uma faca
de cozinha de distância de ser um assassino em série. Boone, o Adônis musculoso? Tá bom, já entendemos que você consegue andar sobre as mãos e virar o quadril como
se ele estivesse atado ao pescoço com uma corda – mas quem se importa com isso? Você está aqui para lutar, não para vestir um tutu e tentar a sorte no Cirque du
Soleil. Anslam? Nada além de mais um perdedor dentro da glymera, que sequer pertencia a uma das Famílias Fundadoras. Irrelevante, e era uma surpresa que tivesse
chegado tão longe.
Aquele de quem mais desgostava, porém, era o tal de Craeg, embora isso se devesse mais por todos, inclusive Paradise, o tratarem como se ele fosse o líder ungido
do grupo.
Não que ele, Peyton, estivesse atrás dessa posição, mas, ora essa… Ninguém fazia a mínima ideia ainda sobre onde estavam se metendo. Não havia motivo algum para
ficarem cantando vitória assim tão cedo. E não era só isso que o incomodava no cara. Havia algo mais naquele macho, algo que ele não conseguia determinar exatamente.
Um instinto seu, talvez? Uma sensação de ameaça?
Ele não sabia, mas pode crer que descobriria.
E, por fim, havia aquela fêmea, Novo.
Esticado em sua poltrona na sala de descanso, Peyton maliciosamente relanceava os olhos na direção dela como quem não quer nada. Ela estava deitada no sofá à esquerda,
as pernas muito longas cruzadas na altura dos tornozelos, as mãos entrelaçadas sobre a barriga como se estivesse morta. O cabelo era muito escuro, bastante liso
e preso numa trança firme como uma corda. A pele era dourada como o mel, e ele nunca, em toda a sua vida, se deparara com uma fêmea tão musculosa.
Passara boa parte do dia tentando evitar ser flagrado medindo-lhe os seios, principalmente porque não tinha muita certeza se ela lhe cortaria as bolas caso notasse.
Esfregando os olhos, desejou tanto ter maconha para fumar que até chegava a tremer.
Talvez Paradise tivesse razão quanto ao abuso de drogas.
Mas, considerando-se tudo, a noite fora longa pra cacete, e o dia, estranho pra caralho. Depois que se certificara de que Paradise havia despertado e comera, o
restante deles – exceto Craeg, O Grande Senhor das Presas, que era melhor do que todos os outros – perambularam pelas instalações, encontraram um doggen e pediram
mais comida. Quando retornaram, depararam-se novamente com Paradise no quarto dos beliches dormindo, e Craeg sentado numa poltrona com os olhos fechados.
Provavelmente contemplando sua superioridade em relação a todos os outros.
Àquela altura, sem trocar muitas conversas entre si, cada um deles escolhera um lugar no cômodo de paredes nuas e recolhera-se sem conseguir dormir muito, nem muito
bem. Por mais que detestasse admitir a fraqueza, ainda se sobressaltava ao mínimo barulho estranho, a glândula adrenal hiperalerta, mesmo depois que a enfermeira
que o examinou ter lhe dito que o teste terminara e que nada mais de natureza elétrica ou ameaçadora lhes aconteceria…
De repente, Paradise enfiou a cabeça para fora do quarto, como se, talvez, esperasse ter sido deixada para trás.
Quando Peyton abriu a boca para dizer seu nome, captou o olhar de Craeg deslocando-se para ela… dando uma típica secada de cima a baixo que os machos fazem quando
são uns tremendos filhos da puta.
Pelo amor de Deus, aquilo era o que ele fazia!
Mas antes que conseguisse latir para que o cara recuasse, a porta que dava para o corredor externo foi escancarada, e dois machos imensos entraram como se fossem
donos do lugar.
Irmãos.
Pense em algo entrando em estado de alerta imediato. Todos os seis trainees se levantaram de onde quer que estivessem sentados como se alguém os tivesse chutado
na bunda. Próxima à porta do quarto, Paradise se endireitou e fechou ainda mais as lapelas do roupão.
O Irmão à esquerda estava vestido com jeans e camiseta preta, e bem possivelmente era o ser vivo mais largo que Peyton já vira, tirando um elefante. Também era
tão belo que era necessário se perguntar por que a Virgem Escriba despejara tanta gostosura num só cara, em vez de distribuí-la igualmente entre milhares.
E, ao seu lado, havia um macho um pouco mais baixo com o porte de um buldogue, tomando café e usando um agasalho dos Red Sox.
– A miss aqui ao meu lado é o Rhage – o cara de agasalho disse. – Sou o Butch. E nós já sabemos quem diabos vocês são. São seis horas da tarde agora. Terão uma
hora para o banho, vestir o uniforme que lhes será trazido para cá e comer. Depois disso, queremos que estejam perfilados no corredor. Quem chegar atrasado está
fora do programa.
Butch?, Peyton ficou se perguntando… O nome do Irmão era Butch?
Como alguém do mundo dos humanos…?
Espere um instante.
– Você é o Dhestroyer. – Peyton ouviu-se dizer. – Puta merda, eu sei quem você é. Está vinculado a Marissa, a irmã de sangue do…
– Alguma pergunta? – Butch falou acima dele. – Bom. Não achei mesmo que houvesse. Uma hora. É só o que vocês têm.
Com esse encerramento, o macho se virou e saiu.
O Irmão Rhage lhes deu um sorriso.
– Experimentem o lombo. É bom pra cacete. E o cordeiro também. Ah, e o purê de batatas. Esqueçam a salada. Desperdício de mastigadas. Até mais.
Pelo menos ele não parecia querer matá-los, Peyton pensou quando a porta se fechou uma vez mais.
– Como será esse uniforme? – Paradise disse.
– Isto aqui não é um desfile de moda – Craeg ralhou.
Peyton arreganhou as presas para o cara.
– Quer arranjar problema, idiota? Porque eu posso te arranjar.
A cabeça de Craeg se virou para ele.
– Eu não estava falando com você.
Peyton não se deu conta de que seus pés se mexeram, mas antes de perceber, estava com o nariz pregado ao do filho da puta.
– Vamos deixar uma coisa bem clara. Você não olha para ela. Você não fala com ela. E de jeito nenhum vai desrespeitá-la. Estamos entendidos?
Os olhos do macho se desviaram para Paradise.
– Acho que o seu garoto é um pouco territorialista. Importa-se de puxar as rédeas dele antes que ele se machuque?
Eeeeeeeeeee foi assim que tudo começou.
Peyton não tinha nenhum pensamento consciente de ter partido para cima do filho da puta, mas, assim que se deu conta, estava colado no macho como uma camada de
tinta, os punhos socando, os braços agarrando, as pernas chutando.
Nunca antes se envolvera numa luta, mas, por algum motivo, seu corpo parecia saber o que fazer, não que ele próprio também não estivesse tomando uma boa sova. Craeg
era mais alto e mais pesado, e seu alcance era como o de Stretch Armstrong,* aqueles socos vindo de todas as direções, atingindo-o no rosto, no abdômen, no peito.
Pessoas gritavam ao redor deles. Mobília foi derrubada. Ele se chocou contra a parede e depois retribuiu girando Craeg e o empurrando contra a porta que dava para
o corredor com tanta força que a arrebentou, a madeira se partindo quando os dois acabaram dando prosseguimento à briga no corredor.
E continuaram a brigar.
Para quem estava quase morrendo umas doze horas antes, Peyton se viu cheio de energia.
Era como assistir a algo saído do programa do Maury.
Ao seguir a briga até o corredor, Paradise vivia uma experiência extracorpórea. Metade estava envolvida naquele dramalhão, tentando segurar um braço, ou gritar,
na esperança de conseguir que um deles a ouvisse. A outra metade era da terra do “ai meu Deus!”, porque não conseguia acreditar no estava acontecendo bem diante
dela, por causa dela.
Peyton podia ser acusado de muitas coisas, mas violência não fazia parte da lista.
E Craeg, bem, ela não sabia muito a seu respeito, mas lhe parecia muito mais controlado do que aquilo.
– Parem! – ela exclamou. – Parem com isso!
Os corpos masculinos colidiram contra a parede de concreto e um som horrível sugeriu que algo tivesse se quebrado em um deles – não, na verdade, fora um dos blocos
de concreto. Nesse meio-tempo, sangue jorrou do nariz de Peyton, maculando a parede branca de vermelho, e a camiseta de Craeg se rasgou na metade, revelando…
Ok, UAU. O cara era magro, mas muito definido, extensões de músculos surgiam nas laterais da coluna, os ombros se agrupavam e se soltavam a cada soco que ele dava,
a cintura incrivelmente estreita…
Certo, era inapropriado.
Mas caramba.
Voltando a si, avançou numa nova tentativa de segurar um deles e pôr um fim naquilo, e procurar apanhar o braço de Peyton, porque toda aquela pele exposta era coisa
demais com que lidar…
Novo a agarrou e a arrastou para longe bem quando ela seria atingida no rosto.
– Deixe-os – disse a fêmea.
– Alguém vai se machucar!
– Antes eles que você. – Novo revirou os olhos. – Machos são idiotas. Só estão lutando para ver quem vai dominar. Pessoalmente, eu prefiro resguardar minhas forças
para o trabalho de verdade, em vez de me desgastar numa cretinice dessas.
Paradise arfou e praguejou.
– Eles vão acabar sendo expulsos!
– Se forem, problema deles.
Ao lado dos combatentes, Anslam gargalhava e batia palmas.
– Bate nele como numa vadia, Peyton!
Paradise encarou com fúria o macho.
– Isto aqui não é uma rinha de galos, sabe?
– Uma ova que não é.
Acrescentando o nome dele à sua crescente Lista de Idiotas, Paradise olhou para os dois lados do corredor. Ninguém vinha de parte alguma, mas dada a quantidade
de portas, não demoraria muito…
Subitamente, Craeg mudou de posição, segurando Peyton pelos ombros, girando-o e empurrando-o contra a parede como se tivesse a intenção de partir o concreto com
o cara.
– Isso é loucura – uma voz masculina comentou de maneira arrastada.
Olhando para trás, ela viu Axe recostado na soleira da porta, os braços cruzados sobre o peito, a expressão como de alguém que via tinta fresca secar na parede.
Paradise estreitou o olhar na direção dele.
– Você tem que parar isto!
Uma das sobrancelhas negras se ergueu.
– Tenho mesmo?
– Sim! Eles vão acabar sendo expulsos!
– E isso me afeta como?
Ela deliberadamente se conteve para não arrancar aquela expressão sardônica a tapas do rosto meio coberto de piercings.
– Você gostaria que alguém te ajudasse.
– Eu não teria começado uma briga por sua causa. Sem querer ofender, mas te foder seria o mesmo que transar com um manequim de uma loja de departamentos. Você é
bonita, mas seria completamente inútil na cama.
O queixo de Paradise despencou.
– Essa é a coisa mais rude que alguém já me disse.
– Então a sua vida foi tão protegida quanto imaginei. E quer você se ofenda ou não, a verdade é o que é.
Virando-se para Boone, ela abriu a boca, mas ele balançou a cabeça, todo “eu não”.
– O que vocês têm de errado, caramba? – ela berrou.
