Criar um Site Grátis Fantástico
Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


DESEJO
DESEJO

                                                                                                                                                  

 

 

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 10

 

Já tinha passado das 10 da noite quando Grier estacionou seu Audi em Malden e desligou o motor. Ela manobrou o sedã em um local de terra batida de maneira que ficasse voltado para fora e longe da maioria dos outros carros – embora o “estacionamento” não tivesse exatamente qualquer área dedicada à entrada, saída ou vagas.

Quando chegou ao endereço que Louie havia passado por telefone, não teve certeza de que era o lugar certo. O local como um todo estava vazio até onde ela conseguia ver, as doze ou mais torres de cinco andares em espiral surgiam a partir de um caminho escuro como se fossem crianças na escola em fila para uma contagem. Era evidente que a estrutura tinha sido desenvolvida para que empresas de alta tecnologia a ocupassem, ao menos era isso que se via no cartaz que dizia CENTRO EMPRESARIAL TECNOLÓGICO MALDEN. Mas, na realidade, o contrário: era uma cidade fantasma.

Contudo, Louie nunca a conduzia ao erro. Assim, ela se virou e percorreu o caminho até os fundos... e encontrou mais ou menos 25 caminhonetes e carros atrás do prédio mais distante da entrada principal. Fazia sentido. Se ela estivesse invadindo um local para montar uma gaiola de lutas clandestina, ela também garantiria que estivesse o mais oculta possível.

Saindo de seu carro, foi até a saída de emergência que estava aberta sustentada por um bloco de concreto e entrou. O rosnado profundo e agitado da multidão de homens fluía no corredor, a testosterona formava uma parede a qual ela praticamente teve que empurrar para atravessar. Enquanto seguia em direção ao som, ela não se preocupava com o quociente de estupidez – que claramente seria alto. Ela tinha um spray de pimenta em um bolso e uma arma de choque no outro: o primeiro era uma arma legal no estado de Massachusetts quando se tinha uma autorização para portar armas de fogo, e ela tinha. O segundo... bem, ela pagaria a multa de quinhentos dólares, caso tivesse que usar a coisa.

Se ela conseguiu entrar em um ponto de crack em New Bedford, à meia noite, ela poderia lidar com isso também.

Quando surgiu no saguão e conseguiu dar uma olhada nas barreiras de um metro e oitenta ligadas por correntes do octógono, ela tinha total consciência de que poderia chamar a polícia para o jogo de hoje, mas, assim, Isaac, assumindo que ele aparecesse por ali, seria preso novamente ou fugiria. Nos dois casos, ela não teria a chance de se aproximar dele. O objetivo dela era fazer com que ele parasse e pensasse um tempo considerável para ver o que estava fazendo. Fugir nunca era a solução, e se entrasse por aquele caminho, ele garantia uma detenção, mais acusações e o início de um registro com precedentes.

Isso assumindo que ele já não tivesse um: aquele assassinato no Mississippi a preocupava – mas era, como todos os seus outros problemas, algo que as devidas autoridades deveriam lidar. Como sua advogada de defesa, ela tinha que tentar fazer com que ele ficasse e dançasse conforme a música ditada por suas acusações atuais. Era a coisa certa a se fazer perante a sociedade – e era a coisa certa a se fazer por si mesmo.

E se ela não conseguisse fazer com que ele enxergasse a luz? Então, ela iria se afastar do caso e contar às autoridades tudo o que sabia sobre ele. Incluindo as armas e os detalhes daquele sistema de segurança. Ela não se tornaria cúmplice do crime na sua busca por fazer a coisa certa...

Grier congelou ao ver seu cliente, sua mão foi em direção à base de sua garganta.

Isaac Rothe estava sozinho em uma extremidade do ringue, e embora os elos da cadeia da gaiola o separassem, não havia dúvidas de quem era... e isso não diminuía o efeito que ele causava: era uma ameaça, o seu tamanho e a expressão rígida do rosto transformava os outros homens em garotinhos. E mesmo sendo impactada por sua educação naquela cadeia, agora ela tinha um retrato verdadeiro de quem ele era.

O homem era um assassino.

Seu coração bateu rápido, mas ela não vacilou. Estava ali para fazer um tipo de trabalho, e maldito seja, mas ela iria falar com ele.

Assim que deu um passo à frente, um cara adulador com dentes de ouro apareceu fazendo macaquices do outro lado da gaiola.

– E agora... aquilo que vocês estavam esperando!

Isaac tirou seu blusão e suas botas, deixou suas coisas no chão e, em seguida, começou a perambular no ringue, queixo baixo, os olhos encaravam tudo por baixo das sobrancelhas. Sua camiseta se esticava apertada ao longo de seu peitoral e, mesmo tendo as mãos pendentes nas laterais, seus braços estavam esculpidos pela força. Posicionando-se para a luta, ele era todo músculo, ossos e veias, os ombros tão largos que pareciam ser capazes de levantar o maldito prédio como se estivesse fazendo levantamento de peso.

Ao pular a gaiola e aterrissar ali dentro com os pés descalços, o rugido da multidão atingiu a cabeça dela como um sino e transformou sua coluna em um condutor de adrenalina. Sob o brilho das oito lanternas de acampamento que ficavam nos polos de apoio, seu cliente era parte gladiador, parte animal, um pacote mortal pronto para fazer aquilo para que ele claramente tinha sido treinado.

Infelizmente, o adversário que pulou ali e aterrissou em sua frente era quase uma imagem refletida dele: a mesma estrutura brutal, o mesmo peso, a mesma aparência mortal – estava até mesmo vestido da mesma maneira, a camiseta mostrava os músculos cheios de tatuagens de serpentes que percorriam todo seu ombro e pescoço. E enquanto o público gritava e se aproximava, os dois circulavam, procurando por uma oportunidade, braços, peitos e coxas enrijecidos.

Isaac investiu primeiro. Ao balançar o corpo, tirou o pé do chão e atingiu o outro homem nas costelas com um golpe tão cruel que ela poderia apostar que até mesmo os ancestrais do adversário sentiram a dor no túmulo.

Tudo aconteceu muito rápido. Os dois entraram em uma sucessão de ataques e esquivas, suas camisas se umedeceram rapidamente ao redor do pescoço e nas costas, a luz amarela amanteigada das lanternas fazia com que parecesse que estavam lutando em um ringue de fogo. Os contatos, quando feitos, eram do tipo que soavam como tiros de armas de fogo, os fortes e ressonantes impactos chegavam até a multidão, que se agitava inquieta. O sangue voava – a partir do corte na cabeça de Isaac que foi rapidamente reaberto e depois dos lábios do adversário que foram partidos. Os lutadores não pareciam se importar, mas com certeza os agitadores adoravam aquilo, como se fossem vampiros...

Uma mão passando em sua bunda fez com que olhasse em volta.

Movendo-se rapidamente para trás, ela olhou o cara da mão boba.

– Desculpe.

Ele pareceu momentaneamente surpreso e, então, seu olhar se estreitou.

– Ei... o que faz aqui?

A questão foi colocada como se ele a conhecesse.

Então, parecia que ele estava falando com o Papai Noel e levando isso à sério – seu rosto estava liso de suor e metade de suas feições se contorceram como se sofresse um curto-circuito. Era óbvio que ele estava drogado – e Deus sabia que ela era especialista em fazer esse diagnóstico.

– Com licença – ela disse, afastando-se.

Ele a seguiu. Para sua sorte, o único idiota do lugar estava mais interessado em importuná-la do que na luta que veio para assistir.

Ele agarrou o braço dela, puxando-a.

– Eu conheço você.

– Tire sua mão de mim.

– Qual é o seu nome...?

Grier se libertou dele.

– Não é da sua conta.

Ele pulou em direção a ela num piscar de olhos: o metro que havia entre eles de repente se transformou em um centímetro.

– Você é uma maldita dondoca. Acha que é melhor que eu, vadia?

Grier não cedeu o corpo, mas tirou a arma de choque e deslizou o pino de segurança ao agarrá-lo. Colocando a arma a uma distância mínima da calça jeans do cara, ameaçou.

– Se você não sair de perto de mim, vou lançar 625 mil volts nas suas bolas. No três. Um... dois...

Antes que ela tivesse tempo de acionar o gatilho, ele recuou e ergueu as mãos.

– Não era minha intenção... eu só pensei que te conhecia.

Enquanto ele se afastava, ela manteve a arma de choque em mão e respirou fundo. Talvez ela o conhecesse das buscas que tinha feito por Daniel – mas era evidente que ele estava fora de si e ela já estava escaldada o suficiente.

Voltando a se concentrar no ringue, ela olhou para cima...

Bem a tempo de ver Isaac cair como um pedra.

Lutar com o segundo na linha de comando de Matthias era um prazer. Isaac nunca confiou ou gostou do cara, e dar um chute no bastardo tinha sido alcançar um objetivo indescritível na carreira.

Ah, que ironia. Teve a chance apenas quando estava saindo...

Awm!

Quando os ganchos de direita começaram, o maldito parecia uma britadeira e acertou o queixo de Isaac bem em cheio, atingindo com isso seu crânio e causando todos os tipos de problemas: levando em conta que o crânio é apenas uma esponja solta em um globo de neve, sua matéria mental ficou um caos devido ao golpe e, assim, ele perdeu os sentidos e o equilíbrio.

Levando tudo em consideração, ele estava mais preocupado antes com algum tipo de arma branca, mas os punhos funcionaram bem. Maldito seja, e como funcionaram...

Esse foi o último pensamento que teve no momento em que o chão do octógono saltou para cumprimentá-lo. O “Oi, tudo bem?” da coisa causou tanto impacto quanto o punho do seu antigo colega de trabalho.

Deus, ele era como o coelho da Duracell.

Ele se levantou um segundo depois de suas costas tocarem o chão – mesmo que suas pernas estivessem dormentes e soltas e sua visão estivesse como uma TV que precisasse ser ajustada. Lançando-se para frente, ele era todo instinto e vontade, prova de que a mente poderia anular os receptores de dor do corpo, pelo menos por um tempo. Ele atacou o adversário pela cintura e o jogou no chão, em seguida, o virou de estômago para baixo e torceu seu braço para trás, puxando a coisa como se fosse uma corda.

Com um estalo, alguma coisa saiu do lugar e, de repente, Isaac precisou se segurar para não cair.

A multidão foi à loucura, todos os tipos de “vai se ferrar” ricochetearam em volta do saguão semiacabado até que um apito estridente atravessou o rugido. Em um primeiro momento, ele concluiu que o som era apenas uma extensão do caos em sua cabeça, mas depois percebeu que alguém tinha entrado no ringue. Era o promotor de eventos e, pela primeira vez, o rosto do bastardo estava um pouco pálido.

– Estou encerrando a luta – gritou quando agarrou o pulso de Isaac e o ergueu no ar. – Vencedor! – Inclinando-se, sussurrou: – Deixe ele ir.

Isaac não conseguia entender qual era o problema do cara...

Seus olhos finalmente entraram em foco e, bem, veja só. O segundo na linha de comando de Matthias precisava de um raio-X, gesso e talvez alguns pinos: o osso superior do seu braço estava projetado para fora da pele como uma estaca rompida e ensanguentada, o braço estava quebrado e alguns outros ossos também.

Isaac saltou e apoiou-se contra a corrente que circundava o ringue, o coração saía pela boca. Seu adversário ficou em pé rapidamente e segurou a mão que vacilava casualmente, como se nada de grave tivesse acontecido além de uma simples picada de inseto.

Quando seus olhares se encontraram e o cara sorriu daquela maneira que só ele fazia, Isaac pensou: droga, essa luta não foi nada além de um sinal de advertência do processo da minha captura.

Uma mensagem de que eles estavam perto.

Um convite para correr.

Droga. Dane-se aquele Matthias. E aquela fratura exposta foi sua resposta: eles poderiam tê-lo deixado sair, mas agora ele ia causar alguns prejuízos no caminho para o túmulo.

Isaac não perdeu tempo. Ele se aproximou das correntes e saltou sobre a borda. Felizmente, a multidão sabia muito bem que deveria sair de seu caminho, assim, ele foi capaz de ir mais rápido em direção a Jim...

Ele acabou dando um encontrão na sua defensora pública.

– Cristo! – ele vociferou, afastando-se da mulher.

– Na verdade, é Childe. Com “e” no final. – Ela levantou uma sobrancelha. – Pensei em tentar oferecer um táxi novamente, precisa de uma carona de volta para Boston? Ou não está indo nessa direção?

Esquecendo suas boas maneiras por um momento, ele se alterou.

– Que diabos você está fazendo aqui?

– Eu ia perguntar a mesma coisa. Isso considerando que uma das condições de sua fiança é não participar de lutas ilegais. E não parece mesmo que você esteja disputando um simples jogo de tabuleiro por aqui. Você quebrou o braço daquele homem.

Isaac olhou em volta, perguntando-se qual seria o caminho mais rápido, pois ela não pertencia àquele bando de arruaceiros e ele tinha que tirá-la dali.

– Olha, podemos ir até lá fora?

– O que você tem na cabeça? Aparecer aqui e lutar?

– Eu ia te procurar.

– Sou sua advogada... Ao menos espero que sim!

– Estou te devendo 25 mil dólares.

– E eu vou te dizer como você pode acertar as contas. – Ela colocou as mãos na cintura e inclinou-se, aquele perfume infiltrou no nariz dele... e no seu sangue. – Você pode parar de ser um idiota estúpido e aparecer na sua audiência em duas semanas. Vou te dar a hora e a data novamente, se acaso esqueceu de anotar.

Certo... ela era totalmente gata quando ficava nervosa.

E, em teoria, aquela não era a reação apropriada para o momento e local. Entre outras coisas.

Naquele momento, Jim e seus colegas se aproximaram, mas Grier não lançou sequer um olhar a eles – mesmo com Jim olhando de maneira rígida para ela. E reagir assim dava uma ideia exata a Isaac de como ela seria no tribunal. Cara, ela era incrível quando estava concentrada, nervosa e pronta para servir alguém em uma bandeja.

– Mais duas outras coisas – ela exclamou. – Você deveria rezar para que aquele cara cujo braço precisa ser engessado não ligue para a polícia. E você precisa ver um médico. De novo. Está sangrando.

Apenas para preencher o silêncio, ainda que não houvesse um, o promotor de eventos entrou com o que parecia ser uns dois mil dólares.

– Aqui está a sua parte...

De repente, os olhos de Grier se uniram aos de Isaac, da mesma maneira que seu belo rosto ficou mais tenso.

– Não pegue o dinheiro, Isaac. E venha comigo. Faça a coisa certa esta noite e isso vai lhe poupar muitos problemas mais tarde. Eu prometo.

Isaac simplesmente balançou a cabeça para ela e estendeu a mão para o promotor.

– Ah! Não acredito! – ela disse.

Quando praguejou e virou as costas, ele ficou meio sem ação por um momento.

Ao voltar a reagir, ele estendeu a mão em direção ao braço dela, mas o promotor entrou no caminho.

– Agora, antes que dê isso à você – ele bateu as notas na palma da mão – quero que venha lutar duas noites a partir de agora.

Sem chance. Ele esperava estar fora do país até às dez.

– Sim, claro.

– Será aqui, se não tivermos problemas. Você é incrível, cara...

– Agora cale a boca e me dê o dinheiro.

Isaac se ergueu e olhou por cima da confusão de cabeças, observando o penteado diferente de Grier marchar em direção à saída da porta dos fundos. Em geral, os homens sairiam do seu caminho, mas agora, dado o humor dela, ela seria capaz de castrar alguém.

Apenas pela força de vontade.

Ignorando a puxação de saco do promotor, Isaac pegou o dinheiro, enfiou suas botas de combate nos pés e pegou sua regata e o blusão. Ao sair atrás de sua defensora pública, ele afundou mais as verdinhas no bolso e verificou as armas, os silenciadores e seu cofre de sacola plástica duas vezes.

– Onde diabos você está indo? – disse Jim enquanto ele e seus colegas o seguiam correndo.

– Qualquer lugar que ela for. Ela é minha advogada.

– Alguma chance de você parar se eu disser pra sair dessa?

– Não.

– Mas que inferno – Jim disse baixinho ao empurrar um cara para fora de seu caminho. – Vá se ferrar, idiota, o número dois de Matthias foi embora.

– Sedã preto – o homem com piercings interrompeu. – Os painéis do carro estavam amassados e sujos, mas os pneus estavam novos em folha e havia aparelhos eletrônicos no porta malas.

Isso são operações extraoficiais para você, Isaac pensou. Ficar incógnito e possuir tecnologias de última geração.

Quando ele se desvencilhou na saída, os motores dos carros e caminhonetes começaram a soar, transformando a noite em uma discoteca de luzes automobilísticas. Entre os motores que roncavam e os faróis piscando, ele olhou em volta procurando o carro dela. Ele imaginava que ela dirigia algo importado. Uma Mercedes, BMW... Audi...

Onde ela estava?


CAPÍTULO 11

 

LOCAL DESCONHECIDO

 

Matthias tinha total consciência de que ele era um agente do diabo no mundo.

O que não significava que ele fosse totalmente mal. De uma maneira geral, os bilhões de inocentes no planeta não estavam em sua tela de radar e ele os deixava em paz. Ele também não tirava doce de criança. Ou maltratava gatos. Ou dava o endereço de e-mail de pessoas que o irritavam a sites de brinquedos sexuais europeus.

Uma vez, em 1983, ele ajudou uma senhora idosa a atravessar a rua.

Então, ele não era tão mau.

Dito isso, se no processo de concluir um trabalho ele teve que aceitar alguns danos colaterais ou sacrificar um “inocente” ou dois, era assim que a porcaria funcionava: nesses casos, ele não era diferente de um acidente de carro, ou de um câncer, ou de um raio, nada além do fato de que o indivíduo perdeu na loteria da vida.

Além disso, o relógio de todos estava correndo, e ele atuava no papel do Ceifeiro da Morte bem o suficiente para saber disso em primeira mão.

Ele gemeu ao reposicionar seu corpo quebrado em sua cadeira de couro. Aos quarenta anos, ele se sentia como se tivesse cem – isso era o que ser um sobrevivente fazia com você.

Pelo menos, ele não tinha que defecar em um saco plástico e ainda tinha um olho que funcionava.

Na frente dele, sobre a mesa lustrosa, havia sete telas de computador. Algumas mostravam fotos, outras, dados transmitidos e mais outra dizia onde cada um de seus agentes estava no planeta Terra. Naquilo pelo qual ele era encarregado, a informação era muito importante. O que era um tipo de ironia. Ele era um homem sem identidade, coordenando uma equipe em um mundo de sombras que não existia oficialmente – a informação era a única coisa concreta que ele tinha para trabalhar.

Embora, assim como as pessoas, era passível de falhas.

Quando seu celular tocou, ele pegou a coisa e olhou para a pequena tela. Ah, sim, que “timing” perfeito. Matthias estava procurando por dois homens – e ele tinha enviado seu segundo homem na linha de comando atrás de um deles.

O outro... era complicado. Mesmo não devendo ser assim.

Ele aceitou a ligação.

– Você o encontrou?

– Sim, e fiquei alguns rounds com ele no ringue.

– Mas ele ainda está vivo?

– Apenas por que você quer que ele esteja. A propósito, a advogada dele apareceu na luta e adivinhe? Ela é filha de um amigo nosso.

– Mesmo? Quais são as chances. – Na verdade, era cem por cento, pois Matthias esteve no sistema judiciário do condado de Suffolk, em Massachusetts, e propositalmente colocou a filha do capitão Alister Childe no caso.

Eles precisavam tirar aquele traidor do Isaac Rothe de trás das grades para que pudessem matá-lo e manter o corpo para usos futuros e a menininha do bom e velho Albie era como um bilhete de entrada para isso: era uma boa advogada com um coração sangrando que a levava a lugares que não pertencia. Combinação perfeita.

E estava claro que aquilo tinha funcionado: Rothe estava livre menos de 24 horas depois de sua detenção.

Cristo, tinha sido tão fácil encontrar aquele bastardo. Até por que, quem teria pensado que ele usaria o próprio sobrenome?

Hum, Matthias pensou. Talvez ele estivesse tirando doce de criança, neste caso.

– Você deveria ter me deixado matá-lo no ringue – o segundo no comando reclamou.

– Testemunhas demais, e quero que ele apareça fora de Boston.

Pois agora que Grier Childe tinha servido o seu propósito, ele tinha que colocar Isaac bem longe da mulher. Matthias havia matado o filho do capitão e, com isso, ele considerou que estavam quites. No entanto, o filho da mãe já havia tentado dar um jeito de sair uma vez e isso significava que a filha tinha que ser usada para manter o hipócrita do papai na linha: enquanto estivesse viva, poderia ser morta e aquela ameaça era melhor que fita adesiva sobre uma boca inquieta durante um dia inteiro.

– Siga-o quando estiver fora do estado – Matthias se ouviu dizendo isso em um tom calmo e equilibrado. – Espere o momento certo e que não seja perto da filha de Childe.

– Que importância tem isso?

– Por que eu digo que tem, idiota. É isso.

Matthias finalizou a ligação e jogou o telefone sobre a mesa. Todos os seus homens eram bons no que faziam, mas o seu segundo homem conseguia fazer truques que ninguém chegava perto. Claro que isso fez com que o cara se tornasse extremamente útil, mas também um perigo se suas ambições ou sede de sangue os afastassem.

Aquele homem era um demônio, de verdade.

De repente, Matthias teve que respirar fundo para aliviar a dor no meio de seu peito. Ultimamente, aquelas palpitações vinham acontecendo com uma frequência crescente, deixando-o sem fôlego e um pouco enjoado. Ele tinha a sensação de que sabia o que era aquilo, mas ele não ia fazer nada para deter o infarto do miocárdio que estava a caminho.

Nada de visitas ao médico, nada de exames de estresse, nada de remédios para pressão, nada de calmantes.

Naquele ritmo de pensamento, ele acendeu um charuto e expirou. Também nada de pastilhas antitabagismo. Ele ia trabalhar duro em prol dos pregos do caixão até que fosse derrubado por um ataque dos grandes – Deus sabia que ele tinha tentado se matar com aquela bomba no deserto e que tinha sido um desastre gigante. Muito melhor facilitar seu caminho para o túmulo à moda antiga: alimentação ruim, falta de exercícios e vícios.

Ao soar de um alarme, ele apoiou as mãos sobre os braços da cadeira e se preparou para ficar na posição vertical. Analgésicos o ajudariam tremendamente, mas eles também enfraqueceriam seu cérebro, então, era inútil. Além disso, a agonia física nunca o incomodou.

Rangendo os dentes, ele empurrou com força a cadeira e ergueu seu peso sobre as pernas. Alguns momentos para se firmar. Alcançar a bengala. Respirar fundo.

Aquela noite na terra da areia, quando foi salvo por Jim Heron, teve repercussões e muitas delas eram do tipo que relacionava chumbo e aço – mas não se tratava de armas. Graças àquele soldado imbecil tê-lo arrastado para fora daquelas construções empoeiradas e em ruínas e o puxado por mais de doze quilômetros ao longo das dunas como se fosse um resgate de bombeiro, agora Matthias era parte homem, parte máquina, uma versão desajeitada e que rangia do lutador forte e poderoso que tinha sido. Colado de volta com pinos e parafusos e porcas, ele se perguntava no início se aquilo seria um momento decisivo. Se a dor e o sofrimento por que passou com todas as cirurgias abririam uma porta para que ele se tornasse... um humano.

Ao contrário daquele sociopata que era desde que nasceu.

Mas não. Tudo o que ele tinha desde então eram aqueles precursores de ataques cardíacos hereditários. O que era uma coisa boa. Ao contrário da bomba que ele ativou na areia e pisou em cima deliberadamente, ele sabia que uma coronária faria o serviço completo – inferno, ele viu o pai morrer disso.

Na verdade, seu pai tinha sido seu primeiro assassinato, isso graças a Matthias saber exatamente o que dizer para fazer com que o relógio do seu velho não se controlasse e parasse de uma vez. Ele tinha quinze anos na época. Seu pai tinha quarenta e um. E Matthias sentou-se no chão de seu quarto e assistiu a coisa toda, girando aleatoriamente o botão do rádio que o despertava para ir à escola, à procura de uma música boa dentre toda a porcaria que vinha nas ondas sonoras.

Enquanto isso, seu pai ficou vermelho, depois azul... em seguida, desvaneceu até ficar cinza.

O filho da mãe pervertido mereceu aquilo. Depois de tudo que tinha feito...

Voltando do passado, Matthias puxou seu casaco e, como sempre, o simples fato de se vestir era um acontecimento, suas costas tinham que se alongar para acomodar o deslocamento de seus braços. Em seguida, ele estava fora de seu escritório, andando nos corredores subterrâneos de um complexo de escritórios anônimo onde ele trabalhava, seu corpo o odiava por estar caminhando.

Seu carro e motorista o aguardavam nas instalações do estacionamento subterrâneo e quando entrou na parte de trás do sedã, ele gemeu.

A respiração superficial o manteve consciente quando a dor queimou como um vulcão... e gradualmente diminuiu conforme o carro avançava.

Do banco da frente, ele ouviu o motorista dizer: – Tempo estimado de chegada: onze minutos.

Matthias fechou os olhos. Ele não estava completamente certo do porquê estava fazendo aquela viagem... mas ele estava sendo atraído para o norte dos Estados Unidos por um impulso que nem mesmo seu lado racional poderia negar. Ele simplesmente tinha que ir, mesmo que fosse surpreendido por essa necessidade.

Então, mais uma vez, assim como seu segundo homem na linha de comando tinha encontrado seu alvo, Matthias também localizou o soldado a quem procurava pessoalmente e aquele longo voo de volta sobre o oceano era porque desejava olhar de frente, pela última vez, para o homem que tinha salvado sua vida – antes que o corpo do bastardo fosse sepultado.

Disse a si mesmo que era para confirmar se Jim Heron tinha realmente morrido.

Contudo, era mais que isso.

Mesmo que ele não entendesse os motivos... havia muito mais do que isso para se fazer naquela viagem.


CAPÍTULO 12

 

Mais do que tudo, Grier estava furiosa consigo mesma. Ao seguir em direção ao seu Audi, investindo através dos outros carros e ser provocada por um dedo ofensivo ou dois, tudo pareceu entrar em foco: onde estava, o que tinha feito antes no tribunal, quem ela estava tentando salvar.

Isaac tinha quebrado o braço do cara. Na frente dela e de centenas de pessoas. E lidou com isso com o mesmo grau de choque e pânico que alguém que desliga o telefone.

Como se fizesse isso todos os dias.

E, em seguida, ele aceitou dinheiro por isso.

Aproximando-se do seu sedã, ela tirou o chaveiro e desativou o alarme. E quando viu seu reflexo no vidro da porta do motorista, ela pensou em seu irmão.

Ela ouviu um tipo de zumbido selvagem que a lembrou da noite em que ele tinha morrido.

Grier foi a única a encontrar o corpo e seus esforços para ressuscitá-lo não fizeram diferença... pois ele já tinha morrido antes que ela iniciasse o processo. Mas ela continuou a pressionar seu peito e a fazer respiração boca a boca de qualquer maneira.

Os paramédicos tiveram que arrancá-la de cima do corpo dele. Gritando.

E o ponto-chave era: na morte, assim como na vida, ele não se preocupava com todos os esforços dela para salvá-lo. Ele havia sido paralisado pela sua dose final, com um olhar assombrado de um prazer extático e congelado em seu rosto pastoso, o dever do vício foi cumprido.

A imprudência assume uma variedade de formas diferentes, não é mesmo?

Ela sempre se orgulhou de ser a mais responsável dentre eles dois, aquela que se sobressaía na escola e trabalhava duro para chegar à frente e nunca fez nada que seus pais desaprovassem. É claro que ela nunca, jamais, experimentou drogas ilegais. Nem sequer uma vez.

E, mesmo assim, lá estava ela, colocando a si mesma e a sua carreira em risco para aproveitar a chance de aconselhar um total estranho e fazer a coisa certa. Se a polícia tivesse aparecido – ou aparecesse, ainda havia tempo para isso – ser presa como espectadora a faria ser expulsa da ordem dos advogados de Massachusetts mais rápido do que ela conseguisse dizer “Mas, senhor Juiz, eu estava lá por causa do meu cliente”. Ela já tinha investido 25 mil dólares, que dificilmente desestabilizaria sua conta... só que como esse dinheiro teria sido mais útil se tivesse sido investido em um programa de jovens de risco...?

Quando a cabeça dela começou a latejar, se lembrou de suas atitudes desde as nove da manhã com um olhar preciso. E, como pode imaginar, ela não viu alguém que fizesse muito bem ao mundo, mas a mulher fora de controle que foi...

Daniel apareceu do outro lado do carro, seu rosto fantasmagórico estava mortalmente sério.

Entre, Grier. Entre no carro e tranque as portas.

– O que? – ela disse. – Por que...?

Faça isso. Agora. Seu irmão morto pareceu focar o olhar no ar que havia atrás do ombro dela.

Que droga, Grier...

– Eu sei quem é você.

Ela aproximou os olhos. Oh, pelo amor de Deus, isso estava ficando cada vez melhor, não é? Aquele drogado estava de volta.

Virando-se para tentar afastá-lo de novo...

O homem agarrou os braços dela e, com um safanão que a deixou de boca aberta, empurrou seu rosto contra o carro. Enquanto ele a detinha com seu corpo, ela se lembrou que os homens eram, de fato, diferente das mulheres: eles eram muito mais fortes. Especialmente quando estavam alcoolizados e desesperados.

– Você é irmã do Danny. – A respiração em seu pescoço estava quente e cheirava à carniça. – Você aparecia algumas vezes no lugar dele. O que aconteceu com ele?

– Ele morreu – ela resmungou.

– Oh... Deus. Sinto muito... – O viciado pareceu realmente chateado. De um jeito Tim Burton distorcido do submundo, mas parecia. – Ouça, pode me arrumar algum dinheiro? Uma garota rica como você... deve ter algum dinheiro na carteira. Mas só se conseguir ficar calma.

Uh-huh, certo. Ela sabia que daria a ele o que pediu quer gostasse, quer não – o que era, apesar da maneira como a abordou, um assalto bem sucedido.

Mãos ásperas a vasculharam e arrancaram a bolsa de seu ombro. Ela pensou em gritar, mas o peso que havia em suas costelas fazia com que meras respirações superficiais se tornassem impossíveis e, além disso, ela havia estacionado em um local escuro. Quem iria ouvi-la?

Quando seus olhos seguiram os veículos que partiam e as caminhonetes que estavam tão perto e tão longe ao mesmo tempo, ela teve uma lembrança absurda da cena de abertura do filme Tubarão – em que a mulher via as luzes das casas na praia ao ser arrastada pelo mar.

– Não vou machucá-la... só preciso do dinheiro.

Com o corpo que ainda a forçava contra o carro, ele despejou o conteúdo de sua bolsa sobre o chão lamacento, seu telefone celular, carteira, chave, tudo derramava em queda livre. E, então, ele jogou sua bolsa Birkin de dezesseis mil dólares sobre o capô do Audi.

Filho da mãe estúpido. Ele poderia ter conseguido mais com essa bolsa no eBay do que com qualquer dinheiro que encontrasse na carteira dela.

Metade de sua mente estava em pânico, a outra metade estava completamente calma e ela se fixou nessa última, pois era a filha de seu pai: aquele viciado apavorado sairia de cima dela em algum momento, pois ele ia querer suas joias e, quando fizesse isso, ela teria uma boa oportunidade de dar uma joelhada onde realmente importava.

Mesmo que tivesse de fingir que não estava prestes a vomitar em seu tênis...

O peso esmagador contra ela não foi exatamente removido, foi vaporizado, como se nunca tivesse existido: em um momento ela não conseguiu respirar. Em seguida, tinha todo o oxigênio do mundo.

Quando ela foi envolvida em um tremendo golpe de ar e segurou-se no teto do carro para se manter em pé, grunhidos soaram perto dela.

Esforçando-se para se virar, ela teve que piscar duas vezes para entender o que estava vendo – mas não houve espaço para qualquer momento do tipo “Espere, talvez eu não esteja enxergando direito”: Isaac surgiu do nada, jogou seu agressor no chão e estava dando um tratamento de canal da maneira mais difícil.

Ou seja, com seu punho.

– Isaac... – Sua voz falhou e ela tossiu. – Isaac! Pare com isso!

A voz do investigador Louie ecoou em sua mente: Esse filho da mãe pode ser um assassino.

– Isaac.

Ela estava esperando pelo momento que tivesse que saltar sobre ele ou pedir ajuda para deter o espancamento, mas logo que começou, acabou. Isaac saiu da rotina Rocky Balboa por conta própria, lançando o homem de barriga para baixo e puxando seus braços para trás até imobilizá-lo.

Nada foi quebrado dessa vez.

E Isaac nem sequer estava respirando com dificuldade quando olhou para ela.

– Você está bem?

Seus olhos eram penetrantes, sua expressão era calma e mortal, sua voz era estável e educada. Era óbvio que ele estava no total controle de si mesmo e da situação... e ocorreu-lhe que, possivelmente, ele a tivesse salvado de algo terrível. Quando se trata de viciados, você nunca sabe o que eles podem fazer.

– Ele te machucou? – Isaac disse. – Você está bem?

– Não – ela disse com dificuldade, sem saber qual pergunta estava respondendo.

Com uma grande força bruta, Isaac pegou o homem, o levantou e deu-lhe um safanão e não houve mais argumento, nem mesmo um comentário. O agressor dela se afastou como se estivesse bem consciente de que tinha se livrado por muito pouco da maior surra de sua vida.

E, em seguida, Isaac pegou as coisas dela do chão. Uma por uma, ele reuniu tudo que estava em sua bolsa, limpando a lama em sua própria camiseta, dispondo tudo em cima do capô do carro.

Caída contra a porta do motorista, ela estava cativada pela maneira como estava sendo cuidadoso, com as mãos ensanguentadas e gentis.

Daniel apareceu bem ao lado dele, aparentemente impressionado pela forma como ele tratava as coisas dela.

Deixe que ele te leve até em casa, Grier. Você não está em condições de dirigir – disse Danny.

– Ele não ofereceu – ela balbuciou.

– Ofereceu o que? – Isaac disse, lançando um olhar a ela.

Quando ela afastou as palavras com um gesto, ele pegou sua bolsa e colocou tudo dentro dela antes de entregá-la.

– Gostaria de levá-la até sua casa. Se permitir.

Bingo, seu irmão disse.

Ela abriu a boca para mandar Daniel ficar quieto, mas não tinha energia para continuar com isso.

– Senhorita Childe? – Com o sotaque sulista de seu cliente, aquilo soou como uma palavra maior, senhorita Chiiilde.

Deus, o que fazer? E óbvio que “claro que não” era a melhor resposta – a despeito da opinião de Daniel.

Confie em mim – disse Daniel.

A voz de Isaac se derramou.

– Apenas permita que eu a leve em segurança para casa. Por favor.

Por alguma razão desconhecida, os seus instintos estavam dizendo para confiar naquele estranho com um passado ruim e um presente como criminoso que estava foragido. Ou era apenas um caso de seu complexo de salvadora impondo um melhor juízo dele?

Ou... foi o olhar no rosto do fantasma? Era como se Daniel tivesse visto algo que não conseguia enxergar naquela colisão entre ela e um perigoso estranho com um leve sotaque sulista.

– Não preciso de um motorista. Posso fazer isso sozinha. – Ela pegou a bolsa dele. – Mas eu preciso, sim, que fique e enfrente suas acusações.

Isaac deu uma olhada ao redor da área.

– Que tal conversarmos na sua casa?

– Eu tenho um spray de pimenta, entendeu?

– Que bom.

– E uma arma de choque. – Que resultou em tudo aquilo que aconteceu há pouco.

Bom Deus, ela não conseguia acreditar que estava sequer pensando em ir para casa com Isaac. O viciado idiota era um amador... e seu cliente parecia, com certeza, com um profissional.

Seus olhos cinza e pálidos seguiram em direção aos dela.

– Eu não vou te machucar. Juro.

Com um palavrão, ela abriu a porta do carro.

– Eu dirijo.

A questão era: onde diabos ela estava indo? E com quem?

Jim observou o Audi se afastar, a fumaça se erguia atrás dos dois tubos de exaustão. Ele estava completamente despreocupado a respeito de onde aquele cara estava indo – colocou transmissores na camiseta de Isaac e na bolsa com o dinheiro.

– Você poderia ter me deixado fazer um feitiço de localização – Eddie murmurou.

– Estou acostumado a trabalhar com a droga do GPS por causa do meu antigo trabalho. – E quem diria que ele pudesse sofrer de nostalgia por conta daquela tecnologia?

Por falar em informação, era tempo de alguns esclarecimentos: embora ele pudesse entender como e por que Isaac seria o próximo da lista das sete almas, uma conversa frente a frente com seu chefe britânico era a única maneira de ter certeza.

Muita pressão sairia de cima dele se salvar a pele de Isaac tivesse um propósito maior.

Ele girou a cabeça em direção a Eddie.

– Diga como volto a falar com os quatro rapazes. Preciso morrer de novo?

Se precisasse, ele tinha uma arma e já sabia como era a sensação de morrer.

– Nem perca tempo – Adrian estalou os dedos. – Eles não vão dizer nada. Não podem.

Mas que droga é essa?

– Pensei que trabalhava para eles.

– Você trabalha para os dois lados e eles darão toda a ajuda que puderem.

Jim olhou bem para os dois anjos: os dois estavam com uma expressão tensa de alguém que tinha um cadarço de sapatos amarrando as bolas.

– Ajuda? – ele disse. – Onde está minha maldita ajuda?

– Eles nos deram para te ajudar, idiota – Adrian vociferou. – E é tudo que podem fazer. Eu mesmo já fui até lá e perguntei quem era o próximo. Pensei que isso o ajudaria, você é um bastardo ingrato.

Jim ergueu as sobrancelhas no estilo Sr. Pensativo. A primeira vez que saiu com Adrian, o cara o serviu em uma bandeja prateada para o inimigo, ao ponto de acabar transando com Devina no estacionamento do clube. Na caminhonete dele. Sem saber que era um demônio.

– Os tempos mudaram desde aquele dia – disse Ad rispidamente – Você sabe que sim.

Em um piscar de olhos, Jim se lembrou como o cara estava parecendo há um ou dois dias depois que Devina tinha acabado de usar e abusar dele de várias maneiras. Ele deu a si mesmo para que Jim tivesse alguma chance de vencer o primeiro round.

– Sim, mudaram. – Jim ofereceu um cumprimento com a mão fechada em um sinal de “Desculpe por eu ter insinuado que você é um idiota de merda”.

Quando Ad deu um pequeno golpe em sua mão, Eddie disse: – Tecnicamente somos contra as regras.

Jim deu de ombros.

– Se isso me ajudar a ganhar, eu aceito. Regras são relativas.

Essa foi a razão pela qual ele tinha sido escolhido, não foi? Ele não era um maldito escoteiro.

A cabeça de Jim girou olhando ao redor ao ouvir um chiado de metal contra metal. O octógono portátil tinha sido desmontando e estava sendo empurrado através da porta por quatro rapazes que, em seguida, o colocaram em uma van. Na próxima viagem, eles carregariam os oito pesos de concreto e os polos, depois disso, apenas Eddie, Adrian e ele permaneceram ali.

O que era uma metáfora da situação em que se encontrava, não era?

Certo. Era assim que se jogava? Legal. Ele estava acostumado a confiar em si mesmo e nos seus instintos no campo de batalha... e tudo o direcionava para Isaac.

A questão era: onde Devina estava? Supondo que estava atrás de Isaac, ela estaria procurando por uma maneira de se infiltrar dentro dele para que sua natureza parasita o possuísse e para que ela pudesse, finalmente, levá-lo para o inferno depois que o matasse.

Jim voltou a se concentrar nos seus anjos.

– Se Devina estiver possuindo alguém, há alguma maneira de saber? Alguma marca? Pontos de referência?

Pelo menos ele poderia conseguir uma pista sobre ela.

– Algumas vezes. – Eddie disse. – Mas ela pode limpar suas impressões digitais, digamos assim, e agora que ela sabe que eu e Ad estamos com você, ela vai tomar um cuidado extra. No entanto, existem algumas almas limpas as quais ela nunca vai tocar e que brilham.

– Brilham? Você quer dizer como... – Droga, aquela advogada loira que levou Isaac para casa com ela tinha uma luz em volta do seu corpo. E foi por isso que quando Jim a viu, ele olhou para ela como se tivesse um...

– Como uma aura?

– Exatamente.

Bem, pelo menos havia uma coisa a seu favor. Ele concluiu que tinha acabado de entender as coisas. Constatou o que ele era... e graças a Deus por isso.

Jim pegou o receptor de GPS e localizou os dois pontinhos piscando que correspondiam a Isaac. Cedo ou tarde, se Devina estivesse transando com o cara, ela faria uma aparição de uma maneira ou de outra e eles estariam lá quando ela fizesse.

– Existe alguma coisa como feitiços de proteção? – ele perguntou. – Alguma coisa que eu possa colocar em torno de Isaac para mantê-lo em segurança?

– Podemos trabalhar em algo – Eddie disse com um sorrisinho maldoso. – É hora de começar a ensinar essas coisas a você.

Tem toda razão, pensou Jim.

Fechando os olhos, ele desfraldou suas asas, sentiu seu grande peso em sua coluna e ombros ao se tornarem visíveis.

– Eles estão indo para o centro da cidade. Vamos lá...

– Espere – Eddie disse, suas asas surgindo. – Precisamos ir ao hotel e pegar alguns suprimentos. Estou concluindo que você não quer que entremos na casa, certo?

– Enquanto Devina não aparecer, vou ficar do lado de fora.

– Não vai demorar muito.

– É bom mesmo.

Ao dar alguns passos para obter impulso, sentiu a ironia de tudo como uma rajada sob seu corpo: ele nunca acreditou que anjos existiam ou que a batalha eterna entre o bem e o mal pudesse ser real, quanto mais uma em que ele estaria.

Então, mais uma vez, quando você pesa quase cem quilos de puro músculo e é capaz de se erguer do chão com uma rede de penas metafísicas... a realidade louca em que se encontra tem uma credibilidade imensa.

Ele não se perdoaria se Devina colocasse suas garras em Isaac – sob qualquer forma que pudesse assumir. Isaac era seu garoto e a ideia daquele homem caindo nas mãos do inimigo era inaceitável, especialmente se acontecesse daquele demônio usar um rosto familiar.

O qual, à propósito, tinha um olho vendado.


CAPÍTULO 13

 

Isaac esteve nas proximidades de Boston apenas duas vezes e nas duas vezes tinha sido apenas de passagem em direção às suas viagens ao exterior – o tipo de coisa que acontecia quando tudo o que fazia era atravessar uma pista na Base Aérea de Otis até Cape Cod.

Dito isso, quando Grier fez uma curva à esquerda em uma rua cujo nome era algo como Charles, ele não precisou de um guia turístico da cidade para saber que estavam na parte mais nobre em se tratando de mercado imobiliário. As casas que percorriam os dois lados da colina eram todas feitas de um tijolo imaculado com persianas e portas pretas e brilhantes. Através das janelas limpas, ele podia ver os interiores onde cada centímetro era mobiliado com antiguidades e havia brasões e moldes de coroa suficientes para esmagar a cabeça de um rei.

Era evidente que estava no habitat natural dos Yankees sangue azul.

Grier virou à esquerda em uma pequena praça que era demarcada por uma cerca de ferro forjado e faixas de tijolos dos quatro lados. No meio, seu pequeno parque tinha graciosas árvores com botões minúsculos surgindo e as calçadas dos arredores eram o melhor do havia naquele ótimo bairro.

Não era bem uma surpresa.

Depois que ela estacionou seu Audi paralelo à cerca, os dois saíram. Ela não tinha falado muito na viagem e nem ele. Mas ele não era muito falante e ela tinha um fugitivo como passageiro. Uma situação onde conversinhas sobre o clima não se encaixava muito bem.

A casa que ela indicou como sendo dela era de esquina e tinha a frente abobadada com degraus de mármore branco que iam até sua porta da frente preta. Havia vasos arredondados pretos do tamanho de cachorros da raça dogue alemão colocados do outro lado da entrada e as trancas eram tão grandes quanto a cabeça de um deles. Uma luz brilhava no terceiro andar, várias no exterior. E ao inspecionar a área, parecia que não havia nada fora do lugar... parecia que não havia carros de polícia à paisana circulando, nem sons de que algo estava errado, ninguém suspeito à espreita.

Enquanto andavam sobre os tijolos irregulares da rua, ele quis alcançá-la e apoiá-la, dada a situação do salto alto que usava, mas ele não ousou. Em primeiro lugar, ela provavelmente ainda queria bater nele... e, em segundo, estava com as mãos sobre as duas armas dentro de seu blusão, só para garantir.

Ele sempre foi cuidadoso consigo mesmo. Tendo que escoltá-la? Isso elevava a vigilância a um nível totalmente novo.

Além disso, Grier estava lidando muito bem com a caminhada até a porta da frente, à despeito do fato de usar saltos altos e finos e ter sido atacada por um retardado drogado.Que pena não terem se encontrado em um mundo diferente. Porque senão, ele iria...

Sim, certo. Talvez chamá-la para sair?

Seja como for. Mesmo se ele tivesse respeitado a lei e não tivesse que seguir a rotina de “eu não sou um assassino”, eles ainda estariam de lados opostos daquela ilusão: ele era um completo garoto da fazenda e ela era completamente fabulosa.

E ele realmente tinha que se conter ao pensar mais de uma vez no quanto ela era atraente.

Seu alarme de segurança disparou no momento em que ela abriu caminho e ele se sentiu feliz, embora não aprovasse que ela deixasse uma gentalha como ele entrar na casa. E como isso foi acontecer, afinal?

Quando ela digitou seu código no sistema de alarme, ele olhou para as solas de suas botas de combate, que estavam cheias de lama e pedaços de grama. Abaixando-se, ele as desamarrou, as escorregou para fora dos pés e as deixou do lado de fora.

Seu piso de mármore branco e preto estava quente debaixo de suas meias...

Olhando para cima, ele a encontrou olhando para seus pés com uma expressão curiosa em sua bela face.

– Eu não queria deixar pegadas – ele murmurou, fechando e trancando a porta.

Depois que tirou o blusão, pegou a sacola de supermercado com as economias de sua vida e eles simplesmente ficaram ali parados: ela em seu casaco preto bem desenhado e sua bolsa suja que tinha uma alça solta; ele em sua camiseta regata como uma quantidade de dinheiro sujo em sua mão ensanguentada e duas armas que ela ignorava em seus bolsos.

– Quando foi a última vez que comeu? – ela disse suavemente.

– Não estou com fome. Mas obrigado, senhora. – Ele olhou em volta, observando uma sala com o teto pintado com um vermelho forte. Sobre a lareira de mármore régia havia a pintura a óleo de um homem sentado com uma postura rígida em uma cadeira com um par de óculos antiquados empoleirados em seu nariz.

Era tão tranquilo ali, ele pensou. E não apenas por não haver qualquer som.

Sereno. O lugar era... sereno.

– Vou fazer uma omelete para você, então – ela disse, apoiando a bolsa e começando a movimentar os ombros para tirar o casaco.

Ele se aproximou para ajudá-la, mas ela recuou.

– Faço isso sozinha. Obrigada.

O vestido que estava por baixo... Meu Deus, aquele vestido. Até onde ele sabia, algo simples e preto nunca pareceu tão sensual, mas, em seguida, ele observou que havia mais nela que roupas bem desenhadas ou o tecido.

Aquelas pernas. Que droga, aquelas pernas com meias finas pretas...

Isaac agarrou as costas do seu homem pervertido interior e o colocou de volta no lugar com o lembrete de que seria muito difícil que alguém como ela permitisse sequer que ele lavasse seu carro – quanto mais permitir que ele a levasse para a cama. Além disso, ele teria alguma ideia do que fazer com uma mulher como ela? Claro, ele era bom nisso – já haviam implorado a ele para que fizesse de novo o suficiente para que tivesse confiança nessa área.

Mas uma dama como ela merecia ser saboreada.

Que maldito ele era! Teve a impressão que estava lambendo os lábios.

– A cozinha é aos fundos – foi tudo o que ela disse ao pegar a bolsa e seguir.

Ele a seguiu pelo corredor, tomando nota das salas, janelas e portas, observando rotas de fuga e entradas. Era o que ele fazia em qualquer lugar por que passava, seus anos de treinamento com certeza salvaram sua pele. Mas agora era mais que isso. Isaac estava procurando por pistas sobre ela.

E era estranho... a serenidade foi mantida, o que o surpreendeu. Antiquado e caro geralmente significava tensão. Contudo, aqui, ele respirava fundo e com facilidade – mesmo que isso não fizesse sentido.

Em contraste com o resto da casa, a cozinha era toda branca e de aço inox e, enquanto ela começava a cozinhar pegando as tigelas, os ovos, e o queijo, ele colocou seu dinheiro embaixo do balcão e mal podia esperar para sair daquele espaço: ao longo do local, havia uma vasta parede de vidro.

O que significava que qualquer um com um par de olhos poderia dar uma boa olhada neles.

– O que tem nos fundos? – ele perguntou casualmente.

– Meu jardim.

– É murado?

Com os braços cheios, ela se aproximou do fogão na ilha de granito.

– Senso de segurança?

– Sim, senhora.

Ela se aproximou, acendeu a luz externa e diminuiu a interna – o que lhe deu uma visão perfeita dos fundos sem qualquer dificuldade. Deus, ela era esperta.

E seu jardim era cercado por um muro de tijolos de três metros que, como pode imaginar, ele aprovou totalmente.

– Satisfeito? – ela disse.

No escuro, a voz dela assumiu um tom rouco que o fez desejar conduzir seu corpo através do cômodo e apoiá-la contra algo para que ele pudesse descobrir o que havia embaixo daquele vestido preto.

Cara, aquela pergunta não era a única que ela precisava fazer a ele naquela noite.

– Sim, senhora – ele murmurou.

Quando as luzes se acenderam novamente, havia um leve toque de vermelho em suas bochechas – o tipo de coisa que ele não teria notado se não tivesse tomado por sua missão olhar para ela o máximo possível. Mas talvez aquela cor era apenas por estar tensa devido a tudo que aconteceu com ela naquela noite.

Sem dúvida era isso.

E o fato de ter notado aquilo fez com que ficasse menos impressionado com a espécie masculina: afinal, de alguma forma, mesmo em meio a um grande caos, mesmo sendo extremamente inconveniente, os homens ainda conseguiam ficar excitados com uma mulher.

– Sente-se... – ela disse, apontando um banco sob o tampão da ilha de mármore com o batedor de ovos de metal – ...antes que caia. E nem tente vir com a conversa de que está bem, certo?

Cara... estava completamente excitado com essa mulher.

Completamente excitado.

– Oi? – ela disse. – Você estava prestes a se sentar ali, lembra?

– Entendido.

Enquanto ela voltava ao fogão e começava a quebrar os ovos, ele fez o que ela disse para que fizesse.

Para ficar com os olhos longe dela, ele olhou em direção à sua bolsa, que ela tinha deixado ao lado dele. Que vergonha uma coisa tão boa e cara ter sido revirada. Havia lama seca em todo o couro e a alça tinha sido massacrada.

Idiota estúpido.

Erguendo-se, ele foi até a pia, puxou uma folha de papel toalha e umedeceu a coisa. Em seguida, reinstalou-se no banco e começou a trabalhar, tentando tirar a lama.

Quando ele olhou para cima, ela estava olhando para ele novamente e ele parou o que estava fazendo para segurar uma mão à outra.

– Eu não vou roubá-la.

– Não achei que fosse – ela disse naquela voz suave.

– Sinto muito mesmo por sua bolsa. Acho que está destruída.

– Tenho outras. E mesmo se não tivesse, é apenas um objeto.

– Uma coisa cara. – E, nesse tom, ele se inclinou sobre a ilha e empurrou seu dinheiro em direção a ela. – Preciso que aceite isso.

