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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


COROA DE ERVA / Colleen McCullough
COROA DE ERVA / Colleen McCullough

 

 

                                                                                                                                   

  

 

 

 

 

- O que de mais excitante aconteceu nos últimos quinze meses disse Caio Mário - foi o espectáculo com o elefante de Caio Cláudio nos ludi Romani.

O rosto de Élia alegrou-se.

- Foi uma maravilha, não foi? - disse ela, debruçando-se um pouco para chegar ao prato das enormes azeitonas verdes importadas da Hispânia. - O elefante conseguia pôr-se de pé e caminhar nas patas de trás! E dançava nas quatro patas! Ah, e por fim sentou-se num divã e desatou a comer com a tromba!

Olhando com um ar de desprezo para a mulher, Lúcio Cornélio Sila comentou, com não pouca frieza:

- Porque será que as pessoas gostam de ver os animais imitar o homem? O elefante é a mais nobre criatura do universo. O de Caio Cláudio Pulcro pareceu-me uma dupla caricatura, tanto do homem como do elefante.

A pausa que se seguiu durou pouco mais de um segundo, embora todas as pessoas presentes na sala de jantar se tivessem apercebido dela com grande constrangimento; até que o riso alegre de Júlia fez com que todos os olhares deixassem em paz a pobre Élia.

- Ora, ora, Lúcio Cornélio, toda a gente adorou o elefante! disse ela. - Tenho de admitir que também eu gostei... um animal tão esperto, tão diligente! E quando ele ergueu a tromba e se pôs a berrar ao ritmo dos tambores? Espantoso! Além disso - acrescentou -, ninguém o maltratou.

- Do que eu mais gostei, foi da cor dele - disse Aurélia, já que achava oportuno apoiar aquela causa. - Um elefante cor-de-rosa!

Girando sobre o cotovelo, Lúcio Cornélio Sila ignorou as observações das mulheres e pôs-se a falar com Públio Rutílio Rufo.

Com a tristeza estampada nos olhos, Júlia deixou escapar um suspiro.

- Creio, Caio Mário - disse ela para o marido -, que são horas de as mulheres se retirarem e deixarem os homens entregues aos prazeres do vinho. Dás-nos licença?

 

 

 

 

Mário esticou a mão por sobre a estreita mesa que havia entre o seu divã e a cadeira da esposa; Júlia apertou-a calorosamente, e fez o possível por não se sentir ainda mais triste ao atentar no sorriso deformado do marido. Há tanto tempo que aquilo acontecera! E, no entanto, o seu rosto exibia ainda as marcas daquela insidiosa doença. Mas o que a leal e amorosa esposa não conseguia admitir, nem sequer para si mesma, era que a trombose tinha tecido uma pequena devastação na mente de Caio Mário; ele era agora um homem que se irritava por tudo e por nada, que dava cada vez mais importância a faltas de respeito ou de atenção que, em grande parte, não passavam de um produto da sua imaginação, e que assumia uma atitude cada vez mais inflexível em relação aos seus inimigos.

Júlia levantou-se, largou a mão de Mário com um sorriso muito especial, e pôs a sua mão sobre o ombro de Élia.

- Vem, minha querida - disse. - Vamos ver as crianças.

Élia levantou-se. Aurélia fez o mesmo. Os três homens ficaram sentados, embora só reatassem a conversa quando as mulheres e as criadas deixaram a sala.

- Então o Bacorinho está finalmente de volta - disse Lúcio Cornélio Sila, quando teve a certeza de que a sua odiada segunda mulher já não o ouvia.

Mário mexeu-se, inquieto, na ponta do divã do meio, o rosto contorcido, mas menos enfadonho que outrora, pois a paralisia dava à parte esquerda daquela foce deformada um tom pesaroso.

- Que resposta queres ouvir de mim, Lúcio Cornélio? - perguntou por fim Mário.

Sila soltou um breve riso.

- Só poderia querer uma resposta sincera, não? Embora, não sei se reparaste, eu não tenha feito qualquer pergunta.

- Reparei, sim. Mas mesmo assim era uma resposta que pedias.

- Claro - disse Sila. -Muito bem. Usarei outros termos. Diz-me, como te sentes agora que o Bacorinho regressa do exílio?

- Bom, não me vou pôr a cantar hinos de júbilo... - retorquiu Mário, lançando a Sila um olhar penetrante. - E tu?

Lentamente, sem se darem conta, tinham-se afastado muito um do outro, pensou Públio Rutílio Rufo, reclinado, sozinho, no segundo divã. Três anos, ou mesmo dois anos antes, não teriam tido uma conversa tão tensa e circunspecta. Que acontecera? E de quem era a culpa?

- Sim e não, Caio Mário - retorquiu Sila, fitando a sua taça de vinho. - Ah, tudo me aborrece! - acrescentou, de dentes cerrados. Pelo menos, com o regresso do Bacorinho ao Senado, pode ser que as coisas se tornem interessantes. Tenho saudades daquelas titânicas batalhas que vocês costumavam travar.

- Nesse caso, Lúcio Cornélio, vais ter uma decepção. Não estarei em Roma quando o Bacorinho voltar.

Tanto Sila como Rutílio Rufo se soergueram.

- Não estarás em Roma? - perguntou Rutílio Rufo, espantado.

- Não estarei em Roma - repetiu Mário, exibindo um sorriso de amarga satisfação. - Acabei de me lembrar de um voto que fiz à Grande Deusa antes de derrotar os Germanos. Se vencesse, iria em peregrinação ao seu santuário em Pessinunte.

- Caio Mário! Não podes fazer uma coisa dessas! - disse Rutílio Rufo.

- Claro que posso, Públio Rutílio! Não deixarei de cumprir o meu voto!

Sila deixou-se cair no divã, de tanto rir.

- Isso faz-me lembrar Lúcio Gávio Stichus! - disse.

- Quem? - perguntou Rutílio Rufo, sempre pronto a mudar de assunto em favor de um bom mexerico.

- O sobrinho, recentemente falecido, da minha recentemente falecida madrasta - disse Sila, ainda com um sorriso arreganhado. - Já lá vão muitos anos, mudou-se para minha casa, que pertencia então à minha falecida madrasta. O seu objectivo era ver-se livre de mim, destruindo o afecto que Clitumna me dedicava. Pensava ele que, estando nós os dois na mesma casa, acabaria por me tramar. Por isso resolvi ir-me embora. Num instante, desapareci de Roma. Com o resultado de que quem acabou por se tramar foi ele - e com que eficiência o fez! Clitumna ficou farta dele em muito pouco tempo - acrescentou Sila, deitando-se de barriga para baixo. - Morreu pouco depois - disse, com um ar pensativo, e soltou um suspiro exagerado, sorrindo sempre.

- Arruinei todos os seus planos!

- É de esperar, portanto, que o regresso de Quinto Cecílio Metelo Numídico Bacorinho não passe de uma falsa vitória - comentou Mário.

- Bebo a isso mesmo! - disse Sila, e bebeu.

Instalou-se então um silêncio difícil de quebrar, pois a velha cumplicidade que em tempos unira Mário e Sila já não existia, e a resposta de Sila não a tinha reinstaurado. Talvez essa velha cumplicidade fosse o resultado de conveniências e do convívio no campo de batalha, mais do que o fruto de uma amizade verdadeiramente arreigada, pensou Públio Rutílio Rufo. Mas como poderiam eles esquecer todos esses anos de guerra contra os inimigos de Roma? Como poderiam deixar que aquela insatisfação prevalecente em Roma apagasse todo o passado que os unia? Saturnino era o fim dos velhos tempos. Saturnino, e aquela amarga doença de Mário. Ora, disse ele para si mesmo, que disparate, Públio Rutílio Rufo! Eles são homens activos, homens destinados a fazer coisas importantes, não são dos que gostam de estar em casa - e que, estando em casa, se reformam. Bem pelo contrário! Dêem-lhes outra guerra, ou um Saturnino tentando tornar-se rei de Roma, e logo os veremos ronronando como dois gatos lavando a cara um ao outro.

O tempo corria rápido, é claro. Ele e Caio Mário tinham já sessenta anos, e Lúcio Cornélio Sila quarenta e dois. Pouco dado a perscrutar as instáveis profundezas dos espelhos, Públio Rutílio Rufo não sabia ao certo que marcas deixara em si a idade; mas os seus olhos não o enganavam quando atentava em Caio Mário e Lúcio Cornélio Sila.

Caio Mário engordara, de tal forma que precisava de togas novas; continuava a ser um homem corpulento - em boa forma e bem proporcionado, já que o peso que agora tinha a mais se distribuía pelos ombros, costas, ancas e coxas, e também por uma barriga de aspecto bastante musculoso; e, até certo ponto, os quilos a mais tinham dado um aspecto mais suave ao seu rosto, agora maior, mais redondo, com uma testa mais alta graças à calvície. Deliberadamente, Públio Rutílio Rufo ignorava a paralisia do lado esquerdo; em vez disso, reparava naquelas espantosas sobrancelhas, maiores do que nunca, e mais cerradas e revoltas. Oh, quantas tempestades de consternação artística aquelas sobrancelhas tinham provocado nas almas dos escultores! Encarregados de esculpirem o busto de Mário para uma qualquer cidade ou associação ou, muito simplesmente, para um local devoluto onde uma estátua vinha mesmo a calhar, esses escultores que viviam em Roma ou em Itália sabiam de antemão o trabalho que iam ter. Mas os escultores gregos, tão gabados, vindos de Atenas ou Alexandria para fazerem o retrato do homem que mais bustos tinha espalhados pelo Império desde Cipião, o Africano, esses, punham uma expressão de horror quando viam as sobrancelhas de Mário! Cada artista fazia o que podia; contudo, ainda que pintado num bocado de madeira ou linho, o rosto de Caio Mário acabava sempre por ser um mero pano de fundo para as sobrancelhas.

E a verdade é que o melhor retrato do seu velho amigo que Rutílio Rufo alguma vez vira, era afinal um desenho tosco, feito com uma substância escura na parede exterior da sua própria casa. Muito poucos traços - uma única e voluptuosa curva para sugerir aquele lábio inferior tão carnudo, uma espécie de brilho para os olhos - como era possível que quem o fez, tivesse dado ao negro uma aparência brilhante?

- e não mais que dez traços para cada sobrancelha. E no entanto aquele era realmente Caio Mário, com todo o seu orgulho e inteligência, com o seu carácter puro e indomável. Mas como descrevê-la, àquela forma de arte? Vultum in peius fingere... Um rosto moldado pela malícia. Mas tão bem feito que a malícia se transformara em verdade. Infelizmente, antes de Rutílio Rufo ter encontrado uma maneira de retirar aquele bocado de estuque sem o reduzir a mil e um fragmentos, fortes chuvadas acabaram por destruir o melhor retrato de Mário.

Contudo, nenhum ignorado pintor de paredes conseguiria fazer um tal trabalho a partir do rosto de Lúcio Cornélio Sila. Sem a magia da cor, Sila passaria por um homem igual a tantos outros, ainda que especialmente bem-parecido. Um rosto regular, traços regulares, uma clara romanidade que Caio Mário nunca poderia ter. A cor, porém, transformava-o numa criatura única. Aos quarenta e dois anos, o seu cabelo continuava na mesma - e que cabelo aquele! De um tom que não era bem ruivo, nem dourado. Espesso, ondeado, talvez demasiado comprido. E os olhos, os olhos faziam lembrar o gelo de um glaciar, do mais pálido tom de azul, circundado por um azul tão escuro como o das nuvens que anunciam trovoada. Naquela noite, as suas sobrancelhas finas e arqueadas estavam muito castanhas, tal como as longas e espessas pestanas. Mas Públio Rutílio Rufo tinha já visto Sila em ocasiões menos calmas, e sabia que, naquela noite, Sila tinha posto um pouco de stibium nos olhos, como era, aliás, seu costume; na realidade, as sobrancelhas e pestanas de Sila eram tão louras que só se dava por elas porque a pele era de um branco pálido, quase sem pigmentação.

Perdiam as mulheres o juízo e a virtude ao verem tal homem. Esqueciam a prudência, ofendiam maridos, pais e irmãos, excitavam-se e soltavam risinhos nervosos se ele, ao passar por elas, lhes lançava um breve olhar. Um homem tão competente, tão inteligente! Um soldado como havia poucos, um administrador eficiente, um exemplo de coragem para qualquer homem, quase perfeito na organização das suas próprias actividades ou das dos outros. E no entanto, as mulheres eram a sua ruína. Pelo menos era o que pensava Públio Rutílio Rufo, cujo rosto, agradável mas pouco atraente, e a tez baça, o tornavam igual a uma miríade de outros homens. Não que Sila fosse um pinga-amor, ou mesmo um homem interessado em conquistas ocasionais; tanto quanto Rutílio Rufo sabia, comportava-se com uma rectidão admirável. Mas era indubitável que um homem que ansiava por chegar ao topo do poder político romano tinha muito mais hipóteses de o conseguir se o seu rosto não fosse propriamente o de um Apolo; os homens bonitos, extraordinariamente atraentes aos olhos das mulheres, não gozavam, de um modo geral, da confiança dos seus pares, que não lhes atribuíam muita importância, quando não os consideravam indivíduos efeminados ou, pelo contrário, um perigo para os seus casamentos.

No ano anterior, recordava Rutílio Rufo, Sila tinha disputado as eleições para o cargo de pretor. Tudo parecia estar a seu favor. Trazia da guerra feitos esplêndidos - e devidamente divulgados, pois Caio Mário tratara de espalhar junto dos eleitores que Sila tinha sido para ele um companheiro inestimável, como questor, como tribuno e, finalmente, como lugar-tenente. Mesmo Catulo César, que não tinha qualquer razão para gostar de Sila, elogiara publicamente os seus serviços na Gália Italiana, no ano em que os Cimbros germanos tinham sido derrotados. Mais tarde, durante o breve período em que Lúcio Apuleio Saturnino ameaçara o Estado, fora Sila, sempre enérgico e eficiente, quem permitira a Caio Mário resolver o problema. Porque, nessa altura, quando Caio Mário assinava uma ordem, era Sila quem a punha em prática. Antes de ir para o exílio, Quinto Cecílio Metelo Numídico - aquele a quem Mário, Sila e Rutílio chamavam o Bacorinho - costumava dizer a todos os conhecidos e amigos que, em sua opinião, o êxito da guerra em África contra o rei Jugurta se devia inteiramente a Sila e que, portanto, os louros atribuídos a Mário eram injustos. De facto, fora graças aos esforços isolados de Sila que Jugurta tinha sido capturado, e toda a gente sabia que enquanto isso não acontecesse a guerra em África prosseguiria. Quando Catulo César e outros dirigentes ultraconservadores do Senado concordaram com o Bacorinho que os louros da Guerra de África deviam ir todos para Sila, a estrela deste pareceu começar a brilhar, e a sua eleição para um dos seis cargos de pretores tornou-se praticamente uma certeza. A tudo isto, ter-se-ia de juntar o próprio comportamento de Sila - admiravelmente modesto, nada exibicionista, imparcial. Até ao último dia da campanha eleitoral, insistira que a captura de Jugurta devia ser atribuída a Mário, já que ele agira muito simplesmente sob as ordens de Mário. Os eleitores apreciavam normalmente este tipo de conduta; a lealdade ao chefe no campo de batalha ou no Fórum era extremamente apreciada.

E no entanto, quando os eleitores centuriais, reunidos na saepta do Campo de Marte, e as Centúrias, uma a uma, revelaram as suas escolhas, o nome de Lúcio Cornélio Sila - um nome tão aristocrático e, por si só, tão recomendável - não se encontrava entre os seis candidatos triunfantes; e ainda por cima, alguns dos homens eleitos não só tinham cometido feitos medíocres como também a sua genealogia deixava muito a desejar.

Porquê! Essa era a pergunta que todos os amigos de Sila lhe faziam, ainda que ele nada dissesse. Mas Sila conhecia a razão; algum tempo depois, Rutílio Rufo e Mário ficaram a saber aquilo que Sila já conhecia. A razão para o seu fracasso tinha um nome: a jovem Cecília Metela Dalmática. Não tinha ainda dezanove anos. Era a mulher de Marco Emílio Escauro Princeps Senatus, que fora cônsul no ano em que os Germanos tinham desencadeado a guerra, censor no ano em que Metelo Numídico Suíno fora para África combater Jugurta, e presidente do Senado desde o seu consulado (ocorrido havia dezassete anos). As famílias tinham combinado o casamento de Dalmática com o filho de Escauro; contudo, este último, um cobarde confesso, suicidara-se após a retirada de Catulo César de Tridente. E Metelo Numídico Suíno, tutor da sobrinha (então com dezassete anos), decidiu de imediato casá-la com o próprio Escauro, ainda que houvesse uma diferença de quarenta anos entre marido e mulher.

Como é evidente, ninguém perguntara a Dalmática se lhe agradava aquela união e, de início, ela própria não sabia muito bem o que sentia. Um tanto impressionada com a imensa auctoritas e dignitas do seu novo marido, sentia-se também contente por se ver livre do atribulado ambiente que se vivia em casa de Numídico (casa em que, na altura, vivia também a irmã de Numídico, uma mulher cujo comportamento histérico e cujas inclinações sexuais tinham transformado a vida de Dalmática num verdadeiro tormento). A sobrinha de Numídico ficara desde logo grávida (facto que fortalecera ainda mais a auctoritas e dignitas de Escauro) e dera à luz uma menina. Entretanto, porém, conhecera Sila num jantar oferecido pelo marido, e a atracção entre os dois fora poderosa, mútua, e aflitiva.

Consciente do perigo que Dalmática representava, Sila não fizera qualquer tentativa para manter um relacionamento com a jovem esposa de Escauro. Ela, contudo, não pensava o mesmo. E depois de os corpos despedaçados de Saturnino e dos seus amigos terem sido queimados com todas as honras que o seu estatuto exigia, e de Sila ter começado a frequentar o Fórum e a cidade, no âmbito da campanha para conquistar um cargo de pretor, Dalmática começou também a frequentar o Fórum e a cidade. Para onde ia Sila, lá estava Dalmática, escondida atrás de um plinto ou de uma coluna, de cabeça encoberta, certa de que ninguém a reconheceria.

Depressa Sila tratou de evitar locais como o Porticus Margaritaria, onde a presença de uma mulher nobre seria a coisa mais inocente deste mundo, já que em Porticus Margaritaria abundavam as joalharias. Evitando tais locais, ela teria muito menos oportunidades de falar com ele; para Sila, porém, o comportamento de Dalmática constituía o retorno de um velho e horrível pesadelo - o pesadelo dos tempos em que Julilla o assediava com cartas de amor constantes, cartas que ela ou a criada lhe metiam na toga a qualquer momento, em circunstâncias em que ele não se atrevia a chamar a atenção para tais acções. Bom, tudo isso terminara com um casamento, uma união confarreatio virtualmente indissolúvel, uma união amarga, insuportável, humilhante, que durou até ao suicídio de Julilla, mais um episódio terrível numa infindável galeria de casos de mulheres que tudo dariam para o conseguirem dominar.

Por isso, certo dia, Sila tomou o caminho do bairro de Subura, com as suas ruas miseráveis, fedorentas e sempre apinhadas de gente, a fim de se encontrar com Aurélia, cunhada de Julilla; Aurélia era a sua única amiga: podia confiar nela abertamente, e ele precisava desesperadamente de alguém com quem pudesse falar sem rodeios.

- Que hei-de fazer? - exclamara Sila. - Estou num beco sem saída, Aurélia; é Julilla que de novo me persegue! Não consigo ver-me livre dela!

- O problema dessas mulheres é que têm muito pouco que fazer

- retorquiu Aurélia, com um ar severo. - Têm amas para os filhos, festinhas com as amigas em que o que conta são os mexericos, teares em que não têm qualquer intenção de mexer, e cabeças demasiado vazias para encontrarem consolação num livro. A maior parte delas nada sente pelos maridos, já que casaram meramente por razões de conveniência - ou porque os pais precisavam de firmar influências políticas, ou porque os maridos precisavam dos dotes ou de subir um degrau mais na escada da nobreza. Ao fim de um ano, estão prontas para dar a facada no matrimónio. - Aurélia suspirou. - No fim de contas, Lúcio Cornélio, a verdade é que, no que toca ao amor, podem escolher à vontade. E em quantas áreas podem elas escolher à vontade? As mais espertas contentam-se com os escravos. Mas as mais parvas são as que se apaixonam. E isso, infelizmente, foi o que sucedeu a Dalmática. Aquela criança tonta perdeu por completo o juízo! E tu és a causa dessa loucura.

Sila ouviu-a, tenso; escondia os seus pensamentos olhando para as mãos.

- Não fiz nada para o ser - disse por fim.

- Eu sei! E Marco Emílio Escauro? Sabe?

- Por todos os deuses! Espero que não saiba de nada! Aurélia parecia divertida.

- Diria, pelo contrário, que ele está farto de saber.

- Nesse caso, porque é que não me procurou? Ou terei de ser eu a procurá-lo?

- Deixa-me pensar - retorquiu a proprietária de uma ínsula, a confidente de muitos, a mãe de três filhos, a esposa solitária, uma mulher activa mas nunca intrometida.

Aurélia estava sentada de lado, à sua mesa de trabalho, uma mesa enorme, cheia de rolos de papel, folhas isoladas e uma imensidão de livros; mas não havia desordem naquela mesa, apenas a evidência de muitos negócios e não menos trabalho.

Se ela não o podia ajudar, pensou Sila, então, ninguém o ajudaria, pois a outra pessoa com quem poderia desabafar não era propriamente um ouvinte seguro naquelas circunstâncias. Aurélia era unicamente

 

Nota: Ínsula, Grupo de casas separado da cidade. (N. do T.)

 

uma amiga; Metróbio era também um amante, com todas as complicações emocionais que isso implicava, acrescidas do facto de Metróbio ser um homem. Sila estivera com Metróbio no dia anterior, e o jovem actor grego fizera um comentário especialmente desagradável acerca de Dalmática. Chocado, Sila só então se apercebera de que toda a cidade de Roma já devia falar dele e de Dalmática, pois o mundo de Metróbio pouco tinha a ver com o mundo em que Sila se movia agora.

- Terei de ser eu a procurar Marco Emílio Escauro? - perguntou Sila uma vez mais.

- Seria melhor se falasses com Dalmática, mas não vejo como retorquiu Aurélia, com uma expressão tensa.

Sila parecia impaciente.

- E se a convidasses para vir à tua casa?

- De modo nenhum! - respondeu Aurélia, escandalizada. - Lúcio Cornélio! Uma raposa velha como tu deveria ter um pouco mais de bom senso! Não compreendes o que se está a passar? Ninguém tem a mínima dúvida de que Marco Emílio Escauro mandou vigiar a mulher. A tua sorte, até agora, é não haver provas susceptíveis de confirmarem as suspeitas de Escauro.

Sila abriu muito a boca, mostrando os seus enormes caninos, mas não era um sorriso o que os seus lábios desenhavam; por um momento, sem se dar conta, Sila deixou cair a máscara, e Aurélia viu-se perante alguém que não conhecia. Mas seria mesmo isso? Talvez Aurélia nunca tivesse visto essa pessoa, mas pressentisse que ela vivia no íntimo de Sila. Alguém destituído de qualidades humanas, um monstro, um verdadeiro monstro, de garras afiadas, um monstro berrando ao luar. E pela primeira vez na sua vida sentiu um medo horrível.

O medo patente na expressão de Aurélia fez com que o monstro se escondesse algures no íntimo de Sila; a máscara ocultava-o agora de novo.

- Então que hei-de fazer, Aurélia? Que posso fazer? - murmurou Sila, aflito.

- A última vez que me falaste de Dalmática - e não esqueçamos que já lá vão dois anos -, disseste que estavas apaixonado por ela, embora só a tivesses visto uma vez. É um caso muito parecido com o de Julilla, não é? E isso torna-o ainda mais insuportável. Claro, ela nada sabe acerca de Julilla, exceptuando o facto de que, em tempos idos, tu tiveste uma esposa que se suicidou - precisamente um tipo de história que te torna ainda mais atraente. Uma história que sugere que é perigoso conhecer-te e amar-te. Um desafio impressionante! Receio francamente que a pobre Dalmática tenha ficado presa nas tuas redes, ainda que tu as possas ter lançado sem qualquer intenção de a prender.

Por um momento, Aurélia reflectiu em silêncio. Depois, olhou-o bem nos olhos.

- Não digas nada, não faças nada, Lúcio Cornélio. Espera que Marco Emílio Escauro venha ter contigo. Dessa forma parecerás inteiramente inocente. Mas tens de estar atento a uma coisa: é necessário que ele não possua qualquer prova da infidelidade da mulher, por muito circunstancial que essa prova possa ser. Proíbe a tua mulher de sair quando estiveres em casa, pois pode dar-se o caso de Dalmática subornar um dos teus criados para a deixar entrar. O problema, nisto tudo, é que tu não compreendes as mulheres nem gostas muito delas. Por isso não sabes lidar com os seus piores excessos - excessos que revelam o que tu tens de pior. O marido dela que te procure. Mas sê amável com ele, peço-te! Para Marco Emílio, tal visita será uma tortura. É um homem velho e tem uma esposa jovem. Não é um marido enganado, mas não o é unicamente por causa do teu desinteresse. Por isso deves fazer o possível por não magoar o seu orgulho. Não esqueçamos que a sua influência política só é igualada por Caio Mário. - Aurélia sorriu. - Sei que não concordas com esta comparação, mas é a pura verdade. Se queres ser pretor, não te podes dar ao luxo de o ofender.

Infelizmente, Sila não seguiu os conselhos de Aurélia na sua totalidade; e ganhou um inimigo de peso porque não se mostrou amável nem cooperante, porque nada fez para não magoar o orgulho de Escauro.

Nada aconteceu durante dezasseis dias após o encontro com Aurélia, exceptuando o facto de que Sila se mostrava agora atento aos espiões de Escauro e tomava todas as precauções para evitar qualquer prova de infidelidade. Os amigos de Escauro, e também os de Sila, trocavam entre si risinhos furtivos e piscadelas de olhos; era indubitável que todos sabiam do caso desde o início: Sila é que não se dera conta disso.

O pior é que Sila ainda desejava Dalmática, ou amava-a, ou estava obcecado por ela. Ou as três coisas juntas. Julilla uma vez mais. A dor, o ódio, a ânsia incontrolável de despedaçar quem lhe barrava o caminho. De um sonho em que fazia amor com Dalmática passava num ápice a outro sonho em que lhe partia o pescoço e em que a via dançar como uma louca sobre a relva de Circei iluminada pelo luar – não, não, fora a sua madrasta que ele matara assim! Muitas vezes, no sonho, abria a gaveta secreta do armário onde estava guardada a máscara do seu antepassado Públio Cornélio Sila Rufino Flamen Dialis; e da gaveta tirava os frasquinhos de veneno e a caixa que continha um pozinho branco - e assim matara Lúcio Gávio Stichus e Hércules Atlas, esse homem de força portentosa. Cogumelos? Com cogumelos matara a sua amante - come, Dalmática, come estes cogumelos!

Mas o tempo e a experiência tinham-se acumulado desde a morte de Julilla, e Sila conhecia-se melhor agora; não seria capaz de matar Dalmática, tal como não fora capaz de matar Julilla. Com as mulheres de casas nobres e antigas, não havia outra alternativa senão esperar que tudo se desmoronasse amargamente. Um dia, ele e Cecília Metela Dalmática consumariam aquilo que, naquele momento, ele não se atrevia a iniciar.

Chegou por fim o dia em que Marco Emílio Escauro bateu à sua porta, a mesma porta que sentira já as mãos de muitos fantasmas e cuja madeira estava impregnada de malignidade. O facto de tocá-la contagiara Escauro, que pensava apenas numa coisa: aquele encontro iria ser ainda mais difícil do que previra.

Sentado na cadeira do cliente, o robusto velho atentou amargamente no belo semblante do seu anfitrião; os olhos de Escauro, de um verde claro, eram a negação das rugas que lhe cobriam o rosto, da calvície que se espalhara pela sua cabeça. Daria tudo para não estar ali, para não ter de calar o seu orgulho, para não ter de enfrentar aquela situação horrivelmente grotesca.

- Suponho que sabes o que me traz aqui, Lúcio Cornélio - disse Escauro, de cabeça erguida, fitando Sila bem nos olhos.

- Creio que sim - retorquiu Sila, sem mais.

- Vim pedir-te desculpa pelo comportamento de minha mulher, e garantir-te que, após esta nossa conversa, tudo farei para que ela não te incomode mais.

Já estava!, pensou Escauro. E vivia ainda, não tinha afinal morrido de vergonha. Porém, no fundo do olhar calmo e desapaixonado de Sila, Escauro imaginou distinguir um vestígio de desprezo; um desprezo imaginário, talvez, mas foi isso mesmo que fez de Escauro um inimigo de Sila.

- Lamento imenso, Marco Emílio.

Diz qualquer coisa, Sila! Torna a situação mais fácil para este velho tonto! Não o deixes aqui sentado com o seu orgulho reduzido a pó! Lembra-te do que Aurélia te disse! Mas as palavras recusavam-se a sair. Rodopiavam, incipientes, na sua cabeça, e transformavam-lhe a língua numa pedra.

- Será melhor para todos que deixes Roma. Vai para a Hispânia - disse por fim Escauro. - Ao que sei, Lúcio Cornélio Dolabela precisa de um assistente competente.

Sila pestanejou com exagerada surpresa.

- Precisa mesmo? Não me tinha apercebido de que as coisas estavam assim tão mal! Seja como for, Marco Emílio, não me é possível abandonar Roma e ir para a longínqua Hispânia. Há nove anos que estou no Senado. Chegou a altura de lutar pelo cargo de pretor.

Escauro engoliu em seco, mas conseguiu manter uma aparência amável.

- Este ano, não, Lúcio Cornélio - disse ele, num tom simpático.

- No próximo ano, ou no outro. Este ano terás de deixar Roma.

- Mas, Marco Emílio, eu não fiz nada de errado!

Mas é claro que fizeste, Sila! Fizeste e continuas a fazer! Estás muito simplesmente a espezinhar este homem!

- Há três anos já que tenho idade para ser pretor - prosseguiu Sila. - Devo por isso apressar-me. Disputarei a eleição este ano, o que implica que terei de ficar em Roma.

- Peço-te que reconsideres, Lúcio Cornélio - disse Escauro, levantando-se.

- Não posso, Marco Emílio.

- Se te candidatares, Lúcio Cornélio, garanto-te que não serás eleito. Nem este ano, nem no próximo, nem no outro ano, enfim, nunca - disse Escauro tranquilamente. - É o que te prometo. Acredita na minha promessa! Deixa Roma.

- Repito o que disse, Marco Emílio. Lamento imenso. Mas ficarei em Roma para disputar o cargo de pretor - retorquiu Sila.

E foi assim que tudo se passou. Ainda que afectado na sua auctoritas e dignitas, Marco Emílio Escauro Princeps Senatus continuava a dispor de muita influência, mais do que a necessária para afastar Sila do cargo de pretor. Outros homens, de menos valor, viram os seus nomes escritos nofasti; homens medíocres, nulidades, imbecis. Mas pretores.

Foi através de Aurélia, sua sobrinha, que Públio Rutílio Rufo soube da verdadeira história; logo a contou a Caio Mário. Toda a gente percebera que Escauro Princeps Senatus se opusera tenazmente à eleição de Sila; mas a razão dessa oposição não era propriamente óbvia. Defendiam alguns que fora por causa da patética paixão de Dalmática; porém, após muitas discussões, generalizara-se o sentimento de que essa era uma explicação pouco convincente. Tendo-lhe dado todo o tempo para que ela, por si só, se apercebesse dos seus erros (dizia ele), Escauro falara depois com Dalmática (amigavelmente, mas com firmeza, acrescentava ele), e não fazia o mínimo segredo do sucedido tanto entre os seus amigos como no Fórum.

- Pobre coitada, mais tarde ou mais cedo isto tinha de acontecer

- dizia ele, num tom afectuoso, a vários senadores, embora certo de que as suas palavras eram ouvidas por muitos mais. - Teria sido preferível se ela tivesse escolhido outro... Um homem de Caio Mário, calcule-se! Mas... ele é um belo homem, não há dúvida.

Era uma tirada inteligente, tão inteligente que os peritos do Fórum e os membros do Senado decidiram que a verdadeira razão para a oposição de Escauro à candidatura de Sila era a conhecida ligação de Sila a Caio Mário. De facto, Caio Mário, após ter sido cônsul por seis vezes (um facto inédito), encontrava-se agora em eclipse. Os seus melhores dias tinham acabado, não conseguia mesmo reunir o apoio suficiente para disputar um cargo de censor. O que implicava que Caio Mário, o chamado Terceiro Fundador de Roma, nunca igualaria os cônsules mais célebres, os quais tinham também sido, todos eles, censores. Caio Mário era uma força exaurida no esquema político então prevalecente, uma curiosidade, mais do que uma ameaça, um homem que não podia contar com aplausos mais nobres que os da Terceira Classe.

Rutílio Rufo voltou a encher o copo.

- Mas pensas mesmo ir a Pessinunte? - perguntou ele a Mário.

- E porque não Pessinunte?

- E porquê Pessinunte? Quer dizer, percebia que fosses a Delfos, ou Olímpia, ou mesmo Dodona. Mas Pessinunte! Uma terra perdida no meio da Anatólia - na Frígial O lugar mais atrasado, mais desconfortável, mais dominado pela superstição que existe ao cimo da terra! Não há lá um único vinho decente, e, quanto a estradas, o melhor que há são caminhos de cavalos! Pastores rudes e brutos por todo o lado, e selvagens da Galácia moendo cereais na fronteira! Francamente, Caio Mário! Ou será que estás ansioso por ver Bataces com o seu traje adornado a ouro e jóias na barba? Se é isso, chama-o de novo a Roma! Tenho a certeza de que ele ficaria encantado em reatar as suas relações com algumas das nossas mais modernas matronas - as quais, desde que ele se foi embora, ainda não pararam de chorar.

Mário e Sila há muito que riam antes de Rutílio Rufo concluir tão veemente discurso; e, de súbito, todos os constrangimentos tinham desaparecido, e os três homens sentiam-se à vontade e em perfeita consonância.

- Vais ver o rei Mitridates - disse Sila, e não se tratava de uma pergunta.

Sob as sobrancelhas contorcidas, Mário exibiu um sorriso de todo o tamanho.

- Mas é extraordinário, Lúcio Cornélio! O que te leva a pensar isso?

- O facto de te conhecer, Caio Mário. És um sacana de um ímpio, é o que tu és! Os únicos votos que alguma vez te ouvi fazer tinham todos a ver com legionários ou conceituados tribunos dos soldados: votos para que levassem um bom pontapé no traseiro! Um motivo apenas te leva a arrastar a tua velha e gorda carcaça para as vastidões da Anatólia: tu queres ver com os teus próprios olhos o que se passa na Capadócia, e até que ponto o rei Mitridates tem a ver com o caso - disse Sila, com um sorriso de felicidade que não se lhe via há muitos meses.

Mário virou-se para Rutílio Rufo, com uma expressão de espanto.

- Espero não ser tão transparente aos olhos de toda a gente como o sou aos olhos de Lúcio Cornélio!

Agora era a vez de Rutílio Rufo sorrir.

- Duvido muito que alguém adivinhe as tuas intenções - disse. Quanto a mim, olha que acreditei nos teus votos, meu grande sacana! Que ímpio me saíste!

Sem querer (ou assim pareceu a Rutílio Rufo) Mário virou-se para Sila; e, num instante, estavam de novo a discutir mais uma estratégia grandiosa.

- O problema é que as nossas fontes de informação não merecem o mínimo crédito - disse Mário, num tom animado. - Quer dizer, que pessoa com algum valor ou engenho viajou por essa parte do mundo nos últimos tempos? Homens Novos que subiram, no máximo, ao cargo de pretor: ninguém em quem eu confie para obter informações precisas. Na realidade, que sabemos nós daquelas paragens?

- Muito pouco - retorquiu Sila, completamente absorvido. - Houve algumas incursões na Galácia, lançadas por Nicomedes, a ocidente, e por Mitridates, a leste. Até que há alguns anos, o velho Nicomedes se casou com a mãe do jovem rei da Capadócia. Naquela época, creio, ela era regente do reino. E Nicomedes passou a intitular-se Rei da Capadócia.

- Até aí chegou ele - disse Mário. - Coitado, deve ter sofrido muito quando Mitridates instigou o assassínio da rainha e devolveu o trono ao jovem rei - acrescentou, rindo baixinho. - Acabou-se o rei Nicomedes da Capadócia! Provavelmente, pensou que Mitridates o deixaria em paz, já que a rainha assassinada era a irmã de Mitridates!

- E o filho dela continua a reinar na Capadócia... como é o nome dele? Têm nomes tão exóticos... Sim, chama-se Ariárates, não é? perguntou Sila.

- Ariárates VII, para ser mais preciso - retorquiu Mário.

- Achas que se passa lá alguma coisa? - perguntou Sila, com a curiosidade aguçada pelo profundo conhecimento que Mário tinha daquelas tortuosas relações entre povos orientais.

- Não tenho a certeza. Provavelmente não se passa nada, para além das habituais rixas entre Nicomedes da Bitínia e Mitridates do Ponto. Mas imagino que o jovem rei Mitridates do Ponto deve ser uma criatura muito interessante. Gostaria de me encontrar com ele. No fim de contas, Lúcio Cornélio, Mitridates pouco mais tem do que trinta anos, e, no entanto, já conquistou as melhores terras em torno do mar Euxino. Tenho a desagradável impressão de que ele vai causar problemas a Roma - disse Mário.

Achando que já era altura de participar na conversa, Públio Rutílio Rufo pôs a sua taça vazia na mesa em frente do divã, não sem algum barulho, e aproveitou a oportunidade.

- Julgo que estás a pensar que Mitridates cobiça a nossa Província da Ásia - disse ele, acenando com um ar sábio. - Porque não haveria ele de cobiçá-la? Uma província tão rica! E a região mais civilizada do mundo. Basta dizer que é grega desde que os Gregos são Gregos! Homero viveu e trabalhou na nossa Província da Ásia! Já imaginaram? Homero viveu naquela região!

- Se calhar era mais fácil de imaginar se acompanhasses o teu discurso com uma lira - disse Sila, rindo.

- Ora, Lúcio Cornélio, um pouco de seriedade! Duvido que o rei Mitridates considere a nossa Província da Ásia uma coisa sem importância - e nós também não a devemos considerar assim, ainda que gracejemos.

- Creio que ninguém duvida que Mitridates saliva abundantemente só de pensar que a nossa Província da Ásia poderá um dia ser sua comentou Mário.

- Mas ele é um oriental - disse Sila, categórico. - Todos os reis orientais têm um medo terrível de Roma. Até mesmo Jugurta, que estava muito mais ligado a Roma do que qualquer rei oriental, tinha um medo horrível de Roma. Basta reparar nos insultos e indignidades que Jugurta aguentou antes de entrar em guerra connosco. Obrigámo-lo literalmente à guerra.

- Não é essa a minha opinião. Creio que Jugurta sempre quis a guerra - comentou Rutílio Rufo.

- Discordo - contestou Sila, com um ar sério. - Creio que ele sonhava com uma guerra contra nós, mas que compreendia que isso não passava de um sonho. Fomos nós que o obrigámos a entrar em guerra quando Aulo Albino invadiu a Numídia com o único intuito de saquear o país. Na realidade, é assim que as nossas guerras normalmente começam! Um comandante ávido de ouro, que nem crianças devia comandar, vê-se à frente das legiões romanas, e aí vai ele, à conquista do saque: não no interesse de Roma, mas apenas no interesse da sua própria bolsa. Carbão e os Germanos. Cepião e os Germanos. Silano e os Germanos. A lista não tem fim.

- Estás a afastar-te da questão, Lúcio Cornélio - disse Mário, num jeito simpático.

- Desculpa. Sim, de facto estou a afastar-me da questão! Imperturbável, Sila sorriu afectuosamente para o seu antigo comandante.

- De qualquer modo, creio que a situação no Oriente é muito parecida com a situação em África antes da guerra com Jugurta. Todos sabemos que a Bitínia e o Ponto são inimigos tradicionais. Todos sabemos que tanto Nicomedes como Mitridates gostariam de expandir as suas fronteiras, pelo menos dentro dos limites da Anatólia. E, na Anatólia, há duas terras imensamente ricas que fazem as suas reais bocas salivar: a Capadócia e a nossa Província da Ásia. O domínio da Capadócia permite um rápido acesso à Cilícia; além disso, a Capadócia tem um solo fabuloso. A posse da nossa Província da Ásia daria a qualquer um dos reis um acesso absolutamente sem paralelo ao mar Central, meia centena de soberbos portos de mar, e terras fabulosamente ricas.

Um rei não seria humano se não ansiasse conquistar qualquer uma dessas regiões.

- Bom, com Nicomedes da Bitínia não me preocupo eu - interrompeu Mário. - Está amarrado de pés e mãos a Roma, e ele sabe-o. Também não me parece, pelo menos para já, que a nossa Província da Ásia corra algum perigo. O problema chama-se Capadócia.

Síla aquiesceu.

- Precisamente. A Província da Ásia é romana. E não creio que o rei Mitridates seja tão diferente dos seus colegas orientais ao ponto de perder o medo de Roma e tentar invadir a nossa Província, por muito mal governada que ela seja. Mas a Capadócia não é romana. Embora se situe dentro da nossa esfera, parece-me que tanto Nicomedes como o jovem Mitridates consideram que a Capadócia fica demasiado longe e que é, para Roma, um território tão pouco importante que não justificará uma guerra. Em contrapartida, movem-se como ladrões para a roubar, dissimulando os seus intuitos atrás de fantoches e parentes.

Mário pigarreou.

- Não me parece que o casamento do velho rei Nicomedes com a rainha regente da Capadócia tenha sido propriamente furtivo!

- Sim, mas a situação não durou muito, pois não? O rei Mitridates sentiu-se ultrajado ao ponto de matar a própria irmã! E pôs o filho dela no trono num abrir e fechar de olhos.

- Infortunadamente, Nicomedes é que é o nosso Amigo e Aliado oficial, e não Mitridates - disse Mário. - Pena eu não estar em Roma quando isso aconteceu.

- Ora, Mário! Por favor! - disse Rutílio Rufo, indignado. - Os reis da Bitínia são oficialmente considerados nossos Amigos e Aliados há mais de cinquenta anos! Durante a nossa última guerra contra Cartago, também o rei do Ponto foi considerado nosso Amigo e Aliado oficial. Mas o pai deste Mitridates destruiu as hipóteses de amizade com Roma quando comprou a Frígiaao pai de Mânio Aquílio. Roma não mantém desde então qualquer tipo de relações com o Ponto. Além disso, é impossível conceder o estatuto de Amigo e Aliado a dois reis desavindos, a menos que esse estatuto impeça a guerra entre eles. No caso da Bitínia e do Ponto, o Senado decidiu que a concessão do estatuto de Amigo e Aliado aos dois reis só serviria para agravar os problemas entre eles. E isso, por sua vez, significava um prémio para Nicomedes da Bitínia, já que os antecedentes da Bitínia são melhores do que os do Ponto.

- Ora, Nicomedes não passa de uma galinha velha e idiota! replicou Mário impaciente. - Governa o país há mais de cinquenta anos e, além disso, já não era nenhuma criança quando correu com o seu tatá do trono. Aposto que já passou os oitenta. E não pára de envenenar a situação na Anatólia!

- Comportando-se como uma galinha velha e idiota. Suponho que é isso que queres dizer. A réplica fora acompanhada por um olhar franco e directo de Rutílio Rufo, idêntico ao da sua sobrinha Aurélia, embora mais terno. - Não te parece, Caio Mário, que tu e eu estamos muito perto da idade em que nos calha na perfeição o epíteto de galinhas velhas e idiotas?

- Ora, deixem-se disso! Acabem já com essas histórias de capoeira!

- disse Sila, sorrindo abertamente. - Eu percebo onde queres chegar, Caio Mário. Nicomedes está já muito velho, não se sabendo se tem ou não capacidade para governar, embora devamos presumir que a tem. De todas as cortes orientais, a sua é a mais helenizada, mas mesmo assim é oriental. O que significa que, ao mínimo deslize, o filho correria com ele do trono. Portanto, podemos concluir que Nicomedes continua vigilante e manhoso. Contudo, ele é um homem impertinente e rancoroso. Ao passo que, do outro lado da fronteira, no Ponto, temos um homem com pouco mais de trinta anos, vigoroso, inteligente, agressivo e a quem não falta confiança. Não, de facto não é crível que Nicomedes reconheça a superioridade de Mitridates, pois não?

- De facto - concordou Mário. - Creio que temos razões para pensar que se entrarem em guerra aberta, o combate será desigual. Nicomedes conseguiu apenas aferrar-se ao que já tinha no início do seu reinado, ao passo que Mitridates é um conquistador. Sim, sim, Lúcio Cornélio, tenho de ver esse Mitridates! - Mário encostou-se sobre o cotovelo esquerdo e lançou a Sila um olhar ansioso. - Vem comigo, Lúcio Cornélio, peço-te! Que alternativa tens? Mais um ano de chatices em Roma, para mais com o Suíno a dizer os seus disparates no Senado, enquanto o Bacorinho colhe todos os louros possíveis por trazer o tatá para casa.

Mas Sila abanou a cabeça.

- Não, Caio Mário.

- Ouvi dizer - interveio Rutílio Rufo, mordiscando descontraidamente uma unha - que a carta oficial que pôs termo ao exílio em Rodes de Quinto Cecílio Metelo Numídico Suíno foi assinada pelo decano dos cônsules, Metelo Nepo. Francamente, não foi o Bacorinho que a assinou! Do tribuno da plebe Quinto Calídio, que conseguiu a aprovação do decreto pondo termo ao exílio, desse, ninguém fala! Um decreto assinado por um senador muito jovem que, para mais, não passa de um privatusl Mário desatou a rir.

- Pobre Quinto Calídio! Espero que o Bacorinho lhe tenha pago bem pelo trabalho - olhou para Rutílio Rufo. - Pouco mudou, o clã Cecílio Metelo, não é verdade? Quando eu era tribuno da plebe, também me tratavam como lixo.

- Merecidamente - disse Rutílio Rufo. - Nessa época, não fazias outra coisa senão dificultar a vida política de qualquer Cecílio Metelo que aparecesse à tua frente! E depois de eles pensarem que te tinham manietado! Oh, Dalmático era a raiva personificada!

Ao ouvir aquele nome, Sila retraiu-se; sentiu mesmo um rubor subir-lhe às faces. O pai dela, o irmão mais velho do Bacorinho, entretanto falecido. Que seria feito dela, de Dalmática? Que lhe tinha feito Escauro? Desde que Escauro o visitara, Sila nunca mais voltara a vê-la. Corria o boato de que Escauro a proibira de passar a porta da casa.

- A propósito - disse Sila -, confidenciou-me uma fonte de inteira confiança que vai haver um casamento muito conveniente para os interesses do Bacorinho.

As reminiscências esfumaram-se de imediato.

- Não ouvi nada sobre esse assunto! - disse Rutílio Rufo, um tanto desconcertado; é que ele considerava que as suas fontes eram as melhores de Roma.

- Mas é verdade, Públio Rutílio.

- Então conta lá!

Sila atirou uma amêndoa para a boca e, por um momento, mastigou o fruto antes de falar.

- Belo vinho, Caio Mário - disse, enchendo a sua taça com o vinho da jarra que os criados lhe tinham deixado ao alcance da mão. Lentamente, Sila adicionou alguma água ao vinho.

- Ora, Lúcio Cornélio, acaba com o sofrimento dele! - murmurou Mário. - Públio Rutílio é o maior mexeriqueiro do Senado.

- Concordo que é, mas tens de admitir que isso nos proporcionou cartas muito divertidas quando estivemos em África e na Gáulia disse Sila, sorrindo.

- Quem é a mulher? - perguntou Rutílio Rufo, muito pouco interessado em que desviassem a conversa para outros assuntos.

- Licínia Menor, a filha mais nova de nem mais nem menos do que o nosso pretor urbano, Lúcio Licínio Crasso Orador em pessoa.

- Estás a gozar connosco! - disse, ofegante, Rutílio Rufo.

- Não estou, não.

- Mas ela ainda é uma criança!

- Faz dezasseis anos na véspera do casamento, disseram-me.

- Abominável! - resmungou Mário, franzindo tanto as sobrancelhas que estas se uniam.

- Francamente, não há a mínima justificação para um caso desses!

- considerou Rutílio Rufo, sinceramente afectado. - Dezoito anos é a idade certa, nem menos um dia! Somos Romanos, não somos ladrões de crianças orientais!

- Bom, pelo menos o Bacorinho pouco mais tem de trinta - disse Sila com um ar perfeitamente natural. - E que há de novo sobre a esposa de Escauro?

- Quanto menos se falar disso, melhor! - atirou-lhe Públio Rutílio Rufo. A sua irritação abrandara. - Mas repara, Crasso Orador é digno da nossa admiração. Nessa família não há falta de dinheiro para os dotes, mas mesmo assim ele não deixou de fazer belos contratos com as filhas. A mais velha casou-se com Cipião Nasica, calcule-se, e agora a mais nova casa-se com o Bacorinho, filho e herdeiro único. O caso de Licínia já deixava muito a desejar: casada aos dezassete anos com um brutamontes como Cipião Nasica. Não sei se sabem, a rapariga está grávida.

Mário bateu as palmas, chamando pelo mordomo.

- Vão já para casa os dois! Quando a conversa degenera em mexeriquices de velhas, é sinal de que esgotámos todos os assuntos. Grávida! Devias era estar lá em baixo com as mulheres e as crianças, Públio Rutílio!

Todas as crianças dormiam quando a festa acabou. E todas elas, exceptuando, naturalmente, o jovem Mário, tinham de ser levadas para casa pelos pais. Duas liteiras enormes esperavam no caminho, uma para os filhos de Sila, Cornélia Sila e o jovem Sila, a outra para os três filhos de Aurélia, Júlia Maior, a quem chamavam Lia, Júlia Menor, a quem tratavam pelo diminutivo Ju-ju, e o jovem César.

Enquanto homens e mulheres falavam em voz baixa no átrio, um grupo de criados levou as crianças para as liteiras, instalando-as com todo o cuidado.

Enquanto, automaticamente, contava os criados, Júlia reparou que o homem que levava o jovem César não lhe era nada familiar; depois, estupefacta, agarrou Aurélia pelo braço, nervosamente.

- Mas aquele é Lúcio Decúmio! - murmurou ela, ofegante.

- Claro que é - disse Aurélia, surpreendida.

- Não devias fazer isto, Aurélia!

- Disparate, Júlia, Lúcio Decúmio é, para mim, um apoio seguro. Como tu muito bem sabes, a minha viagem até casa não é propriamente das mais sossegadas. Passo por antros de ladrões, salteadores, só os deuses sabem com que gente me cruzo. Sim, só os deuses sabem porque eu, mesmo ao fim de sete anos, não faço a mínima ideia! Não é frequente sair de casa, mas quando o faço, Lúcio Decúmio e mais dois irmãos levam-me sempre de volta. E o jovem César tem o sono leve. No entanto, quando Lúcio Decúmio pega nele, ele nem se mexe, quanto mais acordar.

- Dois irmãos dele? - murmurou Júlia, horrorizada. - Isso quer dizer que tens na tua casa mais gente da qualidade de Lúcio Decúmio?

- Não! - retorquiu Aurélia, desdenhosamente. - Refiro-me aos seus irmãos da congregação, aos seus subordinados, Júlia. - Aurélia parecia irritada. - Oh, francamente, não percebo porque venho a estes jantares familiares, e são tão raras as vezes que venho! Porque será que não consegues entender que eu tenho a minha vida perfeitamente controlada e que não faz sentido que os outros se preocupem comigo, que façam tanto barulho à minha volta?

Júlia nada mais disse até ao momento em que se deitou ao lado de Caio Mário, depois de ter deixado as coisas da casa em ordem, mandado os escravos para os seus dormitórios, fechado a porta da rua, e feito uma oferenda ao trio de deuses que velavam por todos os lares romanos - Vesta, a deusa do lar, os Penates, os deuses das despensas, e os Lares da família.

- A Aurélia hoje não estava nada simpática - disse ela a Caio Mário.

Mário estava cansado, uma sensação agora muito mais frequente e que o envergonhava. Assim, em vez de fazer aquilo por que ansiava - virar-se para o lado esquerdo e adormecer -, deixou-se ficar deitado de costas, envolveu a mulher com o seu braço esquerdo, e resignou-se a alimentar uma conversa sobre mulheres e problemas domésticos.

- Ah, sim? - retorquiu.

- Não podes fazer com que Caio Júlio volte para casa? Aurélia está a transformar-se numa velha virgem vestal retirada do mundo, tudo nela... não sei! Está uma mulher amarga. Rabugenta. Perdeu todo o espírito, toda a vivacidade! Sim, é isso mesmo, perdeu todo o espírito, toda a vivacidade que tinha - disse Júlia. - E aquela criança dá cabo dela.

- Que criança? - murmurou Mário.

- O bebé de vinte e dois meses, o jovem César. Oh, Caio Mário, é uma criança espantosa! Eu sei que tais crianças nascem de quando em quando, mas estou certa de que nunca vi, nem ouvi falar de nenhuma assim junto dos nossos amigos. Quer dizer, todas nós, mães, nos sentimos felizes se os nossos filhos sabem o que são a dignitas e a auctoritas depois de os pais os terem levado pela primeira vez ao Fórum com a idade de sete anos! No entanto, este bebé de vinte e dois meses, esta coisa de nada, já sabe o que essas duas qualidades significam, embora nunca tenha conhecido o pai! Podes ter a certeza, marido, o jovem César é de facto uma criança espantosa.

Júlia estava animada; ocorreu-lhe entretanto um outro caso, suficientemente importante para a fazer mexer-se e remexer-se na cama.

- Ah! Ontem estive a falar com a mulher de Crasso Orador, Múcia. Disse-me ela que Crasso Orador se gaba de ter um cliente com um filho como o jovem César. - Nesse instante, deu uma cotovelada em Caio Mário. - Deves conhecer a família, Caio Mário. São de Arpino.

Mário não ligara a mínima atenção ao que a mulher até então dissera; contudo, a cotovelada e as mexidelas na cama tinham-no acordado definitivamente.

- Arpino? Quem? - perguntou. Arpino era a sua terra natal, a terra dos seus antepassados.

- Marco Túlio Cícero. O cliente de Crasso Orador e o filho têm o mesmo nome.

- Infelizmente conheço de facto a família. Ainda são nossos primos afastados. Uma gente conflituosa! Há cerca de cem anos, roubaram-nos uma parte das nossas terras e acabaram por ganhar o caso no tribunal. Não lhes falamos desde então. As suas pálpebras iam-se fechando.

- Estou a ver. - Júlia aconchegou-se mais junto a ele. - Bom, de qualquer modo, o certo é que o rapaz está agora com oito anos e é tão inteligente que vai estudar para o Fórum. Crasso Orador prevê que ele há-de provocar muita agitação. Creio que quando chegar aos oito anos, o jovem César também dará muito nas vistas.

- Huh! - disse Mário, soltando um bocejo imenso. Ela insistiu na cotovelada.

- O quê, Caio Mário? Já a dormir? Toca a acordar!

Mário abriu os olhos bruscamente, e do fundo da garganta saiu-lhe

como que um ronco.

- Queres-me pôr a correr à volta do Capitólio? - perguntou ele. Com um risinho, Júlia recomeçou.

- Bom, eu nunca vi este Cícero, mas noutro dia encontrei o meu sobrinho, o Caio Júlio César, e uma coisa te posso garantir: o rapaz não é normal. Eu sei que, a maior parte das vezes, utilizamos esse termo para pessoas mentalmente deficientes, mas não vejo por que razão a palavra anormal não possa significar também o contrário.

- Quanto mais velha, mais faladora, Júlia - queixou-se o marido já farto.

Júlia ignorou tal comentário.

- O Jovem César ainda não tem dois anos, mas, ao mesmo tempo, tem quase um século! Diz uma quantidade de palavras difíceis e frases perfeitamente construídas. E sabe o que significam as palavras difíceis!

De súbito, Mário ficou completamente acordado: acabara-se o cansaço. Soergueu-se para fitar a mulher, para fitar aquele rosto sereno brandamente iluminado pela chama do candeeiro. O sobrinho dela! O sobrinho Caio! A profecia de Marta, a Síria, que lhe fora revelada da primeira vez que vira a velha, no palácio de Gauda, em Cartago. Predissera a velha que ele haveria de ser o Primeiro Homem de Roma, e que seria cônsul sete vezes. Mas, acrescentara, ele não seria o maior de todos os Romanos. Esse seria o sobrinho da sua esposa, um sobrinho chamado Caio! Só se for por cima do meu cadáver, dissera ele para si mesmo na altura. Ninguém me há-de eclipsar. E agora, afinal, existia uma criança com aquele nome, um sobrinho de Júlia, um facto vivo.

Voltou a deitar-se: doíam-lhe as pernas e os braços. Consumira demasiado tempo, demasiada energia, demasiada paixão, na batalha pelo título de Primeiro Homem de Roma, para agora aceitar docilmente que o brilho do seu nome fosse ofuscado por um aristocrata precoce que alcançaria a fama quando ele, Caio Mário, já estivesse demasiado velho ou demasiado morto para se lhe opor. Embora amasse muito a mulher, embora admitisse humildemente que fora o nome aristocrático dela que o levara ao primeiro consulado, o certo é que não tinha a mínima vontade de ver o sobrinho dela, sangue do sangue dela, subir mais alto do que ele.

Consulados, tinha ganho seis: faltava agora o sétimo. Ninguém na vida pública romana acreditava seriamente que Caio Mário pudesse alguma vez voltar à sua glória passada, esses anos tranquilos em que as Centúrias tinham votado nele, três vezes in absentia, como prova da sua convicção de que ele, Caio Mário, era o único homem que poderia salvar Roma dos Germanos. Bom, e de facto Caio Mário salvara Roma. E como lhe tinham agradecido os Romanos? Com uma esmagadora vitória política da oposição, com a sua rejeição, com atitudes destrutivas. A persistente inimizade de Quinto Lutácio Catulo César, de Metelo Numídico Suíno, de uma vasta e poderosa facção senatorial unida em torno da queda de Caio Mário. Homens sem valor algum, mas com nomes sonantes, aterrados com a ideia de que a sua querida Roma fora salva por um desprezível Homem Novo - um camponês italiano sem qualquer ascendência grega, como Metelo Numídico Suíno declarara muitos anos antes.

Bom, mas ele ainda não estava acabado. São ou doente, com ou sem trombose, Caio Mário seria de novo cônsul - e ficaria nos livros de História como o maior Romano que a República alguma vez conhecera. Não deixaria que um qualquer descendente da deusa Vénus, de belos traços e cabelo dourado, ficasse à sua frente nos livros que registavam a História: o patrício Caio Mário não o permitiria, o romano Caio Mário não o permitiria.

- Deixa que eu trato-te da saúde, rapaz! - disse ele em voz alta, e abraçou Júlia.

- O quê? - perguntou ela.

- Dentro de alguns dias partimos para Pessinunte, tu, eu e o nosso filho - disse ele.

Ela sentou-se na cama.

- Oh, Caio Mário! É verdade? Que maravilha! Tens a certeza de que nos queres levar contigo?

- Tenho, mulher, tenho a certeza. Estou-me nas tintas para o que dizem as convenções. Vamos estar fora durante dois ou três anos; é demasiado tempo, na minha idade, para estar longe da minha mulher e do meu filho. Se fosse mais novo, talvez. E, já que faço esta viagem na qualidade de privatus, não há nenhum obstáculo oficial a que leve a família comigo - soltou um risinho. - Sou eu quem paga as contas.

- Oh, Caio Mário! - Era tudo o que ela conseguia dizer.

- Visitaremos Atenas, Esmirna, Pérgamo, Nicomedia, e mais um cento de terras.

- E Tarso? - perguntou ela, impaciente. - Oh, eu sempre desejei conhecer o mundo!

Mário tinha ainda dores, mas o sono acabou por dominá-lo. As pálpebras cerraram-se; o maxilar inferior cedeu.

Durante algum tempo Júlia continuou a falar; quando já não tinha mais superlativos, sentou-se abraçada aos joelhos, com um ar radioso. Virou-se então para Caio Mário, com um sorriso terno.

- Meu querido, tu não...? - perguntou delicadamente.

O marido respondeu-lhe ressonando. Boa e dedicada esposa há vinte anos, Júlia abanou a cabeça meigamente, sorrindo sempre, e empurrou-o para o lado direito.

Destruídos os últimos focos da revolta dos escravos na Sicília, Mânio Aquílio regressou a Roma, se não em triunfo, pelo menos com o prestígio suficiente para suscitar no Senado uma calorosa ovação. O facto de não poder reivindicar um triunfo devia-se à natureza do inimigo: civis reduzidos à escravatura não eram o mesmo que soldados de uma nação inimiga; as guerras civis e as guerras contra escravos ocupavam um lugar especial no código militar romano. Ser encarregado pelo Senado de dominar um levantamento civil não era menor honra, nem feito menos valoroso, do que lutar contra um exército estrangeiro e um inimigo; no entanto, no caso das guerras intestinas, recusava-se sempre o direito a clamar triunfo. O triunfo consubstanciava-se na exibição, perante o Povo de Roma, dos prémios de guerra - os prisioneiros, o dinheiro roubado ao inimigo, saques de todo o tipo (desde pregos de ouro de portas outrora reais a pacotes de canela e olíbano). Tudo o que era subtraído aos outros povos enriquecia os cofres de Roma, e o Povo podia ver, com os seus próprios olhos, que a guerra era um negócio extremamente lucrativo - desde que se fosse Romano e vencedor. Porém, nas guerras civis e nas revoltas de escravos, não havia lucros, apenas perdas. Os bens pilhados pelo inimigo e recapturados pelo exército tinham de ser devolvidos aos seus legítimos proprietários. O Estado não podia exigir nenhuma percentagem desses bens particulares.

Por isso foi inventada a ovação. Tal como o triunfo, consistia de uma procissão ao longo da mesma estrada; contudo, o general não seguia no antigo carro triunfal, não pintava o rosto, não vestia trajes triunfais; não se ouviam trombetas, mas apenas o som menos inspirador das flautas; e, em vez de um touro, o Grande Deus recebia uma ovelha, partilhando assim com o general o estatuto secundário da cerimónia.

Aquela ovação deixou Mânio Aquílio perfeitamente satisfeito. Depois de a celebrar, voltou a ocupar o seu lugar no Senado, e, na sua qualidade de ex-cônsul, a sua opinião contava mais que a de um outro qualquer ex-cônsul que não tivesse celebrado um triunfo ou uma ovação. Perseguido pelo inabalável ódio ao seu pai, também Mânio Aquílio de seu nome, concluíra, de início, com algum desespero, que nunca chegaria a cônsul. Havia factos de que era difícil uma pessoa redimir-se, se por acaso a sua família era apenas moderadamente nobre; e o facto em questão era que o pai de Mânio Aquílio, após as guerras que se seguiram à morte do rei Átalo III de Pérgamo, vendera mais de metade do território da Frígiaao pai do actual rei Mitridates do Ponto por uma soma em ouro que fora cair inteira na sua bolsa. Mandava o direito que o território, juntamente com o resto das possessões do rei Átalo, fosse integrado na Província Romana da Ásia, já que o rei Átalo legara o seu reino a Roma. Porque era uma região atrasada e habitada por homens tão ignorantes que nem para escravos serviam, o pai de Mânio Aquílio considerara que Roma pouco perdia se não ficasse com a Frigia. Mas os homens do Senado e do Fórum que dispunham de mais influência não perdoaram tal acção ao pai, nem esqueceram o incidente quando o jovem Mânio Aquílio entrou na arena política.

Lutara muito para chegar a pretor, lutara e gastara a maior parte do que sobrara do ouro do Ponto, e não sobrara muito, já que o pai não se mostrara nem frugal, nem prudente. Por isso, quando viu chegar a sua grande oportunidade, o jovem Mânio Aquílio agarrou-a com unhas e dentes. Depois de os Germanos terem derrotado esse horrendo par constituído por Cepião e Málio Máximo na Gália Transalpina (parecendo perfeitamente preparados para invadirem o vale do Ródano e a Itália), fora o pretor Mânio Aquílio quem propusera que Caio Mário fosse eleito cônsul in absentia, a fim de dispor do poder necessário para enfrentar tal ameaça. A acção de Mânio Aquílio deixou Caio Mário em dívida para com ele - uma dívida que Caio Mário desejava ardentemente pagar.

Por isso, Mânio Aquílio veio a servir como embaixador de Mário e a sua acção foi da máxima importância no que respeita à derrota dos Teutões em Aquae Sextiae. Ao levar para Roma a notícia dessa tão necessária vitória, Mânio Aquílio fora eleito segundo cônsul, em conjunção com o quinto consulado de Mário. E concluído o ano do seu consulado, levara duas das suas legiões de veteranos soberbamente treinadas para a Sicília, a fim de queimar a chaga de uma revolta de escravos que se arrastava há já vários anos, pondo em perigo o abastecimento de Roma em cereais.

De novo em casa, saudado por uma ovação, esperara disputar um lugar de censor quando chegasse a altura própria. Mas os chefes com peso efectivo no Senado e no Fórum tinham estado apenas à espera do momento propício. Caio Mário tinha caído em desgraça após a tentativa de Lúcio Apuleio Saturnino para dominar Roma, e Mânio Aquílio viu-se sem qualquer protecção. Num ápice, foi levado ao tribunal de concussão por um tribuno da plebe com influências poderosas e amigos importantes entre os cavaleiros que serviam como jurados e presidentes dos principais tribunais - o tribuno da plebe Públio Servílio Vátia. Embora nada tivesse a ver com a família patrícia de apelido Servílio, Vátia descendia, no entanto, de uma importante família plebeia nobre. E era sua intenção subir o mais possível.

O julgamento decorreu num Fórum agitado; vários acontecimentos tinham contribuído para essa agitação, designadamente o caso de Saturnino, embora toda a gente esperasse que, após a sua morte, não houvesse mais violência no Fórum, nem mais assassínios de magistrados. No entanto, houvera violência, e assassínios, basicamente em consequência dos esforços do filho de Metelo Numídico Suíno, o Bacorinho, para ajustar contas com alguns dos inimigos do seu inocente pai. Devido à sua árdua luta para trazer o pai de volta a Roma, o Bacorinho recebera um cognome mais adequado: chamavam-lhe agora Quinto Cecílio Metelo Pio. Concluída com êxito essa luta, o Bacorinho Metelo Pio decidiu-se a perseguir os inimigos do pai. Incluindo Mânio Aquílio, que era, muito claramente, um homem de Caio Mário.

Eram poucos os membros da Assembleia da Plebe presentes e, por isso, uma fraca audiência rodeava o local do baixo Fórum Romano escolhido pela Assembleia da Plebe para a realização do julgamento.

- Este caso é, todo ele, manifestamente ridículo - disse Públio Rutílio Rufo a Caio Mário quando chegaram para assistir à última sessão do julgamento de Mânio Aquílio. - Aquilo foi uma guerra contra escravos! Duvido que se possa extorquir seja o que for em toda a Sicília, desde Lilibeu a Siracusa. E não me venham dizer que os agricultores sicilianos, gananciosos como não há outros, não estiveram sempre de olho em Mânio Aquílio! Nem uma moedazinha de cobre deve ter trazido, coitado!

- É uma maneira de o Bacorinho me atacar - disse Mário, encolhendo os ombros. - Mânio Aquílio sabe disso. Está a pagar agora por me ter apoiado.

- E a pagar também por o pai ter vendido a maior parte da Frígia

- acrescentou Rutílio Rufo.

- Sim, também por isso.

O processo decorrera segundo as formalidades determinadas pelo falecido Caio Servílio Gláucia, que devolvera os tribunais aos cavaleiros, excluindo assim os senadores, excepto na qualidade de advogados de defesa. O júri, constituído por cinquenta e um dos mais importantes homens de negócios de Roma, fora nomeado, interpelado e escolhido, a acusação e a defesa tinham feito as suas comunicações preliminares, as testemunhas haviam sido ouvidas. Na última sessão do julgamento, a acusação falaria durante duas horas, a defesa durante três, após o que o júri apresentaria imediatamente o seu veredicto.

Servílio Vátia tinha prestado bons serviços ao Estado; não era mau advogado, e os seus assistentes tinham qualidades evidentes; mas era indubitável que a audiência - muito maior naquele último dia - se juntara para ouvir a artilharia pesada: os advogados que defendiam Mânio Aquílio.

César Estrabão, vesgo, jovem e vicioso, foi o primeiro a falar; era um advogado extremamente bem treinado e a natureza dera-lhe refinados dons retóricos. Seguiu-se-lhe um homem tão dotado que conseguira o cognome suplementar de Orador - Lúcio Licínio Crasso Orador. E Crasso Orador deu lugar a outro homem que obtivera o cognome de Orador - Marco António Orador. Este cognome, Orador, não era apenas fruto do reconhecimento da sua capacidade para falar em público; decorria também de um invulgar conhecimento dos meandros da retórica

- de todos os passos certos e adequados que era necessário dar no decurso de um discurso. Crasso Orador era quem mais sabia de leis, mas António Orador era quem melhor falava.

- Está por um fio - comentou Rutílio Rufo, mal Crasso Orador terminou, dando o seu lugar a António Orador.

A resposta de Mário limitou-se a um resmungo; estava já concentrado no discurso de António Orador, pois queria saber se valia a pena ter pago o que pagara. De facto, Mânio Aquílio não tinha dinheiro para pagar a advogados daquela estirpe, e toda a gente sabia disso. Caio Mário financiava a defesa. De acordo com a lei e os costumes, um advogado não podia solicitar honorários; podia, no entanto, aceitar uma prenda oferecida em sinal de agradecimento por um trabalho bem feito. E à medida que a República foi envelhecendo, o facto de os advogados receberem prendas foi-se tornando algo que toda a gente aceitava. De início, as prendas mais não eram que obras de arte ou móveis, mas se o advogado precisava de dinheiro, era óbvio que acabava por vender tais prendas. Por isso, a partir de certa altura, abandonou-se todo e qualquer tipo de ambiguidade e as prendas passaram a ser em dinheiro. E claro que ninguém falava disso e toda a gente fingia que nada disso acontecia.

- Como é curta a vossa memória, senhores do júri! - exclamou António Orador. - Lembrai-vos, por favor, do que se passou há apenas alguns anos, lembrai-vos daquelas multidões que compareceram no nosso querido Fórum Romano, de barrigas tão vazias como os seus celeiros. Estais já esquecidos de que alguns de vós - havia inevitavelmente meia-dúzia de grandes agricultores no júri - tinham de levar pelo menos cinquenta sestércios por cada modius, tão pouco era o trigo que tinham nos seus celeiros privados? E a multidão adensava-se cada vez mais, e olhava para nós, e gritava de revolta. E tudo isto porque a Sicília, o nosso celeiro, era uma ruína, uma verdadeira Ilíada de infortúnios...

Rutílio Rufo agarrou-se ao braço de Mário e soltou um grito ofendido, horrorizado.

- Tinha de ser! Oh, mas não haverá verme na terra que ataque estes ladrões verbais? Aquele epigrama é meul Uma verdadeira Ilíada de infortúnios! Não te lembras, Caio Mário, que eu te escrevi exactamente a mesma expressão quando estavas na Gália? E tive de aguentar que
Escauro ma roubasse! E agora o que é que acontece? Agora, é usada por toda a gente, e toda a gente diz que é de Escauro!

- Tace! - disse Mário, que só queria ouvir uma voz, a de Marco António Orador.

-... que uma administração inqualificável tornou ainda mais infortunada! Todos estamos lembrados desse inqualificável governo, não é verdade? - O penetrante olhar avermelhado de Marco António Orador fixou-se num rosto com uma expressão ausente, na segunda fila do júri. - Pois não estamos? Deixai então que vos refresque a memória! Os jovens irmãos Lúculo, puniram-no, enviando-o para um exílio indigno de um cidadão. Estou a referir-me, é claro, a Caio Servílio Augure. Há quatro anos que não havia colheitas na Sicília quando o leal cônsul Mânio Aquílio lá chegou. E devo lembrar-vos que da Sicília vem mais de metade do total dos nossos cereais.

Sila foi-se aproximando lentamente, acenou para Mário, e só depois reparou no ainda agitado Rutílio Rufo.

- Que tal vai o julgamento? Rutílio Rufo bufou.

- No que toca a Mânio Aquílio, quem é que poderá adivinhar? O júri quer encontrar qualquer coisa para o condenar, por isso atrevo-me a prever que o condenará. Pretende-se dar uma lição a todos os imprudentes que se dêem ao luxo de apoiar Caio Mário.

- Tacel - rosnou de novo Mário.

Rutílio Rufo afastou-se para um lugar onde Mário não o pudesse ouvir, arrastando Sila consigo.

- No que a ti te toca, Lúcio Cornélio, não se pode dizer que, actualmente, sejas um apoiante indefectível de Caio Mário, pois não?

- Tenho uma carreira a defender, Públio Rutílio, e duvido que o possa fazer apoiando Caio Mário.

Rutílio Rufo deu-lhe razão com um mero aceno.

- Sim, é compreensível. Mas, meu amigo, Mário não merece isso! Mário merece que aqueles de entre nós que o conhecem e que têm consideração por ele se mantenham do seu lado.

Aquilo era um ataque claro; Sila curvou-se um pouco e murmurou o que lhe ia na alma.

- Conversa tens tu muita! Mas repara, já foste cônsul, tiveste os teus tempos de glória! Eu não! Podes chamar-me traidor se quiseres, mas juro-te, Públio Rutílio, juro-te que também eu terei os meus dias de glória! E que os deuses ajudem os que se opõem.

- Incluindo Caio Mário?

- Incluindo Caio Mário.

Rutílio Rufo nada mais disse. Limitou-se a abanar a cabeça, desesperado.

Também Sila se calou por um momento. Até que disse:

- Consta que os Celtiberos se estão a revelar demasiado fortes e a causar demasiados problemas ao nosso actual governador da Hispânia Citerior. Na Hispânia Ulterior, Dolabela está tão apoquentado com os Lusitanos que nem põe a hipótese de ir ajudá-lo. Parece que Tito Dídio terá de ir para a Hispânia Citerior durante o seu consulado.

- Que pena! - disse Rutílio Rufo. - Eu gosto do estilo de Tito Dídio, ainda que ele seja um Homem Novo. Leis sensatas são coisa rara e, neste caso, é o próprio cônsul o seu autor.

Sila fitou-o com um sorriso largo.

- O quê? Estás a querer dizer-me que o nosso querido cônsul Metelo Nepos desistiu das leis?

- Digo-o tanto como tu, Lúcio Cornélio. Já viste algum Cecílio Metelo mais interessado em melhorar o funcionamento do governo do que em promover-se pessoalmente? Aquelas duas leis de Tito Dídio são tão importantes quanto benéficas. Acabaram-se as pressas nas Assembleias, porque agora devem passar três dias nundinae entre a promulgação e a ratificação. E acabou-se a mania de juntar assuntos que não têm nada a ver uns com os outros para fazer leis tão confusas quanto impraticáveis. Sim, se nada de bom aconteceu este ano no Senado nem nos Comícios, pelo menos temos as leis de Tito Dídio disse Rutílio Rufo satisfeito.

Mas Sila não estava nada interessado nas leis de Tito Dídio.

- Tudo isso é muito bonito, Públio Rutílio, mas não percebeste onde quero chegar! Se Tito Dídio vai para a Hispânia Citerior a fim de controlar os Celtiberos, eu irei com ele como seu lugar-tenente. Já falei com ele, e mostrou-se muito receptivo. Vai ser uma guerra demorada e tortuosa e por isso haverá despojos a partilhar e reputações a firmar. Quem sabe? Até é possível que eu chegue a comandar um exército.

- Reputação militar já a tens, Lúcio Cornélio.

- Mas repara em todo o cacat entre esses tempos e os dias de hoje! - exclamou Sila irado. - Eles já se esqueceram, todos esses eleitores idiotas com mais dinheiro que cabeça! Por isso o que é que acontece? Catulo César preferiria que eu estivesse morto, com medo
de que eu abra a boca e fale de motins, e Escauro castiga-me por uma coisa que eu nunca fiz. Viam-se-lhe os dentes enquanto falava. Esses dois vão ter que sofrer! Porque se algum dia eu concluir que eles me afastaram para sempre da cadeira de marfim, podes ter a certeza de que farei com que desejem nunca ter nascido!

E eu acredito nele!, pensou Rutílio Rufo, dando-se conta de uma frialdade nos ossos. Oh, não há dúvida, este homem é perigoso! Será melhor que se ausente.

- Então vai para a Hispânia com Dídio - disse Rutílio Rufo. Tens razão, é a melhor maneira de chegares a pretor. Começar de novo, uma nova reputação. Mas é pena não seres eleito edil curul. És um homem com imenso talento para o espectáculo. Organizarias jogos magníficos! E mais tarde, poderias obter uma vitória esmagadora nas eleições para pretor.

