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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


COLAPSO / Arthur Hailey
COLAPSO / Arthur Hailey

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

COLAPSO

Primeira Parte

 

         Calor!

Calor em mortalhas sufocantes. Calor que envolvia toda a Califórnia, da árida fronteira mexicana, ao sul, até a imponente Floresta Klamath, avançando pelo Oregon, ao norte. Calor, opressivo e enervante. Quatro dias antes, uma onda de calor extremamente seca se estendera sobre o Estado, com 1. 500 quilómetros de comprimento e 500 quilómetros de largura, ali acomodando-se, como uma galinha no choco. Naquela manhã, uma quarta-feira de julho, esperava-se que uma frente vinda do Pacífico empurrasse a onda de calor para leste, introduzindo um ar mais frio, com chuvas na costa norte e nas montanhas. Agora, à uma hora da tarde, os californianos ainda suavam profusamente, com temperaturas que iam de 32 a 38 C, sem qualquer esperança de alívio à vista.

Nas cidades e comunidades suburbanas, em fábricas, escritórios, lojas e casas, de aparelhos de ar condicionado zumbiam. Em milhares de fazendas no fértil Central Valley, o mais rico complexo agrícola do mundo, verdadeiros exércitos de bombas elétricas puxavam água de poços profundos, para o gado sedento e as colheitas ressequidas, de cereais, uvas, frutas cítricas, alfafa, abóbora, uma centena de outras mais. Incontáveis geladeiras e frigoríficos funcionavam incessantemente. Por toda parte, continuava inalterável a demanda de energia elétrica de uma população mimada, estragada, preocupada acima de tudo com sua conveniência, viciada em aparelhos elétricos, devoradora de energia.

A Califórnia já conhecera outras ondas de calor e sobrevivera às suas consequências. Mas em nenhuma outra a demanda de energia elétrica fora tão grande.

- Então é isso - disse o despachante-chefe de energia, desnecessariamente. - Lá se vai nossa última reserva.

Todos os que podiam ouvi-lo sabiam disso. E todos, no caso, incluíam a equipe regular encarregada da distribuição de energia e os executivos da companhia, apinhados no Centro de Controle de Energia da Golden State Power & Light.

A Golden State Power, mais frequentemente chamada apenas de GSP & L, era uma gigante, uma General Motors entre as empresas de serviço público. Era a fonte que gerava e distribuía dois terços da energia elétrica e do gás natural da Califórnia. Sua presença era tão natural no Estado quanto o sol, as laranjas e o vinho, geralmente encarada também como algo líquido e certo. A GSP & L era igualmente rica, poderosa e, por autodescrição, eficiente. Sua onipresença lhe valia de vez em quando o apelido de "God's Power & Love", o Poder & Amor de Deus.

O Centro de Controle de Energia da GSP & L era um posto de comando subterrâneo, uma área de segurança, certa vez descrito por um visitante como uma sala de operações de hospital combinada com a ponte de comando de um transatlântico. O ponto principal era um painel de comunicações, numa plataforma dois degraus acima do nível do chão. Ali trabalhavam o despachante-chefe e seis assistentes. Ao lado estavam os teclados de dois terminais de computadores. As paredes ao redor exibiam bancadas de chaves elétricas, diagramas dos circuitos de transmissão e subestações, com luzes coloridas e instrumentos diversos anunciando a situação das 205 unidades geradoras da companhia, em 94 usinas espalhadas pelo Estado. O clima era de intensa movimentação, enquanto os seis despachantes-assistentes controlavam uma massa de informações em constante mutação, embora o nível de som permanecesse reduzido, o resultado dos avanços da engenharia acústica.

- Tem certeza absoluta de que não há mais energia disponível que possamos comprar?

A pergunta era de um homem alto, de compleição musculosa, em manga de camisa, em cima da plataforma. Nim Goldman, vicepresidente de planejamento e assessor direto do presidente da GSP & L, afrouxara a gravata por causa do calor; uma parte do peito cabeludo estava visível, com os botões de cima da camisa abertos. Os cabelos do peito eram como os da cabeça, pretos e crespos, com uns poucos fios brancos. O rosto, forte, ossudo, corado, tinha olhos que expressavam extrema franqueza e autoridade, exibindo também algumas vezes mas não naquele momento - uma insinuação de humor. Beirando os 50 anos, Nim Goldman geralmente parecia mais moço; mas não naquele dia, por causa da tensão e fadiga. Há vários dias que ele ficava trabalhando até meia-noite e acordava às quatro horas da madrugada; por levantar tão cedo, fazia a barba também cedo, de tal forma que agora apresentava os vestígios de uma barba por fazer. Como todos os demais no Centro de Controle, Nim estava suando, um pouco pela tensão, como também devido ao reajustamento dos aparelhos de ar condicionado, algumas horas antes, para atender a uma súplica urgente, originada dali e transmitida para o público através da TV e rádio, para que se consumisse menos energia elétrica, em decorrência de uma grave crise no suprimento. Mas a julgar pelo gráfico que indicava uma demanda sempre crescente, do qual todos na sala estavam intensamente conscientes, o apelo não provocara uma reação positiva dos consumidores.

O despachante-chefe, um veterano de cabelos brancos, assumiu uma expressão de ofendido ao responder à pergunta de Nim. Há dois dias que dois de seus assistentes estavam continuamente ao telefone, como donas-de-casa desesperadas, tentanto comprar excedentes de energia em outros Estados e no Canadá. E Nim Goldman sabia disso.

- Estamos comprando tudo o que é possível do Oregon e Nevada, Sr. Goldman, a Interligação do Pacífico está em sobrecarga. Arizona! está ajudando um pouco, mas eles também estão com problemas. E estão querendo comprar de nós amanhã.

- Já lhes disse que não há a menor possibilidade! - informou uma despachante-assistente.

- Não podemos aguentar esta tarde com nossos próprios recursos?

A pergunta era de J. EricHumphrey, presidente da Companhia, interrompendo a leitura de um relatório de situação que acabara de ser emitido por um computador. Como sempre, a voz refinada do presidente era suave, nos limites do aprumo bostoniano, usado naquele dia e em todos os outros como uma espécie de armadura. Poucos jamais conseguiam penetrá-la. Há 30 anos que ele vivia e trabalhava na Califórnia, mas os modos informais da Costa Oeste não haviam conseguido remover a patina da Nova Inglaterra de Eric Humphrey. Era um homem pequeno, feições impecáveis, lentes de contato nos olhos, sempre bem arrumado. Apesar do calor, usava um terno escuro com colete; se estava suando, os indícios permaneciam decentemente ocultos.

- A perspectiva não é das melhores, senhor - respondeu o despachante-chefe. Meteu na boca um tablete de antiácido Gelusil; já perdera a conta de quantos tomara naquele dia. Os despachantes precisavam de tais recursos para atenuar as tensões de seu trabalho. A GSP & L, dentro de uma política de conquistar a boa vontade dos empregados, instalara um dispensário, onde os medicamentos calmantes podiam ser obtidos gratuitamente.

Nim Goldman acrescentou, para conhecimento do presidente:

- Se conseguirmos aguentar, será pelas pontas dos dedos... e com muita sorte.

Como o despachante-chefe comunicara momentos antes, a última reserva da GSP & L já entrara em plena carga. O que ele não-explicara, porque nenhum dos presentes precisava ser informado disso, era que uma companhia como a Golden State Power & Light possui duas espécies de reservas de energia: a de "sobreaviso" e a "disponível". A reserva de sobreaviso incluía os geradores que estavam funcionando, mas não em plena capacidade, embora a carga pudesse ser aumentada imediatamente, em caso de necessidade. A reserva disponível incluía as unidades que não estavam operando no momento, embora preparadas para entrar em ação e gerar uma carga plena em 10 a 15 minutos.

Uma hora antes, a última reserva disponível, duas turbinas acionadas a gás, numa usina perto de São Francisco, cada uma de 65. 000 kilowatts, adquirira a posição de reserva de "sobreaviso". Agora, as turbinas a gás estavam funcionando em plena carga, não restando mais nenhuma reserva de qualquer espécie.

Um homem corpulento, de aparência mal-humorada, ligeiramente encurvado, o rosto comprido, sobrancelhas espessas, que escutara atentamente o diálogo entre o despachante-chefe e o presidente da companhia, interveio nesse momento, com voz áspera:

- Mas que diabo! Se tivéssemos uma previsão do tempo decente para hoje, não estaríamos agora metidos neste aperto!

Ray Paulsen, vice-presidente executivo de suprimento de energia, afastou-se impacientemente da mesa em que estivera examinando, junto com outros, as curvas de consumo de energia, comparando as daquele dia com as de outros dias quentes do ano passado.

- Todos os outros meteorologistas cometeram o mesmo erro protestou Nim Goldman. - Li nos jornais ontem à noite e ouvi pelo rádio esta manhã que teríamos uma frente fria.

- Foi provavelmente de algum jornal que ela tirou a sua informação! Aposto como se limitou a recortar e colar num cartão!

Paulsen lançou um olhar furioso para Nim, que se limitou a dar de ombros. Não era segredo para ninguém que os dois se detestavam. Em seu papel duplo de planejador e assessor direto do presidente, Nim tinha jurisdição sobre toda a companhia, invadindo as fronteiras dos departamentos. No passado, entrara muitas vezes no território de Paulsen. E apesar de estar dois degraus acima na hierarquia da GSP & L, não havia nada que Ray Paulsen pudesse fazer para impedi-lo.

- Se por "ela" está-se referindo a mim, Ray, poderia pelo menos ter boa educação suficiente para usar meu nome.

As cabeças se viraram. Ninguém vira Millicent Knight, meteorologista-chefe da companhia, mignon, morena, serena e controlada, entrar na sala. Mas a entrada dela não chegava a ser uma surpresa. O departamento de meteorologia integrava o centro de controle, do qual estava separado apenas por uma parede de vidro.

Outros homens poderiam ter ficado constrangidos. Mas não Ray Paulsen. Ascendera os mais altos escalões da Golden State Power & Light pelo caminho árduo, começando 35 anos antes como ajudante de equipe de emergência externa, passando a guarda-fio, capataz e outros postos de comando. Caíra um dia de um poste durante uma nevasca nas montanhas e sofrera lesões na coluna vertebral, que o deixaram permanentemente encurvado. Cursos noturnos, financiados pela companhia, transformaram o jovem Paulsen em engenheiro; ao longo dos anos foi Se acumulando o seu conhecimento de todos os meandros da nhn M" - que era agora enciclopédico. Infelizmente, ao longo do caminho não chegara a adquirir maneiras polidas.

- Mas que merda, Milly! Falei o que eu pensava, como faria com qualquer homem! E se você trabalha como um homem, deve esperar ser tratada como tal!

Millicent Knight estava indignada.

- O fato de ser homem ou mulher não tem nada a ver com o caso! Meu departamento tem um alto índice de previsões acuradas, em torno dos 80 por cento, como sabe muito bem! Não vai encontrar melhor em parte alguma!

- Mas você e seu pessoal deram o maior fora hoje!

- Pelo amor de Deus, Ray! - protestou Nim Goldman. - Essa discussão não nos vai levar a parte alguma!

  1. Eric Humphrey ouvia a discussão com aparente indiferença. O presidente jamais o dizia expressamente, mas, às vezes, dava a impressão de que não fazia qualquer objeção aos atritos entre seus diretores, contanto que isso não lhes prejudicasse o trabalho. Havia alguns homens no mundo dos negócios - e presumivelmente Humphrey era um deles - que achavam que uma organização harmoniosa era também complacente. Mas quando era necessário, o presidente sabia cortar a infecção das disputas com o bisturi frio da autoridade.

Naquele momento, em termos estritos, os executivos que se encontravam no Centro de Controle - Humphrey, Nim Goldman, Paulsen e vários outros - não tinham o que fazer ali. A equipe que manejava o Centro era das mais competentes. As providências a serem tomadas em emergências eram bastante conhecidas, tendo sido definidas há muito tempo; a maioria era acionada por computadores, e complementada pelas determinações dos manuais de instruções, convenientemente à mão. Mas numa crise como a que a GSP & L estava enfrentando naquele momento, o Centro, com suas informações constantemente atualizadas, funcionava como uma espécie de imã para todos os que dispunham de autoridade suficiente para ali entrar.

A grande questão ainda não estava resolvida: será que a demanda de energia elétrica iria tornar-se tão grande a ponto de exceder o suprimento disponível? Se a resposta fosse positiva, inúmeras subestações seriam necessariamente desligadas, deixando várias áreas da Califórnia sem energia, isolando comunidades inteiras, criando o caos.

Uma medida de emergência já estava em vigor. Desde as 10 horas da manhã que a voltagem de energia fornecida aos consumidores da GSP & L fora reduzida em etapas sucessivas, até se tornar 8 abaixo do normal. à redução permitia que se poupasse alguma energia, mas significava que pequenos aparelhos elétricos, como secadores de cabelos, máquinas de escrever e geladeiras, recebessem 10 volts menos do que o habitual, enquanto os equipamentos que exigiam alta voltagem estavam sendo privados de 19 a 20 volts. A voltagem inferior fazia com que tudo funcionasse com menos eficiência; os motores elétricos esquentavam mais depressa e faziam mais ruído do que o habitual. Alguns computadores estavam em dificuldades; os que não eram equipados com reguladores de voltagem já se haviam desligado automaticamente e assim permaneceriam até que fosse restaurada a voltagem normal. Um efeito secundário era o de encolher as imagens nas telas dos receptores de TV. Mas se o período de queda de voltagem fosse curto, não haveria quaisquer danos permanentes. A iluminação, das lâmpadas incandescentes comuns, também estava prejudicada.

Contudo, uma redução de 8 na voltagem era o limite. Além disso, os motores elétricos teriam superaquecimento, talvez pegassem fogo, provocando incêndios. Se tal providência não fosse suficiente, o recurso derradeiro seria a total interrupção da carga, condenando extensas áreas a um completo blackout.

As duas horas seguintes seriam cruciais. Se a GSP & L conseguisse de alguma forma aguentar até o meio da tarde, o pique da demanda nos dias de calor, a pressão seria atenuada até o dia seguinte. E pressupondo que o dia seguinte não seria tão quente... não haveria problemas maiores.

Mas se a carga, que vinha subindo incessantemente desde o início do dia, continuasse a aumentar... então o pior poderia acontecer.

Ray Paulsen não era um homem de desistir facilmente.

- Ora, Milly, a previsão do tempo para hoje foi ridiculamente errada. Não é verdade?

- É verdade, sim, se quer mesmo formular a questão dessa maneira injusta e grosseira. - Os olhos escuros de Millicent Knight estavam brilhando de raiva. - Mas é verdade também que existe uma massa de ar frio a 1. 500 quilómetros da costa, na área conhecida como Pacific High. A meteorologia não sabe muita coisa a respeito, mas há um fenómeno qualquer que, às vezes, atrasa todas as previsões da Califórnia por cerca de um dia. - Ela fez uma pausa, antes de acrescentar, desdenhosamente: - Ou será que está tão absorvido por circuitos elétricos que desconhece esse fato elementar da natureza?

Paulsen ficou vermelho.

- Ei, espere um pouco! Milly Knight ignorou-o.

- Outra coisa: fizemos uma previsão honesta. Mas caso tenha esquecido, uma previsão é justamente isso, sempre deixando alguma margem para incerteza. E não fui eu quem lhe disse que podia desligar Magalia 2 para manutenção. Tal decisão foi tomada exclusivamente por você... e agora está querendo culpar-me por isso!

O grupo em torno da mesa riu e alguém murmurou:

- Touché!

Como todos sabiam perfeitamente, uma parte do problema daquele dia era causada pela usina de Magalia.

Magalia 2, parte de uma instalação da GSP & L, ao norte de Sacramento, era um gerador imenso, acionado a vapor, com uma potência de 600. 000 kilowatts. Mas desde que fora construído, cerca de 10 anos antes, que Magalia 2 era uma fonte permanente de problemas. Repetidos rompimentos nos tubos da caldeira e outros defeitos ainda mais graves mantinham a unidade frequentemente fora de serviço. A interrupção mais recente se prolongara por nove meses, enquanto o superaquecedor era totalmente recondicionado. Mesmo depois disso, os problemas haviam continuado. Como um engenheiro comentara, operar Magalia 2 era como manter à tona um encouraçado que estivesse fazendo água.

Há uma semana que o superintendente da usina em Magalia vinha suplicando a Ray Paulsen que lhe permitisse tirar de serviço a unidade 2, a fim de consertar vazamentos nos tubos da caldeira, "antes que essa chaleira maluca exploda de uma vez". Até o dia anterior, Paulsen sistematicamente rejeitara o pedido. Antes mesmo que aquela atual onda de calor começasse e por causa de outras imprevistas suspensões para reparos, a energia gerada por Magalia 2 fora indispensável ao sistema. Como sempre, era uma questão de pesar as prioridades, muitas vezes assumindo riscos. Na noite anterior, depois de ler a previsão de temperaturas mais baixas para o dia seguinte, Paulsen finalmente concordara com a interrupção e a unidade fora imediatamente desativada, os trabalhos de reparos começando algumas horas depois, assim que a caldeira esfriara. Na manhã daquele dia, Magalia 2 estava silenciosa, os trechos com vazamentos dos tubos de caldeira devidamente removidos. Embora desesperadamente necessária, Magalia 2 não poderia voltar a funcionar antes de dois dias.

- Se a previsão tivesse sido acurada - resmungou Paulsen - Magalia 2 não teria sido liberada para reparos.

O presidente sacudiu a cabeça. Já ouvira o bastante. Mais tarde, haveria tempo suficiente para se realizar um inquérito. Mas aquele não era o momento oportuno para uma discussão assim.

Nim Goldman estava conferindo o painel de distribuição de energia. Subitamente, sua voz vigorosa anunciou, sobrepondo-se a todas as demais:

- A interrupção de carga terá que começar dentro de meia hora. Não resta mais qualquer dúvida de que é inevitável. Não temos alternativa. - Olhou para o presidente, acrescentando: - Acho que devemos avisar imediatamente os meios de comunicação. O rádio e a televisão ainda podem transmitir os comunicados de interrupção.

- Pode tomar as providências necessárias - autorizou Humphrey. - E alguém me ligue imediatamente para o Governador.

- Pois não, senhor.

Um despachante-assistente começou imediatamente a discar. Todos os rostos na sala estavam sombrios. Nos 125 anos da história da companhia, o que estava para acontecer, a interrupção deliberada do serviço, jamais ocorrera antes.

Nim Goldman já estava telefonando para o Departamento de Re15

 

lações Públicas, que funcionava em outro prédio. Não haveria qualquer demora na comunicação das interrupções. O pessoal de relações públicas estava devidamente preparado para aquela emergência. Normalmente, a sequência dos cortes de energia era conhecida apenas de umas poucas pessoas na companhia, mas agora seria divulgada ao público. Outra questão de política da companhia fora definida alguns meses antes: os cortes, se e quando acontecessem, seriam chamados de "blackouts consecutivos", um artifício de relações públicas para ressaltar sua natureza temporária e o fato de que todas as áreas receberiam igual tratamento. Essa expressão provinha do cérebro um tanto infantil de uma secretária, depois que seus superiores, mais bem remunerados, haviam fracassado na formulação de qualquer coisa aceitável. Uma das sugestões rejeitadas: "cortes sequenciais".

- Estou falando com o gabinete do Governador em Sacramento, senhor - informou o despachante-assistente a Eric Humphrey. - Disseram que o Governador está em seu rancho perto de Stockton e já estão tentanto entrar em contato com ele. Pedem que fique esperando na linha.

O presidente assentiu e pegou o fone. Pondo a mão sobre o bocal, perguntou:

- Alguém sabe onde está o chefe?

Era desnecessário explicar que "o chefe" significava o engenheirochefe, Walter Talbot, um escocês sereno e inabalável, próximo da aposentadoria, cujo bom senso e equilíbrio em situações difíceis eram legendários.

- Ele foi dar uma olhada em Big Lil - respondeu Nim Goldman. O presidente franziu o rosto.

- Espero que não haja nada de errado por lá.

Instintivamente, todos os olhos se desviaram para um painel que tinha por cima a legenda LA MISSION N? 5. Era Big Lil, o maior e mais novo gerador da usina de La Mission, a 80 quilómetros da cidade.

Big Lil - construído pelas Indústrias Lilien, da Pensilvânia, cujo apelido fora dado por um jornalista - era um monstro que gerava

 

  1. 250. 000 kilowatts de energia elétrica. Era alimentado por óleo, em enormes quantidades, produzindo um vapor superaquecido que acionava a gigantesca turbina. No passado, Big Lil tivera muitos críticos. Nos estágios iniciais de planejamento, inúmeros técnicos haviam alegado que era uma loucura rematada construir um gerador tão grande, pois se estaria depositando um apoio excessivo numa única fonte geradora de energia; haviam inclusive recorrido a um símile não científico, a história antiga de ovos demais no mesmo cesto. Outros técnicos, no entanto, haviam discordado de tal posição, ressaltando a importância das "economias de escala", pelo que estavam querendo dizer que a energia elétrica produzida em massa era mais barata. A posição do segundo grupo acabara por prevalecer e, até agora, suas predições haviam sido confirma16 das. Nos dois anos desde que entrara em operação, Big Lil se mostrara extramemente económico, em comparação com geradores menores, seguro, eficiente, sem apresentar qualquer problema. Naquele dia, no Centro de Controle de Energia, o painel indicava, animadoramente, que Big Lil estava funcionando em sua capacidade máxima, gerando cerca de 6 da carga total da companhia.

Houve um aviso esta manhã de que havia alguma vibração na turbina - explicou Ray Paulsen ao presidente. - O chefe e eu conversamos a respeito. Embora provavelmente não seja nada crítico, ambos julgamos que ele deveria dar uma olhada.

Humphrey assentiu em aprovação. De qualquer forma, não havia nada que o chefe pudesse fazer dali. Era simplesmente mais confortador tê-lo por perto.

- O Governador vai falar - anunciou uma telefonista a Humphrey.

Um momento depois, ele ouviu a voz familiar:

- Boa tarde, Eric.

- Boa tarde, senhor. Infelizmente, estou-lhe telefonando para dar notícias infe...

E foi nesse momento que aconteceu.

Sob a legenda LA MISSION N? 5, uma campainha começou a soar insistentemente, uma série de notas curtas e estridentes. Ao mesmo tempo, luzes vermelhas e cor de âmbar de alarma começaram a faiscar. A agulha no painel da unidade N? 5 hesitou por um instante e depois caiu abruptamente.

- Santo Deus! - gritou alguém, a voz chocada. - Big Lil parou de funcionar!

Não podia haver a menor dúvida, quando a agulha do painel e outros registros fixaram-se no zero.

As reações foram imediatas. No Centro de Controle de Energia, uma máquina de escrever automática, de alta velocidade, começou bruscamente a funcionar, formulando relatórios de situação, enquanto centenas de interruptores de circuitos de alta tensão, nos centros de transmissão e subestações, eram acionados por uma ordem de computador. A interrupção desses circuitos salvaria o sistema e protegeria outros geradores de danos graves. Mas tal ação já mergulhara extensas áreas do Estado num blackout elétrico total. Em dois ou três segundos sucessivos, milhões de pessoas, em áreas distantes - operários em fábricas e trabalhadores em escritórios, fazendeiros, donas-de-casa, gente fazendo compras, balconistas, garçons, gráficos, empregados de postos de gasolina, corretores, hoteleiros, cabeleireiros, operadores e frequentadores de cinemas, motorneiros de bondes, técnicos de TV e espectadores, bartenders, fabricantes de vinho, médicos, dentistas, veterinários, jogadores depinball... uma lista infinita - ficaram privadas de luz e energia, incapazes de continuar a fazer o que quer que estivessem fazendo um momento antes.

Em prédios, elevadores pararam abruptamente entre dois andares. Aeroportos, que um instante antes fervilhavam de atividade, virtualmente cessaram de funcionar. Nas ruas, os sinais se apagaram, iniciando um caos monumental no tráfego.

Mais de um oitavo da Califórnia, uma área bem maior do que a Suíça e com uma população em torno de três milhões de habitantes, ficou subitamente paralisado. O que pouco antes fora apenas uma possibilidade, era agora uma realidade desastrosa... e muito pior do que se receava.

No painel de comunicações do Centro de Controle, protegido por circuitos especiais de uma'interrupção de energia disseminada, três despachantes trabalhavam rapidamente, transmitindo instruções de emergência, dando ordens por telefone a usinas geradoras e centros de transmissão, examinando mapas, esquadrinhando tubos de raios catódicos em busca de informações. Ficariam ocupados por um longo tempo, mas as providências desencadeadas pelos computadores já se haviam antecipado a eles.

- Ei, todas as luzes se apagaram! - gritou o Governador para Eric Humphrey, pelo telefone.

- Sei disso, senhor. É justamente o motivo do meu telefonema. Em outro telefone, uma linha direta com a sala de controle de La

Mission, Ray Paulsen estava gritando:

- Mas que diabo aconteceu com Big Lil?

A explosão da usina de La Mission da Golden State Power & Light foi totalmente inesperada.

Meia hora antes, o engenheiro-chefe Walter Talbot ali chegara para inspecionar La Mission n? 5, Big Lil, depois de ser avisado de que houvera uma ligeira vibração na turbina durante a noite. O chefe era um homem esguio, alto, exteriormente taciturno, mas com um senso de humor permanente e malicioso. Ainda falava com sotaque de um natural de Glasgow, apesar de há 40 anos não ter qualquer contato com a Escócia, a não ser ocasionalmente em jantares comemorativos da colónia escocesa, em São Francisco. Não gostava de fazer nada às pressas e naquele dia examinou Big Lil lenta e meticulosamente, acompanhado pelo superintendente da usina, um engenheiro sereno e estudioso chamado Danié li

Durante todo o tempo, a gigantesca máquina continuava a gerar energia, o suficiente para iluminar mais de 20. 000. 000 de lâmpadas comuns.

Uma débil vibração no interior da turbina, diferindo do constante zumbido normal, era audível, de vez em quando, aos ouvidos treinados do chefe e do superintendente. Depois dos testes, que incluíram a inserção de uma sonda de ponta de nylon no mancai principal, o chefe declarara:

- Não há motivos para preocupação. A gorda não vai dar problemas e providenciaremos o que for necessário assim que passar o pânico.

Os dois estavam parados perto de Big Lil enquanto falavam, de pé sobre as grades de metal que formavam o chão da câmara em que estava a turbina, parecendo uma imensa catedral. A monstruosa turbinagerador, com a extensão de um quarteirão de cidade, estava empoleirada sobre pedestais de concreto, cada uma das sete armações da unidade lembrando uma baleia encalhada. Imediatamente abaixo ficava a caixa de distribuição de vapor, os tubos saindo da caldeira e entrando na turbina e outros equipamentos, em alta pressão. Os dois homens usavam capacetes de segurança e protetores para ouvidos. Nenhuma das precauções, no entanto, serviu para coisa alguma, na ensurdecedora explosão que ocorreu um instante depois. O chefe e o superintendente DaniJi receberam o impacto secundário de uma explosão de dinamite por baixo do piso da câmara principal, que inicialmente rompeu um tubo de vapor de 90 centímetros de diâmetro, um dos muitos que saíam da caldeira para a caixa de distribuição. Um tubo menor, de óleo lubrificante, também foi rompido. A explosão, somada ao escapamento de vapor, produziu um estrondo terrível, profundo, tonitruante. No instante seguinte, o vapor a 500 e e a uma pressão de 2. 400 libras por polegada quadrada, passou pelas grades em que estavam os dois homens.

Ambos morreram instantaneamente. Foram cozinhados, literalmente, como legumes fervidos. Alguns segundos depois, todo o local estava obscurecido por uma densa fumaça negra do tubo de óleo rompido, agora em chamas, incendiado por uma faísca do metal arremessado para todos os lados.

Dois operários da usina, pintando num andaime muito acima do piso, correndo o perigo de serem alcançados pela fumaça negra, tentaram desesperadamente subir para um passadiço cerca de três metros acima. Não conseguiram e caíram para a morte lá embaixo.

O desastre total só foi evitado por uma ação rápida na sala de controle da usina, a 60 metros de distância e protegida por uma porta dupla. Um técnico no painel de controle da N? 5, ajudado por equipamentos automáticos, garantiu que Big Lil fosse desligada, sem maiores danos Para os componentes vitais do gerador.

Seriam necessários vários dias de investigação na usina de La Mission, com o exame meticuloso dos destroços por técnicos e interrogatórios dos assistentes do xerife e de agentes do FBI, para descobrir a causa e as circunstâncias da explosão. Mas a suspeita de sabotagem surgiu rapidamente e, posteriormente, foi confirmada.

Ao final, as provas acumuladas proporcionaram um quadro bastante nítido da explosão e dos eventos que a precederam.

Às 11: 40 daquela manhã, um homem branco, de compleição mediana, rosto raspado, pele meio pálida, usando óculos de aros de aço e uniforme de oficial do Exército de Salvação, aproximara-se a pé do portão principal da usina de La Mission. Carregava uma pasta do tipo exe:utivo.

Interrogado pelo guarda de segurança no portão, o visitante apresentara uma carta, aparentemente em papel timbrado da Golden State Power & Light, autorizando-o a visitar as instalações, com o objetivo de solicitar contribuições dos empregados para um programa beneficente do Exército de Salvação, o fornecimento de almoço gratuito para crianças necessitadas.

O guarda comunicara ao homem do Exército de Salvação que deveria procurar o gabinete do superintendente da usina e ali apresentar a carta, a fim de receber a competente autorização. O guarda lhe explicara como chegar ao gabinete do superintendente, que ficava no segundo andar do prédio principal, com acesso através de uma porta que podia ser avistada do portão. O visitante seguiria na direção indicada. O guarda não tornara a vê-lo até 20 minutos depois, quando o homem voltara e deixara a usina. O guarda notara que ele ainda estava levando a pasta.

A explosão ocorrera cerca de uma hora depois.

Se as medidas de segurança fossem mais rigorosas, conforme ressaltou um inquérito judicial posterior, o visitante não poderia ter entrado na usina sem estar acompanhado. Mas a GSP & L, como as companhias de serviço público por toda parte, enfrentava problemas especiais, um verdadeiro dilema, em questões de segurança. com 94 usinas geradoras, dezenas de depósitos e postos de serviço, centenas de subestações automáticas, incontáveis escritórios locais e uma sede formada por dois imensos edifícios interligados, as medidas de segurança rigorosas, mesmo que possíveis, custariam uma fortuna. Num momento de vertiginoso aumento do combustível e dos salários, além de outros custos operacionais, enquanto os consumidores se queixavam de que as contas de luz e gás já estavam altas demais, qualquer proposta de reajustamento das tarifas provocaria a maior celeuma e uma vigorosa resistência. Por tudo isso, o pessoal encarregado da segurança era relativamente reduzido; o esquema de segurança da companhia era superficial, baseado num risco calculado.

Em La Mission, esse risco - ao custo de quatro vidas humanas provou ser alto demais.

As investigações policiais esclareceram diversos pontos. O suposto oficial do Exército de Salvação era um impostor, quase que certamente usando um uniforme roubado. A carta que apresentara, embora possi velmente em papel timbrado autêntico da GSP & L, que não era tão difícil assim de se obter, era forjada. Não foi possível localizar ninguém na companhia que tivesse escrito a carta; além do mais, a companhia proibia expressamente que se apresentassem quaisquer solicitações a seus funcionários durante o expediente. o guarda de segurança de La Mission não se recordava do nome ao pé da carta, lembrando apenas que a assinatura era "um garrancho' ".

Ficou também apurado que o VISITANTE depois de entrar no prédio, não fora para o gabinete do superintendente. Ninguém o vira por lá. Se alguém o tivesse avistado, era improvável que se esquecesse.

Em seguida, vinham as conjeturas.

Provavelmente o falso oficial do Exército de Salvação descera por uma escada de metal que levava ao pso de serviço imediatamente abaixo da câmara principal da turbina. Esse piso (como o que havia por cima) não tinha paredes divisórias; dessa FORMA, em meio a uma rede de tubos de vapor e outros, as partes inferiores dos diversos geradores de La Mission podiam ser vistas nitidamente, através do piso gradeado por cima. Não era difícil localizar a Unidade 5" por causa do seu tamanho descomunal e dos equipamentos acessórios ao redor.

Talvez o intruso dispusesse de antemão de uma planta da usina, embora isso não fosse indispensável. O prédio principal tinha uma estrutura extremamente simples, assemelhando-se a uma caixa gigantesca. Ele talvez soubesse também que La Mission, como todas as modernas usinas geradoras, era altamente automatizada, dispondo apenas de uma pequena força de trabalho; assim sendo, eram boas as suas perspectivas de se deslocar pela usina sem ser observado.

Quase que certamente o intruso avançara até ficar diretamente abaixo de Big Lil, tirando então da basta a bomba de dinamite. Provavelmente olhara ao redor à procura de um lugar para esconder a bomba, encontrando um local conveniente o rebordo de metal da junção de dois tubos de vapor. Depois de aciOnar o mecanismo de tempo, certamente colocara a bomba ali. Fora na escolha desse local que sua falta de conhecimento técnico o traíra. Se estivesse mais bem informado, teria colocado a bomba perto do poço principal do monstruoso gerador, onde a explosão teria causado danos Muito maiores e talvez deixasse Big Lil sem poder funcionar por mais de ano.

Os peritos em explosivos confirMaram que tal possibilidade de fato existira. Chegaram à conclusão de que o sabotador usara uma "carga modulada", um cone de dinamite que, ao ser detonado, dispara para a frente com a velocidade similar a de uma bala, fazendo com que a explosão penetre no que quer que esteja a sua frente. No caso, fora um tubo de vapor que saía da caldeira.

Imediatamente depois de colocar a bomba, segundo a hipótese formulada, o sabotador deixara o prédio sem que ninguém o incomodasse e dirigira-se para o portão da usina, iNdo embora tranquilamente e Chamando ainda menos atenção do que ao chegar. Desse momento em diante, seus movimentos eram ignorados. Não surgiu qualquer pista quanto a sua identidade, apesar das intensas investigações. É verdade que uma mensagem transmitida por telefone para uma emissora de rádio, supostamente de um grupo revolucionário clandestino, conhecido como Amigos da Liberdade, reivindicara a responsabilidade pelo ato de sabotagem. Mas a policia não tinha quaisquer informações sobre o paradeiro do grupo ou algum conhecimento de seus membros.

Mas tudo isso só aconteceu depois. Em La Mission, por cerca de 90 minutos depois da explosão, reinou o caos total.

Os bombeiros, atendendo prontamente ao alarme automático, tiveram dificuldade em extinguir o fogo de óleo e ventilar a câmara principal da turbina e os pisos inferiores para remover a densa fumaça negra. Quando finalmente as condições tornaram possível, os quatro corpos foram removidos. Os do engenheiro-chefe e do superintendente, praticamente irreconhecíveis, foram descritos por um horrorizado funcionário da usina como "parecendo lagostas escaldadas", o resultado da exposição ao vapor superaquecido.

Uma rápida avaliação dos danos na Unidade N5 revelou que não chegavam a ser de monta. Seria necessário substituir um mancai cujo suprimento de óleo lubrificante fora interrompido pela explosão. E isso era praticamente tudo. Os trabalhos de reparos, incluindo a substituição dos tubos de vapor rompidos, levariam uma semana, depois do que o gigantesco gerador estaria pronto para voltar à operação. Ironicamente, haveria nesse período uma oportunidade para corrigir também a ligeira vibração que o engenheiro-chefe e o superintendente tinham ido inspecionar.

- Um sistema de distribuição de energia elétrica que entrou num blackout amplo e imprevisto - explicou Nim Goldman, pacientemente - é como aquela brincadeira de criança conhecida como "Cartas Pró Ar". Num momento se está olhando para um baralho completo e, no instante seguinte, inesperadamente, o chão está coalhado de cartas. É preciso recolhê-las, uma a uma, o que demora algum tempo.

Ele estava numa galeria de observação, um pouco acima e separada do Centro de Controle de Energia por uma parede de vidro, à qual os repórteres de jornais, emissoras de rádio e televisão tinham sido admitidos um momento antes. Os repórteres haviam sido despachados às pressas para a GSP & L. A vice-presidente de relações públicas da companhia, Teresa Van Buren, apelara a Nim para que assumisse o papel de porta-voz. O resultado era aquela improvisada entrevista coletiva.

Alguns repórteres já se estavam mostrando antagónicos, por causa da insuficiência das respostas às suas perguntas.

- Ora, pelo amor de Deus! - protestou Nancy Molineaux, do Califórnia Examiner. - Não estamos querendo saber dessas analogias de algibeira. Diga-nos simplesmente o que viemos descobrir aqui. Qual foi o problema? Quem é o responsável? Que providências serão tomadas, se é que alguma? Quando o fornecimento de energia voltará ao normal?

Nancy Molineaux era atraente, de um jeito um tanto sóbrio. Os mOlares salientes faziam seu rosto parecer altivo, o que, às vezes, ela de fato era. A expressão habitual era uma mistura de curiosidade e cepticismo, beirando o desdém. Era também elegante, usava boas roupas sobre um corpo esguio. E era negra. Profissionalmente, conquistara uma boa reputação por investigar e depois denunciar a venalidade em cargos públicos. Nim a encarava com uma farpa afiada e incómoda. Anteriormente, Nancy Molineaux já deixara bem claro que a GSP & L não era uma instituição que contava com sua simpatia e admiração.

Diversos outros repórteres assentiram em concordância.

- O problema foi uma explosão em La Mission. - Nim teve que fazer um tremendo esforço para conter a raiva que o invadira. - Temos razões para acreditar que pelo menos dois dos nossos homens morreram nessa explosão. Mas um incêndio de óleo e uma fumaça densa ainda não nos permitiram saber de mais detalhes.

- Tem os nomes dos dois mortos? - perguntou alguém.

- Temos, sim. Mas ainda não podemos revelá-los. As famílias devem ser informadas em primeiro lugar.

- Sabem a causa da explosão?

- Não.

Nancy Molineaux tornou a intervir:

- E a energia?

- Já restauramos uma parte da energia do sistema. Dentro de quatro horas, seis no máximo, a maior parte já estará novamente em carga. E a situação voltará inteiramente ao normal de noite.

Tudo voltará ao normal, pensou Nim, à exceção de Walter Talbot. A notícia de que o engenheiro-chefe estava no local da explosão e presumivelmente morrera chegara ao Centro de Controle de Energia alguns minutos antes, com um impacto terrível. Nim, um velho amigo dele, ainda não tivera tempo de digerir a triste realidade. Nem de lamentar, como sabia'que mais tarde aconteceria. Conhecera apenas ligeiramente a Danieli, o superintendente da usina de La Mission; por isso, a morte dele, embora trágica, parecia mais remota. Através da divisória de vidro à prova de som, que separava a galeria de observação da área de operação do Centro de Controle, Nim podia observar a intensa atividade em torno do painel central. Queria voltar para lá o mais depressa possível.

- Haverá outro blackout amanhã? - perguntou o representante de uma agência noticiosa.

- Não, se a onda de calor acabar, como prevemos que irá ocorrer. O interrogatório continuou, e Nim descreveu o que era o problema do pique de demanda nos dias excepcionalmente quentes. Ao final, Nancy Molineaux comentou, em tom cáustico:

- O que está realmente dizendo é que não planejaram, não previram e não se prepararam para qualquer coisa que pudesse representar um afastamento do cotidiano normal.

Nim ficou vermelho.

- O planejamento não pode estender-se... A frase jamais chegou a ser concluída.

Teresa Van Buren, a vice-presidente de relações públicas, entrou na galeria nesse momento, depois de vários minutos de ausência. Era uma mulher pequena, um tanto rechonchuda, dinâmica, de quarenta e poucos anos, que invariavelmente usava roupas de linho amarrotadas e sapatos fechados marrons. Frequentemente estava despenteada e desarrumada, parecendo mais uma dona-de-casa atormentada do que a competente executiva que na realidade era.

- Tenho um comunicado a fazer - disse ela. A voz estava emocionada e o papel em sua mão tremia visivelmente. Todos ficaram em silêncio. - Acabamos de ser informados de que houve quatro mortes e não apenas duas. Todos eram funcionários da companhia, que estavam trabalhando em seus postos no momento da explosão. As famílias estão sendo informadas neste instante e teremos uma lista dos nomes à disposição, juntamente com biografias sucintas, dentro de alguns minutos. Estou também autorizada a comunicar que embora não disponhamos de provas concretas por enquanto, há suspeitas de sabotagem.

Por entre a barragem de perguntas que se seguiu, Nim aproveitou para se retirar discretamente.

Gradativamente, sob a orientação do Centro de Controle de Energia, o sistema de distribuição desmoronado foi retornando a alguma ordem.

No painel de comunicações, o despachante-chefe, falando em dois telefones ao mesmo tempo e apertando uma bateria de botões, emitia rapidamente instruções aos operadores dos centros de transmissão e distribuição, num esforço para restabelecer a interligação com os sistemas de outras companhias, que fora automaticamente interrompida quando Big Lil cessara de funcionar. Assim que a Interligação do Pacífico foi restabelecida, o despachante-chefe recostou em sua cinzenta cadeira giratória de metal, deixando escapar um suspiro audível. Depois, pôs-se novamente a apertar botões, começando a restaurar a carga. Olhou a rapidamente para o lado, quando percebeu que Nim estava de volta, e disse:

- Já estamos na metade do caminho de volta, Sr. Goldman.

Nim sabia que isso significava que quase metade da área total afetada pelo blackout súbito já estava novamente suprida de energia elétrica e que o processo continuava. Um computador podia e de fato desligava o sistema muito mais depressa do que era capaz a intervenção humana. Mas era necessário o concurso dos técnicos, sob a supervisão do Centro de Controle de Energia, para restabelecer o sistema.

As grandes e pequenas cidades tinham prioridade e, bairro a bairro, foram revivendo, eletricamente. As comunidades suburbanas, especialmente as que tinham grandes concentrações industriais, viriam a seguir. Depois, chegaria a vez das comunidades rurais. As áreas rurais mais remotas, ao fundo do poste totêmico de energia, ficariam para o final.

Havia umas poucas exceções. Hospitais, usinas de tratamento de água e de esgotos sanitários e instalações de companhias telefónicas tinham uma classificação de preferência, por sua natureza de serviço essencial. Era verdade que tais instituições possuíam seus próprios geradores de reserva, mas estes só proporcionavam uma carga parcial e o suprimento externo era indispensável para um funcionamento normal. E havia também, aqui e ali, as exceções de tratamento especial para determinados consumidores particulares.

O despachante-chefe concentrara sua atenção num mapa de circuito fora do normal, sobre o qual estava falando por um dos telefones. O mapa tinha uma série de círculos coloridos. Na primeira pausa do telefone, Nim perguntou:

- O que é isso?.

O despachante-chefe fitou-o com uma expressão de surpresa.

- Quer dizer que não sabe?

Nim sacudiu a cabeça. Até mesmo um vice-presidente de planejamento não podia assimilar ou mesmo ver os milhares de mapas e diagramas detalhados meticulosamente, numa operação tão grande quanto a daGSL.

- Esses círculos indicam o equipamento de manutenção de vidas em casas particulares. - O despachante-chefe fez sinal para um dos assistentes e levantou-se, enquanto o outro tomava seu lugar. - Preciso de uma pausa.

Passou a mão pelos cabelos brancos, num gesto de cansaço. Depois, distraidamente meteu na boca outro tablete de Gelusil. Livre das pressões por um momento, o despachante-chefe apontou para o mapa de circuito.

- Esses círculos vermelhos são pulmões artificiais... equipamentos respiratórios, como dizem atualmente. Os verdes representam máquinas de diálise renal. Este círculo laranja é uma unidade de geração de oxigénio para um bebé. Temos mapas assim em todas as divisões e os mantemos permanentemente atualizados. Contamos com a ajuda dos hospitais, que sabem onde os equipamentos particulares estão localizados.

- Acaba de preencher uma lacuna em minha educação - comentou Nim, continuando a examinar o mapa, que o fascinava.

- A maioria das pessoas que depende de equipamentos de manutenção de vida tem o tipo que passa a funcionar à base de baterias, numa emergência. Mesmo assim, qualquer interrupção no suprimento externo pode ser traumática. Por isso, a primeira providência que tomamos, quando há uma interrupção, é rapidamente verificar. Se houver alguma dúvida ou problema, despachamos prontamente um gerador portátil.

- Mas não dispomos de tantos geradores portáteis... ou pelo menos não o bastante para uma interrupção tão disseminada quanto a de hoje.

- E também não temos as equipes externas necessárias. Mas hoje estamos com sorte. As diversas divisões já verificaram e nenhuma das pessoas com equipamentos de manutenção de vida em casa está com qualquer problema. - O despachante-chefe tornou a apontar para o mapa e acrescentou: - Além disso, já restauramos o suprimento de energia em todos esses locais indicados no mapa.

Saber que um elemento humano, tão reduzido em seus números, estava sendo velado e protegido, em meio a preocupações muito mais vastas, era algo comovente e tranquilizador. Nim correu os olhos pelo mapa. Encontrou um cruzamento que conhecia muito bem. Lakewood e Balboa. Um dos círculos vermelhos indicava um prédio de apartamentos pelo qual passara muitas vezes. Um nome ao lado indicava: "Sloan". Provavelmente usava um pulmão artificial. Quem seria Sloan?, perguntou-se Nim. Como seria ele? Seu devaneio foi subitamente interrompido:

- Sr. Goldman, o presidente deseja falar-lhe. Está ligando de La Mission.

Nim pegou o fone que o assistente lhe estendia e ouviu Eric Humphrey dizer:

- Nim, você era muito amigo de Walter Talbot, não é mesmo? Apesar da crise, a voz do presidente continuava polida como sempre. Imediatamente depois das primeiras noticias sobre a explosão, Humphrey convocara seu motorista e partira na limusine para La Mission, junto com Ray Paulsen.

- Era, sim. - Nim estava consciente de um tremor em sua voz, sabia que as lágrimas não estavam muito longe. Quase desde que começara a trabalhar na Golden State Power & Light, 11 anos antes, partilhara uma simpatia mútua com o engenheiro-chefe, habitualmente se contando confidências. Parecia inconcebível que isso nunca mais aconteceria.

- E a esposa de Walter? Também a conhece bem?

- Ardythe? Conheço, sim. - Nim percebeu que o presidente hesitava e perguntou: - Como está a situação por aí?

- Terrível. Nunca antes eu tinha visto corpos queimados por vapor superaquecido. E espero nunca mais tornar a ver. Não restou praticamente qualquer pele, havendo apenas uma massa de bolhas, com tudo o que está por baixo à mostra. Os rostos estão irreconhecíveis. - Por um momento, parecia que o aprumo de Eric Humphrey ia desmoronar. Mas ele se recuperou rapidamente e acrescentou: - É por isso que eu gostaria que fosse falar com a Sra. Talbot o mais depressa possível. Ouvi dizer que ela ficou profundamente abalada com a notícia, o que não é de surpreender. Como amigo do casal, você talvez possa ajudar. Eu gostaria de que a convencesse, se for possível, a não ver o corpo do marido.

- Mas por que logo eu, Eric?

- Pela razão óbvia. Alguém tem de fazê-lo. Como você era amigo de ambos, parece mais indicado do que qualquer outro. Estou também pedindo a um amigo de Danieli para procurar a esposa dele, com o mesmo objetivo.

Nim sentiu vontade de responder: Por que não vai você procurar pessoalmente as esposas de todos os quatro homens que morreram? É o nosso chefe, ganha um salário excepcional que deve compensar as ocasionais missões difíceis e embaraçosas. Além do mais, morrer a serviço da companhia não merece uma visita pessoal do homem que está lá no topo? Mas Nim não disse nada disso. Sabia que J. Eric Humphrey era um administrador competente e operoso, que deliberadamente se mantinha em segundo plano sempre que possível. Evidentemente, aquela era mais uma ocasião para assumir tal atitude, com Nim e algum outro infortunado agindo como representantes dele.

- Está certo, Eric. Irei até lá.

- Obrigado, Nim. E, por favor, transmita à Sra. Talbot os meus pêsames.

Nim devolveu o telefone ao assistente, sentindo-se angustiado. O que lhe haviam pedido para fazer era algo que não sabia como enfrentar. Eventualmente, teria que acabar encontrando-se com Ardythe Talbot e, inevitavelmente emocionado, encontraria a maior dificuldade para descobrir as palavras apropriadas. O que não esperava era ser obrigado a fazê-lo tão cedo.

Ao sair do Centro de Controle de Energia, Nim encontrou-se com Teresa Van Buren. Ela parecia ainda mais desgrenhada e desarrumada do que o habitual, presumivelmente uma consequência do seu recente embate com a imprensa. Além disso, Teresa também fora amiga de Walter Talbot. Murmurou para Nim:

- Não é um bom dia para nenhum de nós.

- Tem razão.

Nim informou-a para onde estava indo e quais as instruções que recebera de Eric Humphrey. A vice-presidente de relações públicas fez uma careta.

- Não o invejo, Nim. É uma missão das mais difíceis, que eu não gostaria de ter. Por falar nisso, soube que você teve um atrito com Nancy Molineaux.

- Mas que mulher filha da mãe!

- Tem toda razão, Nim. E ela também é uma jornalista corajosa, muito melhor do que a maioria dos palhaços incompetentes que aparecem por aqui.

- Fico surpreso por ouvi-la falar assim. Ela já tinha tomado a decisão de se mostrar crítica, hostil, antes mesmo de saber o que tinha acontecido.

Teresa Van Buren deu de ombros.

- Esse paquiderme para o qual trabalhamos pode sobreviver a algumas pedradas. Além do mais, a hostilidade pode ser um recurso usado por Nancy para fazer você e os outros falarem mais do que tencionam. Ainda tem que aprender algumas coisas em relação às mulheres, Nim... além de calistênica na cama, o que vem fazendo muito ultimamente, pelo que me contaram. - Ela o fitou atentamente, antes de acrescentar: Virou um caçador de mulheres, não é mesmo? - Mas os olhos maternais se suavizaram no instante seguinte. - Talvez eu não devesse fazer um comentário desses neste momento. E agora trate de ir, Nim. E procure fazer o melhor possível pela esposa de Walter.

Acomodando o corpo consideravelmente alto no Fiat XI9 de dois lugares, Nim Goldman avançou pelas ruas movimentadas do centro da cidade, seguindo para nordeste, na direção de São Roque, a comunidade suburbana em que ficava a casa de Walter e Ardythe Talbot. Ele conhecia perfeitamente o caminho, pois já o percorrera muitas vezes.

Àquela altura, no início da noite, cerca de uma hora depois do rush de final de expediente, o tráfego ainda era intenso. O calor do dia diminuíra um pouco, mas não muito.

Nim mudou a posição do corpo no pequeno carro, esforçando-se em ficar o mais confortável possível; recordou-se que ultimamente estava engordando um pouco e tinha que perder algum peso antes de chegar a um ponto de impasse com o Fiat. Não tinha a menor intenção de trocar de carro. O Fiat representava sua convicção de que todos aqueles que possuíam carros maiores estavam desperdiçando um combustível precioso, vivendo num paraíso de tolos que em breve terminaria, com os desastres consequentes. Um desses desastres seria a escassez do suprimento de energia elétrica.

Para Nim, a interrupção do fornecimento daquele dia, embora ampla, não passara de uma prévia da escassez muito mais grave que parecia inevitável, talvez começando dentro de um ou dois anos. O maior problema era o de que quase ninguém parecia importar-se. Até mesmo na GSP & L, onde muitos outros tinham acesso aos mesmos fatos que eram do conhecimento de Nim, havia um clima de complacência que podia ser traduzido da seguinte forma: Não se preocupe. Tudo vai acabar dando certo. Daremos um jeito. Enquanto isso, não vamos balançar o barco criando um alarme público desnecessário.

Nos últimos meses, apenas três pessoas nos altos escalões da Golden State Power & Light, Walter Talbot, Teresa Van Buren e o próprio Nim, tinham-se empenhado por uma mudança de posição. O que eles desejavam era menos timidez e mais franqueza. Eram favoráveis a uma declaração objetiva e imediata ao público, imprensa e políticos, de que havia a perspectiva de uma escassez de energia elétrica calamitosa, que nada poderia ser feito para evitá-la totalmente e apenas um programa de emergência de construção de novas usinas geradoras, combinado com medidas amplas e difíceis de racionamento, poderiam atenuar o efeito. Mas a cautela convencional, o temor de desagradar aqueles que detinham o poder no Estado, havia prevalecido até aquele momento. Nenhuma mudança na política da companhia fora aprovada. E, agora, Walter, um dos três cruzados, estava morto.

Nim foi dominado pelo retorno do desespero. Anteriormente, conseguira conter as lágrimas. Mas agora, na intimidade do seu carro em movimento, deixou que as lágrimas fluíssem; dois filetes escorreram por suas faces. com a angústia, desejou poder fazer alguma coisa por Walter, até mesmo um ato tão intangível quanto uma prece. Esforçou-se por recordar a Kaddish dos Mortos, a prece judaica que ouvira ocasionalmente em serviços fúnebres, tradicionalmente pronunciada pelo parente mais próximo do sexo masculino, na presença de 10 judeus. Os lábios de Nim se mexeram, silenciosamente, tropeçando nas antigas palavras aramaicas: Yisgadal veyiskadash sh'may rabbo be'olomo deevro chiroosey ve'yamlich malchoosey... Ele parou, não conseguindo lembrar o resto da prece, ao mesmo tempo em que pensava que o simples fato de rezar, para um homem como ele, era inteiramente ilógico.

Houvera momentos em sua vida - e aqueles era um deles - em que Nim sentia instintos profundos dentro de si ansiando por uma fé religiosa, por uma identificação pessoal com sua herança. Mas a religião ou pelo menos o exercício dela era uma porta fechada. E fora fechada antes mesmo do nascimento de Nim, pelo pai dele, Isaac Goldman, que chegara à América, procedente da Europa Oriental, como um jovem imigrante sem dinheiro e ardoroso socialista. Filho de um rabino, Isaac chegara à conclusão de que o socialismo e o judaísmo eram incompatíveis. Rejeitara totalmente a religião dos seus antepassados, deixando os pais desolados. Até mesmo agora, aos 82 anos, o velho Isaac ainda escarnecia dos postulados básicos da fé judaica, descrevendo-os como "conversa fiada entre Deus e Abraão, o conto da carochinha imbecil de um povo escolhido ".

Nim crescera na aceitação da opção do pai; a festa da Páscoa e os dias sagrados, Rosh Hashanah e Yom Kippur, não'eram observados pela família Goldman. Como decorrência da rebelião pessoal de Isaac, uma terceira geração, a dos filhos de Nim, Leah e Benjy, estava afastada da herança e identidade judaicas. Não fora planejado nenhum bar mitzvah para Benjy, uma omissão que de vez em quando perturbava Nim e o levava a formular uma indagação: apesar das decisões que tomara para si próprio, tinha o direito de separar os filhos de 5. 000 anos de história judaica? Nim sabia que não era tarde demais, mas até agora ainda não conseguira chegar a uma conclusão.

Ao pensar na família, Nim recordou-se de que esquecera de avisar a Ruth que chegaria mais tarde em casa. Estendeu a mão para o telefone instalado no carro, à direita do painel, uma comodidade que a GSP & L fornecera e pagara. Uma telefonista atendeu e ele deu o número de sua casa. Um momento depois, ouviu a campainha tocando e uma vozinha fina atender:

- Residência Goldman. Benjy Goldman falando.

Nim sorriu. Benjy era assim mesmo, já aos 10 anos, objetivo e prático, em contraste com a irmã Leah, quatro anos mais velha, perenemente desorganizada e que atendia ao telefone com um jovial "Oi! "

- É Papai, Benjy. Estou falando do carro. - Nim explicara à família que todos deviam esperar um pouco ao ouvirem tal informação, pois não podia haver superposições nas conversas pelo radiotelefone. Está tudo bem aí em casa?

- Agora está, Papai. Mas a eletricidade tinha faltado. - Benjy soltou uma risadinha, antes de acrescentar: - Aposto que já sabia disso, Papai. E já tratei de acertar todos os relógios.

- Isso é ótimo, Benjy. E tem razão, eu já sabia que faltou energia. Agora, chame sua mãe.

- Leah quer...

Nim ouviu o barulho de uma altercação e logo depois a voz da filha:

- Oi! Assistimos ao noticiário pela televisão. E você não apareceu!

- O tom de Leah era acusador. As crianças já estavam acostumadas a verem Nim na TV como o porta-voz da GSP & L. Talvez a ausência de Nim das telas naquele dia fosse rebaixar o status de Leah entre os amigos.

- Lamento muito, Leah. Mas não pude fazer nada. Havia muitas outras coisas acontecendo. Posso falar com sua mãe?

Outra pausa.

- Nim? - Era a voz suave de Ruth. Ele apertou a tecla para falar.

- Sou eu mesmo. E conseguir falar com você é como abrir caminho a cotoveladas através de uma multidão.

Enquanto falava, Nim mudou de faixa, manobrando o Fiat com uma só mão. Uma placa anunciava que a saída para São Roque estava a dois quilómetros de distância.

- Porque as crianças também lhe queriam falar? Talvez seja porque quase não o vêem em casa. - Ruth jamais alteava a voz, sempre falando suavemente, até mesmo quando fazia uma censura. Nim admitiu para si mesmo que a censura era procedente, embora preferisse que Ruth não tivesse abordado o problema. - Já soubemos o que aconteceu com Walter, Nim. E com os outros. A televisão deu a notícia. Lamento profundamente.

Nim sabia que ela estava falando sinceramente, pois Ruth estava a par do quanto fora amigo do engenheiro-chefe.

Esse tipo de compreensão era típico de Ruth. É verdade que, sob outros aspectos, ela e Nim pareciam ter cada vez menos harmonia, em comparação com outrora. Não que houvesse qualquer hostilidade aberta entre eles. Ruth, serena e imperturbável, jamais chegaria a tal ponto, pensava Nim. Podia imaginá-la naquele momento, controlada e objetiva, uma expressão de compaixão nos olhos castanhos. Nim muitas vezes pensara que ela possuía uma qualidade de Madona; mesmo sem a boa aparência, que Ruth tinha de sobra, o caráter por si só seria suficiente para torná-la bonita. Ele sabia também que Ruth iria partilhar aquele momento com Leah e Benjy, explicando tudo, tratando-os como iguais, naquela maneira tranquila que sempre possuíra. Jamais deixara de respeitar Ruth, especialmente como mãe. O que acontecia simplesmente era que o casamento estava-se tornando desinteressante, insípido mesmo; a imagem que Nim fazia era de "uma estrada suave para lugar nenhum". E havia algo mais, talvez uma consequência à indiferença mútua. Recentemente, Ruth parecia ter adquirido interesse próprios, sobre os quais preferia não falar. Por diversas vezes, Nim telefonara para casa em momentos em que ela deveria estar e não a encontrava. Ruth aparentemente passara o dia inteiro fora e mais tarde se esquivara a qualquer explicação, o que não tinha o hábito de fazer. Será que Ruth arrumara um amante? Era possível. Seja como for, Nim se perguntava até que ponto iriam, antes que algo definido ocorresse, antes que houvesse uma confrontação.

- Ficamos todos profundamente abalados, Ruth. E Eric pediu-me que fosse falar com Ardythe. Estou a caminho neste momento. Provavelmente chegarei tarde em casa. Muito tarde mesmo. Não precisa ficar esperando.

O que não era nenhuma novidade, é claro. Eram frequentes as noites em que Nim ficava trabalhando até tarde. O resultado: o jantar em casa era atrasado ou então ele o perdia inteiramente. Significava também que quase não via Leah e Benjy, os quais geralmente estavam deitados quando chegava em casa, muitas vezes já dormindo. Nim volta e meia era atormentado por um sentimento de culpa pelo pouco tempo que dispensava aos filhos. Sabia que isso incomodava Ruth, embora ela só raramente fizesse um comentário a respeito. Havia ocasiões em que desejava que a mulher se queixasse mais.

Mas a ausência naquela noite era diferente. Não exigia explicações ou desculpas adicionais, nem para si mesmo.

- Pobre Ardythe! - murmurou Ruth. - Logo no momento em que Walter estava prestes a se aposentar! E o comunicado torna as coisas ainda piores.

- Que comunicado?

- Ainda não sabe? As pessoas que colocaram a bomba enviaram um comunicado para uma emissora de rádio, gabando-se do que tinham feito. Pode imaginar uma coisa dessas? Como alguém pode assumir uma atitude assim?

- Qual foi a emissora?

Nim largou o fone por um momento, ligou o rádio e tornou a pegar o fone, a tempo de ouvir Ruth responder:

- Não sei.

- É muito importante que eu ouça o tal comunicado, Ruth, Por isso, vou desligar agora. Se for possível, voltarei a telefonar da casa de Ardythe.

Nim repôs o fone no gancho. O rádio já estava sintonizado numa emissora noticiosa. Ele deu uma olhada no relógio. Faltava um minuto para a meia hora, quando haveria um noticiário.

A rampa de saída para São Roque se aproximou e ele manobrou o Fiat. A casa dos Talbots ficava a menos de dois quilómetros de distância.

No rádio, um estrondo de trombetas pontuado por sinais de Morse anunciou o noticiário. A notícia que Nim estava esperando era a principal.

"Um grupo que se intitula Amigos da Liberdade reivindicou a autoria de uma explosão que ocorreu hoje numa usina geradora da Golden State Power & Light. A explosão provocou a morte de quatro pessoas e causou uma grande interrupção no fornecimento de energia.

"A revelação constava de uma fita gravada que foi entregue a uma emissora de rádio local no final desta tarde. A polícia declarou que alguns detalhes da gravação parecem comprovar sua autenticidade. Estão examinando-a à procura de pistas. "

Obviamente, pensou Nim, a emissora que estava ouvindo não fora a que recebera a gravação. As estações de rádio não gostavam sequer de reconhecer a existência de uma concorrente; muito embora uma notícia como aquela fosse importante demais para ser ignorada, o nome da outra emissora não estava sendo indicado.

Na gravação, uma voz de homem, até agora não identificada, declarava, abre aspas: Os Amigos da Liberdade estão empenhados em promover a revolução do povo e protestam contra o monopólio capitalista ganancioso do poder que pertence de direito ao povo. Fecha aspas.

"Comentando as mortes, a gravação diz, abre aspas: A intenção não era matar, mas na revolução do povo, que agora começa, os capitalistas e seus lacaios serão as baixas, pagando pelos seus crimes contra a humanidade. Fechaaspas.

"Um alto dirigente da Golden State Power & Light confirmou que a causa da explosão de hoje foi sabotagem, mas não quis fazer qualquer outro comentário.

"Os preços da carne no varejo deverão subir em breve. Em Washington, o Secretário de Agricultura comunicou hoje a uma comissão de consumidores... "

Nim desligou o rádio. A notícia o deixara profundamente deprimido, pela inutilidade repulsiva do ato. Ficou imaginando qual teria sido o efeito em Ardythe Talbot, com quem iria encontrar-se dentro de poucos minutos.

Ao crepúsculo, a noite se aproximando rapidamente, ele notou que diversos carros estavam estacionados diante da modesta casa de dois andares dos Talbots, com sua profus-ão de canteiros-de flores, um hobby que Walter cultivara por toda a vida. Havia luzes acesas em todos os cómodos do primeiro andar.

Nim encontrou uma vaga para o Fiat; estacionou e trancou o carro, encaminhando-se em seguida para a casa.

 

A porta da frente estava aberta e podia-se ouvir um zumbido de vozes. Nim bateu e ficou esperando. Como ninguém viesse atender, decidiu entrar.

No vestíbulo, as vozes soavam mais nítidas. Vinham da sala de estar, a direita. Podia ouvir Ardythe falando. Ela parecia histérica estava soluçando. Nim percebeu algumas palavras meio incoerentes:

" aqueles assassinos, meu Deus!... era um homem bom e generoso, não seria capaz de fazer mal a ninguém... e chamá-lo de todas aquelas coisas horríveis... Havia outras vozes se entremeando, no empenho inútil de acalmar

- hesitou. A porta da sala de estar estava entreaberta, embora não Pudesse ver quem estava lá dentro nem ser visto. Sentiu-se tentado a se retirar na ponta dos pés, indo embora tão despercebido quanto chegara. E foi nesse momento que a porta foi abruptamente empurrada e um homem saiu da sala. Fechando a porta rapidamente, recostou-se nela, o rosto barbado e sensível muito pálido e tenso, os olhos fechados, como se isso pudesse proporcionar-lhe um momento de alívio. A porta fechada isolava quase inteiramente as vozes que soavam lá dentro.

- Wally... - murmurou Nim, suavemente. - Wally...

O homem abriu os olhos, levando alguns segundos para se recuperar.

- Ah, é você, Nim... Obrigado por ter vindo.

Nim conhecia Walter Talbot Jr. filho único, quase há tanto tempo quanto era amigo do engenheiro-chefe morto. Wally Jr. também trabalhava para a GSP & L, como engenheiro de manutenção de linhas de transmissão. Wally era casado, tinha filhos, morava no outro lado da cidade.

- Não há muita coisa que se possa dizer num momento como este, Wally. A não ser que sinto muito.

Wally Talbot assentiu.

- Eu compreendo. - Fez um gesto na direção da sala de onde acabara de sair, como se pedisse desculpas. - Tinha que me afastar por um minuto. Algum idiota ligou a TV e ouvimos o comunicado daqueles assassinos miseráveis. Antes disso, havíamos conseguido acalmar Mamãe um pouco. Mas a notícia deixou-a novamente histérica. Provavelmente já a ouviu.

- Ouvi, sim. Quem está lá dentro?

- Mary está. Deixamos as crianças com uma vizinha e viemos imediatamente. E diversas vizinhas de Mamãe apareceram. A maioria ainda está aqui. Sei que elas têm as melhores intenções, mas isso não ajuda em muito. Se Papai estivesse aqui... - Wally parou de falar abruptamente, exibindo um sorriso amargurado antes de acrescentar: - É difícil me acostumar à ideia de que ele nunca mais estará por aqui.

- Também me estou sentindo assim, Wally. - Nim percebeu o óbvio: Wally Jr. não estava em condições de assumir o controle do que estava acontecendo na casa. - Não podemos deixar que a situação continue assim. Vamos entrar e falarei com sua mãe, procurando acalmá-la da melhor forma possível. Enquanto isso, você e Mary dão um jeito de fazer com que as vizinhas saiam.

- Está bem. É a melhor coisa a fazer no momento. Obrigado, Nim. - Evidentemente, o que Wally estava esperando era que alguém lhe determinasse o que fazer.

Havia umas 10 pessoas de pé ou sentadas na sala de estar, alegre e confortável, normalmente parecendo espaçosa, mas agora dando a impressão de que estava apinhada. E estava quente também, apesar de o aparelho de ar condicionado estar ligado. Diversas conversas se processaram ao mesmo tempo e a televisão continuava ligada, aumentando ainda mais a confusão. Ardythe Talbot estava num sofá, cercada por várias mulheres, uma das quais era Mary, a esposa de Wally Jr. Nim não reconheceu as outras. Provavelmente eram as vizinhas a que Wally se referira.

Embora Ardythe estivesse com 60 anos - Nim e Ruth haviam comparecido à festa do seu último aniversário - ainda continuava a ser uma mulher extraordinariamente bonita, com um corpo atraente e um rosto firme, que só agora começava a apresentar, ainda muito pouco, as rugas da idade. Os cabelos castanhos avermelhados, bem curtos, na última moda, tinham apenas alguns fios brancos, o que era perfeitamente natural. Ardythe jogava ténis regularmente, o efeito transparecendo em sua radiante boa saúde. Hoje, porém, toda a sua compostura desmoronara. O rosto manchado de lágrimas parecia exausto e envelhecido.

