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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CINQUENTA TONS DE CINZA / E. L. James
CINQUENTA TONS DE CINZA / E. L. James

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

CINQUENTA TONS DE CINZA

Primeira Parte

 

Quando Anastasia Steele entrevista o jovem empresário Christian Grey, descobre nele um homem atraente, brilhante e profundamente dominador. Ingênua e inocente, Ana se surpreende ao perceber que, a despeito da enigmática reserva de Grey, está desesperadamente atraída por ele. Incapaz de resistir à beleza discreta, à timidez e ao espírito independente de Ana, Grey admite que também a deseja — mas em seus próprios termos.

Chocada e ao mesmo tempo seduzida pelas estranhas preferências de Grey, Ana hesita. Por trás da fachada de sucesso — os negócios multinacionais, a vasta fortuna, a amada família —, Grey é um homem atormentado por demônios do passado e consumido pela necessidade de controle. Quando eles embarcam num apaixonado e sensual caso de amor, Ana não só descobre mais sobre seus próprios desejos, como também sobre os segredos obscuros que Grey tenta manter escondidos… 

 

Eu olho com frustração para mim mesma no espelho. Maldito cabelo, ele simplesmente não se comporta, e maldita Katherine Kavanagh por estar doente e me sujeitar a esta provação. Eu devia estar estudando para meus exames finais, que será na semana que vem, mas estou aqui tentando escovar meus cabelos até que eles se submetam. Eu não devo dormir com ele molhado. Eu não devo dormir com ele molhado. Recitando esta ladainha várias vezes, eu tento, mais uma vez, deixa-los sob controle com a escova. Eu reviro meus olhos em exasperação e olho para a pálida menina de cabelos castanhos com olhos azuis muito grandes para seu rosto, olhando fixamente de volta para mim, e desisto. Minha única opção é conter meu cabelo rebelde em um rabo-de-cavalo e esperar que eu pareça meio apresentável.

         Kate é minha companheira de quarto, e ela escolheu justamente hoje para sucumbir à gripe.

         Então, ela não podia comparecer a entrevista que ela agendou, com algum magnata mega industrial que eu nunca ouvi falar, para o jornal estudantil. Então eu tive que me voluntariar. Eu tenho exames finais para estudar, uma redação para terminar, e eu devia estar trabalhando esta tarde, mas não, hoje eu tenho que dirigir duzentos e sessenta e cinco quilômetros para o centro de Seattle a fim de encontrar o enigmático CEO[1] da Grey Enterprises Holdings Inc. Como um empresário excepcional e benfeitor importante de nossa Universidade, seu tempo é extraordinariamente precioso, muito mais precioso que o meu, mas, ele concedeu a Kate uma entrevista. Um verdadeiro golpe de sorte, ela me disse. Maldita atividades extracurriculares dela.

Kate está encolhida no sofá na sala de estar.

— Ana, eu sinto muito. Demorei nove meses para conseguir esta entrevista. Levará outros seis para reagendar, e nós duas vamos estar formadas até lá. Como editora, eu não posso estragar isto. Por favor, — Kate me implora em sua voz rouca, de garganta inflamada. Como ela faz isto? Mesmo doente ela parecia atrevida e magnífica, com cabelos ruivos dourados e olhos verdes brilhantes, embora agora avermelhados e com coriza nasal. Eu ignoro minha pontada de simpatia indesejada.

— Claro que eu vou Kate. Você deve voltar para a cama. Você gostaria de um pouco de Nyquil ou Tylenol? [2]

— Nyquil, por favor. Aqui estão às perguntas e meu mini-gravador. Apenas aperte gravar aqui. Faça anotações e eu transcreverei tudo.

— Eu não sei nada sobre ele, — eu murmuro, tentando e falhando em suprimir meu pânico crescente.

— As perguntas virão ao seu encontro. Vá. É uma longa viagem. Eu não quero que você se atrase.

— Ok, eu estou indo. Volte para a cama. Eu fiz uma sopa para você aquecer mais tarde. — Eu olho para ela ternamente. Só por você, Kate, eu farei isto.

— Eu sei. Boa sorte. E obrigado Ana, como sempre, você é minha salvadora.

Juntando minha mochila, eu sorrio ironicamente para ela, então me dirijo porta afora para o carro. Eu não posso acreditar que eu deixei Kate me convencer disto. Entretanto, Kate pode convencer qualquer um de qualquer coisa.

Ela vai ser uma jornalista excepcional. Ela é articulada, forte, persuasiva, argumentativa, bonita e ela é minha mais querida, querida amiga.

As estradas estão limpas quando eu parto de Vancouver, com acesso a Washington em direção a Portland e a I-5. É cedo, e eu não tenho que estar em Seattle até às duas da tarde. Felizmente, Kate me emprestou seu desportivo Mercedes CLK. Eu não tenho certeza se Wanda, meu velho besouro VW, faria a jornada a tempo. Oh, o Merc. é uma diversão de dirigir, e as milhas escapam quando eu piso no pedal até o fundo.

Meu destino é a sede global da empresa do Sr. Grey. É um edifício comercial enorme de vinte andares, todo em vidro curvo e aço, uma estrutura arquitetônica fantástica, com Grey House[3] escrito discretamente em aço acima das portas de vidro dianteiras. É uma e quarenta e cinco quando eu chego, estou tão aliviada de não estar atrasada quando eu entro na enorme, e francamente intimidante portaria de vidro e aço, em arenito branco.

Atrás do balcão de arenito sólido, uma muito atraente, adestrada, jovem loira sorri agradavelmente para mim. Ela está vestindo um terninho carvão e camisa branca, mais elegante que eu já vi. Ela parece imaculada.

— Eu estou aqui para ver o Sr. Grey. Anastásia Steele por Katherine Kavanagh.

— Com licença um momento, Senhorita Steele. — Ela arqueia sua sobrancelha ligeiramente quando eu permaneço conscientemente diante dela. Eu começo a desejar que eu ter pegado emprestado um dos blazers formais de Kate em lugar de vestir minha jaqueta azul marinho. Eu fiz um esforço e vesti minha única saia, minhas comportadas botas marrons até os joelhos e um suéter azul. Para mim, isto é inteligente. Eu enfio um dos fugitivos tentáculos de meus cabelos para trás de minha orelha enquanto eu finjo que ela não me intimida.

— Senhorita Kavanagh é esperada. Por favor, registre-se aqui, Senhorita Steele. Você irá até o último elevador à direita, pressione para o vigésimo andar. — Ela sorri amavelmente para mim, divertida, sem dúvida, quando eu me registro.

Ela me dá um crachá de segurança que tem VISITANTE muito firmemente estampado na frente. Eu não posso evitar meu sorriso. Certamente é óbvio que eu estou só de visita. Eu não encaixo aqui mesmo.

Nada muda, eu interiormente suspiro. Agradecendo a ela, eu caminho para o banco de elevadores passando os dois homens da segurança que estão muito mais bem vestidos do que eu estou, em seus ternos pretos bem cortados.

O elevador me leva rapidamente com máxima velocidade para o vigésimo andar. As portas deslizam abrindo, e eu estou em outra grande entrada, mais uma vez toda em vidro, aço e arenito branco. Eu sou confrontada por outra mesa de arenito e outra jovem loira vestida impecavelmente em preto e branco, que levanta para me saudar.

— Senhorita Steele, você poderia esperar aqui, por favor? — Ela aponta para uma área acomodada por cadeiras de couro branco.

Atrás das cadeiras de couro está uma espaçosa sala de reunião envidraçada, cercada por uma mesa de madeira escura, igualmente espaçosa e pelo menos vinte cadeiras harmonizadas ao redor dela. Além disto, tinha uma janela do chão ao teto com uma visão do horizonte de Seattle, que mostrava a cidade em direção ao Sound.[4] É uma vista deslumbrante, e eu fico momentaneamente paralisada pela visão. Uau.

Eu me sento, pesco as perguntas de minha mochila, e dou uma repassada nelas, amaldiçoando interiormente Kate por não me fornecer uma breve biografia. Eu não conheço nada sobre este homem que estou para entrevistar. Ele pode ter noventa anos ou pode ter trinta. A incerteza está me irritando, e meus nervos ressurgem, fazendo com que eu fique incomodada. Eu nunca fico confortável com uma entrevista em pessoa, preferindo o anonimato de uma discussão de grupo onde eu posso me sentar imperceptivelmente na parte de trás da sala. Para ser honesta, eu prefiro minha própria companhia, lendo um romance clássico britânico, enrolada em uma cadeira na biblioteca do campus. Não sentada se contorcendo nervosamente em um colossal edifício de vidro e pedra.

Eu reviro meus olhos para mim mesma. Mantenha o controle, Steele. A julgar pelo edifício, que é muito clínico e moderno, eu imagino que Grey está em seus quarenta: em forma, bronzeado, e de cabelos loiros para combinar com o resto do pessoal.

Outra elegante, impecavelmente vestida loira sai de uma grande porta à direita. O que é isso tudo com as loiras imaculadas? É como Stepford[5] aqui. Respirando fundo, eu me levanto. — Senhorita Steele? — A mais recente loira pergunta.

— Sim, — eu coaxo, e clareio minha garganta. — Sim. — Agora, isto soou mais confiante.

— O Sr. Grey irá recebê-la em um momento. Eu posso pegar seu casaco?

— Oh, por favor. — Eu luto para tirar a jaqueta.

— Já foi oferecido a você alguma bebida?

— Hum, não. — Oh Deus, a Loira Número Um está em problemas?

A Loira Número Dois franziu o cenho e olhou a jovem na escrivaninha.

— Você gostaria de um chá, café, água? — Ela pergunta, voltando sua atenção para mim.

— Um copo de água. Obrigada, — eu murmuro.

— Olivia, por favor, vá buscar para Senhorita Steele um copo de água. — A voz dela é grave. Olivia foge imediatamente e se apressa para uma porta no outro lado do saguão.

— Minhas desculpas, Senhorita Steele, Olivia é nossa nova estagiária. Por favor, sente-se. O Sr. Grey levará mais cinco minutos.

Olivia retorna com um copo de água gelada.

— Aqui está, Senhorita Steele.

— Obrigada.

A Loira Número Dois marcha para a grande escrivaninha, seus saltos clicando e ecoando no chão de arenito. Ela se senta, e ambas continuam seu trabalho.

Talvez o Sr. Grey insista que todos os seus empregados sejam loiros. Eu me pergunto ociosamente se isto é legal, quando a porta do escritório abre e um alto, elegantemente vestido, atraente homem Afro-Americano com curtos dreads sai. Eu definitivamente vesti as roupas erradas.

Ele se vira e diz pela porta. — Golfe, esta semana, Grey.

Eu não ouço a resposta. Ele vira-se, me vê, e sorri, seus olhos escuros enrugando nos cantos. Olivia salta e chama o elevador. Ela parece se destacar em pular de sua cadeira. Ela está mais nervosa que eu!

— Boa tarde, senhoras, — ele diz enquanto parte pela porta deslizante.

— O Sr. Grey verá você agora, Senhorita Steele. Siga-me, — A Loira Numero Dois diz.

Eu estou bastante tremula tentando suprimir meus nervos. Juntando minha mochila, eu abandono meu copo de água e faço meu caminho para a porta parcialmente aberta.

— Você não precisa bater, apenas entre. — Ela amavelmente sorri.

Eu empurro a porta aberta e cambaleio, tropeçando em meus próprios pés, e caio de cabeça dentro do escritório.

Merda dupla: eu e meus dois pés esquerdos! Eu estou em minhas mãos e de joelhos na porta de entrada do escritório do Sr. Grey, e mãos gentis estão ao meu redor me ajudando a levantar. Eu estou tão envergonhada, maldita falta de jeito. Eu tenho que lançar meu olhar para cima. Puta que pariu, ele é tão jovem.

— Senhorita Kavanagh. — Ele estende uma mão com longos dedos para mim, uma vez que eu fico de pé. — Eu sou Christian Grey. Você está bem? Você gostaria de se sentar?

Tão jovem, e atraente, muito atraente. Ele é alto, vestido em um fino terno cinza, camisa branca e gravata preta, com incontroláveis cabelos cor de cobre e intensos, luminosos olhos cinza claro que me observam astutamente. Leva um momento para eu encontrar minha voz.    

       — Hum hum. Perfeitamente — eu murmuro. Se este cara está acima dos trinta então eu sou o tio Macaco.[6] Em uma confusão, eu coloco minha mão na dele e nós levamos um choque. Quando nossos dedos se tocam, eu sinto um estimulante e estranho calafrio, correndo através de mim. Eu retiro minha mão apressadamente, envergonhada. Deve ser estática. Eu pisco rapidamente, minhas pálpebras harmonizando minha frequência cardíaca.

— A Senhorita Kavanagh está indisposta, então ela me enviou. Eu espero que você não se importe, Sr. Grey.

— E você é? — Sua voz é morna, possivelmente divertida, mas é difícil dizer por sua expressão impassível. Ele parece ligeiramente interessado, mas acima de tudo, educado.

— Anastásia Steele. Eu estudo Literatura inglesa com Kate, hum… Katherine… hum… Senhorita Kavanagh do Estado de Washington.

— Entendo, — ele simplesmente diz. Eu penso ver um fantasma de um sorriso em sua expressão, mas eu não estou certa. — Você gostaria de se sentar? — Ele acena em direção a um sofá de couro branco em forma de L.

Seu escritório é muito grande para um homem só. Na frente das janelas que vão do chão ao teto, há uma enorme escrivaninha moderna de madeira escura, que seis pessoas poderiam comer confortavelmente ao redor. Combinando a mesa de café com o sofá. Todo o resto é branco, teto, pisos e paredes, exceto, a parede perto da porta, onde estava um mosaico pendurado de pequenas pinturas, trinta e seis delas dispostas em um quadrado. Elas são primorosas, uma série de objetos mundanos esquecidos, pintados com tal detalhe preciso que eles parecem com fotografias. Exibidos juntos, eles são de tirar o fôlego.

— Um artista local. Trouton, — Grey diz quando ele pega meu olhar.

— Elas são adoráveis. Elevando o ordinário para o extraordinário, — eu murmuro distraída, tanto por ele como pelas pinturas. Ele vira sua cabeça para um lado e me fixa atentamente.

— Eu concordo plenamente, Senhorita Steele, — ele responde, sua voz suave e por alguma razão inexplicável eu me encontro corando.

Além das pinturas, o resto do escritório era frio, limpo e clínico. Eu me pergunto se isto reflete a personalidade do Adônis, que afunda graciosamente em uma das cadeiras de couro branco á minha frente. Eu agito minha cabeça, transtornada com a direção de meus pensamentos, e recupero as perguntas de Kate da minha mochila. Em seguida, eu instalo o mini gravador e sou toda dedos e polegares, o deixando cair uma segunda vez na mesa de café à minha frente. O Sr. Grey não diz nada, esperando pacientemente “eu espero” enquanto eu me torno cada vez mais envergonhada e frustrada. Quando eu tomo coragem para olhá-lo, ele está me observando, uma mão relaxada em seu colo e a outra embaixo de seu queixo e arrastando o seu longo dedo indicador através de seus lábios. Eu acho que ele está tentando conter um sorriso.

— Desculpe-me, — eu gaguejo. — Eu não estou acostumada a isto.

— Leve o tempo que você precisar, Senhorita Steele, — ele diz.

— Você se importa se eu gravar suas respostas?

— Depois que você teve tantas dificuldades para instalar o gravador, agora que você me pergunta?

Eu coro. Ele está tirando sarro de mim? Eu espero. Eu pisco para ele, sem saber o que dizer, e acho que ele fica com pena de mim porque ele cede. — Não, eu não me importo.

— Será que Kate, eu quero dizer, a Senhorita Kavanagh, explicou para o que é a entrevista?

— Sim. Para aparecer na edição de graduação do jornal estudantil quando eu outorgar o diploma na cerimônia de graduação deste ano.

Oh! Isto é novidade para mim, e eu estou temporariamente preocupada pelo pensamento de que alguém não muito mais velho do que eu, Ok, talvez uns seis anos mais ou menos, e ok, mega- bem sucedido, mas, ainda assim, vai me apresentar em minha licenciatura. Eu franzo a testa, arrastando minha teimosa atenção de volta à tarefa à mão.

— Bem, — eu engulo nervosamente. — Eu tenho algumas perguntas, Sr. Grey. — Eu aliso um cacho perdido de cabelo atrás de minha orelha.

— Eu achei que você teria, — ele diz, impassível. Ele está rindo de mim. Minhas bochechas esquentam com a percepção, e eu me sento reta e enquadro meus ombros em uma tentativa de parecer mais alta e mais intimidante. Apertando o botão iniciar do gravador, eu tento parecer profissional.

— Você é muito jovem para ter acumulado tal império. Há que você deve seu sucesso? — Eu olho para ele. Seu sorriso é arrependido, mas ele parece vagamente desapontado.

— Negócios é tudo sobre pessoas, Senhorita Steele e eu sou muito bom em julgar as pessoas. Eu sei como elas marcam, o que as faz florescer, o que não faz, o que as inspira, e como incentivá-las. Eu emprego um time excepcional, e eu os recompenso bem. — Ele pausa e me fixa com seu olhar cinza. — Minha convicção é de alcançar o sucesso em qualquer esquema, alguém tem que se fazer mestre deste esquema, conhecê-lo de dentro para fora, saber todos os detalhes. Eu trabalho duro, muito duro para fazer isto. Eu tomo decisões baseadas em lógica e fatos. Eu tenho um instinto natural que pode localizar e nutrir uma boa ideia sólida e boas pessoas. O resultado final é sempre estabelecido para as boas pessoas.

— Talvez você seja apenas sortudo. — Isto não está na lista de Kate, mas ele é tão arrogante. Seus olhos chamejam momentaneamente em surpresa.

— Eu não acredito em sorte ou azar, Senhorita Steele. Quanto mais duro eu trabalho mais sorte eu pareço ter. Realmente é tudo sobre ter as pessoas certas em seu time e dirigindo suas energias neste sentido. Eu acho que foi Harvey Firestone quem disse “o crescimento e desenvolvimento das pessoas é a maior vocação de liderança.

— Você soa como um maníaco por controle. — As palavras saíram de minha boca antes que eu possa detê-las.

— Oh, eu exerço controle em todas as coisas, Senhorita Steele, — ele diz sem rastro de humor em seu sorriso. Eu olho para ele, e ele segura o meu olhar continuamente, impassível. Meu batimento cardíaco acelera, e meu rosto fica corado novamente.

Por que ele tem tal efeito irritante sobre mim? Sua beleza opressiva talvez? O modo como seus olhos brilham para mim? O modo como ele acaricia com o dedo indicador seu lábio inferior? Eu gostaria que ele parasse de fazer isto.

— Além disso, o imenso poder é adquirido assegurando-se em seus devaneios secretos, que você nasceu para controlar as coisas, — ele continua, sua voz suave.

— Você sente que tem imenso poder? — Maníaco por controle.

— Eu emprego mais de quarenta mil pessoas, Senhorita Steele. Isso me dá certo sentido de responsabilidade.... poder, se assim prefere. Se decidisse que já não me interesso mais pelos negócios de telecomunicações e vendesse tudo, vinte mil pessoas teriam grandes dificuldades em pagar suas hipotecas no final do mês então.

Minha boca abriu. Eu estou espantada pela sua falta de humildade.

— Você não tem um conselho ao qual responder? — Eu pergunto, repugnada.

— Eu possuo a minha empresa. Eu não tenho que responder para um conselho. — Ele levanta uma sobrancelha para mim.

Eu ruborizo. Claro, eu saberia disto se eu tivesse feito alguma pesquisa. Mas puta merda, ele é tão arrogante. Eu mudo de rumo.

— E você tem algum interesse fora de seu trabalho?

— Eu tenho interesses variados, Senhorita Steele. — A sombra de um sorriso toca seus lábios. — Muito variado. — E por alguma razão, eu estou confusa e inflamada por seu olhar firme. Seus olhos estão iluminados com algum pensamento mau.

— Mas se você trabalha tão duro, o que você faz para relaxar?

— Relaxar? — Ele sorri, revelando dentes brancos perfeitos.

Eu paro de respirar. Ele realmente é lindo. Ninguém devia ser tão bonito.

— Bem, para “relaxar” como você diz, eu velejo, eu vôo, eu desfruto de várias atividades físicas.

Ele desloca-se em sua cadeira. — Eu sou um homem muito rico, Senhorita Steele e tenho passatempos caros e absorventes.

Eu olho depressa as perguntas de Kate, querendo sair deste assunto.

         — Você investe em fabricação. Por que, especificamente? — Eu pergunto. Por que ele me faz tão desconfortável?

         — Eu gosto de construir coisas. Eu gosto de saber como as coisas funcionam: o que torna as coisas marcantes, como construir e destruir. E eu tenho um amor por navios. O que eu posso dizer?

         — Isso soa como seu coração falando, em lugar da lógica e fatos.

         Ele faz trejeitos com a boca, e olha de forma avaliadora para mim.

         — Possivelmente. Embora existem pessoas que diriam que eu não tenho coração.

         — Por que eles diriam isto?

         — Porque eles me conhecem bem. — Seu lábio enrola em um sorriso irônico.

         — Seus amigos dizem que você é fácil de conhecer? — E eu lamento a pergunta assim que eu falo. Não está na lista de Kate.

         — Eu sou uma pessoa muito privada, Senhorita Steele. Eu percorro um caminho longo para proteger minha privacidade. Eu não costumo dar entrevistas, — ele vagueia.

         — Por que você concordou em fazer esta aqui?

         — Porque eu sou um benfeitor da Universidade, e para todos os efeitos, eu não consegui tirar a Senhorita Kavanagh de minhas costas. Ela insistiu e insistiu com meu pessoal de Relações Públicas, e eu admiro esse tipo de tenacidade.

         Eu sei o quanto Kate pode ser tenaz. É por isso que eu estou sentada aqui me contorcendo desconfortavelmente, sob o seu olhar penetrante, quando eu tinha que estar estudando para meus exames.

         — Você também investe em tecnologias agrícolas. Por que você está interessado nesta área?

         — Nós não podemos comer dinheiro, Senhorita Steele, e existem muitas pessoas neste planeta que não tem o suficiente para comer.

         — Isso soa muito filantrópico. É algo que você sente apaixonadamente? Alimentar os pobres do mundo?

         Ele encolhe os ombros, muito reservado.

         — É um negócios astuto, — ele murmura, entretanto eu penso que ele não está sendo sincero. Isso não faz sentido, alimentar os pobres do mundo? Eu não posso ver os benefícios financeiros disto, só a virtude do ideal. Eu olho para a próxima pergunta, confusa por sua atitude.

         — Você tem uma filosofia? Nesse caso, qual é?

         — Eu não tenho uma filosofia como essa. Talvez um princípio do orientador Carnegie: “Um homem que adquire a habilidade de tomar posse completa de sua própria mente, pode tomar posse de qualquer outra coisa a que ele por justiça tem direito”. Eu sou muito peculiar, impulsivo. Eu gosto de controlar, a mim mesmo e aqueles ao meu redor.

         — Então você quer possuir coisas? — Você é um maníaco por controle.

         — Eu quero merecer possuí-las, mas sim, no resultado final, eu quero.

         — Você soa como o consumidor irrevogável.

         — Eu sou. — Ele sorri, mas o sorriso não toca seus olhos. Novamente isto está em conflito com alguém que quer alimentar o mundo, então eu não posso evitar pensar que nós estamos conversando sobre outra coisa, mas eu estou absolutamente confusa sobre o que é isto. Eu engulo em seco. A temperatura na sala está subindo ou talvez seja apenas eu. Eu só quero que esta entrevista termine. Seguramente Kate tem material suficiente agora? Eu olho para a próxima pergunta.

         — Você foi adotado. Até que ponto você acha que isto formou o que você é? — Oh, isto é pessoal. Eu fico olhando para ele, esperando que ele não se ofenda. Sua testa enruga.

         — Eu não tenho como saber.

         Meu interesse é despertado.

         — Que idade você tinha quando você foi adotado?

         — Esta é uma questão de registro público, Senhorita Steele. — Seu tom é duro. Eu ruborizo, novamente. Merda.

         Sim claro que, se eu soubesse que eu faria esta entrevista, eu teria feito algumas pesquisas.

         Eu continuo depressa.

         — Você teve que sacrificar uma vida familiar por seu trabalho.

         — Isto não é uma pergunta. — Ele é conciso.

         — Desculpe. — Eu me contorço, e ele me faz sentir como uma criança errante. Eu tento novamente. — Você teve que sacrificar uma vida em família por seu trabalho?

         — Eu tenho uma família. Eu tenho um irmão e uma irmã e pais amorosos. Eu não estou interessado em estender minha família além disto.

         — Você é gay, Sr. Grey?

         Ele inala bruscamente, e eu me encolho, mortificada. Merda. Por que eu não empreguei algum tipo de filtro antes de eu ler em voz alta a pergunta? Como eu posso dizer a ele que eu estou só lendo as perguntas?

         Maldita Kate e sua curiosidade!

         — Não Anastásia, eu não sou. — Ele levanta suas sobrancelhas, um brilho frio em seus olhos. Ele não parece contente.

         — Eu peço desculpas. Isto está hum… escrito aqui. — É a primeira vez que ele disse meu nome. Meu batimento cardíaco acelera, e minhas bochechas estão aquecendo novamente. Nervosamente, eu coloco meu cabelo solto atrás da minha orelha.

         Ele dobra sua cabeça para um lado.

         — Estas não suas próprias perguntas?

         O sangue drena de minha cabeça. Oh não.

         — Éee… não. Kate, a Srta. Kavanagh, ela compilou as perguntas.

         — Vocês são colegas no jornal estudantil? — Oh Merda. Eu não tenho nada a ver com o jornal estudantil. É a atividade extracurricular dela, não minha. Meu rosto está em chamas.

         — Não. Ela é minha companheira de quarto.

         Ele esfrega seu queixo em deliberação calma, seus olhos cinza me avaliando.

         — Você se voluntariou para fazer esta entrevista? — Ele pergunta, sua voz mortalmente calma.

         Espere, quem deveria estar entrevistando quem? Seus olhos queimam em cima de mim, e eu sou obrigada a responder com a verdade.

         — Eu fui sorteada. Ela não está bem. — Minha voz é fraca e apologética.

         — Isso explica muita coisa.

         Há uma batida na porta, e a loira Numero Dois entra.

         — Sr. Grey, perdoe-me por interromper, mas sua próxima reunião será em dois minutos.

         — Nós não terminamos aqui, Andrea. Por favor, cancele minha próxima reunião.

         Andrea fica boquiaberta, sem saber o que falar. Ela parece perdida. Ele vira a cabeça lentamente para encará-la e levanta sua sobrancelha. Ela ruboriza escarlate. Oh bem. Ainda bem que eu não sou a única.

         — Muito bem, Sr. Grey, — ela murmura, depois saí. Ele franze a testa, e volta sua atenção para mim.

         — Onde nós estávamos, Senhorita Steele?

         Oh, nós voltamos a “Srta. Steele” agora.

         — Por favor, não gostaria de atrapalhar suas obrigações.

         — Eu quero saber sobre você. Eu acho que isto é justo. — Seus olhos cinza estão acesos de curiosidade. Duas vezes merda. Onde ele está indo com isto? Ele coloca seus cotovelos nos braços da cadeira e coloca seus dedos na frente de sua boca. Sua boca tão… dispersiva. Eu engulo seco.

         — Não existe muito para saber, — eu digo, ruborizando novamente.

         — Quais são seus planos depois que você se formar?

         Eu encolho os ombros, seu interesse me desconcerta. Ir para Seattle com Kate, achar um lugar, achar um emprego. Eu realmente não pensei além do meus exames finais.

         — Eu não fiz quaisquer planos, Sr. Grey. Eu só preciso passar nos meus exames finais.

         Para o qual eu devia estar estudando no momento, em lugar de me sentar em seu palaciano ostentoso, seu escritório estéril, sentindo-me desconfortável sob seu penetrante olhar.

         — Nós temos um excelente programa de estágio aqui, — ele diz calmamente. Eu levanto minhas sobrancelhas em surpresa. Ele está me oferecendo um emprego?

         — Oh. Eu vou pensar nisto, — eu murmuro, completamente confusa. — Ainda que eu não tenha certeza se me encaixaria aqui. — Oh não. Eu estou refletindo em voz alta novamente.

         — Por que você diz isto? — Ele dobra sua cabeça para um lado, intrigado, uma sugestão de um sorriso toca seus lábios.

         — É óbvio, não é? — Eu não tenho coordenação, sou desleixada e não sou loira.

         — Não para mim, — ele murmura. Seu olhar é intenso, todo o humor tinha desaparecido, e estranhos músculos profundos em minha barriga apertam de repente. Eu desvio meus olhos do seu olhar minucioso e olho cegamente para baixo em meus dedos atados. O que está acontecendo? Eu tenho que sair, agora. Eu me inclino para frente para recuperar o gravador.

         — Você gostaria que eu mostrasse ao redor? — Ele pergunta.

         — Eu estou certa que você está extremamente ocupado, Sr. Grey, e eu tenho uma longa viagem.

         — Você vai dirigindo de volta para a WSU[7] em Vancouver? — Ele soa surpreso, ansioso até. Ele olha para fora da janela. Está começado a chover. — Bem, é melhor você dirigir com cuidado. — Seu tom é severo, autoritário. Por que ele deveria se importar? — Você conseguiu tudo o que precisa? — Ele adiciona.

         — Sim senhor, — eu respondo, embalando o gravador em minha mochila. Seus olhos se estreitam, como estivesse pensando.

         — Obrigada pela entrevista, Sr. Grey.

         — O prazer foi todo meu, — ele diz, cortês como sempre.

         Quando eu me ergo, ele se levanta e estende sua mão.

         — Até a próxima, Senhorita Steele. — E isso soa como um desafio, ou uma ameaça, eu não estou certa de qual. Eu franzo a testa. Quando será que nós vamos encontrarmos novamente? Eu aperto sua mão mais uma vez, surpresa que esta estranha corrente entre nós ainda está lá. Deve ser meus nervos.

         — Sr. Grey. — Despeço-me dele com um movimento de cabeça.

Ele se dirige a porta com graça e agilidade. E abre a porta totalmente.

         — Só assegurando que você passe pela porta, Senhorita Steele. — Ele me dá um pequeno sorriso.

         Obviamente, ele está referindo-se a minha entrada nada elegante, mais cedo em seu escritório. Eu coro.

         — Muito amável de sua parte, Sr. Grey, — lhe digo bruscamente.

Seu sorriso se alarga. Eu estou contente que você me ache divertida, eu penso furiosa interiormente, caminhando para o hall de entrada. Eu fico surpresa quando ele me segue. Tanto Andrea, quanto Olivia me olham, igualmente surpresas.

         — Você tem um casaco? — Grey pergunta.

         — Sim. — Olivia salta e recupera minha jaqueta, que Grey tira dela antes que ela possa dar para mim. Ele a segura e me sentindo ridiculamente tímida, eu coloco os ombros nela.

         Grey coloca suas mãos por um momento em meus ombros. Eu ofego com o contato. Se ele nota minha reação, ele não dá pistas. Seu longo dedo indicador pressiona o botão chamando o elevador, e nós permanecemos esperando, eu sem jeito, e ele sereno e frio.

         As portas se abrem, e eu me apresso desesperada para escapar. Eu realmente preciso sair daqui. Quando eu viro para olhá-lo, ele está debruçando contra a entrada ao lado do elevador com uma mão na parede. Ele é realmente muito, muito bonito. Seus flamejantes olhos cinza olhando para mim. Desconcerta-me.

         — Anastásia, — ele diz como uma despedida.

         — Christian, — eu respondo. E misericordiosamente, as portas fecham.

        

         Meu coração está disparado. O elevador chega ao andar térreo, e eu desço assim que as portas se abrem, tropeçando mais uma vez, mas felizmente não caindo de bruços no chão de arenito imaculado. Eu corro para as largas portas de vidro, e por fim estou livre no tonificante, limpo, ar úmido de Seattle. Levantando meu rosto, eu dou boas-vindas à fresca chuva refrescante. Eu fecho meus olhos e tomo uma profunda e purificante respiração, tentando recuperar o que resta de meu equilíbrio.

         Nenhum homem jamais me afetou desse modo como Christian Grey o fez, e eu não posso entender o porquê.

         É sua aparência? Sua civilidade? Sua Riqueza? Seu Poder? Eu não entendo minha reação irracional.

         Eu dou um suspiro enorme de alívio. O que em nome dos céus foi tudo aquilo? Eu me inclino contra uma das colunas de aço do edifício, e valentemente tento me acalmar e juntar meus pensamentos. Eu agito minha cabeça. Puta merda, o que foi aquilo? Meu coração estabiliza, voltando ao seu ritmo regular, e eu posso respirar normalmente de novo. Eu me dirijo ao meu carro.

         Quando eu deixo os limites da cidade para trás, eu começo a me sentir tola e envergonhada, quando eu reproduzo a entrevista em minha mente. Certamente, eu estou reagindo a algo que está em minha imaginação. Certo, então ele é muito atraente, confiante, autoritário, à vontade consigo mesmo, mas por outro lado, ele é arrogante, e por todos os seus modos impecáveis, ele é ditador e frio. Bem, pelo menos a primeira vista.

         Um arrepio involuntário percorre minha espinha. Ele pode ser arrogante, entretanto ele tem o direito de ser, ele conseguiu tanto em uma idade tão jovem. Ele não suporta os imbecis, mas por que ele deveria? Novamente, eu estou irritada por Kate não me dar uma breve biografia dele.

         Enquanto cruzo ao longo da I-5, minha mente continua a vagar. Eu estou perplexa por existir gente tão empenhada em triunfar. Algumas de suas respostas eram tão enigmáticas, como se ele tivesse uma agenda oculta. As perguntas de Kate... ufa! A adoção e a pergunta se ele é gay! Eu estremeço. Eu não posso acreditar que eu disse aquilo. Que o chão, me engula agora! Toda vez que eu pensar sobre esta pergunta no futuro, eu vou ficar corada de vergonha. Maldita Katherine Kavanagh!

         Eu verifico o velocímetro. Eu estou dirigindo mais cautelosamente do que eu estaria em qualquer outra ocasião. E eu sei que é a lembrança de dois olhos cinza penetrantes olhando para mim, e uma voz dura dizendo-me para dirigir cuidadosamente. Agitando minha cabeça, eu percebo que Grey está mais para um homem com o dobro de sua idade.

         Esqueça isto, Ana, eu ralho comigo mesmo. Eu chego à conclusão que isto foi uma experiência muito interessante, mas eu não deveria insistir nisto. Deixe isto para trás. Eu nunca vou vê-lo novamente. Eu fico imediatamente alegre pelo pensamento. Eu ligo o play do MP3 e giro o volume bem alto, me encosto, e ouço o estrondoso rock alternativo quando eu pressiono o acelerador.

         Quando eu atinjo a I-5[8], eu percebo que eu posso dirigir tão rápido quanto eu quero.

         Nós vivemos em uma pequena comunidade de apartamentos dúplex em Vancouver, Washington, perto do campus de Vancouver da WSU. Eu tenho sorte dos pais de Kate terem comprado um lugar para ela, e eu pago amendoins pelo aluguel.[9] Isto já faz uns quatro anos. Quando eu desligo o carro, eu sei que a Kate vai querer que eu conte tim-tim por tim-tim da entrevista, ela é tenaz. Bem, pelo menos ela tem o mini gravador. Espero que eu não tenha que elaborar muito além do que foi dito durante a entrevista.

         — Ana! Você voltou. — Kate está sentada em nossa sala de estar, cercada por livros. Ela está claramente estudando para as provas finais, entretanto ela ainda está de pijamas de flanela rosa, decorado com coelhinhos fofinhos, aqueles que ela reserva quando acaba com um namoro, quando está doente, e quando está deprimida em geral. Ela pula em cima de mim e me abraça apertado.

         — Eu estava começando a me preocupar. Eu esperava que você voltasse mais cedo.

         — Oh, eu acho que compensei o tempo considerando que a entrevista funcionou. — Eu aceno com o mini gravador para ela.

         — Ana, muito obrigada por fazer isto. Eu fico te devendo, eu sei. Como foi? Como ele era? — Oh não, lá vamos nós, com a Inquisição de Katherine Kavanagh.

         Eu luto para responder suas perguntas. O que eu posso dizer?

         — Eu estou contente que terminei, e que eu não tenha que vê-lo novamente. Ele era bastante intimidante, sabe. — Eu encolho os ombros. — Ele é muito focado, intenso até, e jovem. Realmente jovem.

         Kate olha com ingenuidade para mim. Eu franzo a testa para ela.

         — Você, não se faça de inocente. Por que você não me deu uma biografia? Ele me fez sentir como uma idiota por me restringir as perguntas básicas. — Kate aperta uma mão em sua boca.

         — Jesus, Ana, eu sinto muito, eu não pensei.

         Eu bufo.

         — Na maior parte ele foi cortês, formal, ligeiramente sufocante, como se tivesse envelhecido antes do tempo. Ele não conversa como um homem de vinte e poucos anos. Que idade ele tem afinal?

         — Vinte e sete. Jesus, Ana, eu sinto muito. Eu devia ter informado você, mas eu estava em pânico. Deixe-me pegar o mini gravador, e eu vou começar a transcrever a entrevista.

         — Você parece melhor. Você comeu sua sopa? — Eu pergunto, ansiosa para mudar o assunto.

         — Sim, e estava deliciosa como sempre. Eu estou me sentindo muito melhor. — Ela sorri para mim em gratidão. Eu verifico meu relógio.

         — Eu tenho que correr. Eu posso ainda fazer meu turno na Clayton.

         — Ana, você está exausta.

         — Eu estarei bem. Eu vejo você mais tarde.

         Eu trabalho na Clayton desde que eu comecei na universidade. É a maior loja de ferragens de Portland, e durante os quatro anos em que eu trabalho aqui, eu conheci um pouco sobre quase tudo que vendemos, embora ironicamente, eu sou um desastre em trabalhos manuais. Eu deixo tudo isso para meu pai.

Eu sou muito mais o tipo de garota que se enrosca com um livro em uma confortável cadeira junto à lareira. Eu estou contente que eu possa fazer meu turno, pois isto me dá algo para me concentrar que não seja Christian Grey. Nós estamos ocupados, é o inicio da temporada de verão, e as pessoas estão redecorando suas casas. A Sra. Clayton está contente por me ver.

         — Ana! Eu pensei que você não fosse vir hoje.

         — Meu compromisso não demorou tanto tempo como eu pensei. Eu terminei em algumas horas.

         — Eu estou contente por ver você.

         Ela me manda para o deposito para começar a reabastecer as prateleiras, e eu logo fico absorvida na tarefa.

         Quando eu chego em casa mais tarde, Katherine está com os fones de ouvido, trabalhando em seu laptop.

         Seu nariz está ainda rosa, mas ela está super envolvida no seu trabalho, concentrada e digitando furiosamente. Eu estou exausta, completamente drenada pela longa viagem, a entrevista cansativa, e por permanecer de pé na Clayton. Eu afundo no sofá, pensando sobre a redação que eu tenho que terminar e todos os estudos que eu não fiz hoje, porque eu estava com… ele.

         — Você tem um bom material aqui, Ana. Você fez um bom trabalho. Eu não posso acreditar que você não aproveitou a oferta dele para mostrar a você o lugar. Ele obviamente queria passar mais tempo com você.

         Ela me lança um olhar fugaz e brincalhão.

         Eu ruborizo, e minha frequência cardíaca inexplicavelmente acelera. Estou certa que não foi isso. Ele só queria me mostrar o local, para que eu pudesse ver que ele é o senhor de tudo aquilo. Eu percebo que eu estou mordendo meu lábio, e eu espero que Kate não note. Mas ela parece absorvida em sua transcrição.

— Eu entendo o que você quer dizer sobre formal. Você tomou algumas anotações? — Ela pergunta.

         — Hum… não, eu não tomei.

         — Tudo bem. Eu ainda posso fazer um artigo bom com isto. Pena que não temos algumas fotos originais. Bonito aquele filho da puta, não é?

         Eu ruborizo.

         — Eu acho que sim. — Eu tento duramente soar desinteressada, e eu acho que consegui.

         — Oh vamos, Ana, até você não pode ser imune a sua aparência. — Ela arqueia uma sobrancelha perfeita para mim.

         Merda! Sinto que minhas bochechas ardem. Assim eu a distraio lisonjeando-a, sempre é um bom truque.

         — Você provavelmente teria conseguido muito mais dele.

         — Eu duvido, Ana. Ora... ele praticamente te ofereceu um emprego. Mesmo depois daquela pergunta que impus para você fazer, você foi muito bem. — Ela olha para mim especulativamente. Eu faço uma retirada apressada para a cozinha.

         — Então o que você realmente pensou sobre ele? — Maldição, ela é curiosa. Por que ela não pode simplesmente deixar isto passar? Pense sobre algo, rápido.

         — Ele é muito mandão, controlador, arrogante, realmente assustador, mas muito carismático. Eu posso entender o fascínio, — eu digo sinceramente, com a esperança que ela encerre este assunto uma vez por todas.

         — Você, fascinada por um homem? Está é a primeira vez, — ela bufa.

         Eu começo a juntar os ingredientes de um sanduíche, assim ela não pode ver meu rosto.

         — Por que você quis saber se ele era gay? Alias, está foi uma pergunta muito embaraçosa. Eu fiquei mortificada, e ele ficou puto ao ser questionado também. — Eu franzo a testa com a memória.

         — Sempre que ele está nas páginas da sociedade, ele nunca está acompanhado.

         — Foi vergonhoso. A coisa inteira foi constrangedora. Eu estou contente que nunca mais tenha que por os olhos nele novamente.

         — Oh, Ana, não pode ter sido tão ruim. Eu penso que ele parece estar bastante interessado em você.

         Interessado em mim? Agora Kate está sendo ridícula.

         — Você gostaria de um sanduíche?

         — Por favor.

         Não conversamos mais sobre Christian Grey aquela noite, para meu alívio. Uma vez que nós comemos, eu posso me sentar à mesa de jantar com Kate e, enquanto ela trabalha em seu artigo, eu trabalho em minha redação sobre Tess de D 'Urbervilles.[10] Maldição, esta mulher estava no lugar errado, no tempo errado, no século errado. Quando eu termino, é meia-noite, e Kate já tinha ido há muito tempo para a cama. Eu faço meu caminho para meu quarto, exausta, mas contente que eu fiz tanto para uma segunda-feira.

         Eu me enrolo em minha cama de ferro branco, embrulhando uma colcha de minha mãe ao meu redor, fecho meus olhos e durmo imediatamente. Naquela noite eu sonho com lugares escuros, sombrios pisos brancos frios, e olhos cinza.

         Pelo resto da semana, eu me dedico em meus estudos e no meu trabalho na Clayton. Kate está ocupada também, compilando sua última edição de sua revista estudantil, antes dela ter que cedê-la para o novo editor, ao mesmo tempo estudando para seus exames finais.

Na quarta-feira, ela está muito melhor, e eu não tenho mais que suportar a visão de seus pijamas com rosa e coelhinhos. Eu telefono para minha mãe na Geórgia para saber como ela está, mas também para que ela possa me desejar sorte em meus exames finais. Ela começa a me contar sobre sua mais nova aventura: está aprendendo a fazer vela. Minha mãe adora aprender coisas novas. Basicamente, ela se entedia e busca coisas novas para preencher seu tempo, mas é impossível ela manter a atenção durante muito tempo em alguma coisa. A semana que vem será uma nova aventura.

         Ela me preocupa. Eu espero que ela não hipoteque a casa para financiar esta nova aventura. E eu espero que Bob, seu relativamente novo marido, muito mais velho, esteja de olho nela agora que eu não estou mais lá. Seu terceiro marido parecer ser um cara centrado.

         — Como estão às coisas com você, Ana?

         Por um momento, eu hesito, e eu tenho toda a atenção de minha mãe.

         — Eu estou bem.

         — Ana? Você encontrou alguém? — Uau… como ela faz isto? A excitação em sua voz é palpável.

         — Não, mãe, não é nada. Você será a primeira a saber se eu o achar.

         — Ana, você realmente precisa sair mais, doçura. Você me preocupa.

         — A mãe, eu estou bem. Como está Bob? — Como sempre, a distração é a melhor política.

         Mais tarde naquela noite, eu chamo Ray, meu padrasto, Marido Número Dois de mamãe, o homem que eu considero sendo meu pai, e o homem cujo nome eu carrego. É uma conversa breve. De fato, não é tanto uma conversa, é mais uma série unilateral de grunhidos em resposta para a minha gentil persuasão. Ray não é muito de falar. Mas ele é muito ativo, quando ele não esta assistindo futebol na televisão, vai aos jogos de boliche, prática pesca com mosca,[11] ou fazendo mobília. Ray é um carpinteiro qualificado, e a razão de eu saber a diferença entre um falcão e um serrote. Tudo parece bem com ele.

         Sexta feira à noite, Kate e eu estamos debatendo o que fazer com nossa noite, nós queremos dar um tempo em nossos estudos, em nosso trabalho, dos jornais estudantis, quando a campainha toca.

         Parado em nossa soleira está meu bom amigo José, segurando uma garrafa de champanhe.

         — José! Bom te ver! — Eu dou-lhe um abraço rápido. — Entre.

         José é a primeira pessoa que eu encontrei quando cheguei na universidade, parecia tão perdido e solitário com eu.

         Nós reconhecemos uma alma gêmea em cada um de nós naquele dia, e nós temos sido amigos desde então.

         Não só compartilhamos um senso de humor, mas nós descobrimos que tanto Ray como o Sr. José estiveram na mesma unidade do exército juntos. Como resultado, nossos pais se tornaram grandes amigos também.

         José estuda engenharia e é o primeiro de sua família a ir para a faculdade. Ele é malditamente brilhante, mas sua verdadeira paixão é a fotografia. José tem um bom olho para uma boa foto.

         — Eu tenho novidades. — Ele sorri, com seus olhos escuros brilhando.

         — Não me diga que você conseguiu ser expulso por mais uma semana, — eu provoco, e ele faz uma careta brincalhona para mim.

         — A galeria Portland Place vai exibir minhas fotografias no próximo mês.

         — Isto é incrível, parabéns! — Satisfeita por ele, eu o abraço novamente. Kate sorri para ele também.

         — É isto aí José! Eu devia pôr isto no jornal. Nada como mudanças editoriais de último minuto em uma sexta-feira à noite. — Ela sorri.

         — Vamos celebrar. Eu quero que você venha para a abertura. — José olha atentamente para mim. Eu ruborizo.

         — Você duas claro, — ele adiciona, olhando nervosamente para Kate.

         José e eu somos bons amigos, mas eu sei que lá no fundo, ele gostaria de ser mais que isto. Ele é atraente e engraçado, mas não é para mim. Ele é mais como um irmão que eu nunca tive. Katherine frequentemente me provoca dizendo que está faltando um namorado em minha vida, mas a verdade é que eu não conheci ninguém que... bem, me atraísse, embora uma parte de mim anseie pelos joelhos trêmulos, o coração saindo pela boca, o friozinho na barriga e noites sem dormir.

         Às vezes me pergunto se existe algo de errado comigo. Talvez eu gaste muito tempo na companhia de meus heróis românticos literários, e consequentemente minhas ideais e expectativas são extremamente altos. Mas na verdade, ninguém nunca me fez sentir assim.

         Até muito recentemente, a indesejável, vozinha em meu subconsciente sussurra.

         NÃO! Eu enterro o pensamento imediatamente. Sem essa, não depois daquela entrevista dolorosa. Você é gay, Sr. Grey? Eu estremeço com a memória. Eu sei que eu sonhei com ele quase todas as noites desde então, mas isto é apenas para eliminar a experiência terrível da minha mente, certo?

         Eu assisto José abrir a garrafa de champanhe. Ele é alto, em sua calça jeans e camiseta, ele é todo ombros e músculos, pele bronzeada, cabelos escuros e olhos escuros ardentes. Sim, Jose é bastante quente, mas eu acho que ele está finalmente entendendo a mensagem: Nós somos apenas amigos. A rolha estala alto, e José olha para cima e sorri.

         Sábado na loja é um pesadelo. Nós recebemos vários clientes que querem enfeitar suas casas. O Sr e a Sra. Clayton, John e Patrick, os outros empregados, estamos correndo apressados. Mas há uma trégua na hora do almoço, e a Sra. Clayton me pede para verificar algumas ordens enquanto eu estou sentada atrás do balcão do caixa discretamente comendo minha rosquinha. Eu estou absorta na tarefa, verificando os números do catálogo dos itens que temos e precisamos encomendar, os olhos passando rapidamente no livro de ordem para a tela do computador enquanto eu verifico se as entradas batem. Então, por alguma razão, eu olho para cima… e encontro-me presa no cinzento olhar ousado de Christian Grey, que está de pé no balcão, encarando-me atentamente.

         Meu coração para.

         — Senhorita Steele. Que surpresa agradável. — Seu olhar é firme e intenso.

         Puta merda. Que diabos ele está fazendo aqui, ele está com os cabelos despenteados, vestindo um suéter creme, jeans e botas? Acho que fiquei boquiaberta, e eu não posso localizar meu cérebro ou minha voz.

         — Sr. Grey, — eu sussurro, porque isto é tudo que eu posso fazer. Há uma sombra de um sorriso em seus lábios e seus olhos estão iluminados com humor, como se ele estivesse desfrutando de alguma piada particular.

         — Eu estava na área, — ele diz por via de explicação. — Eu preciso abastecer algumas coisas. É um prazer ver você novamente, Senhorita Steele. — Sua voz é morna e rouca, como calda de caramelo derretido em chocolate escuro… ou algo assim.

         Eu agito minha cabeça para reunir meu juízo. Meu coração está batendo freneticamente, e por alguma razão eu estou corando furiosamente sob seu olhar minucioso. Eu estou totalmente deslocada pela visão dele de pé diante de mim. Minhas lembranças dele não lhe fazem justiça. Ele não é apenas bonito, ele é o epítome da beleza masculina, de tirar o fôlego, e ele está aqui. Aqui nas lojas Clayton. Vá entender. Finalmente minhas funções cognitivas é restabelecidas e reconectadas com o resto de meu corpo.

         — Ana. Meu nome é Ana, — eu murmuro. — Em que posso ajudá-lo, Sr. Grey?

         Ele sorri, e novamente é como se ele conhecesse algum grande segredo. E tão desconcertante. Respirando fundo, eu coloco minha fachada de profissional de quem trabalha nesta loja há anos. Eu posso fazer isto.

         — Há alguns itens que eu preciso. Para começar, eu gostaria de algumas braçadeiras, — ele murmura, seus olhos cinza frios, mas divertidos.

         Braçadeiras?

         — Nós temos de vários comprimentos. Eu devo mostrar a você? — Eu murmuro, minha voz suave e oscilante.

         Controle-se, Steele. Um leve franzir estraga por sua vez a testa do adorável Grey.

         — Por favor. Vá na frente, Senhorita Steele, — ele diz. Eu tento parecer indiferente quando eu saio detrás do balcão, mas realmente eu estou muito concentrada em não tropeçar nos meus próprios pés, minhas pernas de repente estão na consistência de gelatina. Eu estou tão contente por ter decidido vestir meu melhor jeans esta manhã.

         — Elas estão junto aos bens elétricos, no corredor oito. — Minha voz está um pouco resplandecente. Eu olho para ele e lamento quase que imediatamente. Maldição, ele é bonito. Eu ruborizo.

         — Depois de você, — ele murmura, gesticulando com seus longos dedos de sua mão bem cuidada. Com meu coração quase me estrangulando, porque ele está quase passando pela minha garganta, está tentando escapar de minha boca, começo a me encaminhar a seção de eletrônicos. Por que ele está em Portland?

         Por que ele está aqui na Clayton? E uma minúscula parte do meu cérebro que utilizo, provavelmente localizada na base de minha medula oblonga[12] onde habita meu subconsciente, diz: Ele está aqui para vê-la. Sem chance! Eu dispenso isto imediatamente. Por que este belo, poderoso e urbano homem, quer me ver? A ideia é absurda, e eu excluo isto de minha cabeça.

         — Você está em Portland a negócios? — Eu pergunto, e minha voz é muito alta, como se eu tivesse preso meu dedo em uma porta ou algo assim. Maldição! Tente ficar fria Ana!

         — Eu estava visitando a divisão agrícola da universidade. Que está localizada em Vancouver. Eu estou atualmente financiando algumas pesquisa lá, sobre rotação de colheita e ciência do solo, — ele discute o assunto com naturalidade. Vê?