– E eu preciso que você não fuja. – Ela quebrou outro ovo na borda da tigela e o dividiu apenas com uma das mãos. – Eu preciso que você faça o que concordou em fazer quando consegui sua fiança.

Isaac baixou os olhos e retomou sua limpeza malsucedida.

Ela deixou escapar um exalar de respiração que era apenas uma sílaba ou duas de distância de ser um palavrão.

– Estou esperando. Que me responda.

– Não percebi que era uma pergunta, senhora.

– Certo. Você vai, por favor, ficar aqui e seguir o sistema?

Isaac se levantou e voltou para a pia. Ao pegar uma folha de papel limpa, a verdade saiu de sua boca.

– Minha vida não me pertence.

– De quem está fugindo? – ela sussurrou.

Talvez ela tenha diminuído o volume, pois a advogada que havia nela teve uma reação involuntária de discrição. Ou talvez ela estivesse certa: os tipos que estavam atrás dele poderiam ouvir e, às vezes, até mesmo ver através de paredes sólidas. As de vidro como as da cozinha? Fácil, fácil.

– Isaac?

Não havia resposta para dar a ela, então, ele balançou a cabeça e voltou a limpar a lama de sua bolsa... mesmo sabendo que, provavelmente, ela iria jogar a coisa fora pela manhã.

– Pode confiar em mim, Isaac.

Sua resposta levou um bom tempo para chegar.

– Não é com você que estou preocupado.

Grier ficou do outro lado da ilha, os ovos espalhados e escorrendo no granito, uma tigela vermelha cheia de gemas amarelas e claras transparentes estava pronta para ser batida.

Seu cliente era absolutamente enorme empoleirado em seu banquinho, suas mãos machucadas cuidando de sua bolsa Birkin. E, mesmo assim, apesar de seu tamanho e do cuidado que demonstrava com sua bolsa, ela queria golpear sua cabeça contra algo duro. As soluções eram tão claras para ela: aja conforme dita o sistema, limpe sua ficha com qualquer agência militar que tenha se envolvido, lide com as repercussões, deixe o tempo passar... comece de novo.

Seja lá o que ele tenha feito, podia ser corrigido.

A sociedade poderia perdoar.

As pessoas podiam seguir em frente.

A menos, é claro, que fossem idiotas teimosos determinados a desrespeitar as regras e seguir sozinhos.

Ela pegou o último ovo e bateu contra a borda da tigela, quebrando a casca.

– Ah, droga.

Os olhos de Isaac se levantaram.

– Tudo bem. Eu não ligo para um pouco de casca.

– Não está bem. Nada disso está bem. – Ela se inclinou e pegou os pedacinhos brancos com a unha.

Quando as coisas pareciam aceitáveis na tigela, ela se ouviu dizer: – Gostaria de tomar um banho antes de comer?

– Não senhora – foi sua reação tranquila e sem surpresa.

– Tenho roupas limpas que pode usar – isso fez com que as sobrancelhas dele se erguessem um pouco, mesmo sem olhar para ela. – São do meu irmão. Ele costumava ficar aqui comigo algumas vezes... não são exatamente do seu tamanho, claro.

– Estou bem. Mas obrigado, senhora.

– Você pode deixar de lado a besteira da “senhora”. Acabamos com isso no minuto em que você entrou no meu carro.

Quando a sobrancelha dele se ergueu novamente, ela pegou um pedaço de queijo cheddar e começou a ralar. Com força.

– Sabe... você me lembra dele. Meu irmão.

– Como assim?

– Eu também quero salvá-lo do que suas escolhas estão fazendo com sua vida.

Isaac balançou a cabeça.

– Não é uma boa ideia.

Era verdade. Deus era testemunha de que ela já tinha falhado com isso uma vez.

Ela ralou o queijo, colocou a coisa de lado e cortou um pouco de bacon canadense. Como os dois trabalhavam em suas tarefas, não levou muito tempo para que o silêncio tomasse conta dela..., mas o ponto chave era: desistir não era sua natureza.

O que sugeria que, se ela tivesse nascido um carro, já estaria no derby de demolição onde os carros se debatem até a destruição total.

– Olha, eu posso tentar ajudá-lo com mais do que apenas as acusações que existem contra você. Se você...

– Tirei a maior parte da sujeira. – Ele ergueu a bolsa enquanto encontrava os olhos dela. – Mas não há nada que eu possa fazer com a alça.

– Para onde você está indo?

Quando ele não respondeu, ela cortou um pedaço de manteiga na panela e acendeu o fogo.

– Bem, você pode passar a noite aqui se quiser descansar. Meu pai fez desse lugar tão seguro que nem um rato conseguiria entrar sem acionar o sistema.

– O sistema de alarme é bom. Mas não tão bom assim.

– Isso é apenas um sistema simulado. – Essa informação fez com que as duas sobrancelhas dele se erguessem e ela balançou a cabeça. – Meu pai era militar. Na verdade, era do exército. Quando ele saiu, foi para a escola de direito e, então... bem, ele se mantinha atualizado, digamos assim. Atualizado e sempre me protegendo.

– Ele não aprovaria eu estar aqui.

– Você foi um cavalheiro até agora e, não importa o que vista ou de onde venha, isso era o que importava para ele. E, a propósito, para mim também...

– Vou deixar esse dinheiro para trás quando for embora.

Erguendo a panela da chama, ela inclinou a face plana da coisa, levando a manteiga a fazer um pequeno passeio até que acabou se desfazendo.

– E eu não posso aceitar. Deve saber disso. Isso faria de mim sua cúmplice. – Ela achou que tinha ouvido um palavrão baixinho, mas talvez tenha sido apenas o soltar de uma respiração. – Além do mais, posso apostar que o dinheiro veio da luta. Ou foi de drogas?

– Não sou traficante.

– O que significa que veio da primeira opção. Ainda é ilegal. A propósito, verifiquei seus antecedentes. – Ela mexeu mais uma vez os ovos e derramou mais da metade deles na panela, um shhh silencioso se ergueu. – Não há nada além de um artigo de jornal de cinco anos atrás sobre sua morte. Vem com uma foto sua, então, nem se incomode em negar isso.

Ele caiu em um silêncio profundo e ela sabia que seus olhos a encaravam de maneira penetrante.

Por um momento, ela soube exatamente por que o tinha recebido em sua casa. Mas, em seguida, por alguma razão, ela pensou nele tirando sua botas de combate e as deixando do lado de fora da porta da frente.

Hora de cair na real, ela pensou.

– Então, você vai me dizer para qual área do governo trabalha ou devo arriscar um palpite?

– Não sou militar.

– Mesmo? Então, devo acreditar que você luta daquela maneira e que protege seu apartamento como protege e está em uma fuga rápida para fora da cidade só porque é algum tipo de vândalo de rua comum ou um fiscal de baixo nível? Não caio nessa. Aliás, vê-lo naquele ringue foi como tive certeza – aquilo e o fato de ter seu próprio cão ao lado quando eu fui atacada. Você estava totalmente no controle de si e da situação com aquele drogado, não vacilou em nada, era o tipo leão de chácara emocional salvando o dia. Você foi um profissional, na verdade, é. Não é mesmo?

Ela não precisava que dissesse uma palavra, pois sabia que estava certa. E, mesmo assim, quando não havia qualquer comentário, ela o encarou, meio que esperando que ele se dissolvesse em uma rajada de ar.

Mas Isaac Rothe, ou seja lá qual era o nome dele, permaneceu sentado na ilha da cozinha dela.

– Como gosta de seus ovos? – ela disse. – Duros ou moles?

– Duros – ele respondeu.

– Por que não estou surpresa?


CAPÍTULO 14

 

“Preso em flagrante”, Isaac pensou que era essa a expressão. Ao encontrar os olhos de sua defensora pública, hospedeira e cozinheira de pratos rápidos, ficou claro que ela sabia muitas coisas sobre ele.

E não é que isso fez com que se sentisse despido?

– Acho que deveria renunciar o meu caso – disse ele severamente. – Na verdade, hoje à noite.

Ela colocou o queijo e o bacon canadense sobre o círculo de uma omelete que borbulhava.

– Eu não desisto. Ao contrário de você.

Certo. Isso o irritou.

– Eu também não desisto.

– Mesmo? Como você chama fugir de suas responsabilidades?

Antes que ele percebesse, se debruçou sobre a bancada e se aproximou dela. Ao ver que os olhos dela queimavam, ele disse severamente: – Eu chamo de sobrevivência.

Para seu crédito, ou sua estupidez, ela não desistiu.

– Fale comigo. Pelo amor de Deus, deixe-me ajudá-lo. Meu pai tem contatos. Do tipo que se aprofundam e se infiltram nas sombras do governo. Há coisas que ele pode fazer para ajudá-lo.

Isaac permaneceu muito calmo por fora. Dentro, porém, ele estava confuso. Quem, diabos, era o pai dela? Childe... Childe... O nome não dizia nada ao seu banco de dados interno.

– Isaac – ela disse. – Por favor...

– Você me libertou, então, eu posso continuar. Isso me ajudou. Agora, você tem que me deixar ir. Deixe-me ir e esqueça que me conheceu. Se seu pai é o tipo de homem que diz que é, você sabe muito bem que há ramos do serviço militar onde “desertor” é uma sentença de morte.

– Pensei que não era militar.

Ele deixou aquela mentira onde tinha colocado... em cima da pilha de porcarias que trouxe à porta dela.

No silêncio, acrescentou um pouco de tempero, o saleiro não fez qualquer som, já a pimenta crepitou um pouco. Então, ela dobrou a omelete ao meio e deixou fora do fogo por alguns instantes.

Dois minutos depois, o prato que lhe foi apresentado era branco e quadrado e o garfo era de prata e tinha arabescos sobre ele.

– Sei que você é educado. Mas não espere por mim. É melhor quente.

Ele não queria comer antes dela, mas considerando que ele a desafiou em tudo naquela noite, pensou que agora era uma oportunidade para se harmonizar um pouco. Indo até a pia, lavou as mãos com água e sabão; em seguida, sentou-se e comeu cada pedaço.

Estava ótimo.

– Passe a noite aqui – disse ela, depois que fez seu próprio prato e começou a comer enquanto permanecia no balcão. – Passe a noite aqui e eu renuncio ao seu caso, mas não faço isso até que tome café da manhã comigo amanhã de manhã. E você vai levar seu dinheiro quando sair. Não vou fazer parte disso. Se você se for, vai ter que levar essa dívida em sua consciência.

Uma onda de cansaço percorreu o corpo dele, sugando-o na banqueta. Dentre seus muitos pecados, dever dinheiro a ela parecia curiosamente um fardo insuportável, muito superior ao número de corpos que tinha enviado aos seus túmulos. Mas isso era o que as pessoas decentes sempre faziam com ele... elas faziam com que ele visse claramente quem e o que ele era.

Assim que estava se preparando para argumentar sobre a hospedagem, ela o interrompeu.

– Olha, se você está aqui, sei que está seguro. Sei que vai ter mais uma ou duas refeições e que vai embora mais forte com isso. Agora, você precisa de um cuidado médico em seu rosto, outra omelete e uma cama onde possa descansar. Como eu disse, essa casa é bem mais segura do que os padrões civis e há alguns truques dentro dela, então, você não precisa se preocupar em fazer uma pausa. Além disso, por causa do meu pai, ninguém que tenha laços com o governo vai me machucar.

Childe... Childe... Não, nada ainda.

Bom, ele era um soldado raso nas operações extraoficiais que se preocupava com duas coisas: conseguir seu objetivo e sair vivo. Ele não era o tipo que conhecia a hierarquia militar.

Contudo, Jim Heron saberia. E o cara tinha deixado seu número...

– Então, temos um acordo? – ela perguntou.

– Você vai renunciar? – ele rebateu rispidamente.

– Sim. Mas vou ter que contar a eles tudo que sei sobre você quando o fizer. E antes que pergunte, uma vez que você não confirmou ou negou uma conexão com o governo... Vou simplesmente esquecer que conversamos sobre isso.

Ele limpou a boca com um guardanapo e quis amaldiçoar sua falta de opções: cara, sua determinação estava no ângulo do seu queixo... era evidente que tinha que ser do jeito dela ou de jeito nenhum.

– Mostre-me seu sistema de segurança. – Quando seus ombros relaxaram visivelmente, ela apoiou o garfo, mas não tinha comido nada. – Não, termine de comer primeiro.

Enquanto ela comia, ele se levantou e andou ao redor, memorizando tudo desde os quadros nas paredes até as fotos na área da cozinha onde havia sofás e uma mesa. Finalmente, ele parou em frente a todo aquele vidro.

– Deixe-me mostrar a você.

Ao som daquela voz, seus olhos se voltaram para o reflexo dela atrás dele com aquele vestido preto, um fantasma de uma bela mulher...

No silêncio tranquilo da casa, com sua barriga cheia de comida que ela havia preparado para ele e com seus olhos embevecidos com a visão dela... as coisas saíram do complicado para se tornarem completamente caóticas.

Ele a queria. Com uma ânsia que colocaria um maldito vínculo entre eles.

– Isaac?

A voz dela... aquele vestido... aquelas pernas...

– Eu preciso ir – ele disse de maneira severa. Na verdade, ele precisava entrar... dentro dela. Mas aquilo não ia fazer parte da situação. Mesmo que ele tivesse de cortar seu membro e queimá-lo naquele adorável jardim que ela tinha.

– Então, eu não vou renunciar seu caso.

Isaac se virou e não ficou surpreso ao ver que ela não recuou ou cedeu um centímetro.

Antes que ele abrisse a boca, ela levantou a palma da mão para detê-lo antes que começasse.

– Não importa que eu não o conheça e que não deva nada a você. Então, pode parar agora com esse argumento. Você e eu vamos checar meu sistema de segurança e, em seguida, você vai dormir no meu quarto de hóspedes e ir embora de manhã...

– Eu poderia matá-la. Bem aqui. E agora.

Aquilo a calou.

Quando ela levantou as pontas dos dedos até seu pesado colar de ouro, como se estivesse imaginando as mãos dele em volta de sua garganta, ele caminhou até ela.

E, desta vez, ela recuou... até o balcão onde seu prato vazio a deteve.

Isaac continuou a se aproximar até que esticou os braços nas laterais dela, fechando as mãos no granito, aprisionando-a de fato. Olhando bem dentro dos olhos azuis que ela tinha, ele estava desesperado para assustá-la de alguma maneira.

– Não sou o tipo de homem com quem está acostumada a lidar.

– Você não vai me machucar.

– Você está tremendo e tem uma enorme tensão no seu pescoço agora. Então, diga-me, do que acha que sou capaz.

Quando ela engoliu em seco, ele percebeu que aquela chamada para a realidade estava atrasada... só que ele se sentia um bandido em um show de agressão.

– Sei que está no espírito de salvadora. Mas não sou o tipo de caridade que vai alimentar sua alma. Acredite em mim.

O zumbido de uma energia começou a vibrar entre eles, as moléculas de ar no espaço entre seus corpos e seus rostos começaram a se agitar.

Ele se inclinou, cada vez mais próximo.

– Sou mais o tipo que comeria você viva.

A respiração dela exalou com ímpeto e ele sentiu aquilo percorrer a pele de seu pescoço como um beliscão.

Então, ela o acertou em cheio.

– Faça isso, então – ela desafiou.

Isaac franziu a testa e recuou um pouco.

Seus olhos ardiam, uma raiva súbita permeou seu belo rosto com uma paixão que o chocou e o excitou ao mesmo tempo.

– Faça isso – ela resmungou, agarrando um de seus braços.

Ela ergueu uma das mãos dele e colocou em sua própria garganta.

– Vá em frente. Faça isso. Ou só está tentando me assustar?

Ele tirou seu pulso das garras dela.

– Você está fora de si.

– É isso mesmo, não é? – Sua raiva não foi ativada novamente. Mesmo. De verdade.

– Você quer me intimidar para que eu fique assustada e te dê um descanso. Bem, boa sorte com isso. Pois a menos que esteja preparado para seguir com a ameaça, eu não vou recuar e não tenho medo de você.

Os pulmões dele começaram a queimar... e mesmo sendo muito mais inteligente da parte dele sair e usar uma das portas, acabou colocando a mão direita sobre o granito onde estava antes... então, ela ficou presa mais uma vez entre seus braços.

Ele a queria bem onde estava, toda coberta por seu corpo. E ele respeitava sua demonstração de força; respeitava de verdade, mesmo que isso o deixasse preocupado sobre o quanto ela era imprudente.

– Adivinhe – ele disse em uma voz baixa e grave.

Ela engoliu em seco mais uma vez.

– O que?

Isaac se aproximou, colocando sua boca no ouvido dela.

– Matá-la não é a única coisa que poderia fazer com você... senhora.

Fazia um bom tempo desde que Grier sentiu cada centímetro de seu corpo – ao mesmo tempo. Bom Deus, ela sentia agora, e não era apenas a sua pele. Ela sentia cada pedaço de Isaac Rothe também, mesmo sabendo que nada a tocava.

Havia tanto dele ali. E talvez ela devesse ter se afastado de tudo devido àquela coisa bruta e masculina que ele tinha se transformado... mas, ao invés disso, a realidade impetuosa de seu poder simplesmente chamava mais e mais sua atenção. Separados por poucos centímetros, os dois respirando com dificuldade, ela estava completamente desequilibrada, suas emoções foram desencadeadas como se, de fato, sua cabeça tivesse sido tirada do corpo e estivesse rolando no chão.

Deus, ela estava desesperada por ele: ela queria atirar-se contra ele e ser nocauteada pelo impacto. Ela queria que ele fosse a parede de tijolos ao fazer isso. Ela queria ser insensata, vacilar e sair da sua realidade... por causa dele e do sexo que ele emanava como um aroma e do passeio selvagem que ele seria.

Sim, claro, não ia durar. E quando voltasse a si, ia se sentir como o inferno. Mas, nesse momento elétrico, ela não se importava com nada disso.

– Isaac...

Ele se afastou. No momento em que ela disse seu nome com voz rouca, ele não apenas se afastou; ele saiu do turbilhão.

Caminhando ao redor, ele esfregou os cabelos curtos como se estivesse tentando esfregar o cérebro e a distância física deu uma ideia a ela de como se sentiria depois que ficasse com ele: muito vazia, um pouco enjoada e, definitivamente, envergonhada.

– Isso não vai acontecer de novo – ele disse, severo.

Ao pronunciar isso no ar que ainda pairava entre eles, ela disse a si mesma que estava aliviada por não ter que lidar com questões que envolvessem sexo.

Porém... o latejar entre suas coxas dizia que aquilo era uma mentira deslavada.

– Eu ainda quero que fique – ela disse.

– Você nunca desiste, não é?

– Não. Nunca – ela pensou na quantidade de vezes que tentou tirar Daniel de sua ruína. – Nunca mesmo.

O rosto de Isaac parecia idoso ao olhar para ela do outro lado da cozinha, seus olhos gelados não eram nada além de abismos de escuridão.

– Ouça a voz da experiência. Desistir pode ser um importante mecanismo de sobrevivência.

– E, algumas vezes, uma falha moral.

– Não se estiver sendo arrastada por um carro. Ou sendo puxada para um buraco cheio de ratos. Às vezes, para salvar a si mesmo, você tem que sair.

Ela sabia que ele estava se aproximando da verdade e ela manteve sua voz o mais firme possível.

– Do que você está fugindo, Isaac? Do que você está se salvando?

Ela apenas a encarou. E, então...

– Onde está seu sistema de segurança?

Desviar o assunto foi uma decepção, mas o fato de ele considerar que ia se hospedar era uma vitória. E, enquanto ela o levava até a frente da casa, se recompôs da melhor maneira possível – apesar de seus joelhos estarem bambos, sua pele superaquecida e sua mente girando.

Havia uma familiaridade terrível com aquela sensação, sobre a qual ela se recusava a pensar... mas poderia contar ao seu irmão morto, quando ela o visse novamente. Daniel nunca falava da noite em que tinha morrido, ou de todas as agressões que infringiu a si mesmo antes. Mas, talvez... eles precisassem conversar sobre tudo.

– Como disse antes, isso é apenas para enganar – ela disse, deslizando a mão sobre o painel do sistema de segurança que foi instalado na parede. – A unidade verdadeira está atrás do meu armário de roupas. Cada janela e cada porta tem um receptor do sistema, mas o sistema de fato está ligado a ondas de rádio, raios infravermelhos e placas de cobre. Assim como o seu.

– Mostre os conectores. Eu quero ver a placa-mãe. Por favor.

O que significava levá-lo até o andar de cima.

Quando ela olhou os degraus acarpetados, achou difícil acreditar que estava considerando a possibilidade de confiar nele...

Aquela proximidade com a cama.

Que diabos estava acontecendo com ela?


CAPÍTULO 15

 

Quando Isaac foi conduzido a um quarto acolhedor em estilo biblioteca, ele soube que era ali que Grier passava seu tempo livre. Havia edições do New York Times e do Wall Street Journal em uma cesta de vime ao lado de uma cadeira estofada e o telão na parede mais afastada sem dúvida exibia a CNBC ou CNN ou FOX News na maioria das noites.

Quem sentava ali e assistia com ela? Aquele seu irmão?

– Vê? – ela disse, afastando uma cortina de um xadrez escuro.

Isaac se aproximou e se inclinou – o cheiro do perfume dela era exatamente o tipo de coisa que ele não precisava sentir agora.

Obrigando-se a focar o minúsculo brilho do cobre, ele aprovou o que olhava. Um material muito moderno.

Quem diabos era o pai dela?

Antes que ele fizesse algo estúpido, como tocá-la, ele se afastou e enquanto vagava perto da TV, não ficou nem um pouco surpreso com a coleção de DVDs colocada nas prateleiras. Havia muitos títulos estrangeiros e filmes sérios dos quais ele nunca tinha ouvido falar, quanto mais assistido. Então, lembrou que não foi ao cinema desde o final dos anos oitenta.

A última coisa que ele conhecia era Bruce Willis como um policial desesperado em busca de um sapato que servisse, Arnold como um cyborg de óculos escuros e Steven Seagal com aquelas entradas.

– Vai me levar até a placa-mãe? – ele disse virando-se para ela.

E a parte do “e depois até sua cama?” ele deixou de lado. Que cavalheiro.

– Claro.

Seguindo-a pelas escadas, ele deu um bom espaço entre eles – o que foi bom no sentido de conter as mãos e diminuir o calor, pois ele tinha muito a olhar. Jesus, seus quadris tinham um jeito que fazia com que ele rangesse os molares.

Quando chegaram ao segundo andar, ele fez uma rápida pausa e conseguiu algumas impressões de três quartos com portas abertas. A decoração era feita da mesma maneira antiquada dos andares abaixo, mas havia uma vibração aconchegante em tudo. Muito mais “família” que “hotel”.

Era certo que ele nunca tinha vivido assim. Na sua infância, ele dividiu um quarto do tamanho do corredor da frente com dois irmãos. Nas operações extraoficiais, ele pegava no sono onde podia – geralmente sentado em uma cadeira de frente para uma porta com uma arma na mão.

– Fico no terceiro andar – ela disse de um degrau acima.

Ele assentiu e entrou em ação. Acontece que ela ocupava todo o terceiro andar. O quarto principal se estendia com sua própria área de estar, lareira e portas francesas que se abriam ao que ele concluiu ser um terraço particular.

– Aqui.

Ele seguiu o som da voz dela, indo até o closet onde ela tinha desaparecido. A maldita coisa era tão grande quanto a sala de estar de algumas pessoas, com um carpete creme envolvendo as paredes e legiões de roupas alinhadas e penduradas por categoria.

O ar rescendia ao perfume dela.

Ela estava na parte de trás, afastando uma dúzia ou mais de ternos muito sérios para revelar... uma grade de 1,20 metro de altura e 90 centímetros de largura que parecia ser apenas a cobertura de um radiador antigo. Mas, como pode imaginar, a coisa deslizou para trás e revelou um esconderijo.

Um pequeno click e a luz se acendeu.

Ela passou primeiro e ele ficou bem próximo dela ao entrar no confinamento apertado... e lá estava.

Mas que... droga!

Ao se ajoelharem lado a lado, ele pensou: cara, era bom não ser um tipo de técnico naquilo ou estaria desmaiando. A configuração era o máximo de sofisticação – nada de uma combinação com dez números e as opções desligar, parcial ou total. Aquele era um sistema de computadores em rede que acompanhava as diferentes zonas da casa em vários níveis. E, se ele estava entendendo direito, a única maneira de chegar aos componentes era chegar até ali, e desarmar tudo seria complicado.

Só que...

– Eu não vi você desativar isso quando entramos.

Ela mostrou algo que parecia com o chaveiro de um carro.

– O painel é calibrado com minha impressão digital. Levo isso comigo onde quer que eu vá e o sistema está ligado agora.

Quando ele virou a coisa nas mãos, ela disse: – Bom o suficiente?

Houve um longo momento. Longo demais para onde eles estavam.

Longo demais para quem eles eram.

– Algo mais? – ela disse.

Sim.

– Não.

Grier assentiu e tomou seu caminho em direção à saída do confinamento. Depois que ele saiu, colocaram a grade de volta e andaram até o quarto. Que droga: ele não pôde deixar de olhar para a cama dela. Grande. Cheia de edredons e travesseiros. Do outro lado, havia uma pequena TV em cima de uma mesa antiga e uma estante forrada com DVDs ordenados de maneira precisa.

Ele franziu a testa e se aproximou -, apesar de não ser da sua conta, mas... caramba, será que estava enxergando os títulos direito?

A Garota de Rosa Shocking. Clube dos Cinco. Gatinhas e Gatões. Duro de Matar. A Força em Alerta.

Até mesmo ele conhecia esses filmes.

– É o que eu assisto à noite – disse Grier, quando ela veio atrás dele e endireitou as caixas finas apesar de estarem perfeitamente retas.

– Diferente dos que você tem lá embaixo. – E ele achou difícil acreditar que ela era uma mulher cheia de pose que queria ser toda Jane Austen em público e Jerry Seinfeld ali no quarto.

Ela pegou Harry e Sally – feitos um para o outro, e passou a mão sobre a cena de outono na capa.

– Eu não durmo bem e isso ajuda. É como se... meu cérebro voltasse ao tempo em que eles foram produzidos. Eu vejo os carros... as cenas em supermercados com preços menores... as roupas que estavam na moda... os cabelos que ninguém mais usa. Volto à época em que os vi pela primeira vez, quando as coisas eram... mais simples. – Ela sorriu com uma pressa desajeitada. – Acho que você chamaria de pequenos nocautes cinematográficos. É a única coisa que funciona pra mim.

Olhando para ela enquanto observava Meg Ryan, ele teve a visão de seu penteado de perfil, a luz azul da tela iluminava seus traços, a viagem ao passado acalmava seus nervos e relaxava seu cérebro.

Ela tinha uma companhia para assistir com ela? Ele se perguntou. Um namorado?

Nada de aliança, então, ele concluiu que ela não era casada ou noiva.

– O que foi? – ela disse, endireitando o bonito vestido preto. Ele limpou a garganta, odiando ter sido pego olhando para ela.

– Qual chuveiro quer que eu use?

Isso a fez sorrir. Pela primeira vez.

E sim, abatido como estava... ele prendeu a respiração e seu coração parou.

Grier colocou o filme de volta no lugar.

– Mais comida primeiro – ela disse ao se virar e ir em direção às escadas.

Jim e seus colegas aterrissaram no jardim dos fundos de uma casa de alvenaria de três andares que gritava ao mesmo tempo dinheiro e desculpas por causar tanto impacto. Tudo relacionado a ela e à sua vizinhança era refinado e muito bem-cuidado... e de tijolos. Pelo amor de Deus, todo o código postal que cobria a área parecia com a casa que abrigou os três porquinhos do lobo: casas de tijolos, muros de tijolos, calçadas de tijolos, travessas de tijolos.

Era o suficiente para fazer o pulmão do Lobo Mau ficar forte como ferro.

Através das janelas de vidro, viu uma cozinha muito espaçosa em todas as direções e com comida no balcão – mas não havia pessoas. Recuando, Jim não olhou para a casa, mas através da casa, fechando seus olhos e se concentrando.

Sim, ele conseguia sentir os dois... assim como algo mais. Havia uma... oscilação... lá dentro.

Suas pálpebras se abriram e quando se lançou para a porta dos fundos, Eddie agarrou seu braço. Que, considerando a força do cara, foi como se tivesse batido em um carro estacionado.

– Não, não é Devina. É uma alma rebelde.

Jim franziu a testa e concentrou sua atenção na confusão.

– Rebelde?

– É uma alma que foi libertada do corpo, mas que ainda precisa encontrar seu destino eterno.

– Um fantasma?

– Sim. – Eddie tirou sua mochila dos ombros, sua grossa trança caiu para frente. – Está por aí, esperando para ser libertada.

– O que mantém a coisa aqui?

– Negócios não resolvidos.

– E você tem certeza de que é isso? – Quando os olhos vermelhos do anjo ficaram rígidos como pedra, Jim levantou as mãos. – Certo, certo. Mas nós podemos chamá-los de “fantasmas”? Aquela porcaria de “rebelde” tem mais a ver com o estilo de uma vovó.

– Concordo – Adrian opinou.

– Ah, pelo amor... vocês podem chamá-lo de Fred, se for pra saírem dessa.

– Feito.

Naquele momento, Isaac e Grier entraram na cozinha. Quando o cara se acomodou em uma banqueta, ela voltou a cozinhar para ele e a tensão entre os dois era óbvia... assim como a atração. Os dois estavam jogando tênis com o olhar: cada vez que um olhava, o outro desviava os olhos. E o rubor nas bochechas da mulher selava o clima romântico.

Ao olhar pelo vidro, Jim se sentiu muito velho e distante. Achou que agora, sendo um anjo, qualquer sonho de se casar e ter filhos estava morto e enterrado – para não dizer sobre a questão de não namorar ninguém... apesar de, Cristo, quando foi que ele tinha namorado pela última vez?

E ele nunca foi do tipo que se casaria, então, em que diabos ele estava pensando?

Além disso, aquele não era nenhum filme de amor sobre a vida real do outro lado do vidro: o que ele estava olhando era para um homem caçado e uma mulher que estava fora de si.

Algo difícil de invejar.

Na verdade, ele se perguntava no que diabos o cara estava pensando. Qualquer um que tinha trabalhado com seu velho chefe sabia que os efeitos colaterais disso tinham uma possibilidade real de entrar naquele cenário.

– Cara, vamos nos mudar para cá – Adrian gemeu. – Dane-se os feitiços de proteção... eu amo uma boa omelete e estou faminto.

Jim o encarou.

– Está falando sério?

– O quê foi? Esse lugar está cheio de quartos. – De repente, a voz do anjo ficou mais profunda. – E eu posso fazer meus exercícios extracurriculares muito discretamente.

Sim, e ele não estava falando de levantar pesos. Leia: sexo com mulheres desconhecidas. Às vezes, Eddie participava da festinha.

Jim passou apenas uma noite com os dois, mas já sabia qual era o treinamento. Apesar de Ad ter permitido que Devina usasse e abusasse dele no primeiro jogo, não levou muito tempo para que ele desse umas voltas de novo. O cara tinha uma estranha obsessão pelo sexo feminino.

– Será que dá pra você focar? – Jim encarou Eddie. – Então, o que temos aqui?

Adrian interrompeu com um rosnado.

– Ah, sim, ela está fazendo outro para ele.

– Dá para parar com essa voz pedindo por comida e sexo?

– Ei, quando estou em algo, eu vou com tudo.

– Tente aprender a cozinhar, então...

Eddie limpou a garganta.

– Certo. No entanto há uma troca para proteger esse lugar: as magias mais fortes vão sinalizar o local para Devina.

– Ela já sabe – Jim disse em voz baixa. – Apostaria minhas bolas que ela já o encontrou.

– Ainda acho que devemos ficar quietos.

– Concordo.

Eddie se aproximou.

– Então, me dê sua mão.

Quando Jim ofereceu a palma de sua mão, ele olhou para o casal lá dentro. Eles pareciam isolados do furacão que girava no horizonte e ele teve o estranho impulso de fazer com que permanecessem assim...

– Droga – ele sussurrou, puxando seu braço para trás. Olhando para uma ardência em sua mão, encontrou um fino corte na sua linha da vida, que estava escorrendo... sangue... ou algo parecido.

Havia um brilho no fluxo vermelho que escorria, como a pintura de um carro à luz do sol. Engraçado, ele não tinha notado nada estranho na funerária... afinal, ele estava muito distraído olhando o próprio cadáver.

Eddie empunhou mais uma vez sua adaga de cristal.

– Circule o local e marque cada uma das portas. Tenha em mente a imagem dos dois e de que estão em segurança, em paz, calmos e protegidos. O mesmo de antes: quanto mais forte a imagem for, melhor vai funcionar. Isso vai formar um tipo de barômetro emocional na casa... assim, se houver um distúrbio maior, vai sentir isso. É uma magia de baixo nível e vai trazê-lo aqui rapidamente se alguma coisa acontecer... e isso não vai chamar a atenção de Devina. É claro que não vai mantê-la do lado de fora, mas você vai ser capaz de chegar aqui em um piscar de olhos se ela ultrapassar a barreira.

Com a mão pingando, Jim subiu os degraus até a porta dos fundos, mantendo-se camuflado para que ele pudesse aparecer a Isaac e sua garota como nada mais que uma sombra. Pressionando a palma de sua mão nos painéis frios, ele se concentrou nos dois, capturando a imagem deles no momento em que seus olhos se encontraram e se detiveram assim. Então, ele baixou as pálpebras e não se concentrou em mais nada além daquela imagem...

O mundo desapareceu, tudo, desde a brisa em seu rosto, o ranger da jaqueta de couro de Adrian até os sons distantes do tráfego... simplesmente desapareceram... e, em seguida, foi a vez de seu corpo, não havia mais peso sob seus pés, mesmo que ainda tocassem o chão.

Não havia nada para ele, em torno dele, ou sobre ele, apenas a imagem em sua mente.

E foi a partir do vácuo que seu poder entrou em ebulição.

Uma imensa onda de energia foi canalizada no espaço em branco que ele criou e sem entender muito bem, ele sabia exatamente o que fazer com a força, enviando-a ao redor da casa, doando parte disso apenas para descobrir que havia ainda mais fluindo dentro dele.

Soltando o braço, ele se afastou...

Jim ficou como uma estátua. O brilho de seu sangue estava na porta... e se espalhava em todas as direções em ondas, cobrindo os painéis, as ombreiras e se movimentando sobre o tijolo. Aquilo se espalhava para cima e para os lados, ganhando espaço, assumindo o controle.

Selando toda a casa.

– Nada mau para a primeira tentativa – ele murmurou, preparando-se para ir até a parte da frente.

Ao se virar, deteve-se. Os dois anjos estavam olhando para ele como se fosse um estranho.

– O que? – Ele olhou sobre o ombro. A onda bruxuleante vermelha se espalhava, subindo até o teto. – Parece evidente que a coisa funcionou.

Eddie limpou a garganta.

– Ah, sim. Pode-se dizer assim.

– A frente...

– Não é necessário – Eddie disse. – Você já cobriu toda casa.

Quando Adrian murmurou algo em voz baixa e balançou a cabeça, Jim pensou “Mas que inferno é esse?”

– Parece que alguém urinou no pé de vocês. Querem me dizer qual é o problema? – Pausa. Tempo para resposta... que não veio. – Tudo bem. Que seja.

– Temos que ir agora – Eddie disse ao colocar sua faca de volta na mochila. – Com o feitiço no local, não há nada mais que possamos fazer. Ela tem algo de todos nós.

– Como?

Os dois anjos se entreolharam. Ad foi o único quem respondeu.

– Todos nós já estivemos com ela. Se é que entende o que quero dizer.

Jim estreitou seus olhos em Eddie, mas o anjo se ocupou com sua maldita bagagem.

Bem, veja só. Devina ficou até mesmo com Eddie.

Afastando o pensamento de sua mente, Jim entrou pela porta traseira do jardim e deu a volta até a entrada da frente. Depois de anotar o número e o nome da rua, ele se elevou no ar, apesar do impulso de permanecer onde estava.

Contudo, ele estava satisfeito com seu pequeno feitiço de proteção – além do mais, o Cachorro estava no hotel há um bom tempo e Jim precisava levá-lo para passear. Talvez ele comprasse uma pizza para depois...

Enquanto Adrian e Eddie, sem dúvida, aproveitariam um tipo diferente de comida.


CAPÍTULO 16

 

Enquanto Isaac estava comendo sua segunda omelete – e pensando em como ele iria passar a noite – Grier saiu para aprontar seu quarto. Quando os dois terminaram, ela o levou para o que, com certeza, era o quarto de hóspedes principal: as paredes e cortinas eram azuis-marinho e marrom-chocolate, e havia cadeiras de couro e muitos livros encadernados com couro.

Ele se sentiu um intruso total.

– Vou me trocar e depois limpar a cozinha – ela disse ao se afastar e puxar a porta deixando-a parcialmente fechada. – Se precisar de alguma coisa, sabe onde me encontrar.

Houve uma breve pausa. Como se ela estivesse procurando alguma coisa para dizer.

– Boa-noite, então – ela murmurou.

– Noite.

Depois que ela o fechou ali, ele a ouviu indo para o quarto, sua pisada macia e firme.

Ele não conseguia ouvi-la andando lá em cima, mas a imaginava entrando naquele grande armário e tirando seu vestido preto.

Sim... aquele zíper avançando para baixo, mostrando-lhe as costas. As alças deslizando pelos braços... o material caindo em sua cintura e, em seguida, deslizando por suas pernas.

Seu pênis teve um espasmo.

Em seguida, ficou totalmente rígido.

Droga. Tudo o que ele não precisava.

Entrando no banheiro, ele parou e teve que balançar a cabeça para sua anfitriã. No balcão de mármore, ela tinha deixado toalhas limpas, uma coleção de artigos de higiene, um vidro de antisséptico e uma caixa de curativos. Havia também uma blusa masculina e um conjunto de pijamas de flanela com cordões e botões que enviaram uma ponta de ciúmes diretamente ao peito dele.

Ele realmente esperava que fossem do irmão dela. E não algum tipo de advogado esperto e bem-vestido que dormia com ela.

Amaldiçoando a si mesmo, ele se dirigiu para o chuveiro e ligou a água. Não era da sua conta quem eram seus amantes – como eram, ou quantos, ou quando e onde. E quanto à coisa do pijama de flanela? Eles estavam limpos e iam evitar que exibisse suas partes.

Não importava a quem eles per tenciam.

Ele tirou seu blusão e verificou duas vezes suas armas. Em seguida, puxou a camiseta regata pela cabeça, deslizou suas calças e deu uma olhada em seu reflexo no espelho: muitas manchas pretas e azuis sobre seus ombros e peito, espalhadas entre a rede de cicatrizes antigas que tinham se curado muito bem.

Difícil não pensar no que Grier pensaria dele.

Por outro lado, se ele a pegasse no escuro, não teria com o que se preocupar...

– Pois é – ele precisava muito parar com aquela droga.

Entrando no chuveiro, se perguntou o que exatamente nela o fazia pensar como se tivesse quinze anos. E decidiu que tinha que ser o fato de não fazer sexo há um ano e ter lutado naquela noite – as duas coisas eram do tipo que excitava um cara.

Mesmo.

Elas faziam isso.

Ele não podia ir atrás de sua advogada só por que ela era uma linda mulher de um metro e setenta e cinco, embrulhada em um pacote estilo Tiffany.

Infelizmente, qualquer que seja o motivo, voltar-se para o sabão e a água quente não aliviaram sua sobrecarga de hormônio. Enquanto se lavava, as mãos sobre sua pele estavam escorregadias e quentes... e o sabonete escorreu entre suas pernas, excitando seu membro enrijecido e fazendo cócegas em seus testículos tensos.

Ele estava acostumado com seu corpo cheio de dores, era fácil ignorar essa droga, esses machucados. O que ele estava sentindo por aquela mulher? Era como tentar ignorar que alguém estava gritando em uma igreja...

Sua mão ensaboada vagou por onde não devia, passando entre as coxas, passando pela parte inferior de sua ereção.

– Dane-se – ele disse entre dentes e deixou a palma de sua mão deslizar para trás e para baixo, o atrito intensificou a excitação.

Precisou de toda força que tinha para se desvencilhar daquela mão maldita. E ele acabou lavando o cabelo três vezes na tentativa de manter-se ocupado. Condicionando a maldita coisa também. Claro, a melhor solução era sair da privacidade traiçoeira e do calor sedutor do chuveiro, mas ele não conseguia convencer seu corpo a tomar a direção contrária do banheiro.

Antes que percebesse, sua ereção estava agindo como um imã de novo e a palma de sua mão fez o que tanto queria... e ele desistiu da luta.

Sujo. Pervertido. Bastardo.

Porém, foi tão boa aquela pegada de imaginar que era ela, a espera, aquele deslizar, aquela leve torção na ponta.

Além disso, quais eram suas opções? Tentar ignorar? Sim, claro. Colocar as calças do pijama seria como um circo obsceno – uma tenda armada e algo mais. E tinha que vê-la antes de ir dormir.

Ele tinha um aviso para dar a sua adorável advogada.

O último de seus argumentos ficou vagando em sua cabeça... bom, talvez descarregar aquela tensão umas duas vezes e, em seguida, pegar a estrada. De frente para o chuveiro, ele apoiou a mão na parede de mármore e inclinou-se sobre o ombro. Seu pênis estava pesado e duro como seu maldito antebraço ao começar a trabalhar nele, sua mão movia-se para cima e para baixo. E o sopro de fogo que percorreu sua coluna fez sua cabeça cair e precisou abrir a boca para respirar.

No turbilhão em que se encontrava, ele se recusou a pensar em Grier. Ela poderia ter sido a causa da excitação, mas ele não ia fantasiar sobre ela enquanto se masturbava no chuveiro da casa dela. Simplesmente não ia acontecer. Era grosseiro e desrespeitoso demais... ela merecia muito mais, mesmo se nunca soubesse daquilo.

Esse foi o último pensamento consciente que teve antes do orgasmo tomar conta dele: a cabeça de seu sexo estava tão sensível que cada deslizar sobre a coisa era uma picada doce que atingia sua ereção e envolvia suas bolas. Afastando as pernas uma da outra, ele se posicionou bem e se preparou ao encontrar seu ritmo, o jato de água quente escorria pelo seu cabelo percorrendo seu rosto quando começou a arquejar...

Do nada e contra qualquer comando de memória, a lembrança de Grier tão perto dele e de maneira tão íntima tomou conta de seu cérebro e se transformou numa fera. Não importava o quanto ele tentasse esquecer ou se concentrar em outra coisa, não conseguia se desvencilhar daquele momento tão perto dela.

Deus, seus lábios estiveram a um centímetro do dele. Tudo o que precisava fazer era inclinar a cabeça e teria um beijo...

O alívio veio rápido e poderoso, batendo nele com tanta força que teve que tensionar seus bíceps e morder os lábios para não gritar o nome dela.

Como ele era maldito! Lançou-se para o último espasmo, ordenhando-se até seus joelhos desfalecerem e ele provar o gosto do sangue da mordida.

Na sequência, ele cedeu e sentiu-se como um terreno baldio por dentro, como se não apenas seu impulso sexual tivesse sido drenado de dentro dele, mas todo o resto.

Ele estava tão cansado.

Tão, tão cansado.

Com uma maldição, ele alcançou a mão que tinha feito o trabalho e certificou-se de que não havia rastro de nada no mármore ou no vidro. Então, ele se lavou pela última vez, desligou a água e saiu dos limites do vapor que o colocou em apuros.

Ele ainda estava duro. Apesar da exaustão. E do exercício.

Era evidente que seu pênis não tinha aceitado o suborno.

E, sim, ele estava certo: a flanela não fez nada para evitar o “Ei, podemos ter um pouco mais disso?”. De qualquer forma, aquela coisa fazia com que parecesse duas vezes maior... o que, considerando que a coisa estava se erguendo, não era a direção que ele queria seguir.

Dobrando sua ereção e prendendo-a com a cintura do pijama, ele pegou a blusa e rezou para que a coisa descesse o suficiente para esconder a vergonha daquela cabeça.

Que ainda estava cheia de ótimas ideias...

Certo, não tinha chance de esconder. A blusa seria longa o suficiente, se seu peito não fosse tão grande. Como ficou? Ele estava mais nu do que nunca ao dar uma olhada para seus “bens”.

Isaac abandonou a blusa e a jogou sobre seu blusão, a regata estava nojenta demais depois da luta. A maldita coisa deveria ser queimada e não lavada.

E antes que voltasse a descer as escadas, ele usou os acessórios de primeiros-socorros, mas não por que se importasse: com certeza, se ele não os usasse, ela insistiria em ir até lá e dar uma de enfermeira.

Então, não era um bom plano considerando o que ele tinha acabado de fazer.

O curativo que os enfermeiros tinham colocado na cadeia não teve qualquer chance no ringue e só Deus sabia onde tinha parado. Contudo, independentemente disso, o corte não era nada de especial, apenas uma divisão na pele profunda o suficiente para dar um show de sangue, mas nada com que precisasse ficar histérico. Ele ia ganhar uma cicatriz... e que importância isso tinha?

Ele meteu um band-aid sobre a coisa e não se incomodou em colocar antibióticos ou coisas assim. Havia muito mais chances dele morrer envenenado com uma arma do tipo Smith & Wesson do que com qualquer infecção de pele.

Saiu do quarto de hóspedes. No andar debaixo. Naquele momento, ele chegou ao corredor da frente, as coisas no nível do quadril começaram a ceder um pouco.

Até que virou em direção à cozinha e viu Grier.

Oh, cara.

Se ela estava maravilhosa naquele vestido preto, então era um convite para o sexo com o que, evidentemente, era sua versão de pijamas: cuecas boxers de flanela e uma velha regata verde onde se lia CAMP DARTMOUTH. Com meias brancas e um par de pantufas nos pés, ela parecia mais uma universitária do que uma mulher perto dos trinta... e a ausência de maquiagem e cabelos extravagantes, na verdade, era um adicional. Sua pele era um cetim macio e seus olhos claros estavam mais atentos atrás daqueles óculos de armação grossa, ao invés de perdidos, como sempre.

Ela devia usar lentes de contato.

E o cabelo... era tão longo, muito mais longo do que ele imaginava e um pouco ondulado. Ele podia apostar que cheirava bem e senti-lo devia ser muito melhor...

Ela lançou um olhar da tigela vermelha que estava secando na pia.

– Encontrou tudo o que precisava lá em cima?

Não. Mesmo.

Por educação, ele puxou o blusão para ter certeza de que o Sr. Feliz estava coberto. E, então, ele apenas a observou. Como se fosse algum tipo de idiota.

– Isaac?

– Você já foi casada? – ele perguntou em voz baixa.

Quando os olhos dela se lançaram nos dele, soube como ela se sentia: ele não podia acreditar que tinha soltado essa também.

Antes que ele pudesse voltar atrás, ela empurrou os óculos para cima no nariz e disse: – Ah, não. Não, eu não fui. E você?

Ele balançou a cabeça e deixou por isso mesmo, porque Deus sabia que ele não deveria ter começado aquele assunto.

– Uma namorada? – ela perguntou, pegando uma panela para secar.

– Nunca tive uma. – Quando os olhos dela o encararam com força, ele encolheu os ombros. – Não estou dizendo que nunca... er... estive com...

Mas que inferno! Ele estava corando?

Certo, ele tinha mesmo que se afastar dela e sair da cidade – e não apenas porque Matthias estava atrás dele. Essa mulher ia transformá-lo em alguém que ele não conhecia.

– Você só não encontrou a pessoa certa, não é? – Ela se abaixou e guardou a tigela, em seguida, foi a panela que colocou no armário sob a ilha. – A coisa é sempre essa, não é mesmo?

– Entre outras.

– Eu só fico pensando se vai acontecer comigo – ela murmurou. – Mas não aconteceu. Porém, eu gosto da minha vida.

– Não tem namorado? – ele se ouviu dizendo.

– Não – ela deu de ombros. – E eu não sou o tipo de garota de apenas uma noite.

Isso não o surpreendeu. Ela era muito elegante.

Quando um silêncio suave surgiu entre eles de maneira curiosa, ele não tinha ideia de quanto tempo estava ali, olhando para ela do outro lado da ilha.

– Obrigado – ele disse em dado momento.

– Pelo quê? Eu não o ajudei de verdade.

Até parece que não. Ela tinha dado a ele algo bom para pensar quando estivesse sozinho em uma noite fria: ele se lembraria daquele momento com ela para o resto de seus dias.

Porém, eram poucos os que deveria preservar.

Movendo-se até ficar mais perto dela, ele estendeu a mão e tocou seu rosto.

Quando ela inalou com força e ficou imóvel, ele disse: – Sinto muito... por aquilo mais cedo.

Sim, não tinha certeza do que “mais cedo” significava: se os 25 mil que ele tinha custado a ela, se a fuga de cumprir a lei, a tentativa de intimidá-la para conscientizá-la de alguma maneira... ou o episódio no chuveiro.

Ele ficou surpreso quando ela não se afastou.

– Eu ainda não quero que vá.

Isaac fugiu do assunto.

– Eu gosto do seu cabelo solto – ele disse ao invés de responder, correndo seus dedos através dos fios até o ombro dela. Quando ela corou, ele recuou.

– Vou para a cama. Se precisar de mim, bata primeiro, ok? Bata primeiro e espere eu atender a porta.

Ela piscou rapidamente, como se um nevoeiro estivesse se erguendo do rio que havia dentro dela.

– Por quê?

– Apenas prometa.

– Isaac... – Quando ele balançou a cabeça, ela cruzou os braços sobre o peito. – Certo. Eu prometo.

– Boa-noite.

– Boa-noite.

Ele se virou e a deixou na cozinha, percorrendo o corredor e as escadas rapidamente, pois seu autocontrole tinha sido surrado e apesar das duas omeletes, ele estava faminto.

Contudo, não por comida.

Como um idiota total, ele se esquivou no quarto de hóspedes e esperou atrás da porta fechada apenas para poder ouvir o som dela subindo suavemente as velhas escadas que rangiam. Quando ele ouviu ela se fechar, ele andou ao redor do quarto... e se perguntou que diabos faria nas próximas oito horas.

Seu pênis se contorceu como se quisesse levantar a mão por ouvir uma pergunta da professora, a ereção estava agindo como se dissesse “oh-oh-oh-oh eu sei a resposta dessa”.

– Isso não vai acontecer, garotão – Isaac se conteve.

Esfregando os olhos, ele não conseguia acreditar que tinha concordado em ficar – especialmente pelo fato de quem tinha entrado no ringue com ele. Mas não poderia argumentar com o que tinha visto atrás do armário de Grier – e ainda que Matthias não se importasse com as consequências, tinha certeza que não ia procurá-lo ali. Especialmente pelo pai dela ser um militar: Matthias conhecia a todos e tinha total consciência das complicações que poderiam surgir por matar a filha de alguém importante.

Com mais outro palavrão, Isaac entrou no banheiro e escovou os dentes; em seguida, se estendeu no edredom e apagou a luz. Ao focar o teto, a imaginou naquela cama aconchegante acima dele, com a televisão ligada e alguma coisa no estilo da série Magnum sendo exibida na frente de seus olhos fechados.

Ele queria estar lá em cima com ela.

Ele queria estar... em cima dela.

O que significava que ele tinha que sair nas primeiras horas do dia antes mesmo que ela acordasse. Caso contrário, ele poderia não ser capaz de ir embora sem tentar fazer algo que não tinha direito... muito menos merecia.

Fechando os olhos, passaram-se uns quinze minutos antes que ele tirasse e jogasse para bem longe de sua virilha aquelas calças de pijama.

Quando seguia a linha colchão e travesseiro, costumava dormir nu e agora sabia o porquê. Aquilo de pijama era muito ridículo.

Meia hora depois, ele não aguentava mais e se despiu completamente. A única coisa que manteve perto foram as duas armas enfiadas dentro dos cobertores. Afinal, ele poderia ser pego exibindo tudo que tinha, mas não havia razão nenhuma para ficar vulnerável por isso.

