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CAPÍTULO 17

 

O hotel Comfort Inn & Suites em Framingham, Massachusetts, tinha cheiro de eliminador de odores, janelas vedadas sempre fechadas e lençóis um pouco gastos. Mas pelo menos havia uma máquina de Coca-Cola cheia de bebidas geladas.

Adrian Vogel adorava uma boa Coca, preferindo as velhas garrafas de vidro às latas. Mas ele ficava feliz o suficiente com as garrafas de plástico.

E ele ia comprar duas assim que chegasse ao andar que estava. Uma para ele e outra para...

– Como disse que era seu nome?

A ruiva ao lado dele era exatamente o seu tipo: cheia de curvas, meio perdida e sem qualquer ilusão de que isso seria algo além de sexo.

– Rachel – ela sorriu mostrando os dentes brilhantes e muito brancos. – E acho que vou manter meu sobrenome em segredo.

Cara, aqueles dentes dela eram incríveis... tão alinhados e brilhantes quanto os azulejos de um banheiro. Ela devia ser dentista, ou provavelmente tinha desconto em um.

Que inferno. Com aquele visual ela poderia ser modelo de produtos de higiene dental.

Houve um ding e a porta deslizou, revelando a máquina vermelha e branca de seus sonhos. Quando ele se afastou e deixou a linda, reluzente e sem sobrenome Rachel passar, ele tinha total consciência de que estava usando a garota, mas era uma via de mão dupla. A conversa deles no bar ao lado do hotel tinha começado pelo fato de que ela estava tirando a aliança de casamento.

Parece que o marido dela estava transando com uma de suas amigas.

E levou mais ou menos um minuto e meio para que Adrian se aproximasse com a compensação perfeita.

Ele pagou umas duas bebidas para ela, em seguida, mais uma e sabia que tinha ganhado a moça quando ela perguntou se ele estava hospedado no hotel. Ele disse que sim, estava... com seu melhor amigo. Que era muito mais bonito do que ele.

Certo, estavam totalmente na terra das mentiras. Mas ele gostava de compartilhar com Eddie o fato de que as mulheres estavam em cima dele. Da maneira como o cara atuava nessa área, o filho da mãe nunca pegaria uma garota se Ad não as trouxesse em casa.

– Espere – ele disse ao parar na máquina, tirar sua carteira e pegou algumas notas.

– Sabe? – sua acompanhante falou. – Nunca saí com ninguém como você.

É, ele tinha certeza disso.

– Mesmo? – Quando ele sorriu para ela sobre os ombros, ela focou a argola do lábio inferior... e, por força do hábito, ele lambeu deliberadamente o metal cinza escuro. – Não sou tão ruim, sou?

Seus olhos estavam famintos.

– Nem um pouco. Ei, você tem uma namorada?

Adrian voltou-se para a máquina e colocou o dinheiro, ouvindo o suave Whirrrrr como se aquele George Washington tivesse sido sugado pela goela da coisa.

– Não – ele disse, apertando o botão para pedir uma normal. – Eu não estou com ninguém.

Na verdade, ele esteve... muito recentemente, aliás. Razão pela qual, apesar de sempre gostar de sexo, ele estava tão inclinado a esquecer a garota da noite passada e acabar com Rachel essa noite.

Lavar-se depois que Devina o usava sempre fez parte do processo. Claro, logo depois que ela o soltava, a água quente e o sabão tiravam seu sangue e outras coisas que revestiam a pele dele... mas aquela coisa imunda sempre persistia. Contudo, aquele pequeno pedaço de humanidade iria ajudá-lo a substituir as sensações que permaneceram no seu corpo.

Aquelas que não tinham nada a ver com as contusões que se desvaneciam em sua pele.

A porcaria que Devina deixou nele permanecia na parte traseira de sua mente, apodrecendo. Ao ponto de agora haver dois dele: um que conversava com Jim, ficava alerta e estava pronto para lutar pela alma de Isaac Rothe... e outro que estava envolvido nos recessos de seu parque mental, confuso, dormente e muito sozinho.

– Diet? – ele perguntou.

– Sim, por favor.

Desta vez, a mão tremia ao alimentar a boca da máquina. Ao ponto de ter que fazer algumas tentativas para que a nota entrasse.

– Ei. Pode fazer uma coisa por mim?

– Claro.

– Coloque seus braços em volta de mim.

Houve um riso macio e, então, ele sentiu uma suave compressão em torno de sua cintura quando Rachel Sem Sobrenome fez o que ele pediu. Quando ela se inclinou sobre as costas dele, os seios macios pressionaram sua musculatura rígida e o calor do corpo dela era um tremendo contraste com o que estava acontecendo dentro dele.

Ele estava tão gelado. Gelado como a Coca que estava comprando.

Adrian deixou cair a cabeça e apoiou uma mão contra a máquina, mantendo os dois em pé.

Devina ia matá-lo. Se não foi quando ela estava transando com ele de fato, então seria com a consequência disso: seu cérebro não estava mais funcionando direito e, conforme os dias passavam, ele não voltava ao normal e isso estava começando a preocupá-lo. Ele achava que Jim não sabia; estava preocupado em Eddie saber... e aí estava o problema: ele não tinha intenção de ser tirado do jogo pelos poderes daquele ser de novo. Ele era um lutador e tinha uma vingança pessoal contra Devina... e isso significava que tinha que se recompor.

– Sabe? – Rachel murmurou contra seu ombro. – Se queria sentir meus seios, há uma maneira melhor de fazer isso.

Ele engoliu em seco e colocou sua máscara de volta no lugar. Virando-se nos braços dela, ele afastou os cabelos vermelhos do pescoço e inclinou o queixo da moça para cima.

– Você tem toda razão.

Ele estava completamente vazio quando a beijou, mas ela não sabia disso e ele estava tão desesperado para fazer uma conexão que não se importava.

– Adrian... – Quando pronunciou o nome dele, achou que tinha gostado da sensação da barra de metal no meio de sua língua contra a língua de Rachel.

Correndo as mãos dos quadris até a bunda dela, ele a puxou com força contra seu corpo e tentou romper com o círculo ártico que havia dentro dele através das curvas dela, da maneira como ela se movia contra ele, do cheiro do seu perfume, do gosto do drinque que ela tinha bebido.

Mantendo o ritmo, ele apertou o botão diet e a máquina expulsou outra garrafa.

– Vamos lá – ele rosnou, pegando o refrigerante para ela. – Deixe-me apresentá-la a Eddie. Como disse, você vai gostar dele. Todos gostam.

Ele lançou uma piscada para ela na tentativa de um flerte e, dada a maneira como ela sorriu, ficou claro que caiu no encanto... e estava realmente aberta àquilo que estava entrando.

– Sabe? Nunca fiz isso antes – ela disse enquanto ele a conduzia pelo corredor. – Bem, com... você sabe.

– Duas pessoas? – Ela riu novamente e ele sorriu para ela. – Está tudo bem. Vamos tratá-la muito, muito bem.

Ia funcionar, ele pensou enquanto pegava a chave plástica para abrir a porta. Tinha que funcionar. Na noite passada não tinha sido suficiente, mas, depois daquilo, sua mente ia ficar limpa e sua cabeça voltaria ao lugar e ele ia tirar aquele pedaço de carne das mãos de Devina.

Quando chegaram ao quarto dele, Adrian parou, colocou o cartão na fenda e abriu apenas uma fresta.

– Temos companhia. Você está apresentável?

A resposta de Eddie foi rápida e aborrecida.

– Claro que estou.

Adrian entrou com aquele sorriso fabricado pregado na porta da frente de seu rosto.

– Onde você está, cara?

Quando seu amigo saiu do banheiro, o olhar rígido de Eddie mudou no instante em que viu a mulher.

Não estava mais tão aborrecido. Mas Adrian sabia que o cara tinha uma coisa por ruivas – razão pela qual a bela Rachel estava sendo levada a fazer aquilo.

Enquanto Eddie avançava para se apresentar, Ad aproximou-se e colocou a cabeça através da porta aberta que conectava o quarto de Jim com o deles.

O anjo estava sentado na frente do laptop que ele tinha comprado no início do dia. De um lado dele, havia uma caixa aberta de pizza meio comida e do outro um cinzeiro onde ardia calmamente um cigarro. No seu colo, o Cachorro era uma pilha de pelo cinza e loiro desalinhado, ao ponto de não ser possível dizer onde acabava a calda e começava o focinho.

Levando em conta a carranca de Jim, ficou bastante claro o que ele estava fazendo no computador: procurando por informações sobre aquela garota que Devina havia assassinado e pendurado de cabeça para baixo numa banheira em Caldwell – a menina virgem que tinha sido sacrificada para proteger o território do demônio. Aquela que Jim tinha tentado salvar... mas quando era tarde demais para isso.

– Jim.

Ao som de seu nome, o cara responsável por salvar o mundo olhou para cima. Seus olhos estavam vermelhos pela falta de sono e parecia que havia um buraco dentro dele – então, sim, ele estava bem como se esperava, dada a quantidade de peso que havia em seus ombros. E ainda assim era evidente que ele estava preparado para a tarefa. E aquela magia que ele tinha tirado da cartola naquela casa de tijolos? Inacreditável. Primeira tentativa em um portão e ele fez daquilo a única. Eddie ou Ad? Os dois teriam que percorrer todo o local marcando as entradas para assegurar uma cobertura adequada.

O tipo de coisa que faz com que se pergunte o que mais o bastardo poderia fazer.

– O que é, Ad? – o cara disse enquanto pegava um cigarro e dava uma tragada. O exalar foi lento e cansado.

Adrian levantou o dedão apontando para trás do ombro.

– Vamos nos ocupar por um tempo.

– Agora?

Como se fosse uma dica, Rachel soltou uma de suas risadas e logo em seguida veio um rosnado baixo. O que normalmente significava que Eddie estava tentando alguma coisa. Um beijo. Uma apalpada. Uma chupada...

O olhar de Jim se estreitou.

– Você está bem?

Adrian recuou e começou a fechar a porta. Ele não queria Jim envolvido em seu drama. Era algo para ser desfeito na frente de Eddie – com quem ele enfrentou o diabo na vida. Literalmente.

Mas não Jim. Ele gostava do cara... confiava nele... queria trabalhar com ele. Contudo, era só isso.

– Espere um minuto – Jim exigiu.

– Eu tenho que ir...

– Pode me dar só um minuto? Algo me diz que eles não irão muito longe sem você.

Adrian estava com problemas.

Jim tinha certeza disso quando o cara parou na porta com aquele sorriso falso na boca e um corpo tão rígido que rangia como um cabo de alta-tensão. Claro, ele estava contendo a tensão toda, mas aquela não podia ser a verdade na rotina do Sr. Grosseirão, era?

O cansaço da batalha não era brincadeira; aquilo tinha fraturado seu cérebro e isso se apresentava como um grande perigo para si e para outras pessoas. Afinal, andar com alguma coisa que não funcionava direito dentro de si era como ter uma arma em um coldre que poderia falhar a qualquer momento e explodir em sua mão.

– Adrian.

– O que? – A resposta do cara não foi uma abertura para discussão. E nem foi fruto da mão com longas unhas vermelhas que serpenteava pelo seu quadril e começou a puxar sua camisa.

– Vem aqui um segundo – disse Jim, bem ciente de que estava iniciando uma tarefa inútil. Não havia chance do anjo se afastar da Sra. dos Dedos Simpáticos que estava atrás dele.

– Estou um pouco ocupado agora, cara. – Seus olhos eram nada além de vidro, como se qualquer coisa que o preenchesse tivesse tirado férias.

– Isso é mais importante.

– Vá se ferrar, idiota, não sou bom de conversa. Sou mais de agir.

Houve outra risada e a camisa foi puxada pelo peitoral do anjo... e depois houve uma pausa, como se a mulher estivesse surpresa com algo que tinha descoberto. Fazia sentido. Os mamilos de Ad eram perfurados com piercings em forma de barras e uma corrente de metal cinza escuro ligava o conjunto – e não parava por aí. Os elos desciam por seu peitoral bem definido e percorriam por baixo da cintura da calça.

Jim também começou com seu “Ei espere um minuto” quando ligou os pontos do que via.

– Olha, Adrian – ele iniciou, preparado para começar, mesmo se tivessem plateia.

Ad se virou para a mulher.

– Vá dizer ‘oi’ a Eddie um minuto, querida.

A ruiva seguiu a sugestão e saiu, cruzando até o outro cara e puxando-o para um beijo. Através da fresta da porta, a maneira como Eddie a levou para cama era um show infernal, deitando-a e cobrindo-a com seu corpo pesado. Considerando seu ar ofegante, ela estava no céu ao puxar a regata...

Jim franziu a testa e levantou, perguntando-se se ele estava vendo direito... e, sim, ele estava. Eddie era muito marcado... mas não como uma queimadura ou chicotadas aleatórias. Era a mesma simbologia que havia na barriga da menina no local que Devina...

Quando Jim explodiu atrás dele, Adrian entrou na linha de visão, bloqueando-a. Assim como o caminho para dentro do outro quarto.

– Que porcaria é aquela nele? – Jim sussurrou, apoiando o Cachorro.

Adrian apenas balançou a cabeça enquanto as luzes se apagavam na sala e alguma coisa caía no chão. Como se fosse uma das botas de combate de Eddie.

– Não vamos conversar sobre nada – o anjo disse em voz baixa. – Vamos trabalhar para você e fazer o que for preciso para ajudá-lo a vencer, mas você não é bem-vindo na nossa fossa, Jim. Ele e eu estamos juntos há muito tempo e, em caso de não ter notado, você acabou de chegar nesse serviço.

Uma voz profunda e gutural cresceu na escuridão.

– Vem, Adrian.

Tinha certeza que não era a mulher que tinha feito o pedido. E, pela primeira vez, Ad, que não recebia ordens, parecia com vontade de cumprir uma.

– Estamos bem do outro lado da porta se precisar – disse o rapaz que desapareceu na escuridão e no sexo. – É só gritar.

E, em seguida, tudo se fechou com firmeza.

Jim afundou de volta na cadeira e recolocou o Cachorro no colo. Acariciando a pele áspera do animal, ele teve que se esforçar para permanecer onde estava. Ele queria invadir o outro quarto e exigir que Adrian consultasse um psiquiatra e Eddie falasse sobre o que eram aquelas marcas. Mas, convenhamos... todo mundo estava seminu e prestes a ficar totalmente nu. E, em seguida, aquela coisa ofegante ia começar.

– Inferno... maldito inferno.

Fechando os olhos, ele visualizou a padronização esculpida nas costas de Eddie e se lembrou do momento em que invadiu o banheiro de Devina e encontrou aquela jovem garota inocente de cabeça para baixo sobre a banheira. O sangue dela era vermelho brilhante contra a porcelana branca e cobria toda sua pele pálida e cabelos loiros. Ela tinha sido abatida e marcada pelo demônio, a pele tinha sido arranhada formando símbolos.