- Não tenho dinheiro que chegue para ser edil curul.

- Caio Mário dar-to-ia.

- Não lho pedirei. Tudo o que tenho, fui eu que o obtive. Pelo menos posso gabar-me disso. Ninguém mo deu - fui eu que o consegui.

Ao ouvir tal resposta, Rutílio Rufo lembrou-se do boato que Escauro espalhara acerca de Sila durante a campanha para as eleições pretorianas; segundo esse boato, Sila matara a amante para obter o dinheiro necessário à sua promoção a cavaleiro, e matara mais tarde a madrasta para obter um censo senatorial. Rutílio Rufo rejeitara tal boato, tal como rejeitava todos os disparates que habitualmente circulavam a propósito de Sila: relações íntimas com mãe e irmãs e filhas e rapazinhos, isto para não falar das histórias de refeições de excrementos. Mas às vezes Sila dizia cada uma! E uma pessoa ficava a pensar, lá isso ficava...

Houve um ligeiro tumulto no tribunal; Marco António Orador estava a chegar ao fim.

- Este homem que aqui têm à vossa frente não é um homem vulgar! - exclamou.

- ´-É um dos melhores entre os melhores Romanos, um soldado - um soldado valente! -, um patriota, um homem que crê na grandeza de Roma! Porque haveria um homem tão notável de entreter-se a surripiar baixelas de peltre aos camponeses, a roubar sopa de azedas aos criados e pão de má qualidade a padeiros? Respondei, senhores do júri! Ouvistes falar porventura de peculatos escandalosos, de assassínios, de violações, de dilapidação? Não! O que todos ouvimos foram as duvidosas histórias de uma série de homenzinhos mesquinhos, chorando a perda de dez moedas de bronze, ou de um livro, ou de uma pescaria!

Respirou fundo. Ao fazê-lo, pareceu ainda maior do que era: tinha o belíssimo físico de todos os Antonianos, o cabelo castanho-avermeIhado, encaracolado, a expressão tranquilizadora de alguém que nunca poderia ser um intelectual. Não havia membro do júri que não se sentisse fascinado por ele.

- Tem-nos na mão - disse Rutílio Rufo placidamente.

- Interessa-me mais saber o que Marco António pretende fazer com eles - disse Sila, com um ar atento.

Ouviram-se então gritos sufocados, exclamações de espanto. António Orador correu para Mânio Aquílio e., parecia agredi-lo! Mas não, não se tratava de uma agressão. Num ápice, Marco António tirou-lhe a toga, depois pegou na túnica com as duas mãos e rasgou-a com a mesma facilidade com que se rasga um trapo alinhavado à pressa, e deixou Mânio Aquílio unicamente vestido com uma tanga.

- Reparem bem! - exclamou António, numa voz tonitruante. - Será porventura esta a pele branca e diáfana de uma saltatrix tonsal Vedes porventura neste corpo a flacidez, a pança, de um glutão que não sai de casa? Não! O que estais a ver são cicatrizes. Cicatrizes de guerra, dúzias delas. Este é o corpo de um soldado, um soldado corajoso e valente, um Romano dos melhores, um chefe em que Caio Mário confiou tanto que lhe deu a tarefa de ir por detrás das linhas inimigas e de as atacar pela retaguarda! Este é o corpo de um homem que não fugiu aos gritos do campo de batalha quando uma espada lhe acertou, quando uma lança lhe esfacelou a coxa ou uma pedra o derrubou! Este é o corpo de um homem que tratou feridas graves como se fossem meros arranhões e que assim se manteve no campo de batalha, despedaçando o inimigo! - As mãos do advogado esvoaçaram no ar e, logo de seguida, caíram molemente junto ao corpo. - Mas basta. Já chega. Dai-me o vosso veredicto - disse ele, sem mais.

E o júri deu o veredicto. ABSOLVO.

- Mas que grande história! - disse Rutílio Rufo, torcendo o nariz a tudo o que acabava de ver. - Como é que os jurados foram naquela conversa, naquele espectáculo? A túnica dele desfaz-se como papel, e ei-lo que fica de tanga em pleno tribunal! Por amor de Júpiter! Que me dizes disto?

- Que Aquílio e António tinham tudo muito bem preparado retorquiu Mário, com um sorriso largo.

- Quanto a mim, parece-me que Aquílio não correria grande risco se ficasse sem a tanga - comentou Sila.

Após a risada que se seguiu, Rutílio Rufo disse a Mário:

- Lúcio Cornélio diz que vai para a Hispânia Citerior com Tito Dídio. O que é que tu achas?

- Acho que é o melhor para Lúcio Cornélio - retorquiu calmamente Mário. - Quinto Sertório vai disputar o cargo de tribuno dos soldados, por isso quer-me parecer que também ele irá para a Hispânia.

- Não pareces muito surpreendido - disse Sila.

- E não estou. Seja como for, as notícias acerca da Hispânia serão conhecidas de todos amanhã. Há uma reunião do Senado convocada para o templo de Belona. E daremos a Tito Dídio a guerra contra os Celtiberos - disse Mário. - Tito Dídio é um bom homem. Um soldado impecável e um general com algum talento, penso eu. Especialmente quando combate contra Gauleses. Sim, Lúcio Cornélio, será melhor para ti, do ponto de vista eleitoral, ires para a Hispânia como lugar-tenente do que andares a percorrer a Anatólia com um privatus.

O privatus partiu na semana seguinte para Tarento, onde o esperava o barco para Patras. De início, sentiu-se um tanto confuso e desorientado, pois levava consigo a mulher e o filho: era a primeira vez que viajava com tal companhia. O soldado berrava ordens para os civis e viajava tão leve e depressa quanto podia. Mas as esposas, como Caio Mário veio a descobrir, tinham ideias completamente diferentes. Júlia resolvera trazer metade da casa consigo, incluindo um cozinheiro especializado em comida para crianças, mais o pedagogo do jovem Mário, e uma rapariga que fazia milagres com o cabelo dela. Nas bagagens seguiam todos os brinquedos do jovem Mário, mais os seus livros escolares e a biblioteca privada do pedagogo, bem como roupas para todas as circunstâncias e artigos que Júlia temia não encontrar fora de Roma.

- Nós três levamos mais bagagem e criados do que o rei dos Partos quando se muda de Seleucia do Tigre para Ecbátana, para passar o Verão - resmungou Mário ao fim de três dias de viagem pela Via Latina. E com razão: encontravam-se ainda em Anágnia.

Mário suportou tal situação durante mais três semanas, altura em que chegaram a Venúsia, na Via Ápia, atrasados por causa do calor e incapazes de encontrarem uma estalagem suficientemente grande para albergar todos os criados e bagagens.

- Isto não pode continuar assim! - berrou Mário, depois de as bagagens e os criados menos necessários terem sido mandados para outra estalagem, e num momento em que ele e Mia estavam tão sós quanto o permitia uma estalagem de posta da Via Ápia. - Júlia, ou simplificas as coisas, ou tu e o jovem Mário voltam para Cumas, e passam lá o Verão. Não vamos passar meses sem conta em regiões incivilizadas e por isso não precisamos de metade desta barafunda! E não precisamos de tanta gente! Um cozinheiro para o jovem Mário! Francamente!

Júlia estava cheia de calor, exausta e prestes a chorar; aquelas férias maravilhosas eram afinal um pesadelo de que nunca mais conseguia acordar. Ao ouvir o ultimato, a primeira coisa em que pensou foi em aproveitar a oportunidade e regressar a Cumas; porém, no momento seguinte, lembrou-se de que iria estar muito tempo sem ver Mário, e este sem ver o filho. E ocorreu-lhe que, naquelas terras incertas e estranhas, talvez ele pudesse sofrer outra trombose.

- Caio Mário, as únicas viagens que fiz foram a Cumas e Arpino, onde temos as nossas villas. E quando eu e o jovem Mário vamos para Cumas ou Arpino, é assim que vamos: com estes criados e estas bagagens. Compreendo o teu ponto de vista. E gostaria muito de te ser agradável. Levou a mão à cara e, furtivamente, limpou uma lágrima.

- O problema é que não sei como. Não faço a mínima ideia do que hei-de fazer.

Nunca na sua vida Mário pensara ouvir Júlia admitir que algo a ultrapassava! Compreendendo quão dura era para ela uma tal confissão, puxou-a para si, abraçou-a, e deu-lhe um beijo na cabeça.

- Não tem importância, eu trato de tudo - disse ele. - Mas sendo assim, há uma coisa em que tenho de insistir.

- Tudo o que queiras, Caio Mário, tudo o que queiras!

- Sempre que eu dispense uma coisa ou uma pessoa que aches necessária, não ouvirei da tua boca um único comentário! Nem uma palavra. Entendido?

Suspirando de prazer e abraçando-o com toda a sua força, Júlia fechou os olhos.

- Entendido - disse.

Depois desta cena, a viagem prosseguiu célere e nas melhores condições; para sua grande surpresa, Júlia viajava agora mais confortavelmente. Sempre que possível, a meio de uma viagem, a nobreza romana descansava em villas privadas que, quando não pertenciam a amigos, abriam as suas portas graças a uma carta de apresentação; era uma forma de hospitalidade que mais tarde ou mais cedo seria retribuída e que, portanto, não era sentida como uma imposição. Porém, passada Benevento, tiveram de recorrer quase sempre a estalagens, nenhuma das quais, concluía agora Júlia, poderia ter albergado toda a gente e todas as bagagens que inicialmente traziam.

Impiedoso, o calor não abrandava, já que a ponta sul da península era uma região seca e despida de sombras ao longo das estradas principais; porém, a velocidade a que agora viajavam quebrava pelo menos a monotonia, além do que permitia mais paragens sempre que houvesse água - um rio onde podiam nadar, ou uma cidade de casas de lama e telhados planos que, com um aguçado sentido do comércio, oferecia banhos aos viandantes.

Por isso foi com grande alegria que chegaram às férteis planícies costeiras, colonizadas pelos Gregos, que anunciavam Tarento. E foi com júbilo que entraram nesta cidade, que continuava a ser mais grega que romana, menos importante agora do que nos tempos em que fora o término da Via Ápia. A maior parte do tráfego seguia agora para Brundísio, o principal ponto de partida entre a Itália e a Macedónia. Com as suas casas caiadas de branco e o seu ar austero, fazendo um contraste impressionante com o azul do céu e do mar, o verde dos campos e das florestas, e os tons ferruginosos e cinzentos das montanhas, Tarento confessou-se encantada por poder receber o grande Caio Mário. A família ficou na casa fresca e confortável do chefe etnarca; etnarca, embora fosse cidadão romano e afirmasse que se sentia mais à vontade se lhe chamassem duúnviro.

Tal como acontecera em muitos outros locais ao longo da Via Ápia, Mário e os homens mais importantes da cidade reuniram-se para falar de Roma, e de Itália, e das tensões que se verificavam entre Roma e os seus Aliados Italianos. Tarento era uma colónia latina e os seus primeiros magistrados - os dois duúnviros - tinham direito a assumir integralmente a cidadania romana para si mesmos e para a sua posteridade. As suas raízes, porém, eram gregas, tão ou mais velhas que Roma; Tarento fora um posto avançado de Esparta e, tanto na cultura como nos hábitos, mantinham-se as velhas influências espartanas.

Descobriu Mário que havia na cidade um grande ressentimento em relação a Brundísio e que este ressentimento conduzira a uma atitude de grande simpatia pelos cidadãos aliados italianos no seio dos estratos mais baixos da cidade.

- Demasiados soldados aliados italianos morreram ao serviço de exércitos romanos comandados por imbecis - comentou com veemência o etnarca. - E agora, as suas terras estão por lavrar e os filhos não têm pai. E já não há dinheiro na Lucânia, no Sâmnio, na Apúlia! Os Aliados Italianos são obrigados a equipar as suas legiões de auxiliares, e depois ainda têm de pagar para as manter no campo de batalha defendendo Roma! E para quê, Caio Mário? Para que Roma possa manter uma estrada entre a Gália Italiana e a Hispânia? Para que serve essa estrada para um habitante da Apúlia ou da Lucânia? Alguma vez a usará? Para que Roma possa trazer o trigo de África e da Sicília para alimentar as bocas romanas? Em tempo de fome, qual é a parte de trigo que cabe a uma boca samnita? Há muitos anos que os Romanos de Itália deixaram de pagar impostos directos a Roma. Mas nós, gente da Apúlia e da Calábria, da Lucânia e de Brútio, continuamos a pagá-los! Suponho que devíamos agradecer a Roma a construção da Via Ápia

- ou pelo menos Brundísio devia. Mas quantos superintendentes da Via Ápia nomeou Roma capazes de a manterem num estado minimamente decente? Há uma secção - deves ter passado por ela onde uma inundação destruiu o próprio leito da estrada já lá vão vinte anos. E essa secção foi reparada? Não! E será reparada? Não! E no entanto Roma obriga-nos ao pagamento do dízimo e de outros impostos, e leva-nos os nossos jovens para lutarem nas guerras que trava no estrangeiro, e os nossos jovens morrem, e, mal nos precavemos, bate-nos à porta um proprietário romano que nos leva as nossas terras. Traz escravos para cuidarem dos seus imensos rebanhos, obriga-os a um trabalho incessante, mete-os em barracões para dormirem, e compra um novo escravo sempre que algum morre. Connosco nada gasta, nada investe. Não vemos um único sestércio do dinheiro que ele vai acumulando; e não emprega nenhum dos nossos homens. Não contribui em nada para a nossa prosperidade, bem pelo contrário. Chegou a hora, Caio Mário, chegou a hora de Roma se mostrar mais generosa connosco. Ou então que nos restitua a liberdade!

Mário escutara impassível este longo e emotivo discurso, uma versão mais cuidada das muitas conversas que ouvira ao longo da Via Ápia.

- Farei o que puder, Marco Pórcio Cleónimo - disse ele, com um ar grave. - De facto, já há alguns anos que venho tentando fazer alguma coisa. Tive pouco êxito, e isso deve-se, basicamente, ao facto de muitos membros do Senado, precisamente aqueles que em Roma ocupam posições mais elevadas, não viajarem como eu, nem falarem com os habitantes das várias regiões, nem - que Apolo os ajude! usarem os olhos para ver. Sabes com certeza que protestei inúmeras vezes contra o imperdoável desperdício de vidas nos nossos exércitos romanos. E creio que os tempos em que os nossos exércitos eram chefiados por imbecis já passaram há muito. Eu levei o Senado de Roma a entender o problema, já que mais ninguém o faria. Desde que Caio Mário, o Homem Novo, mostrou a todos esses nobres amadores romanos o que era o generalato, o Senado passou a entregar mais frequentemente a chefia dos exércitos romanos a Homens Novos com provas dadas a nível militar.

- Tudo isto está muito certo, Caio Mário - retorquiu afavelmente Cleónimo. - Mas nada poderá fazer reviver os mortos, nem trazer de volta os filhos para as nossas terras empobrecidas.

- Eu sei.

E quando o seu navio se fez ao mar, desfraldando as suas enormes velas quadradas, Caio Mário encostou-se à amurada e viu Tarento e a sua enseada transformarem-se lentamente numa mancha azul até desaparecer por completo. E de novo reflectiu sobre a difícil situação dos Aliados Italianos. Devia-se o seu interesse ao facto de muitas vezes lhe terem chamado Italiano - logo, não-Romano? Ou seria porque realmente havia em si um entranhado sentido de justiça, apesar de todos os seus erros e fraquezas? Ou seria muito simplesmente por não conseguir suportar a ineficácia dos irresponsáveis que estavam por detrás de tudo aquilo? De uma coisa estava inteiramente convicto: um dia viria em que os Aliados Italianos de Roma pediriam contas. Pediriam a integral cidadania romana para todos os homens de toda a península italiana, e talvez mesmo para as gentes da Gália Italiana.

Um riso claro interrompeu-lhe as reflexões; soergueu-se, virou-se, e viu o filho mostrando que era um bom marinheiro, pois o navio avançava agora ao sabor de uma brisa forte, e um mau marinheiro já teria por certo vomitado. Também Júlia tinha uma expressão alegre e confiante.

- A maior parte da minha família sempre se deu bem com o mar

- disse ela quando Mário se aproximou. - O meu irmão Sexto é o único que se dá mal, provavelmente por causa da asma.

O navio para Pairas cumpria aquela rota permanentemente, e fazia tanto dinheiro com os passageiros como com a carga; por isso era bastante mau o camarote de que Mário dispunha no convés. Contudo, era indubitável que Júlia, ao desembarcar em Patras, estava contente. Como Mário tencionava atravessar o golfo de Corinto, Júlia recusou-se a sair de Patras até ter a certeza de que fariam uma peregrinação a Olímpia.

- É muito estranho - disse ela, montada num burro - que o maior santuário de Zeus fique escondido num local remoto do Peloponeso. Não sei porquê, mas sempre imaginei que Olímpia ficava no sopé do monte Olimpo.

- É típico dos Gregos esconderem os santuários, que se há-de fazer? - retorquiu Mário, que estava ansioso por chegar à Província da Ásia, mas não tivera coragem de recusar a Júlia aquele prazer tão desejado. Viajar com uma mulher não era propriamente divertido, concluíra já Caio Mário.

Contudo, ao chegar a Corinto, Mário ficou mais alegre. Cinquenta anos antes, quando Múmio saqueara a cidade, todos os seus tesouros haviam sido levados para Roma. A cidade não mais recuperara desse assalto. Concentrada em torno do sopé de um enorme monte rochoso chamado Acrocorinto, muitas das suas casas encontravam-se abandonadas e em ruínas, de portas abertas, batendo lugubremente ao sabor do vento.

- Esta era uma das cidades onde eu pretendia instalar os meus veteranos - disse Mário, num tom algo severo, enquanto avançavam pelas ruas arruinadas de Corinto. - Repara bem nesta cidade e diz-me se ela não está mesmo a precisar de novos cidadãos! Imensa terra pronta a ser cultivada, um porto no mar Egeu e outro no mar Jónio, três requisitos que bastavam para fazer dela um empório florescente. E o que é que eles me fizeram? Rejeitaram a minha lei agrária.

- Porque Saturnino a tinha aprovado - disse o jovem Mário.

- Precisamente. E porque aqueles loucos do Senado não conseguem entender que é da máxima importância dar um bocado de terra aos soldados da ralé, a partir do momento em que passam à reserva. Eu abri os nossos exércitos ao povo miúdo, dei sangue novo a Roma, o sangue novo de uma classe de cidadãos que nunca fizera nada de útil antes. E esses soldados, vindos das classes trabalhadoras e sem propriedades, mostraram o seu valor: na Numídia, em Aquae Sextiae, em Vercelas. Lutaram tão bem ou melhor do que o antigo soldado, por muito valoroso que este fosse. Mas não podem deixar o exército e voltar para os bairros miseráveis de Roma! Têm de lhes dar terra, eles precisam de terra para cultivar. Eu sabia que a Primeira Classe e a Segunda Classe nunca aprovariam que lhes fossem dadas terras públicas romanas dentro da Itália; por isso apresentei leis que previam a sua instalação em terras como esta, em terras que têm fome de novos cidadãos. Esses soldados levariam Roma para as províncias, e conseguiriam para Roma amigos eternos. Infelizmente, os chefes do Senado e os chefes dos cavaleiros consideram Roma algo de exclusivo. Eles acham que os hábitos e o modo de vida de Roma não devem ser disseminados pelo mundo.

- Quinto Cecílio Metelo Numídico - disse o jovem Mário, com uma expressão de ódio; o filho de Mário crescera numa casa em que esse nome nunca fora pronunciado com amor ou afecto: e quando o pronunciavam nunca esqueciam a alcunha, Bacorinho. O jovem Mário, contudo, achava melhor não referir a alcunha em frente da mãe, que teria ficado horrorizada se o ouvisse dizer tal palavra. De facto, Bacorinho significava, na gíria infantil, os órgãos genitais das meninas.

- Quem mais?

- Marco Emílio Escauro Princeps Senatus, e Cneu Domício Aenobarbo Pontifex Maximus, e Quinto Lutácio Catulo César, e Públio Cornélio Cipião Nasica...

- Já chega. Juntaram todos os seus clientes e organizaram uma facção demasiado poderosa mesmo para mim. E o ano passado revogaram a maior parte das leis de Saturnino.

- A lei dos cereais e os decretos sobre a terra - disse o jovem Mário, que se estava a dar muito bem com o pai agora que se encontravam longe de Roma, e que, além disso, gostava de ficar bem visto.

- Excepto o primeiro decreto agrário, aquele que instalou os meus soldados da ralé nas ilhas africanas - disse Mário.

- Marido, isso faz-me lembrar uma coisa que te queria dizer interrompeu Júlia.

Mário lançou um expressivo olhar na direcção do filho, mas Júlia prosseguiu serenamente.

- Quanto tempo tencionas manter Caio Júlio César naquela ilha? Ele não pode voltar para casa? - perguntou Júlia. - Para bem de Aurélia e das crianças, Caio Júlio César devia voltar para casa.

- Preciso dele em Cercina - retorquiu secamente Mário. - Ele não é um chefe de homens, mas nunca nenhum comissário trabalhou mais ou melhor do que ele em qualquer projecto agrário. Enquanto Caio Júlio César estiver em Cercina, o trabalho far-se-á, as queixas serão mínimas e os resultados esplêndidos.

- Mas ele já lá está há tanto tempo! - protestou Júlia. - Há três anos!

- E pode ser que esteja mais três anos. - Mário não ia desistir. Sabes perfeitamente que as comissões agrárias são coisas demoradas. Há sempre muito que fazer: vigiar, conferenciar, indemnizar, resolver confusões infindáveis, vencer a resistência local. Caio Júlio faz o seu trabalho com uma eficácia notável. Não, Júlia! Nem mais uma palavra! Caio Júlio só voltará de Cercina quando o seu trabalho estiver concluído.

- Nesse caso, não posso deixar de lamentar a sorte da mulher e dos filhos de Caio Júlio.

Mas a compaixão de Júlia era escusada; Aurélia sentia-se perfeitamente bem com a sua sorte, e o marido pouca falta lhe fazia. Não que Aurélia não amasse o marido ou negligenciasse os deveres de esposa; a questão é que, enquanto Caio Júlio estivesse em Cercina, ela poderia fazer o seu trabalho sem temer a reprovação e as críticas do marido, ou mesmo (quisessem os deuses que tal nunca acontecesse!) a proibição de trabalhar.

Quando se casaram e foram viver para o maior dos dois apartamentos térreos dentro da ínsula que constituía o seu dote, Aurélia descobriu que o marido esperava que ela levasse o tipo de vida que seria normal caso vivessem numa domus privada do Palatino. Uma vida aprazível, uma vida de elite, uma vida sem sentido. O tipo de vida que tão veementemente criticara na sua conversa com Lúcio Cornélio Sila. Uma vida tão enfadonha e tão privada de desafios acabaria fatalmente por conduzir a aventuras amorosas. Consternada e frustrada, Aurélia soube que César não aprovava que ela se relacionasse com os inquilinos dos nove andares de apartamentos: César preferia que ela recorresse a cobradores de rendas, e esperava que ela limitasse a sua vida às paredes do exíguo espaço da casa.

Mas Caio Júlio César era um nobre de uma antiga casa aristocrática e tinha os seus próprios deveres a cumprir. Preso a Caio Mário pelo casamento e pela falta de dinheiro, César iniciara a sua carreira públic ao serviço de Caio Mário, primeiro como tribuno dos soldados, depois como tribuno militar, e, finalmente, depois de uma questura e da entrada para o Senado, como o comissário agrário encarregado de instalar a soldadesca veterana de Caio Mário na ilha de Cercina, situada na Sirte Menor. Todas estas obrigações tinham-no levado para longe de Roma, a primeira vez pouco depois do casamento. Fora um casamento por amor, premiado com o nascimento de três filhos, duas meninas e um rapaz; César não vira nascer nenhum deles, nem acompanhara a sua infância. De uma rápida visita a casa resultava uma gravidez de Aurélia, e depois César ausentava-se durante meses, ou mesmo anos.

Quando Caio Mário casou com Júlia, irmã de César, a casa de Júlio César estava completamente falida. Uma adopção providencial do primogénito permitira que o outro ramo da casa ficasse com os fundos suficientes para que os restantes dois filhos chegassem ao consulado; o filho adoptado chamava-se agora Quinto Lutácio Catulo César. Mas o pai de César (avô César, como era agora conhecido, muito tempo depois da sua morte) tinha dois filhos e duas filhas, e o seu dinheiro chegava apenas para um dos filhos. Até que teve a brilhante ideia de convidar Caio Mário, extremamente rico mas de muito baixa extracção, a escolher uma das suas filhas. Foi o dinheiro de Caio Mário que recheou os dotes das jovens e que deu a César os seus seiscentos iugera de terra perto de Bovilas, o que era mais do que o necessário para ter acesso ao censo senatorial. Fora o dinheiro de Caio Mário que varrera todos os obstáculos do caminho do ramo mais novo - o ramo do avô César - da casa de Júlio César.

O próprio César tinha, com algum esforço, usado de toda a sua cortesia e gentileza para se mostrar sinceramente grato, apesar de o seu irmão mais velho, Sexto, ter adoptado a atitude contrária, afastando-se lentamente do resto da família após o casamento. César sabia perfeitamente que, sem o dinheiro de Mário, não estaria sequer em condições de ser eleito para o Senado; por outro lado, sem esse dinheiro, escusaria de fazer projectos para os filhos. Como é evidente, foi também o dinheiro de Caio Mário que lhe permitiu casar-se com a bela Aurélia, filha de uma casa nobre e próspera e, além disso, uma mulher desejada por muitos.

Se tivessem insistido junto de Mário, César e Aurélia teriam facilmente conseguido uma residência privada no Palatino ou nas Carinas; além disso, o tio e padrasto de Aurélia, Marco Aurélio Cota, pedira-lhe que gastasse parte do seu dilatado dote na compra dessa residência privada. Mas o jovem casal decidira seguir o conselho do avô César, e renunciar ao luxo que era viver em completo isolamento. O dote de Aurélia fora investido numa ínsula, um edifício de apartamentos no qual o jovem casal poderia viver até que a carreira de César lhe permitisse comprar uma domus numa zona mais agradável da cidade. E não seria difícil encontrar uma zona mais agradável, pois a ínsula de Aurélia ficava no coração de Subura, o bairro mais populoso e mais nobre de Roma, encravado no declive entre o monte Esquilino e o monte Viminal uma massa fervilhante de gente de todas as raças e credos, onde não faltavam romanos da Quarta e da Quinta Classes e a mais baixa ralé.

No entanto, fora nessa ínsula da Subura que Aurélia encontrara a sua profissão. Com o marido longe e um filho ainda pequeno, Aurélia entregou-se de alma e coração aos trabalhos de senhoria. Despediu todos os empregados ligados ao negócio, passou ela a tratar dos livros de contabilidade e, em breve, os inquilinos era não só clientes como também amigos. Com competência, bom senso e coragem, enfrentava tudo, incluindo crimes e actos de vandalismo; conseguiu mesmo domar a congregação das encruzilhadas que se encontrava alojada numa das casas da ínsula. Este clube, formado por homens do bairro, e dispondo do consentimento oficial do pretor urbano, deveria, em princípio, zelar pelas práticas religiosas e pelas instalações das grandes encruzilhadas situadas nas redondezas da ínsula triangular de Aurélia: a fonte, a estrada e os passeios, o santuário aos Lares das Encruzilhadas. O zelador da congregação e chefe dos seus membros era Lúcio Decúmio, um romano dos melhores, ainda que o seu estatuto o limitasse à Quarta Classe. Quando Aurélia tomou nas suas mãos a direcção da ínsula, descobriu que Lúcio Decúmio e os seus subordinados extorquiam dinheiro a comerciantes e usurários sob pretexto de protecção. Mas Aurélia acabou com isso; e assim acabou também por ganhar a amizade de Lúcio Decúmio.

Como após os partos lhe faltava o leite, teve de recorrer às mulheres da ínsula; abriu assim aos filhos, patrícios aristocratas, as portas de um mundo que, em circunstâncias normais, teriam pura e simplesmente ignorado. Desse convívio resultou que, muito antes de entrarem para a escola, já os seus três filhos conheciam umas quantas variantes de grego, hebreu, sírio e gálico, e três qualidades de latim - o dos antepassados, o das classes baixas, e o calão típico do bairro de Subura.

Tinham também visto com os seus próprios olhos como o povo pobre de Roma vivia e comia todo o tipo de refeições a que os forasteiros chamavam boa comida; e davam-se perfeitamente com os pouco recomendáveis membros do clube e congregação oficialmente aprovada de Lúcio Decúmio.

Aurélia estava convencida de que nada disso lhes poderia fazer mal. Não era, porém, uma iconoclasta ou uma reformadora: de facto, continuava a defender firmemente os princípios a que a sua origem a vinculava. Contudo, paralelamente a esses princípios, havia nela um amor genuíno pelo trabalho eficiente e um constante interesse e curiosidade por tudo o que era humano. Enquanto que, na sua juventude protegida, escolhera como modelo Cornélia, a mãe dos Gracos, considerando essa heróica e infeliz mulher a mais excelente Romana que alguma vez vivera, agora, atingida a maturidade, agarrava-se a algo de mais tangível e valioso - a sua mina de bom senso. Por isso não via nada de errado nas conversas poliglotas dos seus três patrícios de pura cepa aristocrática; e considerava que, para eles, era um treino excelente o habituarem-se a enfrentar o facto de toda aquela gente da ínsula não poder sequer ter a veleidade de conhecer as distinções que o nascimento concedera aos três.

O que Aurélia temia era o regresso de Caio Júlio César, o marido e pai que, na realidade, nunca fora nem uma coisa nem outra. A convivência tê-lo-ia adestrado no desempenho desses dois papéis; mas Caio Júlio César nunca se sentira muito à vontade em casa: a casa, para ele, não era ainda um espaço de intimidade. Como qualquer romana da sua classe, Aurélia pouco se preocupava com as mulheres a que, por certo, César recorria de quando em quando para satisfazer as suas mais básicas necessidades, embora o meio em que vivia lhe tivesse ensinado que mulheres de outras posições sociais chegavam a ter acessos histéricos e mesmo a matar por amor ou ciúme. O que, para Aurélia, era muito estranho. Estranho, mas um facto. Limitava-se a agradecer aos deuses o facto de ter sido educada no sentido de conhecer e disciplinar convenientemente as suas emoções; não lhe ocorria sequer que, na sua própria classe, havia muitas mulheres que sofriam também terríveis tormentos causados pelo ciúme ou pela frustração.

Haveria problemas quando César voltasse de vez. Quanto a isso, Aurélia não tinha a mínima dúvida. Mas não pensava muito no assunto: logo se veria. Entretanto, vivia a sua vida sem quaisquer peias, e não se preocupava com o facto de os seus três patrícios impecavelmente aristocratas viverem naquele meio e conhecerem diversos idiomas e gírias. No fim de contas, não acontecia o mesmo no Palatino e nas Carinas, onde as crianças eram entregues aos cuidados de amas vindas dos quatro cantos do mundo? Só que, aí, os resultados eram ignorados, ocultados; até mesmo as crianças se tornavam conspiradores perfeitos nessa arte, ocultando tudo o que sentiam pelas raparigas ou mulheres que conheciam muito melhor que as próprias mães.

No entanto, Caio Júlio, o seu filho, era um caso especial, um caso muito difícil; até mesmo Aurélia, a diligente Aurélia, sentia pairar sobre ela uma ameaça desconhecida sempre que parava para reflectir acerca do seu único filho varão, acerca das suas qualidades e do seu futuro. No jantar oferecido por Júlia, confidenciara a Élia e a Júlia que o filho a punha louca; e ainda bem que falara dessa sua fraqueza, pois Élia sugerira que contratasse um pedagogo para o jovem César.

Aurélia sempre ouvira falar de crianças extraordinariamente inteligentes, mas já há muito que concluíra que essas crianças vinham de classes mais pobres e humildes e não da classe que controlava o Senado; os pais dessas crianças iam ter com Marco Aurélio Cota, tio e padrasto de Aurélia, pedindo-lhe que proporcionasse aos seus filhos, dotados de uma inteligência invulgar, um melhor princípio de vida em troca, ofereciam-se, e aos filhos, como clientes ao serviço de Cota por toda a vida. Cota gostava de lhes conceder o favor pedido; imaginava, com a felicidade estampada no rosto, que quando esse menino inteligente crescesse, ele e os seus filhos poderiam aproveitar a oportunidade de servir alguém superiormente dotado. Contudo, Cota era também um homem prático e sensato. Não admira que, certo dia, Aurélia o tenha ouvido dizer para a mulher, Rutília:

- Infelizmente, essas crianças nem sempre correspondem às expectativas. Por vezes, a sua chama precoce arde demasiado, e ficam uns homens sombrios, frios, inertes; outras vezes, tornam-se demasiado presunçosos e autoconfiantes, e a derrocada é total. Mas há uns quantos que se revelam de grande utilidade. E quando são úteis, são de facto grandes tesouros. É por isso que eu concordo sempre em ajudar os pais.

Aurélia não sabia o que Cota e Rutília (sua mãe) pensavam do seu sobredotado neto, já que fizera sempre o possível por ocultar os méritos precoces do filho. Na realidade, fazia o possível por esconder o jovem César de toda a gente. Por um lado, a inteligência do seu filho entusiasmava-a, inspirava-lhe todo o tipo de sonhos acerca do futuro. Mas também a deprimia profundamente. Se conhecesse as suas fraquezas, os seus defeitos, poderia lutar contra eles mais facilmente; mas quem - mesmo uma mãe - poderia conhecer as fraquezas e os defeitos de uma criança que não tinha ainda dois anos? Antes de satisfazer a curiosidade do mundo a respeito do filho, Aurélia queria sentir-se mais segura e tranquila em relação a ele, queria saber mais acerca daquela criança que dera à luz. E no seu íntimo havia sempre o terror de que ele não tivesse nem a força nem o desprendimento necessários para lidar com o que a natureza lhe dera de invulgar.

Era um menino sensível, isso já ela sabia; era fácil magoá-lo. Mas num instante vencia a tristeza, possuído por uma estranha e incompreensível alegria que mobilizava todo o seu ser, uma alegria que Aurélia nunca experimentara em toda a sua vida. O seu entusiasmo não tinha limites; os seus processos mentais ansiavam tanto por informação que ele tragava o conhecimento como um peixe enorme devora o conteúdo do mar à volta. O que mais a preocupava era a confiança que o filho tinha nos outros, a ansiedade em fazer amigos, a impaciência com que reagia sempre que ela lhe dizia para parar e pensar, sempre que o fazia ver que o mundo não existia para servir os objectivos dele, sempre que lhe chamava a atenção para o facto de no mundo haver muita gente destrutiva.

E no entanto... quão ridículas eram tais angústias em relação a um bebé! Sim, o facto de os seus processos mentais serem muito desenvolvidos não implicava que o mesmo se passasse a nível da experiência. Por ora, o jovem César era apenas uma esponja que absorvia desde logo tudo o que fosse suficientemente fluido; quanto às matérias que não eram suficientemente fluidas, a esponja tratava de lhes dar a consistência necessária à sua absorção. Havia nele fraquezas e defeitos, mas a mãe não sabia se eram permanentes, ou se correspondiam a fases passageiras de um vasto processo de conhecimento. Por exemplo, ele era uma criança encantadora, e sabia que o era, e servia-se disso, e acabava por levar as pessoas a fazerem o que ele queria. Era o que sucedia com a tia Júlia, que facilmente se deixava enredar nas armadilhas do sobrinho.

Aurélia não queria que o seu filho se habituasse a recorrer a técnicas tão turvas como o encanto e a sedução. Ela era uma mulher destituída de encantos e desprezava aqueles que os tinham e cultivavam, pois sabia que essas pessoas conseguiam facilmente o que queriam e, por isso, pouco valor davam ao que obtinham. Só as pessoas sem importância cultivavam a sedução. Um chefe de homens não o fazia. O jovem César teria de abandonar aquela tendência para se servir dos seus encantos: de que lhe serviriam eles no convívio com os homens e os assuntos que exigiam seriedade e todas as grandes virtudes romanas? Além do mais, era muito bonito - outra qualidade indesejável. Mas seria possível apagar a beleza de um rosto que era fruto de dois rostos igualmente belos?

Em consequência de todas estas preocupações a que só o tempo poderia dar uma resposta, Aurélia tratava o filho com alguma dureza: recusava-lhe a complacência com que encarava as diabruras das filhas, criticava-o e repreendia-o por tudo e por nada, e, em vez de bálsamo, era sal o que punha nas suas feridas. Como toda a gente tendia a fazer dele um reizinho, e as irmãs e os primos o estragavam com mimos, Aurélia sentia que alguém tinha de desempenhar o papel de madrasta. Se não houvesse outra hipótese, seria ela, a mãe. Cornélia, a mãe dos Gracos, não teria hesitado.

Encontrar um pedagogo para uma criança cuja educação, segundo as normas sociais, deveria estar a cargo das mulheres ainda durante uns anos, não era tarefa capaz de intimidar Aurélia. Pelo contrário: era mesmo de coisas assim que ela gostava. Élia, mulher de Sila, aconselhara-a vivamente a não comprar um escravo pedagogo, o que tornava a tarefa de Aurélia um pouco mais difícil. Como pouco ligava às opiniões de Cláudia, mulher de Sexto, não pensou sequer em consultá-la. Se Júlia tivesse recorrido a um pedagogo, seria a Júlia que teria pedido conselho; porém, o jovem Mário, que era filho único, tinha ido para a escola, a fim de assim poder conviver com rapazes da sua idade. Essa era, de início, a intenção de Aurélia: mal tivesse idade, o filho iria para a escola. Compreendia agora que essa era uma hipótese a excluir. Na escola, o filho correria o risco de ser rejeitado ou idolatrado, e nenhuma dessas situações lhe convinha.

Decidiu-se, por isso, a consultar a mãe, Rutília, e o único irmão da mãe, Públio Rutílio Rufo. O tio Públio tinha-lhe já sido útil muitas vezes, designadamente aquando do seu casamento; fora ele, com efeito, que defendera que Aurélia casasse com quem muito bem entendesse, numa altura em que a lista de pretendentes era já assustadoramente longa e imponente. Dessa forma, sustentara ele, só Aurélia poderia ser criticada caso escolhesse o marido errado; e talvez assim pudesse ser evitada uma eventual animosidade em relação aos seus irmãos mais novos.

De modo que, certo dia, mandou os três filhos para o piso dos judeus (o refúgio favorito das crianças naquele edifício barulhento e cheio de gente), e seguiu para casa do padrasto numa liteira, acompanhada por Cardixa, a sua criada gaulesa, natural dos Arvernos. Claro que Lúcio Decúmio e alguns dos seus adeptos estariam à sua espera quando ela saísse da casa de Cota, no Palatino; é que, com a noite, os ladrões de Subura costumavam sair das suas tocas.

Aurélia escondera com tanto êxito os talentos extraordinários do filho, que se tornou difícil convencer Cota, Rutília e Públio Rutílio Rufo de que o jovem César, apenas com dois anos de idade, precisava urgentemente de um pedagogo. Porém, ao fim de muitas e pacientes respostas a muitas e incrédulas perguntas, os seus interlocutores começaram a acreditar que a situação de Aurélia não era, de facto, fácil.

- Não conheço ninguém - disse por fim Cota, mexendo no escasso cabelo. - Os teus meios-irmãos, Caio e Marco, estão já nas mãos dos retóricos, e o jovem Lúcio frequenta a escola. Acho que o melhor seria consultares um bom vendedor de escravos pedagogos - Mamílio Malco ou Durónio Póstumo, por exemplo. Mas visto que tu queres um homem livre, francamente não sei que te diga.

- Tio Públio, não diz nada? Há muito que se calou... - observou Aurélia.

- Assim é! - exclamou, sem ponta de malícia, o excelente homem.

- Isso quer dizer que conhece alguém?

- Talvez. Mas primeiro quero ver o jovem César com os meus próprios olhos, e em circunstâncias que me permitam formar a minha própria opinião. Tem-no escondido demasiado, Aurélia. E, francamente, não consigo entender porquê.

- É um menino encantador - disse Rutília, sempre sentimental.

- É um problema, é o que ele é - retorquiu Aurélia, sem ponta de sentimentalismo.

- Bom, creio que é tempo de irmos todos conhecer o jovem César

- disse Cota que, por ter engordado demais, respirava agora com alguma dificuldade.

Desanimada, Aurélia batia com as mãos uma na outra; os seus olhos saltitavam de rosto em rosto e era tão angustiada a sua expressão que os seus interlocutores, chocados, calaram-se. Conheciam-na desde que nascera, e nunca a tinham visto enfrentar uma situação para que não encontrava saída.

- Por favor! - exclamou. - Não, não é nada disso! Não compreendem? O que se propõem fazer é precisamente aquilo que não posso permitir que aconteça! O meu filho tem de pensar que é um rapaz vulgar] O que é que ele vai pensar se lhe aparecem três pessoas a examiná-lo, três pessoas que vão ficar deleitadas com as suas respostas e que vão enchê-lo de falsas ideias acerca da sua importância?

Um rubor subiu às faces de Rutília.

- Mas, minha querida, ele é também meu neto! - exclamou, de lábios cerrados.

- Eu sei, mãe, eu sei. A mãe há-de vê-lo e fazer-lhe as perguntas que muito bem entender - mas não por enquanto! Não integrada num grupo! Ele... ele é tão inteligente! Sabe as respostas a perguntas que as crianças da sua idade não pensam sequer pôr! Por favor, deixem o tio Públio ir sozinho por ora!

Cota deu uma cotovelada na mulher.

- Boa ideia, Aurélia - disse ele muito afavelmente. - Afinal, em breve fará dois anos. É em meados de Julho, não é? A Aurélia convida-nos para o aniversário, e assim poderemos apreciá-lo sem que ele suspeite de uma razão particular para a nossa presença.

Engolindo a ira que sentia, Rutília aquiesceu.

- Como queiras, Marco Aurélio. Agrada-te esta solução, minha filha?

- Agrada - respondeu rispidamente Aurélia.

Como seria de esperar, Públio Rutílio Rufo sucumbiu à sedução cada vez mais sábia do jovem César. Achou-o uma criança espantosa, e apressou-se a dizê-lo à mãe.

- Há muito que não via criatura tão encantadora; pelo menos desde que tu rejeitaste todas as criadas que os teus pais escolheram para ti, e resolveste ficar apenas com Cardixa - disse ele, sorrindo. Achei então que eras uma pérola sem preço! E agora verifico que a minha pérola produziu, não um raio de luar, mas uma fatia de Sol.

- Deixe-se de lirismos, tio Públio! Não foi para isso que lhe pedi para cá vir - retorquiu Aurélia irritada.

Mas Públio Rutílio Rufo considerava da máxima importância que ela entendesse o que lhe ia na alma; por isso, convidou-a a sentar-se num banco do pátio interior que ficava no centro da ínsula. Era um local maravilhoso, já que o outro morador do piso térreo, o cavaleiro Caio Márcio, tinha uma queda para a jardinagem que raiava a perfeição. Aurélia dizia que aquele pátio inferior eram os seus jardins suspensos da Babilónia, pois em todos os pisos as plantas pendiam das varandas, e trepadeiras subiam desde o pátio até aos últimos pisos. Era Verão, e o jardim enchia o ar com o perfume das rosas, goivos e violetas; arbustos em flor pendiam e erguiam-se, em todos os tons de azul, corde-rosa e lilás, que eram as cores desse ano.

- Minha querida sobrinha - começou Públio Rutílio Rufo muito sério, pegando nas mãos dela, e fazendo com que ela o olhasse nos olhos. - Tens de tentar ver as coisas como eu as vejo. Roma já não é uma nação jovem, embora com isto eu não queira dizer que chegou à idade senil. Mas pensa um pouco... Duzentos e quarenta e quatro anos de reis, depois quatrocentos e onze anos de República. Roma existe já há seiscentos e cinquenta e cinco anos, e foi-se tornando cada vez mais poderosa. Mas quantas são as velhas famílias que continuam a produzir cônsules, Aurélia? Os Cornélios. Os Servílios. Os Valérios. Os Póstumos. Os Cláudios. Os Emílios. Os Sulpícios. Os Júlios já não dão um cônsul há cerca de quatrocentos anos - embora eu creia que haverá vários Júlios na cadeira de curul, nesta geração. Os Sérgios são tão pobres que tiveram de dedicar-se à ostreicultura. E os Pinários são também tão pobres que farão tudo e mais qualquer coisa que lhes permita enriquecer. As coisas correm melhor para a nobreza plebeia do que para os patrícios. No entanto, parece-me que se não tivermos cuidado, Roma acabará por pertencer aos Homens Novos, homens sem antepassado, homens sem qualquer ligação aos primórdios de Roma e que, por isso, encararão com indiferença o futuro de Roma.

As mãos dele apertavam agora com mais força as mãos de Aurélia.

- Aurélia, o teu filho possui uma linhagem que é das mais antigas e das mais ilustres. Entre as famílias patrícias que sobrevivem ainda, apenas os Fábios se podem comparar aos Júlios, e os Fábios tiveram de adoptar crianças durante três gerações a fim de ocuparem a cadeira de curul. Os genuínos Fábios são criaturas tão estranhas e grotescas que se escondem literalmente do mundo. No entanto, o jovem César é um verdadeiro membro do velho patriciado, com toda a energia e inteligência de um Homem Novo. Ele constitui, para Roma, uma esperança que nunca esperei ser possível. Porque eu acredito que, para se tornar ainda mais poderosa, Roma tem de ser governada pela nobreza de sangue. Nunca poderia dizer uma coisa destas a Caio Mário - de quem gosto muito, mas a quem lastimo. No decurso da sua impressionante carreira, Caio Mário prejudicou mais Roma do que meia centena de invasões germanas. As leis que anulou, as tradições que destruiu, os precedentes que criou - os irmãos Gracos, pelo menos, pertenciam à velha nobreza, e atacavam aquilo que consideravam ser os problemas de Roma com algum respeito pelos mós maiorum, os princípios não escritos dos nossos antepassados. Em contrapartida, Caio Mário provocou a erosão dos mós maiorum e transformou Roma numa presa fácil para muitas espécies de lobos, criaturas que nada têm a ver com a velha loba que amamentou Rómulo e Remo.

Os olhos invulgares, enormes, luminosos, de Aurélia, fitavam quase dolorosamente o rosto de Públio Rutílio Rufo; era tal a atenção com que ouvia o tio que nem reparou na força com que ele apertava as mãos dela. É que, finalmente, havia alguém que lhe oferecia algo a que se agarrar, uma luz no reino das sombras que ela partilhava com o filho.

- Deves dar o devido valor à importância que o jovem César de facto tem, e deves fazer tudo o que estiver ao teu alcance para o lançar firmemente no caminho das criaturas superiores. Deves infundir no seu espírito o desejo de realizar um objectivo que ninguém poderá impedi-lo de realizar: a defesa dos mós maiorum e a renovação do vigor dos velhos tempos, do velho sangue.

- Estou a perceber, tio Públio - disse Aurélia com uma expressão grave.

- Muito bem! - retorquiu Públio Rutílio Rufo, levantando-se e fazendo com que ela se erguesse também. - Amanhã, à terceira hora do dia, trarei um homem para falar contigo. O rapaz que esteja presente.

E foi assim que Caio Júlio César Júnior ficou entregue aos cuidados de um tal Marco António Gnifão, um gaulês de Nemauso. O avô de Gnifão pertencera à tribo dos Salúvios e caçara inúmeras cabeças durante os constantes ataques contra o povo helenizado da zona costeira da GáliaTransalpina, até que ele e o filho foram capturados por um exército de corajosos habitantes de Massília. Vendido como escravo, o avô morreu passado pouco tempo; o seu filho, então ainda muito jovem, sobreviveu à transição entre a bárbara ocupação de caçador de cabeças e o estatuto de criado numa casa grega. Era um rapaz inteligente, e jovem bastante para casar e formar família quando conseguisse poupar o dinheiro suficiente para comprar a liberdade. Para esposa, escolhera uma jovem grega de Massília, com um passado modesto; o pai da rapariga aprovou o casamento, apesar da invulgar corpulência e do cabelo muito ruivo do noivo. O filho do casal, Gnifão, crescera por isso num meio de homens livres, e não demorou muito a revelar que herdara do pai o gosto pela erudição.

Quando Cneu Domício Aenobarbo instaurou uma província romana na zona costeira da Gália Transalpina banhada pelo mar Central, levou consigo um Marco António na qualidade de lugar-tenente, e esse Marco António recorrera aos serviços do pai de Gnifão como intérprete e escriba. Por isso, quando a guerra contra os Arvernos terminou com êxito para Roma, Marco António obteve a cidadania romana para o pai de Gnifão como penhor da sua gratidão; os Antónios eram conhecidos pela sua franca generosidade. Sendo um homem livre na altura em que Marco António recorreu ao seu trabalho, o pai de Gnifão pôde, por isso, integrar-se na tribo rural do próprio António.

O jovem Gnifão revelara desde muito cedo um desejo de ensinar, bem como um interesse invulgar pela geografia, matemática, filosofia, astronomia e engenharia. Por isso, logo que vestiu a toga de homem feito, o pai meteu-o num navio e mandou-o para Alexandria, o centro intelectual do mundo. Em Alexandria, nos claustros da biblioteca do museu, Gnifão estudou sob a orientação do próprio bibliotecário, Díocles.

Mas o apogeu da biblioteca já tinha passado, e os seus bibliotecários não possuíam já as qualidades de Eratóstenes; por isso, quando atingiu os vinte e seis anos, Marco António Gnifão decidiu instalar-se em Roma como professor. Aceitara de início as funções de gramático, ensinando retórica aos jovens; mais tarde, já farto das atitudes pouco dignas dos jovens nobres romanos, abriu uma escola para crianças pequenas. Essa escola constituiu desde logo um êxito: Gnifão não teve de esperar muito tempo para exigir um elevado salário sem grandes problemas. Não admira, por isso, que pudesse pagar a renda relativa a duas salas enormes, situadas num tranquilo sexto andar de uma ínsula, muito longe do bairro pobre e apinhado de Subura, e que se pudesse dar ao luxo de ter mais quatro salas no andar superior do mesmo palácio do Palatino: era neste último apartamento que vivia, acompanhado pelos seus quatro escravos (verdadeiros escravos de rico), dois dos quais o assistiam nas necessidades pessoais, e os outros dois nas aulas.

Quando Públio Rutílio Rufo foi visitá-lo, Gnifão riu-se, garantindo ao visitante que não tinha a mínima intenção de desistir do seu lucrativo negócio para cuidar de um bebé. Rutílio Rufo apresentou-lhe então um contrato em boa e devida forma que previa um apartamento de luxo situado numa ínsula do Palatino ainda mais requintada, e mais dinheiro do que a escola lhe proporcionava. Mesmo assim, Marco António Gnifão riu-se e recusou.

- Então, venha pelo menos ver o rapaz - disse Rutílio Rufo. Com uma oferta destas, seria loucura não o conhecer.

O encontro com o jovem César fez com que Gnifão mudasse de ideias.

- Não aceito por ele ser quem é, ou mesmo por possuir uma inteligência espantosa - disse Gnifão a Públio Rutílio Rufo. - Se aceito ser tutor do jovem César, é porque gosto muito dele e porque temo pelo seu futuro.

- Desgraçada criança! - disse Aurélia a Lúcio Cornélio Sila quando este a visitou em fins de Setembro. - A família quotizou-se para contratar um pedagogo dos melhores, e o que é que sucedeu? O pedagogo deixou-se seduzir por ele!

- Hum... - retorquiu Sila, que não a visitara para ouvir uma ladainha, ainda que de queixas, acerca de qualquer dos rebentos de Aurélia. As crianças, por muito inteligentes e encantadoras que fossem, aborreciam-no sempre; constituía um mistério inexplicável o facto de os seus próprios filhos não lhe provocarem tal reacção. Não, Sila resolvera visitar Aurélia para lhe anunciar que partia.

- Então também tu me deixas - retorquiu ela, oferecendo-lhe uvas do jardim do pátio.

- E creio que muito em breve. Tito Dídio pretende seguir por mar para a Hispânia, e o princípio do Inverno é a melhor época do ano para uma tal expedição. No entanto, eu irei antes dele, por terra, a fim de preparar a chegada do exército.

- Estás cansado de Roma?

- Não estarias cansada de Roma, no meu lugar?

- Sim, claro.

Sila não parava quieto e cerrava os punhos de frustração.

- Nunca conseguirei o que quero, Aurélia! - exclamou. Tal comentário, porém, provocou apenas uma boa risada.

- Essa é boa! Tens o Cavalo de Outubro estampado em todo o teu corpo! É só uma questão de esperares.

- Faço votos para que não tenha o Cavalo de Outubro estampado em todo o corpo - disse ele, rindo também. - Gostaria de ficar com a cabeça no sítio, que é coisa que nunca acontece ao pobre Cavalo de Outubro! E porque é que é assim? O problema dos nossos rituais é que são tão antigos que nem sequer compreendemos a linguagem com que despachamos as nossas orações, e ainda menos por que razão atrelamos cavalos de batalha, aos pares, a carros, e depois fazemos corridas com eles, finalizando com o sacrifício do cavalo da direita do par vencedor. Quanto a lutar pela sua cabeça...! - tão brilhante era a luz que as suas pupilas se tinham contraído até terem o tamanho de pontas de alfinete, dando-lhe uma expressão de vidente cego; os olhos com que ele a fitava estavam cheios da dor de um vidente. Não uma dor do passado ou do presente, mas a dor, que era uma condenação, do conhecimento do futuro. - Aurélia! Aurélia! - exclamou Sila. Porque será que nunca consigo ser feliz?

Ao ouvir tal pergunta, Aurélia sentiu um aperto no coração. Tinha os punhos cerrados e as unhas cravavam-se-lhe nas palmas das mãos.

- Não sei, Lúcio Cornélio.

- Eu também não.

Era horrível oferecer-lhe um pouco de bom senso. Mas que poderia ela fazer?

- O que eu acho é que precisas de andar ocupado. A resposta dele foi seca.

- Ora francamente! Quando ando ocupado, não tenho tempo para pensar.

- É o que acho - disse ela, num murmúrio rouco, acrescentando:

- Mas a vida não é, não pode ser só isso.

Estavam sentados a uma mesa da sala de recepção, junto à parede baixa do jardim do pátio; sobre a mesa, um prato com as uvas, enormes, cor de púrpura. Calada, Aurélia continuou a fitá-lo, ainda que ele tivesse desviado o olhar. Que homem atraente!, pensou Aurélia, sentindo uma súbita mágoa, uma mágoa muito íntima, algo que normalmente não permitia que lhe aflorasse a consciência. Tem uma boca como a do meu marido, uma bela boca. Bela. Belíssima...

Os olhos de Sila fixaram-se nos dela; um rubor intenso invadiu as faces de Aurélia. A expressão dele alterara-se; era difícil definir que transformação se operara, mas uma coisa parecia certa: naquele momento, Sila era mais ele mesmo. A mão dele aproximou-se dela, solicitando-a; nos lábios, um súbito e misterioso sorriso iluminava-lhe o rosto.

- Aurélia...

Ela pôs a sua mão na dele; sentia faltar-lhe o ar, sentia-se tonta.

- O que é, Lúcio Cornélio? - conseguiu perguntar.

- E se fôssemos amantes...?

Aurélia tinha a boca seca; se não respirasse fundo naquele momento, perderia a consciência, mas parecia-lhe que não conseguia respirar; e os dedos dele à volta dos dela pareciam os últimos fios de uma vida que fugia, ela não podia deixá-los partir e sobreviver à sua partida.

Aurélia nunca viria a entender como é que, de repente, ele estava junto de si; limitou-se a olhar para o rosto dele, tão perto do dela, para o brilho daqueles lábios, para o fundo dos seus olhos, feitos de várias camadas sobrepostas como se fossem mármore polido. Fascinada, reparou num músculo do braço direito dele movendo-se sob o seu invólucro de pele, e deu consigo vibrando, mais do que tremendo, como que fraca, como que perdida...

Cerrou os olhos e esperou, e quando sentiu a boca dele na sua boca, beijou-o como se há uma longa eternidade estivesse esfomeada de amor, levada por emoções que nunca conhecera, aturdida, apavorada, apaixonada, queimada por um profundo fogo.

Um segundo mais e era toda a sala que os separava. Aurélia estava encostada a uma parede de uma cor berrante, como se contra a parede pudesse ficar mais pequena, invisível, desaparecer, e Sila junto à mesa, arquejante, com o sol espalhando fogo pelo seu cabelo.

- Eu... não posso! - disse ela, num grito abafado.

- Pois que nunca mais tenhas um momento de paz!

De cabeça fria, apesar de toda a sua raiva, Sila decidiu que não faria nada que ela pudesse achar cómico ou grotesco e, por isso, foi com gestos magníficos que voltou a vestir a toga, abandonada no chão; depois, dizendo a todo o momento que nunca mais voltaria, deixou a casa de Aurélia como se ele tivesse sido o vencedor da batalha.
Mas aquela era uma vitória que não o deixava nada satisfeito - Sila estava demasiado furioso com a derrota. Seguiu para casa a pé e, no caminho, era tal a violência do seu furor que multidões inteiras se afastavam para o deixar passar. Mas como é que ela se atrevia? Como se atrevia a olhá-lo com aquela fome de amor nos olhos, a seduzi-lo com um beijo - e que beijo! -, e a dizer-lhe depois que não podia? Como se não desejasse que aquilo acontecesse: desejava-o mais do que ele. Devia matá-la, partir-lhe aquele pescoço esguio, dar-lhe um veneno que lhe fizesse inchar as faces, apertar-lhe a garganta e ver aqueles olhos cor de púrpura inchando, inchando. Mata-a, mata-a, mata-a, mata-a, dizia-lhe o coração aos ouvidos, dizia o sangue dilatando as veias da testa e da cabeça. Mata-a, mata-a, mata-a. E em grande parte o seu desmedido furor devia-se ao facto de saber que não conseguia matá-la, tal como não conseguira matar Julilla, Élia, Dalmática. Porquê! Que tinham essas mulheres a mais que Clitumna ou Nicópole?

Quando o viram irromper pelo átrio, os criados fugiram, a mulher retirou-se, calada, para o seu quarto, e a casa pareceu cair num profundo recolhimento, tão pesado era o silêncio que a dominava. Entregue aos seus pensamentos, Sila dirigiu-se imediatamente para o pequeno templo de madeira onde estava guardada a máscara de cera do seu antepassado, o flamen Dialis, e abriu com toda a força a gaveta escondida no lanço de escadas. O primeiro objecto que os seus dedos tacteantes agarraram foi um pequeno frasco; deixou-o ficar na palma da mão; o líquido claro dançava indolentemente dentro das suas paredes de vidro esverdeado. Sila fitou durante muito tempo, durante um tempo infindo, o frasco que tinha na mão. A sua cabeça não conseguia produzir um único pensamento: a raiva possuía-o por completo. Ou seria dor? Ou mágoa? Ou, muito simplesmente, uma solidão monumental? Do fogo passava ao rio, do frio ao gelo. Só então conseguia enfrentar aquela pavorosa incapacidade: o facto de (embora o crime o atraísse como um alívio e também como uma necessidade) não conseguir fisicamente consumar o acto se se tratava de uma mulher da sua própria classe. Com Julilla, e com Élia, encontrara pelo menos algum conforto no estado manifestamente miserável a que as conduzira; e, no caso de Julilla, conhecera o prazer de lhe causar a morte; sim, Sila pensava que se Julilla não tivesse presenciado o seu encontro com Metróbio, por certo continuaria a embebedar-se e a fitá-lo tristemente com aqueles olhos enormes, encovados, amarelos, com aqueles olhos que eram uma acusação silenciosa e constante. Com Aurélia, porém, não seria de esperar uma reacção que se prolongasse para lá da sua presença na casa dela; Sila não duvidava que, logo após a ter deixado, Aurélia tinha juntado todos os bocadinhos de um lapso momentâneo e mergulhado de novo no trabalho. No dia seguinte, tê-lo-ia esquecido por completo. Aurélia era assim mesmo. Pois que apodrecesse! Que os vermes a comessem! Cadela maligna!

Estas imprecações fúteis e velhas como os tempos deixaram-no mais bem disposto e no seu rosto surgiu um sorriso largo, uma tortuosa paródia do divertimento. Mas não era isso que o acalmava. Tudo aquilo era ridículo, grotesco. Os deuses nada ligavam aos desejos ou às frustrações humanas, e ele não era como aquelas criaturas que, de forma terrível e misteriosa, conseguiam transformar os seus pensamentos destrutivos num desejo de morte que efectivamente matava. Aurélia continuava viva dentro dele, tinha de a expulsar de dentro de si antes de ir para a Hispânia, se é que queria concentrar todas as energias na defesa da sua carreira. Precisava de algo que substituísse o êxtase que teria alcançado ao derrubar os muros da cidadela de Aurélia. Não importava o facto de só ter desejado seduzi-la depois de ter surpreendido aquela sua expressão amorosa - o impulso fora tão poderoso, tão arrebatador, que não conseguia libertar-se dele.

Roma, claro. Logo que fosse para a Hispânia, tudo aquilo passaria. Se conseguisse encontrar algum tipo de satisfação naquele momento. No campo de batalha nunca sofrera tão terríveis frustrações, talvez por andar demasiado ocupado, talvez porque à sua volta só havia morte, talvez porque podia dizer a si mesmo que estava a subir. Mas em Roma - e já estava em Roma há cerca de três anos - acabava sempre por cair num estado de tédio e frustração de que, no passado, só saíra após um assassínio literal ou metafórico.

Frio como o gelo, caía no delírio: rostos passavam perante os seus olhos, rostos de vítimas, rostos daqueles cuja morte desejara ou desejava. Julilla, Élia, Dalmática. Lúcio Gávio Stichus. Clitumna. Nicópole. Catulo César - que bom que seria se pudesse eliminar para todo o sempre aquele arrogante olhar de camelo! Escauro. Metelo Numídico Suíno... Lentamente, Sila levantou-se, lentamente fechou a gaveta secreta. Mas o frasco ficou na sua mão.

Ia o dia a meio, segundo rezava o relógio de água. Seis horas passadas, mais seis que passariam. Lentas as gotas iam caindo. Tinha tempo de sobra para fazer uma visita a Quinto Cecílio Metelo Numídico Suíno.

Ao regressar do exílio, Metelo Numídico viu-se promovido a algo que raiava a lenda. Exultante, verificava que o seu nome era já parte da história do Fórum, embora não fosse ainda suficientemente velho para que a morte o atemorizasse. Contava-se de novo no Fórum a história da sua homérica carreira como censor, a coragem com que enfrentara Lúcio Equício, a violência de que fora vítima, a bravura com que voltara a enfrentar essa violência; e narravam também a história da sua ida para o exílio, com o seu filho gago con-con-con-tando aquela infindável torrente de dinheiros enquanto o Sol se punha na Cúria Hostília e Caio Mário aguardava para fazer impor o seu voto de fidelidade ao segundo decreto agrário de Saturnino.

Sim, dizia para si mesmo Metelo Numídico depois de ter mandado embora o último cliente do dia, ficarei na História como o maior nome de uma grande família, o puro, perfeito Quinto dos Cecílios Metelos. Inchava de orgulho, feliz por estar de novo em casa, contente com a boa recepção que tivera, louco de satisfação. Sim, a guerra contra Caio Mário fora uma longa guerra! Mas eram já águas passadas. E ele vencera, e Caio Mário perdera. Roma nunca mais voltaria a sofrer as afrontas de Caio Mário.

Nesse instante, ouviu arranhar a porta do seu gabinete. Era o seu secretário e administrador.

- Sim? - perguntou Metelo Numídico.

- Lúcio Cornélio Sila pretende falar contigo, domine. Quando Sila entrou, Metelo Numídico estava já de pé, a meio do gabinete, a mão estendida para lhe dar as boas-vindas.

- Meu caro Lúcio Cornélio, não fazes ideia do prazer que me dás

- disse ele, desfazendo-se em amabilidade.

- Sim, já era altura de eu te fazer uma visita de cortesia privada

- retorquiu Sila, sentando-se na cadeira do cliente e pondo uma expressão submissa e inferiorizada que não deixaria de seduzir o outro.

- Vinho?

- Obrigado.

De pé junto ao consolo onde se encontravam dois jarros e algumas taças do melhor vinho de Alexandria, Metelo Numídico virou-se para Sila, uma sobrancelha erguida, uma expressão ligeiramente irónica no rosto. - Merecerá esta ocasião um Quios não adulterado pela água? perguntou.

Sila pôs um sorriso que sugeria que começava a sentir-se mais à vontade.

- Deitar água num Quios é um crime - retorquiu. O seu anfitrião não se mexeu.

- Essa é uma resposta de político, Lúcio Cornélio. Não sabia que pertencias a essa casta.

- Quinto Cecílio, não macules o teu vinho com água! - exclamou Sila. - Vim visitar-te na esperança de que possamos ser bons amigos

- acrescentou, com uma voz sincera.

- Nesse caso, Lúcio Cornélio, beberemos o nosso Quios sem água. Metelo Numídico aproximou-se dele trazendo duas taças; colocou

uma do lado de Sila, e a outra do seu lado da secretária, depois sentou-se e ergueu o seu copo.

- Bebo à amizade - disse.

- E eu também - Sila sorveu um pouco do vinho, franziu o sobrolho, e fitou Metelo Numídico nos olhos. - Quinto Cecílio, vou partir para a Hispânia Citerior como lugar-tenente de Tito Dídio. Não faço ideia do tempo que estarei fora, mas por ora prevê-se que possa ser vários anos. Quando voltar, tenciono disputar logo que possível o lugar de pretor - pigarreou, sorveu um pouco mais de vinho. - Conheces a verdadeira razão por que não fui eleito pretor o ano passado?

Um sorriso dançou nos cantos da boca de Metelo Numídico, um sorriso tão esbatido que Sila não poderia saber se era irónico, malicioso, ou simplesmente divertido.

- Conheço, sim, Lúcio Cornélio.

- E que achas?

- Acho que foste demasiado importuno para com o meu querido amigo Marco Emílio Escauro no que respeita ao assunto da esposa dele.

- Ah! Portanto, não foi por causa da minha ligação a Caio Mário!

- Lúcio Cornélio, ninguém com o bom senso de Marco Emílio abafaria a carreira pública fosse de quem fosse por causa de uma ligação militar a Caio Mário. Embora eu não tenha estado cá para o ver, mantive contactos suficientes com Roma para saber que as tuas relações com Caio Mário deixam bastante a desejar desde há algum tempo - retorquiu tranquilamente Metelo Numídico. - Como já não são cunhados, acho que é compreensível. Soltou um suspiro. - No entanto, é triste que quase tenhas provocado um divórcio em casa de Marco Emílio Escauro no preciso momento em que conseguiste divorciar-te de Caio Mário.

- Nada fiz de desonroso, Quinto Cecílio - foi a resposta firme de Sila, que fazia o possível por não deixar transparecer a raiva que sentia ao permitir que o outro o tratasse com condescendência, embora estivesse cada vez mais determinado a matar aquele medíocre presunçoso.

- Eu sei que não fizeste nada de desonroso. - Metelo Numídico bebeu de um gole o que restava do seu vinho. - É triste que, quando o assunto é mulheres, e em particular esposas, mesmo as cabeças mais velhas e sábias rodopiem que nem piões.

No momento em que o seu anfitrião fez o gesto de levantar-se, Sila ergueu-se num ápice, pegou nas duas taças e dirigiu-se ao consolo para as encher.

- Trata-se da tua sobrinha, Quinto Cecílio - disse Sila, de costas para ele, a toga ocultando o consolo.

- É por isso mesmo que conheço toda a história.

Depois de ter dado a taça cheia a Metelo Numídico, Sila voltou a sentar-se.

- Sendo tio da mulher em questão, e muito amigo de Marco Emílio, consideras justa a pena que me foi infligida, não é verdade?

Um encolher de ombros, um gole de vinho, um esgar.

- Se tu, Lúcio Cornélio, fosses um novo rico, não estarias aqui neste momento, sentado a conversar comigo. Mas o teu apelido é um apelido ilustre e muito antigo. Tu és um patrício Cornélio, e um homem superiormente competente - fez um novo esgar, bebeu mais vinho. Se eu tivesse estado em Roma na altura em que a minha sobrinha se apaixonou por ti, é evidente que teria apoiado o meu amigo Marco Emílio em tudo o que ele decidisse fazer para rectificar a situação. Soube que ele te pediu que deixasses Roma e que tu recusaste. Uma recusa muito pouco prudente!

Sila riu-se sem qualquer indício de divertimento.

- Suponho que não acreditei que Marco Emílio se comportaria menos honradamente do que eu.

- Oh, não há dúvida que uns anos de juventude passados no Fórum Romano ter-te-iam feito bem! - exclamou Metelo Numídico. - Falta-te tacto, Lúcio Cornélio.

- É muito provável que tenhas razão - disse Sila, enquanto pensava que aquele era o mais difícil de todos os papéis que a vida o obrigara até então a representar. - Mas não se pode voltar atrás, e eu preciso de seguir em frente.

- Não há dúvida que a Hispânia Citerior ao lado de Tito Dídio é um passo em frente.

Sila levantou-se de novo e encheu mais duas taças de vinho.

- Tenho de deixar pelo menos um bom amigo em Roma antes de me ir embora - disse ele. - E gostaria muito, digo-o de todo o coração, que esse amigo fosses tu. Apesar da tua sobrinha. Apesar dos laços que te unem a Marco Emílio Escauro Princeps Senatus. Eu sou um Cornélio, o que significa que não posso oferecer-te os meus préstimos como cliente. Apenas como amigo. Que me dizes?

- Digo-te que fiques para jantar, Lúcio Cornélio.

E Lúcio Cornélio ficou para jantar, um jantar agradável, íntimo, já que Metelo Numídico tencionava jantar sozinho essa noite (o que não admira, pois já se sentia um tanto cansado do seu novo estatuto de lenda do Fórum). Falaram da infatigável luta do filho de Metelo Numídico para acabar com o seu exílio em Rodes.

- É o melhor de todos os filhos que já houve ao cimo da terra disse a certa altura o antigo exilado, já embriagado, pois começara a beber antes do jantar e ainda não tinha parado.

O sorriso de Sila era a própria sedução.

- Não posso contestar as tuas palavras, Quinto Cecílio. É óbvio que considero o teu filho como um bom amigo. O meu filho é ainda uma criança. Contudo, a cega parcialidade da paternidade diz-me que vai ser difícil bater o meu filho.

- Ele é um Lúcio, como tu? Sila pestanejou, surpreendido.

- Claro que é.

- É estranho - disse Metelo Numídico, pronunciando com todo o cuidado as duas palavras. - Não é Públio o primeiro nome do filho mais velho no teu ramo dos Cornélios?

- Como o meu pai já morreu, não lhe posso perguntar, Quinto Cecílio. Não me lembro de o ter visto uma única vez suficientemente sóbrio para falar das coisas da família.

- Ora, não interessa. - Metelo Numídico reflectiu por um momento, após o que disse: - Já agora, a propósito de nomes, sabias que os Italianos sempre me chamaram Suíno?

- Ouvi Caio Mário usar essa alcunha, Quinto Cecílio - retorquiu gravemente Sila, debruçando-se sobre a mesa para encher as belas taças de vidro com o vinho de um jarro de vidro igualmente belo; ainda bem que o Suíno adorava o vidro!

- Um nojo! - exclamou Metelo Numídico, numa voz arrastada.

- Sem dúvida - concordou Sila, sentindo um imenso bem-estar invadindo-lhe todo o corpo. Suíno, Suíno.

- Demorei uma eternidade a livrar-me dessa alcunha.

- O que não admira, Quinto Cecílio - retorquiu inocentemente Sila.

- Calão infantil! Porque é que não me pôs a alcunha de cunnus. Nem disso foi capaz, esse... esse italiano.

Subitamente Metelo Numídico fez um esforço tremendo para se soerguer; levou a mão à testa, arfava. - Oh, sinto-me tão tonto! Não consigo... parece... respirar!

- Respira fundo, Quinto Cecílio, respira fundo. Obedientemente, Metelo Numídico fez o que Sila lhe disse.

- Não... não me sinto bem! - disse depois, arquejando. Sila calçou as sandálias, que estavam atrás do divã.

- Vou buscar-lhe uma bacia!

- Criados! Chama... os criados! - As mãos de Metelo Numídico cravaram-se no peito. Nesse momento, caiu para trás. - Os meus... pulmões!

Sila estava já frente ao divã de Metelo Numídico.

- Tens a certeza de que é dos pulmões, Quinto Cecílio? Metelo Numídico contorcia-se, meio reclinado, uma mão cravada ainda no peito, e a outra, com os dedos enroscados como se fossem garras, arrastando-se por sobre o divã na direcção de Sila.

- Tonto! Não consigo... respirar! Pulmões! Sila gritou então:

- Socorro! Depressa! Socorro!

A sala ficou imediatamente cheia de escravos; calmamente eficiente, Sila mandou vários escravos chamar os médicos e ordenou a outros que encostassem Numídico a almofadas, pois ele não conseguia estar deitado.

- Isso vai passar, Quinto Cecílio - disse ele afavelmente, enquanto se sentava no divã, afastando a mesa com o pé; ambas as taças caíram no chão, tal como os jarros de vinho e água, desfazendo-se em bocadinhos. - Pega na minha mão - disse então para Metelo Numídico, aterrorizado, lutando contra as dores, de rosto muito congestionado. E para um criado perfeitamente pasmado, tão pasmado que ficara parado olhando a cena, Sila gritou: - Limpa essa porcaria! Ainda nos cortamos nos vidros.

Continuou a segurar a mão de Metelo Numídico enquanto o escravo varria os vidros e enxugava o chão, que a água, mais do que o vinho, molhara; e segurava ainda na mão de Metelo Numídico quando a sala se encheu de mais gente ainda: os médicos e os seus assistentes; e quando Metelo Pio, o Bacorinho, chegou, Metelo Numídico não queria largar a mão de Sila, nem sequer para a estender para o amado e dedicado filho.

Enquanto Sila segurava a mão de Metelo Numídico e o Bacorinho chorava inconsolável, os médicos lançaram-se ao trabalho.

- A poção de hidromel com hissopo e pó de raiz de alcaparra disse Apolodoro da Sicília, que era ainda a suprema autoridade entre os médicos da classe mais abastada do Palatino. - Acho que vamos sangrá-lo também. Práxis, passa-me a lanceia.

Mas Metelo Numídico estava tão aflito para respirar que não conseguia engolir a doce poção; quando lhe abriram a veia, o sangue jorrou num vívido tom escarlate.

- É uma veia, tenho a certeza de que é uma veia! - disse Apolodoro Sículo para si mesmo, após o que disse para os outros médicos: - Que sangue mais brilhante!

- Ele detesta-nos tanto, Apolodoro, que não me admira que o sangue saia brilhante - disse Públio Sulpício Sólon, o grego de Atenas.

- Que achas de um emplastro no peito?

- Sim, claro, temos de pôr um emplastro no peito - disse Apolodoro da Sicília com um ar grave, e dando estalos com os dedos para chamar a atenção do seu assistente-chefe. - Práxis, o emplastro de barbado!

Metelo Numídico continuava numa luta titânica para conseguir respirar; batia no peito com a mão que tinha livre, fitava o filho com olhos nublados, recusava-se a deitar, e agarrava com toda a força a mão de Sila.

- O rosto não está azul-escuro - disse Apolodoro Sículo, no seu pomposo grego, para Metelo Pio e Sila. - Não compreendo! É que ele tem todos os sintomas de uma afecção pulmonar aguda. Acenou para o assistente, que estava a espalhar uma grande quantidade de um estranho produto negro e pegajoso por sobre um pedaço quadrado de um tecido de lã. - Este cataplasma é o melhor de todos: fará com que saiam todos os elementos nocivos. Raspas de verdete; um litargírio de chumbo devidamente isolado; alúmen; pez seco; resina de pinheiro seca: tudo isto misturado com vinagre e óleo até atingir a devida consistência. Vejam, já está pronto!

Sim, de facto o cataplasma já estava pronto. Apolodoro da Sicília colocou-o suavemente sobre o peito nu do doente, e com uma calma digna de encómios ficou à espera que o emplastro de barbado fizesse o seu trabalho.

Mas o emplastro não poderia curar o doente, tal como a sangria ou a poção; lentamente Metelo Numídico foi abandonando os laços que o uniam à vida e largando a mão de Lúcio Cornélio Sila. Com o rosto fortemente congestionado, e os olhos incapazes de ver fosse o que fosse, passou da paralisia ao coma, e assim morreu.

Ao deixar a sala, Sila ouviu o médico siciliano dizer timidamente para Metelo Pio:

- Domine, é necessário que se faça uma autópsia. E ouviu o transtornado Bacorinho retorquir:

- O quê? Achas que eu ia deixar que vocês, seus Gregos incompetentes, o retalhassem todo depois de o terem morto? Não! O meu pai irá para a pira tal e qual como está! Ninguém o molestará mais!