Ardythe ainda estava falando como antes, a voz sufocada, as palavras meio desconexas. Mas parou assim que avistou Nim. E no instante seguinte exclamou:

- Oh, Nim! - Estendeu os braços e as outras mulheres recuaram, para dar passagem a Nim, que foi sentar no sofá e abraçou-a. - Oh, Nim! Já soube a coisa terrível que aconteceu com Walter?

- Já, sim, minha querida - murmurou Nim, suavemente.

Nim observou Wally, no outro lado da sala, desligar a TV e depois falar rapidamente com a esposa. Mary assentiu. Rapidamente, os dois se aproximaram das outras mulheres, agradecendo, levando-as para fora da sala, uma a uma. Nim continuou a abraçar Ardythe, sem falar, procurando acalmá-la e confortá-la. Não demorou muito para que a sala estivesse quieta.

Nim ouviu a porta da frente se fechar após a saída da última das vizinhas. Wally e Mary voltaram do vestíbulo. Wally passou a mão pelos cabelos e pela barba, murmurando:

- Bem que estou precisando de um uísque. Alguém mais vai querer?

Ardythe assentiu. E Nim também.

- Pode deixar que vou providenciar - disse Mary.

Serviu rapidamente as doses de uísque e depois limpou os cinzeiros, arrumou a sala, removendo os sinais da recente ocupação. Era uma mulher esguia, mais parecendo uma menina, sempre eficiente. Antes de se' casar com Wally, trabalhara no departamento de criação de uma agência de propaganda e ainda fazia ocasionalmente trabalhos defree lance, ao mesmo tempo em que cuidava da casa.

Ardythe estava agora sentada sozinha, tomando uísque, apresentando os primeiros indícios de que sua compostura voltava. Abruptamente, disse:

- Devo estar com uma aparência horrível.

- Não mais do que qualquer outra pessoa ficaria em tais circunstâncias - assegurou-lhe Nim.

Mas Ardythe já tinha ido mirar-se num espelho.

- Santo Deus! - Virando-se para os outros, acrescentou: - Continuem tomando seus drinques. Voltarei num instante.

Ela saiu da sala, levando o copo de uísque, e subiu a escada. Nim refletiu, um tanto divertido e irónico: Poucos homens conseguem ser tão resistentes e fortes quanto as mulheres.

Não obstante, decidiu que era melhor contar a Wally primeiro a advertência de Eric Humphrey para que a família não visse o corpo. Recordou-se, estremecendo, das palavras do presidente: "Não restou praticamente qualquer pele... os rostos estão irreconhecíveis." Mary tinha ido até a cozinha. Aproveitando a oportunidade, Nim explicou a situação tão gentilmente quanto era possível, omitindo os detalhes.

A reação foi imediata. Wally tomou o resto do uísque de um só gole e com lágrimas nos olhos protestou:

- Isso é demais! Não tenho coragem de contar a Mamãe! Você é que terá de fazê-lo.

Nim ficou em silêncio, temendo o que iria acontecer.

Ardythe voltou 15 minutos depois. Passara uma pintura no rosto, arrumara os cabelos, trocara de roupa, estava agora de saia e blusa. Embora os olhos e a atitude demonstrassem seu desespero, superficialmente parecia ter voltado a seu ego habitual.

Mary também voltara à sala. Foi Wally quem se encarregou de servir novas doses de uísque. Os quatro ficaram sentados em silêncio por algum tempo, inquietos, sem saber o que falar.

Foi Ardythe que rompeu finalmente o silêncio, dizendo firmemente:

- Quero ver Walter. - Virando-se para Wally, indagou: - Sabe para onde levaram seu pai, quais as providências que já foram tomadas?

- É que... há... - Wally parou de falar abruptamente, levantou-se e beijou a mãe, ficando em seguida parado num ponto em que ela não podia ver-lhe os olhos, antes de continuar: - Há um problema, Mamãe. Nim vai explicar-lhe tudo. Não é mesmo, Nim?

O vice-presidente desejou estar em outro lugar, qualquer um, menos ali.

- Mamãe querida, Mary e eu temos que ir até em casa para ver como estão as crianças. Voltaremos depois. E um de nós passará a noite aqui com você.

Como se não tivesse ouvido, Ardythe indagou:

- Que problema?... Por que não posso ver Walter?... Alguém tem que me contar!

Wally se retirou rapidamente, seguido por Mary. Ardythe parecia não ter percebido a saída deles.

- Por favor... Por que não posso... Nim segurou-lhe as mãos, apertando-as.

- Ardythe, por favor, preste atenção no que lhe vou dizer. Walter morreu instantaneamente. Tudo acabou em menos de um segundo. Ele nem teve tempo de compreender o que estava acontecendo, não pode ter sentido qualquer dor. - Nim esperava que isso fosse mesmo verdade.

- Mas por causa do que aconteceu, ele ficou desfigurado.

"Walter era meu amigo, Ardythe. Sei como ele pensava. E tenho certeza de que não gostaria que o visse como está agora. Iria querer que você o lembrasse... - Nim não conseguiu continuar, sufocado pela emoção. Não tinha certeza se Ardythe o ouvira, se compreendera suas palavras. Mais uma vez, ficaram em silêncio.

Mais de uma hora já se passara desde a chegada de Nim quando Ardythe finalmente voltou a falar:

- Já jantou, Nim? Ele sacudiu a cabeça.

- Não tive tempo. E não estou com fome. - Nim tinha dificuldades em se ajustar às bruscas mudanças de ânimo de Ardythe. Ela levantou-se.

- vou preparar alguma coisa para você comer.

Nim seguiu-a até a cozinha compacta e funcional, que o próprio Walter Talbot projetara. Como era de se esperar, Walter efetuara antes um levantamento das funções que se desempenhavam numa cozinha, dispondo tudo depois para que houvesse um máximo de conveniência e um mínimo de necessidade de movimentos. Nim sentou-se à mesa, observando Ardythe, sem interferir, raciocinando que era melhor que ela estivesse ocupada com alguma coisa.

Ela esquentou um pouco de sopa e serviu-a em tigelas de barro, tomando a sua, enquanto preparava uma omelete de cebolinha e champignon. Assim que a omelete foi dividida entre os dois, Nim descobriu que, no final das contas, estava faminto, comendo vorazmente. Ardythe ainda fez um esforço inicial, mas acabou deixando no prato a maior parte de sua porção. Depois, foram tomar um café bem forte, na sala de estar.

Falando calmamente, pronunciando nitidamente as palavras, Ardythe disse:

- Posso insistir para ver Walter.

- Se quiser realmente, ninguém poderá impedi-la. Mas espero que não queira.

- As tais pessoas que colocaram a bomba, as que mataram Walter e os outros... acha que serão apanhadas?

- É bem provável. Mas nunca se pode ter certeza quando se está lidando com fanáticos. É muito mais difícil agarrá-los, já que não reagem de uma maneira racional. Mas se tentarem novamente algo parecido, o que deverá acontecer, provavelmente serão capturados e devidamente punidos.

- Creio que eu deveria estar querendo que eles sejam severamente punidos. Mas não me importo com isso. Será que essa minha atitude é horrível?

- Não. De qualquer forma, pode deixar que outras pessoas cuidarão disso.

- O que quer que possa acontecer, não vai mudar nada. A punição dos culpados não trará Walter... nem os outros... de volta. Sabia que estávamos casados há 36 anos? Eu deveria sentir-me profundamente grata por isso. É mais do que a maioria das pessoas consegue e foi maravilhoso na maior parte do tempo... Foram 36 anos... - Ela começou a Chorar, baixinho. - Abrace-me, Nim.

Ele abraçou-a, aninhando sua cabeça no ombro. Podia senti-la chorando, embora não mais histericamente. Agora eram lágrimas de despedida e resignação, de recordação e amor, lágrimas suaves, de purificação, enquanto a psique humana iniciava seu processo de cura, tão antigo, inexplicável e maravilhoso quanto a própria vida.

Abraçando Ardythe, Nim começou a sentir um perfume fragrante e agradável. Já o notara quando tinham ficado juntos antes e imaginou agora quando ela o teria posto. Provavelmente quando subira para o quarto. Nim tratou de mudar de pensamentos.

Compreendeu que estava ficando tarde. Lá fora já estava totalmente escuro, com os clarões ocasionais dos faróis de um ou outro carro de passagem. Mas era uma rua isolada e tranquila, sem muito tráfego. Lá dentro, a casa já se acomodara, como faziam todas as casas para passar a noite, e o silêncio imperava.

Ardythe remexeu-se nos braços de Nim. Havia parado de chorar e se aconchegou mais a ele. Nim respirou novamente o perfume inebriante. Consternado, descobriu que seu próprio corpo estava cada vez mais excitado, cada vez mais consciente da presença de Ardythe como mulher. Tentou desviar a mente para outros pensamentos, conter e anular o que estava acontecendo. Mas foi em vão.

- Beije-me, Nim...

Ardythe se postara de tal maneira que os rostos estavam agora colados; Os lábios se encontraram, gentilmente a princípio, depois mais firmemente. A boca de Ardythe era sedutora, macia, ardente, exigente. Ao sentir que ambos estavam dominados pelo excitamento sexual, Nim perguntou a si mesmo: Como é possível que uma coisa assim esteja acontecendo?

- Apague a luz, Nim...

Ele atendeu ao pedido, embora uma parte de si mesmo insistisse: Não faça isso! Vá embora! Saia daqui agora mesmo! Mas Nim sabia que não iria embora; apesar de desprezar-se por isso, sabia que o protesto daquela voz interior era apenas simbólico.

Havia espaço suficiente no sofá. Enquanto ele apagava a luz, Ardythe tirou uma parte de suas roupas. Nim ajudou-a a tirar o resto e depois também se despiu, rapidamente. Ao se abraçarem, descobriu-a ansiosa, excitada, experiente. As mãos de Ardythe, suaves, hábeis, procuraram agradá-lo. E conseguiram. Nim retribuiu da mesma forma. Não demorou muito para que Ardythe estivesse gemendo e gritasse em voz alta:

- Oh, Nim, não espere mais! Por favor, não espere mais... por favor!

Nim ainda experimentou uma última e vaga pontada de consciência, sentiu o temor assustador de que Wally Jr. e Mary podiam voltar, como disseram que fariam, surpreendendo-os daquele jeito. Mas no instante seguinte tudo o mais se desvaneceu, enquanto o prazer e a paixão o dominavam, inexoravelmente.

- Está com remorso, não é mesmo?

- Estou, sim... - confessou Nim.

Uma hora já se passara. Ambos estavam vestidos, as luzes acesas. Poucos minutos antes, Wally telefonara, informando que ele e Mary já estavam a caminho e que ambos passariam a noite na casa.

- Pois não precisa ficar. - Ardythe tocou-lhe o braço de leve, exibindo um sorriso tímido. - Ajudou-me muito mais do que pode sequer imaginar.

O instinto de Nim dizia-lhe que Ardythe deixara algo por falar: que a compatibilidade que haviam acabado de partilhar raramente era descoberta por duas pessoas e provavelmente a experiência seria repetida. E se tal acontecesse, teria agora uma preocupação dupla: não apenas se comportara vergonhosamente no dia da morte do seu melhor amigo, mas também arrumara uma complicação adicional para sua própria vida, algo de que absolutamente não precisava.

- Tenho de explicar-lhe algo, Nim. Eu amava Walter profundamente. Ele era um homem bom, meigo, gentil. Sentia o maior prazer na sua companhia, pois ele sempre foi um homem maravilhoso de se conviver. A vida sem Walter... ainda não posso pensar nisso, por enquanto. Mas há muito tempo, uns seis ou sete anos, que não tínhamos qualquer sexo. Walter simplesmente não podia mais. Isso acontece frequentemente com os homens, como deve saber, muito mais do que com as mulheres...

Nim protestou:

- Não quero saber...

- Quer queira ou não, vai ter de saber. Porque não quero que saia daqui esta noite dominado pelo remorso e o desespero. Preciso dizer-lhe algo mais, Nim. Não foi você quem me seduziu, mas sim o contrário. E eu sabia o que ia acontecer, o que queria que acontecesse, muito antes de você.

Nim pensou: o perfume agira como um afrodisíaco! Será que ela realmente planejara tudo?

- Quando a mulher fica privada de sexo em casa, ou se acomoda ou vai procurá-lo em outra parte. Pois eu me acomodei. Contentei-me com o que tinha, que era um bom homem a que ainda amava. Não fui procurar sexo fora de casa, mas isso não me impediu de continuar a desejar.

- Ardythe, por favor...

- Já estou quase acabando, Nim. Hoje... esta noite... quando compreendi que havia perdido tudo... desejei o sexo mais do que qualquer outra coisa. Subitamente, esses sete anos de abstinência me dominaram. E você estava presente, Nim. Sempre gostei de você, talvez algo mais do que apenas gostar. E você estava aqui no momento em que eu mais precisava. - Sorriu. - Se veio me consolar, pode ter certeza de que o conseguiu. Foi apenas isso. Não procure complicar as coisas desnecessariamente nem tenha qualquer sentimento de culpa, porque não há motivo.

Nim suspirou.

- Se é assim que pensa, então está certo. - Parecia uma maneira muito fácil de tranquilizar a consciência. Fácil demais.

- É assim mesmo que penso. E, agora, beije-me mais uma vez e depois volte para casa... para Ruth.

Nim beijou-a, sentindo-se aliviado por poder ir embora antes da chegada de Wally e Mary.

No carro, voltando para casa, Nim pensou nas complexidades de sua vida pessoal. Em comparação, os meandros intrincados da Golden State Power & Light pareciam simples e preferíveis. No topo da lista dos seus problemas imediatos estava Ruth, o casamento à deriva. E agora havia também Ardythe. Depois, havia ainda outras mulheres, com as quais tivera ligações ocasionais, inclusive duas recentes, que não tinham arrefecido de todo. Tais ligações pareciam acontecer a Nim sem que as procurasse. Ou estaria apenas tentando iludir a si mesmo? No fundo, não estaria procurando aquelas ligações, racionalizando depois que simplesmente haviam acontecido? De qualquer forma, por quase tanto tempo quanto podia recordar, jamais houvera qualquer carência de oportunidades sexuais.

Depois do casamento com Ruth, 15 anos antes, permanecera resolutamente um homem de uma só mulher... por cerca de quatro anos. Surgira então uma oportunidade para sexo extraconjugal e ele não resistira. Depois, houvera muitas outras oportunidades, a maioria uma aventura de uma noite só,

algumas perdurando com grande entusiasmo por algum tempo, para depois irem gradativamente se desvanecendo, como estrelas que perdiam o brilho antes da extinção. A princípio, Nim imaginara que poderia manter escondidas de Ruth suas aventuras sexuais. A própria natureza do seu trabalho, consumindo muito tempo, em horas irregulares, ajudava a fazer com que isso se tornasse possível. E provavelmente dera certo por algum tempo. Mas, depois, o bom senso lhe dissera que Ruth, uma mulher não apenas sensível mas também inteligente e observadora, não podia deixar de entender o que estava acontecendo. O mais extraordinário era que ela jamais protestara, parecendo simplesmente aceitar. Ilogicamente, a reação de Ruth - ou melhor dizendo, a ausência de reação - o atormentara e ainda o atormentava. Ela deveria importar-se, deveria protestar, talvez derramar lágrimas de raiva. É verdade que nada disso faria qualquer diferença, mas Nim não podia deixar de se perguntar: Será que sua defecção não valia pelo menos isso?

Outra coisa que preocupava Nim de vez em quando era constatar que as notícias de suas conquistas pareciam estar-se espalhando, por mais discreto que procurasse ser. Houvera diversos exemplos disso, sendo que o último naquela mesma tarde. O que fora mesmo que Teresa Van Buren dissera? "Ainda tem que aprender algumas coisas em relação às mulheres, Nim... além de calistênica na cama, o que vem fazendo muito ultimamente, pelo que me contaram." Obviamente, Teresa ouvira mais do que rumores ou não teria falado tão bruscamente. E se Teresa sabia, havia muitos outros na GSP & L que também sabiam.

Será que estaria pondo em risco sua própria carreira? Se assim era, valeria a pena? E por que ele se comportava de tal maneira? Seria um desejo real ou apenas uma vontade de afirmação

- Não tenho a menor ideia! - disse Nim, em voz alta, dentro do carro fechado.

E teve a sensação de que o comentário se aplicava ao que estava pensando e a muitas outras coisas.

Sua própria casa, nos arredores da cidade, estava em silêncio quando chegou, havendo apenas uma lâmpada fraca acesa no vestíbulo. Por insistência de Nim, os Goldmans eram uma família consciente da necessidade de poupar energia.

Lá em cima, ele entrou na ponta dos pés nos quartos de Leah e Benjy. Ambos estavam dormindo profundamente. Ruth remexeu-se na cama quando ele entrou no quarto do casal, perguntando, sonolenta:

- Que horas são?

Nim respondeu baixinho:

- Passa um pouco da meia-noite.

- Como está Ardythe?

- Contarei tudo de manhã.

A resposta pareceu ser satisfatória, e Ruth voltou a dormir.

Nim tomou um banho de chuveiro rápido, para remover quaisquer vestígios do perfume de Ardythe. Foi deitar em sua cama e um momento depois, entregando-se à exaustão causada por todas as pressões daquele dia, já estava dormindo.

- Então estamos todos de acordo - disse J. Eric Humphrey, correndo o olhar inquisitivo pelos nove homens e duas mulheres em torno da mesa da sala de reuniões. - Vamos aceitar o relatório de planejamento de Nim in totum e solicitar a aprovação imediata e urgente dos três projetos, a usina a carvão de Tunipah, a instalação de acumulação do Portão do Diabo e a abertura do campo geotérmico de Fincastle.

Enquanto os outros assentiam e murmuravam em concordância, Nim Goldman recostou-se na cadeira, relaxando por um momento. Sua apresentação dos planos para o futuro, produto do trabalho dele próprio e de muitos outros, fora extenuante.

O grupo ali reunido, o comité de administração da GSP & L, incluía todos os que se reportavam diretamente ao presidente. Oficialmente, estava subordinado à autoridade do Conselho Diretor. Na verdade, porém, era a fonte real de poder e das decisões políticas da companhia.

Era a tarde de segunda-feira e a reunião, iniciada pela manhã, já tratara de uma longa agenda. Uns poucos em torno da mesa apresentavam sinais de cansaço.

Cinco dias se haviam passado desde a desastrosa explosão em La Mission e a subsequente interrupção no fornecimento de energia. Nesse período, houvera estudos intensivos sobre a causa e efeito do que acontecera, assim como a formulação de prognósticos para o futuro. Os estudos haviam-se prolongado até tarde da noite e pelo fim-de-semana. E desde quarta-feira, por causa das temperaturas mais baixas e de alguma sorte, não ocorrera qualquer outra interrupção no fornecimento de energia. Mas uma conclusão era inevitável: haveria outros blackouts, muito mais graves, a menos que a GSP & L começasse a ampliar sua capacidade geradora imediatamente.

"Imediatamente" significava o ano seguinte. Mesmo assim, ainda poderia haver riscos de déficits de energia, já que uma usina convencional acionada por combustível fóssil levava cinco anos para ser construída, enquanto uma usina nuclear precisava de seis anos... afora, nos dois casos, os quatro a seis anos necessários para se obter as licenças indispensáveis.

- Além desses três projetos, imagino que vamos também continuar a insistir nas autorizações para a construção das usinas nucleares.

Quem tinha falado era Oscar O'Brien, advogado da companhia, que anteriormente trabalhara para o governo federal, em Washington. Era um homem corpulento, lembrando um contrabaixo, e fumava continuamente charutos.

Na frente dele, do outro lado da mesa, Ray Paulsen, vice-presidente executivo de suprimento de energia, resmungou:

- É melhor mesmo...

Ao lado dele, Nim Goldman rabiscava num bloco, pensativo. Apesar de nossa antipatia mútua e das divergências em muitas áreas, refletiu ele, a única coisa em que concordava com Paulsen era na necessidade indispensável de aumentar a capacidade geradora.

- É claro que prosseguiremos nosso programa nuclear - disse J. Eric Humphrey. - Mas em termos de psicologia do público, creio que é melhor deixarmos o programa nuclear isolado, sem vinculá-lo às outras usinas. O caminho para a instalação do programa nuclear está coalhado de perigos. - Fez uma breve pausa, percebendo o que acabara de dizer, e tratou de acrescentar rapidamente: - Isto é, perigos de oposição. Uma nova pausa e o presidente da companhia continuou: - Prevendo as decisões que tomaríamos hoje aqui, já marquei um encontro com o Governador, depois de amanhã, em Sacramento. Tenciono insistir para que ele pressione todos os órgãos incumbidos de aprovar nossos projetos, para que ajam com toda rapidez possível. vou sugerir também que, para cada um dos nossos três projetos, haja audiências conjuntas de todos os órgãos vinculados, se possível começando já no próximo mês.

- Nunca foi feito assim, Eric - protestou Stewart Ino, um vicepresidente sénior encarregado de tarifas e avaliação. Era um veterano na GSP & L, o rosto rechonchudo de camponês inglês, que poderia passar por um guarda real britânico antigo, com o acréscimo de uma gola de rufos e um gorro de veludo. - Os regulamentos sempre determinaram audiências separadas. Combiná-las iria criar complicações.

- Vamos deixar que os malditos burocratas se preocupem com isso

- interveio Ray Paulsen. - Sou inteiramente a favor da ideia de Eric. Vai ser como enfiar um fio eletrificado no rabo deles.

- Três fios - disse alguém. Paulsen sorriu.

- Melhor ainda.

Ino assumiu uma expressão de ofendido. Ignorando o último diálogo, Eric Humphrey disse:

- Não devemos esquecer que há razões muito fortes para que adotemos atitudes excepcionais. Além do mais, não voltaremos a encontrar condições tão favoráveis. O colapso da semana passada indicou claramente que pode ocorrer uma crise; assim, são necessários métodos de crise para enfrentá-la. Acho que vão perceber isso até mesmo em Sacramento.

- Em Sacramento, tudo o que eles percebem é a política, tal como acontece em Washington - comentou Oscar O'Brien. - Vamos enfrentar a realidade: os adversários do que pretendemos irão recorrer à política até o fim, usando Tunipah para encabeçar sua lista de ódio.

Houve murmúrios relutantes de assentimento. Como todos sabiam, Tunipah era o mais controvertido dos projetos que estavam sendo discutidos naquele momento. Era também, sob diversos aspectos, o mais vital.

Tunipah era uma região erma perto da fronteira da Califórnia com Nevada. Não era habitada - o povoado mais próximo ficava a 65 quilómetros de distância - nem frequentemente procurada por desportistas e naturalistas, já que não possuía muitos atrativos, para quem quer que fosse. Era uma região de difícil acesso e não tinha estradas, apenas umas poucas trilhas. Por todos esses motivos, Tunipah fora criteriosamente escolhida.

O que a Golden State Power & Light propunha era construir em Tunipah uma usina de grandes proporções, capaz de gerar mais de 5. 000. 000 de kilowatts de energia, o suficiente para abastecer seis cidades do tamanho de São Francisco. O combustível a ser usado seria o carvão. Este seria transportado de trem de Utah, a 1. 100 quilómetros de distância, onde havia carvão em abundância e relativamente barato. Um ramal ferroviário, quase paralelo à linha principal da Western Pacific Railroad, seria construído ao mesmo tempo que a usina.

O carvão poderia constituir a resposta da América do Norte ao petróleo árabe. Os depósitos de carvão nos Estados Unidos representam um terço de todas as reservas conhecidas do mundo, sendo mais do que suficiente para satisfazer as necessidades de energia do país por mais de três séculos. E tudo indicava que o Alasca dispunha de reservas para o consumo de outros 2. 000 anos. Ninguém negava que o uso do carvão apresentava problemas. A mineração era um, a poluição do ar outro, embora modernas tecnologias estivessem trabalhando em ambos, à procura de soluções. Nas novas usinas geradoras à base de carvão, em outros Estados, chaminés de 300 metros de altura, complementadas por filtros eletrostáticos e aparelhos especiais para remover o enxofre dos gases, haviam reduzido a poluição a níveis aceitáveis. E em Tunipah a poluição que houvesse estaria bem distante de quaisquer áreas habitadas ou de recreação.

Tunipah permitiria ainda a desativação de algumas das antigas usinas da GSP & L, acionadas a óleo. Isso reduziria ainda mais a dependência do petróleo importado e produziria grandes economias de custos, no presente e no futuro.

A lógica favorecia o projeto de Tunipah. Mas, como todas as companhias de serviço público já tinham aprendido por experiência própria, a lógica nem sempre predominava, nem os interesses superiores do público, se um pequeno grupo de oponentes determinados decidisse em contrário, por mais distorcidos ou improcedentes que fossem seus argumentos. Através da aplicação hábil e implacável de táticas de protelação, um projeto como o de Tunipah poderia ser tão retardado a ponto de se tornar rejeitado, na prática. Os que se opunham sistematicamente a qualquer expansão de uma companhia de energia elétrica sabiam utilizar eficazmente a terceira lei de Parkinson: A protelação é a forma mais mortífera de negar, - Alguém mais quer dizer alguma coisa? - indagou J. Eric Humphrey.

Em torno da mesa, diversos homens já estavam guardando seus papéis nas pastas, pressupondo que a reunião praticamente terminara.

- Eu quero - disse Teresa Van Buren. - Só uma coisinha.

As cabeças se viraram na direção da vice-presidente de relações públicas, que mantinha o corpo baixo e gorducho ligeiramente inclinado para a frente, a fim de atrair a atenção de todos. Os cabelos normalmente desgrenhados de Teresa estavam mais ou menos arrumados hoje, presumivelmente em atenção à reunião; mas continuava a vestir um dos seus inevitáveis costumes de linho, todo amarrotado.

- Pressionar o Governador como está planejando e conquistar outros elementos é uma boa ideia, Eric. Sou plenamente a favor. Mas não é suficiente, não para alcançarmos o que estamos querendo... e aqui está a razão.

Teresa fez uma pausa. Abaixou-se ao lado de sua cadeira e pegou dois jornais, abrindo-os sobre a mesa.

- Este é o Califórnia Examiner desta tarde que mandei buscar, enquanto este é o Chronide- West desta manhã, que todos certamente já leram. Examinei cuidadosamente os dois jornais e não há qualquer referência à interrupção no fornecimento da semana passada. Por um dia, como todos sabemos, o assunto foi uma grande notícia. No dia seguinte, já não era uma notícia tão importante assim; e depois foi inteiramente esquecida. E o que aconteceu com os jornais, também aconteceu com os outros meios de comunicação.

- E daí? Onde está querendo chegar, Teresa? - indagou Ray Paulsen. - É óbvio que surgem outras noticias e o público acaba perdendo o interesse.

- Perde simplesmente porque ninguém o mantém interessado. Lá fora... - e Teresa acenou com o braço na direção do mundo em geral além da sala de reuniões - a imprensa e o público pensam na escassez de energia elétrica como um problema a curto prazo, que incomoda um pouco hoje, mas amanhã já não existe mais. Quase ninguém leva em consideração os efeitos a longo prazo da escassez de energia, dos quais nos estamos aproximando cada vez mais... a redução drástica dos padrões de vida, transferência de indústrias, desemprego catastrófico. E nada irá mudar a atitude desse mundo exterior desinformado... a não ser que nós tomemos a iniciativa de promover tal mudança de atitude.

Sharlett Underhill, vice-presidente executiva de finanças e a única outra mulher presente à reunião, perguntou:

- E como se pode fazer alguém pensar alguma coisa?

- Pode deixar que eu respondo - interveio Nim Goldman, batendo com o lápis na mesa. - Um dos meios é começar a gritar a verdade... revelar toda a situação como é na realidade, ao invés de ocultá-la ou disfarçá-la... e continuar a gritar, bem alto, com toda clareza, constantemente.

Ray Paulsen comentou, sardonicamente:

- Em outras palavras, você gostaria de aparecer na televisão quatro vezes por semana em vez de duas.

Nim ignorou a interrupção e continuou:

- Como política da companhia, devemos proclamar publicamente o que todo mundo nesta mesa já sabe: que o nosso pique de carga na semana passada chegou a 22. 000. 000 de kilowatts e que a demanda está crescendo à média de 1. 000. 000 de kilowatts por ano. Pressupondo que o mesmo ritmo de crescimento continue, dentro de três anos estaremos com um mínimo de reservas e em quatro anos não restará mais nada. Como conseguiremos resolver a situação? A resposta é simples: não conseguiremos. Qualquer tolo pode perceber o que está para acontecer: dentro de três anos, teremos blackouts em todos os dias excessivamente quentes; e dentro de seis, haverá blackouts em todos os dias de verão. Temos que providenciar imediatamente a construção de novas usinas geradoras e, ao mesmo tempo, revelar as consequências de não construílas.

Houve um silêncio que ameaçava prolongar-se até que foi rompido por Teresa Van Buren:

- Todos sabemos que tudo isso é verdade. Por que então não o declaramos publicamente? Haverá até mesmo uma oportunidade para isso, na próxima semana. Nim foi convidado a comparecer na terça-feira ao GoodEvening Show, que tem um índice de audiência excepcional.

Paulsen resmungou:

- É uma pena que eu tenha de sair de casa nessa noite.

- Não tenho muita certeza se devemos ser tão francos assim - disse Sharlett Underhill. - Creio que não preciso recordar a ninguém que temos em andamento um pedido de reajustamento das tarifas e precisamos desesperadamente dessa receita extra. Não gostaria que nossas possibilidades de obter o reajustamento fossem afetadas.

- É mais provável que a franqueza melhore nossas possibilidades do que o inverso - comentou Teresa Van Buren.

A vice-presidente de finanças sacudiu a cabeça.

- Tenho minhas dúvidas. E acho também que o tipo de declarações de que estamos falando, se assim ficar decidido, deve ser feito pelo presidente.

Eric Humphrey interveio suavemente:

- Apenas para constar, fui convidado a comparecer ao GoodEvening Show e pedi a Nim que fosse em meu lugar. Ele sempre se sai muito bem em tais missões.

- E ele se sairia ainda melhor se lhe déssemos carta branca para fazer algumas advertências objetivas e assustadoras, ao invés de continuarmos a insistir na chamada "linha moderada" - disse a vice-presidente de relações públicas.

- Continuo a favor da linha moderada. - Desta vez, quem falava era Fraser Fenton, que possuía o título de diretor-superintendente-geral, embora sua responsabilidade principal fosse as operações de gás da companhia. Fenton, magro, calvo e ascético, era outro veterano. Nem todos partilhamos suas predições sombrias, Tess. Estou há 34 anos na companhia e já vi incontáveis problemas surgirem e desaparecerem. Creio que, de alguma forma, conseguiremos contornar a atual deficiência na capacidade geradora...

Nim Goldman interrompeu-o bruscamente:

- De que maneira?

- Deixe-me acabar, por favor. Outro ponto que desejo destacar é o problema da oposição. É verdade que neste momento encontramos uma oposição organizada a tudo o que tentamos fazer, seja construir mais usinas, reajustar as tarifas ou dar um dividendo decente aos acionistas. Mas creio que a maior parte disso, se não mesmo a totalidade, tanto a oposição como o consumismo, tudo acabará passando. É simplesmente o que está em voga, uma moda transitória. Os que estão envolvidos acabarão por cansar-se. Logo que isso aconteça, tudo voltará a ser como antes, quando esta companhia e outras faziam praticamente o que bem desejavam. É por isso que acho que nos devemos manter numa linha moderada, sem provocar muita confusão e antagonismo por alarmar o público desnecessariamente.

- Concordo plenamente com essa posição - disse Stewart Ino. Ray Paul sen acrescentou:

- Eu também.

Os olhos de Nim se encontraram com os de Teresa Van Buren. Sabia que ambos estavam pensando a mesma coisa. Nas companhias de serviço público, Fraser Fenton, Ino, Paulsen e outros iguais representavam os executivos que haviam ascendido aos altos escalões em tempos mais fáceis e recusavam a admitir que esses haviam desaparecido para sempre. De um modo geral, tais pessoas conquistaram suas promoções pela antiguidade, jamais enfrentando a competição renhida e muitas vezes impiedosa que era uma norma em outras indústrias. A segurança pessoal de Fraser Fenton e dos outros passara a envolvê-los como um casulo. O status quo era o seu santo graal. Previsivelmente, opunham-se a Qualquer coisa que pudesse balançar o barco.

Havia razões para isso, frequentemente debatidas por Nim e outros executivos mais jovens. Uma delas era a própria natureza de uma companhia de serviço público, monopolista, a salvo da concorrência do diaa-dia no mercado. Era por isso que companhias como a Golden State Power & Light muitas vezes se assemelhavam a burocracias governamentais. Em segundo lugar, as companhias de serviço público, ao longo da maior parte de sua história, haviam prosperado num mercado fortemente vendedor, sendo capazes de vender tanto do seu produto quanto podiam produzir, o processo ajudado por fontes abundantes de energia barata. Só nos últimos anos é que as fontes de energia se haviam tornando mais escassas e mais caras, obrigando os executivos a enfrentar graves problemas comerciais e a tomar decisões difíceis e impopulares. Nos tempos antigos, também não havia a oposição sistemática de grupos organizados, veementes e hábeis, incluindo os consumidores e os defensores do meio ambiente.

Eram essas mudanças profundas, alegavam pessoas como Nim Goldman, que a maioria dos executivos de alto nível não conseguia aceitar ou não encarava de uma maneira realista. (Walter Talbot, lembrou Nim tristemente, fora uma tremenda exceção) Os veteranos, por sua vez, consideravam Nim e os outros de sua espécie como arrivistas impacientes e criadores de casos. E como o grupo mais velho constituía a maioria, seu ponto de vista sempre prevalecia.

- Reconheço que tenho sido ambivalente na questão se devemos ou não ser mais objetivos e agressivos em nossas declarações públicas disse J. Eric Humphrey. - Minha natureza pessoal é contrária, mas há ocasiões em que posso perceber claramente a posição do outro lado. O presidente olhou para Nim, sorrindo ligeiramente. - Você estava em ebulição até um momento atrás. Tem mais alguma coisa a acrescentar?

Nim hesitou por um instante.

- Apenas isso: quando os blackouts mais sérios começarem, os prolongados e repetidos, daqui a alguns anos, nós seremos responsabilizados, não importa o que possa ter acontecido ou deixado de acontecer até lá. A imprensa nos irá crucificar. E o mesmo farão os políticos, em seu ato habitual de Pôncio Pilatos. O público acabará por nos culpar também e dirá: Por que não nos avisaram quando ainda havia tempo? Concordo com Teresa... este é o momento para pormos as cartas na mesa.

- Vamos fazer uma votação - decidiu Eric Humphrey. - Os que são a favor das providências que acabaram de ser defendidas levantem a mão, por gentileza.

Três mãos se levantaram, de Teresa Van Buren, Nim e Oscar O'Brien, o advogado da companhia.

- Contra - falou o presidente.

Desta vez, oito mãos se levantaram. Eric Humphrey assentiu.

- Voto com a maioria. O que significa que continuaremos a manter o que alguém chamou de "linha moderada".

- E não se esqueça, Nim, de ficar dentro dos limites do moderado em seus shows na TV - disse Ray Paulsen.

Nim lançou-lhe um olhar furioso, mas conteve a raiva, não dizendo nada.

A reunião foi encerrada e os participantes se dividiram em grupos de dois e três, debatendo assuntos específicos e distintos,

- Todos precisamos de uma derrota de vez em quando - disse Eric Humphrey jovialmente para Nim, ao saírem da sala. - Uma certa humilhação periodicamente sempre faz bem.

Nim preferiu não fazer qualquer comentário. Antes da reunião daquele dia, perguntara-se se o ponto de vista do laissez-faire em matéria de relações públicas, adotado pela velha guarda, poderia ser mantido depois dos acontecimentos da semana anterior. Tinha agora a resposta. Gostaria que Humphrey o tivesse apoiado. Sabia que, se o presidente da companhia estivesse do seu lado, os pontos de vista deles acabariam por prevalecer, independente de qualquer votação.

Ao se aproximarem dos respectivos gabinetes, contíguos, ao final do corredor, Humphrey disse:

- Venha até meu gabinete, Nim. Tenho um problema que gostaria de entregar-lhe.

O gabinete do presidente, embora mais espaçoso do que os outros, estava de acordo com a política relativamente espartana da GSP & L. O objetivo era impressionar os visitantes, mostrando que o dinheiro dos acionistas e dos consumidores era aplicado em coisas essenciais, jamais em frivolidades. Seguindo o costume tradicional, Nim encaminhou-se para o canto em que havia diversas poltronas confortáveis. Eric Humphrey foi pegar uma pasta de arquivo em sua escrivaninha e depois sentou-se ao lado do vice-presidente.

Embora lá fora fosse dia claro e as amplas janelas da sala proporcionassem uma vista espetacular da cidade, todas as cortinas estavam fechadas e as luzes acesas. O presidente da companhia sempre se esquivava às perguntas sobre os motivos pelos quais preferia trabalhar assim. Uma teoria era a de que, mesmo depois de 30 anos, ainda sentia falta da vista de sua cidade natal, Boston, não aceitando qualquer substituto.

- Presumo que já viu o último relatório. Humphrey indicou a pasta, na qual estava escrito: DEPARTAMENTO DE PROTEÇÃO À PROPRIEDADE Assunto: Furto de Energia

- Já vi, sim.

- É evidente que a situação está-se agravando cada vez mais. Sei Perfeitamente que, de certa forma, não passa de uma gota d'água. Mas nem por isso fico menos irritado.

- Um prejuízo de doze milhões de dólares por ano não chega a ser Propriamente uma gota d'água - comentou Nim.

O relatório sobre o qual estavam falando, de um chefe de departamento chamado Harry London, descrevia como o furto de energia elétrica e gás se tornara epidêmico. O método habitual era a adulteração dos medidores, geralmente efetuada por alguns indivíduos, embora houvesse alguns indícios recentes de que algumas firmas profissionais estariam envolvidas nisso.

- A cifra de doze milhões de dólares é uma estimativa, Nim. Pode ser menos ou talvez muito mais.

- Tenho certeza de que é uma estimativa moderada. Essa era também a opinião de Walter Talbot. Se está lembrado, o engenheirochefe verificou que houve no ano passado uma diferença de dois por cento entre a energia elétrica que geramos e a que pudemos contabilizar, através de contas para os consumidores, consumo da própria companhia, perdas nas linhas, etc.

Fora o falecido engenheiro-chefe o primeiro a acionar o alarma na GSP & L para o furto de energia. Preparara inclusive um relatório preliminar, recomendando a criação de um Departamento de Proteção à Propriedade. A sugestão fora aceita. Era mais uma área, pensou Nim, em que iria sentir-se a falta da contribuição do chefe.

- Claro que me lembro. É uma quantidade considerável de energia não contabilizada.

- E a porcentagem está agora quatro vezes maior do que há dois anos.

Eric Humphrey tamborilou com os dedos sobre o braço da poltrona.

- Ao que parece, o mesmo está acontecendo com o gás. E não podemos ficar de braços cruzados, deixando que continue impunemente.

- Tivemos muita sorte por um longo tempo, Eric. O furto de energia tem sido uma preocupação no Leste e no Centro-Oeste há muito mais tempo do que aqui. Em Nova York, a Con Edison perdeu dezessete milhões de dólares no ano passado dessa maneira. Em Chicago, a cornmonwealth Edison, que vende menos energia do que nós e não trabalha com gás, calculou seus prejuízos em cinco a seis milhões de dólares. O mesmo acontece em Nova Orleans, Flórida, Nova Jersey...

Humphrey interrompeu-o, impacientemente:

- Já sei disso tudo. - Fez uma pausa, pensativo, antes de acrescentar: - Vamos intensificar as medidas de segurança para reduzir o problema ao mínimo, nem que isso implique em aumentar o orçamento para as investigações. Quero que considere o problema como sua missão principal, a partir de agora. Será meu representante pessoal. Diga isso a Harry London. E ressalte que tenho um interesse especial pelo departamento dele e espero resultados positivos a curto prazo.

- Algumas pessoas por aqui têm a noção errónea de que o furto de energia é algo novo - disse Harry London. - Mas não é. Ficaria surpreso se eu lhe dissesse que houve um caso registrado na Califórnia há mais de um século?

Ele falava como um mestre-escola se dirigindo a uma turma de estudantes, muito embora a audiência fosse constituída por um único homem: Nim Goldman.

- Não há muita coisa que me surpreenda, mas essa é uma delas. London assentiu.

- Pois então vou contar-lhe a história.

Era um homem baixo, um tanto rude, falando de uma forma que beirava o pedante quando se punha a explicar alguma coisa, como estava fazendo naquele momento. Antigo sargento dos Fuzileiros Navais, com uma Estrela de Prata por bravura em combate, tornara-se deppois detetive da polícia de Los Angeles, até ingressar na Golden State Power & Light, cinco anos antes, como assistente do chefe de segurança. Há seis meses que vinha chefiando um novo departamento, o de Proteção à Propriedade, especificamente criado para cuidar dos furtos de energia; durante esse período, ele e Nim haviam-se tornado amigos. Os dois estavam agora na base improvisada do departamento, o gabinete de London, um pequeno cubículo envidraçado, cercado por muitos outros ao redor.

- Aconteceu em 1867, em Vallejo. A Companhia de Gás de São Francisco instalara uma usina ali e o homem que a dirigia chamava-se M. P. Voung. Um dos hotéis de Vallejo pertencia a um tal deJohn Lee. Pois esse Lee foi surpreendido trapaceando nas contas de gás. Sabe o que ele fez? Simplesmente fez um desvio no tubo, contornando o medidor.

- Essa não!

- Mas isso ainda não é tudo. O homem da companhia de gás, Voung, tentou obrigar Lee a pagar o gás que tinha roubado. Lee ficou tão furioso que acabou dando um tiro em Voung. Foi posteriormente levado a julgamento por agressão e tentativa de homicídio.

com expressão céptica, Nim indagou:

- Isso é mesmo verdade?

- Está nos livros de história da Califórnia. Pode verificar pessoalmente, como eu fiz.

- Não é preciso. E vamos tratar dó problema que estamos enfrentando, aqui e agora.

- Leu meu relatório?

- Li, sim. E o presidente também leu.

Nim repetiu a decisão de J. Eric Humphrey de intensificar as investigações e a exigência de resultados. London concordou.

- Pode estar certo de que haverá resultados. Talvez já nesta semana.

- Está-se referindo a Brookside?

- Isso mesmo.

Brookside era uma comunidade-dormitório a cerca de 30 quilómetros do centro da cidade, mencionada no relatório do Departamento de Proteção à Propriedade. Diversos casos de furto de energia haviam sido descobertos ali e fora planejada uma investigação ampla e meticulosa.

- O Dia-D em Brookside será depois de amanhã - acrescentou Harry London.

- Ou seja, na quinta-feira. Não esperava que pudesse articular tudo tão depressa.

O relatório indicara, sem definir a data, que estava sendo planejada uma batida em Brookside. Seria coordenada pela equipe da Proteção à Propriedade, incluindo London, seu subchefe, Art Romeo, e três assistentes. Contariam com o apoio de um contingente de outros empregados da GSP & L, entre os quais 30 homens especializados em leitura de medidores, mais meia dúzia detécnicos e dois fotógrafos, que iriam documentar a diligência.

O grupo se reuniria no centro da cidade e seguiria para Brookside num ônibus alugado. Seriam acompanhados por um carro equipado com sistema de rádio, que serviria como centro de comunicações. Os principais elementos da batida estariam munidos dewalkie-talkies. Uma frota de pequenos veículos proporcionaria o transporte local.

No dia anterior à batida, "Dia-D menos um", os leitores de medidores e os técnicos seriam informados sobre a missão, embora o destino fosse mantido em segredo.

Chegando a Brookside, no Dia-D, os homens iniciariam uma verificação casa a casa, loja a loja, dos medidores de energia e de gás, à procura de sinais de adulteração. Iriam também concentrar-se em prédios específicos, selecionados de acordo com os padrões de furto de energia conhecidos. Os supermercados, por exemplo, eram sempre suspeitos, já que a energia elétrica era o seu segundo maior custo-de operação (o primeiro era a mão-de-obra) e muitas empresas do género já haviam cometido falcatruas no passado. Assim, todos os supermercados na área seriam verificados. Quando algo de suspeito fosse localizado, os técnicos e os homens de Harry London entrariam em ação.

- Quanto mais depressa se executa um serviço assim, menor é o perigo de alguma coisa transpirar - comentou London, sorrindo. No Corpo de Fuzileiros, eram as grandes missões que fazíamos mais depressa.

- Tem toda razão, fuzileiro. Fui apenas um mero soldado de infantaria, mas bem que gostaria de participar de sua operação.

Embora Nim tivesse prestado serviço militar só por um breve período, isso lhe proporcionava um vínculo com Harry London. Logo depois de concluir a universidade, Nim fora convocado e enviado para a Coreia. Um mês depois da chegada, quando seu pelotão sondava o inimigo procurando estabelecer uma posição avançada, havia sido metralhado e bombardeado por aviões americanos. (Mais tarde, o erro trágico passou a ser descrito no dúbio jargão militar como "fogo amistoso".) Quatro soldados americanos foram mortos, diversos outros saíram feridos, inclusive Nim, que ficara com o tímpano perfurado; por causa de uma infecção, ele acabara permanentemente surdo do lado esquerdo. Pouco depois, fora mandado de volta aos Estados Unidos, recebendo uma baixa por motivos médicos, o incidente coreano sendo abafado. A maioria dos colegas e amigos de Nim sabia que devia sentar do seu lado direito durante uma conversa, o lado do ouvido bom. Mas apenas uns poucos sabiam por quê. Harry London era um desses poucos.

- Pois então venha conosco na quinta-feira - convidou London. Marcaram o encontro.

Depois, conversaram sobre a sabotagem em La Mission, que matara Walter Talbot e os outros. Embora Harry London não estivesse diretamente envolvido nas investigações, era muito amigo do chefe de segurança da companhia; os dois costumavam encontrar-se depois do expediente, para tomar alguns drinques e trocar confidências. Além disso, os antecedentes de London como detetive da polícia lhe haviam proporcionado muitos contatos em todas as organizações policiais. E ele informou a Nim:

- O xerife do condado está trabalhando no caso junto com o FBI e a nossa polícia municipal. Até agora, todas as pistas levaram a um beco sem saída. O FBI, que costuma assumir o comando nesses tipos de caso, acha que se trata de um novo bando de fanáticos, sem ficha na polícia, o que torna tudo muito mais difícil.

- E o tal homem com o uniforme do Exército de Salvação?

- Estão investigando isso, mas há pelo menos uma centena de meios pelos quais ele poderia ter obtido o uniforme, a maioria impossível de se descobrir. É claro que a situação mudará inteiramente se eles tentarem fazer a mesma coisa de novo. Muitas pessoas estarão alerta e à espera.

- E acha que eles podem tentar de novo?

London deu de ombros.

- São fanáticos, o que os transforma em loucos-inteligentes, brilhantes sob alguns aspectos, extremamente estúpidos em outros. Por isso, nunca se pode saber. Às vezes, demora algum tempo. Se eu souber de alguma coisa, pode deixar que irei informá-lo imediatamente.

- Obrigado.

O que Nim acabara de ouvir era, essencialmente, o que contara a Ardythe na noite da última quarta-feira. O que o fez recordar que deveria telefonar para Ardythe e talvez ir visitá-la em breve. Vira-a apenas uma vez desde a quarta-feira, rapidamente, no funeral de Walter, na manhã de sábado, com a presença de incontáveis funcionários e diretores da GSP & L. Para Nim, tinha sido um ritual deprimente, sob a supervisão de um untuoso agente funerário, a quem Walter Talbot certamente teria detestado. Nim Ardythe haviam trocado umas poucas palavras formais, e isso fora tudo.

Agora, Nim se perguntava: Devo deixar passar um intervalo "decente" antes de ligar para Ardythe? Ou seria uma hipocrisia, em face das circunstâncias, que pudesse sequer pensar em decência?

Levantando-se, Nim disse a Harry London:

- Até o Dia-D.

Seria outro dia escaldante, naquele verão longo e quente. Isso já era evidente, mesmo às nove horas da manhã, quando Nim chegou a Brookside.

A força de trabalho do Dia-D chegara uma hora antes. O centro de comunicações fora instalado no estacionamento de um centro comercial convenientemente central, onde estavam meia dúzia de veículos da companhia, facilmente identificáveis pela pintura branca e laranja, e pelo logotipo familiar da GSP & L. Os 30 leitores de medidor já haviam sido despachados para suas áreas de trabalho. Eram em sua maioria jovens, alguns universitários, que trabalhavam durante o verão. Cada um levava uma batelada de cartões indicando os endereços em que deveriam verificar os medidores e os diversos equipamentos. Os cartões eram de uma emissão especial de computador, efetuada na noite anterior. Normalmente, o trabalho deles era simplesmente verificar os números e anotá-los; hoje, porém, iriam ignorar os números e procurar apenas por indícios de furto de energia.

Harry London, saindo do veículo em que estava instalado o equipamento de comunicações, foi receber Nim. Mostrava-se animado e jovial. Usava uma camisa de mangas curtas, em estilo militar, uma calça esporte bege, com um vinco elegante: os sapatos brilhavam, de tão bem engraxados. Nim tirou o paletó e deixou-o dentro do Fiat. O sol já estava batendo com força no estacionamento, levantando ondas de calor.

- Já estamos conseguindo resultados - informou London. Constatamos cinco casos evidentes de fraude só na primeira hora de trabalho. E estamos verificando mais três suspeitos neste momento.

- Esses cinco primeiros são consumidores residenciais ou comerciais? - indagou Nim.

- Quatro residenciais e um comercial. Neste último, o cara nos estava roubando tanto eletricidade como gás. Quer dar uma olhada?

- Quero, sim.

London gritou para o pessoal no veículo de comunicações:

- vou dar uma saída no meu carro com o Sr. Goldman! Vamos dar uma olhada no caso número quatro!

Já no carro, ele disse a Nim:

- Pelo que aconteceu até agora, já estou com duas impressões: primeira, tudo o que vamos descobrir hoje será apenas a ponta do iceberg; segunda, a de que em alguns casos estamos lutando contra profissionais, talvez uma quadrilha organizada.

- Por que pensa assim?

- vou deixar para responder depois que der uma olhada no que descobrimos.

- Está certo.

Nim recostou-se no banco, contemplando Brookside, enquanto o carro avançava. Era uma comunidade suburbana próspera, típica, como muitas outras que haviam proliferado ao final dos anos 50 e princípio dos anos 60. Antes, toda aquela área era agrícola; agora, as plantações haviam desaparecido, substituídas por loteamentos, ocupados por residências e pelos estabelecimentos comerciais para atender aos moradores. Pelo menos exteriormente, não havia pobreza em Brookside. Até mesmo as casas pequenas, pré-fabricadas, em sucessivas fileiras, pareciam bem cuidadas, os gramados aparados, pintura recente. Além dessas habitações relativamente modestas, havia imensas propriedades, abrigando mansões espetaculares, com garagens para três carros. As lojas da comunidade, muitas em aprazíveis alamedas arborizadas, exibiam mercadorias de primeira qualidade, o que refletia a prosperidade da área. Para Nim, parecia um local dos mais improváveis para a ocorrência de furtos de energia.

Como se lesse os pensamentos dele, Harry London comentou subitamente:

- As coisas nem sempre parecem o que são na realidade.

Ele se afastou da área comercial, seguindo para um complexo de posto de gasolina e garagem, que incluía um sistema de lavagem de carro do tipo em túnel. Parou o carro diante do escritório do posto de gasolina e saltou. Nim seguiu-o.

Um caminhão de serviço da GSP & L também estava estacionado ali. London informou:

- Mandamos chamar um dos nossos fotógrafos. Enquanto esperamos, temos um homem vigiando a prova.

Um homem de macacão cinzento aproximou-se deles, limpando as mãos numa estopa. O corpo era esguio, o rosto parecia astuto, e a expressão era preocupada.

- Já falei que não sei coisa alguma a respeito...

- Não me esqueci do que falou. - London virou-se para Nim. Esse é o Sr. Jackson. Ele nos deu autorização para entrar em suas instalações, a fim de inspecionarmos os medidores.

- Agora já não tenho certeza se deveria ter permitido - resmungou Jackson. - Além do mais, sou apenas o locatário. O prédio não me pertence.

- Mas é o dono do negócio e as contas de gás e eletricidade estão em seu nome, não é mesmo? - disse London.

- Do jeito que as coisas estão, é o maldito Banco que possui tudo aqui.

- Mas o Banco não interferiu com seus medidores de eletricidade e de gás.

- Estou dizendo a verdade! - O homem apertou a estopa tensamente. - Não tenho a menor ideia de quem foi o culpado!

- Já ouvi isso antes. Importa-se que entremos para dar uma olhada?

Jackson amarrou a cara, mas não os impediu.

London entrou na frente no escritório do posto, seguido por Nim. Passaram para uma pequena saleta que havia além, obviamente utilizada como depósito. Na parede do outro lado havia chaves, interruptores de circuitos, e os medidores de eletricidade e de gás. Um rapaz no uniforme de serviço da GSP & L virou-se assim que eles entraram. E disse jovialmente:

- Oi!

Harry London apresentou Nim e depois determinou:

- Conte ao Sr. Goldman o que descobriu.

- O lacre do medidor de eletricidade estava rompido e o próprio medidor estava do jeito em que se encontra agora, de cabeça para baixo.

- O que faz o medidor andar para trás ou parar - acrescentou London.

Nim assentiu; já conhecia aquele meio simples mas eficaz de obter energia elétrica de graça. Primeiro, o lacre do medidor era cuidadosamente aberto. Depois, tirava-se o medidor das fendas simples que o prendiam por trás, invertendo-se a posição e tornando a colocá-lo no lugar. A partir desse momento, à medida que a energia elétrica fosse sendo consumida, o medidor andaria para trás ou pararia inteiramente; se fosse o primeiro caso, o registro de consumo de energia iria diminuir, ao invés de aumentar, como ocorreria inevitavelmente. Mais tarde, provavelmente uns poucos dias antes da ocasião em que o empregado da companhia habitualmente aparecia, o medidor era novamente colocado em sua posição de funcionamento normal, com o rompimento do lacre cuidadosamente oculto.

Diversas companhias que sofriam esse tipo de furto de energia procuravam anulá-lo com um modelo de medidor mais novo, que operava corretamente qualquer que fosse a posição em que estivesse. Outro método preventivo era o uso de argolas-cadeado complexas, que só podiam ser abertas por chaves especiais e tornavam impossível a remoção do medidor. Mas havia também muitas outras maneiras engenhosas de se furtar energia; além disso, ainda estavam em uso milhões de medidores do tipo antigo, aos quais não se podiam adaptar as argolas-cadeado. A substituição desses medidores representaria uma fortuna incalculável. Assim, por uma simples questão de quantidade, somada à impossibilidade de se examinar regularmente todos os medidores, os defraudadores estavam com a vantagem.

- O trabalho no gás foi ainda mais elaborado - informou o técnico da companhia, aproximando-se do medidor de gás próximo e ajoelhando-se ao lado. - Dê uma olhada aqui.

Nim ficou observando, enquanto a mão do rapaz seguia por um cano que saía da parede e se ligava ao medidor, a vários palmos de distância.

- Este é o cano de gás que vem da rua.

- Da rua, ou seja, do cano da companhia - acrescentou Harry London.

Nim assentiu.

- Este aqui - e a mão do técnico se deslocou para o outro lado do medidor - é o cano para os equipamentos do consumidor. Usam o gás para um boiler bastante grande, secadores de ar quente para os carros, e um fogão e um aquecedor no apartamento lá em cima. É um consumo alto de gás mensalmente. E agora dê uma olhada nisto... atentamente.

Desta vez, usando ambas as mãos, o empregado apontou para o que pareciam ser conexões de cano, no ponto em que os dois canos que mostrara antes desapareciam na parede. O cimento fora solto em torno de ambos e formava agora uma pequena pilha no chão.

- Fui eu que removi esse cimento para poder verificar melhor explicou o técnico da companhia. - O que se pode ver agora é que não se tratam de conexões comuns. São as chamadas conexões T, ligadas entre si por outro cano, oculto dentro da parede.

- Um desvio do tipo antiquado, embora seja o mais bem feito que já vi - comentou London. - com isso, a maior parte do gás consumido não passa pelo medidor como deveria, seguindo diretamente da rua para os equipamentos.

- Mas ainda passa o suficiente para manter o medidor em funcionamento - explicou o rapaz. - Só que o gás normalmente flui por onde encontra menos resistência. E como há alguma resistência no medidor, a maior parte do gás passa pelo cano extra... o do consumo grátis.

- Não vai mais passar! - declarou London, enfaticamente. Uma moça carregando máquinas fotográficas e outros equipamentos entrou nesse momento, perguntando jovialmente:

- Alguém por aqui está querendo tirar umas fotografias?

- Claro que queremos. - London apontou para os canos e o medidor de gás. - Aquilo primeiro. - Virando-se novamente para Nim, acrescentou: - Assim que tivermos fotografado do jeito que está, vamos arrancar o resto do cimento e mostrar o cano ilegal.

O garagista de rosto astuto, que estivera parado nos fundos do depósito, aproveitou aquele momento para protestar:

- Ei, não podem arrebentar essa parede! A propriedade é minha!

- Devo recordar-lhe, Sr, Jackson, de que nos deu autorização para entrar e verificar os equipamentos da nossa companhia. Mas se prefere discutir os seus direitos e os nossos, sugiro que chame seu advogado. De qualquer forma, acho que irá precisar dele.

- Não preciso de advogado nenhum!

- O problema é seu, senhor.

- Será que ainda não percebeu a gravidade de tudo isso, Sr. Jackson? - interveio Nim. - Adulterar os medidores é um ato criminoso e as fotografias que estamos tirando irão servir de prova.

- E não resta a menor dúvida de que será instaurado o processo criminal - disse London, como se as palavras de Nim fossem uma deixa. - Mas, se o Sr. Jackson resolver cooperar em duas coisinhas, é bem possível que as acusações sejam atenuadas.

O garagista fitou-o com uma expressão desconfiada.

- Cooperar de que forma?

Enquanto eles falavam, a fotógrafa ia batendo chapas, primeiro do medidor de gás e instalações acessórias, depois do medidor de eletricidade. O técnico da companhia começou a desprender mais cimento, deixando à mostra uma parte maior do cano escondido dentro da parede.

- A primeira coisa que tem a fazer é pagar o que deve e o que roubou - disse London a Jackson. - Depois que estive aqui pela primeira vez, entrei em contato com nosso Departamento de Contabilidade. Comparando as contas recentes de gás e eletricidade com o seu consumo no passado, eles chegaram à conclusão de que está devendo cinco mil dólares. O que inclui a cobrança do serviço que estamos fazendo aqui hoje.

O garagista empalideceu, a boca se mexendo nervosamente.

- Mas não pode ser tudo isso! Foi apenas a... Ele parou de falar abruptamente.

- Continue - incitou-o Nim. - Há quanto tempo vem adulterando os medidores?

- Se o Sr. Jackson nos disser isso, talvez queira também informar quem fez o trabalho no medidor de gás - acrescentou London. - É a segunda coisa que estamos querendo como cooperação.

O técnico da companhia virou a cabeça por cima do ombro e declarou:

- Uma coisa posso afirmar com toda certeza: quem quer que tenha feito este trabalho, não era nenhum amador.

London virou-se para Nim:

- Está lembrado do que eu falei? Muita coisa do que estamos descobrindo é trabalho de profissionais. - Dirigiu-se novamente para Jackson. - E então? Está ou não disposto a nos contar quem fez o trabalho?

O garagista amarrou a cara, mas não respondeu. London acrescentou:

- Assim que acabarmos o serviço aqui, Sr. Jackson, iremos cortar seu gás e eletricidade. E ficarão desligados até que pague o que está devendo.

Jackson balbuciou:

- Mas como diabo vou operar meu negócio sem gás e eletricidade?

- Se é nisso que está pensando, como diabo vamos operar o nosso, se todo consumidor for um trapaceiro como você? - Virando-se para Nim; acrescentou: - Já viu o suficiente?

- Mais do que suficiente. Podemos ir embora. Lá fora, London comentou:

- Aposto dez contra um como ele está em dificuldades financeiras e não tem condições de pagar o que está devendo. E também duvido muito que nos conte quem fez o trabalho.

Ao entrarem no carro, Nim perguntou:

- Podemos processá-lo e conseguir uma condenação? O ex-policial sacudiu a cabeça.

- Eu gostaria de tentar. É possível até que obtenhamos uma condenação. Mas é muito mais provável que o tribunal exija que provemos que foi Jackson quem efetuou a adulteração ou que estava a par. O que é simplesmente impossível.

- Portanto, de certa forma, é uma causa perdida.

- De certa forma, é isso mesmo; mas não inteiramente. A notícia irá espalhar-se, provavelmente já começou a se espalhar, assustando uma porção de outros Jacksons em potencial. E não podemos esquecer Que hoje espalhamos a nossa rede por uma área bastante ampla. Antes do pôr-do-sol, iremos apanhar muitos outros defraudadores.

- Mas apenas em Brookside.

Nim pensou, sombriamente, na imensa região atendida pela GSP & L; dentro dela, Brookside era apenas uma gota d'água no oceano.

Alguns minutos depois, eles estavam de volta ao posto de comunicações, na área de estacionamento do centro comercial.

Como Harry London previra, o Dia-D em Brookside revelou a existência de muitos adulteradores de medidores. Por volta do meio-dia, já havia mais de 40 casos, comprovados ou suspeitos; parecia provável que apareceriam pelo menos outros tantos durante a tarde. Alguns supermercados estavam incluídos na relação dos defraudadores; toda uma cadeia de lojas local fora inspecionada, descobrindo-se instalações ilegais em cinco dos oito estabelecimentos.

Nim ficou sempre perto de Harry London, observando e visitando os locais de algumas das violações mais engenhosas.

Ao final da manhã, foram a uma das casas pré-fabricadas que Nim notara anteriormente. Dois veículos da GSP & L estavam estacionados na frente da casa. Um dos homens do Departamento de Proteção à Propriedade, um técnico e a mesma fotógrafa do posto de gasolina estavam agrupados em torno de um medidor de eletricidade externo, perto da porta lateral.

- Não há ninguém em casa - explicou London. - Mas o pessoal do escritório verificou quem mora aqui, e parece ser um fabricante de instrumentos de precisão. O que combina. Dê uma olhada nisso.

Os outros se afastaram, e London apontou para um minúsculo buraco no tampo de vidro do medidor. Um pequeno pedaço de arame duro saía pela abertura. Dentro do medidor, o arame se estendia até o disco de metal central, que normalmente gira à medida que a eletricidade é consumida.

- Esse arame, que não devia estar aí, impede o disco de girar - esclareceu London.

Nim assentiu, indicando que compreendera.

- Assim o medidor não registra nada, mesmo quando a corrente está passando, não é?

- Exatamente. Parar o disco não causa qualquer dano. Assim, quando o arame é retirado, tudo volta ao normal.

- Exceto pelo buraco.

- Não dá para se notar, a menos que se procure atentamente - informou o técnico, atrás deles. - Meu palpite é que ele usou uma broca de joalheiro para fazer o buraco, evitando assim que o vidro quebrasse. Muito esperto.

- Ele não vai sentir-se tão esperto assim, quando receber a próxima conta - disse London. - Além disso, ficaremos vigiando a casa esta noite. É mais do que provável que os vizinhos lhe contem o que aconteceu. Ele ficará nervoso e vai querer tirar o arame. Quando isso acontecer, se o surpreendermos em flagrante, poderemos processá-lo com sucesso.

Os dois foram embora, deixando a fotógrafa tirando chapas do buraco e do arame incriminadores.

Comunicados sobre outras descobertas de fraudes continuaram a chegar ao posto de informações. Um furto de energia ainda mais engenhoso consistira na abertura do medidor elétrico, sendo serrados diversos dentes da engrenagem que movimentava o disco. com isso, o disco girava mais lentamente, reduzindo à metade o registro do consumo de energia. O Departamento de Contabilidade, examinando os arquivos, calculara que a fraude vinha ocorrendo há cerca de três anos.

Em outro caso, um consumidor habilmente trocara os medidores. Conseguira arrumar um medidor extra - Harry London desconfiava de que fora roubado - e o substituíra pelo medidor regular, fornecido pela GSP & L. Evidentemente, o consumidor deixava o medidor "particular" no lugar durante uma parte do período de medição, na qual toda a eletricidade consumida era "gratuita".

Embora fosse considerado mais difícil adulterar medidores de gás, isso não impedira a ação de alguns defraudadores ambiciosos. London explicou:

- Desligar ou ligar um medidor de gás exige alguma habilidade como encanador, mas não muita. Um homem que tenha alguma habilidade manual pode aprender rapidamente.

Um defraudador removera inteiramente o medidor de gás, preenchendo a lacuna com uma mangueira de borracha. Era um método de furto perigoso, mas eficaz. Presumivelmente, o medidor ficava desligado durante uma parte do mês, sendo novamente ligado um pouco antes da leitura regular.

Outro defraudador, proprietário de diversas lojas, que alugava a comerciantes, virara o medidor de gás para a parede e invertera sua posição, fazendo com que andasse para trás. Foi ali que ocorreu o único incidente violento do dia. Furioso por ter sido descoberto, o homem atacou o técnico da companhia com uma chave inglesa, espancando-o brutalmente. O técnico foi levado para o hospital, com o nariz quebrado e um braço fraturado, enquanto o agressor foi conduzido à delegacia de polícia, sendo autuado por lesões corporais e outras acusações.

Nim ficou um tanto perplexo com um aspecto dos muitos casos que estavam sendo descobertos. E comentou com Harry London:

- Pensei que nossos computadores estivessem programados para informar mudanças abruptas no consumo de qualquer consumidor.

- Estão programados e dão o aviso. Mas o problema é que as pessoas estão-se tornando mais inteligentes do que os computadores, aprendendo a ludibriá-los. Não é muito difícil. Se você está disposto a furtar energia e tem o bom senso de fazê-lo gradativamente, um pouco no primeiro mês, mais um tanto no seguinte, ao invés de efetuar uma redução considerável no consumo bruscamente, o computador jamais irá perceber coisa alguma.

- De qualquer lado que se olhe, estamos sempre como perdedores.

- Talvez neste momento. Mas essa situação vai mudar. Nim não tinha tanta certeza assim.

O episódio mais bizarro ocorreu no meio da tarde, quando London recebeu uma mensagem no posto de comunicações, chamando-o com urgência a um endereço a menos de dois quilómetros de distância.

A casa era grande e moderna, com um jardim amplo e bem cuidado, um caminho em curva até a porta da frente, onde estava estacionada uma reluzente Mercedes. Os veículos da GSP & L estavam parados na rua.

O mesmo técnico que estivera no posto de gasolina-garagem naquela manhã aproximou-se assim que London parou o carro. E foi logo anunciando:

- Problemas. Precisamos de ajuda.

- Que tipo de problemas?

Um dos homens do Departamento de Proteção à Propriedade, que também se aproximara, informou:

- A mulher lá dentro está ameaçando soltar um cachorro em cima de nós. É um pastor alemão imenso. Diz que o marido é médico, muito importante na comunidade, que vão processar a companhia se lhes criarmos algum problema.