 

CONTINUA

CAPÍTULO 10

 

Já tinha passado das 10 da noite quando Grier estacionou seu Audi em Malden e desligou o motor. Ela manobrou o sedã em um local de terra batida de maneira que ficasse voltado para fora e longe da maioria dos outros carros – embora o “estacionamento” não tivesse exatamente qualquer área dedicada à entrada, saída ou vagas.

Quando chegou ao endereço que Louie havia passado por telefone, não teve certeza de que era o lugar certo. O local como um todo estava vazio até onde ela conseguia ver, as doze ou mais torres de cinco andares em espiral surgiam a partir de um caminho escuro como se fossem crianças na escola em fila para uma contagem. Era evidente que a estrutura tinha sido desenvolvida para que empresas de alta tecnologia a ocupassem, ao menos era isso que se via no cartaz que dizia CENTRO EMPRESARIAL TECNOLÓGICO MALDEN. Mas, na realidade, o contrário: era uma cidade fantasma.

Contudo, Louie nunca a conduzia ao erro. Assim, ela se virou e percorreu o caminho até os fundos... e encontrou mais ou menos 25 caminhonetes e carros atrás do prédio mais distante da entrada principal. Fazia sentido. Se ela estivesse invadindo um local para montar uma gaiola de lutas clandestina, ela também garantiria que estivesse o mais oculta possível.

Saindo de seu carro, foi até a saída de emergência que estava aberta sustentada por um bloco de concreto e entrou. O rosnado profundo e agitado da multidão de homens fluía no corredor, a testosterona formava uma parede a qual ela praticamente teve que empurrar para atravessar. Enquanto seguia em direção ao som, ela não se preocupava com o quociente de estupidez – que claramente seria alto. Ela tinha um spray de pimenta em um bolso e uma arma de choque no outro: o primeiro era uma arma legal no estado de Massachusetts quando se tinha uma autorização para portar armas de fogo, e ela tinha. O segundo... bem, ela pagaria a multa de quinhentos dólares, caso tivesse que usar a coisa.

Se ela conseguiu entrar em um ponto de crack em New Bedford, à meia noite, ela poderia lidar com isso também.

Quando surgiu no saguão e conseguiu dar uma olhada nas barreiras de um metro e oitenta ligadas por correntes do octógono, ela tinha total consciência de que poderia chamar a polícia para o jogo de hoje, mas, assim, Isaac, assumindo que ele aparecesse por ali, seria preso novamente ou fugiria. Nos dois casos, ela não teria a chance de se aproximar dele. O objetivo dela era fazer com que ele parasse e pensasse um tempo considerável para ver o que estava fazendo. Fugir nunca era a solução, e se entrasse por aquele caminho, ele garantia uma detenção, mais acusações e o início de um registro com precedentes.

Isso assumindo que ele já não tivesse um: aquele assassinato no Mississippi a preocupava – mas era, como todos os seus outros problemas, algo que as devidas autoridades deveriam lidar. Como sua advogada de defesa, ela tinha que tentar fazer com que ele ficasse e dançasse conforme a música ditada por suas acusações atuais. Era a coisa certa a se fazer perante a sociedade – e era a coisa certa a se fazer por si mesmo.

E se ela não conseguisse fazer com que ele enxergasse a luz? Então, ela iria se afastar do caso e contar às autoridades tudo o que sabia sobre ele. Incluindo as armas e os detalhes daquele sistema de segurança. Ela não se tornaria cúmplice do crime na sua busca por fazer a coisa certa...

Grier congelou ao ver seu cliente, sua mão foi em direção à base de sua garganta.

Isaac Rothe estava sozinho em uma extremidade do ringue, e embora os elos da cadeia da gaiola o separassem, não havia dúvidas de quem era... e isso não diminuía o efeito que ele causava: era uma ameaça, o seu tamanho e a expressão rígida do rosto transformava os outros homens em garotinhos. E mesmo sendo impactada por sua educação naquela cadeia, agora ela tinha um retrato verdadeiro de quem ele era.

O homem era um assassino.

Seu coração bateu rápido, mas ela não vacilou. Estava ali para fazer um tipo de trabalho, e maldito seja, mas ela iria falar com ele.

Assim que deu um passo à frente, um cara adulador com dentes de ouro apareceu fazendo macaquices do outro lado da gaiola.

– E agora... aquilo que vocês estavam esperando!

Isaac tirou seu blusão e suas botas, deixou suas coisas no chão e, em seguida, começou a perambular no ringue, queixo baixo, os olhos encaravam tudo por baixo das sobrancelhas. Sua camiseta se esticava apertada ao longo de seu peitoral e, mesmo tendo as mãos pendentes nas laterais, seus braços estavam esculpidos pela força. Posicionando-se para a luta, ele era todo músculo, ossos e veias, os ombros tão largos que pareciam ser capazes de levantar o maldito prédio como se estivesse fazendo levantamento de peso.

Ao pular a gaiola e aterrissar ali dentro com os pés descalços, o rugido da multidão atingiu a cabeça dela como um sino e transformou sua coluna em um condutor de adrenalina. Sob o brilho das oito lanternas de acampamento que ficavam nos polos de apoio, seu cliente era parte gladiador, parte animal, um pacote mortal pronto para fazer aquilo para que ele claramente tinha sido treinado.

Infelizmente, o adversário que pulou ali e aterrissou em sua frente era quase uma imagem refletida dele: a mesma estrutura brutal, o mesmo peso, a mesma aparência mortal – estava até mesmo vestido da mesma maneira, a camiseta mostrava os músculos cheios de tatuagens de serpentes que percorriam todo seu ombro e pescoço. E enquanto o público gritava e se aproximava, os dois circulavam, procurando por uma oportunidade, braços, peitos e coxas enrijecidos.

Isaac investiu primeiro. Ao balançar o corpo, tirou o pé do chão e atingiu o outro homem nas costelas com um golpe tão cruel que ela poderia apostar que até mesmo os ancestrais do adversário sentiram a dor no túmulo.

Tudo aconteceu muito rápido. Os dois entraram em uma sucessão de ataques e esquivas, suas camisas se umedeceram rapidamente ao redor do pescoço e nas costas, a luz amarela amanteigada das lanternas fazia com que parecesse que estavam lutando em um ringue de fogo. Os contatos, quando feitos, eram do tipo que soavam como tiros de armas de fogo, os fortes e ressonantes impactos chegavam até a multidão, que se agitava inquieta. O sangue voava – a partir do corte na cabeça de Isaac que foi rapidamente reaberto e depois dos lábios do adversário que foram partidos. Os lutadores não pareciam se importar, mas com certeza os agitadores adoravam aquilo, como se fossem vampiros...

Uma mão passando em sua bunda fez com que olhasse em volta.

Movendo-se rapidamente para trás, ela olhou o cara da mão boba.

– Desculpe.

Ele pareceu momentaneamente surpreso e, então, seu olhar se estreitou.

– Ei... o que faz aqui?

A questão foi colocada como se ele a conhecesse.

Então, parecia que ele estava falando com o Papai Noel e levando isso à sério – seu rosto estava liso de suor e metade de suas feições se contorceram como se sofresse um curto-circuito. Era óbvio que ele estava drogado – e Deus sabia que ela era especialista em fazer esse diagnóstico.

– Com licença – ela disse, afastando-se.

Ele a seguiu. Para sua sorte, o único idiota do lugar estava mais interessado em importuná-la do que na luta que veio para assistir.

Ele agarrou o braço dela, puxando-a.

– Eu conheço você.

– Tire sua mão de mim.

– Qual é o seu nome...?

Grier se libertou dele.

– Não é da sua conta.

Ele pulou em direção a ela num piscar de olhos: o metro que havia entre eles de repente se transformou em um centímetro.

– Você é uma maldita dondoca. Acha que é melhor que eu, vadia?

Grier não cedeu o corpo, mas tirou a arma de choque e deslizou o pino de segurança ao agarrá-lo. Colocando a arma a uma distância mínima da calça jeans do cara, ameaçou.

– Se você não sair de perto de mim, vou lançar 625 mil volts nas suas bolas. No três. Um... dois...

Antes que ela tivesse tempo de acionar o gatilho, ele recuou e ergueu as mãos.

– Não era minha intenção... eu só pensei que te conhecia.

Enquanto ele se afastava, ela manteve a arma de choque em mão e respirou fundo. Talvez ela o conhecesse das buscas que tinha feito por Daniel – mas era evidente que ele estava fora de si e ela já estava escaldada o suficiente.

Voltando a se concentrar no ringue, ela olhou para cima...

Bem a tempo de ver Isaac cair como um pedra.

Lutar com o segundo na linha de comando de Matthias era um prazer. Isaac nunca confiou ou gostou do cara, e dar um chute no bastardo tinha sido alcançar um objetivo indescritível na carreira.

Ah, que ironia. Teve a chance apenas quando estava saindo...

Awm!

Quando os ganchos de direita começaram, o maldito parecia uma britadeira e acertou o queixo de Isaac bem em cheio, atingindo com isso seu crânio e causando todos os tipos de problemas: levando em conta que o crânio é apenas uma esponja solta em um globo de neve, sua matéria mental ficou um caos devido ao golpe e, assim, ele perdeu os sentidos e o equilíbrio.

Levando tudo em consideração, ele estava mais preocupado antes com algum tipo de arma branca, mas os punhos funcionaram bem. Maldito seja, e como funcionaram...

Esse foi o último pensamento que teve no momento em que o chão do octógono saltou para cumprimentá-lo. O “Oi, tudo bem?” da coisa causou tanto impacto quanto o punho do seu antigo colega de trabalho.

Deus, ele era como o coelho da Duracell.

Ele se levantou um segundo depois de suas costas tocarem o chão – mesmo que suas pernas estivessem dormentes e soltas e sua visão estivesse como uma TV que precisasse ser ajustada. Lançando-se para frente, ele era todo instinto e vontade, prova de que a mente poderia anular os receptores de dor do corpo, pelo menos por um tempo. Ele atacou o adversário pela cintura e o jogou no chão, em seguida, o virou de estômago para baixo e torceu seu braço para trás, puxando a coisa como se fosse uma corda.

Com um estalo, alguma coisa saiu do lugar e, de repente, Isaac precisou se segurar para não cair.

A multidão foi à loucura, todos os tipos de “vai se ferrar” ricochetearam em volta do saguão semiacabado até que um apito estridente atravessou o rugido. Em um primeiro momento, ele concluiu que o som era apenas uma extensão do caos em sua cabeça, mas depois percebeu que alguém tinha entrado no ringue. Era o promotor de eventos e, pela primeira vez, o rosto do bastardo estava um pouco pálido.

– Estou encerrando a luta – gritou quando agarrou o pulso de Isaac e o ergueu no ar. – Vencedor! – Inclinando-se, sussurrou: – Deixe ele ir.

Isaac não conseguia entender qual era o problema do cara...

Seus olhos finalmente entraram em foco e, bem, veja só. O segundo na linha de comando de Matthias precisava de um raio-X, gesso e talvez alguns pinos: o osso superior do seu braço estava projetado para fora da pele como uma estaca rompida e ensanguentada, o braço estava quebrado e alguns outros ossos também.

Isaac saltou e apoiou-se contra a corrente que circundava o ringue, o coração saía pela boca. Seu adversário ficou em pé rapidamente e segurou a mão que vacilava casualmente, como se nada de grave tivesse acontecido além de uma simples picada de inseto.

Quando seus olhares se encontraram e o cara sorriu daquela maneira que só ele fazia, Isaac pensou: droga, essa luta não foi nada além de um sinal de advertência do processo da minha captura.

Uma mensagem de que eles estavam perto.

Um convite para correr.

Droga. Dane-se aquele Matthias. E aquela fratura exposta foi sua resposta: eles poderiam tê-lo deixado sair, mas agora ele ia causar alguns prejuízos no caminho para o túmulo.

Isaac não perdeu tempo. Ele se aproximou das correntes e saltou sobre a borda. Felizmente, a multidão sabia muito bem que deveria sair de seu caminho, assim, ele foi capaz de ir mais rápido em direção a Jim...

Ele acabou dando um encontrão na sua defensora pública.

– Cristo! – ele vociferou, afastando-se da mulher.

– Na verdade, é Childe. Com “e” no final. – Ela levantou uma sobrancelha. – Pensei em tentar oferecer um táxi novamente, precisa de uma carona de volta para Boston? Ou não está indo nessa direção?

Esquecendo suas boas maneiras por um momento, ele se alterou.

– Que diabos você está fazendo aqui?

– Eu ia perguntar a mesma coisa. Isso considerando que uma das condições de sua fiança é não participar de lutas ilegais. E não parece mesmo que você esteja disputando um simples jogo de tabuleiro por aqui. Você quebrou o braço daquele homem.

Isaac olhou em volta, perguntando-se qual seria o caminho mais rápido, pois ela não pertencia àquele bando de arruaceiros e ele tinha que tirá-la dali.

– Olha, podemos ir até lá fora?

– O que você tem na cabeça? Aparecer aqui e lutar?

– Eu ia te procurar.

– Sou sua advogada... Ao menos espero que sim!

– Estou te devendo 25 mil dólares.

– E eu vou te dizer como você pode acertar as contas. – Ela colocou as mãos na cintura e inclinou-se, aquele perfume infiltrou no nariz dele... e no seu sangue. – Você pode parar de ser um idiota estúpido e aparecer na sua audiência em duas semanas. Vou te dar a hora e a data novamente, se acaso esqueceu de anotar.

Certo... ela era totalmente gata quando ficava nervosa.

E, em teoria, aquela não era a reação apropriada para o momento e local. Entre outras coisas.

Naquele momento, Jim e seus colegas se aproximaram, mas Grier não lançou sequer um olhar a eles – mesmo com Jim olhando de maneira rígida para ela. E reagir assim dava uma ideia exata a Isaac de como ela seria no tribunal. Cara, ela era incrível quando estava concentrada, nervosa e pronta para servir alguém em uma bandeja.

– Mais duas outras coisas – ela exclamou. – Você deveria rezar para que aquele cara cujo braço precisa ser engessado não ligue para a polícia. E você precisa ver um médico. De novo. Está sangrando.

Apenas para preencher o silêncio, ainda que não houvesse um, o promotor de eventos entrou com o que parecia ser uns dois mil dólares.

– Aqui está a sua parte...

De repente, os olhos de Grier se uniram aos de Isaac, da mesma maneira que seu belo rosto ficou mais tenso.

– Não pegue o dinheiro, Isaac. E venha comigo. Faça a coisa certa esta noite e isso vai lhe poupar muitos problemas mais tarde. Eu prometo.

Isaac simplesmente balançou a cabeça para ela e estendeu a mão para o promotor.

– Ah! Não acredito! – ela disse.

Quando praguejou e virou as costas, ele ficou meio sem ação por um momento.

Ao voltar a reagir, ele estendeu a mão em direção ao braço dela, mas o promotor entrou no caminho.

– Agora, antes que dê isso à você – ele bateu as notas na palma da mão – quero que venha lutar duas noites a partir de agora.

Sem chance. Ele esperava estar fora do país até às dez.

– Sim, claro.

– Será aqui, se não tivermos problemas. Você é incrível, cara...

– Agora cale a boca e me dê o dinheiro.

Isaac se ergueu e olhou por cima da confusão de cabeças, observando o penteado diferente de Grier marchar em direção à saída da porta dos fundos. Em geral, os homens sairiam do seu caminho, mas agora, dado o humor dela, ela seria capaz de castrar alguém.

Apenas pela força de vontade.

Ignorando a puxação de saco do promotor, Isaac pegou o dinheiro, enfiou suas botas de combate nos pés e pegou sua regata e o blusão. Ao sair atrás de sua defensora pública, ele afundou mais as verdinhas no bolso e verificou as armas, os silenciadores e seu cofre de sacola plástica duas vezes.

– Onde diabos você está indo? – disse Jim enquanto ele e seus colegas o seguiam correndo.

– Qualquer lugar que ela for. Ela é minha advogada.

– Alguma chance de você parar se eu disser pra sair dessa?

– Não.

– Mas que inferno – Jim disse baixinho ao empurrar um cara para fora de seu caminho. – Vá se ferrar, idiota, o número dois de Matthias foi embora.

– Sedã preto – o homem com piercings interrompeu. – Os painéis do carro estavam amassados e sujos, mas os pneus estavam novos em folha e havia aparelhos eletrônicos no porta malas.

Isso são operações extraoficiais para você, Isaac pensou. Ficar incógnito e possuir tecnologias de última geração.

Quando ele se desvencilhou na saída, os motores dos carros e caminhonetes começaram a soar, transformando a noite em uma discoteca de luzes automobilísticas. Entre os motores que roncavam e os faróis piscando, ele olhou em volta procurando o carro dela. Ele imaginava que ela dirigia algo importado. Uma Mercedes, BMW... Audi...

Onde ela estava?


CAPÍTULO 11

 

LOCAL DESCONHECIDO

 

Matthias tinha total consciência de que ele era um agente do diabo no mundo.

O que não significava que ele fosse totalmente mal. De uma maneira geral, os bilhões de inocentes no planeta não estavam em sua tela de radar e ele os deixava em paz. Ele também não tirava doce de criança. Ou maltratava gatos. Ou dava o endereço de e-mail de pessoas que o irritavam a sites de brinquedos sexuais europeus.

Uma vez, em 1983, ele ajudou uma senhora idosa a atravessar a rua.

Então, ele não era tão mau.

Dito isso, se no processo de concluir um trabalho ele teve que aceitar alguns danos colaterais ou sacrificar um “inocente” ou dois, era assim que a porcaria funcionava: nesses casos, ele não era diferente de um acidente de carro, ou de um câncer, ou de um raio, nada além do fato de que o indivíduo perdeu na loteria da vida.

Além disso, o relógio de todos estava correndo, e ele atuava no papel do Ceifeiro da Morte bem o suficiente para saber disso em primeira mão.

Ele gemeu ao reposicionar seu corpo quebrado em sua cadeira de couro. Aos quarenta anos, ele se sentia como se tivesse cem – isso era o que ser um sobrevivente fazia com você.

Pelo menos, ele não tinha que defecar em um saco plástico e ainda tinha um olho que funcionava.

Na frente dele, sobre a mesa lustrosa, havia sete telas de computador. Algumas mostravam fotos, outras, dados transmitidos e mais outra dizia onde cada um de seus agentes estava no planeta Terra. Naquilo pelo qual ele era encarregado, a informação era muito importante. O que era um tipo de ironia. Ele era um homem sem identidade, coordenando uma equipe em um mundo de sombras que não existia oficialmente – a informação era a única coisa concreta que ele tinha para trabalhar.

Embora, assim como as pessoas, era passível de falhas.

Quando seu celular tocou, ele pegou a coisa e olhou para a pequena tela. Ah, sim, que “timing” perfeito. Matthias estava procurando por dois homens – e ele tinha enviado seu segundo homem na linha de comando atrás de um deles.

O outro... era complicado. Mesmo não devendo ser assim.

Ele aceitou a ligação.

– Você o encontrou?

– Sim, e fiquei alguns rounds com ele no ringue.

– Mas ele ainda está vivo?

– Apenas por que você quer que ele esteja. A propósito, a advogada dele apareceu na luta e adivinhe? Ela é filha de um amigo nosso.

– Mesmo? Quais são as chances. – Na verdade, era cem por cento, pois Matthias esteve no sistema judiciário do condado de Suffolk, em Massachusetts, e propositalmente colocou a filha do capitão Alister Childe no caso.

Eles precisavam tirar aquele traidor do Isaac Rothe de trás das grades para que pudessem matá-lo e manter o corpo para usos futuros e a menininha do bom e velho Albie era como um bilhete de entrada para isso: era uma boa advogada com um coração sangrando que a levava a lugares que não pertencia. Combinação perfeita.

E estava claro que aquilo tinha funcionado: Rothe estava livre menos de 24 horas depois de sua detenção.

Cristo, tinha sido tão fácil encontrar aquele bastardo. Até por que, quem teria pensado que ele usaria o próprio sobrenome?

Hum, Matthias pensou. Talvez ele estivesse tirando doce de criança, neste caso.

– Você deveria ter me deixado matá-lo no ringue – o segundo no comando reclamou.

– Testemunhas demais, e quero que ele apareça fora de Boston.

Pois agora que Grier Childe tinha servido o seu propósito, ele tinha que colocar Isaac bem longe da mulher. Matthias havia matado o filho do capitão e, com isso, ele considerou que estavam quites. No entanto, o filho da mãe já havia tentado dar um jeito de sair uma vez e isso significava que a filha tinha que ser usada para manter o hipócrita do papai na linha: enquanto estivesse viva, poderia ser morta e aquela ameaça era melhor que fita adesiva sobre uma boca inquieta durante um dia inteiro.

– Siga-o quando estiver fora do estado – Matthias se ouviu dizendo isso em um tom calmo e equilibrado. – Espere o momento certo e que não seja perto da filha de Childe.

– Que importância tem isso?

– Por que eu digo que tem, idiota. É isso.

Matthias finalizou a ligação e jogou o telefone sobre a mesa. Todos os seus homens eram bons no que faziam, mas o seu segundo homem conseguia fazer truques que ninguém chegava perto. Claro que isso fez com que o cara se tornasse extremamente útil, mas também um perigo se suas ambições ou sede de sangue os afastassem.

Aquele homem era um demônio, de verdade.

De repente, Matthias teve que respirar fundo para aliviar a dor no meio de seu peito. Ultimamente, aquelas palpitações vinham acontecendo com uma frequência crescente, deixando-o sem fôlego e um pouco enjoado. Ele tinha a sensação de que sabia o que era aquilo, mas ele não ia fazer nada para deter o infarto do miocárdio que estava a caminho.

Nada de visitas ao médico, nada de exames de estresse, nada de remédios para pressão, nada de calmantes.

Naquele ritmo de pensamento, ele acendeu um charuto e expirou. Também nada de pastilhas antitabagismo. Ele ia trabalhar duro em prol dos pregos do caixão até que fosse derrubado por um ataque dos grandes – Deus sabia que ele tinha tentado se matar com aquela bomba no deserto e que tinha sido um desastre gigante. Muito melhor facilitar seu caminho para o túmulo à moda antiga: alimentação ruim, falta de exercícios e vícios.

Ao soar de um alarme, ele apoiou as mãos sobre os braços da cadeira e se preparou para ficar na posição vertical. Analgésicos o ajudariam tremendamente, mas eles também enfraqueceriam seu cérebro, então, era inútil. Além disso, a agonia física nunca o incomodou.

Rangendo os dentes, ele empurrou com força a cadeira e ergueu seu peso sobre as pernas. Alguns momentos para se firmar. Alcançar a bengala. Respirar fundo.

Aquela noite na terra da areia, quando foi salvo por Jim Heron, teve repercussões e muitas delas eram do tipo que relacionava chumbo e aço – mas não se tratava de armas. Graças àquele soldado imbecil tê-lo arrastado para fora daquelas construções empoeiradas e em ruínas e o puxado por mais de doze quilômetros ao longo das dunas como se fosse um resgate de bombeiro, agora Matthias era parte homem, parte máquina, uma versão desajeitada e que rangia do lutador forte e poderoso que tinha sido. Colado de volta com pinos e parafusos e porcas, ele se perguntava no início se aquilo seria um momento decisivo. Se a dor e o sofrimento por que passou com todas as cirurgias abririam uma porta para que ele se tornasse... um humano.

Ao contrário daquele sociopata que era desde que nasceu.

Mas não. Tudo o que ele tinha desde então eram aqueles precursores de ataques cardíacos hereditários. O que era uma coisa boa. Ao contrário da bomba que ele ativou na areia e pisou em cima deliberadamente, ele sabia que uma coronária faria o serviço completo – inferno, ele viu o pai morrer disso.

Na verdade, seu pai tinha sido seu primeiro assassinato, isso graças a Matthias saber exatamente o que dizer para fazer com que o relógio do seu velho não se controlasse e parasse de uma vez. Ele tinha quinze anos na época. Seu pai tinha quarenta e um. E Matthias sentou-se no chão de seu quarto e assistiu a coisa toda, girando aleatoriamente o botão do rádio que o despertava para ir à escola, à procura de uma música boa dentre toda a porcaria que vinha nas ondas sonoras.

Enquanto isso, seu pai ficou vermelho, depois azul... em seguida, desvaneceu até ficar cinza.

O filho da mãe pervertido mereceu aquilo. Depois de tudo que tinha feito...

Voltando do passado, Matthias puxou seu casaco e, como sempre, o simples fato de se vestir era um acontecimento, suas costas tinham que se alongar para acomodar o deslocamento de seus braços. Em seguida, ele estava fora de seu escritório, andando nos corredores subterrâneos de um complexo de escritórios anônimo onde ele trabalhava, seu corpo o odiava por estar caminhando.

Seu carro e motorista o aguardavam nas instalações do estacionamento subterrâneo e quando entrou na parte de trás do sedã, ele gemeu.

A respiração superficial o manteve consciente quando a dor queimou como um vulcão... e gradualmente diminuiu conforme o carro avançava.

Do banco da frente, ele ouviu o motorista dizer: – Tempo estimado de chegada: onze minutos.

Matthias fechou os olhos. Ele não estava completamente certo do porquê estava fazendo aquela viagem... mas ele estava sendo atraído para o norte dos Estados Unidos por um impulso que nem mesmo seu lado racional poderia negar. Ele simplesmente tinha que ir, mesmo que fosse surpreendido por essa necessidade.

Então, mais uma vez, assim como seu segundo homem na linha de comando tinha encontrado seu alvo, Matthias também localizou o soldado a quem procurava pessoalmente e aquele longo voo de volta sobre o oceano era porque desejava olhar de frente, pela última vez, para o homem que tinha salvado sua vida – antes que o corpo do bastardo fosse sepultado.

Disse a si mesmo que era para confirmar se Jim Heron tinha realmente morrido.

Contudo, era mais que isso.

Mesmo que ele não entendesse os motivos... havia muito mais do que isso para se fazer naquela viagem.


CAPÍTULO 12

 

Mais do que tudo, Grier estava furiosa consigo mesma. Ao seguir em direção ao seu Audi, investindo através dos outros carros e ser provocada por um dedo ofensivo ou dois, tudo pareceu entrar em foco: onde estava, o que tinha feito antes no tribunal, quem ela estava tentando salvar.

Isaac tinha quebrado o braço do cara. Na frente dela e de centenas de pessoas. E lidou com isso com o mesmo grau de choque e pânico que alguém que desliga o telefone.

Como se fizesse isso todos os dias.

E, em seguida, ele aceitou dinheiro por isso.

Aproximando-se do seu sedã, ela tirou o chaveiro e desativou o alarme. E quando viu seu reflexo no vidro da porta do motorista, ela pensou em seu irmão.

Ela ouviu um tipo de zumbido selvagem que a lembrou da noite em que ele tinha morrido.

Grier foi a única a encontrar o corpo e seus esforços para ressuscitá-lo não fizeram diferença... pois ele já tinha morrido antes que ela iniciasse o processo. Mas ela continuou a pressionar seu peito e a fazer respiração boca a boca de qualquer maneira.

Os paramédicos tiveram que arrancá-la de cima do corpo dele. Gritando.

E o ponto-chave era: na morte, assim como na vida, ele não se preocupava com todos os esforços dela para salvá-lo. Ele havia sido paralisado pela sua dose final, com um olhar assombrado de um prazer extático e congelado em seu rosto pastoso, o dever do vício foi cumprido.

A imprudência assume uma variedade de formas diferentes, não é mesmo?

Ela sempre se orgulhou de ser a mais responsável dentre eles dois, aquela que se sobressaía na escola e trabalhava duro para chegar à frente e nunca fez nada que seus pais desaprovassem. É claro que ela nunca, jamais, experimentou drogas ilegais. Nem sequer uma vez.

E, mesmo assim, lá estava ela, colocando a si mesma e a sua carreira em risco para aproveitar a chance de aconselhar um total estranho e fazer a coisa certa. Se a polícia tivesse aparecido – ou aparecesse, ainda havia tempo para isso – ser presa como espectadora a faria ser expulsa da ordem dos advogados de Massachusetts mais rápido do que ela conseguisse dizer “Mas, senhor Juiz, eu estava lá por causa do meu cliente”. Ela já tinha investido 25 mil dólares, que dificilmente desestabilizaria sua conta... só que como esse dinheiro teria sido mais útil se tivesse sido investido em um programa de jovens de risco...?

Quando a cabeça dela começou a latejar, se lembrou de suas atitudes desde as nove da manhã com um olhar preciso. E, como pode imaginar, ela não viu alguém que fizesse muito bem ao mundo, mas a mulher fora de controle que foi...

Daniel apareceu do outro lado do carro, seu rosto fantasmagórico estava mortalmente sério.

Entre, Grier. Entre no carro e tranque as portas.

– O que? – ela disse. – Por que...?

Faça isso. Agora. Seu irmão morto pareceu focar o olhar no ar que havia atrás do ombro dela.

Que droga, Grier...

– Eu sei quem é você.

Ela aproximou os olhos. Oh, pelo amor de Deus, isso estava ficando cada vez melhor, não é? Aquele drogado estava de volta.

Virando-se para tentar afastá-lo de novo...

O homem agarrou os braços dela e, com um safanão que a deixou de boca aberta, empurrou seu rosto contra o carro. Enquanto ele a detinha com seu corpo, ela se lembrou que os homens eram, de fato, diferente das mulheres: eles eram muito mais fortes. Especialmente quando estavam alcoolizados e desesperados.

– Você é irmã do Danny. – A respiração em seu pescoço estava quente e cheirava à carniça. – Você aparecia algumas vezes no lugar dele. O que aconteceu com ele?

– Ele morreu – ela resmungou.

– Oh... Deus. Sinto muito... – O viciado pareceu realmente chateado. De um jeito Tim Burton distorcido do submundo, mas parecia. – Ouça, pode me arrumar algum dinheiro? Uma garota rica como você... deve ter algum dinheiro na carteira. Mas só se conseguir ficar calma.

Uh-huh, certo. Ela sabia que daria a ele o que pediu quer gostasse, quer não – o que era, apesar da maneira como a abordou, um assalto bem sucedido.

Mãos ásperas a vasculharam e arrancaram a bolsa de seu ombro. Ela pensou em gritar, mas o peso que havia em suas costelas fazia com que meras respirações superficiais se tornassem impossíveis e, além disso, ela havia estacionado em um local escuro. Quem iria ouvi-la?

Quando seus olhos seguiram os veículos que partiam e as caminhonetes que estavam tão perto e tão longe ao mesmo tempo, ela teve uma lembrança absurda da cena de abertura do filme Tubarão – em que a mulher via as luzes das casas na praia ao ser arrastada pelo mar.

– Não vou machucá-la... só preciso do dinheiro.

Com o corpo que ainda a forçava contra o carro, ele despejou o conteúdo de sua bolsa sobre o chão lamacento, seu telefone celular, carteira, chave, tudo derramava em queda livre. E, então, ele jogou sua bolsa Birkin de dezesseis mil dólares sobre o capô do Audi.

Filho da mãe estúpido. Ele poderia ter conseguido mais com essa bolsa no eBay do que com qualquer dinheiro que encontrasse na carteira dela.

Metade de sua mente estava em pânico, a outra metade estava completamente calma e ela se fixou nessa última, pois era a filha de seu pai: aquele viciado apavorado sairia de cima dela em algum momento, pois ele ia querer suas joias e, quando fizesse isso, ela teria uma boa oportunidade de dar uma joelhada onde realmente importava.

Mesmo que tivesse de fingir que não estava prestes a vomitar em seu tênis...

O peso esmagador contra ela não foi exatamente removido, foi vaporizado, como se nunca tivesse existido: em um momento ela não conseguiu respirar. Em seguida, tinha todo o oxigênio do mundo.

Quando ela foi envolvida em um tremendo golpe de ar e segurou-se no teto do carro para se manter em pé, grunhidos soaram perto dela.

Esforçando-se para se virar, ela teve que piscar duas vezes para entender o que estava vendo – mas não houve espaço para qualquer momento do tipo “Espere, talvez eu não esteja enxergando direito”: Isaac surgiu do nada, jogou seu agressor no chão e estava dando um tratamento de canal da maneira mais difícil.

Ou seja, com seu punho.

– Isaac... – Sua voz falhou e ela tossiu. – Isaac! Pare com isso!

A voz do investigador Louie ecoou em sua mente: Esse filho da mãe pode ser um assassino.

– Isaac.

Ela estava esperando pelo momento que tivesse que saltar sobre ele ou pedir ajuda para deter o espancamento, mas logo que começou, acabou. Isaac saiu da rotina Rocky Balboa por conta própria, lançando o homem de barriga para baixo e puxando seus braços para trás até imobilizá-lo.

Nada foi quebrado dessa vez.

E Isaac nem sequer estava respirando com dificuldade quando olhou para ela.

– Você está bem?

Seus olhos eram penetrantes, sua expressão era calma e mortal, sua voz era estável e educada. Era óbvio que ele estava no total controle de si mesmo e da situação... e ocorreu-lhe que, possivelmente, ele a tivesse salvado de algo terrível. Quando se trata de viciados, você nunca sabe o que eles podem fazer.

– Ele te machucou? – Isaac disse. – Você está bem?

– Não – ela disse com dificuldade, sem saber qual pergunta estava respondendo.

Com uma grande força bruta, Isaac pegou o homem, o levantou e deu-lhe um safanão e não houve mais argumento, nem mesmo um comentário. O agressor dela se afastou como se estivesse bem consciente de que tinha se livrado por muito pouco da maior surra de sua vida.

E, em seguida, Isaac pegou as coisas dela do chão. Uma por uma, ele reuniu tudo que estava em sua bolsa, limpando a lama em sua própria camiseta, dispondo tudo em cima do capô do carro.

Caída contra a porta do motorista, ela estava cativada pela maneira como estava sendo cuidadoso, com as mãos ensanguentadas e gentis.

Daniel apareceu bem ao lado dele, aparentemente impressionado pela forma como ele tratava as coisas dela.

Deixe que ele te leve até em casa, Grier. Você não está em condições de dirigir – disse Danny.

– Ele não ofereceu – ela balbuciou.

– Ofereceu o que? – Isaac disse, lançando um olhar a ela.

Quando ela afastou as palavras com um gesto, ele pegou sua bolsa e colocou tudo dentro dela antes de entregá-la.

– Gostaria de levá-la até sua casa. Se permitir.

Bingo, seu irmão disse.

Ela abriu a boca para mandar Daniel ficar quieto, mas não tinha energia para continuar com isso.

– Senhorita Childe? – Com o sotaque sulista de seu cliente, aquilo soou como uma palavra maior, senhorita Chiiilde.

Deus, o que fazer? E óbvio que “claro que não” era a melhor resposta – a despeito da opinião de Daniel.

Confie em mim – disse Daniel.

A voz de Isaac se derramou.

– Apenas permita que eu a leve em segurança para casa. Por favor.

Por alguma razão desconhecida, os seus instintos estavam dizendo para confiar naquele estranho com um passado ruim e um presente como criminoso que estava foragido. Ou era apenas um caso de seu complexo de salvadora impondo um melhor juízo dele?

Ou... foi o olhar no rosto do fantasma? Era como se Daniel tivesse visto algo que não conseguia enxergar naquela colisão entre ela e um perigoso estranho com um leve sotaque sulista.

– Não preciso de um motorista. Posso fazer isso sozinha. – Ela pegou a bolsa dele. – Mas eu preciso, sim, que fique e enfrente suas acusações.

Isaac deu uma olhada ao redor da área.

– Que tal conversarmos na sua casa?

– Eu tenho um spray de pimenta, entendeu?

– Que bom.

– E uma arma de choque. – Que resultou em tudo aquilo que aconteceu há pouco.

Bom Deus, ela não conseguia acreditar que estava sequer pensando em ir para casa com Isaac. O viciado idiota era um amador... e seu cliente parecia, com certeza, com um profissional.

Seus olhos cinza e pálidos seguiram em direção aos dela.

– Eu não vou te machucar. Juro.

Com um palavrão, ela abriu a porta do carro.

– Eu dirijo.

A questão era: onde diabos ela estava indo? E com quem?

Jim observou o Audi se afastar, a fumaça se erguia atrás dos dois tubos de exaustão. Ele estava completamente despreocupado a respeito de onde aquele cara estava indo – colocou transmissores na camiseta de Isaac e na bolsa com o dinheiro.

– Você poderia ter me deixado fazer um feitiço de localização – Eddie murmurou.

– Estou acostumado a trabalhar com a droga do GPS por causa do meu antigo trabalho. – E quem diria que ele pudesse sofrer de nostalgia por conta daquela tecnologia?

Por falar em informação, era tempo de alguns esclarecimentos: embora ele pudesse entender como e por que Isaac seria o próximo da lista das sete almas, uma conversa frente a frente com seu chefe britânico era a única maneira de ter certeza.

Muita pressão sairia de cima dele se salvar a pele de Isaac tivesse um propósito maior.

Ele girou a cabeça em direção a Eddie.

– Diga como volto a falar com os quatro rapazes. Preciso morrer de novo?

Se precisasse, ele tinha uma arma e já sabia como era a sensação de morrer.

– Nem perca tempo – Adrian estalou os dedos. – Eles não vão dizer nada. Não podem.

Mas que droga é essa?

– Pensei que trabalhava para eles.

– Você trabalha para os dois lados e eles darão toda a ajuda que puderem.

Jim olhou bem para os dois anjos: os dois estavam com uma expressão tensa de alguém que tinha um cadarço de sapatos amarrando as bolas.

– Ajuda? – ele disse. – Onde está minha maldita ajuda?

– Eles nos deram para te ajudar, idiota – Adrian vociferou. – E é tudo que podem fazer. Eu mesmo já fui até lá e perguntei quem era o próximo. Pensei que isso o ajudaria, você é um bastardo ingrato.

Jim ergueu as sobrancelhas no estilo Sr. Pensativo. A primeira vez que saiu com Adrian, o cara o serviu em uma bandeja prateada para o inimigo, ao ponto de acabar transando com Devina no estacionamento do clube. Na caminhonete dele. Sem saber que era um demônio.

– Os tempos mudaram desde aquele dia – disse Ad rispidamente – Você sabe que sim.

Em um piscar de olhos, Jim se lembrou como o cara estava parecendo há um ou dois dias depois que Devina tinha acabado de usar e abusar dele de várias maneiras. Ele deu a si mesmo para que Jim tivesse alguma chance de vencer o primeiro round.

– Sim, mudaram. – Jim ofereceu um cumprimento com a mão fechada em um sinal de “Desculpe por eu ter insinuado que você é um idiota de merda”.

Quando Ad deu um pequeno golpe em sua mão, Eddie disse: – Tecnicamente somos contra as regras.

Jim deu de ombros.

– Se isso me ajudar a ganhar, eu aceito. Regras são relativas.

Essa foi a razão pela qual ele tinha sido escolhido, não foi? Ele não era um maldito escoteiro.

A cabeça de Jim girou olhando ao redor ao ouvir um chiado de metal contra metal. O octógono portátil tinha sido desmontando e estava sendo empurrado através da porta por quatro rapazes que, em seguida, o colocaram em uma van. Na próxima viagem, eles carregariam os oito pesos de concreto e os polos, depois disso, apenas Eddie, Adrian e ele permaneceram ali.

O que era uma metáfora da situação em que se encontrava, não era?

Certo. Era assim que se jogava? Legal. Ele estava acostumado a confiar em si mesmo e nos seus instintos no campo de batalha... e tudo o direcionava para Isaac.

A questão era: onde Devina estava? Supondo que estava atrás de Isaac, ela estaria procurando por uma maneira de se infiltrar dentro dele para que sua natureza parasita o possuísse e para que ela pudesse, finalmente, levá-lo para o inferno depois que o matasse.

Jim voltou a se concentrar nos seus anjos.

– Se Devina estiver possuindo alguém, há alguma maneira de saber? Alguma marca? Pontos de referência?

Pelo menos ele poderia conseguir uma pista sobre ela.

– Algumas vezes. – Eddie disse. – Mas ela pode limpar suas impressões digitais, digamos assim, e agora que ela sabe que eu e Ad estamos com você, ela vai tomar um cuidado extra. No entanto, existem algumas almas limpas as quais ela nunca vai tocar e que brilham.

– Brilham? Você quer dizer como... – Droga, aquela advogada loira que levou Isaac para casa com ela tinha uma luz em volta do seu corpo. E foi por isso que quando Jim a viu, ele olhou para ela como se tivesse um...

– Como uma aura?

– Exatamente.

Bem, pelo menos havia uma coisa a seu favor. Ele concluiu que tinha acabado de entender as coisas. Constatou o que ele era... e graças a Deus por isso.

Jim pegou o receptor de GPS e localizou os dois pontinhos piscando que correspondiam a Isaac. Cedo ou tarde, se Devina estivesse transando com o cara, ela faria uma aparição de uma maneira ou de outra e eles estariam lá quando ela fizesse.

– Existe alguma coisa como feitiços de proteção? – ele perguntou. – Alguma coisa que eu possa colocar em torno de Isaac para mantê-lo em segurança?

– Podemos trabalhar em algo – Eddie disse com um sorrisinho maldoso. – É hora de começar a ensinar essas coisas a você.

Tem toda razão, pensou Jim.

Fechando os olhos, ele desfraldou suas asas, sentiu seu grande peso em sua coluna e ombros ao se tornarem visíveis.

– Eles estão indo para o centro da cidade. Vamos lá...

– Espere – Eddie disse, suas asas surgindo. – Precisamos ir ao hotel e pegar alguns suprimentos. Estou concluindo que você não quer que entremos na casa, certo?

– Enquanto Devina não aparecer, vou ficar do lado de fora.

– Não vai demorar muito.

– É bom mesmo.

Ao dar alguns passos para obter impulso, sentiu a ironia de tudo como uma rajada sob seu corpo: ele nunca acreditou que anjos existiam ou que a batalha eterna entre o bem e o mal pudesse ser real, quanto mais uma em que ele estaria.

Então, mais uma vez, quando você pesa quase cem quilos de puro músculo e é capaz de se erguer do chão com uma rede de penas metafísicas... a realidade louca em que se encontra tem uma credibilidade imensa.

Ele não se perdoaria se Devina colocasse suas garras em Isaac – sob qualquer forma que pudesse assumir. Isaac era seu garoto e a ideia daquele homem caindo nas mãos do inimigo era inaceitável, especialmente se acontecesse daquele demônio usar um rosto familiar.

O qual, à propósito, tinha um olho vendado.


CAPÍTULO 13

 

Isaac esteve nas proximidades de Boston apenas duas vezes e nas duas vezes tinha sido apenas de passagem em direção às suas viagens ao exterior – o tipo de coisa que acontecia quando tudo o que fazia era atravessar uma pista na Base Aérea de Otis até Cape Cod.

Dito isso, quando Grier fez uma curva à esquerda em uma rua cujo nome era algo como Charles, ele não precisou de um guia turístico da cidade para saber que estavam na parte mais nobre em se tratando de mercado imobiliário. As casas que percorriam os dois lados da colina eram todas feitas de um tijolo imaculado com persianas e portas pretas e brilhantes. Através das janelas limpas, ele podia ver os interiores onde cada centímetro era mobiliado com antiguidades e havia brasões e moldes de coroa suficientes para esmagar a cabeça de um rei.

Era evidente que estava no habitat natural dos Yankees sangue azul.

Grier virou à esquerda em uma pequena praça que era demarcada por uma cerca de ferro forjado e faixas de tijolos dos quatro lados. No meio, seu pequeno parque tinha graciosas árvores com botões minúsculos surgindo e as calçadas dos arredores eram o melhor do havia naquele ótimo bairro.

Não era bem uma surpresa.

Depois que ela estacionou seu Audi paralelo à cerca, os dois saíram. Ela não tinha falado muito na viagem e nem ele. Mas ele não era muito falante e ela tinha um fugitivo como passageiro. Uma situação onde conversinhas sobre o clima não se encaixava muito bem.

A casa que ela indicou como sendo dela era de esquina e tinha a frente abobadada com degraus de mármore branco que iam até sua porta da frente preta. Havia vasos arredondados pretos do tamanho de cachorros da raça dogue alemão colocados do outro lado da entrada e as trancas eram tão grandes quanto a cabeça de um deles. Uma luz brilhava no terceiro andar, várias no exterior. E ao inspecionar a área, parecia que não havia nada fora do lugar... parecia que não havia carros de polícia à paisana circulando, nem sons de que algo estava errado, ninguém suspeito à espreita.

Enquanto andavam sobre os tijolos irregulares da rua, ele quis alcançá-la e apoiá-la, dada a situação do salto alto que usava, mas ele não ousou. Em primeiro lugar, ela provavelmente ainda queria bater nele... e, em segundo, estava com as mãos sobre as duas armas dentro de seu blusão, só para garantir.

Ele sempre foi cuidadoso consigo mesmo. Tendo que escoltá-la? Isso elevava a vigilância a um nível totalmente novo.

Além disso, Grier estava lidando muito bem com a caminhada até a porta da frente, à despeito do fato de usar saltos altos e finos e ter sido atacada por um retardado drogado.Que pena não terem se encontrado em um mundo diferente. Porque senão, ele iria...

Sim, certo. Talvez chamá-la para sair?

Seja como for. Mesmo se ele tivesse respeitado a lei e não tivesse que seguir a rotina de “eu não sou um assassino”, eles ainda estariam de lados opostos daquela ilusão: ele era um completo garoto da fazenda e ela era completamente fabulosa.

E ele realmente tinha que se conter ao pensar mais de uma vez no quanto ela era atraente.

Seu alarme de segurança disparou no momento em que ela abriu caminho e ele se sentiu feliz, embora não aprovasse que ela deixasse uma gentalha como ele entrar na casa. E como isso foi acontecer, afinal?

Quando ela digitou seu código no sistema de alarme, ele olhou para as solas de suas botas de combate, que estavam cheias de lama e pedaços de grama. Abaixando-se, ele as desamarrou, as escorregou para fora dos pés e as deixou do lado de fora.

Seu piso de mármore branco e preto estava quente debaixo de suas meias...

Olhando para cima, ele a encontrou olhando para seus pés com uma expressão curiosa em sua bela face.

– Eu não queria deixar pegadas – ele murmurou, fechando e trancando a porta.

Depois que tirou o blusão, pegou a sacola de supermercado com as economias de sua vida e eles simplesmente ficaram ali parados: ela em seu casaco preto bem desenhado e sua bolsa suja que tinha uma alça solta; ele em sua camiseta regata como uma quantidade de dinheiro sujo em sua mão ensanguentada e duas armas que ela ignorava em seus bolsos.

– Quando foi a última vez que comeu? – ela disse suavemente.

– Não estou com fome. Mas obrigado, senhora. – Ele olhou em volta, observando uma sala com o teto pintado com um vermelho forte. Sobre a lareira de mármore régia havia a pintura a óleo de um homem sentado com uma postura rígida em uma cadeira com um par de óculos antiquados empoleirados em seu nariz.

Era tão tranquilo ali, ele pensou. E não apenas por não haver qualquer som.

Sereno. O lugar era... sereno.

– Vou fazer uma omelete para você, então – ela disse, apoiando a bolsa e começando a movimentar os ombros para tirar o casaco.

Ele se aproximou para ajudá-la, mas ela recuou.

– Faço isso sozinha. Obrigada.

O vestido que estava por baixo... Meu Deus, aquele vestido. Até onde ele sabia, algo simples e preto nunca pareceu tão sensual, mas, em seguida, ele observou que havia mais nela que roupas bem desenhadas ou o tecido.

Aquelas pernas. Que droga, aquelas pernas com meias finas pretas...

Isaac agarrou as costas do seu homem pervertido interior e o colocou de volta no lugar com o lembrete de que seria muito difícil que alguém como ela permitisse sequer que ele lavasse seu carro – quanto mais permitir que ele a levasse para a cama. Além disso, ele teria alguma ideia do que fazer com uma mulher como ela? Claro, ele era bom nisso – já haviam implorado a ele para que fizesse de novo o suficiente para que tivesse confiança nessa área.

Mas uma dama como ela merecia ser saboreada.

Que maldito ele era! Teve a impressão que estava lambendo os lábios.

– A cozinha é aos fundos – foi tudo o que ela disse ao pegar a bolsa e seguir.

Ele a seguiu pelo corredor, tomando nota das salas, janelas e portas, observando rotas de fuga e entradas. Era o que ele fazia em qualquer lugar por que passava, seus anos de treinamento com certeza salvaram sua pele. Mas agora era mais que isso. Isaac estava procurando por pistas sobre ela.

E era estranho... a serenidade foi mantida, o que o surpreendeu. Antiquado e caro geralmente significava tensão. Contudo, aqui, ele respirava fundo e com facilidade – mesmo que isso não fizesse sentido.

Em contraste com o resto da casa, a cozinha era toda branca e de aço inox e, enquanto ela começava a cozinhar pegando as tigelas, os ovos, e o queijo, ele colocou seu dinheiro embaixo do balcão e mal podia esperar para sair daquele espaço: ao longo do local, havia uma vasta parede de vidro.

O que significava que qualquer um com um par de olhos poderia dar uma boa olhada neles.

– O que tem nos fundos? – ele perguntou casualmente.

– Meu jardim.

– É murado?

Com os braços cheios, ela se aproximou do fogão na ilha de granito.

– Senso de segurança?

– Sim, senhora.

Ela se aproximou, acendeu a luz externa e diminuiu a interna – o que lhe deu uma visão perfeita dos fundos sem qualquer dificuldade. Deus, ela era esperta.

E seu jardim era cercado por um muro de tijolos de três metros que, como pode imaginar, ele aprovou totalmente.

– Satisfeito? – ela disse.

No escuro, a voz dela assumiu um tom rouco que o fez desejar conduzir seu corpo através do cômodo e apoiá-la contra algo para que ele pudesse descobrir o que havia embaixo daquele vestido preto.

Cara, aquela pergunta não era a única que ela precisava fazer a ele naquela noite.

– Sim, senhora – ele murmurou.

Quando as luzes se acenderam novamente, havia um leve toque de vermelho em suas bochechas – o tipo de coisa que ele não teria notado se não tivesse tomado por sua missão olhar para ela o máximo possível. Mas talvez aquela cor era apenas por estar tensa devido a tudo que aconteceu com ela naquela noite.

Sem dúvida era isso.

E o fato de ter notado aquilo fez com que ficasse menos impressionado com a espécie masculina: afinal, de alguma forma, mesmo em meio a um grande caos, mesmo sendo extremamente inconveniente, os homens ainda conseguiam ficar excitados com uma mulher.

– Sente-se... – ela disse, apontando um banco sob o tampão da ilha de mármore com o batedor de ovos de metal – ...antes que caia. E nem tente vir com a conversa de que está bem, certo?

Cara... estava completamente excitado com essa mulher.

Completamente excitado.

– Oi? – ela disse. – Você estava prestes a se sentar ali, lembra?

– Entendido.

Enquanto ela voltava ao fogão e começava a quebrar os ovos, ele fez o que ela disse para que fizesse.

Para ficar com os olhos longe dela, ele olhou em direção à sua bolsa, que ela tinha deixado ao lado dele. Que vergonha uma coisa tão boa e cara ter sido revirada. Havia lama seca em todo o couro e a alça tinha sido massacrada.

Idiota estúpido.

Erguendo-se, ele foi até a pia, puxou uma folha de papel toalha e umedeceu a coisa. Em seguida, reinstalou-se no banco e começou a trabalhar, tentando tirar a lama.

Quando ele olhou para cima, ela estava olhando para ele novamente e ele parou o que estava fazendo para segurar uma mão à outra.

– Eu não vou roubá-la.

– Não achei que fosse – ela disse naquela voz suave.

– Sinto muito mesmo por sua bolsa. Acho que está destruída.

– Tenho outras. E mesmo se não tivesse, é apenas um objeto.

– Uma coisa cara. – E, nesse tom, ele se inclinou sobre a ilha e empurrou seu dinheiro em direção a ela. – Preciso que aceite isso.