Pelo menos a briga parecia estar diminuindo. Ah, não, ainda estava a todo vapor: Craeg agarrou a cintura de Peyton e o jogou no chão, os machos se agarrando agora,
no corpo a corpo, os pés descalços escorregando na pedra polida, as palmas estapeando.
E foi nessa hora que Rhage e Butch vieram correndo na direção do grupo.
Levando as mãos à cabeça, ela esperou que a gritaria começasse. Se aquilo fosse remotamente parecido com o exército humano que ela ouvira mencionar e vira nos filmes,
provavelmente todos eles seriam punidos. Talvez ela acabasse expulsa por ser causadora de problemas, mesmo não tendo feito nada além de um comentário nervoso.
Talvez apenas Peyton e Craeg fossem punidos.
Depois que um ou ambos tivessem os gessos removidos do corpo.
Como o combate simplesmente seguiu em frente, ela relanceou os olhos para os Irmãos por entre os dedos. Os dois estavam parados meio de lado, observando a ação,
conversando baixo entre si. E depois Rhage assentiu… e os dois apertaram as mãos.
Paradise olhou para os trainees e viu que todos tinham desaparecido para o interior da sala de descanso.
Foi um pouco depois disso que Peyton finalmente perdeu.
Uma cabeçada mal calculada fez com sua testa batesse diretamente no piso de concreto. Nesse instante, houve um som horrível, como o de uma bola de boliche caindo
numa pedra, e o corpo do cara ficou relaxado como se seus ossos tivessem se liquefeito.
Craeg o afastou e se largou de costas no chão, arfando, tossindo, enxugando sangue dos olhos.
– Quanto foi mesmo? – Rhage perguntou a Butch.
– Cinco.
– Maldição, pensei que o meu rapaz fosse fazer melhor do que isso. – Rhage enfiou a mão no bolso e tirou uma carteira preta. Tirando uma nota, bateu-a na palma
de Butch. – Dobro ou nada na próxima vez que um deles começar.
Paradise se retraiu quando eles se viraram e se afastaram andando como se nada tivesse acontecido.
– Vocês só podem estar de brincadeira – disse baixinho.
Queria chamá-los de volta e dizer que Peyton ainda estava desmaiado no chão, mas, não, espere. Ele estava gemendo e virando de costas.
Pelo menos está vivo, pensou ao se aproximar dele.
– Que diabos há de errado com você? – ela exigiu saber. – Quer ser expulso?
Verdade que a ameaça disso seria mais forte se seus dois professores tivessem feito algo além de apostar na maldita briga.
Os dois machos a fitaram com olhos incertos. Deus, estavam em más condições tanto quanto na noite anterior, ou pior até. Inferno, os dois ficariam de olhos roxos,
e o lábio de Craeg tinha um corte tão profundo que possivelmente precisaria de pontos.
– Eu… estou bem – Peyton murmurou antes de cuspir sangue.
– É… – Craeg debochou. – Muito bem.
Que, por sua vez, saiu mais como um “buito bem”, devido ao machucado na boca.
– Digam-me – ela ralhou –, quantos dedos eu estou mostrando.
Esticando só o médio, ela deu um tempo para que ambos focalizassem antes de mandá-los se foder. Depois se afastou pisando duro para encontrar alguém num uniforme
de enfermagem… ou jaleco de médico…
O único uniforme que cruzou seu caminho foi o de alguém da limpeza.
Era bem verdade que o corredor precisaria ser limpo… E qualquer um com uma vassoura poderia começar varrendo aquele dois desperdícios de espaço que criaram tanta
confusão.
Brinquedo da Hasbro lançado nos anos 1970, um boneco de figura de ação, loiro e musculoso, famoso por sua capacidade de ter o corpo alongado. (N.T.)
Capítulo 16
VINTE E CINCO MINUTOS, dois pontos no lábio inferior e um lanche apanhado da Primeira Refeição mais tarde, Craeg estava no primeiro lugar da fila no ginásio junto
aos outros seis membros da turma. Bem, na verdade, não no primeiro lugar, mas mais ou menos de lado e um pouco para trás.
E também estava meio cambaleante.
A última coisa que seu corpo precisava era outra briga pra valer, sair no braço, mano a mano, mas não recuaria. E quanto ao Peyton, o chamado “não namorado” de
Paradise? Aham. Cerrrto.
Que se foda.
Ele, não ela.
A boa notícia era que ele estava num estado tão ruim quanto o seu; na verdade, Peyton nem conseguia ficar de pé. Fora trazido para o ginásio sobre uma maca tal
qual um pedaço de carne.
Precisou de rodinhas.
Quem ganhou essa, vagabundo?
Ah, e nenhum deles fora expulso. Aparentemente, a não ser por terem apostado no resultado, os Irmãos não se envolveriam.
Uma das portas do ginásio se abriu e, desta vez, quando os Irmãos Butch e Rhage entraram, estavam usando as mesmas calças largas de algodão e camiseta que todos
os outros usavam.
O Irmão Butch não perdeu tempo ao pararem diante do grupo.
– Então, em face ao combate Mayweather x Pacquiao* que acabou de acontecer, vamos começar com combate direto em vez dos livros.
– Por favor, observem – Rhage disse com um sorriso – que seus uniformes são brancos.
– Isso porque OxiClean funciona muito bem com manchas de sangue, mas estamos preparados para usar água sanitária se for necessário.
Craeg engoliu uma imprecação. Era só do que ele precisava.
– Vamos colocá-los em pares – Butch prosseguiu – e avaliar o quanto vocês sabem. Visto que um de vocês já está na horizontal, ninguém terá que se preocupar em enfrentar
o Hollywood aqui.
– Pessoalmente, estou com vontade de chorar por causa disso – comentou Rhage. – Então, vamos colocar Novo com Boone; Axe, fique com Anslam. Isso faz com que restem
Craeg e Paradise.
– Espere um instante – disse Craeg. – Não posso… Não vou fazer isso…
– Bater nela? Por quê? Por que não consegue levantar os braços? Não é problema meu.
Craeg se inclinou na direção dele e baixou o tom de voz.
– Não vou bater nela.
Rhage deu de ombros.
– Tudo bem, pode ter o traseiro surrado de novo.
Butch interveio:
– Na verdade, ele venceu aquela luta, lembra? E tenho os seus cinco paus pra provar isso.
– Só porque o prodígio ali desmaiou por conta própria.
– Uma derrota é uma derrota de todo modo. – Butch voltou a se concentrar em Craeg. – Mas o meu Irmão tem razão. Ou você se defende ou vai voltar para a sutura da
doutora Jane. A escolha é sua.
Dito isso, ordenaram que se espalhassem pelos diferentes quadrantes do enorme ginásio, e Peyton foi levado para o lado.
Craeg viu os outros se afastarem, tentando pensar em um modo de sair daquele enrosco. Engraçado, quando lhe dissera, no passado, que ela deveria entrar no programa
para aprender a se defender, não levara em consideração o fato de que seria dele que ela teria que se defender.
Mesmo numa situação de “sala de aula”.
– E aí? – Paradise disse ao se aproximar dele. – Vamos ou não fazer isso?
– Vou esperar até que um dos machos tenha terminado.
– Está falando sério?
Ele olhou-a de cima, visto que era bem mais alto.
– Não quero te machucar.
– Você não abateu Peyton com facilidade – ela murmurou. – Acho que levou uma meia hora, pelo menos.
– Está mesmo se comparando com um macho adulto? Ao cara que eu coloquei numa maca?
– Ah, você tem razão. Isso não seria justo. Porque, comparada a vocês dois, sou um maldito gênio.
Quando apoiou as mãos no quadril e o encarou, ele se perguntou que diabos mais lhe diria? Não desejava entregar a real razão: que ainda se lembrava do quanto a
pele dela era macia… de como ainda conseguia visualizar aquele tornozelo delicado comparado à sua palma… que conseguia imaginar tantas coisas que queria fazer com
ela, das quais absolutamente nenhuma envolvia qualquer traço de violência.
E todas essas coisas, absolutamente todas, incluíam contatos com seus dedos, com seus lábios… com sua língua.
Craeg cruzou os braços diante do peito.
– Não vou lutar contra você.
– Então, se eu te der um soco, você não vai fazer nada.
Ele ergueu uma sobrancelha.
– Não estou preocupado em ser nocauteado.
– Ah, verdade?
– Não. Sem falar na sua menor resistência, você não vai…
O que saiu da boca de Craeg em seguida foi um grito agudo que fez com que todos no ginásio se virassem para ver que diabos havia acontecido.
E ele bem que poderia ter-lhes contado, mas estava ocupado demais cobrindo as bolas com as duas mãos e se dobrando ao meio.
Ela o acertara com o joelho na virilha.
Na virilha. Com o joelho.
– Mas que porra! – ele ralhou. – Por que fez isso?
Ela pareceu tão surpresa quanto todos os demais. Mas logo se recuperou, segurando-o pelas laterais da cabeça, erguendo novamente o joelho, e acertando-lhe o rosto
com tanta força que ele viu mais estrelas do que luzinhas piscando em uma árvore de Natal dos humanos.
Quando ele emitiu mais um urro e caiu desequilibrado, ela uniu as mãos, estendeu os braços e fez um semicírculo amplo como se fosse lançar um disco, apanhando-o
direto na têmpora com força suficiente para fazer com que as pernas dele lhe faltassem e seu corpo caísse.
Bum! E lá foi ele ao encontro do tatame azul.
Todos vieram correndo enquanto ela continuava parada de pé ao lado dele, pronta para o que viesse em sua direção, enquanto ele tentava se levantar do chão.
Empurrando as palmas no tatame, ele ergueu a parte superior do corpo e olhou para ela.
– Você quer mesmo que eu faça isso.
– Você ainda não fez nada – alguém zombou dele.
– Me diz uma coisa – outro interveio –, você mija sentado?
– Agora mija – respondeu outro.
Paradise apenas observava cada movimento dele, cada mudança de posição, respiração e desvio de olhar. Mas não fazia a mínima ideia do que estava fazendo. Ele sabia
disso pelo modo como as mãos dela tremiam, e o fato de que as costelas dela estavam se mexendo rápido demais para a atividade física que acabara de executar.
E ela também estava um pouco excitada.
Ok, isso era um problema. O aroma do sexo dela atiçou uma parte muito masculina dele, e fez com que ele desejasse que ela corresse, só para poder persegui-la e
apanhá-la e colocá-la debaixo de si para poder possuí-la. Queria as unhas dela arranhando suas costas enquanto gozasse… e as presas reveladas pouco antes que ela
sugasse da veia do seu pescoço.
A luxúria era tão forte que ele poderia transar com ela mesmo com pessoas assistindo e, como se ela reconhecesse essa mudança nele, recuou um passo.
E logo ninguém mais estava rindo e caçoando dele.
Butch se pôs no meio dos dois.
– Devagar aí, grandão. Que tal se você me atacar?
O Irmão agachou-se numa posição de luta, os punhos erguidos diante do peito, os olhos estreitados.
Mas Craeg não estava interessado no macho. Olhou por cima daqueles ombros de mamute para Paradise, que o fitava com uma expressão inescrutável no rosto.