- Por que vieram até aqui? Foi o técnico quem respondeu:

- Um dos leitores de medidores, um universitário, comunicou ter avistado um fio suspeito. Ele estava certo. Dei uma olhada atrás do medidor e constatei que a correia do potencial fora arriada e estava ligada por dois fios. Segui os fios até um interruptor na garagem. Não havia ninguém por perto e a porta estava aberta. Foi nesse momento que a mulher apareceu com o cachorro.

Nim estava aturdido, e London ordenou ao rapaz:

- Explique tudo ao Sr. Goldman.

- Atrás de alguns tipos de medidor, há uma correia de potencial. Se está desligada, ou "arriada", interrompe o circuito, e o medidor pára de registrar. com a ligação dos fios e o interruptor, o medidor pode ser ligado e desligado à vontade.

- E foi o que fizeram aqui?

- Exatamente.

- Tem certeza?

- Absoluta.

O homem do Departamento de Proteção à Propriedade acrescentou:

- Também vi. E não pode haver a menor dúvida. - Consultou um caderninho de anotações. - O nome do consumidor é Edgecombe.

- Pois então vamos até lá e ao diabo com o cachorro! - decidiu London. - Chamem um fotógrafo e vamos tentar obter as provas!

Ficaram esperando enquanto o técnico chamava um fotógrafo pelo rádio do caminhão. Depois, Harry London seguiu na frente da pequena procissão que subiu pelo caminho de carro. Ao se aproximarem da casa, uma mulher alta e bonita, provavelmente na casa dos 40, saiu pela porta da frente. Usava uma calça comprida azul, de linho, com uma blusa de seda da mesma cor; os cabelos compridos, castanhos escuros, estavam presos por um lenço. A seu lado estava um pastor alemão, rosnando e fazendo força para se soltar da coleira.

Ela declarou, friamente:

- Já avisei que, se invadissem novamente minha propriedade, eu iria soltar o cachorro e teriam de aguentar as consequências. E agora sumam daqui antes que eu perca a paciência!

- Madame, é melhor não soltar esse cachorro - disse London, firmemente. - Sou agente de segurança da Golden State Power & Light e esse é o Sr. Goldman, vice-presidente da companhia.

- Os vice-presidentes não impressionam. Meu marido conhece muito o presidente da companhia.

- Neste caso, tenho certeza de que ele poderá compreender que todos aqui estão simplesmente cumprindo o seu dever - disse Nim. - É a Sra. Edgecombe?

Ela respondeu altivamente:

- Exatamente.

- Nosso Departamento de Serviço comunicou que existe uma instalação ilegal em seu medidor de eletricidade.

- Se existe, não sabemos nada a respeito. Meu marido é um ortopedista de renome e está fazendo uma operação hoje. Se não fosse por isso, eu já teria chamado para dar uma lição em vocês por tamanho atrevimento.

Apesar de toda a insolência, pensou Nim, havia um vestígio de nervosismo nos olhos e na voz da mulher. London também o percebeu e disse:

- Sra. Edgecombe, queremos apenas tirar algumas fotografias do medidor e dos fios que estão por trás e terminam num interruptor em sua garagem. Agradeceríamos se nos desse permissão.

- E se eu não der?

- Neste caso, vamos solicitar um mandado judicial. Se isso acontecer, porém, não poderemos ocultar o caso dos repórteres e da opinião Pública.

A mulher hesitou e Nim se perguntou se ela perceberia que Harry London estava blefando. Quando finalmente obtivessem um mandado Judicial, já teria passado tempo suficiente para se destruir a prova. Mas a mulher ficou temerosa do escândalo e acabou cedendo.

- Isso não será necessário. Podem fazer o que estão querendo, mas não demorem.

- Só mais uma coisa, madame - acrescentou London. - Assim que tivermos acabado, vamos desligar o fornecimento de energia, até que sejam pagos os atrasados, a serem calculados por nosso Departamento de Contabilidade.

- Mas isso é um absurdo! Esperem só para ver o que meu marido irá fazer!

A Sra. Edgecombe se afastou, prendendo a correia do cachorro numa argola de ferro na parede. Nim observou que as mãos dela estavam tremendo.

- Por que será que gente assim faz uma coisa dessas?

Nim formulou a pergunta baixinho, não só para Harry London, mas também para si próprio. Estavam no carro de London, seguindo novamente para o estacionamento do centro comercial, onde Nim pegaria seu próprio carro e voltaria para seu escritório na companhia. Chegara à conclusão de que já vira o bastante das operações em Brookside para compreender plenamente a gravidade do problema, para perceber realmente, pela primeira vez, sua profunda extensão.

- Há muitos motivos para que eles façam essas coisas - respondeu London. - Não só onde estivemos, como também em outros lugares. As pessoas gostam de se gabar da própria esperteza, contar como ludibriaram uma organização gigantesca como a Golden State Power. E enquanto se gabam, outros prestam atenção e depois fazem a mesma coisa.

- Acha que isso explica o problema epidêmico como hoje constatamos aqui?

- Representa pelo menos algumas peças do quebra-cabeça.

- E o resto?

- Uma parte é consequência da ação de profissionais desonestos, que são os que estou realmente querendo agarrar. Eles espalham que podem dar um jeito nos medidores... por um determinado preço. Parece muito fácil e sem complicações, e as pessoas acabam aceitando.

Nim ainda estava em dúvida.

- O que não explica a última casa em que estivemos. Afinal, trata-se de um médico rico, um ortopedista, provavelmente uma das especialidades mais bem remuneradas. Viu a esposa dele, a casa espetacular. Por que ele faria uma coisa dessas?

- vou dizer-lhe algo que aprendi quando era tira. Não deixe que as aparências o enganem. Há muitas pessoas que ganham bastante dinheiro, moram em casas suntuosas, mas estão afundadas até o pescoço em dívidas, debatendo-se para permanecer à tona. Estão dispostas a poupar um dólar sempre que for possível e não têm muitos escrúpulos de como consegui-lo. Aposto que isso acontece por toda parte aqui em Brooksi de.

Procure também encarar o problema por outro ângulo. Não faz muito tempo, as contas da companhia não representavam grande coisa. Mas agora que as contas se estão tornando cada vez mais altas, muitas pessoas que antes não faziam qualquer trapaça, porque não valia a pena, mudaram de ideia. Como as importâncias são mais vultosas, estão dispostas a correr o risco.

Nim assentiu, concordando.

- E a maioria das empresas de serviço público é constituída por corporações gigantescas e impessoais; por fsso, as pessoas não consideram que o furto de energia seja igual a outras espécies de roubo. Acham que não tem nada demais, ao contrário de um assalto ou da ação de um punguista.

- Tenho pensado muito a respeito e cheguei à conclusão de que o problema é muito mais grave do que imaginamos. - London parou o carro num sinal fechado, só voltanto a falar depois que estavam novamente em movimento. - Em minha opinião, a maioria das pessoas chegou à conclusão de que o sistema está podre porque os políticos são corruptos, de um jeito ou de outro. Sendo assim, por que o cidadão comum deveria castigar a si mesmo por ser honesto? Muito bem, o pessoal de Watergate foi escorraçado de Washington, mas os novos governantes, que se diziam tão virtuosos antes de serem eleitos, estão fazendo as mesmas coisas, tirando proveito do prestígio político e coisas piores, agora que estão no poder.

- É uma perspectiva das mais deprimentes.

- Sei disso. Mas explica muito do que está acontecendo e não apenas o que vimos hoje. Estou-me referindo à explosão do crime, em todos os níveis do banditismo organizado aos pequenos furtos. Confesso que há dias, como o de hoje em que gostaria de estar de volta ao Corpo de Fuzileiros, onde tudo parecia mais simples e honesto.

- Descobriria que já não é mais assim. London suspirou.

- É bem possível.

- Fizeram um bom trabalho hoje - comentou Nim.

- Estamos numa guerra. - Harry London esqueceu a própria seriedade por um momento e sorriu. - Diga ao seu chefe, o comandante supremo, que ganhamos uma batalha hoje e haveremos de vencer mais algumas.

- Mesmo correndo o risco de inflar seu ego - disse Ruth Goldman, do outro lado da mesa, ao café da manhã - não posso deixar de comentar que esteve muito bem na televisão ontem à noite. Quer mais café?

- Quero, sim, por favor. - Nim estendeu a xícara. - E obrigado. Ruth pegou a cafeteira e serviu; como sempre, seus movimentos eram suaves, graciosos e eficientes. Estava usando um chambre verdeesmeralda, fazendo um contraste intenso com os cabelos pretos impecavelmente penteados. Os seios pequenos e firmes ficaram atraentemente visíveis enquanto ela se inclinava para a frente. Quando estavam namorando, Nim se referira aos seios de Ruth, afetuosamente, como "as meias porções especiais". Naquele momento, o rosto dela tinha apenas um vestígio de maquilagem, exatamente a quantidade certa, complementando a pele rosada. Não importava quão cedo fosse, Ruth parecia sempre naturalmente impecável. Nim, que já vira muitas outras mulheres ao despertar, sabia que devia sentir-se grato por Ruth ser assim.

Era quarta-feira. Já se passara quase uma semana desde o Dia-D em Brookside. Como estava excepcionalmente cansado, o resultado de trabalhar até tarde da noite, ao longo de muitas semanas de pressão, culminando com o programa de TV na noite anterior, num estúdio extremamente quente, sob a luz de inúmeros refletores, Nim dormira até mais tarde naquela manhã. Ou seja, até 8h30min, o que era bem tarde para ele. Leah e Benjy já tinham saído para um programa de recreação que se estenderia pelo dia inteiro quando ele descera. Agora, Nim estava tomando o café da manhã calmamente, em companhia apenas de Ruth, algo que raramente acontecia. Já telefonara para a companhia, avisando que iria chegar mais tarde.

- Leah ficou acordada para assistir ao programa - comentou Ruth. - Benjy também queria ficar, mas acabou dormindo. As crianças provavelmente jamais irão dizê-lo, mas sentem o maior orgulho de você. Para ser mais exata, chegam a idolatrá-lo. O que quer que você diga, é como se fosse a própria palavra de Deus.

- Gosto desse café. Está usando uma nova marca? Ruth sacudiu a cabeça.

- O gosto está diferente só porque você não está tomando às pressas. Ouviu o que eu falei a respeito de Leah e Benjy?

- Ouvi, sim. E estava pensando nisso. Também sinto o maior orgulho das crianças. - Nim soltou uma risada, antes de acrescentar: Esse é o meu dia para elogios?

- Se pensa que estou esperando algum de você, saiba que está enganado. Mas eu bem que gostaria que pudéssemos tomar o café da manhã assim com mais frequência.

- vou ver se dou um jeito.

Nim se perguntou se Ruth não se estaria mostrando cordial daquela maneira porque também sentia, assim como ele próprio, o abismo que ultimamente se vinha aprofundando entre os dois, uma distância cada vez maior criada pela própria indiferença dele e, recentemente, pela misteriosa dedicação dela a algum interesse particular, o que quer que pudesse ser. Nim tentou recordar quando tinham feito amor pela última vez. Não conseguiu. Por que seria que um homem era capaz de perder o interesse sexual pela própria esposa, extremamente atraente, enquanto continuava a desejar outras mulheres? Calculou que a resposta devia ser a familiaridade, juntamente com um impulso de explorar novos territórios, efetuar outras conquistas. Seja como for, pensou ele, com algum sentimento de culpa, devia voltar a fazer amor com Ruth, talvez naquela mesma noite.

- Houve alguns momentos no programa de televisão em que você parecia furioso, prestes a explodir.

- Mas não explodi. Lembrei-me a tempo das regras imbecis que me impuseram.

Não era necessário explicar a decisão de manter uma linha moderada" adotada pelo comité de administração da companhia. Ele contara tudo a Ruth no mesmo dia em que acontecera e ela se mostrara compreensiva.

- Mas Birdsong bem que o provocou, não é mesmo?

- Aquele filho da mãe realmente tentou. - Nim franziu o rosto, recordando. - Mas não deu certo.

Davey Birdsong, que liderava um grupo consumidor ativista, chamado "força & luz para o povo", também comparecera ao programa de TV. Fizera alguns comentários cáusticos sobre a Golden State Power & Light, atribuindo os motivos mais vis a tudo o que a companhia fazia. Insinuara que os objetivos pessoais de Nim não eram muito melhores. Atacara também o último pedido de aumento de tarifas formulado pela GSP & L, cuja decisão estava iminente. Apesar de todas as provocações, Nim se mantivera controlado, atendo-se relutantemente aos limites que lhe haviam sido fixados.

- O Chronicle desta manhã diz que o grupo de Birdsong, assim como o Clube da Sequóia, irão opor-se ao projeto de Tunipah.

- Deixe-me dar uma olhada.

Ruth entregou-lhe o jornal, informando:

- Está na página sete.

Era outra característica de Ruth. De alguma forma, ela sempre conseguia manter-se um passo à frente da maioria das outras pessoas em matéria de ficar bem informada. Invariavelmente, dava uma lida no Chronicle- West enquanto preparava o café da manhã.

Nim folheou o jornal e encontrou a notícia. Era curta e não lhe disse mais nada além do que Ruth já informara. Mas deu-lhe a ideia para uma providência das mais proveitosas, fazendo-o querer chegar ao escritório o mais depressa possível. Tomou rapidamente o resto do café e levantou-se.

- Vai chegar em casa a tempo para o jantar esta noite, Nim?

- Tentarei.

Enquanto Ruth sorria suavemente, Nim recordou-se de quantas vezes dissera a mesma coisa e depois, por um ou outro motivo, simplesmente deixava de aparecer. Irracionalmente, como acontecera no carro na noite em que fora visitar Ardythe, desejou que Ruth de vez em quando se mostrasse menos paciente. E perguntou:

- Por que não explode de vez em quando? Por que não fica furiosa?

- Faria alguma diferença?

Nim deu de ombros, sem saber como interpretar a reação dela, sem saber o que responder.

- Já ia esquecendo de dizer-lhe uma coisa, Nim. Mamãe me telefonou ontem. Ela e Papai nos chamaram para jantar na semana que vem, junto com Leah e Benjy.

Interiormente, Nim deixou escapar um gemido de desespero. Visitar a casa dos Neubergers, os pais de Ruth, era como entrar numa sinagoga. Eles proclamavam seu judaísmo por todos os meios possíveis. A comida era sempre anunciada como kosher, havia invariavelmente lembretes de que os Neubergers mantinham dois jogos separados de talheres e louça para carne e. para os laticínios. Haveria uma prece com pão e vinho antes do jantar, assim como a cerimónia ritual de lavagem das mãos. Depois do jantar, haveria preces solenes, a que os Neubergers, na tradição da Europa Oriental, consideravam essenciais. Se houvesse cajne à mesa, Leah e Benjy não teriam permissão para tomar leite, como gostavam de fazer em casa. Haveria também as pressões, não muito sutis, as manifestações de surpresa em voz alta pelo lato de Nim e Kuth não respeitarem o Sabbath e os aias sagrados, as descrições animadas do último bar mitzvah a que os Neubergers haviam comparecido, com a insinuação de que Benjy obviamente iria cursar uma escola hebraica, a fim de que pudesse fazer também o seu bar mitzvah quando completasse 13 anos. Mais tarde, quando chegassem em casa, porque as crianças tinham a idade que tinham e eram curiosas, haveria perguntas a Nim, perguntas que ele não estava preparado para responder, por causa de sua própria ambivalência interior.

Ruth invariavelmente se mantinha calada nessas ocasiões; de vez em quando, Nim se perguntava se o silêncio dela não seria no fundo uma aliança com os pais contra ele. Quinze anos antes, quando se haviam casado, Ruth deixara bem claro que não dava a menor importância aos rituais judaicos, o que era uma reação óbvia ao rigor ortodoxo com que fora criada. Mas não teria mudado? Sob a superfície, Ruth não seria uma mãe judia tradicional, querendo para Leah e Benjy todos os ornamentos exigidos pela fé de seus pais? Nim recordou-se o que ela dissera alguns minutos antes a respeito dele e das crianças. "Para ser mais exata, chegam a idolatrá-lo. O que quer que você diga, é como se fosse a própria palavra de Deus." Não seriam aquelas palavras um hábil lembrete da responsabilidade religiosa dele, um suave empurrão ao encontro da religião? Nim jamais cometera o engano de considerar a suavidade de Ruth como um sinal de fraqueza; sabia perfeitamente que, por trás daquele exterior gentil, existia uma personalidade excepcionalmente forte.

Mas além de tudo isso, Nim sabia que não havia qualquer razão válida para recusar o convite dos pais de Ruth. Não acontecia com frequência. E Ruth exigia bem pouco dele.

- Está certo, Ruth. Pode marcar o jantar para a sexta-feira da semana que vem. Assim que chegar ao escritório, vou verificar se não há nenhum compromisso marcado e depois lhe telefonarei.

Ruth hesitou por um momento, antes de dizer:

- Não precisa incomodar-se. Pode deixar para me dizer esta noite.

- Por quê?

Uma nova hesitação de um segundo.

- vou sair logo depois de você. E passarei o dia inteiro fora.

- O que está acontecendo? Para onde vai?

- A uma porção de lugares... - Ruth soltou uma risada. - Você por acaso costuma dizer-me para onde vai?

Lá estava novamente. O mistério. Nim sentiu uma pontada de ciúme contra o desconhecido, mas rapidamente racionalizou: Ruth tem razão. Como ela acabara de lembrar-lhe, havia muita coisa que ele não contava.

- Divirta-se, Ruth. E até a noite.

No vestíbulo, Nim abraçou-a, e trocaram um beijo. Os lábios de Ruth eram macios, o corpo sob o roupão, sensual. Mas como eu sou idiota!, pensou Nim. Tinha de fazer mesmo o que pensara antes: naquela noite, teria sexo com Ruth.

 

Apesar da pressa em sair de casa, Nim seguiu para o centro lentamente, evitando o freeway e preferindo as ruas de pouco movimento. Aproveitou o tempo para pensar no Clube da Sequóia, mencionado pelo Chronicle- West naquela manhã.

Embora fosse uma organização que frequentemente se opunha aos projetos da GSP & L e muitas vezes conseguia abortá-los, Nim admirava o Clube da Sequóia. Seu raciocínio era simples: a história mostrava que todas as vezes que gigantescos complexos industriais, como a Golden State Power & Light, podiam fazer o que bem desejassem, davam pouca ou nenhuma atenção à proteção do meio ambiente. Assim, havia necessidade de uma força repressora responsável. O Clube da Sequóia desempenhava esse papel.

Baseada na Califórnia, a organização adquirira reputação nacional pela habilidade e dedicação em suas lutas para preservar o que restava de beleza natural ainda intacta da América. Quase sempre seus métodos eram éticos, os argumentos criteriosos e sólidos. verdade que a organização tinha seus críticos, mas poucos deixavam de respeitá-la. Uma das razões era o fato de a liderança do Clube da Sequóia, ao longo dos seus 80 anos de existência, ter sido sempre de primeira qualidade, uma tradição que continuava a ser mantida com a atual presidente, uma antiga cientista atómica, Laura Bo Carmichael. Era uma mulher extremamente capaz, internacionalmente respeitada e, incidentalmente, amiga de Nim.

Era nela que Nim estava pensando enquanto guiava.

Chegara à conclusão de que era o momento de fazer um direto apelo pessoal a Laura Bo Carmichael, em defesa do projeto de Tunipah e das outras usinas geradoras que a Golden State Power estava querendo construir. Se argumentasse convincentemente a necessidade urgente dessas usinas, talvez o Clube da Sequóia não se opusesse ou fosse menos veemente na oposição. Tinha que marcar um encontro o mais breve possível. De preferência ainda hoje.

Nim estava guiando automaticamente, prestando pouca atenção aos nomes das ruas. Mas subitamente, ao parar num sinal, percebeu que estava no cruzamento da Lakewood e Balboa. Isso o fazia recordar alguma coisa. Mas o quê?

Lembrou-se de repente. No dia da explosão e da interrupção no fornecimento de energia, duas semanas antes, o despachante-chefe lhe mostrara um mapa de circuitos em que estavam indicadas as residências particulares onde estavam instalados equipamentos de manutenção de vida. Círculos coloridos no mapa indicavam máquinas de diálise renal, unidades geradoras de oxigênio, pulmões artificiais, e outros equipamentos similares. Na esquina de Lakewood e Balboa, um círculo vermelho indicava que havia ali uma pessoa dependente de um pulmão artificial ou algum outro aparelho respiratório acionado por energia elétrica. Estava instalado num prédio de apartamentos. Por alguma razão, Nim guardara na memória aquele fato, assim como o nome do consumidor: Sloan. Lembrou-se de que, na ocasião, ao contemplar o pequeno círculo vermelho, imaginara como seria Sloan.

Havia apenas um único prédio de apartamentos no cruzamento, dê oito andares, modesto, mas bem conservado, a julgar pela aparência externa. O carro de Nim estava agora ao lado do prédio. Um pequeno pátio ao lado dispunha de diversas vagas para estacionar, sendo que duas desocupadas. Num súbito impulso, Nim entrou no pátio e foi estacionar numa das vagas. Saltou e encaminhou-se para a entrada do prédio.

Por cima de diversas caixas de correspondência, havia uma vintena de nomes, entre os quais "K. Sloan". Nim apertou o botão ao lado do nome.

Momentos depois, a porta do prédio se abriu. Um velho encarquilhado apareceu, usando uma calça larga e um blusão de lã. Parecia um esquilo já muko velho ao contemplar Nim através das lentes grossas.

- Tocou o nome de Sloan?

- Toquei, sim.

- Sou o zelador. A campainha também toca no meu apartamento.

- Posso falar com o Sr. Sloan?

- Não existe nenhum Sr. Sloan.

- Ahn... - Nim apontou para a caixa de correspondência - Então é a Sra. Sloan? Ou Srta. Sloan? Inexplicavelmente, ele presumira que Sloan fosse um homem.

- Srta. Karen Sloan. Quem é o senhor?

- Meu nome é Goldman. - Nim mostrou-lhe sua identidade da "SP & L. - Estou certo ao presumir que a Srta. Sloan é uma inválida?

- Sim. Só que ela não gosta de ser chamada dessa maneira.

- Como devo então descrevê-la?

- Incapacitada. Ela é quadriplégica. Sabe qual é a diferença para a Paraplégica?

- Acho que sim. Uma paraplégica tem paralisia da cintura para baixo, enquanto a quadriplégica tem paralisia de todo o corpo.

- A nossa Karen é assim. Ficou quadriplégica desde os 15 anos. Quer visitá-la?

- Seria conveniente?

- Já vai descobrir. - O zelador escancarou a porta. - Entre.

O pequeno saguão combinava com a aparência exterior do prédio: era simples e limpo. O velho conduziu-o a um elevador, fez sinal para que Nim entrasse e depois seguiu-o. Enquanto subiam, ele comentou:

- O prédio não chega a ser o Ritz, mas fazemos todo o possível para mantê-lo em ordem.

- Pode-se ver.

Os metais no interior do elevador brilhavam e o mecanismo zumbia suavemente. Saltaram no sexto andar. O zelador seguiu na frente e parou diante de uma porta, separando uma chave do molho. Abriu a porta, bateu e depois gritou:

- Sou eu. Jiminy. Trouxe uma visita para Karen!

- Entrem!

Nim descobriu-se diante de uma mulher baixa e robusta, a pele escura, feições hispânicas. Usava uma bata de nylon rosa, semelhante a um uniforme de enfermeira.

- Está vendendo alguma coisa? A pergunta foi formulada jovialmente, sem qualquer hostilidade.

- Não. Eu estava passando e...

- Não tem importância. A Srta. Sloan gosta de receber visitas. Estavam num vestíbulo pequeno, claro, que dava para uma cozinha num lado e para uma sala de estar no outro. Na cozinha, predominavam o branco e o amarelo, numa combinação extremamente alegre; na sala de estar, a decoração era um verde e amarelo.

- Pode entrar... quem quer que seja - disse uma agradável voz, vinda da sala de estar.

- vou embora - falou o zelador, atrás de Nim. - Tenho muito o que fazer.

Enquanto a porta se fechava, Nim entrou na sala de estar.

- Olá - disse a mesma voz que antes o mandara entrar. - Sabe de alguma coisa nova e emocionante?

Muito tempo depois, ao longo dos meses subsequentes, quando acontecimentos fatídicos iriam suceder-se como atos de um drama, Nim iria recordar-se daquele momento, o primeiro em que viu Karen Sloan, em detalhes nítidos.

Era uma mulher madura, mas parecia jovem e era extraordinariamente bonita. Nim calculou que ela teria 36 anos; mas tarde, iria saber que Karen tinha três anos mais. O rosto era longo, as feições bem proporcionadas. Os lábios cheios, sensuais, se entreabriram num sorriso, os olhos grandes e azuis avaliaram Nim com extrema franqueza, o nariz arrebitado sugerindo malícia. A pele era impecável, parecia opalescente. Cabelos louros, compridos, emolduravam o rosto de Karen Sloan; repartidos no meio, caíam pelos ombros, com reflexos dourados, rebrilhando aos raios do sol que entravam pela janela. As mãos estavam sobre um apoio acolchoado, os dedos compridos, as unhas bem cuidadas. Ela usava um atraente vestido azul-claro.

E estava numa cadeira de rodas. Uma protuberância no vestido indicava que havia um aparelho respiratório por baixo, respirando por ela. Um tubo saía por baixo da bainha do vestido e se ligava a um aparelho que parecia uma valise, preso no encosto da cadeira. O mecanismo respiratório emitia um zumbido constante, o barulho do ar entrando e saindo, ao ritmo normal da respiração. Os componentes elétricos da cadeira estavam ligados a uma tomada na parede.

- Olá, Srta. Sloan - disse Nim. - Sou o homem da eletricidade. O sorriso se alargou.

- Funciona à base de baterias ou também está ligado a uma tomada?

Nim também sorriu, um tanto embaraçado; teve um momento de nervosismo, o que raramente acontecia. Não sabia muito bem o que esperava encontrar; de qualquer maneira, aquela mulher suave à sua frente era totalmente inesperada.

- vou explicar.

- Eu ficaria agradecida por isso. Não quer sentar?

- Obrigado.

Nim acomodou-se numa poltrona. Karen Sloan virou a cabeça ligeiramente, encostando a boca num tubo plástico em forma de U. Soprou suavemente no tubo e imediatamente a cadeira de rodas virou, deixando-a de frente para Nim.

- Ei, mas isso é sensacional! - exclamou Nim, sem conseguir conter-se.

- E posso fazer muito mais. Se eu aspirar ao invés de soprar, a cadeira se move para trás.

Karen mostrou como funcionava, deixando Nim fascinado.

- Nunca tinha visto nada parecido. Confesso que estou impressionado.

- A cabeça é a única parte do corpo que posso mover - falou Karen tranquilamente, como se fosse apenas uma inconveniência sem maior importância. - Assim, tive de aprender a fazer algumas coisas necessárias de maneira insólita. Mas nós estamos desviando. Ia contarme alguma coisa; por favor, pode falar.

- Eu ia explicar por que vim visitá-la. Tudo começou há duas semanas, no dia em que houve a interrupção no fornecimento de energia. Eu a vi num pequeno círculo vermelho num mapa.

- Eu... num mapa?

Nim falou do Centro de Controle de Energia e da atenção da GSP & L aos consumidores especiais, como hospitais e residências particulares com equipamentos de manutenção de vida.

- Para ser franco, fiquei curioso. E foi por isso que passei por aqui hoje.

- É ótimo saber que existe alguém pensando na gente. Lembro-me muito bem daquele dia.

- Como se sentiu no momento em que houve a interrupção de energia?

- Acho que fiquei um pouco assustada. Subitamente meu abajur apagou, outros aparelhos elétricos pararam de funcionar. Mas não o respirador. Passou a ser acionado imediatamente por bateria.

Nim observou que a bateria era do tipo usado em carros, de 12 volts. Estava numa prateleira, também fixada atrás da cadeira de rodas, por baixo do mecanismo de respiração.

- O que a gente fica pensando é por quanto tempo haverá falta de energia e se a bateria vai aguentar.

- Deve aguentar por várias horas.

- Seis horas e meia, quando está plenamente carregada... e se eu usar apenas o respirador, sem mover a cadeira. Mas quando saio para fazer compras ou uma visita, o que acontece quase todos os dias, uso muito a bateria e a carga diminui.

- O que significa que se houver uma interrupção do fornecimento de energia nesse momento...

Karen terminou a frase por ele:

- Josie... foi ela quem o recebeu... teria que tomar alguma providência rapidamente. O respirador precisa de quinze amperes, a cadeira em movimento de outros vinte.

- Aprendeu uma porção de coisas sobre o equipamento.

- Não aprenderia também, se sua vida dependesse dele?

- Creio que sim. Costuma ficar sozinha de vez em quando?

- Nunca. Josie me faz companhia durante a maior parte do tempo e há duas outras pessoas que a substituem de vez em quando. E Jiminy, o zelador, também ajuda muito. Ê ele quem traz os visitantes, da maneira como fez com você. - Karen sorriu. - Jiminy não deixa ninguém subir até aqui a menos que o tenha aprovado. O que significa que você passou no teste dele.

E continuaram a conversar, descontraidamente, como se Se conhecessem há muito tempo.

Nim soube que Karen fora atacada pela poliomielite apenas um ano antes da vacina Salk começar a ser aplicada em massa na América do Norte; poucos anos depois, a vacina Sabin acabou de vez com a poliomielite.

- Mais um pouquinho e eu não estaria assim - comentou Karen. Nim ficou comovido com aquela declaração serena.

- Costuma pensar muito nesse ano de diferença?

- Pensava muito. Por algum tempo, chorei bastante por causa desse ano de diferença. E indagava: Por que logo eu tinha que ser uma das

últimas? E pensava: se a vacina tivesse surgido um pouco antes, tudo teria sido diferente. Eu poderia andar, dançar, escrever, usar as mãos...

Ela parou de falar. No silêncio, Nim podia ouvir o tique-taque de um relógio e o zumbido suave do respirador de Karen. Depois de um momento, ela recomeçou a falar:

- Mas comecei a dizer a mim mesma: desejar não vai mudar coisa alguma. O que aconteceu, aconteceu. E nunca mais poderá ser desfeito. Assim, passei a procurar tirar o melhor proveito possível de tudo, vivendo um dia de cada vez. E quando se faz isso, a gente se sente profundamente grata quando acontece algo inesperado. Hoje, por exemplo, você apareceu. - Karen exibiu um sorriso radiante, antes de acrescentar: Nem mesmo sei seu nome!

Quando ele disse, Karen perguntou:

- O Nim é de Nimrod?

- Exatamente.

- Não há alguma coisa na Bíblia...

- No Génesis. "Cuxe gerou a Nimrod, o qual começou a ser poderoso na terra. Foi valente caçador diante do Senhor." - Recordava-se de ouvir as palavras serem pronunciadas pelo avô, o Rabino Goldman. O velho rabino é que escolhera o nome do neto, uma das poucas concessões ao passado permitidas por Isaac, o pai de Nim.

- E você é caçador, Nim?

Ele já ia responder negativamente, quando lembrou o que Teresa Van Buren dissera recentemente: "Virou um caçador de mulheres, não é mesmo?" Talvez, pensou, se as circunstâncias tivessem sido diferentes, poderia ter caçado também aquela linda mulher, Karen Sloan. Egoisticamente, também se sentiu triste pelo atraso de um ano na descoberta da vacina.

Nim sacudiu a cabeça e murmurou:

- Não, não sou um caçador.

Mais tarde, Karen contou-lhe que passara 12 anos em hospitais, a maior parte do tempo em antiquados pulmões artificiais. Depois, haviam sido inventados equipamentos portáteis, mais modernos, tornando possível que pacientes como Karen vivessem fora dos nosocômios. A princípio, ela voltara a viver com os pais. Mas não dera certo.

- A tensão era demais para todos nós - explicou ela. Mudara-se então para aquele apartamento, onde já estava há quase anos.

- O governo dá uma ajuda que praticamente cobre os custos. Há ocasiões em que a situação financeira fica apertada, mas sempre consigo dar um jeito.

O pai de Karen possuía um pequeno negócio de encanador e a mãe era balconista numa loja de departamentos. No momento, estavam tentando juntar dinheiro a fim de comprar para Karen um pequeno furgão, Que iria aumentar-lhe a mobilidade. O furgão seria adaptado para receber a cadeira de rodas, e Josie ou alguém da família de Karen se encarregaria de guiar.

Embora Karen praticamente não pudesse fazer nada sozinha, pois tinha que ser lavada, alimentada e deitada na cama por outra pessoa, disse a Nim que aprendera a pintar, segurando o pincel na boca.

- E também posso usar uma máquina de escrever. É elétrica e trabalho com uma vareta presa nos dentes. Costumo escrever poesias. Gostaria que eu lhe mandasse algumas?

- Gostaria e muito.

Nim levantou-se, espantado ao descobrir que estava com Karen há mais de uma hora. Ela perguntou:

- Vai voltar?

- Se quiser que eu volte...

- Claro que quero... Nimrod. - Karen novamente exibiu o sorriso afetuoso, e fascinante. - Eu gostaria de tê-lo como amigo.

Josie levou-o até a porta.

A imagem de Karen, a beleza impressionante, o sorriso afetuoso, a voz gentil, tudo isso ocupou os pensamentos de Nim durante o resto do percurso até o escritório. Jamais conhecera alguém como Karen. E ainda estava pensando nela quando deixou o carro na garagem da sede da Golden State Power & Light, três andares abaixo do nível da rua.

Havia um elevador direto, a que se tinha acesso apenas com uma chave, da garagem ao andar dos executivos, o 22?. Nim usou sua chave, um símbolo de status na GSP & L, subindo sozinho no elevador. Lembrou-se de sua decisão de fazer um apelo pessoal à presidente do Clube da Sequóia.

Sua secretária, Victoria Davis, uma jovem negra extremamente competente, levantou a cabeça quando ele entrou no escritório de duas salas.

- Oi, Vicki! Tem muita correspondência hoje?

- Nada de urgente. Mas há alguns recados... inclusive dizendo que esteve ótimo na televisão ontem à noite. Por falar nisso, também achei.

- Obrigado. - Nim sorriu. - Seja bem-vinda ao meu fã-clube.

- Há também um envelope marcado "pessoal e confidencial" em sua mesa; acabou de chegar. E tenho algumas coisas para o senhor assinar.

Ela seguiu-o até a outra sala. Nesse momento, ocorreu um baque surdo e intenso em algum lugar distante. Uma garrafa d'água e os copos ao redor tremeram, assim como a janela que dava para um pátio interno.

Nim parou, escutando.

- O que foi sso?

- Não tenho a menor ideia. Houve outro estrondo parecido alguns minutos atrás, pouco antes de sua chegada.

Nim deu de ombros. Podia ser qualquer coisa, de um tremor de terra ao bate-estaca de uma construção nas proximidades. Em sua mesa, olhou rapidamente a correspondência, fixando-se no envelope a que Vicki se referira, marcado "pessoal e confidencial". Era um envelope pardo, com um lacre de cera atrás. Distraidamente, começou a abri-lo.

- Antes de fazermos qualquer outra coisa, Vicki, queria que tentasse uma ligação com a Sra. Carmichael.

- No Clube da Sequóia?

- Exatamente.

Ela deixou os papéis que tinha nas mãos numa caixa escrita "Para assinar" e virou-se para sair. Foi nesse momento que a porta da outra sala foi bruscamente aberta e Harry London entrou correndo. Os cabelos estavam despenteados, o rosto vermelho do esforço físico.

London avistou o que Nim estava fazendo. E gritou:

- Não! Não!

Nim ficou imóvel, aturdido. London atravessou a sala correndo, inclinou-se sobre a mesa, tirou-lhe o envelope pardo das mãos e colocou-o em cima da mesa.

- Vamos sair daqui! Depressa!

London agarrou o braço de Nim e puxou-o, ao mesmo tempo em que empurrava Victoria Davis bruscamente. Passaram para a outra sala e de lá para o corredor. London só se deteve pelo tempo suficiente para fechar as portas.

Nim iniciou um protesto, furioso:

- Mas que diabo...

Não chegou a terminá-lo. Houve um estrondo na sala dele. As paredes do corredor tremeram. Um quadro emoldurado, ali perto, caiu no chão, o vidro se espatifando.

Um segundo depois, soou outro baque surdo, semelhante ao que Nim ouvira anteriormente, só que agora mais alto e nitidamente uma explosão, em algum lugar abaixo. Pelo corredor, pessoas saíam correndo de outras salas.

- Santo Deus! - exclamou Harry London, o desespero na voz.

- Mas que diabo está acontecendo? - gritou Nim.

Podiam agora ouvir gritos frenéticos, telefones tocando estridentemente, o gemido das sirenes se aproximando na rua lá embaixo.

- Cartas-bombas - explicou London. - Não são muito grandes, mas o suficiente para matar qualquer um que esteja por perto. Essa última foi a quarta. Fraser Fenton morreu, outros ficaram feridos. Todo mundo no prédio está sendo alertado. E se sabe rezar, peça para que não haja mais nenhuma bomba.

 

Com um coto de lápis, Georgos Winslow Archambault (Yale, turma de 72) escreveu em seu diário:

Ontem, uma ação bem-sucedida contra as forças de opressão fascistas-capitalistas!

Um chefe inimigo, Fenton, diretor da Golden State Porra & Lixo, está morto. Já vai tarde!

Pelo honrado nome dos Amigos da Liberdade, o bastião dos impiedosos exploradores dos recursos de energia do povo foi vitoriosamente atacado. Em 10 armas enviadas para o objetivo, cinco surtiram efeito. Nada mau!

A contagem real de baixas pode ser ainda mais elevada, já que a imprensa amordaçada pelo establishment procurou, como sempre, minimizar essa importante vitória do povo.

Georgos largou o coto de lápis. Muito embora fosse incómodo, invariavelmente escrevia com um coto, tendo lido certa ocasião que Mohandas K. Gandhi assim o fazia, alegando que jogar fora um lápis parcialmente usado era denegrir o humilde trabalho que criava.

Gandhi era um dos heróis de Georgos Archambault, assim como Lenin, Marx, Engels, MaoTsé-tung, Renato Curcio, Che Guevara, Fidel Castro, César Chavez e vários outros. (A anomalia de Mohandas Gandhi ter sido um apóstolo da não-violência não o incomodava.)

Georgos recomeçou a escrever.

Além do mais, a imprensa capitalista subserviente deplorou hoje hipocritamente a morte e os ferimentos do que rotulou de "vítimas inocentes". Mas que ingenuidade ridícula!

Em qualquer guerra, os chamados "inocentes" são inevitavelmente mortos e feridos; quanto maior é a guerra, maior é o número de baixas entre os "inocentes". Quando os beligerantes são as chamadas "grandes potências", como na Primeira e Segunda Guerras Mundiais e na infame agressão da Amérika ao Vietnã, tais "inocentes" são massacrados aos milhares. E quem faz alguma objeção? Absolutamente ninguém! Muito menos os fuhrers adoradores do dólar da imprensa e seus redatores bajuladores e subservientes, que não sabem de nada.

Uma guerra social justa, como a que está sendo agora travada pelos Amigos da Liberdade, não é diferente... só que as baixas são em menor número.

Mesmo em Yale, nos trabalhos que escrevia, Georgos adquirira a reputação entre os professores de se estender interminavelmente num argumento, semeando adjetivos a torto e a direito. Diga-se de passagem que seu curso não fora o de Inglês, mas sim o de Física, que mais tarde acumulara com o de Química. E, mais tarde ainda, os conhecimentos de química haviam-se tornado extremamente úteis, quando estudara explosivos em Cuba, entre outras coisas. Ao longo do caminho, seus interesses se haviam reduzido, assim como as posições pessoais sobre a vida e a política.

Georgos continuou a escrever no diário:

Até mesmo a imprensa inimiga, que subservientemente exagera tais casos ao invés de atenuá-los, admite que houve apenas duas mortes e três feridos em estado grave. Um dos mortos era o' criminoso diretor Fenton, o outro um miserável guarda de segurança. Não há o que lamentar. Os demais eram lacaios insignificantes, datilógrafos, escriturários etc. que deviam sentir-se gratos por seu martírio em prol de uma causa nobre.

Assim sendo, não há por que se dar ouvidos à propaganda capitalista sobre "vítimas inocentes"!

Georgos fez uma nova pausa, o rosto fino e ascético expressando intensa concentração. Como sempre, cuidava meticulosamente do diário, convencido de que algum dia seria um documento histórico importante, do porte de obras como Das Kapital e Citações do Presidente Mão Tsé-tung.

Iniciou uma nova sequência de pensamento:

As exigências dos Amigos da Liberdade serão anunciadas hoje num comunicado de guerra. São as seguintes:

- Todas as usinas nucleares devem ser imediatamente fechadas e desmontadas. Proibição permanente de qualquer futuro desenvolvimento nuclear.

Seria o suficiente para começar. E a ameaça de escalada dos atentados era real. Georgos olhou ao redor da pequena e apinhada oficina de porão em que estava escrevendo. Os suprimentos de pólvora, espoletas, detonadores, glicerina e outros produtos químicos eram amplos. E não apenas ele, como também os outros três combatentes da liberdade que aceitavam sua liderança, sabiam como usá-los. Georgos sorriu, ao pensar no engenhoso dispositivo que seguira nas cartas-bombas no dia anterior. Um pequeno cilindro de plástico continha um alto explosivo, tetril, com um minúsculo detonador. Sobre esse detonador havia um percussor de mola, que era acionado na abertura do envelope. Era um mecanismo bastante simples, mas mortífero. A carga de tetril era suficiente para arrancar a cabeça ou arrebentar todo o corpo da pessoa que abrisse a carta.

É evidente que nossas exigências são aguardadas, porque tanto a imprensa como sua dócil aliada a televisão já começaram a ecoar as declarações da Golden State Porra & Lixo de que não irá alterar sua política "em decorrência do terrorismo".

Mas que imbecilidade! É claro que o terrorismo irá provocar mudanças. Sempre provocou, sempre provocará. A história está repleta de exemplos.

Georgos pensou em alguns dos exemplos que lhe haviam sido incutidos durante seu aprendizado revolucionário em Cuba. Lá estivera cerca de dois anos depois de se diplomar; nesse período, fora dominado por um ódio cada vez maior contra o país em que nascera, o qual considerava decadente e tirânico. E desdenhosamente soletrava-o como Amérika.

Seu desencanto fora agravado pela notícia de que o pai, um rico playboy de Nova York, consumara seu oitavo divórcio, tendo imediatamente se casado de novo, enquanto a mãe, uma atriz de cinema grega internacionalmente adorada, havia-se separado do sexto marido. Georgos detestava a ambos e ao que representavam, muito embora não os visse desde os nove anos de idade e há 20 não recebesse qualquer notícia deles diretamente. Suas despesas pessoais e de instrução, inclusive o curso em Yale, eram sempre pagas impessoalmente por uma firma de advocacia de Atenas.

Quer dizer que o terrorismo nada iria mudar, hem?

O terrorismo é um instrumento da guerra social. Permite a uns poucos indivíduos esclarecidos (assim como os Amigos da Liberdade) enfraquecer o domínio e vontade férreos das forças reacionárias, que detêm e abusam do poder.

Foi o terrorismo que iniciou a vitoriosa Revolução Russa.

As repúblicas da Irlanda e de Israel devem sua existência ao terrorismo. O terrorismo do IRA (Exército Republicano Irlandês) na Primeira Guerra Mundial levou ao Eire independente. O terrorismo Irgun na Palestina obrigou os ingleses a renunciarem a seu Mandato, a fim de que os judeus pudessem instituir o Estado de Israel.

A Argélia conquistou sua independência da França através do terrorismo.

A OLP, agora representada nas conferências internacionais e na ONU, utilizou o terrorismo para atrair a atenção do mundo.

E as Brigadas Vermelhas italianas atraíram ainda mais atenção do mundo através do terrorismo.

Georgos Winslow Archambault parou de escrever. Era algo que sempre o deixava cansado. Além do mais, compreendia que havia caido no jargão revolucionário (também aprendido em Cuba), que era importante, tanto como uma arma psicológica quanto como uma válvula de escape emocional. Mas, às vezes, era muito difícil suportá-lo.

Levantou, espreguiçou-se, bocejou. Tinha um bom corpo, vigoroso e ágil, mantendo-se sempre em forma com um rigoroso programa diário de exercícios. Contemplando-se num espelho pequeno e rachado na parede, alisou o bigode denso, mas bem aparado. Deixara-o crescer logo depois do ataque à usina geradora de La Mission, quando se apresentara como oficial do Exército de Salvação. Segundo o noticiário do dia seguinte, um guarda de segurança da usina descrevera-o como um homem com o rosto inteiramente raspado. O bigode poderia pelo menos confundir a identificação, se algum dia isso viesse a acontecer. O uniforme do Exército de Salvação, é claro, há muito que já fora destruído.

A recordação do sucesso em La Mission provocou um riso de satisfação em Georgos.

Algo que ele não fizera, antes ou depois de La Mission, fora deixar crescer a barba. O que seria equivalente a uma assinatura. Todos esperavam que os revolucionários fossem barbados e desleixados; Georgos tomava todo cuidado em se mostrar justamente o inverso. Sempre que deixava a casa modesta que alugara, podia ser tomado como um corretor ou banqueiro. Não tinha qualquer dificuldade nisso, já que era meticuloso por natureza e gostava de vestir-se bem. Para tanto, era ajudado pelo dinheiro que os advogados de Atenas ainda depositavam para ele em uma conta de um Banco de Chicago, embora a quantia já não fosse tão grande quanto antigamente. Georgos precisava de muito mais para financiar os-planos futuros dos Amigos da Liberdade. Felizmente já estava obtendo alguma ajuda externa, mas a fonte teria agora que aumentar consideravelmente a contribuição.

Somente um fator contradizia imagem de burguês refinado: as mãos de Georgos. Nos primeiros tempos do seu interesse por química e depois por explosivos, fora negligente e trabalhara sem luvas de proteção. Por causa disso, as mãos estavam cobertas de cicatrizes e manchadas. Era mais cuidadoso agora, mas o dano já estava feito. Chegara a pensar em fazer enxertos de pele, mas o risco parecia alto. Assim, o melhor que podia fazer, sempre que saía de casa, era manter as mãos escondidas na medida do possível.

O cheiro agradável do almoço, pimentão recheado, desceu até o porão. Sua mulher, Yvette, era uma cozinheira excepcional, sabia do que Georgos gostava e sempre procurava agradá-lo. Ela sentia o maior respeito e admiração pelos conhecimentos de Georgos, já que tivera bem pouca instrução.

Ele partilhava Yvette com os outros três jovens combatentes da liberdade que viviam na casa: Wayde, do mesmo modo culto e instruído, e também discípulo de Marx e Engels; Ute, um índio americano que acalentava um ódio intenso contra todas as instituições que oprimiam seu povo; e Felix, produto de um bairro pobre de Detroit, cuja filosofia era queimar, matar ou destruir por qualquer outra forma tudo o que fosse alheio a sua experiência amarga desde o nascimento.

Mas, apesar de partilhá-la com os outros, Georgos tinha um sentimento de posse em relação a Yvette, beirando a afeição. Ao mesmo tempo, desprezava a si mesmo por sua omissão num aspecto do Catecismo Revolucionário (atribuído a dois russos do século XIX, Bakunin e Nechayev), que dizia:

O revolucionário é um homem sozinho; não possui interesses próprios, sentimentos, hábitos ou bens... Tudo nele está absorvido por um interesse único e exclusivo, um só pensamento, uma só paixão: a revolução... Rompeu todos os vínculos com a ordem civil, com o mundo dito civilizado, com todas as leis, convenções e... com as éticas deste mundo...

Todos os sentimentos ternos de família, vida, amizade, amor, gratidão e até mesmo honra devem ser sufocados... Dia e noite, o revolucionário só deve ter um único pensamento, uma só determinação: a destruição implacável...

O caráter do verdadeiro revolucionário não tem lugar para qualquer romantismo, sentimentalismo, entusiasmo ou sedução... Sempre e em toda parte, ele deve tornar-se não o que sua própria inclinação indicaria, mas sim o que exigir o interesse geral da revolução.

Georgos fechou o diário, lembrando que o comunicado de guerra, com suas justas exigências, deveria chegar a uma das emissoras de rádio da cidade ainda naquele dia.

Como sempre, seria deixado num local seguro e, mais tarde, a emissora seria avisada pelo telefone. Os idiotas que lá trabalhavam sairiam correndo para buscar o comunicado.

Seria uma das notícias mais sensacionais naquela noite, pensou Georgos, com extrema satisfação.

- Antes de mais nada - disse Laura Bo Carmichael, depois que pediram os drinques, um martíni para ela, um bloody mary para Nim Goldman - quero dizer que lamento profundamente o que aconteceu com o diretor da companhia, o Sr. Fenton. Eu não o conhecia pessoalmente, mas o que aconteceu foi trágico e lamentável. Espero que os responsáveis sejam capturados e devidamente punidos.

A presidente do Clube da Sequóia era uma mulher esguia, beirando os 70 anos, normalmente exuberante, olhos alerta e penetrante: Vestia-se sobriamente, os sapatos baixos, os cabelos bem curtos, como para exorcizar sua feminilidade. Talvez isso acontecesse, pensou Nim, porque Laura Bo Carmichael, como antiga cientista atómica, competira num campo que na ocasião era dominado inteiramente pelos homens.

Estavam no elegante Salão Squire, do Hotel Fairhill, onde se haviam encontrado para almoçar, por sugestão de Nim. O encontro se realizava uma semana e meia depois do que ele pretendera, mas o tumulto que se seguira às explosões na GSP & L o haviam mantido por demais ocupado. Medidas de segurança rigorosas, de cujo planejamento Nim participara, estavam agora em vigor na imensa sede da companhia. E também tivera mais trabalho em decorrência da necessidade crítica de um aumento de tarifas, que estava sendo examinado pela Comissão de Serviços Públicos.

Agradecendo o comentário sobre Fraser Fenton, Nim confessou:

- Foi um terrível choque, especialmente depois das mortes anteriores em La Mission. Estamos todos apavorados.

O que era absoluta verdade, pensou ele. Todos os executivos da companhia, do presidente para baixo, estavam insistindo em não chamar a atenção. Não queriam ser citados em notícias e se expor assim à atenção dos terroristas. J. Eric Humphrey dera ordens expressas para que seu nome não mais constasse dos comunicados oficiais da companhia ou de notícias para a imprensa. Recusava-se a receber jornalistas, a não ser para contatos informais. O endereço de sua casa fora retirado de todos os registros da companhia e era agora um segredo bem guardado... ou tão bem quanto se podiam ocultar tais coisas. A maioria dos principais dirigentes da companhia já tinha telefones que não constavam do catálogo. O presidente e diversos outros executivos dispunham agora de guarda-costas, sempre que estavam empenhados em qualquer atividade nas quais pudessem tornar-se alvo dos terroristas. O que incluía o golfe no fim-de-semana.

Nimera a exceção.

O presidente deixara bem claro que seu assessor direto continuaria a ser o porta-voz da GSP & L, com Nim passando a representar a companhia em público ainda mais frequentemente. O que o deixava, pensava Nim, amargamente, diretamente na linha das balas. Ou melhor, na linha das bombas.

O presidente também aumentara o salário de Nim. Gratificação por risco de vida, achava o próprio, embora o aumento fosse há muito devido.

- Fraser estava a'cinco meses da aposentadoria - informou ele a Laura Bo.

- O que torna a tragédia ainda mais triste. E como estão os outros?

- Uma secretária ferida nas explosões morreu esta manhã.

Nim a conhecia ligeiramente. Trabalhava para a vice-presidente de finanças e tinha autorização para abrir toda a correspondência, inclusive a que estava marcada "pessoal e confidencial". O privilégio lhe custara a vida e salvara a de sua chefe, Sharlett Underhill, a quem estava endereçado o envelope mortífero. Duas das cinco bombas que tinham explodido haviam ferido diversas pessoas que estavam nas proximidades; um rapaz de 18 anos, escriturário, perdera as mãos.

Um garçom trouxe os drinques e Laura Bo determinou-lhe:

- As contas devem ser separadas. Inclusive do almoço.

- Não se preocupe - comentou Nim, divertido. - Não pretendo suborná-la com a verba de representação da companhia.

- Não conseguiria, mesmo que tentasse. Mas, por uma questão de princípios, não aceito coisa alguma de alguém que possa querer tentar influenciar o Clube da Sequóia.

- Qualquer tentativa de influenciar que eu fizer será abertamente. Apenas achei que conversar durante o almoço era uma boa ideia.

- Estou disposta a ouvi-lo a qualquer momento que desejar, Nim. E sinto prazer em ter sua companhia durante o almoço. Mas nem por isso deixarei de pagar minhas despesas.

Haviam-se conhecido anos antes, quando Nim estava em Stanford e Laura Bo ali fora como professora-convidada. Ela ficara impressionada com as perguntas objetivas de Nim, ele ficara impressionado com a disposição de Laura Bo de respondê-las francamente. Haviam-se mantido em contato desde então; e muito embora estivessem frequentemente em campos opostos, respeitavam-se mutuamente e permaneciam amigos.

Nim tomou um gole do bloody mary.

- Estou querendo conversar basicamente sobre Tunipah. Mas também sobre nossos projetos para o Portão do Diabo e Fincastle.

- Era o que eu imaginava. Talvez possamos ganhar tempo, se eu lhe disser que o Clube da Sequóia pretende se opor a todos.

Nim assentiu. A declaração não o surpreendia. Pensou por um momento, escolhendo cuidadosamente as palavras:

- O que estou querendo que leve em consideração, Laura, é não apenas a Golden State Power & Light ou o Clube da Sequóia ou até mesmo o meio ambiente, mas toda a situação. Talvez pudéssemos chamar de "valores básicos da civilização" ou "a vida que levamos". Mais acuradamente, poderíamos chamar de "expectativas mínimas".

- Para ser franca, penso muito a respeito disso.

- A maioria pensa. Mas, ultimamente, não se pensa o bastante... ou pelo menos de uma maneira objetiva e realista. Porque tudo o que se inclui sob esses rótulos está correndo perigo. Não apenas uma parte, não apenas alguns fragmentos da vida como a conhecemos, mas tudo, simplesmente tudo. Todo o nosso sistema está correndo o perigo de desmoronar.

- Não é um argumento novo, Nim. Já o ouvi muitas vezes, geralmente numa frase mais ou menos assim: "Se esse projeto em particular, para construir isto ou aquilo que irá poluir o meio ambiente, exatamente onde e como queremos, não for aprovado até amanhã, o mais tardar, então o desastre será imediato e inevitável. "

Nim mexeu a cabeça.

- Está recorrendo à dialética contra mim, Laura. Reconheço que tudo o que acabou de falar é frequentemente declarado ou insinuado; a própria Golden State tem sido culpada disso. Mas estou falando agora do problema global... e não se trata apenas de uma atitude, mas da realidade.

O garçom tornou a se aproximar e apresentou dois cardápios com um floreio. Laura Bo ignorou o dela.

- Quero uma salada de abacate e grapefruit e um copo de leite desnatado.

Nim devolveu o seu cardápio.

- vou querer a mesma coisa.

O garçom se afastou com uma expressão desapontada.

- O que parece impossível para que mais do que umas poucas pessoas percebam é o efeito total quando se somam todas as mudanças e calamidades-ocorridas em termos de recursos naturais, tanto as naturais como as políticas.

- Também acompanho o noticiário. - Laura Bo sorriu. - Será que perdi alguma coisa?

- Provavelmente não. Mas por acaso já fez a soma?

- Creio que sim. Mas estou querendo ouvir sua versão.

- Está certo. Número um: a América do Norte está quase sem gás natural. Restam apenas sete ou oito anos de suprimento; e mesmo que novas reservas sejam descobertas, o melhor que podemos esperar é atender aos consumidores já existentes. Não temos condições de servir a novos consumidores, nem agora nem mais tarde. Assim, para o consumo ilimitado, em larga escala, estamos chegando ao fim da linha. A solução seria a gaseificação das reservas de carvão. Mas a estupidez em Washington tem impedido esse programa. Concorda comigo até aqui?

- Claro. Mas se estamos ficando sem gás natural é porque as grandes companhias de serviços públicos, a sua e outras, puseram os lucros acima da conservação e esbanjaram um recurso que poderia ter durado pelo menos mais meio século.

Nim fez uma careta.

- Simplesmente procuramos atender à demanda do público. Mas isso não vem ao caso. Estou falando sobre os fatos do presente. A maneira como o gás natural foi consumido pertence à história e não se pode reparar isso. - Contando nos dedos, Nim apresentou o segundo ponto:

- Agora, vamos ao petróleo. Ainda existem grandes reservas não exploradas. Mas da maneira como o mundo está consumindo petróleo vorazmente, poderemos estar raspando o fundo dos poços ao final do século... que não está tão longe assim. Acrescente-se a isso o fato de todas as nações industrializadas do mundo livre estarem cada vez mais dependentes do petróleo importado, o que nos deixa sujeitos a qualquer pontapé no rabo que os árabes nos possam dar, para fazer chantagem política e económica.

Nim fez uma pausa longa, antes de acrescentar:

- É claro que deveríamos estar liquefazendo carvão, como os alemães fizeram na Segunda Guerra Mundial. Mas os políticos de Washington conseguem arrumar mais votos realizando audiências transmitidas pela televisão, nas quais se preocupam apenas em crucificar as companhias petrolíferas.

- Reconheço que você é bastante persuasivo, Nim. Já pensou em se candidatar a algum cargo público?

- Será que eu conseguiria conquistar a presidência do Clube da Sequóia?

- Provavelmente não.

- Mas já falei no gás natural e no petróleo. Vamos agora à energia nuclear.

- É preciso?

Nim parou de falar, fitando-a atentamente, curioso. Ao ouvir a palavra "nuclear", o rosto de Laura Bo subitamente se contraíra. Era o que sempre acontecia. Na Califórnia e em qualquer outro lugar, ela era uma inimiga veemente das usinas de energia nuclear; e suas opiniões eram ouvidas respeitosamente por causa de sua associação, durante a Segunda Guerra Mundial, com o Projeto Manhattan, que produzira as primeiras bombas atómicas.

Desviando o olhar, Nim comentou:

- Essa palavra ainda é terrível para você, não é mesmo?

- Creio que já devia saber que ainda vejo constantemente a nuvem em forma de cogumelo.

- Sei disso - respondeu ele, gentilmente. - Sei e acho que posso compreender.

- Duvido muito. Era ainda bastante jovem, não se lembra direito do que aconteceu. E não estava envolvido, como eu.

Embora as palavras de Laura Bo fossem controladas, a agonia de tantos anos ainda fervilhava por baixo. Ela era uma jovem cientista atómica que se associara ao projeto da bomba seis meses antes de Hiroxima. Na ocasião, desejava ardentemente participar da história. Depois que a primeira bomba atómica fora lançada - nome em código, Little Boy, Garotinho - Laura Bo ficara horrorizada e indignada. Mas o que a deixara com um terrível sentimento de culpa fora o fato de não ter protestado, depois de Hiroxima, contra o lançamento da segunda bomba atómica - nome em código Fat Man, Homem Gordo - sobre Nagasaki. É verdade que o intervalo entre os lançamentos das duas bombas fora de apenas três dias. É verdade também que nenhum protesto dela poderia impedir o lançamento da bomba em Nagasaki, matando ou mutilando 80. 000 pessoas, simplesmente - como muitos acreditavam - para satisfazer a curiosidade militar e científica. Mas, de qualquer forma, Laura Bo não protestara, o que acabara causando o seu amargo sentimento de culpa.

Pensando em voz alta, ela disse:

- A segunda bomba não era necessária. Muito ao contrário. Os japoneses iam render-se de qualquer maneira, depois de Hiroxima. Mas Fat Man era uma bomba diferente de Little Boy, e os responsáveis queriam experimentá-la, para saber se funcionaria. E o trágico é que funcionou.

- Tudo isso aconteceu há muito tempo, Laura. E não se pode deixar de formular a questão: o que ocorreu no passado deve ser motivo para se impedir hoje a construção de usinas nucleares?

- Para mim, as duas coisas são inseparáveis.

Nim deu de ombros. Tinha a impressão de que a presidente do Clube da Sequóia não era a única pessoa a se opor às usinas nucleares para expiar sentimentos de culpa pessoais ou coletivos. Mas quer isso fosse verdade ou falso, não fazia muita diferença agora.

- Há também - acrescentou Laura Bo - a questão do acidente de Three Mile Island. Espero que esse fato não esteja sendo esquecido.

- Não - disse Nim - ninguém está esquecido disso, tanto do nosso lado quanto do seu. Mas eu gostaria de lembrá-la que ali o desastre foi evitado, corrigiram-se erros e aprendeu-se a lição para ser aplicada em usinas nucleares.

- Evidentemente - comentou Laura Bo - foi essa a argumentação usada para tapear o povo antes do acontecido em Three Mile Island.

- É verdade - Nim viu-se obrigado a admitir. - Ninguém em sã consciência pode negá-lo. Porém mesmo sem Three Mile Island, você e a sua turma já tinham ganho a batalha nuclear. E a ganharam porque, enquanto protestavam e usavam artifícios legais destinados a atrasarem o desenvolvimento e as experiências operacionais, conseguiram elevar tanto o custo das usinas nucleares, e tornaram tão indefinida a aprovação de qualquer projeto nuclear, que a maioria das companhias simplesmente não pode mais empenhar-se nesse campo. Ninguém pode correr o risco de esperar cinco a dez anos, gastando dezenas de milhões de dólares nas providências preliminares, para depois o projeto ser rejeitado. - Nim fez uma pausa e depois acrescentou: - Por isso, em todos os estágios de planejamento precisamos de uma válvula de escape, um caminho alternativo. E que é o carvão.

Laura Bo espetou uma parte da salada.

- O carvão e a poluição do ar estão sempre juntos. Qualquer usina que utilize carvão deve ficar situada num local onde não possa causar maiores danos.

- Foi justamente por isso que escolhemos Tunipah.

- Há razões ecológicas que tornam a escolha errada.

- E pode dizer-me quais são?

- Determinadas espécies de plantas e de vida selvagem não são encontradas praticamente em qualquer outro lugar fora da área de Tunipah. O que estão querendo fazer lá seria pôr em risco essas espécies.

- Uma dessas espécies de plantas que ficariam em perigo é a paparraz?

- Exatamente.

Nim suspirou. Os rumores sobre a paparraz já tinham alcançado a GSP & L. Era uma flor rara e chegara a se pensar que estava extinta, mas recentemente haviam sido descobertas novas culturas. No Maine, os defensores do meio ambiente haviam utilizado a paparraz para deter um projeto hidrelétrico já iniciado no valor de 600. 000. 000 de dólares.

- Tenho certeza de que já sabe, Laura, que os botânicos consideram que a paparraz não possui qualquer valor ecológico. E nem mesmo é uma planta bonita.

Laura Bo sorriu.

- É possível que arrumemos um botânico que tenha uma opinião diferente, para prestar depoimento nas audiências públicas. E há também um outro habitante de Tunipah que não podemos deixar de lê var em consideração: o microdipodops.

- E que diabo é isso?

- É um animal chamado às vezes de camundongo-canguru.

- Essa não! - Antes do encontro, Nim dissera a si mesmo que iria manter-se calmo e controlado, não importava o que pudesse acontecer. Mas descobria agora que não era nada fácil manter sua resolução. - Quer dizer que um simples camundongo, um rato, vai servir para impedir a execução de um projeto que iria beneficiar milhões de pessoas?

Sem perder a serenidade, Laura Bo comentou:

- Espero que esses benefícios relativos sejam devidamente discutidos nos próximos meses.

- Pode estar certa de que serão mesmo! E imagino que irão apresentar objeções semelhantes aos projetos de Fincastle e do Portão do Diabo, embora ambos sejam do tipo mais limpo que o homem ou a natureza podem imaginar!

- Não deve estar esperando, Nim, que eu revele todos os nossos argumentos. Mas não tenha a menor dúvida de que são persuasivos e que iremos combater até o fim os dois projetos.

Num súbito impulso, Nim chamou um garçom que passava.

- Traga outro bloody mary

Ele indicou o copo de martíni vazio de Laura Bo, mas ela sacudiu a cabeça.

- Deixe-me perguntar-lhe uma coisa. - Nim manteve a voz sob controle, irritado consigo mesmo por ter deixado transparecer a raiva que sentia, um momento atrás. - Onde iria localizar essas usinas?

- Esse não é realmente um problema meu, mas de vocês.

- Mas você não iria... ou melhor, o Clube da Sequóia não iria opor-se a qualquer projeto que apresentássemos, não fazendo a menor diferença o local sugerido para a construção da usina?

Laura Bo não respondeu, limitando-se a contrair os lábios.

- Há um outro fato a que ainda não me referi, Laura: o tempo. Os padrões climáticos estão mudando no mundo inteiro, tornando cada vez pior a perspectiva de energia, especialmente elétrica. Os meteorologistas asseguram que vamos enfrentar vinte anos de clima mais frio e secas regionais. E já vimos os efeitos disso em meados da década de setenta.

Houve um longo momento de silêncio entre os dois, preenchido pelos ruídos do restaurante e pelo murmúrio das conversas nas outras mesas. Depois, Laura Bo Carmichael disse:

- Eu gostaria de esclarecer uma coisa: por que exatamente me convidou para encontrá-lo aqui hoje?

- Para fazer-lhe um apelo... e ao Clube da Sequóia... para que pense no quadro geral e modere a oposição.

- Já lhe ocorreu por acaso que nós dois podemos estar vendo quadros gerais diferentes?

- Se estamos, não deveríamos. Afinal, ambos vivemos no mesmo mundo. - Nim fez uma pausa e depois resolveu insistir: - Vamos voltar ao ponto em que comecei. Se nós... isto é, a Golden State Power... formos bloqueados em tudo, o resultado inevitável será catastrófico, dentro de dez anos ou menos. A norma será interrupções diárias no fornecimento de energia. E interrupções prolongadas. Isso significa o deslocamento de indústrias e o desemprego em massa, talvez de até cinquenta por cento. As cidades virarão um caos. Poucas pessoas percebem o quanto dependemos da eletricidade. Mas irão perceber... quanto estiverem privadas de energia em larga escala. Nos campos, as colheitas sofrerão, por causa da deficiência na irrigação. A consequência será a escassez de alimentos, com os preços subindo astronomicamente. O povo ficará sem meios de sobrevivência, passará fome. O impacto sobre a América será muito maior do que o da Guerra Civil. Fará com que a depressão da década de trinta pareça uma brincadeira de criança. E tudo isso não é mero produto da imaginação, Laura! São os fatos, pura e simplesmente os fatos! Será que você e sua gente não se importam?

Nim tomou um gole do bloody mary, que o garçom trouxera enquanto ele estava falando.

- Escutei tudo o que tinha a dizer - falou Laura Bo, a voz agora mais dura, menos amistosa do que no início do almoço. - Agora é a sua vez e também vai escutar-me com toda atenção.

Ela empurrou o prato para o lado, tendo comido apenas a metade da salada.

- Só está pensando, Nim, assim como os outros iguais a você, a curto prazo. Os defensores do meio ambiente, entre os quais está o Clube da Sequóia, estão olhando para o futuro a longo prazo. E o que tencionamos deter, por todos os meios possíveis, são três séculos de espoliação deste planeta.

- Sob alguns aspectos, já conseguiram.