Os mesmos que Eddie tinha.

Era óbvio que Devina tinha colocado suas garras naquele anjo. E Jim precisava dos detalhes daquilo.

Voltando a se concentrar no laptop que tinha comprado durante a tarde, ele limpou a proteção de tela com um toque de seu dedo. Aquele Dell só tinha velocidade e memória civis, mas ele não ia comandar satélites a partir de seu teclado – e o site do Jornal de Caldwell era acessado com suficiente facilidade.

Ao voltar para os arquivos, aquela figura da menina era uma ferida em carne viva em seu cérebro. Cadáveres não eram novidade para ele e, ainda assim, aquele tinha cavado um buraco no seu tronco cerebral e se estabeleceu no coração de sua CPU.

Ele queria pelo menos ter dado a ela um enterro apropriado. Mas quando ele entrou na sala, quebrou o feitiço que protegia o espelho sagrado de Devina e eles tiveram que sair. Depois disso, os restos mortais da menina tinham desaparecido.

O que levou Jim aos jornais. Alguém estaria à procura de sua filha e o corpo – ou os pedaços disso – seriam encontrados em algum momento: Adrian sustentava que Devina geralmente só jogava fora o que sobrava, ao invés de destruir, pois o abandono causaria mais dor à família e amigos.

Que moça bonita era aquela.

E isso o fez pensar se permanecer desaparecido era melhor do que contaminado e desfigurado. Inferno de escolha.

Na caixa de pesquisa, ele dava entradas como “mulher loira encontrada morta”, “garota loira assassinada” ou “mulher loira morta”. Nada... bem, várias coisas, mas nada que se encaixasse ao que ele procurava. Os resultados eram antigos demais tanto em idade, pois sua vítima parecia ter apenas dezoito/dezenove anos, ou os artigos eram de mais de seis meses atrás enquanto sua garota tinha sido morta muito recentemente: o sangue estava fresco e seu corpo, apesar de mutilado, parecia estar relativamente em boa forma, o que o fez concluir que ela não foi torturada, nem passou fome por um período de tempo antes de sua morte.

Quando o site do jornal não forneceu o que ele queria, sua próxima parada na estrada da informação era o banco de dados nacional de pessoas desaparecidas. Ele pesquisou o estado de Nova York.

Oh... cara. Tanta gente.

Tantas pessoas sofrendo no mundo lá fora: noites que eram preenchidas com pais, ou maridos, ou esposas, ou irmãs e irmãos se perguntando se aquela pessoa que tinha sido tirada deles estava viva, morta, ou em agonia causada por outro.

– Cristo – ele sussurrou.

E ele fazia parte disso, não fazia? Em escala mundial, ele tinha cometido crimes que criaram buracos nas vidas de outras pessoas. Sim, a grande maioria de seus alvos eram os homens maus, mas ele sabia que era fato que muitos deles tinham famílias e agora ele se perguntava o que tinha deixado para trás. Mesmo se os pais de família merecessem morrer, que tipo de propagação do caos ele tinha criado? Ele sabia que alguns de seus alvos eram reconhecidos pelo amor que tinham por seus filhos: eles podem ter sido inimigos com perigosos recursos em um círculo político, mas eles não eram bastardos em casa.

– Que droga, Cachorro... – Houve uma fungada e um focinho frio e úmido colidiu contra sua mão. – Sim, vamos começar a bagunçar isso tudo.

O cão levantou e bocejou, abrindo tanto a boca que deixou escapar um som agudo. Em seguida, com outro fungar, o vira-lata se arranjou novamente no colo de Jim, enrolando suas pequenas patas e relaxando.

Jim tentou alisar o pelo que tinha sido desarrumado com o reposicionamento, mas o de Cachorro era duro e foi um esforço desperdiçado. Animal tolo, sempre parecendo como se um ventilador tivesse sido ligado na frente dele e, em seguida, tivessem jogado quatro latas de spray fixador em cima.

Rostos... nomes... histórias...

Quando um gemido passou pela porta, ele pensou na última vez que tinha feito sexo e ficou enjoado. A ideia de que esteve dentro do seu inimigo era suficiente para murchar seu pênis com um “nunca mais”.

E pensar que os outros dois tinham feito também...

No início, a sensação era difícil de entender. Alguma coisa estava... simplesmente fora. E, então, a ideia vaga do “e daí?” fundiu-se atrás de seu pescoço até que estivesse convencido de que exalavam ar frio em sua nuca.

Ele olhava ao redor, mas ninguém estava lá. E os arrepios persistiam, dando pancadas leves em sua coluna, se transformando em uma frota de formigas que fervilhavam em suas costas.

Jim levantou-se e colocou o Cachorro no carpete.

Isaac, ele pensou. Isaac e Grier...

Aquela casa...

O feitiço na casa.

Ele estava fora do hotel e de volta ao Beacon Hill em questão de um minuto, pousando no jardim dos fundos. O encantamento que ele tinha jogado permanecia no local, a parte externa da casa no centro da cidade ainda brilhava e agora que estava ao seu alcance, soube que tinha uma razão para ir até lá.

Devina estava ali. Ele podia sentir sua presença demoníaca e parasitária.

E, mesmo assim, tudo parecia calmo: através das janelas de vidro laminado na parte dos fundos, a cozinha estava escura. Apenas com a iluminação distante do corredor. Sem sombras se movimentando, nenhum alarme estridente, nenhum grito.

Com uma grande batida de suas asas, ele levitou até o terraço do terceiro andar e pousou em silêncio. Andou até as portas francesas, mantendo-se invisível para os olhos humanos e olhou para dentro. A advogada loira estava em sua cama, deitada de lado diante de uma televisão pequena e, aparentemente, estava dormindo.

Ela parecia bem.

Na verdade, tudo parecia muito bem. Sim, claro, ele sentia aquele fantasma rondando pela casa – mas não era uma ameaça para ela ou para Isaac...

Contudo, o alarme que vibrava em sua coluna vertebral estava ficando cada vez mais forte e ele estava disposto a ouvi-lo ao invés de seguir a ilusão de que estava tudo perfeito. Em um piscar de olhos, ele entrou pela porta de vidro e parou no centro do quarto dela, preparado para agir.

O que pareceu ser um desperdício de tensão muscular.

Mais uma vez, não havia nada fora do lugar, nenhum som...

Franzindo a testa, ele passou pela cama e atravessou a porta fechada do outro lado. Pousando no topo da escada, ele parou, e o formigueiro em suas costas enlouqueceu, o latejar era tão intenso que transformou todo seu corpo em um diapasão. Dirigindo-se para baixo, ele sabia que estava indo na direção certa conforme a sensação ficava ainda pior... e, então, ele entrou como um fantasma no quarto em que Isaac estava.

E encontrou o distúrbio.

Seu colega soldado estava na cama, se revirando nos lençóis, contorcendo o corpo, o rosto contraído de maneira tensa em uma máscara de agonia. Quando suas grandes mãos agarraram o edredom, seus braços se esticaram e aquele peito pesado bombeou o ar com dificuldade.

Devina estava ali, certo, mas ela estava dentro do homem e não em torno dele: o demônio tinha sugado Isaac em um pesadelo e o prendeu em algum tipo de tortura. E o resultado era um tormento muito mais real para seus níveis de irrealidade, Jim imaginou, pois a vadia poderia personalizar o abuso às fraquezas de Isaac, seja lá quais fossem.

Pelo menos, havia uma solução simples: acordar o pobre bastardo.

Jim correu...

Nigel, seu novo chefe, apareceu em uma extremidade do quarto e segurou sua mão para cima como o sinal de um guarda em um cruzamento.

– Se você acordá-lo, ela vai entrar em mais lugares do que apenas em sua mente.

Jim saiu do local da confusão, puxando seu peso para trás sobre os calcanhares e confrontando o tipo lorde britânico que era seu Comandante da Noite. O arcanjo estava vestido com um terno da década de 1920 e ostentando um cigarro em um suporte em sua mão direita e um copo de martini na outra. Mas isso não era uma festa para ele: apesar daquela pose e sua bebida 007, seu rosto e sua voz estavam sombrios como as portas da morte.

Jim apontou a cama.

– Então, eu estava certo. Isaac é minha nova tarefa.

Nigel deu uma tragada e expirou – o que fez Jim perceber que eles realmente tinham algo em comum. Já que eram imortais, presumiam que aquele não era mais um mau hábito.

– Na verdade, salvar a vida dele é a resposta – ele retrucou, eventualmente.

– Mas não posso deixá-lo assim – Jim disse quando Isaac soltou um gemido. – Mesmo que ele sobreviva a isso, é cruel.

– Contudo, você não pode acordá-lo. Você se relaciona com os humanos através de suas almas. É assim que deve conduzir... a maneira de tocá-los ao interagir com eles. Agora, sua mente está contaminada por ela... se você abrir a porta perturbando-o, ela vai valsar em seus calcanhares.

O que não passava nem perto do tipo de assistência que ele queria dar ao inimigo.

E, ainda assim, quando Jim encarou o homem que estava sendo surrado, ele se preocupava se a experiência não iria mesmo matar o coitado do filho da mãe. Parecia que alguém estava rasgando seus braço e pernas.

– Eu não vou deixá-lo sofrer assim.

– Use as ferramentas que tem. Há muitas.

Droga, ele deveria ter trazido Eddie e Adrian com ele.

– Diga quais são.

– Não posso. Eu nem deveria estar aqui. Se eu proporcionar mais orientação, corro o risco de afetar o resultado e, com isso, desqualificar a rodada... ou pior.

Na cama, Isaac deu um grito estridente.

– Droga, o que devo fazer?

Quando não houve resposta, Jim olhou para o canto e não viu nada além de uma fumaça deixada pelo cigarro do arcanjo se desvanecendo em espiral. Seu chefe tinha desaparecido da mesma maneira que surgiu: rapidamente e em silêncio.

– Que inferno, Nigel.

Permanecendo ali, solitário, enquanto suas costas gritavam alertando o sofrimento de Isaac, Jim pegou o telefone e tentou Eddie. Adrian. Eddie de novo. Ele estava prestes a voltar para o hotel a arrastá-los para fora da cama – nus se necessário – quando a solução surgiu.


CAPÍTULO 18

 

Erguendo-se dos travesseiros e sentando-se reta, Grier agarrou o peito e sentiu seu coração bater contra a palma da mão ao acordar arquejando. Com a mão livre, empurrou os cabelos do rosto e olhou em volta. O quarto dela estava envolto em sombras, nada emanava luz além do logotipo do DVD flutuando na tela.

– Isaac? – ela perguntou, a voz embargada.

Sem respostas. E nada de passos subindo as escadas.

Quando a decepção desacelerou seu ritmo cardíaco, ela se corrigiu: foi um alívio. Alívio.

– Daniel? – ela disse suavemente. Quando seu irmão não apareceu, ela entendeu que tinha acordado sozinha, pois seus nervos estavam abalados...

Grier congelou. Havia um homem no quarto. Um homem enorme estava parado em frente às portas francesas, longe da luz da TV. Ele estava absolutamente imóvel, como uma fotografia, e a única razão pela qual ela sabia que ele estava ali era pela silhueta que aparecia contra o brilho da cidade.

Abrindo a boca para gritar, ela... se deteve.

Ele tinha asas.

Asas enormes que se levantavam sobre seus ombros e brilhavam como o luar sobre a água, hipnotizando seus olhos.

Ele era um anjo, ela pensou. E, ao sentir uma paz estranha e desassociada dentro dela, decidiu que aquilo tinha que ser um sonho. Certo? Tinha que ser...

– Por que você está aqui? – ela perguntou, sua voz soou muito, muito distante.

Quando ele deu um passo à frente, seu rosto saiu das sombras e ela ficou impressionada em como sua expressão parecia séria. Nada da doçura dos querubins. Nada daquela expressão tranquila das fadas ou dos mensageiros. Nada de togas também: ele estava vestido com uma camisa preta apertada e... calça jeans?

Ele era um guerreiro.

E isso a fez lembrar de Isaac.

– Por que você está aqui? – ela perguntou mais uma vez, sem certeza de que havia pronunciado as palavras da primeira vez.

Olhando bem nos olhos dela, ele apontou a porta que a levava ao corredor.

“Isaac”, ela pensou... ou talvez ouviu em sua mente.

Grier saltou para fora da cama e correu para a escada, a pressa dirigia seus pés no carpete, sua mão mal tocava o corrimão quando ela derrapou e deslizou escada abaixo.

À porta do quarto de hóspedes, havia o som de algum tipo de luta. “Oh, Deus...”

Entrando de súbito no quarto, ela não conseguia ver muita coisa na escuridão e gritou: – Isaac? Você está bem...

Aconteceu tudo tão rápido que não pôde controlar o movimento. Em um segundo ela estava do lado de dentro dos batentes da porta; no outro, ela foi virada com força, empurrada para o chão e deixada totalmente imóvel, seus braços foram puxados para trás das costas e mantidos assim com força. Um pedaço de metal frio foi empurrado contra sua cabeça enquanto algo pesado segurava seus quadris.

O medo sufocou o ar de seus pulmões, mesmo tendo certeza de que era Isaac, pois ele cheirava ao seu sabonete.

– P-p-por favor... – ela pronunciou com uma respiração forçada. – Sou eu... Grier.

Ele não se moveu. Só começou a ofegar como se estivesse lutando.

Lágrimas escorreram dos olhos dela.

– Is... aac...

– Oh, droga. – Em um piscar de olhos, ele estava fora dela e a arma desapareceu.

Enquanto ela tentava recuperar o fôlego, ele se inclinou para ela e resmungou.

– Eu sinto muito...

Ela se afastou e deu um salto para ficar em pé, movendo-se para trás até que bateu contra a parede. Colocando as mãos trêmulas no rosto, ela tentou respirar melhor e com calma, mas seus pulmões estavam pressionados contra suas costelas e sua garganta estava tão apertada que ela sentia como se estivesse sendo sufocada.

Isaac deu a ela bastante espaço e não disse outra palavra. Ele apenas permaneceu onde estava, no feixe de luz que vinha do corredor. Quando o rugido em seus ouvidos diminuíram, ela percebeu que ele estava nu, aquele blusão dele estava cobrindo suas partes íntimas, seus peitorais e os músculos de seu estômago se destacavam em um relevo austero.

Sem dúvida, ele trocou a arma pela modéstia.

– Eu não sabia que era você – ele disse. – Eu juro.

Em sua cabeça, ela o ouvia dizendo para não entrar até que ele atendesse.

– Grier... – a voz dele embargou, sua expressão era de dor física... como se aquilo que tinha feito com ela o matasse.

Quando ela sentiu que conseguiria falar, olhou bem dentro dos olhos dele.

– Só me responda uma coisa... você está fugindo por uma boa razão ou não?

A resposta demorou a chegar e veio com uma respiração de alívio.