         Não está aqui para encontrar você afinal, meu subconsciente zomba de mim, alto, orgulhoso, e rabugento. Eu ruborizo com meus tolos pensamentos impertinentes.

         — Tudo parte de seu plano de alimentar o mundo? — Eu provoco.

         — Algo assim, — ele reconhece, e seus lábios satirizam em um meio sorriso.

         Ele olha para a seleção de braçadeiras que nós temos em estoque na Clayton. O que ele vai fazer com isso? Eu não posso imaginá-lo fazendo um trabalho manual usando isso. Seus dedos deslizam sobre os vários pacotes da prateleira, e por alguma razão inexplicável, eu tenho que desviar o olhar. Ele se curva e seleciona um pacote.

         — Estes servirão, — ele diz com o seu sorriso de que está guardando um segredo, e eu ruborizo.

         — Gostaria de mais alguma coisa?

         — Eu gostaria de algumas fitas adesivas.

         Fita adesiva?

         — Você está redecorando sua casa? — As palavras escapam antes que eu possa detê-las. Certamente ele contrata operários ou tem pessoal para ajudá-lo a decorar?

         — Não, não redecorando, — ele diz depressa então sorri, e eu tenho a sensação estranha que ele está rindo de mim.

         Eu sou tão engraçada assim? Pareço engraçada?

         — Por aqui, — eu murmuro envergonhada. — a fita adesiva está no corredor de decoração.

         Eu olho para trás à medida que ele me segue.

         — Você trabalha aqui há muito tempo? — Sua voz é baixa, e ele está olhando para mim, olhos cinza muito concentrados. Eu ruborizo ainda mais intensamente. Por que diabos ele tem este efeito sobre mim?

         Eu me sinto com quatorze anos de idade, desajeitada como sempre, e fora do lugar. Olhos para frente Steele!

         — Quatro anos, — eu murmuro quando nós alcançamos nosso objetivo. Para me distrair, eu passo e seleciono duas fitas adesivas largas.

         — Eu vou levar essa, — Grey diz suavemente apontando para a fita mais larga, que eu passo para ele.

         Nossos dedos se tocam muito brevemente, e a corrente está lá novamente, atravessando por mim como se eu tivesse tocado um fio exposto. Eu ofego involuntariamente quando eu sinto isto, essa corrente percorre todo meu corpo até em algum lugar escuro e inexplorado, no fundo de minha barriga. Desesperadamente, eu consigo de volta o meu equilíbrio.

         — Mais alguma coisa? — Minha voz é rouca e ofegante. Seus olhos se arregalam ligeiramente.

         — Algumas cordas, eu acho. — Sua voz reflete a minha, rouca.

         — Por aqui. — E abaixo minha cabeça para esconder meu recorrente rubor e dirijo-me para o corredor.

         — Que tipo você está procurando? Nós temos corda de filamento sintético e natural… barbantes... fio de corda… — eu me detenho em sua expressão, seus olhos escurecendo. Puta merda.

         — Eu vou levar cinco metros de corda de filamentos naturais, por favor.

         Rapidamente, com dedos trêmulos, eu meço cinco metros contra a régua fixa, ciente que seu quente olhar cinza está em mim. Eu não ouso olhar para ele. Jesus, eu podia me sentir mais tímida? Pegando minha faca Stanley do bolso de trás de minha calça jeans, eu corto-a, então enrolo cuidadosamente antes de amarrá-la em um nó corrediço. Por algum milagre, eu consigo não arrancar um dedo com minha faca.

         — Você era Escoteira? — Ele pergunta divertido, franzindo seus lábios sensuais e esculpidos. Não olhe para sua boca!

         — Só organizada, as atividades em grupo não são realmente minha praia, Sr. Grey.

         Ele arqueia uma sobrancelha.

         — E qual é sua praia, Anastásia? — Ele pergunta, sua voz suave e seu sorriso secreto estão de volta. Eu olho para ele incapaz de me expressar. O chão parece placas tectônicas e movimento. Tente se tranquilizar, Ana, meu torturado subconsciente implora de joelhos.

         — Livros, — eu sussurro, mas por dentro, meu subconsciente está gritando: Você! Você é minha praia!

         Eu o esbofeteio imediatamente, mortificada com os delírios da minha mente.

         — Que tipo de livros? — Ele dobra sua cabeça para um lado. Por que ele está tão interessado?

         — Oh, você sabe. O habitual. Os clássicos. Literatura britânica, principalmente.

         Ele esfrega seu queixo com seu dedo indicador e o longo dedo polegar enquanto ele contempla minha resposta.

         Ou talvez ele esteja apenas muito entediado e tentando esconder isto.

         — Você precisa de alguma outra coisa? — Eu tenho que sair deste assunto, aqueles dedos naquele rosto são muito sedutores.

         — Eu não sei. O que mais você recomenda?

         O que eu recomendo? Eu sequer sei o que você está fazendo.

         — Para um trabalho manual?

         Ele movimenta a cabeça, olhos cinza vivos com humor perverso. Eu ruborizo, e meus olhos se desviam por vontade própria para sua calça jeans confortável.

         — Macacões, — eu respondo, e eu sei que eu não estou mais despistando o que sai de minha boca.

         Ele levanta uma sobrancelha, divertido, mais uma vez.

         — Você não quer estragar sua roupa, — eu gesticulo vagamente na direção de sua calça jeans.

         — Eu sempre posso lavá-las. — Ele sorri.

         — Hum. — Eu sinto a cor em meu rosto subindo novamente. Eu devo estar da cor do manifesto comunista. Pare de falar. Pare de falar AGORA.

         — Eu vou levar alguns macacões. Deus me livre de arruinar qualquer roupa, — ele diz secamente.

         Eu tento e descarto a imagem indesejada dele sem jeans.

         — Você precisa de mais alguma outra coisa? — Eu pergunto quando eu entrego-lhe o macacão azul.

         Ele ignora minha investigação.

         — Como está indo o artigo?

         Ele finalmente me faz uma pergunta normal, longe de toda a insinuação e a conversa confusa de duplo sentido… uma pergunta que eu posso responder. Eu agarro isto firmemente com as duas mãos, como se fosse um bote salva-vidas, e eu sou honesta.

         — Eu não estou escrevendo-o, Katherine está. A Srta Kavanagh. Minha companheira de quarto, ela é a escritora. Ela está muito feliz com isto. Ela é a editora da revista, e ficou devastada por não poder fazer a entrevista pessoalmente. — Eu me sinto como se eu emergisse para o ar, enfim um tópico normal de conversação. — Sua única preocupação é que ela não tem nenhuma fotografia original sua.

         Grey levanta uma sobrancelha.

         — Que tipo de fotografia ela quer?

         Ok. Eu não tinha previsto esta resposta. Eu sacudo a cabeça, porque eu simplesmente não sei.

         — Bem, eu estou por perto. Amanhã, talvez… — ele é vago.

         — Você estaria disposto a participar de uma sessão de fotos? — Minha voz é estridente novamente. Kate estaria no sétimo céu se eu puder tirá-las. E você pode vê-lo novamente amanhã, sussurra sedutoramente para mim aquele lugar escuro na base de meu cérebro. Eu descarto a ideia, tola e ridícula…

         — Kate ficará encantada se nós pudermos achar um fotógrafo. — Eu estou tão contente, eu sorrio para ele amplamente. Seus lábios abrem como se ele estivesse tomando um influxo forte de ar, e ele pisca. Por uma fração de segundo, ele parece perdido de alguma maneira, e a Terra se desloca ligeiramente sobre seu eixo, as placas tectônicas resvalam para uma nova posição.

         Meu Deus. O olhar perdido de Christian Grey.

         — Avise-me sobre amanhã. — Alcançando seu bolso de trás, ele retira sua carteira. — Meu cartão. Tem meu número do celular nele. Você precisa chamar antes das dez da manhã.

         — Ok. — Eu sorrio para ele. Kate vai ficar emocionada.

         — ANA!

         Paul se materializou do outro lado no final do corredor. Ele é o irmão mais novo do Sr. Clayton. Eu ouvi que ele estava em casa de Princeton, mas eu não estava esperando vê-lo hoje.

         — Ah, com licença por um momento, Sr. Grey. — Grey faz um cara feia quando eu me afasto dele.

         Paul sempre foi um amigo, e neste momento estranho que eu estou tendo com o rico, poderoso, impressionante fora de comparação, atraente e controlador, é ótimo conversar com alguém que seja normal. Paul me abraça apertado pegando-me de surpresa.

         — Ana, oi, é tão bom ver você! — Ele esguicha.

         — Oi Paul, como você está? Você está em casa para o aniversário de seu irmão?

         — Sim. Você está parecendo bem, Ana, realmente bem. — Ele sorri enquanto ele me examina de certa distancia. Então ele me libera, mas mantém um braço possessivo caído sobre meu ombro. Eu me embaralho de um pé para outro, envergonhada. É bom ver Paul, mas ele sempre foi muito familiar.

         Quando eu olho para Christian Gray, ele está nós observando como um falcão, seus olhos cinza encobertos e especulativos, sua boca uma dura linha impassível. Ele mudou de forma estranha, do cliente atento para outra pessoa, alguém frio e distante.

         — Paul, eu estou com um cliente. Alguém que você deve conhecer, — eu digo, tentando desarmar o antagonismo que eu vejo nos olhos de Grey. Eu arrasto Paul acima para encontrá-lo, e eles se medem um ao outro. A atmosfera de repente é ártica.

         — Ah, Paul, este é Christian Gray. Sr. Grey, este é Paul Clayton. Seu irmão é o dono do lugar. — E por alguma razão irracional, eu sinto que eu tenho que explicar um pouco mais.

         — Eu conheço Paul desde que eu trabalho aqui, entretanto nós não nos vemos com frequência. Ele chegou de Princeton onde ele está estudando administração de empresas. — Eu estou balbuciando… Pare, agora!

         — Sr. Clayton. — Christian sustenta seu aperto, seu olhar ilegível.

         — Sr. Grey, — Paul retorna seu aperto de mão. — Espere, não Christian Grey? Da Grey Holdings Enterprise? — Paul vai de mal humorado para impressionado em menos de um nano segundo. Grey lhe dá um sorriso cortês que não alcança seus olhos.

         — Uau, há alguma coisa em que eu possa ajudá-lo?

         — Anastásia tem me ajudado, Sr. Clayton. Ela tem sido muito atenciosa. — Sua expressão é impassível, mas suas palavras… é como se ele estivesse dizendo outra coisa completamente diferente. É desconcertante.

         — Legal, — Paul responde. — Vejo você mais tarde, Ana.

         — Certo, Paul. — Eu assisto-o desaparecer em direção á sala de estoque. — Mais alguma coisa, Sr. Grey?

         — Só estes itens. — Seu tom é cortante e frio. Porra… eu o ofendi? Respirando fundo, eu viro e dirijo-me ao caixa. Qual é o seu problema?

         Eu carrego a corda, macacões, fita adesiva e as braçadeiras até o caixa.

         — Isso deu quarenta e três dólares, por favor. — Eu olho para Grey, e desejei não ter feito isso. Ele está me observando de perto, seus olhos cinza intensos e escurecidos. É enervante.

         — Você gostaria de uma sacola? — Eu pergunto enquanto eu pego seu cartão de crédito.

         — Por favor, Anastásia. — Sua língua acaricia meu nome, e meu coração mais uma vez fica frenético.

         E mal posso respirar. Apressadamente, eu coloco suas compras em uma sacola de plástico.

         — Você me liga se você quiser que eu faça a sessão de fotos? — Ele é todos negócios mais uma vez. Eu aceno, sem palavras mais uma vez, e devolvo seu cartão de crédito.

         — Ótimo. Até amanhã talvez. — Ele vira-se para partir, depois faz uma pausa. — Ah, e Anastásia, eu estou feliz que a Senhorita Kavanagh não pôde fazer a entrevista. — Ele sorri, então anda a passos largos com o propósito renovado para fora da loja, atirando a sacola plástica acima de seu ombro, deixando-me uma massa trêmula e furiosa de hormônios femininos. Eu passo vários minutos olhando fixamente para a porta fechada pela qual ele acabou de sair antes de retornar ao planeta Terra.

         Certo, eu gosto dele. Eu admito, isto para mim mesma. Eu não posso esconder meu sentimento mais. Eu nunca me senti assim antes. Eu o acho atraente, muito atraente. Mas ele é uma causa perdida, eu sei, e eu suspiro com um pesar agridoce. Foi apenas uma coincidência, sua vinda aqui. Mas ainda assim, eu posso admirá-lo de longe, certamente? Nenhum dano pode resultar disto. E se eu encontrar um fotógrafo, eu posso seriamente contemplá-lo amanhã. Eu mordo meu lábio em antecipação e eu me encontro sorrindo como uma colegial. Eu preciso telefonar para Kate e organizar uma sessão de fotos.

 

       Kate está em êxtase.

         — Mas o que ele estava fazendo na Clayton? — Sua curiosidade escoa pelo telefone. Eu estou nas profundezas da sala de estoque, tentando manter minha voz casual.

         — Ele passou por aqui.

         — Eu acho que isto é uma coincidência enorme, Ana. Você não acha que ele estava ai para ver você?

         Ela especula. Meu coração bater forte com a possibilidade, mas a alegria dura pouco. A triste e decepcionante realidade é maçante, ele esteve aqui a negócios.

         — Ele veio visitar a divisão de agricultura da universidade. Ele está financiando algumas pesquisas, — eu murmuro.

         — Oh sim. Ele deu ao departamento uma doação de $2.5 milhões de Grant.[13]

         Uou.

         — Como você sabe disto?

         — Ana, eu sou uma jornalista, e eu escrevi um perfil sobre o cara. É meu trabalho saber disto.

         — Ok, Carla Bernstein,[14] fique fria. Então você quer as fotos?

         — Claro que eu quero. A questão é, quem vai fazê-las e onde.

         — Nós podemos perguntar-lhe onde. Ele disse que vai ficar na área.

         — Você pode contatá-lo?

         — Eu tenho seu número de telefone celular.

         Kate ofega.

         — O mais rico, mais esquivo, mais enigmático solteiro do Estado de Washington, apenas lhe deu seu número de telefone celular.

         — Ah… sim.

         — Ana! Ele gosta de você. Não há dúvida sobre isto. — Seu tom é enfático.

         — Kate, ele está apenas tentando ser agradável. — Mas mesmo quando eu digo as palavras, eu sei que elas não são verdade.

       — Christian Grey não é agradável. Ele é educado, talvez. E uma pequena voz sussurra silenciosa, talvez Kate esteja certa. Fico arrepiada com a ideia de que talvez, apenas talvez, ele possa gostar de mim. Afinal, ele disse que estava contente por Kate não ter feito à entrevista. Eu abraço a mim mesma com uma silenciosa alegria, balançando-me de um lado para outro, acolhendo a possibilidade de que ele possa gostar de mim por um breve momento. Kate me traz de volta para o agora.

         — Eu não sei como vamos conseguir fazer as fotos. Levi, o nosso fotógrafo regular, não pode. Ele foi para casa em Idaho Falls pelo fim de semana. Ele vai ficar puto por perder uma oportunidade para fotografar um dos principais empresários da América.

         — Humm… Que tal José?

         — Grande ideia! Você pergunta a ele, ele faz qualquer coisa por você. Então chame Grey e descubra onde ele nos encontrará. — Kate é irritantemente arrogante sobre José.

         — Eu acho que você deveria chamá-lo.

         — Quem, José?— Kate ridiculariza.

         — Não, Grey.

         —Ana, você é a única que tem um relacionamento.

         — Relacionamento — Eu bufo para ela, minha voz subindo várias oitavas. — Eu mal conheço o cara.

       — Pelo menos você o conheceu, — ela diz amargamente. — E ele parece querer conhecer você melhor. Ana, apenas ligue para ele, — ela estala e desliga. Ela é tão mandona às vezes. Eu faço uma careta para meu celular, mostrando minha língua para ele.

         Eu estou deixando uma mensagem para José, quando Paul entra na sala de estoque procurando por lixas.

         — Nós estamos meio ocupados lá fora, Ana, — ele diz sem animosidade.

         — Sim, hum, desculpe, — eu murmuro, voltando-me para sair.

         — Então, como é que você conheceu Christian Grey? — A voz de Paul tenta se mostrar indiferente, mas é pouco convincente.

         — Eu tive que entrevistá-lo para nosso jornal estudantil. Kate não estava bem. — Eu encolho os ombros, tentando soar casual, mas também sou pouco convincente.

         — Christian Grey na Clayton. Vá entender, — Paul bufa, pasmo. Ele agita sua cabeça como se para limpá-la. — E então, quer sair para beber ou algo assim hoje à noite?

         Sempre que ele está em casa ele me convida para sair, e eu sempre digo não. É um ritual. Eu nunca considerei uma boa ideia sair com o irmão do chefe, e além disso, Paul é muito atraente como todo jovem americano da casa ao lado, mas ele não é nenhum herói literário, nem esforçando muito minha imaginação. Grey é? Meu subconsciente pergunta-me, sua sobrancelha levantada no sentido figurado.

         Eu o esbofeteio.

         — Você não tem um jantar de família ou algo assim com seu irmão?

         — Isto é amanhã.

         — Talvez alguma outra hora, Paul. Eu preciso estudar hoje à noite. Eu tenho meus exames finais na semana que vem.

         — Ana, um dia destes, você dirá sim, — ele sorri quando eu escapo para a loja.

         — Mas eu fotógrafo lugares, Ana, não pessoas, — José geme.

         — José, por favor? — Eu imploro. Segurando meu celular, eu marcho pela sala de estar de nosso apartamento, desviando a vista da janela para a luz noturna desvanecendo.

         — Dê-me o telefone. — Kate agarra o telefone de mim, lançando seu sedoso cabelo, loiro avermelhado acima de seu ombro.

         — Escute aqui, José Rodriguez, se você quiser que nosso jornal cubra a abertura de seu show, você vai fazer estas fotos para nós amanhã, capiche? — Kate pode ser terrivelmente dura.

         — Ótimo. Ana vai ligar de volta informando o local e horário. Nós vemos você amanhã. — Ela fecha meu celular com um estalo.

         — Feito. Tudo que nós precisamos fazer agora é decidir onde e quando. Ligue para ele. — Ela aponta o telefone para mim. Meu estômago revira.

         — Ligue para Grey, agora!

         Eu faço uma careta para ela e alcanço no meu bolso de trás o cartão de negócios dele. Eu tomo uma profunda e firme respiração, e com dedos trêmulos, eu disco o número.

         Ele responde no segundo toque. Sua voz é tranquila e fria.

         — Grey.

         — Haa… Sr. Grey? É Anastásia Steele. — Eu não reconheço minha própria voz, eu estou muito nervosa. Há uma breve pausa. Por dentro eu estou tremendo.

         — Senhorita Steele. Como é bom ouvi-la. — Sua voz muda. Ele fica surpreso, eu acho, e ele soa tão… morno, sedutor até. Minha respiração entala, e eu ruborizo. De repente estou consciente de que Katherine Kavanagh está olhando fixamente para mim, boquiaberta, e eu vou para a cozinha para evitar seu minucioso olhar indesejável.

         — Haa, nós gostaríamos de fazer a sessão de fotos para o artigo. — Respire, Ana, respire.

         Meus pulmões absorvem uma respiração apressada. — Amanhã, se estiver tudo bem. Onde seria conveniente para você, senhor?

         Eu quase posso ouvir seu sorriso de esfinge pelo telefone.

         — Eu vou estar no Heathman em Portland. Digamos nove e meia, amanhã de manhã?

— Certo, nós veremos você lá. — Eu estou irradiante e sem fôlego, como uma criança, não uma mulher adulta que pode votar e beber legalmente no Estado de Washington.

         — Eu espero ansiosamente por isto, Senhorita Steele. — Eu visualizo o brilho perverso em seus olhos cinza. Como ele consegue fazer com que sete pequenas palavras, garantam tantas promessas tentadoras? Eu desligo. Kate está na cozinha, e ela está olhando fixamente para mim com um olhar de completa e total consternação em seu rosto.

         — Anastásia Rose Steele. Você gosta dele! Eu nunca vi ou ouvi você tão, tão… afetada por alguém antes. Você está realmente corada.

         — Oh Kate, você sabe que eu ruborizo o tempo todo. É quase uma profissão. Não seja tão ridícula, — eu saio dessa rapidamente. Ela pisca para mim com surpresa, eu raramente fico com raiva, e se fico, rapidamente eu deixo para lá. — Eu apenas o acho… intimidante, isto é todo.

         — Heathman, nada mal, — Kate murmura. — Eu darei um telefonema para o gerente e negociarei um espaço para as fotos.

         — Eu vou fazer o jantar. Depois eu preciso estudar. — Eu não posso esconder minha irritação com ela, quando eu abro um dos armários para fazer o jantar.

         Eu estou inquieta está noite, não paro de me mover e dar voltas e voltas na cama. Sonhando com olhos cinza, macacões, pernas longas, dedos longos, e um local muito escuro e inexplorado. Eu desperto duas vezes na noite, meu coração batendo muito rápido. Oh, se não conseguir dormir, amanha vou estar com uma cara estupenda, eu me repreendo. Eu esmurro meu travesseiro e tento me ajeitar.

         O Heathman está situado no coração do centro da cidade de Portland. Seu impressionante edifício de pedras marrom foi concluído bem antes da crise da década de 20. José, Travis e eu estamos viajando no meu Fusca, e Kate está em seu CLK, uma vez que não cabemos todos em meu carro. Travis é amigo e gopher[15] de José, e eu estou aqui para ajudar com a iluminação. Kate conseguiu adquirir o uso de um quarto livre de encargos, pela manhã no Heathman, em troca de um crédito no artigo. Quando ela explica na recepção, que estamos aqui para fotografar o CEO Christian Grey, nós somos imediatamente conduzidos para uma suíte. Apenas uma suíte de tamanho regular, no entanto, já que aparentemente o Sr. Grey está ocupando a maior do edifício. Um executivo de marketing muito interessado nos mostra à suíte, ele é extremamente jovem e está muito nervoso por alguma razão.

         Eu suspeito que seja a beleza de Kate e seu ar autoritário que o desarmou, porque ele faz o que ela quer. Os quartos são elegantes, discretos, e opulentamente mobiliado.

         São nove horas. Nós temos meia hora para nos instalar. Kate vai de um lado para o outro.

         — José, eu acho que nós vamos fotografar contra aquela parede, você concorda? — Ela não espera por sua resposta. — Travis, limpe as cadeiras. Ana, você pode pedir ao serviço de quarto para trazer algumas bebidas? E deixe Grey saber onde estamos.

         Sim, Senhora. Ela é tão dominadora. Eu desvio meu olhar, mas faço o que me é pedido.

         Meia hora mais tarde, Christian Grey entra em nossa suíte.

         Puta merda! Ele está vestindo uma camisa branca, aberta no colarinho, e calças de flanela cinza que pendem de seus quadris. Seus cabelos incontroláveis ainda estão úmidos do banho. Minha boca fica seca só ao olhar para ele… ele é tão estupidamente quente. Grey entra na suíte acompanhado de um homem que aparenta ter seus trinta e poucos anos, com um corte militar, com um acentuado terno escuro e gravata, que fica em silencio no canto. Seus olhos cor de avelã nos observa impassível.

         — Senhorita Steele, nos encontramos novamente. — Grey estende a mão, e eu a agito, piscando rapidamente.

         Oh cara… ele realmente é bastante… uau. Quando eu toco em sua mão, eu sinto aquela deliciosa corrente atravessando-me diretamente, iluminando-me, fazendo-me ruborizar, e eu tenho certeza que minha respiração irregular deve ser audível.

         — Sr. Grey, esta é Katherine Kavanagh, — eu murmuro, acenando com uma mão em direção a Kate que avança, olhando-o diretamente nos olhos.

         — A tenaz senhorita Kavanagh. Como vai? — Ele lhe dá um pequeno sorriso, olhando genuinamente divertido. — Eu acredito que você está se sentindo melhor? Anastásia disse que você estava indisposta na semana passada.

         — Eu estou bem, obrigada, Sr. Grey. — Ela agita sua mão com firmeza, sem pestanejar.

         Eu me lembro que Kate esteve nas melhores escolas particulares de Washington. Sua família tem dinheiro, e ela cresceu confiante e segura de seu lugar no mundo. Ela não engole nenhum desaforo. Eu a admiro.

         — Obrigada por ter tempo para fazer isto. — Ela lhe dá um educado, sorriso profissional.

         — É um prazer, — ele responde, voltando seu olhar cinza para mim, e eu ruborizo novamente. Maldição.

         — Este é José Rodriguez, nosso fotógrafo, — eu digo, sorrindo para José, que sorri com carinho de volta para mim. Seus olhos são frios quando ele olha de mim para Grey.

         — Sr. Grey,— ele movimenta a cabeça.

         — Sr. Rodriguez, — A expressão de Grey muda completamente quando ele avalia José.

         — Onde você me quer? — Grey pergunta a ele. Seu tom soa vagamente ameaçador. Mas Katherine não está disposta a deixar José executar um show.

         — Sr. Grey, se você puder se sentar aqui, por favor? Tenha cuidado com os cabos de iluminação. E depois, nós vamos fazer algumas de pé também. — Ela o direciona para uma cadeira instalada contra a parede.

         Travis liga as luzes, momentaneamente ofuscando Grey, e murmura uma desculpa.

         Então, Travis e eu recuamos e assistimos como José passa a tirar fotos. Ele tira várias fotos apoiadas, pedindo para Grey virar-se de um jeito, de outro, mover seu braço, então, abaixá-lo novamente. Movendo o tripé, José tira muitas outras, enquanto Grey se senta e posa, pacientemente e naturalmente por mais ou menos vinte minutos. Meu desejo se realizou: Eu posso ficar aqui de pé e admirar Grey bem de perto. Duas vezes nossos olhos se fitam, e eu tenho que afastar o meu para longe de seu olhar nublado.

         — Já é o suficiente sentando. — Katherine comanda novamente. — De pé, Sr. Grey? — Ela pergunta.

         Ele se levanta, e Travis corre para remover a cadeira. O dispositivo da Nikon de José começa a clicar novamente.

         — Eu acho que temos o suficiente, — José anuncia cinco minutos mais tarde.

         — Ótimo, — diz Kate. — Obrigada novamente, Sr. Grey. — Ela o cumprimento, assim como José.

         — Eu espero ansiosamente ler o artigo, Senhorita Kavanagh, — Grey murmura, e se vira para mim, aguardando à porta. — Você me acompanha, Senhorita Steele? — Ele pergunta.

         — Claro, — eu digo, completamente arrebatada. Eu olho ansiosamente para Kate, que encolhe os ombros para mim. Eu noto que José está carrancudo atrás dela.

         — Bom dia para vocês todos, — diz Grey enquanto ele abre a porta, abrindo caminho para me permitir sair primeiro.

         Que inferno… o que é isto? O que ele quer? Eu paro no corredor do hotel, remexendo-me nervosamente quando Grey sai do quarto, seguido pelo Senhor “Corte de Recruta” em seu terno acentuado.

         — Eu ligo para você, Taylor, — ele murmura para o “Corte de Recruta”. Taylor caminha pelo corredor abaixo, e Grey vira seu olhar cinzento queimando para mim. Merda… eu fiz algo errado?

         — Gostaria de saber se você se juntaria a mim para o café da manhã.

         Meu coração dispara em minha boca. Um encontro? Christian Grey está me convidando para um encontro. Ele está perguntando se você quer um café. Talvez ele pense que você não acordou ainda, meu subconsciente resmunga para mim em um humor irônico novamente. Eu limpo minha garganta tentando controlar meus nervos.

         — Eu tenho que levar todo mundo para casa, — eu murmuro, me desculpando, torcendo minhas mãos e os dedos na minha frente.

         — TAYLOR, — ele chama, fazendo-me saltar. Taylor, que tinha retrocedido pelo corredor abaixo, se vira e volta em direção a nós.

         — Eles vão para a universidade? — Grey pergunta, sua voz suave e inquiridora. Eu movimento a cabeça, muito atordoada para falar.

         — Taylor pode levá-los. Ele é meu motorista. Nós temos um grande 4x4 aqui, então ele poderá levar o equipamento também.

         — Sr. Grey? — Taylor pergunta quando ele nos alcança, permanecendo distante.

         — Por favor, você pode conduzir o fotógrafo, seu assistente, e a Senhorita Kavanagh para casa?

         — Certamente, senhor, — Taylor responde.

         — Pronto. Agora você pode juntar-se a mim para o café? — Grey sorri como se tivesse concluído um negócio.

         Eu olho feio para ele.

         — Aah, Sr. Grey, é, isto realmente… olhe, Taylor não tem que levá-los para casa. — Eu lanço um breve olhar para Taylor, que permanece estoicamente impassível. — Eu trocarei de veículo com Kate, se você me der um momento.

         Grey sorri deslumbrante, desprotegido, natural, exibindo todos os seus dentes, um sorriso glorioso. Oh meu Deus… e ele abre a porta da suíte para que eu possa entrar. Eu passo ao redor dele para entrar no quarto, encontrando Katherine em uma profunda discussão com José.

         — Ana, eu acho que ele definitivamente gosta de você, — ela diz sem qualquer preâmbulo. José me olha com desaprovação. — Mas eu não confio nele, — ela adiciona. Eu levanto minha mão na esperança de que ela pare de falar. Por algum milagre, ela o faz.

         — Kate, se você levar o fusca, eu posso levar seu carro?

         — Por quê?

         — Christian Grey me convidou para tomar café com ele.

         Ela fica boquiaberta. Kate emudece! Eu saboreio o momento. Ela me agarra pelo braço e me arrasta para o quarto que fica fora da sala de estar da suíte.

         — Ana, há algo sobre ele. — Seu tom é cheio de advertência. — Ele é magnífico, eu concordo, mas eu acho que ele é perigoso. Especialmente para alguém como você.

         — O que você quer dizer, com alguém como eu? — Eu exijo, afrontada.

         — Uma inocente como você, Ana. Você sabe o que eu quero dizer, — ela fala um pouco irritada. Eu ruborizo.

         — Kate, é apenas um café. Eu estou começando meus exames finais esta semana, e eu preciso estudar, então eu não vou demorar muito.

         Ela franze seus lábios como se considerando meu pedido. Finalmente, ela pesca as chaves do carro do bolso e entrega-as para mim. Eu entrego as minhas.

         — Eu vejo você mais tarde. Não demore muito, ou eu vou enviar uma busca e salvamento.

         — Obrigada. — Eu a abraço.

         Eu saio da suíte para encontrar Christian Grey esperando, encostado contra a parede, parecendo com um modelo em uma pose para alguma brilhante revista top de linha.

         — Ok, vamos tomar café, — eu murmuro, ruborizando como uma beterraba vermelha.

         Ele sorri.

         — Depois de você, Senhorita Steele. — Ele se ergue, levantando a mão para que eu vá primeiro.

         Eu faço meu caminho pelo corredor abaixo, meus joelhos trêmulos, meu estômago cheio de borboletas,[16] e meu coração em minha boca, batendo em um ritmo dramático desigual. Eu vou tomar um café com Christian Grey... e eu odeio café.

         Nós caminhamos juntos pelo largo corredor do hotel para os elevadores. O que eu devo dizer a ele? Minha mente de repente paralisa com apreensão. Sobre o que nós vamos conversar?

         O que na Terra eu tenho em comum com ele? Sua voz suave e morna me surpreende de meu devaneio.

         — Quanto tempo você e Katherine Kavanagh se conhecem?

         Oh, uma pergunta fácil para começar.

         — Desde nosso primeiro ano. Ela é uma boa amiga.

         — Humm, — ele responde, reservado. O que ele está pensando?

         Nos elevadores, ele aperta o botão de chamada, e a campainha toca quase que imediatamente. As portas deslizam abertas, revelando um jovem casal em um amasso apaixonado do lado de dentro. Surpresos e envergonhados, eles se separam, olhando culpados em todas as direções, menos na nossa. Grey e eu entramos no elevador.

         Eu estou lutando para manter uma expressão séria, então eu olho para o chão, sentindo minhas bochechas ficando vermelhas. Quando eu espio para Grey através de meus cílios, ele tem a sugestão de um sorriso em seus lábios, mas é muito difícil de dizer. O jovem casal não diz nada, e nós viajamos até o andar térreo em um silêncio constrangedor. Nós nem sequer temos uma inútil música ambiente para nos distrair.

         As portas abrem e, para minha surpresa, Grey toma minha mão, apertando-a com seus dedos longos e frios. Eu sinto o choque correr por mim, e meus já rápidos batimentos aceleram. Quando ele me leva para fora do elevador, nós podemos ouvir as risadinhas suprimidas do casal que estoura atrás de nós. Grey sorri.

         — O que tem os elevadores? — Ele murmura.

         Nós cruzamos o extenso saguão movimentado do hotel, em direção à entrada, mas, Grey evita a porta giratória e, eu me pergunto se isto é porque ele teria que largar minha mão.

         Do lado de fora, está um ameno domingo de maio. O sol está brilhando e o tráfico está limpo. Grey vira à esquerda e anda até a esquina, onde nós paramos, esperando pelas luzes de pedestres do cruzamento mudar. Ele ainda está segurando minha mão. Eu estou na rua, e Christian Grey está segurando minha mão. Ninguém jamais segurou minha mão. Eu me sinto tonta, e eu estou formigando por toda parte. Eu tento sufocar o ridículo sorriso que ameaça repartir meu rosto em dois. Tente ficar fria, Ana, meu subconsciente implora. O homem verde aparece, e nós andamos novamente.

         Nós caminhamos quatro quarteirões, antes de alcançarmos a Cafeteria de Portland, onde Grey me libera para segurar a porta aberta, para que eu possa entrar.

         — Por que você não escolhe uma mesa, enquanto eu pego as bebidas. O que você gostaria? — Ele pergunta, cortês como sempre.

         — Eu quero… um, English Breakfast tea,[17] em saquinho.

         Ele levanta suas sobrancelhas.

         — Café não?

         — Eu não gosto de café.

         Ele sorri.

         — Ok, chá em saquinho. Açúcar?[18]

         Por um momento, eu fico atordoada, pensando que está me chamando carinhosamente, mas felizmente meu subconsciente entra em ação com lábios franzidos. Não, estúpida, se você quer açúcar?

         — Não obrigada. — Eu olho para baixo para meus dedos atados.

         — Alguma coisa para comer?

         — Não obrigada. — Eu sacudo minha cabeça, e ele anda para o balcão.

         Eu disfarçadamente olho para ele sob meus cílios, enquanto ele está na fila de espera para ser servido. Eu poderia observá-lo o dia todo… ele é alto, de ombros largos, esbelto e a forma como suas calças pendem de seus quadris… Oh meu Deus. Algumas vezes ele corre seus longos e graciosos dedos por seus agora, cabelos secos, mas ainda desordenado. Humm… eu gostaria de fazer isto. O pensamento vem espontaneamente em minha mente, e meu rosto incendeia. Eu mordo meu lábio e olho para minhas mãos novamente, não gostando para onde meus pensamentos rebeldes estão se dirigindo.

         — Um centavo por seus pensamentos? — Grey está de volta, assustando-me.

         Eu fico roxa. Eu estava apenas pensando em correr meus dedos por seus cabelos e perguntando-me se pareceria suave ao toque. Eu balanço minha cabeça. Ele está carregando uma bandeja, que ele coloca sobre a pequena mesa redonda de carvalho envernizada. Ele me entrega uma xícara e um pires, um pequeno bule, e um pratinho contendo um solitário saquinho de chá impresso “Twinings English Breakfast”, meu favorito. Ele carrega um café que ostenta um maravilhoso padrão de folhas impresso no leite. Como eles fazem isto? Eu me pergunto à toa. Ele também comprou um bolinho de mirtilo para si mesmo. Pondo de lado a bandeja, ele se senta do meu lado oposto e cruza suas longas pernas. Ele parece tão confortável, tão à vontade com seu corpo, eu o invejo. E aqui estou eu, toda desengonçada e descoordenada, incapaz de conseguir ir de A até B sem cair de cara no chão.

         — Seus pensamentos? — Ele solicita.

         — Este é meu chá favorito. — Minha voz é calma, ofegante. Eu simplesmente não posso acreditar que eu estou sentada em frente a Christian Grey, em uma cafeteria em Portland. Ele franze a testa. Ele sabe que eu estou escondendo algo. Eu coloco o saquinho de chá no bule e quase que imediatamente o pesco novamente com minha colher de chá. Quando eu coloco o saquinho usado de volta no pratinho, ele dobra sua cabeça olhando pra mim interrogativamente.

         — Eu gosto de meu chá preto e fraco, — eu murmuro como uma explicação.

         — Entendo. Ele é seu namorado?

         Uou… O que?

         — Quem?

         — O fotógrafo. José Rodriguez.

         Eu rio nervosa, mas curiosa. O que deu a ele aquela impressão?

         — Não. José é um bom amigo, apenas isto. Por que você pensou que ele fosse meu namorado?

         — O modo como você sorriu para ele, e ele para você. — Seu olhar cinza mantém o meu. Ele é tão enervante. Eu quero desviar o olhar, mas eu estou presa, encantada.

         — Ele é mais como da família, — eu sussurro.

         Grey acena ligeiramente com a cabeça, aparentemente satisfeito com a minha resposta, e eu olho para baixo para seu bolinho de mirtilo. Seus longos dedos habilmente descascam o papel, e eu assisto fascinada.

         — Você quer um? — Ele pergunta, e aquele secreto sorriso divertido, está de volta.

         — Não obrigada. — Eu franzo a testa e olho para baixo, para minhas mãos novamente.

         — E o garoto que eu conheci ontem na loja. Ele não é seu namorado?

         — Não. Paul é apenas um amigo. Eu disse a você ontem. — Oh, isto está ficando ridículo. — Por que você pergunta?

— Você parece ficar nervosa ao redor dos homens.

         Puta merda, isto é pessoal. Eu fico nervosa apenas ao seu redor, Grey.

         — Eu acho você intimidante. — Eu fico escarlate, mas mentalmente eu dou tapinhas em minhas costas pela minha franqueza, e olho para minhas mãos novamente. Eu ouço seu profundo suspiro.

         — Você deve me achar intimidante, — ele acena concordando. — Você é muito honesta. Por favor, não olhe para baixo. Eu gosto de ver seu rosto.

         Oh. Eu olho para ele, e ele me dá um sorriso encorajador, mas irônico.

         — Isto me dá algum tipo de pista do que você pode estar pensando, — ele inspira. — Você é um mistério, Senhorita Steele.

         Misteriosa? Eu?

         — Não existe nada misterioso em mim.

         — Eu penso que você é muito auto-suficiente, — ele murmura.

         Eu sou? Uau… como vou administrar isto? Isto é desconcertante. Eu, auto-suficiente?

       De jeito nenhum.

         — Exceto quando você ruboriza, claro, o que acontece frequentemente. Eu só gostaria de saber por que você estava corada. — Ele joga um pequeno pedaço de bolinho em sua boca, e começa a mastigá-lo lentamente, sem tirar seus olhos de mim. Como se fosse uma sugestão, e eu ruborizo. Merda!

         — Você sempre faz este tipo de observações pessoais?

         — Eu não percebi que fosse. Eu ofendi você? — Ele parece surpreso.

         — Não, — eu respondo honestamente.

         — Bom.

         — Mas você é muito arrogante, — eu retalio calmamente.

         Ele levanta as sobrancelhas e, se não me engano, ele ruboriza ligeiramente também.

         — Eu estou acostumado a fazer as coisas do meu jeito, Anastásia, — ele murmura. — Com todas as coisas.

         — Eu não duvido disso. Por que você não me pediu para chamá-lo por seu primeiro nome? — Eu fico surpresa por minha audácia. Por que esta conversa se tornou tão séria? Isto não está indo do modo como eu pensei que fosse. Eu não posso acreditar que eu estou me sentindo tão antagônica com ele.

         É como se ele estivesse tentando me advertir.

         — As únicas pessoas que usam meu nome de batismo são a minha família e alguns amigos íntimos. Este é o modo que eu gosto.

         Oh. Ele ainda não disse, “Chame-me Christian”. Ele é um maníaco por controle, não existe nenhuma outra explicação, e parte de mim está pensando que, talvez, teria sido melhor se Kate o entrevistasse. Dois maníacos por controle, juntos. Mais claro que ela é quase loira, loira morango, como todas as mulheres em seu escritório. E ela é bonita, meu subconsciente me lembra. Eu não gosto da ideia de Christian e Kate. Eu tomo um gole de meu chá, e Grey come outro pequeno pedaço de seu bolinho.

         — Você é filha única? — Ele pergunta.

         Uou… ele continua a mudar de direção.

         — Sim.

         — Fale-me sobre seus pais.

         Por que ele quer saber disto? É tão enfadonho.

         — Minha mãe vive na Geórgia com seu novo marido Bob. Meu padrasto vive em Montesano.

         — Seu pai?

         — Meu pai morreu quando eu era um bebê.

         — Eu sinto muito, — ele murmura e um incomodado olhar fugaz, atravessa seu rosto.

         — Eu não me lembro dele.

         — E sua mãe se casou de novo?

         Eu bufo.

         — Você pode dizer isto.

         Ele franze a testa para mim.

         — Você não está indo muito longe, não é? — Ele diz secamente, coçando seu queixo, como se estivesse pensamento profundamente.

         — Nem você.

         — Você já me entrevistou uma vez, e eu me lembro de algumas questões bastante comprometedoras. — Ele sorri afetuosamente para mim.

         Puta merda. Ele está lembrando a pergunta do “gay”. Mais uma vez, eu fico mortificada. Daqui a anos, eu sei, vou precisar de terapia intensiva para não sentir vergonha toda vez que eu recordar este momento. Eu começo a murmurar sobre minha mãe, qualquer coisa para bloquear esta memória.

         — Minha mãe é maravilhosa. Ela é uma romântica incurável. Ela atualmente está casada com seu quarto marido.

         Christian levanta as sobrancelhas em surpresa.

         — Eu sinto falta dela, — eu continuo. — Ela tem Bob agora. Eu só espero que ele possa vigiá-la e juntar os pedaços, quando seus esquemas desmiolados não saírem como planejado. — Eu ternamente sorrio. Eu não vejo minha mãe por um longo tempo. Christian observa-me atentamente, tomando goles ocasionais de seu café. Eu realmente não devia olhar para sua boca. É inquietante. Aqueles lábios.

         — Você se entende com seu padrasto?

         — Claro. Eu cresci com ele. Ele é o único pai que eu conheci.

         — E como ele é?

         — Ray? Ele é… reservado.

         — Só isto? — Grey pergunta, surpreso.

         Eu encolho os ombros. O que este homem espera? A história da minha vida?

         — Reservado como sua enteada, — Grey sugere de imediato.

         Eu me abstenho afastando meu olhar dele.

         — Ele gosta de futebol, especialmente futebol europeu, e de boliche, e pesca com mosca, e fazer móveis. Ele é um carpinteiro. Ex- fuzileiro. — Eu suspiro.

         — Você viveu com ele?

         — Sim. Minha mãe encontrou o Terceiro Marido, quando eu tinha quinze anos. Eu fiquei com Ray.

         Ele franze a testa como se não entendesse.

         — Você não quis viver com sua mãe? — Ele pergunta.

         Eu ruborizo. Isto não é realmente de sua conta.

         — Terceiro Marido vivia no Texas. Minha casa estava em Montesano. E você sabe... minha mãe era recém- casada. — Eu paro. Minha mãe nunca falou sobre o ser terceiro marido. Onde Grey está querendo ir com isso? Isto não é de sua conta. Dois podem jogar este jogo.

         — Fale-me sobre seus pais, — eu pergunto.

         Ele encolhe os ombros.

         — Meu papai é um advogado, minha mãe é pediatra. Eles vivem em Seattle.

         Oh… ele teve uma educação cara. E eu me pergunto sobre um casal bem sucedido que adota três crianças, e uma delas se transforma em um belo homem que assume o mundo dos negócios e o conquista sozinho. O que o levou a ser deste modo? Seus pais devem estar orgulhosos.

         — O que seus irmãos fazem?

         — Elliot está na construção, e minha irmã mais nova está em Paris, estudando arte culinária com algum renomado chefe de cozinha francês. — Seus olhos nublam com irritação. Ele não quer falar sobre sua família ou ele mesmo.

         — Eu ouvi dizer que Paris é adorável, — eu murmuro. Por que ele não quer conversar sobre sua família? É porque ele é adotado?

         — É bonita. Você já esteve lá? — Ele pergunta, sua irritação esquecida.

         — Eu nunca deixei o continente dos EUA. — Então, agora nós voltamos para banalidades. O que ele está escondendo?

         — Você gostaria de ir?

         — Para Paris? — Eu bufo. Isto me desequilibra, quem não gostaria de ir para Paris? — É claro, — eu concedo. — Mas é a Inglaterra que eu realmente gostaria de visitar.

         Ele dobra sua cabeça para um lado, correndo seu dedo indicador por seu lábio inferior… oh meu.

         — Por quê?

         Eu pisco rapidamente. Concentre-se, Steele.

         — É a casa de Shakespeare, Austen, as irmãs de Brontë, Thomas Hardy. Eu gostaria de ver os lugares que inspiraram estas pessoas a escrever livros tão maravilhosos.

         Toda esta conversa de grandes nomes literários, faz-me lembrar de que eu devia estar estudando. Eu olhar para meu relógio.

         — É melhor eu ir. Eu tenho que estudar.

         — Para seus exames?

         — Sim. Eles começam na terça-feira.

         — Onde está o carro da senhorita Kavanagh?

         — No estacionamento do hotel.

         — Eu vou levá-la de volta.

         — Obrigado pelo chá, Sr. Grey.

         Ele sorri com seu estranho sorriso “eu tenho um grande segredo”.

         — Você é bem-vinda, Anastásia. O prazer é todo meu. Venha, — ele comanda, e segura minha mão com a sua. Eu seguro-a, confusa, e o sigo para fora da cafeteria.

         Nós andamos de volta para o hotel, e eu gostaria de dizer que estamos em um silêncio sociável. Ele pelo menos parece em sua habitual tranquilidade, introspectivo. Quanto a mim, estou desesperadamente tentando avaliar como foi nosso café da manhã. Eu sinto como se eu tivesse sido entrevistada para uma posição, mas não estou certa para que.

         — Você sempre usa calça jeans? — Ele pergunta inesperadamente.

         — Geralmente.

         Ele movimenta a cabeça. Nós voltamos ao cruzamento, do outro lado da estrada do hotel. Minha mente está se recuperando. Que pergunta estranha… E estou ciente que nosso tempo juntos é limitado. É isto. Isto é tudo, e eu estraguei tudo completamente, eu sei. Talvez ele tenha alguém.

         — Você tem uma namorada? — Eu deixo escapar. Puta merda, eu acabei de dizer isto em voz alta?

         Seus lábios dão um meio sorriso, e ele olha para mim.

         — Não, Anastásia. Eu não sou do tipo que namora, — ele suavemente diz.

         Oh… o que isso quer dizer? Ele é gay? Oh, talvez ele seja, merda! Ele deve ter mentido para mim em sua entrevista. E por um momento, eu acho que ele vai seguir com alguma explicação, alguma pista para esta declaração enigmática, mas ele não o faz. Eu tenho que ir. Eu tenho que tentar organizar meus pensamentos. Eu tenho que ficar longe dele. Eu caminho adiante, e tropeço, tropeço de cabeça na calçada.

         — Merda, Ana! — Grey grita.

Ele puxa a minha mão com tanta força, que eu caio para trás contra ele, enquanto um ciclista que passa a toda velocidade, quase me acertando, indo pelo caminho errado nesta rua de mão única.

         Tudo acontece tão rápido, que em um minuto estou caindo, no próximo eu estou em seus braços, e ele está me segurando firmemente contra seu tórax. Eu inalo seu cheiro limpo, cheiro vital. Ele cheira a roupa limpa e fresca, e a algum sabonete caro. Oh meu Deus, é inebriante. Eu inalo profundamente.

         — Você está bem? — Ele sussurra. Ele está com um braço ao meu redor, apertando-me junto a ele, enquanto os dedos de sua outra mão, suavemente rastreia meu rosto sondando, examinando-me. Seu polegar escova meu lábio inferior e eu ouço sua respiração ofegante. Ele está olhando fixamente em meus olhos, e eu seguro seu ansioso olhar, queimando por um momento ou talvez para sempre… mas eventualmente, minha atenção é atraída para sua bonita boca. Oh meu Deus. E pela primeira vez em meus vinte e um anos, eu quero ser beijada. Eu quero sentir sua boca na minha.

 

Que droga! Beije-me! Eu imploro, mas não me movo. Eu estou paralisada por causa de uma necessidade estranha, desconhecida, completamente cativada por ele. Eu estou olhando fixamente para a boca perfeitamente esculpida de Christian Grey, hipnotizada e ele está olhando para mim, seu olhar encoberto, seus olhos escurecidos.

Ele respira mais rápido que o habitual e eu parei completamente de respirar. Eu estou em seus braços.

Beije-me, por favor. Ele fecha seus olhos, respira fundo e sacode brevemente sua cabeça como se respondesse minha pergunta muda. Quando ele abre seus olhos novamente, é com algum novo propósito, uma vontade de aço.

— Anastásia, você deveria me evitar. Eu não sou homem para você... — ele sussurra.

O quê? De onde veio isso? Seguramente, eu é quem deveria decidir. Eu franzo minha testa para ele e balanço minha cabeça diante da rejeição.

— Respire, Anastásia, respire. Eu vou ficar ao seu lado e irei te soltar agora — ele quietamente diz e se afasta suavemente.

A adrenalina corre por meu corpo, não sei se por causa do ciclista ou da proximidade inebriante de Christian, mas estou fraca e arrepiada. NÃO! Minha mente grita quando ele se afasta e sinto-me roubada. Ele tem suas mãos em meus ombros, segurando-me o comprimento de um braço, analisando minhas reações cuidadosamente. E a única coisa que eu posso pensar é que eu queria ter sido beijada, fiz isto malditamente óbvio e ele não quis. Ele não me quer. Ele realmente não me quer. Eu realmente estraguei o café da manhã.

— Estou bem. — eu respiro, achando minha voz. — Obrigada, — eu murmuro cheia de humilhação. Como eu podia ter interpretado mal a situação entre nós? Eu preciso me afastar dele.

— Pelo que? — Ele franze a testa. Suas mãos não saem de mim.

— Por me salvar. — eu sussurro.

— Aquele idiota estava indo na direção errada. Eu estou contente que eu estava aqui. Eu estremeço só de pensar no que poderia ter acontecido com você. Você quer vir e se sentar no hotel um pouco? — Ele me solta, suas mãos ao seu lado e eu na sua frente me sento uma idiota.

Com uma sacudida, procuro clarear minha cabeça. Eu só quero ir embora. Todas as minhas esperanças inarticuladas foram esmagadas. Ele não me quer. O que eu estava pensando? Eu brigo comigo mesma. O quê Christian Grey poderia querer comigo? Meu subconsciente zomba de mim. Eu me abraço e me viro em direção à rua e noto com alívio que o homenzinho verde do sinal de trânsito apareceu. Rapidamente atravesso a rua, consciente de que Christian Grey está logo atrás de mim. Fora do hotel, eu giro brevemente para enfrentá-lo, mas não posso olhar em seus olhos.

— Obrigada pelo chá e por ter concordado com as fotos. — eu murmuro.

— Anastásia… eu… — Ele para e a angústia em sua voz exige minha atenção, então eu o olho, de má vontade. Seus olhos cinzas são como o deserto, enquanto ele corre a mão pelo cabelo. Ele parece destruído, frustrado e todo o seu controle evaporou.

— O quê, Christian? — Eu fico irritada porque ele não fala.

— Nada.

Eu só quero ir embora. Eu preciso levar meu frágil e ferido orgulho para longe e de alguma maneira curá-lo.

— Boa sorte em seus exames, — ele murmura.

Huh? Isto é por que ele parece tão desolado? Este é o seu grande fora? Desejar-me sorte em meus exames?

— Obrigada. — Eu não posso disfarçar o sarcasmo em minha voz. —Adeus, Sr. Grey. — Eu giro nos meus saltos, fico vagamente espantada quando não tropeço, e sem dar a ele um segundo olhar, eu desapareço em direção à garagem subterrânea.

Uma vez na escuridão do concreto frio da garagem, iluminada com sua luz fluorescente e deserta, eu me debruço contra a parede e ponho minha cabeça em minhas mãos. O que eu estava pensando? Indesejada e sem permissão sinto as lágrimas chegarem. Por que eu estou chorando? Eu afundo no chão, brava comigo por esta reação insensata. Apoio-me em meus joelhos e me fecho ainda mais em mim mesma. Eu desejo sumir. Talvez esta dor absurda possa ficar menor ainda se eu sumir.