- Não diga bobagem! Mal fizemos alguma coisa e o pouco que conseguimos poderá ser desfeito, se nos deixarmos levar pelas vozes do utilitarismo. Vozes como a sua.

- Só estou suplicando por um pouco de moderação.

- O que você chama de moderação, eu considero como um passo para trás. E dá-lo não vai ajudar a preservar este mundo como um lugar habitável.

Nim disse desdenhosamente, não mais se preocupando em disfarçar o que sen ti a:

- E acha mesmo que será habitável o mundo que acabei de descrever... com cada vez menos energia elétrica?

- Pode surpreender a todos nós tornando-se muito melhor do que imagina - respondeu Laura Bo, calmamente. - Mais importante do que tudo, porém, é que nós estaremos encaminhando para o que a civilização deveria ser... com menos desperdício, menos opulência, muito menos ganância e padrões de vida menos materialistas, o que será ótimo para todos nós. - Ela fez uma pausa, como se avaliasse cuidadosamente o que ia dizer, antes de continuar: - Vivemos por tempo demais com a noção de que o progresso é bom, que o maior é melhor e mais poderoso, que o povo foi submetido a uma lavagem cerebral e está piamente convencido de que'isso é verdade. Idolatra-se o "produto nacional bruto" e o "pleno emprego", esquecendo-se o fato de que nos estão sufocando e envenenando. No que foi outrora "América, a Bela" criamos um deserto horrendo e repulsivo de concreto, arrotando cinzas e ácidos para o que era outrora um ar puro, ao mesmo tempo em que se destruía a vida natural... humana, animal e vegetal. Transformamos rios de águas limpas em esgotos fétidos, lagos aprazíveis em depósitos de lixo. Agora, juntamente com o resto do mundo, estamos emporcalhando o mar com produtos químicos e petróleo. E tudo isso acontece gradativamente, um pouco de cada vez. E quando se protesta contra os estragos, as pessoas de sua espécie suplicam por "moderação", alegando que "desta vez não vamos matar muitos peixes" ou "não vamos matar muita vegetação", "só vamos destruir um pouquinho mais de beleza". Pois algumas pessoas já viram isso acontecer por tempo demais e com uma frequência excessiva para continuar a acreditar nessa mistificação. E o que estamos fazendo é nos dedicarmos a salvar alguma coisa do que restou. Porque achamos que existem coisas mais importantes neste mundo do que o PiB e o pleno emprego. Uma delas é preservar um pouco da pureza eda beleza, além de assegurar uma parte dos recursos naturais para as gerações que ainda não nasceram, ao invés de se esbanjar tudo aqui e agora. São esses os motivos pelos quais o Clube da Sequóia vai combater os projetos de Tunipah, Portão do Diabo e Fincastle. E posso dizer-lhe mais uma coisa: tenho quase certeza de que vamos vencer.

- Concordo com muita coisa que disse, Laura. E sabe disso, porque já conversamos a respeito antes. Mas o erro que está cometendo é ignorar todas as opiniões que são diferentes das suas, instituindo-se como Deus, Jesus, Maomé, Buda, tudo numa só pessoa. Integra um pequeno grupo que sabe o que é bom para o resto do mundo... ou pensa que sabe... e está predisposto a desconhecer os problemas práticos. E os outros que se danem, enquanto vocês fazem o que querem, como crianças mimadas. Ao final, podem destruir a todos nós.

Laura Bo Carmichael disse friamente:

- Creio que não temos mais nada a dizer um para o outro. Chamou o garçom e acrescentou: - Por favor, traga as contas... separadas.

 

Ardythe Talbot seguiu na frente até a sala de estar de sua casa.

- Pensei que não ia mais me procurar - comentou ela. - Se não o fizesse, eu é que iria procurá-lo, dentro de um ou dois dias.

- Tivemos muitos problemas e andei extremamente ocupado explicou Nim. - Imagino que está a par de tudo o que tem acontecido.

A tarde ia chegando ao fim. Nim passara pela casa de Ardythe, como dissera a si mesmo, "a caminho de casa". No início da tarde, deprimido pelo encontro com Laura Bo Carmichael e culpando a si mesmo pelo antagonismo com que terminara, tivera um súbito impulso e ligara para Ardythe. Como era de se esperar, ela se mostrara efusiva e cordial, confidenciando:

- Tenho-me sentido muita solitário e adoraria vê-lo. Por favor... passe aqui por casa depois do trabalho e tomaremos um drinque.

Mas quando chegara, poucos minutos antes, Nim não tivera a menor dúvida de que Ardythe estava pensando em algo mais do que um simples drinque. Comprimentara-o com um abraço e um beijo que não deixavam qualquer dúvida quanto às suas intenções. Nim não tinha qualquer objeção ao que provavelmente iria acontecer, mas se acomodaram numa conversa por algum tempo, enquanto tomavam os drinques.

- Estou, sim. Será que o mundo inteiro ficou louco, Nim?

- Acho que sempre foi. A única diferença é que se nota mais quando as coisas começam a acontecer imediatamente ao nosso redor.

Hoje, pensou Nim, Ardythe parece muito melhor do que naquele dia trágico em que soube da morte de Walter, quase um mês antes. Naquele dia e no funeral, que fora a última ocasião em que Nim a vira, Ardythe parecia velha e cansada. Agora, porém, havia recuperado toda a sua vitalidade e atração. O rosto, braços e pernas estavam bronzeados, os contornos do corpo bem conservado, por baixo do vestido estampado bem justo, recordaram Nim do excitamento mútuo que os dominara na última vez em que ali estivera. Nim lembrou-se de um livro que lhe caíra nas mãos há alguns anos, In Praise ofOlder Women (Em Louvor das Mulheres Mais Velhas). Embora não lembrasse praticamente mais nada além do título, tinha agora uma boa noção do que o autor tencionara transmitir.

- Walter achava que tudo o que acontecia no mundo, guerras, bombardeios, poluição, tudo enfim, é uma parte necessária do equilíbrio da natureza. Alguma vez ele lhe falou sobre isso?

Nim sacudiu a cabeça. Apesar de ter sido amigo do engenheirochefe, geralmente só conversavam sobre coisas práticas, raramente sobre questões filosóficas.

- Geralmente Walter guardava para si tais pensamentos - continuou Ardythe. - Mas me falava. Costumava dizer: "As pessoas pensam que os seres humanos estão no controle do presente e do futuro, mas não é realmente o que acontece." Outra frase frequente de Walter: "O aparente livre-arbítrio do homem é uma ilusão; a perversidade humana é simplesmente mais um instrumento do equilíbrio da natureza." Walter achava que até mesmo as guerras e as doenças tinham uma função na natureza: reduzir a população que a Terra não tem condições de suportar. Disse-me certo dia: "Os seres humanos são como os lemingues que se multiplicam excessivamente e depois correm até a beira de um penhasco para se matar. A única diferença é que os seres humanos se matam de maneira muito mais elaborada. "

Nim estava aturdido. Embora as palavras de Ardythe não tivessem o mesmo sotaque escocês de Walter Talbot, quase que podia ouvir o eco sobrenatural do amigo, que sempre se expressava daquela maneira pensativa, meio sardónica. Era muito estranho que Walter tivesse revelado tudo o que pensava a Ardythe, a quem Nim jamais considerara como uma mulher interessada e profunda. Ou será que isso nada tinha de estranho? Talvez, raciocinou Nim, estivesse descobrindo uma intimidade mental do casamento que ele próprio jamais conhecera.

Perguntou-se como Laura Bo Carmichael reagiria diante da convicção de Walter de que a poluição do meio ambiente era uma parte necessária do equilíbrio da natureza, um aspecto de algum plano superior que os homens só vagamente podiam perceber. Recordando-se em seguida de suas próprias dúvidas espirituais recentes, perguntou a Ardythe:

- Walter equiparava o equilíbrio da natureza a Deus?

- Não. Dizia sempre que isso era fácil demais, muito elementar. Afirmava que Deus era "uma criação dos homens, uma tábua de salvação a que se agarravam as mentes inferiores que tinham medo das trevas. "

Ardythe parou de falar. Nim percebeu que havia lágrimas escorrendo por suas faces. Ela limpou-as e depois acrescentou:

- É o momento do dia em que mais sinto falta de Walter. Era sempre a esta hora que conversávamos.

Por um momento, houve um silêncio constrangedor entre os dois. Mas Ardythe logo disse, firmemente:

- Não, não vou deixar-me cair na depressão.

Ela estava sentada ao lado de Nim e chegou mais perto dele. Nim sentiu o perfume, o mesmo que tanto o excitara na última vez em que ali estivera. E Ardythe murmurou, sorrindo:

- Acho que toda essa conversa sobre natureza me afetou... - E um instante depois, quando se abraçaram, ela acrescentou: - Quero que faça amor comigo, Nim! Preciso de você mais do que nunca!

Nim apertou-a com mais força ainda, enquanto se beijavam ardentemente. Os lábios de Ardythe estavam úmidos e sequiosos; ela suspirou de prazer, recordando a ocasião anterior, quando as mãos começaram a explorar mutuamente. O próprio desejo de Nim, que nunca estava muito abaixo da superfície, aflorou com tal violência e urgência que ele teve de adverti-la, com um sussurro:

- Mais devagar! Espere um pouco! E Ardythe sussurrou em resposta:

- Vamos para meu quarto. Será melhor lá.

Nim sentiu que ela estava tremendamente excitada. Ardythe levantou, ele seguiu-a.

Subiram a escada. Exceto pelo barulho dos passos, a casa estava totalmente silenciosa. O quarto de Ardythe ficava ao final de um corredor pequeno, a porta estava aberta. Lá dentro, Nim viu que a colcha e o lençol de cobrir já tinham sido puxados. Era óbvio que Ardythe preparara tudo antes da chegada dele. Nim lembrou-se, de uma conversa antiga, que Ardythe e Walter dormiam em quartos separados. Embora não mais perturbado pelas inibições de um mês atrás, Nim sentiu-se satisfeito por saber que não iriam fazer amor na cama de Walter.

Ajudou Ardythe a tirar o vestido justo que tanto admirara antes e depois despiu-se rapidamente. Deitaram na cama, macia e aconchegante. Nim murmurou, satisfeito:

- Você tinha razão. É muito melhor aqui.

No instante seguinte, foram vencidos pela impaciência. Ao penetrar nela, Nim arremessou o corpo para a frente e gritou de alegria.

Minutos depois, a paixão consumida, ficaram deitados lado a lado, abraçados. Nim pensou em algo que ouvira certa ocasião: que o ato sexual deixava alguns homens esgotados e deprimidos, perguntando-se por que se haviam dado ao trabalho que o precedera. Mas não era o que acontecia com Nim. Mais uma vez, como sempre, sentia-se revigorado e animado. Ardythe disse suavemente:

- Você é um homem terno e maravilhoso. Há alguma possibilidade de passar a noite aqui?

Nim sacudiu a cabeça.

- Não desta vez.

- Acho que eu não deveria nem ter perguntado. - Ardythe passou um dedo pelo rosto dele, acompanhando o contorno da boca. Prometo que não serei muito voraz. E também não vou incomodá-lo, Nim. Só peço que apareça de vez em quando, sempre que puder.

Nim prometeu, mesmo sem saber como conseguiria, em meio às pressões e complicações que iam aumentando a cada dia que passava. Enquanto se vestiam, Ardythe disse:

- Andei examinando os papéis de Walter e há alguns que gostaria de entregar a você. São documentos que ele trouxe do escritório. Acho que devem ser devolvidos.

- Tem toda razão. Pode deixar que os levarei.

Ardythe mostrou-lhe onde estavam os papéis, em três caixas de papelão grandes, no que fora outrora o gabinete de trabalho de Walter em casa. Nim abriu duas caixas e verificou que continham relatórios e cartas. Deu uma olhada em algumas, enquanto Ardythe estava na cozinha, fazendo café; ele recusara outro drinque.

Os papéis pareciam estar relacionados com assuntos aos quais Walter dedicara um interesse especial. Muitos já tinham diversos anos e não mais eram relevantes. Havia diversas cópias do relatório original de Walter sobre furto de eletricidade e gás, assim como da correspondência posterior a respeito. Na ocasião, Nim recordava-se, o relatório tivera grande repercussão e circulara muito além dos limites da GSP & L. Em decorrência, Walter assumira o papel de especialista. Houvera até mesmo um caso levado a julgamento no Leste para o qual ele fora convocado como testemunha técnica, parte do seu relatório constando dos autos. A seguir, o caso subira a instâncias superiores, sempre acompanhado pelo relatório de Walter. Nim esquecera qual fora o resultado final; não que isso tivesse qualquer importância agora, pensou ele.

Nim examinou mais alguns papéis, depois tornou a guardá-los nas caixas, fechando-as. Levou-as para o vestíbulo, a fim de não esquecer de levá-las para o carro quando fosse embora.

 

A terra vibrava. Um rugido estrondoso, como o de vários aviões a jato decolando ao mesmo tempo, rompeu o quase silêncio; um jato de vapor disparou violentamente para o céu. Instintivamente, os membros do pequeno grupo reunidos numa colina próxima levaram as mãos aos ouvidos, num gesto de proteção. Uns poucos pareciam assustados.

Teresa Van Buren, tirando as mãos dos ouvidos por um momento, gesticulou e gritou, sugerindo que voltassem todos para o ônibus fretado, no qual tinham vindo. Ninguém conseguiu ouvir os gritos, mas o recado era claro. Os vinte e tantos homens e mulheres encaminharam-se apressadamente para o ônibus, estacionado a uns 50 metros de distância.

Dentro do ônibus, equipado com ar condicionado, todas as janelas e a porta fechadas, o barulho lá de fora não era tão intenso.

- Santo Deus! - exclamou um dos homens. - Foi um truque sujo! Se eu tivesse ficado surdo, juro que processaria essa maldita companhia!

Teresa Van Buren perguntou-lhe:

- O que foi mesmo que disse?

- Falei que poderia ter ficado surdo e...

- Já sei. Entendi tudo na primeira vez em que falou. Só queria ter certeza de que não ficou surdo.

Alguns riram. A vice-presidente de relações públicas da GSP & L acrescentou para o grupo de repórteres convidados à excursão:

- Juro que eu não tinha a menor ideia do que iria acontecer. Mas do jeito que aconteceu, simplesmente contamos com muita sorte. Porque vocês tiveram o privilégio de assistir a um novo poço geotérmico entrando em funcionamento.

Teresa falava com o entusiasmo de um prospector de petróleo que acabava de encontrar um novo poço no Texas.

Pelas janelas do ônibus ainda parado, todos olharam para o equipamento de perfuração que estavam observando quando a erupção imprevista ocorrera. Na aparência era a mesma torre de perfuração que se usava nos campos petrolíferos; e podia de fato ser convertida para a exploração de petróleo a qualquer momento. Como Teresa Van Buren, os veteranos calejados reunidos em torno da torre também estavam radiantes.

Não muito longe, havia outros poços geotérmicos, o vapor natural pressurizado sendo desviado para imensos canos. Uma rede de canos, cobrindo vários quilómetros quadrados, como o pesadelo de um encanador, levava o vapor às turbinas-geradores, numa dúzia de construções separadas, sóbrias e quadradas, em pequenas elevações e ravinas. A potência total dos geradores instalados era, no momento, superior a 700. 000 kilowatts, mais do que suficiente para abastecer uma grande cidade. O novo poço iria aumentar ainda mais a potência instalada.

Dentro do ônibus, Teresa olhou para um cameraman de TV, que estava ocupado trocando os filmes do equipamento.

- Conseguiu filmar a erupção?

- Mas claro!

Ao contrário do repórter que se queixara, representante de alguns pequenos jornais do interior, o homem da televisão parecia extremamente satisfeito com a ocorrência inesperada. Terminou de trocar o filme e disse:

- Peça ao motorista para abrir a porta, Tess. Quero filmar de outro ângulo.

No momento em que ele saiu do ônibus, foi envolvido por um cheiro intenso de sulfeto de hidrogénio, igual ao de ovos podres.

- Mas que fedor! - exclamou Nancy Molineaux, do Califórnia Examiner, contraindo as narinas delicadas.

- Nos centros de tratamento de saúde da Europa você teria de pagar para respirar essa porcaria - comentou um repórter de meia-idade, do Los Angeles Times.

- E se você resolver publicar essa declaração - assegurou-lhe Teresa - vamos mandar gravar em pedra e faremos uma reverência a ela duas vezes por dia.

O grupo de jornalistas partira da cidade no início daquela manhã e estava agora nas montanhas escarpadas do Condado de Sevilla, Califórnia, local das usinas geradoras geotérmicas da Golden State Power. Iriam em seguida para o Vale de Fincastle, ali perto, onde a companhia projetava instalar um novo complexo gerador geotérmico. No dia seguinte, o mesmo grupo visitaria uma usina hidrelétrica e o local previsto para a construção de outra.

Ambos os projetos estariam em breve sendo discutidos em audiências públicas. A excursão de dois dias era uma pré-estréia para a imprensa.

- vou contar uma coisa a respeito desse cheiro - continuou a vice-presidente de relações públicas. - O sulfeto de hidrogénio está presente no vapor em pequena quantidade, não o suficiente para se tornar tóxico. Mas recebemos algumas queixas... principalmente de agentes imobiliários que desejam vender terrenos nestas montanhas para a construção de casas de veraneio. Mas a verdade é que o cheiro sempre existiu por aqui, porque o vapor escapava pelo solo, muito antes de começarmos a controlá-lo para gerar eletricidade. E há mais: os velhos moradores da região garantem que o cheiro não é pior agora do que antes.

- Pode provar isso? - indagou um repórter do Mercury, de São José.

Teresa sacudiu a cabeça.

- Infelizmente, ninguém teve a previsão de recolher uma amostra do ar antes das perfurações começarem. Por isso, jamais poderemos comparar o "antes" e "depois", e ficamos sem poder responder objetivamente às críticas.

- Que provavelmente são procedentes - comentou sardonicamente o representante do Mercury, de São José. - Todo mundo sabe que uma grande corporação como a Golden State Power de vez em quando distorce um pouco a verdade.

- vou encarar o comentário como uma piada - respondeu Teresa. - Mas uma coisa é verdade: sempre procuramos atender às exigências dos críticos.

Uma outra voz disse, cepticamente:

- Dê um exemplo.

- Há um bem aqui, relacionado com o cheiro. Por causa das objeções de que lhes falei, localizamos duas usinas recentemente instaladas no alto de elevações, onde há fortes correntes de ar que dissipam rapidamente todos os odores.

- E o que aconteceu? - perguntou Nancy Molineaux.

- Houve ainda mais queixas do que antes... dos defensores do meio ambiente. Diziam que estávamos estragando a linha do horizonte.

Houve algumas risadas e uns poucos repórteres anotaram o fato. Teresa continuou:

- Tivemos recentemente outro caso em que atendemos às exigências de alguns críticos e incorremos na ira de outras pessoas. A GSP & L preparou um filme sobre o sistema gerador geotérmico. O roteiro começava com uma cena de um caçador chamado William Elliott, que descobriu este lugar em 1847. Ele atirava num urso pardo e depois levantava a cabeça da mira do rifle para ver um jato de vapor saindo do solo. Pois alguns defensores da vida selvagem leram o roteiro e disseram que não deveríamos mostrar o urso pardo sendo abatido, pois tais animais estão hoje protegidos. O roteiro foi refeito. No filme, o caçador erra o tiro. E o urso pardo escapa.

O repórter de uma emissora de rádio, com o gravador ligado, indagou:

- E qual foi o problema?

- Os descendentes de William Elliott ameaçaram-nos com um processo. Disseram que seu antepassado fora um caçador famoso e um exímio atirador. Jamais teria errado o urso pardo. Sendo assim, o filme denegria a reputação dele... e da família.

- Estou lembrado desse caso - comentou o homem do Los Angeles Times.

Teresa acrescentou:

- O que estou querendo mostrar é o seguinte: o que quer que façamos, como uma companhia de serviço público, podemos estar certos de que seremos atacados de um lado ou de outro, às vezes de ambos.

- Gostaria que começássemos a chorar agora? - indagou Nancy Molineaux. - Ou prefere que deixemos para mais tarde?

O cameraman da TV bateu na porta do ônibus e foi readmitido.

- Se todo mundo já está pronto, podemos ir almoçar - disse Teresa. Como todos assentissem, ela virou-se para o motorista e acrescentou: - Vamos embora.

Um repórter da revista New West perguntou:

- Vai haver drinques, Tess?

- Talvez... se todo mundo concordar que o fato não será registrado. - Ela correu os olhos ao redor e, um a um, todos assentiram. Neste caso... podemos tomar uns drinques antes do almoço.

Dois ou três repórteres soltaram vivas.

Por trás do diálogo, havia uma história recente.

Dois anos antes, a GSP & L se mostrara extremamente generosa no fornecimento de bebidas e comida em uma excursão semelhante da imprensa. Os repórteres haviam comido e bebido com prazer e depois alguns haviam declarado em seus veículos que era um momento inoportuno para a GSP & L receber tão suntuosamente seus convidados, numa ocasião em que as contas de eletricidade e gás eram cada vez mais altas. Em consequência, a comida que atualmente se oferecia à imprensa era deliberadamente modesta e não se forneciam drinques, a menos que os repórteres assumissem o compromisso de que isso não seria noticiado.

O esquema dera certo. A imprensa podia criticar tudo o mais, porém ninguém falava da maneira como fora recebido e alimentado.

O ônibus percorreu quase - dois quilómetros dentro do campo geotérmico, por estradas estreitas, irregulares, serpenteando através de poços abertos, instalações geradoras e o onipresente labirinto de canos de vapor, zumbindo constantemente. Havia bem poucos outros veículos na área. Por causa do perigo de um escapamento de vapor escaldante, o público não tinha acesso à área e todos os visitantes eram devidamente acompanhados por funcionários da companhia.

Em determinado ponto, o ônibus passou por uma gigantesca estação transformadora. Dali, linhas de transmissão de alta voltagem, estendidas em torres, transmitiam a energia através das montanhas para duas subestações a 65 quilómetros de distância, onde era ligada ao sistema geral da Golden State Power & Light.

Num pequeno platô asfaltado, estavam parados diversos trailers, que serviam como escritórios e como alojamentos para as equipes que trabalhavam no local. O ônibus parou ao lado deles. Teresa Van Buren entrou num dos trailers, com algumas mesas postas, seguida pelos jornalistas. Lá dentro, ela disse a um garçom de casaco branco:

- Muito bem, pode abrir a jaula do tigre.

Ele tirou uma chave do bolso e abriu um armário, expondo diversas garrafas de uísque, vinhos e outras bebidas. Um momento depois, foi trazido um balde de gelo e a vice-presidente de relações públicas disse a todos:

- Sirvam-se à vontade!

A maioria já estava no segundo drinque quando se ouviu o barulho de um motor lá fora, cada vez mais intenso. Pelas janelas do trailer, diversas pessoas ficaram observando um pequeno helicóptero descer. Tinha as cores laranja e branca e trazia o logotipo da GSP & L. Pousou perto do trailer e os rotores foram diminuindo gradativamente, até pararem de todo. Uma porta se abriu, e Nim Goldman saltou.

Momentos depois, Nim juntou-se ao grupo dentro do trailer. Teresa Van Buren anunciou:

- Creio que a maioria já conhece o Sr. Goldman. Ele veio até aqui para responder a todas as perguntas que desejarem fazer.

- vou fazer a primeira pergunta! - disse, jovialmente, um correspondente de TV. - Aceita um drinque?

Nim sorriu.

- Obrigado. vou tomar vodca com água tónica.

- Ei, mas que cara importante, para vir de helicóptero enquanto nós tivemos que vir aos solavancos num ônibus! - comentou Nancy Molineaux.

Nim fitou cautelosamente a jovem negra e atraente. Recordava-se perfeitamente do encontro anterior entre os dois, do atrito que ocorrera; e lembrava também que Teresa Van Buren declarara que Nancy Molineaux era uma jornalista de primeira qualidade. Nim achava, no entanto, que ela continuava a ser uma cadela impertinente.

- Se alguém está interessado - disse ele - tive que me ocupar com outro problema esta manhã e foi por isso que tive de vir mais tarde, de helicóptero.

Mas Nancy Molineaux não era de desistir facilmente.

- Todos os executivos da companhia andam de helicóptero quando estão com vontade?

Teresa Van Buren interveio na conversa, dizendo rispidamente:

- Sabe muito bem que isso não acontece, Nancy. Nim acrescentou:

- A companhia possui e opera meia dúzia de pequenos aparelhos aéreos, inclusive dois helicópteros. São utilizados principalmente para patrulhar linhas de transmissão, verificar as nevascas nas montanhas, transportar suprimentos urgentes e outras emergências. Ocasionalmente... só muito raramente... tais aparelhos podem transportar um executivo da companhia, se o motivo é bastante importante. E disseram-me que este encontro era importante.

- Está por acaso insinuando que agora já não tem mais certeza?

- Já que faz questão de perguntar, Srta. Molineaux - respondeu Nim, friamente - reconheço que agora tenho dúvidas.

- Ei, pare com isso, Nancy! - gritou uma voz, dos fundos do trailer. - Não estamos interessados nisso!

Nancy Molineaux virou-se bruscamente na direção dos colegas.

- Pois eu estou! Sempre me interesso pela maneira como o dinheiro do povo é esbanjado! E se não estão interessados, deveriam estar!

- O propósito de nossa presença aqui - recordou Teresa Van Buren - é mostrar-lhes nossas instalações geotérmicas e falarmos sobre...

- Não! - interrompeu-a Nancy Molineaux, bruscamente. - Esse é o seu propósito. A imprensa é que decide quais são os seus próprios objetivos, que podem incluir os seus, mas também abrangem tudo o mais que por acaso possamos ver ou ouvir e sobre o qual resolvamos escrever.

- É claro que ela está certa! - O comentário era de um homem de modos afáveis, óculos sem aros, representante do Bee, de Sacramento.

Tomando um gole de vodca com água tónica, Nim disse a Teresa Van Buren:

- Tess, acabei de chegar à conclusão de que prefiro o meu trabalho ao seu.

Diversos jornalistas riram, enquanto a vice-presidente de relações públicas dava de ombros.

- Se já acabaram com essa merda - disse Nancy Molineaux - eu gostaria de saber qual o preço de compra daquela batedeira de luxo lá fora e quanto custa por hora para operá-la.

- vou verificar - respondeu Teresa Van Buren. - Se os dados forem disponíveis e decidirmos divulgá-los, eu lhe informarei amanhã. Mas se decidirmos que isso é assunto interno da companhia, eu lhe direi que não é da sua conta!

- Nesse caso - declarou Nancy Molineaux, imperturbável - encontrarei outro meio de descobrir.

A comida foi trazida nesse momento, uma imensa travessa de bolos de carne e, em pratos grandes de barro, puré de batatas e abobrinha. Duas tigelas de louça tinham um molho fumegante.

- Sirvam-se! - convidou Teresa Van Buren. - É comida de operário, mas serve perfeitamente para os gourmandsl

Enquanto o grupo começava a se servir, os apetites aguçados pelo ar das montanhas, as tensões de um momento antes se desvaneceram. Assim que todos acabaram de comer, apareceram meia dúzia de tortas de maçã, acompanhadas por um latão de sorvete de creme e diversos bules de café preto.

- Estou satisfeito - anunciou finalmente o representante do Los Angeles Times. Ele recostou-se na cadeira, afagou a barriga e suspirou, antes de acrescentar: - É melhor começar logo a vender o seu peixe, Tess, enquanto ainda estamos acordados.

O homem da TV que servira o drinque para Nim perguntou-lhe:

- Esses gêiseres vão durar por quanto tempo?

Nim, que comera pouco, tomou um último gole do café, puro, sem açúcar, depois empurrou a xícara para o lado.

- Antes de responder, eu gostaria de esclarecer um ponto. O que temos aqui são fumarolas e não gêiseres. Os gêiseres expelem água fervendo junto com o vapor, enquanto as fumarolas expelem apenas vapor, o que é muito melhor para acionar as turbinas. Quanto à duração desse vapor, a resposta verdadeira é simples: ninguém sabe. Podemos apenas fazer suposições.

- Pois então dê o seu palpite - disse Nancy Molineaux.

- Um mínimo de 30 anos. Talvez o dobro, talvez até mais. O representante de New West pediu:

- Diga-nos que diabo está acontecendo nesta chaleira maluca. Nim assentiu.

- A Terra foi outrora uma massa fundida... gasosa e líquida. Quando esfriou, formou-se uma crosta, sobre a qual estamos agora vivendo. Lá dentro, no entanto, 30 quilómetros abaixo da superfície, continua tão quente quanto antes. Esse calor residual expele vapor através de trechos mais finos da crosta. Como aqui.

O repórter do Bee, de Sacramento, perguntou:

- E esse fino representa o quê?

- Estamos provavelmente, neste ponto, a oito quilómetros acima da massa quente. Nesses oito quilómetros, há falhas na estrutura, nas quais o vapor se acumulou. Quando perfuramos um poço, procuramos atingir uma dessas falhas em que há vapor acumulado.

- Quantas outras áreas como esta produzem eletricidade?

- Bem poucas. A mais antiga usina geradora geotérmica fica na Itália, perto de Florença. Há outra na Nova Zelândia, em Wairakei, e outras no Japão, Islândia e Rússia. Mas nenhuma é tão grande quanto a da Califórnia.

- Mas o potencial é muito maior do que foi até agora aproveitado

- interveio Teresa Van Buren. - Especialmente neste país.

O representante da Tribune, de Óakland, perguntou:

- Exatamente onde?

- Praticamente por toda a região ocidental dos Estados Unidos respondeu Nim. - Das Montanhas Rochosas até o Pacífico.

- E trata-se também de uma das formas mais limpas, seguras e não-poluidoras de gerar energia - acrescentou Teresa Van Buren. - E ainda relativamente barata, tendo em vista os custos atuais.

- Vocês dois têm uma conversa macia que é quase irresistível comentou Nancy Molineaux. - Mas quero fazer duas perguntas. Vamos à primeira. Tess falou que é uma forma segura de obter energia. Mas tem havido acidentes aqui, não é mesmo?

- Sim - admitiu Nim. - Houve dois acidentes graves, com um intervalo de três anos. As tampas de poços já perfurados explodiram. Ou seja, o vapor escapou inteiramente ao controle. Conseguimos fechar novamente um deles. O outro, a que chamamos de Old Desesperado, jamais foi inteiramente dominado. Ainda podem vê-lo.

Todos os repórteres estavam agora prestando extrema atenção, escrevendo rapidamente ou com os gravadores ligados. Nim foi até uma janela do trailer e apontou para uma área cercada, a meio quilómetro de distância. Dentro da cerca, o vapor subia esporadicamente em meia dúzia de pontos, através da lama borbulhante. Do lado de fora, imensos cartazes vermelhos alertavam: PERIGO INTENSO MANTENHA-SE AFASTADO. Os repórteres se levantaram para dar uma espiada e depois voltaram a seus lugares.

- Quando Old Desesperado explodiu - continuou Nim - choveu lama quente por quase dois quilómetros ao redor, com pedras caindo como granizo. Os danos foram consideráveis. Caiu lama nas linhas de transmissão e nos transformadores, provocando curtos-circuitos, deixando-nos fora de ação por uma semana. Felizmente, aconteceu numa noite em que poucas pessoas estavam de serviço aqui e houve apenas dois feridos, sem nenhuma morte. A segunda explosão, em outro poço, foi menos grave. Não houve nenhum ferido.

- O Desesperado pode explodir novamente? - indagou o representante de pequenos jornais do interior.

- Acreditamos que isso não acontecerá. Mas, como tudo o mais que se refere à natureza, não há qualquer garantia.

- Mas a verdade é que houve mesmo acidentes - insistiu Nancy Molineaux.

- Acidentes acontecem em toda parte - respondeu Nim, muito tenso. - O que Tess falou era a verdade: podemos considerar que é seguro quando a incidência de acidentes é muito baixa. Qual é a sua segunda pergunta?

- Supondo que tudo o que vocês disseram é verdade, por que não se criaram mais usinas geotérmicas?

- Essa é fácil de responder - disse o homem da New West. Aposto como eles vão culpar os defensores do meio ambiente.

Nim reagiu com alguma rispidez:

- Está completamente enganado! A Golden State Power já teve suas divergências com os defensores do meio ambiente e provavelmente terá ainda muitas outras. Mas os recursos geotérmicos ainda não foram explorados mais depressa por causa dos políticos. Mais especificamente, por culpa do Congresso dos Estados Unidos.

Teresa Van Buren lançou um olhar de advertênciapara Nim, que o ignorou.

- Espere um instante! - gritou um dos correspondentes da televisão. - Quero registrar essa declaração em filme. Pode repetir lá fora?

- Não há problema.

- Ei, primeiro vai ter de falar para nós, repórteres de verdade! protestou o representante da Tribune, de Oakland. - Deixe esse negócio de televisão para depois e continue a falar!

Nim concordou.

- A maior parte das terras, cujo potencial geotérmico há muito já deveria estar sendo explorado, pertence ao Governo Federal.

- Em que Estados? - perguntou alguém.

- Oregon, Idaho, Montana, Nevada, Utah, Colorado, Arizona, Novo México. E diversos outros locais na Califórnia.

Outra voz recomendou:

- Continue!

As cabeças estavam abaixadas, as canetas esferográficas deslizavam sobre o papel. Nim prosseguiu:

- Foram necessários dez anos de conversas, desconversas e protelações no Congresso para que fosse aprovada a legislação que autorizava o arrendamento das terras públicas com potencial geotérmico. Depois, houve mais três anos de espera, enquanto eram deliberados os padrões e regulamentos de proteção ao meio ambiente que deveriam ser observados na exploração. E mesmo agora, depois de tudo pronto, poucos arrendamentos já foram aprovados. Cerca de noventa por cento dos pedidos estão engavetados no limbo burocrático.

O representante do Mercury, de São José, interveio:

- Está querendo dizer que, durante todo esse tempo, nossos patrióticos políticos estavam recomendando ao povo para poupar energia, pagar impostos e preços mais altos para o combustível e ser menos dependente do petróleo importado?

O repórter do Los Angeles Times resmungou:

- Vamos deixá-lo dizer isso diretamente. Quero uma citação textual.

- Pois já a tem. Endosso as palavras que acabaram de ser pronunciadas.

Teresa Van Buren interveio nesse momento, dizendo firmemente:

- Já chega! Vamos falar agora sobre Fincastle, para onde iremos assim que terminarmos aqui.

Nim sorriu.

- Tess sempre tenta evitar-me encrencas, nem sempre o conseguindo. De passagem, gostaria de acrescentar uma informação: o helicóptero vai voltar daqui a pouco. Ficarei com vocês até amanhã. Muito bem, vamos a Fincastle. - Nim tirou um mapa de sua pasta e pregou-o num quadro de avisos no trailer. - Fincastle, como podem ver no mapa, é formado por dois vales, a Leste daqui. É uma área desabitada e sabemos que possui um grande potencial geotérmico. Os geólogos já chegaram à conclusão de que as perspectivas são excepcionais, que provavelmente se poderá obter duas vezes mais energia elétrica do que a gerada aqui. As audiências públicas sobre o projeto de Fincastle serão iniciadas em breve.

Teresa Van Buren perguntou:

- Posso falar?

Nim deu um passo para trás e ficou esperando.

- Gostaria de deixar algo bem claro - declarou a vice-presidente de relações públicas. - Não estamos tentando convertê-los ou atenuar a oposição. Queremos simplesmente que compreendam tudo o que está envolvido e onde. Obrigada, Nim.

Ele disse prontamente:

- Uma informação sobre Fincastle... e sobre o Portão do Diabo, que visitaremos amanhã: esses projetos representam um verdadeiro Niagara de petróleo árabe que os Estados Unidos não terão mais de importar. Neste momento, nossas instalações geotérmicas estão poupando dez milhões de barris de petróleo por ano. Podemos triplicar isso, se...

E a entrevista continuou, com informações e perguntas, entremeadas de gracejos.

 

O envelope azul claro tinha o nome e endereço datilografados, começando assim:

NIMROD GOLDMAN, ESQUIRE - PESSOAL

Um bilhete da secretária de Nim, Vicki Davis, estava anexado ao envelope:

"Ò Sr. London já submeteu esta carta ao detector de metal. Diz que pode abrir sem qualquer preocupação. "

O bilhete de Vicki era satisfatório por dois motivos: indicava que toda correspondência que chegava à sede da GSP & L marcada "pessoal" (ou também "confidencial", como as recentes cartas-bombas) estava sendo tratada cautelosamente e que já haviam começado a usar o detector de metal recentemente instalado.

Havia algo mais de que Nim também já se apercebera: desde o dia terrível em que Harry London salvara sua vida e a de Vicki Davis, London parecia ter assumido voluntariamente o papel de protetor permanente de Nim. Vicki, que passara a encarar o chefe do Departamento de Proteção à Propriedade com um sentimento próximo da veneração, cooperava ao máximo, enviando a London, com toda antecedência possível, a programação das reuniões e deslocamentos de Nim. Este só soubera de tais providências por acaso e não sabia se devia sentir-se grato, irritado ou divertido.

De qualquer forma, pensou ele, estava agora muito longe da vigilância de Harry.

Nim, Teresa Van Buren e os representantes da imprensa haviam passado a noite num posto avançado da Golden State Power, o acampamento do Portão do Diabo, onde chegaram de ônibus, procedente de Fincastle. Fora uma viagem de quatro horas, em parte através do cenário espetacular da Floresta Nacional de Plumas.

O acampamento ficava a 55 quilómetros do povoado mais próximo e estava situado entre montanhas escarpadas. Compreendia meia dúzia de casas pertencentes à companhia para os engenheirosresidentes, capatazes e suas famílias, uma pequena escola, agora fechada para as férias de verão, e dois alojamentos ao estilo de motel, um para os empregados da GSP & L e outro para visitantes. Por cima, passavam linhas de transmissão de alta tensão, presas em torres de aço, lembrando sempre qual era o motivo da presença ali daquela pequena comunidade.

O pessoal da imprensa fora dividido por sexo e depois acomodado no alojamento para visitantes, quatro pessoas em cada quarto, simples mas confortável. Houvera alguns resmungos por causa da disposição de quatro pessoas por quarto, a implicação sendo a de que, se houvesse mais privacidade, poderiam ocorrer algumas relações mais íntimas.

Nim ocupara um quarto sozinho, no alojamento para empregados da companhia. Após o jantar, na noite anterior, ficara bebendo com alguns jornalistas e participara de um jogo de pôquer durante duas horas. Finalmente pedira licença e fora deitar-se, pouco antes da meia-noite. Despertara naquela manhã revigorado e estava agora pronto para o café, que começaria a ser servido dentro de alguns minutos, às 7: 30.

Na varanda do alojamento dos empregados, respirando o ar fresco da manhã, Nim examinou atentamente o envelope azul.

Fora trazido por um mensageiro da companhia, viajando durante a noite como um moderno Paul Revere e levando a correspondência para o Portão do Diabo e outros postos avançados da GSP & L. Aquilo fazia parte de um sistema de comunicações internas, de forma que a carta para Nim não representava uma carga extra. Mesmo assim, pensou ele, irritado, se Nancy Molineuax soubesse que uma carta pessoal lhe fora encaminhada daquela maneira, teria outro motivo para destilar seu veneno. Felizmente, ela não tomaria conhecimento.

A recordação desagradável de Nancy Molineaux fora acionada por Teresa Van Buren. Ao entregar a carta a Nim, minutos antes, Tess informara que também recebera uma mensagem, com as informações que pedira no dia anterior, sobre os custos do helicóptero. Nim ficara indignado e protestara:

- Vai realmente ajudar aquela vagabunda a nos crucificar?

- Chamá-la de vagabunda e outras coisas não vai adiantar nada

- dissera Tess, pacientemente. - Há ocasiões em que os executivos como você não entendem absolutamente o que seja relações públicas.

- Se isso é um exemplo, então você está absolutamente certa!

- Não podemos ganhar todas, Nim. Reconheço que ontem fiquei profundamente irritada com Nancy. Mas pensei no caso e cheguei à conclusão de que ela vai escrever sobre o helicóptero, o que quer que façamos ou digamos. Assim, é melhor que tenha as informações corretas, pois, se for indagar em outra parte ou se basear nas estimativas de alguém, podemos estar certos de que os números serão exagerados. Outra coisa: estou sendo franca agora com Nancy e ela sabe disso. No futuro, quando aparecer algo mais importante, ela confiará em mim e talvez possamos tirar um proveito muito maior. Nim comentara, sarcasticamente:

- Mal posso esperar pelo momento em que aquela boca de veneno escreverá algo favorável a nosso respeito.

- Voltaremos a nos encontrar ao café da manhã, Nim. E faça um favor a si mesmo: trate de se acalmar.

Mas Nim não conseguira controlar-se. Ainda estava fervendo interiormente, quando abriu o envelope azul.

Tinha uma única folha lá dentro, azul-clara como o envelope. No alto, estava impresso: De Karen Sloan.

Subitamente, ele se recordou do que Karen dissera: "Costumo escrever poesias. Gostaria que eu lhe mandasse algumas?" E ele respondera que sim.

As palavras estavam impecavelmente datilografadas:

Hoje encontrei um amigo

Ou talvez ele me tenha encontrado

Ou talvez fosse o destino, acaso, circunstâncias...

Predestinação, qualquer que seja o nome.

Seremos como estrelas-anãs cujas órbitas

Projetadas no início dos tempos

No devido momento

Se encontram?

Nunca iremos saber,

Mas não importa! Pois o instinto me diz

Que nossa amizade, alimentada,

Irá tornar-se cada vez mais forte.

E muito gosto dele;

Seu jeito tranquilo, simpatia,

O espirito alegre, inteligência,

Um rosto franco, olhos bondosos, sorriso fácil.

"Amigo" não é fácil definir. E, no entanto, Tais coisas significam isso para mim Em relação àquele a quem, mesmo agora, Espero ver novamente A contar os dias e horas Até um segundo encontro.

O que mais Karen dissera naquele dia em seu apartamento? "Posso usar uma máquina de escrever. É elétrica e trabalho com uma vareta presa nos dentes. "

Dominado por uma emoção intensa, Nim imaginou-a trabalhando, lenta e pacientemente, formando as palavras que ele acabara de ler, os dentes segurando firmemente a vareta, a cabeça loura - a única parte do corpo que ela podia mover - voltando a se erguer depois de cada esforço árduo para tocar uma tecla. Perguntou-se quantos esboços Karen não teria feito antes de chegar à versão final impecavelmente datilografada que lhe mandara.

Inesperadamente, o ânimo de Nim mudou. A irritação de um momento antes se dissipara, substituída por um sentimento de gratidão e afeição.

Ao seguir para o encontro com o pessoal da imprensa, a fim de tomarem o café da manhã juntos, Nim ficou surpreso ao se deparar com Walter Talbot Jr. Não via Wally desde o dia do funeral do pai dele. Por um momento, Nim sentiu-se constrangido, recordando sua recente visita a Ardythe. Depois, racionalizou que Wally e a mãe levavam vidas independentes e separadas.

Wally cumprimentou-o efusivamente:

- Oi, Nim! O que o traz por aqui?

Nim informou-o da excursão de dois dias com os jornalistas e depois indagou:

- E você, o que está fazendo aqui?

Wally olhou para as linhas de alta tensão que passavam acima.

- A patrulha de helicóptero descobriu isoladores quebrados numa das torres... provavelmente um caçador que as usou para praticar tiro ao alvo. Minha equipe vai substituir todos os isoladores quebrados, trabalhando com a linha quente. Esperamos acabar ainda esta tarde.

Enquanto conversavam, um terceiro homem se aproximou. Wally apresentou-o como Fred Wilkins, um técnico da companhia.

- Prazer em conhecê-lo, Sr. Goldman. Já ouvi falar a seu respeito. E ultimamente o tenho visto muito na televisão. - O recémchegado devia estar beirando os 30 anos, os cabelos vermelhos, o rosto saúdavelmente bronzeado. Wally comentou:

- Como pode ver pela aparência dele, Nim, Fred vive aqui.

- Gosta do acampamento? - indagou Nim. - Não acha que é muito solitário?

Wilkins sacudiu a cabeça, enfaticamente.

- Não para mim, senhor. Nem para minha esposa. E as crianças também adoram. - Aspirou fundo. - Respire só este ar! Muito melhor do que na cidade. E há muito sol, todo o peixe que se puder pegar

Nim soltou uma risada.

- Talvez eu ainda experimente umas férias aqui.

- Papai! - gritou uma voz de criança. - O correio já chegou?

Os três se viraram, avistando um garoto correndo na direção deles. Tinha um rosto alegre, sardento, os cabelos vermelhos, tornando inconfundível quem era o pai.

- Só chegou o mensageiro da companhia, filho - disse Fred Wilkins. - O furgão do correio só vai aparecer daqui a uma hora. Virando-se novamente para os outros, explicou: - Danny está excitado porque é seu aniversário. Está esperando receber alguns embrulhos.

- Tenho oito anos - declarou o garoto, que parecia grande e forte para sua idade. - Já recebi alguns presentes, mas talvez cheguem mais.

- Feliz aniversário, Danny! - disseram Nim e Wally ao mesmo tempo.

Separaram-se momentos depois. Nim continuou em seu caminho até o alojamento dos visitantes.

 

Na semi-escuridão do túnel do canal de descarga, por cima do estrondo intenso da água confinada que avançava impetuosamente, o repórter da Tribune, de Oakland, gritou:

- Depois desse dois dias, vou pedir uma semana de tranquilidade na seção de obtuârio.

Diversos jornalistas ali perto sorriam, mas menearam a cabeça, incapazes de ouvir as palavras, por dois motivos: o barulho forte da água correndo e os tampões de algodão nos ouvidos. Os tampões, que serviam para atenuar um pouco o barulho, haviam sido entregues à entrada por Teresa Van Buren. Isso acontecera logo depois que o grupo descera por uma escada de pedra íngreme até o ponto em que o canal de descarga da usina geradora de Portão do Diabo l se lançava impetuosamente no Rio Pineridge, seis metros abaixo.

Enquanto ajeitavam os tampões, preparando-se para entrar no túnel, alguém gritara:

- Ei, Tess, por que está nos levando pela porta dos fundos?

- É a entrada de serviço. Desde quando gente como vocês merece coisa melhor? Além do mais, estão sempre pedindo por um pouco de cor local para suas reportagens. Pois é o que vão ter agora.

- Cor? Ali?

Quem falara tinha sido o repórter do Los Angeles Times, em tom céptico, esquadrinhando a escuridão interrompida apenas por algumas fracas lâmpadas. O túnel era mais ou menos circular, escavado na rocha viva; as paredes eram irregulares, tendo ficado como na época da escavação. As lâmpadas estavam próximas ao teto. Suspenso entre as lâmpadas e as águas turbulentas havia uma passadiço estreito, sobre o qual os visitantes podiam avançar. Havia cordas nos dois lados do passadiço, para que as pessoas pudessem segurar-se.

Durante o café da manhã, Nim Goldman explicara o que iam ver:

- Trata-se de uma usina hidrelétrica subterrânea, inteiramente dentro da montanha. Mais tarde, conversaremos sobre o projeto da usina de acumulação e bombeamento do Portão do Diabo, que será também subterrânea... inteiramente fora de vista.

Depois de uma breve pausa, o vice-presidente acrescentara:

- O túnel do canal de descarga, para onde vamos, é na verdade o final do processo de geração de energia. Mas poderão ter uma idéia do tipo de forças com que lidamos. As águas que irão ver já passaram pelas turbinas, acionando-as, seguindo adiante, em tremendas quantidades.

O fluxo impetuoso já era evidente fora do túnel, para os que se inclinaram sobre a amurada de ferro por cima do rio, observando a torrente juntar-se ao turbilhão que mesmo antes já era violento.

- Eu detestaria cair lá embaixo! - comentou o repórter da Rádio KFSO, perguntando em seguida a Teresa Van Buren: - Alguém já caiu?

Só uma vez, ao que saibamos. Um operário escorregou e caiu. Era um nadador excepcional, tendo inclusive ganhado diversas medalhas, conforme descobrimos depois. Mas o fluxo do canal de descarga puxou-o para baixo. O corpo só voltou a aparecer três semanas depois.

Instintivamente, os que estavam junto à amurada deram um passo para trás.

Outra coisa que Nim dissera, antes da visita, era o fato de aquele canal de descarga ser único em seu género:

- O túnel tem cerca de meio quilómetro de extensão e foi escavado horizontalmente na encosta da montanha. Enquanto o túnel estava sendo construído e antes da entrada de qualquer água, havia trechos em que dois caminhões podiam passar lado a lado.

Nancy Molineaux sufocara ostensivamente um bocejo.

- Mas que merda! Vocês têm simplesmente uma caverna grande, comprida e úmida. Qual é a notícia nisso?

- Não há necessariamente qualquer notícia - explicara Teresa Van Buren. - Toda esta excursão de dois dias foi organizada para lhes proporcionar informações básicas sobre o problema. Todos estavam a par disso antes, inclusive os editores.

- Informações básicas ou baboseiras? - indagara Nancy Molineaux.

Os outros riram.

- Não faz diferença - dissera Nim. - Eu já tinha mesmo terminado.

Vinte minutos mais tarde, depois de uma curta viagem de ônibus, Nim entrara no túnel do canal de descarga à frente dos jornalistas.

A umidade fazia um tremendo contraste com o dia quente e ensolarado lá fora. À medida que o grupo avançava, em fila indiana, poucos metros acima das águas espumantes, o círculo da luz do dia lá atrás foi-se tornando cada vez menor, até ficar reduzido a um minúsculo ponto. À frente, as poucas lâmpadas espaçadas pareciam estender-se por uma distância ilimitada. De vez em quando, alguém parava e olhava lá para baixo, apertando ainda mais firmemente as cordas.

Finalmente, chegaram ao fim do túnel e a uma escada de aço vertical. Ao mesmo tempo, podia-se ouvir um novo som: era o zumbido dos geradores, que se foi tornando cada vez mais intenso, até transformarse num troar impressionante na base da escada. Nim apontou para cima e subiu na frente, seguido pelos outros.

Passaram por um alçapão aberto para uma câmara geradora inferior, subindo em seguida por uma escada circular para a sala de controle, intensamente iluminada, dois andares acima. Ali, para alívio geral, o nível de barulho era consideravelmente menor, somente um ligeiro zumbido penetrando através das paredes isolantes.

Por uma imensa placa de vidro, podiam-se avistar dois gigantescos geradores em funcionamento, imediatamente abaixo.

Na sala de controle, um técnico solitário estava escrevendo anotações num livro, à medida que examinava diversos mostradores, luzes coloridas e gráficos, que ocupavam toda uma parede. Ao ouvir o grupo entrar, ele virou-se. Nim já o tinha reconhecido, mesmo antes disso, pelos cabelos vermelhos.

- Olá, FredWilkins.

- Oi, Sr. Goldman!

O técnico murmurou um "bom-dia" aos visitantes e depois continuou fazendo suas anotações. Nim explicou aos jornalistas:

- Estamos cento e cinquenta metros abaixo da superfície. Esta usina foi construída abrindo-se um poço vertical, como se faz numa mina. Há um elevador que vai daqui à superfície. Por outro poço, passam as linhas de transmissão de alta tensão.

- Não há muitas pessoas trabalhando por aqui - comentou o representante do Bee, de Sacramento, olhando através do vidro para o piso dos geradores, onde não havia ninguém.

O técnico fechou o livro em que fizera suas anotações e sorriu.

- E mais alguns minutos e não verá ninguém!

- Esta é uma usina geradora inteiramente automatizada - informou Nim. - O Sr. Wilkins só vem aqui para uma verificação de rotina... - Virou-se para o técnico e indagou: - com que frequência?

- Apenas uma vez por dia, senhor.

- A não ser por isso - acrescentou Nim - a usina permanece fechada e vazia, sendo visitada apenas, ocasionalmente, pelas equipes de manutenção, se há algum problema.

O homem do Los Angeles Times perguntou:

- E como se pode acionar ou desligar os geradores?

- Tudo é feito de um centro de controle a duzentos e cinquenta quilómetros de distância. A maioria das novas usinas hidrelétricas é projetada assim. São eficientes e há uma grande economia de mão-deobra.

- E quando ocorre algo errado e há pânico, o que se faz? - indagou o representante de New West.

- Qualquer gerador que esteja afetado... ou ambos... envia um aviso para o controle e depois se desliga automaticamente, até a chegada da equipe de manutenção.

Teresa Van Buren interveio:

- A usina de acumulação e bombeamento que pretendemos construir, Portão do Diabo 2, será assim, totalmente subterrânea, a fim de não desfigurar a paisagem, além de ser não-poluente e económica.

Nancy Molineaux falou pela primeira vez desde que haviam entrado no túnel:

- Está esquecendo de um pequeno detalhe em sua história, Tess: o maldito reservatório que teria de ser construído e a terra que seria inundada.

- Um lago nestas montanhas, como será o nosso reservatório, é algo tão natural quanto um terreno árido - respondeu a vice-presidente de relações públicas. - Além do mais, vai proporcionar pescarias...

Nim pediu, suavemente:

- Deixe-me explicar, Tess. - Ele estava decidido a não permitir que Nancy Molineaux ou qualquer outra pessoa o fizesse perder o controle naquele dia. - A Srta. Molineaux está certa, até o ponto em que realmente, vamos precisar de um reservatório. Ficará a 1. 500 metros daqui, acima de nós, visível apenas de aviões ou para os amantes da natureza que estejam dispostos a uma escalada longa e árdua. Ao construirmos esse reservatório, adotaremos todas as providências necessárias para proteger e preservar o meio ambiente.

- O Clube da Sequóia não pensa assim - interrompeu um repórter da televisão. - Por quê?

Nim deu de ombros.

- Não tenho a menor ideia. Mas acho que vamos descobrir na audiência pública.

- Está certo - disse o homem da televisão. - Pode continuar sua propaganda.

Recordando sua determinação, Nim conteve uma resposta brusca. com o pessoal dos meios de comunicação, pensou ele, era frequentemente uma batalha árdua, uma luta contra a descrença, não importando o quão franco tentasse ser qualquer representante da indústria e do comércio. Somente os cruzados radicais, por mais desinformados que fossem, pareciam ter suas opiniões citadas verbalmente, sem qualquer contestação. Pacientemente, explicou o que era uma usina de acumulação:

- É o primeiro método conhecido de se guardar energia em grande quantidade, para ser usada nos momentos de pique da demanda. De certa forma, pode-se pensar em Portão do Diabo 2 como uma imensa bateria de acumulação.

Haveria dois níveis de água, continuou Nim, o do novo reservatório e o Rio Pineridge, lá embaixo. Ligando os dois níveis, haveria imensas tubulações subterrâneas ou túneis de descarga e condutos. A usina geradora ficaria entre o reservatório e o rio; ali terminariam os condutos de água e começariam os túneis de descarga.

- Quando a usina estiver gerando eletricidade, a água do reservatório fluirá para baixo, acionando as turbinas e depois se descarregando no rio, abaixo da superfície.

Em outras ocasiões, o sistema funcionará de maneira inversa. Quando a demanda de energia fosse menor, especialmente durante a noite, Portão do Diabo 2 hão iria gerar eletricidade. Em vez disso, a água seria bombeada do rio para cima, cerca de um bilhão de litros por hora, a fim de reabastecer o reservatório, deixando-o em condições de atender à demanda no dia seguinte.

- De noite, sempre temos disponibilidade de energia em outros pontos do sistema da GSP & L. Simplesmente usaremos um pouco dessa energia para acionar as bombas.

O homem da New West disse:

- Em Nova York, a Con Edison está tentando construir uma usina assim há vinte anos. Chamam-na de Storm King (O Rei da Tempestade). Mas os ecologistas e outros grupos se estão opondo.

- Há também pessoas responsáveis que são a favor - declarou Nim. - Mas, infelizmente, ninguém lhes está querendo dar atenção.

Informou qual era uma das exigências da Comissão Federal de Energia: a prova de que Storm King não iria representar qualquer ameaça aos peixes do Rio Hudson. Depois de vários anos de estudos, chegara-se a uma conclusão: haveria uma redução de apenas 4 a 6 na população de peixes adultos. E Nim concluiu:

- Apesar disso, a Con Edison ainda não conseguiu aprovação para seu projeto. Algum dia, os habitantes de Nova York ainda irão lamentá-lo.

- Essa é uma opinião sua - comentou Nancy Molineaux.

- Claro que é uma opinião minha. Também não tem suas próprias opiniões, Srta. Molineaux?

O repórter do Los Angeles Times disse:

- Claro que ela não tem qualquer opinião. Por acaso não sabe qiíe nós, servos da verdade, somos totalmente destituídos de quaisquer ideias preconcebidas?

Nim sorriu.

- Eu já tinha notado.

As feições da jovem negra se contraíram, mas ela não fez qualquer comentário.

Um momento antes, quando falava sobre os peixes do Rio Hudson, Nim sentira-se tentado a citar Charles Luce, o presidente da Con Edison, que declarara em público, num momento de irritação intensa:

"Chega um momento em que o meio ambiente humano deve prevalecer sobre o habitat dos peixes. E já alcançamos este momento em Nova York. "

Mas a cautela o impedira de falar. O comentário provocara a maior reação contra Chuck Luce, gerando uma tempestade de insultos e gritos dos ecologistas e outros grupos. Por que se arriscar à mesma coisa?

Além do mais, pensou Nim, ele próprio já tinha problemas suficientes de imagem pública por causa do maldito helicóptero. Iria chegar ao Portão do Diabo naquela tarde, a fim de levá-lo de volta à cidade, onde havia muito trabalho urgente amontoado em sua mesa. Tomara a precaução de fixar a hora da chegada do helicóptero depois que o contingente da imprensa já tivesse partido de ônibus.

Enquanto esperava, detestando sua missão e só se sentindo aliviado por saber que em breve chegaria ao fim, ele continuou a responder às perguntas dos repórteres.

Às duas horas da tarde, no acampamento do Portão do Diabo, os últimos extraviados estavam embarcando no ônibus da imprensa, que estava com o motor ligado e pronto para partir. O grupo já tinha almoçado; a viagem de volta à cidade levaria quatro horas. A 50 metros de distância, Teresa Van Buren, que também seguiria no ônibus, disse a Nim:

- Obrigada por tudo o que fez, embora você tivesse detestado a maior parte.

Nim respondeu com um sorriso:

- Sou pago para fazer de vez em quando algumas coisas que preferiria não fazer. Se aparecer algum problema...

Ele parou de falar abruptamente, sem saber exatamente por que, sentindo um calafrio súbito, o instinto a lhe dizer que havia alguma coisa errada no cenário ao seu redor, algo que não devia estar ali.

Encontravam-se parados aproximadamente no mesmo lugar em que ele se detivera naquela manhã, ao ir ao encontro dos jornalistas para tomarem café juntos. O tempo continuava firme, o sol iluminava uma profusão de arvores e flores silvestres, uma brisa amena agitava ligeiramente o fragrante ar das montanhas. Os dois alojamentos eram visíveis, o ônibus na frente de um, dois empregados da companhia, de folga, esquentando-se ao sol da varanda do outro. No lado oposto, perto das casas dos funcionários residentes, algumas crianças estavam brincando. Poucos minutos antes, Nim avistara entre elas o menino de cabeça vermelha, Danny, com quem falara naquela manhã. O menino estava empinando uma pipa, provavelmente um presente de aniversário. Naquele momento, porém, tanto o menino como a pipa não estavam à vista. O olhar de Nim se desviou para um caminhão da GSP & L, com um grupo de homens em macacão de serviço ao lado. Avistou o vulto esguio e barbado de Walter Talbot Jr. Provavelmente Wally estava dando instruções à equipe de manutenção das linhas de transmissão que mencionara anteriormente. Na estrada para o acampamento apareceu um furgão azul. No ônibus, alguém gritou impacientemente:

- Ei, Tess, vamos embora de uma vez! Teresa Van Buren estava um pouco perplexa:

- O que houve, Nim?

- Não sei direito. Eu...

Um grito urgente, frenético, ressoou pelo acampamento, sobrepondo-se a todos os demais ruídos:

- Danny! Danny! Não se mexa! Fique onde está!

Cabeças se viraram, as de Nim e Teresa Van Buren simultaneamente, procurando a fonte da voz. O grito soou novamente, desta vez quase histérico:

- Danny! Está-me ouvindo?

- Ali! - Teresa Van Buren apontou para um caminho Íngreme, parcialmente oculto pelas árvores, na outra extremidade do acampamento. Um homem de cabelos vermelhos, o técnico Fred Wilkins, descia correndo pelo caminho, enquanto gritava:

- Danny! Faça o que estou mandando! Pare! Não se mexa!

As crianças pararam de brincar. Aturdidas, viraram-se na direção para a qual se dirigiam os gritos. Nim fez o mesmo.

- Danny! Não continue! Já estou indo! Fique parado!

- Deus do céu! - balbuciou Nim.

Agora, ele podia ver o que estava acontecendo.

Lá em cima, numa das torres que sustentavam as linhas de alta tensão através do acampamento, o garotinho Danny Wilkins estava subindo. Segurando-se firmemente a uma das colunas da torre, já na metade do caminho, Danny subia lentamente. Seu objetivo era visível acima dele: a pipa que estivera empinando, agora presa numa linha de transmissão, no alto da torre. Um reflexo de sol mostrou a Nim o que percebera um momento antes, tão rapidamente que não conseguira registrar exatamente o que era: o sol faiscando numa vara de alumínio que o menino segurava, com um gancho na extremidade. Evidentemente, Danny planejava usar o gancho para recuperar sua pipa. O rostinho pequeno tinha uma expressão determinada, enquanto o corpo forte continuava a subir, não ouvindo os gritos do pai ou simplesmente os ignorando.

Nim e os outros começaram a correr também na direção da torre, mas com uma sensação de impotência, enquanto o garotinho continuava a chegar mais perto das linhas de alta tensão. Eram 500 mil volts!

Fred Wilkins, ainda a alguma distância, forçou-se a correr mais depressa, o desespero estampado no rosto. Nim juntou-se aos gritos:

- Danny! Os fios são perigosos! Não se mexa! Fique onde está!

O menino parou e olhou para baixo. Depois, olhou novamente para cima, na direção da pipa, e continuou a subir, embora mais lentamente, estendendo para o alto a vara de alumínio. Estava agora bem perto da linha de transmissão mais próxima.

Foi nesse instante que Nim avistou outro vulto, mais perto da torre que todos os demais, entrar em ação. Era Wally Talbot. Disparando para a frente, as passadas longas, os pés mal parecendo tocar no chão, Wally corria como um campeão olímpico.

Os repórteres estavam saindo apressadamente do ônibus.

A torre, como outras na área do acampamento, era rodeada por uma cerca de ferro. Mais tarde, descobriu-se que Danny passara pela cerca subindo por uma árvore e pulando de um galho baixo no lado de dentro. Wally Talbot chegou à cerca e pulou. com o que parecia ser um esforço sobre-humano, segurou no alto da cerca e voou para o outro lado. Ao cair, pôde-se ver que suas mãos estavam cortadas e sangrando. No instante seguinte, ele estava na torre, subindo rapidamente.

Prendendo a respiração, aterrorizados, os espectadores rapidamente reunidos em grupo, repórteres e outros, ficaram observando lá de baixo. Enquanto isso, três homens da equipe de Wally chegaram à cerca, experimentaram diversas chaves e finalmente abriram uma porta que ali havia. Em seguida, começaram também a subir pela torre. Mas Wally estava muito acima, diminuindo rapidamente a distância que o separava do menino de cabelos vermelhos.

Fred Wilkins chegou à base da torre; estava sem fôlego, o corpo todo tremendo. Começou também a subir, mas alguém o deteve.

Todos os olhos estavam focalizados nos dois vultos próximos do alto da torre: Danny Wilkins, a menos de um metro das linhas de transmissão, e Wally Talbot, agora logo abaixo.

E foi nesse instante que aconteceu, tão depressa que os espectadores não puderam concordar depois sobre a sequência de acontecimentos ou mesmo sobre o que ocorrera.

Danny, aparentemente a poucos centímetros de um isolador que separava a torre de uma linha de alta tensão, estendeu a vara de alumínio, numa tentativa de pegar sua pipa. Ao mesmo tempo, Wally Talbot, um pouco abaixo e ligeiramente para o lado, estendeu a mão e agarrou o menino, puxando-o. Uma fração de segundo depois, ambos pareceram escorregar, o menino deslizando seguro a uma viga, Wally largando as mãos. Talvez instintivamente, para manter um equilíbrio precário, Wally segurou a vara de alumínio que Danny acabara de largar. A vara descreveu um arco no ar. Instantaneamente, irrompeu uma grande bola de luz alaranjada; a vara de alumínio desapareceu e Wally Talbot foi envolvido por uma coroa de chama transparente. Depois, tão abruptamente quanto surgira, a chama desapareceu. O corpo de Wally ficou pendendo numa viga transversal da torre, imóvel, inerte.

Milagrosamente, nenhum dos dois caiu. Segundos depois, dois homens da equipe de Wally Talbot alcançaram o lugar onde ele estava e começaram a levá-lo para baixo. O terceiro homem ficou segurando Danny Wilkins, enquanto os outros desciam com o corpo de Wally. O menino aparentemente estava ileso; soluçava desesperadamente, e podia-se ouvir o barulho lá de baixo.

Depois, em algum ponto no outro lado do acampamento, uma sirene começou a soar, os sons estridentes e breves.

 

O pianista do bar, nostalgicamente, parou de tocar Hélio, Voung Loversl e começou Whatever Will Be, Will Be.

- Se ele continuar a tocar essas músicas antigas - comentou Harry London - vou acabar chorando na minha cerveja. Outra vodca, companheiro?

- Por que não? E que a dose seja dupla! - Nim, que também estava prestando atenção à música, escutou agora a si mesmo, objetivamente. Constatou que as palavras saíam meio enroladas. O que era de se esperar. Já bebera demais e sabia disso, mas não se importava. Tateando os bolsos, encontrou as chaves do carro e tirou-as, empurrando por cima do tampo preto da mesinha.

- Tome conta disso. E providencie para que um táxi me leve para casa.

London guardou as chaves no bolso.

- Está certo. Se quiser, pode passar a noite em meu apartamento.

- Não, obrigado, Harry.

Em breve, assim que o álcool toldasse suas percepções ainda mais, Nim tencionava voltar para casa. Era justamente o que desejava. Não estava preocupado em aparecer embriagado em casa... ou pelo menos não naquela noite. Leah e Benjy já estariam dormindo e não iriam vêlo. E Ruth, com sua compaixão e compreensão, saberia perdoá-lo.

- Testando, testando... - murmurou Nim. Queria ouvir sua voz, antes de tornar a usá-la. Convencido de que estava inteligível, disse a Harry London: - Quer saber o que eu penso? Acho que Wally estaria melhor se tivesse morrido.

London tomou um gole de cerveja antes de responder:

- Talvez Wally não pense assim. Muito bem, sei que ele ficou todo queimado e perdeu o pau. Mas há outras coisas...

Nim alteou a voz:

- Pelo amor de Deus, Harry! Compreende o que está dizendo?

- Fale mais baixo - disse London, enquanto outros fregueses do bar olhavam na direção deles. - Claro que compreendo.

- com o tempo... - Nim inclinou-se sobre a mesa, equilibrando as palavras como um prestidigitador a empilhar pratos. - com o tempo, as queimaduras vão sarar. E poderão fazer enxertos de pele. Mas não se pode encomendar um pênis novo pelo catálogo de Sears.