– E eu preciso que você não fuja. – Ela quebrou outro ovo na borda da tigela e o dividiu apenas com uma das mãos. – Eu preciso que você faça o que concordou em fazer quando consegui sua fiança.

Isaac baixou os olhos e retomou sua limpeza malsucedida.

Ela deixou escapar um exalar de respiração que era apenas uma sílaba ou duas de distância de ser um palavrão.

– Estou esperando. Que me responda.

– Não percebi que era uma pergunta, senhora.

– Certo. Você vai, por favor, ficar aqui e seguir o sistema?

Isaac se levantou e voltou para a pia. Ao pegar uma folha de papel limpa, a verdade saiu de sua boca.

– Minha vida não me pertence.

– De quem está fugindo? – ela sussurrou.

Talvez ela tenha diminuído o volume, pois a advogada que havia nela teve uma reação involuntária de discrição. Ou talvez ela estivesse certa: os tipos que estavam atrás dele poderiam ouvir e, às vezes, até mesmo ver através de paredes sólidas. As de vidro como as da cozinha? Fácil, fácil.

– Isaac?

Não havia resposta para dar a ela, então, ele balançou a cabeça e voltou a limpar a lama de sua bolsa... mesmo sabendo que, provavelmente, ela iria jogar a coisa fora pela manhã.

– Pode confiar em mim, Isaac.

Sua resposta levou um bom tempo para chegar.

– Não é com você que estou preocupado.

Grier ficou do outro lado da ilha, os ovos espalhados e escorrendo no granito, uma tigela vermelha cheia de gemas amarelas e claras transparentes estava pronta para ser batida.

Seu cliente era absolutamente enorme empoleirado em seu banquinho, suas mãos machucadas cuidando de sua bolsa Birkin. E, mesmo assim, apesar de seu tamanho e do cuidado que demonstrava com sua bolsa, ela queria golpear sua cabeça contra algo duro. As soluções eram tão claras para ela: aja conforme dita o sistema, limpe sua ficha com qualquer agência militar que tenha se envolvido, lide com as repercussões, deixe o tempo passar... comece de novo.

Seja lá o que ele tenha feito, podia ser corrigido.

A sociedade poderia perdoar.

As pessoas podiam seguir em frente.

A menos, é claro, que fossem idiotas teimosos determinados a desrespeitar as regras e seguir sozinhos.

Ela pegou o último ovo e bateu contra a borda da tigela, quebrando a casca.

– Ah, droga.

Os olhos de Isaac se levantaram.

– Tudo bem. Eu não ligo para um pouco de casca.

– Não está bem. Nada disso está bem. – Ela se inclinou e pegou os pedacinhos brancos com a unha.

Quando as coisas pareciam aceitáveis na tigela, ela se ouviu dizer: – Gostaria de tomar um banho antes de comer?

– Não senhora – foi sua reação tranquila e sem surpresa.

– Tenho roupas limpas que pode usar – isso fez com que as sobrancelhas dele se erguessem um pouco, mesmo sem olhar para ela. – São do meu irmão. Ele costumava ficar aqui comigo algumas vezes... não são exatamente do seu tamanho, claro.

– Estou bem. Mas obrigado, senhora.

– Você pode deixar de lado a besteira da “senhora”. Acabamos com isso no minuto em que você entrou no meu carro.

Quando a sobrancelha dele se ergueu novamente, ela pegou um pedaço de queijo cheddar e começou a ralar. Com força.

– Sabe... você me lembra dele. Meu irmão.

– Como assim?

– Eu também quero salvá-lo do que suas escolhas estão fazendo com sua vida.

Isaac balançou a cabeça.

– Não é uma boa ideia.

Era verdade. Deus era testemunha de que ela já tinha falhado com isso uma vez.

Ela ralou o queijo, colocou a coisa de lado e cortou um pouco de bacon canadense. Como os dois trabalhavam em suas tarefas, não levou muito tempo para que o silêncio tomasse conta dela..., mas o ponto chave era: desistir não era sua natureza.

O que sugeria que, se ela tivesse nascido um carro, já estaria no derby de demolição onde os carros se debatem até a destruição total.

– Olha, eu posso tentar ajudá-lo com mais do que apenas as acusações que existem contra você. Se você...

– Tirei a maior parte da sujeira. – Ele ergueu a bolsa enquanto encontrava os olhos dela. – Mas não há nada que eu possa fazer com a alça.

– Para onde você está indo?

Quando ele não respondeu, ela cortou um pedaço de manteiga na panela e acendeu o fogo.

– Bem, você pode passar a noite aqui se quiser descansar. Meu pai fez desse lugar tão seguro que nem um rato conseguiria entrar sem acionar o sistema.

– O sistema de alarme é bom. Mas não tão bom assim.

– Isso é apenas um sistema simulado. – Essa informação fez com que as duas sobrancelhas dele se erguessem e ela balançou a cabeça. – Meu pai era militar. Na verdade, era do exército. Quando ele saiu, foi para a escola de direito e, então... bem, ele se mantinha atualizado, digamos assim. Atualizado e sempre me protegendo.

– Ele não aprovaria eu estar aqui.

– Você foi um cavalheiro até agora e, não importa o que vista ou de onde venha, isso era o que importava para ele. E, a propósito, para mim também...

– Vou deixar esse dinheiro para trás quando for embora.

Erguendo a panela da chama, ela inclinou a face plana da coisa, levando a manteiga a fazer um pequeno passeio até que acabou se desfazendo.

– E eu não posso aceitar. Deve saber disso. Isso faria de mim sua cúmplice. – Ela achou que tinha ouvido um palavrão baixinho, mas talvez tenha sido apenas o soltar de uma respiração. – Além do mais, posso apostar que o dinheiro veio da luta. Ou foi de drogas?

– Não sou traficante.

– O que significa que veio da primeira opção. Ainda é ilegal. A propósito, verifiquei seus antecedentes. – Ela mexeu mais uma vez os ovos e derramou mais da metade deles na panela, um shhh silencioso se ergueu. – Não há nada além de um artigo de jornal de cinco anos atrás sobre sua morte. Vem com uma foto sua, então, nem se incomode em negar isso.

Ele caiu em um silêncio profundo e ela sabia que seus olhos a encaravam de maneira penetrante.

Por um momento, ela soube exatamente por que o tinha recebido em sua casa. Mas, em seguida, por alguma razão, ela pensou nele tirando sua botas de combate e as deixando do lado de fora da porta da frente.

Hora de cair na real, ela pensou.

– Então, você vai me dizer para qual área do governo trabalha ou devo arriscar um palpite?

– Não sou militar.

– Mesmo? Então, devo acreditar que você luta daquela maneira e que protege seu apartamento como protege e está em uma fuga rápida para fora da cidade só porque é algum tipo de vândalo de rua comum ou um fiscal de baixo nível? Não caio nessa. Aliás, vê-lo naquele ringue foi como tive certeza – aquilo e o fato de ter seu próprio cão ao lado quando eu fui atacada. Você estava totalmente no controle de si e da situação com aquele drogado, não vacilou em nada, era o tipo leão de chácara emocional salvando o dia. Você foi um profissional, na verdade, é. Não é mesmo?

Ela não precisava que dissesse uma palavra, pois sabia que estava certa. E, mesmo assim, quando não havia qualquer comentário, ela o encarou, meio que esperando que ele se dissolvesse em uma rajada de ar.

Mas Isaac Rothe, ou seja lá qual era o nome dele, permaneceu sentado na ilha da cozinha dela.

– Como gosta de seus ovos? – ela disse. – Duros ou moles?

– Duros – ele respondeu.

– Por que não estou surpresa?


CAPÍTULO 14

 

“Preso em flagrante”, Isaac pensou que era essa a expressão. Ao encontrar os olhos de sua defensora pública, hospedeira e cozinheira de pratos rápidos, ficou claro que ela sabia muitas coisas sobre ele.

E não é que isso fez com que se sentisse despido?

– Acho que deveria renunciar o meu caso – disse ele severamente. – Na verdade, hoje à noite.

Ela colocou o queijo e o bacon canadense sobre o círculo de uma omelete que borbulhava.

– Eu não desisto. Ao contrário de você.

Certo. Isso o irritou.

– Eu também não desisto.

– Mesmo? Como você chama fugir de suas responsabilidades?

Antes que ele percebesse, se debruçou sobre a bancada e se aproximou dela. Ao ver que os olhos dela queimavam, ele disse severamente: – Eu chamo de sobrevivência.

Para seu crédito, ou sua estupidez, ela não desistiu.

– Fale comigo. Pelo amor de Deus, deixe-me ajudá-lo. Meu pai tem contatos. Do tipo que se aprofundam e se infiltram nas sombras do governo. Há coisas que ele pode fazer para ajudá-lo.

Isaac permaneceu muito calmo por fora. Dentro, porém, ele estava confuso. Quem, diabos, era o pai dela? Childe... Childe... O nome não dizia nada ao seu banco de dados interno.

– Isaac – ela disse. – Por favor...

– Você me libertou, então, eu posso continuar. Isso me ajudou. Agora, você tem que me deixar ir. Deixe-me ir e esqueça que me conheceu. Se seu pai é o tipo de homem que diz que é, você sabe muito bem que há ramos do serviço militar onde “desertor” é uma sentença de morte.

– Pensei que não era militar.

Ele deixou aquela mentira onde tinha colocado... em cima da pilha de porcarias que trouxe à porta dela.

No silêncio, acrescentou um pouco de tempero, o saleiro não fez qualquer som, já a pimenta crepitou um pouco. Então, ela dobrou a omelete ao meio e deixou fora do fogo por alguns instantes.

Dois minutos depois, o prato que lhe foi apresentado era branco e quadrado e o garfo era de prata e tinha arabescos sobre ele.

– Sei que você é educado. Mas não espere por mim. É melhor quente.

Ele não queria comer antes dela, mas considerando que ele a desafiou em tudo naquela noite, pensou que agora era uma oportunidade para se harmonizar um pouco. Indo até a pia, lavou as mãos com água e sabão; em seguida, sentou-se e comeu cada pedaço.

Estava ótimo.

– Passe a noite aqui – disse ela, depois que fez seu próprio prato e começou a comer enquanto permanecia no balcão. – Passe a noite aqui e eu renuncio ao seu caso, mas não faço isso até que tome café da manhã comigo amanhã de manhã. E você vai levar seu dinheiro quando sair. Não vou fazer parte disso. Se você se for, vai ter que levar essa dívida em sua consciência.

Uma onda de cansaço percorreu o corpo dele, sugando-o na banqueta. Dentre seus muitos pecados, dever dinheiro a ela parecia curiosamente um fardo insuportável, muito superior ao número de corpos que tinha enviado aos seus túmulos. Mas isso era o que as pessoas decentes sempre faziam com ele... elas faziam com que ele visse claramente quem e o que ele era.

Assim que estava se preparando para argumentar sobre a hospedagem, ela o interrompeu.

– Olha, se você está aqui, sei que está seguro. Sei que vai ter mais uma ou duas refeições e que vai embora mais forte com isso. Agora, você precisa de um cuidado médico em seu rosto, outra omelete e uma cama onde possa descansar. Como eu disse, essa casa é bem mais segura do que os padrões civis e há alguns truques dentro dela, então, você não precisa se preocupar em fazer uma pausa. Além disso, por causa do meu pai, ninguém que tenha laços com o governo vai me machucar.

Childe... Childe... Não, nada ainda.

Bom, ele era um soldado raso nas operações extraoficiais que se preocupava com duas coisas: conseguir seu objetivo e sair vivo. Ele não era o tipo que conhecia a hierarquia militar.

Contudo, Jim Heron saberia. E o cara tinha deixado seu número...

– Então, temos um acordo? – ela perguntou.

– Você vai renunciar? – ele rebateu rispidamente.

– Sim. Mas vou ter que contar a eles tudo que sei sobre você quando o fizer. E antes que pergunte, uma vez que você não confirmou ou negou uma conexão com o governo... Vou simplesmente esquecer que conversamos sobre isso.

Ele limpou a boca com um guardanapo e quis amaldiçoar sua falta de opções: cara, sua determinação estava no ângulo do seu queixo... era evidente que tinha que ser do jeito dela ou de jeito nenhum.

– Mostre-me seu sistema de segurança. – Quando seus ombros relaxaram visivelmente, ela apoiou o garfo, mas não tinha comido nada. – Não, termine de comer primeiro.

Enquanto ela comia, ele se levantou e andou ao redor, memorizando tudo desde os quadros nas paredes até as fotos na área da cozinha onde havia sofás e uma mesa. Finalmente, ele parou em frente a todo aquele vidro.

– Deixe-me mostrar a você.

Ao som daquela voz, seus olhos se voltaram para o reflexo dela atrás dele com aquele vestido preto, um fantasma de uma bela mulher...

No silêncio tranquilo da casa, com sua barriga cheia de comida que ela havia preparado para ele e com seus olhos embevecidos com a visão dela... as coisas saíram do complicado para se tornarem completamente caóticas.

Ele a queria. Com uma ânsia que colocaria um maldito vínculo entre eles.

– Isaac?

A voz dela... aquele vestido... aquelas pernas...

– Eu preciso ir – ele disse de maneira severa. Na verdade, ele precisava entrar... dentro dela. Mas aquilo não ia fazer parte da situação. Mesmo que ele tivesse de cortar seu membro e queimá-lo naquele adorável jardim que ela tinha.

– Então, eu não vou renunciar seu caso.

Isaac se virou e não ficou surpreso ao ver que ela não recuou ou cedeu um centímetro.

Antes que ele abrisse a boca, ela levantou a palma da mão para detê-lo antes que começasse.

– Não importa que eu não o conheça e que não deva nada a você. Então, pode parar agora com esse argumento. Você e eu vamos checar meu sistema de segurança e, em seguida, você vai dormir no meu quarto de hóspedes e ir embora de manhã...

– Eu poderia matá-la. Bem aqui. E agora.

Aquilo a calou.

Quando ela levantou as pontas dos dedos até seu pesado colar de ouro, como se estivesse imaginando as mãos dele em volta de sua garganta, ele caminhou até ela.

E, desta vez, ela recuou... até o balcão onde seu prato vazio a deteve.

Isaac continuou a se aproximar até que esticou os braços nas laterais dela, fechando as mãos no granito, aprisionando-a de fato. Olhando bem dentro dos olhos azuis que ela tinha, ele estava desesperado para assustá-la de alguma maneira.

– Não sou o tipo de homem com quem está acostumada a lidar.

– Você não vai me machucar.

– Você está tremendo e tem uma enorme tensão no seu pescoço agora. Então, diga-me, do que acha que sou capaz.

Quando ela engoliu em seco, ele percebeu que aquela chamada para a realidade estava atrasada... só que ele se sentia um bandido em um show de agressão.

– Sei que está no espírito de salvadora. Mas não sou o tipo de caridade que vai alimentar sua alma. Acredite em mim.

O zumbido de uma energia começou a vibrar entre eles, as moléculas de ar no espaço entre seus corpos e seus rostos começaram a se agitar.

Ele se inclinou, cada vez mais próximo.

– Sou mais o tipo que comeria você viva.

A respiração dela exalou com ímpeto e ele sentiu aquilo percorrer a pele de seu pescoço como um beliscão.

Então, ela o acertou em cheio.

– Faça isso, então – ela desafiou.

Isaac franziu a testa e recuou um pouco.

Seus olhos ardiam, uma raiva súbita permeou seu belo rosto com uma paixão que o chocou e o excitou ao mesmo tempo.

– Faça isso – ela resmungou, agarrando um de seus braços.

Ela ergueu uma das mãos dele e colocou em sua própria garganta.

– Vá em frente. Faça isso. Ou só está tentando me assustar?

Ele tirou seu pulso das garras dela.

– Você está fora de si.

– É isso mesmo, não é? – Sua raiva não foi ativada novamente. Mesmo. De verdade.

– Você quer me intimidar para que eu fique assustada e te dê um descanso. Bem, boa sorte com isso. Pois a menos que esteja preparado para seguir com a ameaça, eu não vou recuar e não tenho medo de você.

Os pulmões dele começaram a queimar... e mesmo sendo muito mais inteligente da parte dele sair e usar uma das portas, acabou colocando a mão direita sobre o granito onde estava antes... então, ela ficou presa mais uma vez entre seus braços.

Ele a queria bem onde estava, toda coberta por seu corpo. E ele respeitava sua demonstração de força; respeitava de verdade, mesmo que isso o deixasse preocupado sobre o quanto ela era imprudente.

– Adivinhe – ele disse em uma voz baixa e grave.

Ela engoliu em seco mais uma vez.

– O que?

Isaac se aproximou, colocando sua boca no ouvido dela.

– Matá-la não é a única coisa que poderia fazer com você... senhora.

Fazia um bom tempo desde que Grier sentiu cada centímetro de seu corpo – ao mesmo tempo. Bom Deus, ela sentia agora, e não era apenas a sua pele. Ela sentia cada pedaço de Isaac Rothe também, mesmo sabendo que nada a tocava.

Havia tanto dele ali. E talvez ela devesse ter se afastado de tudo devido àquela coisa bruta e masculina que ele tinha se transformado... mas, ao invés disso, a realidade impetuosa de seu poder simplesmente chamava mais e mais sua atenção. Separados por poucos centímetros, os dois respirando com dificuldade, ela estava completamente desequilibrada, suas emoções foram desencadeadas como se, de fato, sua cabeça tivesse sido tirada do corpo e estivesse rolando no chão.

Deus, ela estava desesperada por ele: ela queria atirar-se contra ele e ser nocauteada pelo impacto. Ela queria que ele fosse a parede de tijolos ao fazer isso. Ela queria ser insensata, vacilar e sair da sua realidade... por causa dele e do sexo que ele emanava como um aroma e do passeio selvagem que ele seria.

Sim, claro, não ia durar. E quando voltasse a si, ia se sentir como o inferno. Mas, nesse momento elétrico, ela não se importava com nada disso.

– Isaac...

Ele se afastou. No momento em que ela disse seu nome com voz rouca, ele não apenas se afastou; ele saiu do turbilhão.

Caminhando ao redor, ele esfregou os cabelos curtos como se estivesse tentando esfregar o cérebro e a distância física deu uma ideia a ela de como se sentiria depois que ficasse com ele: muito vazia, um pouco enjoada e, definitivamente, envergonhada.

– Isso não vai acontecer de novo – ele disse, severo.

Ao pronunciar isso no ar que ainda pairava entre eles, ela disse a si mesma que estava aliviada por não ter que lidar com questões que envolvessem sexo.

Porém... o latejar entre suas coxas dizia que aquilo era uma mentira deslavada.

– Eu ainda quero que fique – ela disse.

– Você nunca desiste, não é?

– Não. Nunca – ela pensou na quantidade de vezes que tentou tirar Daniel de sua ruína. – Nunca mesmo.

O rosto de Isaac parecia idoso ao olhar para ela do outro lado da cozinha, seus olhos gelados não eram nada além de abismos de escuridão.

– Ouça a voz da experiência. Desistir pode ser um importante mecanismo de sobrevivência.

– E, algumas vezes, uma falha moral.

– Não se estiver sendo arrastada por um carro. Ou sendo puxada para um buraco cheio de ratos. Às vezes, para salvar a si mesmo, você tem que sair.

Ela sabia que ele estava se aproximando da verdade e ela manteve sua voz o mais firme possível.

– Do que você está fugindo, Isaac? Do que você está se salvando?

Ela apenas a encarou. E, então...

– Onde está seu sistema de segurança?

Desviar o assunto foi uma decepção, mas o fato de ele considerar que ia se hospedar era uma vitória. E, enquanto ela o levava até a frente da casa, se recompôs da melhor maneira possível – apesar de seus joelhos estarem bambos, sua pele superaquecida e sua mente girando.

Havia uma familiaridade terrível com aquela sensação, sobre a qual ela se recusava a pensar... mas poderia contar ao seu irmão morto, quando ela o visse novamente. Daniel nunca falava da noite em que tinha morrido, ou de todas as agressões que infringiu a si mesmo antes. Mas, talvez... eles precisassem conversar sobre tudo.

– Como disse antes, isso é apenas para enganar – ela disse, deslizando a mão sobre o painel do sistema de segurança que foi instalado na parede. – A unidade verdadeira está atrás do meu armário de roupas. Cada janela e cada porta tem um receptor do sistema, mas o sistema de fato está ligado a ondas de rádio, raios infravermelhos e placas de cobre. Assim como o seu.

– Mostre os conectores. Eu quero ver a placa-mãe. Por favor.

O que significava levá-lo até o andar de cima.

Quando ela olhou os degraus acarpetados, achou difícil acreditar que estava considerando a possibilidade de confiar nele...

Aquela proximidade com a cama.

Que diabos estava acontecendo com ela?


CAPÍTULO 15

 

Quando Isaac foi conduzido a um quarto acolhedor em estilo biblioteca, ele soube que era ali que Grier passava seu tempo livre. Havia edições do New York Times e do Wall Street Journal em uma cesta de vime ao lado de uma cadeira estofada e o telão na parede mais afastada sem dúvida exibia a CNBC ou CNN ou FOX News na maioria das noites.

Quem sentava ali e assistia com ela? Aquele seu irmão?

– Vê? – ela disse, afastando uma cortina de um xadrez escuro.

Isaac se aproximou e se inclinou – o cheiro do perfume dela era exatamente o tipo de coisa que ele não precisava sentir agora.

Obrigando-se a focar o minúsculo brilho do cobre, ele aprovou o que olhava. Um material muito moderno.

Quem diabos era o pai dela?

Antes que ele fizesse algo estúpido, como tocá-la, ele se afastou e enquanto vagava perto da TV, não ficou nem um pouco surpreso com a coleção de DVDs colocada nas prateleiras. Havia muitos títulos estrangeiros e filmes sérios dos quais ele nunca tinha ouvido falar, quanto mais assistido. Então, lembrou que não foi ao cinema desde o final dos anos oitenta.

A última coisa que ele conhecia era Bruce Willis como um policial desesperado em busca de um sapato que servisse, Arnold como um cyborg de óculos escuros e Steven Seagal com aquelas entradas.

– Vai me levar até a placa-mãe? – ele disse virando-se para ela.

E a parte do “e depois até sua cama?” ele deixou de lado. Que cavalheiro.

– Claro.

Seguindo-a pelas escadas, ele deu um bom espaço entre eles – o que foi bom no sentido de conter as mãos e diminuir o calor, pois ele tinha muito a olhar. Jesus, seus quadris tinham um jeito que fazia com que ele rangesse os molares.

Quando chegaram ao segundo andar, ele fez uma rápida pausa e conseguiu algumas impressões de três quartos com portas abertas. A decoração era feita da mesma maneira antiquada dos andares abaixo, mas havia uma vibração aconchegante em tudo. Muito mais “família” que “hotel”.

Era certo que ele nunca tinha vivido assim. Na sua infância, ele dividiu um quarto do tamanho do corredor da frente com dois irmãos. Nas operações extraoficiais, ele pegava no sono onde podia – geralmente sentado em uma cadeira de frente para uma porta com uma arma na mão.

– Fico no terceiro andar – ela disse de um degrau acima.

Ele assentiu e entrou em ação. Acontece que ela ocupava todo o terceiro andar. O quarto principal se estendia com sua própria área de estar, lareira e portas francesas que se abriam ao que ele concluiu ser um terraço particular.

– Aqui.

Ele seguiu o som da voz dela, indo até o closet onde ela tinha desaparecido. A maldita coisa era tão grande quanto a sala de estar de algumas pessoas, com um carpete creme envolvendo as paredes e legiões de roupas alinhadas e penduradas por categoria.

O ar rescendia ao perfume dela.

Ela estava na parte de trás, afastando uma dúzia ou mais de ternos muito sérios para revelar... uma grade de 1,20 metro de altura e 90 centímetros de largura que parecia ser apenas a cobertura de um radiador antigo. Mas, como pode imaginar, a coisa deslizou para trás e revelou um esconderijo.

Um pequeno click e a luz se acendeu.

Ela passou primeiro e ele ficou bem próximo dela ao entrar no confinamento apertado... e lá estava.

Mas que... droga!

Ao se ajoelharem lado a lado, ele pensou: cara, era bom não ser um tipo de técnico naquilo ou estaria desmaiando. A configuração era o máximo de sofisticação – nada de uma combinação com dez números e as opções desligar, parcial ou total. Aquele era um sistema de computadores em rede que acompanhava as diferentes zonas da casa em vários níveis. E, se ele estava entendendo direito, a única maneira de chegar aos componentes era chegar até ali, e desarmar tudo seria complicado.

Só que...

– Eu não vi você desativar isso quando entramos.

Ela mostrou algo que parecia com o chaveiro de um carro.

– O painel é calibrado com minha impressão digital. Levo isso comigo onde quer que eu vá e o sistema está ligado agora.

Quando ele virou a coisa nas mãos, ela disse: – Bom o suficiente?

Houve um longo momento. Longo demais para onde eles estavam.

Longo demais para quem eles eram.

– Algo mais? – ela disse.

Sim.

– Não.

Grier assentiu e tomou seu caminho em direção à saída do confinamento. Depois que ele saiu, colocaram a grade de volta e andaram até o quarto. Que droga: ele não pôde deixar de olhar para a cama dela. Grande. Cheia de edredons e travesseiros. Do outro lado, havia uma pequena TV em cima de uma mesa antiga e uma estante forrada com DVDs ordenados de maneira precisa.

Ele franziu a testa e se aproximou -, apesar de não ser da sua conta, mas... caramba, será que estava enxergando os títulos direito?

A Garota de Rosa Shocking. Clube dos Cinco. Gatinhas e Gatões. Duro de Matar. A Força em Alerta.

Até mesmo ele conhecia esses filmes.

– É o que eu assisto à noite – disse Grier, quando ela veio atrás dele e endireitou as caixas finas apesar de estarem perfeitamente retas.

– Diferente dos que você tem lá embaixo. – E ele achou difícil acreditar que ela era uma mulher cheia de pose que queria ser toda Jane Austen em público e Jerry Seinfeld ali no quarto.

Ela pegou Harry e Sally – feitos um para o outro, e passou a mão sobre a cena de outono na capa.

– Eu não durmo bem e isso ajuda. É como se... meu cérebro voltasse ao tempo em que eles foram produzidos. Eu vejo os carros... as cenas em supermercados com preços menores... as roupas que estavam na moda... os cabelos que ninguém mais usa. Volto à época em que os vi pela primeira vez, quando as coisas eram... mais simples. – Ela sorriu com uma pressa desajeitada. – Acho que você chamaria de pequenos nocautes cinematográficos. É a única coisa que funciona pra mim.

Olhando para ela enquanto observava Meg Ryan, ele teve a visão de seu penteado de perfil, a luz azul da tela iluminava seus traços, a viagem ao passado acalmava seus nervos e relaxava seu cérebro.

Ela tinha uma companhia para assistir com ela? Ele se perguntou. Um namorado?

Nada de aliança, então, ele concluiu que ela não era casada ou noiva.

– O que foi? – ela disse, endireitando o bonito vestido preto. Ele limpou a garganta, odiando ter sido pego olhando para ela.

– Qual chuveiro quer que eu use?

Isso a fez sorrir. Pela primeira vez.

E sim, abatido como estava... ele prendeu a respiração e seu coração parou.

Grier colocou o filme de volta no lugar.

– Mais comida primeiro – ela disse ao se virar e ir em direção às escadas.

Jim e seus colegas aterrissaram no jardim dos fundos de uma casa de alvenaria de três andares que gritava ao mesmo tempo dinheiro e desculpas por causar tanto impacto. Tudo relacionado a ela e à sua vizinhança era refinado e muito bem-cuidado... e de tijolos. Pelo amor de Deus, todo o código postal que cobria a área parecia com a casa que abrigou os três porquinhos do lobo: casas de tijolos, muros de tijolos, calçadas de tijolos, travessas de tijolos.

Era o suficiente para fazer o pulmão do Lobo Mau ficar forte como ferro.

Através das janelas de vidro, viu uma cozinha muito espaçosa em todas as direções e com comida no balcão – mas não havia pessoas. Recuando, Jim não olhou para a casa, mas através da casa, fechando seus olhos e se concentrando.

Sim, ele conseguia sentir os dois... assim como algo mais. Havia uma... oscilação... lá dentro.

Suas pálpebras se abriram e quando se lançou para a porta dos fundos, Eddie agarrou seu braço. Que, considerando a força do cara, foi como se tivesse batido em um carro estacionado.

– Não, não é Devina. É uma alma rebelde.

Jim franziu a testa e concentrou sua atenção na confusão.

– Rebelde?

– É uma alma que foi libertada do corpo, mas que ainda precisa encontrar seu destino eterno.

– Um fantasma?

– Sim. – Eddie tirou sua mochila dos ombros, sua grossa trança caiu para frente. – Está por aí, esperando para ser libertada.

– O que mantém a coisa aqui?

– Negócios não resolvidos.

– E você tem certeza de que é isso? – Quando os olhos vermelhos do anjo ficaram rígidos como pedra, Jim levantou as mãos. – Certo, certo. Mas nós podemos chamá-los de “fantasmas”? Aquela porcaria de “rebelde” tem mais a ver com o estilo de uma vovó.

– Concordo – Adrian opinou.

– Ah, pelo amor... vocês podem chamá-lo de Fred, se for pra saírem dessa.

– Feito.

Naquele momento, Isaac e Grier entraram na cozinha. Quando o cara se acomodou em uma banqueta, ela voltou a cozinhar para ele e a tensão entre os dois era óbvia... assim como a atração. Os dois estavam jogando tênis com o olhar: cada vez que um olhava, o outro desviava os olhos. E o rubor nas bochechas da mulher selava o clima romântico.

Ao olhar pelo vidro, Jim se sentiu muito velho e distante. Achou que agora, sendo um anjo, qualquer sonho de se casar e ter filhos estava morto e enterrado – para não dizer sobre a questão de não namorar ninguém... apesar de, Cristo, quando foi que ele tinha namorado pela última vez?

E ele nunca foi do tipo que se casaria, então, em que diabos ele estava pensando?

Além disso, aquele não era nenhum filme de amor sobre a vida real do outro lado do vidro: o que ele estava olhando era para um homem caçado e uma mulher que estava fora de si.

Algo difícil de invejar.

Na verdade, ele se perguntava no que diabos o cara estava pensando. Qualquer um que tinha trabalhado com seu velho chefe sabia que os efeitos colaterais disso tinham uma possibilidade real de entrar naquele cenário.

– Cara, vamos nos mudar para cá – Adrian gemeu. – Dane-se os feitiços de proteção... eu amo uma boa omelete e estou faminto.

Jim o encarou.

– Está falando sério?

– O quê foi? Esse lugar está cheio de quartos. – De repente, a voz do anjo ficou mais profunda. – E eu posso fazer meus exercícios extracurriculares muito discretamente.

Sim, e ele não estava falando de levantar pesos. Leia: sexo com mulheres desconhecidas. Às vezes, Eddie participava da festinha.

Jim passou apenas uma noite com os dois, mas já sabia qual era o treinamento. Apesar de Ad ter permitido que Devina usasse e abusasse dele no primeiro jogo, não levou muito tempo para que ele desse umas voltas de novo. O cara tinha uma estranha obsessão pelo sexo feminino.

– Será que dá pra você focar? – Jim encarou Eddie. – Então, o que temos aqui?

Adrian interrompeu com um rosnado.

– Ah, sim, ela está fazendo outro para ele.

– Dá para parar com essa voz pedindo por comida e sexo?

– Ei, quando estou em algo, eu vou com tudo.

– Tente aprender a cozinhar, então...

Eddie limpou a garganta.

– Certo. No entanto há uma troca para proteger esse lugar: as magias mais fortes vão sinalizar o local para Devina.

– Ela já sabe – Jim disse em voz baixa. – Apostaria minhas bolas que ela já o encontrou.

– Ainda acho que devemos ficar quietos.

– Concordo.

Eddie se aproximou.

– Então, me dê sua mão.

Quando Jim ofereceu a palma de sua mão, ele olhou para o casal lá dentro. Eles pareciam isolados do furacão que girava no horizonte e ele teve o estranho impulso de fazer com que permanecessem assim...

– Droga – ele sussurrou, puxando seu braço para trás. Olhando para uma ardência em sua mão, encontrou um fino corte na sua linha da vida, que estava escorrendo... sangue... ou algo parecido.

Havia um brilho no fluxo vermelho que escorria, como a pintura de um carro à luz do sol. Engraçado, ele não tinha notado nada estranho na funerária... afinal, ele estava muito distraído olhando o próprio cadáver.

Eddie empunhou mais uma vez sua adaga de cristal.

– Circule o local e marque cada uma das portas. Tenha em mente a imagem dos dois e de que estão em segurança, em paz, calmos e protegidos. O mesmo de antes: quanto mais forte a imagem for, melhor vai funcionar. Isso vai formar um tipo de barômetro emocional na casa... assim, se houver um distúrbio maior, vai sentir isso. É uma magia de baixo nível e vai trazê-lo aqui rapidamente se alguma coisa acontecer... e isso não vai chamar a atenção de Devina. É claro que não vai mantê-la do lado de fora, mas você vai ser capaz de chegar aqui em um piscar de olhos se ela ultrapassar a barreira.

Com a mão pingando, Jim subiu os degraus até a porta dos fundos, mantendo-se camuflado para que ele pudesse aparecer a Isaac e sua garota como nada mais que uma sombra. Pressionando a palma de sua mão nos painéis frios, ele se concentrou nos dois, capturando a imagem deles no momento em que seus olhos se encontraram e se detiveram assim. Então, ele baixou as pálpebras e não se concentrou em mais nada além daquela imagem...

O mundo desapareceu, tudo, desde a brisa em seu rosto, o ranger da jaqueta de couro de Adrian até os sons distantes do tráfego... simplesmente desapareceram... e, em seguida, foi a vez de seu corpo, não havia mais peso sob seus pés, mesmo que ainda tocassem o chão.

Não havia nada para ele, em torno dele, ou sobre ele, apenas a imagem em sua mente.

E foi a partir do vácuo que seu poder entrou em ebulição.

Uma imensa onda de energia foi canalizada no espaço em branco que ele criou e sem entender muito bem, ele sabia exatamente o que fazer com a força, enviando-a ao redor da casa, doando parte disso apenas para descobrir que havia ainda mais fluindo dentro dele.

Soltando o braço, ele se afastou...

Jim ficou como uma estátua. O brilho de seu sangue estava na porta... e se espalhava em todas as direções em ondas, cobrindo os painéis, as ombreiras e se movimentando sobre o tijolo. Aquilo se espalhava para cima e para os lados, ganhando espaço, assumindo o controle.

Selando toda a casa.

– Nada mau para a primeira tentativa – ele murmurou, preparando-se para ir até a parte da frente.

Ao se virar, deteve-se. Os dois anjos estavam olhando para ele como se fosse um estranho.

– O que? – Ele olhou sobre o ombro. A onda bruxuleante vermelha se espalhava, subindo até o teto. – Parece evidente que a coisa funcionou.

Eddie limpou a garganta.

– Ah, sim. Pode-se dizer assim.

– A frente...

– Não é necessário – Eddie disse. – Você já cobriu toda casa.

Quando Adrian murmurou algo em voz baixa e balançou a cabeça, Jim pensou “Mas que inferno é esse?”

– Parece que alguém urinou no pé de vocês. Querem me dizer qual é o problema? – Pausa. Tempo para resposta... que não veio. – Tudo bem. Que seja.

– Temos que ir agora – Eddie disse ao colocar sua faca de volta na mochila. – Com o feitiço no local, não há nada mais que possamos fazer. Ela tem algo de todos nós.

– Como?

Os dois anjos se entreolharam. Ad foi o único quem respondeu.

– Todos nós já estivemos com ela. Se é que entende o que quero dizer.

Jim estreitou seus olhos em Eddie, mas o anjo se ocupou com sua maldita bagagem.

Bem, veja só. Devina ficou até mesmo com Eddie.

Afastando o pensamento de sua mente, Jim entrou pela porta traseira do jardim e deu a volta até a entrada da frente. Depois de anotar o número e o nome da rua, ele se elevou no ar, apesar do impulso de permanecer onde estava.

Contudo, ele estava satisfeito com seu pequeno feitiço de proteção – além do mais, o Cachorro estava no hotel há um bom tempo e Jim precisava levá-lo para passear. Talvez ele comprasse uma pizza para depois...

Enquanto Adrian e Eddie, sem dúvida, aproveitariam um tipo diferente de comida.


CAPÍTULO 16

 

Enquanto Isaac estava comendo sua segunda omelete – e pensando em como ele iria passar a noite – Grier saiu para aprontar seu quarto. Quando os dois terminaram, ela o levou para o que, com certeza, era o quarto de hóspedes principal: as paredes e cortinas eram azuis-marinho e marrom-chocolate, e havia cadeiras de couro e muitos livros encadernados com couro.

Ele se sentiu um intruso total.

– Vou me trocar e depois limpar a cozinha – ela disse ao se afastar e puxar a porta deixando-a parcialmente fechada. – Se precisar de alguma coisa, sabe onde me encontrar.

Houve uma breve pausa. Como se ela estivesse procurando alguma coisa para dizer.

– Boa-noite, então – ela murmurou.

– Noite.

Depois que ela o fechou ali, ele a ouviu indo para o quarto, sua pisada macia e firme.

Ele não conseguia ouvi-la andando lá em cima, mas a imaginava entrando naquele grande armário e tirando seu vestido preto.

Sim... aquele zíper avançando para baixo, mostrando-lhe as costas. As alças deslizando pelos braços... o material caindo em sua cintura e, em seguida, deslizando por suas pernas.

Seu pênis teve um espasmo.

Em seguida, ficou totalmente rígido.

Droga. Tudo o que ele não precisava.

Entrando no banheiro, ele parou e teve que balançar a cabeça para sua anfitriã. No balcão de mármore, ela tinha deixado toalhas limpas, uma coleção de artigos de higiene, um vidro de antisséptico e uma caixa de curativos. Havia também uma blusa masculina e um conjunto de pijamas de flanela com cordões e botões que enviaram uma ponta de ciúmes diretamente ao peito dele.

Ele realmente esperava que fossem do irmão dela. E não algum tipo de advogado esperto e bem-vestido que dormia com ela.

Amaldiçoando a si mesmo, ele se dirigiu para o chuveiro e ligou a água. Não era da sua conta quem eram seus amantes – como eram, ou quantos, ou quando e onde. E quanto à coisa do pijama de flanela? Eles estavam limpos e iam evitar que exibisse suas partes.

Não importava a quem eles per tenciam.

Ele tirou seu blusão e verificou duas vezes suas armas. Em seguida, puxou a camiseta regata pela cabeça, deslizou suas calças e deu uma olhada em seu reflexo no espelho: muitas manchas pretas e azuis sobre seus ombros e peito, espalhadas entre a rede de cicatrizes antigas que tinham se curado muito bem.

Difícil não pensar no que Grier pensaria dele.

Por outro lado, se ele a pegasse no escuro, não teria com o que se preocupar...

– Pois é – ele precisava muito parar com aquela droga.

Entrando no chuveiro, se perguntou o que exatamente nela o fazia pensar como se tivesse quinze anos. E decidiu que tinha que ser o fato de não fazer sexo há um ano e ter lutado naquela noite – as duas coisas eram do tipo que excitava um cara.

Mesmo.

Elas faziam isso.

Ele não podia ir atrás de sua advogada só por que ela era uma linda mulher de um metro e setenta e cinco, embrulhada em um pacote estilo Tiffany.

Infelizmente, qualquer que seja o motivo, voltar-se para o sabão e a água quente não aliviaram sua sobrecarga de hormônio. Enquanto se lavava, as mãos sobre sua pele estavam escorregadias e quentes... e o sabonete escorreu entre suas pernas, excitando seu membro enrijecido e fazendo cócegas em seus testículos tensos.

Ele estava acostumado com seu corpo cheio de dores, era fácil ignorar essa droga, esses machucados. O que ele estava sentindo por aquela mulher? Era como tentar ignorar que alguém estava gritando em uma igreja...

Sua mão ensaboada vagou por onde não devia, passando entre as coxas, passando pela parte inferior de sua ereção.

– Dane-se – ele disse entre dentes e deixou a palma de sua mão deslizar para trás e para baixo, o atrito intensificou a excitação.

Precisou de toda força que tinha para se desvencilhar daquela mão maldita. E ele acabou lavando o cabelo três vezes na tentativa de manter-se ocupado. Condicionando a maldita coisa também. Claro, a melhor solução era sair da privacidade traiçoeira e do calor sedutor do chuveiro, mas ele não conseguia convencer seu corpo a tomar a direção contrária do banheiro.

Antes que percebesse, sua ereção estava agindo como um imã de novo e a palma de sua mão fez o que tanto queria... e ele desistiu da luta.

Sujo. Pervertido. Bastardo.

Porém, foi tão boa aquela pegada de imaginar que era ela, a espera, aquele deslizar, aquela leve torção na ponta.

Além disso, quais eram suas opções? Tentar ignorar? Sim, claro. Colocar as calças do pijama seria como um circo obsceno – uma tenda armada e algo mais. E tinha que vê-la antes de ir dormir.

Ele tinha um aviso para dar a sua adorável advogada.

O último de seus argumentos ficou vagando em sua cabeça... bom, talvez descarregar aquela tensão umas duas vezes e, em seguida, pegar a estrada. De frente para o chuveiro, ele apoiou a mão na parede de mármore e inclinou-se sobre o ombro. Seu pênis estava pesado e duro como seu maldito antebraço ao começar a trabalhar nele, sua mão movia-se para cima e para baixo. E o sopro de fogo que percorreu sua coluna fez sua cabeça cair e precisou abrir a boca para respirar.

No turbilhão em que se encontrava, ele se recusou a pensar em Grier. Ela poderia ter sido a causa da excitação, mas ele não ia fantasiar sobre ela enquanto se masturbava no chuveiro da casa dela. Simplesmente não ia acontecer. Era grosseiro e desrespeitoso demais... ela merecia muito mais, mesmo se nunca soubesse daquilo.

Esse foi o último pensamento consciente que teve antes do orgasmo tomar conta dele: a cabeça de seu sexo estava tão sensível que cada deslizar sobre a coisa era uma picada doce que atingia sua ereção e envolvia suas bolas. Afastando as pernas uma da outra, ele se posicionou bem e se preparou ao encontrar seu ritmo, o jato de água quente escorria pelo seu cabelo percorrendo seu rosto quando começou a arquejar...

Do nada e contra qualquer comando de memória, a lembrança de Grier tão perto dele e de maneira tão íntima tomou conta de seu cérebro e se transformou numa fera. Não importava o quanto ele tentasse esquecer ou se concentrar em outra coisa, não conseguia se desvencilhar daquele momento tão perto dela.

Deus, seus lábios estiveram a um centímetro do dele. Tudo o que precisava fazer era inclinar a cabeça e teria um beijo...

O alívio veio rápido e poderoso, batendo nele com tanta força que teve que tensionar seus bíceps e morder os lábios para não gritar o nome dela.

Como ele era maldito! Lançou-se para o último espasmo, ordenhando-se até seus joelhos desfalecerem e ele provar o gosto do sangue da mordida.

Na sequência, ele cedeu e sentiu-se como um terreno baldio por dentro, como se não apenas seu impulso sexual tivesse sido drenado de dentro dele, mas todo o resto.

Ele estava tão cansado.

Tão, tão cansado.

Com uma maldição, ele alcançou a mão que tinha feito o trabalho e certificou-se de que não havia rastro de nada no mármore ou no vidro. Então, ele se lavou pela última vez, desligou a água e saiu dos limites do vapor que o colocou em apuros.

Ele ainda estava duro. Apesar da exaustão. E do exercício.

Era evidente que seu pênis não tinha aceitado o suborno.

E, sim, ele estava certo: a flanela não fez nada para evitar o “Ei, podemos ter um pouco mais disso?”. De qualquer forma, aquela coisa fazia com que parecesse duas vezes maior... o que, considerando que a coisa estava se erguendo, não era a direção que ele queria seguir.

Dobrando sua ereção e prendendo-a com a cintura do pijama, ele pegou a blusa e rezou para que a coisa descesse o suficiente para esconder a vergonha daquela cabeça.

Que ainda estava cheia de ótimas ideias...

Certo, não tinha chance de esconder. A blusa seria longa o suficiente, se seu peito não fosse tão grande. Como ficou? Ele estava mais nu do que nunca ao dar uma olhada para seus “bens”.

Isaac abandonou a blusa e a jogou sobre seu blusão, a regata estava nojenta demais depois da luta. A maldita coisa deveria ser queimada e não lavada.

E antes que voltasse a descer as escadas, ele usou os acessórios de primeiros-socorros, mas não por que se importasse: com certeza, se ele não os usasse, ela insistiria em ir até lá e dar uma de enfermeira.

Então, não era um bom plano considerando o que ele tinha acabado de fazer.

O curativo que os enfermeiros tinham colocado na cadeia não teve qualquer chance no ringue e só Deus sabia onde tinha parado. Contudo, independentemente disso, o corte não era nada de especial, apenas uma divisão na pele profunda o suficiente para dar um show de sangue, mas nada com que precisasse ficar histérico. Ele ia ganhar uma cicatriz... e que importância isso tinha?

Ele meteu um band-aid sobre a coisa e não se incomodou em colocar antibióticos ou coisas assim. Havia muito mais chances dele morrer envenenado com uma arma do tipo Smith & Wesson do que com qualquer infecção de pele.

Saiu do quarto de hóspedes. No andar debaixo. Naquele momento, ele chegou ao corredor da frente, as coisas no nível do quadril começaram a ceder um pouco.

Até que virou em direção à cozinha e viu Grier.

Oh, cara.

Se ela estava maravilhosa naquele vestido preto, então era um convite para o sexo com o que, evidentemente, era sua versão de pijamas: cuecas boxers de flanela e uma velha regata verde onde se lia CAMP DARTMOUTH. Com meias brancas e um par de pantufas nos pés, ela parecia mais uma universitária do que uma mulher perto dos trinta... e a ausência de maquiagem e cabelos extravagantes, na verdade, era um adicional. Sua pele era um cetim macio e seus olhos claros estavam mais atentos atrás daqueles óculos de armação grossa, ao invés de perdidos, como sempre.

Ela devia usar lentes de contato.

E o cabelo... era tão longo, muito mais longo do que ele imaginava e um pouco ondulado. Ele podia apostar que cheirava bem e senti-lo devia ser muito melhor...

Ela lançou um olhar da tigela vermelha que estava secando na pia.

– Encontrou tudo o que precisava lá em cima?

Não. Mesmo.

Por educação, ele puxou o blusão para ter certeza de que o Sr. Feliz estava coberto. E, então, ele apenas a observou. Como se fosse algum tipo de idiota.

– Isaac?

– Você já foi casada? – ele perguntou em voz baixa.

Quando os olhos dela se lançaram nos dele, soube como ela se sentia: ele não podia acreditar que tinha soltado essa também.

Antes que ele pudesse voltar atrás, ela empurrou os óculos para cima no nariz e disse: – Ah, não. Não, eu não fui. E você?

Ele balançou a cabeça e deixou por isso mesmo, porque Deus sabia que ele não deveria ter começado aquele assunto.

– Uma namorada? – ela perguntou, pegando uma panela para secar.

– Nunca tive uma. – Quando os olhos dela o encararam com força, ele encolheu os ombros. – Não estou dizendo que nunca... er... estive com...

Mas que inferno! Ele estava corando?

Certo, ele tinha mesmo que se afastar dela e sair da cidade – e não apenas porque Matthias estava atrás dele. Essa mulher ia transformá-lo em alguém que ele não conhecia.

– Você só não encontrou a pessoa certa, não é? – Ela se abaixou e guardou a tigela, em seguida, foi a panela que colocou no armário sob a ilha. – A coisa é sempre essa, não é mesmo?

– Entre outras.

– Eu só fico pensando se vai acontecer comigo – ela murmurou. – Mas não aconteceu. Porém, eu gosto da minha vida.

– Não tem namorado? – ele se ouviu dizendo.

– Não – ela deu de ombros. – E eu não sou o tipo de garota de apenas uma noite.

Isso não o surpreendeu. Ela era muito elegante.

Quando um silêncio suave surgiu entre eles de maneira curiosa, ele não tinha ideia de quanto tempo estava ali, olhando para ela do outro lado da ilha.

– Obrigado – ele disse em dado momento.

– Pelo quê? Eu não o ajudei de verdade.

Até parece que não. Ela tinha dado a ele algo bom para pensar quando estivesse sozinho em uma noite fria: ele se lembraria daquele momento com ela para o resto de seus dias.

Porém, eram poucos os que deveria preservar.

Movendo-se até ficar mais perto dela, ele estendeu a mão e tocou seu rosto.

Quando ela inalou com força e ficou imóvel, ele disse: – Sinto muito... por aquilo mais cedo.

Sim, não tinha certeza do que “mais cedo” significava: se os 25 mil que ele tinha custado a ela, se a fuga de cumprir a lei, a tentativa de intimidá-la para conscientizá-la de alguma maneira... ou o episódio no chuveiro.

Ele ficou surpreso quando ela não se afastou.

– Eu ainda não quero que vá.

Isaac fugiu do assunto.

– Eu gosto do seu cabelo solto – ele disse ao invés de responder, correndo seus dedos através dos fios até o ombro dela. Quando ela corou, ele recuou.

– Vou para a cama. Se precisar de mim, bata primeiro, ok? Bata primeiro e espere eu atender a porta.

Ela piscou rapidamente, como se um nevoeiro estivesse se erguendo do rio que havia dentro dela.

– Por quê?

– Apenas prometa.

– Isaac... – Quando ele balançou a cabeça, ela cruzou os braços sobre o peito. – Certo. Eu prometo.

– Boa-noite.

– Boa-noite.

Ele se virou e a deixou na cozinha, percorrendo o corredor e as escadas rapidamente, pois seu autocontrole tinha sido surrado e apesar das duas omeletes, ele estava faminto.

Contudo, não por comida.

Como um idiota total, ele se esquivou no quarto de hóspedes e esperou atrás da porta fechada apenas para poder ouvir o som dela subindo suavemente as velhas escadas que rangiam. Quando ele ouviu ela se fechar, ele andou ao redor do quarto... e se perguntou que diabos faria nas próximas oito horas.

Seu pênis se contorceu como se quisesse levantar a mão por ouvir uma pergunta da professora, a ereção estava agindo como se dissesse “oh-oh-oh-oh eu sei a resposta dessa”.

– Isso não vai acontecer, garotão – Isaac se conteve.

Esfregando os olhos, ele não conseguia acreditar que tinha concordado em ficar – especialmente pelo fato de quem tinha entrado no ringue com ele. Mas não poderia argumentar com o que tinha visto atrás do armário de Grier – e ainda que Matthias não se importasse com as consequências, tinha certeza que não ia procurá-lo ali. Especialmente pelo pai dela ser um militar: Matthias conhecia a todos e tinha total consciência das complicações que poderiam surgir por matar a filha de alguém importante.

Com mais outro palavrão, Isaac entrou no banheiro e escovou os dentes; em seguida, se estendeu no edredom e apagou a luz. Ao focar o teto, a imaginou naquela cama aconchegante acima dele, com a televisão ligada e alguma coisa no estilo da série Magnum sendo exibida na frente de seus olhos fechados.

Ele queria estar lá em cima com ela.

Ele queria estar... em cima dela.

O que significava que ele tinha que sair nas primeiras horas do dia antes mesmo que ela acordasse. Caso contrário, ele poderia não ser capaz de ir embora sem tentar fazer algo que não tinha direito... muito menos merecia.

Fechando os olhos, passaram-se uns quinze minutos antes que ele tirasse e jogasse para bem longe de sua virilha aquelas calças de pijama.

Quando seguia a linha colchão e travesseiro, costumava dormir nu e agora sabia o porquê. Aquilo de pijama era muito ridículo.

Meia hora depois, ele não aguentava mais e se despiu completamente. A única coisa que manteve perto foram as duas armas enfiadas dentro dos cobertores. Afinal, ele poderia ser pego exibindo tudo que tinha, mas não havia razão nenhuma para ficar vulnerável por isso.