Coloco minha cabeça sobre meus joelhos e eu deixo as lágrimas irracionais caírem desenfreadas. Eu estou chorando por algo que nunca tive. Que ridículo. Lamentando por algo que nunca... – minhas esperanças esmigalhadas, meus sonhos despedaçados e minhas expectativas frustradas.

Eu nunca fui rejeitada. Certo…eu sempre fui a última a ser escolhida no basquete ou no vôlei – mas eu entendi que – correr e fazer qualquer outra coisa ao mesmo tempo, como saltar ou lançar uma bola não é minha praia. Eu sou uma negação em qualquer campo esportivo.

Romanticamente, no entanto, eu nunca me expus. Uma vida inteira de inseguranças.

Eu sou muito pálida, muito fraca, muito desprezível, sem coordenação, minha lista longa de culpas continuam. Então eu sempre tenho sido aquela que repelia os admiradores. Houve aquele sujeito em minha classe de química que gostou de mim, mas ninguém nunca havia despertado meu interesse – ninguém exceto o maldito Christian Grey. Talvez eu deva ser mais amável com caras como Paul Clayton e José Rodriguez, no entanto eu acredito que por nenhum deles teria chorado num canto escuro.

Talvez tudo o que eu necessite seja dar um bom grito.

Pare! Pare Agora! - Meu subconsciente está metaforicamente gritando comigo, braços dobrados, apoiando-se em uma perna e batendo seu pé em frustração. Entre o carro, vá para casa, vá estudar. Esqueça ele… Agora! E pare como toda essa porcaria de auto-piedade.

Eu respiro bem fundo e levanto. Componha-se Steele. Eu vou para o carro de Kate, enxugando minhas lágrimas ao mesmo tempo. Eu não irei mais pensar nele. Eu simplesmente posso encarar este incidente como uma experiência e me concentrar nos meus exames.

 

Kate está sentada na mesa de jantar, com o notebook, quando eu chego. Seu sorriso de boas vindas some quando ela me vê.

— Ana, o que aconteceu?

Ai, não... A inquisição de Katerine Kavanagh. Eu sacudo minha cabeça para ela, como se dissesse — fique fora disso — mas eu poderia perfeitamente estar lidando com um cego, surdo e mudo.

— Você andou chorando. — Ela tem um dom excepcional para enunciar o que é malditamente óbvio, algumas vezes. — O que aquele bastardo fez para você? — ela fala por entre os dentes, e seu rosto, Jesus! ela está apavorada.

— Nada, Kate. — Este é realmente o problema. O pensamento traz um sorriso torto à minha face.

— Então, por que você estava chorando? Você nunca chora. — Ela disse, sua voz se suavizando. Ela fica parada, seus olhos verdes brilhando de preocupação. Ela coloca seus braços ao meu redor e me abraça.

Eu preciso dizer alguma coisa para ela me deixar em paz.

— Eu quase fui atropelada por uma bicicleta. — Era o melhor que eu podia fazer e isso a distraiu imediatamente...dele.

— Jesus, Ana! Você está bem? Está machucada? — Ela me segura na distância dos braços estendidos e faz uma verificação visual de mim.

— Não, Christina me salvou. — eu sussurro. — Mas foi apavorante.

— Eu não estou surpresa. Como foi o café da manhã? Eu sei que você odeia café.

Eu tomei chá. Foi legal, nada de mais para contar. Eu não sei por que ele me convidou.

— Ele gosta de você Ana. — Ela abaixou seus braços.

Não mais. Eu não irei mais vê-lo. — Sim, eu consigo lidar com isso.

— Ah é?

Droga. Ela ficou curiosa. Eu vou para a cozinha para que ela não consiga ver meu rosto.

Sim... Ele está fora do meu nível Kate. — Eu digo tão secamente quanto eu consigo.

— O que você quer dizer com isso?

— Ora, Kate, é óbvio. — Eu giro para encará-la na porta da cozinha.

— Não para mim. — Ela diz. — Está bem, ele tem mais dinheiro que você, mas até ai, ele tem mais dinheiro que muita gente nos Estados Unidos.

— Kate, ele... — Eu dou de ombros.

— Ana, pelo amor de Deus! Quantas vezes eu vou ter de te dizer? Você é realmente linda! — ela me interrompe. Ah não! Esse discurso de novo não!

— Kate, por favor. Eu preciso estudar. — Eu a corto. Ela franze a testa.

— Você quer ler o artigo? Eu já acabei. José tirou fotos maravilhosas!

Será que eu preciso de uma lembrança visual da beleza de Christian eu – não- te- quero Grey?

— Claro. — Eu coloco um sorriso no rosto, como se fosse mágica e vou até o notebook. E lá está ele, olhando para mim em preto e branco, olhando para mim e encontrando minhas falhas.

— Eu finjo ler o artigo, o tempo todo olhando para seu olhar cinzento, procurando na foto alguma pista o porquê dele não ser o homem para mim – em suas próprias palavras. E subitamente, fica extremamente óbvio. Ele é bonito demais. Nós estamos em polos diferentes, em mundos diferentes. Eu tenho a visão de mim mesma como Ícarus, voando perto demais do sol, queimando e caindo como resultado do meu desejo. As palavras dele fazem sentido. Ele não é homem para mim.

Foi isso o que ele quis dizer e faz com que a rejeição dele seja mais fácil de aceitar...Quase. Mas eu posso viver com isso. Eu entendo.

— Está muito bom Kate. — eu digo. — Vou estudar. — Eu não vou mais pensar nele. Eu prometo para mim mesma e abrindo minhas anotações de revisão, começo a ler.

É apenas quando eu estou na cama, tentando dormir, que eu me permito deixar meus pensamentos voltarem para minha estranha manhã. Eu fico voltando à citação “eu não namoro” e eu fico zangada por não ter descoberto esta informação mais cedo, quando eu estava em seus braços mentalmente implorando com cada fibra do meu ser para que ele me beijasse. Ele já havia dito e repetido. Eu viro de lado. Estranhamente eu me pergunto se ele seria celibatário. Eu fecho meus olhos e começo a divagar. Talvez ele esteja se guardando. “Bem, não para você.” Meu subconsciente sonolento me dá um último golpe e me joga na terra dos sonhos.

E esta noite eu sonho com olhos cinzentos, folhas caídas no leite, e eu estou em lugares escuros, com uma luz estranha e eu não sei se estou correndo para alguma coisa ou de alguma coisa... Não está claro.

Eu abaixo minha caneta. Acabei. Meu exame final acabou. Eu sinto o sorriso do gato de Cheschire[19] se espalhar pelo meu rosto. Provavelmente esta é a primeira vez, esta semana, que eu sorrio. É sexta feira, e nós iremos celebrar hoje à noite, realmente celebrar. Acho que irei ficar realmente bêbada. Eu nunca fiquei bêbada antes. Eu olho o pavilhão esportivo procurando por Kate e ela ainda está escrevendo furiosamente, cinco minutos antes de acabar. É isso, o fim da minha vida acadêmica. Nunca mais eu irei sentar em fileiras de ansiedade, isolada, como uma estudante. Por dentro estou fazendo piruetas, sabendo perfeitamente que é o único lugar onde posso fazê-las graciosamente. Kate para de escrever e larga a caneta. Ela procura por mim e eu vejo o seu sorriso do gato de Alice, também.

Nós voltamos para casa em seu Mercedes, nos recusando a discutir a prova final. Kate está mais preocupada com o que irá usar esta noite. E eu estou ocupada procurando pelas chaves na minha bolsa.

— Ana, tem um pacote para você!

Kate está parada nos degraus em frente à porta, com um pacote na mão. Estranho. Eu não fiz nenhum pedido ultimamente na Amazon.

Kate me entrega o pacote e pega as chaves para abrir a porta da frente. Está endereçado a Senhorita Anastásia Steele. Não há endereço ou nome de quem enviou. Talvez seja da minha mãe ou de Ray.

— Provavelmente deve ser dos meus pais.

— Abra! — Kate diz, excitada, enquanto se dirige até a cozinha para pegar nosso “Champagnhe de comemoração de exames finais”.

Eu abro o pacote e dentro eu acho uma caixa dourada com três livros semi parecidos, recobertos com um pano antigo, cheirando a hortelã e um cartão branco. Escrito nele, com uma letra cursiva e negra, está:

“Por que você não me avisou que havia perigo? Porque você não me avisou? As damas sabem contra o que devem se proteger, porque há romances que contam sobre esses truques.”[20]

Eu reconheço a citação de Tess of the D´Urbervilles. Eu estou pasma com a ironia de que eu passei três horas escrevendo sobre a novela de Thomas Hardy no meu exame final. Talvez não haja ironia, talvez seja deliberado. Eu inspeciono os livros mais de perto, os três volumes. Eu abro a primeira contracapa. Escrito em uma letra antiga está:

        

           London: Jack R. Osgood, McIlvaine and Co., 1891.’

 

Puta merda! São as primeiras edições! Eles devem ter custado uma fortuna e eu sei, quase que mediatamente, quem os mandou. Kate esta recostada nos meus ombros olhando os livros. Ela pega o cartão.

— Primeira edição. — eu sussurro.

— Não! — os olhos de Kate estão abertos com descrença. — Grey?

Eu confirmo.

— Não consigo pensar em mais ninguém.

— O que significa o que está escrito no cartão?

— Eu não faço nenhuma ideia. Eu acho que é um aviso. Honestamente ele vive me alertando. Eu não faço ideia do por que. Não é como se eu estivesse tentando derrubar a porta dele. — eu franzo a testa.

Eu sei que você não quer falar sobre ele, Ana, mas ele está seriamente interessado em você. Com ou sem avisos.

Eu não deixei de pensar em Christian Grey na última semana. Está bem ... Então seus olhos cinzentos continuam assombrando meus sonhos e eu sei que vai levar uma eternidade para expurgar a sensação de estar em seus braços e esquecer seu cheiro. Por que ele me mandou isso?

Ele me disse que eu não era para ele.

— Eu achei um Tess primeira edição para vender em Nova York por $14.000,00. Mas o seu está em melhores condições. Deve ter sido mais caro. — Kate estava consultando seu bom amigo Google.

— Esta citação, Tess fala para sua mãe depois que Alex D´Urberville a seduz.

— Eu sei.

Kate fica inspirada. — O que ele está tentando te dizer?

— Eu não sei e eu não me importo. Eu não posso aceitar isso dele. Eu vou mandá-los de volta com alguma citação desconcertante de alguma parte obscura do livro.

— A parte em que Angel Clare diz Foda-se? — Kate pergunta com a cara mais sonsa do mundo.

— Sim, esta parte. — eu rio. Eu amo Kate, ela é leal e sempre me apoia. Eu embrulho os livros e os deixo na mesa de jantar. Kate me dá uma taça de champagne.

— Ao final dos exames e a uma nova vida em Seattle. — Ela sorri.

— Ao fim dos exames, nossa nova vida em Seattle e aos excelentes resultados que teremos! — Nós brindamos e bebemos.

 

O bar estava barulhento e agitado, cheio de futuros formandos prontos para ficarem imprestáveis. José se juntou a nós. Ele só se formará daqui a um ano, mas ele está no clima de comemorar e nos ajuda a entrar no espírito de nossa nova liberdade pagando margaritas para todos nós. Enquanto eu bebo a minha quinta, percebo que talvez não seja uma boa ideia misturá-la com champagne.

— E agora Ana? — José grita para que eu posso ouvi-lo com todo o barulho.

— Eu e Kate estamos nos mudando para Seattle. Os pais dela compraram um apartamento em um condomínio fechado para ela.

— Dios Mio! Como a outra parte vive! Mas você vai vir para minha exposição?

— Claro que sim, José, eu não perderia por nada do mundo! — Eu sorrio e ele coloca seu braço em meus ombros e me puxa para perto.

— Vai significar muito para mim Ana se você estiver lá. — Ele sussurra em minha orelha. — Mais uma margarita?

— José Luis Rodrigues, você está tentando me deixar bêbada? Porque eu acho que está funcionando. — eu rio — Eu acho melhor beber uma cerveja. Eu vou pegar uma jarra para nós.

— Mais bebida Ana! — Kate grita.

Kate tem a constituição de um touro. Ela está com seu braço jogado em Levi, um dos quatro estudantes ingleses que estudaram conosco e seu fotógrafo costumeiro do jornal dos estudantes. Ele desistiu de tirar fotos da bebedeira ao seu redor. Ele tem olhos apenas para Kate. Ela está com uma camiseta de seda, tipo babydoll, jeans justos e saltos altos, cabelos para cima, com alguns fios descendo por seu rosto, como gavinhas, deslumbrante como sempre. Eu, por outro lado, sou mais uma garota de usar all-star, jeans e camiseta, mas eu estou usando a minha melhor calça jeans. Eu saio do abraço de José e vou para a mesa. Opa. Sinto minha cabeça rodar. Eu tenho de segurar nas costas da cadeira. Coquetéis a base de tequila não são uma boa ideia.

Eu vou para o bar e decido que é melhor ir ao banheiro já que ainda estou de pé. “Bem pensado, Ana”. Eu cambaleio para fora da multidão. Claro, há uma fila, mas ao menos está quieto e fresco no corredor. Eu pego meu celular para aliviar a espera tediosa da fila. Humm para quem eu liguei por último? Será eu foi para José? Antes disso há um número que eu não reconheço. Ah sim. Grey, eu acho que este é o número dele. Eu rio. Eu não faço ideia de que horas são, talvez eu o acorde. Talvez ele possa me dizer por que me mandou os livros e aquela mensagem misteriosa. Se ele deseja que eu me mantenha afastada, ele deveria me deixar em paz. Eu contenho um soluço bêbado e aperto o botão para chamar o número dele de novo.

Ele atende no segundo toque.

— Anastacia? — ele parece surpreso de receber minha ligação. Bem, francamente, eu estou surpresa por ter ligado para ele também. Então meu cérebro atrapalhado registra...Como ele sabe que sou eu?

— Por que você me mandou aqueles livros? – eu cuspo as palavras para ele.

—Anastacia, você está bem? Você soa estranha. — sua voz está cheia de preocupação.

— Não sou a estranha, é você. — eu o acuso. Pronto. Eu disse a ele com uma coragem nascida do álcool.

— Anastacia, você andou bebendo?

— O que isso te interessa?

— Estou curioso. Onde você está?

— Em um bar.

— Que bar?

— Um bar em Portland.

— Como você vai para casa?

— Eu dou um jeito. — Esta conversa não está sendo como eu pensei.

— Em que bar você está?

— Por que você mandou os livros, Christian?

— Anastacia, onde você está? Diga-me agora! — seu tom é ditatorial, como sempre um maníaco por controle. Eu o imagino como um antigo diretor de cinema, usando calças de equitação, segurando um antigo megafone em uma mão e um chicote na outra. A imagem me faz rir alto.

— Você é tão dominante. — eu rio.

— Ana, me ajude, onde, cacete, você está?

Christian Grey está amaldiçoando comigo. Eu rio de novo.

— Eu estou em Portland...Bem longe de Seattle.

— Onde em Portland?

— Boa noite Christian.

— Ana!     

Eu desligo. Ha! E ele não me respondeu sobre os livros. Eu franzo a testa. Não cumpri minha missão. Eu realmente estou bêbada. – Minha cabeça está girando terrivelmente enquanto eu avanço na fila. Bem, o objetivo de hoje era ficar bêbada. Eu consegui. Então assim que é – provavelmente não é uma experiência que irei repetir. A fila anda e agora é a minha vez. Eu olho sem ver o pôster atrás da porta do banheiro que enaltece as virtudes do sexo seguro. Puta merda, eu acabei de ligar para Christian Grey? Merda. Meu telefone toca e eu pulo. Eu grito com a surpresa.

— Oi. — eu murmuro timidamente. Eu não reconheci quem era.

— Eu estou indo te buscar. — ele diz e desliga. Apenas Christian Grey poderia soar calmo e ameaçador ao mesmo tempo.

Puta merda! Eu puxo meu jeans para cima. Meu coração dispara. Vindo me buscar? Ah não! Eu não vou vomitar….não…estou bem. Ele está apenas mexendo com a minha cabeça. Eu não disse a ele onde eu estava. Ele não pode me achar aqui. Além disso, ele está a horas de Seattle e eu terei ido embora há muito tempo quando ele chegar. Eu lavo minhas mãos e olho meu rosto no espelho.

Eu estou levemente corada e ligeiramente sem foco. Hmmm....tequila.

Eu espero no bar, pelo que parece uma eternidade pela jarra de cerveja e eventualmente retorno para a mesa.

— Você demorou. — Kate me repreende. — Onde você estava?

— Eu estava na fila do banheiro.

José e Levi estavam tendo um debate acalorado sobre o time local de baseball. José parou o que estava falando para colocar cerveja para todos nós e tomei um longo gole.

— Kate, acho melhor eu parar um pouco e ir lá fora tomar um pouco de ar.

— Ana, você é muito fraca para bebida.

— Eu volto em cinco minutos.

Eu abri caminho pela multidão novamente. Eu estou começando a sentir náuseas, minha cabeça gira desconfortavelmente e eu mal consigo ficar em pé. Mais instável do que de costume. Respirando o ar frio da noite no estacionamento me faz perceber o quão bêbada eu estou.

Minha visão foi afetada e eu estou vendo tudo dobrado, como nas reprises de Tom e Jerry. Eu acho que vou passar mal. Porque eu me deixei ficar nesse estado?

— Ana! — José se junta a mim. — Você está bem?

— Eu acho que eu bebi demais. — sorrio fracamente para ele.

— Eu também. — ele murmura e seus olhos escuros me olham intensamente. — Você precisa de uma mão? — ele pergunta e se aproxima, colocando seus braços ao meu redor.

— José, eu estou bem, pode me soltar. — eu tento me afastar dele, debilmente.

— Ana, por favor... — ele sussurra, e agora eu estou entre seus braços, sendo puxada mais para perto..

— José, o que você está fazendo?

— Ana, você sabe que eu gosto de você, por favor...

Ele coloca uma de suas mãos em minhas costas, me prendendo contra ele e a outra está no meu rosto, indo para atrás da minha cabeça. Puta merda...ele vai me beijar.

— Não, José, pare! — Eu o empurro, mas ele é todo músculos e força e eu não consigo me livrar dele. Sua mão escorreu para o meu cabelo e ele segura minha cabeça em posição.

— Por favor Ana, carinho — ele sussurra contra os meus lábios. Seu hálito é suave e doce, margaritas e cerveja. Ele gentilmente espalha beijos pelo meu queixo até minha boca. Eu estou apavorada, bêbada e completamente fora de controle. O sentimento é sufocante.

— José, não! — eu suplico. — Eu não quero isso! Você é meu amigo e eu acho que vou vomitar.

— Eu acredito que a dama disse não.

Uma voz sombria soa suavemente. Puta merda! Christian Grey está aqui. Como? José me larga.

— Grey. — Ele responde laconicamente.

Eu olho ansiosa para Christian. Ele olha de forma ameaçadora para José. Ele está furioso. Droga. Meu estômago se manifesta e eu me dobro, meu corpo não consegue mais tolerar o álcool e eu vômito espetacularmente no chão.

— Ugh! Dios mio Ana! — José pula para trás com nojo. Grey pega meu cabelo e o levanta para evitar o vômito e gentilmente me leva em direção ao canteiro de flores na borda do estacionamento. Eu noto, com uma grande gratidão, que está relativamente escuro.

— Se você for vomitar novamente, faça isso aqui. Eu seguro você. — Ele coloca um de seus braços em meus ombros, enquanto o outro segura meu cabelo para ficar longe do meu rosto. Eu tento desajeitadamente empurrá-lo, mas eu vomito novamente... e novamente...ai! merda!

Por quanto tempo isso irá durar? Mesmo quando meu estômago está vazio e nada mais acontece, arrepios horríveis descem pelo meu corpo. Eu juro silenciosamente que eu nunca mais vou beber de novo. Isto é muito apavorante para por em palavras. Finalmente, para.

Minhas mãos estão apoiadas nos tijolos do canteiro, mal me sustentando. Vomitar profusamente é exaustivo. Grey tira uma de suas mãos de mim e me passa um lenço. Apenas ele poderia ter um lenço de linha com monograma, recentemente lavado. CTG. Eu não sabia que ainda se podia comprar desses lenços. Vagamente eu me pergunto o que significa o T enquanto eu limpo minha boca. Eu não consigo olhar para ele. Estou afogada na minha vergonha, com nojo de mim mesma. Eu gostaria de ser engolida pelas azaléias que estão no canteiro e estar em qualquer lugar, menos aqui. José ainda está pairando na porta do bar, olhando para nós. Eu gemo e ponho as mãos na cabeça. Este tem de ser o pior momento da minha existência. Minha cabeça ainda está girando enquanto eu tento lembrar um momento pior – e eu só consigo me lembrar da rejeição de Christian – e este tem muito mais sombras escuras em termos de humilhação. Eu arrisco olhar para ele. Ele está olhando para mim, sua face composta, não me deixando perceber nada. Eu me viro para olhar José que parece estar bem envergonhado e, como eu, intimidado por Grey. Eu o encaro. Eu tenho poucas opções de palavras para o meu suposto amigo, nenhuma delas que eu possa repetir na frente de Christian Grey, presidente executivo. “Ana, quem você está enganando? Eu simplesmente te vi vomitando pelo chão e nas flores. Não há nada mais desagradável em termos de educação feminina.”

Eu vejo você lá dentro. — José murmura, mas nós dois o ignoramos e ele entra no prédio. Eu estou por minha conta com Grey. Dupla droga. O que eu devo dizer a ele?

Desculpe-se pelo telefonema.

Eu sinto muito. — eu murmuro, olhando para o lenço, que eu amasso furiosamente com meus dedos. Tão macio.

Pelo que você está se desculpando Anastacia?

Oh Droga! Ele quer seu maldito pedaço de carne.

— Pelo telefonema, estando bêbada. Ah! A lista é interminável. — eu murmuro, sentindo meu rosto ficar vermelho. “Por favor, eu posso morrer agora?”

— Todos nós já passamos por isso, talvez não de forma tão dramática como você. — ele disse secamente. — Isto é sobre conhecer seus limites, Anastacia. Eu quero dizer, eu sou a favor de romper os limites, mas talvez isso seja muito brando. Você tem por hábito este tipo de comportamento?

Minha cabeça está zunindo como excesso de álcool e irritação. O que diabos isto tem a ver com ele? Eu não o convidei para vir até aqui. Ele soa como um homem de meia idade dando bronca em uma criança. Parte de mim deseja dizer que se eu quiser ficarei bêbada todas as noites e esta é a minha decisão e ela nada tem a ver com ele – mas eu não sou corajosa o suficiente. Não agora que eu vomitei na frente dela. Por que ele está parado ali?

— Não. — eu digo de forma contrita. — eu nunca fiquei bêbada antes e agora eu desejo nunca mais ficar.

Eu não consigo entender por que ele está aqui. Eu começo a me sentir fraca. Ele nota minha tontura e me segura antes que eu caia e me levanta em seus braços, me segurando perto de seu peito como se eu fosse uma criança.

— Vamos lá, eu te levo para casa. — ele murmura.

— Eu preciso avisar Kate. — “Minha nossa Senhora! Estou nos braços dele de novo!

— Meu irmão pode dizer a ela.

— O que?

— Meu irmão Elliot está falando com a senhorita Kavanagh.

— Anh? Eu não entendo.

— Ele estava comigo quando você telefonou.

— Em Seattle?

— Não, eu estou no Heathman.

Ainda? Por que?

— Como você me achou?

— Eu rastreei seu telefone Anastacia.

Claro que sim! Mas como isso é possível? Seria legal? Perseguidor, meu subconsciente sussurra através da nuvem de tequila que ainda flutua no meu cérebro, mas de alguma maneira, como é ele, eu não me importo.

— Você tem algum casaco ou bolsa?

— Sim, eu vim com os dois. Christian, por favor, eu preciso falar com Kate. Ela vai ficar preocupada. — Ele pressionou os lábios em uma linha fina, e acenou concordando.

Se você precisa.

Ele me coloca no chão e pegando minha mão me leva para dentro do bar. Eu me sinto fraca, ainda bêbada, embaraçada, exausta, mortificada e em algum nível absolutamente emocionada. Ele está agarrando minha mão, tantas emoções confusas! Eu irei precisar de pelo menos uma semana para processar isso tudo.

É barulhento, cheio e a música tinha começado, então havia uma multidão na pista de dança. Kate não estava em nossa mesa e José desapareceu. Levi parecia perdido e largado por sua conta.

— Onde está Kate? — Eu gritei por cima do barulho. Minha cabeça havia começado a latejar no mesmo compasso da música.

— Dançando. — Ele gritou, e eu podia dizer que ele estava zangado. Ele olhava Christian com suspeita.

Eu luto com meu casaco preto e coloco minha bolsa pequena pela cabeça e ela fica de lado, nos meus quadris. Estou pronta para ir, assim que eu achar Kate.

— Ela está na pista de dança. — Eu toco no braço de Christian, fico na ponta dos pés e grito em seu ouvido, acariciando seu cabelo com meu nariz, sentindo seu cheiro limpo e fresco. Ai Meu Deus! Todos esses proibidos, não familiares sentimentos que eu tentei esconder vieram à tona e correram por meu corpo drenado. Enrubesci e em algum lugar dentro, bem dentro de mim meus músculos estalaram deliciosamente.

Ele revirou seus olhos para mim e pegou minha mão, levando-me para o bar. Ele foi servido imediatamente. Nada de espera para o senhor do controle Grey. Será que tudo vem tão facilmente assim para ele? Eu não consigo ouvir o que ele pediu. Ele me entrega um copo grande de água com gelo.

— Beba. — Ele grita sua ordem para mim.

As luzes se movem, se torcem e piscam para mim no mesmo ritmo da música, conjurando um estranho jogo de luzes e sombras por todo o bar e clientela. Elas se alternam em verde, azul, branco e um endemoniado vermelho. Ele me olha intensamente. Eu tento respirar.

— Todo ele. — Grita.

Ele é tão arrogante. Ele passa uma mão pelos cabelos despenteados. Ele parece frustrado, zangado. Qual é o problema? Tirando uma garota boba e bêbada ligando para ele no meio da noite, que o faz pensar que ela precisa ser resgatada. E acontece que ela realmente acaba precisando ser resgatada de seu amigo amoroso. Então vê-la vomitar violentamente aos seus pés. Oh Ana....será que você descer tão baixo? Meu subconsciente está figurativamente com as mãos para cima, como um egípcio e olhando para mim através de óculos com formato de meia lua. Eu balanço levemente, e ele coloca sua mão nos meus ombros, me firmando. Eu faço como me foi mandado e bebo o copo inteiro de água. Eu me sinto enjoada. Tirando o copo de mim, ele o coloca no bar. Eu noto através da névoa da bebida que ele está usando uma blusa branca solta, jeans confortável, all-star preto e uma jaqueta. Sua blusa está desabotoada em cima e eu consigo ver o começo dos pelos de seu peito. No meu estado grogue, ele parece delicioso.

Ele pega minha mão mais uma vez. Puta merda! Ele está me levando para a pista de dança. Merda. Eu não danço. Ele pode sentir minha relutância e sobre as luzes coloridas ele parece divertido, sorrindo sardonicamente. Ele aperta e me puxa pela mão e eu estou em seus braços novamente, então ele começa a se mexer, me levando com ele. Cara, ele sabe dançar. E eu não consigo acreditar que eu o estou seguindo passo por passo. Talvez seja porque eu estou bêbada. Ele me segura apertado contra ele, seu corpo colado ao meu... se ele não estivesse me segurando tão apertado, eu estou certa de que eu já teria caído. No fundo da minha mente, o mantra de minha mãe ressoa: nunca confie em um homem que sabe dançar.

Ele nos leva através da pista lotada até o outro lado, perto de Kate e Elliot, o irmão dele. A música é um martelar constante, alta e ardilosa, dentro e fora da minha cabeça. Eu suspiro. Kate está se movendo. Ela está dançando loucamente e ela apenas faz isso quando ela realmente gosta de alguém. Realmente gosta de alguém. Isso significa que amanhã haverá três de nós para o café da manhã. Kate!

Christian se reclina e grita nos ouvidos de Elliot. Eu não consigo ouvir o que ele diz. Elliot é alto, com ombros largos, cabelos loiros encaracolados, um sorriso aberto e olhos brincalhões. Eu não consigo saber de que cor eles são por causa das luzes. Elliot concorda e puxa Kate para seus braços, onde ela vai muito contente. Kate! Até mesmo no meu estado inebriado eu fico chocada. Ela acabou de conhecê-lo. Ela concorda com o que quer que Elliot tenha dito, olha para mim e acena. Christian nos impulsiona para fora da pista de dança rapidamente.

Mas eu não consegui falar com ela. Será que está bem? Eu posso ver que as coisas estão indo bem para os dois. Eu preciso ler sobre como fazer sexo seguro. No fundo da minha mente, eu espero que ela tenha lido um dos posters do banheiro. Meus pensamentos colidem pelo meu cérebro, brigando com meu estado ébrio e confuso. Está tão quente aqui, tão barulhento, tão colorido – muito brilhante. Minha cabeça começa a rodas, ai, não...e eu consigo sentir o chão subindo para encontrar o meu rosto, quando eu caio.

A última coisa de que me lembro antes de desmaiar nos braços de Christian Grey é o sonoro epíteto:

— Porra!

 

Tudo está em silêncio, as luzes estão apagadas. Estou muito cômoda e aquecida nesta cama. Que bom... Abro meus olhos, por um momento estou tranquila e serena, desfrutando do ambiente, que não conheço. Não tenho nenhuma ideia de onde estou. O travesseiro da cama tem a forma de um sol enorme. Parece-me estranhamente familiar. O quarto é grande e está luxuosamente decorado em tons marrons, dourados e bege. Já a vi isso antes. Onde? Meu ofuscado cérebro procura entre suas lembranças recentes. Droga! Estou no hotel, em Heathman... em uma suíte. Estive em uma parecida junto com Kate. Esta parece maior. Oh, droga. Estou na suíte de Christian Grey. Como cheguei até aqui?

Pouco a pouco, as imagens fragmentadas da noite começam a me torturar. A bebedeira. — OH, não, a bebedeira. A ligação. —OH, não, a ligação, meu vômito. — OH, não, eu vomitei... José e depois Christian. OH, não. Morro de vergonha. Não recordo como cheguei aqui. Estou vestindo uma camiseta, o sutiã e a calcinha. Sem as meias três quartos e nem o jeans. Droga.

Observo uma mesinha do quarto. Há um copo de suco de laranja e dois comprimidos. Ibuprofeno. Sua obsessão por controle está em todos os lugares. Levanto-me da cama e tomo os comprimidos. A verdade é que não me sinto tão mal, certamente estou muito melhor do que mereço. O suco de laranja está delicioso. Tira-me a sede e me refresca.

Ouço uns golpes na porta. Meu coração bate tão forte e minha voz quase não sai por minha boca, mas mesmo assim, Christian abre a porta e entra.

Ah, ele estava fazendo exercício. Veste uma calça de moletom cinza que lhe cai ligeiramente sobre os quadris e uma camiseta cinza de ginástica, empapada de suor, assim como seu cabelo. Christian Grey estava suado. A ideia me parece estranha. Eu respiro profundamente e fecho os olhos. Sinto-me como uma menina de dois anos.

— Bom dia, Anastásia. Como se sente?

— Melhor do que mereço — eu murmuro.

Levanto o olhar para ele. Ele larga uma bolsa grande, de uma loja de roupas, em um divã e pega ambos os extremos da toalha que tem ao redor dos ombros. Seus impenetráveis olhos cinza me olham fixamente. Não tenho nem ideia do que está pensando, como sempre. Ele sabe esconder o que pensa e o que sente.

— Como cheguei até aqui? — pergunto-lhe em voz baixa, constrangida.

Ele senta-se num lado da cama. Está tão perto de mim que poderia tocá-lo, poderia cheirá-lo.   Minha nossa... Suor, gel e Christian. Um coquetel embriagador, muito melhor que as margaritas, agora sei por experiência.

— Depois que você desmaiou não quis pôr em perigo o tapete de pele de meu carro te levando para a sua casa, assim te trouxe para este local. — Respondeu-me sem se alterar.

— Você me colocou na cama?

— Sim. — ele respondeu-me impassível.

— Voltei a vomitar? — pergunto-lhe em voz mais baixa.

— Não.

— Tirou-me a roupa? — eu sussurro.

— Sim. — Ele olha-me elevando uma sobrancelha e me ponho mais vermelha que nunca.

— Não fizemos...? — Eu sussurro, com a boca seca, de vergonha, mas não posso terminar a frase. Eu olho para as minhas mãos.

— Anastásia, você estava quase em coma. Necrofilia não é a minha área. Eu gosto que minhas mulheres estejam conscientes e sejam receptivas, — ele me responde secamente.

— Sinto muito.

Seus lábios esboçam um sorriso zombador.

— Foi uma noite muito divertida. Demorarei para esquecê-la.

Eu também... OH, ele estava rindo de mim, e muito... Eu não lhe pedi que viesse me buscar. Não entendo por que tenho que acabar me sentindo como a vilã do filme.

— Não tinha por que seguir meu rastro, com algum equipamento pertencente ao James Bond, que está desenvolvendo em sua companhia, — eu digo bruscamente.

Ele me olha fixamente, surpreso e, se eu não me equivoco, um pouco ofendido.

— Em primeiro lugar, a tecnologia para localizar celulares está disponível na internet. Em segundo lugar, minha empresa não investe em nenhum aparelho de vigilância, nem os fabrica. E em terceiro lugar, se não tivesse ido te buscar, certamente você teria despertado na cama do fotógrafo e, se não estou esquecido, você não estava muito entusiasmada com os métodos dele de te cortejar. — Ele disse de forma mordaz.

Métodos de me cortejar! Levanto o olhar para Christian, que me olha fixamente com olhos brilhantes, ofendidos. Eu tento morder meus lábios, mas não consigo reprimir a risada.

— De que texto medieval você tirou isso? Parece um cavaleiro andante.

Vejo que seu aborrecimento se vai. Seus olhos se adoçam, sua expressão se torna mais cálida e em seus lábios parece esboçar um sorriso.

— Não acho, Anastásia. Um cavaleiro negro, possivelmente. — Ele me diz com um sorriso zombador. — Jantou ontem?  

Seu tom é acusador. Nego com a cabeça. Que grande pecado cometi agora? Ele tem a mandíbula tensa, mas seu rosto segue impassível.

— Tem que comer. Por isso você passou mal. De verdade, é a primeira norma quando se bebe.

Passa a mão pelo cabelo, mas agora está muito nervoso.

— Vai seguir brigando?

— Estou brigando?

— Acredito que sim.

— Tem sorte que só estou falando.

— O que quer dizer?

— Bom, se fosse minha, depois do que fez ontem, não se sentaria durante uma semana. Não jantou, embebedou-se e se pôs em perigo.

Ele fecha os olhos. Por um instante o terror se reflete em seu rosto e ele estremece. Quando abre os olhos, me olha fixamente.

— Não quero nem pensar no que poderia ter acontecido.

Eu o fito com uma expressão carrancuda. O que lhe passa? Porque se importa? Se eu fosse dele... Bem, não sou. Embora possivelmente eu gostaria de sê-lo. A ideia abre caminho entre meu aborrecimento por suas palavras arrogantes. Ruborizo-me por culpa de meu caprichoso subconsciente, que dá saltos de alegria com uma saia havaiana vermelha, só de pensar que poderia ser dele.

— Não teria me acontecido nada. Estava com Kate.

— E o fotógrafo? — pergunta-me bruscamente.

Mmm... José. Em algum momento terei que conversar com ele.

— José simplesmente passou da conta.

Encolho meus ombros.

— Bem, na próxima vez que ele passar da conta, alguém deveria lhe ensinar algumas maneiras.

— É muito partidário da disciplina. — digo-lhe entre dentes.

— OH, Anastásia, não sabe o quanto. Fecha um pouco os olhos e ri perversamente.

Deixa-me desarmada. De repente, estou confusa e zangada, e ao mesmo tempo estou contemplando seu precioso sorriso. Uau... Estou encantada, porque eu não estou acostumada ao seu sorriso. Quase esqueço o que está me dizendo.

— Vou tomar banho. Se você não preferir tomar banho primeiro...

Ele inclina a cabeça, ainda sorrindo. Meu coração bate acelerado e o cérebro se nega a fazer as conexões oportunas para que eu respire. Seu sorriso se faz mais amplo. Aproxima-se de mim, inclina-se e me passa o polegar pelo rosto e pelo lábio inferior.

— Respire, Anastásia, — sussurra-me. E logo se levanta e se afasta. —Em quinze minutos trarão o café da manhã. Deve estar morta de fome. Ele entra no banheiro e fecha a porta.

Solto o ar que estava segurando. Por que é tão alucinantemente atraente? Agora mesmo, me meteria na ducha com ele. Nunca havia sentido algo assim por alguém. Ele ativou meus hormônios. Arde-me a pele por onde ele passou seu dedo. Uma incômoda e dolorosa sensação me faz retorcer. Não entendo esta reação. Mmm... Desejo. É desejo. Assim se sente alguém quando se deseja.

Deixo-me cair sobre os travesseiros suaves de plumas. Se fosse minha... Ai, o que estaria disposta a fazer para ser dele? É o único homem que conseguiu acelerar o sangue em minhas veias. Mas também me põe os nervos em pé. É difícil, complexo e pouco claro. De repente, me rechaça, mais tarde, me manda livros que valem quatorze mil dólares, depois me segue no bar como se fosse um perseguidor. E no fim de tudo, passei a noite na suíte de seu hotel e me sinto segura. Protegida.

Preocupo lhe o suficiente para que venha me resgatar, de algo que equivocadamente acreditou que fosse perigoso. E ainda é um cavaleiro. É um cavaleiro branco, com armadura brilhante, resplandecente. Um herói romântico. Sir Gawain ou sir Lancelot. Saio de sua cama e procuro freneticamente meu jeans. Abro a porta do banheiro e aparece ele, molhado e resplandecente por causa da ducha, ainda sem se barbear, com uma toalha ao redor da cintura, e ali estou eu... De calcinhas, olhando-o boquiaberta e me sentindo muito incômoda.

Surpreende-lhe que eu esteja em pé.

— Se está procurando seu jeans, mandei-o à lavanderia. — Ele me fala com um olhar impenetrável. — Estava salpicado de vômito.

— Ah. — Fico vermelha. Por que diabos, tenho sempre que sentir-me tão deslocada?

— Mandei Taylor comprar outro e umas sapatilhas esportes. Estão nessa bolsa.

Roupa nova. Isso era realmente inesperado.

—Bom... Vou tomar banho, — eu murmuro. —Obrigada. — Que outra coisa posso dizer? Pego a bolsa e entro correndo no banheiro para me afastar da perturbadora proximidade de Christian nu. David de Michelangelo não é nada, comparado com ele. O banheiro está branco de vapor. Dispo-me e entro rapidamente na ducha, impaciente por sentir o jorro de água quente sobre meu corpo.

Levanto a cara para a desejada corrente. Desejo Christian Grey. Desejo-o desesperadamente. É sincero. Pela primeira vez em minha vida quero ir para cama com um homem. Quero sentir suas mãos e sua boca em meu corpo. Ele me disse que gosta que suas mulheres estejam conscientes. Então certamente ele se deita com mulheres. Mas não tentou me beijar, como Paul e José. Não o entendo. Deseja-me? Não quis me beijar na semana passada. Pareço-lhe repulsiva? Mas estou aqui, ele me trouxe. Não entendo seu jogo. O que pensa? Dormi em sua cama a noite toda, parece-me meio doido. Tire suas conclusões, Ana. Meu subconsciente aparece com sua feia e insidiosa cara. Não dou a mínima importância. A água quente me relaxa. Mmm... Poderia ficar debaixo do jato, neste banheiro, para sempre. Pego o gel, que cheira a Christian. É um aroma delicioso. Esfrego todo o meu corpo, imaginando que é ele quem o faz, que ele esfrega este gel pelo meu corpo, pelos seios, pela barriga e entre as coxas, com suas mãos, com seus dedos longos. Minha nossa. Meu coração dispara. E é uma sensação muito... muito prazerosa.

Ele bate na porta e levo um susto.

— Chegou o café da manhã.

— Va... valeu, — o susto me arrancou cruelmente de meu sonho erótico.

Saio da ducha e pego duas toalhas. Com uma envolvo o cabelo ao estilo Carmen Miranda, e com a outra me seco a toda pressa evitando a prazerosa sensação da toalha esfregando minha pele hipersensível. Abro a bolsa. Taylor me comprou não só um jeans, mas também uma camisa azul céu, meias três quartos e roupas íntimas. Minha Nossa!

Sutiã e calcinha limpos... Descrevê-los de maneira mundana, não lhes faz justiça. São de uma marca de lingerie europeia de luxo, com desenho delicioso. Renda e seda azul celeste. Uau. Fico impressionada e um pouco intimidada. E, além disso, é exatamente do meu tamanho. Com certeza. Ruborizo-me pensando no rapaz, em uma loja de lingerie, comprando estes objetos. Pergunto-me a que outras coisas ele se dedica em suas horas de trabalho. Visto-me rapidamente. O resto da roupa também fica perfeito. Seco o cabelo com a toalha e tento desesperadamente controlá-lo, mas, como sempre, nega-se a colaborar. Minha única opção é fazer um acréscimo, mas não tenho secador de cabelo. Devo ter algo na bolsa, mas onde está? Respiro fundo. Chegou o momento de enfrentar o senhor Perturbador. Alivia-me encontrar o quarto vazio. Procuro rapidamente minha bolsa, mas não está por aqui. Volto a respirar fundo e vou à sala de estar da suíte. É enorme. Há uma luxuosa zona para sentar-se, cheia de sofás e grandes almofadas, uma sofisticada mesinha com uma pilha grande de livros ilustrados, uma zona de estudo com o último modelo de computador e uma enorme televisão de plasma na parede. Christian está sentado à mesa de jantar, no outro extremo da sala, lendo o jornal. A sala é mais ou menos do tamanho de uma quadra de tênis. Não que eu jogue tênis, mas fui ver Kate jogar, várias vezes. Kate!

— Merda, Kate! — digo com voz rouca.

Christian eleva os olhos para mim.

— Ela sabe que está aqui e que está viva. Mandei uma mensagem pelo Eliot. — Ele diz com certa ironia.

OH, não. Recordo de sua ardente dança ontem, tirando proveito de todos os seus movimentos, exclusivamente, para seduzir o irmão de Christian Grey, nada menos. O que vai pensar sobre eu estar aqui? Nunca passei uma noite fora de casa. Está ainda com o Eliot. Ela só fez algo assim duas vezes, e nas duas vezes, foi meio doido para mim aguentar o espantoso pijama cor de rosa durante uma semana, quando terminaram. Ela vai pensar que eu também me enrolei com Christian.

Christian me olha impaciente. Veste uma camisa branca de linho, com o peito e os punhos desabotoados.

— Sente-se. — ordena, assinalando para a mesa.

Cruzo a sala e me sento na frente dele, como me indicou. A mesa está cheia de comida.

— Não sabia do que você gosta, assim pedi um pouco de tudo.

Dedica-me um meio sorriso, como desculpa.

— É um esbanjador, — murmuro atrapalhada pela quantidade de pratos, embora tenha fome.

— Eu sou, — diz em tom culpado.

Opto por panquecas, xarope de arce, ovos mexidos e bacon. Christian tenta ocultar um sorriso, enquanto volta o olhar a sua panqueca. A comida está deliciosa.

— Chá? — ele pergunta-me.

— Sim, por favor.

Estende um pequeno bule cheio de água quente, na xícara há uma saquinho do Twinings English Breakfast. Ele lembrou-se do chá que eu gosto.

—Tem o cabelo muito molhado.

— Não encontrei o secador, — sussurro incômoda. Não o procurei.

Christian aperta os lábios, mas não diz nada.

— Obrigada pela roupa.

— É um prazer, Anastásia. Esta cor te cai muito bem.

Ruborizo-me e olho fixamente para meus dedos.

— Sabe? Deveria aprender a receber galanteios, — ele me diz em tom fustigante.

— Deveria te dar um pouco de dinheiro pela roupa.

Ele me olha como se estivesse ofendendo-o. Sigo falando.

— Já me deste os livros, que não posso aceitar, é obvio. Mas a roupa... Por favor, me deixe que lhe pague isso, — digo tentando convencê-lo com um sorriso.

— Anastásia, eu posso fazer isso, acredite.

— Não se trata disso. Por que teria que comprar esta roupa?

— Porque posso.

Seus olhos despedem um sorriso malicioso.

— O fato de que possa não implica que deva, — respondo tranquilamente.

Ele me olha elevando uma sobrancelha, com olhos brilhantes, e de repente me dá a sensação de que estamos falando de outra coisa, mas não sei do que. E isso me recorda...

— Por que me mandou os livros, Christian? — pergunto-lhe em tom suave.

Deixa os talheres e me olha fixamente, com uma insondável emoção ardendo em seus olhos. Maldito seja... Ele me seca a boca.

   — Bom, quando o ciclista quase te atropelou... e eu te segurava em meus braços e me olhava me dizendo: "me beije, me beije, Christian"... Ele encolhe os ombros. — Bom, acreditei que te devia uma desculpa e uma advertência. — passou uma mão pelo cabelo. — Anastásia, eu não sou um homem de flores e corações. Não me interessam as histórias de amor. Meus gostos são muito peculiares. Deveria te manter afastada de mim. — Fecha os olhos, como se negasse a aceitá-lo. — Mas há algo em ti que me impede de me afastar. Suponho que já o tinha imaginado.

De repente, já não sinto fome. Não pode afastar-se de mim!

— Pois não te afaste — eu sussurro.

Ele ficou boquiaberto e com os olhos nos pratos.

— Não sabe o que diz.

— Pois me explique isso.

Olhamo-nos fixamente. Nenhum dos dois toca na comida.

— Então, sei que sai com mulheres... — digo-lhe.

Seus olhos brilham divertidos.

— Sim, Anastásia, saio com mulheres. — Ele faz uma pausa para que assimile a informação e de novo me ruborizo. Tornou-se a romper o filtro que separa meu cérebro da boca. Não posso acreditar que disse algo assim em voz alta.

— Que planos tem para os próximos dias? — Ele me pergunta em tom suave.

— Hoje trabalho, a partir do meio-dia. Que horas são? — exclamo assustada.

— Pouco mais de dez horas. Tem tempo de sobra. E amanhã?   Colocou os cotovelos sobre a mesa e apoiou o queixo em seus compridos e finos dedos.

— Kate e eu vamos começar a empacotar. Mudamos para Seattle no próximo fim de semana, e eu trabalho no Clayton's toda esta semana.

— Já têm casa em Seattle?

— Sim.

— Onde?

— Não recordo o endereço. No distrito de Pike Market.

— Não é longe de minha casa, — diz sorrindo. — E no que vais trabalhar em Seattle?

Onde quer chegar com todas estas perguntas? O santo inquisidor Christian Grey é quase tão pesado como a Santa inquisidora Katherine Kavanagh.

— Mandei meu curriculum para vários lugares para fazer estágio. Ainda espero resposta.

— E a minha empresa, como te comentei?

Ruborizo-me... Claro que não.

— Bom... não.

— O que tem de ruim com minha empresa?

— Sua empresa ou sua "companhia"? — pergunto-lhe com uma risada maliciosa.

— Está rindo de mim, senhorita Steele?

Inclina a cabeça e acredito que parece divertido, mas é difícil sabê-lo. Ruborizo e desvio meu olhar para meu café da manhã. Não posso olhá-lo nos olhos quando fala nesse tom.

— Eu gostaria de morder esse lábio — sussurra perturbadoramente

Não estou consciente de que estou mordendo meu lábio inferior. Depois de um leve susto, fico boquiaberta. É a coisa mais sexy que me disse. Meu coração pulsa a toda velocidade e acredito que estou ofegando. Meu Deus! Estou tremendo, totalmente perdida e meio doida. Mexo-me na cadeira e procuro seu impenetrável olhar.

— Por que não o faz? — o desafio em voz baixa.

— Porque não vou te tocar, Anastásia... não até que tenha seu consentimento por escrito — diz-me esboçando um ligeiro sorriso.

O quê?

— O que quer dizer?

— Exatamente o que falei. — Sussurra e move a cabeça divertido, mas também impaciente.

— Tenho que lhe mostrar isso Anastásia. A que hora sai do trabalho esta tarde?

— Às oito.

— Bem, poderíamos ir jantar na minha casa em Seattle, esta noite ou no sábado que vem, onde lhe explicaria isso. Você decide.

— Por que não me pode dizer isso agora?

— Porque estou desfrutando o meu café da manhã e de sua companhia. Quando você souber, certamente não quererá voltar a me ver.

— O que significa tudo isto? Trafica com meninos de algum recôndido fundão do mundo para prostituí-los? Faz parte de alguma perigosa gangue mafiosa?

Isso explicaria por que é tão rico. É profundamente religioso? É impotente? Seguro que não... poderia me demonstrar isso agora mesmo.   Incomodo-me pensando em todas as possibilidades. Isto não leva a nenhuma parte. Eu gostaria de resolver o enigma de Christian Grey, o quanto antes. Se isso implicar que seu segredo é tão grave que não vou querer voltar ou ter nada com ele, então, a verdade será um alívio. Não te engane!, grita o meu subconsciente. Terá que ser algo muito mau para que saia correndo.

— Esta noite.

— Esta noite.

Levanta uma sobrancelha.

— Como Eva, quer provar quanto antes o fruto da árvore da ciência.

Solta uma risada maliciosa.

— Está rindo de mim, senhor Grey? — pergunto-lhe em tom suave.

Olha-me apertando os olhos e saca seu BlackBerry. Tecla um número.

— Taylor, vou necessitar do Charlie Tango.

Charlie Tango! Quem é esse?

— Desde Portland. A... digamos às oito e meia... Não, fica na escala... Toda a noite.

Toda a noite!

— Sim. Até amanhã pela manhã. Pilotarei de Portland a Seattle.

Pilotará?

— Piloto disponível ás dez e meia.

Deixa o telefone na mesa. Nem por favor, nem obrigado.

— As pessoas sempre fazem o que lhes manda?

— Eles devem fazê-lo, se não quiserem perder seu trabalho, — ele responde-me inexpressivo.

— E se não trabalharem para ti?

— Bom, posso ser muito convincente, Anastásia. Deveria terminar o café da manhã. Logo a levarei para casa. Passarei para te buscar pelo Clayton's as oito, quando sair. Voaremos à Seattle.

— Voaremos?

— Sim. Tenho um helicóptero.

Olho para ele boquiaberta. Segunda entrevista com o misterioso Christian Grey. De um café a um passeio em helicóptero. Uau.

— Iremos a Seattle de helicóptero?

— Sim.

— Por quê?

Ele sorri perversamente.

— Porque posso. Termine o café da manhã.

Como vou comer agora? Vou a Seattle de helicóptero com Christian Grey. E quer me morder o lábio... Estremeço só de pensar.

— Coma, — ele diz bruscamente. — Anastásia, não suporto jogar comida fora... Coma.

— Não posso comer tudo isto, — digo olhando o que ficou na mesa.

— Coma o que há em seu prato. Se ontem tivesse comido como devido, não estaria aqui e eu não teria que mostrar minhas cartas tão cedo.

Aperta os lábios. Parece zangado.

Franzo o cenho e miro a comida que há em meu prato, já fria. Estou muito nervosa para comer, Christian. Você não entende? Explica meu subconsciente. Mas sou muito covarde para dizê-lo em voz alta, sobretudo, quando parece tão áspero. Mmm... como um menino pequeno. A ideia me parece divertida.

— O que parece tão engraçado? — pergunta-me.

Como não me atrevo a dizer-lhe, não levanto os olhos do prato. Enquanto eu como a última parte da panqueca, elevo o olhar. Observa-me com olhos escrutinadores.

— Boa garota. Levar-te-ei para casa assim que tenha secado o cabelo. Não quero que fique doente.

Suas palavras têm um pouco de promessa implícita. O que quer dizer? Levanto-me da mesa. Por um segundo me pergunto se deveria lhe pedir permissão, mas descarto a ideia. Parece-me que abriria um precedente perigoso. Dirijo-me a seu quarto, mas uma ideia me detém.

— Onde dormiu?