Fitando Sila, que se afastava, o Bacorinho libertou-se da chusma de médicos e seguiu-o até ao átrio.

- Lúcio Cornélio!

Sila virou-se lentamente; quando olhou para Metelo Pio, o seu rosto era a imagem da tristeza; as lágrimas inundavam-lhe os olhos, desciam-lhe pelas faces incontroláveis.

- Meu querido Quinto Pio! - exclamou.

Apesar do choque, o Bacorinho continuava de pé, e já não chorava como de início.

- Não consigo acreditar! O meu pai morreu!

- Foi uma morte súbita, tão de repente... - disse Sila, abanando a cabeça, soluçando. - Tão súbita! Ele estava tão bem, Quinto Pio! Fiz-lhe uma visita de cortesia e ele convidou-me para jantar. Passámos umas horas tão agradáveis! E de repente, quando o jantar acabou... aconteceu isto!

- Mas porquê? Porquê? Porquê? - As lágrimas voltavam a inundar os olhos do Bacorinho. - Tinha acabado de regressar a Roma, era ainda um homem novo!

Muito ternamente, Sila puxou Metelo Pio para si, deixou que a cabeça do jovem, agitada pelos soluços, repousasse sobre o seu ombro esquerdo, e, com a mão direita, pôs-se a acariciar o cabelo dele. Mas os olhos de Sila, fitando, não a cabeça que a sua mão embalava, mas todo o espaço à sua frente, reflectiam a satisfação e a exaustão que se seguem a uma grande emoção física. Que poderia ele fazer, no futuro, capaz de igualar aquela extraordinária experiência? Pela primeira vez, participara de toda a angústia de um moribundo: e não fora apenas a causa dessa morte, mas também o sacerdote que assiste aos últimos momentos de uma vida.

O administrador da casa saiu do triclinium e deu com o filho do seu falecido senhor sendo confortado por um homem que resplandecia que nem Apolo. Pestanejou, abanou a cabeça. Não, era imaginação sua.

- Tenho de ir - disse Sila ao administrador. - Por favor, fica com ele. E manda chamar o resto da família.

Já na Clivus Victorae, Sila esperou o tempo suficiente para que os seus olhos se habituassem à escuridão. Rindo baixinho para si mesmo, encaminhou-se na direcção do templo de Magna Mater. Quando viu a pança listrada de um escoadouro, atirou o frasco vazio para aquela profunda escuridão.

- Vale, Suíno, Suíno! - gritou, e ergueu as mãos como se quisesse chegar ao céu sombrio. - Oh, agora sinto-me muito melhor]

- Por Júpiter! - exclamou Caio Mário, parando de ler a carta de Sila e fitando a mulher.

- O que foi?

- O Suíno morreu.

A educada matrona romana não ficou nada chocada com a alcunha, ainda que o filho pensasse que ela morreria de susto se ouvisse uma palavra mais rude que Edepol. Júlia estava habituada, desde os primeiros dias do seu casamento, a que o marido e os amigos tratassem Quinto Cecílio Metelo Numídico daquela maneira.

- Oh, que coisa terrível! - comentou, sem saber ao certo o que o marido queria que dissesse.

- Terrível! Terrível, não, magnífica! É demasiado bom para ser verdade!

Mário pegou de novo no rolo e desdobrou-o, a fim de continuar a ler.

Logo que decifrou aqueles infindáveis rabiscos, leu toda a mensagem numa voz mais alta e com a devida coerência, para que Júlia ouvisse. A sua voz traía uma alegria óbvia.

Toda a Roma assistiu ao funeral, o maior de que me lembro mas a verdade é que eu pouco me interessava por funerais quando Cipião Emiliano foi atirado à pira.

O Bacorinho estava perfeitamente fora de si, tal era a sua dor; se já era Pio, mais Pio ficou, já que não parou de chorar e gemer por toda a cidade de Roma. Os antepassados de Cecília Metelo eram criaturas muito feias, a crermos nas suas imagens, e suponho que podemos crer nelas. Alguns dos actores que as puseram saltavam e pulavam como se fossem uma mistura de rã, grilo e cervo, e eu dei comigo a pensar de onde viriam realmente os Cecílios Metelos. Lá que têm uma linhagem esquisita, disso não há dúvida.

O Bacorinho não me tem largado, provavelmente porque eu estava presente quando o Suíno morreu, e como o seu querido tatá, no leito de morte, não queria deixar a minha mão nem por nada, o Bacorinho está convencido de que as discórdias entre mim e o Suíno tinham acabado. Não lhe disse que o convite do pai para que eu jantasse com ele fora perfeitamente acidental. Um facto interessante - quando o seu tatá estava a morrer e mesmo depois, o Bacorinho não gaguejou uma única vez. Repara que ele só começou a gaguejar depois da batalha de Arausio: temos pois de concluir que se trata de um tique nervoso e não de um defeito inato. Ele diz que a gaguez agora o aflige muito quando se lembra da morte do pai, ou quando tem de fazer um discurso. Não posso deixar de imaginar o Bacorinho conduzindo uma cerimónia religiosa! Muito me riria eu, ao ver a multidão impaciente e o Bacorinho tropeçando na língua, obrigado a recomeçar tudo de novo.

Escrevo-te esta mensagem na véspera da minha partida para a Hispânia Citerior e para aquela que, espero, será uma boa guerra.
De acordo com as informações de que dispomos, os Celtiberos estão em total ebulição e os Lusitanos estão a causar danos na Hispânia Ulterior, onde o meu remoto primo Dolabela teve um ou dois êxitos insignificantes, não conseguindo, portanto, reprimir a rebelião.

Os tribunos dos soldados foram eleitos, e Quinto Sertório vai também com Tito Dídio. É quase como nos velhos tempos. Só que o nosso chefe é um Homem Novo diferente de Caio Mário, e menos ilustre. Escreverei sempre que houver notícias, mas, em troca, espero que me escrevas também e que me digas que espécie de homem é o rei Mitridates.

- Que foi Lúcio Cornélio fazer a casa de Quinto Cecílio? E ainda por cima, jantou com ele... - comentou Júlia, curiosa.

- Suspeito que foi bajulá-lo, pura e simplesmente - retorquiu Mário rispidamente.

- Oh, Caio Mário, não é possível!

- E porque não haveria Lúcio Cornélio de bajular Quinto Cecílio? Não o censuro. O Suíno encontra-se - encontrava-se - numa óptima posição, e a sua influência tornou-se incontestavelmente mais forte do que a minha. Nas actuais circunstâncias, o nosso pobre amigo Lúcio Cornélio não se pode ligar a Escauro. É também compreensível que não tenha tentado ligar-se a Catulo César. - Mário suspirou, abanou a cabeça. - Prevejo, porém, que num futuro, não sei se próximo se longínquo, Lúcio Cornélio reabilitar-se-á de todos os erros cometidos e manterá óptimas relações com todos eles.

- Então Lúcio Cornélio não é teu amigo!

- Provavelmente não.

- Não compreendo! Vocês eram tão chegados.

- É verdade - retorquiu Mário, falando vagarosamente. - Mas, minha querida, o que nos ligava não era uma afinidade natural ao nível do intelecto e dos sentimentos. O velho avô César tinha acerca dele uma opinião muito parecida com a minha. Dizia ele que Lúcio Cornélio era o melhor dos companheiros quando estávamos em apuros, ou quando havia trabalho a fazer. É fácil manter relações agradáveis com um tal homem. Mas duvido que Lúcio Cornélio venha alguma vez a experimentar o tipo de amizade que me liga ao Públio Rutílio, por exemplo. É um tipo de ligação em que encaramos com a mesma afeição os defeitos e as melhores qualidades do outro. Lúcio Cornélio não é um homem capaz de se sentar num banco com um amigo, em silêncio, só pelo prazer de estar com ele. Esse tipo de comportamento não condiz com a sua natureza.

- E qual é a sua natureza, Caio Mário? Nunca me foi dado saber. Mas Mário abanou a cabeça e riu-se.

- Ninguém sabe. Mesmo ao fim de tantos anos juntos, não faço a mínima ideia.

- Oh, creio que alguma ideia hás-de ter - retorquiu Júlia sagazmente.

- Simplesmente não queres revelá-la. Pelo menos a mim. Sentou-se ao lado dele. - Então Aurélia é a única pessoa a que o liga um sentimento de verdadeira amizade.

- Assim parece - retorquiu secamente Mário.

- Mas não penses que há alguma coisa entre eles, porque não há! O que acontece, penso eu, é que Aurélia é a única pessoa que conhece o íntimo de Lúcio Cornélio, a única pessoa com quem ele se abre verdadeiramente.

- Hum - disse Mário, pondo um termo à conversa. Encontravam-se em Halicarnasso, onde passariam o Inverno, pois

tinham chegado à Ásia Menor demasiado tarde para tentarem a viagem por terra, desde a costa egeia até Pessinunte. Tinham-se demorado demasiado em Atenas porque gostavam da cidade, e de Atenas seguiram para Delfos a fim de visitarem o templo de Apolo, ainda que Mário se recusasse a consultar a Pitonisa.

Surpreendida, Júlia perguntara-lhe porquê.

- É melhor não importunar os deuses - retorquiu. - Já tenho a minha conta de profecias. Se lhes peço mais revelações sobre o meu futuro, os deuses viram-me as costas.

- E se perguntasses em nome do jovem Mário?

- Não - replicou Caio Mário.

Tinham também visitado Epidauro, no Peloponeso; nessa cidade, depois de terem admirado os edifícios e as requintadas esculturas de Trasimedes de Paros, Mário submeteu-se ao diagnóstico pelo sono praticado pelos sacerdotes de Asclépio. Bebera a poção obedientemente, fora depois para os dormitórios perto do grande templo, e dormira toda a noite. Infelizmente não se lembrou de nenhum sonho, e, por isso, os sacerdotes limitaram-se a aconselhá-lo a emagrecer, a fazer mais exercício, e a não se dedicar a trabalhos intelectuais cansativos.

- Uns impostores - comentou desdenhosamente Mário, depois de ter dado a Asclépio uma valiosa taça adornada a ouro, como sinal de reconhecimento.

- Não estou nada de acordo. Para mim, são uns homens muito sensatos - replicou Júlia, atentando na cintura do marido.

Só em Outubro deixaram o Pireu num navio enorme que ligava regularmente a Grécia a Éfeso. Mas a montanhosa Éfeso não agradou a Caio Mário, que a todo o momento arquejava pelos caminhos da ilha; por isso, tratou rapidamente de encontrar um navio que seguisse para sul, para Halicarnasso.

Mário decidiu instalar-se nessa cidade, talvez a mais bela de todas as cidades portuárias egeias da Província da Ásia. Passaria o Inverno em Halicarnasso. Para tal, alugou uma villa bem abastecida de criadagem e equipada com uma piscina quente natural; de facto, embora o sol brilhasse a maior parte do tempo, a água do mar estava demasiado fria para que nela pudessem banhar-se. As maciças muralhas, as torres e as fortalezas, os imponentes edifícios públicos, davam àquela cidade um aspecto seguro e especialmente romano, embora Roma não possuísse um monumento tão maravilhoso como o Mausoléu, o túmulo do rei Mausolo, mandado contruir pela sua inconsolável mulher e irmã Artemísia.

Já a Primavera ia adiantada quando se puseram a caminho de Pessinunte, e muito protestaram Júlia e o jovem Mário, que queriam passar o Verão junto ao mar, mas sabiam de antemão que aquela era uma batalha perdida. Invasores e peregrinos, todos seguiam a estrada ao longo do vale do rio Meandro, entre a costa da Ásia Menor e a Anatólia Central. O mesmo fizeram Mário e a família, encantados com a prosperidade e a sofisticação das várias regiões por onde passavam. Deixando para trás as fascinantes formações de cristal e os magníficos espatos de Hierápolis, onde produziam lã negra, fixando a sua cobiçada cor numa solução de água com sais, atravessaram (seguindo ainda o curso do Meandro) as enormes e acidentadas montanhas que levavam às florestas e às regiões solitárias da Frígia.

Pessinunte, porém, ficava ao fundo de uma planície elevada desprovida de floresta, mas repleta de trigo, um mar de verde naquela época do ano. Explicou-lhes o guia que, tal como a maior parte dos grandes santuários religiosos da Anatólia interior, o templo da Grande Mãe, em Pessinunte, possuía vastas extensões de terra e uma multidão de escravos, e era tão rico e auto-suficiente que funcionava como qualquer estado. A única diferença consistia em que os sacerdotes governavam em nome da Deusa, e preservavam a riqueza do santuário para aumentar o poder da Deusa.

Esperando encontrar uma Delfos escondida no meio de montanhas assombrosas, ficaram surpreendidos ao descobrir que Pessinunte se situava a uma altitude inferior à da planície que a rodeava, numa garganta escarpada, gredosa, de um branco muito brilhante, O templo ficava na extremidade norte da cidade, uma faixa mais estreita e menos fértil do que as regiões a sul, e erguia-se sobre um curso de água que desaguava no rio Sangário. A cidade, o templo e os edifícios do santuário ressumavam antiguidade, embora as estruturas então dominantes fossem gregas em estilo e data, e o grande templo, empoleirado numa elevação que sobrepujava o vale, mergulhasse abruptamente, do lado frontal, num círculo de três-quartos de degraus, nos quais se sentavam os peregrinos em conferência com os sacerdotes.

- O umbigo da Deusa está em Roma, Caio Mário - disse o arquigalo Bataces. - Foi-vos dado de graça num época em que Roma precisava de ajuda. Por essa razão, quando Aníbal fugiu para a Ásia Menor, não se aproximou sequer de Pessinunte.

Lembrando-se da carta de Públio Rutílio Rufo acerca da visita de

Bataces e dos seus sequazes a Roma, na altura em que as invasões germanas ameaçavam o Império, Mário encarou o sacerdote com alguma ironia, uma atitude de que Bataces se apercebeu imediatamente.

- É o facto de eu ser um eunuco que te faz sorrir? - perguntou. Mário pestanejou.

- Não sabia que eras eunuco, arquigalo.

- Não se pode servir a Cubaba Cibele e permanecer intacto, Caio Mário. Mesmo o seu esposo, Átis, teve de submeter-se a esse terrível sacrifício - disse Bataces.

- Pensava que Átis tinha sido castrado por se ter ligado a outra mulher - disse Mário, sentindo que tinha de dizer qualquer coisa, e não querendo enredar-se numa discussão acerca de gónadas amputadas, embora fosse evidente que o padre queria discutir a sua condição de eunuco.

- Não! - retorquiu Bataces. - Essa história é um arranjo grego. Só nós, os Frígios, mantemos pura a devoção à Deusa e, com ela, o nosso conhecimento de Cibele. Nós somos os seus verdadeiros seguidores. Foi connosco que ela veio ter, há muitos, muitos anos, vinda de Carchemiche. - O sacerdote afastou-se do sol, encaminhando-se para o pórtico do grande templo; a sombra obscurecia o brilho do seu traje a ouro e das suas muitas jóias.

Permaneceram por algum tempo na cella da Deusa, ao que parece para Mário admirar a estátua.

- Ouro maciço - disse Bataces, desvanecido.

- Tens a certeza? - perguntou Mário, lembrando-se do que o guia lhe tinha dito em Olímpia acerca da técnica usada para fazer a estátua de Zeus.

- Absoluta.

Em tamanho natural, a estátua encontrava-se sobre um alto plinto de mármore, e mostrava a Deusa sentada num banco baixo; as mãos de Cibele repousavam sobre as cabeças de dois leões sem juba. Tinha a Deusa um chapéu alto semelhante a uma coroa, um vestido fino que deixava ver a beleza dos seus seios, e uma faixa à cintura. Atrás do leão à esquerda da Deusa, viam-se dois pastores de pouca idade, um soprando numa flauta dupla, e o outro dedilhando uma lira enorme. À direita do outro leão, via-se o esposo de Cubaba Cibele, Átis, apoiado num cajado, a cabeça coberta com o barrete frígio, um barrete cónico, mole, que terminava numa ponta redonda e pendente; vestia uma camisa de manga comprida, apertada no pescoço, mas aberta sobre a barriga, exibindo uma bela musculatura; as calças compridas, exibiam uma abertura em cada perna que, a partir de certa altura, era fechada com botões.

- Interessante - comentou Mário, que considerava a estátua muito pouco bela, fosse ela feita de ouro maciço ou não.

- Não a admiras.

- Provavelmente é porque sou romano e não frígio, arquigalo. Virando as costas ao sacerdote, Mário encaminhou-se para as enormes portas de bronze da cella. - Porque é que esta deusa asiática se interessa tanto por Roma? - perguntou.

- Há muito que se preocupa com Roma, Caio Mário. Se assim não fosse, não teria acedido a dar o umbigo a Roma.

- Sim, eu sei. Mas isso não responde à minha pergunta - retorquiu Mário, cada vez mais irritado.

- Cubaba Cibele não revela as suas razões, nem mesmo aos sacerdotes que a servem - disse Bataces. O sol batia-lhe agora em cheio, pois encontrava-se na escadaria: doíam os olhos a Mário só de olhar para todo aquele brilho. O sacerdote sentou-se, convidando também Mário a sentar-se na laje de mármore. - No entanto, parece que ela sente que Roma continuará a firmar a sua importância em todo o mundo, e que talvez um dia venha a conquistar Pessinunte. Os Romanos acolheram-na há mais de cem anos como Magna Mater. De todos os templos que possui no estrangeiro, é o de Roma o que ela mais gosta. O grande templo do Pireu de Atenas, e o de Pérgamo, já agora, em compraração com o de Roma, são para ela pouca coisa. Creio que a explicação é simples: ela ama Roma.

- Pois tanto melhor para ela! - retorquiu Mário, cordialmente. Bataces estremeceu por um segundo e fechou os olhos. Um suspiro,

um tremor nos ombros, e logo apontou para lá dos degraus, para um anfiteatro redondo.

- Há alguma coisa que desejes perguntar à Deusa? Mas Mário abanou a cabeça.

- O quê? Eu ir pôr-me a gritar para o poço e esperar depois que uma voz de fantasma me responda? Não, obrigado.

- É assim que ela responde a todas as perguntas que lhe fazem.

- Não se trata de desrespeito da minha parte em relação à Cubaba Cibele, arquigalo. Acontece, porém, que os deuses já me fizeram profecias que cheguem. Não me parece boa ideia interrogá-los novamente - retorquiu Mário.

- Sentemo-nos então ao sol e oiçamos o vento por um instante, Caio Mário - disse Bataces, ocultando a sua profunda decepção; de facto, tinha preparado algumas respostas oraculares particularmente importantes.

- Sabes por acaso como poderei entrar em contacto com o rei do Ponto? - perguntou Mário, de súbito, ao fim de algum tempo. - Por outras palavras, sabes onde ele se encontra? Escrevi-lhe para Amasia e até agora não recebi qualquer resposta. Passaram já oito meses. E a minha segunda carta não chegou sequer às mãos dele.

- O rei do Ponto nunca está num sítio certo - respondeu, desenvolto, o sacerdote. - É possível que este ano não tenha passado por Amasia.

- Isso quer dizer que ele não tem um serviço de correio que o segue de cidade em cidade?

- A Anatólia não é Roma, nem território romano - disse Bataces.

- Nem mesmo as cortes do rei Mitridates sabem onde ele se encontra, a menos que as informe antecipadamente. E raramente o faz.

- Por todo os deuses! - exclamou Mário, espantado. - E como é que ele consegue manter o reino de pé?

- Os seus barões governam na sua ausência, o que não é tarefa árdua, pois a maior parte das cidades do Ponto são Estados gregos que se governam a si mesmos. Limitam-se a pagar a Mitridates aquilo que ele lhes pede. Quanto às zonas rurais, todas elas são primitivas e isoladas. O Ponto é um país de montanhas muito altas, paralelas ao mar Euxino; daí resulta que as comunicações entre as várias regiões são muito deficientes. O rei tem muitas fortalezas espalhadas pelas montanhas e, segundo as últimas informações que me chegaram aos ouvidos, dispõe de quatro cortes: Amasia, Sinope, Dasteira e Trapezunte. Como lhe disse, ele nunca está num sítio certo, e normalmente leva pouca gente consigo. Costuma também visitar a Galácia, a Sofénia, a Capadócia e a Comagena. Essas regiões são governadas por familiares seus.

- Estou a ver. - Mário curvou-se um pouco para a frente, juntando as mãos entre os joelhos. - Estás pois a dizer-me que nunca conseguirei encontrá-lo.

- Depende do tempo que tencionas permanecer na Ásia Menor retorquiu Bataces, num tom aparentemente indiferente.

- Creio, arquigalo, que terei de ficar até conseguir um encontro com o rei do Ponto. Entretanto, visitarei o rei Nicomedes - esse, pelo menos, tem casa fixa! Depois, volto para Halicarnasso, a fim de passar o Inverno. Na Primavera, tenciono ir a Tarso, e de Tarso seguirei para o interior, a fim de visitar o rei Ariárates da Capadócia. - Mário revelou tudo isto despreocupadamente, mudando depois de assunto: queria falar de uma questão que muito lhe interessava, os dinheiros do templo.

- Não faz sentido mantermos o dinheiro da Deusa apodrecendo nos nossos cofres - disse Bataces, afavelmente. - Emprestando-o a boas taxas de juro, estamos a aumentar a nossa riqueza. Mas aqui em Pessinunte não aceitamos depositantes, ao contrário do que fazem outros templos da Deusa.

- Essa actividade não se verifica em Roma - disse Mário. - Porque, creio eu, os templos de Roma são propriedade do povo romano, administrada pelo Estado.

- Mas o Estado romano podia aumentar as suas fontes de lucro...

- Podia, de facto, mas isso implicaria um acréscimo da burocracia, e Roma não aprecia muito os burocratas. Tendem a revelar-se inertes ou a consumir em excesso. O nosso sistema bancário é privado e encontra-se nas mãos de banqueiros profissionais.

- Garanto-te, Caio Mário, que os banqueiros do templo são grandes profissionais - disse Bataces.

- E Cós? - perguntou Mário.

- O santuário de Asclépio?

- Sim.

- Ah, esse é um santuário muito profissional! - disse Bataces, não sem alguma inveja. - Neste momento, é uma instituição perfeitamente capaz de financiar uma série de guerras! Tem muitos depositantes, claro.

Mário levantou-se.

- Obrigado por tudo, arquigalo.

Bataces observou Mário descendo a rampa que conduzia à bela colunata construída acima do regato; depois, certo de que Mário não voltaria para trás, o padre correu para o seu palácio, um edifício pequeno mas encantador, no meio de um pequeno bosque.

Confortavelmente instalado no seu gabinete, pegou em tudo o que precisava para escrever, e começou uma carta cujo destinatário era o rei Mitridates do Ponto.

Grande Rei:

Ao que parece, o cônsul romano Caio Mário está decidido a encontrar-se convosco. Pediu-me que o ajudasse a localizar-vos; como não o encorajei, retorquiu-me que tenciona ficar na Ásia Menor até conseguir ver-vos.

Entre os seus planos para o futuro próximo, contam-se visitas a Nicomedes e a Ariárates. É caso para perguntar por que razão se há-de sujeitar aos rigores de uma viagem à Capadócia, tanto mais que Caio Mário não é um homem novo - nem se encontra muito bem de saúde, assim me pareceu. No entanto, foi muito claro: na Primavera irá a Tarso, e depois seguirá para a Capadócia.

Considero Caio Mário um homem notável, Grande Rei. Se este homem conseguiu ser cônsul de Roma por seis vezes - ele que é um indivíduo grosseiro e inculto -, ninguém deverá subestimá-lo. Os Romanos ilustres com quem pude falar eram muito mais afáveis e sofisticados. É pena que não tenha tido a oportunidade de me encontrar com Caio Mário em Roma, pois aí, comparando-o com os seus pares, poderia tê-lo conhecido muito melhor do que aqui, em Pessinunte. Creia-me vosso devotado e sempre leal súbdito, Bataces.

Bataces selou a carta, embrulhou-a no couro mais macio e colocou-a por fim numa sacola; depois, chamou um dos seus jovens padres e mandou-o seguir a toda a pressa para Sinope, onde se encontrava o rei Mitridates.

O conteúdo da carta não agradou ao rei. Enquanto a lia, não parou de morder os lábios e pôs uma carranca tão horrenda que os seus cortesãos, obrigados a permanecer junto ao rei, mas sem abrirem boca, ficaram contentes com a chegada da carta e tristes com a sorte de Arquelau, obrigado a sentar-se ao lado do rei e a falar sempre que ele lhe dirigia a palavra. Não que isso apoquentasse Arquelau; primo germano do rei e chefe dos nobres, Arquelau era tanto um amigo como um criado e parecia um irmão, mais do que um primo.

Contudo, apesar de uma aparência despreocupada, Arquelau temia tanto pela sua segurança como todos os outros que serviam o rei; embora qualquer pessoa pudesse concluir que o rei tinha por ele muita estima. Arquelau faria bem em ter sempre presente o que sucedera ao chefe dos nobres, Diofanto. Também Diofanto fora amigo e criado do rei, e pai, tanto como tio que realmente era.

A verdade, porém, é que não tinha outra opção, reflectia Arquelau, enquanto observava aquele rosto determinado, mas petulante, a pouca distância dele. O Rei era o Rei, e todos os seus súbditos dependiam das suas ordens - e o rei podia inclusivamente matá-los, se assim lhe aprouvesse. Uma situação que aguçava o engenho de todos aqueles que conviviam com o rei, com a sua desmedida energia, com os seus caprichos, infantilismo, sagacidade, força e timidez. Um homem dispunha apenas do seu engenho, se queria escapar a uma infinidade de situações perigosas. E estas situações perigosas podiam rebentar como as tempestades do Euxino, ou ferver lentamente como caldeirões sobre carvões ardentes nas profundezas da mente do rei, ou ter origem num qualquer erro esquecido há mais de uma década. Porque o rei nunca se esquecia de uma ofensa, real ou imaginária; limitava-se a guardá-la para uso futuro.

- Parece que vou ter de me encontrar com ele - disse Mitridates, acrescentando logo de seguida: - Não é verdade?

Uma armadilha: que haveria ele de responder?

- O Grande Rei só terá de se encontrar com ele ou com qualquer outra pessoa, se assim o desejar - retorquiu Arquelau à vontade. - No entanto, imagino que um encontro com Caio Mário poderá ser algo de interessante.

- Capadócia. Na Primavera. Deixá-lo conhecer Nicomedes primeiro. Se este Caio Mário é um homem tão formidável como dizem, então não gostará por certo de Nicomedes da Bitínia - disse o rei. - E que se encontre também primeiro com Ariárates. Manda dizer a esse insecto que se encontre com Caio Mário em Tarso, e que o escolte pessoalmente até à Capadócia.

- Grande Rei, o exército será mobilizado como estava planeado?

- Claro. E Górdio? Virá?

- Deverá estar em Sinope antes que as neves do Inverno encerrem os caminhos, meu Rei - respondeu Arquelau.

- Muito bem! - Exibindo ainda uma carranca medonha, Mitridates voltou a embrenhar-se na leitura da carta de Bataces, e de novo começou a morder os lábios. Romanos! Por que carga de água haviam de meter-se em casos que, no fim de contas, não lhes diziam respeito? Por que razão um homem tão famoso como Caio Mário se interessava pelo que se passava com o povo da Anatólia Oriental? Teria Ariárates chegado a acordo com os Romanos para derrubarem Mitridates Eupator e transformarem o Ponto numa satrapia de Capadócia?

- O caminho tem sido demasiado longo e difícil - disse ele a Arquelau. - Não me curvarei perante os Romanos!

O caminho fora, de facto, longo e difícil, praticamente desde o seu nascimento, pois Mitridates era o filho mais novo do rei Mitridates V e da irmã e esposa deste, Laódice. Nascido no mesmo ano em que Cipião Emiliano morrera tão misteriosamente, Mitridates Eupator tivera um irmão cerca de dois anos mais velho, chamado Mitridates Cresto por ser ele o ungido, o rei escolhido. O pai sonhara expandir o Ponto à custa fosse de quem fosse, mas de preferência à custa da Bitínia, o mais velho e o mais obstinado inimigo do seu reino.

Pensara-se de início que o Ponto manteria o título de Amigo e Aliado do Povo Romano, conquistado pelo rei Mitridates IV, por ter apoiado Átalo II, de Pérgamo na guerra contra o rei Prúsias da Bitínia. Mitridates V mantivera esta aliança com Roma durante algum tempo, enviando ajuda contra Cartago durante a terceira das Guerras Púnicas, e contra os sucessores de Átalo III de Pérgamo, depois de o testamento deste ter revelado que deixava todo o seu reino a Roma. Mais tarde, porém, Mitridates V comprou a Frigia, pagando uma determinada soma em ouro ao procônsul romano na Ásia Menor, Mânio Aquílio; o título de Amigo e Aliado foi então retirado e a inimizade entre Roma e o Ponto tornou-se, desde então, uma constante, sagazmente fomentada por Nicomedes da Bitínia - e pelos senadores romanos que se opunham a Aquílio.

Apesar da inimizade de Roma e da Bitínia, Mitridates V manteve a sua política expansionista, conquistando a Galácia, e tornando-se herdeiro da maior parte do reino da Paflagónia. Mas a sua irmã e esposa não gostava dele; e crescia nela o desejo de governar o Ponto sozinha. Quando Mitridates Eupator tinha nove anos - a corte encontrava-se então em Amasia -, a rainha Laódice matou o marido, que era também seu irmão, e entregou o trono a Mitridates Cresto, então com onze anos. Naturalmente, Laódice obtinha para si o título de Regente. Em troca de uma garantia da Bitínia de que não tocaria nas fronteiras do Ponto, a rainha desistiu das reivindicações relativas à Paflagónia, e libertou a Galácia.

Com menos de dez anos de idade, Mitridates Eupator fugiu de Amasia poucas semanas depois do golpe da mãe, convencido de que também ele seria assassinado; é que, ao contrário do seu dócil e obtuso irmão Cresto, Eupator fazia lembrar à mãe o rei assassinado, e Laódice não se cansava de o dizer. Completamente só, o jovem fugiu, não para Roma ou para alguma corte próxima, mas para as montanhas orientais do Ponto, onde revelou a sua identidade, embora pedindo às gentes locais que não divulgassem a situação. Reverente e lisonjeado, e predisposto a amar um membro da Casa Real que se exilara no seu seio, o povo das montanhas protegeu Mitridates fanaticamente. Andando de aldeia em aldeia, o jovem príncipe acabou por conhecer o seu país melhor do que qualquer outro membro da Casa Real desde que o Ponto nascera, e conseguiu penetrar profundamente em regiões onde a civilização avançava lentamente, ou parara, ou, muito simplesmente, nunca existira. No Verão, deambulava pelos campos completamente livre, caçando ursos e leões, sabendo que a generosidade das florestas lhe providenciaria alimentos - cerejas e avelãs, damascos e suculentos legumes, veados e coelhos. Tais aventuras, porém, valeram-lhe, entre o povo ignorante, a reputação de corajoso.

Os sete anos em que permaneceu escondido nas montanhas orientais do Ponto foram talvez os melhores anos da sua vida, pois nunca mais voltou a gozar de tantos prazeres simples e sem mácula como nesse período, nem nunca mais voltou a encontrar súbditos que o adorassem tanto e de forma tão espontânea. Enquanto deambulava silenciosamente sob as copas das árvores das florestas, adornadas pelo rosa e o lilás dos rodoendros e pela cor creme das pendentes acácias, acompanhado sempre pelo barulho das cascatas límpidas, Mitridates foi crescendo e, de menino, passou a adolescente. As suas primeiras mulheres foram as raparigas de aldeias minúsculas, primitivas; o seu primeiro leão um animal enorme com uma juba tremenda, que ele matou, qual reincarnação de Hércules, com um cajado; o seu primeiro urso, uma criatura muito mais alta do que ele.

Os Mitridates constituíam uma família importante; as suas origens germano-célticas localizavam-se na Trácia. Havia neles também algum sangue persa, da corte (ou mesmo dos descendentes) do rei Dário. Governavam o reino do Ponto há duzentos e cinquenta anos e, durante esse tempo, tinham efectuado alguns casamentos com a dinastia síria dos Selêucidas, outra casa real germano-trácia, já que descendia de Seleuco, general de Alexandre, o Grande. A linhagem persa proporcionava ocasionalmente o nascimento de crianças frágeis, afáveis, de um tom de pele moreno claro; mas em Mitridates Eupator havia todos os traços dos Germanos e dos Celtas. Era muito alto; os seus ombros eram largos o bastante para poderem transportar a carcaça de um veado adulto; e as coxas e as barrigas das pernas eram suficientemente fortes para escalarem as fragas de qualquer pico do Ponto.

Aos dezassete anos, sentiu-se suficientemente adulto para lançar a cartada decisiva; mandou uma mensagem secreta a seu tio Arquelau, um homem que não nutria qualquer estima pela rainha Laódice, sua meia-irmã e soberana. Nos montes sobranceiros a Sinope, onde a rainha vivia agora permanentemente, realizaram-se então umas quantas reuniões secretas que deram origem ao plano que haveria de derrubá-la; nessas reuniões, Mitridates foi conhecendo, um a um, os chefes da nobreza que Arquelau considerava dignos de confiança; e esses chefes juraram-lhe obediência.

Tudo se passou exactamente como o plano previa; Sinope caiu porque a luta pelo poder prosseguia dentro das suas muralhas, nunca ameaçadas do exterior. A rainha, Cresto e os nobres que lhes eram leais foram afastados sem derramamento de sangue; o sangue derramado jorrou apenas por acção da espada do carrasco. Vários tios, tias e primos foram imediatamente mortos. Cresto algum tempo depois; a rainha Laódice foi a última a morrer. Filho excelente, Mitridates atirou com a mãe para as masmorras de Sinope, onde - como poderia tal coisa ter acontecido? - alguém se esqueceu de lhe dar de comer, com a consequência natural de que a rainha acabou por morrer de fome. Inocente de matricídio, Mitridates VI passou a reinar sozinho. Não tinha ainda dezoito anos.

Sentia-se uma criatura importante, superior, ansiava por engrandecer o seu nome, e por tornar o Ponto mais poderoso do que qualquer dos seus vizinhos, consumia-o o desejo de dominar o mundo; o seu enorme espelho de prata dizia-lhe que não era um rei vulgar. Em vez de um diadema ou de uma tiara, passou a usar a pele de um leão; a boca enorme do leão, exibindo as presas, ficava presa à testa do rei, a cabeça e as orelhas cobriam-lhe o crânio, as garras caíam-lhe, atadas uma na outra, sobre o peito. Como o seu cabelo era tal e qual como o de Alexandre, o Grande - a mesma cor dourada, muito espesso, muito encaracolado -, Mitridates usava-o no mesmo estilo. Finalmente, querendo demonstrar a sua masculinidade, deixou crescer não uma barba ou um bigode (que não se coadunavam com o gosto helénico), mas umas longas e eriçadas suíças. Era tremendo o contraste com Nicomedes da Bitínia! Viril, um macho, enorme, vigoroso, temível, poderoso. Tais eram as qualidades que o seu espelho de prata lhe mostrava: e Mitridates era um homem satisfeito.

Casou com a irmã mais velha, de seu nome Laódice, tal como a mãe; mas não se ficou por aí: acabou por ter uma dúzia de mulheres e, por várias vezes, o mesmo número de concubinas; nomeou Laódice rainha, mas, como muitas vezes lhe dizia, isso só duraria enquanto ela lhe fosse leal. Para reforçar esta advertência, mandou buscar à Síria uma noiva da Casa Real selêucida; e como havia nessa época um sem-número de princesas selêucidas, não lhe foi difícil obter a noiva pretendida: Antiochis. Outra das suas mulheres era Nisa, filha de Górdio, príncipe da Capadócia. Finalmente, deu uma das suas irmãs mais novas (outra Laódice!) ao rei Ariárates VI da Capadócia.

Depressa descobriu que as alianças realizadas através de casamentos eram extremamente úteis. O seu sogro Górdio conspirou com sua irmã Laódice para matar o marido desta última, o rei da Capadócia; satisfeita com década e meia de regência, a rainha Laódice entregou o trono ao filho ainda pequeno (que passaria a ser conhecido como Ariárates VII) e o país ao domínio do irmão. Até que sucumbiu às lisonjas do velho rei Nicomedes da Bitínia, pois era seu desejo governar independentemente de Mitridates e do cão de guarda capadócio, Górdio. Górdio fugiu para o Ponto. Nicomedes assumiu o título de Rei da Capadócia, mas permaneceu na Bitínia e autorizou a sua nova mulher, Laódice, a agir exactamente como queria dentro das fronteiras da Capadócia, na condição de não manter qualquer relação de amizade com o reino do Ponto. Uma situação que convinha perfeitamente a Laódice. Porém, Ariárates VII, agora com cerca de dez anos, desenvolvera já tendências autocráticas, como era costume em todas as linhagens reais orientais, e queria governar sozinho. O conflito com a mãe levou ao esmagamento das suas pretensões, mas não das suas convicções. Um mês passado, apresentou-se na corte de seu tio Mitridates, em Amasia; e, passado mais um mês, Mitridates instalou-o, sozinho, no seu trono em Mazaca, o que não foi difícil, pois o exército do Ponto, ao contrário do da Capadócia, encontrava-se permanentemente preparado para intervir em qualquer eventualidade. Laódice foi assassinada, sob o olhar impassível do irmão; e o poder bitínio na Capadócia foi, dessa forma, abruptamente esmagado. A única coisa que irritava Mitridates era a recusa de Ariárates VII em receber Górdio de volta, já que, dizia o jovem rei, não poderia abrir as portas do palácio àquele que assassinara o seu pai.

Esta ingerência nos assuntos da Capadócia ocupara muitos anos do reinado do jovem rei do Ponto; nos primeiros anos desse reinado, Mitridates concentrou a sua energia no melhoramento do exército, tanto em total de efectivos como em qualidade, e no acréscimo das riquezas do Estado. Apesar dos seus ares leoninos, das poses grandiosas, apesar da juventude, Mitridates era um homem dado à reflexão, e não apenas à acção.

Com uma mão cheia de nobres que eram também seus parentes próximos - os tios Arquelau e Diofanto, os primos Arquelau e Neoptólemo -, fez-se ao mar em Amiso, com a ideia de realizar uma viagem pelas costas orientais do Euxino. Os elementos do grupo iam disfarçados de mercadores gregos em busca de alianças comerciais; como tal foram aceites nas cidades onde desembarcaram, já que os habitantes destas pouco sabiam do andamento das coisas do mundo. Trapezunte e Rizunte há muito que pagavam tributo aos reis do Ponto e, formalmente, pertenciam ao reino; mas para lá destas duas prósperas saídas para as generosas minas de prata do interior, ficava terra incógnita.

A expedição explorou a lendária Cólquida, onde o rio Fásis desaguava no mar; os povos que viviam junto ao Fásis suspendiam a lã das ovelhas por sobre a corrente do rio e assim apanhavam as muitas partículas de ouro que ela trazia do Cáucaso. Com espanto, Mitridates e os seus companheiros admiraram as montanhas ali existentes, ainda mais altas que as do Ponto e da Arménia, e com as encostas perpetuamente cobertas de neve; e mantiveram-se alerta, não fossem aparecer as descendentes das Amazonas que, noutros tempos, tinham vivido no Ponto, na região onde o Termodonte formava, ao desaguar, uma extensa planície aluvial.

Lentamente, o Cáucaso foi diminuindo de altitude e assim surgiram as infindáveis planícies dos Citas e dos Sármatas, povos prolíficos, de hábitos praticamente fixos, que foram de algum modo dominados pelos Gregos que tinham instalado colónias no litoral - não militarmente dominados, mas expostos à cultura e aos costumes gregos -, enfim, povos muito atraentes e exóticos.

Na zona onde o delta do rio Vardanes encontra a linha do litoral, o navio do rei Mitridates penetrou numa enorme lagoa, chamada Meótida; a exploração da lagoa Meótida levou-o à descoberta do maior rio do mundo, o lendário Tánais. Mas ouviram ainda os nomes de outros rios - Ra, Udon, Borístenes, Hípanis - e variadas histórias sobre o vasto mar situado a leste e Hircânio ou Cáspio chamado.

Em todas as zonas onde os Gregos tinham estabelecido entrepostos comerciais, o trigo crescia abundantemente.

- Desenvolver-nos-íamos mais se tivéssemos um mercado - disse-lhes o etnarca de Sinde. - Como apreciaram o gosto do pão da primeira vez que o provaram, os Citas aprenderam a arar e a cultivar o trigo.

- Há um século atrás, vendiam trigo ao rei Masinissa da Numídia - retorquiu Mitridates. - Continua a haver mercados. Ainda há pouco tempo, os Romanos estavam dispostos a pagar fosse o que fosse. Porque não procuram vocês os mercados de uma forma mais activa?

- Talvez nos tenhamos isolado demasiado do mundo do mar Central - disse o etnarca. - E além disso, os impostos que a Bitínia nos obriga a pagar pela passagem do Helesponto são muito pesados.

- Creio - disse Mitridates aos tios - que teremos de fazer o possível para ajudar esta excelente gente. Não acham?

Uma visita à península extraordinariamente fértil a que os Gregos chamavam Quersoneso Táurico e que os Citas conheciam pelo nome de Cimério, constituiu a derradeira prova de que Mitridates precisava; aquelas terras só estavam à espera de ser conquistadas, e o reino do Ponto tinha de conquistá-las.

Não sendo um bom general, Mitridates era, porém, suficientemente inteligente para se aperceber disso. As coisas militares interessavam-no por curtos períodos, e não era nenhum cobarde, longe disso; mas o comando de milhares e milhares de soldados era algo que o deixava confuso, mesmo antes de alguma vez ter exercido tal comando. Em contrapartida, descobriu que gostava de organizar campanhas, de congregar exércitos. Que outros, melhor qualificados do que ele, os comandassem.

O reino do Ponto, como é evidente, tinha forças militares; o rei, porém, estava consciente de que a sua qualidade deixava muito a desejar, pois os Gregos que viviam nas cidades costeiras desprezavam a guerra - e os povos nativos, descendentes dos Persas que outrora tinham vivido a sul e a ocidente do mar Hircânio, eram tão atrasados que dificilmente aceitavam o treino militar. Por isso, tal como a maior parte dos dirigentes orientais, Mitridates viu-se obrigado a confiar em mercenários. A maior parte eram Sírios, Cilicianos, Cipriotas, e os fogosos cidadãos dos guerreiros estados semitas situados à volta do lago Asfaltita, na Palestina. Combatiam extremamente bem e com toda a lealdade - desde que lhes pagassem. Se o pagamento se atrasasse um dia, pegavam nas suas coisas e punham-se a caminho dos respectivos países.

Porém, depois de conhecer os Citas e os Sármatas, o rei do Ponto decidiu que, de futuro, recorreria a esses povos para obter soldados; faria deles soldados de infantaria e armá-los-ia como romanos. E com eles, lançar-se-ia na conquista da Anatólia. Antes disso, porém, teria de subjugá-los. E para esta tarefa, escolheu o seu tio Diofanto, filho da irmã germana de seu pai, e um nobre chamado Asclepiodoro.

O pretexto para a guerra foi uma queixa dos Gregos de Sinde e do Quersoneso Táurico a propósito das incursões lançadas pelos filhos do entretanto falecido rei Ciluro, artífice de um Estado cita da Ciméria que não soçobrara por completo após a sua morte. Graças aos esforços do entreposto grego de Ólbia, este povo cita, embora agricultor, gostava da guerra.

- Peçam ajuda ao rei Mitridates do Ponto - disse o falso mercador antes de deixar o Quersoneso Táurico. - Se quiserem, eu próprio lhe entregarei uma carta vossa.

Diofanto, um general que tinha dado sobejas provas do seu valor durante o reinado de Mitridates V, encarregou-se de tal tarefa com entusiasmo, levando um exército numeroso e bem treinado para o Quersoneso Táurico na Primavera após a visita de Mitridates. O resultado foi um triunfo para o reino do Ponto; os filhos de Ciluro foram facilmente dominados, tal como o reino interior do Cimério; ao fim de um ano, o Ponto controlava todo o Quersoneso Táurico, um vasto território dos Roxolanos, a ocidente, e a cidade grega de Ólbia, muito afectada pelas constantes incursões de Sármatas e Roxolanos. Durante o segundo ano, os Citas lutaram contra o invasor, mas, no final desse ano, Diofanto tinha subjugado as regiões orientais da lagoa Meótida e os Meotas Sindos do interior, governados pelo rei Saumaco, e estabelecido duas poderosas cidades-fortalezas, uma em frente da outra, no Bósforo Cimério.

Diofanto seguiu então num navio para o Ponto, deixando um filho, Neoptólemo, a tratar dos problemas de ólbia e da região ocidental, e o seu outro filho, Arquelau, a dirigir o novo Império Pôntico do Norte do Euxino. A campanha tinha corrido esplendidamente, o saque fora considerável, os efectivos para os exércitos pônticos não paravam de crescer, e as possibilidades comerciais eram extremamente prometedoras. Diofanto contou tudo isto ao seu jovem rei com não pouco orgulho; Mitridates, com inveja e medo, mandou-o executar.

O choque repercutiu-se por toda a corte pôntica, acabando por chegar à região norte do Euxino, onde os filhos de Diofanto choraram de terror e desgosto, mas logo se lançaram com redobrada energia na execução da obra que o pai iniciara. Neoptólemo e Arquelau avançaram pelo litoral leste do Euxino, e, um a um, os pequenos reinos do Cáucaso foram-se rendendo ao Ponto, incluindo a Cólquida, célebre pelo seu ouro, e as terras entre o Fásis e o Rizo Pôntico.

A Arménia Menor - a que os Romanos chamavam Arménia Parva - não pertencia na realidade ao reino da Arménia; ficava a ocidente e na parte pôntica das vastas montanhas entre os rios Araxes e Eufrates. A Arménia Menor, segundo Mitridates, pertencia legitimamente ao Ponto, nem que fosse pelo facto de o rei desse pequeno Estado considerar os reis do Ponto, e não os da Arménia, como seus suseranos. Logo que o Euxino oriental e norte lhe passaram a pertencer de nome e de facto, Mitridates invadiu a Arménia Menor, conduzindo pessoalmente o exército, pois tinha a certeza de que a sua presença bastaria para conquistar o reino. E tinha razão. Quando entrou na pequena cidade de Zimara, que se denominava capital do reino, tinha toda a população à sua espera, saudando-o calorosamente; o rei Antípatro da Arménia Menor avançou na direcção dele com os trajes e o aspecto de um suplicante. Por uma vez na vida, Mitridates sentia-se um general; não admira, por isso, que se tivesse deixado fascinar por aquele reino. Reparou naquelas cadeias de picos cobertos de neve, nas torrentes de água quente, verificou que aquela era uma região remota, inacessível, e decidiu que guardaria na Arménia Menor a maior parte do seu tesouro que, aliás, não parava de crescer. Tratou imediatamente de dar as suas ordens; depósitos-fortalezas seriam construídos em todos os penhascos inacessíveis, no alto de rochedos íngremes de uma qualquer muralha montanhosa, nas margens longínquas de rios letalmente velozes. Durante todo um Verão, divertiu-se a escolher esta ravina, ou aquele desfiladeiro; concluído o projecto, havia na Arménia Menor mais de setenta fortalezas, e a notícia da sua fabulosa riqueza chegara mesmo a Roma.

Assim foi que, com menos de trinta anos, mas já senhor de um dilatado império, guardião de impressionantes riquezas, comandante-chefe de uma dúzia de exércitos, constituídos agora por Citas, Sármatas, Celtas e Meotas, e pai de um sem-número de filhos, o sexto Mitridates do Ponto enviou uma embaixada a Roma para pedir que lhe fosse concedido o título de Amigo e Aliado do Povo Romano. Passou-se isto no ano em que Caio Mário e Quinto Lutácio Catulo César derrotaram a última invasão dos Germanos em Vercelas; por isso, Mário só ouvira falar destes acontecimentos em segunda mão, principalmente através das cartas de Públio Rutílio Rufo. O rei Nicomedes da Bitínia queixou-se imediatamente ao Senado de que era impossível Roma nomear simultaneamente Amigos e Aliados dois reis que estavam em permanente disputa, e salientou que ele, Nicomedes, nunca oscilara na sua fidelidade a Roma, desde que subira ao trono bitínio, mais de trinta anos antes. Tribuno da plebe pela segunda vez, Lúcio Apuleio Saturnino apoiara a Bitínia, pelo que de nada serviu todo o dinheiro que os enviados de Mitridates distribuíram por senadores mais necessitados. A embaixada pôntica foi mandada de volta para o seu país com um redondo não.

Mitridates recebeu muito mal estas notícias. Primeiro, teve um acesso de cólera que pôs toda a corte em debandada, enquanto ele andava de um lado para o outro na sua câmara de audiências, berrando pragas e medonhas imprecações contra Roma e todas as coisas romanas. Depois, caiu num pasmo ainda mais horrendo e, durante horas a fio, ficou sozinho e quieto, sentado, a cismar, no seu trono real. Finalmente, depois de ter dito à rainha Laódice que ficaria a governar o reino na sua ausência, deixou Sinope, e só voltaria a ser visto na capital passado mais de um ano.

De Sinope, Mitridates foi para Amasia, a capital pôntica dos seus antepassados, onde todos os primeiros reis estavam sepultados em túmulos talhados na sólida rocha das montanhas que rodeavam a cidade, e, durante vários dias, vagueou pelos corredores do palácio, indiferente à presença da assustada criadagem e aos apelos sedutores das duas mulheres e oito concubinas que aí se encontravam permanentemente instaladas. Depois, tão súbita e radicalmente como uma tempestade que desaparece na direcção das montanhas, Mitridates abandonou todo o seu furor e tratou de fazer planos. Não mandou ninguém a Sinope buscar mais cortesãos, nem seguiu para Zela, onde estava acampado o seu exército mais próximo; em vez disso, chamou todos os nobres que viviam em Amasia e ordenou-lhes que escolhessem para ele um destacamento de mil militares de elite. As suas instruções tinham sido maduramente reflectidas e foram proferidas num tom que não tolerava discussão nem oposição. Dali seguiria para Ancira, a maior cidade da Galácia, mas apenas com uma escolta; os soldados segui-lo-iam, sim, mas muitos quilómetros atrás. Quanto aos nobres, ordenou-lhes desde logo que fossem convocar todos os chefes das tribos gaiatas para um grande congresso em Ancira, onde o rei do Ponto lhes apresentaria interessantes propostas.

A Galácia era um estranho território, um entreposto céltico num subcontinente povoado pelos descendentes de Persas, Sírios, Germanos e Hititas; todos, excepto os Sírios, tendiam a ser claros, pelo menos de pele, mas não tão claros como os imigrantes celtas que descendiam do rei Breno II dos Gauleses. Durante quase duzentos anos, estes celtas tinham ocupado grande parte do centro da Anatólia, uma vasta

Depois, subitamente, Mitridates desapareceu por completo. Nem o nobre mais próximo do rei sabia para onde ele tinha ido, ou que estaria congeminando; Mitridates limitou-se a deixar uma carta, ordenando aos nobres que limpassem a Galácia, regressassem a Amasia e enviassem uma mensagem à rainha para que nomeasse um sátrapa para o novo território pôntico da Galácia.

Vestido de mercador, escarranchado sobre um medíocre cavalo ruço e conduzindo um burro que transportava roupas e um jovem escravo gaiata particularmente estúpido que não sabia sequer quem o seu amo era, Mitridates seguiu pela estrada que levava a Pessinunte. No templo da Cubaba Cibele, a Grande Mãe, revelou a sua verdadeira identidade a Bataces e convenceu o arquigalo a ajudá-lo, obtendo dele muita da informação de que precisava. De Pessinunte seguiu para a Província Romana da Ásia, através do longo vale do rio Meandro.

Não houve por certo cidade na Caria que tivesse escapado à sua investigação; aquele mercador oriental, enorme de estatura, sempre curioso, e que nunca falava muito dos seus negócios, andou de cidade em cidade, administrando de quando em quando um correctivo no bronco do escravo, os olhos atentos a tudo, o cérebro arquivando a mais pequena informação. Ceou com outros mercadores em estalagens, passeou por mercados nos dias de mercado, falando com qualquer pessoa que lhe parecesse saber de factos interessantes, vagueou pelos cais de portos do mar Egeu remexendo em fardos e espreitando amphorae seladas, namoriscou com raparigas da aldeia, pagando-lhes de forma extremamente generosa quando elas acediam a satisfazer os seus urgentes apetites carnais, escutou as histórias das riquezas do templo de Asclépio em Cós, do de Artemísia em Éfeso, do santuário de Asclépio em Pérgamo, e dos fabulosos tesouros de Rodes.

De Éfeso seguiu para norte, para Esmirna e Sardes, atingindo por fim Pérgamo, capital do governador romano, brilhando no alto da sua montanha como uma caixa ornamentada a jóias. Em Pérgamo, viu pela primeira vez tropas genuinamente romanas, uma pequena guarda pertencente ao governador; a Província da Ásia, para os Romanos, não corria qualquer risco militar, e por isso os seus soldados eram auxiliares locais e milicianos. Demorada e apuradamente, Mitridates estudou os oito membros da guarda real, reparando na pesada armadura de cota de malha, nas pequenas espadas e nas lanças de pontas minúsculas, na forma bem treinada como se moviam, apesar de rica região, mantendo todos os seus hábitos e estilo de vida gauleses, indiferentes às culturas que os rodeavam. Mesmo os seus contactos intertribais eram frágeis; não tinham um rei supremo e não estavam interessados em unir-se para conquistarem outras terras. Durante algum tempo, reconheceram o rei Mitridates V do Ponto como seu suserano, uma espécie de contrato sem consequências para qualquer dos lados, pois eles nunca pagaram os dízimos e tributos que Mitridates V exigira, e o rei morreu antes de poder arrancar-lhes a retribuição prevista. Ninguém se metia com eles; porque eram Gauleses, muito mais ferozes e valentes que Frígios, Capadócios, Pontinos, Bitínios, ou Gregos Jónios ou Dórios.

Os chefes das três tribos gaiatas e as suas escoltas seguiram para Ancira, respondendo à convocação de Mitridates, mais interessados na grande festa que lhes tinham prometido do que na eventual campanha de violência e saque que Mitridates VI por certo pensaria oferecer-lhes. E em Ancira - pouco maior que uma aldeia - encontraram Mitridates à sua espera. O rei do Ponto explorara toda a região desde Amasia até Ancira à procura de todas as iguarias e de todos os tipos de vinhos que o dinheiro pudesse comprar, e ofereceu aos chefes gaiatas um banquete mais grandioso e delicioso do que eles alguma vez tinham sonhado. Encontrando-se já num estado de grande alvoroço e contentamento antes de se atirarem à comida e à bebida, os chefes gaiatas sucumbiram ditosamente às armadilhas da barriga cheia e da embriaguez.

E enquanto dormiam no meio dos destroços a que tinham reduzido o festim, ressonando e contorcendo-se num estupor ébrio, os mil soldados de elite do rei Mitridates espalharam-se silenciosamente pelo recinto e mataram-nos. Não se mexeu o rei Mitridates enquanto não foram mortos todos os chefes gaiatas; sentado na sua cadeira real, à cabeceira da maior das mesas, com a perna descansando sobre o braço da cadeira, e o pé abanando indolente, Mitridates - assim o dizia o seu carão satisfeito - assistiu à matança com vivo interesse.

- Queimem-nos - disse ele por fim. - Espalhem depois as cinzas por cima do sangue derramado. No próximo ano crescerá aqui um trigo magnífico. Nada melhor para a terra que sangue e ossos.

E assim Mitridates proclamou-se rei da Galácia, sem qualquer oposição, a não ser a que podiam oferecer uns quantos gauleses dispersos e sem chefes.

Depois, subitamente, Mitridates desapareceu por completo. Nem o nobre mais próximo do rei sabia para onde ele tinha ido, ou que estaria congeminando; Mitridates limitou-se a deixar uma carta, ordenando aos nobres que limpassem a Galácia, regressassem a Amasia e enviassem uma mensagem à rainha para que nomeasse um sátrapa para o novo território pôntico da Galácia.

Vestido de mercador, escarranchado sobre um medíocre cavalo ruço e conduzindo um burro que transportava roupas e um jovem escravo gaiato particularmente estúpido que não sabia sequer quem o seu amo era, Mitridates seguiu pela estrada que levava a Pessinunte. No templo da Cubaba Cibele, a Grande Mãe, revelou a sua verdadeira identidade a Bataces e convenceu o arquigalo a ajudá-lo, obtendo dele muita da informação de que precisava. De Pessinunte seguiu para a Província Romana da Ásia, através do longo vale do rio Meandro.

Não houve por certo cidade na Caria que tivesse escapado à sua investigação; aquele mercador oriental, enorme de estatura, sempre curioso, e que nunca falava muito dos seus negócios, andou de cidade em cidade, administrando de quando em quando um correctivo no bronco do escravo, os olhos atentos a tudo, o cérebro arquivando a mais pequena informação. Ceou com outros mercadores em estalagens, passeou por mercados nos dias de mercado, falando com qualquer pessoa que lhe parecesse saber de factos interessantes, vagueou pelos cais de portos do mar Egeu remexendo em fardos e espreitando amphorae seladas, namoriscou com raparigas da aldeia, pagando-lhes de forma extremamente generosa quando elas acediam a satisfazer os seus urgentes apetites carnais, escutou as histórias das riquezas do templo de Asclépio em Cós, do de Artemísia em Éfeso, do santuário de Asclépio em Pérgamo, e dos fabulosos tesouros de Rodes.

De Éfeso seguiu para norte, para Esmirna e Sardes, atingindo por fim Pérgamo, capital do governador romano, brilhando no alto da sua montanha como uma caixa ornamentada a jóias. Em Pérgamo, viu pela primeira vez tropas genuinamente romanas, uma pequena guarda pertencente ao governador; a Província da Ásia, para os Romanos, não corria qualquer risco militar, e por isso os seus soldados eram auxiliares locais e milicianos. Demorada e apuradamente, Mitridates estudou os oito membros da guarda real, reparando na pesada armadura de cota de malha, nas pequenas espadas e nas lanças de pontas minúsculas, na forma bem treinada como se moviam, apesar de encarregados de tarefas pouco importantes. Também em Pérgamo, viu a primeira toga debruada a púrpura, na pessoa do próprio governador. Aos olhos do atento Mitridates, este ilustre chefe, escoltado por lictores de túnicas carmesins, cada um dos quais carregando ao ombro esquerdo os feixes de varas com machadinhas no meio, símbolo do poder que o governador tinha de castigar ou condenar à morte, pouco parecia diferir de um pequeno número de homens que usavam togas inteiramente brancas. Estes homens, como veio a saber, eram os publicani, representantes das instituições que arrecadavam os impostos provinciais; pelo modo como se pavoneavam nas ruas requintadamente traçadas de Pérgamo, dir-se-ia que eram eles, e não Roma, os senhores da província.

Naturalmente, nunca passou pela cabeça a Mitridates meter conversa com estes augustos indivíduos: eram criaturas demasiado ocupadas e importantes para darem um segundo de atenção a um solitário mercador oriental; limitou-se a observá-los na rua, no meio dos seus pequenos exércitos de empregados e escribas; quanto às conversas, teve-as com pergamenos, à mesa de pequenas tabernas, muito longe de olhos e ouvidos dos publicani.

”Levam-nos tudo o que temos”: ouviu tantas vezes esta frase, que acabou por concluir ser essa a verdade, e não uma queixa típica de homens que só se queixavam para melhor esconderem a sua prosperidade, como faziam normalmente os agricultores ricos e os detentores de monopólios.

- Como é isso possível? - replicava Mitridates, e perguntavam-lhe os outros onde é que tinha estado desde a morte do rei Átalo, trinta anos antes. E ele inventava uma história de longas deambulações que o haviam levado até ao norte do mar Euxino, sabendo que se alguém o interrogasse sobre Ólbia ou Cimério, poderia falar à vontade dessas terras.

- Em Roma - contavam-lhe então - há dois oficiais muito importantes a que chamam censores. São eleitos - coisa estranha, não é? - mas, para serem censores, deverão já ter sido cônsules anteriormente, o que mostra a importância que eles têm no Estado Romano. Ora, em qualquer comunidade grega que se preze, os negócios do Estado são dirigidos por funcionários civis competentes, e não por homens que acabam de chefiar exércitos! Tal não sucede em Roma, onde esses censores nada sabem de questões comerciais. E no entanto, são eles que controlam todo o tipo de negócios do Estado. E de cinco em cinco anos firmam contratos em nome do Estado.

- Contratos? - perguntou o déspota oriental, com uma expressão intrigada.

- Contratos. Iguais a todos os outros contratos, só que estes são realizados entre companhias comerciais e o Estado Romano - esclareceu o mercador de Pérgamo com quem Mitridates conversou certa noite.

- Parece-me que estive demasiado tempo em terras governadas por reis - contrapôs o rei. - Diz-me, o Estado Romano não tem servidores que garantam que as suas empresas são devidamente dirigidas?

- Apenas os magistrados - cônsules, pretores, edis e questores e a esses só uma coisa interessa: que o Tesouro de Roma esteja cheio.

- O mercador de Pérgamo soltou um riso abafado.

- É claro que, a maior parte das vezes, a principal preocupação desses magistrados é encherem as suas próprias bolsas!

- Continua. Isso que me conta é muito interessante.

- A difícil situação que aqui vivemos é da inteira responsabilidade de Caio Graco.

- Um dos irmãos de Semprónio?

- Precisamente. O mais novo deles. Promulgou uma lei segundo a qual os impostos da Ásia deveriam ser recolhidos por companhias integrando homens especialmente formados para o efeito. Dessa forma, pensou ele, o Estado Romano poderia receber o seu quinhão sem recorrer aos cobradores de impostos. Das suas leis nasceram os publicani asiáticos, os homens que recolhem os impostos nas nossas cidades. Em Roma, os censores anunciam aos interessados nos contratos os termos exigidos pelo Estado. No caso dos impostos da Província da Ásia, anunciam a soma que o Tesouro pretende receber todos os anos, durante um período de cinco anos - e não a soma que realmente acaba por ser cobrada na Província da Ásia. Esse total são as companhias cobradoras que o decidem, já que, para além do que hão-de pagar ao Tesouro, terão de realizar lucro. Por isso, um esquadrão de contabilistas, munidos dos seus ábacos, calcula quanto dinheiro será possível extorquir à Província da Ásia anualmente, e durante um período de cinco anos, e depois o contrato é licitado.

- Desculpa a minha estupidez, mas não percebi uma coisa: que interessa a Roma o total que é licitado, se a soma que o Estado pretende já foi comunicada aos licitantes?

- Ah! Mas esse total, meu caro amigo, é apenas o minimum que o Tesouro pode aceitar! Por isso, o que acontece é que cada companhia de publicani tenta calcular um total que seja bastante mais alto do que o mínimo, a fim de que o Tesouro fique muito contente, e também porque assim os seus lucros poderão subir!

- Ah, já estou a perceber - disse Mitridates, soprando pelo nariz, num riso contido. - O contrato vai para a companhia que oferecer o lance mais alto.

- Precisamente.

- Mas o total licitado é o total a ser pago ao Tesouro, ou toda a soma, incluindo o lucro?

O mercador desatou a rir.

- É só o total a ser pago ao Estado, meu amigo! O lucro que a companhia espera fazer só ela o sabe, e os censores, podes crer, não lhe fazem nenhuma pergunta. Tomam nota dos lances, e a firma que mais oferecer ao Tesouro é aquela que obtém o contrato.

- Os censores nunca concederam o contrato a uma companhia que oferecesse menos do que outra?

- Nunca, que eu me lembre.

- E qual é o resultado de tudo isso? As estimativas das companhias, por exemplo, situam-se dentro dos limites do provável, ou são excessivamente optimistas? - perguntou Mitridates, conhecendo de antemão a resposta.

- O que é que achas? Os publicani baseiam as suas estimativas, tanto quanto sabemos, em números obtidos após um levantamento feito no Jardim das Hespérides, e não na Ásia Menor de Átalo! Por isso, quando há uma queda na produção na mais ínfima actividade da mais ínfima região, os publicani entram em pânico - é que, desse modo aquilo que cobram não lhes chega para pagarem ao Tesouro! Se as suas propostas fossem realistas, todos estariam melhor! Na presente situação, somos obrigados a ter sempre colheitas abundantes, a não perder uma única ovelha na tosquia ou nos partos, a vender todos os fios, cordas e tecidos, todas as peles e todas as amphorae de vinho e medimni de azeitonas. Caso contrário, os cobradores de impostos começam a perseguir-nos e toda a gente sofre com isso - disse amargamente o mercador.

- E de que modo vos perseguem? - perguntou Mitridates que, no fundo, pretendia saber onde ficavam os acampamentos de soldados, já que, durante as suas viagens, não tinha visto nenhum.

- Contratam mercenários cilicianos das regiões onde até mesmo as ovelhas selvagens morrem à fome, e deixam-lhes rédea solta. Vi populações inteiras reduzidas à escravatura: nem mulheres e crianças escapam, e velhos e novos todos têm o mesmo destino. Vi campos inteiros revolvidos e casas deitadas abaixo, porque os cobradores de impostos não desarmam à procura de dinheiro. Ah, meu amigo, tenho a certeza de que choraria se lhe contasse tudo o que os cobradores de impostos fazem para nos extorquirem tudo o que temos! Confiscam as colheitas, deixando apenas o suficiente para que o camponês e a família possam comer e plantar a colheita do ano seguinte, levam metade dos rebanhos, pilham lojas e tendas, E o pior de tudo isto é que, procedendo assim, eles levam o povo a mentir e a recorrer a todo o tipo de trapaças, pois quem não o fizer perde tudo.

- E esses publicani cobradores de impostos são todos romanos?

- Romanos ou italianos - retorquiu o mercador.

- Italianos. - Mitridates, pensativo, lamentando ter passado sete anos da sua infância escondido nas florestas pônticas; a sua educação, como pudera verificar desde que iniciara aquela jornada de exploração, tinha graves lacunas no que tocava à Geografia e à Economia.

- Bom, no fundo também são romanos - explicou o mercador, que também não estava muito certo da diferença entre uns e outros.

- Os italianos vêm dos arredores de Roma, a que chamam Itália. Mas essa é a única diferença que enxergo entre romanos e italianos. Tanto uns como outros desatam a falar em latim sempre que se juntam, em vez de fazerem o que deviam, que era falar grego correcto; tanto Romanos como Italianos usam as mesmas túnicas horrendas, disformes, feitas a trouxe-mouxe. Túnicas que um pastor teria vergonha de usar, pois não há alinhavo ou prega que as salve. - Complacentemente, o mercador mexeu no macio tecido da sua túnica grega, seguro de que ela tinha sido cortada na perfeição, e de que caía que nem uma luva no seu corpo pequeno e franzino.

- E usam toga? - perguntou Mitridates.

- Às vezes. Nos dias feriados, e se o governador os convoca retorquiu o mercador.

- Os italianos também?

- Não sei - respondeu o mercador, encolhendo os ombros. - Mas julgo que sim.

Era graças a conversas deste género que Mitridates ia obtendo as suas informações, na sua maior parte uma litania de ódios em relação aos publicani e aos seus esbirros. Mas havia um outro negócio florescente na Província da Ásia, também ele nas mãos dos Romanos: o empréstimo de dinheiro a juros elevadíssimos; quem precisasse de dinheiro, mas tivesse um pouco de amor-próprio, nunca aceitaria, por certo, tais empréstimos; e só gente desprezível seria capaz de estipular tão altos juros. Soube Mitridates, entretanto, que estes agiotas eram normalmente empregados das companhias de cobrança de impostos, ainda que as companhias não participassem nos empréstimos. A Província Romana da Ásia, pensava Mitridates, é uma galinha gorda que os Romanos vão depenando: não têm qualquer outro interesse por tal região. Chegam de Roma e dos subúrbios a que chamam Itália, roubam, perseguem, extorquem, e depois voltam para casa com as bolsas a abarrotar de dinheiro, indiferentes à miséria em que deixam os naturais, o povo da Ásia Dórica e Jónica. E são odiados.

De Pérgamo, Mitridates seguiu para o interior, evitando o triângulo sem importância a que chamavam Troada e detendo-se na margem sul do lago Propôntide, perto de Cízico. Seguindo as margens do lago, chegou a Prusa, na Bitínia. Próspera, fluorescente, esta cidade espalhava-se pelas encostas da vasta montanha denominada Olimpo da Mísia, uma montanha que a neve cobria permanentemente; parando em Prusa apenas o tempo suficiente para concluir que os seus cidadãos não estavam interessados nas maquinações do rei, que passara já os oitenta anos, dirigiu-se depois para a capital, Nicomedia, sede da corte real. Nicomedia era também uma cidade próspera, e muito extensa, dominada pelo templo e pelo palácio, situados no alto de uma pequena acrópole, e sonhando junto à sua vasta e calma enseada.

Claro que aquela era uma região perigosa para um Mitridates; podia mesmo encontrar nas ruas de Nicomedia alguém que o reconhecesse, um sacerdote da dilatada confraria de Ma ou de Tique, ou, quem sabe, algum visitante de Sinope. Decidiu por isso ficar numa estalagem imunda e fedorenta, bastante longe das zonas ricas da cidade, e esconder-se o mais que podia sob as dobras da sua capa sempre que saía à rua. Queria apenas ter uma ideia do que o povo sentia, verificar qual a sua devoção ao rei Nicomedes, saber se aquela gente apoiaria entusiasticamente ou não o rei numa guerra - que, naquela altura, não passava, naturalmente, de uma mera especulação - contra o rei do Ponto.

O resto do Inverno e toda a Primavera, passou-os Mitridates viajando desde Heracleia, no Euxino bitínio, até às regiões mais remotas da Frígiae da Paflagónia, observando tudo e todos, desde o estado das estradas - mais caminhos que estradas - às possibilidades agrícolas dos campos ou à instrução do povo.

E no princípio do Verão regressou a Sinope, sentindo-se todo-poderoso, vingado, magnífico, e encontrando a irmã e esposa Laódice atreita a delírios e a gritos esganiçados e os nobres demasiado sossegados. Os tios, Arquelau e Diofanto, estavam mortos, e os primos, Neoptólemo e Arquelau, encontravam-se no Cimério; Mitridates deparava com uma situação que o deixava consciente da sua vulnerabilidade, e isso perturbava a sua disposição triunfalista, e levava-o a conter o impulso para se sentar no trono e regalar toda a corte com os pormenores da sua odisseia. Em vez disso, premiou toda a gente com um sorriso jovial, fez amor com Laódice até ela gritar por tréguas, visitou todos os filhos e filhas e respectivas mães, e sentou-se por fim calmamente à espera do que aconteceria a seguir. Havia qualquer coisa no ar, disso estava certo; enquanto não descobrisse a natureza do que se estava a passar, não diria uma só palavra sobre as etapas da sua longa e misteriosa viagem, nem sobre os seus planos para o futuro.

Até que certa noite lhe apareceu Górdio, o seu sogro capadócio, com um dedo nos lábios indicando silêncio, e uma mão indicando que deviam encontrar-se nas ameias do palácio logo que possível. Uma esplêndida lua cheia enchia os ares de uma tonalidade prateada, o vento soprava sobre o mar, semeando nas águas brilhos instáveis, as sombras eram mais escuras que a mais profunda gruta, a luz que a lua espalhava pelo céu não passava de uma paródia descolorida do sol. Espalhada pelo estreito que ligava o interior ao largo promontório onde ficava o palácio, a cidade dormia sossegada um sono sem sonhos; e a densa escuridão das muralhas que rodeavam todas as habitações humanas agigantava-se, enorme, denteada, sob a luz de um banco de nuvens baixo.

O rei e Górdio encontraram-se a meio caminho entre duas atalaias; curvados, protegidos pelas ameias, começaram a falar, ou melhor, a murmurar, e tão brandamente que por certo nem um pássaro acordariam.

- Laódice estava convencida de que desta vez não voltarias, Grande Rei.

- Estava? - perguntou o rei, impassível.

- Há três meses que tem um amante.

- Quem?

- O teu primo Fárnaces, Grande Rei.

Ah! Esperta Laódice! Aquele não era um amante qualquer, era um dos poucos varões da família que podia aspirar a subir ao trono pôntico, sem temer que um dos filhos, ainda crianças, do rei, acabasse por derrubá-lo. Fárnaces era filho do irmão de Mitridates V - e da irmã do mesmo rei. Sangue puro dos dois lados; era um candidato perfeito.

- Ela julga que eu não vou descobrir - disse Mitridates.

- Ela pensa que os poucos que sabem do caso terão medo de falar - retorquiu Górdio.

- Porque falas então?

Górdio sorriu, os dentes reflectindo o luar.

- Meu Rei, ninguém te levará a melhor! Sei-o desde que te vi pela primeira vez.

- Serás recompensado, Górdio, tens a minha palavra. - O rei encostou-se à muralha, pensativo. Até que disse: - Ela há-de tentar matar-me muito em breve.

- Não duvido, Grande Rei.

- Quantos homens leais tenho eu em Sinope?

- Creio que muitos mais do que os dela. Laódice é mulher, e portanto muito mais cruel e traiçoeira do que qualquer homem. Quem poderia confiar nela? Aqueles que a seguem, fazem-no na expectativa de grandes promoções, mas as promoções dependeriam sempre de Fárnaces. Creio que também supõem que Fárnaces a mataria logo que subisse ao trono. Mas a maior parte da corte não cedeu aos apelos dessa gente.

- Muito bem! Confio-te a ti, Górdio, a missão de alertar os meus leais servidores para o que se está a passar. Diz-lhes que estejam a postos a qualquer hora do dia ou da noite - disse Mitridates.

- E que vais fazer?

- Vou deixar que a cadela tente matar-me! Eu conheço-a. É minha irmã. Não me tentará matar com facas, arcos ou flechas. Escolherá o veneno. Um veneno horrendo, para que eu sofra.

- Grande Rei, permite-me que a prenda e a Fárnaces imediatamente!

- murmurou, nervoso, Górdio. - O veneno é tão traiçoeiro! Imagina que, apesar de todas as precauções, ela consegue dar-te cicuta ou que põe uma víbora na tua cama? Por favor, deixa-me prendê-los já! Será mais fácil.

Mas o rei abanou a cabeça.

- Preciso de provas, Górdio. Por isso deixa-a tentar envenenar-me. Deixa-a procurar a planta maldita, ou o cogumelo, ou o réptil, que melhor serve as suas intenções, deixa-a tentar matar-me.

- Meu Rei! Meu Rei! - disse Górdio, numa voz trémula, horrorizado.

- Não há motivo algum para que te inquietes, Górdio - disse Mitridates, imperturbável, sem um único vestígio de medo na voz. As pessoas não sabem, nem mesmo Laódice, que durante os sete anos em que me escondi, temendo a vingança da minha mãe, me tornei imune a todo o género de venenos conhecidos dos homens, e há alguns que só eu conheço. No que toca a venenos, posso intitular-me, sem a mínima dúvida, a maior autoridade mundial. Crês que todas estas cicatrizes resultam de armas alheias? Não! Fui eu próprio que as fiz, Górdio, para ter a certeza de que nenhum dos meus parentes conseguiria eliminar-me através do meio mais fácil e menos denunciável que conhecemos: o veneno.

- Um homem tão jovem! - exclamou Górdio, maravilhado.

- Melhor será chegar a velho, é o que acho! Ninguém me tirará o trono.

- Mas de que modo te tornaste imune, Grande Rei?

- Vejamos, por exemplo, o caso da áspide egípcia - retorquiu o rei, entusiasmado com o tema. - Conheces por certo esse animal: tem uma crista enorme e uma cabeça pequena balançando entre as asas. Arranjei uma quantidade delas, de todos os tamanhos, e comecei com as mais pequenas: deixei que me mordessem. Até chegar à maior de todas, um monstro com mais de dois metros de comprimento e tão grosso como o meu braço. Esse monstro podia matar-me, Górdio, mas a verdade é que nem doente fiquei! Fiz o mesmo com cobras várias e pitões, com escorpiões e aranhas. Depois, bebi uma gota de todos os venenos, sim, Górdio, de todos os venenos - cicuta, acónito, mandrágora, polpa de semente de cereja, infusões de bagas e raízes e arbustos vários, o cogumelo agárico, o cogumelo vermelho com pintas brancas! De cada vez, bebia mais uma gota, sempre mais uma gota, até chegar a uma taça cheia: pois nada me aconteceu. E continuei a manter-me imune; continuo a beber veneno, continuo a deixar que serpentes e víboras me mordam. E, além disso, tomo antídotos. - Mitridates riu-se baixinho. - Deixa pois que Laódice me faça todo o mal! Não conseguirá matar-me!

E Laódice tentou, durante o banquete que ofereceu para celebrar o ditoso regresso do rei. Já que toda a corte fora convidada, havia na sala do trono dezenas de divãs, as paredes e os pilares tinham sido ornados com grinaldas, e o chão juncado de pétalas perfumadas. Estava previsto que actuassem os melhores músicos de Sinope, um grupo de actores gregos que representaria a Electra, de Eurípedes, e a famosa bailarina Anais de Nisibe, que viera expressamente de Amiso, nas margens do Euxino, onde passava o Verão.

