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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


DECEPÇÃO FATAL / Elizabeth George
DECEPÇÃO FATAL / Elizabeth George

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

DECEPÇÃO FATAL

Primeira Parte

 

Para Ian Armstrong, a vida começara a correr mal, desde o momento em que fora despedido. Quando lhe ofereceram o emprego sabia que era apenas temporário. Era o que o anúncio a que respondera indicava e não lhe fora apresentado qualquer contracto. No entanto, tinham passado dois anos sem suspeitas de despedimento e Ian aprendera a ter esperança, o que talvez não tivesse sido boa ideia.

A penúltima mãe de acolhimento a tomar conta de Ian, receberia a notícia do seu despedimento mastigando uma bolachinha e afirmaria:

- Não se podem mudar as coisas, não é verdade, rapaz? É andar e aguentar.

Depois deitaria chá morno num copo, pois nunca usava chávenas, bebê-lo-ia e acabaria por acrescentar:

- O que é preciso é aproveitar o que há.

Depois voltaria a concentrar-se na leitura do último número da revista Hello!, admirando os elegantes que andavam na boa vida e possuíam andares de luxo em Londres, bem como propriedades no campo.

Seria o seu modo de dizer a Ian para aceitar o destino e lhe passar a mensagem pouco subtil de que a boa vida não era para ele. Mas Ian nunca tinha aspirado a tal. Só queria que o aceitassem e era isso que desejava com a paixão própria de uma criança que ninguém quisera adoptar.

Sonhava com uma coisa muito simples: uma mulher, uma família e a segurança de um futuro mais prometedor do que o seu triste passado.

Tinha pensado que estes objectivos eram possíveis. Era bom naquilo que fazia. Chegava cedo ao emprego; fazia horas extraordinárias sem exigir que lhas pagassem; aprendera os nomes dos colegas; até decorara os nomes dos seus cônjuges e filhos, coisa que não fora nada fácil. A recompensa de tudo isto fora uma festa de despedida, com sumos que nem sequer estavam frescos e a oferta de uma caixa de lenços de assoar comprada nos saldos.

Ian tentara antecipar-se e até impedir o inevitável. Falou-lhes dos serviços que tinha prestado, das horas que tinha feito, no sacrifício que fora não ter procurado outro emprego enquanto permanecera naquela posição precária.

Procurou um acordo, oferecendo-se para trabalhar com um vencimento inferior e, por fim, implorou que não o despedissem.

A humilhação de ter de se rebaixar diante do seu superior não teria a mínima importância se tivesse conseguido manter o emprego, pois isso significaria continuar a pagar o empréstimo da casa nova. Assim, ele e Anita poderiam voltar a tentar arranjar um irmãozinho para Mickey e então ela não teria de ir trabalhar. Principalmente não seria obrigado a ver o desprezo no olhar de Anita ao dizer-lhe que tinha voltado a perder o emprego.

- É a porcaria da recessão, querida - disse- lhe. - Nunca mais acaba. Os nossos pais tiveram a Segunda Guerra Mundial como prova de fogo, nós temos a recessão.

O olhar dela parecia dizer com ar de troça:

- Não me venhas com filosofias, Ian Armstrong. Tu nem sequer conheceste os teus pais.

Mas o que realmente dissera com amabilidade agoirenta e pouco apropriada fora:

- Bom, lá terei de voltar para a biblioteca. Não percebo muito bem porquê, porque tenho de pagar a alguém que olhe pelo miúdo enquanto estou a trabalhar. Ou será que vais tomar conta dele em vez de procurares outro emprego? - Os lábios abriam-se-lhe num sorriso pouco sincero.

- Ainda não pensei...

- É esse o teu problema, Ian. Tu nunca pensas. Nunca tens planos. Vamos dos problemas para as crises e das crises para a catástrofe total. Temos uma casa nova que não podemos pagar, um bebé para dar de comer e mesmo assim tu não pensas. Se tivesses feito planos, se tivesses garantido a tua posição, se há dezoito meses tivesses ameaçado despedir-te quando a fábrica precisava de ser reorganizada e tu eras a única pessoa das redondezas que o poderia fazer...

- Não era bem assim, Anita.

- Lá estás tu! Vês?

- O que foi agora?

- És demasiado humilde. Não te promoves. Se o tivesses feito, agora terias um contrato. Se tivesses feito os teus planos, terias nessa altura exigido um contrato, nessa altura, em que precisavam de ti.

Não valia a pena explicar fosse o que fosse a Anita quando ela estava irritada. E Ian afinal não a podia censurar. Durante os seis anos de casamento já tinha perdido três empregos. E ela tinha-o apoiado durante as duas primeiras vezes, pois viviam com os pais dela e não tinham os problemas económicos que agora os ameaçavam. Se ao menos as coisas fossem diferentes, pensava Ian. Se ao menos o seu emprego fosse seguro. Mas continuar a viver num mundo de ses não lhe oferecia solução para os problemas.

Por fim Anita voltou a trabalhar, um emprego patético e mal pago, na biblioteca da cidade, em que tinha de arrumar os livros e ajudar os reformados a encontrarem revistas. E Ian começou o humilhante processo de mais uma vez procurar emprego numa zona do país sofrendo há muito tempo com a depressão.

Todos os dias de manhã se vestia com todo o cuidado e saía de casa antes da mulher. A Norte fora até Ipswich e para Oeste até Colchester. Para Sul chegara a Clacton e aventurara-se até Southend-on- Sea. Esforçara-se o mais possível, mas nada conseguira. Todas as noites enfrentava Anita com o seu desprezo silencioso, mas cada vez maior. Aos fins-de-semana apetecia-lhe fugir.

Por isso, andava a pé aos sábados e domingos. Nas últimas semanas conseguira conhecer intimamente toda a península de Trending. Preferia o caminho a pouca distância da cidade, que, depois de voltar à direita a seguir a Brick Bam Farm, o levava ao atalho que atravessava o Wade. Aí estacionava o Morris e, na maré baixa, calçava as botas de borracha e patinhava o caminho lamacento até uma elevação chamada Horsey Island. Daí olhava a praia e procurava conchas. A natureza dava-lhe a paz que o resto da vida lhe negava. E nas manhãs de fins-de-semana ainda a apreciava mais.

Numa determinada manhã de sábado, a maré estava cheia, por isso Ian Armstrong preferiu passear no Nez. O Nez era um promontório impressionante, coberto de tojo, que se erguia cerca de cinquenta metros sobre o mar do Norte e o separava de uma área alagadiça chamada Saltings. Como todas as localidades ao longo da costa o Nez travava uma batalha contra o mar. Mas, ao contrário delas, não tinha uma linha de quebra mares para o resguardar, nem encostas de betão que servissem de escudo à combinação pouco feliz de barro, seixos e terra que faziam com que os rochedos se esboroassem na praia lá em baixo.

Ian decidira começar na ponta sudoeste do promontório, dando a volta pela ponta e descendo pelo lado oeste, onde as aves marinhas faziam o ninho e se alimentavam nas poças dos sapais. Com um aceno de despedida pouco convincente a Anita, que lho devolvera com ar desinteressado, saíra do bairro. Levara cinco minutos a chegar à estrada de Balford-le-Nez. Mais cinco minutos e estava na rua principal de Balford, onde o Dairy Den Diner servia os pequenos-almoços e o Kemp's Market arranjava os legumes para venda.

Deu a volta à terra e voltou à esquerda para o lado da praia. Já se tinha apercebido de que o dia ia ser também muito quente, e abriu a janela para respirar o revigorante ar do mar. Resolveu gozar a manhã e esquecer as dificuldades que enfrentava. Por um momento deu-se ao luxo de pensar que estava tudo bem.

Foi com este estado de espírito que Ian fez a curva e entrou em Nez Park Road. A casa do guarda, à entrada do promontório, estava vazia, sem ninguém para reclamar o pagamento do privilégio de dar um passeio no cimo das falésias. Assim, Ian entrou aos solavancos no terreno esburacado que levava ao parque de estacionamento sobranceiro ao mar.

Foi nessa altura que viu o Nissan de cinco portas abandonado na luz da manhã, a uns metros dos postes que marcavam os limites do parque de estacionamento. Ian dirigiu-se para lá evitando os buracos o melhor que podia. Com a atenção no caminho, nem pensou na presença do outro carro até que reparou que uma das portas estava aberta e que o capot e o tejadilho estavam ainda húmidos do orvalho, que ainda não se evaporara com a aproximação do calor.

Ian Franziu a testa. Tamborilou no volante do Morris e pensou na relação pouco simpática que havia entre o cimo de uma falésia e um carro abandonado com a porta aberta. Reparando na direcção que os seus pensamentos tomavam esteve quase a dar meia volta. Mas a curiosidade humana foi mais forte. Avançou e estacionou o Morris ao lado do Nissan.

Com ar alegre gritou pela janela aberta:

- Bom dia. Precisa de alguma coisa? - Isto porque podia estar alguém dormindo no assento de trás. Reparou que o porta-luvas estava aberto e o conteúdo espalhado no chão.

Daquilo que viu, Ian deduziu rapidamente que alguém andara à procura de alguma coisa. Saiu do Morris e inclinou-se para o Nissan de modo a ver o

que se passava.

A busca tinha sido completa. Os bancos da frente tinham sido rasgados e para além disso o banco traseiro tinha ainda sido puxado para a frente como se tivessem querido procurar alguma coisa escondida por detrás. As forras das portas tinham sido retiradas e depois postas no lugar; a consola entre os assentos tinha um buraco; o forro do tecto saía para fora.

Ian emendou imediatamente a sua dedução anterior. Droga, pensou. Os portos de Parkeston e Harwich ficavam relativamente perto deste local. Camiões, carros e contentores enormes chegavam ali todos os dias transportados pelos ferries. Vinham da Suécia, da Holanda e da Alemanha e o traficante esperto que conseguisse escapar à alfândega, teria o bom senso de se dirigir para uma localidade remota - como por exemplo o Nez - antes de recuperar a mercadoria. Ian concluiu que o carro tinha sido abandonado depois. Iria dar o passeio e depois telefonaria à polícia para que o viesse rebocar.

Sentia-se infantilmente satisfeito com as conclusões a que chegara. Divertido com a primeira reacção que tivera ao ver o carro, retirou as botas de borracha do porta-bagagens do Morris, enfiou os pés nelas e riu-se da ideia de uma alma desesperada a tentar acabar com os seus problemas exactamente neste local. Toda a gente sabia que a borda das falésias do Nez se esboroava facilmente. Um suicida em potência desejando atirar-se para o esquecimento neste lugar, arriscava-se a escorregar juntamente com terra resvaladiça, gravilha e areia, até lá em baixo à praia, quando o rochedo cedesse ao seu peso. Poderia realmente partir uma perna, mas acabar com a vida? Era difícil. Ninguém morria no Nez.

Ian fechou o porta-bagagens do Morris. Fechou a porta à chave e bateu no tejadilho do carro.

- Velho amigo! - Disse em tom afável. - Muito obrigado. O facto do motor continuar a pegar todas as manhãs era um milagre que a superstição natural de Ian o aconselhava a encorajar.

Apanhou cinco papéis que estavam no chão ao lado do Nissan e meteu-os no porta-luvas de onde eram sem dúvida provenientes. Fechou a porta traseira pensando que não havia necessidade de ser tão desmazelado. Depois dirigiu-se aos degraus de cimento íngremes que levavam à praia.

Ian parou no alto da escada. Mesmo a esta hora, o céu por cima dele era uma cúpula azul, brilhante e sem nuvens. O mar do Norte estava tranquilo, na calma do Verão. Um banco de nevoeiro enrolava-se como algodão no horizonte longínquo, servindo de cenário a um barco de pesca - talvez a meia milha da costa - que avançava na direcção de Clacton. Um bando de gaivotas rodeava-o como mosquitos à volta da fruta. Ian viu mais gaivotas à altura da falésia seguindo a linha da água. Voavam na sua direcção, vindas de Norte, do lado de Harwich, cujos guindastes avistava, mesmo àquela distância, do outro lado da baía de Pennyhole.

Ian comparou os pássaros a um comité de recepção, tão decididas pareciam a tomá-lo como alvo. Aproximavam-se realmente tão determinadas que deu por si a tecer considerações ao conto de Daphne du Maurier, ao filme de Hitchcock e ao tormento avícola de Tippi Hedren. Pensou em bater em retirada - ou pelo menos em tentar proteger a cabeça - quando, como se fossem uma só, as aves descreveram um arco e mergulharam na direcção de uma estrutura na praia. Era uma guarita, uma fortificação de cimento do tempo da Segunda Guerra Mundial, onde as tropas inglesas tinham montado guarda para defender o país da invasão Nazi. A estrutura fora erguida no cimo do Nez, mas como o tempo e o mar tinham causado a erosão da falésia, este encontrava-se agora lá em baixo na areia.

Ian viu que outras gaivotas faziam já o habitual sapateado no telhado da guarita. Por uma abertura hexagonal desse mesmo telhado, onde outrora estivera colocado o suporte de uma metralhadora, mais aves entravam e saiam da estrutura. Pareciam comunicar umas com as outras pelos sons que faziam e a mensagem parecia passar telepaticamente para as aves que estavam no mar pois estas abandonavam o barco de pesca e dirigiam-se a terra.

O voo que descreviam recordou a Ian uma cena a que assistira em criança numa praia perto de Dover. Um cão enorme fora atraído para o mar por um bando de pássaros semelhantes. Por brincadeira, o cão tentava apanhá-las da água mas elas começaram a voar em círculos cada vez mais longe até que o pobre animal já se tinha afastado cerca de trezentos metros no mar. Nem gritos nem imprecações trouxeram o cão de volta. E ninguém fora capaz de controlar os pássaros. Se não tivesse visto as gaivotas a manobrar o cão cada vez mais fraco descrevendo círculos por cima dele sempre fora do seu alcance, grasnando, aproximando-se para logo se afastarem - Ian nunca acharia razoável pensar que os pássaros eram criaturas com intenções assassinas. Mas desde aquele dia, acreditava. E mantinha-se sempre a uma respeitosa distância delas.

Porém, agora, lembrava-se do pobre do cão. Via-se que as gaivotas estavam a brincar com qualquer coisa, e o que quer que fosse estava dentro da velha guarita. Era preciso fazer alguma coisa.

Ian desceu as escadas. Dizia:

- Hei, olhem, olhem! - E agitava os braços, o que pouco fez para deter as gaivotas que se aglomeravam no telhado cheio de guano e batiam ameaçadoramente as asas. Mas Ian não estava disposto a afastar-se. As gaivotas de Dover tinham levado a melhor com o seu perseguidor canino, mas as de Balford não venceriam Ian Armstrong.

Caminhou naquela direcção. A guarita estava a uns vinte metros do fim das escadas e ele conseguiu ganhar alguma velocidade. Agitando os braços lançou-se sobre as aves com um grito e teve o prazer de ver os seus esforços intimidatórios dar frutos. As gaivotas levantaram voo, deixando Ian só junto à guarita e junto ao que quer que fosse que elas tinham acabado de examinar lá dentro.

A entrada era um pequeno buraco pouco mais de um metro acima da areia, à altura perfeita para que uma pequena lontra para lá se esgueirasse em busca de abrigo. E era exactamente uma lontra que Ian esperava encontrar quando se pôs de gatas para atravessar o pequeno túnel e se viu na escuridão do interior da guarita.

Pôs-se de pé com cuidado. A cabeça tocava- lhe no tecto húmido. Um cheiro persistente a algas e crustáceos mortos parecia erguer-se do chão e infiltrar-se nas paredes. Estas estavam embelezadas por desenhos que à primeira vista pareciam ser exclusivamente de natureza sexual.

A luz filtrava-se pelas vigias, permitindo que Ian se apercebesse de que a guarita - que até àquele momento ele nunca explorara, apesar das suas muitas visitas ao Nez - era afinal formada por duas estruturas concêntricas. Era como um donut e uma abertura na parede interna servia de acesso ao centro. Fora isto que atraíra as gaivotas e, não descobrindo nada importante no chão cheio de lixo, foi para esta abertura que Ian se dirigiu, chamando:

- Eh! Está aí alguém?! - Sem se lembrar que um animal, ferido ou não, dificilmente lhe poderia responder.

O ar estava abafado. Lá fora os gritos das aves erguiam-se e calavam-se. Ao chegar à abertura, Ian conseguia ouvir as asas a bater e as patas no telhado à medida que as gaivotas mais intrépidas voltavam a descer. Isto não podia ser, pensava Ian inflexível. Afinal ele era um humano, senhor do planeta e rei de tudo o que o rodeava. Era impensável que um bando de pássaros selvagens pudesse pensar que o dominava.

Disse:

- Xô! Desapareçam! Saiam daqui! Saiam! - E saiu para o ar livre no centro da guarita. Os pássaros partiram para o céu. O olhar de Ian seguiu-lhes o voo. - )É melhor assim! - Disse e arregaçou as mangas para hatar fosse do que fosse que as gaivotas andavam a atormentar.

Não era uma foca e as aves ainda não tinham acabado o que estavam a fazer. No momento em que o viu, sentiu o estômago revolver-se e o esfíncter estremecer.

Um jovem de cabelo fino estava sentado, encostado ao antigo suporte de cimento onde se colocava a metralhadora. O facto de estar morto era provado por duas gaivotas que lhe bicavam os olhos.

Ian Armstrong deu um passo na direcção do morto, sentindo o corpo gelar-se-lhe. Quando conseguiu voltar a respirar e acreditou no que via murmurou apenas três palavras:

- Louvado seja Deus.

 

QUEM AFIRMOU QUE ABRIL era o mês mais cruel, nunca esteve em Londres durante uma onda de calor. Com a poluição atmosférica a tingir o céu de uma elegante cor castanha, os camiões a gasóleo a envolver os edifícios - e o interior das fossas nasais - de negro profundo, e as folhas das árvores cobertas com a última moda em poeiras, Londres no fim de Junho era o mês mais cruel. Era, de facto, um verdadeiro inferno. Era esta a avaliação pouco sentimental feita por Barbara Havers da capital do seu país, enquanto conduzia o Mini barulhento a caminho de casa, naquela tarde de domingo.

Estava um pouco - mas no entanto agradavelmente - toldada. Não o suficiente para representar um perigo para si própria ou para outros, nas ruas, mas o suficiente para rever os acontecimentos do dia na agradável áurea produzida pelo champanhe francês, de boa qualidade.

Voltava de um casamento. Não fora o acontecimento social da década, conforme ela esperava que fosse o casamento de um conde com a sua antiga amada. Pelo contrário, tinha sido uma cerimónia discreta numa pequena igreja, junto da residência do dito conde, em Belgravia. E em vez de gente de sangue azul toda bem vestida, os convidados tinham sido apenas os amigos mais íntimos do conde, bem como alguns polícias, seus colegas na New Scotland Yard. Barbara Havers pertencia a este grupo. Por vezes gostava de pensar que também pertencia ao outro.

Reflectindo, Barbara percebeu que seria de esperar que o detective-inspector Thomas Linley e Lady Helen Clyde se casassem deste modo discreto. Desde que o conhecera que o via minimizar o seu papel de Lord Asherton, e a última coisa que ele desejaria, no que diz respeito a casamentos, era uma cerimónia ostensiva, cheia de nobres barulhentos, em grandes carros. Por isso, e pelo contrário, dezasseis convidados, pouco nobres e muito calmos, juntaram-se para assistir ao mergulho nupcial de Lynley e Helen, depois do que, lá se dirigiram ao La Tante Claire, em Chelsea, onde se aconchegaram com seis qualidades de hors d'uvres, champanhe, almoço e mais champanhe.

Depois das saúdes e do casal ter partido para lua-de-mel, destino que ambos se tinham entre risadas, recusado revelar, o grupo debandou. Barbara ficou no passeio tipo frigideira da Royal Hospital Road e trocou algumas palavras com os outros convidados, entre os quais o padrinho de Lynley, um especialista forense chamado Simon St. James. À melhor maneira inglesa começaram por comentar o tempo. Dependendo do nível de tolerância do convidado ao calor, humidade, poluição, fumos, poeira e luz, assim a atmosfera foi qualificada de maravilhosa, horrorosa, boa, uma porcaria, deliciosa, agradável, insuportável, óptima ou um verdadeiro inferno. A noiva foi considerada maravilhosa, o noivo muito elegante. A comida estava deliciosa. Depois disto houve uma pausa na qual o grupo se decidiu por dois tipos de acção: conversar sobre banalidades ou fazer as despedidas.

Dividiram-se. Barbara ficou com St. James e a mulher, Deborah. Ambos pareciam murchar sob o céu implacável, St. James limpando o suor da testa e Deborah abanando-se com todo o entusiasmo com um antigo programa de teatro que descobrira dentro do enorme saco de palhinha.

- Quer vir lá a casa, Barbara? - Perguntou ela. - Vamos sentar-nos no jardim durante o resto do dia e estou a pensar pedir ao meu pai que nos regue com a mangueira.

- Parece óptimo - disse Barbara. Esfregou o pescoço no sítio em que o suor lhe encharcava a gola.

- Então vamos.

- Não posso. Para vos dizer a verdade estou com dores.

- É normal. - disse St. james. - Há quanto tempo foi? Barbara acrescentou imediatamente:

- Que estupidez da minha parte. Desculpe Barbara, tinha-me esquecido completamente.

Barbara duvidava. Os adesivos no nariz e as nódoas negras na cara para não falar no dente da frente rachado - faziam com que fosse pouco provável que quem quer que a visse, não reparasse que tinha estado recentemente internada num hospital. Deborah era demasiado bem educada para se dar conta disto.

- Há duas semanas - respondeu Barbara, à pergunta de St. James.

- Como está o pulmão?

- Funciona.

- E as costelas?

- Só doem quando rio.

St. James sorriu.

- Está de licença?

- Sim, obrigatória. Não posso voltar sem autorização do médico.

- Lamento muito - disse St. James. - Foi mesmo azar.

- Pois. Ora... - Barbara encolheu os ombros. Chefiando pela primeira vez parte de uma investigação, fora ferida no cumprimento do dever. Não era coisa de que lhe apetecesse falar. Recebera um rude golpe no orgulho e no corpo.

- E o que vai fazer? - Perguntou St. James.

- Fuja do calor - aconselhou Deborah. - Vá para a Escócia. Ou para os Lagos. Ou para a praia. Quem me dera poder ir também.

Barbara reflectia sobre as sugestões de Deborah enquanto subia a Sloane Street. A última ordem do inspector Lyndley, no fecho da investigação, fora que tirasse umas férias e repetira essa ordem num momento em que se encontraram sós, depois do casamento.

- Estou a falar a sério, sargento Havers - dissera-lhe. - Tem direito a uma licença e eu quero que a goze. Estamos entendidos neste assunto?

- Estamos entendidos, inspector.

Mas aquilo em que não estavam entendidos era em relação ao que ela haveria de fazer com a licença forçada. Enfrentou a ideia de estar algum tempo afastada do trabalho, com o horror de uma mulher que mantinha a sua vida privada, a sua alma ferida e as suas emoções básicas em ordem, por não ter tempo para pensar nelas. Dantes, passava as férias da Yard a tratar do pai que estava doente. Depois da sua morte utilizara o tempo livre para enfrentar as enfermidades mentais da mãe, as obras e a venda da casa, e a mudança para os seus actuais aposentos. Não gostava de ter o tempo nas mãos. Só de pensar nos minutos que se dissolveriam em horas, estendendo-se a dias e depois a uma semana ou talvez duas... Só de pensar nisso sentia as palmas das mãos suadas. Doíam-lhe os cotovelos. Todas as fibras do seu corpo baixo e forte tinham começado a gritar Ataque de ansiedade.

Por isso, enquanto circulava no meio do trânsito e pestanejava para não deixar entrar para um olho uma partícula de fuligem que entrara pela janela, sentia-se uma mulher à beira do abismo profundo e eterno. Estava assinalado pelas palavras tempo livre. O que iria fazer? Onde iria? Como haveria de preencher aquelas horas infindáveis? Lendo romances de amor? Lavando as únicas três janelas que possuía? Aprendendo a engomar, a fazer bolos, a coser? E se se derretesse com o calor? Aquele calor maldito, aquele calor horroroso, ardente, impertinente, chato...

Tem juízo, disse Barbara para consigo. São férias, a que estás condenada, não à solitária.

No cimo de Sloane Street, aguardou pacientemente para virar na direcção de Knightsbridge. Ouvira os noticiários, dia após dia, durante o tempo que estivera no hospital, por isso sabia que este tempo excepcional trouxera a Londres um influxo de turistas ainda maior do que o habitual. E agora via-os. Eram multidões às compras, armados de garrafas de água mineral, abrindo caminho nos passeios. Mais multidões saiam da estação de metro de Knightsbridge, em fila, em direcção às lojas elegantes. E cinco minutos depois, quando Barbara conseguiu finalmente meter-se na direcção de Park Lane, viu ainda mais - juntamente com os seus conterrâneos - desnudando os seus corpos de lírio a Apolo, na relva sequiosa do Hyde Park. Sob o Sol abrasador, autocarros de dois andares abertos em cima rolavam, cheios de passageiros escutando com toda a atenção os guias turísticos, que falavam ao microfone. E os autocarros de turismo despejavam alemães, coreanos, japoneses e americanos em todos os hotéis das redondezas.

Respiramos todos o mesmo ar, pensava ela. O mesmo ar tórrido, insalubre, estragado. Talvez afinal precisasse de umas férias.

Evitou o engarrafamento louco de Oxford Street, dirigindo-se para noroeste pela Edgware Road. A multidão de turistas diminuíra aqui e fora substituída por uma multidão de imigrantes: mulheres escuras de saris, shádors e hijabs; homens escuros com todo o tipo de roupa, desde calças de ganga a roupões. Enquanto seguia a onda do trânsito, Barbara observava estes ex-estrangeiros que, atarefados, entravam e saiam das lojas. Reflectiu sobre as mudanças que observara em Londres no decorrer dos seus trinta e três anos. Concluiu que a comida melhorara indiscutivelmente. Mas, como membro de uma força policial, sabia que esta sociedade poliglota tinha engendrado um sem-número de problemas igualmente poliglotas.

Deu a volta para evitar o esmagamento da multidão que se costumava juntar à volta de Camden Lock. Mais dez minutos e percorreria então as Eton Villas, onde teria de rezar ao santo protector dos transportes para encontrar um lugar de estacionamento que ficasse perto dos seus aposentos privados.

O santo ofereceu-lhe o milagre: um lugar à esquina, a uma distância de cinquenta metros. Com umas criativas manobras estilo calçadeira, Barbara tentou espremer o Mini até conseguir enfiá-lo num espaço que mais se adequava a uma motocicleta. Percorreu o caminho de volta e abriu o portão do edifício eduardino, atrás do qual ficava a sua casinha.

No longo caminho através da cidade, a agradável aura de champanhe metamorfoseara-se num dos mais desagradáveis efeitos do álcool: uma sede de morte. Pôs os olhos no atalho que levava desde o lado do edifício até ao jardim das traseiras. No fundo, a sua casinha tinha um ar fresco e convidativo, à sombra de uma falsa acácia.

Como sempre, as aparências iludem. Quando Barbara abriu a porta de casa e entrou, o calor envolveu-a. As três janelas estavam abertas, na esperança de provocar correntes de ar, mas não corria a mais leve brisa e, assim, o ar pesado entrou-lhe nos pulmões como o ataque inesperado de uma praga.

- Que raio de inferno - resmungou Barbara. Atirou com a mala para a mesa e foi ao frigorífico. Um frasco de litro parecia um arranha-céus entre as companheiras: embalagens com restos de comida rápida ou congelada. Barbara agarrou na garrafa e levou-a para o lava-loiça. Pô-la à boca e emborcou cinco goles, depois inclinou-se e despejou metade do que tinha sobrado pelo pescoço e no cabelo eriçado. A corrente súbita de água gelada na pele fez com que sentisse os olhos a latejar. Era um perfeito paraíso.

- Maravilha - disse Barbara. - Descobri Deus.

- Está a tomar banho? - perguntou a voz de uma criança por trás de si. - Quer que volte mais tarde?

Barbara voltou-se para a porta. Tinha-a deixado aberta, mas nunca pensara que este facto pudesse ser interpretado como um convite às visitas. De facto nem vira ainda nenhum dos seus vizinhos depois que tivera alta do hospital de Wiltshire, onde passara mais de úma semana. Para evitar um potencial encontro fortuito, limitara as suas idas e vindas aos períodos em que sabia que os moradores do edifício maior estavam fora.

Mas ali estava um deles, e quando a criança se aventurou a uma aproximação, os olhos castanhos ficaram maiores e mais redondos.

- O que lhe aconteceu à cara, Barbara? Teve um acidente de carro? Tem um aspecto horroroso.

- Obrigado, Hadiyyah.

- Dói-lhe? O que aconteceu? Estive tão preocupada. Até telefonei duas vezes. Foi hoje. Veja. O atendedor de chamadas está a piscar. Quer que o ligue? Eu sei como é. Lembra-se que me ensinou?

Hadiyyah saltitou alegremente pela sala e atirou-se para o divã de Barbara. O atendedor de chamadas estava na prateleira perto da pequena lareira e, com toda a confiança, carregou num dos botões, sorrindo quando ouviu a própria voz.

- Está? - dizia a mensagem. - Fala Khalidah Hadiyyah, a sua vizinha da casa da frente. Do rés-do-chão.

- O pai diz que me devo identificar quando telefono a alguém - confidenciou Hadiyyah. - Diz que é boa educação.

- É um bom hábito - concordou Barbara. - Evita a confusão no outro lado da linha.

Agarrou um pano da loiça que estava pendurado num cabide e limpou o cabelo e o pescoço.

- Está um calor horrível, não é verdade - continuava a mensagem. Onde está? Estou a telefonar para lhe perguntar se não quer ir comer um gelado. Juntei dinheiro e chega para dois e o meu pai disse-me que eu podia convidar uma pessoa que me agradasse, por isso convido-a a si. Telefone-me depressa. Mas não tenha medo. Eu não convido ninguém no seu lugar. Adeus.

E um instante depois a seguir ao sinal e à hora, outra mensagem pela mesma voz.

- Está? Daqui fala Khalidah Hadiyyah, a sua vizinha da casa da frente, no rés-do-chão. Ainda quero ir comer um gelado. Também quer? Telefone-me por favor. Isto é, se puder. Eu pago. Posso pagar porque juntei dinheiro.

- Sabia quem era? - Perguntou Hadiyyah. - Disse o suficiente para saber quem eu era? Não tinha a certeza do que devia dizer, mas achei que chegava.

- Foi perfeito - disse Barbara. - Gostei principalmente daquela informação do rés-do-chão. É bom saber onde posso encontrar a tua carteira se me apetecer comprar uns cigarrinhos.

Hadiyyah riu-se.

- Não me fazia isso, Barbara Havers!

- Nunca fiando, miúda - disse Barbara. Dirigiu-se à mesa e meteu a mão na carteira à procura de um maço de Players. Acendeu um cigarro, inalou o fumo, franzindo a cara ao sentir a dor no pulmão.

- Isso faz-lhe mal - avisou Hadiyyah.

- Já me disseste. - Barbara colocou o cigarro na borda de um cinzeiro, onde outros oito da mesma irmandade já tinham sido apagados. - Tenho de tirar esta farpela, Hadiyyah, se não te importas. Estou abrasada.

Hadiyyah não pareceu perceber. Abanou a cabeça dizendo:

- Deve estar cheia de calor. Tem a cara muito vermelha. - E agitou-se no divã para ficar mais confortável.

- Bem, isto é tudo mulheres, não é verdade?

Barbara suspirou e dirigiu-se ao armário, em frente do qual tirou o vestido pela cabeça, mostrando o peito ligado.

- Teve um acidente? - Perguntou Hadiyyah.

- Mais ou menos. Sim.

- Partiu alguma coisa? É por isso que tem as ligaduras?

- Parti o nariz. E três costelas.

- Deve ter-lhe doído muito. Ainda lhe dói? Quer que a ajude a mudar de roupa?

- Obrigado. Cá me arranjo.

Com um pontapé, Barbara atirou os sapatos decotados para dentro do armário e tirou os collants. Enrolado debaixo de um impermeável preto,

de plástico, estavam um par de calças largas lilases e um colete com atilhos. Perfeito, pensou. Vestiu-as e completou a toilete com uma t-shirt cor-de-rosa amarrotada. Bem Feito, diziam as palavras impressas na parte da frente. Assim vestida, voltou-se para a menina que, cheia de curiosidade, folheava um romance barato que encontrara na mesa ao lado do divã. Na noite anterior, Barbara chegara à parte em que o selvagem lascivo que dava o nome ao romance, perdera a calma ao ver as nádegas jovens e firmes da heroína que, convenientemente despida, entrava no rio para tomar banho. Barbara pensou que Khalidah Hadiyyah não Hnha necessidade de saber o que se passara a seguir. Atravessou a sala e tirou-lhe o livro das mãos.

- O que é um membro erecto? - Perguntou Hadiyyah, franzindo a testa.

- Pergunta ao teu pai - disse Barbara. - Não, pensando melhor, não perguntes. - Não conseguia imaginar o pai de Hadiyyah, tão solene, a responder à pergunta com a mesma serenidade que ela conseguiria demonstrar.

- É o tocador oficial de tambor de uma sociedade secreta - explicou Barbara.

- Toca tambor erecto. Os outros membros cantam sentados. Hadiyyah abanou a cabeça pensativa.

- Mas aí diz que ela tocou no...

- E que tal o gelado? - Perguntou Barbara alegremente. - Posso aceitar já o convite? Apetecia-me um de morango. E tu?

- Foi por isso que cá vim. - Hadiyyah desceu do divã e, muito séria, pôs as mãos atrás das costas. - Tenho de retirar o convite - disse ela, e apressou-se a acrescentar: - Mas não o vou retirar para sempre. É só por agora.

- Oh - Barbara perguntou a si mesma porque sentiria a sua disposição a piorar com as novidades. Ficar desapontada não fazia sentido, pois ir comer um gelado com uma miúda de oito anos não era um acontecimento a destacar no seu calendário social.

- Eu e o meu pai vamos sair, sabe. É só durante uns dias. Vamo-nos já embora. Mas como eu lhe telefonei e a convidei para comer o gelado, pensei que lhe devia dizer que só podíamos ir depois. Só para que não me telefonasse. Foi por isso que cá vim.

- Ah, claro.

Barbara retirou o cigarro do cinzeiro e sentou-se numa das duas cadeiras que estavam à roda da mesa. Não abrira ainda o correio do dia anterior. Tinha-o simplesmente colocado sobre um Daily Mail antigo, mas agora via que no cimo da pilha de envelopes havia um que dizia Procura o Amor? Não o procuramos todos", pensou, sardónica e enfiou o cigarro na boca.

- Está tudo bem, não é verdade? - Perguntou Hadiyyah ansiosa. O meu pai disse que podia vir contar-lhe. Não queria que pensasse que a tinha convidado para ir a um sítio e que depois não aparecia para lhe dizer mais nada. Seria uma maldade, não acha?

Uma pequena ruga apareceu entre as sobrancelhas escuras de Hadiyyah. Barbara observou que o peso de uma preocupação se instalava nos seus pequenos ombros e pensou na maneira como a vida forma as pessoas para serem o que são. Uma miúda de oito anos, ainda de tranças, não deveria preocupar-se tanto com os outros.

- Está mais do que bem - disse Barbara, - mas não tenciono esquecer-me do convite. Quando se trata de gelado de morango não admito que os amigos me abandonem.

O rosto de Hadiyyah alegrou-se. Deu um saltinho.

- Vamos quando eu e o meu pai voltarmos, Barbara. Vamos uns dias para fora. Só uns dias. O pai e eu. Juntos. Já disse isto?

- Já.

- Não sabia quando lhe telefonei, sabe? O que aconteceu foi que o pai recebeu um telefonema e disse O quê? O quê? Quando foi isso?" E logo a seguir disse que íamos para a praia. Imagine Barbara. - Pôs as mãozinhas no peito. - Nunca estive na praia. Já esteve, Barbara?

A praia, pensou Barbara. Claro que sim. Casas de madeira bolorentas e loção bronzeadora. O fato-de-banho molhado que lhe fazia comichão por baixo. Passara todos os Verões da sua infância na praia, tentando bronzear-se, para conseguir apenas um misto de pele a cair e sardas.

- Ultimamente não - disse Barbara.

Hadiyyah saltitava à sua volta.

- Porque não vem? Comigo e com o Pai? Porque é que não vem? Ia ser tão divertido!

- Acho que não...

- Ia, ia. Podíamos fazer castelos de areia e nadar no mar. Podíamos jogar à apanhada. Podíamos correr na praia. Se levássemos um papagaio, até podíamos...

- Hadiyyah, já disseste o que vieste dizer?

Hadiyyah sossegou imediatamente e voltou-se para a voz que vinha da porta. O pai estava ali, olhando-a com ar grave.

- Disseste que levavas apenas um minuto - observou ele. - E há uma altura em que uma visita breve a um amigo se torna uma invasão para a sua hospitalidade.

- Ela não incomoda - disse Barbara.

Taymullah Azhar pareceu observá-la - e não apenas reparar na sua presença - pela primeira vez. Um ligeiro movimento de ombros foi a única indicação de que estava surpreendido.

- O que lhe aconteceu, Barbara? - Perguntou calmamente. - Teve um acidente?

- Barbara partiu o nariz - informou Hadiyyah, dirigindo-se para junto do pai, que a rodeou com o braço e lhe colocou a mão no ombro. - E três costelas. Está cheia de ligaduras, pai. Disse-lhe que podia vir connosco para a praia. Era bom para ela, não achas?

O rosto de Azhar fechou-se imediatamente ao ouvir tal sugestão. Barbara disse rapidamente.

- Obrigado pelo convite, Hadiyyah. Mas os meus dias de praia acabaram. - E para o pai da menina. - Uma viagem repentina?

- Ele recebeu um telefonema - começou Hadiyyah.

Azhar interrompeu-a.

- Hadiyyah, já te despediste da tua amiga?

- Disse-lhe que não sabia que íamos até tu teres chegado e teres dito... Barbara viu a mão de Azhar crispada no ombro da filha.

- Deixaste a mala aberta em cima da cama - disse-lhe. - Vai já pô-la

no carro.

Hadiyyah baixou a cabeça obediente. Enquanto se esgueirava pela porta disse:

- Adeus Barbara

O pai acenou com a cabeça a Barbara e ia atrás da filha.

- Azhar - disse Barbara. E quando ele se deteve e voltou atrás: Quer um cigarro, antes de se ir embora? Estendeu-lhe o maço e olhou-o nos olhos. - Um para o caminho?

Viu-o pesar os prós e os contras de ficar mais três minutos. Ela não o teria demorado se não fosse o ele ter-lhe parecido tão ansioso de manter a filha calada a respeito da viagem. De repente Barbara sentiu a curiosidade espicaçada e procurou encontrar um modo de a satisfazer.

Como ele não respondesse, pensou que seria necessário picá-lo. Disse:

- Tem tido notícias do Canadá?

Fora uma forma de coação e arrependeu-se no momento em que o disse. A mãe de Hadiyyah estava de férias no Ontário desde que Barbara, havia dois meses, travara conhecimento com a criança e com o pai. Todos os dias Hadiyyah procurava no correio cartas ou postais e um presente de anos, que nunca chegou.

- Desculpe - disse Barbara. - Foi chato da minha parte. O rosto de Azhar, manteve-se como sempre: o rosto do homem mais imperscrutável que Barbara alguma vez conhecera. E não tinha qualquer problema em deixar que o silêncio pairasse entre eles. Barbara suportou-o o mais que pôde antes de dizer:

- Azhar, já pedi desculpa. Fui longe demais. Estou sempre a fazer isto. Sou especialista. Olhe. Fume um cigarro. A praia não foge se sair daqui cinco minutos depois do que tinha previsto.

Azhar cedeu, mas devagar. Estava desconfiado quando agarrou no maço que ela lhe oferecia e retirou um cigarro. Enquanto o acendia, Barbara usou o pé descalço para desviar a outra cadeira da mesa. Ele não se sentou.

- Problemas? - Perguntou ela.

- Porque pensa que sejam?

- Um telefonema, uma súbita mudança de planos. Na minha profissão, isso significa sempre uma coisa: Quaisquer que sejam as notícias, não são boas.

- Na sua profissão - sugeriu Azhar.

- E na sua?

Ele levou o cigarro à boca e respondeu por trás dele.

- Um pequeno assunto de família.

- Família? - Ele nunca tinha falado da família. Não que alguma vez lhe tivesse dito alguma coisa de pessoal. Era a criatura mais cautelosa que Barbara conhecera fora do meio criminal. - Não sabia que tinha família neste país, Azhar.

- Tenho uma família numerosa neste país - disse ele.

- Mas nos anos de Hadiyyah, ninguém...

- Hadiyyah e eu não nos damos com a família.

- Ah, percebo. - Só que não percebia. Ia a correr para a praia por causa de um pequeno assunto de família, que dizia respeito a uma família numerosa com quem não se dava? - Bem, quanto tempo pensa estar fora? Quer que faça alguma coisa? Regar as plantas, apanhar o correio?

Ele pareceu considerar a oferta, demasiado tempo para a despreocupação com que tinha sido feita. Por fim disse:

- Não, acho que não. Houve apenas um pequeno problema entre os meus parentes. Um primo telefonou-me para me falar das suas preocupações e eu vou lá oferecer-lhe o meu apoio e a minha experiência nestes assuntos. É uma questão de poucos dias. Ah... - sorriu. Tinha, quando o mostrava, um sorriso muito atraente, com dentes perfeitos brilhando em contraste com a pele morena. - Atrevo-me a dizer que as plantas e o correio podem esperar.

- Para que zona vai?

- Leste.

- Essex? - E, quando ele acenou afirmativamente, ela continuou. Que sorte poder escapar a este calor. Estou quase disposta a ir atrás e passar

a próxima semana com o meu rabo firmemente plantado dentro do mar do Norte.

A única reacção dele foi:

- Receio bem que nesta viagem, eu e Hadiyyah não consigamos estar muito tempo ao pé do mar.

- Não é isso que ela está a pensar. Vai ficar desiludida.

- Ela tem de aprender a viver com a desilusão, Barbara.

- Acha? Parece jovem demais para ter já de contactar com as lições amargas desta vida, não?

Azhar aventurou-se até mais perto da mesa e colocou o cigarro no cinzeiro. Vestia uma camisa de algodão de mangas curtas e inclinou- se, passando por ela. Barbara recebeu o cheiro a limpo da roupa dele e reparou nos pelos finos do braço. Tal como a filha, Azhar tinha uma delicada estrutura óssea, mas era mais escuro.

- Infelizmente, não podemos ditar a idade em que vamos aprender aquilo que a vida nos vai negar.

- Então, foi isso que a vida lhe fez?

- Obrigado pelo cigarro - disse ele.

Saiu antes de ela poder tentar fosse o que fosse. E quando ele se foi, Barbara perguntou a si própria porque diabo sentia necessidade de tentar mais alguma coisa. Disse a si própria que era para o bem de Hadiyyah. Alguém tinha de agir de acordo com os interesses da criança. Mas a verdade é que a contenção impermeável de Azhar espicaçava a sua necessidade de saber. Que diabo, afinal quem era aquele homem? Porque era tão solene? E como conseguia manter o mundo à distância?

Suspirou. Certamente as respostas não lhe surgiriam, mantendo-se tão descontraída a preguiçar, sentada à mesa com o cigarro na boca. Esquece, pensou. Estava calor demais para pensar fosse no que fosse, muito menos para chegar a respostas racionais sobre o comportamento dos outros seres humanos. Que se lixem os outros, pensou. Com este calor, que se lixe todo este mundo abrasado. Estendeu a mão para o monte de envelopes que estava sobre a mesa.

Procura o Amor? Olhava-a de soslaio. A pergunta estava escrita sobre um coração. Barbara vez deslizar o indicador sob a tira do envelope e retirou dele uma página com um questionário. Cansada de namorar a pessoa errada? Perguntava no cimo. Deseja descobrir que é maisfácil encontrar a Pessoa Certa com a ajuda de computador do que com a ajuda da sorte? E depois seguiam-se as perguntas: a idade, os interesses, a profissão, o salário e o nível de escolaridade. Barbara pensou em preencher o impresso para se distrair, mas depois de avaliar os seus interesses e descobrir que praticamente não tinha nenhum que valesse a pena mencionar - quem quereria ser unido por computador a uma mulher que lia O Selvagem Lascivo, antes de adormecer? - Fez uma bola do questionário e atirou-o na direcção do caixote do lixo, na sua cozinha em miniatura. Passou então ao resto do correio: a conta do telefone para pagar, um anúncio de um seguro de saúde privado e a oferta de uma semana para dois, num cruzeiro de luxo a bordo de um navio descrito como o paraíso flutuante de bem-estar e sensualidade.

O cruzeiro fazia-lhe jeito, pensou. Fazia-lhe jeito a semana de bem estar, com ou sem a respectiva sensualidade. Mas uma olhadela às fotografias do folheto revelaram-lhe coisinhas jovens, magras e bronzeadas, empoleiradas nos bancos do bar ou estendidas à beira da piscina, de unhas pintadas e lábios brilhantes, acompanhadas por homens de peitos hirsutos. Barbara imaginou-se a flutuar entre eles deleitada. Estremeceu só com a ideia. Havia anos que não vestia um fato- de-banho, acreditando que algumas coisas devem ser cobertas por drapejados, vestes largas e pela imaginação.

O folheto era do mesmo género do questionário anterior. Barbara apagou o cigarro com um suspiro e olhou à sua volta à procura de algo mais que fazer. Não havia nada. Arrastou-se até ao divã, procurou o comando da televisão e decidiu oferecer a si própria uma tarde de surf entre canais.

Carregou no primeiro botão. Ali estava a princesa Ana, ligeiramente menos equina do que o habitual, visitando um hospital para crianças deficientes, nas Caraíbas. Aborrecido. Aqui havia um documentário sobre Nelson Mandela. Outra seca. Ganhou velocidade e passou por entre um filme de Orson Welles, um desenho animado do Príncipe Valente, dois programas com entrevistas e um torneio de golfe.

E depois a atenção prendeu-se-lhe ao ver um pelotão de agentes da polícia enfrentando uma multidão de manifestantes de pele escura. Pensou que teria de escolher entre Tennison ou Morse, quando uma lista vermelha com a palavra DIRECTO apareceu no fundo do ecrã. Percebeu que era uma notícia de última hora e sentiu curiosidade.

Disse a si própria que era o mesmo que um arcebispo interessar-se sobre uma notícia da Catedral de Cantuária. Afinal ela era da polícia. No entanto sentiu um peso na consciência - devia estar de férias, não devia?

- enquanto via o desenrolar da história.

Foi quando viu a palavra ESSEx no ecrã. Foi quando percebeu que os rostos escuros por debaixo dos cartazes de protesto eram asiáticos. Foi quando aumentou o som da televisão.

-... corpo foi encontrado ontem de manhã aparentemente numa guarita existente na praia - dizia a jovem repórter. Parecia estar pouco à vontade porque, enquanto falava, arranjava uma madeixa do cabelo louro cuidadosamente penteado e deitava olhares apreensivos ao magote de gente por trás de si, como se tivesse medo que tentassem voltar a penteá-la sem a sua permissão. Pôs a mão no ouvido para evitar o barulho.

- Já! Já! - Gritavam os manifestantes. Os cartazes, escritos com letra

grosseira, pediam JUSTIÇA, JÁ! e ACÇÃO! E também A VERDADE!

- O que começou como sendo uma sessão de Câmara extraordinária para alegadamente se discutirem problemas de ordenamento - recitava a louraça para o microfone - desintegrou-se naquilo que podem ver atrás de mim. Consegui um contacto com o líder dos manifestantes e... - a louraça foi empurrada para o lado por um polícia corpulento. A imagem oscilou perigosamente quando aparentemente o câmara se desequilibrou.

Vozes raivosas gritavam. Viu-se uma garrafa no ar. Depois uma pedra da calçada. O pelotão dos agentes levantou os escudos transparentes.

- Grande merda - murmurou Barbara. Que estaria a acontecer? A repórter loura e o câmara recuperaram o equilíbrio. A louraça puxou um homem para ficar no enquadramento da câmara. Era um asiático musculoso, de vinte e tal anos, cabelo comprido a fugir-lhe do rabo-de-cavalo e uma manga já arrancada da camisa. Gritava voltado para trás:

- Deixem-no, raios! Antes de se voltar para a repórter.

Esta disse:

- Temos aqui Muhannah Malik que...

- Não tencionamos pactuar com evasivas, distorções e mentiras descaradas - interrompeu o homem, falando para o microfone. - Chegou a altura da nossa gente exigir um tratamento igual da parte da Justiça. Temos força e temos meios. - Afastou-se do microfone e usou um megafone para gritar para a multidão. - Temos força! Temos meios!

Gritaram. Avançaram. A câmara oscilou perigosamente e a imagem piscou. A repórter disse:

- Peter, temos de ir para terreno mais seguro - e a imagem mudou para o noticiário transmitido do estúdio.

Barbara reconheceu o locutor de rosto sério, sentado à secretária. Peter Qualquer Coisa. Detestava-o. Sempre detestara os homens que usavam laca.

- Recapitulando a situação no Essex - disse. E foi o que fez enquanto Barbara acendia outro cigarro.

O corpo de um homem, explicou Peter, fora descoberto numa guarita na praia de Balford-le-Nez, por alguém que ali passeava de manhã cedo. Até àquele momento, a vítima fora identificada como um tal Haytham Querashi, recentemente chegado de Carashi, no Paquistão, para casar com a filha de um rico industrial da terra. A comunidade paquistanesa local, pequena mas a aumentar, considerava aquela morte um crime motivado pelo racismo por isso equivalente a um assassínio - mas a polícia ainda não declarara o tipo de investigações que estava a fazer.

Paquistaneses, pensou Barbara. Paquistaneses. Mais uma vez ouviu Azhar dizer ... um pequeno desentendimento entre os meus parentes. Sim. Claro. Entre os seus parentes paquistaneses. Grande merda.

Voltou à televisão, onde Peter continuava a sussurrar, mas não o ouviu. Ouviu sim, a confusão dos seus próprios pensamentos.

Estes diziam-lhe que uma comunidade paquistanesa substancial era uma anomalia tão grande em Inglaterra, que haver duas na costa do Essex seria uma coincidência impossível. Com as palavras do próprio Azhar a dizerem-lhe que fora para o Essex, com a partida deste antes das notícias sobre aquilo que parecia claramente ir tornar-se num motim, com Azhar a ir tratar de um pequeno desentendimento" na sua família... Havia um limite para a tolerância de Barbara às coincidências. Taymullah Azhar ia a caminho de Balford-le- Nez.

Ele estava a contar, conforme dissera, oferecer os seus conhecimentos naqueles assuntos. Mas que conhecimentos? Atirar tijolos? Organizar motins? Ou quereria meter-se na investigação da polícia de lá? Pensaria ter acesso ao laboratório forense? Ou pior ainda, tencionaria envolver-se naquela espécie de activismo comunitário a que ela acabara de assistir na televisão e que, invariavelmente, levava à violência, à prisão e a uns tempos na cadeia?

- Diabo - murmurou Barbara. - Mas que raio estará aquele homem a pensar. E que quereria ele fazer para levar com ele de viajem aquela criança de oito anos tão amorosa?

Barbara olhou pela porta na direcção que Hadiyyah e o pai tinham seguido. Pensou no sorriso alegre de Hadiyyah e nas tranças que se agitavam como se tivessem vida própria, quando ela saltava. Finalmente apagou o cigarro em cima dos outros.

Foi ao guarda-fato e tirou a mochila da prateleira.

 

RACHEL WINFIELD DECIDIU FECHAR a loja dez minutos mais cedo e não sentiu qualquer peso na consciência. A mãe saíra às três e meia - era o dia da sua sessão semanal no cabeleireiro unisexo Sea and Sun - deixando ordens severas sobre aquilo que constituía o dever da filha atrás do balcão; mas, nos trinta minutos seguintes não apareceu qualquer cliente, nem sequer alguém apenas para ver o que havia ali.

Rachel tinha coisas mais importantes que fazer para ficar a olhar para o movimento do segundo ponteiro do relógio, enquanto circumnavegava o mostrador. Por isso, depois de verificar cuidadosamente se as caixas do mostruário estavam tapadas, fechou a porta da frente à chave. Mudou o sinal de

ABERTO para FECHADO e foi ao armazém, de onde tirou de um esconderijo por

detrás dos baldes do lixo uma caixa muito bem embrulhada que conseguira ocultar aos olhos da mãe. Metendo-a debaixo do braço, dirigiu-se ao local onde tinha a bicicleta. Colocou amorosamente a caixa no cesto. Em seguida levou a bicicleta até à frente da loja e voltou a verificar a porta.

Ia haver um sarilho dos diabos se fosse apanhada a sair mais cedo. E seria o inferno total se, para além de sair mais cedo, não fechasse a loja como devia ser. A fechadura era velha e por vezes emperrava. O bom senso dizia-lhe que precisava de ter a certeza que não conseguiam entrar lá dentro. Óptimo, pensou Rachel quando a porta não se moveu. Estava safa.

Embora já fosse tarde, o calor ainda não abrandara. A brisa habitual, vinda do mar do Norte - que tornava Balford-le-Nez tão desagradável durante o Inverno - não soprava naquela tarde. Aliás; havia duas semanas que não se fazia sentir. Nem um bafo agitava os toldos desconsolados da rua das lojas.

Por baixo desse alegre ziguezague, formado por triângulos vermelhos e azuis, Rachel pedalava determinada para sul, dirigindo-se à parte mais elegante da cidade. Não ia para casa. Para tal teria de pedalar na direcção oposta, ao longo da praia e por detrás da zona industrial, dirigindo-se a três ruas perpendiculares, com casas de primeiro andar, onde vivia com a mãe, diga-se que nem sempre na melhor das harmonias. Pelo contrário, dirigia-se a casa da sua melhor amiga, mais antiga, mais fiel e única, cuja vida fora atingida por uma tragédia recente.

É preciso mostrar compaixão, pensava Rachel seriamente enquanto pedalava. É preciso não mencionar a Clifftop Snuggeries antes de lhe dizer que tenho muita pena. Mas não me sinto assim tão triste, não é verdade? Sinto-me como se uma porta se tivesse aberto e eu quero atravessá-la enquanto tenho oportunidade.

Rachel prendeu a saia acima dos joelhos, para lhe ser mais fácil pedalar e evitar que o tecido fino e diáfano se enrolasse na corrente oleada. Já sabia que ia fazer uma visita a Sahlah Malik quando se vestira nessa manhã, por isso provavelmente deveria ter vestido uma roupa mais apropriada para, de tarde, fazer um longo percurso de bicicleta. Mas o comprimento da saia que escolhera favorecia-lhe o que tinha de melhor - os tornozelos - e Rachel, era uma jovem que sabia que não tendo sido favorecida pelo Todo-Poderoso, no que dizia respeito à beleza, tinha de acentuar todos os seus aspectos positivos. Por isso usava habitualmente saias e sapatos que lhe real çavam os tornozelos, sempre na esperança de que alguns olhares recaíssem sobre eles, fazendo esquecer a fealdade do seu rosto.

Ouvira todos os atributos da lista aplicados a si própria naqueles vinte anos: rústica, cara de cu, gorda e horrorosa eram os adjectivos habituais. Vaca, égua e porca eram os substantivos escolhidos. Fora o alvo das graçolas e das maldades dos colegas enquanto andara na escola, e cedo aprendeu que para que as pessoas gostassem dela, a vida apresentava-lhe três alternativas bem claras: chorar, fugir ou aprender a defender-se. Escolhera a terceira, e fora a sua teimosia em aceitar todos os recém-chegados que a tinha feito ganhar a amizade de Sahlah Malik.

A sua melhor amiga, pensava Rachel. Para o bem e para o mal. O bem tinha sido desde os nove anos; o mal nos últimos dois meses. Mas as coisas haveriam de mudar para as duas. Rachel tinha a certeza absoluta.

Vacilou, encosta acima pela Church Road, passou o cemitério de São João, onde as flores pendiam dos caules devido ao calor. Seguiu a curva dos muros enfarruscados da estação de caminho-de- ferro e subiu, ofegante, o declive que levava à urbanização mais elegante, com extensos relvados e ruas cheias de sombra. Esta parte da cidade era conhecida pelas Avenidas e a família de Sahlah Malik vivia na segunda, a cinco minutos de caminho de Greensward, um relvado perfeito, por baixo do qual as casinhas de praia se inclinavam para o mar.

A casa dos Malik era uma das grandiosas residências da urbanização, com enormes relvados, jardins e um pequeno pomar de pereiras, onde Rachel e Sahalah tinham partilhado segredos infantis. Era muito inglesa, com telhas, forrada de madeira até meio e vidro-fosco à maneira do século passado. A porta da frente era antiga e tinha ferragens e as suas múltiplas chaminés faziam lembrar Hampton Court. A garagem, separada - relegada para o fundo da propriedade - parecia uma fortaleza medieval. Ao vê-la ninguém diria que tinha menos de dez anos. E, enquanto se poderia concluir que os seus moradores estavam entre as pessoas mais ricas de Balford, não se adivinhava que esses mesmos moradores eram originários da Ásia, de uma terra de mujahidin, mesquitas e figh.

Gotas de transpiração enchiam o rosto de Rachel quando parou no lancil e abriu o portão. Suspirou de prazer ao passar sob a frescura perfumada de um salgueiro. Ficou aí um momento, dizendo a si própria que era para descansar, mas sabendo perfeitamente que se detivera para pensar. Nos seus vinte anos de vida nunca fora a casa de uma pessoa enlutada, que tivesse tido de enfrentar um desgosto como o da sua amiga. Agora precisava de se concentrar no que haveria de dizer, de fazer e como agir. O último erro que queria cometer era desgostar Sahlah.

Deixando a bicicleta encostada a uma floreira cheia de gerânios, Rachel retirou o embrulho do cesto e avançou para a porta principal. Com todo o cuidado reflectiu no que tinha de dizer. Lamento muito... Vim logo que pude... Não quis telefonar, porque me pareceu tão impessoal... Isto altera as coisas de uma maneira horrível... Sabia como gostavas dele...

Mas a última era mentira, não era? Sahlah Malik nunca amara o seu futuro marido.

Bom, agora não tinha importância. Os mortos não podiam voltar para pedir contas aos vivos e não valia a pena preocupar-se com a falta de sentimentos da amiga por um homem completamente estranho, que fora escolhido para ser seu marido. O caso dava-lhe que pensar... Mas, não. Rachel obrigou-se a afastar do espírito todo o tipo de especulações. Com o embrulho debaixo do braço, bateu à porta.

Esta abriu-se imediatamente. E logo o inimitável som de música de filme se ergueu por sobre as vozes que, na sala, falavam numa língua estrangeira. A língua era Urdu, pensou Rachel. E o filme deveria ter sido comprado por catálogo pela cunhada de Sahlah, que, sem dúvida, estaria sentada numa almofada em frente do gravador de vídeo, da maneira habitual: com uma tigela de água com detergente no colo e dúzias de pulseiras de ouro lá dentro, para uma limpeza completa.

Rachel não estava longe da verdade. Chamou:

- Olá! Sahlah? - E aventurou-se até à porta da sala.

Aí encontrou Yumn, a jovem esposa do irmão de Sahlah, que não cuidava das suas múltiplas jóias, mas arranjava um dos seus muitos dupattás. Yumn cosia muito concentrada a bainha desta espécie de lenço, parecendo estar a fazer um enorme esforço.

Deu um gritinho quando Rachel clareou a garganta. Ergueu as mãos e deixou a agulha, a linha e o lenço voando em três direcções diferentes. Inexplicavelmente tinha dedais em todos os dedos da mão esquerda. Estes também saltaram.

- Assustaste-me! - Exclamou cheia de energia. - Ora, ora, Rachel Winfield. E logo hoje, quando nada neste mundo me deveria afectar. O ciclo feminino é uma coisa delicada. Ninguém te disse?

Sahlah referia-se sempre à cunhada como tendo nascido para o teatro, e sendo afinal, uma inútil. A primeira referência parecia ser verdade. A entrada de Rachel fora tudo menos silenciosa. Mas Yumn parecia disposta a aproveitá-la para ficar sob as luzes da ribalta. Aproveitava-se agora do seu ciclo feminino", como lhe chamava e usava as mãos para acariciar o ventre para o caso de Rachel não perceber o significado, o que era pouco provável. Praticamente Yumn não falava de mais nada a não ser a sua intenção de conseguir uma terceira gravidez - durante trinta e sete meses de casada e antes do filho mais novo chegar aos dezoito meses - e Rachel sabia-o.

- Desculpa - disse Rachel. - Não queria assustar-te.

- Espero que não - Yumn procurou a costura que se tinha espalhado. Olhou de soslaio para o lenço com o olho direito e fechou o esquerdo, cujo estrabismo escondia habitualmente dobrando um dupattá de modo a fazer-lhe sombra. Quando parecia disposta a voltar ao trabalho, ignorando Rachel definitivamente, esta falou outra vez.

- Yumn, vim visitar Sahlah. Ela está por aí?

Yumn encolheu os ombros.

- Essa rapariga está sempre por aí. Embora sempre que eu a chamo ela finja ser surda. Precisa de uma boa sova, mas ninguém lha quer dar.

- Onde está ela? - perguntou Rachel.

- Coitadinha, pensam eles - continuou Yumn. - Deixa-a lá. Foi um desgosto para ela. Desgosto, imagine-se. Que coisa tão engraçada.

Rachel ficou alarmada com estas palavras, mas a sua lealdade em relação a Sahlah fê-la esconder o que sentia.

- Ela está em casa? - Perguntou pacientemente. - Yumn, onde está ela?

- Foi lá para cima. - E quando Rachel ia a sair da sala. - Onde sem dúvida está prostrada de desgosto - acrescentou com uma risada maliciosa.

Rachel encontrou Sahlah no quarto, na parte da frente da casa, o quarto que tinha sido destinado para os dois filhos de Yumn. Estava junto à tábua de engomar, sobre a qual dobrava em quadrados perfeitos, um monte de fraldas recém-lavadas. Os sobrinhos - um de vinte sete meses e outro mais novo estavam os dois na mesma caminha, perto da janela, e dormiam profundamente.

Havia quinze dias que Rachel não via a amiga. As suas últimas palavras não tinham sido agradáveis, por isso, apesar de ter ensaiado o que havia de dizer, sentia-se estúpida e vencida pelo embaraço. Porém, esta sensação não provinha apenas do desentendimento que se erguera entre elas. Nem do facto de, ao entrar na casa dos Malik, Rachel se aperceber que estava a entrar numa cultura diferente. Erguia-se sim a partir da forte sensação - renovada, cada vez que olhava para a amiga - das diferenças físicas entre si própria e Sahlah.

Sahlah era encantadora. Por deferência para com a sua religião e para com os desejos dos pais, usava modestos shalwár-qamis. Mas nunca as calças largas ou a túnica que lhe descia abaixo das ancas conseguiam depreciar-lhe a figura. Tinha pele cor de noz-moscada e olhos de cacau, com pestanas espessas e longas. Usava o cabelo escuro numa grossa trança que lhe chegava à cintura e, quando ergueu o rosto ao ouvir Rachel pronunciar o seu nome, caracóis fininhos como teias de aranha caíam-lhe à volta das faces. A única imperfeição que possuía era um sinal. Tinha a cor e a forma de um morango e parecia uma tatuagem sobre a maçã do rosto. Escureceu visivelmente quando os seus olhos encontraram os de Rachel.

Rachel olhou directamente para o rosto de Sahlah. A amiga tinha ar de estar doente e Rachel esqueceu imediatamente tudo o que tinha ensaiado.

Estendeu-lhe impulsivamente o presente que tinha trazido. Disse:

- Isto é para ti. É um presente, Sahlah - e ao mesmo tempo sentiu-se uma perfeita idiota.

Lentamente, Sahlah alisava os vincos da fralda. Fez a primeira dobra no tecido, alinhando os cantos com uma intensa concentração.

Rachel disse:

- Não era nada daquilo que eu te queria dizer. Afinal que sei eu do

amor? Logo eu. E ainda percebo menos de casamento, não é verdade? Principalmente nas minhas circunstâncias. Quero dizer, uma vez a minha mãe

esteve casada apenas dez minutos. E fê-lo por amor, diz ela. Por isso já

vês.

Sahlah fez mais duas dobras na fralda e colocou-a no monte, ao fundo

da tábua. Dirigiu-se à janela e observou os sobrinhos. Parecia um gesto desnecessário, pensou Rachel. Dormiam como se estivessem mortos.

Rachel estremeceu ao pensar na comparação. Tinha - tinha absolutamente - de evitar usar, ou mesmo pensar nessa palavra enquanto durasse

a sua visita àquela casa. Disse:

- Desculpa Sahlah.

- Não precisavas de me trazer um presente - replicou Sahlah, em voz

baixa.

- Perdoas-me? Por favor, diz que me perdoas. Não posso pensar que

não me queres perdoar.

- Não precisas de pedir desculpas seja pelo que for, Rachel.

- Isso quer dizer que não me perdoas, não é verdade?

As contas de osso, delicadamente talhadas, dos brincos de Sahlah bateram umas nas outras quando esta abanou a cabeça. Mas nada disse.

- Aceitas o presente? - perguntou Rachel. - Assim que o vi, pensei

em ti. Abre, por favor. - Queria tanto enterrar a acrimónia que colorira a

última conversa que tinham mantido. Estava desesperada por retirar as palavras e as acusações que tinha feito, pois queria voltar às anteriores relações com a amiga.

Depois de um momento de reflexão, Sahlah suspirou delicadamente e pegou no embrulho. Estudou o papel antes de o retirar e Rachel teve o prazer de a ver sorrir ao ver o desenho dos gatinhos a brincar com um novelo de lã. Tocou num deles com a ponta de um dos dedos. Depois soltou a fita da embalagem e meteu o dedo debaixo da fita-cola. Levantou a tampa da caixa, retirou de lá a peça de vestuário e passou os dedos pelos fios dourados.

Rachel sabia que tinha escolhido bem a oferta de paz. O casaco sherwani era longo e a gola subida. Era uma oferta de respeito à cultura de Sahlah, bem como à sua religião. Usado com umas calças, cobri-la-ia completamente. Os pais dela - cuja boa vontade e compreensão eram imprescindíveis aos planos de Rachel - de certo aprovariam. Mas, ao mesmo tempo, o casaco minimizava o valor que Rachel conferia à amizade de Sahlah. Era de seda entremeado com fios de ouro. O preço era evidente e Rachel tivera de desfalcar as suas economias para o pagar. Mas isso não interessava, se pudesse recuperar Sahlah.

- Foi a cor que me atraiu - disse Rachel. - O castanho-avermelhado é perfeito para o teu tom de pele. Veste-o. - Forçou um risinho ao ver que Sahlah hesitava, a cabeça inclinada para o casaco e o dedo indicador descrevendo círculos à volta de um dos botões. De osso verdadeiro, os botões, queria Rachel dizer, mas não conseguiu que as palavras lhe saíssem. Tinha medo.

- Não sejas tímida Sahlah. Veste-o. Não gostas?

Sahlah colocou o casaco na tábua de engomar e dobrou as mangas com todo o cuidado como fizera com as fraldas. Tocou num dos enfeites soltos do seu colar de contas e segurou-o como se fosse um talismã.

- É demasiado, Rachel - disse por fim. - Não posso aceitar. Desculpa. Rachel sentiu subitamente os olhos cheios de lágrimas. Disse:

- Mas nós sempre... Somos amigas. Não somos amigas?

- Somos.

- Então...

- Não posso retribuir. Não tenho dinheiro, e mesmo se tivesse... Sahlah continuou a dobrar a peça de vestuário, deixando a frase no ar.

Rachel terminou-a por ela. conhecia a amiga havia tempo suficiente para saber o que ela estava a pensar.

- Dá-lo-ias aos teus pais. Não o gastarias comigo.

- O dinheiro. Sim.

Não acrescentou, é o que costumamos fazer. Já o dissera tantas vezes nos onze anos da sua amizade - e repetira-o infinitas vezes desde que pela primeira vez dera a conhecer a Rachel as suas intenções de casar com um paquistanês desconhecido, escolhido pelos pais - que não valia a pena acrescentar à frase as declarações que tinha acabado de fazer.

Antes de vir, Rachel não considerara a possibilidade de que a sua visita a Sahlah a fizesse sentir ainda pior do que se vinha a sentir nas últimas semanas. Vira o seu futuro como uma espécie de silogismo: o noivo de Sahlah morrera; Sahlah estava viva; logo Sahlah estava livre para retomar a sua posição de melhor amiga de Rachel, da companheira mais querida para a sua vida futura. Porém, aparentemente, isto não ia acontecer. O estômago de Rachel revolveu-se, sentiu-se tonta. Depois de tudo o que tinha feito, depois de tudo o que tinha sabido, depois de tudo o que a amiga lhe contara e que ela guardara fielmente para si, porque era o que os amigos

faziam quando eram realmente amigos, ou não...?

- Quero que fiques com ele - Rachel procurou encontrar o tom de voz que se usa quando se visita uma casa que foi anteriormente visitada pela morte. - Só vim aqui dizer que lamento muito o... bem... a tua perda.

- Rachel - disse Sahlah baixinho. - Por favor.

- Compreendo como estás triste. Apesar de o conheceres há pouco tempo, de certeza que gostavas dele. Porque... - Ouvia a própria voz tornar-se tensa. Em breve estaria a gritar. - Porque sei que não te casarias com alguém de quem não gostasses, Sahlah. Sempre disseste que não o farias. Por isso é razoável que a primeira vez que viste Haytham, o teu coração tenha voado para ele. E quando ele te pôs a mão no braço... aquela mão húmida e pegajosa, soubeste que ele era o tal. Foi o que aconteceu, não é verdade? E é por isso que agora estás tão desesperada.

- Sei que é difícil entenderes.

- Só que não pareces desesperada. Pelo menos não é por Haytham. Porque será? O teu pai não quer saber porquê?

Ela estava a dizer aquilo que não tencionava dizer. Era como se a sua voz tivesse vida própria e ela não conseguisse fazer nada para a controlar.

- Não sabes o que se passa dentro de mim - declarou Sahlah, muito calma, quase feroz. - Queres julgar-me pelos teus padrões e não podes, porque são diferentes dos meus.

- Como eu sou diferente de ti - acrescentou Rachel e as palavras saiam-lhe amargas. - Não é verdade?

A voz de Sahlah suavizou-se.

- Somos amigas, Rachel. Sempre fomos, e sempre seremos amigas. A afirmação feriu Rachel mais do que qualquer repúdio o poderia ter feito. Porque sabia que a afirmação era simplesmente uma afirmação. Embora pudesse ser verdadeira, não era uma promessa.