Viro-me para olhá-lo. Está ainda sentado à mesa de jantar. Não vejo mantas nem lençóis pela sala. Possivelmente já os tenha recolhido.

— Em minha cama, — responde-me, de novo, com olhar impassível.

— OH.

—Sim, para mim também foi uma novidade, — Ele diz sorrindo. —Dormir com uma mulher... sem sexo.

— Sim, "sexo", — digo e ruborizo, é obvio.

—Não, — responde-me movendo a cabeça e franzindo o cenho, como se acabasse de recordar algo desagradável. — Sinceramente, só dormir com uma mulher.

Agarra o jornal e segue lendo.

Que significa isso? Alguma vez dormiu com uma mulher? É virgem? Duvido, de verdade. Fico olhando-o sem acreditar nisso. É a pessoa mais enigmática que já conheci. Dei-me conta de que dormi com Christian Grey. Quanto teria dado para estar consciente e vê-lo dormir? Vê-lo vulnerável. Custa-me imaginá-lo. Bom, supõe-se que o descobrirei esta mesma noite.

Já no quarto, procuro em uma cômoda e encontro o secador. Seco o cabelo como posso, lhe dando forma com os dedos. Quando terminei, vou ao banheiro. Quero escovar os dentes. Vejo a escova de Christian. Seria como colocar ele na boca. Mmm... Olho rapidamente para a porta do banheiro... me sentindo culpada. Está úmida. Deve tê-la utilizado. Agarro-a a toda pressa, coloco pasta de dente e me escovo rapidamente. Sinto-me como uma garota má. Resulta muito emocionante.

Recolho a camiseta, o sutiã e a calcinha de ontem, meto-os na bolsa que me trouxe Taylor e volto para a sala de estar a procurar da bolsa e da jaqueta. Para minha grande alegria, tenho um elástico de cabelo na bolsa. Christian me observa com expressão impenetrável enquanto me arrumo. Noto como seus olhos me seguem enquanto me espera que eu termine. Está falando com alguém no seu celular.

— Querem dois...? Quanto vai custar...? Bem, e que medidas de segurança temos ali...? Irã pelo Suez...? Ben Suam é seguro...? E quando a Darfur...? De acordo, adiante. Mantenha-me informado de como vão às coisas.

— Está pronta? — ele pergunta-me.

Confirmo. Pergunto-me sobre o que era a conversa. Pega uma jaqueta azul marinho, agarra as chaves do carro e se dirige à porta.

— Você primeiro, senhorita Steele, — murmura me abrindo a porta.

Tem um aspecto elegante, embora informal.

Fico olhando-o por um segundo mais. E pensando que dormi com ele esta noite, e que, fora às tequilas e o vômito, continua aqui. Não só isso, mas além disso quer me levar a Seattle. Por que a mim? Não o entendo. Cruzo a porta recordando suas palavras: "Há algo em ti...". Bom, o sentimento é mútuo, senhor Grey, e quero descobrir qual é seu segredo.

Percorremos o caminho em silencio até o elevador. Enquanto esperamos, levanto um instante à cabeça para ele, que está me olhando. Sorrio e ele franze os lábios.

Chega o elevador e entramos. Estamos sozinhos. De repente, por alguma inexplicável razão, provavelmente por estar tão perto em um lugar tão reduzido, a atmosfera entre nós muda e se carrega de elétrica e excitante antecipação. Acelera-me a respiração e o coração dispara. Ele olha um pouco para mim, com olhos totalmente impenetráveis. Olha-me o lábio.

— Merda a papelada. Encosta-se em mim e me empurra contra a parede do elevador. Antes que me dê conta, me sujeita os dois pulsos com uma mão, levanta-os acima da minha cabeça e me imobiliza contra a parede com os quadris. Minha mãe. Com a outra mão me agarra pelo cabelo, puxa-o para baixo para me levantar o rosto e cola seus lábios aos meus. Quase me faz mal. Gemo o que lhe permite aproveitar a ocasião para colocar a língua e me percorrer a boca com perita perícia. Nunca me beijaram assim. Minha língua acaricia timidamente a sua e se une a uma lenta e erótica dança de sensações, de sacudidas e empurradas. Levanta a mão e me agarra a mandíbula para que não me mova. Estou indefesa, com as mãos unidas acima da cabeça, o rosto preso e seus quadris me imobilizando.

Sinto sua ereção contra meu ventre. Meu deus... Deseja-me. Christian Grey, o deus grego, deseja-me, e eu o desejo, aqui... Agora, no elevador.

— É... tão... doce, — ele murmura entrecortadamente.

O elevador se detém, abre-se a porta, e em um abrir e fechar de olhos me solta e se separa de mim. Três homens trajados de ternos nos olham e entram sorridentes. Pulsa-me o coração a toda pressa. Sinto-me como se tivesse subido correndo por um grande morro. Quero me inclinar e me sujeitar às risadas, mas seria muito óbvio.

Eu o olho. Parece absolutamente tranquilo, como se tivesse estado fazendo palavras cruzadas do Seattle Time. Que injusto. Não o afeta o mínimo a minha presença? Olha-me de esguelha e deixa escapar um ligeiro suspiro. Valeu, afeta-o, e a pequena deusa que levo dentro de mim, sacode os quadris e dança um SAMBA para celebrar a vitória. Os homens de negócios descem no primeiro andar.

— Você escovou os dentes — ele fala me olhando fixamente.

— Usei sua escova.

Seus lábios esboçam um meio sorriso.

— Ai, Anastásia Steele, o que vou fazer contigo?

As portas se abrem no vestíbulo, agarra-me a mão e sai comigo.

— O que terão os elevadores? — ele murmura para si mesmo, cruzando o vestíbulo em grandes pernadas. Luto por manter seu passo, porque todo meu raciocínio ficou esparramado pelo chão e as paredes do elevador número 3 do hotel Heathman.

        

Christian abriu a porta do passageiro do seu Audi SUV preto, e eu subi. É um carro legal. Ele não mencionou a explosão de paixão que eclodiu no elevador. Devo fazer isso? Deveríamos falar sobre o assunto ou fingir que não aconteceu? Não pareceu real, meu adequado primeiro beijo sem restrição. Com o passar do tempo, atribuí-o um caráter mítico como a lenda do rei Artur ou a Cidade Perdida de Atlantis. Nunca aconteceu, nunca existiu. Talvez eu tenha imaginado tudo. Não.

Eu toquei meus lábios, estavam inchados de seu beijo. Definitivamente, aconteceu. Sou uma mulher mudada. Eu quero este homem, desesperadamente, e ele me quer.

Olho-o. Christian está como de costume: correto, educado e um pouco distante.

Tão confuso.

Ele liga o motor e abandona sua vaga no estacionamento. Liga o leitor de MP3. O interior do carro foi preenchido pela mais doce e mais mágica música que duas mulheres cantavam. Uau... todos os meus sentidos estão em desordem, por isso estou duplamente afetada. Enviou arrepios deliciosos a minha coluna vertebral. Christian se dirigiu para SW Park Avenue, e guiou com uma fácil e preguiçosa confiança.

— O que estamos ouvindo?

— É o Dueto das Flores de Delibes, da ópera Lakmé. Você gostou?

— Christian, é maravilhoso.

— É, não é?

Ele sorriu enquanto olhava para mim. E por um momento aparentou sua idade, jovem, despreocupado e bonito até perder o sentido. É esta a chave para chegar a ele? A música? Sento-me e ouço as vozes angélicas, sussurrantes e sedutoras.

— Pode voltar a tocá-la?

— Claro.

Christian apertou um botão, e a música voltou a me acariciar. Invadiu meus sentidos de forma lenta, suave e doce.

— Você gosta de música clássica? — Perguntei-lhe tentando descobrir algo de suas preferências pessoais.

— Meu gosto é eclético, Anastásia. De Thomas Talis a Kings of Leon. Depende de meu estado de ânimo. E o seu?

— O meu também. Embora não conheça o Thomas Talis.

Voltou-se em minha direção, me olhou um instante e voltou a fixar os olhos na estrada.

— Algum dia te mostrarei algo dele. É um compositor britânico do século XVI. Música coral eclesiástica da época dos Tudor. —Ele sorriu-me. —Parece muito esotérico, eu sei, mas é mágico, Anastásia.

Pressionou um botão e começou a soar os Kings of Leon. Este eu conheço. "Sex on Fire." Muito oportuno. Repentinamente, o som de um celular interrompeu a música. Christian apertou um botão do volante.

— Grey. — Respondeu bruscamente.

— Sr.Grey, sou Welch. Tenho a informação que pediu.

Uma voz áspera e imaterial chegou através dos alto-falantes.

— Bom. Mande-me por e-mail. Algo mais?

— Nada mais, senhor.

Apertou o botão, a chamada encerrou e voltou a tocar a música. Nem adeus, nem obrigado. Estou tão feliz que eu nunca seriamente considerei trabalhar para ele.

Estremeço sozinha só de pensar. É muito controlador e frio com seus empregados. O telefone voltou a interromper a música.

— Grey.

— Mandou-lhe por e-mail uma informação confidencial, Sr. Grey.

Era uma voz de mulher.

— Bom. Isso é tudo, Andrea.

— Tenha um bom dia, senhor.

Christian desligou ao pressionar um botão do volante. Logo que a música recomeçou, o telefone voltou a tocar. Nisto consistia sua vida, em constantes telefonemas irritantes?

— Grey. — Disse bruscamente.

— Olá, Christian. Relaxou?

— Olá, Eliot... Estou no viva voz e não estou sozinho no carro.

Christian suspirou.

— Quem está contigo?

Christian balançou a cabeça.

— Anastásia Steele.

— Olá, Ana!

— Ana!

— Olá, Eliot.

— Falaram-me muito de ti. — Eliot Murmurou com voz rouca.

Christian franziu o cenho.

— Não acredite em uma palavra do que Kate te contou. — Ana disse.

Eliot riu.

— Estou levando Anastásia para casa. — Christian disse usando meu nome completo. — Quer que te apanhe?

— Claro.

— Vejo você mais tarde.

Christian desligou o telefone e a música voltou a tocar.

— Por que você insiste em chamar-me Anastásia?

— Porque é seu nome.

— Prefiro Ana.

— De verdade?

Quase chegamos a minha casa. Não demoramos muito.

— Anastásia... — Disse-me pensativo.

Olhei-o com uma expressão má, mas ele não se importou.

— O que aconteceu no elevador... não voltará a acontecer. Bom, a menos que seja premeditado. — Ele disse.

Parou o carro em frente a minha casa. Dei-me conta, de repente, que não me perguntou onde eu vivia. Já sabia. Claro que sabia onde vivo, pois me enviou os livros. Como não o faria um caçador, com um rastreador de celular e proprietário de um helicóptero?

Por que não vai voltar a me beijar? Faço um gesto de desgosto ao pensar nisso. Não o entendo. Honestamente, seu sobrenome deveria ser Enigmático, não Grey. Ele saiu do carro, andando com facilidade, suas pernas longas deram a volta com graça ao redor do carro para o meu lado a fim de abrir a porta. Sempre é um perfeito cavalheiro, exceto, possivelmente, em estranhos e preciosos momentos nos elevadores. Ruborizei-me e o pensamento que eu tinha sido incapaz de tocar adentrou na minha mente. Queria deslizar meus dedos por seu cabelo alvoroçado, mas não podia mover as mãos. Senti-me frustrada ao lembrar.

— Gostei do que aconteceu no elevador. — Murmurei ao sair do carro.

Não estou segura se ouvi um ofegar afogado, mas escolhi fazer caso omisso e subi os degraus da entrada.

Kate e Eliot estavam sentados à mesa. Os livros de quatorze mil dólares não estavam ali, felizmente. Tenho planos para eles. Kate mostrou um sorriso ridículo e pouco habitual, e sua juba despenteada lhe dava um ar muito sexy. Christian me seguiu até a sala de estar, e embora Kate sorrisse com uma expressão de ter passado uma grande noite, o olhou com desconfiança.

— Olá, Ana.

Levantou-se para me abraçar e no momento que me separou um pouco, me olhou de cima a baixo. Franziu o cenho e se voltou para Christian.

— Bom dia, Christian! — Disse-lhe em tom ligeiramente hostil.

— Senhorita Kavanagh — Respondeu em seu endurecido tom formal.

— Christian, seu nome é Kate, — Eliot resmungou.

— Kate.

Christian assentiu com educação e encarou Eliot, que riu e se levantou para também me abraçar.

— Olá, Ana.

Sorri e seus olhos azuis brilharam. Fiquei bem imediatamente. É óbvio que não tinha nada a ver com Christian, mas, claro, são irmãos adotivos.

— Olá, Eliot.

Sorri para ele e me dei conta de que mordia meus lábios.

— Eliot, temos que ir. — Christian disse em tom suave.

— Claro.

Virou-se para Kate, abraçou-a e lhe deu um interminável beijo.

Jesus... Arrumem um quarto! Olhei para meus pés, incômoda. Levantei a visão para Christian, que me olhava fixamente. Sustentei-lhe o olhar. Por que não me beija assim? Eliot continuou beijando Kate, empurrou-a para trás e a fez dobrar-se de forma tão teatral que o cabelo dela quase toca o chão.

— Até mais, querida! — Disse-lhe sorridente.

Kate se derreteu. Nunca antes a tinha visto derretendo-se assim. Veio-me à cabeça as palavras "formosa" e "complacente". Kate, complacente. Eliot deve ser muito bom. Christian revirou os olhos e me olhou com expressão impenetrável, embora possivelmente a situação o divertisse um pouco. Apanhou uma mecha de meu cabelo que escapou do meu rabo de cavalo e o pôs atrás da orelha. Minha respiração entrecortou e ele inclinou minha cabeça com seus dedos. Seus olhos se suavizaram e passou o polegar por meu lábio inferior. O sangue queimou através das minhas veias. E imediatamente retirou a mão.

— Até mais, querida. — Murmurou.

Não pude evitar rir, porque a frase não combinava com ele. Mas embora saiba que está esquivando-se, aquelas palavras ficaram cravadas dentro de mim.

— Passarei para te buscar as oito.

Deu meia volta, abriu a porta da frente e saiu para a varanda. Eliot o seguiu até o carro, mas se voltou e lançou outro beijo para Kate. Senti uma inesperada pontada de ciúmes.

— E então? — Kate perguntou-me com evidente curiosidade enquanto os observamos subir no carro e afastar-se.

— Nada. — Respondi bruscamente, com a esperança de que isso a impedisse de continuar com as perguntas.

Entramos em casa.

— Mas é evidente que sim! — Disse-me.

Não posso dissimular a inveja. Kate sempre consegue enredar os homens. É irresistível, bonita, sexy, divertida, atrevida... Justamente o contrário de mim. Mas o sorriso com o qual me respondeu é contagioso.

— Vou vê-lo novamente esta noite.

Aplaudiu e pulou como uma menina pequena. Não pode reprimir seu entusiasmo e sua alegria, e eu não pude evitar me alegrar. Era interessante ver Kate contente.

— Esta noite Christian vai levar-me a Seattle.

— A Seattle?

— Sim.

— E possivelmente ali...?

— Assim espero.

— Então você gosta dele, não é?

— Sim.

— Você gosta o suficiente para...?

— Sim.

Ergueu as sobrancelhas.

— Uau. Por fim Ana Steele se apaixona por um homem, e é Christian Grey, o bonito e sexy multimilionário.

— Claro, claro, é apenas pelo dinheiro.

Sorri afetadamente até que ao final tivemos ambas, um ataque de riso.

— Essa blusa é nova? — Perguntou-me.

Deixei que ela soubesse todos os detalhes desinteressantes sobre a minha noite.

— Já te beijou? —Perguntou-me enquanto preparava um café.

Ruborizei-me.

— Uma vez.

— Uma vez! — Exclamou.

Assenti bastante envergonhada.

— É muito reservado.

Kate franziu o cenho.

— Que estranho.

— Não acredito, na verdade, que a palavra seja "estranho".

— Temos que nos assegurar de que esta noite esteja irresistível. —Disse-me muito decidida.

OH, não... Já vejo que vai ser um tempo perdido, humilhante e doloroso.

— Tenho que estar no trabalho em uma hora.

— Pode trabalhar nesse tempo. Vamos.

Kate segurou em minha da mão e me levou para casa.

Embora houvesse muito trabalho no Clayton's, as horas passaram-se lentamente. Como estamos em plena temporada do verão, tenho que passar duas horas repondo as estantes depois de ter fechado a loja. É um trabalho mecânico que me deixava tempo para pensar. A verdade é que em todo o dia não pude fazê-lo.

Seguindo os conselhos incansáveis e francamente impertinentes de Kate, depilei minhas pernas, axilas e sobrancelhas, assim fiquei com a pele toda irritada. Era uma experiência muito desagradável, mas Kate me assegurou que era o que os homens esperavam nestas circunstâncias. Que mais esperará Christian? Tenho que convencer Kate de que quero fazê-lo. Por alguma estranha razão, ela não confiava nele, possivelmente porque fosse tão tenso e formal. Avisei-a que não saberia dizer como, mas prometi que lhe enviaria uma mensagem assim que chegasse a Seattle. Não falei nada sobre o helicóptero para que não enlouquecesse.

Também havia a questão sobre José. Havia três mensagens e sete chamadas perdidas suas no meu celular. Também ligou para casa, duas vezes. Kate tem sido muito vaga a respeito de onde eu estou. Ele vai saber que ela me encobre. Kate sempre era muito franca. Mas decidi deixá-lo sofrer um pouco. Ainda estou zangada com ele.

Christian comentou algo sobre uns papéis, e não sei se estava de brincadeira ou se ia ter que assinar algo. Desesperei-me por ter que andar conjecturando todo o tempo. E para o cúmulo das desgraças, estou muito nervosa. Hoje é o grande dia. Estou preparada por fim? Minha deusa interior me observava golpeando impaciente o chão com um pé. Faz anos que está preparada, e está preparada para algo com alguém como Christian Grey, embora ainda não entenda o que vê em mim... a pacata Ana Steele... Não fazia sentido.

Era pontual, é obvio, e quando saí do Clayton's já me esperava, apoiado na parte de trás do carro. Abriu a porta para mim e sorriu cordialmente.

— Boa tarde, senhorita Steele. — Disse-me.

— Sr. Grey.

Inclinei a cabeça educadamente e entrei no assento traseiro do carro. Taylor estava sentado ao volante.

— Olá, Taylor, — Disse-lhe.

— Boa tarde, Srta. Steele. — Respondeu-me em tom educado e profissional.

Christian entrou pela outra porta e brandamente me apertou a mão. Um calafrio percorreu todo meu corpo.

— Como foi o trabalho? — Perguntou-me.

— Interminável. — Respondi-lhe com voz rouca, muito baixa e cheia de desejo.

— Sim, o meu também, pareceu muito longo.

—O que tem feito? — Consegui perguntar.

— Andei com Eliot.

Seu polegar acariciava meus dedos por trás. Meu coração deixou de bater e minha respiração se acelerou. Como é possível que me afete tanto? Apenas tocou uma pequena parte de meu corpo, e meus hormônios dispararam.

O heliporto estava perto, assim, antes que me desse conta, já havíamos chegado. Perguntei-me onde estaria o lendário helicóptero. Estamos em uma zona da cidade repleta de edifícios, e até eu sei que os helicópteros necessitam espaço para decolar e aterrissar. Taylor estacionou, saiu e abriu minha porta. Em um momento, Christian estava ao meu lado e pegou minha mão novamente.

— Preparada? — Perguntou-me.

Assenti. Queria lhe dizer: "Para tudo", mas estava muito nervosa para articular qualquer palavra.

— Taylor.

Fiz um gesto para o chofer, entramos no edifício e nos dirigimos para os elevadores. Um elevador! A lembrança do beijo daquela manhã voltou a me obcecar.

Não pensei em nada mais por todo o dia. Mesmo no Clayton's não podia tirar tudo da cabeça. O Sr. Clayton precisou gritar comigo duas vezes para que voltasse para a Terra. Dizer que estive distraída era pouco. Christian me olhou com um ligeiro sorriso nos lábios. Ah! Ele também estava pensando no mesmo.

— São apenas três andares. — disse-me com olhos divertidos.

Tenho certeza que tem telepatia. É horripilante.

Pretendi manter o rosto impassível quando entramos no elevador. As portas se fecharam e aí está a estranha atração elétrica, crepitando entre nós, apoderando-se de mim. Fechei os olhos em uma vã intenção de dissipá-la. Ele apertou minha mão com força, e cinco segundos depois as portas se abriram no terraço do edifício. E lá estava, um helicóptero branco com as palavras GREY ENTERPRISES HOLDINGS, Inc. em cor azul e o logotipo da empresa de outro lado. Certamente que isto é esbanjar os recursos da empresa.

Ele me levou a um pequeno escritório onde um velho estava sentado atrás da mesa.

— Aqui está seu plano de vôo, Sr. Grey. Revisamos tudo. Está preparado, lhe esperando, senhor. Pode decolar quando quiser.

— Obrigado, Joe. — Respondeu-lhe Christian com um sorriso quente.

Ora, alguém que merecia que Christian o tratasse com educação. Possivelmente não trabalhava para ele. Observei o ancião assombrada.

— Vamos. — Disse-me Christian.

E nos dirigimos ao helicóptero. De perto era muito maior do que pensava. Supunha que seria um modelo pequeno, para duas pessoas, mas contava com, no mínimo, sete assentos. Christian abriu a porta e me indicou um assento na frente.

— Sente-se. E não toque em nada. — Ordenou-me e subiu por trás de mim.

Fechou a porta. Alegrei-me que toda a zona ao redor estivesse iluminada, porque do contrário, nada se veria na cabine. Acomodei-me no assento que me indicou e ele se inclinou para mim para me atar o cinto de segurança. É um cinto de quatro pontos com todas as tiras se conectando a um fecho central. Apertou tanto as duas tiras superiores, que eu não podia me mover.

Ele estava tão próximo a mim, muito concentrado no que fazia. Se pudesse me inclinar um pouco para frente, afundaria o nariz em seu cabelo. Cheirava a limpo, fresco, divino, mas eu estava firmemente atada ao assento e não podia me mover. Levantou o olhar para mim e sorriu, como se lhe divertisse essa brincadeira que apenas ele entendesse. Seus olhos brilharam. Estava tentadoramente perto. Contive a respiração enquanto me aperta uma das tiras superiores.

— Está segura. Não pode escapar. — Sussurrou-me. — Respira, Anastásia. — Acrescentou em tom doce.

Aproximou-se, acariciou meu rosto, correndo os dedos longos até meu queixo, que pegou entre o polegar e o indicador. Inclinou-se para frente e me deu um rápido e casto beijo. Fiquei impactada, me revolvendo por dentro ante o excitante e inesperado contato de seus lábios.

— Eu gosto deste cinto. — Sussurrou-me.

O que?

Acomodou-se ao meu lado, atou-se ao seu assento e em seguida começou um processo de verificar medidores, virar interruptores e apertar botões do enorme gama de marcadores, luzes e botões na minha frente. Pequenas esferas piscaram luzinhas, e todo o painel de comando estava iluminado.

— Ponha os fones de ouvido — Disse-me apontando uns fones na minha frente.

Coloquei-os e o motor começou a girar. Era ensurdecedor. Ele também colocou os fones e seguiu movendo as alavancas.

— Estou fazendo todas as comprovações prévias ao vôo.

Ouvi a imaterial voz de Christian pelos fones. Virou-se para mim e sorriu.

— Sabe o que faz? — Perguntei-lhe.

Voltou-se para mim e sorriu.

— Fui piloto por quatro anos, Anastásia. Está a salvo comigo. — Disse sorrindo-me de orelha a orelha. — Bom, ao menos enquanto estivermos voando. — Acrescentou com uma piscadela.

Piscando... Christian!

— Pronta?

Concordei com os olhos muito abertos.

— De acordo, torre de controle. Aeroporto de Portland, aqui é Charlie Tango Golfe – Golf Echo Hotel, preparado para decolar. Espero confirmação, câmbio.

— Charlie Tango, adiante. Aqui é aeroporto de Portland, avance por um-quatro-mil, direção zero-um-zero, câmbio.

— Entendido, torre, aqui Charlie Tango. Câmbio e desligo. Em marcha. — Acrescentou dirigindo-se a mim.

O helicóptero se elevou pelos ares lenta e brandamente.

Portland desapareceu enquanto adentrávamos ao espaço aéreo, embora meu estômago ficasse ancorado no Oregón. Uau! As luzes se reduziram até converterem-se em uma ligeira piscada a nossos pés. É como olhar para o exterior de um aquário. Uma vez no alto, a verdade é que não se vê nada. Está tudo muito escuro. Nem sequer a lua iluminava um pouco nosso trajeto. Como poderia ver por onde vamos?

— Inquietante, não é? — Christian disse-me pelos fones.

— Como sabe que vai na direção correta?

— Aqui. — Respondeu-me assinalando com seu comprido dedo um indicador com uma bússola eletrônica. — É um Eurocopter EC135. Um dos mais seguros. Está equipado para voar a noite. — Olhou-me e sorriu, — Em meu edifício há um heliporto. Dirigimo-nos para lá.

Óbvio que em seu edifício havia um heliporto. Senti-me totalmente por fora. As luzes do painel de controle lhe iluminavam ligeiramente o rosto. Estava muito concentrado e não deixava de controlar os diversos mostradores situados em frente a ele. Observo seus traços com todos os detalhes. Tem um perfil muito bonito, o nariz reto e a mandíbula quadrada. Eu gostaria de deslizar a língua por sua mandíbula. Não se barbeou, e sua barba de dois dias fez a perspectiva duplamente tentadora. Mmm...

Eu gostaria de sentir sua aspereza sob minha língua, meus dedos, meu rosto.

— Quando voa de noite, não vê nada. Tem que confiar nos aparelhos. — Disse interrompendo minha fantasia erótica.

— Quanto durará o vôo? — Consegui dizer, quase sem fôlego.

Não estava pensando em sexo, de jeito nenhum...

— Menos de uma hora... Temos o vento a favor.

Menos de uma hora para Seattle... Nada mal. Claro, estávamos voando.

Eu tenho menos de uma hora antes da grande revelação. Sinto todos os músculos da barriga contraídos. Tenho um grave problema com as mariposas. Reproduzem-se em meu estômago. O que me terá preparado?

— Está bem, Anastásia?

— Sim.

Respondi-lhe com a máxima brevidade porque os nervos me oprimiam.

Acredito que sorriu, mas é difícil ter certeza na escuridão. Christian acionou outro botão.

— Aeroporto de Portland, aqui Charlie Tango, em um-quatro-mil, câmbio.

Trocava informação com o controle de tráfego aéreo. Soou-me tudo muito profissional. Acredito que estamos passando do espaço aéreo de Portland para o do aeroporto de Seattle.

— Entendido, Seattle, preparado, câmbio e desligo.

Apontou um pequeno ponto de luz à distância e disse:

— Olhe. Aquilo ali é Seattle.

— Sempre impressiona assim às mulheres? "Venha dar uma volta em meu helicóptero"? — Perguntei-lhe realmente interessada.

— Nunca trouxe a uma mulher ao helicóptero, Anastásia. Também isto é uma novidade. — Respondeu-me em tom tranquilo, embora sério.

Ora, não esperava esta resposta. Também uma novidade? Ah, referia-se a dormir com uma mulher?

— Está impressionada?

— Sinto-me sobressaltada, Christian.

Sorriu.

— Sobressaltada?

Por um instante demonstrou ter sua idade.

Assenti.

— Faz tudo... tão bem.

— Obrigado, Srta. Steele — Disse-me educadamente.

Acredito que gostou de meu comentário, mas não estou segura.

Durante um momento atravessamos a escura noite em silêncio. O ponto de luz de Seattle ficava cada vez maior.

— Torre de Seattle ao Charlie Tango. Plano de vôo à Escala em ordem. Adiante, por favor. Preparado. Câmbio.

— Aqui Charlie Tango, entendido, Seattle. Preparado, câmbio e desligo.

— Está claro que você se diverte. — Murmurei.

— O que?

Encarou-me. A tênue luz dos instrumentos parecia zombador.

— Voar. — Respondi-lhe.

— Exige controle e concentração... como não iria me encantar? Embora o que mais gosto é planejar.

— Planejar?

— Sim. Vôo sem motor, para que me entenda. Planadores e helicópteros. Piloto as duas coisas.

— Ah!

Passatempos caros. Lembrei-me que me disse isso na entrevista. Eu gosto de ler e de vez em quando vou ao cinema. Nada de mais.

— Charlie Tango, adiante, por favor, câmbio.

A voz imaterial do controle de tráfego aéreo interrompeu minhas fantasias. Christian respondia em um tom seguro de si mesmo.

Seattle estava cada vez mais perto. Agora estamos nos subúrbios. Uau! Era absolutamente impressionante. Seattle de noite, do céu...

— É bonito, não é verdade? — Perguntou-me Christian em um murmúrio.

Aquiesci entusiasmada. Parecia de outro mundo, irreal, e sinto como se estivesse em um gigante estúdio de cinema, possivelmente no filme favorito de José, Blade Runner.

A lembrança de José tentando me beijar me incomodava. Começo a me sentir um pouco cruel por não ter respondido a suas chamadas. Tenho certeza que pode esperar até a manhã.

— Chegaremos em alguns minutos. — Christian murmurou.

E de repente senti meus ouvidos zumbirem, o coração disparar e a adrenalina percorrer meu corpo. Ele recomeçou a falar com o controle de tráfego aéreo, mas já não o escutava. Acreditava que iria desmaiar. Meu destino estava em suas mãos.

Voamos entre edifícios, e em frente a nós vi um arranha céu com um heliporto no terraço. A palavra “Escala” estava pintada em branco no topo do edifício. Estava cada vez mais perto, ia aumentando... como minha ansiedade. Deus, eu esperava não decepcioná-lo.

Ele vai me achar desprovida de alguma forma. Gostaria que tivesse atendido a Kate e tivesse posto um de seus vestidos, mas eu gostava de meu jeans negro, e vestia uma camisa verde e uma jaqueta negra de Kate. Estava bastante elegante. Agarrei-me à borda de meu assento cada vez com mais força. I posso fazer isso, eu posso fazer isso, repetia-me como um mantra enquanto nos aproximávamos do arranha céu.

O helicóptero reduziu a velocidade e ficou suspenso no ar. Christian aterrissou na pista do terraço do edifício. Tinha um nó no estômago. Não saberia dizer se eram nervos pelo que iria acontecer, ou alívio por termos chegado vivos, ou medo que a coisa não acontecesse bem. Desligou o motor, e o movimento e o ruído do rotor diminuiu até que, só o que se ouvia era o som da minha respiração entrecortada. Christian retirou os fones e se inclinou para tirar os meus.

— Chegamos. — Disse-me em voz baixa.

Seu olhar era intenso, a metade na escuridão e a outra metade iluminada pelas luzes brancas de aterrissagem. Uma metáfora muito adequada para Christian: o cavalheiro escuro e o cavalheiro branco. Parecia tenso. Cerrou a mandíbula e entrecerrou os olhos. Abriu seu cinto de segurança e se inclinou para abrir o meu. Seu rosto estava a centímetros do meu.

— Não tem que fazer nada que não queira fazer. Você sabe, não é?

Seu tom era muito sério, inclusive angustiado, e seus olhos, ardentes. Pegou-me de surpresa.

— Nunca faria nada que não quisesse fazer, Christian.

E enquanto lhe dizia, sentia que não estava de todo convencida, porque nestes momentos certamente faria algo pelo homem que estava sentado ao meu lado. Mas minhas palavras funcionaram e Christian se acalmou.

Encarou-me um instante com cautela e logo, apesar de ser tão alto, moveu-se com elegância até a porta do helicóptero e a abriu. Pulou, esperou-me e agarrou minha mão para me ajudar a descer à pista. No terraço do edifício havia muito vento e me punha nervosa o fato de estar em um espaço aberto a uns trinta andares de altura. Christian passou o braço pela minha cintura e me puxou firmemente contra ele.

— Vamos. — Gritou-me por cima do ruído do vento.

Arrastou-me até um elevador, digitou um número em um painel, e a porta se abriu. No elevador, completamente revestido de espelhos, fazia calor. Podia ver Christian em quantidade, para onde quer que eu olhasse, e a coisa boa era que ele também podia ver várias de mim. Digitou outro código, e as portas se fecharam e o elevador começou a descer.

Em poucos momentos estávamos em um vestíbulo totalmente branco. No meio havia uma mesa redonda de madeira escura com um enorme buquê de flores brancas. As paredes estavam cheias de quadros. Abriu uma porta dupla, e o branco se prolongou por um amplo corredor que nos levou até a entrada de uma sala palaciana. É o salão principal, de teto muito alto. Qualificá-lo de "enorme" seria pouco. A parede do fundo era de cristal e dava em uma sacada com uma magnífica vista da cidade.

À direita havia um imponente sofá em forma de “U” que permitiam sentar-se comodamente dez pessoas. Frente a ele, uma lareira ultramoderna de aço inoxidável... ou, possivelmente, de platina. O fogo aceso iluminava brandamente. À esquerda, junto à entrada, estava a área da cozinha. Toda branca, com as bancadas de madeira escura e um bar em que podiam sentar-se seis pessoas.

Junto à área da cozinha, em frente à parede de cristal, havia uma mesa de jantar rodeada de dezesseis cadeiras. E no fundo havia um enorme piano negro e resplandecente. Claro... certamente também tocava piano. Em todas as paredes havia quadros de todo tipo e tamanho. Em realidade, o apartamento parecia mais uma galeria que uma moradia.

— Dê-me a jaqueta? — Christian perguntou-me.

Nego com a cabeça. Ainda estava com frio da pista do helicóptero.

— Quer tomar uma taça? — Perguntou-me.

Pisquei. Depois do que se passou ontem? Está de brincadeira ou o que? Por um segundo pensei em lhe pedir uma marguerita, mas não me atrevi.

— Eu tomarei uma taça de vinho branco. Você quer uma?

— Sim, obrigada. — Murmurei.

Sentia-me incômoda neste enorme salão. Aproximei-me da parede de cristal e me dei conta de que a parte inferior do painel se abria a sacada em forma de acordeão. Abaixo se via Seattle, iluminada e animada. Volto para a área da cozinha, demorei uns segundos, porque estava muito longe da parede de cristal, onde Christian abria um vinho. Retirou sua jaqueta.

— Acha que está bem um Pouily Fumei?

— Não tenho a menor ideia sobre vinhos, Christian. Estou certa de que será perfeito.

Falei em voz baixa e entrecortada. Meu coração batia muito depressa. Queria sair correndo. Isto era luxo de verdade, de uma riqueza exagerada, tipo Bill Gates.

O que estava fazendo aqui? Sabia muito bem o que estava fazendo aqui, logrou meu subconsciente. Sim, quero ir para cama com Christian Grey.

— Toma. — Disse-me ao estender uma taça de vinho.

Até as taças são luxuosas, de cristais grossos e muito modernos. Tomei um gole. O vinho era ligeiro, fresco e delicioso.

— Você está muito quieta, e nem mesmo está corada. A verdade é que acredito que nunca te vi tão pálida, Anastásia. — Murmurou. — Está com fome?

Neguei com a cabeça. Não de comida.

— Que casa tão grande.

— Grande?

— Grande.

— É grande. — Admitiu com um olhar divertido.

Tomei outro gole do vinho.

— Sabe tocar? — Perguntei-lhe apontando para o piano.

— Sim.

— Bem?

— Sim.

— Claro, como não. Há algo que não faça bem?

— Sim... umas duas ou três coisas.

Tomou um gole de vinho sem tirar os olhos de cima de mim. Sinto que seu olhar me seguia quando me virei e olhei o imenso salão. Mas não deveria chamar-lhe "salão".

Não é um salão, a não ser uma declaração de princípios.

— Quer te sentar?

Concordei com a cabeça. Agarrou minha mão e me levou ao grande sofá de cor nata. Enquanto me sentava, assaltava-me a ideia de que pareço Tess Durbeyfield observando a nova casa do notário Alec d'Urbervile. A ideia me fez sorrir.

— O que te parece tão divertido?

Estava sentado ao meu lado, me olhando. Descansava a cabeça sobre a mão direita e o cotovelo estava apoiado na parte de trás do sofá.

— Por que me deu de presente precisamente Tess, de D'Urberville? — Perguntei-lhe.

Christian me olhou fixamente um momento. Acredito que lhe surpreendeu minha pergunta.

— Bom, disse-me que gostava de Thomas Hardy.

— Só por isso?

Até eu sou consciente de que minha voz soava decepcionada. Apertou os lábios.

— Pareceu-me apropriado. Eu poderia te empurrar para algum ideal impossível, como Angel Clare, ou te corromper completamente, como Alec d'Urbervile. — Murmurou.

Seus olhos brilharam impenetráveis e perigosos.

— Se apenas houver duas possibilidades, escolho a corrupção. —sussurrei enquanto o encarava.

Meu subconsciente me observava assombrada. Christian ficou boquiaberto.

— Anastásia, deixa de morder o lábio, por favor. Desconcentra-me. Não sabe o que diz.

— Por isso estou aqui.

Franziu o cenho.

— Sim. Desculpa-me um momento?

Desapareceu por uma grande porta no outro extremo do salão. Voltou em dois minutos com uns papéis nas mãos.

—Isto é um acordo de confidencialidade. — Encolheu os ombros e pareceu ligeiramente incômodo. — Meu advogado insistiu.

Estendeu-me os papéis. Fiquei totalmente perplexa.

— Se escolher a segunda opção, a corrupção, terá que assiná-los.

— E se não quiser assinar nada?

— Então fica com os ideais de Angel Clare, bom, ao menos na maior parte do livro.

— O que implica este acordo?

— Implica que não pode contar nada do que aconteça entre nós. Nada a ninguém.

Observei-o sem dar crédito. Merda. Tem que ser ruim, ruim de verdade, e agora tenho muita curiosidade por saber do que se trata.

— De acordo, assinarei.

Estendeu-me uma caneta.

— Nem sequer vai ler?

— Não.

Franziu o cenho.

— Anastásia, sempre deveria ler tudo o que assina. — Arremeteu.

— Christian, o que não entende é que em nenhum caso falaria sobre nós com ninguém. Nem sequer com Kate. Assim que dá no mesmo se assinar um acordo ou não. Se for tão importante para ti ou para seu advogado... que é óbvio que você falou de mim para ele, de acordo. Assinarei.

Observou-me fixamente e assentiu muito sério.

— Boa observação, Srta. Steele.

Assinei as duas cópias com um grandiloquente gesto e lhe devolvi uma. Dobrei a outra, enfiei-a na minha bolsa e tomei um comprido gole de vinho. Parecia muito mais valente do que em realidade me sentia.

— Quer dizer com isso que vais fazer amor comigo esta noite, Christian?

Maldita seja! Acabei de dizer isso? Abri ligeiramente a boca, mas em seguida se recompus.

— Não, Anastásia, não quer dizer isso. Em primeiro lugar, eu não faço amor. Eu fodo... duro. Em segundo lugar, temos muito mais papelada que arrumar. E em terceiro lugar, ainda não sabe do que se trata. Ainda poderia sair correndo. Veem, quero te mostrar meu quarto de jogos.

Fiquei boquiaberta. Fodo duro! Minha mãe. Isso soa tão... quente. Mas por que vamos ver um quarto de jogos? Estou perplexa.

— Quer jogar Xbox? — Perguntei-lhe.

Riu às gargalhadas.

— Não, Anastásia, nem Xbox, nem PlayStation. Venha.

Levantou-se e me estendeu a mão. Deixei que me levasse de volta para o corredor. À direita das portas duplas, de onde viemos havia outra porta que dava a uma escada.

Subimos ao andar de cima e viramos à direita. Retirou uma chave do bolsinho, virou a fechadura de outra porta e respirou fundo.

— Pode partir em qualquer momento. O helicóptero está preparado para te levar aonde queira. Pode passar a noite aqui e partir amanhã pela manhã. O que disser, para mim, estará bem.

— Abre a maldita porta de uma vez, Christian.

Abriu a porta e se afastou a um lado para que eu entrasse primeiro. Voltei a olhá-lo. Queria saber o que havia ali dentro. Parei e entrei.

E senti como se ele tivesse me transportado ao século XVI, à época da Inquisição espanhola.

Puta merda.

 

O primeiro que notei foi o cheiro: couro, madeira e cera com um ligeiro aroma de limão. É muito agradável, e a luz é tênue, sutil. Na realidade não vejo de onde sai, de algum lugar junto ao teto e emite um resplendor ambiental. As paredes e o teto eram de cor vinho escuro, o que dava à espaçosa sala um efeito uterino e o chão era de madeira envernizada muito velha. Na parede, de frente para a porta, havia um grande X de madeira, de mogno muito brilhante, com argolas nos extremos para ficar seguro. Por cima havia uma grande grade de ferro suspensa no teto, com no mínimo de dois metros quadrados, da qual se penduravam todo o tipo de cordas e algemas brilhantes. Perto da porta, dois grandes postes reluzentes e ornados, como balaústres de um parapeito, porém maior, estavam pendurados ao longo da parede como cortinas. Deles pendiam uma impressionante coleção de varas, chicotes e curiosos instrumentos com plumas.

Junto à porta havia um móvel de mogno maciço com gavetas muitas estreitas, como se estivessem destinados a guardar amostras de um velho museu. Por um instante me perguntei o que havia dentro. Quero saber? No canto do fundo vejo um banco acolchoado de couro de cor vermelha, e junto à parede, uma estante de madeira onde parecia guardar tacos de bilhar, mas um observador atento descobriria que continha varas de diversos tamanhos e grossura. No canto oposto havia uma sólida mesa de quase dois metros de largura, de madeira brilhante com pernas talhadas e debaixo, dois tamboretes combinando.

Mas o que dominava o quarto era uma cama. Era maior que as camas de casal, com dossel de quatro postes talhados no estilo rococó. Parecia de finais do século XIX. Debaixo do dossel via mais correntes e algemas reluzentes. Não havia roupa de cama… apenas um colchão coberto com um lençol vermelho e várias almofadas se seda vermelha em um extremo.

A uns metros dos pés da cama havia um grande sofá Chesterfield, colocado no meio da sala, de frente para a cama. Estranha distribuição… isso de colocar um sofá de frente para a cama. E sorri comigo mesmo. Parecia raro o sofá, quando na realidade era o móvel mais normal de toda a sala. Levantei os olhos e observei o teto. Estava cheio de mosquetões, a intervalos irregulares. Perguntei-me, por um segundo, para que serviam. Era estranho, mas toda esta madeira, as paredes escuras, a tênue luz e o couro vermelho, faziam com que o quarto parecesse doce e romântico… Era qualquer coisa menos isso. Era o que Christian entendia por doçura e romantismo.

Girei e ele estava olhando-me fixamente, como supunha, com uma expressão impenetrável. Avancei pela sala e me seguiu. As plumas tinham me intrigado. Decidi tocá-las. Era como um pequeno gato de noves rabos, porém mais grosso e com pequenas bolas de plástico nos extremos.

— É um chicote de tiras. — Christian disse em voz baixa e doce.

Um chicote de tiras... Nossa. Acredito que estou em estado de choque. Meu subconsciente sumiu, ficou mudo ou simplesmente morreu. Estou paralisada. Posso observar e assimilar, mas não articular o que sinto diante de tudo isso, porque estou em estado de choque. Qual é a reação adequada quando descobre que seu possível amante é um sádico ou um masoquista total? Medo... sim... essa parece ser a sensação principal. Agora percebo. Mas não dele. Não acredito que me machucaria. Bom, não sem meu consentimento. Várias perguntas nublaram minha mente. Por quê? Como? Quando? Com que frequência? Quem? Aproximei-me da cama e passei a mão por um dos postes. Era muito grosso e o talhe era impressionante.

— Diga algo — Pediu Christian com um tom enganosamente doce.

— Faz com as pessoas ou fazem com você?

Franziu a boca, não sabia se divertido ou aliviado.

— Pessoas? —Piscou um par de vezes, como se estivesse pensando o que responder. — Faço com mulheres que querem que o faça.

Não entendo.

— Se tem voluntárias dispostas a aceitá-lo, o que faço aqui?

— Porque quero fazê-lo com você, desejo.

— Oh.

Fiquei com a boca aberta. Por quê?

Fui para o outro canto do quarto, passei a mão pelo banco acolchoado, até a cintura e deslizei os dedos pelo couro. Gosta de machucar as mulheres. A ideia me deprimia.

— É um sádico?

— Sou um Amo.

Seus olhos cinza ficaram abrasadores, intensos.

— O que significa isso? — Perguntei com um sussurro.

— Significa que quero que se renda a mim, em tudo, voluntariamente.

Olhei com o cenho franzido, tentando assimilar a ideia.

— Porque faria algo assim?

— Para satisfazer-me. — Murmurou inclinando a cabeça.

Vejo que esboçou o sorriso.

Satisfazer-me! Quer que o satisfaça! Acho que fiquei com a boca aberta. Satisfazer Christian Grey. E nesse momento percebo que sim, que é exatamente o que quero fazer. Quero que ele desfrute comigo. É uma revelação.

— Digamos, em termos muito simples, que quero que queira me satisfazer. — Disse em voz baixa, hipnótica.

—Como tenho que fazer?

Senti a boca seca. Queria que tivesse mais vinho. Certo, entendo o de satisfazê-lo, mas o quarto de tortura isabelino me deixou desconcertada. Quero saber a resposta?

— Tenho normas e quero que as aceite. São normas que te beneficiam e me proporcionam prazer. Se cumprir essas normas para satisfazer-me, te recompensarei. Se não, te castigarei para que aprendas. — Sussurra. Enquanto fala comigo, olho para a estante de varas.

— E em que momento entra em jogo tudo isso? — Pergunto apontando com a mão ao redor do quarto.

— É parte do pacote de incentivos. Tanto da recompensa como do castigo.

— Então desfrutará exercendo sua vontade sobre mim.

— Se trata de ganhar sua confiança e seu respeito para que me permita exercer minha vontade sobre ti. Obterei um grande prazer, inclusive uma grande alegria, caso você se submeta. Quanto mais se submeter, maior será minha alegria. A equação é muito simples.

— Certo, e o que eu ganho de tudo isso?

Encolheu os ombros no que pareceu um gesto de desculpa.

—A mim. — Limitou-se a responder.

Deus meu… Christian me observava passar a mão pela vara.

— Anastásia, não tem maneira de saber o que pensa. — Murmurou nervoso. – Vamos voltar para baixo, assim poderei me concentrar melhor. Desconcentro-me muito contigo aqui.

Estendeu uma mão, mas não sabia se agora queria segurá-la.

Kate disse que era perigoso e tinha muita razão. Como ela sabia? Era perigoso para minha saúde, porque sabia que iria dizer que sim. E uma parte de mim quer gritar e sair correndo por este quarto e tudo o que representa. Sinto-me muito desorientada.

— Não vou te machucar, Anastásia.

Sabia que não estava mentindo. Segurei sua mão e saí com ele do quarto.

— Quero mostrar algo, se por acaso aceitar.

Em lugar de descer as escadas, girou a direita do quarto de jogos como ele o chamava e avançou pelo corredor. Passamos junto a várias portas até chegarmos à última. Do outro lado havia um dormitório com uma cama de casal. Tudo era branco… tudo: os móveis, as paredes, a roupa de cama. Era limpa e fria, mas como uma vista preciosa de Seattle desde a janela de cristal.

— Este será seu quarto. Pode decorá-lo a seu gosto e ter aqui o que quiser.

— Meu quarto? Espera que venha viver aqui? — Pergunto sem poder dissimular meu tom horrorizado.

— Viver não. Apenas, digamos, de sexta à noite até a noite de domingo. Temos que conversar sobre o tema e negociar. — Acrescentou em voz baixa e duvidosa.

— Dormirei aqui?

— Sim.

— Não contigo.

—Não. Já disse. Eu não durmo com ninguém. Apenas contigo quando se embebedou até perder o sentido. — Disse em tom de reprimenda.

Aperto meus lábios. Há algo que não se encaixa. O amável e cuidadoso Christian, que me resgata quando estou bêbada e me segura amavelmente enquanto vômito e o monstro que tem um quarto especial cheio de chicotes e algemas é o mesmo?

— Onde você dorme?

— Meu quarto está abaixo. Vamos, deve sentir fome.

— É estranho, mas acho que perdi a fome. — Murmurei sem vontade.

— Tem que comer Anastásia. — Chamou minha atenção.

Segurou minha mão e voltamos para o andar de baixo.

De volta para o salão incrivelmente grande, me senti inquieta. Estou à borda de um precipício e tenho que decidir se quero saltar ou não.

— Sou totalmente consciente de que estou indo por um caminho escuro, Anastásia, e por isso quero de verdade que pense bem. Com certeza tem coisas para perguntar-me. — Disse soltando minha mão e dirigindo-se com passo tranquilo para a cozinha.

Eu tenho. Mas por onde começo?

— Assinou um acordo de confidencialidade, assim que pode perguntar o que quiser e responderei.

Estou junto à bancada da cozinha e observo como abre a geladeira e tira um prato de queijo com dois enormes cachos de uva brancas e vermelhas. Deixa o prato sobre a mesa e começa a cortar o pão.

— Sente-se. — Disse apontando um banco junto à bancada.

Obedeço a sua ordem. Se vou aceitar, terei que me acostumar. Percebo que se mostrou dominante desde que o conheci.

— Falou sobre os papéis.

— Sim.

— A que se refere?

— Bom, além do acordo de confidencialidade, há um contrato que especifica o que faremos e o que não faremos. Tenho que saber quais são seus limites, e você tem que saber quais são os meus. Trata-se de um consenso, Anastásia.

— E se não quiser?

— Perfeito. — Responde com prudência.

— Mas, não teremos nenhuma relação? — Pergunto.

— Não.

—Por quê?

— É esse o único tipo de relação que me interessa.

— Por quê?

Encolheu os ombros.

— Sou assim.

— E como chegou a ser assim?

— Por que cada um é como é? É muito difícil saber. Porque uns gostam de queijo e outros odeiam? Você gosta de queijo? A senhora Jones, minha governanta deixou queijo para o jantar.

Tirou dois grandes pratos brancos de um armário e colocou diante de mim.

E agora começamos a falar sobre queijo… maldição…

— Que normas tenho que cumprir?

— Tenho por escrito. Veremos depois de jantar.

Comida… Como vou comer agora?

— De verdade, não tenho fome. — Sussurrei.

— Vai comer — Se limitou a responder.

O dominante Christian. Agora está tudo claro.

— Quer outra taça de vinho?

— Sim, por favor.

Serviu-me outra taça e sentou a meu lado. Dei um rápido gole.

— Fará bem comer, Anastásia.

Peguei um pequeno cacho de uvas. Com isto sim, que posso. Ele revirou os olhos.

— Faz muito tempo que está nisso? — Perguntou.

— Sim.

— É fácil encontrar mulheres que aceitem?

Ele olhou e levanto uma sobrancelha.

— Ficaria surpresa. — Respondeu friamente.

— Então, porque eu? De verdade, não entendo.

—Anastásia, já te disse. Tem algo. Não posso me afastar de você. — Sorriu ironicamente. — Sou um pássaro atraído pela luz. — Sua voz ficou trêmula. —Te desejo com loucura, especialmente agora, quando morde os lábios. — Respirou fundo e engoliu.

O estomago dava voltas. Deseja-me... de uma maneira rara... é verdade, mas este homem bonito, estranho e pervertido me deseja.

— Acho que inverteu este clichê. — Respondi.

Eu sou o pássaro e ele a luz e vou me queimar. Eu sei.

— Coma!

— Não. Ainda não assinei nada, assim, acho que farei o que quiser, se não se importa.

Seus olhos se acalmaram e seus lábios esboçaram um sorriso.

— Como quiser senhorita Steele.

— Quantas mulheres? — Perguntei de uma vez, com muita curiosidade.

— Quinze.

Nossa, menos do que pensava.

— Durante longos períodos de tempo?

— Algumas sim.

— Alguma vez machucou alguma?

— Sim.

Maldição!

— Grave?

— Não.

— Me machucaria?

— O que quer dizer?

— Se vai me machucar fisicamente.

— Te castigarei quando for necessário e será doloroso.

Acho que estou ficando enjoada. Tomei outro gole de vinho. O álcool me dará coragem.

— Alguma vez te bateram? — Pergunto.

— Sim.

Nossa, me surpreendeu. Antes que pudesse perguntar por esta última revelação, ele interrompeu o curso dos meus pensamentos.

— Vamos conversar no meu escritório. Quero mostrar algo.

Custa muito processar tudo isso. Fui tão inocente ao pensar que passaria uma noite de paixão desenfreada na cama com este homem e aqui estamos negociando um estranho acordo.

