Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites
CASA NOBRE
Volume II
Segunda Parte
23h59m
Dunross fitava a triste carcaça do Dragão Flutuante, ader-nada nas águas de seis metros de profundidade de Aberdeen. Os outros navios-restaurantes de muitos andares que flutuavam ali por perto ainda estavam fortemente iluminados, vulgares e barulhentos, totalmente cheios, suas cozinhas novas e temporárias instaladas às pressas em barcaças ao lado do navio-mãe, caldeirões fumegando, fogo sob os caldeirões, um monte de cozinheiros e ajudantes como abelhas na colméia. Garçons subiam e desciam as passarelas precárias com bandejas e pratos. Sampanas circulavam por perto, sob os olhares dos turistas e dos yan de Hong Kong, que observavam, pasmados, a carcaça, uma grande atração.
Parte da superestrutura da carcaça sobressaía de dentro d'água. Turmas de reparos trabalhavam nela, sob a luz de holofotes, recuperando-a, aprontando o que restara dela para flutuar. Na sua parte do cais e do estacionamento haviam sido instalados barracos e cozinhas temporários. Mascates estavam muito ocupados, vendendo fotos do incêndio, lembranças, comidas de todos os tipos, e um imenso cartaz iluminado, em chinês e inglês, orgulhosamente anunciava que o novo, único, totalmente MODERNO RESTAURANTE FLUTUANTE À PROVA DE fogo, o "dragão flutuante", logo estaria em funcionamento, maior do que nunca, melhor do que nunca... "Enquanto isso, não deixem de provar a comida dos nossos famosos cozinheiros. " O negócio funcionava como sempre, só que temporariamente em terra, não no mar.
Dunross caminhou pelo cais até uma das escadinhas que davam para o mar. Havia grupos de sampanas por perto, grandes e pequenas, a maioria de aluguel. Cada pequena embarcação tinha um remador, homem, mulher ou criança de qualquer idade. Cada embarcação tinha um teto de lona que a cobria pela metade e protegia do sol, da chuva ou dos olhares indiscretos. Algumas das sampanas eram mais sofisticadas. Eram os luxuosos Barcos do Prazer. Lá dentro havia almofadões e mesas baixas, com lugar de sobra para duas pessoas comerem, beberem e depois fazerem amor, o único remador discretamente afastado da cabine. Podiam ser alugados por uma hora ou uma noite, e o barco flutuaria preguiçosamente pelos caminhos secundários. Outras sampanas ofereciam o melhor sortimento de comida e bebida, alimentos frescos servidos bem quentes, delicadamente. Nelas um homem e sua acompanhante podiam passar a noite num sonho de perfeita intimidade.
O homem podia ir sozinho, se quisesse. Então, perto de uma das vastas ilhas de barcos, sua sampana se encontraria com a das Damas da Noite, e ele escolheria, pechincharia e depois se poria ao largo. No porto era possível satisfazer qualquer vontade, sede, desejo... sem gastar muito, o preço justo, fosse quem fosse o cliente... se pudesse pagar e fosse homem. Ópio, cocaína, heroína, o que desejasse.
Às vezes a comida era ruim, ou a garota era ruim, mas isso era apenas azar, um engano lamentável, mas não deliberado. Às vezes podia-se perder a carteira, mas, afinal, só mesmo um otário viria ostentar sua fortuna no meio de tanta miséria orgulhosa.
Dunross sorriu ao ver um turista corpulento entrar nervosamente numa das embarcações, ajudado por uma garota de cheong-sam. "Está em boas mãos", pensou, muito satisfeito com a azáfama de negócios à sua volta, compras, vendas, pechinchas. "É", disse para si mesmo, "os chineses são os verdadeiros capitalistas do mundo.
"E quanto ao Tiptop e o pedido de Johnjohn? E quanto ao Lando Mata, ao Pão-Duro e à Par-Con? E o Gornt? E Alan, e Riko Anjin, e Sinders, e...
"Não pense neles agora. Concentre-se! Wu Quatro Dedos não o chamou para discutirem o tempo. "
Passou pela primeira escadinha e seguiu pelo cais em direção à escada principal, a luz dos postes da rua lançando fortes sombras. Imediatamente, todas as sampanas ali começaram a se empurrar, para tomar posição, os donos chamando, convidando. Quando ele chegou ao topo da escada, a comoção cessou.
— Tai-pan!
Um bem-equipado Barco do Prazer com a bandeira Lótus Prateada na popa vinha abrindo caminho por entre elas. O barqueiro era baixo e atarracado, com muitos dentes de ouro. Usava calças cáqui rasgadas e uma camiseta.
Dunross assobiou, reconhecendo o filho mais velho de Wu Quatro Dedos, o loh-pan, chefe da frota de Barcos do Prazer de Wu. "Não admira que os outros barcos lhe tenham dado passagem", pensou, impressionado por Wu Dente de Ouro vir recebê-lo pessoalmente. Agilmente, subiu a bordo, cumprimen-tando-o. Dente de Ouro começou a remar, afastando-se rapidamente.
— Fique à vontade, tai-pan — disse Dente de Ouro num inglês perfeito, com sotaque da Inglaterra. Ele era bacharel em ciências pela Universidade de Londres, e queria permanecer na Inglaterra. Mas Quatro Dedos ordenara que voltasse para casa. Era um homem meigo, quieto, bondoso, de quem Dunross gostava.
— Obrigado.
Na mesa laqueada havia chá fresco, uísque e copos, conhaque e água engarrafada. Dunross olhou ao seu redor, atentamente. A cabine era arrumada e iluminada por pequenas lâmpadas, limpa, agradável e espaçosa. Um pequeno rádio tocava boa música. "Esta deve ser a nau capitania do Dente de Ouro", pensou, divertido, e muito desconfiado.
Não havia necessidade de perguntar aonde Dente de Ouro o estava levando. Serviu-se de um pouco de conhaque, adicionando soda. Não havia gelo. Ele nunca usava gelo, na Ásia.
— Pombas — murmurou repentinamente, lembrando-se do que Peter Marlowe dissera sobre a possibilidade de hepatite infecciosa. Umas cinqüenta ou sessenta pessoas estavam com esse perigo pendendo sobre suas cabeças agora, quer soubessem ou não. Gornt era uma delas. "É, mas o sacana é forte como um cutelo de carne. Nem sequer teve um desarranjozinho. O que devo fazer quanto a ele? Qual será a solução permanente?"
Estava fresco e agradável na cabine, meio aberta à brisa, o céu escuro. Um junco enorme passou por eles, o motor roncando, e ele se recostou, curtindo as tensões que sentia, a expectativa. O coração batia firme. Saboreou o conhaque, calmamente, exercitando a paciência.
O lado da sampana roçou noutra. Ficou de ouvido atento. Pés descalços subiram a bordo. Dois pares de pés, um deles ágil, o outro não.
— Salve, tai-pan! — cumprimentou Quatro Dedos, abrindo o seu sorriso sem dentes. Entrou sob o toldo e sentou-se. — Como vai, bem? — perguntou, num inglês pavoroso.
— Bem, e você? — respondeu Dunross, fitando-o e tentando disfarçar o espanto. Wu Quatro Dedos vestia um bom terno, camisa branca limpa, gravata espalhafatosa e usava sapatos e meias. A última vez que Dunross o vira daquele jeito fora na noite do incêndio, e antes disso, uma única vez, há anos, na imensa festa de casamento de Shitee T'Chung.
Mais passos se aproximaram. Desajeitadamente, Paul Choy se sentou.
— Boa noite, senhor. Sou Paul Choy.
— Como vai? — perguntou, sentindo um grande desconforto e apreensão.
— Bem, senhor, obrigado. Dunross franziu o cenho.
— Bem, é um prazer — falou, pondo de lado a preocupação. — Está trabalhando para o seu tio, agora? — perguntou, sabendo toda a verdade sobre Paul Choy, mas continuando o fingimento combinado com Quatro Dedos, e muito impressionado com o rapaz. Soubera do golpe que ele dera na Bolsa, através de seu velho amigo Soorjani.
— Não, senhor. Estou na Rothwell-Gornt. Comecei faz uns dois dias. Estou aqui para servir de intérprete... se o senhor precisar.
Paul Choy virou-se para o pai e explicou o que fora dito. Quatro Dedos balançou a cabeça.
— Conhaquiii?
— Está ótimo, obrigado. — Dunross ergueu o copo. — Prazer em vê-lo, heya — continuou, em inglês, esperando que o velho começasse em haklo. Era uma questão de prestígio, e, com a presença de Paul Choy, a cautela latente de Dunross aumentara mil vezes.
O velho marujo conversou fiado por algum tempo, tomando uísque. Nenhuma bebida foi oferecida a Paul Choy, e nem ele se serviu. Ficou sentado nas sombras, escutando, assustado, sem saber o que esperar. O pai fizera com que jurasse segredo perpétuo, com juramentos de sangue de arrepiar os cabelos.
Finalmente, Wu desistiu de enervar o tai-pan e começou a falar em haklo.
— Há muitos anos que nossas famílias são Velhas Amigas — disse, falando lenta e cuidadosamente, ciente de que o haklo de Dunross não era perfeito. — Muitos e muitos anos.
— É. Os Wu Marítimos e a Struan como irmãos — replicou o tai-pan, cautelosamente.
Quatro Dedos soltou um resmungo.
— O presente é como o passado, e o passado, o presente. Heya?
— O Velho Cego Tung diz que o passado e o presente o mesmo. Heya?
— O que o nome Wu Kwok significa para o tai-pan da Casa Nobre?
Dunross sentiu um nó no estômago.
— Ele seu bisavô, heya? Seu ilustre antepassado. Filho e almirante do ainda mais ilustre senhor da guerra dos mares, Wu Fang Choi, cuja bandeira, a Lótus Prateada, tremulou em todos os quatro mares.
— Esse mesmo! — Quatro Dedos debruçou-se para a frente, e Dunross dobrou sua cautela. — Qual era a ligação entre o Demônio de Olhos Verdes... entre o primeiro tai-pan da Casa Nobre e o ilustre Wu Kwok?
— Conheceram-se no mar. Encontraram-se no estuário do rio Pearl, perto de Wh...
— Foi perto daqui, perto de Pok Liu Chau, entre Pok Liu Chau e Aplichau.
Os olhos do velho eram como fendas em seu rosto.
— Depois, encontraram-se perto de Hong Kong. O tai-pan subiu a bordo da nau capitania de Wu Kwok. Foi sozinho e... — Dunross buscou a palavra — e negociou um acordo com ele.
— O acordo foi escrito num papel e carimbado?
— Não.
— O acordo foi cumprido?
— É uma porra duma falta de educação fazer tal pergunta a Velho Amigo, quando outro Velho Amigo sabe resposta!
Paul Choy teve um sobressalto involuntário ao súbito veneno e tom cortante das palavras. Nenhum dos homens prestou-lhe atenção.
— É verdade, é verdade, tai-pan — disse o velho, tão destemido quanto Dunross. — É, o acordo foi cumprido, embora torcido. Parte dele foi torcida. Conhece o acordo?
— Não, todo não — disse Dunross, sem mentir. — Por quê?
— O acordo dizia que, em cada um dos seus vinte veleiros, poríamos um homem para ser treinado como capitão... meu avô era um deles. Depois, o Demônio de Olhos Verdes concordou em pegar três dos rapazes de Wu Kwok e mandá-los para a sua terra, para treiná-los como demônios estrangeiros nas melhores escolas, como seriam treinados os seus próprios filhos. Depois, o tai...
— Como? Quem? Quem são esses rapazes? Quem vieram a ser? — perguntou Dunross, olhos arregalados.
Wu Quatro Dedos apenas deu um sorriso torto.
— A seguir, o Demônio de Olhos Verdes concordou em arranjar para o ilustre Wu Fang Choi um veleiro dos demônios estrangeiros, armado, equipado, e lindo. Wu Fang Choi pagou pelo navio, e o tai-pan o providenciou, e chamou-o de Lotus Cloud. Mas, quando Culum, o Fraco, o entregou, quase dois anos mais tarde, o desgraçado do seu almirante, Stride Orlov, o Corcunda, surgiu do leste como um assassino dentro da noite e assassinou o nosso navio, e Wu Kwok com ele.
Dunross sorvia o seu conhaque, esperando, aparentemente tranqüilo, intimamente chocadíssimo. Quem poderiam ser os tais rapazes? Aquilo realmente fazia parte do acordo? Não havia nada no diário ou testamento de Dirk sobre os filhos de Wu Kwok. Nada. Quem po...
— Heya?
— Sei tudo sobre o Lotus Cloud. E sobre os homens, os capitães. Acho que eram dezenove, e não vinte veleiros. Mas nada sei sobre os três rapazes. Quanto ao Lotus Cloud, meu ancestral prometeu não lutar contra navio, depois de dar navio?
— Não. Ah, não, tai-pan, isso ele não prometeu. O Demônio de Olhos Verdes era esperto, muito esperto. A morte de Wu Kwok? Joss. Todos temos que morrer. Joss. Não, o Demônio de Olhos Verdes cumpriu o seu acordo. Culum, o Fraco, também. Você o cumprirá?
Wu Quatro Dedos abriu a mão. Dentro dela estava a meia moeda.
Dunross segurou-a com cuidado, o coração doendo no peito. Os dois o fitavam como cobras, e ele pôde sentir a força de seus olhares. Seus dedos tremiam imperceptivelmente. Era como as outras meias moedas que ainda estavam na bíblia de Dirk, no cofre da Casa Grande, duas ainda ali, duas já desaparecidas, resgatadas, uma delas a de Wu Kwok. Lutando para controlar o tremor dos dedos, devolveu a moeda. Wu a pegou, sem ligar para o tremor da própria mão.
— Talvez verdadeira — disse Dunross, a voz soando estranha. — Preciso verificar. Onde conseguiu?
— É genuína, claro que é genuína, porra! Admite que é genuína?
— Não. Onde conseguiu?
Quatro Dedos acendeu um cigarro e tossiu. Pigarreou e cuspiu.
— Quantas moedas havia, para começar? Quantas o ilustre mandarim Jin-qua deu ao Demônio de Olhos Verdes?
— Não tenho certeza.
— Quatro. Eram quatro.
— Ah, uma para o seu ilustre ancestral, Wu Kwok, paga e resgatada. Por que o grande Jin-qua lhe daria duas? Impossível... esta roubada. De quem?
O velho enrubesceu, e Dunross perguntou-se se teria ido longe demais.
— Roubada ou não — cuspiu o velho —, você concede favor. Heya? — Dunross apenas olhou-o fixamente. — Heya? Ou a dignidade do Demônio de Olhos Verdes não é mais a dignidade da Casa Nobre?
— Onde conseguiu?
Wu fitou-o. Apagou o cigarro no tapete.
— Por que o Demônio de Olhos Verdes concordaria com quatro moedas? Por quê? E por que juraria pelos deuses que ele e todos os seus herdeiros honrariam a palavra dele, heya?
— Por um outro favor.
— Ah, tai-pan, é, por um favor. Sabe que favor? Dunross devolveu-lhe o olhar.
— O Honorável Jin-qua emprestou ao tai-pan, meu trisavô, quarenta laques de prata.
— Quarenta laques... quatro milhões de dólares. Há cento e vinte anos. — O velho soltou um suspiro. Seus olhos se estreitaram ainda mais. Paul Choy estava imóvel, mal respirava. — Pediu um documento? Um papel de dívida carimbado pelo seu ilustre ancestral... ou o carimbo da Casa Nobre?
— Não.
— Quarenta laques de prata. Nem papel nem carimbo, só confiança! O acordo foi apenas um acordo entre Velhos Amigos, sem carimbo, só confiança, heya?
— É.
A mão sem polegar do velho subiu com a palma para cima e segurou a meia moeda sob o rosto de Dunross.
— Uma moeda concede favor. A quem quer que peça. Eu peço.
Dunross soltou um suspiro. Finalmente, rompeu o silêncio.
— Primeiro, encaixo uma metade na outra. Depois, vejo bem se metal daqui igual a metal de Iá. Depois, você diz favor.
Já ia pegar a moeda, mas o punho se cerrou e se afastou, e Quatro Dedos fez um sinal com o polegar que tinha para Paul Choy.
— Explique.
— Com licença, tai-pan — disse Paul Choy em inglês, bem pouco à vontade, detestando o ar abafado e as correntes diabólicas da cabine, tudo por causa de uma promessa feita há doze décadas por um pirata a outro, os dois um bom par de assassinos, se metade das histórias eram verdadeiras. — Meu tio quer que eu lhe explique como quer agir. — Tentou manter a voz serena. — Claro que ele compreende que o senhor tem reservas e quer estar mil por cento certo. Ao mesmo tempo, ele não quer abrir mão da posse da moeda, não agora. Até que se tenha certeza, de uma forma ou de outra, prefere...
— Está querendo dizer que ele não confia em mim?
Paul Choy crispou-se ante a violência das palavras.
— Oh, não é isso, senhor — falou, depressa, e traduziu o que Dunross dissera.
— Claro que confio em você — disse Wu, com um sorriso torto. — Mas você confia em mim?
— Ah, sim, Velho Amigo, confio muito. Entregue-me moeda. Se real, eu, tai-pan da Casa Nobre, concederei o que pedir... se possível.
— O que for pedido, o que for, será concedido! — explodiu o velho.
— Se possível. É. Se moeda real, concedo favor. Se não real, devolvo moeda. Acabado.
— Não acabado. — Wu fez um gesto para Paul Choy. — Você acaba, depressa.
— Meu... meu tio sugere a seguinte acomodação: o senhor fica com isso. — O rapaz apanhou um pedaço chato de cera de abelha. Havia nele três impressões separadas da meia moeda. — O senhor poderá encaixar a outra metade nelas. As beiradas são nítidas o bastante para poder ter certeza, quase certeza. Esse é o primeiro passo. Se estiver razoavelmente satisfeito, iremos juntos a um avaliador do governo, ou ao curador de um museu, e mandaremos que teste as duas moedas na nossa frente. Assim, ambos saberemos a um só tempo. — Paul Choy pingava de suor. — É isso o que o meu tio deseja.
— Um dos lados poderia facilmente subornar o avaliador.
— Claro. Mas antes de irmos falar com ele, misturaremos as duas metades. Conheceríamos a nossa, o senhor conheceria a sua... mas ele não, certo?
— Dar-se-ia um jeito.
— Claro. Mas se... se fizermos isso amanhã, e se Wu Sang lhe der a sua palavra, e o senhor lhe der a sua palavra, de não tentar nada, daria certo. — O rapaz enxugou o suor do rosto. — Puxa, mas como está abafado aqui!
Dunross pensou por um momento. Depois, voltou os olhos frios para Quatro Dedos.
— Ontem eu pedi favor, você disse não.
— Aquele favor era diferente, tai-pan — replicou prontamente o velho, a língua dardejando como a de uma cobra. — Não era a mesma coisa que uma promessa antiga cobrando uma dívida antiga.
— Perguntou a seus amigos sobre meu pedido, heya? Wu acendeu outro cigarro. Sua voz tornou-se mais cortante.
— Sim. Meus amigos estão preocupados com a Casa Nobre.
— Sem Casa Nobre, nada de nobre favor, heya?
O silêncio ficou mais denso. Dunross viu os olhos velhos e astutos dardejarem para Paul Choy, e depois de volta para ele. Sabia que estava preso pela moeda. Teria que pagar. Se fosse genuína, teria que pagar, quer fosse roubada ou não. "Roubada de quem?", berravam seus pensamentos. "Quem aqui teria uma delas?" Dirk Struan nunca soubera a quem as outras haviam sido dadas. No seu testamento, escrevera que suspeitava que uma tivesse sido dada à sua amante, May-may, mas não havia motivo para tal presente por parte de Jin-qua. Se May-may a tivesse possuído, raciocinou Dunross, então teria passado de geração em geração até Shitee T'Chung, que era o atual chefe da linhagem T'Chung, a linhagem de May-may. Talvez tivesse sido roubada dele.
"Quem mais em Hong Kong?
"Se o tai-pan ou a Bruxa não sabiam a resposta para isso, muito menos eu. Não há ligação de família que remonte a Jin-qua!"
No pesado silêncio, Dunross observava e esperava. Outra gota de suor escorreu do queixo de Paul Choy enquanto olhava para o pai, depois voltava o olhar para a mesa. Dunross sentiu ódio nele, e aquilo o interessou. Então, notou que Wu olhava para Paul Choy de maneira estranha e avaliadora. Instantaneamente, seu pensamento deu um salto à frente.
— Sou o árbitro de Hong Kong — disse em inglês. — Apóie-me e dentro de uma semana poderá ter lucros imensos.
— Heya?
Dunross observava Paul Choy. Viu quando ele ergueu o olhar, espantado.
— Por favor, traduza, sr. Choy — falou.
Paul Choy obedeceu. Dunross soltou um suspiro, satisfeito. Paul Choy deixara de traduzir "sou o árbitro de Hong Kong". Novo silêncio. Ele se descontraiu, agora mais tranqüilo, sentindo que os dois homens haviam engolido a isca.
— Tai-pan, a minha sugestão sobre a moeda, concorda? — perguntou o velho.
— Sobre o meu pedido, meu pedido de dinheiro de apoio, concorda?
Wu exclamou, irado:
— As duas coisas não estão interligadas como a chuva numa tempestade fornicadora. Sim ou não quanto à moeda?
— Concordo quanto à moeda. Mas não amanhã. Semana que vem. Quinto dia.
— Amanhã.
Paul Choy se interpôs, cuidadosamente:
— Honrado Tio, talvez possa pedir de novo a seus amigos amanhã. Na parte da manhã. Talvez possam ajudar o tai-pan. — Seus olhos argutos viraram-se para Dunross. — Amanhã é sexta-feira — disse, em inglês. — Que tal na segunda às... às quatro da tarde, para a moeda?
Repetiu em haklo.
— Por que a essa hora? — perguntou Wu, irritado.
— O mercado de dinheiro dos demônios estrangeiros fecha na terceira hora da tarde, Honrado Tio. A essa altura, a Casa Nobre será nobre, ou não.
— Sempre seremos a Casa Nobre, sr. Choy — disse Dunross, cortesmente, em inglês, impressionado com a habilidade do sujeito... e a argúcia com que entendera a indireta. — Concordo.
— Heya?
Depois que Paul Choy acabou, o velho soltou um resmungo.
— Primeiro, vou verificar os fluxos de Céu e Terra para ver se o dia é auspicioso. Se for, então concordo. — Fez um sinal com o polegar para Paul Choy. — Vá para o outro barco.
Paul Choy se levantou.
— Obrigado, tai-pan. Boa noite.
— Até breve, sr. Choy — replicou Dunross, esperando-o para o dia seguinte.
Quando estavam completamente sozinhos, o velho disse, suavemente:
— Obrigado, Velho Amigo. Logo faremos negócios mais íntimos.
— Lembre-se, Velho Amigo, do que dizem meus ancestrais — falou Dunross, agourentamente. — Tanto o Demônio de Olhos Verdes quanto aquela do Mau-Olhado e de Dentes de Dragão puseram uma grande maldição e mau-olhado nos Pós Brancos e naqueles que obtêm lucros com os Pós Brancos!
O velho marujo curtido pelo tempo, vestido nas suas belas roupas, deu de ombros, nervoso:
— E eu com isso? Não sei nada de Pó Branco nenhum. Fodam-se todos os Pós Brancos. Não sei nada sobre eles.
E foi embora.
Com mãos trêmulas, Dunross serviu-se de uma boa dose de bebida. Sentiu os movimentos da sampana sendo remada de novo. Seus dedos apanharam as impressões em cera. "Mil contra um que a moeda é genuína. Deus Todo-Poderoso, o que aquele demônio vai pedir? Drogas. Aposto que tem alguma coisa a ver com drogas! Eu inventei a tal história da maldição e do mau-olhado... não fazia parte do acordo de Dirk. Mesmo assim, não vou concordar com drogas. "
Mas estava pouco à vontade. Podia ver a letra de Dirk Struan na bíblia que assinara e endossara, concordando, perante Deus, "conceder a quem quer que apresente uma das meias moedas o que quer que ele peça, se estiver ao alcance do tai-pan dá-lo... "
Seus ouvidos pressentiram a presença estranha antes de ouvir o som. Outro barco roçou suavemente no seu. Ruído de passos. Ficou preparado, desconhecendo o perigo.
A moça era jovem, bela e alegre.
— Meu nome é Jade de Neve, tai-pan. Tenho dezoito anos e sou o presente pessoal do Honorável Wu Sang para a noite! — Um cantonense cantado, cheong-sam elegante, gola alta, pernas longas envoltas em meias e saltos altos. Sorriu, mostrando os belos dentes brancos. — Ele achou que o senhor talvez precisasse se alimentar.
— É mesmo? — murmurou ele, tentando se recompor. Ela riu e sentou-se.
— É, sim, foi o que ele disse. E eu também gostaria do seu alimento... está morrendo de fome, não está? O Honorável Dente de Ouro encomendou um ou dois petiscos para aguçar o seu apetite: camarões fritos com ervilhas, carne desfiada em molho de feijão-preto, bolinhos de massa fritos à moda de Xangai, legumes ligeiramente fritos temperados com couve de Szechuan, e galinha condimentada de Chiang Pao. — Abriu um amplo sorriso. — Eu sou a sobremesa!
Sexta-feira, 00h35m
Irritado, o Banqueiro Kwang apertou a campainha diversas vezes. A porta se escancarou e Vênus Poon gritou estridentemente, em cantonense:
— Como ousa vir aqui a esta hora da noite sem ter sido convidado?
Estava de queixo empinado, parada com uma mão na porta e a outra atrevidamente no quadril, o vestido de noite decotado devastador.
— Cale-se, sua prostituta sem-vergonha! — berrou o Banqueiro Kwang, empurrando-a e entrando no apartamento. — Quem está pagando o aluguel? Quem comprou todos esses móveis? Quem pagou esse vestido? Por que não está pronta para ir dormir? Quem...
— Cale-se! — A voz dela era aguda, e abafou facilmente a dele. — Você estava pagando o aluguel, mas hoje é o dia em que venceu o aluguel, e onde está ele, heyaheyaheyaheya?
— Aqui! — O Banqueiro Kwang arrancou o cheque do bolso e agitou-o sob o nariz dela. — E eu Iá esqueço as porras das minhas promessas?... não! Você esquece as porras das suas promessas?... sim!
Vênus Poon piscou os olhos. Sua raiva desapareceu, seu rosto mudou, a voz ficou carregada de mel.
— Ah, o Pai se lembrou? Ah, tinham me dito que havia abandonado a sua pobre Filha solitária, e voltado para as prostitutas da Blore Street número 1.
— Mentiras! — exclamou o Banqueiro Kwang, quase apopléctico, embora fosse verdade. — Por que não está vestida para ir dormir? Por que está usan...
— Mas três pessoas diferentes ligaram para mim, dizendo que você tinha estado Iá hoje à tarde, às quatro e quinze. Ah, como as pessoas são terríveis! — falou, com voz macia, sabendo que ele tinha estado Iá, embora apenas para apresentar o Banqueiro Ching, com quem estava tentando arranjar um empréstimo. — Ah, pobre Pai, como as pessoas são horrorosas! — Enquanto falava, carinhosamente, aproximou-se mais dele. Repentinamente, deu um bote com a mão e arrancou o cheque da mão dele antes que pudesse puxá-lo, embora continuasse falando com voz meiga: — Ah, obrigada, Pai, do fundo do coração... oh ko! — Ficou vesga de raiva, a voz mais dura e estridente de novo: — O cheque não está assinado, seu velho sujo, seu carne de cachorro! É outro dos seus truques de banqueiro! Ai, ai, ai, acho que vou me matar na porta da sua casa... não, melhor ainda, vou me matar diante das câmeras de TV, contando para toda a Hong Kong como você... Ai, ai, ai...
A amah dela agora estava na sala também, unindo-se a ela nos lamentos e miados, as duas mulheres envolvendo-o num coro de desaforos, desafios e acusações.
Impotente, ele as xingava também, mas isso só fez com que elas aumentassem o volume da algazarra. Ele ficou firme por um momento, depois, vencido, pegou uma caneta-tinteiro com um floreio, agarrou o cheque e assinou-o. A barulheira cessou. Vênus Poon pegou o cheque e examinou-o atentamente. Muito, muito atentamente. Ele sumiu dentro da bolsa dela.
— Ah, obrigada, Honorável Pai — disse humildemente, e virou-se abruptamente contra a amah. — Como ousa interferir numa discussão entre o amor da minha vida e sua patroa, seu monte de carne de cachorro apodrecida? É tudo culpa sua, por espalhar as mentiras cruéis de outras pessoas sobre a infi-delidade do Pai! Fora daqui! Vá buscar chá e comida! Fora! O Pai está precisando de um conhaque... vá buscar um conhaque, depressa!
A velha fingiu se abalar diante da raiva simulada e saiu depressa, vertendo lágrimas falsas. Vênus Poon arrulhava e se alvoroçava, as mãos suaves no pescoço de Richard Kwang.
Finalmente, graças à magia delas, ele se acalmou e serviu-se de uma bebida, lamentando em voz alta o tempo todo o seu azar, e como seus subordinados, amigos, aliados e devedores o haviam abandonado maldosamente, depois que somente ele em todo o império Ho-Pak havia trabalhado, gastando os dedos até os tendões, os pés até ficarem em carne viva, preocupando-se com todos eles.
— Oh, pobrezinho! — ronronava Vênus Poon, a cabeça a mil por hora enquanto os dedos funcionavam terna e habilmente. Tinha cerca de meia hora para chegar ao seu encontro com Wu Quatro Dedos, e, conquanto soubesse que era bom deixá-lo esperando um pouco, não queria que esperasse demais, para não esfriar o seu ardor. O último encontro deles o deixara tão excitado que ele lhe prometera um diamante, se ela repetisse sua atuação.
— Eu garanto, senhor — ofegara ela, exausta, a pele pegajosa de suor de duas horas de esforço concentrado, sentindo-se flutuar com a imensidade da explosão dele, finalmente conseguida.
Girou os olhos nas órbitas ao recordar os esforços prodigiosos de Wu Quatro Dedos, seu tamanho, conformidade e técnica apurada. "Ayeeyah", pensou, ainda massageando o pescoço do antigo amante, "vou precisar de cada grama de energia e de cada porção de sumo que o yin puder reunir para dominar o yang uivante do velho depravado. "
— Melhorou o seu pescoço, meu amor mais querido? — arrulhou.
— Melhorou, sim — disse Richard Kwang, relutante. A cabeça dele estava desanuviada, e ele sabia que os dedos dela eram tão hábeis quanto a sua boca e suas partes incomparáveis.
Sentou-a nos joelhos e enfiou Confiantemente a mão pelo decote do vestido de noite de seda preta que comprara para ela na semana anterior, e acariciou-lhe os seios. Quando ela não resistiu, arriou uma das alças e elogiou-a pelo tamanho, textura, gosto e formato do busto. O calor dela fez com que ele começasse a se excitar. Imediatamente, sua outra mão estendeu-se para o yin. Mas antes que se desse conta, ela havia escapado habilmente das suas mãos.
— Ah, não, Pai! O Honorável Vermelho está me visitando, e por mais que eu...
— Hem? — exclamou o Banqueiro Kwang, desconfiado. — O Honorável Vermelho não é esperado antes de depois de amanhã!
— Ah, não, ele chegou subitamente...
— Como? Ele só é esperado para depois de amanhã. Eu sei. Olhei no meu calendário e me certifiquei, antes de vir para cá! Sou algum idiota? Vou pescar um tigre num riacho? Temos um encontro marcado para hoje, para durar a noite toda. Senão, por que a desculpa de eu estar em Formosa? Você nunca se adianta, e nunca...
— Ah, mas foi hoje de manhã... o choque do incêndio, e o choque ainda maior de que você tinha me abandonado fez com que...
— Venha aqui, sua safadinha...
— Ah, não, Pai, o Honorável Vermelho...
Antes que ela pudesse se desviar, ele a agarrou e voltou a sentá-la nos joelhos. Começou a levantar-lhe a saia, mas Vênus
Poon era macaca velha nesse tipo de guerra, campeã de centenas de torneios, embora tivesse apenas dezenove anos. Não lutou contra ele, apenas chegou mais para perto dele, retorceu-se e segurou-o com uma das mãos, acariciando-o, e murmurou com voz rouca:
— Ah, Pai, mas dá muito azar mexer com o Honorável Vermelho, e por mais que eu deseje a sua imensidade dentro de mim, ambos sabemos que há outros meios de o yin deleitar o vórtice vital.
— Mas primeiro quero...
— Primeiro? Primeiro? — Satisfeita consigo mesma, sentiu-o ficar mais rijo. — Ah, como você é forte! Ah, é fácil ver por que todas as fofoqueiras safadas querem o meu velho Pai, ayeeyah, um homem tão forte, violento, maravilhoso!
Destramente, deixou à mostra o yang. Destramente, dominou-o e deixou o banqueiro ofegando.
— Vamos para a cama, querida — falou ele, a voz roufenha. — Primeiro um pouco de conhaque, depois uma dormi-dinha, e...
— Certo, mas não aqui, ah, não! — disse ela com firmeza, ajudando-o a levantar-se.
— Hem? Mas para todos os efeitos estou em Formosa...
— Sei, portanto é melhor ir para o seu clube!
— Mas eu...
— Ah, mas como deixou exausta a sua pobre Filha! Fingiu debilidade enquanto o arrumava e o levava até a porta antes que ele se desse conta do que se estava passando. Lá, beijou-o apaixonadamente, jurou amor eterno, prometeu que o veria no dia seguinte e fechou a porta às suas costas.
Trêmulo, ele ficou fitando a porta, os joelhos bambos, a pele pegajosa, desejando esmurrar a porta e exigir descansar na cama que havia comprado. Mas não o fez. Não tinha forças, e foi cambaleando até o elevador.
Ao descer, abriu subitamente um amplo sorriso, radiante consigo mesmo. O cheque que lhe dera correspondia apenas a um mês de aluguel. Ela se esquecera de que no mês anterior ele concordara em aumentar a quantia em quinhentos dólares por mês. "Eeee, Boquinha Maravilhosa", casquinou ele, "o yang passou a perna no yin, afinal de contas! Ah, como a esgotei hoje, e, oh, as Nuvens e Chuva! Hoje foi realmente a Pequena Morte e o Grande Nascimento, e até que barato ao preço de duas vezes o aluguel de um mês, mesmo com o aumento!"
Vênus Poon acabou de escovar os dentes e começou a retocar a maquiagem. Viu a amah pelo espelho do banheiro.
— Ah Poo — disse, com voz estridente —, pegue a minha capa de chuva, aquela preta, antiga, e telefone pedindo um táxi... e depressa, senão belisco as suas bochechas!
A velha apressou-se a obedecer, radiante porque o mau humor da patroa tinha passado.
— Já chamei o táxi — falou, resfolegando. — Estará Iá embaixo, esperando na porta lateral, logo que a Mãe descer. Mas é melhor dar alguns minutos para o Pai se afastar, para o caso de ele ter ficado desconfiado.
— Hum, aquele Casco de Tartaruga agora não presta para mais nada! Só lhe sobram forças para cair no banco de trás do carro e mandar que o levem ao seu clube!
Vênus Poon terminou de pintar os lábios e sorriu para si mesma no espelho, admirando-se imensamente.
"Agora, vamos ao diamante", pensou, entusiasmada.
— Quando se ver de novo, Paw'll? — perguntou Lily Su.
— Logo. Na semana que vem. — Havergill terminou de se vestir e apanhou relutantemente a capa de chuva. Estavam num quarto pequeno, mas limpo e agradável, tendo um banheiro com água corrente quente e fria, que a gerência do hotel mandara instalar particularmente, com grande despesa, ajudada clandestinamente por alguns peritos do departamento de águas. — Ligo para você, como sempre.
— Por que triste, Paw'll?
Virou-se e olhou para ela. Não lhe contara que em breve iria embora de Hong Kong. Da cama, ela também o olhava, a pele lustrosa e cheia de juventude. Há quase quatro meses era sua amante, não amante exclusiva, já que não lhe pagava o aluguel ou outras despesas. Ela era recepcionista da Boate Recepcionista Feliz, seu clube noturno preferido, em Kowloon. O dono da boate era Pok Um Olho Só, um antigo e valioso cliente do banco há muitos anos. A mama-san era uma mulher esperta, que conhecia os seus gostos. Tivera muitas amantes da Recepcionista Feliz ao longo dos anos, a maioria por algumas horas, algumas por um mês, pouquíssimas por mais tempo, e apenas uma experiência ruim em quinze anos... uma das moças tentara fazer chantagem. Prontamente ele procurara a mama-san. A moça fora embora naquela mesma noite. Nem ela nem seu cafetão tríade jamais tinham sido vistos outra vez.
— Por que triste, heya?
"Porque em breve vou embora de Hong Kong", tinha vontade de lhe dizer. "Porque quero uma exclusividade que não posso ter, mas devo ter, não ouso ter... e nunca quis ter com nenhuma antes. Ah, Deus do céu, como quero você!"
— Triste, não, Lily, apenas cansado — disse, os problemas do banco aumentando o peso que sentia.
— Tudo vai ficar muito bom — disse ela, confortadora. — Liga logo, heya?
— Sim. Ligo, sim.
A combinação deles era muito simples: um telefonema. Se não pudesse falar diretamente com ela, ligava para a mama-san e à noite ia à boate, sozinho ou com amigos. Ele e Lily dançavam um pouco para salvar as aparências, tomavam alguns drinques, e ela ia embora. Depois de uma meia hora ele pagava a conta e vinha para o local de encontros, já pago adiantada-mente. Não vinham juntos para o local de encontros particular e exclusivo porque ela não queria ser vista nas ruas, ou por vizinhos, com um demônio estrangeiro. Seria desastroso para a reputação de uma moça ser vista sozinha com um bárbaro. Em público. Fora do seu local de trabalho. Qualquer moça em idade de ter relações sexuais seria imediatamente considerada o tipo mais baixo de meretriz, a meretriz de um demônio estrangeiro, e desprezada como tal, abertamente ridicularizada, e seu valor diminuiria.
Havergill sabia disso e não se importava. Em Hong Kong aquilo era uma realidade da vida.
— Doh jeh. Obrigado — disse, sentindo amor por ela, querendo ficar, ou querendo levá-la com ele. — Doh jeh — disse apenas, e se retirou.
Quando ficou sozinha, Lily deixou escapar o forte bocejo que quase a dominara muitas vezes naquela noite, recostou-se na cama e espreguiçou-se gostosamente. A cama estava desfeita, mas era mil vezes melhor do que o catre no quarto que alugava em Tai-ping Shan.
Uma leve batida na porta.
— Honrada Senhora?
— Ah Chun?
— Sim. — A porta se abriu e a velha entrou, trazendo toalhas limpas. — Quanto tempo vai demorar?
Lily Su hesitou. Era costume o cliente pagar o quarto pela noite inteira. Também era costume, caso o quarto ficasse livre antes, a gerência devolver parte da taxa paga à garota.
— A noite toda — falou, querendo curtir o luxo, sem saber quando teria nova oportunidade. Talvez na semana seguinte aquele cliente já tivesse perdido o seu banco e tudo o mais.
— Joss — falou, e depois: — Prepare-me o banho, por favor.
Resmungando, a velha fez o que lhe tinha sido ordenado e foi embora. Lily Su deixou escapar novo bocejo, ouvindo, satisfeita, o barulho da água correndo. Também estava cansada. O dia fora exaustivo. E naquela noite o cliente falara mais do que de costume, enquanto ela se apoiava nele, tentando dormir, sem escutar, compreendendo apenas uma palavra aqui e ali, mas satisfeita em deixá-lo falar. Sabia, por longa experiência, que aquela era uma forma de alívio, especialmente para um bárbaro velho. "Que coisa estranha", pensou, "toda essa trabalheira, barulho, lágrimas e dinheiro para conseguir apenas mais dor, mais conversa e mais lágrimas. "
— Não se incomode se o yang for fraco ou se eles falarem, resmungarem, murmurarem no seu idioma pavoroso ou chorarem nos seus braços. Os bárbaros agem assim — explicara-lhe a mama-san. — Feche os ouvidos. E feche as narinas ao cheiro de demônio estrangeiro e ao cheiro de velho, e ajude-o a curtir um momento de prazer. Ele é yan de Hong Kong, um velho amigo, e também paga bem, pontualmente. Está rapidamente conseguindo que você liquide as suas dívidas, e dá muito prestígio ter um companheiro de cama desses. Portanto, mostre entusiasmo, finja que ele é viril, e faça jus ao dinheiro que ele lhe paga.
Lily Su sabia que fazia jus ao dinheiro recebido. "É, minha sorte é muito boa, melhor do que a da minha pobre irmã e do seu protetor. Pobre Flor Fragrante e seu Filho Número Um do Chen da Casa Nobre! Que tragédia! Que crueldade!"
Estremeceu. "Ah, aqueles terríveis Lobisomens! É terrível cortar-lhe fora a orelha, terrível assassiná-lo e ameaçar toda a Hong Kong, terrível para a minha pobre irmã mais velha ser esmagada até a morte por aqueles pescadores nojentos e fedidos de Aberdeen. Ah, que triste sina!"
Somente naquela manhã lera no jornal uma cópia da carta de amor de John Chen, reconhecendo-a imediatamente. Durante semanas as duas haviam rido da carta, ela e Flor Fragrante, daquela e das duas outras cartas que Flor Fragrante lhe entregara para guardar.
— Um homem tão engraçado, quase sem nenhum yang, e quase sempre nem um pouquinho duro — contara-lhe a irmã mais velha. — Ele me paga só para ficar deitada, para ele beijar, às vezes para dançar sem roupa, e sempre me faz prometer contar aos outros como ele é forte! Eeeee, ele me dá dinheiro como se fosse água! Há onze semanas que sou o "seu verdadeiro amor"! Se isso continuar por mais onze semanas... quem sabe um apartamento todo pago!
Naquela tarde, temerosa, fora com o pai à delegacia de Aberdeen Leste para identificar o corpo. Não disseram que sabiam quem era o protetor dela. Sabiamente, o pai mandara que guardasse segredo.
— Sem dúvida, o Chen da Casa Nobre vai preferir que isto fique em segredo. Seu prestígio também está envolvido, e o prestígio do novo herdeiro. Como se chama? O tal com o nome de demônio estrangeiro? Daqui a um ou dois dias telefonarei para o Chen da Casa Nobre, para sondá-lo. Temos que esperar um pouco. Depois das notícias de hoje, depois de saber o que os Lobisomens fizeram com o Filho Número Um, pai algum vai querer negociar.
"É, o pai é esperto", pensou. "Não é à toa que seus companheiros de trabalho chamam-no de Chu Nove Quilates. Graças a todos os deuses que tenho as duas outras cartas.”
Depois que haviam identificado o corpo da irmã, preencheram formulários com seus nomes verdadeiros e o nome verdadeiro da família, Chu, para reclamar o dinheiro dela: quatro mil trezentos e sessenta HK no nome de Glicínia Su, e três mil HK no nome de Flor Fragrante Tak, dinheiro ganho fora do Cabaré Boa Sorte. Mas o sargento da polícia fora inflexível.
— Lamento, mas agora que sabemos o seu nome verdadeiro temos que anunciá-lo, para que todos os seus credores possam reclamar sua parte do espólio.
Nem mesmo uma oferta muito generosa de vinte e cinco por cento do dinheiro em troca da posse imediata não conseguira demovê-lo. Então, tinham ido embora.
"Aquele carne de cachorro nojento, escravo dos demônios estrangeiros", pensou ela, enojada. "Nada sobrará depois que o cabaré cobrar suas dívidas. Nada. Ayeeyah!
"Mas, tudo bem", disse com seus botões, ao se deitar na banheira, numa satisfação gloriosa. "Tudo bem. O segredo das cartas vai valer uma fortuna para o Chen da Casa Nobre.
"E o Chen da Casa Nobre tem mais notas vermelhas do que um gato tem pêlos. "
Casey estava enroscada junto à janela do quarto de dormir, todas as luzes apagadas, exceto uma pequena lâmpada de leitura, junto à cama. Fitava melancolicamente a rua, cinco andares abaixo. Mesmo àquela hora tardia, quase uma e meia da madrugada, a rua ainda estava congestionada pelo tráfego. Não havia lua no céu, e as nuvens estavam baixas, pesadas, tornando as luzes vermelhas, verdes e azuis dos imensos cartazes de neon e colunas de caracteres chineses que se refletiam nas poças d'água ainda mais ofuscantes e transformando a feiúra da cidade num país encantado. A janela estava aberta, o ar, fresco, e ela podia ver casais correndo entre os ônibus, caminhões e táxis. Muitos dos casais dirigiam-se para o saguão do novo Royal Netherlands Hotel para fazerem uma "boquinha" no novo café europeu, onde ela tomara o último café da noite com o comandante Jannelli, o piloto deles.
"Todo mundo aqui come tanto!", pensou, vagamente. "Meu Deus!, e tanta gente precisando de trabalho, tão poucos empregos, tão poucos Iá no topo, um no topo de cada pilha, sempre um homem, todos lutando para se manter ali, para continuar ali... mas para quê? Um carro novo, uma casa nova, uma nova geladeira, a última novidade, ou seja Iá o que for.
"A vida é uma conta sem fim. Nunca há grana suficiente para se pagar todas as contas do dia-a-dia, que dirá um iate particular ou um condomínio particular nas praias de Acapulco ou da Cote d'Azur e os meios para se chegar Iá... mesmo como turista.
"Detesto viajar na classe turística. A primeira classe é o que vale, para mim. O jato particular ainda é melhor, muito melhor. Mas não vou ficar pensando no Linc... "
Jantara com Seymour Steigler no restaurante do hotel, e haviam acertado todos os seus assuntos comerciais, na sua maioria problemas legais que ele estava levantando.
— Temos que deixar tudo impecável, sem uma brecha. Todo o cuidado é pouco com os estrangeiros, Casey — repetia. — Eles não jogam segundo as boas regras ianques.
Logo que o jantar acabou, ela fingiu ter um monte de trabalho a esperá-la, e deixou-o. Já tinha acabado tudo o que precisava fazer. Assim, enroscou-se numa poltrona e começou a ler, leitura dinâmica. Fortune, Business Week, The Wall Street Journal e várias revistas comerciais especializadas. Depois, estudou mais uma lição de cantonense, deixando o livro para o fim. Era o romance de Peter Marlowe, Changi. Encontrara o exemplar muito manuseado numa das dúzias de bancas de livros de rua num beco ao norte do hotel, na manhã do dia anterior. Tivera um grande prazer em pechinchar para adquiri-lo. O primeiro preço pedido fora vinte e dois HK. Casey pechinchara até comprá-lo por sete HK e cinqüenta e cinco cents, cerca de um dólar e meio, em moeda americana. Encantada consigo mesma e com sua descoberta, continuou a ver vitrines. Ali perto ficava uma livraria moderna, as vitrines cheias de livros ilustrados sobre Hong Kong e a China. Lá dentro, numa prateleira, viu mais três brochuras de Changi. Novas, custavam cinco HK e setenta e cinco cents.
Imediatamente, Casey xingou a velha vendedora de rua por tê-la enganado. "Mas", lembrou a si mesma, "a bruxa velha não trapaceou com você. Simplesmente foi melhor comerciante. Afinal de contas, há pouco você estava se vangloriando por ter reduzido o lucro dela a zero, e Deus sabe que essa gente precisa de lucro. "
Casey ficou olhando a rua e o tráfego na Nathan Road, Iá embaixo. Pela manhã, subira a Nathan Road até a Boundary Road, cerca de dois quilômetros adiante. Fazia parte da sua lista de coisas a ver. Era uma rua como outra qualquer, congestionada, movimentada, cheia de cartazes espalhafatosos, só que tudo ao norte da Boundary Road, até a fronteira, reverteria para a China em 1997. Tudo. Em 1898, os britânicos haviam arrendado por noventa e nove anos a terra que se estendia da Boundary Road até o rio Sham Chun, onde ficaria a nova fronteira, juntamente com várias ilhas próximas.
— Não foi uma burrice, Peter? — perguntara a Marlowe, encontrando-o por acaso no saguão do hotel, à hora do chá.
— Agora é — replicou, pensativo. — Naquela época? Bem, quem sabe? Devia ser uma coisa sensata. Caso contrário não o teriam feito.
— Eu sei, Peter, mas, meu Deus, noventa e nove anos é tão pouco tempo! O que deu neles para arrendarem por tão pouco tempo? Deviam estar com a cabeça... noutro lugar.
— É. Pode-se pensar assim. Hoje. Mas naquela época, quando bastava o primeiro-ministro britânico arrotar para causar uma onda de choque no mundo todo? O poder mundial é que faz toda a diferença. Naquela época, o Leão Britânico ainda era o Leão. O que significava um pedacinho de terra para os donos de um quarto do globo? — Lembrava-se de como ele sorrira. — Mesmo assim, nos Novos Territórios, houve oposição armada do pessoal local. Naturalmente, não deu em nada. O governador de então, Sir Henry Blake, cuidou de tudo: não guerreou com eles, apenas conversou. Os chefes da aldeia acabaram por concordar em dar a outra face, desde que suas leis e costumes continuassem em vigor, desde que pudessem ser julgados segundo as leis chinesas, se quisessem, e desde que Kowloon City continuasse chinesa.
— O pessoal local ainda é julgado segundo as leis chinesas?
— É, lei histórica, não da RPC. Portanto, é preciso ter magistrados britânicos versados na lei de Confúcio. É bastante diferente. Por exemplo, a lei chinesa presume que todas as testemunhas naturalmente mintam, que é seu dever mentir e encobrir as coisas, e cabe ao magistrado descobrir a verdade. Ele tem que ser uma espécie de Charlie Chan legal. Gente civilizada não costuma jurar dizer a verdade, toda essa espécie de barbarismo... acham que somos malucos por agir assim, e não tenho certeza de que estejam errados. Os chineses têm todo tipo de costumes, loucos ou sensatos, dependendo do ponto de vista da gente. Sabe que é perfeitamente legal, em toda a colônia, ter mais de uma mulher... se se for chinês.
— Ora vejam só!
— Ter mais de uma mulher realmente tem Iá as suas vantagens.
— Escute aqui, Peter — começou, veementemente, depois se deu conta de que ele estava simplesmente implicando com ela. — Você não precisa de mais de uma. Tem a Fleur. Como vão indo os dois? E a pesquisa? Quem sabe ela não gostaria de almoçar comigo amanhã, se você estiver ocupado.
— Desculpe, mas ela está no hospital.
— Meu Deus, o que houve?
Ele lhe contou sobre o que se passara de manhã, e sobre o dr. Tooley.
— Acabo de vê-la. Ela... não está passando muito bem.
— Ah, sinto muito. Há alguma coisa que eu possa fazer?
— Não, obrigado. Acho que não.
— Basta pedir, se houver. Certo?
— Obrigado.
— Linc agiu certo ao saltar com ela dentro d'água, Peter. Juro.
— Mas é claro, Casey. Por favor, não pense por um momento que... Linc fez o que eu... fez melhor do que eu faria. E você também. E acho que vocês dois também salvaram aquela outra moça de um bocado de encrenca. Orlanda. Orlanda Ramos.
— Sei.
— Ela deve ser eternamente grata a você. A vocês dois. Estava em pânico... já vi gente demais assim, eu sei. Uma gata espetacular, ela, não é?
— É. Como vai indo a pesquisa?
— Bem, obrigado.
— Às vezes gostaria de trocar impressões com você. Ei, a propósito... achei seu livro e comprei-o. Ainda não li, mas está no topo da lista.
— Ah! — Casey lembrava-se de como ele tentara parecer natural. — Ah! Espero que goste. Bem, tenho que ir andando. Está na hora do chá das meninas.
— Lembre-se, Peter, se houver alguma coisa, pode me chamar. Obrigada pelo chá, e dê um beijo na Fleur...
Casey espreguiçou-se, sentindo agora uma dor nas costas. Saiu do banco junto à janela e foi para a cama, O quarto era pequeno, e não tinha a elegância da suíte deles... da suíte dele, agora. Ele resolvera ficar com o segundo quarto.
— Sempre podemos usá-lo como escritório — dissera-lhe —, ou guardá-lo de reserva. Não se preocupe, Casey, tudo é deduzível do imposto de renda, e nunca se sabe quando se pode precisar de um quarto de reserva.
Orlanda? Não, ela não precisaria daquela cama!
"Casey", ordenou a si mesma, "não seja tão ferina, ou burra. Ou ciumenta. Você nunca foi ciumenta, tão ciumenta antes. Foi você que estabeleceu as regras. É, mas ainda bem que me mudei. Aquela noite foi dureza, dureza para Linc e para mim, pior para ele. Orlanda vai fazer bem a ele... ora, Orlanda que vá à merda!"
Sentiu a boca seca. Foi até a geladeira e pegou uma garrafa de Perrier gelada, e o gostinho picante fê-la sentir-se melhor. "Como será que a terra produz essas bolhas?", pensou preguiçosamente, deitando-se na cama. Um pouco antes, tentara dormir, mas sua cabeça estava confusa, não parava de funcionar, novidades demais... "Novas comidas, novos cheiros, ar, costumes, ameaças, gente, hábitos, culturas. Dunross. Gornt, Dunross e Gornt. Dunross, Gornt e Linc. Um novo Linc. Uma nova Casey, assustada por causa de uma piranhazinha bonita... é, se quer ser vulgar, e isso também é novidade em você. Antes de vir para cá você era confiante, dinâmica, dominava o seu mundo, e agora não é mais assim. Tudo por causa dela. Não apenas por causa dela. Por causa daquela vaca da Lady Joanna também, com o seu sotaque inglês tão 'classe alta': 'Não se lembra, querida? Hoje é o dia do nosso almoço do Clube das Mais de Trinta. Falei nele no jantar do tai-pan... '
"Maldita vaca velha! Mais de trinta! Nem tenho vinte e sete ainda...
"É isso aí, Casey. Mas você está toda eriçada, feito uma gata assustada, e não é só por causa dela, ou da Orlanda. É também por causa do Linc e das centenas de garotas disponíveis que você já viu, e ainda nem foi espiar nos cabarés, bares e casas onde elas se especializam. O Jannelli também não atiçou você?"
— Pombas, Casey — exclamara ele, com um amplo sorriso —, é como estar de licença na minha época da Guerra da Coréia. Ainda são só vinte mangos, e você é o maioral!
Naquela noite, por volta das dez, Jannelli ligara para perguntar se ela gostaria de se reunir a ele e ao resto da tripulação no Royal Netherlands, para fazer a última "boquinha" da noite. Seu coração dera uma reviravolta dentro do peito quando o telefone tocou, pensando que era Linc, e quando viu que não era, fingiu que ainda tinha um monte de coisas para fazer, mas deixou-se ser persuadida, agradecida. Quando chegou Iá, pediu uma porção dupla de ovos mexidos com bacon, torrada e café, embora estivesse sem apetite.
Como protesto. Protesto contra a Ásia, Hong Kong, Joanna e Orlanda. "Ah, meu Deus! Quem dera eu nunca me tivesse interessado pela Ásia, nunca tivesse sugerido ao Linc que nos tornássemos uma companhia internacional.
"Por que o fiz?
"Porque é o único meio para o progresso das empresas americanas — o único meio —, o único meio para a Par-Con. Exportar. Multinacional, mas exportando. E a Ásia é o maior, o mais fervilhante mercado inexplorado da terra, e este é o século da Ásia. É. E os Dunrosses e os Gornts estarão numa boa (se nos acompanharem), porque temos o maior mercado do mundo a nos dar apoio, todo o dinheiro, tecnologia, crescimento e especialistas para fazê-lo.
"Mas por que busquei Hong Kong com tanta fúria?
"Para arranjar o meu dinheiro do dane-se e encher o tempo até o meu aniversário... o fim do sétimo ano.
"Do jeito que as coisas vão", disse com seus botões, "logo não terá emprego, nem futuro, nem Linc para quem dizer sim ou não. " Soltou um grande suspiro. Um pouco antes, fora até a suíte principal e deixara uma pilha de cartas e telex para Bartlett assinar, acompanhados de um bilhete, que dizia: "Espero que tenha se divertido". Quando voltara do encontro com Jannelli, fora até o quarto e trouxera de volta tudo o que havia deixado Iá.
— É Orlanda que está ouriçando você. Não queira se enganar — disse em voz alta.
"Não faz mal, amanhã é outro dia. Você pode derrubar a Orlanda com facilidade", disse consigo mesma, sombriamente. E, tendo se concentrado em sua inimiga, sentiu-se melhor.
A brochura muito manuseada de Peter Marlowe chamou-lhe a atenção. Apanhou-a, afofou os travesseiros mais confortavelmente e começou a ler. Foi devorando as páginas. De repente, o telefone tocou. Estava tão entretida que deu um salto, sentindo-se inundada por uma felicidade vasta e repentina.
— Oi, Linc, divertiu-se?
— Casey, sou eu. Peter Marlowe. Mil desculpas por ligar tão tarde, mas pedi a seu camareiro que verificasse e ele me disse que a luz ainda estava acesa... Espero não a ter acordado.
— Ah, não, Peter. — Casey sentia-se doente de desapontamento. — O que houve?
— Desculpe ligar tão tarde, mas há uma ligeira emergência. Tenho que ir para o hospital e... você disse para chamá-la. Sim...
— O que foi? — perguntou Casey, agora completamente ligada.
— Não sei. Pediram que eu fosse imediatamente. Liguei para você por causa das meninas. Um camareiro vai dar uma espiada nelas de vez em quando, mas eu queria deixar um bilhete para elas com o seu telefone, para o caso de acordarem, só para o caso de acordarem, um rosto amigo a quem chamar, digamos assim. Quando nos encontramos no saguão, ontem, elas acharam você um estouro. Provavelmente não acordarão, mas por via das dúvidas... Podem ligar para você? Desculpe...
— Claro. Mas é melhor eu ir para aí.
— Ah, não, de modo algum. Basta...
— Não estou com sono, e você mora pertinho. Não é trabalho nenhum, Peter, já estou indo. Pode ir saindo para o hospital.
Levou apenas um minuto para vestir umas calças, uma blusa e um suéter de caxemira. Mesmo antes de apertar o botão do elevador, Song Noturno já aparecia, de olhos arregalados e indagadores. Ela ficou calada.
No andar térreo, cruzou o saguão, saiu para a Nathan Road, atravessou a rua lateral e entrou no saguão do Anexo. Peter Marlowe já estava à sua espera.
— Esta é a srta. Tcholok — disse apressadamente ao porteiro da noite. — Ficará com as meninas até eu voltar.
— Sim, senhor — replicou o eurasiano, também de olhos arregalados. — O garoto a levará até o quarto, senhorita.
— Espero que tudo esteja bem, Peter... — Interrompeu-se. Ele já ia porta afora, tentando chamar um táxi.
O apartamento era pequeno, no sexto andar. A porta da frente estava entreaberta. O encarregado do andar, Po Noturno, deu de ombros e foi embora resmungando, xingando os bárbaros... como se ele não fosse capaz de cuidar de duas crianças adormecidas que brincavam de esconder com ele todas as noites.
Casey fechou a porta e foi dar uma espiada no pequenino segundo dormitório. As duas crianças dormiam a sono solto no beliche; Jane, a pequenina, na cama de cima, e Alexandra, toda largada, na de baixo. Comoveu-se ao vê-las. Louras, despentea-das, angelicais, agarradas a ursinhos de pelúcia. "Ah, como adoraria ter filhos", pensou, "filhos de Linc.
"Adoraria mesmo? As fraldas, sempre presa em casa, as noites insones e nenhuma liberdade.
"Não sei. Acho que sim. Ah, sim, por duas coisinhas como estas, sim!"
Casey não sabia se devia cobri-las ou não. O ar estava quente, por isso resolveu não fazer nada, para evitar acordá-las. Na geladeira encontrou água engarrafada. Depois de bebê-la, sentiu-se mais refrescada e com o coração mais calmo. A seguir, sentou-se na poltrona. Dali a um momento tirou o livro de Peter da bolsa e, mais uma vez, começou a ler.
Duas horas depois, ele voltou. Ela nem sentira o tempo passar.
— Ah — exclamou, vendo o rosto dele. — Ela perdeu o bebê?
Ele fez que sim, entorpecido.
— Desculpe ter demorado tanto. Quer um pouco de chá?
— Claro, Peter, deixe que...
— Não. Não, obrigado, eu sei onde ficam as coisas. Desculpe ter-lhe dado tanto trabalho.
— Não é trabalho nenhum. Mas ela está passando bem? A Fleur?
— Eles, eles acham que sim. Foram as cólicas as responsáveis, e a disenteria. É cedo demais para saber, mas parece não haver perigo de verdade, é o que dizem. O... o aborto, disseram que é sempre um tanto difícil, física e emocional-mente.
— Sinto tanto!
Ele a olhou, e ela notou o rosto forte, castigado, vivido.
— Não se preocupe, Casey, Fleur está bem — disse ele, mantendo a voz firme. — Os japoneses acreditam que nada existe até o nascimento, até trinta dias depois do nascimento, trinta se for menino, trinta e um se for menina. Não existe nada resolvido, nem alma, nem personalidade, nem pessoa... até essa data não existe a pessoa. — Virou-se para a minúscula cozinha e pôs a chaleira para ferver, tentando ser convincente. — É melhor acreditar nisso, não acha? Como ele podia ser outra coisa senão... uma coisa? Não existe uma pessoa até então, até uns trinta dias depois do nascimento. Assim a coisa não fica tão ruim. Ainda é pavoroso para a mãe, mas não tão ruim. Desculpe, acho que o que estou dizendo não tem muito sentido.
— Ah, mas tem. Espero que ela agora fique boa — disse Casey, com vontade de tocá-lo, sem saber se devia fazê-lo ou não. Ele parecia tão digno no seu sofrimento, tentando parecer calmo, apesar disso apenas um garotinho para ela.
— Os chineses e os japoneses são pessoas muito sensatas, Casey. As... as suas superstições tornam a vida mais fácil. Suponho que a taxa de mortalidade infantil fosse tão alta no passado, que fez com que algum pai sábio tenha inventado essa história para aliviar o sofrimento de uma mãe. — Soltou um suspiro. — Ou, o que é mais provável, alguma mãe mais sábia ainda a tenha inventado para ajudar um pai desolado. Não é?
— Provavelmente — disse ela, deslocada, vendo as mãos dele prepararem o chá. Primeiro a água fervente na chaleira, o bule escaldado com cuidado, a água jogada fora. Três Colheres de chá e uma para o bule, a água fervente levada até o bule.
— Desculpe, não temos chá em saquinho. Não consigo me acostumar com isso, embora Fleur diga que é igualmente bom, e mais limpo. Desculpe, o chá é a única coisa que temos. — Trouxe a bandeja de chá para a sala e pousou-a na mesa de jantar. — Leite e açúcar? — perguntou.
— Está ótimo — replicou ela, que nunca o tomara daquele jeito.
Tinha um gosto estranho. Mas forte e revigorante. Beberam em silêncio. Ele deu um leve sorriso.
— Puxa, como é bom um chazinho, hem?
— É formidável.
Os olhos dele notaram o livro entreaberto.
— Ah! — exclamou.
— Gostei do que li até agora, Peter. O quanto há de verdade nele?
Distraidamente, ele se serviu de outra xícara.
— O quanto pode haver de verdade em qualquer coisa contada quinze anos depois de acontecida! Ao que me lembre, os incidentes são exatos. As pessoas no livro não viveram, embora pessoas iguais a elas tenham vivido, dito e feito aquele tipo de coisas.
— É inacreditável. Inacreditável que pessoas, jovens, pudessem sobreviver àquilo. Quantos anos você tinha, na época?
— Changi começou quando eu tinha dezoito anos, e acabou quando tinha vinte e um... pouco mais de vinte e um.
— Quem é você, no livro?
— Talvez eu nem esteja nele.
Casey resolveu abandonar a questão. Por enquanto. Até acabar o livro.
— É melhor eu ir andando. Você deve estar exausto.
— Não, não estou. Na verdade, não estou cansado. Tenho algumas anotações a fazer... dormirei quando as crianças estiverem na escola. Mas você, você deve estar. Nem sei como lhe agradecer, Casey. Fico lhe devendo um favor.
Ela sorriu e balançou a cabeça. Depois de uma pausa, disse:
— Peter, você, que conhece tanto sobre este lugar, a quem se ligaria, Dunross ou Gornt?
— Comercialmente, ao Gornt. Com vistas ao futuro, Dunross, se conseguir superar essa crise. Porém, pelo que tenho ouvido, isso não é provável.
— Por que Dunross para o futuro?
— Prestígio. Gornt não tem classe para ser o tai-pan... nem os antecedentes necessários.
— E isso é assim tão importante?
— Aqui, totalmente. Se a Par-Con quiser centenas de anos de crescimento, Dunross. Se estão aqui só para obter um lucro fácil, uma incursão sem maiores vistas ao futuro, liguem-se ao Gornt.
Ela acabou de tomar o seu chá, pensativa.
— O que sabe sobre Orlanda?
— Muita coisa — disse ele, prontamente. — Mas saber de escândalos ou fofocas sobre uma pessoa viva não é a mesma coisa que conhecer as lendas ou as fofocas referentes a épocas passadas. Não é?
Ela lhe devolveu o olhar.
— Nem mesmo como um favor?
— Isso é diferente. — Os olhos dele se estreitaram ligeiramente. — Está me pedindo um favor?
Ela largou a xícara de chá e sacudiu a cabeça.
— Não, Peter, agora não. Pode ser que mais tarde peça, mas agora não. — Notou que o cenho dele estava franzido. — O que foi? — perguntou.
— Estava me perguntando por que Orlanda representa uma ameaça para você. Por que esta noite? Obviamente, isso leva ao Linc, o que leva inevitavelmente à hipótese de que ela tenha saído com ele hoje, esteja com ele agora, o que explica por que sua voz estava horrível quando telefonei.
— Estava?
— Estava. Ora, naturalmente eu notei o Linc olhando para ela em Aberdeen, e você olhando para ele, e ela olhando para você. — Sorveu um pouco de chá, a fisionomia mais dura. — Uma festa e tanto, aquela! Muitos começos na festa, grandes tensões, muito drama. Fascinante, se você pode se dissociar da coisa. Mas você não pode, pode?
— Você sempre observa e escuta?
— Tento treinar-me para ser um observador. Tento usar ouvidos, olhos e outros sentidos, adequadamente, como devem ser usados. Você também. Não há muita coisa que lhe escape.
— Talvez sim, talvez não.
— Orlanda é treinada em Hong Kong, e treinada por Gornt. Se está planejando entrar em luta com ela por causa do Linc, pode ir se preparando para uma batalha e tanto... se é que ela está resolvida a agarrá-lo, o que ainda não sei.
— Gornt a estaria usando? Depois de uma pausa, ele disse:
— Imagino que Orlanda seja a dona de Orlanda. Não é assim com a maioria das damas?
— A maioria das damas atrela sua vida a um homem, quer queira, quer não.
— Pelo que sei a seu respeito, sabe cuidar da concorrência.
— E o que sabe a meu respeito?
— Muita coisa. — Novamente o sorriso leve, sereno, gentil. — Entre elas, que é inteligente, corajosa, tem muito prestígio e sabe manter a sua fachada.
— Estou tão cansada de fachada, Peter. No futuro... — O sorriso dela era igualmente carinhoso. — De agora em diante, para mim, as pessoas não vão ganhar prestígio, fachada... e sim "traseiro"... vão ganhar ou perder "traseiro".
Ele riu junto com ela.
— Do jeito que você fala parece mais refinado, mais próprio de uma dama.
— Não sou nenhuma dama.
— Ah, mas é, sim. — E acrescentou, mais suavemente: — Vi o jeito como o Linc olhava para você na festa de Dunross, também. Ele a ama. E seria um idiota de trocá-la por ela.
— Obrigada, Peter.
Levantou-se, beijou-o e saiu, em paz. Quando saltou do elevador no seu andar, Song Noturno estava Iá. Foi andando na frente dela, e abriu a porta do quarto com um floreio. Ele notou que os olhos dela se dirigiram para a porta no fim do corredor.
— Patrão não em casa — falou, por conta própria. — Não voltou ainda.
Casey soltou um suspiro.
— Você acaba de perder mais "traseiro", meu chapa.
— Hem?
Fechou a porta, sentindo-se satisfeita consigo mesma. Na cama, recomeçou a ler. Terminou o livro ao alvorecer. Depois, dormiu.
9h25m
Dunross fez a curva rapidamente no seu Jaguar, subindo a estrada sinuosa com facilidade, depois dobrou numa entrada para carros e parou a dois centímetros dos altos portões. Os portões incrustavam-se em muros altos. Dali a um momento, o porteiro chinês espiou pela porta lateral. Quando reconheceu o tai-pan, abriu inteiramente os portões e fez sinal para que ele entrasse.
O caminho subia em curva e terminava diante de uma mansão chinesa. Dunross saltou. Outro criado cumprimentou-o silenciosamente. Os jardins eram bem-cuidados, e, descendo-se uma encosta, havia uma quadra de tênis onde quatro chineses, dois homens e duas mulheres, jogavam uma partida de duplas mistas. Não deram atenção a ele, e Dunross não reconheceu nenhum dos quatro.
— Por favor, siga-me, tai-pan — disse o criado.
Dunross disfarçou sua curiosidade ao entrar numa ante-sala. Era a primeira vez que ele, ou qualquer um que conhecesse, era convidado a entrar na casa de Tiptop. O interior era limpo, mas estava atulhado da mistura chinesa, descuidada mas habitual, de belas antigüidades laqueadas e bric-à-brac feio e moderno. As paredes eram de lambris, onde algumas gravuras ordinárias estavam penduradas. Ele se sentou. Um outro criado trouxe o chá e serviu-o.
Dunross podia sentir que estava sendo observado, mas isso também era comum. A maioria dessas casas antigas tinha visores nas paredes e portas... mesmo na Casa Grande havia muitos.
Quando voltara à Casa Grande de madrugada, Iá pelas quatro horas, fora direto ao seu escritório e abrira o cofre. Não havia dúvida, apenas a um olhar superficial, de que uma das moedas restantes se encaixava nas impressões da matriz de cera de Wu Quatro Dedos. Nenhuma dúvida. Os dedos dele tremiam ao tirar a meia moeda do lacre que a prendia à bíblia de Dirk Struan, e ao limpá-la. Ela se encaixava perfeitamente nos recortes.
— Deus meu! — murmurou. — E agora?
Depois, recolocara a matriz e a moeda no cofre. Seus olhos depararam com a automática carregada e o espaço vazio onde ficavam as pastas de Alan M. Grant. Inquieto, trancara de novo o cofre e fora para a cama. Havia um recado no seu travesseiro:
"Querido papai: Quer me acordar quando sair? Queremos ir assistir aos treinos. Beijos, Adryon. P. S. — Posso convidar o Martin para as corridas no sábado, por favor, por favor, por favor? P. P. S. — Acho que ele é legal. P. P. P. S. — Você também é legal. P. P. P. P. S. — Está chegando tarde, não é? São três horas e dezesseis minutos!!!"
Ele fora na ponta dos pés ao quarto dela e abrira a porta, mas ela dormia a sono solto. Quando saiu de casa, teve de bater na porta duas vezes para acordá-la.
— Adryon! São seis e meia.
— Ah! Está chovendo? — perguntou, sonolenta.