– Boa. Eu prometo – e, então, ele a surpreendeu. – Eu preciso do dinheiro e eu não posso trabalhar legalmente, é por isso que estava lutando. E também por eu ser bem treinado.

Certo, está bem.

Ele xingou e correu a mão pelo cabelo curto, seu bíceps se contraíram e mostraram uma marca de mordida brilhante e com raiva em seu músculo.

– Eu tenho que deixar o país, pois tenho uma chance maior assim. Se eu for encontrado, eles vão me matar. – Ele colocou sua mão sobre o coração, como se estivesse fazendo um juramento.

– Nunca vou machucá-la de propósito. Eu juro. Quando chegou, não sabia que era você. Estava tendo um sonho. Um pesadelo. Merd... – Ele estremeceu. – Quero dizer, droga. Desculpe pelo palavrão.

Ela teve que sorrir um pouco.

– Algumas vezes eles são a única coisa certa para se dizer.

– O que a fez descer? Eu estava... fazendo algum barulho?

Como se ela soubesse o que estava fazendo.

Grier franziu a testa e decidiu manter seu visitante alado em segredo.

– Acho que simplesmente sabia que precisava de mim.

Por um longo momento, eles olharam um para o outro na suave escuridão.

– Posso fazer alguma coisa para ajudá-lo, afinal? – ela sussurrou.

– Apenas aceite o dinheiro que lhe devo e renuncie o caso. Por favor. E se alguém vier perguntando por mim, diga a eles tudo o que sabe.

– Que seria quase nada – ela pensou alto.

– Exatamente.

Balançando a cabeça, ela se aproximou dele e colocou a mão em seu antebraço.

– Eu não posso detê-lo se você vai fugir, mas não posso concordar em ser contaminada pela maneira como conseguiu o dinheiro. Se você deixá-lo comigo, eu simplesmente vou transformá-lo em...

– É para retribuir.

– Não posso aceitar... você sabe que não posso. Minha licença profissional está em risco... honestamente, já estou andando na linha da cumplicidade aqui. Eu devia ter chamado a polícia em Malden. E, amanhã de manhã, vou ter que dizer a eles que o abriguei por um tempo para tentar convencê-lo a mudar de atitude. Tudo isso já é ruim o suficiente.

Mas que Deus a ajudasse, pois ela acreditava nele. Ela acreditava que ele estava fugindo para salvar a própria vida. E, maldição, ela ia fazer o máximo possível para ajudá-lo.

Ao ficar em pé nu em frente a sua advogada, Isaac ainda tentava se reconectar com a realidade. O pesadelo o deixou horrorizado. Por um tempo, depois que acordou, tudo parecia se mover muito rápido e precisou de muita energia para entender o que estava acontecendo.

Deus, a coisa era sempre a mesma com aquele pesadelo e mesmo depois de dois anos, ainda era um terror tão recente quanto o da primeira vez: em um poço de escuridão, um morto-vivo sem pálpebras o surrava até que estivesse ensanguentado da cabeça aos pés e gritando com seja lá o que for que tinham empurrado em sua boca. Nunca havia como escapar. Ele estava preso a algum tipo de mesa e ninguém podia ouvi-lo... e, embora pudesse lidar com a dor física, o que o rendia era saber que a tortura duraria para sempre. Não havia fim para isso...

Grier apertou seu braço e o trouxe de volta para o aqui e o agora.

– Aquele artigo de jornal... – ela disse. – Aquele de cinco anos atrás. Quem foi o responsável pelo corpo na vala?

– Eu não o matei.

Mas ele tinha ouvido falar da morte... e deu a Matthias sua carteira e uma muda de roupa sem fazer muitas perguntas. E, assim que ele virou aquela página de sua vida, foi em direção às operações extraoficiais e desapareceu. Deixar sua família foi algo fácil de fazer. Seu pai criava cinco meninos terríveis na fazenda sozinho e um a menos era uma benção naquele bando de Neandertais. Além disso, ele e seu velho nunca se deram muito bem.

Razão pela qual, ao se tornar um desertor, passou a usar seu próprio nome na carteira de identidade falsa que tinha comprado. Ninguém procuraria por ele para voltar para casa... e com certeza ele não tinha planejado ser preso. Mas a coisa era: se ele estava começando de novo, ele queria voltar a ser a pessoa que era antes de Matthias ter aparecido. Contudo, como ele era estúpido! Nenhuma placa indicaria o caminho para voltar àquele tempo e lugar e nada iria apagar os últimos cinco anos.

O que ele precisava era de perdão.

De repente, o rosto de Grier entrou em foco. Deus, seus olhos eram claros. E inteligentes.

E tão bonitos.

– Grier... – O som do nome dela nos lábios dele era ansioso mesmo para seus próprios ouvidos. Ansioso e desesperado.

– Sim...

Aquilo não era uma pergunta, ele pensou. Foi uma resposta... mas, cara, era a resposta errada.

Afastando-se da mão dela, ele tentou dissipar o que estava acontecendo entre eles.

– Acho melhor você ir.

Ela limpou a garganta.

– Sim. Eu deveria.

Nenhum deles se moveu.

– Ir – ele disse. – Agora.

Quando ela se virou, ele cruzou seu braço livre sobre seu peito para evitar agarrá-la e puxá-la para si.

E ela não foi muito longe ao sair. Ela parou na porta, a luz do corredor atingiu seu perfil e desenhou suas feições perfeitas, sempre muito delicadas.

Ela merecia aquele tipo de cuidado de um amante, ele pensou.

Mas ele era muito bruto, muito carente... faminto demais para ser gentil com ela.

Quando ela parou próxima ao batente, com a mão que tinha estado nele segurando a porta, seus dedos se apertaram ali até suas articulações ficarem brancas.

– O que há de errado? – ele disse em uma voz tão profunda que quase desapareceu.

Que pergunta mais estúpida.

Especialmente quando ele traçou a curva de seus seios com os olhos e quis fazer o mesmo com a boca.

– Você já quis algo que não deveria? – ela perguntou.

Que droga. Ele tinha metade de uma possibilidade de resistir a ela se o desejo fosse unilateral – ou seja, se fosse apenas da parte dele. Não havia nada melhor do que dizer a si mesmo que era um bastardo repugnante para estrangular sua libido. Mas e se ele tivesse acordado em um universo paralelo onde ela também o quisesse loucamente?

Os dois se atraíam... mesmo sem a parte do sexo.

– Já quis? – ela perguntou.

– Sim, senhora. – Agora mesmo é um exemplo.

Agora a voz dela era tão potente quando a dele.

– O que você fez?

Eu dei dois passos à frente e a virei pelos quadris. Eu a puxei firme e a beijei por cerca de um minuto e meio antes de tirar as roupas dela da cintura para baixo. Depois, eu fiquei de joelhos, joguei uma de suas pernas sobre meu ombro e acareciei ela com minha boca até que ela buscasse minha língua e...

– Eu fugi. – Sua garganta estava tão apertada que a resposta soou estrangulada. – Eu fugi e não olhei para trás.

Ela endireitou os ombros como se tivesse se decidido.

– Muito inteligente.

Ele soltou a respiração, aliviado por ela não ser tão insana quanto ele estava pressentindo...

Quando ela fechou a porta, estava do lado de dentro do quarto. Então, foi até ele através da escuridão, vagando como uma sombra... e o conduziu para se deitar na cama.

Isaac não conseguia respirar, nem pensar. Mas ele conseguia se mover.

Com certeza, ele conseguia se mover.

E toda aquela história de “vamos ser inteligentes” foi jogada pela janela quando ele se aproximou e agigantou-se diante dela, vendo sua pele pálida contra os lençóis azuis-escuros. Ela se estendeu no lugar que ele tinha aquecido não com um sonho acolhedor, mas com seus esforços para escapar de um pesadelo. E isso não o lembrou da situação em que os dois iriam acordar.

– Você tem certeza disso? – ele perguntou em uma voz gutural. – Estou deitando neste colchão agora e não vou parar até que esteja dentro de você.

Ele era sincero em cada palavra.

E quando ela abriu a boca, ele a interrompeu.

– Tenha certeza de que vai me dar uma resposta com a qual possa conviver. Pois o que acontecer agora não vai mudar o amanhã.

– Eu sei. E você tem minha resposta. Bem aqui.

Com isso, ela tirou a camiseta pela cabeça e se deitou.


CAPÍTULO 19

 

Grier não conseguiu nem mesmo respirar um pouco de ar fresco quando a brisa gelada atingiu seus seios nus e seus mamilos se tensionaram com uma picada rápida de prazer... embora a reação do seu corpo estivesse mais próxima do calor dos olhos dele presos a ela do que a temperatura ambiente.

E, ainda assim, ela teve que esperar que ele falasse, se movesse, fizesse alguma coisa... qualquer coisa...

Ele largou o blusão.

Um suspiro sugou sua garganta.

Másculo. Animal. Era tudo o que chegava a ela.

Grier não tinha visto muitos homens nus, mas ela tinha certeza que poderia ter sido mil e nenhum deles poderia ser comparado a Isaac Rothe: ele tinha uma constituição pesada nos ombros e no peito, e havia uma tensão na barriga e nos quadris... e totalmente ereto?

Seu sexo mais que vívido sobre o resto dele.

Isaac desceu até ela na escuridão profunda, deslizando contra ela, seu corpo mais rígido e maior do que seus olhos tinham notado, seus seios amorteceram seu peitoral quando o peso foi colocado em cima dela.

Deus, ele cheirava bem.

E caramba, ela estava ofegante para tê-lo.

A mão dele foi enterrada nela, indo abaixo de sua cintura, puxando-a ainda mais apertado ao encontro dos fortes, muito fortes braços dele. E quando eles ficaram quadril contra quadril, as cuecas que ela usava não se fizeram barreira para a cabeça de seu membro que se empurrava rumo ao seu âmago, que estava completamente pronto para ele.

Ele interrompeu sua respiração, sua boca encontrou a dela e tomou seus lábios como se o pertencessem. Ele a beijou sem qualquer bobagem de primeira vez com a qual ela estava acostumada; não havia nada hesitante ou educado ou parecido com alguma tentativa: Isaac a beijou da maneira como ele a queria e ela estava pronta para ser tomada.

Ela nunca quis tanto alguma coisa antes.

De repente, ele deitou as costas e a levou com ele até que ela ficasse deitada sobre seu corpo. Abrindo as pernas, ela montou em seus quadris e ele soltou um palavrão quando ela se colocou sobre sua ereção e montou para frente e para trás, acariciando os dois. Enquanto ela gemia, a língua dele deslizou sobre ela e Grier arrastou as mãos até a parte inferior do corpo dele, sentindo a ondulação dos seus músculos enquanto o empurrava, seguindo um ritmo.

Contudo, antes que ela pudesse tocá-lo, ele mudou a posição de seu corpo, sua boca no pescoço dela, nos ombros, em seguida...

Ele se juntou a um de seus mamilos, a sucção quente e úmida a fez arquear o corpo de maneira tão selvagem que quase quebrou sua coluna. Para permanecer no controle, ele cravou as mãos nos quadris dela e a segurou de maneira estável... e ela precisava disso quando ele escorregou sua língua sobre ela e retomou o movimento.

– Eu quero ficar nua – ela murmurou. – Eu quero...

Ele já estava fazendo isso: enganchou os polegares na cintura de suas cuecas e as movimentou para baixo. Ela se ergueu para ajudá-lo e teve que gingar para que ele se afastasse um pouco dela e tirasse a coisa toda... pois a boca dele ainda estava no ritmo, permanecia sobre ela, movendo-se até seu outro seio, beliscando e depois chupando novamente.

Quando ela se colocou em seu ventre, seu sexo molhado selou a pele quente de sua cintura e conforme os quadris dele aumentavam o volume, o entrelaçar-se tenso dos músculos de seu estômago se movia contra ela, conduzindo-a para que ficasse cada vez mais excitada, como se a mão dele estivesse entre suas coxas. Com as investidas simultâneas contra seus seios e suas entranhas, ele parecia estar completamente sobre ela, tocando cada centímetro de seu corpo.

E isso não era o suficiente. Haveria tempo para explorar mais tarde... tudo o que ela queria era ele dentro dela...

Estava claro que Isaac pensava a mesma coisa também. Sem que ela dissesse uma palavra, ele a colocou novamente sobre o colchão, sua ereção era uma marca quente em suas coxas enquanto ele se movia para a outra posição. Separando os joelhos dela, ele abriu espaço para si...

Os dois gemeram quando a parte de baixo dos corpos roçou uma a outra.

– Estou limpo – ele disse no ouvido dela.

– Eu sei. – Ela cravou suas unhas nos ombros dele. – Vi... os registros... médicos... Eu tomo... pílula!

Uniram-se com pressa, o corpo dele ficou rígido ao empurrar profundamente e atingir o ponto. Ele era grande e denso dentro dela, pesado sobre ela, quente contra a pele dela: isso poderia ser errado de tantas maneiras, mas quando ele se encaixou, foi perfeito.

Isaac deixou cair a cabeça sobre o pescoço dela e começou a se mover, seu corpo ondulava contra o dela, cuja cabeça se movia para cima e para trás no travesseiro conforme ele fazia o movimento para dentro e para fora. Deslizando as mãos até a parte inferior das costas dele, ela já podia sentir a tensão crescente... e ele não era o único que se aproximava do orgasmo.

Em um gemido, ela abriu mais as pernas e deu-lhe mais, afundando as unhas na pele dele, os bicos de seus seios e as profundezes do seu âmago formigaram. Ela respirava pela boca com dificuldade conforme o ritmo de seus movimentos a levava aos céus, mesmo estando na Terra.

E, então, ela estava livre.

Livre, leve e solta em um passeio selvagem que fazia com que o mundo real parecesse tão maravilhosamente distante. Era tudo o que ela precisava, um explosivo estilhaçado que a afastasse de si mesma, da vida supercertinha que levava e de sua poderosa mente que a fez chegar tão longe e, ainda assim, a aprisionava.

Quando ela começou a descer, as investidas de Isaac ficaram mais curtas e mais rápidas, seus braços a envolviam completamente e a apertavam com força. Ela estava esmagada contra ele, mas não se importava – estava feliz por ter se aproximado do precipício primeiro, com isso, ela pôde se concentrar totalmente no que estava acontecendo com ele.

Só que... ele diminuiu. E, em seguida, parou totalmente.

Erguendo a cabeça, ele apoiou o tronco em seus braços, mas não olhou para ela.

Quando Grier estava prestes a perguntar o que havia de errado, ele saiu de cima dela, ainda completamente ereto, e deixou cama. O ar que se apressou em tomar o lugar dele foi como uma rajada ártica ao longo de sua pele nua... e o frio intenso apenas piorou quando ele caminhou até o banheiro e fechou a porta.

Deixada sozinha, ela ficou deitada no escuro, cada um de seus músculos estavam tensos e todo seu corpo exibia um tipo diferente de calor.

