Quando chegou embaixo, sentou-se no musgo, sob os abetos. Estendeu no chão a camisa, colocou no centro dela as barras de ouro e fez uma trouxa, amarrando bem as fraldas e as mangas. Depois, cavou um buraco no chão e enterrou a caixa metálica vazia. E vergando ao peso, quase dobrado em dois, caminhou pela estreita trilha, entre os pinheiros, rumo ao jipe. Até aquele dia não conseguira saber como tivera forças para alcançar o veículo. Os nós que dera na trouxa pareciam penetrar nas carnes de seu ombro, sob o peso das barras de ouro. Quando, finalmente, alcançou o jipe, quase teve um colapso, tão exausto estava. Mas não podia descansar, ainda. Precisava sair dali para enterrar o seu tesouro na floresta, perto de um grupo de grandes rochas, onde lhe seria fácil encontrá-lo de novo, na ocasião oportuna em dia, quando o horizonte estivesse limpo, voltaria, por outra rota, evitando o chalé de Oberhauser. Só então, terminado tudo, fora embebedar-se com uma garrafa de schnapps barato. Jantou e meteu-se na cama, para dormir como uma pedra. No dia seguinte, a Força A da DAG seguiu para o vale do Mittersill. Seis meses depois o Major Smythe estava em Londres. A sua guerra havia terminado. Mas os seus problemas, não. Ouro era coisa difícil de contrabandear, principalmente em grande quantidade. E era essencial que o Major Smythe transferisse as suas barras para um novo esconderijo. Por isso, ele procurou evitar a desmobilização e gozar os privilégios de seu comissionamento temporário, sobretudo o seu passe do Serviço Secreto Militar. Conseguiu ser mandado de volta para a Alemanha, como representante da Inglaterra no Centro Misto de Investigação de Munique. Aí, trabalhou durante seis meses e, nesse período, teve a oportunidade de recuperar o ouro, que levou para o seu alojamento numa velha valise. Depois, em dois fins de semana, fez viagens aéreas para Londres, levando, de cada vez, uma barra de ouro, em sua volumosa pasta. A caminhada nos aeroportos de Munique e de Londres, com a pasta sob o braço, como se contivesse apenas papéis, exigira dois tabletes de benzedrina e uma vontade de ferro. Finalmente, pôde esconder sua fortuna no porão da casa de uma tia, em Kensington, e assim, com tranquilidade, pôde desenvolver a parte final de seus planos. Pediu reforma nos Fuzileiros Reais e, uma vez desmobilizado, casou-se com uma das muitas moças com quem tivera aventuras durante o serviço da DAG, uma graciosa Wren chamada Maria Parnell. Comprou passagem para ambos num cargueiro para a Jamaica, que representava, para ambos, um paraíso ensolarado, com boa e farta comida, bebida barata, sem a melancolia e as restrições impostas na Inglaterra, após a guerra, pelo severo governo trabalhista. Antes do embarque, o Major Smythe mostrou a Mary as barras de ouro, das quais já havia raspado a cinzel os símbolos do Reichsbank.
— Tenho sido muito econômico e esperto, meu bem — disse ele. — Não confio na libra. Por isso, vendi todas as minhas ações e comprei um bocado de ouro. Teremos pelo menos 20 mil libras, se eu o vender bem. Isso basta para nos assegurar uma boa vida, até o fim dos nossos dias. Sempre que for preciso, eu venderei um pouquinho — explicou.
Mary Parnell não era familiarizada com as leis monetárias. Mas se ajoelhou e passou as mãos, carinhosamente, sobre as barras de ouro. Depois, com os braços ao redor do pescoço do marido, beijou-o e disse, quase em lágrimas: — Você é um homem maravilhoso... Sim, maravilhoso! Terrivelmente inteligente, bonito, simpático, herói da guerra e, além do mais, rico! Eu sou a garota mais feliz do mundo!
— Você tem razão pelo menos numa coisa: ricos, nós somos. Mas prometa não dizer uma só palavra a quem quer que seja! Pois, se disser, todos os ladrões da Jamaica irão rondar a nossa casa.. .
O Prince’s Club, ao pé das colinas que dominam os arredores de Kensington, era realmente esplêndido. Para os seus sócios, não havia nada melhor: maravilhosa criadagem, comida farta, bebida barata, belíssimos cenários tropicais, como nunca tinham visto antes. O casal era muito popular e os serviços de guerra do Major Smythe lhe davam ingresso na alta sociedade local e na Government House. A vida de ambos era uma série interminável de festas, misturadas com o tênis de Mary e o golfe do major (com os bastões metálicos de Henry Cotton!) durante o dia, e partidas de bridge (para ela) e de pôquer (para ele) durante as noites. Sim, era um paraíso, porque, na Inglaterra, havia racionamento, filas e mercado negro, um governo atroz e o pior inverno dos últimos trinta anos. A princípio, o casal enfrentou as despesas com as economias em dinheiro, que ambos haviam reunido, enquanto se vestiam, se alimentavam e se transportavam à custa do Exército. Só depois de um ano de cautelosas investigações é que o Major Smythe se decidiu a fazer negócio com os irmãos Fu, comerciantes importadores e exportadores. Altamente respeitados e muito ricos, os irmãos Fu eram conhecidos como uma espécie de junta governativa da comunidade chinesa da Jamaica. Ainda que alguns dos seus negócios se desviassem das boas normas, segundo a tradição chinesa, Smythe achou que poderia confiar neles. A Convenção de Bretton Woods, fixando um preço internacional para o ouro, sob rigoroso controle, tinha sido assinada deixando de parte Tânger e Macau, dois portos livres, em que a onça de ouro valia entre 99 e 100 dólares, quando nos outros lugares o preço oficial era de 35. E, para maior conveniência de seus negócios, os Fu tinham aberto um restaurante em Hong-Kong, transformado em entreposto para o contrabando de ouro para a vizinha Macau. Isso, na linguagem do Major Smythe, era sopa no mel. Ele tivera um agradável encontro com os Fu. Nenhuma pergunta estes fizeram, senão depois do exame das barras de ouro.
— Major — disse o mais velho dos irmãos —, no mercado de ouro em barras, as marcas dos bancos nacionais e dos negociantes respeitáveis são aceitos sem discussão. Essas marcas são a garantia da pureza do ouro. Mas outros bancos e outros vendedores têm seus próprios processos de refinação, que talvez, não sejam tão perfeitos...
— Quer dizer que eu fui enganado? — Perguntou, ansiosamente, o major. — Que isso não é senão uma barra de chumbo coberta de uma leve camada de ouro?
Os dois irmãos deram muxoxos tranquilizadores:
— Não, não, major... Não se trata disso. Mas, se uma pessoa não se recorda da proveniência dessas barras de ouro, por mais finas que elas sejam é sempre necessário submetê-las a um ensaio, para verificação do seu exato teor... Há muitos métodos para determinar o grau de pureza dessas barras. Meu irmão e eu somos competentes em qualquer deles. Quer deixar as barras de ouro conosco e vir saber o resultado depois do almoço? Nós lhe daremos um recibo...
Não havia alternativa. Teria que confiar nos Fu. Qualquer que fosse o preço por eles arbitrado, seria forçado a aceitar. Estava nas mãos deles. Foi a um bar, onde tomou dois drinques fortes e comeu um sanduíche que lhe ficou atravessado na garganta. Depois, voltou ao escritório refrigerado dos Fu. O cenário era o mesmo: os dois irmãos sorridentes, as duas barras de ouro, a pasta de couro, etc. Só havia a mais uma folha de papel e uma caneta-tinteiro de pena de ouro, em frente do irmão mais velho.
— Resolvemos o problema do seu ouro, major! — (Esplêndido! Obrigado, pensou Smythe.) — E estou certo de que o senhor terá interesse em conhecer sua origem...
— Claro! Qual é? — Fez o major, com uma corajosa demonstração de entusiasmo.
— São barras de ouro alemãs! Provavelmente saíram dos depósitos do Reichsbank, durante a guerra. Isso pode ser deduzido do fato de que contêm dez porcento de chumbo. Durante o regime de Hitler, o Reichsbank fez a tolice de adulterar por esse modo o seu ouro. Isso logo se espalhou e o preço das barras de ouro alemãs, vendidas na Suíça, sofreu logo uma redução de preço, correspondente à adulteração. Foi uma bobagem, que só teve um resultado: o banco nacional da Alemanha perdeu a reputação que conquistara durante séculos... Bobagem... Uma grandíssima bobagem... — Concluiu o chinês, com o seu invariável sorriso.
O Major Smythe estava maravilhado com a onisciência desses dois homens, tão afastados dos grandes canais de comércio do mundo. Mas ao mesmo tempo os amaldiçoava, intimamente. E agora?
— É muito interessante, Sr. Fu... Mas isso não é uma boa notícia para mim. Essas barras de ouro me foram entregues como coisa cem por cento...
— Não tem importância, major — disse o mais velho dos Fu. — Ou melhor, quase não tem importância. Venderemos o seu ouro pelo justo valor, ou seja, 89 dólares a onça. Terá que ser, ou não, refinado pelo último comprador. Mas isso não é da nossa conta. Nós o venderemos também como cem por cento...
— Mas a um preço mais baixo...
— Realmente, major. Mas creio que temos uma boa notícia para o senhor. Quanto calculava obter com essas duas barras?
— Cerca de 20 mil libras...
— Se as vendermos bem e aos pouquinhos — disse o mais velho dos Fu —, o senhor receberá mais de 100 mil dólares, major, sujeitos, é claro, ao desconto da nossa comissão, que inclui o transporte e outras despesas.
— E a quanto montará isso?
— Estou pensando em fixar em 10 por cento, major. Se lhe parecer satisfatório...
O Major Smythe tinha a impressão de que vendedores de ouro em barras recebiam apenas um por cento de comissão. Mas, que diabo, antes do almoço já estava disposto a largar tudo até por 10 mil libras. Disse “fechado” e levantou-se, estendendo a mão através da mesa. Desde então, de quatro em quatro meses, ia visitar o escritório dos Fu, levando uma valise vazia. Havia sempre quinhentas libras novas, da emissão da Jamaica, em pacotes, sobre a mesa, à sua espera, e um recibo da quantidade vendida, com o preço alcançado em Macau. As barras de ouro diminuíam de tamanho, de polegada em polegada. O negócio era simples e cordial. Duas mil libras limpas, por ano, eram o bastante para ele, e só o afligia a possibilidade de que o pessoal do imposto de renda começasse a apertá-lo, para saber do que estava vivendo. Ele disse isso aos Fu, que lhe fizeram saber que não precisava se preocupar. Nas duas vezes seguintes, havia apenas quatrocentas libras na mesa, mas nenhum comentário foi feito, por qualquer dos lados. E assim os dias iam se passando, preguiçosamente. Os Smythes engordavam e o major teve a primeira das duas complicações das coronárias. O médico lhe recomendou uma vida menos ativa, com menos álcool e menos cigarros. Evitasse, também, as gorduras e as comidas fritas. A princípio, Mary tentou ser severa com ele, mas quando o marido começou a beber escondido e a inventar pequenas mentiras e evasivas, ela recuou desse propósito. Teve medo de se transformar numa chata doméstica, a quem o Major Smythe passaria a evitar. Por isso, deu-lhe inteira liberdade, sabendo que ele não mais a amava, e quando a sua solidão se tornou demasiada e as insônias intoleráveis, viciou-se em tomar soníferos. Uma noite, depois de uma violenta briga, estando ambos embriagados, tomou ela uma dose excessiva, só “para dar-lhe uma lição”. A dose era tão exagerada que a matou. O suicídio foi dissimulado, mas ainda assim recaíram suspeitas sobre o major, em prejuízo de sua reputação social. E a tal ponto que ele teve de se retirar para North Shore que, embora a apenas três milhas de Kensington, parece pertencer a um outro mundo. Aí ele se instalou em Wavelets e, depois da segunda complicação das coronárias, começou a beber desenfreadamente. Foi então que entrou em cena James Bond com um mandado de prisão ou de morte no bolso.
O Major Smythe olhou para o relógio. Passavam alguns minutos do meio-dia. Ele se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale e foi para o jardim. James Bond estava sentado sob a frondosa amendoeira, olhando para o lar. Nem se voltou para o Major Smythe quando este puxou outra cadeira de alumínio e colocou o copo na relva, perto dele. Quando o Major Smythe acabou de narrar a sua história, James Bond disse, sem demonstrar qualquer emoção: — Era mais ou menos isso o que eu havia pensado...
— Quer que eu escreva tudo ou apenas assine?
— Faça como quiser. Mas isso não se entende comigo. Deve entregar à Corte Marcial. Seu velho Corpo de Fuzileiros Reais é que vai tomar conta do caso. Não tenho nada que ver com os aspectos legais. Farei apenas um relatório do que me disse, para a Procuradoria da Justiça, através da Scotland Yard...
— Posso perguntar uma coisa? Como foi que descobriu?
— A geleira era pequena. O corpo de Oberhauser chegou embaixo no início deste ano, quando as neves da primavera derreteram. Alguns alpinistas o encontraram. Todos os seus papéis e tudo o mais estava perfeito. A família o identificou. Depois, foi só uma questão de recuar no tempo. O calibre das balas deu logo a pista...
— Mas como se envolveu neste assunto?
— A Força da DAG era uma das minhas responsabilidades, um dos meus serviços. Quando o assunto chegou ao meu conhecimento, fui dar uma busca nos arquivos. Como tinha tempo livre, pedi que me entregassem a missão de descobrir o autor da morte de Oberhauser...
— Por quê?
— Porque — e James Bond fixou os olhos do Major Smythe — acontece que Oberhauser era um velho amigo meu. Foi quem me ensinou a esquiar quando eu tinha pouco mais de dez anos. Era um esplêndido sujeito. Foi uma espécie de pai para mim, precisamente na época em que eu mais precisava de um...
— Compreendo. — E o Major Smythe desviou o olhar. — Sinto muito...
James Bond se levantou:
— Bem, preciso voltar a Kensington. — E levantou a mão, para deter o major. — Não, não precisa incomodar-se. Sei onde o carro ficou... — Olhou para o homem mais velho e disse, rispidamente, quase com brutalidade: — Dentro de uma semana, alguém virá buscá-lo...
E caminhou, em passos firmes, sem se voltar, pela alameda afora. O major ouviu o ruído do arranque do motor e o chiado dos pneus do táxi nas pedrinhas miúdas da estrada.
Agora, ele procurava a sua presa, ao longo do recife de coral, pensando exatamente no sentido das palavras de James Bond. E sorriu por trás da máscara Pirelli. Era uma versão nova de um velho dramalhão, que consistia em deixar uma pistola com o oficial culpado, para que este mesmo estourasse os miolos. Se James Bond quisesse, poderia ter telefonado para a Government House e pedido um oficial de igual patente do Regimento da Jamaica para levar preso o Major Smythe. De certo modo, o seu gesto fora decente. Ou não fora? Um suicídio era mais limpo, economizava uma porção de trabalho e de papéis, que consumiriam o dinheiro dos contribuintes. Devia agradecer a James Bond a solução que ele parecia sugerir? Acaso encontraria Mary no lugar para onde vão as almas dos suicidas? Ou era melhor a Corte Marcial, a indignidade, as formalidades cacetes, as manchetes, o aborrecimento e a solidão de uma prisão perpétua, da qual só o livraria a terceira crise das coronárias? Poderia defender-se: era tempo de guerra, lutara com Oberhauser no alto da montanha, ele era um prisioneiro e tentara fugir... Oberhauser sabia do esconderijo do dinheiro... E ele, pobre oficial dos Comandos, tantas vezes arriscando a vida pela pátria, fora fraco e não resistira à tentação... Poderia entregar-se dramaticamente à misericórdia do Tribunal Militar... Um coronel certamente seria designado para defendê-lo e o faria com a maior eloquência. Poderia haver um apelo à Corte Suprema. Seu caso comoveria a Inglaterra e se tornaria uma cause célebre. Venderia sua história, com as reminiscências de guerra, aos grandes jornais... Mas...
Cuidado, meu velho! Cuidado! Seus pés agora tocavam o chão, sob as ondas que encrespavam a superfície da praia de North Shore. Por onde estariam os peixes-escorpiões? O polvinho querido estava faminto, esperando o seu almoço. Apurando a vista, perto do recife de coral, o Major Smythe viu as antenas de um lagostim, acenando inquisitivamente para ele. Normalmente, ele se esqueceria de tudo, para capturar o lagostim, que era, talvez, o maior que até então encontrara. Mas agora só tinha uma preocupação: a de descobrir a silhueta irregular e provocante do peixe-escorpião. Só depois de mais dez minutos de busca encontraria o primeiro. Os olhos vermelhos e zangados do peixe, muito abertos, o observavam. Para fisgá-lo, com o arpão, teria que fazer uma investida rápida, na vertical, firme e certeira. Sabia que as agulhas envenenadas se projetariam para fora da cabeça pontiaguda do monstro. Tinha que se mover lentamente, na direção do peixe, usando o braço livre para nadar. E... Agora! Avançou, para a frente e para baixo, mas o peixe-escorpião sentira a aproximação do arpão antes que este o tocasse. Uma lufada de areia se levantou do fundo do mar, atingido pelo golpe. E qualquer coisa roça em seu corpo, dando a impressão do voo de um pássaro. O major praguejou e fez meia volta, dentro da água. Sim, o peixe-escorpião fizera o que tantas vezes fazia: fora buscar refúgio entre as algas e as rochas, confiante em sua soberba camuflagem. O major voltou à carga, em novo mergulho, dessa vez ainda mais atento, e zás! O peixe-escorpião se agitava, agora, na ponta do arpão. A excitação foi tão grande que o Major Smythe vacilou e sentiu a antiga dor oprimir-lhe o peito. Pôs-se de pé, firmou o arpão contra a areia, atravessando inteiramente a presa, que ainda se agitava desesperadamente, e dirigiu-se à praia, indo sentar-se num banco de madeira, ao lado do qual atirou o peixe, fisgado, a se debater. Uns cinco minutos depois, o Major Smythe sentiu uma curiosa dormência na região do plexo solar. Olhou para baixo e estremeceu, de horror e incredulidade. Uma região de sua pele, com o tamanho aproximado de uma bola de críquete, tornara-se impressionantemente branca, a despeito do bronzeado de seu busto. No centro dessa área, havia três pequenas manchas sanguíneas. Automaticamente, o Major Smythe limpou o sangue. Os furos eram do tamanho de picadas de agulhas. Ele se lembrou, então, da fuga do peixe-escorpião, quando tentara arpoá-lo da primeira vez, e exclamou alto, com pavor, mas sem animosidade: — Tu me apanhaste, bastardo! Tu me apanhaste!
Imóvel, olhava para o próprio corpo, recordando-se do que lera sobre os ferrões do peixe-escorpião no livro que tomara emprestado à biblioteca do Instituto e nunca devolvera — Perigosos Animais Marinhos, publicação norte-americana. Tocou delicadamente a pele da área atingida. Sim, a pele se tinha tornado intumescida e de todo insensível, mas por baixo começava a sentir dor. Em breve essa dor profunda e intensa percorreria o seu corpo inteiro, tão lancinante que o seu único desejo seria o de deitar-se na areia, gritando e rolando, para abafá-la. Vomitaria e deitaria espuma pela boca, teria delírio e convulsões, até perder a consciência. Então, sobreviria, inevitável, o colapso cardíaco mortal. De acordo com o livro, o ciclo completo desses tormentos não passaria de um quarto de hora. Era tudo quanto lhe restava: quinze minutos de atroz agonia! Haveria cura, é claro — com procaínas, antibióticos e anti-histamínicos —, se seu coração debilitado suportasse tais medicamentos. Mas estes deviam estar à mão. Mesmo que conseguisse chegar em casa e admitindo que Jimmy Greaves dispusesse de todos esses remédios modernos, ele não poderia alcançar Wavelets antes de uma hora.
A primeira descarga de dor fez o corpo do Major Smythe dobrar-se sobre si mesmo. Depois outra e mais outra, irradiando-se através do estômago e dos membros. Sentia um gosto metálico na boca e uma coceira insuportável nos lábios. Deixou escapar um gemido e saltou do banco para a praia. Sobre a areia, ainda arquejava o peixe-escorpião. Houve uma trégua nos espasmos da dor. Seu corpo inteiro estava em fogo. Apesar da agonia o raciocínio permanecia claro. Mas, ora essa! Ia esquecendo a experiência! Devia ir à loca do polvo, para servir seu almoço! “Polvo, polvinho, vai ser a última refeição que eu te dou!”, dizia a si mesmo o Major Smythe, ajustando a máscara no rosto. Depois, apanhou o arpão, com o peixe espetado e, apertando o estômago com a mão livre, caminhou pela água adentro e, depois, mergulhou junto ao recife de coral. Poucas jardas o separavam agora do polvo. E foi gritando dentro da máscara, arrastando-se, quase de joelhos, que ele as percorreu. À medida que a água se tornava mais profunda, a dor se fazia mais intensa e seus movimentos pareciam com os de um fantoche, impulsionado por um feixe de cordéis. Só a poder de uma grande força de vontade pôde continuar rumo à morada do polvo. Sim, a sua massa escura ainda estava lá! E parecia excitadíssima. Por quê? O Major Smythe viu que as feridas de seu peito vertiam filetes de sangue escuro, que se diluía na água do mar. Era claro! O querido polvo sentira o gosto do seu sangue. Uma descarga de dor atingiu o major e o fez vergar-se. Disse a si mesmo, em delírio: “Que é isso, Dexter?! Firme, meu velho. Você tem que dar almoço ao polvinho”. Endireitou-se, empunhando o arpão com firmeza e aproximando o peixe da toca do polvo. Aceitaria ele a isca envenenada que o Major Smythe lhe oferecia e à qual talvez um octópode poderia ser imune? Ah, se Bengry estivesse presente, para observar! Três tentáculos, ondulando excitadamente, saíram da loca e passearam ao redor do peixe-escorpião. Agora, havia uma espécie de nevoeiro diante dos olhos do Major Smythe. Reconhecendo estar à beira da inconsciência, ele agitou fracamente a cabeça, para dissipá-lo. E, então, os tentáculos deram um salto! Mas não para o peixe: apertaram a mão e o braço que empunhavam o arpão. A boca do Major Smythe se torceu, numa careta de prazer. Agora, ele e o polvo podiam se apertar as mãos! Como era excitante! Que coisa maravilhosa! Mas o polvo, calma e implacavelmente, continuou a enroscar os seus tentáculos e a chamar a si o corpo do major. Só então Smythe compreendeu que algo de terrível ia acontecer. Fez um apelo a todas as suas forças e tentou golpear o octópode com o arpão. Mas tudo quanto conseguiu foi bater com o peixe-escorpião na massa escura do polvo. E, com o movimento que fez, ofereceu-se ainda mais a este, que o atraía de forma inexorável. Tarde demais o Major Smythe retirou sua máscara. Conseguindo alcançar a superfície, soltou um grito que reboou pela baía deserta, mas logo foi puxado para baixo. E, depois de algumas bolhas de ar, vieram à tona as pernas do major. As ondas lavavam o seu corpo, enquanto o polvo fazia a primeira tentativa para devorá-lo. O resto de Smythe foram encontrados por dois jovens da Jamaica, que pescavam peixes-agulhas numa canoa. Eles mataram o polvo, recolheram o arpão do Major Smythe com o peixe-escorpião e levaram os três despojos para a praia. O cadáver do major foi entregue à polícia e o peixe-escorpião aproveitado para a ceia. O destino do polvo de estimação seria também a panela ... O correspondente do Daily Gleaner em North Shore comunicou que o Major Smythe tinha sido morto por um polvo. Mas a redação do jornal, para não alarmar os turistas, preferiu dizer que ele “fora encontrado afogado”. Mais tarde, em Londres, James Bond, embora certo de que se tratara de um suicídio, anotou no dossier Oberhauser a versão do afogamento, com a respectiva data, na última página, o que encerrava o assunto. Somente pelas notas do Dr. Greaves sobre a autópsia, por ele mesmo realizada, é que foi possível escrever esta espécie de post-scriptum sobre o estranho e patético fim do outrora corajoso e útil oficial do Serviço Secreto.
Encontro em Berlim
(THE LIVING DAYLIGHTS)
James Bond estendia-se em posição na marca das quinhentas jardas da famosa linha de tiro Century Range, em Bisley. A pequena estaca branca na grama a seu lado dizia 44 e o mesmo número se repetia bem alto no talude distante acima do solitário alvo de seis pés quadrados que, ao olho humano e no crepúsculo do fim de verão, não parecia maior que um selo de correio. Mas a luneta de Bond, uma Sniperscope infravermelha fixada sobre o seu rifle, cobria todo o quadro. Ele podia até distinguir com clareza as cores azul-pálido e bege em que se dividia o alvo, e a mosca semicircular de seis polegadas parecia tão grande como a meia lua que já começava a se mostrar baixa no céu que escurecia acima da crista remota de Chobham Ridges.
O último tiro de James Bond fora um esquerdo interno — não o satisfizera. Deu uma outra olhada às bandeiras de vento amarelas e azuis. Tremulavam do leste através da linha de tiro mais intensamente do que quando tinha começado o seu tiro meia hora antes, e ele mudou o anemômetro dois pontos para a direita e assestou os dois fios cruzados da Sniperscope de volta ao foco de mira. Instalou-se então, colocou o indicador de leve dentro da guarda e sobre a curva do gatilho, prendeu a respiração e muito, muito suavemente apertou.
O estampido vicioso ecoou ao longo do campo vazio. O alvo desapareceu abaixo do solo e imediatamente o “boneco” tomou o seu lugar. Sim, a marca negra estava embaixo no canto direito desta vez, não no canto esquerdo: mosca.
— Bom — disse a voz do oficial chefe da linha, atrás e acima dele. — Fique com a mira.
O alvo já subira de novo e Bond recolocou a bochecha sobre o trecho quente da volumosa coronha de madeira e o olho na borracha que cerca a ocular da luneta. Enxugou a mão de atirar contra o lado das calças e pegou na coronha da pistola que sobressaía angulosamente da guarda do gatilho. Abriu de uma polegada o ângulo das pernas. Agora haveria cinco descargas rápidas. Era interessante ver se isso não provocaria “desgaste”. Ele achava que não. Esta arma extraordinária que o armeiro tinha descoberto sabe lá como dava à gente a sensação de que um homem de pé à distância de uma milha seria prato fácil. Era mais um rifle Experimental de Alvo Internacional, calibre 308, construído pela Winchester para ajudar os ases americanos do tiro em campeonatos mundiais, e tinha os dispositivos usuais das armas de alvo superacuradas — uma “mão” espiralada de alumínio nas costas da coronha que se estendia debaixo da axila e mantinha a arma com firmeza junto ao ombro, e uma pequena roda dentada ajustável abaixo do centro de gravidade do rifle para permitir que ele “se agarrasse” ao sulco do seu descanso de madeira. O armeiro tinha mandado trocar o ferrolho de tiro único usual por um depósito de cinco tiros, e tinha garantido a Bond que se ele deixasse apenas dois segundos entre cada tiro para estabilizar a arma não haveria desgaste, mesmo a quinhentas jardas. Para o serviço que devia fazer, Bond achava que dois segundos poderiam representar uma perda perigosa de tempo se errasse o seu primeiro tiro. De qualquer forma, M dissera que a distância não seria maior que trezentas jardas. Bond encurtaria o tempo para um segundo — fogo quase contínuo.
— Pronto?
— Sim.
— Vou à contagem regressiva de cinco. Agora! Cinco, quatro, três, dois, um. Fogo!
O chão tremeu ligeiramente e o ar silvou enquanto as cinco cápsulas velozes de cuproníquel varejavam o crepúsculo. O alvo baixou e rapidamente voltou a erguer-se condecorado com quatro pequenos discos brancos agrupados bem juntos na mosca. Não houve nenhum quinto disco — nem mesmo um negro para indicar um interno ou externo.
— A última descarga foi baixa — disse o chefe da linha baixando seus binóculos noturnos. — Obrigado pela contribuição. Limpamos a areia atrás daqueles alvos todo fim de ano.
Nunca recolhemos menos de quinze toneladas de estilhaços em legítimo chumbo e cobre. Um bom dinheiro.
Bond tinha-se levantado. O cabo Menzies da seção dos armeiros surgiu do pavilhão do Clube de Tiro e ajoelhou-se para desmontar a Winchester e o seu descanso. Olhou para cima encarando Bond. Disse com uma ponta de crítica. — O senhor tocou a coisa um pouco rápido. A última descarga tinha de escoicear.
— Eu sei, cabo. Só queria ver com que rapidez eu podia tocar. Não quero pôr a culpa na arma. É um trabalho enxuto, infernal. Por favor, diga isso por mim ao armeiro. Agora é melhor ir andando. Você tem condução de volta a Londres, não?
— Tenho, sim senhor. Boa noite.
O oficial chefe da Linha entregou a Bond uma ficha de seu tiro — dois tiros de ensaio e depois dez descargas para cada cem jardas até as quinhentas. — Pontaria danada de boa com esta visibilidade. Você devia voltar aqui o ano que vem e tentar o Prêmio da Rainha. Hoje em dia está aberto para todos — isto é, da Comunidade Britânica.
— Obrigado. O problema é que não passo tanto tempo assim na Inglaterra. E muito obrigado por ter feito a marcação para mim.
Bond olhou para a distante Torre do Relógio. De cada lado, a bandeira vermelha de perigo e o tambor vermelho de sinalização estavam sendo arriados para mostrar que o tiroteio tinha cessado. Os braços marcavam nove e quinze. — Gostaria de oferecer-lhe um drinque, mas tenho um encontro em Londres. Podemos adiá-lo até o Prêmio da Rainha de que você estava falando?
O chefe da Linha fez que sim com a cabeça, neutramente. Ele tinha aguardado ansioso a oportunidade de conhecer mais coisas sobre este homem que surgira assim sem mais nem menos depois de uma série de avisos do Ministério da Defesa e fora em frente acertando bem mais de noventa porcento em todas as distâncias, isso depois de fechada a linha para a noite e com visibilidade entre sofrível e má. E por que tinha ele, que só oficiava no encontro anual de julho, sido escalado para estar presente? E por que lhe tinham dito para providenciar uma mosca de seis polegadas a 500 jardas para Bond, em vez da regulamentar de quinze polegadas? E por que todos esses cuidados com a bandeira de perigo e o tambor de sinalização que só se usavam em ocasiões cerimoniais? Para pressionar o homem? Para dar um clima de urgência ao tiro? Bond. Comandante James Bond. A A.N.R. certamente teria a ficha de uma pessoa que atirava tão bem assim. Não se esqueceria de dar-lhes um telefonema. Que hora estranha para um compromisso em Londres. Provavelmente uma garota. O rosto do chefe da Linha assumiu uma expressão de desagrado. O tipo do sujeito que apanhava todas as garotas que queria.
Os dois homens caminharam através da bela fachada da sede do clube além da linha de tiro até o carro de Bond que estava estacionado diante de uma reprodução em ferro do famoso “Veado em Fuga” de Landseer toda picotada de balaços. — Uma beleza de carro — comentou o chefe da Linha. Nunca vi uma carroçaria assim num Continental. Mandou fazê-la especialmente?
— Mandei. Os Sports Saloons na verdade só têm dois lugares. E muito pouco espaço para bagagem. Por isso pedi a Mulliner’s que o transformassem num verdadeiro dois-lugares e com porta-malas de sobra. Um carro egoísta, não há dúvida. Bem, boa noite. E novamente muito obrigado.
O escape roncou com saúde e as rodas traseiras cuspiram cascalho por um instante.
O oficial chefe da Linha observou os faróis rubis desaparecerem na King’s Avenue a caminho da estrada de Londres. Girou nos calcanhares e foi procurar o cabo Menzies numa busca de informação que terminaria sem frutos. O cabo permaneceu tão fechado como a grande caixa de mogno que estava colocando num Land-Rover caqui, limpo de símbolos militares. O chefe da Linha era um major. Tentou apelar para a hierarquia, mas sem êxito. O Land-Rover afastou-se rodando no rastro de Bond. O major dirigiu-se soturno aos escritórios da Associação Nacional do Rifle para tentar achar a informação que queria na biblioteca sob o nome “Bond, J.”
O compromisso de James Bond não era com uma garota. Era com um voo da B.E.A. para Hanover e Berlim. Enquanto engolia as milhas que o separavam do Aeroporto de Londres, pisando firme o grande carro a fim de ter tempo de sobra para um drinque, três drinques, antes da decolagem, apenas uma parte de sua mente fixava-se na estrada. O restante reexaminava pela enésima vez a sequência que agora o conduzia a um encontro com um aeroplano. Mas apenas um encontro provisório. Seu compromisso final numa das três próximas noites em Berlim era com um homem. Tinha que se encontrar com esse homem e infalivelmente matá-lo com um tiro.
Quando, por volta de duas e meia daquela tarde, James Bond atravessara as portas duplamente acolchoadas e sentara-se em frente do perfil voltado, do outro lado da grande escrivaninha, sentira imediatamente o perigo no ar. Não houve troca de cumprimentos. A cabeça de M afundava-se no colarinho duro numa pose churchilliana de sombria reflexão, e havia um traço de amargura nos cantos dos lábios. Girou a cadeira para encarar Bond, passou-lhe um olhar examinador como se, pensou Bond, quisesse verificar se sua gravata estava direita e o cabelo adequadamente penteado, e então começou a falar, rapidamente, atalhando suas sentenças como se desejasse ver-se livre do que estava dizendo, e de Bond, o mais depressa possível.
— O número 272. É um bom homem. Você talvez não o conheça. Pela simples razão de que ficou naquele buraco da Novaya Zemlya desde a guerra. Agora está tentando sair — carregado de material. Atômico e foguetes. E o plano deles para toda uma nova série de testes. Para 1961. Querem avivar o fogo no Ocidente. Algo a ver com Berlim. Não vejo bem o quadro mas o Foreign Office diz que se for verdade é uma coisa tremenda. Ridiculariza a Conferência de Genebra e toda essa demagogia sobre desarmamento nuclear que o bloco comunista vem fazendo. Ele conseguiu chegar até a Berlim Oriental. Mas tem praticamente toda a KGB no seu encalço — e as forças de segurança da Alemanha Oriental, é claro. Está entocado num buraco qualquer da cidade e conseguiu passar-nos uma mensagem — de que atravessaria entre seis e sete da tarde numa das três próximas noites — amanhã, depois de amanhã ou no dia seguinte. Indicou o ponto de travessia. O problema — a curva dos lábios de M, voltada para baixo, tomou-se ainda mais amarga — é que o mensageiro que ele usou fazia jogo duplo. A estação W.B. pilhou-o ontem. Por acaso. Deu sorte com um dos códigos da KGB O mensageiro será mandado de avião para julgamento, naturalmente. Mas isso não ajudará em nada. A KGB sabe que o 272 vai tentar a travessia. Sabem quando. Sabem onde. Sabem tanto quanto sabemos e nada mais. Ora, o código que deciframos ontem era um esquema de um só dia em suas máquinas. Mas conseguimos todo o tráfico daquele dia e isso foi bastante bom. Planejam alvejá-lo ao tentar a travessia. No cruzamento de ruas entre a Berlim Leste e a Oeste que nos indicou na mensagem. Estão montando uma operação daquelas — operação “Êxtase” como a chamam. Puseram o seu melhor tocaia no serviço. Tudo o que soubemos dele ó que seu nome cifrado é a palavra russa para “Gatilho”. A estação W.B. acha que é o mesmo homem já usado em outros serviços de tocaia. Um serviço de longo alcance através da fronteira. Ficará de guarda toda noite nesse cruzamento e sua missão é acertar no 272. É óbvio que eles certamente prefeririam fazer um serviço mais suave com metralhadoras e coisas do gênero. Mas Berlim está calma no momento e parece que a ordem é ficar assim. De qualquer forma — M sacudiu os ombros — eles têm confiança nesse operador “Gatilho” e o negócio vai ser assim!
— E onde é que eu entro? — James Bond tinha adivinhado a resposta, adivinhado porque M mostrava seu desagrado com a coisa toda. Ia ser trabalho sujo e Bond, porque pertencia à Seção Zero-Zero, tinha sido escolhido para fazê-lo. Perversamente, Bond queria forçar M a pôr o preto no branco. Iam ser notícias más, notícias sujas e ele não queria ouvi-las de um dos oficiais da Seção, nem mesmo do chefe do Estado-Maior. O negócio ia ser assassínio. Está bem. Que M tenha então a coragem de me dizer.
— Onde é que você entra, 007? — M olhou friamente do outro lado da escrivaninha. — Você sabe onde é que você entra. Você tem que matar esse tocaia. E tem que matá-lo antes que acerte no 272. É tudo. Está claro? — Os olhos azuis-claros permaneceram frios como gelo. Mas Bond sabia que só ficavam assim com um esforço da vontade. M não gostava de mandar qualquer homem para um homicídio. Mas, quando isso tinha de ser feito, ele sempre assumia a sua severa e fria ação de comando. Bond sabia a razão. Era para tirar um pouco da pressão, um pouco da culpa, dos ombros do matador.
Portanto Bond, que sabia dessas coisas, decidiu agora tornar fácil e rápida a tarefa de M. Levantou-se. — Está certo, sir. Suponho que o chefe do Estado-Maior tenha tudo pronto. É melhor eu ir praticar um pouco. Não seria bom errar.
Caminhou para a porta.
M disse calmamente: — Sinto ter que lhe dar essa tarefa. Serviço desagradável. Mas tem que ser bem executado.
— Farei o melhor — James Bond saiu fechando a porta atrás de si. Não gostava do serviço mas no final preferia fazê-lo a assumir a responsabilidade de mandar alguém em seu lugar.
O chefe do Estado-Maior tinha sido apenas um pouco mais simpático. — Lamento esta sua aquisição, James — dissera ele. — Mas Tanqueray foi inflexível, não tinha ninguém suficientemente bom na estação e esse não é o tipo de serviço que se pode pedir a um soldado regular para fazer. Há uma porção de excelentes tiros na B.A.O.R., mas um alvo vivo requer outro tipo de coragem. De qualquer forma, liguei para Bisley e marquei um exercício para você esta noite às oito e quinze quando a linha estiver fechada. A visibilidade será mais ou menos a mesma que você terá em Berlim cerca de uma hora antes. O armeiro está com a arma — verdadeira obra de arte para alvejar, e vai mandá-la por um de seus homens. Você irá com a sua própria condução. Depois, há um voo de carreira para Berlim à meia-noite reservado em seu nome na B.E.A. Tome um táxi até esse endereço. — Entregou a Bond um pedaço de papel. — Suba ao quarto andar e encontrará o número 2 de Tanqueray à sua espera. Depois disso, sinto que você terá que esperar sentado pelos próximos três dias.
— E a arma? Esperam que atravesse a alfândega alemã com ela dentro de um saco de golfe ou coisa assim?
O chefe do Estado-Maior não tinha achado graça. — Seguirá pela mala diplomática. Você a receberá amanhã ao meio-dia. — Tinha estendido a mão até o bloco de avisos. — Bem, é melhor ir andando. Vou avisar a Tanqueray que está tudo combinado.
James Bond baixou o olhar para o rosto azul difuso do relógio no painel do carro. Dez e quinze. Com um pouco de sorte, amanhã a esta hora estaria tudo terminado. Afinal, era a vida deste homem “Gatilho” contra a vida do 272. Não era exatamente homicídio. Estava perto disso, no entanto. Apertou maldosamente sua buzina-de-serra tripla ao passar por um quatro portas comum, ingressou no cruzamento circular com uma derrapagem seca desnecessária, girou violentamente o volante fazendo a correção e apontou o nariz do Bentley em direção do brilho distante que era o Aeroporto de Londres.
O edifício feio de seis andares na esquina da Kochstrasse e da Wilhelmstrasse era o único de pé na desolação de um espaço vazio bombardeado. Bond pagou o táxi e gravou uma breve impressão de capim, alto como a cintura, e de paredes de entulho mal reparadas, estendendo-se na direção de um grande cruzamento deserto iluminado por um feixe central de lâmpadas amareladas em arco, antes de apertar o botão para o quarto andar e imediatamente ouviu o clique do dispositivo que abria a porta do prédio. A porta fechou-se atrás dele e caminhou então sobre o chão de cimento sem tapete até o antiquado elevador. O cheiro de repolho, cigarro barato e suor rançoso lembravam outros prédios de apartamentos na Alemanha e Europa Central. Até o arrastar e o guincho fraco do elevador vagaroso eram parte de centenas de missões em que tinha sido lançado por M, como um projétil, a algum alvo distante onde um problema aguardava a sua chegada, à espera de ser resolvido por ele. Pelo menos desta vez o comitê de recepção estava do seu lado. Desta vez não havia nada a temer no fim da escada.
O número 2 da Estação W.B. de Serviço Secreto era um homem esguio e tenso de quarenta e poucos anos. Vestia o uniforme de sua profissão — terno bem cortado e bem usado de tweed leve ponto pé-de-pato num tom verde-escuro, camisa de seda macia branca e uma velha gravata de colégio — neste caso de Wykeham. Ao ver a gravata, enquanto trocavam as saudações convencionais no pequeno saguão mofado do apartamento, o ânimo de Bond, já baixo, desceu mais um degrau. Conhecia esse tipo: espinha dorsal do Serviço Público; superestudioso e mal-amado em Winchester; um bom segundo em P.P.E. em Oxford; a guerra, cargos funcionais que teria ocupado meticulosamente; talvez uma Ordem do Império Britânico; Comissão do Controle Aliado na Alemanha, onde fora recrutado no Ramo I e a partir de então — porque era o funcionário ideal e A. 1 junto à Segurança e porque pensava em encontrar vida, drama, romance, todas as coisas que nunca linha tido — lá fora ele para o Serviço Secreto. Um homem sóbrio, cuidadoso se fizera necessário para bancar a dama de companhia de Bond neste negócio feio. O Capitão Paul Sender, que já servira na Guarda Galesa, tinha sido a escolha óbvia. E tinha aceitado. Agora, como bom Wykehamista, escondia o seu desagrado pelo serviço debaixo de uma conversa cuidadosa e banal enquanto mostrava a Bond a planta do apartamento e as providências tomadas para a prontidão do carrasco e, numa medida modesta, para o seu conforto.
O apartamento consistia de um amplo dormitório conjugado, um banheiro e uma cozinha equipada de enlatados, leite, manteiga, ovos, chá, bacon, pão e uma garrafa de Dimple Haig. O único detalhe estranho no quarto de dormir era que uma das camas duplas estava encostada em ângulo contra as cortinas que cobriam o amplo janelão único e sobre ela se empilhavam três colchões cobertos pela roupa de cama.
O Capitão Sender disse: — Gostaria de dar uma olhada ao campo de fogo? Poderei então explicar o que é que o lado de lá tem em mente.
Bond estava cansado. Não desejava especialmente ir dormir com a imagem do campo de batalha na memória. Disse: — Seria ótimo.
O Capitão Sender apagou as luzes. Faixas luminosas das lâmpadas no cruzamento apareceram em volta das cortinas. — Não quero puxar as cortinas — disse o Capitão Sender. — É pouco provável, mas eles podem ter sido alertados contra um grupo de cobertura para o 272. Queria que você apenas se deitasse na cama e enfiasse a cabeça por baixo das cortinas. Explicarei o que você estiver vendo. Olhe para a esquerda.
Era uma janela de guilhotina e a metade inferior estava aberta. Os colchões, especialmente escolhidos, só cediam um pouco e James Bond encontrou-se mais ou menos na posição de tiro que tinha adotado em Century Range, mas agora olhava através de terreno descontínuo, coberto de densa vegetação e bombardeado, na direção do rio de luz que era a Zimmerstrasse — a fronteira com a Berlim Oriental. Parecia a umas cento e cinquenta jardas de distância. A voz do Capitão Sender acima dele e por trás da cortina começou a recitar. Lembrava a Bond uma sessão espírita.
— Ali é terreno bombardeado à sua frente. Bastante cobertura. Umas cento e trinta jardas até a fronteira. Depois a fronteira — a rua — e então um trecho grande ainda de terreno bombardeado no campo do inimigo. É por isso que o 272 escolheu essa passagem. É um dos poucos locais na cidade em que o terreno é descontínuo — capinzais cerrados, muros em ruínas, porões — nos dois lados da fronteira. Ele deverá es-gueirar-se entre aquela confusão do outro lado e arremessar-se através da Zimmerstrasse até alcançar a confusão do nosso lado. O problema é que terá de correr trinta jardas de fronteira fortemente iluminada. Será o espaço da matança. Certo?
Bond disse: — Sim.
Disse-o com suavidade. O cheiro do inimigo, a necessidade de tomar cuidado, já estavam atuando sobre seus nervos.
— À sua esquerda, aquele novo e imenso bloco de dez andares é a Haus der Ministerien, o grande centro cerebral de Berlim-Leste. Você pode ver que as luzes ainda estão acesas na maioria das janelas. A maior parte delas ficará assim toda a noite. Esses sujeitos trabalham mesmo — seus turnos dão a volta no relógio. Você provavelmente não precisará preocupar-se com as janelas acesas. Esse fulano “Gatilho” certamente vai atirar de uma das janelas escuras. Você verá que existe um grupo de quatro, juntas, na quina acima do cruzamento. Ficaram escuras na noite passada e esta noite. Elas têm o melhor campo de fogo. Daqui, o seu alcance varia entre trezentas e trezentas e dez jardas. Estou com todos os números e dados quando você quiser. Não é preciso preocupar-se muito mais. Aquela rua fica vazia durante a noite — apenas as patrulhas motorizadas cerca de cada meia hora — carros blindados leves com uma dupla de motocicletas por escolta. Na noite passada, que suponho normal, entre seis e sete, que é a hora em que se fará este serviço, havia umas poucas pessoas entrando e saindo por aquela porta lateral. Uns funcionários. Antes disso nada fora do comum — o fluxo costumeiro de pessoas entrando e saindo de um edifício de governo movimentado — com exceção, veja só, de uma miserável orquestra completa de mulheres. Fizeram uma confusão infernal numa sala de concertos que tem ali. Parte do bloco aloja o Ministério da Cultura. Fora disso nada — certamente nenhuma das pessoas da KGB que conhecemos, nem sinais de preparação para um serviço deste gênero. Mas nem pode haver sinais. São muito cuidadosos estes sujeitos da oposição. De qualquer maneira, dê uma boa olhada. Não esqueça que agora está mais escuro do que amanhã por volta das seis. Mas você pode formar um quadro geral.
Bond formou o quadro geral e o quadro ficou com ele muito tempo enquanto o outro homem já dormia e ressonava suavemente com um pequeno som regular que lembrava um fraco estalido — um ronco Wykehamista, refletiu Bond irritado.