— Não, mas não demora. Quer que abra as persianas?
— Não, papai querido, obrigada... não faz mal, Martin não vai... se importar.
Abafara um bocejo. Fechara os olhos e, quase instantaneamente, ferrara no sono de novo.
Divertido, ele a sacudira de leve, mas ela não acordara. "Não faz mal, papai, Martin não vai... " E agora, lembrando-se das suas palavras, de como era linda, e do que sua mulher dissera a respeito da pílula, resolveu fazer uma verificação muito séria sobre Martin Haply. Por via das dúvidas.
— Ah, tai-pan, desculpe tê-lo feito esperar. Dunross levantou-se e apertou a mão estendida.
— É muita gentileza sua receber-me, sr. Tip. Lamento saber que está resfriado.
Tip Tok-toh estava na casa dos sessenta anos, era grisalho, tinha um rosto redondo e simpático. Usava um roupão, tinha os olhos vermelhos e o nariz entupido, a voz um pouco rouca.
— Temos um clima horrível. No fim de semana passado fui velejar com Shitee T'Chung, e devo ter pegado um golpe de ar.
Seu sotaque era ligeiramente americano, talvez canadense. Nem Dunross nem Alastair Struan jamais haviam conseguido que falasse sobre o seu passado, nem Johnjohn ou os outros banqueiros tinham ouvido falar dele nos círculos bancários na época da China nacionalista, antes de 1949. Até mesmo Shitee T'Chung e Phillip Chen, que o recebiam com festas suntuosas, nada conseguiam arrancar dele. Os chineses deram-lhe o apelido de "A Ostra".
— O tempo tem andado ruim — concordou Dunross, amavelmente. — Graças a Deus pela chuva.
Tiptop fez sinal para o homem ao seu lado.
— Este é um associado, sr. L'eung.
O sujeito era um tipo comum. Usava uma jaqueta parda maoísta e calças pardas. Sua fisionomia era fechada, fria e reservada. Fez um gesto de cabeça, que Dunross retribuiu. "Associado" podia cobrir uma infinidade de funções, desde patrão a intérprete, de comissário a guarda.
— Aceita um pouco de café?
— Obrigado. Já experimentou vitamina C para curar o seu resfriado?
Pacientemente, Dunross começou o bate-papo formal que antecederia o motivo real da visita. Na noite anterior, enquanto esperava por Brian Kwok no Quance Bar, resolvera que valia fazer uma tentativa quanto à proposta de Johnjohn. Por isso, ligara para Phillip Chen e pedira-lhe que solicitasse um encontro na manhã seguinte. Teria sido igualmente fácil ligar diretamente para Tiptop, mas não seria o protocolo chinês correto. O costume chinês exigia um intermediário mutuamente amistoso. Assim, se o pedido fosse recusado, ninguém perdia prestígio, nem quem pedia, nem aquele a quem o pedido era feito, e nem o intermediário.
Dunross prestava atenção apenas parcial a Tiptop, conversando polidamente, surpreso de ainda estarem falando em inglês, por causa de L'eung. Isso só podia significar que o inglês do homem também era perfeito e, possivelmente, que ele não entendia nem cantonense nem xangaiense, que Tiptop falava, e Dunross falava fluentemente. Esgrimiu com Tiptop, esperando a abertura que o banqueiro lhe daria. Finalmente, ela chegou.
— Este colapso de suas ações na Bolsa deve estar lhe causando preocupações, tai-pan.
— Está, sim, mas não é um colapso, sr. Tip, apenas uma readaptação. O mercado vai e vem.
— E o sr. Gornt?
— Quillan Gornt é Quillan Gornt, e está sempre tentando morder os nossos calcanhares. Todos os corvos sob os céus são negros — replicou Dunross, mantendo a voz natural, imaginando quanto o homem saberia.
— E a confusão do Ho-Pak? Também é uma readaptação?
— Não, não, esse é mesmo um problema. Infelizmente, parece que o Ho-Pak está sem sorte.
— É, sr. Dunross, mas a sorte não tem muito a ver com isso. É o sistema capitalista, além da incapacidade do Banqueiro Kwang.
Dunross ficou calado. Desviou os olhos momentaneamente para L'eung, que se sentava rigidamente imóvel, e muito atento. Seus ouvidos estavam concentrados, e sua mente também, buscando perceber as correntes ocultas do que era dito.
— Não tenho nada a ver com os negócios do sr. Kwang, sr. Tip. Infelizmente, a corrida ao Ho-Pak está se espalhando para os outros bancos, e isso é muito ruim para Hong Kong e também, acho eu, para a República Popular da China.
— Não para a República Popular da China. Como pode ser ruim para nós?
— A China é a China, o Reino Médio. Nós, da Casa Nobre, sempre consideramos a China como mãe e pai da nossa casa. Agora, nossa base em Hong Kong está sitiada, o que na verdade nada significa... apenas uma falta temporária de confiança, e de cerca de uma semana de dinheiro vivo. Nossos bancos têm todas as reservas, toda a fortuna e toda a força de que necessitam para atuar... para ajudar velhos amigos, velhos clientes, e a nós mesmos.
— Então por que não imprimem mais dinheiro, se a moeda é forte?
— É uma questão de tempo, sr. Tip. Não é possível para a Casa da Moeda imprimir suficiente dinheiro de Hong Kong.
— Mais pacientemente ainda, Dunross respondeu às perguntas, sabendo agora que a maioria delas eram feitas por causa de L'eung, o que indicava que L'eung era mais antigo que Tiptop, um membro mais graduado do partido, e não era banqueiro.
— Nossa solução provisória seria trazer para cá, imediatamente, alguns carregamentos por via aérea de libras esterlinas, para cobrir as retiradas.
Notou que os olhos de ambos os homens se estreitaram ligeiramente.
— Isso não iria apoiar o dólar de Hong Kong.
— É, nossos banqueiros sabem disso. Mas o Blacs, o Victoria e o Banco da Inglaterra decidiram que isso seria o melhor, provisoriamente. Simplesmente não temos dinheiro suficiente de Hong Kong para satisfazer todos os depositantes.
O silêncio tornou-se mais denso. Dunross esperava. Johnjohn lhe dissera que acreditava que o Banco da China não devia possuir reservas substanciais de libras por causa das restrições monetárias aos seus movimentos para e da Inglaterra, mas possuía quantias bem substanciais em dólares de Hong Kong, para os quais não havia restrições de exportação.
— Não seria nada bom que o dólar de Hong Kong ficasse enfraquecido — disse Tip Tok-toh. Assoou o nariz, ruidosamente. — Nada bom para Hong Kong.
— É.
Os olhos de Tip Tok-toh endureceram, e ele se debruçou para a frente.
— É verdade, tai-pan, que o Orlin Merchant Bank não vai renovar o seu crédito?
O coração de Dunross bateu mais depressa.
— É.
— E é verdade que o seu belo banco não quer cobrir esse empréstimo, nem adiantar-lhe o bastante para evitar o ataque da Rothwell-Gornt às suas ações?
— É — respondeu Dunross, muito satisfeito ao perceber que sua voz estava calma.
— E é verdade que muitos dos seus velhos amigos lhe recusaram crédito? — É.
— E é verdade que... Hiro Toda chega esta tarde e exige para breve o pagamento dos navios encomendados ao seu estaleiro japonês?
— É.
— E é verdade que Mata e Tung, e a sua Great Good Luck Company de Macau triplicaram a sua encomenda normal de ouro em barras, mas não querem ajudá-lo diretamente?
— É — replicou Dunross, sua já aguçada concentração aumentando.
— E é verdade que os cães soviéticos hegemonistas solicitaram, mais uma vez, atrevidamente, muito, muito atrevidamente, licença para operar bancos em Hong Kong?
— Creio que sim. Johnjohn me contou que sim. Não tenho certeza, mas imagino que ele não me contaria uma inverdade.
— O que foi que ele lhe disse?
Dunross repetiu o comentário palavra por palavra, encerrando com:
— Sem dúvida a solicitação seria recusada por mim, as diretorias de todos os bancos britânicos, todos os tai-pans e o governador. Johnjohn também disse que os hegemonistas tiveram a desfaçatez de oferecer quantias substanciais e imediatas em dólares de Hong Kong para auxiliá-los na dificuldade atual.
Tip Tok-toh acabou seu café.
— Aceita mais um pouco?
— Obrigado — aceitou Dunross. Notou que L'eung serviu o café, e sentiu que tinha dado um grande passo à frente. Na noite anterior, mencionara delicadamente o banco de Moscou a Phillip Chen, sabendo que Phillip saberia como passar adiante a informação, o que naturalmente indicaria a um homem astuto como Tiptop o motivo real da urgência do encontro, e assim dar-lhe-ia tempo necessário para entrar em contato com a pessoa que tomava as decisões, que avaliaria a sua importância e os meios de concordar, ou não. Dunross podia sentir um brilho de suor na testa, e rezou para que nenhum dos homens à sua frente o notasse. Sua ansiedade faria subir o preço... caso fosse feito algum negócio.
— Terrível, terrível — disse Tiptop, pensativo. — Tempos terríveis! Velhos Amigos abandonando Velhos Amigos, inimigos sendo bem-vindos ao lar... terrível. Ah, a propósito, tai-pan, um dos nossos Velhos Amigos pediu-me que lhe perguntasse se poderia providenciar para ele um carregamento de mercadorias. Óxido de tório, acho que era.
Com grande esforço Dunross manteve a fisionomia serena. O óxido de tório era um óxido raro, o ingrediente essencial para camisas de lampião a gás à moda antiga: fazia com que a camisa emitisse sua brilhante luz branca. No ano anterior, soubera por acaso que Hong Kong se havia tornado recentemente o seu maior usuário, depois dos Estados Unidos. Sua curiosidade aumentara, pois a Struan não estava envolvida no que obviamente era um comércio lucrativo. Logo descobriu que o acesso ao material era relativamente fácil, e que o comércio era prodigioso, muito secreto, realizado por vários pequenos importadores, todos muito imprecisos quanto aos seus negócios. Na natureza, o tório ocorria em vários isótopos radioativos. Alguns deles eram facilmente convertidos em urânio fissionável 235, e o tório 232 por si só era um material criador imensamente valioso para um reator nuclear. Naturalmente, esse e muitos outros derivados do tório eram materiais estratégicos restritos, mas ele ficara espantadíssimo ao saber que o óxido e o nitrato, facilmente conversíveis quimicamente, não o eram.
Nunca pôde descobrir para onde realmente iam os óxidos de tório. Claro que para a China. Há bastante tempo que ele e outros vinham suspeitando que a RPC tinha um programa atômico intensivo, embora todos acreditassem que estivesse ainda em fase de projeto, e a pelo menos dez anos de sua consecução. Pensar na China possuidora de armas nucleares enchia-o de sentimentos contraditórios. Por um lado, qualquer proliferação nuclear era perigosa; por outro, como potência nuclear, a China instantaneamente se tornaria uma rival formidável da Rússia soviética, até mesmo uma ameaça, certamente invencível, especialmente se também tivesse os meios de desfechar um ataque de retaliação.
Dunross notou que os dois homens olhavam para ele. A veiazinha da testa de L'eung pulsava, embora seu rosto estivesse impassível.
— Isso seria possível, sr. Tip. De quanto precisariam, e para quando?
— Acredito que imediatamente, o máximo que puder ser obtido. Como sabe, a RPC está tentando se modernizar, mas grande parte da nossa iluminação ainda é a gás.
— Naturalmente.
— Onde obteria os óxidos e os nitratos?
— A Austrália seria provavelmente o meio mais rápido, embora não tenha idéia, no momento, da qualidade. Fora dos Estados Unidos — acrescentou delicadamente —, só são encontrados na Tasmânia, no Brasil, na Índia, na África do Sul, na Rodésia e nos montes Urais... onde se encontram em abundância. — Nenhum dos dois homens sorriu. — Imagino que a Tasmânia e a Rodésia seriam os melhores locais. Há alguém com quem Phillip e eu devamos tratar?
— Com o sr. Vee Cee Ng, no Edifício Princes. Dunross engoliu um assobio, enquanto encaixava outro pedaço do quebra-cabeça. O sr. Vee Cee Ng, Ng Fotógrafo, era grande amigo de Tsu-yan, o Tsu-yan desaparecido, seu velho amigo e associado que fugira misteriosamente para a China, cruzando a fronteira em Macau. Tsu-yan fora um dos importadores de tório. Até agora, a ligação não lhe parecera importante.
— Conheço o sr. Ng. A propósito, como vai meu velho amigo Tsu-yan?
L'eung ficou obviamente sobressaltado. "Bem na mosca", pensou Dunross, sombriamente, chocado por nunca ter suspeitado de que Tsu-yan fosse comunista, ou tivesse tendências comunistas.
— Tsu-yan? — Tiptop franziu o cenho. — Há mais de uma semana não o vejo. Por quê?
— Ouvi dizer que estava visitando Pequim, via Macau.
— Curioso! Muito curioso. Por que iria querer fazer isso... um arquicapitalista? Bem, as surpresas nunca cessam. Se tiver a gentileza de entrar em contato diretamente com o sr. Ng, estou certo de que ele lhe dará os detalhes.
— Farei isso hoje mesmo, logo que chegar ao escritório. Dunross esperou. Haveria outras concessões antes que eles fornecessem o que ele buscava, se é que seria fornecido. Sua cabeça fervilhava com as implicações do primeiro pedido: como obter os óxidos de tório, se deveria obtê-los. Queria saber a quantas ia a RPC com o seu programa atômico, sabendo que jamais lhe contariam. L'eung pegou um maço de cigarros e lhe ofereceu um.
— Não, obrigado.
Os dois outros homens acenderam seus cigarros. Tiptop tossiu e assoou o nariz.
— É curioso, tai-pan — disse —, muito curioso que o senhor se esforce tanto para ajudar o Victoria e o Blacs, e todos os seus bancos capitalistas, enquanto corre o forte boato de que eles não o ajudarão nas suas dificuldades.
— Talvez enxerguem o quanto estão errados — disse Dunross. — Às vezes é necessário esquecer interesses atuais para o bem comum. Seria ruim para o Reino Médio se Hong Kong fraquejasse. — Notou o escárnio no rosto de L'eung, mas nem se incomodou. — Um antigo preceito chinês diz que não se devem esquecer os Velhos Amigos, os amigos de confiança, e enquanto eu for tai-pan da Casa Nobre e tiver poder, sr. Tip, eu e os que são como eu... o sr. Johnjohn, por exemplo, e o governador... dedicaremos amizade eterna ao Reino Médio e jamais permitiremos que os hegemonistas floresçam na nossa rocha árida.
Tiptop disse, vivamente:
— É a nossa rocha árida, Sr. Dunross, que está sendo atualmente administrada pelos britânicos, não é?
— Hong Kong é e sempre foi solo do Reino Médio.
— Aceitarei sua definição, por enquanto, mas tudo em Kowloon e nos Novos Territórios ao norte da Boundary Road reverterá para nós daqui a uns trinta e cinco anos, não é? Mesmo que vocês aceitem os Tratados Desiguais impostos aos nossos antepassados, que nós não aceitamos.
— Meus antepassados sempre acharam seus Velhos Amigos sensatos, muito sensatos, incapazes de cortar fora os seus Talos para irritar um Portão de Jade.
Tiptop achou graça. L'eung continuou de cara fechada e hostil.
— O que prevê que acontecerá em 1997, sr. Dunross?
— Não sou o Velho Cego Tung, nem um vidente, sr. Tip. — Dunross deu de ombros. — Que 1997 cuide de 1997. Velhos Amigos ainda precisarão de Velhos Amigos, heya?
Depois de uma pausa, Tiptop disse:
— Se o seu banco não ajudar a Casa Nobre, nem os Velhos Amigos, nem o Orlin, como continuará sendo a Casa Nobre?
— Meu antepassado, o Demônio de Olhos Verdes, teve que responder à mesma pergunta feita pelo Grande e Honorável Jin-qua, quando estava sendo acossado pelos inimigos, Tyler Brock e sua escória. Apenas riu e disse: "Neng che to lao, um homem capaz tem muitos fardos". Como sou mais capaz do que a maioria, tenho que suar mais do que a maioria. Tip Tok-toh sorriu com ele.
— E está suando, sr. Dunross?
— Bem, coloquemos a coisa nestes termos — disse Dunross, alegremente: — estou tentando evitar o octagésimo quarto. Como sabe, Buda disse que todos os homens têm oitenta e três fardos. Se conseguimos eliminar um deles, automaticamente adquirimos outro. O segredo da vida é adaptar-se aos oitenta e três e evitar a todo custo adquirir o octagésimo quarto.
O homem mais velho sorriu.
— Já considerou a venda de parte de sua companhia, talvez até cinqüenta e um por cento?
— Não, sr. Tip. O velho Demônio de Olhos Verdes nos proibiu isso. — As ruguinhas ao redor dos olhos de Dunross apareceram, quando sorriu. — Ele queria que suássemos.
— Torçamos para que o senhor não sue demais. É. — Tiptop apagou o cigarro. — Em épocas difíceis, seria bom para o Banco da China ter uma ligação mais estreita com o seu sistema bancário. Assim, essas crises não seriam tão contínuas.
Prontamente, os pensamentos de Dunross deram um salto à frente.
— Será que o Banco da China consideraria a possibilidade de um contato permanente postado dentro do Vic, e um equivalente no seu banco? — Notou o sorriso fugaz e soube que adivinhara corretamente. — Isso asseguraria um controle íntimo de qualquer crise, e lhes daria assistência, caso viessem a precisar de assistência internacional.
— O presidente Mao aconselha a auto-ajuda, e é o que estamos fazendo. Mas a sua sugestão pode ser válida. Terei prazer em passá-la adiante.
— Estou certo de que o banco ficaria grato se o senhor recomendasse alguém para ser o seu contato no grande Banco da China.
— Também terei prazer em passar isso adiante. Acha que o Blacs ou o Victoria adiantariam o câmbio externo necessário para as importações do sr. Ng?
— Estou certo de que ficariam encantados em ser úteis, o Victoria sem dúvida. Afinal de contas, o Victoria tem mais de um século de associação com a China. Não foi instrumento importante na realização da maioria dos seus empréstimos externos, para ferrovias, aviões?
— Com grande lucro — disse Tiptop, secamente. Seus olhos dardejaram para L'eung, que fitava Dunross intensamente. — Lucro capitalista — acrescentou, fracamente.
— Exatamente — disse Dunross. — Precisa desculpar-nos, a nós, capitalistas, sr. Tip. Talvez nossa única defesa seja que muitos de nós somos Velhos Amigos do Reino Médio.
L'eung falou rapidamente com Tiptop num dialeto que Dunross não compreendeu. Tiptop respondeu afirmativamente. Os dois homens olharam para Dunross.
— Desculpe-me, sr. Dunross, mas precisa me dar licença agora. Tenho que tomar uns remédios. Talvez possa me telefonar depois do almoço. Digamos Iá pelas duas e meia, aqui para casa mesmo.
Dunross levantou-se e estendeu a mão, sem ter certeza de ter tido êxito, mas certo de que precisava agir depressa quanto ao tório, sem dúvida antes das duas e meia.
— Obrigado por receber-me.
— E quanto ao nosso quinto páreo? — perguntou o homem mais velho, erguendo os olhos para ele, enquanto o acompanhava até a porta.
— Noble Star vale uma aposta. De qualquer tipo.
— Ah! Butterscotch Lass?
— Também.
— E Pilot Fish? Dunross riu.
— O garanhão é bom, mas não pertence à mesma classe, a não ser que ocorra um ato de Deus, ou do Diabo.
Estavam agora à porta da frente, e um criado a escancarou. Novamente L'eung falou no dialeto que Dunross não reconheceu. Novamente Tiptop respondeu afirmativamente, e foi na frente, mostrando o caminho. Logo que saíram da casa, L'eung afastou-se em direção à quadra de tênis.
— Gostaria que conhecesse um amigo, um novo amigo, sr. Dunross — falou Tiptop. — Ele poderá, quem sabe, fazer muitos negócios com o senhor, no futuro. Se o senhor quiser.
Dunross notou os olhos empedernidos, e seu bom humor desapareceu.
O chinês que vinha vindo com L'eung era bem-feito de corpo, elegante, na casa dos quarenta anos. Tinha os cabelos negro-azulados despenteados por causa do jogo, o uniforme de tênis moderno, vistoso e americano. Na quadra às suas costas os outros três esperavam e observavam. Todos estavam bem-vestidos, e em boa forma física.
— Posso lhe apresentar o dr. Joseph Yu, da Califórnia? Sr. Ian Dunross.
— Oi, sr. Dunross — cumprimentou-o o dr. Joseph Yu com tranqüila familiaridade americana. — O sr. Tip já me falou a seu respeito, e da Struan... prazer em conhecê-lo. O sr. Tip achou que devíamos conhecer-nos antes que eu me vá... vamos embora para a China amanhã, Betty e eu... minha mulher e eu. — Fez um gesto impreciso de mão na direção de uma das mulheres na quadra de tênis. — Não esperamos voltar tão cedo, portanto gostaria de marcar um encontro com o senhor em Cantão, daqui a um mês, mais ou menos. — Lançou um olhar para Tiptop. — Não haverá problemas com o visto do sr. Dunross?
— Não, dr. Yu. Ah, não, de modo algum.
— Ótimo. Se eu ligar para o senhor, sr. Dunross, ou o sr. Tip ligar, podemos combinar alguma coisa com uns dois dias de antecedência?
— Claro que sim, se toda a parte burocrática estiver pronta — disse Dunross, mantendo o sorriso no rosto, notando a dureza confiante de Yu. — O que está pretendendo?
— Se nos dão licença — falou Tiptop —, vamos deixá-los sozinhos.
Fez um gesto cortês de cabeça e voltou com L'eung para dentro da casa.
— Sou dos Estados Unidos — continuou Yu, animado —, americano de nascimento, de Sacramento. Sou californiano de terceira geração, embora tenha sido educado, em parte, em Cantão. Tirei o meu Ph. D. em Stanford, engenharia aeroespacial, minha especialidade. Foguetes e combustíveis para foguetes. Passei na nasa os meus melhores anos, os melhores desde a faculdade. — Yu não sorria mais. — O que vou encomendar é todo tipo de equipamento metalúrgico e ferramentas aeroespaciais sofisticadas. O sr. Tip me disse que o senhor seria a nossa melhor opção como importador. Os britânicos, depois os franceses e os alemães, talvez os japoneses, serão os fabricantes. Está interessado?
Dunross ouvia com uma preocupação crescente, que não se incomodou em disfarçar.
— Desde que não seja material estratégico e restrito — disse.
— Será principalmente estratégico e principalmente restrito. Está interessado?
— Por que está me contando tudo isso, dr. Yu? Yu sorriu apenas formalmente.
— Vou reorganizar o programa espacial da China. — Os olhos dele estreitaram-se ainda mais, enquanto observava Dunross atentamente. — Acha isso surpreendente?
— Acho.
— Eu também. — Yu lançou um olhar para a mulher, depois voltou a fitar Dunross. — O sr. Tip me disse que se pode confiar no senhor. Acha que o senhor é justo, e que como lhe deve um ou dois favores, passará adiante um recado meu. — A voz de Yu tornou-se mais dura. — Estou lhe contando isso para que, quando ler sobre o meu falecimento, ou seqüestro, ou alguma merda de "enquanto estava mentalmente perturbado", saiba que é tudo mentira, e me faça o favor de dar esse recado à CIA, que o passará adiante. A verdade! — Inspirou fundo. — Estou indo por livre e espontânea vontade. Nós dois estamos. Há três gerações meu povo, que é o melhor contingente de imigrantes que existe, vive espezinhado nos Estados Unidos pelos americanos. Meu velho serviu na Primeira Guerra Mundial, e eu, na Segunda. Mas a última gota foi há dois meses, no dia 16 de junho. Betty e eu queríamos uma casa em Beverly Hills. Conhece Beverly Hills, em Los Angeles?
— Conheço.
— Fomos recusados por sermos chineses. O filho da puta falou claramente: "Não vou vender minha casa para nenhum maldito chinês". Essa não foi a primeira vez, porra, não, mas o filho da puta disse isso na frente da Betty, e foi aí que o caldo entornou! — Os lábios de Yu retorceram-se de raiva. — Pode imaginar a estupidez do filho da mãe? Sou o melhor no meu ramo, e aquele caipira cretino e preconceituoso disse: "Não vou vender minha casa para nenhum maldito chinês". — Girou a raquete nas mãos. — Você lhes contará?
— Quer que eu passe adiante essa informação particular ou publicamente? Posso citá-lo palavra por palavra, se quiser.
— Particularmente, para a CIA, mas não antes da segunda-feira às dezoito horas. Certo? Depois, no mês que vem, depois do nosso encontro em Cantão, será pública. Certo, sr. Dunross?
— Muito bem. Pode dar-me o nome do vendedor da casa, a data, outros detalhes?
Yu apanhou um pedaço de papel datilografado. Dunross lançou-lhe um olhar.
— Obrigado. — Havia dois nomes, endereços e números de telefone em Beverly Hills. — Ambos a mesma recusa?
— É.
— Cuidarei disso para o senhor, dr. Yu. — Acha que é mesquinharia, não é?
— Não, não acho isso, absolutamente. Só lamento que tenha acontecido e aconteça em toda parte... com todo tipo de gente. É uma grande tristeza. — Dunross hesitou. — Acontece na China, no Japão, aqui, no mundo inteiro. Chineses e japoneses, vietnamitas, todo tipo de pessoas, dr. Yu, são às vezes igualmente intolerantes e preconceituosos. Na maioria das vezes, até mais. Nós não somos chamados de quai loh?
— Não devia acontecer nos Estados Unidos... não de americana para americano. Isso é o que me deixou puto.
— Acha que, uma vez na China, terá liberdade para entrar e sair livremente?
— Não, e estou pouco me lixando. Vou de livre vontade. Não estou sendo tentado por dinheiro, ou chantageado para ir. Simplesmente vou.
— E quanto à nasa? Estou surpreso que tenham permitido que uma bobagem dessas acontecesse.
— Ah, tínhamos uma bela casa à nossa disposição, mas não era onde queríamos morar. Betty queria aquela maldita casa, e nós tínhamos posição e dinheiro para comprá-la, mas não pudemos entrar nela. Não foi apenas aquele filho da puta, foi toda a vizinhança. — Yu afastou um fio de cabelo dos olhos. — Não nos querem. Portanto, vou para onde me querem. O que acha de a China ter sua própria força de ataque nuclear retaliatório? Como os franceses, hem? O que acha disso?
— A idéia de qualquer um possuir foguetes com bombas A ou H me enche de horror.
— São apenas as armas de hoje, sr. Dunross, apenas as armas de hoje.
— Santo Deus! — exclamou Johnjohn, estupefato. Havergill estava igualmente chocado.
— O sr. Joseph Yu é mesmo dos bons, Ian?
— Com certeza. Liguei para um amigo em Washington. Yu é um dos dois ou três melhores do mundo... foguetes e combustível para foguetes. — Tinham acabado de almoçar. Dunross acabara de contar-lhes o que transpirara pela manhã. — Também é verdade que ninguém sabe que vai cruzar a fronteira, ou até mesmo que saiu do Havaí, onde pensam que está de férias... disse-me que viajou para cá abertamente.
— Pombas! — manifestou-se Johnjohn de novo. — Se a China conseguir peritos como ele... — Ficou girando o cortador de papel que estava na mesa de Havergill. — Ian, já pensou em avisar Roger Crosse, ou Rosemont, para impedir isso?
— Claro, mas não posso fazê-lo. Simplesmente não posso.
— Claro que Ian não pode! Já pensou no que está em jogo? — Havergill indicou a janela com um movimento brusco do polegar. Catorze andares abaixo, podia-se ver uma turba impaciente e zangada tentando entrar no banco, a polícia agora mal conseguindo contê-la. — Não vamos nos iludir. A corrida começou, estamos chegando ao fundo do saco. Mal temos dinheiro para passar o dia, mal temos dinheiro para pagar os funcionários públicos. Graças a Deus amanhã é sábado! Se o Ian diz que existe uma chance de conseguirmos o dinheiro da China, claro que ele não pode se arriscar a revelar uma confidencia dessas! Ian, soube que o Ho-Pak fechou as portas?
— Não. Tenho voado daqui para Iá como uma mosca-varejeira desde que deixei o Tiptop.
— O Ching Prosperity também fechou. O Far East and índia está balançando. O Blacs está distribuindo suas reservas e, como nós, rezando para que elas durem a meia hora que falta para o fim do expediente. — Empurrou o telefone pela escrivaninha prístina. — Ian, por favor, ligue agora para o Tiptop. São duas e meia.
Dunross manteve a fisionomia séria e a voz serena.
— Há algumas coisas a acertar primeiro, Paul. E quanto às importações de tório? — Contara-lhe que entrara em contato com Ng Fotógrafo, que alegremente lhe dera uma encomenda imediata para o máximo de óxido raro que pudessem obter. — Você arranjará as operações cambiais no exterior?
— Sim, desde que o comércio não seja proibido.
— Vou precisar disso por escrito.
— Você o receberá antes da hora do encerramento do expediente. Por favor, ligue agora para ele.
— Daqui a dez minutos. É uma questão de prestígio. Concorda em ter um contato permanente do Banco da China no prédio?
— Sim. Estou certo de que eles jamais permitirão que um dos nossos entre no prédio deles, mas tudo bem. — Havergill olhou de novo para o relógio, depois para Johnjohn. — O sujeito teria que ser controlado, e talvez tivéssemos que mudar algumas normas de segurança, certo?
Johnjohn concordou.
— É, mas isso não deverá causar problemas, Paul. Se fosse o Tiptop em pessoa, seria perfeito. Acha que há chance disso, Ian?
— Não sei. Bem, e quanto às encomendas do Yu?
— Não podemos financiar contrabando — disse Havergill. — Isso fica por sua conta.
— E quem falou em contrabando?
— É. Bem, digamos que será preciso examinar atentamente as encomendas do Yu, quando e se a sua assistência for solicitada, Ian.
— Qual é, Paul! Você sabe muito bem que isso faz parte do acordo... se houver um acordo. Por que outro motivo iriam querer que eu o conhecesse? Johnjohn se intrometeu.
— Por que não adiar esse problema, Ian? Faremos o impossível para dar-lhe assistência, quando chegar a hora. Você disse ao Yu a mesma coisa, que ia esperar para ver, mas não assumiu nenhum compromisso, não foi?
— Mas vocês concordam em ajudar a me dar assistência de todas as maneiras?
— Concordamos, quanto a isso e quanto ao tório.
— E quanto ao meu empréstimo?
— Não tenho permissão para concedê-lo, Ian — disse Paul Havergill. — Já discutimos esse assunto.
— Então convoque uma reunião de diretoria imediatamente.
— Vou pensar. Vamos ver como estão indo as coisas, está bem? — Paul Havergill apertou um botão e falou no pequeno microfone: — Bolsa de Valores, por favor.
Dali a um momento ouviu-se uma voz pelo alto-falante. Ao fundo, ouvia-se o pandemônio.
— Pronto, sr. Havergill.
— Charles, quais são as últimas?
— O mercado inteiro baixou vinte e oito pontos... — Os dois banqueiros empalideceram. A pequena veia na testa de Dunross pulsava — e parece que está havendo um começo de pânico. O banco baixou sete pontos, a Struan baixou para 11, 50...
— Santo Deus! — murmurou Johnjohn.
— ... a Rothwell-Gornt baixou sete, a Companhia de Força de Hong Kong baixou cinco, a Asian Land, onze... está tudo em perigo. Todas as ações de bancos estão caindo vertiginosamente. O Ho-Pak congelou a 12, e quando descongelar, baixará para 1 dólar. O Far East and índia está pagando apenas um máximo de mil por cliente.
O nervosismo de Havergill aumentou. O Far East era um dos maiores bancos da colônia.
— Detesto ser pessimista, mas está parecendo Nova York em 1929! Acho... — A voz foi abafada por uma explosão de gritos. — Desculpe, há uma outra grande oferta de venda das ações da Struan: duzentas mil ações...
— Pombas, de onde está vindo essa quantidade toda de ações? — perguntou Johnjohn.
— De todos os Fulanos, Beltranos e Sicranos de Hong Kong — disse Dunross friamente. — Inclusive o Victoria.
— Tivemos que proteger nossos investidores — disse Havergill, acrescentando ao microfone: — Obrigado, Charles. Ligue para mim de novo às quinze para as três. — Desligou o alto-falante. — Eis a sua resposta, Ian. Não posso, em sã consciência, recomendar à diretoria que salvemos sua pele com outro empréstimo de dez milhões sem garantia.
— Vai convocar uma reunião de diretoria imediatamente ou não?
— Suas ações estão caindo vertiginosamente. Não tem bens que sirvam de garantia para "bancar" a corrida às suas ações, seus títulos bancários já estão penhorados, as ações readquiridas pela sua companhia valem menos a cada minuto. Na segunda ou na terça Gornt vai comprar o que vendeu, e então controlará a Struan.
Dunross fitava-o.
— Vai deixar o Gornt assumir o controle da companhia? Não acredito. Vocês vão recomprar antes dele. Ou já fizeram um acordo para dividir a Struan entre os dois?
— Nenhum acordo. Ainda não. Mas se você pedir demissão da Struan neste momento, concordar por escrito em nos vender quantas ações readquiridas pela sua companhia quisermos, ao preço de mercado no encerramento do pregão de segunda, se concordar em indicar um novo tai-pan, escolhido pela nossa diretoria, comunicaremos que daremos apoio integral à Struan.
— Quando fariam essa comunicação?
— Na segunda, às quinze horas e dez minutos.
— Em outras palavras: não me estarão dando nada.
— Você sempre disse que a melhor coisa de Hong Kong era ser uma praça de mercado livre, onde os fortes sobrevivem e os fracos perecem. Por que não persuadiu Sir Luís a retirar suas ações do pregão?
— Ele fez essa sugestão. Eu a recusei.
— Por quê?
— A Struan continua forte como sempre.
— O motivo real não foi o prestígio... e o seu orgulho idiota? Desculpe, não há nada que eu possa fazer para impedir o inevitável.
— Porra! — exclamou Dunross, e Havergill enrubesceu. — Pode convocar uma reunião. Pode...
— Nada de reunião!
— Ian! — Johnjohn tentou suavizar a hostilidade declarada entre os dois homens. — Escute, Paul, que tal um acordo? Se, através do Ian, conseguirmos o dinheiro vivo da China, você convocará uma reunião de diretoria imediatamente, uma reunião extraordinária, ainda hoje. Você pode fazer isso... há um número suficiente de diretores na cidade, e seria justo, não é?
— Vou pensar no assunto — disse Havergill, após ligeira hesitação.
— Para mim não basta — disse Dunross, com veemência.
— Vou pensar no assunto. Queira ter a bondade de ligar para o Tip...
— Quando vai ser a reunião? Se houver?
— Na semana que vem.
— Não. Hoje, como o Johnjohn está sugerindo.
— Disse que vou pensar no assunto — explodiu Havergill. — Agora, por favor, ligue para o Tiptop.
— Se você garantir que convocará a diretoria no mais tardar amanhã às dez!
A voz de Havergill tornou-se áspera.
— Não cederei à chantagem, como cedi da última vez. Se não quiser ligar para o Tiptop, ligo eu. Agora já posso. Se eles quiserem nos emprestar o dinheiro, emprestarão, seja Iá quem for que ligue para eles. Você já concordou com o negócio do tório, já concordou em se encontrar com Yu no mês que vem, nós concordamos em apoiar o negócio, seja Iá quem esteja à testa da Casa Nobre. Não tenho poder para conceder-lhe mais nenhum empréstimo. Portanto, é pegar ou largar. Estou pensando em convocar uma reunião de diretoria antes de a Bolsa abrir, na segunda-feira. É só o que lhe prometo.
O silêncio era pesado e elétrico.
Dunross deu de ombros. Pegou o telefone e discou.
— Weyyyyy? — atendeu uma voz feminina arrogante.
— O Honorável Tip Tok-toh, por favor — disse, em cantonense. — Aqui fala o tai-pan.
— Ah, o tai-pan! Ah, por favor, espere um momento. — Dunross esperou. Uma gota de suor ficou pendurada na ponta do queixo de Johnjohn. — Weyyyy? Tai-pan, o médico está com ele, ele está muito doente. Por favor, ligue mais tarde!
O telefone foi desligado antes que Dunross pudesse dizer qualquer coisa. Ele voltou a discar.
— Aqui fala o tai-pan, quer...
— Este telefone está terrível. — A amah falou duas vezes mais alto: — Ele está doente — berrou. — Ligue mais tarde.
Dunross ligou dali a dez minutos. Agora o telefone dava sinal de ocupado. Continuou tentando, sem sucesso.
Bateram à porta, e o caixa-chefe entrou, esbaforido.
— Desculpe, senhor, mas as filas não diminuem, e ainda temos quinze minutos até o banco fechar. Sugiro que limitemos os saques agora, digamos a mil...
— Não — disse Havergill, imediatamente.
— Mas, senhor, as caixas estão quase vazias. Não acha... — Não. O Victoria tem que continuar firme. Temos que continuar. Não. Continue pagando cada tostão.
O homem hesitou, depois saiu. Havergill enxugou a testa. Johnjohn também. Dunross discou de novo. Ainda ocupado. Pouco antes das três, tentou uma última vez, depois ligou para a companhia telefônica pedindo que verificassem o número.
— Está temporariamente enguiçado, senhor — disse a telefonista.
Dunross desligou o aparelho.
— Aposto vinte contra uma moeda de cobre como está fora do gancho deliberadamente. — O relógio marcava quinze e um. — Vamos ver como anda a Bolsa.
Havergill enxugou as palmas das mãos. Antes que pudesse discar, o telefone tocou.
— O caixa-chefe, senhor. Tudo... tudo bem, agora. O último cliente já foi pago. As portas já estão fechadas. O Blacs também conseguiu se safar, senhor.
— Ótimo. Verifique quanto restou no cofre-forte, depois ligue para mim.
— Graças a Deus é sexta-feira — disse Johnjohn. Havergill discou:
— Charles? Quais as últimas?
— O mercado fechou em baixa. Trinta e sete pontos. Nossas ações baixaram oito pontos.
— Pela madrugada! — exclamou Johnjohn. O banco nunca caíra tanto, nem mesmo durante os levantes de 56.
— A Struan?
— 9, 50.
Os dois banqueiros olharam para Dunross. O rosto dele estava impassível. Voltou a ligar para Tiptop enquanto o corretor continuava a enumerar as cotações do fechamento do pregão. Novo sinal de ocupado.
— Vou ligar de novo Iá do escritório — disse. — No momento em que conseguir falar com ele, telefono para vocês. Se não tiverem o dinheiro da China, o que vão fazer?
— Há apenas duas soluções. Esperamos pelas libras, e para isso o governador terá que decretar feriado bancário na segunda-feira, ou pelo tempo de que precisarmos. Ou aceitamos a oferta do Banco Mercantil de Moscou.
— Tiptop foi bem claro. Isso seria um tiro pela culatra. Esculhambaria Hong Kong para sempre.
— São as únicas soluções. Dunross se pôs de pé.
— Só há uma. A propósito, o governador lhe telefonou?
— Sim — respondeu Havergill. — Quer que abramos as caixas-fortes para ele, você, Roger Crosse e um tal de Sinders. Que história é essa?
— Ele não lhe contou?
— Não. Disse que era algo relacionado com a Lei dos Segredos Oficiais.
— Até as seis — disse Dunross, retirando-se. Havergill enxugou mais um pouco de suor com o lenço.
— A única coisa boa de tudo isso é que esse cretino arrogante está em piores dificuldades — murmurou, com raiva. Ligou para o número de Tiptop. E de novo. O telefone interno tocou. Johnjohn atendeu para Havergill.
— Pronto?
— Aqui fala o caixa-chefe, senhor. Restam apenas setecentos e dezesseis mil e vinte e sete HK no cofre-forte. — A voz do homem tremia. — Nós... é só o que nos resta, senhor.
— Obrigado.
Johnjohn desligou e contou a Havergill. O vice-presidente da junta diretora não lhes respondeu, apenas ligou mais uma vez para a casa de Tiptop. Ainda dava ocupado.
— É melhor iniciar um diálogo com o contato soviético. Johnjohn ficou vermelho.
— Mas é impossível...
— Faça-o! Faça-o agora!
Havergill, igualmente colérico, ligou de novo para Tiptop. Ainda ocupado.
Dunross entrou em seu escritório.
— O sr. Toda está aqui com a comitiva de costume, tai-pan.
Claudia não escondia o desagrado nem o nervosismo.
— Faça-os entrar, por favor.
— O sr. Alastair ligou duas vezes... pediu que ligasse para ele tão logo chegasse. E o seu pai.
— Ligo para eles depois.
— Sim, senhor. Eis aqui o telex da Nelson Trading da Suíça, confirmando que compraram o triplo da encomenda comum de ouro para a Great Good Luck Company de Macau.
— Ótimo. Mande uma cópia para o Lando imediatamente e solicite os fundos.
— Este telex é do Orlin Merchant Bank, confirmando que lamentam não poder renovar o empréstimo, e solicitando o pagamento.
— Mande-lhes o seguinte telex: "Obrigado".
— Verifiquei com a sra. Dunross. Chegaram bem.
— Ótimo. Consiga o telefone da casa do especialista de Kathy, para que eu possa ligar para ele, durante o fim de semana.
Claudia fez outra anotação.
— O jovem Duncan ligou de Sydney para dizer que teve uma excelente noite e que vem no vôo de segunda da Qantas. Eis aqui uma lista dos seus outros telefonemas.
Deu uma olhada na longa lista, perguntando-se fugazmente se o filho já não era mais virgem, ou se já o deixara de ser antes da linda Sheila. Pensar numa linda sheila fê-lo lembrar-se de novo da exótica Jade de Neve. "Curioso que se chamasse Jade de Neve... fazia lembrar tanto a Jade Elegante, que está em algum lugar de Taipé, dirigindo uma Casa de Muitos Prazeres. Quem sabe não chegou a hora de encontrar Jade Elegante e agradecer-lhe?" Mais uma vez, recordou o conselho do velho Chen-chen, quando estava à morte:
— Escute, meu filho — sussurrara o velho Chen-chen, a voz fraquejando —, nunca tente encontrá-la. Você a desprestigiará e tirará a beleza de vocês dois. Estará velha, seu Portão de Jade murcho. Seus prazeres derivarão da boa comida e do bom conhaque. As filhas do Mundo do Prazer não envelhecem graciosamente, nem com bom gênio. Deixe-a entregue à sua sorte e às suas lembranças. Seja bondoso. Seja sempre bondoso para com aquelas que lhe derem a juventude e o yin para socorrer o seu yang. Eeee, quem me dera ser jovem como você, outra vez...
Dunross soltou um suspiro. Sua noite com Jade de Neve fora impecável. E cheia de risos.
— Não como sobremesa — replicara ele, prontamente. — Estou de dieta.
— Oh ko, você, não, tai-pan. Eu o ajudo a perder peso, pode deixar.
— Obrigado, mas nada de sobremesa, e nunca em Hong Kong.
— Ah! Quatro Dedos disse que você diria isso, tai-pan, e para eu não me sentir envergonhada. — Ela abrira um amplo sorriso e servira-lhe um uísque. — Devo dizer: "Tenho passaporte, estou disposta a viajar".
Os dois riram juntos.
— O que mais disse Quatro Dedos?
Ela tocara os lábios com a ponta da língua.
— Só que os demônios estrangeiros são muito esquisitos, em algumas coisas. Como em dizer "nada de sobremesa!" Como se isso importasse. — Ela o observara. — Nunca estive com um bárbaro antes.
— É? Alguns de nós até que são bastante civilizados. Dunross sorriu consigo mesmo, lembrando-se de como se sentira tentado, das brincadeiras deles, da esplêndida refeição, tudo alegre e satisfatório. "É. Mas isso não desculpa aquele filho da mãe do Quatro Dedos, nem a meia moeda, nem o roubo da meia moeda", pensou, sombriamente, "nem a armadilha que ele acha que preparou para mim. Mas tudo isso fica para mais tarde. As primeiras coisas em primeiro lugar. Concentre-se, há muito o que fazer, antes de dormir esta noite!"
A lista que Claudia lhe entregara era longa, a maioria dos telefonemas, urgentes, e havia duas horas de trabalho à sua frente. Tiptop não estava na lista, nem Lando Mata, Tung Pão-Duro, Quatro Dedos ou Paul Choy. Casey e Bartlett estavam. E Travkin, Robert Armstrong, Jacques de Ville, Gavallan, Phillip Chen, Dianne Chen, Alan Holdbrook — o corretor interno da Struan —, Sir Luís e dúzias de outros espalhados por todo o mundo.
— Atacaremos a lista depois de Hiro Toda, Claudia.
— Sim, senhor.
— Depois de Toda, quero ver Jacques... depois Phillip Chen. Alguma novidade sobre a sra. Riko Gresserhoff?
— O avião dela é esperado às dezenove horas. Tem reserva no Vic, alguém irá recebê-la. Já mandei pôr flores no quarto dela.
— Obrigado.
Dunross entrou na sua sala e ficou olhando pela janela. Por enquanto fizera tudo o que fora possível pela Casa Nobre e por Hong Kong. Agora, ficava por conta da sua sorte. E o próximo problema. Os navios. Sua excitação aumentou.
— Alô, tai-pan.
— Alô, Hiro — cumprimentou Dunross, apertando calorosamente a mão estendida.
Hiro Toda, gerente-administrativo das Indústrias de Navegação Toda, regulava em idade com Dunross. Era esbelto, rijo e muito mais baixo, olhos sábios e sorriso fácil, o sotaque levemente americano devido a dois anos de pós-graduação na ucla¹ no final da década de 40.
¹ Universidade da Califórnia, em Los Angeles. (N. da T. )
— Posso apresentar-lhe meus associados? Sr. Kazunari, sr. Ebe, sr. Kasigi.
Os três homens mais moços curvaram-se, e Dunross curvou-se também. Todos vestiam ternos escuros bem-talhados, camisas brancas e gravatas discretas.
— Queiram sentar-se.
Dunross fez um gesto despreocupado para as cadeiras em volta da pequena mesa de reuniões. A porta se abriu e sua assistente e intérprete japonesa, Akiko, entrou. Trazia consigo uma bandeja com chá verde. Apresentou-se, serviu o chá delicadamente, depois sentou-se perto de Dunross. Embora o japonês dele fosse bom o suficiente para uma reunião de negócios, a presença dela era necessária por uma questão de prestígio.
Parcialmente em japonês, parcialmente em inglês, ele começou a conversa cortês sobre assuntos inconseqüentes que, segundo os costumes japoneses, precediam uma conversa séria. Era também costume japonês que as reuniões de negócios fossem compartilhadas por muitos executivos. Quanto mais importante o executivo, maior o número de acompanhantes.
Dunross esperava pacientemente. Gostava de Hiro Toda, chefe titular do grande conglomerado de navegação fundado por seu bisavô, há quase cem anos. Seus antepassados eram daimios, senhores feudais, até que o feudalismo e a classe samu-rai foram abolidos em 1870, e teve início o Japão moderno. Sua autoridade na Toda era externamente todo-poderosa, mas, como acontecia com freqüência no Japão, todo o poder real estava centralizado nas mãos do pai, de setenta e três anos, que, ostensivamente, estava aposentado.
Finalmente, Toda foi ao assunto.
— Esse colapso do mercado de capitais deve estar lhe causando muita preocupação, tai-pan.
— Uma perda temporária de confiança. Tenho certeza de que tudo se arranjará durante o fim de semana.
— Ah, sim. Eu também espero.
— Quanto tempo vai demorar, Hiro?
— Até domingo. É, domingo. Depois, sigo para Cingapura e Sydney. Estarei de volta para fechar o nosso negócio com você na semana que vem. Folgo em dizer-lhe que seus navios estão adiantados. — Toda colocou um maço de papéis sobre a mesa. — Eis aqui um relatório detalhado.
— Excelente! — Dunross partiu para o ataque, abençoando os deuses e Alan M. Grant e Kirk. Enquanto voltava para casa, à noite, subitamente se dera conta da importância da chave que Alan e Kirk lhe haviam dado para um plano no qual estava trabalhando há quase um ano. — Quer que adiantemos as datas de pagamento?
— Ah! — O outro disfarçou sua surpresa. — Talvez eu possa discutir isso mais tarde com meus colegas, mas folgo em saber que tudo está sob controle, a tentativa de compra do controle acionário foi neutralizada.
— Não foi Sun Tse que disse: "Aquele que não exerce seu poder de previsão e faz pouco dos seus oponentes sem dúvida será capturado por eles"? Claro que o Gornt está mordendo os nossos calcanhares, claro que a corrida aos nossos bancos é séria, mas o pior já passou. Está tudo bem. Não acha que devíamos ampliar a quantidade de negócios que estamos fazendo juntos?
— Dois navios, tai-pan? — sorriu Toda. — Gigantescos, pelos padrões atuais. Em um ano? Não é uma transação de somenos importância.
— Talvez pudessem ser vinte e dois navios — disse, exteriormente despreocupado, mas totalmente concentrado. — Tenho uma proposta para você, na verdade para todos os complexos industriais japoneses de construção naval. No momento, vocês apenas constróem navios e os vendem, ou para gaijin — estrangeiros — como nós, por exemplo, ou para armadores japoneses. Quando vendem aos japoneses, seus custos operacionais com o alto custo das tripulações japonesas, que, por lei, vocês têm que levar, já estão se tornando não-competitivos, como os navios americanos com as tripulações americanas. Em breve não poderão competir com os gregos, com outros e conosco, porque nossos custos serão muito mais baixos.
Dunross viu que todos se concentravam em Akiko, que traduzia quase simultaneamente, e pensou com alegria em outra máxima de Sun Tse: "Em todas as lutas, o método direto pode ser usado para dar início à batalha, mas o método indireto será necessário para assegurar a vitória". A seguir, continuou:
— Segundo ponto: o Japão tem que importar tudo de que precisa para sustentar sua economia e seu padrão de vida crescentes, seu complexo industrial, e com certeza noventa e cinco por cento de toda a energia necessária para mantê-los. O petróleo é a chave para o futuro. O petróleo tem que vir até vocês por mar, assim como toda a sua matéria-prima a granel... sempre levada até vocês por imensos cargueiros. Sempre por mar. Estão construindo os grandes navios com muita eficiência, mas como armadores seus custos operacionais e a sua estrutura interna de impostos vão tirá-los do mercado. Minha proposta é simples: parem de tentar ser os donos das suas frotas mercantes pouco econômicas. Vendam os navios para o exterior e arrendem-nos em seguida.
— Como?
Dunross viu que olhavam para ele, atônitos. Esperou um momento, depois continuou:
— A vida de um navio é de, digamos, quinze anos. Vocês nos vendem o cargueiro gigante, mas, como parte do negócio, arrendam-no por quinze anos. Nós fornecemos o comandante e a tripulação. Antes da entrega, vocês fretam o navio para a Mitsubishi, ou outra de suas grandes companhias, para suprimentos a granel durante quinze anos: carvão, minério de ferro, arroz, trigo, petróleo, o que quiserem. Esse sistema garantirá ao Japão um fornecimento contínuo de matéria-prima, estabelecido ao seu bel-prazer, e controlado por japoneses. A Japan Inc. pode aumentar-lhes o seu financiamento, porque vocês mesmos, de fato, são os transportadores de suas matérias-primas vitais.
"Suas indústrias poderão fazer planos antecipados. A Japan Inc. poderá se dar ao luxo de dar assistência financeira aos compradores dos seus navios, porque o preço da compra será facilmente coberto pelo contrato de fretamento de quinze anos. E como os navios estarão num sistema de fretamento a longo prazo, nossos banqueiros, como o Blacs e o Victoria, também terão prazer em financiar o restante. Todos ganharão. Vocês ganharão mais porque assegurarão uma linha de fornecimento a longo prazo sob seu controle. E ainda não mencionei as vantagens fiscais, especialmente para as Indústrias Toda!"
Dunross levantou-se em meio a um silêncio mortal, observado pelos outros, e foi até sua escrivaninha. Trouxe consigo alguns relatórios grampeados.
— Eis aqui um estudo fiscal feito pelo nosso pessoal no Japão com exemplos específicos, incluindo métodos para depreciar o custo do navio para lucro adicional. Eis um plano sugerido para os cargueiros grandes. Este aqui documenta vários modos pelos quais a Struan poderia assisti-los nos seus freta-mentos, caso fiquemos entre os embarcadores estrangeiros escolhidos. Por exemplo, as Minas Woolara, da Austrália, estão preparadas para, seguindo orientação nossa, fazer um contrato com as Indústrias Toda e fornecer noventa e cinco por cento da sua produção de carvão durante cem anos.
Toda soltou uma exclamação abafada. Os outros também, depois que Akiko traduziu. As Minas Woolara eram uma mina imensa, altamente eficiente e produtiva.
— Poderíamos dar-lhes assistência na Austrália, que é o tesouro da Ásia, fornecendo todo o cobre, trigo, alimentos, frutas, minério de ferro de que precisarem. Soube, particularmente, que existem novos e imensos depósitos de minério de ferro de alta qualidade recém-descobertos na Austrália Ocidental, não longe de Perth. Há urânio, petróleo, tório, e outros materiais preciosos de que precisam. Lã. Arroz. Com o meu plano, vocês poderiam controlar o seu próprio fluxo de materiais, os embarcadores estrangeiros obteriam navios e um fluxo de caixa constante para financiar e encomendar mais navios, para arrendá-los, para transportar mais e mais matéria-prima e mais carros, mais aparelhos de TV, mais material eletrônico, e mais mercadoria remetida para os Estados Unidos... e maquinarias da indústria pesada para o resto do mundo. Por último, voltando à mais vital das suas importações: o petróleo. Eis aqui um projeto sugerido para uma nova frota de petroleiros, cada um com capacidade de meio milhão a um milhão de toneladas.
Toda soltou uma exclamação abafada e terminou a tradução ele próprio, abruptamente. Atônitos, todos respiraram fundo quando ele mencionou a cifra de meio milhão a um milhão de toneladas.
Dunross recostou-se, curtindo a tensão. Viu que eles se entreolhavam, depois olhavam para Toda, esperando sua reação.
— Eu... acho melhor estudarmos suas propostas, tai-pan — disse Toda, tentando manter a voz normal. — É óbvio que são de amplo alcance. Podemos entrar em contato com o senhor mais tarde?
— Sim. Comparecerão às corridas amanhã? O almoço será às doze e quarenta e cinco.
— Sim, obrigado, se não for muito trabalho — disse Toda, com nervosismo repentino —, mas seria impossível termos uma resposta a essa altura.
— Naturalmente. Estão de posse de seus convites e crachás?
— Sim, obrigado. Eu... bem... espero que tudo saia bem para você. Sua proposta realmente parece ser de amplo alcance.
Retiraram-se. Por um momento, Dunross permitiu-se saborear a emoção. "Estão no papo", pensou. "Pombas, daqui a um ano poderemos ter a maior frota da Ásia, totalmente financiada, sem nenhum risco para o financiador, construtor, operador ou fornecedor, com petroleiros, enormes petroleiros como núcleo... se pudermos agüentar este tufão.
"Só é preciso um pouco de sorte. Tenho que dar um jeito de evitar o colapso até terça-feira, quando assinamos com a Par-Con. A Par-Con pagará os nossos navios. Mas e quanto ao Orlin, e quanto ao Gornt?
— O sr. Jacques já está subindo, tai-pan. O sr. Phillip está na sala dele, e subirá quando o senhor estiver pronto. Roger Crosse telefonou. Seu compromisso será às dezenove horas, e não às dezoito. Disse que o avião do sr. Sinders está atrasado. Já informou ao governador e às demais pessoas necessárias.
— Obrigado, Claudia. — Deu uma olhada na sua lista de telefonemas. Ligou para o Vic e perguntou por Bartlett. Não estava. — A srta. Tcholok, por favor.
— Alô?
— Alô! Ian Dunross, respondendo ao seu telefonema, e ao do sr, Bartlett. Como vão as coisas?
Uma ligeira pausa.
— Interessantes. Tai-pan, posso vê-lo?
— Claro. Que tal uns drinques no Mandarim às dezoito e quinze? Isso me daria cerca de meia hora antes do meu próximo compromisso. Certo?
Sentiu uma pontada de ansiedade ao pensar em Sinders, Crosse e na advertência de Alan de jamais entregar as pastas.
— Seria possível eu dar uma passadinha no seu escritório? Posso sair daqui agora e chegar aí dentro de meia hora mais ou menos. Tenho uma coisa para discutir com você. Demorarei o mínimo possível.
— Tudo bem. Talvez tenha que fazê-la esperar um minuto ou dois, mas pode vir.
Desligou o telefone, de testa franzida. "O que estará havendo por Iá?"
A porta se abriu e Jacques de Ville entrou. Parecia preocupado e esgotado.
— Queria falar comigo, tai-pan?
— Sim, Jacques, sente-se. Pensei que você ia tomar o avião de ontem à noite.
— Conversamos, Susanne e eu, e ela achou que era melhor para Avril eu esperar um ou dois dias...
Dunross escutava fascinado enquanto conversavam, ainda abismado de que Jacques pudesse ser agente comunista. Mas, agora, já havia analisado a possibilidade. Teria sido facilmente possível para Jacques, sendo jovem, idealista e um dos maquis durante a terrível e odiada ocupação nazista na França, ter tido o seu nacionalismo idealista e seus sentimentos antinazistas canalizados para o comunismo. "Ora, então a Rússia não era nossa aliada, naquela época? O comunismo não estava na moda em toda parte, até mesmo nos Estados Unidos? Marx e Lênin não pareciam ser tão sensatos, então? Então. Antes de sabermos a verdade sobre Stálin, os gulags, o KGB. Estado policial, assassinatos em massa, conquistas em massa, e jamais a liberdade. "
Mas como podia toda aquela baboseira comunista perdurar, para alguém como Jacques? Como podia alguém como Jacques ter tais convicções e mantê-las ocultas durante tanto tempo... se realmente ele era o agente da Sevrin que Alan dissera ser?
— O que acha do Grey? — perguntou Dunross.
— Um crétin completo, tai-pan. É de extrema esquerda demais para o meu gosto. Considero até o Broadhurst um pouco esquerdista demais. Já que... vou ficar agora, posso voltar a cuidar de Bartlett e Casey?
— Não, por ora eu cuido deles, mas encarregue-se você do contrato.
— Já está sendo redigido. Conversei com nossos advogados. Um ligeiro problema. Dawson encontrou-se com o advogado de Bartlett, sr. Steigler, hoje de manhã. O sr. Steigler quer renegociar a tabela de pagamento, e adiar a assinatura até o fim da semana que vem.
Uma onda de fúria invadiu Dunross. Tentou não deixá-la transparecer. "Vai ver que este é o motivo pelo qual Casey quer encontrar-se comigo", pensou.
— Cuido disso — falou, adiando o problema devido ao mais premente: Jacques de Ville, que devia ser considerado inocente até que se provasse a sua culpa.
Olhou para ele, simpatizando com o homem másculo, robusto, lembrando-se de todas as horas agradáveis que tinham passado juntos em Avisyard e na França. Ele, Penelope, Jacques, Susanne, as crianças, juntos no Natal ou nas férias de verão, boa comida e bons vinhos, boas risadas e grandes planos para o futuro. Jacques, certamente o mais sensato, o mais discreto e, até as acusações de Alan, possivelmente o próximo a sucedê-lo. "Mas não agora, não até que tenha provado a sua inocência, e eu esteja certo. Desculpe, meu amigo, mas você tem que ser testado. "
— Vou fazer algumas modificações na organização — disse. — Linbar foi para Sydney hoje, como sabe. Vou deixá-lo Iá durante um mês para tentar acertar a fusão da Woolara. Não estou esperando grande coisa. Quero que você assuma a Austrália. — Viu os olhos de Jacques se arregalarem momentaneamente, mas não percebeu se de preocupação ou felicidade. — Já apertei o botão do nosso plano Toda e...
— Como foi que ele reagiu?
— Engoliu a isca com anzol e tudo.
— Merde, mas que formidável! — Dunross viu o amplo sorriso de Jacques e não notou nele nenhuma malícia. O homem fora um dos principais articuladores do plano de navegação, destrinchando as complexidades do financiamento. — Que pena o pobre do John não estar vivo para saber! — disse Jacques.
— É. — John Chen trabalhara juntamente com Jacques de Ville. — Tem visto o Phillip?
— Jantei com ele ontem à noite. Pobre coitado, envelheceu vinte anos.
— Você também.
Um dar de ombros gaulês.
— É a vida, mon ami. Mas é verdade que estou triste por causa da pobre Avril e do pobre Borge. Por favor, desculpe-me, eu o interrompi.
— Gostaria que você assumisse a Australásia, a partir de hoje, e fosse o responsável por colocar em execução todos os nossos planos australianos e neozelandeses. Não comente com ninguém até o fim do mês. Contarei apenas para o Andrew, mas organize-se e prepare-se para partir nessa época.
— Está bem — disse Jacques, com ligeira hesitação.
— O que é? Susanne jamais gostou de Hong Kong... não terá problemas com ela, terá?
— Ah, não, tai-pan. Desde o acidente... francamente, ia pedir-lhe para me mudar daqui, por uns tempos. Susanne não se sente feliz aqui e... Mas ia pedir-lhe se podia assumir o Canadá por um ano ou dois.
Dunross ficou sobressaltado ante a nova idéia.
— É?
— É. Pensei que talvez pudesse ser útil por Iá. Meus contatos entre os franco-canadenses são bons, muito bons. Quem sabe podíamos mudar o escritório canadense da Struan de Toronto para Montreal ou Ottawa. Eu podia ajudar muito, de Iá. Se nossa operação japonesa der certo, vamos precisar de madeira, cobre, trigo, carvão e mais uma dúzia de matérias-primas canadenses. — Ele deu um débil sorriso, depois continuou, firme: — Ambos sabemos como o primo David anda doido para voltar para cá, e pensei que, se me mudasse para Iá, ele podia voltar. Na verdade, está mais bem qualificado para ficar aqui, para lidar com a Australásia, non? Fala cantonense, um pouco de japonês, lê e escreve chinês, o que eu não faço. Mas você é quem sabe, tai-pan. Assumirei a Australásia se quiser. É mesmo verdade que me agradaria uma mudança.
Dunross deixou o pensamento voar. Decidira isolar Jacques de Hong Kong enquanto descobria a verdade. Seria bem fácil contar ao Crosse ou ao Sinders secretamente, e pedir-lhes que usassem suas fontes para investigar, para observar e sondar. Mas Jacques era membro da assembléia interna. Como tal, estava por dentro de um monte de segredos e informações particulares que correriam risco. "Não", pensou Dunross, "é muito melhor eu mesmo lidar com a minha gente. Pode ser que demore mais, mas descobrirei a verdade. De um jeito ou de outro, ficarei sabendo a verdade sobre Jacques de Ville.
"Canadá?
"Logicamente, Jacques ficaria melhor ali. Seria melhor para a Struan (eu mesmo devia ter pensado nisso), nunca houve motivo para duvidar da sua lealdade comercial, ou da sua sagacidade. Há dois anos David berra pedindo para voltar. A troca seria mais fácil. Jacques tem razão. David está mais bem qualificado para a Australásia, e a Austrália e a Nova Zelândia são muito mais importantes para nós do que o Canadá, muito mais importantes... são vitais, e a tesouraria de toda a Ásia. Se Jacques for inocente, poderá ajudar-nos no Canadá. Se não for, poderá causar-nos menos danos ali.
— Vou pensar no assunto — disse, já tendo decidido fazer a alteração. — Mantenha o assunto em segredo, e vamos acertar tudo no domingo.
Jacques levantou-se e estendeu a mão.
— Obrigado, mon ami.
Dunross apertou a mão estendida. Mas, intimamente, perguntava-se se era a mão de seu amigo... ou de seu Judas.
Sozinho, mais uma vez, sentiu-se assoberbado pelo peso dos problemas. O telefone tocou, e ele lidou com aquele problema, depois outro, depois outro — o telefone de Tiptop ainda ocupado —, e pediu que Phillip subisse. O tempo todo parecia que estava caindo num buraco fundo. Então, seus olhos se encontraram com os de Dirk Struan na parede, olhando para ele do quadro a óleo, com um meio sorriso, supremamente confiante, arrogante, o mestre dos veleiros — a embarcação mais bela que o homem já construiu. Como sempre, sentiu-se confortado.
Levantou-se e ficou parado diante do tai-pan.
— Puxa, não sei o que faria sem você! — disse em voz alta, lembrando-se de que Dirk Struan fora afligido por fardos muito maiores, e os dominara. Para ser morto no auge da vida, aos quarenta e três anos, pela tempestade, a ira da natureza, como grande comandante inconteste de Hong Kong e da Ásia.
" 'Aqueles a quem os deuses amam morrem moços. ' Será sempre assim?", perguntou a si mesmo. "Dirk tinha a minha idade quando os Ventos do Demônio do Grande Tufão destroçaram a nossa casa de três andares novinha em folha no Happy Valley e ele morreu soterrado. Era velho ou moço? Não me sinto velho. Seria aquele o único modo de Dirk morrer? Violentamente? Numa tempestade? Moço? Morto pela natureza? Ou será que a expressão quer dizer 'aqueles a quem os deuses amam morrem moços de coração'?"
— Não importa — disse para seu mentor e amigo. — Quisera ter vivido pra conhecê-lo. Digo-lhe francamente, tai-pan, espero em Deus que haja uma vida após a morte, para que, em algum lugar da eternidade, eu possa lhe agradecer pessoalmente.
Novamente confiante, voltou para a mesa de trabalho. Na gaveta de cima estava a matriz de Wu Quatro Dedos. Seus dedos tocaram-na, acariciando-a. "Como vou me sair dessa?", perguntou-se, sombriamente.
Bateram à porta. Phillip Chen entrou. Envelhecera nos últimos dias.
— Santo Deus, tai-pan, o que vamos fazer? 9, 50! — falou, atropeladamente, com um guinchar nervoso na voz. — Tenho vontade de arrancar os cabelos! Dew neh loh moh! Por causa da alta, lembra-se, comprei a 28, 90. Gastei cada tostão supérfluo e muito mais, e Dianne comprou a 28, 80 e vendeu a 16, 80, e exige que eu cubra a diferença. Oh ko, o que vamos fazer?
— Rezar... e fazer o que pudermos — disse Dunross.
— Conseguiu falar com o Tiptop?
— É... não, tai-pan. Venho tentando com intervalo de minutos, mas o telefone ainda está enguiçado. A companhia telefônica disse que deixaram o fone fora do gancho. Mandei meu primo da companhia telefônica verificar pessoalmente. As duas linhas da casa dele estão fora do gancho.
— O que aconselha?
— Aconselhar? Não sei. Acho que devíamos mandar um mensageiro, mas não quis fazê-lo antes de consultá-lo... com a queda das nossas ações e a corrida aos bancos, o pobre John e os repórteres rondando... todas as minhas ações estão em baixa, todas! — O velho soltou o verbo, obscenidades cantonenses, pragas contra Gornt, seus ancestrais e as futuras gerações. — Se o Vic cair, o que vamos fazer, tai-pan?
— O Vic não vai cair. Se o Tiptop falhar, sem dúvida o governador declarará a segunda-feira feriado bancário. — Dunross já contara ao seu representante nativo a conversa com Tiptop, Yu, Johnjohn e Havergill. — Vamos, Phillip, pense!
— acrescentou, com raiva fingida, tornando a voz mais brusca deliberadamente, para ajudar o velho. — Não posso mandar um maldito mensageiro até a casa dele para dizer: "Você deixou deliberadamente a porra do seu telefone fora do gancho!"
Phillip Chen sentou-se, a raiva incomum fazendo-o controlar-se um pouco.
— Desculpe, sim, desculpe, mas é que tudo... e John, o pobre John...
— Quando vai ser o enterro?
— Amanhã, amanhã às dez, o cristão. Segunda-feira, o chinês. Será... será que você poderia dizer algumas palavras, amanhã?
— Mas claro que sim. Bem, e quanto ao Tiptop? Phillip Chen concentrou-se, com grande esforço. Finalmente, falou:
— Convide-o para as corridas. Para a sua tribuna. Ele nunca foi, e isso lhe daria grande prestígio. Essa é a maneira. Você poderia dizer... Não, desculpe, não estou pensando direito. É melhor, muito melhor, tai-pan, deixar que eu escreva. Escreverei o bilhete convidando-o por você. Direi que você quis convidá-lo pessoalmente, mas que infelizmente seu telefone está com defeito... assim, se ele quiser vir, ou for proibido pelos superiores, não perde prestígio, nem você. Eu poderia acrescentar: "A propósito, a Casa Nobre já enviou telex à firma em Sydney encomendando o tório... " — Phillip Chen ficou mais animado. — Será um negócio muito bom para nós, tai-pan, o preço dado... Já verifiquei os preços, e podemos suprir todas as necessidades deles facilmente, e obter ofertas muito competitivas da Tasmânia, África do Sul e Rodésia. Ah! Por que não mandar o jovem George Trussler de Cingapura para Johannes-burg e Salisbury numa missão exploratória dos tórios?... — Phillip Chen hesitou — e... bem... certos outros metais e materiais aeroespaciais básicos. Fiz umas verificações rápidas, tai-pan. Fiquei espantado em saber que, tirando a Rússia, quase noventa por cento de todo o suprimento do mundo livre de vanádio, cromo, platina, manganês, titânio, todos vitais e essenciais ao setor aeroespacial e de foguetes, provêm da parte meridional da Rodésia e da África do Sul. Imagine só! Noventa por cento, tirando a Rússia. Nunca me dei conta de como essa área é imensamente importante para o mundo livre, com todo o ouro, diamantes, urânio, tório, e sabe Iá Deus quantas outras matérias-primas essenciais. Talvez o Trussler também pudesse investigar a possibilidade de abrirmos ali um escritório. Ele é um rapaz vivo, à espera de uma promoção. — Agora que sua mente estava totalmente ocupada, o velho respirava com mais facilidade. — É. Esse negócio, e mais o do sr. Yu, poderiam ser muito lucrativos para nós, tai-pan. Estou certo de que isso poderá ser tratado com delicadeza. — Ergueu os olhos para Dunross. — Eu também falaria ao Tiptop sobre Trussler, que estamos mandando um executivo, alguém da família, como preparação.
— Excelente. Faça-o imediatamente. — Dunross apertou o interfone. — Claudia, ligue-me com George Trussler, por favor. — Voltou a olhar para Phillip. — Por que o Tiptop cortaria as comunicações?
— Para barganhar, para aumentar a pressão sobre nós, para obter mais concessões.
— Devemos continuar a ligar para ele?
— Não. Depois do bilhete entregue em mãos, ele ligará para nós. Sabe que não somos idiotas.
— Quando ligará?
— Quando tiver permissão, tai-pan. Não antes. Um pouco antes de segunda-feira às dez horas, quando os bancos devem abrir. Sugiro que diga àqueles montes de carne de cachorro, Havergill e Johnjohn, para não telefonarem... conseguirão enlamear águas já turvas. Não se usa um girino para pegar um tubarão.
— Ótimo. Não se preocupe, Phillip — disse, compassivo. — Vamos sair desta enrascada.