Ela esperou e quando não ouviu a água ser ligada ou a descarga funcionar, a ideia de que pudesse ter sido o mau funcionamento do equipamento diminuiu. E não poderia ser algum embaraço sobre seu desempenho, pois Deus sabia que ele a satisfez e ainda estava ereto.

Suas mãos tremiam ao cobrir o rosto e dane-se se a realidade não voltasse correndo. Isso nunca deveria ter acontecido.

Encaixe perfeito? Estava mais para um reparo perfeito: ela estava sendo imprudente desde que olhou nos olhos gelados de Isaac Rothe e, assim como tinha sido com seu irmão, ela teve que investir em algo muito perigoso.

Onde seu cérebro tinha ido parar? Transar com um homem que ela não conhecia... Não, pior que isso: um de seus clientes... que estava pronto para agredi-la? Sem proteção... mesmo tomando pílula e sabendo que ele não era HIV positivo, ainda era um risco tremendo.

No calor do momento, ela fez uma escolha que era difícil de defender, pior ainda compreender.

Por alguma razão, Daniel veio à mente e ela lembrou-se dos dois, ela aos treze e ele aos dezesseis anos e roubando o carro do pai deles. Foi no verão em Hyannis Port... onde a noite não era apenas escura; era um breu total. Eles empurraram o Mercedes de dois lugares até à rua, ligaram o motor e saíram para dar uma volta, trocando de lugar às vezes, os dois pegavam o volante. Eles acabaram perto das pedras em frente ao pântano, na estrada de areia, bem à beira do oceano. Com o vento do mar em seus cabelos, o som dele em seus ouvidos e a sensação de uma liberdade elétrica, eles riram até virem lágrimas aos olhos.

E foi quando eles colidiram em uma choupana.

Os dois estavam intimamente errados, não estavam? Daniel um pouco mais que ela, claro, mas não era apenas seu irmão que fazia coisas loucas. E, de certa forma, a descida dele ao submundo da agulha foi a droga dela: os altos e baixos por que passava com ele, o perdia e, em seguida, se aproximava mais uma vez, tudo isso tornou-se a seção de percussão da orquestra de sua vida, a força condutora que marcou todas as outras notas.

E agora que ele se foi...

Ela baixou as mãos e olhou para a porta fechada, imaginando Isaac do outro lado.

Era perfeito para preencher o imenso vazio que seu irmão morto tinha deixado para trás, uma onda de drama arrebatadora em sua vida, tornando-se a coisa na qual ela se lançaria. Afinal, Daniel como um fantasma não tinha nem metade da vivacidade de quando estava vivo.

Isaac era gasolina pura.

Puxando as cobertas sobre si, ela se sentou e colocou o cabelo atrás das orelhas. A realidade era: aquele homem que estava ali teve mais senso que ela. Ele queria ir e deixá-la; ela o fez ficar. Ele deu a ela uma chance de voltar e dormir sozinha; ela os trancou juntos no quarto. Ele ia embora sem olhar para trás; ela ia querer vê-lo depois de amanhã...

Franzindo a testa, ela percebeu que ainda não havia sons no banheiro. Nada.

O que ele estava fazendo ali? Já havia passado um tempo.

Grier arrastou um lençol com ela ao levantar e andar até a porta. Batendo suavemente, ela disse: – Você está bem?

Sem respostas.

– Isaac? Tem alguma coisa errada?

Bem, além do fato de que ele fugia do governo federal e agora também do governo do estado de Massachusetts e que estava hospedado na casa da sua em breve ex-advogada... transando com ela.

Detalhes, detalhes.

Ou espere, será que a falta de orgasmo da parte dele significava que a relação toda não foi levada em conta? Contudo, ela tinha terminado... Mas será que ele estava se sentindo incompleto?

– Isaac?

Quando não houve resposta, ela bateu suavemente mais uma vez.

– Isaac?

Sem muita esperança, ela apelou para a maçaneta, mas a coisa virou facilmente – para seu alívio, ele não tinha se trancado lá dentro. Abrindo a porta, ela viu um pé descalço e um tornozelo na penumbra. Era evidente que ele estava sentado no chão no canto do chuveiro.

– Posso entrar? – ela perguntou, abrindo caminho...

Meu Deus... ele estava enrolado em si mesmo, com o rosto em direção aos bíceps, o braço erguido e escondendo a face, a mão machucada apoiada no cabelo. Ele estava ofegante, seus ombros subiam e desciam.

Ele estava chorando. Chorando daquela maneira contida e masculina onde mal se ouvia o que era, sua respiração embargada foi a única coisa que a fez entender o que ele estava fazendo.

Grier se aproximou devagar e sentou-se ao lado dele. Quando ela colocou de leve uma das mãos em seu ombro, ele pulou.

– Shhh... sou eu.

Ele não olhou e ela podia apostar que se ele fosse capaz, teria dito para que saísse. Mas ele não podia. E tudo o que ela podia fazer era sentar-se com ele e acalmá-lo suavemente com um toque.

– Está tudo bem – ela murmurou, sabendo que não havia razão para perguntar os motivos: havia muitos para escolher. – Está tudo bem... Tudo bem...

– Não é verdade – disse ele com voz rouca. – Não é verdade mesmo. Eu não... estou...

– Vem cá. – Ela o puxou para perto, sem esperar que ele viesse... mas ele veio. Ele se virou para ela e deixou que envolvesse seus braços ao redor dele como se fosse uma fera que tivesse decidido se deixar domar por um curto período de tempo. Ele era tão grande que ela não conseguia envolvê-lo completamente, mas fez o que pôde e apoiou o rosto em seu cabelo curto.

– Shhh... está tudo bem... – ela murmurou a mentira mais uma vez. Queria dizer outra coisa, mas aquilo era a única coisa que vinha... mesmo sabendo que tinha que concordar com ele. Nada daquela situação estava certo. Nenhum dos dois estava bem.

E ela tinha a sensação de que o “tudo bem” não ia consertar a maneira como as coisas tinham terminado entre eles. Ou para ele.

– Eu ainda não sei como – ele disse depois de um tempo.

– O que?

– Como você sabia que eu estava tendo um pesadelo.

Ao franzir a testa na escuridão, ela acariciou o cabelo dele.

– Ah... você não acreditaria se eu dissesse.

– Tente.

– Um anjo veio até meu quarto. – Houve um breve silêncio. – Ele era... magnífico. Um guerreiro... ele me acordou e apontou a porta, e eu soube que era por sua causa. – Apenas para que não parecesse tão estranha, ela acrescentou: – Acho que eu estava sonhando também.

– Acho que sim.

– É. – Pois anjos não eram mais reais que vampiros e lobisomens.

Pelo menos... era no que ela acreditava até aquela noite. A não ser pelo fato de que aquilo que tinha visto não parecia nada com um sonho.

Só Deus sabe quanto tempo eles ficaram daquela maneira, enrolados um ao outro, o calor mútuo crescia de uma maneira diferente de quando estavam no quarto: agora, o contato da pele era reconfortante.

Quando Isaac finalmente sentou-se ao seu lado, ela se preparou para que ele agradecesse sem jeito e pedisse para sair. Mas, ao invés disso, ele trocou de lugar com ela, seus braços a envolveram, um atrás dos joelhos, outro nas suas costas. Então, ele a ergueu do chão como se pesasse nada e a carregou, passando pela cama desarrumada até o corredor. Ele subiu as escadas sem diminuir o ritmo ou parecer se esforçar, sua respiração quase não se alterou, mesmo quando a abraçou.

Em seu quarto, ele a deitou sobre os lençóis e, em seguida, ficou sobre ela.

Grier podia sentir uma ânsia dentro dele, mas desta vez não era sexual. Era algo que parecia mais importante do que todo aquele calor desesperado.

Ela moveu-se para dar espaço e, depois de um momento, ele escorregou para debaixo das cobertas. Agora, ela era a única a ser embalada. De alguma maneira, aquele peito musculoso, fazia, como mágica, com que todos os seus problemas parecessem menores. E, sim, a ideia de que estava caindo em algum tipo de estado Cinderela a fazia se sentir embaraçada, mas ela estava relaxada demais para lutar.

Fechando os olhos, colocou o braço em volta de sua cintura.

Quando a exaustão a atingiu e esfriou um pouco seu corpo, seu último pensamento foi de que não havia problema em dormir. Haveria tempo para dizer adeus pela manhã.

Isaac deitou-se ao lado de Grier e esperou que ela entrasse profundamente no território do sono REM. Para passar o tempo, ele reviu termos de seu vocabulário, pois sua mente tinha se canibalizado e ele precisava redirecionar seus neurônios.

No léxico masculino de rótulos, o termo “afeminado” geralmente se referia a rapazes que são um pouco deslocados quanto à masculinidade: o tipo que faz com que mulheres matem aranhas para eles, que se preocupa com a quantidade de goma que coloca na limpeza a seco e, possivelmente, tem um suporte de especiarias em ordem alfabética.

Homens de verdade não tinham suporte de especiarias. Ou sequer sabiam onde estavam na cozinha... muito menos o que fazer com isso... Pelo menos, foi o que seu pai ensinou a ele e a seus irmãos. E, na verdade, fazendo uma retrospectiva, aquele tipo de pensamento explicava o porquê de sua mãe ter ido embora, casado com outra pessoa e começado uma nova família antes de morrer. Era evidente que ela sabia que tentar reiniciar o sistema não ia levá-la a parte alguma e a única solução era conseguir novos componentes...

No que ele estava pensando? Ah, sim. Efeminados.

O próximo rótulo no vocabulário era “boiola”. Ele não tinha certeza exata de onde essa palavra tinha surgido, mas era sinônimo de termos como “maricas”, o tradicional termo “gay” e a mais nova palavra “frutinha”. Esses são rapazes que podem ter o impulso de trocar um pneu para uma mulher, mas teriam problemas para erguer o step do carro – e esqueça a chave de roda. Eles também são o tipo de cara que se assusta como garota, grita quando vê ratos e chama a polícia em uma briga de bar ao invés de ficar e resolver a confusão aos socos.

Seu pai sempre considerou as mulheres mais fracas e, talvez, quando se tratava de carregar fardos de feno de seis a oito horas por dia sem parar em um calor de 35 graus, ele tivesse razão. Mas Isaac conheceu muitas mulheres no serviço militar que não só poderiam arremessar bolas de beisebol como um homem, como também poderiam socar tão bem quanto um... e tinham uma pontaria melhor.

A força não precisava ser idêntica para ser igual...

Deus, por que diabos ele estava pensando em seu pai?

Certo. De volta ao “Dicionário dos Desprovidos de Pênis”. Do qual seu pai parece ter sido o editor.

O mais baixo de todos... o fundo do poço... aquele que designava as bolas mais murchas... era “veado”. Esse é o tipo de palavra que um amigo seu poderia soltar quando estivesse brincando com você e quisesse encher o saco, e a droga soaria engraçada. Porém, se fosse sério, seria uma briga feia. Em geral, em termos não específicos, “veado” poderia se referir a um cara que, digamos, não consegue manter um desempenho na cama com uma mulher por quem ele estava muito excitado. E, então, daria uma desculpa a isso com um... hum, digamos – e isso era puramente hipotético – talvez caindo nu no chão do banheiro de uma mulher e chorando com um bebê filho da mãe.

Até que ela viesse e o confortasse depois de tê-la decepcionado. Depois de colocar sua vida e sua carreira profissional em risco.

Sim. Era algo assim.

Enquanto ele gemia no escuro, não conseguia acreditar na maldita confusão que tinha feito. Parar no meio? Ir ao banheiro e começar a fazer algo que ia exigir um lencinho?

Por que ele não colocava um vestido, lixava as unhas e mudava seu nome para Irene?

Droga, o sexo... o sexo tinha explodido sua mente. Literalmente. E esse foi o problema. Algum tipo de fissura foi aberta nele no instante em que afundou no calor molhado dela e, com cada impulso, o que começou como uma pequena fratura se tornou um fossa enorme.

Não era medo. Ou a segunda hipótese que vinha do seu status de desertor.

Era o fato de que quando se estava trabalhando com Matthias, você se mantinha tão ocupado em sobreviver que não tinha ideia de como a arma estava apontada em sua direção.

E, como pode imaginar, esconder-se no chuveiro era apenas mais do mesmo. Ter aquele sonho? Mais do mesmo.

Mas fazer amor com uma mulher bonita e gentil em uma cama macia que cheirava a limão em uma casa que nem mesmo ele poderia duvidar que era segura?

Próximo demais do normal. Seguro demais. Bom demais para ser verdade.

A justaposição de onde ele estava e para onde ia na parte da manhã tinha acabado com ele – de uma maneira que sempre suspeitou: era muito difícil dar mais um passo no caminho da vida civil. A posição de estar nos dois mundos era insustentável.

E nesse compasso...

Ele se virou em direção a mesa ao lado, pegou o controle remoto do DVD e apertou play. Quando o menu apareceu ele escolheu play all e, depois de apertar, o logotipo da Three’s Company* apareceu em uma cena de praia. Enquanto os créditos da introdução corriam, John Ritter paquerava uma garota e acabava caindo da bicicleta – e quando ele bateu na areia, Grier apertou as sobrancelhas... e, então, relaxou completamente.

Perfeito. Ela tinha se condicionado a associar o som da TV ao sono profundo e a bolha de ruídos e a macia luz oscilante vinham para ajudar a cobrir seus rastros.

Depois de uns quinze minutos do episódio, Isaac deslizou lentamente o braço sob a cabeça dela e, em seguida, se libertou dos lençóis. Na sua ausência, Grier rolou para ficar de frente à TV e se reposicionou com um suspiro. Que foi a deixa de Isaac para se mover.

Alcançando as escadas, ele desceu ao quarto em que estava.

Dez minutos depois, ele voltou ao quarto dela, vestido, com as armas. Parado em frente dela, ele a observou dormindo por tempo demais e teve que se esforçar para finalmente se curvar e pegar em sua mão. Movendo-a com cuidado, ele colocou o dedo dela no controle remoto do sistema de segurança e o desativou. Depois que uma luz verde clara acendeu, ele reativou o alarme para ver quanto tempo de espera havia.
Comédia americana popular nos anos 1980.
O que mostrou ser tempo nenhum: uma luz vermelha brilhou imediatamente e ele estava preso ali dentro.

Fazia sentido. Ela o ativou assim que trancou a porta da frente.

Ele olhou o relógio. Quatro da manhã.

Grier fungou e relaxou ainda mais profundamente sua cabeça no travesseiro, os cabelos loiros caíram sobre seu rosto.

Ele não confiava em si mesmo para ficar com ela até que acordasse.

Era agora ou nunca, idiota.

“Obrigado”, ele murmurou para ela.

E, então, com um palavrão, ele desarmou o sistema e saiu sem olhar para trás.