Desta vez, quando um soco veio em sua direção, Craeg entrou no modo de combate completo, algo que não acontecera com Peyton. Com o outro trainee, dera cerca de
sessenta por cento do que tinha a oferecer, refreando um pouco da sua força porque tivera medo de matar o merdinha, ou provocar algum dano permanente e, com isso,
ser expulso do programa. Agora? A impaciência da sua excitação cortou todas as amarras quando ele entrou no combate corpo a corpo, abaixando-se, socando, desviando
de novo, batendo. O Irmão Butch era perversamente ágil, impiedosamente poderoso, sublimemente treinado.
Nada parecido com Peyton.
E conforme a briga se estendia, com troca de chutes, desvios e pegadas, mais pessoas se aproximaram para observar, até que houvesse uma multidão de dez, quinze,
vinte pessoas no ginásio.
Uns quinze minutos depois, adagas foram jogadas para eles.
As facas de cabo negro e lâminas prateadas afiadas voaram vindas sabe lá Deus de onde. Butch apanhou a sua no ar. Craeg pegou a outra. Enquanto, davam a volta num
círculo, procurando brechas nas respectivas defesas, balançando as armas de um lado para o outro, avançando, recuando, o risco aumentava.
Butch não estava com a respiração minimamente alterada. Craeg, por sua vez, ofegava como um filho da puta, e também suava.
O primeiro jorro de sangue aconteceu quando Craeg calculou mal um arco em apenas um milímetro e levou um corte na face. Quando errou de novo, começou a pingar no
ombro. Na terceira vez, foi cortado na coxa.
Foi então que percebeu que o Irmão avançava com apenas sessenta por certo da sua capacidade. A precisão nos cortes disse a Craeg que seu oponente sabia mais do
que ele, era mais forte do que ele, e estava preparado para avançar de pouquinho em pouquinho até a vitória baseada no volume de sangue acumulado.
Mas Craeg não desistiria. Não ainda, de todo modo. Não até que não conseguisse mais ficar de pé, não conseguisse enxergar nem se mexer.
A sua força de vontade não aceitaria nada menos do que isso.
Paradise reconheceu de imediato que aquela luta era algo completamente diferente do que aquele rolamento desajeitado e enlouquecido de pouco antes no corredor.
De fato, quando com Peyton, Craeg estivera se refreando por algum motivo; não mais. Sua coordenação ao enfrentar Butch com os punhos e depois, ah, Deus, com aquelas
adagas, lhe disse, e a todos os outros no ginásio, que ele era um lutador incrível, capaz de muita força, equilíbrio, flexibilidade e poder.
Foi o bastante para que o corpo inteiro dela se acendesse como um painel de comando.
E, não, por mais que respeitasse o lema de Novo no qual “as fêmeas podem fazer tudo o que os machos fazem”, ficou claro para ela que não poderia lidar com o que
Craeg demonstrava agora. Ele a teria nocauteado com apenas um daqueles socos potentes. Ou arrancado sua cabeça da coluna. Ou fraturado uma das suas pernas com uma
simples torção.
Não que ela não pudesse aprender as técnicas de defesa e contra-ataque, ela só não as conhecia agora. E ele, de fato, estivera preparado para atacá-la: quando ele
se agachara e arreganhara as presas, ela recuara – mesmo assim, por algum motivo muito estranho, não sentira medo dele. O que era uma loucura completa. Ele tinha
uns cinquenta quilos a mais do que ela, e estava atrás de sangue.
Portanto, sim, o que era totalmente insano? Subitamente desejara correr, mas não muito rápido. Queria que ele tivesse ido atrás dela, apanhado-a no ato… e…
Bem, foi como voltar para aquele momento que partilharam na sala de descanso.
Mas, Jesus, não sei como lidar com ele, pensou ao observá-lo se mover. E não só em combate: qualquer fêmea que fizesse um macho como aquele persegui-la não acabaria
com apenas um beijo no fim da corrida. Não seria só deixar pegar na mão, receber uma promessa solene de vinculação e depois uma conversa com seu pai onde o tal pretendente
timidamente pediria a sua permissão.
Aquele não era o tipo de macho refinado para o qual se esperava que entregasse sua virgindade na noite de vinculação diante da Virgem Escriba e da família.
Não, ele era um animal com apenas uma quantidade módica de sensatez.
E o modo como ele a encarara naquele instante sugerira que qualquer racionalidade que pudesse ter cedera ao puro instinto.
Deveria ter medo dele, voltou a dizer a si mesma.
Em vez disso, desejou que ele a apanhasse…
Em toda a volta, a multidão emitiu um chiado quando Craeg levou mais um corte, desta vez no meio do peito. Ele já estava sangrando em diversos lugares, o uniforme
todo manchado de vermelho com o sangue que pingava do queixo, por causa do corte na face, da coxa, do peitoral.
Outro golpe da adaga do Irmão o pegou no ombro oposto. Depois, na lateral do pescoço. Na outra coxa, no abdômen, nas costas.
– Pare – Paradise disse baixinho. – Pare de atacá-lo.
Mas cada vez que a adaga maligna de Butch o cortava, Craeg voltava em busca de mais, voltando ao ataque uma vez após a outra, até estar escorregando nas poças que
provocava no tatame azul, com seu uniforme já todo vermelho, grudado ao corpo.
Ele não cedia.
E Butch não lhe deu mole a não ser por não matá-lo.
– Craeg! Pare! – ela gritou porque não conseguiu se conter.
Cobrindo a boca com a mão, sentiu o coração voltar ao modo pânico quando ficou imaginando se ele continuaria até perder sangue em demasia para que não houvesse
mais retorno.
– Craeg! Isso é loucura!
Mas ele seguiu em frente, até começar a vergar sobre os joelhos, a se jogar em vez de avançar, a cambalear quando recuava. Agora começava a ficar descuidado.
Deus, ele estava pálido demais.
– Pare!
Do seu lugar, na maca, Peyton se soergueu e gritou:
– Craeg! Qual é, cara… Ele vai acabar te matando.
Sussurros de desconforto foram trocados entre os trainees, mas não entre os Irmãos que foram lá assistir ao espetáculo. A equipe médica, em comparação, não parecia
muito extasiada; contudo, quando a médica loira deu um passo à frente para intervir, o Irmão Vishous meneou a cabeça e reteve-a ao seu lado.
Craeg caiu pela última vez quarenta e dois minutos, e muitos litros de plasma, mais tarde.
Ele simplesmente desabou de joelhos, oscilou por um instante… e caiu de cara numa poça de seu próprio sangue. Exatamente como fizera na trilha, na noite anterior.
Paradise correu na direção dele, mas Rhage a segurou pelo braço e a conteve.
– Não. Permita-lhe sua honra.
– Do que está falando? – ela sibilou.
Rhage apontou com a cabeça para os dois combatentes.
– Observe.
Butch parou de pé ante o macho caído por um momento, dando a oportunidade para que Craeg voltasse a se levantar. Quando não o fez, o Irmão esperou que ele erguesse
o olhar.
Na palidez de morte daquele rosto, olhos desfocados se esforçaram na direção do Irmão. Mas quando, por fim ele conseguiu enxergar bem, Butch passou a adaga para
a outra mão… e abriu um corte fundo na mão preferencial.
Enquanto Paradise arquejava, o Irmão estendeu a palma para Craeg, que, sabe-se lá onde, subitamente encontrou forças para esticar o braço e aceitar o que lhe era
oferecido.
O Irmão ergueu Craeg do chão… e o abraçou.
– Bom trabalho, filho. Estou orgulhoso de você.
Craeg piscou os olhos rapidamente, como se eles estivessem se enchendo de lágrimas. Depois pareceu perder a luta contra as emoções ao fechar as pálpebras, baixando
a cabeça e afundando no abraço do Irmão.
– E é assim – disse Rhage em voz alta, num tom de aprovação – que se faz.
Referência à Luta do Século de boxe ocorrida em 2 de maio de 2015 entre os lutadores Floyd Mayweather Junior e Manny Pacquiao. (N.T.)
Capítulo 17
SENTADA À SUA ESCRIVANINHA no Lugar Seguro, Marissa tinha todo tipo de tarefa a fazer: arquivos de pacientes para ler, documentos de entrada para aprovar, contas
a processar. Em vez de cuidar de qualquer uma dessas tarefas, simplesmente estava sentada em sua poltrona, olhando para aquele pedaço de metal escuro com a borla
vermelha.
Depois que ela e Butch retornaram para casa, ela mostrara a espécie de chave estranha para alguns dos Irmãos, e nenhum deles reconhecera o objeto ou conseguira
nomeá-lo com precisão. Depois Vishous acessou a internet em busca de uma imagem que se assemelhasse ao objeto, e não encontrou nada.
Quando por fim se recolheram, ela se sentira tão exausta que adormecera no instante em que a cabeça encostara no travesseiro.
Mas não ficara assim por muito tempo.
Seus olhos se abriram por volta das três da tarde, e ela ficou deitada de costas, olhando para a escuridão enquanto Butch ressonava baixinho ao seu lado.
Foi bem como seu hellren lhe descrevera. Imagens daquela fêmea passaram pelo teto, uma montagem de fotos que lhe levou lágrimas aos olhos. E o mais triste era que
a vontade de chorar só piorara ao pensar nela e em Butch.
O que era loucura.
Não havia nada de errado entre eles. Ele não poderia tê-la apoiado mais, levando-a à clínica de Havers, ficando ao seu lado enquanto ela tentava entender que espécie
de chave era aquela, sendo compreensivo com tudo o que ela sentia.
– Estou perdendo a cabeça – disse.
– É para isso que estou aqui.
Marissa levantou rapidamente a cabeça.
– Mary… Oi… Desculpe, eu estava falando sozinha. Estou um pouco confusa agora.
A shellan de Rhage entrou e fechou a porta do escritório.
– É, fiquei com essa impressão. Repeti seu nome umas três ou quatro vezes e você não me ouviu.
Marissa se recostou, afastou o cabelo para trás dos ombros e forçou um sorriso.
– O que posso fazer por você?
– Pode conversar comigo. – A fêmea se sentou na cadeira diante da escrivaninha. – Estou preocupada com você.
– Ah, Deus, não perca sequer um segundo com isso. Temos pessoas aqui seriamente necessitadas da sua ajuda…
– Boas samaritanas como você e eu têm problemas em executar os nossos trabalhos se não conversamos sobre os casos complicados. Isso é um fato. Eu também gostaria
de enfatizar que sou sua amiga.
No silêncio que se seguiu, Marissa não mencionou todo o trabalho burocrático que foi incapaz de fazer porque sua cabeça estava muito confusa. E depois manteve silêncio
sobre o dia que passara insone. E, por fim, não disse nada a respeito do estranho distanciamento entre ela e Butch…
– Não consigo tirá-la da minha cabeça – ela disse num rompante.
De imediato, lágrimas surgiram e ela praguejou ao puxar um lenço de papel da caixinha.
– Não quero falar sobre isso.
– Eu sei – Mary disse com suavidade. – Confie em mim, tenho muita experiência pessoal sobre não falar. Não é uma boa estratégia.
– Ah, pare com isso, você é a pessoa mais centrada e realizada que conheço. Você merece dez numa escala de zero a dez no quesito satisfação.
– Você só conhece uma parte da minha vida, Marissa. Não me conheceu antes. E eu ainda me esforço, como todo mundo.