Sim, tinha formado o quadro — o quadro de um lampejo movimento entre as ruínas sombreadas no outro lado do brilhante rio de luz, uma pausa, e então a desesperada corrida em ziguezague de um homem sob o impacto luminoso das lâmpadas, o espocar da arma de fogo e, ou um fardo retorcido espalhado no meio da rua larga, ou então a investida sempre em frente através do capinzal e do entulho no Setor Ocidental — morte súbita ou volta a casa. O grande desafio! Quanto tempo teria Bond para localizar o tocaia russo numa daquelas janelas escuras? E para matá-lo? Cinco segundos? Dez? Quando o amanhecer começava a cobrir as cortinas com o tom metálico das armas, Bond capitulou para sua mente agitada. Ela tinha ganho. Foi em silêncio até o banheiro e inspecionou as fileiras de remédios que um prestimoso Serviço Secreto tinha providenciado para manter o seu carrasco em boa forma. Escolheu o Tuinal, engoliu duas das cápsulas concentradas, rubis e azuis, com um copo de água e voltou à cama. Então, chumbado, dormiu.
Acordou ao meio-dia. O apartamento estava vazio. Bond abriu as cortinas para deixar entrar o dia cinzento prussiano e, de pé a uma boa distância da janela, ficou vendo a monotonia de Berlim e ouvindo o ruído dos bondes e o arranhar distante dos trens da U-Bahn na grande curva de entrada da estação do Zoo. Lançou um olhar rápido e relutante ao que já tinha examinado na noite anterior, notou que o capim no entulho de bombardeio era mais ou menos o mesmo de Londres — loendro, labaçol e samambaia — e dirigiu-se então à cozinha. Havia uma nota apoiada numa fatia de pão: “Meu amigo (eufemismo do Serviço Secreto que neste contexto significava o chefe de Sender) diz que não há mal em você sair. Mas esteja de volta às 17 horas. Seu equipamento (outra palavra para o rifle de Bond) chegou e o bagageiro a entregará esta tarde. P. Sender.”
Bond acendeu o fogão a gás e queimou a mensagem com desprezo por sua profissão e em seguida preparou um prato enorme de ovos mexidos e bacon que amontoou sobre uma torrada coberta de manteiga e comeu com acompanhamento de café preto no qual derramara uma porção liberal de uísque. Depois tomou um banho e barbeou-se, vestiu as roupas descoloridas, centro-europeias e anônimas que tinha trazido para a sua missão, olhou a sua cama em desordem, decidiu que tudo fosse para o inferno e desceu pelo elevador deixando o edifício.
James Bond sempre achara Berlim uma cidade deprimente e hostil, esmaltada no lado Ocidental com o verniz superficial de um polimento pretensioso parecido com os enfeites cromados dos carros americanos. Caminhou até a Kurfurstendamm, sentou-se no Café Marquardt, tomou um expresso e ficou observando com tédio as filas obedientes de pedestres esperando o sinal “Siga” nos postes de trânsito enquanto a corrente luminosa de carros continuava a sua perigosa quadrilha na movimentada intersecção. Fazia frio lá fora e o vento cortante das estepes russas fustigava as saias das garotas e os impermeáveis dos homens impacientes e apressados, cada um com a infalível pasta enfiada debaixo do braço. Os aquecedores de parede infravermelhos do café apontavam o vermelho para baixo e davam um brilho espúrio ao rosto dos cafeinômanos que degustavam sua tradicional “uma xícara de café e dez copos de água”, lendo de graça os jornais e revistas presos por paus, ou se curvavam com seriedade sobre papéis de negócios. Bond, fechando o pensamento para a noite, discutia consigo mesmo as maneiras de passar a tarde. Finalmente chegou à escolha entre uma visita àquela casa de respeitável fachada de pedra, na Clausewitzstrasse, conhecida de todos os porteiros e choferes de táxi, ou um passeio ao Wannsee e uma vigorosa caminhada no Grunewald. A virtude triunfou. Bond pagou o café, saiu no frio e tomou um táxi até a estação do Zoo.
As belas arvorezinhas jovens em volta do lago extenso já tinham sido tocadas pelo sopro do outono e havia um dourado aqui e ali no meio do verde. Bond caminhou com energia durante duas horas pelas veredas cobertas de folhas e então escolheu um restaurante com terraço envidraçado sobre o lago e saboreou com prazer um chá reforçado consistindo de uma porção dupla de arenques do Norte mergulhados em creme e anéis de cebola, e dois Molle mit Korn, o equivalente berlinense de um “fabricante de caldeiras e seu assistente” — schnapps, duplos, acompanhados por um chope Löwenbräu. Sentindo-se então mais animado tomou a S-Bahn para voltar à cidade.
Em frente do prédio de apartamentos, um jovem indefinível estava mexendo no motor de um Opel Kapitan negro. O jovem não tirou a cabeça debaixo do capo quando Bond passou bem perto dele e subiu até a porta e apertou o botão.
CONTINUA
Quando chegou embaixo, sentou-se no musgo, sob os abetos. Estendeu no chão a camisa, colocou no centro dela as barras de ouro e fez uma trouxa, amarrando bem as fraldas e as mangas. Depois, cavou um buraco no chão e enterrou a caixa metálica vazia. E vergando ao peso, quase dobrado em dois, caminhou pela estreita trilha, entre os pinheiros, rumo ao jipe. Até aquele dia não conseguira saber como tivera forças para alcançar o veículo. Os nós que dera na trouxa pareciam penetrar nas carnes de seu ombro, sob o peso das barras de ouro. Quando, finalmente, alcançou o jipe, quase teve um colapso, tão exausto estava. Mas não podia descansar, ainda. Precisava sair dali para enterrar o seu tesouro na floresta, perto de um grupo de grandes rochas, onde lhe seria fácil encontrá-lo de novo, na ocasião oportuna em dia, quando o horizonte estivesse limpo, voltaria, por outra rota, evitando o chalé de Oberhauser. Só então, terminado tudo, fora embebedar-se com uma garrafa de schnapps barato. Jantou e meteu-se na cama, para dormir como uma pedra. No dia seguinte, a Força A da DAG seguiu para o vale do Mittersill. Seis meses depois o Major Smythe estava em Londres. A sua guerra havia terminado. Mas os seus problemas, não. Ouro era coisa difícil de contrabandear, principalmente em grande quantidade. E era essencial que o Major Smythe transferisse as suas barras para um novo esconderijo. Por isso, ele procurou evitar a desmobilização e gozar os privilégios de seu comissionamento temporário, sobretudo o seu passe do Serviço Secreto Militar. Conseguiu ser mandado de volta para a Alemanha, como representante da Inglaterra no Centro Misto de Investigação de Munique. Aí, trabalhou durante seis meses e, nesse período, teve a oportunidade de recuperar o ouro, que levou para o seu alojamento numa velha valise. Depois, em dois fins de semana, fez viagens aéreas para Londres, levando, de cada vez, uma barra de ouro, em sua volumosa pasta. A caminhada nos aeroportos de Munique e de Londres, com a pasta sob o braço, como se contivesse apenas papéis, exigira dois tabletes de benzedrina e uma vontade de ferro. Finalmente, pôde esconder sua fortuna no porão da casa de uma tia, em Kensington, e assim, com tranquilidade, pôde desenvolver a parte final de seus planos. Pediu reforma nos Fuzileiros Reais e, uma vez desmobilizado, casou-se com uma das muitas moças com quem tivera aventuras durante o serviço da DAG, uma graciosa Wren chamada Maria Parnell. Comprou passagem para ambos num cargueiro para a Jamaica, que representava, para ambos, um paraíso ensolarado, com boa e farta comida, bebida barata, sem a melancolia e as restrições impostas na Inglaterra, após a guerra, pelo severo governo trabalhista. Antes do embarque, o Major Smythe mostrou a Mary as barras de ouro, das quais já havia raspado a cinzel os símbolos do Reichsbank.
— Tenho sido muito econômico e esperto, meu bem — disse ele. — Não confio na libra. Por isso, vendi todas as minhas ações e comprei um bocado de ouro. Teremos pelo menos 20 mil libras, se eu o vender bem. Isso basta para nos assegurar uma boa vida, até o fim dos nossos dias. Sempre que for preciso, eu venderei um pouquinho — explicou.
Mary Parnell não era familiarizada com as leis monetárias. Mas se ajoelhou e passou as mãos, carinhosamente, sobre as barras de ouro. Depois, com os braços ao redor do pescoço do marido, beijou-o e disse, quase em lágrimas: — Você é um homem maravilhoso... Sim, maravilhoso! Terrivelmente inteligente, bonito, simpático, herói da guerra e, além do mais, rico! Eu sou a garota mais feliz do mundo!
— Você tem razão pelo menos numa coisa: ricos, nós somos. Mas prometa não dizer uma só palavra a quem quer que seja! Pois, se disser, todos os ladrões da Jamaica irão rondar a nossa casa.. .
O Prince’s Club, ao pé das colinas que dominam os arredores de Kensington, era realmente esplêndido. Para os seus sócios, não havia nada melhor: maravilhosa criadagem, comida farta, bebida barata, belíssimos cenários tropicais, como nunca tinham visto antes. O casal era muito popular e os serviços de guerra do Major Smythe lhe davam ingresso na alta sociedade local e na Government House. A vida de ambos era uma série interminável de festas, misturadas com o tênis de Mary e o golfe do major (com os bastões metálicos de Henry Cotton!) durante o dia, e partidas de bridge (para ela) e de pôquer (para ele) durante as noites. Sim, era um paraíso, porque, na Inglaterra, havia racionamento, filas e mercado negro, um governo atroz e o pior inverno dos últimos trinta anos. A princípio, o casal enfrentou as despesas com as economias em dinheiro, que ambos haviam reunido, enquanto se vestiam, se alimentavam e se transportavam à custa do Exército. Só depois de um ano de cautelosas investigações é que o Major Smythe se decidiu a fazer negócio com os irmãos Fu, comerciantes importadores e exportadores. Altamente respeitados e muito ricos, os irmãos Fu eram conhecidos como uma espécie de junta governativa da comunidade chinesa da Jamaica. Ainda que alguns dos seus negócios se desviassem das boas normas, segundo a tradição chinesa, Smythe achou que poderia confiar neles. A Convenção de Bretton Woods, fixando um preço internacional para o ouro, sob rigoroso controle, tinha sido assinada deixando de parte Tânger e Macau, dois portos livres, em que a onça de ouro valia entre 99 e 100 dólares, quando nos outros lugares o preço oficial era de 35. E, para maior conveniência de seus negócios, os Fu tinham aberto um restaurante em Hong-Kong, transformado em entreposto para o contrabando de ouro para a vizinha Macau. Isso, na linguagem do Major Smythe, era sopa no mel. Ele tivera um agradável encontro com os Fu. Nenhuma pergunta estes fizeram, senão depois do exame das barras de ouro.
— Major — disse o mais velho dos irmãos —, no mercado de ouro em barras, as marcas dos bancos nacionais e dos negociantes respeitáveis são aceitos sem discussão. Essas marcas são a garantia da pureza do ouro. Mas outros bancos e outros vendedores têm seus próprios processos de refinação, que talvez, não sejam tão perfeitos...
— Quer dizer que eu fui enganado? — Perguntou, ansiosamente, o major. — Que isso não é senão uma barra de chumbo coberta de uma leve camada de ouro?
Os dois irmãos deram muxoxos tranquilizadores:
— Não, não, major... Não se trata disso. Mas, se uma pessoa não se recorda da proveniência dessas barras de ouro, por mais finas que elas sejam é sempre necessário submetê-las a um ensaio, para verificação do seu exato teor... Há muitos métodos para determinar o grau de pureza dessas barras. Meu irmão e eu somos competentes em qualquer deles. Quer deixar as barras de ouro conosco e vir saber o resultado depois do almoço? Nós lhe daremos um recibo...
Não havia alternativa. Teria que confiar nos Fu. Qualquer que fosse o preço por eles arbitrado, seria forçado a aceitar. Estava nas mãos deles. Foi a um bar, onde tomou dois drinques fortes e comeu um sanduíche que lhe ficou atravessado na garganta. Depois, voltou ao escritório refrigerado dos Fu. O cenário era o mesmo: os dois irmãos sorridentes, as duas barras de ouro, a pasta de couro, etc. Só havia a mais uma folha de papel e uma caneta-tinteiro de pena de ouro, em frente do irmão mais velho.
— Resolvemos o problema do seu ouro, major! — (Esplêndido! Obrigado, pensou Smythe.) — E estou certo de que o senhor terá interesse em conhecer sua origem...
— Claro! Qual é? — Fez o major, com uma corajosa demonstração de entusiasmo.
— São barras de ouro alemãs! Provavelmente saíram dos depósitos do Reichsbank, durante a guerra. Isso pode ser deduzido do fato de que contêm dez porcento de chumbo. Durante o regime de Hitler, o Reichsbank fez a tolice de adulterar por esse modo o seu ouro. Isso logo se espalhou e o preço das barras de ouro alemãs, vendidas na Suíça, sofreu logo uma redução de preço, correspondente à adulteração. Foi uma bobagem, que só teve um resultado: o banco nacional da Alemanha perdeu a reputação que conquistara durante séculos... Bobagem... Uma grandíssima bobagem... — Concluiu o chinês, com o seu invariável sorriso.
O Major Smythe estava maravilhado com a onisciência desses dois homens, tão afastados dos grandes canais de comércio do mundo. Mas ao mesmo tempo os amaldiçoava, intimamente. E agora?
— É muito interessante, Sr. Fu... Mas isso não é uma boa notícia para mim. Essas barras de ouro me foram entregues como coisa cem por cento...
— Não tem importância, major — disse o mais velho dos Fu. — Ou melhor, quase não tem importância. Venderemos o seu ouro pelo justo valor, ou seja, 89 dólares a onça. Terá que ser, ou não, refinado pelo último comprador. Mas isso não é da nossa conta. Nós o venderemos também como cem por cento...
— Mas a um preço mais baixo...
— Realmente, major. Mas creio que temos uma boa notícia para o senhor. Quanto calculava obter com essas duas barras?
— Cerca de 20 mil libras...
— Se as vendermos bem e aos pouquinhos — disse o mais velho dos Fu —, o senhor receberá mais de 100 mil dólares, major, sujeitos, é claro, ao desconto da nossa comissão, que inclui o transporte e outras despesas.
— E a quanto montará isso?
— Estou pensando em fixar em 10 por cento, major. Se lhe parecer satisfatório...
O Major Smythe tinha a impressão de que vendedores de ouro em barras recebiam apenas um por cento de comissão. Mas, que diabo, antes do almoço já estava disposto a largar tudo até por 10 mil libras. Disse “fechado” e levantou-se, estendendo a mão através da mesa. Desde então, de quatro em quatro meses, ia visitar o escritório dos Fu, levando uma valise vazia. Havia sempre quinhentas libras novas, da emissão da Jamaica, em pacotes, sobre a mesa, à sua espera, e um recibo da quantidade vendida, com o preço alcançado em Macau. As barras de ouro diminuíam de tamanho, de polegada em polegada. O negócio era simples e cordial. Duas mil libras limpas, por ano, eram o bastante para ele, e só o afligia a possibilidade de que o pessoal do imposto de renda começasse a apertá-lo, para saber do que estava vivendo. Ele disse isso aos Fu, que lhe fizeram saber que não precisava se preocupar. Nas duas vezes seguintes, havia apenas quatrocentas libras na mesa, mas nenhum comentário foi feito, por qualquer dos lados. E assim os dias iam se passando, preguiçosamente. Os Smythes engordavam e o major teve a primeira das duas complicações das coronárias. O médico lhe recomendou uma vida menos ativa, com menos álcool e menos cigarros. Evitasse, também, as gorduras e as comidas fritas. A princípio, Mary tentou ser severa com ele, mas quando o marido começou a beber escondido e a inventar pequenas mentiras e evasivas, ela recuou desse propósito. Teve medo de se transformar numa chata doméstica, a quem o Major Smythe passaria a evitar. Por isso, deu-lhe inteira liberdade, sabendo que ele não mais a amava, e quando a sua solidão se tornou demasiada e as insônias intoleráveis, viciou-se em tomar soníferos. Uma noite, depois de uma violenta briga, estando ambos embriagados, tomou ela uma dose excessiva, só “para dar-lhe uma lição”. A dose era tão exagerada que a matou. O suicídio foi dissimulado, mas ainda assim recaíram suspeitas sobre o major, em prejuízo de sua reputação social. E a tal ponto que ele teve de se retirar para North Shore que, embora a apenas três milhas de Kensington, parece pertencer a um outro mundo. Aí ele se instalou em Wavelets e, depois da segunda complicação das coronárias, começou a beber desenfreadamente. Foi então que entrou em cena James Bond com um mandado de prisão ou de morte no bolso.
O Major Smythe olhou para o relógio. Passavam alguns minutos do meio-dia. Ele se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale e foi para o jardim. James Bond estava sentado sob a frondosa amendoeira, olhando para o lar. Nem se voltou para o Major Smythe quando este puxou outra cadeira de alumínio e colocou o copo na relva, perto dele. Quando o Major Smythe acabou de narrar a sua história, James Bond disse, sem demonstrar qualquer emoção: — Era mais ou menos isso o que eu havia pensado...
— Quer que eu escreva tudo ou apenas assine?
— Faça como quiser. Mas isso não se entende comigo. Deve entregar à Corte Marcial. Seu velho Corpo de Fuzileiros Reais é que vai tomar conta do caso. Não tenho nada que ver com os aspectos legais. Farei apenas um relatório do que me disse, para a Procuradoria da Justiça, através da Scotland Yard...
— Posso perguntar uma coisa? Como foi que descobriu?
— A geleira era pequena. O corpo de Oberhauser chegou embaixo no início deste ano, quando as neves da primavera derreteram. Alguns alpinistas o encontraram. Todos os seus papéis e tudo o mais estava perfeito. A família o identificou. Depois, foi só uma questão de recuar no tempo. O calibre das balas deu logo a pista...
— Mas como se envolveu neste assunto?
— A Força da DAG era uma das minhas responsabilidades, um dos meus serviços. Quando o assunto chegou ao meu conhecimento, fui dar uma busca nos arquivos. Como tinha tempo livre, pedi que me entregassem a missão de descobrir o autor da morte de Oberhauser...
— Por quê?
— Porque — e James Bond fixou os olhos do Major Smythe — acontece que Oberhauser era um velho amigo meu. Foi quem me ensinou a esquiar quando eu tinha pouco mais de dez anos. Era um esplêndido sujeito. Foi uma espécie de pai para mim, precisamente na época em que eu mais precisava de um...
— Compreendo. — E o Major Smythe desviou o olhar. — Sinto muito...
James Bond se levantou:
— Bem, preciso voltar a Kensington. — E levantou a mão, para deter o major. — Não, não precisa incomodar-se. Sei onde o carro ficou... — Olhou para o homem mais velho e disse, rispidamente, quase com brutalidade: — Dentro de uma semana, alguém virá buscá-lo...
E caminhou, em passos firmes, sem se voltar, pela alameda afora. O major ouviu o ruído do arranque do motor e o chiado dos pneus do táxi nas pedrinhas miúdas da estrada.
Agora, ele procurava a sua presa, ao longo do recife de coral, pensando exatamente no sentido das palavras de James Bond. E sorriu por trás da máscara Pirelli. Era uma versão nova de um velho dramalhão, que consistia em deixar uma pistola com o oficial culpado, para que este mesmo estourasse os miolos. Se James Bond quisesse, poderia ter telefonado para a Government House e pedido um oficial de igual patente do Regimento da Jamaica para levar preso o Major Smythe. De certo modo, o seu gesto fora decente. Ou não fora? Um suicídio era mais limpo, economizava uma porção de trabalho e de papéis, que consumiriam o dinheiro dos contribuintes. Devia agradecer a James Bond a solução que ele parecia sugerir? Acaso encontraria Mary no lugar para onde vão as almas dos suicidas? Ou era melhor a Corte Marcial, a indignidade, as formalidades cacetes, as manchetes, o aborrecimento e a solidão de uma prisão perpétua, da qual só o livraria a terceira crise das coronárias? Poderia defender-se: era tempo de guerra, lutara com Oberhauser no alto da montanha, ele era um prisioneiro e tentara fugir... Oberhauser sabia do esconderijo do dinheiro... E ele, pobre oficial dos Comandos, tantas vezes arriscando a vida pela pátria, fora fraco e não resistira à tentação... Poderia entregar-se dramaticamente à misericórdia do Tribunal Militar... Um coronel certamente seria designado para defendê-lo e o faria com a maior eloquência. Poderia haver um apelo à Corte Suprema. Seu caso comoveria a Inglaterra e se tornaria uma cause célebre. Venderia sua história, com as reminiscências de guerra, aos grandes jornais... Mas...
Cuidado, meu velho! Cuidado! Seus pés agora tocavam o chão, sob as ondas que encrespavam a superfície da praia de North Shore. Por onde estariam os peixes-escorpiões? O polvinho querido estava faminto, esperando o seu almoço. Apurando a vista, perto do recife de coral, o Major Smythe viu as antenas de um lagostim, acenando inquisitivamente para ele. Normalmente, ele se esqueceria de tudo, para capturar o lagostim, que era, talvez, o maior que até então encontrara. Mas agora só tinha uma preocupação: a de descobrir a silhueta irregular e provocante do peixe-escorpião. Só depois de mais dez minutos de busca encontraria o primeiro. Os olhos vermelhos e zangados do peixe, muito abertos, o observavam. Para fisgá-lo, com o arpão, teria que fazer uma investida rápida, na vertical, firme e certeira. Sabia que as agulhas envenenadas se projetariam para fora da cabeça pontiaguda do monstro. Tinha que se mover lentamente, na direção do peixe, usando o braço livre para nadar. E... Agora! Avançou, para a frente e para baixo, mas o peixe-escorpião sentira a aproximação do arpão antes que este o tocasse. Uma lufada de areia se levantou do fundo do mar, atingido pelo golpe. E qualquer coisa roça em seu corpo, dando a impressão do voo de um pássaro. O major praguejou e fez meia volta, dentro da água. Sim, o peixe-escorpião fizera o que tantas vezes fazia: fora buscar refúgio entre as algas e as rochas, confiante em sua soberba camuflagem. O major voltou à carga, em novo mergulho, dessa vez ainda mais atento, e zás! O peixe-escorpião se agitava, agora, na ponta do arpão. A excitação foi tão grande que o Major Smythe vacilou e sentiu a antiga dor oprimir-lhe o peito. Pôs-se de pé, firmou o arpão contra a areia, atravessando inteiramente a presa, que ainda se agitava desesperadamente, e dirigiu-se à praia, indo sentar-se num banco de madeira, ao lado do qual atirou o peixe, fisgado, a se debater. Uns cinco minutos depois, o Major Smythe sentiu uma curiosa dormência na região do plexo solar. Olhou para baixo e estremeceu, de horror e incredulidade. Uma região de sua pele, com o tamanho aproximado de uma bola de críquete, tornara-se impressionantemente branca, a despeito do bronzeado de seu busto. No centro dessa área, havia três pequenas manchas sanguíneas. Automaticamente, o Major Smythe limpou o sangue. Os furos eram do tamanho de picadas de agulhas. Ele se lembrou, então, da fuga do peixe-escorpião, quando tentara arpoá-lo da primeira vez, e exclamou alto, com pavor, mas sem animosidade: — Tu me apanhaste, bastardo! Tu me apanhaste!
Imóvel, olhava para o próprio corpo, recordando-se do que lera sobre os ferrões do peixe-escorpião no livro que tomara emprestado à biblioteca do Instituto e nunca devolvera — Perigosos Animais Marinhos, publicação norte-americana. Tocou delicadamente a pele da área atingida. Sim, a pele se tinha tornado intumescida e de todo insensível, mas por baixo começava a sentir dor. Em breve essa dor profunda e intensa percorreria o seu corpo inteiro, tão lancinante que o seu único desejo seria o de deitar-se na areia, gritando e rolando, para abafá-la. Vomitaria e deitaria espuma pela boca, teria delírio e convulsões, até perder a consciência. Então, sobreviria, inevitável, o colapso cardíaco mortal. De acordo com o livro, o ciclo completo desses tormentos não passaria de um quarto de hora. Era tudo quanto lhe restava: quinze minutos de atroz agonia! Haveria cura, é claro — com procaínas, antibióticos e anti-histamínicos —, se seu coração debilitado suportasse tais medicamentos. Mas estes deviam estar à mão. Mesmo que conseguisse chegar em casa e admitindo que Jimmy Greaves dispusesse de todos esses remédios modernos, ele não poderia alcançar Wavelets antes de uma hora.
A primeira descarga de dor fez o corpo do Major Smythe dobrar-se sobre si mesmo. Depois outra e mais outra, irradiando-se através do estômago e dos membros. Sentia um gosto metálico na boca e uma coceira insuportável nos lábios. Deixou escapar um gemido e saltou do banco para a praia. Sobre a areia, ainda arquejava o peixe-escorpião. Houve uma trégua nos espasmos da dor. Seu corpo inteiro estava em fogo. Apesar da agonia o raciocínio permanecia claro. Mas, ora essa! Ia esquecendo a experiência! Devia ir à loca do polvo, para servir seu almoço! “Polvo, polvinho, vai ser a última refeição que eu te dou!”, dizia a si mesmo o Major Smythe, ajustando a máscara no rosto. Depois, apanhou o arpão, com o peixe espetado e, apertando o estômago com a mão livre, caminhou pela água adentro e, depois, mergulhou junto ao recife de coral. Poucas jardas o separavam agora do polvo. E foi gritando dentro da máscara, arrastando-se, quase de joelhos, que ele as percorreu. À medida que a água se tornava mais profunda, a dor se fazia mais intensa e seus movimentos pareciam com os de um fantoche, impulsionado por um feixe de cordéis. Só a poder de uma grande força de vontade pôde continuar rumo à morada do polvo. Sim, a sua massa escura ainda estava lá! E parecia excitadíssima. Por quê? O Major Smythe viu que as feridas de seu peito vertiam filetes de sangue escuro, que se diluía na água do mar. Era claro! O querido polvo sentira o gosto do seu sangue. Uma descarga de dor atingiu o major e o fez vergar-se. Disse a si mesmo, em delírio: “Que é isso, Dexter?! Firme, meu velho. Você tem que dar almoço ao polvinho”. Endireitou-se, empunhando o arpão com firmeza e aproximando o peixe da toca do polvo. Aceitaria ele a isca envenenada que o Major Smythe lhe oferecia e à qual talvez um octópode poderia ser imune? Ah, se Bengry estivesse presente, para observar! Três tentáculos, ondulando excitadamente, saíram da loca e passearam ao redor do peixe-escorpião. Agora, havia uma espécie de nevoeiro diante dos olhos do Major Smythe. Reconhecendo estar à beira da inconsciência, ele agitou fracamente a cabeça, para dissipá-lo. E, então, os tentáculos deram um salto! Mas não para o peixe: apertaram a mão e o braço que empunhavam o arpão. A boca do Major Smythe se torceu, numa careta de prazer. Agora, ele e o polvo podiam se apertar as mãos! Como era excitante! Que coisa maravilhosa! Mas o polvo, calma e implacavelmente, continuou a enroscar os seus tentáculos e a chamar a si o corpo do major. Só então Smythe compreendeu que algo de terrível ia acontecer. Fez um apelo a todas as suas forças e tentou golpear o octópode com o arpão. Mas tudo quanto conseguiu foi bater com o peixe-escorpião na massa escura do polvo. E, com o movimento que fez, ofereceu-se ainda mais a este, que o atraía de forma inexorável. Tarde demais o Major Smythe retirou sua máscara. Conseguindo alcançar a superfície, soltou um grito que reboou pela baía deserta, mas logo foi puxado para baixo. E, depois de algumas bolhas de ar, vieram à tona as pernas do major. As ondas lavavam o seu corpo, enquanto o polvo fazia a primeira tentativa para devorá-lo. O resto de Smythe foram encontrados por dois jovens da Jamaica, que pescavam peixes-agulhas numa canoa. Eles mataram o polvo, recolheram o arpão do Major Smythe com o peixe-escorpião e levaram os três despojos para a praia. O cadáver do major foi entregue à polícia e o peixe-escorpião aproveitado para a ceia. O destino do polvo de estimação seria também a panela ... O correspondente do Daily Gleaner em North Shore comunicou que o Major Smythe tinha sido morto por um polvo. Mas a redação do jornal, para não alarmar os turistas, preferiu dizer que ele “fora encontrado afogado”. Mais tarde, em Londres, James Bond, embora certo de que se tratara de um suicídio, anotou no dossier Oberhauser a versão do afogamento, com a respectiva data, na última página, o que encerrava o assunto. Somente pelas notas do Dr. Greaves sobre a autópsia, por ele mesmo realizada, é que foi possível escrever esta espécie de post-scriptum sobre o estranho e patético fim do outrora corajoso e útil oficial do Serviço Secreto.
Encontro em Berlim
(THE LIVING DAYLIGHTS)
James Bond estendia-se em posição na marca das quinhentas jardas da famosa linha de tiro Century Range, em Bisley. A pequena estaca branca na grama a seu lado dizia 44 e o mesmo número se repetia bem alto no talude distante acima do solitário alvo de seis pés quadrados que, ao olho humano e no crepúsculo do fim de verão, não parecia maior que um selo de correio. Mas a luneta de Bond, uma Sniperscope infravermelha fixada sobre o seu rifle, cobria todo o quadro. Ele podia até distinguir com clareza as cores azul-pálido e bege em que se dividia o alvo, e a mosca semicircular de seis polegadas parecia tão grande como a meia lua que já começava a se mostrar baixa no céu que escurecia acima da crista remota de Chobham Ridges.
O último tiro de James Bond fora um esquerdo interno — não o satisfizera. Deu uma outra olhada às bandeiras de vento amarelas e azuis. Tremulavam do leste através da linha de tiro mais intensamente do que quando tinha começado o seu tiro meia hora antes, e ele mudou o anemômetro dois pontos para a direita e assestou os dois fios cruzados da Sniperscope de volta ao foco de mira. Instalou-se então, colocou o indicador de leve dentro da guarda e sobre a curva do gatilho, prendeu a respiração e muito, muito suavemente apertou.
O estampido vicioso ecoou ao longo do campo vazio. O alvo desapareceu abaixo do solo e imediatamente o “boneco” tomou o seu lugar. Sim, a marca negra estava embaixo no canto direito desta vez, não no canto esquerdo: mosca.
— Bom — disse a voz do oficial chefe da linha, atrás e acima dele. — Fique com a mira.
O alvo já subira de novo e Bond recolocou a bochecha sobre o trecho quente da volumosa coronha de madeira e o olho na borracha que cerca a ocular da luneta. Enxugou a mão de atirar contra o lado das calças e pegou na coronha da pistola que sobressaía angulosamente da guarda do gatilho. Abriu de uma polegada o ângulo das pernas. Agora haveria cinco descargas rápidas. Era interessante ver se isso não provocaria “desgaste”. Ele achava que não. Esta arma extraordinária que o armeiro tinha descoberto sabe lá como dava à gente a sensação de que um homem de pé à distância de uma milha seria prato fácil. Era mais um rifle Experimental de Alvo Internacional, calibre 308, construído pela Winchester para ajudar os ases americanos do tiro em campeonatos mundiais, e tinha os dispositivos usuais das armas de alvo superacuradas — uma “mão” espiralada de alumínio nas costas da coronha que se estendia debaixo da axila e mantinha a arma com firmeza junto ao ombro, e uma pequena roda dentada ajustável abaixo do centro de gravidade do rifle para permitir que ele “se agarrasse” ao sulco do seu descanso de madeira. O armeiro tinha mandado trocar o ferrolho de tiro único usual por um depósito de cinco tiros, e tinha garantido a Bond que se ele deixasse apenas dois segundos entre cada tiro para estabilizar a arma não haveria desgaste, mesmo a quinhentas jardas. Para o serviço que devia fazer, Bond achava que dois segundos poderiam representar uma perda perigosa de tempo se errasse o seu primeiro tiro. De qualquer forma, M dissera que a distância não seria maior que trezentas jardas. Bond encurtaria o tempo para um segundo — fogo quase contínuo.
— Pronto?
— Sim.
— Vou à contagem regressiva de cinco. Agora! Cinco, quatro, três, dois, um. Fogo!
O chão tremeu ligeiramente e o ar silvou enquanto as cinco cápsulas velozes de cuproníquel varejavam o crepúsculo. O alvo baixou e rapidamente voltou a erguer-se condecorado com quatro pequenos discos brancos agrupados bem juntos na mosca. Não houve nenhum quinto disco — nem mesmo um negro para indicar um interno ou externo.
— A última descarga foi baixa — disse o chefe da linha baixando seus binóculos noturnos. — Obrigado pela contribuição. Limpamos a areia atrás daqueles alvos todo fim de ano.
Nunca recolhemos menos de quinze toneladas de estilhaços em legítimo chumbo e cobre. Um bom dinheiro.
Bond tinha-se levantado. O cabo Menzies da seção dos armeiros surgiu do pavilhão do Clube de Tiro e ajoelhou-se para desmontar a Winchester e o seu descanso. Olhou para cima encarando Bond. Disse com uma ponta de crítica. — O senhor tocou a coisa um pouco rápido. A última descarga tinha de escoicear.
— Eu sei, cabo. Só queria ver com que rapidez eu podia tocar. Não quero pôr a culpa na arma. É um trabalho enxuto, infernal. Por favor, diga isso por mim ao armeiro. Agora é melhor ir andando. Você tem condução de volta a Londres, não?
— Tenho, sim senhor. Boa noite.
O oficial chefe da Linha entregou a Bond uma ficha de seu tiro — dois tiros de ensaio e depois dez descargas para cada cem jardas até as quinhentas. — Pontaria danada de boa com esta visibilidade. Você devia voltar aqui o ano que vem e tentar o Prêmio da Rainha. Hoje em dia está aberto para todos — isto é, da Comunidade Britânica.
— Obrigado. O problema é que não passo tanto tempo assim na Inglaterra. E muito obrigado por ter feito a marcação para mim.
Bond olhou para a distante Torre do Relógio. De cada lado, a bandeira vermelha de perigo e o tambor vermelho de sinalização estavam sendo arriados para mostrar que o tiroteio tinha cessado. Os braços marcavam nove e quinze. — Gostaria de oferecer-lhe um drinque, mas tenho um encontro em Londres. Podemos adiá-lo até o Prêmio da Rainha de que você estava falando?
O chefe da Linha fez que sim com a cabeça, neutramente. Ele tinha aguardado ansioso a oportunidade de conhecer mais coisas sobre este homem que surgira assim sem mais nem menos depois de uma série de avisos do Ministério da Defesa e fora em frente acertando bem mais de noventa porcento em todas as distâncias, isso depois de fechada a linha para a noite e com visibilidade entre sofrível e má. E por que tinha ele, que só oficiava no encontro anual de julho, sido escalado para estar presente? E por que lhe tinham dito para providenciar uma mosca de seis polegadas a 500 jardas para Bond, em vez da regulamentar de quinze polegadas? E por que todos esses cuidados com a bandeira de perigo e o tambor de sinalização que só se usavam em ocasiões cerimoniais? Para pressionar o homem? Para dar um clima de urgência ao tiro? Bond. Comandante James Bond. A A.N.R. certamente teria a ficha de uma pessoa que atirava tão bem assim. Não se esqueceria de dar-lhes um telefonema. Que hora estranha para um compromisso em Londres. Provavelmente uma garota. O rosto do chefe da Linha assumiu uma expressão de desagrado. O tipo do sujeito que apanhava todas as garotas que queria.
Os dois homens caminharam através da bela fachada da sede do clube além da linha de tiro até o carro de Bond que estava estacionado diante de uma reprodução em ferro do famoso “Veado em Fuga” de Landseer toda picotada de balaços. — Uma beleza de carro — comentou o chefe da Linha. Nunca vi uma carroçaria assim num Continental. Mandou fazê-la especialmente?
— Mandei. Os Sports Saloons na verdade só têm dois lugares. E muito pouco espaço para bagagem. Por isso pedi a Mulliner’s que o transformassem num verdadeiro dois-lugares e com porta-malas de sobra. Um carro egoísta, não há dúvida. Bem, boa noite. E novamente muito obrigado.
O escape roncou com saúde e as rodas traseiras cuspiram cascalho por um instante.
O oficial chefe da Linha observou os faróis rubis desaparecerem na King’s Avenue a caminho da estrada de Londres. Girou nos calcanhares e foi procurar o cabo Menzies numa busca de informação que terminaria sem frutos. O cabo permaneceu tão fechado como a grande caixa de mogno que estava colocando num Land-Rover caqui, limpo de símbolos militares. O chefe da Linha era um major. Tentou apelar para a hierarquia, mas sem êxito. O Land-Rover afastou-se rodando no rastro de Bond. O major dirigiu-se soturno aos escritórios da Associação Nacional do Rifle para tentar achar a informação que queria na biblioteca sob o nome “Bond, J.”
O compromisso de James Bond não era com uma garota. Era com um voo da B.E.A. para Hanover e Berlim. Enquanto engolia as milhas que o separavam do Aeroporto de Londres, pisando firme o grande carro a fim de ter tempo de sobra para um drinque, três drinques, antes da decolagem, apenas uma parte de sua mente fixava-se na estrada. O restante reexaminava pela enésima vez a sequência que agora o conduzia a um encontro com um aeroplano. Mas apenas um encontro provisório. Seu compromisso final numa das três próximas noites em Berlim era com um homem. Tinha que se encontrar com esse homem e infalivelmente matá-lo com um tiro.
Quando, por volta de duas e meia daquela tarde, James Bond atravessara as portas duplamente acolchoadas e sentara-se em frente do perfil voltado, do outro lado da grande escrivaninha, sentira imediatamente o perigo no ar. Não houve troca de cumprimentos. A cabeça de M afundava-se no colarinho duro numa pose churchilliana de sombria reflexão, e havia um traço de amargura nos cantos dos lábios. Girou a cadeira para encarar Bond, passou-lhe um olhar examinador como se, pensou Bond, quisesse verificar se sua gravata estava direita e o cabelo adequadamente penteado, e então começou a falar, rapidamente, atalhando suas sentenças como se desejasse ver-se livre do que estava dizendo, e de Bond, o mais depressa possível.
— O número 272. É um bom homem. Você talvez não o conheça. Pela simples razão de que ficou naquele buraco da Novaya Zemlya desde a guerra. Agora está tentando sair — carregado de material. Atômico e foguetes. E o plano deles para toda uma nova série de testes. Para 1961. Querem avivar o fogo no Ocidente. Algo a ver com Berlim. Não vejo bem o quadro mas o Foreign Office diz que se for verdade é uma coisa tremenda. Ridiculariza a Conferência de Genebra e toda essa demagogia sobre desarmamento nuclear que o bloco comunista vem fazendo. Ele conseguiu chegar até a Berlim Oriental. Mas tem praticamente toda a KGB no seu encalço — e as forças de segurança da Alemanha Oriental, é claro. Está entocado num buraco qualquer da cidade e conseguiu passar-nos uma mensagem — de que atravessaria entre seis e sete da tarde numa das três próximas noites — amanhã, depois de amanhã ou no dia seguinte. Indicou o ponto de travessia. O problema — a curva dos lábios de M, voltada para baixo, tomou-se ainda mais amarga — é que o mensageiro que ele usou fazia jogo duplo. A estação W.B. pilhou-o ontem. Por acaso. Deu sorte com um dos códigos da KGB O mensageiro será mandado de avião para julgamento, naturalmente. Mas isso não ajudará em nada. A KGB sabe que o 272 vai tentar a travessia. Sabem quando. Sabem onde. Sabem tanto quanto sabemos e nada mais. Ora, o código que deciframos ontem era um esquema de um só dia em suas máquinas. Mas conseguimos todo o tráfico daquele dia e isso foi bastante bom. Planejam alvejá-lo ao tentar a travessia. No cruzamento de ruas entre a Berlim Leste e a Oeste que nos indicou na mensagem. Estão montando uma operação daquelas — operação “Êxtase” como a chamam. Puseram o seu melhor tocaia no serviço. Tudo o que soubemos dele ó que seu nome cifrado é a palavra russa para “Gatilho”. A estação W.B. acha que é o mesmo homem já usado em outros serviços de tocaia. Um serviço de longo alcance através da fronteira. Ficará de guarda toda noite nesse cruzamento e sua missão é acertar no 272. É óbvio que eles certamente prefeririam fazer um serviço mais suave com metralhadoras e coisas do gênero. Mas Berlim está calma no momento e parece que a ordem é ficar assim. De qualquer forma — M sacudiu os ombros — eles têm confiança nesse operador “Gatilho” e o negócio vai ser assim!
— E onde é que eu entro? — James Bond tinha adivinhado a resposta, adivinhado porque M mostrava seu desagrado com a coisa toda. Ia ser trabalho sujo e Bond, porque pertencia à Seção Zero-Zero, tinha sido escolhido para fazê-lo. Perversamente, Bond queria forçar M a pôr o preto no branco. Iam ser notícias más, notícias sujas e ele não queria ouvi-las de um dos oficiais da Seção, nem mesmo do chefe do Estado-Maior. O negócio ia ser assassínio. Está bem. Que M tenha então a coragem de me dizer.
— Onde é que você entra, 007? — M olhou friamente do outro lado da escrivaninha. — Você sabe onde é que você entra. Você tem que matar esse tocaia. E tem que matá-lo antes que acerte no 272. É tudo. Está claro? — Os olhos azuis-claros permaneceram frios como gelo. Mas Bond sabia que só ficavam assim com um esforço da vontade. M não gostava de mandar qualquer homem para um homicídio. Mas, quando isso tinha de ser feito, ele sempre assumia a sua severa e fria ação de comando. Bond sabia a razão. Era para tirar um pouco da pressão, um pouco da culpa, dos ombros do matador.
Portanto Bond, que sabia dessas coisas, decidiu agora tornar fácil e rápida a tarefa de M. Levantou-se. — Está certo, sir. Suponho que o chefe do Estado-Maior tenha tudo pronto. É melhor eu ir praticar um pouco. Não seria bom errar.
Caminhou para a porta.
M disse calmamente: — Sinto ter que lhe dar essa tarefa. Serviço desagradável. Mas tem que ser bem executado.
— Farei o melhor — James Bond saiu fechando a porta atrás de si. Não gostava do serviço mas no final preferia fazê-lo a assumir a responsabilidade de mandar alguém em seu lugar.
O chefe do Estado-Maior tinha sido apenas um pouco mais simpático. — Lamento esta sua aquisição, James — dissera ele. — Mas Tanqueray foi inflexível, não tinha ninguém suficientemente bom na estação e esse não é o tipo de serviço que se pode pedir a um soldado regular para fazer. Há uma porção de excelentes tiros na B.A.O.R., mas um alvo vivo requer outro tipo de coragem. De qualquer forma, liguei para Bisley e marquei um exercício para você esta noite às oito e quinze quando a linha estiver fechada. A visibilidade será mais ou menos a mesma que você terá em Berlim cerca de uma hora antes. O armeiro está com a arma — verdadeira obra de arte para alvejar, e vai mandá-la por um de seus homens. Você irá com a sua própria condução. Depois, há um voo de carreira para Berlim à meia-noite reservado em seu nome na B.E.A. Tome um táxi até esse endereço. — Entregou a Bond um pedaço de papel. — Suba ao quarto andar e encontrará o número 2 de Tanqueray à sua espera. Depois disso, sinto que você terá que esperar sentado pelos próximos três dias.
— E a arma? Esperam que atravesse a alfândega alemã com ela dentro de um saco de golfe ou coisa assim?
O chefe do Estado-Maior não tinha achado graça. — Seguirá pela mala diplomática. Você a receberá amanhã ao meio-dia. — Tinha estendido a mão até o bloco de avisos. — Bem, é melhor ir andando. Vou avisar a Tanqueray que está tudo combinado.
James Bond baixou o olhar para o rosto azul difuso do relógio no painel do carro. Dez e quinze. Com um pouco de sorte, amanhã a esta hora estaria tudo terminado. Afinal, era a vida deste homem “Gatilho” contra a vida do 272. Não era exatamente homicídio. Estava perto disso, no entanto. Apertou maldosamente sua buzina-de-serra tripla ao passar por um quatro portas comum, ingressou no cruzamento circular com uma derrapagem seca desnecessária, girou violentamente o volante fazendo a correção e apontou o nariz do Bentley em direção do brilho distante que era o Aeroporto de Londres.
O edifício feio de seis andares na esquina da Kochstrasse e da Wilhelmstrasse era o único de pé na desolação de um espaço vazio bombardeado. Bond pagou o táxi e gravou uma breve impressão de capim, alto como a cintura, e de paredes de entulho mal reparadas, estendendo-se na direção de um grande cruzamento deserto iluminado por um feixe central de lâmpadas amareladas em arco, antes de apertar o botão para o quarto andar e imediatamente ouviu o clique do dispositivo que abria a porta do prédio. A porta fechou-se atrás dele e caminhou então sobre o chão de cimento sem tapete até o antiquado elevador. O cheiro de repolho, cigarro barato e suor rançoso lembravam outros prédios de apartamentos na Alemanha e Europa Central. Até o arrastar e o guincho fraco do elevador vagaroso eram parte de centenas de missões em que tinha sido lançado por M, como um projétil, a algum alvo distante onde um problema aguardava a sua chegada, à espera de ser resolvido por ele. Pelo menos desta vez o comitê de recepção estava do seu lado. Desta vez não havia nada a temer no fim da escada.
O número 2 da Estação W.B. de Serviço Secreto era um homem esguio e tenso de quarenta e poucos anos. Vestia o uniforme de sua profissão — terno bem cortado e bem usado de tweed leve ponto pé-de-pato num tom verde-escuro, camisa de seda macia branca e uma velha gravata de colégio — neste caso de Wykeham. Ao ver a gravata, enquanto trocavam as saudações convencionais no pequeno saguão mofado do apartamento, o ânimo de Bond, já baixo, desceu mais um degrau. Conhecia esse tipo: espinha dorsal do Serviço Público; superestudioso e mal-amado em Winchester; um bom segundo em P.P.E. em Oxford; a guerra, cargos funcionais que teria ocupado meticulosamente; talvez uma Ordem do Império Britânico; Comissão do Controle Aliado na Alemanha, onde fora recrutado no Ramo I e a partir de então — porque era o funcionário ideal e A. 1 junto à Segurança e porque pensava em encontrar vida, drama, romance, todas as coisas que nunca linha tido — lá fora ele para o Serviço Secreto. Um homem sóbrio, cuidadoso se fizera necessário para bancar a dama de companhia de Bond neste negócio feio. O Capitão Paul Sender, que já servira na Guarda Galesa, tinha sido a escolha óbvia. E tinha aceitado. Agora, como bom Wykehamista, escondia o seu desagrado pelo serviço debaixo de uma conversa cuidadosa e banal enquanto mostrava a Bond a planta do apartamento e as providências tomadas para a prontidão do carrasco e, numa medida modesta, para o seu conforto.