- Tem razão. É algo que não se pode negar. - London sacudiu a cabeça, tristemente. - Pobre coitado!

O pianista estava agora tocando o Tema de Lara, e Harry London enxugou uma lágrima.

- Vinte e oito anos! - exclamou Nim. - É essa a idade dele. Santo Deus, apenas vinte e oito anos! Qualquer homem normal, nessa idade ainda tem pela frente toda uma vida de...

London interrompeu-o bruscamente:

- Não preciso que me explique. - Terminou de tomar a cerveja e fez sinal ao garçom para que trouxesse outra. - Mas deve lembrar-se de uma coisa, Nim. Nem todos os homens são atletas sexuais como você. Em seu caso, se perdesse o pau como aconteceu com Wally, eu poderia entender que seria o fim do caminho. Ou melhor, que você pensaria que era. - London fez uma pausa, fitando o companheiro com uma expressão de curiosidade, antes de acrescentar: - A propósito, você costuma fazer o registro? Talvez possa entrar para o Guinness Book of World Records.

Os pensamentos desviados por um momento, Nim comentou:

- Existe um escritor belga, Georges Simenon, que afirma ter trepado com dez mil mulheres diferentes. Não chego a tanto, nem mesmo estou perto dessa contagem.

- Pois então vamos deixar os números de lado. O que estou que querendo dizer é que talvez o pau não fosse algo tão importante para Wally quanto é para você.

Nim sacudiu a cabeça.

- Duvido muito.

Ele recordava muito bem as ocasiões em que vira Wally Jr. e a esposa, Mary, juntos. O instinto aguçado de Nim dissera-lhe que os dois desfrutavam uma vida sexual estimulante. Imaginou, tristemente, o que poderia acontecer agora ao casamento.

A cerveja e a dose dupla de vodca chegaram. Nim disse ao garçom:

- Ao voltar, traga de novo a mesma coisa.

Era o início da noite. O bar em que estavam, The Ezy Duzzit, pequeno e escuro, com um pianista sentimental que naquele momento começara a tocar Moon River, não era muito longe da sede da GSP & L. Nim e Harry London haviam ido para lá assim que terminara o expediente. No terceiro dia.

Ao que Nim podia recordar-se, os últimos três dias haviam sido o pior período de sua vida.

No primeiro dia, no Portão do Diabo, a reação de estupefação, em seguida à eletrocução de Wally Talbot Jr. durara apenas alguns segundos. Depois, enquanto o corpo de Wally ainda estava sendo descido da torre, as providências de emergência haviam sido rapidamente acionadas.

Em qualquer grande companhia de eletricidade, as eletrocuções são raras, mas inevitavelmente acontecem... e geralmente várias vezes por ano. A causa normalmente é uma negligência momentânea, anulando precauções de segurança rigorosas e dispendiosas, ou "uma chance em mil" de um acidente como o que ocorrera tão rapidamente, enquanto Nim e os outros observavam.

Ironicamente, a Golden State Power tinha uma campanha publicitária agressiva, dirigida aos pais e às crianças, advertindo sobre os perigos de se empinar pipas perto de linhas de eletricidade. A companhia investira milhares de dólares em cartazes e revistas em quadrinhos dedicados ao assunto, distribuindo-os através de escolas e outras instituições.

Como Fred Wilkins, o técnico- de cabelos vermelhos iria contar mais tarde, angustiado, ele conhecia perfeitamente a campanha preventiva. Mas a esposa de Wilkins, mãe de Danny, não conhecia. Em lágrimas, ela admitiu que tinha a impressão de ter ouvido ou visto alguma coisa a respeito, mas esquecera quando ou onde. E a recordação não aflorara quando a pipa, presente de aniversário dos avós de Danny, chegara com a correspondência da manhã e ajudara o filho a montá-la. Quanto ao fato de Danny ter subido pela torre, isso não chegara a ser surpresa, pois aqueles que o conheciam descreveram-no como "um menino determinado e destemido". A vara de alumínio com o gancho que ele levava pertencia ao pai, que a usava ocasionalmente para pescarias em alto-mar; ficava guardada num barracão de ferramentas, onde o menino já a vira muitas vezes.

Não se sabia ainda de nada disso, é claro, quando uma equipe treinada em primeiros socorros, alertada pela sirene do acampamento, se aproximara correndo para cuidar de Wally Talbot. Ele estava inconsciente, extensas áreas do corpo gravemente queimadas, e a respiração cessara.

A equipe de primeiros socorros, comandada por uma enfermeira diplomada que dirigia a pequena enfermaria do acampamento, iniciara imediatamente, com extrema competência, a respiração artificial bocaa-boca, juntamente com a compressão cardíaca exterior. Enquanto as técnicas de ressuscitação continuavam a ser aplicadas, Wally fora levado para o único leito da enfermaria. Ali, recebendo instruções por radiotelefone de um médico na cidade, a enfermeira usara um desfibrilador, numa tentativa de restaurar o funcionamento cardíaco normal. Dera certo. Isso e outras providências haviam salvado a vida de Wally.

A esta altura, um helicóptero da companhia já estava a caminho do Portão do Diabo, o mesmo aparelho que deveria ir buscar Nim. Acompanhado pela enfermeira, Wally fora levado para um hospital, a fim de receber tratamento mais intensivo.

Só no dia seguinte é que sua sobrevivência fora assegurada e havia sido revelada a natureza dos ferimentos.

Nesse segundo dia, os jornais haviam publicado a história com grande destaque, com os relatos pessoais dos repórteres que haviam presenciado o acidente. A edição matutina do Chronicle-West publicara a notícia na primeira página, com o seguinte título:

HOMEM ELETROCUTADO É UM HERÓI.

De tarde, embora a notícia já estivesse divulgada, o Califórnia Examiner dedicara a metade da página três a uma reportagem assinada por Nancy Molineaux, com o título:

Homem se Sacrifica para Salvar uma Criança.

O Examiner publicara também uma fotografia de Wally Talbot Jr. em duas colunas e outra do jovem Danny Wilkins, com um lado do rosto coberto por ataduras, resultado das esfoladuras que o menino sofrera ao escorregar pela viga da torre, o único ferimento que tivera.

As emissoras de televisão e de rádio haviam divulgado notícias sobre o trágico acidente na noite anterior, mas continuaram a dar cobertura no dia seguinte.

Por causa do interesse humano, o acidente atraíra a atenção do resto do Estado e chegara mesmo a ser noticiado em escala nacional.

No Hospital Mount Éden, pouco depois do meio-dia, no segundo dia, o médico que estava cuidando de Wally dera uma entrevista coletiva improvisada, num corredor. Nim, que já estivera no hospital antes, acabara de chegar e ficara ouvindo as informações atrás da multidão de repórteres:

- O estado do Sr. Talbot é crítico, mas neste momento está estabilizado - anunciara o jovem médico, que parecia Robert Kennedy reencarnado. - Teve queimaduras graves em cerca de vinte e cinco por cento do corpo e sofreu outros ferimentos.

- Poderia ser mais específico, Doutor? - indagara um dos repórteres. - Quais foram os outros ferimentos?

O médico olhara para um homem mais velho a seu lado, a quem Nim já conhecia; era o diretor do hospital.

- Senhoras e senhores da imprensa - dissera o diretor - normalmente, por respeito à privacidade do paciente, não seria revelada nenhuma informação adicional. Neste caso, porém, depois de uma conversa com a família, ficou decidido que seremos francos com a imprensa, para pôr fim a qualquer especulação. Assim, a última pergunta será respondida. Antes, contudo, quero fazer-lhes uma súplica: por consideração pelo paciente e sua família, sejam discretos no que escreverem e falarem. Obrigado. Pode continuar, Doutor.

- Os efeitos da eletrocução no corpo humano são sempre imprevisíveis - dissera o jovem médico. - Frequentemente, ocorre a morte quando altas cargas de eletricidade passam através de órgãos internos, antes de escaparem para o solo. No caso do Sr. Talbot, isso não aconteceu. Sob esse aspecto, ele teve sorte. Em vez disso, a eletricidade passou pela superfície superior do corpo e saiu... para o solo, através da torre de metal... por intermédio do pênis.

Houvera murmúrios de espanto, a que se seguira um silêncio chocado, durante o qual ninguém parecia estar querendo formular a pergunta seguinte. Mas um repórter mais velho acabou por indagar:

- Doutor, o estado em que ficou...

- Foi destruído. Totalmente queimado. Agora, se me dão licença...

Os repórteres, anormalmente deprimidos, haviam-se afastado.

Nim ficara. Identificara-se para o diretor do hospital e perguntara pela família de Wally Jr. Ardythe e Mary. Nim não as vira depois do acidente, mas sabia que acabaria tendo de encontrá-las, mais cedo ou mais tarde.

Fora informado de que Ardythe estava internada no hospital, sob o efeito de sedativos. O diretor explicara:

- Ela entrou em estado de choque. Presumo que o senhor sabe que o marido dela morreu tragicamente não faz muito'tempo.

Nim assentira.

- A jovem Sra. Talbot está com o marido, mas não estamos permitindo quaisquer outros visitantes, por enquanto.

Enquanto o diretor esperava, Nim escrevera um bilhete para Mary, colocando-se a sua disposição no que fosse necessário e comunicando que, de qualquer maneira, voltaria ao hospital no dia seguinte.

Naquela noite, como já acontecera na anterior, Nim tivera um sono agitado, a cena no acampamento do Portão do Diabo repetindo-se interminavelmente, como um pesadelo contínuo.

Na manhã do terceiro dia ele se encontrara com Mary e logo depois com Ardythe.

Mary recebera-o do lado de fora do quarto do hospital em que Wally estava, ainda em tratamento intensivo.

- Wally está consciente, mas não quer ver ninguém. Ainda não.

- A jovem senhora estava pálida e visivelmente cansada, mas ainda mantinha um pouco de sua aparência de eficiência. - Mas Ardythe está querendo falar com você. Tinha certeza de que você iria aparecer no hospital hoje.

Nim dissera, gentilmente:

- Creio que as palavras não adiantem muita coisa numa situação como esta, Mary. Mas, de qualquer forma, sinto muito.

- Todos sentimos. - Mary levara Nim até uma porta alguns metros adiante, abrira-a e anunciara: - Aqui está Nim, Mamãe. Virando-se para Nim, ela acrescentara: - vou voltar para o lado de Wally agora.

- Entre, Nim - dissera Ardythe, vestida e deitada na cama, apoiada em travesseiros. - Não é ridículo eu estar também internada no hospital?

Havia a iminência de histeria por baixo da voz dela, e Nim o percebera imediatamente. As faces de Ardythe estavam coradas demais, os olhos tinham um brilho excessivo. Nim recordara-se que o diretor falara em estado de choque e sedativos. Mas Ardythe não parecera estar naquele momento sob o efeito de sedativos. Nim começara a falar, hesitante:

- Eu gostaria de saber o que dizer...

Fazendo uma pausa, inclinara-se para beijá-la. Para sua surpresa, Ardythe ficara rígida e desviara a cabeça. Nim terminara apenas roçando os lábios, embaraçado, pela face dela, que achara extremamente quente.

- Não! - exclamara Ardythe. - Por favor... não me beije.

Imaginando se por acaso a ofendera de alguma forma, sem conseguir entender a reação dela, Nim puxara uma cadeira e sentara ao lado da cama. Houvera um silêncio constrangido e depois Ardythe murmurara, pensativa:

- Dizem que Wally vai sobreviver. Ontem, ainda não tínhamos certeza; assim, já há alguma melhoria hoje. Mas creio que já sabe'como ele vai sobreviver... que está a par do que lhe aconteceu...

- Estou, sim.

- Andou pensando a mesma coisa que eu, Nim? Sobre um motivo para o que aconteceu?

- Eu estava presente, Ardythe Vi...

- Não me estou referindo a isso e sim ao porquê.

Aturdido, Nim sacudira a cabeça.

- Tenho pensado muito desde ontem, Nim. E cheguei à conclusão de que o aparente acidente pode ter sido uma decorrência de nós dois... eu e você...

Ainda sem entender, ele protestara:

- Ardythe, por favor! Está exausta, o choque foi terrível, especialmente por ter acontecido tão pouco tempo depois da morte de Walter.

- É justamente esse o problema. - O rosto e a voz de Ardythe estavam extremamente tensos. - Nós dois pecamos, logo depois que Walter morreu. Tenho o sentimento de que estou sendo punida, que Wally, Mary, as crianças, todos estão sofrendo por minha causa.

Por um momento, Nim ficara reduzido a um silêncio chocado. Mas logo dissera, veemente:

- Pelo amor de Deus, Ardythe, pare com isso! É totalmente absurdo!

- Será mesmo? Pense a respeito quando estiver sozinho, assim como estou fazendo. Acabou de dizer "pelo amor de Deus". É judeu, Nim. Será que sua religião não o ensina a acreditar na ira e punição de Deus?

- Mesmo que ensinasse, eu me recusaria a aceitar.

- Eu também não aceitava - murmurara Ardythe, quase em lágrimas. - Mas agora estou em dúvida.

Procurando desesperadamente por palavras que a fizessem mudar de ideia, Nim dissera:

- Às vezes, a vida causa sucessivos sofrimentos a uma família, parecendo que foi atingida pelos disparos de uma espingarda de cano duplo, enquanto outras famílias permanecem incólumes. Não é lógico, não é justo. Mas acontece. Posso recordar-me de diversos casos, tenho certeza de que você também pode.

- Como poderemos saber que esses outros casos também não foram punições?

- Porque não existe a menor possibilidade. Porque tudo na vida é acaso, que nós mesmos criamos, por erro ou azar, inclusive o de estar no lugar errado, na hora errada. E isso é tudo, Ardythe. É uma loucura culpar a si mesma, por qualquer forma, pelo que aconteceu a Wally.

Ela respondera em voz impregnada de angústia:

- Quero acreditar em você, Nim, mas não consigo. Deixe-me agora. Vão mandar-me para casa esta tarde.

Levantando-se, Nim dissera:

- Irei visitá-la em breve. Ardythe sacudira a cabeça.

- Não tenho certeza se deve mesmo, Nim. Mas telefone-me, de qualquer maneira.

Nim se inclinara para beijá-la no rosto, mas lembrara o desejo dela e renunciara à tentativa, saindo rapidamente.

Sua mente ficara em turbilhão. Obviamente, Ardythe estava precisando de ajuda psiquiátrica. Mas se o próprio Nim o sugerisse a Mary ou a qualquer outra pessoa, teria de explicar por que... em detalhes. Mesmo sob o sigilo médico, não poderia fazer tal coisa. Ou pelo menos não agora.

O desespero e a angústia por causa de Wally, Ardythe e seu próprio dilema continuaram a atormentar Nim pelo resto do dia, recusando-se a se dissipar.

Como se ainda não fosse suficiente, Nim fora crucificado pelo Califórnia Examiner naquela tarde.

Pensara que, tendo em vista o uso de emergência do helicóptero, para transportar Wally do acampamento do Portão do Diabo para o hospital, Nancy Molineaux iria renunciar a sua intenção de escrever sobre o outro usuário do aparelho. Mas tal não acontecera.

A história fora publicada em quadro, na página ao lado do editorial:

Os Capitães e os Reis e o Sr. Goldman da GSP & L.

Já imaginaram o que significa ter um helicóptero particular à sua disposição para levá-lo onde bem quiser, enquanto se recosta confortavelmente e relaxa?

A maioria jamais irá experimentar esse prazer exótico. Está reservado a pessoas incluídas em determinadas categorias, como o Presidente dos Estados Unidos, a Família Real Britânica, o falecido Howard Hughes, ocasionalmente o Papa e alguns executivos privilegiados da nossa tão amiga companhia de serviços públicos, a GSP & L. Como o Sr. N. Goldman. Por que Goldman?, poder-se-ia perguntar. Parece que o Sr. Goldman, vice-presidente da GSP &L, é importante demais para andar de ônibus, apesar de um ônibus especialmente fretado pela Golden State Power, com muitos bancos vazios, ter ido ao mesmo lugar para onde ele seguiu, há três dias. Em vez de ir de ônibus, o Sr. Goldman preferiu um helicóptero, que...

Havia mais, juntamente com uma fotografia do helicóptero da GSP & L e um retrato de Nim, bem pouco lisonjeiro, que Nancy Molineaux devia ter escolhido cuidadosamente nos arquivos do jornal. O parágrafo mais prejudicial era o que dizia:

Os consumidores de eletricidade e gás, já assoberbados pelas contas elevadas da companhia e que estão esperando um novo aumento das tarifas, devem estar espantados pela maneira como seu dinheiro está sendo desperdiçado pela GSP & L, uma companhia quase-pública. Talvez, se executivos como Nimrod Goldman estivessem dispostos a viajar de uma forma menos glamourosa, como o resto da humanidade, as economias resultantes, juntamente com outras, pudessem conter um pouco os repetidos aumentos de tarifas.

Era o meio da tarde. Num marcara o artigo e dobrara o jornal, entregando-o à secretária de J. Eric Humphrey.

- Diga ao presidente que ele acabará lendo isto, mais cedo ou mais tarde. Assim, é melhor que saiba logo por meu intermédio.

Minutos depois, Humphrey entrara na sala de Nim e jogara o jornal em cima da mesa. Estava mais furioso do que Nim jamais o vira. E, surpreendentemente, alteara a voz:

- Em nome de Deus, em que estava pensando ao nos meter nessa embrulhada? Será que não sabe que a Comissão de Serviços Públicos está estudando nosso pedido de aumento de tarifas e dará uma decisão nos próximos dias? É o tipo de notícia que pode provocar um clamor público que os levará a rejeitar nosso pedido!

Nim dera vazão a um pouco de sua própria raiva:

- Claro que sei de tudo isso! E estou tão furioso quanto você! Mas aquela maldita repórter tinha desembainhado a faca de escalpelar e arrumaria outra coisa qualquer, se o helicóptero não estivesse disponível!

- Não necessariamente, não se ela não houvesse encontrado coisa alguma! Mas usando o helicóptero indiscretamente, você jogou uma boa oportunidade no colo dela!

Nim já estava prestes a revidar, mas decidira manter-se calado. Assumir a culpa injustamente, pensara, podia ser considerado uma das funções de um assessor. Apenas duas semanas antes, o presidente dissera a seus diretores, numa reunião informal:

- Se houver necessidade de poupar meio dia de viagem para fazer seu trabalho mais depressa e eficientemente, usem um helicóptero da companhia. A longo prazo, sai mais barato. Sei que precisamos dos aparelhos para as patrulhas das linhas de transmissão e emergências, mas o custo de mantê-los em terra, quando não estão sendo usados, é quase o mesmo de pô-los a voar.

Outra coisa que Eric Humphrey presumivelmente esquecera fora o fato de ter pedido a Nim que acompanhasse o grupo da imprensa na excursão de dois dias e também o representasse numa importante reunião na Câmara de Comércio, na manhã do primeiro dia. Nim não poderia ter desempenhado as duas missões sem recorrer ao helicóptero. Contudo, Humphrey era um homem justo e provavelmente iria recordar-se mais tarde. Mesmo que tal não acontecesse, pensara Nim, isso não teria muita importância.

Essa sucessão de acontecimentos, em três dias consecutivos, deixara Nim exausto e profundamente deprimido. Assim, quando Harry London, que conhecia alguns dos motivos da depressão de Nim, mas nem todos, passara em sua sala para sugerir que fossem tomar um drinque depois do trabalho, ele prontamente aceitara.

Agora, Nim sentia o álcool dominá-lo; embora não se sentisse mais feliz por isso, havia pelo menos um torpor que ajudava a atenuar os sentimentos. Num canto do cérebro que ainda funcionava com lucidez, Nim desprezava a si mesmo pelo que estava fazendo e pela fraqueza implícita. Mas logo lembrou a si mesmo que não acontecia com frequência, que não era capaz de recordar a última vez em que bebera demais. Talvez pudesse ser terapêutico largar-se de vez em quando, dizendo que tudo mais vá para o inferno!

- Quero perguntar-lhe uma coisa, London. Você é um homem religioso? Acredita em Deus?

Mais uma vez, London tomou um gole da cerveja antes de responder, usando um lenço para limpar a espuma dos lábios.

- Não à primeira pergunta. Quanto à segunda, a resposta é a seguinte: jamais fiz questão de não acreditar.

- E o que me diz do sentimento de culpa pessoal? Não costuma tê-lo? - Nim estava-se lembrando de Ardythe, que lhe perguntara: "Será que sua religião não o ensina a acreditar na ira e punição de Deus?" Naquela tarde, ele ignorara a pergunta. Desde então, porém, vinha-se repetindo em sua mente, com uma insistência irritante.

- Acho que todo mundo tem algum sentimento de culpa. - London deu a impressão de que iria terminar sua declaração nisso, mas depois mudou de ideia e acrescentou: - Penso de vez em quando em dois caras que conheci na Coreia e que se tornaram meus grandes amigos. Estávamos numa patrulha de reconhecimento perto do Rio Yalu. Os dois estavam mais adiantados do que o resto da patrulha, quando nos vimos cercados pelo fogo inimigo. Os dois precisavam de ajuda para voltar. Eu estava no comando e deveria ter levado o resto dos homens à frente numa tentativa de salvá-los. Enquanto eu ainda hesitava, sem saber que decisão tomar, os amarelos os descobriram e uma granada transformou-os em picadinho. Eis uma culpa que carrego comigo; e tenho algumas outras. - Tomou um novo gole de cerveja. - Sabe o que está fazendo, companheiro? Está-nos deixando a ambos... como é mesmo que se pode dizer?

- Sentimentais - murmurou Nim, tendo dificuldade em pronunciar a palavra.

- É isso mesmo! Sentimentais! - Harry London mexeu a cabeça solenemente, enquanto o pianista do bar começava a tocar As Time Góes By.

 

 

Davey Birdsong, que estava inspecionando a sede espetacular do Clube da Sequóia, indagou insolentemente:

- Onde fica a sauna particular da presidente? E depois, gostaria de ver a sua tampa de privada de ouro maciço.

- Não temos nenhuma das duas coisas - respondeu Laura Bo Carmichael, irritada.

Não se sentia muito à vontade na presença de Birdsong, um homem barbado, corpulento, irreverente, que se naturalizara americano há muitos anos, mas ainda conservava as maneiras rudes da terra em que nascera, a Austrália. Laura Bo, que encontrara Birdsong apenas algumas vezes antes, em reuniões externas, comparava-o ao jovial sertanejo australiano de Waltzing Matilda.

O que era ridículo e ela sabia disso. Embora Davey Birdsong aparentemente fizesse questão de parecer rude e incivilizado, vestindo-se inclusive de acordo com essa imagem (naquele dia estava usando uma jeans esfarrapada e remendada, com sapatos de corrida em que os cadarços haviam sido substituídos por barbante), a presidente do Clube da Sequóia sabia perfeitamente que ele era um homem culto e estudioso, com um curso de doutorado em Sociologia e professor-convidado da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Birdsong formara também uma coalizão de grupos de consumidores, igrejas e políticos de extrema esquerda, que se chamava & Ip, força e luz para o povo. (As iniciais em caixas baixas, nas palavras do próprio Birdsong, serviam para "ressaltar que não somos capitalistas".)

O objetivo declarado da & Ip era "combater o monstro capitalista GSP & L, inchado pelos lucros escorchantes, em todas as frentes". Em diversas confrontações até agora, a & Ip se opusera aos aumentos de tarifas para o gás e a eletricidade, combatera a autorização para a construção de uma usina nuclear, objetara às atividades de relações públicas da GSP & L - "propaganda implacável paga compulsoriamente pelos consumidores", no dizer de Birdsong e da & Ip - e defendera a necessidade urgente de as municipalidades se apossarem das instalações da companhia. Agora, o movimento de Birdsong estava querendo aliar-se ao prestigiado Clube da Sequóia para o combate aos mais recentes planos de expansão da GSP & L. A proposta seria examinada numa reunião com o alto-comando do Clube da Sequóia, a ser iniciada dali a pouco.

- Puxa, Laura boneca, acho que é realmente inspirador trabalhar num lugar bacana como este - disse Birdsong, correndo os olhos pela elegante sala de reuniões em que estavam conversando. - Devia ver a minha pocilga. Comparada com isto, é o próprio pesadelo de um mendigo.

- Recebemos esta sede há muitos anos como parte de um legado explicou Laura Bo. - Uma cláusula nos obrigava a ocupar o prédio, caso contrário não receberíamos a renda substancial que o acompanha. Em determinadas ocasiões, e aquela era uma delas, Laura Bo Carmichael achava constrangedor ter a sede do Clube da Sequóia naquela imponente mansão de Cable Hill. Fora outrora a residência de um milionário e ainda transmitia uma impressão de riqueza e opulência; pessoalmente, Laura Bo teria preferido instalações mais modestas. Uma mudança agora, no entanto, seria um desastre financeiro. Depois de uma pausa, acrescentou: - Gostaria de que não me chamasse de "Laura boneca".

- vou anotar para não esquecer.

Sorrindo, Birdsong tirou do bolso um caderninho de anotações e uma caneta esferográfica, escrevendo rapidamente alguma coisa.

Guardando novamente o caderninho e a caneta, ele contemplou o corpo esguio e pequeno de Laura Bo, antes de comentar, pensativo:

- Legados, hem? De doadores mortos. Acho que isso e o dinheiro de doadores vivos é que faz com que o Clube da Sequóia seja tão rico.

- Rico é uma palavra relativa. - Laura Bo Carmichael desejou que seus três colegas que iriam participar da reunião já tivessem chegado. - É verdade que nossa organização felizmente conta com apoio nacional, mas também temos despesas vultosas.

O homem barbado soltou uma risadinha.

- Mas não tanto, espero, que não possam soltar um pouco da grana para outros grupos... que estão empenhados na mesma missão e precisam desesperadamente.

- É o que vamos ver. Mas, por favor, não fique pensando que somos ingénuos o bastante para se apresentar como o parente pobre e arrancar o que quiser. Sabemos que não é tão pobre assim. - Laura Bo consultou algumas anotações, que tencionava usar só mais tarde. - Sabemos, por exemplo, que a sua & Ip tem cerca de 25. 000 associados, os quais pagam três dólares por ano de contribuição, recebidos porta a porta. O que dá um total de 75 mil dólares. Dessa quantia, você retira um salário de 20 mil dólares por ano, mais uma verba de despesas desconhecida.

- A gente tem que viver.

- E eu diria que muito bem. - Laura Bo consultou novamente suas anotações. - Recebe também honorários por suas aulas na universidade, um salário fixo de uma organização de treinamento de ativistas e o pagamento pelos artigos que escreve. Somando tudo, sua renda como protestador deve andar em torno dos 60. 000 dólares anuais.

Davey Birdsong, cujo sorriso se alargara ainda mais enquanto escutava, não pareceu ficar embaraçado. Limitou-se a comentar:

- Um bom trabalhinho de pesquisa.

Foi a vez da presidente do Clube da Sequóia sorrir.

- Temos um excelente departamento de pesquisa. - Ela guardou as anotações e acrescentou: - Nada do que acabei de falar é para uso externo, é claro. Queria apenas mostrar-lhe que estamos a par das atividades dos protestadores profissionais, como você, e sabemos que estão indo muito bem financeiramente. Esse conhecimento mútuo nos irá poupar tempo, quando começarmos a discutir a possibilidade de uma associação.

Uma porta se abriu silenciosamente e um homem idoso e impecável, os cabelos prateados, entrou na sala. Laura Bo disse:

- Sr. Birdsong, creio que já conhece nosso diretor-secretário, Sr. Pritchett.

Davey Birdsong estendeu a mão grande e carnuda.

- Já nos encontramos algumas vezes nos campos de batalha desta vida. Oi, Pritchy!

Depois que sua mão foi vigorosamente sacudida, o recém-chegado disse secamente:

- Jamais havia pensado nas audiências sobre o meio ambiente como campos de batalha, mas acho que podem ser encaradas desse modo.

- Tem toda razão, Pritchy! E quando entro em combate, especialmente contra a grande inimiga ao povo, a Golaen btate Power, disparo todos os canhões e não tiro mais o dedo do gatilho. É assim que tem que ser, cada vez mais violento. Não estou querendo dizer que não exista lugar para uma oposição como a de vocês. Claro que há! Vocês dão o chamado toque de classe. Mas sou eu que conquisto as manchetes e entro no noticiário da televisão. Por falar nisso, vocês me viram na TV com aquele idiota da GSP & L, o tal de Goldman?

- No GoodEvening Show - disse o diretor-secretário do Clube da Sequóia. - Vi, sim. Achei-o bastante veemente. Mas, para ser franco, creio que Goldman foi muito esperto ao resistir às suas provocações. Pritchett tirou os óculos sem aros para poli-los. - Talvez, como falou, haja de fato um lugar para uma oposição como a sua à GSP & L. É possível até que precisemos uns dos outros.

- Assim é que se fala, Pritchy!

- A pronúncia correia é Pritchett. Ou, se preferir, pode chamarme de Roderick.

- vou anotar para não esquecer, Roddy meu velho!

Sorrindo para Laura Bo, Birdsong repetiu o ritual do caderninho de anotações.

Enquanto conversavam, duas outras pessoas entraram na sala. Laura Bo apresentou-os como Irwin Saunders e a Sra. Priscilla Quinn, os restantes membros do comitê-executivo do Clube da Sequóia. Saunders era um homem calvo, a voz sonora de advogado que cuidava dos divórcios de pessoas importantes e estava sempre no noticiário. A Sra. Priscilla Quinn, elegantemente vestida e atraente, beirando os 50 anos, era esposa de um rico banqueiro e se destacara por seu zelo cívico e por limitar suas amizades a outras pessoas ricas ou importantes. Apertou a mão estendida de Davey Birdsong com relutância, contemplando-o com um misto de curiosidade e aversão.

A presidente do Clube da Sequóia sugeriu:

- Acho que podemos todos nos sentar e começar a reunião.

Os cinco se acomodaram numa extremidade da mesa de mogno comprida, com Laura Bo na cabeceira. E ela deu início imediatamente à reunião:

- Estamos todos preocupados com as recentes propostas da Golden State Power & Light. O Clube da Sequóia já decidiu que elas são prejudiciais ao meio ambiente. Assim, nos iremos opor ativamente à aprovação dos projetos, nas audiências prestes a serem iniciadas.

Birdsong deu um sonoro murro na mesa:

- E eu proponho: três vivas à turma do Sequóia!

Irwin Saunders assumiu uma expressão divertida. A Sra. Quinn franziu as sobrancelhas. Laura Bo continuou:

- O que o Sr. Birdsong está sugerindo, para maior eficácia da oposição, é que haja uma aliança em determinados pontos entre nossa organização e a dele. Mas vou pedir-lhe que apresente pessoalmente sua proposta.

As atenções se concentraram em Davey Birdsong. Ele fitou um a um, com uma expressão amistosa, antes de começar sua argumentação:

- O tipo de oposição de que todos nós estamos falando é uma guerra... e o inimigo é a GSP & L. Encarar a situação de outra forma seria cortejar a derrota. Portanto, assim como numa guerra, o ataque deve ser desfechado em várias frentes.

Era óbvio que Birdsong já se despojara da anterior aparência de palhaço e que a linguagem já não era mais tão irreverente.

- Para levar esse símile de guerra um estágio mais adiante, assim como promover combates sobre questões específicas, não se pode perder nenhuma oportunidade de atacar a GSP & L.

A Sra. Quinn interveio:

- Sei perfeitamente que nos disse que se tratava de uma analogia, mas acho essa conversa de guerra extremamente desagradável. Afinal de contas...

O advogado, Saunders, estendeu-se sobre a mesa e tocou no braço dela.

- Por que não o deixa terminar, Priscilla? Ela deu de ombros.

- Está certo.

- Muitas causas nobres são derrotadas, Sra. Quinn - declarou Birdsong - por causa da suavidade excessiva e da relutância em aceitar a dura realidade.

Saunders assentiu.

- Um argumento válido.

- Vamos ser mais específicos - propôs Pritchett, o diretorsecretário. - Referiu-se a "várias frentes", Sr. Birdsong. Precisamente quais?

- Assim é que tem de ser! - Birdsong voltou imediatamente a se mostrar objetivo e profissional. - Frentes um, dois e três: as audiências públicas sobre os anunciados projetos para Tunipah, Fincastle e Portão do Diabo. Sei que vocês irão lutar em todas elas. E o mesmo fará a minha brava &lp!

- Apenas por curiosidade, poderia informar-me quais serão seus argumentos de oposição? - indagou Laura Bo.

- Ainda não sabemos com certeza, mas não se preocupem. Daqui até lá, pensaremos em alguma coisa.

A Sra. Quinn ficou visivelmente chocada. Irwin Saunders sorriu.

- E há também as audiências sobre tarifas. É a frente número quatro. Em qualquer ocasião que for apresentada uma proposta para aumentar as tarifas da companhia, a & Ip irá opor-se tenazmente, como fez da última vez. E com pleno sucesso, já posso acrescentar.

- Como assim? - indagou Roderick Pritchett. - Até agora, pelo que sei, a decisão ainda não foi anunciada.

- Isso mesmo, ainda não foi. - Birdsong sorriu, com um ar de superioridade. - Mas tenho amigos na Comissão de Serviços Públicos e sei o que acontecerá dentro de dois ou três dias... um comunicado que será um chute nos baixos da GSP & L.

Pritchett perguntou, curioso:

- A companhia já sabe disso?

- Duvido muito.

- Vamos continuar - sugeriu Laura Bo Carmichael.

- A quinta frente, da maior importância, é a reunião anual da Golden State Power & Light, que será realizada dentro de duas semanas e meia. Tenho alguns planos para essa reunião, mas agradeceria se não me fizessem perguntas a respeito.

- Está insinuando que é melhor não sabermos? - indagou Saunders.

- Exatamente.

- Mas em que consiste afinal a associação entre nós? - perguntou Laura Bo.

Birdsong sorriu, esfregando o polegar e dois dedos, sugestivamente.

- É esta a ligação que estou querendo. Dinheiro.

- Eu já imaginava que chegaríamos a isso - comentou Pritchett.

- Há mais um detalhe sobre nosso trabalho em conjunto - acrescentou Birdsong. - Seria melhor que nada transpirasse. Deve permanecer confidencial, entre nós.

- Neste caso, de que maneira o Clube da Sequóia poderia obter algum benefício? - perguntou a Sra. Quinn.

- Posso responder a essa pergunta - declarou Irwin Saunders. A verdade, Priscilla, é que qualquer coisa que afetar a imagem da GSP & L, em qualquer área, irá provavelmente diminuir sua força e sucesso em outras. - Ele fez uma pausa, sorrindo. - É uma tática que os advogados costumam usar frequentemente.

- Por que precisa de dinheiro? - perguntou Pritchett a Birdsong.

- E qual a soma que pretende pedir?

- Precisamos de dinheiro porque a & Ip sozinha não tem condições de financiar todos os preparativos e pessoas que são necessários para que a nossa oposição conjunta, por cima e por baixo da mesa, possa tornar-se eficaz. - Birdsong virou-se diretamente para a presidente do Clube da Sequóia. - Como mencionou antes, dispomos de recursos próprios, mas não são suficientes para um projeto dessas proporções. Seu olhar percorreu lentamente os outros. - A quantia que estou sugerindo como contribuição do Clube da Sequóia é de cinquenta mil dólares, em dois pagamentos.

O diretor-secretário tirou os óculos e examinou-os atentamente, antes de comentar:

- Uma coisa eu posso garantir: não costuma pensar pequeno.

- Não, não costumo. E vocês também não devem fazê-lo, levando-se em consideração o que está em jogo... no caso do Clube da Sequóia, um possível grande impacto sobre o meio ambiente.

- O que mais me incomoda - disse a Sra. Quinn - são certas insinuações de luta implacável e com golpes sujos, o que não me agrada de jeito nenhum.

Laura Bo Carmichael assentiu.

- Estou pensando exatamente a mesma coisa.

Foi novamente o advogado, Saunders, quem interveio:

- Não se pode deixar de enfrentar determinados aspectos da vida. Ao se opor aos últimos projetos da Golden State Power, Tunipah, Fincastle e Portão do Diabo, o Clube da Sequóia irá apresentar o que sabemos ser argumentos racionais e sólidos. Contudo, levando-se em consideração o clima dos nossos tempos e a demanda ilusória de mais e mais energia, a razão pode não prevalecer. Sendo assim, o que mais podemos fazer? Em minha opinião, precisamos de outro elemento... um aliado que seja mais agressivo, mais ostensivo, que possa atrair mais atenção do público, o que servirá para pressionar e influenciar os responsáveis pelas decisões, que no fundo não passam de políticos. Creio que o Sr. Birdsong e seu grupo não sei o quê...

- Força & luz para o povo - interveio Birdsong.

Saunders sacudiu a mão, como se tal detalhe não tivesse a menor importância.

- Tanto antes como durante as audiências, o Sr. Birdsong poderá acrescentar esse elemento de que carecemos.

- A televisão e os jornais me adoram - comentou Birdsong. Eu lhes proporciono um espetáculo à parte, algo para temperar e animar o noticiário. Por causa disso, tudo o que eu digo é publicado ou lançado no ar.

- É verdade - confirmou o diretor-secretário. - Até mesmo algumas de suas declarações mais extravagantes foram noticiadas, enquanto os meios de comunicação omitiam os nossos comentários e da GSL.

A presidente do Clube da Sequóia perguntou-lhe:

- Devo presumir que está a favor do que foi proposto?

- Estou, sim - respondeu Pritchett. - Mas quero uma garantia. Gostaria de que o Sr. Birdsong nos assegurasse de que, o que quer que seu grupo venha a fazer, nenhuma violência ou intimidação será aprovada ou estimulada.

A mesa tremeu com outro murro de Birdsong.

- A garantia está dada! Meu grupo é contrário à violência de qualquer tipo. Já fizemos diversas declarações anunciando isso expressamente.

- Fico contente por saber disso - declarou Pritchett. - O Clube da Sequóia, evidentemente, também partilha essa posição. Por falar nisso, imagino que todos já leram o noticiário no Chronicle-West de hoje sobre novas bombas que explodiram na GSP & L.

Os outros assentiram. O jornal informara a destruição que ocorrera na noite anterior numa garagem da GSP & L. Mais de duas dúzias de veículos haviam sido danificados ou totalmente destruídos por um incêndio provocado pela explosão de uma bomba. Alguns dias antes, uma bomba explodira numa subestação da companhia, embora, sem causar maiores danos. Nos dois casos, a organização clandestina Amigos da Liberdade reivindicara a autoria.

- Mais alguma pergunta para o Sr. Birdsong? - indagou Laura BoCarmichael.

Houve varias perguntas, sobre as táticas que seriam empregadas contra a GSP & L - "ataques contínuos numa frente ampla de informação pública", segundo Birdsong - e a que se destinaria o dinheiro do Clube da Sequóia.

Em determinado momento, Roderick Pritchett pensou em voz alta:

- Não tenho certeza se devemos insistir num relato detalhado, mas naturalmente devemos exigir provas de que nosso dinheiro foi gasto de maneira eficaz.

- A prova serão os resultados - declarou Birdsong.

Todos concordaram que determinadas questões deviam ser aceitas numa base de confiança. Finalmente, Laura Bo Carmichael disse:

- Sr. Birdsong, eu gostaria agora que se retirasse, por gentileza, a fim de que possamos discutir sua proposta em particular. O que quer que fique decidido, muito em breve voltaremos a entrar em contato.

Davey Birdsong levantou-se, radiante, o corpo imenso muito acima dos outros.

- Em tudo e por tudo, foi um privilégio e um prazer! E agora, parceiros... até a vista!

Quando ele saiu da sala, todos estavam pensando que, por um descuido, ele voltara a assumir, ao final, o papel que representava em público. Assim que a porta se fechou, a Sra. Quinn foi a primeira a falar, firmemente:

- Não gosto nada disso. Sinto uma aversão profunda por aquele homem e todos os meus instintos dizem que não devemos confiar nele. Sou totalmente contrária a qualquer vinculação com o grupo dele.

- Lamento saber disso - comentou Irwin Saunders - porque acredito que as táticas que ele propôs são justamente o que precisamos para derrotar as novas propostas da GSP & L, que é o mais importante, acima de qualquer outra coisa.

- Devo dizer, Sra. Quinn, que concordo com a opinião de Irwin disse Pritchett.

Priscilla Quinn sacudiu a cabeça, enfaticamente.

- Nada que vocês possam dizer me fará mudar de ideia. O advogado suspirou.

- Está sendo muito suscetível e exigente, Priscilla.

- É possível - respondeu a Sra. Quinn, corando. - Mas também tenho princípios, algo que aquele homem repulsivo parece ignorar inteiramente.

Laura Bo interveio, bruscamente:

- Não vamos começar a discutir entre nós!

- Gostaria de lembrar que este comité tem autoridade para tomar uma decisão irrevogável - disse Pritchett, suavemente. - E se chegarmos a uma decisão, podemos também investir a quantia que nos foi solicitada.

- Madame Presidente - disse Saunders - até agora a votação é de dois a favor e uma contra. Assim, o voto decisivo lhe cabe.

- Sei disso - falou Laura Bo. - E confesso que ainda estou em dúvida.

- Neste caso - acrescentou Saunders - deixe-me apresentar alguns argumentos a favor da minha posição e de Roderick.

- E quando acabar - interveio Priscilla Quinn - também apresentarei meus argumentos.

O debate se prolongou por mais 20 minutos.

Laura Bo Carmichael ficou escutando, atentamente, acrescentando alguma coisa aqui e ali, enquanto avaliava mentalmente qual a posição que deveria adotar. Se se opusesse à cooperação com Birdsong, haveria um empate de dois a dois na votação, o que equivaleria a uma rejeição sumária. Se votasse a favor, haveria uma contagem decisiva de três contra um.

Sua propensão era votar "não". Embora reconhecesse os méritos do pragmatismo de Saunders e Pritchett, os instintos de Laura Bo em relação a Davey Birdsong eram iguais aos de Priscilla Quinn. O problema era que ela não queria parecer por demais vinculada a Priscilla Quinn, uma esnobe inegável, eternamente nas colunas sociais, casada com uma fortuna antiga da Califórnia e representando assim muitas coisas que Laura Bo abominava.

Havia outra coisa de que ela estava perfeitamente consciente: se ficasse do lado de Priscilla contra os outros dois, seria um caso evidente das mulheres contra os homens. Não fazia a menor diferença que Laura Bo não tivesse tal intenção e fosse perfeitamente capaz de julgar qualquer questão independente de seu sexo; era assim que iria parecer. Podia imaginar Irwin Saunders, um macho chauvinista, pensando: As malditas mulheres sempre se aliam! Ele poderia não dizê-lo expressamente, mas era inevitável que pensariam assim. Saunders não fora um dos partidários de Laura Bo, quando ela se candidatara à presidência do Clube da Sequóia; apoiara outro candidato, um homem. Agora, Laura Bo, como a primeira mulher a ocupar o mais alto posto da organização, queria provar que podia exercê-lo tão bem e imparcialmente quanto qualquer homem, talvez até muito melhor.

E, no entanto... ainda havia o instinto a dizer-lhe que a associação com Birdsong seria um erro.

- Estamos dando voltas intermináveis - declarou finalmente Irwin Saunders. - Sugiro que façamos uma votação final.

Priscilla Quinn declarou prontamente:

- Meu voto continua a ser "não". Saunders resmungou:

- Pois eu voto "sim".

- Perdoe-me, Sra. Quinn - disse Pritchett - mas também voto "sim".

Os olhos dos três se concentraram em Laura Bo. Ela hesitou, analisando mais uma vez todas as implicações e suas dúvidas. Depois, declarou, incisivamente:

- Também voto "sim".

- Então está decidido! - gritou Irwin Saunders, esfregando as mãos num gesto de satisfação. - Por que não se torna uma boa perdedora, Priscilla? Mude seu voto, para que a decisão se torne unânime.

Contraindo os lábios, a Sra. Quinn sacudiu a cabeça, negativamente.

- Acho que vocês ainda vão arrepender-se desse voto. E quero que minha divergência fique registrada em ata.

Enquanto o comitê-executivo do Clube da Sequóia prosseguia no debate em sua ausência, Davey Birdsong deixava o prédio cantarolando uma música alegre. Não tinha a menor dúvida quanto ao resultado da reunião. Sabia que Priscilla Quinn ficaria contra ele, mas tinha igualmente certeza de que os outros três, por motivos pessoais, aceitariam sua proposta. Os 50. 000 dólares estavam no bolso.

Foi pegar o carro, um Chevrolet todo avariado, num estacionamento próximo e atravessou o centro da cidade, seguindo depois para sudeste, por vários quilómetros. Parou numa rua comum, onde nunca estivera antes, mas era o tipo de lugar em que podia deixar o carro por várias horas sem atrair qualquer atenção. Trancou o carro, gravou mentalmente o nome da rua e depois andou vários quarteirões até uma rua mais movimentada, onde observara na passagem que havia diversos pontos de ônibus. Pegou o primeiro ônibus que seguia para Oeste.

Ao se afastar do carro, pusera um chapéu que normalmente nunca usava e óculos de aros de tartaruga, de que não precisava. Os dois acréscimos alteravam surpreendentemente sua aparência; qualquer pessoa que estivesse acostumado a vê-lo na televisão ou em outro lugar quase que certamente não iria reconhecê-lo agora.

Depois de viajar de ônibus por cerca de 10 minutos, Birdsong saltou e fez sinal para um táxi que passava, dizendo ao motorista que seguisse para o norte. Olhou diversas vezes pela janela traseira do carro, observando os carros que vinham atrás. Pareceu ficar satisfeito com as verificações; mandou que o motorista parasse, pagou e desceu. Poucos minutos depois, embarcou em outro ônibus, desta vez seguindo para leste. A esta altura, sua jornada a partir do local em que deixara o carro estacionado já assumira o formato aproximado de um quadrado.

Ao saltar do segundo ônibus, Birdsong examinou atentamente os outros passageiros que também saltaram. Pôs-se a andar rapidamente, virando em diversas esquinas e olhando para trás a cada vez. Depois de caminhar por cinco minutos, parou diante de uma casa pequena, subiu meia dúzia de degraus até a porta da frente, recuada. Apertou a campainha e ficou parado, esperando, num lugar em que podia ser visto do outro lado, através do olho-mágico. Quase que imediatamente a porta se abriu e ele entrou.

No pequeno vestíbulo escuro do esconderijo dos Amigos da Liberdade, Georgos Archambault perguntou-lhe:

- Tomou'todas as precauções ao vir até aqui?

- Claro que tomei! Sempre tomo! - Em tom de acusação, Birdsong acrescentou: - Estragou aquele trabalho da subestação!

- Houve motivos para isso. Vamos descer.

Georgos desceu na frente pela escada de cimento até a oficina no porão, com seu suprimento habitual de explosivos e acessórios. Num divã improvisado, encostado na parede, havia uma moça deitada. Parecia ter vinte e poucos anos. O rosto pequeno e redondo, que em outras circunstâncias poderia ter sido bonito, estava extremamente pálido. Os cabelos louros, finos e compridos, que precisavam de uma escovadela, estavam derramados sobre um travesseiro imundo. A mão direita estava envolta por uma atadura, com manchas marrons, nos pontos pelos quais o sangue passara e secara. Birdsong explodiu:

- Por que ela está aqui?

- Era o que eu ia explicar - respondeu Georgos. - Ela me estava ajudando no trabalho na subestação e um detonador explodiu. Ela perdeu dois dedos e começou a sangrar que nem um porco estripado. Estava escuro, eu não tinha certeza se nos haviam ouvido. E fiz o resto do trabalho às pressas.

- E onde deixou a bomba foi estúpido e inútil! Causou tanto dano quanto um fogo de artifício!

Georgos ficou vermelho. Antes que tivesse tempo de responder, a moça murmurou:

- Eu deveria ir para um hospital...

- Não pode e não vai! - Birdsong não exibia agora sua afabilidade característica. Acrescentou para Georgos, em tom furioso: - Conhece o nosso ajuste! Tire-a daqui!

Georgos fez um gesto com a cabeça e a moça, com uma expressão infeliz, levantou-se e subiu a escada. Ele sabia que cometera outro erro ao deixá-la ficar ali. O ajuste que Birdsong mencionara, uma precaução das mais sensatas, era a de que apenas Georgos devia encontrá-lo pessoalmente. A ligação de Davey Birdsong era desconhecida para os outros membros do grupo clandestino, Wayde, Ute e Felix, que deixavam a casa ou ficavam fora do caminho sempre que se esperava uma visita do contato externo dos Amigos da Liberdade. Georgos podia compreender que o problema era o fato de ter-se tornado muito mole com aquela mulher, Yvette, o que era péssimo. Tivera a mesma reação quando o detonador explodira; na ocasião, ficara mais preocupado com os ferimentos de Yvette do que com o trabalho ainda por executar. Terminara-o às pressas porque queria tirá-la de lá em segurança o mais depressa possível. E fora por isso que acabara fracassando.

Depois que a moça se retirou, Birdsong disse, em voz baixa:

- Nada de hospital, nada de médico. Haveria perguntas e ela sabe demais. Se for necessário, livre-se dela. Há meios bem fáceis.

- Ela vai ficar boa. Além do mais, é bastante útil. - Georgos estava-se sentindo constrangido sob o olhar atento de Birdsong e tratou de mudar de assunto. - Saiu tudo bem na garagem ontem à noite. Já leu os jornais?

Birdsong assentiu, de má vontade.

- Tudo deveria acontecer assim. Não há tempo nem dinheiro para se desperdiçar com fracassos.

Georgos aceitou a censura em silêncio, embora não precisasse fazêlo. Era o líder dos Amigos da Liberdade. O papel de Davey Birdsong era secundário, um contato com o mundo exterior, especialmente com os partidários da revolução - "os marxistas de poltrona" - que eram a favor da anarquia ativa, mas não queriam partilhar os riscos. Contudo, por sua própria natureza, Birdsong gostava de parecer dominante; às vezes, Georgos deixava-o manifestar-se dessa forma, por causa de sua utilidade, particularmente do dinheiro que trazia.

E o dinheiro era justamente o motivo para que naquele momento evitasse uma discussão; Georgos precisava de mais, já que suas fontes anteriores haviam secado abruptamente. A cadela de sua mãe, a atriz de cinema grega que o abastecera com uma renda constante ao longo de 20 anos, aparentemente estava passando por dificuldades; não mais conseguia obter bons papéis em filmes, porque nem mesmo a maquilagem podia mais ocultar o fato de que já estava com 50 anos e sua aparência de jovem deusa desaparecera para sempre. Isso pelo menos deixava Georgos deliciado e ele torcia para que a situação da mãe se fosse tornando cada vez pior. Se ela estivesse passando fome, dizia a si mesmo, não lhe daria nem mesmo um biscoito velho. De qualquer forma, o aviso dos advogados de Atenas, impessoal como sempre, comunicando que não haveria mais pagamentos depositados na conta bancária em Chicago, chegara no pior momento possível.

As necessidades financeiras de Georgos incluíam os custos atuais e os planos futuros. Um dos projetos era construir uma pequena bomba atómica e explodi-la dentro ou perto da sede da Golden State Power & Light. Georgos raciocinava que tal bomba iria destruir o prédio, com todos os exploradores e lacaios que estivessem lá dentro, além de uma boa parte do que estivesse ao redor. Seria uma lição das mais saudáveis para os capitalistas opressores do povo. Ao mesmo tempo, os Amigos da Liberdade iriam tornar-se uma força ainda mais formidável, a ser tratada com temor e respeito.

A ideia de fabricar uma bomba atómica era ambiciosa e talvez irrealista... mas não inteiramente. Afinal, um estudante de 21 anos de Princeton, John Phillips, já demonstrara de maneira amplamente divulgada pela imprensa que todos os detalhes do "como" estavam disponíveis em materiais de referência das bibliotecas, para alguém que tivesse a paciência de reuni-los. Georgos Winslow Archambault, conhecedor de física e química, obtivera todas as informações possíveis sobre a pesquisa de Phillips e acumulara um arquivo próprio, usando também dados recolhidos em bibliotecas. Um item do arquivo que não viera de nenhuma biblioteca era um manual de 10 páginas do Departamento de Serviços de Emergência da Califórnia, dirigido às polícias locais. Descrevia como se enfrentar as ameaças de bomba atómica e continha diversas informações úteis. Georgos estava convencido de que se encontrava bem perto de poder elaborar um projeto exequível. Contudo, a fabricação de uma bomba exigiria material físsil, que teria de ser roubado. Isso exigiria dinheiro - e muito - além de uma boa organização e sorte. Mas podia ser feito; coisas muito mais estranhas já haviam acontecido.

Ele disse a Birdsong:

- Já faz muito tempo que trouxe dinheiro pela última vez. Estamos precisando de mais.

- Pois vai ter. - Birdsong permitiu-se um sorriso, o primeiro desde que chegara. - E muito. Descobri outra árvore de dinheiro.

Nim estava fazendo a barba. Passava um pouco das sete horas da manhã de uma quinta-feira, ao final de agosto.

Ruth descera 10 minutos antes, a fim de preparar o café da manhã. Leah e Benjy ainda estava dormindo. Ruth tornou a subir, inesperadamente, aparecendo na porta do banheiro com o Chronicle-West nas mãos.

- Detesto fazer com que comece o dia da pior maneira possível, Nim, mas sei que vai querer dar uma lida nesta notícia.

- Obrigado.

Nim largou o aparelho de barbear e pegou o jornal com as mãos úmidas, correndo os olhos pela primeira página. Abaixo da dobra, havia uma notícia em uma coluna:

Rejeitado Pedido de Aumento da GSL.

As tarifas de eletricidade e gás não vão aumentar. Isso foi revelado ontem à tarde pela Comissão de Serviços Públicos da Califórnia, ao anunciar a rejeição de uma solicitação da Golden State Power & Light de um aumento de 13 nas tarifas de eletricidade e gás, o que proporcionaria à gigantesca companhia mais 580. 000. 000 de dólares de receita anuais.

"Não cremos que haja necessidade de um aumento neste momento", declarou a Comissão de Serviços Públicos, numa decisão tomada por uma votação de 3 a 2.

Nas audiências públicas, a GSP & L alegara que precisa do aumento para cobrir os custos crescentes, decorrentes da inflação, e para levantar recursos a serem aplicados em seu programa de expansão.

Os altos dirigentes da GSP & L não estavam disponíveis para qualquer comentário, mas um porta-voz da companhia lamentou a decisão e manifestou sua preocupação pelo futuro da situação energética na Califórnia. Por outro lado, Davey Birdsong, líder de um grupo de consumidores, força & luz para o povo, saudou a decisão como...

Nim deixou o jornal em cima da tampa da privada a seu lado e terminou de fazer a barba; soubera da decisão ao final do dia anterior e assim a notícia era apenas uma confirmação. Ao descer, Ruth já preparara a comida, rim de carneiro com ovos mexidos. Sentou-se diante dele, com uma xícara de café nas mãos.

- O que significa realmente a decisão da comissão, Nim? Ele fez uma carranca.

- Significa que três pessoas, que arrumaram seus empregos através da política, têm o direito de dizer às grandes corporações, como a GSP & L e a companhia telefónica, como devem administrar seus negócios.

- E isso irá afetá-lo?

- Mas claro que afeta! Terei que reformular todo o programa de expansão; vamos cancelar ou diminuir o ritmo de alguns projetos, o que provocará dispensas em massa de empregados. Haverá inclusive problemas de caixa. Todo mundo vai estar de cara triste hoje, principalmente Eric. - Nim cortou um pedaço de rim. - Está delicioso. Ninguém sabe fazer melhor do que você.

Ruth hesitou por um instante, antes de dizer:

- Será que poderia providenciar seu próprio café da manhã pôr alguns dias?

Nim ficou aturdido... - Claro. Mas por quê?

- Talvez eu tenha que viajar. - Ruth fez uma pausa e corrigiu-se:

- Ou melhor, vou viajar. Por uma semana, talvez mais.

Nim largou a faca e o garfo e fitou-a atentamente.

- Por quê? Para onde?

- Mamãe vai ficar tomando conta de Leah e Benjy enquanto eu viajo. E a Sra. Blair continuará fazendo a limpeza. Assim, precisará apenas de jantar fora, o que não será nenhum problema para você.

Nim ignorou a provocação. E insistiu, alteando a voz:

- Não respondeu a minha pergunta. Para onde vai e por quê?

- Não há necessidade de gritarmos. - Por baixo do controle de Ruth, ele podia sentir uma frieza inesperada. - Ouvi perfeitamente sua pergunta. Mas do jeito que estão as coisas entre nós, não creio que tenha de responder. Não concorda?

Nim ficou calado, sabendo exatamente o que Ruth estava querendo insinuar: Por que deveria haver um comportamento duplo? Se Nim decidira quebrar as regras do casamento, tendo uma sucessão de ligações amorosas e passando várias noites fora de casa, absorvido em seus prazeres, por que Ruth não deveria exercer uma liberdade similar, também sem dar explicações'.

Nessa base, a declaração de igualdade de Ruth - e obviamente era isso o que ela estava fazendo - era perfeitamente procedente. Mesmo assim, Nim sentiu uma pontada de ciúme, pois agora tinha certeza de que Ruth estava envolvida com outro homem. Inicialmente, não pensara assim; agora, estava convencido. E embora soubesse que em muitos casamentos havia acordos de liberdade mútua, achava muito dificil aceitar no seu próprio.

Interrompendo os pensamentos dele, Ruth disse:

- Ambos sabemos que há muito tempo mantemos apenas uma aparência de casamento. E preferimos não falar a respeito. Mas acho que deveríamos. - Desta vez, apesar do esforço para dar a impressão de firmeza, havia um ligeiro tremor na voz de Ruth. Nim perguntou:

- Quer falar agora? Ruth sacudiu a cabeça.

- Talvez quando eu voltar. - Ela fez uma pausa e depois acrescentou: - Assim que eu resolver algumas coisas, irei informá-lo de quando sairei de casa.

- Está certo - respondeu Nim, atordoado.

- Ainda não terminou de comer. Ele empurrou o prato para o lado.

- Não estou mais com fome.

Embora a conversa com Ruth, um tremendo choque por ocorrer tão abruptamente, preocupasse Nim durante a viagem até o centro, a atividade nos escritórios da GSP & L rapidamente eclipsou os pensamentos pessoais.

A decisão da Comissão de Serviços Públicos tinha prioridade sobre tudo o mais.

Durante toda a manhã, uma procissão de executivos dos departamentos financeiro e jurídico, as expressões soturnas, entrou e saiu apressadamente do gabinete do presidente. As idas e vindas assinalavam uma sucessão de reuniões, todas sobre a mesma questão essencial: Sem um aumento nas tarifas para os consumidores, como a GSP & L poderia executar seus planos de expansão e permanecer solvente? A conclusão: sem alguma redução drástica e imediata nas despesas, não haveria a menor possibilidade.

Em determinado momento, J. Eric Humphrey, andando de um lado para outro sobre o tapete, diante de sua mesa, indagou, retoricamente:

- Por que ninguém reclama e aceita naturalmente quando o preço do pão sobe, em decorrência da inflação, a carne passa a custar mais, gasta-se mais dinheiro para ir ao cinema ou a um baile? Mas quando declaramos uma verdade pura e simples, que não podemos mais fornecer energia pelas tarifas antigas, porque nossos custos também subiram, ninguém acredita.

Oscar O'Brien, o advogado da companhia, acendeu um dos seus inevitáveis charutos, enquanto respondia:

- Não acreditam em nós porque foram condicionados a não acreditar... principalmente pelos políticos, tentando conquistar votos e procurando um alvo fácil para seus ataques. E as companhias de serviços públicos sempre foram um alvo fácil.

O presidente resmungou:

- Políticos! Eles me enojam! Inventaram a inflação, promoveram-na, agravaram-na, continuam a mantê-la enquanto aumentam a dívida pública... tudo para que possam comprar votos e não perder seus empregos. Ao mesmo tempo, esses charlatães, distorcendo e escondendo a verdade, lançam a culpa pela inflação a tudo o mais, empresas, sindicatos trabalhistas, a qualquer um, a qualquer coisa, menos a si próprios. Se não fosse pelos políticos, não estaríamos pedindo um aumento das tarifas, porque não haveria necessidade.

Sharlett Underhill, vice-presidente executiva de finanças e a quarta pessoa presente na sala naquele momento, murmurou:

- Amém!

Sharlett, morena, esguia, de quarenta e poucos anos, competente, normalmente inabalável, parecia hoje preocupada e sem saber o que fazer. O que era compreensível, pensou Nim. Quaisquer que fossem as decisões financeiras que se adotasse, em consequência da rejeição da comissão, iriam ser inevitavelmente rigorosas, e Sharlett é que teria de executá-las.

Eric Humphrey, parando de andar, perguntou:

- Alguém tem alguma teoria sobre o motivo pelo qual tudo o que pedimos foi rejeitado? Por acaso nos enganamos em nossos julgamentos? Onde nossa estratégia foi errada?

- Tenho a impressão de que não houve erro em nossa estratégia respondeu O'Brien. - E não tenho a menor dúvida de que nossos julgamentos estavam absolutamente corretos.

Por trás da pergunta e da resposta havia uma prática comum das companhias de serviços públicos... mas também um segredo ciosamente guardado.

Sempre que era nomeado um novo Comissário de Serviços Públicos, as companhias que seriam afetadas por suas decisões iniciavam um estudo detalhado de sua personalidade, inclusive um perfil psiquiátrico. O material recolhido era analisado por psicólogos, à procura de preconceitos contra os quais se devesse tomar cuidado e de fraquezas que pudessem ser exploradas.

Mais tarde, um executivo da companhia tentava fazer amizade com o comissário. Este era recebido na casa do executivo, convidado a jogar golfe e a assistir eventos esportivos, a pescar truta nas serras. Os encontros eram sempre agradáveis, particulares, discretos, jamais suntuosos. Durante as conversas, podiam-se abordar os problemas da companhia, mas jamais eram pedidos favores diretos. A influência era mais sutil. Frequentemente, a tática funcionava a favor da companhia. Ocasionalmente, isso não acontecia.

- Sabíamos que dois comissários votariam contra nós de qualquer maneira - continuou o advogado. - E sabíamos também que dois outros estavam do nosso lado. Assim, o voto de Cy Reid seria decisivo. Trabalhamos Reid, pensávamos que ele já havia aceitado nossos argumentos. Mas estávamos enganados.

Nim conhecia o Comissário Cyril Reid. Era um Ph. D. em economia e ex-professor universitário, cuja experiência prática em negócios era inexistente. Mas Reid colaborara estreitamente com o Governador da Califórnia em duas campanhas eleitorais, e por isso fora designado para o cargo. Os observadores estavam convencidos de que, se o Governador se mudasse de Sacramento para a Casa Branca, como pretendia, levaria Cy Reid junto, para ser o chefe de sua assessoria.

Segundo um informe confidencial que Nim lera, o Comissário Reid havia sido outrora um fervoroso partidário da economia keynesiana. Mas mudara de ideia, convencido agora de que as doutrinas do déficit de John Maynard Keynes haviam levado ao desastre económico mundial. Um relatório recente de um vice-presidente da GSP & L, Stewart Ino, que cultivara a amizade de Reid, informava que o comissário passara a aceitar "a realidade das declarações de rendimentos e dos balanços, inclusive das companhias de serviços públicos". Mas era possível, pensou Nim, que Cy Reid, o político, estivesse rindo deles durante todo o tempo e continuasse a rir naquele momento.

- Mas durante a pendência do caso, não houve conversas nos bastidores com os assessores da comissão? - insistiu o presidente. - E não houve acordos?

Foi Sharlett Underhill quem respondeu:

- A resposta às duas perguntas é sim.

- Mas se houve acordos, o que aconteceu? Sharlett deu de ombros.

- Nada do que se faz nos bastidores é compulsório. Três comissários, inclusive Reid, ignoraram as recomendações de sua assessoria.

Algo que a maioria das pessoas ignorava, pensou Nim, era o fato de haver negociações nos bastidores, durante e depois das audiências públicas.

As grandes companhias, como a GSP & L, quando estavam procurando aumentar sua receita, através de uma elevação das tarifas, frequentemente pediam mais do que precisavam e mais do que esperavam receber. O que se seguia era um ritual de marchas e contramarchas, com a participação dos comissários. A comissão acabava reduzindo parte do que fora pedido, parecendo assim estar vigilante em seu dever público. A companhia, embora aparentemente rechaçada, na verdade recebia o que estava querendo ou quase.

Os detalhes essenciais eram definidos pela assessoria da comissão, em conversações informais com representantes da companhia. Nim comparecera certa vez a uma dessas reuniões e ouvira um assessor da comissão indagar:

- Qual é o aumento que vocês estão realmente precisando? Vamos esquecer as audiências públicas, que não decidem coisa alguma. Digamnos o que precisam e lhes diremos até onde podemos ir.

Houvera franqueza total das duas partes e a decisão fora acertada em particular, muito mais rapidamente do que o tempo gasto nas audiências públicas.

De um modo geral, o sistema era aceitável e funcionava. Mas desta vez tal não acontecera.

Consciente de que o presidente ainda estava fervendo de raiva, Nim disse, cautelosamente:

- Tenho a impressão de que indagações para descobrir o que aconteceu, neste momento, não vão adiantar muita coisa.

Humphrey suspirou.

- Tem razão. - Virou-se para a vice-presidente de finanças. Em termos financeiros, Sharlett, como poderemos enfrentar o próximo ano?

- As opções são limitadas, mas vou indicar todas. - Sharlett espalhou sobre a mesa diversas folhas com cálculos complexos.

As discussões prolongaram-se pela maior parte do dia, com outros executivos convocados ao gabinete do presidente, para fornecerem informações adicionais. Ao final, ficou evidente que só havia duas opções válidas. Uma, era reduzir drasticamente o programa de expansão, a manutenção e os serviços especiais para os consumidores. A outra era deixar de pagar dividendos aos acionistas. A primeira opção era inconcebível; a segunda poderia ser desastrosa, porque a cotação das ações da GSP & L iria cair bruscamente, pondo em risco o futuro da companhia. Contudo, chegou-se também à conclusão de que não havia qualquer outra opção.

Ao final da tarde, J. Eric Humphrey, visivelmente cansado e abatido, pronunciou o veredicto que o pequeno grupo de executivos de alto nível que o assessorava sabia ser inevitável desde o início:

- Vamos recomendar ao Conselho de Administração que o pagamento de todos os dividendos das ações ordinárias da companhia seja suspenso imediatamente, por prazo indefinido.

Era uma decisão histórica.

Desde a criação da Golden State Power & Light, três quartos de século antes, quando a companhia que a precedera se fundira com diversas outras, a corporação sempre fora um modelo de probidade financeira. Em todos esses anos, jamais deixara de cumprir suas obrigações ou de pagar dividendos aos acionistas. Em decorrência, a GSP & L era conhecida entre os investidores, grandes e pequenos, como a "velha fiel" e "amiga das viúvas e órfãos". Os aposentados na Califórnia e em outros Estados aplicavam as economias de toda uma vida, com absoluta confiança, nas ações da GSP & L, contando com os dividendos regulares como meio de sustento. Os cautelosos administradores de fundos de investimentos alheios também faziam a mesma coisa. Assim, a suspensão do pagamento dos dividendos teria a mais ampla repercussão, não apenas pela perda dos rendimentos, mas também pela redução do capital quando o valor das ações caísse, como inevitavelmente aconteceria.