Marissa enxugou os olhos e teve que combater a vontade de chorar abertamente.
– Como consegue lidar com isso?
– Com o esforço? Converso com as pessoas. Converso com Rhage. Escrevo.
– Não… com o desligamento.
– Como assim?
Marissa gesticulou com o lenço de papel na mão.
– Estou falando coisas sem sentido. Esqueça…
– Está se referindo ao fato de que uma vida terminou para mim e outra começou quando conheci Rhage?
Deus, seu coração estava acelerado sem motivo algum.
– Sim. É exatamente disso que estou falando.
Mary cruzou as pernas e mordiscou o lábio inferior e, enquanto demorava um tempo para compor seus pensamentos, Marissa estudou seu rosto harmonioso, o cabelo castanho
recém-cortado num estilo chanel, a sua aura de tranquila confiança.
Sim, Marissa pensou, Rhage estava certo. A fêmea era linda, não de maneira ostentosa como uma miss, nada parecida com as modelos angulosas e anoréxicas, e tampouco
fazia a linha da garota banal e apagada. Mary era como o brilho de um fogo controlado no mais intenso dos invernos, caloroso, reconfortante, cativante e iluminador.
Não era de admirar que o Irmão a adorasse.
Com um suspiro, Mary disse:
– Acho que para mim foi diferente porque eu estava morrendo, por eu saber que estava partindo… Mesmo eu não sabendo que o câncer havia voltado, eu me preparara
para o dia em que me diriam que ele voltara. Por isso, me distanciei. Peguei minha bagagem mental e emocional, peguei minha passagem e estava pronta para partir.
Quero dizer, minha mãe havia morrido, eu não estava ligada a ninguém mais no planeta… Não havia nada para mim ali; portanto, não havia nada para deixar para trás…
Isso faz algum sentido?
Marissa pensou na noite em que seu irmão a expulsara de casa por estar com Butch.
– Se bem entendo a questão – disse Mary –, esse não foi o seu caso. Foi? Marissa teve que desviar o olhar.
– Não, não foi. Voltei para a casa que eu e Havers compartilhávamos certa noite, pouco antes do amanhecer, e ele… – Agora, suas lágrimas se empoçavam e caíam apressadas,
uma depois da outra, sobre a blusa, seu casaquinho. Enxugou-as antes de continuar. – Todas as minhas coisas tinham sido embaladas. Ele me disse que pouco se importava
para onde eu iria, só me queria fora de casa. Colocou dinheiro… – Ela teve que limpar a garganta. – Ele colocou dinheiro sobre uma das cômodas. Era como se não quisesse
sequer me tocar.
Fungando, puxou da caixinha outro lenço de papel e assoou o nariz.
– Guardei o dinheiro. Ainda tenho aquelas notas de cem dólares. Às vezes, quando me deparo com elas na gaveta, penso: por que mantê-las? Por que eu, ah… pelo amor
de Deus. – Puxou um terceiro lenço. – O que há de errado comigo? Essa garota está morta, e não consigo encontrar a família dela ou quem a matou… E cá estou eu sentada
reclamando do idiota do meu irmão, o que não é nenhuma novidade. Isto é ridículo.
– Isso é um trauma passado – Mary observou sensatamente.
– Estou irritando a mim mesma.
– Bem, já parou para pensar no que de fato aconteceu na noite passada?
– Está brincando? Não há espaço para outra coisa na porcaria da minha cabeça.
– Não, o que quero saber é se pensou a respeito.
– Se o que quer dizer é que tive que ver uma fêmea morrer diante de mim, e que a morte dela é um desperdício trágico de vida que eu, pelo visto, sou impotente para
corrigir, sim, claro que pensei.
Mary meneou a cabeça.
– Com todo o respeito, não está entendendo onde quero chegar. Ontem à noite, pela primeira vez desde que Havers rompeu o seu relacionamento com o único parente
de sangue que você tem, você foi forçada a depender da ajuda dele. Não conseguiria salvar aquela garota, então teve que procurar seu irmão e ter esperanças e rezar
para que ele fizesse o certo com ela.
– Entretanto, foi o que ele fez – Marissa soltou um forte palavrão. – Quero dizer, ele foi incrível com ela.
– E fez com que você se sentisse como, considerando-se como ele a tratou mal?
Eeeee, uma deixa para mais lágrimas.
– De fato, pensei nisso. Quando fui vê-la pouco antes de ela morrer.
– Eis o que sei que é verdade: podemos enterrar o passado o quanto quisermos, podemos usar milhares de distrações, algumas saudáveis, outras nem tanto, mantendo
tudo soterrado, mas quando algo não é processado, isso volta, absoluta e completamente, para nos morder nos calcanhares. Você teve uma vida difícil antes de se apaixonar,
e foi sem dúvida um imenso alívio deixar tudo para trás e recomeçar do zero. Mas não há como fugir do que veio antes. Lembre-se, Marissa, carregamos conosco todas
as idades que tivemos em cada momento de nossa vida. Carregamos tudo conosco como uma bagagem. Cedo ou tarde, esse assunto com o seu irmão acabaria vindo à tona.
A vida é assim.
Marissa voltou a enxugar os olhos.
– Estou tendo problemas para me conectar com Butch agora.
– Claro que está. Foi ele o motivo do rompimento.
Marissa recuou.
– Não, espere um instante. Ele tem sido mais do que bom para mim…
– Não é questão de culpa, Marissa. Você estava num caminho, ele entrou na sua vida, agora você está em outro. Não o estou julgando, nem dizendo que ele fez alguma
coisa errada… Estou simplesmente declarando um fato.
Por algum motivo, ela se lembrou de ter ficado acordada enquanto deixava Butch dormindo. Isso jamais teria acontecido um ano atrás.
O que faço?
Você não vai gostar do que vou dizer.
Sinto que nada pode piorar as coisas.
Você vai ter que fazer as pazes com o seu irmão.
Marissa fechou os olhos.
– Jamais conseguirei perdoá-lo.
– Fazer as pazes não significa absolvê-lo das coisas ruins que ele fez. E, com toda a honestidade, ele não é o único com quem você tem assuntos pendentes. A glymera
a tratou de maneira horrível, a sua posição na aristocracia era insustentável, e Wrath foi um merda real – e digo isso com todo o meu amor. Você sofreu uma quantidade
imensa de dor e rejeição que, a princípio, a sufocou, porque era a única maneira de sobreviver, e depois deixou de lado porque finalmente se libertou ao ter a chance
de se sentir bem com a sua própria vida. – Mary acenou para toda a papelada sobre a mesa. – Se quer voltar a ser produtiva, vai ter que remexer no passado, entrar
em contato com os seus sentimentos, e sair renovada dessa empreitada.
O lenço de papel número quatro saiu da caixa com um estalo, mas ela acabou por não usá-lo. Apenas o revirou nas mãos.
– Não quero esquecer aquela garota. Não quero que isso seja somente a meu respeito.
– Ninguém disse que você teria que parar de tentar descobrir quem ela é e fazer-lhe justiça. Apenas não use a situação como uma desculpa para varrer tudo para baixo
do tapete novamente. Essa estratégia é de curto prazo e não resolve nada, pois, da próxima vez que o assunto surgir, e irá, vai ser ainda mais difícil, porque você
também reviverá tudo a respeito dessa garota. Veja, é assim que as pessoas ficam paralisadas. Elas acumulam, acumulam e acumulam, os gatilhos continuam aparecendo
e as camadas ficam se sobrepondo, até que o fardo fica pesado demais e elas cedem sob esse peso.
Marissa ficou virando e revirando o lenço.
– Você está certa.
– Eu sei.
Depois de respirar fundo, Marissa olhou por cima da mesa.
– Posso te dar um abraço?
– Fala sério! Claro!
As duas se levantaram, e Marissa deu a volta na mesa para abraçar a fêmea mais baixa. O abraço que recebeu foi firme e forte, e ela voltou a chorar.
– Você sempre está perto quando preciso de você – Marissa se emocionou. – Te amo demais para expressar o que sinto.
– É para isso que servem os amigos. – Mary se afastou. – E você vai fazer o mesmo por mim algum dia.
Marissa bufou e revirou os olhos.
– Duvido muito disso.
– Confie em mim.
– Estou tão confusa.
– Não, você é humana. – Mary se corrigiu. – Desculpe, força do hábito. Você está viva e está se esforçando, e é linda por dentro e por fora. E eu também te amo.
– Ainda não sei bem o que fazer agora.
– Reflita. A solução vai surgir. Lembre-se: perdoar não é esquecer, esconder-se não é uma estratégia de longo prazo e as distrações não são suas amigas. Enfrente
isso, e saiba que estou aqui para te ajudar, ok?
Depois que a fêmea se foi, Marissa voltou para a cadeira do escritório e se sentou novamente. Por algum motivo, seus olhos estavam fixos no telefone… Naquele da
mesa, não no seu celular.
O passado. Seu irmão. Butch. A garota. A glymera.
Mary estava certa. Havia muitas coisas que ela evitava.
Para começar, ela podia atacar o que lhe parecia menos assustador. Ou, talvez, o mais factível, que tal?
Pegando o aparelho do gancho, mexeu em seus papéis e apanhou o recado em papel cor-de-rosa que lhe fora entregue duas noites antes. Discando para o número local,
tirou os brincos de pérola e se recostou no espaldar da poltrona.
Uma criada atendeu, deixou-a esperando e logo uma voz festiva e feminina disse:
– Ah! Olá! Estou tão contente que tenha ligado.
Marissa cerrou os dentes.
– Vou fazer. Cuidarei dos preparativos para o festival.
– Ah! Mas que maravilha! Isso é absolutamente…
Enquanto os lugares-comuns se arrastavam, Marissa fechou os olhos e ouviu a voz de Mary em sua cabeça: você vai ter que fazer as pazes com o seu irmão.
Ah, Deus, ela pensou. Não fazia ideia do que aconteceria, mas, maldição, de festas ela entendia.
Comece pequeno. Depois ataque as coisas grandes.
Capítulo 18
PARADISE DESTRONCOU O DEDO quando foi bloquear um golpe da parte carnuda da palma executado por Rhage. Tivera a intenção de desviar e se defender usando o antebraço
como ele lhe ensinara, e o resultado foi que acabou recebendo o golpe com os dedos abertos.
– Cacete! – exclamou ao se afastar amparando o machucado.
– Deixa eu dar uma olhada – disse o Irmão.
– Aiaiaiaiai. – Ok, estava parecendo uma garotinha, como é que podia doer tanto? – Deus!
– Parry, deixa eu ver.
Ela esticou o braço, e as mãos grandes, agora muito gentis, examinaram o que lhe pareceu uma versão absurda do seu dedo médio.
– O que aconteceu com ele? – ela perguntou, mesmo sabendo a resposta.
– Venha, vamos para a clínica.
Enquanto era conduzida pelo ginásio, ela olhou de relance por cima do ombro. Anslam estava dando um tremendo trabalho para Boone, o que a surpreendeu. Peyton estava
sentado, aplicando gelo no ombro, e olhou de lá para ela como se quisesse saber que diabos estava acontecendo. Novo e Axe rodeavam-se mutuamente, enquanto o Irmão
Tohr lhes passava instruções.