No andar de baixo, ele foi silencioso e rápido quando se aproximou e checou o teclado do sistema de alarme em frente ao corredor. Foi como esperava: desativado. Afinal, quando se tem um rottweiler para guardar sua casa, precisa mesmo de um labrador amarelo para reforçar a segurança?

A porta da frente era de madeira sólida e tinha três centímetros de espessura – então, mesmo que alguém conseguisse liberar a fechadura, precisaria de um aríete para entrar sem mover a maçaneta. Sua única preocupação, nesse caso, seria o vidro das portas e janelas, mas os painéis eram super-resistentes e bem colocados – e se você quebrasse uma vidraça do tamanho das que havia na cozinha, faria um barulho terrível.

Assim, Grier estava o mais segura possível.

Depois de apagar as luzes externas, ele tirou sua camiseta regata do bolso e arrancou uma tira dela; então, se adiantou e foi em direção àquela grande e velha porta. Fez uma rápida pausa para verificar mais uma vez se a maçaneta estava trancada e segura e amarrou a tira de pano ao redor de uma das lanternas de ferro forjado à esquerda.

Seu próximo passo foi andar na fria manhã de abril.

Não era cedo demais. Como se tratava da Nova Inglaterra, o sol se levantava cedo e, provavelmente, ele tinha apenas mais uma ou duas horas de uma boa escuridão antes que o amanhecer começasse a espantar as sombras. Indo embora, ele atravessou uma rua chamada Pinckney e menos de dez metros descendo a ladeira, encontrou o que estava procurando: uma das menores casas da cidade estava em reforma, as janelas do primeiro andar estavam cobertas, um caminho de pó de gesso percorria dentro e fora da porta da frente.

E não havia luzes acesas. Dentro ou fora.

Dando uma de homem-aranha, ele escalou a casa, usando os moldes em torno da porta e as janelas para firmar seus pés e empurrar o peso para cima. Com um soco rápido em um painel empoeirado, ele esperou o grito de um alarme de segurança. Não aconteceu nada. Então, ele virou o trinco, empurrou a folha para cima e em seguida estava dentro da casa.

Total de tempo gasto: um minuto e meio.

O lugar era uma pedra de gelo e coberto com ainda mais pó de gesso e, por ser domingo, esperava que a construção fosse do governo. Assim, ele poderia ficar o tempo que queria.

Inspecionar o local não levou muito tempo e, semelhante à configuração da casa de Grier, a parte de trás da casa se abria para um jardim fechado – e não havia pegadas esbranquiçadas sobre o tijolo vermelho. Era óbvio que os operários entraram e saíram pela porta da frente.

Para apagar a rota de saída se precisasse sair fazendo parkour, ele estourou o trinco da janela em cima da viga da porta dos fundos; então, voltou ao local onde tinha quebrado antes e pegou todos os cacos de vidro do painel que ele tinha esmagado – pois, à distância, a falta de um vidro não mostraria nada de errado.

Ele se posicionou no canto direito da janela da frente da casa e, para esconder mais a si mesmo, ele colocou um pedaço de madeira sobre a abertura para cobri-lo. De onde se posicionou, ele conseguia ver setenta por cento do arco da frente da casa de Grier. O que faltava era a porta da frente e o terraço superior, mas isso era o melhor que poderia conseguir.

Encostado na parede fria, seus olhos examinavam o pequeno parque com sua cerca de ferro forjado, a estátua e os graciosos ramos das árvores. Poderia muito bem aproveitar a vista. Não ia sair até que visse Grier entrar em seu carro e seguir dirigindo – sem ninguém atrás dela.

Vinte minutos depois, o que ele mais temia aconteceu. O carro preto à paisana não era aquele que o colega de Jim tinha descrito na noite anterior: sem partes amassadas ou poeira sobre o garotão. E os vidros escurecidos o impediam de ver o motorista ou qualquer passageiro.

Mas ele tinha um pressentimento de quem era.

Droga, ele odiava quando estava certo.

E aquilo era tudo culpa dele.


CAPÍTULO 20

 

Grier acordou às seis da manhã e soube assim que viu a parte final de Three’s Company que Isaac tinha ido embora: ela não tinha reiniciado o DVD quando entraram no quarto... e, sim, o sistema de segurança estava desativado.

Era evidente que ele tinha saído enquanto ela dormia.

Curvando-se, ela verificou o criado mudo, pensando que talvez ele tivesse escrito um bilhete. Mas a única que coisa que ele tinha deixado era o cheiro de xampu e sabonete que usou: a fragrância de cedro estava em um dos travesseiros e em alguns de seus lençóis.

Levantando-se, ela colocou uma blusa e desceu para o segundo andar. O quarto de hóspedes estava arrumado como nunca, a cama feita com precisão militar. O único sinal que tinha estado ali era a única toalha que tinha usado para se secar pendurada no varão do banheiro. Ele limpou até mesmo as paredes de vidro do chuveiro, assim não havia nenhuma marca de água no interior. O homem era um fantasma total e ela era uma perdedora patética em pensar que ele faria algum gesto de adeus.

Ela desceu as escadas, foi até a cozinha e parou no arco.

Bem, acabou que ele tinha deixado uma coisa para trás: sua sacola de dinheiro estava no balcão.

– Maldição. Maldito seja.

Ela ficou ali parada por um tempo, encarando não os 25 mil, mas a bolsa que ele tinha tentando limpar para ela.

Em dado momento, andou e pegou o telefone da casa. Ela havia memorizado há dois anos o número que discou.

Sempre havia alguém para atender no escritório da Defensoria Pública, pois o crime, assim como doenças e acidentes, não fazia qualquer distinção entre dias úteis e fins de semana. E o cara que atendeu era um advogado que conhecia bem. Embora sua renúncia do caso de Isaac tenha sido uma surpresa para ele, quando ela afirmou que tinha cerca de 25 mil dólares de lutas ilegais no balcão de sua cozinha, ele reagiu bem rápido.

– Jesus.

– Eu sei. Então, tenho que renunciar.

– Espere. Ele deixou o dinheiro na sua casa?

Poderia muito bem apunhalar a si mesma ao revisar a história.

– Na noite passada, o Sr. Rothe veio até aqui. Eu tinha postado sua fiança e ele quis me devolver o dinheiro... e eu tive a impressão que a intenção dele era fugir. Eu não notifiquei a polícia, pois concluí que era meu dever falar com ele sobre sair dessa e achei que poderia dissuadi-lo. Só que, então, descobri o que ele tinha deixado para mim esta manhã na minha varanda dos fundos. – Ela respirou fundo, o peso de suas mentiras não caíam bem em seu estômago vazio. – Devido ao dinheiro, tenho quase certeza de que ele vai deixar o estado imediatamente. Vou chamar a polícia e vou deixar o dinheiro na delegacia como evidência quando for até lá para dar meu depoimento ainda esta manhã.

– Grier...

– Antes que pergunte, estou listada nas páginas amarelas, que foi a maneira como o Sr. Rothe encontrou minha casa e, não, eu não me senti ameaçada. Pedi que ele entrasse e ele ficou por um tempo... e saiu sem alarido. – Pelo menos essa parte era verdade.

– Bem, mas que inferno...

– Sim, eu acredito que isso defina a situação. Eu queria que soubesse o que vou fazer e vou mantê-lo informado. Para ser honesta, não sei onde tudo isso vai parar.

Outra verdade.

Seu colega fez um som de desprezo.

– Olha, você nunca teve uma mancha em seus registros e vai manter tudo às claras. Não fez nada de errado.

Sem comentários. Não havia motivos para estragar a veracidade dos fatos.

– Contudo, você está dando conselhos de maneira independente? – ele disse.

– Claro – era tolice para o cliente e tudo mais. Assim como foi com Isaac na cadeia.

Depois de terminar a ligação com o advogado, ela estava com a polícia alguns momentos depois. E eles, claro, a encaixaram na agenda deles.

Na esperança de se preparar melhor, ela atacou a máquina de café – e, então, percebeu que não estava sozinha.

De cabeça baixa, ela se perguntou se Daniel tinha visto alguma coisa na noite anterior, no quarto de hóspedes.

“Nada”, seu irmão respondeu. “Sei quando tenho que me retirar.”

Graças a Deus, ela pensou consigo mesma ao apertar o botão para ligar.

– Eu gostaria de poder dar um desses a você. Eu amava quando tomávamos café juntos.

“Está com um cheiro bom”.

Em geral, ela o procurava com os olhos quando aparecia, mas não nessa manhã. Ela não conseguiria encará-lo e não por ter se relacionado com alguém. Bem, o sexo fazia parte disso. Contudo, o motivo real foi aquela explosão imprudente; esteve perto demais daquilo que o destruiu.

“Sim, você e eu somos iguais. Devemos isso ao papai.”

– Sabe? Nunca conversamos sobre sua morte – ela disse quando a máquina borbulhou e assoviou.

A voz dele ficou firme. “O que está feito, está feito e a pontuação do jogo tem que ser resolvida entre outras pessoas.”

– Pontuação? – Quando ele não disse mais nada, ela apertou os dentes. – Por que você não responde nada? Eu tenho uma lista tão longa quanto meu braço que gostaria de saber, mas tudo que você faz é desviar do assunto ou fugir.

O silêncio que se seguiu fez com que ela olhasse por cima do ombro: Daniel estava encostado na geladeira de aço inoxidável, sua forma translúcida não lançava qualquer reflexo no acabamento polido. Seus olhos azuis, aqueles que tinham uma cor idêntica aos seus, estavam olhando para o chão.

– Eu não entendo por que está aqui – ela disse. – Especialmente se não podemos conversar sobre as coisas que realmente importam. Por exemplo, a maneira como morreu e...

“Isso tem a ver com a sua vida, Grier. Não com a minha.”

– Então, por que você me disse para levar aquele soldado para casa? – ela reclamou.

Agora, Daniel sorria.

“Porque você gosta dele. E acho que ele vai ser bom para você.”

Ela não tinha tanta certeza disso. Ela já estava se sentindo quebrada e o conhecia apenas há um dia.

– Você sabe o que ele fez? De quem ele está tentando fugir?

O franzir da testa de seu irmão não foi encorajador.

“Eu não vou falar sobre isso. Mas posso dizer que ele não vai machucá-la.”

Deus, ela estava cansada de estar rodeada de homens que tinham fita adesiva na boca.

– Vou vê-lo de novo?

Daniel começou a desaparecer, o que sempre acontecia quando ela o colocava contra a parede.

– Daniel – ela disse bruscamente. – Pare de fugir de mim...

Quando tudo o que ela recebeu como resposta foi uma clara visão do refrigerador, olhou para o teto e amaldiçoou. Ela nunca teve qualquer controle sobre quando ele iria aparecer ou por quanto tempo iria ficar. E ela não fazia ideia de para onde ele ia quando não estava a assombrando.

Será que ele ia para algo equivalente ao Starbucks dos mortos-vivos?

Falando em café...

Determinada a seguir com alguma coisa, qualquer coisa, ela pegou uma caneca e o açucareiro e foi até o centro da cidade movida ao calor e vapor do café – pensando o tempo todo se a cafeína era uma boa ideia dado o estado de seus nervos.

Às nove horas, ela saiu da casa com o dinheiro e sentiu uma dor de cabeça, parecendo que um pé esmagava seu lobo frontal e planejava ficar assim o dia todo. Após iniciar o sistema de alarme, ela saiu, fechou a porta e girou a fechadura com a chave...

Franzindo a testa, ela olhou para uma das duas lanternas de ferro forjado que havia na entrada. Uma pequena tira de pano branco havia sido enrolada ao redor de sua base.

Girando sobre os calcanhares, Grier olhou ao redor e não viu nada além de carros estacionados que ela reconhecia... e um vizinho andando com seu labrador chocolate... e um casal caminhando de braços dados...

“Pare de ser tão paranoica, Grier.”

Ela não estava em um mundo dirigido por Hitchcock, onde as pessoas eram seguidas e aviões explodiam no ar e sinais secretos eram deixados em luminárias.

Desenrolando o pedaço de tecido, ela empurrou a coisa no bolso do casaco para não jogar na rua e foi em direção ao seu Audi. Enquanto ela andava, ativou o alarme central – embora não costumasse fazer isso quando não estava em casa.

No departamento de polícia, ela se encontrou com um detetive, entregou o dinheiro e deu seu depoimento. Os privilégios entre advogada e cliente não se estendiam a atividades criminosas em curso, de modo que ela era obrigada a dizer o que sabia sobre o ringue de luta, a participação de Isaac nele e o local onde acreditava que iriam continuar promovendo as lutas em Malden.

Enquanto o tempo passava e ela falava, tinha uma convicção crescente de que Isaac estava longe àquela hora – e havia grandes chances de que ninguém em Boston o encontrasse.

Contudo, ela se perguntava quem encontraria.

Duas horas depois, ela saiu da delegacia e olhou para o sol amarelo no céu de primavera sem nuvens. O calor em seu rosto fez com que a brisa parecesse ainda mais fria e o resto do dia pairava sobre ela.

Seu carro não a levou para casa.

Deveria. Ela o programou para ir a Beacon Hill na intenção de se aninhar de volta na cama e dormir mais um pouco.

Ela acabou na Rua Tremont.

É claro que não havia local para estacionar seu Audi quando deu a volta no quarteirão onde ficava o apartamento de Isaac e, provavelmente, aquilo era um sinal para ficar longe dali. Contudo, a persistência já a colocava em apuros quando um Fusca saiu lentamente e liberou uma vaga.

Batendo na porta da frente, ela esperava que a senhoria estivesse em casa – e nunca pensou que ficaria feliz em ver alguém como ela de novo...

A mulher abriu e Grier fez uma ligação que não foi capaz de fazer no dia anterior: era a Sra. Roper do seriado Three’s Company. Desde os cachos vermelhos falsos até as pulseiras de plástico.

– Você de novo – foi a saudação.

– Eu preciso entrar só mais uma vez.

– Onda ele está? – a senhoria disse, bloqueando o caminho.

Ah, sim, uma informação para pagar o pedágio, Grier pensou.

– Ele estava aqui na noite passada. A senhora não o ouviu?

Que rufem os tambores.

– O homem é como um fantasma – a sósia da sra. Roper reclamou. – Nunca faz um barulho. A única maneira de saber que ele está lá é quando paga o aluguel do mês seguinte. Ele está na cadeia, não está? Você é advogada dele?

– Não. – Ela odiava mentir. Odiava mesmo.

– Bem, eu pensei...

Quando o som de um telefone a interrompeu, Grier poderia beijar qualquer um que tivesse ligado.

Isso se não fosse o fato de que a senhoria golpeou o ar com um gesto de desconsideração.

– É só minha irmã.

Ótimo.

– Vai me levar ao andar de cima, por favor? Não vou demorar.

O telefone silenciou.

– Olha, eu não vou continuar a fazer isso. Faça sua própria chave.

– Oh, eu concordo... eu preciso de uma. E peço desculpas.