O apartamento consistia de um amplo dormitório conjugado, um banheiro e uma cozinha equipada de enlatados, leite, manteiga, ovos, chá, bacon, pão e uma garrafa de Dimple Haig. O único detalhe estranho no quarto de dormir era que uma das camas duplas estava encostada em ângulo contra as cortinas que cobriam o amplo janelão único e sobre ela se empilhavam três colchões cobertos pela roupa de cama.
O Capitão Sender disse: — Gostaria de dar uma olhada ao campo de fogo? Poderei então explicar o que é que o lado de lá tem em mente.
Bond estava cansado. Não desejava especialmente ir dormir com a imagem do campo de batalha na memória. Disse: — Seria ótimo.
O Capitão Sender apagou as luzes. Faixas luminosas das lâmpadas no cruzamento apareceram em volta das cortinas. — Não quero puxar as cortinas — disse o Capitão Sender. — É pouco provável, mas eles podem ter sido alertados contra um grupo de cobertura para o 272. Queria que você apenas se deitasse na cama e enfiasse a cabeça por baixo das cortinas. Explicarei o que você estiver vendo. Olhe para a esquerda.
Era uma janela de guilhotina e a metade inferior estava aberta. Os colchões, especialmente escolhidos, só cediam um pouco e James Bond encontrou-se mais ou menos na posição de tiro que tinha adotado em Century Range, mas agora olhava através de terreno descontínuo, coberto de densa vegetação e bombardeado, na direção do rio de luz que era a Zimmerstrasse — a fronteira com a Berlim Oriental. Parecia a umas cento e cinquenta jardas de distância. A voz do Capitão Sender acima dele e por trás da cortina começou a recitar. Lembrava a Bond uma sessão espírita.
— Ali é terreno bombardeado à sua frente. Bastante cobertura. Umas cento e trinta jardas até a fronteira. Depois a fronteira — a rua — e então um trecho grande ainda de terreno bombardeado no campo do inimigo. É por isso que o 272 escolheu essa passagem. É um dos poucos locais na cidade em que o terreno é descontínuo — capinzais cerrados, muros em ruínas, porões — nos dois lados da fronteira. Ele deverá es-gueirar-se entre aquela confusão do outro lado e arremessar-se através da Zimmerstrasse até alcançar a confusão do nosso lado. O problema é que terá de correr trinta jardas de fronteira fortemente iluminada. Será o espaço da matança. Certo?
Bond disse: — Sim.
Disse-o com suavidade. O cheiro do inimigo, a necessidade de tomar cuidado, já estavam atuando sobre seus nervos.
— À sua esquerda, aquele novo e imenso bloco de dez andares é a Haus der Ministerien, o grande centro cerebral de Berlim-Leste. Você pode ver que as luzes ainda estão acesas na maioria das janelas. A maior parte delas ficará assim toda a noite. Esses sujeitos trabalham mesmo — seus turnos dão a volta no relógio. Você provavelmente não precisará preocupar-se com as janelas acesas. Esse fulano “Gatilho” certamente vai atirar de uma das janelas escuras. Você verá que existe um grupo de quatro, juntas, na quina acima do cruzamento. Ficaram escuras na noite passada e esta noite. Elas têm o melhor campo de fogo. Daqui, o seu alcance varia entre trezentas e trezentas e dez jardas. Estou com todos os números e dados quando você quiser. Não é preciso preocupar-se muito mais. Aquela rua fica vazia durante a noite — apenas as patrulhas motorizadas cerca de cada meia hora — carros blindados leves com uma dupla de motocicletas por escolta. Na noite passada, que suponho normal, entre seis e sete, que é a hora em que se fará este serviço, havia umas poucas pessoas entrando e saindo por aquela porta lateral. Uns funcionários. Antes disso nada fora do comum — o fluxo costumeiro de pessoas entrando e saindo de um edifício de governo movimentado — com exceção, veja só, de uma miserável orquestra completa de mulheres. Fizeram uma confusão infernal numa sala de concertos que tem ali. Parte do bloco aloja o Ministério da Cultura. Fora disso nada — certamente nenhuma das pessoas da KGB que conhecemos, nem sinais de preparação para um serviço deste gênero. Mas nem pode haver sinais. São muito cuidadosos estes sujeitos da oposição. De qualquer maneira, dê uma boa olhada. Não esqueça que agora está mais escuro do que amanhã por volta das seis. Mas você pode formar um quadro geral.
Bond formou o quadro geral e o quadro ficou com ele muito tempo enquanto o outro homem já dormia e ressonava suavemente com um pequeno som regular que lembrava um fraco estalido — um ronco Wykehamista, refletiu Bond irritado.
Sim, tinha formado o quadro — o quadro de um lampejo movimento entre as ruínas sombreadas no outro lado do brilhante rio de luz, uma pausa, e então a desesperada corrida em ziguezague de um homem sob o impacto luminoso das lâmpadas, o espocar da arma de fogo e, ou um fardo retorcido espalhado no meio da rua larga, ou então a investida sempre em frente através do capinzal e do entulho no Setor Ocidental — morte súbita ou volta a casa. O grande desafio! Quanto tempo teria Bond para localizar o tocaia russo numa daquelas janelas escuras? E para matá-lo? Cinco segundos? Dez? Quando o amanhecer começava a cobrir as cortinas com o tom metálico das armas, Bond capitulou para sua mente agitada. Ela tinha ganho. Foi em silêncio até o banheiro e inspecionou as fileiras de remédios que um prestimoso Serviço Secreto tinha providenciado para manter o seu carrasco em boa forma. Escolheu o Tuinal, engoliu duas das cápsulas concentradas, rubis e azuis, com um copo de água e voltou à cama. Então, chumbado, dormiu.
Acordou ao meio-dia. O apartamento estava vazio. Bond abriu as cortinas para deixar entrar o dia cinzento prussiano e, de pé a uma boa distância da janela, ficou vendo a monotonia de Berlim e ouvindo o ruído dos bondes e o arranhar distante dos trens da U-Bahn na grande curva de entrada da estação do Zoo. Lançou um olhar rápido e relutante ao que já tinha examinado na noite anterior, notou que o capim no entulho de bombardeio era mais ou menos o mesmo de Londres — loendro, labaçol e samambaia — e dirigiu-se então à cozinha. Havia uma nota apoiada numa fatia de pão: “Meu amigo (eufemismo do Serviço Secreto que neste contexto significava o chefe de Sender) diz que não há mal em você sair. Mas esteja de volta às 17 horas. Seu equipamento (outra palavra para o rifle de Bond) chegou e o bagageiro a entregará esta tarde. P. Sender.”
Bond acendeu o fogão a gás e queimou a mensagem com desprezo por sua profissão e em seguida preparou um prato enorme de ovos mexidos e bacon que amontoou sobre uma torrada coberta de manteiga e comeu com acompanhamento de café preto no qual derramara uma porção liberal de uísque. Depois tomou um banho e barbeou-se, vestiu as roupas descoloridas, centro-europeias e anônimas que tinha trazido para a sua missão, olhou a sua cama em desordem, decidiu que tudo fosse para o inferno e desceu pelo elevador deixando o edifício.
James Bond sempre achara Berlim uma cidade deprimente e hostil, esmaltada no lado Ocidental com o verniz superficial de um polimento pretensioso parecido com os enfeites cromados dos carros americanos. Caminhou até a Kurfurstendamm, sentou-se no Café Marquardt, tomou um expresso e ficou observando com tédio as filas obedientes de pedestres esperando o sinal “Siga” nos postes de trânsito enquanto a corrente luminosa de carros continuava a sua perigosa quadrilha na movimentada intersecção. Fazia frio lá fora e o vento cortante das estepes russas fustigava as saias das garotas e os impermeáveis dos homens impacientes e apressados, cada um com a infalível pasta enfiada debaixo do braço. Os aquecedores de parede infravermelhos do café apontavam o vermelho para baixo e davam um brilho espúrio ao rosto dos cafeinômanos que degustavam sua tradicional “uma xícara de café e dez copos de água”, lendo de graça os jornais e revistas presos por paus, ou se curvavam com seriedade sobre papéis de negócios. Bond, fechando o pensamento para a noite, discutia consigo mesmo as maneiras de passar a tarde. Finalmente chegou à escolha entre uma visita àquela casa de respeitável fachada de pedra, na Clausewitzstrasse, conhecida de todos os porteiros e choferes de táxi, ou um passeio ao Wannsee e uma vigorosa caminhada no Grunewald. A virtude triunfou. Bond pagou o café, saiu no frio e tomou um táxi até a estação do Zoo.
As belas arvorezinhas jovens em volta do lago extenso já tinham sido tocadas pelo sopro do outono e havia um dourado aqui e ali no meio do verde. Bond caminhou com energia durante duas horas pelas veredas cobertas de folhas e então escolheu um restaurante com terraço envidraçado sobre o lago e saboreou com prazer um chá reforçado consistindo de uma porção dupla de arenques do Norte mergulhados em creme e anéis de cebola, e dois Molle mit Korn, o equivalente berlinense de um “fabricante de caldeiras e seu assistente” — schnapps, duplos, acompanhados por um chope Löwenbräu. Sentindo-se então mais animado tomou a S-Bahn para voltar à cidade.
Em frente do prédio de apartamentos, um jovem indefinível estava mexendo no motor de um Opel Kapitan negro. O jovem não tirou a cabeça debaixo do capo quando Bond passou bem perto dele e subiu até a porta e apertou o botão.
CONTINUA
Quando chegou embaixo, sentou-se no musgo, sob os abetos. Estendeu no chão a camisa, colocou no centro dela as barras de ouro e fez uma trouxa, amarrando bem as fraldas e as mangas. Depois, cavou um buraco no chão e enterrou a caixa metálica vazia. E vergando ao peso, quase dobrado em dois, caminhou pela estreita trilha, entre os pinheiros, rumo ao jipe. Até aquele dia não conseguira saber como tivera forças para alcançar o veículo. Os nós que dera na trouxa pareciam penetrar nas carnes de seu ombro, sob o peso das barras de ouro. Quando, finalmente, alcançou o jipe, quase teve um colapso, tão exausto estava. Mas não podia descansar, ainda. Precisava sair dali para enterrar o seu tesouro na floresta, perto de um grupo de grandes rochas, onde lhe seria fácil encontrá-lo de novo, na ocasião oportuna em dia, quando o horizonte estivesse limpo, voltaria, por outra rota, evitando o chalé de Oberhauser. Só então, terminado tudo, fora embebedar-se com uma garrafa de schnapps barato. Jantou e meteu-se na cama, para dormir como uma pedra. No dia seguinte, a Força A da DAG seguiu para o vale do Mittersill. Seis meses depois o Major Smythe estava em Londres. A sua guerra havia terminado. Mas os seus problemas, não. Ouro era coisa difícil de contrabandear, principalmente em grande quantidade. E era essencial que o Major Smythe transferisse as suas barras para um novo esconderijo. Por isso, ele procurou evitar a desmobilização e gozar os privilégios de seu comissionamento temporário, sobretudo o seu passe do Serviço Secreto Militar. Conseguiu ser mandado de volta para a Alemanha, como representante da Inglaterra no Centro Misto de Investigação de Munique. Aí, trabalhou durante seis meses e, nesse período, teve a oportunidade de recuperar o ouro, que levou para o seu alojamento numa velha valise. Depois, em dois fins de semana, fez viagens aéreas para Londres, levando, de cada vez, uma barra de ouro, em sua volumosa pasta. A caminhada nos aeroportos de Munique e de Londres, com a pasta sob o braço, como se contivesse apenas papéis, exigira dois tabletes de benzedrina e uma vontade de ferro. Finalmente, pôde esconder sua fortuna no porão da casa de uma tia, em Kensington, e assim, com tranquilidade, pôde desenvolver a parte final de seus planos. Pediu reforma nos Fuzileiros Reais e, uma vez desmobilizado, casou-se com uma das muitas moças com quem tivera aventuras durante o serviço da DAG, uma graciosa Wren chamada Maria Parnell. Comprou passagem para ambos num cargueiro para a Jamaica, que representava, para ambos, um paraíso ensolarado, com boa e farta comida, bebida barata, sem a melancolia e as restrições impostas na Inglaterra, após a guerra, pelo severo governo trabalhista. Antes do embarque, o Major Smythe mostrou a Mary as barras de ouro, das quais já havia raspado a cinzel os símbolos do Reichsbank.
— Tenho sido muito econômico e esperto, meu bem — disse ele. — Não confio na libra. Por isso, vendi todas as minhas ações e comprei um bocado de ouro. Teremos pelo menos 20 mil libras, se eu o vender bem. Isso basta para nos assegurar uma boa vida, até o fim dos nossos dias. Sempre que for preciso, eu venderei um pouquinho — explicou.
Mary Parnell não era familiarizada com as leis monetárias. Mas se ajoelhou e passou as mãos, carinhosamente, sobre as barras de ouro. Depois, com os braços ao redor do pescoço do marido, beijou-o e disse, quase em lágrimas: — Você é um homem maravilhoso... Sim, maravilhoso! Terrivelmente inteligente, bonito, simpático, herói da guerra e, além do mais, rico! Eu sou a garota mais feliz do mundo!
— Você tem razão pelo menos numa coisa: ricos, nós somos. Mas prometa não dizer uma só palavra a quem quer que seja! Pois, se disser, todos os ladrões da Jamaica irão rondar a nossa casa.. .
O Prince’s Club, ao pé das colinas que dominam os arredores de Kensington, era realmente esplêndido. Para os seus sócios, não havia nada melhor: maravilhosa criadagem, comida farta, bebida barata, belíssimos cenários tropicais, como nunca tinham visto antes. O casal era muito popular e os serviços de guerra do Major Smythe lhe davam ingresso na alta sociedade local e na Government House. A vida de ambos era uma série interminável de festas, misturadas com o tênis de Mary e o golfe do major (com os bastões metálicos de Henry Cotton!) durante o dia, e partidas de bridge (para ela) e de pôquer (para ele) durante as noites. Sim, era um paraíso, porque, na Inglaterra, havia racionamento, filas e mercado negro, um governo atroz e o pior inverno dos últimos trinta anos. A princípio, o casal enfrentou as despesas com as economias em dinheiro, que ambos haviam reunido, enquanto se vestiam, se alimentavam e se transportavam à custa do Exército. Só depois de um ano de cautelosas investigações é que o Major Smythe se decidiu a fazer negócio com os irmãos Fu, comerciantes importadores e exportadores. Altamente respeitados e muito ricos, os irmãos Fu eram conhecidos como uma espécie de junta governativa da comunidade chinesa da Jamaica. Ainda que alguns dos seus negócios se desviassem das boas normas, segundo a tradição chinesa, Smythe achou que poderia confiar neles. A Convenção de Bretton Woods, fixando um preço internacional para o ouro, sob rigoroso controle, tinha sido assinada deixando de parte Tânger e Macau, dois portos livres, em que a onça de ouro valia entre 99 e 100 dólares, quando nos outros lugares o preço oficial era de 35. E, para maior conveniência de seus negócios, os Fu tinham aberto um restaurante em Hong-Kong, transformado em entreposto para o contrabando de ouro para a vizinha Macau. Isso, na linguagem do Major Smythe, era sopa no mel. Ele tivera um agradável encontro com os Fu. Nenhuma pergunta estes fizeram, senão depois do exame das barras de ouro.
— Major — disse o mais velho dos irmãos —, no mercado de ouro em barras, as marcas dos bancos nacionais e dos negociantes respeitáveis são aceitos sem discussão. Essas marcas são a garantia da pureza do ouro. Mas outros bancos e outros vendedores têm seus próprios processos de refinação, que talvez, não sejam tão perfeitos...
— Quer dizer que eu fui enganado? — Perguntou, ansiosamente, o major. — Que isso não é senão uma barra de chumbo coberta de uma leve camada de ouro?
Os dois irmãos deram muxoxos tranquilizadores:
— Não, não, major... Não se trata disso. Mas, se uma pessoa não se recorda da proveniência dessas barras de ouro, por mais finas que elas sejam é sempre necessário submetê-las a um ensaio, para verificação do seu exato teor... Há muitos métodos para determinar o grau de pureza dessas barras. Meu irmão e eu somos competentes em qualquer deles. Quer deixar as barras de ouro conosco e vir saber o resultado depois do almoço? Nós lhe daremos um recibo...
Não havia alternativa. Teria que confiar nos Fu. Qualquer que fosse o preço por eles arbitrado, seria forçado a aceitar. Estava nas mãos deles. Foi a um bar, onde tomou dois drinques fortes e comeu um sanduíche que lhe ficou atravessado na garganta. Depois, voltou ao escritório refrigerado dos Fu. O cenário era o mesmo: os dois irmãos sorridentes, as duas barras de ouro, a pasta de couro, etc. Só havia a mais uma folha de papel e uma caneta-tinteiro de pena de ouro, em frente do irmão mais velho.
— Resolvemos o problema do seu ouro, major! — (Esplêndido! Obrigado, pensou Smythe.) — E estou certo de que o senhor terá interesse em conhecer sua origem...
— Claro! Qual é? — Fez o major, com uma corajosa demonstração de entusiasmo.
— São barras de ouro alemãs! Provavelmente saíram dos depósitos do Reichsbank, durante a guerra. Isso pode ser deduzido do fato de que contêm dez porcento de chumbo. Durante o regime de Hitler, o Reichsbank fez a tolice de adulterar por esse modo o seu ouro. Isso logo se espalhou e o preço das barras de ouro alemãs, vendidas na Suíça, sofreu logo uma redução de preço, correspondente à adulteração. Foi uma bobagem, que só teve um resultado: o banco nacional da Alemanha perdeu a reputação que conquistara durante séculos... Bobagem... Uma grandíssima bobagem... — Concluiu o chinês, com o seu invariável sorriso.
O Major Smythe estava maravilhado com a onisciência desses dois homens, tão afastados dos grandes canais de comércio do mundo. Mas ao mesmo tempo os amaldiçoava, intimamente. E agora?
— É muito interessante, Sr. Fu... Mas isso não é uma boa notícia para mim. Essas barras de ouro me foram entregues como coisa cem por cento...
— Não tem importância, major — disse o mais velho dos Fu. — Ou melhor, quase não tem importância. Venderemos o seu ouro pelo justo valor, ou seja, 89 dólares a onça. Terá que ser, ou não, refinado pelo último comprador. Mas isso não é da nossa conta. Nós o venderemos também como cem por cento...
— Mas a um preço mais baixo...
— Realmente, major. Mas creio que temos uma boa notícia para o senhor. Quanto calculava obter com essas duas barras?
— Cerca de 20 mil libras...
— Se as vendermos bem e aos pouquinhos — disse o mais velho dos Fu —, o senhor receberá mais de 100 mil dólares, major, sujeitos, é claro, ao desconto da nossa comissão, que inclui o transporte e outras despesas.
— E a quanto montará isso?
— Estou pensando em fixar em 10 por cento, major. Se lhe parecer satisfatório...
O Major Smythe tinha a impressão de que vendedores de ouro em barras recebiam apenas um por cento de comissão. Mas, que diabo, antes do almoço já estava disposto a largar tudo até por 10 mil libras. Disse “fechado” e levantou-se, estendendo a mão através da mesa. Desde então, de quatro em quatro meses, ia visitar o escritório dos Fu, levando uma valise vazia. Havia sempre quinhentas libras novas, da emissão da Jamaica, em pacotes, sobre a mesa, à sua espera, e um recibo da quantidade vendida, com o preço alcançado em Macau. As barras de ouro diminuíam de tamanho, de polegada em polegada. O negócio era simples e cordial. Duas mil libras limpas, por ano, eram o bastante para ele, e só o afligia a possibilidade de que o pessoal do imposto de renda começasse a apertá-lo, para saber do que estava vivendo. Ele disse isso aos Fu, que lhe fizeram saber que não precisava se preocupar. Nas duas vezes seguintes, havia apenas quatrocentas libras na mesa, mas nenhum comentário foi feito, por qualquer dos lados. E assim os dias iam se passando, preguiçosamente. Os Smythes engordavam e o major teve a primeira das duas complicações das coronárias. O médico lhe recomendou uma vida menos ativa, com menos álcool e menos cigarros. Evitasse, também, as gorduras e as comidas fritas. A princípio, Mary tentou ser severa com ele, mas quando o marido começou a beber escondido e a inventar pequenas mentiras e evasivas, ela recuou desse propósito. Teve medo de se transformar numa chata doméstica, a quem o Major Smythe passaria a evitar. Por isso, deu-lhe inteira liberdade, sabendo que ele não mais a amava, e quando a sua solidão se tornou demasiada e as insônias intoleráveis, viciou-se em tomar soníferos. Uma noite, depois de uma violenta briga, estando ambos embriagados, tomou ela uma dose excessiva, só “para dar-lhe uma lição”. A dose era tão exagerada que a matou. O suicídio foi dissimulado, mas ainda assim recaíram suspeitas sobre o major, em prejuízo de sua reputação social. E a tal ponto que ele teve de se retirar para North Shore que, embora a apenas três milhas de Kensington, parece pertencer a um outro mundo. Aí ele se instalou em Wavelets e, depois da segunda complicação das coronárias, começou a beber desenfreadamente. Foi então que entrou em cena James Bond com um mandado de prisão ou de morte no bolso.
O Major Smythe olhou para o relógio. Passavam alguns minutos do meio-dia. Ele se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale e foi para o jardim. James Bond estava sentado sob a frondosa amendoeira, olhando para o lar. Nem se voltou para o Major Smythe quando este puxou outra cadeira de alumínio e colocou o copo na relva, perto dele. Quando o Major Smythe acabou de narrar a sua história, James Bond disse, sem demonstrar qualquer emoção: — Era mais ou menos isso o que eu havia pensado...
— Quer que eu escreva tudo ou apenas assine?
— Faça como quiser. Mas isso não se entende comigo. Deve entregar à Corte Marcial. Seu velho Corpo de Fuzileiros Reais é que vai tomar conta do caso. Não tenho nada que ver com os aspectos legais. Farei apenas um relatório do que me disse, para a Procuradoria da Justiça, através da Scotland Yard...
— Posso perguntar uma coisa? Como foi que descobriu?
— A geleira era pequena. O corpo de Oberhauser chegou embaixo no início deste ano, quando as neves da primavera derreteram. Alguns alpinistas o encontraram. Todos os seus papéis e tudo o mais estava perfeito. A família o identificou. Depois, foi só uma questão de recuar no tempo. O calibre das balas deu logo a pista...
— Mas como se envolveu neste assunto?
— A Força da DAG era uma das minhas responsabilidades, um dos meus serviços. Quando o assunto chegou ao meu conhecimento, fui dar uma busca nos arquivos. Como tinha tempo livre, pedi que me entregassem a missão de descobrir o autor da morte de Oberhauser...
— Por quê?
— Porque — e James Bond fixou os olhos do Major Smythe — acontece que Oberhauser era um velho amigo meu. Foi quem me ensinou a esquiar quando eu tinha pouco mais de dez anos. Era um esplêndido sujeito. Foi uma espécie de pai para mim, precisamente na época em que eu mais precisava de um...
— Compreendo. — E o Major Smythe desviou o olhar. — Sinto muito...
James Bond se levantou:
— Bem, preciso voltar a Kensington. — E levantou a mão, para deter o major. — Não, não precisa incomodar-se. Sei onde o carro ficou... — Olhou para o homem mais velho e disse, rispidamente, quase com brutalidade: — Dentro de uma semana, alguém virá buscá-lo...
E caminhou, em passos firmes, sem se voltar, pela alameda afora. O major ouviu o ruído do arranque do motor e o chiado dos pneus do táxi nas pedrinhas miúdas da estrada.
Agora, ele procurava a sua presa, ao longo do recife de coral, pensando exatamente no sentido das palavras de James Bond. E sorriu por trás da máscara Pirelli. Era uma versão nova de um velho dramalhão, que consistia em deixar uma pistola com o oficial culpado, para que este mesmo estourasse os miolos. Se James Bond quisesse, poderia ter telefonado para a Government House e pedido um oficial de igual patente do Regimento da Jamaica para levar preso o Major Smythe. De certo modo, o seu gesto fora decente. Ou não fora? Um suicídio era mais limpo, economizava uma porção de trabalho e de papéis, que consumiriam o dinheiro dos contribuintes. Devia agradecer a James Bond a solução que ele parecia sugerir? Acaso encontraria Mary no lugar para onde vão as almas dos suicidas? Ou era melhor a Corte Marcial, a indignidade, as formalidades cacetes, as manchetes, o aborrecimento e a solidão de uma prisão perpétua, da qual só o livraria a terceira crise das coronárias? Poderia defender-se: era tempo de guerra, lutara com Oberhauser no alto da montanha, ele era um prisioneiro e tentara fugir... Oberhauser sabia do esconderijo do dinheiro... E ele, pobre oficial dos Comandos, tantas vezes arriscando a vida pela pátria, fora fraco e não resistira à tentação... Poderia entregar-se dramaticamente à misericórdia do Tribunal Militar... Um coronel certamente seria designado para defendê-lo e o faria com a maior eloquência. Poderia haver um apelo à Corte Suprema. Seu caso comoveria a Inglaterra e se tornaria uma cause célebre. Venderia sua história, com as reminiscências de guerra, aos grandes jornais... Mas...
Cuidado, meu velho! Cuidado! Seus pés agora tocavam o chão, sob as ondas que encrespavam a superfície da praia de North Shore. Por onde estariam os peixes-escorpiões? O polvinho querido estava faminto, esperando o seu almoço. Apurando a vista, perto do recife de coral, o Major Smythe viu as antenas de um lagostim, acenando inquisitivamente para ele. Normalmente, ele se esqueceria de tudo, para capturar o lagostim, que era, talvez, o maior que até então encontrara. Mas agora só tinha uma preocupação: a de descobrir a silhueta irregular e provocante do peixe-escorpião. Só depois de mais dez minutos de busca encontraria o primeiro. Os olhos vermelhos e zangados do peixe, muito abertos, o observavam. Para fisgá-lo, com o arpão, teria que fazer uma investida rápida, na vertical, firme e certeira. Sabia que as agulhas envenenadas se projetariam para fora da cabeça pontiaguda do monstro. Tinha que se mover lentamente, na direção do peixe, usando o braço livre para nadar. E... Agora! Avançou, para a frente e para baixo, mas o peixe-escorpião sentira a aproximação do arpão antes que este o tocasse. Uma lufada de areia se levantou do fundo do mar, atingido pelo golpe. E qualquer coisa roça em seu corpo, dando a impressão do voo de um pássaro. O major praguejou e fez meia volta, dentro da água. Sim, o peixe-escorpião fizera o que tantas vezes fazia: fora buscar refúgio entre as algas e as rochas, confiante em sua soberba camuflagem. O major voltou à carga, em novo mergulho, dessa vez ainda mais atento, e zás! O peixe-escorpião se agitava, agora, na ponta do arpão. A excitação foi tão grande que o Major Smythe vacilou e sentiu a antiga dor oprimir-lhe o peito. Pôs-se de pé, firmou o arpão contra a areia, atravessando inteiramente a presa, que ainda se agitava desesperadamente, e dirigiu-se à praia, indo sentar-se num banco de madeira, ao lado do qual atirou o peixe, fisgado, a se debater. Uns cinco minutos depois, o Major Smythe sentiu uma curiosa dormência na região do plexo solar. Olhou para baixo e estremeceu, de horror e incredulidade. Uma região de sua pele, com o tamanho aproximado de uma bola de críquete, tornara-se impressionantemente branca, a despeito do bronzeado de seu busto. No centro dessa área, havia três pequenas manchas sanguíneas. Automaticamente, o Major Smythe limpou o sangue. Os furos eram do tamanho de picadas de agulhas. Ele se lembrou, então, da fuga do peixe-escorpião, quando tentara arpoá-lo da primeira vez, e exclamou alto, com pavor, mas sem animosidade: — Tu me apanhaste, bastardo! Tu me apanhaste!
Imóvel, olhava para o próprio corpo, recordando-se do que lera sobre os ferrões do peixe-escorpião no livro que tomara emprestado à biblioteca do Instituto e nunca devolvera — Perigosos Animais Marinhos, publicação norte-americana. Tocou delicadamente a pele da área atingida. Sim, a pele se tinha tornado intumescida e de todo insensível, mas por baixo começava a sentir dor. Em breve essa dor profunda e intensa percorreria o seu corpo inteiro, tão lancinante que o seu único desejo seria o de deitar-se na areia, gritando e rolando, para abafá-la. Vomitaria e deitaria espuma pela boca, teria delírio e convulsões, até perder a consciência. Então, sobreviria, inevitável, o colapso cardíaco mortal. De acordo com o livro, o ciclo completo desses tormentos não passaria de um quarto de hora. Era tudo quanto lhe restava: quinze minutos de atroz agonia! Haveria cura, é claro — com procaínas, antibióticos e anti-histamínicos —, se seu coração debilitado suportasse tais medicamentos. Mas estes deviam estar à mão. Mesmo que conseguisse chegar em casa e admitindo que Jimmy Greaves dispusesse de todos esses remédios modernos, ele não poderia alcançar Wavelets antes de uma hora.
A primeira descarga de dor fez o corpo do Major Smythe dobrar-se sobre si mesmo. Depois outra e mais outra, irradiando-se através do estômago e dos membros. Sentia um gosto metálico na boca e uma coceira insuportável nos lábios. Deixou escapar um gemido e saltou do banco para a praia. Sobre a areia, ainda arquejava o peixe-escorpião. Houve uma trégua nos espasmos da dor. Seu corpo inteiro estava em fogo. Apesar da agonia o raciocínio permanecia claro. Mas, ora essa! Ia esquecendo a experiência! Devia ir à loca do polvo, para servir seu almoço! “Polvo, polvinho, vai ser a última refeição que eu te dou!”, dizia a si mesmo o Major Smythe, ajustando a máscara no rosto. Depois, apanhou o arpão, com o peixe espetado e, apertando o estômago com a mão livre, caminhou pela água adentro e, depois, mergulhou junto ao recife de coral. Poucas jardas o separavam agora do polvo. E foi gritando dentro da máscara, arrastando-se, quase de joelhos, que ele as percorreu. À medida que a água se tornava mais profunda, a dor se fazia mais intensa e seus movimentos pareciam com os de um fantoche, impulsionado por um feixe de cordéis. Só a poder de uma grande força de vontade pôde continuar rumo à morada do polvo. Sim, a sua massa escura ainda estava lá! E parecia excitadíssima. Por quê? O Major Smythe viu que as feridas de seu peito vertiam filetes de sangue escuro, que se diluía na água do mar. Era claro! O querido polvo sentira o gosto do seu sangue. Uma descarga de dor atingiu o major e o fez vergar-se. Disse a si mesmo, em delírio: “Que é isso, Dexter?! Firme, meu velho. Você tem que dar almoço ao polvinho”. Endireitou-se, empunhando o arpão com firmeza e aproximando o peixe da toca do polvo. Aceitaria ele a isca envenenada que o Major Smythe lhe oferecia e à qual talvez um octópode poderia ser imune? Ah, se Bengry estivesse presente, para observar! Três tentáculos, ondulando excitadamente, saíram da loca e passearam ao redor do peixe-escorpião. Agora, havia uma espécie de nevoeiro diante dos olhos do Major Smythe. Reconhecendo estar à beira da inconsciência, ele agitou fracamente a cabeça, para dissipá-lo. E, então, os tentáculos deram um salto! Mas não para o peixe: apertaram a mão e o braço que empunhavam o arpão. A boca do Major Smythe se torceu, numa careta de prazer. Agora, ele e o polvo podiam se apertar as mãos! Como era excitante! Que coisa maravilhosa! Mas o polvo, calma e implacavelmente, continuou a enroscar os seus tentáculos e a chamar a si o corpo do major. Só então Smythe compreendeu que algo de terrível ia acontecer. Fez um apelo a todas as suas forças e tentou golpear o octópode com o arpão. Mas tudo quanto conseguiu foi bater com o peixe-escorpião na massa escura do polvo. E, com o movimento que fez, ofereceu-se ainda mais a este, que o atraía de forma inexorável. Tarde demais o Major Smythe retirou sua máscara. Conseguindo alcançar a superfície, soltou um grito que reboou pela baía deserta, mas logo foi puxado para baixo. E, depois de algumas bolhas de ar, vieram à tona as pernas do major. As ondas lavavam o seu corpo, enquanto o polvo fazia a primeira tentativa para devorá-lo. O resto de Smythe foram encontrados por dois jovens da Jamaica, que pescavam peixes-agulhas numa canoa. Eles mataram o polvo, recolheram o arpão do Major Smythe com o peixe-escorpião e levaram os três despojos para a praia. O cadáver do major foi entregue à polícia e o peixe-escorpião aproveitado para a ceia. O destino do polvo de estimação seria também a panela ... O correspondente do Daily Gleaner em North Shore comunicou que o Major Smythe tinha sido morto por um polvo. Mas a redação do jornal, para não alarmar os turistas, preferiu dizer que ele “fora encontrado afogado”. Mais tarde, em Londres, James Bond, embora certo de que se tratara de um suicídio, anotou no dossier Oberhauser a versão do afogamento, com a respectiva data, na última página, o que encerrava o assunto. Somente pelas notas do Dr. Greaves sobre a autópsia, por ele mesmo realizada, é que foi possível escrever esta espécie de post-scriptum sobre o estranho e patético fim do outrora corajoso e útil oficial do Serviço Secreto.
Encontro em Berlim
(THE LIVING DAYLIGHTS)
James Bond estendia-se em posição na marca das quinhentas jardas da famosa linha de tiro Century Range, em Bisley. A pequena estaca branca na grama a seu lado dizia 44 e o mesmo número se repetia bem alto no talude distante acima do solitário alvo de seis pés quadrados que, ao olho humano e no crepúsculo do fim de verão, não parecia maior que um selo de correio. Mas a luneta de Bond, uma Sniperscope infravermelha fixada sobre o seu rifle, cobria todo o quadro. Ele podia até distinguir com clareza as cores azul-pálido e bege em que se dividia o alvo, e a mosca semicircular de seis polegadas parecia tão grande como a meia lua que já começava a se mostrar baixa no céu que escurecia acima da crista remota de Chobham Ridges.
O último tiro de James Bond fora um esquerdo interno — não o satisfizera. Deu uma outra olhada às bandeiras de vento amarelas e azuis. Tremulavam do leste através da linha de tiro mais intensamente do que quando tinha começado o seu tiro meia hora antes, e ele mudou o anemômetro dois pontos para a direita e assestou os dois fios cruzados da Sniperscope de volta ao foco de mira. Instalou-se então, colocou o indicador de leve dentro da guarda e sobre a curva do gatilho, prendeu a respiração e muito, muito suavemente apertou.
O estampido vicioso ecoou ao longo do campo vazio. O alvo desapareceu abaixo do solo e imediatamente o “boneco” tomou o seu lugar. Sim, a marca negra estava embaixo no canto direito desta vez, não no canto esquerdo: mosca.
— Bom — disse a voz do oficial chefe da linha, atrás e acima dele. — Fique com a mira.
O alvo já subira de novo e Bond recolocou a bochecha sobre o trecho quente da volumosa coronha de madeira e o olho na borracha que cerca a ocular da luneta. Enxugou a mão de atirar contra o lado das calças e pegou na coronha da pistola que sobressaía angulosamente da guarda do gatilho. Abriu de uma polegada o ângulo das pernas. Agora haveria cinco descargas rápidas. Era interessante ver se isso não provocaria “desgaste”. Ele achava que não. Esta arma extraordinária que o armeiro tinha descoberto sabe lá como dava à gente a sensação de que um homem de pé à distância de uma milha seria prato fácil. Era mais um rifle Experimental de Alvo Internacional, calibre 308, construído pela Winchester para ajudar os ases americanos do tiro em campeonatos mundiais, e tinha os dispositivos usuais das armas de alvo superacuradas — uma “mão” espiralada de alumínio nas costas da coronha que se estendia debaixo da axila e mantinha a arma com firmeza junto ao ombro, e uma pequena roda dentada ajustável abaixo do centro de gravidade do rifle para permitir que ele “se agarrasse” ao sulco do seu descanso de madeira. O armeiro tinha mandado trocar o ferrolho de tiro único usual por um depósito de cinco tiros, e tinha garantido a Bond que se ele deixasse apenas dois segundos entre cada tiro para estabilizar a arma não haveria desgaste, mesmo a quinhentas jardas. Para o serviço que devia fazer, Bond achava que dois segundos poderiam representar uma perda perigosa de tempo se errasse o seu primeiro tiro. De qualquer forma, M dissera que a distância não seria maior que trezentas jardas. Bond encurtaria o tempo para um segundo — fogo quase contínuo.
— Pronto?
— Sim.
— Vou à contagem regressiva de cinco. Agora! Cinco, quatro, três, dois, um. Fogo!
O chão tremeu ligeiramente e o ar silvou enquanto as cinco cápsulas velozes de cuproníquel varejavam o crepúsculo. O alvo baixou e rapidamente voltou a erguer-se condecorado com quatro pequenos discos brancos agrupados bem juntos na mosca. Não houve nenhum quinto disco — nem mesmo um negro para indicar um interno ou externo.
— A última descarga foi baixa — disse o chefe da linha baixando seus binóculos noturnos. — Obrigado pela contribuição. Limpamos a areia atrás daqueles alvos todo fim de ano.
Nunca recolhemos menos de quinze toneladas de estilhaços em legítimo chumbo e cobre. Um bom dinheiro.
Bond tinha-se levantado. O cabo Menzies da seção dos armeiros surgiu do pavilhão do Clube de Tiro e ajoelhou-se para desmontar a Winchester e o seu descanso. Olhou para cima encarando Bond. Disse com uma ponta de crítica. — O senhor tocou a coisa um pouco rápido. A última descarga tinha de escoicear.
— Eu sei, cabo. Só queria ver com que rapidez eu podia tocar. Não quero pôr a culpa na arma. É um trabalho enxuto, infernal. Por favor, diga isso por mim ao armeiro. Agora é melhor ir andando. Você tem condução de volta a Londres, não?
— Tenho, sim senhor. Boa noite.
O oficial chefe da Linha entregou a Bond uma ficha de seu tiro — dois tiros de ensaio e depois dez descargas para cada cem jardas até as quinhentas. — Pontaria danada de boa com esta visibilidade. Você devia voltar aqui o ano que vem e tentar o Prêmio da Rainha. Hoje em dia está aberto para todos — isto é, da Comunidade Britânica.
— Obrigado. O problema é que não passo tanto tempo assim na Inglaterra. E muito obrigado por ter feito a marcação para mim.
Bond olhou para a distante Torre do Relógio. De cada lado, a bandeira vermelha de perigo e o tambor vermelho de sinalização estavam sendo arriados para mostrar que o tiroteio tinha cessado. Os braços marcavam nove e quinze. — Gostaria de oferecer-lhe um drinque, mas tenho um encontro em Londres. Podemos adiá-lo até o Prêmio da Rainha de que você estava falando?
O chefe da Linha fez que sim com a cabeça, neutramente. Ele tinha aguardado ansioso a oportunidade de conhecer mais coisas sobre este homem que surgira assim sem mais nem menos depois de uma série de avisos do Ministério da Defesa e fora em frente acertando bem mais de noventa porcento em todas as distâncias, isso depois de fechada a linha para a noite e com visibilidade entre sofrível e má. E por que tinha ele, que só oficiava no encontro anual de julho, sido escalado para estar presente? E por que lhe tinham dito para providenciar uma mosca de seis polegadas a 500 jardas para Bond, em vez da regulamentar de quinze polegadas? E por que todos esses cuidados com a bandeira de perigo e o tambor de sinalização que só se usavam em ocasiões cerimoniais? Para pressionar o homem? Para dar um clima de urgência ao tiro? Bond. Comandante James Bond. A A.N.R. certamente teria a ficha de uma pessoa que atirava tão bem assim. Não se esqueceria de dar-lhes um telefonema. Que hora estranha para um compromisso em Londres. Provavelmente uma garota. O rosto do chefe da Linha assumiu uma expressão de desagrado. O tipo do sujeito que apanhava todas as garotas que queria.
Os dois homens caminharam através da bela fachada da sede do clube além da linha de tiro até o carro de Bond que estava estacionado diante de uma reprodução em ferro do famoso “Veado em Fuga” de Landseer toda picotada de balaços. — Uma beleza de carro — comentou o chefe da Linha. Nunca vi uma carroçaria assim num Continental. Mandou fazê-la especialmente?
— Mandei. Os Sports Saloons na verdade só têm dois lugares. E muito pouco espaço para bagagem. Por isso pedi a Mulliner’s que o transformassem num verdadeiro dois-lugares e com porta-malas de sobra. Um carro egoísta, não há dúvida. Bem, boa noite. E novamente muito obrigado.
O escape roncou com saúde e as rodas traseiras cuspiram cascalho por um instante.
O oficial chefe da Linha observou os faróis rubis desaparecerem na King’s Avenue a caminho da estrada de Londres. Girou nos calcanhares e foi procurar o cabo Menzies numa busca de informação que terminaria sem frutos. O cabo permaneceu tão fechado como a grande caixa de mogno que estava colocando num Land-Rover caqui, limpo de símbolos militares. O chefe da Linha era um major. Tentou apelar para a hierarquia, mas sem êxito. O Land-Rover afastou-se rodando no rastro de Bond. O major dirigiu-se soturno aos escritórios da Associação Nacional do Rifle para tentar achar a informação que queria na biblioteca sob o nome “Bond, J.”
O compromisso de James Bond não era com uma garota. Era com um voo da B.E.A. para Hanover e Berlim. Enquanto engolia as milhas que o separavam do Aeroporto de Londres, pisando firme o grande carro a fim de ter tempo de sobra para um drinque, três drinques, antes da decolagem, apenas uma parte de sua mente fixava-se na estrada. O restante reexaminava pela enésima vez a sequência que agora o conduzia a um encontro com um aeroplano. Mas apenas um encontro provisório. Seu compromisso final numa das três próximas noites em Berlim era com um homem. Tinha que se encontrar com esse homem e infalivelmente matá-lo com um tiro.
Quando, por volta de duas e meia daquela tarde, James Bond atravessara as portas duplamente acolchoadas e sentara-se em frente do perfil voltado, do outro lado da grande escrivaninha, sentira imediatamente o perigo no ar. Não houve troca de cumprimentos. A cabeça de M afundava-se no colarinho duro numa pose churchilliana de sombria reflexão, e havia um traço de amargura nos cantos dos lábios. Girou a cadeira para encarar Bond, passou-lhe um olhar examinador como se, pensou Bond, quisesse verificar se sua gravata estava direita e o cabelo adequadamente penteado, e então começou a falar, rapidamente, atalhando suas sentenças como se desejasse ver-se livre do que estava dizendo, e de Bond, o mais depressa possível.
— O número 272. É um bom homem. Você talvez não o conheça. Pela simples razão de que ficou naquele buraco da Novaya Zemlya desde a guerra. Agora está tentando sair — carregado de material. Atômico e foguetes. E o plano deles para toda uma nova série de testes. Para 1961. Querem avivar o fogo no Ocidente. Algo a ver com Berlim. Não vejo bem o quadro mas o Foreign Office diz que se for verdade é uma coisa tremenda. Ridiculariza a Conferência de Genebra e toda essa demagogia sobre desarmamento nuclear que o bloco comunista vem fazendo. Ele conseguiu chegar até a Berlim Oriental. Mas tem praticamente toda a KGB no seu encalço — e as forças de segurança da Alemanha Oriental, é claro. Está entocado num buraco qualquer da cidade e conseguiu passar-nos uma mensagem — de que atravessaria entre seis e sete da tarde numa das três próximas noites — amanhã, depois de amanhã ou no dia seguinte. Indicou o ponto de travessia. O problema — a curva dos lábios de M, voltada para baixo, tomou-se ainda mais amarga — é que o mensageiro que ele usou fazia jogo duplo. A estação W.B. pilhou-o ontem. Por acaso. Deu sorte com um dos códigos da KGB O mensageiro será mandado de avião para julgamento, naturalmente. Mas isso não ajudará em nada. A KGB sabe que o 272 vai tentar a travessia. Sabem quando. Sabem onde. Sabem tanto quanto sabemos e nada mais. Ora, o código que deciframos ontem era um esquema de um só dia em suas máquinas. Mas conseguimos todo o tráfico daquele dia e isso foi bastante bom. Planejam alvejá-lo ao tentar a travessia. No cruzamento de ruas entre a Berlim Leste e a Oeste que nos indicou na mensagem. Estão montando uma operação daquelas — operação “Êxtase” como a chamam. Puseram o seu melhor tocaia no serviço. Tudo o que soubemos dele ó que seu nome cifrado é a palavra russa para “Gatilho”. A estação W.B. acha que é o mesmo homem já usado em outros serviços de tocaia. Um serviço de longo alcance através da fronteira. Ficará de guarda toda noite nesse cruzamento e sua missão é acertar no 272. É óbvio que eles certamente prefeririam fazer um serviço mais suave com metralhadoras e coisas do gênero. Mas Berlim está calma no momento e parece que a ordem é ficar assim. De qualquer forma — M sacudiu os ombros — eles têm confiança nesse operador “Gatilho” e o negócio vai ser assim!
— E onde é que eu entro? — James Bond tinha adivinhado a resposta, adivinhado porque M mostrava seu desagrado com a coisa toda. Ia ser trabalho sujo e Bond, porque pertencia à Seção Zero-Zero, tinha sido escolhido para fazê-lo. Perversamente, Bond queria forçar M a pôr o preto no branco. Iam ser notícias más, notícias sujas e ele não queria ouvi-las de um dos oficiais da Seção, nem mesmo do chefe do Estado-Maior. O negócio ia ser assassínio. Está bem. Que M tenha então a coragem de me dizer.
— Onde é que você entra, 007? — M olhou friamente do outro lado da escrivaninha. — Você sabe onde é que você entra. Você tem que matar esse tocaia. E tem que matá-lo antes que acerte no 272. É tudo. Está claro? — Os olhos azuis-claros permaneceram frios como gelo. Mas Bond sabia que só ficavam assim com um esforço da vontade. M não gostava de mandar qualquer homem para um homicídio. Mas, quando isso tinha de ser feito, ele sempre assumia a sua severa e fria ação de comando. Bond sabia a razão. Era para tirar um pouco da pressão, um pouco da culpa, dos ombros do matador.
Portanto Bond, que sabia dessas coisas, decidiu agora tornar fácil e rápida a tarefa de M. Levantou-se. — Está certo, sir. Suponho que o chefe do Estado-Maior tenha tudo pronto. É melhor eu ir praticar um pouco. Não seria bom errar.