Embora em tempos remotos os reis do Ponto comessem sentados à mesa, tal como os seus antepassados trácios, a verdade é que, posteriormente, vieram a adoptar o hábito grego de comer reclinado, imaginando por isso que eram produtos consumados da cultura grega, monarcas genuinamente helenizados.

Mas esses vestígios de helenismo eram na realidade muito ténues: bastaria dizer que, quando entraram na sala do trono, todos os cortesãos se prostaram no chão, um a um, perante o seu rei; e se fossem precisas mais provas, chegaria narrar a angustiante cena depois de a rainha Laódice, com um sorriso sedutor, ter oferecido a sua taça de ouro cita ao rei, lambendo a borda da taça com a língua cor-de-rosa.

- Bebe da minha taça, marido - pediu ela docemente.

Sem hesitar, Mitridates bebeu um bom gole que deixou o conteúdo da taça a meio; depois, colocou a taça na mesa em frente do divã que partilhava com Laódice. Mitridates deixou, porém, algum vinho na boca, saboreando-o com ar de perito enquanto fitava a irmã com os seus olhos verdes acastanhados. Depois, pôs uma carranca intrigada, sem nada de medonho, porém; uma expressão pensativa, uma expressão de quem procurava lembrar-se de algo, uma expressão que, num ápice, se transformou num largo sorriso.

- Dorycnionl - exclamou ele, deliciado.

A rainha ficou branca. Todos os cortesãos se calaram, pois Mitridates dissera aquela palavra bem alto, e a festa, até àquele momento, primara pela tranquilidade.

O rei olhou para a esquerda.

- Górdio - chamou.

- Meu Rei? - perguntou Górdio, levantando-se rapidamente do divã.

- Vem ajudar-me, sim?

Quatro anos mais velha do que o irmão, Laódice era muito parecida com ele - o que não admirava, numa casa em que, desde há muitas gerações, havia casamentos entre irmãos. Corpulenta, mas bem proporcionada, a rainha preocupava-se muito com o seu aspecto físico o seu cabelo louro era penteado ao estilo grego, os seus olhos castanhos-esverdeados eram pintados com stibium, as faces pintadas com pó de greda vermelha, os lábios carminados, e os pés e as mãos pintados com tinta de hena, de um tom castanho-escuro. A faixa branca do diadema dividia-lhe a testa ao meio, e as suas extremidades, ornadas com borlas, caíam-lhe sobre os ombros. Tudo nela dizia que estávamos perante uma rainha, e essa era, precisamente, a sua intenção.

Na expressão do irmão, porém, podia ler agora o destino que a esperava. Fez um movimento para deixar o divã, mas revelou-se demasiado lenta; Mitridates agarrou-lhe a mão, fê-la recuar e puxoua para cima das almofadas, deixando-a meio deitada, meio sentada. E Górdio estava ali mesmo ao pé, ajoelhado, com uma expressão desvairada de triunfo; é que Górdio sabia que prémio ia pedir - que a sua filha Nisa, uma esposa menor, fosse elevada a rainha, e que o filho dela, Fárnaces, tivesse a primazia sobre o filho de Laódice, Maçares.

Desesperada, Laódice virou a cabeça e viu quatro nobres levando o seu amante, Fárnaces, à presença do rei, que o fitava impassível. Mas as atenções do rei viraram-se de novo para ela.

- Eu não vou morrer, Laódice - disse ele. - De facto, esta miserável beberragem nem sequer me deixará doente - e sorriu, sinceramente divertido. - Mas ainda há nesta taça vinho que chegue para te matar.

Com o polegar e o indicador da mão esquerda, o rei fechou-lhe o nariz; depois, pôs-lhe a cabeça para trás; Laódice arfava, de boca aberta, pois o terror sufocava-a. A pouco e pouco, Mitridates foi deitando o conteúdo da bela taça de ouro cita na boca de Laódice; de cada vez que a rainha bebia, Górdio fechava-lhe a boca e o rei afagava-lhe voluptuosamente o pescoço para que ela engolisse mais facilmente o veneno. Laódice não se debatia: lutar contra a morte seria uma indignidade; uma rainha da linhagem dos Mitridates não tinha medo de morrer, sobretudo se tivera uma oportunidade de arrebatar o trono.

Esvaziada a taça, Mitridates deixou a irmã deitada no divã, perante o olhar horrorizado do amante.

- Não tentes vomitar, Laódice - disse o rei, num tom de brincadeira.

- Se vomitares, vais ter de beber tudo outra vez.

Os cortesãos esperaram, calados, quietos, aterrorizados. Quanto tempo esperariam, ninguém o saberia dizer, excepto o rei (se lho tivessem perguntado, e ninguém se atreveu a tal).

Mitridates dirigiu-se então aos seus cortesãos, homens e mulheres, falando-lhes no tom que um professor de Filosofia usaria para divulgar o seu saber junto de estudantes principiantes. Os conhecimentos que o rei tinha no domínio dos venenos constituíram, para todos, uma verdadeira revelação; essa faceta do rei espalhar-se-ia mais rapidamente que um boato por todo o território do Ponto, e depois pelo estrangeiro; Górdio juntaria às palavras do rei as informações que obtivera da boca dele e, a partir desse instante, as palavras Mitridates e veneno ficariam para sempre ligadas ao nível da lenda.

- A rainha - disse o rei - não podia ter escolhido melhor veneno que o dorycnion, a que os Egípcios chamam trychnos. Ptolomeu, o general de Alexandre, o Grande, e mais tarde rei do Egipto, trouxe a planta da índia, onde, ao que dizem, chega a ter a altura de uma árvore, ainda que no Egipto não ultrapasse um arbusto, com folhas parecidas com as da nossa vulgar salva. A par do aconiton, o dorycnion é o melhor de todos os venenos - um veneno perfeitamente seguro! Hão-de reparar que a rainha não perderá a consciência até exalar o último suspiro - ainda que, e posso garanti-lo por experiência própria, todas as percepções se tornem estranhamente ampliadas; sob o efeito deste veneno, vemos um mundo mais importante e fantástico do que alguma vez poderíamos imaginar no nosso estado normal. Primo Fárnaces, devo dizer-te que a tua pulsação acelerada, todas as tuas pulsações, o mínimo movimento das tuas sobrancelhas, a tua respiração entrecortada, penosa porque assistes à sua dor, tudo isso ela sentirá, viverá, experimentará, como nunca sentiu, viveu ou experimentou. É pena que não lhe possas proporcionar outras sensações, não é? - Olhou de soslaio para a irmã, acenou-lhe. - Reparem agora, vai começar.

O olhar de Laódice estava preso a Fárnaces, que permanecia entre os guardas, sem tirar os olhos do chão. Ninguém naquela sala esqueceria o olhar de Laódice: havia nele dor e horror, exultação e tristeza, uma gama de emoções inesgotável e constantemente variável. Laódice nada dizia, porque não conseguia falar. Lentamente, os seus lábios afastaram-se dos enormes dentes amarelos, e lentamente o seu pescoço curvou-se e a coluna vertebral dobrou-se, de tal forma que, a certa altura, a sua nuca se encostava ao côncavo dos joelhos. Abalaram-na depois pequenos tremores rítmicos, que, lentamente, aumentaram de violência e diminuíram de frequência, até se transformarem em terríveis espasmos da cabeça e corpo, das pernas e dos braços.

- Está a ter um síncope! - exclamou Górdio com voz estridente.

- É claro que está - disse Mitridates num tom de profundo desdém.

- A síncope vai matá-la. Esperem um pouco e verão. - O rei observava-a com verdadeiro interesse clínico, pois sofrera já de pequenas convulsões causadas pelo veneno, mas nunca em frente do seu enorme espelho de prata. - É minha ambição - prosseguiu ele, enquanto as convulsões abalavam Laódice a todo o momento - desenvolver um antídoto universal, um elixir mágico capaz de curar o efeito de qualquer veneno, derive ele de uma planta, de um animal, de um peixe ou de uma substância inanimada. Para tal, tenho de beber todos os dias uma mistura de pelo menos uma centena de diferentes venenos, pois caso contrário perderei a minha imunidade. E depois disso, tenho de beber uma mistura de pelo menos uma centena de antídotos - disse o rei, acrescentando num aparte para Górdio: - Confesso que sem os antídotos fico um tanto ou quanto mal disposto.

- É compreensível, Grande Rei - grasnou Górdio, tremendo tão violentamente que temia que o rei reparasse.

- Já não demora muito - disse Mitridates.

E de facto assim era. Os espasmos de Laódice tornaram-se cada vez mais violentos e incontroláveis e o seu corpo esgotava-se literalmente naquele frenesim. Mas nos seus olhos lia-se ainda que estava consciente, liam-se ainda as emoções, os sentimentos. E só os cerrou no preciso momento da morte. Nem por um momento olhou para o irmão; mas é possível que isso tenha acontecido porque Laódice fitava Fárnaces no instante em que os tremores a acometeram e, depois disso, nem mesmo os músculos que controlam a direcção do olhar responderiam aos desejos da moribunda.

- Excelente! - exclamou o rei entusiasmado, acenando na direcção de Fárnaces. - Matem-no - disse.

Ninguém teve coragem de perguntar como morreria Fárnaces, pelo que a morte deste acabou por ser mais prosaica do que a de Laódice: de facto, foi uma espada que o trespassou. E todos os que tinham assistido à morte da rainha aprenderam a lição; durante muito, muito tempo, não haveria atentados contra a vida de Mitridates VI.

Durante a sua viagem por terra de Pessinunte a Nicomedia, Mário descobriu que a Bitínia era um país muito rico. Tal como todos os estados da Ásia Menor, a Bitínia era montanhosa, mas, exceptuando o Olimpo Mísio em Prusa, as serras bitínias eram mais baixas e esféricas, menos agrestes do que a cadeia de montanhas do Tauro. Uma infinidade de rios irrigava os campos, roçados e lavrados desde há muito. O trigo produzido chegava para alimentar o povo e o exército e também para pagar o tributo a Roma. As leguminosas davam-se bem naquelas terras e os rebanhos de ovelhas cresciam a bom ritmo. Legumes e fruta não faltavam. Reparou Mário que o povo tinha um aspecto feliz, saudável, bem alimentado; cada aldeia por onde passou parecia não só populosa como próspera.

Não foi, porém, isso o que ouviu da boca do rei Nicomedes II quando chegou a Nicomedia, e se instalou no palácio na qualidade de convidado de honra do rei. Aquele era um palácio especialmente pequeno, se comparado com o normal dos palácios; no entanto, como Júlia não tardou a informar Mário, as obras de arte eram extremamente valiosas, o traçado arquitectónico absolutamente brilhante, e os materiais de construção do melhor que havia.

- Ah, o rei Nicomedes não tem nada de pobre - disse Júlia.

- Pobre de mim! - suspirou Nicomedes. - Sou um homem muito pobre, Caio Mário! Não admira, já que governo um país pobre. E ainda por cima Roma não torna as coisas fáceis.

Estavam sentados numa varanda de onde se via toda a cidade e a enseada, uma enseada de águas tão calmas que mais parecia um espelho em que tudo se reflectia perfeitamente, desde as montanhas às casas à beira-mar; aquela enseada, pensava Mário, fascinado, fazia com que Nicomedia parecesse suspensa no ar, entre dois mundos, entre os burros que passeavam de pernas para o ar e as nuvens que flutuavam no azul-celeste da enseada.

- Que queres dizer com isso, rei Nicomedes? - perguntou Mário.

- Bom, pensa por exemplo naquele triste caso que se passou com Lúcio Licínio Lúculo há cinco anos - disse Nicomedes. - Apareceu no princípio da Primavera, pedindo duas legiões de auxiliares para a guerra contra os escravos da Sicília, conforme ele disse. A voz do rei ganhou então um tom petulante. - Expliquei-lhe que não tinha tropas para lhe dar, graças às actividades dos cobradores de impostos romanos, que acabam por reduzir os meus súbditos à condição de escravos. ”Liberta o meu povo escravizado, de acordo com o decreto do Senado que liberta todos os escravos de todos os territórios romanos com o estatuto de aliados!”, disse-lhe eu. ”Então terei de novo um exército, e o meu país conhecerá novamente a prosperidade.” Pois sabes o que ele me respondeu? Que o decreto do Senado se aplicava apenas aos escravos de territórios aliados italianos. E tinha razão - respondeu Mário, esticando as pernas. - Se o decreto abrangesse os escravos das nações consideradas Amigas e Aliadas do Povo Romano, o Senado tê-lo-ia informado oficialmente.

- Mário lançou um olhar penetrante ao rei. - Se bem me lembro, acabou por encontrar soldados para Lúcio Licínio Lúculo.

- Sim, encontrei, embora não tantos como ele queria. Ou melhor, foi ele próprio quem os encontrou - retorquiu Nicomedes. - Depois de ouvir da minha boca que não havia no país homens disponíveis, Licínio Lúculo partiu para a província e, passados alguns dias, regressou a Nicomedia para me dizer que tinha visto muitos homens. Tentei dizer-lhe que esses homens eram agricultores, e não soldados, mas ele respondeu-me que os agricultores serviam perfeitamente porque davam soldados excelentes. E assim começaram os meus problemas, pois Licínio Lúculo levou sete mil homens, sete mil homens de que eu precisava para manter o reino solvente!

- Esses homens regressaram passado um ano - disse Mário - e não vinham com as bolsas vazias.

- Um ano em que os campos foram escassamente cultivados teimou o rei. - Um ano de baixa produção, sob o sistema de impostos que Roma nos impõe, significa uma década de atraso.

- O que eu quero saber é porque é que não se vê um único cobrador de impostos na Bitínia - disse Mário, consciente de que o rei estava cada vez com mais dificuldade em defender o seu ponto de vista. - A Bitínia não pertence à Província da Ásia Romana.

Nicomedes mexeu-se na sua cadeira.

- O problema é que alguns dos meus súbditos pediram dinheiro emprestado aos publicani romanos da Província da Ásia. Os tempos estão difíceis.

- E porque estão os tempos difíceis, rei? - persistiu Mário. Imaginava que, depois da guerra dos escravos na Sicília, o seu país viveria uma fase de crescente prosperidade. Não falta o trigo. Podiam mesmo produzir mais. Há já alguns anos que os agentes romanos compram trigo a preços muito altos, e em especial trigo desta parte do mundo. Na realidade, nem a Bitínia, nem a Província da Ásia, poderiam fornecer metade da quantidade que os nossos agentes são encarregados de comprar. Ao que sei, a maior parte do trigo vem de terras governadas pelo rei Mitridates do Ponto.

Finalmente! O impiedoso interrogatório de Mário punha por fim a nu a chaga ulcerada da Bitínia; o pus não tardou a jorrar, abundante.

- Mitridates! - exclamou com violência o rei, erguendo-se na cadeira. - Sim, Caio Mário, essa é a víbora que ataca as minhas terras! Essa é a causa do declínio da prosperidade da Bitínia! Gastei cem talentos de ouro, que muito me custaram a obter, para conseguir apoio em Roma, quando ele se propôs alcançar o estatuto de Amigo e Aliado do Povo Romano! E gasto muito mais do que isso, todos os anos, para defender as minhas terras distantes contra as suas manhosas incursões! Vejo-me obrigado a manter um exército regular por causa de Mitridates, e nenhum país pode aguentar uma tal despesa! Vê o que ele fez na Galácia há três anos! Uma carnificina num banquetel Quatrocentos chefes morreram no congresso de Ancira, e agora ele governa todas as nações à minha volta - Frígia, Galácia, o litoral da Paflagónia. Digo-te sem rodeios, Caio Mário: se Mitridates não for já detido, até Roma se arrependerá de não ter feito nada contra ele!

- É essa também a minha opinião - disse Mário. - No entanto, a Anatólia fica muito longe de Roma, e duvido muito que haja em Roma alguém que faça ideia do que possa acontecer aqui. Excepto talvez Marco Emílio Escauro Princeps Senatus, e Marco Emílio já está a ficar velho. É minha intenção encontrar-me com o rei Mitridates, e avisá-lo. Quando regressar a Roma, talvez consiga convencer o Senado a levar o reino do Ponto mais a sério.

- Vamos jantar - disse Nicomedes, levantando-se. - Poderemos continuar a nossa conversa mais tarde. Ah, é tão bom falar com alguém que se preocupa com os nossos problemas!

Para Júlia, aquela estada numa corte oriental era uma experiência completamente nova; as mulheres romanas deveriam reivindicar o direito a viajar mais, pensava ela, pois só agora se apercebia da sua ignorância do mundo, da estreiteza dos seus conhecimentos. E essa ignorância reflectia-se, por certo, na forma como educavam os filhos, em particular os rapazes.

O primeiro rei que conhecera em toda a sua vida, Nicomedes II, fora para ela uma verdadeira revelação, pois pensava que todos os reis se assemelhavam a patrícios romanos com um estatuto consular – altivos, eruditos, pomposos, magníficos. Um Catulo César não romano, ou mesmo um Escauro Princeps Senatus; não havia dúvida que Escauro Princeps Senatus, apesar da sua pequena estatura e da extensa calvície, se comportava como um verdadeiro rei.

Mas Nicomedes II fora para ela uma revelação! Muito alto, era óbvio que em tempos passados fora um homem corpulento; mas a velhice cobrara o seu imposto em peso e altura e, por isso, tendo passado já os oitenta, o rei era agora um homem muito magro, curvado, de passo vacilante, com papadas vazias sob o queixo e as faces flácidas. Na sua boca não havia já um único dente; e da cabeça desaparecera já quase todo o cabelo. Mas estes eram traços físicos que podiam ser encontrados em qualquer antigo cônsul octogenário. Cévola Augure, por exemplo. A diferença residia no porte e na riqueza íntima de cada um, pensava Júlia. Em primeiro lugar, o rei Nicomedes era tão efeminado que dava vontade de rir; adorava trajes longos, vaporosos, de tecidos de lã transparentes, de cores verdadeiramente requintadas; às refeições, punha uma cabeleireira loura muito encaracolada, e usava sempre brincos enormes, ornados a jóias; pintava a cara ao jeito de uma prostituta barata, e o seu tom de voz não abandonava o falsete. De majestade, nada tinha, e, no entanto, dirigia a Bitínia há mais de cinquenta anos - e dirigia-a com mão de ferro, tendo escapado com êxito a todas as conspirações que cada um dos filhos tramara contra ele. Olhando para o rei - e sabendo que, desde a puberdade, Nicomedes devia ter apresentado ao mundo aquela personagem esganiçada e efeminada - Júlia tinha dificuldade em acreditar, por exemplo, que aquele homem tinha liquidado o próprio pai com mãos eficientes; ou que conseguisse preservar a lealdade e o afecto dos seus súbditos.

Os dois filhos de Nicomedes eram membros da corte; quanto às esposas, tinham já morrido, tanto a rainha, mãe do filho mais velho, igualmente Nicomedes de seu nome, como a segunda esposa, mãe do filho mais novo, de seu nome Sócrates. Mas a juventude dos filhos do rei passara havia já muito tempo: Nicomedes tinha sessenta e dois anos e Sócrates cinquenta e quatro. Embora casados, os dois filhos eram tão efeminados como o pai. A mulher de Sócrates era uma criatura pequenina, um verdadeiro rato que se escondia pelos cantos e corria em vez de andar; mas a esposa do príncipe Nicomedes era uma mulher enorme, robusta, vigorosa, e grande apreciadora da galhofa e da gargalhada; dera ao príncipe uma filha, Nisa, ainda solteira e prestes a atingir uma idade pouco própria para o casamento; Sócrates, pelo seu lado, não tinha filhos, nem da esposa legítima, nem de qualquer outra mulher.

- Não admira! - comentou um jovem escravo, em conversa com Júlia, enquanto arrumava a sala de estar que fora destinada à mulher de Caio Mário. - Não me parece que Sócrates tenha conseguido alguma vez penetrar uma mulherl Quanto a Nisa, gosta de raparigas, o que não admira: tem uma cara que parece um cavalo!

- As suas observações são insolentes - retorquiu friamente Júlia,

acenando para que o jovem escravo saísse imediatamente da sala. O palácio estava cheio de belos jovens, a maior parte dos quais escravos, e uns quantos, ao que parecia, homens livres ao serviço do rei e dos seus dois filhos; havia também dezenas de pajens, mais novos e ainda mais belos que os escravos. Júlia tentou não pensar no que fariam todos aqueles belos jovens naquele palácio, tanto mais que tinha um filho atraente, afável e sociável e prestes a entrar na puberdade.

- Caio Mário, importavas-te de vigiar um pouco o teu filho? pediu delicadamente ao marido.

- Vigiá-lo? Para quê? Por causa de todas estas flores efeminadas que se pavoneiam pelo palácio? - retorquiu Mário, rindo. - Não há qualquer razão para teres medo, mea vita. O nosso filho tem os olhos bem abertos. Distingue perfeitamente um maricas de uma boa lasca.

- Obrigada por me tranquilizares... e já agora pela metáfora disse Júlia, sorrindo. - A idade não tem contribuído muito para a tua elegância verbal, pois não, Caio Mário?

- Bem pelo contrário - retorquiu ele, impassível.

- Era precisamente isso que eu queria dizer.

- Era? Hum...

- Não estás já farto disto? - perguntou ela, de forma perfeitamente inopinada.

- Só cá estamos há oito dias - retorquiu ele, surpreendido. Oprime-te, toda esta atmosfera de circo?

- Sim, creio que sim. Sempre quis saber como viviam os reis, mas se a Bitínia constitui um modelo, então prefiro Roma, e de longe. Não é a homossexualidade que me perturba, são os mexericos, as conversinhas, os ares que as pessoas se dão, o aspecto afectado de todos. Os criados são uma desgraça. E as mulheres de sangue real são criaturas com as quais nada tenho em comum. Oradaltis fala tão alto que, quando estou com ela, só me apetece tapar os ouvidos. E quanto a Musa, de musa não tem nada: quando muito, terá tudo de nós! Sim, Caio Mário, ficaria muito agradecida se nos fôssemos embora logo que achasses conveniente - disse Júlia, a austera matrona romana.

- Então vamos embora já - retorquiu Mário alegremente, tirando um rolo de pergaminho da toga. - Esta carta persegue-nos desde Halicarnasso. É uma carta de Públio Rutílio Rufo. Adivinha só onde é que ele está.

- Na Província da Ásia?

- Em Pérgamo, para ser mais preciso. Quinto Múcio Cévola é o governador este ano, e Públio Rutílio é o seu lugar-tenente. - Mário acenou com a carta, radiante. - Imagino que o governador e o seu lugar-tenente ficarão absolutamente deliciados com a nossa visita. Devem estar à nossa espera há meses, pois esta carta deveria ter chegado às minhas mãos na Primavera. Anseiam pela nossa chegada, por certo.

- Não conheço Quinto Múcio Cévola - disse Júlia. - E pouco sei dele, excepto que é um óptimo advogado.

- Eu também não o conheço bem. Ouvi dizer que ele e o seu primo direito Crasso Orador são inseparáveis. Mas não admira que eu não o conheça. Múcio Cévola terá quando muito quarenta anos.

Convencido de que os seus convidados ficariam com ele pele menos um mês, o velho Nicomedes mostrou-se relutante em deixá-lo; partir, mas Mário estava mais do que farto daquele rei obsoleto, ansioso e particularmente tonto. A partida, os lamentos do rei quase lhes furavam os ouvidos. Desceram os estreitos canais do Helesponto e depressa estavam no mar Egeu, com ventos e correntes favoráveis.

Demandaram então a foz do rio Caíco e, seguindo o curso desse rio, alcançaram Pérgamo, que ficava alguns quilómetros para o interior; do rio, tinha-se a melhor vista possível da cidade, com a sua altaneira acrópole, e rodeada por enormes montanhas.

Quinto Múcio Cévola e Públio Rutílio Rufo encontravam-se ambos em casa, mas Mário e Júlia estavam condenados a não conhecer Cévola pois este estava de partida para Roma.

- Oh, que pena! Teriam sido uma óptima companhia para nós neste Verão que passou! - disse Cévola, com um suspiro. - O problema agora é que terei de chegar a Roma antes que o tempo torne a viagem por mar demasiado arriscada - acrescentou, com um sorriso. - Mas Públio Rutílio pô-los-á ao corrente de tudo.

Mário e Rutílio Rufo foram despedir-se de Cévola, deixando Júlia a tratar da instalação da família num palácio que lhe agradava muito mais do que o de Nicomedia, ainda que a companhia feminina continuasse

a ser escassa.

E claro que Mário pouco se preocupou com o problema de Júlia; deixou-a entregue aos seus trabalhos, e tratou de ouvir as notícias que o seu mais velho e querido amigo tinha para lhe contar.

- Em primeiro lugar, as notícias de Roma - disse ele, impaciente.

- Nesse caso, dar-te-ei primeiro as notícias realmente excelentes

- disse Públio Rutílio Rufo, sorrindo deleitado; que bom era encontrar Caio Mário tão longe de casa! - Caio Servílio Augure morreu no exílio no final do ano passado, e é evidente que teve de haver uma eleição para preencher o seu lugar no Colégio dos Augures. E tu, Caio Mário, foste eleito.

Mário ficou perfeitamente embasbacado. -Eu?

- Tu mesmo.

- Nunca podia prever uma coisa dessas... Mas porquê eu?

- Acontece que ainda gozas de muitos apoios entre os votantes, apesar de tudo o que Catulo César e outros que tais possam fazer contra ti. E creio que os votantes acharam que merecias esta distinção. O teu nome foi proposto por um grupo de cavaleiros e, como nada impede a eleição in absentia, foste tu quem venceu. Não posso dizer que a tua vitória fosse bem recebida pelo Bacorinho e seus acólitos, mas, de um modo geral, foi bem acolhida em Roma.

Mário soltou um suspiro de pura satisfação.

- Bom, não há dúvida que essa é uma boa notícia! Augure, eu! Isso implica que o meu filho será sacerdote ou augure também, e que os filhos dele terão a mesma sorte. Mas essa eleição significa também que eu consegui, Públio Rutílio, que eu consegui o queria! Consegui introduzir-me no coração de Roma, apesar de ser um rústico italiano sem nada de grego na minha educação ou nos meus modos.

- Oh, já ninguém diz de ti essas coisas. Já ninguém te chama rústico. A morte do Suíno constituiu um acontecimento da máxima importância. Se ele estivesse vivo, duvido que ganhasses a eleição – disse Rutílio Rufo, pesando as palavras. - Não é que a sua auctoritas fosse muito maior do que a de qualquer outro; os seus adeptos também não eram em número excessivo. Mas a sua dignitas ganhara uma força impressionante depois das batalhas que travou no Fórum enquanto foi censor. Gostando ou não gostando dele, todos temos de admitir que foi um homem de grande coragem. Mas creio que o seu trabalho mais importante consistiu em formar um núcleo à volta do qual puderam juntar-se muitos outros, muitos ou mesmo demasiados; e após o seu regresso de Rodes, usou de toda a sua energia para te deitar abaixo. Mas a que outra tarefa poderia ele dedicar-se? Todo o poder e influência que dispunha, usou-o unicamente para te destruir. Sabes, a sua morte foi sentida como um choque tremendo. Estava tão bem de saúde no final do exílio! Quanto a mim, sempre pensei que iríamos tê-lo connosco ainda durante muitos anos. E de repente... zás! Morreu...

- Porque estava Lúcio Cornélio com ele nessa noite? - perguntou Mário.

- Ao que parece, ninguém sabe. Uma coisa é certa: não havia entre eles qualquer intimidade. Lúcio Cornélio limitou-se a dizer que a sua presença fora um acidente, que não tivera a mínima intenção de jantar com o Suíno. Mas de facto tudo isto é muito estranho. O que mais me perturba é que o Bacorinho, pelos vistos, não achou nada estranha a presença de Lúcio Cornélio. O que me faz pensar que Lúcio Cornélio estava a tentar entrar para a facção do Suíno. Era uma expressão intrigada, a de Rutílio Rufo. - Ele e a Aurélia tiveram uma grave desavença.

- Lúcio Cornélio e Aurélia?

- Sim.

- Quem te disse isso?

- Aurélia.

- E disse-te porquê?

- Não. Disse-me apenas que Lúcio Cornélio não voltaria a ser recebido na casa dela. Bom, de qualquer modo ele partiu para a Hispânia Citerior pouco depois da morte do Suíno, e só depois disso é que Aurélia me falou de tal desavença. Creio que ela receava que eu importunasse Lúcio Cornélio caso ele estivesse ainda em Roma. Enfim, Caio Mário, um caso bem estranho.

Muito pouco interessado em questões particulares, Mário fitou o amigo com uma expressão que dizia isso mesmo. Encolhendo os ombros, comentou:
- Bom, o caso é entre eles, por muito estranho que possa ser. Mas diz-me: que mais aconteceu em Roma?

Rutílio Rufo riu-se.

- Os nossos cônsules aprovaram uma nova lei que proíbe os sacrifícios humanos.

- O quê?

- Uma lei que proíbe os sacrifícios humanos.

- Mas isso é ridículo! Desde quando é que os sacrifícios humanos fazem parte da vida romana, pública ou privada? - perguntou Mário, com visível desagrado. - Que disparate!

- Bom, creio que de facto sacrificaram dois gregos e dois gauleses quando Aníbal invadiu a Itália. Mas duvido que isso tenha alguma coisa a ver com a nova lex Cornelia Licinia.

- Mas essa lei tem a ver com alguma coisa, porventura?

- Como sabes, Caio Mário, por vezes, nós, os Romanos, decidimos chamar a atenção para um novo aspecto da vida pública usando meios particularmente bizarros. Creio que esta lei faz parte dessa categoria. Julgo que o objectivo da nova lei é informar o Fórum Romano de que não poderá haver mais violência, mais mortes, mais prisões de magistrados, enfim, de que não poderá haver mais nenhuma actividade ilegal seja ela de que tipo for - disse Rutílio Rufo.

- Mas Cneus Cornélio Lêntulo e Públio Licínio Crasso não explicaram o texto? - perguntou Mário.

- Não. Limitaram-se a apresentá-la e o povo aprovou-a.

- Francamente! - comentou Mário, e passou à frente. - Mais, conta mais.

- O irmão mais novo do nosso Pontifex Maximus, eleito pretor este ano, foi nomeado governador da Sicília. Chegaram-nos boatos de mais uma insurreição de escravos, imagina só.

- Tratamos assim tão mal os nossos escravos da Sicília?

- Sim... e não - retorquiu, pensativo, Rutílio Rufo. - Mas acontece que há demasiados escravos gregos na Sicília. E aos escravos gregos não é preciso tratá-los mal para se ter problemas. São muito independentes. E, além disso, aposto que todos os piratas que Marco António Orador capturou foram trabalhar para os campos da Sicília. Imagino que não deve ser trabalho do seu agrado. Ah, a propósito - anunciou Rutílio Rufo -, Marco António adornou os rostros com o esporão do maior navio por ele destruído durante a campanha contra os piratas. Um esporão impressionante, devo dizer.

- Pensei que já não havia espaço nos rostros. Pois se estavam a abarrotar de esporões de outras batalhas! - comentou Mário. - Mas prossegue, Públio Rutílio! Que mais sucedeu?

- Bom, o nosso pretor Lúcio Aenobarbo causou danos na Sicília, e tais foram, que a notícia chegou cá. Passou pela ilha que nem um furacão. Ao que parece, mal chegou à Sicília publicou um decreto que proibia toda a gente de usar espada ou qualquer outra arma, excepção feita a soldados e milicianos. Como seria de esperar, ninguém ligou nenhuma.

Mário pôs um sorriso arreganhado.

- Conhecendo eu os Domícios Aenobarbos, diria que essa decisão foi um erro.

- Claro que foi. Lúcio Domício desatou a reprimir impiedosamente os infractores. Toda a Sicília sofre neste momento. E duvido muito que volte a haver levantamentos, sejam eles escravos ou de homens livres.

- Bom, os Domícios Aenobarbos são de facto cruéis, mas a verdade é que conseguem o que querem - disse Mário. - Mas já terminaram as notícias?

- Quase. Mais uma só: temos novos censores, e anunciaram já que tencionam realizar o mais completo censo em muitas e muitas décadas.

- Já não era sem tempo. Quem são eles?

- Marco António Orador e o teu colega consular, Lúcio Valério Flaco. - Rutílio Rufo levantou-se. - E se fôssemos dar um passeio, meu amigo?

Pérgamo era talvez a cidade mais cuidadosamente planeada e construída de todo o mundo; Mário tinha ouvido isso, e agora comprovava-o com os seus próprios olhos. Mesmo na cidade baixa, espalhada em torno do sopé da acrópole, não havia um único caminho estreito e não se via uma única casa em ruínas, pois toda a cidade era obviamente sujeita a um rígido sistema de vistorias e as leis respeitantes à construção não eram menos rígidas. Em todas as áreas habitadas havia esgotos em profusão, e não faltava a água canalizada. O mármore parecia ser o material preferido da cidade. As colunatas sustentadas por pilares eram muitas e magníficas, a ágora era enorme, cheia de soberba estatutária, e na encosta da acrópole havia um grande teatro.

Mas apesar de tudo isso, pairava sobre a cidade e a cidadela a sombra da decadência; os objectos já não eram tratados e conservados como nos tempos dos reis Átalas, que tinham concebido e cuidado de Pérgamo, a sua capital. E o povo também não parecia satisfeito; Mário reparou que algumas pessoas pareciam passar fome, o que era surpreendente numa região tão rica.

- Os nossos cobradores de impostos romanos são responsáveis pelo que estás a ver - disse Públio Rutílio Rufo com um ar pesaroso.

- Não fazes ideia, Caio Mário, do que eu e Quinto Múcio viemos encontrar quando cá chegámos! Haja vários anos que toda a Província da Ásia é explorada e oprimida, e tudo por causa da cobiça desses idiotas dos publicani! Para começar, as somas que Roma pede para o Tesouro são demasiado elevadas; depois, acontece que os publicani oferecem muito mais do que isso - com o resultado de que, para terem lucro, sugam positivamente a Província da Ásia. É um negócio tipicamente dominado pela cobiça, pela ânsia do lucro fácil. Em vez de se concentrar na instalação dos pobres de Roma nas terras públicas e no financiamento da compra dessas terras públicas com os impostos da Província da Ásia, Caio Graco faria melhor se tivesse mandado primeiro uma equipa de investigadores à Província da Ásia, para determinar com precisão que impostos esta deveria realmente pagar. Mas Caio Graco não fez isso. Nem ele nem ninguém depois dele. As únicas estimativas de que Roma dispõe são estimativas feitas sobre o joelho pela comissão que aqui veio logo a seguir à morte do rei Átalo

- e o rei morreu há trinta e cinco anos!

- É lamentável que eu não estivesse a par disso quando fui cônsul

- comentou Mário com alguma tristeza.

- Meu caro Caio Mário, não te esqueças de que nessa altura já tinhas preocupações que chegassem com os Germanos! Em Roma, durante essa época, ninguém pensava na Província da Ásia. Mas tens razão. Uma comissão controlada por ti teria determinado somas realistas

- e disciplinado os publicani Nas actuais circunstâncias, os publicani tornaram-se insuportavelmente arrogantes, o que não admira. São eles, e não os governadores, quem governa a Província da Ásia.

Mário riu-se.

- Aposto que os publicani apanharam um susto este ano, com Quinto Múcio e Públio Rutílio em Pérgamo.

- Apanharam de facto - retorquiu Rutílio Rufo com um sorriso largo, lembrando-se do que até então acontecera em Pérgamo. - Imagino que os protestos deles se devem ter ouvido mesmo em Alexandria!

Em Roma com certeza que foram ouvidos - e, aqui para nós que ninguém nos ouve, foi por isso que Quinto Múcio teve de ir a Roma tão cedo.

- Mas que fazes tu exactamente aqui?

- Oh, limito-me a governar a província e os seus impostos - disse Rutílio Rufo, num tom ameno.

- Com prejuízo para o Tesouro e para os cobradores de impostos.

- Precisamente. - Rutílio Rufo encolheu os ombros. Entravam agora na vasta Ágora. Apontou para um plinto vazio. - Para começar, acabámos com isto. Sobre aquele plinto, havia uma estátua equestre de Alexandre, o Grande. Uma obra, calcula, de Lisipo, considerada o melhor retrato que ele fez de Alexandre. Pois sabes onde se encontra agora essa estátua? No peristilo de Sexto Perquitienus, o mais rico e grosseiro cavaleiro de Roma! Teu vizinho no Capitólio. Levou-a como pagamento de dívidas acumuladas. Imagina só. Uma obra de arte que vale mil vezes a soma em questão. Mas que poderia fazer o povo de Pérgamo? Ninguém tinha dinheiro para lhe pagar. De modo que Sexto Perquitienus chegou aqui, apontou para a estátua, e deram-lhe a estátua.

- Terá de ser devolvida - disse Mário.

- São poucas as esperanças - comentou Rutílio Rufo, num tom desdenhoso.

- Foi por causa disso que Quinto Múcio foi a Roma?

- Oh! Quem me dera! Não, ele foi a Roma para impedir os publicani de nos moverem um processo.

Mário parou de andar.

- Estás a brincar!

- Não, Caio Mário, não estou a brincar! Os cobradores de impostos da Ásia gozam de imenso poder em Roma, especialmente no seio do Senado. E eu e Quinto Múcio ofendemo-los mortalmente ao impormos alguma decência aos negócios da Província da Ásia - disse Públio Rutílio Rufo. E, com um esgar, acrescentou: - E também ofendemos mortalmente o Tesouro. Há senadores que são capazes de ignorar os protestos das companhias cobradoras de impostos. Mas não vão ignorar os problemas do Tesouro Romano. Para eles, que têm as vistas curtas, qualquer governador que reduza os rendimentos do Tesouro é pura e simplesmente um traidor. A última carta que Quinto Múcio recebeu do seu primo Crasso Orador deixou-o da cor da toga! Crasso Orador dizia-lhe que havia já um movimento para lhe retirar o poder proconsular e para o levar a tribunal por extorsão e traição. Por isso é que ele partiu a toda a pressa para Roma, deixando-me aqui a governar enquanto não vem o eleito do próximo ano.

No caminho de regresso ao palácio do governador, Caio Mário reparou que Públio Rutílio Rufo era saudado calorosamente por todos os transeuntes. Era nítido o afecto que aquela gente sentia por ele.

- Gostam muito de ti - comentou Mário, que não tinha ficado verdadeiramente surpreendido.

- Mas ainda gostam mais de Quinto Múcio. Connosco, as suas vidas mudaram muito. E, pela primeira vez, viram verdadeiros Romanos a governar. Não vejo qualquer razão para os censurar pelo ódio que nutrem por Roma e pelos Romanos. Eles têm sido vítimas de Roma, e nós temos usado e abusado deles abominavelmente. Por isso, quando Quinto Múcio baixou os impostos para um nível que considerámos justo, e acabou com a escandalosa agiotagem praticada por alguns dos representantes locais dos publicani, foi uma verdadeira festa em Pérgamo: o povo dançou na rua, Caio Mário! Pérgamo aprovou uma festa anual em honra de Quinto Múcio, e creio que Esmirna e Efeso fizeram o mesmo. De início, não paravam de nos mandar presentes, coisas extremamente valiosas, obras de arte, jóias, tapeçarias. E quando os devolvíamos com os nossos agradecimentos, mandavam-nos de volta. Acabámos por ter de impedir a entrada desses presentes e dos seus portadores no palácio.

- Conseguirá Quinto Múcio convencer o Senado de que é ele, e não os publicani, quem tem razão? - perguntou Mário.

- Que achas?

Mário reflectiu um pouco, lamentando ter passado tanto tempo da sua carreira pública no campo de batalha e não em Roma.

- Creio que consegue - disse por fim. - Quinto Múcio tem uma reputação invejável, e isso acabará por convencer muitos indecisos que, de outro modo, poderiam sentir-se tentados a apoiar os publicani

- ou o Tesouro. Além disso, Quinto Múcio fará um discurso magnífico no Senado. E Crasso Orador apoiá-lo-á com um discurso ainda melhor.

- É isso também o que acho. Mas foi com pena que ele deixou a Província da Ásia. Creio que não voltará a ter outro cargo que lhe dê tanto prazer como este. Quinto Múcio é extremamente meticuloso e escrupuloso e a nível de organização não lhe encontro igual. O meu trabalho consistiu em reunir informações sobre todas as zonas da
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província, e o dele em tomar decisões firmes a partir dessas informações. Com o resultado de, ao fim de trinta e cinco anos, a Província da Ásia ter finalmente uma estimativa realista dos impostos e o Tesouro deixou de ter justificações para exigir mais dinheiro.

- Claro que o governador, dentro dos limites da província, pode ignorar toda e qualquer directiva de Roma, desde que o cônsul não esteja presente - disse Mário. - No entanto, tu provocaste agitação entre os censores e também no Tesouro, e os publicani podem reivindicar contratos legais, tal como o Tesouro. Com novos censores, terão sido firmados novos contratos. E a questão que te ponho é esta: conseguiste transmitir as tuas descobertas a Roma a tempo de influenciar as somas pedidas nos novos contratos?

- Infelizmente não - retorquiu Rutílio Rufo. - Esse é outro motivo que levou Quinto Múcio a deslocar-se a Roma. Ele acha que vai conseguir influenciar os censores e levá-los a fazer novos contratos.

- Bom, isso não deverá irritar os publicani, desde que o Tesouro concorde em diminuir os seus rendimentos - disse Mário. - Prevejo que Quinto Múcio terá mais problemas com o Tesouro do que com os cobradores de impostos. No fim de contas, os publicani estarão em melhores condições para obter chorudos lucros se não tiverem de pagar somas irrealistas ao Tesouro.

- Precisamente - disse Rutílio Rufo. - É nisso que assentam as nossas esperanças. O que é preciso é que Quinto Múcio consiga convencer as bestas do Senado e os tribunos do Tesouro de que Roma não pode esperar da Província da Ásia aquilo que ela não pode dar.

- Quem achas que vai berrar mais alto?

- Sexto Perquitienus. Continuará a ter brutos lucros, mas deixará de poder levar obras de arte valiosíssimas. Alguns dirigentes do Senado também berrarão: aqueles que estão mais ligados aos grupos de pressão envolvidos - e que se calhar também já apanharam alguma obra de arte. Cneu Domício Aenobarbo Pontifex Maximus, para começar. Catulo César. Creio que o Bacorinho também. Cipião Nasica.Alguns Licínios Crassos, mas não o Orador.

- E o chefe máximo do Senado?

- Creio que Escauro apoiará Quinto Múcio. Pelo menos é o que nós esperamos, Caio Mário. Sejamos justos com Escauro: ele é um homem probo, um romano de quatro costados. - Rutílio Rufo soltou um risinho. - Além disso, todos os seus clientes estão na Gália Italiana, de modo que não está pessoalmente interessado na Província da Ásia. Do que ele gosta é de fazer de rei e de outros exercícios do género. Mas cobrança de impostos? Que coisa mais sórdida! E além do mais, Escauro não colecciona obras de arte.

Deixando um Públio Rutílio Rufo mais feliz no palácio do governador (já que Rutílio Rufo se recusava a abandonar o seu posto), Caio Mário e a família seguiram para sul, para a villa de Halicarnasso, onde passaram um Inverno muito agradável. Para quebrarem a monotonia, fizeram uma viagem até Rodes.

Podiam agradecer o facto de navegarem sem problemas entre Halicarnasso e Tarso aos esforços de Marco António Orador, que pusera termo - pelo menos provisoriamente - às actividades dos piratas da Panfília e da Cilícia. Antes da campanha de António Orador, ninguém poria sequer a hipótese de fazer tal viagem por mar; para mais, no caso que nos interessa, um senador romano com a importância de Caio Mário seria, para os piratas, uma presa muito mais atraente do que qualquer cargueiro: uma presa que valeria um resgate de vinte ou trinta talentos de prata.

O navio seguiu junto à costa, e a viagem durou mais de um mês. As cidade da Lícia receberam de braços abertos Mário e a família, tal como a grande cidade de Atalia, na Panfília. Nunca tinham visto montanhas tão altas tão perto do mar. Nem mesmo Mário encontrara uma tal paisagem durante a sua marcha pelo litoral rumo à Gália; os cumes, cobertos de neve, roçavam o céu, e os sopés enterravam-se na água.

Os pinhais da região eram magníficos, pois os homens não tinham ainda empreendido o seu derrube; Chipre, que não ficava muito longe dali, tinha mais do que a madeira necessária para abastecer toda a zona, incluindo o Egipto. Mas não admirava que a pirataria tivesse florescido ali, pensava Mário à medida que avançava junto à costa ciliciana; todas as reentrâncias daquelas enormes montanhas proporcionavam aos piratas grutas e portos perfeitamente dissimulados. Coracésio, que fora a capital dos piratas, estava tão bem apetrechada para desempenhar tal papel que deve ter sido considerada, por certo, como um presente dos deuses: o mar rodeava quase por completo a montanha em cujo cume altíssimo fora construída a fortaleza. A cidade caíra em poder de António devido a traições internas; examinando cuidadosamente as encostas íngremes da cidade, Mário imaginou qual seria a melhor maneira de a capturar, o que não constituía um exercício propriamente fácil.

Finalmente surgiu Tarso, uns quantos quilómetros a montante da plácida foz do Cidno, cidade abrigada do mar perfeitamente apta a funcionar como porto. Era uma cidade poderosa, fortificada, e, como seria de esperar, o palácio abriu-se de par em par para receber aqueles augustos visitantes. A Primavera começava cedo naquela zona da Ásia Menor, e por isso já estava calor em Tarso; Júlia começou a sugerir sub-repticiamente que não gostaria de ficar em tal fornalha quando Mário iniciasse a sua viagem a Capadócia.

Nos finais desse Inverno, tinham recebido em Halicarnasso uma carta do rei da Capadócia, Ariárates VII; o rei prometia estar em Tarso em fins de Março, e acrescentava que teria todo o gosto em escoltar Caio Mário desde Tarso até Eusebeia Mazaca. Sabendo que o jovem rei estaria à sua espera, Mário ficara irritado por a viagem demorar tanto tempo; a verdade, porém, é que não fora capaz de negar a Júlia os prazeres de uma excursão a Olbia ou de um passeio até às cascatas perto de Sida. No entanto, quando chegaram a Tarso, em meados de Abril, o jovem rei não só não se encontrava na cidade, como não deixara, ou enviara, qualquer mensagem.

Mário mandou então várias cartas para Mazaca: mas não recebeu nenhuma resposta, até porque nenhum dos mensageiros voltou a Tarso. E Mário começou a ficar inquieto. Ocultou tal inquietação de Júlia e do filho, mas isso só lhe trouxe mais problemas, sobretudo quando Júlia começou a pressioná-lo para que a deixasse acompanhá-lo na viagem à Capadócia. Mário não podia levá-la consigo, isso era evidente; mas também não podia deixá-la sozinha em Tarso, prostrada pelo calor estival. Para além do calor, a eventual estada de Júlia em Tarso seria também perturbada pela posição ambivalente, e por isso muito pouco invejável, da Cilícia nessa parte do mundo. Outrora uma possessão egípcia, a Cilícia passara para o domínio da Síria, entrando então num período de decadência; durante esse período, as ligas de piratas tinham usurpado gradualmente muito do poder, conseguindo mesmo controlar as férteis planícies de Pedia, situadas a leste de Tarso.

A dinastia selêucida da Síria encontrava-se desgastada, em consequência de uma série de guerras civis entre irmãos, e entre reis e pretendentes; na época que nos interessa, havia dois reis no Norte da Síria, Antíoco Gripo e Antíoco Ciziceno, tão ocupados com a luta pela posse de Antióquia e Damasco que, durante anos e anos, negligenciaram todo o resto do país. Em consequência disso, os Judeus, os Idumeus e os Nabateus tinham estabelecido reinos independentes no sul, e a Cilícia fora positivamente esquecida.

Por isso, quando Marco António Orador chegou a Tarso com a intenção de utilizar a cidade como sua base, encontrou uma Cilícia facilmente controlável, e, investido de poderes supremos, declarou-a província de Roma. Porém, após a sua partida, Roma não enviou nenhum governador para o substituir, pelo que, uma vez mais, a Cilícia regressou ao limbo. As cidades gregas, suficientemente grandes e protegidas para se estabelecerem como entidades económicas, sobreviviam sem problemas; Tarso era uma delas. Porém, entre esses centros, havia regiões inteiras onde ninguém governava em nome de quem quer que fosse, outras que eram dominadas por tiranos locais, e ainda outras onde o povo dizia, pura e simplesmente, que, agora, a sua terra pertencia a Roma. Mário chegou rapidamente à conclusão que não seriam precisos muitos anos para que os piratas regressassem em força à região. Entretanto, os magistrados locais pareciam contentes ao dar as boas-vindas ao homem que julgavam seria o novo governador romano.

A longa espera pelas notícias de Ariárates levava-o a concluir que o jovem rei devia ter sido chamado à Capadócia, ou por causa de algum problema urgente e desesperado, ou então devido a alguma coisa que exigia dele uma demorada permanência. A mulher e o filho tinham-se tornado a grande dor de cabeça de Mário. Agora sei porque costumamos deixá-los na segurança do lar!, pensava, rangendo os dentes. Deixá-los em Tarso, nem pensar: seriam presas fáceis das doenças de Verão. Mas também não podia levá-los para a Capadócia. E se pensava mandá-los de volta para Halicarnasso, obviamente por mar, logo lhe aparecia a imagem da fortaleza intacta de Coracésio, povoada, na sua imaginação, pelos adeptos de um novo rei-pirata. Que havia de fazer? Que havia de fazer? Nada sabemos sobre esta parte do mundo, pensava, é evidente que temos de fazer um esforço para a conhecermos melhor; e a parte oriental do mar Central é um perigo para qualquer navio: se eles vão por aí, serão surpreendidos por uma tempestade e morrerão no mar.

Em meados de Maio, e ainda sem qualquer notícia de Ariárates, Mário tomou uma decisão.

- Faz as malas - disse ele a Júlia, mais cortesmente do que era costume. - Vou levar-te e ao nosso filho, mas não para Mazaca. Logo que tivermos subido o bastante para que o tempo esteja mais fresco e saudável, deixá-los-ei sob a protecção de alguém, não sei ainda quem, mas por certo encontrarei pessoas dignas da nossa confiança. Depois, seguirei sozinho para a Capadócia.

Júlia queria discutir, mas calou-se; embora nunca tivesse visto Caio Mário no campo de batalha, tinham-lhe chegado aos ouvidos muitas histórias sobre a sua autocracia militar; agora, encontrava nas palavras do marido, ecos de um problema qualquer que o inquietava. Algo que tinha por certo a ver com a Capadócia.

Dois dias depois deixaram Tarso, escoltados por um grupo da milícia local, chefiado por um jovem grego por quem Mário sentia uma grande afeição, tal como, aliás, Júlia: enfim, vistas bem as coisas, um equilíbrio perfeito. Ninguém andaria a pé naquela viagem, pois o caminho a percorrer, pelo desfiladeiro a que chamavam Portas Cilicianas, era difícil e íngreme. Montada de lado num burro, Júlia concluiu que a beleza da subida compensava o desconforto; com alguma dificuldade, avançavam por estreitos caminhos solitários, no meio de vastas montanhas, e, quanto mais subiam, mais densa era a neve que as cobria. Júlia quase não acreditava que, três dias antes, tivesse padecido horrores por causa do calor; o que a preocupava agora era encontrar xales quentes no meio da bagagem. O tempo permanecia calmo e ensolarado, mas quando entravam nas florestas de pinheiros ficavam positivamente enregelados, desejando, a todo o momento, que a floresta acabasse e desse lugar a penhascos escarpados e a turbulentos regatos desaguando num tumultuoso rio que se despedaçava em grandes e espumejantes ondas contra rochas e precipícios.

Ao fim de quatro dias, a subida estava mais ou menos terminada. Num vale estreito, Mário encontrou um acampamento de gente local que trouxera os rebanhos da planície para a montanha por causa dos pastos; e aí deixou Júlia e o filho, acompanhados pela milícia. O jovem grego, de seu nome Mórsimo, recebeu ordens para que cuidasse deles e os protegesse. A má vontade dos nómadas não resistiu a uma soma generosa, e, num instante, Júlia ficou com uma das enormes tendas de couro castanhas.

- Logo que me habitue ao cheiro, sentir-me-ei perfeitamente confortável - disse ela a Mário antes de este partir. - Dentro da tenda
142 está quente e imagino que alguns dos nómadas foram já comprar cereais e outras provisões. Vai, não te preocupes comigo. Nem com o teu filho, que neste momento já deve estar a pensar em tornar-se pastor. Mórsimo tratará de nós lindamente. Só lamento que nos tenhamos tornado uma carga para ti, meu querido marido.

E assim seguiu viagem Caio Mário, acompanhado apenas por dois dos seus escravos e por um guia fornecido por Mórsimo, que parecia lamentar ficar para trás em vez de acompanhar Mário. Calculava Mário que aqueles vales e as ocasionais terras altas, muito extensas, por onde passava, teriam cerca de mil e setecentos metros de altitude - o que não chegava para causar tonturas e dores de cabeça, mas era o bastante para tornar penosa qualquer viagem em burro ou cavalo. Tinham ainda um longo caminho a percorrer para chegarem a Eusebeia Mazaca, a qual, segundo o seu guia, era a única povoação do reino da Capadócia que podia ser considerada cidade.

Tinha desaparecido o sol no momento em que Mário atingiu a linha que dividia os rios que se encaminhavam para a Pedia e aqueles que contribuíam para o impressionante comprimento e volume do Hális; de repente, deu consigo cavalgando sob aguaceiros de neve ou chuva, ou no meio de nevoeiro. Enregelado, esgotado, com feridas causadas pelos vários dias de montada, Mário suportou as longas horas de fatigante viagem com as pernas bamboleando como pesos inúteis, e agradecendo aos deuses o facto de a pele das suas virilhas ser suficientemente rija para resistir à constante fricção a que era obrigada.

Ao terceiro dia, o sol voltou a aparecer. As planícies, cada vez mais vastas, pareciam constituir um local perfeito para rebanhos de ovelhas e manadas de vacas, pois a erva abundava e as florestas eram raras; segundo o guia, a Capadócia não tinha o tipo de solo ou clima adequado às grandes florestas; no entanto, desde que lavrado, aquele solo dava um trigo excelente.

- Então porque é que não o lavram? - perguntou Mário. O guia encolheu os ombros.

- Não têm gente que chegue. Cultivam o que precisam, mais uma pequena quantidade que vendem ao longo do Hális, onde aparecem algumas barcaças de compradores. E porque haviam eles de se incomodar? Têm de comer. Estão satisfeitos.

Mário e o guia pouco mais tinham falado durante a viagem; mesmo quando procuravam abrigo, à noite, nas tendas de couro de pastores nómadas, ou nas casas de adobe de alguma aldeia minúscula, pouco falavam. As montanhas iam passando, ora próximas, ora longínquas, mas nunca pareciam tornar-se mais pequenas, ou menos verdes, ou menos nevadas.

Até que o guia anunciou que Mazaca distava apenas quatrocentas stades (cinquenta milhas romanas, segundo os cálculos de Mário) e entraram numa região tão bizarra que Mário pensou logo em Júlia, pois sabia que a esposa teria adorado ver aquelas terras. As suaves planícies persistiam, mas, de quando em quando, surgiam ravinas serpeantes, cheias de torres arredondadas e aguçadas que pareciam ter sido cuidadosamente modeladas com argilas de várias cores, como se fossem um enorme brinquedo construído na terra por uma criança-gigante tresloucada; nalguns sítios, as torres eram encimadas por enormes rochas chatas que, pensava Mário, deviam balançar, tão precária era a sua situação. E - maravilha das maravilhas! - os seus olhos começaram a distinguir janelas e portas nalgumas daquelas estruturas estranhamente naturais.

- É por isso que não encontramos mais aldeias - disse o guia. Ali está fresco, e a estação é curta. Por isso o povo desta zona escava casas naquelas torres. No Verão, são frescas, e no Inverno, são quentes. Por que haveriam de construir casas, se a grande Deusa Ma já as construiu?

- Há quanto tempo vivem dentro das rochas? - perguntou Mário, fascinado.

Mas o guia não sabia.

- Desde que o homem existe - disse ele, mas era uma resposta vaga. - Pelo menos. Nós, na Cilícia, costumamos dizer que os primeiros homens nasceram na Capadócia e viviam exactamente assim.

Continuavam a contornar aquelas ravinas de torres de argila quando Mário reparou na montanha; era uma montanha praticamente isolada, a maior montanha que alguma vez vira, maior do que o monte Olimpo na Grécia, maior ainda que os maciços que cercavam a Gália Italiana. A principal massa da montanha tinha a forma de um cone, mas havia cones mais pequenos nas encostas; e a neve, muito branca, transformava-a numa presença resplandecente contra um céu sem nuvens. Mário sabia que montanha era aquela, obviamente; era o monte Arageus, descrito pelos Gregos, e visto por muito poucos homens do Ocidente. E no seu sopé, ficava Eusebeia Mazaca, a única cidade da Capadócia. A sede real.

Infelizmente, o facto de vir da Cilícia significava que Mário abordava a montanha do lado errado; Mazaca ficava no lado norte, junto ao Hális, o grande rio vermelho da Anatólia Central, e o melhor contacto de Mazaca com o mundo.

Foi ao princípio da tarde que Mário viu as formas de muitos edifícios concentrados sob o monte Argaeus; sentiu nesse momento um grande alívio, mas, de repente, deu-se conta de que estava perante um campo de batalha. Que sensação extraordinária! Atravessar um local onde milhares de homens tinham combatido e morrido poucos dias antes e, ao mesmo tempo, não ter qualquer conhecimento da batalha, nem o mínimo interesse por ela. Pela primeira vez na sua vida, Caio Mário, o conquistador da Numídia e vencedor dos Germanos, encontrava-se num campo de batalha na qualidade de turista.

Todo o seu ser se inflamava ao atravessar aquele campo; mas não parou: prosseguiu na direcção da pequena cidade, olhando à sua volta apenas o estritamente necessário. Nada fora feito para limpar o campo de batalha; cadáveres inchados, em decomposição, sem armadura nem roupa, jaziam por todo o lado, só o ar gelado e cortante explicava que não houvesse à volta dos cadáveres uma multidão de moscas e que o fedor a carne necrosada se tornasse suportável. O guia chorava, os dois escravos estavam agoniados, mas Caio Mário seguia em frente como se não visse nada de desagradável à sua frente: de facto os seus olhos procuravam algo muito mais sinistro - o acampamento de um exército vivo, de um exército vitorioso. E lá estava esse acampamento, três quilómetros para nordeste, um vasto agrupamento de tendas de couro castanhas sob um fino manto de fumo azul produzido por muitas fogueiras.

Mitridates. Só podia ser ele. E Caio Mário não cometera o erro de pensar que o exército de mortos pertencia a Mitridates. Não, o seu exército era o que estava vivo, o que tinha saído vitorioso; o campo que Mário atravessara estava juncado de cadáveres de capadócios. Gente que vivia nas rochas, pastores nómadas - e provavelmente, disse ele para si mesmo, recuperando a sua veia prática, também os corpos de muitos mercenários sírios e gregos. E o jovem rei? Onde estava? Nem era preciso perguntar. Não se tinha deslocado a Tarso, nem respondera a nenhuma das cartas, porque estava morto. E os mensageiros também deviam estar mortos.

Outro homem talvez tivesse dado meia volta e fugido, fazendo votos para que a sua presença não tivesse sido detectada; mas não Caio Mário. Tinha encontrado finalmente o rei Mitridates Eupator, embora num país que não o seu. E Caio Mário não só não recuava, como ainda incitava a sua extenuada montada a correr na direcção do acampamento e da cidade.

Ficou, porém, espantado, ao verificar que ninguém reparava nele, que ninguém deu por ele mesmo quando transpôs a principal porta da cidade. Sim, não havia dúvida: o rei do Ponto devia sentir-se extremamente seguro! Fazendo parar o suado cavalo, examinou as calçadas da cidade, à procura de uma acrópole ou de uma cidadela; passado um instante, viu um edifício que supôs ser o palácio, situado na encosta da montanha, para lá da cidade. Era evidente que o palácio fora construído com um material pouco pesado, pouco adequado aos ventos invernosos locais pois fora revestido de reboco e pintado num azul muito intenso; as colunas eram de um vermelho berrante e os capitéis jónicos tinham sido pintados num vermelho ainda mais vivo realçado por cintilantes dourados.

É ali que ele está!, pensou Mário. Começou a subir uma das estreitas calçadas, deixando-se orientar pela vista do palácio, cercado por uma muralha pintada de azul e situado no meio de jardins agora praticamente despidos de vegetação. A Primavera chega tarde à Capadócia, pensou Mário, e lamentou que o jovem Ariárates nunca mais pudesse vê-la chegar. Era óbvio que o povo de Mazaca se tinha escondido nas suas casas, pois as ruas estavam completamente desertas. Quando chegou ao portão do palácio, Mário encontrou-o sem guarda. Sim, o rei Mitridates sentia-se perfeitamente seguro!

Deixou o cavalo e os acompanhantes ao fundo da escadaria que levava à porta principal, uma porta dupla de bronze cinzelado, adornada com relevos que relatavam, de forma assustadoramente pormenorizada, o rapto de Perséfone por Hades; Mário teve tempo de sobra para apreciar aquelas repugnantes bizarrias enquanto esperava que respondessem aos murros que dera na porta. Ao fim de algum tempo, a porta rangeu, gemeu, e abriu-se hesitantemente.

- Sim, sim, ouvi-o perfeitamente! Que deseja? - perguntou um homem muito velho em grego.

Algures no seu íntimo, Mário sentiu uma vontade terrível de rir, muito difícil de refrear; por isso, quando falou, a sua voz saiu tremida, aguda, incapaz de impressionar fosse quem fosse.

- O meu nome é Caio Mário, sou cônsul de Roma. O rei Mitridates está? - perguntou.

- Não - retorquiu o ancião.

- Estão à espera dele?

- Sim, virá antes que anoiteça.

- Óptimo! - Mário empurrou a porta e penetrou numa vasta sala, que só poderia ser a sala do trono ou o salão de recepções, fazendo ao mesmo tempo sinal aos seus três acompanhantes para que o seguissem.

- Preciso de acomodações para mim e para estes três homens. Os cavalos estão lá fora, precisam que lhes dêem comida. Quanto a mim, prepare-me um banho quente. Imediatamente.

Quando soube que o rei já estava perto, Mário vestiu a toga, encaminhou-se para o pórtico do palácio e esperou, sozinho, no alto da escadaria. Via daí um grupo de cavaleiros subindo lentamente as ruas da cidade, todos eles com boas montadas e bem armados; os escudos eram vermelhos, adornados com um crescente branco cingindo uma estrela de oito pontas também branca; os cavaleiros usavam mantos vermelhos por sobre couraças de prata, e capacetes cónicos encimados não por penas ou crina de cavalo, mas por crescentes dourados cingindo estrelas douradas.

O rei não comandava as tropas, e era impossível distingui-lo entre aqueles centos de homens. Não se preocupa com o facto de o palácio ficar sem guarda durante a sua ausência, mas preocupa-se, e de que maneira, com a sua pessoa, pensou Mário. O esquadrão passou o portão e encaminhou-se na direcção da escadaria; pelo barulho que os cavalos faziam, Mário concluiu que muitos estariam desferrados e que, no Ponto, havia por certo falta de ferreiros. Majestaticamente envolvido na sua toga debruada a púrpura, muitos metros acima dos cavaleiros, Mário não passaria despercebido a ninguém.

Os cavaleiros abriram alas. Do seu seio, saiu Mitridates, montado num corpulento cavalo baio. Usava um manto púrpura e era também púrpura o escudo do seu escudeiro, embora não lhe faltasse a insígnia do crescente e da lua. No entanto, o rei não usava capacete; tinha a cabeça tapada com pele de leão; os enormes caninos do leão colavam-se à testa do rei, e as orelhas erguiam-se empinadas; as cavidades que tinham abrigado os seus olhos eram agora meros buracos escuros. Sob a couraça e a saia pregueada ornadas a ouro que o rei usava, viam-se uma saia e mangas de camisa de cota de malha revestida a ouro; e nos pés trazia umas botas de pele de leão gregas, um belíssimo exemplar bordado a ouro e com linguetas pendentes na forma de cabeças de leão com jubas douradas.

Mitridates desceu do seu cavalo e por um momento deixou-se ficar ao fundo das escadas, olhando para Mário, uma posição de inferioridade que evidentemente não lhe agradava. Era, contudo, demasiado inteligente para subir imediatamente os degraus. Tão alto como eu, pensou Mário, e tão corpulento como eu era noutros tempos. Não era um homem belo, embora o seu rosto fosse agradável, um rosto largo, quadrado, com um queixo redondo, proeminente, e um nariz comprido, largo, ligeiramente protuberante. A sua pele era branca, e sob a cabeça de leão viam-se vestígios de um cabelo louro e uns olhos cor de avelã; uma boca pequena, com lábios cheios e muito vermelhos, sugeria que o rei era não só irascível como petulante.

Mas onde é que tu terás visto um homem de toga praetextal, perguntou Mário silenciosamente, tentando recordar-se do que sabia da história do rei, e não encontrando momento algum em que o rei pudesse ter visto uma toga praetexta - ou mesmo uma toga alba. Porque Mário tinha a certeza de que Mitridates identificara imediatamente um ex-cônsul romano, e a experiência ensinava-lhe que aqueles que nunca tinham visto tal traje ficavam sempre fascinados (mesmo que tivessem ouvido uma boa descrição do mesmo). Onde é que terás visto um dos nossos?

Mitridates Eupator subiu os degraus calmamente; ao chegar ao cimo, estendeu a mão direita, no gesto universal de quem deseja a paz. Cumprimentaram-se. Ambos eram demasiado inteligentes para transformarem o cumprimento num duelo de força.

- Caio Mário - disse rei, num grego com um sotaque idêntico ao de Mário - Este é, sem dúvida, um prazer inesperado.

- Rei Mitridates, quem me dera poder dizer o mesmo.

- Entra! Entra! - disse o rei amavelmente, pondo o seu braço por sobre os ombros de Mário e empurrando-o na direcção da porta.

- Espero que tenham tratado bem de ti.

- Trataram-me perfeitamente, obrigado.

Uma dúzia de guardas do rei espalharam-se pela sala do trono, seguindo à frente de Mário e do rei; uma outra dúzia vinha atrás. Depois de terem revistado todos os cantos e recantos da sala, metade dos guardas saiu da sala com o intuito de revistar o resto do palácio, ao passo que a outra metade ficou na sala, de olho em Mitridates, que se encaminhou de imediato para o trono de mármore com almofadas púrpura; após ter-se sentado, ordenou que trouxessem uma cadeira para Caio Mário.

- Ofereceram-te de beber? - perguntou o rei.

- Preferi um banho - retorquiu Mário.

- Jantamos então?

- Se assim o desejas. Mas poderíamos ficar aqui, a menos que queiras mais companhia do que a minha.

Colocaram então uma mesa entre eles, trouxeram vinho e uma refeição simples, composta de uma salada de legumes, iogurte misturado com alho e pepino, e umas bolas muito saborosas de carne de anho picada e grelhada. O rei não fez qualquer comentário acerca da frugalidade da refeição: limitou-se a devorá-la, tal como Mário, que vinha esfomeado após tão dura viagem.

Só quando o repasto acabou e os criados levaram os pratos é que os dois homens se propuseram conversar. Lá fora, persistia um crepúsculo de um tom anil, mágico, mas dentro da sala do trono caíra a mais completa escuridão; criados aterrorizados arrastavam-se como sombras de lanterna em lanterna, acendendo uma chama fraca e instável; como o óleo utilizado era de má qualidade, as pequenas chamas produziam imenso fumo.

- Onde está o rei Ariárates VII? - perguntou Mário.

- Não está. Morreu - respondeu Mitridates, limpando os dentes com um arame de ouro. - Morreu há dois meses.

- Como?

Agora que estava mais perto do rei, Mário podia ver que os olhos de Mitridates eram de um verde intenso, com pequenos salpicos castanhos, uns olhos invulgares o bastante para que os considerasse notáveis. Esses olhos embaciaram-se, deixaram por um momento de fitar Mário e voltaram depois a olhá-lo, bem abertos, francos; vai mentir-me, pensou imediatamente Mário.

- Uma doença incurável - disse o rei, suspirando tristemente. Morreu aqui no palácio, creio. Eu não estava cá nessa altura.

- Travaste uma batalha nos arrabaldes - disse Mário.

- Teve de ser - replicou Mitridates, sem mais.

- Por que motivo?

- O trono tinha sido reclamado por um pretendente sírio - um primo selêucida, ou lá o que ele era. Há muito sangue selêucida na família real capadócia - explicou tranquilamente o rei.

- E em que medida te diz isso respeito?

- Bom, o meu sogro, ou melhor, um dos meus sogros, é capadócio. O príncipe Górdio. E a minha irmã era a mãe do falecido Ariárates VII e do seu irmãozito, esse perfeitamente vivo e de boa saúde. Claro que este irmão de Ariárates é o legítimo rei, e eu empenhei-me em dar reis legítimos à Capadócia - disse Mitridates.

- Não sabia que Ariárates VII tinha um irmão mais novo - disse Mário calmamente.

- Sim, claro que tem.

- Mas tens de me contar exactamente o que aconteceu.

- Bom, durante o mês de Boedromion, estava eu em Dasteira, recebi um pedido de ajuda, de maneira que mobilizei o meu exército e marchei na direcção de Eusebeia Mazaca. Não estava cá ninguém, e o rei estava morto. O seu irmão mais novo tinha fugido para a região dos trogloditas. Ocupei a cidade. Foi então que apareceu o pretendente sírio com o seu exército.

- Como é que se chamava esse pretendente sírio?

- Seleuco - retorquiu prontamente Mitridates.

- Bom, não há dúvida que esse é um bom nome para um pretendente sírio! - observou Mário.

Mas Mitridates não se apercebeu da óbvia ironia: era evidente que o rei do Ponto não assumia em relação às palavras a mesma atitude que Gregos ou Romanos, além do que provavelmente nunca se ria. É um homem muito mais estranho que Jugurta da Numídia, pensou Mário; talvez não tão inteligente, mas muito mais perigoso. Jugurta matou muitos dos seus parentes próximos, mas sabia que os deuses poderiam chamá-lo um dia a responder por tais crimes. Ao passo que Mitridates se imagina um deus, e não conhece nem vergonha nem culpa. Quem me dera saber algo mais acerca dele e do reino do Ponto. O pouco que Nicomedes me contou de nada me serve; ele julga que conhece este homem, mas na realidade não o conhece.

- Travaram portanto uma batalha e Seleuco, o pretendente sírio, foi derrotado - disse Mário.

- Precisamente - retorquiu o rei, algo impaciente. - Pobres desgraçados! Matámo-los quase todos.

- Assim me pareceu - disse secamente Mário, curvando-se um pouco para a frente. - Diz-me, rei Mitridates, não é hábito no reino do Ponto limparem os campos de batalha?

O rei pestanejou, compreendendo que Mário não estava a ser propriamente simpático.

- Nesta altura do ano? - perguntou. - Porquê? No Verão já estão todos derretidos.

- Estou a ver. - De costas direitas, porque essa era a postura de qualquer Romano que se sentasse numa cadeira (a toga era um traje que não tolerava muitas mexidas), Mário assentou as mãos nos braços da cadeira. - Gostaria de ver o rei Ariárates VIII, se é que é esse o seu título. Será possível, Rei?

- Mas claro, claro que é possível! - exclamou o rei cordialmente, após o que bateu as palmas. - Chamem o rei e o príncipe Górdio ordenou ele, quando o ancião apareceu. Depois, virando-se para Mário:

- Encontrei o meu sobrinho e o príncipe Górdio sãos e salvos entre os trogloditas há dez dias.

- Foi uma sorte - comentou Mário.

O príncipe Górdio entrou, conduzindo um rapaz com cerca de dez anos pela mão; Górdio teria já passado os cinquenta; ambos usavam trajes gregos. Obedientemente, postaram-se ao fundo do estrado onde Mário e Mitridates estavam sentados.

- Então, meu rapaz, como estás? - perguntou Mário.

- Bem, obrigado, Caio Mário - respondeu a criança, tão parecida com Mitridates que poderia perfeitamente posar para um retrato do rei do Ponto em menino.

- Então o teu irmão morreu, não é verdade?

- Sim, Caio Mário. Morreu de uma doença incurável aqui no palácio, há dois meses - disse o pequeno papagaio.

- E tu és agora o rei da Capadócia.

- Sim, Caio Mário.

- E gostas?

- Sim, Caio Mário.

- Mas ainda és muito pequeno para governar o país.

- O avô Górdio ajuda-me.

- Avô?

Górdio sorriu, e que sorriso desagradável aquele.

- Eu sou avô para toda a gente, Caio Mário - retorquiu ele, suspirando.

- Ah, estou a ver. Obrigado por esta audiência, rei Ariárates. O rapaz e o homem saíram, curvando-se graciosamente.

- É um belo rapaz, o meu Ariárates - disse Mitridates, muito satisfeito.

- O seu Ariárates?

- Metaforicamente, Caio Mário.

- É muito parecido contigo.

- A mãe dele era minha irmã.

- Sim, e a tua linhagem, segundo sei, está cheia de casamentos dentro da família. - As sobrancelhas de Mário torceram-se, mas o rei Mitridates não entendia um tal sinal que Lúcio Cornélio Sila conhecia tão bem. - Bom, parece portanto que os problemas de Capadócia foram satisfatoriamente resolvidos - comentou Mário jovialmente. Isso implica, evidentemente, que retires o teu exército para o Ponto.

O rei ficou surpreendido.

- De modo nenhum, Caio Mário. A Capadócia está ainda em efervescência, e este rapaz é o último da sua linhagem. É melhor que conserve o meu exército aqui.

- Será melhor que o leves para o Ponto!

- Não posso fazer isso.

- Podes, rei Mitridates, e sabes que podes.

O rei começou a inchar, a sua couraça já rangia.

- Caio Mário! Tu não podes dizer-me a mim, rei do Ponto, o que devo ou não fazer!

- Posso, sim, rei Mitridates - disse Mário com voz forte, mas perfeitamente calma. - Roma, de facto, não está especialmente interessada nesta parte do mundo, mas se o rei do Ponto continuar a manter exércitos de ocupação em países que não lhe pertencem, posso garantir-te que o interesse de Roma por esta parte do mundo crescerá, e muito. As legiões romanas são formadas por Romanos e não por camponeses capadócios ou mercenários sírios. Tenho a certeza de que não gostarias de ver legiões romanas nesta zona do mundo! Mas vê-las-ás, garanto-te, a menos que voltes para o Ponto com o teu exército.

- Tu não podes dizer isso, não exerces quaisquer funções agora!

- Já fui cônsul romano. Posso dizê-lo. E digo-o.

A ira do rei não parava de crescer; tal como o medo, reparou Mário com interesse. Nunca falha!, pensou, exultante. Assemelham-se todos àqueles animais tímidos que se mostram muitíssimo agressivos; tiramos-lhes a máscara, e eles fogem logo a ganir, de cauda entre as pernas.

- Precisam de mim aqui, precisam do meu exército!

- Não precisam. Volta para casa, rei Mitridates!

O Rei pôs-se de pé num repente, com a mão no punho da espada, e os doze guardas que continuavam na sala aproximaram-se, à espera de ordens.

- Podia matar-te neste preciso instante, Caio Mário! De facto, creio que vou mesmo matar-te! Podia matar-te que ninguém saberia o que te tinha acontecido. Podia mandar as tuas cinzas para Roma, num grande recipiente de ouro, com uma carta de desculpas explicando que morreras de doença incurável, aqui, no palácio de Mazaca.

- Tal como o rei Ariárates VII? - perguntou afavelmente Mário, sentando-se muito direito na sua cadeira, sem medo, perfeitamente sereno. Após uma breve pausa, curvou-se um pouco. - Acalma-te, rei! Senta-te, sê sensato. Sabes perfeitamente que não podes matar Caio Mário! Se me matasses, as legiões romanas não tardariam a chegar ao Ponto e à Capadócia - aclarou a voz e prosseguiu num tom de amena conversa. - Sabes, o nosso problema é que não temos uma guerra realmente decente desde que derrotámos setecentos e cinquenta mil bárbaros germanos. Esse, sim, era um inimigo! Mas não tão rico como o Ponto, longe disso. Os despojos que levaríamos desta parte do mundo tornariam uma guerra muitíssimo atraente. Por isso, para quê provocá-la, rei Mitridates? Volta para casa!

E de repente Mário ficou sozinho; o rei saiu da sala do trono e, com ele, os guardas. Pensativo, Mário levantou-se e deixou também a sala, emcaminhando-se para os seus aposentos, de barriga cheia de boa comida, boa e simples, como ele gostava, e a cabeça cheia de questões interessantes. Não tinha qualquer dúvida de que Mitridates levaria o seu exército para o Ponto; mas onde é que ele teria visto romanos de toga? E onde teria visto um romano com uma toga debruada a púrpura? O rei sabia que ele era Caio Mário, talvez porque o ancião que servia no palácio o tivesse informado antecipadamente; talvez:

Mário tinha as suas dúvidas. Não, nada disso. O rei tinha recebido as cartas que ele enviara’ para Amasia, e tentara, desde então, evitar aquele confronto. O que significava que Bataces, o arquigalo de Pessinunte, era um espião de Mitridates.