– Você vai ficar bem – Rhage a encorajou ao abrir a porta pesada para ela. – Vai voltar daqui a pouco.
Ela respondeu com um “aham” ao chegarem ao corredor, pois sabia que ele tinha razão. Contanto que não olhasse para o dedo, a dor não seria tão ruim assim.
– Vocês só vão ter mais uma hora hoje, depois vamos liberá-los – o Irmão disse ao chegarem a uma das portas vaivém da clínica. – E amanhã terão aulas teóricas boa
parte do tempo.
Outro “aham” por parte dela e:
– Craeg já foi embora?
– Ainda está sendo tratado.
A sala de exames era azulejada do teto ao chão, repleta de armários de aço inoxidável, equipamentos médicos que pareciam ter custado uma fortuna e todo tipo de
tela de computador. No centro, havia uma imensa mesa debaixo de um lustre com lâmpadas suficientes para transformar a meia-noite em meio-dia num terreno de muitos
hectares.
Um macho humano alto, de cabelos escuros, se voltou do que lhe pareceu ser a imagem de um joelho numa chapa de raio-X. Com a típica roupa azul dos médicos e um
jaleco branco por cima, ele parecia muito grande, muito largo… mas nada vampiresco.
– Ei, o que temos aqui?
Paradise recuou um passo. Não pôde evitar.
– Sim, sou um daqueles caras – disse o homem, revelando dentes brancos sem presas proeminentes. – Mas sou legal, prometo.
Rhage se aproximou e deu um apertão no ombro dele.
– Grande cirurgião. Cara fantástico. Tragicamente, um eficiente jogador de pôquer, mas, pelo menos, uma droga na sinuca. Apresento-lhe o doutor Manny Manello.
– Então, o que temos aqui?
– Dedo destroncado – informou o Irmão.
Ambos os machos – bem, o macho e o homem – olharam para ela.
Paradise pigarreou e teve a intenção de dizer algo a respeito do dedo, mas, em vez disso, soltou:
– Nunca vi um humano antes assim tão de perto.
O doutor Manello sorriu, estendeu os braços e deu um rodopio lento.
– Não muito diferente de você. E já fui à casa de audiências algumas vezes enquanto você estava trabalhando.
Ela não o notara, provavelmente porque estivera tão concentrada no trabalho, e cercada por muitos outros vampiros.
– Não tive a intenção de desrespeitá-lo – ela sussurrou.
– Não me ofendi. Minha reação foi muito pior quando fiquei sabendo da existência do seu povo, confie em mim. – Quando ela o fitou com surpresa, ele deu de ombros.
– Lembre-se de que, na minha cultura, os vampiros são os malvados. Você sabe, presas, sugadores de sangue, todas essas coisas do Halloween.
Ela avaliou suas feições e se surpreendeu em constatar que ele era belo; e também parecia inteligente. Nem um pouco parecido com um rato sem cauda.
– Ele me operou doze vezes – Rhage interveio.
– Treze. Cuidamos do seu ombro na semana passada.
– Esqueci. – Quando Paradise fitou o Irmão, ele encolheu os ombros. – Perdi a conta. A parada é dura.
Inspirando fundo, Paradise esticou a mão machucada.
– Isso vai doer? Isto é, o que precisa fazer com ele, vai doer?
O doutor Manello sorriu novamente e pegou o que lhe era oferecido com o mais suave dos toques.
– É um prazer te conhecer, Paradise. Não se preocupe, vou cuidar muito bem de você.
E foi o que fez, de fato.
Depois que Rhage voltou para a aula, o doutor Manello tirou um raio-X, mostrou a ela que não havia nada fraturado, anestesiou a área e puxou o dedo de volta ao
seu lugar.
– Não vai precisar usar a tala por muito tempo – ele informou, ao encapsular o dedo numa placa metálica acolchoada que ele firmou com tiras adesivas de uma espécie
de gaze. – Vocês se curam tão bem… Isso ainda me surpreende.
Quando ele recuou, ela deu uma espiada no trabalho dele.
– Muito obrigada.
– Você está dispensada pelo resto da noite. Você e Peyton podem esperar juntos na área das macas.
Houve uma batida na porta à esquerda.
– Entre – ele disse e se aproximou de um contêiner vermelho onde deixou as luvas cirúrgicas azuis. – Sei que já conheceu nossa enfermeira, Ehlena. – O homem fechou
a cara ao ver a expressão séria da fêmea. – Ele ainda está recusando?
A enfermeira fechou a porta atrás de si antes de responder.
– Ele mandou a Escolhida embora.
O doutor Manello praguejou baixinho.
– Não darei alta a ele se não se alimentar.
– Estão falando de Craeg? – Paradise perguntou. – Ele…
O homem sorriu e falou com ela:
– Terminamos por hoje. Por que não volta ao ginásio? Falta pouco para serem liberados.
– Posso alimentá-lo – disse ela num rompante. – Se ele precisar, posso alimentá-lo.
Mas. Que. Diabos. Estava. Fazendo.
Como filha de uma das Famílias Fundadoras, não podia dar a sua veia a ninguém. Jamais. Isso estava reservado somente ao seu companheiro. Caso ela mesma precisasse
ser alimentada, teria que ser feito na companhia de um macho da família e muitas testemunhas.
Caso fizesse isso por ele, seria semelhante a perder a virgindade antes da noite do acasalamento.
– Tudo bem – disse o doutor Manello. – Nós cuidamos disso.
Paradise foi levada até o corredor, e quando a porta se fechou atrás de si, ela os ouviu falando com vozes sussurradas.
Volte para o ginásio, disse a si mesma. Vamos. Simplesmente volte para a aula…
Olhando ao redor, descobriu que estava só no corredor, ninguém nem ia nem vinha, não havia nenhuma passada, nenhuma voz.
Deveria mesmo se juntar aos outros.
Só que, assim que formulou tal pensamento, seus pés se viraram para a esquerda e a afastaram do local em que o combate estava sendo ensinado. Indo até a porta seguinte,
pressionou o ouvido na porta fechada e aguçou a audição.
Respirando fundo, captou o cheiro de Craeg.
Ele estava ali dentro.
Certo, precisava mesmo voltar para…
A mão empurrou a porta um tantinho e ela espiou ali dentro. E lá estava ele, deitado, entre lençóis brancos no imenso leito hospitalar que, diante de seu tamanho,
parecia pequeno para ele. Seus olhos estavam fechados, e a respiração, superficial. A pele estava… não muito diferente daqueles lençóis, a não ser pelos incríveis
hematomas no rosto, na garganta… em todo ele. E também havia os curativos que cobriam os cortes de adaga.
Entrando no quarto, forçou a porta a se fechar mais rápido, e esperou que ele olhasse na sua direção.
– O que foi? – ele disse sem abrir os olhos.
Aproximou-se da cama, e se questionou se um dia ficaria perto daquele macho sem que seu coração disparasse.
– Por que não está se alimentando? – ela inquiriu.
– Por que está me incomodando?
– Recusou uma Escolhida?
– Por que não está na aula?
– Eu me machuquei. Não posso ficar lá.
Isso fez com que a cabeça dele se virasse e ele abrisse os olhos.
– Você está bem?
– Eu até poderia te deixar ver, mas seria indelicado te mostrar o dedo médio.
– Você me chutou no saco, lembra? Acha que estou preocupado com o seu dedo?
– E também não seria a primeira vez. Acho que o mostrei para você e para Peyton no corredor.
– Depois do golpe nas bolas, a minha memória ficou um pouco enevoada.
Ela queria se sentar na beirada da cama, mas estava assustada com o que proporia.
– Você pode sugar da minha veia, de verdade.
Craeg a encarou por um momento.
– Posso fazer uma pergunta?
– Claro.
– Você nasceu numa família de salvadores? Isso está no seu sangue ou algo assim? Porque nunca conheci uma chata insistente como você antes, e esse lance de Madre
Teresa não pode ser comportamento aprendido. O mundo é ruim demais para isso.
– Não vão te liberar para voltar para casa.
– Não podem me manter aqui.
Ela gargalhou.
– É da Irmandade que estamos falando. Tenho quase certeza de que ninguém sai daqui sem a permissão deles.
Ele grunhiu e se calou.
– Vamos, vai fazer com que se sinta melhor. – Ela esticou o pulso esquerdo. – E fará com que eu me sinta menos culpada por… bem.
– Eu recusei uma Escolhida, sabe.
Paradise revirou os olhos.
– Você tem o jeito mais estranho de ser um cretino quando se sente ameaçado. Você veio de uma família de cretinos ou o mundo malvado o ensinou a se proteger dessa
maneira?
– O mundo malvado matou a minha família. Dois morreram na minha frente. Portanto, sim, acredito que seja comportamento aprendido.
Paradise baixou o braço e o olhou.
– Sinto muito. Eu não…
– Além do mais, não tem medo de que eu faça alguma coisa que não deveria?
– Como é que é?
– Você viu o que aconteceu quando me forçou no ginásio. Sabe exatamente do que estou falando.
Paradise sentiu o corpo começar a esquentar, e foi nesse instante que ela deveria, pelo menos para si mesma, confessar que viera até ali para oferecer a veia porque
queria mais daquilo… o que quer que fosse aquilo… com ele. Aquela conexão. Aquela… descarga elétrica.
Aquele ardor sexual.
E se existia um modo garantido de obtê-lo, era oferecendo a veia a um macho faminto. Ela podia ser virgem, mas não era tão ingênua assim.
– Gosta de brincar com fogo, garota? – ele grunhiu. – Porque se continuar a olhar para mim assim, vou te reduzir a cinzas.
Ela sabia, sem ter que abrir os lábios, que estava sem voz. Portanto, em resposta, simplesmente ofereceu o pulso sem nada dizer.
Quando ele não o tomou, ela aumentou as apostas levando-o à boca e rasgando a pele com as próprias presas.
Funcionou.
Quando o cheiro do sangue se espalhou pelo ar, os olhos dele reviraram, o corpo arqueou debaixo do lençol fino que o cobria, o quadril se projetando, as pernas
alisando a cama.
– Tome o meu pulso – ela disse baixinho. – Isso vai te ajudar.
A mão dele disparou e a agarrou pelo antebraço, atraindo a veia para si. Mas antes de atacar, ele a fitou com olhos selvagens.
– Você vai precisar gritar pedindo socorro.
– Por quê? – ela sussurrou.
– Faça isso agora. Chame alguém.
Só que ele não esperou que ela respondesse. Puxou-a para si, e depois, com um rosnado feroz, cravou as presas na pele dela, ainda que Paradise já tivesse aberto
um acesso para ele. Quando ele começou a sorver em grandes goladas, ela sentiu uma descarga erótica percorrer todo o seu corpo. Abrindo a boca a fim de respirar,
apoiou a outra mão na cama e se sustentou, tentando se segurar para não se jogar sobre ele. Sua mente não estava mais presente, ela já não passava de puro instinto,
e seu corpo sabia exatamente o que queria: pele nua contra pele nua, a parte mais masculina dele em seu centro… bombeando… gozando.
Foda-se a sua virgindade.
Literalmente.