 

CONTINUA

CAPÍTULO 10

 

Já tinha passado das 10 da noite quando Grier estacionou seu Audi em Malden e desligou o motor. Ela manobrou o sedã em um local de terra batida de maneira que ficasse voltado para fora e longe da maioria dos outros carros – embora o “estacionamento” não tivesse exatamente qualquer área dedicada à entrada, saída ou vagas.

Quando chegou ao endereço que Louie havia passado por telefone, não teve certeza de que era o lugar certo. O local como um todo estava vazio até onde ela conseguia ver, as doze ou mais torres de cinco andares em espiral surgiam a partir de um caminho escuro como se fossem crianças na escola em fila para uma contagem. Era evidente que a estrutura tinha sido desenvolvida para que empresas de alta tecnologia a ocupassem, ao menos era isso que se via no cartaz que dizia CENTRO EMPRESARIAL TECNOLÓGICO MALDEN. Mas, na realidade, o contrário: era uma cidade fantasma.

Contudo, Louie nunca a conduzia ao erro. Assim, ela se virou e percorreu o caminho até os fundos... e encontrou mais ou menos 25 caminhonetes e carros atrás do prédio mais distante da entrada principal. Fazia sentido. Se ela estivesse invadindo um local para montar uma gaiola de lutas clandestina, ela também garantiria que estivesse o mais oculta possível.

Saindo de seu carro, foi até a saída de emergência que estava aberta sustentada por um bloco de concreto e entrou. O rosnado profundo e agitado da multidão de homens fluía no corredor, a testosterona formava uma parede a qual ela praticamente teve que empurrar para atravessar. Enquanto seguia em direção ao som, ela não se preocupava com o quociente de estupidez – que claramente seria alto. Ela tinha um spray de pimenta em um bolso e uma arma de choque no outro: o primeiro era uma arma legal no estado de Massachusetts quando se tinha uma autorização para portar armas de fogo, e ela tinha. O segundo... bem, ela pagaria a multa de quinhentos dólares, caso tivesse que usar a coisa.

Se ela conseguiu entrar em um ponto de crack em New Bedford, à meia noite, ela poderia lidar com isso também.

Quando surgiu no saguão e conseguiu dar uma olhada nas barreiras de um metro e oitenta ligadas por correntes do octógono, ela tinha total consciência de que poderia chamar a polícia para o jogo de hoje, mas, assim, Isaac, assumindo que ele aparecesse por ali, seria preso novamente ou fugiria. Nos dois casos, ela não teria a chance de se aproximar dele. O objetivo dela era fazer com que ele parasse e pensasse um tempo considerável para ver o que estava fazendo. Fugir nunca era a solução, e se entrasse por aquele caminho, ele garantia uma detenção, mais acusações e o início de um registro com precedentes.

Isso assumindo que ele já não tivesse um: aquele assassinato no Mississippi a preocupava – mas era, como todos os seus outros problemas, algo que as devidas autoridades deveriam lidar. Como sua advogada de defesa, ela tinha que tentar fazer com que ele ficasse e dançasse conforme a música ditada por suas acusações atuais. Era a coisa certa a se fazer perante a sociedade – e era a coisa certa a se fazer por si mesmo.

E se ela não conseguisse fazer com que ele enxergasse a luz? Então, ela iria se afastar do caso e contar às autoridades tudo o que sabia sobre ele. Incluindo as armas e os detalhes daquele sistema de segurança. Ela não se tornaria cúmplice do crime na sua busca por fazer a coisa certa...

Grier congelou ao ver seu cliente, sua mão foi em direção à base de sua garganta.

Isaac Rothe estava sozinho em uma extremidade do ringue, e embora os elos da cadeia da gaiola o separassem, não havia dúvidas de quem era... e isso não diminuía o efeito que ele causava: era uma ameaça, o seu tamanho e a expressão rígida do rosto transformava os outros homens em garotinhos. E mesmo sendo impactada por sua educação naquela cadeia, agora ela tinha um retrato verdadeiro de quem ele era.

O homem era um assassino.

Seu coração bateu rápido, mas ela não vacilou. Estava ali para fazer um tipo de trabalho, e maldito seja, mas ela iria falar com ele.

Assim que deu um passo à frente, um cara adulador com dentes de ouro apareceu fazendo macaquices do outro lado da gaiola.

– E agora... aquilo que vocês estavam esperando!

Isaac tirou seu blusão e suas botas, deixou suas coisas no chão e, em seguida, começou a perambular no ringue, queixo baixo, os olhos encaravam tudo por baixo das sobrancelhas. Sua camiseta se esticava apertada ao longo de seu peitoral e, mesmo tendo as mãos pendentes nas laterais, seus braços estavam esculpidos pela força. Posicionando-se para a luta, ele era todo músculo, ossos e veias, os ombros tão largos que pareciam ser capazes de levantar o maldito prédio como se estivesse fazendo levantamento de peso.

Ao pular a gaiola e aterrissar ali dentro com os pés descalços, o rugido da multidão atingiu a cabeça dela como um sino e transformou sua coluna em um condutor de adrenalina. Sob o brilho das oito lanternas de acampamento que ficavam nos polos de apoio, seu cliente era parte gladiador, parte animal, um pacote mortal pronto para fazer aquilo para que ele claramente tinha sido treinado.

Infelizmente, o adversário que pulou ali e aterrissou em sua frente era quase uma imagem refletida dele: a mesma estrutura brutal, o mesmo peso, a mesma aparência mortal – estava até mesmo vestido da mesma maneira, a camiseta mostrava os músculos cheios de tatuagens de serpentes que percorriam todo seu ombro e pescoço. E enquanto o público gritava e se aproximava, os dois circulavam, procurando por uma oportunidade, braços, peitos e coxas enrijecidos.

Isaac investiu primeiro. Ao balançar o corpo, tirou o pé do chão e atingiu o outro homem nas costelas com um golpe tão cruel que ela poderia apostar que até mesmo os ancestrais do adversário sentiram a dor no túmulo.

Tudo aconteceu muito rápido. Os dois entraram em uma sucessão de ataques e esquivas, suas camisas se umedeceram rapidamente ao redor do pescoço e nas costas, a luz amarela amanteigada das lanternas fazia com que parecesse que estavam lutando em um ringue de fogo. Os contatos, quando feitos, eram do tipo que soavam como tiros de armas de fogo, os fortes e ressonantes impactos chegavam até a multidão, que se agitava inquieta. O sangue voava – a partir do corte na cabeça de Isaac que foi rapidamente reaberto e depois dos lábios do adversário que foram partidos. Os lutadores não pareciam se importar, mas com certeza os agitadores adoravam aquilo, como se fossem vampiros...

Uma mão passando em sua bunda fez com que olhasse em volta.

Movendo-se rapidamente para trás, ela olhou o cara da mão boba.

– Desculpe.

Ele pareceu momentaneamente surpreso e, então, seu olhar se estreitou.

– Ei... o que faz aqui?

A questão foi colocada como se ele a conhecesse.

Então, parecia que ele estava falando com o Papai Noel e levando isso à sério – seu rosto estava liso de suor e metade de suas feições se contorceram como se sofresse um curto-circuito. Era óbvio que ele estava drogado – e Deus sabia que ela era especialista em fazer esse diagnóstico.

– Com licença – ela disse, afastando-se.

Ele a seguiu. Para sua sorte, o único idiota do lugar estava mais interessado em importuná-la do que na luta que veio para assistir.

Ele agarrou o braço dela, puxando-a.

– Eu conheço você.

– Tire sua mão de mim.

– Qual é o seu nome...?

Grier se libertou dele.

– Não é da sua conta.

Ele pulou em direção a ela num piscar de olhos: o metro que havia entre eles de repente se transformou em um centímetro.

– Você é uma maldita dondoca. Acha que é melhor que eu, vadia?

Grier não cedeu o corpo, mas tirou a arma de choque e deslizou o pino de segurança ao agarrá-lo. Colocando a arma a uma distância mínima da calça jeans do cara, ameaçou.

– Se você não sair de perto de mim, vou lançar 625 mil volts nas suas bolas. No três. Um... dois...

Antes que ela tivesse tempo de acionar o gatilho, ele recuou e ergueu as mãos.

– Não era minha intenção... eu só pensei que te conhecia.

Enquanto ele se afastava, ela manteve a arma de choque em mão e respirou fundo. Talvez ela o conhecesse das buscas que tinha feito por Daniel – mas era evidente que ele estava fora de si e ela já estava escaldada o suficiente.

Voltando a se concentrar no ringue, ela olhou para cima...

Bem a tempo de ver Isaac cair como um pedra.

Lutar com o segundo na linha de comando de Matthias era um prazer. Isaac nunca confiou ou gostou do cara, e dar um chute no bastardo tinha sido alcançar um objetivo indescritível na carreira.

Ah, que ironia. Teve a chance apenas quando estava saindo...

Awm!

Quando os ganchos de direita começaram, o maldito parecia uma britadeira e acertou o queixo de Isaac bem em cheio, atingindo com isso seu crânio e causando todos os tipos de problemas: levando em conta que o crânio é apenas uma esponja solta em um globo de neve, sua matéria mental ficou um caos devido ao golpe e, assim, ele perdeu os sentidos e o equilíbrio.

Levando tudo em consideração, ele estava mais preocupado antes com algum tipo de arma branca, mas os punhos funcionaram bem. Maldito seja, e como funcionaram...

Esse foi o último pensamento que teve no momento em que o chão do octógono saltou para cumprimentá-lo. O “Oi, tudo bem?” da coisa causou tanto impacto quanto o punho do seu antigo colega de trabalho.

Deus, ele era como o coelho da Duracell.

Ele se levantou um segundo depois de suas costas tocarem o chão – mesmo que suas pernas estivessem dormentes e soltas e sua visão estivesse como uma TV que precisasse ser ajustada. Lançando-se para frente, ele era todo instinto e vontade, prova de que a mente poderia anular os receptores de dor do corpo, pelo menos por um tempo. Ele atacou o adversário pela cintura e o jogou no chão, em seguida, o virou de estômago para baixo e torceu seu braço para trás, puxando a coisa como se fosse uma corda.

Com um estalo, alguma coisa saiu do lugar e, de repente, Isaac precisou se segurar para não cair.

A multidão foi à loucura, todos os tipos de “vai se ferrar” ricochetearam em volta do saguão semiacabado até que um apito estridente atravessou o rugido. Em um primeiro momento, ele concluiu que o som era apenas uma extensão do caos em sua cabeça, mas depois percebeu que alguém tinha entrado no ringue. Era o promotor de eventos e, pela primeira vez, o rosto do bastardo estava um pouco pálido.

– Estou encerrando a luta – gritou quando agarrou o pulso de Isaac e o ergueu no ar. – Vencedor! – Inclinando-se, sussurrou: – Deixe ele ir.

Isaac não conseguia entender qual era o problema do cara...

Seus olhos finalmente entraram em foco e, bem, veja só. O segundo na linha de comando de Matthias precisava de um raio-X, gesso e talvez alguns pinos: o osso superior do seu braço estava projetado para fora da pele como uma estaca rompida e ensanguentada, o braço estava quebrado e alguns outros ossos também.

Isaac saltou e apoiou-se contra a corrente que circundava o ringue, o coração saía pela boca. Seu adversário ficou em pé rapidamente e segurou a mão que vacilava casualmente, como se nada de grave tivesse acontecido além de uma simples picada de inseto.

Quando seus olhares se encontraram e o cara sorriu daquela maneira que só ele fazia, Isaac pensou: droga, essa luta não foi nada além de um sinal de advertência do processo da minha captura.

Uma mensagem de que eles estavam perto.

Um convite para correr.

Droga. Dane-se aquele Matthias. E aquela fratura exposta foi sua resposta: eles poderiam tê-lo deixado sair, mas agora ele ia causar alguns prejuízos no caminho para o túmulo.

Isaac não perdeu tempo. Ele se aproximou das correntes e saltou sobre a borda. Felizmente, a multidão sabia muito bem que deveria sair de seu caminho, assim, ele foi capaz de ir mais rápido em direção a Jim...

Ele acabou dando um encontrão na sua defensora pública.

– Cristo! – ele vociferou, afastando-se da mulher.

– Na verdade, é Childe. Com “e” no final. – Ela levantou uma sobrancelha. – Pensei em tentar oferecer um táxi novamente, precisa de uma carona de volta para Boston? Ou não está indo nessa direção?

Esquecendo suas boas maneiras por um momento, ele se alterou.

– Que diabos você está fazendo aqui?

– Eu ia perguntar a mesma coisa. Isso considerando que uma das condições de sua fiança é não participar de lutas ilegais. E não parece mesmo que você esteja disputando um simples jogo de tabuleiro por aqui. Você quebrou o braço daquele homem.

Isaac olhou em volta, perguntando-se qual seria o caminho mais rápido, pois ela não pertencia àquele bando de arruaceiros e ele tinha que tirá-la dali.

– Olha, podemos ir até lá fora?

– O que você tem na cabeça? Aparecer aqui e lutar?

– Eu ia te procurar.

– Sou sua advogada... Ao menos espero que sim!

– Estou te devendo 25 mil dólares.

– E eu vou te dizer como você pode acertar as contas. – Ela colocou as mãos na cintura e inclinou-se, aquele perfume infiltrou no nariz dele... e no seu sangue. – Você pode parar de ser um idiota estúpido e aparecer na sua audiência em duas semanas. Vou te dar a hora e a data novamente, se acaso esqueceu de anotar.

Certo... ela era totalmente gata quando ficava nervosa.

E, em teoria, aquela não era a reação apropriada para o momento e local. Entre outras coisas.

Naquele momento, Jim e seus colegas se aproximaram, mas Grier não lançou sequer um olhar a eles – mesmo com Jim olhando de maneira rígida para ela. E reagir assim dava uma ideia exata a Isaac de como ela seria no tribunal. Cara, ela era incrível quando estava concentrada, nervosa e pronta para servir alguém em uma bandeja.

– Mais duas outras coisas – ela exclamou. – Você deveria rezar para que aquele cara cujo braço precisa ser engessado não ligue para a polícia. E você precisa ver um médico. De novo. Está sangrando.

Apenas para preencher o silêncio, ainda que não houvesse um, o promotor de eventos entrou com o que parecia ser uns dois mil dólares.

– Aqui está a sua parte...

De repente, os olhos de Grier se uniram aos de Isaac, da mesma maneira que seu belo rosto ficou mais tenso.

– Não pegue o dinheiro, Isaac. E venha comigo. Faça a coisa certa esta noite e isso vai lhe poupar muitos problemas mais tarde. Eu prometo.

Isaac simplesmente balançou a cabeça para ela e estendeu a mão para o promotor.

– Ah! Não acredito! – ela disse.

Quando praguejou e virou as costas, ele ficou meio sem ação por um momento.

Ao voltar a reagir, ele estendeu a mão em direção ao braço dela, mas o promotor entrou no caminho.

– Agora, antes que dê isso à você – ele bateu as notas na palma da mão – quero que venha lutar duas noites a partir de agora.

Sem chance. Ele esperava estar fora do país até às dez.

– Sim, claro.

– Será aqui, se não tivermos problemas. Você é incrível, cara...

– Agora cale a boca e me dê o dinheiro.

Isaac se ergueu e olhou por cima da confusão de cabeças, observando o penteado diferente de Grier marchar em direção à saída da porta dos fundos. Em geral, os homens sairiam do seu caminho, mas agora, dado o humor dela, ela seria capaz de castrar alguém.

Apenas pela força de vontade.

Ignorando a puxação de saco do promotor, Isaac pegou o dinheiro, enfiou suas botas de combate nos pés e pegou sua regata e o blusão. Ao sair atrás de sua defensora pública, ele afundou mais as verdinhas no bolso e verificou as armas, os silenciadores e seu cofre de sacola plástica duas vezes.

– Onde diabos você está indo? – disse Jim enquanto ele e seus colegas o seguiam correndo.

– Qualquer lugar que ela for. Ela é minha advogada.

– Alguma chance de você parar se eu disser pra sair dessa?

– Não.

– Mas que inferno – Jim disse baixinho ao empurrar um cara para fora de seu caminho. – Vá se ferrar, idiota, o número dois de Matthias foi embora.

– Sedã preto – o homem com piercings interrompeu. – Os painéis do carro estavam amassados e sujos, mas os pneus estavam novos em folha e havia aparelhos eletrônicos no porta malas.

Isso são operações extraoficiais para você, Isaac pensou. Ficar incógnito e possuir tecnologias de última geração.

Quando ele se desvencilhou na saída, os motores dos carros e caminhonetes começaram a soar, transformando a noite em uma discoteca de luzes automobilísticas. Entre os motores que roncavam e os faróis piscando, ele olhou em volta procurando o carro dela. Ele imaginava que ela dirigia algo importado. Uma Mercedes, BMW... Audi...

Onde ela estava?


CAPÍTULO 11

 

LOCAL DESCONHECIDO

 

Matthias tinha total consciência de que ele era um agente do diabo no mundo.

O que não significava que ele fosse totalmente mal. De uma maneira geral, os bilhões de inocentes no planeta não estavam em sua tela de radar e ele os deixava em paz. Ele também não tirava doce de criança. Ou maltratava gatos. Ou dava o endereço de e-mail de pessoas que o irritavam a sites de brinquedos sexuais europeus.

Uma vez, em 1983, ele ajudou uma senhora idosa a atravessar a rua.

Então, ele não era tão mau.

Dito isso, se no processo de concluir um trabalho ele teve que aceitar alguns danos colaterais ou sacrificar um “inocente” ou dois, era assim que a porcaria funcionava: nesses casos, ele não era diferente de um acidente de carro, ou de um câncer, ou de um raio, nada além do fato de que o indivíduo perdeu na loteria da vida.

Além disso, o relógio de todos estava correndo, e ele atuava no papel do Ceifeiro da Morte bem o suficiente para saber disso em primeira mão.

Ele gemeu ao reposicionar seu corpo quebrado em sua cadeira de couro. Aos quarenta anos, ele se sentia como se tivesse cem – isso era o que ser um sobrevivente fazia com você.

Pelo menos, ele não tinha que defecar em um saco plástico e ainda tinha um olho que funcionava.

Na frente dele, sobre a mesa lustrosa, havia sete telas de computador. Algumas mostravam fotos, outras, dados transmitidos e mais outra dizia onde cada um de seus agentes estava no planeta Terra. Naquilo pelo qual ele era encarregado, a informação era muito importante. O que era um tipo de ironia. Ele era um homem sem identidade, coordenando uma equipe em um mundo de sombras que não existia oficialmente – a informação era a única coisa concreta que ele tinha para trabalhar.

Embora, assim como as pessoas, era passível de falhas.

Quando seu celular tocou, ele pegou a coisa e olhou para a pequena tela. Ah, sim, que “timing” perfeito. Matthias estava procurando por dois homens – e ele tinha enviado seu segundo homem na linha de comando atrás de um deles.

O outro... era complicado. Mesmo não devendo ser assim.

Ele aceitou a ligação.

– Você o encontrou?

– Sim, e fiquei alguns rounds com ele no ringue.

– Mas ele ainda está vivo?

– Apenas por que você quer que ele esteja. A propósito, a advogada dele apareceu na luta e adivinhe? Ela é filha de um amigo nosso.

– Mesmo? Quais são as chances. – Na verdade, era cem por cento, pois Matthias esteve no sistema judiciário do condado de Suffolk, em Massachusetts, e propositalmente colocou a filha do capitão Alister Childe no caso.

Eles precisavam tirar aquele traidor do Isaac Rothe de trás das grades para que pudessem matá-lo e manter o corpo para usos futuros e a menininha do bom e velho Albie era como um bilhete de entrada para isso: era uma boa advogada com um coração sangrando que a levava a lugares que não pertencia. Combinação perfeita.

E estava claro que aquilo tinha funcionado: Rothe estava livre menos de 24 horas depois de sua detenção.

Cristo, tinha sido tão fácil encontrar aquele bastardo. Até por que, quem teria pensado que ele usaria o próprio sobrenome?

Hum, Matthias pensou. Talvez ele estivesse tirando doce de criança, neste caso.

– Você deveria ter me deixado matá-lo no ringue – o segundo no comando reclamou.

– Testemunhas demais, e quero que ele apareça fora de Boston.

Pois agora que Grier Childe tinha servido o seu propósito, ele tinha que colocar Isaac bem longe da mulher. Matthias havia matado o filho do capitão e, com isso, ele considerou que estavam quites. No entanto, o filho da mãe já havia tentado dar um jeito de sair uma vez e isso significava que a filha tinha que ser usada para manter o hipócrita do papai na linha: enquanto estivesse viva, poderia ser morta e aquela ameaça era melhor que fita adesiva sobre uma boca inquieta durante um dia inteiro.

– Siga-o quando estiver fora do estado – Matthias se ouviu dizendo isso em um tom calmo e equilibrado. – Espere o momento certo e que não seja perto da filha de Childe.

– Que importância tem isso?

– Por que eu digo que tem, idiota. É isso.

Matthias finalizou a ligação e jogou o telefone sobre a mesa. Todos os seus homens eram bons no que faziam, mas o seu segundo homem conseguia fazer truques que ninguém chegava perto. Claro que isso fez com que o cara se tornasse extremamente útil, mas também um perigo se suas ambições ou sede de sangue os afastassem.

Aquele homem era um demônio, de verdade.

De repente, Matthias teve que respirar fundo para aliviar a dor no meio de seu peito. Ultimamente, aquelas palpitações vinham acontecendo com uma frequência crescente, deixando-o sem fôlego e um pouco enjoado. Ele tinha a sensação de que sabia o que era aquilo, mas ele não ia fazer nada para deter o infarto do miocárdio que estava a caminho.

Nada de visitas ao médico, nada de exames de estresse, nada de remédios para pressão, nada de calmantes.

Naquele ritmo de pensamento, ele acendeu um charuto e expirou. Também nada de pastilhas antitabagismo. Ele ia trabalhar duro em prol dos pregos do caixão até que fosse derrubado por um ataque dos grandes – Deus sabia que ele tinha tentado se matar com aquela bomba no deserto e que tinha sido um desastre gigante. Muito melhor facilitar seu caminho para o túmulo à moda antiga: alimentação ruim, falta de exercícios e vícios.

Ao soar de um alarme, ele apoiou as mãos sobre os braços da cadeira e se preparou para ficar na posição vertical. Analgésicos o ajudariam tremendamente, mas eles também enfraqueceriam seu cérebro, então, era inútil. Além disso, a agonia física nunca o incomodou.

Rangendo os dentes, ele empurrou com força a cadeira e ergueu seu peso sobre as pernas. Alguns momentos para se firmar. Alcançar a bengala. Respirar fundo.

Aquela noite na terra da areia, quando foi salvo por Jim Heron, teve repercussões e muitas delas eram do tipo que relacionava chumbo e aço – mas não se tratava de armas. Graças àquele soldado imbecil tê-lo arrastado para fora daquelas construções empoeiradas e em ruínas e o puxado por mais de doze quilômetros ao longo das dunas como se fosse um resgate de bombeiro, agora Matthias era parte homem, parte máquina, uma versão desajeitada e que rangia do lutador forte e poderoso que tinha sido. Colado de volta com pinos e parafusos e porcas, ele se perguntava no início se aquilo seria um momento decisivo. Se a dor e o sofrimento por que passou com todas as cirurgias abririam uma porta para que ele se tornasse... um humano.

Ao contrário daquele sociopata que era desde que nasceu.

Mas não. Tudo o que ele tinha desde então eram aqueles precursores de ataques cardíacos hereditários. O que era uma coisa boa. Ao contrário da bomba que ele ativou na areia e pisou em cima deliberadamente, ele sabia que uma coronária faria o serviço completo – inferno, ele viu o pai morrer disso.

Na verdade, seu pai tinha sido seu primeiro assassinato, isso graças a Matthias saber exatamente o que dizer para fazer com que o relógio do seu velho não se controlasse e parasse de uma vez. Ele tinha quinze anos na época. Seu pai tinha quarenta e um. E Matthias sentou-se no chão de seu quarto e assistiu a coisa toda, girando aleatoriamente o botão do rádio que o despertava para ir à escola, à procura de uma música boa dentre toda a porcaria que vinha nas ondas sonoras.

Enquanto isso, seu pai ficou vermelho, depois azul... em seguida, desvaneceu até ficar cinza.

O filho da mãe pervertido mereceu aquilo. Depois de tudo que tinha feito...

Voltando do passado, Matthias puxou seu casaco e, como sempre, o simples fato de se vestir era um acontecimento, suas costas tinham que se alongar para acomodar o deslocamento de seus braços. Em seguida, ele estava fora de seu escritório, andando nos corredores subterrâneos de um complexo de escritórios anônimo onde ele trabalhava, seu corpo o odiava por estar caminhando.

Seu carro e motorista o aguardavam nas instalações do estacionamento subterrâneo e quando entrou na parte de trás do sedã, ele gemeu.

A respiração superficial o manteve consciente quando a dor queimou como um vulcão... e gradualmente diminuiu conforme o carro avançava.

Do banco da frente, ele ouviu o motorista dizer: – Tempo estimado de chegada: onze minutos.

Matthias fechou os olhos. Ele não estava completamente certo do porquê estava fazendo aquela viagem... mas ele estava sendo atraído para o norte dos Estados Unidos por um impulso que nem mesmo seu lado racional poderia negar. Ele simplesmente tinha que ir, mesmo que fosse surpreendido por essa necessidade.

Então, mais uma vez, assim como seu segundo homem na linha de comando tinha encontrado seu alvo, Matthias também localizou o soldado a quem procurava pessoalmente e aquele longo voo de volta sobre o oceano era porque desejava olhar de frente, pela última vez, para o homem que tinha salvado sua vida – antes que o corpo do bastardo fosse sepultado.

Disse a si mesmo que era para confirmar se Jim Heron tinha realmente morrido.

Contudo, era mais que isso.

Mesmo que ele não entendesse os motivos... havia muito mais do que isso para se fazer naquela viagem.


CAPÍTULO 12

 

Mais do que tudo, Grier estava furiosa consigo mesma. Ao seguir em direção ao seu Audi, investindo através dos outros carros e ser provocada por um dedo ofensivo ou dois, tudo pareceu entrar em foco: onde estava, o que tinha feito antes no tribunal, quem ela estava tentando salvar.

Isaac tinha quebrado o braço do cara. Na frente dela e de centenas de pessoas. E lidou com isso com o mesmo grau de choque e pânico que alguém que desliga o telefone.

Como se fizesse isso todos os dias.

E, em seguida, ele aceitou dinheiro por isso.

Aproximando-se do seu sedã, ela tirou o chaveiro e desativou o alarme. E quando viu seu reflexo no vidro da porta do motorista, ela pensou em seu irmão.

Ela ouviu um tipo de zumbido selvagem que a lembrou da noite em que ele tinha morrido.

Grier foi a única a encontrar o corpo e seus esforços para ressuscitá-lo não fizeram diferença... pois ele já tinha morrido antes que ela iniciasse o processo. Mas ela continuou a pressionar seu peito e a fazer respiração boca a boca de qualquer maneira.

Os paramédicos tiveram que arrancá-la de cima do corpo dele. Gritando.

E o ponto-chave era: na morte, assim como na vida, ele não se preocupava com todos os esforços dela para salvá-lo. Ele havia sido paralisado pela sua dose final, com um olhar assombrado de um prazer extático e congelado em seu rosto pastoso, o dever do vício foi cumprido.

A imprudência assume uma variedade de formas diferentes, não é mesmo?

Ela sempre se orgulhou de ser a mais responsável dentre eles dois, aquela que se sobressaía na escola e trabalhava duro para chegar à frente e nunca fez nada que seus pais desaprovassem. É claro que ela nunca, jamais, experimentou drogas ilegais. Nem sequer uma vez.

E, mesmo assim, lá estava ela, colocando a si mesma e a sua carreira em risco para aproveitar a chance de aconselhar um total estranho e fazer a coisa certa. Se a polícia tivesse aparecido – ou aparecesse, ainda havia tempo para isso – ser presa como espectadora a faria ser expulsa da ordem dos advogados de Massachusetts mais rápido do que ela conseguisse dizer “Mas, senhor Juiz, eu estava lá por causa do meu cliente”. Ela já tinha investido 25 mil dólares, que dificilmente desestabilizaria sua conta... só que como esse dinheiro teria sido mais útil se tivesse sido investido em um programa de jovens de risco...?

Quando a cabeça dela começou a latejar, se lembrou de suas atitudes desde as nove da manhã com um olhar preciso. E, como pode imaginar, ela não viu alguém que fizesse muito bem ao mundo, mas a mulher fora de controle que foi...

Daniel apareceu do outro lado do carro, seu rosto fantasmagórico estava mortalmente sério.

Entre, Grier. Entre no carro e tranque as portas.

– O que? – ela disse. – Por que...?

Faça isso. Agora. Seu irmão morto pareceu focar o olhar no ar que havia atrás do ombro dela.

Que droga, Grier...

– Eu sei quem é você.

Ela aproximou os olhos. Oh, pelo amor de Deus, isso estava ficando cada vez melhor, não é? Aquele drogado estava de volta.

Virando-se para tentar afastá-lo de novo...

O homem agarrou os braços dela e, com um safanão que a deixou de boca aberta, empurrou seu rosto contra o carro. Enquanto ele a detinha com seu corpo, ela se lembrou que os homens eram, de fato, diferente das mulheres: eles eram muito mais fortes. Especialmente quando estavam alcoolizados e desesperados.

– Você é irmã do Danny. – A respiração em seu pescoço estava quente e cheirava à carniça. – Você aparecia algumas vezes no lugar dele. O que aconteceu com ele?

– Ele morreu – ela resmungou.

– Oh... Deus. Sinto muito... – O viciado pareceu realmente chateado. De um jeito Tim Burton distorcido do submundo, mas parecia. – Ouça, pode me arrumar algum dinheiro? Uma garota rica como você... deve ter algum dinheiro na carteira. Mas só se conseguir ficar calma.

Uh-huh, certo. Ela sabia que daria a ele o que pediu quer gostasse, quer não – o que era, apesar da maneira como a abordou, um assalto bem sucedido.

Mãos ásperas a vasculharam e arrancaram a bolsa de seu ombro. Ela pensou em gritar, mas o peso que havia em suas costelas fazia com que meras respirações superficiais se tornassem impossíveis e, além disso, ela havia estacionado em um local escuro. Quem iria ouvi-la?

Quando seus olhos seguiram os veículos que partiam e as caminhonetes que estavam tão perto e tão longe ao mesmo tempo, ela teve uma lembrança absurda da cena de abertura do filme Tubarão – em que a mulher via as luzes das casas na praia ao ser arrastada pelo mar.

– Não vou machucá-la... só preciso do dinheiro.

Com o corpo que ainda a forçava contra o carro, ele despejou o conteúdo de sua bolsa sobre o chão lamacento, seu telefone celular, carteira, chave, tudo derramava em queda livre. E, então, ele jogou sua bolsa Birkin de dezesseis mil dólares sobre o capô do Audi.

Filho da mãe estúpido. Ele poderia ter conseguido mais com essa bolsa no eBay do que com qualquer dinheiro que encontrasse na carteira dela.

Metade de sua mente estava em pânico, a outra metade estava completamente calma e ela se fixou nessa última, pois era a filha de seu pai: aquele viciado apavorado sairia de cima dela em algum momento, pois ele ia querer suas joias e, quando fizesse isso, ela teria uma boa oportunidade de dar uma joelhada onde realmente importava.

Mesmo que tivesse de fingir que não estava prestes a vomitar em seu tênis...

O peso esmagador contra ela não foi exatamente removido, foi vaporizado, como se nunca tivesse existido: em um momento ela não conseguiu respirar. Em seguida, tinha todo o oxigênio do mundo.

Quando ela foi envolvida em um tremendo golpe de ar e segurou-se no teto do carro para se manter em pé, grunhidos soaram perto dela.

Esforçando-se para se virar, ela teve que piscar duas vezes para entender o que estava vendo – mas não houve espaço para qualquer momento do tipo “Espere, talvez eu não esteja enxergando direito”: Isaac surgiu do nada, jogou seu agressor no chão e estava dando um tratamento de canal da maneira mais difícil.

Ou seja, com seu punho.

– Isaac... – Sua voz falhou e ela tossiu. – Isaac! Pare com isso!

A voz do investigador Louie ecoou em sua mente: Esse filho da mãe pode ser um assassino.

– Isaac.

Ela estava esperando pelo momento que tivesse que saltar sobre ele ou pedir ajuda para deter o espancamento, mas logo que começou, acabou. Isaac saiu da rotina Rocky Balboa por conta própria, lançando o homem de barriga para baixo e puxando seus braços para trás até imobilizá-lo.

Nada foi quebrado dessa vez.

E Isaac nem sequer estava respirando com dificuldade quando olhou para ela.

– Você está bem?

Seus olhos eram penetrantes, sua expressão era calma e mortal, sua voz era estável e educada. Era óbvio que ele estava no total controle de si mesmo e da situação... e ocorreu-lhe que, possivelmente, ele a tivesse salvado de algo terrível. Quando se trata de viciados, você nunca sabe o que eles podem fazer.

– Ele te machucou? – Isaac disse. – Você está bem?

– Não – ela disse com dificuldade, sem saber qual pergunta estava respondendo.

Com uma grande força bruta, Isaac pegou o homem, o levantou e deu-lhe um safanão e não houve mais argumento, nem mesmo um comentário. O agressor dela se afastou como se estivesse bem consciente de que tinha se livrado por muito pouco da maior surra de sua vida.

E, em seguida, Isaac pegou as coisas dela do chão. Uma por uma, ele reuniu tudo que estava em sua bolsa, limpando a lama em sua própria camiseta, dispondo tudo em cima do capô do carro.

Caída contra a porta do motorista, ela estava cativada pela maneira como estava sendo cuidadoso, com as mãos ensanguentadas e gentis.

Daniel apareceu bem ao lado dele, aparentemente impressionado pela forma como ele tratava as coisas dela.

Deixe que ele te leve até em casa, Grier. Você não está em condições de dirigir – disse Danny.

– Ele não ofereceu – ela balbuciou.

– Ofereceu o que? – Isaac disse, lançando um olhar a ela.

Quando ela afastou as palavras com um gesto, ele pegou sua bolsa e colocou tudo dentro dela antes de entregá-la.

– Gostaria de levá-la até sua casa. Se permitir.

Bingo, seu irmão disse.

Ela abriu a boca para mandar Daniel ficar quieto, mas não tinha energia para continuar com isso.

– Senhorita Childe? – Com o sotaque sulista de seu cliente, aquilo soou como uma palavra maior, senhorita Chiiilde.

Deus, o que fazer? E óbvio que “claro que não” era a melhor resposta – a despeito da opinião de Daniel.

Confie em mim – disse Daniel.

A voz de Isaac se derramou.

– Apenas permita que eu a leve em segurança para casa. Por favor.

Por alguma razão desconhecida, os seus instintos estavam dizendo para confiar naquele estranho com um passado ruim e um presente como criminoso que estava foragido. Ou era apenas um caso de seu complexo de salvadora impondo um melhor juízo dele?

Ou... foi o olhar no rosto do fantasma? Era como se Daniel tivesse visto algo que não conseguia enxergar naquela colisão entre ela e um perigoso estranho com um leve sotaque sulista.

– Não preciso de um motorista. Posso fazer isso sozinha. – Ela pegou a bolsa dele. – Mas eu preciso, sim, que fique e enfrente suas acusações.

Isaac deu uma olhada ao redor da área.

– Que tal conversarmos na sua casa?

– Eu tenho um spray de pimenta, entendeu?

– Que bom.

– E uma arma de choque. – Que resultou em tudo aquilo que aconteceu há pouco.

Bom Deus, ela não conseguia acreditar que estava sequer pensando em ir para casa com Isaac. O viciado idiota era um amador... e seu cliente parecia, com certeza, com um profissional.

Seus olhos cinza e pálidos seguiram em direção aos dela.

– Eu não vou te machucar. Juro.

Com um palavrão, ela abriu a porta do carro.

– Eu dirijo.

A questão era: onde diabos ela estava indo? E com quem?

Jim observou o Audi se afastar, a fumaça se erguia atrás dos dois tubos de exaustão. Ele estava completamente despreocupado a respeito de onde aquele cara estava indo – colocou transmissores na camiseta de Isaac e na bolsa com o dinheiro.

– Você poderia ter me deixado fazer um feitiço de localização – Eddie murmurou.

– Estou acostumado a trabalhar com a droga do GPS por causa do meu antigo trabalho. – E quem diria que ele pudesse sofrer de nostalgia por conta daquela tecnologia?

Por falar em informação, era tempo de alguns esclarecimentos: embora ele pudesse entender como e por que Isaac seria o próximo da lista das sete almas, uma conversa frente a frente com seu chefe britânico era a única maneira de ter certeza.

Muita pressão sairia de cima dele se salvar a pele de Isaac tivesse um propósito maior.

Ele girou a cabeça em direção a Eddie.

– Diga como volto a falar com os quatro rapazes. Preciso morrer de novo?

Se precisasse, ele tinha uma arma e já sabia como era a sensação de morrer.

– Nem perca tempo – Adrian estalou os dedos. – Eles não vão dizer nada. Não podem.

Mas que droga é essa?

– Pensei que trabalhava para eles.

– Você trabalha para os dois lados e eles darão toda a ajuda que puderem.

Jim olhou bem para os dois anjos: os dois estavam com uma expressão tensa de alguém que tinha um cadarço de sapatos amarrando as bolas.

– Ajuda? – ele disse. – Onde está minha maldita ajuda?

– Eles nos deram para te ajudar, idiota – Adrian vociferou. – E é tudo que podem fazer. Eu mesmo já fui até lá e perguntei quem era o próximo. Pensei que isso o ajudaria, você é um bastardo ingrato.

Jim ergueu as sobrancelhas no estilo Sr. Pensativo. A primeira vez que saiu com Adrian, o cara o serviu em uma bandeja prateada para o inimigo, ao ponto de acabar transando com Devina no estacionamento do clube. Na caminhonete dele. Sem saber que era um demônio.

– Os tempos mudaram desde aquele dia – disse Ad rispidamente – Você sabe que sim.

Em um piscar de olhos, Jim se lembrou como o cara estava parecendo há um ou dois dias depois que Devina tinha acabado de usar e abusar dele de várias maneiras. Ele deu a si mesmo para que Jim tivesse alguma chance de vencer o primeiro round.

– Sim, mudaram. – Jim ofereceu um cumprimento com a mão fechada em um sinal de “Desculpe por eu ter insinuado que você é um idiota de merda”.

Quando Ad deu um pequeno golpe em sua mão, Eddie disse: – Tecnicamente somos contra as regras.

Jim deu de ombros.

– Se isso me ajudar a ganhar, eu aceito. Regras são relativas.

Essa foi a razão pela qual ele tinha sido escolhido, não foi? Ele não era um maldito escoteiro.

A cabeça de Jim girou olhando ao redor ao ouvir um chiado de metal contra metal. O octógono portátil tinha sido desmontando e estava sendo empurrado através da porta por quatro rapazes que, em seguida, o colocaram em uma van. Na próxima viagem, eles carregariam os oito pesos de concreto e os polos, depois disso, apenas Eddie, Adrian e ele permaneceram ali.

O que era uma metáfora da situação em que se encontrava, não era?

Certo. Era assim que se jogava? Legal. Ele estava acostumado a confiar em si mesmo e nos seus instintos no campo de batalha... e tudo o direcionava para Isaac.

A questão era: onde Devina estava? Supondo que estava atrás de Isaac, ela estaria procurando por uma maneira de se infiltrar dentro dele para que sua natureza parasita o possuísse e para que ela pudesse, finalmente, levá-lo para o inferno depois que o matasse.

Jim voltou a se concentrar nos seus anjos.

– Se Devina estiver possuindo alguém, há alguma maneira de saber? Alguma marca? Pontos de referência?

Pelo menos ele poderia conseguir uma pista sobre ela.

– Algumas vezes. – Eddie disse. – Mas ela pode limpar suas impressões digitais, digamos assim, e agora que ela sabe que eu e Ad estamos com você, ela vai tomar um cuidado extra. No entanto, existem algumas almas limpas as quais ela nunca vai tocar e que brilham.

– Brilham? Você quer dizer como... – Droga, aquela advogada loira que levou Isaac para casa com ela tinha uma luz em volta do seu corpo. E foi por isso que quando Jim a viu, ele olhou para ela como se tivesse um...

– Como uma aura?

– Exatamente.

Bem, pelo menos havia uma coisa a seu favor. Ele concluiu que tinha acabado de entender as coisas. Constatou o que ele era... e graças a Deus por isso.

Jim pegou o receptor de GPS e localizou os dois pontinhos piscando que correspondiam a Isaac. Cedo ou tarde, se Devina estivesse transando com o cara, ela faria uma aparição de uma maneira ou de outra e eles estariam lá quando ela fizesse.

– Existe alguma coisa como feitiços de proteção? – ele perguntou. – Alguma coisa que eu possa colocar em torno de Isaac para mantê-lo em segurança?

– Podemos trabalhar em algo – Eddie disse com um sorrisinho maldoso. – É hora de começar a ensinar essas coisas a você.

Tem toda razão, pensou Jim.

Fechando os olhos, ele desfraldou suas asas, sentiu seu grande peso em sua coluna e ombros ao se tornarem visíveis.

– Eles estão indo para o centro da cidade. Vamos lá...

– Espere – Eddie disse, suas asas surgindo. – Precisamos ir ao hotel e pegar alguns suprimentos. Estou concluindo que você não quer que entremos na casa, certo?

– Enquanto Devina não aparecer, vou ficar do lado de fora.

– Não vai demorar muito.

– É bom mesmo.

Ao dar alguns passos para obter impulso, sentiu a ironia de tudo como uma rajada sob seu corpo: ele nunca acreditou que anjos existiam ou que a batalha eterna entre o bem e o mal pudesse ser real, quanto mais uma em que ele estaria.

Então, mais uma vez, quando você pesa quase cem quilos de puro músculo e é capaz de se erguer do chão com uma rede de penas metafísicas... a realidade louca em que se encontra tem uma credibilidade imensa.

Ele não se perdoaria se Devina colocasse suas garras em Isaac – sob qualquer forma que pudesse assumir. Isaac era seu garoto e a ideia daquele homem caindo nas mãos do inimigo era inaceitável, especialmente se acontecesse daquele demônio usar um rosto familiar.

O qual, à propósito, tinha um olho vendado.


CAPÍTULO 13

 

Isaac esteve nas proximidades de Boston apenas duas vezes e nas duas vezes tinha sido apenas de passagem em direção às suas viagens ao exterior – o tipo de coisa que acontecia quando tudo o que fazia era atravessar uma pista na Base Aérea de Otis até Cape Cod.

Dito isso, quando Grier fez uma curva à esquerda em uma rua cujo nome era algo como Charles, ele não precisou de um guia turístico da cidade para saber que estavam na parte mais nobre em se tratando de mercado imobiliário. As casas que percorriam os dois lados da colina eram todas feitas de um tijolo imaculado com persianas e portas pretas e brilhantes. Através das janelas limpas, ele podia ver os interiores onde cada centímetro era mobiliado com antiguidades e havia brasões e moldes de coroa suficientes para esmagar a cabeça de um rei.

Era evidente que estava no habitat natural dos Yankees sangue azul.

Grier virou à esquerda em uma pequena praça que era demarcada por uma cerca de ferro forjado e faixas de tijolos dos quatro lados. No meio, seu pequeno parque tinha graciosas árvores com botões minúsculos surgindo e as calçadas dos arredores eram o melhor do havia naquele ótimo bairro.

Não era bem uma surpresa.

Depois que ela estacionou seu Audi paralelo à cerca, os dois saíram. Ela não tinha falado muito na viagem e nem ele. Mas ele não era muito falante e ela tinha um fugitivo como passageiro. Uma situação onde conversinhas sobre o clima não se encaixava muito bem.

A casa que ela indicou como sendo dela era de esquina e tinha a frente abobadada com degraus de mármore branco que iam até sua porta da frente preta. Havia vasos arredondados pretos do tamanho de cachorros da raça dogue alemão colocados do outro lado da entrada e as trancas eram tão grandes quanto a cabeça de um deles. Uma luz brilhava no terceiro andar, várias no exterior. E ao inspecionar a área, parecia que não havia nada fora do lugar... parecia que não havia carros de polícia à paisana circulando, nem sons de que algo estava errado, ninguém suspeito à espreita.

Enquanto andavam sobre os tijolos irregulares da rua, ele quis alcançá-la e apoiá-la, dada a situação do salto alto que usava, mas ele não ousou. Em primeiro lugar, ela provavelmente ainda queria bater nele... e, em segundo, estava com as mãos sobre as duas armas dentro de seu blusão, só para garantir.

Ele sempre foi cuidadoso consigo mesmo. Tendo que escoltá-la? Isso elevava a vigilância a um nível totalmente novo.

Além disso, Grier estava lidando muito bem com a caminhada até a porta da frente, à despeito do fato de usar saltos altos e finos e ter sido atacada por um retardado drogado.Que pena não terem se encontrado em um mundo diferente. Porque senão, ele iria...

Sim, certo. Talvez chamá-la para sair?

Seja como for. Mesmo se ele tivesse respeitado a lei e não tivesse que seguir a rotina de “eu não sou um assassino”, eles ainda estariam de lados opostos daquela ilusão: ele era um completo garoto da fazenda e ela era completamente fabulosa.

E ele realmente tinha que se conter ao pensar mais de uma vez no quanto ela era atraente.

Seu alarme de segurança disparou no momento em que ela abriu caminho e ele se sentiu feliz, embora não aprovasse que ela deixasse uma gentalha como ele entrar na casa. E como isso foi acontecer, afinal?

Quando ela digitou seu código no sistema de alarme, ele olhou para as solas de suas botas de combate, que estavam cheias de lama e pedaços de grama. Abaixando-se, ele as desamarrou, as escorregou para fora dos pés e as deixou do lado de fora.

Seu piso de mármore branco e preto estava quente debaixo de suas meias...

Olhando para cima, ele a encontrou olhando para seus pés com uma expressão curiosa em sua bela face.

– Eu não queria deixar pegadas – ele murmurou, fechando e trancando a porta.

Depois que tirou o blusão, pegou a sacola de supermercado com as economias de sua vida e eles simplesmente ficaram ali parados: ela em seu casaco preto bem desenhado e sua bolsa suja que tinha uma alça solta; ele em sua camiseta regata como uma quantidade de dinheiro sujo em sua mão ensanguentada e duas armas que ela ignorava em seus bolsos.

– Quando foi a última vez que comeu? – ela disse suavemente.

– Não estou com fome. Mas obrigado, senhora. – Ele olhou em volta, observando uma sala com o teto pintado com um vermelho forte. Sobre a lareira de mármore régia havia a pintura a óleo de um homem sentado com uma postura rígida em uma cadeira com um par de óculos antiquados empoleirados em seu nariz.

Era tão tranquilo ali, ele pensou. E não apenas por não haver qualquer som.

Sereno. O lugar era... sereno.

– Vou fazer uma omelete para você, então – ela disse, apoiando a bolsa e começando a movimentar os ombros para tirar o casaco.

Ele se aproximou para ajudá-la, mas ela recuou.

– Faço isso sozinha. Obrigada.

O vestido que estava por baixo... Meu Deus, aquele vestido. Até onde ele sabia, algo simples e preto nunca pareceu tão sensual, mas, em seguida, ele observou que havia mais nela que roupas bem desenhadas ou o tecido.

Aquelas pernas. Que droga, aquelas pernas com meias finas pretas...

Isaac agarrou as costas do seu homem pervertido interior e o colocou de volta no lugar com o lembrete de que seria muito difícil que alguém como ela permitisse sequer que ele lavasse seu carro – quanto mais permitir que ele a levasse para a cama. Além disso, ele teria alguma ideia do que fazer com uma mulher como ela? Claro, ele era bom nisso – já haviam implorado a ele para que fizesse de novo o suficiente para que tivesse confiança nessa área.

Mas uma dama como ela merecia ser saboreada.

Que maldito ele era! Teve a impressão que estava lambendo os lábios.

– A cozinha é aos fundos – foi tudo o que ela disse ao pegar a bolsa e seguir.

Ele a seguiu pelo corredor, tomando nota das salas, janelas e portas, observando rotas de fuga e entradas. Era o que ele fazia em qualquer lugar por que passava, seus anos de treinamento com certeza salvaram sua pele. Mas agora era mais que isso. Isaac estava procurando por pistas sobre ela.

E era estranho... a serenidade foi mantida, o que o surpreendeu. Antiquado e caro geralmente significava tensão. Contudo, aqui, ele respirava fundo e com facilidade – mesmo que isso não fizesse sentido.

Em contraste com o resto da casa, a cozinha era toda branca e de aço inox e, enquanto ela começava a cozinhar pegando as tigelas, os ovos, e o queijo, ele colocou seu dinheiro embaixo do balcão e mal podia esperar para sair daquele espaço: ao longo do local, havia uma vasta parede de vidro.

O que significava que qualquer um com um par de olhos poderia dar uma boa olhada neles.

– O que tem nos fundos? – ele perguntou casualmente.

– Meu jardim.

– É murado?

Com os braços cheios, ela se aproximou do fogão na ilha de granito.

– Senso de segurança?

– Sim, senhora.

Ela se aproximou, acendeu a luz externa e diminuiu a interna – o que lhe deu uma visão perfeita dos fundos sem qualquer dificuldade. Deus, ela era esperta.

E seu jardim era cercado por um muro de tijolos de três metros que, como pode imaginar, ele aprovou totalmente.

– Satisfeito? – ela disse.

No escuro, a voz dela assumiu um tom rouco que o fez desejar conduzir seu corpo através do cômodo e apoiá-la contra algo para que ele pudesse descobrir o que havia embaixo daquele vestido preto.

Cara, aquela pergunta não era a única que ela precisava fazer a ele naquela noite.

– Sim, senhora – ele murmurou.

Quando as luzes se acenderam novamente, havia um leve toque de vermelho em suas bochechas – o tipo de coisa que ele não teria notado se não tivesse tomado por sua missão olhar para ela o máximo possível. Mas talvez aquela cor era apenas por estar tensa devido a tudo que aconteceu com ela naquela noite.

Sem dúvida era isso.

E o fato de ter notado aquilo fez com que ficasse menos impressionado com a espécie masculina: afinal, de alguma forma, mesmo em meio a um grande caos, mesmo sendo extremamente inconveniente, os homens ainda conseguiam ficar excitados com uma mulher.

– Sente-se... – ela disse, apontando um banco sob o tampão da ilha de mármore com o batedor de ovos de metal – ...antes que caia. E nem tente vir com a conversa de que está bem, certo?

Cara... estava completamente excitado com essa mulher.

Completamente excitado.

– Oi? – ela disse. – Você estava prestes a se sentar ali, lembra?

– Entendido.

Enquanto ela voltava ao fogão e começava a quebrar os ovos, ele fez o que ela disse para que fizesse.

Para ficar com os olhos longe dela, ele olhou em direção à sua bolsa, que ela tinha deixado ao lado dele. Que vergonha uma coisa tão boa e cara ter sido revirada. Havia lama seca em todo o couro e a alça tinha sido massacrada.

Idiota estúpido.

Erguendo-se, ele foi até a pia, puxou uma folha de papel toalha e umedeceu a coisa. Em seguida, reinstalou-se no banco e começou a trabalhar, tentando tirar a lama.

Quando ele olhou para cima, ela estava olhando para ele novamente e ele parou o que estava fazendo para segurar uma mão à outra.

– Eu não vou roubá-la.

– Não achei que fosse – ela disse naquela voz suave.

– Sinto muito mesmo por sua bolsa. Acho que está destruída.

– Tenho outras. E mesmo se não tivesse, é apenas um objeto.

– Uma coisa cara. – E, nesse tom, ele se inclinou sobre a ilha e empurrou seu dinheiro em direção a ela. – Preciso que aceite isso.