— Não sei, tai-pan, espero que sim. — Phillip Chen esfregou com ar cansado os olhos vermelhos. — Dianne... aquelas malditas ações! Não vejo jeito de sair do atoleiro. O...
Claudia interrompeu no interfone:
— O jovem Trussler na linha 2.
— Obrigado, Claudia. — Apertou a linha 2. — Alô, George, que tal Cingapura?
— Boa tarde, senhor. Muito bem, senhor, quente e chuvosa — replicou a voz alegre e entusiástica. — Que surpresa agradável! Em que posso servi-lo?
— Pode tomar o próximo avião para Johannesburg. Parta imediatamente. Mande por telex o nome do seu hotel e o número do vôo, telefone-me tão logo chegue ao hotel em Johannesburg. Entendeu?
Uma ligeira hesitação, e um pouco menos de entusiasmo.
— Johannesburg, na África do Sul, tai-pan?
— É. No próximo avião.
— Já estou indo. Mais alguma coisa?
— Não.
— Pois não, tai-pan, já estou indo. Até logo.
Dunross desligou. "O poder é um dispositivo maravilhoso", pensou com grande satisfação, "mas ser tai-pan é melhor. " Phillip se levantou.
— Vou cuidar imediatamente do bilhete.
— Um momentinho, Phillip. Tenho um outro problema para o qual preciso do seu conselho. — Abriu a gaveta e tirou de Iá a matriz. Além dele mesmo e dos tai-pans anteriores que ainda viviam, apenas Phillip Chen, no mundo inteiro, conhecia o segredo das quatro moedas. — Veja, quem me deu...
Dunross se interrompeu, paralisado, totalmente despreparado para o efeito que a matriz causara no seu representante nativo. Phillip a fitava, os olhos quase saltados das órbitas, os lábios arreganhados. Como que num sonho, em câmara lenta, Phillip Chen estendeu a mão e segurou a matriz, os dedos trêmulos, e olhou-a de perto, mexendo a boca sem emitir som.
Então o cérebro de Dunross detonou, e ele se deu conta de que a meia moeda devia ter pertencido a Phillip Chen. Devia ter sido roubada dele. "Mas claro!", Dunross teve vontade de gritar. "Jin-qua deve ter dado uma das quatro meias moedas a Sir Gordon Chen! Mas por quê? Qual a ligação entre a família Chen e um mandarim Co-hong que faria com que Jin-qua desse ao filho eurasiano de Dirk Struan um presente tão valioso?"
Ainda em câmara lenta, viu o velho erguer a cabeça e olhar para ele com os olhos apertados. A boca se moveu de novo. Nenhum som. Depois, soltou uma exclamação abafada, estrangulada:.
— Bar... Bartlett deu... já lhe deu isso?
— Bartlett? — ecoou Dunross, incrédulo. — Mas, em nome de Deus, o que tem o Bartlett a ver...
Parou quando nova explosão pareceu estilhaçar o seu cérebro, e mais pedaços do quebra-cabeça se encaixaram com violência. Os conhecimentos secretos de Bartlett! Conhecimentos que poderiam vir apenas de um entre sete homens, todos eles fora de suspeita, Phillip Chen mais do que todos!
"Phillip Chen é o traidor! Phillip Chen trabalhando em conluio com Bartlett e Casey... foi Phillip Chen que nos vendeu e entregou nossos segredos e moeda. "
Ficou tomado por uma raiva cega. Teve que apelar para todo o seu treinamento para manter a fúria controlada. Viu a si mesmo levantar-se e ir até a janela e ficar olhando para fora. Não saberia dizer quanto tempo ficou ali parado. Mas, quando se virou, sua mente estava depurada, e o vasto erro na sua lógica agora estava bem claro aos seus olhos.
— E então? — falou, com voz gélida.
— Tai-pan... tai-pan.. — começou o velho, voz entre-cortada, torcendo as mãos.
— Diga a verdade, meu representante. Agora! A palavra amedrontou Phillip.
— Foi... foi o John — exclamou, ofegante, as lágrimas escorrendo. — Não fui eu, juro...
— Eu estou sabendo! Ande logo, puta que o pariu! Phillip Chen então revelou tudo. Contou que pegara a chave do filho e abrira o seu cofre individual no banco, descobrira as cartas de e para Bartlett, e a segunda chave, e que, na noite do jantar na casa do tai-pan, subitamente tivera um pressentimento sobre seu cofre secreto enterrado no jardim, e que depois de desenterrá-lo descobrira o pior. Até mesmo contou ao tai-pan sobre sua briga com Dianne, e que haviam imaginado que a moeda poderia estar no corpo de John, e que, quando o Lobisomen telefonou, ela sugeriu chamarem o primo dele, Wu Quatro Dedos, para mandar seus combatentes de rua seguirem-no, a ele, Phillip, e depois aos Lobisomens...
Dunross soltou uma exclamação abafada, mas Phillip Chen não notou, continuando a falar, em meio às lágrimas, contando como mentira para a polícia e pagara o resgate aos jovens Lobisomens que nunca mais reconheceria, e como os combatentes de rua de Quatro Dedos, que deveriam protegê-lo, não haviam interceptado os Lobisomens, recapturado John ou recuperado o seu dinheiro.
— Esta é a verdade, tai-pan, toda a verdade — choramingava ele. — Não há mais... nada. Nada até hoje de manhã, e o corpo do meu pobre filho em Sha Tin, com aquele cartaz nojento sobre o peito...
Dunross tentava pôr as idéias em ordem. Não sabia que Quatro Dedos era primo de Phillip, nem podia calcular como o velho marujo pusera as mãos na moeda... a não ser que fosse o chefe dos Lobisomens, ou estivesse de combinação com eles, ou de combinação com John Chen, que idealizara um suposto seqüestro para arrancar dinheiro do pai, que odiava. E depois Quatro Dedos e John Chen haviam brigado ou... o quê?
— Como foi que John soube dos nossos segredos? Como obteve todos aqueles segredos para entregar ao Bartlett... como a Casa é estruturada? Hem?
— Não sei — mentiu o velho.
— Você deve ter contado ao John... só você, Alastair, meu pai, Sir Ross, Gavallan, De Ville e eu sabemos, e destes, apenas os quatro primeiros conheciam a estrutura!
— Não contei a ele... juro que não!
A fúria cega de Dunross começou a crescer de novo. Porém, mais uma vez, ele a controlou.
"Seja lógico", falou com seus botões. "Phillip é mais chinês do que europeu. Lide com ele como um chinês! Onde está o elo? A parte que falta do quebra-cabeça?"
Enquanto tentava resolver o problema, olhava penetrantemente para o velho. Esperava, sabendo que o silêncio também era uma grande arma, na defesa ou no ataque. Qual a resposta? Phillip jamais contaria ao John um segredo daqueles, portanto...
— Santo Deus! — exclamou, à idéia repentina. — Você anda mantendo registros! Registros particulares! Foi assim que John descobriu! No seu cofre! Não é?
Apavorado pela fúria demoníaca do tai-pan, Phillip deixou escapar, antes que pudesse se conter:
— É... é... tive que concordar... Interrompeu-se, lutando por controlar-se.
— Teve? Por quê? Fale, porra!
— Porque... porque meu pai, antes de... passar a Casa e a moeda para mim... fez-me jurar que manteria... que registraria as transações particulares da... Casa Nobre, para proteger a Casa de Chen. Foi apenas isso, tai-pan. Jamais para usar contra a Casa Nobre ou contra você, apenas uma proteção...
Dunross olhava para ele, odiando-o, odiando John Chen por ter vendido a Struan, odiando o seu mentor Chen-chen pela primeira vez na vida, doente de raiva com tantas traições. Depois, lembrou-se de uma das advertências de Chen-chen, há anos, quando Dunross estava quase chorando de raiva por causa da maneira injusta como o pai e Alastair o estavam tratando:
— Não fique com raiva, jovem Ian, vá à forra. Disse a mesma coisa ao Culum e à Bruxa, quando eram moços... Culum nunca ligou, mas a Bruxa, sim. Esta é a maneira civilizada: não fique com raiva, vá à forra!
"Com que então Bartlett conhece a nossa estrutura, nossos balanços gerais. O que mais terá?"
Phillip Chen apenas tremia e fitava-o, assustado.
— Vamos, Phillip, puta que o pariu, pense! Todos temos os nossos segredos escusos, um bocado deles! Você também, a Bruxa, Chen-chen, Shitee T'Chung, Dianne... puta que o pariu, quanta coisa mais está documentada, e que John pode ter passado adiante? — Uma onda de náusea o envolveu ao recordar sua teoria sobre a ligação entre Banastasio, Bartlett, a Par-Con, a Máfia e as armas. "Porra, se nossos segredos caírem em mãos erradas!" — Hem?
— Não sei... não sei... O que foi, o que foi que Barttlett pediu? Em troca da moeda? — Então, Phillip exclamou: — É minha, pertence-me!
Notou o tremor incontrolável das mãos de Phillip e um súbito tom cinzento no seu rosto. Havia garrafas de cristal com uísque e conhaque sobre o aparador. Dunross serviu uma dose de conhaque e deu-a ao velho. Agradecido, ele bebeu, engasgando um pouco.
— Obri... obrigado.
— Vá para casa e traga tudo e... — Dunross interrompeu-se e apertou um botão do intercomunicador. — Andrew?
— Sim, tai-pan? — respondeu Gavallan.
— Quer vir aqui um minutinho? Quero que leve Phillip para casa. Ele não está se sentindo bem e há uns papéis que é preciso trazer para cá.
— Já estou indo.
Os olhos de Dunross não haviam se desviado dos de Phillip.
— Tai-pan, o que foi que Bartlett...
— Fique longe deles, se tem amor à vida! E entregue tudo ao Andrew... as cartas de John, as cartas de Bartlett, tudo... — disse, com voz gélida.
— Tai-pan...
— Tudo. — A cabeça lhe doía, de tanto ódio. Ia acrescentar: "Vou decidir sobre você e a Casa de Chen durante o fim de semana". Mas ficou calado. A frase "Não fique com raiva, vá à forra" ecoava em seus ouvidos.
Casey entrou. Dunross foi ao seu encontro. Ela segurava um guarda-chuva e usava de novo o vestido verde-claro que acentuava perfeitamente os seus olhos e cabelos. Dunross notou que tinha olheiras. Elas conseguiam torná-la ainda mais desejável.
— Desculpe tê-la feito esperar — falou, com um sorriso cálido, porém sem sentir o seu calor. Ainda estava abismado por causa de Phillip Chen.
A mão de Casey era fresca e agradável.
— Obrigada por me receber — disse. — Sei que está ocupado, portanto vou direto ao assunto.
— Primeiro o chá. Ou prefere uma bebida?
— Nada alcoólico, obrigada, mas não quero dar trabalho.
— Não será trabalho algum. Vou tomar o meu chá agora: quatro e quarenta é a hora do chá. — Como num passe de mágica, a porta se abriu e um criado de libre trouxe uma bandeja de prata com chá para dois — com torradinhas amantei-gadas e os bolinhos ingleses típicos, os scones mantidos quentes num abafador. O homem serviu o chá e se retirou. A bebida era castanho-escura e forte. — É Darjeeling, uma das misturas da Casa. Nós comerciamos com ela desde 1830 — falou, sor-vendo-a satisfeito, como sempre agradecendo intimamente ao gênio inglês desconhecido que inventara o chá da tarde, que, de alguma maneira, sempre parecia aliviar os problemas do dia e colocar o mundo em perspectiva. — Espero que goste.
— É fantástico, talvez um tantinho forte demais para mim. Tomei um pouco por volta das duas horas, e acordei de vez!
— Ainda descontrolada pelos fusos horários?
Ela fez que não com a cabeça, e contou-lhe sobre Peter Marlowe.
— Oh, mas que azar! — Apertou o interfone. — Claudia, ligue para a Casa de Saúde Nathan e veja como está passando a sra. Marlowe. E envie umas flores. Obrigado.
Casey franziu a testa.
— Como sabia que ela estava na Nathan?
— O dr. Tooley sempre usa essa casa em Kowloon. — Ele a observava atentamente, atônito ao vê-la tão amistosa, quando era óbvio que a Par-Con estava tentando sabotar o negócio deles. "Se passou acordada a maior parte da noite, isso explica as olheiras", pensou. "Bem, olheiras ou não, cuidado, mocinha, empenhamos a nossa palavra na transação. " — Mais uma xícara? — indagou, solícito.
— Não, obrigada, já chega.
— Recomendo os scones. Nós os comemos assim: uma boa porção de nata de Devonshire em cima, uma colher de chá de geléia de morango feita em casa no meio da nata e... magia! Tome!
Relutante, ela aceitou. O bolinho era pequeno o bastante para ser comido de uma vez só. Sumiu.
— Fantástico — exclamou, limpando um pouco da nata do canto da boca. — Mas todas essas calorias! Não, obrigada, não quero mais mesmo. Não tenho feito outra coisa senão comer, desde que cheguei aqui.
— Não está parecendo.
— Mas logo vai parecer. — Viu que ela lhe devolvia o sorriso. Estava sentada numa das fundas poltronas de couro de espaldar alto, com a mesinha de chá entre eles. Ela cruzou as pernas de novo, e Dunross pensou mais uma vez que Gavallan estava certo a seu respeito: seu calcanhar de Aquiles era a impaciência. — Posso começar agora? — perguntou.
— Tem certeza de que não quer mais chá? — perguntou, tentando deliberadamente enervá-la.
— Não, obrigada.
— Então, acabou o chá. O que é que há? Casey inspirou fundo.
— Parece que a Struan está encrencada, e prestes a afundar.
— Por favor, não se preocupe com isso. A Struan está realmente em forma.
— Você pode pensar assim, tai-pan, mas não é o que está nos parecendo. Nem ao resto do pessoal. Já verifiquei. A maioria parecer pensar que o Gornt e/ou o Victoria não vão fazer valer a incursão. A opinião quase geral é de que vocês estão acabados. Bem, o nosso negócio...
— Temos um acordo até terça-feira. Foi o que combinamos — disse, a voz mais cortante. — Devo entender que querem desdizer-se, ou modificá-lo?
— Não. Mas no estado em que vocês estão, seria uma loucura ou um mau negócio continuar. Portanto, temos duas alternativas: ou a Rothwell-Gornt, ou ajudamos a salvar a sua pele.
— É?
— É. Tenho um plano, um plano parcial que talvez possa salvá-lo e nos render a todos uma fortuna. Certo? Você é o melhor para nós... a longo prazo.
— Obrigado — disse, sem acreditar nela, todo ouvidos, bem ciente de que qualquer concessão que ela oferecesse ia ser proibitivamente cara.
— Que tal o seguinte: nossos banqueiros são o First Central New York, o banco odiado aqui. Eles querem muito voltar a Hong Kong, mas jamais obterão nova licença, certo?
O interesse de Dunross cresceu ante a nova idéia.
— E daí?
— Daí que recentemente eles compraram um pequeno banco estrangeiro com agências em Tóquio, Cingapura, Bangkok e Hong Kong: o Royal Belgium and Far East Bank. É um banquinho de nada, e eles pagaram três milhões por tudo. O First Central pediu-nos para enviar nossos fundos através do Royal Belgium, se o nosso negócio se concretizar. Ontem à noite, encontrei-me com Dave Murtagh, que é o responsável pelo Royal Belgium, e ele não parou de gemer e de se lamentar de que os negócios vão muito mal, de que o sistema daqui lhes tirou o couro, e de que, embora tenham a bancá-los os imensos recursos em dólar do First Central, quase ninguém abre contas e deposita os dólares de Hong Kong de que necessitam para fazer empréstimos. Conhece o banco?
— Sim — falou, sem entender aonde ela queria chegar —, mas não sabia que o First Central estava por trás dele. Não creio que isso seja do conhecimento geral. Quando foi comprado?
— Faz dois meses. Bem, e se o Royal Belgium lhe adiantasse na segunda-feira cento e vinte por cento do preço de compra dos dois navios da Toda?
Dunross, pego desprevenido, fitou-a, boquiaberto.
— Com que garantia?
— Os navios.
— Impossível! Banco algum faria isso.
— Os cem por cento são para a Toda, os vinte por cento para cobrir todas as despesas periódicas, seguros, e os primeiros meses de operação.
— Sem fluxo de caixa, sem fretador estabelecido? — perguntou, incrédulo.
— Você poderia fretá-los em sessenta dias, para obter um fluxo de caixa para sustentar um plano de pagamento razoável?
— Facilmente. — "Santo Deus, se eu puder pagar à Toda imediatamente, poderei pôr para funcionar imediatamente meu plano de venda e arrendamento com os dois primeiros navios. " Apegou-se a essa esperança, imaginando qual seria o preço, o preço real. — Isto é teoria, ou eles realmente o farão?
— Podem fazê-lo.
— Em troca do quê?
— Em troca dos depósitos de cinqüenta por cento de todas as operações cambiais da Struan no exterior, por um período de cinco anos; de uma promessa de que manterão uma média de depósitos em dinheiro com eles, entre cinco a sete milhões de dólares de Hong Kong, cerca de um milhão e meio de dólares americanos; de que usarão o banco como seu segundo banco em Hong Kong, e o First Central como sua principal fonte de empréstimos americana fora de Hong Kong, durante um período de cinco anos. O que me diz?
Ele teve que usar todo o seu autocontrole para não gritar de alegria.
— É uma oferta firme?
— Creio que sim, tai-pan. Estou um pouco por fora... nunca lidei com navios, mas cento e vinte por cento me pareceu fantástico. E os outros termos também me pareceram bons. Não sabia até onde devia ir na negociação, mas disse a ele que era melhor que fizessem jogo limpo, caso contrário você nem se interessaria.
Ele sentiu uma pontada gelada nas entranhas.
— O representante local nunca teria autoridade para fazer uma oferta dessas.
— Foi isso o que Murtagh alegou a seguir, mas ele disse que teríamos o fim de semana para discutir, e que, se você topasse o esquema, ele se penduraria nas comunicações.
Dunross recostou-se na cadeira, perplexo. Deixou de lado três perguntas vitais, e disse:
— Vamos ficar por aqui, por enquanto. Qual a sua parte nisso tudo?
— Daqui a um minuto. Há mais um detalhe na oferta dele. Acho que ele está louco, mas disse que ia tentar persuadir os chefões a criarem um fundo de cinqüenta milhões de dólares americanos, contra o valor das ações não emitidas que você tem no seu tesouro. Portanto, você estará numa ótima. Se fizer o negócio.
Dunross sentiu o suor irromper nas costas e na testa, consciente do risco tremendo que correria, independentemente do tamanho do banco. Com esforço, pôs a cabeça para funcionar. Com os navios já pagos e o fundo, ele poderia rechaçar Gornt e anular o seu ataque. E com Gornt fora de ação, o Orlin voltaria humildemente para ele, que sempre fora um ótimo cliente... e o First Central não fazia parte do consórcio do Orlin Merchant Bank?
— E quanto ao nosso negócio?
— Fica como está. Você faz o comunicado na hora melhor para nós dois, para você e para a Par-Con, conforme o combinado. Se, e é um se grande, o First Central topar a jogada, todos nós podíamos ganhar uma nota, uma nota preta, comprando ações da Struan às nove e cinqüenta da manhã de segunda-feira... Vão ter que subir para 28, talvez 30, não é? A única coisa que não consigo ajeitar é como lidar com as corridas aos bancos.
Dunross pegou o lenço e enxugou a testa, abertamente. Depois, levantou-se e preparou dois conhaques com soda. Entregou-lhe um e voltou a sentar-se na cadeira, a mente alucinada, apática num minuto, no seguinte tonta de felicidade, logo depois agitada, doendo de esperança e medo, perguntas, respostas, planos e contraplanos.
"Puta que o pariu!", pensou, tentando acalmar-se.
O conhaque caiu bem. O travo e o calor eram muito bons. Notou que ela apenas bebericou o dela, depois largou o cálice e ficou olhando para ele. Quando a cabeça dele ficou desanuviada, e ele se sentiu pronto, olhou para ela.
— Tudo isso em troca do quê?
— Você terá que estabelecer os parâmetros com o Royal Belgium, isso cabe a você. Não conheço com toda a precisão o seu fluxo de caixa. Os juros vão ser bem altos, mas valerão a pena, para salvar-lhe a pele. Você vai ter que dar a sua garantia pessoal por cada centavo.
— Pombas!
— É. E mais o prestígio. — Ouviu a voz dela endurecer. — Vai lhe custar prestígio lidar com os "filhos da mãe pol-trões". Não foi assim que Lady Joanna se referiu ao pessoal do First Central, com um imenso ar de desdém e "Mas o que se pode esperar, são... " Imagino que quisesse dizer "americanos". — Viu os olhos de Casey se apertarem e ficou alerta. — É uma vaca velha, aquela mulher.
— Não é não, na verdade — retrucou. — É um pouco cáustica, e rude, mas, de um modo geral, não é má. É antiame-ricana, lamento dizer, paranóica, suponho. Sabe, é que o marido dela, Sir Richard, foi morto em Monte Cassino, na Itália, por bombas americanas. Os aviões pensaram que as tropas britânicas fossem nazistas.
— Ah — exclamou Casey. — Ah, entendo.
— O que é que a Par-Con quer? E o que é que você e Linc Bartlett querem?
Ela hesitou, depois deixou Lady Joanna de lado por um momento, concentrando-se de novo.
— A Par-Con quer um negócio a longo prazo com a Struan... como "Velhos Amigos". — Ele viu o estranho sorriso. — Descobri o que significa "Velho Amigo" para os chineses, e é isso o que quero para a Par-Con. Status de Velho Amigo a partir do negócio fechado com o Royal Belgium.
— O que mais?
— Isso eqüivale a um sim?
— Gostaria de conhecer todos os termos antes de concordar com um deles.
Ela sorveu o conhaque.
— Linc não quer nada. Nem está sabendo disso tudo.
— Como disse? — perguntou Dunross, novamente desconcertado.
— Linc ainda não está sabendo do Royal Belgium — disse, numa voz normal. — Eu e Dave Murtagh bolamos isso tudo hoje. Não sei se estou lhe fazendo realmente um favor, porque... você estará correndo riscos, você, pessoalmente. Mas podia tirar a Struan da enrascada. Aí, nossa transação daria certo.
— Não acha que devia consultar seu intrépido líder? — falou Dunross, tentando decifrar as implicações desse rumo inesperado.
— Sou diretora-executiva, e a Struan é transação minha. Não nos custa nada, a não ser nossa influência para livrá-lo da sua armadilha, e é para isso que serve a influência. Quero que nosso negócio se concretize, e não quero que o Gornt seja o vencedor.
— Por quê?
— Já lhe disse. Você é o melhor para nós, a longo prazo.
— E você, Ciranoush? O que deseja? Em troca do uso da sua influência.
Os olhos dela pareceram apertar-se ainda mais e tornar-se mais avermelhados, como os de uma leoa.
— Igualdade. Quero ser tratada como igual, não com condescendência ou deboche, como uma mulher que está na empresa agarrada às fraldas da camisa de um homem. Quero igualdade com o tai-pan da Casa Nobre. E quero que me ajude a obter o meu dinheiro do dane-se... sem ter nada a ver com a transação da Par-Con.
— A segunda coisa é fácil, se estiver disposta a arriscar. E quanto à primeira, nunca a tratei com condescendência ou desprezo...
— Gavallan tratou, e os outros.
— ... e nunca o farei. Quanto aos outros, se não a tratarem como você deseja, saia da mesa de reuniões e do campo de batalha. Não force sua presença aos outros. Não posso torná-la igual. Você não é, e nunca será. É uma mulher e, queira ou não, o mundo é dos homens. Especialmente em Hong Kong. E enquanto eu for vivo, vou tratar o mundo como é, e uma mulher como uma mulher, seja Iá quem diabo ela for.
— Ora, vá se foder!
— Quando?
Ele abriu um amplo sorriso.
A risada repentina dela juntou-se à dele, e a tensão sumiu.
— Mereci isso — disse ela. Outra risada. — Mereci mesmo. Desculpe, acho que perdi o "traseiro".
— Como disse?
Ela explicou sua versão para "prestígio", "fachada". Ele riu de novo.
— Não. Ganhou o "traseiro". Após uma pausa, ela disse:
— Com que então, faça eu o que fizer, nunca poderei ter igualdade?
— Não no mundo empresarial, não em termos masculinos, não se quiser pertencer a esse mundo. Como já disse, queira ou não, é isso aí. E acho que você está errada ao tentar mudá-lo. A Bruxa foi incontestavelmente mais poderosa do que qualquer um na Ásia. E chegou Iá como mulher, não como neutra.
Ela estendeu a mão e ergueu o cálice de conhaque, e ele notou o volume do seu seio de encontro à blusa de seda leve.
— Que diabo, como é possível tratar alguém tão atraente e inteligente como você como um ser neutro? Tenha dó!
— A única coisa que estou pedindo, tai-pan, é igualdade.
— Sinta-se satisfeita de ser mulher.
— Ah, mas eu estou satisfeita, estou mesmo. — A voz dela tornou-se amarga. — Só não quero é ser classificada como alguém que só tem valor de verdade quando está deitada de costas. — Tomou um derradeiro gole e se levantou. — Bem, de agora em diante a bola é sua? Com o Royal Belgium? David Murtagh está esperando um telefonema. É uma jogada a esmo, mas vale a pena tentar, não acha? Quem sabe você não poderia ir se encontrar com ele, ao invés de mandar chamá-lo? Prestígio, hem? Ele vai precisar de todo o apoio que você puder dar. Dunross não se havia levantado.
— Por favor, sente-se um minutinho, se tiver tempo. Ainda há umas duas coisinhas.
— Mas claro. Não queria tomar mais o seu tempo.
— Primeiro, qual é o problema com o seu sr. Steigler?
— O que quer dizer?
Ele lhe contou o que Dawson relatara.
— Filho da puta! — exclamou, obviamente irritada. — Disse a ele que preparasse os papéis, só isso. Pode deixar que eu cuido dele. Os advogados sempre acham que têm o direito de negociar, de "melhorar o negócio", nas palavras deles, como se a gente fosse incompetente. Já perdi mais negócios por causa deles do que você pode imaginar. E o Seymour não é dos piores. Os advogados são a praga dos Estados Unidos. Linc também acha.
— E quanto ao Linc? — perguntou ele, lembrando-se dos dois milhões que ele adiantara ao Gornt para o ataque às ações da Struan. — Vai apoiar cem por cento esta nova jogada?
— Vai — disse, depois de uma pausa. — Vai.
A mente de Dunross buscava o pedaço que faltava.
— Quer dizer que você vai cuidar do Steigler, e continua tudo como antes?
— Você vai ter que resolver o problema dos títulos de propriedade dos navios, como combinamos, mas acho que não será difícil.
— Não. Posso cuidar disso.
— Você garantirá tudo pessoalmente?
— Sem dúvida — disse Dunross, descuidadamente. — Dirk vivia fazendo isso. É o privilégio do tai-pan. Ouça, Ciranoush, eu...
— Quer me chamar de Casey, tai-pan? Ciranoush é para uma era diferente.
— Está bem. Casey, quer isso dê certo ou não, você é uma Velha Amiga, e devo-lhe um agradecimento pela sua bravura, bravura pessoal, no dia do incêndio.
— Não sou valente. Devem ter sido as glândulas. — Deu uma risada. — Não se esqueça de que o fantasma da hepatite ainda nos ronda.
— Ah, também se lembrou disso.
— Foi.
Ela o fitava, e ele não conseguia avaliá-la exatamente.
— Eu a ajudarei com o dinheiro do dane-se — falou.
— De quanto precisa?
— Dois milhões, livres de impostos.
— Suas leis fiscais são rígidas e duras. Está preparada para burlá-las?
Ela hesitou.
— É direito de todo americano evitar os impostos, mas não sonegá-los.
— Já entendi. Portanto, na sua classe de renda, vai precisar de quatro.
— Minha classe é baixa, embora o capital seja alto.
— Quarenta e seis mil no San Fernando Savings and Loan não é muito — disse, sombriamente divertido ao vê-la empalidecer. — Oito mil e setecentos na sua conta corrente no Los Angeles and California também não é muito.
— Você é um filho da mãe.
— Simplesmente tenho amigos nas altas esferas — sorriu ele. — Como você. — Com naturalidade, abriu a armadilha.
— Você e Linc Bartlett querem jantar comigo, hoje à noite?
— Linc está ocupado — disse ela.
— E você? Às oito? Podemos nos encontrar no saguão do Mandarim.
Ele percebera a nuance e a traição involuntária na voz da moça, e quase podia ver as ondas revoltas da mente dela. "Com que então o Linc está ocupado!", pensou. "E com o que estaria ocupado, pelo tom de voz dela? Orlanda Ramos? Tem que ser", disse com seus botões, radiante por ter trazido à luz o motivo verdadeiro... o verdadeiro porquê da sua ajuda. Orlanda! Orlanda conduzindo a Linc Bartlett, conduzindo ao Gornt. "Casey morre de medo de Orlanda. Está morta de medo de que Gornt esteja por trás do ataque de Orlanda a Bartlett... ou está simplesmente louca de ciúmes, e pronta para puxar o tapete de sob os pés de Bartlett?"
17h35m
Casey entrou nas filas congestionadas que passavam nas "borboletas" da Balsa Dourada. As pessoas se atropelavam, empurravam e apressavam pelo corredor para tomar a barca seguinte. Quando o sino de aviso soou, estridente, os que estavam na frente desataram a correr desesperadamente. Involuntariamente, os pés dela apertaram o passo. A massa de seres humanos espremidos e barulhentos levou-a até a barca. Conseguiu um lugar e ficou olhando melancólica para a baía, perguntando-se se obtivera êxito na sua parte da transação.
— Pombas, Casey — explodira Murtagh —, a matriz não vai topar isso nem em um milhão de anos!
— Se eles não toparem, estarão perdendo a maior oportunidade de suas vidas. E você também. Esta é a sua grande chance... agarre-a! Se você ajudar a Struan agora, pense em quanto prestígio todos vão ganhar. Quando Dunross for procurá-lo...
— Se vier!
— Irá. Farei com que vá procurá-lo! E quando o fizer, diga-lhe que é tudo idéia sua, não minha, e que você...
— Mas Casey, não acha...
— Não. Tem que ser idéia sua. Eu o apoiarei cem por cento junto à matriz em Nova York. E quando Dunross for procurá-lo, diga-lhe que também quer status de Velho Amigo.
— Pombas, Casey, já tenho problemas de sobra sem ter que explicar àqueles bestalhões nos Estados Unidos sobre Velho Amigo e "fachada"!
— Então não lhes explique essa parte. Se você conseguir concretizar essa jogada, será o banqueiro americano mais importante da Ásia.
"É", falou Casey com seus botões, doente de esperança, "e eu terei conseguido arrancar Linc da armadilha de Gornt. — Sei que tenho razão quanto ao Gornt. "
— Tem porra nenhuma, Casey! — exclamara Bartlett com raiva pela manhã, a primeira vez na sua vida juntos em que ele explodira com ela.
— É evidente, Linc — retrucara. — Não estou tentando interferir na...
— Não está uma ova!
— Foi você que trouxe Orlanda à baila, não eu! Está todo derretido porque... ela cozinha bem, dança bem, se veste bem e é uma excelente companhia! E só o que eu perguntei foi: "Divertiu-se?"
— Claro, mas falou de um jeito nojento, invejoso e ciumento, e eu sei que estava querendo dizer: "Tomara que tenha sido uma merda!"
"Linc estava com a razão", pensou Casey, infeliz. "Se ele quer passar a noite fora, é problema dele. Eu devia ter ficado de boca fechada, como das outras vezes, e não dar importância. Mas esta não é como das outras vezes. Ele está em perigo, e não quer enxergar!"
— Pela madrugada, Linc!, aquela mulher está à caça do seu dinheiro e do seu poder, e é só! Há quanto tempo a conhece? Uns dois dias. Onde a conheceu? Gornt! Ela tem que ser marionete do Gornt! Esse sujeito é vivo como ele só! Andei tomando umas informações, Linc, é ele que paga o apartamento dela, as suas contas. Ele...
— Ela me contou tudo isso, e contou sobre ele e ela, e isso faz parte do passado! Pode esquecer Orlanda! Entendeu? Pare de falar mal dela. Fui claro?
— Muita coisa está em jogo na escolha entre a Struan ou Gornt, e ambos usarão qualquer tática para minar você ou deixá-lo exposto a...
— Principalmente a tática da cama? Qual é, Casey!, pela madrugada! Você nunca foi ciumenta antes... admita que está uma arara. Ela é tudo o que um homem pode desejar, e você...
Ela se lembrou de como ele se detivera pouco antes de concluir. Ficou com os olhos cheios de lágrimas. "Ele tem razão, porra! Não sou. Sou uma merda de uma máquina comercial. Não sou feminina como ela, não sou uma trepada fácil e nem estou interessada em ser dona-de-casa, não agora, e jamais poderia fazer o que ela fez. Orlanda é suave, maleável, dourada, uma grande cozinheira, segundo ele, feminina, tem um lindo corpo, lindas pernas, muito bom gosto, e é um convite à cama. Pombas, e que convite! E sem outra idéia na cabeça salvo a de arranjar um marido rico. Aquela francesa tinha razão: Linc está pronto para cair como um patinho na armadilha de qualquer caçadora de ouro asiática ordinária e rapace, e a tal Orlanda é a nata das vigaristas de Hong Kong.
"Merda!
"Mas, não importa o que Linc diga, ainda tenho razão quanto a ela, e quanto ao Gornt.
"Tenho mesmo?
"Admitamos, só tenho por base alguns boatos e a minha intuição. Orlanda me deixou descontrolada, estou doente de medo. Cometi um erro danado soltando os cachorros em cima do Linc. Lembra o que ele disse antes de sair da suíte? 'De agora em diante, pare de se meter na minha vida particular, porra!'
"Ah, meu Deus!"
Um vento leve soprava enquanto a barca cruzava a baía, os motores roncando, as sampanas e os outros barcos saindo agilmente do caminho, o céu fechado, nublado. Indiferente a tudo, enxugou as lágrimas, pegou o espelhinho de mão e foi ver se o rímel não estava escorrendo. Um imenso cargueiro apitou, com as bandeiras tremulando, e passou majestosamente por eles, mas ela não o notou, nem notou a imensidão do porta-aviões nuclear atracado no cais do Almirantado, no lado de Hong Kong.
— Controle-se — resmungou, infeliz, para a sua imagem no espelho. — Porra, está com cara de quarenta anos!
Os bancos de madeira estreitos estavam lotados, e ela mudou de posição, desconfortavelmente espremida entre os outros passageiros, a maioria chineses, embora aqui e ali houvesse turistas carregados de câmaras e outros europeus. Não havia um centímetro de espaço livre, todas as passagens entupidas, os assentos entupidos, e já havia blocos de passageiros lotando a rampa de saída, nas duas cobertas. Os chineses ao seu lado liam desajeitadamente o jornal, como o fariam as pessoas em qualquer metrô, só que, de vez em quando, pigarreavam ruidosamente para limpar a garganta. Um deles cuspiu. No antepara bem à sua frente havia um grande cartaz em chinês e inglês:
É PROIBIDO CUSPIR — MULTA DE VINTE DÓLARES. Ele escarrou de novo e Casey teve vontade de tirar o jornal da mão dele e bater-lhe com ele. O comentário do tai-pan veio-lhe à lembrança:
— Há mais de cento e vinte anos que tentamos modificá-los, mas os chineses não se modificam facilmente.
"Não apenas eles", pensou, com dor de cabeça. "Tudo e todos nesse mundo dos homens. O tai-pan tem razão.
"Então, o que vou fazer? Quanto ao Linc? Mudo as regras ou não?
"Já mudei. Passei por cima dele com o plano de salvar o tai-pan. Foi a primeira vez. Vou ou não vou contar a ele?
Dunross não irá me dedurar, e Murtagh ficará com todo o crédito, terá que ficar, se o First Central topar. Terei que contar ao Linc, qualquer hora.
"Mas quer o plano de salvamento funcione, quer não, e quanto a mim e a Linc?"
Mantinha os olhos fixos à frente, sem ver, enquanto tentava decidir.
A barca estava se aproximando do ancoradouro do terminal de Kowloon. Duas outras barcas que se destinavam ao lado de Hong Kong saíram do caminho para a recém-chegada atracar. Todos se levantaram e começaram a se acotovelar na rampa de saída de bombordo. O navio adernou ligeiramente, desequilibrado. "Meu Deus!" pensou, inquieta, voltando à realidade, "deve haver umas quinhentas pessoas em cada coberta. " Então fez uma careta quando uma matrona chinesa impaciente passou por ela, espremendo-a, pisando no seu pé, e abriu caminho à força pela multidão até o começo da fila. Casey se levantou, o pé doendo, com vontade de dar uma guarda-chuvada na tal mulher.
— Eles são uma parada, não é? — comentou o americano alto atrás dela, com um bom humor sombrio.
— Como? Ah, sim... uma parada, alguns deles. — Gente cercando-a, empurrando-a, sufocando-a. Subitamente, sentiu-se sem ar e nauseada. O homem notou, e usou seu corpanzil para abrir à força um pouco de espaço. Os que foram empurrados se afastaram de má vontade. — Obrigada — disse, aliviada, já sem o enjôo. — É, obrigada.
— Sou Rosemont, Stanley Rosemont. Conhecemo-nos na casa do tai-pan.
Casey virou-se, sobressaltada.
— Puxa, desculpe, acho... acho que estava a um milhão de quilômetros de distância, não... desculpe. Como vão indo as coisas? — perguntou, sem se lembrar dele.
— Tudo na mesma, Casey. — Rosemont baixou os olhos para ela. — Você não está numa boa, hem? — perguntou, gentilmente.
— Ah, não, estou bem. Claro, tudo bem.
Afastou-se, sem graça porque ele percebera. Da popa à proa havia marinheiros, que jogaram as cordas, imediatamente apanhadas e amarradas aos pontaletes. As grossas cordas guincharam sob a tensão, trazendo-lhe os nervos à flor da pele. Enquanto a barca atracava com perfeição, a ponte levadiça começou a baixar, mas antes que tivesse baixado completamente, a multidão já saltava da barca, carregando Casey junto. Depois de alguns metros, a pressão diminuiu, e ela subiu a rampa no seu próprio ritmo, outros passageiros inundando a rampa oposta para embarcar para o lado de Hong Kong. Rosemont alcançou-a.
— Está no Vic?
— Estou. E você?
— Ah, não! Temos um apartamento, do lado de Hong Kong... de propriedade do consulado.
— Estão aqui há muito tempo?
— Dois anos. É interessante, Casey. Depois de mais ou menos um mês, você se sente trancafiado... nenhum lugar aonde ir, tanta gente, os mesmos amigos dia após dia. Mas logo fica ótimo. Logo você começa a sentir que está no centro dos acontecimentos, no centro da Ásia, onde hoje tudo está acontecendo. Claro, Hong Kong é o centro da Ásia... os jornais são bons, a comida é excelente, assim como o golfe, as corridas, os barcos, e é fácil ir a Taipé, Bangkok, ou a outro lugar qualquer. Hong Kong é legal... claro que não se compara ao Japão. O Japão é outra história. É como a terra de Oz.
— E isso é bom ou ruim?
— Fantástico... se você é homem. É dureza para as mulheres, dureza mesmo, e para as crianças. Sua impotência, sua "estrangeirice" é jogada na sua cara... você não consegue nem ler uma placa de rua. Passei dois anos Iá. Gostava um bocado. Athena, minha mulher, acabou odiando o Japão. — Rosemont riu. — Também odeia Hong Kong e quer voltar para a Indochina, para o Vietnam ou o Camboja. Ela foi enfermeira Iá, faz alguns anos, no exército francês.
Em meio à névoa dos próprios problemas, Casey notou uma nuance diferente, e começou a prestar atenção.
— Ela é francesa?
— Americana. O pai dela serviu como embaixador durante a guerra francesa.
— Têm filhos? — perguntou.
— Dois meninos. Athena foi casada anteriormente. Nova nuance.
— Seus filhos são do primeiro casamento dela?
— Um deles. Ela foi casada com um vietnamita. Foi morto pouco antes de Dien Bien Phu, quando os franceses dirigiam o país, ou estavam sendo expulsos. O pobre sujeito morreu antes de o pequeno Vien nascer. Ele é como se fosse meu filho. É, meus dois filhos são jóia. Vai se demorar muito por aqui?
— Depende do meu patrão e do nosso negócio. Acho que você sabe que estamos esperando nos unir à Struan.
— Não se fala noutra coisa na cidade... além do incêndio em Aberdeen, a inundação, os deslizamentos de lama, o temporal, a queda das ações da Struan, as corridas aos bancos e o mercado de capitais caindo aos pedaços... Hong Kong tem uma coisa: jamais é monótona. Acha que ele vai se safar?
— O tai-pan? Acabo de estar com ele. Espero que sim. Ele é confiante, muito confiante. Gosto dele.
— É. Gosto de Bartlett também. Está com ele há muito tempo?
— Quase sete anos.
Tinham saído do terminal e a rua estava igualmente cheia. À direita ficava o porto, e eles batiam papo, dirigindo-se para a passagem de pedestres que os levaria ao Vic. Rosemont indicou uma lojinha, a Rice Bowl¹.
¹ Literalmente, "Tigela de Arroz". (N. da T. )
— Athena trabalha ali de vez em quando. É um bazar de caridade, dirigido por americanos. Todo o lucro se destina aos refugiados. Muitas das mulheres trabalham ali um ou dois dias por semana, acho que isso as mantém ocupadas. Imagino que você esteja ocupada o tempo todo.
— Apenas sete dias por semana.
— Ouvi o Linc dizer que vocês iam passar o fim de semana em Taipé. Será a sua primeira visita?
— Sim... só que eu não vou, vão apenas o Linc e o tai-pan.
Casey tentou deter o pensamento imediato que veio à tona, mas não pôde: "Será que ele vai levar Orlanda? Ele tem razão, não é da minha conta. Mas a Par-Con é. E como Linc está completamente enredado pelo inimigo, quanto menos ele souber da trama do First Central, melhor".
Satisfeita por ter chegado a uma decisão desapaixonada-mente, continuou a conversar com Rosemont, respondendo às suas perguntas, sem se concentrar muito, satisfeita por conversar com uma pessoa amável, tão informativa quanto interessada.
— ... e Taipé é diferente, mais tranqüila, menos irrita-diça, mas uma cidade do futuro — dizia ele. — Somos populares em Formosa, para variar. Quer dizer que vão mesmo se expandir? Num negócio desse porte imagino que devem ter uma dúzia de executivos à disposição.
— Não. No momento só há nós dois e o Forrester, chefe da nossa divisão de espuma, e nosso advogado. — Ao mencioná-lo, Casey ficou com raiva. "Maldito seja por tentar nos bloquear. " — O Linc organizou a Par-Con muito bem. Eu cuido do dia-a-dia, e ele fixa a política da empresa.
— Vocês são uma empresa de capital aberto?
— Somos, mas numa boa, também. O Linc tem o controle, e nossos diretores e acionistas não atrapalham. Os dividendos estão aumentando, e se o negócio com a Struan se concretizar, subirão vertiginosamente.
— Bem que poderíamos ter mais firmas americanas na Ásia. O comércio foi o que fez o grande Império Britânico. Desejo-lhes boa sorte, Casey. Ei, isso me lembra uma coisa — acrescentou, descuidadamente. — Conhece o Ed, Ed Langan, meu amigo, que estava comigo na festa do tai-pan? Ele conhece um dos seus acionistas. Um sujeito chamado Bestacio, qualquer coisa assim.
Casey ficou espantada.
— Banastasio? Vincenzo Banastasio?
— É, acho que é — mentiu serenamente, observando-a, e, ante a expressão dela, acrescentou: — Falei alguma besteira?
— Não, é apenas uma coincidência. Banastasio chega amanhã. Amanhã de manhã.
— O quê?
Casey viu que ele a fitava, e deu uma risada.
— Pode dizer ao seu amigo que ele vai ficar no Hilton. A cabeça de Rosemont estava a mil por hora.
— Amanhã? Ora vejam só! Casey perguntou, cautelosamente:
— Ele é amigo íntimo de Langan?
— Não, mas ele o conhece. Diz que o Banastasio é um sujeito e tanto. Um jogador, não é?
— É.
— Não gosta dele?
— Só o vi umas duas vezes. Nas corridas. É um figurão em Del Mar. Não curto muito jogo ou jogadores.
Eles "costuravam" em meio à multidão. Gente os empurrava por trás, e hordas que vinham da direção oposta empurravam-nos pela frente. A passagem subterrânea fedia a mofo e catinga. Ela ficou muito satisfeita de voltar ao ar livre, louca por um banho, uma aspirina e um repouso até as oito horas. Para além dos prédios à frente ficava todo o porto oriental. Um jato que partia furou a cerração. Rosemont percebeu os altos mastros de carga do Soviétski Ivánov ancorado ao longe. Involuntariamente, deu uma olhada para o lado de Hong Kong e viu como seria fácil para binóculos de grande alcance examinarem o porta-aviões americano e quase contarem seus rebites.
— Faz a gente sentir orgulho de ser americano, não é? — disse Casey, alegremente, acompanhando o olhar dele. — Se você é do consulado, pode subir a bordo?
— Claro. Visita com guia!
— Que cara de sorte!
— Estive Iá ontem. O comandante deu uma festa para o pessoal local, e eu também fui.
Novamente, Rosemont mentiu com facilidade. Ele estivera a bordo na noite anterior, e também naquela manhã. Sua entrevista inicial com o almirante, comandante e chefe de segurança fora tempestuosa. Foi só quando apresentou fotocópias do manifesto de carga secreto dos armamentos do navio, e do manual de orientação dos sistemas, que eles realmente acreditaram que tinha havido um imenso vazamento de segurança. Agora, o traidor estava sob severa vigilância na cadeia do navio, vigiado pelo seu pessoal da CIA vinte e quatro horas por dia. Logo o homem cederia. "É, e depois disso", pensou Rosemont, "cadeia durante vinte anos. Por mim, eu largava o filho da mãe no meio da baía. Porra, não tenho nada contra os Metkins e o KGB. Os filhos da mãe estão apenas fazendo o seu trabalho, para o seu lado... não importa o quanto estejam errados. Mas e os nossos rapazes?"
— Muito bem, cara, foi apanhado! Primeiro, diga-nos por que o fez — perguntara-lhe.
— Dinheiro.
Puta que o pariu! O dossiê do marujo mostrava que viera de uma pequena cidade do centro-oeste. Seu trabalho era exemplar, sem nada no seu passado ou presente que sugerisse um risco de segurança em potencial. Era um homem calmo, bom no seu serviço de programação de computadores, apreciado pelos compatriotas, e os superiores confiavam nele. Nenhuma tendência esquerdista, nada de homossexualismo, nenhum problema de chantagem, nada.
— Então, por quê? — perguntara-lhe.
— Esse sujeito me abordou em San Diego e disse que queria saber tudo sobre o Corregidor, e que me pagaria.
— Mas você não sabe que isso é traição? Atraiçoar o seu país?
— Pombas, só o que ele queria eram alguns dados e números. E daí? Que diferença faz? Podemos mandar os malditos comunas pro inferno na hora em que nos der na telha. O Corregidor é o maior porta-aviões em funcionamento! Foi uma travessura, e eu queria ver se podia fazê-la, e eles pagavam pontualmente...
"Meu Deus!, como vamos manter a segurança quando existem caras como aquele, com o cérebro no rabo?", perguntou-se Rosemont, desanimado.
Caminhava ao lado de Casey, ouvindo-se bater papo com ela, sondando-a, imaginando que tipo de risco ela representava, e Bartlett, com sua ligação com o Banastasio. Logo se uniram às outras pessoas que subiam a larga escadaria que levava ao hotel. Um boy sorridente abriu as portas giratórias. O saguão fervilhava.
— Casey, ainda é cedo para o meu compromisso. Posso convidá-la para um drinque?
Casey hesitou, depois sorriu, simpatizando com ele, gostando do bate-papo.
— Claro, obrigada. Primeiro deixe-me ir buscar os meus recados, certo?
Ela foi até a recepção. Havia um maço de telex, e recados de Jannelli, Steigler e Forrester, pedindo que ela lhes telefonasse. E um bilhete escrito à mão, de Bartlett. O bilhete continha instruções de rotina sobre a Par-Con, com as quais ela concordava, e pedia-lhe que se certificasse de que o avião estaria pronto para decolar no domingo. O bilhete terminava assim: "Casey, vamos ficar com a Rothwell-Gornt. Vamos nos encontrar para tomar o café da manhã na suíte, às nove. Até Iá".
Ela voltou para junto de Rosemont.
— Podemos deixar para outro dia?
— Más notícias?
— Ah, não, só um bocado de coisas para acertar.
— Claro, mas quem sabe gostaria de jantar conosco na semana que vem, você e Linc? Queria que Athena os conhecesse. Ela lhe telefonará marcando o dia, está bem?
— Obrigada, gostaria muito.
Casey afastou-se, todo o seu ser mais do que nunca resolvido a seguir o rumo que escolhera.
Rosemont observou-a enquanto ela se afastava, depois pediu um Cutty Sark com soda, e começou a esperar, imerso em pensamentos. "Quanto será que o Banastasio tem investido na Par-Con, e o que recebe em troca? Puta que o pariu, a Par-Con está metida em assuntos de defesa, espaço e um bocado de bosta secreta. O que esse vagabundo vem fazer aqui? Graças a Deus eu mesmo cuidei de Casey hoje, e não a deixei nas mãos de um dos outros rapazes. Ele podia ter deixado escapar o Banastasio... "
Robert Armstrong chegou.
— Puxa, Robert, você está com uma cara terrível — disse o americano. — É melhor tirar umas férias ou uma boa noite de sono e deixar as mulheres de lado.
— Ora, vá tomar no... Está pronto? É melhor irmos.
— Você tem tempo para uma bebidinha rápida. O encontro no banco foi adiado para as sete. Temos tempo de sobra.
— É, mas não quero chegar atrasado, já que vamos nos encontrar com o governador no escritório dele.
— Está bem.
Obedientemente, Rosemont terminou a sua bebida, assinou a conta, e os dois foram andando para o terminal das barcas.
— Como vai a Dry Run? — perguntou Armstrong.
— Ainda estão por Iá, com as bandeiras tremulando. Parece que a revolta de Azerbaijão não deu em nada. — Rosemont percebeu o desânimo do inglês. — Qual é o grilo, Robert?
— Às vezes não gosto de ser policial, só isso — disse Armstrong, pegando um cigarro e acendendo-o.
— Pensei que tinha parado de fumar.
— Parei. Ouça, Stanley, amigão, deixe que lhe avise: você está no mato sem cachorro. Crosse está tão furioso que quase poderia ser internado.
— Isso Iá é novidade? Tem muita gente que acha o Crosse doido, mesmo. Pombas, foi o Ed Langan que avisou vocês das pastas do Alan, para começo de conversa! Puta que o pariu, somos aliados!
— É verdade — replicou Armstrong, com azedume —, mas isso não lhes dá licença de invadir, sem autorização alguma, um apartamento totalmente limpo, pertencente à companhia telefônica, que é totalmente limpa!
— Quem, eu? — Rosemont parecia magoado. — Que apartamento?
— Sinclair Towers, apartamento 32. Você e seus gorilas arrombaram a porta na calada da noite. Para quê? Pode me explicar?
— E como vou saber? — Rosemont sabia que tinha que se safar no blefe, mas ainda estava furioso, porque quem estava no apartamento conseguira escapar sem ser identificado. Sua raiva pelo vazamento do porta-aviões, por não poder interrogar o Metkin, por toda aquela nojeira da Sevrin e a perfídia do Crosse fizeram com que ordenasse a batida. Um dos seus informantes chineses captara um boato de que, embora o apartamento vivesse vazio a maior parte do tempo, às vezes era usado por agentes inimigos comunistas — de gênero desconhecido —, e que naquela noite haveria uma reunião. Connochie, um dos seus melhores agentes, dirigira a batida, e pensara ter visto de relance dois homens fugindo pelos fundos, mas não tinha certeza, e embora tivesse feito uma revista diligente, eles haviam sumido, e nada fora encontrado no apartamento para confirmar ou negar o boato, apenas dois copos pela metade. Os copos haviam sido levados e examinados para ver se havia impressões digitais. Um deles estava limpo, o outro, bem marcado. — Nunca estive no Sinclair Towers, puta merda!
— Pode ser, mas seus "policiais cômicos do cinema mudo" estiveram. Vários moradores reclamaram de quatro cau-casianos altos e robustos que subiram e desceram ruidosamente as escadas. — Armstrong acrescentou, com mais azedume ainda: — Todos de bunda grande e idéias curtas... só podem ser os seus.
— Meus, não, de jeito nenhum.
— Ah, eram, sim, e esse tiro vai lhe sair pela culatra. Crosse já mandou dois telegramas pesadíssimos para Londres. O pior é que vocês não pegaram nada, e nós levamos um esporro por causa das suas burradas contínuas!
Rosemont soltou um suspiro.
— Largue do meu pé. Tenho uma novidade para você. — Contou a Armstrong a conversa que tivera com Casey sobre Banastasio. — Claro que já sabíamos da ligação dele com a Par-Con, mas eu não sabia que chegava amanhã.
Armstrong tinha visto a data da chegada anotada na agenda de Ng Fotógrafo.
— Interessante — falou, reservadamente. — Contarei ao Velho. Mas é melhor você ter uma boa explicação para ele sobre o Sinclair Towers, e não diga que eu lhe contei.
Sua fadiga era quase incontrolável. Pela manhã, às seis e meia, começara o primeiro interrogatório real de Brian Kwok.
Fora um trabalho orquestrado: enquanto ainda sob o efeito das drogas, Brian Kwok fora tirado da sua cela limpa e branca e colocado, despido, num calabouço nojento, com paredes úmidas e um colchão fino e fétido sobre o chão mofado. Então, dez minutos depois que a injeção de acordar o trouxera a uma consciência dolorosa, a luz forte fora acesa, e Armstrong escancarara a porta e xingara o carcereiro do sei.
— Puta que o pariu, o que está fazendo com o superintendente Kwok? Ficou maluco? Como ousa tratá-lo desse jeito?
— Ordens do superintendente Crosse, senhor. Este cliente...
— Deve haver um engano! Estou me lixando para o Crosse! — Jogara o sujeito porta afora e concentrara toda a sua atenção bondosa no amigo. — Tome, amigão, quer um cigarro?
— Ah, Deus! Obrigado... obrigado. — Os dedos de Brian Kwok tremeram quando ele segurou o cigarro e tragou profundamente. — Robert... que diabo está acontecendo?
— Não sei. Acabo de saber, e é por isso que estou aqui. Disseram-me que você estava de licença por uns dias. Crosse enlouqueceu. Alega que você é um espião comunista.
— Eu? Pelo amor de Deus... que dia é hoje?
— Dia 30, sexta-feira — respondeu prontamente, esperando a pergunta, acrescentando sete dias.
— Quem ganhou o quinto páreo?
— Butterscotch Lass — respondeu, pego de surpresa, es-pantadíssimo de que a mente de Brian ainda estivesse funcionando tão bem, e sem ter a mínima certeza de que sua ligeira hesitação não tivesse revelado que dissera uma mentira. — Por quê?
— Só queria saber... só... Escute, Robert, isso é um engano. Tem que me ajudar. Não fique aí...
Aproveitando a deixa, Roger Crosse entrou porta adentro como a ira de Deus.
— Escute, espião, quero os nomes e os endereços de todos os seus contatos, imediatamente. Quem é o seu controlador?
Debilmente, Brian Kwok se pôs de pé.
— Senhor, é tudo um engano. Não existe controlador, e não sou espião e...
Crosse subitamente enfiou na cara deles as ampliações das fotos.
— Então explique-me como foi fotografado em Ning-tok diante da farmácia de sua família, com sua mãe, Fang-ling Wu. Explique como seu verdadeiro nome é Chu-toy Wu, segundo filho desses pais, Ting-top Wu e Fang-ling Wu...
Ambos perceberam o choque instantâneo no rosto de Brian Kwok.
— Mentiras — resmungou —, mentiras, sou Brian Kar-shun Kwok, e sou...
— Você é um mentiroso! — berrou Crosse. — Temos testemunhas! Temos provas! Você foi identificado pela sua gan sun, Ah Tam!
Outra exclamação abafada, disfarçada quase com brilhantismo, depois...
— Não... não tenho nenhuma gan sun chamada Ah Tam. Tenho...
— Passará o resto da vida nesta cela, a não ser que nos conte tudo. Virei vê-lo dentro de uma semana. É melhor contar toda a verdade, caso contrário mandarei acorrentá-lo! Robert! — Crosse virou-se, furioso, para ele. — Está proibido de entrar aqui sem a minha permissão!
A seguir, saiu intempestivamente da cela.
Armstrong se recordava de como ficara nauseado ao ler a verdade escrita no rosto do amigo. Era um observador bem treinado demais para se enganar.
— Porra, Brian — disse, continuando o jogo, odiando, apesar disso, a sua hipocrisia. — O que deu em você para fazer isso?
— Fazer o quê? — retrucou Brian Kwok, desafiadoramente. — Não pode me tapear... nem me lograr, Robert... Não podem ser sete dias. Estou inocente.
— E as fotos?
— Forjadas... forjadas, obra do Crosse. — Brian Kwok se agarrou ao braço dele, uma luz desesperada no olhar, e sussurrou com voz rouca: — Eu lhe disse, o Crosse é o verdadeiro toupeira. É ele, Robert... é homossexual, está tentando me incriminar e...
Seguindo a deixa, o carcereiro do sei, compenetrado e seco, abriu bruscamente a porta da cela.
— Desculpe, senhor, mas precisa sair.
— Está bem, mas primeiro dê-lhe um pouco de água.
— Não é permitido dar-lhe água!
— Porra, vá buscar um pouco de água pra ele!
Relutante, o carcereiro obedeceu. Enquanto estavam momentaneamente sozinhos, Armstrong enfiou os cigarros sob o colchão.
— Brian, vou ver o que posso fazer...
O carcereiro voltou ao aposento com uma caneca amassada.
— Só pode tomar isso! — exclamou, com raiva. — E quero a caneca de volta!
Agradecido, Brian Kwok engoliu a água, e a droga com ela. Armstrong se retirou. A porta foi fechada, e as trancas, corridas. Abruptamente, as luzes se apagaram, deixando Brian Kwok no escuro. Dez minutos mais tarde, Armstrong voltou a entrar na cela, com o dr. Dorn. E Crosse. Brian Kwok estava inconsciente, profundamente drogado outra vez, e sonhando irrequieto.
— Robert, trabalhou muito bem — disse Crosse, suavemente. — Viu o choque do cliente?
— Sim, senhor.
— Ótimo. Eu também. Não há como se enganar com isso, ou com a culpa dele. Doutor, acelere o processo de dormir-acordar. De hora em hora, nas próximas vinte e quatro horas...
— Meu Deus! — exclamou Armstrong. — Não acha que...
— De hora em hora, doutor, desde que não haja problemas do ponto de vista médico. Não o quero machucado, apenas maleável nas próximas vinte e quatro horas. Robert, depois você o interrogará de novo. Se não der certo, nós o colocaremos no Quarto Vermelho.
O dr. Dorn se crispara, e Armstrong se recordava de que seu coração falhara uma batida.
— Não — disse.
— Puta que o pariu, o cliente é culpado, Robert — rosnou Crosse, não mais representando. — Culpado! O cliente dedurou Fong-fong e os nossos rapazes, e nos infligiu sabe Iá Deus quantos danos. Somos obrigados a isso. As ordens vieram de Londres! Lembra-se de Metkin, o grande peixe que pegamos, o comissário político do Ivánov? Acabo de saber que o avião-transporte da RAF desapareceu. Reabasteceu em Bombaim e depois desapareceu, sobrevoando o oceano Índico.
18h58m
O governador estava acometido de uma fúria olímpica. Saltou do carro e caminhou vigorosamente até a porta lateral do banco, onde Johnjohn esperava por ele.
— Já leu isto? — O governador agitava a edição noturna do Guardian ao ar da noite. A imensa manchete dizia: os deputados acusam A RPC. — Mas que malditos idiotas incompetentes, hem?
— É, sim, senhor. — Johnjohn estava igualmente colérico. Passou pelo porteiro fardado e entrou numa grande ante-sala. — Não dá para enforcar os dois?
Na entrevista coletiva que tinham dado à tarde, Grey e Broadhurst haviam proclamado publicamente tudo aquilo que ele, Johnjohn, Dunross e os outros tai-pans haviam longa e pacientemente condenado como totalmente contrário aos interesses da Grã-Bretanha, de Hong Kong e da China. Grey continuara discutindo longamente sua opinião pessoal de que a China Vermelha estava dedicada à conquista mundial e que devia ser tratada como a grande inimiga da paz mundial.
— Já recebi uma reclamação não-oficial oficial. Johnjohn se crispou.
— Oh, Deus, não do Tiptop?
— Claro que do Tiptop. Falou, naquela sua voz calma e sedosa: "Excelência, quando nossos pares em Pequim lerem como os membros importantes do seu grande Parlamento inglês encaram o Reino Médio, acho que vão ficar realmente muito zangados". Eu diria que nossas chances de obtermos o uso temporário do dinheiro deles, agora, são nulas.
Outra onda de raiva varreu Johnjohn.
— Aquele maldito insinuou que o ponto de vista dele é o mesmo da delegação, o que é completamente inverídico! É ridículo inflamar a China, sob qualquer circunstância. Sem a benevolência da China nossa posição aqui seria totalmente insustentável! Que idiota completo! E todos nós nos esforçamos ao máximo para explicar! — O governador tirou um lenço do bolso e assoou o nariz. — Onde estão os outros?
— O superintendente Crosse e o sr. Sinders estão usando o meu escritório por um momento. Ian já vem vindo. E quanto ao Grey e ao Ian, senhor? O que me diz do fato de Grey ser cunhado do Ian?
— Extraordinário. — Desde que Grey tocara no assunto, em resposta a uma pergunta, naquela tarde, ele recebera uma dúzia de telefonemas a respeito. — Espantoso que o Ian nunca o tenha mencionado.
— Ou Penelope. Muito estranho! Acha que... — Johnjohn ergueu os olhos e se interrompeu. Dunross vinha vindo na direção deles.
— Boa noite, senhor.
— Alô, Ian. Marquei para as dezenove horas para ter uma chance de falar com Sinders e Stanley Rosemont. — O governador levantou o jornal. — Viu isto?
— Vi, senhor. Os jornais da noite chineses estão tão furiosos que me admira que todas as edições não estejam pegando fogo, e toda a Central junto com elas.
— Eu os levaria a julgamento por traição — disse Johnjohn, a fisionomia azeda. — Que diabo podemos fazer, Ian?
— Rezar! Já falei com o Guthrie, o deputado liberal, e alguns dos conservadores. Um dos principais repórteres do Guardian os está entrevistando agora, e suas opiniões, contrárias às de Grey e Broadhurst, serão as manchetes, refutando toda aquela baboseira. — Dunross enxugou as mãos. Podia sentir as costas igualmente suadas. A combinação de Grey, Tiptop, Jacques, Phillip Chen, a moeda e as pastas de Alan estava ata-cando-lhe os nervos. "Meu Deus", pensou, "o que virá agora?" Seu encontro com o Murtagh, do Royal Belgium, fora o que Casey previra: um tiro a esmo, bem dado. Ao sair da reunião, alguém lhes dera os jornais vespertinos, e a bomba que aqueles comentários irresponsáveis iam provocar quase o derrubara. — Teremos apenas que desmentir tudo publicamente, e particularmente trabalhar como uns doidos para ter certeza de que o projeto de Grey para baixar Hong Kong ao nível da Grã-Bretanha nunca seja votado, ou seja derrubado, e o Partido Trabalhista nunca seja eleito. — Sentiu a cólera aumentar. — Broadhurst agiu tão mal quanto ele, se não pior.
— Ian, já falou com o Tiptop?
— Não, Bruce. O telefone dele continua ocupado, mas já mandei um recado para ele. — Contou-lhes o que combinara com Phillip Chen. Então, o governador relatou a queixa de Tiptop. Dunross ficou perturbadíssimo. — Quando foi que ele ligou, senhor?
— Pouco antes das seis.
— Já teria recebido o recado, a essa altura. — Dunross sentiu o coração bater descompassadamente. — Depois dessa... débâcle, aposto que não há chance de obtermos o dinheiro chinês.
— Concordo.
Dunross estava vivamente cônscio de que não haviam tocado no assunto do seu parentesco com Grey.
— Robin Grey é um idiota — disse, achando melhor trazer tudo à luz. — Meu maldito cunhado não teria agido melhor em prol dos soviéticos se fosse membro do Politburo. Broadhurst também. Que estupidez!
Depois de uma pausa, o governador comentou:
— Como dizem os chineses: "O demônio lhe dá os parentes. Agradeça a todos os deuses por poder escolher os amigos".
— Tem toda a razão. Felizmente, a delegação deve partir no domingo. Com as corridas de amanhã e todos... os outros problemas, talvez isso acabe se diluindo. — Dunross enxugou a testa. — Está abafado aqui, não é?
O governador concordou, depois acrescentou, tensamente:
— Está tudo pronto, Johnjohn?
— Sim, senhor. A caixa-forte...
No corredor, a porta do elevador se abriu, e Roger Crosse e Edward Sinders, chefe da MI-6, apareceram.
— Ah, Sinders — falou o governador, quando os dois entraram na ante-sala —, quero apresentar-lhe o sr. Dunross.
— Prazer em conhecê-lo, senhor. — Dunross e Sinders apertaram-se as mãos. Era um homem de meia-idade, altura média, tipo comum, que não chamava a atenção, vestindo roupas amassadas. Seu rosto era magro e sem cor, a barba por fazer, grisalha. — Por favor, desculpe minhas roupas amassadas, senhor, mas ainda nem fui ao hotel.
— Lamento sabê-lo — replicou Dunross. — Isso bem que podia ter esperado até amanhã. Boa noite, Roger.
— Boa noite, senhor, boa noite, Ian — cumprimentou Crosse, vivamente. — Já que estamos todos aqui, talvez devamos prosseguir.
Obedientemente, Johnjohn saiu na frente, mas Dunross disse:
— Um momentinho. Desculpe, Bruce, mas pode dar-nos licença um instante?
— Ora, claro — retrucou Johnjohn, disfarçando a sua surpresa, perguntando-se o que se estava passando, e quem era o Sinders, mas sensato demais para perguntar. Sabia que contariam a ele, se quisessem que soubesse. A porta se fechou às suas costas.
Dunross lançou um olhar ao governador.
— O senhor atesta, formalmente, que este é Edward Sinders, chefe da MI-6?
— Sim. — O governador entregou-lhe um envelope. — Creio que o queria por escrito.
— Obrigado, senhor. — Para Sinders, Dunross disse: — Desculpe, mas há de entender a minha cautela.
— Naturalmente. Então está tudo acertado. Vamos, sr. Dunross?
— Quem é Mary McFee?
Sinders ficou chocado. Crosse e o governador olharam para ele, perplexos, depois para Dunross.
— Tem amigos em altas esferas, sr. Dunross. Posso perguntar-lhe quem lhe falou disso?
— Lamento. — Dunross não desviou os olhos dele. Alastair Struan obtivera a informação de um vip no Banco da Inglaterra, que procurara alguém do alto escalão governamental. — Só o que queremos é estar bem certos de que Sinders é quem alega ser.
— Mary McFee é uma amiga — disse Sinders, inquieto.
— Desculpe, mas isso não basta.
— Uma namorada.
— Desculpe, isso também não. Qual é o seu nome verdadeiro?
Sinders hesitou, o rosto branco como cal, depois pegou Dunross pelo braço e levou-o para a outra extremidade da sala. Falou bem junto do ouvido de Dunross.
— Anastásia Kekilova, primeira-secretária da embaixada da Tchecoslováquia em Londres — sussurrou, dando as costas para Crosse e o governador.
Dunross sacudiu a cabeça, satisfeito, mas Sinders agarrou-se ao braço dele com uma força surpreendente e sussurrou, ainda mais baixo:
— É melhor esquecer esse nome. Se o KGB sequer suspeitar que o conhece, arrancá-lo-ão do senhor. Aí, ela será uma mulher morta, eu serei um homem morto, e o senhor também.
Dunross balançou a cabeça.
— Tudo bem.
Sinders respirou fundo, depois virou-se e fez um sinal para Crosse.
— Bem, vamos acabar com isso, Roger. Excelência?
Tensamente, todos o seguiram. Johnjohn esperava junto ao elevador. As caixas-fortes ficavam três andares abaixo. Dois guardas à paisana esperavam no pequeno corredor em frente aos pesados portões de ferro, um deles do DIC, outro do sei. Ambos bateram continência. Johnjohn destrancou os portões e deixou todo mundo passar, exceto os guardas, depois voltou a trancá-los.
— Apenas um costume bancário.
— Já sofreram algum arrombamento? — perguntou Sinders.
— Não. Embora os japoneses tenham forçado os portões quando as chaves se... bem... perderam.
— O senhor estava aqui, na época?
— Não. Tive sorte. — Depois que Hong Kong capitulara, no Natal de 1941, os dois bancos britânicos, o Blacs e o Victoria, tinham se tornado alvos principais para os japoneses, e ordenou-se que fossem liquidados. Todos os executivos tinham sido separados, mantidos sob guarda e forçados a ajudar no processo. Ao longo dos meses e anos, tinham sido todos submetidos a pressões extremas. Até mesmo forçados a emitir ilegalmente papel-moeda. E então, a Kampeitai, a temida e odiada polícia secreta japonesa, se metera na história. — A Kampeitai executou vários dos nossos rapazes, e tornou a vida dos restantes infelicíssima — explicou Johnjohn. — O de sempre: nada de comida, espancamentos, privações, trancafiados em jaulas. Alguns morreram de desnutrição, "inanição" é a palavra correta, e tanto nós quanto o Blacs perdemos nossos principais executivos. — Johnjohn destrancou outra grade. Por trás dela viam-se filas e filas de cofres individuais, caixas de depósito bancário, em diversos porões de concreto interligados e reforçados. — Ian?
Dunross tirou do bolso a chave particular.
— É número 16. 85. 94.
Johnjohn foi na frente. Muito pouco à vontade, enfiou a chave do banco em uma das fechaduras. Dunross fez o mesmo com a sua chave. Giraram ambas. A fechadura se destrancou. Agora, todos os olhos fitavam o cofre. Johnjohn retirou a sua chave.
— Estarei... estarei esperando junto aos portões — falou, contente por ter terminado, e se retirou.
Dunross hesitou.
— Há outras coisas aí, documentos particulares. Dão licença?
Crosse não se mexeu.
— Lamento, mas ou o sr. Sinders ou eu mesmo devemos assegurar-nos de que estamos de posse de todas as pastas.
Dunross notou o suor nos dois homens. Suas próprias costas estavam molhadas.
— Excelência, quer fazer o favor de olhar?
— Pois não.
Com relutância, os dois outros homens se afastaram. Dunross esperou até eles estarem bem longe, depois abriu o cofre. Era grande. Os olhos de Sir Geoffrey se arregalaram. Não havia nada nele, salvo as pastas azuis. Sem comentário, ele as aceitou. Havia oito delas. Dunross bateu a porta da caixa de depósito, trancando-a novamente.
Crosse se adiantou, a mão estendida.
— Quer que eu as carregue, senhor?
— Não.