Caminhou para a porta.
M disse calmamente: — Sinto ter que lhe dar essa tarefa. Serviço desagradável. Mas tem que ser bem executado.
— Farei o melhor — James Bond saiu fechando a porta atrás de si. Não gostava do serviço mas no final preferia fazê-lo a assumir a responsabilidade de mandar alguém em seu lugar.
O chefe do Estado-Maior tinha sido apenas um pouco mais simpático. — Lamento esta sua aquisição, James — dissera ele. — Mas Tanqueray foi inflexível, não tinha ninguém suficientemente bom na estação e esse não é o tipo de serviço que se pode pedir a um soldado regular para fazer. Há uma porção de excelentes tiros na B.A.O.R., mas um alvo vivo requer outro tipo de coragem. De qualquer forma, liguei para Bisley e marquei um exercício para você esta noite às oito e quinze quando a linha estiver fechada. A visibilidade será mais ou menos a mesma que você terá em Berlim cerca de uma hora antes. O armeiro está com a arma — verdadeira obra de arte para alvejar, e vai mandá-la por um de seus homens. Você irá com a sua própria condução. Depois, há um voo de carreira para Berlim à meia-noite reservado em seu nome na B.E.A. Tome um táxi até esse endereço. — Entregou a Bond um pedaço de papel. — Suba ao quarto andar e encontrará o número 2 de Tanqueray à sua espera. Depois disso, sinto que você terá que esperar sentado pelos próximos três dias.
— E a arma? Esperam que atravesse a alfândega alemã com ela dentro de um saco de golfe ou coisa assim?
O chefe do Estado-Maior não tinha achado graça. — Seguirá pela mala diplomática. Você a receberá amanhã ao meio-dia. — Tinha estendido a mão até o bloco de avisos. — Bem, é melhor ir andando. Vou avisar a Tanqueray que está tudo combinado.
James Bond baixou o olhar para o rosto azul difuso do relógio no painel do carro. Dez e quinze. Com um pouco de sorte, amanhã a esta hora estaria tudo terminado. Afinal, era a vida deste homem “Gatilho” contra a vida do 272. Não era exatamente homicídio. Estava perto disso, no entanto. Apertou maldosamente sua buzina-de-serra tripla ao passar por um quatro portas comum, ingressou no cruzamento circular com uma derrapagem seca desnecessária, girou violentamente o volante fazendo a correção e apontou o nariz do Bentley em direção do brilho distante que era o Aeroporto de Londres.
O edifício feio de seis andares na esquina da Kochstrasse e da Wilhelmstrasse era o único de pé na desolação de um espaço vazio bombardeado. Bond pagou o táxi e gravou uma breve impressão de capim, alto como a cintura, e de paredes de entulho mal reparadas, estendendo-se na direção de um grande cruzamento deserto iluminado por um feixe central de lâmpadas amareladas em arco, antes de apertar o botão para o quarto andar e imediatamente ouviu o clique do dispositivo que abria a porta do prédio. A porta fechou-se atrás dele e caminhou então sobre o chão de cimento sem tapete até o antiquado elevador. O cheiro de repolho, cigarro barato e suor rançoso lembravam outros prédios de apartamentos na Alemanha e Europa Central. Até o arrastar e o guincho fraco do elevador vagaroso eram parte de centenas de missões em que tinha sido lançado por M, como um projétil, a algum alvo distante onde um problema aguardava a sua chegada, à espera de ser resolvido por ele. Pelo menos desta vez o comitê de recepção estava do seu lado. Desta vez não havia nada a temer no fim da escada.
O número 2 da Estação W.B. de Serviço Secreto era um homem esguio e tenso de quarenta e poucos anos. Vestia o uniforme de sua profissão — terno bem cortado e bem usado de tweed leve ponto pé-de-pato num tom verde-escuro, camisa de seda macia branca e uma velha gravata de colégio — neste caso de Wykeham. Ao ver a gravata, enquanto trocavam as saudações convencionais no pequeno saguão mofado do apartamento, o ânimo de Bond, já baixo, desceu mais um degrau. Conhecia esse tipo: espinha dorsal do Serviço Público; superestudioso e mal-amado em Winchester; um bom segundo em P.P.E. em Oxford; a guerra, cargos funcionais que teria ocupado meticulosamente; talvez uma Ordem do Império Britânico; Comissão do Controle Aliado na Alemanha, onde fora recrutado no Ramo I e a partir de então — porque era o funcionário ideal e A. 1 junto à Segurança e porque pensava em encontrar vida, drama, romance, todas as coisas que nunca linha tido — lá fora ele para o Serviço Secreto. Um homem sóbrio, cuidadoso se fizera necessário para bancar a dama de companhia de Bond neste negócio feio. O Capitão Paul Sender, que já servira na Guarda Galesa, tinha sido a escolha óbvia. E tinha aceitado. Agora, como bom Wykehamista, escondia o seu desagrado pelo serviço debaixo de uma conversa cuidadosa e banal enquanto mostrava a Bond a planta do apartamento e as providências tomadas para a prontidão do carrasco e, numa medida modesta, para o seu conforto.
O apartamento consistia de um amplo dormitório conjugado, um banheiro e uma cozinha equipada de enlatados, leite, manteiga, ovos, chá, bacon, pão e uma garrafa de Dimple Haig. O único detalhe estranho no quarto de dormir era que uma das camas duplas estava encostada em ângulo contra as cortinas que cobriam o amplo janelão único e sobre ela se empilhavam três colchões cobertos pela roupa de cama.
O Capitão Sender disse: — Gostaria de dar uma olhada ao campo de fogo? Poderei então explicar o que é que o lado de lá tem em mente.
Bond estava cansado. Não desejava especialmente ir dormir com a imagem do campo de batalha na memória. Disse: — Seria ótimo.
O Capitão Sender apagou as luzes. Faixas luminosas das lâmpadas no cruzamento apareceram em volta das cortinas. — Não quero puxar as cortinas — disse o Capitão Sender. — É pouco provável, mas eles podem ter sido alertados contra um grupo de cobertura para o 272. Queria que você apenas se deitasse na cama e enfiasse a cabeça por baixo das cortinas. Explicarei o que você estiver vendo. Olhe para a esquerda.
Era uma janela de guilhotina e a metade inferior estava aberta. Os colchões, especialmente escolhidos, só cediam um pouco e James Bond encontrou-se mais ou menos na posição de tiro que tinha adotado em Century Range, mas agora olhava através de terreno descontínuo, coberto de densa vegetação e bombardeado, na direção do rio de luz que era a Zimmerstrasse — a fronteira com a Berlim Oriental. Parecia a umas cento e cinquenta jardas de distância. A voz do Capitão Sender acima dele e por trás da cortina começou a recitar. Lembrava a Bond uma sessão espírita.
— Ali é terreno bombardeado à sua frente. Bastante cobertura. Umas cento e trinta jardas até a fronteira. Depois a fronteira — a rua — e então um trecho grande ainda de terreno bombardeado no campo do inimigo. É por isso que o 272 escolheu essa passagem. É um dos poucos locais na cidade em que o terreno é descontínuo — capinzais cerrados, muros em ruínas, porões — nos dois lados da fronteira. Ele deverá es-gueirar-se entre aquela confusão do outro lado e arremessar-se através da Zimmerstrasse até alcançar a confusão do nosso lado. O problema é que terá de correr trinta jardas de fronteira fortemente iluminada. Será o espaço da matança. Certo?
Bond disse: — Sim.
Disse-o com suavidade. O cheiro do inimigo, a necessidade de tomar cuidado, já estavam atuando sobre seus nervos.
— À sua esquerda, aquele novo e imenso bloco de dez andares é a Haus der Ministerien, o grande centro cerebral de Berlim-Leste. Você pode ver que as luzes ainda estão acesas na maioria das janelas. A maior parte delas ficará assim toda a noite. Esses sujeitos trabalham mesmo — seus turnos dão a volta no relógio. Você provavelmente não precisará preocupar-se com as janelas acesas. Esse fulano “Gatilho” certamente vai atirar de uma das janelas escuras. Você verá que existe um grupo de quatro, juntas, na quina acima do cruzamento. Ficaram escuras na noite passada e esta noite. Elas têm o melhor campo de fogo. Daqui, o seu alcance varia entre trezentas e trezentas e dez jardas. Estou com todos os números e dados quando você quiser. Não é preciso preocupar-se muito mais. Aquela rua fica vazia durante a noite — apenas as patrulhas motorizadas cerca de cada meia hora — carros blindados leves com uma dupla de motocicletas por escolta. Na noite passada, que suponho normal, entre seis e sete, que é a hora em que se fará este serviço, havia umas poucas pessoas entrando e saindo por aquela porta lateral. Uns funcionários. Antes disso nada fora do comum — o fluxo costumeiro de pessoas entrando e saindo de um edifício de governo movimentado — com exceção, veja só, de uma miserável orquestra completa de mulheres. Fizeram uma confusão infernal numa sala de concertos que tem ali. Parte do bloco aloja o Ministério da Cultura. Fora disso nada — certamente nenhuma das pessoas da KGB que conhecemos, nem sinais de preparação para um serviço deste gênero. Mas nem pode haver sinais. São muito cuidadosos estes sujeitos da oposição. De qualquer maneira, dê uma boa olhada. Não esqueça que agora está mais escuro do que amanhã por volta das seis. Mas você pode formar um quadro geral.
Bond formou o quadro geral e o quadro ficou com ele muito tempo enquanto o outro homem já dormia e ressonava suavemente com um pequeno som regular que lembrava um fraco estalido — um ronco Wykehamista, refletiu Bond irritado.
Sim, tinha formado o quadro — o quadro de um lampejo movimento entre as ruínas sombreadas no outro lado do brilhante rio de luz, uma pausa, e então a desesperada corrida em ziguezague de um homem sob o impacto luminoso das lâmpadas, o espocar da arma de fogo e, ou um fardo retorcido espalhado no meio da rua larga, ou então a investida sempre em frente através do capinzal e do entulho no Setor Ocidental — morte súbita ou volta a casa. O grande desafio! Quanto tempo teria Bond para localizar o tocaia russo numa daquelas janelas escuras? E para matá-lo? Cinco segundos? Dez? Quando o amanhecer começava a cobrir as cortinas com o tom metálico das armas, Bond capitulou para sua mente agitada. Ela tinha ganho. Foi em silêncio até o banheiro e inspecionou as fileiras de remédios que um prestimoso Serviço Secreto tinha providenciado para manter o seu carrasco em boa forma. Escolheu o Tuinal, engoliu duas das cápsulas concentradas, rubis e azuis, com um copo de água e voltou à cama. Então, chumbado, dormiu.
Acordou ao meio-dia. O apartamento estava vazio. Bond abriu as cortinas para deixar entrar o dia cinzento prussiano e, de pé a uma boa distância da janela, ficou vendo a monotonia de Berlim e ouvindo o ruído dos bondes e o arranhar distante dos trens da U-Bahn na grande curva de entrada da estação do Zoo. Lançou um olhar rápido e relutante ao que já tinha examinado na noite anterior, notou que o capim no entulho de bombardeio era mais ou menos o mesmo de Londres — loendro, labaçol e samambaia — e dirigiu-se então à cozinha. Havia uma nota apoiada numa fatia de pão: “Meu amigo (eufemismo do Serviço Secreto que neste contexto significava o chefe de Sender) diz que não há mal em você sair. Mas esteja de volta às 17 horas. Seu equipamento (outra palavra para o rifle de Bond) chegou e o bagageiro a entregará esta tarde. P. Sender.”
Bond acendeu o fogão a gás e queimou a mensagem com desprezo por sua profissão e em seguida preparou um prato enorme de ovos mexidos e bacon que amontoou sobre uma torrada coberta de manteiga e comeu com acompanhamento de café preto no qual derramara uma porção liberal de uísque. Depois tomou um banho e barbeou-se, vestiu as roupas descoloridas, centro-europeias e anônimas que tinha trazido para a sua missão, olhou a sua cama em desordem, decidiu que tudo fosse para o inferno e desceu pelo elevador deixando o edifício.
James Bond sempre achara Berlim uma cidade deprimente e hostil, esmaltada no lado Ocidental com o verniz superficial de um polimento pretensioso parecido com os enfeites cromados dos carros americanos. Caminhou até a Kurfurstendamm, sentou-se no Café Marquardt, tomou um expresso e ficou observando com tédio as filas obedientes de pedestres esperando o sinal “Siga” nos postes de trânsito enquanto a corrente luminosa de carros continuava a sua perigosa quadrilha na movimentada intersecção. Fazia frio lá fora e o vento cortante das estepes russas fustigava as saias das garotas e os impermeáveis dos homens impacientes e apressados, cada um com a infalível pasta enfiada debaixo do braço. Os aquecedores de parede infravermelhos do café apontavam o vermelho para baixo e davam um brilho espúrio ao rosto dos cafeinômanos que degustavam sua tradicional “uma xícara de café e dez copos de água”, lendo de graça os jornais e revistas presos por paus, ou se curvavam com seriedade sobre papéis de negócios. Bond, fechando o pensamento para a noite, discutia consigo mesmo as maneiras de passar a tarde. Finalmente chegou à escolha entre uma visita àquela casa de respeitável fachada de pedra, na Clausewitzstrasse, conhecida de todos os porteiros e choferes de táxi, ou um passeio ao Wannsee e uma vigorosa caminhada no Grunewald. A virtude triunfou. Bond pagou o café, saiu no frio e tomou um táxi até a estação do Zoo.
As belas arvorezinhas jovens em volta do lago extenso já tinham sido tocadas pelo sopro do outono e havia um dourado aqui e ali no meio do verde. Bond caminhou com energia durante duas horas pelas veredas cobertas de folhas e então escolheu um restaurante com terraço envidraçado sobre o lago e saboreou com prazer um chá reforçado consistindo de uma porção dupla de arenques do Norte mergulhados em creme e anéis de cebola, e dois Molle mit Korn, o equivalente berlinense de um “fabricante de caldeiras e seu assistente” — schnapps, duplos, acompanhados por um chope Löwenbräu. Sentindo-se então mais animado tomou a S-Bahn para voltar à cidade.
Em frente do prédio de apartamentos, um jovem indefinível estava mexendo no motor de um Opel Kapitan negro. O jovem não tirou a cabeça debaixo do capo quando Bond passou bem perto dele e subiu até a porta e apertou o botão.
CONTINUA
Quando chegou embaixo, sentou-se no musgo, sob os abetos. Estendeu no chão a camisa, colocou no centro dela as barras de ouro e fez uma trouxa, amarrando bem as fraldas e as mangas. Depois, cavou um buraco no chão e enterrou a caixa metálica vazia. E vergando ao peso, quase dobrado em dois, caminhou pela estreita trilha, entre os pinheiros, rumo ao jipe. Até aquele dia não conseguira saber como tivera forças para alcançar o veículo. Os nós que dera na trouxa pareciam penetrar nas carnes de seu ombro, sob o peso das barras de ouro. Quando, finalmente, alcançou o jipe, quase teve um colapso, tão exausto estava. Mas não podia descansar, ainda. Precisava sair dali para enterrar o seu tesouro na floresta, perto de um grupo de grandes rochas, onde lhe seria fácil encontrá-lo de novo, na ocasião oportuna em dia, quando o horizonte estivesse limpo, voltaria, por outra rota, evitando o chalé de Oberhauser. Só então, terminado tudo, fora embebedar-se com uma garrafa de schnapps barato. Jantou e meteu-se na cama, para dormir como uma pedra. No dia seguinte, a Força A da DAG seguiu para o vale do Mittersill. Seis meses depois o Major Smythe estava em Londres. A sua guerra havia terminado. Mas os seus problemas, não. Ouro era coisa difícil de contrabandear, principalmente em grande quantidade. E era essencial que o Major Smythe transferisse as suas barras para um novo esconderijo. Por isso, ele procurou evitar a desmobilização e gozar os privilégios de seu comissionamento temporário, sobretudo o seu passe do Serviço Secreto Militar. Conseguiu ser mandado de volta para a Alemanha, como representante da Inglaterra no Centro Misto de Investigação de Munique. Aí, trabalhou durante seis meses e, nesse período, teve a oportunidade de recuperar o ouro, que levou para o seu alojamento numa velha valise. Depois, em dois fins de semana, fez viagens aéreas para Londres, levando, de cada vez, uma barra de ouro, em sua volumosa pasta. A caminhada nos aeroportos de Munique e de Londres, com a pasta sob o braço, como se contivesse apenas papéis, exigira dois tabletes de benzedrina e uma vontade de ferro. Finalmente, pôde esconder sua fortuna no porão da casa de uma tia, em Kensington, e assim, com tranquilidade, pôde desenvolver a parte final de seus planos. Pediu reforma nos Fuzileiros Reais e, uma vez desmobilizado, casou-se com uma das muitas moças com quem tivera aventuras durante o serviço da DAG, uma graciosa Wren chamada Maria Parnell. Comprou passagem para ambos num cargueiro para a Jamaica, que representava, para ambos, um paraíso ensolarado, com boa e farta comida, bebida barata, sem a melancolia e as restrições impostas na Inglaterra, após a guerra, pelo severo governo trabalhista. Antes do embarque, o Major Smythe mostrou a Mary as barras de ouro, das quais já havia raspado a cinzel os símbolos do Reichsbank.
— Tenho sido muito econômico e esperto, meu bem — disse ele. — Não confio na libra. Por isso, vendi todas as minhas ações e comprei um bocado de ouro. Teremos pelo menos 20 mil libras, se eu o vender bem. Isso basta para nos assegurar uma boa vida, até o fim dos nossos dias. Sempre que for preciso, eu venderei um pouquinho — explicou.
Mary Parnell não era familiarizada com as leis monetárias. Mas se ajoelhou e passou as mãos, carinhosamente, sobre as barras de ouro. Depois, com os braços ao redor do pescoço do marido, beijou-o e disse, quase em lágrimas: — Você é um homem maravilhoso... Sim, maravilhoso! Terrivelmente inteligente, bonito, simpático, herói da guerra e, além do mais, rico! Eu sou a garota mais feliz do mundo!
— Você tem razão pelo menos numa coisa: ricos, nós somos. Mas prometa não dizer uma só palavra a quem quer que seja! Pois, se disser, todos os ladrões da Jamaica irão rondar a nossa casa.. .
O Prince’s Club, ao pé das colinas que dominam os arredores de Kensington, era realmente esplêndido. Para os seus sócios, não havia nada melhor: maravilhosa criadagem, comida farta, bebida barata, belíssimos cenários tropicais, como nunca tinham visto antes. O casal era muito popular e os serviços de guerra do Major Smythe lhe davam ingresso na alta sociedade local e na Government House. A vida de ambos era uma série interminável de festas, misturadas com o tênis de Mary e o golfe do major (com os bastões metálicos de Henry Cotton!) durante o dia, e partidas de bridge (para ela) e de pôquer (para ele) durante as noites. Sim, era um paraíso, porque, na Inglaterra, havia racionamento, filas e mercado negro, um governo atroz e o pior inverno dos últimos trinta anos. A princípio, o casal enfrentou as despesas com as economias em dinheiro, que ambos haviam reunido, enquanto se vestiam, se alimentavam e se transportavam à custa do Exército. Só depois de um ano de cautelosas investigações é que o Major Smythe se decidiu a fazer negócio com os irmãos Fu, comerciantes importadores e exportadores. Altamente respeitados e muito ricos, os irmãos Fu eram conhecidos como uma espécie de junta governativa da comunidade chinesa da Jamaica. Ainda que alguns dos seus negócios se desviassem das boas normas, segundo a tradição chinesa, Smythe achou que poderia confiar neles. A Convenção de Bretton Woods, fixando um preço internacional para o ouro, sob rigoroso controle, tinha sido assinada deixando de parte Tânger e Macau, dois portos livres, em que a onça de ouro valia entre 99 e 100 dólares, quando nos outros lugares o preço oficial era de 35. E, para maior conveniência de seus negócios, os Fu tinham aberto um restaurante em Hong-Kong, transformado em entreposto para o contrabando de ouro para a vizinha Macau. Isso, na linguagem do Major Smythe, era sopa no mel. Ele tivera um agradável encontro com os Fu. Nenhuma pergunta estes fizeram, senão depois do exame das barras de ouro.
— Major — disse o mais velho dos irmãos —, no mercado de ouro em barras, as marcas dos bancos nacionais e dos negociantes respeitáveis são aceitos sem discussão. Essas marcas são a garantia da pureza do ouro. Mas outros bancos e outros vendedores têm seus próprios processos de refinação, que talvez, não sejam tão perfeitos...
— Quer dizer que eu fui enganado? — Perguntou, ansiosamente, o major. — Que isso não é senão uma barra de chumbo coberta de uma leve camada de ouro?
Os dois irmãos deram muxoxos tranquilizadores:
— Não, não, major... Não se trata disso. Mas, se uma pessoa não se recorda da proveniência dessas barras de ouro, por mais finas que elas sejam é sempre necessário submetê-las a um ensaio, para verificação do seu exato teor... Há muitos métodos para determinar o grau de pureza dessas barras. Meu irmão e eu somos competentes em qualquer deles. Quer deixar as barras de ouro conosco e vir saber o resultado depois do almoço? Nós lhe daremos um recibo...
Não havia alternativa. Teria que confiar nos Fu. Qualquer que fosse o preço por eles arbitrado, seria forçado a aceitar. Estava nas mãos deles. Foi a um bar, onde tomou dois drinques fortes e comeu um sanduíche que lhe ficou atravessado na garganta. Depois, voltou ao escritório refrigerado dos Fu. O cenário era o mesmo: os dois irmãos sorridentes, as duas barras de ouro, a pasta de couro, etc. Só havia a mais uma folha de papel e uma caneta-tinteiro de pena de ouro, em frente do irmão mais velho.
— Resolvemos o problema do seu ouro, major! — (Esplêndido! Obrigado, pensou Smythe.) — E estou certo de que o senhor terá interesse em conhecer sua origem...
— Claro! Qual é? — Fez o major, com uma corajosa demonstração de entusiasmo.
— São barras de ouro alemãs! Provavelmente saíram dos depósitos do Reichsbank, durante a guerra. Isso pode ser deduzido do fato de que contêm dez porcento de chumbo. Durante o regime de Hitler, o Reichsbank fez a tolice de adulterar por esse modo o seu ouro. Isso logo se espalhou e o preço das barras de ouro alemãs, vendidas na Suíça, sofreu logo uma redução de preço, correspondente à adulteração. Foi uma bobagem, que só teve um resultado: o banco nacional da Alemanha perdeu a reputação que conquistara durante séculos... Bobagem... Uma grandíssima bobagem... — Concluiu o chinês, com o seu invariável sorriso.
O Major Smythe estava maravilhado com a onisciência desses dois homens, tão afastados dos grandes canais de comércio do mundo. Mas ao mesmo tempo os amaldiçoava, intimamente. E agora?
— É muito interessante, Sr. Fu... Mas isso não é uma boa notícia para mim. Essas barras de ouro me foram entregues como coisa cem por cento...
— Não tem importância, major — disse o mais velho dos Fu. — Ou melhor, quase não tem importância. Venderemos o seu ouro pelo justo valor, ou seja, 89 dólares a onça. Terá que ser, ou não, refinado pelo último comprador. Mas isso não é da nossa conta. Nós o venderemos também como cem por cento...
— Mas a um preço mais baixo...
— Realmente, major. Mas creio que temos uma boa notícia para o senhor. Quanto calculava obter com essas duas barras?
— Cerca de 20 mil libras...
— Se as vendermos bem e aos pouquinhos — disse o mais velho dos Fu —, o senhor receberá mais de 100 mil dólares, major, sujeitos, é claro, ao desconto da nossa comissão, que inclui o transporte e outras despesas.
— E a quanto montará isso?
— Estou pensando em fixar em 10 por cento, major. Se lhe parecer satisfatório...
O Major Smythe tinha a impressão de que vendedores de ouro em barras recebiam apenas um por cento de comissão. Mas, que diabo, antes do almoço já estava disposto a largar tudo até por 10 mil libras. Disse “fechado” e levantou-se, estendendo a mão através da mesa. Desde então, de quatro em quatro meses, ia visitar o escritório dos Fu, levando uma valise vazia. Havia sempre quinhentas libras novas, da emissão da Jamaica, em pacotes, sobre a mesa, à sua espera, e um recibo da quantidade vendida, com o preço alcançado em Macau. As barras de ouro diminuíam de tamanho, de polegada em polegada. O negócio era simples e cordial. Duas mil libras limpas, por ano, eram o bastante para ele, e só o afligia a possibilidade de que o pessoal do imposto de renda começasse a apertá-lo, para saber do que estava vivendo. Ele disse isso aos Fu, que lhe fizeram saber que não precisava se preocupar. Nas duas vezes seguintes, havia apenas quatrocentas libras na mesa, mas nenhum comentário foi feito, por qualquer dos lados. E assim os dias iam se passando, preguiçosamente. Os Smythes engordavam e o major teve a primeira das duas complicações das coronárias. O médico lhe recomendou uma vida menos ativa, com menos álcool e menos cigarros. Evitasse, também, as gorduras e as comidas fritas. A princípio, Mary tentou ser severa com ele, mas quando o marido começou a beber escondido e a inventar pequenas mentiras e evasivas, ela recuou desse propósito. Teve medo de se transformar numa chata doméstica, a quem o Major Smythe passaria a evitar. Por isso, deu-lhe inteira liberdade, sabendo que ele não mais a amava, e quando a sua solidão se tornou demasiada e as insônias intoleráveis, viciou-se em tomar soníferos. Uma noite, depois de uma violenta briga, estando ambos embriagados, tomou ela uma dose excessiva, só “para dar-lhe uma lição”. A dose era tão exagerada que a matou. O suicídio foi dissimulado, mas ainda assim recaíram suspeitas sobre o major, em prejuízo de sua reputação social. E a tal ponto que ele teve de se retirar para North Shore que, embora a apenas três milhas de Kensington, parece pertencer a um outro mundo. Aí ele se instalou em Wavelets e, depois da segunda complicação das coronárias, começou a beber desenfreadamente. Foi então que entrou em cena James Bond com um mandado de prisão ou de morte no bolso.
O Major Smythe olhou para o relógio. Passavam alguns minutos do meio-dia. Ele se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale e foi para o jardim. James Bond estava sentado sob a frondosa amendoeira, olhando para o lar. Nem se voltou para o Major Smythe quando este puxou outra cadeira de alumínio e colocou o copo na relva, perto dele. Quando o Major Smythe acabou de narrar a sua história, James Bond disse, sem demonstrar qualquer emoção: — Era mais ou menos isso o que eu havia pensado...
— Quer que eu escreva tudo ou apenas assine?
— Faça como quiser. Mas isso não se entende comigo. Deve entregar à Corte Marcial. Seu velho Corpo de Fuzileiros Reais é que vai tomar conta do caso. Não tenho nada que ver com os aspectos legais. Farei apenas um relatório do que me disse, para a Procuradoria da Justiça, através da Scotland Yard...
— Posso perguntar uma coisa? Como foi que descobriu?
— A geleira era pequena. O corpo de Oberhauser chegou embaixo no início deste ano, quando as neves da primavera derreteram. Alguns alpinistas o encontraram. Todos os seus papéis e tudo o mais estava perfeito. A família o identificou. Depois, foi só uma questão de recuar no tempo. O calibre das balas deu logo a pista...
— Mas como se envolveu neste assunto?
— A Força da DAG era uma das minhas responsabilidades, um dos meus serviços. Quando o assunto chegou ao meu conhecimento, fui dar uma busca nos arquivos. Como tinha tempo livre, pedi que me entregassem a missão de descobrir o autor da morte de Oberhauser...
— Por quê?
— Porque — e James Bond fixou os olhos do Major Smythe — acontece que Oberhauser era um velho amigo meu. Foi quem me ensinou a esquiar quando eu tinha pouco mais de dez anos. Era um esplêndido sujeito. Foi uma espécie de pai para mim, precisamente na época em que eu mais precisava de um...
— Compreendo. — E o Major Smythe desviou o olhar. — Sinto muito...
James Bond se levantou:
— Bem, preciso voltar a Kensington. — E levantou a mão, para deter o major. — Não, não precisa incomodar-se. Sei onde o carro ficou... — Olhou para o homem mais velho e disse, rispidamente, quase com brutalidade: — Dentro de uma semana, alguém virá buscá-lo...
E caminhou, em passos firmes, sem se voltar, pela alameda afora. O major ouviu o ruído do arranque do motor e o chiado dos pneus do táxi nas pedrinhas miúdas da estrada.
Agora, ele procurava a sua presa, ao longo do recife de coral, pensando exatamente no sentido das palavras de James Bond. E sorriu por trás da máscara Pirelli. Era uma versão nova de um velho dramalhão, que consistia em deixar uma pistola com o oficial culpado, para que este mesmo estourasse os miolos. Se James Bond quisesse, poderia ter telefonado para a Government House e pedido um oficial de igual patente do Regimento da Jamaica para levar preso o Major Smythe. De certo modo, o seu gesto fora decente. Ou não fora? Um suicídio era mais limpo, economizava uma porção de trabalho e de papéis, que consumiriam o dinheiro dos contribuintes. Devia agradecer a James Bond a solução que ele parecia sugerir? Acaso encontraria Mary no lugar para onde vão as almas dos suicidas? Ou era melhor a Corte Marcial, a indignidade, as formalidades cacetes, as manchetes, o aborrecimento e a solidão de uma prisão perpétua, da qual só o livraria a terceira crise das coronárias? Poderia defender-se: era tempo de guerra, lutara com Oberhauser no alto da montanha, ele era um prisioneiro e tentara fugir... Oberhauser sabia do esconderijo do dinheiro... E ele, pobre oficial dos Comandos, tantas vezes arriscando a vida pela pátria, fora fraco e não resistira à tentação... Poderia entregar-se dramaticamente à misericórdia do Tribunal Militar... Um coronel certamente seria designado para defendê-lo e o faria com a maior eloquência. Poderia haver um apelo à Corte Suprema. Seu caso comoveria a Inglaterra e se tornaria uma cause célebre. Venderia sua história, com as reminiscências de guerra, aos grandes jornais... Mas...
Cuidado, meu velho! Cuidado! Seus pés agora tocavam o chão, sob as ondas que encrespavam a superfície da praia de North Shore. Por onde estariam os peixes-escorpiões? O polvinho querido estava faminto, esperando o seu almoço. Apurando a vista, perto do recife de coral, o Major Smythe viu as antenas de um lagostim, acenando inquisitivamente para ele. Normalmente, ele se esqueceria de tudo, para capturar o lagostim, que era, talvez, o maior que até então encontrara. Mas agora só tinha uma preocupação: a de descobrir a silhueta irregular e provocante do peixe-escorpião. Só depois de mais dez minutos de busca encontraria o primeiro. Os olhos vermelhos e zangados do peixe, muito abertos, o observavam. Para fisgá-lo, com o arpão, teria que fazer uma investida rápida, na vertical, firme e certeira. Sabia que as agulhas envenenadas se projetariam para fora da cabeça pontiaguda do monstro. Tinha que se mover lentamente, na direção do peixe, usando o braço livre para nadar. E... Agora! Avançou, para a frente e para baixo, mas o peixe-escorpião sentira a aproximação do arpão antes que este o tocasse. Uma lufada de areia se levantou do fundo do mar, atingido pelo golpe. E qualquer coisa roça em seu corpo, dando a impressão do voo de um pássaro. O major praguejou e fez meia volta, dentro da água. Sim, o peixe-escorpião fizera o que tantas vezes fazia: fora buscar refúgio entre as algas e as rochas, confiante em sua soberba camuflagem. O major voltou à carga, em novo mergulho, dessa vez ainda mais atento, e zás! O peixe-escorpião se agitava, agora, na ponta do arpão. A excitação foi tão grande que o Major Smythe vacilou e sentiu a antiga dor oprimir-lhe o peito. Pôs-se de pé, firmou o arpão contra a areia, atravessando inteiramente a presa, que ainda se agitava desesperadamente, e dirigiu-se à praia, indo sentar-se num banco de madeira, ao lado do qual atirou o peixe, fisgado, a se debater. Uns cinco minutos depois, o Major Smythe sentiu uma curiosa dormência na região do plexo solar. Olhou para baixo e estremeceu, de horror e incredulidade. Uma região de sua pele, com o tamanho aproximado de uma bola de críquete, tornara-se impressionantemente branca, a despeito do bronzeado de seu busto. No centro dessa área, havia três pequenas manchas sanguíneas. Automaticamente, o Major Smythe limpou o sangue. Os furos eram do tamanho de picadas de agulhas. Ele se lembrou, então, da fuga do peixe-escorpião, quando tentara arpoá-lo da primeira vez, e exclamou alto, com pavor, mas sem animosidade: — Tu me apanhaste, bastardo! Tu me apanhaste!
Imóvel, olhava para o próprio corpo, recordando-se do que lera sobre os ferrões do peixe-escorpião no livro que tomara emprestado à biblioteca do Instituto e nunca devolvera — Perigosos Animais Marinhos, publicação norte-americana. Tocou delicadamente a pele da área atingida. Sim, a pele se tinha tornado intumescida e de todo insensível, mas por baixo começava a sentir dor. Em breve essa dor profunda e intensa percorreria o seu corpo inteiro, tão lancinante que o seu único desejo seria o de deitar-se na areia, gritando e rolando, para abafá-la. Vomitaria e deitaria espuma pela boca, teria delírio e convulsões, até perder a consciência. Então, sobreviria, inevitável, o colapso cardíaco mortal. De acordo com o livro, o ciclo completo desses tormentos não passaria de um quarto de hora. Era tudo quanto lhe restava: quinze minutos de atroz agonia! Haveria cura, é claro — com procaínas, antibióticos e anti-histamínicos —, se seu coração debilitado suportasse tais medicamentos. Mas estes deviam estar à mão. Mesmo que conseguisse chegar em casa e admitindo que Jimmy Greaves dispusesse de todos esses remédios modernos, ele não poderia alcançar Wavelets antes de uma hora.
A primeira descarga de dor fez o corpo do Major Smythe dobrar-se sobre si mesmo. Depois outra e mais outra, irradiando-se através do estômago e dos membros. Sentia um gosto metálico na boca e uma coceira insuportável nos lábios. Deixou escapar um gemido e saltou do banco para a praia. Sobre a areia, ainda arquejava o peixe-escorpião. Houve uma trégua nos espasmos da dor. Seu corpo inteiro estava em fogo. Apesar da agonia o raciocínio permanecia claro. Mas, ora essa! Ia esquecendo a experiência! Devia ir à loca do polvo, para servir seu almoço! “Polvo, polvinho, vai ser a última refeição que eu te dou!”, dizia a si mesmo o Major Smythe, ajustando a máscara no rosto. Depois, apanhou o arpão, com o peixe espetado e, apertando o estômago com a mão livre, caminhou pela água adentro e, depois, mergulhou junto ao recife de coral. Poucas jardas o separavam agora do polvo. E foi gritando dentro da máscara, arrastando-se, quase de joelhos, que ele as percorreu. À medida que a água se tornava mais profunda, a dor se fazia mais intensa e seus movimentos pareciam com os de um fantoche, impulsionado por um feixe de cordéis. Só a poder de uma grande força de vontade pôde continuar rumo à morada do polvo. Sim, a sua massa escura ainda estava lá! E parecia excitadíssima. Por quê? O Major Smythe viu que as feridas de seu peito vertiam filetes de sangue escuro, que se diluía na água do mar. Era claro! O querido polvo sentira o gosto do seu sangue. Uma descarga de dor atingiu o major e o fez vergar-se. Disse a si mesmo, em delírio: “Que é isso, Dexter?! Firme, meu velho. Você tem que dar almoço ao polvinho”. Endireitou-se, empunhando o arpão com firmeza e aproximando o peixe da toca do polvo. Aceitaria ele a isca envenenada que o Major Smythe lhe oferecia e à qual talvez um octópode poderia ser imune? Ah, se Bengry estivesse presente, para observar! Três tentáculos, ondulando excitadamente, saíram da loca e passearam ao redor do peixe-escorpião. Agora, havia uma espécie de nevoeiro diante dos olhos do Major Smythe. Reconhecendo estar à beira da inconsciência, ele agitou fracamente a cabeça, para dissipá-lo. E, então, os tentáculos deram um salto! Mas não para o peixe: apertaram a mão e o braço que empunhavam o arpão. A boca do Major Smythe se torceu, numa careta de prazer. Agora, ele e o polvo podiam se apertar as mãos! Como era excitante! Que coisa maravilhosa! Mas o polvo, calma e implacavelmente, continuou a enroscar os seus tentáculos e a chamar a si o corpo do major. Só então Smythe compreendeu que algo de terrível ia acontecer. Fez um apelo a todas as suas forças e tentou golpear o octópode com o arpão. Mas tudo quanto conseguiu foi bater com o peixe-escorpião na massa escura do polvo. E, com o movimento que fez, ofereceu-se ainda mais a este, que o atraía de forma inexorável. Tarde demais o Major Smythe retirou sua máscara. Conseguindo alcançar a superfície, soltou um grito que reboou pela baía deserta, mas logo foi puxado para baixo. E, depois de algumas bolhas de ar, vieram à tona as pernas do major. As ondas lavavam o seu corpo, enquanto o polvo fazia a primeira tentativa para devorá-lo. O resto de Smythe foram encontrados por dois jovens da Jamaica, que pescavam peixes-agulhas numa canoa. Eles mataram o polvo, recolheram o arpão do Major Smythe com o peixe-escorpião e levaram os três despojos para a praia. O cadáver do major foi entregue à polícia e o peixe-escorpião aproveitado para a ceia. O destino do polvo de estimação seria também a panela ... O correspondente do Daily Gleaner em North Shore comunicou que o Major Smythe tinha sido morto por um polvo. Mas a redação do jornal, para não alarmar os turistas, preferiu dizer que ele “fora encontrado afogado”. Mais tarde, em Londres, James Bond, embora certo de que se tratara de um suicídio, anotou no dossier Oberhauser a versão do afogamento, com a respectiva data, na última página, o que encerrava o assunto. Somente pelas notas do Dr. Greaves sobre a autópsia, por ele mesmo realizada, é que foi possível escrever esta espécie de post-scriptum sobre o estranho e patético fim do outrora corajoso e útil oficial do Serviço Secreto.
Encontro em Berlim
(THE LIVING DAYLIGHTS)
James Bond estendia-se em posição na marca das quinhentas jardas da famosa linha de tiro Century Range, em Bisley. A pequena estaca branca na grama a seu lado dizia 44 e o mesmo número se repetia bem alto no talude distante acima do solitário alvo de seis pés quadrados que, ao olho humano e no crepúsculo do fim de verão, não parecia maior que um selo de correio. Mas a luneta de Bond, uma Sniperscope infravermelha fixada sobre o seu rifle, cobria todo o quadro. Ele podia até distinguir com clareza as cores azul-pálido e bege em que se dividia o alvo, e a mosca semicircular de seis polegadas parecia tão grande como a meia lua que já começava a se mostrar baixa no céu que escurecia acima da crista remota de Chobham Ridges.
O último tiro de James Bond fora um esquerdo interno — não o satisfizera. Deu uma outra olhada às bandeiras de vento amarelas e azuis. Tremulavam do leste através da linha de tiro mais intensamente do que quando tinha começado o seu tiro meia hora antes, e ele mudou o anemômetro dois pontos para a direita e assestou os dois fios cruzados da Sniperscope de volta ao foco de mira. Instalou-se então, colocou o indicador de leve dentro da guarda e sobre a curva do gatilho, prendeu a respiração e muito, muito suavemente apertou.
O estampido vicioso ecoou ao longo do campo vazio. O alvo desapareceu abaixo do solo e imediatamente o “boneco” tomou o seu lugar. Sim, a marca negra estava embaixo no canto direito desta vez, não no canto esquerdo: mosca.
— Bom — disse a voz do oficial chefe da linha, atrás e acima dele. — Fique com a mira.
O alvo já subira de novo e Bond recolocou a bochecha sobre o trecho quente da volumosa coronha de madeira e o olho na borracha que cerca a ocular da luneta. Enxugou a mão de atirar contra o lado das calças e pegou na coronha da pistola que sobressaía angulosamente da guarda do gatilho. Abriu de uma polegada o ângulo das pernas. Agora haveria cinco descargas rápidas. Era interessante ver se isso não provocaria “desgaste”. Ele achava que não. Esta arma extraordinária que o armeiro tinha descoberto sabe lá como dava à gente a sensação de que um homem de pé à distância de uma milha seria prato fácil. Era mais um rifle Experimental de Alvo Internacional, calibre 308, construído pela Winchester para ajudar os ases americanos do tiro em campeonatos mundiais, e tinha os dispositivos usuais das armas de alvo superacuradas — uma “mão” espiralada de alumínio nas costas da coronha que se estendia debaixo da axila e mantinha a arma com firmeza junto ao ombro, e uma pequena roda dentada ajustável abaixo do centro de gravidade do rifle para permitir que ele “se agarrasse” ao sulco do seu descanso de madeira. O armeiro tinha mandado trocar o ferrolho de tiro único usual por um depósito de cinco tiros, e tinha garantido a Bond que se ele deixasse apenas dois segundos entre cada tiro para estabilizar a arma não haveria desgaste, mesmo a quinhentas jardas. Para o serviço que devia fazer, Bond achava que dois segundos poderiam representar uma perda perigosa de tempo se errasse o seu primeiro tiro. De qualquer forma, M dissera que a distância não seria maior que trezentas jardas. Bond encurtaria o tempo para um segundo — fogo quase contínuo.
— Pronto?
— Sim.
— Vou à contagem regressiva de cinco. Agora! Cinco, quatro, três, dois, um. Fogo!
O chão tremeu ligeiramente e o ar silvou enquanto as cinco cápsulas velozes de cuproníquel varejavam o crepúsculo. O alvo baixou e rapidamente voltou a erguer-se condecorado com quatro pequenos discos brancos agrupados bem juntos na mosca. Não houve nenhum quinto disco — nem mesmo um negro para indicar um interno ou externo.
— A última descarga foi baixa — disse o chefe da linha baixando seus binóculos noturnos. — Obrigado pela contribuição. Limpamos a areia atrás daqueles alvos todo fim de ano.
Nunca recolhemos menos de quinze toneladas de estilhaços em legítimo chumbo e cobre. Um bom dinheiro.
Bond tinha-se levantado. O cabo Menzies da seção dos armeiros surgiu do pavilhão do Clube de Tiro e ajoelhou-se para desmontar a Winchester e o seu descanso. Olhou para cima encarando Bond. Disse com uma ponta de crítica. — O senhor tocou a coisa um pouco rápido. A última descarga tinha de escoicear.
— Eu sei, cabo. Só queria ver com que rapidez eu podia tocar. Não quero pôr a culpa na arma. É um trabalho enxuto, infernal. Por favor, diga isso por mim ao armeiro. Agora é melhor ir andando. Você tem condução de volta a Londres, não?
— Tenho, sim senhor. Boa noite.
O oficial chefe da Linha entregou a Bond uma ficha de seu tiro — dois tiros de ensaio e depois dez descargas para cada cem jardas até as quinhentas. — Pontaria danada de boa com esta visibilidade. Você devia voltar aqui o ano que vem e tentar o Prêmio da Rainha. Hoje em dia está aberto para todos — isto é, da Comunidade Britânica.
— Obrigado. O problema é que não passo tanto tempo assim na Inglaterra. E muito obrigado por ter feito a marcação para mim.
Bond olhou para a distante Torre do Relógio. De cada lado, a bandeira vermelha de perigo e o tambor vermelho de sinalização estavam sendo arriados para mostrar que o tiroteio tinha cessado. Os braços marcavam nove e quinze. — Gostaria de oferecer-lhe um drinque, mas tenho um encontro em Londres. Podemos adiá-lo até o Prêmio da Rainha de que você estava falando?
O chefe da Linha fez que sim com a cabeça, neutramente. Ele tinha aguardado ansioso a oportunidade de conhecer mais coisas sobre este homem que surgira assim sem mais nem menos depois de uma série de avisos do Ministério da Defesa e fora em frente acertando bem mais de noventa porcento em todas as distâncias, isso depois de fechada a linha para a noite e com visibilidade entre sofrível e má. E por que tinha ele, que só oficiava no encontro anual de julho, sido escalado para estar presente? E por que lhe tinham dito para providenciar uma mosca de seis polegadas a 500 jardas para Bond, em vez da regulamentar de quinze polegadas? E por que todos esses cuidados com a bandeira de perigo e o tambor de sinalização que só se usavam em ocasiões cerimoniais? Para pressionar o homem? Para dar um clima de urgência ao tiro? Bond. Comandante James Bond. A A.N.R. certamente teria a ficha de uma pessoa que atirava tão bem assim. Não se esqueceria de dar-lhes um telefonema. Que hora estranha para um compromisso em Londres. Provavelmente uma garota. O rosto do chefe da Linha assumiu uma expressão de desagrado. O tipo do sujeito que apanhava todas as garotas que queria.
Os dois homens caminharam através da bela fachada da sede do clube além da linha de tiro até o carro de Bond que estava estacionado diante de uma reprodução em ferro do famoso “Veado em Fuga” de Landseer toda picotada de balaços. — Uma beleza de carro — comentou o chefe da Linha. Nunca vi uma carroçaria assim num Continental. Mandou fazê-la especialmente?
— Mandei. Os Sports Saloons na verdade só têm dois lugares. E muito pouco espaço para bagagem. Por isso pedi a Mulliner’s que o transformassem num verdadeiro dois-lugares e com porta-malas de sobra. Um carro egoísta, não há dúvida. Bem, boa noite. E novamente muito obrigado.
O escape roncou com saúde e as rodas traseiras cuspiram cascalho por um instante.
O oficial chefe da Linha observou os faróis rubis desaparecerem na King’s Avenue a caminho da estrada de Londres. Girou nos calcanhares e foi procurar o cabo Menzies numa busca de informação que terminaria sem frutos. O cabo permaneceu tão fechado como a grande caixa de mogno que estava colocando num Land-Rover caqui, limpo de símbolos militares. O chefe da Linha era um major. Tentou apelar para a hierarquia, mas sem êxito. O Land-Rover afastou-se rodando no rastro de Bond. O major dirigiu-se soturno aos escritórios da Associação Nacional do Rifle para tentar achar a informação que queria na biblioteca sob o nome “Bond, J.”