A mulher subiu as escadas como um touro, batendo e grunhindo, fazendo a sua grande bata florida esvoaçar como uma bandeira.

No topo, ela abriu a porta com sua chave.

– Agora, vou lhe dizer uma coisa...

O telefone começou a tocar novamente no andar debaixo e, com a peruca para lá e para cá, o movimento da cabeça parecia o de um cão escolhendo entre duas bolas de tênis.

– Eu voltarei – a Sra. Roper anunciou gravemente.

Deixada sozinha, Grier entrou no quarto de Isaac e fechou-se por dentro, girando a chave ao pensar que se a chamada não durasse muito tempo, aquela mulher ficaria indo e vindo sem parar.

Uma rápida observação na sala provou que ele esteve ali, mas aquilo era óbvio: a arma com a qual ele a ameaçou na noite anterior tinha que ser uma daquelas que ela encontrou e o blusão tinha que ser o que aquele que usava como travesseiro. Contudo, ele não tinha pegado tudo. O saco de dormir foi deixado para trás, assim como uma calça esportiva e um par de Nikes... mas, os sensores nas janelas e nas portas tinham sumido.

Na cozinha, ela encontrou uma pilha de notas organizadas – com certeza, era uma oferta para que quando não houvesse mais pagamento, a conta fosse considerada fechada.

Inclinando-se sobre o balcão, ela não tinha ideia do que esperava encontrar...

Um ruído suave chamou a atenção de seus olhos para a porta dos fundos. Quando não viu nada, ela achou que tinha imaginado o barulho do passo... mas, então, uma volta na maçaneta foi feita lentamente.

Ela se endireitou, seu coração estava a mil por hora quando colocou a mão dentro da bolsa e preparou seu spray de pimenta, que era melhor que a arma de choque, dada a distância.

– Isaac?

Só que não era seu soldado desertor.

O homem que entrou no apartamento tinha cabelos pretos, pele bronzeada e vestia um terno escuro sob um sobretudo. Uma tapa-olho cobria seu olho direito e usava uma bengala para equilibrar seu corpo alto.

– Não sou Isaac – disse ele com uma voz muito profunda.

O sorriso frio que ele deu era o tipo de coisa que fazia você desejar dar um passo para trás. Infelizmente, ela já estava contra o balcão, portanto, não havia para onde ir.

E isso foi antes dele fechar os dois ali dentro, juntos.

Quanto barulho ela precisaria fazer para que a Sra. Roper subisse até lá de novo? Ela se perguntava.

– Você deve ser a advogada de defesa.

“Oh, meu Deus”, ela pensou. Era disso que Isaac queria protegê-la, não era?

Grier Childe parecia-se com seu irmão, Matthias pensou enquanto a olhava ao longo da extensão da cozinha.

E poderiam dizer o que quisessem sobre o velho político Childe de bom coração e cheio de predileções intrometidas, mas ele e aquela mulher dele fizeram direito ao procriar. As duas crianças eram loiras, de olhos azuis, com estrutura óssea perfeita. O que havia de melhor da velha colheita, digamos assim.

Além disso, levando em conta seu currículo, era evidente que a filha tinha um ótimo cérebro. E estava livre de toda aquela confusão de dependência química.

Ele sentiu os lábios dela se estreitarem.

– O que você tem na sua bolsa? Uma arma? Spray de pimenta?

Ela tirou um tubo fino com capa de couro e o abriu deslizando a tampa. Colocando-o em posição, ela deixou sua arma de defesa falar por si.

– Certifique-se de que vai acertar meu olho bom – disse ele, batendo no olho esquerdo. – O outro lado não vai dar a mínima. – Quando ela abriu a boca para falar, ele a interrompeu.

– Você esperava encontrar Isaac aqui?

– Não estamos sozinhos. A senhoria está lá embaixo.

– Oh, eu sei. Ela está conversando com a irmã sobre a esposa de seu irmão. – Aqueles patrícios olhos azuis dela se arregalaram. – Elas não gostam dela, pois é nova demais para ele. Eu lhe daria os detalhes, mas é pessoal. E não muito interessante. Agora, diga, você esperava encontrar Isaac aqui?

Ela levou um momento para responder.

– Não vou responder nenhuma de suas perguntas. Sugiro que o senhor destranque a porta e saia. Está invadindo propriedade particular.

– Se você é o dono do mundo, não há tal coisa como invasão. E um conselho: se quer sair daqui viva, vai precisar ser um pouco mais flexível. – Matthias andou casualmente até a janela acima da pia e olhou através dos vidros leitosos. – Mas, de qualquer maneira, desconfio que sei a resposta. Você não acha que o encontraria aqui porque acredita que ele saiu de Boston. Você baseou essa hipótese no dinheiro que ele deixou para trás na sua casa... e não se preocupe em negar isso. Eu a ouvi conversando com seu amigo do escritório da Defensoria Pública.

– Grampear a conversa de alguém ao telefone sem um mandato é ilegal.

Empurrando sua bengala, ele se endireitou para trás.

– E eu lhe digo mais uma vez que palavras como “invasão,” “ilegal” e “mandato” não se aplicam a mim.

Ele podia sentir o medo dela... e vê-lo também. Ela tinha dobrado os dedos com tanta força sobre o cilindro que os nós em seus dedos estavam brancos. Mas, realmente, ela não precisava se preocupar tanto assim. Parecia muito improvável que Isaac tinha contado a ela algo concreto... o que seria a sentença de morte dela e o rapaz sabia disso: nada a manteria respirando se ela tivesse alguma informação sobre as operações extraoficiais. Nem mesmo se houvesse a vontade de calar seu pai para sempre.

– Eu acho que você e eu deveríamos chegar a um acordo – disse ele, colocando a mão dentro do casaco. – Contenha-se, não enlouqueça com sua arma de pimenta. Apenas vou lhe dar meu cartão de visitas.

Ele tirou um para fora, segurando-o entre as pontas dos dedos indicador e médio, deixando as armas que ele carregava no coldre, exatamente onde estavam.

– Se vir o seu cliente de novo, ligue para este número, senhorita Childe. E saiba que essa foi a única razão de ter vindo aqui para vê-la. Eu só achei que você e eu deveríamos nos encontrar pessoalmente para que entenda o quanto e como penso em Isaac Rothe.

Ela permaneceu com o spray de pimenta ao se aproximar e inclinar-se, como se quisesse ficar o mais distante possível dele. E ele sabia muito bem o que ela ia fazer com o cartão de visitas quando o pegou. Mas isso fazia parte do plano.

Enquanto ela estudava as poucas palavras que estavam impressas, Matthias deixou sua mão livre onde ela pudesse ver.

– Isaac Rothe é um homem muito perigoso.

– Eu tenho que ir – ela disse ao empurrar o que ele tinha dado a ela dentro da bolsa.

– Ninguém a está impedindo. Aqui, vou até mesmo abrir a porta.

Abrindo bem, ele permaneceu ao lado da coisa e aprovou a maneira como ela mediu a ele e a escada que se revelava à frente deles. Cautelosa, oh, tão prudente...

Ela passou com pressa por ele... e no último momento antes de se libertar, ele agarrou seu braço e a puxou de volta.

– Eu deixei uma coisa para você no porta-malas do seu carro. Afinal, a maioria dos acidentes acontecem em casa e você pode precisar de ajuda.

Ela arrancou o braço da mão dele.

– Não me ameace – retrucou ela.

Quando Matthias encarou os belos olhos dela, sentiu-se velho. Velho, imobilizado e preso. Mas assim como havia aprendido há dois anos, ele não conseguiria parar a trajetória de sua vida. Era como colocar as mãos em uma avalanche: você seria esmagado pela corrida da neve e do gelo sem sequer perceber.

– Não tenho medo de você – ela disse.

– Deveria – ele respondeu severamente, pensando em doze maneiras diferentes de fazer algo de modo que ela não descesse para o café da manhã no dia seguinte. – Você deveria ter muito medo.

Ele a deixou ir e ela saiu como um foguete, seus cabelos loiros saindo atrás dela enquanto corria escada abaixo.

Voltando-se para aquela janela sobre a pia, ele observou a cabeça dela dar a volta na casa e sair para a rua.

Ela seria muito útil nessa situação, ele pensou.

De muitas maneiras.


CAPÍTULO 21

 

Quando Grier andou até seu Audi, ela tinha o controle remoto na mão e o coração na garganta. Ela tinha visto aquele homem antes; havia um tipo de centelha atrás de sua mente, alguma memória dele. Ele não tinha o tapa-olho ou a bengala... ela lembraria disso. Mas, definitivamente, ela já o tinha visto.

Aproximando-se do carro, ela parou ao lado dele, cada músculo de seu corpo se preparou como se a qualquer momento a coisa fosse seguir a linha da Família Soprano e explodir até o céu. E assim que ela finalmente ergueu sua chave para destrancá-lo, um sedã preto com janelas escuras passou por ela devagar na Rua Tremont. Olhando para o vidro... não enxergou nada. Era impenetrável e a luz do sol brilhava no para-brisa, então, ela não conseguia ver quem estava dirigindo.

No entanto, ela sabia muito bem quem estava lá dentro. Ela podia apostar que ele estava com a mão levantada fazendo um pequeno aceno.

O sedã nem sequer tinha uma placa licenciada.

Quando a coisa passou, todos os tipos de ideias brilhantes passaram pela sua cabeça, incluindo uma chamada para o 911 sempre ao alcance ou discar para seus amigos no Departamento Policial de Boston ou envolver seu pai. Mas ela não achou que seja lá o que estivesse no porta-malas iria matá-la. Aquele homem teve sua chance com ela, por assim dizer: ele poderia tê-la drogado facilmente e a arrastado para os fundos ou simplesmente matá-la com um silenciador.

Afastou seus dedos do passeio sobre as teclas do telefone que só traria complicações – e, embora a primeira coisa que faria ao chegar em casa seria entrar em contato com seu pai para contar sobre esse cartão, ela não tinha certeza se precisava dele voltando para casa em pânico.

Droga, seu telefone deveria estar grampeado também.

Apertando o controle remoto, ela desativou a trava do porta-malas e levantou lentamente...

Franzindo a testa, inclinou-se e perguntou se estava vendo coisas. Colocado no escuro feltro cinza do interior do porta-malas estava... bem, parecia ser um daqueles pequenos transmissores de alerta que as pessoas idosas usam para pedir ajuda ao médico ou enfermeiro, nada além de um transmissor bege de plástico na forma de um triângulo com um logo vermelho na frente. A corrente para pendurar no pescoço era prateada e longa o suficiente para que, quando colocado, pendesse até seu coração.

Ela tirou um pedaço de tecido da bolsa e pegou o pequeno objeto para inspecionar mais de perto, então, ela deu a volta, se posicionou atrás do volante e colocou o objeto no banco ao lado dela. Quando ela tocou a ignição, hesitou – pensou que seu Audi poderia arder em chamas – e sua frequência cardíaca acelerou. Mas o que é isso... Ela era uma inocente no que se tratava a qualquer coisa que dizia respeito a Isaac e ela tinha que considerar que uma civil americana em solo americano não era o tipo de consequência com a qual o governo americano gostaria de lidar.

Enquanto ela dirigia em direção a Beacon Hill, fez uma chamada para seu pai e, quando caiu na caixa postal, ela tentou deixar uma mensagem – mas o que poderia dizer, uma vez que não sabia quem estava ouvindo? Ela acabou se contendo aos trancos e barrancos e concluiu que ele veria o alerta de chamada perdida no telefone e voltaria a entrar em contato com ela.

Em casa, na praça Louisburg, ela estacionou o carro em sua vaga contra a cerca e olhou em volta, observando as janelas dos carros. Quem a vigiava? E de onde?

Não admira que Isaac fosse inquieto. A ideia de sair do seu Audi e ir até a porta da frente fez com que desejasse ter um colete à prova de balas.

Agarrando sua bolsa e pegando o transmissor com o tecido, ela saiu do carro e correu... só que quando se aproximou de sua casa, diminuiu. Na lanterna, embrulhada em torno da base, havia outra tira de pano branco.

Girando rapidamente, ela olhou para todos os edifícios de tijolo e desejou poder ver dentro deles.

Ela não estava sozinha em qualquer lugar que fosse, estava?

Com seu coração trotando e seu sangue percorrendo com força por suas veias e seu cérebro, ela agiu rapidamente na porta da frente, desativando o alarme central e colocando o transmissor de alerta em uma cristaleira. Jogando sua bolsa de lado, ela silenciou rapidamente o sistema de alarme e, então, inclinou-se apenas para tirar o pedaço de pano branco.

Um, dois, três: ela se fechou por dentro, trancou a porta e reativou o sistema central – algo que ela nunca fazia durante o dia quando estava em casa.

Com um propósito desagradável, ela foi até à cozinha com sua bolsa e colocou tudo no balcão: o cartão de visitas, os pedaços de pano e o transmissor. Objetos que ela teve o cuidado de lidar com um guardanapo.

Os dois pedaços de tecido eram idênticos e evidentemente eram da mesma fonte... e ela tinha um pressentimento de onde vinham: da camiseta regata de Isaac.

Quanto você apostaria que isso era um sinal que ele estava...

Quando seu telefone celular tocou, ela gritou e quase saiu de si. Quando verificou quem era, ela atendeu e não perdeu tempo.

– Pai... precisamos conversar.

Houve um silêncio e a voz familiar de Alistair Childe lhe veio através da ligação.

– Você está bem? Devo ir até aí?

Segurou o telefone na curva do ombro, pegou o transmissor de alerta pela corrente e o observou balançando. Era óbvio que estava sendo vigiada – então, era como se não houvesse qualquer esconderijo ou lugar para onde ir. E, além disso, ter seu pai por perto provavelmente era uma boa ideia. Ela sempre sentiu que ele tinha um poder elevado nas mais altas esferas, pois os políticos e militares o tratavam com algo mais do que apenas respeito: eles tinham um vago medo dele, apesar de ser um cavalheiro educado em uma das melhores universidades do país.

Não ia machucar se o jogasse na confusão e, além disso, não havia mais ninguém a quem recorrer nessa situação.

– Sim – ela disse. – Venha agora.

Na casa da Rua Pinckney, Isaac olhava por trás da janela com vontade de matar. E esse desejo nada tinha a ver com o de um civil que estava frustrado e iria deixar a possibilidade no plano do hipotético.

Ele queria abrir Matthias desde a garganta até o escroto e destripá-lo como se fosse um porco.

O filho da mãe não ia ficar atrás da mulher dele.

Não importava o que Isaac tivesse que fazer ou sacrificar: Grier Childe, com seu bom coração e olhos inteligentes, não ia se tornar um entalhe na correia de Matthias.

Era evidente, porém, que ela estava na mira do cara. Ela tinha saído há duas horas e tinha levado o dinheiro com ela. O que deveria ter sido a deixa para Isaac partir também... só que o sedã preto que tinha passado de madrugada se materializou mais uma vez vindo de um beco na Rua Willow e a seguiu bem de perto.