Pouco depois da decisão angustiada do presidente, o quarteto original da manhã voltou a se reunir - Eric Humphrey, Oscar O'Brien, Sharlett Underhill e Nim - com o acréscimo de Teresa Van Buren. A vice-presidente de relações públicas fora convocada por causa do impacto da decisão sobre o público.

Já fora marcada uma reunião do Conselho de Administração para as 10 horas da manhã da segunda-feira seguinte; meia hora antes, haveria uma reunião do comité financeiro. Presumivelmente, a decisão seria confirmada nas duas reuniões, fazendo-se imediatamente depois uma declaração ao público. Enquanto isso, era necessário adotar precauções para impedir que transpirassem informações, o que poderia levar a manobras especulativas envolvendo as ações da companhia.

- Fora desta sala - advertiu Sharlett Underhill - ninguém pode falar sobre o que tencionamos fazer, até que seja emitida a declaração oficial. Como vice-presidente de finanças, gostaria de lembrar a todos que, tendo em vista a informação confidencial que nós cinco dispomos, qualquer negociação com ações da companhia, antes do comunicado oficial de segunda-feira, seria um ato criminoso, de acordo com os regulamentos da Comissão de Valores Mobiliários.

Numa tentativa de desanuviar o ambiente, Nim comentou:

- Está certo, Sharlett. Não vamos vender na alta para ficarmos ricos.

Mas ninguém riu. Teresa Van Buren comentou:

- Presumo que todos se lembram de que a assembleia anual de acionistas será realizada dentro de duas semanas. Vamos ter de enfrentar uma porção de acionistas furiosos.

- Furiosos? - resmungou O'Brien, acendendo novamente o charuto, que se apagara. - Estarão com as bocas espumando e vamos precisar de um esquadrão da polícia especializada em distúrbios civis para conseguir contê-los!

- Podem deixar que eu cuido disso - declarou J. Eric Humphrey, sorrindo pela primeira vez em muitas horas. - Mas estou pensando que talvez seja o caso de usar um colete à prova de balas.

Por duas vezes, desde que recebera a carta de Karen Sloan no acampamento do Portão do Diabo, Nim falara com ela pelo telefone. Prometera visitá-la novamente, assim que pudesse.

Mas a carta chegara no dia do trágico acidente de Wally Talbot e desde então outros acontecimentos se haviam sucedido, obrigando Nim a adiar a visita pretendida. E ainda não a fizera. Mas Karen lembrouo... com outra carta.

Ele a estava lendo naquele momento, em sua sala, num momento de tranquilidade.

No alto do elegante papel timbrado azul, Karen datilografara em letras maiúsculas:

FIQUEI MUITO TRISTE QUANDO ME FALOU DO ACIDENTE DE SEU AMIGO E QUANDO li A NOTÍCIA SOBRE OS FERIMENTOS.

Abaixo, na datilografia impecável de Karen, estavam os seguintes versos:

Diga a ele de alguém que sabe:

Um pavio hesitante

Embora brilhando debilmente

Tem uma claridade muito maior

Que a tenebrosa escuridão.

Pois a vida,

Em quaisquer condições, É melhor que a morte.

Isso mesmo! Os "sês" persistem para sempre

Como desejos suspensos, espectrais, angustiantes,

Depois que o imediato passa:

"Se" isto ou aquilo

Em tal ou qual dia

Tivesse variado uma hora ou um centímetro;

Ou se algo negligenciado fosse feito

Ou se algo feito fosse negligenciado!

Então "talvez" outra coisa fosse

E outras outras... até o infinito.

Pois "talvez" e "se" são primos

Devotados à sobrevivência em nossas mentes.

Aceite-os

E a tudo o mais.

Nim ficou sentado, imóvel e silencioso, pelo que pareceu um longo tempo, lendo e relendo as palavras de Karen. Finalmente percebeu que o telefone estava tocando e já o fizera duas vezes antes. Atendeu e ouviu a voz jovial de sua secretária:

- Por acaso o acordei?

- De certa forma, sim.

- O Sr. London deseja falar-lhe. Ele pode vir agora, se estiver livre.

- Diga-lhe que está bem.

Nim guardou a carta numa gaveta da escrivaninha em que mantinha suas coisas particulares. Quando chegasse o momento propício, iria mostrá-la a Wally Talbot. O que o fez recordar que ainda não falara com Ardythe desde o encontro extremamente insatisfatório no hospital. Mas decidiu deixar esse problema em suspenso, pelo menos por enquanto.

A porta se abriu e Vicki anunciou:

- O Sr. London já está aqui.

- Entre, Harry.

Nim achava-se perfeitamente consciente de que o chefe do Departamento de Proteção à Propriedade ultimamente o estava procurando com uma frequência excessiva, às vezes para tratar de um problema de trabalho, outras não. Mas não fazia qualquer objeção. Apreciava a crescente amizade entre os dois, a troca de opiniões sempre proveitosa.

- Acabei de saber da decisão de não pagar dividendos - disse London, acomodando-se numa cadeira. - E achei que, para variar, podia gostar de ouvir boas notícias.

A notícia de que a GSP & L havia cancelado o pagamento de dividendos, uma decisão que o Conselho de Administração aceitara com a maior relutância, tivera grande repercussão na tarde anterior e continuara a provocar comentários nos meios de comunicação naquela manhã. A reação inicial do mundo financeiro fora de incredulidade, e os acionistas já tinham começado a protestar. Nas bolsas de valores de Nova York e do Pacífico, o pânico de venda, depois de uma suspensão das negociações por quatro horas, levara a cotação da ação da GSP & L a nove dólares, o que representava um terço do seu valor antes do comunicado da companhia.

- Quais são as boas notícias, Harry?

- Lembra-se do Dia-D em Brookside?

- Claro!

- Conseguimos obter quatro condenações no tribunal.

Nim repassou mentalmente os diversos incidentes de adulteração dos medidores que testemunhara pessoalmente naquele dia.

- Quais foram os casos?

- O cara que tinha o posto de gasolina e os serviços de lavagem de carros. Ele poderia ter escapado, mas seu advogado cometeu o erro de chamá-lo para testemunhar. Ao ser reinquirido, o homem teve meia dúzia de contradições. Outro foi aquele fabricante de instrumentos de precisão. Está lembrado?

- Estou, sim. - Nim recordou a pequena casa que estava vazia na ocasião, mas na qual London deixara homens de vigia. Como os investigadores esperavam, o homem fora informado pelos vizinhos da presença da GSP & L, sendo surpreendido em flagrante quando tentava tirar o arame ilegal do medidor.

- Em ambos os casos e mais outros dois - acrescentou London que você não chegou a presenciar, o tribunal determinou multas de 500 dólares.

- E aquele médico que tinha ligado dois fios no medidor, com um interruptor na garagem?

- E que tinha uma esposa desaforada, com um cachorro imenso?

- Exatamente.

- Não chegamos a processá-lo. A mulher disse que eles tinham amigos importantes e era verdade. Recorreram a todas as suas influências, inclusive dentro da companhia. Mesmo assim, poderíamos ter levado o caso ao tribunal. Mas nosso departamento jurídico alegou que não tinha certeza se poderia provar que o médico estivesse a par da alteração no medidor. Ou pelo menos foi o que me disseram.

Nim comentou, em tom céptico:

- Parece a velha história de sempre... há duas espécies de justiça, dependendo de quem se é e de quem se conhece.

- Isso acontece. Vi muita coisa assim quando trabalhava na polícia. Seja como for, o tal médico pagou tudo o que devia e estamos conseguindo receber também de muitos outros. E estamos processando mais alguns defraudadores. - London fez uma breve pausa, antes de acrescentar: - E ainda tenho outras notícias.

- Quais?

- Desde o início, eu disse que em muitos dos casos de furto de energia estávamos enfrentando profissionais, que sabiam como fazer o serviço e depois disfarçá-lo, de tal forma que nossos homens teriam a maior dificuldade em descobrir alguma coisa. Também achava que esses profissionais podiam estar trabalhando em grupos, talvez até formando uma quadrilha organizada. Está lembrado?

Nim assentiu, esforçando-se para não deixar transparecer qualquer impaciência, permitindo que Harry London dissesse tudo o que desejava a sua maneira didática.

- Pois encontramos uma pista. Meu assistente, Art Romeo, recebeu um aviso sobre um grande prédio de escritórios no centro da cidade, no qual os transformadores haviam sido adulterados, assim como o sistema de gás, responsável por todo o aquecimento do edifício. Art foi verificar e descobriu que é tudo verdade. Eu próprio já estive lá. Art conseguiu recrutar a ajuda de um zelador, que está trabalhando para nós. Estamos pagando a ele para ficar de vigia. O negócio desta vez é bem grande, Nim. E é um dos melhores trabalhos que já vi. Sem o aviso que Art recebeu, provavelmente jamais iríamos descobrir.

- E de onde foi que ele recebeu o aviso? - Nim conhecera Art Romeo pessoalmente. Era um homenzinho irrequieto, que mais parecia um ladrão. - vou dizer-lhe uma coisa, Nim: jamais faça tal pergunta a um tira... ou a um agente da Proteção à Propriedade. Um informante às vexes fala por ressentimento, na maioria das ocasiões está querendo dinheiro. Mas, seja qual for o caso, deve ser protegido. E não se faz isso revelando o nome dele a outras pessoas. Nem perguntei a Art quem era.

- Está certo. Mas se sabe que existe no tal prédio uma instalação ilegal, por que não entramos em ação imediatamente?

- Porque iríamos fechar um buraco de rato e impedir o acesso a muitos outros. Deixe-me contar algumas das coisas que descobrimos.

Nim disse secamente:

- Eu estava mesmo esperando que o fizesse.

- A firma que possui o tal prédio de escritórios tem o nome de Zaco Properties. É proprietária de vários outros prédios, de apartamentos, de escritórios, lojas que aluga para supermercados. E imaginamos que, se adulteraram os medidores num lugar, devem tentar a mesma coisa em outras, talvez já o tenham feito. Art Romeo está neste momento verificando nos outros lugares, em sigilo. Deixei-o encarregado exclusivamente desse trabalho.

- Disse que está pagando a um zelador do primeiro prédio para ficar de vigia. com que objetivo?

- Quando uma operação é grande assim, não pode deixar de haver verificações e ajustes ocasionais.

- Em outras palavras, quem quer que tenha adulterado aqueles medidores, provavelmente irá voltar?

- Exatamente! E quando isso acontecer, o zelador irá avisar-nos. É antigo no trabalho e sabe de quase tudo o que acontece por lá. Já falou um bocado, pois não gosta dos patrões. Parece que fizeram alguma sujeira com ele. Disse que o trabalho original foi feito por quatro homens que pareciam organizados especialmente para isso, aparecendo em três ocasiões, em dois caminhões bem equipados. Estou querendo descobrir as placas desses caminhões e ter uma boa descrição dos homens.

Era óbvio, pensou Nim, que o zelador fora o informante original; mas guardou a conclusão para si.

- Supondo que vai conseguir obter todas as provas que está querendo, Harry. O que acontecerá em seguida?

- Levaremos as provas ao gabinete do Promotor Distrital e à polícia municipal. Sei quem procurar nos dois lugares, quem merece confiança e vai agir rapidamente. Mas ainda não chegou o momento propício. Por enquanto, quanto menos pessoas souberem do que descobrimos, melhor será.

- Tem razão. O caso parece ser bastante promissor. Mas não se esqueça de duas coisas. Primeira: avise a seu homem, Romeo, para tomar todo cuidado. Se a operação é tão grande quanto você está pensando, pode também ser perigosa. Segunda: mantenha-me permanentemente informado de tudo o que acontecer.

O chefe do Departamento de Proteção à Propriedade exibiu um sorriso satisfeito.

- Pois não, senhor!

Nim teve a impressão de que Harry London estava-se contendo para não assumir posição de sentido e bater continência.

Tradicionalmente, a assembleia anual dos acionistas da Golden State Power & Light era um acontecimento sossegado, até mesmo monótono. Entre os 540. 000 acionistas da Companhia, somente uns 200 normalmente compareciam; a maioria simplesmente ignorava. Ao que parecia, os ausentes só estavam interessados numa coisa: os dividendos trimestrais regulares, até aquele momento tão previsíveis e seguros quanto as quatro estações do ano.

Mas isso já não mais acontecia.

Ao meio-dia, duas horas antes do início da assembleia anual, um filete de acionistas começou a apresentar credenciais e a entrar no salão de festas do Hotel St. Charles, onde se havia providenciado lugares para 2.000 pessoas, prevendo-se todas as contingências possíveis. Às 12h5min, o filete se transformara num fluxo intenso. Às 12h30min, já era uma verdadeira inundação.

Entre os que chegavam, mais da metade era de pessoas idosas, algumas caminhando com a ajuda de bengalas, umas poucas de muletas, meia dúzia em cadeiras de rodas. A maioria não estava bem vestida. Muitos haviam trazido café em garrafas térmicas, além de sanduíches, almoçando enquanto esperavam.

A disposição da maioria dos acionistas era óbvia: variava entre o ressentimento e a raiva. Muitos tratavam rispidamente os funcionários da GSP & L que estavam incumbidos de verificar as credenciais, antes de permitir a entrada no salão. Alguns acionistas, sendo atrasados no processo, tornaram-se beligerantes.

Por volta das 13 horas, faltando ainda uma hora para começar a reunião, todos os 2. 000 lugares já estavam ocupados, só havendo espaço de pé. E o fluxo de acionistas continuava a aumentar. O salão era agora uma babel de ruídos, com incontáveis conversas e discussões, algumas acaloradas, os participantes alteando a voz. Ocasionalmente, frases e palavras podiam ser ouvidas acima do barulho geral:

- disse que era uma ação segura e por isso investimos as nossas economias e agora...

- uma diretoria asquerosa e incompetente...

- para você está tudo bem, falei pró cara que foi ler o medidor, mas eu vou viver de que... de ar?

- as contas já estão um bocado altas e por isso não posso entender que não queiram pagar dividendos para...

- um bando de parasitas na diretoria que não se importa com a gente!

- se ficássemos sentados aqui e nos recusássemos a ir embora até que...

- O negócio é enforcar os filhos da mãe! Garanto que eles iriam logo mudar de ideia!

Uma mesa reservada para a imprensa, na frente do salão, já estava parcialmente ocupada. Dois repórteres se deslocavam entre a multidão, à procura de histórias de interesse humano. Uma mulher de cabelos grisalhos, num costume verde-claro, estava sendo entrevistada. Passara quatro dias viajando de ônibus, desde Tampa, Flórida, "porque o ônibus é mais barato e não me resta mais muito dinheiro, especialmente agora". Contou como deixara de trabalhar como balconista cinco anos antes, indo viver numa casa para aposentados. com suas modestas economias de toda uma vida, comprara ações da GSP & L.

- Disseram-me que era tão seguro quanto um banco. Agora, não tenho mais qualquer rendimento e por isso vou ter de sair da casa em que estou vivendo. E não sei para onde ir. - Falando sobre a viagem à Califórnia, ela acrescentou: - Eu não tinha condições de vir, mas também não podia ficar longe. Precisava saber por que estão fazendo uma coisa tão horrível comigo.

Enquanto as palavras iam saindo aos Borbotões, com uma emoção profunda, o fotógrafo de uma agência noticiosa ia tirando fotografias de seu rosto angustiado, que no dia seguinte apareceria em jornais de todo o país.

Somente os fotógrafos estavam sendo admitidos no salão. Duas equipes de TV, acampadas no saguão do hotel, protestaram com Teresa Van Buren por sua exclusão. Ela explicou:

- Ficou decidido que a presença de câmeras de televisão no salão faria com que a assembleia dos acionistas parecesse um circo.

Um técnico de TV resmungou:

- Do jeito que estão as coisas, já está parecendo um circo.

Teresa Van Buren foi a primeira a dar o sinal de alarme quando ficou patente, pouco depois de 12h30min, que os lugares providenciados seriam totalmente insuficientes. Houve uma reunião às pressas entre dirigentes da GSP & L e do hotel. Combinou-se abrir outro salão, com a metade do tamanho do salão de festas, onde poderiam ser acomodadas l 500 pessoas. Os acontecimentos no salão principal seriam transmitidos através de um sistema de alto-falantes. Rapidamente, uma equipe de funcionários do hotel começou a arrumar cadeiras no segundo salão. Mas os recém-chegados prontamente objetaram.

- Essa não! - protestou em voz alta uma mulher corpulenta, de rosto vermelho. - Não vou ficar sentada num anexo de segunda classe! Sou acionista e tenho direito a estar sentada no próprio local onde vai realizar-se a assembleia anual!

Ela empurrou um idoso guarda de segurança e desprendeu a corda que impedia a passagem, entrando no salão principal, já apinhado. Diversas outras pessoas passaram pelo guarda e a seguiram. O homem deu de ombros, impotente, depois tornou a pôr a corda no lugar e tentou desviar o fluxo de acionistas para o segundo salão.

Um homem magro, de expressão grave, apelou para Teresa Van Buren:

- Isto é um absurdo! Vim de avião de Nova York e tenho perguntas a fazer na assembleia!

- Haverá microfones no segundo salão e as perguntas feitas de lá serão ouvidas e respondidas - assegurou Teresa.

O homem contemplou a multidão com uma expressão irritada.

- A maioria dessas pessoas não passa de pequenos acionistas. Represento dez mil ações.

Uma voz atrás dela'disse:

- Tenho apenas vinte ações, mister, mas meus direitos são tão bons quantos os seus!

Os dois acabaram sendo persuadidos a ir para o salão menor.

- Ele estava certo ao falar dos pequenos acionistas - comentou Teresa Van Buren para Sharlett Underhill, que fora juntar-se a ela por um momento no saguão do hotel.

A vice-presidente de finanças assentiu.

- A maioria dos acionistas presentes possui dez ações ou até menos. São poucos os que têm mais de cem ações,

Nancy Molineaux, do Califórnia Examiner, também observava a chegada dos acionistas e naquele momento estava parada perto das duas diretoras da companhia.

- Ouviu isso? - perguntou-lhe Teresa Van Buren. - É um desmentido às acusações de que somos uma companhia gigantesca e monolítica. Essas pessoas que está vendo são as verdadeiras proprietárias da GSP & L.

Nancy Molineaux disse, em tom cético:

- Mas também há muitos acionistas grandes e ricos.

- Não tantos quanto pensa - declarou Sharlett Underhill. Mais de cinquenta por cento dos nossos acionistas são pequenos investidores, com cem ou menos ações. Nosso maior acionista individual é um fundo que mantém ações para os empregados da companhia. Possui oito por cento das ações. E vai descobrir que a mesma coisa acontece em outras companhias de serviços públicos.

A repórter não parecia estar impressionada.

- Não a vejo desde que escreveu aquele artigo lamentável e injusto sobre Nim Goldman, Nancy - disse Teresa Van Buren. - Precisava mesmo fazer uma coisa daquelas? Nim é um bom sujeito, competente e trabalhador.

Nancy Molineaux sorriu, aparentando surpresa ao falar:

- Não gostou? Pois saiba que meu editor achou sensacional! Imperturbável, continuou a contemplar o saguão do hotel e um momento depois comentou: - A Golden State Power parece não ser capaz de fazer nada certo. Muitas pessoas aqui estão tão infelizes com as contas da companhia como com a suspensão de seus dividendos.

Teresa Van Buren acompanhou o olhar da repórter na direção de uma pequena multidão que cercava um balcão de informações sobre contas. Sabendo que muitos acionistas também eram consumidores, a GSP & L sempre se preparava, nas assembleias anuais, para prestar informações no local sobre contas de eletricidade e de gás. Por trás do balcão, três funcionários estavam recebendo as queixas de uma fila que aumentava a cada momento. Uma voz de mulher protestou:

- Não me importa o que você possa dizer! Essa conta está errada! Estou morando sozinha, não gasto mais energia do que há dois anos e mesmo assim a conta agora é o dobro!

Consultando uma tela ligada aos computadores de contabilidade da companhia, um jovem funcionário continuou a explicar os detalhes da conta. A mulher não se acalmou.

- Às vezes - comentou Teresa Van Buren para Nancy Molineaux

- as mesmas pessoas querem tarifas mais baixas e dividendos maiores. É difícil explicar por que não podem ter a ambos.

Sem fazer qualquer comentário, a repórter se afastou.

À uma hora e quarenta, 20 minutos antes da reunião começar, só havia espaço, de pé, no segundo salão, e mais acionistas continuavam a chegar.

- Estou bastante preocupado - disse Harry London para Nim Goldman.

Os dois estavam parados entre o salão principal e o auxiliar, o barulho que vinha dos dois tornando difícil ouvirem um ao outro. London e seus homens haviam sido especialmente convocados para a ocasião, a fim de reforçarem a equipe de segurança regular da GSP & L. Nim fora encarregado por J. Eric Humphrey, alguns minutos antes, para fazer uma avaliação pessoal da cena.

O presidente, que geralmente se misturava informalmente com os acionistas antes de começar a assembleia anual, fora aconselhado pelo chefe de segurança a não fazê-lo naquele dia, já que a multidão se mostrava hostil. No mesmo instante, Humphrey esperava nos bastidores, junto com os diretores que iriam sentar-se em sua companhia no palco do salão principal, às duas horas da tarde.

- Estou preocupado porque acho que haverá alguma violência antes de a assembleia terminar - acrescentou London. - Já esteve lá fora?

Nim mexeu a cabeça. London fez sinal para que o seguisse e os dois atravessaram o saguão do hotel e saíram para a rua, através de uma porta lateral. Deram a volta até a frente do prédio.

O Hotel St. Charles tinha um pátio normalmente destinado ao estacionamento dos veículos que serviam aos hóspedes: táxis, carros particulares e ônibus. Mas, agora, o tráfego fora desviado, pois no local se encontrava uma multidão de várias centenas de manifestantes, carregando cartazes e faixas, gritando sem parar. Uma passagem estreita para os pedestres estava sendo mantida pela polícia, que também impedia que os manifestantes se aproximassem mais da entrada do hotel.

O pessoal da televisão, cujo acesso ao salão principal onde iria realizar-se a assembleia dos acionistas fora proibido, saíra para a rua a fim de filmar a cena.

Alguns dos cartazes diziam:

Todo o poder a força & luz para o povo

O Povo Exige:

Tarifas de Eletricidade e Gás Mais Baixas

Morte ao Monstro Capitalista GSP & lp

Exige a Propriedade Pública da GSP & L.

Ponham o Povo Acima dos Lucros

Grupos de acionistas da GSP & L, ainda chegando e avançando por entre as fileiras de guardas, liam os cartazes com expressões indignadas.

Um homem pequeno, calvo, mal vestido e com um aparelho de audição, gritou furiosamente para os manifestantes:

- Sou tão "povo" quanto vocês e trabalhei muito por toda a minha vida para comprar umas poucas ações...

Um jovem pálido, de óculos, com um blusão da Universidade de Stanford, escarneceu:

- Não enche, seu capitalista ganancioso!

Uma mulher que acabara de chegar, ainda jovem e atraente, respondeu:

- Se vocês trabalhassem um pouco mais e procurassem economizar...

Sua voz foi abafada por gritos de "Danem-se os lucros!" e "A energia pertence ao povo! "

A mulher avançou para os manifestantes, com o punho erguido:

- Escutem aqui, seus vagabundos! Não sou uma exploradora! Sou operária, pertenço a um sindicato...

"Exploradora do povo! "

"Capitalista sanguessuga! "

Um dos cartazes se aproximou ameaçadoramente da cabeça da mulher. Um sargento da polícia adiantou-se rapidamente, deu um safanão no cartaz e apressadamente levou a mulher e o homem com o aparelho de audição para o interior do hotel. Foram seguidos por gritos e apupos. Os manifestantes novamente avançaram, a polícia mais uma vez os conteve.

O pessoal da TV estava agora acrescido pelos repórteres de outros meios de comunicação. Nim avistou Nancy Molineaux entre eles, mas não tinha o menor desejo de falar com ela. Harry London comentou, em voz baixa:

- Está vendo o seu amigo Birdsong ali, orientando a manifestação?

- Já tinha visto. Só que ele não é meu amigo.

O vulto corpulento e barbado de Davey Birdsong, com um sorriso no rosto, como sempre, era perfeitamente visível atrás da multidão de manifestantes. Enquanto os dois observavam, Birdsong levou um walkie-talkie aos lábios.

- Provavelmente ele está falando com alguém lá dentro - disse London. - Já entrou e saiu duas vezes. Verifiquei que tem uma ação da GSP & L em seu nome.

- Uma ação é suficiente para dar a qualquer um o direito de comparecer à assembléia anual.

- Sei disso. E é bem provável que alguns dos seus homens também tenham uma ação. Tenho certeza de que planejaram alguma coisa.

Nim e London voltaram para o interior do hotel, sem serem percebidos. Lá fora, os manifestantes pareciam ainda mais ruidosos do que antes.

Numa pequena sala, ao final de um corredor atrás do palco do salão principal, J. Eric Humphrey andava de um lado para outro, inquieto, ainda revisando o discurso que faria dentro de poucos minutos. Nos últimos três dias, uma dúzia de esboços fora escrita e reescrita. O último acabara de ser datilografado há menos de uma hora. Mesmo agora, no entanto, enquanto andava de um lado para outro, formulando as palavras silenciosamente e virando as páginas, Humphrey ainda parava de vez em quando para mudar uma palavra com um lápis.

Por deferência à concentração do presidente, os outros presentes Sharlett Underhill, Oscar O'Brien, Stewart Ino, Ray Paulsen, e meia dúzia de outros - estavam em silêncio, uns poucos servindo-se drinques num bar portátil.

As cabeças se viraram quando a porta se abriu. Um guarda de segurança apareceu, com Nim atrás. Um momento depois, Nim entrou na sala, fechando a porta. Humphrey largou o discurso datilografado e perguntou:

- E então?

- A cena lá fora é de tumulto.

Nim descreveu rapidamente o que vira no salão principal, no salão auxiliar e na frente do hotel. Um diretor indagou, nervosamente:

- Não haveria um jeito de adiarmos a assembleia? Oscar O'Brien sacudiu a cabeça, incisivamente.

- Não há a menor possibilidade. A assembleia foi convocada legalmente e deve realizar-se de qualquer maneira.

- Além do mais, haveria um tremendo tumulto se o fizéssemos acrescentou Nim.

O mesmo diretor comentou:

- É o que provavelmente vai acontecer, com ou sem assembleia.

O presidente foi até o bar e serviu-se de uma soda pura, desejando poder acrescentar uma dose de uísque, mas respeitando sua própria determinação de que nenhum diretor deveria beber durante as horas de trabalho. E disse, irritado:

- Sabíamos de antemão que isso iria acontecer. Assim, não há razão para se falar de adiamento. Simplesmente temos que fazer o melhor possível. - Tomou um gole de soda, antes de acrescentar: - As pessoas que estão lá fora têm o direito de estar furiosas... conosco e por causa de seus dividendos. Eu também me sentiria assim. O que se pode dizer a pessoas que aplicaram seu dinheiro no que consideravam seguro e abruptamente descobrem que não o é?

- Pode-se tentar contar-lhes a verdade - disse Sharlett Underhill, o rosto corando de emoção. - E a verdade é que não existe coisa alguma neste país em que as pessoas económicas e trabalhadoras possam aplicar seu dinheiro com a garantia de que o valor será preservado. Isso já não acontece mais em companhias como a nossa, como também não ocorre em contas de poupança e títulos de renda fixa, cujos juros não têm a menor condição de acompanhar a inflação provocada pelo governo. Não acontece mais desde que aqueles charlatães e escroques de Washington depreciaram o dólar e continuam a fazê-lo, sorrindo como idiotas enquanto nos arruinam. Deram-nos um papel-moeda de curso forçado desonesto, que não está apoiado em nada senão nas promessas sem valor dos políticos. Nossas instituições financeiras estão desmoronando. O seguro bancário não passa de uma fachada. O Serviço de Previdência Social é uma fraude falida; se fosse uma empresa particular, todos os seus dirigentes já estariam na cadeia. E as companhias decentes e eficientes como a nossa estão sendo empurradas contra a parede, forçadas a fazer o que estamos fazendo, tendo que assumir a culpa injustamente. Houve murmúrios de aprovação, alguém aplaudiu. presidente disse secamente:

- Sharlett, talvez seja melhor você fazer o discurso no meu lugar.

- Uma pausa e ele acrescentou, pensativo: - Tudo o que acabou de dizer é pura verdade. Infelizmente, a maioria dos cidadãos não está preparada para ouvir e aceitar a verdade... ainda não.

- Apenas por curiosidade, Sharlett - perguntou Ray Paulsen onde você guarda suas economias?

A vice-presidente financeira respondeu rispidamente:

- Na Suíça, um dos poucos países do mundo onde ainda existe a sanidade financeira, e nas Bahamas... em moedas de ouro e francos suíços, as únicas moedas honestas que restam neste mundo. Se ainda não estão fazendo isso, eu os aconselho a não perder tempo.

Nim estava olhando para seu relógio. Foi até a porta e abriu-a.

- Falta um minuto para começar a assembleia. Está na hora de irmos para o palco.

Ao saírem da sala, Eric Humphrey comentou:

- Agora eu sei como os cristãos se sentiam ao ir enfrentar os leões.

Os representantes do Conselho de Administração e os executivos da companhia espalharam-se rapidamente pelo palco, enquanto o presidente se dirigia para um pódio. Nesse momento, o burburinho no salão silenciou por um instante. Mas logo umas poucas pessoas espalhadas pela frente começaram a vaiar. No instante seguinte, a cacofonia de vaias e assobios em todo o salão era ensurdecedora. No pódio, J. Eric Humphrey ficou imóvel, impassível, esperando que o coro hostil se desvanecesse. Assim que o barulho diminuiu um pouco, ele inclinou-se ligeiramente para a frente e disse ao microfone:

- Senhoras e senhores, meus comentários iniciais sobre a situação da nossa companhia serão breves. Sei que muitos estão ansiosos em fazer perguntas...

Suas palavras seguintes foram abafadas por outra algazarra, em meio à qual se podiam ouvir diversos gritos:

- Tem razão!

- Responda às perguntas agora!

- Deixe as baboseiras de lado!

- Vamos falar dos dividendos!

Assim que pôde fazer-se ouvir novamente, Humphrey tentou controlar a multidão:

- Claro que tenciono falar sobre os dividendos, mas antes há algumas questões que devem...

- Sr. Presidente, Sr. Presidente, uma questão de ordem!

Uma voz nova, invisível, trovejava pelo sistema de alto-falantes. Simultaneamente, uma luz vermelha se acendeu na estante diante do presidente, indicando que o microfone no salão auxiliar estava sendo usado. Humphrey indagou por seu microfone:

- Qual é a questão de ordem?

- Objeto, Sr. Presidente, à maneira pela qual... Humphrey interrompeu-o:

- Declare seu nome, por favor.

- Meu nome é Homer F. Ingersoll. Sou advogado e possuo trezentas ações, além de representar um cliente com outras duzentas.

- Qual é a sua questão de ordem, Sr. Ingersoll?

- Era o que eu ia fazer quando me interrompeu, Sr. Presidente. Objeto à maneira pela qual foram adotadas providências inadequadas e ineficientes para esta assembleia. O resultado é que eu e muitos outros fomos relegados, como cidadãos de segunda classe, a outro salão, onde não podemos participar devidamente...

- Mas está participando, Sr. Ingersoll. Lamento que o comparecimento inesperado de muitos acionistas a esta assembleia...

- Estou levantando uma questão de ordem, Sr. Presidente, e ainda não acabei.

Ao ser novamente interrompido pela voz trovejante, Humphrey disse, resignado:

- Está certo, termine de apresentar sua questão de ordem. Mas depressa, por favor.

- Pode não saber, Sr. Presidente, mas até mesmo o segundo salão está agora apinhado e há muitos acionistas do lado de fora, não conseguindo entrar em nenhum dos dois. Estou falando em nome deles, porque estão sendo privados de seus direitos legais.

- Eu não sabia disso - admitiu Humphrey. - Lamento profundamente e reconheço que nossos preparativos foram insuficientes.

Uma mulher no salão principal levantou-se e gritou:

- Devia renunciar! Nem mesmo é capaz de organizar uma assembleia anual!

Outras vozes ecoaram:

- Isso mesmo! Renuncie! Renuncie!

Os lábios de Eric Humphrey se contraíram; por um momento, inesperadamente, ele pareceu ficar nervoso. Mas controlou-se rapidamente, com um esforço óbvio, e tentou novamente dominar a situação:

- O comparecimento de acionistas à assembleia de hoje, como muitos sabem perfeitamente, é sem precedentes.

Uma voz estridente berrou:

- Como foi também a suspensão do pagamento dos nossos dividendos!

- Posso dizer apenas... tencionava falar isso mais tarde, mas vou fazê-lo agora... que a suspensão do pagamento dos dividendos foi uma medida que eu e meus companheiros de diretoria adotamos com a maior relutância...

A mesma voz voltou a se manifestar:

- Não lhe passou pela cabeça a ideia de suspender o pagamento de seu próprio salário fabuloso?

- e com pleno conhecimento dos problemas que disso decorreriam e...

Várias coisas aconteceram nesse momento, simultaneamente.

Um tomate grande e mole, arremessado com uma mira infalível, foi atingir o rosto do presidente. Arrebentou, uma massa de polpa e suco escorrendo pelo rosto, terno e camisa.

Como se fosse um sinal, houve uma verdadeira barragem de tomates e ovos, espatifando-se por todo o palco e no pódio em que estava o presidente. Quase todos no salão ficaram de pé, alguns rindo, mas a maioria olhando ao redor à procura dos agressores, parecendo chocada e desaprovadora. Ao mesmo tempo, podia-se ouvir um novo tumulto, com vozes alteadas aumentando de intensidade, imediatamente lá fora.

Nim, também de pé no centro do salão, para onde fora depois que o grupo da administração ocupara o palco, estava também procurando a fonte da barragem, disposto a intervir, se acaso conseguisse localizá-la. Quase que no mesmo instante avistou Davey Birdsong. Como já acontecera antes, o líder da & Ip estava falando pelo walkie-talkie. Nim calculou que ele estivesse dando instruções a seus comandados. Tentou avançar em sua direção, mas logo descobriu que era impossível. A esta altura, a confusão no salão era total.

Abruptamente, Nim descobriu-se diante de Nancy Molineaux. Por um instante, ela deixou transparecer alguma incerteza. Nim não pôde conter uma explosão de raiva:

- Imagino que está adorando os acontecimentos aqui, para que possa escrever a nosso respeito da maneira distorcida habitual!

- Procuro ater-me aos fatos, Goldman. - Recuperando rapidamente o controle, Nancy Molineaux sorriu. - Faço reportagem de investigação sempre que julgo necessário.

- Uma investigação unilateral e falsa! - Num súbito impulso, Nim apontou para Davey Birdsong com o walkie-talkie ainda encostado no rosto. - Por que não investiga ele?

- Dê-me uma só razão para que eu deva fazê-lo.

- Creio que é ele que está criando todo este tumulto.

- Tem certeza?

- Não.

- Então deixe-me dizer-lhe uma coisa: quer ele tenha contribuído ou não, o tumulto aconteceu porque muita gente acha que a Golden State Power & Light não é administrada como deveria. Ou será que não gosta de enfrentar a realidade?

com uma expressão desdenhosa, Nancy Molineaux se afastou.

O barulho lá fora se intensificou ainda mais, e um momento depois, aumentando a confusão no salão, um bando entrou impetuosamente. Por trás, havia ainda mais pessoas, entre as quais as que carregavam as faixas e cartazes contra a GSP & L.

O que acontecera, como mais tarde se verificou, é que umas poucas pessoas, entre as quais acionistas que não haviam podido entrar em nenhum dos dois salões, pressionaram outras para que todos recorressem à força a fim de entrar de qualquer maneira. Juntos, haviam rompido as barreiras temporárias e superado a resistência dos guardas de segurança e outros funcionários da GSP & L.

Praticamente no mesmo instante, os manifestantes lá fora haviam investido novamente contra a barreira policial, desta vez conseguindo rompê-la. Os manifestantes entraram no hotel, dirigindo-se para o salão principal, onde reforçaram o avanço dos acionistas invasores.

Como Nim desconfiava, mas não podia provar, Davey Birdsong articulava todos os movimentos, a começar pelo arremesso do tomate, dando ordens através do walkie-talkie. Além de organizar a manifestação diante do hotel, a & Ip se infiltrara na assembleia dos acionistas, pelo expediente simples, e legítimo, de comprar uma ação para cerca de uma dúzia de seus membros, inclusive Davey Birdsong, vários meses antes.

No tumulto total, apenas uns poucos ouviram J. Eric Humphrey anunciar pelo sistema de alto-falantes:

- Esta assembleia entra em recesso neste momento! Será reiniciada dentro de meia hora aproximadamente!

 

Na sala de estar de seu apartamento, Karen exibiu para Nim o mesmo sorriso radiante de que ele se recordava tão bem do encontro anterior. Depois, ela disse, a voz impregnada de simpatia:

- Sei que esta semana tem sido muito difícil para você. Li o que aconteceu na assembleia anual de sua companhia e vi uma parte pela televisão.

Instintivamente, Nim fez uma careta. A cobertura de TV se concentrara nos tumultos, ignorando as questões complexas que haviam sido tratadas durante cinco horas de reunião, com perguntas, respostas, votações de resoluções, depois do recesso forçado. (Para fazer justiça, Nim não podia deixar de reconhecer que as câmeras de TV só tinham podido mostrar o que acontecera fora do salão em que fora realizada a assembleia; uma análise posterior dos acontecimentos levara-o à conclusão de que teria sido melhor permitir o acesso da televisão ao salão.) Durante a meia hora de recesso, a ordem fora restaurada e depois começara a maratona de debates. Ao final, praticamente nada mudara, só o fato dos participantes estarem exaustos. Mas muito do que precisava ser dito fora abordado na assembleia. Para surpresa de Nim, o noticiário mais amplo, objetivo e equilibrado da assembleia aparecera no dia seguinte no Califórnia Examiner, sob a assinatura de Nancy Molineaux.

- Se não se importa, Karen, eu preferiria esquecer por um momento o nosso circo anual.

- Pois considere esquecido, Nimrod. Que assembleia anual? Nunca ouvi falar de nenhuma.

Ele riu e depois comentou:

- Gostei muito dos seus versos. Já publicou alguma coisa?

Karen mexeu a cabeça, sentada na cadeira de rodas, diante dele, fazendo Nim recordar que era a única parte do corpo que ela podia mover.

Fora visitá-la naquele dia em particular porque queria escapar, mesmo que por um momento, ao tumulto que reinava na GSP & L. Também queria e muito tornar a ver Karen Sloan, um desejo agora reforçado pelo charme e beleza extraordinária dela. A última era justamente como recordava, os cabelos louros caindo até os ombros, o rosto perfeitamente proporcional, os lábios cheios, a pele impecável.

Nim perguntou-se se não se estaria apaixonando. Se assim fosse, pensou ele, seria uma inversão. Em muitas ocasiões, experimentara o sexo sem amor. Mas com Karen seria o amor sem sexo.

- Escrevo poesia por prazer, Nimrod. Quando você chegou, eu estava trabalhando num discurso.

Nim já tinha percebido a máquina de escrever elétrica atrás dela, com uma folha parcialmente datilografada. Outras folhas estavam espalhadas sobre a mesa.

- Um discurso para quem? E sobre o quê?

- Para uma convenção de advogados. Um grupo da Ordem dos Advogados estadual está elaborando um relatório sobre as leis relativas às pessoas incapacitadas, na maioria dos Estados e em outros países. Há algumas leis que funcionam, outras não. Fiz um estudo a respeito.

- E vai falar a advogados sobre leis?

- Por que não? Os advogados ficam isolados em seus casulos. Precisam de alguém que conheça o problema na prática para dizer-lhes o que realmente acontece nos termos das leis e regulamentos. Foi por isso que me pediram para falar. Além do mais, já fiz a mesma coisa antes. De um modo geral, vou concentrar-me nos para e quadriplégicos, além de esclarecer alguns conceitos erróneos.

- Que tipo de conceitos?

Podiam-se ouvir nitidamente barulhos na cozinha. Quando Nim telefonara naquela manhã, Karen o convidara para almoçar. Agora, Josie, misto de enfermeira e governanta, a quem Nim conhecera na visita anterior, estava preparando o almoço.

- A perna direita está começando a me incomodar. Antes de eu responder, poderia mudá-la de posição para mim?

Nim se levantou, aproximando-se da cadeira de rodas, indeciso. A perna direita de Karen estava cruzada por cima da esquerda.

- Arrume do jeito inverso, a esquerda por cima da direita, por favor.

Ela falou em tom indiferente e Nim estendeu as mãos, subitamente consciente de que as pernas cobertas por nylon eram esguias e atraentes. E eram quentes, o contato deixando-o momentaneamente excitado.

- Obrigado, Nimrod. Suas mãos são extremamente gentis. - Ele assumiu uma expressão de surpresa e Karen acrescentou: - Esse é um dos conceitos erróneos.

- Como assim?

- O de que todas as pessoas paralíticas estão privadas das sensações normais. É verdade que alguns não podem sentir mais nada. Mas inúmeros casos, como o meu, conservam intactas muitas sensações físicas. É por isso que uma perna ou um braço podem começar a incomodar, a ficar "dormentes", precisando que a posição seja mudada, como acabou de fazer agora.

- Tem toda razão, Karen. Creio que, subconscientemente, eu pensava justamente o contrário.

- Sei disso. - Ela sorriu, maliciosamente. - Mas pude sentir perfeitamente suas mãos em minhas pernas. E se quer saber, confesso que gostei.

Um pensamento súbito e desconcertante ocorreu a Nim, que tratou de afastá-lo imediatamente e disse:

- Diga-me outro conceito erróneo.

- O de que não se deve pedir aos quadriplégicos que falem a respeito de si próprios. Ficaria surpreso se soubesse quantas pessoas se mostram relutantes ou constrangidas em terem qualquer contato conosco. Algumas ficam até com medo.

- Isso acontece com frequência?

- Muitas vezes. Na semana passada, minha irmã Cynthia levou-me para almoçar num restaurante. O garçom se aproximou e anotou o pedido de Cynthia. Depois, sem olhar para mim, perguntou: "E o que ela vai comer?" Cynthia, que Deus a abençoe, disse: "Por que não pergunta diretamente a ela?" Mesmo assim, quando fiz meu pedido o garçom não me olhou diretamente.

Nim ficou calado por um momento, depois se inclinou e segurou a mão de Karen.

- Sinto-me envergonhado por todos nós.

- Não precisa ficar. Está agindo de maneira a compensar uma porção de outras pessoas, Nimrod.

Soltando a mão dela, Nim disse:

- Da última vez em que estive aqui, falou-me um pouco a respeito de sua família.

- Mas não vou precisar fazê-lo hoje, já que vai conhecê-la... ou pelo menos a meus pais. Espero que não se importe, mas eles ficaram de aparecer logo depois do almoço. É o dia de folga de Mamãe, e Papai está fazendo um trabalho de encanamento perto daqui.

Karen explicou que seus pais eram originalmente de famílias austríacas. Na adolescência, em meados da década de 1930, haviam chegado aos Estados Unidos como imigrantes, enquanto as nuvens da guerra se acumulavam sobre a Europa. Conheceram-se na Califórnia, casaram, tiveram duas filhas, Cynthia e Karen. O nome da família do pai era originalmente Slonhauser, que fora americanizado para Sloan por ocasião da naturalização. Karen e Cynthia pouco conheciam da sua herança austríaca, tendo sido criadas como crianças americanas.

- Quer dizer que Cynthia é mais velha do que você?

- Três anos mais velha e muito bonita. Gostaria de que a conhecesse, em outra ocasião.

Os ruídos na cozinha cessaram e Josie apareceu na sala, empurrando um carrinho carregado. Ajeitou uma pequena mesa desmontável diante de Nim e arrumou uma bandeja na cadeira de rodas de Karen. Serviu o almoço, uma salada de salmão e pão francês. Em seguida, Josie serviu vinho em dois copos, um Louis Martini Pinot Chardonnay gelado.

- Não me posso dar ao luxo de tomar vinho todos os dias - comentou Karen. - Mas hoje é uma ocasião especial... porque você voltou.

Josie perguntou-lhe:

- Devo dar-lhe a comida ou o Sr. Goldman irá fazê-lo?

- Incomoda-se, Nimrod? - indagou Karen.

- Claro que não! Mas se eu fizer alguma coisa errada, terá de me dizer.

- Não é difícil. Quando eu abrir a boca, enfie um pouco de comida. Será como se se estivesse alimentando, só que terá de movimentar o braço duas vezes mais.

com um olhar para Karen e um sorriso jovial, Josie retirou-se para a cozinha. No meio do almoço, depois de tomar um gole de vinho, Karen comentou:

- Como pode ver, está-se saindo muito bem. Pode limpar meus lábios, por gentileza?

Nim assim o fez, com um guardanapo, enquanto Karen inclinava a cabeça na direção dele.

Enquanto continuava a alimentar Karen, Nim pensou: havia uma estranha sensação de intimidade no que estavam fazendo, uma união partilhada que não tinha precedente em sua experiência. Possuía até mesmo algo de sensual. Quase ao final do almoço, a percepção mútua aguçada pelo vinho, Karen disse:

- Já lhe disse uma porção de coisas a meu respeito. Agora, fale-me mais de você.

Nim começou superficialmente, falando de sua infância, família, trabalho, casamento com Ruth, os filhos, Leah e Benjy. Depois, estimulado pelas perguntas de Karen, revelou suas dúvidas atuais, sobre sua herança religiosa e se deveria perpetuá-la através dos filhos, sua própria vida, o futuro do seu casamento, se é que havia algum.

- Já chega - disse ele finalmente. - Não vim aqui para aborrecêla com meus problemas.

Sorrindo, Karen sacudiu a cabeça.

- Acho que isso jamais poderia acontecer, Nimrod. É um homem complexo e as pessoas complexas sempre são as mais interessantes. Além do mais, gosto de você mais do que qualquer outra pessoa que já conheci em muitos anos.

- Também sinto a mesma coisa em relação a você. O rosto de Karen ficou subitamente vermelho.

- Gostaria de me beijar, Nimrod?

Enquanto se levantava e atravessava a pequena distância que os separava, Nim respondeu suavemente:

- Gostaria muito...

Os lábios de Karen eram quentes e macios, o beijo foi prolongado. Nenhum dos dois queria interrompê-lo. Nim moveu os braços, tencionando trazer Karen para mais junto dele. E foi nesse momento que ouviu o toque estridente da campainha, a porta se abrindo e vozes... a de Josie e duas outras. Baixou os braços e afastou-se rapidamente. Karen murmurou:

- Mas que diabo! O momento para eles chegarem não poderia ser pior! - Erguendo a voz, acrescentou: - Entrem! - E um instante depois anunciou: - Nimrod, eu gostaria de apresentar-lhe meus pais.

Um homem idoso de aparência distinta, os cabelos crespos grisalhos, o rosto enrugado, estendeu a mão. Ao falar, demonstrou possuir uma voz profunda e gutural, a origem austríaca ainda evidente:

- Sou Luther Sloan, Sr. Goldman. E essa é minha esposa, Henrietta. Karen falou-nos a seu respeito. E já o vimos na televisão.

A mão que Nim apertou era a de um operário, mas dava a impressão de ser meticulosamente lavada com frequência, as unhas estavam limpas. Embora Luther Sloan estivesse de macacão, com vestígios do trabalho que acabara de largar, o traje mostrava sinais de ser meticulosamente cuidado, com alguns remendos muito bem feitos.

A mãe de Karen também lhe apertou a mão.

- É muita bondade sua visitar nossa filha, Sr. Goldman. Sei que ela aprecia isso intensamente. E nós também.

Era uma mulher pequena, modestamente vestida, mas bemarrumada, os cabelos presos num coque antiquado; parecia ser mais velha do que o marido. Provavelmente ela fora outrora bonita, pensou Nim, o que explicava a beleza de Karen. Mas o rosto estava agora envelhecido, os olhos deixando transparecer a tensão e o cansaço. Nim imaginava que os dois fatores já a atormentavam há muito tempo.

- Estou aqui por uma única razão - garantiu ele. - Gosto da companhia de Karen.

Enquanto Nim retornava a sua cadeira e o casal Sloan se sentava, Josie trouxe um bule de café e quatro xícaras. A Sra. Sloan serviu e ajudou Karen a tomar.

- Como está indo seu negócio, Papai? - perguntou Karen.

- Não tão bem quanto eu gostaria. - Luther Sloan suspirou. -O material está mais caro a cada dia que passa. Deve estar a par disso, Sr. Goldman. Quando cobro o que me custa, acrescentando o valor do meu trabalho, as pessoas acham que estou roubando.

- Conheço muito bem o problema - comentou Nim. - Na Golden State Power, somos acusados da mesma coisa, pelas mesmas razões.

- Mas sua companhia é grande, tem as costas largas. Meu negócio é pequeno, apenas três pessoas trabalham para mim. E eu próprio também trabalho. Há dias em que penso que não vale a pena me esforçar tanto. Especialmente quando tenho de preencher os formulários do governo. A cada dia que passa, são mais e mais formulários. Não consigo entender por que o governo precisa tomar conhecimento da maioria das coisas que eu faço. Passo as noites e os fins-de-semana preenchendo formulários e ninguém me paga por isso.

Henrietta Sloan censurou o marido:

- Luther, não há necessidade de o mundo inteiro tomar conhecimento de seus problemas.

Ele deu de ombros.

- Perguntaram-me como iam os meus negócios. Simplesmente respondi a verdade.

- Seja como for, Karen - disse Henrietta - isso não faz a menor diferença para você ou para o seu desejo de ter um furgão. Já temos quase o suficiente para pagar a entrada e faremos um empréstimo para conseguir o resto.

- Já disse antes que não há tanta urgência assim, Mamãe - protestou Karen. - Afinal, estou podendo sair de casa, levada por Josie.

- Mas não tanto quanto poderia e até onde gostaria. - A expressão da mãe era de determinação. - Vamos arrumar-lhe um furgão. Prometo! E será muito em breve.

- Também andei pensando a respeito - disse Nim. - Da última vez. em que estive aqui, Karen mencionou que queria um furgão onde coubesse a cadeira de rodas e que Josie pudesse guiar.

- Por favor, parem de se preocupar com isso! - disse Karen, firmemente.

- Eu não me estava preocupando. Simplesmente lembrei que nossa companhia, a GSP & L, frequentemente dispõe de pequenos furgões que são vendidos depois de usados por um ou dois anos, ao serem substituídos por novos. Muitos ainda estão em bom estado. Posso pedir a alguém que veja se há algum disponível neste momento, a um preço razoável.

O rosto de Luther Sloan se iluminou.

- Seria uma grande ajuda. Por melhor que o furgão esteja, no entanto, vai precisar de uma adaptação para que a cadeira de rodas possa entrar e fique segura.

- Talvez possamos também ajudar nisso. Não sei com certeza, mas vou verificar.

- Vamos dar-lhe o nosso telefone - disse Henrietta. - Se tiver alguma notícia, ligue-nos imediatamente.

- Nimrod, você é maravilhoso! - disse Karen.

Continuaram conversando descontraidamente, até que Nim olhou para o relógio e ficou surpreso ao descobrir quanto tempo já se passara desde a sua chegada.

- Tenho que ir agora - anunciou ele.

- Nós também já vamos - disse Luther Sloan. - Estou mudando algumas tubulações de gás perto daqui... para o seu gás, Sr. Goldman... e o trabalho deve ficar pronto hoje.

- E caso pense que não tenho o que fazer - interveio Karen lembre-se de que tenho um discurso a terminar.

Os pais se despediram afetuosamente. Nim saiu junto com eles. Antes de se ir, porém, ficou novamente a sós com Karen por um instante e beijou-a pela segunda vez; sua intenção era dar um beijo no rosto, mas Karen virou a cabeça e os lábios se encontraram. com um sorriso atraente, ela murmurou:

- Volte o mais depressa possível.

Os Sloans e Nim desceram sozinhos no elevador; todos os três ficaram em silêncio, imersos em seus próprios pensamentos. Depois, Henrietta disse:

- Procuramos fazer o melhor possível por Karen. Mas gostaríamos de poder fazer mais.

A tensão e o cansaço que Nim observara antes, talvez mais próximos de uma sensação de derrota, estavam novamente nos olhos dela.

- Não creio que Karen concorde com isso - disse ele. - Pelo que ela me falou, reconhece comovida tudo o que fizeram.

Henrietta sacudiu a cabeça vigorosamente, o coque acentuando o movimento.

- O que quer que façamos, é sempre o mínimo. Mesmo assim, ainda é pouco para compensar o que aconteceu com Karen... por causa do que fizemos... há muito tempo.

Luther pôs a mão no braço da esposa, gentilmente.

- Liebchen, já conversamos sobre isso muitas vezes. Não se maltrate assim. Não vai adiantar nada.

Ela virou-se bruscamente para o marido.

- Você pensa a mesma coisa! E sabe disso!

Luther suspirou e depois perguntou abruptamente a Nim:

- Karen lhe contou que teve poliomielite?

- Contou.

- E ela lhe disse como? E por quê?

- Não. Ou pelo menos não exatamente.

- Ela não costuma contar - murmurou Henrietta.

O elevador parou nesse momento e eles saltaram. Ficaram parados no saguão pequeno e deserto, enquanto Henrietta Sloan continuava:

- Karen tinha quinze anos, ainda estava na escola secundária. Era uma excelente aluna e fazia parte da equipe de atletismo da escola. O futuro parecia maravilhoso.

Luther interveio:

- O que minha esposa está querendo dizer é que naquele verão nós dois arrumamos uma viagem à Europa. Iríamos com outros membros da nossa igreja luterana... uma peregrinação religiosa a lugares santos. Enquanto estivéssemos viajando, Karen deveria ficar num acampamento de verão. Dissemos a nós mesmos que uma temporada no campo seria ótimo para ela. Além disso, nossa outra filha, Cynthia, já estivera no mesmo acampamento dois anos antes.

- A verdade é que estávamos pensando mais em nós mesmos do que em Karen - comentou Henrietta.

O marido continuou a falar, como se não tivesse sido interrompido:

- Mas Karen não queria ir para o acampamento. Estava namorando um rapaz não queria sair da cidade. Preferia passar o verão em casa, perto dele. Mas Cynthia havia viajado e Karen teria de ficar sozinha.

- Karen falou e falou - disse Henrietta. - Afirmou que não tinha qualquer importância o fato de ficar sozinha e que podíamos confiar nela em relação ao namorado. Chegou mesmo a dizer que tinha a premonição de que aconteceria algo terrível se fosse para o acampamento, como pretendíamos. Nunca mais esqueci, jamais esquecerei.

A própria experiência pessoal permitiu a Nim imaginar nitidamente a cena que estava sendo descrita: os Sloans como pais ainda relativamente jovens, Karen mal saída da infância, o choque de vontades, todos os três inteiramente diferentes do que se haviam tornado.

Luther retomou mais uma vez a narrativa, falando rapidamente, como se desejasse terminar o mais depressa possível:

- O resultado é que tivemos uma briga de família, nós dois ficando de um lado, Karen do outro. Insistimos para que ela fosse para o acampamento e, ao final, Karen acabou cedendo. Enquanto ela estava lá e nós passeávamos pela Europa, irrompeu uma epidemia de poliomelite. Karen foi uma das vítimas.

- Se a tivéssemos deixado ficar em casa - murmurou Henrietta como ela queria...

O marido interrompeu-a bruscamente:

- Basta! Tenho certeza de que o Sr. Goldman já pode imaginar o resto.

- Tem razão, acho que posso - disse Nim, gentilmente. Estava-se recordando dos versos que Karen escrevera depois da eletrocução de WallyTalbot Jr.

"Se" isto ou aquilo

Em tal ou qual dia

Tivesse variado uma hora ou um centímetro;

Ou se algo negligenciado fosse feito

Ou se algo feito fosse negligenciado!

Ele podia agora compreender melhor. No instante seguinte, imaginando que algo deveria ser dito, mas sem saber exatamente o que, ele acrescentou:

- Não vejo por que devem continuar a assumir a culpa pelo que aconteceu...

Um olhar de Luther e um "Por favor, Sr. Goldman" silenciaramno. Nim compreendeu o que deveria ter percebido instintivamente: nada mais havia que se pudesse dizer, todos os argumentos já tinham sido formulados antes e devidamente rejeitados. Não havia a menor possibilidade, nunca houvera, de aqueles dois se aliviarem por menos que fosse do fardo que carregavam.

- Henrietta tem razão - disse Luther. - Penso da mesma forma. Ambos levaremos nossa culpa para a sepultura.

A esposa acrescentou:

- Pode compreender agora por que digo que tudo o que fazemos... inclusive trabalhar a fim de comprar um furgão para Karen... não é realmente nada.

- Não concordo - disse Nim. - Qualquer que seja a verdade, é muito mais do que isso.

Saíram para a rua. O carro de Nim estava estacionado a alguns metros de distância.

- Obrigado por me terem contado tudo - murmurou ele. - E tentarei fazer todo o possível para providenciar o furgão, o mais depressa que puder.

Como Nim já esperava, dois dias depois recebeu outros versos de Karen:

Quando jovem Corria pelas calçadas, Empenhado no jogo De evitar as rachaduras?

Ou mais tarde

Mentalmente andou

Na corda bamba

Temendo e ao mesmo tempo cortejando

O desastre de uma queda?

"Desastre", disse eu? Mas que palavra aberrante! Pois há outras quedas e punições Não de todo catastróficas Mas amortecidas pela benesse da alegria e da glória. O amor é uma delas.

Mas o bom senso adverte:

Uma queda é uma queda com suas consequências de dor e sofrimento

Apenas proteladas, não contornadas.

Mas basta!

Ao largo com o bom senso!

Viva as corridas na calçada, viva a corda bamba!

Agora mesmo, quem é sensato ou deseja ser?

Não eu.

E você?

O assunto era Tunipah.

- Conversar com o Governador deste Estado sobre qualquer coisa

- declarou J. Eric Humphrey, em seu típico sotaque bostoniano - tem o mesmo efeito que enfiar a mão num balde cheio de água. Assim que se tira a mão, a água volta a ser exatamente como antes, como se a mão nunca se tivesse intrometido.

- A única diferença é que sua mão ficaria molhada - comentou Ray Paulsen.

- No caso do Governador, fica pegajosa.

- Eu bem que avisei - interveio Teresa Van Buren - logo depois do blackout há dois meses, que a memória do público é curta, que as pessoas, inclusive os políticos, esqueceriam rapidamente a interrupção no fornecimento e os motivos.

- O problema do Governador não é a memória - assegurou Oscar O'Brien, que acompanhara Eric Humphrey nas recentes reuniões no palácio estadual, onde haviam sido discutidos os projetos de expansão, inclusive Tunipah. - Ele só tem um problema: quer ser o Presidente dos Estados Unidos. E quer tão intensamente que pode até sentir o gostinho.

- Quem sabe se ele não daria um bom presidente? - comentou Nim Goldman.

- É possível - admitiu O'Brien. - Até lá, porém, a Califórnia está sem qualquer orientação, com um Governador que não assume posições nem toma decisões, que se recusa a fazer qualquer coisa que possa desagradar a um único eleitor nacional.

- Descontando-se o ligeiro exagero - disse Eric Humphrey - é justamente essa a essência do nosso problema.

- Ainda por cima - acrescentou O'Brien, soprando a fumaça do inevitável charuto - o mesmo se aplica, por motivos similares, embora um pouco diferentes, a todas as demais autoridades públicas de Sacramento.

Os cinco estavam reunidos no gabinete do presidente da Golden State Power & Light. Em menos de duas semanas começariam as audiências públicas sobre o projeto da usina geradora à base de carvão em Tumipah. Embora o projeto fosse vital para a Califórnia, um ponto de vista aceito pelo Governador, seus assessores e líderes legislativos, mas somente em particular, nenhum deles iria declarar publicamente seu apoio a Tunipah, por motivos políticos. A companhia, apesar das fortes forças de oposição, deveria enfrentar tudo "sozinha".

Outra coisa que o Governador rejeitara fora o pedido da GSP & L para que os diversos órgãos envolvidos na autorização da construção da usina de Tunipah realizassem audiências conjuntas, por causa da urgência. Em vez disso, seriam mantidas as normas habituais. O que significava uma longa e extenuante série de apresentações e discussões perante quatro órgãos governamentais separados, cada um preocupado com um aspecto diferente, embora muitas vezes houvesse superposição.

Teresa Van Buren perguntou:

- Existe alguma possibilidade de o Governador ou de alguém mais mudar de ideia?

- Somente se os filhos da mãe puderem tirar algum proveito próprio - resmungou Ray Paulsen. - E isso não vai acontecer.

Paulsen estava cada vez mais amargo ultimamente, por causa da frustrante demora na aprovação dos projetos. Como o executivo encarregado do suprimento de energia, Paulsen teria a missão impopular de determinar os cortes de eletricidade, quando se tornassem necessários, em futuro próximo.

- Ray tem razão - declarou O'Brien. - Todos sabemos que a turma de Sacramento deixou-nos de calça na mão na questão das usinas nucleares, embora reconhecendo extra-oficialmente sua necessidade, mas sem coragem de proclamá-lo em voz alta.

- Quer gostemos ou desprezemos essa atitude, a verdade é que está acontecendo novamente - disse Eric Humphrey, incisivamente. - E agora vamos tratar das audiências sobre Tunipah. Tenho algumas ideias que estou querendo expor. A minha intenção é que a nossa participação nas audiências seja a melhor possível. Nossa exposição deve ser objetiva, racional, serena, digna. Na reinquirição, as respostas de todos os nossos representantes devem ser coerentes, com ênfase na cortesia e na paciência. Como parte de sua tática, a oposição tentará provocar-nos.

Devemos resistir a todas as provocações e quero que nossos representantes estejam devidamente preparados para isso.

- Assim será feito - disse Oscar O'Brien.

Ray Paulsen olhou para Nim com uma expressão sombria e comentou:

- Não se esqueça de que isso se aplica também a você. Nim amarrou a cara.

- Já estou praticando a contenção, Ray... desde agora. Nenhum dos dois esquecera o atrito na reunião de diretoria em que

Nim e Teresa Van Buren haviam defendido a linha dura de expor publicamente os problemas da companhia, enquanto Paulsen e a maioria dos outros defendiam a posição inversa. A julgar pelas instruções do presidente, a "linha moderada" ainda estava em vigor.

- Acha mesmo, Oscar - indagou Eric Humphrey - que há necessidade do meu comparecimento pessoal a essas audiências?

O'Brien assentiu.

- Necessidade absoluta.

Por trás da pergunta, obviamente, estava o desejo de Humphrey de evitar a atenção pública. Nos últimos 10 dias, mais duas bombas haviam explodido em instalações da GSP & L, embora sem causar maiores danos. Mas serviam para lembrar o constante perigo para a companhia e seus executivos. No dia anterior, alguém telefonara para uma emissora de rádio declarando que "mais executivos criminosos da Golden State Porra & Lixo vão em breve pagar muito caro por seus crimes contra o povo".

- Prometo que seu depoimento será rápido, Eric - acrescentou O'Brien. - Mas precisamos de sua presença oficialmente.

O presidente suspirou.

- Está certo.

Nim pensou, divertido e amargurado: como sempre, a estratégia de retraimento não se aplicaria a ele. Nas audiências iminentes, Nim seria a testemunha-chave; e enquanto outros representantes da companhia falariam exclusivamente sobre questões técnicas, ele seria o encarregado de apresentar a argumentação global em defesa do projeto de Tunipah. Oscar O'Brien se encarregaria do interrogatório das testemunhas.

Nim e O'Brien já tinham realizado diversos ensaios, contando com a participação de Ray Paulsen.

Durante o trabalho com O'Brien, Paulsen e Nim haviam contido seu antagonismo normal e em determinados momentos haviam chegado bem perto da cordialidade.

Aproveitando tal ânimo, Nim abordara com Paulsen o problema de um furgão usado para Karen Sloan, porque o transporte era um departamento subordinado ao Suprimento de Energia.

Para surpresa de Nim, Paulsen se mostrara interessado e disposto a ajudar. Menos de 48 horas depois da conversa, ele já localizara um furgão apropriado, que estaria disponível para a venda dentro de poucos dias. Mais do que isso, Ray Paulsen estava projetando pessoalmente algumas modificações necessárias. Iriam facilitar o embarque da cadeira de rodas de Karen no furgão e mantê-la firmemente no lugar. Karen telefonara a Nim para informar que um mecânico da GSP & L fora procurá-la, a fim de medir a cadeira de rodas e examinar as ligações elétricas.

- Uma das melhores coisas que já me aconteceu, Nimrod - dissera Karen ao telefone - foi o fato de você ter visto o círculo vermelho no mapa naquele dia e depois resolvido vir até aqui. Por falar nisso, quando vai aparecer novamente, Nimrod querido? Espero que não demore muito.

Nim prometera que voltaria a visitá-la o mais breve possível. Telefonara posteriormente para os pais de Karen, Luther e Henrietta, que haviam ficado deliciados com a notícia do furgão e estavam agora providenciando um empréstimo bancário para cobrir os custos.

A voz de Oscar O'Brien trouxe Nim de volta ao presente:

- Presumo que todos sabem quanto tempo pode demorar o processo relativo a Tunipah.

Paulsen comentou, sombriamente:

- Tempo demais!

- Qual é a sua estimativa, Oscar? - perguntou Teresa Van Buren.

- Presumindo que seremos bem-sucedidos nas diversas audiências e levando-se em consideração as ações protelatórias legais subsequentes, a que os nossos oponentes certamente irão recorrer... eu diria que seis ou sete anos. - O advogado folheou alguns papéis, antes de acrescentar:

- Talvez estejam também interessados em custos. Meu departamento calcula que só os nossos custos, para obter a licença de construção, quer ganhemos ou percamos, será de cinco e meio milhões de dólares. Os estudos do meio ambiente custarão mais alguns milhões e não começaremos a fazer qualquer obra antes que esteja tudo devidamente aprovado.

- Providencie para que essa informação tenha a mais ampla divulgação, Tess - disse Eric Humphrey à sua vice-presidente de relações públicas.

- Tentarei, Eric, mas não posso garantir que muitas pessoas fora desta sala vão interessar-se.

- Eles se interessarão quando as luzes se apagarem - declarou Humphrey. - E agora, quero ouvir os relatórios sobre o progresso, se algum, dos nossos outros pedidos, a usina de Portão do Diabo e o projeto geotérmico de Fincastle.

- O "se algum" é uma expressão apropriada - comentou O'Brien. E informou que, até aquele momento, só tinham sido superadas as escaramuças iniciais na selva burocrática. Haveria incontáveis outras. Enquanto isso, estava crescendo cada vez mais a oposição a Portão do Diabo e Fincastle...

Escutando o relato, Nim sentiu-se dominado por uma raiva intensa contra o sistema superado e ineficiente e contra a falta de disposição da companhia de enfrentar o problema de frente e objetivamente. Sabia que teria os maiores problemas nas audiências sobre Tunipah. Problemas para se conter, a maior dificuldade em manter a paciência, relutância em controlar as palavras que poderiam apresentar a verdade objetivamente.

 

Eric Humphrey, de rosto vermelho, contrafeito, estava sentado na cadeira das testemunhas, mais alta que o chão, espaldar reto. Ali já estava por quase metade do dia, várias horas a mais que o rápido comparecimenTo que Oscar O'Brien lhe prometera.