O compromisso de James Bond não era com uma garota. Era com um voo da B.E.A. para Hanover e Berlim. Enquanto engolia as milhas que o separavam do Aeroporto de Londres, pisando firme o grande carro a fim de ter tempo de sobra para um drinque, três drinques, antes da decolagem, apenas uma parte de sua mente fixava-se na estrada. O restante reexaminava pela enésima vez a sequência que agora o conduzia a um encontro com um aeroplano. Mas apenas um encontro provisório. Seu compromisso final numa das três próximas noites em Berlim era com um homem. Tinha que se encontrar com esse homem e infalivelmente matá-lo com um tiro.
Quando, por volta de duas e meia daquela tarde, James Bond atravessara as portas duplamente acolchoadas e sentara-se em frente do perfil voltado, do outro lado da grande escrivaninha, sentira imediatamente o perigo no ar. Não houve troca de cumprimentos. A cabeça de M afundava-se no colarinho duro numa pose churchilliana de sombria reflexão, e havia um traço de amargura nos cantos dos lábios. Girou a cadeira para encarar Bond, passou-lhe um olhar examinador como se, pensou Bond, quisesse verificar se sua gravata estava direita e o cabelo adequadamente penteado, e então começou a falar, rapidamente, atalhando suas sentenças como se desejasse ver-se livre do que estava dizendo, e de Bond, o mais depressa possível.
— O número 272. É um bom homem. Você talvez não o conheça. Pela simples razão de que ficou naquele buraco da Novaya Zemlya desde a guerra. Agora está tentando sair — carregado de material. Atômico e foguetes. E o plano deles para toda uma nova série de testes. Para 1961. Querem avivar o fogo no Ocidente. Algo a ver com Berlim. Não vejo bem o quadro mas o Foreign Office diz que se for verdade é uma coisa tremenda. Ridiculariza a Conferência de Genebra e toda essa demagogia sobre desarmamento nuclear que o bloco comunista vem fazendo. Ele conseguiu chegar até a Berlim Oriental. Mas tem praticamente toda a KGB no seu encalço — e as forças de segurança da Alemanha Oriental, é claro. Está entocado num buraco qualquer da cidade e conseguiu passar-nos uma mensagem — de que atravessaria entre seis e sete da tarde numa das três próximas noites — amanhã, depois de amanhã ou no dia seguinte. Indicou o ponto de travessia. O problema — a curva dos lábios de M, voltada para baixo, tomou-se ainda mais amarga — é que o mensageiro que ele usou fazia jogo duplo. A estação W.B. pilhou-o ontem. Por acaso. Deu sorte com um dos códigos da KGB O mensageiro será mandado de avião para julgamento, naturalmente. Mas isso não ajudará em nada. A KGB sabe que o 272 vai tentar a travessia. Sabem quando. Sabem onde. Sabem tanto quanto sabemos e nada mais. Ora, o código que deciframos ontem era um esquema de um só dia em suas máquinas. Mas conseguimos todo o tráfico daquele dia e isso foi bastante bom. Planejam alvejá-lo ao tentar a travessia. No cruzamento de ruas entre a Berlim Leste e a Oeste que nos indicou na mensagem. Estão montando uma operação daquelas — operação “Êxtase” como a chamam. Puseram o seu melhor tocaia no serviço. Tudo o que soubemos dele ó que seu nome cifrado é a palavra russa para “Gatilho”. A estação W.B. acha que é o mesmo homem já usado em outros serviços de tocaia. Um serviço de longo alcance através da fronteira. Ficará de guarda toda noite nesse cruzamento e sua missão é acertar no 272. É óbvio que eles certamente prefeririam fazer um serviço mais suave com metralhadoras e coisas do gênero. Mas Berlim está calma no momento e parece que a ordem é ficar assim. De qualquer forma — M sacudiu os ombros — eles têm confiança nesse operador “Gatilho” e o negócio vai ser assim!
— E onde é que eu entro? — James Bond tinha adivinhado a resposta, adivinhado porque M mostrava seu desagrado com a coisa toda. Ia ser trabalho sujo e Bond, porque pertencia à Seção Zero-Zero, tinha sido escolhido para fazê-lo. Perversamente, Bond queria forçar M a pôr o preto no branco. Iam ser notícias más, notícias sujas e ele não queria ouvi-las de um dos oficiais da Seção, nem mesmo do chefe do Estado-Maior. O negócio ia ser assassínio. Está bem. Que M tenha então a coragem de me dizer.
— Onde é que você entra, 007? — M olhou friamente do outro lado da escrivaninha. — Você sabe onde é que você entra. Você tem que matar esse tocaia. E tem que matá-lo antes que acerte no 272. É tudo. Está claro? — Os olhos azuis-claros permaneceram frios como gelo. Mas Bond sabia que só ficavam assim com um esforço da vontade. M não gostava de mandar qualquer homem para um homicídio. Mas, quando isso tinha de ser feito, ele sempre assumia a sua severa e fria ação de comando. Bond sabia a razão. Era para tirar um pouco da pressão, um pouco da culpa, dos ombros do matador.
Portanto Bond, que sabia dessas coisas, decidiu agora tornar fácil e rápida a tarefa de M. Levantou-se. — Está certo, sir. Suponho que o chefe do Estado-Maior tenha tudo pronto. É melhor eu ir praticar um pouco. Não seria bom errar.
Caminhou para a porta.
M disse calmamente: — Sinto ter que lhe dar essa tarefa. Serviço desagradável. Mas tem que ser bem executado.
— Farei o melhor — James Bond saiu fechando a porta atrás de si. Não gostava do serviço mas no final preferia fazê-lo a assumir a responsabilidade de mandar alguém em seu lugar.
O chefe do Estado-Maior tinha sido apenas um pouco mais simpático. — Lamento esta sua aquisição, James — dissera ele. — Mas Tanqueray foi inflexível, não tinha ninguém suficientemente bom na estação e esse não é o tipo de serviço que se pode pedir a um soldado regular para fazer. Há uma porção de excelentes tiros na B.A.O.R., mas um alvo vivo requer outro tipo de coragem. De qualquer forma, liguei para Bisley e marquei um exercício para você esta noite às oito e quinze quando a linha estiver fechada. A visibilidade será mais ou menos a mesma que você terá em Berlim cerca de uma hora antes. O armeiro está com a arma — verdadeira obra de arte para alvejar, e vai mandá-la por um de seus homens. Você irá com a sua própria condução. Depois, há um voo de carreira para Berlim à meia-noite reservado em seu nome na B.E.A. Tome um táxi até esse endereço. — Entregou a Bond um pedaço de papel. — Suba ao quarto andar e encontrará o número 2 de Tanqueray à sua espera. Depois disso, sinto que você terá que esperar sentado pelos próximos três dias.
— E a arma? Esperam que atravesse a alfândega alemã com ela dentro de um saco de golfe ou coisa assim?
O chefe do Estado-Maior não tinha achado graça. — Seguirá pela mala diplomática. Você a receberá amanhã ao meio-dia. — Tinha estendido a mão até o bloco de avisos. — Bem, é melhor ir andando. Vou avisar a Tanqueray que está tudo combinado.
James Bond baixou o olhar para o rosto azul difuso do relógio no painel do carro. Dez e quinze. Com um pouco de sorte, amanhã a esta hora estaria tudo terminado. Afinal, era a vida deste homem “Gatilho” contra a vida do 272. Não era exatamente homicídio. Estava perto disso, no entanto. Apertou maldosamente sua buzina-de-serra tripla ao passar por um quatro portas comum, ingressou no cruzamento circular com uma derrapagem seca desnecessária, girou violentamente o volante fazendo a correção e apontou o nariz do Bentley em direção do brilho distante que era o Aeroporto de Londres.
O edifício feio de seis andares na esquina da Kochstrasse e da Wilhelmstrasse era o único de pé na desolação de um espaço vazio bombardeado. Bond pagou o táxi e gravou uma breve impressão de capim, alto como a cintura, e de paredes de entulho mal reparadas, estendendo-se na direção de um grande cruzamento deserto iluminado por um feixe central de lâmpadas amareladas em arco, antes de apertar o botão para o quarto andar e imediatamente ouviu o clique do dispositivo que abria a porta do prédio. A porta fechou-se atrás dele e caminhou então sobre o chão de cimento sem tapete até o antiquado elevador. O cheiro de repolho, cigarro barato e suor rançoso lembravam outros prédios de apartamentos na Alemanha e Europa Central. Até o arrastar e o guincho fraco do elevador vagaroso eram parte de centenas de missões em que tinha sido lançado por M, como um projétil, a algum alvo distante onde um problema aguardava a sua chegada, à espera de ser resolvido por ele. Pelo menos desta vez o comitê de recepção estava do seu lado. Desta vez não havia nada a temer no fim da escada.
O número 2 da Estação W.B. de Serviço Secreto era um homem esguio e tenso de quarenta e poucos anos. Vestia o uniforme de sua profissão — terno bem cortado e bem usado de tweed leve ponto pé-de-pato num tom verde-escuro, camisa de seda macia branca e uma velha gravata de colégio — neste caso de Wykeham. Ao ver a gravata, enquanto trocavam as saudações convencionais no pequeno saguão mofado do apartamento, o ânimo de Bond, já baixo, desceu mais um degrau. Conhecia esse tipo: espinha dorsal do Serviço Público; superestudioso e mal-amado em Winchester; um bom segundo em P.P.E. em Oxford; a guerra, cargos funcionais que teria ocupado meticulosamente; talvez uma Ordem do Império Britânico; Comissão do Controle Aliado na Alemanha, onde fora recrutado no Ramo I e a partir de então — porque era o funcionário ideal e A. 1 junto à Segurança e porque pensava em encontrar vida, drama, romance, todas as coisas que nunca linha tido — lá fora ele para o Serviço Secreto. Um homem sóbrio, cuidadoso se fizera necessário para bancar a dama de companhia de Bond neste negócio feio. O Capitão Paul Sender, que já servira na Guarda Galesa, tinha sido a escolha óbvia. E tinha aceitado. Agora, como bom Wykehamista, escondia o seu desagrado pelo serviço debaixo de uma conversa cuidadosa e banal enquanto mostrava a Bond a planta do apartamento e as providências tomadas para a prontidão do carrasco e, numa medida modesta, para o seu conforto.
O apartamento consistia de um amplo dormitório conjugado, um banheiro e uma cozinha equipada de enlatados, leite, manteiga, ovos, chá, bacon, pão e uma garrafa de Dimple Haig. O único detalhe estranho no quarto de dormir era que uma das camas duplas estava encostada em ângulo contra as cortinas que cobriam o amplo janelão único e sobre ela se empilhavam três colchões cobertos pela roupa de cama.
O Capitão Sender disse: — Gostaria de dar uma olhada ao campo de fogo? Poderei então explicar o que é que o lado de lá tem em mente.
Bond estava cansado. Não desejava especialmente ir dormir com a imagem do campo de batalha na memória. Disse: — Seria ótimo.
O Capitão Sender apagou as luzes. Faixas luminosas das lâmpadas no cruzamento apareceram em volta das cortinas. — Não quero puxar as cortinas — disse o Capitão Sender. — É pouco provável, mas eles podem ter sido alertados contra um grupo de cobertura para o 272. Queria que você apenas se deitasse na cama e enfiasse a cabeça por baixo das cortinas. Explicarei o que você estiver vendo. Olhe para a esquerda.
Era uma janela de guilhotina e a metade inferior estava aberta. Os colchões, especialmente escolhidos, só cediam um pouco e James Bond encontrou-se mais ou menos na posição de tiro que tinha adotado em Century Range, mas agora olhava através de terreno descontínuo, coberto de densa vegetação e bombardeado, na direção do rio de luz que era a Zimmerstrasse — a fronteira com a Berlim Oriental. Parecia a umas cento e cinquenta jardas de distância. A voz do Capitão Sender acima dele e por trás da cortina começou a recitar. Lembrava a Bond uma sessão espírita.
— Ali é terreno bombardeado à sua frente. Bastante cobertura. Umas cento e trinta jardas até a fronteira. Depois a fronteira — a rua — e então um trecho grande ainda de terreno bombardeado no campo do inimigo. É por isso que o 272 escolheu essa passagem. É um dos poucos locais na cidade em que o terreno é descontínuo — capinzais cerrados, muros em ruínas, porões — nos dois lados da fronteira. Ele deverá es-gueirar-se entre aquela confusão do outro lado e arremessar-se através da Zimmerstrasse até alcançar a confusão do nosso lado. O problema é que terá de correr trinta jardas de fronteira fortemente iluminada. Será o espaço da matança. Certo?
Bond disse: — Sim.
Disse-o com suavidade. O cheiro do inimigo, a necessidade de tomar cuidado, já estavam atuando sobre seus nervos.
— À sua esquerda, aquele novo e imenso bloco de dez andares é a Haus der Ministerien, o grande centro cerebral de Berlim-Leste. Você pode ver que as luzes ainda estão acesas na maioria das janelas. A maior parte delas ficará assim toda a noite. Esses sujeitos trabalham mesmo — seus turnos dão a volta no relógio. Você provavelmente não precisará preocupar-se com as janelas acesas. Esse fulano “Gatilho” certamente vai atirar de uma das janelas escuras. Você verá que existe um grupo de quatro, juntas, na quina acima do cruzamento. Ficaram escuras na noite passada e esta noite. Elas têm o melhor campo de fogo. Daqui, o seu alcance varia entre trezentas e trezentas e dez jardas. Estou com todos os números e dados quando você quiser. Não é preciso preocupar-se muito mais. Aquela rua fica vazia durante a noite — apenas as patrulhas motorizadas cerca de cada meia hora — carros blindados leves com uma dupla de motocicletas por escolta. Na noite passada, que suponho normal, entre seis e sete, que é a hora em que se fará este serviço, havia umas poucas pessoas entrando e saindo por aquela porta lateral. Uns funcionários. Antes disso nada fora do comum — o fluxo costumeiro de pessoas entrando e saindo de um edifício de governo movimentado — com exceção, veja só, de uma miserável orquestra completa de mulheres. Fizeram uma confusão infernal numa sala de concertos que tem ali. Parte do bloco aloja o Ministério da Cultura. Fora disso nada — certamente nenhuma das pessoas da KGB que conhecemos, nem sinais de preparação para um serviço deste gênero. Mas nem pode haver sinais. São muito cuidadosos estes sujeitos da oposição. De qualquer maneira, dê uma boa olhada. Não esqueça que agora está mais escuro do que amanhã por volta das seis. Mas você pode formar um quadro geral.
Bond formou o quadro geral e o quadro ficou com ele muito tempo enquanto o outro homem já dormia e ressonava suavemente com um pequeno som regular que lembrava um fraco estalido — um ronco Wykehamista, refletiu Bond irritado.
Sim, tinha formado o quadro — o quadro de um lampejo movimento entre as ruínas sombreadas no outro lado do brilhante rio de luz, uma pausa, e então a desesperada corrida em ziguezague de um homem sob o impacto luminoso das lâmpadas, o espocar da arma de fogo e, ou um fardo retorcido espalhado no meio da rua larga, ou então a investida sempre em frente através do capinzal e do entulho no Setor Ocidental — morte súbita ou volta a casa. O grande desafio! Quanto tempo teria Bond para localizar o tocaia russo numa daquelas janelas escuras? E para matá-lo? Cinco segundos? Dez? Quando o amanhecer começava a cobrir as cortinas com o tom metálico das armas, Bond capitulou para sua mente agitada. Ela tinha ganho. Foi em silêncio até o banheiro e inspecionou as fileiras de remédios que um prestimoso Serviço Secreto tinha providenciado para manter o seu carrasco em boa forma. Escolheu o Tuinal, engoliu duas das cápsulas concentradas, rubis e azuis, com um copo de água e voltou à cama. Então, chumbado, dormiu.
Acordou ao meio-dia. O apartamento estava vazio. Bond abriu as cortinas para deixar entrar o dia cinzento prussiano e, de pé a uma boa distância da janela, ficou vendo a monotonia de Berlim e ouvindo o ruído dos bondes e o arranhar distante dos trens da U-Bahn na grande curva de entrada da estação do Zoo. Lançou um olhar rápido e relutante ao que já tinha examinado na noite anterior, notou que o capim no entulho de bombardeio era mais ou menos o mesmo de Londres — loendro, labaçol e samambaia — e dirigiu-se então à cozinha. Havia uma nota apoiada numa fatia de pão: “Meu amigo (eufemismo do Serviço Secreto que neste contexto significava o chefe de Sender) diz que não há mal em você sair. Mas esteja de volta às 17 horas. Seu equipamento (outra palavra para o rifle de Bond) chegou e o bagageiro a entregará esta tarde. P. Sender.”
Bond acendeu o fogão a gás e queimou a mensagem com desprezo por sua profissão e em seguida preparou um prato enorme de ovos mexidos e bacon que amontoou sobre uma torrada coberta de manteiga e comeu com acompanhamento de café preto no qual derramara uma porção liberal de uísque. Depois tomou um banho e barbeou-se, vestiu as roupas descoloridas, centro-europeias e anônimas que tinha trazido para a sua missão, olhou a sua cama em desordem, decidiu que tudo fosse para o inferno e desceu pelo elevador deixando o edifício.
James Bond sempre achara Berlim uma cidade deprimente e hostil, esmaltada no lado Ocidental com o verniz superficial de um polimento pretensioso parecido com os enfeites cromados dos carros americanos. Caminhou até a Kurfurstendamm, sentou-se no Café Marquardt, tomou um expresso e ficou observando com tédio as filas obedientes de pedestres esperando o sinal “Siga” nos postes de trânsito enquanto a corrente luminosa de carros continuava a sua perigosa quadrilha na movimentada intersecção. Fazia frio lá fora e o vento cortante das estepes russas fustigava as saias das garotas e os impermeáveis dos homens impacientes e apressados, cada um com a infalível pasta enfiada debaixo do braço. Os aquecedores de parede infravermelhos do café apontavam o vermelho para baixo e davam um brilho espúrio ao rosto dos cafeinômanos que degustavam sua tradicional “uma xícara de café e dez copos de água”, lendo de graça os jornais e revistas presos por paus, ou se curvavam com seriedade sobre papéis de negócios. Bond, fechando o pensamento para a noite, discutia consigo mesmo as maneiras de passar a tarde. Finalmente chegou à escolha entre uma visita àquela casa de respeitável fachada de pedra, na Clausewitzstrasse, conhecida de todos os porteiros e choferes de táxi, ou um passeio ao Wannsee e uma vigorosa caminhada no Grunewald. A virtude triunfou. Bond pagou o café, saiu no frio e tomou um táxi até a estação do Zoo.
As belas arvorezinhas jovens em volta do lago extenso já tinham sido tocadas pelo sopro do outono e havia um dourado aqui e ali no meio do verde. Bond caminhou com energia durante duas horas pelas veredas cobertas de folhas e então escolheu um restaurante com terraço envidraçado sobre o lago e saboreou com prazer um chá reforçado consistindo de uma porção dupla de arenques do Norte mergulhados em creme e anéis de cebola, e dois Molle mit Korn, o equivalente berlinense de um “fabricante de caldeiras e seu assistente” — schnapps, duplos, acompanhados por um chope Löwenbräu. Sentindo-se então mais animado tomou a S-Bahn para voltar à cidade.
Em frente do prédio de apartamentos, um jovem indefinível estava mexendo no motor de um Opel Kapitan negro. O jovem não tirou a cabeça debaixo do capo quando Bond passou bem perto dele e subiu até a porta e apertou o botão.
CONTINUA
Quando chegou embaixo, sentou-se no musgo, sob os abetos. Estendeu no chão a camisa, colocou no centro dela as barras de ouro e fez uma trouxa, amarrando bem as fraldas e as mangas. Depois, cavou um buraco no chão e enterrou a caixa metálica vazia. E vergando ao peso, quase dobrado em dois, caminhou pela estreita trilha, entre os pinheiros, rumo ao jipe. Até aquele dia não conseguira saber como tivera forças para alcançar o veículo. Os nós que dera na trouxa pareciam penetrar nas carnes de seu ombro, sob o peso das barras de ouro. Quando, finalmente, alcançou o jipe, quase teve um colapso, tão exausto estava. Mas não podia descansar, ainda. Precisava sair dali para enterrar o seu tesouro na floresta, perto de um grupo de grandes rochas, onde lhe seria fácil encontrá-lo de novo, na ocasião oportuna em dia, quando o horizonte estivesse limpo, voltaria, por outra rota, evitando o chalé de Oberhauser. Só então, terminado tudo, fora embebedar-se com uma garrafa de schnapps barato. Jantou e meteu-se na cama, para dormir como uma pedra. No dia seguinte, a Força A da DAG seguiu para o vale do Mittersill. Seis meses depois o Major Smythe estava em Londres. A sua guerra havia terminado. Mas os seus problemas, não. Ouro era coisa difícil de contrabandear, principalmente em grande quantidade. E era essencial que o Major Smythe transferisse as suas barras para um novo esconderijo. Por isso, ele procurou evitar a desmobilização e gozar os privilégios de seu comissionamento temporário, sobretudo o seu passe do Serviço Secreto Militar. Conseguiu ser mandado de volta para a Alemanha, como representante da Inglaterra no Centro Misto de Investigação de Munique. Aí, trabalhou durante seis meses e, nesse período, teve a oportunidade de recuperar o ouro, que levou para o seu alojamento numa velha valise. Depois, em dois fins de semana, fez viagens aéreas para Londres, levando, de cada vez, uma barra de ouro, em sua volumosa pasta. A caminhada nos aeroportos de Munique e de Londres, com a pasta sob o braço, como se contivesse apenas papéis, exigira dois tabletes de benzedrina e uma vontade de ferro. Finalmente, pôde esconder sua fortuna no porão da casa de uma tia, em Kensington, e assim, com tranquilidade, pôde desenvolver a parte final de seus planos. Pediu reforma nos Fuzileiros Reais e, uma vez desmobilizado, casou-se com uma das muitas moças com quem tivera aventuras durante o serviço da DAG, uma graciosa Wren chamada Maria Parnell. Comprou passagem para ambos num cargueiro para a Jamaica, que representava, para ambos, um paraíso ensolarado, com boa e farta comida, bebida barata, sem a melancolia e as restrições impostas na Inglaterra, após a guerra, pelo severo governo trabalhista. Antes do embarque, o Major Smythe mostrou a Mary as barras de ouro, das quais já havia raspado a cinzel os símbolos do Reichsbank.
— Tenho sido muito econômico e esperto, meu bem — disse ele. — Não confio na libra. Por isso, vendi todas as minhas ações e comprei um bocado de ouro. Teremos pelo menos 20 mil libras, se eu o vender bem. Isso basta para nos assegurar uma boa vida, até o fim dos nossos dias. Sempre que for preciso, eu venderei um pouquinho — explicou.
Mary Parnell não era familiarizada com as leis monetárias. Mas se ajoelhou e passou as mãos, carinhosamente, sobre as barras de ouro. Depois, com os braços ao redor do pescoço do marido, beijou-o e disse, quase em lágrimas: — Você é um homem maravilhoso... Sim, maravilhoso! Terrivelmente inteligente, bonito, simpático, herói da guerra e, além do mais, rico! Eu sou a garota mais feliz do mundo!
— Você tem razão pelo menos numa coisa: ricos, nós somos. Mas prometa não dizer uma só palavra a quem quer que seja! Pois, se disser, todos os ladrões da Jamaica irão rondar a nossa casa.. .
O Prince’s Club, ao pé das colinas que dominam os arredores de Kensington, era realmente esplêndido. Para os seus sócios, não havia nada melhor: maravilhosa criadagem, comida farta, bebida barata, belíssimos cenários tropicais, como nunca tinham visto antes. O casal era muito popular e os serviços de guerra do Major Smythe lhe davam ingresso na alta sociedade local e na Government House. A vida de ambos era uma série interminável de festas, misturadas com o tênis de Mary e o golfe do major (com os bastões metálicos de Henry Cotton!) durante o dia, e partidas de bridge (para ela) e de pôquer (para ele) durante as noites. Sim, era um paraíso, porque, na Inglaterra, havia racionamento, filas e mercado negro, um governo atroz e o pior inverno dos últimos trinta anos. A princípio, o casal enfrentou as despesas com as economias em dinheiro, que ambos haviam reunido, enquanto se vestiam, se alimentavam e se transportavam à custa do Exército. Só depois de um ano de cautelosas investigações é que o Major Smythe se decidiu a fazer negócio com os irmãos Fu, comerciantes importadores e exportadores. Altamente respeitados e muito ricos, os irmãos Fu eram conhecidos como uma espécie de junta governativa da comunidade chinesa da Jamaica. Ainda que alguns dos seus negócios se desviassem das boas normas, segundo a tradição chinesa, Smythe achou que poderia confiar neles. A Convenção de Bretton Woods, fixando um preço internacional para o ouro, sob rigoroso controle, tinha sido assinada deixando de parte Tânger e Macau, dois portos livres, em que a onça de ouro valia entre 99 e 100 dólares, quando nos outros lugares o preço oficial era de 35. E, para maior conveniência de seus negócios, os Fu tinham aberto um restaurante em Hong-Kong, transformado em entreposto para o contrabando de ouro para a vizinha Macau. Isso, na linguagem do Major Smythe, era sopa no mel. Ele tivera um agradável encontro com os Fu. Nenhuma pergunta estes fizeram, senão depois do exame das barras de ouro.
— Major — disse o mais velho dos irmãos —, no mercado de ouro em barras, as marcas dos bancos nacionais e dos negociantes respeitáveis são aceitos sem discussão. Essas marcas são a garantia da pureza do ouro. Mas outros bancos e outros vendedores têm seus próprios processos de refinação, que talvez, não sejam tão perfeitos...
— Quer dizer que eu fui enganado? — Perguntou, ansiosamente, o major. — Que isso não é senão uma barra de chumbo coberta de uma leve camada de ouro?
Os dois irmãos deram muxoxos tranquilizadores:
— Não, não, major... Não se trata disso. Mas, se uma pessoa não se recorda da proveniência dessas barras de ouro, por mais finas que elas sejam é sempre necessário submetê-las a um ensaio, para verificação do seu exato teor... Há muitos métodos para determinar o grau de pureza dessas barras. Meu irmão e eu somos competentes em qualquer deles. Quer deixar as barras de ouro conosco e vir saber o resultado depois do almoço? Nós lhe daremos um recibo...
Não havia alternativa. Teria que confiar nos Fu. Qualquer que fosse o preço por eles arbitrado, seria forçado a aceitar. Estava nas mãos deles. Foi a um bar, onde tomou dois drinques fortes e comeu um sanduíche que lhe ficou atravessado na garganta. Depois, voltou ao escritório refrigerado dos Fu. O cenário era o mesmo: os dois irmãos sorridentes, as duas barras de ouro, a pasta de couro, etc. Só havia a mais uma folha de papel e uma caneta-tinteiro de pena de ouro, em frente do irmão mais velho.
— Resolvemos o problema do seu ouro, major! — (Esplêndido! Obrigado, pensou Smythe.) — E estou certo de que o senhor terá interesse em conhecer sua origem...
— Claro! Qual é? — Fez o major, com uma corajosa demonstração de entusiasmo.
— São barras de ouro alemãs! Provavelmente saíram dos depósitos do Reichsbank, durante a guerra. Isso pode ser deduzido do fato de que contêm dez porcento de chumbo. Durante o regime de Hitler, o Reichsbank fez a tolice de adulterar por esse modo o seu ouro. Isso logo se espalhou e o preço das barras de ouro alemãs, vendidas na Suíça, sofreu logo uma redução de preço, correspondente à adulteração. Foi uma bobagem, que só teve um resultado: o banco nacional da Alemanha perdeu a reputação que conquistara durante séculos... Bobagem... Uma grandíssima bobagem... — Concluiu o chinês, com o seu invariável sorriso.
O Major Smythe estava maravilhado com a onisciência desses dois homens, tão afastados dos grandes canais de comércio do mundo. Mas ao mesmo tempo os amaldiçoava, intimamente. E agora?
— É muito interessante, Sr. Fu... Mas isso não é uma boa notícia para mim. Essas barras de ouro me foram entregues como coisa cem por cento...
— Não tem importância, major — disse o mais velho dos Fu. — Ou melhor, quase não tem importância. Venderemos o seu ouro pelo justo valor, ou seja, 89 dólares a onça. Terá que ser, ou não, refinado pelo último comprador. Mas isso não é da nossa conta. Nós o venderemos também como cem por cento...
— Mas a um preço mais baixo...
— Realmente, major. Mas creio que temos uma boa notícia para o senhor. Quanto calculava obter com essas duas barras?
— Cerca de 20 mil libras...
— Se as vendermos bem e aos pouquinhos — disse o mais velho dos Fu —, o senhor receberá mais de 100 mil dólares, major, sujeitos, é claro, ao desconto da nossa comissão, que inclui o transporte e outras despesas.
— E a quanto montará isso?
— Estou pensando em fixar em 10 por cento, major. Se lhe parecer satisfatório...
O Major Smythe tinha a impressão de que vendedores de ouro em barras recebiam apenas um por cento de comissão. Mas, que diabo, antes do almoço já estava disposto a largar tudo até por 10 mil libras. Disse “fechado” e levantou-se, estendendo a mão através da mesa. Desde então, de quatro em quatro meses, ia visitar o escritório dos Fu, levando uma valise vazia. Havia sempre quinhentas libras novas, da emissão da Jamaica, em pacotes, sobre a mesa, à sua espera, e um recibo da quantidade vendida, com o preço alcançado em Macau. As barras de ouro diminuíam de tamanho, de polegada em polegada. O negócio era simples e cordial. Duas mil libras limpas, por ano, eram o bastante para ele, e só o afligia a possibilidade de que o pessoal do imposto de renda começasse a apertá-lo, para saber do que estava vivendo. Ele disse isso aos Fu, que lhe fizeram saber que não precisava se preocupar. Nas duas vezes seguintes, havia apenas quatrocentas libras na mesa, mas nenhum comentário foi feito, por qualquer dos lados. E assim os dias iam se passando, preguiçosamente. Os Smythes engordavam e o major teve a primeira das duas complicações das coronárias. O médico lhe recomendou uma vida menos ativa, com menos álcool e menos cigarros. Evitasse, também, as gorduras e as comidas fritas. A princípio, Mary tentou ser severa com ele, mas quando o marido começou a beber escondido e a inventar pequenas mentiras e evasivas, ela recuou desse propósito. Teve medo de se transformar numa chata doméstica, a quem o Major Smythe passaria a evitar. Por isso, deu-lhe inteira liberdade, sabendo que ele não mais a amava, e quando a sua solidão se tornou demasiada e as insônias intoleráveis, viciou-se em tomar soníferos. Uma noite, depois de uma violenta briga, estando ambos embriagados, tomou ela uma dose excessiva, só “para dar-lhe uma lição”. A dose era tão exagerada que a matou. O suicídio foi dissimulado, mas ainda assim recaíram suspeitas sobre o major, em prejuízo de sua reputação social. E a tal ponto que ele teve de se retirar para North Shore que, embora a apenas três milhas de Kensington, parece pertencer a um outro mundo. Aí ele se instalou em Wavelets e, depois da segunda complicação das coronárias, começou a beber desenfreadamente. Foi então que entrou em cena James Bond com um mandado de prisão ou de morte no bolso.
O Major Smythe olhou para o relógio. Passavam alguns minutos do meio-dia. Ele se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale e foi para o jardim. James Bond estava sentado sob a frondosa amendoeira, olhando para o lar. Nem se voltou para o Major Smythe quando este puxou outra cadeira de alumínio e colocou o copo na relva, perto dele. Quando o Major Smythe acabou de narrar a sua história, James Bond disse, sem demonstrar qualquer emoção: — Era mais ou menos isso o que eu havia pensado...
— Quer que eu escreva tudo ou apenas assine?
— Faça como quiser. Mas isso não se entende comigo. Deve entregar à Corte Marcial. Seu velho Corpo de Fuzileiros Reais é que vai tomar conta do caso. Não tenho nada que ver com os aspectos legais. Farei apenas um relatório do que me disse, para a Procuradoria da Justiça, através da Scotland Yard...
— Posso perguntar uma coisa? Como foi que descobriu?
— A geleira era pequena. O corpo de Oberhauser chegou embaixo no início deste ano, quando as neves da primavera derreteram. Alguns alpinistas o encontraram. Todos os seus papéis e tudo o mais estava perfeito. A família o identificou. Depois, foi só uma questão de recuar no tempo. O calibre das balas deu logo a pista...
— Mas como se envolveu neste assunto?
— A Força da DAG era uma das minhas responsabilidades, um dos meus serviços. Quando o assunto chegou ao meu conhecimento, fui dar uma busca nos arquivos. Como tinha tempo livre, pedi que me entregassem a missão de descobrir o autor da morte de Oberhauser...
— Por quê?
— Porque — e James Bond fixou os olhos do Major Smythe — acontece que Oberhauser era um velho amigo meu. Foi quem me ensinou a esquiar quando eu tinha pouco mais de dez anos. Era um esplêndido sujeito. Foi uma espécie de pai para mim, precisamente na época em que eu mais precisava de um...
— Compreendo. — E o Major Smythe desviou o olhar. — Sinto muito...
James Bond se levantou:
— Bem, preciso voltar a Kensington. — E levantou a mão, para deter o major. — Não, não precisa incomodar-se. Sei onde o carro ficou... — Olhou para o homem mais velho e disse, rispidamente, quase com brutalidade: — Dentro de uma semana, alguém virá buscá-lo...
E caminhou, em passos firmes, sem se voltar, pela alameda afora. O major ouviu o ruído do arranque do motor e o chiado dos pneus do táxi nas pedrinhas miúdas da estrada.
Agora, ele procurava a sua presa, ao longo do recife de coral, pensando exatamente no sentido das palavras de James Bond. E sorriu por trás da máscara Pirelli. Era uma versão nova de um velho dramalhão, que consistia em deixar uma pistola com o oficial culpado, para que este mesmo estourasse os miolos. Se James Bond quisesse, poderia ter telefonado para a Government House e pedido um oficial de igual patente do Regimento da Jamaica para levar preso o Major Smythe. De certo modo, o seu gesto fora decente. Ou não fora? Um suicídio era mais limpo, economizava uma porção de trabalho e de papéis, que consumiriam o dinheiro dos contribuintes. Devia agradecer a James Bond a solução que ele parecia sugerir? Acaso encontraria Mary no lugar para onde vão as almas dos suicidas? Ou era melhor a Corte Marcial, a indignidade, as formalidades cacetes, as manchetes, o aborrecimento e a solidão de uma prisão perpétua, da qual só o livraria a terceira crise das coronárias? Poderia defender-se: era tempo de guerra, lutara com Oberhauser no alto da montanha, ele era um prisioneiro e tentara fugir... Oberhauser sabia do esconderijo do dinheiro... E ele, pobre oficial dos Comandos, tantas vezes arriscando a vida pela pátria, fora fraco e não resistira à tentação... Poderia entregar-se dramaticamente à misericórdia do Tribunal Militar... Um coronel certamente seria designado para defendê-lo e o faria com a maior eloquência. Poderia haver um apelo à Corte Suprema. Seu caso comoveria a Inglaterra e se tornaria uma cause célebre. Venderia sua história, com as reminiscências de guerra, aos grandes jornais... Mas...
Cuidado, meu velho! Cuidado! Seus pés agora tocavam o chão, sob as ondas que encrespavam a superfície da praia de North Shore. Por onde estariam os peixes-escorpiões? O polvinho querido estava faminto, esperando o seu almoço. Apurando a vista, perto do recife de coral, o Major Smythe viu as antenas de um lagostim, acenando inquisitivamente para ele. Normalmente, ele se esqueceria de tudo, para capturar o lagostim, que era, talvez, o maior que até então encontrara. Mas agora só tinha uma preocupação: a de descobrir a silhueta irregular e provocante do peixe-escorpião. Só depois de mais dez minutos de busca encontraria o primeiro. Os olhos vermelhos e zangados do peixe, muito abertos, o observavam. Para fisgá-lo, com o arpão, teria que fazer uma investida rápida, na vertical, firme e certeira. Sabia que as agulhas envenenadas se projetariam para fora da cabeça pontiaguda do monstro. Tinha que se mover lentamente, na direção do peixe, usando o braço livre para nadar. E... Agora! Avançou, para a frente e para baixo, mas o peixe-escorpião sentira a aproximação do arpão antes que este o tocasse. Uma lufada de areia se levantou do fundo do mar, atingido pelo golpe. E qualquer coisa roça em seu corpo, dando a impressão do voo de um pássaro. O major praguejou e fez meia volta, dentro da água. Sim, o peixe-escorpião fizera o que tantas vezes fazia: fora buscar refúgio entre as algas e as rochas, confiante em sua soberba camuflagem. O major voltou à carga, em novo mergulho, dessa vez ainda mais atento, e zás! O peixe-escorpião se agitava, agora, na ponta do arpão. A excitação foi tão grande que o Major Smythe vacilou e sentiu a antiga dor oprimir-lhe o peito. Pôs-se de pé, firmou o arpão contra a areia, atravessando inteiramente a presa, que ainda se agitava desesperadamente, e dirigiu-se à praia, indo sentar-se num banco de madeira, ao lado do qual atirou o peixe, fisgado, a se debater. Uns cinco minutos depois, o Major Smythe sentiu uma curiosa dormência na região do plexo solar. Olhou para baixo e estremeceu, de horror e incredulidade. Uma região de sua pele, com o tamanho aproximado de uma bola de críquete, tornara-se impressionantemente branca, a despeito do bronzeado de seu busto. No centro dessa área, havia três pequenas manchas sanguíneas. Automaticamente, o Major Smythe limpou o sangue. Os furos eram do tamanho de picadas de agulhas. Ele se lembrou, então, da fuga do peixe-escorpião, quando tentara arpoá-lo da primeira vez, e exclamou alto, com pavor, mas sem animosidade: — Tu me apanhaste, bastardo! Tu me apanhaste!
Imóvel, olhava para o próprio corpo, recordando-se do que lera sobre os ferrões do peixe-escorpião no livro que tomara emprestado à biblioteca do Instituto e nunca devolvera — Perigosos Animais Marinhos, publicação norte-americana. Tocou delicadamente a pele da área atingida. Sim, a pele se tinha tornado intumescida e de todo insensível, mas por baixo começava a sentir dor. Em breve essa dor profunda e intensa percorreria o seu corpo inteiro, tão lancinante que o seu único desejo seria o de deitar-se na areia, gritando e rolando, para abafá-la. Vomitaria e deitaria espuma pela boca, teria delírio e convulsões, até perder a consciência. Então, sobreviria, inevitável, o colapso cardíaco mortal. De acordo com o livro, o ciclo completo desses tormentos não passaria de um quarto de hora. Era tudo quanto lhe restava: quinze minutos de atroz agonia! Haveria cura, é claro — com procaínas, antibióticos e anti-histamínicos —, se seu coração debilitado suportasse tais medicamentos. Mas estes deviam estar à mão. Mesmo que conseguisse chegar em casa e admitindo que Jimmy Greaves dispusesse de todos esses remédios modernos, ele não poderia alcançar Wavelets antes de uma hora.
A primeira descarga de dor fez o corpo do Major Smythe dobrar-se sobre si mesmo. Depois outra e mais outra, irradiando-se através do estômago e dos membros. Sentia um gosto metálico na boca e uma coceira insuportável nos lábios. Deixou escapar um gemido e saltou do banco para a praia. Sobre a areia, ainda arquejava o peixe-escorpião. Houve uma trégua nos espasmos da dor. Seu corpo inteiro estava em fogo. Apesar da agonia o raciocínio permanecia claro. Mas, ora essa! Ia esquecendo a experiência! Devia ir à loca do polvo, para servir seu almoço! “Polvo, polvinho, vai ser a última refeição que eu te dou!”, dizia a si mesmo o Major Smythe, ajustando a máscara no rosto. Depois, apanhou o arpão, com o peixe espetado e, apertando o estômago com a mão livre, caminhou pela água adentro e, depois, mergulhou junto ao recife de coral. Poucas jardas o separavam agora do polvo. E foi gritando dentro da máscara, arrastando-se, quase de joelhos, que ele as percorreu. À medida que a água se tornava mais profunda, a dor se fazia mais intensa e seus movimentos pareciam com os de um fantoche, impulsionado por um feixe de cordéis. Só a poder de uma grande força de vontade pôde continuar rumo à morada do polvo. Sim, a sua massa escura ainda estava lá! E parecia excitadíssima. Por quê? O Major Smythe viu que as feridas de seu peito vertiam filetes de sangue escuro, que se diluía na água do mar. Era claro! O querido polvo sentira o gosto do seu sangue. Uma descarga de dor atingiu o major e o fez vergar-se. Disse a si mesmo, em delírio: “Que é isso, Dexter?! Firme, meu velho. Você tem que dar almoço ao polvinho”. Endireitou-se, empunhando o arpão com firmeza e aproximando o peixe da toca do polvo. Aceitaria ele a isca envenenada que o Major Smythe lhe oferecia e à qual talvez um octópode poderia ser imune? Ah, se Bengry estivesse presente, para observar! Três tentáculos, ondulando excitadamente, saíram da loca e passearam ao redor do peixe-escorpião. Agora, havia uma espécie de nevoeiro diante dos olhos do Major Smythe. Reconhecendo estar à beira da inconsciência, ele agitou fracamente a cabeça, para dissipá-lo. E, então, os tentáculos deram um salto! Mas não para o peixe: apertaram a mão e o braço que empunhavam o arpão. A boca do Major Smythe se torceu, numa careta de prazer. Agora, ele e o polvo podiam se apertar as mãos! Como era excitante! Que coisa maravilhosa! Mas o polvo, calma e implacavelmente, continuou a enroscar os seus tentáculos e a chamar a si o corpo do major. Só então Smythe compreendeu que algo de terrível ia acontecer. Fez um apelo a todas as suas forças e tentou golpear o octópode com o arpão. Mas tudo quanto conseguiu foi bater com o peixe-escorpião na massa escura do polvo. E, com o movimento que fez, ofereceu-se ainda mais a este, que o atraía de forma inexorável. Tarde demais o Major Smythe retirou sua máscara. Conseguindo alcançar a superfície, soltou um grito que reboou pela baía deserta, mas logo foi puxado para baixo. E, depois de algumas bolhas de ar, vieram à tona as pernas do major. As ondas lavavam o seu corpo, enquanto o polvo fazia a primeira tentativa para devorá-lo. O resto de Smythe foram encontrados por dois jovens da Jamaica, que pescavam peixes-agulhas numa canoa. Eles mataram o polvo, recolheram o arpão do Major Smythe com o peixe-escorpião e levaram os três despojos para a praia. O cadáver do major foi entregue à polícia e o peixe-escorpião aproveitado para a ceia. O destino do polvo de estimação seria também a panela ... O correspondente do Daily Gleaner em North Shore comunicou que o Major Smythe tinha sido morto por um polvo. Mas a redação do jornal, para não alarmar os turistas, preferiu dizer que ele “fora encontrado afogado”. Mais tarde, em Londres, James Bond, embora certo de que se tratara de um suicídio, anotou no dossier Oberhauser a versão do afogamento, com a respectiva data, na última página, o que encerrava o assunto. Somente pelas notas do Dr. Greaves sobre a autópsia, por ele mesmo realizada, é que foi possível escrever esta espécie de post-scriptum sobre o estranho e patético fim do outrora corajoso e útil oficial do Serviço Secreto.
Encontro em Berlim
(THE LIVING DAYLIGHTS)
James Bond estendia-se em posição na marca das quinhentas jardas da famosa linha de tiro Century Range, em Bisley. A pequena estaca branca na grama a seu lado dizia 44 e o mesmo número se repetia bem alto no talude distante acima do solitário alvo de seis pés quadrados que, ao olho humano e no crepúsculo do fim de verão, não parecia maior que um selo de correio. Mas a luneta de Bond, uma Sniperscope infravermelha fixada sobre o seu rifle, cobria todo o quadro. Ele podia até distinguir com clareza as cores azul-pálido e bege em que se dividia o alvo, e a mosca semicircular de seis polegadas parecia tão grande como a meia lua que já começava a se mostrar baixa no céu que escurecia acima da crista remota de Chobham Ridges.
O último tiro de James Bond fora um esquerdo interno — não o satisfizera. Deu uma outra olhada às bandeiras de vento amarelas e azuis. Tremulavam do leste através da linha de tiro mais intensamente do que quando tinha começado o seu tiro meia hora antes, e ele mudou o anemômetro dois pontos para a direita e assestou os dois fios cruzados da Sniperscope de volta ao foco de mira. Instalou-se então, colocou o indicador de leve dentro da guarda e sobre a curva do gatilho, prendeu a respiração e muito, muito suavemente apertou.
O estampido vicioso ecoou ao longo do campo vazio. O alvo desapareceu abaixo do solo e imediatamente o “boneco” tomou o seu lugar. Sim, a marca negra estava embaixo no canto direito desta vez, não no canto esquerdo: mosca.
— Bom — disse a voz do oficial chefe da linha, atrás e acima dele. — Fique com a mira.
O alvo já subira de novo e Bond recolocou a bochecha sobre o trecho quente da volumosa coronha de madeira e o olho na borracha que cerca a ocular da luneta. Enxugou a mão de atirar contra o lado das calças e pegou na coronha da pistola que sobressaía angulosamente da guarda do gatilho. Abriu de uma polegada o ângulo das pernas. Agora haveria cinco descargas rápidas. Era interessante ver se isso não provocaria “desgaste”. Ele achava que não. Esta arma extraordinária que o armeiro tinha descoberto sabe lá como dava à gente a sensação de que um homem de pé à distância de uma milha seria prato fácil. Era mais um rifle Experimental de Alvo Internacional, calibre 308, construído pela Winchester para ajudar os ases americanos do tiro em campeonatos mundiais, e tinha os dispositivos usuais das armas de alvo superacuradas — uma “mão” espiralada de alumínio nas costas da coronha que se estendia debaixo da axila e mantinha a arma com firmeza junto ao ombro, e uma pequena roda dentada ajustável abaixo do centro de gravidade do rifle para permitir que ele “se agarrasse” ao sulco do seu descanso de madeira. O armeiro tinha mandado trocar o ferrolho de tiro único usual por um depósito de cinco tiros, e tinha garantido a Bond que se ele deixasse apenas dois segundos entre cada tiro para estabilizar a arma não haveria desgaste, mesmo a quinhentas jardas. Para o serviço que devia fazer, Bond achava que dois segundos poderiam representar uma perda perigosa de tempo se errasse o seu primeiro tiro. De qualquer forma, M dissera que a distância não seria maior que trezentas jardas. Bond encurtaria o tempo para um segundo — fogo quase contínuo.
— Pronto?
— Sim.
— Vou à contagem regressiva de cinco. Agora! Cinco, quatro, três, dois, um. Fogo!
O chão tremeu ligeiramente e o ar silvou enquanto as cinco cápsulas velozes de cuproníquel varejavam o crepúsculo. O alvo baixou e rapidamente voltou a erguer-se condecorado com quatro pequenos discos brancos agrupados bem juntos na mosca. Não houve nenhum quinto disco — nem mesmo um negro para indicar um interno ou externo.