Segui até o escritório, um amplo cômodo com uma cortina desde o chão até o teto. Sentou-se na mesa e apontou com um gesto para que me sentasse em uma cadeira de couro de frente a ele e me estendeu uma folha de papel.

— Estas são as regras. Podemos mudá-las. Formam parte do contrato, que também te darei. Leia e comentaremos.

 

NORMAS

Obediência:

A Submissa obedecerá imediatamente todas as instruções do Amo, sem duvidar, sem reservas e de forma expressiva. A Submissa aceitará toda atividade sexual que o Amo considerar oportuna e prazerosa, exceto as atividades contempladas nos limites inquebráveis (Apêndice 2). O fará com entusiasmo e sem duvidar.

 

Sono:

A Submissa garantirá que dormirá no mínimo sete horas diária quando não estiver com o Amo.

 

Refeição:

Para cuidar de sua saúde e bem estar, a Submissa comerá frequentemente alimentos incluídos em uma lista (Apêndice 4). A Submissa não comerá entre horas, a exceção de fruta.

 

Roupa:

Durante a vigência do contrato, a Submissa apenas usará roupa que o Amo houver aprovado. O Amo oferecerá a Submissa uma quantia para roupas. O Amo acompanhará a Submissa para comprar roupas quando seja necessário. Se o Amo assim o exige, enquanto o contrato estiver vigente, a Submissa vestirá os adornos que exija o Amo, em sua presença ou em qualquer outro momento que o Amo considere oportuno.

 

Exercício:

O Amo proporcionará a Submissa um treinador pessoal quatro vezes por semana, em sessões de uma hora, horas convenientes para o treinador e a Submissa. O treinador pessoal informará ao Amo os avanços da Submissa.

 

Higiene pessoal e beleza:

A Submissa estará limpa e depilada a todo momento. A Submissa irá ao salão de beleza escolhido pelo Amo quando este decida e se submeterá a qualquer tratamento que o Amo considere oportuno.

 

Segurança pessoal:

A Submissa não beberá em excesso, não fumará, não tomará nenhuma substância psicotrópica, nem correrá riscos sem necessidade.

 

Qualidades pessoais:

A Submissa apenas manterá relações sexuais com o Amo. A Submissa se comportará a todo o momento com respeito e humildade. Deve compreender que sua conduta influencia diretamente na do Amo. Será responsável por qualquer ato, maldade ou má conduta que leve a cabo quando o Amo não estiver presente.

 

O não cumprimento de qualquer uma das normas anteriores será imediatamente castigada e o Amo determinará a natureza do castigo.

 

Minha Nossa!

— Limites inquebráveis? — Pergunto.

— Sim. O que você não fará e o que não farei. Temos que especificar em nosso acordo.

— Não tenho certeza se vou aceitar dinheiro para roupas. Não me parece bem.

Me movimento incomoda. A palavra «puta» soa em minha cabeça.

— Quero gastar dinheiro com você. Deixa-me comprar roupa. Talvez necessite que me acompanhe em algum ato, e quero que esteja bem vestida. Tenho certeza que com seu salário, quando encontre um trabalho não poderá pagar a roupa que gostaria que vestisse.

— Não terei que usar quando não estiver contigo?

— Não.

— Certo. Eu penso nisso como um uniforme.

— Não quero fazer exercícios quatro vezes por semana.

— Anastásia, necessito que esteja ágil, forte e resistente. Confie em mim, tem que fazer exercícios.

— Com certeza que não quatro vezes por semana. O que acha de três?

— Quero que seja quatro.

— Pensei que fosse uma negociação.

Franziu os lábios.

— Certo, senhorita Steele, tem razão. O que te parece uma hora três dias por semana e meia hora outro dia?

— Três dias, três horas. Você me dá a impressão de que se ocupará de que faça exercício quanto estiver aqui.

Sorriu perversamente e os olhos brilharam como se sentisse aliviado.

— Sim o farei. Certo. Tem certeza de que não quer trabalhar em minha empresa? É boa negociando.

— Não, não acho que seja uma boa ideia.

Observo a folha com suas normas. Depilar-me! Depilar o que?

Tudo? Uf!

— Vamos aos limites. Estes são os meus. — Disse estendendo outra folha de papel.

 

LÍMITES INQUEBRAVEIS:

 

Atos com fogo.

Atos com urina, fezes e excrementos.

Atos com agulhas, facas, perfurações e sangue.

Atos com instrumentos médicos ginecológicos.

Atos com crianças e animais.

Atos que deixem marcas permanentes na pele.

Atos relativos ao controle da respiração.

Atividade que implique contato direto com corrente elétrica, fogo e chamas no corpo.

 

Uf. Ele tinha que escrever! Claro… todos estes limites pareciam sensatos e necessários na verdade… Com certeza qualquer pessoa em seu juízo perfeito não iria querer este tipo de coisas. Mas seu estômago ficou enjoado.

— Quer acrescentar algo? — perguntou amavelmente.

Merda. Não tenho nem ideia. Estou totalmente perplexa. Olha para mim e enruga a testa.

— Há algo que não queira fazer?

— Não sei.

— O que é que não sabe?

Removi incomoda e mordo os lábios.

— Nunca fiz uma coisa assim.

— Bom, há algo que não goste no sexo?

Pela primeira vez, no que parecia séculos, ruborizei.

— Pode me dizer, Anastásia. Se não formos sinceros, não vai funcionar.

Volto a me mover incomoda e olho para minhas mãos.

— Diga. — Pediu-me.

— Bom... nunca dormi com ninguém, então não sei. — Digo com uma voz baixa.

Levantei os olhos até ele, que olhava com a boca aberta, paralisado e pálido, muito pálido.

— Nunca? — Sussurrou.

Assenti.

— É virgem?

Assenti com a cabeça e voltei a me ruborizar. Fechou os olhos e pareceu contar até dez, Quando os abriu, ele olhou irritado.

— Por que, porra, não me disse? — Grunhiu.

 

        Christian percorre seu estúdio de um lado a outro passando as mãos pelo cabelo.

As duas mãos... o que quer dizer que está duplamente zangado. Seu férreo controle habitual parece haver rachado.

        — Não entendo por que não me disse isso, — ele diz zangado.

        — Não vi razão para isso. Não tenho por costume ir falando por aí sobre a minha vida sexual. Além disso... acabamos de nos conhecer. — Olho para as minhas mãos. Por que me sinto culpada? Por que está tão zangado? Olho para ele.

        — Bom, agora sabe muito mais de mim — diz-me bruscamente, e aperta os lábios. —Sabia que não tinha muita experiência, mas... virgem! — Ele fala como se fosse um insulto.

— Inferno, Ana, eu acabo de te mostrar... — queixa-se. — Que Deus me perdoe. Já beijaram você alguma vez, sem que tenha sido eu?

        — Claro que sim, — respondo-lhe tentando parecer ofendida. Ok... talvez, duas vezes.

        — E nenhum rapaz bonito a fez se apaixonar? Realmente, não entendo. Tem vinte e um anos, quase vinte e dois. Você é bonita. — Volta a passar a mão pelo cabelo.

        Bonita. Ruborizo-me de alegria. Christian Grey me considera bonita. Entrelaço os dedos e olho para ele fixamente, tentando dissimular meu estúpido sorriso. Talvez ele seja míope, meu subconsciente adormecido levanta a cabeça. Onde estava quando eu necessitava dele?

        — E você está realmente falando sobre o que quero fazer, quando não tem experiência?

Junta suas sobrancelhas outra vez.

— Por que evitou o sexo? Conte-me, por favor.

        Encolho os ombros.

        — Ninguém realmente, você sabe... — Ninguém me fez sentir assim, só você. E no final, você é uma espécie de monstro. — Por que está tão zangado comigo? — sussurro-lhe.

— Não estou zangado contigo, estou zangado comigo mesmo. Eu pensei que... — ele suspira. Ele olha atentamente para mim e balança a cabeça. — Quer partir ? — pergunta-me, em tom gentil.

        — Não, a menos que você queira que eu parta — murmuro. Oh não... Eu não quero partir.

        — Claro que não. Eu gosto tê-la aqui. — Ele me diz franzindo o cenho e dá uma olhada ao relógio. — É tarde. — E volta a levantar os olhos para mim. — Você está mordendo o lábio. — Diz-me com voz rouca e me olha especulativo.

        — Desculpe.

        — Não se desculpe. É que eu também quero mordê-lo, forte.

        Fico boquiaberta... Como pode me dizer essas coisas e esperar que não me afetem?

        — Venha, — Ele murmura.

        — O que?

        — Vamos arrumar a situação agora mesmo.

        — O que quer dizer? Que situação?

        — Sua situação, Ana. Vou fazer amor com você, agora.

        — Oh. — Sinto que o chão se move. Sou uma situação. Prendo a respiração.

        — Isto é, se você quiser, eu quero dizer, não quero tentar a minha sorte.

        — Eu pensei que você não fizesse amor. Pensei que você só fodesse duro. — Engulo em seco, de repente minha boca ficou seca.

        Lança-me um sorriso perverso e os efeitos dele percorrem o meu corpo até chegar lá...

        — Posso fazer uma exceção, ou talvez combinar as duas coisas, veremos. Eu realmente quero fazer amor com você. Por favor, venha para a cama comigo. Quero que nosso acordo funcione, mas você tem que ter uma ideia de onde está se metendo. Podemos começar seu treinamento esta noite... com o básico. Isso não significa que venha com flores e corações, é um meio para chegar a um fim, mas quero esse fim e espero que você o queira também. — Seu olhar cinza é intenso.

        Ruborizo-me... oh...meus... desejos se tornaram realidade.

        — Mas não tenho que fazer tudo o que pede em sua lista de normas. — Digo-lhe com voz entrecortada e insegura.

        — Esqueça das normas. Esqueça de todos esses detalhes por esta noite. Desejo-te. Desejei-te desde que entrou em meu escritório, e sei que você também me deseja. Não estaria aqui conversando tranquilamente sobre castigos e limites rígidos se não me desejasse. Ana, por favor, fica comigo esta noite. — Estende-me a mão com olhos brilhantes, ardentes... excitados, e eu coloquei minha mão na sua. Ele me puxa para cima e para os seus braços, para que eu possa sentir o comprimento do seu corpo contra o meu, esta ação rápida pegou-me de surpresa. Ele passa os dedos em volta da minha nuca, pega o meu rabo de cavalo em seu pulso, puxa delicadamente e desfaz. Eu sou forçada a olhar para ele. Ele olha para mim.

        — É uma garota muito valente, — sussurra-me. — Estou fascinado por você.

Suas palavras são como um artefato incendiário. Arde-me o sangue. Ele inclina-se, beija-me brandamente e me chupa o lábio inferior.

        — Queria morder este lábio, — ele murmura sem separar-se de minha boca. Cuidadosamente, ele o puxa com os dentes. Eu gemo e ele sorri.

        — Por favor, Ana, me deixe fazer amor com você.

        — Sim, — eu sussurro. Por isso eu estou aqui. Vejo seu sorriso é triunfante quando me solta, agarra-me a mão e me conduz através do apartamento.

        Seu quarto é grande. Das altas janelas, que vão do chão ao teto, pode-se ver os iluminados arranha-céus de Seattle.

As paredes são brancas, e os acessórios, azul claro. A enorme cama é ultramoderna, de madeira maciça de cor cinza, com quatro postes, mas sem dossel. Na parede da cabeceira há uma impressionante paisagem marinha.

        Estou tremendo como uma folha. É isto. Por fim, depois de tanto tempo, vou fazer isso, e nada menos que com o Christian Grey. Respiro entrecortadamente e não posso tirar os olhos dele.

Ele tira o relógio e o deixa em cima de uma cômoda ao lado da cama. Ele tira a jaqueta e a deixa em uma cadeira. Ele está com uma camisa branca de linho e jeans.

Ele é absurdamente bonito. Seu cabelo cor de cobre escuro está alvoroçado, ele pendura a camisa... Seus olhos cinzentos são ousados e deslumbrantes. Descalça os sapatos e se inclina para tirar as meias, também. Os pés de Christian Grey... Uau... o que há sobre pés descalços? Ele vira-se e me olha com expressão doce.

        — Suponho que não toma a pílula.

        O quê? Merda.

        — Temo que não. — Ele abre a primeira gaveta e saca uma caixa de camisinhas. Ele me olha fixamente.

        — Tem que estar preparada, — ele murmura. — Quer que feche as persianas?

        — Não me importa. — sussurro. — Pensei que permitisse a ninguém dormir em sua cama.

        — Quem disse que vamos dormir? — ele murmura.

        — Oh. — Santo inferno.

Ele aproxima-se de mim devagar. Está muito seguro de si mesmo, muito sexy, os olhos brilhantes. O meu coração dispara e o sangue dispara por todo o meu corpo. O desejo, um desejo quente e intenso, invade o meu ventre. Ele se detém na minha frente e me olha nos olhos. Oh, ele é tão sexy...

        — Vamos tirar esta jaqueta, hein? — Ele me diz em voz baixa e agarra as lapelas e muito suavemente desliza a jaqueta pelos meus ombros. Ele a coloca em uma cadeira.

— Tem ideia do muito que a desejo, Ana Steele? — sussurra-me. Minha respiração fica presa. Não posso tirar meus olhos dos seus. Ele chega para perto e suavemente passa os dedos do meu rosto para o meu queixo.

        — Tem ideia do que eu vou fazer com você? — acrescenta, me acariciando o queixo.

        Os músculos de minha parte mais profunda e escura se esticam com infinito prazer.

A dor é tão doce e tão aguda que quero fechar os olhos, mas os seus, que me olham ardentes, hipnotizam-me. Inclina-se e me beija. Seus lábios são exigentes, firmes e lentos ao se acoplarem aos meus. Ele começa a desabotoar a minha blusa me beijando ligeiramente a mandíbula, o queixo e as comissuras da boca. Tira-me a jaqueta muito devagar e a deixa cair no chão. Afasta-se um pouco e me observa. Por sorte, estou vestindo o meu sutiã azul céu, rendado, que fica estupendo em mim.

Graças aos céus.

— Oh, Ana... – ele respira. –Você tem uma pele preciosa, branca e perfeita. Eu quero beijar você centímetro por centímetro.

Ruborizo-me. Oh, meu Deus... Por que ele me disse que não podia fazer amor? Eu farei tudo o que ele quiser.

Ele agarra meu rabo de cavalo, o desfaz e ofega quando a juba cai em cascata sobre os ombros.

— Eu gosto das morenas, — ele murmura e coloca as duas mãos entre meus cabelos, segurando em cada lado da minha cabeça. Seu beijo é exigente, sua língua e seus lábios, persuadindo os meus. Gemo e minha língua indecisa se encontra com a sua. Abraça-me e aproxima-me de seu corpo e me aperta muito forte. Uma mão segue em meu cabelo, a outra me percorre a coluna até a cintura e segue avançando, segue a curva de meu traseiro. Ela flexiona sobre a minha bunda e aperta gentilmente.

Ele me aperta contra os seus quadris, eu sinto sua ereção, que empurra languidamente contra meu corpo.

        Volto a gemer sem separar os lábios de sua boca. Logo, não posso resistir às desenfreadas sensações, ou são hormônios, que me devastam o corpo. Desejo-o com loucura.

Agarro-o pelos braços e sinto seus bíceps. É surpreendentemente forte... musculoso. Com um gesto indeciso, subo as mãos até seu rosto e seu cabelo. Santo Céus. É tão suave, rebelde. Acariciei com cuidado e Christian geme.

Ele conduz-me devagar para a cama, até que a sinto atrás dos joelhos. Acredito que vai empurrar-me, mas não o faz. Ele solta-me, e de repente, cai sobre os joelhos. Sujeita meus quadris com as duas mãos e desliza a língua por meu umbigo, avança até o quadril me mordiscando e depois me percorre a barriga em direção ao outro lado do quadril.

        — Ah, — eu gemo.

        Vendo-o de joelhos na minha frente, sentindo sua língua percorrendo meu corpo, é tão excitante e sexy. Apoio as mãos em seu cabelo e puxo gentilmente tentando acalmar minha respiração acelerada.

Ele olha para mim através dos, impossivelmente, cílios longos, com seus ardentes olhos cinzentos. Sobe as mãos, desabotoa-me o botão do jeans e baixa lentamente o zíper.

Sem desviar seus olhos dos meus, suas mãos se movem sob o cós da minha calça, movendo o meu traseiro e retirando. Suas mãos deslizam lentamente do meu traseiro para as minhas coxas, removendo o meu jeans. Não posso deixar de olhá-lo. Ele detém-se e, sem tirar os olhos de mim nem por um segundo, lambe os lábios. Inclina-se para frente e passa o nariz pelo vértice onde se unem minhas coxas. Sinto-o...

Lá.

— Cheira muito bem, — ele murmura e fecha os olhos, com uma expressão de puro prazer, e eu praticamente tenho uma convulsão. Ele estende um braço, tira o edredom, empurra-me brandamente e caio sobre a cama.

Ainda de joelhos, agarra-me um pé, desabotoa meu Converse e tira meu sapato e meias. Apoio-me nos cotovelos e me levanto para ver o que faz, ofegante... morta de desejo. Agarra-me o pé pelo calcanhar e me percorre a panturrilha com a unha do polegar. É quase doloroso, mas sinto que o percurso se projeta sobre minha virilha. Gemo. Sem tirar os olhos de mim, volta a percorrer a panturrilha, desta vez com a língua, e depois com os dentes. Merda. Eu gemo... como eu posso sentir isso, lá. Caio sobre a cama gemendo. Ouço sua risada afogada.

        — Ana, não imagina o que eu poderia fazer contigo — ele sussurra para mim. Ele remove o outro sapato e a meia, depois se levanta e retira totalmente o meu jeans. Estou tombada em sua cama, em calcinhas e sutiã, ele me olha atentamente.

        — É muito formosa, Anastásia Steele. Morro por estar dentro de ti.

        Merda. Suas palavras. Ele é tão sedutor. Corta-me a respiração.

        — Mostre-me como você se dá prazer.

        O que? Eu franzo o cenho.

        — Não seja tímida, Ana, mostre-me, — ele sussurra.

        Balanço a cabeça.

        — Não entendo o que quer dizer, — respondo-lhe com voz rouca, tão cheia de desejo, que mal a reconheço.

        — Como você se masturba? Quero vê-la.

        Balanço a cabeça.

        — Não me masturbo. — eu murmuro. Ele levanta as sobrancelhas, atônito por um momento, seus olhos escurecem e balança a cabeça como se não pudesse acreditar.

— Bem, veremos o que podemos fazer sobre isso. — Sua voz é baixa, desafiante, em um tom de deliciosamente e sensual ameaça. Ele desabotoou os botões do jeans e o tira devagar sem separar os olhos dos meus. Inclina-se sobre mim, agarra-me pelos tornozelos, separa-me rapidamente as pernas e se arrasta pela cama entre minhas pernas. Fica suspenso sobre mim. Retorço-me de desejo.

        — Não se mova — ele murmura, inclina-se, beija-me a parte interior de uma coxa e vai subindo, sem deixar de me beijar, até o encaixe das minhas calcinhas.

        Oh... Não posso ficar quieta. Como não vou mover-me? Retorço-me debaixo dele.

        — Vamos ter que trabalhar para que aprenda a ficar quieta, querida. Ele segue me beijando a barriga e introduz a língua no umbigo. Seus lábios sobem para o norte, beijando através do meu tronco.

Minha pele arde. Estou ruborizada, muito quente, com frio, arranho o lençol sob meu corpo. Christian se deita ao meu lado e percorre com a mão do meu quadril até o meu peito, passando pela cintura. Observa-me com expressão impenetrável e me rodeia brandamente os seios com as mãos.

        — Se encaixam perfeitamente em minha mão, Anastásia — ele murmura, coloca o dedo indicador pela taça de meu sutiã e abaixa muito devagar e deixando meu seio nu, empurrando para baixo a armação e o tecido. Seus dedos se moveram para o outro seio e repetiu o processo. Meus seios incharam e os mamilos se endureceram sob seu insistente olhar. O sutiã mantém meus seios elevados. — Muito bonitos — sussurra admirado, e os mamilos endurecem ainda mais.

        Ele chupa gentilmente um mamilo, desliza uma mão ao outro seio e com o polegar rodeia muito devagar o outro mamilo, alongando-o. Gemo e sinto uma doce sensação descer até a minha virilha. Estou muito úmida. Oh, por favor, suplico internamente, agarrando com força o lençol. Seus lábios fecham ao redor de meu outro mamilo, quando o lambe, quase sinto uma convulsão.

        — Vamos ver se conseguimos que você goze assim — ele sussurra-me, e segue com sua lenta e sensual incursão. Meus mamilos sentem seus hábeis dedos e seus lábios, que acendem minhas terminações nervosas até o ponto em que todo o meu corpo geme em uma doce agonia.

Ele não se detém.

        — Oh... por favor, — suplico-lhe, jogo a cabeça para trás, com a boca aberta e gemo, sinto minhas pernas endurecerem. Maldição, o que está acontecendo comigo?

        — Deixe vir, querida, — ele murmura. Aperta-me um mamilo com os dentes, com o polegar e o indicador aperta forte o outro, me deixo cair em suas mãos, meu corpo convulsiona e estala em mil pedaços. Ele beija-me, profundamente, colocando a língua na minha boca para absorver meus gritos.

        Meu deus! Isso foi fantástico. Agora eu sei que todo o alarido é sobre a minha reação. Ele me olha com um sorriso satisfeito, embora esteja segura de que não é mais que gratidão e admiração por mim.

        — É muito receptiva, — Ele respira. — Terá que aprender a controlá-lo, e será muito divertido te ensinar como. — Ele me beija outra vez.

        Minha respiração ainda está irregular, enquanto me recupero do orgasmo. Desliza uma mão até minha cintura, meus quadris, para as minhas partes íntimas... caramba. Introduz um dedo pela renda e lentamente começa a riscar círculos ao redor do meu... lá. Ele fecha os olhos por um instante e contém a respiração.

        — Você está tão deliciosamente úmida. Deus, quanto eu te desejo. — Introduz um dedo dentro de mim e eu grito, enquanto o tira e volta a colocá-lo. Esfrega-me o clitóris com a palma da mão, e grito de novo. Segue me introduzindo o dedo, cada vez com mais força. Gemo.

        De repente se senta, tira-me a calcinha e a joga no chão. Ele tira também sua cueca e libera sua ereção. Minha nossa! Estica o braço até a mesinha da cama, agarra um pacotinho prateado e se move entre minhas pernas para que se abram. Ajoelha-se e desliza a camisinha por seu membro enorme. Oh, não... Será que vai? Como?

        — Não se preocupe, — sussurra, me olhando nos olhos. — Você também se dilatará. — Inclina-se apoiando as mãos a ambos os lados de minha cabeça, de modo que fica suspenso sobre mim. Olha-me nos olhos com a mandíbula apertada e os olhos ardentes. Neste momento me dou conta de que ainda está vestindo a camisa.

        — Tem certeza que quer fazê-lo? — pergunta-me em voz baixa.

        — Por favor, — suplico-lhe.

        — Levante os joelhos, — ordena-me em tom suave e obedeço imediatamente. — Agora vou fodê-la, senhorita Steele... — murmura colocando a ponta de seu membro ereto na entrada de meu sexo — Duro, — ele sussurra e me penetra bruscamente.

        — Aaai! — eu grito, ao sentir uma sensação de aperto dentro de mim, enquanto ele rasga através da minha virgindade. Ele fica imóvel e me observa com olhos brilhantes com triunfo, em êxtase.

        Tem a boca ligeiramente aberta e lhe custa respirar. Ele geme.

        — É muito apertada. Está bem?

        Concordo, com meus olhos arregalados e me agarrando a seus braços. Sinto-me tão cheia. Ele continua imóvel para que me acostume com a invasiva e entristecedora sensação de tê-lo dentro de mim.

        — Vou mover-me, querida, — sussurra-me um momento depois, em tom firme.

        Oh.

        Ele retrocede com deliciosa lentidão. Fecha os olhos, geme e volta a me penetrar. Grito pela segunda vez e ele se detém.

        — Mais? — sussurra-me com voz selvagem.

        — Sim, — respondo-lhe. Ele volta a me penetrar e a deter-se.

        Gemo. Meu corpo o aceita... Oh, quero que continue.

        — Outra vez? — pergunta-me.

        — Sim. - respondo-lhe em tom de súplica.

        E ele se move, mas esta vez não se detém. Apoia-se nos cotovelos, de modo que sinto seu peso sobre mim, me aprisionando. A princípio se move devagar, entra e sai de meu corpo. E à medida que vou me acostumando à estranha sensação, começo a mover os quadris com os seus.

Ele acelera. Gemo e ele investe com força, cada vez mais depressa, sem piedade, a um ritmo implacável, eu mantenho o ritmo de suas investidas. Ele pega a minha cabeça com as mãos, beija-me bruscamente e volta a morder meu lábio inferior com os dentes. Ele mudou um pouco e sinto que algo cresce no mais profundo de mim, como antes. Vou me pondo esticada à medida que me penetra uma e outra vez. Meu corpo treme, arqueio-me, estou banhada em suor. Oh, meu Deus... Eu não sabia que iria me sentir assim... Não sabia que a sensação podia ser tão agradável. Meus pensamentos se dispersam... Não há mais que sensações... Só ele... Só eu... Oh, por favor... Meu corpo fica rígido.

        — Goze para mim, Ana, — ele sussurra sem fôlego e me deixo gozar assim que diz, explodindo ao seu redor com meu clímax e me dividindo em mil pedaços sob seu corpo. E enquanto ele também goza, grita meu nome, dá uma última investida e fica imóvel, como se tivesse se esvaziado dentro de mim.

        Ainda estou ofegante, tentando acalmar a minha respiração e os batimentos do meu coração, e meus pensamentos estão em desordem desenfreada. Uau... foi algo incrível. Abro os olhos e ele apoiou sua testa na minha. Tem os olhos fechados e sua respiração é irregular. Christian pisca, abre os olhos e me lança um olhar turvo, embora doce. Ele continua dentro de mim. Inclina-se, beija-me brandamente na testa e, muito devagar, começa a sair de meu corpo.

        — Oooh. — É uma sensação estranha, que me faz estremecer.

        — Eu te machuquei? — Christian pergunta-me, enquanto tomba ao meu lado, apoiando-se em um cotovelo. Passa-me uma mecha de cabelo por detrás da orelha. E não posso evitar esboçar um amplo sorriso.

        — Você está, realmente, perguntando se me machucou?

        — Não me venha com ironias, — diz-me com um sorriso zombador. — Sério, você está bem? — Seus olhos são intensos, perspicazes, inclusive exigentes.

        Eu me estico ao seu lado, sentindo os membros enfraquecidos, com os ossos como se fossem de borracha, mas estou relaxada, muito relaxada. Sorrio-lhe. Não posso deixar de sorrir. Agora eu sei o porquê de tanto barulho.

Dois orgasmos... todo o seu ser completamente descontrolado, como se estivesse dentro da centrifuga de uma secadora. Uau.

Não tinha nem ideia do que meu corpo era capaz, de que podia esticar-se tanto e liberar-se de forma tão violenta, tão gratificante. O prazer foi indescritível.

        — Você está mordendo o lábio, e não me respondeu. — Ele franziu a testa. Eu sorrio para ele de forma travessa. Ele parece glorioso com seu cabelo desgrenhado, seus ardentes olhos cinza estavam entrecerrados e sua expressão sombria.

        — Eu gostaria de voltar a fazê-lo, — eu sussurro. Por um momento acredito ver uma fugaz expressão de alívio em seu rosto. Logo troca rapidamente de expressão e me olha com olhos velados.

        — Agora mesmo, senhorita Steele? — murmura secamente. Inclina-se sobre mim e me beija brandamente na comissura da boca. — Não é um pouco exigente? Vire-se.

       Pisquei várias vezes, mas ao final, viro-me. Desabotoa-me o sutiã e desliza a mão das costas até o traseiro.

— Tem uma pele realmente preciosa, — ele murmura. Coloca uma perna entre as minhas e fica meio convexo sobre minhas costas. Sinto a pressão dos botões de sua camisa enquanto me retira o cabelo do rosto e me beija no ombro.

        — Por que você não tirou a camisa? — pergunto-lhe. Ele fica imóvel. Depois de um momento, tira a camisa e volta a tombar-se em cima de mim. Sinto sua cálida pele sobre a minha. Mmm... É uma maravilha. Tem o peito coberto por uma ligeira capa de pelos, que me faz cócegas nas costas.

        — Então você quer que eu a foda novamente? — sussurra-me ao ouvido, e começa a me beijar muito suavemente ao redor da minha orelha e no pescoço.

Suas mãos se movem para baixo, deslizando pela minha cintura, pelo meu quadril, pela minha coxa e para a parte de trás do meu joelho. Ele empurra meu joelho mais alto, e me corta a respiração... Oh meu Deus, o que está fazendo agora? Ele mete-se entre minhas pernas, pressiona-se contra as minhas costas e me passa a mão pela coxa até o traseiro. Acaricia-me devagar as nádegas e depois desliza os dedos entre minhas pernas.

        — Vou foder você por trás, Anastásia, — ele murmura, e com a outra mão me agarra pelo cabelo à altura da nuca e puxa ligeiramente para me colocar. Não posso mover a cabeça. Estou imobilizada debaixo dele, indefesa.

        — Você é minha, — ele sussurra. — Só minha. Não se esqueça. — Sua voz é embriagadora, e suas palavras, sedutoras. Noto como cresce sua ereção contra minha coxa.

        Desliza os dedos e me acaricia gentilmente o clitóris, fazendo círculos muito devagar. Sinto sua respiração através do meu rosto, enquanto me mordisca ao longo da minha mandíbula.

        — Seu cheiro é divino, — Acaricia-me atrás da orelha com o nariz. Esfrega as mãos contra meu corpo uma e outra vez. Em um instinto reflexo, começo a riscar círculos com os quadris, ao compasso de sua mão, e um prazer enlouquecedor me percorre as veias como se fosse adrenalina.

        — Não se mova, — ordena-me em voz baixa, embora imperiosa, e lentamente me introduz o polegar e o gira acariciando as paredes de minha vagina. O efeito é alucinante. Toda minha energia se concentra nessa pequena parte de meu corpo. Gemo.

        — Você gosta? — Pergunta-me em voz baixa, passando os dentes pela minha orelha, e começa a mover o polegar lentamente, dentro, fora, dentro, fora... com os dedos ainda riscando círculos.

        Fecho os olhos e tento controlar minha respiração, tento absorver as desordenadas e caóticas sensações que seus dedos desatam em mim enquanto o fogo me percorre o corpo. Volto a gemer.

        — Está muito úmida e é muito rápida. Muito receptiva. Oh, Anastásia, eu gosto, eu gosto muito, — ele sussurra.

        Quero mover as pernas, mas não posso. Tem-me aprisionada e mantém um ritmo constante, lento e tortuoso. É absolutamente maravilhoso. Gemo de novo e de repente, ele se move.

        — Abre a boca, — pede-me e introduz o polegar na minha boca. Pestanejo freneticamente.

        — Veja como é o seu gosto, — sussurra-me ao ouvido. — Chupe-me, querida. — Pressiona a língua com o polegar, fecho a boca ao redor de seu dedo e chupo grosseiramente. Sinto o sabor salgado de seu polegar e a acidez ligeiramente metálica do sangue. Porra. Isto é errado, mas é terrivelmente erótico.

        — Quero foder sua boca, Anastásia, e logo o farei, — diz-me com voz rouca, selvagem e respiração entrecortada.

        Foder a minha boca! Gemo e mordo-o. Dá um grito afogado e me puxa o cabelo com mais força, dolorosamente, então solto o seu dedo.

        — Minha menina travessa, — ele sussurra, estica a mão para a mesinha de cabeceira e agarra um pacotinho prateado. — Fique quieta, não se mova, — ordena-me me soltando o cabelo.

        Rasga o pacotinho prateado, enquanto eu respiro com dificuldade e sinto o calor percorrendo minhas veias. A espera é excitante. Inclina-se, seu peso volta a cair sobre mim e me agarra pelos cabelos para me imobilizar a cabeça. Não posso me mover. Tem-me sedutoramente presa e está preparado para voltar a me penetrar.

        — Desta vez vamos muito devagar, Anastásia, — ele me diz.

        E me penetra devagar, muito devagar, até o fundo. Seu membro se estende e me invade por dentro implacavelmente. Gemo com força. Desta vez o sinto mais profundo, delicioso. Volto a gemer, e num ritmo muito lento traçando círculos com os quadris e puxando de volta, detém-se um momento e volta a me penetrar.

Repete o movimento uma e outra vez. Deixa-me louca. Suas provocadoras investidas, deliberadamente lentas, e a intermitente sensação de plenitude são irresistíveis.

— Você me faz sentir tão bem, — ele gemeu, e minhas vísceras começam a tremer. Puxa e espera.

        — Não, querida, ainda não, — ele murmura, quando deixo de tremer, começa de novo o maravilhoso processo.

        — Por favor, — suplico-lhe. Acredito que não vou aguentar muito mais. Meu corpo está tenso e se desespera para liberar-se.

        — Quero você dolorida, querida, — ele murmura, e segue com seu doce e pausado suplício, para frente e para trás.

— Quero que, cada vez que te mova amanhã, recorde que estive dentro de ti. Só eu. Você é minha.

        Gemo.

        — Christian, por favor, — sussurro.

        — O que quer, Anastásia? Diga-me.

        Volto a gemer. Ele retira-se e volta a me penetrar lentamente, de novo riscando círculos com os quadris.

        — Diga-me, — ele murmura.

        — Você, por favor.

        Ele aumenta o ritmo progressivamente e sua respiração se volta irregular. Começo a tremer por dentro, e Christian acelera o ritmo.

        — Você... é... tão... doce, — ele murmura ao ritmo de suas investidas. — Eu... lhe... desejo... tanto...

        Gemo.

        — Você... é... minha... Goze para mim, querida, — ele gritou.

        Suas palavras são minha perdição, lançam-me pelo precipício. Sinto que meu corpo se convulsiona e venho gritando e balbuciando uma versão de seu nome contra o colchão. Christian investe até o fundo mais duas vezes e fica paralisado, goza e se derrama dentro de mim. Desaba-se sobre meu corpo, com o rosto afundado em meu cabelo.

        — Porra, Ana, — ele ofega. Ele retira-se imediatamente e cai, rodando em seu lado da cama. Eu puxo meus joelhos até o peito, totalmente esgotada, e imediatamente caio em um sonho profundo.

Quando eu acordo, ainda está escuro. Não tenho nem ideia de quanto tempo eu dormi. Estiro as pernas debaixo do edredom e me sinto dolorida, deliciosamente dolorida. Não vejo Christian em nenhum lugar. Sento na cama e contemplo a cidade à minha frente. Há menos luzes acesas nos arranha-céus e o amanhecer já se insinua. Ouço música. As notas cadenciadas do piano. Um doce e triste lamento. Bach[21], eu acredito, mas não estou segura.

        Jogo o edredom de lado e me dirijo sem fazer ruído, pelo corredor que leva ao grande salão.

Christian está sentado ao piano, totalmente absorto na melodia que está tocando. Sua expressão é triste e desamparada, como a música. Toca maravilhosamente bem. Apoio-me na parede da entrada e escuto encantada. É uma música extraordinária. Está nu, com o corpo banhado na cálida luz de um abajur solitário junto ao piano. Como o resto do salão está escuro, parece isolado em seu pequeno foco de luz, intocável... sozinho, em uma bolha.

        Avanço para ele em silencio, atraída pela sublime e melancólica música. Estou fascinada. Observo seus compridos e hábeis dedos percorrendo e pressionando suavemente as teclas, e penso que esses mesmos dedos percorreram e acariciaram com destreza meu corpo. Ruborizo-me ao pensá-lo, sufoco um grito e aperto as coxas. Christian levanta seus insondáveis olhos cinza com expressão indecifrável.

        — Desculpe, — eu sussurro. — Não queria incomodar você.

        Ele franze ligeiramente o cenho.

        — Certamente, eu deveria estar dizendo isso para você, — ele murmura. Deixa de tocar e apoia as mãos nas pernas.

        De repente, me dou conta de que estava vestido com uma calça de pijama. Ele passa os dedos pelo cabelo e se levanta.

As calças lhe caem dessa maneira tão sexy... oh, meu Deus. Minha boca está seca quando rodeia tranquilamente o piano e se aproxima de mim. Ele tem os ombros largos e os quadris estreitos, ao andar lhe esticam os abdominais. É impressionante...

        — Devia estar na cama, — ele adverte-me.

— Um tema muito bonito. Bach?

        — A transcrição é de Bach, mas originariamente é um concerto para oboé do Alessandro Marcello.

        — Precioso, embora muito triste, uma música muito melancólica.

        Ele esboça um meio sorriso.

        — Para cama, — ordena-me. — Pela manhã você estará esgotada.

        — Eu acordei e você não estava.

        — Tenho dificuldade para dormir. Não estou acostumado a dormir com alguém, — ele murmura. Eu não consigo discernir qual é seu estado de ânimo. Parece um pouco desanimado, mas é difícil de saber, por causa da escuridão. Talvez se deva ao tom do tema que estava tocando. Rodeia-me com um braço e me leva carinhosamente para o quarto.

        — Quando começou a tocar? Touca muito bem.

        — Aos seis anos.

— Oh. — Christian aos seis anos... tento imaginar a imagem de um pequeno menino de cabelo acobreado e olhos cinza, e meu coração derrete... Um menino de cabelos alvoroçados, que gosta de música incrivelmente triste.

        — Como se sente? — pergunta-me já de volta no quarto. Ele liga uma luminária.

        — Estou bem.

        Nós dois olhamos para a cama ao mesmo tempo. Os lençóis estão manchados de sangue, como uma prova de minha virgindade perdida. Ruborizo-me, embaraçada e jogo o edredom por cima.

— Bem, a senhora Jones terá algo no que pensar, — Christian resmunga na minha frente. Coloca a mão debaixo do meu queixo, levanta-me o rosto e me olha fixamente. Observa-me com olhos intensos. Dou-me conta de que é a primeira vez que o vejo com o peito nu. Instintivamente, eu estico a mão, de forma que meus dedos passem pelo seu peito. Quero sentir os pelos escuros do seu peito, mas, imediatamente, dá um passo atrás.

        — Vá para cama, — me diz bruscamente. E logo suaviza um pouco o tom. — Deitarei um pouco contigo.

        Retiro a mão e franzo levemente o cenho. Eu penso que nunca toquei o seu tronco. Ele abre uma gaveta, saca uma camiseta e a veste rapidamente.

        — Para a cama, — ele volta a me ordenar. Eu salto na cama tentando não pensar no sangue.

Ele deita-se também e me rodeia com os braços por trás, de maneira que não veja seu rosto. Beija-me o cabelo com suavidade e inala profundamente.

        — Durma, doce Anastásia — ele murmura, e eu fecho os olhos, mas não posso evitar sentir certa melancolia, não sei se é pela música ou pela sua conduta. Christian Grey tem um lado triste.

 

        A luz inundava o quarto, arrancando-me de um sono profundo. Eu me espreguiço e abro os olhos. Era uma bonita manhã de maio, com Seattle aos meus pés. Uau, que vista. Christian Grey está profundamente adormecido ao meu lado. Surpreende-me que esteja ainda na cama. Como está de cara para mim, tenho a oportunidade de examiná-lo bem, pela primeira vez. Seu formoso rosto parece mais jovem, relaxado em seu sono. Seus lábios esculturais, carnudos estão ligeiramente abertos, e o seu cabelo, limpo e brilhante, em gloriosa confusão. Como alguém pode ser tão bonito e mesmo assim ser frio? Recordo seu quarto no andar de cima... talvez não seja tão frio. Sacudo minha cabeça, tenho muito em que pensar. Sinto a tentação de esticar a mão e tocá-lo, mas está tão adorável dormindo, como um garotinho. Eu não tenho que me preocupar com o que estou dizendo, pelo que diz ele, ele tem planos, especialmente planos para mim.

        Eu poderia passar o dia todo o contemplando, mas tenho minhas necessidades... fisiológicas. Saio devagar da cama, vejo sua camisa branca no chão e me visto com ela. Dirijo-me para a uma porta pensando que podia ser o banheiro, mas acabo dentro de um closet tão grande quanto o meu quarto. Filas e filas de trajes caros, de camisas, sapatos e gravatas. Para que necessita de tanta roupa? Eu estalo a língua em desaprovação. Na verdade, o closet de Kate certamente não fica devendo nada a este. Kate! Oh, não. Não me lembrei dela uma única vez a noite toda. Eu tinha que lhe mandar uma mensagem. Merda. Ela vai se zangar comigo. Por um segundo, me pergunto como está com o Elliot.

        Volto para o quarto, Christian continua dormido. Abro a outra porta. É o banheiro, maior que meu quarto de dormir. Para que necessita tanto espaço um homem sozinho? Duas pias, eu observo com ironia. Se nunca dorme com ninguém, uma das duas não é utilizada.

        Olho-me no enorme espelho. Pareço diferente? Sinto-me diferente. Para ser sincera, estou um pouco dolorida, e os músculos... é como se nunca tivesse feito exercício na vida. Você não faz exercícios em sua vida, diz-me meu subconsciente, que despertou.

Ele me olha franzindo os lábios e batendo com o pé no chão. Acaba de se deitar com ele, você entregou sua virgindade a um homem que não a ama, que tem planos muito estranhos para você, que quer convertê-la em uma espécie de pervertida escrava sexual.

        VOCÊ ESTÁ LOUCA? – ele grita para mim.

 

        Sigo me olhando no espelho e estremeço. Tenho que assimilar tudo isto. Honestamente, gostei de perder para um homem que está para além de bonito, mais rico que Creso, e que tem um Quarto Vermelho da Dor me esperando. Estremeço. Estou desconcertada e confusa. Meu cabelo está um desastre, como sempre. O cabelo revolto não fica nada bem. Tento pôr ordem nesse caos com os dedos, mas não o consigo e me rendo... Possivelmente tenha algum elástico na bolsa.

        Morro de fome. Volto para o quarto. O belo adormecido continua dormindo, assim, o deixo e vou à cozinha.

        OH, não... Kate. Deixei a bolsa no estúdio de Christian. Vou buscá-la e pego meu celular. Três mensagens.

 

        *Tudo OK Ana*

 

        *Onde estás Ana*

 

        *Que droga Ana*

 

        Ligo para Kate, mas não me responde e lhe deixo uma mensagem na secretária eletrônica, lhe dizendo que estou viva e que o Barbazul não acabou comigo, bem, ao menos não no sentido que poderia lhe preocupar... ou talvez sim. Estou muito confusa. Tenho que tentar me esclarecer e analisar meus sentimentos por Christian Grey. É impossível. Movo a cabeça me dando por vencida. Preciso estar sozinha, longe daqui, para pensar.

        Encontro na bolsa dois elásticos para o cabelo e rapidamente faço duas tranças. Sim! Possivelmente quanto mais menina pareça, mais a salvo estarei do Barbazul. Pego o meu iPod na bolsa e coloco os fones. Não há nada como música, para cozinhar. Coloco o iPod no bolso da camisa de Christian, subo o volume e começo a dançar.

        Santo inferno, eu estou faminta.

        A cozinha me intimida um pouco. É elegante e moderna, com armários sem puxadores. Demoro uns segundos em chegar à conclusão de que tenho que pressionar as portas para que se abram. Possivelmente deveria preparar o café da manhã para Christian. No outro dia comeu uma panqueca... Bem, ontem, no Heathman. Caramba, quantas coisas aconteceram desde ontem. Abro a geladeira, vejo que há muitos ovos e pego o que quero para panquecas e bacon. Começo a fazer a massa dançando pela cozinha.

        Estar ocupada é bom. Isso me concede um pouco de tempo para pensar, mas sem aprofundar muito. A música que ressona em meus ouvidos também me ajuda a afastar os pensamentos profundos. Eu vim para cá para passar a noite na cama de Christian Grey e consegui, embora ele não permita a ninguém dormir em sua cama. Sorrio. Missão cumprida. Bons momentos. Sorrio. Bons, muito bons momentos, e começo a divagar recordando a noite. Suas palavras, seu corpo, sua maneira de fazer amor... Fecho os olhos, meu corpo vibra ao recordá-lo e os músculos de meu ventre se contraem. Meu subconsciente me faz cara feia. Sua maneira de foder, não de fazer amor, grita-me como uma harpia. Não faço conta, mas no fundo sei que tem razão. Movo a cabeça para me concentrar no que estou fazendo.

        A cozinha é muito sofisticada. Confio que saberei como funciona. Necessito de um lugar para deixar as panquecas, para que não esfriem. Começo com o bacon. Amy Studt está cantando em meu ouvido uma canção sobre gente inadaptada, uma canção que sempre significou muito para mim, porque sou uma inadaptada. Nunca me encaixei em nenhum lugar, e agora... tenho que considerar uma proposta indecente do Rei dos Desajustes. Por que Christian é assim? Por natureza ou por educação? Nunca conheci a ninguém igual.

        Coloco o bacon no grill, enquanto frita, bato os ovos. Volto-me e vejo Christian sentado em um tamborete, com os cotovelos em cima do balcão de café da manhã e o rosto apoiado na mão. Veste a camiseta com que dormiu. O cabelo revolto lhe fica realmente bem, assim como a barba de dois dias. Parece divertido e surpreso ao mesmo tempo. Fico paralisada e ruborizada. Logo me acalmo e tiro os fones. Com os joelhos tremendo, só de vê-lo.

        — Bom dia, senhorita Steele. Está muito ativa esta manhã, — diz-me em tom frio.

        — Eu dormi bem, — digo-lhe gaguejando. Ele tenta dissimular seu sorriso.

        — Não imagino por que. — ele faz uma pausa e franze o cenho. — Eu também, quando voltei para a cama.

        — Está com fome?

        — Muita, — responde-me com um olhar intenso, e acredito que não se refere à comida.

        — Panquecas, bacon e ovos?

        — Soa muito bem.

        — Não sei onde estão os guardanapos de mesa. — Encolho os ombros e tento desesperadamente não parecer nervosa.

        — Eu me ocupo disso. Você cozinha. Quer que ponha música, então você pode continuar... err... dançando?

        Olho para os meus dedos, perfeitamente consciente de que estou ruborizando.

        — Por favor, não pare por minha causa. Isso é muito interessante, — diz-me em tom zombador.

        Enrugo os lábios. Interessante, verdade? Meu subconsciente se dobra de rir.

Viro e sigo batendo os ovos, certamente com mais força do que necessário.

Num instante, ele está ao meu lado. Ele gentilmente puxa a minha trança.

        — Eu adoro isso, — sussurra. — Mas não vão proteger você.

Mmm, Barbazul...

        — Como quer os seus ovos? — pergunto-lhe bruscamente. Ele sorri.

        — Completamente batidos e espancados, — ele sorri.

        Sigo com o que estava fazendo tentando ocultar meu sorriso. É difícil não ficar louca por ele, especialmente quando está tão brincalhão, o qual não é nada frequente. Abre uma gaveta, saca duas toalhas individuais negras e as coloca no balcão. Jogo o ovo batido em uma frigideira, pego o bacon do grill, dou a volta e coloco mais no grill.

        Quando me volto, há suco de laranja no balcão e Christian está preparando café.

        — Quer um chá?

        — Sim, por favor. Se tiver.

        Pego um par de pratos e os coloca em cima de uma bandeja de aquecimento para mantê-los quentes. Christian abre um armário e saca uma caixa de chá Twinings English Breakfast. Franzo os lábios.

        — Um bocado de conclusões precipitadas, não é?

        — Você crê? Não tenho certeza que tenhamos concluído nada, ainda, senhorita Steele, — ele murmura.

        O que ele quer dizer com isso? Nossa negociação? Nossa, err... relação... seja o que for? Ele ainda é tão enigmático. Sirvo o café da manhã nos pratos quentes, que estão em cima dos guardanapos de mesa. Abro a geladeira e pego xarope de arce.

        Olho para Christian, ele está esperando que eu me sente.

        — Senhorita Steele. — diz-me assinalando um tamborete.

        — Senhor Grey. — Concordo com a cabeça, em reconhecimento. Ao me sentar, faço uma ligeira careta de dor.

        — Está muito dolorida? — pergunta-me, enquanto também toma assento.

        Ruborizo-me. Por que me faz perguntas tão pessoais?

        — Bem, para falar a verdade, não tenho com o que comparar isso, — respondo-lhe. — Queria me oferecer sua compaixão? — pergunto-lhe em tom muito doce. Acredito que tenta reprimir um sorriso, mas não estou segura.

        — Não. Perguntava-me se devemos seguir com seu treinamento básico.

        — Oh. — Olho para ele estupefata, contenho a respiração e estremeço. Oh... eu adoraria. Sufoco um gemido.

        — Coma, Anastásia. — Meu apetite se tornou incerto, novamente... mais... mais sexo... sim, por favor.

        — Isto está delicioso, a propósito. — Ele sorri para mim.

        Eu tento uma garfada de omelete, mas mal posso prová-lo. Treinamento básico! Quero foder a sua boca. O que faz parte do treinamento básico?

        — Deixe de morder o lábio. É muito perturbador, e acontece que me dei conta de que não está vestindo nada debaixo de minha camisa, e isso me desconcentra ainda mais. — Ele rosna.

        Inundo a bolsa de chá no bule que Christian me trouxe. Minha cabeça está dando voltas.

        — Em que tipo de treinamento básico está pensando? — pergunto-lhe, minha voz está com um volume um pouco alto, o que trai meu desejo de parecer natural, como se não me importasse muito, e o mais tranquila possível, em que pese, os hormônios estão causando estragos por todo meu corpo.

        — Bem, como está dolorida, pensei que poderíamos nos dedicar às técnicas orais.

        Engasgo-me com o chá e o olho para ele, com os olhos arregalados. Ele me dá tapinhas nas costas e me aproxima o suco de laranja. Não tenho nem ideia de no que está pensando.

        — Isto é, se você quiser ficar, — ele acrescenta. Olho para ele tentando recuperar o equilíbrio. Sua expressão é impenetrável. É muito frustrante.

        — Eu gostaria de ficar durante o dia, se não houver problema. Amanhã tenho que trabalhar.

        — A que hora tem que estar no trabalho?

        — Às nove.

        — Levarei você ao trabalho amanhã, às nove.

        Franzo o cenho. Quer que eu fique outra noite?

        — Tenho que voltar para casa esta noite. Preciso trocar de roupa.

        — Podemos comprar algo.

        Não tenho dinheiro para comprar roupa. Levanta a mão, agarra o meu queixo e faz meus dentes soltarem meu lábio inferior. Eu não estava consciente de que me estava mordendo o lábio.

        — O que acontece? — pergunta-me.

        — Tenho que voltar para casa esta noite.

        Ele aperta a boca em uma linha dura.

        — Ok, esta noite, — ele aceita. — Agora acabe o café da manhã.

        Minha cabeça e meu estômago dão voltas. Meu apetite sumiu. Contemplo a metade de meu café da manhã, que segue no prato. Já não tenho fome.

        — Coma, Anastásia. Ontem à noite não jantou.

        — Não tenho fome, de verdade, — sussurro.

        Ele aperta os olhos.

        — Eu gostaria muito que terminasse o seu café da manhã.

        — Qual o seu problema com a comida? — Eu deixo escapar. Ele franze a testa.

        — Já te disse que não suporto desperdiçar comida. Coma, diz-me bruscamente, com expressão sombria, doída.

        Droga. O que é tudo isto? Pego o garfo e como devagar, tentando mastigar.

Se for ser sempre tão estranho com a comida, terei que lembrar para não encher tanto o prato. Seu semblante se adoça a medida que vou comendo o café da manhã. Observo-o retirar seu prato. Espera a que eu termine e retira o meu também.

        — Você cozinhou, eu limpo.

        — Muito democrático.

        — Sim. — diz-me, franzindo o cenho. — Não é meu estilo habitual. Assim que acabar, tomaremos um banho.

        — Oh, ok. Oh meu Deus... Eu preferiria uma ducha. O som de meu telefone me tira do devaneio. É Kate.

        — Olá. — Afasto-me dele e me dirijo para as portas de vidro da varanda, na minha frente.

        — Ana, por que não me mandou uma mensagem ontem à noite? — Ela está zangada.

         — Desculpe-me. Eu fui superada pelos acontecimentos.

        — Você está bem?

        — Sim, perfeitamente.

        — Você fez? — Ela tenta conseguir a informação. Eu rolo meus olhos com a expectativa em sua voz.