Ansioso por regressar à Cilícia o mais depressa possível, Mário levantou-se cedo, mas demasiado tarde para ver uma vez mais o rei do Ponto. Mitridates, disse-lhe o ancião, regressara ao Ponto com o seu exército.

- E Ariárates Eusébio Filopator? Foi com o rei Mitridates, ou ficou cá?

- Ficou cá, Caio Mário. O pai fê-lo rei da Capadócia, por isso temos de ficar por cá.

- O pai? - perguntou bruscamente Mário.

- O rei Mitridates - retorquiu o velho, inocentemente.

Claro! O rapaz não era nada filho de Ariárates VI, mas sim filho de Mitridates. Esperto. Mas não o suficiente.

Górdio despediu-se dele, todo sorrisos e mesuras; mas do jovem rei não se via sinal.

- Portanto és agora o regente - disse Mário, junto ao seu novo cavalo, muito melhor do que aquele que o levara de Tarso até Mazaca; também os criados tinham agora melhores montadas.

- Sim, Caio Mário, serei o regente enquanto o rei Ariárates Eusébio Filopator não tiver idade para governar sozinho.

- Filopator - disse Mário, meditativo. - Significa ”aquele que, ama o pai”. Achas que ele vai ter saudades do pai?

Górdio fitou-o de olhos muito abertos.

- Saudades do pai? O pai dele morreu era ele bebé.

- Não, príncipe Górdio, Ariárates VI morreu há demasiado tempo para poder ser pai deste jovem - retorquiu Mário. - Eu não sou idiota, príncipe Górdio. Di-lo ao teu amo, Mitridates. Diz-lhe que eu sei de quem é filho o novo rei da Capadócia. E que permanecerei vigilante.

- Aceitando a ajuda de Górdio ao montar o cavalo, Mário acrescentou:

- Tu és, suponho eu, de facto o avô do rapaz. A única razão por que decidi deixar as coisas como estão é que a mãe da criança, pelo menos, é uma cidadã capadócia - a tua filha, ao que presumo.

Nem mesmo aquele homem, inteiramente dominado por Mitridates, conseguia ocultar a verdade: pelo contrário, aquiesceu mal Mário acabou de falar.

- A minha filha é a rainha do Ponto, e o seu filho mais velho sucederá ao rei Mitridates. Agrada-me por isso que este rapaz venha a governar o meu país. Ele é o último da sua linhagem, ou melhor, a mãe dele é que o é.

- E tu não és príncipe nenhum - disse Mário com desdém. Acredito que sejas capadócio, mas suponho que te atribuíste a ti mesmo o título de príncipe. O que não faz da tua filha o último elo da tua linhagem. Comunica a minha mensagem ao rei Mitridates.

- Assim farei, Caio Mário - disse Górdio, não se mostrando ofendido. Mário avançou com o seu cavalo, mas depois parou e olhou para trás.

- Uma última questão! Limpa o campo de batalha, Górdio! Se vocês, orientais, quiserem ganhar o respeito dos homens civilizados, terão de comportar-se como homens civilizados. Ninguém deixa milhares de cadáveres a apodrecer após a batalha, ainda que esses cadáveres sejam os dos inimigos e nós os desprezemos. Não é uma boa técnica militar, é muito simplesmente um acto bárbaro. E pelo que vejo, é precisamente isso o que o teu amo é: um bárbaro. Bom dia, Górdio.

- Dito isto, Mário partiu por fim, seguido pelos seus ajudantes.

Górdio não admirava a audácia de Mário, mas também não admirava verdadeiramente Mitridates. Por isso, foi com considerável prazer que ordenou que lhe trouxessem o cavalo e que logo partiu em busca do rei, antes que este deixasse definitivamente Mazaca. Dir-lhe-ía tudo o que Mário lhe dissera, palavra por palavra! Ah, e o prazer que sentiria em administrar um tal veneno a Mitridates! A sua filha era de facto a nova rainha do Ponto, o seu neto Fárnaces o herdeiro do trono do Ponto. Sim, tudo corria bem para Górdio, o qual, como Mário sagazmente adivinhara, não era nenhum príncipe da velha casa real capadócia. Quando o jovem que era filho de Mitridates reivindicasse o direito a governar sozinho - no que seria, sem dúvida, apoiado pelo pai -, Górdio tudo faria para que lhe fosse dado o reino-templo de Ma, situado em Comana, num vale capadócio entre os rios Píramo e Saro. Aí, sacerdote e rei simultaneamente, estaria em segurança e seria um homem próspero e extraordinariamente poderoso.

Encontrou Mitridates no dia seguinte, acampado nas margens do rio Hális, não muito longe de Mazaca. E repetiu, palavra por palavra, o que Caio Mário lhe dissera. O rei ficou furioso, mas não fez qualquer comentário: limitou-se a fitá-lo com uns olhos ligeiramente protuberantes, apertando e desapertando as mãos.

- E limpaste o campo de batalha? - perguntou o rei.

Górdio engoliu em seco, sem saber que resposta o rei gostaria de ouvir. Tentou adivinhar, mas saiu-se mal.

- Claro que não, Grande Rei.

- Então o-que é que estás aqui a fazer? Vai já limpá-lo!

- Mas, Grande Rei, Divina Majestade, ele chamou-te bárbaro!

- E é isso que eu sou, segundo o ponto de vista dele - retorquiu o rei, num tom enérgico. - Mas Caio Mário não voltará a ter oportunidade de me chamar bárbaro. Se os homens civilizados gastam as suas energias a limpar campos de batalha ainda que a época do ano não o torne necessário, façamos como eles, gastemos também as nossas energias. Nenhum homem que se creia civilizado achará seja o que for na minha conduta que lhe permita chamar-me bárbaro!

Assim será, enquanto não perderes as estribeiras, pensou Górdio, mas calou-se; Caio Mário tem toda a razão, Grande Rei. Tu és um bárbaro.

E assim foi limpo o campo de batalha. Depois de queimados os corpos, as cinzas foram enterradas num monte tumular, insignificante se comparado com o seu pano de fundo, o monte Argaeus. Mas o rei Mitridates não ficou para ver as suas ordens cumpridas; enviou o exército para o Ponto e partiu para a Arménia, numa viagem especialmente faustosa. Quase toda a sua corte foi com ele, incluindo dez esposas, trinta concubinas, e meia dúzia dos seus filhos mais velhos; a comitiva estendia-se por quase dois quilómetros, e eram sem conta os cavalos, os carros puxados por bois, as liteiras, as carruagens, as bestas de carga. A velocidade a que seguia era mínima: não avançava mais do que dezasseis a vinte e quatro quilómetros por dia. Mas não parava. Permanecia surdo às queixas das mulheres mais frágeis, que apenas pretendiam um ou dois dias de descanso. Escoltavam-no mil soldados de cavalaria, o número certo para uma embaixada real.

Porque aquela era de facto uma embaixada: a Arménia tinha um novo rei. Mitridates recebera a notícia no início da sua campanha na Capadócia, e não tardara a reagir, enviando mensageiros a Dasteira, com a incumbência de reunirem mulheres, crianças, nobres, prendas, roupas e bagagens. A caravana demorara quase dois meses a chegar ao Hális, perto de Mazaca; nessa altura, encontrava-se Caio Mário em Mazaca; no dia da sua partida, Caio Mário não encontrara o rei:
Mitridates visitava nesse momento a sua corte ambulante, certificando-se de que tudo fora realizado a seu contento.

Tudo o que Mitridates sabia do novo rei da Arménia era que ele era jovem, filho legítimo do velho rei Artavasdes, que o seu nome era Tigranes, e que fora refém do rei dos Partos desde criança. Um rei da minha idade!, pensou Mitridates, exultante, um governante de um poderoso reino oriental sem qualquer ligação a Roma, um rei que poderá juntar-se ao Ponto na luta contra Roma!

A Arménia situava-se no meio das vastas montanhas em torno de Ararat e estendia-se para leste até ao mar Cáspio ou Hircânio; estava intimamente ligado pela tradição e pela geografia ao reino dos Partos, cujos governantes nunca tinham mostrado qualquer interesse pelas regiões que ficavam a oeste do rio Eufrates.

O caminho mais fácil consistia em seguir o curso do Hális até à nascente; surgia depois a Arménia Menor, um pequeno reino sob o domínio de Mitridates, e o Eufrates, muito perto da nascente; finalmente, atingia-se a nascente do Araxes e, seguindo o curso deste rio, alcançava-se Artáxata, capital da Arménia. De Inverno, a viagem teria sido impossível, pois a mais baixa das terras por onde passaram já era muito elevada; porém, no princípio do Verão, seria difícil encontrar viagem mais agradável, pois os vales estavam cheios de flores silvestres

- do azul da chicória, do amarelo das prímulas e dos ranúnculos, o espantoso carmesim das papoulas. Não havia florestas, apenas plantações de árvores cuidadosamente cultivadas, e destinadas apenas à protecção contra os ventos e posteriormente à lenha de que as casas precisavam; a estação de florescimento era tão curta que os choupos e as bétulas estavam ainda sem folhas em Junho.

No trajecto seguido pela comitiva, só havia uma cidade, Carana, e uma ou outra aldeia; mesmo as tendas dos nómadas eram escassas. Isto implicava que a comitiva levasse cereais e tivesse de colher fruta e legumes pelo caminho; por outro lado, só poderiam comer carne quando encontrassem pastores. No entanto, Mitridates era perspicaz, pois comprava tudo o que não podia obter e permanecia, por isso, nas memórias fascinadas da gente simples com quem se cruzava, como um verdadeiro deus, distribuindo dádivas jamais imaginadas.

Em Julho, atingiram por fim o rio Araxes; meteram pelo seu sombrio vale e Mitridates, a cada estrago provocado pela comitiva, corria a pagar a devida indemnização aos agricultores; para tais negócios, usava-se agora a linguagem gestual, pois, para lá do Eufrates, poucos eram os que sabiam grego. O rei do Ponto enviara mensageiros a Artáxata para anunciarem a sua visita, e, ao aproximar-se da cidade, desfazia-se já em sorrisos, pois, no seu íntimo, sabia que aquela longa e cansativa peregrinação daria os seus frutos.

Na estrada fora das muralhas, Mitridates tinha à sua espera o rei Tigranes da Arménia, escoltado pelos seus guardas, todos vestidos de cota de malha da cabeça aos pés e empunhando longas lanças e carregando às costas os escudos; fascinado, o rei Mitridates examinou os corpulentos cavalos, também completamente vestidos com cota de malha. E que extraordinário rei aquele, conduzindo, de pé, um carro dourado, de rodas pequenas, puxado por seis parelhas de bois brancos e protegido por um guarda-sol franjado! Que visão aquela! O rei usava uma saia formada por vários panos sobrepostos e ornada com borlas e bordada a vermelho e açafrão, um casaco de mangas curtas e, na cabeça, uma tiara em forma de torre presa com a fita branca do diadema.

Vestido com a sua armadura dourada e a pele de leão, de botas gregas nos pés e a sua espada ornada de jóias no cinturão, igualmente ornado de jóias, cintilante à luz do Sol, Mitridates desceu do seu enorme cavalo baio e foi ao encontro de Tigranes, de mãos estendidas. Tigranes desceu do carro e estendeu também as mãos. E assim se encontraram as suas mãos; os olhos escuros de um fitaram os olhos verdes do outro, e logo nasceu uma amizade que não dependia apenas da simpatia. Cada um deles reconhecia no outro um aliado. E cada um começou imediatamente a pensar no que o outro lhe poderia dar. Juntos encaminharam-se para as portas da cidade.

Tigranes era branco de pele, mas tinha cabelos e olhos escuros; usava o cabelo e a barba compridos e muito encaracolados, e entrançados com fios de ouro. Mitridates pensava que Tigranes era um monarca helenizado; enganava-se redondamente, pois Tigranes tinha muito mais a ver com os Partos: daí o cabelo, a barba, o traje comprido. Felizmente, porém, falava um grego excelente, tal como dois ou três dos principais nobres do reino. O resto da corte, tal como a população, falava um dialecto medo.

- Mesmo em localidades tão partas como Ecbátana e Susiana, falar grego é sinal de elevada instrução - disse o rei Tigranes quando se instalaram em duas cadeiras reais rodeando o trono dourado da Arménia. - Não te insultarei, sentando-me mais alto - dissera Tigranes.

- Vim à Arménia no intuito de firmar um tratado de amizade e aliança - explicou Mitridates.

A discussão prosseguiu em termos particularmente delicados, facto invulgar em dois homens tão arrogantes e autocráticos, e uma indicação de que ambos consideravam muito necessário um acordo interessante. Mitridates era, evidentemente, o rei mais poderoso, porque não tinha qualquer suserano e governava um reino muito mais extenso que o da Arménia - além do que era muitíssimo mais rico.

- O meu pai assemelhava-se ao rei dos Partos em muitos aspectos

- disse Tigranes. - Matou um a um os filhos que manteve consigo na Arménia; eu escapei porque fui enviado como refém do rei dos Partos quando tinha oito anos. De modo que quando o meu pai adoeceu, o único filho que restava era eu. O conselho dos nobres arménios negociou com o rei Mitridates da Partia a minha libertação. Mas o preço foi muito alto. Setenta vales arménios, todos eles ao longo da fronteira que separa a Arménia da Atropatene Meda, o que significa que o meu país perdeu algumas das suas terras mais férteis. Além disso, havia nesses vales rios auríferos, belíssimos filões de lápis-lazúli, turquesa e ónix preto. Jurei solenemente que a Arménia havia de recuperar esses setenta vales e que encontraria um melhor local para construir uma capital melhor do que esta fria Artáxata.

- Aníbal não ajudou a construir Artáxata? - perguntou Mitridates.

- É o que se diz - retorquiu apenas Tigranes, regressando aos seus sonhos de império. - É minha ambição estender a Arménia para o sul, até ao Egipto, e para oeste, até à Cilícia. Quero ter acesso ao mar Central, quero rotas comerciais, quero terras mais quentes para cultivar cereais, quero ouvir todos os cidadãos do meu reino falando grego. - Parou de falar, molhou os lábios. - Que pensas disto, Mitridates?

- Acho muito bem, Tigranes - retorquiu Mitridates sem qualquer problema. - Tratarei de te dar apoio e soldados para que concretizes os teus objectivos, se por acaso me apoiares quando eu lançar o meu ataque à província romana da Ásia Menor. Poderás ficar com a Síria, a Comagena, a Osdroena, a Sofena, a Gordiana, a Palestina e a Nabateia. Eu ficarei com toda a Anatólia, incluindo a Cilícia.

Tigranes não hesitou.

- Quando? - perguntou, impaciente. Mitridates sorriu, recostou-se na cadeira.

- Quando os Romanos estiverem demasiado ocupados para não darem por nós - retorquiu. - Tigranes, tu és jovem, podes esperar. Eu conheço Roma. Mais tarde ou mais cedo, Roma envolver-se-á numa guerra qualquer, no Ocidente ou em África. A nossa hora soará então. Para selar o pacto, Mitridates ofereceu a Tigranes uma esposa: Cleópatra, a filha mais velha da falecida rainha Laódice, então com quinze anos. Como a Arménia não tinha ainda rainha, Tigranes acolheu a noiva de braços abertos; Cleópatra tornar-se-ía rainha da Arménia, um facto de grande significado, pois implicava que um neto de Mitridates seria herdeiro do trono da Arménia. Quando a jovem de louros cabelos e olhos claros viu o seu futuro marido, desatou a chorar, aterrorizada com o estranho aspecto físico dele; Tigranes fez uma concessão importante para um homem educado numa corte claustrofóbica onde abundavam as barbas (verdadeiras e artificiais) e os caracóis (verdadeiros e artificiais): cortou a barba e o cabelo comprido. A noiva acabou por concluir que ele era afinal um homem bonito, deu-lhe a mão e sorriu. Deslumbrado com a beleza da jovem, Tigranes julgou-se um homem muito feliz; talvez fosse a última vez na sua vida em que sentia algo próximo da humildade.

Caio Mário ficou extremamente feliz ao encontrar em segurança a mulher, o filho e a pequena escolta de Tarso, já habituados à vida dos pastores nómadas; o jovem Mário tinha mesmo aprendido algumas palavras da estranha língua que os nómadas falavam, e conduzia na perfeição os rebanhos.

- Olha, tata! - disse ele quando levou o pai a ver o seu pequeno rebanho pastando; as ovelhas traziam capas muito apertadas de pele de cabrito, que protegiam a lã dos elementos. O filho de Caio Mário pegou então numa pequena pedra e atirou-a ao animal que comandava o rebanho, acertando-lhe no costado; todo o rebanho deixou de pastar e, obedientemente, deitou-se. - Vês? Eles sabem que este é o sinal para se deitarem. Não são mesmo espertos?

- Não há dúvida - disse Mário, e fitou o filho, tão forte, atraente, bronzeado. - Estás pronto para partir, meu filho?

A tristeza invadiu aqueles enormes olhos cinzentos.

- Partir?

- Temos de seguir para Tarso imediatamente.

O jovem Mário pestanejou para deter as lágrimas, fitou com adoração as ovelhas e, soltando um suspiro, respondeu ao pai:

- Estou pronto, tatá.

Fizeram-se então ao caminho. Logo que pôde (e não lhe era fácil, porque ia montada num burro), Júlia tratou de apanhar Mário, que seguia no seu corpulento cavalo capadócio.

- Podes dizer-me o que tanto te preocupa? - perguntou. - E por que razão mandaste Mórsimo à nossa frente com tanta pressa?

- Houve um golpe na Capadócia - respondeu Mário. - O rei Mitridates pôs o seu próprio filho no trono, nomeando regente o sogro. O jovem que era rei da Capadócia está morto. Suspeito que Mitridates o matou. Mas nem eu nem Roma podemos fazer grande coisa. É pena.

- Viste o legítimo rei antes de morrer?

- Não. Vi Mitridates.

Júlia estremeceu ao ouvir tal nome. Olhando de relance para o rosto impassível do marido, perguntou-lhe:

- Mitridates estava em Mazaca? Como conseguiste escapar? Mário pôs uma expressão de surpresa.

- Escapar? Não foi necessário escapar, Júlia. Mitridates pode ser o rei de toda a metade oriental do mar Euxino, mas nunca se atreveria a fazer mal a Caio Mário!

- Então porque corremos para Tarso? - perguntou Júlia, e essa era uma pergunta sem dúvida perspicaz.

- Para não lhe dar a oportunidade de alimentar a ideia de que poderia fazer algum mal a Caio Mário - retorquiu o marido, com um sorriso largo.

- E Mórsimo?

- Mórsimo foi à frente por uma razão muito prosaica, meum mel. O calor em Tarso será agora ainda maior. Por isso, mandei-o à frente para contratar um navio. Far-nos-emos ao mar logo que cheguemos a Tarso. Mas será uma viagem calma. Passaremos um belo Verão explorando as costas da Cilícia e da Panfília, subiremos às montanhas para visitar Ólbia. Sei que, quando íamos a caminho de Tarso, te obriguei a ver a correr a cidade de Seleuceia Traquea. Mas agora já não há pressa. Como és descendente de Eneias, está certo que saúdes os descendentes de Teucro. E, ao que dizem, há uma quantidade de belíssimos lagos no alto Tauro, para lá de Atalia. Visitaremos também esses lagos. Estás satisfeita com a ideia?

- Ah, sim, claro! Claro que estou!

Como este programa foi fielmente cumprido, Caio Mário e a família só chegaram a Halicarnasso em Janeiro, depois de muitos e agradáveis passeios por uma costa conhecida pela sua beleza e isolamento. De piratas nem sombra, nem mesmo em Coracésio, onde Mário teve o prazer de subir ao pico que abrigava a fortaleza dos piratas, chegando finalmente a uma conclusão quanto à melhor maneira de a conquistar.

Para Júlia e o jovem Mário, voltar a Halicarnasso era como voltar a casa. Mal desembarcaram, deram um passeio pela cidade, reatando o contacto com as suas maravilhas. Quanto a Mário, ficou no seu gabinete, tentando decifrar duas cartas, uma de Lúcio Cornélio Sila, proveniente da Hispânia Citerior, e a outra de Públio Rutílio Rufo, proveniente de Roma.

Quando Júlia entrou no gabinete, encontrou Mário com cara de poucos amigos.

- Más notícias? - perguntou.

A expressão de aborrecimento foi substituída por uma piscadela de olhos vagamente perversa, e esta por uma expressão de suave inocência.

- Não diria que são más notícias.

- Então são boas!

- São esplêndidas, as notícias de Lúcio Cornélio! O nosso rapaz, Quinto Sertório, ganhou a Coroa de Erva.

Júlia ficou boquiaberta.

- Oh, Caio Mário, que maravilha!

- Vinte e oito anos... É um Mário, claro.

- E como a ganhou? - perguntou Júlia, sorrindo.

- Salvando um exército do aniquilamento, claro. É a única maneira de se ganhar a carona obsidionalis.

- Não te armes em esperto, Caio Mário! Sabes o que quero dizer. Mário compadeceu-se da mulher.

- No Inverno passado, ele e a legião que chefia foram enviados para Castulão a fim de defenderem a cidade; com a legião dele, seguiu também a de Públio Licínio Crasso. As tropas de Crasso descontrolaram-se e, por causa disso, as forças celtiberas penetraram nas defesas da cidade. E o nosso querido rapaz encheu-se de glória! Salvou a cidade, salvou ambas as legiões, ganhou a Coroa de Erva.
- Tenho de lhe mandar os parabéns. A mãe saberá? Achas que ele lhe escreveu?

- Provavelmente não. Ele é demasiado modesto. Escreve tu a Ria.

- Claro que escrevo. Mas que mais diz Lúcio Cornélio?

- Nada de especial. - Mário resmungou. - Não se sente feliz. Mas ele nunca se sente feliz! É generoso o elogio que faz de Quinto Sertório, mas creio que Lúcio Cornélio preferia ser ele a ganhar a Coroa de Erva. Tito Dídio não o deixa comandar no campo de batalha.

- Oh, pobre Lúcio Cornélio! Mas por que razão?

- Uma razão mais que válida - disse Mário, laconicamente. Lúcio Cornélio é um planeador.

- Ele diz alguma coisa sobre a mulher germana de Quinto Sertório?

- Diz. Ela e a criança vivem numa grande cidade-fortaleza celtibera chamada Osca.

- E a mulher germana de Lúcio Cornélia? E os gémeos? Mário encolheu os ombros.

- Sei lá! Ele nunca fala deles.

Seguiu-se um breve silêncio. Júlia encostou-se à janela, fitou por um momento a paisagem, comentando por fim:

- Seria bom se ele falasse da mulher e dos filhos. Não é natural, esse silêncio. Bem sei que não são romanos, que ele não os pode levar para Roma. Mas não acredito que não sinta nada por eles!

Mário preferiu não comentar.

- A carta de Públio Rutílio é enorme e está cheia de notícias disse ele, provocadoramente.

- Notícias que eu posso ouvir? Mário riu-se.

- Sem a mínima dúvida! Especialmente a conclusão.

- Então lê, Caio Mário, lê!

Saudações de Roma, Caio Mário. Escrevo-te esta carta na passagem do ano, pois Quinto Crânio de Putéolos prometeu-me que a faria chegar rapidamente às tuas mãos. Espero que te encontre em Halicarnasso, mas se assim não suceder, acabarás por recebê-la mais cedo ou mais tarde.

Agrada-te por certo saber que Quinto Mudo afastou a ameaça de julgamento, em grande parte graças à sua eloquência no Senado, e aos discursos de apoio do primo dele, Crasso Orador, e também de
Escauro Princeps Senatus, que, calcula, concorda com tudo o que eu e Quinto Mudo fizemos na Província da Ásia. Como esperávamos, foi mais fácil negociar com o Tesouro do que os
publicani; sejamos justos para com os homens de negócios romanos: eles nunca perdem de vista o que, do ponto de vista comercial, faz sentido; e os nossos novos acordos para a Província da Ásia fazem realmente sentido. Quem mais protestou foram os coleccionadores de arte, e em particular Sexto Perquitienus. A estátua de Alexandre que ele levou de Pérgamo desapareceu misteriosamente do seu peristilo, talvez porque Escauro Princeps Senatus se serviu desse caso como um dos principais pontos do seu discurso ao Senado. Seja como for, o Tesouro acabou por ceder, resmungando embora, e os censores revogaram os contratos asiáticos. A partir de agora, os impostos da Província da Ásia basear-se-ão nos números que eu e Quinto Múcio indicámos. Mas não te quero dar a impressão de que (mesmo os publicani nos perdoaram tudo. Uma província que disponha de leis correctas é difícil de explorar, e ainda há muitos cobradores de impostos que gostariam de explorar a Província da Ásia. O Senado concordou em nomear homens distintos para a governação da Província, o que contribuirá sem dúvida para refrear os ímpetos dos publicani.

Temos novos cônsules. Nem mais nem menos do que Lúcio Licínio Crasso Orador e o meu querido Quinto Múcio Cévola. O nosso pretor urbano é Lúcio Júlio César, que substituiu Marco Herénio, esse extraordinário Homem Novo. Nunca encontrei ninguém como Marco Herénio para captar votos: tem um poder de sedução incrível, cujas razões me escapam. Mas basta pôr Herénio em frente dos votantes que logo desatam todos a gritar que vão votar nele. Um facto que não agradou nada àquele vigarista que trabalhou para ti quando era tribuno da plebe - sim, Lúcio Márcio Filipe. Há um ano, quando foram contados todos os votos para o cargo de pretor, Herénio estava no primeiro lugar e Filipe no último. Quer dizer, estou a referir-me apenas aos seis que entraram. Oh, quantas lamentações, quanta choradeira, quanta lamúria! O lote deste ano não é tão interessante como o do ano passado, longe disso. O praetor peregrinus do ano passado, Caio Flaco, chamou as atenções de toda a gente ao dar a cidadania romana a uma sacerdotisa de Ceres, de Vélia, uma tal Califana. Toda a Roma anseia ainda por saber o que o levou a tomar tal atitude - mas não será difícil adivinhar!

Os nossos censores António Orador e Lúcio Flaco, depois de firmarem os contratos (operação complicada por duas pessoas vindas da Província da Ásia, que os atrasaram um bom bocado!), examinaram os registos senatoriais e não encontraram ninguém digno de repreensão, após o que investigaram as actividades dos cavaleiros, com o mesmo resultado. Agora vão dedicar-se a um censo completo do povo romano em todo o mundo, dizem eles. E acrescentam que nenhum cidadão romano escapará às suas redes.

Com esse louvável propósito, instalaram a sua tenda no Campo de Marte, a fim de procederem ao censo de Roma. Para o censo de toda a Itália, reuniram uma série de funcionários, extremamente bem organizados, que terão de percorrer toda a península e realizar um censo em condições. Eu aprovo, embora haja muita gente contra; os velhos métodos - os cidadãos rurais compareciam perante os duumviri dos seus municípios e os cidadãos provinciais compareciam perante o governador - já eram bastante bons. Mas António e Flaco insistem que os seus métodos são melhores, e foram esses métodos que vingaram. Imagino, contudo, que os cidadãos provinciais terão de continuar a comparecer perante os vários governadores. Os defensores dos métodos antigos, como seria de esperar, prevêem que os resultados continuarão a ser os mesmos.

E agora algumas notícias das províncias, já que tu estás para essas bandas, mas provavelmente não as conheces. Antíoco VIII da Síria, por alcunha o Nariz Aquilino, foi assassinado pelo primo primo ou tio? ou será meio-irmão? -, Antíoco IX da Síria, conhecido como Antíoco de Cízico. Quanto à viúva, Cleópatra Selene do Egipto, tratou logo de casar com o assassino do marido! Quantas lágrimas terá chorado entre a viuvez e o segundo casamento? Mas estas notícias não significam que o Norte da Síria seja governado por um único rei.

Mas a notícia da morte de um dos Ptolemeus tem mais interesse para Roma. Ptolemeu Apião, filho bastardo desse horroroso Ptolemeu Pançudo, acaba de morrer em drene. Ele era, deves estar lembrado, rei da Cirenaica. Mas morreu sem herdeiro. Agora imagina só! Deixou o reino da Cirenaica em testamento a Roma! O velho Átalo de Pérgamo lançou a moda. É uma bela maneira de Roma acabar por dominar o mundo, Caio Mário. Deixam-nos tudo em testamento.

Faço sinceros votos para que voltes este ano! Roma sem ti é um local muito solitário, e agora nem sequer tenho o Suíno para me queixar. Ah, corre por aí um boato muito interessante - segundo esse boato, o Suíno foi envenenado. Quem o lançou foi Apolodoro Sículo, aquele físico que está na moda no Palatino. Apolodoro tinha sido chamado para tratar do Suíno. Como ficou intrigado com aquela morte, pediu a autópsia. O Bacorinho recusou, o seu tatá foi incinerado, e as suas cinzas metidas num túmulo com ornatos de muito mau gosto, tudo isto há não sei quantas luas. Mas o nosso físico grego da Sicília tratou de investigar, e agora insiste que o Suíno bebeu uma beberragem horrível, obtida a partir de sementes de pêssego esmagadas! O Bacorinho diz justificadamente que ninguém queria matar o pai e ameaça processar Apolodoro se ele continuar a sustentar o boato. Ninguém - nem mesmo eu! - pensa que o Bacorinho tratou da saúde ao seu tatá; mas, se ele não foi, quem poderia ter sido?

Uma última história, aliás deliciosa, e deixo-te em paz. Bisbilhotices de família, embora toda a Roma fale do caso. O marido da minha sobrinha pediu o divórcio por adultério! Porquê? Porque, regressado do estrangeiro, e vendo pela primeira vez o filho mais pequeno, não gostou mesmo nada do seu cabelo ruivo!

- Quando voltares a Roma, contar-te-ei mais pormenores acerca deste último caso. Vou fazer uma oferenda aos Lares Permarini para que faças boa viagem.

Pondo a carta em cima da secretária como se ela queimasse, Mário fitou a mulher.

- Então que me dizes destas notícias? - perguntou. - O teu irmão Caio divorciou-se de Aurélia por adultério! Ela teve outro filho com cabelo ruivo, muito ruivo! Oh, oh, oh, oh! Diz-me lá: quem será o pai?

Júlia fitava-o boquiaberta, literalmente incapaz de dizer fosse o que fosse. Uma onda de vermelho vivo inundara-lhe a pele do pescoço e da cabeça e os seus lábios tinham-se franzido. Depois, começou a abanar a cabeça e só parou quando finalmente encontrou as palavras que queria dizer ao marido.

- Não é verdade! Não pode ser verdade! Não acredito!

- Bom, é o tio que o diz. Aqui - disse Mário, e mostrou a última parte da carta de Rutílio Rufo a Júlia.

Júlia pegou no rolo e começou a transformar a infindável sucessão de letras em palavras. A sua voz soava apagada, não natural. Várias vezes leu a breve mensagem, até que arrumou a carta.

- Não é a Aurélia - disse ela firmemente. - Nunca acreditarei que possa ser a Aurélia!

- Quem poderia ser senão Aurélia? Cabelo ruivo, muito ruivo, Júlia! Esse é o sinal que distingue Lúcio Cornélio Sila, e não Caio Júlio César!

- Públio Rutílio tem outras sobrinhas - teimou Júlia.

- Amigas de Lúcio Cornélio? Vivendo sozinhas no bairro mais miserável de Roma?

- Como poderemos nós saber? É possível que sim, que se trate de outra sobrinha.

- Tão possível como as galinhas terem dentes - retorquiu Mário.

- Mas o que é que tem a ver com o caso o facto de se viver sozinha no bairro mais miserável de Roma? - perguntou Júlia.

- Num bairro assim é fácil manter um caso sem que ninguém se aperceba - disse Mário, extremamente divertido. - Pelo menos enquanto não aparecer um cucozinho ruivo no ninho familiar!

- Oh, pára de gozar com o assunto! - exclamou Júlia, aborrecida.

- Não acredito, nunca acreditarei. - Nesse momento, ocorreu-lhe outra ideia. - Além disso, não pode ser o meu irmão Caio. Não é ainda altura de ele voltar para casa. E se tivesse voltado, nós teríamos sabido. Ele trabalha para ti. - Olhou para Mário com um olhar ameaçador. Então? Não é verdade o que eu estou a dizer, marido?

- Provavelmente escreveu-me para Roma - retorquiu Mário sem muita convicção.

- Depois de eu lhe ter escrito a dizer que estaríamos fora três anos? E de lhe ter dito os sítios por onde devíamos passar? Ora, Caio Mário, tens de admitir que é muito improvável que se trate de Aurélia!

- Admitirei tudo o que tu queiras - disse Mário, e começou a rir.

- Mesmo assim, Júlia, só pode ser Aurélia!

- Vou para Roma - disse Júlia, levantando-se.

- Mas não queres ir ao Egipto?

- Vou para Roma - repetiu Júlia. - Não me interessa para onde é que tu vais, Caio Mário, embora preferisse que fosse a Terra dos Hiperbóreos. Eu, por mim, sigo para Roma.

- Vou a Esmirna buscar a minha fortuna - disse Quinto Servílio Cepião ao cunhado, Marco Lívio Druso, no caminho para casa, vindos do Fórum Romano.

Druso parou, erguendo uma das suas sobrancelhas pontiagudas e negras:

- E achas isso sensato? - perguntou, arrependendo-se logo da sua falta de tacto.

- Que queres dizer com isso? - perguntou Cepião num tom de poucos amigos.

Druso segurou Cepião pelo braço.

- Apenas o que disse, Quinto. Com tal pergunta, não quero dizer que ache que a fortuna de Esmirna seja o ouro de Tolosa, nem que suspeite que o teu pai pudesse ter sido o ladrão desse tesouro! O que é certo é que quase toda a Roma acredita de facto na culpabilidade do teu pai, além de pensar que a fortuna que está em Esmirna em teu nome é, realmente, o ouro de Tolosa. Noutros tempos, trazer a fortuna de volta não te custaria muito mais do que olhares invejosos ou algum ódio, incómodos para a tua carreira pública. Mas não te esqueças de que, actualmente, existe uma lex Servilia Gláucia de repentundis. Já lá vai o tempo em que um governador podia defraudar o erário e cometer extorsões, conservando o produto do seu crime em nome de outrém. A lei de Gláucia prevê especificamente a recuperação de dinheiros ilegalmente obtidos, recuperação que atinge não só aqueles em cujo nome figuram, mas também os culpados pelo delito. Agora já não adianta recorrer ao teu tio Lúcio...

- Como sabes, a lei Gláucia não tem efeitos retroactivos - retorquiu Cepião com voz firme.

- Mas basta que um tribuno da plebe seja vingativo para que um rápido apelo à Assembleia da Plebe acabe com essa lacuna. E logo verás se a lex servilia Gláucia é ou não é retroactiva - disse Druso com firmeza. - Pensa bem nisso, meu irmão Quinto! Não quero ver a minha irmã e os filhos privados, num ápice, do paterfamilias e da sua fortuna, nem gostaria de te ver passar o resto da vida exilado em Esmirna.

- Por que razão é que eles prenderam o meu pai? - perguntou Cepião com azedume. - Repara em Metelo Numídico! Voltou para casa coberto de glória, ao passo que o meu pai morreu no exílio!

- Ambos sabemos porquê - disse Druso pacientemente, desejando, pela milionésima vez, que Cepião fosse mais inteligente. - Os homens da Assembleia da Plebe podem perdoar tudo a um nobre de alta estirpe, sobretudo depois de ter passado algum tempo. Mas o ouro de Tolosa era único. E desapareceu de facto quando estava sob custódia do teu pai. Era ouro de um valor superior ao que Roma possui no Tesouro! Uma vez que se convenceu de que foi o teu pai quem o roubou, o povo ficou-lhe com um ódio que nada tem a ver com direito, justiça ou patriotismo. - Recomeçou a caminhar, Cepião seguiu-o. - Pensa nisso a sério, Quinto, por favor! Mesmo que só tragas dez por cento do valor do ouro de Tolosa, terás Roma inteira afirmando que foi mesmo o teu pai quem o roubou e que tu o herdaste.

Cepião começou a rir.

- Ninguém dirá isso - afirmou com convicção. - Já pensei em tudo maduramente, Marco. Levei estes anos todos a resolver o problema, mas já o resolvi, acredita-me!

- Mas como? - perguntou Druso com cepticismo.

- Em primeiro lugar, ninguém, a não ser tu, saberá para onde eu fui, nem o que realmente fui fazer. Roma apenas saberá - Lívia Drusa e Servilia Cepião apenas saberão - que eu estou na Gália Italiana para lá do Pó, a inspeccionar propriedades. Há meses que falo em lá ir; ninguém vai ficar surpreendido, nem se preocupará em indagar. E porque haveriam de fazê-lo, se eu tenho deliberadamente divulgado os meus planos para instalar ali cidades inteiras, com fundições equipadas para produzir tudo, desde arados a armaduras de ferro? Ora como o meu interesse no projecto está ligado às propriedades, ninguém pode criticar a minha integridade de senador. Os outros que administrem as fundições, eu contento-me em possuir as cidades!

Cepião parecia tão ansioso, que Druso (que mal tinha ouvido os argumentos do cunhado pois não lhe prestara a mínima atenção) olhou-o fixamente, agora com surpresa.

- Falas como se tencionasses realmente fazer isso - disse Druso.

- E penso! As cidades das fundições representam unicamente uma das muitas coisas nas quais tenciono investir o dinheiro que possuo em Esmirna. Como vou manter os meus investimentos em territórios romanos, mas não na própria Roma, não haverá novos acréscimos do meu dinheiro em instituições financeiras da capital. Parece-me, por outro lado, que o Tesouro não terá sagacidade nem tempo bastante para inspeccionar em quem, em que campos e quanto dinheiro eu vou investir, longe da cidade de Roma - disse Cepião.

A expressão de Druso encheu-se de espanto.

- Quinto Servílio, estou rendido! Nunca te pensei capaz de tamanha astúcia - disse.

- Eu sei que estás espantado - disse Cepião, satisfeito consigo mesmo. Mas logo estragou tudo, acrescentando: - Tenho de admitir, porém, que, pouco antes de morrer, o meu pai me escreveu uma carta dizendo-me o que devia fazer. Existe uma enorme soma de dinheiro em Esmirna.

- Sim, faço ideia - disse Druso secamente.

- Mas não é o ouro de Tolosa! - gritou Cepião, com um gesto exasperado. - É a fortuna da minha mãe, bem como a do meu pai!

Ele foi bastante precavido ao transferir o seu dinheiro antes do julgamento, apesar de tudo quanto esse presunçoso cunnus Norbano fez para o impedir, como, por exemplo, atirá-lo para a prisão entre o julgamento e o exílio. Algum desse dinheiro tem vindo gradualmente para Roma, ano após ano, mas não em quantidades que levantem suspeitas. É por isso que, como tu te dás conta, eu continuo a viver modestamente.

- É evidente que me dou conta - disse Druso, que albergava o cunhado e toda a família do cunhado em sua casa, desde que o velho Cepião fora condenado. - Todavia, há algo que me intriga. Por que razão não deixas ficar a tua fortuna em Esmirna?

- Não posso - atalhou logo Cepião. - O meu pai disse que o dinheiro não estaria a salvo indeterminadamente em Esmirna, ou em qualquer outra cidade da Província da Ásia que possua as devidas facilidades bancárias, como Cós ou mesmo Rodes. Ele disse que a Província da Ásia se revoltará contra Roma. Que os cobradores de impostos fizeram com que toda a gente odeie Roma. Que, mais cedo ou mais tarde, toda a província se revoltará.

- Se se revoltar, logo a dominaremos - contestou Druso.

- Sim, eu sei! Mas entretanto, crês que o ouro, a prata, as moedas e os tesouros em depósito na Província da Ásia estarão em segurança? O meu pai disse que a primeira coisa que os revolucionários iam fazer era pilhar os templos e os bancos - salientou Cepião.

Druso concordou.

- Provavelmente, o teu pai tinha razão. Portanto, vais transferir o dinheiro. Mas todo para a Gália Italiana]

- Só algum. Vou reparti-lo também pela Campânia, pela Umbria, pela Etrúria. Algum dinheiro irá também para localidades como Massília, Útica e Gades. Ou seja, para a extremidade ocidental do mar Central.

- Quinto, porque não admites a verdade, pelo menos perante mim, que sou teu cunhado duas vezes? - perguntou Druso, um pouco agastado.

- Sou casado com a tua irmã e tu és casado com a minha. Estamos tão ligados que nunca nos vamos ver livres um do outro. Por isso, tens de admitir, pelo menos perante mim, que é mesmo o ouro de Tolosa!

- Não é o ouro de Tolosa - teimou Quinto Servílio Cepião. Estúpido que nem uma porta, pensou Marco Lívio Druso,

dirigindo-se para o jardim com peristilo da sua casa, a mais bela mansão de Roma. Mas apesar de estúpido... ei-lo dispondo de quinze mil talentos de ouro que o pai desviou da Hispânia para Esmirna há oito anos, depois de fazer crer que tinham sido roubados na estrada de Tolosa para Narbona. Uma coorte dos melhores soldados romanos morreu a defender esse ouro, mas isso não o preocupa. E ao pai - que deve ter organizado o massacre -, será que isso o preocupou? Claro que não! A única coisa que os preocupa é o seu precioso ouro. São Servílios Cepiões, os Midas de Roma, ninguém os sacode do seu estado de coma intelectual, a menos que lhes segredem a palavra mágica: Ouro.

Passou-se esta cena em Janeiro do ano em que Cneu Cornélio Lêntulo e Públio Licínio Crasso foram cônsules; o Inverno tinha despido as árvores de lótus do jardim de Lívio Druso, embora o magnífico lago e as suas estátuas e fontes, da autoria de Mirão, ainda funcionassem, graças à água quente canalizada. Os frescos de Apeles, Zêuxis, Timantes e de outros, tinham sido removidos das paredes traseiras da colunata e armazenados no princípio do ano, depois de as filhas de Cepião terem sido apanhadas a borrá-los com tintas roubadas a dois artistas que procediam, na altura, ao seu restauro. Ambas tinham sido convenientemente sovadas, mas Druso achara prudente eliminar toda e qualquer tentação; como as manchas ainda estavam frescas, tinha sido fácil removê-las, mas quem podia garantir que tal não voltaria a acontecer, se o seu próprio filho se revelava cada vez mais travesso? As colecções de arte valiosas não podiam estar expostas em casas com crianças. Druso pensava que Servília e Servilila não voltariam a fazer uma daquelas, mas havia outra criança em casa, e mais poderia haver no futuro.

Marco Lívio Druso tinha finalmente uma família, embora uma família diferente da que esperara; por qualquer razão que desconheciam, ele e Servília Cepião não conseguiam ter filhos. Dois anos antes, tinham adoptado o filho mais novo de Tibério Cláudio Nero, um homem tão arruinado como a maior parte dos Cláudios, e que, por isso, ficara encantado por fazer do filho o herdeiro da fortuna de Lívio Druso. Era mais vulgar adoptar os filhos primogénitos de uma família, numa idade em que a família que fazia a adopção pudesse estar informada da saúde física e mental, do carácter e da inteligência do adoptado; mas Servília Cepião ansiava por um bebé e insistira em adoptar aquele. Marco Lívio Druso, que acabara por amar profundamente a mulher, embora não estivesse apaixonado aquando do casamento, permitiu que fosse ela a decidir. Aplacou os seus próprios receios, fazendo uma generosa oferenda à Deusa Matuta, na esperança de que aquela criança se desenvolvesse normalmente.

As mulheres estavam ambas na sala de estar de Servília Cepião, contígua ao quarto das crianças. Mal viram os maridos, foram ter com eles, saudando-os com evidente júbilo. Embora fossem cunhadas, pareciam irmãs, porque ambas eram pequenas, tinham os cabelos e os olhos muito escuros, as feições pequenas e regulares. Lívia Drusa, esposa de Cepião, era a mais bonita das duas e a que tinha melhor figura, pois escapara a uma tendência familiar para as pernas gordas; para mais, satisfazia os critérios de beleza numa mulher, pois os seus olhos eram muito grandes, bem espaçados e rasgados e a boca pequena, como uma flor em botão. O nariz seria um nadinha pequeno demais, segundo opiniões estéticas de peritos, mas conseguia ultrapassar a desvantagem adicional de ser excessivamente fino, pelo remate inferior, em pequena saliência arredondada. A sua pele era espessa e macia, o colo liso, as ancas e os seios bem arredondados e amplos.

Servília Cepião, a esposa de Druso, era uma versão mais magra da cunhada; todavia, a sua pele tinha tendência a criar borbulhas em volta do pescoço e do nariz, as pernas eram demasiado pequenas em relação ao tronco e o pescoço era também muito curto.

Contudo, se Marco Lívio Druso amava a menos bonita das esposas, já o mesmo não sucedia com Quinto Servílio Cepião em relação à mais bela. Ao tempo dos casamentos, realizados ao mesmo tempo oito anos antes, passava-se precisamente o contrário. Embora nenhum dos homens tivesse consciência disso, a diferença residia nas mulheres; Lívia Drusa não gostava de Cepião e fora obrigada a casar com ele, ao passo que Servília Cepiãç estava apaixonada por Druso desde a infância. Pertencentes à mais alta nobreza de Roma, ambas as mulheres eram esposas-modelo, segundo os padrões tradicionais: obedientes, subservientes, de temperamento equilibrado, sempre respeitadoras. À medida que os anos foram passando e que um certo grau de conhecimento e familiaridade se foi instalando em cada um dos casamentos, a indiferença de Marco Lívio Druso foi dissolvida pelo calor intenso da paixão da mulher, pelo crescente ardor expresso no leito conjugal e pela dor partilhada da infertilidade; em contrapartida, a paixão secreta de Quinto Servílio Cepião fora sufocada pelo desprezo silencioso da mulher, pela crescente frieza que ela mostrava no leito conjugal, pela desilusão de terem sido raparigas os primeiros filhos e mais nenhum lhes ter seguido.

É claro que a visita ao quarto das crianças era obrigatória. Druso dava muita atenção ao pequenito moreno e bochechudo a que chamavam Druso Nero, e que não completara ainda os dois anos. Em relação às filhas, perfiladas contra a parede, amedrontadas e silenciosas, Cepião limitava-se a acenar com a cabeça. As duas meninas eram cópias da mãe em miniatura - tal como ela, eram morenas, de olhos grandes e boca em botão de flor - e possuíam todos os encantos de meninas, aos quais o pai era pouco mais que indiferente. Servília tinha quase sete anos e aprendera a lição depois da sova que apanhara por ter pintado o cavalo de Apeles e o cacho de uvas de Zêuxis. Nunca lhe tinham batido e aquela experiência fora mais humilhante que dolorosa, mais irritante do que educativa. Lila, pelo contrário, era a travessura personificada indomável, voluntariosa, agressiva e directa. Esqueceu num instante a sova que apanhara: ficara apenas com mais respeito ao pai.

Os quatro adultos dirigiram-se depois para o triclinium, a fim de jantarem.

- Quinto Popaedius vem jantar connosco, não é verdade, Cratipo?

- perguntou Druso ao mordomo.

- Não tenho qualquer indicação em contrário, domine.

- Nesse caso, esperaremos por ele - retorquiu Druso, ignorando, deliberadamente, o olhar hostil que Cepião lhe dirigira.

No entanto, Cepião não estava disposto a ser ignorado.

- Porque te dás com esse horrível comparsa, Marco Lívio? perguntou.

Druso dirigiu ao cunhado um olhar duro e penetrante.

- Há gente que me faz a mesma pergunta acerca de ti, Quinto Servílio - respondeu ele no mesmo tom.

Lívia Drusa ficou de repente ofegante, retendo um risinho nervoso. Porém, tal como Druso esperava, Cepião ignorou a crítica.

- Foi a isso mesmo que me referi - disse Cepião. - Porque te dás com ele?

- Porque ele é meu amigo.

- Um parasita, é o que ele é! - protestou Cepião. - Estou a falar a sério, Marco Lívio, ele suga-te. Chega sem avisar, sempre com pedidos, sempre a queixar-se de nós, Romanos. Quem pensa ele que é?

- Pensa que é um marso, um italiano do Lácio - ouviu-se uma voz dizer alegremente. - Lamento imenso o atraso, Marco Lívio, mas devias ter começado a refeição sem mim, como já te tenho dito. Tenho uma desculpa impecável: estive muito quieto e sossegado a ouvir uma prelecção que Catulo César me quis fazer sobre as perfídias dos Italianos.

Silão sentou-se na borda exterior do divã em que Druso se reclinava e deixou que um escravo lhe descalçasse as botas, lavasse os pés e lhe enfiasse umas meias. Quando rodopiou, leve e agilmente para o interior do divã, ocupou o locus consularis, o lugar de honra à esquerda de Druso; Cepião estava no divã que fazia ângulo recto com o de Druso, posição honorificamente inferior, porque era da família e não um convidado.

- Estiveste outra vez a queixar-te de mim, Quinto Servílio? perguntou Silão com indiferença, levantando uma das finas sobrancelhas e piscando o olho a Druso.

Druso sorriu maliciosamente, fitando Quinto Popaedius Silão com uns olhos que denotavam muito maior afeição que a dedicada a Cepião.

- O meu cunhado está sempre a queixar-se de qualquer coisa, Quinto Popaedius. Não faças caso.

- Claro que não - disse Silão, inclinando a cabeça em cumprimento às duas mulheres, sentadas em cadeiras, frente aos divãs dos respectivos maridos.

Druso e Silão tinham-se conhecido no campo de batalha em Arausio, no fim da refrega, por entre os cadáveres de oitenta mil soldados romanos e aliados italianos, cuja morte se devera, basicamente, ao comportamento do pai de Cepião. Forjada em circunstâncias inesquecíveis, a amizade entre os dois homens tinha-se fortalecido com o passar dos anos e con a ajuda de um mútuo interesse pelo destino dos Aliados Italianos, uma causa em que ambos se empenhavam. Embora formassem um estranho par de amigos, a verdade é que nem as sucessivas queixas de Cepião, nem as críticas dos membros mais velhos do Senado, tinham conseguido travar aquela relação.

Silão, que era italiano, mais parecia romano. Druso, que era romano, parecia mais italiano. Silão tinha o nariz correcto, a cor de pele correcta, a figura correcta; era um homem alto, bem constituído e muito belo, excepto no que tocava aos olhos, de um verde-amarelado, pouco vistosos e quase sempre fixos, como os das serpentes; contudo, isso não constituía um defeito para os naturais de Lácio, que eram adoradores de serpentes e que nunca pestanejavam mais do que o absolutamente necessário. O pai de Silão fora o chefe dos Marsos, e, após a sua morte, o filho sucedera-lhe no cargo, ainda que fosse muito jovem. Rico e esmeradamente educado, Silão possuía todas as qualidades capazes de inspirarem o respeito dos Romanos que, quando não o hostilizavam abertamente, o miravam com desprezo e condescendiam em tratá-lo de forma paternalista. É que Quinto Popaedius não era um romano, tão pouco beneficiava dos Direitos Latinos; Quinto Popaedius Silão era um italiano, e, como tal, um ser inferior.

Silão provinha das ricas montanhas do centro da Península Itálica, não muito longe de Roma, da região do lago Fúcino, cujo nível subia e descia cíclica, mas misteriosamente, sem qualquer relação com as águas dos afluentes ou das chuvas, da região onde a cordilheira apenina se dividia para resguardar as terras dos Marsos. De todos os povos italianos, os Marsos eram os mais prósperos e numerosos. Durante séculos, tinham sido os mais leais aliados de Roma; o maior orgulho deste povo era o de que nenhum general romano triunfara sem a sua ajuda, nem obtivera alguma vez triunfos sobre os Marsos. Mas mesmo depois de tantos séculos, os Marsos - como todos os povos italianos

- eram considerados indignos da cidadania romana. Por conseguinte, não podiam figurar em contratos do Estado Romano, casar com cidadãos romanos ou apelar para a justiça romana no caso de condenação a penas capitais. Podiam ser açoitados até à morte, podiam roubar-lhes as colheitas, os produtos e as mulheres: e eles não podiam recorrer à lei, se por acaso o ladrão fosse romano.

Se Roma deixasse os Marsos entregues ao seu próprio engenho nas suas férteis montanhas, dificilmente poderia intrometer-se de tal modo e cometer todas aquelas injustiças. Mas o certo é que, tal como em todas as zonas da Península Itálica que não lhe pertenciam completamente, Roma implantara-se bem no território do Lácio, pois fundara aí a cidade de Alba, sob o disfarce de colónia dotada de Direitos Latinos. E, como é natural, Alba tornara-se uma grande cidade, a maior da região, porque o núcleo de romanos que ali se instalara conduzia livremente os seus negócios com Roma, e o resto da população usufruía dos Direitos Latinos, numa espécie de cidadania de segunda ordem, que os dotava da maior parte dos privilégios dos cidadãos romanos; no entanto, os abrangidos pela ius Latii não podiam votar em eleições romanas; os magistrados da cidade, mal assumissem cargos, obtinham automaticamente a cidadania integral para eles mesmos e para todos os seus descendentes directos. Foi assim que Alba cresceu, em detrimento da velha capital do Lácio, Marrúbio, e ali se perpetuou como exemplo das diferenças entre Romanos e Italianos.

Em tempos idos, toda a Itália aspirara a ser abrangida pelos Direitos Latinos e a ser premiada mais tarde com a concessão dos direitos de cidadania romana a todos os habitantes, pois Roma, sob o governo vigoroso e brilhante de homens como Ápio Cláudio Cego, tornara-se consciente da necessidade de mudança, do interesse de toda a Itália se tornar integralmente romana. Mais tarde, quando alguns dos povos italianos apoiaram Aníbal, a atitude de Roma endureceu e a concessão da cidadania ou mesmo da ius Latii cessou.

Uma das causas era o aumento da emigração de italianos para as cidades romanas e latinas, e mesmo para Roma. A residência prolongada nessas cidades trouxera consigo a partilha dos Direitos Latinos ou mesmo da cidadania romana. Os Pelignos queixaram-se da perda de quatro mil habitantes que tinham ido para a cidade latina de Fregelas e utilizaram esse argumento para negarem a Roma o fornecimento de soldados.

De vez em quando, Roma tentava fazer qualquer coisa para resolver o problema da imigração em massa; esses esforços culminaram numa lei do tribuno da plebe Marco Júnio Peno, no ano anterior à revolta de Fregelas. Peno expulsou da cidade de Roma e das colónias romanas todos os não-cidadãos, mas, ao fazê-lo, provocou um escândalo que abalou profundamente a nobreza romana. Descobriu-se que Marco Perperna, que fora cônsul quatro anos antes, era um italiano a quem nunca tinha sido concedida a cidadania romana!

Foi imediata a onda de reacções nas fileiras dos governantes de Roma; um dos chefes do movimento que se opôs ao avanço dos Italianos foi o pai de Druso, Marco Lívio Druso, o Censor, que se mostrara conivente com o derrube de Caio Graco e das suas leis.

Ninguém podia prever que o filho do Censor, Druso, que se tornara, ainda muito jovem, paterfamilias (o pai morrera ainda no desempenho das funções de censor), viesse a renunciar aos preceitos e atitudes paternas. Oriundo de uma família irrepreensível nobre-plebeia, membro do Colégio dos Pontífices, bastante rico, ligado pelo sangue e pelo casamento às casas aristocráticas de Servílio Cepião, Cornélio Cipião e Emílio Lépido, o jovem Marco Lívio Druso deveria converter-se num pilar da facção ultraconservadora que controlava o Senado e que, por conseguinte, governava Roma. Foi por mero acaso que tal não aconteceu; Druso estivera presente, como tribuno dos soldados, na batalha de Arausio, quando o ex-cônsul e patrício Quinto Servílio Cepião, ao recusar-se a colaborar com o Homem Novo Caio Málio Máximo, condenou ao extermínio pelos Germanos as legiões de Roma e os seus Aliados Italianos, na Gália Transalpina.

Druso regressou da Gália Transalpina acarinhando dois novos factores da sua vida: o sentimento de amizade pelo nobre marso Quinto Popaedíus Silão e o conhecimento de que os homens da sua própria classe e formação, em particular o seu sogro Cepião, não tinham qualquer consideração nem respeito pelo esforço dos soldados que tinham morrido em Arausio, fossem eles nobres romanos, ou Aliados Italianos ou capite censi romanos.

Todavia, isto não significava que o jovem Marco Lívio Druso tivesse abraçado, de imediato, propósitos e aspirações de um verdadeiro reformador; mas, tal como acontecera anteriormente com outros nobres de Roma, Lívio Druso passara por uma experiência que o obrigara a reflectir. Sabia-se que o destino dos irmãos Graco se decidira quando o mais velho, Tibério Semprónio Graco, descendente da mais alta nobreza romana, viajara durante a sua juventude pela Etrúria, tendo então contemplado as propriedades romanas, dirigidas por um pequeno núcleo de romanos ricos, que recorriam ao trabalho de escravos sempre acorrentados, e encerrados à noite em barracões infames a que chamavam ergástulo. Fora nessa ocasião que Tibério Graco houvera por bem interrogar-se onde estariam os pequenos proprietários romanos que, na posse daquelas terras, poderiam ali levar uma vida muito mais produtiva e criar os filhos necessários para o exército romano. Embora Tibério Graco fosse um típico representante da sua classe, começara a reflectir e, precisamente porque pertencia a essa classe, estava imbuído de um forte sentimento de justiça, bem como de uma poderosa paixão por Roma.

A batalha de Arausio ocorrera havia sete anos, sete anos durante os quais Druso tinha entrado para o Senado, servido como questor na Província da Ásia, alojado o cunhado e a família deste após a desgraça do pai Cepião, assumido as funções de sacerdote da religião estatal, desenvolvido produtivamente a sua fortuna pessoal, visto e ouvido os desastrosos acontecimentos que tinham conduzido ao assassínio de Saturnino e dos seus adeptos, e lutado no Senado contra Saturnino quando este tentara tornar-se Rei de Roma. Sete anos durante os quais Druso recebera Quinto Popaedius Silão inúmeras vezes, sete anos durante os quais continuara a reflectir. Era sua ardente ambição resolver a conturbada questão dos Italianos de uma forma correctamente romana, inteiramente pacífica e que agradasse a ambas as partes; a tal objectivo consagrou tranquilamente as suas energias, pretendendo tornar públicas as suas intenções unicamente quando encontrasse a solução ideal.

Silão, o Marso, era o único homem que sabia o que se passava na mente de Druso a esse nível; e Silão comportava-se com Druso com uma delicadeza notável: ele era demasiado sagaz e demasiado prudente para cometer o erro de tentar influenciar Druso, de divulgar excessivamente o seu ponto de vista, que era algo diverso do de Druso. Os seis mil homens da legião que Silão comandara em Arausio tinham morrido quase todos, e eram marsos, não romanos; tinham sido os Marsos que os tinham criado e armado, e pago tudo o que era necessário para que eles travassem aquela batalha. Um investimento em homens, tempo e dinheiro que Roma não reconhecera nem indemnizara.

Enquanto Druso pensava numa emancipação geral para toda a Itália, Silão sonhava com a secessão em relação a Roma, com uma nação completamente independente e unida, formada por toda a Itália que não se encontrava nas mãos dos Romanos. E quando essa Itália se tornasse uma realidade - e Silão jurara solenemente que isso viria a acontecer -, os povos italianos por ela abarcados entrariam em guerra com Roma e venceriam e absorveriam Roma e os Romanos e todos os territórios de Roma no estrangeiro.

Silão não estava só, e sabia-o. Durante aqueles sete anos, viajara por toda a Itália e fora mesmo à Gália Italiana, em busca de homens com ideias semelhantes às suas, e descobrira que esses homens não eram assim tão poucos. Eram todos chefes dos seus povos ou nações, e de dois tipos diferentes: aqueles que, como Mário Egnácio, Caio Pápio Mutilo e Pôncio Telesino, vinham de antigas famílias nobres, proeminentes nas respectivas nações; e aqueles que, como Marco Lampónio, Públio Vétio Escaulo, Caio Vidacílio e Tito Lafrénio, eram Homens Novos com alguma importância. As conversações tinham decorrido em salas de jantar e gabinetes italianos, e o facto de falarem quase sempre em latim não era sentido como razão bastante para perdoarem os crimes de Roma.

O conceito de uma nação italiana unida não era talvez novo; o que era novo era o facto de ser discutido como uma alternativa viável pelos diversos dirigentes italianos. No passado, todas as esperanças tinham sido centradas em obter a integral cidadania romana, em tornarem-se uma parte de uma Roma que se estendia, indivisa, ao longo de toda a Itália; Roma mostrava-se tão superior no seu relacionamento com os Aliados Italianos que estes tinham acabado por pensar a sua situação segundo coordenadas romanas - e por isso queriam adoptar instituições romanas, e queriam que o seu sangue, as suas fortunas, as suas terras, se tornassem parte de Roma, com os mesmos direitos e deveres.

Alguns dos participantes nas conversações criticaram a batalha de Arausio; mas outros criticaram o pouco apoio que as comunidades beneficiadas pelos Direitos Latinos davam agora à causa italiana essas comunidades começavam a considerar-se superiores aos restantes italianos. Estes últimos acentuavam, e com razão, que havia cada vez mais comunidades gozando dos Direitos Latinos, e que estas comunidades necessitavam de manter numa posição inferior um segmento da população peninsular.

Arausio, como era notório, fora o ponto culminante de décadas de mortalidade militar - décadas durante as quais toda a península perdera mais e mais homens, e em que, por isso mesmo, muitas explorações agrícolas e comerciais tinham sido abandonadas ou vendidas, e a força de trabalho se vira drasticamente reduzida. Mas essa mortalidade nos campos de batalha afectara também Romanos e Latinos - por isso, não era a única razão para as críticas dos Italianos. Havia ainda que contar com os profundos ressentimentos contra os proprietários de terras romanos - homens muito ricos que viviam em Roma e que possuíam vastas explorações agrícolas denominadas latifúndio onde só trabalhavam escravos. Havia também demasiados casos de cidadãos romanos que abusavam notoriamente dos Italianos - utilizando o seu poder e influência para castigar os que não mereciam qualquer castigo, para ficarem com mulheres que não lhes pertenciam, para confiscarem pequenas propriedades com que alargavam ainda mais as suas.

Não era claro, nem mesmo para Silão, o motivo que levara a maioria dos apoiantes da secessão italiana a abandonar as esperanças na conquista da cidadania romana e a optar pela formação de uma nação separada e independente. No caso de Silão, fora Arausio que o levara a defender a secessão; mas aqueles com quem falara não tinham estado em Arausio. Talvez esta nova determinação em cortar radicalmente com Roma - pensava Silão - decorresse, pura e simplesmente, de um profundo cansaço, do sentimento arreigado de que tinham definitivamente passado os dias em que Roma distribuía a sua preciosa cidadania, de que a situação não sofreria nenhuma alteração. As ofensas, as afrontas, eram agora tais, que qualquer Italiano consideraria insuportável, intolerável, viver sob o domínio romano.

Em Caio Pápio Mutilo, o chefe da nação samnita, encontrara Silão um homem que se agarrava à hipótese de secessão quase freneticamente. Silão não odiava Roma nem os Romanos, odiava apenas a situação a que Roma obrigava o seu povo; mas Caio Pápio Mutilo pertencia a um povo que fora o mais obstinado e implacável inimigo de Roma, desde que a pequena comunidade romana do outro lado da estrada do sal do Tibre começara a mostrar os dentes. Mutilo odiava Roma e os Romanos com todas as fibras de que era feito o seu coração, com todos os sentimentos que afloravam a sua consciência - e com todos os sentimentos que não chegavam sequer a vencer a barreira do inconsciente. Pápio Mutilo era um verdadeiro Samnita, e ansiava por ver todos os Romanos apagados das páginas da História. Silão era um adversário de Roma. Mutilo era um inimigo de Roma.

Como sucede em todos os movimentos em que a causa comum é suficientemente importante para anular todas as objecções e todas as considerações de ordem prática, os Italianos, que de início pretendiam apenas ver se seria possível fazer alguma coisa, depressa concluíram que a secessão era a única resposta possível. No entanto, tódos eles conheciam Roma demasiado bem para poderem alimentar a ideia de que a Itália era possível sem uma guerra; por isso mesmo, ninguém punha a hipótese de declarar a independência nos anos mais próximos. Em vez disso, os chefes dos Aliados Italianos concentraram-se na preparação da guerra contra Roma. Tal guerra exigiria um esforço enorme, elevadas somas de dinheiro - e muitos, muitos homens, o que, depois de Arausio, obrigava a uma espera de alguns anos. Ninguém mencionava ou propunha qualquer data; para já, enquanto os rapazes italianos cresciam, toda a energia e todo o dinheiro disponíveis seriam destinados à produção de armas, armaduras e outros materiais em quantidades suficientes para uma guerra contra Roma e para uma vitória nessa guerra.

O que havia, para já, era muito pouco. Quase todas as baixas italianas tinham ocorrido longe de Itália, e as armas e armaduras desses soldados dificilmente voltavam às suas nações, basicamente porque Roma tratava de as levar do campo de batalha sempre que possível - e, muito naturalmente, Roma não as considerava ”aliadas”. Algumas armas podiam ser legalmente compradas, só que não chegariam nunca para equipar os cem mil homens de que a nova Itália, segundo Silão e Mutilo, precisaria para vencer Roma. O armamento desses soldados teria, por isso, de ser obra clandestina, e muito, muito lenta. Para atingirem o alvo pretendido, os Italianos teriam ainda de esperar uns bons anos.

Para tornar as coisas ainda mais difíceis, todas as acções a realizar seriam forçosamente presenciadas por muitas pessoas que, se viessem a saber o que se congeminava na Itália, iriam imediatamente informar algum representante romano ou, muito simplesmente, Roma. Era óbvio que não podiam confiar nas colónias que gozavam dos Direitos Latinos, nem em cidadãos romanos ocasionalmente em viagem por Itália. Por isso, os centros de actividade e os esconderijos de equipamento foram concentrados em áreas pobres e remotas, longe dos viajantes e das estradas romanas, longe das colónias romanas ou latinas. Para onde quer que se virassem, os chefes italianos deparavam com perigos e dificuldades gigantescas. No entanto, as operações de armamento prosseguiram e, ao fim de algum tempo, iniciou-se o treino de novos soldados. É que, entretanto, os rapazes italianos já tinham crescido.

Quinto Popaedius Silão conhecia e promovia todas estas actividades secretas e, no entanto, ali estava ele conversando com romanos, em casa de um romano. Não sentia, por causa disso, nem ansiedade, nem culpa. Quem sabe?, pensava Silão, talvez um dia Marco Lívio Druso venha a resolver tudo isto, de uma forma pacífica e eficiente. Já tinham acontecido coisas mais estranhas do que isso!

- Quinto Servílio vai deixar-nos por alguns meses - disse Druso. Era uma boa mudança de assunto.

Era de alegria aquele brilho nos olhos de Lívia Drusa?, perguntou para si mesmo Silão, que a considerava uma mulher muito simpática e afável, ainda que ela fosse para ele um mistério - de facto, gostaria ela da vida que levava? Amaria Cepião? Gostaria de viver em casa do irmão? Dizia-lhe o instinto que a resposta a todas estas perguntas era ”não”. Mas Silão não tinha a certeza. Mas de súbito, esqueceu-se por completo de Lívia Drusa, pois Cepião falava já do que ia fazer.

- Especialmente à volta de Patávio e Aquileia - dizia Cepião. O ferro da Nórica - vou tentar comprar as concessões de ferro da Nórica - pode abastecer fundições construídas à volta de Patávio e Aquileia. O factor mais importante é que estas áreas da Gália Italiana oriental tenham por perto vastas florestas de árvores diversas, ideais para a produção de carvão. Segundo os meus agentes, há já um número infindo de faias e olmos prontos para a plantação de bosques.

- Creio que a acessibilidade do ferro é que dita a localização das fundições - observou Silão, escutando agora com toda a atenção. Foi por isso que Pisa e Populónia se tornaram cidades com fundições, não foi? Por causa do ferro enviado directamente da ilha de Elba.

- Isso não passa de uma falácia - retorquiu Cepião, falando, por uma vez, clara e francamente. - Na realidade, foi a existência de árvores aptas à produção de carvão que conduziu ao aparecimento de fundições em Pisa e Populónia. O mesmo sucederá na Gália Italiana oriental. A produção de carvão é um processo manufactureiro, e uma fundição consome, para uma parte de metal, dez partes de carvão. É por isso que o meu projecto na Gália Italiana oriental contempla a construção de cidades tanto para carvoeiros como para operários siderúrgicos. Comprarei terra para a construção de casas e oficinas, e depois convencerei ferreiros e carvoeiros a instalarem-se nas minhas pequenas cidades. O trabalho correrá muito melhor se houver um certo número de pequenos negócios idênticos do que se houver muitos negócios sem qualquer relação entre si.

- Mas a competição entre todos esses pequenos negócios similares não acabará por revelar-se prejudicial? E não será demasiado difícil encontrar compradores? - perguntou Silão, ocultando a sua excitação cada vez maior.

- Não vejo porquê - replicou Cepião, que tinha de facto estudado o assunto, registando a esse nível progressos surpreendentes. - Se, por exemplo, um praefectus fabrum pertencente a um exército andar à procura, digamos, de dez mil camisas de cota de malha, de dez mil capacetes, de dez mil espadas e adagas, e de dez mil lanças, não se deslocará precisamente a um local onde poderá visitar diversas fundições, sem precisar de percorrer uma centena de ruas secundárias sempre que quiser encomendar alguma coisa? E não será mais fácil, para o proprietário de uma pequena fundição, com, digamos, dez homens livres e dez escravos a trabalhar para ele, vender aquilo que produz sem ter de andar a anunciar os seus produtos por toda a cidade porque os seus clientes sabem onde devem deslocar-se?

- Tens razão, Quinto servílio - disse Druso, com um ar pensativo.

- Os exércitos dos nossos dias precisam de facto de dez mil artigos de aço variados, e têm sempre pressa. Era diferente nos velhos tempos, quando os soldados eram homens ricos. Quando um jovem fazia dezassete anos, o tatá dava-lhe a camisa de cota de malha, o capacete, a espada, a adaga, o escudo e as lanças; a mamã dava-lhe os caligae, a capa para o escudo, a mochila, o penacho de crina de cavalo e o sagum; e as irmãs tricotavam para ele meias grossas e teciam seis ou sete túnicas. Guardava para toda a vida este equipamento - e na maior parte dos casos, quando passava à reserva, esse equipamento ia para o filho ou para o neto. Mas desde que Caio Mário decidiu alistar os filhos do povo, nove em cada dez recrutas nem sequer podem comprar um lenço para o pescoço, a fim de não se ferirem com a cota de malha, quanto mais receber todo o equipamento das mãos de pais, mães e irmãs. De repente, ficámos com exércitos inteiros tão desprovidos de equipamento militar como qualquer civil nos velhos tempos. A procura superou a oferta - procura que de algum modo teremos de satisfazer! De facto, não podemos mandar os nossos legionários para o campo de batalha sem o equipamento adequado.

- Isso responde a uma questão - disse Silão. - Intrigava-me o facto de muitos veteranos retirados virem ter comigo pedindo empréstimos para se instalarem como ferreiros! Tens toda a razão, Quinto Servílio. Terá de passar uma geração para que os teus projectados centros de fundição produzam outras coisas para além de equipamentos militares. De facto, como dirigente do meu povo, muitas voltas tenho dado à cabeça por causa das armas e armaduras que teremos de comprar para as legiões que, disso não tenho dúvida, Roma nos pedirá num futuro não muito distante. E o mesmo deve acontecer com os Samnitas, e provavelmente com os outros povos italianos.

- Devias pensar na Hispânia - disse Druso a Cepião. - Imagino que na Hispânia ainda haverá florestas perto das minas de ouro.

- Na Hispânia Ulterior, sim - retorquiu Cepião, sorrindo deleitado porque, subitamente, era o centro de respeitosas atenções, o que, para ele, constituía uma experiência nova. - As velhas minas cartaginesas do Orospeda há muito que ficaram sem recursos em madeira, mas todas as novas minas se situam em zonas dotadas de amplas florestas.

- E daqui a quanto tempo começarão as tuas cidades a produzir?

- perguntou Silão, num tom aparentemente desinteressado.

- Na Gália Italiana, é de esperar que dentro de dois anos. Claro

- acrescentou rapidamente Cepião - que eu nada tenho a ver com os negócios que vão ser montados ou com os produtos que vão ser fabricados. Seria incapaz de fazer qualquer coisa que desagradasse aos censores. Tudo o que pessoalmente tenciono fazer é construir as cidades e depois receber as rendas: uma actividade perfeitamente decente para um senador.

- Muito louvável da tua parte - comentou ironicamente Silão. Suponho que vais construir as tuas cidades junto a bons cursos de água e perto das florestas.

- Escolherei locais situados perto de rios navegáveis - retorquiu Cepião.

- Os Gauleses são bons ferreiros - disse Druso.

- Mas não suficientemente organizados e por isso não prosperam tanto quanto podiam - replicou Cepião, com um ar presumido, uma expressão que nele começava a ser vulgar. - Melhorarão muito quando eu os organizar.

- Não há dúvida, Quinto Servílio, o comércio é o teu forte - disse Silão. - Devias abandonar o Senado e tornar-te cavaleiro. Assim, as fundições e as carvoarias seriam também propriedade tua.

- O quê? Ter de negociar com as pessoas? - perguntou Cepião, estupefacto. - Não, nem pensar! Os outros que façam esse trabalho!

- Mas não irás cobrar as rendas pessoalmente? - perguntou Silão, de olhos fixos no chão.

- Certamente que não! - exclamou Cepião, engolindo a isca. Vou criar uma pequena companhia de agentes em Placência que tratará de todas essas coisas. Podemos admitir que a tua prima Aurélia cobre as suas próprias rendas, Marco Lívio - disse ele para Druso -, mas pessoalmente considero de muito mau gosto uma tal actividade.

Houvera uma época em que a simples menção do nome de Aurélia teria agitado o coração de Druso, pois ele fora um dos mais ardentes candidatos à sua mão; agora, porém, seguro do amor que nutria pela mulher, Druso podia sorrir para o cunhado e dizer despreocupadamente:

- É impossível comparar Aurélia seja com quem for. Quanto a mim, acho o gosto dela impecável.

Durante todo este tempo, as mulheres tinham permanecido sentadas e caladas - não porque não desejassem falar, mas simplesmente porque a sua participação na conversa não era encorajada. Estavam habituadas a ficar sentadas e caladas.

Depois de jantar, Lívia Drusa retirou-se, invocando trabalho que não podia esperar, e deixou a cunhada, Servília Cepião, no quarto das crianças com o pequeno Druso Nero. Estava muito escuro e muito frio; por isso, Lívia Drusa ordenou a um criado que lhe trouxesse uma capa, vestiu-a, e atravessou o pátio na direcção da loggia, onde poderia desfrutar de uma hora de sossego pois aí ninguém a procuraria. Uma hora sozinha. E estar sozinha era, para ela, uma maravilha invulgar, uma graça.

Ele ia-se embora! Finalmente ia-se embora! Mesmo quando fora questor nunca deixara Roma. E durante os três anos de exílio do pai, Cepião nunca pusera sequer a hipótese de ir a Esmirna. Quinto Servílio Cepião nunca se apartara da mulher, excepto no primeiro ano de casamento, durante o curto período em que fora tribuno dos soldados e sobrevivera, estranhamente incólume, à batalha de Arausio.

Lívia Drusa não fazia a mínima ideia das ninharias que atraíam agora as atenções do marido. Aliás, isso pouco lhe interessava. O que era preciso era que as ninharias o levassem para longe dali. Possivelmente, a situação financeira de Cepião chegara a um tal estado que ele se vira obrigado a fazer alguma coisa para a melhorar, embora, no seu íntimo, Lívia Drusa se perguntasse muitas vezes se o marido seria de facto tão pobre como dizia. Não sabia como é que o irmão tinha conseguido suportá-los. Não era só o facto de ter de partilhar a sua casa com outra família; é que Marco Lívio fora inclusivamente obrigado a esconder a sua valiosa colecção de pinturas. Ah, o pai ficaria por certo horrorizado se pudesse ver aquilo! Ele que construíra aquela enorme domus unicamente para poder expor à vontade as suas obras de arte! Oh, Marco Lívio, porque me obrigaste a casar com ele?

Oito anos de casamento e duas filhas não tinham reconciliado Lívia Drusa com a sua sorte. No entanto, os primeiros anos de casamento tinham sido os piores, uma descida aos infernos da depressão; depois, aprendera a enfrentar melhor a sua infelicidade. E nunca esquecera as palavras do irmão, quando por fim conseguira convencê-la a casar-se:

- Espero que te comportes em relação a Quinto Servílio como qualquer jovem que, de todo o coração, deseja o seu casamento. Fá-lo sentir que o casamento te agrada, trata-o sempre com deferência, respeito, interesse, consideração. Nunca mostres a Quinto Servílio que ele não é o marido que desejas, nem mesmo na privacidade do vosso quarto.