— A última descarga foi baixa — disse o chefe da linha baixando seus binóculos noturnos. — Obrigado pela contribuição. Limpamos a areia atrás daqueles alvos todo fim de ano.
Nunca recolhemos menos de quinze toneladas de estilhaços em legítimo chumbo e cobre. Um bom dinheiro.
Bond tinha-se levantado. O cabo Menzies da seção dos armeiros surgiu do pavilhão do Clube de Tiro e ajoelhou-se para desmontar a Winchester e o seu descanso. Olhou para cima encarando Bond. Disse com uma ponta de crítica. — O senhor tocou a coisa um pouco rápido. A última descarga tinha de escoicear.
— Eu sei, cabo. Só queria ver com que rapidez eu podia tocar. Não quero pôr a culpa na arma. É um trabalho enxuto, infernal. Por favor, diga isso por mim ao armeiro. Agora é melhor ir andando. Você tem condução de volta a Londres, não?
— Tenho, sim senhor. Boa noite.
O oficial chefe da Linha entregou a Bond uma ficha de seu tiro — dois tiros de ensaio e depois dez descargas para cada cem jardas até as quinhentas. — Pontaria danada de boa com esta visibilidade. Você devia voltar aqui o ano que vem e tentar o Prêmio da Rainha. Hoje em dia está aberto para todos — isto é, da Comunidade Britânica.
— Obrigado. O problema é que não passo tanto tempo assim na Inglaterra. E muito obrigado por ter feito a marcação para mim.
Bond olhou para a distante Torre do Relógio. De cada lado, a bandeira vermelha de perigo e o tambor vermelho de sinalização estavam sendo arriados para mostrar que o tiroteio tinha cessado. Os braços marcavam nove e quinze. — Gostaria de oferecer-lhe um drinque, mas tenho um encontro em Londres. Podemos adiá-lo até o Prêmio da Rainha de que você estava falando?
O chefe da Linha fez que sim com a cabeça, neutramente. Ele tinha aguardado ansioso a oportunidade de conhecer mais coisas sobre este homem que surgira assim sem mais nem menos depois de uma série de avisos do Ministério da Defesa e fora em frente acertando bem mais de noventa porcento em todas as distâncias, isso depois de fechada a linha para a noite e com visibilidade entre sofrível e má. E por que tinha ele, que só oficiava no encontro anual de julho, sido escalado para estar presente? E por que lhe tinham dito para providenciar uma mosca de seis polegadas a 500 jardas para Bond, em vez da regulamentar de quinze polegadas? E por que todos esses cuidados com a bandeira de perigo e o tambor de sinalização que só se usavam em ocasiões cerimoniais? Para pressionar o homem? Para dar um clima de urgência ao tiro? Bond. Comandante James Bond. A A.N.R. certamente teria a ficha de uma pessoa que atirava tão bem assim. Não se esqueceria de dar-lhes um telefonema. Que hora estranha para um compromisso em Londres. Provavelmente uma garota. O rosto do chefe da Linha assumiu uma expressão de desagrado. O tipo do sujeito que apanhava todas as garotas que queria.
Os dois homens caminharam através da bela fachada da sede do clube além da linha de tiro até o carro de Bond que estava estacionado diante de uma reprodução em ferro do famoso “Veado em Fuga” de Landseer toda picotada de balaços. — Uma beleza de carro — comentou o chefe da Linha. Nunca vi uma carroçaria assim num Continental. Mandou fazê-la especialmente?
— Mandei. Os Sports Saloons na verdade só têm dois lugares. E muito pouco espaço para bagagem. Por isso pedi a Mulliner’s que o transformassem num verdadeiro dois-lugares e com porta-malas de sobra. Um carro egoísta, não há dúvida. Bem, boa noite. E novamente muito obrigado.
O escape roncou com saúde e as rodas traseiras cuspiram cascalho por um instante.
O oficial chefe da Linha observou os faróis rubis desaparecerem na King’s Avenue a caminho da estrada de Londres. Girou nos calcanhares e foi procurar o cabo Menzies numa busca de informação que terminaria sem frutos. O cabo permaneceu tão fechado como a grande caixa de mogno que estava colocando num Land-Rover caqui, limpo de símbolos militares. O chefe da Linha era um major. Tentou apelar para a hierarquia, mas sem êxito. O Land-Rover afastou-se rodando no rastro de Bond. O major dirigiu-se soturno aos escritórios da Associação Nacional do Rifle para tentar achar a informação que queria na biblioteca sob o nome “Bond, J.”
O compromisso de James Bond não era com uma garota. Era com um voo da B.E.A. para Hanover e Berlim. Enquanto engolia as milhas que o separavam do Aeroporto de Londres, pisando firme o grande carro a fim de ter tempo de sobra para um drinque, três drinques, antes da decolagem, apenas uma parte de sua mente fixava-se na estrada. O restante reexaminava pela enésima vez a sequência que agora o conduzia a um encontro com um aeroplano. Mas apenas um encontro provisório. Seu compromisso final numa das três próximas noites em Berlim era com um homem. Tinha que se encontrar com esse homem e infalivelmente matá-lo com um tiro.
Quando, por volta de duas e meia daquela tarde, James Bond atravessara as portas duplamente acolchoadas e sentara-se em frente do perfil voltado, do outro lado da grande escrivaninha, sentira imediatamente o perigo no ar. Não houve troca de cumprimentos. A cabeça de M afundava-se no colarinho duro numa pose churchilliana de sombria reflexão, e havia um traço de amargura nos cantos dos lábios. Girou a cadeira para encarar Bond, passou-lhe um olhar examinador como se, pensou Bond, quisesse verificar se sua gravata estava direita e o cabelo adequadamente penteado, e então começou a falar, rapidamente, atalhando suas sentenças como se desejasse ver-se livre do que estava dizendo, e de Bond, o mais depressa possível.
— O número 272. É um bom homem. Você talvez não o conheça. Pela simples razão de que ficou naquele buraco da Novaya Zemlya desde a guerra. Agora está tentando sair — carregado de material. Atômico e foguetes. E o plano deles para toda uma nova série de testes. Para 1961. Querem avivar o fogo no Ocidente. Algo a ver com Berlim. Não vejo bem o quadro mas o Foreign Office diz que se for verdade é uma coisa tremenda. Ridiculariza a Conferência de Genebra e toda essa demagogia sobre desarmamento nuclear que o bloco comunista vem fazendo. Ele conseguiu chegar até a Berlim Oriental. Mas tem praticamente toda a KGB no seu encalço — e as forças de segurança da Alemanha Oriental, é claro. Está entocado num buraco qualquer da cidade e conseguiu passar-nos uma mensagem — de que atravessaria entre seis e sete da tarde numa das três próximas noites — amanhã, depois de amanhã ou no dia seguinte. Indicou o ponto de travessia. O problema — a curva dos lábios de M, voltada para baixo, tomou-se ainda mais amarga — é que o mensageiro que ele usou fazia jogo duplo. A estação W.B. pilhou-o ontem. Por acaso. Deu sorte com um dos códigos da KGB O mensageiro será mandado de avião para julgamento, naturalmente. Mas isso não ajudará em nada. A KGB sabe que o 272 vai tentar a travessia. Sabem quando. Sabem onde. Sabem tanto quanto sabemos e nada mais. Ora, o código que deciframos ontem era um esquema de um só dia em suas máquinas. Mas conseguimos todo o tráfico daquele dia e isso foi bastante bom. Planejam alvejá-lo ao tentar a travessia. No cruzamento de ruas entre a Berlim Leste e a Oeste que nos indicou na mensagem. Estão montando uma operação daquelas — operação “Êxtase” como a chamam. Puseram o seu melhor tocaia no serviço. Tudo o que soubemos dele ó que seu nome cifrado é a palavra russa para “Gatilho”. A estação W.B. acha que é o mesmo homem já usado em outros serviços de tocaia. Um serviço de longo alcance através da fronteira. Ficará de guarda toda noite nesse cruzamento e sua missão é acertar no 272. É óbvio que eles certamente prefeririam fazer um serviço mais suave com metralhadoras e coisas do gênero. Mas Berlim está calma no momento e parece que a ordem é ficar assim. De qualquer forma — M sacudiu os ombros — eles têm confiança nesse operador “Gatilho” e o negócio vai ser assim!
— E onde é que eu entro? — James Bond tinha adivinhado a resposta, adivinhado porque M mostrava seu desagrado com a coisa toda. Ia ser trabalho sujo e Bond, porque pertencia à Seção Zero-Zero, tinha sido escolhido para fazê-lo. Perversamente, Bond queria forçar M a pôr o preto no branco. Iam ser notícias más, notícias sujas e ele não queria ouvi-las de um dos oficiais da Seção, nem mesmo do chefe do Estado-Maior. O negócio ia ser assassínio. Está bem. Que M tenha então a coragem de me dizer.
— Onde é que você entra, 007? — M olhou friamente do outro lado da escrivaninha. — Você sabe onde é que você entra. Você tem que matar esse tocaia. E tem que matá-lo antes que acerte no 272. É tudo. Está claro? — Os olhos azuis-claros permaneceram frios como gelo. Mas Bond sabia que só ficavam assim com um esforço da vontade. M não gostava de mandar qualquer homem para um homicídio. Mas, quando isso tinha de ser feito, ele sempre assumia a sua severa e fria ação de comando. Bond sabia a razão. Era para tirar um pouco da pressão, um pouco da culpa, dos ombros do matador.
Portanto Bond, que sabia dessas coisas, decidiu agora tornar fácil e rápida a tarefa de M. Levantou-se. — Está certo, sir. Suponho que o chefe do Estado-Maior tenha tudo pronto. É melhor eu ir praticar um pouco. Não seria bom errar.
Caminhou para a porta.
M disse calmamente: — Sinto ter que lhe dar essa tarefa. Serviço desagradável. Mas tem que ser bem executado.
— Farei o melhor — James Bond saiu fechando a porta atrás de si. Não gostava do serviço mas no final preferia fazê-lo a assumir a responsabilidade de mandar alguém em seu lugar.
O chefe do Estado-Maior tinha sido apenas um pouco mais simpático. — Lamento esta sua aquisição, James — dissera ele. — Mas Tanqueray foi inflexível, não tinha ninguém suficientemente bom na estação e esse não é o tipo de serviço que se pode pedir a um soldado regular para fazer. Há uma porção de excelentes tiros na B.A.O.R., mas um alvo vivo requer outro tipo de coragem. De qualquer forma, liguei para Bisley e marquei um exercício para você esta noite às oito e quinze quando a linha estiver fechada. A visibilidade será mais ou menos a mesma que você terá em Berlim cerca de uma hora antes. O armeiro está com a arma — verdadeira obra de arte para alvejar, e vai mandá-la por um de seus homens. Você irá com a sua própria condução. Depois, há um voo de carreira para Berlim à meia-noite reservado em seu nome na B.E.A. Tome um táxi até esse endereço. — Entregou a Bond um pedaço de papel. — Suba ao quarto andar e encontrará o número 2 de Tanqueray à sua espera. Depois disso, sinto que você terá que esperar sentado pelos próximos três dias.
— E a arma? Esperam que atravesse a alfândega alemã com ela dentro de um saco de golfe ou coisa assim?
O chefe do Estado-Maior não tinha achado graça. — Seguirá pela mala diplomática. Você a receberá amanhã ao meio-dia. — Tinha estendido a mão até o bloco de avisos. — Bem, é melhor ir andando. Vou avisar a Tanqueray que está tudo combinado.
James Bond baixou o olhar para o rosto azul difuso do relógio no painel do carro. Dez e quinze. Com um pouco de sorte, amanhã a esta hora estaria tudo terminado. Afinal, era a vida deste homem “Gatilho” contra a vida do 272. Não era exatamente homicídio. Estava perto disso, no entanto. Apertou maldosamente sua buzina-de-serra tripla ao passar por um quatro portas comum, ingressou no cruzamento circular com uma derrapagem seca desnecessária, girou violentamente o volante fazendo a correção e apontou o nariz do Bentley em direção do brilho distante que era o Aeroporto de Londres.
O edifício feio de seis andares na esquina da Kochstrasse e da Wilhelmstrasse era o único de pé na desolação de um espaço vazio bombardeado. Bond pagou o táxi e gravou uma breve impressão de capim, alto como a cintura, e de paredes de entulho mal reparadas, estendendo-se na direção de um grande cruzamento deserto iluminado por um feixe central de lâmpadas amareladas em arco, antes de apertar o botão para o quarto andar e imediatamente ouviu o clique do dispositivo que abria a porta do prédio. A porta fechou-se atrás dele e caminhou então sobre o chão de cimento sem tapete até o antiquado elevador. O cheiro de repolho, cigarro barato e suor rançoso lembravam outros prédios de apartamentos na Alemanha e Europa Central. Até o arrastar e o guincho fraco do elevador vagaroso eram parte de centenas de missões em que tinha sido lançado por M, como um projétil, a algum alvo distante onde um problema aguardava a sua chegada, à espera de ser resolvido por ele. Pelo menos desta vez o comitê de recepção estava do seu lado. Desta vez não havia nada a temer no fim da escada.
O número 2 da Estação W.B. de Serviço Secreto era um homem esguio e tenso de quarenta e poucos anos. Vestia o uniforme de sua profissão — terno bem cortado e bem usado de tweed leve ponto pé-de-pato num tom verde-escuro, camisa de seda macia branca e uma velha gravata de colégio — neste caso de Wykeham. Ao ver a gravata, enquanto trocavam as saudações convencionais no pequeno saguão mofado do apartamento, o ânimo de Bond, já baixo, desceu mais um degrau. Conhecia esse tipo: espinha dorsal do Serviço Público; superestudioso e mal-amado em Winchester; um bom segundo em P.P.E. em Oxford; a guerra, cargos funcionais que teria ocupado meticulosamente; talvez uma Ordem do Império Britânico; Comissão do Controle Aliado na Alemanha, onde fora recrutado no Ramo I e a partir de então — porque era o funcionário ideal e A. 1 junto à Segurança e porque pensava em encontrar vida, drama, romance, todas as coisas que nunca linha tido — lá fora ele para o Serviço Secreto. Um homem sóbrio, cuidadoso se fizera necessário para bancar a dama de companhia de Bond neste negócio feio. O Capitão Paul Sender, que já servira na Guarda Galesa, tinha sido a escolha óbvia. E tinha aceitado. Agora, como bom Wykehamista, escondia o seu desagrado pelo serviço debaixo de uma conversa cuidadosa e banal enquanto mostrava a Bond a planta do apartamento e as providências tomadas para a prontidão do carrasco e, numa medida modesta, para o seu conforto.
O apartamento consistia de um amplo dormitório conjugado, um banheiro e uma cozinha equipada de enlatados, leite, manteiga, ovos, chá, bacon, pão e uma garrafa de Dimple Haig. O único detalhe estranho no quarto de dormir era que uma das camas duplas estava encostada em ângulo contra as cortinas que cobriam o amplo janelão único e sobre ela se empilhavam três colchões cobertos pela roupa de cama.
O Capitão Sender disse: — Gostaria de dar uma olhada ao campo de fogo? Poderei então explicar o que é que o lado de lá tem em mente.
Bond estava cansado. Não desejava especialmente ir dormir com a imagem do campo de batalha na memória. Disse: — Seria ótimo.
O Capitão Sender apagou as luzes. Faixas luminosas das lâmpadas no cruzamento apareceram em volta das cortinas. — Não quero puxar as cortinas — disse o Capitão Sender. — É pouco provável, mas eles podem ter sido alertados contra um grupo de cobertura para o 272. Queria que você apenas se deitasse na cama e enfiasse a cabeça por baixo das cortinas. Explicarei o que você estiver vendo. Olhe para a esquerda.
Era uma janela de guilhotina e a metade inferior estava aberta. Os colchões, especialmente escolhidos, só cediam um pouco e James Bond encontrou-se mais ou menos na posição de tiro que tinha adotado em Century Range, mas agora olhava através de terreno descontínuo, coberto de densa vegetação e bombardeado, na direção do rio de luz que era a Zimmerstrasse — a fronteira com a Berlim Oriental. Parecia a umas cento e cinquenta jardas de distância. A voz do Capitão Sender acima dele e por trás da cortina começou a recitar. Lembrava a Bond uma sessão espírita.
— Ali é terreno bombardeado à sua frente. Bastante cobertura. Umas cento e trinta jardas até a fronteira. Depois a fronteira — a rua — e então um trecho grande ainda de terreno bombardeado no campo do inimigo. É por isso que o 272 escolheu essa passagem. É um dos poucos locais na cidade em que o terreno é descontínuo — capinzais cerrados, muros em ruínas, porões — nos dois lados da fronteira. Ele deverá es-gueirar-se entre aquela confusão do outro lado e arremessar-se através da Zimmerstrasse até alcançar a confusão do nosso lado. O problema é que terá de correr trinta jardas de fronteira fortemente iluminada. Será o espaço da matança. Certo?
Bond disse: — Sim.
Disse-o com suavidade. O cheiro do inimigo, a necessidade de tomar cuidado, já estavam atuando sobre seus nervos.
— À sua esquerda, aquele novo e imenso bloco de dez andares é a Haus der Ministerien, o grande centro cerebral de Berlim-Leste. Você pode ver que as luzes ainda estão acesas na maioria das janelas. A maior parte delas ficará assim toda a noite. Esses sujeitos trabalham mesmo — seus turnos dão a volta no relógio. Você provavelmente não precisará preocupar-se com as janelas acesas. Esse fulano “Gatilho” certamente vai atirar de uma das janelas escuras. Você verá que existe um grupo de quatro, juntas, na quina acima do cruzamento. Ficaram escuras na noite passada e esta noite. Elas têm o melhor campo de fogo. Daqui, o seu alcance varia entre trezentas e trezentas e dez jardas. Estou com todos os números e dados quando você quiser. Não é preciso preocupar-se muito mais. Aquela rua fica vazia durante a noite — apenas as patrulhas motorizadas cerca de cada meia hora — carros blindados leves com uma dupla de motocicletas por escolta. Na noite passada, que suponho normal, entre seis e sete, que é a hora em que se fará este serviço, havia umas poucas pessoas entrando e saindo por aquela porta lateral. Uns funcionários. Antes disso nada fora do comum — o fluxo costumeiro de pessoas entrando e saindo de um edifício de governo movimentado — com exceção, veja só, de uma miserável orquestra completa de mulheres. Fizeram uma confusão infernal numa sala de concertos que tem ali. Parte do bloco aloja o Ministério da Cultura. Fora disso nada — certamente nenhuma das pessoas da KGB que conhecemos, nem sinais de preparação para um serviço deste gênero. Mas nem pode haver sinais. São muito cuidadosos estes sujeitos da oposição. De qualquer maneira, dê uma boa olhada. Não esqueça que agora está mais escuro do que amanhã por volta das seis. Mas você pode formar um quadro geral.
Bond formou o quadro geral e o quadro ficou com ele muito tempo enquanto o outro homem já dormia e ressonava suavemente com um pequeno som regular que lembrava um fraco estalido — um ronco Wykehamista, refletiu Bond irritado.
Sim, tinha formado o quadro — o quadro de um lampejo movimento entre as ruínas sombreadas no outro lado do brilhante rio de luz, uma pausa, e então a desesperada corrida em ziguezague de um homem sob o impacto luminoso das lâmpadas, o espocar da arma de fogo e, ou um fardo retorcido espalhado no meio da rua larga, ou então a investida sempre em frente através do capinzal e do entulho no Setor Ocidental — morte súbita ou volta a casa. O grande desafio! Quanto tempo teria Bond para localizar o tocaia russo numa daquelas janelas escuras? E para matá-lo? Cinco segundos? Dez? Quando o amanhecer começava a cobrir as cortinas com o tom metálico das armas, Bond capitulou para sua mente agitada. Ela tinha ganho. Foi em silêncio até o banheiro e inspecionou as fileiras de remédios que um prestimoso Serviço Secreto tinha providenciado para manter o seu carrasco em boa forma. Escolheu o Tuinal, engoliu duas das cápsulas concentradas, rubis e azuis, com um copo de água e voltou à cama. Então, chumbado, dormiu.
Acordou ao meio-dia. O apartamento estava vazio. Bond abriu as cortinas para deixar entrar o dia cinzento prussiano e, de pé a uma boa distância da janela, ficou vendo a monotonia de Berlim e ouvindo o ruído dos bondes e o arranhar distante dos trens da U-Bahn na grande curva de entrada da estação do Zoo. Lançou um olhar rápido e relutante ao que já tinha examinado na noite anterior, notou que o capim no entulho de bombardeio era mais ou menos o mesmo de Londres — loendro, labaçol e samambaia — e dirigiu-se então à cozinha. Havia uma nota apoiada numa fatia de pão: “Meu amigo (eufemismo do Serviço Secreto que neste contexto significava o chefe de Sender) diz que não há mal em você sair. Mas esteja de volta às 17 horas. Seu equipamento (outra palavra para o rifle de Bond) chegou e o bagageiro a entregará esta tarde. P. Sender.”
Bond acendeu o fogão a gás e queimou a mensagem com desprezo por sua profissão e em seguida preparou um prato enorme de ovos mexidos e bacon que amontoou sobre uma torrada coberta de manteiga e comeu com acompanhamento de café preto no qual derramara uma porção liberal de uísque. Depois tomou um banho e barbeou-se, vestiu as roupas descoloridas, centro-europeias e anônimas que tinha trazido para a sua missão, olhou a sua cama em desordem, decidiu que tudo fosse para o inferno e desceu pelo elevador deixando o edifício.
James Bond sempre achara Berlim uma cidade deprimente e hostil, esmaltada no lado Ocidental com o verniz superficial de um polimento pretensioso parecido com os enfeites cromados dos carros americanos. Caminhou até a Kurfurstendamm, sentou-se no Café Marquardt, tomou um expresso e ficou observando com tédio as filas obedientes de pedestres esperando o sinal “Siga” nos postes de trânsito enquanto a corrente luminosa de carros continuava a sua perigosa quadrilha na movimentada intersecção. Fazia frio lá fora e o vento cortante das estepes russas fustigava as saias das garotas e os impermeáveis dos homens impacientes e apressados, cada um com a infalível pasta enfiada debaixo do braço. Os aquecedores de parede infravermelhos do café apontavam o vermelho para baixo e davam um brilho espúrio ao rosto dos cafeinômanos que degustavam sua tradicional “uma xícara de café e dez copos de água”, lendo de graça os jornais e revistas presos por paus, ou se curvavam com seriedade sobre papéis de negócios. Bond, fechando o pensamento para a noite, discutia consigo mesmo as maneiras de passar a tarde. Finalmente chegou à escolha entre uma visita àquela casa de respeitável fachada de pedra, na Clausewitzstrasse, conhecida de todos os porteiros e choferes de táxi, ou um passeio ao Wannsee e uma vigorosa caminhada no Grunewald. A virtude triunfou. Bond pagou o café, saiu no frio e tomou um táxi até a estação do Zoo.
As belas arvorezinhas jovens em volta do lago extenso já tinham sido tocadas pelo sopro do outono e havia um dourado aqui e ali no meio do verde. Bond caminhou com energia durante duas horas pelas veredas cobertas de folhas e então escolheu um restaurante com terraço envidraçado sobre o lago e saboreou com prazer um chá reforçado consistindo de uma porção dupla de arenques do Norte mergulhados em creme e anéis de cebola, e dois Molle mit Korn, o equivalente berlinense de um “fabricante de caldeiras e seu assistente” — schnapps, duplos, acompanhados por um chope Löwenbräu. Sentindo-se então mais animado tomou a S-Bahn para voltar à cidade.
Em frente do prédio de apartamentos, um jovem indefinível estava mexendo no motor de um Opel Kapitan negro. O jovem não tirou a cabeça debaixo do capo quando Bond passou bem perto dele e subiu até a porta e apertou o botão.
CONTINUA
Quando chegou embaixo, sentou-se no musgo, sob os abetos. Estendeu no chão a camisa, colocou no centro dela as barras de ouro e fez uma trouxa, amarrando bem as fraldas e as mangas. Depois, cavou um buraco no chão e enterrou a caixa metálica vazia. E vergando ao peso, quase dobrado em dois, caminhou pela estreita trilha, entre os pinheiros, rumo ao jipe. Até aquele dia não conseguira saber como tivera forças para alcançar o veículo. Os nós que dera na trouxa pareciam penetrar nas carnes de seu ombro, sob o peso das barras de ouro. Quando, finalmente, alcançou o jipe, quase teve um colapso, tão exausto estava. Mas não podia descansar, ainda. Precisava sair dali para enterrar o seu tesouro na floresta, perto de um grupo de grandes rochas, onde lhe seria fácil encontrá-lo de novo, na ocasião oportuna em dia, quando o horizonte estivesse limpo, voltaria, por outra rota, evitando o chalé de Oberhauser. Só então, terminado tudo, fora embebedar-se com uma garrafa de schnapps barato. Jantou e meteu-se na cama, para dormir como uma pedra. No dia seguinte, a Força A da DAG seguiu para o vale do Mittersill. Seis meses depois o Major Smythe estava em Londres. A sua guerra havia terminado. Mas os seus problemas, não. Ouro era coisa difícil de contrabandear, principalmente em grande quantidade. E era essencial que o Major Smythe transferisse as suas barras para um novo esconderijo. Por isso, ele procurou evitar a desmobilização e gozar os privilégios de seu comissionamento temporário, sobretudo o seu passe do Serviço Secreto Militar. Conseguiu ser mandado de volta para a Alemanha, como representante da Inglaterra no Centro Misto de Investigação de Munique. Aí, trabalhou durante seis meses e, nesse período, teve a oportunidade de recuperar o ouro, que levou para o seu alojamento numa velha valise. Depois, em dois fins de semana, fez viagens aéreas para Londres, levando, de cada vez, uma barra de ouro, em sua volumosa pasta. A caminhada nos aeroportos de Munique e de Londres, com a pasta sob o braço, como se contivesse apenas papéis, exigira dois tabletes de benzedrina e uma vontade de ferro. Finalmente, pôde esconder sua fortuna no porão da casa de uma tia, em Kensington, e assim, com tranquilidade, pôde desenvolver a parte final de seus planos. Pediu reforma nos Fuzileiros Reais e, uma vez desmobilizado, casou-se com uma das muitas moças com quem tivera aventuras durante o serviço da DAG, uma graciosa Wren chamada Maria Parnell. Comprou passagem para ambos num cargueiro para a Jamaica, que representava, para ambos, um paraíso ensolarado, com boa e farta comida, bebida barata, sem a melancolia e as restrições impostas na Inglaterra, após a guerra, pelo severo governo trabalhista. Antes do embarque, o Major Smythe mostrou a Mary as barras de ouro, das quais já havia raspado a cinzel os símbolos do Reichsbank.
— Tenho sido muito econômico e esperto, meu bem — disse ele. — Não confio na libra. Por isso, vendi todas as minhas ações e comprei um bocado de ouro. Teremos pelo menos 20 mil libras, se eu o vender bem. Isso basta para nos assegurar uma boa vida, até o fim dos nossos dias. Sempre que for preciso, eu venderei um pouquinho — explicou.
Mary Parnell não era familiarizada com as leis monetárias. Mas se ajoelhou e passou as mãos, carinhosamente, sobre as barras de ouro. Depois, com os braços ao redor do pescoço do marido, beijou-o e disse, quase em lágrimas: — Você é um homem maravilhoso... Sim, maravilhoso! Terrivelmente inteligente, bonito, simpático, herói da guerra e, além do mais, rico! Eu sou a garota mais feliz do mundo!
— Você tem razão pelo menos numa coisa: ricos, nós somos. Mas prometa não dizer uma só palavra a quem quer que seja! Pois, se disser, todos os ladrões da Jamaica irão rondar a nossa casa.. .
O Prince’s Club, ao pé das colinas que dominam os arredores de Kensington, era realmente esplêndido. Para os seus sócios, não havia nada melhor: maravilhosa criadagem, comida farta, bebida barata, belíssimos cenários tropicais, como nunca tinham visto antes. O casal era muito popular e os serviços de guerra do Major Smythe lhe davam ingresso na alta sociedade local e na Government House. A vida de ambos era uma série interminável de festas, misturadas com o tênis de Mary e o golfe do major (com os bastões metálicos de Henry Cotton!) durante o dia, e partidas de bridge (para ela) e de pôquer (para ele) durante as noites. Sim, era um paraíso, porque, na Inglaterra, havia racionamento, filas e mercado negro, um governo atroz e o pior inverno dos últimos trinta anos. A princípio, o casal enfrentou as despesas com as economias em dinheiro, que ambos haviam reunido, enquanto se vestiam, se alimentavam e se transportavam à custa do Exército. Só depois de um ano de cautelosas investigações é que o Major Smythe se decidiu a fazer negócio com os irmãos Fu, comerciantes importadores e exportadores. Altamente respeitados e muito ricos, os irmãos Fu eram conhecidos como uma espécie de junta governativa da comunidade chinesa da Jamaica. Ainda que alguns dos seus negócios se desviassem das boas normas, segundo a tradição chinesa, Smythe achou que poderia confiar neles. A Convenção de Bretton Woods, fixando um preço internacional para o ouro, sob rigoroso controle, tinha sido assinada deixando de parte Tânger e Macau, dois portos livres, em que a onça de ouro valia entre 99 e 100 dólares, quando nos outros lugares o preço oficial era de 35. E, para maior conveniência de seus negócios, os Fu tinham aberto um restaurante em Hong-Kong, transformado em entreposto para o contrabando de ouro para a vizinha Macau. Isso, na linguagem do Major Smythe, era sopa no mel. Ele tivera um agradável encontro com os Fu. Nenhuma pergunta estes fizeram, senão depois do exame das barras de ouro.
— Major — disse o mais velho dos irmãos —, no mercado de ouro em barras, as marcas dos bancos nacionais e dos negociantes respeitáveis são aceitos sem discussão. Essas marcas são a garantia da pureza do ouro. Mas outros bancos e outros vendedores têm seus próprios processos de refinação, que talvez, não sejam tão perfeitos...
— Quer dizer que eu fui enganado? — Perguntou, ansiosamente, o major. — Que isso não é senão uma barra de chumbo coberta de uma leve camada de ouro?
Os dois irmãos deram muxoxos tranquilizadores:
— Não, não, major... Não se trata disso. Mas, se uma pessoa não se recorda da proveniência dessas barras de ouro, por mais finas que elas sejam é sempre necessário submetê-las a um ensaio, para verificação do seu exato teor... Há muitos métodos para determinar o grau de pureza dessas barras. Meu irmão e eu somos competentes em qualquer deles. Quer deixar as barras de ouro conosco e vir saber o resultado depois do almoço? Nós lhe daremos um recibo...
Não havia alternativa. Teria que confiar nos Fu. Qualquer que fosse o preço por eles arbitrado, seria forçado a aceitar. Estava nas mãos deles. Foi a um bar, onde tomou dois drinques fortes e comeu um sanduíche que lhe ficou atravessado na garganta. Depois, voltou ao escritório refrigerado dos Fu. O cenário era o mesmo: os dois irmãos sorridentes, as duas barras de ouro, a pasta de couro, etc. Só havia a mais uma folha de papel e uma caneta-tinteiro de pena de ouro, em frente do irmão mais velho.
— Resolvemos o problema do seu ouro, major! — (Esplêndido! Obrigado, pensou Smythe.) — E estou certo de que o senhor terá interesse em conhecer sua origem...
— Claro! Qual é? — Fez o major, com uma corajosa demonstração de entusiasmo.
— São barras de ouro alemãs! Provavelmente saíram dos depósitos do Reichsbank, durante a guerra. Isso pode ser deduzido do fato de que contêm dez porcento de chumbo. Durante o regime de Hitler, o Reichsbank fez a tolice de adulterar por esse modo o seu ouro. Isso logo se espalhou e o preço das barras de ouro alemãs, vendidas na Suíça, sofreu logo uma redução de preço, correspondente à adulteração. Foi uma bobagem, que só teve um resultado: o banco nacional da Alemanha perdeu a reputação que conquistara durante séculos... Bobagem... Uma grandíssima bobagem... — Concluiu o chinês, com o seu invariável sorriso.
O Major Smythe estava maravilhado com a onisciência desses dois homens, tão afastados dos grandes canais de comércio do mundo. Mas ao mesmo tempo os amaldiçoava, intimamente. E agora?
— É muito interessante, Sr. Fu... Mas isso não é uma boa notícia para mim. Essas barras de ouro me foram entregues como coisa cem por cento...
— Não tem importância, major — disse o mais velho dos Fu. — Ou melhor, quase não tem importância. Venderemos o seu ouro pelo justo valor, ou seja, 89 dólares a onça. Terá que ser, ou não, refinado pelo último comprador. Mas isso não é da nossa conta. Nós o venderemos também como cem por cento...
— Mas a um preço mais baixo...
— Realmente, major. Mas creio que temos uma boa notícia para o senhor. Quanto calculava obter com essas duas barras?
— Cerca de 20 mil libras...
— Se as vendermos bem e aos pouquinhos — disse o mais velho dos Fu —, o senhor receberá mais de 100 mil dólares, major, sujeitos, é claro, ao desconto da nossa comissão, que inclui o transporte e outras despesas.
— E a quanto montará isso?
— Estou pensando em fixar em 10 por cento, major. Se lhe parecer satisfatório...
O Major Smythe tinha a impressão de que vendedores de ouro em barras recebiam apenas um por cento de comissão. Mas, que diabo, antes do almoço já estava disposto a largar tudo até por 10 mil libras. Disse “fechado” e levantou-se, estendendo a mão através da mesa. Desde então, de quatro em quatro meses, ia visitar o escritório dos Fu, levando uma valise vazia. Havia sempre quinhentas libras novas, da emissão da Jamaica, em pacotes, sobre a mesa, à sua espera, e um recibo da quantidade vendida, com o preço alcançado em Macau. As barras de ouro diminuíam de tamanho, de polegada em polegada. O negócio era simples e cordial. Duas mil libras limpas, por ano, eram o bastante para ele, e só o afligia a possibilidade de que o pessoal do imposto de renda começasse a apertá-lo, para saber do que estava vivendo. Ele disse isso aos Fu, que lhe fizeram saber que não precisava se preocupar. Nas duas vezes seguintes, havia apenas quatrocentas libras na mesa, mas nenhum comentário foi feito, por qualquer dos lados. E assim os dias iam se passando, preguiçosamente. Os Smythes engordavam e o major teve a primeira das duas complicações das coronárias. O médico lhe recomendou uma vida menos ativa, com menos álcool e menos cigarros. Evitasse, também, as gorduras e as comidas fritas. A princípio, Mary tentou ser severa com ele, mas quando o marido começou a beber escondido e a inventar pequenas mentiras e evasivas, ela recuou desse propósito. Teve medo de se transformar numa chata doméstica, a quem o Major Smythe passaria a evitar. Por isso, deu-lhe inteira liberdade, sabendo que ele não mais a amava, e quando a sua solidão se tornou demasiada e as insônias intoleráveis, viciou-se em tomar soníferos. Uma noite, depois de uma violenta briga, estando ambos embriagados, tomou ela uma dose excessiva, só “para dar-lhe uma lição”. A dose era tão exagerada que a matou. O suicídio foi dissimulado, mas ainda assim recaíram suspeitas sobre o major, em prejuízo de sua reputação social. E a tal ponto que ele teve de se retirar para North Shore que, embora a apenas três milhas de Kensington, parece pertencer a um outro mundo. Aí ele se instalou em Wavelets e, depois da segunda complicação das coronárias, começou a beber desenfreadamente. Foi então que entrou em cena James Bond com um mandado de prisão ou de morte no bolso.
O Major Smythe olhou para o relógio. Passavam alguns minutos do meio-dia. Ele se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale e foi para o jardim. James Bond estava sentado sob a frondosa amendoeira, olhando para o lar. Nem se voltou para o Major Smythe quando este puxou outra cadeira de alumínio e colocou o copo na relva, perto dele. Quando o Major Smythe acabou de narrar a sua história, James Bond disse, sem demonstrar qualquer emoção: — Era mais ou menos isso o que eu havia pensado...
— Quer que eu escreva tudo ou apenas assine?
— Faça como quiser. Mas isso não se entende comigo. Deve entregar à Corte Marcial. Seu velho Corpo de Fuzileiros Reais é que vai tomar conta do caso. Não tenho nada que ver com os aspectos legais. Farei apenas um relatório do que me disse, para a Procuradoria da Justiça, através da Scotland Yard...
— Posso perguntar uma coisa? Como foi que descobriu?
— A geleira era pequena. O corpo de Oberhauser chegou embaixo no início deste ano, quando as neves da primavera derreteram. Alguns alpinistas o encontraram. Todos os seus papéis e tudo o mais estava perfeito. A família o identificou. Depois, foi só uma questão de recuar no tempo. O calibre das balas deu logo a pista...
— Mas como se envolveu neste assunto?
— A Força da DAG era uma das minhas responsabilidades, um dos meus serviços. Quando o assunto chegou ao meu conhecimento, fui dar uma busca nos arquivos. Como tinha tempo livre, pedi que me entregassem a missão de descobrir o autor da morte de Oberhauser...
— Por quê?
— Porque — e James Bond fixou os olhos do Major Smythe — acontece que Oberhauser era um velho amigo meu. Foi quem me ensinou a esquiar quando eu tinha pouco mais de dez anos. Era um esplêndido sujeito. Foi uma espécie de pai para mim, precisamente na época em que eu mais precisava de um...
— Compreendo. — E o Major Smythe desviou o olhar. — Sinto muito...
James Bond se levantou:
— Bem, preciso voltar a Kensington. — E levantou a mão, para deter o major. — Não, não precisa incomodar-se. Sei onde o carro ficou... — Olhou para o homem mais velho e disse, rispidamente, quase com brutalidade: — Dentro de uma semana, alguém virá buscá-lo...
E caminhou, em passos firmes, sem se voltar, pela alameda afora. O major ouviu o ruído do arranque do motor e o chiado dos pneus do táxi nas pedrinhas miúdas da estrada.
Agora, ele procurava a sua presa, ao longo do recife de coral, pensando exatamente no sentido das palavras de James Bond. E sorriu por trás da máscara Pirelli. Era uma versão nova de um velho dramalhão, que consistia em deixar uma pistola com o oficial culpado, para que este mesmo estourasse os miolos. Se James Bond quisesse, poderia ter telefonado para a Government House e pedido um oficial de igual patente do Regimento da Jamaica para levar preso o Major Smythe. De certo modo, o seu gesto fora decente. Ou não fora? Um suicídio era mais limpo, economizava uma porção de trabalho e de papéis, que consumiriam o dinheiro dos contribuintes. Devia agradecer a James Bond a solução que ele parecia sugerir? Acaso encontraria Mary no lugar para onde vão as almas dos suicidas? Ou era melhor a Corte Marcial, a indignidade, as formalidades cacetes, as manchetes, o aborrecimento e a solidão de uma prisão perpétua, da qual só o livraria a terceira crise das coronárias? Poderia defender-se: era tempo de guerra, lutara com Oberhauser no alto da montanha, ele era um prisioneiro e tentara fugir... Oberhauser sabia do esconderijo do dinheiro... E ele, pobre oficial dos Comandos, tantas vezes arriscando a vida pela pátria, fora fraco e não resistira à tentação... Poderia entregar-se dramaticamente à misericórdia do Tribunal Militar... Um coronel certamente seria designado para defendê-lo e o faria com a maior eloquência. Poderia haver um apelo à Corte Suprema. Seu caso comoveria a Inglaterra e se tornaria uma cause célebre. Venderia sua história, com as reminiscências de guerra, aos grandes jornais... Mas...
Cuidado, meu velho! Cuidado! Seus pés agora tocavam o chão, sob as ondas que encrespavam a superfície da praia de North Shore. Por onde estariam os peixes-escorpiões? O polvinho querido estava faminto, esperando o seu almoço. Apurando a vista, perto do recife de coral, o Major Smythe viu as antenas de um lagostim, acenando inquisitivamente para ele. Normalmente, ele se esqueceria de tudo, para capturar o lagostim, que era, talvez, o maior que até então encontrara. Mas agora só tinha uma preocupação: a de descobrir a silhueta irregular e provocante do peixe-escorpião. Só depois de mais dez minutos de busca encontraria o primeiro. Os olhos vermelhos e zangados do peixe, muito abertos, o observavam. Para fisgá-lo, com o arpão, teria que fazer uma investida rápida, na vertical, firme e certeira. Sabia que as agulhas envenenadas se projetariam para fora da cabeça pontiaguda do monstro. Tinha que se mover lentamente, na direção do peixe, usando o braço livre para nadar. E... Agora! Avançou, para a frente e para baixo, mas o peixe-escorpião sentira a aproximação do arpão antes que este o tocasse. Uma lufada de areia se levantou do fundo do mar, atingido pelo golpe. E qualquer coisa roça em seu corpo, dando a impressão do voo de um pássaro. O major praguejou e fez meia volta, dentro da água. Sim, o peixe-escorpião fizera o que tantas vezes fazia: fora buscar refúgio entre as algas e as rochas, confiante em sua soberba camuflagem. O major voltou à carga, em novo mergulho, dessa vez ainda mais atento, e zás! O peixe-escorpião se agitava, agora, na ponta do arpão. A excitação foi tão grande que o Major Smythe vacilou e sentiu a antiga dor oprimir-lhe o peito. Pôs-se de pé, firmou o arpão contra a areia, atravessando inteiramente a presa, que ainda se agitava desesperadamente, e dirigiu-se à praia, indo sentar-se num banco de madeira, ao lado do qual atirou o peixe, fisgado, a se debater. Uns cinco minutos depois, o Major Smythe sentiu uma curiosa dormência na região do plexo solar. Olhou para baixo e estremeceu, de horror e incredulidade. Uma região de sua pele, com o tamanho aproximado de uma bola de críquete, tornara-se impressionantemente branca, a despeito do bronzeado de seu busto. No centro dessa área, havia três pequenas manchas sanguíneas. Automaticamente, o Major Smythe limpou o sangue. Os furos eram do tamanho de picadas de agulhas. Ele se lembrou, então, da fuga do peixe-escorpião, quando tentara arpoá-lo da primeira vez, e exclamou alto, com pavor, mas sem animosidade: — Tu me apanhaste, bastardo! Tu me apanhaste!
Imóvel, olhava para o próprio corpo, recordando-se do que lera sobre os ferrões do peixe-escorpião no livro que tomara emprestado à biblioteca do Instituto e nunca devolvera — Perigosos Animais Marinhos, publicação norte-americana. Tocou delicadamente a pele da área atingida. Sim, a pele se tinha tornado intumescida e de todo insensível, mas por baixo começava a sentir dor. Em breve essa dor profunda e intensa percorreria o seu corpo inteiro, tão lancinante que o seu único desejo seria o de deitar-se na areia, gritando e rolando, para abafá-la. Vomitaria e deitaria espuma pela boca, teria delírio e convulsões, até perder a consciência. Então, sobreviria, inevitável, o colapso cardíaco mortal. De acordo com o livro, o ciclo completo desses tormentos não passaria de um quarto de hora. Era tudo quanto lhe restava: quinze minutos de atroz agonia! Haveria cura, é claro — com procaínas, antibióticos e anti-histamínicos —, se seu coração debilitado suportasse tais medicamentos. Mas estes deviam estar à mão. Mesmo que conseguisse chegar em casa e admitindo que Jimmy Greaves dispusesse de todos esses remédios modernos, ele não poderia alcançar Wavelets antes de uma hora.
A primeira descarga de dor fez o corpo do Major Smythe dobrar-se sobre si mesmo. Depois outra e mais outra, irradiando-se através do estômago e dos membros. Sentia um gosto metálico na boca e uma coceira insuportável nos lábios. Deixou escapar um gemido e saltou do banco para a praia. Sobre a areia, ainda arquejava o peixe-escorpião. Houve uma trégua nos espasmos da dor. Seu corpo inteiro estava em fogo. Apesar da agonia o raciocínio permanecia claro. Mas, ora essa! Ia esquecendo a experiência! Devia ir à loca do polvo, para servir seu almoço! “Polvo, polvinho, vai ser a última refeição que eu te dou!”, dizia a si mesmo o Major Smythe, ajustando a máscara no rosto. Depois, apanhou o arpão, com o peixe espetado e, apertando o estômago com a mão livre, caminhou pela água adentro e, depois, mergulhou junto ao recife de coral. Poucas jardas o separavam agora do polvo. E foi gritando dentro da máscara, arrastando-se, quase de joelhos, que ele as percorreu. À medida que a água se tornava mais profunda, a dor se fazia mais intensa e seus movimentos pareciam com os de um fantoche, impulsionado por um feixe de cordéis. Só a poder de uma grande força de vontade pôde continuar rumo à morada do polvo. Sim, a sua massa escura ainda estava lá! E parecia excitadíssima. Por quê? O Major Smythe viu que as feridas de seu peito vertiam filetes de sangue escuro, que se diluía na água do mar. Era claro! O querido polvo sentira o gosto do seu sangue. Uma descarga de dor atingiu o major e o fez vergar-se. Disse a si mesmo, em delírio: “Que é isso, Dexter?! Firme, meu velho. Você tem que dar almoço ao polvinho”. Endireitou-se, empunhando o arpão com firmeza e aproximando o peixe da toca do polvo. Aceitaria ele a isca envenenada que o Major Smythe lhe oferecia e à qual talvez um octópode poderia ser imune? Ah, se Bengry estivesse presente, para observar! Três tentáculos, ondulando excitadamente, saíram da loca e passearam ao redor do peixe-escorpião. Agora, havia uma espécie de nevoeiro diante dos olhos do Major Smythe. Reconhecendo estar à beira da inconsciência, ele agitou fracamente a cabeça, para dissipá-lo. E, então, os tentáculos deram um salto! Mas não para o peixe: apertaram a mão e o braço que empunhavam o arpão. A boca do Major Smythe se torceu, numa careta de prazer. Agora, ele e o polvo podiam se apertar as mãos! Como era excitante! Que coisa maravilhosa! Mas o polvo, calma e implacavelmente, continuou a enroscar os seus tentáculos e a chamar a si o corpo do major. Só então Smythe compreendeu que algo de terrível ia acontecer. Fez um apelo a todas as suas forças e tentou golpear o octópode com o arpão. Mas tudo quanto conseguiu foi bater com o peixe-escorpião na massa escura do polvo. E, com o movimento que fez, ofereceu-se ainda mais a este, que o atraía de forma inexorável. Tarde demais o Major Smythe retirou sua máscara. Conseguindo alcançar a superfície, soltou um grito que reboou pela baía deserta, mas logo foi puxado para baixo. E, depois de algumas bolhas de ar, vieram à tona as pernas do major. As ondas lavavam o seu corpo, enquanto o polvo fazia a primeira tentativa para devorá-lo. O resto de Smythe foram encontrados por dois jovens da Jamaica, que pescavam peixes-agulhas numa canoa. Eles mataram o polvo, recolheram o arpão do Major Smythe com o peixe-escorpião e levaram os três despojos para a praia. O cadáver do major foi entregue à polícia e o peixe-escorpião aproveitado para a ceia. O destino do polvo de estimação seria também a panela ... O correspondente do Daily Gleaner em North Shore comunicou que o Major Smythe tinha sido morto por um polvo. Mas a redação do jornal, para não alarmar os turistas, preferiu dizer que ele “fora encontrado afogado”. Mais tarde, em Londres, James Bond, embora certo de que se tratara de um suicídio, anotou no dossier Oberhauser a versão do afogamento, com a respectiva data, na última página, o que encerrava o assunto. Somente pelas notas do Dr. Greaves sobre a autópsia, por ele mesmo realizada, é que foi possível escrever esta espécie de post-scriptum sobre o estranho e patético fim do outrora corajoso e útil oficial do Serviço Secreto.