        — Kate, eu não quero comentar isso por telefone. — Christian eleva os olhos para mim.

        — Você fez... eu posso dizer.

        Como pode estar segura? Ela está blefando, e eu não posso falar sobre isso. Eu assinei um maldito acordo.

        — Kate, por favor.

        — Como foi? Você está bem?

        — Já te disse que estou perfeitamente bem.

        — Ele foi gentil?

        — Kate, por favor! - Não posso reprimir meu aborrecimento.

        — Ana, não me oculte isso. Estou a quase quatro anos esperando este momento.

— Nos veremos esta noite. — E desligo.

        Vou ter dificuldade com esse assunto. É muito obstinada e quer que eu conte tudo com detalhes, mas não posso contar-lhe porque assinei um... como se chama? Um contrato de confidencialidade.

Ela vai ter um ataque e com razão. Tenho que pensar em algo. Volto à cabeça e observo Christian movendo-se com desenvoltura pela cozinha.

        — O acordo de confidencialidade abrange tudo? — pergunto-lhe indecisa.

        — Por quê? — Ele se vira e me olha, enquanto guarda a caixa de chá. Ruborizo-me.

        — Bom, tenho algumas duvidas, já sabe... sobre sexo. — Falo com ele, olhando os dedos. — E eu gostaria de conversar com Kate.

        — Você pode falar comigo.

        — Christian, com todo o respeito... — Fico sem voz. Eu não posso falar com você. Vou pegar o seu viés, enrolado como o inferno, com sua distorcida visão de sexo. Quero uma opinião imparcial. — É apenas sobre a mecânica. Não vou mencionar o Quarto Vermelho da Dor.

        Ele levanta as sobrancelhas.

        — Quarto Vermelho da Dor? Trata-se, sobretudo, de prazer, Anastásia. Acredite-me. — Ele diz.

— E além disso, — ele acrescenta em tom mais duro, — sua companheira de quarto está saindo com meu irmão. Preferia que você não falasse com ela.

        — Sua família sabe algo sobre as suas... preferências?

        — Não. Não é assunto deles. — ele aproxima-se de mim.

— O que quer saber? — pergunta-me, ele desliza os dedos gentilmente pela minha bochecha até o queixo, depois o levanta para me olhar diretamente nos olhos. Estremeço por dentro. Não posso mentir para este homem.

        — No momento, nada de concreto, — sussurro.

        — Bem, podemos começar perguntando como foi para você ontem à noite? — A curiosidade ardia nos seus olhos. Estava impaciente para saber. Uau.

        — Bom, - eu murmuro.

        Esboça um ligeiro sorriso.

        — Para mim também, — ele murmura. — Eu nunca fiz sexo baunilha antes. Há muito a ser dito sobre ele. Mas, então, talvez seja porque é com você. — Desliza o polegar por meu lábio inferior.

        Eu inalo fortemente. Sexo baunilha?

— Venha, vamos tomar um banho. — Ele se inclina e me beija. O meu coração dá um salto e o desejo percorre o meu corpo e se concentra... na minha parte mais profunda.

A banheira é branca, profunda e ovalada, muito designer. Christian se inclina e abre a torneira da parede ladrilhada. Bota na água um óleo de banho que parece muito caro. À medida que a banheira vai enchendo forma-se uma espuma, um doce e sedutor aroma de jasmim invade o banheiro. Christian me olha com olhos impenetráveis, tira a camiseta e a joga no chão.

        — Senhorita Steele. — diz-me, estendendo a mão.

        Estou ao lado da porta, com os olhos muito abertos, receosa e com as mãos ao redor do corpo. Aproximo-me admirando furtivamente seu corpo. Agarro-lhe a mão que me estende, enquanto entro na banheira, ainda com sua camisa posta. Faço o que me diz. Vou ter que me acostumar, se acabar aceitando sua escandalosa oferta... se! A água quente é tentadora.

        — Vire-se e me olhe, — ordena-me em voz baixa.        Faço o que me pede. Observa-me com atenção.

        — Sei que esse lábio é delicioso, posso atestar isso, mas pode deixar de mordê-lo? — diz-me apertando os dentes. — Quando faz isso, tenho vontade de foder você, e está dolorida, não é?

        Deixo de me morder o lábio porque fico boquiaberta, impactada.

        — Isso — ele desafia. — Você entendeu. — Ele me olha. Concordo com a cabeça, freneticamente. Não tinha nem ideia de que eu pudesse lhe afetar tanto.

        — Bom. — Ele aproxima-se, pega o iPod do bolso da camisa e o deixa em cima da pia.

        — Água e iPods... não é uma combinação muito inteligente — ele murmura. Inclina-se, agarra a camisa branca por baixo, puxa de meu corpo e a joga no chão.

        Afasta-se para me contemplar. Meu Deus, eu estou completamente nua. Fico vermelha e olho para as minhas mãos, que estão à altura da minha barriga. Desejo desesperadamente desaparecer dentro da água quente com espuma, mas sei que ele não vai querer que o faça.

        — Ouça — chama-me. Eu olho para ele. Tem o rosto inclinado para um lado. —Anastásia, é muito bonita, toda você. Não baixe a cabeça como se estivesse envergonhada. Não tem por que se envergonhar, eu asseguro a você que é um prazer poder lhe contemplar. Pega o meu queixo e me levanta a cabeça para que olhe para ele. Seus olhos são doces e quentes, até ardentes. Oh meu Deus. Está muito perto de mim. Poderia estender o braço e tocá-lo.

        — Você pode se sentar agora. — ele me diz, interrompendo meus pensamentos erráticos, agacho-me e me meto na agradável água quente. Oh... isso arde. Isso me pega de surpresa, mas tem um cheiro maravilhoso, porém, a ardência inicial não demora para diminuir. Deito-me de barriga para cima, fecho os olhos um instante e me relaxo na tranquilizadora calidez. Quando os abro, está me olhando fixamente.

        — Por que não toma um banho comigo? — atrevo-me a lhe perguntar, embora com voz rouca.

        — Eu acho que vou. Mova-se para frente, — ordena-me.

        Ele tira as calças do pijama e se mete na banheira atrás de mim. A água sobe de nível quando se senta e me puxa para que me apoie em seu peito. Coloca suas longas pernas em cima das minhas, com os joelhos flexionados e os tornozelos à mesma altura dos meus, e me abre as pernas com os pés. Fico boquiaberta. Coloca o nariz entre meus cabelos e inala profundamente.

— Você cheira bem, Anastásia.

        Um tremor me percorre todo o corpo. Estou nua em uma banheira com Christian Grey.

E ele também está nu. Se alguém me houvesse isso dito ontem, quando despertei na suíte do hotel, não teria acreditado.

        Agarra um frasco de gel da prateleira junto à banheira e joga um pouco na mão. Esfrega as mãos para fazer uma ligeira quantidade de espuma, coloca-me isso ao redor do pescoço e começa a me estender o sabão pela nuca e os ombros, massageando-os com força com seus compridos e fortes dedos. Eu gemo. Eu adoro sentir suas mãos.

        — Você gosta? — Quase posso ouvir seu sorriso.

        — Mmm.

        Desce pelos meus braços, logo por debaixo até as axilas, me esfregando brandamente. Fico muito contente por Kate ter insistido em que me depilasse. Desliza as mãos por meus seios, e inala drasticamente à medida que seus dedos os rodeiam e começam a massageá-los brandamente, sem agarrá-los. Arqueio meu corpo instintivamente e empurro os seios contra suas mãos. Tenho os mamilos sensíveis, muito sensíveis, sem dúvida pela pouca delicadeza com que foram tratados ontem à noite. Ele não se entretém muito tempo com eles. Desliza as mãos até meu ventre. Minha respiração acelera e o coração dispara. Sinto sua ereção contra meu traseiro. Excita-me saber que é o meu corpo que o faz se sentir dessa forma. Claro... não sua cabeça. Meu subconsciente zomba. Espanto o inoportuno pensamento.

        Ele para e pega uma toalhinha enquanto eu encosto contra ele, querendo... necessitando. Apoio às mãos em suas coxas firmes e musculosas. Joga mais gel na toalhinha, inclina-se e me esfrega entre as minhas pernas. Contenho a respiração. Seus dedos habilmente me estimulam através do tecido, é celestial, e meus quadris começam a mover-se no seu ritmo, pressionando contra sua mão. À medida que as sensações se apoderam de mim, inclino a cabeça para trás com os olhos semicerrados e a boca entreaberta. Gemo. Dentro de mim aumenta a pressão, lenta e inexoravelmente... oh meu Deus.

        — Sente isso, querida — Christian sussurra em meu ouvido, e me roça suavemente o lóbulo com os dentes. — Sinta-o para mim.

        Suas pernas imobilizam as minhas, contra as paredes da banheira, aprisionando-as, o que lhe dá livre acesso as minhas partes mais íntimas.

        — Oh... por favor — sussurro. Meu corpo fica rígido e tento esticar as pernas. Sou uma escrava sexual deste homem, que não deixa que me mova.

        — Acredito que já está suficientemente limpa — ele murmura e se detém. O que? Não! Não! Não!

Minha respiração está irregular.

        — Por que você parou? — pergunto-lhe, ofegante.

        — Porque tenho outros planos para ti, Anastásia.

        O que... oh meu Deus... mas... eu estava... isso não é justo.

        — Vire-se. Eu também tenho que me lavar — ele murmura.

        Oh! Viro-me e fico pasma ao ver que ele agarra o membro ereto com força.

Estou de boca aberta.

        — Quero que, para começar, conheça bem a parte mais valiosa de meu corpo, minha parte favorita. Estou muito ligado a isso.

        É tão grande e está crescendo. O membro ereto fica por cima da água, que lhe chega aos quadris. Levanto os olhos um segundo e observo seu sorriso perverso. Diverte-se com minha expressão atônita. Dou-me conta de que estou olhando fixamente para o seu membro. Engulo a saliva. Tudo isso esteve dentro de mim! Parece impossível. Ele quer que eu o toque. Mmm... ok, traga-o.

        Sorrio para ele, pego o gel e jogo um pouco na mão. Faço o mesmo que ele fez, esfrego o sabão nas mãos até que forme espuma. Não tiro os olhos dos seus. Entreabro os lábios para que fique mais fácil respirar... e deliberadamente mordo o lábio inferior e logo passo a língua por cima, pela zona que acabo de morder. Ele me olha com olhos sérios, impenetráveis, que se abrem enquanto deslizo a língua pelo lábio. Inclino-me e lhe rodeio o membro com uma mão, imitando a maneira como ele próprio o agarra. Fecho os olhos por um momento. Uau... é muito mais duro do que pensava. Percebo que ele colocou a sua mão sobre a minha. — Assim, — ele sussurra e move a mão para cima e para baixo, segurando meus dedos com força, que por sua vez, apertam com força o seu membro. Fecho de novo os olhos e prendo a respiração. Quando volto a abri-los, seu olhar é de um cinza abrasador. —Muito bem, querida.

        Ele solta a minha mão, deixa que eu siga sozinha e fecha os olhos enquanto movo a mão para cima e para baixo. Ele flexiona ligeiramente os quadris na minha mão, e reflexivamente eu o agarro com mais força. Do mais profundo da garganta lhe escapa um rouco gemido. Foder a minha boca... Mmm. Recordo que ele colocou o polegar em minha boca e me pediu que o chupasse com força. Abre a boca à medida que sua respiração se acelera. Tem os olhos fechados. Inclino-me, coloco os lábios ao redor de seu membro e chupo de forma vacilante, deslizando a língua pela ponta.

        — Uau... Ana. — Ele arregala os olhos e sigo chupando forte.

        Mmm... É duro e suave ao mesmo tempo, como aço recoberto de veludo, surpreendentemente saboroso, salgado e suave.

        — Cristo, — ele geme, e volta a fechar os olhos.

        Movendo para baixo, eu o empurro dentro de minha boca. Ele volta a gemer. Ha! Minha deusa interior está encantada. Eu posso fazê-lo. Eu posso fodê-lo com minha boca. Volto a girar a língua ao redor da ponta, e ele se arqueia e levanta os quadris. Tem os olhos abertos, e eles despedem fogo. Volta a arquear-se apertando os dentes. Apoio-me em suas coxas e empurro a boca até o fundo. Sinto nas mãos que suas pernas se esticam. Agarra-me pelas tranças e começa realmente a mover-se.

        — Oh... querida... é fantástico, — ele murmura. Eu chupo mais forte e passo a língua pela ponta de sua impressionante ereção. Pressiono com a boca, cobrindo os dentes com os lábios. Ele respira com a boca entreaberta e geme.

        — Jesus. Até onde você pode chegar? — ele sussurra.

        Mmm... Empurro com força e sinto seu membro no fundo da garganta, e logo nos lábios outra vez. Passado a língua pela ponta. É como ter meu próprio picolé com sabor Christian Grey. Chupo cada vez mais depressa, empurrando cada vez mais fundo e girando a língua ao redor. Mmm... Não tinha nem ideia de que proporcionar prazer podia ser tão excitante, ao vê-lo retorcer-se sutilmente de desejo carnal. Minha deusa interior dança merengue com alguns passos de salsa.

        — Anastásia, eu vou gozar em sua boca, — ele adverte-me ofegante. — Se não quiser, pare agora. Ele flexiona os quadris outra vez, com os olhos muito abertos, cautelosos e cheios de desejo lascivo... e me deseja. Deseja a minha boca... oh meu Deus.

        Caramba. Agarra-me pelo cabelo com força. Eu posso fazer isso. Empurro ainda com mais força e de repente, em um momento de insólita segurança em mim mesma, descubro os dentes. Isso o derruba pela borda.

Ele grita, fica imóvel e sinto um líquido quente e salgado deslizando pela minha garganta. Engulo isso rapidamente. Ugh... Eu não tenho certeza sobre isso. Mas basta um olhar para ele para que não me importe, ele gozou na banheira por minha causa. Sento-me para trás e o observo com um sorriso triunfal, que me eleva as comissuras da boca. Ele respira entrecortadamente. Abre os olhos e me olha.

— Não tem ânsia de vômito? — pergunta-me atônito. — Cristo, Ana... isso foi.. realmente bom, de verdade, muito bom. Embora eu não esperasse. — Ele franze o cenho. —Sabe, você não deixa de me surpreender.

        Sorrio e mordo o lábio conscientemente. Ele me olha especulativamente.

        — Você já tinha feito isso antes?

        — Não. — Não posso ocultar um ligeiro matiz de orgulho em minha negativa.

        — Bom, — ele diz complacentemente e, conforme acredito, aliviado. — Outra novidade, senhorita Steele.

Avalia-me com o olhar. — Bom, tem um ‘A’ em técnicas orais. Venha, vamos para cama. Devo-lhe um orgasmo.

        Orgasmo! Outro!

        Sai rapidamente da banheira e me oferece a primeira imagem completa do Adônis de divinas proporções que é Christian Grey. Minha deusa interior deixou dançar e o observa também, boquiaberta e babando. Sua ereção se reduziu, mas segue sendo importante... Uau. Ele enrola uma pequena toalha na cintura para cobrir o essencial, e pega outra maior e suave, de cor branca, para mim. Saio da banheira e lhe agarro a mão que me estende. Envolve-me na toalha, abraça-me e me beija com força, me colocando a língua na boca.

Desejo estirar os braços e abraçá-lo... tocá-lo... mas os tenho presos dentro da toalha. Não demoro para me perder em seu beijo. Segura a minha cabeça com as mãos, percorre-me a boca com a língua e me dá a sensação de que está me expressando sua gratidão... talvez... pela minha primeira felação? Uau?

        Afasta-se um pouco, coloca as mãos em ambos os lados do meu rosto, e me olha nos olhos. Parece perdido.

        — Diga que sim, — ele sussurra fervorosamente.

        Franzo o cenho, porque não o entendo.

        — Para o quê?

        — Sim, para o nosso acordo. Para ser minha. Por favor, Ana — sussurra suplicante, enfatizando o "por favor" e meu nome. Volta a me beijar com paixão, e logo se afasta e me olha piscando. Agarra-me pela mão e me conduz de volta ao quarto, cambaleando um pouco, eu o sigo mansamente. Aturdida. Ele realmente quer isso.

        Já no quarto, observa-me junto à cama.

        — Confia em mim? — pergunta-me, de repente. Eu concordo, sacudindo a cabeça, com os olhos muito abertos, de repente me dou conta de que, efetivamente, confio nele. O que vai fazer-me agora? Uma descarga elétrica me percorre o corpo.

        — Boa garota, — ele me diz, passando o polegar pelo lábio inferior. Aproxima-se do armário e volta com uma gravata cinza de seda.

        — Junte as mãos na frente, — ordena-me, tirando-me a toalha e jogando-a no chão.

Faço o que me pede. Rodeia-me os pulsos com a gravata e faz um nó apertado. Seus olhos brilham de excitação. Puxa a gravata para assegurar-se de que o nó não se mova. Tem que ter sido escoteiro para saber fazer estes nós. E agora o quê? Meu pulso atravessou o telhado, meu coração pulsa em um ritmo frenético. Desliza os dedos pelas minhas tranças.

        — Você parece tão jovem com estas tranças, — ele murmura aproximando-se de mim. Instintivamente, me movo para trás até sentir a cama atrás dos meus joelhos. Ele tira a sua toalha, mas não posso tirar os olhos de seu rosto. Sua expressão é ardente, cheia de desejo.

        — Oh, Anastásia, o que vou fazer contigo? — sussurra-me. Estende-me sobre a cama, cai ao meu lado e me levanta as mãos por cima da cabeça.

        — Deixa as mãos assim. Não as mova. Entendido? — Seus olhos queimam os meus e sua intensidade me deixa sem fôlego. Não é um homem que se deva zangar. Nunca.

        — Responda-me, — ele me pede em voz baixa.

— Não moverei as mãos. — respondo-lhe sem fôlego.

        — Boa garota, — ele murmura e deliberadamente se passa a língua pelos lábios muito devagar. Fascina-me sua língua percorrendo lentamente seu lábio superior. Olha-me nos olhos, observa-me, examina-me. Inclina-se e me dá um casto e rápido beijo nos lábios.

        — Vou beijar seu corpo todo, senhorita Steele, — diz-me em voz baixa, e agarra-me pelo queixo e o levanta, isso lhe dá acesso ao meu pescoço. Seus lábios deslizam pela minha garganta, beijando, chupando e mordiscando. Todo meu corpo vibra com antecipação... em toda parte. O banho recente me deixou com a pele hipersensível. O sangue quente desce lentamente até meu ventre, entre as pernas, até meu sexo. Eu gemo.

        Quero tocá-lo. Movo as mãos, mas, como estou amarrada, toco-lhe o cabelo com bastante estupidez. Deixa de me beijar, levanta os olhos e move a cabeça de um lado a outro estalando a língua. Pega as minhas mãos e volta a me colocar acima da cabeça.

        — Se mover as mãos, teremos que recomeçar — ele repreende-me suavemente.

Oh, ele gosta de me provocar.

        — Quero tocar em você. — Digo-lhe ofegando, sem poder me controlar.

        — Eu sei, — murmura. — Mas deixe as mãos quietas, — ele ordena, sua voz é forte.

        Ele levanta o meu queixo de novo e começa a beijar a minha garganta como antes. OH... ele é tão frustrante.

Suas mãos descem pelo meu corpo, sobre meus seios, enquanto seus lábios deslizam pelo meu pescoço. Acaricia-me com a ponta do nariz, e logo, com a boca, dá início a uma lenta travessia para o sul e segue o rastro das suas mãos, pelo esterno, até meus seios. Beija-me e me mordisca um, logo o outro, e me chupa suavemente os mamilos. Caramba.

Meus quadris começam a balançar-se e a mover-se por conta própria, seguindo o ritmo de sua boca, e eu tento desesperadamente lembrar que tenho que manter as mãos acima da cabeça.

        — Não se mova, — adverte-me, sinto sua cálida respiração sobre minha pele. Chega ao meu umbigo, introduz a língua e me roça a barriga com os dentes. Meu corpo se arqueia. — Mmm. Que doce é você, senhorita Steele. — Desliza o nariz desde meu umbigo até meus pelos púbicos, me mordendo suavemente e me provocando com a língua. Sentando-se, de repente, ele se ajoelha aos meus pés, agarra-me pelos tornozelos e me separa as pernas.

        Caramba. Ele agarra o meu pé esquerdo, dobra meu joelho e leva o pé à boca.

Sem deixar de observar minhas reações, beija ternamente cada um dos meus dedos e logo morde cada um suavemente. Quando chega ao mindinho, morde com mais força. Sinto uma convulsão e gemo. Ele desliza a língua pelo peito do meu pé... e já não posso mais vê-lo.

Isso é muito erótico. Vou entrar em combustão. Aperto os olhos e tento absorver e suportar todas as sensações que me provoca. Beija-me o tornozelo e segue seu percurso pela panturrilha até o joelho, onde se detém. Então começa com o pé direito, repetindo todo o sedutor e assombroso processo.

        — Oh, por favor, — Eu gemo e ele morde meu dedo mindinho, e a dentada se projeta no mais profundo de meu ventre.

— Todas as coisas boas, senhorita Steele, — ele respira.

Desta vez não se detém no joelho. Segue pela parte interior da coxa e de uma vez me separa mais as pernas. Sei o que vai fazer, e uma parte de mim quer empurrá-lo, porque morro de vergonha. Ele vai me beijar lá!. Eu sei disso. Mas outra parte de mim desfruta com antecipação. Ele muda para o outro joelho e sobe até a coxa me beijando, me chupando, me lambendo e, de repente, está entre minhas pernas, deslizando o nariz por meu sexo, para cima e para baixo, muito suavemente, com muita delicadeza. Retorço-me... oh meu Deus.

        Ele para e espera que me acalme. Levanto a cabeça e olho para ele com a boca aberta. Meu acelerado coração tenta tranquilizar-se.

        — Sabe o embriagador que seu aroma é, senhorita Steele? — ele murmura, e sem afastar seus olhos dos meus, introduz o nariz em meus pelos púbicos e cheira.

        Ruborizo-me, sinto que vou desmaiar e fecho os olhos imediatamente. Não posso vê-lo fazendo algo assim!

        Percorre-me muito devagar o sexo. Oh, foda...

        — Eu gosto disso. — Ele gentilmente puxa os meus pelos púbicos. — Talvez devamos manter isso.

         — Oh... por favor, — suplico-lhe.

        — Mmm, eu gosto que me suplique, Anastásia.

E gemo.

        — Não estou acostumado a pagar com a mesma moeda, senhorita Steele, — ele sussurra deslizando-se pelo meu sexo. — Mas hoje me agradou, assim tem que receber sua recompensa. — Ouço em sua voz o sorriso perverso, e enquanto meu corpo palpita com suas palavras, começa a rodear meu clitóris com a língua, muito devagar, me sujeitando as coxas com as mãos.

        — Ahhh! — Eu gemo, meu corpo se arqueia e se convulsiona ao contato de sua língua.

        Segue me torturando com a língua uma e outra vez. Perco a consciência de mim mesma. Todas as partículas de meu ser se concentram no pequeno ponto nevrálgico por cima das coxas. As pernas ficam rígidas. Ouço seu gemido, enquanto me introduz um dedo.

        — Oh, querida. Eu adoro que esteja tão molhada para mim.

        Move o dedo riscando um amplo círculo, me expandindo, me empurrando, e sua língua segue o compasso do dedo ao redor de meu clitóris. Gemo. É muito... Meu corpo suplica por alivio, e não posso seguir me negando. Deixo-me ir. O orgasmo se apodera de mim e perco todo pensamento coerente, retorço-me por dentro, uma e outra vez. Caramba. Eu grito, e o mundo se desmorona e desaparece de minha vista, enquanto a força de meu clímax torna tudo nulo e sem efeito.

        Estou ofegante e vagamente ouço quando ele rasga o envelope da camisinha. Muito lentamente ele penetra em mim e começa a mover-se. Oh... meu.. Deus. A sensação é dolorosa e doce, forte e suave ao mesmo tempo.

        — Como está? — pergunta-me em voz baixa.

        — Bem. Muito bem, — respondo-lhe. E começa a mover-se muito depressa, até o fundo, investe uma e outra vez, implacável, empurra e volta a empurrar até que volto a estar perto da borda. Eu choramingo.

        — Goze para mim, querida. — Ele me fala no ouvido, com voz áspera, dura e selvagem, eu explodo enquanto bombeia rapidamente dentro de mim.

        — Obrigada, porra — ele sussurra e empurra forte uma vez mais e geme ao chegar ao clímax apertando-se contra mim. Logo fica imóvel, com o corpo rígido.

        Ele desaba sobre mim. Sinto o seu peso me esmagando contra o colchão. Passo minhas mãos atadas ao redor de seu pescoço e o abraço como posso. Eu sei, neste momento, que faria qualquer coisa por este homem. Sou dele. A maravilha que está me ensinando é muito mais do que jamais teria podido imaginar. E ele quer levá-la mais, muito mais, para um lugar que eu não posso, na minha inocência, nem sequer imaginar. Oh... o que devo fazer?

        Apoia-se nos cotovelos, e seus intensos olhos cinza me olham fixamente.

        — Vê o bom que nós somos juntos? — ele murmura. — Se você se entregar para mim, será muito melhor. Confie em mim, Anastásia. Posso transportar você a lugares que nem sequer sabe que existem.

        Suas palavras ecoam em meus pensamentos. Encosta o seu nariz no meu. Ainda não me recuperei da minha insólita reação física e olho para ele com a mente em branco, procurando algum pensamento coerente.

        De repente, ouvimos vozes no salão, do lado de fora da porta do quarto. Demoro um momento para processar o que estou ouvindo.

        — Se ainda está na cama, tem que estar doente. Ele nunca está na cama a estas horas. Christian nunca se levanta tarde.

        — Senhora Grey, por favor.

        — Taylor, não pode me impedir de ver meu filho.

        — Senhora Grey, ele não está sozinho.

        — O que quer dizer com não está sozinho?

        — Está com alguém.

        — Oh... — Até eu posso ouvir a descrença em sua voz.

        Christian pisca rapidamente, olhando para mim, com olhos arregalados, com horror humorado.

        — Merda! É minha mãe.

 

        Ele puxa para fora de mim, de uma vez. Eu estremeço. Senta-se na cama, tira a camisinha usada e joga em um cesto de papéis.

        — Vamos, temos que nos vestir... se quiser conhecer minha mãe. — Ele sorri, levanta-se da cama e veste o jeans, sem cuecas! Tento me levantar, mas continuo amarrada.

        — Christian... não posso me mover.

        Seu sorriso se acentua, inclina-se e desamarra a gravata, que me deixou a marca do tecido nos pulsos. Isto é... sexy. Observa-me divertido, com olhos dançarinos. Beija-me rapidamente na testa e me sorri.

         — Outra novidade, — ele reconhece, mas não tenho ideia do que está falando.

        — Eu não tenho roupa limpa. — De repente, estou cheia de pânico, considerando a experiência que acabo de viver, o pânico me parece insuportável. Sua mãe! Caramba. Não tenho roupa limpa e ela praticamente nos pegou em flagrante delito. —Talvez devesse ficar aqui.

        — Oh, não, você não vai, — Christian ameaça. — Pode vestir algo meu. — Ele veste uma camiseta branca e passa a mão pelo cabelo revolto. Embora esteja muito nervosa, fico embevecida. Será que vou me acostumar a olhar para este homem?

         Sua beleza é desconcertante.

        — Anastásia, você ficaria bonita até com um saco. Não se preocupe, por favor. Eu gostaria que conhecesse minha mãe. Vista-se. Vou acalmá-la um pouco. — Aperta os lábios. — Espero você no salão, dentro de cinco minutos, caso contrário, eu virei e a arrastarei para fora daqui, com qualquer coisa que esteja vestindo. Minhas camisetas estão nessa gaveta. As camisas estão no closet. Sirva-se. — Olha-me um instante, inquisitivo e sai do quarto.

Caramba. A mãe de Christian. É muito mais do que esperava. Talvez conhecê-la me permita colocar algumas peças no quebra-cabeça. Poderia me ajudar a entender por que Christian é como é... De repente, quero conhecê-la. Recolho minha blusa do chão e me alegro por descobrir que sobreviveu a noite sem estar muito amassada. Encontro o sutiã azul debaixo da cama e me visto rapidamente. Mas se há algo que odeio é usar calcinhas sujas. Dirijo-me à cômoda de Christian e procuro uma de suas cuecas.

Ponho-me uma cueca cinza da Calvin Klein, o jeans e meu Converse.

        Puxo a jaqueta, corro ao banheiro e observo meus olhos muito brilhantes, minha cara vermelha... e meu cabelo. Caramba... as tranças estão desfeitas. Procuro uma escova, mas só encontro um pente. Ele terá que servir. Um rabo de cavalo é a única resposta. Eu me desespero com minhas roupas. Talvez devesse aceitar a oferta de roupas de Christian.

Meu subconsciente franze os lábios e articula a palavra "vadia". Não faço conta. Ponho a jaqueta e me alegro de que os punhos cubram as marcas da gravata. Nervosa, me olho pela última vez no espelho. É o que posso fazer. Dirijo-me ao salão.

        — Aqui está. — diz Christian levantando do sofá.

        Olha-me com expressão cálida e apreciativa. A mulher loira que está ao seu lado se vira e me dedica um amplo sorriso. Levanta-se também. Está impecavelmente vestida, com um vestido estilo camisa, castanho claro, com sapatos combinando. Está arrumada, elegante, bonita, e me mortifico um pouco pensando como estou um desastre.

        — Mamãe, apresento-lhe Anastásia Steele. Anastásia, esta é Grace Trevelyan-Grey.

A doutora Trevelyan-Grey me estende a mão. T... de Trevelyan?

        — Prazer em conhecê-la, — ela murmura. Se não estou enganada, há espanto e alivio, talvez atordoamento em sua voz e um brilho quente em seus olhos cor de avelã. Aperto-lhe a mão e não posso evitar de sorrir, retornando o seu calor.

        — Doutora Trevelyan-Grey, — eu murmuro.

        — Chame-me de Grace. — Sorri, e Christian franze o cenho. — Usualmente sou chamada de doutora Trevelyan, e a senhora Grey é minha sogra. — Ela pisca um dos olhos. — Então, como se conheceram? — pergunta olhando para Christian, incapaz de ocultar sua curiosidade.

        — Anastásia me entrevistou para a revista da faculdade, porque esta semana vou entregar os diplomas de graduação.

        Dupla merda. Tinha-o esquecido.

        — Então, você vai se graduar esta semana? — Grace pergunta.

        — Sim.

        Meu celular começa a tocar. Kate, eu aposto.

        — Desculpem-me. O telefone está na cozinha. Aproximo-me e o pego do balcão sem checar o número.

— Kate.

        — Meu Deus! Ana! – Que merda, é José. Parece desesperado. — Onde está? Já liguei umas vinte vezes. Tenho que ver você. Quero te pedir perdão pelo que aconteceu na sexta-feira. Por que não me respondeu as ligações?

        — Olhe, José, agora não é um bom momento.

        Olho muito nervosa para Christian, que me observa atentamente, com rosto impassível, enquanto murmura algo para sua mãe. Dou-lhe as costas.

        — Onde você está? Kate está muito evasiva, — ele queixa-se.

        — Estou em Seattle.

        — O que você faz em Seattle? Está com ele?

        — José, eu ligo para você mais tarde. Não posso falar agora. E desligo.

Volto com toda tranquilidade para Christian e sua mãe. Grace está em pleno falatório.

        — ... e Elliot me ligou para dizer que você estava por aqui... Faz duas semanas que não vejo você, querido.

        — Elliot sabia? — Christian pergunta me olha com expressão indecifrável.

        — Pensei que poderíamos comer juntos, mas já vejo que tem outros planos, assim não quero lhes interromper. — Ela agarra seu comprido casaco de cor creme, vira-se para ele, oferecendo o rosto para ele. Ele a beija rapidamente com suavidade. Ela não toca nele.

        — Tenho que levar Anastásia para Portland.

        — É claro, querido. Anastásia, foi um prazer lhe conhecer. Espero que voltemos a nos ver.

        Ela estende-me a mão, com olhos brilhantes e nós sacudimos.

        Taylor aparece procedente de... onde?

        — Senhora Grey? — Ele pergunta.

        — Obrigado, Taylor. — Ele a segue pelo salão e atravessam as portas duplas que vão para o vestíbulo. Taylor esteve aqui o tempo todo? Por quanto tempo esteve aqui? Onde esteve?

        Christian me olha.

        — Então o fotógrafo ligou para você?

        Merda.

        — Sim.

        — O que queria?

        — Só me pedir perdão, já sabe... por sexta-feira.

        Christian aperta os olhos.

        — Eu vejo, — ele diz simplesmente.

        Taylor volta a aparecer.

        — Senhor Grey, há um problema com o envio de Darfur.

        Christian acena bruscamente para ele com a cabeça.

— O Charlie Tango voltou para o Boeing Field?

        — Sim, senhor.

         Taylor sacode a cabeça para mim.

— Senhorita Steele.

        Eu sorrio timidamente para ele, que se vira e sai.

        — Taylor vive aqui?

        — Sim. — responde-me cortante. Qual o problema agora?

        Christian vai à cozinha, pega o seu BlackBerry e dá uma olhada aos e-mails, suponho. Está muito sério. Ele faz uma ligação.

        — Ros, qual é o problema? — pergunta bruscamente. Escuta sem deixar de me olhar com olhos interrogativos. Eu estou no meio do enorme salão me sentindo extraordinariamente auto-consciente e deslocada.

        — Não vou pôr a tripulação em perigo. Não, cancele-o... Lançá-lo-emos do ar... Bom.

        Desliga. A suavidade em seus olhos desapareceu. Parece hostil. Lança-me um rápido olhar, dirige-se para seu escritório e volta um momento mais tarde.

        — Este é o contrato. Leia e o comentaremos no fim de semana que vem. Sugiro que pesquise um pouco, para que saiba do que estamos falando. — Para por um momento. —Bom, se aceitar e espero realmente que aceite. — acrescenta em tom mais suave, nervoso.

        — Pesquisar?

        — Você pode ficar surpresa com o que pode encontrar na internet — ele murmura.

        Internet! Não tenho computador, só o notebook de Kate, e, é obvio, não posso utilizar o do Clayton's para este tipo de "pesquisa", certo?

        — O que acontece? — pergunta-me inclinando a cabeça.

        — Não tenho computador. Estou acostumada a utilizar os da faculdade. Verei se posso utilizar o notebook de Kate.

        Ele me entregou um envelope pardo.

        — Estou certo que posso... err, lhe emprestar um. Recolha suas coisas. Voltaremos para Portland de carro e comeremos algo pelo caminho. Vou vestir-me.

        — Tenho que fazer uma ligação, — eu murmuro. Só quero ouvir a voz do Kate. Ele franze o cenho.

        — Para o fotógrafo? — Suas mandíbulas se apertam e os olhos ardem. Eu pisco para ele. — Eu não gosto de compartilhar, senhorita Steele. Lembre-se disso. — Seu tom de voz calmo, é um arrepiante aviso e dando um olhar muito frio para mim, ele volta para o quarto.

Caramba. Eu só queria ligar para a Kate. Quero ligar diante dele, mas sua repentina atitude distante me deixou paralisada. O que aconteceu com o homem generoso, depravado e sorridente que me fazia amor faz apenas meia hora?

        — Pronta? — Christian me pergunta junto à porta dupla do vestíbulo.

        Eu concordo, incerta. Ele recuperou seu tom distante, educado e convencional. Voltou a colocar a máscara. Leva uma bolsa de couro sobre o ombro. Para que a necessita? Talvez ele fique em Portland. Então recordo a entrega dos diplomas. Sim, claro... Estará em Portland na quinta-feira.

Está vestindo uma jaqueta negra de couro. Vestido assim, sem dúvida não parece um multi milionário. Parece um menino extraviado, possivelmente uma rebelde estrela de rock ou um modelo de passarela. Suspiro por dentro, desejando ter uma décima parte de sua elegância. É tão tranquilo e controlado... Franzo o cenho ao recordar seu arrebatamento com a ligação de José... Bom, ao menos parece que o é.

        Taylor está esperando ao fundo.

        — Amanhã, então, — ele diz para Taylor, que concorda.

        — Sim, senhor. Que carro vai levar, senhor?

        Lança-me um rápido olhar.

        — O R8.

        — Boa viagem, senhor Grey. Senhorita Steele. — Taylor me olha com simpatia, embora possivelmente no mais profundo de seus olhos esconda um pingo de lástima.

        Sem dúvida acredita que sucumbi aos dúbios hábitos sexuais do senhor Grey. Bom, aos seus excepcionais hábitos sexuais, ou possivelmente, o sexo seja assim para todo mundo? Franzo o cenho ao pensar nisso. Não tenho nada com o que compará-lo e pelo visto, não posso perguntar a Kate. Assim terei que falar do tema com Christian. Seria perfeitamente natural poder falar com alguém... mas não posso falar com Christian se ele se mostrar tão aberto num minuto e tão retraído no seguinte.

        Taylor nos segura a porta para que saiamos. Christian chama o elevador.

— O que foi, Anastásia? — pergunta-me. Como sabe que estou remoendo algo em minha mente? Ele chega mais perto e levanta o meu queixo.

        — Pare de morder o lábio ou a foderei no elevador, e não vou me importar se entrar alguém ou não.

        Ruborizo-me, mas seus lábios esboçam um ligeiro sorriso. Ao final parece que está recuperando o senso de humor.

— Christian, tenho um problema.

        — Oh, sim? — pergunta-me me observando com atenção.

        Chega o elevador. Entramos e Christian aperta o botão marcado com um G.

        — Bem, — eu ruborizo. Como posso dizer-lhe isso? — Preciso falar com a Kate. Tenho muitas perguntas sobre sexo, e você está muito comprometido. Se quiser que faça todas essas coisas, como vou saber...? — interrompo-me e tento encontrar as palavras adequadas.

— É que não tenho pontos de referência.

        Ele rola os olhos.

— Fale com ela se for preciso. — responde-me zangado. — Mas se assegure de que não comente nada com o Elliot.

        Não concordo com sua insinuação. Kate não é assim.

        — Kate não faria algo assim, como eu não diria a você nada do que ela me conte sobre Elliot... se me contasse algo, — acrescento rapidamente.

        — Bom, a diferença é que não me interessa sua vida sexual — murmura Christian em tom seco. — Elliot é um bastardo curioso. Mas lhe fale só do que temos feito até agora, — ele adverte.

— Ela, provavelmente, me cortaria as bolas se soubesse o que quero fazer contigo, — ele acrescenta em voz tão baixa, que não estou segura de se pretendia que o ouvisse.

        — Ok, — concordo prontamente, sorrindo para ele, aliviada. Não quero nem pensar em Kate cortando as bolas de Christian.

        Ele franze os lábios e sacode a cabeça.

        — Quanto antes se submeta para mim melhor, assim acabamos com tudo isto — ele murmura.

        — Acabamos com o que?

        — Com seus desafios. — Passa-me uma mão pelo meu queixo e me beija rapidamente nos lábios. As portas do elevador se abrem. Agarra-me pela mão e me leva para a garagem no subsolo.

Eu o desafio... como?

 

        Perto do elevador vejo o Audi 4x4 negro, mas quando aperta o comando para que se abram as portas, acendem-se as luzes de um esportivo negro reluzente. É um desses carros que deveria ter uma loira de pernas longas, deitada no capô, vestida apenas com uma faixa.

        — Bonito carro, — eu murmuro secamente.

        Ele levanta o olhar e sorri.

        — Eu sei, — responde-me, e por um segundo volta a ser o doce, jovem e despreocupado Christian. Inspira-me ternura. Está entusiasmado. Os meninos e seus brinquedos. Rolo os olhos, mas não posso ocultar meu sorriso. Abre-me a porta e entro. Uau... é muito baixo. Ele se move em volta do carro com graça fácil e dobra seu corpo longo elegantemente ao meu lado. Como ele faz isso?

        — Então, que tipo de carro é esse?

        — Um Audi R8 Spyder. Como faz um dia lindo, podemos baixar a capota. Há um boné de beisebol aí. Na verdade, deve haver dois. Ele aponta para uma caixa. — E óculos de sol se você quiser.

        Ele dá partida na ignição, e o motor ruge a nossas costas. Deixa a bolsa entre os dois assentos, aperta um botão e a capota retrocede lentamente. Aperta outro, e a voz do Bruce Springsteen nos envolve.

        — Vai ter que gostar do Bruce, — Sorri-me, e tira o carro do estacionamento e sobe a rampa, onde nos detemos, esperando que a porta levante.

        E saímos para a ensolarada manhã de maio em Seattle. Abro a caixa e pego os bonés de beisebol. São da equipe dos Mariners. Ele gosta de beisebol? Passo-lhe um boné e ponho o outro. Eu passo o rabo de cavalo pela parte de trás do meu boné e puxo a viseira para baixo.

        Pessoas nos olham quando nos dirigimos pelas ruas. Por um momento penso que olham para ele... e logo tenho um paranóico pensando que me olham porque sabem o que estive fazendo nas últimas doze horas, mas ao final, me dou conta de que o que olham é o carro. Christian parece alheio a tudo, perdido em seus pensamentos.

        Há pouco tráfico, assim não demoramos para chegar a interestadual 5 em direção ao sul, com o vento soprando por cima de nossas cabeças. Bruce canta que arde de desejo. Muito oportuno. Ruborizo-me escutando a letra. Christian me olha. Com seus óculos Ray-Ban, não vejo sua expressão. Franze os lábios, apóia uma mão em meu joelho e me aperta suavemente. Minha respiração fica difícil.

        — Tem fome? — pergunta-me.

        Não de comida.

        — Não especialmente.

        Seus lábios voltam a apertar-se em uma linha firme.

        — Você tem que comer, Anastásia, — ele repreende-me. — Conheço um lugar fantástico perto de Olympia. Pararemos ali. — Aperta-me o joelho de novo, sua mão volta a pegar no volante e pisa no acelerador. Vejo-me impulsionada contra o respaldo do assento. Caramba, como corre este carro.

O restaurante é pequeno e íntimo, um chalé de madeira em meio de um bosque. A decoração é rústica: cadeiras diferentes, mesas com toalhas em xadrez e flores silvestres em pequenos vasos. Cuisine Sauvage, alardeia um pôster por cima da porta.

— Fazia tempo que não vinha aqui. Não se pode escolher... Preparam o que caçaram ou recolheram. — Levanto as sobrancelhas fingindo horrorizar-se e não posso evitar de rir. A garçonete nos pergunta o que vamos beber. Ruboriza-se ao ver Christian e se esconde debaixo de sua comprida franja loira para evitar olhá-lo nos olhos. Ela gosta dele! Não acontece só comigo!

        — Dois copos do Pinot Grigio, — diz Christian em tom autoritário. Eu aperto meus lábios, aborrecida. — O que? — pergunta-me bruscamente.

        — Eu queria uma Coca-cola light, — eu sussurro.

        Seus olhos cinza se apertam e ele sacode sua cabeça.

        — O Pinot Grigio daqui é um vinho decente. Irá bem com a comida, tragam o que nos trouxerem, — diz-me em tom paciente.

        — Tragam o que trouxerem?

        — Sim.

        Esboça seu deslumbrante sorriso inclinando a cabeça e faz um nó no meu estômago. Eu não posso deixar de devolver-lhe seu sorriso glorioso.

        — Minha mãe gostou de você, — diz-me de repente.

        — Sério? — Suas palavras me fazem ruborizar de alegria.

        — Oh sim. Sempre pensou que eu fosse gay.

Abro a boca ao me lembrar daquela pergunta... na entrevista. Oh, não.

        — Por que ela pensava que é gay? — pergunto-lhe em voz baixa.

        — Porque nunca me viu com uma garota.

        — Oh... com nenhuma das quinze?

        Ele sorri.

        — Tem boa memória. Não, com nenhuma das quinze.

        — Oh.

        — Olhe, Anastásia, para mim também foi um fim de semana de novidades, — diz-me em voz baixa.

        — Foi?

        — Nunca tinha dormido com ninguém, nunca tinha tido relações sexuais em minha cama, nunca tinha levado uma garota no Charlie Tango e nunca tinha apresentado uma mulher para minha mãe. O que você está fazendo comigo? — A intensidade de seus olhos ardentes me corta a respiração.

        A garçonete chega com nossos copos de vinho, e imediatamente dou um pequeno gole. Está sendo franco ou se trata de um simples comentário fortuito?

        — Eu gostei muito deste fim de semana, — digo em voz baixa. Ele aperta os olhos para mim novamente.

— Pare de morder o lábio, — ele grunhe. — Eu também, — ele acrescenta.

— O que é sexo baunilha? — pergunto-lhe, embora só para me distrair do intenso olhar ardente e sexy que ele está me dando. Ele ri.

        — Sexo convencional, Anastásia. Sem brinquedos, nem acessórios. — ele encolhe os ombros. — Você sabe... bom, a verdade é que não sabe, mas isso é o que significa.

        — Oh. — Eu pensei que era sexo bolo de chocolate com uma cereja no topo, o que tivemos. Mas então, o que eu sei?

         A garçonete nos traz sopa, que ambos olhamos com certo receio.

        — Sopa de urtigas, — informa-nos a garçonete, dando meia volta e retornando zangada à cozinha. Não acredito que goste que Christian não lhe faça nem caso. Provo a sopa, que está deliciosa.

Christian e eu olhamos um para o outro, aliviados. Dou uma risada e ele inclina a cabeça.

— Que som adorável, — murmura.

        — Por que você nunca fez sexo baunilha antes? Você sempre fez... err, o que faz? — pergunto-lhe intrigada.

        Ele concorda lentamente.

        — Mais ou menos. — Ele responde-me com cautela. Por um momento franze o cenho e parece liberar uma espécie de batalha interna. Logo levanta os olhos, como se tivesse tomado uma decisão. — Uma amiga de minha mãe me seduziu quando eu tinha quinze anos.

        — Oh. Meu deus, tão jovem!

        — Seus gostos eram muito especiais. Fui seu submisso durante seis anos. — Ele encolhe os ombros.

        — Oh. — Meu cérebro congelou, atordoado por essa confissão.

        — Então, eu sei o que isso implica, Anastásia. — Seus olhos brilham com a introspecção.

        Observo-o fixamente, incapaz de articular uma palavra... Até meu subconsciente está em silêncio.

        — A verdade é que não tive uma introdução ao sexo muito corrente.

        A curiosidade entra em ação.

        — E alguma vez saiu com alguém na faculdade?

        — Não. — responde-me, negando com a cabeça, para enfatizar sua resposta.

        A garçonete chega para retirar nossos pratos e nos interrompe um por momento.

        — Por quê? — pergunto-lhe, quando ela se vai.

        Ele sorri sardonicamente.

        — Você, realmente, quer saber?

        — Sim.

        — Porque não quis. Ela era tudo o que queria ou necessitava. Além disso, ela iria me castigar. — Ele sorri com carinho ao recordar.

        Oh, isso era muita informação... mas queria mais.

        — Então, ela era uma amiga de sua mãe, quantos anos ela tinha?

        Ele sorri.

        — Tinha idade suficiente para saber o que fazia.

        — Você ainda a vê?

        — Sim.

        — Ainda... bem...? — Ruborizo-me.

        — Não. — Ele sacode a cabeça e com um sorriso indulgente. — Ela é uma boa amiga.

        -Oh. Sua mãe sabe?

        Ele me olha, como se dissesse para não ser idiota.

        — Claro que não.

        A garçonete retorna com carne de veado, mas meu apetite sumiu. Que revelação.

Christian, um submisso... caramba. Eu dou um comprido gole no Pinot Grigio... Christian tinha razão, é obvio, está delicioso. Deus, tenho que pensar em tudo o que me contou. Necessito tempo para processá-lo quando estiver sozinha, porque agora sua presença me distrai. É tão irresistível, tão macho alfa, e de repente, lança esta bomba. Ele sabe o que é ser submisso.

        — Mas não pode ter sido em tempo integral? — Estou confusa.

       — Bem, era, apesar de não vê-la o tempo todo. Era... difícil. Afinal, eu ainda estava na escola e mais tarde, na faculdade. Coma, Anastásia.

        — Não tenho fome, Christian, de verdade. Eu estou me recuperando da revelação.

        Sua expressão se endurece.

        — Coma, — diz-me em tom tranquilo, muito tranquilo.

        Eu olho para ele. Este homem... abusaram sexualmente dele quando era adolescente... seu tom é ameaçador.

        — Espere um momento, — eu murmuro. Ele pisca um par de vezes.

— Ok, — ele murmura e segue comendo.

        Assim será a coisa se assinar. Terei que cumprir suas ordens. Franzo o cenho. É isso o que quero?

Pego o garfo e a faca, e começo a cortar o veado. Está delicioso.

        — Assim será a nossa... nossa relação? — Eu sussurro. — Estará me dando ordens todo o momento? — pergunto-lhe em um sussurro, sem me atrever a olhá-lo.

        — Sim, - ele murmura.

        — Já vejo.

        — E o que mais que eu queira que faça, — acrescenta em voz baixa.

        Eu sinceramente duvido disso. Eu corto mais um pedaço de veado e aproximo dos lábios.

        — É um grande passo, — eu murmuro e como.

— Sim, é. Ele fecha os olhos por um segundo. Quando os abre, está muito sério.

        — Anastásia, tem que seguir seu instinto. Pesquise um pouco, leia o contrato... Não tenho problema em comentar qualquer detalhe. Estarei em Portland até na sexta-feira, se por acaso quiser que falemos sobre isso antes do fim de semana. — Suas palavras me chegam em uma corrida. — Ligue-me ... talvez, pudéssemos jantar... digamos na quarta-feira? Na verdade, quero que isto funcione. Nunca quis tanto.

        Seus olhos refletem sua ardente sinceridade e seu desejo. É basicamente o que não entendo. Por que eu? Por que não uma das quinze? OH, não... É nisso que vou converter-me? Em um número?

A dezesseis, nada menos?

 

        -O que aconteceu com as outras quinze? - pergunto-lhe, de repente.

        Ele suspende as sobrancelhas, surpreso e move a cabeça com expressão resignada.

        — Coisas distintas, mas ao fim e ao cabo se reduz a... — detém-se, acredito que tentando encontrar as palavras.

— Incompatibilidade. — Ele encolhe os ombros.

        — E acredita que eu poderia ser compatível contigo?

        — Sim.

        — Então, já não vê nenhuma de ex.

        — Não, Anastásia. Eu não. Sou monógamo em meus relacionamentos.

        Oh... isso é novidade.

        — Já vejo.

        — Pesquise um pouco, Anastásia.

        Eu abaixo o garfo e a faca. Não posso continuar comendo.

        — Só isso? Isso é tudo o que vai comer?

Eu concordo. Ele franze o cenho, mas decide não dizer nada. Eu deixo escapar um pequeno suspiro de alívio.

Meu estômago está embrulhado com tantas informações e me sinto um pouco tonta pelo vinho. Observo-o devorando tudo o que tem no prato. Ele come como um cavalo. Deve fazer muito exercício para manter a boa forma. De repente, recordo como lhe cai bem o pijama. A imagem é totalmente perturbadora. Contorço-me desconfortavelmente. Ele me olha e eu ruborizo.

        — Eu daria tudo para saber o que está pensando neste exato momento, — ele murmura.

        Ruborizo ainda mais.

        Ele sorri perversamente para mim.

        — Eu posso imaginar, — provoca-me.

        — Alegro-me de que não possa ler meus pensamentos.

        — Seus pensamentos não, Anastásia, mas seu corpo... isso conheço bastante bem desde ontem. — Sua voz é sugestiva. Como pode mudar de humor tão rápido? É tão volátil... É tão difícil seguir seu ritmo.

        Chama à garçonete e lhe pede a conta. Depois de pagar, levanta-se e me estende a mão.

        — Vamos. — Agarra-me pela mão e voltamos para carro. O inesperado dele é este contato de sua pele, normal, íntimo. Não posso reconciliar este gesto corrente e tenro com o que quer faz naquele quarto... O Quarto Vermelho da Dor.

        Fazemos a viagem de Olympia para Vancouver em silêncio, cada um afundado em seus pensamentos. Quando estaciona em frente à porta de minha casa, são cinco horas da tarde.

       As luzes estão acesas, então Kate está em casa, sem dúvida, empacotando, a menos que Elliot ainda não tenha partido. Christian desliga o motor, então percebo que tenho que me separar dele.

        — Quer entrar? — pergunto-lhe. Não quero que parta. Quero ficar mais tempo com ele.

        — Não. Tenho trabalho para fazer, — ele diz simplesmente, me olhando com expressão insondável.