A um metro de distância, na sala parecida com um tribunal, Davey Birdsong estava de pé a sua frente. Birdsong balançou ligeiramente ao transferir o peso formidável do corpo dos calcanhares para as pontas dos pés, depois novamente para trás, para frente, para trás.

- Já que não deve estar habituado a audiências públicas vou repetir a pergunta. Quanto recebe por ano?

Humphrey, que hesitara quando a pergunta fora formulada antes, olhou para O'Brien, sentado na mesa reservada aos advogados. O'Brien deu de ombros, num gesto quase imperceptível.

Contraindo os lábios, o presidente da GSP & L respondeu:

- Duzentos e quarenta e cinco mil dólares por ano. Birdsong sacudiu a mão.

- Não me está entendendo, cara. Não perguntei qual era o capital da Golden State Power & Light, mas sim quanta grana você ganha.

A expressão sombria, sem achar a menor graça Humphrey disse:

- É a cifra que acabei de mencionar.

- Não posso acreditar! - Birdsong bateu com a mão na testa, num gesto teatral. - Não é possível que uma pessoa ganhe tanto dinheiro assim! - Deixou escapar um assovio baixo e prolongado, antes de exclamar: - Puxa!

Na sala de audiências, quente e apinhada, soaram outros assovios e "Puxas!" Alguém gritou:

- Somos nós, consumidores, que estamos pagando isso! E eu digo que é demais!

Soaram aplausos, espectadores bateram com os pés no chão.

Na bancada elevada, olhando de cima para a testemunha, interrogador e espectadores, o comissário que presidia a audiência pegou o martelo de madeira e bateu de leve, gritando:

- Ordem! Ordem!

O comissário, de trinta e poucos anos, rosto rosado de menino, fora nomeado para o cargo um ano antes, depois de trabalhar no partido político que estava no poder. Era formado em contabilidade e corria o rumor de que era também parente do Governador.

No momento em que o comissário falou, O'Brien levantou-se bruscamente:

- Sr. Comissário, é realmente necessário hostilizar minha testemunha dessa maneira?

O comissário olhou para Birdsong, que estava usando seu uniforme de calça jeans esfarrapada, camisa multicolorida aberta no peito e ténis. Em contraste, Humphrey, que comprava seus ternos com colete no deLisi em Nova York e ia até lá especialmente para as provas, estava impecavelmente vestido.

- Fez uma pergunta e recebeu a resposta, Sr. Birdsong - disse o comissário. - Podemos dispensar as manifestações teatrais. Continue, por favor.

- Está certo, Sr. Comissário. - Birdsong virou-se novamente para Eric Humphrey. - Falou duzentos e quarenta e cinco mil dólares?

- Isso mesmo.

- Há outras compensações acompanhando esse maná... (Risadas dos espectadores.) desculpe. Há outras vantagens inerentes ao cargo de presidente de uma companhia de serviços públicos? Como uma limusine pessoal, por exemplo?

- Tenho um carro a minha disposição.

- com motorista?

- Isso mesmo.

- E mais uma generosa verba de representação? Humphrey respondeu na maior irritação:

- Eu não diria que é generosa.

- E de quanto é exatamente? Mais risadas.

O desagrado intenso de J. Eric Humphrey estava começando a transparecer. Essencialmente um administrador de alto nível, não era um lutador tRubulento e impetuoso e não estava absolutamente preparado para enfrentar o espalhafatoso espetáculo circense de Birdsong. Limitou-se assim a responder friamente:

- Minhas funções envolvem determinadas despesas que me são permitidas cobrar à companhia.

- Aposto que sim!

O'Brien já se estava levantando. O comissário que presidia a reunião fez-lhe sinal para que sentasse de novo e determinou:

- Limite-se a fazer suas perguntas, Sr. Birdsong. O gigante barbado sorriu jovialmente.

- Sim, senhor!

Sentado no recinto reservado ao público, Nim estava furioso. Por que Humphrey não respondia bruscamente, agressivamente, como podia e devia? Meu salário, Sr. Birdsong, é uma questão de registro público, já que é comunicado aos órgãos responsáveis e a informação é facilmente disponível. Tenho certeza de que já sabia disso antes de fazer a pergunta; portanto, sua demonstração de surpresa foi falsa, um simples embuste. Além do mais, meu salário é perfeitamente compatível com o cargo de presidente e principal executivo de uma das maiores corporações do país; na verdade, é até menor do que na maioria das outras companhias do mesmo porte. Uma razão para o nível do meu salário é o fato de organizações industriais como a GSP & L saberem que têm de ser competitivas ao recrutarem e manterem os talentos de seus executivos. Para ser mais específico: minha experiência e qualificações certamente me valeriam um salário igual ou maior em outras empresas. Pode não gostar desse sistema', Sr. Birdsong, mas enquanto formos uma sociedade de livre iniciativa é assim que tem de ser. Quanto ao carro com motorista, foi-me oferecido na mesma base competitiva do salário e também na suposição de que o tempo e energias de um executivo-chefe são mais valiosos do que um carro e motorista. Mais uma coisa a respeito do carro: como muitos outros executivos atarefados, estou acostumado a trabalhar no deslocamento de um lugar para outro, e raramente tenho oportunidade de relaxar um pouco no carro. Finalmente, se os diretores e acionistas da companhia não estão satisfeitos com meu desempenHo em troca do dinheiro que me pagam, podem perfeitamente me dispensar...

Mas não!, pensou Nim, sombriamente. O tratamento brando, a preocupação excessiva com uma ilusória imagem pública, a cautela exagerada, jamais se enfrentando os Birdsongs deste mundo com suas próprias táticas agressivas... esta era a ordem do dia. Daquele dia e de muitos outros que viriam.

Era o segundo dia das audiências sobre o licenciamento do projeto de Tunipah, primeiro estágio. O dia anterior fora ocupado por formalidades, inclusive com a apresentação pelo advogado da GSP & L de uma volumosa "Declaração de Intenções", com 500 páginas (350 exemplares impressos), o primeiro de vários documentos similares. O'Brien comentara, sardonicamente:

- Quando chegarmos ao final, teremos provocado a derrubada de uma floresta, inteira para fazer o papel que usaremos; reunindo tudo, daria para encher uma biblioteca ou afundar um navio.

No início daquele dia, J. Eric Humphrey fora convocado como a primeira testemunha da requerente.

O'Brien fizera o presidente da companhia apresentar rapidamente a necessidade de Tunipah e as vantagens do local escolhido, o prometido rápido comparecimento. Depois, houvera um interrogatório mais prolongado, conduzido pelo advogado da comissão e em seguida por Roderick Pritchett, diretor-secretário do Clube da Sequóia. As duas reinquirições, embora se prolongassem por cerca de uma hora cada, foram construtivas, objetivas e serenas. Davey Birdsong, no entanto, que viera a seguir, representando a & Ip, já agitara a audiência, para alegria dos seus partidários entre os espectadores.

- Sou capaz de apostar, Sr. Humphrey - continuou ele - que acorda de manhã imaginando que tem de fazer alguma coisa para justificar esse seu salário fabuloso. Não é verdade?

O'Brien prontamente gritou:

- Objeto!

- Objeção aceita - decidiu o comissário. Birdsong não se alterou.

- vou perguntar de outra maneira. Não acha, Eric meu bem, que como parte principal do seu trabalho deve ficar bolando planos, como esse negócio de Tunipah, que irão proporcionar lucros fabulosos para sua companhia?

- Objeção!

Birdsong virou-se bruscamente para o advogado da GSP & L.

- Por que não manda fazer uma gravação? Bastaria então apertar um botão, sem precisar abrir a boca.

Houve risadas e alguns aplausos dispersos. Ao mesmo tempo, o jovem comissário inclinou-se para conferenciar com um homem sentado a seu lado, mais idoso, especialista em Direito Administrativo, servidor civil com grande experiência naquele tipo de audiência. Enquanto ele falava, baixinho, o homem mais velho sacudia a cabeça.

- Objeção negada! - anunciou o comissário. - Permitimos uma ampla liberdade nessas audiências, Sr. Birdsong, mas faça a gentileza de se dirigir a todas as testemunHas com o devido respeito, usando seus nomes corretamente e não... - O comissário tentou conter um sorriso, mas não conseguiu. - "Eric meu bem" e outras expressões semelhantes. Outra coisa: gostaríamos de alguma garantia de que sua linha de interrogatório é relevante.

- Mas claro que é relevante! E como é! - A resposta de Birdsong foi proferida com a maior exuberância. Depois, como se tivesse ocorrido alguma mudança mental, ele assumiu o papel de suplicante. - Peço que compreenda por favor, Sr. Comissário, que sou apenas um homem simples, representando pessoas humildes, não um advogado importante, de Luxo, como o velho Oscarzinho aqui presente. - Apontou para O'BRIen, - Assim, se pareço meio inábil, excessivamente amistoso, se cometo erros...

O comissário suspirou.

- Simplesmente continue, por favor.

- Sim, senhor! Claro, senhor! - Birdsong virou-se bruscamente para Humphrey. - Ouviu o que o homem disse! Está desperdiçando o tempo precioso do comissário. Agora, pare de criar confusão e responda logo à pergunta!

O'Brien tornou a intervir:

- Que pergunta? Não me lembro da pergunta e tenho certeza de que a testemunha também não.

O comissário determinou:

- O relator vai ler as declarações.

O depoimento foi interrompido e os que estavam em cadeiras duras e bancos mudaram de posição, procurando ficar o mais confortáveis possível, enquanto um estenógrafo, encarregado da transcrição oficial da audiência, folheava suas anotações. Nos fundos da sala, diversas pessoas entraram, enquanto outras saíram. Como os principais participantes sabiam, nos meses e anos que iriam transcorrer antes que se chegasse a uma decisão, aquelas cena e sequência iriam repetir-se incontáveis vezes.

A sala de audiências, revestida de lambris de carvalho, ficava num prédio de 12 andares, perto do centro da cidade, ocupado pela Comissão de Energia da Califórnia, que estava realizando aquela primeira série de audiências. No outro lado da rua ficava o prédio da Comissão de Serviços Públicos da Califórnia, que posteriormente realizaria suas próprias audiências sobre Tunipah, repetindo em grande parte o que já acontecera antes. A competição e o ciúme entre as duas comissões eram intensos e havia ocasiões em que assumiam as características de Alice no País das Maravilhas.

Dois outros órgãos estaduais em breve entrariam em cena e também realizariam suas próprias audiências, separadas: a Comissão de Qualidade dos Recursos Hídricos e a Comissão de Recursos de Ar. Cada um desses quatro órgãos receberia relatórios e documentos dos outros três, a maioria dos quais iria ignorar.

Em nível inferior, era necessário satisfazer também um Distrito de Controle da Poluição do Ar, que podia impor restrições ainda mais rigorosas que os órgãos estaduais.

O'Brien comentava particularmente:

- Ninguém que não esteja diretamente envolvido jamais iria acreditar na incrível superposição e futilidade. Os que participam e os que instituíram um sistema tão absurdo seriam considerados lunáticos. Seria muito mais barato para a bolsa do público, além de mais eficiente, se fôssemos todos internados num hospício...

O estenógrafo estava concluindo a leitura:

- planos, como esse negócio de Tunipah, que irão proporcionar lucros fabulosos para sua companhia?

- O objetivo de Tunipah é prestar um serviço aos nossos consumidores e à comunidade em geral, como sempre temos feito, antecipando-nos ao aumento da demanda de energia - respondeu Humphrey. - O lucro é secundário.

- Mas haverá lucros - insistiu Birdsong.

- Claro! Somos uma empresa particular, com obrigações para com os investidores...

- Lucros grandes? Milhões de dólares?

- Por causa das proporções gigantescas do empreendimento e do vultoso investimento, haverá emissões de ações e outros títulos, que não poderão ser vendidos aos investidores a menos que...

Birdsong interrompeu-o bruscamente:

- Responda "sim" ou "não". Haverá lucros de milhões de dólares?

O presidente da GSP & L ficou vermelho.

- Provavelmente... sim.

Mais uma vez, o seu algoz ficou balançando para frente e para trás nos calcanhares.

- Sendo assim, Sr. Humphrey, temos apenas sua palavra de que o serviço tem precedência sobre os lucros... a palavra de uma pessoa que, se essa monstruosa fraude de Tunipah for impingida ao público, começa a lucrar por todos os meios possíveis.

- Objeção! - disse O'Brien, já Zangado. - Nã o se trata de uma pergunta. É uma declaração prejudicial, perniciosa e infundada.

Para que tantas palavras bonitas? Mas está certo, retiro o que disse. - Birdsong estava deixando a critério do comissário a exclusão de suas últimas palavras. Ele sorriu, antes de acrescentar: - Acho que meus sentimentos de homem honesto levaram a melhorsobre minha determinação.

O'Brien deu a impressão de que ia objetar novamente, mas depois mudou de ideia.

Como Birdsong e os outros sabiam perfeitamente, o último diálogo acabaria constando dos autos. Além disso, os repórteres na mesa de imprensa estavam escrevendo rapidamente... uma atitude que não haviam assumi do antes.

Ainda assistindo à cena do recinto reservado aos espectadores, Nim pensou: não resta a menor dúvida de que os comentários de Davey Birdsong sairão em todas as reportagens amanhã, porque o líder da & Ip está novamente proporcionando o pitoresco ao noticiário.

Entre os jornalistas presentes, Nim podia ver a repórter negra Nancy Molineaux. Ela estava observando Birdsong atentamente, sem escrever, erecta e imóvel; a pose realçava os malares salientes, o rosto bonito se bem que um tanto agressivo, o corpo esguio e flexível. A expressão era pensativa. Nim calculou que ela estava também apreciando o desempenho de Birdsong.

No início do dia, Nim e Nancy Molineaux haviam cruzado no corredor, diante da sala de audiência. Quando ele acenara com a cabeça bruscamente, Nancy franzira as sobrancelhas e exibira um sorriso zombeteiro.

Birdsong recomeçou o interrogatório:

- Diga-me uma coisa, Eric meu velho... oh, mil perdões!... Mister Humphrey... por acaso já ouviu falar em conservação?

- Claro.

- E sabe também que há uma convicção generalizada de que projetos como Tunipah não seriam necessários, se pessoas como você defendessem a sério a noção de conservação? Não me estou referindo a uma defesa puramente simbólica, mas a sério mesmo, com o mesmo empenho com que está neste momento tentando obter permissão para construir novas usinas que irão proporcionar lucros ainda mais fabulosos.

O'Brien já se estava levantando quando Humphrey disse:

- vou responder à pergunta. - O advogado voltou a sentar-se. O presidente da companhia continuou: - Em primeiro lugar, não procuramos, na Golden State Power & Light, vender mais energia. Já houve um tempo em que o fizemos, mas há muitos anos que isso deixou de acontecer. Em vez disso, recomendamos que se poupe energia... e o fazemos com toda seriedade. Mas sabemos também que isso pode ajudar, mas jamais irá eliminar o ritmo crescente da demanda de energia, que é o motivo pelo qual precisamos da Tunipah.

- É essa a sua opinião?

- Naturalmente que é a minha opinião.

- O mesmo tipo de opinião preconcebida com que nos pede para acreditar que não se importa se Tunipah vai ou não proporcionar lucros fabulosos?

O'Brien prontamente objetou:

- Isso é uma deturpação. A testemunha não disse que não se importava com os lucros.

- Tem razão. - Abruptamente, Birdsong virou-se para encarar O'Brien, o corpo parecendo expandir-se, enquanto a voz se alteava: Todos nós sabemos que vocês, da Golden Power, se preocupam com os lucros... e lucros fabulosos, polpudos, escorchantes, à custa dos pequenos consumidores, dos trabalhadores decentes deste Estado, que pagam suas contas e terão que pagar ainda mais caro por Tunipah se...

O restante das palavras foi abafado por gritos, aplausos, pés batendo no chão. Em meio ao tumulto, o comissário bateu com o martelo e gritou:

- Ordem! Ordem!

Um homem que se juntara aos gritos e aplausos, sentado ao lado de Nim, observou o silêncio dele e perguntou:

- Não se importa, companheiro?

A pergunta foi feita em tom beligerante e Nim limitou-se a responder:

- Claro.

Se aquilo fosse um tribunal, pensou Nim, há muito que Birdsong já teria sido citado por desacato. Mas tal não aconteceria, porque a aparência de tribunal era apenas uma fachada. Nas audiências daquele tipo, permitia-se deliberadamente uma ação ampla e irregular, tolerando-se inclusive tumultos ocasionais. Oscar O'Brien explicara as razões numa das reuniões preparatórias para instruir as testemunhas da GSP & L:

- As comissões públicas estão atualmente apavoradas com a possibilidade de serem contestadas nos tribunais, se não permitirem a todos a oportunidade de dizerem o que bem quiserem, sob a alegação de que provas fundamentais não puderam ser apresentadas. Se isso acontecesse, poderia redundar na anulação de uma decisão, desfazendo anos de trabalho, só porque algum maluco recebeu a ordem para calar a boca ou algum argumento insignificante foi rejeitado. Ninguém deseja isso... inclusive nós. Assim, por um consenso geral, os demagogos e malucos podem dizer o que pensam, toda vez que quiserem. O resultado é que as audiências se tornam longas e arrastadas. Mas, ao final das contas, provavelmente estaremos ganhando tempo.

Nim sabia que fora por isso que o veterano funcionário público sacudira a cabeça minutos antes, aconselhando o jovem comissário a não rejeitar a pergunta contestada de Birdsong.

Outra coisa que O'Brien explicara fora que os advogados que representavam as companhias requerentes levantavam menos objeções naquele tipo de audiência do que fariam num tribunal.

- Guardamos as objeções para as coisas que forem mais prejudiciais e devam ser riscadas dos registros.

Nim desconfiava de que as objeções de O'Brien, durante a inquirição de J. Eric Humphrey por Birdsong, eram simplesmente um meio de apaziguar o patrão, que se mostrara antes tão relutante em se apresentar como testemunha.

Nim tinha certeza de que, quando chegasse sua vez de depor e ser inquirido, O'Brien o deixaria praticamente sozinho para enfrentar o que pudesse acontecer.

- Vamos voltar àqueles lucros fabulosos de que falamos - continuou Davey Birdsong. - Examinemos o efeito nas contas mensais dos consumidores...

O líder da & Ip continuou em seu interrogatório por mais meia hora. Recorria a perguntas tendenciosas, sem qualquer base nos fatos, entremeadas com demonstrações teatrais, mas sempre insistindo na alegação de que os lucros de Tunipah seriam excessivos e que era esse o principal motivo para o projeto. Nim não podia deixar de reconhecer uma coisa: embora a acusação fosse falsa, a repetição exaustiva, ao melhor estilo de Goebbels, era eficaz. Indubitavelmente, receberia o maior destaque nos meios de comunicação e provavelmente alguma credibilidade, o que era obviamente um dos objetivos de Birdsõng.

- Obrigado, Sr. Humphrey - disse o comissário, quando o presidente da GSP & L saiu da cadeira das testemunhas.

Eric Humphrey respondeu com um aceno de cabeça e retirou-se rapidamente, visivelmente aliviado.

Duas outras testemunhas da GSP & L foram convocadas a seguir. Eram engenheiros, especialistas, seus depoimentos e inquirições transcorreram sem qualquer incidente, mas ocuparam dois dias inteiros. Depois, a audiência foi suspensa até segunda-feira da semana seguinte. Nim, encarregado de apresentar a base da argumentação da GSP & L, seria a próxima testemunha, a ser convocado assim que a audiência recomeçasse.

 

Três semanas antes, quando Ruth Goldman surpreendera Nim ao anunciar que tencionava passar algum tempo fora de casa, ele pensara que ela provavelmente mudaria de ideia. Mas isso não acontecera. Agora, na noite de sexta-feira, início do recesso de fim-de-semana das audiências sobre Tunipah, Nim descobria-se sozinho em casa. Ruth levara Leah e Benjy para a casa dos avós, no outro lado da cidade, antes de partir. O acordo era que as crianças ficariam com os Neubergers até a volta de Ruth, em data incerta.

Ruth se mostrara bastante vaga em relação ao seu provável retorno, assim como se recusara a dizer para onde ia e com quem.

- Provavelmente passarei duas semanas fora, embora possa ser um pouco mais ou um pouco menos - dissera Ruth, alguns dias antes.

Mas não houvera nada de vago na atitude de Ruth em relação a ele: tornara-se fria e incisiva. Nim tinha a impressão de que ela tomara algumas decisões interiores e só restava agora pô-las em prática. Ele não tinha a menor ideia de quais eram essas decisões e como iriam afetÁ-lo. A princípio, dissera a si mesmo que deveria importar-se; mas logo descobrira, com profunda tristeza, que tal não acontecia. Ou pelo menos não muito. Fora por isso que não fizera qualquer objeção quando Ruth informara que seus planos estavam concluídos e que partiria no final da semana.

Nim compreendia que era insólita a sua atitude, simplesmente aceitando e deixando que as coisas seguissem à deriva. Por natureza, estava acostumado a tomar decisões prontamente, a planejar para o futuro; essa capacidade, aplicada ao trabalho, valera-lhe o reconhecimento e muitas promoções. Mas em relação ao casamento ainda tinha uma estranha relutância em tomar decisões, talvez porque temesse enfrentar a realidade. Estava deixando tudo a cargo de Ruth. Se ela decidisse deixá-lo para sempre e depois pedir o divórcio, o que parecia ser a sequência natural, provavelmente não iria reagir, nem mesmo tentaria dissuadi-la. Contudo, não tomaria a iniciativa pessoalmente. Ainda não estava preparado para isso.

Perguntara a Ruth, no dia anterior, se ela já estava pronta para discutir a situação conjugal, recordando as palavras dela: "... mantemos apenas uma aparência de casamento. E preferimos não falar a respeito. Mas acho que deveríamos... Talvez, quando eu voltar..." Por que esperar?, pensava Nim.

Mas Ruth lhe respondera friamente:

- Não. Eu lhe direi quando estiver pronta.

E a conversa terminara por aí. Leah e Benjy frequentemente se intrometiam nos pensamentos de Nim, juntamente com a possibilidade de um divórcio. Sabia que ambos ficariam arrasados com a perspectiva e sentia-se desolado ao pensar nos filhos magoados. Mas a verdade era que os filhos sobreviviam ao divórcio, e Nim já observara que muitos o encaravam como um simples aspecto da vida. Nim sabia que não teria a menor dificuldade em passar algum tempo com Leah e Benjy depois do divórcio. Era possível até que passasse a ver os filhos mais do que atualmente. Já acontecera com outros pais separados.

Mas todas as especulações teriam de esperar até a volta de Ruth, pensou ele, enquanto vagueava pela casa vazia na noite de sexta-feira.

Meia hora antes, telefonara para Leah e Benjy, apesar das objeções de Aaron Neuberger, que não gostava que seu telefone fosse usado no Sabbath, exceto para emergências. Nim deixara o telefone tocar interminavelmente, até que o sogro finalmente atendera.

- Quero falar com meus filhos e não me importa que dia seja hoje. Quando Leah atendera, alguns minutos depois, reprovara o pai gentilmente:

- Deixou Vovô muito aborrecido, Papai.

Nim sentira vontade de dizer Ótimo!, mas se contivera a tempo. Conversaram sobre a escola, uma competição de natação iminente, as aulas de bale. Não houvera qualquer menção a Ruth. Nim sentira que a filha sabia que alguma coisa estava errada, mas receava perguntar ou mesmo saber.

 

A conversa com Benjy, que se seguira, fizera reviver a irritação que Nim frequentemente sentia contra os sogros.

- Papai, vou ter um bar mitzvah? - perguntara Benjy. - O Vovô disse que sim. E Vovô falou que jamais serei um bom judeu se não fizer.

Ao diabo com esses Neubergers intrometidos! Será que eles não podiam comportar-se simplesmente como avós amorosos, tomando conta de Leah e Benjy por duas semanas sem aproveitar a oportunidade para instilar sua propaganda nas crianças? Era quase imoral começar a trabalhar as crianças com tanta precipitação, intrometendo-se nos direitos de Nim e Ruth como pais. Nim pensara em abordar pessoalmente o assunto com Benjy, numa conversa serena, tranquila, de homem para homem, não achando conveniente que fosse levantando tão abruptamente. Mas uma voz interior lhe perguntara: E por que não o fez? Teve tempo suficiente. Se tivesse Falado antes, não estaria agora sem saber como responder à pergunta de Benjy.

Nim dissera rispidamente:

- Ninguém precisa ter obrigatoriamente um bar mitzvah. Eu não tive. E o que sua avó falou é bobagem.

- Vovô diz que tenho muita coisa a aprender - respondera Benjy, parecendo em dúvida. - Disse que eu já deveria ter começado há muito tempo.

Não haveria um tom de acusação na voz fina e precisa de Benjy? Era bem possível, até mesmo provável, pensou Nim, que Benjy, aos 10 anos, compreendesse muito mais coisas do que imaginavam os mais velhos. Sendo assim, as perguntas de Benjy não refletiríam a mesma busca instintiva de identificação com seus ancestrais que o próprio Nim experimentara e sufocara, embora não inteiramente? Ele não podia ter certeza. Nada, porém, atenuara a raiva de Nim pela maneira como tudo aflorara. Contivera a custo outra resposta brusca, sabendo que isso de nada adiantaria; ao contrário, seria até nocivo.

- O que acabou de dizer, filho, simplesmente não É verdade. Se decidirmos que você terá o bar mitzvah, haverá tempo suficiente para se preparar. Deve compreender que seus avós têm algumas opiniões com as quais sua mãe e eu não concordamos. - Nim não tinha certeza se podia falar em nome de Ruth, mas pelo menos ela não estava presente para contradizê-lo. - Assim que sua mãe voltar e você estiver em casa, vamos conversar a respeito. Está bem?

Benjy concordara, um tanto relutantemente. Nim sabia que deveria cumprir a promessa ou perderia a credibilidade diante do filho. Chegou a pensar em trazer o pai de avião de Nova York e hospedá-lo em sua casa por uma temporada, o que iria expor Benjy a uma influência contrária. O velho Isaac Goldman, embora com a saúde abalada e com mais de 80 anos, ainda era veemente e crítico em relação ao judaísmo, apreciando intensamente destruir os argumentos dos judeus ortodoxos.

Mas Nim chegou à conclusão de que não era uma solução. Seria tão injusto quanto a atitude que os Neubergers estavam assumindo.

Depois do telefonema e enquanto se servia de um uísque, Nim olhou para um retraTo de Ruth; era a óleo e fora pintado há vários anos. O pintor conseguira captar, com extraordinária fidelidade, a beleza e a serenidade de Ruth. Nim se aproximou do quadro e contemplou-o atentamente. O rosto, especialmente os suaves olhos castanhos, era excepcionalmente boM; o mesmo acontecia com os cabelos, pretos e reluzentes, impecavelmente arrumados, como sempre. Para o retrato, Ruth posara com um vestido de baile, sem alças; os tons da carne, nos ombros graciosos, eram impressionantemente reais. Havia até mesmo, num dos ombros, uma verruga preta que Ruth removera cirurgicamente pouco tempo depois de posar para o retrato.

Os pensamentos de Nim voltaram à serenidade de Ruth; era a característica que o retrato melhor mostrava. Eu bem que estou precisando de um pouco dessa serenidade neste momento, pensou ele, desejando poder conversar com Ruth a respeito de Benjy e do bar mitzvah. Mas que diabo! Onde será que ela foi passar duas semanas e com que homem? Nim tinha certeza de que os Neubergers sabiam de alguma coisa. Ou pelo menos deviam saber onde podiam entrar em contato com Ruth. Nim conhecia a esposa bastante bem para saber que ela não iria isolar-se totalmente dos filhos. E tinha igualmente certeza de que os pais de Ruth jamais lhe diriam qualquer coisa. O pensamento renovou a raiva contra os sogros.

Depois de um segundo uísque e de perambular mais um pouco pela casa vazia, Nim voltou ao telefone e ligou para a casa de Harry London. Há uma semana que não se falavam, o que era excepcional.

Quando London atendeu, Nim perguntou-lhe:

- Não quer dar uma chegada aqui em minha casa para tomarmos uns drinques?

- Lamento, Nim. Bem que gostaria de ir, mas não posso. Tenho um compromisso para o jantar e já estou de saída. Já soube das últimas bombas?

- Não. Quando foi?

- Há cerca de uma hora.

- Houve feridos?

- Não desta vez... mas essa é também a única parte boa.

Harry London informou que duas bombas potentes haviam sido plantadas numa subestação suburbana da GSP & L. Em consequência, mais de 6. 000 casas na área estavam agora sem energia. Transformadores móveis, instalados em caminhões, estavam sendo levados às pressas para a área, mas era improvável que o fornecimento fosse inteiramente restabelecido antes do dia seguinte.

- Aqueles doidos estão ficando cada vez mais espertos - comentou London. - Estão aprendendo onde somos mais vulneráveis e onde colocar suas bombinhas para causarem danos maiores.

- Já se sabe se foi o mesmo grupo?

- Já, sim. Foram mesmo os Amigos da Liberdade. Telefonaram para o Canal 5 pouco antes das explosões, comunicando onde iria acontecer. Mas já era tarde demais para se tomar qualquer providência. com essas, são onze bomuas que explodiram em cima de nos em dois meses. Acabei de fazer a soma.

òabenao que London, embora não diretamente envolvido nas investigações, tinha suas fontes de informações, Nim perguntou:

- A polícia ou o FBI já descobriram alguma coisa?

- Absolutamente nada. Eu disse que os responsáveis estão ficando espertos e é verdade. Sou capaz de apostar que estudam cuidadosamente os alvos antes de atacarem, determinando como podem entrar e sair rapidamente, sem serem observados. Essa quadrilha dos Amigos da Liberdade sabe perfeitamente, assim como nós, que seria necessário um verdadeiro exército para proteger todas as nossas instalações.

- E não há pistas?

- Nenhuma. Lembra-se do que eu disse antes? Se a polícia descobrir será graças a um golpe de sorte ou porque alguém cometeu algum descuido. Não é como acontece na televisão ou nas novelas, Nim, quando os crimes são sempre solucionados. No mundo da polícia de verdade, frequentemente isso não acontece.

- Sei disso perfeitamente - respondeu Nim, um pouco irritado, pois London estava assumindo novamente o seu papel de mestre.

- Mas há algo estranho - comentou o chefe do Departamento de Proteção à Propriedade, pensativo.

- E o que é?

- Por algum tempo, as explosões diminuíram, quase cessaram inteiramente. E agora, subitamente, voltaram a se intensificar, como se os responsáveis tivessem recebido uma nova injeção de explosivos ou dinheiro, talvez de ambos.

Nim pensou por um instante a respeito e depois mudou de assunto:

- Há alguma novidade nas investigações sobre furto de energia?

- Não. Estamos, é claro, trabalhando um bocado e continuamos a agarrar a chamada arraia-miúda. Há uma dúzia de novos casos de adulteração de medidores que vamos levar aos tribunais. Mas é como tapar cem buracos que estão vazando, quando se sabe que há dez mil outros, que se poderia resolver se tivéssemos os homens e o tempo necessários.

- E o que me diz daquele prédio grande que estava vigiando?

- O da Zaco Properties? Ainda estamos vigiando. Mas até agora não aconteceu coisa alguma. Acho que não vai dar em nada. - Harry London parecia deprimido, o que não era seu comportamento habitual.

Talvez fosse contagiante, talvez lhe tivesse transmitido seu próprio desânimo, pensou Nim, ao desejar boa-noite e desligar.

Ainda estava inquieto, sozinho na casa silenciosa. Para quem poderia ligar?

Pensou em Ardythe, mas prontamente descartou a possibilidade. Nim ainda não estava pronto, se é que algum dia ficaria, para enfrentar Ardythe, abruptamente dominada por um fervor religioso. Pensando em Ardythe, Nim lembrou-se de Wally Jr. a quem visitara duas vezes no hospital recentemente. Wally já estava fora de perigo e havia sido removido do tratamento intensivo, mas teria pela frente meses intermináveis, talvez anos, de operações plásticas, demoradas e dolorosas. Não era de surpreender que o ânimo de Wally fosse o pior possível. E, evidentemente, não se havia tocado na incapacidade sexual dele.

com algum sentimento de culpa, ao pensar em Wally, Nim recordou-se de que sua própria capacidade sexual continuava inalterada. Deveria ligar para uma de suas mulheres? Havia várias com que não se encontrava há meses, mas que provavelmente estariam disponíveis para alguns drinques, depois um jantar num lugar sossegado e o que mais se seguisse. Se fizesse o esforço, não precisaria passar a noite sozinho.

Mas, por algum motivo, não queria incomodar-se.

Karen Sloan? Não. Por mais que gostasse da companhia dela, não estava com disposição.

E que tal um pouco de trabalho? Havia trabalho em quantidade em cima de sua mesa na sede da GSP & L. Se fosse até lá, não seria a primeira vez que trabalharia à noite, aproveitando o sossego para fazer muito mais do que era possível durante o dia. E talvez fosse também uma boa ideia. As audiências sobre Tunipah já estavam consumindo mais da metade do tempo disponível de Nim, e a demanda continuaria, embora tivesse de encontrar um jeito de continuar a desincumbir-se de sua carga normal de trabalho.

Mas o trabalho também não serviria, não naquele tipo de trabalho no escritório, com o ânimo que estava naquele momento. E não haveria algum outro tipo de trabalho para ocupar-lhe a mente?

O que poderia fazer a fim de preparar-se melhor para o início do seu depoimento como testemunha na segunda-feira? Já estava convenientemente instruído. Mas deveria também estar de guarda para algo mais que poderia acontecer: o inesperado.

Uma ideia surgiu abruptamente em sua mente, como pão a sair de uma torradeira automática.

Carvão!

Tunipah era carvão. Sem carvão, a ser transportado de trem de Utah para a Califórnia, a usina geradora de Tunipah não seria exequível. Apesar disso e embora os conhecimentos técnicos de Nim sobre carvão fossem consideráveis, sua experiência prática no assunto era nenhuma. Havia um motivo simples: não existia na Califórnia uma única usina geradora de energia elétrica que usasse o carvão como coMbustível. Tunipah seria a primeira na história do Estado.

De algum jeito, pensou Nim, entre aquele momento e a manhã de segunda-feira, tinha de ir, como se fosse uma peregrinação, a uma usina alimentada por carvão. E voltaria para as audiências sobre Tunipah com a vista, o som, o gosto e o cheiro de carvão gravados em seus sentidos. Os instintos de Nim, que frequentemente estavam certos, aconselhavamno que deveria ir, pois assim se tornaria uma testemunha mais forte e melhor.

E também resolveria o problema do que fazer no fim-de-semana.

Mas onde havia uma usina geradora à base de carvão?

Quando a fácil resposta lhe ocorreu, Nim serviu-se de outro uísque e depois ligou para o serviço de informações em Denver, Colorado.

 

O Voo 460 da United Airlines partiu no horário, às 7h5min da manhã. Quando o Boeing 727-200 já estava no ar, subindo sem parar, o sol da manhã, que minutos antes aparecera no horizonte a leste, cobriu a paisagem lá embaixo com um clarão entre vermelho e dourado. O mundo parecia limpo e puro, pensou Nim, como sempre acontecia ao amanhecer, uma ilusão diária que durava menos de meia hora.

Enquanto o jato seguia para leste, Nim acomodou-se na confortável poltrona de primeira classe. Não tivera a menor hesitação em fazer a viagem, à custa da companhia; naquela manhã, ao seguir de carro para o aeroporto, ainda escuro, a reflexão confirmara o bom senso do impulso súbito da noite anterior. Seria um voo sem escalas até Denver, durante duas horas e 20 minutos. Um velho amigo, Thurston Jones, estaria a sua espera.

Uma jovem aeromoça, bonita e jovial, do tipo que a United parecia atrair com facilidade, serviu uma omelete e persuadiu Nim a tomar também um vinho da Califórnia, apesar de ainda ser muito cedo.

- Ora, pode tomar o vinho! - insistiu ela, ao vê-lo hesitar. - Já se livrou dos vínculos físicos com a terra e agora deve livrar-se também dos psíquicos. Vamos, trate de aproveitar!

E Nim aproveitara devidamente o Mirassou Riesling, que não tinha nada de excepcional, mas era um bom vinho. Chegou a Denver ainda mais relaxado do que ficara na noite anterior.

No Aeroporto Internacional de Stapleton, Thurston Jones apertou efusivamente a mão de Nim, depois levou-o diretamente para seu carro, já que a única bagagem que ele trouxera era uma pequena valise.

Os dois haviam sido colegas de escola, além de companheiros de quarto e amigos íntimos na Universidade de Stanford. Naquele tempo, partilhavam a maioria das coisas, inclusive as mulheres que conheciam, e era bem pouco o que um desconhecia a respeito do outro. A amizade perdurara desde então, muito embora só se encontrassem agora ocasionalmente e de raro em raro trocassem cartas.

Exteriormente, os dois tinham sido bastante diferentes e continuavam a ser. Thurston era quieto, estudioso, excepcionalmente inteligente, bem-apessoado, embora de uma maneira um tanto infantil. Sua atitude habitual era de discrição e retraimento, embora soubesse exercer autoridade, sempre que necessário. Tinha um senso de humor exuberante. Por coincidência, Thurston seguira a mesma carreira de Nim e era agora a mesma coisa que ele, vice-presidente de planejamento, na Companhia de Serviços Públicos do Colorado, uma das mais respeitadas produtoras e distribuidoras de eletricidade e gás natural do país. Thurston dispunha também do que Nim carecia: uma ampla experiência prática em geração de energia à base de carvão.

- Como estão as coisas em casa? - indagou Nim, enquanto seguiam do terminal para o estacionamento.

Thurston era casado há oito anos com uma exuberante inglesa, Ursula, a quem Nim conhecia e com quem simpatizava.

- Tudo bem. E espero que o mesmo aconteça com você.

- Não tanto quanto eu desejaria.

Nim esperava ter transmitido, sem qualquer rudeza, sua relutância em conversar sobre seus problemas conjugais com Ruth. Aparentemente conseguiu, porque Thurston não fez qualquer comentário e acrescentou:

- Ursula o está esperando com a maior ansiedade. Evidentemente, ficará hospedado em nossa casa.

Nim murmurou um agradecimento enquanto embarcavam no carro de Thurston, um Ford Pinto. Sabia que o amigo também partilhava suas convicções a respeito dos carros grandes que desperdiçavam um absurdo de combustível.

Era um dia seco e ensolarado no Colorado. Ao seguirem para Denver, podiam avistar a oeste os cumes cobertos de neve das Montanhas Rochosas.

Um tanto timidamente, Thurston comentou:

- Afinal, desta vez é realmente maravilhoso vê-lo por aqui, Nim.

- Um sorriso e ele acrescentou: - Mesmo que tenha vindo apenas para sentir o gostinho de carvão.

- Acha que é absurdo demais, Thurs?

Nim explicara na noite anterior, pelo telefone, seu desejo súbito de conhecer uma usina geradora alimentada por carvão e os motivos para isso.

- Quem pode dizer o que é absurdo e o que não é? Essas audiências atuais são um absurdo... não propriamente a ideia de realizá-las, mas a maneira como estão sendo orientadas. No Colorado, temos o mesmo tipo de problemas que vocês na Califórnia. Ninguém nos quer permitir a construção de novas usinas geradoras. Mas daqui a cinco ou seis anos, quando os cortes de energia começarem, seremos acusados de não termos pensado no futuro, de não planejarmos para evitar uma situação de crise.

- As usinas que vocês estão querendo construir... são à base de carvão?

- Mas claro! Quando Deus distribuiu os recursos naturais, foi bastante generoso com o Colorado. Concedeu a este Estado carvão bastante, assim como deu petróleo aos árabes. E não é simplesmente carvão, mas sim um carvão de melhor qualidade, com baixo índice de enxofre, queimando limpo, quase à superfície, fácil de ser extraído. Mas tenho certeza de que já sabe de tudo isso.

Nim assentiu, porque de fato sabia. Depois de um momento de silêncio, ele disse, pensativo:

- Há carvão suficiente a oeste do Mississippi para atender às necessidades de energia deste país durante três séculos e meio... desde que nos permitam usá-lo.

Thurston continuava a avançar com o carro em ziguezague pelo tráfego da manhã de sábado, que não era muito intenso.

- Vamos diretamente para nossa usina de Cherokee, ao norte da cidade, Nim. É a maior que temos. Devora carvão como um brontossauro faminto.

- Queimamos aqui mais de sete mil toneladas por dia.

O superintendente da usina de Cherokee gritou a informação para Nim, fazendo o melhor possível para se fazer ouvir por cima do estrondo dos pulverizadores, ventiladores e bombas. Era ainda jovem, cabelos cor de areia, aparência alerta, cujo sobrenome, Folger, estava escrito no capacete de proteção vermelho que usava. Nim tinha um capacete branco onde estava escrito "Visitante". Thurston Jones trouxera seu capacete pessoal.

Encontravam-se parados num piso de aço perto de uma imensa caldeira, para a qual estava sendo soprado o carvão, que acabara de ser pulverizado, tornando-se fino como poeira, em grandes quantidades. Dentro da caldeira, o carvão se incendiava instantaneamente e ficava branco de tão quente; podia-se ver uma parte do que acontecia no interior através de um visor de vidro de inspeção, tendo-se a impressão de que era um vislumbre do inferno. O calor se transferia para uma rede de tubos contendo água, a qual prontamente se transformava em vapor sob alta pressão, expelido para uma seção separada de superaquecimento, emergindo a uma temperatura de 500 C. O vapor acionava um conjunto DE turbina-geradorA, o qual - juntamente com outras caldeiras e turbinas de Cherokee - fornecia quase três quartos de um milhão de kilowatts para Denver e arredores, sempre famintos de energia.

uma parte do exterior da caldeira era visível da área protegida em que os homens estavam parados. A altura total da caldeira era equivalente a um prédio comum de 15 andares.

Ao redor deles, existia a vista, o som, o cheiro e o gosto de carvão. Uma poeira preta muito fina estava espalhada pelo chão. Nim já estava sentindo a poeira incómoda penetrar pela boca e narinas.

- Fazemos uma limpeza toda vez que podemos - comentou o Superintendente Folger. - Mas o problema é que o carvão é de fato algo sujo.

Thurston acrescentou, em voz alta, sorrindo:

- Muito mais sujo do que petróleo ou água. Tem certeza de que vai querer tanta porcaria na Califórnia?

Nim assentiu afirmativamente, preferindo não experimentar a voz contra o troar ensurdecedor das máquinas ao redor. Mas logo mudou de ideia e gritou:

- Vamos entrar para a turma da sujeira! Não temos opção!

Ele já estava satisfeito por ter vindo. Era importante adquirir a sensação do carvão da forma como iria relacionar-se a Tunipah, para seu depoimento na semana seguinte.

O Rei Carvão! Nim lera recentemente, em algum lugar, que "o Velho Rei Carvão está retornando a seu trono". Tinha que ser assim, pensou ele; não havia alternativa. Nas últimas décadas, a América virara as costas ao carvão, que outrora lhe proporcionara energia barata, juntamente com desenvolvimento e prosperidade, na juventude da nação. Outras formas de energia, especialmente o petróleo e o gás, haviam suplantado o carvão, porque eram mais limpas, mais fáceis de operar, obtidas facilmente e, pelo menos por algum tempo, mais baratas. Porém, isso já não mais acontecia!

Apesar das desvantagens do carvão, e não havia nada que pudesse evitá-las, os vastos depósitos negros subterrâneos ainda podiam ser a salvação da América, a sua última e mais importante riqueza natural, o seu trunfo.

Nim percebeu que Thurston estava gesticulando, sugerindo que seguissem adiante.

Por outra meia hora exxploraram os meandros intrincados, ruidosos e cobertos de carvão de Cheerolcee. Uma parada mais prolongada foi feita junto aos enormes coletores eletrostáticos de poeira de carvão, exigidos pelas leis de proteção Do meio ambiente, cujo objetivo era remover as cinzas queimadas, que" de outra forma seriam expelidas pelas chaminés, como um elemento poluidor.

E as imensas cÂmaras dos geradores, mais parecendo catedrais, com seu rugido característicO E ensurdecedor, serviam para lembrar que, qualquer que fosse o coMBUSTÍVEL base, aquele lugar estava empenhado na geração de energia elétrica EM gigantescas proporções.

O trio, Nim, Folger e "Thuirston, finalmente emergiu do interior da usina para o ar livre, num pAssAdiÇo próximo do topo do prédio, cerca de 60 metros acima do solO. O passadiço, ligado a um labirinto de outros mais abaixo por escadas de aço, era na verdade uma grade de metal, através da qual se podia avistar tudo o que estivesse imediatamente abaixo. Operários da usina, deslocando-se pelos passadiços inferiores, mais pareciam moscas. A princípio, Nim olhou para baixo, através da grade, nervosamente; mas ajustou-se rapidamente, numa questão de minutos. O jovem Folger explicou que o passadiço era gradeado para evitar problemas no inverno, permitindo que o gelo e a neve caíssem.

Até mesmo ali, continuavam envolvidos pelo barulho onipresente. Nuvens de vapor-d'água, enmergindo das torres de esfriamento da usina e mudando de direção de acordo com o vento, sopravam em torno e através do passadiço. Por um momento, Nim ficava envolto por uma nuvem de vapor, aparentement e isolado do resto do mundo, a visibilidade limitada a dois ou três palmos a sua frente. No instante seguinte, o vapor se afastava, permitindo-lhe contemplar os

subúrbios de Denver e os edifícios altos do centr o da cidade mais ao longe. Embora o dia fosse ensolarado, o vento no altO era frio e desagradável. Nim estremeceu. Havia ali uma sensação de solidão, pensou ele, de isolamento, de perigo intenso.

- Lá está a terra prometida - disse Thurston. - Se conseguirem o que estão querendo, é o que irá ver em Tunipah.

Ele estava apontando para uma área diretamente à frente, com cerca de 15 acres, inteiramente - coberta por uma gigantesca pilha de carvão. Folger informou:

- Está olhando para uum suprimento de quatro meses para a usina, em torno de um milhão de tone ladas.

- E por baixo de tudo está o que foi outrora uma maravilhosa campina - acrescentou Thi urston. - Agora, não passa de uma horrenda monstruosidade, algo que nguém pode negar. Mas precisamos disso.

Enquanto eles observavam, uma locomotiva a óleo se aproximou, puxando uma longa fileira de vagões de carga, trazendo ainda mais carvão. Cada vagão possuía uma caçamba giratória, que se inclinava e despejava o carvão. Por baixo, havia correias transportadoras que levavam o carvão na direção da usina.

- Nunca pára - comentou Thurston. - Nunca...

Nim já sabia que haveria muitas objeções à transferência de um cenário assim para a beleza selvagem de Tunipah. De uma maneira simplista, ele não podia deixar de aceitar o ponto de vista dos oponentes. Mas disse a si mesmo: a energia elétrica a ser gerada em Tunipah é essencial; sendo assim, a intromissão tem que ser tolerada.

Desceram por uma das escadas de metal externas para um nível ligeiramente abaixo, onde novamente pararam. Agora estavam mais abrigados e a força do vento já não era tão intensa. Mas o barulho era ainda maior. O superintendente da usina comentou:

- Algo que logo vai descobrir, ao começar a trabalhar com carvão, é que terá mais acidentes de trabalho do que nas operações com petróleo ou gás. Ou mesmo com energia nuclear, diga-se de passagem. Temos um ótimo programa de prevenção de acidentes de trabalho. Mesmo assim...

Nim não estava escutando.

Por mais incrível que pudesse parecer, com a espécie de coincidência que só pode ser produzida pela vida real, jamais pela ficção, um acidente estava ocorrendo naquele exato momento, enquanto ele observava.

Cerca de 15 metros à frente de Nim, atrás dos outros dois, que estavam de frente para ele, uma correia transportadora de carvão estava em funcionamento. Era uma combinação de borracha flexível e aço, correndo sobre cilindros, levando o carvão para trituradoras, que o reduziam a pequenos pedaços. Posteriormente, o carvão era pulverizado, ficando pronto então para ser jogado na caldeira. Naquele momento, uma parte da correia transportadora estava bloqueada e transbordando, por causa de alguns blocos maiores de carvão. Por cima da correia transportadora, um solitário operário, equilibrado precariamente numa grade, estava manejando uma vara de aço, procurando remover o bloqueio.

Mais tarde, Nim iria saber que tal procedimento era proibido. Os regulamentos de segurança exigiam que a correia transportadora fosse paralisada para a remoção de qualquer bloqueio. Mas os operários da usina, sabendo a necessidade de manter o fluxo permanente de carvão, de vez em quando ignoravam os regulamentos.

Numa questão de segundos, enquanto Nim olhava, o operário escorregou, conseguiu segurar-se na beira da grade, soltou-se novamente e caiu na correia transportadora. Nim viu a boca do homem abrir-se num grito, mas o som não chegou a seus ouvidos, abafado pelo barulho ao redor. O impacto da queda fora violento, era evidente que o homem estava machucado. A correia já o estava transportando cada vez mais alto, aproximando-se do ponto em que as trituradoras, alojadas numa estrutura parecida com uma caixa, iriam cortá-lo em pedaços.

Não havia mais ninguém à vista. Mais ninguém, além de Nim, vira o acidente.

Ele só tinha tempo de pular para a frente, correndo, enquanto gritava:

- Parem a correia!

Enquanto Nim passava entre eles, Thurston e Folger, sem saber o que estava acontecendo, viraram-se rapidamente. Num relance perceberam a cena, reagiram prontamente e saíram correndo atrás de Nim. A esta altura, porém, o visitante já estava muito à frente.

A correia transportadora, no ponto mais próximo do passadiço, ficava alguns palmos acima e inclinada para o alto. Subir nela não era fácil. Nim resolveu correr o risco e pulou. Ao cair, desajeitadamente, de quatro, uma ponta afiada de carvão cortou-lhe a mão esquerda. Nim ignorou o ferimento e avançou pela correia transportadora, por entre o carvão solto, aproximando-se do operário, que continuava caído, inteiramente atordoado, mexendo-se debilmente. O homem estava a menos de um metro das máquinas mortais que iriam despedaçá-lo e aproximando-se cada vez mais.

O que se seguiu foi uma sequência de acontecimentos tão rápida que seus elementos eram inseparáveis.

Nim alcançou o operário e segurou-o, tentando puxá-lo para trás. Conseguiu por um momento, mas logo ouviu o barulho de pano rasgado e sentiu alguma resistência. Em algum lugar, de alguma forma, as roupas do homem haviam ficado presas na correia transportadora. Nim puxou novamente, em vão. As máquinas ruidosas estavam agora a dois ou três palmos de distância. Nim lutou desesperadamente, sabendo que era a última chance. Nada aconteceu. O braço direito do operário, que estava à frente do corpo, entrou na máquina e os ossos foram esmigalhados, com um som horrível. O sangue esguichou, enquanto a correia transportadora continuava a avançar. No momento seguinte, com um horror indescritível, Nim descobriu que suas próprias roupas estavam presas na correia. Era tarde demais até para salvar a si mesmo.

E foi nesse momento que a correia parou.

Depois de uma breve pausa, a correia voltou a se movimentar, na direção inversa, levando Nim de volta, lentamente, ao ponto em que nela subira. A correia parou outra vez.

Folger seguira diretamente para uma caixa de controle por baixo da correia transportadora, apertando o botão vermelho de parar e depois invertendo a direção.

Mãos se estenderam, ajudando Nim a voltar ao passadiço. Soaram gritos, pés correndo se aproximaram, mais ajuda chegando. Os recémchegados pegaram o operário semi-inconsciente, que gemia e sangrava intensamente. Em algum lugar, lá embaixo, uma sirene de alarma começou a soar. O Superintendente Folger, ajoelhando-se ao lado do operário ferido, tirou seu cinto de couro e aplicou-lhe um torniquete. Thurston Jones abrira uma caixa de metal e estava falando ao telefone, dando ordens. Nim ouviu-o dizer:

- Providenciem uma ambulância e um médico... e depressa!

- Posso não ser um tremendo herói como você - disse Thurston, jovialmente - mas tenho alguma influência nesta cidade.

Ele acabara de voltar de outra sala, onde estivera falando ao telefone. Estavam agora na sala de estar de sua casa, Nim sentado numa poltrona, metido num roupão emprestado, a mão esquerda envolta em ataduras e a direita segurando um copo com uísque.

- Seu terno está sendo especialmente lavado, Nim, o que não é nada fácil de se conseguir na tarde de sábado. Será entregue mais tarde.

- Obrigado.

A esposa de Thurston, Ursula, entrara na sala atrás do marido, acompanhada pela irmã mais moça, Daphne, que viera da Inglaterra para uma visita, trazendo o filho ainda pequeno. Nim já observara que as duas mulheres eram extraordinariamente parecidas. Não eram convencionalmente bonitas; ambas eram altas, largas, testa alta, boca polpuda, um pouco largas demais para serem bonitas. Mas suas personalidades exuberantes e joviais eram vigorosas e atraentes. Nim conhecera Daphne há meia hora e imediatamente gostara dela.

- Tenho outra notícia, Nim - disse Thurston. - O cara cuja vida você salvou não vai perder o braço. Os médicos dizem que podem remendá-lo. O braço talvez não volte a ser forte o bastante para ser usado numa usina de carvão, mas pelo menos servirá para abraçar a esposa e três filhos pequenos. Ah, sim... tenho também um recado da esposa dele. Ela mandou dizer que irá hoje à igreja com os filhos, para agradecer ao santo de sua devoção, qualquer que seja, por um certo N. Goldman, acendendo velas por você. Estou passando a informação caso acredite nessas coisas.

- Ei, pare com isso, Thurs! - interveio Ursula. - Está-me fazendo chorar.

- Se quer saber a verdade - declarou o marido - também estou um pouco emocionado.

Niln protestou, como já fizera anteriormente:

- Ora, no final das contas, não fiz muita coisa. Foi Folger quem parou aquela correia transportadora e...

- Acontece que você viu o que aconteceu antes de qualquer outro, e agiu depressa - disse Thurston. - Aquele meio metro que puxou o homem para trás fez toda a diferença. Além do mais, o mundo precisa de heróis. Por que resistir?

Depois daqueles poucos minutos dramáticos na correia transportadora naquela manhã, os acontecimentos se haviam sucedido rapidamente. O operário ferido, cujo nome Nim ainda não sabia, recebera primeiros socorros eficientes, depois fora levado numa maca lá para baixo, por outros dois operários. No que parecia apenas momentos depois do telefonema de Thurston pedindo uma ambulância, soara uma sirene procedendo do centro de Denver e avistara-se uma luz vermelha se aproximando rapidamente, visível lá de cima, embora o veículo ainda estivesse a vários quilómetros de distância.

Quando a ambulância chegara à usina de Cherokee, a maca já tinha descido pelo elevador de carga e o homem ferido fora imediatamente transportado para o hospital. Por causa da hemorragia intensa e do tremendo choque, houvera inicialmente o receio de que o operário pudesse morrer. Por isso, a notícia posterior de que iria sobreviver e não perderia o braço foi recebida com maior alegria ainda.

Somente depois que o operário ferido fora atendido e removido na ambulância é que se cuidara da mão de Nim. Havia um talho profundo na palma, na base do polegar. Thurston levara Nim de carro a um pronto-socorro suburbano próximo; o talho na mão exigira vários pontos.

O rosto, mãos e roupas de Nim estavam pretos de poeira de carvão. Depois de passar pelo pronto-socorro, ambos seguiram para a casa de Thurston, onde Nim tirara o terno, o único que trouxera, e entrara num banho quente. Depois, usando um roupão emprestado de Thurston, fora apresentado a Daphne, que eficientemente fizera um novo curativo em sua mão. Nim ficou sabendo que Daphne era enfermeira diplomada e se divorciara recentemente. Fora por isso que resolvera visitar a irmã em Denver, deixando a Inglaterra por algum tempo.

Ursula enxugou os olhos com um lenço e depois declarou, objetivamente:

- Agora que sabemos que houve um final feliz, já nos podemos sentir melhor. - Atravessou a sala até Nim e impulsivamente abraçou-o e beijou-o. - Pronto! Acho isso muito melhor do que velas!

- Ei! - exclamou Daphne. - Qualquer uma pode fazer isso? Nim sorriu.

- Mas claro!

Daphne imediatamente beijou-o também. Os lábios dela eram quentes e macios; Nim gostou do contato e da fragrância momentânea que o envolveu e logo se dissipou. Daphne declarou:

- É isso o que você ganha por ser um tremendo herói, quer goste ou não.

- Dessa parte eu bem que gosto - comentou Nim.

- Tudo o que precisamos agora é de uma noite bem divertida disse Ursula. - Thurs, quais são os nossos planos para esta noite?

Ele estava radiante.

- Fico satisfeito que tenha perguntado. Vamos jantar fora e dançar. com a minha previdência habitualmente brilhante, reservei uma mesa para quatro na San Marco Room, do Brown Palace.

- Parece ser maravilhoso - comentou Daphne. - Será que podemos arrumar alguém para ficar tomando conta de Keith?

- Não se preocupe que eu darei um jeito - assegurou Ursula.

- E eu vou dançar - anunciou Nim - quer meu terno volte ou não.

A música, de um pequeno conjunto animado e talentoso, mais o vinho e um jantar excelente, deixaram todos bastante alegres. O terno de Nim havia finalmente chegado, parecendo não ter passado pela correia transportadora de carvão. Junto com o entregador da tinturaria, apareceram também um repórter e um fotógrafo do Denver Post, em busca de uma entrevista. Relutantemente, Nim acabara concordando.

Logo depois, esprimidos no banco traseiro do Ford Pinto de Thurston, Daphne apertara o braço de Nim e sussurrara:

- Acho você espetacular. Gosto da maneira como cuida das coisas e também de si mesmo. E ainda por cima é também modesto.

Sem saber o que dizer, Nim segurara a mão dela e assim continuaram, já imaginando o que o resto da noite poderia proporcionar.

Agora, o jantar havia terminado. Nim e Daphne já tinham dançado antes várias vezes, cada vez mais colados, ela indicando expressamente que não fazia a menor objeção.

Em determinado momento, quando os dois ficaram sozinhos na mesa, enquanto Thurston e Ursula dançavam, Nim perguntou o que saíra errado com o casamento de Daphne. com a franqueza que parecia ser característica das duas irmãs, ela respondeu:

- Meu marido era bem mais velho. Não gostava muito de sexo e quase nunca o conseguia. Houve outros problemas, mas esse foi o principal.

- Imagino que não era um problema seu.

Daphne inclinou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada.

- Como adivinhou?

- Mas não tiveram um filho?

- Tivemos. Foi uma das poucas ocasiões em que conseguimos ter relações. Ou melhor, praticamente a única. E me sinto imensamente feliz por Keith ter nascido. Ele está com quase dois anos e eu o amo profundamente. Por falar nisso, Keith e eu estamos partilhando o mesmo quarto, mas ele sempre teve um sono profundo.

- Mesmo assim, não irei ao quarto dele.

- Não há problema. Basta deixar sua porta entreaberta. Quando Nim dançou com Ursula, para variar, ela confidenciou:

- Fiquei imensamente satisfeita quando Daphne resolveu visitarnos. Sempre fomos muito amigas. Só há uma coisa que invejo nela: ter tido o pequeno Keith.

- Você e Thurs não quiseram ter filhos?

- Ambos quisemos. E ainda queremos. Mas não podemos.

A voz de Ursula estava hesitante, como se estivesse arrependida de ter levantado o assunto. Nim não insistiu. Mais tarde, quando as irmãs se afastaram por um momento, Thurston comentou:

- Soube que Ursula lhe disse que não podemos ter filhos.

- Disse, sim.

- Ela explicou por quê? Nim sacudiu a cabeça.

- O problema não é de Ursula, mas meu. Ambos fizemos uma porção de exames médicos. Ao que parece, minha pistola engatilha e dispara mas apenas balas de festim. E jamais terei balas de verdade.

- Sinto muito. Thurston deu de ombros.

- Acho que não se pode ter tudo. Para compensar, Ursula e eu temos muitas outras alegrias. - Fez uma pausa, antes de acrescentar: Chegamos a pensar em adotar uma criança mas jamais conseguimos ter certeza se seria o melhor.

As mulheres retornaram à mesa e todos beberam mais vinho, depois voltaram a dançar. Em determinado momento, Daphne murmurou no ouvido de Nim:

- Já lhe disse que estou gostando muito de você?

A reação dele foi apertá-la com mais força ainda. E ficar torcendo para que não demorasse muito a voltar para casa.

Já haviam voltado há cerca de uma hora e meia. Thurston levara a moça que ficara tomando conta de Keith para casa de carro e depois os quatro sentaram na cozinha e ficaram conversando, enquanto Ursula fazia um chá, com Daphne ajudando. Depois, desejaram-se boa noite, e foram deitar. Agora, Nim estava quase dormindo.

Um barulho o despertou, um rangido inconfundível da porta do quarto, entreaberta como Daphne recomendara, sendo empurrada. Foi seguido por outro rangido e depois por um estalido, do trinco sendo fechado. Nim ergueu a cabeça e esforçou-se em ver alguma coisa na escuridão; mas não conseguiu.

Ouviu o barulho de pés aproximando da cama e o farfalhar de pano, provavelmente de roupa sendo tirada. As cobertas foram levantadas e um corpo nu, macio e quente, deitou-se ao lado dele. Braços se estenderam. Na escuridão, lábios quentes, ansiosos, encontraram os dele. O beijo foi prolongado, tornou-se rapidamente ardente. Os corpos entraram em contato, Nim sentiu o desejo dominá-lo por completo, intenso, urgente. As mãos começaram a se deslocar gentilmente, acariciando, e ele suspirou, um misto de prazer sensual e contentamento. E sussurrou:

- Daphne, querida, há horas que estou esperando que isso acontecesse...

Ele ouviu um riso suave. Um dedo encostou em seus lábios, advertindo-o a se calar. E uma voz murmurou:

- Não diga nada, seu tolo. Não é Daphne, mas Ursula. Chocado, Nim largou-a imediatamente e sentou. Seu impulso era sair da cama. A mão de Ursula conteve-o.

- Escute, por favor, Nim... Quero ter um filho. E depois de Thurs, que não me pode dar um filho, como tenho certeza de que ele já lhe contou, eu gostaria de tê-lo de você, mais do que qualquer outro homem que conheço.

Nim ainda protestou:

- Não posso fazer uma coisa dessas com Thurs, Ursula.

- Pode, sim... porque Thurs sabe que estou aqui e por quê.

- E Thurs não se importa? - Nim estava totalmente incrédulo.

- Juro que não. Ambos queremos um filho e decidimos que esta é a melhor maneira. - Ursula soltou outra risada suave e acrescentou: Mas Daphne se importa. Está furiosa comigo. Queria passar o resto da noite com você.

Nim sentia-se invadido por emoções tumultuadas e conflitantes. Um momento depois, porém, percebeu o humor da situação e não pôde conter uma risada.

- Gosto mais assim... - murmurou Ursula.

Ela tornou a abraçá-lo e Nim deixou de resistir. Os corpos voltaram a entrar em contato. Ursula sussurrou:

- É o momento propício do mês. Sei que pode acontecer. Oh, Nim querido, ajude-me a ter um filho! Quero tanto!

O que teria feito, pensou Nim, para merecer todas aquelas coisas insólitas que lhe estavam acontecendo?

- Farei o melhor possível, Ursula... - Depois de se beijarem e quando sentiu que estava novamente erecto, Nim perguntou, maliciosamente: - Acha que haverá algum problema se eu gostar?

Ao invés de responder, Ursula apertou-o mais fortemente, as respirações se acelerando; ela gritou baixinho, de prazer, quando Nim a acariciou e depois penetrou-a.

Fizeram amor repetida e gloriosamente, Nim descobrindo que a mão esquerda enfaixada absolutamente não o atrapalhava. Finalmente adormeceu. Quando despertou, o dia já tinha começado a raiar e Ursula havia ido embora.

Ele decidiu voltar a dormir. E foi nesse momento que a porta do quarto se abriu novamente e um vulto entrou, vestindo um négligé rosa.

- Resolvi que não vou ser posta de lado de jeito nenhum - declarou Daphne, tirando o négligé. - Chegue um pouco para o lado, Nim... e espero que ainda lhe reste alguma energia.

Juntos, na maior felicidade, descobriram que ainda restava.

Nim embarcou em outro avião para voltar à Califórnia no final da tarde. Thurston fez questão de levá-lo de carro até o aeroporto, juntamente com Ursula e Daphne, que levava o pequeno Keith. Embora a conversa durante a viagem fosse amistosa e descontraída, não houve qualquer alusão aos acontecimentos noturnos. Nim deu um beijo de despedida nas duas irmãs ainda no carro. Depois, enquanto as mulheres ficavam esperando, Thurston acompanhou-o até o terminal.

Pararam à entrada da passagem de verificação de segurança dos passageiros e apertaram-se as mãos.

- Agradeço tudo o que fez por mim, Thurs.

- Eu também agradeço. E espero que tenha boa sorte amanhã e nos outros dias das audiências.

- Obrigado. Bem que vou precisar.

Ainda segurando a mão de Nim, Thurston pareceu hesitar por um momento, antes de dizer:

- Caso você esteja imaginando coisas, eu gostaria de dizer-lhe que há atitudes que um homem assume porque não há outro jeito, porque é a melhor entre poucas opções. Outra coisa, Nim: há amigos e amigos excepcionais. Você está na segunda categoria. Sempre estará. E por isso eu lhe peço para nunca perdermos o contato.

Virando-se para seguir na direção do avião, Nim descobriu que seus olhos estavam úmidos.

Poucos minutos depois, ao se acomodar na poltrona de primeira classe para a viagem de volta, uma aeromoça cordial perguntou-lhe:

- O que vai querer tomar depois da decolagem, senhor?

- Champanha - respondeu Nim, sorrindo.

Nada mais poderia estar à altura daquele fim-de-semana tão bemsucedido, pensou ele.

 

O jovem comissário que presidia a audiência bateu de leve com o martelo e disse:

- Antes de começar o depoimento da testemunha, eu gostaria de dar-lhe os parabéns pelo que fez há dois dias, quando sua ação rápida e coragem salvaram a vida do empregado de uma companhia de serviço público de outro Estado.

Soaram alguns aplausos dispersos na sala. Nim agradeceu, visivelmente constrangido:

- Obrigado, senhor.

Até aquela manhã, ele pensava que as notícias sobre o drama na correia transportadora se haviam confinado a Denver. Por isso, ficara surpreso ao descobrir-se como o tema de uma reportagem da Associated Press, publicada com destaque pelo Chronicle-West daquele dia. A notícia era inoportuna, porque chamava atenção para sua visita a uma usina geradora à base de carvão e Nim não sabia que proveito as forças de oposição poderiam tirar de tal informação.

Nos dias anteriores da audiência, a sala revestida de lambris estava ocupada pelo pessoal da comissão, os advogados das diversas partes, as testemunhas à espera, dirigentes de grupos interessados, jornalistas e um contingente numeroso de público, composto principalmente por partidários da oposição.

Naquele dia, o jovem comissário que presidia a audiência estava novamente ladeado pelo funcionário público especializado em Direito Administrativo.

Nim reconheceu diversas pessoas na sala, entre as quais Laura Bo Carmichael e Roderick Pritchett, representando o Clube da Sequóia; Davey Birdsong da & Ip, o corpo imenso metido no uniforme tradicional de calça jeans esfarrapada e camisa aberta no peito, e Nancy Molineaux, na mesa reservada à imprensa, elegantemente vestida e com um ar distante.