Druso conduzira-a ao santuário do átrio, onde eram honrados os deuses da família - Vesta, a deusa do lar, os Penates, os deuses da cozinha e da despensa, e os Lares - e obrigara-a a jurar que se comportaria tal e qual como ele lhe ordenara. Que juramento terrível aquele! Por isto odiara o irmão, mas esse ódio já há muito se tinha esbatido, pois Lívia Drusa era agora uma mulher madura e, por outro lado, tivera entretanto a oportunidade de conhecer uma faceta do irmão de cuja existência não suspeitava sequer.

O Druso da sua infância e adolescência era um indivíduo grave, altivo, indiferente à pessoa da irmã - o medo que ela tinha então dele! Só após a queda e o exílio do sogro conseguiu Lívia Drusa conhecer realmente o irmão. Ou talvez - pensava ela, com a frieza de raciocínio comum ao irmão - Druso tivesse mudado depois da batalha de Arausio, e depois de ter começado a gostar da mulher. A verdade é que Lívio Druso era agora um homem mais maleável e acessível, ainda que nunca, em tantos anos, tivesse mencionado o facto de a ter obrigado a casar com Cepião, nem a tivesse libertado daquele terrível juramento. Lívia Drusa admirava-o sobretudo pela inabalável lealdade que lhe dedicava a ela e também ao cunhado, Cepião - de facto, Lívio Druso nunca se queixara, fosse de que maneira fosse, da presença da família Cepião na sua casa. Por isso quase se engasgara nessa noite, quando Druso respondeu de forma agressiva a Cepião por este ter criticado Quinto Popaedius Silão.

Mas que bem falara Cepião naquela noite! Estimulado por um tema que lhe era caro, explicara o que estava a fazer de uma forma perfeitamente lógica, e com não pouco entusiasmo. Pelo que dissera, parecia ter actuado até esse momento de forma muito prática, como um verdadeiro homem de negócios. Talvez Silão estivesse certo talvez Cepião fosse, de seu natural, um homem dado ao comércio, um homem de negócios. Um cavaleiro. Pareciam excitantes os seus projectos. E lucrativos. Oh, que maravilha seria viver na nossa própria casa!, pensava Lívia Drusa, que não ansiava por outra coisa.

Ao fundo da escada que descia da loggia até aos quartos apinhados de gente dos criados, ouviram-se sonoras gargalhadas; Lívia Drusa sobressaltou-se, estremeceu, encolheu-se muito encolhida, pois aquele ruído poderia significar que os escravos iriam subir a escada e atravessar a loggia em direcção à porta do átrio. E de facto, um pequeno grupo de homens atravessou a loggia, rindo e falando em grego, num dialecto qualquer, e com tanta rapidez, que Lívia Drusa não fazia a mínima ideia dos motivos de tanta animação. Mas estavam tão felizes! Porquê? Que tinham eles que ela não tivesse? A resposta era simples: a possibilidade de virem a ser livres, a possuir a cidadania romana e o direito de conduzirem as suas vidas como muito bem entendessem. A eles, pagavam-lhes; a ela, não. Eles tinham muitos amigos e companheiros para tudo; ela, não. Eles podiam criar entre si relações de intimidade, sem censuras ou interferências; Lívia Drusa, não. O facto de esta resposta não ser inteiramente correcta pouco preocupava Lívia Drusa: era assim que ela via, que ela sentia, as coisas.

Os criados não a viram. Lívia Drusa acalmou-se. Uma lua quase cheia subira suficientemente alto nos céus para iluminar as profundezas da cidade de Roma. Lívia Drusa deu meia volta no seu banco de mármore, pôs os braços sobre a balaustrada, e contemplou o Fórum Romano. A casa de Druso ficava mesmo na ponta do Gérmalo do Palatino, no local onde a Clivus Victoriae virava, fazendo um ângulo recto, passando a acompanhar o Fórum Romano em toda a sua extensão. Era por isso uma casa com uma vista belíssima; em tempos idos, essa vista era ainda mais ampla: à esquerda, via-se mesmo a rua Velabro. Mas isso fora no tempo em que, ao lado da casa de Druso, existira uma área desocupada, a área Flacciana; agora, porém, o enorme pórtico que Quinto Lutácio Catulo César mandara construir nessa zona, com as suas gigantescas colunas, tapava por completo essa paisagem. Quanto ao resto, nada mudara. A casa de Cneu Domício Aenobarbo Pontifex Maximus continuava a sobressair, um pouco mais abaixo da casa de Druso, oferecendo a vista da sua loggia.

Assim era Roma sem a animação do dia. As cores vistosas em que tudo era pintado reduziam-se agora a cinzentos e cintilações. Não que a cidade estivesse parada; archotes bruxuleavam em becos escuros, o ruído dos carros e os mugidos dos bois ouviam-se claramente porque muitos dos lojistas e comerciantes de Roma aproveitavam a noite, e as ruas sossegadas, para receberem as suas mercadorias. Um grupo de homens embriagados deambulava pelo espaço aberto do baixo Fórum, cantando uma canção popular sobre o amor (só poderia ser sobre o amor..., pensou Lívia Drusa). Uma vasta escolta de escravos protegia uma liteira cuidadosamente fechada, entre a Basílica Semprónia e o templo de Castor e Pólux - alguma dama importante que ia para casa depois de uma festa, era mais que certo. Um gato no cio miou insinuante para a Lua e logo uma dúzia de cães começaram a ladrar, e tudo isso divertiu tanto os bêbados que um deles se desequilibrou, no preciso momento em que contornavam o anfiteatro dos Comitia, e caiu pelas bancadas abaixo, no meio da hilaridade geral.

O olhar de Lívia Drusa deambulou até à loggia da casa de Domício Aenobarbo e demorou-se, triste, naquela vasta extensão vazia. Há muito, muito tempo (assim lhe parecia, e a verdade é que a sua solidão durava já desde antes do casamento) que não conhecia amizades: nem mesmo na adolescência se dera com raparigas da sua idade. Enchera a sua vida vazia com livros. E apaixonara-se por alguém, por alguém que não tinha a mínima esperança de conhecer. Nesses tempos, costumava sentar-se naquele banco durante o dia e observar aquela varanda lá em baixo. Os seus olhos procuravam o jovem alto e ruivo que tanto a atraíra, que a levara a construir fantasias à volta dele, fantasias em que ele era o rei Ulisses de Ítaca e ela a sua fiel rainha Penélope, esperando pelo regresso do amado. Durante anos, as raras vezes que o viu - porque, concluíra Lívia Drusa, ele não era visita frequente chegaram para alimentar aquele encantamento privado, atormentado, um estado de espírito que persistira após o seu casamento, e que servia apenas para aumentar a sua infelicidade. Não sabia o seu nome, embora tivesse a certeza de que não era um Domício Aenobarbo, pois estes eram atarracados (se bem que ruivos, como o jovem); todas as Famílias Importantes tinham algo que as identificava, e ele não se parecia nada com os Aenobarbo.

Lívia Drusa não esqueceria nunca o dia da sua desilusão; fora o dia em que a Assembleia da Plebe condenara o sogro por traição; o dia em que o criado do irmão, Cratipo, correra até ao outro lado do Palatino, e a levara a ela e a Servília, ainda bebé, para a casa onde agora estava. Que dia aquele! Pela primeira vez, observando Servília Cepião com Druso, percebeu como uma esposa pode agradar ao marido; pela primeira vez, apercebeu-se de que as mulheres nem sempre eram excluídas das discussões familiares importantes; pela primeira vez, bebera vinho sem água. E então, quando todas as convulsões pareciam ter passado, Servília Cepião dera um nome ao Ulisses alto e ruivo que por vezes aparecia na loggia lá em baixo. Marco Pórcio Catão Saloniano. Não era nenhum rei, afinal! Nem mesmo um nobre, mas o neto de um camponês de Túsculo e bisneto de um escravo celtibero.

Nesse momento, Lívia Drusa tornou-se adulta.

- Ora cá estás tu! - exclamou bem alto Cepião. - Mas que fazes tu aqui ao frio, mulher? Vem para dentro!

Obedientemente, Lívia Drusa levantou-se e encaminhou-se para o quarto que tanto odiava.

Quinto Servílio Cepião partiu em fins de Fevereiro, informando Lívia Drusa de que estaria ausente pelo menos um ano. Perante a surpresa da mulher, Cepião explicou-lhe que, depois de ter investido todo o seu dinheiro naquele negócio na Gália Italiana, era essencial que permanecesse nessa região o tempo necessário para controlar todos os aspectos do seu projecto. As atenções sexuais de Cepião tinham sido muitas e prolongadas, pois, segundo dizia, queria um filho, e a gravidez deixaria a esposa ocupada na sua ausência. Durante os primeiros anos do casamento, todos os jogos íntimos tinham perturbado muito Lívia Drusa. Porém, depois de conhecer o nome do seu adorado Ulisses ruivo, fazer amor com Cepião transformara-se, pura e simplesmente, num acidente desagradável, mas não propriamente repulsivo. Não fazendo qualquer confidência ao marido acerca dos seus próprios planos durante aquela ausência, Lívia Drusa despediu-se dele; aguardou depois oito dias para falar com o irmão.

- Marco Lívio, tenho um grande favor a pedir-te - começou, sentada na cadeira dos clientes; Lívia Drusa tinha uma expressão de surpresa, ria-se. - Por todos os deuses! Sabes que é esta a primeira vez que me sento aqui desde o dia em que me convenceste a casar com Quinto Servílio?

Tornou-se sombria a expressão de Druso. Fitou as mãos, entrelaçadas sobre a secretária.

- Foi há oito anos - retorquiu num tom neutro.

- Sim, foi há oito anos - disse ela, e voltou a rir-se. - Mas eu não me sentei aqui hoje para falar do que sucedeu há oito anos, mas para te pedir um favor, irmão.

- Fico muito contente se puder conceder-to, Lívia Drusa - retorquiu ele, grato por ela lhe perdoar tão facilmente.

Muitas vezes desejara ardentemente pedir-lhe desculpa, pedir-lhe que perdoasse aquele erro terrível; Druso não deixava de se aperceber da permanente infelicidade da irmã, e fora ele quem tivera de admitir que era ela quem tinha razão acerca do detestável carácter de Cepião. Mas o orgulho não o deixara falar. E, por outro lado, no seu íntimo, ocultava-se a convicção de que, ao casá-la com Cepião, tinha pelo menos evitado a eventualidade de que ela viesse a ser como a mãe. Essa mulher terrível embaraçara-o durante anos a fio, por ser alvo do ridículo - pelo menos nas conversas -, depois de um caso amoroso particularmente sórdido que acabara em nada, como acabavam, aliás, todos os seus casos amorosos.

- Então? - insistiu ele, ao ver que a irmã não prosseguia. Lívia Drusa franziu o sobrolho, molhou os lábios, e ergueu os

seus belos olhos, encarando-o bem de frente.

- Marco Lívio, há muito que tenho consciência de que eu e meu marido abusamos da tua hospitalidade.

- Enganas-te - contrapôs ele de imediato. - Mas se inadvertidamente te dei essa impressão, peço-te desde já desculpa. A sério, irmã, foste sempre bem-vinda e continuarás a sê-lo.

- Agradeço-te. No entanto, aquilo que eu disse é um facto. Tu e Servília Cepião nunca têm uma oportunidade de estar sozinhos, e esse pode ser um dos motivos que a impede de engravidar.

Ele estremeceu.

- Duvido.

- Eu não. - Lívia Drusa inclinou-se para a frente, com uma expressão grave. - Os tempos agora estão calmos, Marco Lívio. Tu não tens qualquer cargo no governo e o pequeno Druso Nero já está contigo há bastante tempo, pelo que, como dizem as velhas, e eu acredito nelas, tens agora muito mais possibilidades de ter um filho teu.

Tais observações eram demasiado dolorosas para Marco Lívio. Por isso atalhou:

- Vai direita ao assunto, irmã, peço-te!

- Bom, a questão é que, durante a ausência de Quinto Servílio, eu gostaria muito de ir para o campo com as minhas filhas - retorquiu Lívia Drusa. - Tu tens uma pequena villa perto de Túsculo, e Túsculo fica a menos de meio dia de viagem de Roma. Há anos que ninguém vive naquela casa. Por favor, Marco Lívio, empresta-ma por algum tempo! Deixa-me viver sozinha!

Os olhos dele prescrutaram a expressão da irmã, à procura de um sinal que demonstrasse que Lívia Drusa planeava alguma imprudência. Mas não o encontrou.

- Pediste permissão a Quinto Servílio?

Olhando-o ainda nos olhos, Lívia Drusa respondeu-lhe com firmeza:

- Claro que pedi.

- Ele não me falou de nada.

- Incrível! - retorquiu Lívia Drusa, sorrindo. - Isso é mesmo dele!

Marco Lívio não pôde deixar de rir.

- Muito bem, irmã, não vejo por que não hás-de ir para Túsculo, se Quinto Servílio concordou. Como disseste, Túsculo não fica muito longe de Roma. Ficarei atento aos teus movimentos.

De rosto transfigurado, Lívia Drusa desfez-se em agradecimentos.

- Quando queres ir? Lívia Drusa levantou-se.

- Imediatamente. Posso pedir a Cratipo que organize tudo?

- Claro - Marco Lívio pigarreou. - Teremos saudades tuas, Lívia Drusa. E das tuas filhas.

- Depois de terem pintado uma segunda cauda ao cavalo e de terem transformado o cacho de uvas numas maçãs bem encarnadas?

- O mesmo podia ter feito Druso Nero, se ele fosse mais crescido

- retorquiu Marco Lívio. - A verdade é que até tivemos sorte. A tinta ainda estava húmida, por isso a obra nada sofreu. As obras de arte do pai estão em perfeita segurança na adega e aí ficarão enquanto as crianças da casa não crescerem o suficiente.

Marco Lívio levantou-se também; caminharam juntos pela colunata até chegarem à sala de estar da dona de casa, onde Servília Cepião estava a trabalhar no seu tear, fazendo mantas para a nova cama de Druso Nero.

- A nossa irmã quer deixar-nos - disse Druso mal entrou na sala. Sim, a expressão da esposa era de consternação - mas também de prazer culpado.

- Oh, Marco Lívio, que pena! Mas porquê?

Druso, porém, retirou-se imediatamente, deixando as explicações a cargo da irmã.

- Vou levar as raparigas para a villa de Túsculo. Viveremos na villa durante a ausência de Quinto Servílio.

- A villa de Túsculo? - perguntou Servília Cepião, com óbvio espanto. - Mas, minha querida Lívia Drusa, aquilo está em ruínas! Creio que pertenceu aos primeiros Lívios. Não tem banhos, nem latrina, nem uma cozinha decente. E, além disso, é tão pequena!

- Isso não me preocupa - retorquiu Lívia Drusa. Pegou na mão da cunhada e levou-a até ao seu rosto. - Querida senhora desta casa, eu seria capaz de viver num casebre se esse casebre fosse meu! Não digo isto com qualquer intenção de te ferir, ou censurar. Desde que o teu irmão e eu nos mudámos para aqui, tu tens sido a gentileza em pessoa. Mas tens de entender a minha situação. Eu quero uma casa que seja minha. Não quero criados que me tratam por dominilla e que não ligam nenhuma ao que digo porque me conhecem desde bebé. Quero um pouco de terra para poder passear, um pouco de liberdade longe da confusão desta horrível cidade. Por favor, Servília Cepião, procura compreender-me!

Duas lágrimas molharam as faces da dona da casa, e os seus lábios tremeram.

- Eu compreendo - retorquiu.

- Não fiques triste! Deves estar contente porque eu estou contente!

Abraçaram-se. Estavam inteiramente de acordo.

- Vou procurar Marco Lívio e Cratipo imediatamente - disse Servília Cepião, pondo de lado o trabalho e cobrindo o tear por causa do pó. - Marco Lívio tem de contratar construtores para que tu possas viver confortavelmente naquela casa velha.

Mas Lívia Drusa não esperou. Três dias depois, partiu para a quinta de Túsculo com as filhas, os seus muitos livros e os poucos criados que Cepião tinha.

Embora não visitasse a villa desde a infância, Lívia Drusa achou-a praticamente na mesma - uma pequena casa de paredes de estuque, pintada de amarelo vivo, sem jardim que se visse, sem comodidades, sem peristilo, e com muito pouco ar e luz no interior. Mas Marco Lívio não tinha perdido tempo; no local trabalhavam já muitos operários, sob as ordens de um construtor local, que a esperava e logo lhe prometeu que dois meses chegavam para tornar a casa habitável.

Lívia Drusa instalou-se, pois, no meio de um caos controlado pó de estuque, o ruído de martelos, maços e serras, um constante vaivém de instruções e perguntas gritadas no latim cerrado dos Tusculanos, os quais, apesar de viverem a apenas vinte e cinco quilómetros de Roma, raramente, ou nunca, lá iam. As filhas tiveram reacções típicas; Lila, que não tinha mais de quatro anos e meio, ficou encantada, ao passo que a serena e reservada Servília odiou obviamente a casa, a actividade dos operários e a mãe, não necessariamente por essa ordem. Mas Servília mantinha-se à parte de tudo; ao passo que a turbulência de Lila apenas servia para tornar tudo mais caótico.

Deixando as filhas entregues aos cuidados da ama e do severo preceptor de Servília, Lívia Drusa saiu na manhã seguinte para apreciar a paz e a beleza daqueles campos em pleno Inverno, dificilmente acreditando que acabara de libertar-se de uma prolongada prisão.

Embora o calendário anunciasse a Primavera, a verdade é que se estava em pleno Inverno. Cneu Domício Aenobarbo Pontifex Maximus não tinha ainda obrigado o Colégio de Pontífices, que chefiava, a cumprir o seu dever, ou seja, a pôr o calendário de acordo com as estações. Não que Roma e os arredores tivessem sofrido um rude Inverno nesse ano; pouco nevara, e o Tibre não chegara a gelar sequer. As temperaturas tinham descido bastante abaixo de zero, mas o vento pouco incomodara, e a relva nada sofrera.

Mais feliz do que alguma vez estivera em toda a sua vida, Lívia Drusa deambulou pelos campos pertencentes à casa, subiu depois um pequeno muro de pedra, caminhou cuidadosamente à volta de um campo já arado, subiu outro muro de pedra, e entrou numa faixa cheia de erva e ovelhas. Bem protegidas pelas suas capas de couro, as pobres ovelhas desataram a fugir quando ela se pôs a chamá-las; encolhendo os ombros e sorrindo, Lívia Drusa prosseguiu o seu caminho.

Para lá dessa faixa, encontrou um marco pintado de branco, e, passado esse marco, uma pequena torre que era um santuário. O chão em frente exibia ainda as marcas do sangue de algum sacrifício. Nos ramos mais baixos de uma árvore debruçada sobre a pequena torre, pendiam pequenas bonecas e bolas de lã, e cabeças de alho, objectos que, pelo seu aspecto, já deveriam ali estar há muito tempo. Para lá do santuário, havia um pote de barro de pernas para o ar; curiosa, Lívia Drusa pegou no pote, mas logo o pôs onde estava; debaixo do pote jazia o cadáver em decomposição de um sapo enorme.

Demasiado citadina para entender que estava a invadir propriedade alheia - de alguém que revelava grandes escrúpulos nas suas atenções para com os deuses do solo e das fronteiras - Lívia Drusa prosseguiu o seu caminho. Quando encontrou o primeiro açafrão, ajoelhou-se para apreciar a flor muito amarela, e de novo se levantou para contemplar os ramos nus das árvores, com uns olhos tão cheios de espanto que dir-se-ia que as árvores tinham sido inventadas de propósito para ela.

Deu depois com um campo de macieiras e pereiras: algumas das pêras não tinham ainda sido colhidas, uma tentação a que Lívia Drusa de bom grado sucumbiu. Era tão doce e sumarenta a pêra que comeu que as suas mãos ficaram todas pegajosas. Ouvia água correndo algures: encaminhou-se na direcção do som, através das árvores muito cuidadas, até que encontrou um pequeno regato. A água era gelada, mas isso pouco lhe importava; lavou nela as mãos e riu-se baixinho para si mesma enquanto as secava ao sol, já bem alto e quente. Tirou a palia; ainda ajoelhada junto ao regato, pôs a grande mantilha no chão e dobrou-a num rectângulo que poderia levar debaixo do braço. Depois, levantou-se. E viu-o.

Ele tinha estado a ler. Tinha na mão esquerda o rolo de pergaminho, de novo enrolado pois a invasora do seu pomar distraíra-o por completo.

O rei Ulisses de ítaca! Ao reparar nos olhos dele, Lívia Drusa susteve a respiração: é que aqueles eram os olhos do rei Ulisses, enormes, cinzentos, belíssimos.

- Olá - disse ela, sorrindo para ele sem qualquer sinal de timidez ou mal-estar. Depois de o ter observado da sua varanda durante tantos anos, ele parecia de facto o viajante retornado à sua terra, um homem que ela conhecia pelo menos tão bem como a rainha Penélope conhecera o seu rei Ulisses. Lívia pegou na palia e encaminhou-se na direcção dele, sorridente, falando sempre.

- Roubei uma pêra - disse ela. - Deliciosa! Não sabia que havia pêras até tão tarde. Sempre que saio de Roma, é para a praia que vou, no Verão. É completamente diferente disto.

Ele não respondeu. Limitou-se a olhar para ela com aqueles olhos cinzentos e luminosos.

Ainda te amo, dizia ela para si mesma. Ainda te amo! Que me importa que sejas descendente de um camponês e de um escravo! Amo-te. Como Penélope, esquecera o amor. Mas aqui estás tu de novo ao fim de tantos anos, e eu continuo a amar-te.

Quando Lívia Drusa parou, estava já demasiado perto dele para que aquele fosse apenas um encontro casual de dois estranhos; ele podia sentir o calor do corpo dela, e os olhos negros, enormes, de Lívia Drusa, agora fixos nos dele, eram um mar de gratidão. De amor. De boas-vindas. Por isso, o que Marco Pórcio fez a seguir foi a coisa mais natural deste mundo: avançou um pouco mais e abraçou-a. Ela encostou o seu rosto ao dele e pôs os braços à volta do pescoço daquele homem que tão bem conhecia. Quando se beijaram, sorriam. Velhos amigos, velhos amantes, marido e mulher que não se viam há vinte anos, separados pelas maquinações dos outros, divinos ou humanos. Triunfantes no reencontro.

As mãos dele, seguras e fortes, pareciam conhecer desde há muito o corpo dela, ela não precisava de lhe dizer que caminhos aquelas mãos deviam percorrer, o que o seu corpo queria ou não queria; ele era o rei, o senhor do coração dela, sempre o fora. Tão gravemente como uma criança encarregada de guardar um tesouro valioso, Lívia Drusa descobriu os seios e ofereceu-lhos. Depois, começou a despi-lo enquanto ele colocava a mantilha no chão. Marco Pórcio deitou-se e ela deitou-se ao lado dele. Tremendo de prazer, Lívia Drusa beijou-lhe o pescoço e mordiscou-lhe o lóbulo da orelha, levou as mãos ao rosto dele e beijou-o uma vez mais, acariciou-lhe jubilosamente o corpo, murmurou mil e uma ternuras contra a língua dele.

Fruta, doce e pegajosa - ramos magros, despidos de folhas, entrelaçados sob o mais azul dos céus - o cabelo que lhe doía por estar demasiado apanhado - um passarito com as asas paradas colado às gavinhas de uma nuvem de teias - tanta alegria, tanta exultação até então reprimida, libertando-se subitamente, livre, livre - oh, êxtase dos êxtases!

Durante horas estiveram deitados sobre a mantilha, aquecendo-se um ao outro, pele contra pele, sorrindo disparatadamente um para o outro, espantados por estarem ali juntos, inocentes de qualquer transgressão, enredados nas delícias de todo o género de descobertas.

Falaram também. Ele era casado, com Cuspia, filha de um publicanus, e a irmã dele estava casada com Lúcio Domício Aenobarbo, o irmão mais novo do Pontifex Maximus; o dote da irmã saíra-lhe muito caro, tão caro que fora obrigado a casar-se com Cuspia, cujo pai era extremamente rico. Não tinham ainda filhos, pois ele não encontrava na esposa nada que lhe inspirasse admiração ou amor - e Cuspia queixara-se já ao pai de que ele a desprezava.

Quando Lívia Drusa lhe disse quem era, Marco Pórcio Catão Saloniano ficou muito quieto.

- Estás zangado? - perguntou ela, soerguendo-se para o fitar, ansiosa.

Ele sorriu, abanou a cabeça.

- Como posso estar zangado se os deuses responderam aos meus pedidos? Foram eles que te trouxeram para aqui, para as terras dos meus antepassados, para os meus braços. Soube disso mal te vi junto ao regato. E se tu pertences a famílias tão poderosas, esse deve também ser um sinal de que tudo está a meu favor.

- Não fazias realmente ideia de quem eu era?

- Não fazia a mínima ideia - respondeu ele, com um ar não muito feliz. - Nunca te tinha visto.

- Nunca? Nunca me viste da loggia de Cneu Domício?

- Nunca - retorquiu Marco Pórcio. Lívia Drusa suspirou.

- Pois eu vi-te muitas vezes durante muitos anos.

- Fico muito contente por teres gostado do que viste. Ela pôs a cabeça no ombro dele.

- Se eu te tivesse visto, não teria descansado enquanto não casasse contigo. E teríamos muitos filhos, e nenhum de nós se encontraria na terrível situação em que nos encontramos agora.

Ela estremeceu.

- Não posso divorciar-me enquanto o meu marido não voltar, e só voltará daqui a um ano pelo menos. Além disso, creio que nem o meu irmão nem o meu marido te aprovariam. Provavelmente não haverá dote, e eu ficarei sem as minhas filhas.

- Eu também não posso divorciar-me de Cuspia - disse ele, sentindo-se tão infeliz quanto ela. - Só daqui a dez anos terei pago o dote de minha irmã. Não tive outra hipótese senão o pagamento a prestações. Mesmo com a fortuna de Cuspia.

Instintivamente, numa mistura de prazer e dor, viraram-se um para o outro e uniram os seus corpos.

- Oh, será terrível se descobrirem! - exclamou Lívia Drusa.

- Sim.

- Não é justo.

- Não.

- Então é preciso que nunca descubram, Marco Pórcio.

- Ficaremos juntos com honra e não com culpa, Lívia Drusa.

- Há honra neste nosso encontro - disse ela gravemente - As nossas situações actuais é que o fazem parecer diferente. Eu não sinto vergonha.

Marco Pórcio sentou-se, abraçando os joelhos.

- Eu também não - disse. No entanto, os olhos com que a fitou eram olhos infelizes. - Quem me dera poder casar contigo. Será cruel manter a nossa união secreta.

- Cruel ou não, mantê-la-ei - disse ela com determinação. Encontrei-te por fim, meu rei Ulisses. Não posso perder-te.

Ele voltou a abraçá-la e abraçou-a até ela protestar, porque queria olhar para ele, para aquele corpo tão belo, para aqueles braços e pernas tão grandes, para aquela pele clara e nua de pêlos, e os escassos pêlos tinham a mesma cor ígnea do cabelo. O corpo dele era bem feito e musculoso, o rosto ossudo. Ele era mesmo o rei Ulisses. Ou o rei Ulisses dela.

- Amo-te, Marco Pórcio Catão - disse ela.

- E eu também te amo, Lívia Drusa.
Lívia Drusa deixou-o ao fim da tarde, depois de terem combinado encontrar-se no mesmo local e à mesma hora no dia seguinte. Tão longas foram as despedidas que quando chegou a casa, já os operários tinham concluído o seu dia de trabalho. O chefe dos criados, Mopso, estava prestes a mandar toda a gente à procura dela. Lívia Drusa sentia-se tão feliz e animada que nem se tinha lembrado de uma tal eventualidade; parada, à luz já crepuscular, pestanejando estupidamente enquanto Mopso falava, Lívia Drusa nem lhe passava pela cabeça falar de razões ou de desculpas.

Estava com um aspecto medonho. O cabelo, todo emaranhado e cheio de pequenos galhos e ervas, caía-lhe pelas costas; grandes nódoas de lama borravam-lhe as roupas; os bonitos sapatos fechados que levara, trazia-os agora dependurados das mãos; o rosto e os braços estavam sujos, os pés, cobertos de lama.

- Domina, domina, que aconteceu? - perguntou o chefe dos criados.

- Caiu?

Lívia Drusa já se sentia em condições de responder.

- Claro que caí, Mopso - respondeu ela, muito alegre. - De facto, não podia ter sido maior a queda, mas sobrevivi.

Cercada por criados aflitos, Lívia Drusa foi praticamente conduzida até casa. Trouxeram então uma velha banheira de bronze, puseram-na na sala de estar, encheram-na de água quente. Lila, que se tinha fartado de chorar porque a mamã nunca mais vinha, corria agora atrás da ama pois tinha à sua espera um jantar já requentado. Servília, porém, seguiu a mãe discretamente e pôde observá-la sem que ninguém a visse. Uma criada despiu Lívia Drusa, e enquanto a despia não deixou de manifestar a sua reprovação perante o estado em que se encontravam aquelas roupas.

Quando a criada virou costas para ver se a água estava à temperatura certa, Lívia Drusa, nua sem qualquer traço de pudor, esticou os braços por cima da cabeça, tão lenta e tão voluptuosamente que a rapariguinha que estava junto à porta entendeu o significado do gesto de um modo inteiramente primitivo, atávico, que só o tempo poderia elucidar. Lívia Drusa levou as mãos aos seios, cheios, encantadores. Os seus dedos acariciaram os mamilos por um instante. E Lívia Drusa sorria, sorria sempre. Depois, meteu-se na banheira, virou-se para que a criada pudesse passar-lhe com uma esponja molhada pelas costas; por isso, não viu Servília a abrir a porta e a escapulir-se.

Ao jantar - que Servília foi autorizada a partilhar com a mãe -, Lívia Drusa fartou-se de falar, feliz, divertida, sobre a pêra que comera, sobre o primeiro açafrão, as bonecas na árvore por sobre o santuário, o pequeno regato, e mesmo sobre pormenores de uma queda imaginária por uma ravina alta, íngreme e lamacenta. Servília ouvia, comendo com gestos delicados, fitando a mãe com uma expressão neutra. Quem as visse diria que a expressão da mãe era a de uma criança feliz, e que a expressão da filha era a de uma mãe preocupada.

- A minha felicidade confunde-te, Servília? - perguntou a mãe.

- Sim, de facto, é muito estranha - retorquiu serenamente a rapariga. Lívia Drusa debruçou-se um pouco sobre a mesa e afastou uns

fios de cabelo negro do rosto da filha, genuinamente interessada pela primeira vez naquela reprodução de si mesma em miniatura. Para trás ficava o passado, e a sua infância triste, desolada.

- Quando eu tinha a tua idade - disse Lívia Drusa - a minha mãe nunca reparava em mim. A responsável por isso era Roma. E só há pouco tempo me apercebi de que Roma estava a ter o mesmo efeito em mim. Foi por isso que decidi vir para o campo, é por isso que vamos viver aqui até que o tatá regresse. Estou feliz porque estou livre, Servília! Posso esquecer Roma.

- Eu gosto de Roma - disse Servília, deitando a língua de fora para os diversos pratos. - O cozinheiro do tio Marco é melhor.

-Encontraremos um cozinheiro do teu agrado, se essa é a queixa mais grave que tens a fazer. É a tua queixa mais grave?

- Não. O pior são os operários.

- Bom, quanto aos operários, daqui a um ou dois meses já não estarão cá, depois as coisas ficarão mais sossegadas. Amanhã lembrou-se, abanou a cabeça, sorriu -, não, depois de amanhã vamos dar um passeio.

- Porque não amanhã? - perguntou Servília.

- Porque quero mais um dia só para mim. Servília levantou-se lentamente da cadeira.

- Estou cansada, mamã. Posso ir deitar-me?

E assim começou o ano mais feliz da vida de Lívia Drusa, um ano em que se dedicou por inteiro ao amor, e o amor chamava-se Marco Pórcio Catão Saloniano, e também, ainda que absorvendo-a menos, Servília e Lila.

Lívia Drusa e Marco Pórcio depressa chegaram a um acordo para os seus encontros, pois Catão, como era evidente, não costumava passar muito tempo na quinta de Túsculo - ou melhor, não costumava, até ter encontrado Lívia Drusa. Precisavam de encontrar um local mais seguro para os seus encontros, um local onde não pudessem ser vistos por um trabalhador da quinta ou por um pastor, um local de onde Lívia Drusa não saísse suja e desgrenhada. Catão resolveu este último problema, despejando uma família que vivia numa pequena casa isolada, e anunciando aos seus mais chegados que usaria essa casa como retiro, já que queria escrever um livro. O livro transformou-se na sua desculpa para tudo, especialmente para as prolongadas ausências de Roma (e Roma significava a mulher); seguindo as pisadas do avô, esta obra seria um compêndio extremamente pormenorizado sobre a vida rural romana, e incluiria todo o tipo de magias, ritos, orações, superstições e hábitos religiosos, consagrando ainda um capítulo às técnicas e actividades agrícolas modernas. Ninguém em Roma considerou este livro uma surpresa, tendo em conta o passado e a família de Catão.

Sempre que Marco Pórcio podia estar em Túsculo, encontravam-se à mesma hora todas as manhãs. Lívia Drusa decidira que as manhãs seriam o seu período do dia privado, pois as filhas tinham lições de manhã. Separavam-se ao meio-dia - o que não era nada fácil. Mesmo quando Marco Lívio Druso apareceu para ver como estava a irmã e como decorriam os trabalhos de renovação da casa, Lívia Drusa continuou a dar os seus ”passeios”. Claro, Lívia Drusa estava tão óbvia e naturalmente feliz que Druso não pôde deixar de aplaudir a decisão da irmã de mudar de residência; teria ficado por certo intrigado, se ela revelasse sinais de nervosismo ou culpa. Mas isso nunca sucedeu, porque Lívia Drusa considerava a sua relação com Catão justa, certa, correcta - merecida e merecedora de tudo.

Naturalmente, houve entre os dois algum constrangimento, especialmente de início. Para Lívia Drusa, o principal constrangimento era a duvidosa ascendência do amado. Esta questão preocupava-a ainda, embora não tanto como quando Servília Cepião lhe explicara quem ele era. Felizmente, Lívia Drusa era demasiado inteligente para lhe pôr directamente o problema de uma maneira que poderia ser mal interpretada. Pelo contrário, tentou abordar o assunto de modo a que ele não pensasse que ela se sentia superior - embora evidentemente, ela se sentisse superior a ele. Mas sem paternalismo ou malevolência, apenas com mágoa, uma mágoa que decorria da segurança da sua própria linhagem, que era absolutamente irrepreensível, e com o desejo de que também ele pudesse beneficiar dessa que era a mais romana de todas as seguranças.

O avô de Marco Pórcio era o famoso Marco Pórcio Catão Censorius

- Catão, o Censor. Latinos riquíssimos, os Pórcios Priscos tinham-se tornado suficientemente importantes para alcançarem o estatuto de cavaleiros várias gerações antes do nascimento de Catão; contudo, e apesar de gozarem da cidadania integral e do estatuto de cavaleiro, viviam mais em Túsculo do que em Roma, e nunca tinham nutrido aspirações de natureza pública.

Lívia Drusa depressa descobriu que o seu amado não considerava a sua linhagem minimamente dúbia, já que lhe dissera certo dia:

- Todo este mito começou com o carácter do meu avô, no princípio da guerra contra Aníbal. Catão disfarçou-se de camponês porque um patrício demasiado inchado escarneceu dele. Tinha então dezassete anos. O disfarce divertiu-o tanto que nunca mais o deixou, e parece que foi uma bela ideia, pois os Homens Novos aparecem, desaparecem e são esquecidos, mas quem poderá esquecer Catão, o Censor?

- O mesmo se pode dizer de Caio Mário - arriscou Lívia Drusa timidamente.

Marco Pórcio recuou, como se ela o tivesse atacado.

- Esse homem? Mas esse é um genuíno Homem Novo - um camponês! Ao passo que o meu avô tinha antepassados. Ele era apenas um Homem Novo pelo facto de ser o primeiro da sua família a sentar-se no Senado.

- Como podes saber que o teu avô não era um camponês, que o camponês era apenas um disfarce?

- Está tudo escrito na correspondência particular dele. Ainda temos essas cartas.

- O outro ramo da tua família não tem os papéis dele? No fim de contas, é o ramo mais antigo.

- Os Licinianos? Nem me fales neles! - disse Catão, num tom de repulsa. - O nosso ramo, os Salonianos, é que brilhará quando os historiadores de amanhã escreverem sobre a Roma do nosso tempo. Nós somos os verdadeiros herdeiros de Catão, o Censor! Nós não somos gente afectada, não nos damos ares falsamente superiores, porque nós honramos o homem que Catão, o Censor, foi: um grande homem, Lívia Drusa!

- Um grande homem disfarçado de camponês.

- Sem dúvida! Duro, franco, sem papas na língua, um homem à maneira antiga, um verdadeiro Romano - disse Catão, de olhos brilhantes.

- Sabias que ele bebia o mesmo vinho que os seus escravos? Nunca rebocava as casas das suas quintas ou as suas villas, não tinha um único tapete ou pano roxo na casa romana, e nunca pagava mais de seis mil sestércios por um escravo. Nós, os Salonianos, prosseguimos a sua tradição, vivemos como ele.

- Oh, meu querido! - exclamou Lívia Drusa.

Marco Pórcio, no entanto, nem reparou naquela expressão de desânimo. Estava demasiado ocupado a explicar à sua amada que Catão, o Censor, tinha sido um homem maravilhoso.

- Como poderia ele ser um camponês quando todos sabemos que se tornou o melhor amigo de Valério Flaco - e que, depois de se ter mudado para Roma, se tornou o melhor orador e advogado do seu e de todos os tempos? Ainda hoje grandes especialistas como Crasso Orador e o velho Múcio Cévola, o Augure, admitem que a sua retórica não tinha par, que nunca ninguém usou melhor do que ele o aforismo e a hipérbole! E repara nos escritos dele! São soberbos! O meu avô tinha uma educação superior, e falava e escrevia tão bem latim que nunca precisava de fazer rascunhos.

- Estou a ver que tenho de lê-lo - disse Lívia Drusa, embora sem grande convicção: o seu preceptor tinha-lhe desaconselhado Catão, o Censor.

- Sim, lê as suas obras! - exclamou Catão ansiosamente, abraçando-a e pondo o corpo dela entre as suas pernas. - Começa com o Carmen de Moribus, dar-te-á uma ideia da sua dignidade e honradez, ficarás a saber que Catão era um Romano como deve ser. Claro, ele foi o primeiro Pórcio a usar o apelido Catão. Até então, o apelido dos Pórcios era Prisco. Isso não quer dizer propriamente que a nossa linhagem é muito antiga, de tal forma que lhe chamaram precisamente Antiga? Repara, ao avô do meu avô pagaram-lhe o preço de cinco Cavalos Públicos que morreram, montados por ele, em batalhas que travou em defesa de Roma!

- O Saloniano é que me preocupa, e não o Prisco ou o Catão. Salónio era um escravo celtibero, não era? O ramo mais velho, em contrapartida, pode afirmar que descende de uma nobre Licínia, e da terceira filha do grande Emílio Paulo e da filha mais velha de Cipião, Cornélia.

A expressão de Marco Pórcio tornou-se mais sombria; tal afirmação tresandava a pretensiosismo leviano. Mas ela fitava-o com os olhos muito abertos, olhos de adoração, e ele estava tão apaixonado por ela; não era por culpa dela que estava mal informada acerca dos Pórcios Catões. Cabia-lhe a ele convertê-la.

- Por certo conheces a história de Catão, o Censor, e Salónia disse ele, pousando o queixo no ombro dela.

- Não, meum mel, não conheço. Conta, por favor.

- Bom, o meu avô só se casou pela primeira vez aos quarenta e dois anos. Com essa idade, tinha já sido cônsul, obtivera uma grande vitória na Hispânia Ulterior, e celebrara um triunfo - mas ele não era ganancioso! Ele nunca ficou com um resto que fosse dos despojos, nunca vendeu prisioneiros para encher a sua bolsa! Dava tudo aos soldados, e os descendentes dos seus soldados ainda hoje o veneram por isso - disse Catão, tão enamorado pelo avô que se esquecera já da história que prometera contar.

Lívia Drusa tratou de lembrá-lo.

- Bom, portanto foi aos quarenta e dois anos que ele casou com a nobre Licínia.

- Certo. Teve um filho dela, Marco Liciniano, um único filho, embora, ao que parece, ele amasse muito Licínia. Não sei por que não tiveram mais filhos. Bom, o certo é que quando Licínia morreu, o meu avô tinha setenta e sete anos. Depois da morte da esposa, escolheu uma das suas escravas para com ele partilhar o leito conjugal. Marco Liciniano e a esposa, a dama de nobre estirpe a que já te referiste, viviam naturalmente na casa dele. E ficaram muito ofendidos com tal acção. Ao que parece, o meu avô não fazia segredo da relação que mantinha com a escrava, e permitia que ela se comportasse como se fosse a senhora da casa. Toda a Roma depressa ficou a saber o que se passava, porque Marco Liciniano e Emília Tércia contavam a toda a gente. A toda a gente, excepto a Catão, o Censor. Mas é claro que ele acabou por descobrir, e em vez de lhes perguntar porque não lhe tinham dito o que sentiam, mandou embora a escrava sem qualquer alarido, e foi para o Fórum sem lhes dizer que a rapariga já não estava lá em casa.

- Que coisa mais estranha! - comentou Lívia Drusa.

Catão preferiu não comentar; prosseguiu.

- Ora, Catão, o Censor, tinha um cliente liberto chamado Salónio, um celtibero de Saio que havia sido um dos seus escribas. ”Eh, Salónio!”, disse o meu avô ao chegar ao Fórum. ”Já encontraste um marido para a tua bonita filha?”

”Não, domine” retorquiu Salónio, ”mas pode ter a certeza de que quando encontrar um homem em condições para ela, irei ter contigo para te pedir opinião e consentimento.”

”Não precisas de procurar mais”, disse o meu avô. ”Tenho um bom marido para ela - um verdadeiro príncipe! Uma fortuna interessante, uma reputação sem mácula, uma excelente família - tudo o que se deseja! Excepto... bom, receio que seja já um tanto ou quanto velho. Mas lá rico é! Embora mesmo a alma mais caridosa tenha de admitir que é muito velho.”

”Domine, se a escolha é tua, terá forçosamente de me agradar”, disse Salónio. ”Quando a minha filha nasceu, tanto eu como a minha mulher éramos teus escravos. Quando me deste a liberdade libertaste também toda a minha família. Mas a minha filha ainda está subordinada à tua autoridade, tal como eu, e a minha esposa, e o meu filho. Quanto a Salónia, não há que temer, ela é uma excelente rapariga. Casará com qualquer homem que o domine se queira dar ao trabalho de procurar, seja qual for a sua idade.”

”Mas que maravilha, Salónio!”, exclamou o meu avô, batendo nas costas do outro. ”Ele é eu!”

Lívia Drusa ficou espantada.

- Mas isso está mal dito! - exclamou. - Não disseste que o latim do teu avô era perfeito?

- Mea vita, mea vita, onde está o teu sentido de humor? - perguntou Catão, fitando-a admirado. - Ele estava a brincar! Queria aquela cena menos pesada! Salónio, como era de esperar, ficou estupefacto. Não conseguia meter na cabeça que lhe estavam a oferecer uma aliança de casamento com uma casa nobre, uma casa que se podia gabar de ter um censor e um triunfo!

- Não admira que tenha ficado estupefacto - comentou Lívia Drusa. Catão apressou-se.

- O meu avô garantiu a Salónio que o seu projecto era o mais sério possível. Foram logo buscar a jovem e o casamento deu-se nesse mesmo dia, pois era um dia propício. Mas quando Marco Liciniano soube disso, uma ou duas horas depois - num instante, a notícia espalhou-se por toda a Roma! -, reuniu um grupo de amigos e com eles foi ter com o pai.

”Foi por termos rejeitado a tua relação com a escrava que resolveste desgraçar ainda mais a nossa casa, oferecendo-me tal madrasta?”, perguntou Liciniano, furioso.

”Como poderei desgraçar-te, meu filho, se estou prestes a provar que sou um homem excepcional, dando mais filhos ao mundo em idade tão avançada?”, perguntou o meu avô, num tom imponente. ”Gostarias que casasse com uma mulher nobre, quando estou mais perto dos oitenta do que dos setenta? Uma aliança dessas não seria adequada. Ao casar com a filha do meu antigo escravo, faço um casamento adequado à minha idade e necessidades.”

- Mas isso é realmente extraordinário! - disse Lívia Drusa. - É claro que Liciniano e Emília Tércia devem ter ficado profundamente vexados.

- É o que nós, Salonianos, pensamos - retorquiu Catão.

- E continuaram todos a viver na mesma casa?

- Claro. Marco Liciniano morreu pouco tempo depois. A maior parte das pessoas pensou que ele sucumbira ao desgosto. E assim Emília Tércia ficou sozinha naquela casa, com o sogro e a nova esposa do sogro, Salónia, um destino que, em minha opinião, merecia inteiramente. Como o pai dela já tinha morrido, não podia voltar para a sua casa de solteira.

- Salónia deu à luz o teu pai - disse Lívia Drusa.

- Exactamente - disse Catão Saloniano.

- Mas não te perturba o facto de seres neto de uma mulher que nasceu escrava! - perguntou Lívia Drusa.

Catão pestanejou.

- Porque havia de me perturbar? - perguntou ele. - Todos nós temos de começar de alguma maneira! E parece que os censores concordaram com o meu avô, que defendeu que o seu sangue era suficientemente nobre para santificar o sangue de qualquer escrava. Nunca tentaram excluir os Salonianos do Senado. Salónio era descendente de uma boa família gaulesa. Se fosse grego... bom, mas o meu avô nunca teria feito uma coisa dessas! Odiava Gregos.

- E tu, rebocaste as casas da tua quinta? - perguntou Lívia Drusa, colando as suas ancas ao corpo do amado.

- Claro que não - respondeu ele, com a respiração apressada.

- Então já sei porque é que o vinho que bebemos é tão mau.

- Tace, Lívia Drusa! - disse Catão, cobrindo-a com o seu corpo.

Um amor de tal modo profundo que parece perfeito conduz normalmente a indiscrições, a observações descuidadas e, por fim, ao conhecimento do mundo que rodeia os amantes; mas Lívia Drusa e Catão Saloniano mantinham a sua relação com um secretismo extremamente eficiente. Se estivessem em Roma, as coisas teriam sido diferentes, como era evidente; felizmente, a apática Túsculo não desconfiava sequer do tremendo escândalo que se passava nas suas terras.

Ao fim de quatro semanas, Lívia Drusa concluiu que estava grávida, e sabia que o filho não era de Cepião. De facto, no dia em que Cepião deixou Roma, Lívia Drusa teve a menstruação. Duas semanas depois, conhecia e amava Marco Pórcio Catão Saloniano; e finalmente o período não veio. As duas gravidezes anteriores tinham-na feito conhecer alguns dos sintomas habituais: agora tinha todos esses sintomas. Ia ter um filho do amante, Catão, e não do marido, Cepião.

Serenamente, Lívia Drusa decidiu não esconder a gravidez: tranquilizava-a o facto de entre a partida de Cepião e o encontro com Catão mediarem apenas duas semanas. E se tivesse engravidado mais tarde? Oh, o melhor era nem pensar nisso!

Druso e Servília Cepião ficaram muito contentes; Lila achou que um irmão pequeno seria uma maravilha, pois iria divertir-se imenso, ao passo que Servília se mostrou ainda mais indiferente que o normal.

É óbvio que tinha de dizer a Catão - mas que lhe ia dizer exactamente? A frieza de raciocínio dos Lívios Drusos impôs-se; Lívia Drusa sentou-se para reflectir calmamente. Seria horrível enganar Catão, se a criança fosse um rapaz. E no entanto... no entanto... o bebé nasceria sem dúvida antes do regresso de Cepião, e toda a gente pensaria que o bebé era dele. E se o filho de Catão fosse um rapaz, viria a ser herdeiro do ouro de Tolosa, desde que se chamasse Quinto Servílio Cepião. Quinze mil talentos de ouro. Seria o homem mais rico de Roma, teria um nome glorioso. Muito mais glorioso que Catão Saloniano.

- Vou ter um filho, Marco Pórcio - disse ela a Catão quando se encontraram na casinha que agora considerava como o seu verdadeiro lar.

Alarmado, mais do que alegre, Marco Pórcio olhou para ela fixamente.

- É meu ou do teu marido? - perguntou.

- Não sei - disse Lívia Drusa. - Francamente, não sei. E duvido que venha a saber quando ele nascer.

- Ele?

- Eu sei que é um rapaz.

Catão encostou-se contra a cabeceira da cama, cerrou os olhos, comprimiu os seus belos lábios.

- É meu - disse.

- Não sei - retorquiu ela.

- Portanto vais deixar que toda a gente creia que é do teu marido.

- Não vejo que outra opção possa ter.

Marco Pórcio abriu os olhos, virou a cabeça para a fitar, com uma expressão triste.

- Eu sei que não tens outra opção. Eu não tenho meios para casar contigo, não poderia casar contigo mesmo que tu te divorciasses. Mas tu não te divorciarás, a menos que o teu marido volte para casa mais cedo do que esperas. O que é duvidoso. Tudo isto é muito estranho. Parece de propósito. Os deuses estão fartos de se rir.

- Deixa-os rir! No fim, somos nós, homens e mulheres, quem vence, e não os deuses! - retorquiu Lívia Drusa, subindo um pouco na cama para o beijar. - Amo-te Marco Pórcio. Espero que seja teu.

- Espero que não.

O facto de estar grávida em nada alterou a rotina de Lívia Drusa; continuou a dar os seus passeios matinais, e Catão Saloniano continuou a passar largas temporadas na quinta do avô perto de Túsculo. Amavam-se apaixonadamente e sem se preocuparem com o feto que Lívia Drusa trazia no ventre, pois ela, perante a hesitação do amado, defendia que tanto amor nunca poderia fazer mal ao bebé.

- Continuas a preferir Roma a Túsculo? - perguntou Lívia Drusa a Servília, num idílico dia de fins de Outubro.

- Ah, sim, sem dúvida - retorquiu Servília, que se revelara um osso muito duro de roer ao longo daqueles meses. Nunca se mostrava acessível, nunca metia conversa, e as suas respostas eram tão lacónicas que a hora do jantar exigia de Lívia Drusa um esforço tremendo.

- Porquê, Servília?

Servília olhou para o ventre da mãe, já enorme.

- Em primeiro lugar, porque em Roma há bons médicos e parteiras

- retorquiu.

- Ah, não te preocupes com o bebé! - exclamou Lívia Drusa, rindo-se. - Ele está muito feliz. Quando chegar a hora, será fácil. Ainda falta pelo menos um mês.

- Porque dizes sempre ”ele” quando te referes ao bebé?

- Porque sei que é um rapaz.

- Só se sabe quando ele nascer.

- Mas que cínica que tu me saíste - disse Lívia Drusa, divertida.

- Eu sabia que tu eras uma rapariga. Quando tive a Lila, também sabia. Porque não hei-de acertar desta vez? Desta vez é diferente: eu trago-o dentro de mim de uma maneira diferente, e ele fala comigo de outro modo.

- Fala contigo?

- Sim. Tu e a tua irmã também falavam comigo quando estavam dentro de mim.

Servília olhou para a mãe com uma expressão irónica.

- Francamente, mãe, és muito esquisita! E estás cada vez pior. Como é que um bebé pode falar dentro de ti, se os bebés só aprendem a falar quando têm pelo menos um ano?

- És tal e qual o teu pai - disse Lívia Drusa, com uma expressão de raiva.

- Então não gostas do tata? Sempre me pareceu que não gostavas

- disse Servília, num tom mais indiferente que acusatório.

Servília tinha sete anos; já tinha idade suficiente, pensou a mãe, para conhecer certos factos. Não de uma maneira que a indispusesse contra o pai, mas... Não seria agradável fazer da filha mais velha uma verdadeira amiga?

- Não - retorquiu Lívia Drusa deliberadamente. - Não gosto do tatá. Queres saber porquê?

Servília encolheu os ombros.

- Vais-me dizer, quer eu queira quer não.

- Gostas do teu pai?

- Sim, gosto! É a melhor pessoa que há no mundo!

- Ah... Então tenho mesmo de te dizer porque não gosto dele. Se não to disser, ofender-te-ás comigo. Tenho razões para não gostar dele.

- Acredito que sim.

- Minha querida, eu nunca quis casar com o teu pai. Foi o tio Marco que me obrigou a casar com ele. Foi um mau princípio.

- Deves ter tido hipóteses de escolher - retorquiu Servília.

- Não tive a mínima hipótese. Raramente temos.

- Acho que devias ter aceite o facto de o tio Marco conhecer o mundo e a vida melhor do que tu. Não acho nada errado que o tio Marco tenha escolhido um marido para ti - disse o juiz de sete anos.

- Francamente, Servília! - exclamou Lívia Drusa, fitando desesperada a filha. - Servília, nós nem sempre podemos ditar quem amamos ou não amamos. Aconteceu que não gostei do teu tatá. Nunca gostei dele. Tinha a tua idade e já o detestava. Mas os nossos pais tinham determinado que nos casaríamos e o tio Marco não viu nada de errado nisso. Não consegui levá-lo a entender que a ausência de amor pode não pôr em perigo um casamento, mas que a aversão pode arruiná-lo desde o princípio.

- Acho-te uma parva - ripostou Servília com desdém. Mula teimosa! Lívia Drusa insistiu.

- O casamento, minha filha, é algo de muito íntimo. Detestar um marido ou uma esposa é uma carga terrível. No casamento, os cônjuges tocam-se, mexem-se muito. E quando detestamos alguém, não queremos que essa pessoa nos mexa. Conseguirás entender isto!

- Eu não gosto que ninguém me mexa - replicou Servília. A mãe sorriu.

- Felizmente que isso mudará! Bom, mas voltando ao que eu estava a dizer, obrigaram-me a casar com um homem que eu não gosto que me toque. Um homem que detesto. Um homem que ainda detesto. E apesar disso, há uma espécie de simpatia que se vai desenvolvendo. Eu amo-te, amo Lila. Por isso acabei por gostar um bocadinho do teu pai, porque ele me ajudou a fazer-te a ti e a Lila.

Servília olhou para a mãe com uma expressão de profunda ira.

- Oh, francamente, mamã, que estúpida que és! Primeiro disseste que detestavas o tatá, agora dizer que gostas dele. Que disparate!

- Será um disparate, Servília, mas é humano. Amar e gostar são duas emoções profundamente diferentes.

- Bom, no que me diz respeito, tenciono amar e gostar do marido que o meu tatá escolher para mim - anunciou Servília, num tom de grande superioridade.

- Faço votos para que o tempo te dê razão - comentou Lívia Drusa, tentando imediatamente mudar o rumo daquela penosa conversa.

- Sinto-me muito feliz agora. Sabes porquê?

Servília reflectiu um pouco, com a cabeça negra inclinada; passado um momento, fez que sim com a cabeça.

- Sim, sei porquê, mas não entendo porquê. Estás feliz porque vives neste sítio horrível e vais ter um filho. Os olhos negros faiscaram.

- E... e acho que tens um amigo.

A expressão de Lívia Drusa encheu-se de medo, um medo terrível; era uma expressão tão pungente e assustada que a menina estremeceu, subitamente nervosa, surpreendida; de facto, Servília fizera aquela observação por uma questão de mero instinto, pois ela não tinha amigos, e isso era algo que a perturbava profundamente.

- Mas é claro que tenho um amigo! - exclamou a mãe, apagando todo o medo que inundara a sua expressão. Pôde finalmente sorrir. Ele fala comigo dentro de mim.

- Pois não será meu amigo - ripostou Servília.

- Oh, Servília, não digas isso! Ele será o teu melhor amigo, como qualquer irmão!

- O tio Marco é teu irmão, mas obrigou-te a casar com o tatá e tu não gostavas dele.

- Isso em nada alterou a minha amizade por ele. Irmãos e irmãs crescem juntos. Conhecem-se melhor do que a qualquer outra pessoa, e aprendem a gostar uns dos outros - disse Lívia Drusa calorosamente.

- Não se pode aprender a gostar de alguém que se detesta.

- Estás enganada. Pode-se, de facto. Basta tentar. Servília fez um ruído grosseiro, irado.

- Nesse caso, porque é que não aprendeste a gostar do tatá!

- Mas ele não é meu irmão! - exclamou Lívia Drusa, sem saber o que mais dizer. Porque não cooperava a filha? Porque teimava em mostrar-se obstinada e estúpida? Porque é filha de Cepião, respondeu a mãe para si mesma. Oh, é tal e qual o pai! Só que muito mais esperta. Mais astuciosa.

- Porcella, o que a tua mãe quer é que sejas feliz, nada mais disse Lívia Drusa. - Por isso, prometo que nunca deixarei que o teu tatá te case com alguém que detestes.

- Pode ser que não estejas presente quando eu casar - retorquiu Servília.

- Porque não havia de estar?

- A tua mãe não estava, pois não?

- A minha mãe é um caso completamente diferente - respondeu Lívia Drusa, com um ar triste. - A tua avó não morreu, não sei se sabes.

- Sei que não morreu. Vive com o tio Mamerco, mas não falamos com ela. É uma mulher perdida - disse Servília.

- Quem te disse isso?

- O tatá.

- Mas tu nem sabes o que é uma mulher perdida!

- Sei, sim. É uma mulher que se esquece de que é uma patrícia. Lívia Drusa reprimiu um sorriso.

- Essa definição é interessante, Servília. Achas que alguma vez esquecerás que és uma patrícia?

- Nunca! - replicou a rapariga com desdém. - Quando crescer, serei exactamente como o tatá quer que eu seja.

- Não sabia que falavas tanto com o tata!

- Fartamo-nos de falar um com o outro - mentiu Servília, e tão bem que a mãe não deu por nada. Ignorada tanto pela mãe como pelo pai, Servília tomara desde muito pequena o partido do pai, já que ele lhe parecia mais poderoso, mais necessário do que Lívia Drusa. Por isso, os seus devaneios infantis andavam todos à volta de uma intimidade com o pai que não tinha nada de real ou mesmo possível; o pai considerava as filhas um incómodo: queria um filho. Como sabia ela isso? Porque deambulava como um espectro pela casa do tio Marco, escutando escondida todas as conversas, escutando coisas que nunca deveria ter ouvido. E do ponto de vista de Servília, era o pai quem falava como um verdadeiro Romano, e não o tio Marco - e de modo nenhum aquele zé-ninguém italiano chamado Silão. Sentindo desesperadamente a ausência do pai, Servília temia agora o inevitável

- o facto de o nascimento de um rapaz destruir todas as suas esperanças de vir a ser a favorita do pai.

- Muito bem, Servília - disse Lívia Drusa com alguma brusquidão.

- Ainda bem que gostas do teu tatá. Mas terás de demonstrar alguma maturidade quando ele voltar e conversares com ele de novo. Disse-te que o detestava, mas isso é confidência. Um segredo entre nós.

- Porquê? Ele não sabe?

Lívia Drusa pôs uma expressão irada, espantada.

- Se falas tanto com o teu pai, por certo sabes que ele não faz a mínima ideia de que eu o detesto. O teu tatá não é um homem inteligente. Se fosse, talvez eu acabasse por gostar dele.

- Bom, a verdade é que nós nunca perdemos tempo a falar de ti

- disse Servília, com desprezo. - Só falamos de coisas importantes.

- Para uma menina de sete anos, já sabes muito bem magoar as pessoas.

- Nunca magoarei o meu tatá - disse a menina de sete anos.

- Ainda bem para ti! Mas lembra-te do que te disse. O que hoje te disse, ou tentei dizer-te, é um segredo entre nós. Honrei-te com uma confidência e espero que trates essa confidência como qualquer patrícia romana faria: com respeito.

Quando Lúcio Valério Flaco e Marco António Orador foram eleitos censores (corria o mês de Abril), Quinto Popaedius Silão chegou a casa de Druso extremamente excitado.

- Oh, que maravilha podermos falar sem Quinto Servílio por perto!

- exclamou Silão com um sorriso largo; Silão nunca escondera a sua antipatia em relação a Cepião, e Cepião fazia, aliás, o mesmo.

Compreendendo a antipatia de Silão - e concordando secretamente com ele, embora a lealdade familiar o impedisse de o dizer -, Druso ignorou a observação.

- O que é que te deixou tão excitado? - perguntou.

- Os nossos censores! Projectaram o censo mais alargado que alguma vez se fez, e vão alterar o modo de o realizar. - Silão ergueu os braços acima da cabeça: estava exultante. - Oh, Marco Lívio, não fazes ideia do pessimismo que sinto em relação à situação italiana! Chego a pensar que a única solução para o nosso dilema é a secessão e a guerra com Roma.

Como era a primeira vez que ouvia os receios de Silão, Druso sentou-se muito direito e olhou alarmado para o amigo.

- Secessão? Guerra? - perguntou. - Quinto Popaedius, como podes falar de secessão e guerra? A situação italiana será resolvida por meios pacíficos! A esse fim consagro os meus esforços!

- Eu sei, meu amigo, e tens de me acreditar quando digo que secessão e guerra são coisas que não desejo, muito pelo contrário. A Itália não tem qualquer necessidade dessas alternativas, e Roma também não. Os custos em dinheiro e homens deixariam as nossas nações de rastos durante décadas, fosse qual fosse o vencedor. Nas guerras civis não há despojos.

- Nem é bom pensar em tal coisa!

Silão mexeu-se na cadeira, pôs os braços sobre a secretária de Druso e inclinou-se, decidido, para a frente.

- Mas eu não penso, Lívio Druso! E não penso, porque de repente vejo uma maneira de conceder a cidadania a um número suficiente de italianos, o que faria com que Roma nutrisse em relação a nós sentimentos completamente diferentes.

- Uma emancipação de massas?

- Não. Uma emancipação total seria impossível. Mas uma emancipação suficientemente vasta, capaz de conduzir à emancipação total - retorquiu Silão.

- Como? - perguntou Druso, sentindo-se um tanto defraudado; sempre se julgara à frente de Silão no planeamento da total cidadania romana para os Italianos, mas, pelos vistos, estava enganado.

- Bom, como tu sabes, os censores sempre se preocuparam mais em descobrir quem e o que vivia em Roma. Os censos rurais e provinciais têm sido morosos e completamente voluntários. Um rural que quisesse registar-se tinha de ir ao duumviri do seu município ou cidade, ou então era obrigado a deslocar-se à localidade mais próxima com um estatuto municipal. E, nas províncias, um homem tinha de ir ao governador, o que poderia significar uma longa viagem. Aqueles que se preocupavam com o assunto faziam a viagem. Os outros, prometiam a si mesmos que iriam da próxima vez e confiavam que os funcionários do censo transferissem os seus nomes dos velhos pergaminhos para os novos, e a maior parte dos funcionários fazia isso.

- Estou perfeitamente a par disso tudo - disse Druso afavelmente.

- Não faz mal, não faz mal que oiças tudo de novo. Os nossos novos censores, Marco Lívio, formam um par curioso. Nunca achei António Orador especialmente eficiente. Mas se pensarmos na campanha que desencadeou contra os piratas, temos de concluir que é um homem eficiente. Quanto a Lúcio Valério, flamen Martialis e ex-cônsul, só me lembro da confusão que provocou no último ano de governo de Saturnino, quando Caio Mário estava demasiado doente para governar. Mas todos os homens nascem com algum talento, diz o povo! E parece que Lúcio Valério tem um talento: um talento para a logística, creio que é esse o nome apropriado. Atravessei a Porta Colina hoje, e passeava pelo baixo Fórum quando Lúcio Valério apareceu. - Silão abriu muito os seus estranhos olhos, e soltou um arquejo teatral. - Imagina a minha surpresa quando o vi saudar-me e perguntar-me se dispunha de algum tempo para falar com ele! Com um italiano! Naturalmente, respondi que estava inteiramente às suas ordens. Lúcio Valério queria que eu lhe recomendasse os nomes de alguns marsos romanos dispostos a fazerem um censo dos cidadãos e dos cidadãos abrangidos pelos Direitos Latinos em território marso. Fazendo-me de estúpido, consegui arrancar-lhe toda a história. Eles, quer dizer, ele e António Orador, tencionam criar uma equipa especial de funcionários do censo, é assim que eles lhe chamam, e enviá-la para toda a Itália e para a Gália Italiana em fins deste ano e no princípio do próximo, a fim de realizar um censo nas zonas rurais mais afastadas. Segundo Lúcio Valério, os novos censores estão preocupados com o facto de o sistema até agora seguido desprezar um vasto grupo de cidadãos e Latinos rurais que nunca fizeram um esforço para que os registassem. Que achas disto?

- Que devo achar? - perguntou Druso espantado.

- Em primeiro lugar, isto é pensar claro, Marco Lívio.

- Claro! E pensar em termos comerciais, também. Mas que virtude especial desse projecto te deixa tão excitado?

- Meu caro Druso, se nós, Italianos, conseguirmos influenciar esses tais funcionários do censo, poderemos sem dúvida garantir que eles registem largos números de italianos como cidadãos romanos. Não a ralé, mas homens que, por direito próprio, há muitos e muitos anos já deveriam ser cidadãos romanos - disse Silão, num tom absolutamente convincente.

- Não podem fazer isso - retorquiu Druso gravemente. - Não é ético nem legal.

- Mas está moralmente certo!

- Não é uma questão de moralidade, Quinto Popaedius, é uma questão de leis. Qualquer cidadão ilegítimo que aparecesse nos pergaminhos romanos seria um cidadão ilegal. Nunca poderia aprovar uma coisa dessas, tal como tu, aliás. Não, não digas mais nada! Reflecte, e verás que tenho razão - disse Druso num tom firme.

Por um longo momento Silão estudou a expressão do amigo, depois agitou as mãos exasperado.

- Ora, Marco Lívio, vai-te lixar! Seria tão fácil.

- Fácil de fazer e fácil de descobrir. Registando esses falsos cidadãos, expõe-nos a todos à fúria da lei romana: a fustigação, os nomes numa lista negra, pesadas multas - disse Druso.

Um suspiro, um encolher de ombros.

- Muito bem. Entendo o teu ponto de vista - disse Silão, relutante.

- Mas era uma boa ideia.

- Não, era uma má ideia - insistiu Marco Lívio Druso, e daí não saía.

Silão nada mais disse, mas pela noite, quando a casa, mais vazia agora, sossegou, seguiu, sem o saber, o exemplo da ausente Lívia Drusa, e foi sentar-se na balaustrada da loggia.

Não lhe ocorrera uma única vez que Druso poderia não partilhar o seu ponto de vista; se isso lhe tivesse ocorrido, nunca falaria do assunto a Druso. Talvez esta seja uma das razões pelas quais tantos e tantos romanos dizem que nós, Italianos, nunca poderemos ser Romanos, pensou tristemente Silão. Não adivinhei o pensamento de Druso.

Estava numa situação incómoda, pois revelara as suas intenções; percebia que não podia contar com o silêncio de Druso. Iria Druso contar aquela conversa a Lúcio Valério Flaco e Marco António Orador?

A sua única alternativa era esperar e ver. E teria de se empenhar, e muito, e de usar de imensa subtileza, para convencer Druso de que aquilo que dissera não passava de mais uma das suas brilhantes ideias concebidas entre o Fórum e o Palatino, uma ideia parva e sem qualquer interesse que uma noite de sono reduzira a cinzas.

É que Silão não tencionava abandonar o seu plano. A simplicidade e os objectivos desse plano tornavam-no ainda mais atraente. Os censores esperavam registar muitos milhares de novos cidadãos! Porque haveriam pois de pôr em dúvida um registo que revelasse uma importância muito maior dos rurais? Tinha de viajar imediatamente para Boviano, a fim de se encontrar com Caio Pápio Mutilo, o Samnita. Depois, reunir-se-iam com outros dirigentes dos Aliados Italianos. Os homens que conduziam os destinos dos Aliados Italianos tinham de estar preparados para actuar, quando chegasse a altura de os censores escolherem o seu pequeno exército de funcionários. Subornar funcionários, introduzir funcionários que, secretamente, trabalhariam para a causa italiana, alterando registos, acrescentando nomes. Quanto à cidade de Roma, não a podia, nem queria, subornar. Não-cidadãos de estatuto italiano vivendo na cidade de Roma eram uma hipótese em que nem valia pensar; tinham migrado das terras dos seus antepassados para os arredores de uma enorme metrópole, para viverem mais sordidamente ou mais opulentamente: era gente irrecuperável.

Durante muito tempo, Silão ficou sentado na loggia, a cabeça num vendaval, porque era preciso definir os meios e os fins para alcançar o objectivo derradeiro - a igualdade para todos os homens dentro do território da Itália.

E de manhã, tratou de erradicar aquela indiscreta conversa da mente de Druso. Por isso se mostrou adequadamente contrito, embora divertido, como se o assunto já não lhe interessasse nada, agora que Druso lhe tinha mostrado que estava errado.

- Não há dúvida, eu estava errado - disse ele a Druso, mas num tom perfeitamente descontraído. - Uma noite de sono chegou para te dar razão.

- Ainda bem! - retorquiu Druso, sorridente.

Quinto Servílio Cepião só regressou a casa no Outono do ano seguinte, após ter viajado de Esmirna, na Província da Ásia, para a Gália Italiana, e depois até Útica, na Província de África, e Gades, na Hispânia Ulterior, e voltando por fim à Gália Italiana. Distribuindo prosperidade, mas concentrando ainda mais prosperidade nas suas mãos. E lentamente, muito lentamente, o ouro de Tolosa foi-se transformando noutras coisas: grandes extensões de terra fértil ao longo do rio Bétis, na Hispânia Citerior, edifícios de apartamentos em Gades, Útica, Córdova, Híspalis, na Velha e na Nova Cartago, Cirta, Areias, Nemauso, e em todas as principais cidades da Gália Italiana para a produção de carvão e aço, juntaram-se outras, consagradas à produção têxtil; e sempre que encontrava terras de cultivo invulgarmente boas, Quinto Servílio Cepião comprava-as. Recorria a bancos italianos, mais que aos romanos, a companhias italianas, mais que às romanas. E nem uma moeda sequer da sua fortuna ficou na Ásia Menor romana.

A sua chegada à casa de Marco Lívio Druso em Roma não fora anunciada. Por isso, descobriu que a esposa e as filhas se encontravam ausentes.

- Onde estão? - perguntou à irmã.

- Onde tu disseste que podiam estar - retorquiu Servília Cepião, surpreendida.

- Eu disse?

- Estão ainda na quinta tusculana de Marco Lívio - respondeu Servília, ansiosa que o marido regressasse a casa.

- Mas porque carga de água foram viver para Túsculo?

- Porque precisavam de paz e sossego. - Servília Cepião levou a mão à cabeça. - Deus do céu, eu devo ter confundido tudo! Estava convencida de que Marco Lívio me tinha dito que tu concordaras.

- Eu não concordei com nada - retorquiu irritado Cepião. - Estive fora mais de ano e meio, regresso a casa esperando receber as boas-vindas da minha mulher e das minhas filhas, e não as acho cá! É ridículo! Mas o que é que elas foram fazer para Túsculo?

Uma das virtudes de que os Servílios Cepiões mais se orgulhavam era a continência sexual aliada à fidelidade marital; durante todo o tempo em que estivera ausente, Cepião não procurara nenhuma mulher. Por isso, quanto mais se aproximava de Roma, mais premente se tornava a sua necessidade de ver a mulher.

- Lívia Drusa estava cansada de Roma e foi viver para a velha villa de Lívio Druso em Túsculo - disse Servília Cepião, com o coração batendo apressadamente. - Francamente, eu pensava que tinhas dado o teu consentimento! Mas, seja como for, a estadia em Túsculo não lhe fez mal nenhum, bem pelo contrário. Nunca a vi tão bem. Ou tão feliz. Sorriu para o irmão, o seu único irmão. - Tens um filho, Quinto Servílio. Nasceu em Dezembro, a 1 de Dezembro.

Aquela era obviamente uma boa notícia, mas mesmo assim incapaz de aplacar a ira de Cepião por não encontrar a mulher e ter de adiar a satisfação da sua fome de sexo.

- Manda alguém a Túsculo com ordem para que regressem imediatamente - disse Cepião.

Druso chegou passado pouco tempo, encontrando o cunhado sentado, muito direito e tenso, no gabinete, sem livro algum na mão, e sem nada na cabeça a não ser a falta que Lívia Drusa cometera.

- O que é que se passou com Lívia Drusa? - perguntou Cepião mal viu Druso, ignorando a mão estendida e evitando o beijo, saudação fraternal.

Avisado pela mulher, Druso reagiu calmamente. Deu a volta à secretária e sentou-se.

- Lívia Drusa mudou-se para a minha quinta de Túsculo durante a tua ausência - disse Druso. - Não há nada de inconveniente nisso, Quinto Servílio. Ela estava cansada da cidade, nada mais. E não há dúvida que a mudança lhe fez bem. De facto, a minha irmã está óptima. E tu tens um filho.

- A minha irmã disse que tinha ficado com a impressão de que eu dera autorização para essa mudança - disse Cepião, bufando. - Ora eu não dei autorização nenhuma!

- Sim, Lívia Drusa disse-me que a tinhas autorizado - retorquiu Druso, imperturbável. - Mas creio que esse é um pormenor pouco importante. Creio que ela só pensou no assunto após a tua partida e que tentou evitar contratempos dizendo-nos que tu tinhas consentido. Quando a vires, julgo que compreenderás que ela fez o que fez na melhor das intenções. Nunca esteve tão bem de saúde, a sua disposição é notável. Não há dúvida que a vida no campo é o que lhe convém.

- Terá de demonstrar mais disciplina. Druso ergueu uma sobrancelha.

- Quanto a isso, Quinto Servílio, o problema não me diz respeito. É algo de que não quero falar. Prefiro falar da tua viagem.

Quando a escolta de criados chegou à quinta de Druso, ao fim da tarde desse mesmo dia, Lívia Drusa estava presente para a receber. Não deixou transparecer qualquer consternação. Limitou-se a aquiescer e a responder que estaria pronta a seguir para Roma ao meio-dia do dia seguinte. Depois, chamou Mopso e deu-lhe as instruções necessárias.

A velha casa da quinta de Túsculo já se parecia agora com uma villa campestre, pois dispunha de um jardim com peristilo e de todas as comodidades higiénicas; com passo rápido, Lívia Drusa encaminhou-se para a sala de estar, fechou a porta e as persianas, atirou-se para cima do divã e chorou. Estava tudo acabado; Quinto Servílio voltava para casa, e casa, para Quinto Servílio, significava cidade. Não a deixaria sequer visitar Túsculo. Claro que ele já sabia que ela mentira - e isso, dado o seu temperamento, bastava para que proibisse à mulher toda e qualquer deslocação a Túsculo.

Catão Saloniano não se encontrava na sua villa do campo, porque o Senado estava reunido em Roma; há várias semanas que Lívia Drusa não o via. Com lágrimas nos olhos, sentou-se à sua mesa de trabalho, pegou numa folha, na pena e no tinteiro, e escreveu-lhe uma carta.

O meu marido regressou e ordenou-me que seguisse para Roma. Quando tiveres lido esta carta, estarei já em casa do meu irmão em Roma, vigiada por tudo e todos. Não sei como nem quando poderemos voltar a encontrar-nos.

Mas como poderei viver sem ti? Oh, meu querido, meu muito querido, como vou sobreviver sem ti? Não te ver, não sentir os teus braços, as tuas mãos, os teus lábios, é-me insuportável! Mas ele ditar-me-á tantas restrições, e em Roma todos sabem de todos - será que nunca mais te volto a ver? As palavras não chegam para exprimir todo o meu amor. Lembra-te. Amo-te.

De manhã, Lívia Drusa foi dar o seu passeio diário, informando que estaria de volta antes do meio-dia, hora a que partiriam para Roma. O seu passo costumava ser apressado, quase corria; porém, naquela manhã, ia devagar, passeava, deixando-se inebriar pela paisagem outonal, deixando que cada árvore, rocha, arbusto, se fixasse para sempre na memória, sua companheira nos anos de solidão que se adivinhavam. E quando chegou à pequena casa caiada de branco onde ela e Catão se encontravam há vinte e um meses, pôs-se a andar de um lado para o outro, percorrendo-a lentamente, tocando em tudo com ternura e tristeza. Embora tudo apontasse o contrário, esperara encontrá-lo naquela manhã. Mas de facto ele não estava lá. Por isso deixou a mensagem em cima da cama, sabendo que ninguém, para além de Catão, entraria naquela casa.