E ele pensava da mesma forma. Enquanto se alimentava, os olhos percorriam o rosto dela, o pescoço, os seios – e alguma coisa estava acontecendo debaixo do lençol,
o quadril se mexendo, o tronco se arqueando, a expressão sofrida dele como se o desejo fosse tanto que chegava a doer.
Não, ela não pediria ajuda.
O que, claro, era absolutamente insano, mas não parecia importar. E bem de leve, no fundo de sua mente, ela percebeu que era por isso que o ato da alimentação era
tão monitorado para as fêmeas da sua classe: ela definitivamente não pediria ajuda. Não queria porque não tinha interesse algum em deter coisa alguma do que aconteceria
em seguida: aquele momento sensual e selvagem não tinha nada a ver com o fato de ela ser de uma Família Fundadora. Não tinha nada a ver com a mansão na qual morava
com o pai, tampouco com o dinheiro em todas aquelas contas bancárias. Não tinha nada a ver com posição social e status.
Era franco, era sincero, algo apenas entre eles dois.
E isso tornava tudo… belo.
Porque era verdadeiro.
Capítulo 19
NÃO ERA DE SE ADMIRAR que o nome dela fosse Paradise.
Enquanto Craeg sorvia grandes goladas da fonte mais incrível que tivera em toda a sua vida, ele só conseguia pensar em como o nome dela era apropriado.
Bem… não foi só nisso que ele pensou.
Seu corpo despertou à velocidade da luz graças à força que ela lhe fornecia, aquele vinho encorpado descendo pela sua garganta e se empoçando no estômago antes
de ser lançado em todas as direções como um fogo restaurador: por debaixo da sua pele castigada, dentro dos ossos doloridos, ele começou a se encher de forças.
E com tal força surgiu uma necessidade corrosiva e opressiva.
Debaixo do lençol fino, despertou uma ereção tão dura quanto aço e tão comprida quanto sua perna – prova de que o golpe firme dela não o castrara. E, entre suas
orelhas, o cérebro se aferrou à ideia de penetrá-la com a mesma tenacidade com que suas presas estavam grudadas na veia dela.
Contudo, ele era ligeiramente mais decente do que poderia imaginar.
Em vez de rasgar as calças dela ao meio e forçá-la a montá-lo, ele se obrigou a ficar exatamente onde estava – porque isso a mantinha exatamente onde estava.
No entanto, sua pelve parecia não ter recebido esse memorando.
Com investidas poderosas, ele se esfregou ao encontro do lençol e da manta, cada movimento oferecendo um resvalar tentador que era suave demais, deixando-o apenas
completamente louco, cada recuo mais desesperado do que o anterior.
E foi nesse momento que a mão começou a coçar para se envolver.
Sem chance. Mesmo que Paradise não admitisse, a não ser que tivesse uma arma apontada para sua cabeça, ele sabia que ela já havia cruzado muitos limites. Se começasse
a se masturbar? Ela acabaria tendo um belo espetáculo para contar para quem quer que fosse o pai dela – mesmo que tocar umazinha fosse muito melhor do que penetrar
fundo em seu sexo até que ela visse estrelas.
Que era o que ele de fato desejava fazer.
Maldição, por que tinha que se sentir atraído por uma menina comportada?
– Você pode – ela começou a dizer. Houve uma pausa e os olhos dela se desviaram por sobre o ombro como se ela estivesse se certificando de que a porta ainda estava
fechada. – Você pode fazer o que quiser.
Ele franziu a testa em meio à sede de sangue, tentando entender o que ela queria dizer.
– Estou vendo onde está a sua mão. Não sou idiota.
Craeg tentou menear a cabeça, mas não conseguiu porque sua boca não estava interessada em romper o contato.
Paradise assentiu.
– Tudo bem… vá em frente. Cuide de você.
E foi então que a luz se fez em sua mente. Ela queria que ele…
Por uma fração de segundo, sua consciência se negou veementemente, mas os olhos dela estavam tão firmes nos dele, junto ao aroma da excitação que emanava dela,
e o efeito não durou mais do que a formação das palavras.
Sim, senhorita, como quiser.
Embriagado pelo sabor dela, distendido pelo rastro da luxúria, com o corpo abatido e a mente implodida, ainda lhe sobrou um pouco de juízo para trancar cada uma
das portas do quarto, inclusive do armário. Não manteria as pessoas afastadas por muito tempo, mas certamente por tempo suficiente para que a virtude dela não se
perdesse por completo…
Peyton.
Quando o nome do outro macho surgiu em sua mente, ela franziu o cenho como se tivesse lido sua mente.
– O que você disse?
Então devia ter falado em voz alta, mais ou menos.
Craeg afrouxou sua pegada o bastante para dizer com clareza:
– Peyton.
– Já lhe disse, não há nada… Deus, não, nunca. Ele é como um irmão para mim.
Olhando-a, concluiu que ou ela estava sendo completamente sincera e dizia a verdade que conhecia, pois, de fato, não tinha ideia de que o cara a desejava, ou era
a melhor atriz fora de Hollywood e estava fazendo joguinhos com ele.
Inspirando, não captou nenhum cheiro de subterfúgio, e logo pensou nas maneiras de Peyton, no seu sotaque perfeito e no seu relógio caro. Ele podia ser um verdadeiro
aristocrata e, nesse caso, de modo nenhum se prenderia a longo prazo com uma recepcionista.
E, aparentemente, o filho da mãe era honrado o bastante para não lhe dar falsas esperanças. E fora bem-sucedido porque ela acreditava na farsa, mesmo quando ele
agiu de modo possessivo na sala de descanso.
Talvez Craeg não tivesse que odiá-lo tão intensamente.
– Não existe nada entre mim e Peyton – ela repetiu. – E nunca existirá.
Era o bastante para a sua palma.
Em seguida, sua mão livre desapareceu debaixo do…
Gemeu e se arqueou ao se segurar. Diminuindo o ritmo da fricção, descobriu-se querendo prolongar aquele momento entre eles. Queria dela sexo e sangue.
E, ao que parecia, naquele breve instante, teria um pouco dos dois.
Contudo, seria a primeira e única vez que isso aconteceria.
Havia algo de inevitável naquilo.
Foi o pensamento que se repetiu na mente de Paradise quando ela baixou o olhar para observar a mão de Craeg se mover debaixo do lençol. Ele tocava a si mesmo, o
tremendo corpo se retorcendo em ângulos estranhos conforme galgava as ondas de prazer.
Entretanto, por mais inevitável que parecesse, também havia muito de inesperado.
Não imaginara que se sentiria tão… poderosa. Estava com a distinta impressão de que, por maior que ele fosse, por mais forte que fosse, ela estava no comando ali.
Tudo o que quisesse dele, que necessitasse dele, ele lhe daria, faria por ela, encontraria para ela.
Depois que terminasse o sexo.
Os olhos de Craeg estavam pesados e cheios de desejo enquanto ele a fitava com aquele rosto surrado. Os músculos rijos do pescoço e do peito pareciam a ponto de
estourar a pele. E o cheiro dele se espalhava num bramido de algo picante e delicioso.
E então ele começou a gemer.
Deus, desejou que fosse a sua mão ali embaixo. Nunca fizera nada parecido antes, mas, puxa, não parecia ser tão difícil subir e descer daquele jeito… A questão
era que a sua mão boa estava grudada no rosto dele, e a machucada com o dedo na tala não conseguiria segurar nada naquele momento…
Subitamente, Craeg soltou o pulso dela e emitiu um som completamente animalesco, nem um pouco civilizado. Em seguida, a mão livre agarrou os lençóis ao lado do
quadril dela e os retorceu. O peito se estufou uma vez, duas… Ele voltou a se arquear, desta vez com um gemido… e depois o quadril dele se levantou, e mais uma vez,
grunhidos selvagens escaparam da boca dele enquanto os olhos se concentravam no seu rosto.
A imobilidade que se seguiu foi tão surpreendente quando o restante da cena. Depois do que pareceu uma eternidade, o corpo dele relaxou e ele se largou no colchão,
fechando os olhos, a respiração entrecortada, o suor reluzindo no peito.
– Lamba… – ele murmurou.
– O quê? – Deus, a voz dele estava rouca. – O que você disse?
– Você está… sangrando…
Paradise olhou para o pulso. Ele estava certo. As feridas múltiplas estavam apenas parcialmente fechadas. Erguendo o braço, ela sugou…
O gemido suave que se manifestou nele a fez parar.
O olhar sensual estava concentrado nos seus lábios.
Só que ele se desviou.
– Você precisa ir embora.
– O quê?
– Você ouviu. Vá embora.
Paradise exalou quando uma onda de raiva expulsou toda a luxúria que vinha sentindo com a eficiência de uma escavadeira.
– Por que você está sempre me dispensando?
– Porque não creio que você vá gostar de alguém entrando no quarto como ele está agora.
Ela olhou ao redor. Ok, tudo bem, havia uma pequena quantidade de sangue sobre o lençol perto da boca dele, mas, fora isso, não havia nada fora do lugar.
– Não há nada…
– Está cheirando a sexo aqui – ele murmurou. – Acabei de gozar em tudo aqui e, se alguém passar por aquelas portas, esse alguém vai saber que foi por sua causa.
Parta com um pouco da sua virtude, sim?
Paradise uniu as sobrancelhas quando ficou de boca aberta.
– Como é que é?
– Acabamos por aqui. – Ele deu de ombros. – Você me pediu para bater punheta. Atendi ao seu pedido e você conseguiu ver como um macho fica quando goza. Por isso,
nós dois conseguimos uma coisa com esta sessão. O que esperava agora, um pedido de comprometimento?
A dor a perpassou pelo peito e ela ficou momentaneamente sem ter o que dizer. E depois as únicas coisas que surgiram em sua mente envolviam as palavras “vai” e
“à” e “merda”.
Afastando-se do leito, aprumou os ombros. Quando se aproximou da porta que dava para o corredor, surpreendeu-se em ver que estava trancada. Não a trancara.
Talvez ele tivesse.
Quem se importava, porra?
Quando Paradise a destrancou, relanceou os olhos por sobre o ombro.
– Não posso fingir ser sofisticada, ou mundana em relação ao sexo, mas sei muito bem que a necessidade de diminuir os outros quando nos sentimos ameaçados é a marca
de um covarde, não de um herói. Descanse bem. Nos veremos amanhã… se você resolver aparecer.
Saindo, deixou que a porta se fechasse sozinha e avançou alguns passos, alguns metros… metade do caminho até o ginásio.
Tinha a intenção de seguir em frente.
Seus pés se recusaram a cobrir o resto da distância até a aula.
Praguejando, recostou-se na parede de concreto, cruzou os braços diante do peito e ficou olhando para as pedras polidas que formavam o piso… depois para as luzes
embutidas no teto… e as portas, as muitas, muitas portas. Ao longe, ouviu os gritos advindos de onde o treino de combate continuava. Também havia o zunido ambiente
do sistema de ventilação. Depois de um instante, seu estômago roncou, lembrando-a de que as calorias que consumira na rápida Primeira Refeição há muito haviam sido
absorvidas.
Aquela fora a sua primeira experiência sexual.
E, enquanto estivera acontecendo, fora maravilhoso, excitante, mais que provocante.
Contudo, Craeg arruinara tudo. Com apenas um punhado de frases, acabara com tudo e fez com que sentisse vergonha de si mesma…
– Desculpe.