Rachel meteu a mão no bolso de cima da blusa e retirou de lá um folheto que trazia consigo havia mais de dois meses. Olhara para ele tantas vezes que decorara as fotografias e a respectiva descrição dos T-2, situados em três prédios compridos da urbanização Clifftop Snuggeries. Como o nome sugeria '

 

Em Português o nome da urbanização seria Abrigo no alto da falésia (N. da T.)

 

situavam-se sobre o mar, na South Promenade. Dependendo do modelo escolhido, os apartamentos tinham varanda ou terraço, mas em ambos os casos tinham uma bonita vista: a norte, o pontão do parque de diversões de Balford; a leste o mar sem fim, verde- acinzentado.

- São estes os andares - Rachel desdobrou o folheto. Não o entregou porque sabia que Sahlah se recusaria apanhá- lo. - Tenho já dinheiro suficiente para a entrada. Posso comprá-lo.

- Rachel, porque não tentas ver como são as coisas no meu mundo?

- Quero comprá-lo. E vou tratar de que o teu nome, juntamente com o meu, fique na escritura. Só tens de pagar todos os meses...

- Não posso

- Podes - insistiu Rachel. - Só pensas que não podes pela maneira como foste educada. Mas não precisas de viver assim para o resto da tua vida. Ninguém o faz.

O rapazinho mais crescido mexeu-se na cama e choramingou a dormir. Sahlah foi para o pé dele. Nenhuma das crianças estava tapada - o quarto estava demasiado quente para isso - por isso não era necessário aconchegar a roupa. Sahlah passou levemente a mão pela testa do sobrinho. A dormir, mudou de posição, pondo o traseiro no ar.

- Rachel - disse Sahlah sem ergúer os olhos do sobrinho - Haytham morreu, mas esse facto não acaba com as obrigações que eu tenho para com a minha família. Se o meu pai amanhã escolher outro homem para mim, eu caso com ele. Tem de ser.

- Tem de ser? Isso é uma loucura. Nem sequer o conhecias. Nem conheces o próximo. E se...

- Não. É o que eu quero fazer.

A sua voz era calma, mas aquilo que o seu tom firme significava era inegável. Dizia, O passado está morto sem o dizer. Mas esquecera uma coisa. Haytham Querashi também estava morto.

Rachel dirigiu-se à tábua de engomar e acabou de dobrar o casaco. Fê-lo com tanto cuidado como Sahlah tinha tido com as fraldas. Juntou a bainha com a costura dos ombros. Alisou os lados e dobrou-os à altura da cintura. Ao pé da caminha, Sahlah olhava- a. Enquanto voltava a meter o casaco na caixa e a colocar a tampa, Rachel falou:

- Conversávamos sempre sobre como seria.

- Nessa altura éramos pequenas. É fácil sonhar, quando se é criança.

- Pensaste que eu não me lembrava.

- Pensei que tivesses crescido o suficiente para os ultrapassar. A afirmação magoara-a, provavelmente muito mais do que Sahlah pen sava. Indicava a maneira como tudo se tinha modificado, até que ponto as circunstâncias da sua vida a tinham mudado. Também indicava até que ponto Rachel continuava igual.

- Como tu os ultrapassaste? - perguntou.

O olhar de Sahlah vacilou sob os olhos de Rachel. A mão dirigiu-se a uma das grades da cama e os dedos agarraram-na.

- Acredita-me, Rachel. É isto que eu tenho de fazer.

Parecia que queria dizer mais, mas Rachel não conseguia fazer dedu ções. Tentou ler o rosto de Sahlah para compreender que emoções e que significados apoiavam as suas afirmações. Mas não conseguiu. Por isso disse:

- Porquê? Porque é a tua maneira de fazer as coisas? Porque o teu pai insiste? Porque serás expulsa da família se não fizeres o que te mandam?

- Tudo isso é verdade.

- Mas há mais, não há? Há mais. - Rachel insistia. - Não importa se a tua família te expulsar. Eu tomo conta de ti, Sahlah. Ficamos juntas. Não deixo que nada de mal te aconteça.

Sahlah deixou escapar um leve riso irónico. Voltou-se para a janela e olhou para o Sol da tarde, que batia impiedoso no jardim, secando a terra, dissecando a relva, roubando a vida às flores.

- O mal já aconteceu - disse ela. - Onde estavas tu que não o impe diste?

A pergunta gelou Rachel como se fosse um vento frio. Sugeria que Sahlah sabia até que ponto Rachel estivera disposta a ir para conservar a sua- amizade. A coragem faltava-lhe. Mas que Rachel soubesse, não havia maneira de voltar atrás. Forçara o caminho onde não era desejada. Agora teria de pagar.

- Sahlah - disse ela - Haytham... - hesitou. Como perguntar sem admitir até que ponto tinha estado disposta a trair a amiga?

- O quê? - perguntou Sahlah. - Haytham, o quê?

- Alguma vez ele te falou de mim? Alguma vez?

Sahlah olhou-a tão espantada com a pergunta que Rachel teve a resposta. Foi acompanhada por um enorme alívio, tão doce que parecia sentir o gosto do açúcar na língua. Percebeu que Haytham Querashi morrera sem dizer nada. Pelo menos por enquanto, Rachel Winfield estava em segurança.

Da janela, Sahlah viu a amiga partir de bicicleta. Pedalava na direcção de Greensward. Queria voltar a casa pelo lado da praia. O caminho levava-a directamente às Clifftop Snuggeries, onde guardava os seus sonhos, apesar de tudo o que Sahlah dissera e fizera para ilustrar que tinham tomado caminhos diferentes.

No fundo, Rachel era ainda a mesma menina que fora na escola, quando, pela primeira vez, ela e Sahlah tinham tropeçado uma na outra. Ela tinha feito cirurgia plástica para construir feições relativamente razoáveis a partir da cara desastrosa com que tinha nascido, mas por baixo dessas feições era ainda a mesma criança: sempre confiante, ávida e cheia de planos, muitos deles impraticáveis.

Sahlah fizera o melhor que sabia para explicar a Rachel que o seu plano principal - o de comprarem um andar para irem viver juntas - não se poderia realizar. O pai não lhe permitiria que arranjasse casa dessa maneira, com outra mulher, afastada da família. E mesmo se, num acto de loucura, ele decidisse permitir que a sua única filha adoptasse uma vida tão aberrante, ela, Sahlah, não o poderia fazer. Poderia tê-lo feito até determinada altura, mas agora era tarde demais.

E cada momento era mais tarde ainda. A morte de Haytham era até certo ponto a sua. Se ele tivesse vivido, nada teria importância. Agora que estava morto, tudo tinha.

Apertou as mãos debaixo do queixo e fechou os olhos, desejando que um sopro de ar do mar lhe refrescasse o corpo e aquietasse o seu espírito febril. Uma vez, num romance - cuidadosamente escondido do pai, que não o teria aprovado - tinha lido a expressão o espírito dela corria loucamente, sobre uma heroína desesperada, e não compreendera como poderia acontecer uma coisa tão estranha. Mas agora sabia. Porque o seu espírito entrara numa corrida, como se se tratasse de um grupo de gazelas, desde que soubera que Haytham morrera. Considerara todos os aspectos do que havia a fazer, onde ir, quem ver, como agir e o que dizer a partir daí. Não conseguira respostas. Como resultado estava completamente imobilizada. Era agora a incarnação da espera. Mas não podia dizer aquilo porque esperava. Talvez por socorro. Ou por uma renovação da capacidade de rezar, coisa que dantes fazia cinco vezes por dia, com inteira devoção. Agora perdera-a.

- O espantalho já se foi embora?

Sahlah voltou-se e viu Yuznn à porta, encostada à ombreira.

- Referes-te a Rachel? - Perguntou Sahlah.

A cunhada entrou no quarto com os braços languidamente erguidos, entrançando o cabelo. A trança que daí resultara era pouco substancial e mal tinha a grossura do dedo mínimo de uma mulher. O couro cabeludo de Yumn aparecia, pouco atraente em certos sítios.

- Referes-te a Rachel - Yumn imitou-a. - Porque é que falas sempre como se tivesses engolido um garfo? - Riu-se. Retirou a dupattã que usava sempre e, sem o véu e com o cabelo afastado do rosto, o olho torto era mais evidente que nunca. Quando se ria, o olho parecia saltitar de um lado para outro, como se fosse a clara de um ovo cru. - Esfrega-me as costas - ordenou. - Quero sentir-me descontraída para o teu irmão esta noite.

Dirigiu-se à cama onde em breve o filho mais velho começaria a dormir, atirou com as chinelas e afundou-se na colcha cor-de- anil. Puxou as pernas para cima e deitou-se de lado. Disse:

- Sahlah, ouviste o que eu disse? Esfrega-me as costas.

- Não chames espantalho a Rachel. Ela não tem culpa do aspecto que tem, tal e qual... - Sahlah interrompeu-se antes de pronunciar as palavras finais. Como tu, seriam imediatamente repetidas a Muhannad, com alguma histeria a acompanhar. E o irmão de Sahlah obrigá-la-ia a pagar o insulto à mãe dos seus filhos.

Yumn observou-a sorrindo maliciosamente. Queria então que Sahlah completasse a frase. Não havia nada que mais apreciasse que o som da palma da mão de Muhannad contra o rosto da irmã. Mas Sahlah não lhe daria esse prazer. Pelo contrário, foi ter com ela à cama e esperou que Yumn retirasse as peças de vestuário.

- Quero aquele óleo - ordenou. - Aquele que cheira a eucalipto. E aquece-o primeiro nas tuas mãos. Não o suporto frio.

Sahlah foi buscá-lo obediente enquanto Yumn se estendia de lado. O seu corpo já mostrava a tensão causada por duas gravidezes, que rapidamente se tinham seguido uma à outra. Tinha apenas vinte e quatro anos mas já tinha os seios flácidos e a segunda gravidez provocara-lhe estrias na pele e adicionara mais peso à sua figura já forte. Mais cinco anos, se seguisse as intenções de produzir uma cria por ano para o irmão de Sahlah, e seria tão larga quanto alta.

Puxou a trança para o alto da cabeça e prendeu-a com um gancho que apanhou da mesa-de-cabeceira. Disse:

- Começa.

Sahlah assim fez, despejando primeiro óleo nas suas mãos e esfregando-as para o aquecer. Detestava até pensar que tinha de tocar no corpo da outra mulher, mas, como esposa do seu irmão mais velho, Yumn podia fazer exigências a Sahlah e esta devia cumpri-las sem protestar.

O casamento de Sahlah teria acabado com a suserania de Yumn, não pelo mero facto de ser um casamento, mas porque levaria Sahlah de casa dos pais e para longe do dedo espetado de Yumn. E, ao contrário de Yumn, que apesar de ter modos dominadores tinha de aguentar uma sogra a quem tinha de se subjugar, Sahlah teria vivido sozinha com Haytham, ou pelo menos até à altura em que ele começasse a mandar vir a famlia do Paquistão. Agora nada disso aconteceria. Era uma prisioneira e todos, na casa da Segunda Avenida - excepto os dois sobrinhos pequenos - eram os seus carrascos.

- Mas que bom - suspirou Yumn - quero que a minha pele brilhe. O teu irmão gosta dela assim, Sahlah. Excita-o. E quando ele está excitado. deu uma risadinha. - Homens. São umas crianças. As exigências que fazem. Os desejos que têm. Como nos fazem infelizes, não é verdade? Enchem-nos de bebés num abrir e fechar de olhos. Temos um filho e antes de ele ter um mês e meio, o pai já está em cima de nós, querendo outro. Que feliz és por ter escapado a este destino, bahin. - Os lábios curvaram-se como se tivesse dito uma graça que só ela entendia.

Sahlah poderia ter dito - como Yumn desejava - que esta não se sentia nada infeliz com o seu destino. Pelo contrário, divertia-se com a sua capacidade de reprodução e com a maneira de usar essa habilidade: para conseguir o que queria, para fazer o que desejava, para manipular, adular, enganar e exigir. Como tinham os pais escolhido esta mulher para casar com o seu único filho? Sahlah não percebia. Embora fosse verdade que o pai de Yumn tinha dinheiro e que o dote generoso tinha ajudado a pagar muitos melhoramentos na empresa da família Malik, deveria ter havido outras mulheres aceitáveis quando os pais Malik tinham decidido procurar noiva para Muhannad. E como conseguiria Muhannah tocar nesta mulher? A carne dela parecia massa e tinha um cheiro acre.

- Diz-me Sahlah - murmurou Yumn, fechando os olhos de prazer enquanto os dedos de Sahlah lhe massajavam os músculos - estás contente? Podes dizer-me a verdade. Não direi uma palavra a Muhannah sobre o assunto.

- Estou contente com quê? - Sahlah deitou mais óleo na palma da mão.

- Por ter escapado ao teu dever. Dar filhos ao teu marido e netos aos teus pais.

- Nunca pensei em dar netos aos meus pais - disse Sahlah. - Tu tratas disso muito bem.

Yumn riu-se

- Nem acredito que já tenham passado estes meses depois do nascimento de Bishr sem vir já outro a caminho. Basta que Muhannad me toque para que eu já acorde grávida. E que filhos eu e o teu irmão tivemos. Muhannah é um homem entre os homens.

Yumn deitou-se de costas. Com as mãos ergueu os seios pesados. Os mamilos eram do tamanho de pires e escuros como algumas pedras que se apanhavam no Nez.

- Vê o que ter filhos faz ao corpo de uma mulher, bahin. Que sorte tens em ser tão magra e perfeita e em ter escapado a isto. - Gesticulou com ar indiferente. - Olha para ti. Não tens varizes, nem estrias seja onde for, não estás inchada, não tens dores. És tão virginal, Sahlah. És tão encantadora que eu pergunto a mim própria se te querias mesmo casar. Atrevo-me a dizer que não. Não querias nada com Haytham Querashi. Não é verdade?

Sahalah obrigou-se a afrontar o olhar de desafio da cunhada. Sentia o coração bater como se lhe estivesse a enviar directamente o sangue para o rosto.

- Queres que eu continue com o óleo? - Perguntou. - Ou já chega? Lentamente, Yumn sorriu.

- Já chega? - perguntou. - Não, bahin. Não chega.

Da janela da biblioteca, Agatha Shaw viu o neto sair do BNtW. Olhou para o relógio. Estava meia hora atrasado. Não gostava de atrasos. Os homens de negócios tinham de ser pontuais e, se Theo queria ser levado a sério em Bal- ford-le-Nez como descendente de Agatha e Lewis Shaw - e consequentemente uma pessoa estimada - teria de aprender a importância de usar um relógio de pulso em vez daquela escrava de que tanto gostava. Que coisa horrorosa. Quando tinha a idade dele, se um homem de vinte seis anos usasse uma pulseira, encontrar-se-ia envolvido num infeliz processo judicial, no qual a palavra sodomite apareceria com uma frequência superior à desejável.

Agatha afastou-se para o vão da janela, permitindo que as cortinas a escondessem. Observou Theo, que se aproximava. Havia alturas em que tudo naquele rapaz lhe punha os nervos em franja, e hoje era um desses dias. Parecia-se demasiado com a mãe. O mesmo cabelo loiro, a mesma pele branca, que se enchia de sardas no Verão, a mesma constituição atlética. Ela, graças a Deus, regressara, para receber fosse qual fosse a recompensa que o Todo-Poderoso reservava às relaxadas escandinavas que perdiam o controle do volante e se matavam, a elas e aos maridos. Mas a presença de Theo na vida da avó servia para a recordar que tinha perdido duas vezes o filho mais novo e mais amado: a primeira, num casamento donde resultara o facto de ter sido deserdado, e a segunda num acidente de automóvel que a deixara a ela - Agatha - encarregada de dois rapazes rebeldes, com menos de dez anos.

À medida que Theo se aproximava, Agatha meditava em todas as características do neto que mereciam a sua desaprovação. A roupa que usava era completamente inapropriada para a sua posição. Gostava de fatos de linho largos: casacos com chumaços, camisas sem colarinhos e calças com pinças. E sempre em tons pastel, creme ou amarelo. Calçava sandálias em vez de sapatos. Se punha ou não peúgas dependia do acaso. Como se tudo isto não fosse o suficiente para impedir os potenciais investidores de o levarem a sério, usava, desde a morte daquela mãe execrável, o fio e a cruz de ouro que lhe pertenciam, uma dessas coisas horrorosas e macabras dos católicos, com uma pequena figura crucificada, estendida sobre ela. Era mesmo o mais apropriado para um empresário se entreter a olhar, enquanto estava a ser convencido a investir dinheiro no restauro, renovação e renascimento de Balford-le- Nez.

Mas não valia a pena dizer a Theo como se havia de vestir, como se havia de comportar ou como havia de falar quando apresentava os planos Shaw para a renovação da cidade.

- Avó, ou as pessoas acreditam no projecto, ou não acreditam - era a maneira como recebia as suas sugestões.

O facto de ser obrigada a fazer sugestões punha-lhe os nervos em franja. Este projecto era dela. Era o sonho dela. Fora eleita vereadora da Câmara de Balford por quatro mandatos sucessivos, devido aos seus sonhos de futuro, e era uma loucura que, agora - só por causa de um único vaso sanguíneo que se atrevera a romper-se dentro do seu cérebro - ela tivesse tido de se afastar para descansar, deixando que o neto delicado e confuso falasse por ela. Só de pensar nisso ficava à beira de outro derrame, por isso tentava acalmar-se.

Ouviu a porta da rua abrir-se. As sandálias de Theo bateram no soalho, depois foram abafadas, quando chegou ao primeiro tapete persa. À entrada trocara algumas palavras com alguém - sem dúvida com Mary Ellis, a rapariga que vinha todos os dias, mas cuja incompetência provocava em Agatha o desejo de ter nascido numa época em que os criados eram habitualmente chicoteados. Theo dissera:

- Na biblioteca? - E viera naquela direcção.

Agatha obrigou-se a ficar muito direita, na presença do neto. As coisas para o lanche estavam em cima da mesa e deixara-as assim, com as sanduíches enrolando-se nas pontas e uma película baça sobre o chá, para ilustrarem o facto de Theo ter mais uma vez, chegado atrasado. Agatha agarrou-se à pirâmide com ambas as mãos e colocou-a na sua frente, para que os três pés lhe pudessem suportar o peso do corpo. Este esforço para parecer dona das suas funções físicas provocou-lhe um tremor nos braços e ficou satisfeita por ter vestido um casaco de malha, apesar do dia estar quente. Pelo menos o tremor ficava camuflado nas finas dobras da lã.

Theo deteve-se à entrada. Tinha o rosto brilhante de transpiração e a camisa de linho colava-se-lhe ao tronco, acentuando a sua configuração magra. Não falou. Pelo contrário, dirigiu-se ao tabuleiro onde estavam as sanduíches. Agarrou ao mesmo tempo em três de salada de ovo e comeu-as em rápida sucessão aparentemente sem se preocupar com o ar pouco fresco que apresentavam. Nem sequer pareceu reparar que o chá, onde deitou um quadrado de açúcar, estava a arrefecer havia vinte minutos.

- Se o Verão continuar assim, vamos ter bons lucros no pontão e no salão de jogos - disse Theo. Mas as palavras do neto soaram-lhe cautelosas, como se para além do pontão, Theo tivesse alguma outra preocupação no espírito. As antenas de Agatha ergueram-se. Mas nada disse, enquanto ele continuou: - É pena não conseguirmos acabar o restaurante antes de Agosto, porque ficávamos cheios de dinheiro, quase sem dar por isso. Falei com Gerry De Vitt sobre o prazo do acabamento, mas ele não vê grandes possibilidades de apressar as coisas. Já sabe como ele é. Se é para se fazer, tem de se fazer como deve ser. Não se arranjam atalhos. - Theo estendeu a mão para outra sanduíche, desta vez de pepino. - E claro que não se poupa nos custos.

- É por isso que te atrasaste? - Agatha precisava de se sentar, sentia que as pernas lhe começavam a tremer, tal como os braços, mas recusava-se a permitir que o corpo lhe desobedecesse às ordens do cérebro.

Theo abanou a cabeça. Levou a chávena de chá frio para o pé dela e deu-lhe um beijo seco na face.

- Olá - disse ele. - Desculpe por me ter esquecido da delicadeza. Não almocei. Não tem calor com esse casaco, avó? Quer uma chávena de chá?

- Deixa-te de andar à minha volta. Ainda não estou com os pés para a cova, embora te agradasse muito.

- Não seja parva avó. Venha cá. Sente-se. Está a suar e a tremer. Não vê? Vá lá. Sente-se.

Ela empurrou-lhe o braço dizendo:

- Deixa de me tratar como se fosse uma imbecil. Sento-me quando me apetecer. Porque estás tão esquisito? O que aconteceu na sessão de Câmara?

- Era lá que ela devia ter estado, se não tivesse sido o derrame dez meses antes. Com calor ou sem ele, teria lá estado, dobrando aquele grupo de misóginos míopes à sua vontade. Levara tanto tempo, já para não falar nas enormes contribuições que fizera para os seus cofres de campanha, a convencê-los a fazer uma sessão especial para tratar dos projectos dela acerca do reordenamento da zona junto ao mar. Theo, juntamente com um arquitecto e um especialista em planeamento urbano vindo directamente de Newport, em Rhode Island, estavam preparados para fazer a apresentação.

Theo estava sentado, equilibrando a chávena de chá sobre os joelhos. Mexeu o líquido e engoliu-o de uma vez, colocando em seguida a chávena ao lado da cadeira.

- Então não sabe?

- Não sei o quê?

- Fui à sessão. Fomos todos, como a avó queria.

- Espero que sim.

- Mas as coisas complicaram-se e nem sequer se falou dos projectos. Agatha obrigou as pernas a darem os passos necessários sem vacilar. Ficou diante dele.

- Não se falou? Porque não? A sessão era por causa disso.

- Sim, era. - Replicou ele. - Mas houve um... bem, um grave impre visto, suponho que lhe poderemos chamar assim. - Theo fez girar o anel de sinete que usava - era o anel do pai - e passou o polegar pela superfície gravada. Parecia preocupado e Agatha ficou imediatamente cheia de suspeitas. Theo não gostava de conflitos e se naquele momento estava pouco à vontade, era porque a tinha desapontado. Diabos levassem o rapaz. A única coisa que lhe tinha pedido era que tratasse de uma simples apresentação e ele conseguira deitar tudo a perder com o jeito que tinha para isso.

- Temos oposição - disse ela. É um dos vereadores. Quem? Malik? Sim, é ele, não é? Aquele novo-rico com cara de mula dá um bocado de erva à cidade e chama-lhe parque - dando-lhe o nome dos seus parentes pagãos

- e, de repente, já se considera um homem de grandes horizontes. Foi Akrham Malik, não é verdade? E a Câmara apoia-o, em vez de cair de joelhos para agradecer a Deus que eu tenha dinheiro, conhecimentos e decisão para voltar a pôr Balford no mapa.

- Não foi Akram - disse Theo. - E não teve nada a ver com o projecto. - Fosse porque fosse, ele desviou o olhar antes de a voltar a enfrentar. Parecia estar a ganhar coragem para continuar. - Não acredito que não saiba o que aconteceu, avó. Sobre o que se passou no Nez.

- Oh, a porcaria do Nez.

Havia sempre coisas a respeito do Nez, principalmente questões que tinham a ver com o acesso público a uma parte da costa que estava a ficar cada vez mais frágil. Mas as questões do Nez apareciam regularmente, por isso, porque teria um qualquer ecologista de cabelo comprido escolhido a sessão sobre o projecto - o seu projecto, raios - para disparatar sobre flores silvestres, ou qualquer outra forma de vida selvagem para lá do seu entendimento. A sessão estava agendada havia meses. O arquitecto tinha abandonado os outros projectos durante dois dias e o especialista em planeamento urbano viera de propósito a Inglaterra às suas custas. A apresentação fora iniciada, calculada, orquestrada e ilustrada até aos mais ínfimos pormenores; o facto de poder ter descarrilado pelas preocupações acerca de um promontório que se esboroava e que poderia ser tratado em qualquer altura, em qualquer sítio, a qualquer hora... Agatha sentiu o tremor aumentar. Conseguiu chegar ao sofá e deixou-se cair nele.

- Como foi - perguntou ao neto - que deixaste isso acontecer? Não te opuseste?

- Eu não me podia opor. As circunstâncias...

- Que circunstâncias? O Nez vai estar no mesmo sítio na semana que vem, no mês que vem, no ano que vem, Theo. Não percebo como foi que uma discussão sobre o Nez foi, logo hoje, assim tão necessária.

- Não foi sobre o Nez - disse Theo. - Foi sobre uma morte. A que aconteceu lá. Uma delegação da comunidade asiática veio à sessão de Câmara e exigiu ser ouvida. Quando os vereadores tentaram adiar para outra altura.

- Ser ouvidos sobre quê?

- Sobre o homem que morreu no Nez. Vá lá avó. A história vinha na primeira página do Standard. Deve tê-la lido. E Mary Ellis deve ter tagarelado sobre isso.

- Não oiço tagarelas!

Ele foi até à mesa e serviu-se de outra chávena de chá Darjeeling. Disse:

- Seja como for - no tom de quem não acreditava - quando os vereadores tentaram mandar embora a delegação, eles ocuparam o átrio.

- Eles? Quem?

- Os asiáticos, avó. Havia mais lá fora à espera de um sinal. Quando o tiveram começaram a fazer pressão. Aos gritos, a atirar pedras. As coisas ficaram muito feias. A polícia teve de os acalmar.

- Mas era a nossa sessão.

- É isso mesmo. Era. Mas passou a ser de outras pessoas. Não houve maneira de o conseguir. Temos de voltar a marcá-la, quando as coisas acalmarem.

- Deixa-te de falar nesse tom tão razoável - Agatha bateu com a pirâmide na carpete. Não fez praticamente barulho, o que irritou ainda mais. Apetecia-lhe uma boa discussão. Até nem se importava de partir

alguma loiça.

- Vamos ter de voltar a marcar...? Para que te servem os miolos,

Theodore Michael? A sessão foi marcada segundo as nossas conveniências. Fomos nós que a pedimos. Ficámos na fila para a conseguir. E agora dizes-me que um grupo de gente de cor, mal-educada, que provavelmente nem tomaram banho antes de sair...

- Avó! - A pele branca de Theo estava corada. - Os paquistaneses tomam banho tantas vezes como nós. E mesmo que o não fizessem, o problema não é a higiene deles, pois não?

- Talvez tu me digas qual é o problema.

Ele voltou a sentar-se, em frente dela. A chávena bateu no pires de um modo, que a ela lhe deu vontade de gritar. Quando aprenderia ele a comportar-se como um Shaw, por amor de Deus?

- O homem... chamava-se Haytham Querashi...

- Sei muito bem - disse ela bruscamente.

Ele ergueu o sobrolho.

- Ah, sim - disse. Colocou a chávena de chá na mesa com todo o cuidado e fixou nela toda a sua atenção, em vez de olhar para a avó, e continuou: - Então provavelmente também sabe que ele ia casar com a filha

de Akram Malik na semana que vem. Evidentemente, a comunidade asiática pensa que a polícia não é suficientemente rápida para descobrir o que realmente aconteceu a Querashi. Trouxeram as suas queixas à sessão de Câmara.

Foram bastante difíceis... bom, foram difíceis para Akram, que os tentou controlar. Atiraram-se a ele, que ficou bastante humilhado. Depois disso, eu não podia pedir outra sessão. Não parecia bem.

E Apesar do transtorno dos seus planos, Agatha descobriu que sentia prazer naquela informação. Juntamente com o facto de o homem a pôr

furiosa, por se meter à força na sua paixão - a transformação de Balford nunca esquecera que Akram Malik lhe tirara o lugar na Câmara. Não se candidatara em sua oposição, mas quando fora necessário alguém preencher o seu lugar até às eleições seguintes, ele não rejeitara a nomeação. Quando houve essas eleições e ela estava muito doente para se poder candidatar, Malik fizera-o, fazendo uma campanha tão séria como se se candidatasse a deputado na Câmara dos Comuns. Por isso ficou deliciada, pensando no homem, entregue nas mãos da sua própria comunidade. Disse:

- É bem feito para Akram, que os seus queridos paquistaneses façam

troça dele na praça pública. Quem me dera lá ter estado. - Viu Theo pestanejar. Sempre com pena. Parecia ter sempre um coração de manteiga. Não me digas que não te sentes como eu, menino! Afinal sabes bem que és um Shaw. Nós fazemos as coisas de uma maneira, eles fazem-na de outra, e o mundo seria melhor se cada um se mantivesse no seu lugar. – Bateu com os nós dos dedos na mesa, para chamar a atenção - diz-me lá que não concordas. Mais do que uma vez tiveste problemas na escola com rapazes de cor.

- Avó... - Que tom era aquele na voz de Theo? Impaciência? Insinuação? Apaziguamento? Condescendência? Agatha semicerrou os olhos e olhou para o neto.

- O que é? - perguntou autoritária.

Ele não respondeu logo. Tocou na borda da chávena, num gesto meditativo, parecendo perdido nos seus pensamentos.

- Não é tudo - disse. - Parei no pontão. Depois do que se passou na sessão, pensei que seria boa ideia ter a certeza que corria tudo bem no parque de diversões. A propósito, foi por isso que me atrasei.

- E...?

- E ainda bem que lá fui. Havia um problema com cinco tipos mesmo em frente do salão de jogos.

- Bom, espero bem que os tenhas posto a andar, quem quer que eles fossem. Se o pontão ganha fama de ser um lugar em que esses desordeiros atacam turistas, podemos desistir dos nossos projectos de desenvolvimento.

- Não eram desordeiros - disse Theo. - E também não eram turistas.

- Então quem eram? - Sentia-se novamente agitada. Sentia o sangue nos ouvidos. Se a tensão subisse, ouviria das boas quando voltasse ao médico. E sem dúvida seria forçada a mais seis meses de convalescença, coisa que achava não poder suportar.

- Eram adolescentes - disse. - Miúdos daqui. Asiáticos e ingleses. E dois deles tinham navalhas.

- Era disso mesmo que eu falava. Há sempre problemas quando as pessoas não se limitam a tratar das suas vidas. Se permitimos a imigração de uma cultura que não mostra respeito pela vida humana, então não podemos vacilar diante da perspectiva dos representantes dessa cultura andarem por aí com navalhas. Francamente, Theo, tiveste sorte em esses pagãos não andarem por aí com cimitarras.

Ele levantou-se abruptamente. Dirigiu-se às sanduíches. Apanhou uma mas voltou a pousá-la. Endireitou os ombros.

- Avó, eram os ingleses que tinham as navalhas.

Ela recompôs-se rapidamente para dizer asperamente:

- Então espero que lhas tenhas tirado.

- Tirei. Mas o problema não é esse.

- Então fazes o favor de me dizer qual é, Theo.

- As coisas estão a aquecer. Não vai ser nada agradável. Vai haver sarilhos em Balford-le-Nez.

 

ENCONTRAR A ROTA APROPRIADA para partir para o Essex, era ser preso por ter cão e ser preso por não o ter. Barbara enfrentava o problema da escolha, entre atravessar a maior parte da cidade de Londres e abrir caminho por entre um trânsito quase paralisado, ou arriscar as incertezas da M25, que rodeava a megacidade e, que mesmo nas melhores alturas, exigia que se suspendessem os planos para chegar ao destino a uma determinada hora. Qualquer que fosse a escolha, ia suar em bica, pois a chegada da noite não trouxera nem sombra de descida de temperatura.

Escolheu a M25. Depois de atirar a mochila para o assento de trás e de agarrar numa garrafa de água gelada, num pacote de batatas fritas, num pêssego e num fornecimento de cigarros, deu início à viagem que lhe fora receitada. O facto de não serem umas férias feitas de boa fé, não a preocupava absolutamente nada. Sempre poderia dizer com ar desprendido Oh, querida, estive na praia, se lhe perguntassem como passara a licença da New Scotland Yard.

Entrou em Balford-le-Nez e passou pela igreja de São João no momento em que o relógio batia as oito horas. Encontrou a cidadezinha à beira-mar pouco mudada, em relação ao que era, durante as férias de Verão anuais que aí passara com a família e com os amigos dos pais: os corpulentos e odoríferos Mr. e Mrs. Jenkins - Bernie e Bette - que todos os anos seguiam o Vauxhall enferrujado dos Havers, no seu Renault muito brilhante, desde o bairro londrino de Acton, em direcção ao leste, para chegar ao mar.

Os acessos a Balford-le-Nez não se tinham alterado durante os anos em que Barbara lá não fora. Os campos de trigo da península de Trending levavam ao Wade, a norte da estrada de Balford, que eram esteiros onde desaguavam o canal de Balford e um estuário estreito, conhecido por Twizzle. Quando a maré enchia, a água do Wade formava pequenas ilhas de excedências pantanosas. Quando a maré baixava ficavam bancos de lama e areia, sobre os quais as algas estendiam braços viscosos. A sul da estrada de Balford ainda havia pequenos enclaves com casas. Baixas, com paredes de estuque e com pouca vegetação à sua volta estas eram as casinhas de Verão, ocupadas por famílias que, como a de Barbara, fugiam ao calor sazonal de Londres.

Porém este ano, não havia para onde fugir. O vento que entrava pela janela do Mini e despenteava o cabelo mal cortado de Barbara, era quase tão quente como o vento que sentira ao sair de Londres, algumas horas antes.

No cruzamento da estrada de Balford com a rua principal, travou para tomar decisões. Não tinha onde ficar, portanto tinha de tratar disso. Tinha o estômago a fazer barulho, por isso tinha de arranjar de comer. Não fazia a mínima ideia do tipo de investigação que estava em curso em relação ao paquistanês morto, assim também teria de o ir indagar.

Ao contrário do oficial seu superior, que nunca parecia arranjar uma refeição decente, Barbara não negava ao estômago o que lhe era devido. De acordo com isso, virou à esquerda e percorreu a encosta suave da High Street, por detrás da qual já conseguia avistar o mar.

Como acontecera na sua meninice em Balford, não havia falta de estabelecimentos para comer e a maior parte deles parecia não ter mudado de mãos

- nem ter sido pintada - desde a última vez que ela lá fora. Decidiu-se pelo Breakwater Restaurant, que servia as suas refeições - talvez com intenção evidente - exactamente na porta ao lado de D. K. Corney, um estabelecimento comercial cuja placa anunciava que os seus empregados eram Agentes Funerários, Construtores, Decoradores e Técnicos de Aquecimento Central. Tipo supermercado, pensou Barbara. Estacionou o Mini com um dos pneus da frente em cima do passeio e foi ver o que o Breakwater tinha para lhe oferecer.

Descobriu que não tinha grande coisa, facto de que as outras pessoas já deviam ter tomado conhecimento, porque, embora fossem horas de jantar, viu-se sozinha no restaurante. Escolheu uma mesa perto da porta, na esperança de sentir uma brisa marítima errante que eventualmente se lembrasse de soprar. Apanhou a ementa, que estava encostada a uma jarra com cravos de plástico. Depois de a usar durante uns instantes para se abanar deu-lhe uma olhadela e decidiu que o Mega-Mral não era para ela apesar do preço de saldo (cinco libras e meia por uma salsicha de porco, bncon, um tomate, ovos, cogumelos, um bife, uma salsicha de lata, um rim, um hamburger, uma costeleta de carneiro e batatas fritas). Decidiu-se por aquilo que parecia ser a especialidade do restaurante: empada de borrego. Fez o pedido a uma adolescente que tinha uma enorme borbulha mesmo no meio do queixo e, instantes depois, apercebeu-se de que o Breakwater Restaurant lhe iria fornecer várias informações.

Perto da caixa estava um jornal. Barbara levantou-se para o ir buscar, tentando ignorar os sons pouco agradáveis que as solas dos ténis faziam no chão peganhento do restaurante.

As palavras Tendring Standard estavam impressas no topo, a azul. Estavam acompanhadas por um exuberante leão e pelo elogio O JORNAL DO ANO NO ESSEX. Bárbara apanhou-o e levou-o para a mesa, para o abrir sobre a toalha de plástico, que estava artisticamente enfeitada por florzinhas brancas e salpicada com os restos do almoço.

O jornal estava já bastante usado e era da tarde anterior; Barbara não precisou de passar da primeira página porque, aparentemente, a morte de Haytham Querashi era a primeira morte suspeita que ocorrera em cinco anos, na Península de Tendring. Como tal tinha o tratamento de luxo da imprensa.

A primeira página mostrava uma fotografia do morto, bem como outra, do sítio onde o corpo fora descoberto. Barbara observou ambas.

Em vida, Haytham Querashi tinha um ar inócuo. A cara morena era sim pática e esquecer-se-ia facilmente. A legenda, por baixo da imagem, indicava que tinha vinte cinco anos, no entanto parecia mais velho. Era o resultado de uma expressão sombria e a calvície ajudava ao efeito. Estava bem barbeado e tinha cara de lua-cheia, o que fez Barbara pensar que, se tivesse sobrevivido, seria propenso a engordar quando chegasse à meia-idade.

A segunda fotografia mostrava uma guarita abandonada, situada na praia, na base da falésia. Era em cimento granulado, de forma hexagonal e com uma entrada ao nível do chão. Barbara tinha visto já esta estrutura, anos antes, quando, num dia nublado, dera um passeio com o irmão mais novo e tinham observado um rapaz e uma rapariga que olhavam desconfia dos à sua volta, antes de entrarem para lá. O irmão de Barbara perguntara inocentemente se os dois jovens iriam brincar às guerras. Barbara comentara ironicamente que era exactamente uma invasão o que os dois planeavam fazer. Afastara Tony da guarita.

- Eu podia fazer o barulho da metralhadora para eles - oferecera. Ela garantira-lhe que não seriam necessários efeitos sonoros.

O jantar chegou. A empregada colocou os talheres - que pareciam lavados com pouco cuidado - e o prato em frente dela. Tivera escrúpulos e evitara perscrutar o rosto maltratado de Barbara, quando recebera o pedido, mas agora a rapariga olhava-a com ar sério e perguntava:

- Importa-se que lhe pergunte?

- Limonada - respondeu Barbara. - Com gelo. E suponho que não tem uma ventoinha que se possa ligar, não é verdade? Estou a derreter-me.

- Avariou-se ontem - disse a rapariga. - Desculpe. - Pôs o dedo na borbulha do queixo de maneira pouco agradável. - É que estava a pensar fazer o mesmo quando tivesse dinheiro. Por isso gostava de lhe perguntar se doeu muito.

- O quê?

- O seu nariz. Não lhe fez uma plástica? Não é por isso que tem essas ligaduras todas? - Apanhou o suporte cromado dos guardanapos de papel e estudou a sua imagem. - Queria um mais arredondado. A minha mãe diz que éu devia dar graças a Deus por aquele que tenho, mas eu digo então porque é que Deus deixou que inventassem a cirurgia plástica se não para ser usada?, Também quero arranjar as maçãs do rosto, mas primeiro é o nariz.

- Não foi plástica - disse Barbara. - Parti- o.

- Que sorte! - Exclamou a rapariga. - Assim conseguiu um novo pelos Serviços de Saúde! Agora, será que... - Meditava claramente sobre a possibilidade de ir contra a porta com o nariz no ar.

- Sim, bem, eles não perguntam como é que o queremos – disse Barbara. - Se se tivessem dado a esse trabalho teria pedido um como o do Michael Jackson. Sempre adorei narinas perpendiculares. - E agitou o jornal para mostrar o que estava a fazer.

A rapariga - cuja placa de identificação dizia chamar-se Suzi – pôs uma mão na mesa, reparou no que Barbara estava a ler e disse em ar de confidência:

- Nunca deviam ter vindo para cá, sabe? É o que acontece quando se

vai para onde não se é desejado.

Barbara pôs de lado o jornal e cortou com o garfo uma porção de ovo

escalfado. Disse:

- Como?

Suzi apontou para o jornal.

- Essa gente de cor. Afinal o que estão cá a fazer? Para além dos distúrbios, que foi o que esta tarde fizeram e muito bem.

- Tentam melhorar de vida, suponho.

- Ummm... então porque não irão melhorá-la para outro sítio. A minha mãe disse logo que ia haver sarilho, se os deixassem estabelecer-se aqui, e olhe o que aconteceu: um deles toma uma overdose na praia e os outros desatam a gritar que foi um assassínio.

- A morte está relacionada com drogas? - Barbara começou a procurar

os pormenores importantes nos parágrafos da história.

- Que mais poderia ser? - Perguntou Suzi. - Toda a gente sabe que lá no Paquistão engolem sacos de ópio e sabe Deus que mais. Levam-nos no estômago para fazer contrabando para outros países. Depois, quando chegam, vão à casa-de-banho e tiram-nos lá de dentro. Depois pronto. Não sabia?

Vi uma vez na televisão.

Barbara recordou a descrição de Haytham Querashi, que ouvira na televisão. O jornalista identificaram-no como tendo chegado havia pouco tempo do Paquistão. Pela primeira vez perguntou a si mesma se não teria interpretado mal as suas impressões e viera a correr para o Essex, por causa de uma manifestação que fora transmitida e do comportamento misterioso de Taymullah Azhar.

Suzi continuava:

- Só que desta vez um dos sacos rebentou dentro do tipo e ele meteu-se na guarita para morrer. Assim, não desgraçaria a sua gente. Fazem questão nisso, sabe?

Barbara voltou ao artigo e começou a ler com interesse.

- Então já se sabe o resultado da autópsia? - Suzi parecia tão convencida da veracidade dos factos.

- Nós sabemos o que aconteceu. Quem precisa de uma autópsia? Mas diga isso aos pretos. Quando se souber que morreu de overdose, vão dizer que a culpa é nossa. Espere e verá.

Deu a volta e dirigiu-se à cozinha. Barbara gritou:

- A minha limonada! - Quando a porta se fechou atrás dela. Novamente sozinha, Barbara leu sossegada o resto do artigo. Viu que o morto era chefe de produção de uma empresa dali, chamada Mostardas Malik & Condimentos Variados. Era propriedade de um tal Akram Malik, que, de acordo com o artigo, era também vereador da Câmara. Na altura da sua morte - que o departamento criminal declarara ter tido lugar na sexta-feira à noite, quase quarenta e oito horas antes de Barbara ter chegado a Balford - Mr. Querashi estava a uma semana do seu casamento com a filha de Malik. Era o futuro cunhado, e activista político local, Muhannad Malik, que, depois da descoberta do corpo de Querashi, fizera exigências para que houvesse uma investigação criminal. Embora esta tenha imediatamente sido entregue ao Departamento Criminal, a causa da morte não fora ainda anunciada. Como resultado, Muhannad Malik prometia que outros membros proeminentes da comunidade asiática se juntariam a ele a fim de insistir com os investigadores. Seria uma loucura fingir que não sabemos o que quer dizer "apurar a verdade", quando se trata de um asiático, eram as declarações feitas por Malik, no sábado à tarde, citadas no jornal.

Barbara pôs o jornal de lado quando Suzi voltou com o copo de limonada, no qual uma única pedra de gelo flutuava com intenções esperançosas. Barbara acenou o seu agradecimento e voltou a cara na direcção do jornal, para evitar mais comentários. Precisava de pensar.

Tinha quase a certeza de que Taymullah Azhar era o membro proemi nente da comunidade asiática que Muhannad Malik prometera fazer aparecer. A partida de Azhar de Londres seguira-se a esta história, por isso a situação teria de ser essa. Viera para aqui e Barbara sabia que era apenas questão de tempo encontrá-lo por aí.

Só não sabia como lhe havia de mostrar as suas intenções de interferir entre ele e a polícia local. Pela primeira vez percebeu que fora arrogante, partindo do princípio que Azhar necessitava da sua interferência. Era um homem inteligente - afinal era professor universitário - por isso saberia no que se ia meter. Ou não?

Barbara passou o dedo na humidade do copo de limonada e considerou a pergunta. O que sabia a respeito de Taymullah Azhar, sabia-o de conversas com a filha deste. Da frase de Hadiyyah O pai tem uma aula à noite concluíra, em primeiro lugar, que ele estava a estudar. Esta conclusão não se baseara em preconceitos, mas sim na idade que o homem aparentava. Parecia um estudante e, quando Barbara descobrira que era professor de microbio logia, o espanto que sentiu associou-se mais ao saber a idade dele do que à afirmação de um estereotipo racial. Com trinta e cinco anos, era dois anos mais velho que a própria Barbara. Era uma loucura, pois parecia dez anos mais novo.

Mas, à parte a idade, Barbara sabia que uma certa ingenuidade acompanhava a profissão de Azhar. A torre de marfim da sua profissão protegia-o das realidades do dia a dia. As suas preocupações giravam à volta de laboratórios, experiências, aulas e artigos impenetráveis, escritos para revistas científicas. Os delicados movimentos das forças políciais seriam para ele tão estranhos como para ela as bactérias, vistas ao microscópio. Os problemas da vida universitária - com os quais Barbara tivera alguns contactos à distância, no Outono anterior, por ter trabalhado num caso em Cambridge - nada tinham a ver com os da polícia. Uma impressionante lista de publicações, conferências e graus académicos, não valiam tanto como a experiência e o instinto para o crime. Azhar iria descobrir isto assim que falasse com o oficial encarregado do caso, se era essa a sua intenção.

Pensando nesse oficial, Barbara voltou à leitura. Se ela ia forçar a entrada de crachá em punho, pronta para escudar o aparecimento em cena de Taymullah Azhar, seria bom saber quem estava encarregado do assunto.

Na página três, começou a ler outra história relacionada com o acontecimento. O nome que procurava aparecia no primeiro parágrafo. De facto, toda a história era sobre esse oficial. Não só porque esta era a primeira morte suspeita, que ocorria na Península de Trending, em mais de cinco anos, mas também porque a investigação seria conduzida por uma mulher.

Emily Barlow fora recentemente promovida a detective-inspector-chefe. Barbara murmurou:

- Aleluia! - Depois permitiu-se a um sorriso deliciado, quando viu o nome. Isto porque tinha feito os três últimos anos do curso de detectives na Escola de Maidstone juntamente com Emily Barlow.

Isto, concluiu Barbara, era certamente um sinal: vindo directamente do céu, uma mensagem dos deuses, a caligrafia - em luzes vermelhas de néon, se quiserem - rabiscadas na parede do seu futuro. Não se tratava apenas de um conhecimento fortuito com Emily Barlow e de, por isso, tentar a entrada na investigação, com base numa ligeira familiaridade com a chefe da equipa. Era também o caso de algo que tinha de ser, com todas as indicações de ser um importante estágio, preparado para elevar ao máximo a carreira de Barbara. Porque acontecia não haver em lado algum, mulher mais competente, mais adequada às investigações criminais e mais dotada para as políticas do trabalho policial, do que Emily Barlow. E Barbara sabia que o que podia ganhar, por trabalhar ao lado de Emily durante uma semana, valia mais do que aprender qualquer assunto descrito num qualquer livro de criminologia.

Durante o curso de detective que tinham feito juntas, a alcunha de Emily fora Barlow, a Fera. Num mundo em que os homens se erguiam a posições de autoridade só pelo simples facto de serem homens, Emily abrira caminho através das fileiras do Departamento Criminal, provando ser, em todos os aspectos, igual ao sexo oposto. Sexismo?, dissera uma noite, em resposta a uma pergunta de Barbara sobre o assunto. Estava a fazer um exercício violento numa máquina de remar e nem abrandou o ritmo para responder:

- Não acontece. Se os tipos souberem que lhes vais à cara se pisarem o risco, já não o fazem. Isto é, não pisam o risco.

E lá continuou, sempre com o mesmo objectivo: chegar à posição de chefe da polícia. Como Emily, chegara a detective-inspector aos trinta e sete anos, Barbara sabia que não teria problemas em atingir as mesmas metas.

Barbara engoliu o resto do jantar, pagou e deixou a Suzi uma gorjeta generosa. Mais animada do que estivera nos últimos dias, voltou para o Mini e pô-lo a trabalhar com uma aceleradela. Poderia até dar uma olhadela a Hadiyyah, e poderia evitar que Taymullah Azhar fizesse alguma coisa que lhe viesse a causar problemas. E como recompensa para os seus esforços, poderia observar o trabalho de Barlow, a Fera, num caso e esperar que um pouco da poeira mágica da detective pudesse poisar nos seus ombros de sargento.

- Inspector, precisa que mande Presley para a ajudar? O detective- inspector Emily Barlow ouviu esta pergunta vinda do seu superintendente e antes de lhe responder, traduziu-a mentalmente como:

- Conseguiu acalmar os paquistaneses? Porque se não, há outro inspector que pode fazer o trabalho como deve ser no seu lugar.

Donald Ferguson estava à espera da promoção a subchefe e a última coisa que desejava era que o brilhante caminho da sua carreira ficasse subitamente impedido por obstáculos políticos.

- Não preciso da ajuda de ninguém, Don. A situação está sob controle. Ferguson deu uma gagalhada.

- Tenho dois homens no hospital e um monte de paquistaneses pron tos a explodir. Não me diga que está sob controle, Barlow. Em que pé estão as coisas?

- Disse-lhes a verdade.

- Foi uma táctica brilhante. - Do outro lado da linha, a voz de Fergusson estava adoçada de sarcasmo. Emily perguntou a si própria porque seria que o Super estava ainda a trabalhar a esta hora da noite, já que os manifestantes paquistaneses havia muito que tinham dispersado e o superintendente nunca fora homem para trabalhar até tarde. Sabia que ele estava no gabinete porque lhe telefonara e decorara rapidamente o número, quando se tornara evidente que retribuir telefonemas lá para cima fazia parte do seu novo posto.

- Brilhante, Barrow - continuou ele. - Posso perguntar quanto tempo acha que eles vão levar a voltar às ruas?

- Se me desse mais homens, não teríamos que nos preocupar com as ruas ou com outras coisas.

- É tudo o que lhe posso mandar. A menos que queira Presley.

Outro inspector. Nem por sombras, pensou ela.

- Não preciso de Presley. Preciso de polícias que sejam visíveis nas ruas. Preciso de mais agentes.

- Precisa é de dar umas boas pancadas em certas cabeças. Se não é capaz.

- O meu trabalho não é fazer controle de multidão. - Contrapôs Emily. - Aqui tentamos investigar um homicídio, e a família do morto.

- Posso recordá-la de que os Malik não são da família de Querashi, apesar destas pessoas parecerem viver sempre em casa uns dos outros?

Emily limpou o suor da testa. Sempre suspeitara de que Donald Fergusson era afinal um parvo vestido de gente, e quase todas as suas afirmações serviam para comprovar essa suspeita. O mínimo descuido e a sua carreira passaria à história. Emily armou-se de paciência para responder.

- Ele ia casar nessa família, Don.

- E você disse-lhes a verdade. Causaram um tumulto esta tarde e em resposta você disse-lhes, simplesmente, a verdade. Tem alguma ideia do que tal coisa fez à sua autoridade, Inspector?

- Não vale a pena esconder-lhes a verdade, já que são o primeiro grupo de pessoas que eu tenciono interrogar. Esclareça-me, por favor. Como espera que eu conduza uma investigação de homicídio sem dizer às pessoas que se trata de um crime?

- Não fale comigo nesse tom, inspector Barlow. O que fez Malik até agora, para além de instigar um tumulto? E porque diabo não está ele preso?

Emily não disse a Ferguson o que era óbvio: a multidão dispersara, uma vez que a televisão tinha deixado de transmitir, e ninguém fora capaz de indicar quem atirara as pedras.

- Fez exactamente o que afirmou que ia fazer. - disse. - Muhannad Malik nunca fez uma ameaça ao acaso e suponho que não vai agora começar a fazê-las, só para nos agradar.

- Obrigado pelo perfil da personagem. Agora responda-me.

- Mandou vir uma pessoa de Londres, tal como prometeu. Um especialista naquilo que chama política de imigração.

- Poupe-me - resmungou Fergusson. - E o que lhe respondeu?

- Quer exactamente as minhas palavras, ou um resumo?

- Deixe-se de insinuações inspector. Se quer dizer alguma coisa, sugiro que o faça o mais depressa possível.

Havia muito que dizer, mas não era aquela a altura própria.

- Don, é tarde. Estou estafada. Aqui dentro estão cerca de trinta graus, e gostaria de chegar a casa antes do amanhecer.

- Tratamos já desse assunto - disse Ferguson.

Jesus, que tirano miserável. Como gostava de mostrar que era importante. Precisava sempre de o fazer. Emily imaginou que, se o superintendente estivesse ali no gabinete, abriria as calças para provar qual deles era homem.

- Disse a Malik que tínhamos chamado um patologista do Ministério do Interior, para fazer a autópsia amanhã de manhã - replicou. - Disse-lhe que a morte de Mr. Querashi parecia ser aquilo que ele próprio tinha sugerido: homicídio. Disse-lhe que o Standard já tinha a história e que a ia publicar amanhã. Tudo bem?

- Gosto desse parecia - disse Fergusson. - Dá-nos espaço de manobra. Veja lá se continua a fazer isso. - Desligou da maneira habitual, deixando cair o auscultador no descanso. Emily afastou o telefone do ouvido, esperou um pouco e fez o mesmo.

No seu gabinete abafado, apanhou um lenço de papel e passou-o pela cara. Ficou todo manchado de gordura. Daria um dedo do pé para ter uma ventoinha. Tinha apenas uma lata de sumo de tomate morno, o que era melhor que nada, para melhorar os efeitos do calor sufocante daquele dia. Apanhou-a e enfiou um lápis na argola para a abrir. Bebeu um gole e começou a massajar o pescoço. Preciso de exercício, pensou e mais uma vez reconheceu que uma das desvantagens do seu emprego - juntamente com o facto de ter de lidar com porcos como Fergusson - era ter de prescindir da actividade física mais do que era a sua natural inclinação. Se fizesse as coisas à sua maneira, já estaria lá fora, havia horas, a remar, em vez de fazer aquilo a que o dever a obrigava: responder às chamadas telefónicas.

Deitou para o caixote do lixo a última das mensagens telefónicas e em seguida fez o mesmo com a lata do sumo de tomate. Preparava-se para enfiar um monte de dossiers no saco de lona, quando uma das mulheres-polícia destacadas para a investigação da morte de Querashi apareceu à porta, trazendo várias páginas de umfax.

- Tem aqui as informações sobre o passado de Muhannad Malik, que tinha pedido - anunciou Belinda Warner. - Acabaram de chegar dos Serviços de Informação de Clacton. Quer agora ou amanhã de manhã?

Emily estendeu a mão.

- Alguma coisa que ainda não soubéssemos?

Belinda encolheu os ombros.

- Se me pergunta, não é flor que se cheire. Mas não há nada aqui que o confirme.

Era isso mesmo que Emily esperava. Acenou os agradecimentos e a agente desapareceu. Uns momentos depois, os seus passos ecoavam nas escadas no edifício mal ventilado que servia de esquadra de polícia a Balford-le-Nez.

Conforme era seu hábito, Emily deu uma olhadela ao relatório, antes de o ler pormenorizadamente. Lembrou-se de uma coisa importante. À parte as ameaças do seu superintendente e as suas ambições de carreira, a única coisa de que aquela cidade não precisava era de um incidente racial importante, e era no que a morte no Nez se estava a tornar. A época balnear abrira em Junho, e com o calor chamando os moradores das cidades para a praia, as expectativas da comunidade, em relação ao fim da recessão, eram grandes. Mas, como poderia Balford esperar um afluxo de visitantes se as tensões raciais descessem à rua, pondo os habitantes uns contra os outros? A terra não se podia permitir a tal coisa e todos os empresários de Balford o sabiam. Diante de si havia um desafio delicado de investigar um crime e evitar, ao mesmo tempo, o estalar de um conflito étnico. E o facto de Balford estar à beira de um recontro anglo-asiático tornara-se nesse dia mais evidente para Emily Barlow.

Muhannad Malik - juntamente com os amigos - tinham sido os mensageiros dessa informação. Desde que estava na polícia que Emily conhecia o jovem paquistanês, que ainda adolescente, lhe chamara a atenção. Tendo crescido nas ruas do sul de Londres, Emily aprendera a defender-se em conflitos que eram, com frequência, multiraciais, expondo-se quando se tratava de insultos à cor da sua pele. Por isso, quando era ainda uma jovem agente, mostrara pouca paciência com aqueles que usavam a raça como desculpa para tudo. Muhannad Malik era um daqueles que, mesmo aos dezasseis anos, acenava com o racismo sempre que podia.

Aprendera a dar pouca credibilidade às suas palavras. Simplesmente, recusava-se a acreditar que todas as dificuldades desta vida tivessem a ver com problemas de raça. Mas agora, havia uma morte a ter em consideração, e não apenas uma morte, mas também um homicídio, sendo a vítima um asiático, futuro marido da irmã do próprio Muhannad Malik. Era inconcebível que, confrontado com este crime, Malik não o tentasse ligar com a ocorrência de racismo que dizia ver à sua volta.

E se se pudesse estabelecer uma ligação, o resultado seria exactamente aquele que Donald Ferguson temia: um Verão conflituoso, agressões e feridos, tudo prometido pelo caos que reinara nessa tarde.

Como reacção daquilo que acontecera, dentro e fora da sessão de Câmara, os telefones tinham começado a tocar em pânico na esquadra, à medida que os habitantes de Balford faziam a ligação entre os cartazes, e as pedras e os actos de extremismo levados a cabo, globalmente, nos últimos anos. Entre esses telefonemas, chegara uma chamada da presidente da Câmara, que teve como resultado um pedido formal de informação, feito aos agentes que tinham a seu cargo fazer o perfil das pessoas que provavelmente ultrapassariam a barreira do crime. As páginas que agora estavam nas mãos de Emily, representavam o material que a unidade de informação conseguira; nos últimos anos, a respeito de Muhannad Malik.

Não era muito, e a maior parte parecia perfeitamente inofensivo, sugerindo que Muhannad, de vinte e seis anos, apesar do seu comportamento nessa tarde, acalmara bastante, desde que como adolescente exaltado, chamara a atenção da polícia. Emily tinha na sua posse o registo da escola, o resultado dos exames do terceiro ciclo e ensino secundário, a sua carreira universitária e da sua actividade laboral. Era o respeitoso filho de um vereador camarário, marido dedicado, casado havia três anos, pai empenhado de duas crianças pequenas e administrador competente da empresa da família. Afinal, tirando uma pequena nódoa, era um cidadão modelo.

Mas Emily sabia que as pequenas nódoas escondiam problemas maiores. Por isso continuou a ler. Malik era reconhecido como fundador da Jum'a, uma organização de jovens paquistaneses do sexo masculino. O objectivo declarado dessa associação era fortalecer os laços entre os muçulmanos da comunidade e acentuar e celebrar a miríade de diferenças entre esses mesmos muçulmanos e os ocidentais com quem viviam. Duas vezes no ano anterior, o envolvimento da Jum'a tornara-se suspeito em discussões entre jovens asiáticos e os seus correlativos ingleses. Uma, fora uma discussão por causa do trânsito que acabara em pancadaria; outra, fora um incidente por causa de garrafas com sangue de vaca, que tinham sido arremessadas a uma menina asiática por colegas da mesma turma. Tinham ocorrido ataques, no rescaldo destes incidentes, mas depois ninguém tinha estado disposto a implicar a Jum'a. Nada disto bastava para derrotar o homem. Nem sequer para desconfiar dele. No entanto, a marca do activismo de Muhannad Malik - exibida nesse dia - não caía bem a Emily Barrow. E, depois de ter examinado o relatório, descobriu que nada havia que a pudesse descansar.

Reunira-se com ele e com o homem a quem ele chamara especialista em política de imigração, algumas horas depois da manifestação. Muhannad deixara que o companheiro falasse, mas, só a sua presença era impossível de ignorar, como, sem dúvida, fora a sua intenção.

Irradiava antipatia. Não se sentou. Pelo contrário, encostou-se à parede com os braços cruzados e não desviara os olhos do rosto dela. A sua expressão de desprezo e desconfiança desafiava Emily a mentir sobre a morte de Querashi. Não pensara fazê-lo... pelo menos no que era essencial.

Quer para evitar qualquer explosão da parte dele, quer para minimizar o facto não afirmado de que não havia qualquer ligação entre a manifestação e o ter concordado em recebê-los, Emily dirigira os seus comentários ao companheiro de Muhannad, que lhe tinha sido apresentado como o primo Taymullah Azhar. Ao contrário de Muhannad, este homem parecia sereno, embora como membro do khánan de Muhannad, Azhar fosse, sem dúvida, governado por uma ordem de trabalhos semelhante à do resto da família. Por isso, Emily fora cuidadosa na escolha das palavras.

- Começamos com a afirmação de que a morte de Mr. Querashi parece ser suspeita - dissera-lhe ela. - Assim que o determinámos, pedimos um patologista do Ministério do Interior. Chega amanhã, para fazer a autópsia.

- O patologista é inglês? - perguntou Muhannad. A implicação era óbvia: um patologista inglês serviria os interesses da comunidade inglesa; um patologista inglês não levaria a sério a morte de um asiático.

- Não tenho a mínima ideia da sua origem étnica. Não nos permitem fazer essas exigências.

- E em que pé está a investigação? - Taymullah Azhar tinha uma maneira curiosa de se exprimir, delicado sem ser deferente. Emily perguntou a si própria como o conseguiria.

- Assim que a morte foi considerada suspeita, o local foi vedadou - replicou Emily.

- Que local é esse?

- A guarita na base do Nez.

- Já foi estabelecido que ele morreu na guarita? Azhar era muito rápido. Emily teve de o admitir.

- Ainda nada foi determinado, à parte o facto de ele estar morto e...

- E levaram seis horas a determinar uma coisa dessas - interrompeu Muhannad. - Imagina, se fosse branco; os polícias teriam o fogo no rabo.

-... E, como a comunidade asiática suspeitava, parece que se tratou de um homicídio - terminou Emily.

Esperou a reacção de Malik. Ele que gritara crime desde que o cadáver fora descoberto, trinta e quatro horas antes. Ela não lhe quis negar esse momento de triunfo.

Ele reagiu rapidamente.

- Tal como eu tinha dito - afirmou. - E se não tivesse andado atrás de vocês desde ontem de manhã, suponho que agora lhe chamariam um infeliz acidente.

Emily conteve-se interiormente. O asiático queria discutir. Um desentendimento verbal com o oficial encarregado das investigações ser-lhe-ia útil como um grito em defesa do seu povo. Uma conversa meticulosa para descrever os factos, não lhe serviria para nada. Por isso, ela ignorara a provocação. Pelo contrário, dirigiu-se ao primo:

- A equipa forense passou ontem cerca de oito horas a examinar o local. Recolheram provas e levaram-nas para analisar no laboratório.

- Quando espera os resultados?

- Dissemos-lhes que era um caso muito urgente.

- Como morreu Haytham? - Interrompeu Muhannad.

- Mr. Malik já lhe tentei explicar duas vezes ao telefone que...

- Não me quer fazer acreditar que ainda não sabe como Querashi foi assassinado, pois não? O médico já viu o corpo. A senhora admitiu que também o tinha visto.

- Ter visto um corpo, nada revela - explicou Emily. - O seu próprio pai lho pode dizer. Foi ele que fez a identificação formal e atrevo-me a dizer que ele sabe tanto como nós.

- Podemos afirmar que não estava envolvida nenhuma arma? - Perguntou Azhar calmamente. - Nem uma faca, um garrote, uma corda? Porque, claro, que o uso de uma delas teria deixado marcas no corpo.

- O meu pai disse que apenas vira um lado da cara de Haytham dissera Muhannad. Depois acentuou o que estava implícito nessa afirmação dizendo: - Ao meu pai só foi permitido ver um lado da cara dele. O corpo estava coberto com um lençol, que lhe chegava ao queixo, e foi só durante quinze segundos. E mais nada. O que nos esconde acerca deste crime, inspector? Emily serviu-se de água de um jarro que estava sobre uma mesa por detrás da sua secretária. Ofereceu aos dois homens. Recusaram ambos, o que foi óptimo, porque se servira do que restava e não lhe apetecia mandar buscar mais. Bebeu com sofreguidão, mas a água soube-lhe vagamente a metal e deixou-lhe um gosto desagradável na língua.

Explicou aos asiáticos que nada escondia, porque nada havia a esconder naquela primeira investigação. Dissera-lhes que a hora da morte fora estabelecida entre as dez e meia e a meia-noite e meia de sexta- feira. Antes de concluírem que se tratava de um homicídio, o patologista determinara que a morte de Mr. Querashi não fora, nem suicídio, nem o resultado de causas naturais. Mas era o que...

- Tretas! - Exclamou Muhannad como única conclusão lógica do que ela lhes afirmara. - Se podem dizer que não foi suicídio nem causas naturais e dizem que apenas parece ser um crime, espera que acreditemos que não nos possam dizer como foi ele morto?

Para continuar a esclarecer os factos, Emily disse a Taymullah Azhar, como se Muhannad não tivesse falado, que toda a gente que vivia nas vizinhanças do Nez estava a ser interrogada por uma equipa de detectives, para determinar o que poderia ter sido visto ou ouvido na noite da morte de Mr. Querashi. Mais ainda, tinham sido tomadas medidas no local, as roupas tinham sido embaladas, as fibras tinham sido retiradas do corpo para análise, amostras de sangue e de urina tinham sido enviadas para o toxicologista, informações...

- Ela está a enrolar-nos, Azhar - Emily teve que admirar Muhannad por o ter percebido. Era quase tão rápido como o primo. - Ela não quer que saibamos o que aconteceu. Porque, se soubéssemos, voltávamos à rua e desta vez não nos íamos embora sem ter todas as respostas e a devida justiça. O que, acredita-me, é exactamente o que eles não querem, no princípio da época turística.

Azhar ergueu a mão para silenciar o primo.

- E fotografias? - perguntou calmamente a Emily. - Tiraram, não é verdade?

- É o que se faz sempre em primeiro lugar. Todo o local é fotografado e não apenas o corpo.

- Podemos vê-las, por favor?

- Receio que não.

- Porquê?

- Porque como determinámos que a morte foi um homicídio, não podemos fornecer ao público nenhum elemento da investigação formal. Não é permitido.

- No entanto é frequente haver uma fuga para os meios de informação, quando se trata de casos como este - afirmou Azhar.

- Talvez seja - disse Emily. - Mas não pelo oficial encarregado. Azhar observou-a com os seus enormes olhos castanhos, muito inteligentes. Se o gabinete não estivesse já insuportavelmente quente, Emily teria corado, debaixo daquela pormenorizada observação. Assim, o calor foi o seu álibi. Todos no edifício - excepto os asiáticos - estavam escarlates e incomodados, por isso, a sua cor nada indicava.

- Em que direcção vão agora seguir? - Perguntou ele, por fim.

- Esperamos que cheguem todos os relatórios. E todos aqueles que conheciam Mr. Querashi são considerados suspeitos. Vamos começar a interrogar...

- Todos os de cor que o conheciam - concluiu Muhannad.

- Eu não disse isso, Mr. Malik.

- Não era preciso, inspector. - Pronunciou o posto dela com toda a delicadeza, para indicar que apenas sentia desprezo. - Não tem qualquer intenção de ligar este crime com a comunidade branca. Se se saísse com a sua, nem sequer estaria a investigar esta morte como homicídio. E não se incomode a negar a acusação. Tenho alguma experiência de como a polícia trata os crimes cometidos contra o meu povo.

Emily não reagiu a mais este insulto e Taymullah Azhar não deu qualquer indicação de ter sequer ouvido o primo. Disse apenas:

- Como eu não conhecia Mr. Querashi, posso ter acesso às fotografias do corpo? Descansaria o espírito dos meus parentes o facto de saberem que a polícia não nos esconde nada.

- Lamento - respondeu Emily.

Muhannad abanou a cabeça, como se sempre tivesse esperado aquela resposta. Disse para o primo:

- Vamos embora. Estamos a perder tempo.

- Talvez não.

- Ora essa. São tudo tretas. Ela não nos vai ajudar.

Azhar parecia pensativo.

- Está disposta a vir de encontro aos nossos desejos, inspector?

- De que maneira?- Emily sentiu-se imediatamente alerta.

- Com um compromisso.

- Um compromisso? - Ecoou Muhannad. - Não, de maneira nenhuma Azhar. Se nós fizermos algum compromisso, acabam por nos tirar o tapete debaixo dos pés e o assassínio de Haytham fica...

- Primo! - Azhar olhou para ele. - Inspector? - Repetiu voltando-se para Emily.

- Não pode haver compromissos numa investigação policial, Mr. Azhar, por isso não sei a que se refere.

- Refiro-me a uma maneira de acalmar as preocupações mais importantes da comunidade.

Ela decidiu tomar as implicações como sendo potencialmente eficazes. Ele poderia estar a sugerir um modo de manter os asiáticos na linha. E isso servia com certeza os interesses dela. Replicou, com toda a cautela:

- Não nego que, em primeiro lugar, tenho de pensar na comunidade

- disse, e ficou à espera, para ver que direcção ele tomava.

- Então, proponho reuniões regulares entre a senhora e a família. Isso suavizará as nossas preocupações, que não pertencem apenas à família, mas também à comunidade mais alargada, no que diz respeito ao vosso procedimento nas investigações da morte de Mr. Querashi. Concorda?

Esperou pacientemente pela resposta. A sua expressão estava tão calma como no princípio. Agia como se nada, excepto a paz em Balford-le- Nez, dependesse da vontade dela em cooperar. Observando-o, Emily percebeu, de repente, que ele se antecipara a todas as respostas que já dera e ao plano que tinha de acabar a conversa com esta sugestão, por ser a conclusão lógica de tudo o que dissera. Acabara de ser manobrada pelos dois. Tinham-lhe apresentado uma variante suave do jogo entre os bons e os maus e ela caíra como uma criança apanhada a roubar rebuçados.

- Gostaria de cooperar tanto quanto possível - dissera, escolhendo as palavras com cuidado para evitar comprometer-se. - Mas no meio de uma investigação é difícil garantir que vou estar disponível sempre que quiserem.

- Uma resposta muito conveniente - disse Muhannad. - É melhor acabarmos com esta charada, Azhar.

- Suspeito que está a fazer deduções que me são estranhas - disse-lhe Emily.

- Sei muito bem o que tenciona fazer: deixar que, quem quer que seja que levante a mão para nós, fique impune, mesmo que seja um assassino.

- Muhannad - disse Taymullah Azhar, calmamente. - Vamos dar à inspector uma oportunidade para fazer um compromisso.

Mas Emily não queria comprometer-se. Não queria ver-se obrigada, no meio de uma investigação, a ter de fazer reuniões, nas quais teria de tomar grandes cautelas com os passos que dava, com as palavras que dizia e, ainda por cima, manter a calma. Não se sentia inclinada para aquele jogo. Mais ainda, não tinha tempo. A investigação já estava atrasada, em parte por causa das maquinações de Malik. Estava a vinte e quatro horas de onde deveria estar. Mas Taymullah Azhar oferecera-lhe uma saída, mesmo que não se tivesse dado conta.