        Eu olho para baixo, para as minhas mãos e entrelaço os dedos. De repente, me sinto emotiva. Ele vai partir. Aproximando-se mais, ele pega uma de minhas mãos e lentamente a leva à boca e beija suavemente a palma, bem a moda antiga. Meu coração salta para minha boca.

        — Obrigado por este fim de semana, Anastásia. Foi... estupendo. Quarta-feira? Passarei para lhe pegar no trabalho ou onde você quiser. — Ele diz suavemente.

        — Quarta-feira, — sussurro.

        Ele beija minha mão de novo e a coloca de volta em meu colo. Sai do carro, aproxima-se de minha porta e abre. Por que, de repente, me sinto desolada? Isso me dá um nó na garganta. Não quero que me veja assim. Fixo um sorriso em meu rosto, saio do carro e me dirijo para a porta, sabendo que eu tenho que enfrentar Kate e não quero enfrentar a Kate. No meio caminho, eu giro e olho para ele. Levante o queixo, Steele, eu me repreendo.

        — Oh... à propósito, vesti uma de suas cuecas. — Dou para ele um pequeno sorriso e puxo o elástico de sua cueca para que ele veja. Christian abre a boca, surpreso. O que é uma grande reação. Meu humor muda imediatamente, eu escorrego para dentro de casa, uma parte de mim querendo pular e dar socos no ar. SIM! A minha deusa interior está encantada.

        Kate está na sala de estar, colocando seus livros em caixas.

        — Você voltou. Onde está Christian? Como você está? — pergunta-me em tom febril, nervoso. Vem para mim, agarra-me pelos ombros e examina minuciosamente meu rosto antes mesmo de me dizer olá.

        Merda... Tenho que lutar com a insistência e a tenacidade de Kate, e tenho na bolsa um documento legal assinado, que diz que não posso falar. Não é uma saudável combinação.

        — Bem, como foi? Não deixei que pensar em ti por um momento, depois que Elliot partiu, claro. — Ela sorri maliciosamente.

        Não posso evitar sorrir por sua preocupação e sua ardente curiosidade, mas de repente, me dá vergonha.

Eu ruborizo. O que aconteceu foi muito íntimo. Tudo isso. Ver e saber o que Christian esconde. Mas tenho que lhe dar alguns detalhes, porque se não, não vai deixar-me em paz.

        — Está tudo bem, Kate. Muito bem, eu penso, — digo-lhe em tom tranquilo, tentando ocultar meu sorriso.

        — Você pensa?

        — Não tenho nada com o que comparar, não é? — digo-lhe, encolhendo de ombros apologeticamente.

        — Ele fez você gozar?

        Caramba, como ela é direta. Eu fico vermelha.

        — Sim, — eu murmuro, exasperada.

        Kate me empurra até o sofá e nos sentamos. Ela agarra as minhas mãos.

        — Isso é bom. — Olha-me como se não acreditasse. — Foi sua primeira vez. Uau, Christian deve saber o que se faz.

        Oh, Kate, se você soubesse...

        — Minha primeira vez foi terrível, — ela continua, fazendo uma cara triste e engraçada.

        — Anh? — Isso me interessa, era algo que ela nunca tinha me contado antes.

        — Sim. Steve Paton. No segundo grau. Um atleta babaca. — Encolhe os ombros. — Foi muito brusco, e eu não estava preparada. Estávamos os dois bêbados. Já sabe... o típico desastre adolescente, depois da festa de formatura. Ugh, demorei meses para me decidir a voltar a tentar. E não com aquele inútil. Eu era muito jovem. Você fez bem em esperar.

        — Kate, isso parece horrível.

        Kate parece melancólica.

        — Sim, demorei quase um ano para ter meu primeiro orgasmo com penetração, e aí está você... na primeira vez.

        Concordo envergonhada. A minha deusa interior está sentada na postura do lótus e parece serena, embora tenha um ardiloso sorriso autocomplacente no rosto.

        — Alegro-me de que tenha perdido a virgindade com um homem que sabe o que se faz. — Ele pisca para mim com um olho. — E quando volta a vê-lo de novo?

        — Quarta-feira. Vamos jantar.

        — Então você ainda gosta dele?

        — Sim, mas não sei o que vai acontecer... no futuro.

        — Por quê?

        — É complicado, Kate. Você sabe... seu mundo é totalmente diferente do meu.

        Boa desculpa. Aceitável também. Muito melhor que... ele tem um Quarto Vermelho da Dor e quer me converter em sua escrava sexual.

        — Oh por favor, não permita que o dinheiro seja um problema, Ana. Elliot me disse que é muito estranho que Christian saia com uma garota.

— Será que ele...? — pergunto-lhe, minha voz estava várias oitavas mais aguda.

        Tão obvio, Steele! Meu subconsciente me olha movendo seu comprido dedo e logo se transforma na balança da justiça para me lembrar que Christian poderia me processar se eu revelasse demais.

Ah... O que pode fazer? Ficar com todo meu dinheiro? Tenho que me lembrar de procurar no Google "pena por descumprir um acordo de confidencialidade" quando fizer minha "pesquisa". É como se ele me tivesse me passado lição de casa. Talvez eu possa ganhar um diploma. Ruborizo me lembrando do meu A, esta manhã, no meu experimento na banheira.

         — Ana, o que foi?

        — Estava me lembrando de algo que Christian me disse.

        — Você parece diferente, — Kate me diz com carinho.

        — Eu estou diferente. Dolorida, — confesso-lhe.

        — Dolorida?

        — Um pouco. — Ruborizo-me.

        — Eu também. Homens, — ela diz com uma careta de desgosto. — São como animais. — Nós duas começamos a rir.

        — Você também está dolorida? — pergunto-lhe surpreendida.

        — Sim... excesso de uso.

        Eu começo a rir.

        — Fale-me mais sobre Elliot e seu excesso de uso, — pergunto-lhe quando paro por fim. Eu posso sentir que estou relaxando, pela primeira vez, desde que estava fazendo fila no banheiro do bar... antes da chamada de telefone que começou tudo isto... quando admirava o senhor Grey à distância. Dias felizes e sem complicações.

        Kate se ruboriza. Oh, meu deus... Katherine Agnes Kavanagh se converte em Anastásia Rose Steele. Lança-me um olhar ingênuo. Nunca antes a tinha visto reagir assim por um homem.

Meu queixo cai tanto que chega ao chão. Onde está Kate? O que fizeram com ela?

— Oh, Ana, — ela me diz entusiasmada. — Ele é tão... tão... tudo. E quando nós... Oh... é fantástico. — Ela está tão alterada que logo não pode completar uma frase.

        — Eu penso que você está tentando me dizer que você gosta dele.

        Ela concorda com a cabeça, rindo como uma lunática.

        — E vou vê-lo no sábado. Vai nos ajudar com a mudança. — Junta as mãos, levanta do sofá e se dirige à janela fazendo piruetas. A mudança. Merda, eu tinha esquecido disso, apesar de haver caixas por toda parte.

        — Muito amável de sua parte, — digo-lhe. Assim o conhecerei também. Possivelmente possa me dar mais pistas sobre seu estranho e inquietante irmão.

        — Então, o que fizeram ontem à noite? — pergunto-lhe. Ela inclina a cabeça para mim e levanta as sobrancelhas em um gesto que deve dizer: "O que te parece que fizemos, idiota?".

        — Mais ou menos o mesmo que vocês fizeram, mas nós jantamos antes. — Ela sorri para mim. — Você realmente está bem? Parece um pouco sobrecarregada.

        — Estou sobrecarregada. Christian é muito intenso.

        — Sim, já faço uma ideia. Mas ele foi bom para você?

        — Sim, — tranqüilizo-a. — Estou morta de fome. Quer que prepare algo?

        Ela concorda e coloca um par de livros em uma caixa.

        — O que quer fazer com os livros de quatorze mil dólares? — pergunta-me.

        — Vou devolvê-los.

        — Realmente?

        — É um presente exagerado. Não posso aceitá-lo, especialmente agora. — Sorrio, e Kate concorda com a cabeça.

        — Eu entendo você. Chegou um par de cartas para você, e José não deixou de ligar. Parecia desesperado.

        — Vou ligar para ele, — murmuro evasiva. Se contar para Kate sobre José, ela vai querer ele para o café da manhã. Recolho as cartas da mesa e as abro.

        — Ei, tenho entrevistas! Dentro de duas semanas, em Seattle, para fazer estágio.

        — Em uma editora?

        — Para duas delas!

— Eu lhe disse que seu curiculum acadêmico lhe abriria portas, Ana.

        Kate já tem seu posto para fazer as práticas no The Seattle Time, é obvio. Seu pai conhece alguém, que conhece alguém.

        — Como Elliot se sente por você sair de férias? — pergunto-lhe.

        Kate se dirige para a cozinha, e pela primeira vez desde que cheguei parece desconsolada.

        — Ele entende. Uma parte de mim não quer partir, mas é tentador demais ficar tomando banho de sol um par de semanas. Além disso, minha mãe não deixa de insistir, porque acredita que serão nossas últimas férias em família, antes que Ethan e eu comecemos a trabalhar a sério.

        Eu nunca saí dos Estados Unidos. Kate vai por duas semanas a Barbados, com seus pais e seu irmão, Ethan. Ficarei sozinha duas semanas, sem Kate, na casa nova. Será estranho. Ethan esteve viajando pelo mundo desde o ano passado, depois de graduar-se. Por um momento me pergunto se o verei antes que saiam de férias. É um tipo muito simpático. O telefone me tira de meu devaneio.

        — Deve ser José.

        Suspiro. Sei que tenho que falar com ele. Levanto o telefone.

        — Alô.

        — Ana, você voltou! — exclama José aliviado.

        — Obviamente. — Respondo-lhe com certo sarcasmo e rolo os olhos para o telefone.

         Ele fica em silencio por um momento.

        — Posso ver você? Sinto muito sobre sexta-feira. Estava bêbado... e você... bem. Ana, me perdoe, por favor.

        — Claro que te perdoo, José. Mas não repita isso de novo. Sabe quais são meus sentimentos por você.

        Ele suspira profundamente, com tristeza.

        — Eu sei, Ana. Mas pensei que se beijasse você, possivelmente seus sentimentos mudassem.

        — José eu te amo fraternamente, você é muito importante para mim. É como o irmão que nunca tive. E isso não vai mudar. Você sabe disso. — Eu sei que o estou magoando, mas é a verdade.

        — Então, você saiu com ele? — pergunta-me com desdém.

        — José, não sai com ninguém.

        — Mas você passou a noite com ele.

        — Não é da sua conta!

        — É pelo dinheiro?

        — José! Como se atreve? — grito-lhe, atônita por seu atrevimento.

        — Ana, — ele diz com voz queixosa, em tom de desculpa. Eu não estou disposta a aguentar seus ciúmes mesquinhos. Sei que está machucado, mas já tenho bastante lutando com Christian Grey.

        — Talvez possamos tomar um café amanhã. Ligarei para você, — digo-lhe em tom conciliador.

        Ele é meu amigo e lhe tenho muito carinho. Mas neste momento não estou precisando disso.

        — Amanhã, então. Você me liga? — Sua voz esperançosa me comove.

        — Sim... boa noite, José. — Desligo, sem esperar sua resposta.

        — O que foi tudo isto? — Katherine pergunta-me com as mãos nos quadris. Eu decido que o melhor quer dizer a verdade. Parece mais obstinada que nunca.

        — Ele tentou me beijar na sexta-feira.

        — José? E Christian Grey? Ana, seus feromônios devem estar fazendo horas extras. No que estava pensando esse imbecil? — Ela sacode a cabeça zangada e segue empacotando.

        Quarenta e cinco minutos mais tarde, fizemos uma pausa para degustar a especialidade da casa, minha lasanha.

Kate abre uma garrafa de vinho e nos sentamos para comer entre as caixas, bebendo vinho tinto barato e vendo porcarias na televisão. Essa é a normalidade. É bem recebida e tranquilizadora depois das últimas quarenta e oito horas de... loucura. É minha primeira comida, em dois dias, sem preocupações, sem que insistam e em paz. Qual o problema que Christian tem com a comida? Kate recolhe os pratos enquanto eu acabo de empacotar o que fica na sala de estar. Só deixamos o sofá, a televisão e a mesa. O que mais poderíamos necessitar? Só falta empacotar o conteúdo de nossos quartos e a cozinha, e temos toda a semana pela frente. Resultado!

        O telefone volta a tocar. É Elliot. Kate me pisca um olho e vai para o seu quarto, saltitando como se tivesse quatorze anos. Sei que deveria estar escrevendo seu discurso oficial, mas parece que Elliot é mais importante. O que acontece com os homens Grey? O que os faz tão absorventes, tão devoradores e tão irresistíveis? Tomo outro gole de vinho.

        Faço uma rápida busca por algum programa de TV, mas no fundo sei que estou me demorando de propósito. O contrato está queimando dentro de minha bolsa. Terei forças para lê-lo esta noite?

        Apoio à cabeça nas mãos. Tanto José como Christian querem algo de mim. Com José é fácil. Mas Christian... Christian tem um campeonato totalmente diferente, de manipulação, de entendimento. Uma parte de mim quer sair correndo e se esconder. O que vou fazer? Penso em seus ardentes olhos cinza, em seu intenso e provocador olhar e fico tensa. Ele nem está aqui, e eu estou ligada. Isso não pode ser só sobre sexo, pode? Lembro de sua conversa suave, esta manhã no café da manhã, a sua alegria com o meu prazer com o passeio de helicóptero, ele tocando piano, essa música tão triste, doce e comovedora...

Ele é uma pessoa muito complicada. E agora comecei a entender por que. Um menino privado de adolescência, sexualmente abusado por uma malvada senhora Robinson... não é estranho que pareça mais velho do que é. Meu coração se enche de tristeza ao pensar no que no que ele deve ter passado. Sou muito ingênua para saber exatamente do que se trata, mas a pesquisa deve me dar um pouco de luz. Embora de verdade, quero saber? Quero explorar esse mundo do qual não sei nada?

É um passo muito importante.

        Se não o tivesse conhecido, seguiria tão feliz, alheia a tudo isto. Minha mente se translada para a noite de ontem e a esta manhã... a incrível e sensual sexualidade que experimentei. Quero dizer adeus a isso? Não! exclama meu subconsciente... Minha deusa interior concorda em um silêncio zen, para mostrar que está de acordo com ele.

        Kate volta para a sala de estar, sorrindo de orelha a orelha. Talvez ela esteja apaixonada. Eu olho para ela, boquiaberta. Nunca se comportou assim.

        — Ana, vou para cama. Estou muito cansada.

         — Eu também, Kate.

        Ela me abraça.

— Alegro-me que tenha voltado sã e salva. Há algo estranho em Christian, — ela acrescenta em voz baixa, em tom de desculpa. Eu sorrio para tranquilizá-la, embora pense... Como diabos ela sabe? Por isso ela será uma jornalista tão boa, por sua infalível intuição.

Pego a minha bolsa, vou para o meu quarto com passo desinteressado. Os esforços sexuais das últimas horas e o total e absoluto dilema que me enfrento me deixaram esgotada. Sento-me na cama, tiro da bolsa com cautela, o envelope de papel pardo e dou voltas com ele entre as mãos. Estou segura de que quero saber até onde chega à depravação de Christian? É tão assustador. Respiro fundo e com o coração na garganta, eu abro o envelope.

 

Existem vários papéis no interior do envelope. Eu os pego, com o coração disparado, e sento na cama e começo a ler.

 

 

CONTRATO

 

        No dia___________ de 2011 ("data de início")

ENTRE

 

        O SR. CHRISTIAN GREY, com domicilio no Escala 301, Seattle, 98889 Washington, ("o Dominante")

 

        E A SRTA. ANASTÁSIA STEELE, com domicilio no SW Green Street 1114, apartamento 7, Haven Heights, Vancouver, 98888 Washington ("a Submissa")

 

AS PARTES ACORDAM O SEGUINTE

 

  1. A seguir estão os termos de um contrato vinculativo entre o Dominante e a Submissa.

 

        TERMOS FUNDAMENTAIS

 

  1. O propósito fundamental deste contrato é permitir que a Submissa explore sua sensualidade e seus limites de forma segura, com o devido respeito e cuidar de suas necessidades, seus limites e seu bem-estar.

 

  1. O Dominante e a Submissa acordam e admitem que tudo o que aconteça sob os termos deste contrato será consensual e confidencial, e estará sujeito aos limites acordados e aos procedimentos de segurança que se contemplam neste contrato. Podem acrescentar-se limites e procedimentos de segurança adicionais.

 

  1. O Dominante e a Submissa garantem que não padecem de infecções sexuais nem enfermidades graves, incluindo HIV, herpes e hepatite, entre outras. Se durante a vigência do contrato (como se define abaixo) ou de qualquer ampliação do mesmo, uma das partes for diagnosticada ou tiver conhecimento de padecer de alguma destas enfermidades, compromete-se a informar à outra imediatamente e em todo caso, antes que se produza qualquer tipo de contato entre as partes.

 

  1. É preciso cumprir as garantias e os acordos anteriormente mencionados (e todo limite e procedimento de segurança adicional acordado na cláusula 3). Toda infração invalidará este contrato com caráter imediato e ambas as partes aceitam assumir totalmente ante a outra as consequências da infração.

 

  1. Todos os pontos deste contrato devem ler-se e interpretar-se à luz do propósito e os términos fundamentais estabelecidos nas cláusulas 2-5.

 

        FUNÇÕES

 

  1. O Dominante será responsável pelo bem-estar e pelo treinamento, a orientação e a disciplina da Submissa. Decidirá o tipo de treinamento, a orientação e a disciplina, e o momento e o lugar de administrá-los, atendendo aos termos acordados, os limites e os procedimentos de segurança estabelecidos neste contrato ou acordado ainda nos termos da cláusula 3 acima.

 

  1. Se em algum momento o Dominante não mantiver os termos acordados, os limites e os procedimentos de segurança estabelecidos neste contrato ou acordados na cláusula 3, a Submissa tem direito a finalizar este contrato imediatamente e a abandonar seu serviço ao Dominante sem prévio aviso.

 

  1. Atendendo a esta condição e às cláusulas 2-5, a Submissa tem que obedecer em tudo ao Dominante. Atendendo aos termos acordados, os limites e os procedimentos de segurança estabelecidos neste contrato ou acordados na cláusula 3, deve oferecer ao Dominante, sem perguntar nem duvidar, todo o prazer que este lhe exija, e deve aceitar, sem perguntar nem duvidar, o treinamento, a orientação e a disciplina em todas suas formas.

 

        INÍCIO E VIGÊNCIA

 

  1. O Dominante e a Submissa assinam este contrato na data de início, conscientes de sua natureza e comprometendo-se a acatar suas condições sem exceção.

 

  1. Este contrato terá efeito durante um período de três meses a partir da data de início ("vigência do contrato"). Ao expirar a vigência, as partes comentarão se este contrato e o disposto por eles no mesmo, são satisfatórios e se estiverem satisfeitas as necessidades de cada parte. Ambas as partes podem propor ampliar o contrato e ajustar os termos ou os acordos que nele se estabelecem. Se não se chegar a um acordo para ampliá-lo, este contrato concluirá e ambas as partes serão livres para seguir sua vida separados.

 

        DISPONIBILIDADE

 

  1. A Submissa estará disponível para o Dominante desde sexta-feira à noite até o domingo pela tarde, todas as semanas durante a vigência do contrato, com as horas a especificar pelo Dominante ("horas atribuídas"). Podem acordar mutuamente por mais horas, atribuídas como adicionais.

 

  1. O Dominante se reserva o direito a rechaçar o serviço da Submissa em qualquer momento e pelas razões que sejam. A Submissa pode solicitar sua liberação em qualquer momento, liberação que ficará a critério do Dominante e estará exclusivamente sujeito aos direitos da Submissa contemplados nas cláusulas 2-5 e 8.

 

        LOCALIZAÇÃO

 

  1. A Submissa estará disponível às horas atribuídas e às horas adicionais, nos lugares que determine o Dominante. O Dominante concorrerá com todos os custos de viagem que incorra a Submissa com este fim.

 

        PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS

 

  1. As duas partes discutem e acordam as seguintes prestações de serviços, e ambas deverão as cumprir durante a vigência do contrato. Ambas as partes aceitam que podem surgir questões não contempladas nos termos deste contrato de prestação de serviços, e que determinadas questões poderão renegociar-se. Nestas circunstâncias, poderão propor-se cláusulas adicionais a modo de emenda. Ambas as partes deverão acordar, redigir e assinar toda cláusula adicional ou emenda, que estará sujeita aos termos fundamentais estabelecidos nas cláusulas 2-5.

 

        DOMINANTE

 

        15.1. O Dominante deve priorizar em todo momento a saúde e a segurança da Submissa. O Dominante em nenhum momento exigirá, solicitará, permitirá nem pedirá à Submissa que participe das atividades detalhadas no Apêndice 2 ou em toda atividade que qualquer das duas partes considere insegura. O Dominante não levará a cabo, nem permitirá que se leve a cabo, nenhuma atividade que possa ferir gravemente à Submissa ou pôr em perigo sua vida. As restantes sub-partes desta cláusula 15 devem ler-se atendendo a esta condição e aos acordos fundamentais das cláusulas 2-5.

 

        15.2. O Dominante aceita o controle, o domínio e a disciplina da Submissa durante a vigência do contrato. O Dominante pode utilizar o corpo da Submissa em qualquer momento durante as horas atribuídas, ou em horas adicionais acordadas, da maneira que considere oportuno, no sexo ou em qualquer outro âmbito.

 

        15.3. O Dominante oferecerá a Submissa o treinamento e a orientação necessários para servir adequadamente ao Dominante.

 

        15.4. O Dominante manterá um entorno estável e seguro para que a Submissa possa levar a cabo suas obrigações para servir ao Dominante.

 

        15.5. O Dominante pode disciplinar à Submissa quanto seja necessário para assegurar-se de que a Submissa entenda totalmente seu papel de submissão ao Dominante e para desalentar condutas inaceitáveis. O Dominante pode açoitar, surrar, dar chicotadas e castigar fisicamente à Submissa se o considerar oportuno por motivos de disciplina, por prazer ou por qualquer outra razão, que não está obrigado a expor.

 

15.6. No treinamento e na administração de disciplina, o Dominante garantirá que não fiquem marcas no corpo da Submissa, nem feridas que exijam atenção médica.

 

        15.7. No treinamento e na administração de disciplina, o Dominante garantirá que a disciplina e os instrumentos utilizados para administrá-la, sejam seguros, não os utilizará de maneira que provoquem danos sérios e em nenhum caso poderá transpassar os limites estabelecidos e detalhados neste contrato.

 

        15.8. Em caso de enfermidade ou ferida, o Dominante cuidará da Submissa, vigiará sua saúde e sua segurança, e solicitará atenção médica quando o considerar necessário.

 

        15.9. O Dominante cuidará de sua própria saúde e procurará atenção médica quando for necessário para evitar riscos.

 

        15.10. O Dominante não emprestará sua Submissa a outro Dominante.

 

        15.11. O Dominante poderá sujeitar, algemar ou atar a Submissa em todo momento durante as horas atribuídas ou em qualquer hora adicional por qualquer razão e por compridos períodos de tempo, emprestando a devida atenção à saúde e a segurança da Submissa.

 

        15.12. O Dominante garantirá que todo o equipamento utilizado para o treinamento e a disciplina se mantenha limpo, higiênico e seguro em todo momento.

 

SUBMISSA

 

        15.13. A Submissa aceita o Dominante como seu dono e entende que agora é de sua propriedade e que está ao seu dispor quando o Dominante lhe agrade durante a vigência do contrato em geral, mas especialmente nas horas atribuídas e nas horas adicionais acordadas.

 

        15.14. A Submissa obedecerá às normas estabelecidas no Apêndice 1 deste contrato.

 

        15.15. A Submissa servirá ao Dominante em tudo aquilo que o Dominante considere oportuno e deve fazer todo o possível por agradar ao Dominante em todo momento.

 

        15.16. A Submissa tomará medidas necessárias para cuidar de sua saúde, solicitará ou procurará atenção médica quando a necessitar, e em todo momento manterá informado o Dominante de qualquer problema de saúde que possa surgir.

 

        15.17. A Submissa garantirá que toma anticoncepcionais orais, e que toma como e quando é devido para evitar ficar grávida.

 

        15.18. A Submissa aceitará sem questionar todas e cada uma das ações disciplinadoras que o Dominante considere necessárias, e em todo momento recordará seu papel e sua função ante o Dominante.

 

        15.19. A Submissa não se tocará nem se proporcionará prazer sexual sem a permissão do Dominante.

 

        15.20. A Submissa se submeterá a toda atividade sexual que exija o Dominante, sem duvidar e sem discutir.

 

        15.21. A Submissa aceitará açoites, surras, pauladas, chicotadas ou qualquer outra disciplina que o Dominante administrar, sem duvidar, perguntar nem queixar-se.

 

        15.22. A Submissa não olhará diretamente nos olhos ao Dominante exceto quando lhe ordenar. A Submissa deve abaixar os olhos, guardar silêncio e mostrar-se respeitosa em presença do Dominante.

 

        15.23. A Submissa se comportará sempre com respeito para o Dominante e só se dirigirá a ele como senhor, senhor Grey ou qualquer outro apelativo que lhe ordene o Dominante.

 

        15.24. A Submissa não tocará no Dominante sem seu rápido consentimento.

 

ATIVIDADES

 

  1. A Submissa não participará de atividades ou atos sexuais que qualquer das duas partes considere inseguras nem nas atividades detalhadas no Apêndice 2.

 

  1. O Dominante e a Submissa comentaram as atividades estabelecidas no Apêndice 3 e fazem constar por escrito no Apêndice 3 seu acordo a respeito.

 

        PALAVRAS DE SEGURANÇA

 

  1. O Dominante e a Submissa admitem que o Dominante pode solicitar à Submissa ações que não possam levar-se a cabo sem incorrer em danos físicos, mentais, emocionais, espirituais ou de outro tipo no momento em que lhe solicitam. Neste tipo de circunstâncias, a Submissa pode utilizar uma palavra de segurança. Serão incluídas duas palavras de segurança em função da intensidade das demandas.

 

  1. Será utilizada a palavra de segurança "Amarelo" para indicar ao Dominante que a Submissa está chegando ao limite da resistência.

 

  1. Será utilizada a palavra de segurança "Vermelho" para indicar ao Dominante que a Submissa já não pode tolerar mais exigências. Quando se disser esta palavra, a ação do Dominante cessará totalmente, com efeito imediato.

 

        CONCLUSÃO

 

  1. Os abaixo assinantes têm lido e entendido totalmente o que estipula este contrato.

 

Aceitamos livremente os termos deste contrato e com nossa assinatura damos nossa conformidade.

                 ___________________________________________

Dominante: Christian Grey

 

Data:

___________________________________________

Submissa: Anastásia Steele

 

Data:

 

APÊNDICE 1

 

        NORMAS

 

        Obediência:

 

        A Submissa obedecerá imediatamente todas as instruções do Dominante, sem duvidar, sem reservas e de forma expedita. A Submissa aceitará toda atividade sexual que o Dominante considere oportuna e prazerosa, exceto as atividades contempladas nos limites infranqueáveis (Apêndice 2). O fará com entusiasmo e sem duvidar.

 

        Sono:

 

        A Submissa garantirá que dorme no mínimo oito horas diárias quando não estiver com o Dominante.

 

        Comida:

 

        Para cuidar de sua saúde e seu bem-estar, a Submissa comerá frequentemente os mantimentos incluídos em uma lista (Apêndice 4). A Submissa não comerá entre horas, à exceção de fruta.

       

Roupa:

 

        Durante a vigência do contrato, a Submissa só vestirá roupa que o Dominante tenha aprovado. O Dominante oferecerá à Submissa um orçamento para roupas, que a Submissa deve utilizar. O Dominante acompanhará à Submissa às compras de roupas quando for necessário. Se o Dominante assim o exigir, enquanto o contrato esteja vigente, a Submissa ficará com os adornos que lhe exija o Dominante, em sua presença ou em qualquer outro momento que o Dominante considere oportuno.

 

        Exercício:

 

        O Dominante proporcionará à Submissa um treinador pessoal quatro vezes por semana, em sessões de uma hora, a horas convencionadas pelo treinador pessoal e a Submissa. O treinador pessoal informará ao Dominante dos avanços da Submissa.

 

        Higiene pessoal e beleza:

 

        A Submissa estará limpa e depilada em todo momento. A Submissa irá a um salão de beleza eleita pelo Dominante quando este o ditar e se submeterá a qualquer tratamento que o Dominante considere oportuno. O Dominante concorrerá com todos os gastos.

 

Segurança pessoal:

 

        A Submissa não beberá em excesso, não fumará, não tomará substâncias psicotrópicas, nem correrá riscos desnecessários.

 

        Qualidades pessoais:

 

        A Submissa só manterá relações sexuais com o Dominante. A Submissa se comportará em todo momento com respeito e humildade. Deve compreender que sua conduta influi diretamente na do Dominante.

 

Será responsabilizada por eventuais delitos, desmandos e os excessos cometidos quando não na presença do Dominante.

 

Ao descumprimento de qualquer das normas anteriores será imediatamente castigada, e o Dominante determinará a natureza do castigo.

 

 

        APÊNDICE 2

 

        Limites Rígidos

 

        Sem atos com fogo.

        Sem atos com urina, ou defecção e seus produtos.

        Sem atos com agulhas, facas, perfurações e sangue.

        Sem atos envolvendo instrumentos médico ginecológico.

        Sem atos com crianças ou animais.

        Sem atos que deixem marcas permanentes na pele.

        Sem atos relativos ao controle da respiração.

Sem atividade que implique contato direto com corrente elétrica     (tanto alternada como contínua), fogo ou chamas no corpo.

 

APÊNDICE 3

 

        Limites Suaves

 

        A discutir e acordar por ambas as partes:

        Qual dos seguintes atos sexuais são aceitáveis para a Submissa?

 

  • Masturbação
  • Felacão
  • Cunnilingus
  • Penetração vaginal
  • Fisting vaginal
  • Penetração anal
  • Fisting anal

 

A ingestão de sêmen é aceitável para a Submissa?

        O uso de brinquedos sexuais é aceitável para a Submissa?

  • Vibradores
  • Consoladores
  • Plugues anais
  • Outros brinquedos vaginais/anais

 

        A Submissa aceita o uso de Bondage?

  • Mãos na frente
  • Mãos atrás
  • Tornozelos
  • Joelhos
  • Cotovelos
  • Pulsos aos tornozelos
  • Barras de amarração
  • Amarrada ao mobiliário
  • Vendar
  • Colocação de mordaça
  • Bondage com cordas
  • Bondage com fita adesiva
  • Bondage com algemas de couro
  • Suspensão
  • Bondage com algemas de metal/restrições

 

Quanto de dor a Submissa está disposta a experimentar?

         Onde 1 equivale a que gosta muito e 5, a que lhe desgosta muito:

         1 - 2 - 3 - 4 - 5

 

Aceita a Submissa as seguintes forma de dor/castigo/disciplina?

Onde 1 é para nenhum e 5 é para grave: 1 - 2 - 3 - 4 - 5

  • Açoites
  • Açoites com pá
  • Chicotadas
  • Açoites com vara
  • Mordidas
  • Pinças para mamilos
  • Pinças genitais
  • Gelo
  • Cera quente
  • Outros tipos/métodos de dor

 

Caramba. Nem sequer tenho forças para dar uma olhada à lista dos mantimentos. Engulo em seco, tenho a boca seca, e volto a ler.

Minha cabeça está zumbindo. Como vou aceitar tudo isto? E aparentemente é em meu benefício, para que explore minha sensualidade e meus limites de forma segura... oh, por favor! É de fazer rir. Servi-lo e obedecê-lo em tudo. Em tudo! Sacudo a cabeça com descrença. Na realidade, os votos de matrimônio não utilizam palavras como... obediência? Desconcerta-me. Os casais ainda dizem isso? Só três meses, por isso houve tantas? Não ficam muito tempo? Ou já tiveram bastante em três meses? Todos os fins de semana? É muito. Não poderei ver Kate nem os amigos que possa fazer em meu novo trabalho, caso eu encontre um trabalho... Talvez eu devesse reservar um fim de semana ao mês só para mim. Talvez, quando tiver minha menstruação, parece... prático.

É meu dono! Terei que fazer o que lhe agrade! Caramba.

        Estremeço ao pensar que ele poderá me açoitar ou me amarrar. Talvez os açoites não sejam tão graves, embora humilhantes. E me amarrar? Bom, já me amarrou as mãos. Isso foi... bem, foi excitante, muito excitante, assim possivelmente tampouco seja tão grave. Não me emprestará a outro Dominante... maldito seja, é obvio que não. Seria totalmente inaceitável. Por que eu ainda estou pensando sobre isso?

        Não posso olhá-lo aos olhos. Que estranho! É a única maneira de ter alguma possibilidade de saber o que está pensando. Mas a quem intento enganar? Nunca sei o que está pensando, mas eu gosto de olhá-lo nos olhos. São bonitos, cativantes, inteligentes, profundos e escuros, escuros com segredos dominantes. Penso em seu olhar ardente e aperto minhas coxas, eu estremeço.

        E não posso tocá-lo. Bem, isto não me surpreende. E essas estúpidas regras... Não, não, não posso. Cubro o rosto com as mãos. Isso não é a maneira de manter uma relação. Preciso dormir um pouco. Estou fisicamente esgotada. As travessuras físicas que pratiquei nas últimas vinte e quatro horas foram, francamente, exaustivas. E mentalmente... Oh, homem, isso é muito para levar a bordo. Como diria José, uma autêntica fodida mental. Possivelmente pela manhã, isso não me pareça uma brincadeira de mau gosto.

        Levanto-me e me troco rapidamente. Talvez devesse pedir emprestado para Kate o seu pijama rosa de flanela. Eu estou precisando do contato com algo fofinho e tranquilizador. Vou para o banheiro para escovar os dentes, vestindo camiseta e calças curtas de pijama.

        Eu me olho no espelho do banheiro. Eu não posso considerar isso seriamente...

Meu subconsciente parece sensato e racional, e não sarcástico, como está acostumado a ser. A deusa interior não deixa de saltitar e bater palmas como uma menina de cinco anos. Por favor, vamos fazer isso... se não, acabaremos sozinhas, com um montão de gatos, e suas novelas como companhia.

        O único homem que já me atraiu, chega com um maldito contrato, um chicote e um sem-fim de regras e cláusulas. Bem, ao menos consegui o que queria este fim de semana. Minha deusa interior deixa de saltar e sorri com serenidade. OH, sim... articula com os lábios, acenando para mim presunçosamente.

Ruborizo ao recordar de suas mãos e sua boca sobre mim, seu corpo dentro do meu. Fecho os olhos, eu sinto a força familiar e deliciosa dos meus músculos de baixo, profundo. Eu quero fazer isso de novo e de novo. Talvez se eu só assinasse para o sexo... ele aceitaria isso? Suspeito que não.

        Eu, submissa? Talvez eu venha através dessa forma. Talvez eu o tenha enganado na entrevista. Sou tímida, sim... mas submissa? Eu deixei a Kate me intimidar... não é mesmo? E esses limites suaves, caramba. Confundo a minha cabeça, embora me tranquilize saber que temos que discuti-los.

        Volto para meu quarto. É muito para pensar a respeito. Preciso limpar a cabeça, uma abordagem pela manhã, quando estiver de cabeça fresca para resolver o problema. Guardo os documentos ofensivos na bolsa.

Amanhã... amanhã será outro dia. Meto-me na cama, apago a luz e fico olhando ao teto. Oh, eu queria nunca tê-lo conhecido. Minha deusa interior sacode sua cabeça para mim. Ela e eu sabemos que é mentira. Eu nunca tinha me sentido tão viva.

        Fecho meus olhos e mergulho em um sono profundo com sonhos ocasionais de camas com dossel, envelopes de papel manilha e intensos olhos cinza.

Kate me acorda na manhã seguinte.

        — Ana, eu devo chamar você. Você deve ter sentido frio.

        Meus olhos se negam a abrir-se. Não só se levantou, mas sim, saiu para correr. Dou uma olhada para o despertador. São oito da manhã. Caramba, dormi mais de nove horas.

        — O que foi? — balbucio meio dormindo.

        — Chegou um homem com um pacote para você. Tem que assinar.

        — O que?

        — Vamos. É grande. Parece interessante. — Ela dá pulinhos entusiasmados e volta para a sala de estar. Saio da cama e pego o robe, que está pendurado na porta. Um homem jovem, com um rabo de cavalo, está em pé na nossa sala de estar, segurando uma caixa grande nas mãos.

        — Olá — eu murmuro.

        — Eu vou preparar um chá. — Kate diz, indo para a cozinha.

        — Senhorita Steele?

        E imediatamente sei quem me manda o pacote.

        — Sim, — eu respondo-lhe com receio.

        — Trago um pacote para você, mas tenho que instalá-lo e lhe ensinar a utilizá-lo.

        — Sério? A estas horas?

        — Eu só cumpro ordens, senhora. — Ele me dá um sorriso encantador, mas profissional, como se dissesse: “não me venha com bobagens”.

        Ele acaba de me chamar de "senhora"? Envelheci dez anos em uma noite? Se for assim, é culpa do contrato. Franzo os meus lábios com desgosto.

        — Ok, o que é isso?

        — É um MacBook Pro.

        — É claro que é. — Eu digo, rolando os olhos.

        — Ainda não está nas lojas, senhora. É o último da Apple.

        Por que não me surpreende? Suspiro ruidosamente.

        — Coloque-o aí, na mesa de jantar.

        Vou à cozinha para me juntar a Kate.

        — O que é? — Ela me pergunta curiosa, com os olhos brilhantes. Também, ela dormiu muito bem.

        — Um notebook de Christian.

        — Por que ele mandou um notebook? Sabe que pode utilizar o meu, — ela franze o cenho.

        Não para o que ele tem em mente.

        — Oh, é só um empréstimo. Queria que eu experimentasse isso. — Minha desculpa parece pouco convincente, mas Kate concorda. Oh meu Deus... eu enganei Katherine Kavanagh. Pela primeira vez. Ela me passa uma taça de chá.

        O notebook é brilhante, prateado e bastante bonito. Ele tem uma tela muito grande.

Christian Grey gosta das coisas grandes... Eu penso no lugar onde ele vive, na verdade, na área de seu apartamento.

        — Ele tem o mais recente sistema operacional e um conjunto completo de programas, além de um disco rígido de 1,5 terabytes, assim terá muito espaço, 32 gigas de RAM... Para que vai utilizá-lo?

        — Bem... para mandar e-mails.

        — E-mails! — Ele exclama pasmo, elevando as sobrancelhas, com um olhar um pouco doente no rosto.

— E, talvez, navegar na internet? — acrescento, encolhendo os ombros, quase me desculpando.

        Ele suspira.

        — Bem, este tem pleno acesso sem fio N, e o instalei com as especificações de sua conta. Este bebê está preparado para funcionar, virtualmente, em todo planeta. — Ele me explica, olhando-o com certo desejo.

        — Minha conta?

        — Sua nova conta de e-mail.

        Tenho uma conta de e-mail?

        Ele aponta para um ícone na tela e segue me falando, mas é como ruído branco. Não entendo uma palavra do que diz e, para ser sincera, não me interessa. Só me diga como ligá-lo e desligá-lo... o resto eu descobrirei sozinha. Depois de tudo, tem quatro anos que utilizo o da Kate. Kate assobia impressionada, assim que o vê.

        — É tecnologia de última geração. — Ela levanta as sobrancelhas para mim. — A maioria das mulheres recebem flores ou talvez jóias, — ela diz sugestivamente, tentando conter um sorriso.

        Faço uma careta, mas não posso aguentar séria. Nós duas temos um ataque de risada, o rapaz que mexia no notebook, nos olha perplexo, com a boca aberta. Ele termina e me pede para assinar a folha de entrega.

        Enquanto Kate o acompanha à porta, sento-me com minha taça de chá, abro o programa de correio e descubro que está me esperando um e-mail de Christian. O coração dá um salto. Tenho um email de Christian Grey. Abro-o, nervosa.

        

De: Christian Grey

Data: 22 de maio de 2011 23:15

Para: Anastásia Steele

        Assunto: Seu novo ordenador

 

Querida senhorita Steele:

 

        Confio que tenha dormido bem. Espero que faça bom uso deste notebook, como comentamos.

        Estou impaciente pelo jantar com você, na quarta-feira.

        Até então, estarei encantado de responder a qualquer pergunta via e-mail, se o desejar.

 

        Christian Grey

CEO, Grey Participações e Empreendimentos Inc.

 

     Aperto em "Responder".

 

        De: Anastásia Steele

        Data: 23 de maio de 2011 08:20

        Para: Christian Grey

        Assunto: Seu novo computador (em empréstimo)

 

        Dormi muito bem, obrigado... por alguma estranha razão... Senhor.

        Acreditei entender que o computador era em empréstimo, quer dizer, não é meu.

 

Ana

 

Sua resposta chega instantaneamente.

 

De: Christian Grey

        Data: 23 de maio de 2011 08:22

        Para: Anastásia Steele

        Assunto: Seu novo computador (em empréstimo)

 

        O computador é em empréstimo. Indefinidamente, senhorita Steele.

        Observo, pelo seu tom, que andou lendo a documentação que lhe dei.

        Tem alguma pergunta?

 

        Christian Grey

CEO, Grey Participações e Empreendimentos Inc.

 

Não posso evitar de sorrir.

 

         De: Anastásia Steele

        Data: 23 de maio de 2011 08:25

        Para: Christian Grey

        Assunto: Mentes inquisitivas

 

        Tenho muitas perguntas, mas não me parece adequado fazer isso via e-mail, e alguns de nós tem que trabalhar para ganhar a vida.

        Não quero, nem necessito, um computador indefinidamente.

        Até mais tarde. Que tenha um bom dia... Senhor.

        Ana

 

Quase instantaneamente, há uma resposta.

 

De: Christian Grey

        Data: 23 de maio de 2011 08:26

        Para: Anastásia Steele

        Assunto: Seu novo computador (de novo em empréstimo)

 

        Até mais tarde, querida.

        P.S.: Eu também trabalho para ganhar a vida.

 

        Christian Grey

CEO, Grey Participações e Empreendimentos Inc.

 

        Fecho o computador sorrindo como uma idiota. Como posso resistir ao Christian brincalhão? Vou chegar tarde no trabalho. Bom, é minha última semana... Certamente o senhor e a senhora Clayton farão um pouco de vista grossa. Corro para o banheiro sem poder tirar o sorriso, de orelha a orelha. Ele me mandou e-mails! Sinto-me como uma menina tonta. Todas as angústias pelo contrato, desapareceram. Enquanto lavo o cabelo, tento pensar no que poderia lhe perguntar por e-mail, embora, certamente, estas coisas são melhores para conversar ao vivo. Suponhamos que alguém invada a sua conta... Ruborizo sozinha, só de pensar. Visto-me rapidamente, me despeço de Kate aos gritos e saio para trabalhar, minha última semana no Clayton'S.

José me liga, às onze.

        — Olá, vamos tomar um café?

        Seu tom é o do José de sempre, meu amigo José, não um... como o chamou Christian? Um pretendente. Ugh.

        — Claro. Estou no trabalho. Pode passar por aqui, digamos, às doze?

        — Vejo você então.

        Desligo e volto a repor as brocas e a pensar em Christian Grey e seu contrato.

        José é pontual. Entra na loja saltitando vacilante como um cachorrinho brincalhão de olhos escuros.

         — Ana. — Ele esboça seu deslumbrante sorriso hispano-americano, e eu já não estou mais aborrecida.

        — Olá, José. — Eu o abraço. — Estou morta de fome. Vou dizer à senhora Clayton que estou saindo para comer.

        No caminho da cafeteria, agarro o braço de José. Eu estou tão grata por sua... normalidade. Um amigo que eu conheço e entendo.

        — Ana, — ele murmura, — você me perdoou de verdade?

        — José, você sabe, nunca poderei estar muito tempo zangada contigo.

        Ele sorri.

Estou impaciente para chegar em casa, para ver se tenho algum e-mail de Christian, e possivelmente, possa começar minha pesquisa. Kate saiu, assim ligo o novo computador e abro o programa de correio. É obvio, na caixa de entrada tenho um e-mail do Christian. Quase salto da cadeira de tanta alegria.

 

         De: Christian Grey

        Data: 23 de maio de 2011 17:24

        Para: Anastásia Steele

        Assunto: Trabalhar para ganhar a vida

 

        Querida senhorita Steele:

 

        Espero que tenha tido um bom dia no trabalho.

       

Christian Grey

CEO, Grey Participações e Empreendimentos Inc.

 

         Aperto "Responder".

 

        De: Anastásia Steele

        Data: 23 de maio de 2011 17:48

        Para: Christian Grey

        Assunto: Trabalhar para ganhar a vida

 

        Senhor... Eu tive um dia excelente no trabalho.

 

        Obrigada.

        Ana

 

De: Christian Grey

        Data: 23 de maio de 2011 17:50

        Para: Anastásia Steele

        Assunto: Ao trabalho!

 

        Senhorita Steele:

 

        Alegro-me tanto que tenha tido um dia excelente.

        Enquanto escreve e-mails, não está pesquisando.

 

Christian Grey

CEO, Grey Participações e Empreendimentos Inc.

 

        De: Anastásia Steele

        Data: 23 de maio de 2011 17:53

        Para: Christian Grey

        Assunto: Aborrecido

 

        Senhor Grey, pare de me mandar e-mails e poderei começar a fazer minha tarefa.

 

Eu gostaria de tirar outro A.

 

        Ana

 

Abraço a mim mesma.

 

        De: Christian Grey

        Data: 23 de maio de 2011 17:55

        Para: Anastásia Steele

        Assunto: Impaciente

 

Senhorita Steele,

 

Deixe de me escrever e-mails... e faça a sua tarefa.

        Eu gostaria de lhe dar outro A.

        O primeiro foi muito bem merecido. ;)

 

Christian Grey

CEO, Grey Participações e Empreendimentos Inc.

 

Christian Grey acaba de me enviar uma piscada... Oh meu. Abro o Google.

 

        De: Anastásia Steele

        Data: 23 de maio de 2011 17:59

        Para: Christian Grey

         Assunto: Investigação na internet

 

        Senhor Grey,

 

        O que você sugere que eu coloque no buscador?

Ana

        

De: Christian Grey

        Data: 23 de maio de 2011 18:02

        Para: Anastásia Steele

        Assunto: Investigação na internet

 

        Senhorita Steele:

 

        Comece sempre pela Wikipedia.

        Não quero mais e-mails a menos que tenha perguntas.

        Entendido?

 

        Christian Grey

CEO, Grey Participações e Empreendimentos Inc.

 

De: Anastásia Steele

        Data: 23 de maio de 2011 18:04

        Para: Christian Grey

        Assunto: Autoritário!

 

        Sim... senhor.

        É muito autoritário.

 

        Ana

        

De: Christian Grey

        Data: 23 de maio de 2011 18:06

        Para: Anastásia Steele

        Assunto: Controlando

 

        Anastásia, você não imagina quanto.

        Bem, talvez agora faça uma ligeira ideia.

        Faça o trabalho.

 

 

        Christian Grey

CEO, Grey Participações e Empreendimentos Inc.

 

Eu teclo “submisso” na Wikipédia.

        Meia hora depois, eu me sinto levemente enjoada e francamente chocada, até o âmago. Eu realmente quero colocar tudo isso na cabeça? Caramba, é isto o que ele faz no Quarto Vermelho da Dor? Sento-me, olhando para a tela, e uma parte de mim, uma parte muito úmida e integrante de mim, que só familiarizei-me muito recentemente, está seriamente ligada. Oh meu, algumas dessas coisas são EXCITANTES. Mas são para mim? Puta merda... eu poderia fazer isso? Eu preciso de espaço. Eu preciso pensar.

 

Pela primeira vez em minha vida, saio para correr voluntariamente. Procuro meus asquerosos tênis, que nunca uso, uma calça de moletom e uma camiseta. Faço uma trança, ruborizo-me com as lembranças que voltam à minha mente e ligo o iPod. Não posso me sentar em frente a essa maravilha da tecnologia e seguir vendo ou lendo mais material inquietante. Preciso queimar parte desta excessiva e enervante energia. A verdade é que gostaria de correr até o hotel Heathman e exigir sexo deste maníaco por controle. Mas está a oito quilômetros, e duvido que possa chegar a correr dois, muito menos oito, e, claro, ele poderia não aceitar, o que seria muito humilhante.

        Quando abro a porta, Kate está saindo de seu carro. Ela quase deixa as compras caírem quando me vê. Ana Steele com tênis de corrida. Eu aceno e não paro, por causa da inquisição. Preciso de algum tempo sozinha. Snow Patrol está tocando em meus ouvidos, e saio para o céu opala e aruá marinha, do anoitecer.

Passo pelo parque. O que vou fazer? Desejo-o, mas nesses termos? A verdade é que não sei. Talvez eu devesse negociar o que quero. Revisar esse ridículo contrato linha a linha e dizer o que me parece aceitável e o que não. Minha pesquisa me disse que legalmente é sem nenhum valor. Ele deve saber. Suponho que só serve para definir os parâmetros da relação. Ele ilustra o que posso esperar dele e o que ele espera de mim, a minha submissão total. Estou preparada para dar isso a ele? Sou mesmo capaz?

Uma pergunta me persegue, por que é ele assim? Será que é porque foi seduzido quando era muito jovem? Eu simplesmente não sei. Ele ainda é um mistério.

        Eu paro ao lado de um grande pinheiro e apoio as mãos em meus joelhos, respirando com dificuldade, puxando o precioso ar para os meus pulmões. Sinto-me bem, é fantástico. Sinto que minha determinação se fortalece. Sim. Tenho que lhe dizer o que me parece bem e o que não. Tenho que lhe mandar por e-mail o que penso, e então poderemos discutir na quarta-feira. Eu respiro fundo, para me limpar por dentro, e dou a volta para casa.

Kate foi comprar roupas, como só ela poderia, eram roupas para suas férias em Barbados.

Principalmente biquínis e cangas combinando. Ela vai parecer fantástica com todos esses modelos, mas mesmo assim, ela prova todos e me obriga a sentar e comentar como ficaram. Não há muitas maneiras de dizer: "Está fantástica, Kate". Embora esteja magra, tem umas curvas de perder o sentido. Ela não faz isso de propósito, eu sei, mas ao final arrasto meu penoso corpo coberto de suor até o meu quarto com a desculpa de ir empacotar mais caixas. Eu poderia me sentir mais inadequada? Levo comigo o computador sem fio, ligo e escrevo um email para Christian.

        

De: Anastásia Steele

        Data: 23 de maio de 2011 20:33

Para: Christian Grey

Assunto: Universitária escandalizada

Bem, já vi o bastante.

Foi agradável te conhecer.

 

Ana

 

Pressiono "Enviar", abraçando-me, rindo da minha piada. Será que ele vai achar isso tão engraçado? Oh, merda...

Certamente não. Christian Grey não é famoso por seu senso de humor. Embora saiba que ele o tem, porque experimentei. Talvez ele deixe para lá. Espero sua resposta.

Espero... e espero. Olho para o despertador. Já se passaram dez minutos.

Para esquecer da angústia que se abre caminho em meu estômago, ponho-me a fazer o que havia dito a Kate que faria: empacotar as coisas de meu quarto. Começo colocando meus livros em uma caixa.

Por volta das nove sigo sem notícias. Talvez ele tenha saído. Eu estou amuada e petulante, ponho os fones do iPod, escuto o Snow Patrol e sento em minha mesa para reler o contrato e a anotar minhas observações e comentários.

Não sei por que levanto o olhar, possivelmente capto de relance um ligeiro movimento, não sei, mas quando a levanto, Christian está na porta de meu quarto me olhando fixamente. Leva suas calças cinza de flanela e uma camisa branca de linho, e agita brandamente a chave do carro. Arregalo os olhos e fico gelada. Porra!

— Boa noite, Anastásia. — Sua voz era fria, sua expressão precavida e ilegível. A capacidade de falar me abandona. Maldita Kate, deixou-o entrar sem me avisar. Estou vagamente ciente de que ainda estou de moletom, toda suada e sem tomar banho, e ele está muito bonito, com as calças caindo bem nos quadris, e o que mais, ele está em meu quarto.

Eu senti que o seu e-mail merecia uma resposta em pessoa — explica em tom seco.

Abro a boca e volto a fechá-la, duas vezes. A piada é sobre mim. Nunca, neste ou em qualquer universo alternativo eu esperava que ele largasse tudo e viesse até aqui.