Crosse parou, espantado, e abafou um palavrão.
— Mas, Excelência...
— O ministro estabeleceu um modo de proceder, aprovado por nossos amigos americanos, com o qual eu concordei — disse Sir Geoffrey. — Voltaremos todos para o meu gabinete. Todos testemunharemos a feitura das fotocópias. Apenas duas. Uma para o sr. Sinders, outra para o sr. Rosemont. Ian, o ministro me deu ordens diretas para entregar uma cópia ao sr. Rosemont.
Dunross deu de ombros, torcendo desesperadamente para ainda aparentar despreocupação.
— Se é isso o que o ministro quer, para mim tudo bem. Depois que tiver tirado as fotocópias dos originais, senhor, por favor, queime-os. — Viu que olhavam para ele, mas estava observando Crosse, e pensou ter vislumbrado uma expressão de prazer. — Se as pastas são tão especiais, então é melhor que não existam... exceto nas mãos corretas, da MI-6 e da CIA. É evidente que não devo possuir uma cópia. Se não são especiais... então não tem importância. A maior parte dos fatos relatados por Alan são muito imaginosos, e agora que ele está morto, devo confessar que não considero as pastas especiais, contanto que permaneçam nas suas mãos. Por favor, queime-as ou retalhe-as, Excelência.
— Está bem. — O governador virou os olhos azul-claros para Roger Crosse. — Sim, Roger?
— Nada, senhor. Vamos indo? Dunross disse:
— Tenho que pegar alguns papéis da firma para examinar, já que estou aqui. Não precisam esperar por mim.
— Está bem. Obrigado, Ian — disse Sir Geoffrey, e foi embora com os outros dois homens.
Quando ficou completamente sozinho, Dunross dirigiu-se para outro grupo de cofres individuais, na caixa-forte adjacente. Pegou o chaveiro e escolheu duas chaves, bem ciente de que Johnjohn teria um ataque cardíaco se soubesse que ele tinha uma duplicata da chave-mestra. A fechadura destrancou-se silenciosamente. O cofre era um das dúzias que a Casa Nobre possuía, sob nomes diferentes. Dentro dele havia maços de notas de cem dólares americanos, títulos de propriedades antigos e documentos. Por cima, uma automática carregada. Como sempre, Dunross sentiu-se psicologicamente abalado, pois detestava armas, detestava a Bruxa Struan, ao mesmo tempo em que a admirava. Nas "Instruções aos tai-pans", escritas pouco antes da sua morte, em 1917, que faziam parte das suas últimas vontades e testamento, e que ficavam no cofre do tai-pan, ela fixara mais regras, e uma delas é que sempre deveria haver quantias substanciais secretas em dinheiro vivo para uso do tai-pan, à mão, e que deveria haver pelo menos quatro pistolas carregadas perpetuamente disponíveis em lugares secretos. Escrevera ela: "Abomino as armas, mas sei que são necessárias. Na véspera da Festa de São Miguel, em 1916, quando eu estava enferma e doente, meu neto Kelly O'Gorman, quarto tai-pan (apenas em nome), crendo que eu estava no meu leito de morte, forçou-me a sair da cama e ir até o cofre da Casa Grande, para apanhar o selo-carimbo da Casa Nobre e dar-lhe o poder absoluto como tai-pan. Ao invés disso, apanhei a arma que estava guardada secretamente no cofre e atirei nele. Ainda durou dois dias, depois morreu. Sou temente a Deus, e abomino as armas e certas mortes, mas Kelly tornara-se um cão danado, e é dever do tai-pan proteger a sucessão. Não lamento a morte dele nem um pouco. Quem estiver lendo isto, tenha cuidado: os parentes ambicionam o poder como os demais. Não tenha medo de empregar qualquer método para proteger o legado de Dirk Struan... "
Uma gota de suor escorreu-lhe pela face. Lembrou-se de que os pêlos de sua nuca tinham se arrepiado ao ler pela primeira vez as instruções dela, na noite em que assumira o posto de tai-pan. Sempre acreditara que o primo Kelly — filho mais velho de Rose, última filha da Bruxa — morrera de cólera numa das grandes epidemias que perpetuamente assolavam a Ásia.
Ela escrevera ainda outras monstruosidades:
"Em 1894, aquele ano terrível, trouxeram-me a segunda moeda de Jin-qua. Naquele ano a peste chegara a Hong Kong, a peste bubônica. Entre os nossos chineses pagãos, dezenas de milhares estavam morrendo. Nossa própria população estava sendo igualmente dizimada, e a peste atingia os grandes e os pequenos, a Prima Hannah e três filhos, dois filhos de Chen-chen, cinco netos. A lenda previa que a peste bubônica viria trazida pelo vento. Outros achavam que era uma maldição de Deus, ou uma doença como a malária, o 'ar ruim' mortífero do Happy Valley. E então, o milagre! Os médicos pesquisadores japoneses que trouxemos para Hong Kong, Vitasato e Aoyama isolaram o bacilo da doença e provaram que a peste era transmitida pelas pulgas e pelos ratos, e que medidas sanitárias corretas e a eliminação dos ratos acabariam para sempre com a maldição. A encosta infecta de Tai-ping Shan, de propriedade de Gordon — Gordon Chen, filho do meu amado tai-pan —, onde a maior parte dos nossos pagãos sempre viveu, era um antro fedorento, pustulento, superlotado, propício à proliferação de ratos e todas as pestilências, e por mais que as autoridades bajulassem, ordenassem ou insistissem, seus supersticiosos habitantes não acreditavam em nada, e nada faziam para melhorar sua sorte, embora as mortes continuassem e continuassem. Até mesmo o Gordon, agora um velho desdentado, nada podia fazer... arrancando os cabelos por causa dos aluguéis perdidos, poupando energia para as quatro mulheres jovens da sua casa.
"No fedor do final do verão, quando parecia que a colônia estava mais uma vez condenada, as mortes aumentando dia a dia, mandei incendiar Tai-ping Shan durante a noite, toda a encosta monstruosa e fétida. O fato de que alguns habitantes tenham sido consumidos pelo fogo pesa na minha consciência, mas sem aquele incêndio purificador a colônia estaria condenada, e mais centenas de milhares morreriam. Causei o incêndio que destruiu Tai-ping Shan, mas desse modo mantive-me fiel a Hong Kong, mantive-me fiel ao legado. E cumpri a palavra no tocante à segunda das meias moedas.
"No dia 20 de abril, um homem chamado Chiang Wu-tah apresentou a meia moeda ao meu querido e jovem primo, Dirk Dunross, o terceiro tai-pan, que a trouxe a mim, pois ignorava o segredo das moedas. Mandei chamar o tal Chiang, que falava inglês. O favor que me pedia era que a Casa Nobre concedesse santuário e auxílio imediatos a um jovem revolucionário chinês educado no Ocidente, de nome Sun Yat-sen; que devíamos ajudar esse Sun Yat-sen com dinheiro; e que devíamos ajudá-lo enquanto vivesse, nos limites das nossas forças, na sua luta para derrubar a dinastia manchu da China. Dar apoio a qualquer revolucionário contra a dinastia reinante da China, com a qual mantínhamos relações cordiais e da qual dependia grande parte do nosso comércio e receitas, era contra os meus princípios, e aparentemente contra os interesses da Casa. Disse que não, que não ajudaria a derrubar o imperador. Mas Chiang Wu-tah falou: 'Esse é o favor que queremos da Casa Nobre'.
"E assim foi feito.
"Correndo grande risco, forneci os fundos e a proteção. Meu querido Dirk Dunross conseguiu tirar o dr. Sun de Cantão para a colônia, e daí para os Estados Unidos. Eu queria que o dr. Sun acompanhasse o jovem Dirk à Inglaterra — ele ia partir com a maré, capitão do nosso vapor Sunset Cloud. Naquela semana eu quis entregar-lhe o poder de verdadeiro tai-pan, mas ele disse: 'Não, só quando eu voltar'. Porém, jamais voltou. Ele e todos os tripulantes pereceram no mar, nalgum lugar do oceano Indico. Ah, que terrível a minha perda, a nossa perda!
"Mas a morte faz parte da vida, e nós, os vivos, temos nosso dever a cumprir. Ainda não sei a quem passar o posto. Devia ter sido Dirk Dunross, que recebeu o nome do avô. Os filhos dele são moços demais, nenhum dos Coopers é adequado, ou os De Villes! Daglish é possível, nenhum dos MacStruans ainda está pronto. Talvez Alastair Struan, mas há nele uma fraqueza que vem desde Robb Struan.
"Não me incomodo de admitir-lhe, futuro tai-pan, que estou mortalmente cansada. Mas ainda não estou pronta para morrer. Tomara Deus eu ainda tenha forças por mais alguns anos. Não há ninguém na minha descendência, ou na do meu amado Dirk Struan, digno do seu manto. E agora ainda temos que enfrentar essa Grande Guerra, reconstruir a Casa, recompor a nossa frota mercante... até agora os submarinos alemães afundaram trinta dos nossos navios, praticamente a nossa frota inteira. É, e ainda há o favor da segunda meia moeda a ser cumprido. Esse dr. Sun Yat-sen deve ser apoiado, e o será, até morrer, para mantermos o nosso prestígio na Ásia... "
"E assim o fizemos", pensou Dunross. "A Casa Nobre apoiou-o em todas as suas dificuldades, mesmo quando tentou se unir à Rússia soviética, até que morreu, em 1925, e Chang Kai-chek, seu tenente treinado pelos soviéticos, assumiu seu manto e lançou a China para o futuro... até que seu velho aliado, mas antigo inimigo, Mao Tsé-tung, tirou dele o futuro para instalar o Trono do Dragão em Pequim, com mãos tintas de sangue, o primeiro de uma nova dinastia. "
Dunross pegou o lenço e enxugou a testa.
O ar na caixa-forte era poeirento e seco, e ele tossiu. Suas mãos também estavam suadas, e ainda podia sentir a friagem nas costas. Remexeu cuidadosamente no fundo da caixa de metal e achou o carimbo da firma de que precisaria durante o fim de semana, para o caso de se concretizar a transação Royal
Belgium-First Central. "Se fecharmos o negócio, sem dúvida ficarei devendo a Casey mais do que um simples favor", disse com seus botões.
Seu coração batia forte de novo, e não pôde resistir à tentação de se certificar. Com grande cuidado levantou uma fração o fundo falso secreto da caixa de metal. No espaço de cinco centímetros existente, estavam oito pastas azuis. Os verdadeiros relatórios de Alan M. Grant. Aqueles que momentos atrás entregara a Sinders estavam no envelope lacrado que Kirk e a mulher haviam trazido, na véspera... as oito pastas falsas e uma carta:
"Tai-pan: Estou tremendamente preocupado com que sejamos traídos e que as informações contidas nas pastas anteriores possam cair nas mãos erradas. As pastas substitutas anexas são seguras, e muito semelhantes. Omitem nomes e informações vitais. Pode entregá-las, se for forçado, mas só nessa eventualidade. Quanto aos originais, deve destruí-los depois de falar com Riko. Certas páginas têm anotações com tinta invisível. Riko lhe ensinará o segredo. Por favor, desculpe todas estas táticas di-versivas, mas a espionagem não é coisa de criança; lida com a morte, no presente e no futuro. Nossa bela Grã-Bretanha está infestada de traidores, e o mal caminha sobre a terra. Falando sem rodeios, a liberdade está sitiada, como nunca antes na história. Suplico-lhe que emule seu ilustre ancestral, que lutou pela liberdade de comerciar, viver e dar valor à dignidade. Desculpe, mas não creio que ele tenha morrido num temporal. Jamais saberemos a verdade, mas creio que foi assassinado, como eu serei. Não se preocupe, meu jovem amigo, trabalhei bem, na minha vida. Botei muitos pregos no caixão do inimigo, mais do que uma boa quantidade... peço que faça o mesmo".
A carta estava assinada "Com grande respeito".
"Pobre infeliz", pensou Dunross, tristemente.
Na véspera contrabandeara as pastas falsas para a caixa-forte, em substituição às originais, colocadas na outra caixa. Gostaria de ter podido destruir então as originais, mas não havia como fazê-lo em segurança, e de qualquer maneira ainda tinha que esperar pelo seu encontro com a japonesa. "É melhor e mais seguro deixá-las onde estão, por enquanto", pensou. "Tempo de so... "
Subitamente, sentiu que estava sendo observado. Estendeu a mão para a automática. Quando seus dedos já a agarravam, virou-se. Seu estômago pareceu dar voltas. Crosse o observava. E Johnjohn. Estavam na entrada da caixa-forte.
Depois de um momento, Crosse disse:
— Queria apenas agradecer-lhe pela sua cooperação, Ian. O sr. Sinders e eu lhe somos gratos.
Dunross sentiu-se inundar de alívio.
— Tudo bem, fico feliz em poder ajudar. — Tentando parecer natural, soltou a pistola e deixou que deslizasse para longe dele. O fundo falso se encaixou silenciosamente. Notou o escrutínio de Crosse, mas não ligou. De onde estava, não acreditava que fosse possível ao superintendente ter visto as pastas reais. Dunross abençoou sua boa sorte, que impediu que tirasse uma das pastas para folhear. Descuidadamente, fechou a porta do cofre e recomeçou a respirar. — Como é abafado aqui, hem?
— É. Obrigado mais uma vez, Ian — disse Crosse, retirando-se.
— Como abriu essa caixa? — perguntou Johnjohn, friamente.
— Com uma chave.
— Duas chaves, Ian. Isso é contra o regulamento. — Johnjohn estendeu a mão. — Por favor, o que nos pertence.
— Desculpe, meu chapa — falou Dunross calmamente —, isso não lhes pertence.
Johnjohn hesitou.
— Sempre suspeitamos de que você possuía uma duplicata da chave-mestra. Paul tem razão quanto a uma coisa: você tem poder demais, considera este banco seu, nossos fundos seus, e a colônia sua.
— Tivemos uma associação longa e feliz com ambos, e foi apenas nos últimos anos, quando Paul Havergill obteve algum poder, que comecei a ter dificuldades, eu pessoalmente, e a minha Casa, por sua vez. Mas, o que é pior, ele é antiquado, e foi apenas por esse motivo que votei pela exclusão dele. Você, não, é moderno. Será mais justo, enxergará mais longe, será menos emotivo e mais correto.
Johnjohn sacudiu a cabeça.
— Duvido. Se eu me tornar tai-pan do banco, tomarei medidas para que seja de propriedade integral dos seus acionistas, e controlado por diretores indicados por eles.
— Já é. Nós somos donos de apenas vinte e um por cento do banco.
— Eram donos de vinte e um por cento. Essas ações foram dadas como penhor contra o seu fundo, que você não pode e provavelmente nunca poderá reembolsar. Além disso, vinte e um por cento não significam controle, graças a Deus.
— Quase.
— É exatamente aonde estou querendo chegar. — A voz de Johnjohn era metálica. — Isso é perigoso para o meu banco, muito perigoso.
— Não acho.
— Eu acho. Quero onze por cento de volta.
— Não estão à venda, meu velho.
— Quando eu for tai-pan, meu velho, vou obtê-los de volta, por bem ou por mal.
— Veremos.
— Quando eu for tai-pan, vou fazer muitas modificações. Todas essas fechaduras, por exemplo. Não haverá chaves-mes-tras de propriedade particular de ninguém.
— Veremos — sorriu Dunross.
No lado de Kowloon, Bartlett saltou do cais para o barco que balançava, ajudando Orlanda a subir. Automaticamente, ela tirou os sapatos de salto alto, para proteger o belo convés de teca.
— Bem-vindo a bordo do Sea Witch, sr. Bartlett. Boa noite, Orlanda — disse Gornt, com um sorriso. Estava ao leme, e imediatamente fez sinal para o marinheiro de convés, que desatracou o barco do cais, que ficava perto do terminal das balsas de Kowloon. — Estou encantado que tenha aceito o meu convite para jantar, sr. Bartlett.
— Nem sabia que tinha um convite, até que a Orlanda me contou, há meia hora... ei, mas que barco espetacular!
Jovialmente, Gornt engrenou uma ré.
— Até uma hora atrás nem sabia que vocês dois iam jantar sozinhos. Imaginei que o senhor nunca devia ter visto o porto de Hong Kong à noite, por isso achei que devia ver, para variar. Há umas duas coisinhas que queria discutir em particular, então perguntei a Orlanda se ela se incomodaria se eu o convidasse para vir a bordo.
— Espero que não tenha sido incômodo vir para o lado de Kowloon.
— Incômodo algum, sr. Bartlett. É rotina apanhar os convidados aqui.
Gornt sorriu intimamente, lembrando-se de Orlanda e de todos os outros convidados que havia apanhado ali, no cais de Kowloon, ao longo dos anos. Habilmente, Gornt recuou o barco a motor para longe do desembarcadouro de Kowloon, junto do Terminal da Balsa Dourada, onde as ondas batiam perigosamente contra o molhe. Pôs as alavancas do motor a meio vapor, girou o leme para boreste e entrou mar adentro num curso para o oeste.
O barco tinha setenta pés, era esguio, elegante, reluzente, e se portava como uma lancha rápida. Eles estavam no convés da ponte, com um lado envidraçado, aberto ao vento, na popa, os toldos do teto esticados e farfalhando com a brisa, um rastro de espuma. Gornt usava roupas informais, um casaco curto e leve de marujo, um boné atrevido, com o emblema do Yacht Club. As roupas e sua barba preta aparada e pintalgada de fios grisalhos ficavam-lhe muito bem. Oscilava serenamente com o balanço do barco, muitíssimo à vontade.
Bartlett o observava, igualmente à vontade, de tênis e camiseta informal. Orlanda estava ao seu lado, e ele podia senti-la, embora não se estivessem tocando. Ela usava um terninho de noite escuro e um xale para protegê-la do frio do mar, e também oscilava tranqüilamente, o vento nos cabelos, pequenina, sem os sapatos.
Ele olhou para trás, para o outro lado do porto, para as balsas e barcas, juncos, navios e a imensidão cinzenta do porta-aviões nuclear, os tombadilhos iluminados, a bandeira tremulando bravamente. Um jato cortou o ar da noite, saindo de Kai Tak, enquanto os jatos que chegavam, aproximando-se de Kowloon, esperavam.
Daquele ângulo não enxergava o aeroporto ou seu próprio avião, mas sabia onde estava estacionado. Naquela tarde visitara-o, com permissão da polícia, para verificação e para apanhar alguns papéis e provisões.
Orlanda, ao seu lado, tocou-o com naturalidade, e ele olhou para ela. A moça deu-lhe um sorriso, e ele sentiu-se emocionado.
— Formidável, não é?
Feliz, ela fez que sim com a cabeça. Não havia necessidade de responder. Ambos sabiam.
— É, sim — disse Gornt, pensando que Bartlett estava falando com ele, e olhou ao seu redor. — É fantástico estar no mar à noite, dono da sua própria embarcação. Vamos para o oeste, depois quase para o sul, rodeando Hong Kong... uns três quartos de hora.
Fez sinal ao seu capitão, que estava próximo, um xangaiense calado e flexível que usava calças brancas de algodão grosso, limpas e engomadas.
— Shey-shey — agradeceu o homem, pegando o leme. Gornt indicou umas cadeiras na popa, em volta de uma mesa.
— Vamos? — Deu um olhar para Orlanda. — Está muito bonita, Orlanda.
— Obrigada.
— Não está sentindo frio?
— Ah, não, Quillan, obrigada.
Um taifeiro uniformizado veio Iá de baixo. Trazia uma bandeja com canapés quentes e frios. No balde de gelo ao lado da mesa havia uma garrafa aberta de vinho branco, quatro copos, duas latas de cerveja americana e alguns refrigerantes.
— O que lhe posso oferecer, sr. Bartlett? — perguntou Gornt. — O vinho é Frascati, mas ouvi dizer que o senhor prefere cerveja gelada, diretamente da lata.
— Esta noite, Frascati... cerveja mais tarde, se for possível.
— Orlanda?
— Vinho, por favor, Quillan — disse, calmamente, sabendo que ele sabia que ela preferia o Frascati a qualquer outro vinho. "Terei que ser muito sábia, hoje", pensou, "muito forte, muito sábia e muito esperta. " Concordara imediatamente com a sugestão de Gornt, pois também adorava o mar à noite, e o restaurante era um dos seus prediletos, embora tivesse preferido ficar a sós com Linc Bartlett. Mas fora obviamente uma... "Não", pensou, corrigindo-se, "não foi uma ordem, foi um pedido. Quillan está do meu lado. E nisso temos uma meta comum: Linc. Ah, como eu curto o Linc!"
Quando olhou para ele, viu que observava Gornt. Seu coração bateu rnais depressa. Como quando Gornt a levara à Espanha, e ela vira um mano a mano. "É, esta noite esses dois homens são como toureiros. Sei que Quillan ainda me deseja, diga o que disser. " Sorriu para ele, controlando sua excitação.
— Vinho para mim está ótimo.
Estava escuro no convés, a iluminação confortável e intimista. O taifeiro serviu o vinho, como sempre muito bom, delicado, seco e tentador. Bartlett abriu uma sacola de aviação que trouxera consigo.
— É um velho costume americano trazer um presente na primeira vez que se vai a uma casa... acho que aqui é uma casa.
Colocou a garrafa de vinho sobre a mesa.
— Ah, quanta gentile... — Gornt se interrompeu. Delicadamente, segurou a garrafa e fitou-a, depois levantou-se e foi examiná-la à luz da bitácula. Voltou a sentar-se. — Isso não é um presente, sr. Bartlett, é magia engarrafada. Pensei que meus olhos me enganavam. — Era um Château Margaux, um dos grandes claretes premier cru do Médoc, na província de
Bordeaux. — Nunca tomei o 49. Foi um ano mágico para os claretes. Obrigado. Muito obrigado.
— Orlanda disse que o senhor gostava mais de vinho tinto do que de branco, mas pensei que podíamos comer peixe.
Com naturalidade, colocou uma segunda garrafa ao lado da primeira.
Gornt olhou fixo para ela. Era um Château Haut-Brion. Nas boas safras, o Château Haut-Brion tinto comparava-se a todos os grandes médocs, mas o branco — seco, delicado e pouco conhecido, pois era muito escasso — era considerado um dos melhores de todos os grandes brancos bordeaux. O ano era 55.
— Se entende tanto de vinhos, sr. Bartlett, por que bebe cerveja? — perguntou Gornt, com um suspiro.
— Gosto de cerveja com massa, sr. Gornt... e cerveja antes do almoço. Mas vinho acompanhando a comida. — Bartlett abriu um sorriso. — Na terça-feira, vamos tomar cerveja com massa, depois Frascati, ou Verdicchio, ou o Casale da Ümbria com... com o quê?
— Piccata?
— Ótimo — retrucou Bartlett, sem querer outra piccata que não a feita por Orlanda. — É praticamente a minha favorita.
Fitava Gornt. Nem sequer lançou um olhar para Orlanda, mas sabia que ela sabia o que ele estava querendo dizer. "Ainda bem que a testei. "
— Como é, divertiu-se? — perguntara ela, quando viera buscá-lo de manhã, no pequeno hotel no Sunning Road. — Ah, espero que sim, Linc querido.
A outra moça era bonita, mas não houvera outra sensação que não a da luxúria, a simples satisfação do ato sexual. Dissera isso a ela.
— Ah, então a culpa foi minha. Escolhemos errado — dissera ela, com tristeza. — Hoje vamos jantar juntos e experimentar em algum outro lugar.
Involuntariamente, ele sorriu e olhou para ela. A brisa marinha deixava-a ainda mais bela. Então, percebeu que Gornt os observava.
— Vamos comer peixe hoje?
— Vamos, sim. Orlanda, contou ao sr. Bartlett sobre o Pok Liu Chau?
— Não, Quillan, só que tínhamos sido convidados para um passeio de barco.
— Ótimo. Não será um banquete, mas a comida do mar ali é excelente, sr. Bartlett. O senhor...
— Por que não me chama de Linc e deixa que eu o chame de Quillan? A "senhoria" me dá indigestão.
Todos acharam graça. Gornt continuou:
— Linc, com sua permissão, não abriremos o seu presente hoje. A comida chinesa não é para esses vinhos fabulosos, não se complementariam. Posso guardá-los para o nosso jantar na terça-feira?
— Mas claro.
Houve um pequeno silêncio, quebrado apenas pelo trovão abafado dos motores diesel Iá embaixo. Pressentindo imediatamente que Gornt desejava ficar a sós com Linc, Orlanda levantou-se com um sorriso.
— Podem me dar licença um minuto? Vou empoar o nariz.
— Use as cabines da proa, o corredor da proa, Orlanda — disse Gornt, observando-a.
— Obrigada — replicou, e se afastou, de certo modo feliz, mas um tanto magoada. As cabines da proa eram para os convidados. Teria descido automaticamente o corredor até a cabine principal, ao banheiro que dava para a suíte de casal... a suíte que já pertencera a eles dois. "Não faz mal. O passado é o passado, e agora há o Linc", pensou, dirigindo-se para a proa.
Bartlett sorveu o seu vinho, perguntando-se por que Orlanda parecera hesitar. Concentrou-se em Gornt.
— Quantas pessoas este barco acomoda?
— Dez, confortavelmente. Tem uma tripulação regular de quatro pessoas: um capitão engenheiro de máquinas, um marinheiro de convés, um cozinheiro e um taifeiro. Eu lhe mostro o barco todo, daqui a pouco, se quiser. — Gornt acendeu um cigarro. — Não fuma?
— Não, não, obrigado.
— Podemos viajar uma semana sem reabastecer. Se necessário. Ainda concluímos a nossa transação na terça-feira?
— Ainda é o Dia D.
— Já mudou de idéia? Sobre a Struan?
— Na segunda-feira será decidida a batalha. Segunda, às quinze horas. Quando a Bolsa fechar, você terá o Ian nas mãos, ou não terá, e será novo empate.
— Dessa vez não haverá empate. Ele está arruinado.
— É o que está parecendo.
— Ainda vai para Taipé com ele?
— Ainda é o plano.
Gornt deu uma funda tragada no cigarro. Deu uma olhada na posição do barco. Estavam bem no meio do canal principal.
Gornt levantou-se e ficou por um momento ao lado do capitão, mas este também já tinha visto o pequeno junco às escuras à frente e desviou-se dele sem perigo.
— A todo o vapor à frente! — Gornt ordenou, e voltou. Tornou a encher os copos, escolheu um dos dim sum fritos e olhou para o americano. — Linc, posso ser muito franco?
— Claro.
— Orlanda.
Os olhos de Bartlett se estreitaram.
— O que é que tem?
— Como provavelmente já sabe, ela e eu fomos muito bons amigos, no passado. Muito bons amigos. Hong Kong é um lugar cheio de fofocas, e você vai ouvir todo tipo de boatos, mas ainda somos amigos, embora já há três anos não estejamos mais juntos. — Gornt olhava para ele por sob as espessas sobrancelhas negro-grisalhas. — Só quero dizer que não gostaria que ela fosse magoada. — Os dentes dele brilharam com o sorriso que deu, à luz da caixa da bússola. — E que é difícil encontrar uma pessoa e uma companheira excelente como ela.
— Concordo.
— Desculpe, não estou querendo repisar nada, só queria abordar três tópicos, de homem para homem. Esse foi o primeiro. O segundo é que ela é uma das mulheres mais discretas que já conheci. O terceiro é que ela não tem nada a ver com os nossos negócios... não a estou usando, ela não é um prêmio, ou uma isca, ou coisa parecida.
Bartlett deixou o silêncio pesar. Depois, sacudiu a cabeça.
— Claro.
— Não acredita em mim? Bartlett soltou uma risada gostosa.
— Que diabo, Quillan, estamos em Hong Kong, e aqui sou como um peixe fora d'água. Nem sei se Pok Liu Chau é o nome de um restaurante, uma parte de Hong Kong, ou se fica na China Vermelha. — Bebeu o vinho, apreciando-o. — Quanto à Orlanda, é fantástica, e não precisa se preocupar. Entendi o que quis dizer.
— Espero que não tenha se incomodado por eu ter tocado no assunto.
Bartlett sacudiu a cabeça.
— Fico contente por tê-lo feito. — Hesitou e, depois, porque o outro homem fora franco, resolveu falar francamente de tudo. — Ela me falou da criança.
— Ótimo.
— Por que a testa franzida?
— Só fiquei surpreso por ela tê-la mencionado agora. Orlanda deve gostar muito de você.
Bartlett sentiu a força dos olhos que o observavam, e tentou decifrar se havia inveja neles.
— Espero que sim. Ela contou que você tem sido ótimo para ela, desde que se separaram. E para a família dela, também.
— São boa gente. É uma dureza criar cinco filhos na Ásia, criá-los bem. Foi sempre política da nossa companhia ajudar as famílias, quando possível. — Gornt sorvia o seu vinho. — Vi Orlanda pela primeira vez quando ela estava com dez anos. Era um sábado, nas corridas, em Xangai. Naquela época, todo mundo vestia as melhores roupas e ficava passeando pelos paddocks. Era a sua primeira "saída" oficial. O pai dela era gerente da nossa divisão de expedição... um bom sujeito, Eduardo Ramos, terceira geração de Macau. A mulher é xangaiense pura. Mas Orlanda... — Gornt soltou um suspiro. — Orlanda era a garotinha mais bonita que eu já vira. Seu vestido era branco... Não me lembro de tê-la visto mais até que voltou do colégio. Estava com quase dezoito anos, e, bem, apaixonei-me loucamente por ela. — Gornt ergueu os olhos do copo. — Nem sei lhe contar como me sentia afortunado, nos anos que passei com ela. — O olhar dele ficou duro. — Ela contou como destruí o homem que a seduziu?
— Contou.
— Ótimo. Então, você está sabendo de tudo. — Gornt acrescentou, com grande dignidade: — Só queria mencionar os três tópicos.
Bartlett sentiu uma onda de afeição pelo outro homem.
— Compreendo-os. — Debruçou-se para a frente para aceitar mais vinho. — Por que não deixamos a coisa assim: na terça-feira, todas as dívidas e amizades são canceladas e começamos do nada. Todos nós.
— Nesse meio tempo, de que lado você está? — perguntou Gornt, todo o rosto um sorriso.
— Na incursão, cem por cento do seu lado! — respondeu Bartlett logo. — Para o estabelecimento da Par-Con na Ásia? Estou no meio. Espero pelo vencedor. Inclino-me por você, e espero que seja o vencedor, mas estou esperando.
— As duas coisas não são uma só?
— Não. Estabeleci as regras básicas da incursão há muito tempo. Disse que a incursão é uma operação única, ou vai ou racha. — Bartlett sorriu. — Claro, Quillan, estou com você cem por cento, na incursão... não lhe entreguei dois milhões sem carimbo ou documento, apenas com um aperto de mão?
Depois de uma pausa, Gornt falou:
— Em Hong Kong às vezes isso tem mais valor. Não tenho as cifras exatas, mas no papel estamos com vantagem de vinte e quatro a trinta milhões de HK.
Bartlett levantou a taça:
— Aleluia! Mas, enquanto isso, e a corrida aos bancos? Como irá nos afetar?
Gornt franziu o cenho.
— Não creio que vá. Nosso mercado é muito instável, mas o Blacs e o Vic são sólidos, não quebrarão, e o governo tem que apoiar os dois. Corre um boato de que o governador vai declarar a segunda-feira feriado bancário e fechar os bancos pelo tempo que for preciso... é só uma questão de tempo, até que haja dinheiro vivo disponível para deter a perda de confiança. Nesse meio tempo, muita coisa vai ser queimada, e muitos bancos se verão encostados à parede, mas isso não deverá afetar o nosso plano.
— Quando você vai recomprar?
— Depende de quando você vá abandonar a Struan.
— Que tal ao meio-dia da segunda? Isso dará tempo de sobra, antes que se encerre o pregão, para você e seus representantes secretos comprarem, depois que a notícia transpirar, e as ações baixarem ainda mais.
— Excelente. Os chineses funcionam à base de boatos, e muito, assim o mercado pode oscilar entre a alta repentina e a queda, ou vice-versa, com toda a facilidade. Meio-dia está ótimo. Vai livrar-se dele em Taipé?
— Vou.
— Vou precisar de uma confirmação por telex.
— Casey a dará.
— Ela está sabendo? Do plano?
— Sim, agora está. De quantas ações precisará para obter o controle acionário?
— Você devia ter essa informação.
— É o único item que me falta.
— Quando recomprarmos, teremos o bastante para nos dar pelo menos três lugares imediatos na diretoria, e será o fim do Ian. Logo que fizermos parte da diretoria, a Struan estará em nosso poder, e então, muito em breve, farei a fusão da Struan com a Rothwell-Gornt.
— E passará a ser o tai-pan da Casa Nobre.
— É. — Os olhos de Gornt reluziram. Tornou a encher as taças. — Saúde!
Beberam, satisfeitos com sua transação. Mas, bem no íntimo, nenhum deles confiava no outro, nem um pouquinho. Ambos estavam muito contentes por terem planos de emergência... para o caso de uma necessidade,
De cara fechada, os três saíram do Palácio do Governo e entraram no carro de Crosse. Ele foi dirigindo. Sinders sentava-se à frente, Rosemont no banco de trás, ambos agarrados com firmeza às cópias das pastas de Alan, que ainda não haviam lido. A noite estava escura, o céu nublado, o tráfego mais congestionado do que de costume.
Rosemont falou, do banco traseiro:
— Acha que o governador vai ler os originais antes de destruí-los?
— Eu leria — replicou Sinders, sem virar-se para olhar para ele.
— Sir Geoffrey é esperto demais para isso — disse Crosse. — Não destruirá os originais até que sua cópia esteja direitinho nas mãos do ministro, para o caso de você não chegar Iá. Mesmo assim, é astuto demais para ler algo que poderia ser constrangedor para o plenipotenciário de Sua Majestade, e portanto para o governo de Sua Majestade.
Novo silêncio.
Então, incapaz de se conter mais, Rosemont perguntou friamente:
— E quanto ao Metkin, hem? Onde foi o furo, Rog?
— Em Bombaim. O avião deve ter sido sabotado ali, se é que foi sabotagem.
— Puta que o pariu, Rog, tem que ser. Claro que alguém deu a dica. Onde foi o vazamento? O seu maldito toupeira de novo? — Esperou, mas não obteve resposta de nenhum dos dois. — E quanto ao Ivánov, Rog? Vai detê-lo e fazer uma revista surpresa?
— O governador consultou Londres, e eles acharam que não seria sensato criar um incidente.
— E esses cretinos Iá entendem de alguma coisa, pombas! — exclamou Rosemont, com raiva. — É um navio espia, pela madrugada! Aposto cinqüenta contra um alfinete de chapéu que obteríamos os livros de código atuais, daríamos uma olhada no melhor equipamento de vigilância da URSS, e em cinco ou seis peritos do KGB. Certo?
— Claro que tem razão, sr. Rosemont — disse Sinders, secamente. — Mas não podemos, não sem a aprovação necessária.
— Deixe que eu e meus rapazes...
— De maneira alguma!
Com irritação, Sinders pegou os seus cigarros. O maço estava vazio. Crosse ofereceu-lhe o seu.
— Quer dizer que vão deixar que nada lhes aconteça?
— Vou convidar o comandante Suslev ao QG amanhã, e pedir-lhe uma explicação — disse Sinders.
— Gostaria de estar presente.
— Pensarei no assunto.
— Receberá uma permissão oficial antes das nove horas. Sinders falou bruscamente:
— Lamento, sr. Rosemont, mas se eu quiser posso passar por cima de qualquer diretiva dos seus superiores, enquanto estiver aqui.
— Pela madrugada, somos aliados!
— Então, por que deu uma batida no Sinclair Towers, sem ser convidado? — indagou Crosse, vivamente.
Rosemont soltou um suspiro e contou-lhes. Pensativo, Sinders lançou um olhar para Crosse, depois para Rosemont novamente.
— Quem lhe contou que era um esconderijo inimigo, sr. Rosemont?
— Temos uma grande rede de informantes, aqui. Foi parte de um interrogatório. Não posso contar-lhes quem, mas dar-lhes-ei cópias das impressões digitais que tiramos do copo, se as quiserem.
Sinders disse:
— Seriam muito úteis. Obrigado.
— Isso não o absolve de uma batida insensata e não autorizada — disse Crosse, friamente.
— Já pedi desculpas, tá legal? — explodiu Rosemont, empinando o queixo. — Todos cometemos erros. Como Philby, Burgess e Maclean! Londres é danada de esperta, não é? Temos uma dica quente de que ainda há um quarto sujeito... mais alto ainda, igualmente bem colocado e rindo de vocês.
Crosse e Sinders ficaram sobressaltados. Entreolharam-se. A seguir, Sinders virou a cabeça para trás.
— Quem?
— Se eu soubesse, nós o pegaríamos. Philby escapou com tantas coisas nossas que nos custou milhões reagrupá-las e recodificá-las.
Sinders disse:
— Lamento quanto ao Philby. É, todos nos sentimos péssimos em relação a ele.
— Todos cometemos erros, e o único pecado é o fracasso, certo? Se eu tivesse agarrado um par de agentes inimigos ontem à noite, vocês estariam dando vivas. Mas fracassei. Pedi desculpas, tá legal? Vou pedir licença na próxima vez, tá legal?
— Não vai — disse Crosse —, mas nos pouparia a todos muitos aborrecimentos se o fizesse.
— O que foi que ouviu dizer sobre um quarto homem? — perguntou Sinders, o rosto pálido, a barba por fazer deixando-o parecer ainda mais desmazelado.
— No mês passado estouramos outro aparelho comunista, nos Estados Unidos. Porra, são como baratas. Esse aparelho tinha quatro pessoas, duas em Nova York, duas em Washington. O cara de Nova York era Ivan Egorov, outro oficial do secretariado da onu. — Rosemont acrescentou amargamente: — Meu Deus, por que o nosso lado não acorda e enxerga que a maldita onu está infiltrada de agentes, a melhor arma soviética desde que roubaram a porra da nossa bomba! Pegamos Ivan Egorov e a mulher, Alessandra, passando segredos de espionagem industrial, de computadores. Os dois de Washington haviam assumido nomes americanos de pessoas que haviam morrido: um padre católico e uma mulher de Connecticut. Os quatro filhos da mãe estavam ligados a um palhaço da embaixada soviética, um adido que era o seu controlador. Nós o pegamos com a mão na massa, tentando recrutar um dos nossos homens da CIA para espionar para eles. Claro. Mas antes de o mandarmos para fora dos Estados Unidos, demos-lhe um susto tão grande que entregou os outros quatro. Um deles nos deu a dica de que o Philby não era o chefão, de que havia um quarto homem.
Sinders tossiu e acendeu outro cigarro na guimba do que estava fumando.
— O que foi que ele disse? Exatamente.
— Só que a célula de Philby constava de quatro. O quarto é o sujeito que recrutou os outros, o controlador da célula e o principal elo de ligação com os soviéticos. O boato é que ele está Iá em cima. "Super-VIP. "
— De que tipo? Político? Ministério do Exterior? Nobreza?
Rosemont deu de ombros.
— Apenas que é "Super-VIP".
Sinders fitou-o, depois não fez mais perguntas. Crosse dobrou na Sinclair Road, parou no seu próprio apartamento para deixar Sinders saltar, depois dirigiu até o consulado, que ficava perto do Palácio do Governo. Rosemont apanhou uma cópia das impressões digitais, depois levou Crosse à sua sala, que era ampla e bem provida de bebidas alcoólicas.
— Uísque?
— Vodca com uma pitada de suco de lima — pediu Crosse, de olho nas pastas de Alan, que Rosemont largara descuidadamente sobre a escrivaninha.
— Saúde.
Encostaram os copos. Rosemont tomou um grande gole do seu uísque.
— No que está pensando, Rog? Passou o dia todo como um gato em telhado de zinco quente.
Crosse fez um gesto de cabeça na direção das pastas.
— São elas. Quero aquele toupeira. Quero que a Sevrin seja destruída.
Rosemont franziu a testa.
— Muito bem — falou, após uma pausa. — Vamos ver o que temos aqui.
Pegou a primeira pasta, pôs os pés em cima da mesa e começou a ler. Não levou nem dois minutos para terminar, a seguir passou-a a Crosse, que lia com rapidez igual. Celeremente leram as pastas, uma por uma. Crosse fechou a última página da última delas e devolveu-a. Acendeu um cigarro.
— Coisa demais para ser comentada agora — murmurou Rosemont, distraidamente.
Crosse percebeu uma estranha nuance na voz do americano, e perguntou-se se estaria sendo testado.
— Uma coisa salta aos olhos — disse, observando Rosemont. — Não se comparam em qualidade àquela outra, a que interceptamos.
Rosemont concordou.
— Também saquei isso, Rog. Como o explica?
— Parecem chochas. Um bocado de perguntas sem resposta. Não se toca na Sevrin, nem no toupeira. — Crosse ficou brincando com o copo de vodca, depois terminou de beber. — Estou desapontado.
Rosemont rompeu o silêncio.
— Então, ou a que pegamos era única e diferente, escrita de modo diferente, ou estas são falsas, ou falsificadas?
— É.
Rosemont soltou a respiração.
— O que nos leva de volta a Ian Dunross. Se estas são falsas, ele ainda está de posse das verdadeiras.
— Ou de fato, ou na cabeça.
— O que quer dizer?
— Dizem que ele tem uma memória fotográfica. Podia ter destruído as verdadeiras e preparado estas, mas ainda se lembrar das outras.
— Ah, então ele pode ser interrogado, se... se nos tiver tapeado.
Crosse acendeu outro cigarro.
— É. Se os altos poderes decidirem que é necessário. — Ergueu os olhos para Rosemont. — Claro que um interrogatório desses seria altamente perigoso, e teria que ser ordenado exclusivamente de acordo com a Lei dos Segredos Oficiais.
O rosto de Rosemont ficou ainda mais sombrio.
— Devo pegar a bola e correr?
— Não. Primeiro temos que ter certeza, o que deve ser relativamente fácil. — Crosse lançou um olhar para o barzinho.
— Posso?
— Claro. Vou tomar outra dose de uísque. Crosse estendeu-lhe o copo cheio.
— Vou fazer um trato com você: você coopera de verdade, completamente, não faz nada sem me avisar com antecedência, nada de segredos, nada de pôr o carro adiante dos bois...
— Em troca do quê?
Crosse deu o seu sorrisinho seco e apanhou algumas fotocópias.
— Será que lhe agradaria influenciar, quem sabe até controlar, certos candidatos presidenciais... quem sabe até mesmo uma eleição?
— Não estou entendendo.
Crosse entregou-lhe as cartas de Thomas K. K. Lim que Armstrong e sua equipe haviam apanhado na batida feita ao Lo Dentuço, dois dias antes.
— Parece que certas famílias americanas muito ricas e bem-relacionadas estão de combinação com certos generais americanos para construir diversos campos de pouso grandes, mas desnecessários, no Vietnam, para obter lucro pessoal. Isso aqui documenta como, quando e quem. — Crosse contou-lhe onde e como os documentos haviam sido encontrados, e acrescentou:
— O senador Wilf Tillman, o tal que está aqui agora, não tem pretensões a ser candidato presidencial? Imagino que faria de você chefe da CIA, em troca dessas prendas,.. se você quisesse dá-las a ele. Estas duas ainda são mais suculentas. — Crosse colocou-as sobre a mesa. — Documentam como certos políticos bem-relacionados e as mesmas bem-relacionadas famílias obtiveram aprovação do Congresso para canalizar milhões para um programa de ajuda totalmente fraudulento no Vietnam. Oito milhões já foram entregues.
Rosemont leu as cartas. Seu rosto ficou branco como cal, Pegou o telefone.
— Quero falar com Ed Langan. — Esperou um momento, depois seu rosto ficou repentinamente roxo. — Estou me lixando! — berrou. — Tire a bunda da cadeira e mande o Ed vir para cá imediatamente. — Bateu o telefone com força, dizendo os maiores palavrões, abriu a escrivaninha, achou um vidrinho de pílulas antiácidas e tomou três delas. — Desse jeito nunca vou chegar aos cinqüenta anos — resmungou. — Rog, esse palhaço, esse tal de Thomas K. K. Lim, podemos pôr as mãos nele?
— À vontade, se puderem encontrá-lo. Está em algum lugar da América do Sul. — Crosse largou na mesa outro papel.
— Este é um relatório confidencial da Anticorrupção. Não deve ter nenhuma dificuldade em descobri-lo.
Rosemont leu o papel.
— Meu Deus! — Depois de uma pausa, disse: — Isso pode ficar entre nós? Vai quebrar o telhado de vidro de alguns dos nossos monumentos nacionais.
— Naturalmente. Vamos fazer um acordo? Nada escondido, de ambos os lados?
— Tá legal. — Rosemont foi até o cofre e destrancou-o.
— Uma mão lava a outra. — Achou a pasta que estava procurando, tirou alguns documentos, devolveu a pasta ao lugar e trancou de novo o cofre. — Tome, são fotocópias. Pode ficar com elas.
O cabeçalho das fotocópias dizia "Lutador pela Liberdade". Estavam datadas daquele mês e do mês passado. Crosse percorreu-as rapidamente, soltando um assobio de vez em quando. Eram todos relatórios de espionagem, de qualidade excelente. Todos os itens tratavam de Cantão, de coisas acontecidas dentro e ao redor da capital vital da província de Kwantung: movimentos de tropas, promoções, indicações para a junta governamental local e para o Partido Comunista, inundações, escassez de víveres, os militares, quantidade e tipo de mercadorias da Alemanha Oriental e da Tchecoslováquia encontradas nas lojas.
— Onde arranjou isto? — perguntou.
— Temos um aparelho operando em Cantão. Esse é um dos relatórios deles, que recebemos mensalmente. Quer uma cópia?
— Quero, sim, obrigado. Vou verificar a exatidão delas através das nossas fontes.
— São exatas, Rog. Claro que são altamente sigilosas, certo? Não quero os meus rapazes descobertos como o Fong-fong. Isso fica entre mim e você, está bem?
— Está bem.
O americano se levantou e estendeu a mão.
— E, Rog, desculpe a batida.
— Sei.
— Ótimo. Quanto a esse palhaço, Lim, vamos achá-lo. — Rosemont espreguiçou-se, cansado, depois foi servir-se de mais um drinque. — Rog?
— Não, obrigado, já vou andando — disse Crosse. Rosemont cutucou as cartas com medo.
— Quanto a elas, obrigado. É, obrigado, mas... — Parou por um momento, à beira de lágrimas de raiva. — Às vezes me dá tanta náusea ver o que a nossa gente faz por uma pilha de grana, mesmo que a porra da pilha seja de ouro puro, que me dá vontade de morrer. Sabe o que estou querendo dizer?
— Claro que sim! — disse Crosse, a voz bondosa e gentil, mas pensando intimamente: "Como você é ingênuo, Stanley!"
A seguir foi embora, dirigiu-se ao QG da polícia, e verificou as impressões digitais no seu arquivo particular. Depois voltou a entrar no seu carro, guiando a esmo na direção de West Point. Quando teve certeza de não estar sendo seguido, parou na primeira cabine telefônica e discou. Dali a um momento, atenderam, do outro lado. Nenhuma resposta, apenas o respirar. Prontamente, Crosse tossiu a tosse seca e áspera de Arthur e falou, numa perfeita imitação da voz de Arthur:
— O sr. Lop-sing, por favor.
— Aqui não há nenhum sr. Lop-ting. Lamento, é engano. Satisfeito, Crosse reconheceu a voz de Suslev.
— Quero deixar um recado — disse, continuando o código na mesma voz que tanto ele quanto Jason Plumm usavam ao telefone, ambos achando de grande utilidade fingir ser o Arthur, quando necessário, protegendo ainda mais a si mesmos e a suas identidades verdadeiras.
Quando o código foi completado, Suslev disse:
— E?
Crosse deu um débil sorriso, feliz por poder tapear Suslev.
— Li o material. O Nosso Amigo também.
"Nosso Amigo" era o codinome de Arthur para ele próprio, Roger Crosse.
— Ah! E?
— E ambos concordamos que é excelente. "Excelente" era uma palavra-código que significava informação falsa ou falsificada.
Uma longa pausa.
— E daí?
— O Nosso Amigo pode entrar em contato com você,
no sábado, às quatro? (Roger Crosse pode entrar em contato com você logo mais, às dez horas, num telefone seguro?)
— Pode. Obrigado por telefonar. (Pode. Mensagem compreendida. )
Crosse desligou o aparelho.
Pegou outra moeda e discou de novo.
— Alô?
— Alô, Jason, aqui fala Roger Crosse — disse amavelmente.
— Ora, alô, superintendente, que surpresa agradável — replicou Plumm. — O nosso jogo de bridge de amanhã ainda está de pé? (Interceptou as pastas de Alan M. Grant?)
— Está — disse Crosse, acrescentando com naturalidade: — Mas, ao invés de seis, que tal marcarmos para as oito? (Sim, mas estamos a salvo, não foram mencionados nomes. )
Houve um grande suspiro de alívio. Depois, Plumm perguntou:
— Devo avisar os outros? (Vamos nos encontrar hoje, conforme o combinado?)
— Não, não há motivo para incomodá-los hoje, podemos deixar para amanhã. (Não, vamos nos encontrar amanhã. )
— Ótimo. Obrigado pelo telefonema.
Crosse voltou pela rua movimentada. Muito satisfeito consigo mesmo, entrou no seu carro e acendeu um cigarro. "O que será que o Suslev — ou seus patrões — pensariam se soubessem que eu sou o verdadeiro Arthur, não Jason Plumm? Segredos dentro de segredos dentro de segredos, e Jason o único que sabe quem Arthur realmente é!"
Soltou uma risadinha abafada.
"O KGB ficaria furioso. Não gostam de segredos de que não estejam a par. E ficariam ainda mais furiosos se soubessem que fui eu que recrutei Plumm e formei a Sevrin, e não o contrário. "
Fora fácil arranjar a coisa. Quando Crosse fazia parte do Serviço de Informações Militar na Alemanha, no finzinho da guerra, murmuraram-lhe particularmente que Plumm, perito em sinais, estava operando um transmissor clandestino para os soviéticos. Em um mês, travara conhecimento com Plumm e verificara que era verdade, mas a guerra terminara quase imediatamente. Assim, guardara a informação para uso futuro... para negociar, ou quem sabe para o caso de querer mudar de lado. No ramo da espionagem nunca se sabe quando o estão incriminando, ou atraiçoando-o, ou vendendo-o, por algo ou alguém mais valioso. Sempre se precisa ter segredos para barganhar. Quanto mais importantes os segredos, mais seguro se está, porque nunca se sabe quando alguém, um subalterno ou um superior, cometerá o erro que o deixará desprotegido e impotente como uma borboleta num alfinete. "Como o Voranski. Como o Metkin. Como o Dunross, Grigóri Suslev, com suas impressões digitais tiradas do copo agora fichadas na CIA, e portanto preso numa armadilha que eu preparei. "
Crosse riu alto. Engrenou o carro e meteu-se no tráfego. "Mudar de lado e atiçá-los todos uns contra os outros torna a vida excitante", disse com seus botões. "É, os segredos realmente tornam a vida um bocado excitante. "
21h45m
Pok Liu Chau era uma ilhazinha a sudoeste de Aberdeen, e o jantar foi a melhor comida chinesa que Bartlett já provara. Estavam no oitavo prato, pequenas tigelas de arroz. Tradicionalmente, o arroz era o último prato de um banquete.
— Na verdade, você não devia comê-lo, Linc! — explicou Orlanda, rindo. — É uma forma de enfatizar ao anfitrião que você está quase estourando, de tão cheio!
— E é a pura verdade, Orlanda! Quillan, foi fantástico!
— Foi, foi, sim, Quillan — ecoou ela. — Escolheu magnificamente.
O restaurante ficava junto de um pequeno molhe perto de uma aldeia pesqueira — desmazelado, iluminado por lâmpadas sem proteção, mobiliado com mesas cobertas com oleados, cadeiras toscas e ladrilhos quebrados no chão. Por trás dele ficava uma fila de aquários onde a pesca do dia da ilha era guardada para venda. Sob a orientação do proprietário, tinham escolhido entre o que nadava no aquário: pitus, lulas, camarões, lagostas, siris e peixes de todos os tipos e tamanhos.
Gornt discutira o cardápio com o proprietário, acertando quais os peixes a serem escolhidos. Ambos eram peritos, e Gornt, um cliente importante. Mais tarde, tinham se sentado a uma mesa no pátio. Estava fresco, e tinham tomado cerveja, felizes com a confraternização. Todos sabiam que, ao menos durante o jantar, haveria uma trégua, sem necessidade de estarem em guarda.
Dali a pouco chegara o primeiro prato... montes de suculentos camarões dourados no óleo, com gosto de mar, deliciosos como nenhuns outros. Depois, polvos pequeninos com alho, gengibre, pimenta e todos os condimentos do Oriente. Depois asas de galinha frita, que comeram com sal marinho, um grande peixe abafado com soja, cebolinha fresca e gengibre, numa travessa, a cabeça, o pitéu do peixe, dado a Bartlett, como convidado de honra.
— Puxa, quando vi esta espelunca, desculpem, este lugar, achei que vocês estavam me gozando.
— Ah, meu caro — explicou Gornt —, é preciso conhecer os chineses. Não ligam para o ambiente, só para a comida. Ficariam muito desconfiados de qualquer restaurante que desperdiçasse dinheiro na decoração, nas toalhas de mesa ou em velas. Gostam de ver o que estão comendo... por esse motivo a luz é tão forte. Os chineses sentem-se muito bem quando estão comendo. São como os italianos. Adoram rir, comer, beber e arrotar...
Todos bebiam cerveja.
— Ela combina com a comida chinesa, embora o chá chinês seja melhor... é mais digestivo e contrabalança todo o óleo.
— Por que está sorrindo, Linc? — perguntou Orlanda. Estava sentada entre os dois.
— Por nada. Só estava pensando que vocês realmente sabem comer, aqui. O que é isso aqui?
Ela deu uma olhada no prato de arroz frito misturado com vários tipos de peixe.
— Lula.
— O quê?
Os outros acharam graça, e Gornt falou:
— Os chineses dizem que, se as costas delas dão para o céu, então pode-se comer. Vamos indo?
Logo que estavam a bordo e mar adentro, longe do molhe, foram servidos café e conhaque. Gornt disse:
— Querem me dar licença um instantinho? Tenho que trabalhar nuns papéis. Se sentirem frio, usem o salão da proa.
Foi Iá para baixo.
Pensativo, Bartlett ficou bebericando o conhaque. Orlanda estava à sua frente, os dois recostados em espreguiçadeiras no convés da popa. Subitamente, sentiu vontade de que aquele barco fosse seu, e eles estivessem sozinhos. Ela o fitava. Sem que ele pedisse, ela se aproximou e colocou a mão na nuca dele, massageando os músculos suave e habilmente.
— Que gostosura! — disse, desejando-a.
— Ah! — replicou ela, muito satisfeita — sou muito boa em massagem, Linc. Tomei aulas com um japonês. Costuma ser massageado regularmente?
— Não.
— Mas devia. É muito importante para o corpo, muito importante manter cada músculo ajustado. Você ajusta os motores do seu avião, não é? Então por que não o seu corpo? Amanhã vou providenciar isso para você. — Enfiou as unhas no pescoço dele, maliciosamente. — É massagista mulher, mas não pode ser tocada, heya?
— Qual é, Orlanda!
— Eu estava brincando, bobo — falou imediatamente, com vivacidade, afastando facilmente a repentina tensão. — A mulher é cega. Antigamente, na China — e isso ainda acontece hoje, em Formosa —, dava-se aos cegos o monopólio da arte e profissão da massagem, já que seus dedos são seus olhos. É, sim. Claro que há muitos vigaristas e charlatães. Em Hong Kong a gente logo sabe quem é bom e quem não é. Isto aqui é uma aldeiazinha. — Ela se inclinou para a frente e roçou os lábios contra o pescoço dele. — Isso é por você ser bonito.
— Eu é que tenho que dizer isso — ele riu. Abraçou-a, enfeitiçado, e deu-lhe um ligeiro aperto, muito cônscio do capitão ao leme, a três metros de distância.
— Quer ir ver o resto do barco? — perguntou ela.
— Você também lê pensamentos? — exclamou, fitando-a. Ela riu, o lindo rosto um espelho de alegria.
— Não é o papel da moça perceber se o seu... seu acompanhante está alegre ou triste, querendo ficar sozinho, ou outra coisa qualquer? E ensinaram-me a usar meus olhos e meus sentidos, Linc. Claro que tento ler seus pensamentos, mas se eu estiver errada você precisa me dizer, para eu melhorar. Mas, se estiver certa... não é muito melhor para você?
"E muito mais fácil prendê-lo de modo a que não possa escapar. Controlá-lo numa linha tão fina que você possa facilmente rompê-la, se o desejar. Minha arte consiste em tornar essa linha finíssima uma malha de aço.
"Ah, mas não foi fácil aprender! Quillan foi um professor cruel, oh, tão cruel! A maior parte da minha educação foi feita com raiva, com Quillan me xingando. "
— Puta que o pariu, nunca vai aprender a usar a porra dos seus olhos? Devia estar claro como cristal, quando cheguei, que eu estava me sentindo um lixo, que tive um dia pesadíssimo! Que merda, por que não me deu logo uma bebida, não me fez um carinho imediatamente? E por que não calou essa maldita boca por dez minutos enquanto eu me recuperava? Bastava ser meiga e compreensiva por dez malditos minutos, e eu logo estaria bem!
— Mas, Quillan — choramingara ela, em meio às lágrimas, assustada pela fúria dele —, você entrou tão zangado que fiquei nervo...
— Já lhe disse umas cinqüenta vezes para não ficar nervosa só porque eu estou nervoso, porra! Seu papel é aliviar a minha tensão! Use os seus malditos olhos, ouvidos e sexto sentido! Só preciso de dez minutos, depois fico dócil e manso de novo. Puta que o pariu, não cuido de você o tempo todo? Não uso os meus malditos olhos e tento tranqüilizá-la? Todo mês, na mesma época, você fica irritadiça, não é? Não me esforço para ser o mais calmo possível e acalmar você? Hem?
— É, mas...
— Para o diabo com o mas! Por Deus, agora estou mais puto da vida do que quando cheguei! É culpa sua, porque é burra, não é feminina, e justamente você não podia ser assim!
Orlanda lembrava-se de como ele saíra do apartamento, batendo a porta, e ela desatara a chorar, o jantar de aniversário que preparara arruinado e a noite estragada. Mais tarde, ele voltara, dessa vez calmo, tomara-a nos braços e segurara-a com carinho, enquanto ela chorava, desculpando-se pela briga que reconhecia ter sido desnecessária e por culpa dela.
— Ouça, Orlanda — dissera, com muita meiguice —, não sou o único homem que você terá que controlar nesta vida, nem o único de quem dependerá... é um fato reconhecido que as mulheres dependem de algum homem, não importa o quanto ele seja terrível, mau e difícil... É tão fácil para uma mulher manter o controle! Ah, tão fácil, se usar os olhos, entender que os homens são crianças, e que, de vez em quando (a maior parte do tempo), são estúpidos, petulantes e terríveis. Mas eles fornecem o dinheiro, e é duro fazer isso, muito duro. É muito duro continuar fornecendo o dinheiro, dia após dia, seja você quem for. Moh ching moh meng... sem dinheiro, sem vida. Em troca, a mulher tem que fornecer a harmonia; o homem não pode, não o tempo todo. Mas a mulher sempre pode animar o seu homem, se quiser, sempre pode tirar-lhe o veneno. Sempre. Basta ser calma, amorosa, terna e compreensiva por algum tempo. Vou lhe ensinar o jogo da vida. Vai ter o seu doutorado em sobrevivência, como mulher, mas tem que trabalhar...
"Ah, e como trabalhei", pensou Orlanda, sombriamente, recordando todas as suas lágrimas. "Mas agora eu sei. Agora posso fazer instintivamente o que me forcei a aprender. "
— Venha, vou lhe mostrar a parte da frente do navio. Levantou-se, cônscia dos olhares do capitão, e foi na frente, confiante.
Enquanto andavam, tomou momentaneamente o braço de Linc, depois segurou o corrimão do corredor e desceu. O salão era grande, com espreguiçadeiras, sofás e poltronas presos ao chão. O barzinho era bem sortido.
— A cozinha fica no castelo da proa, junto com os alojamentos da tripulação — disse ela. — São acanhados, mas bons para Hong Kong. — Um pequeno corredor conduzia à proa. Quatro cabines, duas com cama de casal, duas com beliches. Jeitosas, impecáveis, convidativas. — O salão principal e a suíte principal de Quillan ficam na popa. São luxuosíssimos. — Deu um sorriso pensativo. — Ele curte o melhor.
— É — falou Bartlett. Beijou-a, e ela correspondeu integralmente. O desejo dele deixou-a mole e fraca, e ela abandonou-se, igualando a sua paixão, certa de que ele pararia, e de que ela não teria que detê-lo.
O jogo fora planejado assim.
Sentiu a força dele. Prontamente apertou-se contra ele, movendo-se ligeiramente. As mãos dele percorreram seu corpo, as dela corresponderam. Era glorioso estar nos braços dele, melhor do que jamais fora com Quillan, que fora sempre o professor, sempre no controle, sempre não-partilhável. Já estavam deitados quando Bartlett se afastou. O corpo dela clamava pelo dele, mas assim mesmo ela exultou.
— Vamos voltar para o convés — ouviu-o dizer, a voz rouca.
Gornt atravessou o belo salão, entrou na suíte principal e trancou a porta atrás de si. A garota dormia suavemente na imensa cama, sob a coberta leve. Ficou parado ao pé da cama, curtindo a visão, antes de tocá-la. Ela acordou devagarinho.
— Ayeeyah, como dormi bem, Honrado Senhor. Sua cama é tão convidativa! — falou em xangaiense, com um sorriso e um bocejo, e espreguiçou-se gloriosamente, como o faria uma gatinha. — Comeu bem?
— Excelentemente — replicou, no mesmo idioma. — Sua comida também estava boa?
— Ah, sim, deliciosa! — disse, cortesmente. — O Taifei-ro Cho me trouxe os mesmos pratos que vocês comeram. Gostei mais do polvo com feijão-preto e molho de alho. — Sentou-se na cama e recostou-se contra os travesseiros de seda, completamente nua. — Quer que me vista e suba ao convés, agora?
— Não, gatinha, ainda não.
Gornt sentou-se na cama, estendeu a mão e tocou-lhe os seios. Ela sentiu um ligeiro arrepio percorrê-la. Seu nome de guerra chinês era Beldade da Neve, e ele a contratara por uma noite no Cabaré Happy Hostess. Pensara primeiro em trazer Mona Leung, sua namorada, mas ela era independente demais para ficar Iá embaixo, quieta, e só subir quando ele mandasse.
Escolhera Beldade da Neve com muito cuidado. Sua beleza era extraordinária, de rosto, de corpo e de textura da pele.
Tinha dezoito anos, e fazia pouco mais de um mês que estava em Hong Kong. Um amigo de Formosa falara da raridade dela, e que estava prestes a ingressar no Cabaré Happy Hostess, vindo do clube irmão em Formosa. Duas semanas antes, ele estivera Iá e fizera um acordo lucrativo para ambos. Hoje, quando Orlanda lhe contara que ia jantar com Bartlett e ele os convidara para virem a bordo, prontamente ligara para o Happy Hostess, comprara a noite de Beldade da Neve no clube e a trouxera para bordo.
— Vou fazer uma brincadeira com um amigo, hoje — dissera à moça. — Quero que fique aqui nesta cabine, neste lugar, até que eu a leve ao convés. Pode demorar uma ou duas horas, mas você tem que ficar aqui, sem fazer nenhum barulho, até que eu venha buscá-la.
— Ayeeyah, neste palácio flutuante estou disposta a ficar uma semana, sem cobrar nada. Só a comida e o champanha... embora dormir junto fosse cobrado por fora. Posso dormir na cama, se quiser?
— Pois não, mas por favor tome primeiro uma chuveirada.
— Uma chuveirada? Os deuses sejam louvados! Água quente e fria? Será o paraíso... essa falta d'água não é nada higiênica.
Gornt a trouxera naquela noite para atormentar Orlanda, se decidisse atormentá-la. Beldade da Neve era muito mais moça, mais bonita, e ele sabia que, ao vê-la num dos robes elegantes que ela própria já usara, Orlanda ia ter um ataque. Durante todo o jantar, rira consigo mesmo, imaginando quando deveria apresentá-la para obter o máximo efeito: para excitar Bartlett e para lembrar a Orlanda que já era velha, pelos padrões de Hong Kong, e que sem a ajuda dele jamais conseguiria Bartlett, não do jeito que queria.
"Será que quero que ela se case com Bartlett?", perguntou a si mesmo, confuso.
"Não. E no entanto, se Orlanda fosse mulher de Bartlett, ele estaria sempre em meu poder, porque ela está e sempre estará. Ela ainda não se esqueceu disso. Tem sido obediente e filial. E assustada. "
Ele riu. "Ah, a vingança será doce quando eu descer o pau em você, minha cara. O que farei, algum dia. É, minha cara, não esqueci os risinhos de deboche de todos aqueles filhos da mãe de uma figa — Pug, Plumm, Havergill e o maldito Ian Dunross — quando souberam que você mal pôde esperar para se meter na cama com um garanhão com a metade da minha idade.
"Devo dizer-lhe agora que você é minha mui jai?"
Quando Orlanda estava com treze anos, a sua mãe xangaiense viera vê-lo.
— Os tempos estão muito difíceis, senhor, nossas dívidas para com a companhia são imensas, e sua paciência e bondade são excessivas.
— Os tempos estão difíceis para todos — dissera-lhe.
— Infelizmente, desde a semana passada o departamento do meu marido não mais existe. No fim do mês, terá que sair da companhia, depois de dezessete anos de serviço, e não poderemos pagar o que lhe devemos.
— Eduardo Ramos é um bom homem, e facilmente encontrará outro emprego melhor.
— Yin ksiao shih ta — dissera ela —, perdemos muito por causa de uma coisa pequena.
— Joss — sentenciara ele, esperando que a armadilha estivesse preparada e que todas as sementes que plantara fossem finalmente dar frutos.
— Joss — concordara ela. — Mas existe Orlanda.
— O que é que tem Orlanda?
— Quem sabe podia ser uma mui jai.
Uma mui jai era uma filha dada por um devedor a um credor para sempre, como pagamento de dívidas que não poderiam ser pagas de outra maneira... para ser criada, usada ou dada a outrem, como o credor quisesse. Era um antigo costume chinês, e dentro da lei.
Gornt se recordava da satisfação que sentira. As negociações duraram várias semanas. Gornt concordara em cancelar as dívidas de Ramos (dívidas que Gornt encorajara habilmente), concordara em reempossar Ramos, dando-lhe uma modesta pensão e ajuda para estabelecer-se em Portugal, e em pagar os estudos de Orlanda nos Estados Unidos. Em troca, os Ramos prometeram entregar-lhe Orlanda, virgem e adequadamente enamorada, no ou antes do seu décimo oitavo aniversário. Não haveria recusa.
— Isso, por todos os deuses, será um segredo perpétuo entre nós. Também acho que seria igualmente melhor esconder dela esse segredo, senhor, para sempre. Mas nós sabemos, e ela saberá, onde fica a sua tigela de arroz.
Gornt abriu um sorriso. "Os anos bons valeram toda a paciência, o planejamento e o pouco dinheiro envolvido. Todos lucraram", disse consigo mesmo, "e ainda há satisfação por vir."
"É", pensou, concentrando-se em Beldade da Neve.
— A vida é muito boa — disse, acariciando-a.
— Estou feliz de que esteja feliz, Honrado Senhor. Estou feliz também. O seu banho de chuveiro foi um presente dos deuses. Lavei o cabelo, tudo. — Sorriu. — Se não quer fazer ainda a brincadeira com seus amigos, quer ir para a cama comigo?
— Quero — replicou ele, encantado, como sempre, pela franqueza sem rodeios de uma parceira de cama chinesa. O pai lhe explicara, anteriormente:
— Você lhes dá dinheiro, elas lhe dão juventude, as Nuvens e a Chuva, e o entretêm. Na Ásia, é uma troca justa e honrada. Quanto maior a juventude delas, os risos e a gratificação, mais você deve pagar. Esse é o acordo, mas não espere romance ou lágrimas de verdade. Apenas divertimento e sexo por algum tempo. Não abuse do que é justo!
Alegremente, Gornt se despiu e deitou-se ao lado dela. A moça correu as mãos pelo peito dele, os pêlos escuros, os músculos esguios, e começou. Logo estava fazendo os pequenos ruídos de paixão, encorajando-o. E embora a mama-san lhe tivesse dito que esse quai loh era diferente, e que não haveria necessidade de fingir, lembrou-se instintivamente da primeira regra de uma parceira de cama:
"Nunca deixe o seu corpo se envolver com um freguês, pois então você não poderá atuar com gosto ou audácia. Nunca se esqueça; quando estiver com um quai loh, deve sempre fingir que está adorando, que atingiu as Nuvens e Chuva, caso contrário ele a considerará uma afronta à sua masculinidade, de alguma forma. Os quai loh são incivilizados, e jamais entenderão que o yin não pode ser comprado, e que seu presente da cópula é exclusivamente para o prazer do freguês".
Quando Gornt acabou e seu coração voltou ao normal, Beldade da Neve saiu da cama e foi para o banheiro, onde tomou outro banho de chuveiro, cantando alegremente. Eufórico, ele descansou e colocou as mãos sob a cabeça. Logo ela voltou, trazendo uma toalha.
— Obrigado — disse. Ele se enxugou, e ela voltou a deitar ao seu lado.
— Ah, sinto-me tão limpa e maravilhosa! Quer mais uma vez?
— Agora não, Beldade da Neve. Agora pode descansar. Vou deixar minha mente vagar. Deixou o yang muito satisfeito. Informarei à mama-san.
— Obrigada — disse ela polidamente. — Gostaria que fosse meu freguês especial.
Ele balançou a cabeça, satisfeito com ela, com seu calor e sensualidade. Quando seria melhor para ela subir ao convés?, perguntou-se de novo, certo de que Bartlett e Orlanda estariam ali agora, e não na cama, como estaria uma pessoa civilizada.
Deu uma risadinha abafada.
Havia uma vigia ao lado da cama, e ele podia ver as luzes de Kowloon à distância, Kowloon e o arsenal da marinha de Kowloon. Os motores roncavam docemente, e dali a um momento ele saiu da cama e se dirigiu para o armário, onde havia camisolas, roupas de baixo, robes multicoloridos caríssimos e finos vestidos que comprara para Orlanda. Divertia-o guardá-los para outras usarem.
— Enfeite-se bastante e vista isso. — Entregou-lhe um cheong-sam longo de seda amarela, que tinha sido um dos prediletos de Orlanda. — Sem nada por baixo.
— Pois não. Puxa, mas como é lindo! Ele começou a vestir-se.
— Se minha brincadeira der certo, você pode ficar com ele, como gratificação — falou.
— Ah! Então, tudo será como deseja — disse, fervorosamente, e sua cobiça sincera fê-lo achar graça.
— Vamos primeiro largar meus passageiros no lado de Hong Kong. — Apontou pela vigia. — Está vendo aquele grande cargueiro, o que está atracado no cais, com a bandeira da foice e do martelo?