- A família aceitaria outra pessoa em vez de mim?

- Como assim?

- Alguém que fizesse uma ligação entre os senhores, a família e a comunidade e os agentes da investigação. Aceitam? - E desapareçam, acrescentou para si. E mantenham os vossos amigos na linha, em casa, no trabalho e sem saírem à rua.

Azhar trocou um olhar com o primo. Muhannad encolheu violentamente os ombros.

- Aceitamos - disse Azhar levantando-se. - Com a condição desse indivíduo ser substituído por si, se acharmos que ele não serve por ser tendencioso, ignorante ou mentiroso.

Emily concordara com esta condição, após o que os dois homens partiram. Limpou a cara com um lenço de papel, que depois esfregou contra o pescoço, até o fazer em bocadinhos. Retirando os fragmentos do lenço da pele húmida, fez uns telefonemas. Falou com o seu superintendente.

Agora, depois de ter lido o relatório de informações sobre Muhannad Malik, escreveu o nome de Taymullah Azhar e pediu um relatório semelhante sobre ele. Em seguida pôs o saco ao ombro e apagou as luzes do gabinete. Ganhara algum tempo com a conversa com os muçulmanos. O tempo contava muito, quando se tratava de um crime.

Barbara Havers descobriu a esquadra da polícia de Balford, em Martello Road, mais uma ruazinha com edifícios de tijolo vermelho, que marcavam mais um caminho para a praia. A esquadra ficava num deles. Era um edifício vitoriano, com empenas e muitas chaminés, que, sem dúvida pertencera a uma das famílias mais importantes da terra. Um antigo candeeiro azul, cujo vidro estava adornado pela palavra Polícia, identificava o presente uso do edifício.

Quando Barbara travou, já ele emitia luz para a noite, fazendo dançar conchas incandescentes na fachada. Uma figura feminina saía e deteve-se para ajustar a correia de um volumoso saco de pôr ao ombro. Já havia ano e meio que Barbara não via Emily Barlow, mas reconheceu-a imediatamente. Alta, vestindo uma camisola branca e calças escuras, o inspector tinha ombros largos e músculos que indicavam a dedicada atleta que era. Podia estar quase com quarenta nos; mas o corpo ficara-lhe sintonizado para os vinte. Na sua presença - mesmo àquela distância e na escuridão que aumentava - Barbara sentiu-se do mesmo modo que quando estudavam juntas: candidata a uma liposucção, alteração completa de guarda-roupa e seis meses de trabalho com um treinador pessoal.

- Em?! - Chamou Barbara baixinho. - Olá. Qualquer coisa me dizia que ainda te vinha encontrar aqui.

Ao ouvir o som da voz de Barbara, Emily ergueu a cabeça de repente. Mas quando a outra mulher acabou de a cumprimentar, já de afastara da porta da esquadra e estava no passeio.

- Olha, olha! - Disse. - Barb Havers? Que diabo fazes tu em Balford? Como havia de lhe dizer? Ando atrás de um paquistanês exótico para tentar

livrá-lo a ele e à filha, da cadeia. Oh, sim, o inspector Emil Barlow aceitaria essa história nas calmas.

- Estou de férias - Barbara decidiu-se a dizer. - Acabei de chegar e li sobre o caso no jornal daqui. Vi o teu nome e pensei vir até cá espreitar.

- Cheira-me a que queres emprego para as férias.

- Já sabes como é. Não consigo largar isto. - Barbara meteu a mão no saco para apanhar os cigarros, mas lembrou-se, à última hora, que, não só Emily não fumava, como também estava disposta a lutar contra quem o fazia. Barbara largou o maço e tirou as pastilhas elásticas. - Parabéns pela promoção - acreseentou. - Caramba, Em, vais de vento em popa. - dobrou a pastilha dentro da boca, ao mesmo tempo que o inspector chegava junto a ela.

- Os parabéns podem ser prematuros. Se o meu chefe fizer o que tem vontade manda-me outra vez para guarda. - Emily fez uma careta. - O que te aconteceu à cara, Barb? Estás com um aspecto horrível.

Barbara pensou que tinha de tirar os pensos logo que se visse diante de um espelho.

- Esqueci-me de me baixar. Foi no meu último caso.

- Espero que ele tenha pior aspecto. - Era um ele?

Barbara acenou afirmativamente.

- Está na cadeia, acusado de homicídio.

Emily sorriu.

- Isso sim, são boas notícias.

- Para onde vais?

O inspector inclinou-se, transferiu o peso do saco para o outro ombro e passou a mão pelo cabelo, com o gesto habitual de que Barbara tão bem se lembrava. Emily usava o cabelo negro cortado e pintado à punk, o que em qualquer mulher da sua idade teria parecido absurdo. Mas não em Emily Barlow. Emily Barlow nunca era absurda, nem na aparência, nem em nada.

- Bem - disse com toda a franqueza. - Vou encontrar-me com um cavalheiro para passar umas horas de discreto romance ao luar e o que mais se costuma seguir ao romance e ao luar. Mas, para te dizer a verdade, os seus encantos estão a perder-se, por isso desisti. Já sabia que ele ia começar a choramingar por causa da mulher e dos filhos, e não me apetecia segurar-lhe na mão durante mais uma das suas crises de remorso galopante.

A resposta era mesmo de Emily. Há muito tempo relegara o sexo para o plano de qualquer outra actividade aeróbica. Barbara disse:

- Então tens tempo para conversar? Sobre o que se passa? O inspector hesitou. Barbara sabia que ela estava a pensar se seria apropriado. Esperou, entendendo que era pouco provável que Emily concordasse com uma acção que pusesse em perigo o caso em si ou o seu posto, recentemente adquirido. Finalmente, olhou para trás, para a esquadra, e pareceu ter tomado uma decisão.

- Já comeste, Barb? - Perguntou.

- No Breakwater.

- Que coragem. Estou a ver as tuas artérias a engrossar enquanto conversamos. Bem eu não como nada desde o pequeno- almoço. Anda daí, conversamos enquanto eu janto.

- Não é preciso o carro - disse quando viu Barbara procurar as chaves no saco. Emily vivia no cimo da rua, no local em que Martello Road se transformava numa praceta.

Com o passo de Emily, levaram menos de cinco minutos a chegar. A casa era num dos extremos da praceta. Era a última de um quarteirão de nove casas, que pareciam estar em várias fases de decadência ou restauro. A de Emily pertencia ao último grupo. Enfeitavam-na três níveis de andaimes.

- Tens de me desculpar a desarrumação - Emily fez Barbara subir os oito degraus rachados até à varandinha, enfeitada de azulejos eduardinos rachados. - Vai ficar um espectáculo depois de pronta, mas agora, o pior é arranjar tempo para trabalhar aqui. Com o ombro abriu a porta, que tinha a pintura a cair.

- Por aqui - disse, seguindo por um corredor abafado a cheirar a serradura e a aguarrás. - É o único sítio onde consegui arranjar as condições mínimas para viver.

Se Barbara tinha pensado em se alojar com Emily Barlow, enterrou decentemente essa ideia, quando viu o que era o por aqui. Emily parecia viver exclusivamente numa cozinha sem ar. Era um compartimento pouco maior que um armário, contendo um frigorífico, um fogareiro a álcool e os respectivos lava-loiça e bancadas. Mas juntamente com estas características típicas de uma cozinha, ainda lá havia uma cama de campismo, uma mesinha, duas cadeiras articuladas de metal e uma banheira antiga, daquelas que se usavam antes de haver canalização. Barbara não quis perguntar onde ficava a sanita.

A iluminação vinha de uma única lâmpada nua, no tecto, embora uma lanterna e um exemplar de Breve História do Tempo ao lado da cama, indicavam que Emily, quando se deitava, também fazia leitura recreativa - se é que se podia chamar recreativa à leitura da astrofísica - com a ajuda de mais alguma luz. A cama consistia num saco de dormir e uma grande almofada com uma fronha enfeitada por um Snoopy e um Woodstock voando sobre os campos de França, na casota, durante a Primeira Guerra Mundial.

O ambiente era como qualquer outro ambiente estranho, que Barbara pudesse ter imaginado para a Emily Barlow que conhecera em Maidstone. Se tivesse tido tempo para meditar no tipo de casa adequado ao inspector teria sido qualquer coisa simples e moderna, com muito vidro, metal e pedra.

Emily pareceu ler-lhe os pensamentos, porque deixou cair o saco na bancada e encostou-se a ela, com as mãos nos bolsos, dizendo:

- Faz com que me esqueça do trabalho. Quando acabar de renovar este sítio arranjo outro. Isso é uma escapadela com um tipo de jeito é o que mantém a minha sanidade. - Levantou a cabeça. - Ainda não te perguntei. Como está a tua mãe, Barb?

- Falando de sanidade... ou do contrário?

- Desculpa. Não quis ligar as coisas.

- Não peças desculpas. Eu não me ofendi.

- Ainda a tens contigo?

- Não podia ser - Barbara delineou os pormenores à outra, sentindo como sempre uma certa relutância em revelar que internara a mãe num lar: culpada, ingrata, egoísta, má. Não fazia diferença que a mãe estivesse em melhores mãos do que quando vivia com Barbara. Era a mãe dela. A dívida do nascimento ficaria sempre entre elas, não interessava que os filhos não tivessem pedido para nascer.

- Deve ter sido bem difícil - disse Emily, quando Barbara concluiu.

- Não deve ter sido nada fácil ter tomado essa decisão.

- Pois não. Mesmo assim parece vingança.

- De quê?

- Não sei. Da vida, acho eu.

Emily abanou lentamente a cabeça. Parecia examinar Barbara e, sob o seu escrutínio, Barbara sentia comichões debaixo dos adesivos. Estava um calor incrível naquela cozinha e embora a única janela estivesse aberta por qualquer razão pintada de preto - não havia a mínima promessa de uma brisa a entrar por ela.

Emily levantou-se.

- Jantar - disse. Foi ao frigorífico e pôs-se de cócoras, trazendo lá de dentro um iogurte. Apanhou uma tigela de um armário e, em três colheradas, despejou nela o iogurte. Apanhou um pacote de frutos secos. - Este calor... - disse, fazendo uma pausa para meter os dedos por entre os cabelos. - Deus. Este calor infernal. - Abriu o pacote com os dentes.

- É o pior tempo para uma investigação - disse Barbara. - Ninguém tem paciência para nada. As pessoas irritam-se por nada.

- A quem o dizes! - Concordou Emily. - Nestes dois últimos dias pouco mais tenho feito do que tentar impedir que a comunidade asiática deite fogo à cidade e evitar que o meu chefe entregue o caso ao seu parceiro de golfe.

Barbara ficou grata pelo facto da colega lhe ter dado uma oportunidade.

- Sabias que a manifestação de hoje apareceu na ITV?

- Claro! - Emily despejou metade do pacote dos frutos secos em cima do iogurte e misturou tudo, antes de apanhar uma banana da fruteira, que estava em cima da bancada.

- Tivemos dezenas de asiáticos numa sessão de Câmara, berrando sobre Direitos Civis como se fossem lobisomens. Um deles alertou os meios de comunicação, e, quando apareceram as Câmaras, começaram a atirar pedras da calçada. Trouxeram gente de fora para os ajudar. E Ferguson, o meu chefe, tem-me telefonado uma ou duas vezes por hora para me ensinar o que devo fazer.

- Qual é a maior preocupação dos asiáticos?

- Depende da pessoa com quem se fala. Tencionam queixar-se seja do que for: um encobrimento, lentidão da polícia, uma conspiração do Departamento Criminal ou o começo da limpeza étnica. Escolhe!

Barbara sentou-se numa das cadeiras de metal.

- Qual é a mais provável? O inspector olhou para ela.

- Lindo Barbara. Pareces um deles.

- Desculpa. Não queria sugerir...

- Esquece. Tenho tudo às minhas costas! Porque não tu também?De uma gaveta, Emily retirou uma faquinha com que cortou a banana, juntando as rodelas ao iogurte e aos frutos secos. - A situação é esta. Tento que as fugas sejam mínimas. As coisas são incertas como o diabo, nesta comunidade, e se não tiver cuidado sobre quem sabe o quê e quando, há um canhão à solta na cidade que vai começar a disparar.

- Quem é?

- Um muçulmano: Muhannad Malik - Emily explicou a relação deste

com o morto e descreveu a importância da família Malik - e, consequen temente, do próprio Muhannad - em Balford-le-Nez. O pai, Akram, trouxera a família para ali havia onze anos, com o sonho de formarem uma empresa. Ao contrário de muitos asiáticos recém-chegados, que se limitavam a restaurantes, mercados, lavandarias ou bombas de gasolina, quando Akram Malik sonhava, era em grande. Vira que, numa parte do país em depressão, poderia, não só ser bem recebido como gerador de futuros postos de tra balho, mas poderia também deixar a sua marca. Começara, aos poucos, a fazer mostarda, num pequeno compartimento das traseiras de uma padaria em Old Pier Street. Acabara por ter uma fábrica completa, na parte norte da cidade. Aí fabricava tudo, desde deliciosas gelatinas até molhos para salada. Mostardas Malik & Condimentos Variados - terminou Emily.

- Outros asiáticos o seguiram. Uns parentes, outros não. Agora temos uma comunidade em crescimento. Com todas as dores de cabeça inter-raciais.

- E Muhannad é uma delas?

- É uma enxaqueca. Estou até aos olhos de politiquices por causa desse idiota. - Apanhou um pêssego e começou a cortá-lo, arranjando as rodelas na borda da tigela. Barbara observava-a, pensando no seu próprio jantar, tão pouco saudável, mas conseguiu ignorar o remorso.

Muhannad, informara-a Emily, era um activista político de Balford-le-Nez, furiosamente dedicado à igualdade dos direitos e ao tratamento justo para toda a sua gente. Formara uma organização cujo suposto objectivo era o apoio, a irmandade e a solidariedade entre os jovens asiáticos, mas ficava extremamente irritado quando se tratava de qualquer coisa, mesmo que remo tamente ligada com um incidente racial. Alguém que se atrevesse a incomodar um asiático tinha, pouco tempo depois, de se enfrentar, olhos nos olhos a uma ou máis inexoráveis Némesis, cuja identidade as vítimas eram, muito convenientemente, sempre incapazes de recordar.

- Não há ninguém como Malik para mobilizar a comunidade asiática

- disse Emily. - Tem andado atrás de mim desde que o corpo de Querashi foi descoberto e vai continuar assim até que eu prenda alguém. Entre aturá-lo e aturar Fergusson, tenho de fabricar tempo para levar a cabo a investigação.

- É difícil - disse Barbara.

- Ele é um chato; é o que é! - Emily atirou a faca para o lava-loiça e levou a comida para a mesa.

- Conversei com uma miúda, no Breakwater - disse Barbara, enquanto Emily ia ao frigorífico apanhar duas latas de cerveja. Passou uma a Barbara e abriu a sua. Sentou-se com o seu ar inconscientemente atlético, levantando uma perna por cima do assento da cadeira em vez de se baixar com graciosidade feminina. - Falou-se de que Querashi possa ter tido um problema com drogas. Sabes o que é: ter ingerido heroína antes de sair do Paquistão.

Emily enfiou a colher na mistura de iogurte. Encostou a lata de cerveja à testa, onde a transpiração lhe fazia a pele brilhar.

- Ainda não temos os resultados finais do laboratório de toxicologia. Pode haver ligação com droga. Com os portos aqui ao pé, temos de ter isso em conta. Mas se é isso que estás a pensar, as drogas não o mataram.

- Sabes o que foi?

- Claro que sei.

- Então porque o escondes? Vi que a causa da morte não foi divulgada, por isso nem há a certeza de teres um homicídio. É nesse pé que as coisas ainda estão?

Emily bebeu um gole de cerveja e olhou cuidadosamente para Barbara.

- Estás mesmo de férias, Barb?

- Eu sei ficar de boca fechada, se é isso que queres.

- E se eu quiser mais?

- Precisas da minha ajuda?

Emily tinha engolido mais iogurte, mas enfiou a colher na tigela e meditou um pouco, antes de responder lentamente.

- Talvez precise.

Isto era bem melhor do que ter de se insinuar, pensou Barbara. Ficou entusiasmada com a oportunidade que o Departamento Criminal lhe oferecia sem saber.

- Então está bem. Porque queres manter a imprensa à distância? Se não são drogas, está relacionado com sexo? Foi suicídio? Acidente? O que se passa?

- Homicídio - disse ela.

- Ah, e quando se souber, os asiáticos voltam à rua.

- Já sabem. Disse esta tarde aos paquistaneses.

- E então?

- Então, a partir de agora não nos largam nem para respirar, nem para ir à casa-de- banho, nem para dormir.

- É um crime racial, então?

- Ainda não sabemos.

- Mas sabes como morreu?

- Soubemos assim que olhámos bem para ele. Mas gostaria de o ocultar aos asiáticos o mais tempo possível.

- Porquê? Se já sabem que foi crime...

- Porque este tipo de crime sugere exactamente aquilo que eles alegam.

- Um incidente racial? - Quando Emily acenou afirmativamente, Barbara perguntou.

- Como? Quer dizer, como sabes, só de olhar para o corpo, que foi um crime racial. Havia marcas? Cruzes suásticas ou assim?

- Não.

- Algum sinal que dê para identificar a Frente Nacional?

- Não, também não.

- Então como podes concluir...

- Está cheio de hematomas. E tem o pescoço partido, Barb.

- Caramba! - As palavras de Barbara denunciavam admiração. Recordou o que tinha lido. O corpo de Querashi fora encontrado dentro da guarita, na praia. Isto sugeria que tinha sido apanhado numa emboscada. Juntando o espancamento, a morte poderia realmente ser interpretada com motivada por racismo. Porque os crimes premeditados - a menos que fossem antecedidos por torturas apreciadas pelos assassinos em série - eram geralmente rápidos, pois o objectivo é matar. O pescoço partido dava a ideia de que o assassino era outro homem. Uma mulher de tamanho médio não teria força sequer para começar a partir o pescoço de um homem.

Enquanto Barbara considerava estes pontos, Emily dirigiu-se à bancada e apanhou o saco de lona. À mesa, empurrou o prato para o lado e mostrou três dossiers de cartão. Abriu o primeiro, colocou-o de lado e abriu o segundo.

 

1 National Front: Partido político britânico, racista e de extrema direita. (N. da T. )

 

Continha um conjunto de fotografias brilhantes. Escolheu várias e entregou-as a Barbara.

As fotografias mostravam o cadáver tal como se apresentara na manhã em que fora descoberto na guarita. A primeira fotografia focava o rosto, e Barbara viu que estava quase tão maltratado como o seu. A face direita fora especialmente atingida e um corte abrira-lhe uma sobrancelha. As outras duas fotografias mostravam as mãos. Estavam feridas e arranhadas, como se as tivesse erguido para se proteger.

Barbara pensou nas implicações inerentes a estas fotografias. O estado da face direita sugeria um assaltante canhoto. Mas a ferida da testa era à esquerda, o que sugeria alguém ambidextro, ou então um cúmplice.

Emily entregou-lhe outra fotografia dizendo:

- Conheces o Nez?

- Há muito tempo que lá não vou - respondeu Barbara. - Mas lembro-me dos rochedos. Um café e uma antiga torre de vigia.

A outra fotografia mostrava uma vista aérea. Incluía a guarita, o rochedo a ela sobranceiro, a torre de vigia em forma de coluna, o café em forma de L. Num parque de estacionamento a sudoeste do café estavam viaturas da polícia, que rodeavam o automóvel, iluminando-o depois de anoitecer.

- Em... - disse. - Há luzes lá? No Nez? No cimo das falésias? Há luzes? Ergueu os olhos e viu que Emily a olhava com uma sobrancelha erguida, reconhecendo o caminho que Barbara estava a tomar. - Diabos... Não há, pois não? E se não há...? - Barbara voltou a estudar a fotografia e foi olhando para ela, que fez a pergunta seguinte: - Então que raio estava Haytham Querashi a fazer no Nez às escuras?

Ergueu mais uma vez a cabeça para ver Emily saudando-a com a lata de cerveja.

- Certamente é essa a questão, sargento Havers - disse, emborcando o resto da cerveja.

 

- QUER QUE A AJUDE A DEITAR, Mrs. Shaw? Já passa das dez e o médico mandou-me ver se a senhora descansava o suficiente.

A voz de Mary Ellis era aguda, e era precisamente aquele tom tímido que fazia com que Agatha Shaw tivesse vontade de lhe arrancar os olhos. Conteve-se porém, voltando-se lentamente dos três cavaletes que o neto lhe tinha montado na biblioteca. Sobre eles havia representações de Balford-le-Nez no passado, no presente e no futuro. Estivera a estudá-las durante a última meia hora, usando-as como meio de controlar a raiva que sentia desde que o neto lhe contara a maneira como a sua sessão de Câmara descarrilara. Até aí fora uma óptima noite raivosa, com a ira a aumentar durante o jantar, quando Theo lhe contou, passo a passo, o que acontecera na sessão e depois dela.

- Mary - disse. - Acha que tenho de ser tratada como se fosse uma séria candidata à senilidade terminal?

Mary considerou a pergunta com uma concentração que era evidente na sua cara manchada.

- Como? - Disse ela, limpando as mãos aos lados da saia. Esta era de algodão, de uma cor azul, palidamente anémica e horrível. As palmas deixavam marcas de humidade no tecido.

- Sei que horas são - explicou Agatha. - E quando estiver disposta a retirar-me, chamo-a!

- Mas, como são quase dez e meia, Mrs. Shaw... - A voz de Mary ia deixando de se ouvir, mas a maneira como mordeu o lábio inferior deveria revelar o resto da frase.

Agatha sabia. Detestava ser manipulada. Percebia que a rapariga queria ir-se embora - sem dúvida com intenções de permitir que um selvagem, também com manchas na cara, tivesse acesso aos seus duvidosos encantos - mas só o facto de ela não dizer o que pensava, provocava a maldade de Agatha. A culpa era da rapariga. Tinha dezanove anos e, portanto, idade suficiente para saber dizer o que queria. Com a idade dela havia já um ano que Agatha pertencia às forças armadas e perdera o único homem que amara num bombardeamento aéreo, em Berlim. Nesses tempos, se uma mulher não fosse capaz de dizer o que queria, provavelmente nunca teria oportunidade de dizer fosse o que fosse a alguém. Provavelmente nem sequer haveria mais oportunidades.

- Sim! - Agatha encorajou-a com ar simpático - Como são quase dez e meia, Mary...?

- Pensei... Não quer... só que a minha hora de sair deveria ser às nove. Combinámos isso, a senhora e eu, não é verdade?

Agatha aguardou o que se seguia. Mary estrebuchou, como se uma centopeia lhe subisse por uma perna.

- É só que... como já é tarde... Agatha ergueu uma sobrancelha.

Mary sentiu-se derrotada.

- Chame-me quando estiver disposta, minha senhora. Agatha sorriu.

- Obrigado, Mary. Pode ficar descansada que a chamo. Voltou a contemplar os cavaletes assim que Mary Ellis desapareceu nas entranhas da casa. No primeiro, Balford-le-Nez estava representada no passado, por meio de sete fotografias cuidadosamente dispostas, tiradas entre 1880 e 1930, os cinquenta anos em que fora uma estância balnear importante. No meio das fotografias aparecia o primeiro amor de Agatha, o pontão dos divertimentos, e, de lado, havia ainda imagens dos locais que antigamente tinham atraído os visitantes. As carroças para os banhos 1 alinhadas na areia em Princes Beach; mulheres protegidas por sombrinhas passeando na rua das lojas, cheia de gente; aves marinhas que se juntavam numa ponta das redes que os barcos da pesca da lagosta estendiam na praia. Aqui era o famoso Pier End Hotel e ali a elegante esplanada eduardina sobranceira à marginal de Balford.

Diabos levassem os pretos, pensou Agatha. Se não fossem eles e as suas exigências grosseiras para que toda a gente de Balford lhes lambesse as botas, só porque um deles apanhara aquilo que se calhar já andava a pedir...

Se não fossem eles, Balford-le-Nez estaria mais próximo de se tornar a estância balnear que já fora e sempre deveria ter sido. E de que se queixavam os paquistaneses? Porque tinham destruído a sua reunião apenas para se lamentarem?

- Para eles, é uma questão de direitos civis. - Dissera Theo ao jantar e não era que o idiota parecia concordar com aquela gentinha?

- Talvez não te importasses de me explicar - exigira Agatha ao neto. Proferira as palavras em tom gélido. Reparou imediatamente na reacção de desconforto que estas tinham provocado em Theo. Tinha o coração mole demais para o gosto de Agatha. Acreditava na honestidade, na igualdade do homem e na justiça para todos os que a pedissem, atributos que certamente não herdara dela. Sabia perfeitamente o que o neto queria dizer com a expressão

 

1 Bathing machines: carroças fechadas que, nas praias inglesas nos séculos XVIII e XIX, eram levadas até ao mar para que os banhistas se vestissem e despissem. (N. da T. )

 

uma questão de Direitos Civis, mas queria coagi-lo a dizer-lhe. Queria-o, porque desejava luta. Procurava uma batalha feroz, e se não a conseguisse no estado em que agora se encontrava - amarrada dentro daquele corpo que a todo o momento, ameaçava falhar-lhe - então contentava-se com uma boa troca de palavras. Uma bela discussão era melhor que nada.

No entanto, Theo não aceitara o desafio. E, depois de reflectir, Agatha

admitiu que essa recusa podia afinal ser interpretada como um sinal positivo.

Ele precisava de se fortalecer, se quisesse ficar à cabeça das empresas Shaw depois da sua morte. Talvez já houvesse progressos.

- Os asiáticos não confiam na polícia - disse ele. - Não acreditam que possam ter tratamento igual. Querem que a cidade se centre na investigação, para poderem pressionar o Departamento Criminal.

- Parece-me que, se querem ser tratados de modo igual, o que presumo queira dizer, ser tratados como os seus concidadãos ingleses, então podiam pensar em agir, pelo menos uma vez, da mesma maneira que esses ditos concidadãos ingleses.

- Em todos estes anos tem havido muitas manifestações organizadas pelos brancos - dise Theo. - A revolta contra o imposto camarário, o protesto contra os desportos violentos, o movimento contra... "

- Não estou a falar de manifestações - interrompeu ela. - Falo de os tratar como Ingleses, quando eles decidirem começar a agir como tal e a vestir-se como Ingleses. E a terem a mesma religião. E a educarem os seus filhos como ingleses. Se um indivíduo decide emigrar para outro país, não deve esperar que esse país lhe satisfaça todas as esquisitices, Theodore. E, se tivesse estado no teu lugar na sessão de Câmara, podes ter a certeza que era isto mesmo que eu lhes dizia.

O neto dobrou o guardanapo com toda a precisão e colocou-o na perpendicular à borda da mesa, tal como Agatha lhe ensinara.

- Não duvido, avó - disse ele, de mau humor. - Sei que se teria atirado à manifestação e teria dado umas bengaladas na cabeça de uns quantos.

- Afastou a cadeira e aproximou-se da avó. Colocou-lhe a mão no ombro e beijou-a na testa.

Agatha empurrou-o asperamente.

- Acaba com esse disparate. Mary Ellis ainda tem de trazer o queijo.

- Esta noite não quero. - Theo dirigiu-se à porta. - Vou buscar os cavaletes ao carro.

E fora isso que fizera. Ela observava-os agora. No cavalete do meio podia ver-se Balford-le-Nez no presente, em toda a sua decrepitude: os edifícios abandonados da marginal, com as janelas entaipadas e a tinta dos caixilhos a cair, como se fosse pele queimada pelo Sol; a rua das lojas, moribunda, onde todos os anos fechava mais um estabelecimento; a piscina coberta, imunda, cujo cheiro a bolor e madeira podre não tinham podido ser captados pelas lentes da máquina. E, tal como o cavalete que mostrava Balford no passado, entre as imagens da Balford actual havia uma fotografia do pontão, que Agatha comprara, que Agatha renovara, que Agatha restaurara e rejuvenescera, insuflando vida como um deus no seu próprio Adão, fazendo com as diversões uma promessa muda à cidade costeira em que Agatha passara toda a sua vida.

A Balford do futuro poderia dar a essa vida e ao seu fim próximo algum significado: hotéis renovados, empresas atraídas pelo mar com a garantia de rendas baixas e de senhorios comprometidos com a remodelação e restauração, edifícios enobrecidos, parques replantados - parques grandes, não tabuleiros de relva do tamanho de um envelope, que algumas pessoas dedicavam à memória de mães asiáticas com nomes impossíveis de pronunciare atracções situadas na marginal. Havia planos para um centro de lazer, para uma nova piscina coberta, para campos de ténis, de squash e de críquete. Era isto que Balford-le-Nez poderia vir a ser, e era com este objectivo que Agatha Shaw lutava em busca de um passo para a imortalidade.

Perdera os pais durante os bombardeamentos. Perdera o marido com trinta e oito anos. Perdera três dos seus filhos que seguiam carreiras noutros locais do mundo e o quarto num acidente de automóvel, às mãos de uma mulher escandinava de carácter pouco firme. Aprendera que uma mulher sensata não fazia grandes planos e guardava os sonhos para si, mas, nos últimos anos da vida, cansara-se de se submeter aos desejos do Altíssimo, como antes se cansara de lutar contra eles. Assim empreendera essa causa final, como um guerreiro, pois estava disposta a levar a batalha até ao fim.

Nada iria impedir este projecto, muito menos a morte de um estrangeiro que nem sequer conhecia. Mas precisava de Theo como seu braço direito. Precisava de Theo esperto e forte. Queria-o impenetrável e invencível, e a última coisa que os seus planos para Balford precisavam era que o neto concordasse tacitamente com o seu descarrilar.

Agarrou com força a pirâmide, com tanta força que o braço lhe tremeu. Concentrou-se, como o fisioterapeuta lhe dissera que tinha agora de se concentrar para andar. Era uma crueldade indescritível ter de dizer a cada perna o que deveria fazer, antes que ela o fizesse. Ela, que andara a cavalo, jogara ténis e golfe, pescara e andara de barco, estava agora reduzida a dizer: Primeiro a esquerda, depois a direita. Agora a esquerda, a seguir a direita, só para chegar à porta da biblioteca. Rangia os dentes ao pronunciar as palavras. Se tivesse feitio para ter um cão e tivesse de ensinar assim um desses animais fiéis e afectuosos, tê-lo-ia corrido a pontapés por falta de paciência.

Encontrou Theo na antiga salinha de estar. Há muito tempo que este a convertera no seu escritório, equipando-a com uma televisão, uma aparelhagem, os seus livros, móveis antigos e cómodos e ainda um computador, com o qual comunicava com os inadaptados deste mundo que por acaso partilhavam a sua paixão: a paleontologia. A esse respeito, Agatha pensava que éra apenas a desculpa de um adulto para esgravatar na lama. Mas para Theo era uma ocupação, a que se dedicava com o fervor que alguns homens dedicam às partes baixas. A Theo pouco importava que fosse dia ou noite: quando tinha uma hora livre, lá partia em direcção ao Nez, onde, desde que o mar galgava a terra, as falésias em erosão desvendavam tesouros dúbios.

Nessa noite não estava no computador. Nem sequer estudava à lupa uma das desgraçadas pedras arrancadas dos rochedos.

- Na verdade, isto é o dente de um rinoceronte, avó - dizia ele cheio de paciência.

Pelo contrário, estava ao telefone e falava em voz baixa, pronunciando frases que Agatha não conseguia distinguir, dirigidas a alguém que parecia não as querer escutar.

Ela apanhou as palavras Por favor, por favor. Escuta, antes que ele olhasse para a porta e vendo-a, colocou o auscultador no descanso, como se não houvesse ninguém do outro lado da linha.

Ela observou-o. A noite estava quase tão tórrida como fora o dia e, como este compartimento ficava no lado oeste da casa, apanhara durante mais tempo o pior calor da tarde. Assim, havia pelo menos uma razão para que Theo tivesse o rosto vermelho e a pele branca húmida e oleosa. Mas a outra razão, supunha ela, estava sentada noutro sítio e segurava na mão húmida um telefone desligado, interrogando-se sem dúvida, sobre a razão pela qual ele tinha acabado a conversa em vez de a continuar.

As janelas estavam abertas, mas o quarto estava sufocante. Até as paredes pareciam querer suar, humedecendo o papel que as forrava. Os montes de revistas, jornais, livros e, principalmente, pedras. - Não avó, só parecem pedras. São de facto ossos e dentes, e veja, avó, isto é parte de uma presa de mamute diria Theo - tornavam o quarto ainda mais insuportável, como se fizessem subir a temperatura pelo menos dez graus. E, apesar do cuidado que o neto tinha a limpá-los, impregnavam o ar de um perturbador cheiro a terra.

Theo afastou-se do telefone e dirigiu-se para a grande mesa de carvalho. Esta tinha uma fina camada de pó, pois Theo não consentia que Mary Ellis a limpasse com um pano, porque poderia misturar os fósseis que ele juntara nas pequenas divisões dos tabuleiros de madeira. Havia uma cadeira com um encosto enorme em frente da mesa. Ele agarrou-a e fê-la girar de modo que ficasse de frente para ela. Agatha percebeu que o neto queria pôr ao seu alcance um lugar para que se sentasse. Sentiu vontade de lhe puxar as orelhas até que ele gritasse. Ainda não estava pronta para a cova, apesar de esta já estar aberta, e poderia bem passar sem aqueles gestos de ternura, reveladores de que os outros queriam antecipar a sua partida iminente. Preferiu ficar de pé.

- E qual foi o resultado? - Perguntou ela, como se não tivesse havido qualquer interrupção na sua conversa.

Ele franziu as sobrancelhas. Usou a parte de trás do dedo indicador para limpar a transpiração da testa. O olhar desviou-se-lhe para o telefone e depois novamente para ela.

- Não estou nada interessada na tua vida amorosa, Theodore. Em breve descobrirás que é uma contradição. Rezo todas as noites para que cries a necessária presença de espírito para não te deixares levar, nem pelo teu nariz, nem pelo teu pénis. De contrário, aquilo que fazes nos teus tempos livres é entre ti e quem quer que seja que contigo partilhe a momentânea felicidade de juntar os fluídos corporais. Apesar de que, com este calor, eu não perceba porque é que alguém ousaria pensar em relações...

- Avó! - O rosto de Theo escaldava.

Meu Deus, pensou Agatha. Tem vinte seis anos e a maturidade sexual de um adolescente. Nem lhe interessava imaginar quem seria o objecto dos seus amores. Pelo menos o avô - com todos os seus defeitos, um dos quais era ter morrido aos quarenta e dois anos - soubera como agarrar uma mulher e tratar dela. Lewis só precisava de um quarto de hora e, nas noites mais felizes, conseguia que o acto durasse menos de dez minutos. Ela considerava as relações sexuais como um requisito medicinal do casamento: para se ser saudável era preciso deixar correr todos os fluídos do corpo.

- O que é que nos prometeram, Theo? - Perguntou. - Claro que fizeste pressão para que fosse marcada outra sessão de Câmara.

- De facto... eu... - mantinha-se de pé, tal como ela. Mas apanhou um dos seus preciosos fósseis e fazia-o girar na mão.

- Tiveste a necessária presença de espírito para exigir outra reunião, não é verdade Theo? Não deixaste que fossem os pretos a mandar, pois não?

O seu ar pouco à vontade era resposta suficiente. Ela disse:

- Meu Deus. - Era tão parecido com a desmiolada da mãe! Apesar de tudo, Agatha precisava de se sentar. Baixou o corpo na direcção do assento da cadeira de costas redondas e sentou-se, muito direita, como lhe tinham ensinado quando era pequena. Disse:

- Que se passa contigo, Theodore Michael? E senta-te, se fazes favor. Não quero ficar com dores no pescoço porque vim falar contigo.

Ele puxou um cadeirão para diante dela. Estava forrado de bombazina já debotada e tinha uma mancha com a forma de um sapo no assento, sobre cuja origem Agatha não quis especular.

- Não era a altura própria - disse ele.

- Não era... o quê? - Ouvira-o perfeitamente, mas descobrira há muito que a chave para submeter os outros à sua vontade era forçá-los a examinar as ideias deles com tanta insistência, que acabavam sempre por rejeitá-las em favor das suas.

- Não era a altura própria, avó. - Theo sentou-se. Inclinou-se para ela, os braços nus repousando nas calças largas, de linho creme. Conseguia fazer com que os vincos da roupa parecessem acessórios de alta costura. Ela achava que aquela elegância era pouco própria para um homem.

Os vereadores estavam ocupados a acalmar Muhannad Malik. Afinal, acabaram por não o conseguir.

- A sessão não era para ele.

- Como o problema era a morte de um homem e a preocupação dos asiáticos com o modo de actuar da polícia...

- A preocupação deles. A preocupação deles! - Troçou Agatha.

- Avó, não era a altura própria. Não podia pôr-me com exigências no meio do caos. Principalmente exigências sobre a restruturação.

Ela bateu com a bengala na carpete.

- Porque não?

- Porque me pareceu que era mais urgente desvendar o crime do Nez do que arranjar dinheiro para a remodelação do Pier End Hotel - ergueu a mão. - Não. Espere um momento, avó. Não me interrompa. Sei que o projecto é importante para si. Para mim também é. E também o é para a comunidade. Mas tem de entender que não vale a pena investir dinheiro em Balford, se não houver comunidade.

- De certo não me estás a dizer que os asiáticos têm poder, ou mesmo coragem, para destruir esta cidade. Estariam a cortar o pescoço a si próprios.

- O que eu digo é que a menos que a comunidade seja um sítio onde os futuros visitantes não tenham medo de ser abordados por alguém com ódio à sua cor, qualquer dinheiro que se invista na restruturação da cidade irá para o lixo.

Ele surpreendia-a. Por um momento, Agatha viu nele a sombra do avô. Lewis pensaria exactamente da mesma maneira.

- Humf!! - Desdenhou ela.

- Está a ver que eu tenho razão, não é verdade? - Notou que a frase não era uma interrogação, mas sim uma afirmação, e que Lewis teria dito o mesmo. - Vou esperar uns dias, até que a tensão passe e peço outra reunião. É o melhor, vai ver. - Olhou para o relógio que estava sobre a lareira e levantou-se. - Agora são horas de ir para a cama. Vou chamar Mary Ellis.

- Eu chamo Mary Ellis quando me apetecer, Theodore. Deixa de me tratar como...

- Não discuta! - E dirigiu-se à porta.

Ela falou, antes de ele a abrir.

- Então vais sair?

- Eu disse que ia chamar...

- Não estou a falar de saíres da sala. Estou a falar de saíres. Para a rua. Vais sair outra vez esta noite, Theo? - A expressão dele mostrou-lhe que tinha ido longe demais. Até Theo, maleável como era, tinha os seus limites. A interferência na sua vida pessoal era um deles. - Só pergunto porque não sei se esses passeios nocturnos serão sensatos. Se a situação da cidade é como dizes... tensa... atrevo-me a dizer que ninguém deveria sair depois do pôr-do-Sol. Não tens tirado o barco, pois não? Sabes que eu não gosto que andes de barco à noite.

Da porta, Theo observava-a. Lá estava outra vez, o mesmo olhar de Lewis; as feições compondo-se numa máscara agradável, debaixo da qual nada conseguia ler. Onde tinha ele aprendido a dissimular tão bem? Interrogou-se. E porquê?

- Vou chamar Mary Ellis - disse. E deixou-a, sem lhe responder.

Permitiram que Sahlah tomasse parte na discussão, porque afinal tinha sido o noivo dela que fora morto. De contrário, não teria sido incluída. Não era costume que os homens muçulmanos que conhecia, dessem importância ao que uma mulher tinha para dizer e, embora o pai fosse um homem delicado, cuja ternura se mostrava muitas vezes na suave pressão dos nós dos dedos no seu rosto quando passava, quando se tratava de convenções, era Muçulmano de corpo e alma. Rezava devotamente cinco vezes por dia; ia na terceira leitura do Sagrado Corão; fazia questão que parte dos lucros da empresa fossem para os pobres; e duas vezes por dia seguia os passos de milhões de muçulmanos, no perímetro da Ka'bá. Assim, nessa noite, quando permitiram que Sahlah ouvisse a discussão dos homens, a mãe apenas trazia a comida e as bebidas da cozinha para a sala, enquanto a cunhada de Sahlah não estava visível. Isto, naturalmente, por duas razões. A primeira, era uma vénia a haya: Muhannad insistia na interpretação tradicional da modéstia feminina, por isso não permitia que nenhum homem, excepto o pai, olhasse para a mulher. A segunda, era a sua própria natureza: se tivesse ficado cá em baixo, a sogra certamente lhe teria ordenado que a ajudasse na cozinha e Yumn era a rainha das preguiçosas. Por isso, cumprimentou Muhannad da maneira habitual, adulando-o, como se o seu maior desejo fosse servir-lhe de tapete para ele limpar as botas e depois desapareceu no andar de cima. A desculpa era que tinha de estar alerta, não fosse Anas ter outro pesadelo terrível. A verdade é que estava entretida a folhear revistas que mostravam a moda ocidental, moda essa que Muhannad nunca lhe permitiria que usasse.

Sahlah sentou-se bastante afastada dos homens e, por respeito a eles, não comeu nem bebeu. De qualquer modo não tinha fome, embora lhe apetecesse o lassi que a mãe servia. Com aquele calor, a bebida de iogurte seria um refresco abençoado.

Conforme era seu costume, Akram Malik agradeceu delicadamente à mulher, quando esta colocou na mesa os pratos e os copos para o convidado e para o filho. Ela tocou-lhe levemente no ombro dizendo:

- Fica bem, Akram.

E saiu da sala. Muitas vezes, Sahlah interrogava-se como podia a mãe submeter-se ao pai em todas as coisas, como se não tivesse vontade própria. Mas, sempre que lhe perguntava, Wardah explicava com toda a simplicidade:

- Eu não me submeto, Sahlah. Não é preciso. O teu pai é a minha vida

e eu sou a dele.

Havia uma ligação entre os pais, que Sahlah sempre admirara, embora nunca a tivesse entendido completamente. Parecia erguer-se de uma inefável tristeza mútua de que nenhum dos dois falava e se manifestava na sensibilidade com que se tratavam e falavam um com o outro. Akram Malik nunca levantava a voz. Mas também nunca tivera de o fazer. Para a mulher, a sua palavra era lei; e lei deveria ser também para os seus filhos.

No entanto, Muhannad, ainda adolescente, tratava o pai às escondidas e com desprezo, por velhadas, E no pomar por detrás da casa, atirava pedras ao muro e dava pontapés nos troncos das árvores, para o livrar da fúria que sentia, sempre que o pai contrariava os seus desejos. Porém acautelava-se, para que Akram não percebesse a sua raiva. Para o pai, Muhannad era silencioso e obediente. O irmão de Sahlah passara a adolescência à espera, cumprindo as ordens do pai e sabendo que, desde que pusesse em primeiro lugar as obrigações da família, a empresa e a fortuna seriam finalmente suas. Então seria a sua palavra que faria lei. Sahlah sabia que Muhannad ansiava por esse dia.

Mas neste momento tinha de enfrentar a ofensa muda do pai. Além do tumulto que criara nesse dia na cidade, trouxera Taymullah Azhar para Balford e pior ainda, para dentro de casa. Este constituía o acto de mais grave desafio à família. Pois embora fosse o filho mais velho do irmão de Akram, Sahlah sabia que Taymullah Azhar tinha sido expulso da família, e ser expulso significava o mesmo que estar morto para todos. Incluindo para a família do tio.

Akram não estava em casa quando Muhannad chegara com Taymullah Azhar, ignorando o aviso calmo mas insistente de Wardah que dissera:

- Não pode ser, meu filho! - E colocara-lhe a mão no braço para o impedir.

Muhannad dissera:

- Precisamos dele. Precisamos da sua experiência. Se não começarmos a fazer-lhes entender que não vamos deixar que o assassinato de Haytham seja varrido para debaixo de um tapete, podemos esperar o que é costume desta cidade.

Wardah ficara preocupada, mas nada dissera. Depois do primeiro momento de espanto, não voltara a encarar Taymullah Azhar. Fizera apenas um aceno com a cabeça, transferindo automaticamente para com o filho único a deferência que devia ao marido, e retirara-se para a cozinha com Sahlah, esperando o momento em que Akram voltasse da fábrica de mostarda onde tratava da substituição de Haytham.

- Ammi - Sahlah perguntara em voz baixa quando a mãe começara a preparar a refeição - quem é este homem?

- Não é ninguém - replicara Wardah com firmeza. - Não existe.

Mas afinal, Taymullah Azhar existia, e quando Sahlah ouviu o seu nome pela primeira vez, percebeu imediatamente quem era, por causa das conversas dos últimos anos entre os primos mais jovens. Quando o pai, ao voltar, entrou na cozinha, Wardah saiu-lhe ao caminho e contou-lhe acerca da visita que tinha chegado com o filho. Trocaram palavras em voz baixa. Apenas os olhos de Akram se semicerraram por detrás dos óculos, mostrando alguma reacção para com a identidade do visitante. Disse:

- Porquê?

A mulher respondeu:

- Por causa de Haytham. - Olhou para Sahlah cheia de compaixão como se acreditasse que a filha acabara por amar o homem com que teria sido obrigada a casar. E porque não? Sahlah compreendia que nas mesmas circunstâncias Wardah aprendera a amar Akram Malik. - Muhannad diz que o filho do teu irmão tem experiência nestes assuntos, Akram.

Akram fez um gesto de desprezo.

- Tudo depende do que são estes assuntos. Não o devias ter deixado entrar em casa.

- Veio com Muhannad - respondeu ela. - Que podia eu fazer? Estava ainda com Muhannad sentado numa ponta do sofá, enquanto o irmão de Sahlah se sentava na outra. Akram estava numa cadeira de braços, encostado a uma das almofadas bordadas por Wardah. A televisão enorme passava outro dos filmes asiáticos de Yumn. Retirara o som, em vez de desligar o filme, antes de se esgueirar pelas escadas. Agora, por sobre o ombro do pai, Sahlah via dois jovens desesperados encontrando-se em segredo, como Romeu e Julieta. Excepto que, em vez de o fazerem numa varanda, abraçavam-se e faziam o que tinham a fazer num campo de trigo, que os escondia da vista. Sahlah desviou os olhos e sentiu o coração apressado na garganta, como se fossem as asas de um pássaro aprisionado.

- Eu sei que não está satisfeito com o que se passou esta tarde - dizia Muhannad. - Mas tínhamos de conseguir que a polícia se encontrasse todos os dias connosco. Assim informam-nos do que se passa. - Sahlah sabia, pelo tom cortante com que o irmão falava, que estava irritado pelo ar de desaprovação e desprezo do pai. - Não teríamos chegado tão longe apenas numa entrevista, se Azhar não tivesse cá estado, pai. Colocou o inspector em tal posição, que ela não teve outro remédio senão concordar. E conseguiu-o com tanta delicadeza, que ela nem deu conta senão quando ele chegou ao fim dirigiu a Azhar um olhar de admiração.

Azhar cruzou as pemas, alisou o vinco das calças com os dedos, mas nada disse. Mantinha o olhar fixo no tio. Sahlah nunca vira ninguém que mantivesse tanta compostura numa situação tão pouco agradável.

- Foi esse o teu objectivo quando causaste os tumultos?

- Não se trata de quem causou o quê. O que importa é que agora temos um acordo.

- Achas então que não o teríamos conseguido sozinhos, Muhannad?

Esse acordo como tu lhe chamas. - Akram ergueu o copo e bebeu um gole de lassi. Não olhara uma única vez na direcção de Taymullah Azhar.

- Os polícias conhecem-nos, pai. Conhecem-nos há muito tempo. E a familiaridade torna as pessoas desmazeladas quando se trata de cumprirem as suas responsabilidades. Aquele que mais alto grita, é o primeiro a ser ouvido e o pai sabe-o muito bem.

As últimas palavras tinham sido um erro proveniente da impaciência de Muhannad e da sua aversão pelos Ingleses. Sahlah compreendia esses sentimentos - tendo também sofrido tormentos na escola, às mãos dos colegas – mas sabia que o pai não os entendia. Tendo nascido no Paquistão, viera para Inglaterra já com vinte anos e sofrera apenas uma experiência de racismo de que falava. Mesmo esse episódio de humilhação pública numa estação de metro de Londres, não o tornara amargo em relação àqueles que decidira adoptar como compatriotas. Aos seus olhos, Muhannad desgraçara nesse dia o seu povo. Akram Malik não iria esquecer o facto tão depressa.

- Aquele que mais alto grita, é muitas vezes o que menos tem a dizer - respondeu.

O rosto de Muhannad endureceu.

- Azhar sabe como há-de nos organizar da melhor maneira para nós.

- E para quê, Muni? Haytham estará agora menos morto do que estava ontem a estas horas? O futuro da tua irmã estará menos destruído? Como pode a presença de um homem alterar alguma coisa?

- Porque - anunciou Muhannad, e o tom de voz indicou à irmã que guardara o melhor para o fim - já admitiram que tinha sido um homicídio.

O rosto de Akram tornou-se mais grave. Embora de modo irracional tinha-se consolado a si próprio, à família e principalmente à pobre Sahlah com a ideia de que a morte de Haytham tinha sido um acidente infeliz. Agora que Muhannad tinha exposto a verdade, Sahlah sabia que o pai teria de pensar de maneira diferente. Teria de perguntar porquê, o que provavelmente o poderia levar numa direcção que ele não desejava seguir.

- Admitiram, pai. A nós. E foi por causa do que aconteceu na sessão de Câmara de hoje e depois na rua. Espere. Não responda ainda. – Muhannad insistiu neste ponto, levantando-se e caminhando na direcção da lareira, sobre a qual estavam colocadas várias molduras com fotografias da família. – Sei que hoje o fiz zangar. Admito que perdi o controle. Mas peço-lhe que tenha em conta os resultados que consegui. E foi Azhar quem sugeriu que a sessão de Câmara era o melhor lugar para começarmos. Azhar, pai. Quando lhe telefonei para Londres. Pode dizer-me, se quando falou com o Departamento Criminal, eles lhe admitiram que tinha sido um crime? Porque a mim não o fizeram. E só Deus sabe que não disseram nada a Sahlah.

sahlah baixou os olhos quando os homens olharam na sua direcção. Não precisava confirmar as palavras do irmão. Akram estivera na sala durante a sua breve conversa com o guarda que os viera informar da morte de Haytham. Sabia exactamente o que tinham dito:

- Lamento informar-vos que houve uma morte no Nez. O falecido parece ser um tal Mr. Haytham Querashi. Porém, precisamos de alguém que identifique formalmente o corpo e disseram-nos que a senhora se ia casar com ele.

- Sim - replicara Sahlah com gravidade, embora gritasse dentro de si «Não, não, não!".

- Pode ser que sim - disse Akram ao filho. - Mas foste longe demais. Quando morre um dos nossos, não és tu que tens de tratar da sua ressurreição, Muhannad.

Sahlah sabia que o pai não falava a respeito de Haytham. Falava de Taymullah Azhar. Azhar deveria ser considerado morto pela família, depois de os pais assim o terem declarado. Se fosse visto na rua, deveriam afastar o olhar. Não deveriam nunca mencionar o seu nome. A sua existência não deveria ser referida a ninguém, nem em termos ambíguos. Se alguém pensasse nele, deveria rapidamente ocupar o espírito com outra coisa, não fosse esse pensamento levar alguém a falar dele e em seguida a ter vontade de lhe permitir voltar a entrar na família. Sahlah era demasiado jovem para que lhe tivessem contado o crime que Azhar cometera no seio da família para ter sido banido; e assim que a expulsão fora levada a cabo, ficara proibida de voltar a falar dele.

Dez anos de solidão, pensou observando o primo. Dez anos sozinho neste mundo. Como se teria sentido? Como teria sobrevivido sem os parentes?

- Então, o que é mais importante? - Muhannad tentava parecer razoável. Não queria entrar em maiores conflitos com o pai, do que aqueles em que já entrara nesse dia. Não se podia arriscar a ser também expulso. Tinha mulher e filhos e precisava de um bom ordenado. - O que é mais importante, pai? Apanhar o homem que assassinou um dos nossos ou ter a certeza de que Azhar é desprezado para o resto da vida? Tal como Haytham, Sahlah é vítima deste crime. Não teremos obrigações para com ela?

Quando Muhannad olhou novamente na sua direcção, Sahlah baixou os olhos com modéstia, pela segunda vez. Mas retraía-se dentro de si. Sabia a verdade. Como podia alguém não ver o que o irmão era?

- Muhannad, eu não preciso de receber instruções tuas neste caso ou noutro qualquer - disse Akram calmamente.

- Não estou a tentar dar-lhe instruções. Só lhe estou a dizer que sem Azhar...

- Muhannad - Akram serviu-se de um dos paráthás que a mulher preparara. Sahlah sentia o cheiro dos pastéis recheados de carne picada. O estômago contraiu-se-lhe com o odor. - Essa pessoa de quem falas está morta para nós. Não a deverias ter trazido outra vez para as nossas vidas, muito menos para a nossa casa. Não vou discutir contigo o crime que foi cometido contra Haytham, contra a tua irmã e toda a nossa família, se é que foi realmente um crime.

- Mas eu já lhe disse que o inspector afirmou que era um homicídio. E disse-lhe que ela fora obrigada a admiti-lo porque pressionámos o Departamento Criminal.

- Não foi o Departamento Criminal que pressionaste esta tarde.

- Mas é assim que se faz, não vê? - A sala estava sufocante. A t-shirt de Muhannad colava-se ao seu corpo musculoso. Em contrapartida, Taymullah Azhar tinha um ar tão fresco e calmo, que parecia ter-se feito transportar para um outro mundo. Muhannad mudou de táctica. - Desculpe, se lhe causei um desgosto. Deveria talvez, tê-lo avisado com antecedência que haveria uma interrupção na sessão...

- Talvez? - Perguntou Akram. - E o que ocorreu na sessão não foi uma simples interrupção.

- Está bem. Está bem. Talvez a abordagem não tivesse sido correcta.

- Talvez?

Sahlah viu os músculos do irmão retesarem- se. Mas já era crescido para atirar pedras à parede e não havia troncos de árvores na sala para ele poder dar pontapés. Tinha o rosto banhado de suor, e, pela primeira vez, Sahlah percebeu a importância de ter alguém como Taymullah Azhar agindo como intermediário da família em discussões futuras com a polícia. Tranquilidade sob ameaça não era o forte de Muhannad. A intimidação sim, mas ia ser necessário muito mais do que intimidação.

- Olhe onde a manifestação nos levou, pai: a uma entrevista com o inspector que está à frente da investigação. É o facto de terem admitido o crime.

- Já sei - reconheceu Akram. - Agora ofereces os teus agradecimentos formais ao teu primo pelos conselhos e manda-lo embora.

- Mas que grande merda! - Muhannad varreu para o chão três fotografias de cima da lareira. - Que se passa consigo? De que é que tem medo? Está assim tão ligado a estes ocidentais, que nem pode pensar...

- Chega! - Akram perdera a compostura e levantara a voz.

- Não chega nada. O pai tem medo que um desses ingleses tenha assassinado Haytham. Se for isso que aconteceu, tem de fazer alguma coisa, como, por exemplo deixar de sentir o que sente por eles. E é incapaz de enfrentar uma coisa dessas, porque anda há vinte sete anos a fingir que é um desses estúpidos ingleses.

Akram ergueu-se e atravessou a sala com tanta rapidez que Sahlah não percebeu o que se tinha passado até o pai dar uma bofetada na cara de Muhannad. Foi nessa altura que gritou.

- Parem - ouviu o medo na sua própria voz. Era medo por ambos, pelo que podiam fazer um ao outro e porque, o que tinham feito, poderia levar à ruptura da família. - Muni! Abhy-jahn! Párem!

Os dois homens enfrentaram-se, Akram com um dedo espetado em frente dos olhos de Muhannad. Era a postura que adoptara durante a infância do filho, mas com uma diferença. Agora levantava o dedo até ao rosto de Muhannad, pois este era uns cinco centímetros mais alto que ele.

- Queremos todos o mesmo - disse-lhes Sahlah. - Queremos saber o que aconteceu a Haytham. E porquê. Queremos saber porquê. - Não tinha a certeza, no entanto, da veracidade dos seus argumentos. Mas pronunciara-os, afinal, porque era mais importante que o pai e o irmão ficassem em paz, do que ela poder estar a mentir. - Então porque discutem? Não será melhor seguirmos o caminho que mais rapidamente nos leve à verdade? Não é isso que queremos?

Os homens não responderam. Lá em cima Anas começou a chorar, e, como resposta, ouviram-se as sandálias caras de Yumn atravessar o corredor.

- É o que eu quero - disse Sahlah baixinho. Não acrescentou mais nada porque não foi preciso: eu é que sou a parte ofendida, porque ele ia ser meu marido. - Muni. Abhy jahn, é o que eu quero - repetiu.

Taymullah Azhar levantou-se do sofá onde estivera sentado. Era mais pequeno do que os dois homens, mais baixo e de constituição mais franzina. Mas quando falou não parecia de modo nenhum inferior a qualquer deles, embora Akram não o olhasse.

- Chachã - disse.

Akram pestanejou ao ouvir o apelo. Irmão do pai. Reclamava um laço de sangue que ele não queria reconhecer.

- Não quero trazer perturbação ao vosso lar - disse Azhar e impediu com um gesto que Muhannad o interrompesse. - Deixe-me servir a família. Só me verá se for estritamente necessário. Fico noutro sítio, para que não necessite quebrar o compromisso para com o meu pai. Posso ajudar, porque quando é necessário, trabalho com a nossa gente em Londres, sempre que têm problemas com a polícia ou com o governo. Tenho experiência com os ingleses...

- E sabemos onde essa experiência o levou - disse Akram com amargura.

Azhar nem pestanejou.

- Tenho experiência com os ingleses e é-nos útil nesta situação. Peço-lhe que me deixe ajudar. Como não tenho ligação directa com esse homem ou com a sua morte, reajo ao caso com menos emoção. Penso e vejo com mais clareza. Ofereço-me a si.

- Ele desgraçou o nosso nome - disse Akram.

- E é por isso que já não o uso - retorquiu Azhar. - Não posso mostrar o meu pesar de outra maneira.

- Podia ter feito o seu dever.

- Fiz o melhor que pude.

Em vez de continuar a responder, Akram observava Muhannad, parecendo medir o filho. Depois voltou-se pesaroso e olhou para Sahlah, ainda sentada, agora inclinada na borda da cadeira. Disse:

- Não queria que isto acontecesse na tua vida Sahlah. Vejo o teu desgosto. Só queria dar-lhe fim. - Então deixe que Azhar...

Akram silenciou Muhannad erguendo a mão entre eles.

- Isto é pela tua irmã - disse ao filho. - Não deixes que eu o veja. Não deixes que fale comigo. E não tragas mais desgraças ao nome desta família.

'' Com isto deixou-os. Ouvia-se o peso dos passos em cada degrau.

- Velhadas - disse Muhannad com desprezo. - Velhadas ignorante rancoroso e cruel.

Taymullah Azhar abanou a cabeça.

- Quer fazer o que acha melhor para a família. É um conceito que eu compreendo melhor que ninguém.

Depois de Emily ter comido, levou Barbara para o jardim, nas traseiras da casa. Foram interrompidas por um telefonema do querido de Emily, que dissera:

- Não acredito que queiras cancelar o nosso encontro esta noite, depois do que aconteceu a semana passada. Quando é que tu alguma vez... - antes que Emily agarrasse o telefone e desligasse o atendedor de chamadas, dizendo:

- Olá, estou aqui Gary - virou-se para ficar de costas para Barbara. A conversa curta consistira nas seguintes frases pronunciadas por Emily:

- Não... Não tem nada a ver com isso. Disseste que ela tinha uma enxaqueca e eu acreditei... Estás a imaginar coisas... Não tem nada com... Gary, sabes que detesto que me interrompas... sim, tenho aqui uma pessoa, por isso não posso... Valha-me Deus, não sejas ridículo. Mesmo que fosse esse o caso, o que é que te interessava? Combinámos no princípio que as coisas seriam... Não se trata de controle. Esta noite tenho de trabalhar... e, meu querido, não tens nada a ver com isso.

Desligou com força e disse.

- Homens, meu Deus! Se não tivessem as ferramentas necessárias para o nosso prazer, nem valeriam a pena.

Barbara nem tentou dar uma resposta inteligente. A sua experiência com o equipamento necessário dos homens era tão limitada, que apenas se permitia a pôr os olhos em alvo, esperando que Emily percebesse que queria dizer: Tens toda a razão.

O inspector parecia satisfeita com esta reacção. Apanhou uma tigela com fruta e uma garrafa de brandy de cima da mesa, dizendo:

- Vamos apanhar ar - e levou Barbara para o jardim. O jardim não estava em muito melhores condições do que a casa. Mas a maior parte das ervas daninhas tinha sido arrancada e havia um caminho de lages, fazendo uma curva na direcção do castanheiro. Por baixo deste, Barbara e Emily, estendiam-se agora em cadeiras de lona, com a tigela da fruta entre as duas, dois copos de brandy, que Emily ia enchendo, e um rouxinol a cantar num ramo por cima delas. Emily comia a segunda ameixa. Barbara mastigava um cacho de uvas.

Pelo menos estava mais fresco no jardim do que na cozinha, e até tinha uma vista bonita. Lá em baixo na estrada de Balford, passavam carros e, mais ao longe, brilhavam à distância, por entre as árvores, as luzes das casinhas de praia. Barbara gostaria de saber a razão pela qual o inspector não trazia para aqui a cama de campismo, o saco-cama, a lanterna e Breve História do Tempo.

Emily interrompeu-lhe os pensamentos.

- Andas com alguém agora, Barb?

- Eu? - A pergunta parecia troça. Emily não tinha problemas de vista, por isso, de certeza, poderia deduzir a resposta sem ter feito a pergunta. Olha só para mim, queria Barbara dizer-lhe. Tenho corpo de chimpanzé. Com quem achas que ando?, Mas o que disse foi: - Quem tem tempo para essas coisas? - Esperando parecer suficientemente descontraída para que o assunto fosse abandonado.

Emily olhou para ela. Um candeeiro iluminava a praceta e como a casa de Emily era a última do quarteirão, a luz entrava no jardim. Barbara sentia que Emily a examinava.

- Parece-me desculpa - disse.

- Porquê?

- Para manteres as coisas na mesma - Emily atirou o caroço da ameixa por cima do muro, tendo caído no terreno do lado, que estava vazio.

- Continuas sozinha, não é verdade? Não hás-de querer ficar sozinha para sempre.

- E porque não? Tu estás. E o estar sozinha não te detém.

- Certo. Pois não. Mas há estar sozinha, e há estar sozinha - replicou Emily, com segundo sentido. - Percebes, não é verdade?

Barbara percebia perfeitamente. Conquanto vivesse sozinha, Emily Barrow nunca estivera sem homem mais de um mês. Mas isso é porque ela tinha tudo: era bonita, tinha um corpo óptimo e um espírito singular. Porque seria que as mulheres que faziam desmaiar os homens só pelo simples facto de existirem, pensavam que todas as outras tinham os mesmos poderes?

Apetecia-lhe um cigarro. Começava a parecer-lhe que não fumava havia dias. Que diabo faziam os não-fumadores para passar o tempo, para deslocar a atenção para outras coisas, para evitar discussões ou, simplesmente, para acalmar os nervos? Diriam Desculpe, mas não quero discutir o assunto, mas esta talvez não fosse a melhor resposta tendo em conta a situação em que Barbara esperava trabalhar intimamente com o inspector para deslindar uma investigação de homicídio.

- Não acreditas em mim, pois não? - Perguntou Emily, quando Barbara não respondeu.

- Digamos que a experiência aumentou o meu cepticismo. E de qualquer modo... - esperava que o assopro lhe desse um ar de desinteresse.

-, Estou bem com as coisas como estão.

Emily apanhou um alperce. Fê-lo rolar na palma da mão.

- Estás? - Perguntou, já depois de meditar sobre o assunto.

Barbara preferiu interpretar esta observação como o fim da conversa.

Procurou uma mudança inteligente para outro tema. Qualquer coisa como

Por falar de crimes serviria, só que não tinham falado desse assunto desde que tinham saído da cozinha. Barbara sentia alguma relutância em insistir, sendo a sua posição semiprofissional no caso menos importante do que era habitual, mas no entanto queria voltar ao que realmente interessava. Viera a Balford-le-Nez por causa de uma investigação policial e não para tecer considerações sobre os meandros da solidão.

Resolveu-se pela abordagem directa, adoptando a pretensão de que a

conversa sobre a morte no Nez não tinha sido interrompida.

- Preocupa-me o problema racial - disse. Antes que Emily pudesse pensar que estava a expor preocupações sobre a possibilidade da sua

vida social se tornar uma arena promíscua de várias raças, continuou: se Haytham Querashi tinha chegado há pouco tempo a Inglaterra, e afinal foi isso que a televisão disse, é provável que não conhecesse o assassino. Esse facto, por sua vez, sugere o tipo de violência racial gratuita de que se ouve falar na América. Ou também em qualquer grande cidade do mundo, estando as coisas como estão.

- Estás a pensar como os asiáticos, Barb - disse Emily, dando uma dentada no alperce. Empurrou a fruta com um gole de brandy. - Mas o Nez não é sítio para um acto de violência ao acaso. À noite é deserto. Viste as fotografias, não há luz, nem no cimo do rochedo, nem na raia. Por isso, se alguém para lá vai só, e vamos pensar por um momento que Querashi foi para lá sozinho, será apenas por duas razões. Para passear sozinho...

- Já estava escuro quando ele saiu do hotel?

- Estava e, a propósito, não havia Lua. Por isso, abandonemos a teoria do passeio, a menos que estivesse disposto a caminhar aos tropeções, como um cego, e partamos do princípio que foi para lá para poder estar só e pensar.

- Será que estava a ficar receoso com o casamento próximo? Talvez quisesse desistir e não soubesse o que fazer?

- É uma boa teoria. E também razoável. Mas temos de ter outra coisa em consideração: o carro foi assaltado. Alguém o fez em bocados. O que é que isso te sugere?

Só parecia haver uma possibilidade.

- Sugere que ele lá tenha ido para se encontrar deliberadamente com alguém. Levava qualquer coisa para entregar. Não o fez conforme o previamente combinado e pagou com a vida. Depois disso, alguém revistou o carro à procura do que ele deveria ter entregue.

- Nada disso me faz parecer um crime racial - disse Emily. - Essas mortes são arbitrárias. Esta não o foi.

- Mas isso não quer dizer que não tenha sido um inglês que o matou, Em. Por qualquer outra razão que não tenha nada a ver com racismo.

- Eu sei. Mas também não quer dizer que não tenha sido um asiático que o matou.

Barbara acenou afirmativamente, mas continuou a mesma linha de pensamento.

- Se apresentares um inglês como criminoso, a comunidade asiática vai achar que foi um crime racial, porque a morte parece racial. E se isso acontecer explode tudo, certo?

- Certo. Por conseguinte, conquanto isso complique o caso, tenho de dizer que ainda bem que o carro foi revistado. Mesmo que o crime tenha sido de natureza racial, posso interpretá-lo de outra maneira até ter a certeza. Assim ganho tempo, controlo um pouco as coisas e tenho oportunidade de planear uma estratégia. Pelo menos por algum tempo. Mas só se conseguir afastar o raio do Ferguson do telefone durante vinte e quatro horas.

- Poderia um membro da comunidade de Querashi tê-lo morto?Barbara estendeu a mão para outro cacho de uvas. Emily acomodou-se melhor na cadeira, com o copo de brandy equilibrado sobre o estômago e a cabeça de lado para examinar o escuro emaranhado das folhas do castanheiro, por cima de si. Algures escondido por entre a folhagem, o rouxinol conti nuava o seu canto mavioso.

- Não está fora de questão - disse Emily. - Acho que é até provável. Quem mais conhecia ele bem senão asiáticos, para o poderem ter assassinado assim?

- E deveria casar-se com a filha de Malik, não é verdade?

- Sim, um desses casamentos pré-fabricados, tudo arranjadinho pelos papás. Sabes a que me refiro?

- Então talvez houvesse problemas aí. Ela não lhe agradava. Ele não lhe agradava. Ela queria desistir, mas ele queria imigrar e ela era a passagem. A situação acabou por se resolver definitivamente.

- Um pescoço partido é uma medida muito drástica para romper um noivado - notou Emily. - De qualquer modo Akram Malik faz há anos parte da comunidade e de tudo o que sei a seu respeito, adora a filha.

Se ela não quisesse casar com Querashi, não me parece que o pai a tivesse obrigado.

Barbara digeriu isto e partiu noutra direcção.

- Ainda usam dotes, não é verdade? Qual era o da filha? Será que Querashi foi um pouco ingrato em relação ao que a família considerava generosidade?

- E por isso eliminaram-no? - Emily estendeu as pernas compridas e segurou o copo entre as mãos. - Suponho que é possível. Não se adequa nada a Akram Malik, mas a Muhannad...? Esse tipo é capaz de qualquer acto violento. Mas isso não nos resolve o problema do carro.

- Havia indícios de que alguma coisa tivesse sido levada?

- Estava tudo desfeito.

- O corpo foi revistado?

- Completamente. Encontrámos as chaves do carro em cima de umas ervas que crescem na falésia. Duvido que Querashi as tenha atirado para lá.

- Havia alguma coisa no cadáver quando o encontraram?

- Dez libras e três preservativos.

- Não tinha identificação? - E quando Emily abanou a cabeça Então como souberam quem era a vítima?

Emily suspirou e fechou os olhos. Barbara teve a impressão que iam chegar ao melhor da história, a parte que tinha sido escondida dos olhos de todos os que estavam fora da investigação.

- Foi encontrado ontem de manhã por um tipo chamado Ian Armstrong - disse Emily. - E Ian Armstrong conhecia-o de vista.

- Um inglês - disse Barbara.

- O inglês - disse Barbara seriamente.

Barbara percebeu imediatamente a que direcção Emily se dirigia.

- Armstrong tem um motivo?

- Tem sim - Emily abriu os olhos e voltou o rosto para Barbara. Ian Armstrong trabalhava para as Mostardas Malik. Perdeu o emprego há mês e meio.

- Foi Haytham Querashi que o despediu, ou coisa do género?

- Pior, embora seja infinitamente melhor do ponto de vista de Muhannad, se considerarmos o que ele faria com esta informação, se ele viesse a saber que foi Armstrong quem encontrou o corpo.

- Porquê? Que história é essa?

- Vingança, manipulação, necessidade, desespero. O que quiseres.