Nim já prestara juramento, concordando em "dizer a verdade, somente a verdade, nada mais do que a verdade". Agora, o corpulento advogado da companhia, Oscar O'Brien, levantou-se e se adiantou, pronto para iniciar o depoimento de Nim, conforme tinham ensaiado.

- Sr. Goldman, descreva por favor os estudos e motivos que o levaram a ter a convicção de que a proposta ora sendo examinada por esta comissão é necessária e do interesse público.

Nim acomodou-se na cadeira das testemunhas, sabendo que seu depoimento seria longo e árduo.

- Os estudos realizados pela Golden State Power & Light, complementados pelos estudos de órgãos governamentais, prevêem que o crescimento da Califórnia, em meados da próxima década, tanto demográfico como industrial, irá ultrapassar consideravelmente a média nacional. Apresentarei os detalhes específicos mais adiante. Paralelamente a esse crescimento, haverá uma escalada na demanda de energia elétrica, muito maior do que a atual capacidade geradora instalada. É para atender a esse crescimento da demanda que...

Nim empenhou-se em manter um tom descontraído de conversa, a fim de prender o interesse dos espectadores. Todos os fatos e opiniões que iria apresentar já tinham sido encaminhados em estudos e relatórios à comissão semanas antes, mas o depoimento pessoal era considerado extremamente importante. E talvez fosse uma confissão de que poucas pessoas iriam ler as montanhas de papéis que se iam avolumando a cada dia que passava O'Brien falava as suas frases de deixa com a segurança de um ator numa peça há muito tempo em cartaz.

"Quanto aos efeitos sobre o meio ambiente, poderia por favor explicar...

"Poderia ser mais específico sobre as remessas de carvão que...

"Declarou anteriormente que haveria limites aos distúrbios para a flora e a fauna, Sr. Goldman. Creio que esta comissão gostaria de ter a garantia de que...

"Por gentileza, explique melhor...

"Diria que isso...

"Vamos agora analisar... "

Nim permaneceu na cadeira das testemunhas, prestando seu depoimento, o foco das atenções, pouco mais de um dia e meio de trabalho, num total de sete horas.

No meio da tarde do segundo dia, Oscar O'Brien virou-se para o comissário que presidia a audiência e declarou:

- Obrigado, Sr. Comissário. Já concluí o exame dessa testemunha. O comissário assentiu.

- Acho que o Sr. Goldman merece um descanso e o resto de nós também apreciaria. - Ele bateu com o martelo. - Esta audiência está suspensa até as 10 horas de amanhã.

No dia seguinte, as inquirições começaram, tranquilamente, como um carro avançando lentamente através de uma reta plana e sem obstáculos. O advogado da comissão, um homem mirrado, de meiaidade, chamado Holyoak, foi o primeiro.

- Sr. Goldman, há alguns pontos sobre os quais a comissão gostaria de ter maiores esclarecimentos...

O interrogatório de Holyoak não foi amistoso nem hostil. Nim respondeu da mesma forma, objetivamente.

Holyoak levou uma hora. Roderick Pritchett, diretor-secretário do Clube da Sequóia, foi o seguinte. O interrogatório começou a adquirir um ritmo mais intenso e rápido.

Pritchett, magro, impecável, cheio de maneirismos, usava um terno escuro, com colete, no estilo mais conservador. Os cabelos grisalhos estavam precisamente repartidos; de vez em quando, ele levava a mão à cabeça, para se certificar de que ainda permaneciam no lugar. Ao levantar e se aproximar da cadeira das testemunhas, os olhos de Pritchett pareciam brilhar por trás dos óculos sem aros. Pouco antes de iniciar a inquirição, conferenciara com Laura Bo Carmichael por algum tempo, numa das três mesas reservadas aos representantes e testemunhas das partes interessadas.

- Sr. Goldman, tenho aqui uma fotografia. - Pritchett estendeu a mão para a mesa e pegou uma fotografia de 18x24. - Gostaria que a examinasse e depois me dissesse se o que está vendo lhe parece familiar.

Nim pegou a fotografia. Enquanto a examinava, um homem do Clube da Sequóia estava entregando cópias adicionais ao comissário e outras pessoas, inclusive Oscar O'Brien, Davey Birdsong e repórteres. Diversas cópias foram parar nas mãos de espectadores, que começaram a passá-las adiante.

Nim estava perplexo. Quase toda a foto era uma mancha preta, mas havia uma certa familiaridade...

O diretor-secretário do Clube da Sequóia estava sorrindo.

- Não precisa apressar-se, Sr. Goldman. Nim mexeu a cabeça.

- Não tenho certeza...

- Talvez eu possa ajudar. - A voz de Pritchett sugeria um jogo de gato e rato. - Pelo que li nos jornais, a paisagem que está observando é a mesma que viu pessoalmente no último fim-de-semana.

No mesmo instante, Nim soube do que se tratava. A fotografia era da pilha de carvão da usina de Cherokee, em Denver. A escuridão estava explicada. Mentalmente, ele amaldiçoou a publicidade que revelara seu paradeiro no fim-de-semana.

- Creio que se trata de uma foto de carvão.

- Por favor, seja um pouco mais explícito, Sr. Goldman. Que carvão e onde?

Relutantemente, Nim respondeu:

- É o carvão armazenado para uso de uma usina da Companhia de Serviços Públicos do Colorado, em Denver.

- Exatamente. - Pritchett tirou os óculos, limpou-os rapidamente e tornou a pô-los. - Para sua informação, a fotografia foi tirada ontem e trazida de avião para cá esta manhã. Não é nada bonita, não é mesmo?

- Não.

- Não diria que é horrível?

- Creio que se pode chamar assim, mas o fato é que... Pritchett interrompeu-o bruscamente:

- O fato é que já respondeu à pergunta... ao dizer "creio que se pode chamar assim"... o que significa que concorda que a fotografia é mesmo horrível. Isso foi tudo o que perguntei. Obrigado.

- Mas deve-se também dizer...

Pritchett sacudiu o dedo, num gesto de advertência.

- Já chega, Sr. Goldman! Por gentileza, lembre-se de que sou eu quem está fazendo as perguntas. Agora, vamos seguir adiante. Tenho outra fotografia a mostrar-lhe... e aos comissários.

Enquanto Nim fervilhava de raiva interiormente, Pritchett voltava à mesa e desta vez pegava uma fotografia colorida. Entregou-a a Nim. Como já acontecera antes, o mesmo homem do Clube da Sequóia distri[buiu diversas cópias pela sala.

E Nim não pôde identificar a cena específica, mas não tinha a menor [dúvida de que a fotografia fora tirada em Tunipah, no ou perto do local iem que deveria ser instalada a usina geradora. Era igualmente óbvio que o fotógrafo era dos mais competentes.

E A beleza espetacular da região montanhosa da Califórnia fora capIturada na fotografia, sob um céu claro, muito azul. Por cima de um bosque de pinheiros, erguia-se um pico rochoso. A folhagem na base dos pinheiros era densa e em primeiro plano havia um córrego espumante. Na [margem mais próxima, uma profusão de flores silvestres deliciava os olhos. Mais adiante, meio nas sombras, havia um cervo, a cabeça erguida, talvez surpreendido pela presença do fotógrafo. - Não acha que é uma cena realmente bonita, Sr. Goldman? - indagou Pnicnett. l - É, sirn.

- Tem alguma ideia do lugar em que foi tirada essa fotografia? - Presumo que tenha sido em Tunipah. - Nim chegara à conclusão de que não havia a menor vantagem em tentar esquivar-se ou adiar o [argumento que Pritchett iria inevitavelmente formular, mais cedo ou mais tarde.

- Sua suposição é absolutamente correta, Sr. Goldman. Agora, teInho outra pergunta a lhe formular. Não lhe atormenta a consciência saber que sua companhia tenciona fazer em Tunipah uma superposição desta horrenda feiúra... - sacudiu a fotografia da pilha de carvão - sobre esta serena e gloriosa beleza... - exibiu a fotografia a cores - um dos poucos santuários intactos da natureza em nosso Estado e no país?

A pergunta, formulada dramaticamente, provocou um murmúrio de aprovação entre os espectadores. Uns poucos aplaudiram. Nim respondeu calmamente:

- Claro que isso me perturba. Mas considero um mal necessário, um acordo, uma troca. Além do mais, em proporção à área total em torno deTunipah...

- É suficiente, Sr. Goldman. Não precisa fazer um discurso. Os autos irão mostrar que sua resposta foi "sim".

Pritchett fez uma breve pausa, antes de voltar ao ataque:

- Será que sua viagem ao Estado do Colorado, no último fim-desemana, não foi realizada porque sua consciência o atormentava, porque desejava ver pessoalmente a feiúra destas imensas quantidades de carvão... as mesmas que seriam amontoadas em Tunipah... o efeito no que foi outrora uma paisagem deslumbrante?

Oscar O'Brien já estava de pé.

- Objeção!

Pritchett virou-se bruscamente na direção dele.

- Sob que alegação?

Ignorando Pritchett, O'Brien dirigiu-se ao comissário:

- A pergunta distorceu as palavras da testemunha. Além disso, presume um estado de espírito que a testemunha não admitiu ter.

O comissário presidindo a audiência anunciou suavemente:

- A objeção é negada.

O'Brien sentou-se, furioso. Nim disse a Pritchett:

- Não, não foi esse o motivo para a minha viagem. Fui ao Colorado porque desejava revisar alguns aspectos técnicos das usinas geradoras acionadas por carvão, antes de iniciar meu depoimento nesta audiência.

Até mesmo para o próprio Nim, a resposta não parecia convincente. Pritchett comentou:

- Tenho certeza de que alguns dos presentes são capazes de acreditar em suas palavras.

A insinuação era óbvia: Eu não acredito. Pritchett continuou a formular perguntas, mas já não eram tão incisivas. O Clube da Sequóia, utilizando habilmente as fotografias contrastantes, conseguira conquistar uma grande vantagem, pelo que Nim se culpava.

O diretor-secretário da organização voltou finalmente a sentar-se. O comissário consultou um papel a sua frente e indagou:

- A organização "força & luz para o povo" deseja interrogar a testemunha?

Davey Birdsong respondeu:

- Claro que sim!

O comissário assentiu. Birdsong levantou-se e não perdeu tempo em preliminares, indagando abruptamente:

- Como chegou aqui? Nim ficou desconcertado.

- Se está querendo saber a quem represento...

- Todos nós sabemos o que representa... um rico e ganancioso conglomerado que explora o povo. - O líder da & Ip bateu com o punho cerrado numa saliência ao lado da cadeira das testemunhas e alteou a voz. - Estou querendo saber exatamente o que perguntei: Como chegou aqui?

- Vim de táxi.

- Veio de táxi? Um cara tão importante quanto você? Quer dizer que não usou seu helicóptero pessoal?

Nim sorriu; já era óbvio como seria a inquirição de Birdsong. Respondeu calmamente:

- Não possuo um helicóptero pessoal. E pode estar certo de que não usei nenhum hoje.

- Mas usa às vezes... não é mesmo?

- Em determinadas ocasiões especiais... Birdsong interrompeu-o bruscamente:

- Não estou interessado nisso! Usa o helicóptero algumas vezes... sim ou não?

- Sim.

- Um helicóptero pago pelo dinheiro arduamente ganho pelos consumidores de eletricidade e gás em suas contas mensais?

- Não, não é pago nas contas da companhia. Ou pelo menos isso não é feito diretamente.

- Mas os consumidores pagam indiretamente... não é mesmo?

- Pode-se dizer a mesma coisa a respeito de todos os equipamentos usados pela companhia e...

Birdsong novamente desferiu um murro na saliência da cadeira.

- Não estamos falando de outros equipamentos. Estou perguntando sobre um helicóptero!

- Nossa companhia possui diversos helicópteros que...

- Diversos! Está querendo dizer que tem uma opção... como entre um Lincoln e um Cadillac?

Já perdendo a paciência, Nim disse rispidamente:

- Os helicópteros são basicamente utilizados em operações técnicas.

- O que não o impede de usar um quando precisa pessoalmente ou acha que precisa... não é mesmo? - Sem esperar pela resposta, Birdsong meteu a mão no bolso e tirou um recorte de jornal, desdobrando-o.

- Lembra-se disso?

Era o artigo de Nancy Molineaux. no Califórnia Examiner, publicado logo depois da visita da imprensa ao acampamento de Portão do Diabo.

- Lembro, sim - respondeu Nim, resignado.

Birdsong leu os detalhes do artigo e a data, devidamente registrados pelo estenógrafo, virando-se em seguida novamente para Nim.

- Diz aqui que o Sr. Goldman é importante demais para andar de ônibus, muito embora houvesse um à disposição, fretado pela Golden State Power, com diversos lugares vagos, indo para o mesmo lugar. Em vez disso, ele preferiu um helicóptero... - Birdsong levantou a cabeça, uma expressão furiosa. - Tudo isso é verdade?

- As circunstâncias eram muito especiais.

- Esqueça-as! Perguntei apenas: É verdade?

Nim estava consciente de que Nancy Molineaux o observava atentamente, da mesa da imprensa, um sorriso suave no rosto.

- Foi um artigo tendencioso, mas, de certo modo, é verdade. Birdsong fez um apelo ao jovem comissário:

- Poderia fazer o favor de determinar à testemunha para responder simplesmente com um "sim" ou "não"?

O comissário disse:

- Poderia poupar tempo para todos se assim fizer, Sr. Goldman. com uma expressão sombria, Nim murmurou:

- Sim.

- Foi preciso um tremendo esforço, como para arrancar dentes comentou Birdsong. Ele estava novamente de frente para o comissário, sua atitude mudando, como um camaleão, da agressividade para a afabilidade. - Mas finalmente temos a confirmação da testemunha de que este corajoso artigo de jornal é verdadeiro. Sr. Comissário, eu gostaria de que este artigo constasse dos autos, como prova da vida suntuosa que levam os altos executivos da Golden State Power como o Goldman aqui presente e o presidente não-sei-o-quê, à custa dos pobres consumidores. E mostra também por que monstrengos dispendiosos como Tunipah, visando a sustentar tal suntuosidade e proporcionar lucros escorchantes, são impingidos ao povo, que de nada desconfia.

O'Brien, de pé, protestou, a voz cansada:

- Objeto à inclusão da notícia de jornal, que é irrelevante a esta audiência, e também ao último comentário, que não tem base em provas ou testemunho.

O comissário conferenciou rapidamente com o especialista em Direito Administrativo e depois anunciou:

- Sua objeção será registrada, Sr. O'Brien. O documento, a notícia do jornal, será admitido como prova.

- Obrigado, senhor - disse Birdsong, virando-se novamente na direção de Nim: - Possui ações da Golden State Power & Light pessoalmente?

- Possuo.

Nim ficou imaginando o que viria a seguir. Ele possuía 120 ações, adquiridas em pequenos lotes, através de um plano de poupança dos funcionários da companhia. O valor atual de mercado era de pouco mais de 2. 000 dólares, muito menos do que o custo original, já que a cotação das ações da GSP & L caíra bruscamente há um mês, depois da suspensão do pagamento dos dividendos. Mas decidiu não oferecer mais informações do que lhe era pedido. O que logo descobriu ser um erro.

- Se esse negócio de Tunipah for aprovado - continuou Birdsong

- não é provável que a cotação das ações da Golden State Power subirá?

- Não necessariamente. Pode também descer. - Ao falar, Nim imaginava: deveria dar uma resposta mais ampla, explicando que um gigantesco programa de expansão, a ser financiado pela venda de títulos, inclusive com uma emissão de ações abaixo do valor de Bolsa, as ações já existentes da GSP & L seriam diluídas e poderiam cair? Uma resposta assim exigiria explicações complexas e, dentro do contexto da audiência, pareceria artificial. Nim também não tinha certeza se a vice-presidente de finanças da companhia gostaria de que a declaração fosse feita publicamente. Decidiu então não se aprofundar.

- Não necessariamente - repetiu Birdsong. - Mas o preço de mercado das ações pode subir. Tenho certeza de que pelo menos isso não irá negar.

Nim respondeu tensamente:

- No mercado de ações, tudo pode acontecer. Birdsong virou-se para a audiência e suspirou teatralmente.

- Imagino que esta é a melhor resposta que conseguirei arrancar de uma testemunha que não gosta muito de cooperar. Sendo assim, eu mesmo farei a declaração: as ações provavelmente irão subir. - Tornou a virar-se para Nim, bruscamente: - Se isso acontecesse, não é verdade que teria um interesse pessoal em Tunipah, com a qual também iria lucrar?

Era uma noção tão absurda que Nim teve vontade de rir. O melhor que podia esperar, por um longo período, seria que o valor de suas ações retornasse ao nível por ocasião da compra.

Birdsong voltou a falar, subitamente:

- Já que parece relutante em responder, vou formular a pergunta de outra maneira: se o valor das ações da Golden State Power subir por causa de Tunipah, suas ações também passariam a valer mais?

- Escute, tenho apenas...

O comissário que presidia a reunião interrompeu-o, em tom irritado:

- É uma pergunta simples, Sr. Goldman. Responda apenas "sim" ou "não".

Prestes a explodir diante da injustiça, Nim percebeu Oscar O'Brien sacudindo a cabeça ligeiramente, num gesto de advertência. Nim sabia que era um lembrete da instrução para ser paciente e resistir a qualquer provocação. E respondeu laconicamente:

- Sim.

- Agora que já temos a confissão, Sr. Comissário - continuou Birdsong - eu gostaria que ficasse devidamente registrado que a testemunha possui um interesse pessoal no resultado desta audiência e, portanto, seu depoimento deve ser julgado de acordo.

- Já acabou de registrar o assunto nos autos - declarou o comissário, ainda deixando transparecer sua irritação. - Portanto, por que não segue adiante?

- Sim, senhor! - O líder da & Ip levou a mão à barba, como se se estivesse concentrando em seus pensamentos, antes de virar-se novamente para Nim. - Quero fazer agora algumas perguntas sobre os efeitos de Tunipah nas contas que a companhia vai apresentar aos trabalhadores, às pessoas comuns, àqueles que...

E assim continuou, interminavelmente. Birdsong concentrou-se, como já fizera antes de inquirir J. Eric Humphrey, na insinuação de que o lucro e nada mais era o motivo por trás de Tunipah e que os consumidores iriam pagar o investimento e receberiam muito pouco ou nada em retribuição. O que deixou Nim furioso, sob a superfície impassível que se esforçou em manter, foi o fato de não serem abordadas uma única vez as questões principais e mais importantes: as necessidades futuras de energia, baseadas no crescimento do Estado, os fatores económicos e industriais, a manutenção dos padrões de vida. O que estava sendo exibido ali era uma encenação populista, nada mais. Só que iria atrair a maior atenção do público, como se podia prever pela atividade intensa na mesa da imprensa.

Nim não podia deixar de admitir para si mesmo que era bastante eficaz o ataque em duas frentes, com o Clube da Sequóia ressaltando os aspectos do meio ambiente e a & Ip enfatizando os aspectos financeiros e de tarifas, mesmo que superficialmente. Perguntou-se se não haveria uma ligação qualquer entre os dois grupos, embora duvidasse. Laura Bo Carmichael e Davey Birdsong estavam em planos intelectuais diferentes. Nim ainda respeitava Laura Bo, apesar de suas divergências, mas desprezava Birdsong, a quem considerava simplesmente um charlatão.

Durante um breve recesso, depois que Birdsong concluiu seu interrogatório, Oscar O'Brien avisou a Nim:

- Ainda não acabou. Depois de outras testemunhas, irei chamá-lo novamente e os outros poderão em seguida voltar a interrogá-lo, se assim quiserem.

Nim fez uma careta, desejando que sua participação já tivesse terminado e um pouco aliviado por saber que em breve iria acabar.

Laura Bo Carmichael foi a próxima a depor.

Apesar da estatura pequena e do corpo franzino, a presidente do Clube da Sequóia ocupou a cadeira das testemunhas com a atitude de uma grande dame. Usava um costume sóbrio, de gabardine bege, os cabelos grisalhos bem curtos. Não tinha qualquer adorno ou jóia. A expressão era séria. A voz, ao responder às perguntas formuladas por Roderick Pritchett, era firme e incisiva.

- Em depoimentos anteriores, Sra. Carmichael - começou Pritchett - ouvimos a declaração de que a necessidade pública de mais energia justifica a construção de uma usina geradora acionada por carvão na área de Tunipah. É essa também a sua opinião.

- Não.

- Pode fazer o favor de explicar os seus motivos... e os do Clube da Sequóia... para se opor à construção dessa usina?

- Tunipah é uma das poucas áreas naturais que ainda estão incólumes em todo o estado da Califórnia. Abunda em tesouros da natureza, árvores, plantas, flores, córregos, formações geológicas únicas, vida animal, aves e insetos. Ainda existem lá espécies animais ou vegetais que já se tornaram extintas em outros lugares. Acima de tudo, a região é de uma beleza espetacular. Acabar com tudo isso, permitindo-se a construção de uma instalação industrial imensa, horrenda, altamente poluidora, servida por uma nova ferrovia, que já é por si mesma intrusiva e poluidora, seria um sacrilégio, um retrocesso ecológico ao século passado, uma blasfémia contra Deus e a natureza.

Laura Bo falou calmamente, sem altear a voz, o que tornava sua declaração ainda mais impressiva. Pritchett fez uma pausa antes de formular a pergunta seguinte, deixando que fosse absorvido todo o impacto das palavras dela:

- O porta-voz da Golden State Power & Light, Sr. Goldman, garantiu à comissão que os distúrbios ao estado natural de Tunipah seriam mínimos. Poderia fazer um comentário sobre essa declaração?

- Conheço o Sr. Goldman há alguns anos. É um homem bem-intencionado. Pode até acreditar no que diz. Mas a verdade é que ninguém pode construir qualquer tipo de instalação industrial em Tunipah sem causar danos tremendos e irreversíveis ao meio ambiente.

O diretor-secretário do Clube da Sequóia sorriu.

- Estou certo ao pressupor, Sra. Carmichael, que não confia realmente nas promessas da GSP & L de que os danos serão mínimos?

- Está, sim... mesmo que essas promessas pudessem ser cumpridas, o que não é o caso. - Laura Bo virou a cabeça, dirigindo-se diretamente ao jovem comissário, que escutava atentamente: - No passado, a Golden State Power e outras companhias mostraram-se indignas de confiança em todos os aspectos relativos ao meio ambiente. Quando tudo foi deixado a sua própria conta, envenenaram nosso ar e água, devastaram nossas florestas, esbanjaram os recursos minerais, desfiguraram as paisagens. Agora que vivemos em outra era, quando tais crimes são reconhecidos e combatidos, essas companhias dizem: Confiem em nós. O passado não irá repetir-se. Pois eu e muitos outros não confiamos nelas... em Tunipah ou qualquer outro lugar.

Enquanto escutava, Nim pensou: havia uma lógica irresistível no que Laura Bo estava dizendo. Ele podia e de fato divergia da visão dela do futuro, estava convencido de que a GSP & L e outras organizações similares haviam absorvido as lições dos erros antigos e aprendido a importância do senso ecológico. Se não houvesse qualquer outra razão, pelo menos havia o fato de que era atualmente um bom negócio. Contudo, nenhuma pessoa imparcial podia contestar a avaliação do passado feita por Laura Bo. Nim também concluiu que ela já fizera outra coisa no curto período do seu depoimento: elevara o nível do debate muito acima da mesquinhez espalhafatosa de Davey Birdsong.

- Há poucos minutos - disse Pritchett a Laura Bo - declarou que algumas espécies de vida natural existentes em Tunipah já se tornaram extintas em outros lugares. Podia informar quais são?

A presidente do Clube da Sequóia assentiu e disse incisivamente:

- Ao que eu saiba, há pelo menos duas espécies: uma flor silvestre chamada paparraz e o microdipodops, que é mais conhecido como camundongo-canguru.

É aqui que nos separamos, pensou Nim. Ainda se lembrava da discussão que tivera com Laura Bo durante um almoço, há cerca de dois meses, quando objetara: "Quer dizer que um simples camundongo, um rato, vai servir para impedir a execução de um projeto que iria beneficiar milhões de pessoas? "

Evidentemente, a mesma possibilidade ocorrera a Roderick Pritchett, como ficou patente por sua pergunta seguinte:

- Espera que haja críticas por causa dessas duas espécies, a paparraz e o microdipodops? Espera que as pessoas digam que os seres huma- nos e seus desejos sejam mais importantes?

- Espero muitas críticas nesse género, até mesmo injúrias. Mas nada altera a miopia e loucura de reduzir ou eliminar quaisquer espécies em risco de extinção.

- Poderia explicar um pouco melhor?

- Pois não. Há um princípio envolvido, o da vida e morte, que é repetida e impensadamente violado. À medida que a sociedade moderna foi-se desenvolvendo, com as cidades, o crescimento urbano, indústria, estradas, oleodutos, tudo o mais, fomos alterando o equilíbrio da natureza, destruindo a vida vegetal, as bacias naturais e a fertilidade do solo, expulsando as criaturas selvagens de seu habitat ou chacinando-as brutalmente, interrompendo o ciclo normal de crescimento, ao mesmo tempo que esquecemos inteiramente que cada parte intrincada da natureza depende de todas as outras partes para perpetuação e saúde. O comissário interveio:

- Creio que não se pode deixar de reconhecer, Sra. Carmichael, que existe flexibilidade até na natureza.

- Realmente existe alguma flexibilidade. Mas quase sempre tem sido levada além dos limites aceitáveis.

O comissário assentiu, polidamente.

- Por favor, continue.

com sua atitude inabalável, Laura Bo acrescentou:

- O que estou querendo dizer é que as decisões sobre o meio ambiente no passado foram baseadas nas conveniências a curto prazo, quase nunca se levando em consideração uma visão mais ampla. Ao mesmo tempo, a ciência moderna... e falo como cientista... tem operado em compartimentos estanques, ignorando a verdade de que o "progresso" em uma área pode ser nocivo à vida e à natureza como um todo. As descargas dos automóveis, um produto da ciência, constituem um tremendo exemplo. É a conveniência que permite que continuem a ser tão letais. Outro exemplo é o uso excessivo de pesticidas para preservar determinadas formas de vida, ao mesmo tempo que se eliminam muitas outras. O mesmo se aplica aos danos causados à atmosfera pelos aerosóis. A lista é muito longa. Estamos todos seguindo na direção do suicídio ecológico.

Enquanto a presidente do Clube da Sequóia falava, todos na sala mantinham um silêncio respeitoso. Ninguém sequer se mexia, esperando por suas próximas palavras. E Laura Bo continuou, alteando a voz pela primeira vez desde que começara seu depoimento:

- É tudo uma questão de conveniência, de utilitarismo. Se for aprovado esse monstruoso projeto de Tunipah, a paparraz e o midrodipodops estarão condenados, além de muitas outras coisas. Depois, se o processo continuar, vai chegar o dia em que um único projeto industrial, como o de Tunipah, será considerado mais importante do que os últimos narcisos dos prados.

Tais palavras provocaram uma explosão de aplausos dos espectadores. Enquanto persistia, Nim pensou, furioso: Laura Bo estava usando sua estatura como cientista para fazer um apelo emocional, sem nada de científico.

E ele continuou a ferver por outra hora, enquanto as perguntas e respostas se sucediam, sempre no mesmo estilo.

A inquirição subsequente de Laura Bo por Oscar O'Brien não produziu qualquer retratação e em alguns aspectos até reforçou o depoimento anterior dela. Quando o advogado da GSP & L perguntou, com um sorriso malicioso, se realmente acreditava que "umas poucas tocas de ratos e uma flor silvestre que nada tem de bonita, até pareça mato, são mais importantes do que as necessidades de energia elétrica de milhões de seres humanos", Laura Bo respondeu asperamente:

- Ridicularizar é fácil e barato, Dr. O'Brien, além de ser a mais antiga tática dos advogados. Já expliquei por que o Clube da Sequóia acha que Tunipah deve permanecer uma área natural intacta e os aspectos que parecem tanto diverti-lo são apenas dois entre muitos. Quanto às "necessidades de energia elétrica" de que falou, há muitos que estão convencidos de que a necessidade de conservação da natureza é muito maior e mais importante.

O'Brien ficou vermelho e tratou de contra-atacar:

- Já que parece saber muito mais do que os especialistas que investigaram Tunipah e chegaram à conclusão de que era o local ideal para o projeto poderia informar-me onde iria construir a usina?

Laura Bo respondeu calmamente:

- Esse é um problema de vocês, não meu.

Davey Birdsong não quis inquirir Laura Bo, declarando solenemente:

- A força & luz para o povo apoia a posição do Clube da Sequóia, tão bem exposta pela Sra. Carmichael.

No dia seguinte, quando a última de diversas outras testemunhas da oposição estava concluindo seu depoimento, O'Brien sussurrou para Nim:

- Trate de se preparar, pois será o seguinte a entrar em cena.

Nim já se estava sentindo desanimado. A perspectiva de um novo depoimento e das reinquirições subsequentes deixou-o ainda mais desolado e amargurado.

Dormira muito pouco na noite anterior, tivera um sono inquieto. Sonhara que estava num recinto parecido com uma cela, com painéis de interruptores de circuitos nas quatro paredes. Estava tentando fazer com que os circuitos ficassem ligados, para que pudesse fluir a energia que sabia ser necessária. Mas Davey Birdsong, Laura Bo Carmichael e Roderick Pritchett tinham-no cercado e estavam decididos a desligar os interruptores. Quisera gritar para os três, argumentar e suplicar, mas não conseguira falar. Em desespero, tentara mover-se mais depressa.

Para compensar as seis mãos dos outros contra as suas duas, tentara empurrar os interruptores com os pés. Mas as pernas resistiam, pareciam extremamente pesadas, deslocando-se com uma lentidão terrível. Nim compreendera que estava perdendo, que não conseguia acompanhar o ritmo dos outros, que em breve todos os circuitos estariam desligados. E fora nesse momento que acordara, encharcado de suor. Não mais conseguira voltar a dormir.

Agora, com Nim já sentado na cadeira das testemunhas, o jovem comissário que presidia a audiência disse:

- Lembro à testemunha que já prestou juramento...

Assim que as preliminares acabaram, Oscar O'Brien começou:

- Sr. Goldman, quantas ações possui da Golden State Power & Light?

- Exatamente 120.

- E qual o valor de mercado dessas ações?

- Esta manhã, era de dois mil, cento e sessenta dólares.

- Neste caso, qualquer insinuação de que, pessoalmente, vai ganhar muito dinheiro com Tunipah é...

- Ridícula e insultuosa! - disse Nim, antes mesmo que a pergunta fosse concluída.

Fora ele próprio quem pedira a O'Brien que formulasse aquela pergunta, para que ficasse devidamente registrada e na esperança de que a imprensa a divulgasse... assim como fizera com a acusação de Birdsong de que iria lucrar abusivamente. Mas duvidava que os repórteres dessem igual destaque às suas palavras.

- Exatamente. - O'Brien parecia um pouco desconcertado com a intensidade de Nim. - Agora, vamos voltar ao impacto sobre o meio ambiente do projeto de Tunipah. A Sra. Carmichael alegou que...

A ideia era neutralizar os depoimentos das testemunhas da oposição, que haviam sido erróneos, excessivamente tendenciosos ou incompletos. Nim ficou imaginando, enquanto respondia às perguntas de O'Brien, que efeito isso teria, se é que algum. Acabou chegando à conclusão de que provavelmente não haveria nenhum.

O'Brien acabou em menos de meia hora. Foi seguido por Holyoak, o advogado da comissão, e por Roderick Pritchett; nenhum dos dois pressionou Nim e ambos foram generosamente breves.

Só restava Davey Birdsong.

O líder da & Ip entregou-se a seu gesto característico de passar a mão pela barba grisalha, parado diante de Nim, observando-o atentamente.

- Vamos falar sobre aquelas suas ações, Goldman. Disse que valiam... - Birdsong fez uma pausa, consultando um papel. - dois mil, cento e sessenta dólares. É isso mesmo?

Nim admitiu, cautelosamente:

- Sim.

É

- Pela maneira como falou... e eu estava bem aqui, escutando, assim como os outros... deu a impressão de que esse dinheiro não passa de ninharia para você. Uma bagatela de dois mil dólares, pareceu dizer. Para alguém como você, acostumado a pensar em milhões de dólares e a andar de helicóptero...

O comissário interrompeu-o:

- Trata-se de uma pergunta, Sr. Birdsong? Se é, faça o favor de chegar imediatamente ao ponto.

- Sim, senhor! - Birdsong olhou para o comissário, com um sorriso radiante. - Acho que esse Goldman me deixa nervoso porque é um cara metido a importante ou banca o tal e não pode compreender que um dinheiro desses pode significar muito para os pobres...

O comissário bateu com o martelo.

- Formule logo sua pergunta!

Birdsong sorriu novamente, sabendo que podia ser censurado muitas vezes, mas eram remotas as chances de lhe ser totalmente cortada a palavra. Virou-se novamente para Nim.

- Muito bem, aqui vai minha pergunta: por acaso já lhe ocorreu que um dinheiro desses, uma bagatela de alguns milhares de dólares na sua opinião, representa uma verdadeira fortuna para muitas pessoas que terão de pagar a conta de Tunipah?

- Em primeiro lugar, não falei em bagatela de alguns milhares de dólares e nem sequer insinuei. Foi você mesmo quem o fez. Em segundo lugar, claro que já me ocorreu, porque esse tipo de dinheiro também representa muito para mim.

- Se significa tanto assim, certamente não se incomodaria de dobrá-lo.

- Claro que não! E que diabo há de errado nisso?

- Sou eu quem está fazendo as perguntas. - Birdsong tornou a sorrir, maliciosamente. - com que então admite que gostaria de dobrar seu dinheiro e talvez o consiga se esse negócio de Tunipah for levado adiante, não é mesmo? - Ele sacudiu a mão. - Não precisa dar-se ao incómodo de responder. Podemos tirar nossas próprias conclusões.

Nim estava furioso. Percebeu que O'Brien o observava atentamente, tentando transmitir um recado: Tome cuidado! Controle-se! Seja cauteloso e moderado!

- Falou algumas coisas sobre poupança de energia - continuou Birdsong. - Tenho algumas perguntas para fazer a respeito.

Durante a reinquirição por O'Brien, o problema da poupança de energia fora mencionado de passagem. Assim, o líder da & Ip tinha agora o direito de levantar o assunto.

- Por acaso sabe, Goldman, que se as grandes e ricas companhias como a Golden State Power investissem mais na poupança de energia, ao invés de esbanjarem milhões de dólares em coisas como Tunipah, poderíamos reduzir o consumo de eletricidade neste país em quarenta por cento?

- Não, não sei, porque uma redução de quarenta por cento através da poupança de energia é totalmente irrealista e um dado que provavelmente inventou, como acontece com a maioria de suas acusações. O máximo que a poupança de energia pode fazer... e já está fazendo... é ajudar a equilibrar um pouco o aumento da demanda e ajudar-nos a ganhar mais algum tempo.

- Tempo para quê?

- Tempo para que as pessoas compreendam que estão enfrentando uma crise de energia que pode mudar suas vidas... para pior... de maneiras que nunca sonharam.

- Será que isso é mesmo verdade? - indagou Birdsong, ironicamente. - Ou será que a verdade é que a Golden State Power não está interessada na poupança de energia porque isso interfere com os lucros?

- O que acabou de dizer não é absolutamente verdade e somente uma mentalidade distorcida, como a sua, poderia insinuar ou acreditar em tal coisa. - Nim sabia que Birdsong o estava provocando e que ele estava mordendo a isca, o que era provavelmente a intenção do líder da & Ip. Oscar O'Brien estava de rosto franzido; Nim tratou de desviar os olhos dele.

- vou ignorar esse comentário desagradável e fazer outra pergunta - disse Birdsong. - A verdadeira razão pela qual vocês não estão procurando desenvolver a energia solar e a energia dos ventos, que já estão disponíveis agora, não é o fato de serem fontes de energia baratas e não proporcionariam os lucros fabulosos que estão esperando de Tunipah?

- A resposta é "não", muito embora sua pergunta seja uma meia verdade distorcida. A energia solar não está disponível em quantidades consideráveis e não estará, pelo menos até o final do século, na melhor das hipóteses. Os custos para a geração de eletricidade a partir da energia solar são extremamente elevados, muito mais que o da eletricidade a partir do carvão de Tunipah. Além disso, a energia solar pode ser um agente poluidor ainda maior. Quanto à energia dos ventos... o melhor é esquecê-la, a não ser para aplicações pequenas e secundárias.

O comissário inclinou-se para a frente e perguntou:

- Será que entendi direito o que disse, Sr. Goldman? Como a energia solar pode poluir o meio ambiente?

- É muito simples, Sr. Comissário. - A informação geralmente surpreendia os que não consideravam todos os aspectos da energia solar.

- com a tecnologia atual, uma usina de energia solar, com a mesma potência que estamos propondo para Tunipah, precisaria de 310 quilómetros quadrados só para os coletores. O que dá aproximadamente setenta e cinco mil acres americanos, contra os três mil aproximadamente de uma usina convencional como a que estamos propondo agora. E não podemos esquecer que a área reservada aos coletores solares não poderia ter qualquer outro aproveitamento. Se isso não é poluição...

Nim deixou a frase inacabada, enquanto o comissário assentia.

- Um ponto dos mais interessantes, Sr. Goldman. Tenho a impressão de que a maioria de nós ainda não havia pensado nisso.

Birdsong, que ficara calado, impacientemente, durante o diálogo, retomou o ataque:

- Está-nos dizendo, Goldman, que a energia solar não poderá ser aproveitada antes do próximo século. Por que devemos acreditar em suas palavras?

- Não precisa acreditar. - Nim voltou a sua atitude anterior, de desprezo visível por Birdsong. - Pode acreditar ou deixar de acreditar no que bem quiser. Mas um consenso das melhores avaliações técnicas, feitas por especialistas, diz que o aproveitamento em larga escala da energia solar ainda vai demorar vinte anos ou mais; mesmo então, pode não atender às expectativas. Seja como for, é preciso construir, enquanto se espera, usinas à base de carvão como Tunipah... e em muitos outros lugares além de Tunipah... para enfrentar a crise iminente.

- Voltamos mais uma vez a essa ameaça de crise, forjada e falsa comentou Birdsong, desdenhosamente.

- Quando acontecer - disse Nim, veementemente - poderá ler essas palavras que acabou de pronunciar e engoli-las.

O comissário estendeu a mão para o martelo, mas hesitou; talvez curioso em ver o que ia acontecer em seguida, baixou novamente a mão. O rosto de Birdsong ficou vermelho e a boca se contraiu de raiva.

- Não vou comer nenhuma palavra, você é que vai! E irá sufocar com as palavras... você e aquela quadrilha capitalista da Golden State Power! Palavras, palavras, palavras! Destas audiências, que nós que estamos contra trataremos de prolongar pelo máximo de tempo possível, e de outras audiências semelhantes! E depois que as audiências chegarem ao fim, haverá muitas outras palavras, que arrastarão essa porcaria de Tunipah pelos tribunais e irão impedir sua consumação com apelações, interditos, todas as manobras possíveis e imaginárias. Se não for suficiente, encontraremos outras objeções, a fim de que todo o ciclo comece novamente. Se necessário for, lutaremos por vinte anos ou mais. O povo irá frustrar seus planos de lucros extorsivos, o povo haverá de vencerl O líder da & Ip fez uma pausa, a respiração ofegante, antes de acrescentar: - Assim sendo, Sr. Goldman, é bem possível que, no final das contas, a energia solar acabe chegando aqui primeiro. Porque uma coisa lhe posso garantir: não vão conseguir construir essas usinas à base de carvão. Nem Tunipah nem qualquer outra! Nem agora nem nunca!

Enquanto o comissário novamente hesitava, parecendo fascinado pelo duelo verbal, irrompeu uma explosão de aplausos entre os espectadores. No mesmo momento, Nim explodiu. Bateu com o punho cerrado no braço da cadeira e levantou-se abruptamente. Os olhos brilhando intensamente, ele fixou Davey Birdsong:

- É possível que consiga impedir que as usinas, Tunipah e as outras, sejam construídas, como está dizendo. E se o conseguir, será porque este sistema absurdo, capaz de se derrotar a si mesmo, proporciona poderes ilimitados a egomaníacos, fanáticos e charlatães como você!

Subitamente, a sala de audiências ficou em silêncio, enquanto Nim continuava, alteando a voz:

- Mas poupe-nos dessas suas besteiras virtuosas, Birdsong. Não me venha com essa história de que representa o povo. Pois não representa. Nós é que representamos o povo... as pessoas comuns, decentes, que levam uma vida normal e contam com as companhias de serviços públicos como a nossa para iluminar e aquecer suas casas, manter as fábricas em funcionamento e fazer milhões de outras coisas, que irão ser inevitavelmente afetadas, se você e gente da sua laia conseguirem impor suas opiniões egoístas e insensatas.

Nim virou-se para o comissário e continuou:

- O que se está precisando agora, neste Estado e em outros, é de um compromisso inteligente. Um meio-termo, entre os que combatem o progresso a qualquer preço, como o Clube da Sequóia e Birdsong, e os que são favoráveis ao máximo de progresso e que se dane o meio ambiente. Pois eu... e a companhia para a qual trabalho... aceitamos um acordo, sabemos que é indispensável, que tem de haver um acordo geral.

Reconhecemos que não há caminhos simples, fáceis. É justamente por isso que procuramos um meio-termo, ou seja: que haja algum progresso. Mas para que isso possa acontecer preciso que, pelo amor de Deus, nos concedam a energia elétrica necessária! Virou-se de volta para Birdsong:

- No final das contas, Birdsong, vai fazer com que as pessoas sofram. E pode estar certo de que irão sofrer, com a escassez de energia, o desemprego em massa, a falta de todas as pequenas e grandes coisas que só funcionam à base de energia elétrica. Tudo isso acontecerá quando a crise chegar, uma crise que não é falsa mas bem real, uma crise que irá varrer toda a América do Norte e provavelmente uma porção de outras regiões do mundo!

Nim fez uma breve pausa, antes de indagar ao homem silencioso e surpreso a sua frente:

- E onde você estará quando tudo isso acontecer, Birdsong? Provavelmente estará escondido... escondido das pessoas que descobrirão então quem você realmente é, um trapaceiro e um impostor que as enganou miseravelmente!

Mesmo enquanto falava, Nim já sabia que tinha ido longe demais, que impensadamente rompera as normas de contenção das audiências públicas, além das restrições que lhe haviam sido impostas pela GSP & L. Talvez tivesse até dado a Birdsong bases legais para um processo de calúnia. Contudo, outra parte da mente de Nim argumentava que tudo o que dissera precisava ser dito, que havia limites para a paciência e a moderação, que alguém tinha de falar às claras, objetivamente, sem qualquer temor, assumindo as possíveis consequências, quaisquer que fossem. Agora, não havia por que parar. E Nim continuou:

- Falou em quarenta por cento de redução no consumo de energia, Birdsong. Isso não é poupança, mas privação. Representaria todo um novo modo de vida, muito pior do que o atual! Há quem diga que devemos ter padrões de vida mais baixos, todos nós, que vivemos bem demais e deveríamos ser privados de alguma coisa. Talvez isso seja verdade, talvez não. De qualquer forma, esse tipo de decisão para mudar não cabe às companhias de energia elétrica como a GSP & L. Nossa responsabilidade é manter os padrões de vida que o povo, através de seus governos eleitos, diz que está querendo. É por isso que continuaremos a lutar por esses padrões de vida, Birdsong, até que nos seja ordenado o contrário, oficialmente, não por hipócritas presunçosos que assumem falsamente o papel de defensores do povo como você!

Quando Nim fez uma pausa para respirar, o comissário indagou friamente:

- Já acabou, Sr. Goldman? Nim virou-se para encará-lo.

- Não, Sr. Comissário, ainda não acabei. Já que estou de pé, gostaria de dizer mais umas poucas coisas.

Oscar O'Brien levantou-se nesse momento e disse:

- Sr. Comissário, se me permite sugerir um recesso... Nim interrompeu-o, firmemente:

- Tenciono dizer tudo o que estou pensando, Oscar.

Enquanto falava, ele observou que todos na mesa da imprensa estavam escrevendo rapidamente e que o estenógrafo oficial estava de cabeça abaixada, os dedos se movimentando velozmente.

- Não haverá qualquer recesso no momento - decidiu o comissário.

O'Brien tornou a sentar-se, dando de ombros, com uma expressão infeliz. Birdsong ainda estava de pé, silencioso, mas um meio sorriso substituía a expressão desconcertada anterior. Talvez estivesse convencido de que a explosão de Nim prejudicava mais à GSP & L e ajudava a & Ip. Pois bem, pensou Nim: se já tinha ido até ali, não havia qualquer motivo para hesitar e se acovardar. Dirigiu-se ao comissário e ao especialista em Direito Administrativo, que o fitavam com uma expressão de curiosidade:

- Tudo o que estamos fazendo aqui, Sr. Comissário... e me estou referindo a esta audiência e a outras similares... é uma charada dispendiosa, inteiramente inútil, que só nos faz perder tempo. É inútil porque exige anos para se fazer o que poderia estar acabado em poucas semanas, às vezes sem chegar a lugar nenhum. É um desperdício de tempo porque aqueles que aqui comparecem e que realmente produzem alguma coisa, não são meros burocratas devoradores de papéis, poderiam aproveitar as horas intermináveis gastas nestas audiências num trabalho muito mais útil para suas companhias e para a sociedade em geral. É afrontosamente dispendioso porque os contribuintes e os consumidores de energia... aos quais Birdsong alega representar, o que não é absolutamente verdade... são obrigados a pagar milhões de dólares por esse pseudo-sistema, absurdo, contraproducente, uma verdadeira comédia do tipo pastelão. E é uma charada porque fingimos que estamos aqui para fazer algo sensato e racional, quando todos sabemos, neste lado da cerca, que não é bem isso o que acontece.

O rosto do comissário ficou vermelho. Decidido, ele pegou o martelo e bateu com toda força. Lançando um olhar furioso para Nim, declarou:

- Isso é tudo que lhe permitirei falar neste momento, Sr. Goldman. Mas faço-lhe uma advertência: vou ler a transcrição do seu depoimento cuidadosamente, para verificar se será necessária alguma outra ação posterior. - Virando-se em seguida para Birdsong, com igual frieza, ele acrescentou: - Já terminou de interrogar a testemunha?

- Sim, senhor! - Birdsong estava sorrindo alegremente. - E se quer saber minha opinião, ele acabou de mijar nos próprios pés!

O martelo soou novamente.

- Não estou pedindo sua opinião!

Oscar O'Brien estava novamente de pé. Impacientemente, o comissário fez-lhe sinal para sentar-se e anunciou:

- Esta audiência está suspensa!

Havia um zumbido de conversas excitadas enquanto a sala de audiências se esvaziava. Nim não o partilhava. Tinha olhado para O'Brien, que estava enfiando documentos em sua pasta. Mas o advogado havia sacudido a cabeça, num gesto de incredulidade e tristeza. Um momento depois, saíra da sala, sozinho.

Davey Birdsong juntou-se a um grupo de partidários, que ruidosamente lhe deram os parabéns. Saíram todos juntos, rindo.

Laura Bo Carmichael, Roderick Pritchett e diversos outros membros do Clube da Sequóia olharam para Nim, com expressões curiosas, mas não fizeram qualquer comentário, retirando-se também.

A mesa da imprensa esvaziou-se rapidamente, exceto por Nancy Molineaux, que parecia estar revisando suas anotações e fazendo outras. Ela levantou a cabeça quando Nim passou e disse, suavemente:

- Puxa, nunca vi ninguém crucificar a si próprio dessa maneira!

- Se isso aconteceu, tenho certeza de que você vai tirar o máximo de proveito.

Nancy sacudiu a cabeça, sorrindo.

- Não vai haver necessidade de eu fazer qualquer coisa, cara. Você mesmo se meteu na entaladela. Espere só até ver os jornais de amanhã. Nim não respondeu e afastou-se, deixando Nancy Molineaux trabalhando em suas anotações, sem dúvida procurando as citações melhores para ajudar a crucificá-lo ainda mais. Tinha certeza de que a cadela iria distorcer toda a história, a fim de deixá-lo com a pior imagem possível perante o público. E tinha certeza de que Nancy iria apreciar intensamente, ainda mais do que o artigo sobre o helicóptero no Portão do Diabo.

Uma sensação de solidão dominou-o ao sair sozinho da sala de audiências.

Lá fora, ficou surpreso ao deparar com diversos repórteres da TV, empunhando pequenas câmeras portáteis. Esquecera-se de como a televisão, assim que fosse avisada, poderia rapidamente dar cobertura a uma notícia sensacional.

- Sr. Goldman, soubemos que andou dizendo coisas importantes na audiência - falou um dos homens da TV. - Poderia, repetí-las, a fim de que possamos divulgar nos noticiosos desta noite?

Por uma fração de segundo, Nim hesitou. A rigor, não precisava falar coisa alguma. Mas logo tomou uma decisão: já estava numa situação tão crítica que não poderia ser agravada ainda mais por nada que dissesse ou fizesse. Sendo assim, por que não falar?

- Está certo.

E ele começou a falar, incisivamente, convincentemente, enquanto as câmeras funcionavam.

- Deste momento em diante - disse J. Eric Humphrey, a voz fria e incisiva - deixará de ser um porta-voz da companhia, no que quer que seja. Não mais irá aparecer na televisão, não falará pelo rádio. Não dará entrevistas aos jornais, não responderá às perguntas de repórteres, mesmo que lhe perguntem simplesmente que horas são. Entendido?

- Entendido.

Os dois se encaravam, separados pela escrivaninha. A cena era anormalmente formal, pois Humphrey decidira não ir para as poltronas no outro lado da sala, o local em que habitualmente conversava com Nim. Era a tarde seguinte à explosão de Nim na audiência da Comissão de Energia da Califórnia.

- Quanto às audiências públicas - acrescentou Humphrey - é evidente que não mais comparecerá a nenhuma. Vamos tomar outras providências.

- Se quiser que eu apresente meu pedido de demissão, Eric, não há problema.

Nim estivera pensando nessa possibilidade durante o dia inteiro. Raciocinara que sua saída poderia atenuar um pouco o constrangimento da GSP & L, e estava convencido de que devia alguma lealdade à companhia que o tratara tão bem no passado. Além do mais, do seu ponto de vista pessoal, não tinha certeza se queria continuar a trabalhar com alguma espécie de estigma, expresso através de uma restrição às suas atividades. Era uma questão de orgulho. E por que não?

De uma coisa Nim tinha certeza: não teria a menor dificuldade em arrumar um cargo de alto nível em outra empresa. Muitas companhias de serviços públicos se apressariam em aproveitar a oportunidade de recrutar alguém com seus conhecimentos e experiência, como já descobrira pelas diversas propostas de emprego que recebera até aquele momentO. Por outro lado, estava relutante em deixar a Califórnia, que Nim e incontáveis outras pessoas achavam o lugar mais excitante do mundo para fcara se viver e trabalhar. Alguém dissera: se alguma coisa acontece, seja Boa ou ruim, sempre acontece primeiro na Califórnia. Nim concordava Iplenamente.

Havia também o problema de Ruth, Leah e Benjy. Será que Ruth Istaria disposta a se mudar para o Illinois, por exemplo, tendo em vista a situação atual entre os dois? Provavelmente não.

- Ninguém falou coisa alguma em relação a demissão - resmungou Humphrey, em tom irritado.

Nim resistiu ao impulso de sorrir. Aquele não era o momento propício para tal reação. Mas sabia, sem qualquer laivo de egotismo, que era valioso para o presidente da companhia, sob muitos aspectos, independente de ser porta-voz da GSP & L. Suas funções no planejamento constituíam um desses aspectos. Na verdade, ser o porta-voz da política da GSP & L não figurava entre as funções originais de Nim, tendo sido acrescentada posteriormente e se tornado cada vez mais importante com o passar do tempo. De certa forma, pensou Nim, até que seria bom livrar-se do papel de porta-voz, a fim de poder aparar todas as arestas recentemente surgidas e seguir em frente. Mas decidiu que aquele não era o momento para qualquer ação precipitada.

- Isso é tudo por enquanto, Nim - falou Humphrey friamente e voltou a concentrar-se nos documentos que estava examinando quando Nim entrara na sala. Era evidente que o presidente precisaria de algum tempo para superar sua insatisfação pessoal.

Teresa Van Buren estava esperando na sala de Nim.

- Queria que soubesse, Nim, que esta manhã passei uma hora na sala de Eric tentando persuadi-lo a rever sua decisão de não mais permitir que você fale em público. Em determinado momento, ele chegou a ficar tão furioso comigo quanto está com você.

- Obrigado, Tess.

Nim desabou numa cadeira. Sentia-se exausto fisicamente, assim como mentalmente.

- O que realmente deixou nosso estimado presidente subindo pelas paredes foi o fato de você ter falado à televisão depois da audiência. O que fez com que suas palavras tivessem ainda maior repercussão. - Teresa Van Buren soltou uma risadinha. - Se quer saber a verdade, não tenho a menor objeção, achando apenas que deveria ter um pouco mais de tato, tanto na audiência como ao falar pela TV. Seja como for, os fatos ainda vão demonstrar que você estava com a razão.

- Até lá, estou amordaçado.

- Tem razão. E receio que isso já seja conhecido fora daqui. Importa-se? - Sem esperar por uma resposta, Teresa Van Buren estendeu um exemplar do Califórnia Examiner por cima da mesa. - Já leu a edição vespertina?

- Não. Vi só a matutina.

Na hora do almoço, Nim lera uma notícia de primeira página, de Nancy Molineaux, com o seguinte título:

Diatribe de Goldman da GSP Interrompe Audiência de Energia

A notícia dizia o seguinte:

Um ataque intemperado de Nimrod Goldman, vice-presidente da Golden State Power & Light, contra testemunhas da oposição e contra a própria Comissão de Energia da Califórnia, provocou ontem um tumulto numa audiência pública convocada para decidir a autorização de um projeto para a construção de uma nova usina geradora em Tunipah.

O chocado Comissário Hugh G. Forbes, que presidia a audiência, classificou posteriormente os comentários de Goldman de "insultuosos e inaceitáveis" e acrescentou que irá estudar a possibilidade de uma ação judicial.

A edição vespertina do Examiner, que a vice-presidente de relações públicas levara, tinha um novo título e um novo texto:

GSP & L Pune Goldman e Desautoriza sua Explosão

Nimrod Goldman, antigo "garoto de ouro" da Golden State Power & Light, caiu em desgraça e é incerto seu futuro na gigantesca comrVanhia, por causa de uma explosão de temperamento em público, ocorrida ontem. Seus chefes na GSP & L desautorizaram o ataque furioso e...

E assim por diante. Teresa Van Buren disse, como se pedisse desculpas:

- Não houve jeito de impedir a notícia de que você foi destituído do cargo de porta-voz da companhia. E achei que se não a divulgasse objetivamente... na verdade, limitei-me a responder a perguntas... os jornalistas inevitavelmente descobririam em outra fonte, talvez de maneira distorcida.

Nim assentiu, sombriamente.

- Compreendo, Tess.

- Outra coisa: não precisa levar a sério essa história de que a comissão vai tomar alguma providência judicial. Conversei com o pessoal do nosso departamento jurídico e eles disseram que é tudo conversa fiada. A comissão não pode fazer absolutamente nada.

- Era o que eu já tinha imaginado.

- Mas Eric insistiu numa declaração repudiando o que você disse. Além disso, ele está escrevendo uma carta pessoal à comissão, pedindo desculpas.

Nim suspirou. Continuava a não se arrepender do que dissera; pensara bastante a respeito desde o dia anterior e chegara à conclusão de que não havia qualquer motivo para arrependimento. Mas era deprimente ser tratado como um pária pelos colegas. Parecia-lhe também injusto que a maioria dos jornais, inclusive o Chronicle-West e outros diários da Califórnia, se tivesse concentrado nos aspectos sensacionais da audiência, do dia anterior, criticando ou simplesmente ignorando os pontos principais do que dissera. A atuação de Davey Birdsong - os insultos e provocações - havia sido mencionada apenas de passagem e mesmo assim sem qualquer crítica. O que deixava Nim cada vez mais convencido de que a imprensa operava por duplos padrões. Contudo, isso não era nenhuma novidade.

Teresa Van Buren olhou novamente para o Examiner e comentou:

- Nancy tratou de tirar o máximo proveito da situação e caiu com toda força em cima de você. Ela visa diretamente a jugular. Parece até que vocês dois se adoram.

- Eu teria o maior prazer em arrancar o coração daquela cadela... se é que ela o tem!

Teresa franziu o rosto.

- Está sendo veemente demais, Nim.

- É possível... mas é assim que me sinto.

Nim pensou: Fora a descrição de Nancy Molineaux, "Nimrod Goldman. caiu em desgraça", que o deixara realmente furioso e magoado. Entre outras coisas, tinha de admitir para si mesmo, porque era verdade.

 

 

- Agora vai poder passar mais noites em casa, Papai? - perguntou Leah, do outro lado da mesa, durante o jantar.

Houve um momento de silêncio, em que Nim percebeu que Benjy largara o garfo e a faca e observava-o atentamente, endossando a pergunta da irmã com os olhos.

Ruth, que estava estendendo a mão para pegar a pimenta, mudou de ideia no meio do movimento e ficou imóvel, esperando também pela resposta de Nim.

- É possível - murmurou Nim, desconcertado com a pergunta inesperada e com os três pares de olhos a fitá-lo atentamente. - Isto é, desde que não me encarreguem de outros serviços que possam prenderme até mais tarde no escritório.

Animando-se com a resposta, Benjy indagou:

- E nos fins-de-semana, Papai... também vai poder passar mais tempo com a gente?

- Talvez. Ruth interveio:

- Acho que está recebendo um recado claro e objetivo.

Ela sorriu, algo que raramente acontecera desde que voltara para casa, vários dias antes. Ruth estava mais compenetrada do que nunca. O que deixava Nim um tanto preocupado. Ainda não haviam tido a conversa franca e definitiva; Ruth parecia estar evitando e Nim, ainda deprimido com suas experiências recentes, não sentira a menor vontade de tomar a iniciativa.

Nim se perguntara algumas vezes, antes da volta de Ruth: como marido e mulher se tratavam depois que ela passava duas semanas fora de casa, quase que certamente com outro homem? No caso deles, a resposta parecia ser uma só: exatamente como antes.

Ruth voltara sem qualquer alarde, fora buscar as crianças na casa dos avós e recomeçara a vida cotidiana como se não tivesse ocorrido qualquer interrupção. Ela e Nim continuavam a partilhar o mesmo quarto, embora não a mesma cama. Nim tinha a impressão de que há séculos não deixava sua cama e ia para a de Ruth. Sob outros aspectos, porém, a vida cotidiana deles continuava normalmente. Nim recordara a si mesmo que, no passado, houvera outras situações similares, só que ao inverso, quando ele voltara de aventuras extraconjugais. Na ocasião, pensara que Ruth não soubesse de nada, mas agora desconfiava de que isso não acontecera. E uma razão final para o compasso de espera era o fato de que o ego de Nim já estava ferido por outros motivos. Ele simplesmente não estava preparado para mais um golpe emocional.

Estavam naquele momento em casa, a família jantando com todos presentes, pela terceira vez em três dias, o que por si só era algo raro.

- Como já sabem, houve algumas mudanças no escritório, mas ainda não sei direito o que vai acontecer. - Nim notou algo estranho no rosto de Benjy e inclinou-se para a frente, examinando-o atentamente.

- O que aconteceu com seu rosto?

Benjy hesitou, levantando a mão esquerda para cobrir uma equimose na face esquerda e um talho por baixo do lábio inferior.

- Foi apenas uma confusão na escola, Papai...

- Que espécie de confusão? Esteve por acaso metido numa briga? Benjy ficou calado, visivelmente constrangido. Leah interveio:

- Foi isso mesmo. Todd Thornton disse que você não prestava, Papai, porque não se importa com o meio ambiente e está querendo estragá-lo. Benjy avançou para cima dele, mas acontece que Todd é maior e mais forte.

Nim disse rispidamente para o filho:

- Não importa o que os outros possam dizer a respeito de qualquer coisa, é errado e estúpido sair por aí atacando as pessoas.

Benjy ficou cabisbaixo.

- Desculpe, Papai.

- Já tivemos uma conversa - disse Ruth. - Benjy agora sabe disso.

Sob sua reação exterior, Nim estava perplexo e chocado. Não lhe ocorrera, até aquele momento, que as críticas que lhe eram feitas poderiam ser desviadas também para sua família. E acabou dizendo, suavemente:

- Lamento profundamente que algo que me aconteceu tenha acabado por atingir vocês também.

- Não há problema - assegurou Leah. - Mamãe já nos explicou como foi respeitável e honrado o que você fez.

Benjy acrescentou, ansiosamente:

- E Mamãe também disse, Papai, que você tem mais coragem do que todos os outros reunidos.

Nim estava olhando para Ruth.

- Sua mãe disse isso?

- É verdade, não é? - perguntou Benjy.

- Claro que é verdade - disse Ruth, corando ligeiramente. Mas. seu pai não pode dizer tal coisa a respeito de si mesmo, não é? E foi por isso que eu lhes falei.

- E é isso o que vamos dizer aos outros quando falarem alguma coisa - arrematou Leah.

Por um instante, Nim sentiu-se dominado por uma emoção intensa. Ao pensar em Benjy lutando para defender a reputação do pai e depois Ruth, esquecendo as divergências entre os dois para proteger sua honra junto aos filhos, Nim sentiu um aperto na garganta, as lágrimas aflorando aos olhos. Foi salvo de um novo constrangimento pela exortação de Ruth:

- Já chega de conversa. Vamos terminar logo o jantar.

Mais tarde, Nim e Ruth ainda à mesa, tomando café, enquanto as crianças já tinham saído para assistir à televisão, ele disse:

- Eu gostaria que soubesse que agradeço o que disse a Leah e Benjy.

Ruth fez um gesto de que aaquilo não tinha qualquer importância.

- Se eu própria não pensasse assim, não teria falado nada às crianças. Só porque não somos mais Romeu e Julieta, isso não significa que eu tenha deixado de ler e pensar objetivamente sobre as coisas exteriores,

- Ofereci o meu pedido de demissão, e Eric disse que não é necessário. Mas ainda posso insistir.

Nim continuou a falar, sobre as diversas possibilidades que tinha pela frente, inclusive a mudança para outra companhia de serviço público, possivelmente no Centro-Oeste. Se isso acontecesse, perguntou Nim, Ruth aceitaria mudar-se para lá com as crianças?

A resposta dela foi imediata e incisiva:

- Não, eu não iria.

- Importa-se de me dizer por quê?

- Eu diria que é óbvio. Por que três membros da nossa família, Leah, Benjy e eu, deveríamos ir viver num lugar estranho, para atender às suas conveniências, quando ainda nem sequer discutimos nosso futuro juntos... se é que temos algum, o que parece improvável?

Chegara o momento para a conversa séria, pensou Nim; e era estranho que acontecesse justamente no momento em que pareciam ter-se aproximado mais intimamente do que em qualquer outra ocasião em muitos anos. com uma profunda tristeza, ele disse:

- Que diabo aconteceu conosco, Ruth? Ela respondeu rispidamente:

- Você é capaz de responder muito melhor do que eu. Mas estou curiosa sobre uma questão: quantas outras mulheres existiram em sua vida durante esses quinze anos de casamento? - Nim percebeu abruptamente a frieza e a hostilidade na voz de Ruth, quando ela continuou:

- Ou talvez você tenha perdido a conta, como aconteceu comigo. Por algum tempo, eu sempre podia determinar quando você tinha algo novo acontecendo... ou devo dizer "alguém"? Depois, porém, já não podia mais ter certeza. Creio que você se estava espalhando, com dois ou mais casos ao mesmo tempo. Eu estava certa?

Tendo dificuldade em enfrentar diretamente os olhos de Ruth, Nim respondeu:

- Às vezes.

- Pelo menos já é algo definido. Minha suposição estava correta. Mas ainda não respondeu à minha primeira pergunta. Quantas mulheres teve, no total, nesses quinze anos de casamento?

com um ar de infelicidade, Nim murmurou:

- Não tenho a menor ideia...

- Se isso é verdade, não se pode dizer que seja um elogio a essas outras mulheres, pelas quais deve ter sentido alguma coisa, por mais brevemente que fosse. Quem quer que tenham sido, acho que mereciam algo melhor de você do que não serem sequer lembradas.

Nim protestou:

- Nunca houve nada de sério. com nenhuma delas.

- Eis algo em que acredito. - O rosto de Ruth estava vermelho de raiva. - Diga-se de passagem que também nunca foi sério comigo.

- Isso não é verdade!

- Como pode dizer uma coisa dessas depois do que acabou de confessar? Eu poderia compreender uma outra mulher, talvez duas, mas não dezenas de mulheres, como no seu caso.

- Agora está dizendo bobagem. Nunca houve dezenas.

- Então duas dezenas apenas. No mínimo. Nim ficou calado e Ruth acrescentou, pensativa:

- Talvez tenha sido freudiano o que acabei de dizer. Pois você gostaria de ir para a cama com tantas mulheres quanto puder, não é mesmo?

- Há provavelmente alguma verdade nisso.

- Eu sei que há! - Ruth fez uma pausa, antes de acrescentar, suavemente: - Mas nem por isso uma mulher... uma esposa... sente-se melhor ou menos humilhada, enganada e lesada ao ouvir tal declaração do homem a quem amava ou pensava amar.

- Se se sente assim há tanto tempo, Ruth, por que esperou até agora para levantar o assunto? Por que nunca tivemos uma conversa dessas antes?

- É uma boa pergunta. - Ruth fez uma pausa, avaliando a resposta, antes de continuar: - Creio que foi porque eu acalentava a esperança de que você pudesse mudar, que se acabaria cansando de querer fornicar com toda mulher bonita que passasse na sua frente, assim como uma criança deixa de ser gulosa por chocolate. Mas eu estava errada, porque você jamais mudou. E já que estamos sendo francos um com o outro, houve outro motivo. Eu era uma covarde. Tinha medo do que poderia representar ficar sozinha, do que poderia acontecer a Leah e Lenjy, tinha medo... ou talvez fosse orgulhosa demais... de admitir que meu casamento, como tantos outros, não estava dando certo. - Ruth fez outra pausa, a voz tremendo pela primeira vez. - Pois já não mais tenho medo, orgulho ou qualquer outra coisa. Simplesmente quero acabar com toda essa agonia.

- Está falando sério?

Duas lágrimas escorriam pelas faces de Ruth.

- O que mais resta?

Uma centelha de resistência surgiu dentro de Nim. Precisava mesmo ser tão totalmente defensivo? Não havia sempre dois lados em todas as situações, inclusive naquela?

- E o que me diz do seu próprio caso de amor, Ruth? Se você e eu vamo-nos separar, será que o homem que encontrou irá morar com você imediatamente?

- Que homem?

- O homem a quem anda vendo, o homem com quem foi passar duas semanas fora.

Ruth tinha enxugado os olhos. Fitava-o agora com uma expressão que parecia em parte divertida, em parte pesarosa.

- Acredita mesmo que fui passar duas semanas fora com outro homem?

- E não foi?

Ruth sacudiu a cabeça lentamente.

- Não.

- Mas pensei...

- Sei disso. E deixei-o pensar, o que provavelmente não foi uma boa ideia. Mas decidi... provavelmente por rancor... que não faria mal algum e talvez fosse até bom fazê-lo ter o gosto do que venho sentindo há muitos anos.