— Ah, sim, senhor. O navio agourento? Já estou vendo!
— Quando passarmos por ele, por favor, suba ao convés.
— Compreendo. O que devo dizer?
— Nada. Apenas sorria docemente para o homem e para a mulher, depois para mim, e volte de novo para cá e me espere.
Beldade da Neve riu.
— Só isso?
— É, seja apenas meiga, linda e sorria... especialmente para a mulher.
— Ah! Devo gostar dela ou odiá-la? — perguntou imediatamente.
— Nem uma coisa nem outra — replicou ele, impressionado com a argúcia dela, cônscio de que as duas se odiariam à primeira vista.
Na intimidade da sua cabine no Soviétski Ivánov, o comandante Grigóri Suslev terminou de codificar a mensagem urgente, depois sorveu um pouco de vodca, verificando outra vez o cabograma.
"Ivánov para o Centro. Arthur informa que as pastas podem ser falsificadas. O amigo dele me dará as cópias hoje à noite. Encantado por informar que o amigo de Arthur também interceptou a informação do porta-aviões. Recomendo que receba uma bonificação imediata. Mandei cópias extras para Bangkok, pela mala postal, e também para Londres e Berlim, como medida de segurança. "
Satisfeito, recolocou os livros de código no cofre e trancou-o, depois pegou o telefone.
— Mande para cá o sinaleiro de serviço. E o imediato. Destrancou a porta da cabine, voltou e foi olhar pela vigia para o porta-aviões, do outro lado do porto. Logo viu o barco de passeio perto do seu navio. Reconheceu o Sea Witch. Casualmente, apanhou o binóculo e focalizou-o. Viu Gornt no convés de ré, uma moça e outro homem, de costas para ele, sentados à volta de uma mesa. As lentes de alta potência varreram o navio, e sua inveja cresceu vertiginosamente. "Aquele filho da mãe sabe viver", pensou. "Que beleza! Se eu pudesse ter um barco desses no mar Cáspio, ancorado em Baku!
"Não é esperar demais", disse com seus botões, vendo o Sea Witch passar, "não depois de tantos serviços, tão lucrativos para a causa. Muitos comissários têm... os mais antigos”.
Novamente, voltou a focalizar o grupo. Outra moça subiu ao convés, uma beldade asiática, e então ouviu-se uma batidinha polida à porta.
— Boa noite, camarada comandante — disse o sinaleiro. Pegou a mensagem e assinou o recibo.
— Envie-a imediatamente.
— Sim, senhor.
O imediato chegou. Vassíli Boradinov era um sujeito bonitão e vigoroso, na casa dos trinta anos, capitão, membro do KGB, formado pelo departamento de espionagem da Universidade de Vladivostok, com patente de capitão de navio mercante.
— Sim, camarada comandante?
Suslev entregou-lhe um cabograma decifrado tirado da pilha que havia na sua mesa. Dizia:
"O imediato Vassíli Boradinov tomará o lugar de Dmítri Metkin como comissário do Ivánov, mas o comandante Suslev estará no comando em todos os níveis, até que sejam tomadas providências alternativas".
— Parabéns — disse.
Boradinov sorriu de orelha a orelha.
— Sim, senhor. Obrigado. O que quer que eu faça? Suslev ergueu a chave do cofre.
— Se eu não entrar em contato com você, nem voltar até a meia-noite de amanhã, abra o cofre. As instruções estão num pacote marcado "Emergência Um". Elas lhe dirão como proceder. A seguir... — Entregou-lhe um envelope lacrado. —
Aqui há dois números de telefone onde posso ser encontrado. Abra-o apenas numa emergência.
— Sim, senhor — disse o homem mais moço, o rosto orvalhado de suor.
— Não precisa se preocupar. Será perfeitamente capaz de assumir o comando.
— Espero que isso não seja necessário.
— Eu também, meu jovem amigo — riu Grigóri Suslev. — Por favor, sente-se. — Serviu duas vodcas. — Você merece a promoção.
— Obrigado. — Boradinov hesitou. — O que houve com Metkin?
— Primeiro, cometeu um erro estúpido e desnecessário. Depois, foi traído. Ou traiu-se. Ou o amaldiçoado sei o seguiu e o apanhou. Ou foi a CIA. Seja Iá o que tenha acontecido, o pobre idiota nunca podia ter abusado da sua autoridade e se metido em tal perigo. Foi uma burrice se arriscar, sem falar em toda a nossa segurança. Uma burrice!
O imediato se mexeu, inquieto, na cadeira.
— Qual é o nosso plano?
— Negar tudo. E não fazer nada, por enquanto. Nossa partida está prevista para a meia-noite de terça-feira; vamos nos ater ao plano.
Boradinov olhou pela vigia para o porta-aviões, o rosto tenso.
— Uma pena. Aquele material podia ter nos ajudado um bocado.
— Que material? — perguntou Suslev, estreitando os olhos.
— Não sabia, senhor? Antes de Dmítri sair, o coitado murmurou que achava que dessa vez íamos obter umas informações incríveis — uma cópia do sistema de orientação e uma cópia do manifesto de carga de armamentos deles, incluindo as armas atômicas. Era por esse motivo que estava indo pessoalmente. Era importante demais para enviar um mensageiro comum. Devo dizer-lhe que me ofereci para ir no seu lugar.
Suslev disfarçou o choque ao saber que Metkin fizera confidencias.
— Onde foi que ele ouviu isso? O outro deu de ombros.
— Não disse. Imagino que o marinheiro americano tenha lhe contado quando Dmítri falou com ele no telefone público para combinar a entrega. — Enxugou uma gota de suor. — Eles vão dobrá-lo, não é?
— Ah, vão — disse Suslev secamente, querendo instruir adequadamente o seu subordinado. — Podem dobrar qualquer um. É por isso que temos que estar preparados. — Tateou a leve saliência da cápsula de veneno na ponta da lapela, e Boradinov estremeceu. — É melhor tomá-lo depressa.
— Filhos da mãe! Alguém deve tê-los avisado de que deviam capturá-lo antes que o tomasse. Terrível. São todos uns animais.
— O... o Dmítri disse mais alguma coisa? Antes de partir?
— Não, só que esperava que tivéssemos todos umas semanas de licença... queria visitar a família na sua amada Criméia.
Satisfeito por não ter sido descoberto, Suslev deu de ombros.
— Uma grande pena. Eu gostava muito dele.
— É. É mesmo uma pena, quando se sabia que estava prestes a se reformar. Era um bom homem, embora tenha cometido um erro desses. O que farão com ele?
Suslev pensou se devia mostrar a Boradinov um dos cabo-gramas decifrado na sua mesa, que dizia:
"... Avise ao Arthur que, atendendo ao seu pedido de uma Prioridade Um para o traidor Metkin, ordenou-se uma intercepção imediata em Bombaim".
"Não há necessidade de dar essa informação de graça", pensou. "Quanto menos Boradinov souber, melhor. "
— Ele simplesmente desaparecerá... até pegarmos um peixe grande do inimigo para trocar por ele. O KGB cuida do seu pessoal — acrescentou, piedosamente, sem acreditar, sabendo que o homem mais moço também não acreditava, mas era obrigatório e fazia parte da política oficial dizê-lo.
"Eles teriam que me trocar", pensou, muito satisfeito. "É, e bem depressa. Conheço segredos demais. São a minha única proteção. Se não fosse pelo que sei, ordenariam uma Prioridade Um para mim com a mesma rapidez que ordenaram para o Metkin. Eu teria feito a mesma coisa, se fosse eles. Será que eu teria mordido a lapela, como aquele cretino devia ter feito?"
Um arrepio o percorreu, "Não sei. "
Sorveu sua vodca. Sabia-lhe muito bem. "Não quero morrer. Essa vida é muito boa.”
— Vai voltar para terra de novo, camarada comandante?
— Vou. — Suslev concentrou-se. Entregou ao homem mais moço um bilhete que datilografara e assinara. — Você agora está no comando. Eis aqui sua autorização... coloque-a na ponte.
— Obrigado. Amanhã... — Boradinov interrompeu-se quando o intercomunicador do navio foi ligado e uma voz urgente disse rapidamente:
— Aqui fala a ponte! Há dois carros de polícia convergindo para a escada do costado principal. Estão cheios de policiais... — tanto Suslev quanto Boradinov perderam a cor — cerca de uma dúzia. O que devemos fazer? Detê-los, repeli-los, o quê?
Suslev apertou o botão do transmissor.
— Não façam nada! — Hesitou, depois ligou o botão que transmitia para todo o navio. — Atenção, todos os tripulantes: Emergência Vermelho Um... — A ordem significava: "Visitantes hostis subindo a bordo. Salas de rádio e radar: armem os destruidores em todos os equipamentos secretos". Desligou o transmissor e sibilou para Boradinov: — Vá para o convés, desça as escadas, cumprimente-os, encha lingüiça por uns cinco minutos, depois convide os líderes para subirem, somente eles, se puder. Vá!
— Mas sem dúvida não ousarão vir a bordo para revistar...
— Intercepte-os... agora!
Boradinov saiu às pressas. Quando ficou sozinho, Suslev armou o destruidor secreto no seu cofre. Se qualquer pessoa, que não ele, tentasse abri-lo, o napalm incendiário destruiria tudo.
Tentou tranqüilizar a cabeça em pânico. "Pense! Está tudo coberto contra uma revista repentina? Sim. Sim, fizemos o ensaio de Vermelho Um uma dúzia de vezes. Mas Deus maldiga Roger Crosse e Arthur! Que diabo, por que não recebi um aviso? Será que Arthur foi apanhado? Ou o Roger? Khristos, que não tenha sido o Roger! E quanto... "
Seus olhos pousaram na pilha de cabogramas em código e já decifrados. Desesperadamente, jogou-os num cinzeiro, xingando-se por não tê-lo feito antes, sem saber se agora haveria tempo suficiente. Achou o isqueiro. Seus dedos tremiam. O isqueiro acendeu, e o intercomunicador entrou em funcionamento:
— Dois homens estão vindo para bordo com Boradinov, dois homens, o resto ficou Iá embaixo.
— Está certo, mas tentem retardá-los. Estou indo para o convés. — Suslev apagou a chama, com um palavrão, e enfiou os cabogramas no bolso. Agarrou uma garrafa meio vazia de vodca, inspirou fundo, abriu um amplo sorriso e foi para o convés. — Ah, bem-vindos a bordo! Qual é o problema? — disse, com a voz ligeiramente pastosa, mantendo a sua cobertura já conhecida. — Um dos nossos marujos se meteu em encrencas, superintendente Armstrong?
— Este é o sr. Sun. Podemos dar-lhe uma palavrinha? — falou Armstrong.
— Claro, claro! — disse Suslev, com uma jovialidade forçada que estava longe de sentir. Nunca tinha visto o chinês antes. Examinou o rosto amarelo, de olhos frios, cheio de ódio.
— Sigam-me, por favor. — Depois acrescentou em russo para Boradinov, que falava um inglês perfeito: — Você, também.
— Depois, novamente para Armstrong ainda, com bom humor forçado: — Quem vai ganhar o quinto páreo, superintendente?
— Quem me dera saber, senhor!
Suslev foi em frente, conduzindo-os até o pequeno salão de oficiais que ficava ao lado do seu camarote.
— Sentem-se, sentem-se! Posso oferecer-lhes chá ou vod-ca? Ordenança, chá e vodca!
As bebidas logo chegaram. Expansivamente, Suslev serviu a vodca, embora os dois policiais a tivessem recusado polidamente.
— Prosit — disse, e riu jovialmente. — Bem, qual é o problema?
— Parece que um membro da sua tripulação está envolvido em espionagem contra o governo de Sua Majestade — disse Armstrong cortesmente.
— Impossível, továrich! Por que está brincando comigo, hem?
— Prendemos um. O governo de Sua Majestade está realmente muito aborrecido.
— Este é um pacífico navio mercante. Vocês nos conhecem há anos. Há anos que o seu superintendente Crosse nos observa. Não temos nada a ver com espionagem.
— Quantos membros da sua tripulação estão em terra, senhor?
— Seis. Agora, ouça, não quero nenhum problema. Já tive problemas de sobra nessa viagem com um dos meus tripulantes inocentes assassinados por desconhe...
— Ah, sei, o falecido major Iúri Bakian, do KGB. Lamentável.
Suslev fingiu uma raiva mal-humorada.
— O nome dele era Voranski. Nada sei desse major de que está falando. Não sei nada, nada.
— Naturalmente. Bem, senhor, quando é que os seus marujos voltam da licença em terra?
— Amanhã, ao anoitecer.
— Onde estão eles? Suslev riu.
— Estão em terra, de licença. Onde mais estariam, se não com uma garota, ou num bar? Tomara que com uma garota, hem?
— Nem todos estão — disse Armstrong, friamente. — Pelo menos um deles está muito infeliz, no momento.
Suslev observava-o, contente por saber que Metkin estava desaparecido para sempre, e que não podiam usá-lo para blefar.
— Ora, vamos, superintendente, não sei de coisa alguma sobre espionagem.
Armstrong deitou as fotos de 20 X 25 na mesa. Mostravam Metkin entrando no restaurante, depois vigiado, depois sendo jogado no camburão, depois uma foto de identificação criminal, com terror no rosto.
— Khristos! — exclamou Suslev, com voz abafada, um ator e tanto. — Dmítri? Impossível! É outra prisão falsa! Meu governo...
— Londres já informou seu governo. O major Nikolai Leonov admitiu a espionagem.
Agora, o choque de Suslev era real. Não esperava que Metkin cedesse com tanta rapidez.
— Quem? Que foi que disse? Armstrong soltou um suspiro.
— O major Nikolai Leonov, do seu KGB. É o nome real dele, e o seu posto. Era também o comissário político deste navio.
— É... isso é verdade, mas o nome... dele é Metkin, Dmítri Metkin.
— É? Não faz objeção a que revistemos este navio? — disse Armstrong, começando a levantar-se. Suslev ficou estupefato, e Boradinov também.
— Ah, mas faço, sim — gaguejou Suslev. — Lamento, superintendente, mas faço objeção, formalmente, e devo...
— Se o seu navio não está envolvido em espionagem e é um cargueiro pacífico, por que faria objeção?
— Temos proteção internacional. A não ser que tenha um mandado de busca formal...
Armstrong meteu a mão no bolso, e o estômago de Suslev deu voltas. Teria que obedecer ao mandado de busca formal, e aí estaria arruinado, porque achariam mais provas do que jamais poderiam esperar. "Aquele maldito filho da puta do Metkin deve ter-lhes contado algo vital. " Tinha vontade de gritar de raiva, as mensagens cifradas e decifradas no seu bolso subitamente letais. Seu rosto perdera a cor. Boradinov estava paralisado. Armstrong tirou a mão do bolso, trazendo apenas um maço de cigarros. O coração de Suslev recomeçou a bater, embora sua náusea ainda fosse fortíssima. Resmungou:
— Matieriebiets!
— Sim? — perguntou Armstrong, inocentemente. — Algum problema, senhor?
— Não, não, nada.
— Aceita um cigarro inglês?
Suslev lutou para controlar-se, com vontade de meter a mão na cara do outro, por tê-lo tapeado. O suor porejava-lhe as costas e o rosto. Pegou o cigarro com mãos trêmulas.
— Essas coisas são terríveis, não? Espionagem e revistas, e ameaças de revistas.
— É. Talvez o senhor pudesse fazer o favor de ir embora amanhã, e não na terça-feira.
— Impossível! Estamos sendo caçados como ratos? — falou Suslev, sem saber até onde ousaria ir. — Terei que informar meu governo e...
— Por favor, faça isso. Por favor, diga-lhes que interceptamos o major Leonov do KGB, que o pegamos em pleno ato de espionagem, e que ele foi acusado de conformidade com a Lei dos Segredos Oficiais.
Suslev enxugou o suor do rosto, tentando ficar calmo. Somente o fato de saber que Metkin provavelmente já estava morto fazia com que não desabasse. "Porém, o que mais ele lhes contou?", ecoava o grito na sua cabeça. "O que mais?" Olhou para Boradinov, de pé ao lado dele, o rosto muito pálido.
— Quem é o senhor? — perguntou Armstrong vivamente, acompanhando-lhe o olhar.
— Imediato Boradinov — respondeu o homem mais jovem, com voz estrangulada.
— Quem é o novo comissário, comandante Suslev? Quem assumiu o posto do sr. Leonov? Quem é o membro do partido mais graduado a bordo?
Boradinov ficou cinzento, e Suslev, aliviado, porque a pressão sobre ele próprio fora um pouco relaxada.
— E então?
— É ele. O imediato Boradinov — disse Suslev. Imediatamente Armstrong fixou os olhos gélidos no homem mais jovem.
— Seu nome completo, por favor?
— Vassíli Boradinov, imediato — gaguejou o homem.
— Pois bem, sr. Boradinov, é responsável pela partida deste navio no máximo até a meia-noite de domingo. Está sendo formalmente avisado de que temos motivos para acreditar que poderão ser atacados pelos tríades, bandidos chineses. Corre o boato de que o ataque está planejado para as primeiras horas de segunda-feira... pouco depois da meia-noite de domingo. É um boato muito forte. Muito. Há muitos bandidos chineses em Hong Kong, e os russos roubaram um bocado de terras chinesas. Estamos preocupados com sua segurança e saúde. Acho que é de boa política... entendeu? Boradinov estava cinzento.
— Sim, sim, entendi.
— Mas, os meus... meus reparos — comentou Suslev —, se os meus repa...
— Por favor, providencie para que sejam completados, comandante. Se precisar de ajuda extra, ou de um reboque fora das águas de Hong Kong, basta pedir. Ah, sim, e se quiser ter a bondade de aparecer no quartel-general da polícia às dez horas de domingo... desculpe estragar o seu fim de semana.
— Como? — exclamou Suslev, empalidecendo.
— Eis aqui o seu convite formal. — Armstrong entregou-lhe uma carta oficial. Suslev aceitou-a. Já começava a lê-la quando Armstrong pegou uma segunda cópia e preencheu o nome de Boradinov. — Eis aqui o seu, comissário Boradinov. — Enfiou o papel na mão dele. — Sugiro que confinem o resto dos seus tripulantes a bordo, com exceção de vocês mesmos, é claro, e que mandem voltar prontamente para o navio os marinheiros que estão em terra. Estou certo de que terão muito o que fazer. Boa noite! — acrescentou, de modo surpreendentemente inesperado. Levantou-se e saiu do salão, fechando a porta atrás de si.
Fez-se um silêncio estupefato. Suslev viu Malcolm Sun se levantar e se dirigir vagarosamente para a porta. Levantou-se para segui-lo, mas se deteve quando o chinês voltou bruscamente para eles.
— Vamos pegá-los, todos vocês! — disse Sun, com ar malévolo.
— Por quê? Não fizemos nada — falou Boradinov, ofegante. — Não fizemos na...
— Espionagem. Espiões! Vocês do KGB acham que são muito espertos, matieriebiets!
— Dê o fora do meu navio! — rosnou Suslev.
— Vamos pegá-los todos... e não estou me referindo a nós, policiais... — Abruptamente, Malcolm Sun passou a falar num russo fluente. — Saiam das nossas terras, hegemonistas! A China está avançando! Podemos perder cinqüenta milhões de soldados, cem milhões, e ainda ter o dobro sobrando. Saiam enquanto ainda têm tempo!
— Vamos explodir vocês da face da terra! — berrou Suslev. — Vamos atomizar toda a China. Vamos...
Interrompeu-se. Malcolm Sun ria dele.
— Os peitos da sua mãe estão nas suas armas atômicas!
Nós agora temos as nossas! Vocês começam, nós acabamos. Armas atômicas, punhos, relhas de arado! — Malcolm Sun baixou a voz. — Saiam da China enquanto ainda têm chance. Viemos do Oriente como Gêngis Khan, todos nós, Mao Tsé-tung, Chang Kai-chek, eu, meus netos, os netos deles, estamos vindo e vamos dizimar vocês da face da terra, e retomar as nossas terras, todas elas!
— Dê o fora do meu navio! — Suslev sentia o peito doer. Quase cego de raiva, preparou-se para saltar sobre o seu ator-mentador, assim como Boradinov.
Sem medo, Malcolm Sun adiantou-se um passo.
— Yeb tvoyu mat, cabeça de bosta! — A seguir, em inglês: — Batam em mim, e os prenderei por agressão e manterei seu navio sob custódia!
Com grande esforço, os dois homens se detiveram. Sufocado de ódio, Suslev enfiou as mãos nos bolsos.
— Por favor, retire-se. Por favor.
— Dew neh loh moh para você, sua mãe, seu pai, e o resto de vocês, soviéticos hegemonistas comedores de bosta!
— Retire-se... agora.
Igualmente furioso, Sun xingou-os em russo, e berrou:
— Viemos do Oriente como gafanhotos...
Então, ouviu-se uma súbita altercação ruidosa do lado de fora, no convés, e um estouro abafado. Imediatamente, Sun virou-se e dirigiu-se para a porta, os outros dois atrás.
Horrorizado, Suslev agora via que Armstrong estava parado junto à porta da sala de rádio, que ficava ao lado do seu camarote. A porta estava escancarada, os dois operadores assustados fitando o inglês, marinheiros do convés estupefatos e paralisados nas proximidades. Um início de fumaça já subia das entranhas do equipamento de rádio. O Vermelho Um ordenara ao operador de rádio mais antigo que acionasse o mecanismo destruidor do dispositivo de interferência secreto no instante em que um inimigo abrisse a porta ou tentasse forçar a fechadura.
Armstrong virou-se e olhou para Suslev.
— Ah, comandante, desculpe, tropecei. Mil desculpas — disse, com ar inocente —, pensei que aqui era a "casinha".
— Como?
— O banheiro. Tropecei e a porta se escancarou. Desculpe. — O policial lançou um olhar para a sala de rádio. — Santo Deus! Parece que há um incêndio. Vou chamar os bombeiros imediatamente. Malcolm, chame...
— Não... não! — disse Suslev, depois rosnou em russo para Boradinov e o pessoal de convés: — Apaguem o fogo!
Arrancou o punho cerrado do bolso e empurrou Boradinov, para que se mexesse. Sem que tivesse notado, o punho de sua camisa ficou preso num dos cabogramas decifrados, que caiu ao chão. A fumaça jorrava de trás de um dos complexos painéis de rádio. Um dos marinheiros de convés já tinha nas mãos um extintor de incêndio.
— Ora, ora! Mas, o que podia ter acontecido! Tem certeza de que não quer ajuda? — perguntou Armstrong.
— Não, não, obrigado — disse Suslev, o rosto vermelho, de tanta raiva. — Obrigado, superintendente. Até... domingo.
— Boa noite, senhor. Vamos indo, Malcolm.
Na confusão crescente, Armstrong dirigiu-se para a escada de saída, mas se abaixou e, antes que Suslev se desse conta do que estava acontecendo, apanhou o pedaço de papel e já ia na metade da escada, Malcolm Sun atrás.
Horrorizado, Suslev levou a mão ao bolso. Esquecendo o fogo, correu para o seu camarote para verificar qual o cabogra-ma que estava faltando,
Lá embaixo, no cais, policiais de uniforme já se haviam disposto em leque havia muito tempo, cobrindo as duas escadas. Armstrong estava entrando na parte de trás do carro, ao lado de Sinders. Os olhos do chefe da MI-6 estavam rodeados por círculos escuros, seu terno estava meio amassado, mas ele se mantinha gelidamente alerta.
— Bom trabalho, vocês dois! É, imagino que isso interromperá as comunicações deles por um ou dois dias.
— Sim, senhor.
Armstrong começou a remexer nos bolsos à procura do isqueiro, o coração disparado. Sinders observou Malcolm Sun sentar-se no lugar do motorista.
— O que foi? — perguntou, pensativo, vendo a cara do outro.
— Nada, nada mesmo, senhor. — Malcolm Sun virou a cabeça para trás, o suor ainda nas costas, a cabeça doendo, e o gosto adocicado e enjoativo de excitação, raiva e medo ainda na boca. — Quando... quando estava pondo em prática as táticas de retardamento para o superintendente, eu... bem, aqueles dois filhos da mãe me tiraram do sério.
— É? Como?
— Só que... eles começaram a me xingar, e eu também os xinguei. — Sun virou-se para a frente, ajeitou-se, não querendo os olhos penetrantes de Sinders fitos nos seus. — Só xingamentos — acrescentou, tentando parecer despreocupado.
— Pena que um deles não tenha batido em você.
— É, é, eu esperava por isso.
Sinders lançou um breve olhar para Armstrong, enquanto o grandalhão acionava o isqueiro, acendia um cigarro e, à luz da chama, tentava ler o papel. Sinders olhou para o navio Iá em cima. Mais uma vez Suslev estava parado no começo da escada, olhando fixo para eles.
— Ele parece estar realmente com muita raiva. Bom. — Deu uma sombra de sorriso. — Muito bom.
Com a aprovação de Sir Geoffrey, ordenara a súbita ida e a tentativa de interromper as comunicações do Ivánov — e a sua complacência —, visando a pressionar Arthur e os toupeiras da Sevrin, na esperança de tirá-los da toca.
— E o nosso toupeira da polícia? — acrescentou Sir Geoffrey, sombriamente. — É impossível que Brian Kwok seja o espião mencionado nos documentos de Alan, não é?
— Concordo — dissera.
Armstrong apagou o isqueiro. Na penumbra do carro, hesitou.
— É melhor ir organizar o destacamento, Malcolm. Não há necessidade de perdermos mais tempo aqui. Certo, sr. Sinders?
— Sim, podemos ir agora.
Obedientemente, Malcolm Sun se retirou. Armstrong observava Suslev no convés.
— O senhor... sabe ler russo, não é?
— Sei, sim. Por quê?
Cuidadosamente, Armstrong passou-lhe o papel, seguran-do-o pelas pontas.
— Isso aqui caiu do bolso de Suslev.
Com igual cuidado, Sinders apanhou o papel, sem tirar os olhos dos de Armstrong.
— Não confia no agente Sun? — indagou, suavemente.
— Ah, confio, sim. Mas os chineses são chineses, e está em russo. Não sei ler russo.
Sinders franziu o cenho. Depois de um momento, balançou a cabeça. Armstrong acendeu a chama para ele. O homem mais velho correu os olhos pelo papel duas vezes e soltou um suspiro.
— É um boletim meteorológico, Robert. Lamento. A não ser que esteja em código, não passa de um boletim meteorológico. — Dobrou cuidadosamente o papel, mantendo os vincos originais. — As impressões digitais podem ser valiosas. Talvez esteja em código. Por medida de segurança, vou passar para os nossos decifradores.
Sinders acomodou-se mais confortavelmente no carro. O papel dizia:
"Avise a Arthur que, atendendo ao seu pedido para uma Prioridade Um para o traidor Metkin, ordenou-se uma inter-ceptação imediata em Bombaim. Segundo, o encontro com o americano foi antecipado para o domingo. Terceiro e último, as pastas de Alan M. Grant continuam a ser Prioridade Um. O máximo esforço deve ser feito pela Sevrin para obter êxito. Centro".
"Que americano é esse? O encontro será com Arthur ou com quem? O comandante Suslev? Será tão inocente quanto parece? Que americano? Bartlett, Tcholok, Banastasio, ou quem? Peter Marlowe... escritor-sabe-tudo-anglo-americano, com suas teorias curiosas?" Sinders se fazia todas essas perguntas, pacientemente.
"Será que Bartlett ou Tcholok fizeram contato com o Centro em junho, em Moscou, quando estiveram Iá, com ou sem Peter Marlowe, que por acaso também estava Iá quando da realização de uma reunião de agentes estrangeiros altamente secreta?
"Ou será que o americano não é nenhum visitante, mas alguém que mora aqui em Hong Kong?
"Será Rosemont? Ou Langan? Ambos seriam perfeitos.
"Tantas perguntas!
"Por exemplo: quem é o quarto homem? Quem é o 'Super-vip', acima de Philby? Aonde levarão todas essas pistas? Ao Burke's Peerage? Ou a um castelo, ou quem sabe a um palácio?
"Quem é essa misteriosa sra. Gresserhoff que atendeu ao segundo telefonema de Kiernan, e depois sumiu como um anel de fumaça?
"E quanto às malditas pastas? E quanto ao maldito Alan M. Grant e o maldito Dunross, tentando ser danado de esperto? ..."
Era quase meia-noite. Dunross e Casey estavam sentados lado a lado, felizes, na parte da frente envidraçada de uma das barcas da Balsa Dourada que se dirigia Confiantemente para o seu ancoradouro no lado de Kowloon. Era uma bela noite, embora as nuvens ainda estivessem baixas, amontoadas. Lonas protetoras contra tempestades ainda fechavam a parte aberta dos tombadilhos, mas, ali onde estavam, a vista era boa, e uma brisa gostosa e salgada entrava por uma das janelas abertas.
— Vai chover de novo? — perguntou ela, rompendo o silêncio confortável.
— Vai, sim. Mas estou torcendo para que a chuva forte não caia antes do fim da tarde de amanhã.
— Você e suas corridas! São assim tão importantes?
— Ah, sim, para todos os yan de Hong Kong. Para mim, sim e não.
— Vou apostar toda a minha fortuna na sua Noble Star.
— Eu não faria isso — disse ele. — Sempre se deve limitar uma aposta.
Casey lançou-lhe um olhar.
— Algumas apostas a gente não limita.
— Algumas apostas a gente não pode limitar — disse ele, corrigindo-a com um sorriso. Com naturalidade, deu-lhe o braço, e voltou a pousar a mão no colo. O contato agradou aos dois. Era a primeira vez que realmente se tocavam. Durante todo o passeio que tinham dado do Hotel Mandarim às barcas, Casey tivera vontade de tomar-lhe o braço. Mas lutara contra o impulso, e agora fingia não notar que estavam de braços dados, embora, instintivamente, se houvesse aproximado dele mais uma fraçãozinha.
— Casey, você nunca acabou de contar a história de George Toffer... despediu-o?
— Não, não o despedi, pelo menos não do jeito que imaginava. Quando obtivemos o controle acionário, fui até a sua sala. Claro que ele estava louco da vida, mas, àquela altura, eu já tinha descoberto que ele não era o herói que alegava ser, e mais outras coisinhas. Ele apenas agitou uma das minhas cartas sobre o dinheiro que me devia na minha cara, e berrou que eu jamais o teria de volta, jamais. — Ela deu de ombros. — É verdade, mas fiquei com a companhia dele.
— O que aconteceu com ele?
— Ainda está por aí, passando a perna em alguém. Escute, vamos parar de falar nele. Causa-me indigestão.
— Deus a livre! — riu-se ele. — Que noite fantástica, não é?
— É. — Haviam jantado impecavelmente no Dragon Room, no alto do hotel. Chateaubriand, batata palha, salada e creme brülée. O vinho era château-lafite. — Comemoração? — perguntara ela.
— Só um obrigado pelo First Central de Nova York.
— Ah, Ian! Concordaram?
— Murtagh concordou em tentar.
Levaram apenas alguns segundos para acertar os termos baseados na concordância do banco com o financiamento que
Casey estabelecera como possível: cento e vinte por cento do custo dos dois navios, um fundo de crédito de cinqüenta milhões.
— Tudo isso coberto pela sua garantia pessoal? — perguntara Murtagh.
— Sim — respondera, comprometendo o seu futuro e o de sua família.
— Nós... eu acredito que com a bela administração da Struan o senhor obterá lucro, portanto o nosso dinheiro está seguro e... mas, sr. Dunross, temos que manter isso secreto como o diabo. Nesse meio tempo, vou dar a minha cantada — dissera Murtagh, tentando disfarçar o nervosismo.
— Por favor, sr. Murtagh, a melhor cantada que puder. Que tal fazer-me companhia nas corridas amanhã? Lamento não poder convidá-lo para almoçar, pois minha tribuna já está abarrotada, mas eis aqui um passe, se estiver livre das duas e meia em diante.
— Puxa, tai-pan, está falando sério?
Dunross sorriu consigo mesmo. Em Hong Kong, ser convidado para a tribuna de um organizador ou administrador eqüivalia a ser apresentado à corte, e era igualmente útil.
— Por que está sorrindo, tai-pan? — perguntou Casey, mudando ligeiramente de posição, sentindo o calor dele.
— Porque, no momento, tudo vai bem no mundo. Pelo menos, todos os diversos problemas estão nos seus comparti-mentos.
Enquanto desembarcavam e saíam do terminal das barcas, explicou sua teoria. A única maneira de lidar com os problemas era a asiática: colocá-los em compartimentos individuais e ir pegando-os somente quando se estivesse pronto para eles.
— É uma boa, se for possível — disse ela, andando junto dele, mas agora sem tocá-lo.
— Se não for, a gente estoura... úlceras, ataques cardíacos, velhice antes do tempo, saúde estragada.
— A mulher chora, é sua válvula de escape. Chora, e depois se sente melhor.
Casey tinha chorado antes de sair do Vic para ir encontrá-lo. Por causa de Linc Bartlett. Parte raiva, parte frustração, parte desejo, parte necessidade... necessidade física. Fazia seis meses que tivera seu último caso, como sempre raro, casual e muito breve. Quando a necessidade ficava muito forte, ela ia viajar por alguns dias, para esquiar ou tomar sol, e escolhia aquele a quem permitia que entrasse na sua cama. Então, com a mesma rapidez, esquecia-se dele.
— Ah, mas não é muito ruim, Ciran-Chek — dissera-lhe a mãe certa vez —, ser assim tão insensível?
— Ah, não, mamãe querida — retrucara. — É uma troca justa. Gosto de sexo... quero dizer, gosto quando estou com disposição, embora tente ficar com disposição o menos freqüentemente possível. Amo o Linc, e só ele. Mas acho...
— Como pode amá-lo e ir para a cama com outra pessoa?
— Não, não é fácil, na verdade é horrível. Mas, mamãe, dou um duro danado trabalhando para o Linc, sem fins de semana ou domingos. Dou duro trabalhando para todos nós, para você, tio Tashjian, Marian e os meninos. Sou eu quem ganha o pão, agora que Marian ficou só, e adoro isso, gosto de verdade, você sabe que sim. Mas, às vezes, a barra fica pesada demais, portanto eu me afasto de tudo. E é então que escolho um parceiro. Sinceramente, mamãe, é só uma coisa biológica, não há diferença nesse setor entre nós e os homens. E agora que temos a bendita pílula, nós podemos escolher. Não é como no seu tempo, graças a Deus, minha querida...
Casey se afastou para evitar uma falange de pedestres que vinha na sua direção e deu um ligeiro encontrão em Dunross. Automaticamente, ela tomou-lhe o braço. Ele não o retirou.
Desde que tinha pedido igualdade, à tarde, e fora recusada... "Não, isso não é justo, Casey", disse com seus botões, "Ian não me recusou, apenas me disse a verdade, do seu ponto de vista. Do meu? Não sei. Não tenho certeza. Mas uma coisa que não sou é idiota. Esta noite me vesti com apuro, de modo um pouco diferente, pus perfume e realcei a maquilagem; e esta noite mordi a língua de três a trinta vezes e me contive, sem dar troco, agindo mais convencionalmente, dizendo meigamente: 'Que interessante!'
"E, de um modo geral, foi mesmo. Ele foi atencioso, divertido, receptivo, e eu me senti ótima. Ian é sem dúvida um homem e tanto! Perigoso e tão tentador!"
A larga escadaria de mármore que levava ao Vic estava bem à frente. Discretamente, ela soltou o braço dele, e sentiu-se mais ligada a ele pela sua própria compreensão.
— Ian, você é um homem sensato. Acha justo fazer amor com alguém... que a gente não ama?
— Como? — Levou um susto, que quebrou a sensação agradável que sentia. A seguir, falou, de brincadeira: — "Amor" é uma palavra ocidental, moça. Eu, eu sou chinês!
— Estou falando sério. Ele riu.
— Não acho que seja a hora de ser sério.
— Mas você tem uma opinião?
— Sempre.
Subiram as escadas e entraram no saguão, que estava lotado mesmo àquela hora tardia. Imediatamente, ele sentiu muitos olhares, e reconhecimento. Fora exatamente por isso que não a deixara nas escadas. "Cada bocadinho ajuda", pensou. "Devo aparentar calma e confiança. A Casa Nobre é inviolável! Não posso me permitir o luxo do medo normal... ele extravasaria e destruiria outras pessoas, e os danos seriam incalculáveis."
— Quer tomar alguma coisa? — perguntou. — Não estou com sono. Quem sabe Linc virá nos fazer companhia, se estiver no hotel.
— Boa idéia. Um chá com limão seria ótimo.
O maitre sorridente apareceu milagrosamente. Com uma mesa vazia.
— Boa noite, tai-pan.
— Boa noite, Gup Noturno.
— Chá com limão também está ótimo para mim — disse ela. Um garçom se afastou apressadamente. — Vou dar uma olhada nos meus recados.
— Pois não.
Dunross observou-a enquanto ela se afastava. Naquele dia, desde o primeiro momento no saguão do Mandarim, ele notara que ela estava muito mais feminina. Nada muito ostensivo, apenas uma mudança sutil. "Mulher interessante. Uma sexualidade esperando para explodir. Que diabo, como vou ajudá-la a obter rapidamente o seu dinheiro do dane-se?"
Gup Noturno mexia-se daqui para ali, e falou baixo, em cantonense:
— Tai-pan, estamos torcendo para que o senhor se saia bem com a Bolsa de Valores e a Segunda Grande Casa.
— Obrigado.
Dunross bateu papo por algum tempo, transpirando confiança, depois voltou o olhar para Casey, no balcão de recepção. Os velhos olhos argutos de Gup Noturno brilharam.
— O contrabandista de armas não está no hotel, tai-pan.
— Não?
— Não. Saiu cedo com uma jovem. Por volta das dezenove. Eu acabava de entrar de serviço — disse o velho, despreocupadamente. — O contrabandista de armas estava vestido muito informalmente. Para um passeio de barco, suponho. A moça ia com ele.
Dunross agora estava concentrado.
— Há muitas moças em Hong Kong, Gup Noturno.
— Não como essa, tai-pan. — O velho deu uma risadinha controlada. — No passado foi amante do Barba Negra.
— Eeee, Velho, você tem olhos vivos, e uma boa memória. Tem certeza?
— Ah, toda a certeza! — Gup Noturno ficou encantado com a maneira pela qual a sua novidade foi recebida. — É — acrescentou, altaneiro —, já que ouvimos dizer que os americanos podem se unir à Casa Nobre se o senhor conseguir se livrar de todos esses outros fornicadores, talvez seja bom para o senhor saber disso. Também que a Pêlos Púbicos Dourados trocou de quar...
— Quem?
Gup Noturno explicou o motivo do apelido.
— Imagine só, hem, tai-pan?
Dunross soltou um suspiro, como sempre atônito com a rapidez com que uma fofoca voava.
— Ela trocou de quarto?
— Trocou. Está no fim do corredor, no 276, no mesmo andar. Eeee, tai-pan, soube que ela chorou à noite, faz duas noites, e de novo hoje à noite, antes de sair. É. A Terceira Arrumadeira Fung viu-a chorando hoje.
— Tiveram uma briga? Ela e o contrabandista de armas?
— Não, briga não, nada de gritos. Mas, oh ko, se a Pêlos Púbicos Dourados está sabendo da flor Orlanda, é motivo suficiente para os dragões arrotarem. — Gup Noturno deu um sorriso cheio de dentes para Casey quando ela voltou, a mão cheia de telegramas e recados. Dunross notou que agora havia uma sombra no seu olhar. Nenhum recado de Linc, concluiu, pondo-se de pé. Gup Noturno solicitamente afastou a cadeira para ela, serviu o chá, continuando no seu cantonense de sarjeta: — Não ligue, tai-pan, Pêlos Púbicos Dourados ou não, no escuro é tudo a mesma coisa, heya?
O velho soltou uma risadinha abafada e se retirou.
— Problemas? — perguntou Dunross, olhando para os papéis.
— Ah, não, apenas os mesmos. — Olhou-o direto nos olhos. — Já os separei por assunto para amanhã. A noite hoje é minha. Linc ainda não voltou. — Sorveu o seu chá, saboreando-o. — Assim, posso monopolizar você.
— Pensei que eu é que a estava monopolizando. Não é... Interrompeu-se ao ver que Robert Armstrong e Sinders entravam pelas portas giratórias. Os dois homens ficaram parados na entrada, procurando uma mesa.
— A sua polícia faz serão — comentou Casey, e fez um aceno meio a contragosto quando o olhar dos homens pousou neles. Os dois homens hesitaram, depois dirigiram-se para uma mesa vazia, na outra extremidade da sala. — Gosto de Armstrong — disse. — O outro também é da polícia?
— Suponho que sim. Onde foi que conheceu Robert? Ela lhe contou.
— Ainda nada sobre as armas contrabandeadas. De onde vieram, ou Iá o que seja.
— Que coisa desagradável!
— Quer tomar um conhaque?
— Por que não? A saideira, depois tenho que ir embora. Garçom! — Pediu as bebidas. — O carro estará aqui amanhã às doze em ponto, para apanhá-los.
— Obrigada. Ian, o convite diz: "Senhoras, chapéus e luvas". É pra valer?
— Claro que sim. — Franziu a testa. — As senhoras sempre usaram chapéus e luvas nas corridas. Por quê?
— Vou ter que comprar um chapéu. Há anos que não uso chapéu.
— Para falar a verdade, gosto das senhoras de chapéu. Dunross lançou um olhar pela sala. Armstrong e Sinders observavam-nos disfarçadamente. "Será uma coincidência estarem aqui?", perguntou-se.
— Também está sentindo os olhares, tai-pan? Todo mundo aqui parece conhecê-lo.
— Não sou eu, é apenas a Casa Nobre, e o que eu represento.
Chegou o conhaque.
— Saúde! — exclamaram, tocando os copos.
— Quer responder à minha pergunta agora?
— A resposta é sim.
Girou o conhaque no copo e aspirou o buquê.
— Sim, o quê? Abruptamente, ele abriu um sorriso.
— Sim, nada; sim, não é justo; mas, sim, acontece o tempo todo, e não vou me meter numa daquelas belezas de auto-analise tipo "Parou de bater na sua mulher recentemente?", embora pareça que a maioria das senhoras goste de apanhar ocasionalmente, mas com muito cuidado, com ou sem chapéu!
Ela riu, e a maioria das sombras desapareceu.
— Depende, não é?
— Depende!
Ele a observava, o sorriso calmo e sereno no rosto, pensando. E ela estava pensando: "Depende de quem, quando, onde e da oportunidade, circunstância e necessidade, e agora seria fantástico".
Estendeu o copo e tocou no dela.
— Saúde — disse. — E à terça-feira.
Ela retribuiu o sorriso e ergueu o copo, o coração batendo mais depressa.
— É.
— Tudo pode esperar até Iá. Não pode?
— É, espero que sim, Ian.
— Bem, já vou indo.
— Diverti-me muito.
— Eu também.
— Obrigada pelo convite. Amanhã... Interrompeu-se quando Gup Noturno aproximou-se rapidamente.
— Com licença, tai-pan, telefone.
— Ah, obrigado. Já estou indo. — Dunross soltou um suspiro. — Não há descanso para os maus! Vamos, Casey?
— Claro, claro, tai-pan. — Levantou-se, o coração batendo forte, sentindo uma dor triste e doce possuí-la. — Pode deixar que eu pago a conta!
— Obrigado, mas isso já está resolvido. Eles a mandarão para o escritório. — Dunross deixou uma gorjeta e acompanhou-a até os elevadores, ambos cônscios dos olhares que os seguiam. Por um segundo ele se sentiu tentado a subir com ela, só para aumentar as fofocas. "Mas isso seria realmente tentar o demônio, e já tenho demônios de sobra me tentando", pensou. — Boa noite, Casey, até amanhã, e não se esqueça do coquetel das sete e meia às nove da noite. Lembranças ao Linc!
Acenou alegremente e se dirigiu ao balcão de recepção.
Ela o viu afastar-se, alto, imaculado e confiante. As portas do elevador se fecharam. "Se não estivéssemos em Hong Kong, você não me escaparia. Não esta noite, Ian Dunross. Ah, não, esta noite faríamos amor. Ora se faríamos!"
Dunross parou na recepção e atendeu ao telefone.
— Pronto, aqui é Dunross.
— Tai-pan?
— Oh, alô, Lim — disse, reconhecendo a voz do mordomo. — O que foi?
— O sr. Tip Tok-toh acaba de telefonar, senhor. — O coração de Dunross começou a bater mais depressa. — Pediu-me que tentasse encontrá-lo e que o senhor ligasse para ele, por favor. Disse que podia ligar até as duas horas, ou então depois das sete da manhã.
— Obrigado. Mais alguma coisa?
— A srta. Claudia ligou às oito e disse que instalou sua convidada... — Um barulhinho de papel —... sra. Gresserhoff, no hotel, e que o seu compromisso das onze no seu escritório está confirmado.
— Ótimo. Que mais?
— A senhora ligou de Londres... por Iá tudo bem... e um dr. Samson, de Londres.
— Ah! — O especialista de Kathy. — Deixou o número do telefone? — Lim disse o número, e ele o anotou. — Mais alguma coisa?
— Não, tai-pan.
— A Filha Número Um já voltou?
— Não, tai-pan. A Filha Número Um chegou por volta das dezenove horas por alguns minutos, acompanhada de um rapaz, depois saíram.
— Era o Martin Haply?
— Sim, era, sim.
— Obrigado, Lim. Vou ligar para Tiptop, depois vou de barca para casa.
Desligou. Desejando um maior isolamento, foi até a cabine telefônica que ficava perto da papelaria. Discou.
— Weyyyy? Reconheceu a voz de Tiptop.
— Boa noite, aqui fala Ian Dunross.
— Ah, tai-pan! Um minutinho. — Ele ouviu o som de uma mão tapando o bocal e vozes abafadas. Esperou. — Ah, lamento tê-lo feito esperar. Recebi uma notícia muito perturbadora.
— Foi?
— Foi. Parece que sua polícia novamente está sendo como pulmões de cachorro e coração de lobo. Ela prendeu arbitrariamente um grande amigo seu, o superintendente Brian Kwok. Ele...
— Brian Kwok? — exclamou Dunross. — Mas por quê?
— Parece que foi falsamente acusado de ser espião da RPC e...
— Impossível!
— Concordo. Ridículo! O presidente Mao não tem necessidade de espiões capitalistas. Ele deve ser solto imediatamente, imediatamente... e se quiser sair de Hong Kong, devem permitir que saia e vá para onde desejar... imediatamente!
Dunross tentou pôr a cabeça para funcionar. Se Tiptop dizia que o homem chamado Brian Kwok devia ser solto imediatamente, para sair de Hong Kong se assim o desejasse, então Brian era espião da RPC, um dos seus espiões, e isso era impossível, impossível, impossível.
— Eu... nem sei o que dizer — falou, dando a Tiptop a abertura de que precisava.
— Devo ressaltar que é impossível aos Velhos Amigos sequer pensarem em ajudar os Velhos Amigos, quando a polícia deles está tão errada. Heya?
— Concordo — ouviu-se dizer, com a dose certa de preocupação, gritando intimamente: "Deus todo-poderoso, estão querendo trocar o Brian pelo dinheiro!" — Eu... vou falar com as autoridades logo de manhã cedo...
— Talvez pudesse fazer alguma coisa ainda hoje.
— É muito tarde para ligar para o governador, mas... — Então, Dunross lembrou-se de Armstrong e Sinders, e seu coração deu um salto. — Vou tentar. Imediatamente. Estou certo de que houve algum engano, sr. Tip. É. Deve ser um erro. De qualquer maneira, tenho certeza de que o governador estará pronto a ajudar. E a polícia. Com certeza... um engano desses poderá ser corrigido satisfatoriamente... como o pedido do Victoria para o uso temporário do dinheiro vivo do ilustre banco?
Fez-se um longo silêncio.
— É possível que isso possa ser feito. É possível. Os Velhos Amigos devem ajudar os Velhos Amigos, e ajudar a corrigir enganos. É, pode ser possível.
Dunross ouviu o "quando" não dito que ficou pendente, e automaticamente continuou a negociação, a maior parte da sua mente ainda atordoada com o que Tiptop lhe contara.
— O senhor recebeu o meu bilhete, sr. Tip? Já cuidei de todo o resto. A propósito, o Victoria terá prazer em ajudar no financiamento do tório. — Acrescentou, delicadamente: — Assim como na maioria dos futuros pedidos... em termos vantajosos.
— Ah, sim, obrigado. Sim, recebi o seu bilhete e seu convite muito gentil. Lamento que eu não estivesse me sentindo bem. Obrigado, tai-pan. Por quanto tempo o seu governo vai querer o empréstimo do dinheiro vivo, caso ele seja possível?
— Suponho que trinta dias seriam mais do que suficientes, talvez até mesmo duas semanas. Mas é o Victoria, o Blacs e os outros bancos, e não o governo de Hong Kong. Posso dar-lhe a resposta amanhã. Teremos o privilégio de recebê-lo para o almoço, amanhã nas corridas?
— Lamento não poder almoçar, mas quem sabe depois do almoço, se for possível.
Dunross deu um sorriso amargo. A conciliação perfeita.
— Naturalmente.
— Obrigado por telefonar. A propósito, o sr. Yu ficou muito impressionado com o senhor, tai-pan.
— Por favor, dê-lhe lembranças minhas. Espero vê-lo em breve. Em Cantão.
— Fiquei atônito ao ler os comentários do seu cunhado sobre o Reino Médio.
— É. Eu também. Minha mulher e o irmão não se dão há anos. Os pontos de vista dele são estranhos, inimigos, e totalmente errôneos. — Dunross hesitou. — Espero neutralizá-lo.
— É. Concordo. Obrigado. Boa noite. O aparelho ficou mudo.
Dunross desligou. "Santo Deus! Brian Kwok! E eu quase dei a ele os papéis do Alan. Santo Deus!"
Pondo as idéias em ordem com grande esforço, voltou para o saguão. Armstrong e Sinders ainda estavam Iá.
— Boa noite, posso sentar-me com vocês um minuto?
— Claro, sr. Dunross. Que surpresa agradável. Posso oferecer-lhe uma bebida?
— Chá, chá chinês, obrigado.
A mesa deles ficava afastada das outras e, quando achou seguro, Dunross inclinou-se para a frente.
— Robert, ouvi dizer que vocês prenderam o Brian Kwok — falou, ainda na esperança de que não fosse verdade. Os dois homens o fitaram.
— Quem lhe contou? — perguntou Armstrong. Dunross repetiu a conversa. Os dois homens ouviram sem fazer comentários, embora, de vez em quando, se entreolhassem.
— Obviamente, é uma troca — disse. — Ele pelo dinheiro.
Sinders sorveu o seu chocolate quente.
— Qual a importância do dinheiro?
— Total. E urgente. — Dunross enxugou a testa. — Esse dinheiro acabará totalmente com as corridas aos bancos, sr. Sinders. Temos que...
Interrompeu-se, horrorizado.
— O que foi? — indagou Sinders.
— Lembrei-me subitamente do que Alan escreveu no relatório interceptado. Que "...o agente infiltrado na polícia pode ser ou não parte da Sevrin". Ele é?
— Quem?
— Puta que o pariu, não brinque comigo! — disse Dunross, irritado. — Isso é sério. Acham que sou algum idiota? Há um agente da Sevrin na Struan. Se o Brian faz parte da Sevrin, tenho o direito de saber.
— Concordo plenamente — disse Sinders, sereno, embora seus olhos estivessem duros como pedra. — No momento em que o traidor for descoberto, pode ficar descansado que será avisado. Tem alguma idéia de quem possa ser?
Dunross sacudiu a cabeça, controlando a raiva. Sinders observou-o.
— O senhor dizia "temos que..." Temos que fazer o quê, sr. Dunross?
— Temos que pôr as mãos naquele dinheiro imediatamente. O que foi que o Brian fez?
Depois de um momento, Sinders disse:
— Os bancos só abrem na segunda-feira. Quer dizer que segunda é o Dia D?
— Suponho que os bancos precisem do dinheiro antes disso, para abrir e ter o dinheiro nos guichês. Que diabo o Brian fez?
Sinders acendeu um cigarro para si e outro para Armstrong.
— Se esse tal de Brian foi mesmo preso, não creio que seja uma pergunta muito discreta, sr. Dunross.
— Eu teria apostado qualquer coisa — disse o tai-pan, desconsolado —, qualquer coisa, mas o Tiptop jamais sugeriria uma troca se não fosse verdade. Jamais. O Brian deve ser superimportante. Porra, o que falta mais acontecer neste mundo? Vocês cuidarão da troca, ou o sr. Crosse cuidará... imagino que a aprovação do governador será necessária.
Pensativamente, o chefe da MI-6 soprou a ponta do seu cigarro.
— Duvido que haja uma troca, sr. Dunross.
— E por que não? O dinheiro é mais impor...
— É uma questão de opinião, sr. Dunross, se esse Brian Kwok está realmente preso. De qualquer maneira, o governo de Sua Majestade não se submeteria à chantagem. De muito mau gosto.
— Concordo. Mas Sir Geoffrey vai concordar prontamente.
— Duvido. Ele me deu a impressão de ser esperto demais para isso. Por falar em troca, sr. Dunross, pensei que o senhor ia nos dar as pastas de Alan M. Grant.
Dunross sentiu uma pontada fria na boca do estômago.
— E dei, hoje à noite.
— Puta que o pariu, não brinque comigo, isso é sério! Acha que sou algum idiota? — disse Sinders no tom exato que Dunross usara. Abruptamente, deu uma risada seca e continuou na mesma calma gélida: — O senhor sem dúvida nos deu uma versão delas, mas infelizmente não se comparam em qualidade à que foi interceptada. — Os olhos do homem desmazelado ficaram ainda mais duros e curiosamente ameaçadores, embora sua fisionomia não se tivesse alterado. — Sr. Dunross, o seu subterfúgio foi habilidoso, elogiavel, mas desnecessário. Nós realmente queremos aquelas pastas, as originais.
— Se essas não o satisfazem, por que não dá uma busca nos papéis de Alan?
— Já dei. — Sinders sorriu sem humor. — Bem, é como aquele velho ditado do ladrão: "A bolsa ou a vida". A posse dessas pastas pode ser letal para o senhor. Concorda, Robert?
— Sim, senhor.
Sinders tirava baforadas do seu cigarro.
— Com que então, sr. Dunross, o seu sr. Tiptop quer fazer uma troca, hem? Todo mundo em Hong Kong parece gostar de trocas, de comércio. Está no ar, não é? Mas para isso é preciso dar um valor por outro igual. Imagino que se quer concessões para obter concessões do inimigo... bem, no amor e na guerra vale tudo, ao que dizem. Não é?
Dunross manteve a fisionomia impassível.
— É o que dizem. Amanhã cedinho vou falar com o governador. Vamos manter isso estritamente confidencial até que eu tenha conversado com ele. Boa noite.
Ficaram olhando enquanto ele cruzava as portas giratórias e desaparecia.
— O que você acha, Robert? Dunross trocou mesmo as pastas?
Armstrong soltou um suspiro.
— Não sei. O rosto dele nada revelou. Eu o observei atentamente. Nada. Mas ele é vivíssimo.
— É. — Sinders ficou pensando um momento. — Quer dizer que o inimigo quer fazer uma troca, hem? Eu diria que teremos nas mãos o referido cliente por vinte e quatro horas, no máximo. Quando vai fazer o próximo interrogatório?
— Às seis e meia.
— Ah! Bem, se você vai começar tão cedo, é melhor irmos andando. — Sinders pediu a conta. — Vou consultar o sr. Crosse, mas já sei o que ele vai dizer... na realidade o que Londres ordenou.
— O quê, senhor?
— Eles estão preocupadíssimos porque o cliente teve conhecimento de segredos em demasia, no curso feito no estado-maior, na Real Polícia Montada Canadense. — Sinders hesitou de novo. — Pensando melhor, Robert, independentemente do que o sr. Dunross faça, nossa única solução é apreciar o processo interrogatório. É. Vamos cancelar a sessão das seis e meia, continuar com a programação de hora em hora, desde que ele esteja medicamente apto, e jogá-lo no Quarto Vermelho. Armstrong empalideceu.
— Mas senhor...
— Lamento — disse Sinders, a voz gentil —, sei que ele é seu amigo, era amigo, mas agora o sr. Tiptop e o sr. Dunross roubaram o nosso tempo.
9h32m
O jato da Jal vindo de Tóquio voou baixo sobre o mar e pousou perfeitamente em Kai Tak, com uma rajada de fumaça junto às rodas. Imediatamente, os motores engrenaram em ré, e ele foi uivando em direção ao complexo do aeroporto, desacelerando.
Passageiros, tripulantes e visitantes lotavam o terminal movimentado, as áreas da alfândega, a Imigração e as salas de espera. Partir era fácil. Chegar era razoavelmente fácil. Exceto para os japoneses. Os chineses têm boa memória. Os anos da ocupação japonesa da China e Hong Kong durante a guerra estavam próximos demais, fortes demais, violentos demais para serem esquecidos. Ou perdoados. Assim, os cidadãos japoneses eram examinados mais atentamente. Até mesmo os membros da tripulação da jal que chegava, até as aeromoças graciosas, bonitas, educadas, algumas das quais mal haviam nascido quando a ocupação terminou, também recebiam de volta os seus documentos de viagem com um olhar gélido.
Atrás deles, na fila, estava um americano.
— Bom dia — disse, entregando o passaporte para o funcionário.
— Bom dia.
O jovem chinês abriu o passaporte e olhou para a foto e o homem, depois folheou o caderno para encontrar o visto. Sem ser notado, seu pé tocou um interruptor oculto, que alertou Crosse e Sinders, que estavam numa sala de observação próxima. Foram até o espelho unilateral e olharam para o homem que esperava na Imigração, à frente de uma das seis grandes filas de passageiros.
O passaporte, tirado há um ano, dizia "Vincenzo Banastasio, sexo masculino, nascido na cidade de Nova York, em 16 de agosto de 1910. Cabelos grisalhos, olhos castanhos". Com naturalidade, o funcionário examinou os outros vistos e carimbos: Inglaterra, Espanha, Itália, Holanda, México, Venezuela, Japão. O funcionário carimbou o caderno cinzento e devolveu-o com indiferença.
Banastasio passou pela alfândega, com uma cara pasta de crocodilo debaixo do braço, carregando bebida livre de impostos numa vistosa sacola de plástico, a máquina fotográfica balançando ao ombro.
— Sujeito bonitão — comentou Sinders. — Ele se cuida. Viram enquanto ele desaparecia no meio da multidão.
Crosse ligou o rádio portátil.
— Ele já está na mira de vocês? — perguntou.
— Sim, senhor — veio a resposta instantânea pelo rádio.
— Vou continuar o controle nessa freqüência. Avisem-me de qualquer novidade.
— Sim, senhor.
— Não vamos ter problemas para segui-lo — disse Crosse a Sinders.
— Não. Ainda bem que o vi. Sempre gosto de ver um inimigo em carne e osso.
— E ele é? Inimigo?
— O sr. Rosemont acha que sim. E você?
— Estou me referindo a ser nosso inimigo. Estou certo de que é um vigarista... o que não sei é se tem algo a ver com os Serviços de Informação.
Sinders soltou um suspiro.
— Já verificou as escutas? — Já.
No fim da noite anterior, uma equipe de peritos do sei colocara secretamente escutas no quarto que Banastasio reservara no Hilton, assim como no escritório e na suíte particular de Ng Fotógrafo, Vee Cee Ng.
Esperaram pacientemente. Sobre a mesa, o rádio sibilava e estalava ligeiramente.
Depois de uma pausa, Sinders perguntou distraidamente:
— E quanto ao nosso outro cliente?
— Quem? Kwok?
— É. Quanto tempo acha que vai demorar?
— Não muito — respondeu Crosse, sorrindo consigo mesmo.
— Quando vão colocá-lo no Quarto Vermelho?
— Pensei que por volta do meio-dia. Antes, se ele estiver pronto.
— Armstrong vai conduzir o interrogatório?
— Vai.
— Armstrong é um bom homem. Portou-se muito bem no Ivánov.
— Da próxima vez, incomoda-se de me deixar a par? Afinal de contas, aqui é a minha área.
— Claro, Roger. Foi uma súbita decisão de Londres.
— Que história é essa? Sobre a convocação de domingo.
— O ministro está mandando instruções especiais. — Sinders franziu o cenho. — A folha de Brian diz que ele é forte. Não temos muito tempo. Ele deve ter sido muito bem doutrinado, para ficar enterrado tão fundo, tanto tempo.
— É, sim. Mas estou muito confiante. Desde que mandei construir o quarto, eu próprio já o experimentei três vezes. O máximo que agüentei ficar foi cinco minutos, e todas as vezes passei mal pra burro. E olhe que não tinha sofrido o processo de desorientação. Estou confiante em que não teremos problemas. — Crosse apagou o cigarro. — É muito eficaz... uma cópia exata do protótipo do KGB.
Depois de um momento, Sinders disse:
— É uma pena que esses métodos tenham que ser usados. Muito desagradáveis. Revoltantes, na verdade. Eu os admitia quando... bem, mesmo então suponho que nossa profissão nunca tenha sido muito limpa.
— Quer dizer durante a guerra?
— É. Devo dizer que os admitia, então. Naquela época não havia hipocrisia por parte de alguns dos nossos líderes... ou dos meios de comunicação. Todos compreendiam que estávamos em guerra. Mas hoje, quando a nossa própria sobrevivência está ameaçada, nós... — Sinders interrompeu-se, depois apontou. — Olhe, Roger, aquele não é Rosemont?
O americano estava parado com outro homem junto à porta de saída.
— É, sim. E aquele é o Langan, junto com ele. O homem do FBI — disse Crosse. — Ontem à noite concordei em trabalhar com ele no caso Banastasio, embora o que eu quisesse mesmo é que aquele maldito pessoal da CIA nos deixasse fazer o nosso serviço em paz.
— É, eles estão mesmo se tornando muito difíceis. Crosse apanhou o rádio e foi saindo na frente.
— Stanley, ele está bem vigiado. Concordamos ontem à noite que, nesta operação, cuidamos dessa parte, vocês cuidam do hotel. Certo?
— Claro, claro, Rog. Bom dia, sr. Sinders. — Com ar sombrio, Rosemont apresentou Langan, que estava igualmente tenso. — Não estamos interferindo, Rog, embora o vagabundo seja um dos nossos cidadãos. Não é por esse motivo que estamos aqui. Vim me despedir do Ed.
— É?
— É — disse Langan. Estava tão cansado e abatido quanto Rosemont. — São aquelas fotocópias, Rog. Os papéis de Thomas K. K. Lim. Tenho que enttegá-los pessoalmente. Para o FBI. Li parte deles para o meu chefe, e ele quase fundiu a cuca.
— Posso imaginar.
— Há um pedido na sua mesa, para que fiquemos com os originais e...
— De jeito algum — respondeu Sinders por Crosse. Langan deu de ombros.
— Há um pedido na sua mesa, Rog. Suponho que seus superiores enviarão ordens do céu, se os nossos realmente precisarem deles. É melhor eu embarcar. Escute, Rog, nem sei como lhe agradecer. Nós... fico lhe devendo uma. Aqueles filhos da mãe... é, nós ficamos lhe devendo uma.
Apertaram-se as mãos, e ele saiu apressado para a pista.
— Qual foi a informação que fundiu a cuca do chefe dele, sr. Rosemont?
— São todas letais, sr. Sinders. É um golpe para nós, para nós e para o FBI, especialmente o FBI. Ed disse que o pessoal ficou histérico. As implicações políticas para os democratas e os republicanos são imensas. Tem razão. Se o senador Tillman, que tem esperança de ser candidato presidencial, e que está na cidade, pusesse as mãos nesses papéis, faria o diabo. — Rosemont não era mais a pessoa bem-humorada de costume. — Meus chefões mandaram telex para os nossos contatos sul-americanos para caçar o tal Thomas K. K. Lim, portanto não vai demorar muito e nós o estaremos entrevistando, pode apostar. O senhor receberá uma cópia, não se preocupe. Rog, havia mais alguma coisa?
— Como disse?
— Além desses pitéus, havia mais alguma coisa que pudéssemos usar?
Crosse sorriu sem humor.
— Claro. Que tal um projeto para financiar uma revolução particular na Indonésia?
— Ah! Meu Deus!
— É. Que tal umas cópias fotostáticas de entendimentos para depósitos numa conta bancária francesa de um casal vietnamita muito importante... por favores específicos concedidos?
Rosemont ficou branco como cal.
— O que mais?
— Não chega?
— Há mais?
— Pela madrugada, Stanley! Claro que há mais. Vocês sabem, nós também sabemos. Sempre haverá mais.
— Pode dá-los para mim agora?
— O que pode fazer por nós? — perguntou Sinders. Rosemont fitou-os.
— Durante o almoço conver... O rádio deu sinal de vida:
— O alvo já pegou as malas e está saindo da alfândega, dirigindo-se para a fila de táxis... Agora, está... Agora, está... Espere, alguém veio recebê-lo, um chinês, bonitão, roupas caras, não o estou reconhecendo... Estão se dirigindo para um Rolls, chapa HK... ah, é a limusine do hotel. Os dois homens estão entrando no carro.
Crosse falou no transmissor:
— Continue nessa freqüência.
Mudou de freqüência. Estática e ruídos de tráfego abafados.
Rosemont animou-se.
— Pôs escuta na limusine? — Crosse fez que sim com a cabeça. — Formidável. Rog. Eu não teria feito isso!
Ficaram escutando, depois, nitidamente:
— ... gentileza sua vir me receber, Vee Cee — dizia Banastasio. — Que diabo, não devia ter vindo até aqui...
— Ah, é um prazer — replico» a voz educada. — Podemos conversar no carro, assim não precisará ir ao meu escritório, e depois em Ma...
— Claro, claro — a voz do americano sobrepujou a do outro. — Escute, tenho uma coisa para você, Vee Cee.
Sons abafados, depois um súbito guincho estridente que dominou totalmente a onda de freqüência, obliterando completamente a clareza e as vozes. Prontamente, Crosse mudou para outra freqüência, e verificou que todas as outras funcionavam perfeitamente.
— Que merda! Ele está usando um barbeador portátil para nos bloquear — exclamou Rosemont, enojado. — O filho da mãe é um profissional! Aposto cinqüenta contra um centavo furado como vão bloquear todas as escutas que tivermos, aposto cem que quando voltarem para esse canal estarão apenas batendo papo. Disse a vocês que o Banastasio era uma parada.
10h52m
— Tai-pan, o dr. Samson ligando de Londres. Está na linha 3.
— Oh, obrigado, Claudia. — Dunross apertou o botão. — Alô, doutor. Acorda tarde.
— Acabo de chegar do hospital... desculpe não ter ligado antes. Quer saber notícias da sua irmã, a sra. Gavallan?
— É, como vai ela?
— Bem, senhor, começamos outra série de exames rigorosos. Mentalmente, devo dizer que ela está em muito boa forma. Infelizmente, não posso dizer o mesmo da parte física...
Dunross escutou com o coração pesado, enquanto o médico entrava em detalhes sobre a esclerose múltipla, explicando que ninguém sabia muito sobre a doença, que não havia cura conhecida, e que a moléstia ocorria em níveis descendentes... uma vez que tivesse havido alguma deterioração da estrutura nervosa, não era possível, com a medicação atual, voltar ao nível anterior.
— Tomei a liberdade de chamar o professor Klienberg, da clínica da ucla em Los Angeles, para uma consulta... ele é o maior especialista na moléstia. Por favor, fique descansado que faremos tudo o que pudermos pela sra. Gavallan.
— Não me parece que o senhor possa fazer alguma coisa.
— Bem, não é assim tão grave, senhor. Se a sra. Gavallan se cuidar, descansar e for sensata, pode levar uma vida normal durante muitos anos.
— Quanto tempo é "muitos anos"?
Dunross ouviu a longa hesitação. "Ah, Kathy, pobre Kathy!"
— Não sei. Muitas vezes esse tipo de problema está nas mãos de Deus, sr. Dunross. Os doentes não seguem todos o mesmo padrão. No caso da sra. Gavallan, eu poderia dar-lhe uma resposta melhor daqui a seis meses, quem sabe no Natal. Nesse meio tempo, já a inscrevi como paciente no serviço de saúde da previdência, assim...
— Não. Quero que ela seja paciente particular, dr. Sam-son. Por favor, mande todas as contas para o meu escritório.
— Sr. Dunross, não há diferença na qualidade do meu serviço. Ela apenas terá que aguardar um pouquinho na sala de espera, e ficar numa enfermaria, não num quarto particular do hospital.
— Por favor, que ela seja paciente particular. Eu prefiro, e o marido dela também.
Dunross ouviu o suspiro, e detestou-o.
— Muito bem — dizia o médico. — Tenho todos os seus telefones. Ligarei para o senhor tão logo o professor Klienberg tenha feito o seu exame e os testes estejam concluídos.
Dunross agradeceu e repôs o fone no gancho. "Oh, Kathy, pobre e querida Kathy!"
Quando se levantara, ao alvorecer, conversara com ela e com Penelope. Kathy dissera-lhe que estava se sentindo melhor, e que Samson fora muito encorajador. Penn lhe dissera, mais tarde, que Kathy estava com um ar muito cansado.
— A coisa não está com boa cara, Ian. Há alguma chance de você poder vir para cá por uma ou duas semanas, antes de 10 de outubro?
— Não no momento, Penn, mas nunca se sabe.
— Vou levar Kathy para Avisyard logo que ela sair do hospital. No máximo na semana que vem. Ficará melhor ali. O campo a fará melhorar, não se preocupe, Ian.
— Penn, quando chegar a Avisyard, quer ir até a Árvore dos Gritos por mim?
— O que aconteceu?
Ele ouviu a preocupação na voz dela.
— Nada, querida — falou, pensando em Jacques e Phillip Chen... "Como posso explicar isso?" — Nada de especial, o mesmo de sempre. Só queria que você dissesse alô à nossa Árvore dos Gritos verdadeira.
— O nosso jacarandá aí não está servindo?
— Não, está ótimo, mas não é a mesma coisa. Quem sabe você devia trazer uma muda para Hong Kong.
— Não. É melhor a deixarmos onde está. Só assim você tem que voltar para casa, não é, Ian?
— Posso fazer uma aposta por você, para hoje à tarde? Nova pausa.
— Dez dólares no cavalo que escolher. Eu apoiarei a sua escolha. Sempre apoiarei a sua escolha. Ligue para mim amanhã. Amo você... tchau.
Lembrou-se da primeira vez em que ela dissera "Amo você", e, depois, mais tarde, quando ele a pedira em casamento, todas as recusas, até que, finalmente, no meio de um pranto sentido, o motivo real:
— Ah, Deus, Ian, não sirvo para você. Você é de classe alta, eu não. Meu modo de falar, tive que aprender. É, no começo da guerra fui enviada para a zona rural... meu Deus, eu só tinha estado fora de Londres duas vezes, até então, em toda a minha vida, só até o litoral. Fui enviada para uma belíssima mansão em Hampshire, onde todas as outras garotas eram de uma das melhores escolas da classe alta. Byculla chamava-se a mansão. Houve uma confusão, Ian, e todo o meu colégio foi para outro lugar, só eu fui para Byculla, e foi só então que descobri que falava diferente, de modo diferente... está vendo, às vezes ainda me esqueço! Ah, Deus, não tem idéia de como foi horrível descobrir, tão garota, que eu era... vulgar, de fala vulgar, e que há diferenças tão ilimitadas na Inglaterra, no modo como falamos... o modo como falamos é uma coisa tão importante!