Haytham Querashi foi substituir Ian Armstrong na fábrica, Barb. E logo que Haytham Querashi morreu, Ian Armstrong retomou o seu emprego. Não parece um motivo caído do céu?

 

- PODE SER INCERTO - admitiu Barbara. - Mas não teria Armstrong um motivo ainda mais importante para matar quem quer que o tenha despedido?

- Em certas circunstâncias, sim. Se se quisesse vingar.

- Mas nestas circunstâncias?

- Parece que Armstrong era um bom funcionário. Só o despediram para arranjar lugar para Querashi na empresa da família.

- Valha-me Deus - disse Barbara com toda a devoção. - Armstrong tem álibi?

- Alega que estava em casa com a mulher e o filho de cinco anos. Com uma dor de ouvidos horrível. O miúdo, não Armstrong.

- E a mulher corrobora, não é verdade?

- É ele que trás dinheiro para casa, por isso ela sabe a quem deve lealdade - Emily brincava com um pêssego da fruteira. - Armstrong disse que tinha ido logo de manhã cedo dar um passeio ao Nez. Disse que há algum tempo fazia essas caminhadas matutinas ao fim-de-semana, para se ver livre da mulher e ter umas horas de sossego. Não sabe se alguém o viu durante esses passeios, mas mesmo que assim seja, poderia bem ter usado uma actividade normal de fim-de-semana para lhe servir de álibi.

Barbara sabia o que ela estava a pensar: não era uma ocorrência assim tão rara, o assassino fingir que tropeça com o cadáver a fim de chamar a atenção para a culpa de outra pessoa. No entanto algo que Emily notara anteriormente incentivara Barbara a seguir noutra direcção.

- Esquece o carro por um bocado. Disseste que Querashi tinha três preservativos e dez libras. Poderia ter ido até ao Nez encontrar-se com alguém para ter relações sexuais? Uma prostituta, talvez? Estava para se casar e se calhar não queria arriscar ser visto por alguém que fosse contar o romance ao futuro sogro.

- Que prostituta conheces que leve dez libras por um trabalhinho, Barb?

- Uma novinha. Ou desesperada. Talvez uma principiante. - Quando Emily abanou a cabeça, Barbara disse: - Então poderia ter ido encontrar-se com uma mulher que não fosse livre de o fazer, uma mulher casada. O marido apanhou-os e acabou com ele. Há alguma indicação de que Querashi conhecesse a mulher de Armstron

- Andamos à procura de ligações - disse Emily. - Com as mulheres de todos.

'' - Esse tal Muhannad - disse Barbara. - É casado, Em? - É pois - disse Emily calmamente. - Claro que é. Também lhe arranjaram o casamento há uns três anos.

- É um casamento feliz?

- Estás a brincar. Os pais informam-nos que lhes arranjaram companheiro para toda a vida. Encontram-se com essa pessoa e logo a seguir estão presos num casamento. Parece-te a receita para a felicidade. - Nem por isso. Mas há séculos que o fazem, por isso não há-de ser assim tão mau. Ou é?

Emily lançou-lhe um olhar mudo, perfeitamente eloquente. Ficaram em

silêncio, ouvindo o canto do rouxinol. No seu espírito, Barbara ordenava os factos que Emily lhe apresentara. O cadáver, o carro, as chaves nos arbustos, a guarita na praia, um pescoço partido. Finalmente disse:

- Sabes que se alguém em Balford já está com a ideia de problemas raciais, não interessa quem possas prender, não sabes?

- Porquê.

- Porque se eles quiserem arranjar sarilhos, vão servir-se dessa prisão para os arranjarem. Pões um inglês na pildra e revoltam-se porque o crime foi causado por racismo. Prendes um paquistanês e essa prisão é fruto de preconceitos da parte da polícia. O prisma apenas girou um pouco, mas o que eles examinam por esse prisma é exactamente o mesmo.

Emily deixou de mexer no pêssego. Examinou Barbara. Quando voltou a falar parecia ter chegado subitamente a uma conclusão apropriada.

- Claro - disse. - Que tal és tu a tratar com delegações, Barb?

- O quê?

- Disseste há bocado que estavas disposta a ajudar. Bom, preciso de um agente que tenha jeito para esse tipo de trabalho e acho que tu és esse agente. Que tal te entendes com asiáticos? Precisava de mais alguém, nem que seja para calar o chefe.

Antes que Barbara pudesse proceder a uma busca na história da sua vida de modo a responder, Emily continuou. Tinha concordado com reuniões regulares com membros da comunidade paquistanesa, no decorrer da investigação. Precisava de um agente para lidar com esse grupo. Barbara, se concordasse, seria esse mesmo agente.

- Terás de falar com Muhannad Malik - disse Emily. - De certeza que vai insistir o mais que puder, por isso é preciso manter a calma. Mas há outro asiático, um tipo que veio de Londres, qualquer coisa Azhar, e que parece conseguir controlar Muhannad, por isso, vai ajudar-te quer queira quer não.

Barbara imaginava a reacção de Taymullarh Azhar ao ver a sua cara cheia de nódoas negras logo na primeira reunião entre os asiáticos e a bófia. Disse:

- Não sei. As delegações não são o meu forte.

- Disparate - Emily ignorou as suas objecções. - Vais ser espectacular. A maior parte das pessoas torna-se razoável quando se lhe apresentam os factos na devida ordem. Trabalho contigo para decidirmos qual é a devida ordem.

- E quem paga sou eu, se as coisas derem para o torto? - Perguntou Barbara com perspicácia.

- As coisas não vão dar para o torto - replicou Emily. - Sei que consegues resolver seja o que for. E mesmo que não fosse esse o caso, quem melhor do que um agente da Scotland Yard para assegurar aos asiáticos tratamento de luxo. Então?

Era afinal essa a questão. Mas Barbara percebeu que seria útil. Não só a Emily, mas também a Azhar. Quem, melhor que uma pessoa que já conhecesse um dos asiáticos, conseguiria realmente navegar melhor nas águas turvas da sua hostilidade?

- Muito bem - disse.

- Espectacular. - Emily estendeu o braço para ver o relógio de pulso à luz do candeeiro. Disse.

- Diabos, já é tarde. Onde ficas, Barb?

- Ainda não sei - disse Barbara, apressando-se antes que Emily pensasse que se estava a fazer a um convite para dividir o duvidoso conforto dos melhoramentos do lar. - Pensei alugar um quarto ao pé da praia. Se houver um ventinho fresco nas próximas vinte e quatro horas, quero ser a primeira a senti-lo.

- Melhor ainda. É mesmo uma inspiração - disse Emily. Mas, antes que Barbara percebesse que inspiração seria necessária para desejar que uma brisa fresca suavizasse aquele ar sufocante, a amiga continuou. O Burnt House Hotel, seria ideal para as suas necessidades, disse. Não tinha acesso directo à marginal, mas ficava na parte norte da cidade, sobranceiro ao mar, sem nada que impedisse a brisa de soprar na sua direcção. Como não tinha acesso directo à areia e ao mar, era sempre o último hotel a encher, quando começava a época turística, como acontecia agora en1 Balford-le-Nez. E mesmo que não fosse esse o caso, havia outro ponto sobre o Burnt House que o tornava um domicílio desejável para Barbara Hvers, sargento-detective da New Scotland Yard, durante a sua estadia em Balford.

- O que é? - Perguntou Barbara.

O homem assassinado ficara ali hospedado, dissera-lhe Emily.

- Assim podes ajudar-me com algumas investigações.

Rachel Winfield perguntara muitas vezes a si própria onde iam as raparigas normais quando precisavam de conselho na altura em que as maiores questões morais desta vida se apresentavam, exigindo resposta. Na sua fantasia, as raparigas normais procuravam as mães. E o que acontecia era isto: as raparigas e as mães normais sentavam-se na cozinha com um bule de chá. Para acompanhar vinha a conversa, e filhas e mães normais falavam as duas, afectuosamente, sobre o assunto que lhes era querido. Era essa a chave: as duas. A comunicação entre elas era uma rua com dois sentidos, com a mãe a ouvir as preocupações da filha e a oferecer-lhe a sua experiência.

No caso de Rachel, mesmo que a mãe lhe quisesse oferecer a sua experiência, essa seria de pouca utilidade à presente situação. De que serviria ouvir as histórias de uma bailarina de danças de salão, de meia-idade, embora com êxito, se as danças de salão não interessavam absolutamente nada para resolver o problema? Se a questão era um crime, então o relato da eliminatória dançada ao som de Boogie Woogie Bugle Boy of Company B, não daria grande ajuda.

Connie, mãe de Rachel, fora nessa mesma noite abandonada pelo seu par habitual - fora metaforicamente deixada no altar, o que a perturbou de sobremaneira pelas reminiscências de ter sido abandonada no verdadeiro altar, não uma, mas duas vezes, por homens por quem sentia tanta repugnância que nem era capaz de pronunciar o nome: ainda por cima, o abandono dera-se vinte minutos antes do início da competição.

- Foi um problema de estômago - anunciara Connie, com amargura, logo que chegara a casa, trazendo consigo um pequeno, mas nem por isso menos brilhante terceiro lugar; era um troféu com um par de bailarinos contorcendo-se, ela de saia rodada, ele de calças justas. - Passou toda a noite na casa-de-banho, a fazer o que ninguém podia fazer por ele e a queixar-se que tinha os intestinos em fogo. E eu teria ficado em primeiro lugar, se não fosse ter de dançar com Seamus O'Callahan. julga-se um grande Rudolfo Valentino...

Nureyev, corrigiu Rachel mentalmente.

-...E que podia eu fazer, não é verdade, para que ele não me desfizesse os pés quando saltava? Quando se dá a volta não se salta, farto-me de lhe dizer, não é verdade, Rachel? Mas o que se importa com isso um fulano que sua como se fosse um peru no forno? Ah! Rala-se bem...

Connie colocou o troféu sobre uma prateleira da estante metálica, feita-para-parecer-madeira, que estava encostada à parede da sala. Arranjou um lugar entre as duas dúzias de prémios já aí em exposição. O mais pequeno de todos era um copinho de estanho que tinha gravado um homem e uma mulher a dançar, mantendo alguma distância entre um e outro. O maior, era uma taça com as palavras PRIMEIRO LUGAR - DANÇAS DE SALÃO DE SOUTHEND gravadas; já estava até a perder a camada prateada por ser tão limpa com tanto cuidado.

Connie Winfield afastara-se da prateleira para admirar o último elemento chegado à sua colecção. Estava um pouco abatida, depois de tantas horas na pista de dança. Os estragos que o esforço iniciara no seu penteado do salão unisexo Sea and Sand tinham-se desvanecido com o calor.

À porta da sala, Rachel olhava para a mãe. Reparou no chupão que trazia no pescoço e interrogou-se quanto a quem teria tido a honra: Seamus 0'Callahan, ou o par habitual de Connie, um fulano chamado Jake Bottom, que Rachel encontrara na cozinha logo na manhã a seguir à mãe o ter conhecido.

- Não conseguiu pôr o carro a trabalhar - murmurara Connie, confidencialmente, à filha, quando esta não quisera ir para a mesa ao ver lá sentado o tronco sem pêlos e também desconhecido de Jack. - Dormiu no sofá, Rache... - e, ao ouvir esta frase, Jack erguera a cabeça e piscara o olho com malandrice.

Rachel não precisava desse piscar de olhos para somar dois mais dois. Jack Bottom não era, naqueles anos todos, o primeiro homem com problemas no motor mesmo à porta de casa delas.

- São fantásticos, não são? - Perguntou Connie, referindo-se à colecção de troféus. - Nunca pensaste que a tua mãe conseguisse passar para as cruzes da ribalta...

Luzes da ribalta, corrigiu Rachel para consigo.

-... não é verdade, filha? - Connie olhou para ela. - Porque estás com essa cara torcida, Rachel Lynn? - Não te esqueceste de fechar a loja, não? Rache, se te puseste a andar e fomos assaltadas, vais ver o que te acontece.

- Fechei a porta, sim - disse Rachel. - E fui verificar para ter a certeza.

- Então, que se passa? Parece que comeste azedas. Porque não puseste aquela maquilhagem que te comprei? Só Deus sabe que, se te esforçares, podes fazer alguma coisa por ti mesma, Rache. - Connie foi ter com ela e arranjou-lhe o cabelo, fazendo o mesmo de sempre: puxava-o para a frente, para que aquela massa negra caísse como um véu sobre o lado melhor. Assim ficava elegante, dizia-lhe Connie.

Rachel sabia que não valia a pena dizer à mãe que não serviria de nada arranjar-lhe o cabelo para lhe melhorar a aparência. A mãe passara vinte anos a fingir que não havia qualquer problema com o rosto de Rachel. Não era agora que ia mudar.

- Mãezinha...

- Connie - corrigiu a mãe. Quando Rachel fizera vinte anos decidira que não estava disposta a ser mãe de uma jovem adulta. - De qualquer modo, parecemos mais irmãs - dissera ao informar Rachel que, a partir dali, se tratariam por Connie e Rache.

- Connie - disse Rachel.

Connie sorriu e deu-lhe uma palmadinha na face.

- Assim é melhor - disse. - Mas põe uma corzinha, Rache. Tens umas maçãs do rosto perfeitas. Há mulheres que davam tudo para as ter. Porque não tiras partido delas, por amor de Deus?

Rachel seguiu Connie até à cozinha. Esta estava de cócoras, diante do frigorífico. Tirou de lá uma coca-cola e um enorme elástico que conservava dentro de um saco de plástico. Bateu com o elástico - com cerca de doze centímetros de largura e mais de sessenta de comprimento - em cima da mesa. Deitou a coca-cola num copo e juntou-lhe dois quadrados de açúcar, como sempre fazia, ficando a ver as bolhinhas que se formavam na espuma. Levou a bebida para a mesa e descalçou os sapatos. Abriu o vestido, tirou-o, tirou também os saiotes e sentou-se no chão, mantendo apenas a roupa interior. O seu corpo, que parecia ter metade dos quarenta e dois anos que na realidade já contava e ela gostava de o exibir sempre que houvesse a mínima possibilidade de receber elogio exagerado ou não - Connie não era esquisita.

Rachel cumpriu o seu dever.

- A maioria das mulheres dava tudo para ter uma barriga como a tua. Connie apanhou o elástico e prendeu-o à volta dos pés. Começou a fazer abdominais com o elástico, que estava mais resistente por causa do tempo que fora mantido no frigorifico.

- Bem, só é preciso fazer exercício, não é verdade, Rache. E comer como deve ser. E manter o espírito jovem. Que tal as minhas coxas? Não têm celulite, pois não? - Fez uma pausa para erguer uma perna no ar, espetando os dedos dos pés na direcção do tecto. Passou as mãos desde os tornozelos às coxas.

- Estão bem - disse Rachel. - Estão mesmo perfeitas. Connie ficou contente. Rachel sentou-se à mesa, enquanto a mãe continuava a ginástica.

Connie ofegou.

- Este calor não é horrível? É por isso que ainda estás a pé, não é? Não conseguias dormir? Não me espanta. Admira-me como consegues dormir toda vestida, como uma avozinha vitoriana. Dorme nua menina, liberta-te.

- Não é o calor - disse Rachel.

- Não? Então é o quê? Algum rapazinho que passou da conta?Começou a abrir e a fechar as pemas, gemendo ligeiramente. As unhas compridas batiam no chão forrado de oleado, para contar o número de vezes que fazia o exercício. - Não andas para aí sem protecção, pois não Rache? Disse-te que tinhas de insistir para que o fulano usasse preservativo. Se ele não o quiser pôr quando tu disseres, então manda-o passear. Quando tinha a tua idade...

- Mãe! - Interrompeu Rachel. Era ridícula aquela insistência nos preservativos. Afinal o que pensaria a mãe que ela era? A sua própria reencarnação? Segundo dizia, a partir dos catorze anos, Connie tivera de afugentar os homens com uma vassoura. E nada lhe era mais querido do que pensar que tinha uma filha incomodada pela mesma inconveniência.

- Connie! - corrigiu ela.

- Sim, queria dizer Connie.

- Claro que sim, fofinha - Connie piscou o olho, mudou de posição, para se deitar de lado, e começou a levantar os braços sobre a cabeça. Uma das coisas que Rachel admirava em Connie era a sua teimosa dedicação a um objectivo. Não interessava qual fosse no momento, mas Connie entregava-se a ele completamente, como se fosse uma jovem noiva de Cristo: era a imagem da devoção consumada.

Esta qualidade era óptima para as danças de salão, para a ginástica e até para os negócios. Porém, nesse momento, era apenas um atributo que Rachel poderia perfeitamente dispensar. Precisava de toda a atenção da mãe. Encheu-se de coragem para lho pedir.

- Connie, posso pedir-te uma coisa? Uma coisa pessoal? Uma coisa de cá de dentro?

- De cá de dentro? - No chão, Connie ergueu as sobrancelhas. De uma delas caiu uma gota de suor, brilhando qual jóia líquida na luz da cozinha. - Queres saber os factos desta vida? - Ofegou e gemeu, a perna acima e abaixo. O peito estava húmido da transpiração. - Já é tarde, não? Não te vi uma noite com um tipo lá atrás das casas de praia?

- Mãezinha!

- Connie.

- Certo! Connie...

- Não sabias que eu sabia, Rache? Afinal quem era ele? Não te agradou? - Sentou-se, pôs o elástico à volta dos ombros e começou a puxá-lo para a frente e para trás para exercitar os braços. A mancha de humidade que deixara no oleado parecia vagamente ter a forma de uma pêra. - Homens, Rache: não vale a pena tentar adivinhar o que pensam, nem controlá-los. Se ambos quiserem a mesma coisa então pronto, divirtam-se. Se um não quer, desiste-se. Diverte-te assim, Rache: diverte-te. Usa protecção, porque depois, não vais querer surpresas, nem com pezinhos, nem sem eles. As surpresas, claro. Foi assim que sempre fiz, e dei-me bem. - Olhou para Rachel com ar alegre, como se esperasse outra pergunta ou a concordância da filha, obtida pela sua sinceridade feminina.

- Não é cá de dentro nesse sentido - disse Rachel. - É sobre o que realmente se sente. A alma e a consciência.

A expressão de Connie não era muito animadora. Parecia completamente baralhada.

- Estás a meter-te na religião? - Perguntou. - Andaste a conversar com aqueles Hare Krishnas na semana passada? Não ponhas esse ar inocente. Sabes a quem me refiro. Andavam a dançar e a tocar tambor perto do Princes Breakwater. Deves lá ter ido de bicicleta. Não me digas que não. – Voltou a exercitar os braços.

- Não é sobre religião. É sobre o que está certo e o que está errado.

É sobre isso que quero perguntar.

Tratava-se afinal de um assunto importante. Connie largou o elástico

e pôs-se de pé. Bebeu um grande gole de coca-cola e apanhou um maço de Dunhills, que estava dentro de um cesto de plástico no centro da mesa.

Olhou cautelosamente para a filha, acendeu um cigarro e inalou o fumo, mantendo-o nos pulmões durante uns instantes, antes de o expelir, num sopro, na direcção de Rachel.

- O que andaste a fazer, Rachel Lynn? - Naquele momento era uma mãe completa.

De facto, Rachel ficou satisfeita com a mudança. Sentiu-se momentaneamente salva, tal como durante a infância, nos momentos em que os instintos maternais de Connie respondiam, vencendo a indiferença, à chamada da maternidade.

- Nada - disse Rachel. - Não se trata de fazer bem ou mal. Pelo menos, não é bem isso.

- Então é o quê?

Rachel hesitou. Agora que conseguira a atenção da mãe, perguntava a si própria para que lhe serviria. Não lhe podia contar tudo... não poderia contar tudo a ninguém... mas tinha de dizer a alguém o suficiente para conseguir um conselho.

- Supõe - disse Rachel com toda a delicadeza - supõe que aconteceu uma coisa má a uma pessoa.

" - Está bem. Estou a supor - Connie continuava a fumar, com o ar mais preocupado que se poderia ter quando se tem vestido um soutien preto sem alças, calcinhas cavadas, a fazer conjunto, e ainda um cinto de ligas de renda.

- É uma coisa muito séria que aconteceu. Supõe que sabes uma coisa

que pode ajudar as pessoas a perceber porque aconteceu essa coisa má.

- Perceber porquê? - Disse Connie. - Porque é que alguém tem de perceber porquê? Estão sempre a acontecer coisas más às pessoas.

- Mas isto é uma coisa mesmo muito má. O pior que pode haver.

Connie puxou uma fumaça e olhou para a filha com ar especulativo.

- O pior, ehn? E o que poderá ser? Um incêndio em casa? Um bilhete da lotaria premiado que se deitou para o lixo? Uma mulher que fugiu com o Ringo Starr?

- Estou a falar a sério - disse Rachel.

Connie devia ter visto a ansiedade no rosto da filha, pois puxou uma cadeira e sentou-se à mesa, em frente dela.

- Muito bem - disse. - Aconteceu uma coisa má a uma pessoa.

E tu sabes porquê. É isso? Sim? E o que é essa coisa?

- Morte.

Connie assoprou o ar que tinha nas bochechas. Puxou furiosamente mais uma fumaça do cigarro.

- Morte, Rachel Lynn? Mas em que estás tu metida?

- Morreu uma pessoa. E eu...

- Estás metida nalgum assunto desagradável?

- Não.

- Então?

- Mãezinha, estou a tentar explicar-te. Quer dizer, estou a tentar pedir-te...

- O quê?

- Ajuda. Conselhos. Preciso de saber se, quando se sabe qualquer coisa sobre uma morte, se tem de dizer toda a verdade. Se aquilo que uma pessoa sabe provavelmente não tiver nada a ver com essa morte, então essa pessoa deve calar aquilo que sabe, se lhe perguntarem o que sabe? Porque eu sei que uma pessoa não tem de dizer nada, se não lhe perguntarem. Mas se lhe perguntarem, deve dizer alguma coisa, mesmo que não tenha a certeza de ser importante?

Connie olhou para ela, como se, de repente, lhe tivessem nascido asas. Depois semicerrou os olhos. Apesar da exposição baralhada de Rachel; quando Connie lhe respondeu era óbvio que tinha feito algumas deduções complicadas.

- Estamos a falar de uma morte repentina, Rachel? De uma morte inesperada?

- Bem... sim.

- E é inexplicável?

- Acho que sim.

- Foi recentemente?

- Sim.

- E foi cá?

Rachel acenou afirmativamente.

- Então é... - Connie procurou num monte de jornais, revistas e correio que estava debaixo do cesto de plástico de onde tinha tirado os cigarros. Olhou para a primeira página de um exemplar do Tendring Standard, pô-lo de lado, pegou noutro, pôs também esse de lado e agarrou um terceiro. É isto? - Agitou o jornal na frente de Rachel. Era o que relatava a morte no Nez. - Sabes alguma coisa a este respeito, menina?

- Porque pensas isso?

- Vá lá, Rache. Não sou cega. Sei que andas metida com esses pretos.

- Não digas isso.

- Porque não? Nunca fizeste segredo que tu e Sally Malik...

- Sahlah. Não é Sally. E não é o eu andar com eles. É porque lhes chamou pretos. Só mostra ignorância.

- Bom, mil perdões. - Connie sacudiu a cinza do cigarro no cinzeiro. Este tinha a forma de un1 sapato de salto alto e era no salto que se podia descansar o cigarro. Connie não o fez, pois não queria evitar que mais umas baforadas de fumo lhe chegassem aos pulmões. Disse: - É melhor dizeres-me já porque andas tão aflita, minha menina, porque não me apetece decifrar charadas esta noite. Sabes alguma coisa sobre a morte desse fulano?

- Não. Não é bem isso.

- Então sabes alguma coisa que não é bem. Não é? Conhecias o tipo pessoalmente? - A pergunta, assim colocada, fez-lhe lembrar qualquer coisa, porque os olhos de Connie abriram-se mais e apagou o cigarro com tanta força, que o cinzeiro foi parar ao outro extremo da mesa. - Era com este fulano que tu ias para trás das casas da praia? Deus Todo-Poderoso, andavas metida com um homem de cor? Onde está o teu bom senso, Rachel? E a tua decência? Que valor dás a ti própria? Achas que um preto se ralava se ficasses grávida? Nem penses. E se ele te passasse uma dessas doenças dos pretos? E depois, menina? E se fosse algum vírus? Como é que se chama? Énola? Oncola?

Ébola, corrigiu Rachel em silêncio. E não tinha nada a ver com andar com um homem, branco, castanho, preto ou roxo, entre as casas de madeira da praia de Balford-le-Nez.

- Mãe - disse, pacientemente.

- Para ti chamo-me Connie. ConnieConnieConnie!

- Sim, está bem. Ninguém me engravidou, Connie. Achas que alguém, seja de que cor seja, quer alguma coisa comigo?

- E porque não? - Perguntou Connie. - Qual é o problema? Tens um lindo corpo, maçãs do rosto espectaculares e pernas maravilhosas, então porque não haveria um homem de te querer todas as noites da semana?

Rachel percebeu o desespero nos olhos da mãe. Sabia que seria inútil. Pior, seria desnecessariamente cruel, fazer Connie admitir a verdade. Afinal era a pessoa que tinha dado o ser a um bebé com uma cara pouco apropriada. Provavelmente seria uma realidade tão difícil de enfrentar como a de viver com essa tal cara. Disse.

- Tens razão, Connie - e sentiu instalar-se dentro de si um desespero surdo, como uma rede, cujas malhas fossem feitas de desgosto. - Mas esse fulano do Nez. Não fiz nada com ele.

- Mas sabes alguma coisa da sua morte.

- Não é exactamente sobre a morte. Mas é uma coisa relacionada. O que eu queria saber era se deveria de dizer alguma coisa, se alguém me perguntasse.

- Que alguém?

- Talvez um alguém da polícia.

- Da polícia? - Connie conseguiu dizer a palavra sem fazer um movimento com os lábios. Por baixo do blush fúcsia que usava, a pele empalidecera tanto que as pinceladas de maquilhagem no rosto pareciam pétalas murchas. Quando voltou a falar, não olhou para Rachel. - Somos mulheres de negócios, Rachel Lynn Winfield. Somos, acima de tudo, mulheres de negócios. Aquilo que temos, não importa que seja pouco, depende da boa vontade desta cidade. Repara que não é apenas da boa vontade dos turistas que vêm cá no Verão, mas de todos. Percebeste?

- Claro que sim.

- Então, se ganhas fama de contar a todo o bicho careto aquilo que sabes, só quem tem a perder somos nós, Connie e Rache. As pessoas vão afastar-se. Deixam de vir à loja. Vão fazer as compras a Clacton e, para elas, não será inconveniente pois preferem fazê-lo onde estão à vontade, onde podem dizer Preciso de uma coisa bonita para uma senhora muito especial, piscando o olho, mas sabem que essa piscadela não vai chegar aos ouvidos da mulher. Estou a ser suficientemente clara a este respeito, Rache? Temos uma loja e o negócio está primeiro. Sempre!

Dizendo isto, voltou a pegar na coca-cola, mas desta vez, ao mesmo tempo que tomava um gole, puxou um exemplar da Woman's Oun de um monte de contas, catálogos e jornais, que estavam sobre a mesa. Abriu a revista e começou a ler o índice. A conversa acabara.

Rachel via-a percorrer a lista dos artigos com uma longa unha vermelha. Viu Connie folhear a revista até chegar a um intitulado Sete Maneiras de Saber Que Ele A Engana. O título causou um arrepio em Rachel, apesar do calor, pois atingiu-a da modo fulminante. Precisava de um artigo intitulado O Que Fazer Quando Se Tem a Certeza, mas afinal já tinha a resposta. Nada fazer e esperar. Compreendeu que era o que toda a gente deveria fazer em caso de traição, pouco ou muito importante. Agir, por saber alguma coisa só levaria ao desastre total. Os últimos dias em Balford-le-Nez tinham mostrado a Rachel Winfield que, sem dúvida nenhuma, era assim.

- Para uma estadia por tempo indeterminado? - O proprietário do Burnt House Hotel salivou literalmente com estas palavras. De facto, esfregou as mãos como se estivesse já a acariciar o dinheiro que Barbara lhe iria entregar no fim da estadia. Apresentara-se como Basil Treves e acrescentar a informação de que era tenente na reserva - nas Forças Armadas de Sua Majestade, fora assim que dissera - logo que lera na ficha de registo que ela trabalhava para a New Scotland Yard; isto tornava-os uma espécie de colegas.

Barbara supunha que seria por se ter de usar farda no exército e na polícia. Ela mesma, havia anos que não vestia uniforme, mas não lhe fez esta confidência. Precisava de Basil Treves a seu lado, e tudo o que servisse para o conservar aí valia a pena. Além disso, ficou sensibilizada pelo facto de ele não se ter referido ao estado do seu rosto. Tinha retirado os pensos no carro depois de ter saído da casa de Emily, mas a pele, dos olhos aos lábios, era ainda uma aguarela lilás, amarela e azul.

Treves fê-la subir um lance de escadas e levou-a por um corredor escuro. Nada indicava a Barbara que o Burnt House Hotel era um estandarte de delícias que se iria desfraldar para seu prazer. Uma relíquia de antigos Verões eduardianos, exibia tapetes debotados sobre um chão cujas tábuas rangiam e por cima do qual se erguiam tectos manchados de humidade.

Possuía uma atmosfera de suave decadência.

Porém, Treves parecia alheio a tudo isto. Tagarelava sem parar, até che'garem ao quarto de Barbara, ao mesmo tempo que alisava o cabelo oleoso e escasso, desde a risca feita por detrás da orelha esquerda através da cúpula reluzente do seu crânio. Confidenciou-lhe, que o Burnt House tinha todas as comodidades possíveis: televisão a cores, com comando, em todos os quartos, e outra, com ecrã gigante, na sala de estar, se ela preferisse confraternizar à noite; um fogãozinho eléctrico para fazer chá logo de manhã, ao acordar; casa-de-banho em quase todos os quartos e outras com sanita e banheira em todos os andares; telefone ligado directamente ao resto do mundo, desde que se marcasse o nove; e a maior comodidade, mística, abençoada e adorada - um fax na recepção. - Ele chamava-lhe um emissor de facsimile como se mantivesse com a máquina, apenas relações formais, e acrescentou a propósito.

- Mas a senhora, já que está aqui de férias, não estará interessada em

tal coisa, não é verdade Miss Havers?

- Sargento Havers - corrigiu-o Barbara, acrescentando - sargento-detective Havers.

Não haveria melhor altura do que a presente, pensou ela, para colocar

Basil Treves onde dele necessitava. Os olhos brilhantes e a postura expectante do homem diziam-lhe que teria todo o prazer em ajudar a polícia com as suas informações, se lhe dessem essa oportunidade. A fotografia de jornal emoldurada que estava exposta na recepção - comemorando a sua eleição como vereador da Câmara - diziam-lhe que era o tipo de homem que não obtinha, nem com facilidade, a glória pessoal. Por isso, nem muitas vezes quando aparecia a oportunidade de a conseguir, sem dúvida ficava entusiasmado.

E haveria maior orgulho do que fazer parte oficiosa de uma investigação de homicídio? Com um pequeno esforço da parte dela, Basil Treves acabaria por ser muito útil.

- De facto estou aqui em trabalho - disse-lhe, permitindo-se adoçar um pouco a verdade. - Assunto do Departamento Criminal, para ser mais precisa.

Treves deteve-se à porta do quarto, a chave pendendo-lhe da mão com uma enorme placa em forma de montanha russa. Ao preencher a ficha, Barbara reparara, que cada chave estava identificada de maneira diferente com uma diversão de feira popular: as outras placas representavam, por exemplo, um carrinho de choque e a roda gigante, sendo os quartos a que davam acesso conhecidos por essa denominação.

- O Departamento Criminal? - Perguntou Treves - Será por acaso...

mas claro que não pode dizer de maneira nenhuma, não é verdade? Posso garantir-lhe, sargento, que nestas coisas sou um túmulo. Da minha boca ninguém saberá quem a senhora é. Aqui estamos.

Abrindo a porta estreita, de par em par, acendeu a luz do tecto e afastou-se para a deixar passar à sua frente. Depois apressou-se a entrar, cantarolando enquanto colocava a mochila num banco. Apontando para a casa-de-banho, anunciou orgulhosamente que lhe tinha dado um toilette, com vista para o mar. Bateu nas colchas turcas de uma cor verde biliosa de ambas as camas, dizendo:

- São firmes, mas não demasiado, espero eu.

Ajeitou a saia cor-de-rosa do toucador em forma de rim. Endireitou as duas gravuras da parede - patinadores vitorianos que deslizavam, afastando-se um do outro com um ar pouco entusiasmado pelo exercício - e arranjou os saquinhos de chá que esperavam, num cesto, a manhã seguinte. Ligou o candeeiro de mesa-de-cabeceira e desligou-o em seguida. Voltou a ligá-lo, como se pretendesse enviar sinais em código.

- Terá tudo o que deseja, sargento Havers, se precisar de mais alguma coisa, encontrará Basil Treves ao seu dispor, dia e noite, a qualquer hora. - sorriu. Colocou as mãos entrelaçadas à altura do peito e mantendo-se numa posição atenta. - E para esta noite, deseja mais alguma coisa? Uma bebida?

Um cappuccino? Fruta? Água mineral? Bailarinos gregos? - Cantarolava em tom alegre. - Estou aqui para atender os seus mínimos desejos, não o esqueça.

Barbara pensou em pedir-lhe que escovasse a caspa dos ombros, mas decidiu que não era neste tipo de desejo que ele estava a pensar. Foi abrir a janela. O quarto estava tão abafado que o ar parecia estremecer. Desejou então que uma das comodidades do hotel fosse ar condicionado, ou ventoinhas nos quartos. O ar estava parado. Parecia que todo o universo decidira suster a respiração.

- Que tempo maravilhoso, não é verdade? - Disse Treves animado.

- Vai trazer-nos bandos de visitantes. Sorte ter chegado agora, sargento. Mais uma semana e estaremos cheios até ao tecto. Claro que arranjaria sempre lugar para si. Assuntos de polícia têm precedência, não é verdade?

Barbara notou que os seus dedos tinham ficado sujos de preto, de quando abrira a janela. Esfregou-os disfarçadamente nas calças.

- Quanto a isso, Mr. Treves...

Como um pássaro, pôs a cabeça de lado.

- Sim? Há alguma coisa que...

- Estava aqui um tal Mr. Querashi, não estava? Haytham Querashi? Parecia quase impossível que Basil Treves conseguisse arranjar uma melhor posição de sentido. Barbara pensou até que fosse fazer continência.

- Uma infeliz ocorrência - disse formalmente.

- O ele estar aqui hospedado?

- Valha-me Deus, não. Era aqui muito bem- vindo. Mais do que bem-vindo. O Burnt House não faz descriminação. Nunca o fez e nunca o fará. Olhou para a porta por cima do ombro, dizendo: - Posso...? - Quando Barbara acenou afirmativamente, fechou-a e continuou em voz mais baixa. Embora, para ser totalmente honesto, separo as raças, como provavelmente vai notar durante a sua estadia. Isto nada tem a ver com as minhas inclinações, sabe. Não tenho o minimo preconceito em relação às pessoas de cor. O mínimo. Mas os outros hóspedes... Para ser franco, sargento, os tempos estão difíceis. Não é bom para o negócio fazer seja o que for que gere más vontades. Sabe a que me refiro.

- Então Mr. Querashi ficava noutra parte do hotel? É isso que me está a dizer?

- Não exactamente noutra parte, mas separado dos outros. Discretamente. Duvido até que tenha reparado. - Mais uma vez Treves levou as mãos ao peito. - Tenho hóspedes permanentes, sabe. Umas senhoras de idade que, simplesmente, não estão habituadas ao modo como os tempos mudaram. De facto, isto é até embaraçoso de dizer, mas uma delas tomou mesmo Mr. Querashi por um criado, ao pequeno-almoço, no primeiro dia que ele cá ficou. Pode imaginar? Que aborrecimento...

Barbara não tinha a certeza se ele se referia a Haytham Querashi ou à velha, mas achou que podia arriscar a um palpite.

- Gostava de ver o quarto dele, se fosse possível - pediu Barbara.

- Então está aqui por causa do seu falecimento.

- Não do seu falecimento, do seu assassinato.

Treves disse:

- Assassinato? Deus do Céu. - E estendeu o braço para trás para poder chegar com a mão a uma das camas. Sentou-se nela e disse:Dê-me licença... - e baixou a cabeça. Respirou fundo e, quando voltou finalmente a erguê-la perguntou em voz baixa: - Vai saber- se que ele estava aqui? Aqui no Burnt House? Vai aparecer nos jornais? Porque, como os negócios prometem por fim melhorar...

Afinal a sua reacção nada tinha a ver com choque, culpa ou simples bondade humana, pensou Barbara. Não era a primeira vez que tinha razões para validar a sua crença de que o homo sapiens estava geneticamente ligado a um lago cheio de porcaria.

Treves devia ter-lhe lido esta conclusão no rosto, porque continuou muito depressa:

- Não é que eu não me preocupe com o que aconteceu a Mr. Querashi. De facto, preocupo-me mesmo muito. Era um jovem muito simpático, apesar dos seus hábitos e lamento a sua morte infeliz. Mas com os negócios em vias de melhorarem, depois de todos estes anos de recessão, não nos podemos arriscar a perder sequer um...

- Os seus hábitos? - Barbara evitou o discurso sobre a economia do país.

Basil Treves pestanejou.

- Bem, eles são diferentes, não é verdade?

- Eles?

- Os asiáticos. Com certeza que sabe. É forçoso que o saiba, trabalhando em Londres. Valha-me Deus, não o negue.

- Ele era diferente, como?

Treves deduziu aparentemente mais qualquer coisa da pergunta do que era intenção dela. Os olhos ficaram-lhe opacos e cruzou os braços. As defesas a funcionar, pensou Barbara com interesse, perguntando a si própria contra quem se estaria ele a precaver. No entanto, não queria entrar em oposição, por isso apressou-se a tranquilizá-lo.

- O que eu quero dizer é que já que o senhor o via regularmente, qualquer coisa de anormal que tenha notado no seu comportamento pode ajudar. Culturalmente, seria diferente dos seus outros hóspedes...

- Não é certamente o único asiático que aqui reside - interrompeu Treves, continuando a conduzir o tema da sua liberalidade. - As portas do Burnt House estarão sempre abertas a todos.

- Sim. claro. Então parece que ele era diferente, até dos outros asiáticos. O que quer que me diga ficará entre nós, Mr. Treves. Qualquer coisa que tenha sabido, visto ou mesmo, suspeite acerca de Mr. Querashi pode ser o facto de que precisamos para descobrir o que lhe aconteceu.

Estas palavras pareceram apaziguar o homem, encorajando-o a reflectir sobre a sua importância para a investigação policial. Disse:

- Entendo sim, claro que sim - e continuou pensativo. Cofiou a barba mal tratada.

- Posso ver o quarto dele?

- Mas claro. Pode, sim.

Ele levou-a de volta por onde tinham vindo, depois desceram mais um lance de escadas e atravessaram um corredor até às traseiras do edifício. Três portas desse corredor estavam abertas, à espera de hóspedes. Uma quarta estava fechada. Por detrás dela ouvia-se uma televisão ligada, com o som baixo. O quarto de Haytham Querashi era a seguir a este, portanto o quinto, mesmo ao fundo do corredor.

Treves tinha uma chave-mestra. Disse:

- Não toquei em nada desde que... bem... desde o acidente... De facto não havia eufemismo para crime, de modo que deixou de o procurar e disse: - A polícia veio cá dizer-me... que ele estava morto. Disseram-me que fechasse o quarto à chave até me dizerem mais alguma coisa.

- Não gostamos que se mexa em nada até sabermos com o que podemos contar - disse-lhe Barbara. - Causas naturais, crime, acidente ou suicídio. Não mexeu em nada, pois não? Ninguém mais cá veio?

- Ninguém - disse. - Akram Malik apareceu cá com o filho. Queriam os objectos pessoais para mandar para o Paquistão, e acredite que não ficaram muito satisfeitos quando não os deixei ir buscá-los ao quarto. Muhannad tratou-me como se eu fizesse parte de uma conspiração para cometer crimes contra a humanidade.

- E Akram Malik? O que disse?

- O nosso Akram é muito discreto, sargento. Não foi tão parvo que me dissesse o que estava a pensar.

- Porquê? - Perguntou Barbara enquanto Treves abria a porta do quarto de Haytham Querashi.

- Porque nos detestamos - explicou Treves, em tom prazenteiro. Não suporto novos-ricos e ele não gosta de ser considerado assim. Estaria muito melhor nos Estados Unidos, onde a primeira preocupação é o dinheiro e a proveniência da pessoa tem tanta importância como o número de sapatos que calça. Cá estamos. - Acendeu a luz do tecto.

O quarto de Haytham Querashi era individual e tinha uma pequena janela que dava para o jardim das traseiras do hotel. Estava decorado tão ao acaso como o de Barbara. Amarelo, vermelho e cor-de-rosa, lutavam entre si para se tornarem a cor principal.

- Parecia sentir-se aqui muito bem - disse Treves, enquanto Barbara observava a cama, aflitivamente estreita, a única cadeira, com o assento mal estofado, a pseudo-madeira do guarda-fato e as falhas nos galões dos abatjours dos apliques. Havia uma gravura sobre a cama, outra cena vitoriana, desta vez mostrando uma jovem estendida numa chaise longue. O papel em que tinha sido colada estava há muito tempo deteriorado.

- Certo - Barbara fez uma careta por causa do cheiro que havia no quarto. Era um odor a cebolas queimadas e couves cozidas. O quarto de Querashi estava situado por cima da cozinha, sem dúvida para lhe recordar subtilmente qual era o seu lugar na hierarquia do hotel. - Mr. Treves, o que me pode dizer sobre Haytham Querashi? Há quanto tempo estava aqui? Recebia visitas? Os amigos vinham vê-lo? Recebeu ou fez alguns telefonemas em particular?

Esfregou o suor que lhe invadia a testa com as costas da mão e dirigiu-se à cómoda para dar uma olhadela aos pertences de Querashi. Deteve-se e procurou na mala os sacos para as provas que Emily lhe tinha dado antes de sair da praceta. Colocou um par de luvas de látex.

Querashi, informou-a Basil Treves, estivera hospedado seis semanas no Burnt House, enquanto esperava pelo dia do casamento. Akram Malik arranjara-lhe o quarto. Parecia que tinham comprado uma casa para os futuros noivos, como parte do dote da filha de Malik, mas como estava em obras a estadia de Malik no hotel fora prolongada por várias semanas. Saía para o trabalho antes das oito da manhã e, normalmente, voltava às sete e meia ou oito da noite; tomava o pequeno-almoço e jantava no Burnt House durante a semana, mas ao fim-de-semana jantava fora.

- Com os Malik?

Treves encolheu os ombros. Passou o dedo pela porta aberta e exami nou a ponta que, mesmo do sítio em que Barbara estava, perto da cómoda, se podia ver estar cheio de pó. Não podia jurar que Querashi estivesse com os Malik todos os fins-de-semana. Faria sentido que assim fosse.

- Em circunstâncias normais os pombinhos gostariam de estar juntos o mais tempo possível, não é verdade?

Mas como as circunstâncias eram fora do vulgar, havia sempre a possibilidade de que Querashi passasse o fim de semana noutras actividades.

- Actividades anormais? - Barbara voltou-se do seu lugar junto à cómoda.

- Um casamento arranjado - explicou Treves, acentuando especial mente o adjectivo - parece muito medieval, não acha?

- Faz parte da cultura deles, não é verdade?

- Seja o que for que se lhe chame quando se exigem costumes do século catorze a homens e mulheres do século vinte, não nos podemos espantar com o resultado, não concorda, sargento?

- E qual foi o resultado neste caso? - Barbara voltou-se para anotar os objectos que estavam sobre a cómoda: o passaporte, montes de moedas muito bem arranjados, uma mola para dinheiro segurando notas no valor de cinquenta libras e um folheto sobre um sítio chamado Castle Hotel and Restaurante que ficava, de acordo com o mapa que o acompanhava, na estrada principal, a caminho de Harrvich. Barbara abriu-o com curiosidade. A tabela de preços caiu. Ela reparou que o último da lista dos quartos era uma suite de lua-de-mel. Por oitenta libras por noite, Querashi e a noiva poderiam gozar de uma cama de colunas, meia garrafa de espumante Asti, uma rosa vermelha e pequeno-almoço na cama. Que romântico, pensou ela, e voltou a atenção para uma caixa de cabedal, que depois de inspeccionar descobriu estar fechada à chave.

Apercebeu-se de que Treves não tinha respondido à sua pergunta. Olhou para ele. Puxava a barba pensativo e ela reparou pela primeira vez que algumas desagradáveis partículas de pele caíam, produto de um leve eczema, que se espalhava pela parte inferior das faces. Conservava no rosto uma expressão de impotência, própria das pessoas que buscam o poder. Arrogante, sabedor e indeciso a respeito da conveniência de mostrar aquilo que sabia. Que raio", pensou Barbara, suspirando interiormente. Provavelmente teria de vez em quando de fazer uma massagem ao ego.

- Preciso de saber a sua opinião a respeito dele, Mr. Treves. Exceptuando os Malik, o senhor é, provavelmente, a melhor fonte de informação que temos.

- Compreendo - Treves alisou a barba. - Mas tem de entender que um hoteleiro não deixa de ser como um confessor. Para um hoteleiro bem sucedido, aquilo que vê, ouve e conclui é de natureza confidencial.

Apeteceu a Barbara fazer-lhe notar que o estado do Burnt House não 1 era de molde a justificar que aplicasse a si o qualificativo bem sucedido. Mas conhecia as regras do jogo dele.

- Acredite-me - acentuou - que qualquer informação que nos der será considerada confidencial, Mr. Treves. Mas tem de ma fornecer para podermos trabalhar juntos em igualdade de circunstâncias.

Apeteceu-lhe mostrar os dentes quando pronunciou as últimas palavras.

Ocultou este desejo, abrindo a gaveta de cima da cómoda e procurando cuidadosamente a chave da mala por entre as peúgas dobradas e a roupa interior.

- Se é assim... - Treves parecia desejoso de contar o que sabia, apesar das suas palavras anteriores, e nem esperou por qualquer confirmação. Então vou contar-lhe. Havia mais alguém na vida dele para além dessa rapariga dos Malik. É a única explicação.

- Explicação para quê? - Barbara passou à segunda gaveta. Uma pilha de camisas dobradas na perfeição, estava arranjada de acordo com as

cores: do branco para o marfim, depois para o cinzento e finalmente preto.

Os pijamas estavam na terceira gaveta. A quarta estava vazia. Querashi viajava com pouca coisa.

- Para o facto de sair à noite.

- Haytham Querashi saía à noite? Muitas vezes

- Pelo menos duas vezes por semana. Talvez mais. Sempre depois das dez. Ao princípio pensei que fosse ter com a noiva. Parecia uma conclusão razoável, apesar do adiantado da hora. Ele havia de querer conhecê-la antes do dia do casamento, não é verdade? Afinal não são totalmente selvagens.

Podem entregar os filhos e as filhas a quem mais lhes oferecer, mas não os entregam a pessoas totalmente estranhas, sem lhes dar a oportunidade de se conhecerem. Não acha?

- Não faço ideia - respondeu Barbara. - Continue.

Dirigiu-se à mesa-de-cabeceira, uma coisa cambaleante com uma única gaveta. Abriu-a.

- Bem, o facto é que naquela noite em particular, vi-o quando saía do

hotel. Conversámos um pouco sobre o casamento que se aproximava e ele disse-me que ia correr até à praia. Eram nervos pré- nupciais, compreende.

- Certo.

- Por isso quando soube que tinha morrido logo no Nez, que conforme

sabe ou não, sargento, fica na direcção oposta à praia, quando se sai do hotel para ir correr, apercebi-me que não me tinha contado o que ia fazer. O que só pode querer dizer que ia fazer alguma coisa que não devia. Como saía regularmente do hotel à mesma hora que tinha quando saiu na sexta-feira, e como morreu nessa noite, creio que é correcto deduzir que não só se ia encontrar com a mesma pessoa com quem se encontrara nas noites anteriores, mas também que essa pessoa era alguém com quem não se deveria encontrar.

Treves cruzava mais uma vez as mãos à altura do peito, como se esperasse que Barbara exclamasse: Holmes, o senhor espanta-me!,

Mas como Haytham Querashi tinha sido assassinado e as condições apontavam que a morte não tinha sido um acto ao acaso, Barbara já concluíra que o homem se tinha dirigido ao Nez para se encontrar com alguém. A única informação acrescentada por Treves era que para Querashi o encontro era já habitual. Conquanto sentisse relutância em o admitir, isto poderia ser um pormenor extremamente valioso. Mandou o isco ao hoteleiro.

- Mr. Treves, o senhor seguiu a profissão errada.

- Acha?

- Acredite - E nem sequer estava a mentir.

Lisonjeado, Treves aproximou-se para examinar também o conteúdo da gaveta da mesa-de-cabeceira: um livro de capa amarela com um marcador acetinado da mesma cor, que o fazia abrir para mostrar várias linhas sublinhadas e um texto totalmente escrito em árabe; uma caixa de doze preservativos de onde metade já tinha sido gasta e um envelope treze por dezoito. Barbara colocou o livro num saco enquanto Treves fazia certos sons em relação aos preservativos e a tudo o que significava possuir tal parafrenália relacionada com o sexo. Enquanto ele dava um estalo com a língua, Barbara despejava na mão o conteúdo do envelope. Caíram de lá duas chaves, uma delas pouco maior que a falange do seu polegar e a outra muito pequenina, do tamanho de uma unha. Esta tinha de ser a chave da caixa de cabedal que estava na cómoda. Fechou as duas chaves na mão e pensou qual seria o próximo passo. Queria ver o que estava dentro da caixa, mas preferia abri-la em privado. Por isso, antes de agir, teria de se ocupar do seu Sherlock barbudo.

Pensava em como havia de fazer para se conservar nas boas graças do homem. Este não gostaria nada de saber que, por conhecer a vítima, era um dos suspeitos do assassínio de Querashi, até que um álibi ou outra prova o eliminassem.

Disse:

- Mr. Treves, estas chaves podem ser de importância crucial para a investigação. Importa-se de ir para o corredor ver se vem alguém? A última coisa de que precisamos é de um espião ou de um bisbilhoteiro. Faça-me sinal se a costa estiver livre.

Ele disse:

- Claro, claro sargento, com todo o prazer... - e apressou-se a cumprir a sua missão.

Assim que ele montou vigilância ela examinou as chaves com mais cuidado. Eram ambas de latão, a maior estava ligada a uma corrente com uma placa de metal onde estava inscrito o número 104. Seria a chave de um cacifo, pensou Barbara. Mas que género de cacifo? De uma estação de caminho-de-ferro? De uma gare de autocarros? De um cacifo privado na praia, uma espécie de armário de metal em que as pessoas guardam a roupa enquanto vão tomar banho? Eram várias as possibilidades.

Inseriu a segunda chave na fechadura da caixa de cabedal: Fê-la girar suavemente na fechadura. A tampa soltou-se e a caixa abriu-se.

- Encontrou alguma coisa - o sussurro de Treves chegou-lhe da porta em tom de 007. - Aqui está tudo bem, sargento.

- Continue de guarda, Mr. Treves - respondeu-lhe ela também num

sussurro.

- Com certeza - murmurou. Ela percebia que ele começava a sentir-se como tendo nascido para uma vida de espionagem.

- Dependo de si - disse ela, resolvendo-se a articular as palavras por entre os dentes, na esperança de aumentar a atmosfera de intriga que parecia necessária para o manter na linha. - Se alguém aparecer... seja quem for, Mr. Treves...

- Com certeza - disse ele. - Continue sem receio, sargento-detective Havers.

Ela sorriu. Que parvalhão, pensou. Meteu as chaves no saco de provas. Depois voltou-se para a caixa de cabedal.

O conteúdo estava muito bem acondicionado: um par de botões-de-punho de ouro, uma mola para dinheiro também em ouro com qualquer coisa gravado em árabe, um pequeno anel de ouro - talvez para uma mulher - com um rubi no centro, quatro pulseiras de ouro, um livro de cheques e um bocado de papel amarelo, dobrado ao meio. Barbara demorou-se a considerar a predilecção de Querashi por ouro e se, por acaso, essa predilecção teria algum significado relacionado com o que lhe tinha acontecido. Avareza? Interrogou-se. Chantagem? Cleptomania? Antevisão? Obsessão? E que mais?

Viu que o livro de cheques era de uma agência local do Barclays. Era daqueles que tinham um talão à esquerda do cheque. Apenas um tinha sido assinalado aí, quatrocentas libras passado a F. Kumhar. Barbara examinou a data e fez as contas: três semanas antes da morte de Querashi.

Barbara meteu também o livro de cheques num saco e pegou no bocado dobrado de papel amarelo. Era o recibo de uma loja da terra. Chamava-se Racon Original and Artistic Jewellery e por baixo do nome as palavras O meLhor de Balford" estavam escritas em itálico. Barbara pensou que fosse o recibo do anelzinho de rubi. Talvez uma prenda comprada por Querashi para a noiva? Mas examinando-o viu que o recibo não era para Querashi. Fora passado a Sahlah Malik.

O recibo não esclarecia qual fora a compra. Fosse o que fosse estava identificado apenas por duas letras e um número: AK-162. A seguir estava uma frase entre aspas: A vida começa agora. No fim do recibo via-se o preço que Sahlah Malik pagara: duzentas e vinte libras.

Estranho, pensou Barbara. Gostaria de saber como teria Querashi o talão na sua posse. Era obviamente o recibo de qualquer coisa que tinha sido comprada pela noiva do homem e A vida começa agora, era provavelmente o que tencionava lá gravar. Uma aliança de casamento? Era a hipótese mais lógica. Os maridos paquistaneses usavam-nas? Barbara nunca vira que Taymullah Azhar usasse uma, mas isso não queria dizer nada, porque nem todos os homens ocidentais usavam, por isso como havia de saber qual era o costume asiático? Mas mesmo que fosse o recibo da aliança, o facto de o ter na sua posse significava que Querashi planeava devolver o que quer que fosse que Sahlah tinha comprado. E o acto de devolução de um presente gravado com as palavras cheias de esperança e confiança A vida começa agora" sugeriam uma verdadeira brecha nos planos de casamento.

Barbara olhou para a mesa-de-cabeceira, cuja gaveta ainda se encontrava aberta. Do outro lado do quarto conseguia ver a caixa com metade dos preservativos e lembrou-se que entre os objectos retirados dos bolsos da vítima, estavam outros três preservativos. Juntamente com o recibo da ourivesaria, pareciam querer levar a uma única conclusão.

Não houvera apenas uma brecha nos planos de casamento, mas provavelmente também estaria envolvida uma terceira pessoa que provavelmente convencera Querashi a abandonar o casamento arranjado, em favor de uma outra relação. Isto fora muito recentemente, pois ainda tinha na sua posse a prova de que planeara uma lua-de-mel. Barbara juntou o recibo aos outros objectos que tirara da gaveta da mesa-de- cabeceira. Fechou a caixa de cabedal à chave e colocou-a também num saco para provas. Perguntou a si própria que reacção receberia o noivo de um casamento arranjado se pedisse para desistir dos preparativos. Irritar- se-iam? Planeariam uma vingança? Não sabia. Mas fazia ideia de como havia de descobrir.

- Sargento Havers? - do corredor vinha não um sussurro, mas um silvo: o 007 começava a ficar inquieto.

Barbara dirigiu-se à porta e abriu-a. Saiu para o corredor e agarrou Treves por um braço.

- Podemos ter encontrado alguma coisa - disse-lhe concisa.

- Sério? - Ficou logo em pulgas.

- Tenho a certeza. Guarda os registos das chamadas telefónicas? Sim? Óptimo. Quero-os - ordenou-lhe. - De todos os telefonemas que ele fez e de todos os que recebeu.

- Esta noite? - Treves lambeu os beiços entusiasmado. Barbara percebeu que, se o deixasse, sem dúvida ficariam enterrados em papel até de madrugada.

- Fica para amanhã - disse-lhe. - Vá dormir, agora para ficar fresco. O sussurro representava o próprio entusiasmo.

- Graças a Deus que não deixei ninguém entrar nesse quarto.

- Continue a fazer o mesmo Mr. Treves. Conserve a porta fechada. Monte guarda se for preciso. Contrate um segurança. Ponha uma Câmara de vídeo e escutas. O que quiser. Mas de maneira nenhuma pode deixar seja quem for passar esta porta. Posso confiar em si?

- Sargento - disse Treves com a mão sobre o coração. - Pode confiar em mim até à morte.

- Óptimo - disse Barbara. E não pôde deixar de imaginar se essas mesmas palavras não teriam sido recentemente ditas a Haytham Querashi.

 

O SOL DA MANHÃ ACORDOU-A, juntamente com o som das gaivotas e um leve cheiro salgado no ar que, tal como no dia anterior, se mantinha imóvel. Barbara apercebeu-se de tudo isso conseguindo espreitar pela janela da posição semifetal em que se encontrava deitada numa das camas do quarto. Por detrás do vidro, via-se um loureiro, cujas folhas poeirentas nem se moviam. Ao meio dia o mercúrio iria ferver em todos os termómetros da eidade.

Barbara esfregou os nós dos dedos no fundo das costas, que lhe doíam de ter estado exposta a um colchão amassado por várias gerações de corpos. Atirou as pernas para fora da cama e foi, aos tropeções, para a casa-de-banho com vista para o mar.

Esta continuava o permanente tema de elegante decadência do hotel: nos azulejos das paredes e no reboco à volta da banheira, o bolor crescia em tufos esverdeados e as portas do armário por baixo do lavatório, mantinham-se fechadas por meio de um elástico esticado entre os dois puxadores. Tinha-se acesso à tal vista através de uma janelinha por cima da sanita, quatro vidros sujos por detrás de uma cortina anémica, na qual aplicações de golfinhos saltavam num mar de espuma, que há muito tempo tinha já a cor de um céu de Inverno.

Barbara fez o reconhecimento do ambiente com um ugh" e olhou-se ao espelho manchado pelos anos, pendurado sobre o lavatório, onde cerca de duas dúzias de cupidos dourados decalcáveis disparavam setas amorosas a partir dos quatro cantos. Observou a sua aparência com um segundo augh ainda mais fervoroso. A combinação dos hematomas, já amarelados que lhe iam dos olhos ao queixo, com as marcas deixadas pela almofada na sua face esquerda, davam um aspecto pouco atraente para quem a observasse directamente, antes do pequeno-almoço. A visão seria suficiente para fazer perder o apetite, pensou Barbara e virou-se à procura da tal vista que a casa-de-banho lhe oferecia.

A janela estava completamente aberta, o que lhe permitia receber vinte cinco generosos centímetros de ar fresco da manhã. Respirou fundo e passou os dedos pelo emaranhado de cabelo, enquanto olhava para a encosta coberta de erva que descia até ao mar.

Situado num ponto alto, aproximadamente a um quilómetro e meio do centro da cidade, o Burnt House Hotel era ideal, para os turistas que vinham a Balford simplesmente à procura de uma vista bonita. A sul, a Praia dos Príncipes, estendia-se numa meia-lua de areia, interrompida por três quebra-mares de pedra. A leste, a relva acabava numa falésia para lá da qual o mar, imóvel nessa manhã, se estendia infinitamente. Limitava-o uma tira de nevoeiro que pairava sobre o horizonte distante, numa promessa de tempo mais fresco. A norte, os guindastes do distante porto de Harwich, erguiam os seus pescoços de dinossauro por cima dos ferries que passavam por baixo, a caminho da Europa. Tudo isto Barbara conseguia ver da sua janela, embora estreita, e tudo isto e muito mais podia ser visto por quem quer que se sentasse numa das cadeiras reclináveis que estavam espalhadas no relvado do hotel.

Barbara calculou que um pintor de paisagens ou um artista de desenho achariam sem dúvida o Burnt House ideal para as suas intenções, mas um viajante que viesse a Balford-le-Nez à procura de mais do que uma vista agradável, a localização do hotel daria um estudo sobre a mais completa loucura comercial. A distância entre este e a cidade propriamente dita - com a Esplanada na marginal, o pontão das diversões e a rua das lojas - sublinhava este facto. Estes locais constituíam o coração comercial de Balford-le-Nez, onde os turistas gastavam dinheiro. Estavam a pouca distância dos outros hotéis, pensões e casas de Verão dessa cidade costeira, mas não ficavam a uma distância conveniente para se ir a pé, para quem estava no Burnt House Hotel. Pais que trouxessem filhos pequenos, jovens ansiando por fosse qual fosse o tipo de vida nocturna que a cidade lhes oferecia agora, turistas à procura de tudo, desde areia a recordações, não encontrariam nada disso aqui, na parte norte da cidade. É evidente que poderiam ir a pé ao centro, mas não havia acesso directo a partir da praia. Pelo contrário, os peões que para lá se dirigissem a partir do Burnt House, teriam primeiro de se arrastar em direcção ao interior pela estrada do Parque do Nez e depois dar a volta para chegar à Esplanada.

Basil Treves, concluiu Barbara, tinha sorte em ter alguém naquela altura do ano. O que significava que tinha sido um felizardo por ter Haytham Querashi como hóspede permanente. Tudo isto por sua vez a recordou da questão de que Treves poderia ou não ter tido a ver com os planos de casamento de Querashi. Era uma especulação interessante.

Barbara olhou na direcção do pontão das diversões. Havia obras na ponta, no sítio onde ficava antigamente a Jack' Awkins Cafeteria. Mesmo àquela distância conseguia ver que o pontão cintilava, recém-pintado de branco, verde, azul e cor-de-laranja, enquanto várias bandeiras ondulavam em mastros alinhados. Nada disso existia ainda, quando Barbara viera a Balford pela última vez.

Barbara voltou-se. Olhando-se mais uma vez no espelho, examinou o rosto perguntando a si própria se ter tirado os pensos fora afinal uma ideia tão inspirada como ao princípio pensara. Não trouxera com ela qualquer tipo de maquilhagem. Os cosméticos que possuía limitavam-se a um tubo de creme e uma caixa de rouge que pertencera à mãe; nem valiam a pena o esforço de os meter no saco. Gostava de se considerar uma pessoa cuja fibra moral não admitia a desonestidade de fazer mais do que dar uns pequenos beliscões nas faces, para dar cor ao rosto. Mas a verdade era que, se tivesse de escolher entre pintar o rosto e dormir mais quinze minutos todas as manhãs, passaria a vida a decidir-se pelo sono. Com a sua pro fissão, parecia mais prático. Assim, preparar-se para o novo dia levou-lhe menos de dez minutos, quatro dos quais foram passados a remexer na mochila, procurando entre palavrões, um par de peúgas.

Gargarejou, passou o pente pelos cabelos, atirou para dentro do saco as coisas que retirara do quarto de Querashi na noite anterior e abriu a porta. No corredor, os odores do pequeno-almoço agarravam-se à atmosfera, como uma criança impertinente às saias da mãe. Num sítio qualquer, alguém tinha fritado ovos e bacon, assado salsichas, queimado torradas e grelhado tomates e cogumelos. Barbara não precisou de mapa para encontrar a sala de jantar. Seguindo apenas os aromas, cada vez mais intensos, desceu um lance de escadas e continuou por um corredor estreito na direcção do som dos talheres a bater nos pratos e das vozes que murmuravam planos para esse dia. E foi nessa altura que a ouviu.

Uma voz erguia-se quando se aproximou. Uma criança pedia alegremente:

- Sabes do passeio no barco das lagostas? Podemos ir, pai? E a roda gigante? Podemos ir hoje andar nela? Vi-a ontem à noite do relvado, quando estava com Mrs. Porter e ela disse que quando tinha a minha idade, a roda gigante...

Um murmúrio imperceptível interrompeu aquela tagarelice cheia de esperanças. Como sempre, pensou Barbara com severidade. Mas que diabo se passava com aquele homem, que tinha de cortar todos os impulsos da menina. Barbara avançou para a porta, sentindo-se injustificadamente irritada e pronta para discutir um assunto em que sabia não ter o direito de sentir alguma coisa mais do que um leve desinteresse.

Hadiyyah e o pai estavam sentados num canto escuro da sala antiga, pesadamente forrada a madeira. Tinham sido colocados bem longe dos outros hóspedes: três casais brancos, idosos cujas mesas ficavam em frente das portas envidraçadas, que estavam abertas. Estas pessoas tomavam o pequeno-almoço como se não estivesse mais ninguém na sala, excepto uma mulher idosa com um andarilho perto da cadeira. Parecia ser a já referida Mrs. Porter, porque acenava a Hadiyyah do fundo da sala como que a dar-lhe coragem.

Barbara não ficou assim tão surpreendida com a coincidência de ter ficado no mesmo hotel que Hadiyyah e Taymullah Azhar. Esperava encontrá-los hospedados com a família Malik, mas como pelos vistos não tinha sido possível, o Burnt House Hotel era a escolha lógica. Afinal, Haytham Querashi tinha aqui ficado e Azhar estava em Balford por causa de Querashi.

- Ah, sargento Havers - Barbara voltou-se para Basil Treves, que estava por detrás dela com dois pratos na mão. Sorria. - Se me der licença, vou levá-la à sua mesa...

Enquanto ele tentava deslizar pela frente dela para fazer as honras, Hadiyyah soltou um grito alegre.

- Barbara! Sempre veio! - E deixou cair a colher nos cereais, salpicando de leite a toalha cor-de-rosa. Saltou da cadeira e atravessou a sala aos pulinhos como de costume, cantarolando: - Veio! Veio! Veio para a praia!

- As tranças com lacinhos amarelos dançavam-lhe nos ombros. Estava vestida como um sol: calções amarelos, uma t-shirt às riscas, peúgas com uma barra também amarela e sandálias. Agarrou-se à mão de Barbara. – Veio fazer castelos de areia comigo? Veio apanhar conchas? Quero brincar no escorrega e andar de carrinho-de-choque: Vem comigo?

Basil Treves observava consternado toda esta interacção. Disse com maior insistência:

- Se me der licença, levo-a à sua mesa, sargento Havers - e apontou para uma mesa mesmo ao lado de uma janela aberta, evidentemente junto aos hóspedes ingleses.

- Prefiro ficar ali - disse Barbara, espetando o polegar na direcção do canto escuro em que estavam os paquistaneses. - Muito fresco, logo pela manhã, faz-me mal. Importa-se?

sem esperar pela resposta, apressou-se na direcção de Azhar. Hadiyyah saltitava à sua frente. Exclamou:

- Ela está aqui! Olha pai! Está aqui! Está aqui! - E nem reparou que o pai recebia a presença de Barbara com aquela alegria que normalmente se guarda para abraçar os leprosos.

Entretanto, Basil Treves, depositara os dois pequenos-almoços em frente de Mrs. Porter e da pessoa que estava com ela. Apressou-se a conduzir Barbara a uma mesa perto da de Azhar. Dizia:

- Sim, sim, com certeza. E deseja sumo de laranja, sargento Havers?

Que tal uma toranja? - Sacudiu o guardanapo, que estava dobrado com um floreado que sugeria que sentar o sargento entre os escurinhos, fizera sempre parte dos seus planos.

- Não. Fica connosco! Connosco! - Exclamou Hadiyyah. Empurrou Barbara para a mesa dizendo: - Pode ser, pai, pode? Ela tem de se sentar ao pé de nós.

Azhar observou Barbara directamente com os seus olhos castanhos imperscrutáveis. A única indicação de sentimento que mostrou foi a deliberada hesitação antes de se levantar para a cumprimentar.

- Temos muito prazer, Barbara - disse formalmente. Caraças, pensou Barbara, mas disse:

- Se têm espaço...

- Pode arranjar-se espaço, com certeza - disse Basil Treves. Enquanto mudava os talheres e a loiça da mesa dela para a de Azhar, cantarolava com a firme determinação de um homem que tenta tirar o máximo partido de uma situação desagradável.

- Que bom, que bom, que bom! - Cantarolava Hadiyyah - Veio passar as suas férias, não é verdade? Podemos ir à praia. Apanhar conchas. Podemos pescar e brincar no pontão. - Voltou a sentar-se na cadeira e retomou a colher, do meio dos cereais onde tinha ficado, qual ponto de exclamação de prata a comentar os acontecimentos da manhã. Hadiyyah engoliu tudo, sem reparar no leite que escorria e lhe sujava a parte da frente da camisola. - Ontem, Mrs. Porter tomou conta de mim enquanto o pai foi tratar de uns assuntos - disse a Barbara. - Estivemos na relva a ler um livro sobre fósseis. Hoje íamos até ao Passeio das Falésias, mas é muito longe para irmos a pé até ao pontão. Muito longe para Mrs. Porter, claro. Mas eu posso ir a pé até lá, não posso? E agora, que está aqui, o pai vai deixar-me ir ao salão de jogos, não vais, paizinho? Deixas-me ir, se Barbara for comigo? - Torceu-se na cadeira até ficar de frente para Barbara. Podemos andar na montanha-russa e na roda gigante, Barbara. Podemos atirar, na barraca dos tiros. Sabe aquela máquina que tem uma tenaz para apanhar os bonecos? O meu pai é muito bom. Uma vez apanhou um koala para mim e, para a minha mãe, apanhou...

- Hadiyyah! - Exclamou o pai com voz firme, silenciando-a com a sua habitual eficiência.

Barbara estudou o menu com devoção religiosa. Escolheu o pequeno-almoço e encomendou-o a Treves, que andava por ali.

- Barbara está aqui para descansar, Hadiyyah - disse Azhar à filha, enquanto Treves se afastava em direcção à cozinha. - Não podes incomodá-la durante as férias. Ela teve um acidente há pouco tempo e não pode andar a correr atrás de ti pela cidade.

Hadiyyah não respondeu, mas lançou um olhar suplicante a Barbara. No seu rostinho ansioso, estava escrito: roda gigante, salão de jogos e montanha russa. Balançava as pernas e saltitava na cadeira. Barbara perguntou a si própria como seria que o pai lhe conseguia recusar, fosse o que fosse.

- Talvez estes ossos esmigalhados já me consigam levar até ao pontão

- disse Barbara. - Mas é ainda um caso para se ver...

A promessa subentendida foi o suficiente para a criança, que disse:

- Sim! Sim! Sim!

E antes que o pai a voltasse a meter na ordem atirou-se ao resto dos

cornflakes.

Barbara reparou que Azhar estivera a comer ovos quentes. Acabara o

primeiro e começava o segundo, quando ela aparecera. Disse:

- Não faça cerimónia - e indicou o prato, com um gesto.

Mais uma vez ele usou a hesitação para comunicar a sua relutância, mas Barbara não poderia dizer se era relutância em continuar a comer, ou relutância em estar na sua companhia, embora suspeitasse que seria a última hipótese.