Posso me sentar? — pergunta-me, agora com olhos divertidos. Obrigada, Meu deus... Talvez a brincadeira lhe pareceu engraçada.

Eu concordo. Minha capacidade de falar permanece incerta. Christian Grey está sentado em minha cama.

Perguntava-me como seria seu quarto, — Ele diz.

Olho ao meu redor, pensando em uma rota de fuga, não, aqui só tem uma porta e uma janela.

Meu quarto é funcional, mas acolhedor, poucos móveis brancos de vime e uma cama de casal branca, de ferro, com uma colcha de patchwork que minha mãe fez quando estava em sua etapa de trabalhos caseiros. É azul céu e creme.

— É muito sereno e tranquilo, - ele murmura. Não neste momento... não com você aqui. Finalmente minha medula oblonga recorda o seu propósito, eu respiro.

Como...?

Ele sorri para mim.

Ainda estou no Heathman.

Isso eu já sabia.

— Quer tomar algo? — Tenho que dizer o que a educação sempre me impõe.

— Não, obrigado, Anastásia.   Esboça um deslumbrante meio sorriso com a cabeça ligeiramente inclinada.

Bem, eu certamente vou precisar de uma.

Então, foi agradável me conhecer?

Maldição, ofendeu-se? Olho para baixo, para os meus dedos. Como eu vou sair dessa? Se lhe disser a ele que era uma brincadeira, não acredito que goste de muito.

— Pensei que me responderia por e-mail. — digo-lhe em voz muito baixa, patética.

Você está mordendo o lábio de propósito? — pergunta-me muito sério.

Eu pisco os olhos, abro a boca e solto o lábio.

Não estava consciente de que estava mordendo o lábio, — eu murmuro.

Meu coração está disparado. Sinto a tensão, essa deliciosa eletricidade estática que invade o espaço. Ele está sentado muito perto de mim, com seus olhos cinza impenetráveis, os cotovelos apoiados nos joelhos e as pernas separadas. Inclina-se, desfaz-me uma trança muito devagar e me separa o cabelo com os dedos. Fico com a respiração presa e não posso me mover. Observo hipnotizada sua mão movendo-se para a outra trança, tirando a borracha e desfazendo a trança com seus compridos e hábeis dedos.

— Vejo que você decidiu fazer um pouco de exercício — fala em voz baixa e melodiosa, me colocando o cabelo atrás da orelha. — Por que, Anastásia? — Rodeia-me a orelha com os dedos e muito suavemente, ritmicamente, acaricia o lóbulo. Isso é muito sexual.

— Necessitava tempo para pensar, — eu sussurro. Eu sou toda coelho e faróis, mariposa e chama, pássaro e serpente... e ele sabe exatamente o que está fazendo.

— Pensar no que, Anastásia?

— Você.

E você decidiu que foi agradável me conhecer? Refere-te a me conhecer em sentido bíblico?

Merda. Ruborizo-me.

— Não pensava que fosse um perito na Bíblia.

— Eu ia à catequese aos domingos, Anastásia. Aprendi muito.

Não recordo ter lido nada sobre pinças para mamilos na Bíblia. Talvez lhe deram a catequese com uma tradução moderna.

Seus lábios se arqueiam desenhando um ligeiro sorriso e dirijo o olhar para sua boca.

Bom, pensei que devia vir a lhe recordar quão agradável foi me conhecer.

Meu Deus. Eu fico olhando para ele de boca aberta, e seus dedos se movem da minha orelha para o meu queixo.

O que lhe parece, senhorita Steele?

Seus olhos cinzentos brilham para mim, há um desafio intrínseco em seu olhar. Seus lábios estão entreabertos, está esperando, alerta para atacar. O desejo, agudo, líquido e fumegante - arde no mais profundo de meu ventre.

Adianto-me e me lanço para ele. De repente se move, não tenho nem ideia de como, e em um abrir e fechar de olhos estou na cama, imobilizada debaixo dele, com as mãos estendidas e sujeitas por cima da cabeça, com sua mão livre me agarrando o rosto e sua boca procurando a minha.

Ele coloca a língua em minha boca, reclama-me e me possui, e eu me deleito com sua força. Sinto-o por todo meu corpo. Deseja-me, e isso provoca estranhas e deliciosas sensações dentro de mim. Não quer a Kate, com seus minúsculos biquínis, nem a uma das quinze, nem à malvada senhora Robinson. Quer a mim. Este formoso homem me deseja. Minha deusa interior brilha tanto que poderia iluminar toda a cidade de Portland. Deixa de me beijar. Abro os olhos e o vejo me olhando fixamente.

Confia em mim? — pergunta-me.

Eu concordo, com os olhos muito abertos, com o coração ricocheteando nas costelas e o sangue trovejando por todo meu corpo. Ele estica o braço e do bolso da calça tira sua gravata de seda cinza... a gravata cinza que deixa pequenas marcas da malha em minha pele. Senta-se rapidamente escarranchado sobre mim e me ata as colunas, mas esta vez ata o outro extremo da gravata ao canto da cama. Puxa o nó para comprovar que está seguro. Não vou a nenhuma parte. Estou atada a minha cama, e muito excitada.

Ele se levantou e ficou em pé junto à cama, me olhando com olhos turvos de desejo. Seu olhar é de triunfo e de alívio.

— Melhor assim, — murmura e esboça um sorriso perverso de conhecimento. Inclina-se e começa a me desamarrar um tênis. Oh, não... não... meus pés. Acabo de correr.

Não, — protesto e empurro para que me solte.

Detém-se.

Se lutar, amarrarei também os pés, Anastásia. Se fizer o menor ruído, te amordaçarei. Fique quieta. Katherine provavelmente está aqui e poderá me escutar lá fora.

Amordaçar-me! Kate! Eu calo a boca.

Tirou -me os tênis e as meias, e me baixa muito devagar a calça de moletom.

Oh... que calcinha estou vestindo? Levanta-me, retira a colcha e o edredom de debaixo de mim e me coloca de barriga para cima sobre os lençóis.

— Vejamos. — ele passa a língua lentamente pelo lábio inferior. — Está mordendo o lábio, Anastásia. Sabe o efeito que tem sobre mim. — Pressiona-me seu longo dedo indicador na boca como advertência.

Oh meu Deus. Eu mal posso me conter, estou indefesa, tombada, vejo que ele se move tranquilamente pelo meu quarto. É um afrodisíaco embriagador. Lentamente, sem pressas, ele tira os sapatos e as meias, desfaz-se da calça e tira a camisa.

— Acredito que você viu muito, — ele ri maliciosamente. Volta a sentar-se em cima de mim, escarranchado, e me levanta a camiseta. Acredito que vai me tirar isso, mas a enrola à altura do pescoço e logo a sobe de maneira que me deixa descoberta a boca e o nariz, mas me cobre os olhos. E como está tão bem enrolada, não vejo nada.

— Mmm — sussurra satisfeito. — Isto está cada vez melhor. Eu vou tomar uma bebida.   Inclina-se, beija-me brandamente nos lábios e deixo de sentir seu peso. Ouço o leve chiado da porta do quarto. Tomar uma bebida. Onde? Aqui? Em Portland? Em Seattle? Aguço o ouvido. Distingo ruídos surdos e sei que está falando com a Kate... Oh, não... Ele está praticamente nu. O que vai dizer a Kate? Ouço um golpe seco. O que é isso? Retorna, a porta volta a chiar, ouço seus passos pelo quarto e o som de gelo tilintando em um copo. O que está bebendo? Fecha a porta e ouço como se aproxima tirando as calças, que caem ao chão. Sei que está nu. E volta a sentar-se escarranchado sobre mim.

— Tem sede, Anastásia? — pergunta-me em tom zombador.

— Sim, — digo-lhe, porque de repente sinto a boca seca. Ouço o tinido do gelo no copo. Inclina-se e, ao me beijar, derrama em minha boca um líquido delicioso. É vinho branco. Não o esperava e é muito excitante, embora esteja gelado, e os lábios do Christian também estão frios.

Mais? — pergunta-me em um sussurro.

Aceito. O gosto é ainda melhor porque vem de sua boca. Inclina-se e bebo outro gole de seus lábios... Oh, meu Deus.

— Não vamos muito longe, sabemos que sua tolerância ao álcool é limitada, Anastásia.

Não posso evitar de rir, e ele se inclina e solta outra deliciosa baforada. Ele se coloca ao meu lado e sinto sua ereção no quadril. Oh, quero-o dentro de mim.

Isso parece bom para você? — pergunta-me, mas ouço a borda em sua voz.

Estou tensa. Volta a mover o copo, beija-me e, junto com o vinho, solta um pedaço de gelo, na boca. Muito devagar começa a descer com os lábios desde meu rosto, passando por meus seios, até meu torso e meu ventre. Coloca-me uma parte de gelo no umbigo, onde se forma um pequeno lago de vinho muito frio que provoca um incêndio que se propaga até o mais profundo de meu ventre. Uau.

— Agora tem que ficar quieta, — ele sussurra. — Se você se mover, molhara a cama de vinho, Anastásia.

Meus quadris se flexionam automaticamente.

Oh, não. Se derramar o vinho, vou te castigar, senhorita Steele.

Gemo, tento me controlar e luto desesperadamente contra a necessidade de mover os quadris. Oh, não... por favor.

       Baixa com um dedo as taças do sutiã e deixa com os seios no ar, expostos e vulneráveis. Inclina-se, beija e pega meus mamilos com os lábios frios, gelados. Luto contra meu corpo, que tenta responder arqueando-se.

Você gosta disto? — pergunta-me me apertando um mamilo.

Volto a ouvir o tinido do gelo, e logo o sinto ao redor de meu mamilo direito, enquanto puxa de uma vez o esquerdo com os lábios. Gemo e luto para não me mover. Uma desesperadora e doce tortura.

— Se derramar o vinho, não deixarei que goze.

— Oh... por favor... Christian... Senhor... por favor. — Ele estava me deixando louca. Posso ouvi-lo sorrir.

O gelo de meu mamilo está derretendo-se. Estou muito quente... quente, molhada e morta de desejo.

Quero-o dentro de mim. Agora.

Ele desliza muito devagar os dedos gelados pelo meu ventre. Como tenho a pele hipersensível, meus quadris se flexionam e o líquido do umbigo, agora menos frio, goteja-me pela barriga. Christian se move rapidamente e o lambe, beija-me, morde-me brandamente, chupa-me.

Oh querida, Anastásia, você se moveu. O que vou fazer contigo?

Ofego em voz alta. A única coisa que posso me concentrar é em sua voz e seu tato. Nada mais é real. Nada mais importa. Meu radar não registra nada mais. Desliza os dedos por dentro da minha calcinha e me alivia ouvir que lhe escapa um profundo suspiro.

OH, querida, — ele murmura e me introduz dois dedos.

Sufoco um grito.

— Estará pronta para mim logo, — ele diz. Movendo seus tentadores dedos devagar, dentro e fora, eu empurro para ele elevando os quadris.

— Você é uma garota gulosa, — ele me repreende baixinho, e seu polegar circunda o meu clitóris e sem seguida, pressiona para baixo.

Ofego e meu corpo estremece sob seus peritos dedos. Estica um braço e retira a camiseta dos meus olhos para que possa vê-lo. A tênue luz do abajur me faz piscar. Desejo tocá-lo.

— Eu quero tocar você. — eu respiro.

— Eu sei, — ele murmura. Inclina-se e me beija sem deixar de mover os dedos ritmicamente dentro de meu corpo, riscando círculos e pressionando com o polegar. Com a outra mão me recolhe o cabelo para cima e me sujeita a cabeça para que não a mova. Replica com a língua o movimento de seus dedos. Começo a sentir as pernas rígidas de tanto empurrar para sua mão. Ele retira gentilmente sua mão, então sou trazida de volta da beira do abismo. Ele repete isso uma e outra vez. Isso é tão frustrante... Oh, por favor, Christian, eu grito por dentro.

— Este é seu castigo, tão perto e de repente tão longe. Você acha isso agradável? — sussurra-me ao ouvido.

Eu choramingo, esgotada, e puxo meus braços amarrados. Estou indefesa, perdida em uma tortura erótica.

— Por favor, — suplico-lhe, e ele finalmente tem piedade de mim.

—Como quer que lhe foda, Anastásia?

Oh... meu corpo começa a tremer e volta a fica imóvel.

— Por favor.

— O que você quer, Anastásia?

— Você... agora, - eu grito.

— Como quer que eu lhe foda. Há uma variedade infinita de maneiras, — ele respira contra meus lábios. Ele retira sua mão e atinge a mesa de cabeceira, pegando o saquinho prateado. Ajoelha-se entre minhas pernas e, muito devagar, tira-me a calcinha sem deixar de me olhar com olhos brilhantes. Ele coloca o preservativo. Eu observo fascinada, hipnotizada.

Isto lhe parece agradável? — diz-me acariciando-se.

— Eu quis dizer isso como uma brincadeira, — eu choramingo. Por favor, me foda Christian.

Ele levanta as sobrancelhas, deslizando a mão para cima e para baixo em seu impressionante membro.

— Uma brincadeira? — pergunta-me com a voz ameaçadoramente suave.

— Sim. Por favor, Christian, — rogo-lhe.

— Você está rindo agora?

Não, — eu choramingo.

A tensão sexual está a ponto de me fazer estalar. Olha-me por um momento, avaliando meu desejo, e de repente me agarra e me dá a volta. Fico surpresa, e como tenho as mãos amaradas, tenho que me apoiar nos cotovelos. Empurra-me os joelhos para elevar o traseiro e me dá um forte tapa. Antes que possa reagir, penetra-me. Eu grito, pelo tapa e por sua agressão súbita, e gozo imediatamente uma e outra vez, caindo debaixo dele, que segue a bater deliciosamente dentro de mim. Não se detém. Estou destroçada. Não aguento mais... e ele empurra uma e outra vez... e sinto que volta a me alagar outra vez... então eu estou começando de novo... não pode ser... não...

— Vamos, Anastásia, mais uma vez, — ele rosna por entre os dentes cerrados, e inacreditavelmente, meu corpo responde, convulsionando em torno dele, quando eu chego ao clímax de novo, gritando o seu nome. Despedaço-me novamente em pequenos fragmentos, e Christian finalmente para, em silêncio, encontrando a sua liberação.

Ele cai em cima de mim, ofegando.

Quanto você achou bom? — pergunta-me com os dentes apertados.

Oh, meu Deus.

Estou caída na cama, devastada, ofegando e com os olhos fechados, quando se separa de mim muito devagar. Levanta-se e começa a vestir-se. Quando acabou, volta para a cama, desamarra-me e me tira a camiseta. Flexiono os dedos e esfrego as bochechas, sorrindo ao ver que me marcou o desenho do lençol. Ajusto o sutiã enquanto ele atira a colcha e o edredom para me tampar. Olho para ele aturdida e ele me devolve o sorriso.

— Foi realmente muito bom, — sussurro timidamente.

— Não use esta palavra de novo.

— Você não gosta de que palavra?

— Não. Não tem nada que ver comigo.

— Oh... Eu não sei... parece ter um efeito benéfico para você.

— Eu sou um efeito benéfico? Isso é o que sou agora? Poderia ferir mais meu amor próprio, senhorita Steele?

— Não acredito que tenha algum problema de amor próprio. Mas sou consciente de que o digo sem convicção. Algo me passa rapidamente pela cabeça, uma ideia fugaz, mas me escapa antes que possa apanhá-la.

— Você crê? — pergunta-me em tom amável. Ele está deitado ao meu lado, vestido, com a cabeça apoiada no cotovelo, e eu estou apenas com o sutiã.

— Por que você não gosta que lhe toquem?

—Porque não. — Ele inclina-se sobre mim e me beija suavemente na testa. — Então, esse e-mail que você mandou era uma brincadeira

Sorrio a modo de desculpa e encolho de ombros.

— Estou vendo. Então ainda está pensando em minha proposta?

— Sua proposta é indecente... sim, estou pensando nela. Mas, tenho alguns problemas, embora.

Ele me sorri aliviado.

— Ficaria decepcionado se não tivesse algumas coisas para discutir.

— Eu ia mandar isso por email, mas você me interrompeu.

— Coitus interruptus.

— Vê, eu sabia que tinha um pouco de senso de humor escondido por aí. — digo-lhe sorridente.

— Não é tão divertido, Anastásia. Pensei que estava me dizendo não, que nem sequer queria comentá-lo. — Sua voz falha.

— Ainda não sei. Não decidi nada. Você vai me colocar uma coleira?

Ele levanta as sobrancelhas.

— Você esteve pesquisando. Eu não sei, Anastásia. Nunca dei uma coleira para alguém..

Oh... deveria me surpreender? Sei tão pouco sobre as sessões... Eu não sei.

— Você já usou uma coleira? — pergunto, num sussurro

— Sim.

— Da senhora Robinson?

— Senhora Robinson! — Ele ri às gargalhadas, e parece jovem e despreocupado, com a cabeça arremessada para trás. Sua risada é contagiosa.

Eu sorrio para ele.

— Eu vou contar a ela como a chama, ela vai adorar.

— Você continua em contato com ela? — pergunto-lhe sem poder dissimular meu temor.

— Sim. — responde-me muito sério.

Oh... de repente, uma parte de mim se volta louca de ciúmes. O sentimento é tão forte que me perturba.

— Já vejo. — digo-lhe em tom tenso. — Assim tem alguém com quem comentar seu estilo alternativo de vida, mas eu não posso.

Ele franze as sobrancelhas

— Acredito que nunca pensei por este ponto de vista. A senhora Robinson fazia parte deste estilo de vida. Eu disse a você que agora é uma boa amiga. Se quiser, posso te apresentar a uma de minhas ex-submissas. Poderia falar com ela.

O que? Ele está, deliberadamente, tentando me deixar aborrecida?

— Esta é a sua ideia de uma piada?

— Não, Anastásia. — Confuso, e ele balança a cabeça seriamente.

— Não... eu vou fazer isso do meu jeito, muito obrigada — eu respondi bruscamente, puxando o cobertor até ao meu queixo.

Ele observa-me perdido, surpreso.

— Anastásia, eu... — Ele não sabe o que dizer. Uma novidade, eu acredito. — Não queria te ofender.

— Não estou ofendida. Estou consternada.

— Consternada?

— Não quero falar com nenhuma ex-namorada... escrava... sub... ou qualquer nome que você chama.

— Anastásia Steele, está com ciúmes?

Eu fico vermelha

— Você vai ficar?

— Amanhã, no café da manhã, tenho uma reunião em Heathman. Além disso, já te disse que não durmo com minhas namoradas, escravas, submissas, com ninguém. Sexta-feira e sábado foram uma exceção. Não voltará a acontecer. — Ouço a firme determinação atrás de sua doce voz rouca.

Eu franzo os lábios.

— Bem, estou cansada agora.

— Você está me chutando para fora? — Ele levanta as sobrancelhas, perplexo e um pouco aflito.

— Sim.

— Bem, outra novidade. — Olha-me especulativamente. — Não quer discutir nada agora? Sobre o contrato.

— Não. — respondo-lhe de mau humor.

— Deus, eu gostaria de dar-lhe uma boa surra. Você se sentiria muito melhor, assim como eu.

— Você não pode dizer essas coisas... Ainda não assinei nada.

— Um homem pode sonhar, Anastásia. — Ele inclina-se e me agarra pelo queixo. — Quarta-feira? — Ele murmura, e beija-me rapidamente nos lábios.

— Quarta-feira. — respondo-lhe. — Eu acompanho você até lá fora. Só me dê um minuto. — Sento, coloco a camisa e empurrou-o para obter espaço na cama. Ele faz isso com relutância.

— Passe-me à calça de moletom, por favor.

Ele a recolhe do chão e me entrega.

— Sim, senhora. — Ele tenta ocultar seu sorriso, mas não o consegue.

Eu olho para ele de cara feia, enquanto ponho as calças. Meu cabelo está um desastre e eu sei que depois que ele se for, eu terei que enfrentar a inquisição de Katherine Kavanagh. Coloco um elástico no cabelo, dirijo-me para a porta e abro para ver se vejo Kate. Ela não está na sala de estar. Acredito que a ouço falando no telefone em seu quarto. Christian me segue. Durante o breve percurso entre o meu quarto e a porta da frente, meus pensamentos e meus sentimentos fluem e se transformam. Já não estou zangada com ele. De repente, me sinto insuportavelmente tímida. Não quero que parta. Pela primeira vez, eu gostaria que ele fosse normal, eu gostaria de manter uma relação normal, que não exigisse um acordo de dez páginas, açoites e mosquetões no teto de seu quarto de jogos.

Abro-lhe a porta e olho para as minhas mãos. É a primeira vez que recebo um homem em minha casa para fazer sexo, e acredito que foi genial. Mas agora me sinto como um recipiente, como um copo vazio que se enche com o seu desejo. Meu subconsciente sacode a cabeça.

Eu queria correr até Heathman em busca de sexo... e lhe fizeram uma entrega expressa. Cruzo os braços e bato com o pé no chão, como um ‘qual o problema em olhar em seu rosto’. Christian parou junto à porta, agarra-me pelo queixo e me obriga a olhá-lo. Sua testa enruga ligeiramente .

— Você está bem? — ele pergunta me acariciando o queixo com seu polegar.

— Sim. — respondo-lhe, embora com toda a honestidade eu não estou muito certa. Sinto uma mudança de paradigma. Eu sei que se aceitar, vou me machucar. Ele não é capaz, não lhe interessa ou não quer me oferecer nada mais... mas eu quero mais. Muito mais. O ataque de ciúmes que senti por um momento, antes, me diz que meus sentimentos por ele são mais profundos do que eu mesma posso admitir.

— Quarta-feira, — ele confirma, inclina-se e me beija com ternura. Mas enquanto está me beijando, seus lábios ficam mais urgentes contra os meus, sua mão se move para cima do meu queixo e está segurando a minha cabeça, uma mão de cada lado. Sua respiração se acelera. Inclina-se para mim e me beija mais profundamente. Coloquei minhas mãos em seus braços. Quero deslizar as mãos pelo seu cabelo, mas resisto porque sei que não gostaria. Ele encosta sua testa contra a minha, de olhos fechados, com a voz tensa.

— Anastásia, — ele sussurra. — o que você está fazendo comigo?

— O mesmo eu poderia dizer para você, — sussurro de volta.

Toma uma respiração profunda, beija-me na testa e parte. Avança em passo decidido para o carro passando a mão pelo cabelo. Enquanto abre a porta, levanta o olhar e me lança um sorriso arrebatador. Totalmente deslumbrada, devolvo-lhe um leve sorriso e volto a pensar em Ícaro aproximando-se muito ao sol. Fecho a porta da rua, enquanto se mete em seu carro esportivo. Sinto uma irresistível necessidade de chorar. Uma triste e solitária melancolia me oprime o coração. Volto para meu quarto, fecho a porta e me apoio tentando racionalizar meus sentimentos, mas não posso. Deixo-me cair no chão, cubro o rosto com as mãos e as lágrimas começam a descer.

Kate bate na porta suavemente.

— Ana? — ela sussurra. Eu abro a porta. Ela me olha e me abraça.

— O que está errado? O que lhe fez esse bastardo repulsivo?

— Oh, Kate, nada que eu não quisesse que me fizesse.

Ela me empurra para a cama e nos sentamos.

— Você está com o cabelo horrível.

Embora esteja desconsolada, rio-me.

— O sexo foi bom, não foi terrível em nada.

Kate sorri.

— Melhor. Por que você está chorando? Você nunca chora. — Ela pega a minha escova na mesa em frente, senta atrás de mim, e muito devagar escova para tirar os nós.

— Eu só não acho que nosso relacionamento está indo a lugar nenhum. — Olho para os meus dedos.

— Você não disse que ia vê-lo só na quarta-feira?

— Sim, foi o que combinamos.

— E por que ele apareceu hoje por aqui?

— Porque lhe mandei um e-mail.

— Pedindo para que ele viesse?

— Não, lhe dizendo que não queria voltar a vê-lo.

— E ele veio até aqui? Ana, você é genial.

— A verdade é que era uma brincadeira.

— Oh, agora sim não estou entendendo nada.

Pacientemente, lhe explico essência do meu e-mail, sem entrar em detalhes.

— Pensou que responderia por email.

— Sim.

— Mas isso fez com que ele viesse aqui.

— Sim.

— Eu diria que ele está completamente apaixonado por você.

Franzo o cenho. Christian apaixonado por mim? Dificilmente. Ele só está procurando um novo brinquedo, um novo e adequado brinquedo para deitar-se e lhe fazer coisas indescritíveis. Meu coração se aperta.

Essa é a verdade.

— Ele veio só para foder-me, isso é tudo.

— Quem disse que o romantismo tinha morrido? — ela murmura horrorizada. Eu choquei a Kate. Não pensava que isso fora possível. Encolho os ombros, como desculpa.

— Ele utiliza o sexo como uma arma.

— Fode você para submetê-la? – Ela sacode a cabeça com desaprovação. Eu pisco rapidamente para ela, e eu sinto o rubor se espalhando pelo meu rosto. Oh... na mosca, Katherine Kavanagh, ganhadora do premio Pulitzer de jornalismo.

— Ana, não a entendo, e você faz amor com ele?

— Não, Kate, não fazemos amor... fodemos... como diz Christian. Ele não está interessado em amor.

— Sabia que havia algo estranho nele. Tem problema em assumir compromisso.

Eu concordo, como se estivesse de acordo, mas por dentro suspiro. Oh, Kate... eu gostaria de lhe contar tudo sobre este tipo estranho, triste e perverso, e gostaria que você pudesse me dizer para esquecê-lo, para deixar de ser tola.

— Eu acho que é uma situação bastante esmagadora, — murmuro. Esse é o eufemismo do ano. Porque eu não quero mais falar sobre Christian, eu pergunto sobre Elliot. Só de mencionar o seu nome, a atitude de Katherine muda radicalmente, seu rosto se ilumina, sorrindo para mim.

— Ele virá cedo no sábado para nos ajudar na mudança. Abraça a escova com força contra seu peito, ela se deu bem, e sinto uma vaga e familiar pontada de inveja. Kate encontrou um homem normal e parece muito feliz.

Eu viro para ela e a abraço.

— Ah, quase tinha me esquecimento. Seu pai ligou quando estava... bem, ocupada. Parece que Bob teve um pequeno acidente, assim, sua mãe e ele não poderão vir à entrega do diploma. Mas seu pai estará aqui na quinta-feira. Ele quer que você ligue para ele.

— Oh... minha mãe não me ligaria para me dizer isso. O Bob está bem?

— Sim. Ligue para ela de manhã. Agora é tarde.

— Obrigada, Kate. Já estou bem, agora. Amanhã ligarei também para o Ray. Acredito que vou-me deitar. — Ela me sorri, mas aperta seus olhos, preocupada.

Quando ela saiu, sento-me, volto a ler o contrato e vou tomando notas. Uma vez que terminei, ligo o computador disposta a lhe responder.

Em minha caixa de entrada há um e-mail do Christian.

 

De: Christian Grey

        Data: 23 de maio de 2011 23:16

        Para: Anastásia Steele

        Assunto: Esta noite

         Senhorita Steele:

 

        Espero impaciente por suas observações sobre o contrato.

        Enquanto isso, que durma bem, querida.

Christian Grey

CEO, Grey Participações e Empreendimentos Inc.

 

        De: Anastásia Steele

        Data: 24 de maio de 2011 00:02

        Para: Christian Grey

        Assunto: Objeções

 

Querido senhor Grey

 

        Aqui está minha lista de objeções. Espero que na quarta-feira possamos discutir com calma, durante o nosso jantar.

        Os números remetem às cláusulas:

        2: Não tenho certeza que seja exclusivamente em MEU benefício, quer dizer, para que explore minha sensualidade e meus limites. Estou segura de que para isso, não necessitaria um contrato de dez páginas. Certamente é para SEU benefício.

        4: Como sabe, só pratiquei sexo com você. Não tomo drogas e nunca fiz uma transfusão. Certamente estou mais que sã. E sobre você?

        8: Posso rescindir o contrato a qualquer momento, se acreditar que não está cumprindo os limites acordados. Ok, isso me parece muito bem.

        9: Devo obedecer você em tudo? Aceitar sua disciplina sem duvidar? Temos que conversar sobre isso.

        11: Período de prova de um mês, não de três.

        12: Não posso me comprometer todos os fins de semana. Tenho vida própria, e seguirei tendo. Possivelmente três de cada quatro?

15.2: Utilizar meu corpo da maneira que considere oportuna, no sexo ou em qualquer outro âmbito... Por favor, defina "em qualquer outro âmbito".

        15.5: Toda a cláusula sobre a disciplina em geral. Não estou segura de que queira ser açoitada, surrada ou castigada fisicamente. Estou segura de que isto infringe as cláusulas 2-5. E além disso "por qualquer outra razão" é simplesmente mesquinho... e me disse que não era um sádico.

        15.10: Como se me emprestar a alguém pudesse ser uma opção. Mas me alegro de que o deixe bem claro.

        15.14: Sobre as normas, comento mais adiante.

        15.19: Que problema há em que me toque sem sua permissão? Em qualquer caso, sabe que não o faço.

        15.21: Disciplina: veja-se acima cláusula 15.5.

        15.22: Não posso te olhar nos olhos? Por quê?

        15.24: Por que não posso tocar em você?

       

Normas:

        Dormir: aceitarei seis horas.

Comida: não vou comer o que puser em uma lista. Ou a lista dos mantimentos se elimina, ou rompo o contrato.

        Roupa: de acordo, contanto que só tenha que vestir a sua roupa quando estou com você... Ok.

        Exercício: tínhamos ficado em três horas, mas segue pondo quatro.

       

Limites suaves:

        Temos que passar por tudo isto? Não quero fisting de nenhum tipo. O que é a suspensão? Pinças genitais... deve estar de brincadeira.

        Poderia me dizer quais são seus planos para quarta-feira? Eu trabalho até às cinco da tarde.

 

Boa noite.

Ana

 

De: Christian Grey

Data: 24 de maio de 2011 00:07

Para: Anastásia Steele

Assunto: Objeções

 

Senhorita Steele:

 

É uma lista muito longa. Por que ainda está acordada?

 

Christian Grey

CEO, Grey Participações e Empreendimentos Inc.

 

         De: Anastásia Steele

        Data: 24 de maio de 2011 00:10

        Para: Christian Grey

        Assunto: Queimando o óleo da meia-noite

       

Senhor:

 

Se não recordar mal, estava com esta lista quando sua obsessão por controle me interrompeu e me levou para a cama.

 

        Boa noite.

        Ana

 

De: Christian Grey

Data: 24 de maio de 2011 00:12

Para: Anastásia Steele

Assunto: Pare de queimar o óleo da meia-noite

 

ANASTÁSIA,VÁ PARA CAMA.

 

Christian Grey

CEO, Grey Participações e Empreendimentos Inc.

 

Oh... em maiúsculas! Como se gritasse. Desligo o computador. Como pode me intimidar estando a oito quilômetros de distância?

Eu sacudo a minha cabeça. Meu coração está disparado, eu subo na cama e imediatamente caio em um sonho profundo, embora intranquilo.

 

        No dia seguinte, ao voltar para casa, depois do trabalho, lembro de minha mãe. No Clayton's o dia foi relativamente tranquilo, tive muito tempo para pensar.

Eu estou inquieta, nervosa, porque amanhã terei que enfrentar o obcecado por controle, e no fundo, eu estou preocupada porque possivelmente fui muito negativa em minha resposta ao contrato. Talvez ele vá desistir da coisa toda.

        Minha mãe está muito triste, sente muito por não poder vir à entrega do diploma. Bob torceu um ligamento e esta mancando. Honestamente, ele é tão propenso a acidentes como eu sou. Ele deverá se recuperar sem problemas, mas tem que fazer repouso, e minha mãe tem que atendê-lo o tempo todo.

        — Ana, querida, sinto muitíssimo, — lamenta minha mãe ao telefone.

        — Mãe, está tudo bem. Ray estará aqui.

        — Ana, parece distraída... você está bem, querida?

        — Sim, mamãe. — Oh, se você soubesse... conheci um cara escandalosamente rico, que quer manter comigo uma espécie de estranha e perversa relação sexual, em que eu não tenho nem palavras nem opinião.

        — Conheceu alguém?

        — Não, mamãe. — Agora mesmo não gostaria de falar do assunto.

        — Bem, querida, na quinta-feira, eu pensarei em você. Amo você... vou sabe disso, querida? — Fecho os olhos. Suas carinhosas palavras me reconfortavam.

        — Eu também te amo, mamãe. Dê meu olá para Bob. Espero que se recupere logo.

— Certo, querida. Adeus.

— Adeus.

        Enquanto falava com mamãe, entrei em meu quarto. Ligo meu computador infernal e abro a caixa de correio. Tenho um e-mail do Christian, da última hora de ontem à noite ou primeira hora desta manhã, dependendo de como você veja a coisa. Meu coração acelera instantaneamente, e ouço o sangue bombear em meus ouvidos. Maldito seja... talvez ele me diga que não... certo... talvez tenha cancelado o jantar. A ideia me parece dolorosa. Descarto-a rapidamente e abro o email.

 

De: Christian Grey

        Data: 24 de maio de 2011 01:27

        Para: Anastásia Steele

        Assunto: Suas objeções

 

        Querida senhorita Steele:

 

        Depois de revisar com mais detalhe suas objeções, permita-me lhe recordar a definição de submisso.

 

Submisso - adjetivo

 

  1. inclinado ou disposto a submeter-se; que obedece humildemente: servente submisso.
  2. que indica submissão: uma resposta submissa.

 

        Origem: 1580-1590; submeter-se, submissão

 

        Sinônimos:

 

  1. obediente, complacente, humilde.
  2. passivo, resignado, paciente, dócil, contido.

 

Antônimos:

 

  1. rebelde, desobediente.

        Por favor, tenha isso em mente quando nos reunirmos na quarta-feira.

 

Christian Grey

CEO, Grey Participações e Empreendimentos Inc.

 

Meu sentimento inicial foi de alívio. Ao menos está disposto a comentar minhas objeções e ainda quer que nos vejamos amanhã. Penso um pouco e lhe respondo.

 

        De: Anastásia Steele

        Data: 24 de maio de 2011 18:29

        Para: Christian Grey

        Assunto: Minhas objeções... O que acontece com as suas?

 

        Senhor:

 

        Rogo-lhe que observe a data de origem: 1580-1590. Queria recordar ao senhor, com todo respeito, que estamos em 2011. Percorremos um longo caminho desde então.

        Permita-me lhe oferecer uma definição para que a tenha em conta em nossa reunião:

 

Compromisso: essencial

 

  1. chegar a um entendimento mediante concessões mútuas; alcançar um acordo ajustando exigências ou princípios em conflito ou oposição mediante a recíproca modificação das demandas.
  2. O resultado de certo acordo.
  3. Algo intermediário entre duas coisas diferentes. A divisão de nível é um compromisso entre uma casa de fazenda e uma de muitos andares.
  4. Um comprometimento, especialmente da reputação; expor em perigo, suspeita, etc.: comprometer a integridade de alguém.

       

Ana

 

         De: Christian Grey

        Data: 24 de maio de 2011 18:32

        Para: Anastásia Steele

        Assunto: O que acontece com minhas objeções?

 

 

        Bem entendido, como sempre, senhorita Steele. Passarei para pegá-la em sua casa às sete em ponto.

       

Christian Grey

CEO, Grey Participações e Empreendimentos Inc.

 

De: AnastásiaSteele

        Data: 24 de maio de 2011 18:40

        Para: Christian Grey

        Assunto: 2011 - As mulheres sabem dirigir

 

        Senhor,

 

        Tenho carro e sei dirigir.

        Preferiria que nos encontrássemos em outro lugar.

        Onde nos encontramos?

        Em seu hotel às sete?

 

        Ana

 

         De: Christian Grey

        Data: 24 de maio de 2011 18:43

        Para: Anastásia Steele

        Assunto: Jovenzinha teimosa

 

        Querida senhorita Steele:

 

        Remeto ao meu e-mail de 24 de maio de 2011, enviado a 01:27, e à definição que contém.

 

        Acredita que será capaz de fazer o que lhe diga?

 

Christian Grey

CEO, Grey Participações e Empreendimentos Inc.

 

        De: Anastásia Steele

        Data: 24 de maio de 2011 18:49

        Para: Christian Grey

        Assunto: Homem intratável

 

        Senhor Grey,

 

Eu prefiro dirigir.

        Por favor.

 

        Ana

 

         De: Christian Grey

        Data: 24 de maio de 2011 18:52

        Para: Anastásia Steele

Assunto: Homem exasperado

 

        Muito bem.

        Em meu hotel às sete.

        Vemo-nos no Marble Bar.

 

        Christian Grey

CEO, Grey Participações e Empreendimentos Inc.

 

Até por e-mail fica de mau humor. Não entende que posso precisar sair correndo? Não que minha lata-velha seja muito rápida... mas mesmo assim, necessito de uma via de escape.

 

         De: Anastásia Steele

        Data: 24 de maio de 2011 18:55

        Para: Christian Grey

        Assunto: Homem não tão intratável

 

        Obrigada.

         Ana

 

         De: Christian Grey

        Data: 24 de maio de 2011 18:59

        Para: Anastásia Steele

        Assunto: Mulher exasperante

 

        De nada.

 

        Christian Grey

CEO, Grey Participações e Empreendimentos Inc.

 

        Ligo para Ray, que está pronto para ver um partida dos Sounders, uma equipe de futebol de Salt Lake City, assim, felizmente, nossa conversa será breve.

        Virá na quinta-feira para a graduação. Depois quer me levar para comer em algum lugar. Sinto uma grande ternura quando falo com Ray, isso me faz sentir um nó na garganta. Sempre esteve ao meu lado diante dos devaneios amorosos de minha mãe. Temos um vínculo especial, que é muito importante para mim. Embora seja meu padrasto, sempre me tratou como a uma filha, e tenho muita vontade de vê-lo. Faz muito que não o vejo. Agora mesmo, preciso de sua força e tranquilidade. Sinto a sua falta. Talvez deva canalizar meu Ray interior para minha entrevista de amanhã.

        Kate e eu nos dedicamos empacotar e compartilhamos uma garrafa de vinho barato, como tantas vezes. Quando por fim quase terminei de empacotar minhas coisas do quarto vou para a cama, estou mais calma. A atividade física de colocar tudo em caixas foi uma boa distração, e estou cansada. Quero descansar. Aconchego-me na cama e em seguida durmo.

        Paul retornou de Princeton antes de se mudar para Nova Iorque para fazer negócios em uma entidade financeira. Passa o dia me seguindo pela loja e me pedindo que fiquemos juntos. É um pesadelo.

        — Paul, já lhe falei cem vezes, esta noite vou sair.

        — Não, não vai. Diz isso para me dar o fora. Sempre me dá o fora.

        Sim... parece que ando me esquivando.

        — Paul, eu sempre pensei que não era boa ideia sair com o irmão do chefe.

        — Deixará de trabalhar aqui na sexta-feira. E amanhã não trabalha.

        — E a partir sábado estarei em Seattle, e você em Nova Iorque. Nem de propósito poderíamos estar mais longe. Além disso, é verdade que tenho um encontro esta noite.

        — Com o José?

        — Não.

        — Com quem?

        — Paul... Oh. — Suspirou exasperada. Não ia se dar por vencido. — Com Christian Grey. — Não pude evitar o tom de chateação. Mas funcionou. Paul ficou boquiaberto e mudo. Droga... até o seu nome deixa às pessoas sem palavras.

        — Você vai sair com Christian Grey? — perguntou quando se recuperou do susto. Seu tom de incredulidade é evidente.

        — Sim.

        — Estou vendo. - Paul parecia abatido, mesmo atordoado, e uma pequena parte de mim se incomodava que lhe tenha surpreendido tanto. À deusa interior também. Ela faz um gesto muito vulgar e pouco atraente para ele com os dedos.

Depois disso, ele me ignorou, e as cinco em ponto saio correndo da loja.

        Kate me emprestou dois vestidos e dois pares de sapatos, para esta noite e para a graduação de amanhã. Eu queria poder sentir-me mais entusiasmada com roupas e fazer um esforço extra, mas não são minhas. Qual é a sua, Anastásia? A pergunta de Christian, a meia voz, me perseguia. Balançando a cabeça e me esforçando para acalmar os nervos, escolho o vestido cor de ameixa para esta noite. É discreto e parece adequado para uma entrevista de negócios, por que, depois de tudo, vou negociar um contrato.

        Tomo um banho, depilo minhas pernas e as axilas, lavo os cabelos e passo uma boa meia hora secando-os, isso para que caia ondulado sobre meus seios e costas. Pego algumas mechas com um pente para retirá-lo do rosto, aplico algum rímel e brilho de labial. Quase nunca uso maquiagem. Sinto-me intimidada.

        Nenhuma das minhas heroínas literárias teve que se maquiar, talvez soubesse algo mais sobre isso se o fizessem. Calço os sapatos de salto cor de ameixa, combinando com o vestido, e por volta das seis e meia, estou pronta.

        — Bem? — pergunto para Kate.

Ela sorri.

        — Rapaz, você vai arrasar, Ana. — Ela acena com aprovação. —Você está linda.

        — Linda! Pretendo ser discreta e parecer uma mulher de negócios.

        — Também, mas sobretudo, está um escândalo. Este vestido fica muito bem com seu tom de pele. E marca tudo. — disse com uma risadinha.

        — Kate! — repreendo-a.

        — As coisas são como são, Ana. A impressão geral é... muito boa. Com esse vestido, terá ele comendo em sua mão.

        Aperto os lábios. Oh, você não poderia estar mais errada.

        — Deseje-me sorte.

        — Você precisa de sorte para ficar com ele? — pergunta ela franzindo o cenho, confusa.

        — Sim, Kate.

— Bem, pois então tenha sorte. — Ela me abraçou e eu sai pela porta da frente.

        Tenho que tirar os sapatos para conduzir. Wanda, meu fusca azul marinho, não foi desenhado para ser conduzido por mulheres com saltos altos. Estacionei em frente ao Heathman as sete, faltando dois minutos exatamente, dando as chaves ao manobrista, percebo que ele olha para meu fusca com cara feia, mas eu o ignoro. Respiro fundo, me preparo mentalmente para a batalha e me dirijo ao hotel.

        Christian está inclinado sobre o balcão, bebendo um copo de vinho branco. Ele está vestido com a habitual camisa branca de linho, jeans preto, gravata preta e jaqueta preta. Tem os cabelos tão alvoroçados como sempre. Suspiro. Fico uns segundos parada na entrada do bar, observando, admirando a vista. Ele lança um olhar, acredito que nervoso, para a porta se esticando e fica imóvel. Pestaneja um par de vezes e depois esboça lentamente um sorriso indolente e sexy que me deixa sem palavras e isso me derrete por dentro. Avanço para ele fazendo um enorme esforço para não morder meus lábios, consciente de que eu, Anastásia Steele de Clumsyville, estou de saltos. Ele caminha graciosamente par me encontrar.

        — Você está linda, — ele murmura, inclinando-se para me beijar rapidamente na bochecha. — Lindo vestido, senhorita Steele. Parece-me muito bem. — Agarra minha mão, e me leva a uma mesa reservada e faz um gesto ao garçom.

        — O que quer tomar?

        Esboço um ligeiro sorriso enquanto me sento na mesa. Bem, ao menos pergunta-me.

        — Tomarei o mesmo que você, obrigado. — Viu? Sei fazer meu papel e me comportar.

Divertido, pede outro copo do Sancerre e se senta em frente a mim.

        — Têm uma adega excelente aqui, — me diz, inclinando a cabeça para um lado.

Ele apoia os cotovelos na mesa e junta os dedos de ambas as mãos à altura da boca. Em seus olhos brilham uma incompreensível emoção. E aí está... uma descarga elétrica que conecta com o meu eu mais profundo. Remexo-me, incômoda diante de seu olhar escrutinador, com o coração pulsando rapidamente. Tenho que manter a calma.

        — Está nervosa? — Ele pergunta amavelmente.

        — Sim.

Ele inclina-se para frente.

        — Eu também, — ele sussurra com cumplicidade. Mantenho meus olhos nos seus. Ele? Nervoso?

Nunca. Eu pestanejo e ele me dá seu precioso sorriso meio de lado. Chega o garçom com meu vinho, um pratinho com frutas secas e outro com azeitonas.

        — Então, como faremos isso? — Eu pergunto. — Revisamos meus pontos um a um?

        — Sempre tão impaciente, senhorita Steele.

        — Bem, eu poderia perguntar o que você achou do tempo hoje?

Ele sorriu e pegou uma azeitona com seus longos dedos. Ele botou na boca e meus olhos se fixam na sua boca, que esteve sobre a minha... em todo meu corpo. Ruborizo.

        — Acredito que o tempo hoje não teve nada de especial, — Ele riu.

        — Está rindo de mim, senhor Grey?

        — Sim, senhorita Steele.

        — Sabe que esse contrato não tem nenhum valor legal.

        — Sou perfeitamente consciente disso, senhorita Steele.

        — Pensou em me dizer isso, em algum momento?

        Ele franze o cenho.

        — Você acredita que estou te coagindo para que faça algo que não quer fazer, e que além disso pretendo ter algum direito legal sobre você?

        — Bem... sim.

        — Não tem um bom conceito de mim, não é verdade?

        — Não respondeu a minha pergunta.

        — Anastásia, não importa se é legal ou não. É um acordo que eu gostaria de ter contigo... o que eu gostaria de ter de você e o que você pode esperar de mim. Se você não gostar, não assine. Se o assinar e depois decidir que você não gosta, há suficientes cláusulas que lhe permitirão deixá-lo. Mesmo se você for legalmente vinculada, acredita que levaria você a julgamento se decidisse partir?

Tomo um comprido gole de vinho. Meu subconsciente me dá um golpe no ombro. Tem que estar atenta. Não beba muito.

        — As relações deste tipo se apoiam na sinceridade e na confiança, — seguiu me dizendo. — Se não confiar em mim... tem que confiar em mim para que saiba em que medida estou te afetando, até onde posso ir contigo, até onde posso te levar... se não puder ser sincera comigo, então, realmente, não podemos fazer isso.

        Oh meu Deus, vá diretamente ao ponto. Até onde pode me levar. Caramba. O que quer dizer?

        — É muito simples, Anastásia. Confia em mim ou não? — Ele perguntou com os olhos ardentes. — Você manteve este tipo de conversa com... bem, com as quinze?

— Não.

        — Por que não?

        — Porque elas já eram submissas. Sabiam o que queriam da relação comigo, e em geral, o que eu esperava. Com isso, era uma simples questão de afinar os limites possíveis, esses tipos de detalhes.

        — Você as procura em alguma loja? Nós somos Submissas?

Ele ri.

        — Não exatamente.

        — Então como?

        — É disso que quer falar? Ou passamos ao melhor da questão? Às objeções, como você diz.

        Engulo em seco. Confio nele? É nisso que se resume tudo, à confiança? Sem dúvida deveria ser coisa mais importante para os dois. Lembro-me de sua raiva quando liguei para José.

        — Você está com fome? — Ele pergunta, e me distrai de meus pensamentos.

        Oh, não... a comida.

        — Não.

        — Você comeu hoje?

        Eu olho para ele. Honestamente... Caramba, não vai gostar da minha resposta.

        — Não. — respondo em voz baixa.

Ele me olhou com expressão muito séria.

        — Tem que comer, Anastásia. Podemos jantar aqui ou em minha suíte. O que você prefere?

        — Acredito que é melhor ficamos em terreno neutro.

        Ele sorriu com ar zombador.

        — Crê que isso me deteria? — pergunta em voz baixa, como uma sensual advertência.

        Arregalo os olhos e volto a engolir a saliva.

        — Eu espero.

        — Vamos, reservei um jantar privado. — Ele sorriu enigmaticamente e saiu da mesa me estendendo a mão.

        — Traga o seu vinho — murmura.

        Agarro a sua mão, levanto e paro a seu lado. Solta a minha mão, põe no braço, cruzamos o bar e subimos uma grande escada até a sobreloja. Um rapaz com uniforme do Heathman se aproxima de nós.

        — Senhor Grey, por aqui, por favor.

        Nós o seguimos por uma luxuosa sala de sofás, até um refeitório privado, com uma só mesa. Era pequeno, mas suntuoso. Sob um candelabro cintilante, a mesa está coberta por linho engomado, taças de cristal, talheres de prata e um ramo com uma rosa branca. Um encanto antigo e sofisticado impregnava a sala, forrada com painéis de madeira. O garçom retira a cadeira e me sento. Eu coloco o guardanapo no colo. Ele coloca as taças na mesa. Christian se senta em frente a mim. Eu fico olhando para ele.

— Não morda o lábio, — ele sussurra.

        Eu franzo o cenho. Caramba. Nem sequer me dei conta de que estava fazendo isso.

 

        — Já pedi a comida. Espero que não se importe.

        A verdade é que me parece um alívio. Não estou segura de que possa tomar mais decisões.

        — Não, está tudo bem, — eu respondo.

        — Eu gosto de saber que pode ser dócil. Agora, onde estávamos?

        — No x da questão. — Dou outro longo gole de vinho. Está muito bom. Christian Grey conhece bem os vinhos bons. Eu lembro do último gole que me ofereceu, em minha cama. O inoportuno pensamento me fez ruborizar.

        — Sim, suas objeções. — Põe a mão no bolso interno da jaqueta e tira uma folha de papel.

Meu e-mail.

        — Cláusula 2. De acordo. É em benefício dos dois. Voltarei a redigi-lo.

        Pestanejo. Caramba... vamos passar por cada um destes pontos, um de cada vez. Não me sinto tão valente estando com ele. Ele parece tão sério. Reforço-me com outro gole de vinho. Christian continua.

        — Minha saúde sexual. Bem, todas as minhas companheiras anteriores fizeram análise de sangue, e eu faço exames a cada seis meses, de todos estes riscos que existam. Meus últimos exames estavam perfeitos. Nunca usei drogas. Na realidade, sou totalmente contra as drogas, e minha empresa leva uma política antidrogas muito a sério. Insisto em que se façam exames aleatórios e de surpresa nos meus empregados para detectar qualquer possível consumo de drogas.

        Uau... A obsessão controladora leva à loucura. Eu o encaro perplexa.

        — Nunca fiz uma transfusão. Isso responde a sua pergunta?

        Concordo, impassível.

        — Seu ponto seguinte eu já comentei antes. Você pode sair a qualquer momento, Anastásia. Não vou te deter. Mas se for... acaba tudo. Quero que saiba.

        — Ok, — eu respondo em voz baixa. Se eu for, acabou. A ideia me parece inesperadamente dolorosa.

O garçom chega com o primeiro prato. Como vou comer? Caramba... ele pediu ostras em uma cama de gelo.

        — Espero que você goste das ostras, — Christian diz em tom amável.

— Nunca as provei. — Nunca.

        — Sério? Bem. Pegue uma. A única coisa que tem que fazer é colocar isso na boca e engolir. Acredito que conseguirá. — Ele olha para mim e sei a que está se referindo. Fico vermelha como um tomate. Sorrindo me diz que devo espremer suco de limão em uma ostra e colocá-la na boca.

        — Mmm, deliciosa. Tem sabor de mar, — ele diz sorrindo. — Vamos, — ele me encoraja.

        — Não tenho que mastigá-la?

— Não, Anastásia. — Seus olhos brilham divertidos. Parece muito jovem. Eu aperto os lábios, e sua expressão muda instantaneamente. Ele me olha muito sério. Estico o braço e pego a primeira ostra. Ok... isto não vai sair bem. Jogo suco de limão e a coloco na boca. Ela desliza por minha garganta, todo o mar, sal, e a forte acidez do limão e sua textura carnuda... Oooh. Lambo os lábios, e ele me olha fixamente, com olhos impenetráveis.

        — É bom?

        — Comerei outra e lhe responderei.

        — Boa garota, — me diz orgulhoso.

        — Você pediu ostras de propósito? Não dizem que são afrodisíacas? — Não, é só o primeiro prato do menu. Não necessito de afrodisíacos contigo. Acredito que sabe, e acredito que é assim contigo também, — ele diz tranquilamente. — Onde estávamos? — Ele dá uma olhada no meu e-mail, enquanto pego outra ostra.

Acontece o mesmo com ele. Eu o afeto... Uau.

        — Obedecer-me em tudo. Sim, quero que faça. Necessito que o faça. Considera um papel difícil, Anastásia?

        — Mas me preocupa que me faça mal.

        — Que te faça mal como?

        — Fisicamente. — E emocionalmente.