Encontro em Berlim
(THE LIVING DAYLIGHTS)
James Bond estendia-se em posição na marca das quinhentas jardas da famosa linha de tiro Century Range, em Bisley. A pequena estaca branca na grama a seu lado dizia 44 e o mesmo número se repetia bem alto no talude distante acima do solitário alvo de seis pés quadrados que, ao olho humano e no crepúsculo do fim de verão, não parecia maior que um selo de correio. Mas a luneta de Bond, uma Sniperscope infravermelha fixada sobre o seu rifle, cobria todo o quadro. Ele podia até distinguir com clareza as cores azul-pálido e bege em que se dividia o alvo, e a mosca semicircular de seis polegadas parecia tão grande como a meia lua que já começava a se mostrar baixa no céu que escurecia acima da crista remota de Chobham Ridges.
O último tiro de James Bond fora um esquerdo interno — não o satisfizera. Deu uma outra olhada às bandeiras de vento amarelas e azuis. Tremulavam do leste através da linha de tiro mais intensamente do que quando tinha começado o seu tiro meia hora antes, e ele mudou o anemômetro dois pontos para a direita e assestou os dois fios cruzados da Sniperscope de volta ao foco de mira. Instalou-se então, colocou o indicador de leve dentro da guarda e sobre a curva do gatilho, prendeu a respiração e muito, muito suavemente apertou.
O estampido vicioso ecoou ao longo do campo vazio. O alvo desapareceu abaixo do solo e imediatamente o “boneco” tomou o seu lugar. Sim, a marca negra estava embaixo no canto direito desta vez, não no canto esquerdo: mosca.
— Bom — disse a voz do oficial chefe da linha, atrás e acima dele. — Fique com a mira.
O alvo já subira de novo e Bond recolocou a bochecha sobre o trecho quente da volumosa coronha de madeira e o olho na borracha que cerca a ocular da luneta. Enxugou a mão de atirar contra o lado das calças e pegou na coronha da pistola que sobressaía angulosamente da guarda do gatilho. Abriu de uma polegada o ângulo das pernas. Agora haveria cinco descargas rápidas. Era interessante ver se isso não provocaria “desgaste”. Ele achava que não. Esta arma extraordinária que o armeiro tinha descoberto sabe lá como dava à gente a sensação de que um homem de pé à distância de uma milha seria prato fácil. Era mais um rifle Experimental de Alvo Internacional, calibre 308, construído pela Winchester para ajudar os ases americanos do tiro em campeonatos mundiais, e tinha os dispositivos usuais das armas de alvo superacuradas — uma “mão” espiralada de alumínio nas costas da coronha que se estendia debaixo da axila e mantinha a arma com firmeza junto ao ombro, e uma pequena roda dentada ajustável abaixo do centro de gravidade do rifle para permitir que ele “se agarrasse” ao sulco do seu descanso de madeira. O armeiro tinha mandado trocar o ferrolho de tiro único usual por um depósito de cinco tiros, e tinha garantido a Bond que se ele deixasse apenas dois segundos entre cada tiro para estabilizar a arma não haveria desgaste, mesmo a quinhentas jardas. Para o serviço que devia fazer, Bond achava que dois segundos poderiam representar uma perda perigosa de tempo se errasse o seu primeiro tiro. De qualquer forma, M dissera que a distância não seria maior que trezentas jardas. Bond encurtaria o tempo para um segundo — fogo quase contínuo.
— Pronto?
— Sim.
— Vou à contagem regressiva de cinco. Agora! Cinco, quatro, três, dois, um. Fogo!
O chão tremeu ligeiramente e o ar silvou enquanto as cinco cápsulas velozes de cuproníquel varejavam o crepúsculo. O alvo baixou e rapidamente voltou a erguer-se condecorado com quatro pequenos discos brancos agrupados bem juntos na mosca. Não houve nenhum quinto disco — nem mesmo um negro para indicar um interno ou externo.
— A última descarga foi baixa — disse o chefe da linha baixando seus binóculos noturnos. — Obrigado pela contribuição. Limpamos a areia atrás daqueles alvos todo fim de ano.
Nunca recolhemos menos de quinze toneladas de estilhaços em legítimo chumbo e cobre. Um bom dinheiro.
Bond tinha-se levantado. O cabo Menzies da seção dos armeiros surgiu do pavilhão do Clube de Tiro e ajoelhou-se para desmontar a Winchester e o seu descanso. Olhou para cima encarando Bond. Disse com uma ponta de crítica. — O senhor tocou a coisa um pouco rápido. A última descarga tinha de escoicear.
— Eu sei, cabo. Só queria ver com que rapidez eu podia tocar. Não quero pôr a culpa na arma. É um trabalho enxuto, infernal. Por favor, diga isso por mim ao armeiro. Agora é melhor ir andando. Você tem condução de volta a Londres, não?
— Tenho, sim senhor. Boa noite.
O oficial chefe da Linha entregou a Bond uma ficha de seu tiro — dois tiros de ensaio e depois dez descargas para cada cem jardas até as quinhentas. — Pontaria danada de boa com esta visibilidade. Você devia voltar aqui o ano que vem e tentar o Prêmio da Rainha. Hoje em dia está aberto para todos — isto é, da Comunidade Britânica.
— Obrigado. O problema é que não passo tanto tempo assim na Inglaterra. E muito obrigado por ter feito a marcação para mim.
Bond olhou para a distante Torre do Relógio. De cada lado, a bandeira vermelha de perigo e o tambor vermelho de sinalização estavam sendo arriados para mostrar que o tiroteio tinha cessado. Os braços marcavam nove e quinze. — Gostaria de oferecer-lhe um drinque, mas tenho um encontro em Londres. Podemos adiá-lo até o Prêmio da Rainha de que você estava falando?
O chefe da Linha fez que sim com a cabeça, neutramente. Ele tinha aguardado ansioso a oportunidade de conhecer mais coisas sobre este homem que surgira assim sem mais nem menos depois de uma série de avisos do Ministério da Defesa e fora em frente acertando bem mais de noventa porcento em todas as distâncias, isso depois de fechada a linha para a noite e com visibilidade entre sofrível e má. E por que tinha ele, que só oficiava no encontro anual de julho, sido escalado para estar presente? E por que lhe tinham dito para providenciar uma mosca de seis polegadas a 500 jardas para Bond, em vez da regulamentar de quinze polegadas? E por que todos esses cuidados com a bandeira de perigo e o tambor de sinalização que só se usavam em ocasiões cerimoniais? Para pressionar o homem? Para dar um clima de urgência ao tiro? Bond. Comandante James Bond. A A.N.R. certamente teria a ficha de uma pessoa que atirava tão bem assim. Não se esqueceria de dar-lhes um telefonema. Que hora estranha para um compromisso em Londres. Provavelmente uma garota. O rosto do chefe da Linha assumiu uma expressão de desagrado. O tipo do sujeito que apanhava todas as garotas que queria.
Os dois homens caminharam através da bela fachada da sede do clube além da linha de tiro até o carro de Bond que estava estacionado diante de uma reprodução em ferro do famoso “Veado em Fuga” de Landseer toda picotada de balaços. — Uma beleza de carro — comentou o chefe da Linha. Nunca vi uma carroçaria assim num Continental. Mandou fazê-la especialmente?
— Mandei. Os Sports Saloons na verdade só têm dois lugares. E muito pouco espaço para bagagem. Por isso pedi a Mulliner’s que o transformassem num verdadeiro dois-lugares e com porta-malas de sobra. Um carro egoísta, não há dúvida. Bem, boa noite. E novamente muito obrigado.
O escape roncou com saúde e as rodas traseiras cuspiram cascalho por um instante.
O oficial chefe da Linha observou os faróis rubis desaparecerem na King’s Avenue a caminho da estrada de Londres. Girou nos calcanhares e foi procurar o cabo Menzies numa busca de informação que terminaria sem frutos. O cabo permaneceu tão fechado como a grande caixa de mogno que estava colocando num Land-Rover caqui, limpo de símbolos militares. O chefe da Linha era um major. Tentou apelar para a hierarquia, mas sem êxito. O Land-Rover afastou-se rodando no rastro de Bond. O major dirigiu-se soturno aos escritórios da Associação Nacional do Rifle para tentar achar a informação que queria na biblioteca sob o nome “Bond, J.”
O compromisso de James Bond não era com uma garota. Era com um voo da B.E.A. para Hanover e Berlim. Enquanto engolia as milhas que o separavam do Aeroporto de Londres, pisando firme o grande carro a fim de ter tempo de sobra para um drinque, três drinques, antes da decolagem, apenas uma parte de sua mente fixava-se na estrada. O restante reexaminava pela enésima vez a sequência que agora o conduzia a um encontro com um aeroplano. Mas apenas um encontro provisório. Seu compromisso final numa das três próximas noites em Berlim era com um homem. Tinha que se encontrar com esse homem e infalivelmente matá-lo com um tiro.
Quando, por volta de duas e meia daquela tarde, James Bond atravessara as portas duplamente acolchoadas e sentara-se em frente do perfil voltado, do outro lado da grande escrivaninha, sentira imediatamente o perigo no ar. Não houve troca de cumprimentos. A cabeça de M afundava-se no colarinho duro numa pose churchilliana de sombria reflexão, e havia um traço de amargura nos cantos dos lábios. Girou a cadeira para encarar Bond, passou-lhe um olhar examinador como se, pensou Bond, quisesse verificar se sua gravata estava direita e o cabelo adequadamente penteado, e então começou a falar, rapidamente, atalhando suas sentenças como se desejasse ver-se livre do que estava dizendo, e de Bond, o mais depressa possível.
— O número 272. É um bom homem. Você talvez não o conheça. Pela simples razão de que ficou naquele buraco da Novaya Zemlya desde a guerra. Agora está tentando sair — carregado de material. Atômico e foguetes. E o plano deles para toda uma nova série de testes. Para 1961. Querem avivar o fogo no Ocidente. Algo a ver com Berlim. Não vejo bem o quadro mas o Foreign Office diz que se for verdade é uma coisa tremenda. Ridiculariza a Conferência de Genebra e toda essa demagogia sobre desarmamento nuclear que o bloco comunista vem fazendo. Ele conseguiu chegar até a Berlim Oriental. Mas tem praticamente toda a KGB no seu encalço — e as forças de segurança da Alemanha Oriental, é claro. Está entocado num buraco qualquer da cidade e conseguiu passar-nos uma mensagem — de que atravessaria entre seis e sete da tarde numa das três próximas noites — amanhã, depois de amanhã ou no dia seguinte. Indicou o ponto de travessia. O problema — a curva dos lábios de M, voltada para baixo, tomou-se ainda mais amarga — é que o mensageiro que ele usou fazia jogo duplo. A estação W.B. pilhou-o ontem. Por acaso. Deu sorte com um dos códigos da KGB O mensageiro será mandado de avião para julgamento, naturalmente. Mas isso não ajudará em nada. A KGB sabe que o 272 vai tentar a travessia. Sabem quando. Sabem onde. Sabem tanto quanto sabemos e nada mais. Ora, o código que deciframos ontem era um esquema de um só dia em suas máquinas. Mas conseguimos todo o tráfico daquele dia e isso foi bastante bom. Planejam alvejá-lo ao tentar a travessia. No cruzamento de ruas entre a Berlim Leste e a Oeste que nos indicou na mensagem. Estão montando uma operação daquelas — operação “Êxtase” como a chamam. Puseram o seu melhor tocaia no serviço. Tudo o que soubemos dele ó que seu nome cifrado é a palavra russa para “Gatilho”. A estação W.B. acha que é o mesmo homem já usado em outros serviços de tocaia. Um serviço de longo alcance através da fronteira. Ficará de guarda toda noite nesse cruzamento e sua missão é acertar no 272. É óbvio que eles certamente prefeririam fazer um serviço mais suave com metralhadoras e coisas do gênero. Mas Berlim está calma no momento e parece que a ordem é ficar assim. De qualquer forma — M sacudiu os ombros — eles têm confiança nesse operador “Gatilho” e o negócio vai ser assim!
— E onde é que eu entro? — James Bond tinha adivinhado a resposta, adivinhado porque M mostrava seu desagrado com a coisa toda. Ia ser trabalho sujo e Bond, porque pertencia à Seção Zero-Zero, tinha sido escolhido para fazê-lo. Perversamente, Bond queria forçar M a pôr o preto no branco. Iam ser notícias más, notícias sujas e ele não queria ouvi-las de um dos oficiais da Seção, nem mesmo do chefe do Estado-Maior. O negócio ia ser assassínio. Está bem. Que M tenha então a coragem de me dizer.
— Onde é que você entra, 007? — M olhou friamente do outro lado da escrivaninha. — Você sabe onde é que você entra. Você tem que matar esse tocaia. E tem que matá-lo antes que acerte no 272. É tudo. Está claro? — Os olhos azuis-claros permaneceram frios como gelo. Mas Bond sabia que só ficavam assim com um esforço da vontade. M não gostava de mandar qualquer homem para um homicídio. Mas, quando isso tinha de ser feito, ele sempre assumia a sua severa e fria ação de comando. Bond sabia a razão. Era para tirar um pouco da pressão, um pouco da culpa, dos ombros do matador.
Portanto Bond, que sabia dessas coisas, decidiu agora tornar fácil e rápida a tarefa de M. Levantou-se. — Está certo, sir. Suponho que o chefe do Estado-Maior tenha tudo pronto. É melhor eu ir praticar um pouco. Não seria bom errar.
Caminhou para a porta.
M disse calmamente: — Sinto ter que lhe dar essa tarefa. Serviço desagradável. Mas tem que ser bem executado.
— Farei o melhor — James Bond saiu fechando a porta atrás de si. Não gostava do serviço mas no final preferia fazê-lo a assumir a responsabilidade de mandar alguém em seu lugar.
O chefe do Estado-Maior tinha sido apenas um pouco mais simpático. — Lamento esta sua aquisição, James — dissera ele. — Mas Tanqueray foi inflexível, não tinha ninguém suficientemente bom na estação e esse não é o tipo de serviço que se pode pedir a um soldado regular para fazer. Há uma porção de excelentes tiros na B.A.O.R., mas um alvo vivo requer outro tipo de coragem. De qualquer forma, liguei para Bisley e marquei um exercício para você esta noite às oito e quinze quando a linha estiver fechada. A visibilidade será mais ou menos a mesma que você terá em Berlim cerca de uma hora antes. O armeiro está com a arma — verdadeira obra de arte para alvejar, e vai mandá-la por um de seus homens. Você irá com a sua própria condução. Depois, há um voo de carreira para Berlim à meia-noite reservado em seu nome na B.E.A. Tome um táxi até esse endereço. — Entregou a Bond um pedaço de papel. — Suba ao quarto andar e encontrará o número 2 de Tanqueray à sua espera. Depois disso, sinto que você terá que esperar sentado pelos próximos três dias.
— E a arma? Esperam que atravesse a alfândega alemã com ela dentro de um saco de golfe ou coisa assim?
O chefe do Estado-Maior não tinha achado graça. — Seguirá pela mala diplomática. Você a receberá amanhã ao meio-dia. — Tinha estendido a mão até o bloco de avisos. — Bem, é melhor ir andando. Vou avisar a Tanqueray que está tudo combinado.
James Bond baixou o olhar para o rosto azul difuso do relógio no painel do carro. Dez e quinze. Com um pouco de sorte, amanhã a esta hora estaria tudo terminado. Afinal, era a vida deste homem “Gatilho” contra a vida do 272. Não era exatamente homicídio. Estava perto disso, no entanto. Apertou maldosamente sua buzina-de-serra tripla ao passar por um quatro portas comum, ingressou no cruzamento circular com uma derrapagem seca desnecessária, girou violentamente o volante fazendo a correção e apontou o nariz do Bentley em direção do brilho distante que era o Aeroporto de Londres.
O edifício feio de seis andares na esquina da Kochstrasse e da Wilhelmstrasse era o único de pé na desolação de um espaço vazio bombardeado. Bond pagou o táxi e gravou uma breve impressão de capim, alto como a cintura, e de paredes de entulho mal reparadas, estendendo-se na direção de um grande cruzamento deserto iluminado por um feixe central de lâmpadas amareladas em arco, antes de apertar o botão para o quarto andar e imediatamente ouviu o clique do dispositivo que abria a porta do prédio. A porta fechou-se atrás dele e caminhou então sobre o chão de cimento sem tapete até o antiquado elevador. O cheiro de repolho, cigarro barato e suor rançoso lembravam outros prédios de apartamentos na Alemanha e Europa Central. Até o arrastar e o guincho fraco do elevador vagaroso eram parte de centenas de missões em que tinha sido lançado por M, como um projétil, a algum alvo distante onde um problema aguardava a sua chegada, à espera de ser resolvido por ele. Pelo menos desta vez o comitê de recepção estava do seu lado. Desta vez não havia nada a temer no fim da escada.
O número 2 da Estação W.B. de Serviço Secreto era um homem esguio e tenso de quarenta e poucos anos. Vestia o uniforme de sua profissão — terno bem cortado e bem usado de tweed leve ponto pé-de-pato num tom verde-escuro, camisa de seda macia branca e uma velha gravata de colégio — neste caso de Wykeham. Ao ver a gravata, enquanto trocavam as saudações convencionais no pequeno saguão mofado do apartamento, o ânimo de Bond, já baixo, desceu mais um degrau. Conhecia esse tipo: espinha dorsal do Serviço Público; superestudioso e mal-amado em Winchester; um bom segundo em P.P.E. em Oxford; a guerra, cargos funcionais que teria ocupado meticulosamente; talvez uma Ordem do Império Britânico; Comissão do Controle Aliado na Alemanha, onde fora recrutado no Ramo I e a partir de então — porque era o funcionário ideal e A. 1 junto à Segurança e porque pensava em encontrar vida, drama, romance, todas as coisas que nunca linha tido — lá fora ele para o Serviço Secreto. Um homem sóbrio, cuidadoso se fizera necessário para bancar a dama de companhia de Bond neste negócio feio. O Capitão Paul Sender, que já servira na Guarda Galesa, tinha sido a escolha óbvia. E tinha aceitado. Agora, como bom Wykehamista, escondia o seu desagrado pelo serviço debaixo de uma conversa cuidadosa e banal enquanto mostrava a Bond a planta do apartamento e as providências tomadas para a prontidão do carrasco e, numa medida modesta, para o seu conforto.
O apartamento consistia de um amplo dormitório conjugado, um banheiro e uma cozinha equipada de enlatados, leite, manteiga, ovos, chá, bacon, pão e uma garrafa de Dimple Haig. O único detalhe estranho no quarto de dormir era que uma das camas duplas estava encostada em ângulo contra as cortinas que cobriam o amplo janelão único e sobre ela se empilhavam três colchões cobertos pela roupa de cama.
O Capitão Sender disse: — Gostaria de dar uma olhada ao campo de fogo? Poderei então explicar o que é que o lado de lá tem em mente.
Bond estava cansado. Não desejava especialmente ir dormir com a imagem do campo de batalha na memória. Disse: — Seria ótimo.
O Capitão Sender apagou as luzes. Faixas luminosas das lâmpadas no cruzamento apareceram em volta das cortinas. — Não quero puxar as cortinas — disse o Capitão Sender. — É pouco provável, mas eles podem ter sido alertados contra um grupo de cobertura para o 272. Queria que você apenas se deitasse na cama e enfiasse a cabeça por baixo das cortinas. Explicarei o que você estiver vendo. Olhe para a esquerda.
Era uma janela de guilhotina e a metade inferior estava aberta. Os colchões, especialmente escolhidos, só cediam um pouco e James Bond encontrou-se mais ou menos na posição de tiro que tinha adotado em Century Range, mas agora olhava através de terreno descontínuo, coberto de densa vegetação e bombardeado, na direção do rio de luz que era a Zimmerstrasse — a fronteira com a Berlim Oriental. Parecia a umas cento e cinquenta jardas de distância. A voz do Capitão Sender acima dele e por trás da cortina começou a recitar. Lembrava a Bond uma sessão espírita.
— Ali é terreno bombardeado à sua frente. Bastante cobertura. Umas cento e trinta jardas até a fronteira. Depois a fronteira — a rua — e então um trecho grande ainda de terreno bombardeado no campo do inimigo. É por isso que o 272 escolheu essa passagem. É um dos poucos locais na cidade em que o terreno é descontínuo — capinzais cerrados, muros em ruínas, porões — nos dois lados da fronteira. Ele deverá es-gueirar-se entre aquela confusão do outro lado e arremessar-se através da Zimmerstrasse até alcançar a confusão do nosso lado. O problema é que terá de correr trinta jardas de fronteira fortemente iluminada. Será o espaço da matança. Certo?
Bond disse: — Sim.
Disse-o com suavidade. O cheiro do inimigo, a necessidade de tomar cuidado, já estavam atuando sobre seus nervos.
— À sua esquerda, aquele novo e imenso bloco de dez andares é a Haus der Ministerien, o grande centro cerebral de Berlim-Leste. Você pode ver que as luzes ainda estão acesas na maioria das janelas. A maior parte delas ficará assim toda a noite. Esses sujeitos trabalham mesmo — seus turnos dão a volta no relógio. Você provavelmente não precisará preocupar-se com as janelas acesas. Esse fulano “Gatilho” certamente vai atirar de uma das janelas escuras. Você verá que existe um grupo de quatro, juntas, na quina acima do cruzamento. Ficaram escuras na noite passada e esta noite. Elas têm o melhor campo de fogo. Daqui, o seu alcance varia entre trezentas e trezentas e dez jardas. Estou com todos os números e dados quando você quiser. Não é preciso preocupar-se muito mais. Aquela rua fica vazia durante a noite — apenas as patrulhas motorizadas cerca de cada meia hora — carros blindados leves com uma dupla de motocicletas por escolta. Na noite passada, que suponho normal, entre seis e sete, que é a hora em que se fará este serviço, havia umas poucas pessoas entrando e saindo por aquela porta lateral. Uns funcionários. Antes disso nada fora do comum — o fluxo costumeiro de pessoas entrando e saindo de um edifício de governo movimentado — com exceção, veja só, de uma miserável orquestra completa de mulheres. Fizeram uma confusão infernal numa sala de concertos que tem ali. Parte do bloco aloja o Ministério da Cultura. Fora disso nada — certamente nenhuma das pessoas da KGB que conhecemos, nem sinais de preparação para um serviço deste gênero. Mas nem pode haver sinais. São muito cuidadosos estes sujeitos da oposição. De qualquer maneira, dê uma boa olhada. Não esqueça que agora está mais escuro do que amanhã por volta das seis. Mas você pode formar um quadro geral.
Bond formou o quadro geral e o quadro ficou com ele muito tempo enquanto o outro homem já dormia e ressonava suavemente com um pequeno som regular que lembrava um fraco estalido — um ronco Wykehamista, refletiu Bond irritado.
Sim, tinha formado o quadro — o quadro de um lampejo movimento entre as ruínas sombreadas no outro lado do brilhante rio de luz, uma pausa, e então a desesperada corrida em ziguezague de um homem sob o impacto luminoso das lâmpadas, o espocar da arma de fogo e, ou um fardo retorcido espalhado no meio da rua larga, ou então a investida sempre em frente através do capinzal e do entulho no Setor Ocidental — morte súbita ou volta a casa. O grande desafio! Quanto tempo teria Bond para localizar o tocaia russo numa daquelas janelas escuras? E para matá-lo? Cinco segundos? Dez? Quando o amanhecer começava a cobrir as cortinas com o tom metálico das armas, Bond capitulou para sua mente agitada. Ela tinha ganho. Foi em silêncio até o banheiro e inspecionou as fileiras de remédios que um prestimoso Serviço Secreto tinha providenciado para manter o seu carrasco em boa forma. Escolheu o Tuinal, engoliu duas das cápsulas concentradas, rubis e azuis, com um copo de água e voltou à cama. Então, chumbado, dormiu.
Acordou ao meio-dia. O apartamento estava vazio. Bond abriu as cortinas para deixar entrar o dia cinzento prussiano e, de pé a uma boa distância da janela, ficou vendo a monotonia de Berlim e ouvindo o ruído dos bondes e o arranhar distante dos trens da U-Bahn na grande curva de entrada da estação do Zoo. Lançou um olhar rápido e relutante ao que já tinha examinado na noite anterior, notou que o capim no entulho de bombardeio era mais ou menos o mesmo de Londres — loendro, labaçol e samambaia — e dirigiu-se então à cozinha. Havia uma nota apoiada numa fatia de pão: “Meu amigo (eufemismo do Serviço Secreto que neste contexto significava o chefe de Sender) diz que não há mal em você sair. Mas esteja de volta às 17 horas. Seu equipamento (outra palavra para o rifle de Bond) chegou e o bagageiro a entregará esta tarde. P. Sender.”
Bond acendeu o fogão a gás e queimou a mensagem com desprezo por sua profissão e em seguida preparou um prato enorme de ovos mexidos e bacon que amontoou sobre uma torrada coberta de manteiga e comeu com acompanhamento de café preto no qual derramara uma porção liberal de uísque. Depois tomou um banho e barbeou-se, vestiu as roupas descoloridas, centro-europeias e anônimas que tinha trazido para a sua missão, olhou a sua cama em desordem, decidiu que tudo fosse para o inferno e desceu pelo elevador deixando o edifício.
James Bond sempre achara Berlim uma cidade deprimente e hostil, esmaltada no lado Ocidental com o verniz superficial de um polimento pretensioso parecido com os enfeites cromados dos carros americanos. Caminhou até a Kurfurstendamm, sentou-se no Café Marquardt, tomou um expresso e ficou observando com tédio as filas obedientes de pedestres esperando o sinal “Siga” nos postes de trânsito enquanto a corrente luminosa de carros continuava a sua perigosa quadrilha na movimentada intersecção. Fazia frio lá fora e o vento cortante das estepes russas fustigava as saias das garotas e os impermeáveis dos homens impacientes e apressados, cada um com a infalível pasta enfiada debaixo do braço. Os aquecedores de parede infravermelhos do café apontavam o vermelho para baixo e davam um brilho espúrio ao rosto dos cafeinômanos que degustavam sua tradicional “uma xícara de café e dez copos de água”, lendo de graça os jornais e revistas presos por paus, ou se curvavam com seriedade sobre papéis de negócios. Bond, fechando o pensamento para a noite, discutia consigo mesmo as maneiras de passar a tarde. Finalmente chegou à escolha entre uma visita àquela casa de respeitável fachada de pedra, na Clausewitzstrasse, conhecida de todos os porteiros e choferes de táxi, ou um passeio ao Wannsee e uma vigorosa caminhada no Grunewald. A virtude triunfou. Bond pagou o café, saiu no frio e tomou um táxi até a estação do Zoo.
As belas arvorezinhas jovens em volta do lago extenso já tinham sido tocadas pelo sopro do outono e havia um dourado aqui e ali no meio do verde. Bond caminhou com energia durante duas horas pelas veredas cobertas de folhas e então escolheu um restaurante com terraço envidraçado sobre o lago e saboreou com prazer um chá reforçado consistindo de uma porção dupla de arenques do Norte mergulhados em creme e anéis de cebola, e dois Molle mit Korn, o equivalente berlinense de um “fabricante de caldeiras e seu assistente” — schnapps, duplos, acompanhados por um chope Löwenbräu. Sentindo-se então mais animado tomou a S-Bahn para voltar à cidade.
Em frente do prédio de apartamentos, um jovem indefinível estava mexendo no motor de um Opel Kapitan negro. O jovem não tirou a cabeça debaixo do capo quando Bond passou bem perto dele e subiu até a porta e apertou o botão.
CONTINUA
Quando chegou embaixo, sentou-se no musgo, sob os abetos. Estendeu no chão a camisa, colocou no centro dela as barras de ouro e fez uma trouxa, amarrando bem as fraldas e as mangas. Depois, cavou um buraco no chão e enterrou a caixa metálica vazia. E vergando ao peso, quase dobrado em dois, caminhou pela estreita trilha, entre os pinheiros, rumo ao jipe. Até aquele dia não conseguira saber como tivera forças para alcançar o veículo. Os nós que dera na trouxa pareciam penetrar nas carnes de seu ombro, sob o peso das barras de ouro. Quando, finalmente, alcançou o jipe, quase teve um colapso, tão exausto estava. Mas não podia descansar, ainda. Precisava sair dali para enterrar o seu tesouro na floresta, perto de um grupo de grandes rochas, onde lhe seria fácil encontrá-lo de novo, na ocasião oportuna em dia, quando o horizonte estivesse limpo, voltaria, por outra rota, evitando o chalé de Oberhauser. Só então, terminado tudo, fora embebedar-se com uma garrafa de schnapps barato. Jantou e meteu-se na cama, para dormir como uma pedra. No dia seguinte, a Força A da DAG seguiu para o vale do Mittersill. Seis meses depois o Major Smythe estava em Londres. A sua guerra havia terminado. Mas os seus problemas, não. Ouro era coisa difícil de contrabandear, principalmente em grande quantidade. E era essencial que o Major Smythe transferisse as suas barras para um novo esconderijo. Por isso, ele procurou evitar a desmobilização e gozar os privilégios de seu comissionamento temporário, sobretudo o seu passe do Serviço Secreto Militar. Conseguiu ser mandado de volta para a Alemanha, como representante da Inglaterra no Centro Misto de Investigação de Munique. Aí, trabalhou durante seis meses e, nesse período, teve a oportunidade de recuperar o ouro, que levou para o seu alojamento numa velha valise. Depois, em dois fins de semana, fez viagens aéreas para Londres, levando, de cada vez, uma barra de ouro, em sua volumosa pasta. A caminhada nos aeroportos de Munique e de Londres, com a pasta sob o braço, como se contivesse apenas papéis, exigira dois tabletes de benzedrina e uma vontade de ferro. Finalmente, pôde esconder sua fortuna no porão da casa de uma tia, em Kensington, e assim, com tranquilidade, pôde desenvolver a parte final de seus planos. Pediu reforma nos Fuzileiros Reais e, uma vez desmobilizado, casou-se com uma das muitas moças com quem tivera aventuras durante o serviço da DAG, uma graciosa Wren chamada Maria Parnell. Comprou passagem para ambos num cargueiro para a Jamaica, que representava, para ambos, um paraíso ensolarado, com boa e farta comida, bebida barata, sem a melancolia e as restrições impostas na Inglaterra, após a guerra, pelo severo governo trabalhista. Antes do embarque, o Major Smythe mostrou a Mary as barras de ouro, das quais já havia raspado a cinzel os símbolos do Reichsbank.
— Tenho sido muito econômico e esperto, meu bem — disse ele. — Não confio na libra. Por isso, vendi todas as minhas ações e comprei um bocado de ouro. Teremos pelo menos 20 mil libras, se eu o vender bem. Isso basta para nos assegurar uma boa vida, até o fim dos nossos dias. Sempre que for preciso, eu venderei um pouquinho — explicou.
Mary Parnell não era familiarizada com as leis monetárias. Mas se ajoelhou e passou as mãos, carinhosamente, sobre as barras de ouro. Depois, com os braços ao redor do pescoço do marido, beijou-o e disse, quase em lágrimas: — Você é um homem maravilhoso... Sim, maravilhoso! Terrivelmente inteligente, bonito, simpático, herói da guerra e, além do mais, rico! Eu sou a garota mais feliz do mundo!
— Você tem razão pelo menos numa coisa: ricos, nós somos. Mas prometa não dizer uma só palavra a quem quer que seja! Pois, se disser, todos os ladrões da Jamaica irão rondar a nossa casa.. .
O Prince’s Club, ao pé das colinas que dominam os arredores de Kensington, era realmente esplêndido. Para os seus sócios, não havia nada melhor: maravilhosa criadagem, comida farta, bebida barata, belíssimos cenários tropicais, como nunca tinham visto antes. O casal era muito popular e os serviços de guerra do Major Smythe lhe davam ingresso na alta sociedade local e na Government House. A vida de ambos era uma série interminável de festas, misturadas com o tênis de Mary e o golfe do major (com os bastões metálicos de Henry Cotton!) durante o dia, e partidas de bridge (para ela) e de pôquer (para ele) durante as noites. Sim, era um paraíso, porque, na Inglaterra, havia racionamento, filas e mercado negro, um governo atroz e o pior inverno dos últimos trinta anos. A princípio, o casal enfrentou as despesas com as economias em dinheiro, que ambos haviam reunido, enquanto se vestiam, se alimentavam e se transportavam à custa do Exército. Só depois de um ano de cautelosas investigações é que o Major Smythe se decidiu a fazer negócio com os irmãos Fu, comerciantes importadores e exportadores. Altamente respeitados e muito ricos, os irmãos Fu eram conhecidos como uma espécie de junta governativa da comunidade chinesa da Jamaica. Ainda que alguns dos seus negócios se desviassem das boas normas, segundo a tradição chinesa, Smythe achou que poderia confiar neles. A Convenção de Bretton Woods, fixando um preço internacional para o ouro, sob rigoroso controle, tinha sido assinada deixando de parte Tânger e Macau, dois portos livres, em que a onça de ouro valia entre 99 e 100 dólares, quando nos outros lugares o preço oficial era de 35. E, para maior conveniência de seus negócios, os Fu tinham aberto um restaurante em Hong-Kong, transformado em entreposto para o contrabando de ouro para a vizinha Macau. Isso, na linguagem do Major Smythe, era sopa no mel. Ele tivera um agradável encontro com os Fu. Nenhuma pergunta estes fizeram, senão depois do exame das barras de ouro.
— Major — disse o mais velho dos irmãos —, no mercado de ouro em barras, as marcas dos bancos nacionais e dos negociantes respeitáveis são aceitos sem discussão. Essas marcas são a garantia da pureza do ouro. Mas outros bancos e outros vendedores têm seus próprios processos de refinação, que talvez, não sejam tão perfeitos...
— Quer dizer que eu fui enganado? — Perguntou, ansiosamente, o major. — Que isso não é senão uma barra de chumbo coberta de uma leve camada de ouro?
Os dois irmãos deram muxoxos tranquilizadores:
— Não, não, major... Não se trata disso. Mas, se uma pessoa não se recorda da proveniência dessas barras de ouro, por mais finas que elas sejam é sempre necessário submetê-las a um ensaio, para verificação do seu exato teor... Há muitos métodos para determinar o grau de pureza dessas barras. Meu irmão e eu somos competentes em qualquer deles. Quer deixar as barras de ouro conosco e vir saber o resultado depois do almoço? Nós lhe daremos um recibo...
Não havia alternativa. Teria que confiar nos Fu. Qualquer que fosse o preço por eles arbitrado, seria forçado a aceitar. Estava nas mãos deles. Foi a um bar, onde tomou dois drinques fortes e comeu um sanduíche que lhe ficou atravessado na garganta. Depois, voltou ao escritório refrigerado dos Fu. O cenário era o mesmo: os dois irmãos sorridentes, as duas barras de ouro, a pasta de couro, etc. Só havia a mais uma folha de papel e uma caneta-tinteiro de pena de ouro, em frente do irmão mais velho.
— Resolvemos o problema do seu ouro, major! — (Esplêndido! Obrigado, pensou Smythe.) — E estou certo de que o senhor terá interesse em conhecer sua origem...
— Claro! Qual é? — Fez o major, com uma corajosa demonstração de entusiasmo.
— São barras de ouro alemãs! Provavelmente saíram dos depósitos do Reichsbank, durante a guerra. Isso pode ser deduzido do fato de que contêm dez porcento de chumbo. Durante o regime de Hitler, o Reichsbank fez a tolice de adulterar por esse modo o seu ouro. Isso logo se espalhou e o preço das barras de ouro alemãs, vendidas na Suíça, sofreu logo uma redução de preço, correspondente à adulteração. Foi uma bobagem, que só teve um resultado: o banco nacional da Alemanha perdeu a reputação que conquistara durante séculos... Bobagem... Uma grandíssima bobagem... — Concluiu o chinês, com o seu invariável sorriso.
O Major Smythe estava maravilhado com a onisciência desses dois homens, tão afastados dos grandes canais de comércio do mundo. Mas ao mesmo tempo os amaldiçoava, intimamente. E agora?
— É muito interessante, Sr. Fu... Mas isso não é uma boa notícia para mim. Essas barras de ouro me foram entregues como coisa cem por cento...
— Não tem importância, major — disse o mais velho dos Fu. — Ou melhor, quase não tem importância. Venderemos o seu ouro pelo justo valor, ou seja, 89 dólares a onça. Terá que ser, ou não, refinado pelo último comprador. Mas isso não é da nossa conta. Nós o venderemos também como cem por cento...
— Mas a um preço mais baixo...
— Realmente, major. Mas creio que temos uma boa notícia para o senhor. Quanto calculava obter com essas duas barras?
— Cerca de 20 mil libras...
— Se as vendermos bem e aos pouquinhos — disse o mais velho dos Fu —, o senhor receberá mais de 100 mil dólares, major, sujeitos, é claro, ao desconto da nossa comissão, que inclui o transporte e outras despesas.
— E a quanto montará isso?
— Estou pensando em fixar em 10 por cento, major. Se lhe parecer satisfatório...
O Major Smythe tinha a impressão de que vendedores de ouro em barras recebiam apenas um por cento de comissão. Mas, que diabo, antes do almoço já estava disposto a largar tudo até por 10 mil libras. Disse “fechado” e levantou-se, estendendo a mão através da mesa. Desde então, de quatro em quatro meses, ia visitar o escritório dos Fu, levando uma valise vazia. Havia sempre quinhentas libras novas, da emissão da Jamaica, em pacotes, sobre a mesa, à sua espera, e um recibo da quantidade vendida, com o preço alcançado em Macau. As barras de ouro diminuíam de tamanho, de polegada em polegada. O negócio era simples e cordial. Duas mil libras limpas, por ano, eram o bastante para ele, e só o afligia a possibilidade de que o pessoal do imposto de renda começasse a apertá-lo, para saber do que estava vivendo. Ele disse isso aos Fu, que lhe fizeram saber que não precisava se preocupar. Nas duas vezes seguintes, havia apenas quatrocentas libras na mesa, mas nenhum comentário foi feito, por qualquer dos lados. E assim os dias iam se passando, preguiçosamente. Os Smythes engordavam e o major teve a primeira das duas complicações das coronárias. O médico lhe recomendou uma vida menos ativa, com menos álcool e menos cigarros. Evitasse, também, as gorduras e as comidas fritas. A princípio, Mary tentou ser severa com ele, mas quando o marido começou a beber escondido e a inventar pequenas mentiras e evasivas, ela recuou desse propósito. Teve medo de se transformar numa chata doméstica, a quem o Major Smythe passaria a evitar. Por isso, deu-lhe inteira liberdade, sabendo que ele não mais a amava, e quando a sua solidão se tornou demasiada e as insônias intoleráveis, viciou-se em tomar soníferos. Uma noite, depois de uma violenta briga, estando ambos embriagados, tomou ela uma dose excessiva, só “para dar-lhe uma lição”. A dose era tão exagerada que a matou. O suicídio foi dissimulado, mas ainda assim recaíram suspeitas sobre o major, em prejuízo de sua reputação social. E a tal ponto que ele teve de se retirar para North Shore que, embora a apenas três milhas de Kensington, parece pertencer a um outro mundo. Aí ele se instalou em Wavelets e, depois da segunda complicação das coronárias, começou a beber desenfreadamente. Foi então que entrou em cena James Bond com um mandado de prisão ou de morte no bolso.
O Major Smythe olhou para o relógio. Passavam alguns minutos do meio-dia. Ele se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale e foi para o jardim. James Bond estava sentado sob a frondosa amendoeira, olhando para o lar. Nem se voltou para o Major Smythe quando este puxou outra cadeira de alumínio e colocou o copo na relva, perto dele. Quando o Major Smythe acabou de narrar a sua história, James Bond disse, sem demonstrar qualquer emoção: — Era mais ou menos isso o que eu havia pensado...
— Quer que eu escreva tudo ou apenas assine?
— Faça como quiser. Mas isso não se entende comigo. Deve entregar à Corte Marcial. Seu velho Corpo de Fuzileiros Reais é que vai tomar conta do caso. Não tenho nada que ver com os aspectos legais. Farei apenas um relatório do que me disse, para a Procuradoria da Justiça, através da Scotland Yard...
— Posso perguntar uma coisa? Como foi que descobriu?
— A geleira era pequena. O corpo de Oberhauser chegou embaixo no início deste ano, quando as neves da primavera derreteram. Alguns alpinistas o encontraram. Todos os seus papéis e tudo o mais estava perfeito. A família o identificou. Depois, foi só uma questão de recuar no tempo. O calibre das balas deu logo a pista...
— Mas como se envolveu neste assunto?
— A Força da DAG era uma das minhas responsabilidades, um dos meus serviços. Quando o assunto chegou ao meu conhecimento, fui dar uma busca nos arquivos. Como tinha tempo livre, pedi que me entregassem a missão de descobrir o autor da morte de Oberhauser...
— Por quê?
— Porque — e James Bond fixou os olhos do Major Smythe — acontece que Oberhauser era um velho amigo meu. Foi quem me ensinou a esquiar quando eu tinha pouco mais de dez anos. Era um esplêndido sujeito. Foi uma espécie de pai para mim, precisamente na época em que eu mais precisava de um...
— Compreendo. — E o Major Smythe desviou o olhar. — Sinto muito...
James Bond se levantou:
— Bem, preciso voltar a Kensington. — E levantou a mão, para deter o major. — Não, não precisa incomodar-se. Sei onde o carro ficou... — Olhou para o homem mais velho e disse, rispidamente, quase com brutalidade: — Dentro de uma semana, alguém virá buscá-lo...
E caminhou, em passos firmes, sem se voltar, pela alameda afora. O major ouviu o ruído do arranque do motor e o chiado dos pneus do táxi nas pedrinhas miúdas da estrada.
Agora, ele procurava a sua presa, ao longo do recife de coral, pensando exatamente no sentido das palavras de James Bond. E sorriu por trás da máscara Pirelli. Era uma versão nova de um velho dramalhão, que consistia em deixar uma pistola com o oficial culpado, para que este mesmo estourasse os miolos. Se James Bond quisesse, poderia ter telefonado para a Government House e pedido um oficial de igual patente do Regimento da Jamaica para levar preso o Major Smythe. De certo modo, o seu gesto fora decente. Ou não fora? Um suicídio era mais limpo, economizava uma porção de trabalho e de papéis, que consumiriam o dinheiro dos contribuintes. Devia agradecer a James Bond a solução que ele parecia sugerir? Acaso encontraria Mary no lugar para onde vão as almas dos suicidas? Ou era melhor a Corte Marcial, a indignidade, as formalidades cacetes, as manchetes, o aborrecimento e a solidão de uma prisão perpétua, da qual só o livraria a terceira crise das coronárias? Poderia defender-se: era tempo de guerra, lutara com Oberhauser no alto da montanha, ele era um prisioneiro e tentara fugir... Oberhauser sabia do esconderijo do dinheiro... E ele, pobre oficial dos Comandos, tantas vezes arriscando a vida pela pátria, fora fraco e não resistira à tentação... Poderia entregar-se dramaticamente à misericórdia do Tribunal Militar... Um coronel certamente seria designado para defendê-lo e o faria com a maior eloquência. Poderia haver um apelo à Corte Suprema. Seu caso comoveria a Inglaterra e se tornaria uma cause célebre. Venderia sua história, com as reminiscências de guerra, aos grandes jornais... Mas...
Cuidado, meu velho! Cuidado! Seus pés agora tocavam o chão, sob as ondas que encrespavam a superfície da praia de North Shore. Por onde estariam os peixes-escorpiões? O polvinho querido estava faminto, esperando o seu almoço. Apurando a vista, perto do recife de coral, o Major Smythe viu as antenas de um lagostim, acenando inquisitivamente para ele. Normalmente, ele se esqueceria de tudo, para capturar o lagostim, que era, talvez, o maior que até então encontrara. Mas agora só tinha uma preocupação: a de descobrir a silhueta irregular e provocante do peixe-escorpião. Só depois de mais dez minutos de busca encontraria o primeiro. Os olhos vermelhos e zangados do peixe, muito abertos, o observavam. Para fisgá-lo, com o arpão, teria que fazer uma investida rápida, na vertical, firme e certeira. Sabia que as agulhas envenenadas se projetariam para fora da cabeça pontiaguda do monstro. Tinha que se mover lentamente, na direção do peixe, usando o braço livre para nadar. E... Agora! Avançou, para a frente e para baixo, mas o peixe-escorpião sentira a aproximação do arpão antes que este o tocasse. Uma lufada de areia se levantou do fundo do mar, atingido pelo golpe. E qualquer coisa roça em seu corpo, dando a impressão do voo de um pássaro. O major praguejou e fez meia volta, dentro da água. Sim, o peixe-escorpião fizera o que tantas vezes fazia: fora buscar refúgio entre as algas e as rochas, confiante em sua soberba camuflagem. O major voltou à carga, em novo mergulho, dessa vez ainda mais atento, e zás! O peixe-escorpião se agitava, agora, na ponta do arpão. A excitação foi tão grande que o Major Smythe vacilou e sentiu a antiga dor oprimir-lhe o peito. Pôs-se de pé, firmou o arpão contra a areia, atravessando inteiramente a presa, que ainda se agitava desesperadamente, e dirigiu-se à praia, indo sentar-se num banco de madeira, ao lado do qual atirou o peixe, fisgado, a se debater. Uns cinco minutos depois, o Major Smythe sentiu uma curiosa dormência na região do plexo solar. Olhou para baixo e estremeceu, de horror e incredulidade. Uma região de sua pele, com o tamanho aproximado de uma bola de críquete, tornara-se impressionantemente branca, a despeito do bronzeado de seu busto. No centro dessa área, havia três pequenas manchas sanguíneas. Automaticamente, o Major Smythe limpou o sangue. Os furos eram do tamanho de picadas de agulhas. Ele se lembrou, então, da fuga do peixe-escorpião, quando tentara arpoá-lo da primeira vez, e exclamou alto, com pavor, mas sem animosidade: — Tu me apanhaste, bastardo! Tu me apanhaste!