Partiu a casca do ovo com a colher e separou-a, habilmente, da clara.

segurava a colher com os dedos morenos e macios, mas não comeu nada antes de dizer:

- Que coincidência - observou com ironia - ter vindo de férias para o mesmo sítio que eu e Hadiyyah, Barbara. E ainda é maior coincidência

encontrarmo-nos no mesmo hotel.

- Assim, ficamos juntas - anunciou Hadiyyah feliz. - Barbara e eu.

Quando tiveres de sair, pai, Barbara pode tomar conta de mim, em vez de Mrs. Porter. Gosto de Mrs. Porter - participou a Barbara, em voz mais baixa. - Gosto memo muito dela. Mas não pode andar muito bem, porque tem uma espécie de paralisia.

- Hadiyyah - disse o pai, calmamente. - O teu pequeno-almoço.

Hadiyyah baixou a cabeça, não sem que antes tenha lançado a Barbara um sorriso radioso. Os pés batiam com toda a força contra as pernas da cadeira.

Barbara sabia que não valia a pena mentir. Na primeira vez que tomasse parte numa reunião entre a polícia e os representantes da comunidade asiática, Azhar descobriria a verdade sobre o que viera fazer a Balford.

De facto, percebeu que lhe agradava ter uma verdade para contar, que não fosse a razão original que a trouxera para o Essex.

- De facto - disse ela - estou aqui em trabalho. Bom, quase em trabalho - continuou com ligeireza, dizendo-lhe que viera ajudar uma amiga do Departamento Criminal: o inspector-detective que chefiava a investigação de um homicídio. Esperou para confrontar a reacção dele a isto. Foi típica de Azhar: mal pestanejou. - Há três dias, um homem chamado Haytham Querashi foi encontrado morto perto daqui - continuou, e acrescentou com ar inocente. - A falar verdade estava neste hotel. Ouviu falar da sua morte, Azhar?

- Está a trabalhar no caso? - Perguntou Azhar. - Como pode ser isso, se trabalha em Londres?

Barbara afastou-se ligeiramente da verdade. Tinha recebido um telefonema da sua colega Emily, explicou. A amiga Em tinha sabido, sabe-se lá como - Mexericos da polícia, já sabe como é - que Barbara estava livre de momento. Telefonara a convidá-la a vir para o Essex. E fora assim.

Barbara amassou a sua amizade com Emily até que tivesse tamanho suficiente, para parecer que eram assim, ou amigas íntimas ou gémeas siamesas ligadas pela anca. Quando teve a certeza de que ele acreditava na história do faço-tudo-por-Emily, continuou.

- Em pediu-me que integrasse uma comissão constituída para informar a comunidade asiática dos progressos do caso. - Mais uma vez aguardou a reacção dele.

- Porquê a Barbara? - Azhar colocou a colher ao lado do oveiro. Barbara reparou que não comera metade do ovo. - A polícia daqui não tem número suficiente de agentes?

- Todo o departamento estará a trabalhar na investigação propriamente dita - disse-lhe Barbara - que é, suponho eu, o que a comunidade asiática quer. Não concorda?

Azhar retirou o guardanapo do colo. Dobrou-o muito bem e colocou-o ao lado do prato.

- Então parece que estamos os dois em missões semelhantes, a Barbara e eu. - Azhar olhou para a filha. Hadiyyah já acabaste de comer? Sim? Bom. Parece que Mrs. Porter quer combinar contigo as coisas para hoje.

Hadiyyah espantou-se

- Mas pensei que eu e Barbara...

- Barbara acabou de dizer que está aqui para trabalhar, Hadiyyah. Vai ter com Mrs. Porter. Ajuda-a até ao relvado.

- Mas...

- Hadiyyah, acho que falei bem claro.

A criança arrastou a cadeira para trás e, de ombros caídos, atravessou a sala para ir ter com Mrs. Porter; esta estava, de facto, com dificuldades com o andarilho de alumínio, tentando com as mãos trémulas colocá-lo em frente da cadeira. Azhar esperou até que Hadiyyah e a senhora de idade saíssem pelas portas envidraçadas que levavam ao relvado sobranceiro ao mar. Depois, voltou-se para Barbara.

Nesta altura, Basil Treves apareceu na sala com o pequeno-almoço de Barbara, que depositou diante dela com um floreado.

- Se precisar de mim, sargento... - disse, fazendo um gesto com a cabeça, indicando a recepção, que Barbara interpretou como indicando que estaria de telefone na mão, pronto a chamar o 112, se Taymulah Azhar saísse da linha.

- Obrigado - disse Barbara, voltando-se para os ovos. Decidira esperar que Azhar falasse. Era melhor ver o que ele estaria disposto a revelar sobre o assunto que viera tratar em Balford, antes de jogar com as informações, ignorando as cartas que ele tinha na mão.

Azhar era a incarnação do laconismo. E tanto quanto Barbara podia dizer, nada lhe escondeu: a vítima fora noivo da prima de Azhar; Azhar viera aqui a pedido da família; ajudava-os, tendo uma função semelhante à de Barbara em relação à polícia local.

Barbara não lhe contou que tinha já excedido a tarefa que lhe fora atribuída como agente de ligação. Os agentes de ligação não andam a vasculhar os quartos das vítimas, nem a mexer nos seus pertences, para guardar o que interessa em sacos. Em vez de tudo isso, disse-lhe:

- Então não poderia ser melhor. Ainda bem que está aqui. A polícia precisa de enquadrar Querashi com precisão. Pode ajudar-nos, Azhar.

Azhar ficou imediatamente na defensiva:

- Eu sirvo a família.

- Não há qualquer dúvida em relação a isso. Mas, como está afastado do crime, tem mais objectividade do que a família, não é verdade? - Apressou-se, antes que ele pudesse responder. - Ao mesmo tempo, está dentro do grupo mais chegado a Querashi, o que também lhe poderá fornecer informações.

- Primeiro, os interesses da família, Barbara.

- Atrevo-me a dizer que a família está interessada - acentuou, com gentileza e ironia - em saber quem matou Querashi.

- Claro que estão interessados. Estão mais do que interessados.

- Ainda bem! - Barbara espalhou manteiga num triângulo de torrada que meteu na boca com uma garfada de ovo. - Então é assim: quando alguém é assassinado, a polícia procura resposta para estas três perguntas: Quem teria um motivo? Quem teria os meios? Quem teve oportunidade? Pode ajudar a polícia a encontrar as respostas.

- Traindo a minha família, não? - Questionou Azhar. - Então Muhannad tem razão, afinal. A polícia quer encontrar um culpado na comunidade

asiática, não é verdade? E como a Barbara está a trabalhar com a polícia, também...

- A polícia - interrompeu-o Barbara, decidida, apontando-lhe a faca para sublinhar o facto de que não estava disposta a que ele a tentasse mani pular com acusações de racismo - quer a verdade, seja onde seja que ela leve. Prestaria um bom serviço à sua família se os esclarecesse acerca disso.

- Mastigou a torrada e observou-o, enquanto ele fazia o mesmo em relação a ela. Imperscrutável, pensou. Teria dado um bom polícia. Falou, ainda com um bocado de torrada na boca: - Olhe, Azhar, precisamos de conhecer Querashi. Precisamos de entender a família. Precisamos de compreender a comunidade em geral. Vamos falar com toda a gente com quem ele contactou e algumas pessoas serão asiáticos. Se tenciona ficar encolerizado de cada vez que pisarmos terreno asiático, não chegaremos rapidamente a lugar nenhum. Ele estendeu a mão para a chávena - bebia café - mas apenas descansou os dedos na asa sem a levantar.

- Está a dizer claramente que a polícia não quer ver isto como um incidente com motivos racistas.

- E o senhor, meu amigo, está a tirar conclusões mais do que precipitadas. Não é o melhor costume para um agente intermediário, pois não?

Mesmo assim, apareceu-lhe um sorriso no canto da boca. Disse:

- Tem razão, sargento Havers.

- Bom, então vamos combinar uma coisa. Se eu fizer uma pergunta, é isso mesmo, está bem? Uma pergunta. Não quer dizer que eu esteja a seguir numa determinada direcção. Estou apenas a tentar compreender uma cultura, para poder compreender a comunidade. Está certo?

- Como queira.

Barbara decidiu aceitar isto como um acordo sincero, da parte dele, para lhe apresentar todos os factos ao seu alcance. Não valia a pena forçá-lo a assinar com sangue um pacto de cooperação. Além disso, ele parecera aceitar a vaga interpretação, dada por ela, acerca do seu papel de agente de ligação da polícia e, enquanto ele assim se mantivesse, era preciso extrair-lhe todas as informações possíveis.

Voltou aos ovos e meteu na boca uma garfada que incluía uma fatia de bacon.

- Suponhamos, só por um momento, que o crime não teve motivos raciais. A maior parte das pessoas são assassinadas por alguém que conhecem, por isso vamos supor que foi esse o caso de Querashi. Está a seguir o meu pensamento?

Azhar pousou a chávena no pires. Ainda não tinha bebido dela. Observava Barbara. Fez um ligeiro aceno.

- Ele não estava há muito tempo em Inglaterra.

- Há seis semanas - disse Azhar.

- E, durante esse tempo, trabalhou na fábrica de mostarda dos Malik.

- Correcto.

- Então estamos de acordo que a maioria dos seus conhecimentos aqui em Inglaterra... a maioria, não todos, está bem?... eram provavelmente asiáticos?

A sua expressão tornara-se sombria.

- Por agora podemos concordar com essa possibilidade.

- Bom. E o seu casamento ia ser asiático. Não é assim?

- É.

Barbara espetou com o garfo outra fatia de bacon e molhou-a na gema do ovo.

- Então, tenho de perceber uma coisa. O que acontece, quando um asiático desmancha um casamento... um casamento arranjado?

- Desmancha, como?

- Quer dizer, o que acontece, se uma das partes recusa um casamento arranjado?

Parecia uma pergunta bastante simples, mas como ele não respondeu imediatamente, Barbara levantou os olhos do triângulo de pão torrado a que acrescentara uma generosa colherada de compota de amora. O seu rosto não revelava qualquer expressão, mas parecia demasiado controlado. Raio do homem. Já estava a tirar conclusões, apesar do que ela lhe tinha dito acerca da necessidade de obter informações.

Disse com impaciência:

- Azhar...?

- Dá-me licença? Mostrou um maço de cigarros.

- Posso? Como está a comer...

- Acenda-o. Se eu conseguisse fumar e comer ao mesmo tempo, acredite que era o que fazia.

Usou um pequeno isqueiro de prata. Virou-se na cadeira, para olhar na direcção das portas envidraçadas. Lá fora, na relva, Hadiyyah atirava ao ar uma bola de praia vermelha e azul. Parecia tentar decidir qual a melhor resposta à pergunta e, apercebendo-se disto, Barbara sentiu-se ligeiramente irritada. Se todas as conversas tivessem de ser um passo de dança de um minuete politicamente correcto, no Natal ainda se encontrariam em Balford.

- Azhar, quer que eu reformule a pergunta? - Inquiriu. Ele voltou-se outra vez para ela.

- Haytham e Sahlah submeteram-se ambos aos preparativos para o seu casamento - disse ele, rolando a ponta do cigarro contra a borda do cinzeiro que estava em cima da mesa, apesar de não precisar de sacudir a cinza.

- Se Haytham decidisse rejeitar o acordo, estaria afinal a rejeitar Sahlah. Isto seria considerado um grave insulto à família dela. À minha família.

- Por ter sido a família a preparar o casamento? - Barbara serviu-se de uma chávena de chá. Estava viscoso e parecia um caldo que tivesse fervido a semana toda no inferno. Encheu-o de leite e açúcar.

- Porque esse acto de Haytham humilharia o meu tio e fá-lo-ia perder o respeito da comunidade. A própria Sahlah seria tida como rejeitada pelo futuro marido, o que não aumentaria a possibilidade de outros homens a desejarem.

- E Haytham? O que lhe aconteceria?

- Ao rejeitar o casamento, estaria a desafiar o seu próprio pai. Isso

poderia resultar na sua exclusão da família, se o casamento fosse considerado uma ligação importante. - O acto de inalar e expelir o fumo servia de cortina ao rosto de Azhar. Mas Barbara percebeu que ele a observava através do fumo. - Ser excluído, significa não ter contacto com a família. Ninguém comunica com a pessoa que foi banida, com medo que lhe aconteça o mesmo.

Na rua viram a cara. Em casa as portas não se abrem. Não se responde aos telefonemas. O correio é devolvido sem ter sido aberto.

- É como se tivesse morrido?

- Completamente ao contrário. Os mortos são lembrados, chorados e

reverenciados. A pessoa banida é como se nunca tivesse existido.

- Que horror! - Reconheceu Barbara. - E era isso que poderia acontecer a Querashi? A família dele não está no Paquistão? De qualquer modo não poderia vê-los, não é verdade?

- A intenção de Haytham era mandar vir a família para Inglaterra, assim que tivesse dinheiro para tal. O dote de Sahlah ter-lhe-ia dado esse dinheiro - Azhar voltou a olhar mais uma vez para as portas envidraçadas. Hadiyyah saltava na relva, dando cabeçadas na bola de praia. Sorriu ao vê-la, e continuou a olhar para ela enquanto falava. - Assim, Barbara, não acho provável que ele quisesse desistir do casamento com Sahlah.

- Mas, e se ele se tivesse apaixonado por outra pessoa? Consigo entender os casamentos arranjados e percebo que uma pessoa se submeta por dever e tudo isso. Que diabo, basta olhar para os membros da monarquia e ver os sarilhos que arranjaram para as suas próprias vidas em nome do dever. Mas, se aparecesse alguém e, sem se aperceber ele se apaixonasse? Acontece, sabe?

- É bem verdade - disse.

- Então? E se ele se fosse encontrar com uma amante na noite em que morreu? E se a família tivesse descoberto? - Quando Azhar franziu as sobrancelhas, em ar de dúvida, ela disse: - Ele tinha três preservativos na algibeira, Azhar. O que lhe sugerem?

- Preparação para relações sexuais.

- Não um caso? Uma paixão suficientemente importante para fazer com que Querashi desistisse dos seus planos de casamento?

- Pode ser que Haytham se tenha apaixonado por alguém - respon deu Azhar. - Mas para o meu povo, o amor e o dever excluem-se um ao outro, Barbara. Os ocidentais pensam no casamento como consequência lógica do amor. A maior parte dos asiáticos não o faz. Assim, Haytham pode ter-se apaixonado por outra mulher, e concordo que a existência dos preservativos sugere que ele foi ao Nez com intenções sexuais, senão com intenções amorosas, mas isso não quer dizer que ele fosse renegar o acordo para se casar com a minha prima.

- Muito bem. Aceito, por enquanto - Barbara deixou cair no prato um quadrado de pão torrado e, com a ajuda do garfo, molhou-o nos restos da gema do ovo. Com a faca, juntou-o ao bacon e mastigou tudo, com ar pensativo, tendo em conta os cenários alternativos. Por fim falou, consciente de que Azhar tinha a testa franzida. Sem dúvida punha em questão os seus modos à mesa, que, ao pequeno-almoço, deixavam muito a desejar. Tinha o costume de comer à pressa e não se desabituava de engolir o pequeno-almoço como se estivesse a ser perseguida por atiradores da Mafia. - E se ele tivesse engravidado uma mulher? Os preservativos nem sempre funcionam como queremos. Podem estar furados, podem rebentar, podem não ser colocados a tempo.

- Se ela estivesse grávida, porque teria ele levado preservativos nessa noite? Era difícil fazerem falta.

- Tem razão. Depois de casa roubada... - concordou Barbara. - Mas pode ser que ele não soubesse que ela estava à espera de bebé. Foi preparado para o costume e, quando chegou, ela deu- lhe a novidade. Assim, ela estava grávida e ele ia casar com outra pessoa. E depois?

Azhar apagou o cigarro. Acendeu outro, antes de responder.

- Seria muito infeliz.

- Certo. Bem, imaginemos que aconteceu. Os Malik não ficariam...?

- Mesmo assim, Haytham considerar-se-ia comprometido com Sahlah

- disse pacientemente. - E a família consideraria a gravidez como responsabilidade da mulher. Como provavelmente seria inglesa...

- Espere aí! - Interrompeu Barbara, a raiva subindo por ela ao ouvir o pressuposto feito de ânimo leve. - Porque teria de ser provavelmente alguma coisa? Afinal como havia ele de conhecer mulheres inglesas?

- A conjectura é sua e não minha, Barbara. - Era evidente que ele percebera a sua contrariedade. Também era evidente que esta não o incomodava de modo algum. - Provavelmente seria inglesa, porque as jovens asiáticas preservam a sua virgindade, coisa que as jovens inglesas não fazem. As raparigas inglesas são fáceis e acessíveis, e os homens asiáticos que procuram experiência sexual encontram-na nelas e não nas asiáticas.

- Que simpáticos... - comentou Barbara em tom azedo. Azhar encolheu os ombros.

- Os valores da comunidade predominam, no que diz respeito ao sexo. A comunidade valoriza a virgindade das mulheres antes do casamento e a castidade destas depois. Um jovem que queira andar por aí na boa vida, vai procurá-la junto das raparigas inglesas, porque estas não consideram a virgindade importante. Assim, estão à mão de semear.

- E se Querashi tivesse encontrado uma rapariga inglesa que não partilhasse essa encantadora atitude? Se tivesse encontrado uma rapariga inglesa que achasse que dormir com um tipo, qualquer que fosse a cor, raça ou religião, significava um compromisso com ele?

- Está zangada - disse Azhar. - Mas eu não quis ofendê-la com esta explicação, Barbara. Se faz perguntas sobre a nossa cultura, vai sem dúvida ouvir respostas que, de vez em quando, entram em conflito com as suas crenças.

Barbara empurrou o prato para o lado.

- Devia também pensar que as minhas crenças, como lhes chama, podem muito bem reflectir as crenças da minha cultura. Se Querashi engravidou uma rapariga e depois apareceu, todo santinho, porque tinha de cumprir o seu dever em relação a Sahlah Malik, e como era uma inglesa não tinha importância que estivesse grávida, como é que acha que o pai ou o irmão dela reagiriam às novidades?

- Talvez mal - disse Azhar. - Talvez até com intenções assassinas. Não concorda?

Barbara não estava disposta a deixá-lo terminar a conversa da maneira que ele queria: lançando as culpas para um inglês. Era rápido como um raio, mas ela era teimosa.

- E se os Malik descobrissem tudo isso? O romance, a gravidez. E se a mulher, quem quer que fosse, os informasse a eles antes de dizer a Querashi? Não se sentiriam um pouco ofendidos?

- Está a perguntar-me se, como resultado, sentiriam intenções assassinas - esclareceu Azhar. - Mas, matando o noivo, dificilmente serviriam as intenções do casamento arranjado, não é?

- Que se lixe o casamento arranjado! - A loiça chocalhou, quando Barbara bateu com a mão na mesa. Os hóspedes que ainda restavam na sala, olharam na sua direcção. Azhar deixara o maço de cigarros sobre a mesa e ela tirou de lá um cigarro, dizendo em voz mais baixa. - Ora vamos, Azhar. Sabe muito bem que a situação funciona para os dois lados. Claro que estamos a falar de paquistaneses, mas também são seres humanos com sentimentos.

- Quer acreditar que alguém da família de Sahlah cometeu o crime, talvez a própria Sahlah, ou alguém a mando dela.

- Ouvi dizer que Muhannad tem cá um génio...

- Mas houve várias razões pelas quais Haytham Querashi foi escolhido para ela, Barbara. A principal era que a família precisava dele. Todos os membros da família. Tinha os conhecimentos que queriam para a fábrica: uma licenciatura em gestão, feita no Paquistão e a experiência de dirigir a produção de uma enorme fábrica. A relação tinha vantagens para os dois lados. Os Malik precisavam dele e ele dos Malik. Não é provável que alguém o esquecesse, fosse o que fosse que Haytham estivesse disposto a fazer com os preservativos no bolso.

- E não conseguiriam os mesmos conhecimentos com um inglês?

- Naturalmente que seria possível. Mas o desejo do meu tio era manter a empresa na família. Muhannad já lá tem uma posição importante. Não pode ter dois empregos. Não há mais filhos. Claro que Akram poderia contratar um inglês, mas assim esse emprego não ficaria para a família.

- A menos que Sahlah casasse com ele.

Azhar abanou a cabeça.

- Tal nunca seria permitido - estendeu o isqueiro a Barbara, que só nessa altura percebeu que não tinha acendido o cigarro por que tanto ansiara. Inclinou-se para a chama. - Já vê, Barbara - concluiu Azhar calmamente. A comunidade paquistanesa tinha todo o interesse em que Haytham Querashi se mantivesse vivo. Só entre os ingleses encontrará motivos para a sua morte.

- Ah, sim? - Perguntou Barbara. - Bom, não vamos pôr a carroça à frente dos bois, pois não, Azhar?

Azhar sorriu. Parecia fazê-lo, apesar de saber interiormente que não devia.

- Dedica-se sempre ao seu trabalho com tanta paixão, sargento Barbara Havers?

- Torna o dia menos monótono - retorquiu Barbara. Ele acenou afirmativamente e brincou com o cigarro na borda do cinzeiro. No outro extremo da sala, o último casal de idade encaminhava- se, vacilante, para a porta. Basil Treves mantinha-se perto do aparador. Fazia barulho a encher seis galhetas de vidro, de um garrafão de plástico.

- Barbara, sabe como morreu Haytham? - Perguntou Azhar calmamente, os olhos ainda fixos na ponta do cigarro.

A pergunta apanhou Barbara de surpresa. O que mais a espantou foi a sua instantânea inclinação para lhe contar a verdade. Ponderou por um instante, perguntando a si própria de onde viria essa inclinação. Encontrou a resposta naquele bilionésimo de segundo de ardor que sentiu passar entre ambos quando ele lhe perguntara sobre a paixão que sentia pelo seu trabalho. Mas aprendera à sua custa que deveria descontar todo o ardor que pudesse sentir por outro ser humano, principalmente se fosse homem. O ardor levava à fraqueza e à indecisão. Estes dois elementos eram perigosos para a vida. Podiam ser fatais, quando se tratava de um crime.

Ela contemporizou dizendo:

- A autópsia está marcada para esta manhã.

Esperou que ele dissesse E quando receberem o resultado... ", mas ele não o fez. Observou-lhe apenas o rosto que ela tentava manter limpo de qualquer informação incriminatória.

- Pai! Barbara! Olhem!

Mesmo a tempo, pensou Barbara. Olhou para a porta envidraçada. Hadiyyah estava do lado de fora, com os braços abertos, mantendo a bola de praia vermelha e azul equilibrada na cabeça.

- Não me posso mexer - declarou. - Não posso mexer um dedo. Se me mexer, cai. Sabes fazer isto paizinho? Sabe fazer, Barbara? Consegue equilibrá-la assim?

Boa pergunta. Barbara passou o guardanapo pela boca e levantou-se.

- Obrigado pela conversa - disse para Azhar e depois virou-se para a menina. - Os profissionais a sério conseguem equilibrá-la no nariz. Espero que já o consigas à hora do jantar.

Puxou uma última fumaça do cigarro e apagou-o no cinzeiro. Com um aceno a Azhar, saiu da sala. Basil Treves seguiu-a.

- Ah, sargento...? - No tom e na postura, parecia uma personagem de Charles Dickens, com as mãos cruzadas no peito, como de costume. Se me puder dispensar um momento...? Vamos para ali...?

Ali, era a recepção, um cubículo cavernoso, construído no vão das escadas. Treves dirigiu-se atrás do balcão e curvou-se para retirar qualquer coisa de dentro de uma gaveta. Era um monte de talões cor-de-rosa. Entregou-os a Barbara e inclinou-se para falar em tom conspiratório:

- Mensagens - soprou.

Barbara meditou uns momentos, perturbada pela conotação que havia por detrás do bafo de gin que ele exalava. Olhou para os papelinhos e viu que eram arrancados de um livro, cópias a papel-químico de mensagens recebidas pelo telefone. Por instantes imaginou como teria ele conseguido uma colecção daquelas em tão pouco tempo, especialmente porque ninguém, em Londres, sabia onde ela estava. Mas depois viu que eram dirigidas a H. Querashi.

- Levantei-me com as galinhas - sussurrou Treves. - Procurei no livro de mensagens e encontrei tudo isto. Ainda estou a verificar os telefonemas que fez daqui. Quanto tempo tenho? E o correio? Normalmente, não registamos as cartas que os hóspedes recebem, mas, se me esforçar, talvez me lembre de alguma coisa que nos seja útil.

Barbara não deixou de notar o pronome pessoal no plural.

- Tudo pode ser útil - disse. - Cartas, contas, telefonemas, visitas. Tudo.

O rosto de Treves animou-se.

- Quanto a isso, sargento... - Não havia ninguém nas proximidades. A televisão, na sala de estar, transmitia o noticiário da manhã da BBC num volume tal, que teria abafado a voz de Pavarotti a cantar Pagliacci, mas Treves mantinha, mesmo assim, um ar cauteloso. - Duas semanas antes de morrer, recebeu uma visita. Não tinha pensado nisso, porque eles estavam noivos e, afinal, porque é que ela não havia de...? Embora não fosse habitual vê-la vestida daquela maneira. Quer dizer, ela não costuma andar assim. Não que apareça muito em público. A família não gostaria, não é verdade? Por isso como havia eu de saber que não era habitual neste caso?

- Mr. Treves, de que diabo está a falar?

- Da mulher que veio ver Haytham Querashi - explicou Treves. Estava vexado por Barbara não lhe ter seguido a linha do pensamento, que se dirigia a um destino perfeitamente óbvio. - Duas semanas antes de morrer, foi visitado por uma mulher. Entrou com aquela vestimenta que usam. Sabe Deus, se não estaria cozida dentro daquilo, com tanto calor que fazia.

- Uma mulher de chãdor? É isso?

- Seja lá o que for que lhe chamam. Estava vestida de preto dos pés à cabeça, só com uma fenda para os olhos. Entrou e perguntou por Querashi. Ele estava na sala de estar a tomar o café. Estiveram a falar em voz baixa ali à porta, ao pé daquele bengaleiro, está a ver? Depois foram lá para cima.

- Concluiu com ar inocente: - Já agora, não faço ideia do que foram fazer para o quarto dele.

- Quanto tempo estiveram lá?

- Sargento, eu não os cronometrei - respondeu Treves malicioso. Depois, quando ela se ia embora, acrescentou: - Atrevo-me a dizer que tiveram tempo suficiente.

Yumn espreguiçou-se lânguida e voltou-se de lado. Observou a parte de trás da cabeça do marido. Na casa, por baixo do quarto, ouvia os ruídos da manhã, que lhes diziam que já eram horas de estarem os dois a pé, mas ela apreciava o facto de, enquanto o resto da família já andava a tratar das suas coisas, ela e Muhannad estavam os dois aconchegados, só preocupados um com o outro.

Ergueu uma mão preguiçosa para o longo cabelo do marido, agora solto do rabo-de-cavalo, e insinuou os seus dedos entre ele.

- Meri-jahn - sussurrou.

Não precisava de olhar para o pequeno calendário sobre a mesa-de-cabeceira para saber que a que dia pertencia esta manhã. Mantinha um escrupuloso registo do seu ciclo feminino e vira a marca na noite anterior. Hoje, as relações com o marido, poderiam levar a outra gravidez. E isto, mais do que tudo, mais do que manter Sahlah firme e permanentemente no seu lugar, era o que Yumn queria.

Dois meses depois do nascimento de Bishr, começara a sentir o desejo de ter outro filho. Começara então a voltar- se regularmente para o marido, excitando-o, para que ele plantasse a semente de um outro filho dentro do seu corpo ávido. No fim da gravidez, nasceria outro rapaz, claro.

Yumn sentiu um desejo físico quando tocou em Muhannad. Ele era tão bonito! Que mudança tinha o casamento com aquele homem trazido à sua vida. A irmã mais velha, a menos ahaente, a que aos olhos dos pais mais dificilmente arranjaria casamento, afinal ela, Yumn a feia, e não uma das suas irmãs, mais meigas e femininas, que provara ser uma esposa excepcional, para um marido excepcional. Quem diria? Um homem como Muhannad poderia ter escolhido a mulher que quisesse, sem se importar com o tamanho do dote que o pai dela arranjara para o tentar, a ele e aos pais. Como filho único de um pai desejoso de netos, Muhannad poderia ter requerido o que quisesse a respeito da mulher com quem acabasse por casar. Poderia ter apresentado as suas exigências em termos que o pai não se atreveria a negar-lhe. Assim poderia ter examinado todas as potenciais noivas apresentadas pelos pais e rejeitado aquelas que não fossem de encontro àquilo que desejava. Mas aceitara imediatamente a escolha do pai e na noite em que se conheceram tomara-a rudemente num canto escuro do pomar e engravidara-a do primeiro filho.

- Fazemos cá um casal, meri-jahn - murmurou, aproximando-se dele.

- Somos bons um para o outro.

Aproximou a boca do pescoço dele e o sabor aumentou-lhe o desejo. A sua pele era levemente salgada e o cabelo cheirava aos cigarros que fumava, quando o pai não estava presente.

Fez deslizar a mão pelo braço dele, muito ao de leve, de modo que os pêlos lhe faziam cócegas na palma. Agarrou a mão dele e depois passou-lhe os dedos pelos pêlos da barriga.

- Chegaste tão tarde ontem à noite, Muni - sussurrou-lhe, junto ao pescoço. - Queria-te. De que estiveste a falar com o teu primo até tão tarde?

Ouvira as vozes pela noite fora, muito tempo depois dos sogros se terem ido deitar. Estava deitada, impaciente para que o marido fosse ter com ela e imaginando o que teria custado a Muhannad desafiar o pai, trazendo para casa o Banido. Muhannad contara-lhe o plano na noite anterior a tê-lo posto em acção. Ela estivera a dar-lhe banho. Depois enquanto lhe passava a loção pela pele, ele falara-lhe em voz baixa de Taymullah Azhar.

Não se preocupava com o velhadas, dissera-lhe. Traria o primo para os ajudar naquele assunto da morte de Haytham. O primo era um activista, no que respeitava aos direitos dos imigrantes paquistaneses. Isto soubera ele por intermédio de um membro da Jum'a, que o ouvira falar numa conferência do seu povo, em Londres. Falara do sistema legal, da armadilha em que os imigrantes - legais ou ilegais - caem, permitindo que as suas tradições culturais e predisposições disfarçassem as suas interacções com a polícia, os advogados e os tribunais. Muhannad recordava-se de tudo isto. Quando a morte de Haytham não foi imediatamente declarada acidental, mexeu-se rapidamente para conseguir ajuda do primo. Azhar pode ajudar, dissera ele a Yumn, enquanto ela acabada a loção lhe escovava o cabelo. Azhar ajudar-nos.

- Mas ajudar-nos a quê, Muni? - Perguntara, sentindo-se levemente preocupada com o que aparecimento deste intruso pudesse causar aos seus planos. Não queria que o tempo e os pensamentos de Muhannad se consumissem com a morte de Haytham Querashi.

- Para termos a certeza que a polícia apanha o criminoso - dissera Muhannad. - Naturalmente vão tentar incriminar um asiático. Não tenciono deixar que isso aconteça.

Esta afirmação agradou a Yumn. Adorava a parte desafiadora da natureza dele. Compartilhava-a mesmo. Fazia todos os gestos e sons de obediência à sogra, conforme era exigido pela tradição, mas dava-lhe grande prazer esfregar no rosto de Wardah a facilidade com que esta nora obediente fora capaz de se reproduzir. Não deixara de notar a expressão de inveja que passara pelo seu rosto, quando Yumn anunciara orgulhasamente a segunda gravidez, doze semanas depois do nascimento do primeiro filho. E aproveitara todas as oportunidades para exibir a sua fecundidade em frente da sogra.

- Mas será que o teu primo é tão inteligente como tu, merijahn? Sussurrou. - Porque não se parece nada contigo, acho eu. É um homem tão insignificante. É um homem tão pequeno.

Percorreu com os dedos o ventre do marido, enrolando os pêlos mais espessos nos dedos e puxando-os suavemente. Sentiu a dor intensa do seu próprio desejo. Crescia até que só havia um modo de o acalmar.

Mas primeiro queria que ele a quisesse. Porque, se não o conseguisse excitar de manhã, sabia que ele procuraria o prazer noutro lado.

Não seria a primeira vez. Yumn não sabia o nome da mulher, ou mesmo das mulheres, com quem era obrigada a dividir o marido. Só sabia que existiam. Fingia sempre estar a dormir quando Muhannad, durante a noite, se levantava da cama, mas logo que ele saía, fechando a porta, ia até à janela. Esperava o som do motor do carro ao fundo da rua até onde o empurrava em silêncio. Umas vezes conseguia ouvi-lo, outras não. Mas ficava sempre acordada nas noites em que Muhannad a deixava só, olhando para a escuridão, contando lentamente o passar do tempo. Quando ele regressava, de madrugada, para descansar o corpo na cama, ela procurava o cheiro de sexo, apesar de saber que o cheiro da sua traição seria tão doloroso como se a ela tivesse assistido.

Mas Muhannad tinha sempre o cuidado de não levar com ele para a cama o odor a sexo feito com outra mulher. E não lhe dava qualquer prova concreta. Por isso tinha de enfrentar a sua rival desconhecida com a única arma que possuía.

Percorreu-lhe o ombro com a língua.

- Que homem - murmurou.

Com os dedos encontrou-lhe o pénis. Estava erecto. Começou a acariciá-lo, os seios contra as costas dele. Moveu as ancas ritmicamente. Sussurrou o nome dele.

Finalmente ele mexeu-se. Procurou a mão dela e agarrou-a com força. Aumentou o ritmo com que ela o acariciava. Fora do quarto, os sons da manhã intensificavam-se. O filho mais novo chorou. Umas sandálias bateram no chão do corredor. A voz de Wardah gritou qualquer coisa da cozinha. Sahlah e o pai trocavam algumas palavras em voz baixa. Fora de casa os pássaros chilreavam no pomar e, ao longe, um cão ladrava.

Wardah estaria zangada, porque a mulher do filho não se tinha levantado mais cedo para tratar do pequeno-almoço de Muhannad. Como era velha, nunca se aperceberia da importância de outras coisas.

Inconscientemente, as ancas de Muhannad estremeciam. Suavemente Yumn tentou voltá-lo de costas. Atirou com o lençol debaixo do qual dormiam. Levantou a camisa-de-dormir e passou para cima dele. Ele abriu os olhos.

Agarrou nas mãos dela. Ela olhou para ele. Suspirou:

- Muni, meri jahn, que bem que sabes.

Ergueu-se para o tomar dentro de si. Mas ele deslizou rapidamente, saindo debaixo dela.

- Mas Muni, não queres...

A mão dele tapou-lhe a boca e silenciou-a, os dedos penetrando-lhe as faces com tanta força que ela sentiu-lhe as unhas, como carvões ardentes contra a sua pele. Colocou-se por detrás dela, empurrando-a de modo a fazê-la baixar a cabeça. Com a outra mão agarrou-lhe o seio e apertou-lhe o mamilo com o polegar e o indicador, torcendo-o com tanta força que ela gemeu. Ela sentiu-lhe os dentes no pescoço e a mão dele, libertando-lhe o seio dirigiu-se-lhe ao ventre e mais abaixo até encontrar os pelos púbicos. Agarrou-os com força. Depois também brutalmente, empurrou-a para baixo de modo que ela ficou de gatas. Mantendo a mão a tapar-lhe a boca, encontrou o sítio que queria e começou a penetrá-la. Satisfez-se em menos de vinte segundos.

Libertou-a e ela deixou-se cair para o lado. Ele ajoelhou-se sobre ela durante um momento, com os olhos fechados, a cabeça erguida para o tecto, o peito erguendo-se e baixando rapidamente. Sacudiu o cabelo e passou os dedos por dentro dele. Escorria suor.

Saiu da cama e procurou a camisola de algodão que despira na noite anterior. Estava no chão no meio das outras roupas e limpou-se com ela antes de a atirar para o mesmo sítio. Apanhou as calças de ganga e vestiu-as, puxando-as sobre as nádegas nuas. Apertou-as e, de tronco nu e descalço, saiu do quarto.

Yumn viu-lhe as costas e a porta fechar-se. Sentiu o liquido viscoso escorrer-lhe do corpo. Apressada apanhou um lenço de papel e ergueu as ancas para colocar uma almofada debaixo de si. Começou a descontrair-se enquanto imaginava a corrida desenfreada do espermatozóide procurando um óvulo solitário que estava à sua espera. Aconteceria exactamente nessa manhã, pensou.

Que homem, o seu Muni.

 

QUANDO BARBARA CHEGOU, Emily Barlow metia na tomada a ficha de uma ventoinha. O inspector estava de gatas debaixo da mesa, e sobre esta, havia um terminal de computador. O monitor cintilava com um programa que Barbara reconheceu logo da porta; era HOLMES, que sistematizava a investigação criminal em todo o país.

O escritório parecia já uma sauna, apesar da única janela estar aberta de par em par. Três garrafas vazias de água de Evian mostravam o que Emily tinha feito para combater o calor.

- O raio do prédio, nem sequer arrefece durante a noite - disse Emily a Barbara, quando saiu de debaixo da mesa e carregou no botão da velocidade máxima da ventoinha. Nada aconteceu. - Mas que... Valha-me Deus! - Emily foi à porta e gritou. - Billy, tu disseste que esta porcaria funcionava!

Uma voz de homem, sem corpo, respondeu:

- Eu disse para experimentar, chefe. Não fiz promessas.

- Que beleza - Emily aproximou-se do aparelho. Carregou no botão de desligar e depois em todos os outros. Deu um murro no sítio onde estava alojado o motor. Finalmente as lâminas da ventoinha começaram uma rotação lânguida. Não conseguiam provocar uma brisa, mas massajavam o ar mal-cheiroso que restava na sala.

Emily abanou a cabeça aborrecida, sacudiu o pó das calças de algodão cinzentas e disse:

- Então, que temos? - Apontou para a mão de Barbara.

- Mensagens telefónicas recebidas por Querashi nas últimas seis semanas. Recebi-as esta manhã da mão de Basil Treves.

- Alguma coisa de jeito?

- São muitas. Só vi um terço delas.

- Valha-me Deus. Já as podíamos ter há dois dias, se Fergusson cooperasse mais e estivesse menos interessado em me despedir. Dá cá. Emily apanhou os recados e gritou na direcção do corredor: - Belinda Warner!

A agente veio a correr. A blusa da farda já estava molhada da transpiração e o cabelo colava-se-lhe à testa. Emily apresentou-a bruscamente.

Disse-lhe que visse as mensagens:

- Organize-as, examine-as, registe-as e volte cá - depois, voltando-se para examinar a colega mais de perto e disse: - Deus meu. Que desgraça.

Vem comigo.

Desceu a correr a escada estreita, parando no patamar para abrir ainda mais uma janela. Barbara seguiu-a. Na parte de trás do edifício vitoriano, aquilo que provavelmente tinha sido uma sala de jantar ou de estar, fora convertido numa combinação de vestiário e sala de exercício. No meio estava um centro de manutenção, com uma bicicleta para fazer exercício, uma máquina de remar e um sofisticado módulo de pesos, com quatro posições. No outro lado da sala havia cacifos, dois chuveiros, três lavatórios e um espelho em frente. Um ruivo gordo, com um fato-de-treino completo treinava na máquina de remar, parecendo um potencial candidato a um enfarte. De resto o compartimento estava vazio.

- Frank - gritou Emily - Está a exagerar.

- Tenho de perder doze quilos antes do casamento - ofegou.

- E então? Controle-se à hora da refeição. Não coma tantos fritos.

- Não posso, chefe - aumentou o ritmo. - É Marsha quem cozinha.

Não posso ofendê-la.

- Vai ficar mais do que ofendida, se você cair morto antes de chegar ao altar - retorquiu Emily e dirigiu-se a um dos cacifos. Abriu a fechadura de segredo, retirou uma pequena bolsa de plástico e dirigiu-se ao lavatório.

Barbara seguiu-a, pouco à-vontade. Tinha uma vaga ideia do que ia acontecer e não lhe agradava. Disse:

- Em, não acho que...

- É mais do que evidente - respondeu Emily. Abriu a bolsa e remexeu o seu conteúdo. Colocou no lavatório uma bisnaga de base líquida, duas caixas espalmadas e um conjunto de pincéis.

- Não queres que eu...

- Olha. Olha só. - Emily obrigou Barbara a voltar-se para o espelho.

- Metes medo a um susto.

- Como querias que eu estivesse? Um homem agrediu-me, esmagou-me o nariz. Parti três costelas.

- E eu tenho muita pena - disse Emily. - Não podia ter sido mais injusto. Mas não é desculpa, Barb. Se vais trabalhar para mim, então tens de ter, pelo menos, um aspecto decente.

- Em, o raio que te parta. Nunca usei essa porcaria.

- Pensa que é mais uma experiência. Vá. Olha para mim - E quando

Barbara hesitou, disposta a protestar mais uma vez: - Não vais encontrar-te com os asiáticos com essa cara. É uma ordem, sargento.

Barbara sentiu-se um farrapo, mas submeteu-se ao tratamento de Emily. O inspector aplicou esponjas e pincéis com rapidez, aplicando habilmente os cosméticos. Todo o processo levou menos de dez minutos e, quando terminou, Emily afastou-se para estudar o seu trabalho, com ar crítico.

- Chega - disse. - Mas esse cabelo, Barb. É incrível. Parece que o cortaste tu mesma no duche.

- Bem... sabes - disse Barbara. - Quer dizer, na altura pareceu-me uma boa ideia.

Emily ergueu os olhos aos céus, mas não fez comentários. Voltou a guardar os cosméticos. Barbara aproveitou a oportunidade para examinar a sua aparência.

- Não está mal - disse. As nódoas negras ainda lá estavam, mas muito disfarçadas. E os olhos, que ela sempre considerara minúsculos, paré' ciam afinal de um tamanho aceitável. De qualquer forma, já não aterrorizaria mulheres nem crianças inocentes. - Onde arranjas estas coisas? - Perguntou, referindo-se aos cosméticos de Emily.

- Na Boots - retorquiu o inspector. - Acho que já ouviste falar na Boots. Vá lá, estou à espera que o meu agente traga o relatório da autópsia.

E também estou à espera de uma coisa do laboratório.

O relatório já tinha chegado. Estava no meio da secretária de Emily, com as páginas enroladas, devido aos esforços da ventoinha para refrescar o ar sufocante. Emily agarrou-o e passou os olhos pelo documento enquanto passava os dedos pelos cabelos. O relatório viera com outro conjunto de fotografias. Barbara examinou-as.

Mostravam o cadáver, nu e anteriormente à dissecação. Barbara viu que o espancamento sofrido era grave. Havia hematomas no peito e nos ombros, bem como no rosto, conforme já tinha visto. A descoloração era porém, irregular. Nem o tamanho, nem a forma das nódoas negras, sugeriam o contacto com punhos humanos.

Enquanto Emily continuava a ler, Barbara meditava. Devia ter sido usada uma arma. Mas, se assim fosse, de que tipo? Embora os hematomas não coincidissem com marcas de punhos violentos, também não coincidiam com mais nada, e pronto. Uma marca poderia ter sido feita com um ferro, outra com uma tábua, a terceira com a parte detrás de uma pá e a quarta pelo salto de uma bota. Todas elas surgiam uma emboscada feita por mais de um assaltante e um combate mortal.

- Em - disse ela, com ar contemplativo - para ele ter tão mau aspecto, devia haver sinais de luta fora e dentro da guarita. O que é que a tua equipa trouxe de lá?

Emily levantou os olhos do relatório:

 

1 Grupo de lojas, existentes em quase todas as cidades da Grã-Bretanha onde se vendem produtos farmacêuticos, cosméticos e artigos para bebés. (N. Da T.)

 

- Nada, absolutamente nada.

- E no cimo do Nez? Arbustos arrancados? O chão pisado?

- Também nada.

- E na praia?

- Inicialmente pode ter havido alguma coisa na areia. Mas a maré encarregou-se das marcas.

Teria sido possível que um combate mortal tivesse ocorrido sem deixar marcas a não ser no corpo? Mesmo se o combate tivesse ocorrido em plena praia, seria prático partir do princípio que as marcas de uma emboscada tinham desaparecido com a maré? Barbara interrogava-se acerca destas questões, enquanto observava as condições do cadáver. Estava todo marcado, mas a inconsistência dos hematomas levavam-na a considerar uma outra possibilidade.

Apanhou uma fotografia da perna nua de Querashi e em seguida a ampliação de uma secção dessa perna. Uma régua marcava a área para que o patologista queria chamar a atenção da polícia. Na canela havia um corte da espessura de um cabelo.

Comparando com as contusões e arranhões da parte superior do corpo, um corte de cinco centímetros na perna parecia sem importância. Mas, sendo levado em conta com o que ela e Emily já sabiam sobre a cena do crime, o corte fornecia um pormenor intrigante a ser considerado.

Emily bateu com o relatório na mesa.

- Nada do que ainda não soubéssemos. Morreu por causa do pescoço partido. À partida não há nada de óbvio no sangue. Diz para revistarmos as roupas. Recomenda um exame atento das calças.

Emily foi para trás da secretária e marcou um número de telefone. Esperou, esfregando a nuca com um toalhete húmido que tirou do bolso. Resmungou:

- Que calor! - Momentos depois, disse para o auscultador: - Daqui fala o inspector Barlow. Roger? Hmm. Sim. Um horror. Mas, ao menos aí, há ar condicionado. Experimenta vir para aqui, se queres ver como é. - Abanou o toalhete e pô-lo de lado. - Ouve, tens alguma coisa para mim?... sobre o crime do Nez, Roger... Lembras-te?... Sei o que me disseste, mas fomos avisados pelo médico-legista do Ministério do Interior para lhe revistarmos a roupa... O quê? Vá lá, Rog, Faz-me esse favor, está bem?... Eu sei, mas prefiro não esperar que o relatório seja passado à máquina. - Ergueu os olhos para o tecto - Roger... Roger... que diabo. Arranja-me lá essa informação. - Cobriu o bocal e disse para Barbara: - Parecem prima donnas. Parece que aprenderam com Joseph Bell.

Voltou a dar atenção ao que lhe diziam do outro lado da linha, apanhou um bloco e começou a rabiscar. Interrompeu-se duas vezes, uma delas para perguntar durante quanto tempo e outra para saber se lhe podiam dizer quando tinha sido feita a ferida. Desligou bruscamente, dizendo:

- Obrigado, Rog. - e voltando-se para Barbara - uma das pernas das calças tem um rasgão.

- Que tipo de rasgão? Onde?

- Dez centímetros a partir de baixo. Disse-me que tinha sido feito havia pouco tempo pois os fios estavam quebrados, mas não estavam gastos nem alisados, como acontece depois de uma lavagem.

- O patologista mandou-te uma fotografia da perna - disse Barbara.

- Tem um corte na canela.

- Condiz com o rasgão das calças?

- Aposto o que quiseres. - Barbara entregou-lhe as fotografias. As que tinham sido tiradas no Nez, no sábado de manhã estavam na beira da secretária de Emily. Enquanto o inspector observava as fotografias do corpo, Barbara escolhia as de Querashi na guarita e depois as dos outros locais. Viu onde a vítima deixara o carro - no alto da falésia, tocando numa das estacas pintadas de branco que limitavam o parque de estacionamento. Reparou na distância do carro ao café e depois na do carro até à borda da falésia. Em seguida verificou o que na noite anterior tinha visto, sem perceber, quando olhara para aquelas mesmas fotografias. Deveria tê-lo recordado, de quando iiá muito tempo visitara o Nez com o irmão: uma escada de cimento que cortava em diagonal a face da falésia.

Viu que, ao contrário do pontão das diversões, os degraus do Nez não tinham sido renovados. Os corrimões de ambos os lados estavam carcomidos e ferrugentos e os degraus propriamente ditos também não estavam bons visto que o mar do Norte continuava a causar a erosão da falésia. Tinham grandes rachas e fendas perigosas. Mas também mostravam a verdade.

- As escadas - disse Barbara calmamente. - Que raio, Em. Deve ter caído pelas escadas. É por isso que o corpo está tão maltratado.

Emily levantou os olhos das fotografias do cadáver.

- Olha para as calças, Barb. Olha para a perna dele. Valha-me Deus, alguém estendeu um arame para ele cair.

- Caramba. Encontraram alguma coisa dessas no local? - Perguntou Barbara.

- Vou falar com o agente que recolheu as provas, para ver - replicou Emily. - Mas é um local público. Mesmo se um arame lá tiver sido deixado, o que eu duvido, um bom advogado de defesa não terá dificuldade em o descartar.

- A menos que tenha fibras das calças de Querashi.

- É verdade - reconheceu Emily e tomou nota.

Barbara observou as outras fotografias do local.

- O assassino deve ter deslocado o corpo para a guarita depois de Querashi ter dado o trambolhão. Havia marcas, Em? Pegadas na areia?

Alguma indicação que o corpo tenha sido arrastado desde as escadas? Depois apercebeu-se de qual seria a resposta. - Não podia haver, por causa da maré.

- É isso. - Emily meteu a mão numa das gavetas da secretária e tirou de lá uma lupa. Estudou a fotografia da perna de Querashi. Percorreu com o dedo o relatório da autópsia e disse: - Aqui está. O corte tem quatro centímetros. Foi feito pouco tempo antes da morte. - Pôs o relatório de lado e olhou para Barbara, mas a expressão do seu rosto indicava que estava a ver o Nez à sua frente, o Nez na escuridão, sem uma luz que indicasse a um incauto a presença de um arame que tinha sido esticado nas escadas, para lhe causar uma queda fatal. - Qual será a grossura do arame? - Perguntou retoricamente. Olhou para a ventoinha oscilante que continuava nos seus esforços anémicos. - Um fio eléctrico?

- Um desses não o teria cortado - notou Barbara.

- A menos que lhe tivessem retirado o isolamento - disse Emily. O que deveria ter sido feito para ficar disfarçado na escuridão.

- Hmm, acho que sim. E um fio de pesca? Um, muito forte, para pesca desportiva. Mas, ao mesmo tempo, fino e flexível.

- Aí tens - concordou Emily. - Também há cordas de piano. Ou aquilo que usam para fazer suturas. Ou arame usado para prender grades.

- Por outras palavras, poderia ser qualquer coisa fina, forte e flexível

- Barbara mostrou o saco de provas com o que recolhera no quarto de Querashi. - Então vê lá isto. É do quarto do Burnt House. A propósito, os Malik quiseram lá entrar.

- Aposto que sim - disse Emily enigmática. Apanhou um par de luvas de latex e abriu o saco. - Deste estas provas ao agente para registar?

- Sim, quando entrei. A propósito, ele pediu-me que te dissesse que não recusaria uma ventoinha no calabouço.

- Está a sonhar - resmungou Emily, folheando o livro de capa amarela da mesa-de-cabeceira de Querashi. - Então não foi um crime passional, nem uma luta intempestiva. Foi um crime premeditado desde o princípio e orquestrado por alguém que sabia onde Querashi se dirigia, quando saiu do Burnt House Hotel, na sexta-feira à noite. Possivelmente a mesma pessoa com quem ele se foi encontrar no Nez. Ou alguém que conhecia essa pessoa.

- Um homem disse Barbara. - Como o corpo foi deslocado, teve de ser um homem.

- Ou um homem e uma mulher trabalhando juntos - frisou Emily. Ou mesmo uma mulher sozinha, se o corpo foi arrastado desde as escadas até à guarita. Uma mulher teria conseguido.

- Mas, então, porquê deslocá-lo?

- Para demorar a descoberta, creio eu. No entanto, - Emily parecia reflectir - se foi esse o objectivo, porque deixou o carro naquele estado, tão obviamente? Foi um sinal que indicou que alguma coisa não estava bem. Quem quer que o encontrasse reparava nele e, reparando nele, aperceber-se-ia de tudo o resto.

- Talvez que quem fez aquilo ao carro estivesse com pressa e não se preocupasse que outras pessoas descobrissem - Barbara via Emily passar o dedo pela página do livro que estava marcada com uma fita de cetim. O inspector bateu com a unha na parte sublinhada. - Ou talvez o carro fosse uma desculpa para descobrir o corpo.

Emily levantou os olhos. Soprou o cabelo que lhe tinha caído para a testa.

- Lá voltamos para Armstrong, não é verdade? Bolas, Barb, se ele está envolvido nesta história, os Asiáticos dão cabo da cidade.

- No entanto bate certo, não achas? - Perguntou Barbara. Sabes como é o jogo. Finge que foi dar uma volta, chega-se ao pé do carro, Valha-me Deus!, exclama. E o que temos nós aqui? Parece que deram cabo deste carro. O que será que também consigo encontrar na praia?

- Está bem, pode ser - disse Emily. - Mas repara. Vê que ele tinha de criar um cenário muito elaborado: seguir Querashi desde o dia da sua chegada; decorar os movimentos dele; escolher a noite certa; colocar o arame esconder-se até que ele caísse; deslocar o corpo; revistar o carro e depois, voltar na manhã seguinte, antes que alguém aparecesse no local, para fingir ter encontrado o corpo. Parece-te remotamente razoável?

Barbara encolheu os ombros.

- Estava muito desesperado para recuperar o emprego?

- É possível. Sim. Mas falei com o homem, e estou disposta a jurar que ele não é suficientemente esperto para planear uma coisa com tanto pormenor.

- Mas voltou a ser o chefe de produção da fábrica, não é verdade? Tu mesma disseste que ele era bom funcionário, antes de Querashi ter aparecido. Se for esse o caso deve prestar para alguma coisa.

- Raios! - Emily folheou o resto do livro. - Óptimo. É sânscrito. É tudo igual. - dirigiu-se à porta. - Belinda Warner! - Gritou. - Descubra alguém ue saiba descodificar paquistanês.

- Arabe - disse Barbara.

- O quê?

- A escrita. É árabe.

- Seja o que for. - Emily retirou do saco os preservativos, as duas chaves e a caixa de cabedal. - Esta chave é de um banco, suponhoalvitrou, indicando a chave maior que estava marcada com o número 104.

- Parece-me a chave de um cofre. Temos o Barclays, o Westminster, o Lloyds e o Midland, aqui e em Clacton. - Anotou isto.

- Havia impressões digitais dele no carro? - Perguntou Barbara enquanto Emily escrevia.

- De quem?

- De Armstrong. Apreendeste o Nissan, não é verdade? Por isso deves saber. Havia?

- Ele tem um álibi, Barb.

- Estavam no carro, não é verdade? E ele tem um motivo.

- Eu disse que ele tinha um álibi! - Disse Emily bruscamente. Atirou o saco das provas para cima da mesa. Dirigiu-se a um pequeno frigorífico, que estava ao pé da porta. Abriu-o e tirou uma lata de sumo. Atirou-a a Barbara.

Esta nunca tinha visto Emily tão extenuada, mas também nunca a tinha visto sob verdadeira pressão. Pela primeira vez teve consciência de que não estava a trabalhar com o inspector Linley, cujo trato fácil sempre encorajara os subordinados a discutir livremente os seus pontos de vista e com o entusiasmo adequado ao assunto. Emily era um animal diferente. Barbara sabia que era do seu interesse recordar este facto.

- Desculpa - disse. Tenho o costume de insistir.

Emily suspirou.

- Escuta, Barb. Quero que participes. Preciso de alguém ao meu lado. Mas não vale a pena ir atrás de Armstrong ou ainda me arranjas sarilhos. E já os tenho de sobra com Fergusson - Emily abriu um sumo e bebeu um gole. Continuou, com paciência estudada: - Armstrong disse que as suas impressões digitais estavam no carro porque lhe tinha dado uma olhadela. Encontrou-o com a porta aberta e pensou que alguém pudesse estar em apuros.

- Acreditas nele? - Depois, Barbara continuou com todo o cuidado pois a sua posição no caso era pouco consistente e queria mantê-la. - Porque pode ter sido ele a danificar o carro.

- Pode ser - disse Emily simplesmente e voltou a atenção para o saco.

- Chefe? - Gritou uma voz de mulher, dentro do edifício. - Um tipo chamado Kasyr al Din Siddiqi, da Universidade de Londres. Ouviu chefe? Ele fala Árabe. Pode mandar-lhe um fax.

- Belinda Warner - disse Emily, secamente. - Essa mulher não sabe dactilografar decentemente um relatório, mas dêem-lhe um telefone e faz maravilhas. Está bem - gritou e mandou o livro amarelo para a máquina. Puxou o livro de cheques de Haytham Querashi do saco.

Ao vê-lo, Barbara apercebeu-se que se poderia voltar para outra direcção, que não fosse a de Ian Armstrong. Disse:

- Querashi passou um cheque há duas semanas. Deu baixa no talão. Quatrocentas libras a alguém chamado F. Kumhar.

Emily encontrou o talão e franziu a testa.

- Não é bem uma fortuna, mas também não é de deitar fora. É preciso descobri-lo, ou descobri-la.

- A propósito, o livro de cheques estava fechado à chave dentro da caixa de cabedal e havia lá também o recibo de uma ourivesaria. É da Racon Jewellery, aqui na cidade. O recibo tem o nome de Sahlah Malik.

- É estranho fechar à chave um livro de cheques - disse Emily. 5ó Querashi o poderia usar - atirou-o a Barbara. - Vê o que descobres.

E trata também do recibo da ourivesaria.

sado pelaláulpa pftenáial deoIan Armstrong. oE Emi y nio de fricção caunda aumentou a generosidade com estas palavras:

- Vou voltar a falar com Mr. Armstrong. Pode ser que, entre as duas, consigamos fazer hoje progressos decentes.

- Está bem - disse Barbara e apeteceu-lhe agradecer à amiga, por lhe ter tratado da cara, por permitir que trabalhasse a seu lado, até por levar em conta a sua opinião sobre o caso. Em vez disso disse: - Se tens a certeza.

- Tenho a certeza - disse Emily com o à-vontade e confiança que Barbara recordava. - Quanto a mim, és cá das nossas - Pôs os óculos escuros e apanhou o porta-chaves. - A Scotland Yard tem uma competência profissional que os asiáticos vão respeitar e até o meu chefe vai reconhecer.

Preciso de me ver livre deles. Preciso de me ver livre dele. Quero que faças o que for possível para que isso aconteça.

Dizendo aos seus subordinados que ia tratar de falar mais uma vez com Armstrong, Emily gritou Se precisarem de mim levo o telemóvel, na direcção das traseiras do edifício. Acenou a Barbara e desceu as escadas a correr sozinha no gabinete do inspector, Barbara observou as coisas do saco.

Pensou que conclusões poderia tirar desses objectos, quando fossem apresentados juntamente com a certeza de Emily de que um arame tinha sido usado para assassinar Haytham Querashi. Uma chave do cofre de um banco, um texto em Árabe, um livro de cheques com um nome asiático lá escrito e o recibo de uma ourivesaria... muito curioso.

0melhor parecia ser começar por este último. Se houvesse pormenores a eliminar na procura de um assassino, o melhor seria começar pelos mais fáceis. Conseguia-se a sensação de ter êxito mesmo num caso pouco relevante.

Barbara deixou a ventoinha a fazer ginástica para revolver o ar quente.

Desceu as escadas e saiu para a rua, onde o Mini estava exposto ao calor da manhã, como se fosse uma chapa sobre um grelhador.

0volante escaldava e o assento gasto envolveu-a como um abraço dado por um tio embriagado. Mas o motor pegou, mostrando-se mecanicamente menos rogado que de costume e desceu a colina e voltou à direita na direcção da rua das lojas.

Não precisou de ir muito longe. A Racon Original and Artistic Jewellery

estava situada na esquina da rua das lojas com a Saville Lane e distinguia-se por ser uma das três entre as sete casas comerciais que aparentemente ainda estava operacional.

A loja ainda não abrira naquela manhã, mas Barbara bateu à porta, na esperança de que alguém estivesse, na contraloja, que conseguia divisar por detrás do balcão. Pegou no puxador e bateu outra vez, com mais força.

Conseguiu o efeito que desejava. Uma mulher com um penteado sensacional, num tom de vermelho, igualmente sensacional, apareceu à porta apontando para o letreiro da montra que dizia FECHADO.

- Ainda não estou pronta para começar o dia - disse com ar intencionalmente alegre. E, sem dúvida porque se tinha apercebido que, com o actual clima comercial de Balford, seria loucura mandar embora um cliente em potência, acrescentou: - É uma emergência, querida? Precisa de um presente de aniversário, ou assim? - De qualquer modo aproximou-se para abrir a porta.

Barbara mostrou-lhe a identificação. Os olhos da mulher abriram- se mais.

- Scotland Yard? - E, fosse pelo que fosse, olhou na direcção do compartimento de onde tinha surgido.

- Não quero comprar um presente - disse Barbara. - Só preciso de umas informações, Mrs...?

- Winfield - disse. - Connie Winfield. Connie de Racon. Barbara levou algum tempo a perceber que a outra mulher não identificara o seu local de origem, à maneira de Catarina de Aragão. fteferia-se ao nome da loja.

- Então esta loja é sua?

- É verdade.

Connie Winfield fechou a porta quando Barbara entrou e deu umas palnZadinhas simpáticas nas costas do sargento. Dirigiu-se ao balcão e começou a arranjar o expositor. Este estava coberto com um pano de flanela castanha, que desdobrou, mostrando brincos, colares, pulseiras e outras coisas. Não eram os artigos habituais das outras ourivesarias, todos tinham um desenho único, com moedas, contas, penas, pedras polidas ou couro. Também eram usados ouro e prata, os tradicionais metais preciosos, mas trabalhados de forma invulgar.

Barbara lembrou-se do anel que vira na caixa de cabedal de Querashi. Tinha um desenho tradicional, com um único rubi. Certamente não fora aqui comprado.

Mostrou o recibo que estivera na posse da vítima. Disse:

- Mrs. Winfield, este recibo. .

- Connie - disse a outra mulher. Passara a arranjar um segundo expositor e destapava os artigos que se encontravam cobertos. - Toda a gente me chama Connie. Foi sempre assim. Toda a minha vida vivi aqui e nunca vi vantagem em tornar-me Mrs. Winfield para as pessoas que me tinham visto por aí de fraldas.

- Claro - disse Barbara. - Connie.

- Até os artistas me chamam Connie, isto é, os que fazem as jóias. Artistas de Brighton a lnverness. Vendo as peças à consignação, e é por isso que aguentei a recessão, enquanto as outras lojas, isto é, as lojas de luxo, não a mercearia, a farmácia ou as que são mesmo necessárias, tiveram de fechar as portas nestes últimos cinco anos. Tenho boa cabeça para os negócios, sempre tive. Quando, há dez anos, abri a Racon, disse para comigo: Connie, não invistas todo o teu dinheiro em mercadoria, minha querida. É o mesmo que apanhar o comboio para a falência. Percebe, não é verdade?

Debaixo do balcão começou a tirar outros expositores, feitos de madeira polida, com a forma artística de árvores. Estes eram dedicados aos brincos; as contas e moedas chocalhavam quando Connie os colocava no balcão e os dispunha da maneira mais adequada. Trabalhava com afinco e Barbara não pôde deixar de se interrogar sobre se tanta atenção aos produtos para venda era típica da actividade matinal ou se devia à reacção nervosa provocada pela visita da polícia.

Barbara colocou o recibo ao lado de uma das árvores dos brincos. Disse:

- Mrs... Connie, este recibo é da sua loja, não é verdade? Connie apanhou-o.

- Aqui em cima diz Racon - concordou.

- Pode dizer-me qual foi a compra? E a que se refere a frase A vida

começa agora?

- Espere aí. - Connie dirigiu-se ao canto da loja onde estava uma ventoinha articulada. Ligou-a e Barbara sentiu-se aliviada ao ver que, ao contrário da ventoinha do escritório de Emily, esta funcionava como uma ventoinha articulada deveria funcionar. Connie pô-la no médio.

Levou o recibo até junto à caixa registadora, onde estava um bloco

negro. Este tinha inscritas a dourado as palavras RACON JEWELLERY. Connie abriu-o.

- AK são as iniciais do artista - explicou a Barbara. - É assim que identificamos as peças. Esta é de Aloysius Kennedy, um fulano de Northumberland. Não vendo muitas peças dele porque ficam um pouco caras, para aquilo que se vende aqui, em Balford. Mas esta... - lambeu o dedo médio e folheou o livro. Passou pela página uma longa unha acrílica, aparentemente pintada para condizer com o cabelo. - O 162 refere-se ao número do artigo - disse. - Neste caso, pois, era uma das pulseiras articuladas. Oh! Esta era linda. Não tenho outra exactamente igual, mas... - retomou o tom de comerciante. - Posso mostrar-lhe uma parecida, se quiser ver.? - E A vida começa agora?, - Perguntou Barbara. - Refere-se a quê?

- Bom senso, espero eu - disse Connie, mostrando uns dentes pequenos e muito brancos, como os de uma criança, num riso um pouco forçado para a gracinha que tinha dito. - Vamos ter de perguntar a Rache, não é verdade? É a letra dela. - dirigiu-se à porta que dava para o outro compartimento e chamou: - Rache, fofinha. Temos aqui a Scotland Yard na loja a fazer perguntas sobre um dos teus recibos. Podes trazer-me uma Kennedy?

- Sorriu a Barbara. - Rachel é a minha filha.

- Ra de Racon.

- A senhora é muito rápida, não é? - Reconheceu Connie. Da contraloja ouviram-se passos batendo no chão de madeira. De súbito uma jovem apareceu à porta. Mantinha-se na sombra e tinha uma caixa na mão. Disse:

- Estava a tratar das coisas que chegaram de Devon. Agora ela trabalha com conchas, sabias?

- Ah sim? Querida, não conseguimos dizer a essa mulher aquilo que se vende, não é? Tens aqui a Scotland Yard, Rache.

Rachel aproximou-se ligeiramente, mas Barbara viu que a jovem não se parecia nada com a mãe. Apesar da cor pouco natural do cabelo, Connie era uma mulher com feições bonitas, pele lisa, longas pestanas e boca delicada. Pelo contrário, a filha parecia ter sido feita de peças rejeitadas por cinco ou seis indivíduos pouco atraentes.

Tinha os olhos anormalmente separados, e um deles descaía um pouco, como se sofresse de uma espécie de paralisia. O queixo era uma pequena protuberância de carne por baixo do lábio inferior, por baixo da qual estava o pescoço. Onde o nariz deveria estar, era óbvio que nada houvera. Uma projecção criada pela cirurgia plástica tomara o seu lugar, e embora tivesse a forma de um nariz, a cana não tinha volume suficiente, de modo que se afundava no rosto, como se um polegar tivesse feito pressão num modelo de barro.

Barbara não sabia para onde olhar sem parecer ofender a jovem. Deu voltas à cabeça para se lembrar do que é que as pessoas deformadas esperavam dos outros: olhar fixamente era mau, mas desviar os olhos enquanto se tentava falar com a vítima de uma tal deformação física, parecia ainda mais cruel.

- O que podes dizer à Scotland Yard sobre isto, minha querida? Perguntou Connie. - É uma peça Kennedy e tem a tua letra. Vendeste-a a... - a voz vacilou-lhe, quando pela primeira vez leu o nome na parte de cima do recibo. Levantou os olhos para a filha e a filha enfrentou-a. Uma subtil comunicação passou entre elas.

- O recibo indica que foi vendida a Sahlah Malik - disse Barbara a Rachel Winfield.

Finalmente, Rachel expôs-se à luz directa da loja. Ficou a alguma distância do balcão onde estava o recibo. Olhou-o hesitante, como se se tratasse de uma criatura estranha, da qual era melhor não se aproximar muito depressa. Barbara viu-lhe uma veia na testa a latejar e, enquanto observava o recibo à distância, abraçava-se a si própria e, passava com força o polegar no antebraço do lado da mão com que segurava a caixa trazida da contraloja.

A mãe pôs-se a seu lado e, dando um estalo com a língua preocupou-se em arranjar o cabelo da jovem. Puxou-o para a frente e afofou-o um pouco. Rachel parecia irritada, mas não repeliu a mãe.

- A sua mãe diz que é a sua letra - disse-lhe Barbara. - Por isso deve ter feito a venda. Lembra-se?

- Não foi exactamente uma venda - disse Rachel. Clareou a garganta.

- Foi mais uma permuta. Sahlah faz alguma da nossa bijutaria, por isso foi assim uma troca. Ela não... bem, não tem dinheiro. - Indicou um expositor com colares étnicos. Tinham muitas moedas estrangeiras e contas gravadas.

- Então conhece-a - disse Barbara.

Rachel desviou a resposta noutra direcção.

- O que eu escrevi aqui é uma inscrição. A vida começa agora seria gravado na parte de dentro da pulseira. Porém aqui não fazemos gravações. Mandamos para fora. - Colocou a caixa no balcão e abriu-a. Dentro, um objecto estava envolvido num suave tecido lilás. Rachel retirou-o e colocou uma pulseira de ouro no balcão. O feitio estava de acordo com o estilo que em geral tinham as outras peças da loja. O objectivo era óbvio, pela sua forma redonda, mas o desenho era indefinido, como se tivesse sido despejado num molde maleável para tomar uma forma ao acaso.

- É uma peça Kennedy - disse Rachel. - são todas diferentes, mas dá-lhe uma ideia aproximada do que é a AK-162.

Barbara tocou com os dedos na pulseira. Era invulgar. Recordar-se-ia, se tivesse visto uma parecida entre os pertences de Querashi. Interrogou-se sobre se a teria no braço na noite em que morrera. Embora pudesse ter sido retirada do corpo, depois da morte, parecia pouco provável que o assassino tivesse revistado o carro à procura dela. E teria morrido por uma pulseira no valor de duzentas e vinte libras? Era uma possibilidade, mas Barbara não arriscaria nela o próximo aumento de salário.

Pegou mais uma vez no recibo e voltou a examiná-lo. Rachel e a mãe nada disseram, mas trocaram outro olhar e Barbara sentiu uma tensão, que gostaria de conhecer.

A reacção das duas mulheres disse-lhe que, fosse como fosse, tinham uma ligação com a vítima. Mas que ligação seria, interrogava-se ela. Conhecia os riscos inerentes às conclusões precipitadas - principalmente quando eram causadas por coisas tão subjectivas como a aparência pessoal - mas era difícil ver Rachel Winfield no papel de amante putativa de Querashi. Era difícil ver Rachel Winfield como amante fosse de quem fosse. Não sendo também uma beleza arrasadora, Barbara sabia qual o papel que representava um rosto bonito, quando se tratava de atrair um homem. Parecia lógico concluir que qualquer que fosse a relação, não era nem romântica nem sexual. Por outro lado, a jovem tinha um corpo atraente, o que era um caso a considerar. Na escuridão... Mas Barbara apercebeu-se que estava a exceder-se. O verdadeiro problema era o facto de o recibo estar na posse de Querashi, sem se saber porquê e de a pulseira não ter sido encontrada.