"Ah, como me esforcei para imitar as outras! Elas me ajudavam, e houve uma professora que foi maravilhosa para mim. Eu me joguei de cabeça na nova vida, na vida delas, e jurei me aperfeiçoar, e nunca mais voltar, nunca, nunca, nunca, e não vou. Mas não posso me casar com você, meu querido. Sejamos apenas amantes, jamais serei boa o bastante para você."
Mas, com o tempo, eles se casaram. Vovó Dunross a convencera. Penelope concordara, mas somente depois de ter ido sozinha até a Árvore dos Gritos. Nunca lhe contara o que havia dito.
"Tenho tanta sorte!", pensou Dunross. "Ela é a melhor mulher que um homem podia ter."
Desde que voltara da pista de corridas, ao amanhecer, ele trabalhara sem cessar. Meia centena de telegramas. Dúzias de telefonemas internacionais. Inúmeros locais. Às nove e meia ligara para o governador, contando a proposta de Tiptop.
— Terei que consultar o ministro — dissera Sir Geoffrey. — O mais cedo que poderei telefonar para ele será às quatro da tarde. Ian, isso deve ser mantido em segredo absoluto. Ah, meu Deus, Brian Kwok deve ser importantíssimo para eles!
— Ou quem sabe apenas outra concessão conveniente para a entrega do dinheiro.
— Ian, não acredito que o ministro vá concordar com uma troca.
— Por quê?
— O governo de Sua Majestade pode considerá-lo um precedente, um mau precedente. Eu consideraria.
— O dinheiro é vital.
— O dinheiro é um problema temporário. Infelizmente, os precedentes são eternos. Esteve na pista?
— Sim, senhor.
— Que tal os cavalos?
— Pareciam todos em grande forma. Aleksei Travkin disse que Pilot Fish é o nosso maior concorrente, e que a pista vai estar macia. Noble Star está ótima, mas nunca correu em pista molhada.
— Vai chover?
— Sim. Mas talvez tenhamos sorte, senhor.
— Esperemos que sim. Que tempos terríveis, Ian. Enfim, essas coisas nos são enviadas para nos provar, não é? Vai ao enterro do John?
— Vou, senhor.
— Eu também. Coitado...
No enterro, de manhã, Dunross dissera palavras gentis sobre John Chen para não desmoralizar a Casa de Chen, e todos os ancestrais dos Chens que haviam servido bem e durante muito tempo à Casa Nobre.
— Obrigado, tai-pan — dissera Phillip Chen, simplesmente. — Sinto muito, mais uma vez.
Mais tarde, dissera em particular a Phillip Chen:
— Sentir muito não nos ajuda a sair da armadilha em que você e seu filho nos colocaram. Nem a resolver o problema do maldito Quatro Dedos e a terceira moeda.
— Eu sei, eu sei! — dissera Phillip Chen, torcendo as mãos. — Eu sei, e a não ser que possamos conseguir de volta as ações estamos arruinados, estamos todos arruinados! Oh ko, depois que você anunciou a alta, comprei e comprei, e agora estamos arruinados.
Dunross dissera vivamente:
— Temos o fim de semana, Phillip. Agora, escute-me, merda! Você vai pedir o troco de cada favor que lhe devem. Quero o apoio de Lando Mata e Tung Pão-Duro até a meia-noite de domingo. Pelo menos vinte milhões.
— Mas, tai-pan, não...
— Se isso não estiver nas minhas mãos até a meia-noite de domingo, quero o seu pedido de demissão na minha mesa até nove horas. Você não será mais o nosso representante nativo, seu filho estará excluído, e toda a sua linhagem estará excluída para sempre, e escolherei um novo representante, de outra linhagem.
Então, soltou pesadamente a respiração, odiando o fato de que Phillip Chen e John Chen — e provavelmente Jacques de Ville — houvessem traído a sua confiança. Foi até a bandeja e serviu-se de um pouco de café. Naquele dia, o gosto não lhe parecia bom. Os telefones não paravam de tocar, a maior parte dos telefonemas sobre o próximo colapso do mercado de capitais, do sistema bancário. Havergill, Johnjohn, Richard Kwang. Nada da parte do Pão-Duro, Lando Mata ou Murtagh. O único momento alegre fora o seu telefonema para David MacStruan, em Toronto:
— David, quero você aqui para uma reunião na segunda-feira. Pode...
Foi interrompido por um berro de alegria.
— Tai-pan, já estou a caminho do aeroporto. Bom...
— Agüente as pontas, David!
Explicara o seu plano de transferir Jacques para o Canadá.
— Oh, meu rapaz, se fizer isso, serei seu escravo para sempre!
— Vou precisar de mais do que escravos, David — dissera, cuidadosamente.
Fez-se uma longa pausa, e a voz do outro lado tornou-se mais dura.
— Qualquer coisa que quiser, tai-pan, já tem. Qualquer coisa.
Dunross sorriu, animado ao pensar no primo distante. Deixou o olhar vagar pela janela. O porto estava nublado, o céu pesado e escuro, mas ainda não havia chuva. "Ótimo", pensou, "contanto que não chova até depois de terminado o quinto páreo! Depois das quatro, pode chover. Quero esmagar Gornt e Pilot Fish e, oh, Deus, que o First Central libere o meu dinheiro, ou o Lando Mata ou o Pão-Duro ou a Par-Con! Sua aposta está coberta", disse a si mesmo, estoicamente, "de todas as maneiras possíveis. E Casey? Também estará tentando me lograr, como o Bartlett? E como o Gornt? E quanto a..."
— Tai-pan, seu compromisso das onze horas chegou — disse a voz de Claudia, pelo interfone.
— Claudia, venha aqui um segundo. — Tirou da gaveta um envelope que continha mil dólares e entregou-lhe. — Dinheiro para as apostas, conforme o prometido.
— Ah, obrigada, tai-pan.
Havia vincos de preocupação no rosto alegre dela, e sombras sob o sorriso.
— Vai ficar na tribuna de Phillip?
— Vou, sim. Tio Phillip me convidou. Ele... parece muito abalado — disse ela.
— É por causa do John. — Dunross não tinha certeza se ela sabia. "Provavelmente sabe", pensou, "ou logo saberá. Não há segredos em Hong Kong. " — Quais os seus favoritos?
— Winner's Delight no primeiro, Buccaneer no segundo.
— Dois azarões? — Fitou-a. — Tem alguém de dentro dando as dicas para você?
— Ah, não, tai-pan. — Um pouquinho do seu bom humor normal voltou. — É só palpite.
— E no quinto?
— Não vou apostar no quinto, mas estou torcendo por Noble Star. — Claudia acrescentou, preocupada: — Há algo que eu possa fazer para ajudar, tai-pan? Qualquer coisa? A Bolsa de Valores e... temos que dar um jeito de massacrar o Gornt.
— Até que gosto do Gornt... é mesmo um fang-pi. — A obscenidade cantonense era pitoresca, e ela achou graça. — Agora, faça entrar a sra. Gresserhoff.
— Sim, sim, tai-pan — disse Claudia. — E obrigada pelo h'eung yau!
Dali a um momento, Dunross se levantou para receber sua visitante. Era a mulher mais bela que já tinha visto.
— Ikaga desu ka? (Como vai?) — perguntou, estupefato, no seu japonês fluente, imaginando como podia ter sido casada com Alan Medford Grant, cujo nome, Deus do céu, também parece que era Hans Gresserhoff.
— Genki, tai-pan. Domo. Genki desu! Anatawa? (Bem, tai-pan, obrigada, e o senhor?)
— Genki.
Ele curvou-se ligeiramente e não apertou a mão dela, embora tivesse notado que suas mãos e pés eram pequeninos, as pernas, longas. Conversando fiado por um momento, depois ela passou a falar em inglês, com um sorriso.
— O senhor fala japonês muitíssimo bem, tai-pan. Meu marido, ele não me contou que o senhor era tão alto.
— Quer um pouco de café?
— Obrigada... ah, mas deixe que eu vá buscar para o senhor, também. — Antes que pudesse detê-la, ela já se dirigira para a bandeja de café. Observou enquanto ela servia, delicadamente. Entregou-lhe a primeira xícara, com uma pequena reverência. — Por favor. — Riko Gresserhoff, ou Riko Anjin, mal chegava a um metro e meio, perfeitamente proporcionada, com cabelos curtos e um belo sorriso, e pesaria uns quarenta e um quilos. Sua blusa e a saia eram de seda castanho-avermelhada, bem-talhadas, e francesas. — Obrigada pelo dinheiro para as despesas que a srta. Claudia me deu.
— Não é nada. Nós lhe devemos, ao espólio do seu marido, cerca de oito mil libras. Terei pronto um cheque administrativo para a senhora amanhã.
— Obrigada.
— Estou em dívida para com a senhora, sra. Gresserhoff. Sabe...
— Por favor, chame-me de Riko, tai-pan.
— Muito bem, Riko-san. Sabe tudo a meu respeito, mas nada sei da senhora.
— É. Meu marido disse que eu lhe devia contar o que quisesse saber. Disse que, depois que me tivesse certificado de que era o tai-pan, devia entregar-lhe um envelope que trouxe da parte dele para o senhor. Posso trazê-lo mais tarde? — Novamente, o pequeno sorriso interrogativo. — Por favor?
— Irei agora com a senhora e o apanharei.
— Ah, não, seria muito trabalho. Talvez eu possa trazê-lo para o senhor depois do almoço. Por favor?
— De que tamanho é o envelope? As mãozinhas dela mediram o ar.
— É um envelope comum, mas não muito grosso. Pode pô-lo facilmente no bolso.
O mesmo sorriso, de novo.
— Quem sabe não gostaria de... escute — disse, encantado com a presença dela. — Daqui a um ou dois minutos mando o carro ir levá-la. A senhora pega o envelope e volta para cá. — A seguir, acrescentou, sabendo que ia bagunçar os lugares marcados, mas pouco se importando: — Quer nos fazer companhia no almoço, no hipódromo?
— Ah, mas... mas teria que mudar de roupa e... ah, obrigada, não, iria lhe causar muito transtorno. Não poderia entregar a carta mais tarde, ou amanhã? Meu marido falou que só a entregasse nas suas mãos.
— Não precisa mudar de roupa, Riko-san, está linda. Ah, tem um chapéu?
Ela o fitou, perplexa.
— Como disse?
— É, bem, é costume nosso que as senhoras usem chapéus e luvas para as corridas. É um costume bobo, mas a senhora tem? Um chapéu?
— Tenho. Toda senhora tem um chapéu, naturalmente. Ele sentiu uma onda de alívio.
— Ótimo, então está tudo acertado.
— Bem, se é isso o que o senhor quer... — Levantou-se. — Posso ir, agora?
— Não, se tiver tempo, por favor, sente-se. Durante quanto tempo foram casados?
— Quatro anos. Hans... — Hesitou. Depois, falou com firmeza: — Hans mandou que eu lhe dissesse, mas só ao senhor, caso ele morresse e eu viesse para cá, como vim, que lhe dissesse que o nosso foi um casamento de conveniência.
— Como?
Ela enrubesceu um pouco, mas continuou:
— Por favor, desculpe, mas ele mandou que eu lhe dissesse. Foi uma conveniência para ambos. Consegui cidadania e passaporte suíços, e ele obteve alguém para cuidar dele quando ia à Suíça. Eu... não queria me casar, mas ele me pediu muitas vezes e... enfatizou que isso me protegeria quando ele morresse.
Dunross sobressaltou-se.
— Ele sabia que ia morrer?
— Acho que sim. Disse que o contrato de casamento era apenas de cinco anos, e que não devíamos ter filhos. Levou-me a um advogado de Zurique, que redigiu o contrato para cinco anos. — Abriu a bolsa, os dedos trêmulos, mas não a voz, e tirou de Iá um envelope. — Hans mandou que eu lhe entregasse isso: são cópias do contrato, minha certidão de nascimento e casamento, o testamento e a certidão de nascimento dele. — Pegou um lenço de papel e apertou-o contra o nariz. — Desculpe, por favor.
Cuidadosamente, desamarrou o barbante que envolvia o envelope e tirou de Iá uma carta.
Dunross aceitou-a. Reconheceu a letra de Alan.
"Tai-pan: Esta confirmará que minha mulher Riko Gresserhoff — Riko Anjin — é quem alega ser. Eu a amo de todo o meu coração. Ela merece e merecia alguém bem melhor do que eu. Se ela precisar de ajuda... por favor, por favor, por favor."
Estava assinada por Hans Gresserhoff.
— Não mereço marido melhor, tai-pan — disse numa vozinha triste e confiante. — Ele foi bom para mim, muito bom. E lamento que esteja morto.
Dunross a fitava.
— Ele estava doente? Sabia que ia morrer de alguma moléstia?
— Não sei. Nunca me contou. Um dos seus pedidos antes de... antes de eu me casar com ele, era que não lhe fizesse perguntas, não perguntasse aonde ia, por quê, ou quando ia voltar. Devia aceitá-lo como era. — Um ligeiro arrepio a percorreu. — Era muito difícil viver assim.
— Por que concordou em viver assim? Por quê? Sem dúvida não era necessário, não?
Riko hesitou de novo.
— Nasci no Japão, em 1939, e fui ainda bebê com meus pais para Berna... meu pai era um funcionário subalterno na embaixada japonesa ali. Em 1943, voltou ao Japão, mas deixou-nos em Genebra. Nossa família é... nossa família era de Nagasáqui. Em 1945 meu pai morreu, toda a nossa família morreu. Não havia motivo para voltar, e minha mãe quis ficar na Suíça. Por isso fomos morar em Zurique com um homem bom, que morreu há quatro anos. Ele... eles pagaram meus estudos e me sustentaram, e formávamos uma família feliz. Durante muitos anos eu soube que não eram casados, embora fingissem, e eu também. Quando ele morreu, não deixou dinheiro, ou deixou muito pouco. Hans Gresserhoff era conhecido desse homem, meu padrasto. O nome dele era Simeon Tzerak. Era uma pessoa deslocada, tai-pan, um apátrida nascido na Hungria que fora morar na Suíça. Antes da guerra era contador em Budapeste, ao que dizia. Minha mãe combinou meu casamento com Hans Gresserhoff. — Então, ergueu os olhos do tapete e olhou para ele. — Foi... foi um bom casamento, tai-pan, pelo menos eu me esforcei muito para ser o que meu marido e minha mãe queriam que eu fosse. Meu giri, meu dever, era obedecer a minha mãe, neh?
— É — disse ele bondosamente, compreendendo "dever" e "giri", a mais japonesa das palavras, a mais importante das palavras, que resume uma herança tradicional e um modo de vida. — Tenho certeza de que cumpriu perfeitamente o seu giri. E qual sua mãe acha que é o seu giri, agora?
— Minha mãe está morta, tai-pan. Quando meu padrasto morreu, não quis mais viver. Tão logo me casei, ela subiu uma montanha e esquiou para dentro de um precipício.
— Terrível.
— Ah, não, tai-pan, ótimo. Ela morreu como quis morrer, na hora e local da sua escolha. Seu homem estava morto, eu estava segura, o que mais lhe restava fazer?
— Nada — falou, escutando a suavidade da voz dela, a sinceridade, a calma. A palavra japonesa "wa" veio à sua cabeça: "harmonia". "É isso o que esta moça tem", pensou. "Harmonia. Vai ver que é isso o que lhe dá tanta beleza. Ayeeyah, quem me dera adquirir tal wa!"
Um dos seus telefones tocou.
— Sim, Claudia?
— É Aleksei Travkin, tai-pan. Desculpe, ele disse que era importante.
— Obrigado. — Para a moça, falou: — Dê-me licença um momento. Sim, Aleksei?
— Desculpe incomodar, tai-pan, mas Johnny Moore está doente e não vai poder montar.
Johnny Moore era o principal jóquei deles.
A voz de Dunross tornou-se mais cortante.
— Ele me pareceu bem, hoje de manhã.
— Está com uma febre de trinta e nove graus. O médico disse que pode ser intoxicação alimentar.
— Acha que mexeram na comida dele, Aleksei?
— Não sei, tai-pan, só sei que ele hoje não vai poder montar.
Dunross hesitou. Sabia que era melhor do que os seus demais jóqueis, embora o peso extra que Noble Star teria que carregar pudesse prejudicar o animal. "Devo ou não devo?"
— Aleksei, escale Tom Wong. Decidiremos antes do páreo.
— Sim. Obrigado. Dunross desligou.
— Anjin é um nome curioso — falou. — Quer dizer "piloto", ou "navegador", não é?
— Conta a lenda da minha família que um dos nossos ancestrais era um inglês que se tornou samurai e conselheiro do xógum Yoshi Toranaga, há muitos, muitíssimos anos. Temos muitas histórias, mas dizem que primeiro ele teve um feudo em Hemi, perto de Yokohama, depois foi com a família para Nagasáqui, como inspetor-geral de todos os estrangeiros. — De novo o sorriso, o dar de ombros, e a ponta da língua umede-ceu-lhe os lábios. — É só uma lenda, tai-pan. Dizem que se casou com uma dama de alta linhagem chamada Riko. — A risadinha dela encheu o aposento. — Conhece os japoneses! Um gaijin, um estrangeiro, casando-se com uma dama de alta linhagem... como isso seria possível? Mas, de qualquer forma, é uma história agradável, e uma explicação para um nome, neh? — Ela se levantou, e ele também. — Preciso ir, agora. Sim?
"Não", ele teve vontade de dizer.
O Daimler preto parou diante do Vic, as armas da Struan discretamente pintadas nas portas. Casey e Bartlett esperavam no topo das escadas, Casey de vestido verde, constrangida num chapeuzinho verde, redondo e de copa baixa, e em suas luvas brancas, Bartlett de ombros largos, a gravata azul combinando com o terno bem-talhado. Ambos estavam de cara fechada.
O chofer aproximou-se deles.
— Sr. Bartlett?
— Sim. — Desceram as escadas e foram ao seu encontro. — É nosso motorista?
— Sou, sim, senhor. Desculpe, senhor, mas os dois estão trazendo os distintivos de ingresso e os convites?
— Sim, aqui estão — respondeu Casey.
— Ah, ótimo. Desculpe, mas sem eles... Meu nome é Lim. O... bem... o costume é os cavalheiros prenderem os dois distintivos à lapela, e as senhoras geralmente usam um alfinete.
— Você é quem manda — disse Bartlett. Casey entrou no banco de trás, e ele a seguiu. Sentaram-se bem afastados. Em silêncio, começaram a pregar os pequenos distintivos, numerados individualmente.
Com ar inexpressivo, Lim fechou a porta, notando a frieza, rindo intimamente. Fechou a divisória elétrica de vidro e ligou o microfone do intercomunicador.
— Se quiser falar comigo, senhor, basta usar o microfone acima do senhor.
Pelo espelho retrovisor, viu Bartlett ligar momentaneamente o microfone.
— Certo, Lim, obrigado.
Tão logo Lim entrou no meio do tráfego, enfiou a mão sob o painel e tocou num botão oculto. Prontamente, ouviu-se a voz de Bartlett pelo alto-falante.
— ...vai chover?
— Não sei, Linc. O rádio disse que sim, mas está todo mundo rezando para que não chova. — Uma hesitação, depois friamente: — Ainda acho que está errado.
Lim recostou-se, satisfeito. Seu irmão mais velho, de toda a confiança, Lim Chu, mordomo dos tai-pans da Casa Nobre, conseguira que um outro irmão mais moço, um excelente mecânico de rádio, instalasse aquele interruptor secundário para que ele pudesse escutar o que diziam os passageiros. Custara muito caro, mas era para proteger o tai-pan, e o Irmão Mais Velho Lim ordenara que nunca devia ser usado quando o tai-pan estivesse no carro. Nunca, nunca, nunca. E nunca o fora. Ainda. Lim sentia-se nauseado à idéia de ser apanhado, mas a vontade deles de saber... naturalmente para proteger... superava sua ansiedade. "Oh, oh, oh", casquinava, "a Pêlos Púbicos Dourados está mesmo uma fera!"
Casey estava fumegando.
— Vamos parar com isso, tá legal? Desde a hora do café que você está parecendo um urso com dor no rabo!
— E você, então? — Bartlett olhou feio para ela. — Vamos ficar com o Gornt... como eu quero.
— Esse negócio é meu, você disse isso cinqüenta vezes. Você prometeu, sempre escutou antes. Pombas, estamos do mesmo lado, só estou tentando protegê-lo. Sei que você está errado.
— Você pensa que estou errado. E tudo por causa da Orlanda!
— Isso é besteira! Já expliquei meus motivos cinqüenta vezes. Se o Ian conseguir sair da armadilha, para nós será muito melhor ficar com ele do que com Gornt.
A fisionomia de Bartlett estava fria.
— Nunca tivemos uma briga antes, Casey, mas se quiser pôr suas ações em votação, farei o mesmo com as minhas, e você estará com o rabo na seringa antes de poder contar até dez!
O coração de Casey batia fortemente. Desde a reunião com Seymour Steigler, na hora do café, que o dia estava pesadíssimo. Bartlett não arredava pé da idéia de que, para ele, ficar com Gornt era o melhor, e nada que ela dissesse o faria mudar de opinião. Depois de uma hora de tentativas, ela encerrara a reunião e fora cuidar de uma pilha de telex chegados durante a noite. Depois, lembrando-se subitamente, em cima da hora, saíra em pânico para ir comprar o chapéu.
Quando se encontrara com Bartlett no saguão, cheia de expectativa, querendo que ele gostasse do chapéu, começara a fazer as pazes com ele, mas ele a interrompera.
— Esqueça — dissera. — Não estamos de acordo. E daí? Ela esperara e esperara, mas ele nem percebera.
— O que você acha?
— Já lhe disse. Gornt é melhor para nós.
— Estou falando do meu chapéu. Notara o olhar vazio dele.
— Ah, então é isso o que está diferente. É, está legal! Casey sentira vontade de arrancar o chapéu e jogá-lo em cima dele.
— É parisiense — dissera, meio sem jeito. — O convite diz chapéu e luvas, lembra? É uma baboseira, mas o Ian disse que as senhoras...
— O que a faz pensar que ele vai conseguir sair da armadilha?
— Ele é esperto. E é o tai-pan.
— Gornt está levando a melhor.
— E o que parece. Bem, vamos esquecer o assunto, por enquanto. É melhor esperarmos Iá fora. O carro vai chegar exatamente ao meio-dia.
— Só um minutinho, Casey. O que você está aprontando?
— O que quer dizer?
— Conheço-a melhor do que ninguém. Está tramando alguma coisa.
Casey hesitou, insegura, perguntando-se se realmente devia revelar a trama do First Central. "Não há motivo para fazê-lo", tranqüilizou-se. "Se o Ian obtiver o crédito e conseguir se safar, serei a primeira a saber. Ele prometeu. Aí, o Linc poderá cobrir os seus dois milhões com Gornt, e eles poderão recom-prar para cobrir as vendas a descoberto, e ter um lucro imenso. Ao mesmo tempo, Ian, Linc e eu entramos no mercado em baixa e obteremos o nosso próprio lucro, enorme. Serei a primeira a saber, depois do Murtagh e do Ian. Ian prometeu. É, foi, sim. Mas, será que posso confiar nele?"
Sentiu uma onda de náusea invadi-la. "Será que a gente pode confiar em alguém, comercialmente, aqui ou em outro lugar qualquer? Homem ou mulher?"
Na noite anterior, durante o jantar, confiara nele. Influenciada pelo vinho e pela comida, contara-lhe sobre o seu relacionamento com Linc, e o trato que haviam feito.
— É dureza, não? Para vocês dois?
— Sim e não. Ambos éramos maiores de idade, Ian, e eu queria ser algo mais do que apenas a sra. Linc Bartlett, mãe-amante-criada-lavadeira-de-pratos-lavadeira-de- fraldas-escrava-deixada-em-casa. Isso é o que acaba matando qualquer mulher. Ela é sempre abandonada. Em casa. Então, a casa acaba se tornando uma prisão, e isso a deixa maluca, o fato de ficar aprisionada até que a morte nos separe! Já vi isso acontecer muitas vezes.
— Alguém tem que cuidar da casa e das crianças. Cabe ao homem ganhar o dinheiro. Cabe à mulher...
— É. Na maioria das vezes. Mas não para mim. Eu não estou preparada para aceitar isso, e não acho que seja errado desejar um tipo de vida diferente. Sou eu quem ganha o sustento da minha família. O marido de minha irmã morreu, ela e os filhos precisam de ajuda. Minha mãe e meu tio estão velhinhos. Sou instruída, preparada, melhor do que muita gente no ramo. O mundo está mudando, tudo está mudando, Ian.
— Como já disse, não aqui, graças a Deus!
Casey lembrou-se de como já estava pronta para dar o troco na mesma moeda, mas mordeu a língua da antiga Casey e, ao invés disso, perguntou:
— Ian, e quanto à Bruxa? Como foi que ela conseguiu? Qual o segredo dela? Como se tornou superior aos outros?
— Os cordões da bolsa ficavam nas mãos dela. Totalmente. Ah, claro que concedia posição e prestígio externos a Culum e aos tai-pans seguintes, mas ela cuidava dos livros, contratava e despedia através dele... era a força daquela família. Quando Culum estava morrendo, foi fácil persuadi-lo a fazê-la tai-pan. Ele lhe entregou o carimbo da Struan, o carimbo da família, todas as rédeas e todos os segredos. Mas, sabiamente, ela manteve tudo em segredo, e depois de Culum só escolhia aqueles a quem podia controlar, e nem uma só vez deu a nenhum deles os cordões da bolsa, ou poder real, até que ela própria estivesse à morte.
— Mas dominar através dos outros será suficiente?
— O poder é o poder, e não creio que importe, contanto que se domine. Para uma mulher, depois de uma certa idade, o poder só vem através do controle do dinheiro. Mas você está certa quanto ao dinheiro do dane-se. Hong Kong é o único lugar no mundo onde você pode consegui-lo e mantê-lo. Com dinheiro, dinheiro grosso, pode-se ser igual a qualquer outro. Até mesmo Linc Bartlett. A propósito, gosto dele. Gosto muito dele.
— Eu o amo. Nossa parceria funcionou, Ian. Acho que tem sido boa para o Linc... ah, como espero que sim! Ele é o nosso tai-pan, e não estou tentando tomar o seu lugar. Só quero ter êxito como mulher. Ele tem me ajudado tremendamente, claro que tem. Sem ele, eu jamais teria conseguido. Assim somos sócios comerciais, até o meu aniversário, no dia 25 de novembro deste ano. É o Dia D. É quando ambos decidiremos.
— E...?
— Não sei, sinceramente não sei. Ah, eu amo o Linc mais do que nunca, porém não somos amantes.
Mais tarde, enquanto voltavam, na barca, ela sentira enorme vontade de fazer-lhe perguntas sobre Orlanda. Resolvera não fazer.
— Talvez eu devesse ter feito — resmungou em voz alta.
— O quê?
— Ah! — Voltou ao presente, encontrando-se na limu-sine, na balsa que levava a Hong Kong. — Desculpe, Linc, estava sonhando acordada.
Olhou para ele, e viu que continuava bonito como sempre, embora olhasse para ela friamente. "Você me atrai mais do que o Ian ou o Quillan", pensou. "E no entanto, agora, preferiria ir para a cama com qualquer um deles, e não com você. Porque você é um filho da mãe."
— Quer ir às últimas conseqüências? — dizia ele. — Quer pôr suas ações em votação contra as minhas?
Casey devolveu-lhe o olhar, furiosa. "Diga a ele para se foder", gritava-lhe a sua metade diabo, "precisa de você mais do que você dele, você tem as rédeas da Par-Con, sabe onde estão todos os podres, pode destroçar o que ajudou a criar." Mas sua outra metade lhe pedia cautela. Lembrou-se do que o tai-pan dissera sobre esse mundo dos homens, sobre o poder. E sobre a Bruxa.
Assim, baixou os olhos por um instante e deixou as lágrimas escorrerem. Imediatamente, notou a mudança nele.
— Puxa, Casey, não chore, desculpe... — dizia, estendendo os braços para ela. — Puxa, você nunca chorou antes... Escute, já cortamos um dobrado uma dúzia de vezes. Que nada! Umas cinqüenta vezes. Não há necessidade de ficar tão nervosa. Fizemos a Struan e Gornt se engalfinharem. No final não haverá diferença. Ainda seremos a Casa Nobre, mas no futuro o Gornt será o melhor, sei que estou certo.
"Mas não está mesmo", pensou, satisfeita, aconchegada a ele.
12h32m
Brian Kwok berrava, alucinado de terror. Sabia que estava na prisão e no inferno, e que aquilo já durava eternamente. Todo o seu mundo insano era um instante de luz cegante que nunca acabava, tudo cor de sangue, as paredes, piso, teto da cela cor de sangue, nem portas nem janelas, o chão cheio de sangue, mas tudo retorcido e de cabeça para baixo, pois, não sabia como, estava deitado no teto, todo o seu ser em tormento, tentando desesperadamente arrastar-se para a normalidade, e todas as vezes voltando a cair dentro do próprio vômito, depois, no instante seguinte, novamente a escuridão, vozes ásperas e estridentes que abafavam a do seu amigo, abafavam a de Robert, que implorava aos demônios que parassem, parassem, pelo amor de Deus parassem, depois novamente a luz de sangue ofuscante, alucinante, vendo as águas de sangue que não caíam, tateando desesperadamente, esticando-se para pegar as cadeiras e mesa que pousavam na água de sangue, mas caindo, sempre caindo, o chão tocando o teto, tudo errado, de cabeça para baixo, de lado, loucura, loucura, a invenção do demônio...
Luz de sangue, escuridão, risos, fedor e sangue de novo, indefinidamente...
Sabia que havia séculos estava delirando, suplicando-lhes que parassem, suplicando-lhes que o soltassem, jurando que faria qualquer coisa, mas que o soltassem, que não era ele a pessoa que buscavam, destinada ao inferno... "É um engano, é tudo um engano. Não, não é engano, eu era o inimigo, quem era o inimigo, que inimigo? Oh, por favor, deixem o mundo ficar na posição certa e deixem-me deitar onde devia estar deitado, Iá embaixo, onde, oh, Deus, Robert, Deus, me ajudem, me aju-deeemmm..."
— Pronto, Brian, estou aqui. Estou consertando tudo, estou sim, estou consertando tudo!
Escutou as palavras compassivas que ecoavam em meio à confusão, abafando as risadas. O sangue que o envolvia desapareceu. Sentiu a mão do amigo, fresca e suave, e agarrou-se a ela, apavorado de que aquilo fosse um outro sonho dentro de um sonho. "Ah, meu Deus, Robert, não me deixe...
"Ah, Deus, é impossível! Olhe só! O teto está onde devia estar, e eu estou aqui, estou deitado na cama onde devia estar, e o quarto está apenas na penumbra, tudo está limpo, flores, persianas cerradas, mas flores e a água direitinho no vaso, e estou de cabeça para cima. Estou de cabeça para cima."
— Ah, santo Deus, Robert...
— Alô, amigão — disse Robert Armstrong suavemente.
— Ah, Deus, Robert, obrigado, obrigado, estou de cabeça para cima, oh, obrigado, obrigado...
Era difícil falar, e ele se sentia fraco, completamente sem forças, mas era maravilhoso apenas estar ali, fora do pesadelo, o rosto do amigo indistinto mas real. E fumando. "Estou fumando? Ah, estou. É, acho que me lembro de que o Robert me deixou um maço de cigarros, mas esses demônios chegaram, o encontraram e o tiraram de mim, na semana passada... graças a Deus pelo cigarro... Quando é que foi, no mês passado, na semana passada, quando? É, eu me lembro, mas Robert voltou de novo, e me deixou fumar em segredo no mês passado. Não foi no mês passado?"
— Ah, que gosto bom, tão bom, e a paz, nenhum pesadelo, Robert, nada de enxergar sangue Iá em cima, o teto inundado, não ficar deitado Iá em cima, mas aqui embaixo, não estar no inferno, oh, obrigado, obrigado...
— Tenho que ir, agora.
— Ah, Deus, não se vá! Eles podem voltar. Não vá, sente-se, fique, por favor, fique. Olhe, vamos conversar, é, é isso, conversar, você queria conversar... não vá embora. Por favor, converse...
— Está certo, velho amigo, então converse. Não vou embora enquanto estivermos conversando. O que quer me contar, hem? Claro que ficarei enquanto você fala. Fale-me de Ning-tok e do seu pai. Você não voltou para vê-lo?
— Ah, sim, voltei para vê-lo uma vez, é, pouco antes de ele morrer. Meus amigos me ajudaram, eles me ajudaram. Foi só um dia, meus amigos me ajudaram... faz tanto tempo...
— O Ian foi com você?
— Ian? Não, foi... foi o Ian? Não consigo lembrar... Ian, o tai-pan? Alguém foi comigo. Foi você, Robert? Ah, comigo em Ning-tok? Não, não foi você ou o Ian, foi John Chancellor, de Ottawa. Ele também odeia os soviéticos, Robert, eles são os grandes inimigos. Até mesmo na escola, e o demônio
Chang Kai-chek e seus assassinos Fong-fong e... e... Ah, estou tão cansado e tão contente em vê-lo...
— Fale-me de Fong-fong.
— Ah, ele. Era um homem mau, Robert, ele e todo o seu grupo de espiões eram contra nós, a República Popular da China, e pró-Chang, eu sei; não se preocupe, logo que li o... O que está me perguntando, hem?
— Foi aquele cretino do Grant, não foi?
— Foi, foi, sim, e eu quase desmaiei quando ele soube que eu era... eu... onde estava, ah, sim, mas eu detive Fong-fong imediatamente... Ora se não!
— A quem contou?
— Ao Tsu-yan. Sussurrei a Tsu-yan. Ele agora está de volta a Pequim... Ah, ele ocupava uma posição altíssima, embora não soubesse quem eu realmente era, Robert, sempre fiz tudo muito escondido... É, depois foi na escola, meu pai me mandou depois que o velho Sh'in foi assassinado... os bandidos vieram e o chicotearam até a morte na praça da aldeia, porque era um de nós, um do povo, um do povo do presidente Mao, e quando morei em Hong Kong fiquei com... com o Tio... ia à escola e ele me dava aulas à noite... Posso dormir, agora?
— Quem era o seu tio, Kar-shun, e onde morava?
— Não... não me lembro...
— Então, preciso ir. Na semana que vem eu volto...
— Não, espere, Robert, espere, era Wu Tsa-fing, no... no Quarto Beco, em Aberdeen... número 8, 8 de sorte, quinto andar. Está vendo, lembrei! Não vá!
— Muito bem, amigo, muito bem. Esteve na escola em Hong Kong por muito tempo?
Robert Armstrong manteve a voz suave e bondosa, o coração condoído do amigo do passado. Estava atônito ao ver que Brian cedera tão fácil e rapidamente.
A mente do cliente agora estava aberta, pronta para que ele a desmontasse. Manteve os olhos fitos na casca de homem que jazia na cama, encorajando-o a lembrar-se para que os outros que escutavam secretamente pudessem registrar todos os fatos, números, locais e nomes, as verdades e meias verdades do agente infiltrado que jorravam e continuariam a jorrar até que Brian Kar-shun Kwok não passasse de um bagaço. E sabia que continuaria a sondar, lisonjear ou ameaçar, ficar impaciente ou zangado, fingir que ia embora ou xingar o carcereiro que vinha interromper, e mandar que ele se retirasse, se necessário. Com Crosse e Sinders controlando o interrogatório, ele não passava de um instrumento, como Brian Kwok fora, um instrumento para outros que se haviam utilizado de sua mente e de seus talentos para seus próprios propósitos. O papel dele era apenas servir de intermediário, manter ò cliente falando, trazê-lo de volta à razão quando ficasse incoerente, ser seu único amigo e esteio nesse universo irreal, aquele que trazia à tona a verdade... como, por exemplo, John Chan-cellor, de Ottawa. Quem seria? Onde se encaixava? Ainda não sabia.
"Arrancaremos agora tudo o que o cliente tem", pensou. "Arrancaremos dele todos os seus contatos, mentores, inimigos e amigos. Pobres do Fong-fong e dos rapazes! Jamais os veremos de novo... a não ser que apareçam como agentes do outro lado. Que negócio podre e nojento é este, vendendo os amigos, trabalhando com o inimigo, que, todos sabem, quer vê-lo escravizado."
— ... em Vancouver foi uma maravilha, uma maravilha, Robert. Lá havia uma moça que... é, e quase me casei com ela, mas o Tok Sensato, o Sensato era o meu 489, morava na... é, morava na Pedder Street, no Bairro Chinês, e era dono do Restaurante Hoho-tok... é, Tok Sensato disse que o presidente Mao estava acima de qualquer quai loh... Ah, como eu a amava, mas ele disse que foram os quai loh que violentaram a China durante anos... Você sabe que é verdade, é verdade ...
— Sim, é verdade — disse ele, para agradá-lo. — O Tok Sensato era o seu único amigo no Canadá?
— Ah, não, Robert, tenho dúzias deles...
Armstrong escutava, espantado com a riqueza de informações sobre o funcionamento interno da Real Polícia Montada Canadense, e a extensão da infiltração comunista chinesa nas Américas e na Europa, especialmente no litoral ocidental. — Vancouver, Seattle, San Francisco, Los Angeles, San Diego... em qualquer lugar onde houvesse um restaurante, loja ou atividade comercial chinesa havia o potencial de pressão, de fundos, e principalmente de conhecimento.
— ...e o Wo Tuk, na Gerrard Street, em Londres, é o centro onde eu... quando eu... Ah, minha cabeça dói, e tenho tanta sede...
Armstrong deu-lhe a água, que continha estimulante. Quando ele ou Crosse achassem que era o momento preciso, o cliente receberia o chá chinês de sabor delicado de sua predileção, para mitigar-lhe a sede. Continha o soporífero.
Então, cabia a Crosse e Sinders decidir o que se seguiria: mais interrogatório, mais Quarto Vermelho ou o fim do exercício, e então, cuidadosamente, a volta gradativa do cliente à realidade, com muita cautela, para não haver danos permanentes.
"Cabe a eles a decisão", pensou. "Sinders agiu bem em pressionar enquanto ainda temos tempo. O cliente sabe demais. Foi muito bem treinado, e se tivéssemos que devolvê-lo sem arrancar o que sabe, bem, isso seria uma irresponsabilidade. Temos que levar vantagem."
Armstrong acendeu dois cigarros e tragou profundamente o seu. "Vou parar de fumar no Natal. Agora não dá, não com todo esse horror." Tinham sido os gritos chorosos de Brian Kwok, tão cedo, cerca de vinte minutos depois de ter sido colocado no quarto pela segunda vez, que o haviam derrubado. Estivera olhando pelas vigias com Crosse e Sinders, observando a insanidade de tentar alcançar o teto que era o chão que era o teto, atônito por ver alguém tão forte, tão bem-treinado quanto Brian Kwok dobrado tão rapidamente.
— É impossível — murmurara.
— Pode estar fingindo — disse Sinders.
— Não — dissera Crosse. — Não, é real. Eu sei.
— Não acredito que possa ser dobrado com tanta facilidade.
— Acreditará, Robert. — E então, quando Brian Kwok fora carregado para aquele quarto limpo e agradável, e o Quarto Vermelho fora esfregado e limpo, Roger Crosse dissera: — Vamos Lá, Robert, experimente. Assim saberá.
— Não, não, obrigado. É como uma coisa saída do Gabinete do dr. Caligari — murmurara. — Não, obrigado.
— Por favor, experimente, só um minuto. É uma experiência importante para você. Poderá ser apanhado por eles, pelo outro lado, algum dia. Deve estar preparado. Um minuto pode salvar sua sanidade. Teste-o, para sua própria segurança.
Assim, concordara. Fecharam a porta. O quarto era totalmente escarlate, pequeno, mas tudo inclinado, as linhas todas erradas, os ângulos todos errados, o teto e o piso se encontrando num dos cantos, as perspectivas todas erradas, nenhum ângulo certo. O teto inclinado, bem Iá no alto, era um pedaço transparente de vidro escarlate. Acima do vidro, a água descia, era reciclada, e descia de novo. Presas a essa superfície de vidro inclinada, que fazia as vezes de teto, havia mesas e cadeiras escarlates e canetas e papéis largados casualmente sobre a mesa, almofadas escarlates nas cadeiras, fazendo com que parecesse ser o chão, uma porta falsa próxima, entreaberta...
Escuridão repentina. Depois, a luz cegante e o impacto atordoante do escarlate. Escuridão, escarlate, escuridão, escarlate. Involuntariamente, tateou em busca da realidade da mesa e das cadeiras, do chão e da porta, e tropeçou e caiu, sem conseguir se orientar, a água acima dele. O vidro havia sumido, apenas uma água escarlate e insana no chão Iá em cima. Escuridão, e agora vozes tonitruantes, e novamente o inferno cor de sangue. O estômago lhe dizia que estava de cabeça para baixo, embora a mente dissesse: "É só um truque, feche os olhos, é um truque, é um truque, é um truque..."
Após uma eternidade, quando finalmente as luzes normais foram acesas e a porta de verdade, aberta, ele estava deitado no chão de verdade, com ânsias de vômito.
— Seu filho da mãe — rosnara para Crosse, mal conseguindo falar. — Você falou um minuto, seu filho da mãe mentiroso!
O peito dele arfava e levantou-se com dificuldade, tonto, mal agüentando ficar de pé ou parar de vomitar...
— Desculpe, mas foi só um minuto, Robert — disse Crosse.
— Não acredito...
— Foi, verdade! — disse Sinders. — Eu mesmo o cronometrei. Francamente! Extraordinário. Muito eficaz.
Novamente, Armstrong sentiu o peito arfar ao pensar na água Iá em cima e na mesa e nas cadeiras. Afastou esses pensamentos e concentrou-se em Brian Kwok, achando que já tinha deixado o cliente divagar bastante, e que estava na hora de trazê-lo de volta.
— Você dizia? Passou os nossos dossiês para seu amigo Lo Dentuço?
— Bem, não, não foi... estou cansado, Robert, cansado... o que vai...
— Se está cansado, vou embora! — Levantou-se e viu o cliente empalidecer. — No mês que vem veremos...
— Não... não... por favor, não vá... eles, não, não vá. Por favooooor!
Então, voltou a sentar-se, continuando o jogo, sabendo que era injusto, e que um cliente não totalmente desorientado seria forçado a assinar qualquer coisas dizer qualquer coisa que se quisesse.
— Ficarei enquanto você fala, amigo. Falava de Lo Dentuço... o homem do Edifício Princes? Ele era o intermediário?
— Não... não... bem, de certa forma... O dr. Meng... O dr. Meng apanhava qualquer pacote que eu deixasse ... Meng nunca soube que eu... que era eu... os arranjos eram feitos por telefone ou por carta... ele os levava para Lo, que era pago... Lo Dentuço era pago para dá-los a outro homem, não sei quem... não sei...
— Ah, mas acho que sabe, Brian, não creio que queira que eu fique.
— Ah, Deus, quero... juro... Dentuço... Dentuço deve saber... ou quem sabe Ng, Vee Cee Ng, Ng Fotógrafo, ele está do nosso lado, está do nosso lado, Robert... Pergunte a ele, deve saber... importava tórios com Tsu-yan...
— O que são tórios?
— Óxidos raros para... as nossas armas atômicas... é, sim, teremos as nossas próprias bombas A e bombas H daqui a poucos meses... — Brian Kwok teve um acesso de riso. — A primeira daqui a semanas... a nossa primeira explosão daqui a poucas semanas, claro que não perfeita, mas a primeira, e logo uma bomba H, dúzias, Robert, logo teremos as nossas para nos defendermos daqueles hegemonistas que ameaçam nos destruir, daqui a poucas semanas! Pombas, Robert, pense nisso! O presidente Mao conseguiu, é verdade, conseguiu... é, e no ano que vem bombas H, e depois o Joe, é, vamos retomar as nossas terras, é, com as armas atômicas anularemos as deles... é isso aí, Joe vai ajudar, Joe Yu vai... Ah, agora vamos detê-los, detê-los, vamos detê-los e retomar as nossas terras. — Estendeu a mão e agarrou o braço de Robert Armstrong, mas sem força. — Ouça, já estamos em guerra, nós e os soviéticos, Chung Li me contou, ele é o meu contato de emer... de emergência... existe uma guerra, uma guerra ativa, nesse momento. Ao norte, divisões... não patrulhas... perto do Amur estão matando mais chineses e roubando mais terra... mas não por muito tempo.
Recostou-se debilmente e começou a resmungar, a mente divagando.
— Bombas atômicas? No ano que vem? Não acredito — disse Armstrong, fingindo debochar, a cuca fundida enquanto escutava o jorro contínuo que narrava os fatos e dava nomes aos bois.
"Santo Deus, bombas A daqui a poucos meses? Poucos meses? O mundo está pensando que isso é para daqui a dez anos. A China com bombas A e H?"
Cuidadosamente, deixou Brian Kwok esgotar o verbo, depois perguntou com naturalidade:
— Quem é Joe? Joe Yu?
— Quem?
Viu Brian Kwok virar-se e fitá-lo, os olhos estranhos, diferentes, penetrantes. Imediatamente ficou em guarda e preparado.
— Joe Yu — disse, ainda mais despreocupadamente.
— Quem? Não conheço nenhum Joe Yu... não... O que, o que... o que estou fazendo aqui? Que lugar é este? O que está acontecendo? Yu? Por que... por que deveria conhecê-lo? Quem?
— Por nada — disse Armstrong, acalmando-o. — Pronto, tome um pouco de chá, deve estar com muita sede, amigão.
— Ah, sim, estou, sim... onde... sim... Meu Deus, o que está acon... acontecendo?
Armstrong ajudou-o a beber. A seguir, deu-lhe outro cigarro e acalmou-o mais um pouco. Dali a momentos, Brian Kwok estava de novo profundamente adormecido. Armstrong enxugou as palmas da mão e a testa, também exausto.
A porta se abriu. Sinders e Crosse entraram.
— Muito bom, Robert — disse Sinders, entusiasmado —, muito bom mesmo!
— É — disse Crosse —, também senti que ele vinha voltando. Seu cálculo de tempo foi perfeito.
Armstrong ficou calado, sentindo-se sujo.
— Meu Deus — casquinava Sinders —, esse cliente vale ouro. O ministro ficará encantado. Armas atômicas daqui a alguns meses, e uma guerra ativa em pleno andamento! Não admira que a nossa Delegação Comercial Parlamentar fizesse um progresso tão maravilhoso! Excelente, Robert, simplesmente excelente!
— Acredita no cliente, senhor? — perguntou Crosse.
— Totalmente, você não?
— Acredito que ele estava contando o que sabia. Se é ou não verdade, já é outra história. Joe Yu? Joe ou Joseph Yu significa alguma coisa para vocês? — Os outros sacudiram a cabeça. — John Chancellor?
— Não.
— Chung Li?
— Há um Chung Li que é amigo do Bri... do cliente, um apaixonado por carros, xangaiense, grande industrial, pode ser ele — disse Armstrong.
— Ótimo. Mas Joe Yu, isso mexeu com alguma coisa nele. Pode ser importante. — Crosse olhou para Sinders. — Continuamos?
— Naturalmente.
13h45m
Um urro de emoção partiu de cinqüenta mil gargantas quando as sete montarias do primeiro páreo, com os jóqueis levantados, subiram a rampa que saía de sob as tribunas para trotarem garbosamente até o paddock, onde os treinadores e proprietários esperavam. Os proprietários e as mulheres usavam suas melhores roupas, muitas das mulheres excessivamente cheias de jóias e visons, entre elas Mai-ling Kwang e Dianne Chen, cônscias dos olhares invejosos da multidão que torcia o pescoço para ver os cavalos... e elas.
De cada lado do paddock de grama encharcada e do círculo do vencedor, a multidão espremida como sardinha em lata descia até as cercas muito brancas e a grama perfeitamente cuidada da pista circundante. O poste de chegada ficava em frente, e junto a ele, do outro lado da pista, o imenso totalizador que mostraria os nomes dos cavalos, dos jóqueis e as cotações das apostas, páreo por páreo. O totalizador era propriedade do Turf Club, e operado por ele. Aqui ou Iá fora não havia bookmakers legais, ou qualquer outro local de apostas legal. Aquela era a única forma legal de apostas na colônia.
O céu estava escuro e ameaçador. Um pouco antes tinha chuviscado, mas agora o ar estava limpo.
Por trás do paddock e do círculo do vencedor, nesse nível, ficavam os vestiários dos jóqueis e as salas dos funcionários... concessionários de alimentos e o primeiro grupo de guichês de apostas. Acima deles ficavam as tribunas, quatro fileiras em declive, cada piso em cantiléver, com o seu próprio grupo de guichês de apostas. A primeira fileira era para os sócios não-votantes, a seguinte para os votantes, e os dois pisos de cima reservados para as tribunas particulares e a sala de rádio. Cada uma dessas tribunas particulares tinha a sua própria cozinha. Cada um dos dez administradores eleitos anualmente possuía uma tribuna particular e, além delas, havia as permanentes: a de Sua Excelência, o governador, patrono do clube; a do comandante-em-chefe; uma para o Victoria e outra para o Blacs. E, finalmente, a da Struan. Esta ficava na melhor posição, bem em frente à linha de chegada.
— Por que motivo, tai-pan? — quis saber Casey.
— Porque Dirk Struan deu início ao Turf Club, estabeleceu as regras, trouxe um famoso perito em corridas, Sir Roger Blore, para ser o primeiro secretário do clube. Foi ele quem deu o dinheiro para o primeiro encontro, dinheiro para as tribunas, dinheiro para importar a primeira leva de cavalos da índia, e que ajudou a persuadir o primeiro plenipotenciário, Sir William Longstaff, a doar perpetuamente a terra ao Turf Club.
— Ora, vamos, tai-pan — disse jovialmente Donald McBride, o organizador do presente encontro —, conte isso direitinho, tá? Disse que o Dirk "ajudou a persuadir"? O Dirk simplesmente não "ordenou" que Longstaff o fizesse?
Dunross riu junto com os demais, ainda sentados à mesa que presidira, Casey, Hiro Toda e McBride, que viera somente fazer uma visitinha. No reservado havia um bar e três mesas redondas, cada uma delas acomodando confortavelmente doze pessoas.
— Prefiro a minha versão — disse. — De qualquer modo, Casey, conta a lenda que Dirk ganhou este lugar por aclamação popular quando as primeiras tribunas foram construídas.
— Isso também não é verdade, Casey — disse Willie Tusk, sentado à mesa ao lado. — O velho Tyler Brock não exigiu a posição como direito de Brock e Filhos? Não desafiou Dirk para disputarem a posição numa corrida, de homem para homem, no encontro seguinte?
— Não, isso não passa de história.
— Os dois apostaram alguma corrida, tai-pan? — indagou Casey.
— Iam fazê-lo, mas parece que o tufão veio cedo demais. De qualquer maneira, Culum recusou-se a sair daqui, e cá estamos. Enquanto o hipódromo existir, isto aqui é nosso.
— E merecidamente — disse McBride, com o seu sorriso feliz. — A Casa Nobre merece o melhor. Desde a eleição dos primeiros administradores, srta. Casey, o tai-pan da Struan sempre foi um deles. Sempre. Por aclamação popular. Bem, tenho que ir andando. — Lançou um olhar ao relógio, sorriu para Dunross. Com grande formalidade, perguntou: — Permissão para começar a primeira corrida, tai-pan?
— Permissão concedida — respondeu Dunross, com um amplo sorriso, e McBride se afastou apressadamente.
Casey fitou Dunross.
— Precisam pedir sua permissão para começar?
— É só um costume. — Dunross deu de ombros. — Imagino que seja uma boa idéia alguém dizer "Bem, vamos começar", não acha? Infelizmente, ao contrário de Sir Geoffrey, os governadores de Hong Kong no passado não ficaram famosos por sua pontualidade. Além disso, a tradição não é uma coisa ruim, absolutametne... dá-nos uma sensação de continuidade, de entrosamento... e proteção. — Terminou o seu café. — Se me dão licença um momento, tenho umas coisinhas a fazer.
— Divirta-se!
Ela o observou enquanto ele se afastava, gostando dele ainda mais do que na véspera. Nesse instante, Peter Marlowe entrou, e Dunross parou um momento.
— Oh, alô, Peter, prazer em vê-lo. Como vai a Fleur?
— Melhorando, obrigado, tai-pan.
— Vamos entrando! Sirva-se de uma bebida... volto já. Aposte no número 5, Excellent Day, no primeiro páreo! Até daqui a pouco.
— Obrigado, tai-pan.
Casey fez sinal para Peter Marlowe, mas ele não a viu. Seus olhos estavam fitos em Grey, que estava com Julian Broadhurst no balcão, arengando para alguns dos outros. Ela viu a fisionomia dele se fechar, e seu coração deu um salto, lembrando-se da hostilidade entre eles. Por isso, chamou-o:
— Peter! Oi, venha sentar-se aqui. Os olhos dele perderam o ar vidrado.
— Ah, alô! — disse.
— Venha sentar-se. Fleur vai ficar boa.
— Ela gostou muito de você ter ido visitá-la.
— Foi um prazer. As crianças estão bem?
— Estão. E você?
— Fantástica. Esta é a única maneira de assistir a uma corrida! — O almoço no reservado da Struan para os trinta e seis convidados fora um bufê fartíssimo de comidas quentes chinesas, ou, se eles preferissem, torta de carne e rins quente e legumes, com pratos de salmão defumado, canapés e frios, queijos e pastelarias de todo tipo, e, para coroar, uma escultura de suspiro do Edifício Struan... tudo preparado na cozinha deles. Champanha, os melhores vinhos tintos e brancos, licores. — Vou ter que fazer dieta durante cinqüenta anos.
— Não você. Como vão indo as coisas?
— Muito bem. Por quê? — perguntou, sentindo o olhar penetrante dele.
— Por nada.
Lançou novo olhar a Grey, depois voltou a atenção para os outros.
— Posso apresentar-lhe Peter Marlowe? Hiro Toda, das Indústrias de Navegação Toda, de Yokohama. Peter Marlowe é um romancista-roteirista de Hollywood. — Então, subitamente, o livro dele lhe veio à mente: Changi e três anos e meio como prisioneiro de guerra, e ela esperou pela explosão. Houve uma hesitação entre os dois homens. Toda cortesmente ofereceu o seu cartão comercial, que Peter Marlowe retribuiu com o seu, com igual cortesia. Hesitou um momento, depois estendeu a mão. — Como vai?
O japonês apertou-a.
— E uma honra, sr. Marlowe.
— É?
— Não é sempre que se conhece um autor famoso.
— Qual! Não sou, não.
— É muito modesto. Gostei muito do seu livro.
— O senhor o leu? — Peter Marlowe fitou-o. — Verdade? — Sentou-se e olhou para Toda, que era muito mais baixo do que ele, flexível e bem-feito de corpo, mais bonito e mais bem-vestido, de terno azul, uma máquina fotográfica pendurada na cadeira, os olhos ao mesmo nível, os dois homens da mesma idade. — Onde o achou?
— Em Tóquio. Temos muitas livrarias inglesas. Por favor, desculpe-me, li a brochura, não o livro encadernado. Não havia destes à venda. Seu romance foi muito esclarecedor.
— É?
Peter Marlowe pegou os seus cigarros e os ofereceu. Toda aceitou um.
Casey disse:
— O fumo não faz bem, vocês dois sabem disso! Ambos sorriram para ela.
— Na Quaresma a gente pára — disse Peter Marlowe.
— Claro.
Peter Marlowe voltou a olhar para Toda.
— Esteve no exército?
— Não, sr. Marlowe. Marinha. Destróieres. Estive na Batalha do Mar do Coral em 42, depois em Midway, subtenente, e mais tarde, em Guadalcanal. Fui a pique duas vezes, mas tive sorte. É, tive sorte, aparentemente mais do que o senhor.
— Estamos ambos vivos, ambos inteiros, mais ou menos.
— Mais ou menos, sr. Marlowe. Concordo. A guerra é um meio curioso de vida. — Toda tirava baforadas do cigarro. — Qualquer hora dessas, se lhe agradasse e não o magoasse, gostaria de conversar com o senhor sobre Changi, suas lições e as nossas guerras. Pode ser?
— Claro.
— Passarei alguns dias aqui — disse Toda. — Estou no Mandarim. Volto na semana que vem. Um almoço, ou jantar, quem sabe?
— Obrigado. Ligarei para o senhor. Se não desta vez, quem sabe da próxima. Algum dia estarei em Tóquio.
Após uma pausa, o japonês disse:
— Não precisamos discutir o seu Changi, se preferir. Gostaria de conhecê-lo melhor. A Inglaterra e o Japão têm muita coisa em comum. Bem, se me dá licença agora, vou fazer a minha aposta.
Fez uma reverência polida e se afastou. Casey sorvia o seu café.
— Foi muito difícil para você? Ser educado?
— Ah, não, Casey, de maneira alguma. Agora somos iguais, ele e eu, qualquer japonês. Os japoneses e os coreanos... o que eu odiava era os que tinham baionetas e balas, quando eu não tinha nem uma coisa nem outra. — Ela notou que ele enxugava o suor, o seu sorriso retorcido. — Mahlu, não estava preparado para encontrar um deles aqui.
— Mahlu? O que é isso, cantonense?
— Malaio. Significa "envergonhado".
Sorriu consigo mesmo. Era uma contração de "puki mahlu". "Mahlu", envergonhado, "puki", uma Ravina Dourada. Os malaios emprestam sentimentos a essa parte da mulher: fome, tristeza, bondade, voracidade, hesitação, vergonha, raiva... toda e qualquer coisa.
— Não precisa sentir vergonha, Peter — disse ela, sem entender. — Admira-me ver você falar com qualquer um deles, depois daquele horror do campo de prisioneiros. Ah, gostei mesmo do livro. Não é maravilhoso que ele também o tenha lido?
— É. Isso me abalou as estruturas.
— Posso lhe fazer uma pergunta?
— Qual?
— Você disse que Changi era a gênese. O que quis dizer com isso?
— Changi mudou todo mundo, mudou os valores permanentemente — disse ele, soltando um suspiro. — Por exemplo, deu-nos uma espécie de torpor frente à morte... nós a vimos demais, para que ela tenha para nós o mesmo significado que para o pessoal de fora, a gente normal. Somos uma geração de dinossauros, os poucos que sobrevivemos. Acredito que qualquer um que vá para a guerra, qualquer guerra, passe a enxergar a vida com olhos diferentes, se conseguir sair dela inteiro.
— O que você enxerga?
— Um monte de baboseiras que é idolatrado como a essência e o objetivo da existência. Tanta coisa na vida "normal, civilizada" é baboseira, que você nem pode imaginar! Para nós, os "ex-hóspedes" de Changi... nós temos sorte, estamos purificados, sabemos o que a vida realmente é. O que assusta você não me assusta, e você daria risada do que me assusta.
— Como, por exemplo? Abriu um sorriso.
— Chega de falar em mim e no meu carma. Tenho uma "barbada" para o... — Interrompeu-se, e ficou olhando fixamente para um ponto. — Meu Deus, quem é aquela?
— Riko Gresserhoff. Ela é japonesa — falou Casey, rindo.
— Qual deles é o sr. Gresserhoff?
— Ela é viúva.
— Aleluia!
Ficaram olhando enquanto ela se dirigia para o terraço.
— Não se atreva, Peter!
A voz dele ficou imponente:
— Sou um escritor! É apenas uma questão de pesquisa!
— Pois sim!
— Tem razão.
— Peter, dizem que todos os primeiros romances são autobiográficos. Quem era você, no livro?
— O herói, é claro.
— O Rei? O comerciante americano?
— Ah, não, ele não. E agora chega mesmo de falar no meu passado. Vamos falar de você. Tem certeza de que está bem?
Manteve os olhos fitos nos dela, como que forçando-a a contar a verdade.
— Como?
— Correu um boato de que você andou chorando ontem à noite.
— Bobagem.
— É mesmo?
Ela lhe devolveu o olhar, sabendo que ele enxergava o seu íntimo.
— Claro. Estou ótima. — Uma hesitação. — Qualquer hora dessas, qualquer hora dessas posso precisar de um favor.
— É? — Franziu o cenho. — Estou no reservado de McBride, dois depois deste, descendo o corredor. Tudo bem se você quiser ir me visitar. — Deu uma olhada para Riko. Seu prazer desapareceu. Agora ela estava conversando com Robin Grey e Julian Broadhurst, os deputados trabalhistas. — Acho que hoje não é o meu dia — resmungou. — Volto depois, tenho que ir fazer a aposta. Até logo, Casey.
— Qual a "barbada"?
— Número 7, Winner's Delight.
Winner's Delight, um azarão, ganhou do favorito, Excellent Day, por meio corpo. Satisfeitíssima consigo mesma, Casey entrou na fila diante do guichê pagador do vencedor, agarrando os bilhetes premiados, consciente dos olhares invejosos dos que caminhavam pelo corredor diante das tribunas particulares. Apostadores agoniados já estavam deixando o dinheiro nos outros guichês para o segundo páreo, que era a primeira parte da loteria dupla. Para ganhar uma loteria, tinham que prever o primeiro e o segundo lugares, em qualquer ordem. A dupla juntava o segundo páreo com o quinto, que era o grande páreo do dia. O prêmio da loteria dupla seria imenso, as probabilidades de se acertar quatro cavalos, muito poucas. A aposta mínima era de cinco HK. Não havia máxima.
— Por que motivo, Linc? — perguntara pouco antes da corrida, no balcão, virando a cabeça para espiar os cavalos na linha de largada, todos os yan de Hong Kong com seus binóculos em foco.
— Olhe só para o totalizador. — Os números eletrônicos piscavam e mudavam à medida que eram feitas as apostas nos diferentes cavalos, reduzindo as probabilidades, imobilizando-se pouco antes da largada. — Olhe só para o dinheiro investido nesse páreo, Casey! Mais de três milhões e meio de dólares de Hong Kong. É quase um dólar por cada homem, mulher e criança em Hong Kong, e é apenas o primeiro páreo. Esse deve ser o hipódromo mais rico do mundo. Essa turma é maluca por jogo!
Um urro imenso subiu da multidão quando foi aberto o portão de largada. Olhara para ele e sorrira.
— Tudo bem?
— Claro. E com você?
— Ah, tudo.
"É, tudo bem comigo", pensou de novo, esperando a sua vez de pegar o dinheiro. "Sou uma vencedora!" Riu alto.
— Oh, alô, Casey! Ah, também ganhou?
— Hem? Ah, alô, Quillan, ganhei, sim. — Saiu do seu lugar na fila para juntar-se a Gornt, os cutros todos estranhos para ela. — Só tinha apostado dez nela, mas ganhei.
— A quantia não importa; ganhar, sim — Gornt sorriu. — Gosto do seu chapéu.
— Obrigada.
"Curioso", pensou, "tanto o Quillan quanto o Ian o haviam elogiado imediatamente. Maldito Linc!"
— É muita sorte escolher o primeiro vencedor, na- primeira vez que se vai a um hipódromo.
— Ah, mas não escolhi. Foi o Peter que me deu a dica. Peter Marlowe.
— Ah, sei, Marlowe. — Viu os olhos dele se modificarem ligeiramente. — Ainda está de pé o nosso programa para amanhã?
— Ah, está, sim. Se o tempo permitir.
— Mesmo que esteja chovendo. Almoço, pelo menos.
— Ótimo. No embarcadouro, às dez em ponto. Qual é o seu reservado?
Ela notou uma mudança instantânea que ele tentou disfarçar.
— Não tenho. Não sou um dos administradores. Ainda. Sou um convidado praticamente permanente no reservado do Blacs, e de vez em quando peço emprestado o lugar inteiro para uma festa. Fica descendo o corredor. Quer dar uma passa-dinha Iá? O Blacs é um excelente banco, e...
— Ah, mas não é tão bom quanto o Vic — disse Johnjohn, Simpaticamente, ao passar por eles. — Não acredite numa palavra do que ele diz, Casey. Parabéns! Dá sorte ganhar o primeiro. Vejo vocês dois mais tarde.
Casey ficou olhando para ele, pensativa. Depois, falou:
— E quanto à corrida aos bancos, Quillan? Ninguém parece estar se importando... é como se não estivesse acontecendo, o mercado de valores não estivesse desabando, não houvesse um desastre iminente.
Gornt achou graça, consciente dos ouvidos atentos à conversa deles.
— Hoje é dia de corrida, uma raridade, e o amanhã cuidará de si mesmo. Joss! A Bolsa abre às dez horas de segunda-feira, e a semana que vem vai decidir um bocado de destinos. Nesse meio tempo, todo chinês que conseguiu sacar o seu dinheiro está aqui com ele, hoje. Casey, é a sua vez.
Ela pegou o seu dinheiro — 15 por 1. Cento e cinqüenta HK.
— Aleluia! — Gornt pegou um grande maço de notas vermelhas: quinze mil. — Ei, que fantástico!
— O pior páreo a que já assisti — falou uma voz americana azeda. — Pombas, fantástico foi não terem desclassificado o jóquei e anulado a vitória dele.
— Ora, alô, sr. Biltzmann, sr. Pugmire. -— Casey lembrava-se deles da noite do incêndio. — Desclassificar quem?
Biltzmann estava na fila do placê.
— Lá nos Estados Unidos haveria uma objeção do tamanho de um bonde. Entrando na reta depois da última curva, a gente podia ver o jóquei de Excellent Day usando o freio nela como um louco. Foi corrida arranjada... ele não estava tentando ganhar.
Os que estavam por dentro, pouquíssimos, sorriram consigo mesmos. Murmurara-se no vestiário dos jóqueis e na sala dos treinadores que Excellent Day não ia ganhar, mas que Winner's Delight ia.
— Ora, o que é isso, sr. Biltzmann! — disse Dunross. Sem ter sido notado, escutara o comentário quando ia passando, e se detivera. — Se o jóquei não estivesse se esforçando, ou se tivesse havido algum golpe sujo, os administradores teriam percebido imediatamente.
— Pode ser que sirva para amadores, Ian, e para este hipodromozinho, mas em qualquer hipódromo profissional na minha terra o jóquei de Excellent Day seria proibido de correr para o resto da vida. Não tirei o binóculo de cima dele.
Biltzmann pegou o dinheiro ganho no placê com cara feia e foi embora, rudemente.
Dunross perguntou, suavemente:
— Pug, viu o jóquei fazer qualquer coisa fora do normal? Eu não estava assistindo à corrida.
— Não, não vi.
— Alguém viu?
Os que estavam próximos sacudiram a cabeça.
— Para mim pareceu tudo bem — falou alguém. — Nada fora do comum.
— Nenhum dos administradores questionou coisa alguma. — Foi então que Dunross notou o grande maço de notas na mão de Gornt. Ergueu os olhos para ele. — Quillan?
— Não. Mas, com franqueza, acho os modos desse sujeito um espanto. Não creio que fosse uma aquisição adequada para o Turf Club. — Nesse instante, viu Robin Grey passar por eles para fazer uma aposta, e sorriu ante um súbito pensamento. — Dão-me licença, sim?
Fez um gesto cortês de cabeça e se afastou. Casey viu Dunross fitar o maço de notas que Gornt enfiava no bolso, e ficou intimamente horrorizada com a expressão momentânea no seu rosto.
— Será que o Biltzmann... será que tinha razão? — perguntou nervosamente.
— Naturalmente. — Dunross voltou toda a sua atenção para ela. — Corridas arranjadas acontecem em todo lugar. A questão não é essa. Não houve nenhuma objeção por parte dos administradores ou jóqueis ou treinadores. — Os olhos dele estavam cor de chumbo. A pequena veia na sua testa pulsava. — Não é bem isso o que está em jogo.
"Não", pensava. "É uma questão de boa educação. Mesmo assim, acalme-se. Precisa ficar muito tranqüilo, calmo e controlado este fim de semana."
O dia inteiro não tinha tido outra coisa senão problemas. O único momento bom fora Riko Anjin Gresserhoff. Mas depois, a última carta de Alan mais uma vez o enchera de desânimo. Ainda estava no seu bolso, e dizia-lhe que, se por acaso ainda não tivesse destruído as pastas originais, devia aquecer uma dúzia de páginas especificadas contidas nos relatórios, as informações secretas escritas com tinta invisível nessas páginas devendo ser entregues particularmente ao primeiro-ministro ou ao atual chefe da MI-6, Edward Sinders, pessoalmente... e uma cópia entregue a Riko Anjin, num envelope lacrado.
"Se eu fizer isso, terei que admitir que as pastas que lhe entreguei eram falsas", pensou, cansado de Alan, de espionagem e das suas instruções. "Que merda, Murtagh só chega mais tarde, Sir Geoffrey só pode ligar para Londres sobre Tiptop e Brian Kwok depois das dezesseis horas, e agora, puta merda, vem um filho da mãe grosseiro nos chamar de amadores... o que somos. Aposto cem contra um alfinete torto que Quillan sabia antes do páreo."
Como se tivesse tido um pensamento súbito, perguntou com naturalidade:
— Como escolheu o vencedor, Casey? Fechou os olhos e apontou?
— Foi o Peter que me deu a dica. Peter Marlowe. — O rosto dela se alterou. — Oh! Acha que ele sabia que foi arranjada?
— Se eu tivesse imaginado isso, por um momento, o páreo teria sido cancelado. Agora, não há nada que eu possa fazer. Biltzmann...
De repente, soltou uma exclamação abafada, quando a idéia lhe bateu, em toda a sua glória.
— O que foi?
Dunross pegou-lhe o braço e afastou-a para um canto.
— Está preparada para jogar, para obter o seu dinheiro do dane-se? — perguntou suavemente.
— Claro que sim, Ian, se for legal. Mas jogar o quê? — perguntou, sua cautela inata vindo à tona.
— Tudo o que tem no banco, sua casa em Laurel Canyon, suas ações na Par-Con contra de dois a quatro milhões, dentro de trinta dias. Que tal?
O coração dela batia fortemente, o entusiasmo evidente dele contagiando-a.
— Tá legal — falou, depois se arrependeu de ter falado, o estômago dando voltas. — Meu Deus!
— Ótimo. Fique aqui um momento. Vou procurar o Bartlett.
— Espere! Ele também faz parte disso? O que é, Ian? Ele abriu um amplo sorriso.
— Uma modesta oportunidade comercial. É, o Bartlett é essencial. Isso faz com que você mude de idéia?
— Não — falou, constrangida —, mas eu disse que queria conseguir... a minha grana fora da Par-Con.
— Não me esqueci. Espere aqui.
Dunross voltou depressa para a sua tribuna particular, achou Bartlett e levou-o consigo. Foi abrindo caminho pelo corredor movimentado até a cozinha da Struan, cumprimentando gente aqui e ali. A cozinha era pequena, movimentada e limpíssima. O pessoal que ali trabalhava não lhes prestou atenção. Uma porta dava para um minúsculo quarto particular, à prova de som. Quatro cadeiras, uma mesa e um telefone.
— Meu pai mandou construir isto aqui durante a sua gestão... muitos negócios são realizados durante as corridas. Sentem-se, por favor. Bem — olhou para Bartlett —, tenho uma proposta comercial para você e para Casey, como indivíduos, por fora do nosso negócio com a Par-Con, sem nada a ver com a transação da Par-Con. Está interessado?