Virando a cabeça, ela se retraiu.
– O que está fazendo fora da cama?
Craeg se arrastara para fora do quarto, parecendo depender mais do sustento do apoio para o acesso intravenoso do que das suas pernas para se locomover. No entanto,
esteve determinado a ir atrás dela, e Deus bem sabia que ele já provara que iria em frente até cair.
Andando na direção dele, ela levantou as palmas para detê-lo.
– Você precisa voltar para…
– Olha só, eu… – Limpou a garganta. Coçou debaixo do nariz mesmo não havendo nada ali. Esfregou uma sobrancelha e depois remexeu na camisola hospitalar. – Não posso
ser ninguém mais do que sou agora. Talvez, em outra época, se algumas coisas não tivessem acontecido… Talvez eu tivesse forças para aparar algumas das minhas arestas.
O problema é que não tenho essa força sobrando dentro de mim agora. E não existe nada de muito caloroso e acolhedor aqui dentro. – Apontou para o centro do peito,
o acesso de soro dependurando-se diante dele. – Não estou dizendo que estou certo ou que tenho orgulho de mim mesmo. Só estou dizendo como as coisas são. E é tudo
o que posso lhe dar: hoje, amanhã… na semana que vem. É só o que tenho a oferecer para qualquer um.
Ao fitá-la, seus olhos estavam firmes e graves.
E não havia dúvida na voz melancólica e nas palavras cuidadosamente escolhidas.
No silêncio que se seguiu, ela pensou no que disse sobre as pessoas a grande escritora e oradora humana Maya Angelou: quando uma pessoa lhe mostra quem ela é, acredite
nela na primeira vez.
Ou algo semelhante.
– Se quer um macho, fique com aquele seu garoto, o Peyton – ele continuou. – Você é tão espetacular que existe uma possibilidade de ele acabar deixando de lado
essa cretinice da glymera. E, olha só, você não seria recepcionista a vida inteira. Eu não poderia, jamais, lhe oferecer o que ele pode, mesmo que a minha personalidade
dê uma guinada de 180 graus.
Enquanto ele continuava a falar, suas palavras não foram totalmente compreendidas. Só no que ela pensava era no quanto era injusto que ela finalmente tivesse encontrado
um macho pelo qual se sentia atraída precisamente na hora errada e precisamente no contexto errado para qualquer desenlace significativo. E havia aquela coisa dele
de “eu sou uma ilha”, que ela queria chamar de idiotice, mas que, de fato e infelizmente, podia ser verdade.
– Ok – disse ela, por fim. – Obrigada por ser franco.
Houve uma pausa constrangedora, como se ele esperasse algum protesto da parte dela, alguma demonstração de indignação, talvez algumas palavras ásperas.
Mas logo ele abaixou as pálpebras, como se não quisesse que ela enxergasse o que havia por trás dos seus olhos.
A mão que não estava no suporte do soro se levantou para o rosto dela, mas ele logo a abaixou e sacudiu a cabeça.
– Tenho muitos arrependimentos na vida. Da próxima vez que se perguntar se alguém se importa com você… saiba que está na minha lista.
Craeg se virou e mancou de volta para o seu quarto hospitalar.
Ela o observou até quase chegar à porta e desaparecer.
O orgulho tornou importante que ela se afastasse primeiro.
Procurando se fortalecer, Paradise seguiu para o ginásio, para a aula, para o aprendizado e o autoconhecimento. Afinal, assim como ele, seu futuro residia no centro
de treinamento. Não em algum sonho com um macho desconhecido que nunca se concretizaria por tantos motivos.
Capítulo 20
DUAS HORAS MAIS TARDE, Paradise entrou no ônibus para saírem do centro de treinamento. Só havia um, visto que só restavam seis deles, uma vez que Craeg não recebera
alta médica para voltar para casa.
Olhando para o outro lado do corredor, deparou-se com os olhos de Peyton. Ele estava esticado num dos bancos, as costas apoiadas na lateral de vidros escurecidos,
as pernas estendidas, cruzadas na altura dos tornozelos.
Parecia-lhe que uma eternidade tinha se passado desde que discutiram no trajeto de ida na noite anterior.
Você está bem?, ele articulou com os lábios.
Ela assentiu e o imitou: E você?
Ele deu de ombros, fez uma careta ao se ajeitar no banco e fechou os olhos.
Ninguém estava conversando.
Diversas fileiras à sua frente, Boone estava sentado com a cabeça pensa, um par de fones de ouvido amparando suas orelhas, afastando-o do mundo. Ele não parecia
encontrar uma música de que gostasse, porque apertava a tela do iPhone a cada poucos segundos, deslizando pela lista de artistas antes de serem rejeitados. Anslam
estava adormecido do lado oposto a ele. Novo estava mais perto do motorista, olhando pelas janelas através das quais nada se via.
Axe estava bem no fundo, resguardando-se.
De tempos em tempos, Paradise mudava de posição, e se descobriu imitando Peyton ao fazer caretas de dor. Estava exausta, dolorida em todo lugar, preocupada com
o que a noite seguinte lhes traria em forma de testes.
Também ficava pensando no que acontecera no quarto hospitalar de Craeg. E no que fora dito entre eles no corredor.
– Pare com isso – disse para si mesma.
Reviver tudo não mudaria o resultado e, se fosse honesta consigo era o que queria. Teria sido maravilhoso ser livre para explorar aquele tipo de conexão.
Mas não havia chance de isso acontecer.
Na esperança de se distrair, olhou para a mochila de couro Bally que entregara à doggen quando se inscrevera no programa. Lembrava-se exatamente o que havia ali
dentro: barras de proteína, meias extras, uma muda de roupas, além de calcinhas e sutiãs, sua carteira, seu celular, uma foto dos pais num porta-retrato dourado.
Também se lembrava vividamente de ter guardado todas aquelas coisas, as gavetas que abrira em seu closet, as escolhas que levara tanto tempo para decidir, os itens
que queria ter levado, mas que decidira deixar em casa.
O mais perturbador… era que nada daquilo mais parecia lhe pertencer.
Parecia pertencer a uma espécie de irmã mais nova sua ou algo assim, uma parente mais jovem que se parecia com ela de longe, mas que, de perto, era totalmente diferente.
Peyton pousou os pés no chão e avançou com o tronco por meio do corredor. Desta vez, quando se sentou ao seu lado, ela ficou grata.
– Você não me parece bem – observou ele com suavidade.
A preocupação ameaçou a represa que refreava as suas emoções, mas ela sustentou o muro no lugar por temer se descontrolar diante dos seus colegas de sala.
Primus o cacete, pensou ela.
– Não sei… – Balançou a cabeça quando as palavras saíram. Não era o que ela teve a intenção de responder. – Na verdade, estou bem.
– A noite passada foi bem intensa. Difícil de atravessar.
– Conseguimos – ela murmurou. – Viva nós!
– É…
Quando seu amigo voltou a ficar circunspecto, olhando para o apoio de cabeça do assento à sua frente, ela só conseguia imaginar no que ele estava pensando: o acesso
de vômito, o saco ao redor da cabeça, a piscina… a caminhada mais longa de suas vidas.
A briga com Craeg.
– Como está se sentindo? – ela perguntou. – Me parece melhor.
– Vou precisar me alimentar.
Ao esfregar o rosto como se tentasse impedir mais lembranças da escola, ela sentiu uma pontada de culpa, porque, ao contrário de Craeg, a quem sentira uma imensa
pressa de oferecer a veia, ajudar seu amigo não era a primeira coisa que lhe vinha à cabeça.
Além disso, não sabia se conseguiria fazer aquilo com Peyton… se ele tivesse o mesmo tipo de reação que Craeg tivera.
Não que ela fosse irresistível para os machos, mas porque, talvez, aquele tipo de luxúria fosse apenas um subproduto da alimentação, e ela não desejava cruzar esse
limite com a amizade em questão.
– Mandei uma mensagem para o meu pai. – Peyton deu um tapinha no bolso do casaco. – Ele vai mandar alguém para mim. Vai ser a primeira vez que não faço sexo ao
tomar uma veia. – Franziu o cenho e relanceou os olhos para ela. – Desculpe. Informações demais.
Sobre o que ele estava falando? Ah, certo.
– Tudo bem. Não estou ofendida.
“Informação demais”, isso?, ela pensou. O que era informação demais de verdade era aquilo que ela e Craeg fizeram na clínica. Ou melhor… o que ele fizera a si próprio.
Desviou o olhar só para garantir que o rubor que sentia nas faces não seria notado.
– Você está diferente – ele observou.
A declaração fez com que a cabeça dela se virasse de repente.
– Como assim?
– Não sei. Talvez seja porque eu me lembre como se saiu bem.
Quando ele a fitou, ela entendeu que ele iria se desculpar de novo e, sem pensar, inclinou-se e o abraçou.
– Obrigada por isso…
Uma sequência de solavancos e uma notável diminuição na velocidade fez com que ela se afastasse.
– Já chegamos?
Peyton sacou o celular e olhou as horas.
– Já faz quarenta e cinco minutos que partimos. Acho que chegamos, sim.
O doggen que dirigia anunciou no alto-falante que tinham chegado, de fato, ao destino. Um a um, levantaram-se, formando uma fila, e desceram do ônibus.
A noite estava fria, bem fria e, por algum motivo, ela pensou que se a cor azul tivesse um cheiro, seria o que estava em seu nariz enquanto inspirava o ar revigorante
e seco.
Virando-se para os outros quando o ônibus partiu, viu que todos estavam parados no descampado, como se ninguém soubesse bem como proceder.
Anslam foi o primeiro a se despedir, ainda que apenas de Peyton, e depois se foi. Axe não falou com ninguém antes de se desmaterializar.
– Até amanhã, então – Peyton murmurou ao olhar para Novo e Boone.
Antes de desaparecer, aproximou-se dela.
– Vou ligar para você daqui a umas duas horas. Espero que atenda esse telefone.
– Pode deixar.
– Que bom.
Com um breve sorriso, assim, do nada, ele sumiu.
Paradise disse alguma coisa para os outros, não sabia bem o quê, e eles responderam algo que ela também não ouviu direito.
E depois colocou a mochila no ombro e desapareceu, desvanecendo numa confusão de moléculas que, de certa forma, combinavam com seu estado mental e emocional muito
melhor do que sua forma corpórea.
Ao regressar para seu corpo no jardim diante da mansão do pai, permaneceu onde chegou e observou a magnífica fachada da imensa propriedade ao estilo Tudor. Luzes
internas brilhavam, a iluminação amanteigada atravessando as janelas com treliça em forma de diamantes, criando a ilusão do brilho de uma lareira. De tempos em tempos,
na abertura entre as cortinas de seda, ela via um doggen passar, carregando uma bandeja de prata, um espanador de plumas, um arranjo de flores.
O vento soprava forte, e quanto mais ela ficava sobre a grama amarronzada e congelada, mais o vento penetrava em sua jaqueta, nas roupas, em sua pele.
Ela e o pai moravam na propriedade há muito tempo, e não havia um cômodo sequer que ela não conhecesse de cor, mesmo os escondidos.