Sem nada que pudesse fazer, ele teve que deixá-los partir, seu maldito coração batia com uma raiva impotente. Seu primeiro instinto foi ligar para Jim Heron – mas ele não tinha certeza se podia confiar no cara.

A única coisa que pôde fazer foi recolocar um sinal ligado à luminária dela. Pegando o chapéu de um pintor que havia sido deixado para trás, ele o colocou para cobrir seu rosto e saiu rapidamente para amarrar outro pedaço de camiseta regata em torno do ferro forjado – apenas no caso de quem quer que estivesse no carro não tivesse visto a primeira antes de Grier pegá-la. Apesar de ser improvável. A questão era se o método das operações extraoficiais de marcar uma situação de maneira tão clara importava: no campo de batalha, quando uma tarefa era cumprida e o membro da equipe ia embora, ele sempre deixava uma marca branca em algum lugar do edifício, do veículo ou da cena do crime.

Isaac esperava que aquilo redirecionasse alguma informação de seu passado e presente a Grier. Mas, sim, seja como for: quando ela voltou para casa, ostentava uma expressão tão profunda que era como se estivesse apertando os olhos e ela tinha algo nas mãos que carregava com um tecido.

Então, ela retirou a segunda marca deixada por ele na lanterna.

E... agora o sedã preto retornou, passando devagar pela casa, subindo a rua. Voltando. Estacionando.

Droga. Droga...

Ele queria quebrar seu segredo, marchar pela rua e bater na janela do carro sem placa com o cano de sua arma. Então, ele queria olhar para os olhos de quem estivesse ali e puxar o gatilho, transformar o cérebro do bastardo em um milk-shake.

Ele também tinha um pressentimento de quem era.

Esperava que o braço do bastardo estivesse melhor.

Cara, para o inferno deixar Boston agora; ele não ia a lugar algum até ter certeza de que Grier estava fora da linha de fogo... mesmo porque, foi ele próprio quem colocou um alvo no peito dela.

Ele estava mastigando essa pequena fatia de felicidade quando uma Mercedes do tamanho de uma casa pequena parou na porta da frente. Nada de bisbilhotar em volta e procurar por uma vaga de carro para aquele garotão; a coisa parou na calçada e ficou lá, a única concessão à ilegalidade era seu pisca-pisca aceso.

O homem que saiu do carro tinha um metro e oitenta de altura e a boa forma de um soldado. Seus cabelos grisalhos eram cheios e penteados de uma das laterais para trás e, mesmo com apenas uma camiseta e uma blusa de lã, ele escorria dinheiro. E, como pode imaginar, ele caminhou até a entrada e usou a aldrava de cabeça de leão para bater como se fosse dono do local.

Era o pai de Grier. Tinha que ser.

No instante em que ela abriu a porta, ele entrou e, então, da mesma maneira, eles se fecharam e não foi mais possível ver nada.

De modo geral, em uma situação de emboscada, você queria encontrar um porto seguro e ficar parado. Movimentar-se aumentava a probabilidade de ser detectado, especialmente em plena luz do dia, em uma área onde você não está familiarizado, quando pessoas já estão procurando por você.

E no seu caso, não era apenas uma forma ruim de ser descoberto – era suicídio.

Assim, mesmo que seu corpo estivesse gritando para agir, aproximar-se e mudar de local, ele tinha que ficar parado.

O anoitecer. Ele tinha que esperar até o anoitecer e, mesmo assim, precisava ter cuidado. Aquele sistema de segurança dela era ininterrupto: a especialidade dele era matar pessoas, não desarmar fiações de alta tecnologia, então, as chances de entrar sem disparar o sistema eram nulas.

Assumindo que ele quisesse mesmo entrar no lugar onde ela morava, a questão era a melhor forma de protegê-la e era difícil saber o que era pior: ela sozinha lá dentro com ele nas redondezas ou ele lá dentro com ela.

Isaac ouviu o rugido de seu estômago vagamente e o som fazia com que sentisse o número de horas que se passaram desde que comeu pela última vez. Mas ele deu de ombros para isso, exatamente como fez inúmeras vezes no campo de batalha.

Abstrair a matéria, abstrair o corpo... abstrair tudo.

Ele só queria saber sobre que diabos Grier e seu pai conversavam.

Em pé na cozinha, encarando seu pai ao olhar para ela com um pequeno ar de “que diabos está acontecendo?” Grier tinha tantas perguntas que não sabia por onde começar.

Uma coisa foi certa: quando seu pai estendeu a mão para pegar o cartão de visita, ela tremia levemente. O que, em qualquer outra pessoa, seria o anúncio equivalente a uma convulsão epilética.

Alistair Childe era um homem gentil com uma boa alma, mas ele raramente demonstrava qualquer tipo de emoção. Especialmente se era uma decepção. A única vez que ela o viu chorar foi no funeral de seu irmão – o que foi bizarro não apenas pela raridade de suas lágrimas, mas porque aquelas duas correram todo seu rosto.

– Quem lhe deu isto? – ele perguntou com uma voz tão fina que não soava nem um pouco com a dele.

Grier sentou-se em um dos bancos na ilha e se perguntou por onde começar.

– Eu renunciei um caso da defensoria pública ontem...

A história foi contada de maneira rápida, mas teve uma grande reação: – Você deixou o homem entrar aqui?

Ela cruzou os braços sobre o peito.

– Sim, deixei.

– Dentro da casa?

– Ele é um ser humano, pai. Não um animal.

Seu pai caiu sobre o outro banco e, então, esforçou-se para descompactar o pescoço de dentro da blusa.

– Bom Deus...

– Eu renunciei ao caso, mas acabei de chegar do apartamento de Isaac...

– O que nesse mundo a fez ir até lá?

Certo, ela ia ignorar aquele tom indignado.

– Foi assim que recebi o cartão e ele me disse para ligar se visse Isaac de novo. E eu também peguei o transmissor de alerta. – Ela balançou a cabeça. – Eu já vi esse homem antes. Eu juro... há muito tempo.

Se seu pai estava pálido antes, agora ele estava da cor de uma neblina, não apenas branco, mas exibia um acinzentado opaco.

– Como ele era?

– Ele tinha um tapa-olho e...

Ela não terminou a descrição. Seu pai saltou do banco e de repente teve que retomar o equilíbrio apoiando-se no balcão.

– Pai? – Ela pegou o braço dele alarmada. – Você está...

Ela não ficou surpresa quando ele apenas balançou a cabeça.

– Fale comigo, por favor – ela disse. – O que está acontecendo aqui?

– Não posso... discutir sobre isso com você.

Grier parou de segurá-lo e deu um passo para trás.

– Resposta errada – ela exclamou. – Resposta totalmente errada.

Quando ela olhou furiosa para ele e para todo seu resoluto silêncio, percebeu por que se sentiu tão estranhamente à vontade com Isaac: seu pai era um fantasma também. Sempre foi. Ela, literalmente, cresceu e agora vivia sob o temor de que, a qualquer momento, ele pudesse desaparecer para sempre.

E seu cliente expressava exatamente a mesma vibração.

– Você tem que falar comigo – ela disse severamente.

– Não posso. – Os olhos que a encaravam eram os de um estranho em traje familiar – como se alguém tivesse feito uma máscara com as características de seu pai e saísse por aí por trás daquela superfície. – Mesmo se eu pudesse... Eu não poderia suportar contaminá-la com...

Ele caiu como se estivesse sendo curvado pelo peso de uma grande montanha.

Estranho, pensou ela. Definitivamente, havia vezes, quando se ficava mais velho, que você via seus pais de uma maneira distinta dos papéis de pai e mãe de sempre. E este era um momento assim. O homem em sua cozinha não era o senhor todo poderoso da casa e do escritório... mas alguém que foi pego em algum tipo de armadilha para ursos, cujas garras eram vistas apenas por ele.

– Preciso ir – ele disse asperamente. – Fique aqui e não deixe ninguém entrar. Ligue o sistema de segurança e não atenda o telefone.

Enquanto ele saía, ela bloqueou o caminho para o corredor da frente.

– A menos que me diga que diabos está acontecendo, eu vou sair por aquela porta no momento que você sair e desfilar na Rua Charles até que eu seja atropelada no trânsito ou encontrada por aquilo que você tanto teme. Não me obrigue a fazer isso. Porque eu vou fazer.

Houve um momento de olhares furiosos. E, então, ele riu de maneira áspera.

– Você é mesmo minha filha, não é?

– Tal e qual.

Ele começou a andar, dando voltas em torno da ilha de granito.

É tempo, ela pensou. Tempo de ter as respostas de todas aquelas perguntas que ela queria perguntar sobre ele e sobre o que fazia. Tempo de preencher os vazios de mistério e sombras com respostas tangíveis que foram negligenciadas há muito tempo.

Deus, Isaac era tanto uma complicação quanto uma benção do céu.

– Apenas, fale pai. Não seja um advogado... não fique ponderando tudo.

Ele parou do outro lado do fogão e a encarou.

– Minha mente é tudo que tenho, minha querida.

Depois de um momento, ele voltou ao banco de onde tinha caído antes e quando se sentou, fechou mais uma vez o zíper da blusa – que era como ela sabia que ia obter a verdade, ou parte dela: ele estava se recompondo, voltando a ser quem era.

– Quando eu estava no exército como oficial, eu servi no Vietnã, como você sabe – ele disse naquele tom direto, sem rodeios que ela tinha ouvido durante toda sua vida. – Depois, fui para a faculdade de Direito e deveria voltar à vida civil. Mas eu não saí de fato das forças armadas. Eu nunca estive fora de verdade.

– As pessoas que vinham até a porta? – ela disse, percebendo que era a primeira vez que conversavam sobre elas.

– É o tipo de coisa que você nunca deixa para trás. Você não consegue sair. – Ele apontou para o cartão. – Eu conheço esse número. Já o disquei. Isso a leva direto ao coração... da besta.

Ele passou a falar em termos gerais, oferecendo descrições soltas, ao invés de definições claras, mas ela preencheu os espaços em branco: era um governo no estilo ninja, o tipo de coisa que justifica a paranoia dos teóricos da conspiração, o tipo de organização que você vê em filmes de cinema e nos quadrinhos, mas que os civis não acreditavam realmente que existiam.

– Eu não quero isso – ele apontou para o cartão de novo – perto de você. A ideia daquele... homem...

Quando ele não terminou, ela se sentiu compelida a dizer: – Você não me disse nada de concreto.

Ele balançou a cabeça.

– Mas essa é a questão: é tudo o que eu tenho. Estou à margem, Grier. Então eu sei apenas o suficiente para ter uma ideia clara do perigo.

– O que exatamente você fez para eles... seja lá quem “eles” são?

– Coleta de informações... Eu era estritamente da inteligência. Nunca matei ninguém. – Como se tivesse todo um departamento de assassinatos. – Uma grande parte do que mantém a máquina funcionando é a informação. E eu saía, as coletava e voltava com elas. Eu também era chamado de tempos em tempos para dar minha opinião sobre algumas figuras, empresas ou governos internacionais. Mas, mais uma vez, eu nunca matei.

Era incrível como ela estava aliviada por não haver sangue nas mãos dele.

– Você ainda está envolvido?

– Como eu disse, você nunca sai de verdade. Mas não tenho uma tarefa para cumprir... – Longa pausa. – Há dois anos.

Grier franziu a testa, mas antes que ela pudesse perguntar mais alguma coisa, ele se levantou e disse: – Seu ex-cliente está com a cabeça à prêmio se ele for um desertor deles. Ele não pode se salvar e você não pode ajudá-lo ou salvá-lo também. Se esse Isaac aparecer por aqui de novo, me ligue imediatamente. – Ele deslizou o cartão, as tiras de pano e o transmissor e os colocou no bolso de sua blusa. – Não vou deixar que se meta nessa confusão, Grier.

– O que o senhor vai fazer com tudo isso?

– Vou me certificar de que você não vai mais representar Isaac Rothe, que não vai ter mais nada a ver com ele e que, se você o vir de novo, vai entrar em contato direto comigo. Vou explicar que você não escolheu nada disso e que está ansiosa para se afastar. E, o mais importante, vou declarar enfaticamente que ele não lhe disse nada. O que é verdade, não é?

Seu olhar duro disse a ela que mesmo se esse não fosse o caso, era melhor ter certeza de manter assim.

– Ele nunca me disse uma palavra sobre o que tinha feito ou por que estava fugindo. Nem uma palavra.

Quando viu seu pai respirar aliviado, sua frustração diminuiu.

– Pai...

Ela foi até ele, deslizou os braços em volta de sua cintura e o abraçou por um longo momento.

– Eu te ligo em uma hora – ele disse. – Ligue o sistema.

– As linhas telefônicas estão grampeadas.

– Eu sei.

Grier endureceu.

– Há quanto tempo eles fizeram isso?

– Desde o início. Há quarenta anos.

Deus, por que ela ainda estava surpresa... e a violação ainda deixava um gosto ruim em sua boca. Como tudo mais daquilo deixava.

Depois que ela o acompanhou até a porta, se trancou e ativou o alarme. Em seguida, foi até a sala de estudos e espiou pela janela a Mercedes se afastar do meio-fio e seguir a Rua Pinckney em direção à Rua Charles.

Quando ela não conseguia mais ver as luzes traseiras do carro, colocou a mão no bolso e tirou as coisas que havia pegado dele ao se abraçarem: o transmissor de alerta, o cartão de visitas e as tiras de pano não estavam mais, de fato, com ele.

Alistair Childe estava certo sobre uma coisa: ela era sua filha.

O que significava que ela não ia ficar fora disso.

“Você é louca, sabe disso.”

Seu irmão fantasma disse ao lado dela.

– Não é novidade. – Ela o encarou. – Eu tenho conversado com um cara morto nos últimos dois anos.

“Isso é sério, Grier.”

Ela olhou para as coisas em suas mãos.

– Sim. Eu sei.


CAPÍTULO 22

 

Quando finalmente anoiteceu, Isaac estava pronto para gritar “até que enfim” a plenos pulmões. Mas, ao invés de seguir a linha Tarzan, ele se esquivou na parte dos fundos da moradia, escorregou pela janela que tinha saído pela manhã, a fechou atrás de si e caiu sem fazer qualquer som sobre a varanda de tijolos dos fundos.

Ele teve sorte por ser uma noite nublada, pois isso escoava a luz de maneira ainda mais rápida do céu. E, ainda assim, ele estava preso, pois a vizinhança estava acesa como uma maldita loja de joias: dos postes públicos até as luminárias ao redor de cada uma daquelas portas pretas brilhantes e também os faróis dos carros, ele ia ter uma grande quantidade de problemas dos quais se esconder.

Ele fez a viagem até Grier na velocidade de uma tartaruga, encontrando todas as sombras possíveis e tirando vantagem delas.

Quarenta e cinco minutos.