— Claro. É alguma mamata de Hong Kong?
— Importa-se? — Dunross abriu um amplo sorriso. — É uma proposta comercial corretíssima de Hong Kong.
— Tudo bem, vamos a ela.
— Antes que eu a explique, temos as regras básicas: o jogo é meu, vocês são dois observadores, mas vão receber quarenta e nove por cento dos lucros, divididos igualmente entre os dois. Certo?
— Qual o plano de jogo completo, Ian? — perguntou Bartlett, cautelosamente.
— O seguinte: você deposita dois milhões de dólares americanos até segunda-feira às nove horas num banco suíço da minha escolha.
Os olhos de Bartlett se estreitaram.
— Contra o quê?
— Contra quarenta e nove por cento dos lucros.
— Que lucros?
— Você depositou dois milhões para o Gornt, sem documento, sem carimbo, sem nada, exceto o lucro em potencial.
— Há quanto tempo está sabendo disso? — perguntou Bartlett, com um amplo sorriso.
Dunross retribuiu o sorriso.
— Já lhe disse que não há segredos. Topa? Dunross viu Bartlett olhar para Casey, e prendeu a respiração.
— Casey, sabe do que se trata?
— Não, Linc. — Casey virou-se para Dunross. — Qual ê a mamata, Ian?
— Primeiro quero saber se vou ganhar os dois milhões adiantados, livres e limpos... se vocês toparem o negócio.
— Qual o lucro em potencial? — perguntou Casey.
— De quatro a doze milhões. Livres de impostos. Casey perdeu a cor.
— Livres de impostos?
— Livres de quaisquer impostos de Hong Kong, e podemos ajudá-los a driblar os impostos americanos, se quiserem.
— Qual... qual o período de pagamento? — perguntou Bartlett.
— Os lucros serão estabelecidos em trinta dias. O pagamento levará de cinco a seis meses.
— O total fica entre quatro e doze milhões, ou isso é só a nossa parte?
— A sua parte.
— Isso é um bocado de lucro para algo cem por cento legal.
Fez-se um grande silêncio. Dunross esperou que eles se manifestassem.
— Dois milhões em dinheiro vivo? — indagou Bartlett. — Nenhuma garantia, nada?
— Não. Mas, depois que eu tiver explicado tudo, podem pegar ou largar.
— O que o Gornt tem a ver com isso?
— Absolutamente nada. Esse empreendimento não tem nada a ver com o Gornt, a Rothwell-Gornt, a Par-Con, seu interesse neles ou em nós, ou na transação com a Par-Con. Isso é uma coisa completamente à parte. Aconteça o que acontecer, dou-lhe a minha palavra. E juro por Deus que jamais direi a ele que você entrou com os dois milhões, que vocês dois são meus sócios e vão pegar uma fatia do bolo... ou, a propósito, que estou sabendo que vocês três venderam as minhas ações a descoberto. — Sorriu. — Por falar nisso, foi uma idéia muito boa.
— O negócio vai ser fechado por causa dos meus dois milhões?
— Não. Facilitado. Como sabe, não tenho dois milhões de dólares americanos em espécie, caso contrário não os teria convidado.
— Por que nós, Ian? Poderia levantar dois milhões facilmente com algum dos seus amigos aqui, se o negócio é tão bom.
— É. Mas preferi dividir o doce com vocês. A propósito, ainda estão com a palavra empenhada até a meia-noite de terça-feira. — Dunross falou inexpressivamente. Depois, sua voz se alterou, e os outros sentiram-lhe a alegria. — Mas com esse... esse empreendimento comercial... posso enfatizar dramaticamente o quanto somos superiores à Rothwell-Gornt, e o quanto será mais excitante associar-se a nós do que a eles. Você é um jogador, eu também. Chamam-no de Incursor Bartlett, e eu sou o tai-pan da Casa Nobre. Você arriscou uns míseros dois milhões com o Gornt, sem garantias, por que não comigo?
Bartlett lançou um olhar para Casey. Ela não fez que sim nem que não, embora ele soubesse que estava interessada até a alma.
— Já que está estabelecendo as regras, Ian, responda-me: eu entro com os dois milhões. Por que devemos rachar igualmente, Casey e eu?
— Lembro-me do que disseram durante o jantar sobre o dinheiro do dane-se. Você tem o seu, ela, não. Esse poderia ser um meio de Casey obter o dela.
— Por que está tão preocupado com Casey? Está tentando dividir para governar?
— Se isso for possível, então vocês dois não têm uma sociedade e um relacionamento comercial muito especial. Ela é o seu braço direito, você me disse. Ela é evidentemente muito importante para você e para a Par-Con. Portanto, tem o direito de partilhar.
— O que ela vai arriscar?
— Entrará com a casa dela, as economias, as ações da Par-Con... é tudo o que possui... junto com você. Entregará tudo isso em troca da metade da porção. Certo?
— Certo — concordou Casey, atordoada. Bartlett olhou vivamente para Casey.
— Pensei que você tinha dito que não sabia nada a respeito disso.
Ela olhou para ele.
— Há uns dois minutos Ian me perguntou se eu arriscaria tudo o que possuo para conseguir o meu dinheiro do dane-se, muito dinheiro. — Engoliu em seco e acrescentou:
— Disse que sim, e já estou arrependida.
Bartlett pensou por um momento.
— Casey, seja franca: topa ou não?
— Topo.
— Tá legal. — A seguir, Bartlett abriu um amplo sorriso.
— Muito bem, tai-pan, agora me diga quem temos que matar.
Chu Nove Quilates, que às vezes carregava ouro para Victoria, e era pai de dois filhos e duas filhas — Lily Su, a amiguinha ocasional de Havergill, e Glicínia, a amante de John Chen, cujo destino fora ser pisoteada até a morte diante do Ho-Pak em Aberdeen —, esperava sua vez no guichê de apostas.
— Sim, velho? — falou o encarregado, com impaciência. Tirou do bolso um maço de notas. Era todo o dinheiro que possuía, e todo o que pudera arranjar emprestado, deixando apenas o suficiente para três cheiradas do Pó Branco, de que precisaria para enfrentar o seu turno de logo mais à noite.
— A loteria dupla, por todos os deuses! Números 8 e 5 no segundo páreo, 7 e 1 no quinto.
O encarregado contou metodicamente as notas amassadas. Setecentos e vinte e oito HK. Apertou os botões correspondentes a esses números e examinou o primeiro bilhete. Estava correto: 5 e 8... segundo páreo; 7 e 1... quinto páreo. Cuidadosamente, contou cento e quarenta e cinco bilhetes, cada um deles de cinco HK, a aposta mínima, e entregou-os a ele, com um troco de três HK.
— Ande logo, por todos os deuses — exclamou o seguinte da fila. — Está com os dedos no seu Buraco Negro?
— Tenha paciência! — resmungou o velho, sentindo-se tonto. — Isso é coisa séria!
Cuidadosamente, verificou os bilhetes. O primeiro, três escolhidos ao acaso e o último estavam corretos, e o número de bilhetes estava correto, portanto saiu da fila e foi abrindo caminho por entre o ajuntamento até chegar ao ar livre. Chegando Iá, sentiu-se um pouco melhor, ainda nauseado, mas melhor. Viera a pé do seu plantão noturno no novo edifício em construção Iá no alto da Kotewall Road, em Mid Leveis, para poupar o dinheiro da passagem.
Verificou de novo os seus bilhetes: 8 e 5 naquele páreo, e 7 e 1 no quinto, o grande páreo. "Ótimo", pensou, guardando-os cuidadosamente no bolso. "Fiz o melhor que pude. Agora, está nas mãos dos deuses."
O peito lhe doía muito. Por isso, abriu caminho à força por entre a multidão até chegar ao banheiro, onde acendeu um fósforo e inspirou a fumaça do Pó Branco borbulhante. Dali a algum tempo sentiu-se melhor e saiu de novo. O segundo páreo já tinha começado. Louco de ansiedade, foi empurrando os outros para chegar perto da cerca, sem ligar para os palavrões que o acompanhavam. Os cavalos dobravam a última curva, galopando na direção dele e entrando na reta final para a linha de chegada, passando agora por ele num borrão ruidoso, enquanto ele forçava os olhos remelosos para descobrir os seus números.
— Quem está na frente? — perguntou, com voz ofegante, mas ninguém lhe prestou atenção, todos gritavam o nome dos seus escolhidos, incitando-os à vitória, num rugido fervilhante e crescente que a tudo dominava, e que sumiu quando o vencedor cruzou a linha de chegada.
— Quem ganhou? — perguntou sofregamente Chu Nove Quilates, com a cabeça explodindo.
— E eu Iá sei! — falou alguém, com uma enxurrada de palavrões. — Não foi o meu. Que todos os deuses mijem para sempre naquele jóquei!
— Não consigo ler o painel. Quem venceu?
— O resultado só vai ser dado depois de as fotos serem reveladas, seu velho tonto. Não está vendo? Havia três cavalos juntos cruzando a linha de chegada. Fodam-se todos os páreos que terminam desse jeito! Temos que esperar.
— Mas os números... quais são os números?
— Números 5, 8 e 4, Lucky Court, o meu cavalo! Vamos, seu filho da mama esquerda de uma puta! Números 4 e 8 para a loteria, por todos os deuses!
Eles esperaram. E esperaram. O velho pensou que ia desmaiar. Então resolveu pensar em coisas melhores, como a sua conversa com o Chen da Casa Nobre, naquela manhã. Três vezes ele ligara, e todas as vezes um criado atendera e desligara. Foi somente quando falou em "Lobisomem" que o Chen da Casa Nobre em pessoa veio ao telefone.
— Por favor, desculpe-me por mencionar os terríveis matadores do seu filho — dissera. — Não fui eu, Honrado Senhor, oh, não! Sou apenas o pai da amante do seu falecido honorável filho, Glicínia Su, para quem escreveu do seu amor imorredouro na carta que saiu publicada nos jornais.
— Hem? Mentiroso! Tudo mentiras. Acha que sou algum idiota para ser extorquido por qualquer safado que ligue para mim? Quem é você?
— Meu nome é Hsi-men Su — dissera, mentindo com facilidade. — Há mais duas cartas, Honorável Chen. Pensei que talvez quisesse tê-las de volta, embora sejam tudo o que temos da minha pobre filha morta e do seu pobre filho morto, a quem considerei como meu próprio filho durante todos os meses que ele e...
— Mais mentiras! A meretriz impostora nunca recebeu cartas do meu filho! A nossa perigosa polícia mete os falsificadores na cadeia, sabia? Será que sou algum macaco camponês das Províncias Externas? Cuidado! Agora, imagino que vá apresentar um bebê, alegando que foi gerado pelo meu filho. Hem? Hem?
Chu Nove Quilates quase deixou cair o aparelho. Ele discutira e combinara esse exato plano com a mulher, os filhos e Lily. Fora fácil encontrar um parente que concordara em emprestar o bebê, por um certo preço.
— Como — gaguejou, chocado —, eu, um mentiroso? Eu, que de bom grado, por uma quantia modesta, entreguei a única filha virgem para ser a prostituta e o único amor do seu filho? — Usou com cuidado as palavras em inglês, tendo sido treinado durante horas pela filha Lily, para poder pronunciá-las direito. — Por todos os deuses, protegemos o seu grande nome sem cobrar nada! Quando fomos buscar o corpo da minha pobre filha, não contamos nada à polícia mortífera que deseja, oh ko, é, que deseja saber quem é o autor da carta para poder prender os Lobisomens! Que todos os deuses maldigam aqueles cruéis filhos da puta! Quatro jornais chineses já não ofereceram recompensas pelo nome do autor, heya? Não é justo que eu lhe ofereça as cartas antes de reclamar a recompensa dos jornais, heya?
Pacientemente, escutara a enxurrada de xingamentos que dera início às negociações. Diversas vezes os dois lados haviam fingido que iam desligar, mas nenhum deles interrompeu a barganha. Finalmente, ficou decidido que, se uma fotocópia de uma das outras cartas fosse enviada para o Chen da Casa Nobre como prova de que ela, e as outras, não eram falsificações, então "pode ser, Honorável Su, que as outras cartas — e esta — valham uma quantia muito modesta de Graxa Fragrante".
Chu Nove Quilates ria baixinho consigo mesmo. "Ah, sim", pensou, satisfeito, "o Chen da Casa Nobre vai pagar regiamente, especialmente quando ler as partes sobre si próprio. Ah, se elas fossem publicadas, certamente ele seria levado ao ridículo diante de toda a Hong Kong, e desmoralizado para sempre. Bem, quanto será que devo acei..."
Uma enorme zoeira repentina cercou-o e ele quase caiu. Seu coração começou a bater com força, a respiração tornou-se difícil. Agarrou-se à cerca e tentou enxergar o totalizador distante.
— Quem... quais são os números? — perguntou, guin-chando por sobre a barulheira e puxando a roupa dos vizinhos. — Os números, diga-me os números!
— O ganhador é o 8, Buccaneer, o capão da Casa Nobre. Ayeeyah, não está vendo o tai-pan levando-o agora para o círculo do vencedor? Buccaneer está pagando 7 por 1.
— O segundo? Quem foi o segundo cavalo?
— Número 5, Winsome Lady, 3 por 1 no placê... O que é, velho, está passando mal?
— Não... não... — retrucou Chu Nove Quilates, e foi se afastando debilmente, tateando. Finalmente, encontrou um pequeno trecho de concreto vazio, abriu o programa de corridas em cima do concreto molhado, e se sentou, a cabeça apoiada nos joelhos e braços, levado ao êxtase de ter ganho a primeira parte da loteria. "Oh, oh, oh! E agora, nada a fazer exceto esperar, e se o tempo da espera for longo demais, usarei mais um pouco do Pó Branco, e ainda me sobrará uma última porção para poder agüentar o trabalho de logo mais à noite. Agora, todos os deuses, concentrem-se! A primeira parte foi ganha pela minha própria argúcia. Por favor, concentrem-se no quinto! Números 7 e 1! Que todos os deuses se concentrem..."
Junto do círculo do vencedor, os administradores, proprietários e funcionários se aglomeravam. Dunross interceptara o seu cavalo e felicitava o jóquei. Buccaneer fizera uma bela corrida, e agora, enquanto conduzia o capão para o círculo do vencedor em meio à nova explosão de vivas e parabéns, ele manteve a sua exuberância deliberadamente franca. Queria deixar que o mundo visse o seu prazer e a sua confiança, consciente de que ter vencido aquela corrida era um imenso presságio, acima e além da vitória, em si. O presságio seria dobrado e triplicado se vencesse com Noble Star. Dois cavalos na loteria dupla sem dúvida dariam "um tranco" em Gornt e seus aliados. E se Murtagh obtivesse êxito ou se Tiptop mantivesse a promessa de trocar o dinheiro por Brian Kwok ou se Pão-Duro ou Lando ou Quatro Dedos...
— Ei, sr. Dunross, parabéns!
Dunross lançou um olhar à multidão junto à cerca.
— Oh, alô, sr. Choy — falou, reconhecendo o Sétimo Filho de Wu Quatro Dedos, para todos os efeitos seu sobrinho. Acercou-se dele e apertou-lhe a mão. — Apostou no vencedor?
— Claro, senhor, estou com a Casa Nobre em todas! Jogamos na loteria dupla, meu tio e eu. Acabamos de ganhar a primeira parte, 5 e 8, e apostamos no 7 e no 8 no quinto páreo. Ele apostou dez mil e eu o salário de uma semana!
— Então, vamos torcer para ganhar, sr. Choy.
— Estamos aí, tai-pan — disse o rapaz, naquela sua familiaridade americana.
Dunross sorriu e caminhou ao encontro de Travkin.
— Tem certeza de que Johnny Moore não pode montar Noble Star? Não quero Tom Wong.
— Já lhe disse, tai-pan, Johnny está pior do que um cossaco bêbado.
— Preciso da vitória. Noble Star tem que vencer. Travkin viu Dunross olhar para Buccaneer, com ar especulativo.
— Não, tai-pan, por favor, não monte Noble Star. A pista está ruim, muito ruim e perigosa, e vai ficar pior à medida que a grama for sendo danificada. Khristos! Imagino que isso só vai fazer com que o senhor fique com mais vontade de montá-la.
— Meu futuro pode depender desse páreo... e o prestígio da Casa Nobre.
— Eu sei. — Com raiva, o russo castigado pelo tempo bateu com o rebenque que carregava perpetuamente contra as velhas calças de montaria, lustrosas com o uso. — E sei que o senhor é melhor que todos os outros jóqueis, mas aquela grama é um perigo...
— Não confio em ninguém para isso, Aleksei. Não posso me dar ao luxo de nenhum erro. — Dunross baixou a voz. — O primeiro páreo foi arranjado?
Travkin devolveu-lhe o olhar, serenamente.
— Os cavalos não foram dopados, tai-pan. Não ao que eu saiba. O médico da polícia apavorou bastante os que poderiam sentir-se tentados.
— Ótimo. Mas foi arranjado?
— O páreo não era meu, tai-pan. Só me interessam os meus cavalos e os meus páreos. Nem assisti a ele.
— Muito conveniente, Aleksei. Parece que nenhum dos outros treinadores também viu.
— Escute, tai-pan. Tenho um jóquei para o senhor. Eu. Vou montar Noble Star.
Os olhos de Dunross se estreitaram. Lançou um olhar para o céu. Estava mais escuro do que antes. "Logo vai chover", pensou, "e há muito para ser feito antes da chuva. Eu ou Aleksei? As pernas de Aleksei são boas, suas mãos, as melhores, sua experiência, imensa. Mas ele pensa mais no cavalo do que na vitória."
— Vou pensar no assunto — disse. — Decidirei depois do quarto páreo.
— Eu vou ganhar — disse o homem mais velho, desesperado pela oportunidade de livrar-se do acordo que fizera com Suslev. — Gajiho nem que tenha que matar Noble Star.
— Não é preciso fazer isso, Aleksei. Gosto muito daquela égua.
— Tai-pan, escute, preciso de um favor seu. Estou com um problema. Posso vê-lo hoje à noite, ou domingo, domingo ou segunda à noite, digamos no Sinclair Towers?
— Por que Iá?
— Fizemos nosso acordo Iá, gostaria de conversar Iá. Mas, se não der, no dia seguinte.
— Vai nos deixar?
— Ah, não, não é preciso. Se tiver tempo. Por favor.
— Está certo, mas não pode ser hoje, nem domingo ou segunda. Vou para Taipé. Posso encontrá-lo na terça às dez da noite. Está bem?
— Ótimo, terça está ótimo. Obrigado.
— Volto para cá depois do próximo páreo.
Aleksei ficou olhando o tai-pan dirigir-se para os elevadores. Estava à beira das lágrimas, uma imensa afeição por Dunross a dominá-lo.
Seus olhos se voltaram para Suslev, que estava nas tribunas gerais, ali perto. Tentando aparentar naturalidade, levantou o número de dedos combinado: um para hoje à noite, dois para domingo, três para segunda, quatro para terça. Tinha uma visão muito boa, e viu que Suslev acusava o recebimento do sinal. "Matieriebiets", pensou. "Traidor da Mãe Rússia e de todos nós, russos, você e todos os seus irmãos do KGB! Maldigo-os em nome de Deus, por mim e por todos os russos, se a verdade for conhecida.
"Deixe pra Iá! Vou montar Noble Star", disse com seus botões, sombriamente, "de uma maneira ou de outra."
Dunross entrou no elevador em meio a mais cumprimentos e muita inveja. No andar mais alto, Gavallan e Jacques esperavam por ele.
— Tudo pronto? — perguntou.
— Sim — respondeu Gavallan. — Gornt está Iá, e os outros que você queria. Qual é o problema?
— Venha comigo que você vai ver. A propósito, Andrew, vou fazer uma troca entre Jacques e David MacStruan. Jacques assumirá o Canadá por um ano, David...
O rosto de Jacques se iluminou.
— Oh, obrigado, tai-pan. É, muito obrigado. Tornarei o Canadá muito lucrativo, prometo-lhe.
— E quanto à mudança em si? — perguntou Gavallan.
— Quer que o Jacques vá para Iá primeiro ou que o David venha para cá?
— Ele chega na segunda. Jacques, passe tudo para o David. Na semana que vem, vocês dois podem ir juntos para o Canadá, durante umas duas semanas. Vá via França, ouviu? Apanhe Susanne e Avril, a essa altura ela deverá estar bem. Não há nada urgente no Canadá, no momento... aqui é mais urgente.
— Oh, sim, ma foi! Sim, sim, obrigado, tai-pan.
— Será bom ver o velho David — disse Gavallan.
Gostava muito de David MacStruan, mas ainda se perguntava o porquê da troca, e se isso significava que Jacques estava fora do páreo para herdar o manto do tai-pan, e David no páreo, e sua própria posição modificada, modificando-se ou ameaçada... se é que ia haver alguma coisa para se herdar, depois da segunda-feira. E quanto a Kathy?
"Joss", disse consigo mesmo. "O que tiver que ser, será. Ah, que tudo vá à merda!"
— Vocês dois vão na frente — disse Dunross. — Vou buscar o Phillip.
Entrou no reservado dos Chens. Seguindo um antigo costume, o representante nativo da Casa Nobre era automaticamente um dos administradores. "Talvez pelo último ano", pensou Dunross, sombriamente. "Se Phillip não me aparecer com ajuda sob a forma de Wu Quatro Dedos, Lando Mata, Pão-Duro ou alguma coisa tangível até a meia-noite de segunda, está cortado."
— Alô, Phillip — disse, com voz amável, cumprimentando os outros convidados na tribuna lotada. — Está pronto?
— Ah, sim, estou, tai-pan. — Phillip Chen envelhecera.
— Parabéns pela vitória.
— É, tai-pan, um presságio maravilhoso... estamos todos torcendo pelo quinto! — exclamou Dianne Chen, esforçando-se igualmente por ocultar sua apreensão, Kevin ao seu lado, fazendo-lhe eco.
— Obrigado — retrucou Dunross, certo de que Phillip Chen lhe havia falado do seu encontro. Ela usava um chapéu com penas de ave-do-paraíso e jóias em excesso.
— Champanha, tai-pan?
— Não, obrigado, quem sabe mais tarde. Desculpe, Dianne, preciso pedir o Phillip emprestado por um ou dois momentos. Não vai demorar.
No corredor, deteve-se um instante.
— Alguma novidade, Phillip?
— Eu... falei com todos... todos eles. Vão se reunir amanhã de manhã.
— Onde? Em Macau?
— Não, aqui. — Phillip Chen baixou ainda mais a voz. — Lamento toda... toda a confusão que meu filho causou... é, lamento muito — disse, com sinceridade.
— Aceito suas desculpas. Se não tivesse sido pelo seu descuido e traição, jamais nos teríamos tornado tão vulneráveis. Santo Deus, se o Gornt puser as mãos nos nossos balanços gerais e estruturas da companhia, estamos num mato sem cachorro.
— Tive... tive uma idéia, tai-pan, de como salvar a nossa... de como salvar a Casa. Depois das corridas, será que pode me dar... um tempinho, por favor?
— Virá para o coquetel hoje à noite? Com Dianne?
— Sim, se... sim, por favor. Posso levar o Kevin? Dunross sorriu fugazmente consigo mesmo. O futuro herdeiro, oficialmente e tão depressa. Carma.
— Pode. Vamos indo.
— Do que se trata, tai-pan?
— Vai ver. Por favor, não diga nada, não faça nada, apenas aceite... com grande confiança... que faz parte do pacote, e quando eu partir siga-me, espalhe as boas-novas e a alegria. Se falharmos, a Casa de Chen falhará primeiro, haja o que houver!
Entrou na tribuna particular de McBride. Mais cumprimentos imediatos, e muitos dizendo que tinha sido uma grande sorte.
— Santo Deus, tai-pan — disse McBride —, se Noble Star vencer o quinto páreo, não será uma maravilha?!
— Pilot Fish vai derrotar Noble Star — falou Gornt, cheio de confiança. Estava no bar com Jason Plumm, tomando uma bebida. — Aposto dez mil como ele terminará a corrida na frente da sua égua.
— Fechado — disse Dunross imediatamente. Houve vivas e vaias dos trinta e tantos convidados, e mais uma vez Bartlett e Casey, que, por combinação prévia com Dunross, haviam entrado no reservado ostensivamente, há alguns minutos, para bater papo com Peter Marlowe, ficaram intimamente abalados com o ar festivo e a confiança exuberante de Dunross.
— Como vai passando, Dunstan? — perguntou Dunross. Não prestou atenção a Casey ou Bartlett, concentrando-se no grandalhão rosado, que estava mais rosado do que de costume, um conhaque duplo nas mãos.
— Muito bem, obrigado, Ian. Acertei o primeiro, e Buccaneer... ganhei uma nota com Buccaneer, mas minha maldita loteria já foi pro brejo. Lucky Court me deixou na mão.
O aposento era do mesmo tamanho que a tribuna particular da Struan, mas não tão bem decorado quanto aquela, embora igualmente cheio de grande parte da elite de Hong Kong, algumas das pessoas convidadas para Iá há um momento por Gavallan e McBride, ou por Dunross. Lando Mata, Holdbrook — o corretor da Struan na Bolsa —, Sir Luís Basílio — diretor da Bolsa de Valores —, Johnjohn, Havergill, Southerby — presidente da junta diretora do Blacs —, Richard Kwang, Pugmire, Biltzmann, Sir Dunstan Barre, o jovem Martin Haply, do China Guardian. E Gornt. Dunross olhou para ele.
— Também acertou o vencedor do último páreo?
— Não, não simpatizei com nenhum dos cavalos. Do que se trata, Ian? — perguntou Gornt, e a atenção de todos se concentrou. — Quer fazer algum comunicado?
— Quero, e como gesto de cortesia achei que você devia saber, juntamente com os outros vips. — Dunross virou-se para Pugmire. — Pug, a Casa Nobre está contestando formalmente a compra do controle acionário pela American Superfoods da sua Hong Kong General Stores.
Fez-se um vasto silêncio e todos o fitaram. Pugmire estava branco.
— Como?
— Estamos oferecendo cinco dólares a mais por ação do que a Superfoods, e ainda vamos superar a oferta deles oferecendo trinta por cento em dinheiro e setenta por cento em ações, tudo dentro de trinta dias!
— Ficou maluco? — explodiu Pug. "Não sondei todo mundo antes", teve vontade de gritar, "inclusive você? Todos vocês não aprovaram, ou pelo menos evitaram desaprovar? Não é assim que se faz por aqui, Deus do céu?... bate-papos particulares no Clube, aqui nas corridas, em jantares íntimos, ou seja Iá o que for?" — Não pode fazer isso — murmurou.
— Já fiz — disse Dunross.
— Tudo o que fez, Ian, foi fazer um comunicado — disse Gornt asperamente. — Como vai pagar? Em trinta ou trezentos dias?
Dunross simplesmente olhou para ele.
— Os lances são públicos. Completamos em trinta dias. Pug, receberá os documentos oficiais até as nove e meia de segunda-feira, com uma entrada em dinheiro para consolidar a proposta.
Momentaneamente, a voz dele foi abafada quando os outros começaram a falar, fazendo perguntas, todos imediatamente preocupados com a maneira pela qual aquele acontecimento espantoso os afetaria pessoalmente. Ninguém jamais contestara anteriormente uma compra de controle pré-combinada. Johnjohn e Havergill ficaram furiosos porque a coisa fora feita sem que fossem consultados, e o outro banqueiro, Southerby, do Blacs, que estava "bancando" a compra do controle pela Superfoods, ficou igualmente aborrecido por ter sido pego de surpresa. Mas todos os banqueiros, até mesmo Richard Kwang, estavam avaliando as possibilidades, pois se o mercado de valores estivesse normal, e as ações da Struan no seu nível normal, a proposta da Struan poderia ser muito boa para os dois lados. Todos sabiam que a gerência da Struan poderia revitalizar a rica mas estagnada hong, e a aquisição fortaleceria inco-mensuravelmente a Casa Nobre, elevaria seu lucro bruto do ano em pelo menos vinte por cento, e naturalmente aumentaria os seus dividendos. Para coroar tudo isso, a compra de controle manteria todos os lucros em Hong Kong, e faria com que não escoassem para as mãos de um estranho. Especialmente Biltzmann.
"Oh, meu Deus", pensava Barre, com grande admiração e não sem um pouco de inveja, "imagine o Ian fazer a oferta aqui, em público, num sábado, sem ter sequer havido um murmúrio de que estava meditando o inimaginável, sem nada que nos desse um vislumbre que nos permitisse comprar em baixa discretamente na semana passada, para ganhar uma fortuna com um único telefonema; que idéia brilhante! Claro que as ações da General Stores do Pug vão subir vertiginosamente logo na segunda de manhã. Mas, que diabos, como foi que o Ian e o Havergill esconderam isso? Pombas, eu podia ter ganho uma nota preta se tivesse sabido. Talvez ainda possa! Sem dúvida os boatos sobre o Victoria não estar apoiando a Struan não passam de papo furado..."
"Espere aí", estava pensando Sir Luís Basílio, "não compramos um bloco imenso de ações da General Stores na semana passada para um representante de um comprador? Santo Deus, será que o tai-pan nos passou a perna em todos? Mas, minha Nossa Senhora, espere aí, e quanto à corrida às ações dele, e quanto ao colapso do mercado, e quanto ao dinheiro que terá que apresentar para confirmar a oferta, e quanto a..."
Até mesmo Gornt conjecturava, cheio de ódio por não ter pensado naquilo primeiro. Sabia que a proposta era boa, perfeita, na verdade, e que não podia fazer uma melhor, não no momento. "Mas, afinal, o Ian não pode completar. Não há meio de..."
— Podemos publicar isso, tai-pan? — perguntou a voa incisiva e canadense de Martin Haply, em meio à agitação.
— Sem dúvida, sr. Haply.
— Posso fazer algumas perguntas?
— Depende de quais sejam — disse Dunross, serenamente. Olhando-o nos penetrantes olhos castanhos, sentiu-se sombriamente divertido. "Bem que podíamos usar um filho da mãe bastante safado na família... se pudéssemos confiar-lhe a Adryon." — O que está querendo saber?
— Esta é a primeira vez que se contesta uma compra de controle acionário. Posso perguntar-lhe por que o está fazendo justo agora?
— A Struan sempre foi inovadora. Quanto à hora escolhida, consideramo-la perfeita.
— Considera que este sábado... Biltzmann interrompeu asperamente.
— Fizemos um negócio. Foi fechado. — Virou-se bruscamente para Pugmire. — Não é, Dickie?
— Estava fechado, sr. Biltzmann — retrucou Dunross, vivamente. — Mas nós estamos contestando a sua oferta, como é feito nos Estados Unidos, segundo as regras americanas. Suponho que não se importe com isso. Claro que aqui somos amadores, mas gostamos de tentar aprender com os nossos pares. Até a assembléia dos acionistas, nada é definitivo. É a lei, não é?
— É, mas... mas estava fechado! — O homem alto e grisalho virou-se para Pugmire, mal conseguindo falar de tão zangado. — Você falou que estava tudo resolvido.
— Bem, os diretores tinham concordado -— falou Pugmire, sem jeito, consciente de que todos lhe prestavam atenção, especialmente Haply, metade dele radiante com a oferta muito melhor, a outra furiosa porque também ele não soubera de nada com antecedência, para poder ter comprado maciçamente. — Mas... bem... claro que o negócio tem que ser ratificado pelos acionistas na assembléia de sexta-feira. Não tínhamos idéia de que haveria... Bem, Ian, Chuck, não acham que aqui não é exatamente o lugar para se discutir...
— Concordo — disse o tai-pan. — Mas, no momento, não há muito o que discutir. A oferta foi feita. A propósito, Pug, seu acordo está de pé, exceto que será ampliado de cinco para sete anos, com um lugar na diretoria da Struan pelo mesmo período.
O queixo de Pugmire caiu.
— Isso faz parte da oferta?
— Naturalmente precisaríamos dos seus conhecimentos e perícia — disse Dunross, delicadamente, e todos souberam que Pug estava "no papo". — O resto do pacote está de pé, exatamente como foi negociado por você e pela Superfoods. Os papéis estarão na sua mesa até nove e meia. Talvez queira apresentar a nossa proposta aos seus acionistas, na sexta-feira.
— Dirigiu-se a Biltzmann e estendeu a mão. — Boa sorte. Imagino que fará prontamente uma contraproposta.
— Bem, eu... terei que consultar a matriz, sr.... tai-pan.
— Biltzmann estava afogueado e zangado. — Nós... fizemos a nossa melhor oferta e... sua oferta foi excelente. É. Mas com a corrida às suas ações, a corrida aos bancos, e o mercado em baixa, vai ser um negócio bem difícil de fechar, não é?
— Absolutamente, sr. Biltzmann — disse Dunross, arriscando tudo na certeza de que Bartlett não voltaria atrás na sua promessa do dinheiro, de que ele fecharia com a Par-Con, livrar-se-ia de Gornt e colocaria suas ações no seu lugar de direito até o fim da semana seguinte. — Podemos fechar sem nenhuma dificuldade.
A voz de Biltzmann tornou-se mais cortante.
— Dickie, acho melhor considerar cuidadosamente a nossa proposta. É válida até terça-feira — disse, confiando em que, na terça-feira, a Struan estaria aos pedaços. — Agora, vou fazer uma aposta no próximo páreo.
Saiu, em largas passadas. A tensão na tribuna subiu vários decibéis.
Todos começaram a falar, mas Haply ergueu a voz:
— Tai-pan, posso lhe fazer uma pergunta? Todas as atenções concentraram-se nele.
— Qual?
— Sei que é costume, nos casos de compra de controle, dar-se um sinal em dinheiro, como prova de boa fé. Posso perguntar-lhe qual a quantia que a Struan dará?
Todos esperaram, com a respiração presa, observando Dunross. Ele manteve a pausa, os olhos percorrendo os rostos, curtindo a emoção, sabendo que todos o queriam humilhado, quase todos, exceto... exceto quem? Casey, por exemplo, embora estivesse por dentro. Bartlett? Não sabia, não com certeza. Claudia? Ah, sim, Claudia fitava-o, o rosto sem cor. Donald McBride, Gavallan, até mesmo Jacques. Seus olhos se detiveram em Martin Haply.
— Talvez o sr. Pugmire prefira que esse detalhe lhe seja fornecido em particular — falou, dando-lhes corda. — Não é, Pug?
Gornt interrompeu Pugmire, e falou, desafiador:
— Ian, já que decidiu ser heterodoxo, por que não tornar tudo público? O sinal que se dá mede o valor da proposta. Não é?
— Não. Na verdade, não. — Dunross ouviu o vozerio distante e abafado que indicava a largada do terceiro páreo, e teve certeza, olhando os rostos, de que mais ninguém o ouvira, além dele. — Está bem, vá Iá — disse, despreocupadamente.
— Pug, que tal dois milhões de dólares americanos, junto com os papéis, às nove e meia de segunda-feira? Prova de boa fé.
Uma exclamação abafada percorreu o aposento. Havergill, Johnjohn, Southerby, Gornt, estavam todos estupefatos. Phillip Chen quase desmaiou. Involuntariamente, Havergill começou:
— Ian, não acha que nós, bem... Dunross virou-se bruscamente para ele.
— Por quê? Não acha o bastante, Paul?
— Oh, sim, claro, mais do que o bastante, mas, bem... Havergill foi parando de falar, sob o olhar de Dunross.
— Ah, por um momento... — Dunross se deteve, fingindo ter tido um súbito pensamento. — Ora, não precisa se preocupar, Paul, não o envolvi sem o seu consentimento, é claro. Tenho financiamento alternativo para essa transação, financiamento externo — continuou, com seu encanto suave.
— Como sabem, bancos japoneses e muitos outros estão ansiosos para se expandir na Ásia. Achei melhor, para manter tudo secreto e impedir os "vazamentos " habituais, obter o financiamento externamente até estar pronto para fazer o comunicado. Felizmente, a Casa Nobre tem amigos no mundo todo! Até logo mais, para todos!
Virou-se e saiu. Phillip Chen seguiu-o. Martin Haply dirigiu-se para o telefone, e então todos começaram a falar a um só tempo, dizendo "Não acredito, pombas, que o Ian tenha esse tipo de fundos externos..."
Em meio à confusão, Havergill perguntou a Johnjohn:
— Qual o banco japonês?
— Tomara eu soubesse. Se o Ian obteve o financiamento para essa... meu Deus, dois milhões de dólares americanos é o dobro do que precisaria oferecer.
Southerby, que esperava junto deles, enxugou a palma das mãos.
— Se o Ian fechar esse negócio, valerá dez milhões de dólares americanos no primeiro ano, no mínimo. — Deu um sorriso sardônico. — Bem, Paul, está parecendo que nós dois ficamos por fora dessa boca.
— É, é o que parece, mas não sei como o Ian pôde... e manter tudo tão secreto!
Southerby inclinou-se mais para junto dele.
— Nesse meio tempo — perguntou baixinho —, o mais importante: e quanto ao Tiptop?
— Nada, ainda nada. Não respondeu aos meus telefonemas, nem aos do Johnjohn. — Os olhos de Havergill pousaram em Gornt, que agora estava conversando em particular com Plumm. — E Quillan, o que fará agora?
— Terá que comprar logo cedo na segunda. Tem que fazê-lo. Agora tem, é perigoso demais deixar como está — disse Southerby.
— Concordo — falou Sir Luís Basílio, reunindo-se a eles. — Se o Ian pode dispor de tanto dinheiro, quem andou vendendo as ações dele a descoberto que se cuide. Por falar nisso, andamos comprando ações da General Stores para representantes, nesta última semana. Provavelmente o Ian, não? Ele tem que ter tomado uma posição, o sortudo!
— É — resmundou Johnjohn. — O que não consigo é descobrir... Santo Deus, e se agora ele vencer com Noble Star? Com uma sorte dessas, podia virar toda essa situação a seu favor! Sabe como são os chineses.
— É — falou Gornt, intrometendo-se, e espantando-os.
— Mas graças a Deus não somos todos chineses. Ainda temos que ver a cor do dinheiro.
— Ele tem que tê-lo... precisa tê-lo — falou Johnjohn.
— É uma questão de prestígio.
— Ah, prestígio. — Gornt tornou-se sarcástico. — Às nove e meia, não? Se ele fosse realmente esperto, teria dito meio-dia, ou três horas, assim teríamos passado o dia todo sem saber, e ele poderia ter-nos manipulado o dia todo. Mas, agora... — Gornt deu de ombros. — De qualquer modo eu ganho milhões, se não o controle.
Lançou um olhar para o outro lado da tribuna barulhenta, fez um sinal de cabeça para Bartlett e Casey, depois afastou-se.
Bartlett tomou Casey pelo braço, e conduziu-a até o balcão.
— O que achou? — perguntou ele, baixinho.
— Do Gornt?
— Do Dunross.
— Fantástico! Ele é fantástico. "Banco japonês"... uma pista falsa espetacular — disse ela, entusiasmada. — Pôs o grupo todo louco, dava para se ver, e se pôs esse grupo, porá Hong Kong inteira. Ouviu o que disse Southerby?
— Claro. Parece que vamos todos ficar numa boa... se ele conseguir escapar da armadilha de Gornt.
— Tomara que sim. — Foi então que ela notou o sorriso dele. — O que foi?
— Sabe o que acabamos de fazer, Casey? Acabamos de comprar a Casa Nobre com a promessa de dois milhões de dólares.
— Como?
— O Ian está fazendo o jogo confiando nos meus dois milhões.
— Não é um jogo, Linc. Foi um trato.
— Claro. Mas, digamos que eu não entre com a grana. Todo o seu castelo de cartas desaba. Se não conseguir aqueles dois milhões, está acabado. Ontem, disse ao Gornt que eu podia puxar o tapete na segunda de manhã. Digamos que eu retire os dois milhões do Ian antes de o mercado abrir. O Ian entra pelo cano.
Ela o fitou, abismada.
— Você não faria isso!
— Viemos para cá para fazer uma incursão e nos tornarmos a Casa Nobre. Olhe o que o Ian fez com o Biltzmann, o que todos eles fizeram com ele. O pobre coitado nem soube direito o que o atingiu. Pugmire fez um acordo, mas voltou atrás para aceitar a proposta melhor do Ian. Certo?
— Isso é diferente. — Olhou fundo nos olhos dele. — Vai voltar atrás, depois de ter feito um acordo?
Bartlett deu um sorriso estranho, olhou Iá para baixo, para a multidão espremida, e para o totalizador.
— Pode ser. Pode ser que isso dependa de quem faça o quê para quem durante o fim de semana. Gornt ou Dunross, pra mim dá no mesmo.
— Não concordo.
— Claro, Casey, eu sei — disse ele, calmamente. — Mas são os meus dois milhões e o meu jogo.
— É, e a sua palavra e o seu prestígio! Você selou o acordo com um aperto de mãos.
— Casey, essa turma aqui comeria a gente no café da manhã, se tivesse uma chance. Acha que Dunross não nos passaria a perna, se tivesse que escolher entre ele e nós? Depois de uma pausa, ela falou:
— Está querendo dizer que um acordo nunca é um acordo, não importa o quê?
— Quer quatro milhões livres de impostos?
— Já sabe a resposta.
— Digamos que você vá receber quarenta e nove por cento da nova companhia Par-Con-Gornt, limpinhos. Deve valer isso.
— Mais — retrucou, temendo o rumo que a conversa tomava, e pela primeira vez na vida repentinamente insegura quanto a Bartlett.
— Quer esses quarenta e nove por cento?
— Em troca do quê, Linc?
— Em troca do apoio integral, cem por cento, à Gornt-Par-Con.
Sentiu uma fraqueza no estômago e olhou para ele, insistentemente, tentando ler seus pensamentos. Normalmente podia fazê-lo, mas não mais, desde Orlanda.
— É o que você está me oferecendo?
Ele sacudiu a cabeça, com o mesmo sorriso, a mesma voz.
— Não. Ainda não.
Ela estremeceu, temendo aceitar o negócio, se a oferta fosse pra valer.
— Que bom, Incursor. É, que bom, acho.
— A questão é direta e simples, Casey: Dunross e Gornt jogam para vencer, mas com objetivos diferentes. Ora, esta tribuna particular significaria mais para eles dois do que dois ou quatro milhões. Nós viemos para cá, eu e você, para obter lucro e vencer.
Os dois olharam para o céu, ao sentirem algumas gotas de chuva. Mas elas caíam do toldo, não voltara a chover. Ela começou a dizer qualquer coisa, depois parou.
— O que é, Casey?
— Nada.
— Vou circular por aí, ver qual é a reação. Encontro-a no nosso reservado.
— E quanto ao quinto? — perguntou ela.
— Espere pelas probabilidades. Volto antes da largada.
— Divirta-se!
Acompanhou-o com os olhos enquanto ele se retirava. Depois virou-se e debruçou-se no balcão para se esconder dele e de todos. Quase fizera a pergunta: "Vai puxar o tapete e voltar atrás?"
"Meu Deus, antes de Orlanda... antes de Hong Kong... eu jamais precisaria fazer a pergunta. Linc jamais voltaria atrás num acordo, antes. Mas agora, agora não tenho certeza."
Estremeceu de novo. "E quanto às minhas lágrimas? Nunca agi assim antes, e quanto ao Murtagh? Será que devo contar ao Linc sobre o Murtagh, agora... ou depois... porque sem dúvida ele terá que saber, antes das nove e meia de segunda-feira. Ah, Deus, quem dera nunca tivéssemos vindo para cá!"
A chuva ligeira salpicou o hipódromo, e alguém murmurou :
— Pombas, espero que não piore!
A pista já estava danificada, lamacenta e muito deslizante. Do lado de fora da entrada principal, a rua estava cheia de poças e escorregadia. O tráfego era denso, e muitas pessoas atrasadas ainda passavam pelas borboletas.
Roger Crosse, Sinders e Robert Armstrong saltaram do carro de polícia e cruzaram as barreiras e postos de controle até o elevador dos sócios, os distintivos de lapela azuis tremulando. Havia cinco anos Crosse era sócio votante, Armstrong havia um. Naquele ano Crosse também era um dos administradores. Todos os anos o comissário da polícia sugeria aos administradores que a polícia deveria ter sua própria tribuna, e todos os anos os administradores concordavam entusiasticamente, e nada acontecia.
Na tribuna dos sócios, Armstrong acendeu um cigarro. Seu rosto estava vincado, os olhos, cansados. O salão imenso e lotado ocupava metade do comprimento das tribunas. Foram até o bar e pediram bebidas, cumprimentando os outros sócios.
— Quem é aquela? — quis saber Sinders. Armstrong acompanhou-lhe o olhar.
— Aquela é um pouco da nossa cor local, sr. Sinders. — A voz dele era sardônica. — O nome dela é Vênus Poon, e é a nossa estrelinha máxima da tv.
Vênus Poon usava um casaco de vison comprido e estava cercada por um grupo de admiradores chineses.
— O sujeito à esquerda dela é Charles Wang; é um produtor de filmes multimilionário, proprietário de cinemas, cabarés, clubes noturnos, bares, garotas e um par de bancos na Tailândia. O velho miúdo que se parece com um bambu, e é tão resistente quanto um deles, é o Wu Quatro Dedos, um dos nossos piratas locais... o contrabando é o seu meio de vida, e é muito bom.
— É — concordou Crosse. — Quase o pegamos, há uns dois dias. Achamos que anda envolvido com heroína... e ouro, é claro.
— Quem é o nervosinho de terno cinza? O sujeito do lado de fora?
— Aquele é Richard Kwang, do desastre do Ho-Pak — falou Armstrong. — Ele é o atual, ou era o atual, digamos, coronel dela.
— Interessante. — Sinders concentrou-se em Vênus Poon. O vestido dela era decotado e provocante. — É, muito. E quem é aquela outra? Ali, junto com o europeu.
— Onde? Ah, aquela é Orlanda Ramos, portuguesa, o que aqui geralmente quer dizer eurasiana. Já foi amante de Quillan Gornt. Agora, não sei. O homem é Linc Bartlett, o "contrabandista de armas".
— Ah! Ela não é comprometida?
— Talvez.
— Parece dispendiosa. — Sinders sorveu a sua bebida e soltou um suspiro. — Deliciosa, mas cara.
— Eu diria que muito — disse Crosse, com ar de desagrado. Orlanda Ramos estava com várias mulheres de meia-idade, todas vestindo roupas assinadas, cercando Bartlett. — Um pouco exagerada para o meu gosto.
Sinders olhou para ele, surpreso.
— Há anos que não vejo tantas beldades... ou tantas jóias. Já houve algum assalto aqui?
Crosse arregalou os olhos.
— No Turf Club? Santo Deus, ninguém teria coragem! Armstrong abriu o seu sorriso amargo.
— Cada policial que presta serviço aqui, do mais alto ao mais baixo, passa a maior parte do tempo tentando bolar o assalto perfeito. A coleta final do dia deve ser de uns quinze milhões, no mínimo. Ainda não conseguimos. A segurança é boa demais, bem bolada demais... obra do sr. Crosse.
— Ah! Crosse sorriu.
— Quer comer alguma coisa, Edward? Que tal um sanduíche?
— Boa idéia. Obrigado.
— Robert?
— Não, senhor, obrigado. Se não se importa, vou estudar o programa da corrida, e depois os verei.
Armstrong estava dolorosamente cônscio de que, após o sétimo páreo, deviam voltar ao QG, onde Brian Kwok deveria ser submetido a outra sessão.
— Robert é um apostador dos brabos, Edward. Robert, faça-me um favor, acompanhe o sr. Sinders, mostre-lhe onde apostar, e peça um sanduíche para ele. É melhor eu ir ver se o governador está livre um momentinho... volto logo.
— Com prazer — disse Armstrong, detestando a idéia, o envelope com os quarenta mil dólares de h'eung yau que tirara da mesa, impulsivamente, queimando como fogo no bolso. "Porra! Sim ou não?", perguntava-se sem parar, tentando sombriamente decidir, e o tempo todo tentando afastar da mente o horror do seu amigo Brian e da próxima sessão... não, não mais o seu amigo, mas um agente inimigo altamente treinado e dedicado, um "peixe" enormemente valioso que haviam descoberto por milagre.
— Robert — disse Crosse, mantendo a voz deliberadamente bondosa —, você fez um bom trabalho, hoje. Muito bom.
— É — concordou Sinders. — Providenciarei para que o ministro saiba da sua ajuda, e, naturalmente, o comando.
Crosse dirigiu-se para o elevador. Aonde quer que fosse, era seguido por olhares chineses nervosos. No último andar, ignorou o reservado do governador e entrou no de Plumm.
— Alô, Roger! — cumprimentou-o Plumm, amavelmente. — Quer uma bebida?
— Um café seria ótimo. Como vão indo as coisas?
— Perdi a camisa, por enquanto, embora muitos de nós tenhamos acertado a primeira parte da loteria. E você?
— Acabei de chegar.
— Ah, então perdeu o teatro! — Plumm contou a Crosse sobre a proposta de compra de controle de Dunross. — Ian frustrou o plano de Pug.
— Ou fez-lhe uma excelente oferta — manifestou-se alguém.
— Verdade, verdade.
O reservado de Plumm estava lotado, como todas as demais tribunas particulares. Muito bate-papo e risos, bebidas e boa comida.
— O chá vai chegar daqui a meia hora. Vou dar uma passadinha na sala do comitê dos administradores, Roger. Quer ir comigo?
A sala do comitê ficava no fim do corredor, do outro lado de portas giratórias vigiadas. Era pequena, com uma mesa de doze cadeiras, um telefone, boas janelas dando para a pista e um balcãozinho. E estava vazia. Imediatamente, a fachada simpática de Plumm se desfez.
— Falei com Suslev.
— Foi?
— Está furioso com a batida de ontem no Ivánov.
— Posso imaginar. Foram ordens de Londres. Eu só soube hoje de manhã. Maldito Sinders!
Plumm fechou ainda mais a cara.
— Será que estão desconfiando de você?
— Ah, não. É só rotina. É só a Divisão Especial, a MI-6 e Sinders distendendo as asas. São uma turma muito reservada, e com razão. Não têm nada a ver com o sei. Continue.
— Ele me pediu que, se você viesse, lhe dissesse que estaria junto a uma cabine telefônica. — Plumm passou-lhe um pedaço de papel. — Eis o número. Estará aí exatamente na largada dos três próximos páreos. Por favor, ligue para ele... falou que era urgente. Que diabo, qual o motivo da batida?
— Foi só para assustar todo o pessoal do KGB a bordo, assustá-los o bastante para desentocar a Sevrin. Pressão. Assim como a ordem para o Suslev e o novo comissário apareceram no QG no domingo. Só para dar um susto.
— Pode apostar que o Suslev está assustado. — Um sorriso sardônico perpassou pelo belo rosto de Plumm. — O esfíncter dele vai ficar fora de forma pelo menos uns dez anos. Todos eles terão que dar um bocado de explicações. Quando o Armstrong invadiu "por acaso" a sala de rádio, o Vermelho Um foi acionado, e eles obediente e desnecessariamente destruíram todo o seu equipamento de interferência e de deci-fração, juntamente com os exploradores de radar sigilosos.
Crosse deu de ombros.
— O Ivánov está indo embora, e tem bastante equipamento para substituir os que foram danificados. Não foi culpa do Suslev, ou nossa. Podemos enviar um relatório contando ao Centro o que houve. Se quisermos.
— Se? — indagou Plumm, estreitando os olhos.
— Rosemont e seus capangas da CIA pegaram um copo na batida que deram no Sinclair Towers. As impressões digitais de Suslev estão espalhadas nele.
Plumm empalideceu.
— Porra! Agora ele está fichado?
— Tem que estar. Está nos nossos arquivos, como sabe, não como membro do KGB, e acho que tenho as únicas cópias existentes das suas digitais. Retirei-as do dossiê dele, há anos. Eu diria que é apenas uma questão de tempo. A CIA logo saberá quem ele é. Portanto, quanto mais cedo ele sair de Hong Kong, melhor.
— Acha que devemos contar ao Centro? — perguntou Plumm, inquieto. — Vão estourar com ele por ter sido tão descuidado.
— Podemos decidir no fim de semana. Conhecíamos Voranski há anos, sabíamos que era de confiança. Mas, e esse homem? — Crosse deixou a palavra no ar, continuando a fingir que seu contato com Suslev era recente, como o de Plumm. — Afinal de contas, não é ele apenas um oficial inferior do KGB, um mensageiro metido a besta? Não é nem mesmo o substituto oficial do Voranski, e temos que pensar em nós.
— É verdade! — Plumm ficou mais duro. — Vai ver que é mesmo um bestalhão. Eu sei que não fui seguido até o Sinclair Towers. E quanto ao cabograma decifrado... puta que o pariu!
— O quê?
— O cabograma decifrado... aquele que ele deixou cair e o Armstrong pegou no convés do Ivánov. Temos que decidir quanto a isso.
Crosse virou-se para ocultar o seu choque e lutou para controlar-se, abismado de que nem Armstrong nem Sinders houvessem mencionado qualquer cabograma. Fingiu abafar um bocejo, para disfarçar.
— Desculpe, passei a maior parte da noite acordado — falou, fazendo um esforço enorme para manter o tom de voz normal. — Ele lhe contou o que havia nele?
— Claro. Eu insisti.
Crosse viu que Plumm o observava.
— Ele disse o que exatamente havia nele?
— Como? Quer dizer que podia estar mentindo? — Plumm deixou transparecer a sua ansiedade. — Era qualquer coisa como: "Informe Arthur que, atendendo ao seu pedido para uma Prioridade Um para o traidor Metkin, ordenou-se uma intercepção imediata para Bombaim. Segundo, a reunião com o americano foi antecipada para o domingo. Terceiro e final: as pastas de Alan continuam sendo Prioridade Um. O máximo esforço deve ser feito pela Sevrin para obter sucesso. Centro". — Plumm molhou os lábios. — Está correto?
— Está — disse Crosse, arriscando, quase molhado de alívio. Começou a pesar as probabilidades quanto a Arsmtrong e Sinders. "Por que, deliberadamente, por que não me contaram nada?"
— Terrível, não é? — comentou Plumm.
— É, mas não é sério.
— Não concordo — disse Plumm com irritação. — Isso liga definitivamente o KGB à Sevrin, confirma definitivamente a existência de Arthur e da Sevrin.
— É, mas as pastas de Alan já haviam feito isso. Acalme-se, Jason, estamos seguríssimos.
— Estamos? Tem havido "vazamentos" demais para o meu gosto. Demais. Talvez devamos parar as atividades por algum tempo.
— Estamos parados. São apenas aquelas malditas pastas do Alan que estão nos causando problemas.
— É. Pelo menos o sacana do Grant não foi completamente exato.
— Está se referindo ao Banastasio?
— É. Ainda pergunto onde diabos ele se encaixa.
— É.
Na pasta de Alan que fora interceptada, Banastasio era mencionado erroneamente como a ligação americana da Sevrin. Fora apenas depois da pasta que Crosse soubera por Rosemont quem Banastasio realmente era.
— O sujeito que foi recebê-lo foi Vee Cee Ng — disse Crosse.
— Ng Fotógrafo? — perguntou Plumm, alçando as sobrancelhas. — Qual a ligação dele?
— Não sei. Navegação, navios, contrabando... está metido em todo tipo de negócios escusos — disse Crosse, dando de ombros.
— Será que a teoria daquele tal escritor tem fundamento? Como é o nome dele? Marlowe. Será que o KGB está operando no nosso território sem nos contar?
— É possível. Ou poderia ser um departamento completamente diferente, quem sabe o gru, instigado nos Estados Unidos pelo KGB ou pelo GRU locais. Ou apenas uma coincidência. — Crosse agora estava de novo controlado, o susto do cabograma se dissipando. Pensava agora com muito mais clareza. — O que Suslev quer de tão urgente?
— Nossa cooperação. Koronski chega no avião da tarde.
— Centro? — perguntou Crosse, soltando um assobio.
— É. Houve um recado hoje de manhã. Agora que o equipamento do Ivánov está destruído, passei a ser o mensageiro.
— Ótimo. Qual é o nome falso dele?
— Hans Meikker, Alemanha Ocidental. Vai ficar no Sete Dragões. — A ansiedade de Plumm aumentou. — Escute, Suslev falou que o Centro ordenou que nos preparássemos para seqüestrar o Ian e...
— Ficaram malucos! — explodiu Crosse.
— Concordo, mas o Suslev disse que é a única maneira de descobrirmos rapidamente se as pastas são falsas ou não e, se são, onde estão as verdadeiras. Ele alega que Koronski pode fazê-lo. Num interrogatório com substâncias químicas... bem... a memória do Ian pode ser... esvaziada.
— Que loucura! — disse Crosse. — Nem temos certeza de que as pastas são falsificadas. É apenas uma suposição, pelo amor de Deus!
— Suslev disse que o Centro falou que podemos pôr a culpa nos Lobisomens. Os sacanas seqüestraram John Chen. Por que não tentariam botar a mão no dinheiro grosso do tai-pan?
— Não. É perigoso demais. Plumm enxugou as mãos.
— Seqüestrar o Ian agora deixaria os tai-pans e Hong Kong alucinados. Poderia ser a hora perfeita, Roger.
— Por quê?
— A Casa Nobre ficaria totalmente desnorteada, e com toda essa corrida aos bancos e o desastre da Bolsa, Hong Kong entraria pelo cano, e isso deixaria a China em estado de choque. Faríamos a causa dar um salto de dez anos, e ajudaríamos incomensuravelmente o comunismo internacional e os trabalhadores do mundo. Porra, Roger, já não está cheio de ficar sentado e bancar o menino de recados? Agora podemos realizar o propósito da Sevrin quase sem risco algum. Depois disso, "fecharemos para balanço" por algum tempo.
Crosse acendeu um cigarro. Notara a tensão na voz de Plumm.
— Vou pensar no assunto — falou, finalmente. — Deixemos como está, no momento. Ligo para você hoje à noite. Suslev disse quem era o americano mencionado no cabograma?
— Não. Só disse que não tinha nada a ver conosco. A voz de Crosse endureceu.
— Aqui, tudo tem a ver conosco.
— Concordo. —- Plumm observava-o. — Também podia ser uma palavra em código, um codinome para alguém.
— É possível.
— Tenho um palpite. Banastasio.
— Por que ele? — perguntou Crosse, tendo chegado à mesma conclusão.
— Não sei, mas aposto que todo o golpe, se é que é um golpe, tem que ter inspiração, ou assistência, do KGB. É um clássico Sun Tse: usar a força do inimigo contra ele mesmo... os dois inimigos, os Estados Unidos e a China. Um Vietnam forte e unido é garantido militarmente contra a China. Certo?
— É possível. E, tudo se encaixa — concordou Crosse. "Exceto uma coisa", pensou. "Vee Cee Ng." Até que Brian Kwok tivesse cuspido "Vee Cee é um de nós", ele não tivera a mínima suspeita de que o sujeito fosse outra coisa que não um fotógrafo "avançado" e um comerciante capitalista. — Se o Banastasio é o americano, logo saberemos. — Acabou de fumar o seu cigarro. — Mais alguma coisa?
— Não. Roger, pense no Dunross. Por favor. Os Lobisomens tornam a coisa possível.
— Estou pensando.
— Este fim de semana seria perfeito, Roger.
— Eu sei.
Orlanda observava os cavalos pelo binóculo de longo alcance, quando eles deram a largada para o quarto páreo. Estava num dos cantos do balcão dos sócios, com Bartlett todo feliz ao seu lado, todo mundo olhando para os cavalos, menos ele. Observava-a, a curva dos seios sob a seda, o ângulo das maçãs do rosto, a intensidade do seu entusiasmo.
— Vamos, Crossfire — murmurava —, vamos! Está em quinto, Linc, vamos, beleza, vamos...
Deu uma risadinha abafada, que Orlanda nem notou. Haviam combinado encontrar-se ali entre o terceiro e o quarto páreo.
— Você é sócia votante? — perguntara-lhe na véspera.
— Ah, não, meu querido. Vou apenas com amigos, velhos amigos da minha família. Quer mais uma bebida?
— Não, não, obrigado... é melhor eu ir andando.
Haviam-se beijado, e ele sentira novamente que ela correspondera integralmente. Aquilo o perturbara, deixara-o nervoso durante toda a travessia da baía, e durante a maior parte da noite. Por mais que tentasse, não estava fácil conter seu desejo por ela, e mantê-lo em perspectiva.
"Você está perdido, meu velho", falou com seus botões, observando-a tocar os lábios com a ponta da língua, os olhos concentrados, esquecida de tudo, exceto dos seus cinqüenta dólares no grande cavalo pardo, o favorito.
— Vamos... vamos... ah, ele está avançando, Linc... ah, está em segundo...
Bartlett olhou para os cavalos, que agora galopavam na reta final: Crossfire, o grande pardo, bem colocado atrás de Western Scot, um capão castanho que corria ligeiramente na liderança, a pista muito difícil... um cavalo caíra no terceiro páreo. Agora, um dos concorrentes deu uma arrancada, um capão, Winwell Stag, pertencente a Havergill, que Peter Marlowe indicara como vencedor, e vinha firme por fora, com Crossfire e Western Scot corpo a corpo bem à frente, todos os chicotes agora funcionando em meio ao vozerio crescente.
— Ande, vamos, vamos, vamos, Crossfire... ah, ele ganhou, ganhou!
Bartlett riu em meio ao pandemônio quando a alegria de Orlanda explodiu e ela o abraçou.
— Oh, Linc, que maravilha!
Dali a um momento, outra explosão de vozes quando os números vencedores apareceram no painel do totalizador, confirmando a sua ordem. Agora, todos esperavam pelo resultado final das apostas. Novos vivas ruidosos. Crossfire pagou 5 por 2.
— Não é muito — comentou.
— É sim, é sim, é sim! — Orlanda nunca lhe parecera tão linda, o chapéu dela uma graça, muito mais bonito do que o de Casey... ele o notara de pronto, e o elogiara. Ela se debruçou para a frente, apoiou-se na grade e olhou para o círculo do vencedor. — Lá está o proprietário, Vee Cee Ng, é um dos nossos xangaienses milionários, comerciante. Meu pai o conhecia bem.
Passou o binóculo para ele. Bartlett focalizou-o. O homem que trazia o cavalo com a guirlanda para o círculo do vencedor vestia roupas caras, era um chinês sorridente e encorpado, na casa dos cinqüenta anos. Depois Bartlett reconheceu Havergill, conduzindo o seu Winwell Stag, segundo colocado, derrotado por um focinho. No paddock viu Gornt, Plumm, Pugmire, e muitos dos administradores. Dunross estava perto da cerca, falando com um homem menor. O governador ia de grupo em grupo, com a mulher e o ajudante-de-ordens. Bartlett observava-os com uma pontinha de inveja, os proprietários, ali de pé, com bonés, guarda-chuvas e cadeirinhas portáteis, mulheres, e namoradas dispendiosas, cumprimentando-se entre si, todos sócios do clube exclusivo, a casa de força de Hong Kong, ali e nos reservados acima. "Tudo muito britânico", pensou, "tudo muito afável. Será que me encaixarei melhor do que o Biltzmann? Claro. A não ser que desejem que eu pule fora tanto quanto desejavam que ele pulasse. Serei um sócio votante facilmente. Foi o que Ian disse. Orlanda se encaixaria aqui? Claro. Como mulher ou namorada, dá no mesmo."
— Quem é aquele? — perguntou. — O homem que está falando com o tai-pan?
— Ah, é Aleksei Travkin, o treinador do tai-pan... Parou de falar quando Robert Armstrong aproximou-se deles.
— Boa tarde, sr. Bartlett — disse ele, polidamente. — Também apostou no vencedor?
— Não, não, esse eu perdi. Deixe-me apresentar-lhe a srta. Ramos; Orlanda Ramos, superintendente Robert Armstrong, do DIC.
— Alô — cumprimentou ela, sorrindo para Armstrong, e ele notou a sua cautela imediata. "Por que todos eles têm medo de nós, tanto os inocentes quanto os culpados?", perguntou a si mesmo, "quando tudo o que pretendemos é fazer com que as leis deles sejam cumpridas, tentar protegê-los dos bandidos e dos ímpios? Ê porque todo mundo infringe alguma lei, mesmo uma pequenina, cada dia, a maioria dos dias, porque muitas das leis são cretinas... como as nossas leis de apostas. Portanto, todos são culpados, até mesmo você, mocinha bonita, com o andar, oh, tão sensual, e o sorriso, oh, tão convidativo! Para o Bartlett. Qual o crime que cometeu hoje, para apanhar no laço esse pobre inocente?" Sorriu sardonicamente consigo mesmo. "Não tão inocente na maioria das coisas. Mas, contra alguém treinado por Quillan Gornt? Uma eurasiana linda e faminta, cujo único caminho é o da descida? Ayeeyah! Mas, ah, como gostaria de trocar de lugar! É, você com suas armas, dinheiro, gatas como Casey e essa aí, e encontros com a escória do mundo, como Banastasio, ah, sim... daria dez anos da minha vida, mais, porque hoje juro por Deus que abomino o que tenho que fazer, o que apenas eu posso fazer pela velha e querida Inglaterra."
— Apostou no favorito, também? — perguntava ela.
— Não, infelizmente não.
— Este é o segundo vencedor dela — disse Bartlett, cheio de orgulho.
— Ah, se está numa maré de sorte, quem é o seu candidato para o quinto?
— Venho tentando decidir, superintendente. Não tenho palpite... pode ser qualquer um. Qual o seu palpite?
— Falaram-me em Winning Billy. Mas também não consigo me decidir. Bem, boa sorte.
Armstrong retirou-se, dirigindo-se para o guichê de apostas. Apostara quinhentos no terceiro colocado, cobrindo as outras apostas. Sempre escolhia uma aposta principal e depois jogava com outras, na esperança de levar vantagem. Era o que acontecia, na maioria das vezes. Naquela tarde estava um pouco em desvantagem, mas não havia ainda tocado nos quarenta mil.
No corredor, hesitou. O Cobra, o inspetor-chefe Donald C. C. Smyth, afastava-se de um dos movimentados guichês dos vencedores, um maço de notas nas mãos.
— Alô, Robert. Como vai indo?
— Mais ou menos. Está numa boa de novo?
— Eu tento. — O Cobra achegou-se mais. — Como vai indo tudo?
— Andando.
Novamente Armstrong sentiu-se nauseado ao pensar em mais uma sessão do Quarto Vermelho, depois em ficar ali sentado, deixando a mente de Brian Kwok pôr para fora seus segredos mais escondidos, lutando contra o relógio que funcionava ininterruptamente... todos conscientes de que o governador estava pedindo permissão a Londres para fazer a troca.
— Você não está com boa cara, Robert.
— Não me sinto bem. Quem vai ganhar o quinto?
— Dei uma espremida no seu amigo Pé Torto, do Para. Falam em Pilot Fish. Ele deu a dica do Buccaneer no primeiro, embora, com essa pista, tudo possa acontecer.
— É. Alguma novidade sobre os Lobisomens?
— Nada. É um beco sem saída. Toda a área está sendo revistada, mas, com essa chuvarada, praticamente não há esperanças. Entrevistei Dianne Chen hoje de manhã... e a mulher de John Chen, Barbara. Só papo furado. Apostaria cinco dólares contra um alfinete torto de chapéu que elas sabem mais do que estão contando. Tive uma conversa ligeira com Phillip Chen, mas ele também não cooperou. O pobre infeliz está abaladíssimo. — O Cobra ergueu os olhos para ele. — Por acaso Mary tinha alguma pista sobre o John?
Armstrong devolveu-lhe o olhar.
— Ainda não tive oportunidade de perguntar a ela. Hoje à noite... se me derem algum sossego.
— Não darão. — O rosto de Smyth se enrugou com um sorriso retorcido. — Aposte os seus quarenta em Pilot Fish.
— Que quarenta?
— Um passarinho me contou que um certo ninho de ovos de ouro fugiu de seu galinheiro... se me desculpa a metáfora. — O homem mais baixo deu de ombros. — Não se preocupe, Robert, divirta-se. Acabando esse, há muito mais. Boa sorte.
Afastou-se. Armstrong acompanhou-o com os olhos, odiando-o.
"O sacana tem razão", pensou. "Sempre haverá mais. E se você aceitou o primeiro, por que não o segundo? E embora você não dê nada, não admita nada, não garanta nada, chegará um dia... tão certo como Deus criou os peixinhos do mar, sempre haverá uma retribuição.
"Mary. Ela precisa de umas férias, precisa muito, e há a conta do corretor a pagar, e todas as outras contas, e oh, Deus, com esse mercado que endoidou estou quase a zero. Maldito seja o dinheiro... ou a falta dele.
"Os quarenta numa loteria vencedora resolveriam tudo. Ou jogo tudo em Pilot Fish? Tudo, a metade ou nada. Se for tudo, há tempo de sobra para fazer apostas nos outros guichês."
Seus pés o conduziram para uma das filas de apostas. Muitos o reconheceram, e aqueles que o fizeram, sentindo seu instantâneo medo interno, desejaram que a polícia tivesse a sua própria tribuna e seus próprios guichês, e não se misturasse aos cidadãos honestos. Wu Quatro Dedos era uma dessas pessoas. Apressadamente, apostou cinqüenta mil nos números de Pilot Fish e Butterscotch Lass, e voltou rapidinho para a sala dos sócios, para bebericar o seu conhaque com soda, agradecido. "Polícia carne de cachorro nojenta, assustando cidadãos honestos", pensou, esperando pela volta de Vênus Poon. "Eeeee", casquinou ele, "a Ravina Dourada dela vale cada quilate do diamante que lhe prometi ontem à noite. Duas Nuvens e Chuva antes do alvorecer e uma promessa de novo encontro no domingo, quando o yang recobrar o seu..."
Um urro súbito da multidão Iá fora desviou seu pensamento. Prontamente, foi abrindo caminho aos empurrões pelo povo que lotava o balcão. Os nomes dos cavalos e jóqueis do quinto páreo apareciam no painel, um por um. Pilot Fish, número 1, recebeu vivas entusiásticos; depois Street Vendor, um azarão, 2; Golden Lady, 3, e uma onda de emoção varreu os seus muitos torcedores. Quando Noble Star, 7, apareceu no painel, ouviu-se uma enorme zoeira, e quando apareceu o último nome, número 8, a favorita Butterscotch Lass, a zoeira ainda foi maior.
Junto à cerca, Dunross e Travkin inspecionavam sombriamente a grama. Estava danificada e escorregadia. Quanto mais perto da cerca, pior. Acima, o céu ficava mais escuro e pesado. Começou a chuviscar, e um gemido nervoso escapou de cinqüenta mil gargantas.
— Está uma droga, tai-pan — disse Travkin —, a pista está uma droga.
— Está igual para todos.
Dunross reavaliou as probabilidades pela última vez. "Se eu montar e ganhar, o bom augúrio será imenso. Se eu montar e perder, será um péssimo augúrio. Ser derrotado por Pilot
Fish será ainda pior. Eu poderia me ferir facilmente. Não posso me permitir... a Casa Nobre não se pode permitir ficar acéfala hoje, amanhã ou segunda-feira. Se Travkin montar e perder, ou acabar a corrida depois de Pilot Fish, será ruim, mas não tão ruim. Será joss.
"Mas não vou me ferir. Vou ganhar. Quero vencer esse páreo mais do que qualquer coisa no mundo. Não vou falhar. Não tenho certeza quanto ao Aleksei. Posso ganhar... se os deuses estiverem comigo. É, mas o quanto você está preparado para arriscar nos deuses?"