Apanhando o recibo, olhou para a caixa registadora. Ao lado desta estava um livro de recibos ainda por usar, com a capa meio aberta. Barbara reparou na cor. Eram brancos. E o recibo de Querashi era amarelo.

Viu neste último papel o que já deveria ter visto, se não se tivesse concentrado no nome Sahlah Malik, na frase A vida começa agora e no preço do artigo. Impresso em letras minúsculas no fundo da página estavam as palavras: Cópia do comerciante.

- Este é o duplicado da loja, não é verdade? - Perguntou Barbara a Rachel Winfield e à mãe. - O cliente fica com o recibo branco que é o original do livro que está junto à caixa registadora; a loja fica com o amarelo como registo da venda.

Connie Winfield exclamou apressadamente:

- Oh, nós nunca ligamos muito a isso, pois não Rache? Rasgamos o recibo e damos qualquer uma das cópias. Acho que ninguém se importa muito com qual fica, desde que fiquemos com uma para nós. Não é verdade, fofinha?

Mas parecia que Rachel notara o erro da mãe. Pestanejou com força quando Barbara apanhou o livro de recibos. Aqueles que correspondiam a vendas anteriores estavam dobrados para o lado da capa. Barbara folheou-os. Todos os duplicados eram amarelos.

Viu que estavam numerados, assim passou as páginas até chegar ao original do duplicado que tinha consigo. Era o recibo número 2395: os duplicados amarelos do 2394 e do 2396 estavam no livro, o do 2395 não se encontrava lá.

Barbara fechou o livro dizendo:

- Fica sempre aqui na loja? O que lhe fazem quando fecham à noite?

- Vai para debaixo da gaveta da caixa registadora - disse Connie. Cabe lá mesmo bem. Porquê? Tem alguma coisa de mal? Eu e Rachel somos um pouco desleixadas com a contabilidade, mas nunca fizemos nada ilegal. Riu-se. - Como somos as donas não há ninguém a quem enganar. Claro que podíamos sempre aldrabar os artistas, se nos dispuséssemos a tal, mas isso acabava por se virar contra nós, porque lhes mandamos as contas duas vezes por ano e, se quiserem, têm o direito de vir eles mesmos verificar os livros. Por isso, se formos sensatas... e acho que somos, sabe... podemos.

- Este recibo estava entre os objectos pessoais de um morto - interrompeu Barbara.

Connie engoliu em seco e levou a mão ao peito. De tal maneira mantinha os olhos fixos em Barbara que dava a entender para quem queria evitar olhar. Mesmo quando falou não levantou os olhos para a filha.

- Vê lá Rache. Como é que aconteceu uma coisa dessas? Refere-se àquele homem do Nez, sargento? Quer dizer, a senhora é da polícia e o fulano é o único morto em que a polícia está interessada. Por isso deve ser ele. Deve ser ele o morto. É?

- Esse mesmo - disse Barbara.

- Imagine-se - soprou Connie. - Não faço a mínima ideia como é que ele tinha um dos nossos recibos. E tu fofinha? Sabes alguma coisa, Rache?

Uma mão de Rachel apertava o pano da saia. Barbara reparou pela primeira vez que era uma daquelas saias indianas, mais ou menos transparentes que se vendiam nos mercados de rua por todo o país. A saia não ligava necessariamente a jovem à comunidade asiática. Mas também não a excluía de uma situação em que a sua relutância para falar indicava o seu envolvimento, ainda que tangencial.

- Não faço ideia - disse Rachel, em voz fraca. - Talvez o homem o tenha encontrado na rua ou assim. Tem o nome de Sahlah Malik. Tê-lo-ia reconhecido. Talvez lho quisesse devolver quando tivesse oportunidade.

- Como poderia ele conhecer Sahlah Malik? - Perguntou Barbara.

A mão de Rachel puxou a saia.

- Não disse que ele e Sahlah. .

- A história vinha no jornal, sargento - interrompeu Connie. - Rache e eu sabemos ler e dizia lá que o fulano ia casar com a filha de Akram Malik.

- E não sabem mais nada, para além do que vinha no jornal? - Perguntou Barbara.

- Mais nada - disse Connie. - E tu Rache?

- Nada - disse Rachel.

Barbara duvidou. Connie era demasiadamente faladora e Rachel demasiadamente taciturna. Valeria a pena vir aqui à pesca, mas teria de voltar com melhor isco. Tirou um cartão seu. Rabiscou o nome do Burnt House e disse às duas mulheres que lhe telefonassem, se se recordassem de mais alguma coisa. Observou pela última vez a pulseira Kennedy e guardou o recibo da AK-162 nas suas coisas.

Saiu da loja, mas olhou para trás de repente. As duas mulheres observavam-na. Mais tarde ou mais cedo falariam do que sabiam. É o que acontece quando as condições são propícias. Talvez, pensou Barbara, a pulseira desaparecida lhes soltasse a língua. Precisava de a encontrar.

Rachel fechou-se na casa-de-banho. No instante em que o sargento saiu do seu ângulo de visão, meteu-se na contraloja. Percorreu apressadamente o corredor criado entre a parede e uma estante. A casa-de-banho era ao lado da porta de trás da loja, meteu-se lá dentro e trancou a porta atrás de si.

Apertou as mãos para que deixassem de tremer e não o conseguindo utilizou as duas para abrir a torneira do pequeno lavatório triangular. Sentia-se a escaldar e gelada ao mesmo tempo, o que não parecia possível. Sabia que havia um processo a seguir quando apareciam estas sensações físicas, mas não fazia ideia do que se tratava. Salpicou a cara com água e era o que estava a fazer quando Connie bateu à porta.

- Sai já daí, Rachel Lynn - ordenou. - Tu e eu temos de ter uma conversa.

Rachel gemeu.

- Não posso. Estou mal-disposta.

- Mal disposta, uma ova - gritou Connie. - Abres a bem ou tenho de deitar a porta abaixo?

- já precisava de vir aqui enquanto ela aí estava - disse Rachel, e levantou a saia para se sentar na sanita, dando um efeito mais convincente.

- Pensei que estavas mal-disposta - a voz de Connie tinha aquele tom de triunfo normalmente associado às mães que apanham as filhas a mentir.

- Não foi o que disseste? Então o que é, Rachel Lynn? Estás mal-disposta? Estás agoniada? O que é?

- Não é má disposição dessas - disse Rachel. - É das outras. Já sabe. Posso ter úm pouco de privacidade, por favor?

Fez-se silêncio. Rachel imaginava a mãe a bater com o pé pequeno e elegante contra a porta. Era o seu gesto habitual quando tinha de resolver o que fazer a seguir.

- Só um minuto, mãe - pediu Rachel. - Tenho o estômago às voltas. Escuta. Não é a campainha da loja?

- Não brinques comigo, menina. Tenho aqui o relógio. Sei muito bem quanto tempo levas a fazer essas coisas na casa-de-banho. Percebeste, Rache?

Rachel ouviu os passos bruscos da mãe afastarem-se para a parte da frente da loja. Sabia que apenas conseguira uns minutos para si e esforçava-se por pôr em ordem os pensamentos dispersos, de modo a criar um plano. És uma lutadora, Rache, dizia a si própria, com a mesma voz imaginária que usara, quando em criança, se preparava todas as manhãs para enfrentar a maldade dos colegas impiedosos. Então pensa. Pensa. Não importa nada se toda a gente te abandonar, Rache, porque te tens a ti própria e é isso que conta. "

Mas não acreditara nisso, quando dois meses antes Sahlah Malik lhe revelara a sua decisão de se submeter aos desejos dos pais e contrair um casamento arranjado por eles, com um desconhecido do Paquistão. Em vez de se lembrar que ainda se tinha a si própria, ficara horrorizada com a perspectiva de perder Sahlah. Depois disto sentira-se perdida e abandonada. Por fim, acreditara ter sido cruelmente traída. O terreno no qual tinha fé para a construção do seu futuro abrira fendas irreparáveis debaixo de si, e num instante esquecera completamente a lição mais importante da vida. Nos dez primeiros anos a seguir ao seu nascimento, vivera com a certeza de que o êxito, o fracasso e a felicidade eram possíveis, com o esforço de um único indivíduo neste mundo: Rachel Lynn Winfield. Assim, as maldades dos colegas, tinham-na incomodado, mas não a assustaram e crescera adepta da luta pelo que era seu. Mas tudo mudara quando encontrou Sahlah e permitiu-se a ver essa amizade como que a parte central daquilo que o futuro lhe guardava.

Oh, como fora estúpida - estúpida - por pensar dessa maneira, e agora reconhecia-o. Mas nesses primeiros momentos terríveis, depois de Sahlah lhe ter revelado as suas intenções, com o seu ar calmo e delicado - esse ar que também a tornara vítima da violência dos colegas, que não se atreveriam a levantar a mão contra Sahlah Malik ou a insultá-la por causa da sua cor, quando Rachel Winfield estivesse por perto - Rachel apenas pensara, E eu? E nós? E os nossos planos? Estávamos a juntar dinheiro para comprar um apartamento, íamos comprar móveis de pinho e enormes almofadas, íamos fazer um atelier para ti, numa parte do teu quarto, para que pudesses fazer as tuas bijutarias sem que os teus sobrinhos te mexessem nas caixas; íamos apanhar conchas na praia, íamos ter dois gatos, ias-me ensinar a cozinhar e eu ia ensinar-te a... a quê? Que diabo te iria eu ensinar Sahlah? O que é que eu te pude alguma vez oferecer?"

Mas não dissera nada disto. Pelo contrário, perguntara:

- Casar? Tu? Casar, Sahlah? Quem? Não... mas eu pensei que sempre tinhas dito que não podias. .

- Um homem de Carachi. Um homem que os meus pais escolheram para mim - dissera Sahlah.

- Queres dizer que...? Mas é um estranho, Sahlah. Não pode ser uma pessoa, que nem sequer conheces.

- Foi assim que os meus pais se casaram. É assim que a maior parte da minha gente se casa.

- A tua gente, a tua gente - escarnecera Rachel. Tentara fazer troça da ideia, para que Sahlah percebesse como era ridícula. - Tu és inglesa - disse.

- Nasceste em Inglaterra. És tão asiática como eu. E afinal o que sabes tu a respeito dele? É gordo? É feio? Usa dentes postiços? Tem pêlos a sair-lhe do nariz e dos ouvidos? E que idade tem? Algum fulano de sessenta anos, com varizes?

- Chama-se Haytham Querashi. Tem vinte cinco anos e estudou na universidade...

- Se isso para ti o transforma num bom pretendente a marido - dissera Rachel amargamente. - Suponho que também tenha montes de dinheiro. O teu pai ficaria encantado. Tal como ficou com Yumn. O que interessa se um macaco te trepar para a cama, desde que Akram consiga o que quer com o negócio? É isso, não é verdade? O teu pai também ganha alguma coisa? Diz-me a verdade, Sahlah.

- Haytham vai trabalhar na empresa, se é isso que queres saber - dissera Sahlah.

- Hah! Vês o que estão a fazer? Ele tem alguma coisa que eles querem, Muhannad e o teu pai, e a única maneira de o conseguirem é entregarem-te a um homem oleoso que nem sequer conheces. Não acredito que faças isso.

- Não tenho alternativa.

- Como assim? Se dissesses que não querias casar com esse homem,

não me digas que o teu pai te obrigava. Adora-te. Por isso tudo o que tens a fazer é dizer-lhe que nós as duas temos outros planos. E nenhum deles diz respeito ao teu casamento com um idiota do Paquistão, que tu nem sequer conheces.

- Eu quero casar com ele - dissera Sahlah.

Rachel olhara para ela espantada.

- Tu queres A imensidade da traição arrasara-a. Nunca pensara que cinco palavras lhe pudessem causar tal dor, e não tinha maneira de se proteger contra ela. - Tu queres casar com ele? Mas não o conheces, nem o amas, como podes começar a viver uma mentira assim?

- Aprenderemos a amar - replicou Sahlah. - Foi o que aconteceu aos meus pais.

- Foi também o que aconteceu com Muhannad? Que graça! Yumn não é a sua amada. É o capacho dele. Foste tu que o disseste. Queres que aconteça o mesmo contigo? Queres?

- Eu e o meu irmão somos diferentes. - Sahlah desviara a cabeça ao dizer isto e parte da sua dupattá protegia-a do olhar de Rachel. Tentava afastar-se o que fazia com que esta quisesse ainda mais manter-se junto dela.

- O que é que isso interessa? Esse Haybram é que tem de ser diferente do teu irmão...

- Haytham.

- Seja lá qual for o nome dele. O que importa é que ele e o teu irmão sejam diferentes. E não sabes se são. Nem o saberás, até que ele te dê uma boa sova, Sahlah. Como Muhannad. Já vi a cara de Yumn depois de apanhar do teu maravilhoso irmão. O que vai impedir que Haykem...

- Haytham, Rachel.

- Está bem. O que o vai impedir de fazer o mesmo contigo?

- Não te posso responder. Ainda não sei a resposta. Quando o conhecer logo vejo.

- Assim? - Perguntou Rachel.

Estavam no pomar, debaixo das árvores, cheias de flores perfumadas na Primavera. Sentavam-se no mesmo banco vacilante em que se tinham sentado tantas vezes em crianças, quando balançavam as pernas e faziam planos para um futuro que nunca chegaria. Não era justo que lhe negassem o que realmente lhe pertencia, pensara Rachel; não era justo que lhe arrancassem a única pessoa de quem tinha aprendido a depender. Não só não era justo, como não era correcto. Sahlah mentira-lhe. Participara num jogo que nunca tivera tenções de acabar.

O sentido de perda e traição de Rachel alterara-se ligeiramente, como o solo que se habitua a uma nova posição, depois de um tremor de terra. Dentro dela começava a crescer a ira. E com a ira vinha uma companheira: a vingança.

- O meu pai disse-me que eu posso não gostar de Haytham quando nos conhecermos - disse Sahlah. - Não vai forçar-me a casar, se vir que vou ser infeliz.

Rachel percebeu o significado das palavras da amiga, embora Sahlah

tenha tentado disfarçá-lo.

- Mas tu não te vais sentir infeliz, pois não? Seja como for, vais casar com ele. Eu sei, eu conheço-te, Sahlah.

O banco em que se sentavam era velho. Estava assente no chão irregu lar, debaixo de uma árvore. Com a unha macia, Sahlah, levantava uma lasca de madeira da beira do assento.

Rachel sentia o desespero erguer-se dentro de si, acompanhado de uma necessidade de ferir e magoar. Era para ela inconcebível que a amiga tivesse mudado tanto. Tinham estado juntas, apenas dois dias antes desta conversa. Os planos para o futuro ainda se mantinham. Então o que se passara para os alterar dessa maneira? Esta não era a Sahlah com quem partilhara horas e dias de amizade, a Sahlah com quem brincara, a Sahlah que defendera dos colegas cruéis, na escola primária de Balford-le-Nez e na secundária Wickham-Standish. Esta não era a Sahlah que conhecia.

- Falaste-me de amor - disse Rachel. - Conversámos sobre esse assunto. Também falámos de honestidade. Dissemos que no amor a honesti dade está primeiro. Não foi?

- Foi sim. - Sahlah observava a casa dos pais, como se temesse que alguém as visse conversar e observasse a reacção apaixonada de Rachel às novidades. Mesmo assim voltou-se para ela. Disse: - Mas por vezes a honestidade completa, absoluta, não é possível. Não é possível com os amigos, não é possível com os amantes. Não é possível entre pais e filhos. Não é possível entre maridos e mulheres. E, não só nem sempre é possível, Rachel, como não é prática. E nem sempre é sensata.

- Mas tu e eu temos sido honestas - protestou Rachel, com medo do que tudo aquilo pudesse significar para si. - Ou, pelo menos, eu fui honesta contigo. Sempre. Em tudo. E tu foste honesta comigo. Em tudo, não é verdade? Em tudo? - Rachel leu a resposta no silêncio da jovem asiática. - Mas eu sei tudo... Tu disseste-me.

Mas, de repente, tudo poderia ser questionado. O que lhe dissera Sahlah afinal? Confidências de menina sobre sonhos e esperanças e amor. Os segredos que Rachel acreditara poderem selar uma amizade. Os segredos que Sahlah jurara - e cumprira - não contar a ninguém.

Não esperara uma dor assim. Nunca esperara encontrar na amiga uma resolução tão calma e rigorosa que transformasse o seu mundo em ruínas. Tal determinação e tudo o que daí adivinha exigia uma acção imediata.

Rachel escolhera o único caminho que se lhe deparava aberto. E agora sofria as consequências.

Tinha de pensar no que havia de fazer. Nunca acreditara, que uma simples decisão pudesse provocar um efeito de dominó, fazendo cair a estrutura das outras peças, até que nada restasse.

Rachel sabia que o sargento da polícia não acreditara nem nela nem na mãe. Assim que pegou no livro de recibos e o folheou, vira a verdade. O próximo movimento lógico seria falar com Sahlah. E, uma vez que o fizesse, todas as possibilidades de um recomeço com a jovem asiática ficariam destruídas.

Assim, de facto, pouco havia a considerar como linha de actuação. Esta estendia-se diante de si como uma estrada sem desvios.

Rachel ergueu-se da sanita e dirigiu-se à porta em bicos de pés. Soltou o fecho, quase em silêncio e abriu uma nesga da porta para conseguir ver o compartimento das traseiras e ouvir o que se passava na loja. A mãe acendera o rádio e sintonizara-o numa estação, que sem dúvida lhe recordava a sua juventude. A escolha da música parecia irónica, como se o apresentador estivesse, a fingir que era Deus, conhecesse todos os segredos da alma de Rachel Winfield. Os Beatles cantavam Can't Buy Me Love 1. Rachel teria começado a rir se não lhe apetecesse tanto chorar.

Esgueirou-se da casa-de-banho. Deitando um olhar apressado à loja, saiu pela porta das traseiras. Esta estava aberta, na esperança de conseguir alguma ventilação vinda do beco abafado que ia dar à igualmente abafada rua das lojas. O ar estava imóvel, mas a porta aberta ofereceu a Rachel a saída de que necessitava. Saiu a correr para o beco e apressou-se a pegar na bicicleta. Montou-a e começou a pedalar com toda a força em direcção à praia.

Efectivamente, causara o efeito de dominó. Mas talvez tivesse a oportunidade de endireitar algumas peças antes que todas fossem varridas da mesa.

 

1 O nome da canção significa Não posso comprar amor. (N. da T.)

 

A EMPRESA MOSTARDAS MALIK & Condimentos Variados estava situada numa pequena zona industrial no extremo norte de Balford-le-Nez. Ficava, de facto, a caminho do próprio Nez, situada num cotovelo onde o caminho que vinha da mansão, por se ter desviado do mar para noroeste, se passava a chamar Estrada do Parque do Nez. Aqui, um conjunto de edifícios quase em ruínas albergava a indústria da cidade: uma fábrica de velas de barco, um vendedor de colchões, uma carpintaria, uma oficina de reparações de automóvel, uma serralharia, um sucateiro de automóveis e um fabricante de puzzles, cuja variedade de temas picantes, o mantinham quase sempre no do âmbito da censura pública nos púlpitos de todas as igrejas da cidade.

Os edifícios que albergavam estas empresas eram quase todos pré-fabricados de metal. Eram práticos e adequavam-se ao ambiente em que estavam inseridos: ligava-os um caminho coberto de pedras e cheio de buracos. No chão irregular estavam colocados contentores cor-de-laranja, exibindo o nome elegante de Lixeira Costa Dourada, em letras roxas; deitavam por fora tudo, desde bocados de lona a molas de colchão enferrujadas; o ferro de várias bicicletas abandonadas servia de gradeamento a canteiros saídos do pesadelo de um qualquer jardineiro. Chapas de metal ondulado, tábuas de madeira já podre, recipientes de plástico vazios e bancadas de metal corroídas por todo o lado, faziam com que o acesso à zona industrial se tornasse numa ambiciosa tarefa.

No meio de tudo isto a Mostardas Malik & Condimentos Variados era uma anomalia e ao mesmo tempo, uma repreensão às outras empresas. Ocupava um terço da zona com um edifício vitoriano comprido, com muitas chaminés, que albergara nos tempos áureos de Balford, a Serração de Balford. Tinha-se deteriorado, tal como o resto da cidade, depois da Segunda Guerra Mundial. Agora estava restaurado; os tijolos estavam limpos de um século de fuligem e os caixilhos de madeira eram arranjados e pintados todos os anos. Servia de exemplo mudo àquilo que as outras empresas poderiam fazer, se os donos tivessem metade da energia e um quarto da determinação de Sayyid Akram Malik.

Akram Malik comprara a fábrica em ruínas cinco anos depois da chegada da família a Balford-le-Nez, e uma placa com meia dúzia de palavras comemorava esse acontecimento. Esta foi o objecto mais importante em que Emily Barlow reparou, quando entrou no edifício, depois de ter estacionado o Peugeot num espaço mais ou menos livre de destroços.

Lutava contra uma dor de cabeça. Aqueles incómodos subentendidos que tinham havido na reunião matinal com Barbara Havers pesavam-lhe no espírito. Não precisava de um membro politicamente correcto da polícia na sua equipa, e a tendência de Barbara para colocar a culpa exactamente onde Os asiáticos a queriam - num inglês - preocupava-a, fazendo com que se interrogasse a respeito da visão clara da outra detective. Para maior ajuda, a presença de Donald Ferguson na sua vida - pairando na sua periferia silencioso como um gato - era mais um motivo para a sua má disposição.

O dia começara com mais um telefonema do superintendente. Sem dizer o dia ou sequer fazer um comentário de comiseração a respeito do tempo, gritara:

- Barlow, em que pé estamos?

Ela refilara. Às oito da manhã o gabinete parecera a prisão de Alec guinness no filme A Ponte do Rio Kwai e uma busca de um quarto de hora no sótão abafado e cheio de pó, da velha esquadra, para encontrar uma ventoinha, nada tinham feito para lhe melhorar a disposição. Ferguson, juntamente com a mistura de calor e a ofensa era demasiado, só para uma manhã.

- Don, vai deixar-me agir livremente neste caso? - Perguntara ou tenho que lhe mostrar os trabalhos todas as manhãs e todas as tardes, como se estivesse na escola primária?

- Veja lá o que diz - avisara-a Ferguson. - É bom que se lembre de quem está aqui deste lado da linha.

- Não consigo esquecer-me. O senhor não me dá hipótese. Também vigia assim os outros? Powell? Honeyman? E o nosso Presley?

- Entre todos contam com mais de cinquenta anos de experiência.

Não precisam de vigilância. Muito menos Presley.

- Porque são homens!

- Não façamos disto um problema sexual. Se quer manter a sua posição, sugiro que trabalhe para isso. Agora em que pé estamos, inspector?

Emily insultara-o silenciosamente. Depois, actualizou-o, sem lhe recordar a remota possibilidade de ter acontecido alguma coisa importante desde o telefonema da noite anterior e este agora, de manhã.

Disse pensativo:

- Então essa mulher é da Scotland Yard? Gosto disso Barlow. Gosto mesmo. Mostra que nos interessamos, não é verdade? - Emily estava a ouvi-lo engolir e o barulho de um copo a bater no telefone. Donald Ferguson era um fanático da Fanta Laranja. Bebia-a durante todo o dia, sempre com uma estranha rodela de limão, muito fina, e uma única pedra de gelo. Provavelmente esta manhâ já seria a quarta. - Certo. E Malik? E esse tal intermediário de Londres? Tem-os vigiado? Quero-a atrás deles, Barlow. Se eles deram um espirro na semana passada, quero saber a cor do lenço a que assoaram o ranho. Percebeu?

- Os serviços secretos já me mandaram o relatório de Muhannad Malik.

- Emily sentiu o prazer de se lhe ter adiantado. Recitou os pormenores mais importantes do jovem asiático. - Fiz ontem um requerimento para ver o que conseguimos saber a respeito do outro: Taymullah Azhar. Como vive em Londres, temos de recorrer ao 5011, mas espero que o sargento Havers nos dê uma ajuda.

O copo de Ferguson batera outra vez no telefone. Sem dúvida que estava a tentar digerir a sua surpresa. Sempre fora o tipo de homem que afirmava ter Deus criado as mãos das mulheres para se adaptarem perfeitamente ao cano de um aspirador. O facto de uma fêmea ter sido capaz de pensar e de se lhe ter antecipado em relação ao que seria necessário para a investigação, entrava, sem dúvida, em choque com as noções preconcebidas, tão queridas ao superintendente.

- Mais alguma coisa? - Perguntara amigavelmente. - Tenho a distribuição das tarefas do dia dentro de cinco minutos. Não gosto de me atrasar. Mas, se tem algum recado para a equipa...?

- Não há recados - disse Fergusson bruscamente. - Vá lá, então. Desligou abruptamente.

Agora na fábrica de mostarda, Emily sorria, ao lembrar-se. Ferguson tinha concordado com a sua promoção a inspector porque as circunstâncias - que tinham sido, afinal, uma informação negativa do Ministério do Interior a respeito da igualdade de oportunidades conferida pelo Comando do Essex - a isso o tinham forçado. Fizera-a saber, particularmente, que cada decisão que tomasse seria examinada por ele ao microscópio. Era uma a-l-e-g-r-i-a suprema vencer aquele verme, nem que fosse apenas num assalto do combate que ele se dispusera a travar.

Emily abriu com força a porta da Mostardas Malik e encontrou na recepção uma jovem asiática vestida com uma túnica creme e calças da mesma cor. Apesar da temperatura do dia, que não era significativamente mais baixa entre as paredes grossas da fábrica, trazia na cabeça um xaile cor-de-âmbar. Talvez que num tributo à elegância, fizera-o cair em dobras, sobre os ombros. Quando levantou os olhos do terminal de computador em que trabalhava, os brincos de osso e latão tilintaram suavemente. Faziam conjunto com o complicado colar que usava. Uma placa sobre a secretária identificava-a como s. Malik. Devia ser a filha, pensou Emily, a noiva da vítima. Era muito bonita.

Emily apresentou-se e mostrou a identificação. Disse:

- A senhora é Sahlah, não é verdade?

Quando a jovem acenou afirmativamente, o sinal cor-de-morango que tinha na face, escureceu. As mãos, que pairavam sobre o teclado, desceram rapidamente para o apoio em frente das teclas, e aí as manteve, com os polegares e os nós dos dedos apertados.

Era, sem dúvida, a imagem da culpa. As mãos diziam, ponha-me já as algemas. A expressão implorava, Por favor, mais pêsames não, Emily disse:

- Não deve ser uma altura fácil para si.

- Obrigada - disse Sahlah calmamente. Depois, olhou para as mãos e parecendo aperceber-se de que estavam numa estranha posição, abriu-as. Fora um movimento sub-reptício, que não escapou a Emily.

- Posso ajudá-la nalguma coisa inspector? O meu pai está a tra balhar na cozinha experimental, esta manhã, e o meu irmão ainda não chegou.

- De facto não preciso deles, mas pode chamar-me Ian Arrnstrong. O olhar da jovem dirigiu-se para as duas portas que davam para a recepção. Uma delas tinha a parte superior envidraçada; através dela Emily viu várias secretárias e o que parecia ser uma campanha publicitária, num cavalete.

- Ele está, não é verdade? - Perguntou Emily. - Fui informada de que ele veio preencher o lugar que Mr. Querashi deixou vago.

A rapariga concordou que Armstrong estava a trabalhar nessa manhã. Quando Emily pediu para falar com ele, carregou nalgumas teclas para sair do que tinha estado a fazer no computador. Pediu licença e afastou-se silenciosamente através da outra porta, que não era envidraçada e levava a um corredor para o interior da fábrica.

Emily reparou então na placa comemorativa. Era de bronze e estava colocada numa parede que tinha um mural fotográfico, representando um agricultor a trabalhar num campo amarelo, sem dúvida de plantas de mostarda. Emily leu a inscrição:

 

VEDE! ELE FEZ A CRIAÇÃO, DEPOIS MULTIPLICOU-A. QUE POSSA TAMBÉM RECOMPENSAR AQUELES QUE ACREDITARAM E PRATICARAM AS BOAS OBRAS COM IMPARCIALIDADE

 

A seguir vinha uma inscrição em árabe, por baixo da qual se liam estas palavras: Fomos ABENÇOADOS COM A VISÃO QUE NOS TROUXE PARA AQUI NO DIA 15 DE JUNHO e, depois o ano.

- Ele foi bom para nós - disse uma voz, por detrás de Enily. Voltou-se e viu que Sahlah não trouxera consigo Ian Armstrong, conforme lhe pedira, mas sim o pai. Ficara por detrás dele.

- Quem? - Perguntou Emily.

- Alá - o nome foi pronunciado com uma dignidade simples, que Emily não pôde deixar de admirar.

Depois de dizer isto, Akram Malik atravessou o compartimento, para a cumprimentar. Estava vestido para cozinhar, com uma bata parecida à de um médico, um avental manchado à volta da cintura e uma toca de papel na cabeça. As lentes dos óculos estavam sàlpicadas com qualquer coisa da cozinha e levou algum tempo a limpá-las com o avental, acenando à filha para que voltasse para o seu posto.

- Sahlah disse-me que veio falar com Mr. Armstrong - disse Akram, passando o pulso pelas duas faces e pela testa, num gesto que Emily pensou ser ao princípio uma saudação muçulmana, mas depois compreendeu que era apenas a sua maneira de limpar a transpiração do rosto.

- Ela disse-me que ele hoje estava cá. Duvido que a nossa entrevista leve mais do que um quarto de hora. Não havia necessidade de o incomodar, Mr. Malik.

- Sahlah fez o que era devido, indo chamar- me - disse o pai, num tom que indicava que Sahlah Malik fazia o que lhe era devido, por reflexo condicionado. - Vou levá-la a Mr. Armstrong, inspector.

Com um aceno indicou a porta envidraçada e conduziu Emily ao gabinete a que esta dava passagem. Este continha quatro secretárias, vários armários de arquivo e dois estiradores, juntamente com os cavaletes que Emily vira da recepção. Num dos estiradores, um asiático desenhava com canetas de aparo, trabalho que interrompeu levantando-se respeitosamente quando Akram entrou com Emily no escritório. No outro estirador, uma mulher de meia-idade, vestida de preto e dois jovens - todos paquistaneses, como os Malik - observavam um conjunto de fotografias a cores, nas quais os produtos da empresa apareciam anunciados em várias situações, desde piqueniques a jantares de véspera de Ano Novo. Também abandonaram o trabalho. Ninguém falou.

Emily perguntou a si própria se já se teria espalhado que a polícia chegara. Certamente esperariam uma visita do Departamento Criminal de Balford. Seria de esperar que estivessem preparados. Mas, tal como Sahlah na recepção, toda a gente tinha o ar de quem pensava que a forca fosse o destino mais provável das suas vidas.

Akram conduziu-a por um pequeno corredor para onde davam três gabinetes. Porém, antes que a deixasse com Armstrong, Emily aproveitou a oportunidade que Sahlah lhe oferecera.

- Se puder dispor de um minuto, Mr. Malik, também gostaria de falar consigo.

- Com certeza. - Indicou-lhe uma porta aberta no fim do corredor. Emily viu uma mesa de reuniões e um armário antigo, cujas prateleiras não expunham bibelots, mas apenas os produtos da empresa. Era um conjunto impressionante de frascos e boiões, contendo molhos, geleias, mostardas, chutneys 1, manteigas e vinagrettes. Os Malik tinham percorrido já um longo caminho, desde que tinham começado a produzir simples mostarda, na antiga padaria da Old Pier Street.

 

1 Mistura de frutos variados, sementes picantes e açúcar para acompanhar pratos de carne, queijo e principalmente, caril. (N. da T. )

 

Malik encostou a porta atrás de si, mas não a fechou completamente. Deixou uma greta de cinco centímetros, talvez em deferência ao facto de se encontrar a sós com uma mulher na sala de reuniões. Esperou que Emily se sentasse à mesa, antes de fazer o mesmo, retirando a touca de papel, que dobrou duas vezes, transformando-a num triângulo perfeito.

- De que modo lhe posso ser útil, inspector Barlow? - Perguntou. Eu e a minha família estamos ansiosos por chegar ao fundo desta tragédia. Pode ficar certa de que faremos todas as diligências para ajudar no que pudermos.

Falava inglês de maneira notável, para quem passara os primeiros vinte e dois anos de vida, numa remota aldeia do Paquistão com um único poço e sem electricidade, água canalizada ou telefone. Mas Emily soubera, através dos folhetos que ele distribuira durante a campanha para a Câmara, bem como da propaganda porta-a-porta que, depois de ter chegado a Inglaterra, Akram Malik tivera durante quatro anos um professor particular, para estudar a língua.

- O simpático Mr. Geoffrey Talbert - dissera. - Com ele aprendi a amar o meu país de adopção, a riqueza do seu património e a sua magnífica língua.

A afirmação caíra bem num público pouco inclinado a confiar em estrangeiros, e servira ainda melhor os objectivos de Akram: vencera com facilidade e havia poucas dúvidas de que as suas ambições políticas não terminavam no abafado salão da Câmara de Balford-le-Nez.

- O seu filho disse-lhe que determinámos que Mr. Querashi tinha sido assassinado? - Perguntou Emily. Quando Akram acenou afirmativa mente, com ar grave, ela continuou. - Então, seja o que for que me contar acerca dele poderá ajudar.

- Há quem acredite que este crime é arbitrário e racista - disse Malik. Era uma maneira inteligente de abordar o problema, sem acusar ninguém, mas colocando essa possibilidade.

- O seu filho é um deles - disse Emily. - Mas temos provas de que o crime foi premeditado, Mr. Malik. E premeditado a tal ponto, que sugere que o alvo foi Mr. Querashi, e não outro asiático. Isto não quer dizer que não esteja envolvido um homicida inglês. Bem como não quer dizer que o racismo também não tenha sido uma das causas. Mas significa que foi um crime pessoal.

- Não me parece possível - Malik dobrou mais uma vez a touca com todo o cuidado e alisou com os dedos morenos o vinco que tinha feito. Haytham estava cá há tão pouco tempo. Conhecia tão pouca gente. Como pode ter a certeza de que ele sabia quem era o seu assassino?

Emily explicou-lhe que havia pormenores da investigação que tinha de manter em segredo, coisas que apenas a polícia e o assassino sabiam e que, assim, poderiam ser usadas, se fosse necessário montar-lhe uma armadilha.

- Sabemos que alguém lhe estudou os movimentos para ter a certeza que ele estaria essa noite no Nez, se soubermos o que fazia normalmente, poderemos ser capazes de localizar essa pessoa.

- Nem sei por onde começar - disse Malik.

- Talvez pelo noivado da sua filha - sugeriu ela.

O maxilar de Malik contraiu-se ligeiramente.

- Certamente não estará a sugerir que Sahlah esteja envolvida na morte de Haytham!

- Sei que o casamento foi arranjado. Ela estava satisfeita?

- Mais do que satisfeita. Sabia que nem eu nem a mãe a forçaríamos a um casamento contra a sua vontade. Conheceu Haytham, permitiu-se-lhe que estivesse algum tempo a sós com ele e decidiu-se favoravelmente. Foi até muito favorável. Estava desejosa de casar. Se se sentisse de outra maneira, Haytham teria voltado para a família, em Carachi. Foi essa a combinação que fizemos com os pais dele e ambas as famílias concordaram, antes de ele vir para Inglaterra.

- Não pensou que um rapaz paquistanês nascido em Inglaterra seria mais adequado à sua filha? Sahlah nasceu aqui, não foi? Estaria mais habituada àqueles que também aqui nasceram.

- Os rapazes asiáticos nascidos em Inglaterra entram por vezes em conflito com as suas origens, inspector Barlow. Entram em conflito com o Islão, com a importância da família, com a nossa cultura, com as nossas crenças.

- Como o seu filho, talvez?

Malik recuou.

- Haytham vivia segundo os princípios do Islão. Era um bom homem. Queria ser um haji. Era uma qualidade que eu valorizava muito num marido para a minha filha. Sahlah concordava comigo.

- E o que pensava o seu filho a respeito de Mr. Querashi se vir a tornar parte da vossa família? Ele tem uma posição importante aqui na fábrica, não é verdade?

- Muhannad é o nosso director de vendas. Haytham era o nosso chefe de produção.

- São posições equivalentes?

- Essencialmente. Como sei que a seguir me vai perguntar, digo-lhe já que não havia qualquer conflito de posição entre eles. Os dois cargos não estão relacionados entre si.

- Suponho que ambos os quisessem desempenhar bem - notou Emily.

- Espero que sim. Mas os seus desempenhos individuais não alterariam o futuro. Por minha morte, o meu filho ficará a administrar a empresa. Haytham sabia disto. De facto, esperava até que assim fosse. Por isso, Muhannad não tinha necessidade de temer a presença de Haytham entre nós, se é o que está a sugerir. De facto, a situação era bem contrária. Haytham retirou um peso dos ombros de Muhannad.

- Que tipo de peso?

Malik desapertou o botão de cima da camisa e, mais uma vez, passou o pulso pelo rosto para limpar o suor. A sala estava sem ar e Emily perguntava a si própria porque não abririam uma das duas janelas.

- Antes da chegada de Haytham, Muhannad tinha ainda a tarefa de supervisionar o trabalho de Mr. Armstrong. Mr. Armstrong era apenas um funcionário eventual e, não sendo membro da família, necessitava de ser mais vigiado. Como chefe de produção era responsável pelo funcionamento de toda a fábrica e, embora fizesse um bom trabalho, sabia que o seu emprego era temporário e assim, não teria necessidade de ser tão meticuloso como se tivesse um interesse permanente na empresa. - Ergueu o dedo para impedir Emily de falar, quando ela se dispunha a fazer outra pergunta. - Não quero insinuar que o trabalho de Mr. Armstrong não fosse aceitável para nós. Se assim fosse não o teria voltado a chamar, depois da morte de Haytham.

Era exactamente este o problema e o pormenor que Barbara Havers tinha acentuado. Armstrong tinha sido convidado a voltar a trabalhar na Mostardas Malik.

- Durante quanto tempo conta manter aqui Mr. Armstrong a trabalhar desta vez?

- O tempo necessário para encontrar outro marido adequado para a minha filha, que também possa vir trabalhar aqui para a fábrica.

Facto que, pensou Emily, poderá levar algum tempo, cimentando a posição de Armstrong na empresa.

- Mr. Armstrong conhecia Mr. Querashi? Encontraram-se alguma vez?

- Oh, claro. Ian esteve a preparar Haytham nos cinco dias anteriores a nos ter deixado.

- E as relações entre eles?

- Pareciam muito cordiais. Mas Haythan era um homem de quem era fácil gostar. Não tinha inimigos aqui, na Mostardas Malik.

- Conhecia toda a gente da fábrica?

- Tinha de ser. Era o director da fábrica.

O que obrigava a entrevistas com toda a gente, pensou Emily, porque toda a gente tinha inimigos, fosse lá qual fosse a opinião de Akram Malik. O truque era fazê-los aparecer. Mentalmente designou dois agentes para o efeito. Poderiam usar a sala de reuniões. seriam discretos.

- E fora da fábrica? Quem mais conhecia Mr. Querashi? Akram avaliou a pergunta.

- Pouca gente. Mas havia a Cooperativa dos Empresários. sugeri que ele se tornasse membro, o que fez imediatamente.

Emily conhecia a Cooperativa dos Empresários. Fora um factor predominante no retrato que a campanha eleitoral fizera de Akram Malik. Era um clube social para os homens de negócios da terra, que Akram Malik organizara pouco depois de ter aberto a fábrica. Encontravam-se uma vez por semana para almoçar e uma vez por mês para jantar; o objectivo era patrocinar a boa vontade e cooperação nos meios comerciais bem como o empenho no desenvolvimento da cidade e no bem-estar dos seus habitantes. A questão era descobrir e encorajar pontos comuns entre os membros, pois o fundador acreditava que os homens que trabalhassem para um fim comum eram homens que viviam em harmonia. Era interessante, apercebeu-se Emily, notar a diferença entre a Cooperativa dos Empresários fundada por Akram Malik e a Jum'a criada pelo seu filho. Imaginou se os dois homens não estariam em conflito e se esta condição não seria extensiva ao futuro genro.

- O seu filho também é membro desse grupo? - Perguntou ela com curiosidade.

- A frequência de Muhannad não é o que eu desejaria - disse Malik

- mas, de facto, é membro.

- É menos devotado à causa do que era Mr. Querashi? Malik tinha um ar grave.

- Procura ligar o meu filho com a morte de Mr. Querashi, não é verdade?

- O que pensava o seu filho desse casamento arranjado? - Contrapôs. Por uns instantes, o rosto de Akram Malik registou aquele ar que sugeria não ir responder a mais nenhuma pergunta a respeito do filho a não ser e até que Emily lhe dissesse o que pretendia com elas. Mas recuou.

- Como o casamento de Muhannad também foi arranjado, não viu qualquer problema em que o da irmã fosse da mesma forma. - Mexeu-se na cadeira. - O meu filho, inspector, não foi uma criança fácil de criar. Foi, creio eu, demasiado influenciado pela cultura ocidental. Talvez se veja isso no seu comportamento, que é difícil de compreender. Mas respeita as suas origens e tem muito orgulho no seu sangue. É um homem do seu povo.

Emily ouvira muitas vezes invocar esta frase a respeito dos membros do IRA e de outros extremistas políticos radicais. Embora fosse certo que o activismo político de Muhannad na cidade justificava a afirmação do pai, a existência da Jum'a sugeria que o que poderia ser identificado como o orgulho do jovem na sua raça poderia também sê-lo como uma propensão para pisar o risco ou uma capacidade de manipular as pessoas, abusando da sua ignorância e temor. Mesmo assim, a ideia da Jum'a levou-a a perguntar:

- Mr. Querashi também pertencia à associação do seu filho?

- Associação?

- O senhor sabe da existência da Jum'a, não é verdade? Haytham Querashi também era membro?

- Isso não sei. - Desdobrou a touca, com o mesmo cuidado que usara para a dobrar e dedicou toda a sua atenção ao movimento dos dedos no papel fino. - Muhannad poderá esclarecê-la. - Em seguida franziu a testa, mas acabou por levantar os olhos. - Tenho de confessar que a direcção tomada pelas suas perguntas me perturba. Faz-me pensar se o meu filho, que, admito se entrega à ira e arranja facilmente pretextos quando se trata de problemas raciais, tem razão quando afirma que a senhora fará vista grossa à possibilidade de o ódio e ignorância serem os únicos motivos deste crime.

- Eu não faço vista grossa - disse Emily. - Os crimes raciais são problemas globais e seria louca, se o negasse. Mas, se o ódio e a ignorância estão por detrás do assassinato de Querashi, então foram dirigidos a um alvo específico e não apenas a um mero asiático que o criminoso tenha encontrado na rua. Precisamos de saber os contactos de Mr. Querashi nas duas comunidades. É a única maneira de encontrarmos o seu assassino. A Cooperativa dos Empresários representa um aspecto da vida de Balford-le-Nez. Tem de concordar que a Jum'a representa outra. - Levantou-se. - Se me levar a Mr. Armstrong...?

Akram Malik olhou para ela, pensativo. Sob aquele olhar penetrante, Emily teve consciência das diferenças entre eles, não apenas as diferenças-padrão entre um homem e uma mulher, mas as diferenças culturais, que sempre os definiriam. Estavam presentes na sua maneira de vestir: uma camisola de alças, fina, calças cinzentas, cabeça descoberta. Estavam presentes na liberdade que lhe fora conferida: uma mulher sozinha num vasto mundo que lhe pertencia. Estavam presentes na posição que representava: uma figura dominante, numa equipa formada quase exclusivamente por homens. Ela e Akram Malik - apesar de ele afirmar o amor pelo país que adoptara poderiam pertencer a universos diferentes.

Ele levantou-se.

- Por aqui – disse Barbara seguiu aos solavancos pelo atalho esburacado e encontrou um lugar para estacionar o Mini, no extremo de um edifício pré-fabricado com uma tabuleta que anunciava ambiguamente Hegarthy - Distracções para Adultos. Reparou no aparelho de ar condicionado numa das janelas da parte da frente e meditou na ideia de se arrastar lá para dentro e de se plantar diante dele. Seria uma distracção adulta que valeria a pena, pensou.

O calor à beira-mar estava a tornar-se pior do que o calor em Londres, o que era praticamente inconcebível. Se a Inglaterra se fosse tornar num ambiente tropical, por causa do aquecimento global que os cientistas vinham há anos a prever, Barbara pensou que seria bom ter também as vantagens dos trópicos. Um criado, de casaco branco transportando uma bandeja com cocktails vinha mesmo a calhar.

Olhou-se no espelho retrovisor, para ver se a maquilhagem feita por Emily se aguentara exposta ao suor. Esperava ver as feições dissolverem-se, à maneira das transfigurações medonhas do Médico e do Monstro

Mas a base e o blush estavam no sítio devido. Talvez afinal houvesse alguma vantagem em usar todas as manhãs as caixinhas de cor, em busca da beleza arrasadora.

Barbara percorreu o caminho irregular até à Mostardas Malik & Condimentos Variados. Uma passagem por casa dos Malik tinha-lhe permitido descobrir que Sahlah trabalhava na fábrica, com o pai e o irmão. Esta informação tinha-lhe sido passada por uma mulher desleixada e gorda, com uma criança ao colo e outra pela mão, um olho torto e um leve buço escuro que sobressaía por cima do lábio superior. Olhara para o crachá de Barbara e dissera:

- Então, quer falar com Sahlah? Com a nossa pequena Sahlah? Valha-me Deus, mas o que fez ela, para que a polícia lhe queira falar? No entanto havia um certo prazer nas suas perguntas, uma espécie de entusiasmo experimentado por uma mulher que tinha poucos divertimentos nesta vida, ou então tinha qualquer coisa contra a cunhada. Tinha informado imediatamente Barbara desta relação, anunciando que era a mulher de Muhannad, o filho mais velho e único da casa. E estes - indicara orgulhosamente as crianças - eram os filhos de Muhannad. E em breve - aqui, apontara significativamente na direcção do ventre - haveria um terceiro filho, terceiro em três anos. Um terceiro filho para Muhannad Malik.

Quanta conversa, pensou Barbara. Resolveu que a mulher precisava de um passatempo se era só daquilo que sabia falar. Tinha dito apenas:

- Preciso de falar com Sahlah. Podia fazer o favor de a chamar? Mas não fora possível. Sahlah estava na fábrica.

- É sempre melhor ter uma ocupação, quando se tem o coração destroçado, não concorda? - Declarara a mulher. Mas, mais uma vez, havia um prazer na sua expressão, que não correspondia ao que afirmara. Barbara sentira-se arrepiada.

Assim, dirigiu-se à Mostardas Malik e, ao aproximar-se do edifício de tijolo, retirou o recibo da ourivesaria da mala e enfiou-o no bolso das calças.

Entrou na fábrica, onde o ar estava insuportável; num vaso colocado ao lado da recepção, um feto parecia prestes a dar a alma ao criador. Uma jovem estava sentada num terminal de computador, parecendo notavelmente fresca, apesar de estar completamente vestida, dos pés à cabeça, os braços cobertos até aos pulsos e o cabelo escuro quase escondido pelo tradicional véu. Tinha porém, o cabelo comprido e uma trança grossa chegava-lhe à cintura.

Na secretária havia uma placa com o nome dela. Barbara soube então que não tinha de procurar mais por Sahlah Malik. Mostrou-lhe a identificação e apresentou-se.

- Podemos conversar?

A rapariga olhou na direcção de uma porta, cuja parte envidraçada reveláva uma espécie de gabinete interior.

- Comigo?

- É Sahlah Malik, não é verdade?

- Sim, mas se é sobre Haytham, já falei com a polícia. Falei com eles no próprio dia.

Na secretária havia uma longa fita de papel impresso em computador, com o que parecia ser uma lista de nomes. Retirou uma caneta de feltro amarela da gaveta do meio da secretária e começou a sublinhar alguns nomes, cortando outros com um lápis.

- Então falou-lhes da pulseira? - Perguntou-lhe Barbara: Não levantou os olhos das folhas, embora Barbara tivesse reparado que franzira ligeiramente as sobrancelhas. Poderia ser o resultado da concentração, se a tarefa vulgar de sublinhar nomes a requeresse. Por outro lado, poderia ser confusão.

- Pulseira? - Perguntou.

- Uma peça de um fulano chamado Aloysius Kennedy. De ouro. Com as palavras A Vida começa agora, gravadas. Diz-lhe alguma coisa?

- Não compreendo a natureza da sua pergunta - disse a jovem. O que tem a pulseira de ouro a ver com a morte de Haytham?

- Não sei - disse Barbara. - Se calhar nada. Pensei que me pudesse dizer. Isto - colocou o recibo na secretária - estava entre as coisas dele. Melhor dizendo, estava fechado à chave, com as coisas dele. Sabe porquê? Ou, para começar, o que estava a fazer entre as suas coisas?

Sahlah tapou a caneta de feltro e pôs o lápis ao lado antes de pegar no recibo. Tinha umas mãos lindas, reparou Barbara, com dedos esguios e unhas cortadas rentes, mas suaves e arredondadas. Não usava anéis.

Barbara esperou pela reacção. A sua visão periférica registou movimento no gabinete interior e olhou nessa direcção. Num corredor ao fundo, Emily Barlow falava com um paquistanês de meia-idade, que parecia vestir um fato de cozinheiro. Akram Malik, calculou Barbara. Tinha a idade e seriedade suficientes para o ser. Voltou a sua atenção para Sahlah.

- Não sei - disse Sahlah. - Não sei porque o tinha. - Falava mais para o recibo do que para Barbara. - Talvez procurasse uma maneira de retribuir e isto lhe parecesse o melhor. Haytham era um homem muito bom. Um homem muito bondoso. Não seria de espantar nele que tentasse descobrir o preço de uma coisa para poder dar em troca uma oferta equi valente.

- Como?

- Lená-denã - disse Sahlah. - A entrega das ofertas. Faz parte da maneira como estabelecemos as nossas relações.

- A pulseira de ouro era um presente para ele? Seu? Para Mr. Querashi?

- Como sua noiva eu oferecer-lhe-ia uma lembrança. Ele faria o mesmo comigo.

Mas faltava ainda saber onde estava a pulseira. Barbara não a vira entre as coisas de Querashi. Não lera no relatório da polícia que tivesse sido encontrada no seu corpo. Alguém assaltaria uma vítima, e planearia cuidadosamente a sua morte pela posse de uma pulseira de ouro? Havia pessoas que tinham morrido por menos, claro, mas, neste caso... Porque pareceria a ideia tão improvável?

- Ele não tinha a pulseira - disse Barbara. - Não estava no seu corpo, nem no quarto do Burnt House. Pode explicar-me porquê?

Sahlah voltou a utilizar a caneta de feltro noutro nome.

- Ainda não lha tinha dado - disse. - Dar-lha-ia no dia do nikãh.

- Que é...?

- Quando o nosso contracto de casamento fosse formalmente assinado.

- Então tem a pulseira.

- Não. Não valia a pena guardá-la. Quando morreu, levei-a Fez aqui uma pausa. Os dedos tocaram nos lados da folha, para a endireitar.

- Isto vai parecer-lhe absurdo e melodramático, como se se passasse num romance do século dezanove. Quando Haytham morreu, levei a pulseira e atirei-a do pontão. Do fim do pontão. Acho que foi uma maneira de me despedir.

- Quando foi isso?

- No sábado. No dia em que a polícia me disse o que lhe tinha acontecido.

Porém isto exigia a pergunta sobre o recibo.

- Então ele não sabia que tinha uma pulseira para lhe oferecer.

- Não, não sabia.

- Então porque tinha o recibo em seu poder?

- Não sei exactamente. Mas ele deveria saber que eu lhe daria qualquer coisa. É a tradição.

- Por causa do... como disse que se chamava?

- Lená-dená. Sim. Por causa disso. E não quereria que o seu presente

para mim não fosse equilibrado com o presente que eu lhe iria dar. Seria um insulto à minha família e Haytham tinha muito cuidado com essas coisas.

Imagino - e nesta altura olhou para Barbara pela primeira vez, desde o

começo da conversa. - Imagino que fez umas pequenas investigações para descobrir o que eu lhe tinha comprado e onde. Não seria muito difícil. Balford é uma terra pequena. As lojas que têm artigos dignos do nikáh são fáceis de descobrir.

A explicação era razoável, pensou Barbara. Fazia sentido. O único problema fora que nem Rachel Winfield nem a mãe tinham dito fosse o que fosse a confirmar esta hipótese.

- Do pontão? - Perguntou Barbara. - A que horas foi?

- Não faço ideia. Não olhei para o relógio.

- Não é preciso a hora exacta. Mas foi de manhã? À tarde? À noite?

- À tarde. A polícia veio de manhã falar connosco.

- Então não foi à noite?

Talvez ela tivesse visto demasiado tarde onde Barbara queria chegar, pois o seu olhar vacilou. Mas pareceu aperceber-se dos problemas que causaria a si própria se alterasse a história. Disse:

- Foi de tarde.

Uma mulher vestida como Sahlah chamaria sem dúvida a atenção. O pontão estava em obras. Ainda nessa manhã Barbara vira os operários pendurados num edifício que estava a ser construído junto ao local em que Sahlah dizia ter-se desfeito da pulseira de ouro. Assim, teria de haver alguém no pontão que confirmasse a sua história.

O movimento no gabinete interior chamou-lhe mais uma vez a atenção. Desta vez não era Emily, mas sim dois homens asiáticos que apareceram no campo de visão de Barbara. Dirigiam-se a um estirador, e estavam absorvidos numa conversa com um terceiro, que aí trabalhava. Quando os viu, Barbara lembrou-se do nome.

- F. Kumhar - disse a Sahlah. - Trabalha aqui alguém com esse nome?

- No escritório, não - disse Sahlah.

- No escritório?

- Não é ninguém nem da contabilidade nem das vendas. Essas pessoas pertencem ao escritório. - Indicou a porta envidraçada. - A fábrica... é a produção. Conheço os trabalhadores efectivos da produção, mas não aqueles que contratamos para fazer trabalho extraordinário, como, por exemplo, a rotulagem, quando temos uma encomenda muito grande para sair.

- São pessoas que trabalham em part-time?

- Sim. Nem sempre os conheço. - Fez um gesto em direcção das folhas impressas. - Nunca vi aqui esse nome, mas como não pagamos às pessoas que trabalham em part-time através de computador, também não estaria aqui.

- Então, quem conhece esses trabalhadores?

- O chefe de produção.

- Haytham Querashi - disse Barbara.

- Sim. E Mr. Armstrong, antes dele.

E foi assim que os caminhos de Barbara e Emily se cruzaram na Mostardas Malik. Sahlah levou Barbara para falar com Mr. Armstrong.

Se as dimensões do gabinete devem ser tidas em conta - como na New Scotland Yard em que a importância do cargo se media pelo número de janelas - então, Ian Armstrong ocupava um cargo de alguma proeminência, embora interinamente. Quando Sahlah bateu à porta e uma voz a mandou entrar, Barbara viu uma sala em que cabiam uma secretária, uma mesa redonda para reuniões e seis cadeiras. Como era um gabinete interior, não tinha janelas. Ou o calor ou as perguntas de Emily Barlow faziam com que o rosto de Armstrong destilasse.

Armstrong dizia:

... não havia necessidade de levar Mikey ao médico na sexta-feira passada. É o nome do meu filho, Mikey.

- Estava com febre? - Emily acenou, quando Barbara apareceu no gabinete. Sahlah fechou a porta e retirou-se.

- Sim, mas as crianças têm febre alta, não é verdade? - Os olhos de Armstrong piscaram ao ver Barbara, antes de voltar a olhar para Emily. Não pareceu perceber que a transpiração lhe escorria da testa, para o rosto.

Por seu lado, Emily parecia ter gás refrigerante nas veias, em vez de sangue. Estava calmamente sentada à mesa de reuniões, com um pequeno gravador diante dela, que registava as respostas de Ian Armstrong.

- Não se pode levar uma criança para a urgência só porque tem a testa quente - explicava Armstrong. - Além disso, o miúdo já teve tantas dores de ouvido que agora já sabemos o que fazer. Temos uns pingos, pomos coisas quentes. Depois disso ele sossega.

- Há mais alguém, para além da sua mulher, que confirme isso? Telefonou aos seus sogros na sexta-feira à noite para saber o que havia de fazer? E aos seus pais? A um vizinho? A um amigo?

A expressão dele tornou-se sombria.

- Eu... se me deixar pensar.

- Leve o tempo que quiser, Mr. Armstrong - disse Emily. - Temos de ser rigorosos.

- Só que eu nunca estive metido numa coisa destas e sinto-me um pouco nervoso, sabe como é.

- Sei - disse Emily.

Enquanto o inspector esperava pela resposta à pergunta que fizera ao homem, Barbara observava o gabinete. Era bastante funcional. Nas paredes havia cartazes mostrando os produtos. A secretária era metálica, tal como os armários de arquivo e as prateleiras. A mesa e as cadeiras eram relativamente novas, mas baratas. Os únicos objectos dignos de nota estavam na secretária de Armstrong. Eram molduras com fotografias e havia três. Barbara deu a volta para espreitar. Numa delas aparecia uma mulher loura, com ar aborrecido e o cabelo encaracolado ao estilo dos anos 60; noutra uma criança falava seriamente com o Pai Natal e uma terceira mostrava uma família feliz em escadinha, com o filho ao colo da mãe e o pai por trás, com as mãos nos ombros da mulher. Armstrong tinha um ar espantado nesta fotografia, como se tivesse chegado por acaso à posição de pai de família, o que o surpreen dera muito.

Certamente estava a instalar-se na fábrica para um emprego temporário. Barbara imaginava- o, nessa mesma manhã, muito atarefado com as fotografias dentro da pasta, limpando-lhes o pó com ar feliz e colocando-as em posição na secretária, antes de começar a trabalhar.

Porém, parecia uma fantasia contrária ao seu actual comportamento. Continuava a olhar ansiosamente para Barbara, como se estivesse preocupado por ela poder revistar a secretária. Por fim Emily apresentou-os. Armstrong disse:

- Outra...? - Depois engoliu apressadamente o que lhe ia no espírito. Em seguida disse: - Os meus sogros. - E continuou com mais segurança. Não posso ser completamente preciso no que diz respeito à hora, mas falei com eles, de certeza, na sexta-feira à noite. Sabiam que Mikey estava doente e telefonaram-nos. - Sorriu. - Tinha-me esquecido pois perguntou-me se eu lhes tinha telefonado e foi exactamente o contrário.

- Mais ou menos a que horas? - Perguntou Emily.

- Que eles telefonaram? Foi mais ou menos depois das notícias. Da ITV.

Então teria sido às dez horas, pensou Barbara. Olhou o homem, com os olhos semicerrados, perguntando a si própria até que ponto estava a inventar e quanto tempo depois de ela e Emily saírem do gabinete telefonaria ele aos sogros para conseguir a sua cooperação na história.

Enquanto Barbara considerava esta possibilidade, Emily mudava de estratégia. Passou a Haytham Querashi e à relação entre este e Armstrong. Fora, de acordo com o chefe temporário da produção, uma relação excelente; da maneira como Armstrong a descreveu praticamente tinham sido irmãos de sangue.

- Tanto quanto sei não tinha inimigos, aqui na fábrica - concluiu Armstrong. - De facto, para dizer a verdade, os trabalhadores aqui da fábrica estavam encantados por ele ter vindo.

- E não tinham pena que o senhor se fosse embora? - perguntou Emily.

- Suponho que não - admitiu Armstrong. - A maioria dos nossos trabalhadores é asiática, e prefere um deles a um inglês, para os supervisionar. Vendo bem, não é assim tão estranho, pois não?

Olhava alternadamente para Emily e para Barbara, como se esperasse que qualquer delas concordasse com ele. Ao verificar que tal não acontecia, voltou à ideia anterior.

- Não há realmente ninguém. Se procuram um motivo aqui, entre os trabalhadores, não sei como o conseguirão encontrar. Só regressei há umas horas, e, daquilo que me consegui aperceber, há um verdadeiro desgosto entre o pessoal.

- E sabe de alguém que se chame Kumhar? - Perguntou Barbara. Juntou-se a Emily e Armstrong, à volta da mesa.

- Kumhar? - Armstrong franziu a testa.

- F. Kumhar. O nome é-lhe familiar?

- Nem por isso. É alguém que trabalha aqui? Porque eu conheço toda a gente na fábrica... Bem, é preciso por causa do trabalho. E, a menos que se ha alguém contratado enquanto Mr. Querashi aqui estava, alguém que eu ainda não conheça...

- Miss Malik pensa que possa ser alguém que veio trabalhar em part--time numa altura de muito trabalho. Falou da rotulagem...

- Um empregado em part-time? - Armstrong olhou para Emily. Disse:

- Se me dá licença...? - Como se pensasse que ela era a chefe. Dirigiu-se a uma das prateleiras de onde retirou um livro, que trouxe para a mesa. - Sempre fomos cuidadosos nos nossos registos - disse. - Na posição de Mr. Malik, contratar ilegais poderia ser desastroso.

- Há esse problema aqui? - Perguntou Barbara. - Tanto quanto sei, os imigrantes ilegais preferem geralmente uma cidade. Londres, Birmingham, sítios onde haja uma grande comunidade asiática.

- Hmm, sim, suponho que sim - disse Armstrong, folheando o livro de registos e examinando as datas. - Mas não estamos assim tão longe dos portos, pois não? Os ilegais podem sempre iludir a vigilância num porto, por isso Mr. Malik insiste para que estejamos atentos, não vá um deles escapar-se até aqui.

- Haytham Querashi conseguiria descobrir se Mr. Malik estivesse a contratar estrangeiros? - Perguntou Barbara.

Ian Armstrong olhou para ela. Percebeu o rumo que as perguntas levavam e parecia francamente aliviado por ter conseguido que as atenções se tivessem desviado da sua pessoa. No entanto não tentou iludir a resposta

- Poderia ter suspeitado. Mas se alguém aparecesse com papéis bem falsificados, não sei como se teria apercebido. Afinal não era inglês. Como haveria de saber o que tinha de procurar?

Barbara perguntou a si mesma o que teria a ver uma coisa com a outra. Armstrong observou uma página que tinha escolhido. Depois viu outras duas mais.

- Estes são os trabalhadores em part-time mais recentes - disse. Mas não há nenhum Kumhar entre eles. Lamento.

Então Querashi tê-lo-ia conhecido num outro contexto, concluiu Barbara. Em qual seria? A organização paquistanesa que Emily lhe dissera ter sido fundada por Muhannad Malik? Era uma possibilidade.

Emily dizia:

- E uma pessoa que tivesse sido despedida por Querashi. Trabalhando ou não em part-time, ficava registada aí?

- Os empregados que já cá não estão, têm, é claro, registos pessoaisdisse Armstrong indicando os arquivos junto à parede. Mas ao falar, a voz saiu-lhe hesitante e sentou-se na cadeira, com ar pensativo. Em que quer que estivesse a pensar, pareceu ficar mais aliviado, pois por fim tirou um lenço do bolso e limpou a cara.

- Lembrou-se de mais alguma coisa? - Perguntou Emily.

- De um empregado despedido? - Alvitrou Barbara.

- Pode não ser nada. Afinal, só sei do caso porque um colega da expedição me falou do assunto já depois de se ter passado. Foi cá uma confusão, é claro.

- Com quê?

- Trevor Ruddock, um rapaz de cá. Haytham despediu-o há cerca de três semanas. - Armstrong dirigiu-se a um dos armários de arquivo e procurou numa gaveta. Tirou de lá um dossier, que trouxe para a mesa, e leu o documento que lá se encontrava. - Sim, cá está... Ora bem, não é muito agradável. - Levantou os olhos e sorriu. Certamente lera boas perspectivas para si próprio no registo de Trevor Ruddock e, aparentemente, parecia ter vontade de celebrar o facto. - Trevor foi despedido por roubo, diz aqui. O registo foi feito por Haytham. Parece que apanhou Trevor com a boca na botija. Levava uma grade com produtos. Despediu-o imediatamente.

- Disse que era um rapaz - notou Barbara. - Que idade tem? Armstrong consultou o registo.

- Vinte e um.

Emily juntou-se a ela.

- Tinha mulher? Filhos?

Armstrong seguiu-as.

- Não - disse. - Mas vive em casa dos pais, de acordo com o impresso de candidatura. E sei que vivem lá seis filhos, contando com Trevor, a mãe e o pai. E com a morada que deu... - Armstrong olhou para as duas agentes da polícia. - Bom, não mora exactamente numa zona elegante. Aposto que a família precisava do dinheiro que ele ganhava. É assim, nessa zona da cidade.

Ao dizer isto, pareceu aperceber-se de que qualquer tentativa para lançar suspeitas sobre outra pessoa, só serviria para aumentar as que havia a seu respeito. Continuou apressadamente:

- Mas Mr. Malik interferiu a favor do rapaz. Há aqui a cópia de uma carta que escreveu, pedindo a outro empresário da cidade que desse uma oportunidade a Trevor para se redimir através de outro emprego.

- Onde? - Perguntou Barbara.

- No pontão das diversões. E sem dúvida que o poderão encontrar aí. Isto é, se quiserem falar com ele sobre a sua relação com Mr. Querashi.

Emily estendeu o braço e desligou o gravador. Armstrong parecia aliviado, ou pelo menos, mais descontraído. No entanto, quando Emily voltou a falar, ficou de novo, assustado.

- Não vai sair da cidade nos próximos dois dias, não é verdade?Perguntou em tom agradável.

- Não tenho planos para isso.

- Bom - disse Emily Barlow. - Com certeza precisaremos de voltar a falar consigo. E com os seus sogros também.

- Claro. Mas quanto ao outro assunto... Trevor... Mr. Ruddock...? Com certeza quererão...? - No entanto, não completou a frase. Não se atreveu.

Ruddock tem um motivo foram as palavras que Ian Armstrong não se atreveu a pronunciar. Porque, embora Haytham Querashi tivesse feito os dois homens perder o emprego, apenas um beneficiara de imediato com a morte do paquistanês. E todos à volta da mesa sabiam que o principal beneficiário do primeiro acto de violência em cinco anos na península de Trending estava sentado no antigo gabinete de Querashi, depois de ter retomado o emprego que perdera, quando da chegada do mesmo Querashi a Inglaterra.

 

CLIFF HEGARTY VIU-AS SAIR JUNTAS da fábrica de mostarda. Não tinham entrado as duas ao mesmo tempo. Pelo contrário, vira apenas a tipa baixa e gorda, com o penteado à tigela, sair de um Austin Mini em mau estado, com um saco do tamanho de um marco de correio. Não lhe dera grande atenção a não ser para se interrogar porque razão uma mulher com aquele corpo usava umas calças assim que apenas serviam para lhe acentuar a falta de cintura. Vira-a, avaliara a sua aparência e, distraidamente, registara-a como alguém que provavelmente não se interessaria pelas Distracções para Adultos. Depois esquecera-a. Foi apenas quando a voltou a ver que percebeu quem, ou melhor, o que ela era. Então soube que o dia, que já começara mal, tinha um inevitável potencial para se tornar pior.

Da segunda vez que a viu, vinha acompanhada por outra mulher. Esta era mais alta e atlética ao ponto de parecer ser capaz de levar ao tapete um urso polar; tinha um porte tão imponente, que só poderia haver uma explicação para a sua presença na Mostardas Malik durante o rescaldo do crime do Nez. Era da bófia, pensou Cliff. Tinha de ser. E a outra - com quem a primeira mantinha uma conversa profissional, ou mesmo íntima - tinha também de ser um chui.

Merda, pensou. A última coisa de que precisava era de chuis a meterem o nariz na zona industrial. Já lhe chegava a Câmara. Adoravam persegui-lo e, apesar da conversa de que queriam impedir a morte económica de Balford, também gostariam muito de o ver falido. Aqueles dois chuis - dois chuis mulheres - adorariam juntar-se à oposição, logo que vissem os puzzles. Sem dúvida, haveriam de os ver. Se entrassem para dar dois dedos de conversa, o que era o mais certo, logo que tivessem tempo de descobrir toda a gente que tivesse posto os olhos no cadáver antes de o vir a ser, acabariam por dar elas próprias uma olhadela. A visita em si, para além das perguntas que fariam e a que ele havia de tentar não responder, era um dos futuros acontecimentos pelos quais Cliff não ansiava com alegria.

O negócio consistia quase exclusivamente em vendas pelo correio, por isso Cliff não entendia o porquê de tanto barulho a respeito dos puzzles. Não os anunciava no Tendring Standard, nem colocava cartazes nos estabelecimentos da rua das lojas. Era muito mais discreto. Que diabo, era sempre discreto.

Mas a discrição não contava, uma vez que os chuis começassem a arranjar problemas. Cliff sabia-o dos seus tempos em Earl Court. Quando a polícia seguia por determinado caminho, começava a bater todos os dias à porta de uma pessoa. Só uma perguntinha, Mr. Hegarty? Pode ajudar-nos com um pequeno problema, Mr. Hegarty? Quer vir até à esquadra, para podermos conversar? Houve um roubo numa loja (um assalto a uma pessoa, ou uma carteira que desapareceu, fosse o que fosse) e gostaríamos de saber onde estava nessa noite. Podemos comparar as suas impressões digitais? Só para o ilibar de suspeitas, claro. E por aí adiante, até que a única maneira de acabar com aquilo era mudar de sítio e começar tudo noutro lado.

Cliff sabia que o podia fazer. Já lhe acontecera. Mas fora nos tempos em que estava sozinho. Agora tinha uma pessoa - e desta vez não era apenas um engate, mas alguém com um emprego, com futuro, e um sítio decente para morar, na marginal em Jaywick Sands - não lhe apetecia nada ser obrigado a sair de lá. Isto porque, enquanto Cliff Hegarty não teria dificuldade em recomeçar o negócio em qualquer outro lugar, não seria tão fácil para Gerry DeVitt arranjar emprego na construção civil. Com a promessa do futuro desenvolvimento de Balford quase a tornar-se realidade, o futuro deste último parecia risonho. Não estaria disposto a pôr-se a andar, logo agora que havia a perspectiva de ganhar bom dinheiro.

Não que o dinheiro fosse a preocupação de Gerry, pensou Cliff. Fosse esse o caso e a vida seria muito mais fácil. A vida seria óptima se Gerry se limitasse a ir todas as manhãs para o emprego e se estafasse a trabalhar nas obras daquele restaurante do pontão. Voltaria para casa cheio de calor, suado, cansado, e não pensaria em mais nada senão em comer e dormir. Continuaria a pensar no bónus que os Shaw lhe tinham prometido se ele conseguisse ter a casa pronta para abrir no próximo feriado. Assim, não se preocuparia com outras coisas.