No entanto, naquela noite a mansão se parecia com os objetos que trazia na mochila: pertencente a outra pessoa.
Era surpreendente… como uma jornada que começava e terminava em sua cidade natal, e não necessariamente demandou que ela mudasse de endereço, a distanciasse tão
completamente de sua vida.
Quando começou a estremecer, forçou-se a andar para a frente. Eram quase duas da manhã, e por mais que isso a fizesse sentir culpa, estava muito contente por seu
pai ainda estar trabalhando na casa de audiências. Simplesmente não tinha forças para lhe contar tudo sobre os seus “estudos”.
Mais especificamente, ela ainda não processara nada daquilo, por isso era cedo demais para explicar a experiência para qualquer um.
Chegando à porta de entrada, esticou a mão na direção da campainha. E se deteve.
Sério?, pensou. Vai apertar a campainha da sua própria casa?
Contudo, sentiu-se uma estranha ao pressionar o indicador no leitor de digitais que destrancava a porta.
Adentrando no calor, fechou a pesada porta atrás de si e inspirou fundo algumas vezes. Não havia nenhuma sensação de calma ao olhar ao redor, para as conhecidas
pinturas a óleo e os tapetes orientais. Em vez disso, sentiu um desconforto esquisito…
– Senhorita! Retornou! – Quando o mordomo, Fedricah, apressou-se na sua direção, era só sorrisos, e ele se curvou tanto que a testa quase limpou o chão como um
esfregão. – O que posso lhe providenciar? Gostaria de uma refeição – não, um banho. Pedirei a Vuchie que…
– Por favor, não. – Ela estendeu as palmas quando a decepção o acometeu de tal forma, seu rosto desabando, que parecia que ele ia falar na altura da gravata borboleta.
– A Irmandade nos alimentou muito bem e, sinceramente, só preciso me recolher. – Palavras, ela precisava da combinação correta de palavras ali. – Por favor, poderia
dizer ao meu pai que tudo foi uma maravilhosa experiência de aprendizagem… Diga-lhe que estou muito bem e que, na verdade, fui aceita no programa. Estamos fazendo
tarefas na sala de aula. É tudo muito seguro.
E as duas últimas coisas, tecnicamente, não eram mentira. Rhage lhe disse que na noite seguinte estariam em sala de aula, e ninguém se ferira seriamente.
– Ah, sim, claro, senhorita! Ele ficará tão feliz! Não acredito que ele tenha dormido durante o dia, mas, por favor, toque a campainha se precisar de algo. Estamos
sempre à sua disposição.
– Farei isso, prometo. Obrigada.
Escapou rapidamente pelas escadas, um medo irracional de que o pai chegasse mais cedo fazendo com que se apressasse para o quarto. Quando se fechou lá, olhou para
a cama de dossel, para os tapetes bordados com ponto cruz e para as antiguidades…
… e desejou muito ter ido repousar num quarto limpo e anônimo de um hotel.
Aproximando-se da cama, sentou-se sobre o colchão hipermacio e deixou a mochila aos pés. Depois apoiou as mãos nos joelhos e encarou a parede.
Craeg não era a única coisa em que pensava. Mas havia muito dele em sua mente.
Cara. Agora que estava ali escondida, sentia-se presa…
Quando o celular começou a tocar, ela fez uma careta. Indubitavelmente, Fedricah ligara para o pai no instante em que ela subira, e a dúvida era se seria pior deixá-lo
cair na secretária eletrônica… ou tentar forçar qualquer coisa próxima do normal pelo telefone.
Mais tarde não seria muito melhor, então ela decidiu: se não falasse com ele agora, era capaz de ele bater à sua porta assim que entrasse em casa. E, assim, teria
que enfrentá-lo cara a cara.
Pescando o iPhone na mochila, franziu o cenho ao ver o desenho de uma folha de cinco pontas de maconha na tela.
– Peyton?
– Oi. Não consegui esperar duas horas. Estou sofrendo de um sério caso de nervosismo.
Mesmo que ele não conseguisse vê-la, ela assentiu com a cabeça.
– Eu sei. Eu também.
Quando houve uma pausa, esperou até que o barulho costumeiro da maconha sendo acesa surgisse. No entanto, somente mais silêncio.
Depois de um instante, ele disse:
– Sinto como se tivesse ficado afastado uma década.
– Também me sinto assim.
– Nem estou a fim de fumar. Dá pra imaginar uma coisa dessas?
Ela se curvou para trás até encostar a cabeça no travesseiro.
– Talvez seja bom.
– Só mais uma coisa no meio de toda essa estranheza, sabe? – Ouviu um barulho, como se ele também estivesse se deitando. – Ok, qual é a daquele tal de Axe? Quero
dizer, você viu ele quando ele estava lutando contra…
E enquanto seu amigo se lançava em todo tipo de comentários, Paradise fechou os olhos e inspirou profunda e lentamente.
Engraçado, foi assim logo após os ataques. Os dois conversando noite adentro, unidos pelo telefone, uma conexão invisível aberta entre eles que, apesar de tudo,
era muito tangível.
Ele era seu único amigo, ela se deu conta.
E se sentiu muito grata por terem superado a briga entre eles – e também a primeira noite do treinamento.
De repente, as coisas já não pareciam mais tão estranhas.
– Caramba, sou boa nisso – Marissa disse ao se recostar e olhar para a pilha de cartões de 13 por 18 centímetros diante dela.
Levara horas, mas conseguira gerar, pelo computador, uma centena de convites coloridos para o Festival Dançante do Décimo Segundo Mês. Sim, teria sido muito melhor
se os malditos tivessem sido impressos em relevo, mas estavam sem tempo: só restavam catorze dias para o evento em sua obrigatória primeira lua cheia de dezembro,
por isso ninguém estaria em posição de reclamar de algumas medidas apressadas.
O próximo passo era endereçar os envelopes, e Mary e Bella já tinham se oferecido para ajudá-la com isso na mansão. Depois, Marissa conversaria com Fritz a respeito
dos preparativos das comidas e perguntaria por aí a respeito de alguns músicos tradicionais do Antigo País para lidar com a questão.
Ah, que a Santa Virgem Escriba abençoasse Abalone. O macho concordara em deixá-los usar o salão de baile de sua propriedade. Era uma opção muito melhor do que a
alternativa de usar a casa do velhote e da cavadora de ouro. O casal abrigara uma reunião secreta do Conselho para conspirar contra Wrath, por isso de modo algum
a Irmandade voltaria para lá a menos que estivesse munida de um arsenal de lança-chamas. E, de qualquer forma, não acreditava que Butch ficaria muito feliz por ela
passar algum tempo debaixo daquele teto em particular.
Portanto, convites. Local. Comida. Entretenimento.
Estava cuidando de tudo, mas não se enganava. Sabia muito bem o porquê de ser ela a organizadora do evento, e não era pela sua competência: as pessoas que se empenhavam
naquilo vinham tendo dificuldade para atrair a glymera desde todo o drama em torno da eleição democrática de Wrath. E como não havia nada que os aristocratas gostassem
mais do que um escândalo, o que poderia ser mais divertido do que vê-la em ação na festa?
A sua presença faria com que o percentual de aceitação ao convite subisse até o teto.
E isso era engraçado. De uma maneira perversa, ela estava ansiosa para desfilar com a cabeça erguida diante do bando de tubarões, e pelo menos Butch não teria que
lidar com aquela asneira toda. Estaria ocupado trabalhando e ensinando. Além do mais, ele não tinha paciência para aquele tipo de festa.
Ela reviveria sozinha aquele momento de sua vida.
Consultando o relógio, percebeu que eram três horas. Normalmente, esperava até as quatro para voltar para casa, mas se ela e as fêmeas pudessem finalizar todos
os convites antes que todos se recolhessem, então Fritz poderia levá-los ao correio humano e eles seriam recebidos no dia seguinte.
Com rápida eficiência, guardou os convites e os envelopes na bolsa LV Neverfull que Butch lhe dera um tempo atrás e desligou o computador.
Sua sensação de satisfação não durou muito.
Depois de se despedir das suas funcionárias e desculpar-se por se ausentar antes da hora, saiu da ala Wellsie e se desmaterializou para a mansão. Enquanto esperava
que a porta interna do vestíbulo fosse aberta, voltou a se preocupar com aquela fêmea.
Ainda nenhuma novidade quanto à “chave”. E nenhum e-mail fora enviado aos endereços eletrônicos do Lugar Seguro ou à casa de audiências a respeito de alguma fêmea
desaparecida. Nada nos grupos sociais fechados da mídia. Nenhum telefonema ou mensagem de texto.
Mas a família dela deveria ter dado pela sua falta, não?
Fritz, o amado mordomo, abriu a porta com um amplo sorriso.
– Senhora, como tem passado?
Fodida, obrigada.
– Estou muito bem e você? – Sacudiu a cabeça quando ele se adiantou para pegar sua bolsa. – Pode deixar, cuido disso. Você viu…
– Estamos prontas! E Mary está a caminho!
Marissa olhou para a arcada da sala de bilhar. Bella, Beth e Autumn estavam juntas, com taças de vinho branco e canetas bico de pena nas mãos.
– Estamos prontas para escrever – anunciou Bella. – E depois solicitamos um serviço especial para a Última Refeição, porque vamos subir à sala de projeções para
uma sessão de cinema.
– Magic Mike xxl acabou de ser lançado em DVD – Beth cantarolou. – Temos a obrigação moral de apoiar as belas artes, mesmo que apenas as humanas.
– Não assisti ao primeiro – murmurou Autumn. – Ouvi dizer que a pelve dele é destroncada. É verdade?
Beth se adiantou e pegou a bolsa de Marissa.
– Venha, você parece estar necessitada de uma noite só de mulheres. Payne e Xhex vão se juntar a nós. Assim como Cormia, Layla, a doutora Jane e Ehlena. Vamos todas
ficar juntas… Já era hora.
Por uma fração de segundo, Marissa se sentiu culpada por se deixar apoiar pela amizade que lhe era oferecida. Parecia… tão frívolo quando pensava em tudo o que
não conseguia fazer pela fêmea desconhecida.
Bella se inclinou na sua direção.
– Dissemos aos machos que eles não podem entrar. Basicamente porque se virem Channing Tatum no telão…
Beth terminou por ela:
– … vamos ter que redecorar a sala de projeções depois que tiverem destroçado o lugar.
– Voltemos à pelve desconjuntada – Autumn se juntou a elas. – Quero dizer, como ele anda?
– Muito bem, amiga. – Quando Bella respondia à companheira de Tohr, passou o braço pelos ombros de Marissa. – Mas muito, muito bem mesmo.
Enquanto Marissa se deixava arrastar para a sala de bilhar – onde os frascos de tinta tinham sido dispostos nas mesinhas auxiliares e já havia uma taça de vinho
separada para ela – começou a piscar rápido. Parte da sua emoção era porque aquela fêmea que morreu jamais teria nada daquilo de novo, isso se tivesse tido a sorte
de ter boas pessoas cercando-a enquanto estivesse viva.
A outra parte era uma gratidão tão grande que seu peito mal conseguia conter a emoção.
– Senhoras – disse ela, passando o braço pela cintura de Bella. – Vamos acabar logo com esse endereçamento, para podermos passar para a parte do desnudamento.