Esse foi o tempo para percorrer não mais que vinte metros até o outro lado da rua, no quintal de Grier. Então, ele subiu mais dois quarteirões e fez uma evasiva para trás antes de descer outra rua que passava pela casa dela e pegar um beco que dava em seu jardim murado.

Um salto... um aperto rápido na borda do tijolo... um balanço com o corpo inteiro... e ele estava em meio aos arbustos.

Ele congelou ao aterrissar agachado.

Não havia nada que ele pudesse ver ou sentir. O que significava que poderia verificar o local através dos painéis de vidro...

Quando Grier entrou na cozinha, respirou fundo, de uma maneira que dava a ele um impulso de energia e foco apesar do fato de não ter comido ou bebido em quase 24 horas.

Parecia uma eternidade desde que ele a viu pela última vez e odiava o quão exausta e pálida ela parecia estar quando andou pela cozinha. Ela estava ao telefone, falando com animação, gesticulando com as mãos... Então, ela terminou a ligação e jogou o aparelho ao longo do balcão.

Ele esperou para ver se alguém viria até a cozinha verificar o que tinha, sem dúvida, provocado algum barulho...

Algo se moveu. Mais à esquerda.

Seus olhos atravessaram o jardim, mas a cabeça não mudou de posição e seu peso não se desequilibrou. Foi difícil identificar exatamente o que tinha mudado de posição, pois havia muitos...

Jim Heron saiu da escuridão. E não era uma surpresa, dado o tamanho do muro que cercava tudo. Mas talvez ele já estivesse ali antes que Isaac tivesse chegado – o que era ainda mais preocupante, pois Isaac deve ter incitado sua presença.

Embora o cara sempre tenha sido muito, muito bom em se camuflar na paisagem.

– O que você está fazendo aqui? – Isaac perguntou, sua mão encontrando a coronha da arma ao se levantar.

– Procurando por você.

Isaac olhou ao redor e não viu ninguém.

– Bem, você me achou. – E, droga, talvez Heron pudesse ajudar em uma escala limitada. – Seu timing é bom por sinal.

– E você ainda não ligou? Eu lhe dei meu número.

Isaac indicou Grier com a cabeça.

– Complicações.

Jim amaldiçoou em voz baixa.

– Mesmo sem saber dos detalhes, posso dizer qual é a solução. Partir. Agora. Está preocupado com ela? Deixe-me colocá-lo em um avião.

– Eles deram algo a ela.

– Mas que droga. O que?

– Eu não sei. – Ele encarou o vidro de Grier. – E é por isso que não vou embora.

– Isaac. Olhe para mim. – Quando ele não obedeceu, Jim agarrou seus bíceps e os espremeu. – Agora.

Isaac deslizou seu olhar.

– Eu não posso deixar que... a machuquem.

Outra maldição.

– Certo, ótimo, então, deixe-me esclarecer a confusão. Você é valioso demais para se sacrificar. Precisamos levá-lo para algum lugar seguro, longe, muito longe de qualquer um que o conheça ou que possa encontrá-lo. Eu vou cuidar dela...

– Não. – Deus, ele não podia explicar aquilo e sabia que não tinha lógica. Mas quando se tratava de Grier... ele não podia confiar em ninguém.

– Seja razoável, Isaac – você é uma arma apontada para a cabeça dela. Você é o gatilho e a bala e o tiro que vai matá-la. Andar por aqui? Está pagando pela lápide dela.

– Vou me colocar entre ela e Matthias. Vou...

– A única maneira de salvar a vocês dois é saindo logo daqui. Além disso, talvez possamos mantê-lo escondido por muito tempo, o suficiente para que ele desista... ele não será capaz de manter o desvio de recurso para continuar uma busca sem fim.

Isaac balançou a cabeça lentamente.

– Você sabe no que Matthias se transformou nos últimos anos. Ele está administrando as operações extraoficiais como um clube, seguindo sua própria agenda. Ele costumava seguir ordens... mas ultimamente? Ele dá ordens. Ele está fora de controle. Suas tarefas agora se tratam de... outra coisa. Eu não sei o que. E isso significa que ele vai me caçar até morrer. Ele tem que fazer isso – é a única maneira de proteger a si mesmo.

– Então, deixe que ele o cace ao redor do globo. Vamos nos certificar que você esteja dois passos a frente dele pelo resto de sua vida na Terra.

Isaac voltou a prestar atenção em Grier do outro lado do vidro. Ela estava abraçando a si mesma contra o balcão onde estava sentada, deixou cair a cabeça e curvou os ombros como se carregassem todo seu peso. Seus cabelos estavam soltos e suas longas ondas quase tocavam o granito.

– Estou começando a achar que cometi um erro. – Ouviu-se dizer. – Eu deveria ter ficado nas operações extraoficiais.

– Seu erro é permanecer neste jardim.

Provavelmente. Mas ele não ia embora.

– Oh, pelo amor de Deus – Jim exclamou. – Pegue isto.

Ao som de um sussurro, Isaac olhou e encontrou um saco de papel que estava sendo direcionado a ele.

– É um sanduíche de peru – Jim disse. – Maionese. Alface. Tomate. E um cookie. Da loja da esquina. Vou até dar uma mordida para provar que não está envenenado.

Jim enfiou a mão dentro de uma bolsa, puxou o sanduíche e tirou o celofane com uma das mãos. Então, ele envolveu a mandíbula em torno da coisa, deu uma boa mordida e mastigou com a boca fechada.

O que, naturalmente, fez com que o estômago de Isaac voltasse aos dois anos de idade e começasse a uivar.

– Que tipo de cookie?

Jim falou com a boca ainda cheia.

– Com gotas de chocolate. Sem nozes. Odeio nozes em cookies com gotas de chocolate.

– Estou muito agradecido – Isaac disse suavemente. Erguendo a palma de sua mão esquerda, ele pegou o que foi oferecido e comeu com eficiência.

– Cookie? – Jim murmurou.

Doía dizer isso, mas ele precisava.

– Dê uma mordida primeiro. Por favor.

A grande mão desapareceu dentro da bolsa de novo e surgiu com alguma coisa do tamanho de um volante de carro. Desembrulhou. Mordeu. Mastigou.

– Muito obrigado – Isaac disse quando a sobremesa trocou de mãos.

– Eu tenho uma garrafa de água no meu bolso de trás. – Jim tirou a coisa, fez um barulho tirando a tampa e tomou um bom gole.

Isaac se inclinou para frente e aceitou a garrafa de água.

– Você me salvou.

– Esse é o plano – o cara resmungou.

Dentro da cozinha, Grier começou a fazer o jantar e, caramba, ela estava vulnerável demais sobre aquele fogão... todo aquele vidro transformava o cômodo em um aparelho de TV que ficava ligado no canal Childe 24 horas por dia, sete dias por semana.

– Vou deixá-la sem defesas se for embora.

– Vai fazer dela um alvo se ficar. Não deveria estar aqui agora. Você não deveria ter passado um dia inteiro naquela casa do outro lado da rua.

Isaac olhou para ele de maneira brusca.

– Como você sabe?

Jim apenas revirou os olhos.

– Lembra-se do que eu fiz para viver durante quase uma década? Olha, seja realista. Deixe que eu cuido dela enquanto o colocamos em segurança.

– Vá se ferrar, idiota. Conheço você bem demais... então, essa história de garoto escoteiro é muito difícil de engolir.

– Pode dizer o que quiser, eu não me importo. Só tire vantagem disso...

Uma brisa suave soprou de uma direção imperceptível... e Isaac sentiu um arrepio na coluna que não tinha nada a ver com a temperatura do ar e tudo a ver com o seu instinto.

Ao lado de Isaac, Jim endureceu e olhou ao redor...

Dois homens enormes saíram das sombras ao lado dele.

Isaac foi rápido no gatilho, pegou sua outra arma e nivelou cada uma delas no focinho de cada um deles. Mas eram apenas os colegas de Jim, aquele cheio de furos como uma almofada de alfinetes e o outro que era do tamanho de uma montanha.

– Temos companhia, cara – o Sr. Fetiche por Agulhas sussurrou para Jim. – Má companhia. O tempo estimado de chegada é de mais ou menos um minuto e meio.

– Leve-o para dentro da casa – o da trança grossa disse. – Ele estará seguro lá dentro.

Certo, hora de interrompê-los, rapazes.

– Oi, meu nome é Isaac. Esta é Lefty... e Bob. – Ele ergueu as armas para fazer as apresentações. – E nenhum de nós recebe mais ordens.

Os olhos de Jim queimavam quando o encarou.

– Escute Isaac... entre na casa... entra na maldita casa e fique lá. Não importa o que veja ou ouça... não saia. Estamos claros?

Do nada, o cara puxou uma faca que não fazia sentido. A maldita coisa era feita de vidro...? O que...

Um assovio baixou começou a cantarolar pelo ar e Isaac olhou por cima do ombro na direção do som. Era o tipo de coisa que só podia ser o vento... Não havia nenhuma outra explicação para isso. E, ainda assim, ele não sentiu qualquer brisa sobre a pele.

– Entre na casa se quiser viver – alguém disse.

Jim agarrou o braço dele.

– Não pode lutar com esse inimigo, mas eu posso. Se ficar lá dentro, vai estar seguro... e pode proteger aquela mulher. Mantenha a moça com você em segurança.

Bem, essa era uma ordem que ele poderia seguir...

De repente, a casa de Grier começou a brilhar com uma luz etérea, como se tivesse refletores na fundação direcionados para cima. Quando seus olhos se esforçaram para compreender o que estava vendo, um zumbido na parte de trás de seu pescoço cresceu de maneira tão intensa que ficou preocupado que sua cabeça se transformasse em uma lata de refrigerante e estourasse sua coluna.

Isaac não permaneceu ali.

Ele saiu correndo pelo quintal quando o vento profano ficou cada vez mais alto, rezando para que entrasse e ficasse com Grier a tempo.

Grier odiava brigar com seu pai. Simplesmente desprezava isso.

Virando a omelete na panela, ela centrou a coisa e, então, olhou para o telefone celular que tinha jogado ao longo da ilha.

A primeira ligação entre eles foi mais ou menos uma hora depois que ele a deixou e foi ele quem ligou. Naturalmente, ele descobriu seu truque da mão leve e isso resultou em toda uma série de problemas... nenhum deles foi resolvido, pois ela não ia devolver as coisas, não ia aceitar um não como resposta e eles tinham que cobrir aquele campo minado com códigos, pois só Deus sabia quem estava ouvindo.

Depois de passarem um tempo como lutadores em um ringue, eles deram um tempo; ela tentou trabalhar enquanto seu pai desaparecia no mundo obscuro dele.

Contudo, Grier ficava tentando adivinhar aquela parte. Era como se ele não tivesse dito nada de concreto.

Quieto.

Como sempre.

Na segunda viagem pelo parque telefônico, seus dedos fizeram a caminhada. Sua intenção era estabelecer algum tipo de paz e descobrir o que ele estava fazendo, mas isso se transformou rapidamente em mais acusações de incompetência em uma linguagem que parecia fazer parte de um latim porco e de um monte de charadas.

O trabalho anterior pareceu andar ligeiramente melhor depois da segunda ligação.

Quando sua omelete chiou baixinho e ela tomou um gole do seu copo de vinho, uma rajada de vento atingiu os fundos da casa, assoviando através das venezianas e acariciando os sinos de vento que ficavam próximos à porta. Franzindo a testa, olhou por cima do ombro. Uma maldita brisa, ela pensou, a música sutil nas peças de barro, pela primeira vez, não a acalmou.

É o que acontece quando você está se tornando paranoica. Tudo ficava assustador, mesmo as...

Uma coisa de formato enorme saltou na porta dos fundos e encheu as vidraças. Quando ela soltou um gritou e saltou para apertar o botão que indicava pânico no sistema remoto de segurança, a face de Isaac foi iluminada na escuridão pela luz sensível ao movimento que ele ativou.

Ele começou a bater com o punho, mas não fez isso por muito tempo. Ele se virou para enfrentar o quintal, achatando-se contra a casa como se algo estivesse indo até ele.

Ao correr, desativou o sistema e ele caiu em cheio na cozinha quando ela abriu a porta. Ele foi quem os fechou, trancando a fechadura e, em seguida, colocando seu corpo contra o painel como se alguém estivesse tentando pegá-lo.

Entre uma respiração difícil, ele ordenou: – O sistema... ative-o de novo...

Assim ela o fez sem hesitar...

Tudo ficou escuro.

Exceto por uma luz azul da chama sob a panela no fogão e o halo amarelo de luz sobre o alpendre, a cozinha ficou totalmente escura... e levou um segundo para seu cérebro entender que ele tinha apagado as luzes.

A arma que ele trazia no peito não refletia muita luz ou fazia qualquer sombra, mas ela soube exatamente o que estava na mão dele quando ele mudou de posição e se colocou contra a parede perto da porta. Ele não apontou a arma para ela... Ele nem sequer a olhava. Seus olhos estavam presos ao jardim dos fundos.

Quando ela tentou se aproximar para ver alguma coisa, ele estendeu seu forte braço e a afastou.

– Fique longe do vidro.

– O que está acontecendo?

Uma rajada de vento atingiu a casa, os sinos se movimentaram tanto ao ponto de suas cordas se entrelaçarem, soando nada além de um grito de dor.

Então, um rangido estranho atingiu toda aquela confusão.

Abraçando-se no balcão, ela olhou para o teto e percebeu que era a casa... A casa de alvenaria de sua família, que permaneceu sem qualquer abalo em sua sólida fundação de 200 anos, estava gemendo como se estivesse prestes a ser arrancada desde sua base.

Seus olhos foram para a parede de vidro. Ela não conseguia ver nada além de sombras se movendo com o vento... só que não estava certo. As sombras não... se movimentavam direito.

Transtornada pela visão dos formatos escuros se deslocando sobre o chão como uma mancha de óleo grosso, sentiu sua mente se contorcer ao tentar encontrar uma forma de explicar o que seus olhos viam.

– O que é... isso? – ela ofegou.

– Fique atrás do balcão. – Isaac olhou para o teto assim como para a casa e soltou um palavrão.

– Vamos lá, garota, aguente firme.

Caindo de joelhos, Grier olhou para o velho espelho do outro lado. Através de sua superfície ondulada, ela podia ver as janelas do jardim e todas aquelas coisas estranhas andando ao redor.

– Isaac, fique longe da porta...

Um alarme ecoou e encheu o ar e Grier soltou um grito e cobriu os ouvidos. Entretanto, Isaac nem sequer vacilou... e ela foi puxada com força para perto dele.

– Alarme de incêndio – ele gritou. – É o alarme de incêndio!

Lançou-se para o fogão e colocou a omelete cheia de fumaça para um lado, apagando a chama com um toque rápido.

– Faça o que tem que fazer – ele disse. – Mas certifique-se de que o corpo de bombeiros não aparecerá por aqui.

 


CONTINUA