– E eu preciso que você não fuja. – Ela quebrou outro ovo na borda da tigela e o dividiu apenas com uma das mãos. – Eu preciso que você faça o que concordou em fazer quando consegui sua fiança.

Isaac baixou os olhos e retomou sua limpeza malsucedida.

Ela deixou escapar um exalar de respiração que era apenas uma sílaba ou duas de distância de ser um palavrão.

– Estou esperando. Que me responda.

– Não percebi que era uma pergunta, senhora.

– Certo. Você vai, por favor, ficar aqui e seguir o sistema?

Isaac se levantou e voltou para a pia. Ao pegar uma folha de papel limpa, a verdade saiu de sua boca.

– Minha vida não me pertence.

– De quem está fugindo? – ela sussurrou.

Talvez ela tenha diminuído o volume, pois a advogada que havia nela teve uma reação involuntária de discrição. Ou talvez ela estivesse certa: os tipos que estavam atrás dele poderiam ouvir e, às vezes, até mesmo ver através de paredes sólidas. As de vidro como as da cozinha? Fácil, fácil.

– Isaac?

Não havia resposta para dar a ela, então, ele balançou a cabeça e voltou a limpar a lama de sua bolsa... mesmo sabendo que, provavelmente, ela iria jogar a coisa fora pela manhã.

– Pode confiar em mim, Isaac.

Sua resposta levou um bom tempo para chegar.

– Não é com você que estou preocupado.

Grier ficou do outro lado da ilha, os ovos espalhados e escorrendo no granito, uma tigela vermelha cheia de gemas amarelas e claras transparentes estava pronta para ser batida.

Seu cliente era absolutamente enorme empoleirado em seu banquinho, suas mãos machucadas cuidando de sua bolsa Birkin. E, mesmo assim, apesar de seu tamanho e do cuidado que demonstrava com sua bolsa, ela queria golpear sua cabeça contra algo duro. As soluções eram tão claras para ela: aja conforme dita o sistema, limpe sua ficha com qualquer agência militar que tenha se envolvido, lide com as repercussões, deixe o tempo passar... comece de novo.

Seja lá o que ele tenha feito, podia ser corrigido.

A sociedade poderia perdoar.

As pessoas podiam seguir em frente.

A menos, é claro, que fossem idiotas teimosos determinados a desrespeitar as regras e seguir sozinhos.

Ela pegou o último ovo e bateu contra a borda da tigela, quebrando a casca.

– Ah, droga.

Os olhos de Isaac se levantaram.

– Tudo bem. Eu não ligo para um pouco de casca.

– Não está bem. Nada disso está bem. – Ela se inclinou e pegou os pedacinhos brancos com a unha.

Quando as coisas pareciam aceitáveis na tigela, ela se ouviu dizer: – Gostaria de tomar um banho antes de comer?

– Não senhora – foi sua reação tranquila e sem surpresa.

– Tenho roupas limpas que pode usar – isso fez com que as sobrancelhas dele se erguessem um pouco, mesmo sem olhar para ela. – São do meu irmão. Ele costumava ficar aqui comigo algumas vezes... não são exatamente do seu tamanho, claro.

– Estou bem. Mas obrigado, senhora.

– Você pode deixar de lado a besteira da “senhora”. Acabamos com isso no minuto em que você entrou no meu carro.

Quando a sobrancelha dele se ergueu novamente, ela pegou um pedaço de queijo cheddar e começou a ralar. Com força.

– Sabe... você me lembra dele. Meu irmão.

– Como assim?

– Eu também quero salvá-lo do que suas escolhas estão fazendo com sua vida.

Isaac balançou a cabeça.

– Não é uma boa ideia.

Era verdade. Deus era testemunha de que ela já tinha falhado com isso uma vez.

Ela ralou o queijo, colocou a coisa de lado e cortou um pouco de bacon canadense. Como os dois trabalhavam em suas tarefas, não levou muito tempo para que o silêncio tomasse conta dela..., mas o ponto chave era: desistir não era sua natureza.

O que sugeria que, se ela tivesse nascido um carro, já estaria no derby de demolição onde os carros se debatem até a destruição total.

– Olha, eu posso tentar ajudá-lo com mais do que apenas as acusações que existem contra você. Se você...

– Tirei a maior parte da sujeira. – Ele ergueu a bolsa enquanto encontrava os olhos dela. – Mas não há nada que eu possa fazer com a alça.

– Para onde você está indo?

Quando ele não respondeu, ela cortou um pedaço de manteiga na panela e acendeu o fogo.

– Bem, você pode passar a noite aqui se quiser descansar. Meu pai fez desse lugar tão seguro que nem um rato conseguiria entrar sem acionar o sistema.

– O sistema de alarme é bom. Mas não tão bom assim.

– Isso é apenas um sistema simulado. – Essa informação fez com que as duas sobrancelhas dele se erguessem e ela balançou a cabeça. – Meu pai era militar. Na verdade, era do exército. Quando ele saiu, foi para a escola de direito e, então... bem, ele se mantinha atualizado, digamos assim. Atualizado e sempre me protegendo.

– Ele não aprovaria eu estar aqui.

– Você foi um cavalheiro até agora e, não importa o que vista ou de onde venha, isso era o que importava para ele. E, a propósito, para mim também...

– Vou deixar esse dinheiro para trás quando for embora.

Erguendo a panela da chama, ela inclinou a face plana da coisa, levando a manteiga a fazer um pequeno passeio até que acabou se desfazendo.

– E eu não posso aceitar. Deve saber disso. Isso faria de mim sua cúmplice. – Ela achou que tinha ouvido um palavrão baixinho, mas talvez tenha sido apenas o soltar de uma respiração. – Além do mais, posso apostar que o dinheiro veio da luta. Ou foi de drogas?

– Não sou traficante.

– O que significa que veio da primeira opção. Ainda é ilegal. A propósito, verifiquei seus antecedentes. – Ela mexeu mais uma vez os ovos e derramou mais da metade deles na panela, um shhh silencioso se ergueu. – Não há nada além de um artigo de jornal de cinco anos atrás sobre sua morte. Vem com uma foto sua, então, nem se incomode em negar isso.

Ele caiu em um silêncio profundo e ela sabia que seus olhos a encaravam de maneira penetrante.

Por um momento, ela soube exatamente por que o tinha recebido em sua casa. Mas, em seguida, por alguma razão, ela pensou nele tirando sua botas de combate e as deixando do lado de fora da porta da frente.

Hora de cair na real, ela pensou.

– Então, você vai me dizer para qual área do governo trabalha ou devo arriscar um palpite?

– Não sou militar.

– Mesmo? Então, devo acreditar que você luta daquela maneira e que protege seu apartamento como protege e está em uma fuga rápida para fora da cidade só porque é algum tipo de vândalo de rua comum ou um fiscal de baixo nível? Não caio nessa. Aliás, vê-lo naquele ringue foi como tive certeza – aquilo e o fato de ter seu próprio cão ao lado quando eu fui atacada. Você estava totalmente no controle de si e da situação com aquele drogado, não vacilou em nada, era o tipo leão de chácara emocional salvando o dia. Você foi um profissional, na verdade, é. Não é mesmo?

Ela não precisava que dissesse uma palavra, pois sabia que estava certa. E, mesmo assim, quando não havia qualquer comentário, ela o encarou, meio que esperando que ele se dissolvesse em uma rajada de ar.

Mas Isaac Rothe, ou seja lá qual era o nome dele, permaneceu sentado na ilha da cozinha dela.

– Como gosta de seus ovos? – ela disse. – Duros ou moles?

– Duros – ele respondeu.

– Por que não estou surpresa?


CAPÍTULO 14

 

“Preso em flagrante”, Isaac pensou que era essa a expressão. Ao encontrar os olhos de sua defensora pública, hospedeira e cozinheira de pratos rápidos, ficou claro que ela sabia muitas coisas sobre ele.

E não é que isso fez com que se sentisse despido?

– Acho que deveria renunciar o meu caso – disse ele severamente. – Na verdade, hoje à noite.

Ela colocou o queijo e o bacon canadense sobre o círculo de uma omelete que borbulhava.

– Eu não desisto. Ao contrário de você.

Certo. Isso o irritou.

– Eu também não desisto.

– Mesmo? Como você chama fugir de suas responsabilidades?

Antes que ele percebesse, se debruçou sobre a bancada e se aproximou dela. Ao ver que os olhos dela queimavam, ele disse severamente: – Eu chamo de sobrevivência.

Para seu crédito, ou sua estupidez, ela não desistiu.

– Fale comigo. Pelo amor de Deus, deixe-me ajudá-lo. Meu pai tem contatos. Do tipo que se aprofundam e se infiltram nas sombras do governo. Há coisas que ele pode fazer para ajudá-lo.

Isaac permaneceu muito calmo por fora. Dentro, porém, ele estava confuso. Quem, diabos, era o pai dela? Childe... Childe... O nome não dizia nada ao seu banco de dados interno.

– Isaac – ela disse. – Por favor...

– Você me libertou, então, eu posso continuar. Isso me ajudou. Agora, você tem que me deixar ir. Deixe-me ir e esqueça que me conheceu. Se seu pai é o tipo de homem que diz que é, você sabe muito bem que há ramos do serviço militar onde “desertor” é uma sentença de morte.

– Pensei que não era militar.

Ele deixou aquela mentira onde tinha colocado... em cima da pilha de porcarias que trouxe à porta dela.

No silêncio, acrescentou um pouco de tempero, o saleiro não fez qualquer som, já a pimenta crepitou um pouco. Então, ela dobrou a omelete ao meio e deixou fora do fogo por alguns instantes.

Dois minutos depois, o prato que lhe foi apresentado era branco e quadrado e o garfo era de prata e tinha arabescos sobre ele.

– Sei que você é educado. Mas não espere por mim. É melhor quente.

Ele não queria comer antes dela, mas considerando que ele a desafiou em tudo naquela noite, pensou que agora era uma oportunidade para se harmonizar um pouco. Indo até a pia, lavou as mãos com água e sabão; em seguida, sentou-se e comeu cada pedaço.

Estava ótimo.

– Passe a noite aqui – disse ela, depois que fez seu próprio prato e começou a comer enquanto permanecia no balcão. – Passe a noite aqui e eu renuncio ao seu caso, mas não faço isso até que tome café da manhã comigo amanhã de manhã. E você vai levar seu dinheiro quando sair. Não vou fazer parte disso. Se você se for, vai ter que levar essa dívida em sua consciência.

Uma onda de cansaço percorreu o corpo dele, sugando-o na banqueta. Dentre seus muitos pecados, dever dinheiro a ela parecia curiosamente um fardo insuportável, muito superior ao número de corpos que tinha enviado aos seus túmulos. Mas isso era o que as pessoas decentes sempre faziam com ele... elas faziam com que ele visse claramente quem e o que ele era.

Assim que estava se preparando para argumentar sobre a hospedagem, ela o interrompeu.

– Olha, se você está aqui, sei que está seguro. Sei que vai ter mais uma ou duas refeições e que vai embora mais forte com isso. Agora, você precisa de um cuidado médico em seu rosto, outra omelete e uma cama onde possa descansar. Como eu disse, essa casa é bem mais segura do que os padrões civis e há alguns truques dentro dela, então, você não precisa se preocupar em fazer uma pausa. Além disso, por causa do meu pai, ninguém que tenha laços com o governo vai me machucar.

Childe... Childe... Não, nada ainda.

Bom, ele era um soldado raso nas operações extraoficiais que se preocupava com duas coisas: conseguir seu objetivo e sair vivo. Ele não era o tipo que conhecia a hierarquia militar.

Contudo, Jim Heron saberia. E o cara tinha deixado seu número...

– Então, temos um acordo? – ela perguntou.

– Você vai renunciar? – ele rebateu rispidamente.

– Sim. Mas vou ter que contar a eles tudo que sei sobre você quando o fizer. E antes que pergunte, uma vez que você não confirmou ou negou uma conexão com o governo... Vou simplesmente esquecer que conversamos sobre isso.

Ele limpou a boca com um guardanapo e quis amaldiçoar sua falta de opções: cara, sua determinação estava no ângulo do seu queixo... era evidente que tinha que ser do jeito dela ou de jeito nenhum.

– Mostre-me seu sistema de segurança. – Quando seus ombros relaxaram visivelmente, ela apoiou o garfo, mas não tinha comido nada. – Não, termine de comer primeiro.

Enquanto ela comia, ele se levantou e andou ao redor, memorizando tudo desde os quadros nas paredes até as fotos na área da cozinha onde havia sofás e uma mesa. Finalmente, ele parou em frente a todo aquele vidro.

– Deixe-me mostrar a você.

Ao som daquela voz, seus olhos se voltaram para o reflexo dela atrás dele com aquele vestido preto, um fantasma de uma bela mulher...

No silêncio tranquilo da casa, com sua barriga cheia de comida que ela havia preparado para ele e com seus olhos embevecidos com a visão dela... as coisas saíram do complicado para se tornarem completamente caóticas.

Ele a queria. Com uma ânsia que colocaria um maldito vínculo entre eles.

– Isaac?

A voz dela... aquele vestido... aquelas pernas...

– Eu preciso ir – ele disse de maneira severa. Na verdade, ele precisava entrar... dentro dela. Mas aquilo não ia fazer parte da situação. Mesmo que ele tivesse de cortar seu membro e queimá-lo naquele adorável jardim que ela tinha.

– Então, eu não vou renunciar seu caso.

Isaac se virou e não ficou surpreso ao ver que ela não recuou ou cedeu um centímetro.

Antes que ele abrisse a boca, ela levantou a palma da mão para detê-lo antes que começasse.

– Não importa que eu não o conheça e que não deva nada a você. Então, pode parar agora com esse argumento. Você e eu vamos checar meu sistema de segurança e, em seguida, você vai dormir no meu quarto de hóspedes e ir embora de manhã...

– Eu poderia matá-la. Bem aqui. E agora.

Aquilo a calou.

Quando ela levantou as pontas dos dedos até seu pesado colar de ouro, como se estivesse imaginando as mãos dele em volta de sua garganta, ele caminhou até ela.

E, desta vez, ela recuou... até o balcão onde seu prato vazio a deteve.

Isaac continuou a se aproximar até que esticou os braços nas laterais dela, fechando as mãos no granito, aprisionando-a de fato. Olhando bem dentro dos olhos azuis que ela tinha, ele estava desesperado para assustá-la de alguma maneira.

– Não sou o tipo de homem com quem está acostumada a lidar.

– Você não vai me machucar.

– Você está tremendo e tem uma enorme tensão no seu pescoço agora. Então, diga-me, do que acha que sou capaz.

Quando ela engoliu em seco, ele percebeu que aquela chamada para a realidade estava atrasada... só que ele se sentia um bandido em um show de agressão.

– Sei que está no espírito de salvadora. Mas não sou o tipo de caridade que vai alimentar sua alma. Acredite em mim.

O zumbido de uma energia começou a vibrar entre eles, as moléculas de ar no espaço entre seus corpos e seus rostos começaram a se agitar.

Ele se inclinou, cada vez mais próximo.

– Sou mais o tipo que comeria você viva.

A respiração dela exalou com ímpeto e ele sentiu aquilo percorrer a pele de seu pescoço como um beliscão.

Então, ela o acertou em cheio.

– Faça isso, então – ela desafiou.

Isaac franziu a testa e recuou um pouco.

Seus olhos ardiam, uma raiva súbita permeou seu belo rosto com uma paixão que o chocou e o excitou ao mesmo tempo.

– Faça isso – ela resmungou, agarrando um de seus braços.

Ela ergueu uma das mãos dele e colocou em sua própria garganta.

– Vá em frente. Faça isso. Ou só está tentando me assustar?

Ele tirou seu pulso das garras dela.

– Você está fora de si.

– É isso mesmo, não é? – Sua raiva não foi ativada novamente. Mesmo. De verdade.

– Você quer me intimidar para que eu fique assustada e te dê um descanso. Bem, boa sorte com isso. Pois a menos que esteja preparado para seguir com a ameaça, eu não vou recuar e não tenho medo de você.

Os pulmões dele começaram a queimar... e mesmo sendo muito mais inteligente da parte dele sair e usar uma das portas, acabou colocando a mão direita sobre o granito onde estava antes... então, ela ficou presa mais uma vez entre seus braços.

Ele a queria bem onde estava, toda coberta por seu corpo. E ele respeitava sua demonstração de força; respeitava de verdade, mesmo que isso o deixasse preocupado sobre o quanto ela era imprudente.

– Adivinhe – ele disse em uma voz baixa e grave.

Ela engoliu em seco mais uma vez.

– O que?

Isaac se aproximou, colocando sua boca no ouvido dela.

– Matá-la não é a única coisa que poderia fazer com você... senhora.

Fazia um bom tempo desde que Grier sentiu cada centímetro de seu corpo – ao mesmo tempo. Bom Deus, ela sentia agora, e não era apenas a sua pele. Ela sentia cada pedaço de Isaac Rothe também, mesmo sabendo que nada a tocava.

Havia tanto dele ali. E talvez ela devesse ter se afastado de tudo devido àquela coisa bruta e masculina que ele tinha se transformado... mas, ao invés disso, a realidade impetuosa de seu poder simplesmente chamava mais e mais sua atenção. Separados por poucos centímetros, os dois respirando com dificuldade, ela estava completamente desequilibrada, suas emoções foram desencadeadas como se, de fato, sua cabeça tivesse sido tirada do corpo e estivesse rolando no chão.

Deus, ela estava desesperada por ele: ela queria atirar-se contra ele e ser nocauteada pelo impacto. Ela queria que ele fosse a parede de tijolos ao fazer isso. Ela queria ser insensata, vacilar e sair da sua realidade... por causa dele e do sexo que ele emanava como um aroma e do passeio selvagem que ele seria.

Sim, claro, não ia durar. E quando voltasse a si, ia se sentir como o inferno. Mas, nesse momento elétrico, ela não se importava com nada disso.

– Isaac...

Ele se afastou. No momento em que ela disse seu nome com voz rouca, ele não apenas se afastou; ele saiu do turbilhão.

Caminhando ao redor, ele esfregou os cabelos curtos como se estivesse tentando esfregar o cérebro e a distância física deu uma ideia a ela de como se sentiria depois que ficasse com ele: muito vazia, um pouco enjoada e, definitivamente, envergonhada.

– Isso não vai acontecer de novo – ele disse, severo.

Ao pronunciar isso no ar que ainda pairava entre eles, ela disse a si mesma que estava aliviada por não ter que lidar com questões que envolvessem sexo.

Porém... o latejar entre suas coxas dizia que aquilo era uma mentira deslavada.

– Eu ainda quero que fique – ela disse.

– Você nunca desiste, não é?

– Não. Nunca – ela pensou na quantidade de vezes que tentou tirar Daniel de sua ruína. – Nunca mesmo.

O rosto de Isaac parecia idoso ao olhar para ela do outro lado da cozinha, seus olhos gelados não eram nada além de abismos de escuridão.

– Ouça a voz da experiência. Desistir pode ser um importante mecanismo de sobrevivência.

– E, algumas vezes, uma falha moral.

– Não se estiver sendo arrastada por um carro. Ou sendo puxada para um buraco cheio de ratos. Às vezes, para salvar a si mesmo, você tem que sair.

Ela sabia que ele estava se aproximando da verdade e ela manteve sua voz o mais firme possível.

– Do que você está fugindo, Isaac? Do que você está se salvando?

Ela apenas a encarou. E, então...

– Onde está seu sistema de segurança?

Desviar o assunto foi uma decepção, mas o fato de ele considerar que ia se hospedar era uma vitória. E, enquanto ela o levava até a frente da casa, se recompôs da melhor maneira possível – apesar de seus joelhos estarem bambos, sua pele superaquecida e sua mente girando.

Havia uma familiaridade terrível com aquela sensação, sobre a qual ela se recusava a pensar... mas poderia contar ao seu irmão morto, quando ela o visse novamente. Daniel nunca falava da noite em que tinha morrido, ou de todas as agressões que infringiu a si mesmo antes. Mas, talvez... eles precisassem conversar sobre tudo.

– Como disse antes, isso é apenas para enganar – ela disse, deslizando a mão sobre o painel do sistema de segurança que foi instalado na parede. – A unidade verdadeira está atrás do meu armário de roupas. Cada janela e cada porta tem um receptor do sistema, mas o sistema de fato está ligado a ondas de rádio, raios infravermelhos e placas de cobre. Assim como o seu.

– Mostre os conectores. Eu quero ver a placa-mãe. Por favor.

O que significava levá-lo até o andar de cima.

Quando ela olhou os degraus acarpetados, achou difícil acreditar que estava considerando a possibilidade de confiar nele...

Aquela proximidade com a cama.

Que diabos estava acontecendo com ela?


CAPÍTULO 15

 

Quando Isaac foi conduzido a um quarto acolhedor em estilo biblioteca, ele soube que era ali que Grier passava seu tempo livre. Havia edições do New York Times e do Wall Street Journal em uma cesta de vime ao lado de uma cadeira estofada e o telão na parede mais afastada sem dúvida exibia a CNBC ou CNN ou FOX News na maioria das noites.

Quem sentava ali e assistia com ela? Aquele seu irmão?

– Vê? – ela disse, afastando uma cortina de um xadrez escuro.

Isaac se aproximou e se inclinou – o cheiro do perfume dela era exatamente o tipo de coisa que ele não precisava sentir agora.

Obrigando-se a focar o minúsculo brilho do cobre, ele aprovou o que olhava. Um material muito moderno.

Quem diabos era o pai dela?

Antes que ele fizesse algo estúpido, como tocá-la, ele se afastou e enquanto vagava perto da TV, não ficou nem um pouco surpreso com a coleção de DVDs colocada nas prateleiras. Havia muitos títulos estrangeiros e filmes sérios dos quais ele nunca tinha ouvido falar, quanto mais assistido. Então, lembrou que não foi ao cinema desde o final dos anos oitenta.

A última coisa que ele conhecia era Bruce Willis como um policial desesperado em busca de um sapato que servisse, Arnold como um cyborg de óculos escuros e Steven Seagal com aquelas entradas.

– Vai me levar até a placa-mãe? – ele disse virando-se para ela.

E a parte do “e depois até sua cama?” ele deixou de lado. Que cavalheiro.

– Claro.

Seguindo-a pelas escadas, ele deu um bom espaço entre eles – o que foi bom no sentido de conter as mãos e diminuir o calor, pois ele tinha muito a olhar. Jesus, seus quadris tinham um jeito que fazia com que ele rangesse os molares.

Quando chegaram ao segundo andar, ele fez uma rápida pausa e conseguiu algumas impressões de três quartos com portas abertas. A decoração era feita da mesma maneira antiquada dos andares abaixo, mas havia uma vibração aconchegante em tudo. Muito mais “família” que “hotel”.

Era certo que ele nunca tinha vivido assim. Na sua infância, ele dividiu um quarto do tamanho do corredor da frente com dois irmãos. Nas operações extraoficiais, ele pegava no sono onde podia – geralmente sentado em uma cadeira de frente para uma porta com uma arma na mão.

– Fico no terceiro andar – ela disse de um degrau acima.

Ele assentiu e entrou em ação. Acontece que ela ocupava todo o terceiro andar. O quarto principal se estendia com sua própria área de estar, lareira e portas francesas que se abriam ao que ele concluiu ser um terraço particular.

– Aqui.

Ele seguiu o som da voz dela, indo até o closet onde ela tinha desaparecido. A maldita coisa era tão grande quanto a sala de estar de algumas pessoas, com um carpete creme envolvendo as paredes e legiões de roupas alinhadas e penduradas por categoria.

O ar rescendia ao perfume dela.

Ela estava na parte de trás, afastando uma dúzia ou mais de ternos muito sérios para revelar... uma grade de 1,20 metro de altura e 90 centímetros de largura que parecia ser apenas a cobertura de um radiador antigo. Mas, como pode imaginar, a coisa deslizou para trás e revelou um esconderijo.

Um pequeno click e a luz se acendeu.

Ela passou primeiro e ele ficou bem próximo dela ao entrar no confinamento apertado... e lá estava.

Mas que... droga!

Ao se ajoelharem lado a lado, ele pensou: cara, era bom não ser um tipo de técnico naquilo ou estaria desmaiando. A configuração era o máximo de sofisticação – nada de uma combinação com dez números e as opções desligar, parcial ou total. Aquele era um sistema de computadores em rede que acompanhava as diferentes zonas da casa em vários níveis. E, se ele estava entendendo direito, a única maneira de chegar aos componentes era chegar até ali, e desarmar tudo seria complicado.

Só que...

– Eu não vi você desativar isso quando entramos.

Ela mostrou algo que parecia com o chaveiro de um carro.

– O painel é calibrado com minha impressão digital. Levo isso comigo onde quer que eu vá e o sistema está ligado agora.

Quando ele virou a coisa nas mãos, ela disse: – Bom o suficiente?

Houve um longo momento. Longo demais para onde eles estavam.

Longo demais para quem eles eram.

– Algo mais? – ela disse.

Sim.

– Não.

Grier assentiu e tomou seu caminho em direção à saída do confinamento. Depois que ele saiu, colocaram a grade de volta e andaram até o quarto. Que droga: ele não pôde deixar de olhar para a cama dela. Grande. Cheia de edredons e travesseiros. Do outro lado, havia uma pequena TV em cima de uma mesa antiga e uma estante forrada com DVDs ordenados de maneira precisa.

Ele franziu a testa e se aproximou -, apesar de não ser da sua conta, mas... caramba, será que estava enxergando os títulos direito?

A Garota de Rosa Shocking. Clube dos Cinco. Gatinhas e Gatões. Duro de Matar. A Força em Alerta.

Até mesmo ele conhecia esses filmes.

– É o que eu assisto à noite – disse Grier, quando ela veio atrás dele e endireitou as caixas finas apesar de estarem perfeitamente retas.

– Diferente dos que você tem lá embaixo. – E ele achou difícil acreditar que ela era uma mulher cheia de pose que queria ser toda Jane Austen em público e Jerry Seinfeld ali no quarto.

Ela pegou Harry e Sally – feitos um para o outro, e passou a mão sobre a cena de outono na capa.

– Eu não durmo bem e isso ajuda. É como se... meu cérebro voltasse ao tempo em que eles foram produzidos. Eu vejo os carros... as cenas em supermercados com preços menores... as roupas que estavam na moda... os cabelos que ninguém mais usa. Volto à época em que os vi pela primeira vez, quando as coisas eram... mais simples. – Ela sorriu com uma pressa desajeitada. – Acho que você chamaria de pequenos nocautes cinematográficos. É a única coisa que funciona pra mim.

Olhando para ela enquanto observava Meg Ryan, ele teve a visão de seu penteado de perfil, a luz azul da tela iluminava seus traços, a viagem ao passado acalmava seus nervos e relaxava seu cérebro.

Ela tinha uma companhia para assistir com ela? Ele se perguntou. Um namorado?

Nada de aliança, então, ele concluiu que ela não era casada ou noiva.

– O que foi? – ela disse, endireitando o bonito vestido preto. Ele limpou a garganta, odiando ter sido pego olhando para ela.

– Qual chuveiro quer que eu use?

Isso a fez sorrir. Pela primeira vez.

E sim, abatido como estava... ele prendeu a respiração e seu coração parou.

Grier colocou o filme de volta no lugar.

– Mais comida primeiro – ela disse ao se virar e ir em direção às escadas.

Jim e seus colegas aterrissaram no jardim dos fundos de uma casa de alvenaria de três andares que gritava ao mesmo tempo dinheiro e desculpas por causar tanto impacto. Tudo relacionado a ela e à sua vizinhança era refinado e muito bem-cuidado... e de tijolos. Pelo amor de Deus, todo o código postal que cobria a área parecia com a casa que abrigou os três porquinhos do lobo: casas de tijolos, muros de tijolos, calçadas de tijolos, travessas de tijolos.

Era o suficiente para fazer o pulmão do Lobo Mau ficar forte como ferro.

Através das janelas de vidro, viu uma cozinha muito espaçosa em todas as direções e com comida no balcão – mas não havia pessoas. Recuando, Jim não olhou para a casa, mas através da casa, fechando seus olhos e se concentrando.

Sim, ele conseguia sentir os dois... assim como algo mais. Havia uma... oscilação... lá dentro.

Suas pálpebras se abriram e quando se lançou para a porta dos fundos, Eddie agarrou seu braço. Que, considerando a força do cara, foi como se tivesse batido em um carro estacionado.

– Não, não é Devina. É uma alma rebelde.

Jim franziu a testa e concentrou sua atenção na confusão.

– Rebelde?

– É uma alma que foi libertada do corpo, mas que ainda precisa encontrar seu destino eterno.

– Um fantasma?

– Sim. – Eddie tirou sua mochila dos ombros, sua grossa trança caiu para frente. – Está por aí, esperando para ser libertada.

– O que mantém a coisa aqui?

– Negócios não resolvidos.

– E você tem certeza de que é isso? – Quando os olhos vermelhos do anjo ficaram rígidos como pedra, Jim levantou as mãos. – Certo, certo. Mas nós podemos chamá-los de “fantasmas”? Aquela porcaria de “rebelde” tem mais a ver com o estilo de uma vovó.

– Concordo – Adrian opinou.

– Ah, pelo amor... vocês podem chamá-lo de Fred, se for pra saírem dessa.

– Feito.

Naquele momento, Isaac e Grier entraram na cozinha. Quando o cara se acomodou em uma banqueta, ela voltou a cozinhar para ele e a tensão entre os dois era óbvia... assim como a atração. Os dois estavam jogando tênis com o olhar: cada vez que um olhava, o outro desviava os olhos. E o rubor nas bochechas da mulher selava o clima romântico.

Ao olhar pelo vidro, Jim se sentiu muito velho e distante. Achou que agora, sendo um anjo, qualquer sonho de se casar e ter filhos estava morto e enterrado – para não dizer sobre a questão de não namorar ninguém... apesar de, Cristo, quando foi que ele tinha namorado pela última vez?

E ele nunca foi do tipo que se casaria, então, em que diabos ele estava pensando?

Além disso, aquele não era nenhum filme de amor sobre a vida real do outro lado do vidro: o que ele estava olhando era para um homem caçado e uma mulher que estava fora de si.

Algo difícil de invejar.

Na verdade, ele se perguntava no que diabos o cara estava pensando. Qualquer um que tinha trabalhado com seu velho chefe sabia que os efeitos colaterais disso tinham uma possibilidade real de entrar naquele cenário.

– Cara, vamos nos mudar para cá – Adrian gemeu. – Dane-se os feitiços de proteção... eu amo uma boa omelete e estou faminto.

Jim o encarou.

– Está falando sério?

– O quê foi? Esse lugar está cheio de quartos. – De repente, a voz do anjo ficou mais profunda. – E eu posso fazer meus exercícios extracurriculares muito discretamente.

Sim, e ele não estava falando de levantar pesos. Leia: sexo com mulheres desconhecidas. Às vezes, Eddie participava da festinha.

Jim passou apenas uma noite com os dois, mas já sabia qual era o treinamento. Apesar de Ad ter permitido que Devina usasse e abusasse dele no primeiro jogo, não levou muito tempo para que ele desse umas voltas de novo. O cara tinha uma estranha obsessão pelo sexo feminino.

– Será que dá pra você focar? – Jim encarou Eddie. – Então, o que temos aqui?

Adrian interrompeu com um rosnado.

– Ah, sim, ela está fazendo outro para ele.

– Dá para parar com essa voz pedindo por comida e sexo?

– Ei, quando estou em algo, eu vou com tudo.

– Tente aprender a cozinhar, então...

Eddie limpou a garganta.

– Certo. No entanto há uma troca para proteger esse lugar: as magias mais fortes vão sinalizar o local para Devina.

– Ela já sabe – Jim disse em voz baixa. – Apostaria minhas bolas que ela já o encontrou.

– Ainda acho que devemos ficar quietos.

– Concordo.

Eddie se aproximou.

– Então, me dê sua mão.

Quando Jim ofereceu a palma de sua mão, ele olhou para o casal lá dentro. Eles pareciam isolados do furacão que girava no horizonte e ele teve o estranho impulso de fazer com que permanecessem assim...

– Droga – ele sussurrou, puxando seu braço para trás. Olhando para uma ardência em sua mão, encontrou um fino corte na sua linha da vida, que estava escorrendo... sangue... ou algo parecido.

Havia um brilho no fluxo vermelho que escorria, como a pintura de um carro à luz do sol. Engraçado, ele não tinha notado nada estranho na funerária... afinal, ele estava muito distraído olhando o próprio cadáver.

Eddie empunhou mais uma vez sua adaga de cristal.

– Circule o local e marque cada uma das portas. Tenha em mente a imagem dos dois e de que estão em segurança, em paz, calmos e protegidos. O mesmo de antes: quanto mais forte a imagem for, melhor vai funcionar. Isso vai formar um tipo de barômetro emocional na casa... assim, se houver um distúrbio maior, vai sentir isso. É uma magia de baixo nível e vai trazê-lo aqui rapidamente se alguma coisa acontecer... e isso não vai chamar a atenção de Devina. É claro que não vai mantê-la do lado de fora, mas você vai ser capaz de chegar aqui em um piscar de olhos se ela ultrapassar a barreira.

Com a mão pingando, Jim subiu os degraus até a porta dos fundos, mantendo-se camuflado para que ele pudesse aparecer a Isaac e sua garota como nada mais que uma sombra. Pressionando a palma de sua mão nos painéis frios, ele se concentrou nos dois, capturando a imagem deles no momento em que seus olhos se encontraram e se detiveram assim. Então, ele baixou as pálpebras e não se concentrou em mais nada além daquela imagem...

O mundo desapareceu, tudo, desde a brisa em seu rosto, o ranger da jaqueta de couro de Adrian até os sons distantes do tráfego... simplesmente desapareceram... e, em seguida, foi a vez de seu corpo, não havia mais peso sob seus pés, mesmo que ainda tocassem o chão.

Não havia nada para ele, em torno dele, ou sobre ele, apenas a imagem em sua mente.

E foi a partir do vácuo que seu poder entrou em ebulição.

Uma imensa onda de energia foi canalizada no espaço em branco que ele criou e sem entender muito bem, ele sabia exatamente o que fazer com a força, enviando-a ao redor da casa, doando parte disso apenas para descobrir que havia ainda mais fluindo dentro dele.

Soltando o braço, ele se afastou...

Jim ficou como uma estátua. O brilho de seu sangue estava na porta... e se espalhava em todas as direções em ondas, cobrindo os painéis, as ombreiras e se movimentando sobre o tijolo. Aquilo se espalhava para cima e para os lados, ganhando espaço, assumindo o controle.

Selando toda a casa.

– Nada mau para a primeira tentativa – ele murmurou, preparando-se para ir até a parte da frente.

Ao se virar, deteve-se. Os dois anjos estavam olhando para ele como se fosse um estranho.

– O que? – Ele olhou sobre o ombro. A onda bruxuleante vermelha se espalhava, subindo até o teto. – Parece evidente que a coisa funcionou.

Eddie limpou a garganta.

– Ah, sim. Pode-se dizer assim.

– A frente...

– Não é necessário – Eddie disse. – Você já cobriu toda casa.

Quando Adrian murmurou algo em voz baixa e balançou a cabeça, Jim pensou “Mas que inferno é esse?”

– Parece que alguém urinou no pé de vocês. Querem me dizer qual é o problema? – Pausa. Tempo para resposta... que não veio. – Tudo bem. Que seja.

– Temos que ir agora – Eddie disse ao colocar sua faca de volta na mochila. – Com o feitiço no local, não há nada mais que possamos fazer. Ela tem algo de todos nós.

– Como?

Os dois anjos se entreolharam. Ad foi o único quem respondeu.

– Todos nós já estivemos com ela. Se é que entende o que quero dizer.

Jim estreitou seus olhos em Eddie, mas o anjo se ocupou com sua maldita bagagem.

Bem, veja só. Devina ficou até mesmo com Eddie.

Afastando o pensamento de sua mente, Jim entrou pela porta traseira do jardim e deu a volta até a entrada da frente. Depois de anotar o número e o nome da rua, ele se elevou no ar, apesar do impulso de permanecer onde estava.

Contudo, ele estava satisfeito com seu pequeno feitiço de proteção – além do mais, o Cachorro estava no hotel há um bom tempo e Jim precisava levá-lo para passear. Talvez ele comprasse uma pizza para depois...

Enquanto Adrian e Eddie, sem dúvida, aproveitariam um tipo diferente de comida.


CAPÍTULO 16

 

Enquanto Isaac estava comendo sua segunda omelete – e pensando em como ele iria passar a noite – Grier saiu para aprontar seu quarto. Quando os dois terminaram, ela o levou para o que, com certeza, era o quarto de hóspedes principal: as paredes e cortinas eram azuis-marinho e marrom-chocolate, e havia cadeiras de couro e muitos livros encadernados com couro.

Ele se sentiu um intruso total.

– Vou me trocar e depois limpar a cozinha – ela disse ao se afastar e puxar a porta deixando-a parcialmente fechada. – Se precisar de alguma coisa, sabe onde me encontrar.

Houve uma breve pausa. Como se ela estivesse procurando alguma coisa para dizer.

– Boa-noite, então – ela murmurou.

– Noite.

Depois que ela o fechou ali, ele a ouviu indo para o quarto, sua pisada macia e firme.

Ele não conseguia ouvi-la andando lá em cima, mas a imaginava entrando naquele grande armário e tirando seu vestido preto.

Sim... aquele zíper avançando para baixo, mostrando-lhe as costas. As alças deslizando pelos braços... o material caindo em sua cintura e, em seguida, deslizando por suas pernas.

Seu pênis teve um espasmo.

Em seguida, ficou totalmente rígido.

Droga. Tudo o que ele não precisava.

Entrando no banheiro, ele parou e teve que balançar a cabeça para sua anfitriã. No balcão de mármore, ela tinha deixado toalhas limpas, uma coleção de artigos de higiene, um vidro de antisséptico e uma caixa de curativos. Havia também uma blusa masculina e um conjunto de pijamas de flanela com cordões e botões que enviaram uma ponta de ciúmes diretamente ao peito dele.

Ele realmente esperava que fossem do irmão dela. E não algum tipo de advogado esperto e bem-vestido que dormia com ela.

Amaldiçoando a si mesmo, ele se dirigiu para o chuveiro e ligou a água. Não era da sua conta quem eram seus amantes – como eram, ou quantos, ou quando e onde. E quanto à coisa do pijama de flanela? Eles estavam limpos e iam evitar que exibisse suas partes.

Não importava a quem eles per tenciam.

Ele tirou seu blusão e verificou duas vezes suas armas. Em seguida, puxou a camiseta regata pela cabeça, deslizou suas calças e deu uma olhada em seu reflexo no espelho: muitas manchas pretas e azuis sobre seus ombros e peito, espalhadas entre a rede de cicatrizes antigas que tinham se curado muito bem.

Difícil não pensar no que Grier pensaria dele.

Por outro lado, se ele a pegasse no escuro, não teria com o que se preocupar...

– Pois é – ele precisava muito parar com aquela droga.

Entrando no chuveiro, se perguntou o que exatamente nela o fazia pensar como se tivesse quinze anos. E decidiu que tinha que ser o fato de não fazer sexo há um ano e ter lutado naquela noite – as duas coisas eram do tipo que excitava um cara.

Mesmo.

Elas faziam isso.

Ele não podia ir atrás de sua advogada só por que ela era uma linda mulher de um metro e setenta e cinco, embrulhada em um pacote estilo Tiffany.

Infelizmente, qualquer que seja o motivo, voltar-se para o sabão e a água quente não aliviaram sua sobrecarga de hormônio. Enquanto se lavava, as mãos sobre sua pele estavam escorregadias e quentes... e o sabonete escorreu entre suas pernas, excitando seu membro enrijecido e fazendo cócegas em seus testículos tensos.

Ele estava acostumado com seu corpo cheio de dores, era fácil ignorar essa droga, esses machucados. O que ele estava sentindo por aquela mulher? Era como tentar ignorar que alguém estava gritando em uma igreja...

Sua mão ensaboada vagou por onde não devia, passando entre as coxas, passando pela parte inferior de sua ereção.

– Dane-se – ele disse entre dentes e deixou a palma de sua mão deslizar para trás e para baixo, o atrito intensificou a excitação.

Precisou de toda força que tinha para se desvencilhar daquela mão maldita. E ele acabou lavando o cabelo três vezes na tentativa de manter-se ocupado. Condicionando a maldita coisa também. Claro, a melhor solução era sair da privacidade traiçoeira e do calor sedutor do chuveiro, mas ele não conseguia convencer seu corpo a tomar a direção contrária do banheiro.

Antes que percebesse, sua ereção estava agindo como um imã de novo e a palma de sua mão fez o que tanto queria... e ele desistiu da luta.

Sujo. Pervertido. Bastardo.

Porém, foi tão boa aquela pegada de imaginar que era ela, a espera, aquele deslizar, aquela leve torção na ponta.

Além disso, quais eram suas opções? Tentar ignorar? Sim, claro. Colocar as calças do pijama seria como um circo obsceno – uma tenda armada e algo mais. E tinha que vê-la antes de ir dormir.

Ele tinha um aviso para dar a sua adorável advogada.

O último de seus argumentos ficou vagando em sua cabeça... bom, talvez descarregar aquela tensão umas duas vezes e, em seguida, pegar a estrada. De frente para o chuveiro, ele apoiou a mão na parede de mármore e inclinou-se sobre o ombro. Seu pênis estava pesado e duro como seu maldito antebraço ao começar a trabalhar nele, sua mão movia-se para cima e para baixo. E o sopro de fogo que percorreu sua coluna fez sua cabeça cair e precisou abrir a boca para respirar.

No turbilhão em que se encontrava, ele se recusou a pensar em Grier. Ela poderia ter sido a causa da excitação, mas ele não ia fantasiar sobre ela enquanto se masturbava no chuveiro da casa dela. Simplesmente não ia acontecer. Era grosseiro e desrespeitoso demais... ela merecia muito mais, mesmo se nunca soubesse daquilo.

Esse foi o último pensamento consciente que teve antes do orgasmo tomar conta dele: a cabeça de seu sexo estava tão sensível que cada deslizar sobre a coisa era uma picada doce que atingia sua ereção e envolvia suas bolas. Afastando as pernas uma da outra, ele se posicionou bem e se preparou ao encontrar seu ritmo, o jato de água quente escorria pelo seu cabelo percorrendo seu rosto quando começou a arquejar...

Do nada e contra qualquer comando de memória, a lembrança de Grier tão perto dele e de maneira tão íntima tomou conta de seu cérebro e se transformou numa fera. Não importava o quanto ele tentasse esquecer ou se concentrar em outra coisa, não conseguia se desvencilhar daquele momento tão perto dela.

Deus, seus lábios estiveram a um centímetro do dele. Tudo o que precisava fazer era inclinar a cabeça e teria um beijo...

O alívio veio rápido e poderoso, batendo nele com tanta força que teve que tensionar seus bíceps e morder os lábios para não gritar o nome dela.

Como ele era maldito! Lançou-se para o último espasmo, ordenhando-se até seus joelhos desfalecerem e ele provar o gosto do sangue da mordida.

Na sequência, ele cedeu e sentiu-se como um terreno baldio por dentro, como se não apenas seu impulso sexual tivesse sido drenado de dentro dele, mas todo o resto.

Ele estava tão cansado.

Tão, tão cansado.

Com uma maldição, ele alcançou a mão que tinha feito o trabalho e certificou-se de que não havia rastro de nada no mármore ou no vidro. Então, ele se lavou pela última vez, desligou a água e saiu dos limites do vapor que o colocou em apuros.

Ele ainda estava duro. Apesar da exaustão. E do exercício.

Era evidente que seu pênis não tinha aceitado o suborno.

E, sim, ele estava certo: a flanela não fez nada para evitar o “Ei, podemos ter um pouco mais disso?”. De qualquer forma, aquela coisa fazia com que parecesse duas vezes maior... o que, considerando que a coisa estava se erguendo, não era a direção que ele queria seguir.

Dobrando sua ereção e prendendo-a com a cintura do pijama, ele pegou a blusa e rezou para que a coisa descesse o suficiente para esconder a vergonha daquela cabeça.

Que ainda estava cheia de ótimas ideias...

Certo, não tinha chance de esconder. A blusa seria longa o suficiente, se seu peito não fosse tão grande. Como ficou? Ele estava mais nu do que nunca ao dar uma olhada para seus “bens”.

Isaac abandonou a blusa e a jogou sobre seu blusão, a regata estava nojenta demais depois da luta. A maldita coisa deveria ser queimada e não lavada.

E antes que voltasse a descer as escadas, ele usou os acessórios de primeiros-socorros, mas não por que se importasse: com certeza, se ele não os usasse, ela insistiria em ir até lá e dar uma de enfermeira.

Então, não era um bom plano considerando o que ele tinha acabado de fazer.

O curativo que os enfermeiros tinham colocado na cadeia não teve qualquer chance no ringue e só Deus sabia onde tinha parado. Contudo, independentemente disso, o corte não era nada de especial, apenas uma divisão na pele profunda o suficiente para dar um show de sangue, mas nada com que precisasse ficar histérico. Ele ia ganhar uma cicatriz... e que importância isso tinha?

Ele meteu um band-aid sobre a coisa e não se incomodou em colocar antibióticos ou coisas assim. Havia muito mais chances dele morrer envenenado com uma arma do tipo Smith & Wesson do que com qualquer infecção de pele.

Saiu do quarto de hóspedes. No andar debaixo. Naquele momento, ele chegou ao corredor da frente, as coisas no nível do quadril começaram a ceder um pouco.

Até que virou em direção à cozinha e viu Grier.

Oh, cara.

Se ela estava maravilhosa naquele vestido preto, então era um convite para o sexo com o que, evidentemente, era sua versão de pijamas: cuecas boxers de flanela e uma velha regata verde onde se lia CAMP DARTMOUTH. Com meias brancas e um par de pantufas nos pés, ela parecia mais uma universitária do que uma mulher perto dos trinta... e a ausência de maquiagem e cabelos extravagantes, na verdade, era um adicional. Sua pele era um cetim macio e seus olhos claros estavam mais atentos atrás daqueles óculos de armação grossa, ao invés de perdidos, como sempre.

Ela devia usar lentes de contato.

E o cabelo... era tão longo, muito mais longo do que ele imaginava e um pouco ondulado. Ele podia apostar que cheirava bem e senti-lo devia ser muito melhor...

Ela lançou um olhar da tigela vermelha que estava secando na pia.

– Encontrou tudo o que precisava lá em cima?

Não. Mesmo.

Por educação, ele puxou o blusão para ter certeza de que o Sr. Feliz estava coberto. E, então, ele apenas a observou. Como se fosse algum tipo de idiota.

– Isaac?

– Você já foi casada? – ele perguntou em voz baixa.

Quando os olhos dela se lançaram nos dele, soube como ela se sentia: ele não podia acreditar que tinha soltado essa também.

Antes que ele pudesse voltar atrás, ela empurrou os óculos para cima no nariz e disse: – Ah, não. Não, eu não fui. E você?

Ele balançou a cabeça e deixou por isso mesmo, porque Deus sabia que ele não deveria ter começado aquele assunto.

– Uma namorada? – ela perguntou, pegando uma panela para secar.

– Nunca tive uma. – Quando os olhos dela o encararam com força, ele encolheu os ombros. – Não estou dizendo que nunca... er... estive com...

Mas que inferno! Ele estava corando?

Certo, ele tinha mesmo que se afastar dela e sair da cidade – e não apenas porque Matthias estava atrás dele. Essa mulher ia transformá-lo em alguém que ele não conhecia.

– Você só não encontrou a pessoa certa, não é? – Ela se abaixou e guardou a tigela, em seguida, foi a panela que colocou no armário sob a ilha. – A coisa é sempre essa, não é mesmo?

– Entre outras.

– Eu só fico pensando se vai acontecer comigo – ela murmurou. – Mas não aconteceu. Porém, eu gosto da minha vida.

– Não tem namorado? – ele se ouviu dizendo.

– Não – ela deu de ombros. – E eu não sou o tipo de garota de apenas uma noite.

Isso não o surpreendeu. Ela era muito elegante.

Quando um silêncio suave surgiu entre eles de maneira curiosa, ele não tinha ideia de quanto tempo estava ali, olhando para ela do outro lado da ilha.

– Obrigado – ele disse em dado momento.

– Pelo quê? Eu não o ajudei de verdade.

Até parece que não. Ela tinha dado a ele algo bom para pensar quando estivesse sozinho em uma noite fria: ele se lembraria daquele momento com ela para o resto de seus dias.

Porém, eram poucos os que deveria preservar.

Movendo-se até ficar mais perto dela, ele estendeu a mão e tocou seu rosto.

Quando ela inalou com força e ficou imóvel, ele disse: – Sinto muito... por aquilo mais cedo.

Sim, não tinha certeza do que “mais cedo” significava: se os 25 mil que ele tinha custado a ela, se a fuga de cumprir a lei, a tentativa de intimidá-la para conscientizá-la de alguma maneira... ou o episódio no chuveiro.

Ele ficou surpreso quando ela não se afastou.

– Eu ainda não quero que vá.

Isaac fugiu do assunto.

– Eu gosto do seu cabelo solto – ele disse ao invés de responder, correndo seus dedos através dos fios até o ombro dela. Quando ela corou, ele recuou.

– Vou para a cama. Se precisar de mim, bata primeiro, ok? Bata primeiro e espere eu atender a porta.

Ela piscou rapidamente, como se um nevoeiro estivesse se erguendo do rio que havia dentro dela.

– Por quê?

– Apenas prometa.

– Isaac... – Quando ele balançou a cabeça, ela cruzou os braços sobre o peito. – Certo. Eu prometo.

– Boa-noite.

– Boa-noite.

Ele se virou e a deixou na cozinha, percorrendo o corredor e as escadas rapidamente, pois seu autocontrole tinha sido surrado e apesar das duas omeletes, ele estava faminto.

Contudo, não por comida.

Como um idiota total, ele se esquivou no quarto de hóspedes e esperou atrás da porta fechada apenas para poder ouvir o som dela subindo suavemente as velhas escadas que rangiam. Quando ele ouviu ela se fechar, ele andou ao redor do quarto... e se perguntou que diabos faria nas próximas oito horas.

Seu pênis se contorceu como se quisesse levantar a mão por ouvir uma pergunta da professora, a ereção estava agindo como se dissesse “oh-oh-oh-oh eu sei a resposta dessa”.

– Isso não vai acontecer, garotão – Isaac se conteve.

Esfregando os olhos, ele não conseguia acreditar que tinha concordado em ficar – especialmente pelo fato de quem tinha entrado no ringue com ele. Mas não poderia argumentar com o que tinha visto atrás do armário de Grier – e ainda que Matthias não se importasse com as consequências, tinha certeza que não ia procurá-lo ali. Especialmente pelo pai dela ser um militar: Matthias conhecia a todos e tinha total consciência das complicações que poderiam surgir por matar a filha de alguém importante.

Com mais outro palavrão, Isaac entrou no banheiro e escovou os dentes; em seguida, se estendeu no edredom e apagou a luz. Ao focar o teto, a imaginou naquela cama aconchegante acima dele, com a televisão ligada e alguma coisa no estilo da série Magnum sendo exibida na frente de seus olhos fechados.

Ele queria estar lá em cima com ela.

Ele queria estar... em cima dela.

O que significava que ele tinha que sair nas primeiras horas do dia antes mesmo que ela acordasse. Caso contrário, ele poderia não ser capaz de ir embora sem tentar fazer algo que não tinha direito... muito menos merecia.

Fechando os olhos, passaram-se uns quinze minutos antes que ele tirasse e jogasse para bem longe de sua virilha aquelas calças de pijama.

Quando seguia a linha colchão e travesseiro, costumava dormir nu e agora sabia o porquê. Aquilo de pijama era muito ridículo.

Meia hora depois, ele não aguentava mais e se despiu completamente. A única coisa que manteve perto foram as duas armas enfiadas dentro dos cobertores. Afinal, ele poderia ser pego exibindo tudo que tinha, mas não havia razão nenhuma para ficar vulnerável por isso.