Para grande ansiedade de Cliff, era exactamente o que estava a fazer naquela manhã.

Cliff fora para a cozinha às seis da manhã, tendo acordado de um sono espasmódico ao aperceber-se de repente que Gerry já não estava a seu lado na cama. Vestira o roupão turco e descobrira o outro, completamente vestido, à janela, onde aparentemente, já estava desde havia algum tempo. A janela dava para um metro e meio de passeio de betão, para lá do qual estava a marginal, e depois, o mar. Gerry conservara-se ali, com uma caneca de café na mão, absorvido naquele género de pensamentos particulares que sempre preocupavam Cliff.

Gerry não era pessoa de guardar para si os seus pensamentos. Para ele, ser amante significava viver muito junto a outra pessoa, o que, por sua vez, queria dizer conversas íntimas, confidências e infindáveis avaliações do estado da relação. Cliff não gostava de se envolver desta maneira com um tipo, mas aprendeu a aguentar. Afinal, a casa era de Gerry e, mesmo se assim não fosse, gostava muito dele. Aprendeu por si a colaborar nas conversas com uma certa dose de boa vontade contrariada.

Mas, recentemente, a situação alterara-se subtilmente entre eles. A preocupação de Gerry pelo estado da relação parecia ter desaparecido. Deixara de falar tanto a esse respeito e já não se agarrava a Cliff, o que era mau sinal. Isto fez com que este último quisesse começar a agarrar-se a ele, o que era ridículo, parvo e, simplesmente, idiota. Ainda por cima porque na maior parte das vezes era Cliff que precisava de espaço e Gerry que não lho queria dar.

Cliff foi ter com ele à janela da cozinha. Por cima do ombro do amante, vira que laivos brilhantes da luz da manhã começavam a aparecer sobre o mar. Na contraluz, um barco de pesca dirigia-se para norte e as gaivotas desenhavam-se no céu. Embora Cliff não fosse apreciador de belezas naturais, sabia quando um panorama era digno de ser contemplado.

Fora isso que Gerry estivera a fazer, quando Cliff se juntou a ele. Parecia meditar.

Cliff colocou a mão no pescoço de Gerry, sabendo que, no passado, os papéis tinham sido opostos. Gerry teria oferecido a carícia, um toque suave, mas, mesmo assim, exigente, como se dissesse: Reconhece-me, por favor, diz-me que também me amas do mesmo modo cego e abnegado que eu te quero.

Antes, Cliff teria rejeitado a mão de Gerry. Não, para dizer a verdade, a primeira reacção teria sido dar-lhe uma palmada para que ele a retirasse. De facto teria até gostado de o empurrar para o outro lado do quarto, porque o contacto com ele - tão solícito e terno - exigir-lhe-ia coisas que ele não tinha energia ou capacidade para oferecer. Nessa manhã deu consigo a representar o papel de Gerry, desejando receber um sinal de que aquela relação se mantinha intacta e, principalmente, no espírito do outro homem.

Gerry agitara-se ao contacto da mão, como se tivesse acordado de um sono. Os dedos dele esforçaram-se por lhe tocar, mas esse gesto pareceu a Cliff um dever, semelhante àqueles beijos secos e rígidos, trocados pelas pessoas que vivem juntas há demasiado tempo.

Cliff retirara a mão do pescoço de Gerry. Merda, pensou sem saber o que dizer. Começou com o que era óbvio:

- Não conseguias dormir? Há quanto tempo te levantaste?

- Há um bocado - Gerry ergueu a caneca do café.

Cliff observara o reflexo do outro no vidro e tentou lê-lo. Mas, porque era uma imagem matinal, e não nocturna, pouco mais revelava do que a sua forma, um homem robusto, grande e sólido, com um corpo firme e forte, resultante do trabalho.

- Que se passa? - Perguntara Cliff.

- Nada. Não tinha sono. Está muito calor para mim. Este tempo é inacreditável. Parece que vivemos em Acapulco.

Cliff reagiu de maneira idêntica a Gerry, se as posições fossem contrárias.

- Quem te dera que vivêssemos em Acapulco - disse. - Tu e todos aqueles rapazes mexicanos...

Esperou que o amigo o tranquilizasse da mesma forma que dantes lho teria exigido: Eu e rapazes mexicanos? Estás parvo, homem? Que me interessam eles quando te tenho a ti?

Mas nada disso acontecera. Cliff meteu as mãos nos bolsos do roupão.

Bolas, pensou com desprezo por si próprio. Quem diria que caíria nas

garras da insegurança? Ele - Cliff Hegarty, não Gerry DeVitt - que sempre considerara a fidelidade como uma paragem nas boxes antes da corrida para a cova; ele, que pregara contra o perigo de ver a mesma cara cansada todas as manhãs, ao pequeno-almoço, ou de encontrar todas as noites o mesmo corpo cansado na cama. Sempre dissera que, alguns anos depois de viver assim, apenas um encontro secreto com alguém - alguém que apreciasse a emoção da caça, os prazeres do anonimato ou a excitação do engano - estimularia o corpo de um tipo para funcionar com o seu amante de há muito tempo. Era assim mesmo, dissera, era a vida.

Mas Gerry não deveria acreditar que Cliff dissera aquilo a sério. Não que diabo. Gerry deveria dizer com resignação irónica: Certo, amigo. Continua a falar porque isso sabes tu fazer e conversa é só conversa. A última coisa que Cliff esperava era que Gerry levasse a sério as suas palavras.

No entanto, sentindo subitamente um frio no estômago apercebeu-se que era isso mesmo que deveria ter acontecido.

Apetecia-lhe dizer em tom beligerante: Olha, queres acabar, Ger?, Mas estava com medo de qual pudesse ser a resposta do amante. Percebeu claramente que, embora falasse da corrida para a cova, não se queria separar de gerry. Não era só por causa do apartamento em Jaywick Sands, a poucos metros da praia, onde Cliff gostava de passear; nem por causa do velho barco a motor que Gerry arranjara amorosamente e no qual os dois saíam para o mar, no Verão; nem sequer porque Jerry tivesse andado a falar de umas férias na Austrália, durante os meses em que o vento soprava como um ciclone siberiano. Cliff não queria separar-se de Gerry porque... bem, era confortável estar com uma pessoa que dizia acreditar na fidelidade permanente... mesmo que nunca Lho tivesse dito.

Foi por isso que Cliff disse com maior indiferença do que aquela que

realmente sentia:

- Andas à procura de um mexicano, Ger? Preferes agora carne mais

escura?

Ao ouvir isto, Gerry voltou-se. Colocou a caneca na mesa.

- Estás com ciúmes? Posso saber porquê?

Cliff sorriu e levantou as mãos, fingindo uma defesa.

- Nem penses. Olha. Não se trata de mim. Estamos juntos há tempo suficiente para saber quando se passa alguma coisa. Só pergunto se queres falar sobre isso.

Gerry recuou e atravessou a cozinha em direcção ao frigorífico. Abriu-o. Começou a procurar os ingredientes para o seu pequeno-almoço habitual, colocando quatro ovos numa tigela e retirando quatro salsichas de uma embalagem.

- Estás chateado com alguma coisa? - Cliff apalpava nervosamente o cinto do roupão. Voltou a apertá-lo e meteu mais uma vez as mãos nos bolsos. - Está bem, sei que fui inconveniente quando cancelaste as férias na Costa Rica, mas pensei que já tivéssemos resolvido isso. Sei que a obra do pontão é importante para ti, juntamente com as obras da tal casa... O que te estou a dizer é que sei que não tem havido muito trabalho até hoje, mas agora há e queres aproveitar, portanto não podes ter férias. Compreendo. Por isso estavas chateado com o que eu disse..

- Não estava chateado - disse Gerry. Partiu os ovos e bateu-os na tigela enquanto as salsichas começavam a estalar no fogão.

- Bom, ainda bem.

Mas estaria mesmo tudo bem? Cliff achava que não. Ultimamente começara a notar certas alterações em Gerry: longos silêncios, pouco habituais nele, ao fim-de-semana, o isolamento frequente na garagem, onde tocava bateria; as longas noites que passava a trabalhar naquela obra particular em Balford; os intensos olhares críticos que lançava a Cliff quando pensava que este não estava a olhar. Claro, talvez Ger não estivesse chateado naquele momento. Mas, de certeza, havia qualquer coisa.

Cliff sabia que deveria dizer mais qualquer coisa, mas apercebeu-se que queria sair dali. De qualquer modo, pensou que seria mais sensato fingir que tudo estava bem, apesar das muitas indicações contraditórias. Era mais sensato do que correr o risco de descobrir alguma coisa que não lhe interessasse saber.

Mesmo assim, permaneceu na cozinha. Observava o modo como o amante se movimentava e tentava perceber a razão pela qual Gerry fazia o pequeno-almoço com um misto de segurança e concentração. Não que não fosse habitual nele ser assim. Para ter êxito no trabalho que fazia, precisava de ambas as qualidades. Mas Gerry não costumava demonstrar nenhuma delas quando estava com Cliff.

No entanto, agora... Gerry estava diferente. Não era o mesmo homem que sempre se preocupara em resolver os problemas, responder às perguntas e atenuar as irritações sem qualquer deles levantar a voz. Este Gery parecia e agia como se soubesse exactamente o que tinha de fazer para conseguir o que queria.

Cliff não quisera pensar no que tudo aquilo significava. Apetecia-lhe acima de tudo ter ficado na cama. Ouviu o trabalhar do relógio da cozinha na parede por trás de si e pareceu-lhe o bater do tambor que marca os passos do condenado para o cadafalso. Merda, pensou. Caraças, raios, merda.

Gerry levara o pequeno-almoço para a mesa. Era uma refeição substancial, para o aguentar até ao almoço: ovos, salsichas duas peças de fruta, torradas e compota. Mas, depois da mesa posta, com os talheres já em posição, o copo já com sumo e o guardanapo metido na camisola, não comeu. Olhou apenas para a comida, rodeou o copo de sumo com a mão e engoliu em seco, tão alto que Cliff pensou que ficara sufocado com uma pedra.

A seguir, levantou os olhos.

- Acho - disse Gerry - que temos ambos de fazer análises ao sangue. As paredes da cozinha ondularam; o chão estremeceu. E Cliff recordou com rapidez doentia a história que partilhavam.

Seriam sempre assombrados por aquilo que eram, dois rapazes que mentiam às respectivas famílias sobre como, quando e onde se tinham encontrado: numa casa-de-banho pública na altura em que tomar precauções nem por sombras era tão importante como engatar o primeiro que estivesse disposto. Ele e Ger sabiam a verdade um sobre o outro, sabiam quem tinham sido e, mais importante, quem poderiam facilmente voltar a ser, se a altura fosse certa e a tentação existisse e ainda se a casa-de-banho da praça do mercado não tivesse ninguém, senão outro fulano disposto.

Cliff quisera rir, fingir que tinha ouvido mal. Pensou dizer Estás parvo? De que é que estás a falar, homem?

Mas não disse nada. Porque há muito tempo aprendera que se devia esperar que o pânico e o terror acalmassem antes de dizer a primeira coisa que lhe viesse à cabeça.

- Eh! Amo-te Gerry DeVitt - declarou por fim.

Gerry baixou a cabeça e começou a chorar.

Agora Cliff via as duas agentes conversarem do lado de fora da Distracções para Adultos, como duas coscuvilheiras a beber chá. Sabia que em breve visitariam todas as empresas da zona industrial. Teria de ser. O paquistanês tinha sido assassinado e haviam de querer falar com quem o tivesse visto, falado com ele ou observado a falar com outra pessoa. A seguir ao sítio onde morava, a zona industrial era o sítio mais lógico para começar. Seria apenas uma questão de tempo até chegarem à Hegarty - Distracções para Adultos.

- Merda - murmurou Cliff. Suava, apesar do ar condicionado na janela soprar uma brisa gelada na sua direcção. Não precisava nada de problemas com a bófia. Tinha de os afastar de Gerry. E tinha de evitar dizer a verdade a quem quer que fosse.

Um espectacular carro desportivo azul-turquesa entrou na zona industrial; justamente no momento em que Emily dizia:

- Podemos ter a certeza de uma coisa, baseada no facto de que Sahlah não sabe quem é F. Kumhar. É um homem, como pensei desde o início.

- Como sabes?

Emily ergueu a mão como que para adiar por um momento a pergunta de Barbara, enquanto o carro entrava no atalho. Era um descapotável americano, com linhas esguias, o interior com assentos de cabedal e cromados que brilhavam como platina polida. Um Thunderbird desportivo, pensou Barbara, com pelo menos quarenta anos e perfeitamente recuperado. Alguém andava a nadar em dinheiro.

O condutor era um homem de vinte e tal anos, pele morena e cabelo comprido atado num rabo-de-cavalo. Usava óculos escuros de um estilo que Barbara sempre associara com chulos, prostitutos e batoteiros. Reconheceu-o da manifestação que vira na televisão no dia anterior. Muhannad Malik.

Taymullah Azhar estava com ele. Diga-se, em abono da verdade, que não parecia muito à vontade por chegar à fábrica, como se tivesse fugido de um episódio de Miami Vice.

Os homens saíram. Azhar ficou junto ao carro, com os braços cruzados, enquanto Muhannad se dirigiu lentamente às polícias. Tirou os óculos escuros e meteu-os no bolso na camisa branca. Esta estava engomada na perfeição, muito limpa, e ele usava-a com umas calças de ganga e botas de pele de cobra.

Emily fez as apresentações. Barbara sentiu as palmas das mãos húmidas. Era agora o momento de dizer ao inspector que não precisava ser apresentada a Taymullah Azhar, mas calou-se. Esperou que por seu lado, Azhar esclarecesse o assunto com o primo. Azhar olhou na direcção de Muhannad, mas também não disse nada. Era uma viragem inesperada. Barbara decidiu esperar para ver onde os levava.

O olhar de Muhannad passou sobre ela fazendo aquele tipo de avaliação desprezível, que fazia com que lhe apetecesse arrancar-lhe os olhos. Não deixou de se aproximar delas, de certeza, senão quando estava perto demais para uma conversa à vontade.

- É este o seu agente de ligação? - Deu uma acentuação irónica à frase.

- O sargento Havers vai reunir-se convosco esta tarde - disse Emily.

- Às cinco na esquadra.

- Às quatro horas seria mais conveniente para nós - contrapôs Muhannad. Não tentou disfarçar o objectivo da afirmação: uma tentativa para dominar.

Emily não alinhou.

- Infelizmente, não posso garantir que o meu agente esteja disponível às quatro - disse ela, imperturbável. - Mas pode ir a essa hora. Se o sargento Havers não estiver quando chegarem, um agente tratará de que fiquem bem instalados.

O asiático observou primeiro Emily e depois Barbara, com uma expressão que sugeria estar em presença de um odor que não conseguia identifi car. Quando acabou, voltou-se para Azhar.

- Primo - disse e dirigiu-se para a porta da fábrica.

- Kumhar, Mr. Malik - exclamou Emily, na altura em que ele punha a mão no puxador da porta. - A primeira inicial é F.

Muhannad parou e voltou-se:

- Perguntou alguma coisa, inspector Barlow?

- O nome é-lhe familiar?

- Porque pergunta?

- Apareceu. Nem a sua irmã, nem Mr. Armstrong o reconheceram. Pensei que talvez o senhor. .

- Porquê?

- Por causa da Jum'a. Kumhar é membro?

- Jum'a? - Barbara reparou que o rosto de Muhannad nada traía.

- Sim, a Jum'a. O vosso clube, a vossa organização, a vossa fraternidade. Seja lá o que for. Pensavam que a polícia não sabia?

Ele riu baixinho.

- O que a polícia não sabe caberia em muitos livros - e empurrou a porta.

- Conhece Kumhar? - Insistiu Emily. - O nome é asiático, não é verdade?

Muhannad deteve-se entre a luz e a sombra.

- O seu racismo é bem patente, inspector. Lá porque o nome é asiático, não quer dizer que eu conheça o homem.

- Eu não disse que Kumhar era um homem, pois não?

- Não se exceda. Perguntou-me se Kumhar pertencia à Jum'a, então suponho que saiba que é uma associação só com membros do sexo masculino. Bom, mais alguma coisa? Porque, se não há, eu e o meu primo temos trabalho lá dentro.

- Sim, há mais uma coisa - disse Emily - Onde estava na noite em que Mr. Querashi morreu?

Muhannad largou o puxador da porta. Voltou para a luz e colocou mais uma vez os óculos escuros no nariz.

- O quê? - Perguntou calmamente, sem dúvida, mais para conseguir um certo efeito, do que por não ter ouvido a pergunta.

- Onde estava na noite em que morreu Mr. Querashi - repetiu Emily. Ele refilou.

- Foi aí que a sua investigação a levou. Exactamente onde eu esperava. Morreu um paquistanês, então foi um paquistanês. E quem melhor do que eu para realizar as suas esperanças, o paquistanês de eleição.

- Realmente a sua afirmação intriga-me - notou Emily. - Talvez a queira explicar.

Tirou os óculos mais uma vez. Tinha o olhar cheio de desprezo. Atrás dele, a expressão de Taymullah Azhar era reticente.

- Eu meti-me no seu caminho - disse Malik. - Eu tomo conta da minha gente. Quero que se orgulhem de ser quem são. Quero que andem com a cabeça bem levantada. Quero que saibam que não precisam de ser brancos para serem dignos. E é exactamente o que a senhora não quer, inspector Barlow. Assim, haverá melhor maneira de oprimir o meu povo, de o humilhar até à subserviência, do que fazer de mim o alvo da sua patética investigação?

O homem não era atrasado mental, pensou Barbara. O que poderia ser mais eficaz para elininar a dissidência numa comunidade do que tentar apresentar o chefe dos dissidentes como um deus de lata, mentiroso? Só que... talvez fosse. Barbara atreveu-se a lançar a Azhar um olhar rápido, para ver como reagia à troca de palavras entre o inspector e o primo. Encontrou-o a olhar, não para Emily, mas para si. Vê? Parecia dizer a sua expressão. Não é verdade que a nossa conversa ao pequeno-almoço foi premonitória?

- É uma boa análise dos meus motivos - disse Emily a Muhannad. E com toda a certeza poderemos discuti-la mais tarde.

- Em frente aos seus superiores.

- Como queira. Mas, por favor, responda à minha pergunta, ou terá de vir à esquadra para pensar no assunto.

- Gostava, não gostava? - disse Malik. - Peço perdão por ter de a privar desse prazer. - Virou-se para a porta e abriu-a de par em par. - Rakin Khan. Vai encontrá-lo em Colchester, o que acho eu, não é tarefa difícil para uma pessoa com as suas admiráveis capacidades de investigação.

- Esteve com uma pessoa chamada Rakin Khan na sexta-feira à noite?

- Desculpe, se a desapontei. - Não esperou pela resposta. Desapareceu no edifício.

Azhar fez um aceno a Emily e seguiu-o.

- É rápido - disse Barbara com desagrado. - Mas deveria deitar ao mar aqueles óculos. - Repetiu a pergunta que tinha feito momentos antes da chegada de Muhannad. - Como sabes que Kumhar é um homem?

- Porque Sahlah não o conhecia.

- E então? Como Malik acabou de dizer...

- Tretas, Barbara. A comunidade asiática de Balford é pequena e muito unida. Se há um F. Kumhar entre eles, acredita que Muhannad Malik o conhece com toda a certeza.

- E a irmã não?

- Porque é mulher. A família segue a tradição. Vê o casamento. Sahlah conhecerá as mulheres da comunidade asiática e os homens que trabalham aqui na fábrica. Mas isso não quer dizer que conheça outros homens, a menos que sejam casados com as suas conhecidas ou tenham sido seus colegas na escola. Como haveria de os conhecer? Olha para a vida dela. Provavelmente não sai com rapazes. Não vai a bares. Não se movimenta livremente em Balford. Não foi estudar para fora. É quase uma prisioneira. Portanto, não está a mentir, o que sem dúvida poderia fazer.

- Sim. Poderia fazê-lo - interrompeu Barbara. - Porque F. Kumhar poderia muito bem ser uma mulher e ela saberia. De facto F. Kumhar poderia ser a mulher. E Sahlah poderia ter-se apercebido disso.

Emily remexeu o saco e retirou de lá os óculos escuros. Distraidamente, limpou-os na camisola, antes de responder.

- O talão do cheque diz-nos que Querashi pagou a Kumhar quatrocentas libras. Um único cheque, um único pagamento. Se o cheque tivesse sido

passado a uma mulher, o que lhe estaria Querashi a pagar?

- Chantagem - sugeriu Barbara.

- Então para quê matar Querashi? Se este estava a ser chantageado por F. Kumhar e tinha pago, então para quê partir-lhe o pescoço? Seria matar a galinha dos ovos de ouro.

Barbara meditou sobre as perguntas do inspector.

- Ele andava a sair à noite. Andava a encontrar-se com alguém. Levava preservativos. F. Kumhar não poderia ser a mulher com quem ele andava?

E F. Kumhar não poderia ter ficado grávida.

- Então para quê os preservativos, se ela já estava grávida?

- Porque ele já não se encontrava com ela. Já andava com outra pessoa.

E F. Kumhar sabia.

- E as quatrocentas libras? Para que eram? Para um aborto?

- Um aborto muito particular. Talvez até um aborto mal feito.

- Com alguém a querer vingar-se depois?

- Porque não? Querashi estava aqui há mês e meio. É o suficiente para engravidar uma pessoa. Se se soubesse o que tinha feito, sem dúvida a uma mulher asiática, para quem a virgindade ou a castidade são muito importantes, talvez o pai, o irmão, o marido ou qualquer outro parente, quisesse reparar as coisas. Então? Morreu ultimamente alguma mulher asiática? Deu entrada alguma no hospital com hemorragias suspeitas? Precisamos de ver isso, Em.

Emily olhou-a de lado.

- Já desististe de Armstrong? Ainda temos as impressões digitais dele

no Nissan, sabes? E ele afinal está sentado ali dentro, todo satisfeito,

a trabalhar no lugar de Querashi.

Barbara olhou mais uma vez para o edifício, lembrando-se de Mr. Ian Armstrong, a suar copiosamente, enquanto descrevia ao inspector Barlow os seus movimentos.

- As glândulas sudoríferas dele estavam em pleno funcionamento admitiu. - Então eu não o riscava da lista.

- E se os sogros corroborarem a história do telefonema de sexta-feira à noite?

- Então teremos de ir cheirar os registos da British Telecom.

Emily deu uma gargalhada.

- És mesmo um cão de fila, sargento Havers. Se alguma vez quiseres trocar a Scotland Yard pela praia, num instante te meto na minha equipa.

Barbara sentiu uma onda de prazer com o elogio do inspector. Mas não era pessoa para dormir à sombra de um elogio, por isso disfarçou e tirou da mala as chaves do carro.

- Está bem. Quero verificar a história de Sahlah a respeito da pulseira. Se a atirou do pontão no sábado à tarde, então alguém a deve ter visto. Não é possível que não reparassem nela, com aquela roupa. Então não será melhor procurar também esse tal Trevor Ruddock? Se trabalha no pontão, mato logo dois coelhos.

Emily acenou afirmativamente.

- Descobre-o. Entretanto vou tratar desse Rakin Khan, com que Muhannad quer que eu vá falar, embora eu não tenha dúvidas de que vai confirmar o álibi. Há-de querer que o seu irmão Muçulmano - como foi exactamente que o nosso Muhannad disse? - possa manter a cabeça levantada. Aí tens uma deliciosa imagem para meditação. - Riu-se e dirigiu-se ao carro.

Com um aceno, fez-se à estrada na direcção de Colchester e de outro álibi.

Para Barbara, dar um passeio até ao pontão das diversões, pela primeira vez, desde os dezasseis anos, não foi, conforme esperava, voltar aos horizontes da memória. O pontão estava muito diferente com um letreiro luminoso nas cores do arco-íris, por cima da entrada, dizendo ATRACÇÕES SHaw. No entanto a tinta fresca, a madeira recém-colocada, as cadeiras de estender novas, o carrocel e as tômbolas, bem como um moderno salão de jogos que tudo oferecia, desde as antigas máquinas de moedas até aos vídeojogos, não alteravam os cheiros das visitas anuais a Balford, impossíveis de afastar da sua recordação. O aroma do peixe frito com batatas fritas, dos hamburgers, das pipocas e do algodão-doce, misturava-se com o ar salgado.

Os sons também eram os mesmos: as crianças a rir e a gritar, as máquinas de jogos tilintando, numa cacofonia, o realejo a tocar, enquanto os cavalos do carrossel se erguiam e baixavam com os seus paus brilhantes de metal.

Mais à frente, o pontão entrava pelo mar dentro, alargando-se em forma de espátula, no extremo. Barbara foi até lá, onde a velha Jack Awkin's Cafeteria estava a ser arranjada e de onde Sahlah Malik alegara ter atirado ao mar a pulseira que comprara para o noivo.

Das instalações da antiga cafetaria erguia-se o som de vozes aos gritos, que se sobrepunham ao barulho das ferramentas contra o metal e ao assobio agudo de um maçarico que soldava um reforço na estrutura original. O calor parecia vibrar na obra e, quando Barbara espreitou lá para dentro, sentiu no rosto o seu pulsar.

Os trabalhadores estavam pouco vestidos. Calças de ganga cortadas

à altura das coxas, botas de sola grossa e t-shirts sujas, ou tronco nu, era o uniforme escolhido por eles. Eram homens musculosos, concentrados no trabalho. Mas quando um deles vislumbrou Barbara, largou as ferramentas e gritou:

- Não pode entrar! Não sabe ler? Desapareça antes que lhe aconteça

alguma coisa.

Barbara puxou do crachá, mais para impressionar, pois aquela distância, ele não poderia vislumbrá-lo, e gritou:

- Polícia!

- Gerry! - O homem dirigiu-se a um soldador que usava capacete de

protecção concentrando-se na chama que apontava na direcção do metal.

Parecia esquecido de tudo o resto.

- Gerry! Ei! DeVitt!

Barbara passou por cima de três vigas que estavam no chão à espera de ser colocadas. Evitou pisar uns enormes rolos de fio eléctrico e uma pilha de caixas de madeira por abrir.

Alguém gritou:

- Saia daí. Quer magoar-se.

Aparentemente, foi isto que chamou a atenção de Gerry. Olhou para

cima, viu Barbara e desligou o maçarico. Retirou o capacete mostrando a cabeça coberta por um lenço. Tirou-o e, com ele, limpou primeiro o rosto e a seguir o crânio calvo e luzidio. Tal como os outros usava calças de ganga cortadas e uma camisola de alças. Tinha um corpo que imediatamente engordaria, se fosse exposto a um tipo de alimentação pouco saudável ou a um período de inactividade. Mas não era esse o caso. Estava em forma e queimado do sol.

Antes de também ele, ter oportunidade de a avisar, Barbara ergueu o crachá e disse:

- Polícia. Posso falar com vocês, malta?

Ele franziu a testa e voltou a colocar o lenço na cabeça. Atou-o na nuca e, em conjunto com o único brinco que usava, tinha um certo ar de pirata.

Cuspiu para o chão - mas pelo menos virou a cara - e procurou no bolso uma embalagem de pastilhas. Meteu uma na boca.

- Gerry DeVitt - disse. - Sou o capataz. O que se passa?

Não se aproximou, por isso Barbara não conseguiu ler a identificação.

Apresentou-se e, embora ele tenha feito um leve movimento com as sobrancelhas quando ela disse New Scotland Yard, não evidenciou qualquer outro tipo de reacção.

Olhou para o relógio e disse:

- Não temos muito tempo para interromper o trabalho.

- Cinco minutos - disse Barbara. - Talvez menos. Descansem que não há problemas.

Ele ouviu e depois acenou com a cabeça. De qualquer modo a maior parte do trabalho da obra tinha parado, por isso chamou os homens. Eram sete, todos cheirando a suor e sujos.

- Muito obrigado - disse Barbara a DeVitt. Explicou aquilo que andava à procura: a confirmação de que uma jovem, provavelmente vestida com o traje asiático tradicional, viera até ao extremo do pontão para atirar uma coisa ao mar. - Deve ter sido de tarde - disse Barbara. - Trabalham ao sábado?

- Trabalhamos - disse DeVitt. - A que horas?

Como Sahlah dissera não saber a hora certa, Barbara pensava Que, se a istória fosse exacta e ela tivesse ido trabalhar naquele dia, como desculpa para sair de casa, teria sido provavelmente ao fim da tarde. Teria feito um desvio antes de voltar para casa.

- Mais ou menos às cinco horas.

Gerry abanou a cabeça.

- Saímos daqui às quatro e meia. - Voltou-se para os homens. algum de vocês viu a miúda? Ficou cá alguém depois das cinco?

Um deles disse.

- Deves estar a brincar!

E os outros riram como que a confirmar o ridículo de ficar no trabalho mais do que era preciso. Ninguém foi capaz de corroborar a história de Sahlah Malik.

- Se ainda aqui estivéssemos, teríamos dado por ela - disse DeVitt. Apontou com o polegar para os outros trabalhadores. - Estes? Quando aparecesse por aí um borracho, até se põem de joelhos para lhe chamar a atenção.

- Os homens riram. DeVitt sorriu e perguntou a Barbara: - Essa de quem está a falar, é alguma coisa de jeito?

Era muito bonita, confirmou Barbara. O tipo de mulher para quem se olha duas vezes. E com a roupa que trazia - aqui na praia onde as mulheres vestidas como Sahlah raramente andavam sozinhas - não teria passado despercebida.

- Então deve ter sido depois de nos termos ido embora - disse DeVitt.

- Mais alguma coisa?

Não. Mas, de qualquer modo, Barbara entregou-lhe um dos seus cartões, depois de ter escrito por trás dele o nome do Burnt House Hotel. Se ele se lembrasse de alguma coisa. .

- É assim tão importante? Perguntou DeVitt, com curiosidade. Terá a ver com... como está a falar de uma asiática, terá a ver com o tipo que morreu?

Apenas queria confirmar alguns factos, disse Barbara. E era tudo o que lhes podia dizer naquela altura. Mas se se lembrassem de alguma coisa que tivesse a ver com o incidente.

- Duvido - disse DeVitt, metendo o cartão no bolso de trás das calças.

- Não nos misturamos com paquistaneses. É muito mais simples.

- Como assim?

Ele encolheu os ombros.

- Eles têm os seus hábitos e nós temos os nossos. Se nos misturarmos há sarilho. Tipos como nós - apontou os trabalhadores com um gesto do braço - não têm tempo para problemas. Trabalhamos muito, depois bebemos umas cervejas e vamos para casa, para podermos voltar ao trabalho na manhã seguinte. - Agarrou mais uma vez no capacete de protecção e no maçarico e disse: - Se essa miúda é importante para o assunto, o melhor é falar com as outras pessoas que andam pelo pontão. Alguém a deve ter visto passar.

Era o que iria fazer, disse-lhes Barbara. Acenou em sinal de agradecimento e saiu da obra. Pois, pensou. Mas DeVitt, tinha razão. As atracções do pontão estavam abertas de manhã até à noite. A menos que Sahlah tivesse ido a nado ou de barco até ao extremo do pontão e tivesse trepado a ele para lá do alto atirar dramaticamente a pulseira ao mar, teria obrigatoriamente passado por todos eles.

Era um trabalho difícil, exactamente o tipo de interrogatório que Barbara sempre detestara. Mas começou a trabalhar afincadamente, de atracção em atracção, começando pelo carrossel das chávenas, chamado A Valsa, e acabando numa barraca que vendia comida para fora. O extremo do pontão que dava para terra era coberto por um tecto de vidro sobre o salão de jogos, o carrossel e os divertimentos para as crianças. Aqui o barulho era intenso e Barbara tinha de gritar para se fazer ouvir. Mas ninguém conseguiu confirmar a história de Sahlah, nem sequer Rosalie, a romena que lia a sina sentada numa tripeça à entrada da barraca. Tinha sobre si xailes de várias cores, suava, fumava, abanava-se com um prato de papel e observava todos os transeuntes como se fossem potenciais clientes para uma leitura da mão em troca de uma nota de cinco libras. Se alguém tivesse visto Sahlah Malik, Rosalie seria a candidata mais provável. Mas não. Porém ofereceu- se para ler a sina a Barbara: a mão, o tarot ou a aura.

- Fazer-lhe bem, querida - disse solidária. - Rosalie saber. Barbara desculpou-se, dizendo que se o futuro havia de ser tão encantador como o passado, mais valia ficar na ignorância.

Parou no Jack Wilies - Peixe Fresco e Mariscos e comprou uma embalagem de arenques fritos, coisa que havia anos não comia. Eram servidos devidamente engordurados e com uma dose de molho tártaro para acompanhar. Barbara levou-os para uma esplanada e acomodou-se num dos bancos cor-de-laranja. Pensou na situação enquanto mastigava.

Como ninguém confirmara a presença da jovem paquistanesa no pontão, havia três possibilidades. A primeira parecia a mais apropriada a lançar a confusão: Sahlah Malik estava a mentir. Se assim fosse, o passo seguinte seria descobrir porquê. A segunda possibilidade era menos plausível: Sahlah estava a dizer a verdade, embora ninguém se lembrasse de a ter visto no pontão. Durante a sua estadia aí, Barbara reparara que os trajes mais típicos entre os visitantes, eram de negro - apesar do calor - e os brincos por todo o corpo. Assim, a menos que Sahlah tivesse vindo incógnita ao pontão - que era a possibilidade número três - restava a possibilidade número um: Sahlah estava a mentir.

Acabou o arenque e limpou os dedos a um guardanapo de papel. Encostando-se ao banco, ergueu o rosto para o Sol e continuou a pensar, desta vez em F. Kumhar.

O único nome feminino muçulmano de que se lembrava, começado por F era Fatimah, embora devesse haver outros. Mas partindo do princípio que F. Kumhar a quem Querashi tinha passado um cheque de quatrocentas libras fosse uma mulher, e partindo do princípio que o cheque estivesse de algum modo ligado com a sua morte, qual seria a dedução mais plausível a respeito do dinheiro? De facto, um aborto era uma possibilidade: Querashi encontrava-se ilicitamente com alguém; levava consigo preservativos e tinha mais na mesa-de-cabeceira. Mas que mais seria possível? Uma compra qualquer, talvez a prenda para o lená-dená que Sahlah esperava receber dele, prenda essa que poderia não ter ainda ido buscar. Um emprÉstimo a alguém que precisasse, um amigo asiático que não pudesse recorrer a outros membros da família. Uma entrada para um objecto a ser entregue depois do casamento de Querashi: uma cama, um sofá, uma mesa, um frigorífico. .

Mesmo que F. Kumhar fosse um homem, as possibilidades não eram muito diferentes. O que compram as pessoas? Perguntava Barbara a si pró pria. Naturalmente compram coisas concretas, tais como valores, comida e roupa. Mas também compram coisas abstractas como a lealdade, a traição e a insubordinação. E também compram a ausência de coisas, assegurando o silêncio, a condescendência ou a partida. .

De qualquer modo havia apenas uma maneira de saber o que Querashi tinha comprado. Ela e Emily teriam de descobrir Kumhar. Nesta altura Barbara lembrou-se do segundo motivo que a trouxera ao pontão de Balford: descobrir Trevor Ruddock.

Respirou fundo e engoliu, sentindo o sabor do arenque e o depósito de gordura que lhe deixara no céu da boca. Apercebeu-se de que deveria ter comprado alguma coisa para beber que lhe levasse pela garganta abaixo aquela porcaria engordurada; de preferência deveria ser um líquido a escaldar, para a dissolver de modo a integrar-se no seu aparelho digestivo. Dentro de meia hora começaria sem dúvida a pagar o preço da sua compra no Jack Willies - Peixe Fresco e Mariscos. Talvez uma coca-cola lhe apaziguasse o estômago que já começara a fazer barulho de uma maneira assustadora.

Levantou-se olhando para o voo de duas gaivotas que pairavam sobre si para poisar no telhado que cobria a parte do pontão do lado de terra. Notou pela primeira vez que o salão de jogos tinha um primeiro andar com várias janelas. Pareciam ser de escritórios. Eram o último sítio onde procurar alguém que tivesse testemunhado uma jovem asiática caminhando pelo pontão e o primeiro sítio onde procurar Trevor Ruddock antes que alguém do pontão lhe dissesse que uma detective gorda andava à procura dele.

Dentro do salão de jogos havia umas escadas para o primeiro andar, mesmo entre o sítio onde Rosalie lia a sina e uma exposição de hologra mas. Levavam a uma única porta onde havia uma placa negra dizendo GERENCIA.

Lá dentro havia um corredor com as tais janelas, que tinham sido abertas, para apanhar a mais leve brisa que conseguisse finalmente agitar o ar tórrido. Para aqui, abriam-se gabinetes de onde emanavam sons de telefones que tocavam, conversas que decorriam, máquinas de escritório que funcionavam e ventoinhas ligadas. O espaço do escritório fora bem desenhado, pois o horrível barulho do salão de jogos, mesmo por baixo, estava completa" mente camuflado.

Porém Barbara percebeu que seria pouco provável alguém ter visto Sahlah Malik no pontão. Olhando para um dos gabinetes à sua direita reparou que as janelas davam para o mar a sul de Balford e para a fila colorida de casas de praia perto da areia. A menos que alguém tivesse passado pelo corã redor no preciso momento em que Sahlah atravessava o recinto dos Aviões

Barão Vermelho, esta só poderia ter sido observada do gabinete do fundo, cujas janelas pareciam dar para o pontão mesmo por baixo e para o mar a seu lado.

- Deseja alguma coisa? - Barbara voltou-se e viu uma jovem com dentes grandes à porta do primeiro gabinete. - Anda à procura de alguém? Estes são os gabinetes da gerência.

Enquanto falava Barbara reparou que a rapariga tinha o língua furada no centro e usava aí um brinco que cintilava. Só de ver, Barbara ficou com arrepios - o que era bastante agradável - se se pensasse no calor - e enviou aos céus uma prece de agradecimento por ter passado à idade adulta num período em que não era moda espetar as várias partes do corpo. Barbara apresentou a sua identificação e fez mecanicamente as mesmas perguntas a Língua-Furada. Mas as respostas foram as que Barbara já espe'rava. Língua-Furada, não vira ninguém que pudesse ser Sahlah no pontão.

Nunca. Uma rapariga asiática sozinha? Repetiu. Deus do Céu não se lembrava de ter visto uma coisa dessas. Pelo menos que coincidisse com a descrição do sargento.

Mas e vestida de outra maneira, quis Barbara saber.

Língua-Furada bateu pensativamente com os dentes no enfeite que tinha dentro da boca. Barbara sentiu o estômago às voltas.

Não, disse. Mas repare-se que não era o mesmo que dizer que uma jovem asiática não pudesse ter estado no pontão vestida como uma pessoa normal. Só que se estivesse vestida como uma pessoa normal... ninguém teria reparado nela, não é verdade?

Esse, naturalmente, era o problema.

Barbara perguntou quem ocupava o gabinete no fundo do corredor. Língua-Furada disse ser o gabinete de Mr. Shaw. Das Atracções Shaw, acrescentou significativamente. O sargento gostaria de falar com ele?

Porque não? Pensou Barbara. Se não conseguisse acrescentar nada ao que ela já sabia a respeito da alegada visita de Sahlah Malik ao pontão - e a porcaria seria a mesma - pelo menos, como dono do pontão havia de poder informá-la onde encontrar Trevor Ruddock.

- Então vou ver - disse Língua-Furada. Dirigiu-se à última porta e meteu a cabeça lá dentro.

- Theo? A bófia. Querem falar consigo.

Barbara não ouviu a resposta, mas logo a seguir saiu um homem do gabinete. Era mais novo do que Barbara - talvez tivesse menos de trinta anos - e vestia um elegante fato largo de linho. Tinha as mãos metidas nos bolsos e uma expressão preocupada no rosto.

- Não há mais aborrecimentos, pois não? - Olhou pela janela na direcção dos divertimentos lá de baixo. - Há algum problema?

Não se referia ao equipamento, claro. Referia-se aos clientes. Um empresário na sua posição conhecia o valor de um ambiente pacífico. E quando a polícia aparecia, normalmente havia sarilhos no ar.

- Posso dar-lhe uma palavrinha? - Pediu ela.

- Obrigado Dominique - disse Theo a Língua-Furada.

Dominique? Pensou Barbara, deveria ter um nome mais adequado.

Dominique afastou-se para o gabinete perto das escadas. Barbara seguiu Theo e entrou no outro. Viu imediatamente que as janelas davam para onde ela suspeitara: uma ficava sobranceira ao mar e a do fundo dava para o pontão. Assim, Barbara sabia que esta era a última possibilidade de alguém ter visto Sahlah Malik.

Voltou-se para ele com a pergunta feita. Esta morreu-lhe nos lábios.

Ele retirara as mãos dos bolsos enquanto ela observara a vista. E assim lhe apresentaram o objecto tão procurado.

Theo Shaw tinha no pulso uma pulseira de ouro Aloysius Kennedy.

 

LOGO QUE CONSEGUIU FUGIR da ourivesaria, Rachel tinha um único destino em vista. Sabia que tinha de fazer fosse o que fosse para mitigar a difícil situação em que as suas acções tinham colocado Sahlah, já para não falar de si própria. O problema é que não sabia exactamente o que fazer. Só que tinha de agir imediatamente. Começara a pedalar furiosamente em direcção à fábrica de mostarda. Mas quando se apercebeu de que a fábrica era o local mais lógico para o sargento se dirigir, diminuiu a velocidade e acabou por parar junto à praia.

A cara escorria-lhe. Assoprou em direcção à testa húmida para a refrescar. Tinha a garganta seca e desejou ter trazido consiguma garrafa de água. Mas não pensara em coisa alguma senão na necessidade desesperada de ir ter com Sahlah.

Porém, junto à praia apercebeu-se de que não poderia ultrapassar a polícia. E se a detective fosse em primeiro lugar a casa de Sahlah, as coisas ficariam ainda piores. A mãe de Sahlah ou aquela pérfida Yumn dir-lhe-iam a verdade, que Sahlah tinha ido trabalhar com o pai (apesar da morte inoporrtuna do seu prometido, acrescentaria sem dúvida Yumn), e assim o sargento dirigir-se-ia imediatamente à fábrica de mostarda. Que ficaria a pensar se aparecesse enquanto Rachel lá estava tentando explicar a Sahlah o que ela certamente pensava ter sido uma traição imperdoável... já para não falar em tentar avisar a amiga sobre a próxima visita da polícia que a tentaria apanhar de surpresa com as suas perguntas... Pensaria com certeza que havia ali um culpado. E embora fosse verdade que Rachel tinha algumas culpas, não era a culpada da Coisa. Não tinha feito mal a Haytham Querashi. Só que... pensando bem, talvez não fosse assim.

Puxou a bicicleta para o passeio e levou-a à mão até à muralha. Encostou-a à barreira e sentou-se cerca de um quarto de hora sentindo nas nádegas o calor do Sol erguendo-se do betão em bolhas escaldantes. Não estava disposta a voltar à loja para enfrentar as questões da mãe. Não conseguiria chegar até Sahlah antes da polícia. Por isso entendeu que teria de encontrar sítio onde ficar até a costa estar livre e poder voltar à fábrica, de bicicleta, para falar com a amiga. Era por isso que ali estava naquele momento: na Clifftop Snuggeries. Fora o único sítio de que se lembrara.

Tivera de dar uma volta enorme para ali chegar, evitando a rua das lojas e a Racon Original and Artistic Jewellery, pedalando pelo Passeio da Marina. Era um caminho mais difícil, pois tinha de subir o íngreme Passeio Superior, actividade essa que foi um completo tormento com aquele calor. No entanto, não teve outro remédio. Se tentasse chegar à urbanização subindo a Church Road, que era menos inclinada, teria de passar pela rua das lojas, directamente em frente da ourivesaria. Bastaria que a mãe a visse passar, para sair da loja como uma fúria, gritando qual vítima de assalto à mão-armada.

Assim, Rachel chegara a Snuggeries completamente estafada. Deixara a bicicleta ão lado de um poeirento canteiro de begónias e arrastou-se até às traseiras dos prédios. Havia aí um jardim, que consistia num relvado queimado pelo Sol, três canteiros estreitos com centáureas e margaridas plantadas, dois bebedouros de pedra para pássaros e um banco de madeira. Rachel deixou-se cair nele. Não estava virado para o mar, mas sim para os prédios que olhavam para ela como se silenciosamente a repreendessem, o que lhe era difícil tolerar. Mostravam aquilo que ela mais gostava: as varandas dos andares de cima, e os terraços por baixo, que davam, não só para o jardim, como também para o caminho sinuoso do Passeio das Falésias que serpenteava sobranceiro ao mar.

Para ti estou perdida, perdida, parecia dizer a Clifftop Snuggeries. Os teus belos planos foram por água abaixo, Rachel Winfield. Agora o que vais fazer?

Rachel desviou o olhar, sentindo a garganta apertada e a doer. Esfregou a testa com o braço e apeteceu-lhe um Twister, imaginando a suavidade do gelado de lima-limão a deslizar-lhe pela garganta. Voltou-se no banco para olhar para o mar. O Sol queimava impiedoso, enquanto que ao longe, no horizonte, um leve banco de nevoeiro mantinha-se havia dias.

Rachel equilibrou o queixo na mão fechada, e esta nas costas do banco. Os olhos ardiam-lhe como se soprasse um vento salgado e pestanejou com força, para que as lágrimas desaparecessem. Desejou estar em toda a parte menos ali, naquele local solitário onde a raiva, a ofensa e o ciúme a tinham trazido.

O que significava afinal prometer-se a outra pessoa? Algum tempo atrás pensara ser capaz de responder facilmente a essa pergunta. Prometer-se queria dizer estender a mão e segurar dentro dela outro coração, os segredos de outra alma e o sonho mais acalentado. Significava oferecer segurança, um refúgio onde tudo era possível e perfeitamente compreendido entre duas almas gémeas. Prometer-se significava dizer Somos iguais e Seja o que for que aconteça, enfrentá-lo-emos juntos. Era o que ela pensara um dia que fosse prometer-se. Como fora ingénua a sua promessa de lealdade.

Mas tinham começado como iguais, ela e Sahlah, duas companheiras de escola que eram as últimas a ser escolhidas para as equipas, que não eram aceites, nem convidadas, ou que simplesmente não se atreviam a ir às festas e aos bailes das colegas, que na escola primária não recebiam postais no Dia dos Namorados se não se lembrassem e não se apoiassem uma à outra. Com efeito, ela e Sahlah tinham começado como iguais. Mas era a maneira como acabavam que desequilibrava a balança.

Rachel engoliu em seco sentindo a aspereza da garganta. Não quisera, de maneira nenhuma fazer mal a quem quer que fosse. Só queria que a verdade aparecesse. Era sempre melhor que as pessoas soubessem a verdade.

Não era melhor do que viver uma mentira?

Mas Rachel sabia que a verdadeira mentira era aquela que agora dizia a si própria. E a prova estava mesmo por detrás dela, de pedra e cal com cortinas franzidas nas janelas e um letreiro vermelho dizendo VENDE-SE colado na porta.

Não queria pensar no andar.

- É o último - dissera o vendedor pestanejando significativamente em

frente dela e fazendo os possíveis por ignorar a estranha natureza do seu rosto. - É mesmo para quem está no começo de vida. Aposto que é isso, não é verdade? Quem é o feliz contemplado?

Mas Rachel nunca pensara em casamento ou em filhos, quando fora ver o apartamento, examinando os armários, apreciando a vista, abrindo as janelas de par em par. Pensara em Sahlah: Pensara em fazerem juntas o jantar, em se sentarem juntas diante da lareira artificial, em beberem chá na Primavera, sentadas no minúsculo terraço, falando e sonhando, sendo uma para a outra aquilo que tinham sido nos últimos dez anos: amigas.

Quando reparara no bloco final da urbanização Clifftop Snuggeries, não andava à procura de um andar. Voltava de bicicleta, de casa de Sahlah. Fora uma visita como muitas outras em tantos anos: conversa, risos, música e chá, mas desta vez interrompidos pela entrada intempestiva de Yumn no quarto, com as suas exigências. Queria que Sahlah lhe tratasse dos pés. Imediatamente.

Naquele momento. Não fazia diferença que Sahlah tivesse uma visita. Yumn dera uma ordem e esperava ser obedecida. Rachel reparara que Sahlah se modificava quando a cunhada falava com ela. A jovem alegre que era tornava-se numa serva submissa: obediente, dócil, mais uma vez a criança assustada que na escola primária era troçada e ameaçada. Assim, quando Rachel vira o letreiro vermelho anunciando: FASE FINAL! MODERNOS ACABAMENTOS! Voltou a bicicleta no Westberry Way e subiu a rampa em direcção aos prédios.

Quando se encontrou com o vendedor, não viu um falhado gordo e ansioso com uma nódoa na gravata, mas sim um fazedor de sonhos.

No entanto aprendera que os sonhos tinham maneira de se desvanecer e de levar à desilusão. Talvez, por isso, fosse melhor não sonhar. Porque quando se aprendia a ter esperança, também...

- Rachel.

Rachel sobressaltou-se. Virou as costas ao lençol infinito do mar do Norte. Sahlah estava diante dela. A dupattá caíra-lhe sobre os ombros e o rosto tinha um ar grave. O sinal cor-de-morango da face estava mais escuro, mostrando como sempre, a profundidade de um sentimento que não conseguia esconder.

- Sahlah! Como é que tu...? O que estás...? - Rachel não sabia como começar o que tinham de dizer uma à outra.

- Primeiro fui à loja. A tua mãe disse-me que tinhas fugido depois de lá ter ido uma mulher da Scotland Yard. Pensei que tivesses vindo aqui.

- Porque me conheces - disse Rachel tristemente. Puxou um fio dourado da saia. Serpenteava no meio das espirais vermelhas e azuis do padrão do tecido. - Conheces-me melhor que ninguém, Sahlah. E eu conheço-te a ti.

- Pensei que nos conhecíamos uma à outra - disse Sahlah. - Mas já não tenho a certeza. Nem sequer sei se ainda somos amigas.

Rachel não sabia o que a magoava mais: se era saber que tinha desferido um terrível golpe em Sahlah ou o golpe com que Sahlah lhe retribuía. Não conseguia olhar para ela porque naquele momento pareceu-lhe que olhar para a amiga seria dar lugar a uma ofensa maior do que poderia suportar.

- Porque deste o recibo a Haytham? Sei que foste tu, Rachel. A tua mãe não o entregaria a outra pessoa. Mas não percebo porque lho deste.

- Disseste-me que gostavas de Theo - Rachel sentiu a língua presa e o espírito desesperado por uma resposta que até para ela era inexplicável. Disseste-me que o amavas.

- Não podia ficar com Theo. Também te disse isso. A minha família nunca o permitiria.

- E tinhas o coração partido. Disseste-me isso Sahlah. Disseste: Amo-o. É como se fosse a minha outra metade. Foi isso que disseste.

- Também te disse que não poderíamos casar, apesar do que eu queria, apesar de tudo o que partilhámos e desejámos e... - A voz de Sahlah vacilou. Rachel olhou para ela. Os olhos da amiga estavam rasos de lágrimas e voltava a cabeça bruscamente para norte, na direcção do pontão onde estava Theo Shaw. Momentos depois continuou. - Disse que quando chegasse a altura teria de me casar com o homem escolhido pelos meus pais. Tu e eu falámos disso. Não o podes negar. Eu disse: Para mim, Theo está perdido, Rachel. Deves lembrar-te. Sabias que eu não podia ficar com ele. Então o que esperavas conseguir dando o recibo a Haytham?

- Tu não gostavas de Haytham.

- Está bem. Eu não gostava de Haytham. E ele não gostava de mim.

- Não está certo casar quando não há amor. Não se pode ser feliz quando não se ama a outra pessoa. É como começar a vida dentro de uma mentira.

Sahlah aproximou-se do banco e sentou-se. Rachel baixou a cabeça. Via a bainha das calças de linho da amiga, o pé esguio e a tira da sandália.

A visão destas partes do todo que era Sahlah enchiam Rachel de tristeza. Nunca, em muitos anos, se tinha sentido tão só.

- Sabias que os meus pais nunca permitiriam o meu casamento com Theo. Expulsar-me-iam da família. Mas mesmo assim tiveste de ir contar a Haytham acerca de Theo.

Rachel voltou a cabeça reagindo com rapidez.

- O nome dele não. Juro. Não disse a Haytham o nome dele.

- Porque - continuou Sahlah e falou mais para si do que para Rachel, como se estivesse no meio de um processo dedutivo para descobrir a moti vação de Rachel. - Porque esperavas que Haytham terminasse o noivado comigo. E depois? - Sahlah apontou para o bloco de apartamentos e pela primeira vez Rachel viu-os como esta certamente os via: uma construção barata, sem carácter nem distinção. - Ficava livre para vir para aqui viver contigo? Esperavas que o meu pai o permitisse?

- Tu gostas de Theo - disse Rachel em voz fraca. - Disseste...

- Estás a tentar dizer que agiste em prol dos meus interesses? - Perguntou Sahlah. - Estás a dizer-me que ficarias contente se eu e Theo nos casássemos? Não acredito. Porque há outra verdade que não admites: Se eu tentasse casar-me com Theo, coisa que evidentemente nunca faria, mas se eu tentasse, terias feito alguma coisa para o impedir.

- Não teria.

- Teríamos combinado fugir, porque seria a única maneira de eu o con seguir. Eu ter-te-ia dito a ti, a minha melhor amiga. E tu ias assegurar-te que tal coisa não acontecesse. Provavelmente dirias ao meu pai. Ou contavas a Muhannad, ou até.

- Não! Nunca! Nunca! - Rachel não conseguiu evitar as lágrimas e detestou-se pela fraqueza que sabia que a amiga nunca mostraria. Voltou mais uma vez o rosto para o mar. O Sol batia- lhe, aquecendo-lhe as lágrimas, aquecendo-as tão depressa que lhe secavam na pele fazendo sentir nela o ardor do sal.

Ao princípio Sahlah não disse nada. A única resposta às lágrimas de Rachel foi o grito das gaivotas e o som distante de um barco a motor numa louca corrida pelo mar.

- Rachel - Sahlah tocou-lhe no ombro.

- Desculpa - soluçava Rachel. - Eu não queria... eu não desejava... só pensei... - os soluços quebravam as palavras como se fossem de vidro fino. - Podes casar com Theo. Eu não te impeço. E depois logo vês.

- O quê?

- Que tudo u que eu queria era que fosses feliz. E se seres feliz significava ficares com Theo, então era isso mesmo que eu queria que fizesses.

- Não posso casar-me com Theo.

- Podes! Podes! Porque dizes sempre que não podes e não o fazes?

- Porque a minha família não o aceitaria. Não é nosso costume. E mesmo se fosse. .

- Podes dizer ao teu pai que o próximo fulano que traga do Paquistão não te serve. Podes dizer o mesmo do que vier a seguir a esse e do que vier depois. Ele não te obriga a casar com ninguém. Então, algum tempo depois, quando perceber que não és feliz com os tipos que ele escolheu.

- O problema é esse, Rachel. Não tenho tempo. Não percebes? Não tenho tempo.

Rachel troçou.

- Só tens vinte anos. Ninguém pensa que ter vinte anos é ser velha. Nem mesmo os asiáticos. Todos os dias vão para a universidade raparigas da tua idade. Arranjam emprego em bancos. Estudam direito. Estudam para ser médicas. Não se casam. Que se passa contigo, Sahlah? Dantes querias mais. Dantes sonhavas. - Rachel sentia todo o desespero da sua situação tornar-se pior por não conseguir que a amiga a percebesse ou aceitasse as suas verdades. Lutava, procurando as palavras e finalmente desistiu dizendo:

- Queres ser como Yumn? É isso que queres?

- Eu sou como Yumn.

- Ah, claro - notou Rachel sardónica. - Exactamente. A engordar e sem nada que fazer senão aumentar o traseiro e ter um filho todos os anos.

- É isso mesmo - disse Sahlah com voz desolada. - Rachel, é exactamente isso.

- Não é! Não tem de ser assim. Tu és inteligente. És bonita. Podes ser

mais.

- Não me estás a ouvir - disse Sahlah. - Não me ouviste, por isso não entendes. Não tenho tempo. Não tenho alternativas. Se as tive, agora já não as tenho. Sou como Yumn. Exactamente como Yumn.

Rachel sentiu um protesto final chegar-lhe aos lábios, por reflexo. Mas desta vez a expressão de Sahlah deteve-a. Olhava-a tão intensamente, com tanta dor nos olhos escuros, que Rachel se calou. Respirou fundo e disse com amargura:

- Deves estar maluca para pensares que és como Yumn - mas as palavras foram um fogo completamente extinto por aquilo que o rosto de Sahlah lhe contava. - Yumn - disse Rachel no mesmo tom que usara para acusar a amiga. - Oh, meu Deus, Sahlah. Yumn. Queres dizer... Tu e Theo...? Não me disseste! - Involuntariamente o seu olhar percorreu o corpo da amiga cuidadosamente escondido sob a roupa larga.

- Sim - disse Sahlah. - E foi por isso que Haytham concordou em apressar o casamento.

- Ele sabia?

- Não podia fingir que o bebé era dele. Mesmo se pensasse que conseguia enganá-lo tinha de lhe dizer. Ele viera para casar comigo, mas não se importava de esperar uns tempos, talvez seis meses, para que tivéssemos tempo de nos conhecer. Tinha de lhe dizer que não havia tempo. Que poderia eu fazer. A verdade era a única opção que eu tinha.

Rachel sentia-se confundida pela imensidade do que a amiga lhe contara, dada a sua origem, religião e cultura. E depois viu - mesmo detestando-se por o fazer - a possibilidade da salvação. Porque se Haytham Querashi já sabia que Theo era amante de Sahlah, então poderia perdoar-se por lhe ter entregue aquele recibo dizendo-lhe misteriosamente: Pergunte a Sahlah o que é isto, e esperando misteriosamente pelo resultado desejado. Dissera-lhe uma coisa que ele já sabia, aceitara e concordara... isto é se Sahlah

lhe contara toda a verdade.

- Ele sabia de Theo? - Perguntou Rachel, tentando não parecer tão ansiosa como se sentia por uma confirmação. - Disseste-lhe de Theo?

- Isso foi o que tu fizeste por mim - disse Sahlah.

A esperança de Rachel voltou a morrer, desta vez completamente.

- Quem mais sabe?

- Ninguém. Yumn suspeita. É natural, não é verdade? Conhece bem os sinais. Mas não lhe disse nada e ninguém mais sabe.

- Nem Theo?

sahlah baixou o olhar que Rachel acompanhou até às mãos que a amiga apertara no colo. Os nós dos dedos estavam cada vez mais pálidos.

Fingindo que o nome de Theo Shaw não tinha sido mencionado, Sahlah disse:

- Haytham sabia que pouco tempo tínhamos para fazer aquilo que é

normal os casais fazerem antes de casar. Assim que lhe contei da minha... do bebé, ele não quis que eu fosse humilhada. Concordou em casar o mais depressa possível. - Pestanejou com força para apagar a recordação. Rachel, Haytham Querashi era um homem muito bom.

Rachel queria dizer-lhe que, para a além de ser um homem muito bom, Haytham também seria um homem que não estava disposto a suportar o desprezo da sua comunidade por ter casado com uma mulher impura. Também teria vantagens em casar o mais depressa possível, para que a criança passasse por sua, embora pudesse ter a pele muito clara. Mas, em vez disso, Rachel pensou em Theo Shaw, no amor que Sahlah sentia por ele, naquilo e na maneira de melhorar as coisas com aquilo que agora sabia. Mas primeiro tinha de ter a certeza. Não queria fazer outra asneira.

- Theo sabe do bebé?

Sahlah riu com ar desconsolado.

- Não percebes, pois não? Assim que deste o recibo a Haytham, assim

que Haytham soube que era de uma pulseira de ouro, assim que encontrou Theo naquela Cooperativa dos Empresários idiota que devia animar a vida desta cidade...

sahlah deteve-se como se de repente tivesse consciência da amargura pouco habitual nas suas palavras, que revelava o estado caótico do seu espírito.

- Que diferença faz se Theo sabe ou não?

- O que estás a dizer? - Rachel ouviu o medo na sua voz e tentou disfarçá-lo para bem da amiga.

- Haytham está morto, Rachel. Não percebes? Haytham está morto. E tinha ido ao Nez. À noite. Às escuras. Fica a quinhentos metros da mansão, onde Theo mora. E há vinte anos que Theo colecciona fósseis apanhados naquele sítio. Percebes agora? - Perguntou Sahlah em tom cortante. - Percebes, Rachel Winfield?

Rachel olhou para ela.

- Theo? - Perguntou. - Não. Sahlah. Não podes pensar que Theo Shaw.

- Haytham queria saber quem era - disse Sahlah. Estava disposto a casar comigo, sim, mas teria querido saber quem me engravidara. Que homem não quereria saber, apesar de me ter falado em viver na ignorância? Ele queria saber.

- Mas mesmo que soubesse, mesmo que tivesse realmente falado com Theo... - Rachel nem conseguiu terminar a frase, tão horrorizada ficara com a lógica pura das palavras de Sahlah.

Conseguia até imaginar o que se passara: um encontro às escuras no Nez, à conversa de Haythám Querashi com Theo Shaw a respeito da gravidez de Sahlah, o desespero subsequente de Theo Shaw para fazer desaparecer o homem que se interpunha entre si e o seu único amor, e aquilo que sabia - tinha de saber - que era o seu dever moral... Porque Theo Shaw quereria sem dúvida cumprir o seu dever para com Sahlah. Amava Sahlah e se soubesse que a tinha engravidado, quereria ficar a seu lado. E como Sahlah estava tão relutante - ou melhor, tão assustada - com a ideia de ser banida da família por casar com um inglês, também saberia que havia uma única maneira de a ligar a si.

Rachel engoliu em seco e mordeu o lábio, com força.

- Vê bem o que fizeste, entregando o recibo daquela pulseira - disse Sahlah. - Deste à polícia uma ligação, que de contrário poderiam nunca vir a descobrir, entre Haytham Querashi e Theo Shaw. E quando há um crime, a primeira coisa que procuram é uma ligação.

Rachel começou a balbuciar, tão aguda era a sua culpa e tão horrível o facto de saber o que o papel representara na tragédia do Nez.

- Vou telefonar-lhe imediatamente. Vou ao pontão.

- Não! - Sahlah parecia horrorizada.

- Vou dizer-lhe que deite a pulseira no lixo. Vou dizer-lhe que nunca mais a ponha. De qualquer modo a polícia não tem razões para falar com ele. Não sabem que ele conhecia Haytham. Mesmo se falarem com todos os fulanos da Cooperativa dos Empresários, as entrevistas vão demorar dias, não vão?

- Rachel.

- É essa a única maneira de falarem com Theo Shaw. Não há qualquer outra ligação entre ele e Haytham. Só a Cooperativa. Assim falo eu primeiro com ele. E não vão ver a pulseira. Não vão saber de nada, juro que não.

Sahlah abanava a cabeça, com um misto de incredulidade e desespero.

- Mas não vês, Rachel? Isso não resolve o verdadeiro problema, pois não? Seja o que for que digas a Theo, Haytham continua morto.

- Mas a polícia fecha o caso, ou arquiva-o, ou seja lá o que for. E depois tu e Theo.

- Depois eu e Theo, o quê?

- Podem casar-se - disse Rachel. E ao ver que Sahlah não respondia imediatamente, acrescentou em voz fraca. - Tu e Theo, casados, percebes?

Sahlah ergueu-se. Puxou a dupattá para a cabeça. Olhou para o pontão. A música do carrossel pairava na direcção delas, mesmo àquela distância. A roda gigante brilhava ao Sol e o vaivém atirava furiosamente os passageiros de um lado para o outro, fazendo-os gritar.

- Pensas mesmo que é assim tão fácil? Dizes a Theo que deite a pulseira no lixo, a polícia vai-se embora e ele e eu casamo-nos?

- Pode acontecer assim, se nós fizermos com que aconteça. Sahlah abanou a cabeça e depois voltou-se para Rachel.

- Nem sequer começaste a perceber - disse. Estava resignada; tinha tomado uma decisão. - Tenho de abortar. E preciso que me ajudes a tratar de tudo.

A pulseira era sem sombra de dúvida uma peça de Aloysius Kennedy; grossa, pesada, com curvas indefinidas semelhantes à que Barbara tinha visto na Racon Jewellery. Estava disposta a admitir que o facto de Theo Shaw a ter na sua posse fosse pura coincidência; mas não estivera envolvida em investigações criminais durante onze anos para nada. Sabia que as coincidências eram pouco prováveis quando se tratava de um crime.

- Quer beber alguma coisa? - O tom de voz de Theo era tão simpático que Barbara interrogou-se sobre se, contra toda a evidência, pensava que a visita era de cortesia. - Café? Chá? Uma coca-cola? Eu ia beber uma coisa qualquer. Maldito calor, não é verdade?

Barbara disse que aceitava uma coca-cola e quando ele saiu do gabinete para a ir buscar, aproveitou a ocasião para dar uma vista de olhos. Não tinha a certeza daquilo que andava à procura, embora não tivesse recusado um belo rolo incriminatório de arame - apropriado para fazer tropeçar uma pessoa no escuro - bem no meio da secretária.

Mas não havia grande coisa digna de nota. Uma estante continha uma prateleira de dossiers verdes de plástico, e uma segunda com livros de contabilidade com os sucessivos anos colados na lombada, em chamejantes números dourados.

Sobre um armário de arquivo um tabuleiro com uma divisão para entrados e outra para saídos, que continha uma pilha de facturas, aparentemente de alimentação, trabalhos de electricidade e canalização e ainda artigos para a empresa. Um quadro de avisos numa das paredes tinha pregadas nele quatro plantas: duas de um edifício identificado como Pier End Hotel e duas de um centro de lazer com o nome de Agatha Shaw Recreational Village. Barbara anotou este nome. Mãe de Theo? Interrogou- se. Tia? Irmã? Mulher?

Distraída pegou num pisa-papéis que segurava um monte de correspondência, toda ela aparentemente dedicada ao plano de recuperação da cidade. Quando ouviu os passos de Theo aproximarem-se no corredor, desviou a atenção das cartas para o pisa-papéis que parecia um pedregulho esburacado.

- Raphidonema - disse Theo Shaw. Trazia duas latas de coca-cola com um copo de papel por cima de uma delas que entregou a Barbara.

- Rafi-quê? - perguntou ela.

- Raphidonema. Porifera calcarea pharetronida lelapiidae raphidonema, para ser mais exacto. - Sorriu. Tinha um sorriso muito atraente, pensou Barbara e ficou de sobreaviso. Sabia bem que grau de complexidade podia esconder um sorriso atraente. - Estou a armar-me - disse ingenuamente. - É o fóssil de uma esponja, do período cretáceo inferior. Encontrei-o.

Barbara fez girar a pedra nas suas mãos.

- Verdade? Parece... caramba, não sei... um arenito? Como é que sabe o que é?

- Experiência. Há anos que ando a brincar aos paleontologistas.

- Veio de onde?

- De perto da praia, a norte da cidade.

- Do Nez? - Perguntou Barbara.

Os olhos de Theo semicerraram-se por uma fracção de segundo, de tal modo que Barbara não teriá notado o movimento se não andasse à procura de uma indicação de que ele, no fundo, conhecia as razões que lá a tinham levado.

- Exacto - disse ele. - Os arenitos apanham-nos e a argila de Londres liberta-os. Só é preciso aguardar a erosão dos rochedos causada pelo mar.

- É então o seu sítio preferido para procurar fósseis? O Nez?

- Não o Nez - corrigiu ele. - A praia por baixo, na base das falésias. Mas é verdade, é o melhor sítio para encontrar fósseis nesta faixa de

costa.

Ela acenou afirmativamente e colocou a esponja fossilizada no seu lugar, sobre os papéis. Abriu a coca-cola e bebeu directamente da lata. Amachucou o copo de papel. Uma ligeira elevação das sobrancelhas de Theo informaram-na que ele não deixara passar o gesto.

Primeiro vamos ao que interessa, pensou. O Nez e a pulseira tinham feito de Theo um sujeito que ela desejava investigar, mas havia mais marés que marinheiros. Disse:

- O que me sabe dizer de um rapaz chamado Trevor Ruddock?Barbara gostaria de saber se ele tinha ficado aliviado. - Trabalha aqui pelo pontão. Conhece-o?

- Conheço-o. Está aqui há três semanas.

- Sei que veio para cá mandado pela Mostardas Malik.

- É verdade.

- Foi despedido por surripiar mercadoria.

- Eu sei - disse Theo. - Akram escreveu-me a dizer. Também me telefonou. Pediu-me que desse uma oportunidade ao tipo pois acreditava que havia circunstâncias atenuantes para o roubo. A família é pobre. Seis filhos.

E o pai de Trevor está há ano e meio sem trabalhar porque tem um problema de coluna. Akram disse-me que não podia mantê-lo na fábrica, mas queria dar-lhe uma outra oportunidade noutro sítio. Aceitei-o. O emprego não é grande coisa e nem por sombras recebe o mesmo que recebia de Akram, mas sempre é alguma coisa.

- Que faz ele?

- Agora faz a limpeza do pontão. Depois de fechar.

- Então não está agora aqui?

- Começa a trabalhar às onze e meia da noite. Não valeria a pena vir para aqui antes disso, a menos que se viesse divertir.

Mentalmente Barbara pôs outra cruz no nome de Trevor Ruddock como suspeito. Havia um motivo e agora uma oportunidade. Poderia ter facilmente morto Haytham Querashi no Nez e mesmo assim ter aparecido a horas para trabalhar.

Mas isso requeria uma pergunta sobre o que fazia Theo Shaw com uma pulseira de Aloysius Kennedy. Se é que era a pulseira Kennedy. E só havia uma maneira de o fazer.

Entrava em cena a actriz Barbara Havers, pensou. Disse:

- Preciso da morada dele, se é que a tem.

- Não há problema - Theo dirigiu-se à secretária e sentou-se por detrás dela na cadeira de carvalho. Girou o tambor de um velho ficheiro rotativo, passando as fichas, até chegar à que queria. Escreveu a morada num papel e entregou-lho. Isto deu à actriz Barbara Havers o pretexto desejado.

- Uau! - disse. - É uma Aloysius Kennedy que tem no pulso? É espectacular!

- O quê? - Perguntou Theo.

Um ponto para mim, pensou Barbara. Não fora ele que comprara a pulseira, porque se tivesse sido, uma das Winfield teria sem dúvida apregoado a sua origem.