— Eeee, jovem Ian — dissera-lhe o velho Chen-chen muitas vezes —, não se fie muito na ajuda dos deuses, não importa o quanto você lhes ofereça em ouro e promessas. Os deuses são os deuses, e os deuses vão almoçar ou dormir, ficam chateados e desviam os olhos. Os deuses são iguais às pessoas: bons e maus, preguiçosos e fortes, doces e amargos, burros e sábios! Por que outro motivo são deuses, heya?
Dunross podia sentir seu coração batendo forte, e sentir o cheiro quente, acre, doce e azedo do suor dos cavalos, a movimentação que cegava a mente e agitava o espírito, as mãos agarrando o chicote, encolhido no canto, agora na reta anterior, agora a curva final, o terror fantástico, doído, doce da velocidade, usando o chicote, enfiando os calcanhares, todo estirado agora, cuidadosamente encostando Pilot Fish na cerca, desequilibrando-o, e agora na reta final, à toda na final, Pilot Fish vindo atrás, a linha de chegada adiante... chegando... chegando... vencendo...
— Temos que decidir, tai-pan. É a hora.
Dunross voltou devagar ao presente, um gosto amargo na boca.
— É. Você monta — falou, colocando a Casa Nobre antes dele mesmo.
E agora que tinha falado, pôs o resto de lado e bateu calorosamente nos ombros de Travkin.
— Vença, Aleksei. Vença, por Deus.
O homem mais velho, curtido e castigado pelo tempo, ergueu os olhos para ele. Fez um sinal de cabeça, depois foi se trocar. Enquanto se afastava, notou Suslev na tribuna, es-piando-o pelo binóculo. Um tremor o percorreu. Suslev prometera que, no Natal, Nestorova viria para Hong Kong, permitiriam que ela se unisse a ele em Hong Kong... e ficasse em Hong Kong... no Natal. Se ele cooperasse. Se cooperasse e fizesse o que lhe pedissem.
"Você acredita nisso? Não, não, de jeito nenhum, aqueles matieriebiets são mentirosos e traidores. Mas quem sabe desta vez... Santo Deus, por que mandaram que fosse me encontrar com Dunross no Sinclair Towers à noite, tarde da noite? Por quê? Santo Deus, que devo fazer? Não pense, velho. Você está velho e logo vai morrer, mas seu primeiro dever é vencer. Se vencer, o tai-pan fará o que você pedir. Se perder? Se vencer ou perder, como poderá viver com a vergonha de ter traído o homem que foi seu amigo e confiou em você?"
Entrou na sala dos jóqueis.
Atrás dele, Dunross olhou para o totalizador. As probabilidades já tinham diminuído. A quantia total apostada já chegava aos dois milhões e meio. Butterscotch Lass pagava 3 por 1, Noble Star, 7 por 1, ainda sem jóquei anunciado. Pilot Fish, 5 por 1, Golden Lady, 7 por 1. "Ainda é cedo", pensou, "há muito tempo para se apostar." Travkin diminuíra a proporção entre as apostas. Sentiu uma pontada gelada a percorrê-lo. "Será que existe algum acordo em andamento neste momento, um acordo entre treinadores e jóqueis? Pombas, é melhor vigiarmos esse páreo com muito, muito cuidado."
— Ah, Ian!
— Oh, alô, senhor. — Dunross sorriu para Sir Geoffrey, que se aproximou dele, depois olhou para Havergill, que estava com o governador. — Uma pena a derrota de Winwell Stag, Paul. Fez uma bela corrida.
— Joss — disse Havergill, polidamente. — Quem vai montar Noble Star?
— Travkin.
O rosto do governador se iluminou.
— Ah, excelente escolha. É, fará uma bela corrida. Por um momento, Ian, pensei que você fosse ficar tentado.
— Fiquei, senhor. Ainda estou. — Dunross deu um leve sorriso. — Se o Aleksei for atropelado por um ônibus até Iá, sou eu que vou montar.
— Bem, pelo bem de todos nós e da Casa Nobre, vamos torcer para que isso não ocorra. Não podemos nos dar ao luxo de tê-lo ferido. A pista está com uma cara horrível. — Outra rajada de chuva veio e passou. — Até agora temos tido muita sorte. Nenhum acidente sério. Se a chuva começar pra valer, talvez se deva considerar uma suspensão.
— Já discutimos isso, senhor. Estamos um pouco atrasados. O páreo será adiado por dez minutos. Contanto que o tempo permita este páreo, a maioria do povo ficará satisfeita.
Sir Geoffrey observava o.
— A propósito, Ian, tentei falar com o ministro há alguns minutos, mas infelizmente já estava em reunião. Deixei recado, e ele ligará para mim logo que puder. Parece que as ramificações desse maldito escândalo Profumo estão novamente afetando as raízes do governo conservador. A imprensa está gritando, e com razão, com receio de ter havido quebra de segurança. Até que o resultado da comissão de inquérito saia, no mês que vem, acertando definitivamente os aspectos da segurança e os boatos de que outros no governo estão implicados, não haverá paz.
— É — concordou Havergill. — Mas, sem dúvida, o pior já passou, senhor. Quanto ao relatório, certamente não será desfavorável.
— Desfavorável ou não, esse escândalo vai arruinar os conservadores — disse Dunross, gravemente, lembrando-se da previsão do Alan no seu último relatório.
— Santo Deus, espero que não. — Havergill estava horrorizado. — Aqueles dois críticos, Grey e Broadhurst, no poder, entre todo o resto da cambada socialista? Se a entrevista coletiva deles significou alguma coisa, é melhor irmos para casa.
— Estamos em casa, e tudo vem afetar a casa, no fim das contas — disse Sir Geoffrey, com tristeza. — De qualquer forma, Ian tomou a decisão correta de não montar. — Lançou um olhar para Havergill, mais cortante. — Como disse, Paul, é importante tomar a decisão correta. Seria de muito mau gosto se os depositantes do Ho-Pak fossem aniquilados, talvez somente por causa de um erro de julgamento por parte de Richard Kwang, e a falta de uma decisão benevolente por parte daqueles que podiam evitar um tal desastre, se o quisessem... talvez com grande lucro. Não?
— Sim, senhor.
Sir Geoffrey fez um gesto de cabeça e se retirou.
— A troco de quê esse comentário? — indagou Dunross.
— O governador acha que devemos salvar o Ho-Pak — falou Havergill, informalmente.
— E por que não o fazem?
— Vamos falar da compra do controle da General Stores.
— Primeiro, vamos terminar o assunto Ho-Pak. O governador tem razão, isso nos beneficiaria a todos, Hong Kong... e o banco.
— Você seria a favor?
— Sim, claro.
— Vocês aprovarão, você e seu bloco aprovarão a compra de controle?
— Não tenho um bloco, mas sem dúvida apoiarei uma compra de controle razoável.
Paul Havergill deu um débil sorriso.
— Eu estava pensando em vinte cents por dólar dos bens do Richard.
— Isso não é muito — falou Dunross, soltando um assobio.
— Até segunda à noite ele não terá absolutamente nada. Provavelmente aceitará a proposta... seus bens darão o controle ao banco. Poderíamos facilmente afiançar cem por cento dos seus depositantes.
— Ele possui tal quantidade de garantias?
— Não, mas com a normalização do mercado e a nossa administração criteriosa, daqui a um ou dois anos a aquisição do Ho-Pak poderia realmente nos beneficiar. Ah, sim. E há uma necessidade desesperada de restaurar a confiança. Uma compra de controle dessas ajudaria incrivelmente.
— Esta tarde seria a hora perfeita para um comunicado.
— Concordo. Alguma novidade sobre o Tiptop? Dunross olhou-o fixamente.
— Por que a súbita mudança, Paul? E por que discuti-la comigo?
— Não houve mudança. Considerei o Ho-Pak com muito cuidado. A aquisição seria boa política bancária. — Havergill observava-o. — Nós o prestigiaremos e lhe daremos um lugar na nossa junta diretora.
— Com que então os boatos sobre o Grande Banco são verdadeiros?
— Não ao que eu saiba — disse o banqueiro, friamente. — E quanto ao fato de discuti-la com você: é um dos diretores do banco, atualmente o mais importante, com influência substancial na junta diretora. É uma coisa sensata a fazer, não é?
— É, mas...
Os olhos de Havergill ficaram mais frios.
— Os interesses do banco não têm nada a ver com a minha antipatia por você, ou por seus métodos. Mas você estava certo quanto à Superfoods. Fez uma boa oferta numa hora perfeita, e fez uma onda de confiança se alastrar sobre todo o pessoal daqui. Ela deve se espalhar por toda a Hong Kong. Foi uma jogada brilhante, e se agora nós lhe dermos seguimento anunciando que assumimos todas as responsabilidades do Ho-Pak para com seus clientes, será outro imenso voto de confiança. Só o que estamos precisando é de recuperar a confiança. Se o Tiptop vier em nosso auxílio com o seu dinheiro, segunda-feira será um dia de alto astral para Hong Kong. Portanto, Ian, logo de manhãzinha, na segunda, compraremos ações da Struan maciçamente. Até segunda à noite teremos assumido o controle. Contudo, vou lhe propor um acordo imediatamente: nós lhe daremos os dois milhões da General Stores em troca de metade das suas ações do banco.
— Não, obrigado.
— Nós o teremos todo até o fim da semana que vem. Garantiremos esses dois milhões, de qualquer forma, para cobrir a compra de controle e garantir a oferta global que fez ao Pug... se você não conseguir evitar a sua própria compra de controle.
— Isso não acontecerá.
— Claro. Mas não se importa que eu fale nisso com ele e com aquele cretinozinho abelhudo do Haply?
— Você é um filho da mãe, não?
Os lábios finos de Havergill retorceram-se num sorriso.
— Negócios... quero o seu bloco de ações do banco. Seus antepassados compraram-nas por uma ninharia, praticamente roubaram-nas dos Brocks, depois de destruí-los. Quero fazer o mesmo. E quero o controle da Casa Nobre. Naturalmente. Como diversos outros. Provavelmente até o seu amigo americano Bartlett, se a verdade fosse revelada. De onde estão saindo os dois milhões?
— Estão caindo do céu.
— Descobriremos, mais cedo ou mais tarde. Somos os seus banqueiros, e vocês nos devem um bocado de dinheiro! Será que Tiptop vai salvar a nossa pele?
— Não tenho certeza, mas falei com ele ontem à noite. Foi encorajador. Concordou em vir até aqui depois do almoço, mas ainda não chegou. E isso é um mau presságio.
— É. — Havergill enxugou um pouco do chuvisco que lhe molhava o nariz. — Obtivemos uma resposta positiva do Banco Mercantil de Moscou.
— Até mesmo você não pode ser tão idiota!
— Em último caso, Ian. Apenas em último caso.
— Vai convocar uma reunião de diretoria imediata para discutir a compra de controle do Ho-Pak?
— Santo Deus, não. — Havergill tornou-se sarcástico. — Acha que sou assim tão idiota? Se eu o fizesse, você poderia influenciar os outros diretores para obter uma extensão do seu empréstimo. Não, Ian, resolvi consultá-los individualmente, como você. Com a sua concordância, já tenho maioria, e os outros naturalmente aceitarão. Tenho a sua concordância?
— A vinte cents por dólar, e pagamento integral dos investidores, tem.
— Posso precisar de uma margem de ação para ir até trinta cents. Concorda?
— Sim.
— A sua palavra?
— Ah, sim, tem a minha palavra.
— Obrigado.
— Mas convocará uma reunião de diretoria antes da abertura de segunda-feira?
— Concordei em pensar no assunto. Apenas. Já pensei, e a resposta agora é não. Hong Kong é uma sociedade pirata, onde os fracos fracassam e os fortes conservam os frutos do seu trabalho. — Havergill sorriu e lançou um olhar para o painel. A proporção entre as apostas diminuíra. Butterscotch Lass, famosa por gostar do molhado, estava pagando 2 por 1. Pilot Fish, agora 3 por 1. Enquanto olhavam, o nome de Travkin apareceu ao lado de Noble Star, e um enorme alarido acompanhou-o. — Acho que o governador estava errado, Ian. Você devia ter montado. Teria feito a minha modesta aposta em você. É. Você teria sido coroado de glória. É, teria vencido. Não tenho certeza quando ao Travkin. Boa tarde. — Levantou o chapéu e se dirigiu para Richard Kwang, que estava com a mulher e o treinador, um pouco afastado. — Ah, Richard! Posso lhe dar uma palavri...
O resto do que disse foi abafado pelo urro imenso da multidão quando o primeiro dos oito concorrentes do quinto páreo começou a surgir de sob as tribunas. Pilot Fish vinha na frente, a garoa fazendo brilhar o seu pêlo negro.
— Sim, Paul? — perguntou Richard Kwang, acompa-nhando-o até um espaço vazio. — Queria falar com você, mas não quis interrompê-lo com o governador e o tai-pan. Bem — falou com jovialidade forçada —, tenho um plano. Vamos reunir todos os títulos do Ho-Pak, e você me empresta cinqüenta milhões...
— Não, obrigado, Richard — falou Havergill, vivamente. — Mas temos uma proposta, válida até as cinco horas de hoje. Socorremos o Ho-Pak e garantimos todos os seus clientes. Em troca, compramos os seus bens pessoais ao valor nominal e...
— Valor nominal? Isso é um qüinquagésimo do valor deles! — guinchou Richard Kwang. — É um qüinquagésimo do quanto valem...
— Na verdade, cinco cents por dólar, que é só o que valem. Negócio fechado?
— Não, claro que não. Dew neh loh moh, por acaso sou algum maluco carne de cachorro? — exclamou Richard Kwang, o coração quase estourando. Um momento antes ele acreditara no impossível: que Havergill lhe concederia uma suspensão temporária do desastre, que, a essa altura, considerava absoluto, embora fingisse o contrário, embora não fosse culpa sua, e sim dos boateiros, fofoqueiros e idiotas maliciosos que o haviam levado a realizar negócios bancários errados. Mas, agora, estava na prensa. Oh ko! Agora ia ser espremido, e fizesse o que fizesse, não conseguiria escapar dos tai-pans. "Ai, ai, ai! Desastre sobre desastre, e agora aquela meretriz ingrata, Vênus Poon, me desprestigiando diante do Tio Quatro Dedos, do Charlie Wang e até do Ng Fotógrafo, e isso depois de eu ter-lhe dado o casaco de vison novo que ela deixa arrastar na lama tão descuidadamente."
— Novo? — explodira ela, pela manhã. — Alega que este casaco infeliz de segunda mão é novo?
— Claro! — berrara ele. — Acha que sou algum macaco? Claro que é novo. Custou-me cinqüenta mil em dinheiro vivo, oh ko!
Os cinqüenta mil eram um exagero, mas o dinheiro vivo, não, e ambos se davam conta de que seria incivilizado não exagerar. O casaco lhe custara catorze mil, através de um intermediário, depois de muito pechinchar, comprado de um quai loh que estava em dificuldades, e mais dois mil, para o peleiro que o encurtara e alterara da noite para o dia, de maneira a que servisse nela e não fosse reconhecido, com uma garantia de que o peleiro juraria por todos os deuses que o vendera por quarenta e dois mil, embora na verdade valesse sessenta e três mil e quinhentos.
— Paul — disse Richard Kwang com ar importante —, o Ho-Pak está em melhor forma do que...
— Queira fazer o favor de ficar quieto e escutar — interrompeu Havergill. — Chegou a hora de tomar uma decisão séria... para você, não para nós. Você pode afundar completamente na segunda-feira, sem nada... ao que me consta o pregão vai começar com as suas ações.
— Mas Sir Luís me assegurou que...
— Ao que me consta o pregão começa com elas. Assim, na segunda à noite você não terá um banco, nem ações, nem cavalos, nem dinheiro supérfluo para gastar em casacos de vison com Vênus Poon...
— Hem? — Richard Kwang perdeu a cor, ciente de que a mulher estava a uma distância de vinte passos, observan-do-os lugubremente. — Que casaco de vison?
— Está certo, se não está interessado... — disse Havergill, soltando um suspiro. Ia se afastando, mas o banqueiro agarrou-o pelo braço.
— Cinco cents é ridículo. Oitenta se aproxima mais do que posso conseguir no open...
— Talvez eu possa subir para sete.
— Sete? — O banqueiro começou a praguejar, mais para se dar tempo de pensar do que outra coisa qualquer. — Concordo com uma fusão. Um lugar na junta diretora do banco, durante dez anos, com um salário de...
— Durante cinco anos, desde que você me entregue o seu pedido de demissão autenticado, sem data, antecipadamente, desde que vote sempre exatamente como eu quiser, e com um salário igual ao dos demais diretores.
— Nada de pedido de demissão antecipa...
— Lamento, então nada feito.
— Concordo com essa cláusula — disse Richard Kwang, com imponência. — Bem, e quanto ao dinheiro, acho...
— Não. Quanto ao dinheiro, Richard, lamento, mas não quero me meter em negociações prolongadas. O governador, o tai-pan e eu concordamos que devemos salvar o Ho-Pak. Já está decidido. Cuidarei para que você não saia desprestigiado. Garantimos manter em segredo o preço da compra de controle, e estamos preparados para chamá-la de fusão... ah, a propósito, quero fazer o comunicado às dezessete horas, pouco depois do sétimo páreo. Ou não o farei mais.
A fisionomia de Havergill estava sombria, mas por dentro exultava. Se não tivesse sido pelo comunicado de Dunross, e a maneira como fora recebido, jamais teria pensado em fazer o mesmo. "O sacana tem toda a razão! Está na hora de inovar, e quem melhor do que nós? Isso vai deixar o Southerby eston-teado, e finalmente nos igualará ao Blacs. Com a Struan no nosso bolso na semana que vem, no próximo ano..."
— Cinqüenta e sete, e é uma pechincha — disse Kwang.
— Chegarei aos dez cents.
Richard Kwang mexeu-se e virou-se e quase chorou, mas intimamente estava radiante com a chance de salvamento. "Dew neh loh moh", tinha vontade de gritar, "alguns minutos atrás não tinha como pagar a ração de Butterscotch Lass da semana que vem, que dirá o anel de diamante, e agora estou valendo pelo menos três milhões e meio de dólares americanos, e muito mais, com uma manipulação criteriosa." — Trinta, por todos os deuses!
— Onze.
— Terei que cometer suicídio — choramingou. — Minha mulher cometerá suicídio, meus filhos...
— Com licença, senhor — disse o seu treinador chinês em cantonense, acercando-se dele. — O páreo foi atrasado em dez minutos. Há alguma instrução que queira...
— Não está vendo que estou ocupado, barriga de sapo?
Suma daqui! — sibilou Richard Kwang em cantonense, com mais obscenidades. Depois disse para Havergill, numa súplica final e abjeta: — Trinta, sr. Havergill, e terá salvo um pobre homem e sua família...
— Dezoito, e é definitivo.
— Vinte e cinco, e é negócio fechado.
— Meu caro, lamento tanto, mas tenho que ir fazer uma aposta. Dezoito. Sim ou não?
Richard Kwang continuou a tagarelar pateticamente, mas estava avaliando as suas chances. Notara o lampejo de irritação no rosto do seu oponente. "Monte sujo de carne de cachorro! Será agora a hora de fechar? Até as cinco horas este bosta de leproso poderá mudar de idéia. Se o tai-pan conseguiu todo esse novo financiamento, quem sabe eu poderia... Não, não há chance. Dezoito eqüivalem a três vezes o lance inicial! É evidente que você é um sujeito esperto e um bom negociador", riu consigo mesmo. "Chegou mesmo a hora de fechar?"
Pensou em Vênus Poon, em como fizera pouco de seu presente dispendioso e deliberadamente roçara os delicados seios no braço de Quatro Dedos, e lágrimas de raiva subiram-lhe aos olhos.
— Ai, ai, ai — murmurou abjetamente, radiante porque seu estratagema para produzir lágrimas de verdade funcionara bem. — Vinte, por todos os deuses, e serei seu escravo para sempre.
— Ótimo — disse Havergill, muito satisfeito. — Venha ao meu reservado a um quarto para as cinco. Terei um contrato provisório pronto para a sua assinatura... e seu pedido de demissão sem data. Às cinco anunciaremos a fusão, e, Richard, até então, nem um murmúrio! Se a notícia transpirar, o negócio está cancelado.
— Naturalmente.
Havergill fez um gesto de cabeça e se retirou, e Richard Kwang voltou para junto da mulher.
— O que está se passando?
— Quieta! — sibilou ele. — Concordei em fazer uma fusão com o Victoria.
— Qual o preço pelos nossos bens?
— A vinte cents por dólar do... valor contábil oficial — disse ele, baixando ainda mais o tom de voz.
Os olhos dela se iluminaram de alegria.
— Ayeeyah! — exclamou, baixando rapidamente os olhos, por medida de segurança. — Saiu-se muito bem.
— E claro. E uma diretoria durante cinco anos e...
— Eeee, nosso prestígio vai ser imenso!
— É. Agora, ouça. Temos até as cinco horas para fazer alguns negócios particulares com as ações do Ho-Pak. Temos que comprar hoje, a preço de salvados de incêndio, antes que qualquer jogador carne de cachorro nos roube os lucros a que temos direito. Não podemos comprar pessoalmente, senão levantaremos suspeitas imediatas. Quem poderemos usar?
Ela pensou por um momento. Novamente seus olhos brilharam.
— Choy Lucrativo. Ofereça-lhe sete por cento de qualquer coisa que ganhe para nós.
— Vou oferecer cinco, pra começo de conversa. Talvez ele aceite seis e meio por cento! Excelente! E também vou usar o Ching Sorridente, que agora é um pobretão. Perdeu tudo... Juntando os dois... volto a encontrá-la na tribuna. — Com ar importante, afastou-se e foi até junto do seu treinador, e acertou-lhe um pontapé na canela. — Ah, desculpe — falou, para os ouvidos de quem estivesse por perto e tivesse visto o seu gesto, depois sibilou: — Não me interrompa quando eu estiver ocupado, seu monte de bosta de cachorro trapaceiro! E se me trapacear como trapaceou o Tok Barrigudo, eu...
— Mas já lhe contei isso, senhor — disse o homem, com azedume. — Ele também sabia da coisa. Então não foi idéia dele? Vocês dois não ganharam uma fortuna?
— Oh ko, se meu cavalo não vencer esta corrida, vou pedir ao meu Tio Quatro Dedos para mandar os combatentes de rua dele esmagarem seus Globos Celestiais!
Uma chuvinha fina varreu o paddock, e todos olharam ansiosos para o céu. Nas tribunas, e nos balcões acima delas, todos estavam igualmente ansiosos. A chuva virou garoa, e no balcão dos sócios Orlanda estremeceu, tensa de emoção.
— Ah, Linc, agora vou apostar.
— Tem certeza? — perguntou com uma risada, pois a tarde toda ela se roera de indecisão, primeiro Pilot Fish, depois Noble Star, depois uma "barbada", o azarão Winning Billy, depois novamente Butterscotch Lass. As proporções entre as apostas eram iguais para Butterscotch Lass, Pilot Fish e Noble Star: 3 por 1 (no momento em que o nome de Travkin foi anunciado, o dinheiro começou a entrar firme), e 6 por 1 para Golden Lady. Os demais tinham recebido poucas apostas. A quantia total apostada, até o momento, era impressionante: quatro milhões e setecentos mil HK. — Quanto vai apostar?
Ela fechou os olhos e disse atropeladamente:
— Tudo o que já ganhei, e mais... mais cem! Não demoro, Linc.
— Boa sorte. Vejo-a depois da corrida.
— Ah, sim, desculpe, esqueci-me, com toda a confusão. Divirta-se!
Lançou-lhe um sorriso glorioso e saiu às pressas, antes que ele pudesse perguntar em qual ia apostar. Ele já apostara. Aquele páreo era uma loteria, além de ser a segunda parte da loteria dupla: dez mil HK em qualquer combinação de Pilot Fish e Butterscotch Lass. "Não pode dar outra", pensou ele, seu próprio entusiasmo aumentando.
Saiu do balcão e foi "costurando" por entre as mesas na direção dos elevadores que o levariam até Iá em cima. Muitas pessoas o observaram, algumas o cumprimentaram, a maioria com inveja dos pequenos distintivos que tremulavam na sua lapela.
— Oi, Linc!
— Oh, alô — falou para Biltzmann, que o havia interceptado. — Como vão indo as coisas?
— Ouviu falar do golpe sujo? Mas claro, você estava Iá! — falou Biltzmann. — Escute, Linc, posso lhe falar um momentinho?
— Claro — disse Bartlett, acompanhando-o corredor abaixo, consciente dos olhares curiosos dos que cruzavam com eles.
— Olhe — disse Biltzmann, quando haviam chegado a um canto discreto —, é melhor se cuidar com esses filhos da mãe ingleses. Nós tínhamos um negócio fechado com a General Stores.
— Vai fazer uma nova proposta? — perguntou Bartlett.
— Isso quem decide é a matriz, mas quanto a mim, porra, eu deixaria esta maldita ilha se afogar.
Bartlett não lhe deu resposta, consciente dos olhares dirigidos a eles.
— Diga-me uma coisa, Linc! — Biltzmann baixou a voz e se acercou mais, com um sorriso retorcido. — Está tendo alguma coisa especial com aquela garota?
— Do que está falando?
— Daquela boa. Da eurasiana. Orlanda, aquela com que você estava falando.
Bartlett sentiu o sangue subir-lhe ao rosto, mas Biltzmann continuou:
— Incomoda-se se eu meter a minha colher enferrujada? — Piscou o olho. —- Se marcar um encontro com ela?
— Bem... aja como quiser — disse Bartlett, sentindo por ele um ódio repentino.
— Obrigado. Ela tem uma bunda e tanto. — Biltzmann abriu um amplo sorriso e aproximou-se ainda mais. — Quanto ela cobra?
Bartlett soltou uma exclamação abafada, totalmente despreparado para aquilo.
— Porra, mas ela não é uma prostituta!
— Não sabia? Ei, a cidade toda sabe. Mas o Dickie falou que ela é uma merda na cama. É verdade? — Biltzmann entendeu mal a expressão no rosto de Bartlett. — Ah, ainda não chegou Iá? Pombas, Linc, só o que tem que fazer é mostrar umas notinhas...
— Escute, seu filho da puta — sibilou Bartlett, quase cego de ódio —, ela não é nenhuma prostituta, e se você falar com ela, ou chegar perto dela, enfio um murro pela sua garganta abaixo. Sacou?
— Puxa, calma — ofegou o outro homem. — Eu não...
— Sacou o que eu quis dizer?
— Claro, claro, não é preciso... — Biltzmann recuou. — Vá com calma. Eu perguntei, não foi? O Dickie... — Interrompeu-se, assustado, quando Bartlett se aproximou. — Pela madrugada, não foi minha culpa... calma, tá?
— Cale a boca! — Baltlett conteve com esforço o seu ódio, sabendo que não era a hora ou local para meter a mão em Biltzmann. Lançou um olhar ao seu redor, mas Orlanda já havia sumido. — Suma daqui, seu filho da puta — falou com voz áspera —, e não se aproxime dela, senão...
— Claro, claro, vá com calma, tá legal? — disse Biltzmann, recuando mais um passo, depois virando-se e dando no pé, aliviado. Bartlett hesitou, depois foi até o banheiro e molhou o rosto, para se acalmar. A água da bica, especialmente ligada para a corrida, não parecia limpa. Dali a um momento foi para o elevador e dirigiu-se para o reservado de Dunross. Era a hora do chá. Canapés, bolos, queijo e grandes bules de chá indiano com leite e açúcar estavam sendo servidos aos convidados, mas ele não notou nada daquilo, entorpecido.
Donald McBride, que ia passando apressado, deu uma paradinha antes de voltar para o seu próprio reservado.
— Ah, Bartlett, quero lhe dizer o quanto estamos felizes com seus futuros negócios aqui. Foi uma pena o que aconteceu com o sr. Biltzmann, mas tudo é justo no mundo dos negócios. A sua Casey é uma pessoa encantadora. Desculpe, tenho que voar.
Afastou-se, apressadamente. Bartlett hesitou à entrada do aposento.
— Ei, Linc — chamou Casey alegremente, do balcão. —
Quer tomar chá? — Quando se encontraram, vindo um na direção do outro, o sorriso dela sumiu. — O que foi?
— Nada, nada, Casey. — Bartlett forçou um sorriso. — Já estão na linha de largada?
— Ainda não, mas estarão a qualquer momento. Tem certeza de que está bem?
— Claro. Em qual apostou?
— Noble Star, é claro. Peter deu o palpite do azarão do dr. Tooley, Winning Billy, para o placê, então apostei cinqüenta nele. Não está com boa cara, Linc. Não é o seu estômago, é?
Sacudiu a cabeça, emocionado pelo carinho dela.
— Não, estou bem. E você?
— Claro. Estou me divertindo à beça. Peter está em grande forma, e o velho Tooley é uma bola. — Casey hesitou. — Ainda bem que não é o seu estômago. O dr. Tooley falou que devemos estar a salvo dos malditos germes de Aberdeen, já que ainda não ficamos desarranjados. Claro que só saberemos com certeza daqui a vinte dias.
— Puxa — murmurou Bartlett, tentando afastar o pensamento do que Biltzmann dissera. — Quase tinha me esquecido de Aberdeen, do incêndio e de toda aquela confusão. O incêndio parece que aconteceu há um milhão de anos.
— Para mim, também. O que houve com o tempo? Gavallan estava próximo.
— É Hong Kong — falou, distraidamente.
— Como assim?
— É uma característica de Hong Kong. Quando se vive aqui, nunca há tempo que chegue, seja Iá qual for o seu ramo de trabalho. Há sempre muito o que fazer. Há sempre gente chegando, partindo, amigos, relações comerciais. Há sempre uma crise: inundação, incêndio, deslizamento de lama, altas, escândalos, oportunidades comerciais, enterros, banquetes ou coquetéis para deputados visitantes... ou algum desastre. — Gavallan tentou esquecer suas ansiedades. — Este é um lugar pequeno, e logo ficamos conhecendo a maioria das pessoas do nosso círculo. Além disso, somos a encruzilhada da Ásia, e mesmo que você não seja da Struan, está sempre em movimento, planejando, ganhando dinheiro, arriscando dinheiro para ganhar mais, ou está de partida para Formosa, Bangkok, Cingapura, Sydney, Tóquio, Londres, ou seja Iá onde for. É a magia da Ásia. Olhe o que aconteceu a vocês dois desde que aqui chegaram: o pobre John Chen foi seqüestrado e morto, foram en contradas armas no seu avião, depois houve o incêndio, a confusão na Bolsa, a corrida às nossas ações, Gornt atrás de nós, e nós atrás dele. E agora os bancos podem fechar na segunda, ou, se o Ian estiver certo, a segunda será o dia da alta. E estamos fazendo negócios juntos... — Deu um sorriso cansado. — O que achou da nossa proposta?
Casey engoliu o comentário imediato que ia fazer, e observou Bartlett.
— Ótima — disse Bartlett, pensando em Orlanda. — Acha que o Ian vai conseguir virar as coisas?
— Se há alguém capaz disso, é ele. — Gavallan soltou um grande suspiro. — Bem, vamos torcer, é só o que podemos fazer. Já apostou no ganhador?
Bartlett sorriu, e Casey sentiu-se mais tranqüila.
— Qual o seu favorito, Andrew?
— Noble Star e Winning Billy para a loteria. Até logo — falou, indo embora.
— É curioso o que ele dizia sobre Hong Kong. Ele tem razão. Faz os Estados Unidos parecerem estar a um milhão de quilômetros de distância.
— É, mas não estão, não de verdade.
— Quer ficar aqui, Casey?
Ela olhou para ele, imaginando o que a pergunta ocultaria, o que ele realmente lhe estava perguntando.
— Você é quem sabe, Linc.
— Acho que vou pegar um pouco de chá — disse ele, balançando a cabeça devagar.
— Ora, pode deixar que eu pego — falou. Depois viu Murtagh de pé, nervosamente, junto da porta, e seu coração falhou uma batida. — Ainda não conhece o nosso banqueiro, Linc. Deixe-me trazê-lo até aqui.
Ela cruzou a multidão.
— Oi, Dave.
— Oi, Casey, viu o tai-pan?
— Está ocupado até o fim do páreo. É sim ou não? — murmurou com urgência, dando as costas a Bartlett.
— Talvez. — Nervosamente, Murtagh enxugou a testa e tirou a capa de chuva molhada, os olhos vermelhos. — Levei uma hora para pegar um danado dum táxi. Puxa vida!
— Talvez o quê?
— Talvez, ora essa. Expus o plano a eles, e disseram que eu me mandasse de volta para casa, porque estava claro que eu tinha ficado maluco. Então, depois que se acalmaram, disseram que voltariam a entrar em contato comigo. Os imbecis me chamaram às quatro da madrugada, mandaram que eu repetisse todo o plano, depois o S. J. em pessoa veio ao aparelho. — Revirou os olhos. — S. J. falou que eu tinha merda... que eu estava louco, e desligou na minha cara.
— Mas você falou "talvez". O que aconteceu a seguir?
— Liguei para eles de novo e passei cinco horas, das últimas dez, ao telefone, tentando explicar-lhes o meu brilhantismo, desde que o seu plano maluco fundiu a minha cuca. — Murtagh abriu um sorriso, de repente. — Ei, uma coisa eu lhe digo, Casey. Pode apostar que o S. J. sabe quem é Dave Murtagh III!
— Escute, não toque no assunto com ninguém aqui — falou ela, rindo. — Com ninguém. Exceto o tai-pan, certo?
Olhou para ela, com cara magoada.
— Acha que vou contar a todo mundo quanto esporro levei?
Ouviu-se uma explosão de vivas, e alguém falou, do balcão:
— Estão se aproximando do portão!
— Rápido — falou Casey —, vá apostar a sua grana na loteria. Números 1 e 7. Rápido, enquanto tem tempo.
— Quais são eles?
— Não interessa. Você não tem tempo.
Deu-lhe um empurrãozinho, e Iá se foi ele. Ela se controlou, pegou uma xícara de chá e se reuniu a Bartlett e aos outros que lotavam o balcão.
— Tome o seu chá, Linc.
— Obrigado. Em quem mandou ele apostar?
— Números 1 e 7.
— Eu apostei no 1 e no 8.
Outro alarido imenso chamou a atenção deles. Os cavalos passavam a meio galope por eles, e começavam a se amontoar perto do portão. Viram Pilot Fish saracoteando, com o jóquei bem levantado, os joelhos apertados, segurando firme, condu-zindo-o para a sua posição de largada. Mas o garanhão ainda não estava pronto, sacudia a cabeça e relinchava. Imediatamente a égua e as duas potrancas, Golden Lady e Noble Star, estremeceram, as narinas arfando, e relincharam também. Pilot Fish zurrou estridentemente, empinou e escarvou o ar, e todos soltaram exclamações abafadas. O jóquei dele, Bluey White, praguejou baixinho, enfiou as mãos fortes como aço na crina dele, agüentando-se firme.
— Vamos Iá, boneco — falou, com um palavrão, acal-mando-o. — Deixe as garotas darem uma olhada no seu pi-rulito!
Travkin estava perto, montado em Noble Star. A potranca sentira o cheiro do garanhão, e aquilo a perturbara. Antes que Travkin pudesse impedir, ela se torcera, recuara e encostara a anca descuidadamente em Pilot Fish, que guinou, espantado, e bateu no azarão Winning Billy, um baio capão, que se dirigia para o seu lugar na linha de largada. O capão irritou-se, sacudiu a cabeça com raiva e afastou-se alguns passos, rodopiando, quase pisoteando Lochinvar, outro capão castanho.
— Faça essa sacana se controlar, Aleksei, pela madrugada!
— Fique fora do meu caminho, ubliudok — murmurou Travkin, os joelhos sentindo os tremores incomuns que percorriam Noble Star. Sentava-se muito ereto, parte da montaria, estribos curtos, e perguntou-se, praguejando, se o treinador de Pilot Fish havia espalhado um pouco do almíscar do garanhão no seu peito e flancos, para agitar a égua e as potrancas. "É um velho truque", pensou, "muito velho."
— Vamos! — gritou o homem que dava a partida, a voz estentórea. — Cavalheiros, ponham as montarias nas suas baias!
Várias delas já estavam Iá, Butterscotch Lass, a égua castanha, ainda a favorita, escarvando o chão, as narinas fremen-tes, a emoção da corrida vindoura e a proximidade do garanhão fazendo com que um arrepio atrás do outro a percorressem. Estava na baia 8, a contar da cerca. Pilot Fish agora entrava na baia 1. Winning Billy estava na baia 3, entre Street Vendor e Golden Lady, e o cheiro delas e o desafio impudente do garanhão deixou doido o capão. Antes que o portão se fechasse às suas costas, recuou, e, uma vez livre, lutou contra o freio e as rédeas, sacudindo a cabeça violentamente de um lado para o outro, rodopiando como um bailarino na grama escorregadia, quase colidindo com Noble Star, que se desviou habilmente do caminho.
— Venha, Aleksei — chamou o homem que dava a partida. — Ande depressa!
— Sim, claro — respondeu Travkin, mas não estava com pressa. Conhecia Noble Star, e foi levando a potranca grande e castanha, toda trêmula, para bem longe do garanhão, deixando que saltitasse à vontade. — Devagarinho, minha querida — sussurrou carinhosamente, em russo, querendo protelar, querendo deixar os outros nervosos, agora o único que não estava no portão. Um raio iluminou o céu, a leste, mas ele não prestou atenção, nem à trovoada agourenta. O chuvisco começou a apertar.
Todo o seu ser estava concentrado. Pouco depois da pesa-gem, um dos outros jóqueis aproximara-se sorrateiramente dele.
— Sr. Travkin — dissera baixinho —, não é para o senhor ganhar.
— É? Quem falou? — O jóquei deu de ombros. — Quem vai ganhar? — O jóquei deu de ombros de novo. — Se os jóqueis e os treinadores já estão com a corrida arranjada, diga para eles que não entro nessa. Nunca entrei, não em Hong Kong.
— O senhor e o tai-pan ganharam com Buccaneer, deviam estar satisfeitos.
— Estou satisfeito, mas neste páreo vou me esforçar.
— É justo, meu chapa. Vou dizer a eles.
— Eles quem?
O jóquei se afastara, atravessando o vestiário lotado ruidoso e suarento. Travkin sabia bem qual era o grupo que arranjava as corridas de vez em quando, mas nunca fora um participante. Sabia que não era por ser mais honesto do que os outros. Ou menos desonesto. Era só que suas necessidades eram poucas, uma coisa certa não o entusiasmava, e o toque do dinheiro não lhe dava prazer.
O iniciador do páreo já estava ficando impaciente.
— Ande logo com isso, Aleksei! Rápido!
Obedientemente, enfiou as esporas em Noble Star e conduziu-a para a sua baia. O portão fechou-se atrás dela. Um momento de silêncio. Agora, os corredores estavam sob as ordens do homem que dava a partida.
16h
Nas baias, os jóqueis agarravam-se às crinas dos cavalos, todos nervosos, todos os que estavam "por dentro" prontos para atropelar Noble Star. Então, as portas se escancararam, e num instante louco os oito corredores galopavam, agrupados numa parte curta da reta, depois passando pelo poste de chegada, depois virando a primeira curva. Os jóqueis estavam todos bem levantados nos estribos, o corpo dobrado para a frente, lado a lado, quase se tocando, alguns se tocando de verdade, os cavalos adquirindo o seu ritmo, arremessando-se pela primeira parte da curva que os levaria um quarto do percurso até a reta distante. Pilot Fish já estava meio corpo à frente, junto à cerca, Butterscotch Lass numa bela posição, ainda não dando tudo, Winning Billy ao seu lado, um pouco atrás de Noble Star, que corria por fora, atropelando os outros para uma melhor colocação, todos os jóqueis sabendo que estavam sendo focalizados pelos binóculos, portanto qualquer interferência ou uso do freio deviam ser feitos com habilidade e cautela. Todos tinham sido advertidos de que havia milhões em jogo, e um erro custaria a cada um deles o seu futuro.
Fizeram a curva, pesadamente, a lama respingando nos que vinham atrás, a pista muito ruim. Ao saírem da curva e entrarem na reta, ainda juntos, empurrando-se para obter melhor posição, aumentaram as passadas, o cheiro de suor e a velocidade deixando excitados tanto os cavalos quanto os cavaleiros, Winning Billy disparou e encostou em Butterscotch Lass, agora meio corpo atrás de Pilot Fish, correndo bem. Os demais mantinham-se agrupados, todos esperando para disparar. Butterscotch Lass sentiu as esporas e deu um salto à frente, e passou Pilot Fish, depois caiu de novo para trás, voltou a passá-lo, Pilot Fish ainda cuidadosamente grudado à cerca.
Travkin guiava bem a potranca, no fim do grupo, ainda correndo por fora. Depois esporeou-a e ela aumentou a velocidade, aproximando-se dos líderes, juntando-se aos outros, quase atropelando Lochinvar. A chuva aumentou. Batia nos olhos dele, que já sentia doerem-lhe os joelhos e as pernas retesadas. Não havia um corpo entre eles, enquanto galopavam para fora da reta e entravam na curva. Estavam todos agrupados para tirar vantagem da curva, quando um chicote surgiu do nada e fustigou os pulsos de Travkin. O inesperado e a dor fizeram com que soltasse as mãos por um instante, e quase perdeu o equilíbrio. Uma fração de segundo mais tarde, já tinha tudo sob controle de novo. De onde viera a chicotada, ele não sabia, nem queria saber, pois estavam bem no meio da curva, a pista pavorosa. Abruptamente, o azarão pardo Kingplay, junto à cerca, logo atrás de Pilot Fish, escorregou e tropeçou. O jóquei sentiu a terra girar e caiu, batendo na cerca, carregando com ele dois cavalos. O hipódromo inteiro se pôs de pé.
— Porra, quem foi que caiu?
— É... é Noble Star...
— Não, não é... Winning Billy...
— Não, ele está em terceiro...
— Vamos, puta que o pariu...
No tumulto da sala dos administradores, Dunross, cujo binóculo estava absolutamente firme, foi dizendo:
— Foi o Kingplay que caiu... Kingplay, Street Vendor e Golden Lady... Golden Lady já se pôs de pé, mas, meu Deus, o jóquei dela está ferido... Kingplay não consegue se levantar... está ferido...
— Qual a ordem, qual a ordem?
— Butterscotch Lass por um focinho, depois Pilot Fish junto à cerca, Winning Billy, Noble Star, nada a escolher entre eles. Agora vão entrar na última curva. Lass está uma cabeça à frente, os outros tentando atropelá-la... — Dunross observava os cavalos, o coração quase parando, dominado pela emoção. — Vamos, Aleksei...
Acrescentou seu grito aos dos outros, Casey igualmente excitada, Bartlett observando, sem se envolver, o pensamento longe.
Gornt, na tribuna do Blacs, mantinha o binóculo tão firme quanto o do tai-pan, seu entusiasmo igualmente controlado.
— Vamos — murmurou, observando Bluey White chi-cotear Pilot Fish na curva, Noble Star bem colocada por fora, Winning Billy ao lado de Lass, que estava uma cabeça à frente, o ângulo da curva dificultando a visão.
Travkin sentiu novamente a chicotada nas mãos, mas ignorou-a e adiantou-se mais um pouquinho na curva, os cinco cavalos restantes separados por centímetros, Butterscotch Lass tentando grudar-se à cerca.
Bluey White, que montava Pilot Fish, sabia que logo chegaria a hora de dar a sua disparada. Dez metros, cinco, quatro, três, dois, agora! Saíram da curva, e ele chicoteou Pilot Fish. O garanhão arremessou-se para diante, a centímetros da cerca, todo estirado, agora, enquanto Butterscotch Lass era esporeada e chicoteada um instante mais tarde, pois todos os jóqueis sabiam que era agora ou nunca.
Travkin, todo esticado sobre o pescoço de Noble Star, debruçou-se para a frente e soltou um grito de cossaco perto do ouvido de Noble Star, e a potranca atendeu ao grito primitivo aumentando as passadas, as narinas frementes, a boca espumando. Agora, os cinco concorrentes pisavam firme na reta final, Noble Star por fora, Winning Billy ultrapassando Lass por centímetros, todas as cernelhas suadas e espumantes, primeiro Lass, depois Pilot Fish na frente, e então o capão rajado Lochinvar resolveu se propor a ganhar, e tirou a liderança de Pilot Fish, assumindo a posição dianteira, todos os chicotes e esporas funcionando e apenas a linha de chegada à frente.
Faltavam cem metros.
Nas tribunas, balcões e reservados, todos gritavam a uma voz. Até mesmo o governador esmurrava a grade do balcão:
— Vamos, vamos, Butterscotch Lassss!
Perto do poste de chegada, Chu Nove Quilates estava quase esmagado contra a cerca pelo povo que se comprimia para diante.
Noventa metros, oitenta... a lama se espalhando, todos os concorrentes estirados, todos envoltos na excitação e no alarido cada vez maior.
— A Lass está ganhando...
— Não, olhe para o Pilot Fish...
— Pombas, é o Lochinvarrr...
— Winning Billy...
— Vamos, vamos, vamos...
Travkin viu o poste de chegada se aproximando. Outro relâmpago cortou os céus. Com o canto do olho, viu Lochinvar uma cabeça à frente, depois Lass, depois Winning Billy, então Pilot Fish assumiu a liderança, e em seguida Winning Billy, com Lochinvar atropelando-o.
Então, Bluey White viu a abertura que lhe haviam prometido, e deu a chicotada final no garanhão. Como uma flecha, arremessou-se para a abertura, emparelhou com Butterscotch Lass, depois, ultrapassou-a. Estava uma cabeça à frente. Viu o jóquei da Lass, que não estava "por dentro", chicotear a égua, atiçando-a a prosseguir, aos berros. Travkin berrava, exultante, e Noble Star deu de si o derradeiro esforço. Os cinco cavalos
percorreram os metros finais cabeça a cabeça, agora Pilot Fish na frente, agora Winning Billy, Noble Star se aproximando, lima cabeça apenas atrás, apenas um focinho, apenas uma narina, a multidão como um único lunático alucinado, todos os corredores agrupados, Noble Star por fora, Winning Billy ganhando centímetros, Lass se aproximando, Pilot Fish agora, agora vencendo por um focinho.
Quarenta... trinta... vinte... quinze...
Noble Star estava na frente por uma narina, depois Pilot Fish, depois Lass, depois Noble Star... Winning Billy... e agora tinham cruzado a linha de chegada, nenhum deles certo de quem vencera... apenas Travkin certo de que perdera. Abruptamente, puxou o freio brutalmente, uns cinco centímetros, e firmou-o com mão de ferro, para a esquerda, o movimento imperceptível, mas o bastante para desnorteá-la, e ela passarinhou. Com um relincho estridente, caiu na lama e jogou o seu cavaleiro contra a cerca. Butterscotch Lass quase caiu, mas agüentou, os outros três a salvo. Travkin sentiu-se voando, depois houve um rasgar de peito impossível, uma escuridão atordoante.
A multidão soltou uma exclamação abafada, a corrida momentaneamente esquecida. Outro relâmpago ofuscante. O pandemônio instalou-se, a chuva aumentou, misturando-se à trovoada.
— Pilot Fish por um focinho...
— Porra, foi Noble Star por um fio de cabelo...
— Está errado, meu velho, foi Pilot Fish...
— Dew neh loh moh...
— Meu Deus, que corrida...
— Pombas, olhe Iá, a bandeira de objeção dos administradores...
— Onde? Oh, meu Deus, quem sujou a barra?
— Não vi nada, e você?
— Não. É difícil, com esta chuva, mesmo com binóculo...
— Porra, e agora? Aqueles malditos administradores, se tirarem a vitória do meu ganhador, juro que...
Dunross correra para o elevador no momento em que vira Noble Star cair e derrubar Travkin. Não vira a causa. Travkin fora espero demais.
Outros lotavam os corredores, excitadíssimos, à espera do elevador, todos falando, ninguém escutando.
— Ganhamos por uma narina...
— Puta que o pariu, qual é a objeção? Noble Star...
— Qual é a objeção, tai-pan?
— Cabe aos administradores anunciarem.
Em meio à zoeira, Dunross apertou de novo o botão do elevador.
Gornt aproximou-se rapidamente, enquanto as portas se abriam, todos lotando o elevador, Dunross com vontade de berrar de raiva por causa da lentidão.
— Foi Pilot Fish por um focinho, Ian — gritou Gornt, acima da zoeira, o rosto afogueado.
— Que páreo! — berrou uma voz. — Alguém sabe qual é a objeção?
— Você sabe, Ian? — perguntou Gornt.
— Sei — retrucou.
— É contra o meu Pilot Fish?
— Conhece o procedimento. Primeiro os administradores investigam, depois fazem o comunicado.
Notou os olhos castanhos inexpressivos de Gornt, e soube que seu inimigo estava cego de ódio por não ser administrador. "E jamais será, seu filho da mãe!", pensou Dunross, cheio de raiva. "Darei bola preta para você até eu morrer."
— É contra o Pilot Fish, tai-pan? — perguntou alguém.
— Santo Deus — replicou. — Conhecem o procedimento. O elevador parava em todos os andares. Mais proprietários e amigos se acotovelavam para entrar. Mais gritos de "Que grande páreo! Mas que diabo, qual a objeção?" Finalmente chegaram ao térreo. Dunross saiu correndo para a pista, onde um grupo de ma-foo e funcionários cercavam Travkin, que jazia ali, largado, inerte. Noble Star se pusera de pé, incólume, e agora estava na outra extremidade, galopando sem cavaleiro na pista, os cavalariços espalhados e esperando para interceptá-la. Mais acima, na última curva, o veterinário estava ajoelhado junto do capão ruão em agonia, Kingplay, a pata traseira quebrada, com o osso espetado para fora. O som do tiro não penetrou os urros e contra-urros dos assistentes impacientes, seus olhos fitos no painel, esperando pelo julgamento dos administradores.
Dunross ajoelhou-se ao lado de Travkin, um dos ma-foo segurando um guarda-chuva sobre o homem inconsciente.
— Como vai ele, doutor?
— Não entrou na cerca por milagre. Não está morto, pelo menos ainda não, tai-pan — disse o dr. Meng, o patologista da polícia, nervoso, acostumado a cadáveres, não a pacientes vivos. — Não posso dizer direito, só quando ele voltar a si. Externamente, não parece haver hemorragia. O pescoço... e as costas dele parecem estar bem... ainda não posso dizer...
Dois enfermeiros da ambulância do St. John's apareceram trazendo uma maca.
— Para onde elevemos levá-lo, senhor? Dunross olhou ao seu redor.
— Sammy — disse a um dos seus cavalariços —, vá buscar o dr. Tooley. Ele deve estar na nossa tribuna. — Para os enfermeiros, falou: — Mantenham o sr. Travkin na ambulância até que o dr. Tooley chegue aqui. E quanto aos outros três jóqueis?
— Dois deles só levaram um susto, senhor. Outro, o capitão Pettikin, quebrou a perna, mas já a entalou.
Os homens colocaram Travkin muito cuidadosamente na maca. McBride reuniu-se a eles, depois Gornt, e os outros.
— Como vai ele, Ian?
— Não sabemos. Ainda. Parece estar bem. — Suavemente, Dunross ergueu uma das mãos de Travkin, examinando-a. Pensara ter visto um golpe na curva da outra extremidade, e Travkin hesitar. Um vergão vermelho e pesado desfigurava as costas da mão direita dele. E da outra. — O que poderia ter causado isso, dr. Meng?
— Ah! — Mais Confiantemente, o homenzinho falou: — Quem sabe as rédeas. Quem sabe um chicote, pode ter sido uma chicotada... quem sabe na queda.
Gornt ficou calado, só olhou, furioso intimamente por Bluey White ter sido tão inepto, quando tudo fora acertado anteriormente direitinho, com uma palavrinha aqui, uma promessa ali. Metade do maldito hipódromo devia tê-lo visto, pensou.
Dunross examinou o rosto sem cor de Travkin. Nenhuma outra marca, salvo as pisaduras inevitáveis. Um pouco de sangue escorria do nariz dele.
— Já está coagulando. É um bom sinal — disse o dr. Meng.
O governador aproximou-se, às pressas.
— Como vai ele?
Dunross repetiu o que o médico dissera.
— Mas que azar danado, Noble Star passarinhar daquele jeito.
— É.
— Qual a objeção dos administradores, Ian?
— íamos discuti-la agora, senhor. Quer se reunir a nós?
— Ah, não, obrigado. Vou apenas esperar e ser paciente. Queria me certificar de que o Travkin estava bem. — O governador sentia a chuva escorrer pelas suas costas. Ergueu os olhos para o céu. — Diabo de tempo ruim... e parece que vai durar. Vão continuar o programa?
— Vou recomendar que seja cancelado, ou adiado.
— Boa idéia.
— É — disse McBride. — Concordo. Não podemos nos dar ao luxo de ter outro acidente.
— Quando tiver um momentinho, Ian — disse Sir Geoffrey —, estarei na minha tribuna.
A atenção de Dunross concentrou-se nele.
— Falou com o ministro, senhor? — perguntou, tentando parecer natural.
— Falei — replicou Sir Geoffrey, igualmente natural. — É, ele ligou para mim na linha particular.
Abruptamente, o tai-pan tomou consciência de Gornt e dos outros.
— Eu o acompanharei, senhor. — Para McBride, disse: — Logo irei ter com você.
Depois, virou-se, e os dois foram andando para o elevador. Quando estavam sozinhos, Sir Geoffrey murmurou:
— Não é bem o lugar para uma conversa particular, não é?
— Poderíamos examinar a pista, senhor. — Dunross foi mostrando o caminho para a grade, rezando. — A grama está terrível, não é? — falou, apontando.
— Se está! — Sir Geoffrey também dava as costas aos olhares. — O ministro ficou muito perturbado. Deixou a decisão sobre o Brian nas minhas mãos, desde que o sr. Sinders e o sr. Crosse concordem com a libertação, desde...
— Mas concordarão com o senhor? — disse Dunross, inquieto, relembrando a conversa que tivera com eles na véspera.
— Posso apenas aconselhá-los. Eu os aconselharei que é necessário, desde que você, pessoalmente, me assegure que é.
— Claro — disse Dunross, devagar. — Mas, sem dúvida, Havergill, Southerby ou os outros banqueiros teriam maior influência.
— Em assuntos bancários, sim, Ian. Mas acho que também vou precisar da sua garantia e cooperação pessoais.
— Como, senhor?
— Esse assunto terá que ser tratado com muita delicadeza, por você, não por eles. Além disso, há o problema das pastas. Das pastas de Alan.
— O que é que têm as pastas, senhor?
— Cabe a você responder. O sr. Sinders me contou da conversa que teve com você ontem à noite. — Sir Geoffrey acendeu o cachimbo, as mãos abafando a chama, protegendo-a da chuva. Depois do telefonema do tai-pan para ele, naquela manhã, mandara imediatamente buscar Sinders e Crosse para discutir a questão da troca, antes de falar com o ministro. Sinders reiterara a sua preocupação de que as pastas pudessem ter sido adulteradas. Falou que poderia concordar em libertar Kwok, se tivesse certeza a respeito das pastas. Crosse sugerira trocar Kwok por Fong-fong e os outros. Agora, Sir Geoffrey olhava interrogativamente para Dunross. — E então, Ian?
— Tiptop deve vir, ou devia vir, hoje à tarde. Devo presumir que posso dizer sim à proposta dele?
— Sim, desde que primeiro obtenha a concordância do sr. Sinders. E do sr. Crosse.
— Não me pode dar essa autorização, senhor?
— Não. O ministro foi bem claro. Se quiser perguntar-lhes agora, estão na tribuna dos sócios.
— Estão a par do resultado do seu telefonema?
— Estão. Lamento, mas o ministro deixou bem claro. — Sir Geoffrey falava gentilmente. — Parece que a reputação de justiça e honestidade do tai-pan atual da Casa Nobre é conhecida até naqueles locais santifiçados. Tanto o ministro quanto eu confiamos nela. — Uma explosão de vivas distraiu-lhe a atenção. Noble Star rompera o cordão dos ma-foo que tentavam recapturá-la e passara galopando por eles, dispersando funcionários e cavalariços. — Talvez seja melhor tratar primeiro da objeção à corrida. Estarei no meu reservado. Venha tomar chá ou um coquetel comigo, se tiver vontade.
Dunross agradeceu-lhe, e depois dirigiu-se às pressas para a sala dos administradores, os pensamentos tumultuados.
— Ah, Ian — chamou ansioso Shitee T'Chung, o presidente da diretoria, quando ele entrou, com todos os administradores agora presentes. — Temos realmente que decidir muito depressa.
— Vai ser difícil, sem o testemunho de Travkin — disse Dunross. — Quantos de vocês viram Bluey White fustigá-lo?
Apenas McBride levantou a mão.
— Somos apenas dois em doze. — Dunross viu que Crosse o fitava. — Tenho certeza. E havia um vergão cortando as duas mãos dele. O dr. Meng disse que podia ter sido feito por um chicote, ou pelas rédeas, na queda. Pug, qual a sua opinião?
Pugmire rompeu um silêncio constrangedor.
— Eu, pessoalmente, não vi nada malicioso. Estava vigiando feito doido, porque apostara em Noble Star, mil na ponta. Se houve ou não a vergastada, não me pareceu ter feito muita diferença. Não a vi tropeçar, nem qualquer dos outros cavalos, a não ser Kingplay. Noble Star estava no páreo até a linha de chegada, e todos estavam com os chicotes nas mãos.
Jogou uma das fotos da linha de chegada.
Dunross pegou-a. A foto reproduzia o que ele vira: Pilot
Fish por um focinho de Noble Star, por uma narina de Butter-scotch Lass, por um focinho de Winning Billy.
— Todos estão com os chicotes na mão — continuou Pugmire —, e era mesmo o que tinham que fazer, na curva. Poderia ter sido facilmente acidental... se é que houve a chicotada.
— Shitee?
— Tenho que confessar, meu velho, que estava de olho no meu Street Vendor e xingando Kingplay. Pensei que sua potranca tivesse derrotado Pilot Fish. Nós... bem... consultamos os outros treinadores e não existe... bem... uma queixa formal. Concordo com o Pug.
— Roger?
— Não vi nada fora do comum.
— Jason?
Para sua surpresa, Plumm sacudiu a cabeça e discordou, e Dunross perguntou-se novamente o que haveria de verdade na acusação espantosa de Alan a Plumm e à Sevrin.
— Todos sabemos que Bluey White é ladino — dizia Plumm. — Já tivemos que adverti-lo anteriormente. Se o tai-pan e Donald dizem que viram o golpe, voto pela exclusão dele e a desqualificação de Pilot Fish.
Dunross contou os votos dos demais administradores, os indecisos.
— Vamos mandar entrar os jóqueis, White por último. Todos os jóqueis murmuraram variações do mesmo tema: estavam ocupados demais com a própria montaria para notar qualquer coisa.
Então os administradores olharam para Dunross, esperando. Ele devolvia o olhar, consciente de que, se dissesse "Voto para que unanimemente excluamos Bluey White por interferência e desqualifiquemos Pilot Fish. Todos a favor digam sim!", eles votariam como ele queria.
"Eu o vi dar o golpe", disse consigo mesmo, "Donald também, e os outros, e aquilo abalou o Aleksei pela fração de segundo necessária. Mesmo assim, com toda a honestidade, não acho que foi isso o que custou a corrida a Noble Star. Fui eu que perdi a corrida. Aleksei foi a escolha errada para este páreo. Ele devia ter empurrado Pilot Fish para cima da cerca na segunda curva, quando teve a chance, ou chicoteado Bluey White no rosto, não nas mãos. Era o que eu teria feito, ah, sem hesitar. É ainda há outras considerações."
— Não tenho a menor dúvida de que houve interferência — falou. — Mas, quer acidental ou propositadamente, duvido que até mesmo o Aleksei saiba dizer. Concordo em que Noble Star não perdeu por causa disso, portanto sugiro que simplesmente advirtamos o Bluey e mantenhamos o resultado.
— Excelente. — Shitee TChung soltou a respiração e abriu um sorriso, e todos eles se descontraíram, já que nenhum deles, muito menos Pugmire, desejava um confronto com o tai-pan. — Alguém se opõe? Ótimo! Vamos liberar para a imprensa a foto da linha de chegada e fazer o comunicado pelos alto-falantes. Quer fazer isso, tai-pan?
— Claro. Mas, e quanto ao resto do programa? Olhem só para a chuva. — Caía torrencialmente. — Ouçam, tenho uma idéia.
Ele a expôs, ouvindo uma explosão de entusiasmo, e a risada de todos.
— Muito bom, é, muito bom!
— Formidável! — exclamou Dunstan Barre.
— Isso dará aos sacanas algo em que pensar! — falou Pugmire.
— Grande idéia, tai-pan! — disse McBride, sorrindo amplamente. — Ah, excelente!
— Vou até o centro de controle... Por que não mandam chamar o Bluey e lhe passam um pito, dão-lhe um susto?
— Uma palavrinha, Ian? — pediu Pugmire.
— Podemos deixar para mais tarde?
— Claro. Roger, posso lhe dar uma palavrinha?
— Claro. Estarei na tribuna dos sócios, com o Sinders.
— Ah, não estará no seu reservado?
— Não. Emprestei-o ao comissário, para uma festa particular.
— Ian?
— Sim, Jason?
— Acha que a subida da montanha será realizada amanhã?
— Se esta chuva continuar, não. Toda aquela área vai ficar um lodaçal. Por quê?
— Por nada. Eu estava planejando dar um coquetel domingo à noitinha para comemorar o seu golpe da Superfoods!
Shitee T'Chung casquinou.
— Mas que bela idéia! Parabéns, Ian! Viu a cara do Biltzmann?
— Ian, você estaria livre? Não vou convidar o Biltzmann — acrescentou Plumm, em meio a muitas risadas. — Será no nosso apartamento da companhia, no Sinclair Towers.
— Desculpe, mas vou para Taipé no começo da tarde. Sinto muito, pelo menos é o meu plano. O...
— Não estará aqui na segunda? — interrompeu Pugmire, subitamente preocupado. — E quanto aos nossos papéis, e a tudo o mais?
— Não há problema, Pug, fechamos às nove e meia. — E, virando-se para Plumm: — Jason, se eu cancelar ou adiar Taipé, aceitarei.
— Ótimo. Das dezenove e trinta às vinte e uma e trinta, traje informal.
Dunross se afastou, franzindo ainda mais a testa, surpreso por Plumm estar tão amistoso. De um modo geral, ele era a oposição em todas as juntas diretoras de que participavam, ficando ao lado de Gornt e Havergill contra ele, especialmente na junta diretora do Victoria.
Do lado de fora da sala dos administradores circulavam grupos de repórteres, proprietários, treinadores e espectadores ansiosos. Dunross ignorou a barragem de perguntas enquanto se dirigia para a sala dos administradores, que ficava no último andar.
— Alô, senhor — cumprimentou o locutor, todos tensos na pequena cabine de vidro que tinha a melhor vista da pista.
— Uma corrida maravilhosa, pena que... Tem a decisão? É o Bluey, não é? Todos vimos o chicote...
— Posso usar o microfone?
— Ah, sim, claro.
O homem se afastou apressadamente, e Dunross sentou-se no lugar dele. Ligou o botão.
— Aqui fala Ian Dunross, os administradores me pediram para fazer dois comunicados...
O silêncio foi enorme enquanto as palavras dele ecoavam e reecoavam no hipódromo. As cinqüenta mil pessoas prenderam a respiração, indiferentes à chuva, nas tribunas baixas e em todos os níveis mais altos.
— Primeiro, o resultado do quinto páreo. — Silêncio mortal, exceto pelo barulho da chuva. Dunross inspirou fundo.
— Pilot Fish por um focinho de Noble Star, e Noble Star por um fio de cabelo de Butterscotch Lass... — A última palavra foi abafada pelos vivas e vaias, pela felicidade e desgosto, e todo mundo no estádio berrava, discutia, dava vivas, xingava. Lá no paddock Gornt estava atônito, tendo se convencido de que o seu jóquei, visto como ele próprio vira, fora apanhado e eliminado, e o resultado seria posto de lado. Em meio ao pandemônio os números vencedores apareceram no painel: 1, 7, 8.
Dunross esperou um momento, depois repetiu animadamente os resultados em cantonense, com a multidão mais dócil, acalmadas as ansiedades reprimidas, pois a decisão dos administradores era definitiva:
— Segundo, os administradores e organizadores decidiram, devido ao tempo e às más condições, cancelar o resto do programa... — Um gemido enorme percorreu a multidão. — na verdade adiá-lo até o sábado que vem, para outro programa especial. — Um alarido de entusiasmo ecoou. — Faremos um programa de oito páreos, e o quinto será igual ao de hoje, com os mesmos concorrentes, Pilot Fish, Butterscotch Lass, Winning Billy, Street Vendor, Golden Lady, Lochinvar e Noble Star. Uma prova especial de desafio, com apostas duplas, trinta mil a mais...
Vivas e mais vivas, aplausos, gritos e alguém na cabina exclamou:
— Puxa, tai-pan, que grande idéia! Noble Star vai vencer aquele filho da mãe negro!
— Ah, não vai mesmo! Butterscotch...
— Grande idéia, tai-pan. Dunross falou ao microfone:
— Os administradores agradecem o seu contínuo apoio.
— Repetiu a frase em cantonense, acrescentando: — Haverá um outro comunicado especial daqui a alguns minutos. Obrigado! — nos dois idiomas.
Outro viva ruidoso, e aqueles que estavam na chuva correram para buscar abrigo ou para os guichês dos vencedores, todos tagarelando, gemendo, amaldiçoando ou abençoando os deuses, entupindo as saídas, longas filas de homens, mulheres e crianças dirigindo-se para casa, cheios de uma nova e maravilhosa felicidade. Apenas os que possuíam os números vencedores da loteria dupla, 8 e 5 no segundo, 1 e 7 no quinto, continuavam paralisados, fitando o painel, esperando para ver quanto pagaria a loteria.
— Mais um comunicado, tai-pan? — perguntou ansiosamente o locutor.
— Sim — replicou Dunross. — Lá pelas cinco horas. Havergill lhe dissera que o negócio com Richard Kwang fora concluído, e pedira-lhe para ir à tribuna do Victoria o mais breve possível. Ele chegou à porta da saída e desceu os degraus de três em três, para o andar inferior, muito satisfeito consigo mesmo. "Ter dado a vitória do páreo a Pilot Fish deve ter abalado Gornt", pensou. "Gornt sabia, como eu, que foi a maior marmelada, e que Aleksei iria perder, não importa o que fizesse... foi o motivo principal pelo qual eu não montei. Se eles tivessem tentado fazer aquilo comigo, eu teria matado alguém. Mas no sábado que vem... ah, sábado que vem eu vou montar, e Bluey White não vai ousar, nem os demais treinadores; no sábado que vem, o jogo vai ser limpo, e eles estarão avisados. " O entusiasmo dele aumentou um pouco mais. Então, no corredor lotado, viu Murtagh à sua espera.
— Escute, tai-pan, posso falar...
— Claro — disse Dunross, conduzindo-o pela cozinha até a sua sala particular.
— Que grande páreo! Ganhei uma bolada — disse o rapaz, animadíssimo —, e que boa notícia sobre o sábado!
— Ótimo. — Foi então que Dunross notou o suor na testa do homem. "Ah, Deus", pensou. — Fecharemos negócio, sr. Murtagh?
— Por favor, chame-me de Dave, os chefões disseram que... bem... talvez... Marcaram uma reunião de diretoria para amanhã, nove da manhã, hora deles. Aqui serão...
— Dez da noite de hoje. É. Excelente, sr. Murtagh, então ligue para mim neste número. — Dunross anotou-o. — Por favor, não o perca, nem o dê para mais ninguém.
— Ah, naturalmente, tai-pan, ligarei para o senhor tão logo... até que horas posso ligar?
— No momento em que desligar o telefone, depois de falar com eles. Continue a ligar até me encontrar. — Dunross se pôs de pé. — Desculpe, mas há um bocado de coisas a serem feitas.
— Ah, sim, claro! — Murtagh acrescentou, constrangido: — Escute, tai-pan, acabei de saber do seu sinal de dois milhões na proposta da General Stores. Dois milhões da nossa parte até nove e meia de segunda vai ser um pouco difícil.
— Foi o que imaginei... para o seu grupo. Felizmente, sr. Murtagh, nunca contei com essa quantia modesta vinda de vocês. Sei que o First Central tende a ser como os moinhos de Deus... moem devagarinho... a não ser que desejem retirar-se da arena — acrescentou, lembrando-se de muitos amigos seus que haviam sido prejudicados com a retirada repentina do apoio deles, há anos. — Não se preocupe, a minha nova fonte externa de crédito é mais...
— Como? — exclamou Murtagh, empalidecendo.
— Minha nova fonte externa de finanças reage prontamente a quaisquer oportunidades comerciais repentinas, sr. Murtagh. Essa levou apenas oito minutos. Parecem ter mais confiança que seus diretores.
— Pombas, tai-pan, por favor, chame-me de Dave, não é questão de confiança, mas... bem... não sabem direito o que é a Ásia. Tive que convencê-los de que a compra de controle da General Stores vai dobrar o seu bruto em três anos.
— Em um — interrompeu Dunross firmemente, divertindo-se, — Lamento que seu grupo não vá compartilhar nossos imensos lucros advindos daquele pequeno setor dos nossos grandes planos de expansão. Tome um pouco de chá na nossa tribuna. Desculpe, mas tenho que dar um telefonema.
Pegou Murtagh firmemente pelo cotovelo e levou-o porta afora, fechando-a às suas costas.
Na cozinha, Murtagh olhava para a porta fechada, atordoado pela barulheira alegre dos pratos e das obscenidades proferidas em cantonense pelos vinte cozinheiros e ajudantes.
— Puxa — murmurou, quase em pânico —, oito minutos? Porra, será que os malditos suíços estão tentando nos roubar o cliente?
Afastou-se, com passos incertos.
Dentro da sala, Dunross estava no seu telefone particular, escutando o aparelho soar.
— Weyyyyy?
— O sr. Tip, por favor — disse com cuidado, em cantonense. — Aqui fala o sr. Dunross.
Ouviu o telefone ser largado ruidosamente e a amah gritar estridentemente:
— Telefone! Para o senhor, Pai.
— Quem é?
— Um demônio estrangeiro. Dunross sorriu.
— Alô?
— Ian Dunross, sr. Tip. Estava preocupado que sua doença tivesse piorado.
— Ah, ah, é, desculpe por tão ter podido ir. É, eu, eu tive uns problemas muito urgentes, compreende? É. Muito urgentes. Ah, a propósito, que azar o que houve com Noble Star. Acabo de ouvir no rádio que Pilot Fish ganhou por um focinho, após uma objeção. Qual foi a objeção?
Ah, a propósito, que azar o que houve com Noble Star. Acabo de ouvir no rádio que Pilot Fish ganhou por um focinho, após uma objeção. Qual foi a objeção?
Pacientemente Dunross explicou, e respondeu à pergunta sobre a sua proposta de compra de controle da General Stores, radiante porque as notícias já tinham chegado até ele. Se haviam chegado ao Tiptop, então chegariam a todos os jornais. "Ótimo", pensou, esperando para poder...
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