 

CONTINUA

CAPÍTULO 10

 

Já tinha passado das 10 da noite quando Grier estacionou seu Audi em Malden e desligou o motor. Ela manobrou o sedã em um local de terra batida de maneira que ficasse voltado para fora e longe da maioria dos outros carros – embora o “estacionamento” não tivesse exatamente qualquer área dedicada à entrada, saída ou vagas.

Quando chegou ao endereço que Louie havia passado por telefone, não teve certeza de que era o lugar certo. O local como um todo estava vazio até onde ela conseguia ver, as doze ou mais torres de cinco andares em espiral surgiam a partir de um caminho escuro como se fossem crianças na escola em fila para uma contagem. Era evidente que a estrutura tinha sido desenvolvida para que empresas de alta tecnologia a ocupassem, ao menos era isso que se via no cartaz que dizia CENTRO EMPRESARIAL TECNOLÓGICO MALDEN. Mas, na realidade, o contrário: era uma cidade fantasma.

Contudo, Louie nunca a conduzia ao erro. Assim, ela se virou e percorreu o caminho até os fundos... e encontrou mais ou menos 25 caminhonetes e carros atrás do prédio mais distante da entrada principal. Fazia sentido. Se ela estivesse invadindo um local para montar uma gaiola de lutas clandestina, ela também garantiria que estivesse o mais oculta possível.

Saindo de seu carro, foi até a saída de emergência que estava aberta sustentada por um bloco de concreto e entrou. O rosnado profundo e agitado da multidão de homens fluía no corredor, a testosterona formava uma parede a qual ela praticamente teve que empurrar para atravessar. Enquanto seguia em direção ao som, ela não se preocupava com o quociente de estupidez – que claramente seria alto. Ela tinha um spray de pimenta em um bolso e uma arma de choque no outro: o primeiro era uma arma legal no estado de Massachusetts quando se tinha uma autorização para portar armas de fogo, e ela tinha. O segundo... bem, ela pagaria a multa de quinhentos dólares, caso tivesse que usar a coisa.

Se ela conseguiu entrar em um ponto de crack em New Bedford, à meia noite, ela poderia lidar com isso também.

Quando surgiu no saguão e conseguiu dar uma olhada nas barreiras de um metro e oitenta ligadas por correntes do octógono, ela tinha total consciência de que poderia chamar a polícia para o jogo de hoje, mas, assim, Isaac, assumindo que ele aparecesse por ali, seria preso novamente ou fugiria. Nos dois casos, ela não teria a chance de se aproximar dele. O objetivo dela era fazer com que ele parasse e pensasse um tempo considerável para ver o que estava fazendo. Fugir nunca era a solução, e se entrasse por aquele caminho, ele garantia uma detenção, mais acusações e o início de um registro com precedentes.

Isso assumindo que ele já não tivesse um: aquele assassinato no Mississippi a preocupava – mas era, como todos os seus outros problemas, algo que as devidas autoridades deveriam lidar. Como sua advogada de defesa, ela tinha que tentar fazer com que ele ficasse e dançasse conforme a música ditada por suas acusações atuais. Era a coisa certa a se fazer perante a sociedade – e era a coisa certa a se fazer por si mesmo.

E se ela não conseguisse fazer com que ele enxergasse a luz? Então, ela iria se afastar do caso e contar às autoridades tudo o que sabia sobre ele. Incluindo as armas e os detalhes daquele sistema de segurança. Ela não se tornaria cúmplice do crime na sua busca por fazer a coisa certa...

Grier congelou ao ver seu cliente, sua mão foi em direção à base de sua garganta.

Isaac Rothe estava sozinho em uma extremidade do ringue, e embora os elos da cadeia da gaiola o separassem, não havia dúvidas de quem era... e isso não diminuía o efeito que ele causava: era uma ameaça, o seu tamanho e a expressão rígida do rosto transformava os outros homens em garotinhos. E mesmo sendo impactada por sua educação naquela cadeia, agora ela tinha um retrato verdadeiro de quem ele era.

O homem era um assassino.

Seu coração bateu rápido, mas ela não vacilou. Estava ali para fazer um tipo de trabalho, e maldito seja, mas ela iria falar com ele.

Assim que deu um passo à frente, um cara adulador com dentes de ouro apareceu fazendo macaquices do outro lado da gaiola.

– E agora... aquilo que vocês estavam esperando!

Isaac tirou seu blusão e suas botas, deixou suas coisas no chão e, em seguida, começou a perambular no ringue, queixo baixo, os olhos encaravam tudo por baixo das sobrancelhas. Sua camiseta se esticava apertada ao longo de seu peitoral e, mesmo tendo as mãos pendentes nas laterais, seus braços estavam esculpidos pela força. Posicionando-se para a luta, ele era todo músculo, ossos e veias, os ombros tão largos que pareciam ser capazes de levantar o maldito prédio como se estivesse fazendo levantamento de peso.

Ao pular a gaiola e aterrissar ali dentro com os pés descalços, o rugido da multidão atingiu a cabeça dela como um sino e transformou sua coluna em um condutor de adrenalina. Sob o brilho das oito lanternas de acampamento que ficavam nos polos de apoio, seu cliente era parte gladiador, parte animal, um pacote mortal pronto para fazer aquilo para que ele claramente tinha sido treinado.

Infelizmente, o adversário que pulou ali e aterrissou em sua frente era quase uma imagem refletida dele: a mesma estrutura brutal, o mesmo peso, a mesma aparência mortal – estava até mesmo vestido da mesma maneira, a camiseta mostrava os músculos cheios de tatuagens de serpentes que percorriam todo seu ombro e pescoço. E enquanto o público gritava e se aproximava, os dois circulavam, procurando por uma oportunidade, braços, peitos e coxas enrijecidos.

Isaac investiu primeiro. Ao balançar o corpo, tirou o pé do chão e atingiu o outro homem nas costelas com um golpe tão cruel que ela poderia apostar que até mesmo os ancestrais do adversário sentiram a dor no túmulo.

Tudo aconteceu muito rápido. Os dois entraram em uma sucessão de ataques e esquivas, suas camisas se umedeceram rapidamente ao redor do pescoço e nas costas, a luz amarela amanteigada das lanternas fazia com que parecesse que estavam lutando em um ringue de fogo. Os contatos, quando feitos, eram do tipo que soavam como tiros de armas de fogo, os fortes e ressonantes impactos chegavam até a multidão, que se agitava inquieta. O sangue voava – a partir do corte na cabeça de Isaac que foi rapidamente reaberto e depois dos lábios do adversário que foram partidos. Os lutadores não pareciam se importar, mas com certeza os agitadores adoravam aquilo, como se fossem vampiros...

Uma mão passando em sua bunda fez com que olhasse em volta.

Movendo-se rapidamente para trás, ela olhou o cara da mão boba.

– Desculpe.

Ele pareceu momentaneamente surpreso e, então, seu olhar se estreitou.

– Ei... o que faz aqui?

A questão foi colocada como se ele a conhecesse.

Então, parecia que ele estava falando com o Papai Noel e levando isso à sério – seu rosto estava liso de suor e metade de suas feições se contorceram como se sofresse um curto-circuito. Era óbvio que ele estava drogado – e Deus sabia que ela era especialista em fazer esse diagnóstico.

– Com licença – ela disse, afastando-se.

Ele a seguiu. Para sua sorte, o único idiota do lugar estava mais interessado em importuná-la do que na luta que veio para assistir.

Ele agarrou o braço dela, puxando-a.

– Eu conheço você.

– Tire sua mão de mim.

– Qual é o seu nome...?

Grier se libertou dele.

– Não é da sua conta.

Ele pulou em direção a ela num piscar de olhos: o metro que havia entre eles de repente se transformou em um centímetro.

– Você é uma maldita dondoca. Acha que é melhor que eu, vadia?

Grier não cedeu o corpo, mas tirou a arma de choque e deslizou o pino de segurança ao agarrá-lo. Colocando a arma a uma distância mínima da calça jeans do cara, ameaçou.

– Se você não sair de perto de mim, vou lançar 625 mil volts nas suas bolas. No três. Um... dois...

Antes que ela tivesse tempo de acionar o gatilho, ele recuou e ergueu as mãos.

– Não era minha intenção... eu só pensei que te conhecia.

Enquanto ele se afastava, ela manteve a arma de choque em mão e respirou fundo. Talvez ela o conhecesse das buscas que tinha feito por Daniel – mas era evidente que ele estava fora de si e ela já estava escaldada o suficiente.

Voltando a se concentrar no ringue, ela olhou para cima...

Bem a tempo de ver Isaac cair como um pedra.

Lutar com o segundo na linha de comando de Matthias era um prazer. Isaac nunca confiou ou gostou do cara, e dar um chute no bastardo tinha sido alcançar um objetivo indescritível na carreira.

Ah, que ironia. Teve a chance apenas quando estava saindo...

Awm!

Quando os ganchos de direita começaram, o maldito parecia uma britadeira e acertou o queixo de Isaac bem em cheio, atingindo com isso seu crânio e causando todos os tipos de problemas: levando em conta que o crânio é apenas uma esponja solta em um globo de neve, sua matéria mental ficou um caos devido ao golpe e, assim, ele perdeu os sentidos e o equilíbrio.

Levando tudo em consideração, ele estava mais preocupado antes com algum tipo de arma branca, mas os punhos funcionaram bem. Maldito seja, e como funcionaram...

Esse foi o último pensamento que teve no momento em que o chão do octógono saltou para cumprimentá-lo. O “Oi, tudo bem?” da coisa causou tanto impacto quanto o punho do seu antigo colega de trabalho.

Deus, ele era como o coelho da Duracell.

Ele se levantou um segundo depois de suas costas tocarem o chão – mesmo que suas pernas estivessem dormentes e soltas e sua visão estivesse como uma TV que precisasse ser ajustada. Lançando-se para frente, ele era todo instinto e vontade, prova de que a mente poderia anular os receptores de dor do corpo, pelo menos por um tempo. Ele atacou o adversário pela cintura e o jogou no chão, em seguida, o virou de estômago para baixo e torceu seu braço para trás, puxando a coisa como se fosse uma corda.

Com um estalo, alguma coisa saiu do lugar e, de repente, Isaac precisou se segurar para não cair.

A multidão foi à loucura, todos os tipos de “vai se ferrar” ricochetearam em volta do saguão semiacabado até que um apito estridente atravessou o rugido. Em um primeiro momento, ele concluiu que o som era apenas uma extensão do caos em sua cabeça, mas depois percebeu que alguém tinha entrado no ringue. Era o promotor de eventos e, pela primeira vez, o rosto do bastardo estava um pouco pálido.

– Estou encerrando a luta – gritou quando agarrou o pulso de Isaac e o ergueu no ar. – Vencedor! – Inclinando-se, sussurrou: – Deixe ele ir.

Isaac não conseguia entender qual era o problema do cara...

Seus olhos finalmente entraram em foco e, bem, veja só. O segundo na linha de comando de Matthias precisava de um raio-X, gesso e talvez alguns pinos: o osso superior do seu braço estava projetado para fora da pele como uma estaca rompida e ensanguentada, o braço estava quebrado e alguns outros ossos também.

Isaac saltou e apoiou-se contra a corrente que circundava o ringue, o coração saía pela boca. Seu adversário ficou em pé rapidamente e segurou a mão que vacilava casualmente, como se nada de grave tivesse acontecido além de uma simples picada de inseto.

Quando seus olhares se encontraram e o cara sorriu daquela maneira que só ele fazia, Isaac pensou: droga, essa luta não foi nada além de um sinal de advertência do processo da minha captura.

Uma mensagem de que eles estavam perto.

Um convite para correr.

Droga. Dane-se aquele Matthias. E aquela fratura exposta foi sua resposta: eles poderiam tê-lo deixado sair, mas agora ele ia causar alguns prejuízos no caminho para o túmulo.

Isaac não perdeu tempo. Ele se aproximou das correntes e saltou sobre a borda. Felizmente, a multidão sabia muito bem que deveria sair de seu caminho, assim, ele foi capaz de ir mais rápido em direção a Jim...

Ele acabou dando um encontrão na sua defensora pública.

– Cristo! – ele vociferou, afastando-se da mulher.

– Na verdade, é Childe. Com “e” no final. – Ela levantou uma sobrancelha. – Pensei em tentar oferecer um táxi novamente, precisa de uma carona de volta para Boston? Ou não está indo nessa direção?

Esquecendo suas boas maneiras por um momento, ele se alterou.

– Que diabos você está fazendo aqui?

– Eu ia perguntar a mesma coisa. Isso considerando que uma das condições de sua fiança é não participar de lutas ilegais. E não parece mesmo que você esteja disputando um simples jogo de tabuleiro por aqui. Você quebrou o braço daquele homem.

Isaac olhou em volta, perguntando-se qual seria o caminho mais rápido, pois ela não pertencia àquele bando de arruaceiros e ele tinha que tirá-la dali.

– Olha, podemos ir até lá fora?

– O que você tem na cabeça? Aparecer aqui e lutar?

– Eu ia te procurar.

– Sou sua advogada... Ao menos espero que sim!

– Estou te devendo 25 mil dólares.

– E eu vou te dizer como você pode acertar as contas. – Ela colocou as mãos na cintura e inclinou-se, aquele perfume infiltrou no nariz dele... e no seu sangue. – Você pode parar de ser um idiota estúpido e aparecer na sua audiência em duas semanas. Vou te dar a hora e a data novamente, se acaso esqueceu de anotar.

Certo... ela era totalmente gata quando ficava nervosa.

E, em teoria, aquela não era a reação apropriada para o momento e local. Entre outras coisas.

Naquele momento, Jim e seus colegas se aproximaram, mas Grier não lançou sequer um olhar a eles – mesmo com Jim olhando de maneira rígida para ela. E reagir assim dava uma ideia exata a Isaac de como ela seria no tribunal. Cara, ela era incrível quando estava concentrada, nervosa e pronta para servir alguém em uma bandeja.

– Mais duas outras coisas – ela exclamou. – Você deveria rezar para que aquele cara cujo braço precisa ser engessado não ligue para a polícia. E você precisa ver um médico. De novo. Está sangrando.

Apenas para preencher o silêncio, ainda que não houvesse um, o promotor de eventos entrou com o que parecia ser uns dois mil dólares.

– Aqui está a sua parte...

De repente, os olhos de Grier se uniram aos de Isaac, da mesma maneira que seu belo rosto ficou mais tenso.

– Não pegue o dinheiro, Isaac. E venha comigo. Faça a coisa certa esta noite e isso vai lhe poupar muitos problemas mais tarde. Eu prometo.

Isaac simplesmente balançou a cabeça para ela e estendeu a mão para o promotor.

– Ah! Não acredito! – ela disse.

Quando praguejou e virou as costas, ele ficou meio sem ação por um momento.

Ao voltar a reagir, ele estendeu a mão em direção ao braço dela, mas o promotor entrou no caminho.

– Agora, antes que dê isso à você – ele bateu as notas na palma da mão – quero que venha lutar duas noites a partir de agora.

Sem chance. Ele esperava estar fora do país até às dez.

– Sim, claro.

– Será aqui, se não tivermos problemas. Você é incrível, cara...

– Agora cale a boca e me dê o dinheiro.

Isaac se ergueu e olhou por cima da confusão de cabeças, observando o penteado diferente de Grier marchar em direção à saída da porta dos fundos. Em geral, os homens sairiam do seu caminho, mas agora, dado o humor dela, ela seria capaz de castrar alguém.

Apenas pela força de vontade.

Ignorando a puxação de saco do promotor, Isaac pegou o dinheiro, enfiou suas botas de combate nos pés e pegou sua regata e o blusão. Ao sair atrás de sua defensora pública, ele afundou mais as verdinhas no bolso e verificou as armas, os silenciadores e seu cofre de sacola plástica duas vezes.

– Onde diabos você está indo? – disse Jim enquanto ele e seus colegas o seguiam correndo.

– Qualquer lugar que ela for. Ela é minha advogada.

– Alguma chance de você parar se eu disser pra sair dessa?

– Não.

– Mas que inferno – Jim disse baixinho ao empurrar um cara para fora de seu caminho. – Vá se ferrar, idiota, o número dois de Matthias foi embora.

– Sedã preto – o homem com piercings interrompeu. – Os painéis do carro estavam amassados e sujos, mas os pneus estavam novos em folha e havia aparelhos eletrônicos no porta malas.

Isso são operações extraoficiais para você, Isaac pensou. Ficar incógnito e possuir tecnologias de última geração.

Quando ele se desvencilhou na saída, os motores dos carros e caminhonetes começaram a soar, transformando a noite em uma discoteca de luzes automobilísticas. Entre os motores que roncavam e os faróis piscando, ele olhou em volta procurando o carro dela. Ele imaginava que ela dirigia algo importado. Uma Mercedes, BMW... Audi...

Onde ela estava?


CAPÍTULO 11

 

LOCAL DESCONHECIDO

 

Matthias tinha total consciência de que ele era um agente do diabo no mundo.

O que não significava que ele fosse totalmente mal. De uma maneira geral, os bilhões de inocentes no planeta não estavam em sua tela de radar e ele os deixava em paz. Ele também não tirava doce de criança. Ou maltratava gatos. Ou dava o endereço de e-mail de pessoas que o irritavam a sites de brinquedos sexuais europeus.

Uma vez, em 1983, ele ajudou uma senhora idosa a atravessar a rua.

Então, ele não era tão mau.

Dito isso, se no processo de concluir um trabalho ele teve que aceitar alguns danos colaterais ou sacrificar um “inocente” ou dois, era assim que a porcaria funcionava: nesses casos, ele não era diferente de um acidente de carro, ou de um câncer, ou de um raio, nada além do fato de que o indivíduo perdeu na loteria da vida.

Além disso, o relógio de todos estava correndo, e ele atuava no papel do Ceifeiro da Morte bem o suficiente para saber disso em primeira mão.

Ele gemeu ao reposicionar seu corpo quebrado em sua cadeira de couro. Aos quarenta anos, ele se sentia como se tivesse cem – isso era o que ser um sobrevivente fazia com você.

Pelo menos, ele não tinha que defecar em um saco plástico e ainda tinha um olho que funcionava.

Na frente dele, sobre a mesa lustrosa, havia sete telas de computador. Algumas mostravam fotos, outras, dados transmitidos e mais outra dizia onde cada um de seus agentes estava no planeta Terra. Naquilo pelo qual ele era encarregado, a informação era muito importante. O que era um tipo de ironia. Ele era um homem sem identidade, coordenando uma equipe em um mundo de sombras que não existia oficialmente – a informação era a única coisa concreta que ele tinha para trabalhar.

Embora, assim como as pessoas, era passível de falhas.

Quando seu celular tocou, ele pegou a coisa e olhou para a pequena tela. Ah, sim, que “timing” perfeito. Matthias estava procurando por dois homens – e ele tinha enviado seu segundo homem na linha de comando atrás de um deles.

O outro... era complicado. Mesmo não devendo ser assim.

Ele aceitou a ligação.

– Você o encontrou?

– Sim, e fiquei alguns rounds com ele no ringue.

– Mas ele ainda está vivo?

– Apenas por que você quer que ele esteja. A propósito, a advogada dele apareceu na luta e adivinhe? Ela é filha de um amigo nosso.

– Mesmo? Quais são as chances. – Na verdade, era cem por cento, pois Matthias esteve no sistema judiciário do condado de Suffolk, em Massachusetts, e propositalmente colocou a filha do capitão Alister Childe no caso.

Eles precisavam tirar aquele traidor do Isaac Rothe de trás das grades para que pudessem matá-lo e manter o corpo para usos futuros e a menininha do bom e velho Albie era como um bilhete de entrada para isso: era uma boa advogada com um coração sangrando que a levava a lugares que não pertencia. Combinação perfeita.

E estava claro que aquilo tinha funcionado: Rothe estava livre menos de 24 horas depois de sua detenção.

Cristo, tinha sido tão fácil encontrar aquele bastardo. Até por que, quem teria pensado que ele usaria o próprio sobrenome?

Hum, Matthias pensou. Talvez ele estivesse tirando doce de criança, neste caso.

– Você deveria ter me deixado matá-lo no ringue – o segundo no comando reclamou.

– Testemunhas demais, e quero que ele apareça fora de Boston.

Pois agora que Grier Childe tinha servido o seu propósito, ele tinha que colocar Isaac bem longe da mulher. Matthias havia matado o filho do capitão e, com isso, ele considerou que estavam quites. No entanto, o filho da mãe já havia tentado dar um jeito de sair uma vez e isso significava que a filha tinha que ser usada para manter o hipócrita do papai na linha: enquanto estivesse viva, poderia ser morta e aquela ameaça era melhor que fita adesiva sobre uma boca inquieta durante um dia inteiro.

– Siga-o quando estiver fora do estado – Matthias se ouviu dizendo isso em um tom calmo e equilibrado. – Espere o momento certo e que não seja perto da filha de Childe.

– Que importância tem isso?

– Por que eu digo que tem, idiota. É isso.

Matthias finalizou a ligação e jogou o telefone sobre a mesa. Todos os seus homens eram bons no que faziam, mas o seu segundo homem conseguia fazer truques que ninguém chegava perto. Claro que isso fez com que o cara se tornasse extremamente útil, mas também um perigo se suas ambições ou sede de sangue os afastassem.

Aquele homem era um demônio, de verdade.

De repente, Matthias teve que respirar fundo para aliviar a dor no meio de seu peito. Ultimamente, aquelas palpitações vinham acontecendo com uma frequência crescente, deixando-o sem fôlego e um pouco enjoado. Ele tinha a sensação de que sabia o que era aquilo, mas ele não ia fazer nada para deter o infarto do miocárdio que estava a caminho.

Nada de visitas ao médico, nada de exames de estresse, nada de remédios para pressão, nada de calmantes.

Naquele ritmo de pensamento, ele acendeu um charuto e expirou. Também nada de pastilhas antitabagismo. Ele ia trabalhar duro em prol dos pregos do caixão até que fosse derrubado por um ataque dos grandes – Deus sabia que ele tinha tentado se matar com aquela bomba no deserto e que tinha sido um desastre gigante. Muito melhor facilitar seu caminho para o túmulo à moda antiga: alimentação ruim, falta de exercícios e vícios.

Ao soar de um alarme, ele apoiou as mãos sobre os braços da cadeira e se preparou para ficar na posição vertical. Analgésicos o ajudariam tremendamente, mas eles também enfraqueceriam seu cérebro, então, era inútil. Além disso, a agonia física nunca o incomodou.

Rangendo os dentes, ele empurrou com força a cadeira e ergueu seu peso sobre as pernas. Alguns momentos para se firmar. Alcançar a bengala. Respirar fundo.

Aquela noite na terra da areia, quando foi salvo por Jim Heron, teve repercussões e muitas delas eram do tipo que relacionava chumbo e aço – mas não se tratava de armas. Graças àquele soldado imbecil tê-lo arrastado para fora daquelas construções empoeiradas e em ruínas e o puxado por mais de doze quilômetros ao longo das dunas como se fosse um resgate de bombeiro, agora Matthias era parte homem, parte máquina, uma versão desajeitada e que rangia do lutador forte e poderoso que tinha sido. Colado de volta com pinos e parafusos e porcas, ele se perguntava no início se aquilo seria um momento decisivo. Se a dor e o sofrimento por que passou com todas as cirurgias abririam uma porta para que ele se tornasse... um humano.

Ao contrário daquele sociopata que era desde que nasceu.

Mas não. Tudo o que ele tinha desde então eram aqueles precursores de ataques cardíacos hereditários. O que era uma coisa boa. Ao contrário da bomba que ele ativou na areia e pisou em cima deliberadamente, ele sabia que uma coronária faria o serviço completo – inferno, ele viu o pai morrer disso.

Na verdade, seu pai tinha sido seu primeiro assassinato, isso graças a Matthias saber exatamente o que dizer para fazer com que o relógio do seu velho não se controlasse e parasse de uma vez. Ele tinha quinze anos na época. Seu pai tinha quarenta e um. E Matthias sentou-se no chão de seu quarto e assistiu a coisa toda, girando aleatoriamente o botão do rádio que o despertava para ir à escola, à procura de uma música boa dentre toda a porcaria que vinha nas ondas sonoras.

Enquanto isso, seu pai ficou vermelho, depois azul... em seguida, desvaneceu até ficar cinza.

O filho da mãe pervertido mereceu aquilo. Depois de tudo que tinha feito...

Voltando do passado, Matthias puxou seu casaco e, como sempre, o simples fato de se vestir era um acontecimento, suas costas tinham que se alongar para acomodar o deslocamento de seus braços. Em seguida, ele estava fora de seu escritório, andando nos corredores subterrâneos de um complexo de escritórios anônimo onde ele trabalhava, seu corpo o odiava por estar caminhando.

Seu carro e motorista o aguardavam nas instalações do estacionamento subterrâneo e quando entrou na parte de trás do sedã, ele gemeu.

A respiração superficial o manteve consciente quando a dor queimou como um vulcão... e gradualmente diminuiu conforme o carro avançava.

Do banco da frente, ele ouviu o motorista dizer: – Tempo estimado de chegada: onze minutos.

Matthias fechou os olhos. Ele não estava completamente certo do porquê estava fazendo aquela viagem... mas ele estava sendo atraído para o norte dos Estados Unidos por um impulso que nem mesmo seu lado racional poderia negar. Ele simplesmente tinha que ir, mesmo que fosse surpreendido por essa necessidade.

Então, mais uma vez, assim como seu segundo homem na linha de comando tinha encontrado seu alvo, Matthias também localizou o soldado a quem procurava pessoalmente e aquele longo voo de volta sobre o oceano era porque desejava olhar de frente, pela última vez, para o homem que tinha salvado sua vida – antes que o corpo do bastardo fosse sepultado.

Disse a si mesmo que era para confirmar se Jim Heron tinha realmente morrido.

Contudo, era mais que isso.

Mesmo que ele não entendesse os motivos... havia muito mais do que isso para se fazer naquela viagem.


CAPÍTULO 12

 

Mais do que tudo, Grier estava furiosa consigo mesma. Ao seguir em direção ao seu Audi, investindo através dos outros carros e ser provocada por um dedo ofensivo ou dois, tudo pareceu entrar em foco: onde estava, o que tinha feito antes no tribunal, quem ela estava tentando salvar.

Isaac tinha quebrado o braço do cara. Na frente dela e de centenas de pessoas. E lidou com isso com o mesmo grau de choque e pânico que alguém que desliga o telefone.

Como se fizesse isso todos os dias.

E, em seguida, ele aceitou dinheiro por isso.

Aproximando-se do seu sedã, ela tirou o chaveiro e desativou o alarme. E quando viu seu reflexo no vidro da porta do motorista, ela pensou em seu irmão.

Ela ouviu um tipo de zumbido selvagem que a lembrou da noite em que ele tinha morrido.

Grier foi a única a encontrar o corpo e seus esforços para ressuscitá-lo não fizeram diferença... pois ele já tinha morrido antes que ela iniciasse o processo. Mas ela continuou a pressionar seu peito e a fazer respiração boca a boca de qualquer maneira.

Os paramédicos tiveram que arrancá-la de cima do corpo dele. Gritando.

E o ponto-chave era: na morte, assim como na vida, ele não se preocupava com todos os esforços dela para salvá-lo. Ele havia sido paralisado pela sua dose final, com um olhar assombrado de um prazer extático e congelado em seu rosto pastoso, o dever do vício foi cumprido.

A imprudência assume uma variedade de formas diferentes, não é mesmo?

Ela sempre se orgulhou de ser a mais responsável dentre eles dois, aquela que se sobressaía na escola e trabalhava duro para chegar à frente e nunca fez nada que seus pais desaprovassem. É claro que ela nunca, jamais, experimentou drogas ilegais. Nem sequer uma vez.

E, mesmo assim, lá estava ela, colocando a si mesma e a sua carreira em risco para aproveitar a chance de aconselhar um total estranho e fazer a coisa certa. Se a polícia tivesse aparecido – ou aparecesse, ainda havia tempo para isso – ser presa como espectadora a faria ser expulsa da ordem dos advogados de Massachusetts mais rápido do que ela conseguisse dizer “Mas, senhor Juiz, eu estava lá por causa do meu cliente”. Ela já tinha investido 25 mil dólares, que dificilmente desestabilizaria sua conta... só que como esse dinheiro teria sido mais útil se tivesse sido investido em um programa de jovens de risco...?

Quando a cabeça dela começou a latejar, se lembrou de suas atitudes desde as nove da manhã com um olhar preciso. E, como pode imaginar, ela não viu alguém que fizesse muito bem ao mundo, mas a mulher fora de controle que foi...

Daniel apareceu do outro lado do carro, seu rosto fantasmagórico estava mortalmente sério.

Entre, Grier. Entre no carro e tranque as portas.

– O que? – ela disse. – Por que...?

Faça isso. Agora. Seu irmão morto pareceu focar o olhar no ar que havia atrás do ombro dela.

Que droga, Grier...

– Eu sei quem é você.

Ela aproximou os olhos. Oh, pelo amor de Deus, isso estava ficando cada vez melhor, não é? Aquele drogado estava de volta.

Virando-se para tentar afastá-lo de novo...

O homem agarrou os braços dela e, com um safanão que a deixou de boca aberta, empurrou seu rosto contra o carro. Enquanto ele a detinha com seu corpo, ela se lembrou que os homens eram, de fato, diferente das mulheres: eles eram muito mais fortes. Especialmente quando estavam alcoolizados e desesperados.

– Você é irmã do Danny. – A respiração em seu pescoço estava quente e cheirava à carniça. – Você aparecia algumas vezes no lugar dele. O que aconteceu com ele?

– Ele morreu – ela resmungou.

– Oh... Deus. Sinto muito... – O viciado pareceu realmente chateado. De um jeito Tim Burton distorcido do submundo, mas parecia. – Ouça, pode me arrumar algum dinheiro? Uma garota rica como você... deve ter algum dinheiro na carteira. Mas só se conseguir ficar calma.

Uh-huh, certo. Ela sabia que daria a ele o que pediu quer gostasse, quer não – o que era, apesar da maneira como a abordou, um assalto bem sucedido.

Mãos ásperas a vasculharam e arrancaram a bolsa de seu ombro. Ela pensou em gritar, mas o peso que havia em suas costelas fazia com que meras respirações superficiais se tornassem impossíveis e, além disso, ela havia estacionado em um local escuro. Quem iria ouvi-la?

Quando seus olhos seguiram os veículos que partiam e as caminhonetes que estavam tão perto e tão longe ao mesmo tempo, ela teve uma lembrança absurda da cena de abertura do filme Tubarão – em que a mulher via as luzes das casas na praia ao ser arrastada pelo mar.

– Não vou machucá-la... só preciso do dinheiro.

Com o corpo que ainda a forçava contra o carro, ele despejou o conteúdo de sua bolsa sobre o chão lamacento, seu telefone celular, carteira, chave, tudo derramava em queda livre. E, então, ele jogou sua bolsa Birkin de dezesseis mil dólares sobre o capô do Audi.

Filho da mãe estúpido. Ele poderia ter conseguido mais com essa bolsa no eBay do que com qualquer dinheiro que encontrasse na carteira dela.

Metade de sua mente estava em pânico, a outra metade estava completamente calma e ela se fixou nessa última, pois era a filha de seu pai: aquele viciado apavorado sairia de cima dela em algum momento, pois ele ia querer suas joias e, quando fizesse isso, ela teria uma boa oportunidade de dar uma joelhada onde realmente importava.

Mesmo que tivesse de fingir que não estava prestes a vomitar em seu tênis...

O peso esmagador contra ela não foi exatamente removido, foi vaporizado, como se nunca tivesse existido: em um momento ela não conseguiu respirar. Em seguida, tinha todo o oxigênio do mundo.

Quando ela foi envolvida em um tremendo golpe de ar e segurou-se no teto do carro para se manter em pé, grunhidos soaram perto dela.

Esforçando-se para se virar, ela teve que piscar duas vezes para entender o que estava vendo – mas não houve espaço para qualquer momento do tipo “Espere, talvez eu não esteja enxergando direito”: Isaac surgiu do nada, jogou seu agressor no chão e estava dando um tratamento de canal da maneira mais difícil.

Ou seja, com seu punho.

– Isaac... – Sua voz falhou e ela tossiu. – Isaac! Pare com isso!

A voz do investigador Louie ecoou em sua mente: Esse filho da mãe pode ser um assassino.

– Isaac.

Ela estava esperando pelo momento que tivesse que saltar sobre ele ou pedir ajuda para deter o espancamento, mas logo que começou, acabou. Isaac saiu da rotina Rocky Balboa por conta própria, lançando o homem de barriga para baixo e puxando seus braços para trás até imobilizá-lo.

Nada foi quebrado dessa vez.

E Isaac nem sequer estava respirando com dificuldade quando olhou para ela.

– Você está bem?

Seus olhos eram penetrantes, sua expressão era calma e mortal, sua voz era estável e educada. Era óbvio que ele estava no total controle de si mesmo e da situação... e ocorreu-lhe que, possivelmente, ele a tivesse salvado de algo terrível. Quando se trata de viciados, você nunca sabe o que eles podem fazer.

– Ele te machucou? – Isaac disse. – Você está bem?

– Não – ela disse com dificuldade, sem saber qual pergunta estava respondendo.

Com uma grande força bruta, Isaac pegou o homem, o levantou e deu-lhe um safanão e não houve mais argumento, nem mesmo um comentário. O agressor dela se afastou como se estivesse bem consciente de que tinha se livrado por muito pouco da maior surra de sua vida.

E, em seguida, Isaac pegou as coisas dela do chão. Uma por uma, ele reuniu tudo que estava em sua bolsa, limpando a lama em sua própria camiseta, dispondo tudo em cima do capô do carro.

Caída contra a porta do motorista, ela estava cativada pela maneira como estava sendo cuidadoso, com as mãos ensanguentadas e gentis.

Daniel apareceu bem ao lado dele, aparentemente impressionado pela forma como ele tratava as coisas dela.

Deixe que ele te leve até em casa, Grier. Você não está em condições de dirigir – disse Danny.

– Ele não ofereceu – ela balbuciou.

– Ofereceu o que? – Isaac disse, lançando um olhar a ela.

Quando ela afastou as palavras com um gesto, ele pegou sua bolsa e colocou tudo dentro dela antes de entregá-la.

– Gostaria de levá-la até sua casa. Se permitir.

Bingo, seu irmão disse.

Ela abriu a boca para mandar Daniel ficar quieto, mas não tinha energia para continuar com isso.

– Senhorita Childe? – Com o sotaque sulista de seu cliente, aquilo soou como uma palavra maior, senhorita Chiiilde.

Deus, o que fazer? E óbvio que “claro que não” era a melhor resposta – a despeito da opinião de Daniel.

Confie em mim – disse Daniel.

A voz de Isaac se derramou.

– Apenas permita que eu a leve em segurança para casa. Por favor.

Por alguma razão desconhecida, os seus instintos estavam dizendo para confiar naquele estranho com um passado ruim e um presente como criminoso que estava foragido. Ou era apenas um caso de seu complexo de salvadora impondo um melhor juízo dele?

Ou... foi o olhar no rosto do fantasma? Era como se Daniel tivesse visto algo que não conseguia enxergar naquela colisão entre ela e um perigoso estranho com um leve sotaque sulista.

– Não preciso de um motorista. Posso fazer isso sozinha. – Ela pegou a bolsa dele. – Mas eu preciso, sim, que fique e enfrente suas acusações.

Isaac deu uma olhada ao redor da área.

– Que tal conversarmos na sua casa?

– Eu tenho um spray de pimenta, entendeu?

– Que bom.

– E uma arma de choque. – Que resultou em tudo aquilo que aconteceu há pouco.

Bom Deus, ela não conseguia acreditar que estava sequer pensando em ir para casa com Isaac. O viciado idiota era um amador... e seu cliente parecia, com certeza, com um profissional.

Seus olhos cinza e pálidos seguiram em direção aos dela.

– Eu não vou te machucar. Juro.

Com um palavrão, ela abriu a porta do carro.

– Eu dirijo.

A questão era: onde diabos ela estava indo? E com quem?

Jim observou o Audi se afastar, a fumaça se erguia atrás dos dois tubos de exaustão. Ele estava completamente despreocupado a respeito de onde aquele cara estava indo – colocou transmissores na camiseta de Isaac e na bolsa com o dinheiro.

– Você poderia ter me deixado fazer um feitiço de localização – Eddie murmurou.

– Estou acostumado a trabalhar com a droga do GPS por causa do meu antigo trabalho. – E quem diria que ele pudesse sofrer de nostalgia por conta daquela tecnologia?

Por falar em informação, era tempo de alguns esclarecimentos: embora ele pudesse entender como e por que Isaac seria o próximo da lista das sete almas, uma conversa frente a frente com seu chefe britânico era a única maneira de ter certeza.

Muita pressão sairia de cima dele se salvar a pele de Isaac tivesse um propósito maior.

Ele girou a cabeça em direção a Eddie.

– Diga como volto a falar com os quatro rapazes. Preciso morrer de novo?

Se precisasse, ele tinha uma arma e já sabia como era a sensação de morrer.

– Nem perca tempo – Adrian estalou os dedos. – Eles não vão dizer nada. Não podem.

Mas que droga é essa?

– Pensei que trabalhava para eles.

– Você trabalha para os dois lados e eles darão toda a ajuda que puderem.

Jim olhou bem para os dois anjos: os dois estavam com uma expressão tensa de alguém que tinha um cadarço de sapatos amarrando as bolas.

– Ajuda? – ele disse. – Onde está minha maldita ajuda?

– Eles nos deram para te ajudar, idiota – Adrian vociferou. – E é tudo que podem fazer. Eu mesmo já fui até lá e perguntei quem era o próximo. Pensei que isso o ajudaria, você é um bastardo ingrato.

Jim ergueu as sobrancelhas no estilo Sr. Pensativo. A primeira vez que saiu com Adrian, o cara o serviu em uma bandeja prateada para o inimigo, ao ponto de acabar transando com Devina no estacionamento do clube. Na caminhonete dele. Sem saber que era um demônio.

– Os tempos mudaram desde aquele dia – disse Ad rispidamente – Você sabe que sim.

Em um piscar de olhos, Jim se lembrou como o cara estava parecendo há um ou dois dias depois que Devina tinha acabado de usar e abusar dele de várias maneiras. Ele deu a si mesmo para que Jim tivesse alguma chance de vencer o primeiro round.

– Sim, mudaram. – Jim ofereceu um cumprimento com a mão fechada em um sinal de “Desculpe por eu ter insinuado que você é um idiota de merda”.

Quando Ad deu um pequeno golpe em sua mão, Eddie disse: – Tecnicamente somos contra as regras.

Jim deu de ombros.

– Se isso me ajudar a ganhar, eu aceito. Regras são relativas.

Essa foi a razão pela qual ele tinha sido escolhido, não foi? Ele não era um maldito escoteiro.

A cabeça de Jim girou olhando ao redor ao ouvir um chiado de metal contra metal. O octógono portátil tinha sido desmontando e estava sendo empurrado através da porta por quatro rapazes que, em seguida, o colocaram em uma van. Na próxima viagem, eles carregariam os oito pesos de concreto e os polos, depois disso, apenas Eddie, Adrian e ele permaneceram ali.

O que era uma metáfora da situação em que se encontrava, não era?

Certo. Era assim que se jogava? Legal. Ele estava acostumado a confiar em si mesmo e nos seus instintos no campo de batalha... e tudo o direcionava para Isaac.

A questão era: onde Devina estava? Supondo que estava atrás de Isaac, ela estaria procurando por uma maneira de se infiltrar dentro dele para que sua natureza parasita o possuísse e para que ela pudesse, finalmente, levá-lo para o inferno depois que o matasse.

Jim voltou a se concentrar nos seus anjos.

– Se Devina estiver possuindo alguém, há alguma maneira de saber? Alguma marca? Pontos de referência?

Pelo menos ele poderia conseguir uma pista sobre ela.

– Algumas vezes. – Eddie disse. – Mas ela pode limpar suas impressões digitais, digamos assim, e agora que ela sabe que eu e Ad estamos com você, ela vai tomar um cuidado extra. No entanto, existem algumas almas limpas as quais ela nunca vai tocar e que brilham.

– Brilham? Você quer dizer como... – Droga, aquela advogada loira que levou Isaac para casa com ela tinha uma luz em volta do seu corpo. E foi por isso que quando Jim a viu, ele olhou para ela como se tivesse um...

– Como uma aura?

– Exatamente.

Bem, pelo menos havia uma coisa a seu favor. Ele concluiu que tinha acabado de entender as coisas. Constatou o que ele era... e graças a Deus por isso.

Jim pegou o receptor de GPS e localizou os dois pontinhos piscando que correspondiam a Isaac. Cedo ou tarde, se Devina estivesse transando com o cara, ela faria uma aparição de uma maneira ou de outra e eles estariam lá quando ela fizesse.

– Existe alguma coisa como feitiços de proteção? – ele perguntou. – Alguma coisa que eu possa colocar em torno de Isaac para mantê-lo em segurança?

– Podemos trabalhar em algo – Eddie disse com um sorrisinho maldoso. – É hora de começar a ensinar essas coisas a você.

Tem toda razão, pensou Jim.

Fechando os olhos, ele desfraldou suas asas, sentiu seu grande peso em sua coluna e ombros ao se tornarem visíveis.

– Eles estão indo para o centro da cidade. Vamos lá...

– Espere – Eddie disse, suas asas surgindo. – Precisamos ir ao hotel e pegar alguns suprimentos. Estou concluindo que você não quer que entremos na casa, certo?

– Enquanto Devina não aparecer, vou ficar do lado de fora.

– Não vai demorar muito.

– É bom mesmo.

Ao dar alguns passos para obter impulso, sentiu a ironia de tudo como uma rajada sob seu corpo: ele nunca acreditou que anjos existiam ou que a batalha eterna entre o bem e o mal pudesse ser real, quanto mais uma em que ele estaria.

Então, mais uma vez, quando você pesa quase cem quilos de puro músculo e é capaz de se erguer do chão com uma rede de penas metafísicas... a realidade louca em que se encontra tem uma credibilidade imensa.

Ele não se perdoaria se Devina colocasse suas garras em Isaac – sob qualquer forma que pudesse assumir. Isaac era seu garoto e a ideia daquele homem caindo nas mãos do inimigo era inaceitável, especialmente se acontecesse daquele demônio usar um rosto familiar.

O qual, à propósito, tinha um olho vendado.


CAPÍTULO 13

 

Isaac esteve nas proximidades de Boston apenas duas vezes e nas duas vezes tinha sido apenas de passagem em direção às suas viagens ao exterior – o tipo de coisa que acontecia quando tudo o que fazia era atravessar uma pista na Base Aérea de Otis até Cape Cod.

Dito isso, quando Grier fez uma curva à esquerda em uma rua cujo nome era algo como Charles, ele não precisou de um guia turístico da cidade para saber que estavam na parte mais nobre em se tratando de mercado imobiliário. As casas que percorriam os dois lados da colina eram todas feitas de um tijolo imaculado com persianas e portas pretas e brilhantes. Através das janelas limpas, ele podia ver os interiores onde cada centímetro era mobiliado com antiguidades e havia brasões e moldes de coroa suficientes para esmagar a cabeça de um rei.

Era evidente que estava no habitat natural dos Yankees sangue azul.

Grier virou à esquerda em uma pequena praça que era demarcada por uma cerca de ferro forjado e faixas de tijolos dos quatro lados. No meio, seu pequeno parque tinha graciosas árvores com botões minúsculos surgindo e as calçadas dos arredores eram o melhor do havia naquele ótimo bairro.

Não era bem uma surpresa.

Depois que ela estacionou seu Audi paralelo à cerca, os dois saíram. Ela não tinha falado muito na viagem e nem ele. Mas ele não era muito falante e ela tinha um fugitivo como passageiro. Uma situação onde conversinhas sobre o clima não se encaixava muito bem.

A casa que ela indicou como sendo dela era de esquina e tinha a frente abobadada com degraus de mármore branco que iam até sua porta da frente preta. Havia vasos arredondados pretos do tamanho de cachorros da raça dogue alemão colocados do outro lado da entrada e as trancas eram tão grandes quanto a cabeça de um deles. Uma luz brilhava no terceiro andar, várias no exterior. E ao inspecionar a área, parecia que não havia nada fora do lugar... parecia que não havia carros de polícia à paisana circulando, nem sons de que algo estava errado, ninguém suspeito à espreita.

Enquanto andavam sobre os tijolos irregulares da rua, ele quis alcançá-la e apoiá-la, dada a situação do salto alto que usava, mas ele não ousou. Em primeiro lugar, ela provavelmente ainda queria bater nele... e, em segundo, estava com as mãos sobre as duas armas dentro de seu blusão, só para garantir.

Ele sempre foi cuidadoso consigo mesmo. Tendo que escoltá-la? Isso elevava a vigilância a um nível totalmente novo.

Além disso, Grier estava lidando muito bem com a caminhada até a porta da frente, à despeito do fato de usar saltos altos e finos e ter sido atacada por um retardado drogado.Que pena não terem se encontrado em um mundo diferente. Porque senão, ele iria...

Sim, certo. Talvez chamá-la para sair?

Seja como for. Mesmo se ele tivesse respeitado a lei e não tivesse que seguir a rotina de “eu não sou um assassino”, eles ainda estariam de lados opostos daquela ilusão: ele era um completo garoto da fazenda e ela era completamente fabulosa.

E ele realmente tinha que se conter ao pensar mais de uma vez no quanto ela era atraente.

Seu alarme de segurança disparou no momento em que ela abriu caminho e ele se sentiu feliz, embora não aprovasse que ela deixasse uma gentalha como ele entrar na casa. E como isso foi acontecer, afinal?

Quando ela digitou seu código no sistema de alarme, ele olhou para as solas de suas botas de combate, que estavam cheias de lama e pedaços de grama. Abaixando-se, ele as desamarrou, as escorregou para fora dos pés e as deixou do lado de fora.

Seu piso de mármore branco e preto estava quente debaixo de suas meias...

Olhando para cima, ele a encontrou olhando para seus pés com uma expressão curiosa em sua bela face.

– Eu não queria deixar pegadas – ele murmurou, fechando e trancando a porta.

Depois que tirou o blusão, pegou a sacola de supermercado com as economias de sua vida e eles simplesmente ficaram ali parados: ela em seu casaco preto bem desenhado e sua bolsa suja que tinha uma alça solta; ele em sua camiseta regata como uma quantidade de dinheiro sujo em sua mão ensanguentada e duas armas que ela ignorava em seus bolsos.

– Quando foi a última vez que comeu? – ela disse suavemente.

– Não estou com fome. Mas obrigado, senhora. – Ele olhou em volta, observando uma sala com o teto pintado com um vermelho forte. Sobre a lareira de mármore régia havia a pintura a óleo de um homem sentado com uma postura rígida em uma cadeira com um par de óculos antiquados empoleirados em seu nariz.

Era tão tranquilo ali, ele pensou. E não apenas por não haver qualquer som.

Sereno. O lugar era... sereno.

– Vou fazer uma omelete para você, então – ela disse, apoiando a bolsa e começando a movimentar os ombros para tirar o casaco.

Ele se aproximou para ajudá-la, mas ela recuou.

– Faço isso sozinha. Obrigada.

O vestido que estava por baixo... Meu Deus, aquele vestido. Até onde ele sabia, algo simples e preto nunca pareceu tão sensual, mas, em seguida, ele observou que havia mais nela que roupas bem desenhadas ou o tecido.

Aquelas pernas. Que droga, aquelas pernas com meias finas pretas...

Isaac agarrou as costas do seu homem pervertido interior e o colocou de volta no lugar com o lembrete de que seria muito difícil que alguém como ela permitisse sequer que ele lavasse seu carro – quanto mais permitir que ele a levasse para a cama. Além disso, ele teria alguma ideia do que fazer com uma mulher como ela? Claro, ele era bom nisso – já haviam implorado a ele para que fizesse de novo o suficiente para que tivesse confiança nessa área.

Mas uma dama como ela merecia ser saboreada.

Que maldito ele era! Teve a impressão que estava lambendo os lábios.

– A cozinha é aos fundos – foi tudo o que ela disse ao pegar a bolsa e seguir.

Ele a seguiu pelo corredor, tomando nota das salas, janelas e portas, observando rotas de fuga e entradas. Era o que ele fazia em qualquer lugar por que passava, seus anos de treinamento com certeza salvaram sua pele. Mas agora era mais que isso. Isaac estava procurando por pistas sobre ela.

E era estranho... a serenidade foi mantida, o que o surpreendeu. Antiquado e caro geralmente significava tensão. Contudo, aqui, ele respirava fundo e com facilidade – mesmo que isso não fizesse sentido.

Em contraste com o resto da casa, a cozinha era toda branca e de aço inox e, enquanto ela começava a cozinhar pegando as tigelas, os ovos, e o queijo, ele colocou seu dinheiro embaixo do balcão e mal podia esperar para sair daquele espaço: ao longo do local, havia uma vasta parede de vidro.

O que significava que qualquer um com um par de olhos poderia dar uma boa olhada neles.

– O que tem nos fundos? – ele perguntou casualmente.

– Meu jardim.

– É murado?

Com os braços cheios, ela se aproximou do fogão na ilha de granito.

– Senso de segurança?

– Sim, senhora.

Ela se aproximou, acendeu a luz externa e diminuiu a interna – o que lhe deu uma visão perfeita dos fundos sem qualquer dificuldade. Deus, ela era esperta.

E seu jardim era cercado por um muro de tijolos de três metros que, como pode imaginar, ele aprovou totalmente.

– Satisfeito? – ela disse.

No escuro, a voz dela assumiu um tom rouco que o fez desejar conduzir seu corpo através do cômodo e apoiá-la contra algo para que ele pudesse descobrir o que havia embaixo daquele vestido preto.

Cara, aquela pergunta não era a única que ela precisava fazer a ele naquela noite.

– Sim, senhora – ele murmurou.

Quando as luzes se acenderam novamente, havia um leve toque de vermelho em suas bochechas – o tipo de coisa que ele não teria notado se não tivesse tomado por sua missão olhar para ela o máximo possível. Mas talvez aquela cor era apenas por estar tensa devido a tudo que aconteceu com ela naquela noite.

Sem dúvida era isso.

E o fato de ter notado aquilo fez com que ficasse menos impressionado com a espécie masculina: afinal, de alguma forma, mesmo em meio a um grande caos, mesmo sendo extremamente inconveniente, os homens ainda conseguiam ficar excitados com uma mulher.

– Sente-se... – ela disse, apontando um banco sob o tampão da ilha de mármore com o batedor de ovos de metal – ...antes que caia. E nem tente vir com a conversa de que está bem, certo?

Cara... estava completamente excitado com essa mulher.

Completamente excitado.

– Oi? – ela disse. – Você estava prestes a se sentar ali, lembra?

– Entendido.

Enquanto ela voltava ao fogão e começava a quebrar os ovos, ele fez o que ela disse para que fizesse.

Para ficar com os olhos longe dela, ele olhou em direção à sua bolsa, que ela tinha deixado ao lado dele. Que vergonha uma coisa tão boa e cara ter sido revirada. Havia lama seca em todo o couro e a alça tinha sido massacrada.

Idiota estúpido.

Erguendo-se, ele foi até a pia, puxou uma folha de papel toalha e umedeceu a coisa. Em seguida, reinstalou-se no banco e começou a trabalhar, tentando tirar a lama.

Quando ele olhou para cima, ela estava olhando para ele novamente e ele parou o que estava fazendo para segurar uma mão à outra.

– Eu não vou roubá-la.

– Não achei que fosse – ela disse naquela voz suave.

– Sinto muito mesmo por sua bolsa. Acho que está destruída.

– Tenho outras. E mesmo se não tivesse, é apenas um objeto.

– Uma coisa cara. – E, nesse tom, ele se inclinou sobre a ilha e empurrou seu dinheiro em direção a ela. – Preciso que aceite isso.