Depois, foi a partida para Roma, uma viagem incómoda na carpentum fechada de duas rodas que Cepião considerava apropriada ao transporte da esposa. De início, Lívia Drusa insistira em levar consigo o bebé o pequeno Cepião, como toda a gente lhe chamava -, mas, ao fim de três dos vinte e cinco quilómetros que separavam Túsculo de Roma, resolveu dar o bebé a um corpulento escravo que faria o caminho a pé. Lila permaneceu com ela algum tempo mais, mas tantos eram os seus vómitos que também ela acabou por ter de ir a pé. Lívia Drusa teria dado tudo para poder seguir a pé, mas quando falou nisso, informaram-na os criados que as ordens do amo eram muito claras: ela teria de fazer a viagem na carpentum com as janelas fechadas.

Servília, ao contrário de Lila, possuía um estômago de ferro, e por isso permaneceu na carruagem; perante a possibilidade de fazer o caminho a pé, retorquiu, arrogante, que uma patrícia não andava a pé. Percebia-se facilmente, pensou Lívia Drusa, que Servília estava muito nervosa; mas só ela se aperceberia da ansiedade da filha, porque a conhecia muito bem; de facto, poucos ou nenhuns eram os sinais exteriores desse nervosismo: apenas algum brilho nos olhos negros e dois vincos nos cantos da boca, uma boca pequena e cheia.

- Estou muito contente por te ver tão ansiosa por reencontrar o tatá - disse Lívia Drusa, agarrando-se a uma correia com toda a força pois a carpentum guinava a todo o momento.

- Pois tu não estás nada ansiosa - retorquiu maldosamente Servília.

- Tenta compreender! - exclamou a mãe. - Eu gostava tanto de viver em Túsculo! Odeio Roma!

- Ah - disse Servília, e assim terminou a conversa.

Cinco horas passadas, a carpentum e a sua vasta escolta chegaram à casa de Marco Lívio Druso.

- A pé chegava mais cedo! - disse Lívia Drusa, com algum azedume, para o carpentarius, quando este se afastou com a sua carruagem alugada.

Cepião estava à espera dela nos aposentos que ocupavam em casa do cunhado. Quando a esposa entrou, Cepião acenou-lhe com um ar altivo e desinteressado, e o mesmo fez quando Lívia Drusa lhe trouxe as filhas. De nada valeu a Servília ter premiado o pai com o seu mais largo e tímido sorriso.

- Vão-se embora, e digam à ama que traga o pequeno Quinto disse Lívia Drusa às filhas, empurrando-as para fora da sala.

Mas a ama já estava à espera. Lívia Drusa pegou no bebé e levou-o para que Cepião o visse.

- Eis o teu filho, Quinto Servílio! Não é tão bonito? - disse ela, sorrindo.

Havia exagero de mãe naquelas palavras, já que o pequeno Cepião não era uma criança bonita. Não era também feia. Aos dez meses, sentava-se muito direito ao colo de Lívia Drusa e fitava os outros directa e sobriamente; não era uma criança sorridente ou encantadora. A sua já farta cabeleira lisa era de um tom fortemente ruivo, os olhos eram de um castanho-avelã claro, as pernas eram compridas, o rosto magro.

- Por Júpiter! - exclamou Cepião, fitando estupefacto o filho. Onde é que ele foi buscar esse cabelo ruivo?

- À família de minha mãe, diz Marco Lívio - retorquiu Lívia Drusa, sem trair qualquer perturbação.

- Ah! - exclamou Cepião, mais calmo; não porque suspeitasse de uma eventual infidelidade da mulher, mas porque gostava de tudo muito bem explicado. Cepião nunca fora um homem afectuoso. Não admira, por isso, que não pegasse sequer no bebé e que, só por insistência da mulher, lhe fizesse um afago debaixo do queixo e falasse com ele como qualquer tatá faria.

- Muito bem - disse por fim Cepião. - Devolve-o à ama. É tempo de estarmos a sós, mulher.

- Mas estão à nossa espera para o jantar - retorquiu Lívia Drusa, entregando o bebé à ama. - De facto - prosseguiu, o coração batendo apressado -, já estamos atrasados. Não podemos fazê-los esperar mais tempo.

Cepião fechou as persianas e a porta.

- Eu não tenho fome - disse ele, começando a despir a toga. - E se tu tens, pior para ti. Hoje não jantas, mulher!

Embora não fosse um homem sensível ou inteligente, Quinto Servílio Cepião não deixou de se aperceber da mudança que se operara em Lívia Drusa no momento em que se deitou na cama ao lado dela e a puxou contra si. Lívia Drusa estava tensa. Tensa e perfeitamente fria.

- O que é que se passa contigo? - gritou ele, desapontado.

- Como todas as mulheres, começo a não gostar disto - respondeu ela. - Ao fim de dois ou três filhos, perdemos todo o interesse.

- Então será melhor que recuperes algum! - replicou Cepião, furioso. - Os homens da minha família respeitam a continência e a moral, somos famosos por irmos para a cama apenas com as nossas esposas. - As suas palavras soavam pomposas, ridículas, como se as debitasse mecanicamente.

Assim, se algum êxito teve, o reencontro dos dois cônjuges teve-o ao nível mais primário; apesar da persistente solicitação do marido, Lívia Drusa manteve-se fria, apática, acabando por ofendê-lo fortemente ao adormecer a meio do derradeiro esforço de Cepião. Lívia Drusa dormia e ressonava. Violentamente, Cepião acordou-a.

- Como queres que tenhamos outro filho? - perguntou ele, com os dedos espetados nos ombros dela.

- Eu não quero mais filhos - retorquiu ela.

- Tem cuidado... - murmurou ele, prestes a ejacular. - Tem cuidado, senão divorcio-me.

- Se o divórcio significa que posso voltar para Túsculo, então que venha o divórcio - replicou ela, enquanto o marido gemia de prazer.

- Odeio Roma. E odeio isto. - Lívia Drusa libertou-se do corpo do marido. - E agora? Já posso dormir?

Cansado, Cepião não respondeu. De manhã, porém, acordou ainda mais furioso. Como seria de prever, retomou o assunto discutido à noite.

- Sou teu marido - disse ele, vendo-a deixar silenciosamente a cama.

- Como tal, espero que a minha mulher seja uma esposa como deve ser.

- Já te disse, perdi todo o interesse por isto! - respondeu Lívia Drusa, acerbamente. - Se não te agrada, Quinto Servílio, divorcia-te!

Cepião não pensara ainda na hipótese da infidelidade: o seu cérebro limitava-se a admitir que ela queria o divórcio.

- Não haverá divórcio, mulher.

- Como sabes, eu também posso pedir o divórcio.

- Duvido que o teu irmão to permita. Mas isso pouco interessa. Não haverá divórcio. Não haverá divórcio porque tu vais fazer um pequeno esforço para recuperares algum interesse. Ou melhor, eu farei o esforço por ti, com uns açoites! - Cepião pegou no cinto de cabedal, dobrou-o, fê-lo estalar contra a mão.

Lívia Drusa fitou-o estupefacta.

- Ora, deixa-te de fitas! - disse ela. - Eu não sou nenhuma criança!

- Mas estás a portar-te como uma criança.

- Não te atrevas a tocar-me!

Cepião agarrou-lhe no braço, dobrou-lho facilmente atrás das costas e puxou-lhe a camisa de dormir para cima, segurando-a com a mesma mão com que lhe dobrava o braço. Depois, começou a açoitá-la com violência: primeiro nas costas, depois nas coxas, nas nádegas, nas barrigas das pernas. Lívia Drusa tentou libertar-se, mas depressa percebeu que ele era capaz de lhe partir o braço. De cada vez que Cepião lhe batia, a dor aumentava, como um fogo devorador que queimava mais fundo que a pele; a sua respiração entrecortada transformou-se em soluços, e depois em gritos de terror. Quando ela caiu de joelhos e tentou ocultar a cabeça com os braços, Cepião largou-lhe o braço, pegou no cinto com as duas mãos e chicoteou-lhe o corpo curvado num frenesim de raiva.

Para Cepião, os gritos dela eram um glorioso canto de triunfo e júbilo; rasgou-lhe a camisa de dormir e continuou a açoitá-la até os seus braços não poderem mais de cansados.

Deixou então cair o cinto. Afastou-o com um pontapé. Agarrando na mulher pelo cabelo, pô-la de pé e conduziu-a até ao cubículo onde dormiam, empestado por um fedor acre.

- Agora é que vamos ver! - berrou ele, ofegante, pegando no sexo erecto. - Obediência, mulher! Senão apanhas mais! - E, enquanto se servia daquele corpo ensanguentado, Cepião acreditou sinceramente que os espasmos, a pulsação esbatida, os gritos angustiados da mulher, não eram senão sinais de excitação sexual.

Ouvidos houve na casa que deram por todo aquele barulho. Escondida atrás da colunata, à espera que o seu querido tatá acordasse, Servília ouviu tudo, tal como aliás alguns dos criados. Druso e Servília Cepião nada ouviram, e ninguém os informou, pois ninguém sabia como havia de lhes comunicar o sucedido.

Depois de dar banho à ama, a criada de Lívia Drusa, com uma expressão de terror, correu aos quartos dos escravos a contar o que a sua senhora sofrera.

- Tem o corpo cheio de vergões vermelhos! - disse ela a Cratipo, chefe dos criados. - Toda ela sangrava! E a cama, a cama estava cheia de sangue! Pobrezinha! Pobrezinha!

Cratipo chorou desoladamente, incapaz de se conter - mas não chorou sozinho, pois muitos eram os criados que conheciam Lívia Drusa desde menina, e que muito a amavam e sentiam por ela profunda compaixão. E quando a viram, naquela manhã, voltaram a chorar; Lívia Drusa caminhava lenta, muito lentamente, sem forças; dir-se-ia que tudo o que queria era morrer. Mas Cepião, apesar da raiva tresloucada com que lhe batera, revelara alguma astúcia. De facto, não se via uma única vergastada nos braços, no rosto, no pescoço ou nos pés da mulher.

Durante dois meses, a situação permaneceu inalterável: Cepião continuou a bater na mulher, com intervalos, mais ou menos regulares, de cinco dias. Só uma coisa mudara: Cepião concentrava-se de cada vez numa zona específica do corpo da mulher, o que permitia a cicatrização das feridas de outras zonas. Tais cenas constituíam para ele um estímulo sexual irresistível, além de lhe darem uma sensação de poder fantástica; finalmente entendia a sabedoria dos antigos costumes, as estruturas em que se apoiava a instituição do paterfamilias. Finalmente entendia para que serviam de facto as mulheres.

Lívia Drusa não disse nada a ninguém, nem mesmo à criada que lhe dava banho e que agora também lhe tratava das feridas. Era visível que estava completamente diferente, e isso inquietava muito Druso e a esposa; atribuíram tal mudança ao regresso dela a Roma, embora Druso, lembrando-se da resistência da irmã ao casamento com Cepião, desse consigo a pensar se não seria a presença de Cepião a causa daquele andar arrastado, daquele rosto pálido, daquele mutismo.

No seu íntimo, tudo o que Lívia Drusa sentia era a agonia física provocada pelas flagelações e pelo que se lhes seguia. Apática, dava consigo a pensar que aquilo talvez fosse um castigo; ou talvez tanta dor tornasse a perda do seu amado Catão suportável; ou talvez os deuses estivessem realmente a ser indulgentes para com ela, pois havia abortado já no terceiro mês de gestação (e essa criança, Cepião viria a saber que não era sua). Sob o choque do súbito regresso do marido, Lívia Drusa só pensara nesse problema quando ele deixara de o ser. Sim, não havia dúvida. Os deuses estavam a ser indulgentes. Acabaria por morrer, mais tarde ou mais cedo, quando o marido se esquecesse de deitar fora o cinto. E a morte era infinitamente preferível à vida com Quinto Servílio Cepião.

Toda a atmosfera daquela casa tinha mudado, e isso inquietava Druso; no entanto, a sua esposa estava grávida, e essa era uma dádiva inesperada e jubilosa por que ansiavam há muito tempo. Servília Cepião, apesar da gravidez, sentia-se tão perturbada quanto Druso por aquela inexplicável nuvem negra que se abatera sobre o seu lar. E qual era de facto o problema? Poderia uma esposa infeliz semear à sua volta tanta tristeza? Por alguma razão os criados se mostravam tão silenciosos e sérios. Normalmente, já nem ligava ao barulho que faziam, e estava habituado, desde criança, a que as gargalhadas dos escravos o acordassem de quando em quando. Mas tudo isso acabara. Todos eles vagueavam pela casa com expressões tristes, respondiam por monossílabos, limpavam o pó e poliam e esfregavam e lavavam o chão como se quisessem ficar exaustos porque o sono não vinha. E Cratipo, esse verdadeiro modelo de compostura, já não era o mesmo.

No último dia do ano, de manhã cedo, Druso conseguiu apanhar Cratipo antes que este ordenasse ao porteiro que abrisse as portas da casa aos clientes do amo.

- Um momento - disse Druso, apontando para o seu gabinete. Preciso de falar contigo.

Porém, mal fechou a porta do gabinete, sentiu-se incapaz de abordar o assunto que o preocupava, e pôs-se a andar de um lado para o outro, enquanto Cratipo se deixou ficar quieto e parado, de olhos fixos no chão. Finalmente Druso parou e olhou para o chefe dos criados.

- Cratipo, o que é que se passa? - perguntou, fazendo um gesto largo. - Ofendi-te de algum modo? Porque têm os criados um ar tão infeliz? Há algum pormenor importante na forma como vos trato que eu tenha desprezado? Se é esse o caso, agradeço-te que mo digas. Não quero que nenhum escravo meu se sinta um desgraçado devido a uma falta minha, ou de um familiar meu. Mas sobretudo o que eu não quero é que te sintas mal por minha causa. Sem ti, esta casa será uma ruína!

Ao ouvir isto, Cratipo desatou a chorar. Horrorizado, Druso ficou sem saber o que fazer. Passado um momento, instintivamente, conduziu o criado até ao divã, fê-lo sentar-se, sentou-se ao seu lado, pôs-lhe o braço por cima dos ombros, deu-lhe o seu lenço para secar as lágrimas. Mas o afecto de Druso só fazia com que Cratipo chorasse ainda mais. Prestes a chorar também, Druso levantou-se e foi buscar vinho. Convenceu Cratipo a beber e ao fim de algum tempo e esforço, conseguiu aquietá-lo.

- Oh, Marco Lívio, que fardo terrível!

- O quê, Cratipo?

- As tareias!

- As tareias!

- A maneira como ela grita! Gritos abafados! - E Cratipo desatou de novo a chorar.

- Estás a falar da minha irmã? - perguntou bruscamente Druso.

- Sim.

Druso sentiu o coração acelerar, o sangue subindo-lhe à cabeça, as mãos a tremer.

- Diz-me! Em nome dos nossos deuses do lar, ordeno-te que mo digas!

- Quinto Servílio. Ele acabará por matá-la.

As mãos de Lívio Druso tremiam agora visivelmente. Para se acalmar, precisou de respirar fundo.

- O marido da minha irmã bate-lhe?

- Sim, domine, sim! - exclamou o chefe dos criados, fazendo o possível por manter alguma compostura. - Eu sei que não me cabe a mim fazer seja que comentário for, e juro que não o teria feito por minha vontade! Mas o meu amo pediu-mo tão afavelmente, e com tanta preocupação que eu... eu...

- Acalma-te, Cratipo, não estou zangado contigo - retorquiu tranquilamente Druso. - Garanto-te que fico imensamente grato por me teres informado. - Levantou-se e, amavelmente, ajudou Cratipo a levantar-se também. - Agora vai dizer ao porteiro que apresente as minhas desculpas aos clientes. Hoje não os receberei, tenho outras coisas para fazer. Diz à minha mulher que vá para o quarto das crianças e que não saia de lá porque é preciso que todos os criados vão para a adega fazer um trabalho de que preciso. Depois, diz aos criados que vão para os seus quartos. Todos eles. Tu também. Mas antes de recolheres ao teu quarto, pede a Quinto Servílio e à minha irmã que venham ter ao meu gabinete.

Vendo-se sozinho, Druso acalmou-se. Já não tremia e a sua ira transformara-se em desapego. Dizia para si mesmo que talvez Cratipo tivesse exagerado, que as coisas não fossem tão más como os criados pensavam.

Porém, ao fitar a irmã, Lívio Druso percebeu que ninguém tinha exagerado, que tudo aquilo era verdade. Lívia Drusa entrara primeiro, e ele entendera toda a dor que a consumia, a depressão, o medo, uma infelicidade sem nome, a vida que a abandonava. Cepião entrou logo a seguir, mais intrigado que preocupado.

Levantando-se, Druso não convidou nenhum deles a sentar-se. Em vez disso, fitou com ódio o cunhado e disse-lhe:

- Chegou ao meu conhecimento, Quinto Servílio, que tens maltratado fisicamente a minha irmã.

Lívia Drusa ficou ofegante ao ouvir aquilo. Cepião cruzou os braços e pôs uma expressão de agressivo desdém.

- Aquilo que eu faço à minha mulher, Marco Lívio, só a mim me diz respeito - retorquiu Cepião.

- Não estou de acordo - respondeu Druso tão calmamente quanto podia. - A tua mulher é minha irmã, membro de uma grande e poderosa família. Ninguém nesta casa lhe batia antes de se casar. Não permitirei que tu ou seja quem for lhe bata agora.

- Ela é minha mulher. O que implica que quem manda nela sou eu, e não o seu irmão, Marco Lívio! Eu disponho da minha mulher como muito bem entender.

- Estás ligado a Lívia Drusa pelo casamento - disse Druso, com uma expressão mais dura. - Eu estou ligado a ela pelo sangue. E o sangue não pode ser desprezado. Não permitirei por isso que batas na minha irmã!

- Tu disseste que não te interessavam os meus métodos de a disciplinar! E tinhas razão. É um assunto que não te diz respeito.

- Quando um marido bate na mulher, o caso interessa a todos. Ainda que seja a mais abjecta das acções. - Druso fitou a irmã. - Por favor, Lívia Drusa, despe a tua roupa. Quero ver o que este indivíduo te fez.

- Não tiras a roupa, mulher! - gritou Cepião, compreensivelmente furioso. - Vais despir-te à frente de um homem que não é teu marido? Não o farás!

- Despe-te, Lívia Drusa - disse Druso. Lívia Drusa não se mexia, nem falava.

- Minha querida irmã, tens de fazer o que te peço - disse Druso afavelmente, e aproximou-se dela. - Eu tenho de ver.

Quando Lívio Druso lhe tocou no ombro, ela deu um grito e afastou-se; Lívio Druso insistiu, tocando-lhe tão ao de leve quanto possível; por fim, conseguiu desprender-lhe o vestido.

Aos olhos de um homem da classe senatorial, um homem que batia na mulher era digno do maior desprezo. Apesar de saber isso, Cepião não teve coragem de deter Lívio Druso. O vestido ficou pendurado sob os seios de Lívia Drusa; desfigurando esses seios belíssimos, viam-se marcas de vergões antigos, de um púrpura pálido, ou de um amarelo de enxofre. Druso desapertou o cinto. Tanto o vestido como a saia de baixo caíram aos pés da irmã. As coxas de Lívia Drusa tinham sido a mais recente vítima das chicotadas, e estavam ainda inchadas, e a carne, ferida, tinha um tom escarlate, carmim. Ternamente, Druso puxou para cima o vestido e a anágua, ergueu as mãos inertes da irmã, fê-la segurar a roupa. Virou-se então para o cunhado.

- Sai da minha casa - disse ele, controlando rigidamente o rosto.

- A minha mulher é minha propriedade - retorquiu Cepião. - A lei autoriza-me a que a trate da maneira que eu achar necessária. Posso até matá-la.

- A tua mulher é minha irmã, e eu não deixarei que um Lívio Druso seja maltratado. De facto, o que tens feito a minha irmã não o faria eu ao mais estúpido e intratável dos animais da minha quinta disse Druso. - Sai da minha casa!

- Se eu me vou embora, ela vem comigo - ripostou Cepião.

- Ela fica comigo. Agora desaparece, espancador de mulheres! Nesse momento, ouviu-se uma vozinha aguda, cheia de rancor e

maldade:

- Ela merece-o! Ela merece-o! - gritou Servília, correndo a agarrar-se ao pai. - Não lhe batas, pai! Mata-a! - acrescentou, fitando o pai.

- Volta para o teu quarto, Servília - disse Druso, já saturado. Mas Servília agarrou-se à mão de Cepião e, com os pés afastados,

e os olhos falseando, fitou Druso com uma expressão de desafio.

- Ela merece que a mates! - gritou a criança. - Eu sei porque é que ela gostava de viver em Túsculo! Eu sei o que ela fez em Túsculo! Eu sei porque é que o menino é ruivo!

Cepião largou a mão da filha como se ela ardesse. O marido de Lívia Drusa começava a entender.

- Que queres dizer com isso, Servília? - perguntou, abanando a filha violentamente. - Vá, rapariga, diz o que tens a dizer!

- Ela tinha um amante, e eu sei quem é! - gritou a filha, os lábios muito afastados dos dentes. - A minha mãe tinha um amante! Um homem ruivo. Encontravam-se todas as manhãs numa casa da quinta dele. Eu sei, eu segui-a! Eu vi o que eles faziam na cama! E eu sei o nome dele! Marco Pórcio Catão Saloniano! O descendente de um escravo! Eu sei o nome dele, porque perguntei à tia Servília Cepião! - Fitou então o pai, com uma expressão que, nesse instante, passava do ódio à adoração. - Tatá, se não a matares, deixa-a aqui! Ela não presta para ti! Ela não te merece! Quem é ela, no fim de contas! Uma plebeia, ela não pertence à nossa classe, à classe dos patrícios! Deixa-a aqui que eu cuidarei de ti, prometo-te!

Druso e Cepião pareciam petrificados, enquanto Lívia Drusa parecia finalmente viver. Apertou o vestido e o cinto, e encarou a filha.

- Menina, as coisas não são como tu pensas - disse ela, meigamente, estendendo a mão para afagar a face da filha.

Servília, porém, repeliu a mão da mãe, colando-se ao pai.

- Eu sei como as coisas são! Não preciso que tu mo digas! Desonraste o nosso nome, o nome do meu pai! Mereces a morte! E o rapaz não é filho do meu pai!

- O pequeno Quinto é filho do teu pai! - retorquiu Lívia Drusa.

- É teu irmão.

- Ele é filho do homem ruivo, é filho de um escravo! - gritou ela, puxando pela túnica de Cepião. - Tatá, leva-me daqui, por favor!

Como resposta, Cepião agarrou na filha e afastou-a com tanta força que ela caiu.

- Que estúpido que eu sou - disse ele, numa voz sumida. - A rapariga tem razão. Mereces morrer. É pena que não tenha batido mais vezes e com mais força. - De punhos cerrados, Cepião desapareceu a toda a pressa do gabinete, com a filha correndo atrás dele, pedindo que esperasse por ela, chorando e gemendo ruidosamente.

Druso e a irmã estavam finalmente sós.

As pernas dele pareciam não querer aguentá-lo de pé; abeirou-se da cadeira, deixou-se cair nela pesadamente. Lívia Drusa! Sangue do seu sangue! A sua única irmã! Uma adúltera, uma meretriz. No entanto, só depois daquela odiosa cena começava a aperceber-se de quanto a amava; só agora entendia quão profundamente a difícil situação da irmã o afectava, só agora percebia quão responsável era por tudo aquilo.

- A culpa é minha - disse ele, de lábios a tremer. Ela deixou-se cair no divã.

- Não, de facto, a culpa é toda minha - retorquiu Lívia Drusa.

- É verdade? É verdade que tens um amante?

- Tive um amante, Marco Lívio. O primeiro, o único. Não o vejo nem sei dele desde que deixei Túsculo.

- Mas não era por isso que Cepião te batia.

- Não.

- Então porque era?

- Depois de ter conhecido Marco Pórcio, nunca conseguiria fingir

- respondeu Lívia Drusa. - A minha indiferença deixava-o furioso, por isso me batia. Até que descobriu que lhe dava prazer bater-me. Excitava-o.

Por um breve momento, Druso teve a sensação de que ia vomitar. Depois, ergueu os braços e agitou-os num gesto impotente.

- Por todos os deuses, em que mundo nós vivemos! - exclamou.

- És vítima de uma injustiça que eu cometi, Lívia Drusa.

Ela levantou-se do divã e foi sentar-se na cadeira dos clientes.

- Aquilo que fizeste, fizeste-o de acordo com a tua consciência disse ela afavelmente. - Sinceramente, Marco Lívio, entendi isso há já vários anos. As tuas muitas atenções, a tua amabilidade para comigo desde que casei, fizeram com que te amasse, a ti e à tua mulher.

- A minha mulher! - exclamou Druso. - Como se sentirá ela quando souber de tudo isto?

- Temos de lhe ocultar a verdade tanto quanto possível - disse Lívia Drusa. - A gravidez dela tem corrido bem, não vamos fazer nada que possa comprometer o seu estado.

Druso estava já de pé.

- Fica aqui - disse ele, encaminhando-se para a porta.

- É preciso que o irmão dela não lhe diga nada que possa perturbá-la. Bebe um pouco de vinho. Eu não demoro.

Mas Cepião nem na irmã pensara. Do gabinete de Druso seguira a toda a pressa para os seus aposentos, com a filha atrás, chorando e agarrando-se à cintura dele até ao momento em que ele a calou com uma bofetada e a fechou no seu quarto. Druso foi encontrá-la deitada no chão, a um canto, curvada sobre si mesma, soluçando ainda.

Os criados tinham entretanto voltado ao trabalho e por isso Druso ajudou-a a levantar-se e conduziu-a para fora do quarto; não muito longe, encontrava-se uma criada das crianças, rondando, sem saber o que fazer.

- Acalma-te, Servília. Eu vou chamar Stratonice para que te lave a cara e te dê o pequeno-almoço.

- Eu quero o meu tatá!

- Minha querida, o teu tatá deixou a minha casa. Mas não desesperes. Tenho a certeza de que mandará buscar-te logo que tenha os seus assuntos resolvidos - disse Druso, sem saber ao certo se estava grato a Servília por ela ter revelado toda a verdade ou se a detestava por isso.

Ao ouvir aquilo, Servília alegrou-se.

- Sim, sim, ele manda-me buscar, ele manda-me buscar - disse ela, encaminhando-se com o tio na direcção da colunata.

- Vá, agora vai com Tratonice - disse Druso, acrescentando com uma expressão grave: - E procura ser discreta, Servília. Para o bem da tua tia, e para o bem do teu pai, sim, para o bem do teu pai!, não fales a ninguém do que se passou aqui esta manhã.

- Como poderei fazer mal ao meu pai se falar? Ele é a vítima!

- Nenhum homem gosta que o rebaixem, Servília. Acredita no que te digo, o teu pai não te agradecerá se falares.

Servília encolheu os ombros, e lá foi com a criada; Druso foi então ter com a mulher, e disse-lhe apenas o que achava que ela devia saber. Para sua surpresa, Servília Cepião reagiu tranquilamente às novidades.

- Só posso ficar satisfeita por se saber finalmente qual é o problema

- retorquiu ela. - Pobre Lívia Drusa! Creio, Marco Lívio, que não gosto muito do meu irmão. Quanto mais velho, mais intratável. Embora me lembre que quando éramos pequenos, ele costumava fazer mal aos filhos dos escravos.

Depois, Marco Lívio voltou para ao pé da irmã, que continuava sentada na cadeira dos clientes, aparentemente recomposta. Marco Lívio sentou-se.

- Mas que manhã esta! Mal eu sabia o que ia acontecer quando perguntei a Cratipo por que motivo ele e os criados andavam tão tristes.

- Tristes? - perguntou Lívia Drusa, espantada.

- Sim. Andavam tristes por tua causa, minha querida. Ouviam Cepião bater-te. Não te esqueças de que eles te conhecem desde menina. Gostam muito de ti, Lívia Drusa.

- Que bom! Nunca me tinha apercebido...

- Nem eu, devo confessar. Por todos os deuses, que estúpido que eu sou! Toda esta confusão me deixa triste, muito triste.

- Não estejas triste, Marco Lívio - disse ela, suspirando. - Ele levou Servília?

Druso sorriu.

- Não. Fechou-a no teu quarto.

- Pobrezinha! Ela que o adora!

- Sim, é visível que o adora. Não consigo perceber porquê.

- Que vai acontecer agora, Marco Lívio? Ele encolheu os ombros.

- Para ser sincero, não faço a mínima ideia! Talvez o melhor seja nós comportarmo-nos tão normalmente quanto possível e esperarmos por notícias de... - ia a dizer Cepião, como fizera durante toda a manhã, mas obrigou-se a usar um tom formal - de Quinto Servílio.

- E se ele se divorciar, como espero?

- Bom, nesse caso ficarás livre dele.

Mas a principal preocupação de Lívia Drusa era outra. Ansiosamente, perguntou:

- E Marco Pórcio Catão?

- Esse homem é muito importante para ti, não é?

- Sim, de facto é.

- O menino é filho dele, Lívia Drusa?

Quantas vezes Lívia Drusa pensara em tal pergunta! Que diria ela quando algum familiar lhe falasse da cor do cabelo do filho, ou da sua parecença, cada vez mais nítida com Marco Pórcio Catão? Parecia-lhe que Cepião lhe devia algo em troca dos anos de paciente servidão, do comportamento modelar - e em troca dos maus tratos. O filho dela tinha um nome. Se ela declarasse que Catão era o pai, a criança perderia esse nome - e, dado que o menino nascera com esse nome, não poderia, em tal caso, escapar à mácula da ilegitimidade. A data do nascimento não excluía a hipótese de Cepião ser o pai, ela era a única pessoa que sabia, com total certeza, que Cepião não era o pai daquela criança.

- Não, Marco Lívio, o menino é filho de Quinto Servílio - retorquiu ela com firmeza. - A minha ligação com Marco Pórcio começou já depois de eu estar grávida.

- Pena que seja ruivo - disse Druso, sem qualquer expressão no rosto.

Lívia Drusa sorriu ironicamente.

- Nunca pensaste nas partidas que o Destino nos prega a nós, mortais? - perguntou. - Quando conheci Marco Pórcio, tive a sensação de que o Destino conjurava engenhosamente contra nós. Por isso, quando o pequeno Quinto nasceu ruivo, não fiquei nada surpreendida, embora tenha consciência de que ninguém acreditará em mim.

- Eu estarei contigo, minha irmã - disse Druso. - Aconteça o que acontecer, dar-te-ei todo o meu apoio.

Lágrimas assomaram aos olhos de Lívia Drusa.

- Obrigada, Marco Lívio, agradeço-te muito essas palavras!

- É o mínimo que posso fazer. - Marco Lívio Druso pigarreou, acrescentando depois: - Quanto a Servília Cepião podes contar que ela me apoiará; e, apoiando-me a mim, está a apoiar-te a ti.

Cepião enviou a notificação do divórcio ao fim do dia, acompanhando-a de uma carta para Druso que deixou este perfeitamente estupefacto.

- Sabes o que aquele insecto diz na carta - perguntou Druso à irmã, agora de cama, após ter sido vista por vários médicos.

Deitada de barriga para baixo, enquanto dois assistentes dos médicos lhe enchiam as costas de cataplasmas, Lívia Drusa tinha dificuldade em ver a cara do irmão; virando o pescoço, conseguiu vê-lo pelo canto do olho.

- Que diz ele? - perguntou Lívia Drusa.

- Em primeiro lugar, nega a paternidade aos seus três filhos! A todos eles, sem excepção! Recusa-se a devolver o teu dote, e acusa-te de múltiplas infidelidades. Recusa-se ainda a pagar-me o que me deve pelo facto de o ter hospedado a ele e aos seus durante mais de sete anos. Justifica a sua atitude, dizendo que tu nunca foste mulher dele e que não é pai dos teus filhos, que os pais são outros.

Lívia Drusa deixou cair a cabeça na almofada.

- Ecastorl Marco Lívio, eu já nem falo do menino, mas... como é possível que ele faça uma coisa dessas às filhas? Ainda compreendo que tenha uma atitude dessas em relação ao pequeno Quinto, mas quanto a Servília e Lila? Ah, Servília vai ficar destroçada.

- Ah, mas ele diz mais! - exclamou Druso, acenando com a carta.

- Diz que vai alterar o seu testamento, a fim de deserdar os três filhos. E ainda por cima tem o descaramento de me pedir que lhe devolva o ”seu” anel! O seu anel!

Lívia Drusa sabia a que anel o irmão se referia. Um anel que pertencera ao pai e ao avô, e que se dizia ser um anel de selo de Alexandre, o Grande. Na altura em que, eram ainda rapazes, se tornara amigo de Marco Lívio Druso, Quinto Servílio Cepião cobiçara o anel. Vira-o depois passar dos dedos frios de Druso, o Censor, para a mão do amigo, e, finalmente, aquando da sua partida para Esmirna e para a Gália Italiana, pedira a Druso que lhe emprestasse o anel, pois achava que este lhe traria sorte. Druso, de início, não queria aceder a tal pedido, mas, temendo que o cunhado o achasse grosseiro, acabou por emprestar-lho. Contudo, mal Cepião regressou, Druso pediu-lhe o anel. Ao princípio, Cepião tentou encontrar um motivo qualquer para ficar com o anel, mas por fim concordou em devolvê-lo, dizendo, com uma sonora gargalhada:

”Muito bem! Muito bem! Mas da próxima vez que viajar, hás-de emprestar-mo outra vez. Não há dúvida que dá sorte.”

- Que atrevimento! - exclamou Druso, furioso, agarrando no dedo em que trazia o anel, como se naquele momento Cepião pudesse aparecer e tirar-lho. O anel só se aguentava no dedo mínimo, mas estava suficientemente largo para que não fosse difícil roubá-lo, estando o seu possuidor distraído. O facto de Alexandre, o Grande, ter sido um homem muito pequeno, era a razão de o anel ser também minúsculo.

- Não ligues, Marco Lívio - disse Lívia Drusa, tentando confortá-lo. Depois, voltou a virar a cabeça para o ver tanto quanto lhe era possível.

- Que acontecerá aos meus filhos? - perguntou. - Ele pode fazer uma coisa destas?

- Primeiro terá de se haver comigo - retorquiu Druso com um ar severo. - Ele também te mandou uma carta?

- Não. Apenas a notificação do divórcio.

- Mas agora descansa, minha querida, vê se te pões boa.

- E que vou dizer aos meus filhos?

- Nada, enquanto eu não der cabo do pai.

Regressando ao seu gabinete, Marco Lívio Druso pegou num pergaminho da melhor qualidade (queria que aquela carta resistisse ao tempo) e respondeu a Cepião.

É evidente, Quinto Servílio, que tens toda a liberdade para negar a paternidade dos teus três filhos. Mas eu também tenho toda a liberdade para jurar que eles são teus filhos, e fá-lo-ei se tiver de o fazer num tribunal. Comeste do meu pão e bebeste do meu vinho desde o mês de Abril do ano em que Caio Mário foi eleito cônsul pela terceira vez, até ao momento em que partiste para o estrangeiro, há precisamente vinte e três meses. Durante a tua ausência, naturalmente, continuei a alimentar, a vestir e a albergar a tua mulher e família. Desafio-te a apresentar uma prova que seja da infidelidade de minha irmã durante os anos em que tu e ela viveram nesta casa. E se examinares o registo de nascimento do teu filho, verás que também ele deve ter sido concebido em minha casa.

Aconselho-te muito vivamente a que desistas da intenção de deserdar os teus três filhos. Caso persistas nessa atitude, mover-te-ei um processo judicial em nome dos teus filhos. Quando me dirigir ao júri, revelarei certas informações que possuo acerca do aurum Tolosanum, e do que sucedeu a largas somas que retiraste de Esmirna e investiste em casas bancárias, propriedades e práticas comerciais condenadas por lei na ponta ocidental do mar Central. Entre as testemunhas, ver-me-ei forçado a chamar alguns dos mais prestigiosos médicos de Roma, que atestarão a natureza potencialmente mutiladora das sevícias que infligiste a minha irmã. Além disso, não deixarei de chamar minha irmã como testemunha, bem como o chefe dos meus criados, que ouviu o que ouviu.

No que toca ao dote da minha irmã, e às centenas de milhar de sestércios que me deves por te ter sustentado, bem como à tua família, não sujarei as minhas mãos com o reembolso. Fica com o dinheiro. De nada te servirá.

Finalmente, vamos ao caso do meu anel: é tão público e notório que se trata de um objecto herdado desde há longas gerações pela família liviana que seria inteligente da tua parte se, de uma vez por todas, desistissses de o ter no teu dedo.

Selada a carta, Lívio Druso chamou um criado para que a levasse imediatamente à nova toca de Cepião, a casa de Lúcio Márcio Filipe. O criado regressou pouco depois, com a notícia de que não havia resposta: coxeava, pois tinha levado um pontapé que o deitara por terra. Com um meio-sorriso, Druso deu dez dinheiros ao escravo, sentou-se de novo, cerrou os olhos, e divertiu-se a imaginar a ira de Cepião, uma ira que o cunhado tinha de abafar. Druso sabia que não haveria processo judicial. E fosse quem fosse o pai do pequeno Quinto, o certo é que, oficialmente, ele seria filho de Cepião. O herdeiro do ouro de Tolosa. Com um sorriso agora franco, Druso deu consigo a imaginar o ninho dos Servílios Cepiões agora com uma ave estranha: o pequeno Quinto, ruivo, de pescoço alto e nariz volumoso. Que deliciosa paga para um homem que batia na mulher!

Pouco depois, foi ao quarto das crianças e disse a sua sobrinha Servília que o acompanhasse ao jardim. Até então, nunca lhe dera de facto muita atenção: limitava-se a saudá-la com um sorriso quando passava por ela, ou fazia-lhe uma festa na cabeça, ou dava-lhe uma prenda no momento adequado; quando pensava nela, via-a como uma infeliz, sempre carrancuda, nunca sorridente. Como podia Cepião negar que era pai dela? Aquela menina má e vingativa era, toda ela, o pai. Druso achava que as crianças nada tinham a ver com os assuntos dos adultos, e o comportamento da sobrinha naquela manhã deixara-o horrorizado. Sim, ela era uma criança maldosa e mexeriqueira! Teria sido bem feito, se Cepião a deserdasse como pretendia.

Com uma expressão pétrea e olhos frios como gelo, Druso viu a sobrinha sair do quarto das crianças e aproximar-se da fonte do peristilo.

- Servília, já que, esta manhã, te imiscuíste nas questões que só aos teus pais e tio diziam respeito, achei que seria melhor informar-te pessoalmente de que o teu pai considerou conveniente divorciar-se de tua mãe.

- Ah, que bom! - disse Servília, achando a sua honra satisfeita.

- Faço as malas já e vou ter com ele.

- Não vais - disse Druso, tendo o cuidado de soletrar muito claramente. - O teu pai não te quer.

A criança ficou tão pálida que, em circunstâncias normais, Druso, temendo pelo seu bem-estar, tê-la-ia deitado; limitou-se, porém, a vê-la vacilar. Mas Servília não desmaiou. Pôs-se muito direita e o sangue voltou ao seu rosto.

- Não acredito! - disse. - O meu tatá não me faria uma coisa dessas, eu sei que não faria!

Druso encolheu os ombros.

- Se não acreditas, vai ter com ele - retorquiu. - Ele não está longe, está em casa de Lúcio Márcio Filipe. Vai, vai perguntar-lhe.

- Pois vou! - exclamou Servília, e logo desandou, com a criada atrás.

- Deixa-a ir, Stratonice - disse Druso. - Limita-te a ir atrás dela, é preciso que ela volte para esta casa.

Que infelizes, todos eles!, pensou Druso, ainda junto à fonte. E que infeliz eu me sentiria se não fosse a minha querida Servília Cepião, e o nosso filho - e a criança que ela traz no ventre; tão tranquila, tão aconchegada. A sua tristeza estava a desaparecer, sufocada por aquele impulso para fustigar Servília, já que não conseguia bater no pai. O desmaiado sol aquecia-lhe o corpo, a agitação do dia esbatia-se; e o seu sentido da justiça voltava a impôr-se. Ele era de novo Marco Lívio Druso, advogado dos ofendidos. Mas nunca advogado de Quinto Servílio Cepião, por muito ofendido que ele tivesse sido.

Quando Servília regressou, Druso estava sentado junto à fonte cuja água, prateada pelo sol, jorrava da boca de um golfinho. Tinha os olhos cerrados, o rosto perfeitamente sereno.

- Tio Marco! - exclamou ela, rispidamente. Druso abriu os olhos e fez um esforço para sorrir.

- Olá - disse ele. - Que sucedeu?

- Ele não me quer, diz que eu não sou filha dele, que sou filha de outro homem - respondeu a menina, muito tensa.

- Se fosse eu a dizer-to, não acreditarias.

- Porque havia de acreditar? O tio está do lado dela.

- Servília, tens de ser mais indulgente em relação à tua mãe. Ela é que foi ofendida, não o teu pai.

- Como podes dizer uma coisa dessas? Ela tinha um amante!

- Se o teu pai tivesse sido mais amável, mais gentil para com a tua mãe, ela não teria procurado um amante. Um homem que bate na mulher não tem desculpa possível.

- Ele devia tê-la morto, em vez de lhe bater. Se fosse eu, matava-a. Druso desistiu.

- Desaparece já, miúda maldita!

É de esperar que a rejeição do pai só traga benefícios para Servília, pensou Druso, fechando de novo os olhos. Com o tempo, é natural que se aproxime mais da mãe.

Pouco depois, sentindo fome, Druso comeu pão e azeitonas e ovos cozidos com a mulher; enquanto comia, informou-a mais pormenorizadamente do que acontecera. Como sabia que ela, como todos os da sua família, dava grande importância à posição social de cada um, não fazia ideia de como ela reagiria à notícia de que o irmão se divorciara por a cunhada se ter envolvido com um homem de origens servis. Mas - apesar de a identidade do amante de Lívia Drusa a ter de facto desapontado - Servília Cepião estava demasiado apaixonada por Druso para se lhe opor; descobrira muitos anos antes que as famílias significavam sempre lealdades divididas, e por isso optara pela lealdade a Druso. Os anos em que partilhara a casa com Cepião não a tinham aproximado dele, pois a sua insegurança de menina desaparecera já e vivera com Druso o tempo suficiente para receber dele alguma da sua coragem.

Tiveram por isso uma refeição agradável apesar da situação, e Druso sentiu-se mais capaz de enfrentar todos os problemas que o dia pudesse trazer. E os problemas não tardaram: ao princípio da tarde, apareceu-lhe em casa Marco Pórcio Catão Saloniano.

Convidando Catão a dar um passeio pela colunata, Druso preparou-se para o pior.

- Que sabes do que se passou? - perguntou Druso calmamente.

- Há alguns instantes, Quinto Servílio Cepião e Lúcio Márcio Filipe foram visitar-me - retorquiu Catão, num tom tão normal como o de Druso.

- Os dois, ha? Presumo que Filipe fez o papel de testemunha comentou Druso.

- Sim.

- E que aconteceu?

- Cepião informou-me apenas de que se tinha divorciado porque a mulher cometera adultério comigo.

- Nada mais?

Catão pôs uma expressão intrigada.

- E que mais poderia ele dizer? O certo, porém, é que o disse em frente da minha mulher, que de imediato foi para casa do pai.

- Por todos os deuses, isto nunca mais pára! - exclamou Druso, fazendo um gesto largo, exasperado. - Senta-te, Marco Pórcio. Será melhor que te conte tudo. O divórcio é apenas um pormenor.

Posto perante todos os factos, Catão ficou mais furioso ainda que Druso; os Pórcios Catões exibiam uma expressão formidável de imperturbável serenidade, mas todos eles - homens e mulheres - eram conhecidos pelo seu génio irascível. Druso necessitou de muito tempo e de muitas palavras sensatas para convencer Catão de que se matasse Cepião - ou mesmo se o deixasse apenas meio-morto de pancada - as coisas só piorariam para Lívia Drusa. Depois de se certificar de que a fúria de Catão esmorecera, Druso levou-o a ver Lívia Drusa; as dúvidas que pudesse ter em relação à profundidade dos sentimentos que ambos nutriam desfizeram-se por completo ao assistir àquele encontro. Sim, aquele era um amor para toda a vida. Pobres amantes!

- Cratipo - disse ele ao chefe dos criados depois de ter deixado o casal sozinho. - Tenho fome outra vez, tenciono jantar imediatamente. Agradecia que informasses minha esposa.

Mas Servília Cepião resolvera ficar no quarto das crianças, porque Servília deitara-se na cama e anunciara que não comeria nem beberia mais nada e que o pai havia de se arrepender quando soubesse que ela tinha morrido.

Druso foi sozinho para a sala de jantar, desejando que aquele dia acabasse rapidamente e que não houvesse nunca mais outro igual na sua vida. Com um suspiro de agradecimento por finalmente poder descansar, Druso instalou-se no seu divã aguardando o gustatio.

- Mas que aconteceu por aqui? - perguntou alguém à porta da sala.

- Tio Públio!

- Bom, qual é a verdadeira história? - perguntou Públio Rutílio Rufo, descalçando os sapatos e mandando embora o criado que queria lavar-lhe os pés. Subiu então para o divã ao lado de Druso e encostou-se sobre o cotovelo esquerdo, com uma expressão de viva curiosidade, felizmente mitigada pela simpatia e preocupação. - Espalharam-se já por Roma uma quantidade de versões, todas elas diferentes e confusas: divórcio, adultério, amantes escravos, homens que batem nas esposas, crianças perversas, etc., etc. Qual é a origem de tudo isto e como é que se propagaram tão rapidamente estes boatos?

Mas Druso não foi capaz de lhe contar, porque aquela derradeira invasão já era de mais; deixou-se cair na almofada e chorou de tanto rir.

Públio Rutílio Rufo tinha razão: não se falava de outra coisa em Roma; não havia dúvida, todos os factos se conjugavam: inclusivamente, o último dos filhos de Lívia Drusa tinha uma cabeleira ruiva, e Cuspia, a rica e grosseira esposa de Marco Pórcio Catão Saloniano, tinha-lhe apresentado os papéis do divórcio. Quinto Servílio Cepião e Marco Lívio Druso, esse par inseparável, tinham cortado relações, ainda que Cepião insistisse que a ruptura nada tinha a ver com o divórcio, mas sim com o anel que Druso lhe tinha roubado.

Os mais inteligentes e honestos referiam que as pessoas mais íntegras estavam quase todas do lado de Druso e da irmã. Outros, de carácter menos admirável - como Lúcio Márcio Filipe e Públio Cornélio Cipião Nasica -, defendiam Cepião, tal como os hipócritas cavaleiros ligados por laços comerciais a Cneu Cúspio Butião, o pai da esposa enganada de Catão, conhecido pela alcunha de ”O Abutre”. Havia ainda aqueles que não estavam do lado de ninguém, pois achavam tudo aquilo extraordinariamente estranho; entre estes, encontrava-se Marco Emílio Escauro Princeps Senatus, que agora voltava a dar nas vistas, ao fim de vários anos de total apagamento, após a desgraça que fora a paixão da mulher por Sila; Escauro sentia que podia dar-se ao luxo de rir, pois o amor da jovem Dalmática não fora correspondido, e agora estava grávida de uma criança que só podia ser sua. Públio Rutílio Rufo também se ria, apesar de ser o tio da adúltera.

No entanto, como viria a verificar-se, seria Marco Lívio Druso quem mais sofreria com o caso.

- Ou talvez seja melhor dizer que, como de costume, eu acabo por ser considerado responsável pelos filhos de toda a gente! - queixou-se Druso a Silão, pouco tempo depois de os novos cônsules terem assumido os seus cargos. - Se eu tivesse todo o dinheiro que aquele miserável Cepião me custou durante todos aqueles anos, por certo estaria muito melhor agora! O meu novo cunhado, Catão Saloniano, ficou sem um tostão - e é preciso pagar as prestações do dote a Lúcio Domício Aenobarbo, irmão da sua ex-esposa - e, como é evidente, não ficou com nada da fortuna da mulher, para além de ter perdido o apoio do pai dela que, na escala social, não pára de subir. Por isso, não só tenho de pagar as prestações a Lúcio Domício, como ainda por cima, já estou habituado!, tenho de hospedar a minha irmã, o marido e a família dela, que não pára de crescer!

Embora sabendo que era pouco o consolo que oferecia a Druso, Silão resolveu também ver o caso pelo lado cómico, e por isso não parava de rir.

- Oh, Marco Lívio, nunca um nobre romano foi vítima de tanto abuso!

- Pára com isso - disse Druso, com um sorriso franco. - Seria bom que a vida, ou o Destino, ou lá o que é, me tratasse com um pouco mais de respeito, enfim, com o respeito que eu mereço. Mas as perspectivas de vida que eu tinha antes de Arausio, e se não houvesse Arausio, era a mesma coisa, esfumaram-se por completo. O que eu sei é que não posso abandonar a minha pobre irmã; e que, embora tenha feito o possível para que isso não acontecesse, a verdade é que gosto muito mais deste cunhado do que do outro. Sim, Saloniano é neto de uma mulher que nasceu escrava, mas apesar disso é um verdadeiro cavalheiro, e a minha casa fica mais alegre com a sua presença. Aprovo a forma como trata Lívia Drusa, e devo dizer que ele conquistou a simpatia da minha mulher. Servília Cepião gosta muito dele, embora de início a ascendência de Saloniano lhe causasse muita confusão.

- Ainda bem que a tua pobre irmã está finalmente feliz - disse Silão. - Sempre tive a sensação de que ela levava uma vida terrível, embora dissimulasse os seus problemas com a determinação de um verdadeiro Lívio Druso. Mas é pena não poderes ter a casa só para ti

- ah, e aposto que tens de financiar a carreira de Saloniano...

- Claro - respondeu Druso, sem demonstrar o mínimo pesar. Felizmente, o meu pai deixou-me com mais dinheiro do que alguma vez poderei gastar, por isso ainda não estou reduzido à penúria. Imagina a irritação, a fúria de Cepião, quando vir um Catão Saloniano no cursus honorum.

- Importas-te que mude de assunto? - perguntou bruscamente Silão.

- De modo nenhum - respondeu Druso, surpreendido. - É de crer que o novo assunto contenha uma descrição pormenorizada dos teus feitos nos últimos meses. E que não te vejo há quase um ano, Quinto Popaedius.

- Já lá vai tanto tempo? - Silão fez alguns cálculos, e aquiesceu.

- Tens razão. Como o tempo corre! - Encolheu os ombros e prosseguiu:

- Mas não fiz nada de especial nestes últimos tempos. Prosperaram os meus negócios, é tudo.

- Desconfio de ti quando te pões com cautelas - disse Druso, deliciado por estar com aquele amigo sincero. - Mas atrevo-me a dizer que não tens a mínima intenção de revelar o que tens feito, e por isso não vou tornar as coisas mais difíceis pressionando-te. Mas qual era o assunto de que querias falar?

- Os novos cônsules - retorquiu Silão.

- Bons cônsules, por fim! - disse Druso, contente. - Não me lembro de um duo tão sólido: Crasso Orador e Cévola! Prevejo grandes acontecimentos.

- Prevês? Quem me dera poder dizer o mesmo. Porque eu prevejo conflitos.

- Na frente italiana? Porquê?

- Por enquanto são boatos. Espero que sem fundamento, embora tenha as minhas dúvidas, Marco Lívio. - Silão pôs uma expressão severa. - Os censores foram ter com os cônsules para lhes mostrarem os registos dos cidadãos romanos em toda a Itália. Ao que sei, estão preocupados com o grande número de novos nomes que apareceram nos pergaminhos. Idiotas! Depois de tanta conversa sobre os novos métodos de recenseamento, que iriam revelar muito mais cidadãos do que os antigos, chegam à conclusão de que há novos cidadãos a mais!

- Então é por isso que não vens a Roma há meses! - exclamou Druso. - Oh, Quinto Popaedius, eu avisei-te! Não, por favor não me mintas! Se me mentes, não poderemos continuar amigos, e eu ficarei mais pobre do que tu! Diz-me a verdade. Falsificaram os registos, não é?

- É.

- Eu avisei-te, Quinto Popaedius! Mas que embrulhada! - por alguns instantes Druso deixou cair a cabeça entre as mãos. Silão, mais perturbado do que esperava, remeteu-se ao silêncio, concentrado no problema. Finalmente, Druso ergueu a cabeça.

- Bom, de nada vale lamentarmo-nos - disse Druso, levantando-se e abanando a cabeça num gesto de paciente exasperação. - É melhor que vás para casa. Não mostres a tua cara nesta cidade nos próximos tempos, Quinto Popaedius. Não podemos dar-nos ao luxo de fazer as delícias de algum membro mais inteligente da facção anti-italiana, exibindo-te por aí a torto e a direito. Farei o possível no Senado, mas infelizmente ainda sou um novato, não me chamarão para falar. Entre aqueles que podem usar da palavra, contas com poucos amigos. É triste, mas é assim mesmo.

Silão estava também de pé.

- Marco Lívio, isto vai acabar em guerra - disse. - Sim, vou para casa. Tens razão, a minha presença em Roma acabará por despertar curiosidades indesejáveis. Mas por aqui se vê que os meios pacíficos não conduzirão à emancipação da Itália.

- Há com certeza uma maneira de conseguir a emancipação da Itália pacificamente, tem de haver uma maneira - disse Druso. - Agora vai-te embora, Quinto Popaedius, tão discretamente quanto possível. E se pensas sair de Roma pela Porta Colina, por favor, evita o Fórum.

Mas Druso não evitou o Fórum; pelo contrário, dirigiu-se imediatamente para lá, de toga vestida, procurando rostos familiares. Não havia qualquer reunião no Fórum, fosse do Senado ou dos Comitia, mas no baixo Fórum havia sempre gente. E, por sorte, a primeira figura importante com quem Druso se cruzou foi precisamente o tio, Públio Rutílio Rufo, que se dirigia para sua casa, nas Carinas.

- Quem me dera que Caio Mário cá estivesse - disse Druso, quando encontraram um sítio sossegado, ao sol, perto das velhas árvores do Fórum.

- Sim, de facto os teus amigos italianos não contarão com muitos apoios no Senado - disse Rutílio Rufo.

- Ah, bastava que houvesse um homem com algum poder, capaz de os fazer reflectir um pouco! Mas onde está esse homem, se Caio Mário continua no Oriente? A menos que o tio...

- Não - retorquiu firmemente Rutílio Rufo. - Simpatizo com a causa italiana, mas não tenho qualquer poder no Senado. Ainda por cima, depois de regressar da Ásia Menor, perdi auctoritas. Os cobradores de impostos continuam a pedir a minha cabeça. Já perderam a esperança de conseguir a de Quinto Múcio, pois Quinto Múcio é demasiado importante. Mas um velho e humilde ex-cônsul como eu, que nunca teve grande reputação nos tribunais, que nunca foi um orador famoso, que nunca conduziu um exército famoso à vitória? Não, a minha influência é de facto muito reduzida.

- O que me estás a dizer é que pouco podemos fazer.

- Precisamente, Marco Lívio.

O outro partido, contudo, não descansava. Quinto Servílio Cepião conseguira uma entrevista com os cônsules, Crasso Orador e Múcio Cévola, e com os censores, António Orador e Valério Flaco. O que tinha a dizer interessava muito aos quatro homens.

- Marco Lívio Druso tem culpas no cartório - disse Cepião. Ouvi-o dizer muitas vezes que os Italianos deviam ter acesso à cidadania integral, que não podia haver diferenças entre os homens que viviam na região de Itália. Além disso, dá-se com italianos poderosos: o dirigente dos Marsos, Quinto Popaedius Silão, e o dirigente dos Samnitas, Caio Pápio Mutilo. Pelo que pude ouvir em casa de Marco Lívio, poderei jurar formalmente que Marco Lívio Druso se aliou a esses italianos para tramar um plano de falsificação do censo.

- Quinto Servílio, dispões por acaso de alguma prova para apoiar a tua acusação? - perguntou Crasso Orador.

Ao ouvir isto, Cepião levantou-se com um ar muito digno, e pôs uma expressão adequadamente ofendida.

- Eu sou um Servílio Cepião, Lúcio Licínio! Um Servílio Cepião não mente. - Nesse ponto, a ofensa transformou-se em irada indignação.

- Provas para apoiar a minha acusação?! Mas eu não acuso! Limito-me a descrever os factos. Além de que não preciso de ”provas” para apoiar seja o que for! Repito: eu sou um Servílio Cepião!

- Pois nem que fosse Rómulo! - comentou Marco Lívio Druso quando os cônsules e os censores o visitaram. - Se não conseguem perceber que esses ”factos” de que ele fala não passam de mais um episódio da perseguição que vem movendo contra mim e os meus, então terei de concluir que vocês não são os homens que eu pensava! É um disparate ridículo! Porque haveria eu de conspirar contra os interesses de Roma? Nenhum filho do meu pai faria tal coisa. Por Silão e Mutilo não posso falar. Mutilo nunca esteve em minha casa, e Silão aparece de vez em quando, porque é meu amigo. Toda a gente sabe que eu defendo a emancipação para todos os homens de Itália, não faço segredo da minha posição. Mas a cidadania para os Latinos e Italianos, penso que terá de ser legal, dada livremente pelo Senado e pelo Povo de Roma. Falsificar os censos seja de que maneira for, por alterações introduzidas nos registos ou porque houve homens que declararam uma cidadania que não possuem, é algo que considero intolerável, ainda que considere correcta a causa que leva a tal desmando. - Abrindo muito os braços e erguendo-os de seguida, acrescentou: - Façam como muito bem entenderem, Quirites. Se acreditam em mim, venham beber comigo um copo. Se acreditam nesse rematado mentiroso que dá pelo nome de Cepião, peço-lhes que se retirem e que não voltem.

Com um riso terno, Quinto Múcio Cévola deu o braço a Druso.

- No que me toca, Marco Lívio, gostaria muito de beber um copo contigo.

- E eu também - disse Crasso Orador.

Os censores preferiram igualmente beber vinho.

- Mas o que me preocupa - disse Druso na sala de jantar ao fim dessa mesma tarde - é a maneira como Quinto Servílio obteve as suas pretensas informações. Eu e Quinto Popaedius só falámos do assunto uma vez, e isso já foi há muito tempo, na altura em que os censores foram eleitos.

- E de que falaram, Marco Lívio? - perguntou Catão Saloniano.

- Silão tinha um plano pouco recomendável para registar cidadãos ilegais, mas dissuadi-lo. Ou pensei que o tinha dissuadido. No que me toca, não houve mais nada. Tanto mais que só recentemente vi Quinto Popaedius. Sendo assim, como é que Cepião obteve a sua informação?

- Talvez tenha ouvido a conversa por um mero acaso - disse Catão, que não aprovava a atitude de Druso em relação aos Italianos, mas não se sentia em condições de criticá-lo; essa era uma das consequências mais desagradáveis da sua situação de hóspede de Druso.

- Não, não, ele nessa altura não estava cá - retorquiu Druso. Estava fora de Itália, e por certo não veio a correr a Roma por um dia, a fim de ouvir uma conversa que não estava nas minhas previsões.

- Bom, nesse caso, como é que ele terá obtido essas informações? Escreveste alguma coisa que ele pudesse ter encontrado? - perguntou Catão.

Druso abanou a cabeça tão convictamente que apagou todas as dúvidas da sua audiência.

- Não escrevi nada. Absolutamente nada.

- Por que estás tão certo de que Quinto Servílio teve cúmplices para formular tais acusações?

- Porque me acusou de falsificar o registo dos novos cidadãos, e me misturou com Quinto Popaedius.

- Não terá inventado tudo?

- Talvez. Só que há um ponto realmente perturbador: ele referiu um terceiro nome. Caio Pápio Mutilo, dos Samnitas. Onde é que ele ouviu esse nome? Eu conhecia-o unicamente porque sabia que Quinto Popaedius era muito amigo de Pápio Mutilo. A questão é que estou convencido de que Quinto Popaedius e Pápio Mutilo falsificaram de facto os registos. Mas como é que Cepião soube disso?

Lívia Drusa levantou-se.

- Não te prometo nada, Marco Lívio, mas é possível que possa responder a essa pergunta. Eu venho já.

Druso, Catão Saloniano e Servília Cepião esperaram pelo regresso de Lívia Drusa, ainda que sem grande curiosidade; de facto, que resposta podia dar Lívia Drusa a uma questão tão misteriosa, quando a verdadeira resposta era que, provavelmente, Cepião tinha, por sorte, adivinhado tudo?

Lívia Drusa não demorou muito. A sua frente seguia Servília.

- Muito bem, Servília, vamos conversar. Gostaria de te perguntar uma coisa - disse Lívia Drusa num tom grave. - Tens visitado o teu pai?

O rosto da rapariga estava tão parado, tão inexpressivo, que todos leram logo nele a culpa.

- Quero uma resposta sincera, Servília - disse Lívia Drusa. Tens visitado o teu pai? E antes de falares, lembro-te que se responderes pela negativa, irei perguntar a Stratonice e às outras criadas.

- Sim, tenho-o visitado - respondeu Servília.

Druso endireitou-se na cadeira, tal como Catão; Servília Cepião, pelo contrário, deixou-se cair na cadeira, cobrindo o rosto com a mão.

- Que disseste ao teu pai acerca do tio Marco e do amigo dele, Quinto Popaedius?

- A verdade - respondeu Servília, sempre inexpressiva.

- Que verdade?

- Que eles conspiraram para registar italianos como cidadãos romanos.

- Como pudeste fazer uma coisa dessas, se não é verdade, Servília?

- perguntou Druso, furioso.

- É verdade! É verdade! - atirou a rapariga, num grito agudo. Eu vi cartas no quarto do Marso há pouco tempo!

- Entraste no quarto de um convidado sem ele saber? - perguntou Catão Saloniano, incrédulo. - Mas isso é vergonhoso, rapariga!

- Quem és tu para me julgar? - perguntou Servília, virando-se para ele com um ar agressivo. - Não passas de um descendente de uma escrava e de um camponês!

Catão engoliu em seco.

- Pode ser que tenhas razão, Servília, mas até mesmo os escravos podem ter princípios, princípios que os impeçam de invadir a privacidade de um convidado, que é uma coisa sagrada.

- Eu sou uma patrícia, da linhagem dos Servílios - retorquiu a rapariga resolutamente. - Ao passo que aquele homem não passa de um italiano. Além disso, atraiçoara Roma, tal como o tio Marco!

- Que cartas são essas que dizes ter visto, Servília? - perguntou Druso.

- Cartas de um samnita chamado Caio Pápio Mutilo.

- Mas não cartas de Marco Lívio Druso.

- Não era preciso. O tio é unha com carne com os italianos. Toda a gente sabe que o tio faz tudo o que eles querem, e conspira com eles.

- Roma só tem a ganhar pelo facto de seres mulher, Servília disse Druso, obrigando-se a pôr um ar divertido. - Se aparecesses nos tribunais com tais argumentos, depressa toda a gente te acharia a mais idiota das criaturas. - Lívio Druso desceu do divã e postou-se em frente dela. - Além de idiota, és ingrata. És mentirosa e, como disse o teu padrasto, o teu comportamento é vergonhoso. Se fosses mais velha, punha-te na rua. Mas como não passas de uma menina, farei o contrário. Ficarás fechada na minha casa. Poderás deslocar-te dentro dela à vontade, desde que acompanhada. Mas fora destes muros não darás um passo. Não visitarás o teu pai, nem mais ninguém. Nem lhe mandarás mensagens. Se o teu pai quiser que vás viver com ele, deixar-te-ei ir de bom grado. Mas se isso acontecer, não mais voltarás a entrar nesta casa, nem que seja para ver tua mãe. Enquanto o teu pai te recusar a custódia, sou eu o teu paterfamilias. Obedecer-me-ás em tudo porque a lei assim manda. Toda a gente nesta casa receberá instruções no que respeita à tua pessoa e à tua vida dentro destas paredes. Compreendido?

A rapariga não revelava qualquer vestígio de vergonha ou medo; os olhos negros faiscavam-lhe; indomável, defendeu a sua posição.

- Eu sou uma patrícia, da linhagem dos Servílios - disse. - Faça o tio o que me fizer, não poderá alterar o facto de eu ser melhor do que vocês todos juntos. Se cumpro o meu dever, é natural que pessoas inferiores achem que erro. Descobri uma conspiração contra Roma e informei o meu pai. Era meu dever fazê-lo. Podes punir-me como muito bem entenderes, Marco Lívio. Pouco me importa se me fechares num quarto para toda a vida, se me bateres ou se me matares. Eu sei que cumpri o meu dever.

- Oh, leva-a já daqui, tira-a da minha frente! - exclamou Druso para a irmã.

- Devo bater-lhe? - perguntou Lívia Drusa, tão irada como Druso. Druso recuou.

- Não! Ninguém voltará a bater em ninguém na minha casa, Lívia Drusa. Faça-se apenas o que ordenei. Saindo do quarto das crianças ou da sala de aulas, Servília terá de ser acompanhada por uma escolta. E embora já tenha idade para ir dormir sozinha, não o permitirei. Castigo-a com a falta de privacidade, já que não concede esse direito aos meus hóspedes. Com o passar dos anos, este castigo será suficiente. Pelo menos dez anos terá de cá ficar: e só sairá se o pai mostrar por ela algum interesse, o interesse suficiente para lhe arranjar marido. Se ele não a casar, casá-la-ei eu - e não com um patrício! Casá-la-ei com um camponês, com um labrego qualquer!

Catão Saloniano desatou a rir.

- Não, com um camponês não, Marco Lívio. Casa-a com um libertino que seja um homem maravilhoso, um homem de natureza nobre sem a mínima esperança de alguma vez se tornar socialmente nobre. Talvez ela descubra então que os escravos e os ex-escravos podem ser melhores do que os patrícios.

- Odeio-vos a todos! - gritou Servília, enquanto a mãe a conduzia para fora da sala de jantar. - Odeio-vos a todos! Malditos sejam! Que morram todos antes de eu ter idade para casar!

Mas logo a criança foi esquecida; Servília Cepião deslizara, inconsciente, da cadeira para o chão. Druso, aterrorizado, ajudoua a erguer-se e levou-a para o quarto, onde ela voltou a si com a ajuda de penas a arder que lhe puseram sob o nariz. Chorava desoladamente.

- Oh, Marco Lívio, que triste sorte a tua desde que te ligaste à minha família! - dizia ela, chorosa, enquanto ele, sentado na beira da cama, e abraçando-a muito, pedia aos deuses que o bebé aguentasse aquilo.

- Pelo contrário, pois tenho-te a ti - retorquiu ele, beijando-lhe a testa, limpando-lhe ternamente as lágrimas. - Tem cuidado contigo, mea vita, a rapariga não merece que te aflijas. Não lhe dês essa satisfação, peço-te.

- Amo-te, Marco Lívio. Sempre te amei, hei-de amar-te sempre.

- Óptimo! Eu também te amo, Servília Cepião. Todos os dias o meu amor vai crescendo um pouco. Mas agora acalma-te, não te esqueças do nosso bebé. Já está tão grande - disse ele, fazendo-lhe uma festa no ventre enorme.

Servília Cepião morreu de parto um dia antes de Lúcio Licínio Crasso Orador e Quinto Múcio Cévola terem apresentado uma nova lei sobre a situação italiana aos membros do Senado. Marco Lívio Druso, fazendo um esforço tremendo, compareceu no Senado, mas, como seria previsível, não conseguiu dar ao assunto a atenção que ele merecia.

Ninguém em casa de Druso imaginara alguma vez que o parto pudesse vir a ser fatal para Servília Cepião; a mulher de Marco Lívio tinha tido de facto uma gravidez impecável, sem qualquer incidente. O trabalho de parto fora tão repentino que nem mesmo ela sentira qualquer aviso; ao fim de duas horas, morria de uma violenta hemorragia que, apesar dos cuidados prestados, não foi possível estancar. Fora de casa, Druso correu para junto da mulher mal foi informado; quando chegou, Servília Cepião passava de uma dor terrível a uma euforia feita de sonho e alegria, sem saber que Druso lhe segurava na mão, sem compreender que estava a morrer. Um fim misericordioso para ela mas horrendo para Druso, que dela não ouviu palavras de amor, nem de conforto, já que ela nem sequer o reconheceu. Terminavam assim anos de lutas para ter um filho que tanto tardara a chegar; numa cama inundada pelo líquido que era a sua força vital, Servília Cepião era uma efígie branca, exangue. Quando morreu, a criança tinha apenas entrado no canal que lhe daria acesso à vida neste mundo; os médicos e as parteiras insistiram junto de Druso para que os deixasse libertar o bebé. Druso, porém, recusou.

- Deixem-na levá-lo com ela - disse Druso. - Permitam-lhe esse consolo. Se ele vivesse, eu não conseguiria amá-lo.

E foi assim que, após este terrível desgosto, Marco Lívio se arrastou meio vivo até à Cúria Hostília. Ocupou o seu lugar na fila do meio: a sua qualidade de sacerdote permitia-lhe uma posição mais proeminente do que a prevista pelo seu estatuto senatorial. O criado sentou-o literalmente na cadeira de desarmar, enquanto as pessoas à volta murmuravam condolências e ele agradecia com um gesto lento, o rosto quase tão pálido como o da mulher. Antes de estar preparado para enfrentar tal situação, descobriu Cepião na fila de trás do outro lado. Ficou ainda mais branco. Cepião! Informado da morte da irmã, Cepião respondera que ia deixar Roma imediatamente após aquela reunião, e que, por isso, não poderia estar presente no funeral.

De facto, no local onde se encontrava, Druso tinha uma visão privilegiada de todo o Senado: estava sentado na extremidade da fila da esquerda, onde as grandes portas de bronze da cúria, mandadas construir séculos antes pelo rei Tulo Hostílio, se encontravam abertas para que a multidão concentrada no pórtico pudesse ouvir os oradores. Os cônsules tinham decidido que aquela seria uma reunião inteiramente pública. Dentro do Senado só poderiam entrar os senadores e os seus criados, mas, para lá das portas, toda a gente podia instalar-se para acompanhar os trabalhos.

Na outra extremidade da câmara, flanqueada de ambos os lados pelas três filas de degraus onde eram colocadas as cadeiras de dobrar, ficava a tribuna dos magistrados curuis, e, em frente dela, o extenso banco de madeira em que se sentavam os dez tribunos da plebe. As belas cadeiras dos dois cônsules, feitas de marfim trabalhado, encontravam-se no primeiro plano da tribuna; atrás, ficavam as dos seis pretores; e atrás destas, eram colocadas as dos dois edis curuis. Os senadores autorizados a falar devido à mera acumulação de anos em funções curuis sentavam-se na fila da frente, de cada lado; a fila do meio ia para os sacerdotes ou augures ou para aqueles que tinham sido tribunos da plebe, ou eram sacerdotes de congregações menores; a fila do fundo destinava-se aos pedarii - aqueles cujos privilégios no Senado se resumiam ao voto.

Depois de todos os augúrios e oferendas terem sido declarados satisfatórios, Lúcio Licínio Orador, o mais velho dos dois cônsules, levantou-se para falar.

- Princeps Senatus, Pontifex Maximus, magistrados curuis, membros desta augusta instituição: há já algum tempo que o Senado vem discutindo o registo ilegal de súbditos italianos como cidadãos romanos no decurso do presente censo - disse ele, com um documento enrolado na mão esquerda. - Embora esperassem encontrar alguns milhares de novos nomes nos registos, os nossos distintos colegas, os censores Marco António e Lúcio Valério, não contavam deparar com um tão impressionante número de novos cidadãos. Mas foi isso que aconteceu: muitos milhares de novos cidadãos foram registados. O censo em Itália revelou, de facto, uma subida sem precedentes do número daqueles que afirmam ser cidadãos romanos, e, segundo um testemunho que chegou até nós, a maior parte desses novos nomes são de homens com um estatuto de Aliados Italianos e que, portanto, não têm qualquer direito à cidadania romana. Também de acordo com um testemunho que ouvimos, os dirigentes das nações italianas são coniventes no registo de muitos dos seus súbditos como cidadãos romanos. Dois nomes foram referidos: Quinto Popaedius Silão, chefe dos Marsos, e Caio Pápio Mutilo, chefe dos Samnitas.

Nesse instante, ouviu-se um estalido de dedos imperioso; o cônsul parou de falar, inclinou-se na direcção do meio da fila da frente.

- Caio Mário, bem-vindo de volta a este Senado. Tens alguma questão a pôr?

- Tenho, de facto, Lúcio Licínio - retorquiu Mário, levantando-se; regressado da sua demorada viagem, Caio Mário tinha agora um aspecto muito saudável e bronzeado. - Esses dois homens, Silão e Mutilo. Os nomes deles constam dos registos?

- Não, Caio Mário, não constam.

- Então, para além do testemunho referido, de que provas dispõem?

- Não dispomos de qualquer prova - disse calmamente Crasso Orador. - Referi os seus nomes unicamente devido a esse testemunho, segundo o qual incitaram pessoalmente os cidadãos das suas nações a inscrever-se em massa nos registos.

- Nesse caso, Lúcio Licínio, o testemunho a que te referiste é inteiramente suspeito?

- Possivelmente - retorquiu Crasso Orador, impassível. Voltou a inclinar-se, com uma saudação muito especial. - Se me permitires prosseguir com o meu discurso, poderei esclarecer tudo isso, Caio Mário.

Com um sorriso franco, Mário regressou à sua fila e sentou-se.

- Continuemos, pois, senadores! Como Caio Mário tão inteligentemente observou, um testemunho que não é apoiado por provas sólidas é sempre questionável. Não tencionam os cônsules ou os censores ignorar esse aspecto. Contudo, o homem que nos trouxe esse testemunho é um homem prestigiado. Por outro lado, o que ele nos disse vem, de facto, confirmar as nossas próprias observações - afirmou Crasso Orador.

- Quem é esse homem prestigiado? - perguntou Públio Rutílio Rufo, sem se levantar.

- Devido a um certo perigo que daí decorreria, a pessoa em questão pediu que o seu nome não fosse divulgado - retorquiu Crasso Orador.

- Eu digo-lhe quem foi, tio! - disse Druso bem alto. - Foi Quinto Servílio Espancador de Mulheres! Ele também me acusou a mim!

- Marco Lívio, lembro-te que não podes intervir! - disse o cônsul.

- Pois é verdade, eu também o acusei! Ele é tão culpado como Silão e Mutilo! - gritou Cepião da fila de trás.

- Quinto Servílio, não podes intervir. Senta-te, por favor.

- Só me sento quando incluírem Marco Lívio Druso entre os acusados! - gritou Cepião, ainda mais alto.

- Os cônsules e os censores estão convictos de que Marco Lívio Druso não se encontra envolvido neste caso - disse Crasso Orador, já farto de interrupções. - Mas seria bom que tu, e todos os pedarii, não te esquecesses de que esta Casa não te concedeu ainda o direito a falar! Agora senta-te e deixa ficar a língua onde ela estava: na tua boca fechada! O Senado não ouvirá mais intervenções relacionadas com questões pessoais. A partir deste momento, prestará atenção unicamente às minhas palavras!

Seguiu-se um silêncio generalizado. Por um momento, Crasso Orador escutou reverentemente o silêncio, depois pigarreou e recomeçou.

- O facto é que, por uma razão qualquer, e por instigação de alguém, foi subitamente detectado um número excessivo de nomes nos registos do nosso censo. Dadas as circunstâncias, não será descabido concluir que muitos homens usurparam ilegalmente a cidadania. Tencionam os cônsules rectificar esta situação, a fim de não seguirem falsas pistas ou acusarem sem provas. Uma única coisa nos interessa: o facto de sabermos que, se não fizermos alguma coisa, depararemos com um excesso de cidadãos (todos eles afirmando ser membros das trinta e uma tribos rurais) que, dentro de uma geração, disporão de mais votos nas eleições tribais do que nós, cidadãos verdadeiros, e poderão também influenciar as votações nas Classes Centuriais.

- Nesse caso, espero sinceramente que façamos alguma coisa, Lúcio Licínio - disse Escauro Princeps Senatus, da sua cadeira a meio da fila da frente do lado direito, ao lado de Caio Mário.

- Quinto Múcio e eu esboçámos uma nova lei - disse Crasso Orador, sem se ofender com aquela interrupção. - Uma lei cujo objectivo é retirar todos os falsos cidadãos dos registos de Roma. É esse o seu único objectivo. Não se trata de uma expulsão, não provocaremos um êxodo maciço de não-cidadãos da cidade de Roma ou de qualquer outro centro de romanos ou latinos dentro da Itália. O seu objectivo é descobrir aqueles que foram registados como cidadãos e que, afinal, não o são. Para tal, propomos que a península italiana seja dividida em dez partes: Úmbria, Etrúria, Piceno, Lácio, Sâmnio, Campânia, Apúlia, Lucânia, Calábria e Brútio. Cada uma destas dez partes disporá de um tribunal especial de inquérito que terá o poder de investigar o estatuto de cidadão de todos aqueles cujo nome surge no censo pela primeira vez. A lei propõe que estas quaestiones sejam efectuadas por juizes, e não por júris, e que os juizes sejam membros do senado de Roma. Cada presidente de tribunal será um senador de estatuto consular e contará com a assistência de dois senadores de estatuto inferior. O texto inclui uma série de pontos de referência destinados aos tribunais de inquérito, e cada homem chamado a depor terá de responder, com provas!, às questões previstas nesses pontos de referência. Podemos assegurar-lhes que os procedimentos previstos são muito rigorosos: por isso, não será difícil detectar os falsos cidadãos. Numa contio posterior, leremos evidentemente todo o texto da lex Licinia Mucia, mas, em minha opinião, a primeira contio sobre uma lei nunca deverá dedicar-se à abordagem de pormenores legais.