- Essa pulseira - disse Barbara. - Parece uma que andei a namorar em Londres. É um fulano chamado Aloysius Kennedy que as desenha. Posso ver? - Acrescentou com um ar que esperava que fosse a melhor representação da inocência feminina. - Provavelmente é o mais perto que me vou chegar a uma, sabe?

Por um instante pensou que não o tinha convencido, mas quando a isca, que foi o seu interesse lhe passou diante da boca, Theo Shaw decidiu engoli-la. Entregou-lhe a pulseira de ouro, abrindo-a com o polegar e tirando-a.

- É linda - disse Barbara - Posso. - Fez um gesto na direcção da janela e, quando ele concordou, levou a pulseira até lá. Fê-la girar nas suas mãos. Disse: - O homem é um génio, não é verdade? Gosto destas espirais. E o metal é perfeito. Na minha opinião é o Rembrandt dos ouri ves. - Teve esperança que a citação artística estivesse correcta. Aquilo que sabia de Rembrandt, já para não falar do que sabia de ourivesaria e joaLharia, cabia na cabeça de um alfinete. A seguir reparou no peso, passou os dedos sobre a forma e examinou o fecho artisticamente escondido. E quando chegou à altura própria, olhou para o interior e viu aquilo que estava à espera de ver. Quatro palavras gravadas numa caligrafia fluida: A VIDA COMEÇA AGORA.

Ah. Era altura de tirar nabos da púcara. Barbara voltou para junto da secretária e colocou a pulseira ao lado da esponja fossilizada. Theo Shaw não a pôs imediatamente. Estava ligeiramente mais corado do que quando Barbara Lha tinha pedido. Vira-a ler as palavras gravadas na parte de dentro, de modo que ela tinha poucas dúvidas de que iriam ambos começar a dança para descobrir-o-que-a- bófia-sabe. Apercebeu-se de que quando começasse a música teria de o ultrapassar.

- Dá uma linda frase - disse, indicando a pulseira com um aceno de cabeça. - Não me importava de encontrar uma igual à minha porta, uma bela manhã. É o que qualquer uma desejaria receber de um admirador secreto.

Theo apanhou a pulseira e voltou a colocá-la no pulso.

- Era do meu pai - disse ele.

Voilà, pensou Barbara. Ele deveria ter-se calado, mas a experiência dizia-lhe que os culpados raramente o faziam, sentindo-se impelidos a demonstrar definitivamente a sua falsa inocência.

- Então o seu pai já faleceu?

- E a minha mãe também.

- Então tudo isto... - Aqui ela indicou o pontão e as plantas fixas no quadro. - tudo isto é em memória dos seus pais? - Ele parecia embaraçado.

- Quando eu aqui vinha em criança - continuou ela - isto era o pontão de Balford. Agora são as Atracções Shaw. E o centro de lazer... Agatha Shaw Recxeational Village. É o nome da sua mãe?

A expressão dele mostrou-se aliviada.

- Agatha Shaw é a minha avó, embora me tenha servido de mãe desde os seis anos. Os meus pais morreram num acidente de automóvel.

- Deve ter sido horrível - disse Barbara.

- Sim. Mas... a minha avó foi fantástica.

- Não tem mais ninguém de família?

- Aqui não. O resto separou-se há anos. A avó trouxe-nos para casa... Tenho um irmão mais velho que foi tentar a sorte em Hollywood... e criou-nos como se fossemos seus filhos.

- É bom ter uma coisa que lhe recorde o seu pai - disse Barbara com outro aceno na direcção da pulseira. - Não ia deixá-lo desviar-se do assunto com recordações dickensianas de menino órfão entregue a um parente idoso. Olhou-o fixamente. - Bastante moderna para fazer parte da herança da família. Parece ter sido feita a semana passada.

Theo devolveu-lhe um olhar igualmente fixo, embora não tenha podido evitar ser denunciado pela vermelhidão do pescoço.

- Nunca pensei nisso. Mas acho que tem razão.

- Sim. Bem, é interessante tê-la encontrado porque, por estranho que pareça, andamos na pista de uma peça de Aloysius Kennedy muito parecida com essa.

Theo franziu as sobrancelhas.

- Na pista...? Porquê?

Barbara evitou uma resposta directa e voltou para a janela que dava para o pontão. Lá fora, a roda gigante começara a girar, erguendo no ar uma dezena de pessoas alegres. Perguntoú:

- Conhece bem Akram Malik, Mr. Shaw?

- O quê? - decididamente esperava outra coisa.

- Disse-me que ele lhe tinha telefonado para que contratasse Trevor Ruddock. Ora isso sugere que se conhecem. Gostava de saber como.

- Da Cooperativa dos Empresários - Theo prosseguiu, explicando do que se tratava. - Tentamos ajudar-nos uns aos outros. Desta vez fiz-lhe um favor. Numa outra altura ele irá retribui- lo.

- É a sua única ligação com os Malik?

Os olhos dele dirigiram-se à janela. Lá fora, uma gaivota poisara num ventilador colocado no telhado do salão de jogos, por baixo deles. O pássaro parecia esperar. Barbara fez o mesmo. Sabia que Theo Shaw pisava nessa altura terreno delicado. Sem saber o que outras fontes já teriam dito de si, deveria escolher cuidadosamente entre a verdade e a mentira.

- De facto, ajudei Akram a instalar o sistema de computadores da fábrica - acabou por dizer. - Andei aqui na escola primária com Muhannad. E também na secundária, mas isso foi em Clacton.

- Ah. - Barbara afastou mentalmente a geografia da relação dele com a família. O importante era a ligação em si. - Então conhece-os há muitos anos.

- De certo modo.

- De certo modo como? - Barbara ergueu a lata de coca-cola e bebeu mais um pouco. Estava a fazer maravilhas na digestão do arenque que anteriormente consumira. Theo imitou-a e bebeu também um gole de coca-cola.

- Fui colega de Muhannad da escola, mas não fomos amigos, por isso

não conhecia a família, até que instalei os computadores na fábrica. Foi há um ano, talvez um pouco antes.

- Presumo que conheça também Sahlah Malik.

- Sim, conheci Sahlah. - Fez aquilo que na experiência de Barbara, tanta gente fazia quando queria parecer despreocupado a respeito de informações que o faziam tremer por dentro: continuou a olhá-la fixamente nos olhos.

- Então reconhecê-la-ia, digamos que na rua. Ou talvez no pontão.

Com o traje muçulmano, ou qualquer outro.

- Acho que sim. Mas não percebo o que tem Sahlah Malik a ver com isto. De que se trata?

- Viu-a no pontão nestes últimos dias?

- Não, não vi.

- Quando a viu pela última vez?

- Não me lembro. Daquilo que depreendi enquanto instalava os computadores, Akram mantém-lhe a rédea curta. É filha única e é costume deles. Porque pensa que ela tenha vindo ao pontão?

- Foi ela que me disse. Disse-me que tinha atirado do pontão uma pulseira parecida com esta - apontou com o polegar para a pulseira de ouro. Fê-lo logo que soube que Haytham Querashi tinha morrido. Disse-me que era um presente que comprara para ele e que o lançara ao mar no sábado à tarde.

Mas isso é que é estranho: tanto quanto sei não houve vivalma que a visse.

O que acha?

Como se tivessem vontade própria, os dedos dele procuraram o pulso

e fecharam-se sobre a pulseira.

- Não sei - disse.

- Hmm - Barbara acenou gravemente com a cabeça. - É intrigante, não é verdade? Ninguém a viu.

- Estamos a chegar ao pino do Verão. Todos os dias há dezenas de pessoas no pontão. Não é provável que um deles a fixasse.

- Talvez - disse Barbara. - Mas percorri-o todo e não vi ninguém com o traje muçulmano. - Barbara procurou os cigarros na mala com ar distraído e perguntou: - Importa-se? - E quando ele assentiu com um gesto da mão, acendeu um dizendo: - Sahlah usa o traje tradicional. Além disso não tinha qualquer razão para vir aqui incógnita e trazia esse tipo de roupa. Não concorda? Quero dizer, não estava a fazer nada de ilegal que requeresse um disfarce. Apenas deitava à água uma jóia cara.

- Acho que faz sentido.

- Então, se disse que esteve aqui, se ninguém a viu e se chegou cá com as vestes habituais, só há uma conclusão, não é verdade?

- A senhora é que tem de tirar as conclusões, não eu, - disse Theo e Barbara teve de concordar que o fizera com toda a calma. - Mas se está a sugerir que Sahlah Malik esteve envolvida naquilo que aconteceu ao noivo... Não bate certo.

- Como é que se lembrou do crime do Nez? - Perguntou Barbara. Grande salto.

Desta vez ele recusou-se a ser levado ou enganado. Disse:

- A senhora é da polícia e eu não sou estúpido. Perguntou-me se eu conhecia os Malik porque está a investigar a morte do Nez, certo?

- Sabia que ela se ia casar com Querashi?

- Apresentaram-mo na Cooperativa dos Empresários. Akram chamou-lhe futuro genro. Como creio que não estava cá para casar com Muhannad, pareceu-me razoável concluir que tinha vindo para casar com Sahlah.

Touché, Barbara saudou-o mentalmente. Pensara que o tinha apanhado, mas ele esquivara-se muito bem.

- Então conhecia pessoalmente Querashi?

- Estive com ele uma vez. Não se pode dizer que o conhecesse.

- Sim. Claro. Mas sabia quem era. Tê-lo-ia reconhecido na rua. Quando Theo Shaw confirmou esta hipótese, Barbara continuou: - Só para saber, onde estava o senhor na sexta-feira à noite?

- Em casa. E como de qualquer modo me vai perguntar, e se não a mim, a outra pessoa qualquer, a minha casa é no fim do Old Hall Lane, que fica a dez minutos do Nez, indo a pé.

- Estava só?

Com o polegar, fez uma mossa na lata.

- Porque diabo pergunta?

- Porque a morte de Mr. Querashi no Nez foi um crime, Mr. Shaw.

Mas suponho que já sabia, não é verdade?

O polegar descontraiu-se. A lata sibilou.

- Está a tentar envolver-me, não está? Posso dizer-lhe que a minha avó estava na cama no primeiro andar e eu estava cá em baixo no escritório.

Repare que tive a oportunidade de correr até ao Nez e dar cabo de Querashi.

Claro que não tinha razões para o matar, mas esse pormenor, aparentemente, não tem importância.

- Não tinha razões? - Perguntou Barbara. Colocou a cinza do cigarro num cinzeiro.

- Nenhuma - as palavras de Theo Shaw eram firmes, mas o olhar dirigiu-se-lhe para o telefone. Não tocara, por isso Barbara interrogava-se sobre a quem iria ele telefonar assim que ela saísse do gabinete. No entanto não seria tão estúpido que o fizesse enquanto ela andasse ainda pelo corredor. Theo Shaw poderia ser tudo menos idiota.

- Está bem - disse Barbara.

Com o cigarro na boca escreveu o número do Burnt House Hotel nas costas de um cartão. Entregou-o a Theo, dizendo-lhe que lhe telefonasse no caso de se lembrar de alguma coisa pertinente para o caso, como por exemplo, a verdade sobre a posse da pulseira de ouro, acrescentou para si.

Lá fora, ouvindo a cacofonia do salão de jogos, Barbara pensou nas implicações por detrás quer do facto da pulseira se encontrar na posse de Theo Shaw, quer das mentiras dele sobre a sua origem. Embora fosse possível duas pulseiras Aloysius Kennedy coexistirem em harmonia na mesma cidade, era improvável que tivessem a mesma inscrição. Assim sendo, a conclusão razoável seria que Sahlah Malik tinha mentido a respeito de atirar a pulseira do pontão, estando esta no pulso de Theo Shaw. E só havia duas maneiras de ela lá se encontrar: ou Sahlah Malik lha tinha dado directamente ou a tinha entregue a Haytham Querashi, Theo Shaw vira-a e retirara-a do corpo de Querashi. Em qualquer dos casos, Theo Shaw entrara no rol dos suspeitos.

Outro inglês, pensou Barbara. Perguntou a si própria o que aconteceria à ténue paz da comunidade se Querashi tivesse encontrado a morte às mãos de um ocidental. Porque neste momento parecia-lhe que tinham dois suspeitos consistentes, Armstrong e Shaw e eram ambos ingleses. A seguir na lista com o número três, encontrava-se Trevor Ruddock. A menos que F. Kumhar aparecesse a cheirar mal, um dos Malik começasse a suar mais do que o normal para aquele calor - excepto Sahlah, que parecia ter nascido sem poros - seria então um inglês que procuravam.

Porém, pensando em Sahlah, Barbara hesitou com as chaves do carro a baloiçar-lhe nos dedos e a morada de Trevor Ruddock amachucada na mão. O que implicaria a conclusão anterior? O que significaria Sahlah ter oferecido a pulseira a Shaw e não a Querashi? O óbvio, claro. A vida começa agora, não era exactamente o tipo de comentário que se faz a um amigo sem importância, portanto Theo Shaw não era um amigo sem importância. Significava que ele e Sahlah se conheciam mais intimamente do que Theo sugerira. Por sua vez isso significava que Theo não era o único a ter um motivo para matar Querashi. Sahlah Malik poderia muito bem ter uma razão para assassinar o noivo.

Finalmente havia um asiático firmemente plantado na lista dos suspeitos, pensou Barbara. Portanto o caso era ainda uma incógnita.

 

BARBARA APANHOU UM SACO de pipocas e outro de amêndoas torradas de um quiosque que ficava no pontão do lado de terra. O quiosque chamava-se Doces Sensações e os odores a farturas, algodão-doce e pipocas eram demasiado tentadores para serem evitados. Assim, depois de ter feito as compras não sentiu a consciência pesada. Afinal, disse para consigo, havia razões para pensar que a sua próxima refeição seria tomada com Emily Barlow, que contava todas as calorias. Assim sendo tinha de manter o seu coeficiente diário de comida pouco saudável.

Começou pelo pacote das antiquadas amêndoas. Meteu uma na boca e começou a caminhada em direcção ao carro. Deixara o Mini estacionado no Passeio, uma estrada marginal que levava à parte alta da cidade. Havia aqui, sobranceiro ao mar, um quarteirão de vivendas parecidas com a de Emily.

Eram de traçado italiano, com varandas e portas e janelas em arco. Em 1900 teriam sido magníficas. Agora, tal como a de Emily, necessitavam de obras.

Em quase todas as janelas havia letreiros para alugar quartos, mas as cortinas sujas e as madeiras com a pintura a cair afastavam sem dúvida os menos aventureiros. Estavam aparentemente desocupadas e mais de metade parecia pronta para demolição.

No carro, Barbara deteve-se. Era a primeira oportunidade que tinha de

observar a cidade a partir da marginal e o que viu não era muito atraente.

A estrada junto à costa erguia-se, bem arranjada, mas os edifícios que a delimitavam estavam no mesmo estado que as vivendas: a precisar de arranjo.

Os anos de exposição ao ar do mar tinham comido a pintura e enferrujado o metal. Os anos de isolamento da indústria turística - as férias baratas em Espanha haviam-se tornado mais sedutoras do que a viagem ao Essex - tinham retirado o vigor à economia local. O resultado ali, estava diante dela, uma povoação urbana, tímida e congelada num fragmento de tempo.

A cidade precisava desesperadamente do que Akram Malik lhe fornecia: uma fonte de emprego. Também necessitava daquilo que a família Shaw parecia ter em vista: reestruturação. Pensando melhor, Barbara interrogava-se se não haveria entre eles um ponto de conflito que o Departamento Criminal devesse explorar.

Enquanto pensava nisto e observava a paisagem oferecida pela marginal, viu dois rapazinhos de pele escura - com cerca de dez anos - saírem do Stan's Hot and Cold Snacks. Comiam Cornettos e dirigiam-se ao pontão. Como crianças bem ensinadas, pararam na beira do passeio, antes de atravessar a rua. Um camião sujo travou para os deixar passar. Os rapazes agradeceram com um aceno e desceram o passeio, o que parecia o que os ocupantes do camião queriam.

Com uma grande buzinadela, o camião deu um salto em frente. O barulho do motor ecoou nos prédios. Espantadas as crianças saltaram para trás. Uma delas deixou cair o gelado e por instinto baixou-se para o apanhar. O outro, com a mão na gola do companheiro puxou-o para evitar o perigo.

- Merda de Paquistaneses! - Gritou alguém de dentro do camião e uma garrafa voou pela janela. Não estava tapada e o conteúdo descreveu um arco no ar. Os rapazes quiseram afastar-se mas não o conseguiram. Um líquido amarelo salpicou-lhes o rosto e a roupa antes da garrafa se partir no chão aos seus pés.

- Mas que diabo - resmungou Barbara. Atravessou a rua a correr.

- O meu gelado - chorava o rapaz mais pequeno. - Ghassan, o meu gelado!

O rosto de Ghassan era um exemplo de desprezo voltado para o camião que se afastava. Este seguia pela estrada junto à praia, que fazia uma curva, fora do alcance da vista por baixo de uns ciprestes. Barbara tentou, em vão, ver a chapa de matrícula.

- Estão bem? - Perguntou aos rapazinhos. O mais pequeno começara

a chorar.

O passeio e a rua escaldantes aqueceram rapidamente o líquido que fora lançado. O odor acre da urina subia no ar. Os rapazinhos tinham na roupa e na pele manchas amareladas que lhe sujavam os calções brancos e salpicavam as pernas morenas e as faces.

- Fiquei sem o meu gelado - gemeu o rapazinho mais novo.

- Cala-te, Mushin - zangou-se Ghassan. - Eles querem que tu chores, por isso cala-te - abanou-o com força, a mão sobre o seu ombro. Toma o meu. Não o quero.

- Mas. .

- Toma! - Empurrou o Cornetto para o outro.

- Estão bem? - Repetiu Barbara. - Que coisa tão desagradável. Finalmente Ghassan olhou para ela. Se o desprezo tivesse um sabor ela tê-lo-ia provado.

- Puta inglesa - disse as palavras tão distintamente que não podia haver engano. - Desaparece. Anda Mushin.

Barbara percebeu que tinha a boca aberta, e fechou-a rapidamente quando os rapazes se foram embora. Conforme pretendiam, iam na direcção do pontão. Ninguém os iria impedir de fazer o que tinham combinado.

Barbara teria sentido admiração por eles, se não tivesse visto que aquele episódio, embora breve, servia para salientar todas as tensões raciais de Balford, tensões essas que poderiam ter provocado um homicídio, umas noites atrás. Antes de voltar para o carro, viu os rapazinhos descerem o atalho que levava ao pontão.

Não teve de ir longe para encontrar a casa de Trevor Ruddock. De facto nem sequer precisava do carro. Comprara uma planta da cidade na Balford Books and Crannies, que lhe revelara que Alfred Terrace ficava a menos de cinco minutos a pé da rua das lojas e da livraria propriamente dita. Ficava também a cinco minutos da Racon Jewellery, pormenor em que Barbara reparou com algum interesse.

Alfred Terrace, incluía uma única fila de sete habitações tipo caixote, construídas num dos lados de uma pequena praça. Todas elas tinham as janelas ornadas com caixilhos estragados e portas tão estreitas, que os habitantes da rua tinham com certeza de tomar cuidado com o que comiam, de contrário não conseguiriam ter acesso às suas salas de estar. As casas estavam uniformemente pintadas de branco sujo, sendo as portas desbotadas a única característica que as distinguia. Cada uma delas estava pintada numa cor diferente, que ia do amarelo ao castanho-avermelhado. A tinta tinha debotado, pois a rua estava virada a oeste e apanhava o calor e o Sol de chapa.

Era exactamente o que se passava naquele momento. O ar estava parado e a temperatura parecia dez graus mais alta do que no pontão. Podiam estrelar-se ovos no passeio. Barbara sentia a pele que tinha a descoberto, a ferver.

A família Ruddock vivia no número 6. Tinha escolhido a cor vermelha para a pintura da porta, mas o Sol reduzira-a a um tom de salmão cru.

Barbara bateu com força e deu também uma pancada rápida na única janela que dava para a frente. Não conseguia ver através das cortinas de croché, mas ouvia-se música rap dentro da casa, acompanhada pelo barulho da televisão. Como ninguém respondesse, bateu com uma força mais significativa.

Conseguiu então, resultados. Ouviram-se passos no chão sem tapete e a porta abriu-se.

Barbara deu consigo a olhar para uma criança mascarada. Não conseguia perceber se a criatura era do sexo masculino ou feminino, mas fosse qual fosse, a roupa do pai servira o objectivo. Os sapatos eram do tamanho dos de um palhaço e, apesar do calor do dia, um velho casaco de tweed chegava-lhe aos joelhos.

- Sim? - Perguntou a criança.

- Quem é, Brucie? - Uma voz de mulher gritou de dentro da casa. Estás à porta? Está aí alguém? Não saias com a roupa do teu pai, ouviste, Brucie?

Brucie observava Barbara. Esta reparou que o miúdo tinha os cantos dos olhos a precisar de uma limpeza.

Cumprimentou a criança com o seu ar mais simpático, ao que esta respondeu limpando o nariz à manga do casaco do pai. Por baixo, usava apenas as cuecas com o elástico esticado para além do possível. As cuecas pareciam estar penduradas nas ancas magrinhas.

- Ando à procura de Trevor Ruddock - explicou. - Mora aqui? É teu irmão?

A criança voltou-se na sua roupa de palhaço e gritou para dentro de casa.

- Mãe! É uma gorda a perguntar por Trev!

Barbara sentiu uma vontade irresistível de lhe atirar as mãos ao pescoço.

- Por Trev...? Não é aquele monstro da ourivesaria outra vez, pois não? - A mulher apareceu à porta, seguida por mais duas crianças. Pelo ar, estas pareciam raparigas. Usavam calções azuis, camisolas cor- de-rosa, botas de cowboy brancas enfeitadas com pedras falsas e uma delas trazia um bastão brilhante que utilizou para bater na cabeça do irmão. Brucie gritou. Passou ao ataque, chocou com a mãe e, agarrando a irmã pela cintura ferrou-lhe os dentes num braço.

- Que se passa?

Mrs. Ruddock parecéu não perceber os gritos e insultos por trás de si enquanto a outra irmã tentava libertar o braço fraterno dos dentes de Bruce. As duas miúdas começaram a gritar:

- Mãe, diz-lhe que pare! - Mas Mrs. Ruddock continuava a ignorá- las.

- Anda à procura do meu Trevor?

Tinha um ar envelhecido e cansado, com olhos azul-claros e cabelo louro pintado, que afastara da cara atando-o com um atacador roxo.

Barbara apresentou-se e abanou o crachá em frente à cara da mulher.

- Inspector da Scotland Yard. Gostava de falar com Trevor. Ele está? Mrs. Ruddock pareceu endurecer, mesmo quando pôs uma madeixa solta por detrás da orelha.

- O que lhe quer? Ele não está metido em sarilhos, é bom rapaz. As três crianças encostaram-se à parede a discutir. Um quadro por trás delas espatifou-se no chão. Uma voz de homem gritou lá de cima.

- Raios! Já um gajo não pode dormir nesta casa? Shirl! Bolas! O que estão eles a fazer?

- Vocês! Já chega! - Mrs. Ruddock agarrou Brucie pela gola do casaco que tinha vestido e a irmã pelos cabelos. As três crianças berravam.

- Já chega! - Gritou.

- Ela bateu-me!

- Ele mordeu-me!

- Shirl! Manda-os calar!

- Já acordaram o vosso pai, não é verdade? - Disse Mrs. Ruddock dando um tabefe em cada uma das partes da batalha. - Todos três já para a cozinha. Stell, há gelados no frigorífico. Dá um a cada um.

A promessa da guloseima pareceu acalmar as três crianças. Todas juntas dirigiram-se na direcção de onde a mãe tinha surgido. Por cima das suas cabeças ouviam-se passos pesados. Um homem tossia, limpando a garganta com tanta força que Barbara perguntou a si própria se a intenção não seria fazer uma auto-amigdalotomia. Achou estranho que ele pudesse estar a dormir antes da sua chegada. Com um som proibitivo um grupo rap cantava qualquer coisa como Consegue, faz, recebe, man, E em competição duas vizinhas da Coronation Street 1 discutiam num tom incrível a respeito de uma tipa qualquer.

- Não se meteu exactamente em sarilhos - disse Barbara. - Mas tenho umas perguntas para lhe fazer.

- Sobre quê? Trev entregou-lhes os frascos, ou lá o que era. Está bem, vendemos alguns antes dos pretos o apanharem, mas eles também não tinham falta desse dinheiro. Esse Akram Malik está cheio de massa. Já viu onde eles todos vivem?

- Trevor está? - Barbara procurava ter paciência, mas com o Sol em cima dela, a pouca que arranjara evaporara-se rapidamente.

Ao perceber-se que as suas palavras pouco efeito faziam, Mrs. Ruddock lançou-lhe um olhar hostil.

- Stella! - Gritou lá para dentro e quando a mais velha das duas miúdas veio da cozinha com o gelado metido na boca, ela continuou:Leva-a lá a cima a Trev. E diz a Charlie que baixe o som enquanto falam.

- Mãe... - Stella gemeu, transformando o som do apelo à progenitora, em duas sílabas, tarefa difícil, sem tirar o gelado da boca. No entanto a miúda parecia capaz de enfrentar qualquer desafio.

- Vai já - rosnou Mrs. Ruddock.

Stella tirou ruidosamente o gelado da boca.

- Venha lá - disse, começando a subir a escada.

Barbara sentiu o olhar inimigo de Mrs. Ruddock sobre si enquanto seguia os passos das botas brancas de cowboy. Era evidente que fosse qual fosse o problema que fizera Trevor perder o emprego na fábrica de mostarda, a mãe não lhe dera importância.

O culpado estava num dos dois quartos do primeiro andar da casa. O som rouco do rap vinha por debaixo da porta. Stella abriu-a sem cerimónia, mas apenas uma fresta, pois havia alguma coisa sobre ela que parecia impedir qualquer outro movimento. Gritou:

 

1 Uma das novelas mais populares da televisão britânica. Começou a ser transmitida na década de sessenta e trata da vida de pessoas da classe trabalhadora que habitam numa rua de uma cidade do norte de Inglaterra. (N. da T. )

 

- Charlie! A mãe diz para desligares essa merda! - E voltando-se para Barbara. - Se quer falar com ele, é aqui.

Ao mesmo tempo Mr. Ruddock gritava do outro quarto.

- Será que um homem já não pode dormir na sua própria casa? Barbara acenou a Stella em sinal de agradecimento e entrou no quarto. Entrar não seria bem o termo, pois o objecto que impedia a porta de abrir, pendia do tecto como se fosse uma rede de pesca. As cortinas estavam corridas e por isso a luz era fraca. O calor pulsava como um coração.

O barulho era ensurdecedor. Reverberava entre as paredes onde estava encostado um beliche. Um adolescente ocupava o beliche de cima, armado com dois paus de madeira. E usava-os para bater nos pés da cama, acompanhando a música. O beliche de baixo estava vazio. O outro ocupante do quarto estava sentado a uma mesa, na qual uma lâmpada fluorescente lançava um jacto forte de luz sobre novelos de fio negro, vários carretos de fio de algodão às cores, um monte de bocados de fio de electricidade e uma caixa de plástico cheia de esponjas redondas de vários tamanhos.

- Trevor Ruddock? - gritou Barbara, para se fazer ouvir. - Posso falar consigo? Polícia, Departamento Criminal. - Conseguiu acentuar a identificação de modo a chamar a atenção do rapaz que estava na cama. Este viu-lhe o crachá e lendo talvez nos lábios dela ou na expressão do seu rosto, estendeu a mão para um botão da aparelhagem colocada aos pés da cama e baixou o volume.

- Ei! Trev! - Gritou, apesar da súbita redução do som. - Trev! Um chui!

O rapaz que estava sentado à mesa, mexeu-se, voltou-se na cadeira e viu Barbara. O olhar dirigiu-se para o crachá. Lentamente levou as mãos aos ouvidos e começou a retirar um par de tampões de cera.

Enquanto o fazia, Barbara estudava-o à luz fraca. Tinha todo o aspecto de pertencer à Frente Nacional, desde o crânio rapado, onde apenas a sombra do cabelo escurecia a pele, até às inconfundíveis botas pesadas de estilo militar. Estava bem barbeado, ou melhor dizendo, completamente barbeado. Não tinha pêlos faciais, nem sequer sobrancelhas.

O movimento revelara que estava a trabalhar na mesa. Daquilo que Barbara conseguia distinguir, parecia ser o modelo de uma aranha, com três pernas de arame enrolado fixas num corpo de esponja preta e branca. Tinha dois grupos de olhos feitos com contas negras: dois maiores e dois mais pequenos, que faziam um semicírculo na cabeça, parecendo uma tiara ocular.

Trevor lançou um olhar ao irmão, que se chegara para a beira do beliche e, balançando as pemas, olhava para Barbara pouco à vontade.

- Desaparece - disse.

- Não digo nada.

- Pira-te - disse Trevor.

- Trev... - Charlie emitiu o gemido típico da família, transformando

em duas a primeira sílaba do nome do irmão.

- já te disse - Trevor lançou-lhe um olhar.

Charlie disse:

- Merda. - Desta vez não gemeu e saltou da cama. Passou diante de

Barbara com a aparelhagem debaixo do braço e saiu do quarto. Fechou a

porta atrás de si.

Isto dera a Barbara a oportunidade de ver o que estava no cimo da porta.

Era efectivamente uma antiga rede de pesca, mas estava disposta como se fosse uma teia enorme onde estavam pregados uma colecção de aracnídeos.

Tal como a aranha que estava a ser montada sobre a mesa, estes não eram insectos de variedades comuns, castanhos e com muitas pernas, que nos jardins devoram moscas, carraças e centopeias. Não; eram de cor e forma exóticas, com corpos vermelhos, amarelos e verdes, pernas peludas com manchas e olhos ferozes.

- Belo trabalho - disse Barbara. - Está a estudar entomologia, não?

Trevor não respondeu. Barbara atravessou o quarto e dirigiu-se à mesa.

Havia uma outra cadeira cheia de livros, jornais e revistas. Colocou-os no chão e sentou-se.

- Importa-se? - Perguntou.

Ele, lançando um olhar aos cigarros que ela tinha na mão, abanou a cabeça. Ela estendeu-lhe o maço e ele tirou um. Acendeu-o com um fósforo que retirou de uma carteira, mas não lhe deu lume.

sem a música rap, os outros sons da casa pareciam amplificados. As ninfas da Coronation Street continuavam a conversa num tom capaz de servir para anunciar os golos de um desafio de futebol, Stella começou a gritar que lhe tinham roubado um colar, roubo esse aparentemente perpetrado por Charlie, cujo nome tentava pronunciar como se tivesse três sílabas.

- Soube que foi despedido da Mostardas Malik há três semanas disse Barbara.

Trevor inalou o fumo, com os olhos semicerrados fixos em Barbara.

Esta notou que, perto das unhas, tinha os dedos cheios de peles com mau aspecto.

- E então?

- Quer dizer-me o que se passou?

Ele expeliu o fumo.

- Por acaso posso dizer que não?

- Qual é a sua versão da história? Já ouvi a deles. Sei que não pôde negar ter roubado a mercadoria. Foi apanhado com ela. Por assim dizer, com a boca na botija.

Trevor apanhou um dos arames e enrolou-o à volta do indicador, com o cigarro entre os lábios e o olhar dirigido para uma aranha não acabada.

Apanhou um corta-arame e cortou ao meio um fio eléctrico. Cada metade tornou-se uma pata da aranha. Serviu-se da cola para as segurar ao corpo e aplicava-a meHculosamente com o tubo.

- Malik disse que tinha sido um roubo importante, não? Caramba foram menos de duas caixas daquela porcaria. Trinta e seis frascos em cada caixa. Não é o mesmo que assaltar um banco. Além do mais, não levei exclusivamente mostarda, geleia ou molho o que poderia ter causado dano a alguma encomenda importante. Misturei tudo.

- Percebo. Criou assim como que uma embalagem de variedades. Ele lançou a Barbara um olhar negro, antes de voltar novamente a sua atenção para a aranha. O corpo em segmentos feito com esponja de diversos tamanhos parecia autêntico. Olhando para ele, Barbara gostaria de saber como seriam os segmentos ligados entre si. Com cola? Com agrafes? Ou teria o jovem Ruddock usado fio de arame? Procurou um rolo desse material na mesa, mas juntamente com a parafrenália das aranhas, a superfície era uma nústura de livros de insectos, jornais abertos, velas meio derretidas e caixas de ferramentas. Não percebeu como ele conseguia encontrar ali alguma coisa.

- Disseram-me que Mr. Querashi o tinha despedido. É essa a história?

- Se foi o que lhe disseram, acho que sim.

- Então tem uma versão diferente? - Barbara procurou um cinzeiro mas não encontrou. Trevor empurrou na sua direcção uma embalagem vazia de leite-creme. O interior estava sujo de cinza e ela juntou-lhe a sua.

- Como queira - disse ele.

- Foi despedido injustamente? Querashi agiu depressa demais? Trevor levantou os olhos da aranha. Barbara reparou pela primeira vez que ele tinha uma tatuagem por baixo da orelha esquerda. Era uma teia de aranha com um desagradável insecto, que parecia verdadeiro, a trepar para o centro.

- Quer saber se eu o matei porque ele me despediu? - Trevor passava os dedos pelas pernas da aranha, puxando pela cobertura do arame até criar o que pareciam pêlos.

- Eu não sou estúpido, sabe. Li o Standard de hoje. Sei que a polícia diz que é um homicídio. Imaginei que viesse cá alguém falar comigo. E veio você. Tenho um motivo, não é verdade?

- Trevor, porque não me conta como eram as suas relações com Mr. Querashi?

- Fanei os frascos da secção de rotulagem e embalagem. Trabalhava na expedição, por isso foi fácil. Querashi apanhou-me e despediu-me. Eis a história das nossas relações. - Trevor acentuou sarcasticamente a última palavra.

- Não era arriscado subtrair frascos da secção de embalagem, uma vez que não trabalhava lá?

- Não os tirei quando lá estavam pessoas, pois não? Foi um frasco aqui e um frasco ali durante os intervalos e a hora de almoço. O suficiente para ter alguma coisa que vendesse em Clacton.

- Vendia-os? Porquê? Precisava de mais dinheiro? Para quê? Trevor afastou-se da mesa. Dirigiu-se à janela e abriu as cortinas. Iluminado pelo Sol impiedoso, o quarto mostrava as paredes rachadas e a mobília estragada. A alcatifa do chão estava gasta em determinados sítios. Fosse lá porque fosse tinham-lhe pintado um risco negro a meio, a dividir as áreas de dormir e de trabalho.

- O meu pai não pode trabalhar. E eu tenho este estúpido desejo de querer manter a família afastada das ruas. Charlie ajuda fazendo biscates na vizinhança e por vezes Stella toma conta de crianças. Mas somos oito e temos fome. Por isso, eu e a minha mãe vendemos o que podemos no mercado de Clacton.

- E os frascos da Malik faziam parte daquilo que podiam vender.

- Verdade. Parte de um lote e a preços convidativos. Afinal não sei que mal fez. Mr. Malik nem sequer vende as geleias e essas coisas aqui. Só em lojas finas e em hotéis e restaurantes snobes.

- Estava então a fazer um favor aos consumidores?

- Se calhar estava. - Encostou o traseiro ao parapeito da janela brincando com o cigarro que fazia girar entre o polegar e o indicador. A janela estava aberta de par em par, mas parecia que estavam a conversar dentro de um forno. - De qualquer modo parecia seguro vendê-los em Clacton. Não estava à espera de que Querashi lá aparecesse.

- Então foi apanhado a tentar vender os frascos no mercado? Foi aí que Querashi o apanhou?

- Exacto. Tal e qual. Claro que ele também não esperava encontrar-me ali. E se considerarmos o que ele lá foi fazer, penso que deveria ter feito vista grossa e esquecido tudo. Principalmente porque o que ele lá estava a fazer também não era muito decente.

Ao ouvir isto, Barbara sentiu comichões na ponta dos dedos, como sempre acontecia quando alguma coisa lhe era imprevistamente revelad

No entanto, tomou as suas cautelas. Trevor observava-a de perto para saber o efeito da informação. Essa observação tão atenta revelara-lhe que não era a primeira vez que falava com a polícia. A maior parte das pessoas ficava no mínimo perturbadas quando tinham de responder a perguntas oficiais. Mas Trevor parecia completamente à vontade, como se já soubesse o que lhe iria perguntar e o que responderia.

- Trevor, onde estava na noite em que morreu Mr. Querashi? Um brilho no olhar indicaram-lhe a desilusão sentida por não ter seguido a pista da acção pouco decente, de Querashi. Óptimo, pe ela. Não devem ser os suspeitos a dirigir as investigações."

- A trabalhar - disse Trevor. - A limpeza do pontão. Pergunta Mr. Shaw, se não acredita.

- Já perguntei. Mr. Shaw disse-me que você entra às onze e meia. o que aconteceu na sexta-feira à noite? A propósito, marcou o ponto?

- Marquei-o quando o costumo marcar.

- Às onze e meia?

- Sim, mais ou menos. E se quer saber não me fui embora. Trabalho com outros tipos que lhe podem dizer que eu não saí dali nessa noite.

- E antes das onze e meia? - Perguntou Barbara.

- O que é que tem?

- Onde é que estava?

- Quando?

- Antes das onze e meia, Trevor.

- A que horas?

- Diga-me só o que fez.

Tirou do cigarro uma última fumaça e lançou-o para a rua pela janela. O indicador tomou o lugar do cigarro. Mordeu-o pensativamente antes de responder.

- Estive em casa até às nove. Depois saí.

- Para onde?

- Para sítio nenhum em especial. Cuspiu uma pele do dedo para o chão. Examinou a mão e continuou. - Tenho uma miúda com quem saio

de vez em quando. Estive com ela.

- Ela confirma?

- Hã?

- Ela confirma que esteve consigo sexta-feira à noite?

- Claro. Mas não é minha namorada, nem nada disso. Só saímos de vez em quando. Conversamos, fumamos. Vemos o que se passa pelo mundo.

Demasiado bom, pensou Barbara. Porque seria que tinha dificuldade em imaginar Trevor Ruddock embrenhado num colóquio filosófico com o uma mulher?

Meditou sobre a explicação que dera, e porque pensara que era necessário dá-la. Ele, ou estivera ou não estivera com uma mulher. Ela confirmaria ou não o seu álibi. Se tinham estado na marmelada, a discutir política, a jogar às cartas ou a gozar como dois macacos, não fazia qualquer diferença. Barbara meteu a mão no saco e tirou de lá um bloco. a - Como se chama ela?

- Quem? A miúda?

- Sim, a miúda. Preciso de falar com ela. Quem é? Ele transferiu para um pé o peso do corpo.

- É só uma amiga. Só conversamos. Não é...

- Diga-me o nome dela, está bem?

Ele suspirou:

- Chama-se Rachel Winfield. Trabalha na ourivesaria na rua das lojas. - Ah, Rachel. Já nos conhecemos.

Ele agarrou o cotovelo esquerdo com a mão direita. Disse:

- Sim, bem, estive com ela na sexta-feira à noite. Somos amigos. Ela vai confirmar.

Barbara observou o desconforto dele e mentalmente interrogou-se sobre a sua natureza. Ou estava embaraçado por se saber da sua ligação com Rachel, ou estava a mentir e tinha esperança de conseguir falar com ela antes que Barbara confirmasse a história.

- Onde estiveram? - Perguntou ela, vendo que seria necessária uma segunda confirmação. - Num café? Num bar? No salão de jogos? Onde?

- Uh... em nenhum desses sítios. Fomos passear.

- Talvez para o Nez?

- Nem pense. Estivemos toda a noite na praia mas longe do Nez. Estivemos para os lados do pontão.

- Alguém os viu?

- Acho que não.

- Mas à noite o pontão está cheio de gente. Como é que ninguém vos viu?

- Porque... Olhe, não estávamos no pontão. Eu não disse isso. Estávamos nas casas de praia. Estávamos... - mais uma vez mordeu furiosamente o dedo. - Estávamos numa das casas da praia. Percebeu? Está bem?

- Numa casa de praia?

- Sim. Foi o que eu disse. - Tirou a mão da boca com ar de desafio. Havia poucas dúvidas a respeito do que tinha estado a fazer com Rachel e Barbara sabia que fosse o que fosse, provavelmente teria pouco a ver com o que se passava pelo mundo.

- Conte-me lá isso de Mr. Querashi e do mercado - disse ela. Clacton não é longe daqui. É que distância? Vinte minutos de carro? Não é uma viagem à Lua. Então porque era tão estranho que Haytham Querashi estivesse no mercado?

- Não era o facto de lá estar - corrigiu Trevor. - Estamos num país livre. Ele podia ir onde bem lhe apetecesse. Era o que lá estava a fazer e com quem.

- Muito bem. Vamos a isso. O que estava ele a fazer?

Trevor voltou a sentar-se à mesa. Puxou um livro com gravuras de sob

um monte desorganizado de jornais. Estava aberto numa fotografia a cores.

Barbara viu que era a imagem da aranha que Trevor estava a montar.

- É uma aranha saltadora - informou. - Não faz teia como as outras. É por isso que é diferente. Caça a presa. Vai à procura, encontra a comida e pumba... - a mão dele agarrou de repente o braço de Barbara. Come.

O jovem sorriu. Tinha uns caninos estranhos; um comprido e outro

curto. Davam-lhe um ar perigoso e Barbara apercebeu-se que ele sabia disso e gostava do facto.

Ela libertou o braço da mão dele.

- É uma metáfora, não é verdade? Querashi a aranha? O que andava ele a caçar?

- O que um maricas caça quando vai a um sítio onde não pensa ser conhecido. Só que eu vi-o E ele soube que eu o vi.

- Estava com alguém?

- Oh, eles são discretos, mas eu vi-os a falar e depois estive com atenção. Claro que desapareceram dentro da casa-de-banho pública, um de cada vez; como que por acaso, sabe? Muito de mansinho.

Barbara observou o jovem, que por seu turno a observava a ela. Disse cautelosamente:

- Trevor, está a dizer-me que Haytham Querashi andava a engatar homens na casa-de-banho do mercado de Clacton?

- Foi o que me pareceu - disse Trevor. - Estava ali mexendo nuns lenços de uma barraca que há na praça, em frente das casas-de-banho. Apareceu outro tipo que também se pôs a mexer nos lenços aí a uns dois metros dele. Olham um para o outro. Desviam o olhar. O outro gajo passa por ele e diz-lhe qualquer coisa ao ouvido. Haytham dirige-se imediatamente à casa-de-banho dos homens. Eu olho. Dois minutos mais tarde o gajo entra lá também. Dez minutos depois, Haytham sai. Sozinho. Olhando para todos os lados. Foi então quando me viu.

- Quem era o outro? Alguém de Balford? Conhece-o?

Trevor abanou a cabeça.

- Um paneleiro qualquer à procura de par. Um paneleiro com tendências para cores diferentes.

Barbara sobressaltou-se ao ouvir isto.

- Era branco? O homossexual? Era inglês?

- Se calhar. Mas podia ser alemão, dinamarquês, sueco. Talvez norueguês. Não sei. Mas, de certeza, não era de cor.

- E Querashi soube que o tinha visto?

- Sim e não. Viu-me mas não sabia que eu o vira engatar o outro gajo. Só quando me quis despedir é que eu lhe disse que tinha visto tudo. Trevor voltou a pôr o livro das aranhas de onde o tinha tirado. - Pensei que tinha alguma coisa para o segurar, percebe? Pensei que ele não me despedisse, com medo que eu dissesse ao velho Akram que o futuro genro andava atrás de rapazes nas casas-de-banho. Mas Querashi negou tudo. Só disse que eu não devia estar à espera de continuar a trabalhar na fábrica por espalhar coisas daquelas a respeito dele. Akram não acreditaria, disse ele, e eu acabaria sem o meu emprego na Malik e também sem o novo lugar no pontão. Precisava do lugar no pontão, por isso calei a boca e acabou-se.

- Não disse a ninguém? Nem a Mr. Malik? Nem a Muhannad? Nem a Sahlah? - Esta, pensou Barbara, ficaria horrorizada ao saber que o futuro marido a traía e ameaçava a honra da família. Para os asiáticos, seria certamente um problema de honra. Teria de explorar este aspecto com Azhar.

- Era a minha palavra contra a dele, não era? - Disse Trevor. Ainda se tivesse sido apanhado em flagrante pelos chuis. - Então, você não sabe de certeza o que ele estava a fazer nesse dia nas casas-de-banho.

- Não entrei para verificar pessoalmente, se é isso que quer saber.? Mas não sou parvo, não é? Essas casas-de-banho sempre foram usadas para o engate e toda a gente sabe disso. Então, se dois gajos lá entram e demoram mais tempo do que para urinar... Bom, já se imagina.

- E a Mr. Shaw, lá no pontão? Disse-lhe?

- Já lhe disse que não contei a ninguém.

- Como era o outro tipo, então? - Perguntou Barbara.

- Sei lá. Era um gajo. Bem bronzeado. Usava um boné de basebol ao contrário. Não era grande, sabe, mas também não tinha ar de paneleiro, quer dizer, aparentemente. Oh, sim, uma coisa. Tinha um brinco no lábio. Uma pequena argola de ouro - Trevor estremeceu. - Caramba - disse, sem sombra de ironia, com as pontas dos dedos tocando na aranha do pescoço.

O que alguns gajos fazem pela aparência.

- Homossexualidade? - Perguntou Emily Barlow, levantando a voz com interesse.

Barbara encontrara-a na sala de reuniões da antiga esquadra da polícia, onde todos os dias se encontrava com a equipa de agentes encarregados da investigação. Tinha estado a escrever nomes e actividades num quadro branco. Barbara viu que desde a visita de Emily à fábrica, dois agentes tinham sido designados para a Mostardas Malik e já estavam a entrevistar todos os empregados. Procuravam informações que conduzissem a um inimigo de Haytham Querashi.

Este novo pormenor a respeito da vítima, seria para eles muito valioso e o inspector não queria perder tempo. Dirigiu-se à porta e deu ordens para que a informação fosse passada aos agentes o mais depressa possível.

- Localize-os primeiro pelo pager - disse à agente Belinda Warner, que trabalhava ao computador na sala ao lado. - Quando telefonarem informe-os, mas, por amor de Deus, diga-lhes que não façam ondas.

Depois voltou para a sala de conferências tapando a caneta de feltro e voltando a colocá-la no suporte do quadro. Barbara relatara-lhe todas as actividades do dia, desde a conversa com Connie e Rachel Winfield atéàs tentativas falhadas de confirmar a história de que Sahlah Malik lançara do pontão a pulseira de ouro. Emily acenara afirmativamente, continuandoa escrever no quadro. Apenas quando o problema da possível homossexualidade de Querashi lhe foi posto é que se entusiasmou.

- O que acham os Muçulmanos da homossexualidade? - Fez a pergunta como se esta fizesse parte da investigação.

- Não faço a mínima ideia - respondeu Barbara. - -Mas, no caminho, quanto mais pensava na questão da homossexualidade, menos conseguia ligá-la com o assassínio de Querashi.

- E porquê?

Emily dirigiu-se a um dos muitos placards que cobriam as paredes. Lá estavam pregadas cópias de fotografias da vítima. Estudou-as com serie dade, como se assim conseguisse a confirmação das tendências sexuais de Querashi.

- Porque me parece mais provável que se um dos Malik descobrisse que Querashi andava no engate, cancelasse o casamento e lhe desse um pontapé de volta para Carachi. De certeza que não o haviam de matar. Para quê?

- São asiáticos. Não quereriam ser humilhados - afirmou Emily. De certeza que não conseguiriam... como foi que Muhannad disse?... Erguer orgulhosamente as cabeças, se soubessem que Querashi os tinha feito fazer figura de parvos.

Barbara pensou no que Emily sugeria. Alguma coisa lhe parecia estar levemente fora do sítio. Disse:

- Então um deles matou-o? Que diabo, Em, isso é levar ao extremo o orgulho étnico. Parece-me mais provável que Querashi fosse atrás de alguém que soubesse o seu segredo, do que alguém ir atrás dele, por ele ter esse segredo. Se a homossexualidade estivesse na raiz de tudo isto, não seria mais sensato ver Querashi como assassino do que como vítima?

- Não, se um asiático, ultrajado por saber que um homem planeava servir-se de Sahlah Malik como cobertura para as suas tendências homossexuais, perseguisse Querashi.

- Se fossem essas as intenções de Querashi - disse Barbara. Emily apanhou uma pequena bolsa de plástico que se encontrava sobre um dos terminais de computador que havia na sala. Retirou-lhe o arame que o fechava e de lá de dentro saíram quatro cenouras. Vendo isto, enquanto o inspector mastigava virtuosamente, Barbara tentou não se sentir culpada por ter anteriormente consumido os arenques e as amêndoas, para não falar no que fumara.

- Qual é o asiático que te vem à cabeça, quando pensas em alguém levado ao assassínio para se vingar de uma coisa assim?

- Já sei a quem te referes - disse Barbara. - Mas pensei que Muhan nad fosse um homem do seu povo. Se não é, e se matou Querashi, então porque está a fazer tanto barulho por causa do crime?

- Para aparecer com ar de santo. Jlhad: a guerra santa contra os infiéis. Clama por justiça, dirige as atenções para um culpado inglês e, já agora, desvia-as de si próprio.

- Mas Em, afinal é a mesma coisa do que o que Armstrong pode ter feito com o carro. Uma abordagem diferente, mas a mesma intenção.

- Armstrong tem um álibi.

- E Muhannad? Descobriste o tal Rakin Khan em Colchester?

- Oh, claro que o descobri. Estava em conferência num gabinete privado do restaurante do pai, com mais meia dúzia como ele. Com um fato Armani, sapatos Bally, relógio Rolex e um anel com um diamante da Burlington Arcade. Afirmou ser um velho amigo de Malik, desde os tempos da universidade.

- O que é que ele disse?

- Confirmou tudo, palavra por palavra. Disse que nessa noite os dois tinham jantado juntos. Tinham começado às oito e ficaram até à meia-noite.

- Um jantar de quatro horas? Onde? Num restaurante? Nesse restaurante?

- Isso seria óptimo para nós, não é? Mas não, este jantar realizou-se, disse ele, em sua casa. E ele confeccionou toda a refeição, que foi o que levou tanto tempo. Gosta de cozinhar, adora cozinhar, cozinhou sempre para Muhannad na universidade, disse, porque nenhum deles era capaz de suportar a comida inglesa. Até me recitou o menu.

- Alguém confirma a história?

- Oh, claro. Porque muito convenientemente não estavam sós. Havia lá outro fulano estrangeiro, é estranho, não é, que todos sejam estrangeiros? Também colega da universidade. Khan disse que era uma pequena reunião.

- Bom - disse Barbara - se ambos confirmam...

- Tretas - Emily cruzou os braços. - Muhannad Malik teve muito tempo antes de eu ir a Colchester, para telefonar a Rakin Khan a dizer-lhe que confirmasse a história.

- Da mesma maneira - disse Barbara - Armstrong teve muito tempo para pedir aos sogros que fizesse o mesmo. Falaste com eles?

Emily não respondeu.

Barbara continuou.

- Ian Armstrong tem um motivo sólido. Porque estás tão interessada em Muhannad?

- Protesta demais - disse Emily.

- Talvez tenha alguma razão para protestar - afirmou Barbara. Olha, concordo que ele parece ter tudo preparado. E esse Rakin IChan deve ser igual. Mas estás a esquecer-te de alguns pormenores a que não podes ligar Muhannad. Há pelo menos três: disseste que o carro de Querashi estava destruído, que o corpo tinha sido mudado de sítio e que as chaves atiradas para o meio dos arbustos. Se Muhannad matou Querashi para lavar a honra da família, então porquê destruir o carro e remover o corpo? Porquê pôr letreiros luminosos por cima do que poderia ser considerado um acidente?

- Porque ele não queria que fosse considerado um acidente - disse Emily. - Porque queria exactamente o que conseguiu: um incidente para unir o seu povo. Mata dois coelhos com uma cajadada: vinga-se de Querashi, que lhe manchou o nome da família, e cimenta a sua posição na comunidade asiática.

- Está bem. Talvez - disse Barbara. - Mas por outro lado, porque é que acreditamos na história de Trevor Ruddock a propósito da homossexualidade? Também tem um motivo. Está bem. Não recuperou o emprego como Armstrong, mas não me parece do tipo de recusar uma boa vingança se tiver oportunidade de a conseguir.

- Disseste que ele também tinha um álibi.

- Porcaria! Todos eles têm óptimos álibis, Em! Alguém tem de estar a mentir nalguma coisa.

- Isso, sargento Havers, é exactamente o que eu penso. - A voz de Emily estava muito calma, mas tinha um certo tom metálico que recordou mais uma vez a Barbara duas coisas: que Emily não era apenas seu superior por razões de talento, inteligência, intuição e capacidade, mas que ela própria tinha sido admitida para trabalhar neste caso com a generosa autorização do inspector Barlow.

Deixa-te disso, disse para si própria. Isto não é para ti, Barb. De repente teve consciência do calor que havia na sala de reuniões. Estava pior do que um forno. A luz irritante do fim da tarde entrava como uma invasão armada. Quando, perguntou para si mesma, tinha havido neste país um Verão tão violento e desagradável, até na praia?

- Verifiquei o álibi de Trevor - disse ela. - Na volta parei na Racon Jewellery. Segundo a mãe, Rachel pôs-se a andar assim que eu saí. A mãe não sabe onde Rachel esteve na noite do crime porque ela própria foi dançar num concurso de danças de salão, em Chelmsford. No entanto disse uma coisa interessante.

- O que foi? - Perguntou Emily.

- Disse: Sargento, lembre-se que a minha filha só sai com rapazes brancos. Não se esqueça disso. O que achas que queria dizer-me?

- Que está preocupada com alguma coisa.

- Sabemos que Querashi se ia encontrar com alguém nessa noite. Só temos a palavra de Trevor Ruddock a dizer-nos que Querashi andava atrás de homens. Mesmo que Querashi o fizesse, isso não quer dizer que não desse para os dois lados.

- Agora juntaste Querashi e Rachel Winfield? - Perguntou Emily.

- Ela deu-lhe o recibo da ourivesaria, Em. Deve ter tido uma razão. Barbara considerou um outro elemento do puzzle, que ainda não tinham tentado colocar. - Mas isso não resolve a questão da pulseira: o que fazia Theo Shaw com ela? Parti do princípio que Sahlah lha dera. Mas poderia sempre tê-la tirado do corpo de Querashi. No entanto, se o fez, significa que a mentira de Sahlah a respeito de ter atirado a pulseira do pontão foi motivada pelo facto de ela saber que quem quer que tivesse a pulseira estava envolvido nisto. Se não, para quê mentir?

Por detrás dela, Emily disse com alguma raiva.

- Que diabo, isto é como voltar a entrar na toca do coelho. O tom do comentário feito por Emily, fez com que Barbara observasse o inspector mais de perto. Emily estava encostada à borda da mesa. Pela primeira vez notou-lhe a pele manchada debaixo dos olhos.

- Em - disse.

- Se for um deles, Barb, esta cidade rebenta.

Barbara sabia o que ela queria dizer: Se o assassino fosse inglês e a inquietação racial na cidade aumentasse por causa disso, iam rolar cabeças. E a primeira seria a de Emily Barlow.

No silêncio que se manteve entre elas, Barbara ouviu vozes lá em baixo, na entrada. Um homem falava com palavras ásperas a que uma mulher respondia em tom calmo e profissional. Barbara reconheceu pelo menos o homem. Muhannad Malik estava na recepção, para a reunião dessa tarde com a polícia.

Azhar deveria estar com ele. Tinha pois chegado o momento de Barbara contar a verdade a Emily Barlow.

Abriu a boca e descobriu que não conseguia. Se explicasse tudo - pelo menos tudo o que era capaz, já que pouco se incomodara em analisar os motivos que a tinham trazido a Balford - Emily teria de a retirar do caso. Não poderia considerar Barbara como um lado objectivo da investigação quando ao lado de um dos suspeitos se movia um homem que vivia a poucos metros da sua casa em Londres. E agora Barbara queria manter-se no caso por mais do que uma razão. Enquanto que era verdade que ao princípio viera para Balford-le-Nez por causa dos seus vizinhos paquistaneses, apercebia-se que agora queria ficar por causa da colega.

Barbara sabia bem a miríade de preços que as mulheres tinham de pagar para terem êxito na polícia. Nessa profissão, os homens não tinham de convencer ninguém que o sexo nada tinha a ver com a competência. As mulheres tinham de o fazer todos os dias. Por isso, se pudesse, estava disposta a ajudar Emily a manter a sua posição e a provar que era um bom inspector.

- Estou do teu lado; Em - disse calmamente.

- Estás. - Uma vez mais, Emily tinha feito uma afirmação, não perguntara. Isto recordou outro facto a Barbara: quanto mais alto uma pessoa subia em autoridade e poder, menos amigos verdadeiros tinha. Mas uns instantes depois, Emily sacudiu fossem quais fossem os pensamentos negros que a perturbavam. Disse: - Onde estava Theo Shaw sexta-feira à noite?

- Diz que estava em casa. A avó estava lá, mas não pode confirmar coisa alguma, pois tinha ido para a cama.

- Essa parte da história provavelmente é verdade - disse Emily. Agatha Shaw, é a avó dele, teve uma trombose há algum tempo. Precisará de descansar.

- Theo ficou assim com a oportunidade de ir ao Nez a pé - fez notar Barbara.

- O que pode explicar o facto de ninguém ter ouvido outro carro na vizinhança - Emily franziu a testa pensativa. Dirigiu a atenção para um segundo quadro. Nele rabiscou os apelidos dos suspeitos e as iniciais dos primeiros nomes. A seguir escreveu o sítio onde diziam ter estado na altura em questão. Disse: - A Malik parece muito dócil, mas se estivesse secretamente envolvida com Theo, poderia ter uma razão para atirar o noivo pelas escadas do Nez. De certeza que acabaria com a sua obrigação para com Querashi. Permanentemente.

- Mas tu disseste que o pai tinha afirmado que não a obrigaria a casar com ele.

- É o que ele diz agora. Mas poderia estar a encobri-la. Talvez ela e Theo estejam os dois metidos nisto.

- Romeu e Julieta matando o Conde Paris em vez de se suicidarem? Sim. Pode ser. Mas para além de estragarem o carro, facto que vamos esquecer por uns instantes, há uma coisa que não tivemos em conta. Digamos que Querashi foi enganado para se dirigir ao Nez e conversar com Theo Shaw sobre a relação deste último com Sahlah. Como se explica então os preservativos que tinha no bolso?

- Merda. Os preservativos - disse Emily. - Muito bem, então talvez ele não se tenha ido encontrar com Theo Shaw. Mas, mesmo que nada soubesse a respeito dele, uma coisa é certa: Theo sabia quem ele era.

Barbara tinha de admitir que a balança da culpa pendia agora na direcção de um inglês. Perguntava a si própria que diabo iria contar aos paquistaneses na altura da reunião. Já imaginava o que Muhannad Malik faria com qualquer informação que confirmasse que o crime era de natureza racial.

- Muito bem - disse. - Mas não podemos esquecer que apanhámos Sahlah Malik a mentir. E como Haytham Querashi tinha o recibo, acho que poderemos concluir que alguém queria que ele soubesse que Sahlah tinha uma outra relação.

- Rachel Winfield - disse Emily. - Para mim, é ainda um enigma em tudo isto.

- Uma mulher foi visitar Querashi ao hotel. Uma mulher de chádor.

- E se essa mulher fosse Rachel Winfield, e se Rachel Winfield quisesse Querashi para si. .

- Chefe? - Emily e Barbara voltaram-se para a porta, onde Belinda Warner aparecera com um monte de papelinhos na mão. Estavam muito bem agrupados em diferentes montinhos. Barbara reconheceu as cópias das mensagens telefónicas do Burnt House Hotel que entregara nessa manhã a Emily.

- O que é isso? - Perguntou esta.

- Verifiquei este monte, agrupei-o por categorias e investiguei toda a gente. Ou pelo menos quase toda. - Entrou e ia poisando cada montinho, à medida que o identificava. - Chamadas dos Malik: Sahlah, Akram e Muhannad. Chamadas de um construtor: um fulano chamado Gerry DeVitt, de Jaywick Sands. Estava a fazer umas obras na casa que Akram comprou para os noivos.

- DeVitt? - Perguntou Barbara. - Em, ele trabalha no pontão. Falei com ele esta tarde.

Emily apontou no bloco que apanhou de cima de uma mesa da sala de reuniões.

- Que mais? - Perguntou a Belinda.

- Telefonemas de um decorador de Colchester que também estava a trabalhar na casa. E por fim, telefonemas variados: de amigos, acho eu, por causa dos nomes: Mr. Zaidi, Mr. Faruqi, Mr. Kumhar, Mr. Kat...

- Kumhar?- Perguntaram simultaneamente Emily e Barbara. Belinda ergueu os olhos.

- Kumhar - confirmou. - Foi quem telefonou mais. Há onze mensagens dele. - Lambeu o indicador e folheou o último montinho. Tirou de lá o papel que procurava. - Aqui está. Fahd Kumhar - disse.

- Graças a Deus. Aqui está - afirmou Barbara com toda a reverência.

- É um número de Clacton - continuou Belinda. - Telefonei para lá, mas era apenas um quiosque de jornais e revistas em Carnarvon Road.

- Carnarvon Road? - Perguntou Emily imediatamente. - Tem a certeza absoluta que é Carnarvon Road?

- Tenho aqui mesmo a direcção.

- Isto caiu-nos do céu, Barb.

- Porquê? - Perguntou Barbara. Num dos placards havia um mapa da zona e Barbara dirigiu-se a ele para o observar, procurando localizar Carnarvon Road. Encontrou-a. Era um perpendicular ao mar e ao Passeio da Marina de Clacton. Passava pela estação de caminho-de-ferro e acabava na A133, que era a estrada para Londres. - Há alguma coisa importante em Carnarvon Road?

- Há uma demasiado evidente para ser coincidência - disse Emily. Carnarvon Road segue pelo lado oriental do mercado. Do mercado de Clacton, claro, onde apareceu essa história dos engates.

- Aí temos um óptimo pormenor - disse Barbara. Voltou-se e deu com o inspector a olhar para ela. Emily tinha os olhos brilhantes.

- Acho que há alguma coisa de novo, sargento Havers - tendo na voz um novo vigor que Barbara sempre encontrara em Barlow, a Fera. Seja quem for Kumhar, vamos caçá-lo.

 

SAHLAH USOU DE GRANDE CUIDADO para arrumar os instrumentos da sua arte. Retirou os tabuleiros de plástico transparente de dentro da caixa verde de metal onde os arrumava e alinhou-os muito direitos. Extraiu o alicate de pontas estreitas, a broca e o corta-arame das capas protectoras e colocou-os ao lado das linhas, cordões e correntes douradas que usava para montar os complicados colares e brincos que Rachel e a mãe se tinham simpaticamente comprometido a vender na loja, juntamente com as bijutarias.

- Isto é tão bom como o que vendemos na Racon - declarara Rachel com lealdade. - A minha mãe quer expô-las, Sahlah. Vais ver. De qualquer modo, que mal faz tentar? Se se venderem, arranjas dinheiro para ti. Se não, ficas com bijutaria nova, certo?

Havia um certo grau de verdade nas palavras de Rachel. Mas para lá do dinheiro - três quartos do qual entregou aos pais, depois de ter retirado o suficiente para pagar a pulseira de Theo - fora a ideia de fazer uma coisa a partir da sua própria expressão que motivara Sahlah a desenhar e a criar para ganhar uns tostões fora de casa.

Teria sido este o primeiro passo? Perguntava a si própria ao pegar no tabuleiro das contas africanas, deixando-as cair na mão como se fossem pingos de chuva, frescos e macios. Fora quando decidira começar esta solitária arte criativa que acordara para as possibilidades oferecidas pelo mundo, para lá do seio da família? E teria este acto de criar uma coisa tão simples como a bijutaria, no isolamento do seu quarto, produzido a primeira brecha na sua submissão?

Sabia que não. Nada era assim tão simples. Não havia uma causa- e-efeito primários que pudesse apontar para a explicação, não só a inquietação do seu espírito como também a dor de um coração solitário. Pelo contrário, havia, sim, a dualidade de uma vida vivida a tentar caminhar ao mesmo tempo com os pés assentes em dois mundos em conflito.

- És a minha menina inglesa - dissera-lhe o pai quase todos os dias, quando de manhã a via sair com os livros da escola. E notara o tom de orgulho na sua voz. Nascera em Inglaterra; andara na escola primária, ali na cidade, com outras crianças inglesas; falava a língua pelo nascimento e pela exposição a ela, não por ter tido de a aprender já adulta. Assim, no espírito do pai era inglesa, tão genuinamente inglesa como qualquer criança com faces de porcelana coradas como a pele de um pêssego, depois das brincadeiras. Era de facto, tão inglesa quanto Akram desejaria ser.

Sahlah apercebia-se que Muhannad tinha razão nisto. Embora o pai tentasse usar dois modos de vestir culturais, o seu verdadeiro amor ia para os fatos de três peças e sapatos engraxados, do seu país de adopção, apesar de se sentir ligado pelo dever aos shalwár- gamis dos seus antepassados. A partir do momento em que os filhos nasceram, esperara que partilhassem com ele essa dicotomia. Em casa deveriam ser respeitosos: Sahlah submissa e obediente, aperfeiçoando as tarefas do lar, para agradar a um futuro marido; Muhannad respeitador e industrioso, preparando-se para receber a responsabilidade do negócio da família, bem como a de produzir filhos-homem para, na devida altura, receberem também essa responsabilidade.

Porém, fora de casa, os dois filhos Malik deveriam ser exclusivamente ingleses. Encorajados pelo pai a misturarem- se com os colegas, deveriam estabelecer amizades para granjear o respeito e a afeição pelo nome da família e, consequentemente, pela sua empresa. Com vista a atingir este objectivo, Akram vigiava os dias de escola dos filhos, em busca de sinais de progresso social onde seria menos provável que eles aparecessem.

Sahlah tentara animá-lo. Incapaz de enfrentar o desapontamento do pai, fez cartões do Dia dos Namorados e postais de Parabéns, que endereçou a si própria e trouxe para casa assinados com o nome dos colegas. Escrevera também bilhetinhos, para fingir que tinham sido passados durante as aulas de Ciências e Matemática. Encontrara fotografias dos colegas e escrevera por detrás dedicatórias a si mesma. E, quando o pai sabia que havia festas de aniversário, fingia que era convidada para uma celebração em que nunca era incluída, e ia esconder- se por detrás de uma árvore, ao fundo do pomar, onde se ocultava da casa e da perspectiva da desilusão do pai.

Mas Muhannad não fazia as mesmas tentativas para realizar as fantasias do pai. Não tinha qualquer complexo em ter a pele escura num mundo de brancos, nem procurava mitigar a consternação que encontrava, consternação essa que se erguia à vista de um estrangeiro vivendo entre uma população pouco habituada a rostos escuros. Tal como ela nascido em Inglaterra, acreditava tanto que era inglês como considerava possível as vacas voarem. De facto a última coisa que Muhannad quereria neste mundo era ser inglês. Desprezava a cultura inglesa. Desprezo era o que sentia pelas cerimónias e tradições que formavam a base da vida inglesa. Ridicularizava a fleuma, essa característica, exigida aos homens que se consideravam cavalheiros. Evitava todas aquelas máscaras que os ocidentais usavam para esconder as suas tendências e preconceitos. Mostrava sim, as tendências que lhe eram próprias, os preconceitos e animosidades, como se fossem o brasão da família.

E os demónios que o assombravam não eram, nem nunca tinham sido, os demónios da raça por muito que se tentasse convencer a si e aos outros que o eram.

Mas Sahlah decidiu que agora não iria pensar em Muhannad. Apanhou o alicate como se fingindo que trabalhava conseguisse afastar do espírito qualquer consideração sobre o irmão. Puxou para si uma folha de papel, para desenhar um colar, esperando que o facto de pôr o lápis no papel e as contas enfeitadas em posição, lhe obliterassem da memória o brilho dos olhos do irmão, quando estava decidido a conseguir o que queria, o traço de crueldade que sempre conseguira manter diligentemente escondido dos pais e, principalmente, aquela sua raiva que se lhe escapava dos braços e dos dedos quando ela menos esperava.

Lá em baixo, Sahlah ouvia Yumn chamando um dos filhos.

- Bebé, meu querido - arrulhava. - Queridinho, vem à tua Ammi- gee, meu homenzinho.

Sahlah sentiu a garganta fechar-se-lhe, sentiu a cabeça leve e na sua frente, as contas africanas confundiam-se umas com as outras sobre a mesa. Largou o alicate, cruzou os braços no tampo da mesa e descansou neles a cabeça. Sahlah perguntava-se como poderia pensar nos pecados do irmão, quando os seus eram tão graves e capazes de prejudicar irreparavelmente a família.

- Vi-te com ele - Muhannad sibilara-lhe ao ouvido. - Sua cabra. Vi-te com ele, ouvis-te? Eu vi. E vais pagá-las. Porque todas as prostitutas pagam. Principalmente as putas dos brancos.

Mas ela não tencionara prejudicar ninguém. Muito menos apaixonar- se. Tinham-lhe permitido trabalhar com Theo Shaw porque o pai o conhecia da Cooperativa dos Empresários e porque aceitar a oferta que ele fizera dos seus conhecimentos de informática era mais uma maneira de Akram Malik demonstrar solidariedade com a comunidade inglesa. A fábrica de mostarda tinha-se mudado recentemente para a zona industrial, situada no caminho que levava à mansão, e esta expansão requerera uma actualização dos processos empresariais.

- É altura de entrarmos no século vinte - dissera Akram à família. Os negócios vão bem. As vendas aumentam. As encomendas subiram dezoito por cento. Falei com os empresários da Cooperativa e há entre eles um jovem decente capaz de nos ajudar a informatizar todos os nossos departamentos.

O facto de Akram ter considerado Theo decente, tornara aceitável a sua interacção com Sahlah. Apesar de gostar deles, Akram teria preferido que a filha não contactasse com homens ocidentais. Uma filha da Ásia deveria guardar-se e preservar-se para o futuro marido: desde o moldar do seu espírito até à protecção da sua castidade. De facto a castidade era quase tão importante como o dote e nada era demasiado para conseguir que uma mulher chegasse virgem ao marido. Como os ocidentais não tinham os mesmos valores, Akram teria de guardar deles a sua filha desde o início da puberdade. Mas pusera todas as preocupações de parte, no que dizia respeito a Theo Shaw.

- É de boas famílias, de uma antiga família daqui - explicara Akram, como se fosse isto que o tornava mais aceitável. - Vai trabalhar connosco para montar um sistema que modernize todos os aspectos da empresa. Vamos ter processadores de texto para a correspondência e programas pa