– E eu preciso que você não fuja. – Ela quebrou outro ovo na borda da tigela e o dividiu apenas com uma das mãos. – Eu preciso que você faça o que concordou em fazer quando consegui sua fiança.

Isaac baixou os olhos e retomou sua limpeza malsucedida.

Ela deixou escapar um exalar de respiração que era apenas uma sílaba ou duas de distância de ser um palavrão.

– Estou esperando. Que me responda.

– Não percebi que era uma pergunta, senhora.

– Certo. Você vai, por favor, ficar aqui e seguir o sistema?

Isaac se levantou e voltou para a pia. Ao pegar uma folha de papel limpa, a verdade saiu de sua boca.

– Minha vida não me pertence.

– De quem está fugindo? – ela sussurrou.

Talvez ela tenha diminuído o volume, pois a advogada que havia nela teve uma reação involuntária de discrição. Ou talvez ela estivesse certa: os tipos que estavam atrás dele poderiam ouvir e, às vezes, até mesmo ver através de paredes sólidas. As de vidro como as da cozinha? Fácil, fácil.

– Isaac?

Não havia resposta para dar a ela, então, ele balançou a cabeça e voltou a limpar a lama de sua bolsa... mesmo sabendo que, provavelmente, ela iria jogar a coisa fora pela manhã.

– Pode confiar em mim, Isaac.

Sua resposta levou um bom tempo para chegar.

– Não é com você que estou preocupado.

Grier ficou do outro lado da ilha, os ovos espalhados e escorrendo no granito, uma tigela vermelha cheia de gemas amarelas e claras transparentes estava pronta para ser batida.

Seu cliente era absolutamente enorme empoleirado em seu banquinho, suas mãos machucadas cuidando de sua bolsa Birkin. E, mesmo assim, apesar de seu tamanho e do cuidado que demonstrava com sua bolsa, ela queria golpear sua cabeça contra algo duro. As soluções eram tão claras para ela: aja conforme dita o sistema, limpe sua ficha com qualquer agência militar que tenha se envolvido, lide com as repercussões, deixe o tempo passar... comece de novo.

Seja lá o que ele tenha feito, podia ser corrigido.

A sociedade poderia perdoar.

As pessoas podiam seguir em frente.

A menos, é claro, que fossem idiotas teimosos determinados a desrespeitar as regras e seguir sozinhos.

Ela pegou o último ovo e bateu contra a borda da tigela, quebrando a casca.

– Ah, droga.

Os olhos de Isaac se levantaram.

– Tudo bem. Eu não ligo para um pouco de casca.

– Não está bem. Nada disso está bem. – Ela se inclinou e pegou os pedacinhos brancos com a unha.

Quando as coisas pareciam aceitáveis na tigela, ela se ouviu dizer: – Gostaria de tomar um banho antes de comer?

– Não senhora – foi sua reação tranquila e sem surpresa.

– Tenho roupas limpas que pode usar – isso fez com que as sobrancelhas dele se erguessem um pouco, mesmo sem olhar para ela. – São do meu irmão. Ele costumava ficar aqui comigo algumas vezes... não são exatamente do seu tamanho, claro.

– Estou bem. Mas obrigado, senhora.

– Você pode deixar de lado a besteira da “senhora”. Acabamos com isso no minuto em que você entrou no meu carro.

Quando a sobrancelha dele se ergueu novamente, ela pegou um pedaço de queijo cheddar e começou a ralar. Com força.

– Sabe... você me lembra dele. Meu irmão.

– Como assim?

– Eu também quero salvá-lo do que suas escolhas estão fazendo com sua vida.

Isaac balançou a cabeça.

– Não é uma boa ideia.

Era verdade. Deus era testemunha de que ela já tinha falhado com isso uma vez.

Ela ralou o queijo, colocou a coisa de lado e cortou um pouco de bacon canadense. Como os dois trabalhavam em suas tarefas, não levou muito tempo para que o silêncio tomasse conta dela..., mas o ponto chave era: desistir não era sua natureza.

O que sugeria que, se ela tivesse nascido um carro, já estaria no derby de demolição onde os carros se debatem até a destruição total.

– Olha, eu posso tentar ajudá-lo com mais do que apenas as acusações que existem contra você. Se você...

– Tirei a maior parte da sujeira. – Ele ergueu a bolsa enquanto encontrava os olhos dela. – Mas não há nada que eu possa fazer com a alça.

– Para onde você está indo?

Quando ele não respondeu, ela cortou um pedaço de manteiga na panela e acendeu o fogo.

– Bem, você pode passar a noite aqui se quiser descansar. Meu pai fez desse lugar tão seguro que nem um rato conseguiria entrar sem acionar o sistema.

– O sistema de alarme é bom. Mas não tão bom assim.

– Isso é apenas um sistema simulado. – Essa informação fez com que as duas sobrancelhas dele se erguessem e ela balançou a cabeça. – Meu pai era militar. Na verdade, era do exército. Quando ele saiu, foi para a escola de direito e, então... bem, ele se mantinha atualizado, digamos assim. Atualizado e sempre me protegendo.

– Ele não aprovaria eu estar aqui.

– Você foi um cavalheiro até agora e, não importa o que vista ou de onde venha, isso era o que importava para ele. E, a propósito, para mim também...

– Vou deixar esse dinheiro para trás quando for embora.

Erguendo a panela da chama, ela inclinou a face plana da coisa, levando a manteiga a fazer um pequeno passeio até que acabou se desfazendo.

– E eu não posso aceitar. Deve saber disso. Isso faria de mim sua cúmplice. – Ela achou que tinha ouvido um palavrão baixinho, mas talvez tenha sido apenas o soltar de uma respiração. – Além do mais, posso apostar que o dinheiro veio da luta. Ou foi de drogas?

– Não sou traficante.

– O que significa que veio da primeira opção. Ainda é ilegal. A propósito, verifiquei seus antecedentes. – Ela mexeu mais uma vez os ovos e derramou mais da metade deles na panela, um shhh silencioso se ergueu. – Não há nada além de um artigo de jornal de cinco anos atrás sobre sua morte. Vem com uma foto sua, então, nem se incomode em negar isso.

Ele caiu em um silêncio profundo e ela sabia que seus olhos a encaravam de maneira penetrante.

Por um momento, ela soube exatamente por que o tinha recebido em sua casa. Mas, em seguida, por alguma razão, ela pensou nele tirando sua botas de combate e as deixando do lado de fora da porta da frente.

Hora de cair na real, ela pensou.

– Então, você vai me dizer para qual área do governo trabalha ou devo arriscar um palpite?

– Não sou militar.

– Mesmo? Então, devo acreditar que você luta daquela maneira e que protege seu apartamento como protege e está em uma fuga rápida para fora da cidade só porque é algum tipo de vândalo de rua comum ou um fiscal de baixo nível? Não caio nessa. Aliás, vê-lo naquele ringue foi como tive certeza – aquilo e o fato de ter seu próprio cão ao lado quando eu fui atacada. Você estava totalmente no controle de si e da situação com aquele drogado, não vacilou em nada, era o tipo leão de chácara emocional salvando o dia. Você foi um profissional, na verdade, é. Não é mesmo?

Ela não precisava que dissesse uma palavra, pois sabia que estava certa. E, mesmo assim, quando não havia qualquer comentário, ela o encarou, meio que esperando que ele se dissolvesse em uma rajada de ar.

Mas Isaac Rothe, ou seja lá qual era o nome dele, permaneceu sentado na ilha da cozinha dela.

– Como gosta de seus ovos? – ela disse. – Duros ou moles?

– Duros – ele respondeu.

– Por que não estou surpresa?


CAPÍTULO 14

 

“Preso em flagrante”, Isaac pensou que era essa a expressão. Ao encontrar os olhos de sua defensora pública, hospedeira e cozinheira de pratos rápidos, ficou claro que ela sabia muitas coisas sobre ele.

E não é que isso fez com que se sentisse despido?

– Acho que deveria renunciar o meu caso – disse ele severamente. – Na verdade, hoje à noite.

Ela colocou o queijo e o bacon canadense sobre o círculo de uma omelete que borbulhava.

– Eu não desisto. Ao contrário de você.

Certo. Isso o irritou.

– Eu também não desisto.

– Mesmo? Como você chama fugir de suas responsabilidades?

Antes que ele percebesse, se debruçou sobre a bancada e se aproximou dela. Ao ver que os olhos dela queimavam, ele disse severamente: – Eu chamo de sobrevivência.

Para seu crédito, ou sua estupidez, ela não desistiu.

– Fale comigo. Pelo amor de Deus, deixe-me ajudá-lo. Meu pai tem contatos. Do tipo que se aprofundam e se infiltram nas sombras do governo. Há coisas que ele pode fazer para ajudá-lo.

Isaac permaneceu muito calmo por fora. Dentro, porém, ele estava confuso. Quem, diabos, era o pai dela? Childe... Childe... O nome não dizia nada ao seu banco de dados interno.

– Isaac – ela disse. – Por favor...

– Você me libertou, então, eu posso continuar. Isso me ajudou. Agora, você tem que me deixar ir. Deixe-me ir e esqueça que me conheceu. Se seu pai é o tipo de homem que diz que é, você sabe muito bem que há ramos do serviço militar onde “desertor” é uma sentença de morte.

– Pensei que não era militar.

Ele deixou aquela mentira onde tinha colocado... em cima da pilha de porcarias que trouxe à porta dela.

No silêncio, acrescentou um pouco de tempero, o saleiro não fez qualquer som, já a pimenta crepitou um pouco. Então, ela dobrou a omelete ao meio e deixou fora do fogo por alguns instantes.

Dois minutos depois, o prato que lhe foi apresentado era branco e quadrado e o garfo era de prata e tinha arabescos sobre ele.

– Sei que você é educado. Mas não espere por mim. É melhor quente.

Ele não queria comer antes dela, mas considerando que ele a desafiou em tudo naquela noite, pensou que agora era uma oportunidade para se harmonizar um pouco. Indo até a pia, lavou as mãos com água e sabão; em seguida, sentou-se e comeu cada pedaço.

Estava ótimo.

– Passe a noite aqui – disse ela, depois que fez seu próprio prato e começou a comer enquanto permanecia no balcão. – Passe a noite aqui e eu renuncio ao seu caso, mas não faço isso até que tome café da manhã comigo amanhã de manhã. E você vai levar seu dinheiro quando sair. Não vou fazer parte disso. Se você se for, vai ter que levar essa dívida em sua consciência.

Uma onda de cansaço percorreu o corpo dele, sugando-o na banqueta. Dentre seus muitos pecados, dever dinheiro a ela parecia curiosamente um fardo insuportável, muito superior ao número de corpos que tinha enviado aos seus túmulos. Mas isso era o que as pessoas decentes sempre faziam com ele... elas faziam com que ele visse claramente quem e o que ele era.

Assim que estava se preparando para argumentar sobre a hospedagem, ela o interrompeu.

– Olha, se você está aqui, sei que está seguro. Sei que vai ter mais uma ou duas refeições e que vai embora mais forte com isso. Agora, você precisa de um cuidado médico em seu rosto, outra omelete e uma cama onde possa descansar. Como eu disse, essa casa é bem mais segura do que os padrões civis e há alguns truques dentro dela, então, você não precisa se preocupar em fazer uma pausa. Além disso, por causa do meu pai, ninguém que tenha laços com o governo vai me machucar.

Childe... Childe... Não, nada ainda.

Bom, ele era um soldado raso nas operações extraoficiais que se preocupava com duas coisas: conseguir seu objetivo e sair vivo. Ele não era o tipo que conhecia a hierarquia militar.

Contudo, Jim Heron saberia. E o cara tinha deixado seu número...

– Então, temos um acordo? – ela perguntou.

– Você vai renunciar? – ele rebateu rispidamente.

– Sim. Mas vou ter que contar a eles tudo que sei sobre você quando o fizer. E antes que pergunte, uma vez que você não confirmou ou negou uma conexão com o governo... Vou simplesmente esquecer que conversamos sobre isso.

Ele limpou a boca com um guardanapo e quis amaldiçoar sua falta de opções: cara, sua determinação estava no ângulo do seu queixo... era evidente que tinha que ser do jeito dela ou de jeito nenhum.

– Mostre-me seu sistema de segurança. – Quando seus ombros relaxaram visivelmente, ela apoiou o garfo, mas não tinha comido nada. – Não, termine de comer primeiro.

Enquanto ela comia, ele se levantou e andou ao redor, memorizando tudo desde os quadros nas paredes até as fotos na área da cozinha onde havia sofás e uma mesa. Finalmente, ele parou em frente a todo aquele vidro.

– Deixe-me mostrar a você.

Ao som daquela voz, seus olhos se voltaram para o reflexo dela atrás dele com aquele vestido preto, um fantasma de uma bela mulher...

No silêncio tranquilo da casa, com sua barriga cheia de comida que ela havia preparado para ele e com seus olhos embevecidos com a visão dela... as coisas saíram do complicado para se tornarem completamente caóticas.

Ele a queria. Com uma ânsia que colocaria um maldito vínculo entre eles.

– Isaac?

A voz dela... aquele vestido... aquelas pernas...

– Eu preciso ir – ele disse de maneira severa. Na verdade, ele precisava entrar... dentro dela. Mas aquilo não ia fazer parte da situação. Mesmo que ele tivesse de cortar seu membro e queimá-lo naquele adorável jardim que ela tinha.

– Então, eu não vou renunciar seu caso.

Isaac se virou e não ficou surpreso ao ver que ela não recuou ou cedeu um centímetro.

Antes que ele abrisse a boca, ela levantou a palma da mão para detê-lo antes que começasse.

– Não importa que eu não o conheça e que não deva nada a você. Então, pode parar agora com esse argumento. Você e eu vamos checar meu sistema de segurança e, em seguida, você vai dormir no meu quarto de hóspedes e ir embora de manhã...

– Eu poderia matá-la. Bem aqui. E agora.

Aquilo a calou.

Quando ela levantou as pontas dos dedos até seu pesado colar de ouro, como se estivesse imaginando as mãos dele em volta de sua garganta, ele caminhou até ela.

E, desta vez, ela recuou... até o balcão onde seu prato vazio a deteve.

Isaac continuou a se aproximar até que esticou os braços nas laterais dela, fechando as mãos no granito, aprisionando-a de fato. Olhando bem dentro dos olhos azuis que ela tinha, ele estava desesperado para assustá-la de alguma maneira.

– Não sou o tipo de homem com quem está acostumada a lidar.

– Você não vai me machucar.

– Você está tremendo e tem uma enorme tensão no seu pescoço agora. Então, diga-me, do que acha que sou capaz.

Quando ela engoliu em seco, ele percebeu que aquela chamada para a realidade estava atrasada... só que ele se sentia um bandido em um show de agressão.

– Sei que está no espírito de salvadora. Mas não sou o tipo de caridade que vai alimentar sua alma. Acredite em mim.

O zumbido de uma energia começou a vibrar entre eles, as moléculas de ar no espaço entre seus corpos e seus rostos começaram a se agitar.

Ele se inclinou, cada vez mais próximo.

– Sou mais o tipo que comeria você viva.

A respiração dela exalou com ímpeto e ele sentiu aquilo percorrer a pele de seu pescoço como um beliscão.

Então, ela o acertou em cheio.

– Faça isso, então – ela desafiou.

Isaac franziu a testa e recuou um pouco.

Seus olhos ardiam, uma raiva súbita permeou seu belo rosto com uma paixão que o chocou e o excitou ao mesmo tempo.

– Faça isso – ela resmungou, agarrando um de seus braços.

Ela ergueu uma das mãos dele e colocou em sua própria garganta.

– Vá em frente. Faça isso. Ou só está tentando me assustar?

Ele tirou seu pulso das garras dela.

– Você está fora de si.

– É isso mesmo, não é? – Sua raiva não foi ativada novamente. Mesmo. De verdade.

– Você quer me intimidar para que eu fique assustada e te dê um descanso. Bem, boa sorte com isso. Pois a menos que esteja preparado para seguir com a ameaça, eu não vou recuar e não tenho medo de você.

Os pulmões dele começaram a queimar... e mesmo sendo muito mais inteligente da parte dele sair e usar uma das portas, acabou colocando a mão direita sobre o granito onde estava antes... então, ela ficou presa mais uma vez entre seus braços.

Ele a queria bem onde estava, toda coberta por seu corpo. E ele respeitava sua demonstração de força; respeitava de verdade, mesmo que isso o deixasse preocupado sobre o quanto ela era imprudente.

– Adivinhe – ele disse em uma voz baixa e grave.

Ela engoliu em seco mais uma vez.

– O que?

Isaac se aproximou, colocando sua boca no ouvido dela.

– Matá-la não é a única coisa que poderia fazer com você... senhora.

Fazia um bom tempo desde que Grier sentiu cada centímetro de seu corpo – ao mesmo tempo. Bom Deus, ela sentia agora, e não era apenas a sua pele. Ela sentia cada pedaço de Isaac Rothe também, mesmo sabendo que nada a tocava.

Havia tanto dele ali. E talvez ela devesse ter se afastado de tudo devido àquela coisa bruta e masculina que ele tinha se transformado... mas, ao invés disso, a realidade impetuosa de seu poder simplesmente chamava mais e mais sua atenção. Separados por poucos centímetros, os dois respirando com dificuldade, ela estava completamente desequilibrada, suas emoções foram desencadeadas como se, de fato, sua cabeça tivesse sido tirada do corpo e estivesse rolando no chão.

Deus, ela estava desesperada por ele: ela queria atirar-se contra ele e ser nocauteada pelo impacto. Ela queria que ele fosse a parede de tijolos ao fazer isso. Ela queria ser insensata, vacilar e sair da sua realidade... por causa dele e do sexo que ele emanava como um aroma e do passeio selvagem que ele seria.

Sim, claro, não ia durar. E quando voltasse a si, ia se sentir como o inferno. Mas, nesse momento elétrico, ela não se importava com nada disso.

– Isaac...

Ele se afastou. No momento em que ela disse seu nome com voz rouca, ele não apenas se afastou; ele saiu do turbilhão.

Caminhando ao redor, ele esfregou os cabelos curtos como se estivesse tentando esfregar o cérebro e a distância física deu uma ideia a ela de como se sentiria depois que ficasse com ele: muito vazia, um pouco enjoada e, definitivamente, envergonhada.

– Isso não vai acontecer de novo – ele disse, severo.

Ao pronunciar isso no ar que ainda pairava entre eles, ela disse a si mesma que estava aliviada por não ter que lidar com questões que envolvessem sexo.

Porém... o latejar entre suas coxas dizia que aquilo era uma mentira deslavada.

– Eu ainda quero que fique – ela disse.

– Você nunca desiste, não é?

– Não. Nunca – ela pensou na quantidade de vezes que tentou tirar Daniel de sua ruína. – Nunca mesmo.

O rosto de Isaac parecia idoso ao olhar para ela do outro lado da cozinha, seus olhos gelados não eram nada além de abismos de escuridão.

– Ouça a voz da experiência. Desistir pode ser um importante mecanismo de sobrevivência.

– E, algumas vezes, uma falha moral.

– Não se estiver sendo arrastada por um carro. Ou sendo puxada para um buraco cheio de ratos. Às vezes, para salvar a si mesmo, você tem que sair.

Ela sabia que ele estava se aproximando da verdade e ela manteve sua voz o mais firme possível.

– Do que você está fugindo, Isaac? Do que você está se salvando?

Ela apenas a encarou. E, então...

– Onde está seu sistema de segurança?

Desviar o assunto foi uma decepção, mas o fato de ele considerar que ia se hospedar era uma vitória. E, enquanto ela o levava até a frente da casa, se recompôs da melhor maneira possível – apesar de seus joelhos estarem bambos, sua pele superaquecida e sua mente girando.

Havia uma familiaridade terrível com aquela sensação, sobre a qual ela se recusava a pensar... mas poderia contar ao seu irmão morto, quando ela o visse novamente. Daniel nunca falava da noite em que tinha morrido, ou de todas as agressões que infringiu a si mesmo antes. Mas, talvez... eles precisassem conversar sobre tudo.

– Como disse antes, isso é apenas para enganar – ela disse, deslizando a mão sobre o painel do sistema de segurança que foi instalado na parede. – A unidade verdadeira está atrás do meu armário de roupas. Cada janela e cada porta tem um receptor do sistema, mas o sistema de fato está ligado a ondas de rádio, raios infravermelhos e placas de cobre. Assim como o seu.

– Mostre os conectores. Eu quero ver a placa-mãe. Por favor.

O que significava levá-lo até o andar de cima.

Quando ela olhou os degraus acarpetados, achou difícil acreditar que estava considerando a possibilidade de confiar nele...

Aquela proximidade com a cama.

Que diabos estava acontecendo com ela?


CAPÍTULO 15

 

Quando Isaac foi conduzido a um quarto acolhedor em estilo biblioteca, ele soube que era ali que Grier passava seu tempo livre. Havia edições do New York Times e do Wall Street Journal em uma cesta de vime ao lado de uma cadeira estofada e o telão na parede mais afastada sem dúvida exibia a CNBC ou CNN ou FOX News na maioria das noites.

Quem sentava ali e assistia com ela? Aquele seu irmão?

– Vê? – ela disse, afastando uma cortina de um xadrez escuro.

Isaac se aproximou e se inclinou – o cheiro do perfume dela era exatamente o tipo de coisa que ele não precisava sentir agora.

Obrigando-se a focar o minúsculo brilho do cobre, ele aprovou o que olhava. Um material muito moderno.

Quem diabos era o pai dela?

Antes que ele fizesse algo estúpido, como tocá-la, ele se afastou e enquanto vagava perto da TV, não ficou nem um pouco surpreso com a coleção de DVDs colocada nas prateleiras. Havia muitos títulos estrangeiros e filmes sérios dos quais ele nunca tinha ouvido falar, quanto mais assistido. Então, lembrou que não foi ao cinema desde o final dos anos oitenta.

A última coisa que ele conhecia era Bruce Willis como um policial desesperado em busca de um sapato que servisse, Arnold como um cyborg de óculos escuros e Steven Seagal com aquelas entradas.

– Vai me levar até a placa-mãe? – ele disse virando-se para ela.

E a parte do “e depois até sua cama?” ele deixou de lado. Que cavalheiro.

– Claro.

Seguindo-a pelas escadas, ele deu um bom espaço entre eles – o que foi bom no sentido de conter as mãos e diminuir o calor, pois ele tinha muito a olhar. Jesus, seus quadris tinham um jeito que fazia com que ele rangesse os molares.

Quando chegaram ao segundo andar, ele fez uma rápida pausa e conseguiu algumas impressões de três quartos com portas abertas. A decoração era feita da mesma maneira antiquada dos andares abaixo, mas havia uma vibração aconchegante em tudo. Muito mais “família” que “hotel”.

Era certo que ele nunca tinha vivido assim. Na sua infância, ele dividiu um quarto do tamanho do corredor da frente com dois irmãos. Nas operações extraoficiais, ele pegava no sono onde podia – geralmente sentado em uma cadeira de frente para uma porta com uma arma na mão.

– Fico no terceiro andar – ela disse de um degrau acima.

Ele assentiu e entrou em ação. Acontece que ela ocupava todo o terceiro andar. O quarto principal se estendia com sua própria área de estar, lareira e portas francesas que se abriam ao que ele concluiu ser um terraço particular.

– Aqui.

Ele seguiu o som da voz dela, indo até o closet onde ela tinha desaparecido. A maldita coisa era tão grande quanto a sala de estar de algumas pessoas, com um carpete creme envolvendo as paredes e legiões de roupas alinhadas e penduradas por categoria.

O ar rescendia ao perfume dela.

Ela estava na parte de trás, afastando uma dúzia ou mais de ternos muito sérios para revelar... uma grade de 1,20 metro de altura e 90 centímetros de largura que parecia ser apenas a cobertura de um radiador antigo. Mas, como pode imaginar, a coisa deslizou para trás e revelou um esconderijo.

Um pequeno click e a luz se acendeu.

Ela passou primeiro e ele ficou bem próximo dela ao entrar no confinamento apertado... e lá estava.

Mas que... droga!

Ao se ajoelharem lado a lado, ele pensou: cara, era bom não ser um tipo de técnico naquilo ou estaria desmaiando. A configuração era o máximo de sofisticação – nada de uma combinação com dez números e as opções desligar, parcial ou total. Aquele era um sistema de computadores em rede que acompanhava as diferentes zonas da casa em vários níveis. E, se ele estava entendendo direito, a única maneira de chegar aos componentes era chegar até ali, e desarmar tudo seria complicado.

Só que...

– Eu não vi você desativar isso quando entramos.

Ela mostrou algo que parecia com o chaveiro de um carro.

– O painel é calibrado com minha impressão digital. Levo isso comigo onde quer que eu vá e o sistema está ligado agora.

Quando ele virou a coisa nas mãos, ela disse: – Bom o suficiente?

Houve um longo momento. Longo demais para onde eles estavam.

Longo demais para quem eles eram.

– Algo mais? – ela disse.

Sim.

– Não.

Grier assentiu e tomou seu caminho em direção à saída do confinamento. Depois que ele saiu, colocaram a grade de volta e andaram até o quarto. Que droga: ele não pôde deixar de olhar para a cama dela. Grande. Cheia de edredons e travesseiros. Do outro lado, havia uma pequena TV em cima de uma mesa antiga e uma estante forrada com DVDs ordenados de maneira precisa.

Ele franziu a testa e se aproximou -, apesar de não ser da sua conta, mas... caramba, será que estava enxergando os títulos direito?

A Garota de Rosa Shocking. Clube dos Cinco. Gatinhas e Gatões. Duro de Matar. A Força em Alerta.

Até mesmo ele conhecia esses filmes.

– É o que eu assisto à noite – disse Grier, quando ela veio atrás dele e endireitou as caixas finas apesar de estarem perfeitamente retas.

– Diferente dos que você tem lá embaixo. – E ele achou difícil acreditar que ela era uma mulher cheia de pose que queria ser toda Jane Austen em público e Jerry Seinfeld ali no quarto.

Ela pegou Harry e Sally – feitos um para o outro, e passou a mão sobre a cena de outono na capa.

– Eu não durmo bem e isso ajuda. É como se... meu cérebro voltasse ao tempo em que eles foram produzidos. Eu vejo os carros... as cenas em supermercados com preços menores... as roupas que estavam na moda... os cabelos que ninguém mais usa. Volto à época em que os vi pela primeira vez, quando as coisas eram... mais simples. – Ela sorriu com uma pressa desajeitada. – Acho que você chamaria de pequenos nocautes cinematográficos. É a única coisa que funciona pra mim.

Olhando para ela enquanto observava Meg Ryan, ele teve a visão de seu penteado de perfil, a luz azul da tela iluminava seus traços, a viagem ao passado acalmava seus nervos e relaxava seu cérebro.

Ela tinha uma companhia para assistir com ela? Ele se perguntou. Um namorado?

Nada de aliança, então, ele concluiu que ela não era casada ou noiva.

– O que foi? – ela disse, endireitando o bonito vestido preto. Ele limpou a garganta, odiando ter sido pego olhando para ela.

– Qual chuveiro quer que eu use?

Isso a fez sorrir. Pela primeira vez.

E sim, abatido como estava... ele prendeu a respiração e seu coração parou.

Grier colocou o filme de volta no lugar.

– Mais comida primeiro – ela disse ao se virar e ir em direção às escadas.

Jim e seus colegas aterrissaram no jardim dos fundos de uma casa de alvenaria de três andares que gritava ao mesmo tempo dinheiro e desculpas por causar tanto impacto. Tudo relacionado a ela e à sua vizinhança era refinado e muito bem-cuidado... e de tijolos. Pelo amor de Deus, todo o código postal que cobria a área parecia com a casa que abrigou os três porquinhos do lobo: casas de tijolos, muros de tijolos, calçadas de tijolos, travessas de tijolos.

Era o suficiente para fazer o pulmão do Lobo Mau ficar forte como ferro.

Através das janelas de vidro, viu uma cozinha muito espaçosa em todas as direções e com comida no balcão – mas não havia pessoas. Recuando, Jim não olhou para a casa, mas através da casa, fechando seus olhos e se concentrando.

Sim, ele conseguia sentir os dois... assim como algo mais. Havia uma... oscilação... lá dentro.

Suas pálpebras se abriram e quando se lançou para a porta dos fundos, Eddie agarrou seu braço. Que, considerando a força do cara, foi como se tivesse batido em um carro estacionado.

– Não, não é Devina. É uma alma rebelde.

Jim franziu a testa e concentrou sua atenção na confusão.

– Rebelde?

– É uma alma que foi libertada do corpo, mas que ainda precisa encontrar seu destino eterno.

– Um fantasma?

– Sim. – Eddie tirou sua mochila dos ombros, sua grossa trança caiu para frente. – Está por aí, esperando para ser libertada.

– O que mantém a coisa aqui?

– Negócios não resolvidos.

– E você tem certeza de que é isso? – Quando os olhos vermelhos do anjo ficaram rígidos como pedra, Jim levantou as mãos. – Certo, certo. Mas nós podemos chamá-los de “fantasmas”? Aquela porcaria de “rebelde” tem mais a ver com o estilo de uma vovó.

– Concordo – Adrian opinou.

– Ah, pelo amor... vocês podem chamá-lo de Fred, se for pra saírem dessa.

– Feito.

Naquele momento, Isaac e Grier entraram na cozinha. Quando o cara se acomodou em uma banqueta, ela voltou a cozinhar para ele e a tensão entre os dois era óbvia... assim como a atração. Os dois estavam jogando tênis com o olhar: cada vez que um olhava, o outro desviava os olhos. E o rubor nas bochechas da mulher selava o clima romântico.

Ao olhar pelo vidro, Jim se sentiu muito velho e distante. Achou que agora, sendo um anjo, qualquer sonho de se casar e ter filhos estava morto e enterrado – para não dizer sobre a questão de não namorar ninguém... apesar de, Cristo, quando foi que ele tinha namorado pela última vez?

E ele nunca foi do tipo que se casaria, então, em que diabos ele estava pensando?

Além disso, aquele não era nenhum filme de amor sobre a vida real do outro lado do vidro: o que ele estava olhando era para um homem caçado e uma mulher que estava fora de si.

Algo difícil de invejar.

Na verdade, ele se perguntava no que diabos o cara estava pensando. Qualquer um que tinha trabalhado com seu velho chefe sabia que os efeitos colaterais disso tinham uma possibilidade real de entrar naquele cenário.

– Cara, vamos nos mudar para cá – Adrian gemeu. – Dane-se os feitiços de proteção... eu amo uma boa omelete e estou faminto.

Jim o encarou.

– Está falando sério?

– O quê foi? Esse lugar está cheio de quartos. – De repente, a voz do anjo ficou mais profunda. – E eu posso fazer meus exercícios extracurriculares muito discretamente.

Sim, e ele não estava falando de levantar pesos. Leia: sexo com mulheres desconhecidas. Às vezes, Eddie participava da festinha.

Jim passou apenas uma noite com os dois, mas já sabia qual era o treinamento. Apesar de Ad ter permitido que Devina usasse e abusasse dele no primeiro jogo, não levou muito tempo para que ele desse umas voltas de novo. O cara tinha uma estranha obsessão pelo sexo feminino.

– Será que dá pra você focar? – Jim encarou Eddie. – Então, o que temos aqui?

Adrian interrompeu com um rosnado.

– Ah, sim, ela está fazendo outro para ele.

– Dá para parar com essa voz pedindo por comida e sexo?

– Ei, quando estou em algo, eu vou com tudo.

– Tente aprender a cozinhar, então...

Eddie limpou a garganta.

– Certo. No entanto há uma troca para proteger esse lugar: as magias mais fortes vão sinalizar o local para Devina.

– Ela já sabe – Jim disse em voz baixa. – Apostaria minhas bolas que ela já o encontrou.

– Ainda acho que devemos ficar quietos.

– Concordo.

Eddie se aproximou.

– Então, me dê sua mão.

Quando Jim ofereceu a palma de sua mão, ele olhou para o casal lá dentro. Eles pareciam isolados do furacão que girava no horizonte e ele teve o estranho impulso de fazer com que permanecessem assim...

– Droga – ele sussurrou, puxando seu braço para trás. Olhando para uma ardência em sua mão, encontrou um fino corte na sua linha da vida, que estava escorrendo... sangue... ou algo parecido.

Havia um brilho no fluxo vermelho que escorria, como a pintura de um carro à luz do sol. Engraçado, ele não tinha notado nada estranho na funerária... afinal, ele estava muito distraído olhando o próprio cadáver.

Eddie empunhou mais uma vez sua adaga de cristal.

– Circule o local e marque cada uma das portas. Tenha em mente a imagem dos dois e de que estão em segurança, em paz, calmos e protegidos. O mesmo de antes: quanto mais forte a imagem for, melhor vai funcionar. Isso vai formar um tipo de barômetro emocional na casa... assim, se houver um distúrbio maior, vai sentir isso. É uma magia de baixo nível e vai trazê-lo aqui rapidamente se alguma coisa acontecer... e isso não vai chamar a atenção de Devina. É claro que não vai mantê-la do lado de fora, mas você vai ser capaz de chegar aqui em um piscar de olhos se ela ultrapassar a barreira.

Com a mão pingando, Jim subiu os degraus até a porta dos fundos, mantendo-se camuflado para que ele pudesse aparecer a Isaac e sua garota como nada mais que uma sombra. Pressionando a palma de sua mão nos painéis frios, ele se concentrou nos dois, capturando a imagem deles no momento em que seus olhos se encontraram e se detiveram assim. Então, ele baixou as pálpebras e não se concentrou em mais nada além daquela imagem...

O mundo desapareceu, tudo, desde a brisa em seu rosto, o ranger da jaqueta de couro de Adrian até os sons distantes do tráfego... simplesmente desapareceram... e, em seguida, foi a vez de seu corpo, não havia mais peso sob seus pés, mesmo que ainda tocassem o chão.

Não havia nada para ele, em torno dele, ou sobre ele, apenas a imagem em sua mente.

E foi a partir do vácuo que seu poder entrou em ebulição.

Uma imensa onda de energia foi canalizada no espaço em branco que ele criou e sem entender muito bem, ele sabia exatamente o que fazer com a força, enviando-a ao redor da casa, doando parte disso apenas para descobrir que havia ainda mais fluindo dentro dele.

Soltando o braço, ele se afastou...

Jim ficou como uma estátua. O brilho de seu sangue estava na porta... e se espalhava em todas as direções em ondas, cobrindo os painéis, as ombreiras e se movimentando sobre o tijolo. Aquilo se espalhava para cima e para os lados, ganhando espaço, assumindo o controle.

Selando toda a casa.

– Nada mau para a primeira tentativa – ele murmurou, preparando-se para ir até a parte da frente.

Ao se virar, deteve-se. Os dois anjos estavam olhando para ele como se fosse um estranho.

– O que? – Ele olhou sobre o ombro. A onda bruxuleante vermelha se espalhava, subindo até o teto. – Parece evidente que a coisa funcionou.

Eddie limpou a garganta.

– Ah, sim. Pode-se dizer assim.

– A frente...

– Não é necessário – Eddie disse. – Você já cobriu toda casa.

Quando Adrian murmurou algo em voz baixa e balançou a cabeça, Jim pensou “Mas que inferno é esse?”

– Parece que alguém urinou no pé de vocês. Querem me dizer qual é o problema? – Pausa. Tempo para resposta... que não veio. – Tudo bem. Que seja.

– Temos que ir agora – Eddie disse ao colocar sua faca de volta na mochila. – Com o feitiço no local, não há nada mais que possamos fazer. Ela tem algo de todos nós.

– Como?

Os dois anjos se entreolharam. Ad foi o único quem respondeu.

– Todos nós já estivemos com ela. Se é que entende o que quero dizer.

Jim estreitou seus olhos em Eddie, mas o anjo se ocupou com sua maldita bagagem.

Bem, veja só. Devina ficou até mesmo com Eddie.

Afastando o pensamento de sua mente, Jim entrou pela porta traseira do jardim e deu a volta até a entrada da frente. Depois de anotar o número e o nome da rua, ele se elevou no ar, apesar do impulso de permanecer onde estava.

Contudo, ele estava satisfeito com seu pequeno feitiço de proteção – além do mais, o Cachorro estava no hotel há um bom tempo e Jim precisava levá-lo para passear. Talvez ele comprasse uma pizza para depois...

Enquanto Adrian e Eddie, sem dúvida, aproveitariam um tipo diferente de comida.


CAPÍTULO 16

 

Enquanto Isaac estava comendo sua segunda omelete – e pensando em como ele iria passar a noite – Grier saiu para aprontar seu quarto. Quando os dois terminaram, ela o levou para o que, com certeza, era o quarto de hóspedes principal: as paredes e cortinas eram azuis-marinho e marrom-chocolate, e havia cadeiras de couro e muitos livros encadernados com couro.

Ele se sentiu um intruso total.

– Vou me trocar e depois limpar a cozinha – ela disse ao se afastar e puxar a porta deixando-a parcialmente fechada. – Se precisar de alguma coisa, sabe onde me encontrar.

Houve uma breve pausa. Como se ela estivesse procurando alguma coisa para dizer.

– Boa-noite, então – ela murmurou.

– Noite.

Depois que ela o fechou ali, ele a ouviu indo para o quarto, sua pisada macia e firme.

Ele não conseguia ouvi-la andando lá em cima, mas a imaginava entrando naquele grande armário e tirando seu vestido preto.

Sim... aquele zíper avançando para baixo, mostrando-lhe as costas. As alças deslizando pelos braços... o material caindo em sua cintura e, em seguida, deslizando por suas pernas.

Seu pênis teve um espasmo.

Em seguida, ficou totalmente rígido.

Droga. Tudo o que ele não precisava.

Entrando no banheiro, ele parou e teve que balançar a cabeça para sua anfitriã. No balcão de mármore, ela tinha deixado toalhas limpas, uma coleção de artigos de higiene, um vidro de antisséptico e uma caixa de curativos. Havia também uma blusa masculina e um conjunto de pijamas de flanela com cordões e botões que enviaram uma ponta de ciúmes diretamente ao peito dele.

Ele realmente esperava que fossem do irmão dela. E não algum tipo de advogado esperto e bem-vestido que dormia com ela.

Amaldiçoando a si mesmo, ele se dirigiu para o chuveiro e ligou a água. Não era da sua conta quem eram seus amantes – como eram, ou quantos, ou quando e onde. E quanto à coisa do pijama de flanela? Eles estavam limpos e iam evitar que exibisse suas partes.

Não importava a quem eles per tenciam.

Ele tirou seu blusão e verificou duas vezes suas armas. Em seguida, puxou a camiseta regata pela cabeça, deslizou suas calças e deu uma olhada em seu reflexo no espelho: muitas manchas pretas e azuis sobre seus ombros e peito, espalhadas entre a rede de cicatrizes antigas que tinham se curado muito bem.

Difícil não pensar no que Grier pensaria dele.

Por outro lado, se ele a pegasse no escuro, não teria com o que se preocupar...

– Pois é – ele precisava muito parar com aquela droga.

Entrando no chuveiro, se perguntou o que exatamente nela o fazia pensar como se tivesse quinze anos. E decidiu que tinha que ser o fato de não fazer sexo há um ano e ter lutado naquela noite – as duas coisas eram do tipo que excitava um cara.

Mesmo.

Elas faziam isso.

Ele não podia ir atrás de sua advogada só por que ela era uma linda mulher de um metro e setenta e cinco, embrulhada em um pacote estilo Tiffany.

Infelizmente, qualquer que seja o motivo, voltar-se para o sabão e a água quente não aliviaram sua sobrecarga de hormônio. Enquanto se lavava, as mãos sobre sua pele estavam escorregadias e quentes... e o sabonete escorreu entre suas pernas, excitando seu membro enrijecido e fazendo cócegas em seus testículos tensos.

Ele estava acostumado com seu corpo cheio de dores, era fácil ignorar essa droga, esses machucados. O que ele estava sentindo por aquela mulher? Era como tentar ignorar que alguém estava gritando em uma igreja...

Sua mão ensaboada vagou por onde não devia, passando entre as coxas, passando pela parte inferior de sua ereção.

– Dane-se – ele disse entre dentes e deixou a palma de sua mão deslizar para trás e para baixo, o atrito intensificou a excitação.

Precisou de toda força que tinha para se desvencilhar daquela mão maldita. E ele acabou lavando o cabelo três vezes na tentativa de manter-se ocupado. Condicionando a maldita coisa também. Claro, a melhor solução era sair da privacidade traiçoeira e do calor sedutor do chuveiro, mas ele não conseguia convencer seu corpo a tomar a direção contrária do banheiro.

Antes que percebesse, sua ereção estava agindo como um imã de novo e a palma de sua mão fez o que tanto queria... e ele desistiu da luta.

Sujo. Pervertido. Bastardo.

Porém, foi tão boa aquela pegada de imaginar que era ela, a espera, aquele deslizar, aquela leve torção na ponta.

Além disso, quais eram suas opções? Tentar ignorar? Sim, claro. Colocar as calças do pijama seria como um circo obsceno – uma tenda armada e algo mais. E tinha que vê-la antes de ir dormir.

Ele tinha um aviso para dar a sua adorável advogada.

O último de seus argumentos ficou vagando em sua cabeça... bom, talvez descarregar aquela tensão umas duas vezes e, em seguida, pegar a estrada. De frente para o chuveiro, ele apoiou a mão na parede de mármore e inclinou-se sobre o ombro. Seu pênis estava pesado e duro como seu maldito antebraço ao começar a trabalhar nele, sua mão movia-se para cima e para baixo. E o sopro de fogo que percorreu sua coluna fez sua cabeça cair e precisou abrir a boca para respirar.

No turbilhão em que se encontrava, ele se recusou a pensar em Grier. Ela poderia ter sido a causa da excitação, mas ele não ia fantasiar sobre ela enquanto se masturbava no chuveiro da casa dela. Simplesmente não ia acontecer. Era grosseiro e desrespeitoso demais... ela merecia muito mais, mesmo se nunca soubesse daquilo.

Esse foi o último pensamento consciente que teve antes do orgasmo tomar conta dele: a cabeça de seu sexo estava tão sensível que cada deslizar sobre a coisa era uma picada doce que atingia sua ereção e envolvia suas bolas. Afastando as pernas uma da outra, ele se posicionou bem e se preparou ao encontrar seu ritmo, o jato de água quente escorria pelo seu cabelo percorrendo seu rosto quando começou a arquejar...

Do nada e contra qualquer comando de memória, a lembrança de Grier tão perto dele e de maneira tão íntima tomou conta de seu cérebro e se transformou numa fera. Não importava o quanto ele tentasse esquecer ou se concentrar em outra coisa, não conseguia se desvencilhar daquele momento tão perto dela.

Deus, seus lábios estiveram a um centímetro do dele. Tudo o que precisava fazer era inclinar a cabeça e teria um beijo...

O alívio veio rápido e poderoso, batendo nele com tanta força que teve que tensionar seus bíceps e morder os lábios para não gritar o nome dela.

Como ele era maldito! Lançou-se para o último espasmo, ordenhando-se até seus joelhos desfalecerem e ele provar o gosto do sangue da mordida.

Na sequência, ele cedeu e sentiu-se como um terreno baldio por dentro, como se não apenas seu impulso sexual tivesse sido drenado de dentro dele, mas todo o resto.

Ele estava tão cansado.

Tão, tão cansado.

Com uma maldição, ele alcançou a mão que tinha feito o trabalho e certificou-se de que não havia rastro de nada no mármore ou no vidro. Então, ele se lavou pela última vez, desligou a água e saiu dos limites do vapor que o colocou em apuros.

Ele ainda estava duro. Apesar da exaustão. E do exercício.

Era evidente que seu pênis não tinha aceitado o suborno.

E, sim, ele estava certo: a flanela não fez nada para evitar o “Ei, podemos ter um pouco mais disso?”. De qualquer forma, aquela coisa fazia com que parecesse duas vezes maior... o que, considerando que a coisa estava se erguendo, não era a direção que ele queria seguir.

Dobrando sua ereção e prendendo-a com a cintura do pijama, ele pegou a blusa e rezou para que a coisa descesse o suficiente para esconder a vergonha daquela cabeça.

Que ainda estava cheia de ótimas ideias...

Certo, não tinha chance de esconder. A blusa seria longa o suficiente, se seu peito não fosse tão grande. Como ficou? Ele estava mais nu do que nunca ao dar uma olhada para seus “bens”.

Isaac abandonou a blusa e a jogou sobre seu blusão, a regata estava nojenta demais depois da luta. A maldita coisa deveria ser queimada e não lavada.

E antes que voltasse a descer as escadas, ele usou os acessórios de primeiros-socorros, mas não por que se importasse: com certeza, se ele não os usasse, ela insistiria em ir até lá e dar uma de enfermeira.

Então, não era um bom plano considerando o que ele tinha acabado de fazer.

O curativo que os enfermeiros tinham colocado na cadeia não teve qualquer chance no ringue e só Deus sabia onde tinha parado. Contudo, independentemente disso, o corte não era nada de especial, apenas uma divisão na pele profunda o suficiente para dar um show de sangue, mas nada com que precisasse ficar histérico. Ele ia ganhar uma cicatriz... e que importância isso tinha?

Ele meteu um band-aid sobre a coisa e não se incomodou em colocar antibióticos ou coisas assim. Havia muito mais chances dele morrer envenenado com uma arma do tipo Smith & Wesson do que com qualquer infecção de pele.

Saiu do quarto de hóspedes. No andar debaixo. Naquele momento, ele chegou ao corredor da frente, as coisas no nível do quadril começaram a ceder um pouco.

Até que virou em direção à cozinha e viu Grier.

Oh, cara.

Se ela estava maravilhosa naquele vestido preto, então era um convite para o sexo com o que, evidentemente, era sua versão de pijamas: cuecas boxers de flanela e uma velha regata verde onde se lia CAMP DARTMOUTH. Com meias brancas e um par de pantufas nos pés, ela parecia mais uma universitária do que uma mulher perto dos trinta... e a ausência de maquiagem e cabelos extravagantes, na verdade, era um adicional. Sua pele era um cetim macio e seus olhos claros estavam mais atentos atrás daqueles óculos de armação grossa, ao invés de perdidos, como sempre.

Ela devia usar lentes de contato.

E o cabelo... era tão longo, muito mais longo do que ele imaginava e um pouco ondulado. Ele podia apostar que cheirava bem e senti-lo devia ser muito melhor...

Ela lançou um olhar da tigela vermelha que estava secando na pia.

– Encontrou tudo o que precisava lá em cima?

Não. Mesmo.

Por educação, ele puxou o blusão para ter certeza de que o Sr. Feliz estava coberto. E, então, ele apenas a observou. Como se fosse algum tipo de idiota.

– Isaac?

– Você já foi casada? – ele perguntou em voz baixa.

Quando os olhos dela se lançaram nos dele, soube como ela se sentia: ele não podia acreditar que tinha soltado essa também.

Antes que ele pudesse voltar atrás, ela empurrou os óculos para cima no nariz e disse: – Ah, não. Não, eu não fui. E você?

Ele balançou a cabeça e deixou por isso mesmo, porque Deus sabia que ele não deveria ter começado aquele assunto.

– Uma namorada? – ela perguntou, pegando uma panela para secar.

– Nunca tive uma. – Quando os olhos dela o encararam com força, ele encolheu os ombros. – Não estou dizendo que nunca... er... estive com...

Mas que inferno! Ele estava corando?

Certo, ele tinha mesmo que se afastar dela e sair da cidade – e não apenas porque Matthias estava atrás dele. Essa mulher ia transformá-lo em alguém que ele não conhecia.

– Você só não encontrou a pessoa certa, não é? – Ela se abaixou e guardou a tigela, em seguida, foi a panela que colocou no armário sob a ilha. – A coisa é sempre essa, não é mesmo?

– Entre outras.

– Eu só fico pensando se vai acontecer comigo – ela murmurou. – Mas não aconteceu. Porém, eu gosto da minha vida.

– Não tem namorado? – ele se ouviu dizendo.

– Não – ela deu de ombros. – E eu não sou o tipo de garota de apenas uma noite.

Isso não o surpreendeu. Ela era muito elegante.

Quando um silêncio suave surgiu entre eles de maneira curiosa, ele não tinha ideia de quanto tempo estava ali, olhando para ela do outro lado da ilha.

– Obrigado – ele disse em dado momento.

– Pelo quê? Eu não o ajudei de verdade.

Até parece que não. Ela tinha dado a ele algo bom para pensar quando estivesse sozinho em uma noite fria: ele se lembraria daquele momento com ela para o resto de seus dias.

Porém, eram poucos os que deveria preservar.

Movendo-se até ficar mais perto dela, ele estendeu a mão e tocou seu rosto.

Quando ela inalou com força e ficou imóvel, ele disse: – Sinto muito... por aquilo mais cedo.

Sim, não tinha certeza do que “mais cedo” significava: se os 25 mil que ele tinha custado a ela, se a fuga de cumprir a lei, a tentativa de intimidá-la para conscientizá-la de alguma maneira... ou o episódio no chuveiro.

Ele ficou surpreso quando ela não se afastou.

– Eu ainda não quero que vá.

Isaac fugiu do assunto.

– Eu gosto do seu cabelo solto – ele disse ao invés de responder, correndo seus dedos através dos fios até o ombro dela. Quando ela corou, ele recuou.

– Vou para a cama. Se precisar de mim, bata primeiro, ok? Bata primeiro e espere eu atender a porta.

Ela piscou rapidamente, como se um nevoeiro estivesse se erguendo do rio que havia dentro dela.

– Por quê?

– Apenas prometa.

– Isaac... – Quando ele balançou a cabeça, ela cruzou os braços sobre o peito. – Certo. Eu prometo.

– Boa-noite.

– Boa-noite.

Ele se virou e a deixou na cozinha, percorrendo o corredor e as escadas rapidamente, pois seu autocontrole tinha sido surrado e apesar das duas omeletes, ele estava faminto.

Contudo, não por comida.

Como um idiota total, ele se esquivou no quarto de hóspedes e esperou atrás da porta fechada apenas para poder ouvir o som dela subindo suavemente as velhas escadas que rangiam. Quando ele ouviu ela se fechar, ele andou ao redor do quarto... e se perguntou que diabos faria nas próximas oito horas.

Seu pênis se contorceu como se quisesse levantar a mão por ouvir uma pergunta da professora, a ereção estava agindo como se dissesse “oh-oh-oh-oh eu sei a resposta dessa”.

– Isso não vai acontecer, garotão – Isaac se conteve.

Esfregando os olhos, ele não conseguia acreditar que tinha concordado em ficar – especialmente pelo fato de quem tinha entrado no ringue com ele. Mas não poderia argumentar com o que tinha visto atrás do armário de Grier – e ainda que Matthias não se importasse com as consequências, tinha certeza que não ia procurá-lo ali. Especialmente pelo pai dela ser um militar: Matthias conhecia a todos e tinha total consciência das complicações que poderiam surgir por matar a filha de alguém importante.

Com mais outro palavrão, Isaac entrou no banheiro e escovou os dentes; em seguida, se estendeu no edredom e apagou a luz. Ao focar o teto, a imaginou naquela cama aconchegante acima dele, com a televisão ligada e alguma coisa no estilo da série Magnum sendo exibida na frente de seus olhos fechados.

Ele queria estar lá em cima com ela.

Ele queria estar... em cima dela.

O que significava que ele tinha que sair nas primeiras horas do dia antes mesmo que ela acordasse. Caso contrário, ele poderia não ser capaz de ir embora sem tentar fazer algo que não tinha direito... muito menos merecia.

Fechando os olhos, passaram-se uns quinze minutos antes que ele tirasse e jogasse para bem longe de sua virilha aquelas calças de pijama.

Quando seguia a linha colchão e travesseiro, costumava dormir nu e agora sabia o porquê. Aquilo de pijama era muito ridículo.

Meia hora depois, ele não aguentava mais e se despiu completamente. A única coisa que manteve perto foram as duas armas enfiadas dentro dos cobertores. Afinal, ele poderia ser pego exibindo tudo que tinha, mas não havia razão nenhuma para ficar vulnerável por isso.

 

 

CONTINUA