Escauro Princeps Senatus levantou-se.

- Se me é permitido, Lúcio Licínio, gostaria de saber se propõem uma dessas quaestiones especiais para a própria cidade de Roma, e, se assim é, se esta quaestio será a mesma que abrangerá o Lácio?

Crasso Orador respondeu-lhe com um ar solene.

- Roma será alvo da décima primeira quaestio. O Lácio será objecto de uma investigação separada. Contudo, no que toca a Roma, gostaria de dizer que os registos da cidade não revelaram um grande número de declarações supostamente falsas de novos cidadãos. Apesar disso, cremos que valerá a pena instalar um tribunal de inquérito em Roma, já que a cidade deve conter muitos cidadãos registados que, caso as investigações sejam realizadas a fundo, se revelarão inelegíveis.

- Obrigado, Lúcio Licínio - disse Escauro, sentando-se. Crasso Orador estava positivamente farto. Tinham-se esfumado

todas as suas esperanças de fazer um discurso com algum brilho retórico; aliás, aquilo que começara por ser um discurso dissolvera-se agora num vaivém de perguntas e respostas.

Antes que Crasso pudesse reatar o discurso, Quinto Lutácio Catulo César levantou-se, confirmando as suspeitas do cônsul de que o Senado não estava com disposição para escutar discursos magníficos.

- Posso fazer uma pergunta? - disse Catulo César, num tom tímido. Crasso Orador suspirou.

- Toda a gente pode, Quinto Lutácio, mesmo aqueles que não estão autorizados a falar! Está à vontade. Não hesites. Pergunta. Aproveita a oportunidade!

- A lex Licinia Mucia vai prescrever ou especificar penalidades particulares, ou essas penalidades ficarão ao critério dos juizes, baseando-se nos estatutos existentes?

- Podes não acreditar, Quinto Lutácio, mas eu ia precisamente falar disso! - retorquiu Crasso Orador, já sem paciência. - A nova lei especifica penalidades claras. Em primeiro lugar, todos os falsos cidadãos que se tenham declarado cidadãos neste último censo sentirão na pele toda a ira dos tribunais: serão açoitados. O nome do culpado irá para uma lista que o impedirá a ele e a todos os seus descendentes, perpetuamente, de aceder à cidadania. Por outro lado, terá de pagar uma multa de quarenta mil sestércios. Se o falso cidadão tem a sua residência dentro de qualquer cidade ou município romano ou abrangido pelos Direitos Latinos, ele e os seus familiares terão de abandonar essa residência e de regressar à terra natal dos seus antepassados. Só nesse ponto esta é uma lei de expulsão. Aqueles que não possuem a cidadania mas que não falsificaram o seu estatuto não serão afectados: poderão manter a residência actual.

- E aqueles que falsificaram o seu estatuto em censos anteriores?

- perguntou Cipião Nasica, o velho.

- Não serão açoitados, nem terão de pagar a multa, Públio Cornélio. Mas o seu nome irá para a lista negra e serão expulsos das suas residências, caso vivam num centro romano ou latino.

- E se um homem não puder pagar a multa? - perguntou Cneu Domício Aenobarbo Pontifex Maximus.

- Nesse caso, será vendido como escravo ao Estado de Roma por um período não inferior a sete anos.

Caio Mário levantou-se de novo.

- Posso falar, Lúcio Licínio? Crasso Orador ergueu as mãos ao ar.

- Ah, mas porque não, Caio Mário? Vamos a ver se conseguirás falar sem ser interrompido por toda a gente mais os respectivos tios!

Druso observou Mário caminhando desde o banco onde se sentava até ao centro da sala. O seu coração, que julgava ter morrido com a morte da mulher, batia agora mais depressa. Aquela era a única oportunidade. Por favor, Caio Mário, disse Druso para si mesmo, embora eu não tenha grande apreço por ti, faz o discurso que eu gostaria de fazer, caso tivesse o direito de falar! Porque se não fores tu a fazê-lo, ninguém o fará. Ninguém.

- É visível que esta lei foi cuidadosamente planeada - começou Mário com voz sonora. - Outra coisa não seria de esperar de dois dos nossos melhores legisladores. Mas para que esta lei se torne absolutamente inequívoca, precisamos de lhe acrescentar uma coisa: uma cláusula que preveja um prémio para todo e qualquer informador. Sim, de facto trata-se de uma lei admirável! Mas será uma lei justa? Não deveremos preocupar-nos com esse aspecto, mais do que com todos os outros? Ou, para ser mais preciso: será que nós nos consideramos poderosos, suficientemente arrogantes, suficientemente estúpidos’., para administrar as penalidades que esta lei prevê? De acordo com o discurso de Lúcio Licínio - que já fez melhores discursos, devo acrescentar! -, há dezenas de milhar desses cidadãos alegadamente falsos, desde as fronteiras da Gália Italiana até Brútio e Calábria. Homens que se sentem autorizados a participar integralmente nos assuntos internos e no governo de Roma; de outro modo, por que correriam o risco de fazer uma declaração falsa de cidadania? Toda a gente em Itália sabe o que tal declaração implica, caso seja descoberta. O chicote, a exclusão, a multa; embora normalmente o mesmo homem não seja alvo dos três castigos ao mesmo tempo.

Voltou-se então para o lado esquerdo da sala e prosseguiu.

- Mas agora, Senadores, parece que teremos de aplicar todos esses castigos a essas dezenas de milhar de homens - e às suas famílias!

Teremos de os açoitar. E impor-lhes-emos multas que muitos deles não poderão pagar. E poremos os seus nomes numa lista negra. E expulsá-los-emos de suas casas, caso estas se situem numa localidade romana ou latina.

Caio Mário encaminhou-se então para as portas abertas, e virou-se de modo a ficar de frente para ambos os lados da sala.

- Dezenas de milhar, Senadores! Não são dois, três, quatro homens, mas dezenas de milhar! E as famílias dos filhos, filhas, esposas, mães, tias, tios, primos, outras tantas dezenas de milhar. Esses homens terão amigos, talvez contem mesmo amigos entre aqueles que possuem legalmente a cidadania romana ou que têm acesso aos Direitos Latinos. Fora das cidades romanas e latinas, esses homens constituirão a maioria. E nós, os senadores escolhidos (será por sorteio?) para fazerem parte dessas equipas de inquérito, vamos atender às provas, vamos seguir os pontos de referência recomendados para o interrogatório daqueles que comparecerem nos tribunais, e vamos seguir à letra a lex Licinia Mucia, condenando esses falsos cidadãos finalmente descobertos. Aplaudo desde já aqueles que se revelarem suficientemente corajosos para cumprir o seu dever, porque eu, eu alegarei que tive outra trombose! Ou será que a lex Licinia Mucia prevê destacamentos armados de milicianos destinados a apoiar, a todo o momento, a realização das questiones!

Começou a andar lentamente, falando ao mesmo tempo.

- Mas querer ser Romano será realmente um crime tão grave? Não será exagero dizer que dominamos todas as regiões importantes do mundo. Somos tratados com todo o respeito e deferência sempre que viajamos para o estrangeiro. Até os reis recuam quando lhes damos ordens. O mais insignificante dos Romanos, um qualquer membro dos capite censi’, é melhor do que qualquer outro homem. Embora demasiado pobre para ter um escravo que seja, ele pertence ao povo que governa o mundo. E isso significa uma notoriedade que lhe é preciosa, uma notoriedade que só a palavra Romano permite. Mesmo quando realiza o seu pesado e desprezível trabalho, porque não possui o tal escravo, mesmo nessa circunstância ele pode dizer para si mesmo: ”Eu sou um Romano, sou melhor que o resto da humanidade!”

 

Nota: Proletários que apenas pagavam a taxa pessoal. (N. do T.)

Já perto do banco dos tribunos, virou-se para as portas abertas.

- Dentro das fronteiras da Itália, vivemos lado a lado com homens e mulheres que racialmente estão próximos de nós, que, em muitos casos, são mesmo iguais a nós do ponto de vista racial. Homens e mulheres que há pelo menos quatrocentos anos nos pagam o seu tributo e fornecem tropas, que participam nas nossas guerras a cem por cento. Sim, é verdade, de quando em quando alguns deles revoltaram-se, ou ajudaram os nossos inimigos, ou contestaram as nossas políticas. Mas já foram castigados por esses crimes! Pela lei romana, não podemos voltar a castigá-los por isso. Podemos censurá-los por quererem ser Romanos? Essa é que é a questão. Não porque querem ser Romanos, não o que originou esta onda recente de falsas declarações. A questão é: poderemos de facto censurá-los?

- Sim! - gritou Servílio Cepião. - Sim! Eles são gente inferior! Não têm os mesmos direitos que nós! São nossos vassalos!

- Quinto Servílio, não podes falar! Senta-te e cala-te, ou então abandona esta reunião! - atroou a voz de Crasso Orador.

A um ritmo que lhe permitia preservar a dignidade física, Caio Mário deu uma volta para olhar em torno dele, o rosto ainda mais deformado por um sorriso amargo.

- Julgam saber o que vou dizer agora, não é verdade? - perguntou aos senadores. Depois, riu-se bem alto. - Caio Mário, o Italiano, estão vocês a pensar, vai recomendar a Roma que esqueça a lex Licinia Mucia, que deixe ficar essas dezenas de milhar de falsos cidadãos nos registos. - As suas sobrancelhas ergueram-se. - Pois bem, Senadores, devo dizer-lhes que estão enganados! Não é isso que eu defendo. Tal como vocês, penso que o nosso sistema de sufrágio não deve ser aviltado, permitindo o registo de homens cuja falta de princípios os levou a cometer tal ilegalidade. O que eu defendo é que a lex Licinia Mucia vá para a frente com os seus tribunais de inquérito, tal e qual como os seus eminentes autores referiram, mas apenas até um certo ponto. Não nos atrevamos a ultrapassar esse ponto! Todos os falsos cidadãos devem ser retirados dos nossos registos e expulsos das nossas classes. Isso apenas - nada mais. Nada mais! Porque, Senadores, Quirites que me escutam às portas, aviso-os solenemente de que, inflingindo a esses falsos cidadãos penas que implicam violências contra os seus corpos, as suas casas, as suas bolsas, os seus descendentes, estão a semear um campo de ódio e vingança mais destruidor que o próprio fogo! Colherão morte, sangue, pobreza, e um ódio que persistirá durante milénios! Não fechem os olhos ao que os Italianos tentaram fazer. Mas não os castiguem por terem tentado fazê-lo!

Muito bem, Caio Mário!, pensou Druso, e aplaudiu. Outros senadores aplaudiram também. Mas a maior parte manteve-se silenciosa, e, para lá das portas, os ruídos que se ouviam eram de rejeição de tanta clemência.

Marco Emílio Escauro levantou-se.

- Posso falar?

- Podes, Chefe do Senado - disse Crasso Orador.

Embora tivesse a mesma idade de Caio Mário, Escauro Princeps Senatus não dava a mesma ilusão de juventude, apesar do rosto simétrico. Tinha rugas profundas no rosto e também na cabeça calva. Mas os seus belos olhos verdes eram jovens, penetrantes, vivos, cintilantes. E extraordinariamente inteligentes. Contudo, naquele dia, Escauro deixara em casa o seu tão apreciado e falado sentido de humor; não se lhe viam os vincos habituais nos cantos da boca - pelo contrário, os seus lábios cerravam-se num ricto grave. Tal como Caio Mário, também ele se encaminhou para as portas; porém, aí chegado, virou-se para a multidão.

- Pais Conscritos, eu sou o vosso presidente, devidamente designado uma vez mais pelos actuais censores. Sou vosso chefe desde o ano do meu consulado, precisamente há vinte anos. Fui já cônsul e censor. Conduzi exércitos e concluí tratados com os nossos inimigos, e com aqueles que pretenderam ser nossos amigos. Sou um patrício da gens Emília. Mas, mais importante do que todas essas coisas, por muito prestigiosas e louváveis que elas possam ser, eu sou um Romano!

”É estranho que eu tenha de concordar com Caio Mário, que a si próprio se intitulou Italiano. Permitam-me, porém, que eu repita aquilo que ele disse no início do seu discurso. Querer ser Romano será realmente um crime assim tão grave? Querer ser membro de uma raça que dá ordens a reis e vê essas ordens obedecidas? Como Caio Mário, também eu digo que não é crime nenhum um homem querer ser Romano. Divergimos, porém, na ênfase que pomos nessa afirmação. Querer não é, de facto, crime. Mas fazer já é um crime. E não posso permitir que nenhum dos ouvintes de Caio Mário caia na armadilha que ele montou. Este Senado não se encontra reunido hoje para se apiedar daqueles que querem aquilo que não possuem. Não estamos reunidos para apreciar ideais, sonhos, ânsias, aspirações. Estamos aqui reunidos para debater uma realidade - a usurpação ilegal da nossa cidadania romana por dezenas de milhar de homens que não são Romanos, e que, portanto, não estão autorizados a dizer que são Romanos. O facto de quererem ser Romanos não está em causa. O que está em causa é que dezenas de milhar de homens cometeram um grande crime, e nós, guardiães da nossa herança romana, não podemos, de modo nenhum, tratar esse grande crime como algo de menor, como algo que não merece mais do que uma bofetada metafórica.”

Nesse momento, Escauro virou-se para a assembleia.

- Senadores! Eu, dirigente desta casa, lanço-vos este apelo na minha qualidade de genuíno Romano: Senadores, temos de dar a esta lei todo o poder e autoridade de que ela precisa! Este desejo italiano de aceder à cidadania romana tem de cessar de uma vez por todas, tem de ser esmagado, aniquilado. A lex Licinia Mucia tem de prever as penas mais duras que alguma vez promulgámos! E mais! Parece-me que devíamos adoptar as sugestões de Caio Mário, aprovando, para tal, aditamentos a esta lei. O primeiro aditamento deverá prever um prémio para todas as informações que conduzam à descoberta de um falso romano: um prémio de quatrocentos sestércios, dez por cento do total da multa. Dessa forma, o nosso Tesouro não gastará um tostão, quem paga é a bolsa do culpado. E o segundo aditamento deverá prever um destacamento da milícia para acompanhar todas as equipas de juizes no desempenho da sua missão. O dinheiro para pagar a esses soldados temporários, poderemos também ir buscá-lo às multas impostas. É por isso que não posso deixar de agradecer, muito sinceramente, a Caio Mário, as sugestões que aqui fez.

Ninguém alguma vez soube se Escauro teria ou não terminado o seu discurso, pois Públio Rutílio Rufo levantou-se nesse instante, gritando:

- Deixem-me falar! Eu tenho de falar!

Escauro, que já estava cansado, sentou-se de imediato, fazendo um gesto de aquiescência para a mesa.

- Pobre Escauro, está velho, perdeu já as suas antigas faculdades

- comentou Lúcio Márcio Filipe para os seus vizinhos. - Não era seu costume pegar no discurso de outro para fazer o seu próprio discurso.

- Não encontro nada de errado no discurso dele - reagiu o vizinho da esquerda, Lúcio Semprónio Aselião.

- Está velho e incapaz - repetiu Filipe.

- Tace, Lúcio Márcio! - disse Marco Herénio, o vizinho da direita.

- Queria ouvir Públio Rutílio.

- Querias! - rosnou Filipe, mas calou-se.

Públio Rutílio Rufo não se pôs a andar de um lado para o outro, como os seus antecessores; de facto, ficou todo o tempo junto da sua cadeira de dobrar.

- Senadores, Quirites que escutam os trabalhos do Senado, oiçam por favor o que lhes quero dizer! - Meneou os ombros, pôs uma expressão grave. - Não tenho de facto confiança no vosso bom senso, e não espero, por isso, levá-los a ter uma opinião diferente da de Marco Emílio, opinião essa que é aliás, hoje, dominante. Contudo, aquilo que eu vou dizer teria de ser dito, e é preciso que se saiba que foi dito quando o futuro revelar a sua prudência e justeza. E garanto-lhes que o futuro revelará a prudência e a justeza da minha posição.

Aclarou a voz e exclamou, com uma voz sonora:

- Caio Mário tem razão! No que respeita aos falsos cidadãos, devemos apenas excluí-los dos registos e das nossas classes. Embora tenha consciência de que a maior parte de vós - tal como eu, creio!

- considera os cidadãos italianos como estando muito abaixo dos verdadeiros Romanos, espero que todos tenhamos a necessária capacidade de raciocínio para entender que os cidadãos italianos não são propriamente bárbaros. São pessoas requintadas, os seus chefes demonstram ter uma educação notável, e, basicamente, levam o mesmo tipo de vida que nós, Romanos. Portanto, não podem ser tratados como bárbaros! Os acordos que fizeram connosco datam de há séculos. Colaboram connosco há séculos. São nossos parentes de sangue, como Caio Mário diz.

- Bom, uma coisa é certa, Caio Mário é parente de sangue dele

- disse Lúcio Márcio Filipe, com uma fala arrastada.

Rutílio Rufo virou-se para fitar o ex-pretor, erguendo muito as sobrancelhas.

- Ora aí está uma distinção inteligente! - disse ele, num tom simpático. - A distinção entre laços de sangue e os laços forjados pelo dinheiro! Porque se não tivesses feito essa distinção, teríamos de te considerar um parente muito próximo de Caio Mário, não é verdade, Lúcio Márcio? Porque, se pensarmos em termos de dinheiro, Caio Mário é muito mais teu parente do que o teu próprio tatá. Porque de facto, Lúcio Márcio, tu pediste a Caio Mário mais dinheiro do que o teu tatá alguma vez te deu! Se o dinheiro fosse sangue, também tu serias vítima do estigma italiano, não é verdade, Lúcio Márcio?

O Senado atroou de risos, palmas e assobios, enquanto Filipe, corando de vergonha, fazia o mais que podia para se esconder.

Rutílio Rufo voltou ao tema central do seu discurso.

- Mas atentemos, por favor, de uma forma mais séria, nas penas previstas pela lex Licinia Mucia Como poderemos nós açoitar gente com quem temos de coexistir, a quem vamos buscar soldados e dinheiro? Se alguns membros dissolutos desta casa caluniam outros membros no que toca às suas origens de sangue, em que diferimos nós dos Italianos? É isto que eu defendo, é sobre isto que devem reflectir. Um pai que só educa o filho à tareia é um mau pai; quando cresce, esse filho só pode odiar o pai: não o ama, nem admira. Se nós açoitarmos os nossos parentes italianos desta península, teremos de coexistir com pessoas que nos odeiam por causa da nossa crueldade. Se os impedirmos de aceder à nossa cidadania, teremos de coexistir com pessoas que nos odeiam pela nossa presunção. Se os empobrecermos com multas pesadíssimas, teremos de coexistir com pessoas que nos odeiam pela nossa cupidez. Se os expulsarmos das suas casas, teremos de coexistir com pessoas que nos odeiam pela nossa desumanidade. Quanto ódio é todo este ódio junto? Muito mais, Senadores, Quirites, muito mais do que o ódio que poderemos alguma vez suscitar em pessoas que vivem nas mesmas terras que nós. Não podemos correr o perigo, Senadores, Quirites, de gerar tanto ódio!

- Nesse caso, reprimamo-los ainda mais - disse Catulo César, entediado. - Reprimamo-los tanto que eles deixem de sentir ódio ou seja o que for. É o que eles merecem por terem roubado a prenda mais preciosa que um Romano pode oferecer.

- Quinto Lutácio, tenta compreender! - protestou Rutílio Rufo. Eles roubaram porque nós não daríamos! Quando um homem rouba aquilo que acha que, por direito, lhe pertence, não lhe chama roubar. Chama-lhe recuperar.

- E como pode ele recuperar uma coisa que nunca foi dele? Rutílio Rufo desistiu.

- Muito bem. Eu tentei fazer-vos ver que é um disparate infligir penas verdadeiramente terríveis a pessoas que vivem ao nosso lado, que encontramos nas nossas estradas, que formam a maioria da população das zonas onde temos as nossas villas campestres e as nossas quintas, que muitas vezes trabalham nas nossas terras quando não somos suficientemente modernos para empregar trabalho de escravos. Não digo mais nada acerca das consequências que tais punições trarão para nós, Romanos.

- Os deuses sejam louvados! - suspirou Cipião Nasica.

- Passo agora aos aditamentos sugeridos pelo nosso Princeps Senatus, e não por Caio Mário! - disse Rutílio Rufo, ignorando o comentário de Cipião Nasica. - E deixa-me dizer-te, Princeps Senatus, que pegar na ironia alheia e usá-la literalmente não é boa retórica! Se não tens cuidado, ainda começam a dizer para aí que perdeste as faculdades oratórias. No entanto, compreendo que te deve ter sido difícil encontrar palavras poderosas, palavras estimulantes, para descrever algo a que o teu coração não adere. Não terei razão, Marco Emílio?

Escauro nada disse, ainda que tivesse ficado um tanto ou quanto corado.

- Não constitui uma prática romana recorrer a informadores pagos, tal como não o é empregar guarda-costas - disse Rutílio Rufo. - Se a lex Licinia Mucia estipular o recurso a informadores, será o mesmo que dizer aos nossos companheiros italianos que os tememos. Será o mesmo que dizer que a lex Licinia Mucia não tem por objectivo punir infracções, mas esmagar uma ameaça potencial: precisamente os nossos companheiros italianos! De forma invertida, estaremos a mostrar aos nossos companheiros italianos que pensamos que eles estão muito mais aptos a aniquilar-nos do que nós alguma vez estivemos! Medidas tão rigorosas e processos tão pouco romanos como informador e guarda-costas pagos revelam um medo enorme, revelam pavor. Não é força o que demonstramos, mas sim fraqueza, senadores e cidadãos de Roma! Um homem que se sente verdadeiramente em segurança não se desloca escoltado por ex-gladiadores, nem olha desconfiado para todo o lado. Um homem que se sente verdadeiramente em segurança não oferece prémios por informações sobre os seus inimigos.

- Disparate! - exclamou desdenhosamente Escauro Princeps Senatus.

- Recorrer a informadores pagos é uma medida ditada pelo bom-senso. Facilitará a hercúlea tarefa dos tribunais especiais, que terão à sua frente dezenas de milhar de transgressões. Qualquer processo susceptível de abreviar e facilitar tal tarefa é sempre desejável! Quanto às escoltas armadas, é também uma questão de bom senso. Desencorajarão manifestações e rebeliões.

- Muito bem! Apoiado! - ouviu-se em todo o Senado, ao mesmo tempo que aplausos dispersos.

Rutílio Rufo encolheu os ombros.

- Estou a ver que os ouvidos que me escutaram são de pedra. É pena que poucas pessoas nesta casa saibam ler nos lábios! Vou, por isso, concluir a minha intervenção. Só mais uma coisa. Se recorrermos a informadores pagos, estaremos a propagar na nossa querida terra uma doença que a infectará durante décadas e décadas. Uma doença de espiões, de desprezíveis chantagistas, de terríveis dúvidas acerca de amigos e mesmo parentes, porque em todas as comunidades há sempre alguém capaz de fazer qualquer coisa por dinheiro, não é verdade, Lúcio Márcio Filipe? Estaremos a dar toda a liberdade a essa gente miserável que furtivamente deambula pelos corredores dos palácios dos reis estrangeiros. Essa gente que, como ratos, sai das tocas sempre que o medo domina um povo, sempre que é aprovada legislação repressiva. Não permitam que uma coisa dessas aconteça! Sejamos aquilo que sempre fomos: Romanos’. Gente que não tem medo, gente que está acima das tramas e manobras dos reis estrangeiros. - Sentou-se.

- É tudo, Lúcio Licínio.

Ninguém aplaudiu, embora houvesse agitação e murmúrios, e Caio Mário sorrisse.

E pronto, já não há nada a fazer, pensou Marco Lívio Druso quando a sessão terminou. Escauro Princeps Senatus vencera claramente: Roma perderia. Como poderiam ouvir as palavras de Rutílio Rufo se os seus ouvidos tinham volvido pedra? Caio Mário e Rutílio Rufo, nos seus discursos, tinham recorrido apenas ao bom senso - um bom senso tão evidente que entrava pelos olhos dentro. Que dissera Caio Mário? Que a colheita seria de morte e sangue, mais destruidora que o próprio fogo. O problema é que o conhecimento que eles têm dos Italianos se limita a um ou outro negócio e a uma incómoda partilha de limites de propriedades. Não fazem a mínima ideia, pensou tristemente Druso, de que, dentro de cada italiano, há uma semente de ódio e vingança pronta a germinar. E o mesmo sucederia comigo, se não tivesse conhecido Quinto Popaedius Silão num campo de batalha.

O cunhado. Marco Pórcio Catão Saloniano, estava sentado na fila de trás, não muito longe dele; abriu caminho para chegar ao pé de Druso, pôs a mão sobre o ombro dele, e perguntou-lhe:

- Queres vir comigo para casa, Marco Lívio?

Druso fitou o cunhado, a boca ligeiramente aberta, os olhos apáticos.

- Vai sem mim, Marco Pórcio - disse ele. - Estou muito cansado, quero pôr alguma ordem na minha cabeça.

Druso aguardou que o último senador saísse. Depois, fez um sinal para o criado, para que pegasse na cadeira e fosse para casa à sua frente. Lentamente, Druso encaminhou-se para o pavimento de laje branca e preta. Quando deixou o edifício, já os escravos da Cúria Hostília estavam a varrer os degraus onde os senadores tinham estado sentados; concluído tal trabalho, fechariam as portas por causa das hordas de ladrões do bairro de Subura, e voltariam para as suas casas, situadas atrás das três domi publici dos principais flâmines.

De cabeça baixa, Druso arrastou-se por entre as colunas do pórtico, pensando quanto tempo demorariam Silão e Mutilo a saber daqueles acontecimentos, perfeitamente convicto de que a lex Licinia Mucia chegaria à ratificação - com os aditamentos de Escauro - no prazo mínimo prescrito. Daí a dezassete dias, Roma teria uma nova lei, e, com ela, morreriam todas as esperanças de uma reconciliação pacífica com as nações Aliadas Italianas.

Enredado nos seus pensamentos, Druso contaria com tudo menos com o que nesse instante se deu: chocou de frente com Caio Mário. Recuando vacilante, a desculpa morreu nos seus lábios ao atentar no olhar veemente de Mário. Atrás de Mário, espreitava Públio Rutílio Rufo.

- Vem até minha casa com o teu tio, Marco Lívio. Convido-te a beber uma taça do meu excelente vinho - disse Mário.

Apesar de toda a sabedoria que lhe proporcionavam os seus sessenta e dois anos, Mário nunca teria previsto a reacção de Druso àquele simpático e terno convite; o rosto sombrio e tenso de Druso, em que se notavam já algumas rugas, foi percorrido por um estremecimento nervoso, e, nesse mesmo instante, lágrimas jorraram-lhe dos olhos. Tapando a cabeça com a toga, para esconder aquilo que considerava uma fraqueza, Druso chorou como se se despedisse da vida. Mário e Rutílio Rufo tentaram acalmá-lo, murmurando coisas sem nexo, dando-lhe pancadinhas nas costas, pedindo-lhe que não chorasse mais. Então Mário teve uma ideia brilhante: procurou na toga, tirou o seu lenço e introduziu-o sob o capuz improvisado de Druso.

Só ao fim de algum tempo Druso conseguiu acalmar-se. Deixou então cair a toga e enfrentou o tio e Mário.

- A minha mulher morreu ontem - disse ele, soluçando.

- Nós sabemos, Marco Lívio - disse Mário, compreensivo.

- Julguei que aguentava! Mas isto hoje foi demais. Lamento ter dado este espectáculo.

- Do que tu precisas é de um bom copo do melhor Falerno - disse Mário, descendo os degraus à frente dos outros dois.

E, de facto, um bom copo do melhor Falerno foi o bastante para dar a Druso um aspecto próximo do normal. Mário levara uma terceira cadeira para junto da sua secretária, à volta da qual estavam sentados os três, com o vinho e a água à mão.

- Bom, a verdade é que tentámos - disse Rutílio Rufo, suspirando.

- Foi como se não tivéssemos feito nada - disse Mário, com a sua voz forte e sonora.

- Discordo, Caio Mário - contestou Druso. - Todas as intervenções foram transcritas. Eu vi Quinto Múcio dando instruções nesse sentido. Os funcionários tomaram nota de tudo o que vocês, Escauro e Crasso Orador disseram. Por isso, no futuro, quando os acontecimentos tiverem mostrado quem tem ou não tem razão, alguém lerá o que vocês disseram, e a posteridade concluirá que nem todos os Romanos eram uns arrogantes perfeitamente idiotas.

- Sempre é algum consolo, embora eu preferisse que as últimas cláusulas da lex Licinia Mucia fossem rejeitadas - disse Rutílio Rufo.

- O problema é que todos eles vivem com os Italianos, mas nada sabem sobre eles!

- Precisamente - disse Druso, friamente. Pôs a taça em cima da secretária e deixou que Mário a enchesse de novo. - Vai haver guerra

- acrescentou.

- Guerra?! Não, isso não! - exclamou logo Rutílio Rufo.

- Sim, guerra. A menos que eu ou outra pessoa qualquer consiga boicotar o avanço da lex Licinia Mucia, e obtenha o sufrágio universal para toda a Itália. - Druso sorveu o vinho. - Pela minha querida mulher - disse ele, os olhos enchendo-se de lágrimas que resolutamente evitou -, juro que não tive nada a ver com o registo dos falsos cidadãos. Mal soube do caso, fiquei a saber também quem eram os responsáveis. Os dirigentes de todas as nações italianas, e não apenas o meu amigo Silão e o amigo dele. Mutilo. Não creio que eles alguma vez tenham pensado que a sua acção iria passar despercebida. Julgo que o objectivo deles era levar Roma a entender que o sufrágio universal constitui em toda a Itália uma necessidade urgente. E se essa necessidade não for satisfeita, garanto-vos que haverá guerra!

- Eles não estão suficientemente bem organizados para desencadear uma guerra - comentou Mário.

- Talvez tenhas uma surpresa desagradável - disse Druso. - A crer nalgumas observações ocasionais de Silão e eu acho que devo acreditar, há anos que eles vêm falando da possibilidade da guerra. Por certo desde Arausio. Não tenho prova alguma, apenas sei que tipo de homem é Quinto Popaedius Silão. Mas sabendo que tipo de homem ele é, creio poder concluir que as nações italianas estão já a preparar-se, fisicamente, para a guerra. Os rapazes já cresceram e eles começam a treiná-los mal atingem os dezassete anos. Porque não haveriam de treinar os jovens? Ninguém os pode acusar de nada, pois têm sempre a hipótese de responder que Roma há-de querer esses jovens bem treinados... E quem poderá contestá-los, se eles insistirem que as armas e equipamentos que vêm acumulando se destinam ao dia em que Roma lhes pedir legiões de auxiliares?

Mário apoiou os cotovelos sobre a secretária e, num tom sombrio, comentou:

- Tens razão, Marco Lívio. Faço votos para que as tuas previsões não se verifiquem. Porque uma coisa é combater bárbaros ou estrangeiros com legiões romanas; mas combater contra os Italianos, significa combater contra homens com a mesma experiência de guerra que nós e com uma preparação idêntica à romana. Os Italianos seriam os nossos mais terríveis inimigos, como aliás já o foram num passado longínquo. Os Samnitas, por exemplo, derrotaram-nos por várias vezes! No final, fomos nós quem venceu, mas o Sâmnio é apenas uma parte da Itália! Uma guerra contra uma Itália unida poderá perfeitamente conduzir-nos à destruição.

- Sem dúvida - concordou Druso.

- Nesse caso, será bom que comecemos a exercer pressões tendo em vista a integração pacífica dos Italianos no seio do povo romano

- disse Rutílio Rufo, determinado. - Se é isso que querem, então é isso que lhes devemos dar. Nunca fui grande defensor do direito de voto universal para a Itália. Mas eu sou um homem sensato. Como Romano, sou capaz de não estar de acordo. Mas como patriota tenho de aprovar. Uma guerra civil deixar-nos-ia na ruína.

- Estás absolutamente certo do que dizes? - perguntou Mário a Druso, com uma voz grave.

- Absolutamente certo, Caio Mário.

- Nesse caso, creio que deverás encontrar-te com Quinto Silão e Caio Mutilo o mais depressa possível - disse Mário, desenvolvendo em voz alta as suas ideias. - Tenta convencê-los, e, através deles, os outros dirigentes italianos, de que, apesar da lex Licinia Mucia, as portas para uma cidadania generalizada não se encontram irrevogavelmente fechadas. Se eles estiverem já a preparar-se para a guerra, não será possível dissuadi-los a pararem com os preparativos. Mas poderás convencê-los de que a guerra é um último recurso tão horrível que só teriam a ganhar se esperassem algum tempo. O tempo necessário. Entretanto, teremos de demonstrar no senado e nos Comitia que existe um grupo decidido a dar a cidadania a toda a Itália. E, mais tarde ou mais cedo, Marco Lívio, teremos de encontrar um tribuno da plebe capaz de consagrar-se à nossa causa e de legislar no sentido de tornar toda a Itália romana.

- Eu serei esse tribuno da plebe - disse Druso firmemente.

- Óptimo! Óptimo! Ninguém poderá acusar-te de ser um demagogo, ou de cortejar a Terceira e a Quarta Classes. Por outro lado, como tens bastante mais idade do que é costume nos tribunos da plebe, serás visto como um candidato maduro, responsável. Além disso, és filho de um censor extremamente conservador, e a única tendência liberal que te é conhecida, é a simpatia em relação à causa italiana comentou Mário, satisfeito.

- Mas ainda é cedo - atalhou convictamente Rutílio Rufo. - Temos de dar tempo ao tempo, Caio Mário! Temos de constituir um grupo de pressão, temos de obter apoios em todos os sectores da comunidade romana, e isso demorará vários anos. Não sei se reparaste, mas a multidão que se encontrava fora da Cúria Hostília forneceu-me hoje a prova para algo que sempre suspeitei: que a oposição ao alargamento da cidadania aos Italianos não se limita ao topo. Esta é uma daquelas questões que, estranhamente, une toda a Roma, desde o topo até aos capite censi; e, se não me engano, também os cidadãos abrangidos pelos Direitos Latinos estão do lado de Roma.

- É um problema de privilégios - disse Mário, aquiescendo. Toda a gente gosta de se sentir superior aos Italianos. Julgo ser muito possível que esse sentimento de superioridade esteja mais entranhado nas classes baixas do que na elite. Vamos ter que recrutar Lúcio Decúmio para as nossas hostes.

- Lúcio Decúmio? - perguntou Druso, intrigado.

- É um indivíduo de muito baixo estrato que eu conheço - retorquiu Mário com um sorriso. - Contudo, apesar do seu baixo estrato, Lúcio Decúmio consegue ter muita influência. E como nutre uma devoção profunda pela minha cunhada Aurélia, tentarei aliciá-la a ela primeiro, para que depois ela o recrute.

Druso estava cada vez mais intrigado.

- Não creio que tenhas muita sorte com Aurélia - comentou. Não viste o irmão mais velho dela, Lúcio Aurélio Cota, na parte da tribuna reservada aos pretores? Aplaudiu e deu vivas como os outros. E o tio dele, Marco Aurélio Cota, também.

- Tem calma, Marco Lívio, ela não é nada tacanha, ao contrário dos seus parentes homens - disse Rutílio Rufo, já um pouco tocado pelo vinho. - Aquela jovem pensa pela sua própria cabeça, e, além disso, está ligada pelo casamento ao menos ortodoxo e mais radical dos ramos dos Júlios Césares. Não tenhas dúvidas, podemos contar com o apoio dela. E, através dela, recrutaremos Lúcio Decúmio.

Ouviu-se bater à porta; Júlia entrou, com o seu passo delicado, vestida com o mais diáfano dos linhos, comprado em Cós. Tal como Mário, também ela estava com um aspecto magnífico, saudável e muito bronzeada.

- Marco Lívio, meu querido - disse ela, inclinando a cabeça para lhe dar um beijo. - Não vou cair em pieguices que só te fariam mal, mas quero que saibas que fiquei muito triste, e que nesta casa serás sempre bem recebido.

A presença de Júlia era tão suave, e tão quente a sua simpatia, que Druso se sentiu perfeitamente confortado: as condolências dela não o tinham deprimido; pelo contrário, tinham-lhe dado ânimo. Pegou na mão dela e beijou-a.

- Obrigado, Júlia.

A esposa de Mário sentou-se na cadeira que Rutílio Rufo fora entretanto buscar e aceitou uma taça de vinho com um pouco de água, absolutamente segura de que a sua presença naquele grupo masculino era desejada, embora sabendo que interrompera uma discussão séria e profunda.

- A lex Licinia Mucia, - disse ela.

- Precisamente, mel, - retorquiu Mário, fitando-a com veneração, mais apaixonado agora do que quando casara. - Até agora fizemos o que era possível. Mas vou precisar de ti. Falarei contigo mais tarde.

- Farei o que puder - disse ela, após o que, puxando pelo braço de Druso, começou a rir. - Indirectamente, Marco Lívio, tu foste a causa da interrupção das nossas férias!

- Como é que eu pude interromper as vossas férias? - perguntou Druso, sorrindo.

- A culpa foi minha - esclareceu Rutílio Rufo, com um risinho perverso.

- Sem dúvida! - disse Júlia, fitando Rutílio Rufo com um olhar censurador. - O teu tio, Marco Lívio, escreveu-nos para Halicarnasso no passado mês de Janeiro. Nessa carta, dizia-nos que a sua sobrinha fora alvo de um processo de divórcio, devido a adultério, pois dera à luz uma criança ruiva!

- Tudo isso é verdade - disse Druso, agora com um sorriso mais largo.

- Sim, mas o problema é que ele tem outra sobrinha - Aurélia! Provavelmente não sabes de nada, mas tem havido uns mexericos na família acerca da relação de amizade que ela mantém com um homem ruivo que agora se encontra na Hispânia Citerior, ao serviço de Tito Dídio. Por isso, quando lemos o misterioso comentário do teu tio, o meu marido pensou que era a Aurélia que ele se referia. E eu insisti em voltarmos para Roma, porque jurava a pés juntos que Aurélia não se envolveria amorosamente com Lúcio Cornélio Sila. Quando cá chegámos, é que soubemos que nos tínhamos enganado na sobrinha! Públio Rutílio pregou-nos uma bela partida - concluiu Júlia, rindo.

- O meu problema é que tinha saudades vossas - disse Rutílio Rufo, nada arrependido.

- As famílias podem ser o cabo dos trabalhos - disse Druso. Mas tenho de admitir que Marco Pórcio Catão Saloniano é um homem muito mais interessante do que Quinto Servílio Cepião. E Lívia Drusa está feliz.

- Então, está tudo bem - comentou Júlia.

- Sim - disse Druso. - Está tudo bem.

Quinto Popaedius Silão não parou de viajar durante os dias que mediaram entre a primeira discussão da lex Licinia Mucia e a sua promulgação, por um voto quase unânime, na Assembleia do Povo. Por isso, foi através de Caio Pápio Mutilo que Silão soube da nova lei, quando chegou a Boviano.

- Então, só há uma saída: a guerra - disse ele a Mutilo, com uma expressão grave.

- Receio bem que sim, Quinto Popaedius.

- Temos de convocar uma reunião de todos os dirigentes das nações italianas.

- Isso já está a ser feito.

- E o local?

- Será numa cidade onde os romanos nunca pensarão procurar disse Pápio Mutilo. - Em Grumento, de hoje a dez dias.

- Excelente! - exclamou Silão. - A Lucânia Interior é uma região que os romanos esqueceram por completo, não sei por que razão. Não há latifundia, nem proprietários rurais romanos, a um dia de viagem de Grumento.

- Nessa zona não há sequer um único cidadão romano residente, o que é ainda mais importante.

- Mas se aparecer algum romano, como nos livramos dele? perguntou Silão, com uma expressão dubitativa.

- Marco Lampónio tem tudo preparado - disse Mutilo com um sorriso esbatido. - A Lucânia é terra de bandidos e salteadores. Por isso, qualquer romano que por lá apareça será capturado por salteadores. Terminada a assembleia, Marco Lampónio cobrir-se-á de glória, pois obterá a libertação desses romanos sem ser preciso pagar resgate.

- Muito bem pensado! Quando pensas partir?

- Dentro de quatro dias. - Mutilo deu o braço a Silão e assim se encaminharam para o jardim de peristilo da sua espaçosa e elegante casa; de facto, tal como Silão, também Mutilo era um homem rico, educado, requintado. - Conta-me o que aconteceu durante a tua viagem à Gália Italiana, Quinto Popaedius.

- O que vi assemelha-se muito ao que Quinto Servílio Cepião descreveu há dois anos e meio - disse Silão, satisfeito. - Uma série de pequenas cidades espalhadas pelas margens do rio Medoaco, para lá de Patávio, e também nas margens do Sontio e do Natiso, para lá de Aquileia. O ferro é enviado por terra a partir dessa parte da Nórica, perto de Noreia, mas a maior parte da jornada é fluvial, já que segue depois por um braço do Dravo e, posteriormente, pelo Sontio e pelo Tiliavento. As localidades mais perto da nascente dos rios dedicam-se à produção de carvão, que é enviado em embarcações para as localidades que se dedicam à produção de aço. Quando visitei a zona, fingi ser um praefectus fabrum romano - e paguei em dinheiro. Estavam todos sequiosos de dinheiro. Dinheiro suficiente para garantir que trabalharão como uns loucos até terem a encomenda pronta. E como eu fui o primeiro cliente importante que eles viram, estão perfeitamente dispostos a continuar a produzir armas e munições exclusivamente para mim. Mutilo tinha um ar apreensivo.

- Achas mesmo que foi boa ideia fingires que eras um praefectus fabrum romano? - perguntou. - E se aparece por lá um praefectus fabrum verdadeiro? Ele descobrirá tudo e informará Roma.

- Sossega, Caio Pápio, que eu tratei de tudo - disse Silão impassível.

- Repara que, devido às minhas encomendas, estes novos fabricantes de aço não precisarão de procurar outros clientes. As encomendas romanas vão para centros de renome, como Pisa e Populónia. Por outro lado, vindo de Patávio e Aquileia, as nossas armas poderão ser transportadas pelo Adriático e conduzidas a portos italianos que os romanos não usam. Nenhum romano se interrogará sequer sobre as nossas cargas. Pois se eles nem sequer sabem que a Gália Italiana Oriental se encontra envolvida no negócio de armas. A actividade romana concentra-se no Ocidente, no mar Toscano.

- E a Gália Italiana Oriental poderá manter o seu negócio?

- Mas sem a mínima dúvida! Quanto mais activa estiver a zona, mais ferreiros atrairá. Quinto Servílio Cepião tinha razão: o seu belo esquema resultou.

- E Cepião? Ele não é amigo dos Italianos!

- Mas é esperto - retorquiu Silão com um sorriso. - Não está nos planos dele divulgar as suas actividades comerciais em Roma. Cepião pretende unicamente esconder o ouro de Tolosa nos locais mais remotos. E trabalha de forma a passar despercebido junto das instituições fiscalizadoras do Senado, o que significa que só prestará alguma atenção aos livros de contabilidade. E que poucas vezes visitará os seus investimentos. Cepião surpreendeu-me ao demonstrar que tinha talento para este tipo de coisas. Para uma criatura tão estúpida em qualquer outra circunstância, não há dúvida que Cepião tem um notável faro para o negócio. Não, não precisamos de nos preocupar demasiado com Quinto Servílio Cepião! Enquanto os sestércios continuarem a cair na sua bolsa, Cepião sentir-se-á feliz e estará calado e quieto.

- Nesse caso, temos de nos concentrar no dinheiro. Temos de arranjar mais dinheiro - disse Mutilo, rilhando os dentes. - Por todos os nossos velhos deuses italianos, Quinto Popaedius, com que satisfação eu e o meu povo esmagaríamos Roma e os Romanos! A alegria que isso nos daria!

Porém, no dia seguinte, Mutilo teve de suportar a presença de um romano, pois Marco Lívio Druso chegou entretanto a Boviano, desejoso de se encontrar com Silão, e trazendo imensas notícias.

- O Senado está agora a sortear os juizes que vão presidir a esses tribunais especiais - disse Druso, inquieto porque se encontrava em Boviano, um viveiro crónico de revoltas. Esperava que ninguém o tivesse visto na capital do Sâmnio.

- E tencionam realmente executar as medidas previstas pela lex Licinia Mucia - perguntou Silão, que ainda tinha dificuldade em acreditar naquilo tudo.

- Sem dúvida - retorquiu Druso, num tom pesaroso. - Vim a Boviano para te dizer que tens um prazo de seis mercados para amortecer o golpe. No Verão, começarão as questiones, e todas as cidades onde elas se realizarem ficarão cheias de cartazes anunciando os benefícios, nomeadamente financeiros, destinados aos informadores. Não faltam por aí os homens sem princípios, ansiosos por ganharem quatro ou oito ou doze mil sestércios; e alguns, prevejo eu, ficarão ricos. É uma desgraça, concordo, mas a Assembleia do Povo aprovou essa maldita lei quase por unanimidade.

- Onde será instalado o tribunal mais próximo da minha residência?

- perguntou Mutilo, com cara de poucos amigos.

- Esérnia. O tribunal regional instalar-se-á sempre numa colónia romana ou numa localidade abrangida pelos Direitos Latinos.

- Não se atreverão a instalar os tribunais noutro sítio qualquer. Seguiu-se um silêncio. Mutilo e Silão não falavam de guerra, o que

deixava Druso mais alarmado do que se falassem abertamente. Ele sabia que se tinha imiscuído na congeminação de muitas conspirações, mas a verdade é que se encontrava perante um dilema irresolúvel: demasiado leal a Roma para não querer informações sobre essas conspirações, era também demasiado amigo de Silão para querer saber o que teriam eles tramado. Por isso conteve-se e tratou de fazer o que estava ao seu alcance, sem que, desse modo, renegasse o seu patriotismo.

- Que sugeres que façamos? - perguntou Mutilo a Druso.

- Como já disse, sugiro que amorteçam o mais possível o golpe. Convençam as pessoas que vivem em colónias ou municípios romanos ou latinos a abandonar imediatamente esses centros, caso se tenham apresentado como cidadãos romanos. Eles não vão querer fugir, mas vocês têm de os convencer. Se ficarem, serão punidos com chicotadas, multas, perda de direitos e expulsão - retorquiu Druso.

- Não podem fazer uma coisa dessas! - exclamou Silão, as mãos tensas agarrando o vazio. - Marco Lívio, o problema é que os chamados cidadãos falsos constituem uma multidão impressionante! Roma há-de ver a quantidade de inimigos que esta lei lhe trará! Uma coisa é açoitar um italiano aqui e outro acolá, mas açoitar aldeias e cidades inteiras é completamente diferente! Não, os Italianos não se deixarão submeter, juro que não!

Druso tapou as orelhas com as mãos, abanando a cabeça.

- Não, Quinto Popaedius, não digas uma coisa dessas! Por favor, não digas uma só palavra que eu possa interpretar como traição! Eu ainda sou um romano! Sinceramente, eu estou aqui apenas para te ajudar tanto quanto possa. Não me envolvas em coisas que espero nunca se concretizem! Por favor! Leva os teus falsos cidadãos de todos os locais onde possam ser descobertos. E fá-lo já, pois assim ainda poderão salvar alguma coisa dos seus investimentos em centros romanos ou latinos. Não faz mal que toda a gente conheça as razões que os levam a fugir; o que é preciso é que eles fujam para bem longe, de forma a dificultar o mais possível a sua detenção. Haverá poucos milicianos armados, e estarão todos muito ocupados a guardar os juizes: por isso, não é de crer que se afastem muito dos locais previstos para os tribunais. Há uma coisa em que podem sempre confiar: na tradicional relutância do Senado em gastar dinheiro. Nestas circunstâncias, o Senado é vosso amigo. Por isso, levem o vosso povo dos centros romanos e latinos! E certifiquem-se de que os tributos italianos são pagos. Não permitam que ninguém se recuse a pagar por causa de uma cidadania romana que não é verdadeira.

- Assim faremos - retorquiu Mutilo que, sendo samnita, sabia perfeitamente que a vingança romana era sempre impiedosa. - Traremos os nossos povos para as nossas terras, e protegê-los-emos.

- Óptimo - disse Druso. - Só isso já reduzirá o número de vítimas.

- Druso, muito nervoso, não parava quieto. - Não posso continuar aqui, tenho de me ir embora antes do meio-dia e chegar a Casino antes que a noite caia. De facto, seria mais lógico eu estar em Casino do que em Boviano. Tenho terras em Casino.

- Então vai, vai já! - exclamou Silão, tão nervoso como o amigo.

- Não quero, por nada deste mundo, que te acusem de traição, Marco Lívio. Tens sido um amigo sincero de todos nós. Obrigado.

- Irei num instante - disse Druso, encontrando alento para sorrir.

- Mas primeiro quero a tua palavra de que não recorrerão à guerra, enquanto todas as outras alternativas forem possíveis. Continuo a ter esperança numa solução pacífica, e agora disponho de aliados poderosos no Senado. Caio Mário regressou já do estrangeiro e o meu tio Públio Rutílio Rufo também vos apoia. Juro-vos que dentro de poucos anos disputarei o cargo de tribuno da plebe, e então, através da Assembleia da Plebe, apoiarei o alargamento da cidadania a toda a Itália. Mas isso não pode ser feito agora. Primeiro, temos de obter apoios para a nossa causa dentro de Roma e entre os nossos pares. Especialmente entre os cavaleiros. É muito possível que a lex Licinia Mucia vos venha a trazer mais benefícios do que desvantagens. Cremos que, quando se aperceberem dos efeitos da lei, muitos romanos passarão a simpatizar com a causa italiana. Lamento que tudo isto acabe por criar heróis da forma mais penosa e dispendiosa. Mas que venham os heróis! Os Romanos acabarão por chorá-los, pois lamentarão a sua sorte. Espero bem que sim, que os Romanos chorem os vossos heróis.

Silão acompanhou-o até ao cavalo, um cavalo dos estábulos de Mutilo, e só então reparou que Druso vinha sozinho.

- Marco Lívio, é perigoso andar por aí sozinho! - exclamou Silão.

- Seria mais perigoso trazer alguém comigo, ainda que fosse um escravo. As pessoas falam, e eu não posso dar a Cepião a oportunidade de me acusar de ter estado em Boviano, conspirando contra Roma disse Druso, aceitando a ajuda do amigo para montar.

- Embora não me tenha registado como cidadão, tal como, aliás todos os outros dirigentes, não me atrevo a ir a Roma - disse Silão, fitando o amigo. O sol espreitava por trás da cabeça de Druso, fazendo uma espécie de aura.

- Nem penses numa coisa dessas - retorquiu Druso, com um esgar. - Primeiro que tudo, porque tenho um informador na minha casa.

- Por Júpiter! Espero que o tenhas crucificado!

- Infelizmente tenho que o suportar, ou melhor, de a suportar, porque se trata da minha sobrinha Servília, que tem nove anos. É filha de Cepião: igualzinha ao pai. - Embora a sombra lhe ocultasse o rosto, via-se claramente que estava vermelho. - Descobrimos que ela invadiu o teu quarto durante a tua última visita. Caso te interesse saber, foi por isso que Cepião pôde referir Caio Pápio como um dos promotores do registo de Italianos como cidadãos. Podes contar-lhe isto, para que também ele saiba até que ponto este problema nos divide a todos. Os tempos mudaram. Agora já não é Sâmnio contra Roma, acredita. O que precisamos de construir é uma união pacífica de todos os povos desta península. De outro modo, nem Roma, nem as nações italianas, poderão avançar.

- E não podes recambiar a rapariga para o pai? - perguntou Silão.

- Ele não a quer. Ao contrário do que ela pensava, não lhe valeu de nada ter invadido a tua privacidade e divulgado os teus segredos

- disse Druso. - Tenho-a presa e silenciada, mas há sempre o perigo de ela iludir a nossa vigilância e de ir ter com o pai. Por isso, não te aproximes de Roma nem da minha casa. Se precisares de me ver com urgência, envia uma mensagem e eu encontrar-me-ei contigo em qualquer local remoto.

- De acordo - erguendo a mão para dar uma palmada no flanco do cavalo, Silão deteve-o para uma última mensagem. - Dá os meus melhores cumprimentos a Lívia Drusa, a Marco Pórcio, e é claro, à nossa querida Servília Cepião.

A dor inundou o rosto de Druso, enquanto se afastava.

- Servília Cepião morreu! - gritou ele, olhando para trás. - Oh, as saudades que eu sinto dela!

Os tribunais previstos pela lex Licinia Mucia foram instalados em Roma, Espoleto, Cosa, Firmo, Esérnia, Alba, Cápua, Régio, Lucéria, Pesto e Brundísio; porém, mal as zonas próximas dessas cidades estivessem completamente exploradas, os tribunais deslocar-se-iam para outras cidades. Apenas o Lácio acabou por não ter um tribunal; as terras dos Marsos eram consideradas mais importantes, e por isso Alba foi a décima primeira cidade escolhida.

Porém, de um modo geral, os dirigentes italianos que se encontraram em Grumento, sete dias após a visita de Druso a Silão e Mutilo, conseguiram afastar os seus falsos cidadãos de todas as cidades romanas e latinas. Como seria de esperar, alguns houve que se recusaram a acreditar nas penas aprovadas por Roma, e outros que talvez tenham acreditado, mas que estavam demasiado ligados às respectivas cidades para porem a hipótese de fugir. E foi sobre estes homens que se abateu toda a ira dos tribunais.

Para além dos três juizes (o presidente, um cônsul ou ex-cônsul, e os seus dois assistentes, forçosamente senadores), cada tribunal dispunha de uma equipa de funcionários, doze lictores (ao presidente fora atribuída uma autoridade proconsular) e uma escolta montada e armada de cem milicianos, recrutados entre soldados de cavalaria reformados e os antigos gladiadores que conseguiam andar a cavalo.

Os juizes haviam sido escolhidos por sorteio. Os nomes de Caio Mário e Públio Rutílio Rufo não tinham sido sorteados, e isso não espantou ninguém - o mais provável é que os berlindes de madeira com os seus nomes não tivessem sequer entrado no recipiente cheio de água e fechado que era utilizado em tais ocasiões.

Quinto Lutácio Catulo César ficou com Esérnia, e Cneu Domício Aenobarbo Pontifex Maximus com Alba; Escauro Princeps Senatus não foi escolhido, mas Cneu Cornélio Cipião Nasica foi-o, ficando a dirigir o tribunal de Brundísio, uma cidade que não lhe agradava rigorosamente nada. Metelo Pio, o Bacorinho, e Quinto Servílio Cepião encontravam-se entre os juizes assistentes, tal como o cunhado de Druso, Marco Pórcio Catão Saloniano. O nome de Druso não saiu no sorteio, e isso agradou-lhe profundamente; de facto, se a sorte o tivesse escolhido, teria sido obrigado a anunciar ao Senado que a sua consciência o impedia de desempenhar o cargo.

- Foi um erro crasso - disse-lhe Mário mais tarde. - Se tivessem uma ponta da inteligência com que provavelmente nasceram, teriam feito com que o teu nome saísse, o que te obrigaria a declarar, de forma muito pública, os teus sentimentos. E isso não seria nada bom para ti na atmosfera actual!

- Então ainda bem que não têm a inteligência com que provavelmente nasceram - disse Druso reconhecidamente.

A sorte determinou ainda que Marco António Orador, o Censor, ficasse a presidir ao tribunal da cidade de Roma. Ficou encantado, pois gostava de enigmas e quebra-cabeças: e encontrar os transgressores de Roma era um verdadeiro quebra-cabeças. Por outro lado, podia contar com um ganho de vários milhões de sestércios em multas, graças aos esforços dos informadores, que andavam já de volta das longas listas de nomes.

Os resultados variavam consideravelmente de cidade para cidade. Catulo César ficou a odiar Esérnia; a cidade situava-se no meio do território do Sâmnio, Mutilo conseguiu convencer quase todos os culpados a fugir, e os cidadãos romanos e residentes latinos não tinham informações a oferecer - e quanto aos Samnitas, era impensável que traíssem os seus irmãos, fosse qual fosse o dinheiro oferecido. Contudo, os poucos transgressores apanhados foram alvo de processos sumários e exemplares (exemplares, segundo o ponto de vista de Catulo César): o presidente do Tribunal tinha de facto escolhido, entre os homens da escolta, um indivíduo particularmente brutal para chicotear os réus. Mas a estada de Catulo César era, para ele, o cúmulo do tédio. Todos os dias eram encontrados novos transgressores, mas só ao fim de algum tempo se descobria que os transgressores já não residiam em Esérnia. De três em três ou de quatro em quatro dias, lá conseguiam encontrar um culpado, e era com ansiedade que Catulo César esperava pelo julgamento. Era, sem dúvida, um homem corajoso: ignorava os protestos daquela gente que se sentia ultrajada, os apupos e assobios com que era saudado fosse para onde fosse, as pequenas sabotagens furtivas que o perseguiam não só a ele, mas também os outros dois juizes, os funcionários e os lictores, e mesmo os homens da escolta. As correias das selas rebentavam e os soldados caíam de borco no chão. De quando em quando, a água aparecia misteriosamente cheia de lama. Por outro lado, todos os insectos e aranhas de Itália pareciam ter sido chamados a Esérnia e postos nos seus quartos; cobras deslizavam inopinadamente de armários e cómodas, ou por entre a roupa da cama; por outro lado apareciam pequenos bonecos vestidos com togas, cheios de sangue e penas, bem como galos e gatos mortos; e os casos de comida envenenada tornaram-se tão frequentes que o presidente do Tribunal se viu obrigado a pôr escravos a provar a comida algumas horas antes da refeição, e a ordenar a guardas que vigiassem a comida a todo o momento.

Ao contrário do que se esperava, Cneu Domício Aenobarbo Pontifex Maximus, sediado em Alba, revelou-se um presidente compassivo; tal como em Esérnia, também em Alba a maior parte dos culpados havia desaparecido e, por isso, só ao fim de seis dias de sessões o tribunal encontrou a sua primeira vítima. Não houve neste caso qualquer intervenção de informadores, mas o homem era suficientemente rico para poder pagar a sua multa, e fitou Aenobarbo Pontifex Maximus de cabeça levantada quando este ordenou a imediata confiscação de todas as suas propriedades situadas em Alba. O soldado designado para chicotear os transgressores gostava excessivamente dessa tarefa; já pálido, o presidente do Tribunal ordenou o fim das chicotadas quando o sangue começou a salpicar toda a gente que se encontrava perto da infeliz vítima. Quando apareceu o segundo transgressor, o presidente escolheu outro soldado para açoitar: e este soldado chicoteava com tanta delicadeza que as costas do réu pouco sofreram. Aenobarbo Pontifex Maximus encontrou também no seu íntimo uma insuspeitada aversão a informadores que, não sendo muitos, eram, talvez por causa disso, especialmente odiosos. Naturalmente, Aenobarbo tinha de pagar o prémio; só que, pago o prémio, sujeitava o informador a um inquérito demorado e particularmente desagradável sobre o seu próprio estatuto de cidadão; e este procedimento acabou por ter êxito, pois os informadores deixaram de aparecer. Certa ocasião, quando se verificou que determinado transgressor tinha três filhos deficientes, Aenobarbo, sem que ninguém soubesse, pagou a multa, e recusou firmemente a expulsão do homem da cidade, onde as crianças passavam melhor do que no campo.

Por isso, enquanto os Samnitas cuspiam com todo o desprezo para o chão mal ouviam o nome de Catulo César, Aenobarbo Pontifex Maximus acabou por ser venerado em Alba, e os Marsos foram tratados muito mais brandamente que os Samnitas. Quanto aos restantes tribunais, alguns presidentes mostraram-se cruéis, outros escolheram um meio-termo, outros ainda seguiram o exemplo de Aenobarbo. Mas o ódio não parava de crescer, e as vítimas desta perseguição eram em número bastante para fortalecer os Italianos na sua determinação de pôr fim ao jugo romano, ainda que isso implicasse a morte. Nenhum juiz teve coragem para mandar os milicianos para as remotas zonas rurais, em busca dos infractores que haviam fugido das cidades.

O único juiz que se envolveu em problemas legais foi Quinto Servílio Cepião, assistente de Cneu Cipião Nasica no tribunal de Brundísio. Cneu Cipião Nasica detestava tanto esse porto de mar, famoso pelo calor sufocante e pela poeira que cobria tudo, que, pouco depois de ter chegado, invocou uma doença sem importância (mais tarde, para grande gozo do povo local, descobriu-se que se tratava de hemorróidas) para voltar rapidamente a Roma, pois só em Roma havia médicos em condições. Cepião substituiu-o na presidência do tribunal, assistido precisamente por Metelo Pio, o Bacorinho. Tal como nas outras cidades, também em Brundísio os infractores tinham fugido antes de o tribunal chegar e os informadores eram escassos. A lista de nomes era lida, dos homens não havia sinal, e os dias iam passando

- até que um informador surgiu com provas aparentemente incontestáveis contra um dos mais respeitados cidadãos romanos de Brundísio. Este cidadão presumivelmente falso não fora registado naquele ano, mas, segundo o informador, vinte anos antes. Tão diligente como um cão desenterrando carne putrefacta, Cepião resolveu transformar este caso num exemplo para todos, a tal ponto que ordenou o seu interrogatório sob tortura. Metelo Pio teve medo e protestou, mas Cepião recusou-se a ouvi-lo, tão seguro estava da culpabilidade daquele pilar da comunidade. Só que não tardaram a surgir as provas de que aquele homem era aquilo que afirmava ser - um cidadão romano de reputação imaculada. Declarada a sua inocência, o homem não esperou muito para processar Cepião. Para garantir a sua absolvição, Cepião correu a Roma, onde um discurso inspirado de Crasso Orador acabou por salvá-lo. Evidentemente, não poderia voltar a Brundísio. Muito contrariado, Cneu Cipião Nasica teve de voltar àquela cidade; durante toda a viagem, não se cansou de vociferar imprecações contra todos os Servílios Cepiões. Quanto a Crasso Orador, obrigado a defender um homem que detestava, de pouco lhe valeu o consolo de ter ganho o caso.

- É em momentos como este - disse ele a seu primo e bom companheiro Quinto Múcio Cévola - que lamento, oh, se lamento!, que nos tenha calhado a nós sermos cônsules neste hediondo ano!

Por esta altura, escreveu Públio Rutílio Rufo uma carta a Lúcio Cornélio Sila, que se encontrava ainda na Hispânia Citerior; sequioso de notícias, Sila mandara-lhe uma carta em que pedia uma espécie de diário dos acontecimentos romanos; Rutílio Rufo acedeu de bom grado a tal pedido.

Juro-te, Lúcio Cornélio, que dos meus amigos que se encontram fora, nenhum vale o esforço de uma linha que seja. Mas contigo, o caso é diferente. Adoro escrever-te, e prometo que te manterei bem informado acerca do que se vai passando por cá.

Comecemos pelas quaestiones especiais desencadeadas pela mais famosa lei dos últimos tempos, a lex Licinia Mucia. As investigações tornaram-se tão impopulares e perigosas para aqueles que as conduziam que, em fins deste Verão, todas as pessoas ligadas aos tribunais de inquérito ansiavam por encontrar um pretexto para abandonar as suas funções. Até que, por sorte, do céu caiu esse pretexto. Os Salassos, os Breunos e os Récios começaram a lançar ataques contra a Gália Italiana para lá do rio Pó, e provocaram alguns estragos na zona entre o lago Benaco e o vale dos Salassos - ou, por outras palavras, nas regiões média e ocidental da Gália Italiana-para-lá-do-Pó. Num abrir e fechar de olhos, o Senado declarou o estado de emergência e pôs termo às operações legais contra os cidadãos italianos ilegais. Todos os juizes especiais regressaram em massa a Roma, imensamente gratos pelas tréguas. E - talvez por retaliação - decidiram mandar para a Gália Italiana nada mais nada menos do que Crasso Orador, com a missão de submeter as tribos rebeldes ou, pelo menos, expulsá-las das regiões civilizadas. Crasso Orador realizou a contento a sua missão, numa campanha que durou menos de dois meses.

Há alguns dias, Crasso Orador voltou a Roma e ordenou ao seu exército que acampasse no Campo de Marte porque, segundo disse, as tropas tinham-no aclamado como imperator no campo de batalha, e por isso queria celebrar um triunfo. O primo Quinto Múcio Cévola, que ficara a governar Roma, recebeu a petição do general acampado e convocou imediatamente uma reunião do Senado para o templo de Belona. Mas não houve qualquer discussão sobre o triunfo que Orador almejava!

”Um disparate!”, começou Cévola sem rodeios. ”Um disparate perfeitamente ridículo! Fez uma campanha insignificante contra uns quantos milhares de selvagens desorganizados e agora quer um triunfo? Pois não o terá enquanto eu estiver sentado na cadeira de cônsul! Pois se dois generais do calibre de Caio Mário e Quinto Lutácio Catulo César tiveram de partilhar um triunfo, como poderemos atribuir um triunfo a um homem que não travou uma guerra, que não venceu uma única batalha digna desse nome? Não! Nem pensar! Chefe lictor, vai ter com Lúcio Licínio e diz-lhe que mande o exército de volta para os quartéis e que pegue na sua carcaça gorda e vá até ao pomerium, onde pelo menos pode ser que se torne útil!”

Ou me engano muito ou Cévola tinha caído da cama nessa manhã

- ou a mulher tinha-o posto fora dela com um valente pontapé. O que

 

Nota: Pomerium, espaço tido como sagrado dentro e fora dos muros de Roma e no qual não era lícito construir ou ter culturas. (N. do T.)

 

vem a dar ao mesmo, parece-me. Bom, a verdade é que Orador mandou as tropas embora e pegou na sua gorda carcaça e a toda a velocidade atravessou o pomerium, mas sem a mínima intenção de se tornar útil! Pelo contrário: não pensava noutra coisa senão em desancar, verbalmente, o primo Cévola. Mas Cévola não lhe deu tempo.

”Que disparate!”, atalhou Cévola sem mais. Sabes, Lúcio Cornélio, há momentos em que Cévola me faz lembrar, e de que maneira, o jovem Escauro Princeps Senatus! ”Apesar de toda a consideração e estima que sinto por ti, Lúcio Licínio”, acrescentou Cévola, ”não contes comigo para apadrinhar meios-triunfos”.

Tal foi a algazarra que os dois primos deixaram de se falar. O que tem tornado a vida no Senado particularmente difícil, já que são ambos cônsules. De qualquer modo, já conheci cônsules que se davam muito pior do que Crasso Orador e Cévola. Creio que com o tempo a zanga passará. Pessoalmente, acho profundamente lamentável que só agora tenham cortado relações! Porque é que não se zangaram antes de inventarem a lex Licinia Mucia?

Mas para além desta disparatada história, não encontro mais notícias de Roma para te contar. Incrível! O Fórum ultimamente tem andado muito apático...

No entanto, acho que devias saber que se fala muito bem de ti em Roma. Tito Dídio - um homem notável, sempre achei - refere-se a ti em termos muito elogiosos sempre que envia uma mensagem para o Senado.

Por isso, sugiro-te vivamente que penses na hipótese de regressares a Roma em fins do próximo ano, ou seja, a tempo de disputar as eleições pretorianas. Como Metelo Numídico Suíno morreu há já alguns anos, e Catulo César e Cepião Nasica e Escauro Princeps Senatus estão profundamente envolvidos na defesa da lex Licinia Mucia apesar de todos os conflitos que ela provocou, ninguém liga muito a Caio Mário, nem às pessoas ou aos factos relacionados com o passado dele. Os eleitores anseiam por homens competentes, que são raros nestes tempos. Lúcio Júlio César não teve a mínima dificuldade em ser eleito praetor urbanus este ano, e o meio-irmão de Aurélio, Lúcio Cota, foi eleito praetor peregrinus. Sinceramente, creio que o teu prestígio é muito maior que o desses dois homens. Por outro lado, não me parece que Tito Dídio se oponha ao teu regresso, pois já lhe deste mais tempo do que a maior parte dos lugares-tenentes costumam dar aos seus comandantes - faz quatro anos no Outono do próximo ano: é uma oferta generosa.

Pensa no assunto, Lúcio Cornélio. Falei com Caio Mário, e ele aplaude a ideia, tal como - acredites ou não - nada mais nada menos do que Marco Emílio Escauro Princeps Senatus! O nascimento do filho, que é a sua imagem viva, deu a volta à cabeça do rapaz. Bom, rapaz é uma maneira de dizer...

Sentado no seu gabinete em Tarragona, Sila digeriu lentamente a prosa animada do seu correspondente. A notícia de que Cecília Metela Dalmática tinha dado um filho a Escauro foi a que lhe chamou mais a atenção. Com um sorriso amargo nos lábios, só ao fim de algum tempo Sila deixou que se esbatesse a memória de Dalmática. Reflectiu então acerca da hipótese de disputar o cargo de pretor, e concluiu que Rutílio Rufo tinha razão. Sim, disse para si mesmo, terá de ser no próximo ano - será a melhor altura. Tinha a certeza de que Tito Dídio não se oporia à sua partida; e Tito Dídio dar-lhe-ia cartas de recomendação que aumentariam muito as suas possibilidades. Sim, é certo que não tinha conquistado nenhuma Coroa de Erva em Espanha; quisera a Fortuna que tal coroa fosse para Quinto Sertório. Mas, mesmo assim, as coisas não lhe tinham corrido nada mal, bem pelo contrário.

Teria sido um sonho? Uma seta algo malévola disparada pelo arco da Fortuna, através da falecida Julilla, que, com relva do Palatino, lhe fizera uma coroa e a pusera na sua cabeça, sem saber o significado militar desse acto. Ou teria Julilla adivinhado? Haveria uma Coroa de Erva ainda à sua espera? Em que guerra? Não havia por ora nenhum conflito sério, nem se previa que houvesse tão cedo. Sim, a Hispânia continuava quente, mas as tarefas de Sila não lhe permitiriam conquistar uma corona graminea. Sila era o adjunto de Tito Dídio para a logística, os abastecimentos, as armas, a estratégia, e, nessa qualidade, choviam os elogios à sua pessoa; mas Tito Dídio não o queria pôr à frente de exércitos. A grande oportunidade de Sila viria depois de ser eleito pretor. O seu sonho era substituir Tito Dídio na Hispânia Citerior. Um mandato bem pago e rendoso, era disso que ele precisava!

Sila precisava de dinheiro. Tinha plena consciência disso. Aos quarenta e cinco anos, sabia que dispunha de muito pouco tempo; em breve, seria já demasiado tarde para disputar um consulado. Pouco lhe interessava o que diziam de Caio Mário. Caio Mário era um caso especial. Não haveria outro caso igual. Para Sila, o dinheiro era o arauto do poder - e isso fora também verdade para Caio Mário. Se Caio Mário não tivesse ganho uma fortuna considerável, enquanto governador pretoriano da Hispânia Ulterior, o velho avô César nunca teria pensado nele para marido de Júlia - e se não tivesse casado com Júlia, nunca poderia ter chegado a cônsul. Dinheiro. Sila tinha de ter dinheiro! Por isso iria a Roma disputar o cargo de pretor e depois voltaria à Hispânia para ganhar dinheiro.

Públio Rutílio Rufo escreveu-lhe em Agosto do ano seguinte, após um longo silêncio:

Estive doente, Lúcio Cornélio, mas encontro-me já completamente recuperado. Os médicos chamaram à minha doença uma quantidade de nomes esquisitíssimos. Quanto a mim, a minha doença é o tédio. Mas doença e tédio já não me incomodam, pois as coisas em Roma agora prometem.

Para começar, deixa-me dizer-te que já se fala muito da tua candidatura a pretor. As reacções entre os eleitores são excelentes. Escauro continua a apoiar-te - o que é o mesmo que dizer que não te considera culpado naquele velho problema com a mulher (julgo eu). É mesmo um velho casmurro! Na altura, não teve a dignidade de admitir que tu não tinhas culpas no cartório, e acabou por te obrigar àquilo que continuo a considerar um exílio. Mas a Hispânia deu a volta às coisas! Se Caio Mário tivesse obtido junto do Suíno o apoio que tens recebido da parte de Tito Dídio, as coisas teriam sido muito mais fáceis e rápidas para ele.

Mas passemos às notícias internacionais. O velho Nicomedes da Bitínia morreu finalmente: ao que se julga, andava por volta dos noventa e três anos. O filho dele (e da rainha, que faleceu já lá vai um ror de anos) é agora o rei: só que já não é nenhum rapazito - tem sessenta e cinco anos. Porém, um filho mais novo - quer dizer, com cinquenta e sete anos -, de seu nome Sócrates (o nome do mais velho é Nicomedes, será o terceiro com esse nome), apresentou uma queixa no Senado Romano, pedindo que Nicomedes III seja deposto e substituído por ele, Sócrates. O Senado está a debater o caso num tom bombástico e cómico: é natural, pois atribuem muito pouca importância aos assuntos estrangeiros. Houve também alguma agitação na Capadócia, onde, ao que parece, os Capadócios depuseram o seu rei (um menino ainda), tendo-o substituído por um indivíduo a que chamam Ariárates VIII. Mas este Ariárates VIII acabou por morrer em circunstâncias misteriosas; o menino e o regente, Górdio, voltaram ao trono - para tal, contaram com o apoio de Mitridates do Ponto e do seu exército.

Quando regressou dessas regiões, Caio Mário fez um discurso no Senado, avisando-nos de que o rei Mitridates do Ponto era um jovem muito perigoso. Aqueles que se deram ao incómodo de aparecer passaram o tempo a dormitar enquanto Caio Mário falava. Além disso, Escauro Princeps Senatus comentou que Caio Mário estava a exagerar. Ao que parece, o jovem rei do Ponto tem andado a cortejar Escauro, com uma torrente de cartas educadíssimas, escritas num grego imaculado e cheiinhas de citações de Homero, Hesíodo, Esquilo, Sófocles e Eurípedes - isto para não falar de Menandro e Píndaro. Daí que Escauro tenha concluído que Mitridates era muito diferente de todos os outros dirigentes orientais - ou seja, Mitridates seria um apaixonado pelos Clássicos, e ninguém o estaria a ver a espetar um corno no tão necessário orifício traseiro da avó. Ao passo que Caio Mário jura que este Mitridates VI - de seu cognome Eupator: mas que raio de cognome! - deixou morrer a mãe à fome, matou o irmão que foi rei durante a regência da mãe, matou uma quantidade de tios e primos, e ainda por cima envenenou a irmã com quem tinha casado! Mas que bom homem! Tão dado aos Clássicos!

Politicamente, pode-se dizer que Roma é a indolência personificada. Nada acontece. Pelo segundo ano consecutivo, o Senado mandou os seus tribunais especiais investigar o registo ilegal dos italianos, e - tal como sucedeu o ano passado - concluiu que era impossível encontrar a maior parte dos infractores. No entanto, o Senado arrecadou várias centenas de vitórias, ou seja, várias centenas de infelizes vítimas pelas quais Roma um dia terá de responder. Garanto-te, Lúcio Cornélio: experimenta um dia dar uma volta por uma cidade italiana sem a companhia de uma dúzia de robustos guarda-costas, e vais ver o calafrio que sentes pela espinha abaixo! Nunca vi caras tão agressivas, e uma tão grande (creio que a palavra é pouco adequada) ausência de cooperação por parte dos Italianos. Há muito que eles tinham deixado de amar-nos, mas desde que estes tribunais foram aprovados e começaram a fazer o seu trabalho sujo, a açoitar e a extorquir, os Italianos aprenderam a odiar-nos. O único factor positivo é que o Tesouro começou já a protestar, porque as multas ainda não chegam para pagar os custos de deslocação de dez dispendiosas equipas de senadores. Caio Mário e eu tencionamos apresentar no final do ano uma moção propondo o fim das quaestiones e a revogação da lex Licinia Mucia, pois não servem para nada e custam demasiado caro ao Estado.

Um novíssimo rebento da casa plebeia dos Sulpícios, um tal Públio Sulpício Rufo, teve a coragem de processar Caio Norbano por traição, alegando que Caio Norbano cometera uma ilegalidade ao condenar Quinto Servílio Cepião (a que o aurum Tolosanum e Arausio deram fama) ao exílio. A acusação, segundo Sulpício, não podia ser debatida na Assembleia da Plebe; só no tribunal, porque era, dizia ele, um caso de traição. Este jovem Sulpício, devo acrescentar, é agora companhia habitual de Cepião, o que, de facto, revela muito mau gosto. Bom, seja como for, António Orador defendeu Norbano e creio, pessoalmente, que fez o mais belo discurso de toda a sua carreira. Com o resultado de que o júri votou claramente na absolvição e Norbano mandou Sulício e Cepião às urtigas. Junto uma cópia do discurso de António Orador para teu exclusivo deleite. Vais adorar.