Imóvel, olhava para o próprio corpo, recordando-se do que lera sobre os ferrões do peixe-escorpião no livro que tomara emprestado à biblioteca do Instituto e nunca devolvera — Perigosos Animais Marinhos, publicação norte-americana. Tocou delicadamente a pele da área atingida. Sim, a pele se tinha tornado intumescida e de todo insensível, mas por baixo começava a sentir dor. Em breve essa dor profunda e intensa percorreria o seu corpo inteiro, tão lancinante que o seu único desejo seria o de deitar-se na areia, gritando e rolando, para abafá-la. Vomitaria e deitaria espuma pela boca, teria delírio e convulsões, até perder a consciência. Então, sobreviria, inevitável, o colapso cardíaco mortal. De acordo com o livro, o ciclo completo desses tormentos não passaria de um quarto de hora. Era tudo quanto lhe restava: quinze minutos de atroz agonia! Haveria cura, é claro — com procaínas, antibióticos e anti-histamínicos —, se seu coração debilitado suportasse tais medicamentos. Mas estes deviam estar à mão. Mesmo que conseguisse chegar em casa e admitindo que Jimmy Greaves dispusesse de todos esses remédios modernos, ele não poderia alcançar Wavelets antes de uma hora.
A primeira descarga de dor fez o corpo do Major Smythe dobrar-se sobre si mesmo. Depois outra e mais outra, irradiando-se através do estômago e dos membros. Sentia um gosto metálico na boca e uma coceira insuportável nos lábios. Deixou escapar um gemido e saltou do banco para a praia. Sobre a areia, ainda arquejava o peixe-escorpião. Houve uma trégua nos espasmos da dor. Seu corpo inteiro estava em fogo. Apesar da agonia o raciocínio permanecia claro. Mas, ora essa! Ia esquecendo a experiência! Devia ir à loca do polvo, para servir seu almoço! “Polvo, polvinho, vai ser a última refeição que eu te dou!”, dizia a si mesmo o Major Smythe, ajustando a máscara no rosto. Depois, apanhou o arpão, com o peixe espetado e, apertando o estômago com a mão livre, caminhou pela água adentro e, depois, mergulhou junto ao recife de coral. Poucas jardas o separavam agora do polvo. E foi gritando dentro da máscara, arrastando-se, quase de joelhos, que ele as percorreu. À medida que a água se tornava mais profunda, a dor se fazia mais intensa e seus movimentos pareciam com os de um fantoche, impulsionado por um feixe de cordéis. Só a poder de uma grande força de vontade pôde continuar rumo à morada do polvo. Sim, a sua massa escura ainda estava lá! E parecia excitadíssima. Por quê? O Major Smythe viu que as feridas de seu peito vertiam filetes de sangue escuro, que se diluía na água do mar. Era claro! O querido polvo sentira o gosto do seu sangue. Uma descarga de dor atingiu o major e o fez vergar-se. Disse a si mesmo, em delírio: “Que é isso, Dexter?! Firme, meu velho. Você tem que dar almoço ao polvinho”. Endireitou-se, empunhando o arpão com firmeza e aproximando o peixe da toca do polvo. Aceitaria ele a isca envenenada que o Major Smythe lhe oferecia e à qual talvez um octópode poderia ser imune? Ah, se Bengry estivesse presente, para observar! Três tentáculos, ondulando excitadamente, saíram da loca e passearam ao redor do peixe-escorpião. Agora, havia uma espécie de nevoeiro diante dos olhos do Major Smythe. Reconhecendo estar à beira da inconsciência, ele agitou fracamente a cabeça, para dissipá-lo. E, então, os tentáculos deram um salto! Mas não para o peixe: apertaram a mão e o braço que empunhavam o arpão. A boca do Major Smythe se torceu, numa careta de prazer. Agora, ele e o polvo podiam se apertar as mãos! Como era excitante! Que coisa maravilhosa! Mas o polvo, calma e implacavelmente, continuou a enroscar os seus tentáculos e a chamar a si o corpo do major. Só então Smythe compreendeu que algo de terrível ia acontecer. Fez um apelo a todas as suas forças e tentou golpear o octópode com o arpão. Mas tudo quanto conseguiu foi bater com o peixe-escorpião na massa escura do polvo. E, com o movimento que fez, ofereceu-se ainda mais a este, que o atraía de forma inexorável. Tarde demais o Major Smythe retirou sua máscara. Conseguindo alcançar a superfície, soltou um grito que reboou pela baía deserta, mas logo foi puxado para baixo. E, depois de algumas bolhas de ar, vieram à tona as pernas do major. As ondas lavavam o seu corpo, enquanto o polvo fazia a primeira tentativa para devorá-lo. O resto de Smythe foram encontrados por dois jovens da Jamaica, que pescavam peixes-agulhas numa canoa. Eles mataram o polvo, recolheram o arpão do Major Smythe com o peixe-escorpião e levaram os três despojos para a praia. O cadáver do major foi entregue à polícia e o peixe-escorpião aproveitado para a ceia. O destino do polvo de estimação seria também a panela ... O correspondente do Daily Gleaner em North Shore comunicou que o Major Smythe tinha sido morto por um polvo. Mas a redação do jornal, para não alarmar os turistas, preferiu dizer que ele “fora encontrado afogado”. Mais tarde, em Londres, James Bond, embora certo de que se tratara de um suicídio, anotou no dossier Oberhauser a versão do afogamento, com a respectiva data, na última página, o que encerrava o assunto. Somente pelas notas do Dr. Greaves sobre a autópsia, por ele mesmo realizada, é que foi possível escrever esta espécie de post-scriptum sobre o estranho e patético fim do outrora corajoso e útil oficial do Serviço Secreto.
Encontro em Berlim
(THE LIVING DAYLIGHTS)
James Bond estendia-se em posição na marca das quinhentas jardas da famosa linha de tiro Century Range, em Bisley. A pequena estaca branca na grama a seu lado dizia 44 e o mesmo número se repetia bem alto no talude distante acima do solitário alvo de seis pés quadrados que, ao olho humano e no crepúsculo do fim de verão, não parecia maior que um selo de correio. Mas a luneta de Bond, uma Sniperscope infravermelha fixada sobre o seu rifle, cobria todo o quadro. Ele podia até distinguir com clareza as cores azul-pálido e bege em que se dividia o alvo, e a mosca semicircular de seis polegadas parecia tão grande como a meia lua que já começava a se mostrar baixa no céu que escurecia acima da crista remota de Chobham Ridges.
O último tiro de James Bond fora um esquerdo interno — não o satisfizera. Deu uma outra olhada às bandeiras de vento amarelas e azuis. Tremulavam do leste através da linha de tiro mais intensamente do que quando tinha começado o seu tiro meia hora antes, e ele mudou o anemômetro dois pontos para a direita e assestou os dois fios cruzados da Sniperscope de volta ao foco de mira. Instalou-se então, colocou o indicador de leve dentro da guarda e sobre a curva do gatilho, prendeu a respiração e muito, muito suavemente apertou.
O estampido vicioso ecoou ao longo do campo vazio. O alvo desapareceu abaixo do solo e imediatamente o “boneco” tomou o seu lugar. Sim, a marca negra estava embaixo no canto direito desta vez, não no canto esquerdo: mosca.
— Bom — disse a voz do oficial chefe da linha, atrás e acima dele. — Fique com a mira.
O alvo já subira de novo e Bond recolocou a bochecha sobre o trecho quente da volumosa coronha de madeira e o olho na borracha que cerca a ocular da luneta. Enxugou a mão de atirar contra o lado das calças e pegou na coronha da pistola que sobressaía angulosamente da guarda do gatilho. Abriu de uma polegada o ângulo das pernas. Agora haveria cinco descargas rápidas. Era interessante ver se isso não provocaria “desgaste”. Ele achava que não. Esta arma extraordinária que o armeiro tinha descoberto sabe lá como dava à gente a sensação de que um homem de pé à distância de uma milha seria prato fácil. Era mais um rifle Experimental de Alvo Internacional, calibre 308, construído pela Winchester para ajudar os ases americanos do tiro em campeonatos mundiais, e tinha os dispositivos usuais das armas de alvo superacuradas — uma “mão” espiralada de alumínio nas costas da coronha que se estendia debaixo da axila e mantinha a arma com firmeza junto ao ombro, e uma pequena roda dentada ajustável abaixo do centro de gravidade do rifle para permitir que ele “se agarrasse” ao sulco do seu descanso de madeira. O armeiro tinha mandado trocar o ferrolho de tiro único usual por um depósito de cinco tiros, e tinha garantido a Bond que se ele deixasse apenas dois segundos entre cada tiro para estabilizar a arma não haveria desgaste, mesmo a quinhentas jardas. Para o serviço que devia fazer, Bond achava que dois segundos poderiam representar uma perda perigosa de tempo se errasse o seu primeiro tiro. De qualquer forma, M dissera que a distância não seria maior que trezentas jardas. Bond encurtaria o tempo para um segundo — fogo quase contínuo.
— Pronto?
— Sim.
— Vou à contagem regressiva de cinco. Agora! Cinco, quatro, três, dois, um. Fogo!
O chão tremeu ligeiramente e o ar silvou enquanto as cinco cápsulas velozes de cuproníquel varejavam o crepúsculo. O alvo baixou e rapidamente voltou a erguer-se condecorado com quatro pequenos discos brancos agrupados bem juntos na mosca. Não houve nenhum quinto disco — nem mesmo um negro para indicar um interno ou externo.
— A última descarga foi baixa — disse o chefe da linha baixando seus binóculos noturnos. — Obrigado pela contribuição. Limpamos a areia atrás daqueles alvos todo fim de ano.
Nunca recolhemos menos de quinze toneladas de estilhaços em legítimo chumbo e cobre. Um bom dinheiro.
Bond tinha-se levantado. O cabo Menzies da seção dos armeiros surgiu do pavilhão do Clube de Tiro e ajoelhou-se para desmontar a Winchester e o seu descanso. Olhou para cima encarando Bond. Disse com uma ponta de crítica. — O senhor tocou a coisa um pouco rápido. A última descarga tinha de escoicear.
— Eu sei, cabo. Só queria ver com que rapidez eu podia tocar. Não quero pôr a culpa na arma. É um trabalho enxuto, infernal. Por favor, diga isso por mim ao armeiro. Agora é melhor ir andando. Você tem condução de volta a Londres, não?
— Tenho, sim senhor. Boa noite.
O oficial chefe da Linha entregou a Bond uma ficha de seu tiro — dois tiros de ensaio e depois dez descargas para cada cem jardas até as quinhentas. — Pontaria danada de boa com esta visibilidade. Você devia voltar aqui o ano que vem e tentar o Prêmio da Rainha. Hoje em dia está aberto para todos — isto é, da Comunidade Britânica.
— Obrigado. O problema é que não passo tanto tempo assim na Inglaterra. E muito obrigado por ter feito a marcação para mim.
Bond olhou para a distante Torre do Relógio. De cada lado, a bandeira vermelha de perigo e o tambor vermelho de sinalização estavam sendo arriados para mostrar que o tiroteio tinha cessado. Os braços marcavam nove e quinze. — Gostaria de oferecer-lhe um drinque, mas tenho um encontro em Londres. Podemos adiá-lo até o Prêmio da Rainha de que você estava falando?
O chefe da Linha fez que sim com a cabeça, neutramente. Ele tinha aguardado ansioso a oportunidade de conhecer mais coisas sobre este homem que surgira assim sem mais nem menos depois de uma série de avisos do Ministério da Defesa e fora em frente acertando bem mais de noventa porcento em todas as distâncias, isso depois de fechada a linha para a noite e com visibilidade entre sofrível e má. E por que tinha ele, que só oficiava no encontro anual de julho, sido escalado para estar presente? E por que lhe tinham dito para providenciar uma mosca de seis polegadas a 500 jardas para Bond, em vez da regulamentar de quinze polegadas? E por que todos esses cuidados com a bandeira de perigo e o tambor de sinalização que só se usavam em ocasiões cerimoniais? Para pressionar o homem? Para dar um clima de urgência ao tiro? Bond. Comandante James Bond. A A.N.R. certamente teria a ficha de uma pessoa que atirava tão bem assim. Não se esqueceria de dar-lhes um telefonema. Que hora estranha para um compromisso em Londres. Provavelmente uma garota. O rosto do chefe da Linha assumiu uma expressão de desagrado. O tipo do sujeito que apanhava todas as garotas que queria.
Os dois homens caminharam através da bela fachada da sede do clube além da linha de tiro até o carro de Bond que estava estacionado diante de uma reprodução em ferro do famoso “Veado em Fuga” de Landseer toda picotada de balaços. — Uma beleza de carro — comentou o chefe da Linha. Nunca vi uma carroçaria assim num Continental. Mandou fazê-la especialmente?
— Mandei. Os Sports Saloons na verdade só têm dois lugares. E muito pouco espaço para bagagem. Por isso pedi a Mulliner’s que o transformassem num verdadeiro dois-lugares e com porta-malas de sobra. Um carro egoísta, não há dúvida. Bem, boa noite. E novamente muito obrigado.
O escape roncou com saúde e as rodas traseiras cuspiram cascalho por um instante.
O oficial chefe da Linha observou os faróis rubis desaparecerem na King’s Avenue a caminho da estrada de Londres. Girou nos calcanhares e foi procurar o cabo Menzies numa busca de informação que terminaria sem frutos. O cabo permaneceu tão fechado como a grande caixa de mogno que estava colocando num Land-Rover caqui, limpo de símbolos militares. O chefe da Linha era um major. Tentou apelar para a hierarquia, mas sem êxito. O Land-Rover afastou-se rodando no rastro de Bond. O major dirigiu-se soturno aos escritórios da Associação Nacional do Rifle para tentar achar a informação que queria na biblioteca sob o nome “Bond, J.”
O compromisso de James Bond não era com uma garota. Era com um voo da B.E.A. para Hanover e Berlim. Enquanto engolia as milhas que o separavam do Aeroporto de Londres, pisando firme o grande carro a fim de ter tempo de sobra para um drinque, três drinques, antes da decolagem, apenas uma parte de sua mente fixava-se na estrada. O restante reexaminava pela enésima vez a sequência que agora o conduzia a um encontro com um aeroplano. Mas apenas um encontro provisório. Seu compromisso final numa das três próximas noites em Berlim era com um homem. Tinha que se encontrar com esse homem e infalivelmente matá-lo com um tiro.
Quando, por volta de duas e meia daquela tarde, James Bond atravessara as portas duplamente acolchoadas e sentara-se em frente do perfil voltado, do outro lado da grande escrivaninha, sentira imediatamente o perigo no ar. Não houve troca de cumprimentos. A cabeça de M afundava-se no colarinho duro numa pose churchilliana de sombria reflexão, e havia um traço de amargura nos cantos dos lábios. Girou a cadeira para encarar Bond, passou-lhe um olhar examinador como se, pensou Bond, quisesse verificar se sua gravata estava direita e o cabelo adequadamente penteado, e então começou a falar, rapidamente, atalhando suas sentenças como se desejasse ver-se livre do que estava dizendo, e de Bond, o mais depressa possível.
— O número 272. É um bom homem. Você talvez não o conheça. Pela simples razão de que ficou naquele buraco da Novaya Zemlya desde a guerra. Agora está tentando sair — carregado de material. Atômico e foguetes. E o plano deles para toda uma nova série de testes. Para 1961. Querem avivar o fogo no Ocidente. Algo a ver com Berlim. Não vejo bem o quadro mas o Foreign Office diz que se for verdade é uma coisa tremenda. Ridiculariza a Conferência de Genebra e toda essa demagogia sobre desarmamento nuclear que o bloco comunista vem fazendo. Ele conseguiu chegar até a Berlim Oriental. Mas tem praticamente toda a KGB no seu encalço — e as forças de segurança da Alemanha Oriental, é claro. Está entocado num buraco qualquer da cidade e conseguiu passar-nos uma mensagem — de que atravessaria entre seis e sete da tarde numa das três próximas noites — amanhã, depois de amanhã ou no dia seguinte. Indicou o ponto de travessia. O problema — a curva dos lábios de M, voltada para baixo, tomou-se ainda mais amarga — é que o mensageiro que ele usou fazia jogo duplo. A estação W.B. pilhou-o ontem. Por acaso. Deu sorte com um dos códigos da KGB O mensageiro será mandado de avião para julgamento, naturalmente. Mas isso não ajudará em nada. A KGB sabe que o 272 vai tentar a travessia. Sabem quando. Sabem onde. Sabem tanto quanto sabemos e nada mais. Ora, o código que deciframos ontem era um esquema de um só dia em suas máquinas. Mas conseguimos todo o tráfico daquele dia e isso foi bastante bom. Planejam alvejá-lo ao tentar a travessia. No cruzamento de ruas entre a Berlim Leste e a Oeste que nos indicou na mensagem. Estão montando uma operação daquelas — operação “Êxtase” como a chamam. Puseram o seu melhor tocaia no serviço. Tudo o que soubemos dele ó que seu nome cifrado é a palavra russa para “Gatilho”. A estação W.B. acha que é o mesmo homem já usado em outros serviços de tocaia. Um serviço de longo alcance através da fronteira. Ficará de guarda toda noite nesse cruzamento e sua missão é acertar no 272. É óbvio que eles certamente prefeririam fazer um serviço mais suave com metralhadoras e coisas do gênero. Mas Berlim está calma no momento e parece que a ordem é ficar assim. De qualquer forma — M sacudiu os ombros — eles têm confiança nesse operador “Gatilho” e o negócio vai ser assim!
— E onde é que eu entro? — James Bond tinha adivinhado a resposta, adivinhado porque M mostrava seu desagrado com a coisa toda. Ia ser trabalho sujo e Bond, porque pertencia à Seção Zero-Zero, tinha sido escolhido para fazê-lo. Perversamente, Bond queria forçar M a pôr o preto no branco. Iam ser notícias más, notícias sujas e ele não queria ouvi-las de um dos oficiais da Seção, nem mesmo do chefe do Estado-Maior. O negócio ia ser assassínio. Está bem. Que M tenha então a coragem de me dizer.
— Onde é que você entra, 007? — M olhou friamente do outro lado da escrivaninha. — Você sabe onde é que você entra. Você tem que matar esse tocaia. E tem que matá-lo antes que acerte no 272. É tudo. Está claro? — Os olhos azuis-claros permaneceram frios como gelo. Mas Bond sabia que só ficavam assim com um esforço da vontade. M não gostava de mandar qualquer homem para um homicídio. Mas, quando isso tinha de ser feito, ele sempre assumia a sua severa e fria ação de comando. Bond sabia a razão. Era para tirar um pouco da pressão, um pouco da culpa, dos ombros do matador.
Portanto Bond, que sabia dessas coisas, decidiu agora tornar fácil e rápida a tarefa de M. Levantou-se. — Está certo, sir. Suponho que o chefe do Estado-Maior tenha tudo pronto. É melhor eu ir praticar um pouco. Não seria bom errar.
Caminhou para a porta.
M disse calmamente: — Sinto ter que lhe dar essa tarefa. Serviço desagradável. Mas tem que ser bem executado.
— Farei o melhor — James Bond saiu fechando a porta atrás de si. Não gostava do serviço mas no final preferia fazê-lo a assumir a responsabilidade de mandar alguém em seu lugar.
O chefe do Estado-Maior tinha sido apenas um pouco mais simpático. — Lamento esta sua aquisição, James — dissera ele. — Mas Tanqueray foi inflexível, não tinha ninguém suficientemente bom na estação e esse não é o tipo de serviço que se pode pedir a um soldado regular para fazer. Há uma porção de excelentes tiros na B.A.O.R., mas um alvo vivo requer outro tipo de coragem. De qualquer forma, liguei para Bisley e marquei um exercício para você esta noite às oito e quinze quando a linha estiver fechada. A visibilidade será mais ou menos a mesma que você terá em Berlim cerca de uma hora antes. O armeiro está com a arma — verdadeira obra de arte para alvejar, e vai mandá-la por um de seus homens. Você irá com a sua própria condução. Depois, há um voo de carreira para Berlim à meia-noite reservado em seu nome na B.E.A. Tome um táxi até esse endereço. — Entregou a Bond um pedaço de papel. — Suba ao quarto andar e encontrará o número 2 de Tanqueray à sua espera. Depois disso, sinto que você terá que esperar sentado pelos próximos três dias.
— E a arma? Esperam que atravesse a alfândega alemã com ela dentro de um saco de golfe ou coisa assim?
O chefe do Estado-Maior não tinha achado graça. — Seguirá pela mala diplomática. Você a receberá amanhã ao meio-dia. — Tinha estendido a mão até o bloco de avisos. — Bem, é melhor ir andando. Vou avisar a Tanqueray que está tudo combinado.
James Bond baixou o olhar para o rosto azul difuso do relógio no painel do carro. Dez e quinze. Com um pouco de sorte, amanhã a esta hora estaria tudo terminado. Afinal, era a vida deste homem “Gatilho” contra a vida do 272. Não era exatamente homicídio. Estava perto disso, no entanto. Apertou maldosamente sua buzina-de-serra tripla ao passar por um quatro portas comum, ingressou no cruzamento circular com uma derrapagem seca desnecessária, girou violentamente o volante fazendo a correção e apontou o nariz do Bentley em direção do brilho distante que era o Aeroporto de Londres.
O edifício feio de seis andares na esquina da Kochstrasse e da Wilhelmstrasse era o único de pé na desolação de um espaço vazio bombardeado. Bond pagou o táxi e gravou uma breve impressão de capim, alto como a cintura, e de paredes de entulho mal reparadas, estendendo-se na direção de um grande cruzamento deserto iluminado por um feixe central de lâmpadas amareladas em arco, antes de apertar o botão para o quarto andar e imediatamente ouviu o clique do dispositivo que abria a porta do prédio. A porta fechou-se atrás dele e caminhou então sobre o chão de cimento sem tapete até o antiquado elevador. O cheiro de repolho, cigarro barato e suor rançoso lembravam outros prédios de apartamentos na Alemanha e Europa Central. Até o arrastar e o guincho fraco do elevador vagaroso eram parte de centenas de missões em que tinha sido lançado por M, como um projétil, a algum alvo distante onde um problema aguardava a sua chegada, à espera de ser resolvido por ele. Pelo menos desta vez o comitê de recepção estava do seu lado. Desta vez não havia nada a temer no fim da escada.
O número 2 da Estação W.B. de Serviço Secreto era um homem esguio e tenso de quarenta e poucos anos. Vestia o uniforme de sua profissão — terno bem cortado e bem usado de tweed leve ponto pé-de-pato num tom verde-escuro, camisa de seda macia branca e uma velha gravata de colégio — neste caso de Wykeham. Ao ver a gravata, enquanto trocavam as saudações convencionais no pequeno saguão mofado do apartamento, o ânimo de Bond, já baixo, desceu mais um degrau. Conhecia esse tipo: espinha dorsal do Serviço Público; superestudioso e mal-amado em Winchester; um bom segundo em P.P.E. em Oxford; a guerra, cargos funcionais que teria ocupado meticulosamente; talvez uma Ordem do Império Britânico; Comissão do Controle Aliado na Alemanha, onde fora recrutado no Ramo I e a partir de então — porque era o funcionário ideal e A. 1 junto à Segurança e porque pensava em encontrar vida, drama, romance, todas as coisas que nunca linha tido — lá fora ele para o Serviço Secreto. Um homem sóbrio, cuidadoso se fizera necessário para bancar a dama de companhia de Bond neste negócio feio. O Capitão Paul Sender, que já servira na Guarda Galesa, tinha sido a escolha óbvia. E tinha aceitado. Agora, como bom Wykehamista, escondia o seu desagrado pelo serviço debaixo de uma conversa cuidadosa e banal enquanto mostrava a Bond a planta do apartamento e as providências tomadas para a prontidão do carrasco e, numa medida modesta, para o seu conforto.
O apartamento consistia de um amplo dormitório conjugado, um banheiro e uma cozinha equipada de enlatados, leite, manteiga, ovos, chá, bacon, pão e uma garrafa de Dimple Haig. O único detalhe estranho no quarto de dormir era que uma das camas duplas estava encostada em ângulo contra as cortinas que cobriam o amplo janelão único e sobre ela se empilhavam três colchões cobertos pela roupa de cama.
O Capitão Sender disse: — Gostaria de dar uma olhada ao campo de fogo? Poderei então explicar o que é que o lado de lá tem em mente.
Bond estava cansado. Não desejava especialmente ir dormir com a imagem do campo de batalha na memória. Disse: — Seria ótimo.
O Capitão Sender apagou as luzes. Faixas luminosas das lâmpadas no cruzamento apareceram em volta das cortinas. — Não quero puxar as cortinas — disse o Capitão Sender. — É pouco provável, mas eles podem ter sido alertados contra um grupo de cobertura para o 272. Queria que você apenas se deitasse na cama e enfiasse a cabeça por baixo das cortinas. Explicarei o que você estiver vendo. Olhe para a esquerda.
Era uma janela de guilhotina e a metade inferior estava aberta. Os colchões, especialmente escolhidos, só cediam um pouco e James Bond encontrou-se mais ou menos na posição de tiro que tinha adotado em Century Range, mas agora olhava através de terreno descontínuo, coberto de densa vegetação e bombardeado, na direção do rio de luz que era a Zimmerstrasse — a fronteira com a Berlim Oriental. Parecia a umas cento e cinquenta jardas de distância. A voz do Capitão Sender acima dele e por trás da cortina começou a recitar. Lembrava a Bond uma sessão espírita.
— Ali é terreno bombardeado à sua frente. Bastante cobertura. Umas cento e trinta jardas até a fronteira. Depois a fronteira — a rua — e então um trecho grande ainda de terreno bombardeado no campo do inimigo. É por isso que o 272 escolheu essa passagem. É um dos poucos locais na cidade em que o terreno é descontínuo — capinzais cerrados, muros em ruínas, porões — nos dois lados da fronteira. Ele deverá es-gueirar-se entre aquela confusão do outro lado e arremessar-se através da Zimmerstrasse até alcançar a confusão do nosso lado. O problema é que terá de correr trinta jardas de fronteira fortemente iluminada. Será o espaço da matança. Certo?
Bond disse: — Sim.
Disse-o com suavidade. O cheiro do inimigo, a necessidade de tomar cuidado, já estavam atuando sobre seus nervos.
— À sua esquerda, aquele novo e imenso bloco de dez andares é a Haus der Ministerien, o grande centro cerebral de Berlim-Leste. Você pode ver que as luzes ainda estão acesas na maioria das janelas. A maior parte delas ficará assim toda a noite. Esses sujeitos trabalham mesmo — seus turnos dão a volta no relógio. Você provavelmente não precisará preocupar-se com as janelas acesas. Esse fulano “Gatilho” certamente vai atirar de uma das janelas escuras. Você verá que existe um grupo de quatro, juntas, na quina acima do cruzamento. Ficaram escuras na noite passada e esta noite. Elas têm o melhor campo de fogo. Daqui, o seu alcance varia entre trezentas e trezentas e dez jardas. Estou com todos os números e dados quando você quiser. Não é preciso preocupar-se muito mais. Aquela rua fica vazia durante a noite — apenas as patrulhas motorizadas cerca de cada meia hora — carros blindados leves com uma dupla de motocicletas por escolta. Na noite passada, que suponho normal, entre seis e sete, que é a hora em que se fará este serviço, havia umas poucas pessoas entrando e saindo por aquela porta lateral. Uns funcionários. Antes disso nada fora do comum — o fluxo costumeiro de pessoas entrando e saindo de um edifício de governo movimentado — com exceção, veja só, de uma miserável orquestra completa de mulheres. Fizeram uma confusão infernal numa sala de concertos que tem ali. Parte do bloco aloja o Ministério da Cultura. Fora disso nada — certamente nenhuma das pessoas da KGB que conhecemos, nem sinais de preparação para um serviço deste gênero. Mas nem pode haver sinais. São muito cuidadosos estes sujeitos da oposição. De qualquer maneira, dê uma boa olhada. Não esqueça que agora está mais escuro do que amanhã por volta das seis. Mas você pode formar um quadro geral.
Bond formou o quadro geral e o quadro ficou com ele muito tempo enquanto o outro homem já dormia e ressonava suavemente com um pequeno som regular que lembrava um fraco estalido — um ronco Wykehamista, refletiu Bond irritado.
Sim, tinha formado o quadro — o quadro de um lampejo movimento entre as ruínas sombreadas no outro lado do brilhante rio de luz, uma pausa, e então a desesperada corrida em ziguezague de um homem sob o impacto luminoso das lâmpadas, o espocar da arma de fogo e, ou um fardo retorcido espalhado no meio da rua larga, ou então a investida sempre em frente através do capinzal e do entulho no Setor Ocidental — morte súbita ou volta a casa. O grande desafio! Quanto tempo teria Bond para localizar o tocaia russo numa daquelas janelas escuras? E para matá-lo? Cinco segundos? Dez? Quando o amanhecer começava a cobrir as cortinas com o tom metálico das armas, Bond capitulou para sua mente agitada. Ela tinha ganho. Foi em silêncio até o banheiro e inspecionou as fileiras de remédios que um prestimoso Serviço Secreto tinha providenciado para manter o seu carrasco em boa forma. Escolheu o Tuinal, engoliu duas das cápsulas concentradas, rubis e azuis, com um copo de água e voltou à cama. Então, chumbado, dormiu.
Acordou ao meio-dia. O apartamento estava vazio. Bond abriu as cortinas para deixar entrar o dia cinzento prussiano e, de pé a uma boa distância da janela, ficou vendo a monotonia de Berlim e ouvindo o ruído dos bondes e o arranhar distante dos trens da U-Bahn na grande curva de entrada da estação do Zoo. Lançou um olhar rápido e relutante ao que já tinha examinado na noite anterior, notou que o capim no entulho de bombardeio era mais ou menos o mesmo de Londres — loendro, labaçol e samambaia — e dirigiu-se então à cozinha. Havia uma nota apoiada numa fatia de pão: “Meu amigo (eufemismo do Serviço Secreto que neste contexto significava o chefe de Sender) diz que não há mal em você sair. Mas esteja de volta às 17 horas. Seu equipamento (outra palavra para o rifle de Bond) chegou e o bagageiro a entregará esta tarde. P. Sender.”
Bond acendeu o fogão a gás e queimou a mensagem com desprezo por sua profissão e em seguida preparou um prato enorme de ovos mexidos e bacon que amontoou sobre uma torrada coberta de manteiga e comeu com acompanhamento de café preto no qual derramara uma porção liberal de uísque. Depois tomou um banho e barbeou-se, vestiu as roupas descoloridas, centro-europeias e anônimas que tinha trazido para a sua missão, olhou a sua cama em desordem, decidiu que tudo fosse para o inferno e desceu pelo elevador deixando o edifício.
James Bond sempre achara Berlim uma cidade deprimente e hostil, esmaltada no lado Ocidental com o verniz superficial de um polimento pretensioso parecido com os enfeites cromados dos carros americanos. Caminhou até a Kurfurstendamm, sentou-se no Café Marquardt, tomou um expresso e ficou observando com tédio as filas obedientes de pedestres esperando o sinal “Siga” nos postes de trânsito enquanto a corrente luminosa de carros continuava a sua perigosa quadrilha na movimentada intersecção. Fazia frio lá fora e o vento cortante das estepes russas fustigava as saias das garotas e os impermeáveis dos homens impacientes e apressados, cada um com a infalível pasta enfiada debaixo do braço. Os aquecedores de parede infravermelhos do café apontavam o vermelho para baixo e davam um brilho espúrio ao rosto dos cafeinômanos que degustavam sua tradicional “uma xícara de café e dez copos de água”, lendo de graça os jornais e revistas presos por paus, ou se curvavam com seriedade sobre papéis de negócios. Bond, fechando o pensamento para a noite, discutia consigo mesmo as maneiras de passar a tarde. Finalmente chegou à escolha entre uma visita àquela casa de respeitável fachada de pedra, na Clausewitzstrasse, conhecida de todos os porteiros e choferes de táxi, ou um passeio ao Wannsee e uma vigorosa caminhada no Grunewald. A virtude triunfou. Bond pagou o café, saiu no frio e tomou um táxi até a estação do Zoo.
As belas arvorezinhas jovens em volta do lago extenso já tinham sido tocadas pelo sopro do outono e havia um dourado aqui e ali no meio do verde. Bond caminhou com energia durante duas horas pelas veredas cobertas de folhas e então escolheu um restaurante com terraço envidraçado sobre o lago e saboreou com prazer um chá reforçado consistindo de uma porção dupla de arenques do Norte mergulhados em creme e anéis de cebola, e dois Molle mit Korn, o equivalente berlinense de um “fabricante de caldeiras e seu assistente” — schnapps, duplos, acompanhados por um chope Löwenbräu. Sentindo-se então mais animado tomou a S-Bahn para voltar à cidade.
Em frente do prédio de apartamentos, um jovem indefinível estava mexendo no motor de um Opel Kapitan negro. O jovem não tirou a cabeça debaixo do capo quando Bond passou bem perto dele e subiu até a porta e apertou o botão.
CONTINUA
Quando chegou embaixo, sentou-se no musgo, sob os abetos. Estendeu no chão a camisa, colocou no centro dela as barras de ouro e fez uma trouxa, amarrando bem as fraldas e as mangas. Depois, cavou um buraco no chão e enterrou a caixa metálica vazia. E vergando ao peso, quase dobrado em dois, caminhou pela estreita trilha, entre os pinheiros, rumo ao jipe. Até aquele dia não conseguira saber como tivera forças para alcançar o veículo. Os nós que dera na trouxa pareciam penetrar nas carnes de seu ombro, sob o peso das barras de ouro. Quando, finalmente, alcançou o jipe, quase teve um colapso, tão exausto estava. Mas não podia descansar, ainda. Precisava sair dali para enterrar o seu tesouro na floresta, perto de um grupo de grandes rochas, onde lhe seria fácil encontrá-lo de novo, na ocasião oportuna em dia, quando o horizonte estivesse limpo, voltaria, por outra rota, evitando o chalé de Oberhauser. Só então, terminado tudo, fora embebedar-se com uma garrafa de schnapps barato. Jantou e meteu-se na cama, para dormir como uma pedra. No dia seguinte, a Força A da DAG seguiu para o vale do Mittersill. Seis meses depois o Major Smythe estava em Londres. A sua guerra havia terminado. Mas os seus problemas, não. Ouro era coisa difícil de contrabandear, principalmente em grande quantidade. E era essencial que o Major Smythe transferisse as suas barras para um novo esconderijo. Por isso, ele procurou evitar a desmobilização e gozar os privilégios de seu comissionamento temporário, sobretudo o seu passe do Serviço Secreto Militar. Conseguiu ser mandado de volta para a Alemanha, como representante da Inglaterra no Centro Misto de Investigação de Munique. Aí, trabalhou durante seis meses e, nesse período, teve a oportunidade de recuperar o ouro, que levou para o seu alojamento numa velha valise. Depois, em dois fins de semana, fez viagens aéreas para Londres, levando, de cada vez, uma barra de ouro, em sua volumosa pasta. A caminhada nos aeroportos de Munique e de Londres, com a pasta sob o braço, como se contivesse apenas papéis, exigira dois tabletes de benzedrina e uma vontade de ferro. Finalmente, pôde esconder sua fortuna no porão da casa de uma tia, em Kensington, e assim, com tranquilidade, pôde desenvolver a parte final de seus planos. Pediu reforma nos Fuzileiros Reais e, uma vez desmobilizado, casou-se com uma das muitas moças com quem tivera aventuras durante o serviço da DAG, uma graciosa Wren chamada Maria Parnell. Comprou passagem para ambos num cargueiro para a Jamaica, que representava, para ambos, um paraíso ensolarado, com boa e farta comida, bebida barata, sem a melancolia e as restrições impostas na Inglaterra, após a guerra, pelo severo governo trabalhista. Antes do embarque, o Major Smythe mostrou a Mary as barras de ouro, das quais já havia raspado a cinzel os símbolos do Reichsbank.
— Tenho sido muito econômico e esperto, meu bem — disse ele. — Não confio na libra. Por isso, vendi todas as minhas ações e comprei um bocado de ouro. Teremos pelo menos 20 mil libras, se eu o vender bem. Isso basta para nos assegurar uma boa vida, até o fim dos nossos dias. Sempre que for preciso, eu venderei um pouquinho — explicou.
Mary Parnell não era familiarizada com as leis monetárias. Mas se ajoelhou e passou as mãos, carinhosamente, sobre as barras de ouro. Depois, com os braços ao redor do pescoço do marido, beijou-o e disse, quase em lágrimas: — Você é um homem maravilhoso... Sim, maravilhoso! Terrivelmente inteligente, bonito, simpático, herói da guerra e, além do mais, rico! Eu sou a garota mais feliz do mundo!
— Você tem razão pelo menos numa coisa: ricos, nós somos. Mas prometa não dizer uma só palavra a quem quer que seja! Pois, se disser, todos os ladrões da Jamaica irão rondar a nossa casa.. .
O Prince’s Club, ao pé das colinas que dominam os arredores de Kensington, era realmente esplêndido. Para os seus sócios, não havia nada melhor: maravilhosa criadagem, comida farta, bebida barata, belíssimos cenários tropicais, como nunca tinham visto antes. O casal era muito popular e os serviços de guerra do Major Smythe lhe davam ingresso na alta sociedade local e na Government House. A vida de ambos era uma série interminável de festas, misturadas com o tênis de Mary e o golfe do major (com os bastões metálicos de Henry Cotton!) durante o dia, e partidas de bridge (para ela) e de pôquer (para ele) durante as noites. Sim, era um paraíso, porque, na Inglaterra, havia racionamento, filas e mercado negro, um governo atroz e o pior inverno dos últimos trinta anos. A princípio, o casal enfrentou as despesas com as economias em dinheiro, que ambos haviam reunido, enquanto se vestiam, se alimentavam e se transportavam à custa do Exército. Só depois de um ano de cautelosas investigações é que o Major Smythe se decidiu a fazer negócio com os irmãos Fu, comerciantes importadores e exportadores. Altamente respeitados e muito ricos, os irmãos Fu eram conhecidos como uma espécie de junta governativa da comunidade chinesa da Jamaica. Ainda que alguns dos seus negócios se desviassem das boas normas, segundo a tradição chinesa, Smythe achou que poderia confiar neles. A Convenção de Bretton Woods, fixando um preço internacional para o ouro, sob rigoroso controle, tinha sido assinada deixando de parte Tânger e Macau, dois portos livres, em que a onça de ouro valia entre 99 e 100 dólares, quando nos outros lugares o preço oficial era de 35. E, para maior conveniência de seus negócios, os Fu tinham aberto um restaurante em Hong-Kong, transformado em entreposto para o contrabando de ouro para a vizinha Macau. Isso, na linguagem do Major Smythe, era sopa no mel. Ele tivera um agradável encontro com os Fu. Nenhuma pergunta estes fizeram, senão depois do exame das barras de ouro.
— Major — disse o mais velho dos irmãos —, no mercado de ouro em barras, as marcas dos bancos nacionais e dos negociantes respeitáveis são aceitos sem discussão. Essas marcas são a garantia da pureza do ouro. Mas outros bancos e outros vendedores têm seus próprios processos de refinação, que talvez, não sejam tão perfeitos...
— Quer dizer que eu fui enganado? — Perguntou, ansiosamente, o major. — Que isso não é senão uma barra de chumbo coberta de uma leve camada de ouro?
Os dois irmãos deram muxoxos tranquilizadores:
— Não, não, major... Não se trata disso. Mas, se uma pessoa não se recorda da proveniência dessas barras de ouro, por mais finas que elas sejam é sempre necessário submetê-las a um ensaio, para verificação do seu exato teor... Há muitos métodos para determinar o grau de pureza dessas barras. Meu irmão e eu somos competentes em qualquer deles. Quer deixar as barras de ouro conosco e vir saber o resultado depois do almoço? Nós lhe daremos um recibo...
Não havia alternativa. Teria que confiar nos Fu. Qualquer que fosse o preço por eles arbitrado, seria forçado a aceitar. Estava nas mãos deles. Foi a um bar, onde tomou dois drinques fortes e comeu um sanduíche que lhe ficou atravessado na garganta. Depois, voltou ao escritório refrigerado dos Fu. O cenário era o mesmo: os dois irmãos sorridentes, as duas barras de ouro, a pasta de couro, etc. Só havia a mais uma folha de papel e uma caneta-tinteiro de pena de ouro, em frente do irmão mais velho.
— Resolvemos o problema do seu ouro, major! — (Esplêndido! Obrigado, pensou Smythe.) — E estou certo de que o senhor terá interesse em conhecer sua origem...
— Claro! Qual é? — Fez o major, com uma corajosa demonstração de entusiasmo.
— São barras de ouro alemãs! Provavelmente saíram dos depósitos do Reichsbank, durante a guerra. Isso pode ser deduzido do fato de que contêm dez porcento de chumbo. Durante o regime de Hitler, o Reichsbank fez a tolice de adulterar por esse modo o seu ouro. Isso logo se espalhou e o preço das barras de ouro alemãs, vendidas na Suíça, sofreu logo uma redução de preço, correspondente à adulteração. Foi uma bobagem, que só teve um resultado: o banco nacional da Alemanha perdeu a reputação que conquistara durante séculos... Bobagem... Uma grandíssima bobagem... — Concluiu o chinês, com o seu invariável sorriso.
O Major Smythe estava maravilhado com a onisciência desses dois homens, tão afastados dos grandes canais de comércio do mundo. Mas ao mesmo tempo os amaldiçoava, intimamente. E agora?
— É muito interessante, Sr. Fu... Mas isso não é uma boa notícia para mim. Essas barras de ouro me foram entregues como coisa cem por cento...
— Não tem importância, major — disse o mais velho dos Fu. — Ou melhor, quase não tem importância. Venderemos o seu ouro pelo justo valor, ou seja, 89 dólares a onça. Terá que ser, ou não, refinado pelo último comprador. Mas isso não é da nossa conta. Nós o venderemos também como cem por cento...
— Mas a um preço mais baixo...
— Realmente, major. Mas creio que temos uma boa notícia para o senhor. Quanto calculava obter com essas duas barras?
— Cerca de 20 mil libras...
— Se as vendermos bem e aos pouquinhos — disse o mais velho dos Fu —, o senhor receberá mais de 100 mil dólares, major, sujeitos, é claro, ao desconto da nossa comissão, que inclui o transporte e outras despesas.
— E a quanto montará isso?
— Estou pensando em fixar em 10 por cento, major. Se lhe parecer satisfatório...
O Major Smythe tinha a impressão de que vendedores de ouro em barras recebiam apenas um por cento de comissão. Mas, que diabo, antes do almoço já estava disposto a largar tudo até por 10 mil libras. Disse “fechado” e levantou-se, estendendo a mão através da mesa. Desde então, de quatro em quatro meses, ia visitar o escritório dos Fu, levando uma valise vazia. Havia sempre quinhentas libras novas, da emissão da Jamaica, em pacotes, sobre a mesa, à sua espera, e um recibo da quantidade vendida, com o preço alcançado em Macau. As barras de ouro diminuíam de tamanho, de polegada em polegada. O negócio era simples e cordial. Duas mil libras limpas, por ano, eram o bastante para ele, e só o afligia a possibilidade de que o pessoal do imposto de renda começasse a apertá-lo, para saber do que estava vivendo. Ele disse isso aos Fu, que lhe fizeram saber que não precisava se preocupar. Nas duas vezes seguintes, havia apenas quatrocentas libras na mesa, mas nenhum comentário foi feito, por qualquer dos lados. E assim os dias iam se passando, preguiçosamente. Os Smythes engordavam e o major teve a primeira das duas complicações das coronárias. O médico lhe recomendou uma vida menos ativa, com menos álcool e menos cigarros. Evitasse, também, as gorduras e as comidas fritas. A princípio, Mary tentou ser severa com ele, mas quando o marido começou a beber escondido e a inventar pequenas mentiras e evasivas, ela recuou desse propósito. Teve medo de se transformar numa chata doméstica, a quem o Major Smythe passaria a evitar. Por isso, deu-lhe inteira liberdade, sabendo que ele não mais a amava, e quando a sua solidão se tornou demasiada e as insônias intoleráveis, viciou-se em tomar soníferos. Uma noite, depois de uma violenta briga, estando ambos embriagados, tomou ela uma dose excessiva, só “para dar-lhe uma lição”. A dose era tão exagerada que a matou. O suicídio foi dissimulado, mas ainda assim recaíram suspeitas sobre o major, em prejuízo de sua reputação social. E a tal ponto que ele teve de se retirar para North Shore que, embora a apenas três milhas de Kensington, parece pertencer a um outro mundo. Aí ele se instalou em Wavelets e, depois da segunda complicação das coronárias, começou a beber desenfreadamente. Foi então que entrou em cena James Bond com um mandado de prisão ou de morte no bolso.
O Major Smythe olhou para o relógio. Passavam alguns minutos do meio-dia. Ele se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale e foi para o jardim. James Bond estava sentado sob a frondosa amendoeira, olhando para o lar. Nem se voltou para o Major Smythe quando este puxou outra cadeira de alumínio e colocou o copo na relva, perto dele. Quando o Major Smythe acabou de narrar a sua história, James Bond disse, sem demonstrar qualquer emoção: — Era mais ou menos isso o que eu havia pensado...
— Quer que eu escreva tudo ou apenas assine?
— Faça como quiser. Mas isso não se entende comigo. Deve entregar à Corte Marcial. Seu velho Corpo de Fuzileiros Reais é que vai tomar conta do caso. Não tenho nada que ver com os aspectos legais. Farei apenas um relatório do que me disse, para a Procuradoria da Justiça, através da Scotland Yard...
— Posso perguntar uma coisa? Como foi que descobriu?
— A geleira era pequena. O corpo de Oberhauser chegou embaixo no início deste ano, quando as neves da primavera derreteram. Alguns alpinistas o encontraram. Todos os seus papéis e tudo o mais estava perfeito. A família o identificou. Depois, foi só uma questão de recuar no tempo. O calibre das balas deu logo a pista...
— Mas como se envolveu neste assunto?
— A Força da DAG era uma das minhas responsabilidades, um dos meus serviços. Quando o assunto chegou ao meu conhecimento, fui dar uma busca nos arquivos. Como tinha tempo livre, pedi que me entregassem a missão de descobrir o autor da morte de Oberhauser...
— Por quê?
— Porque — e James Bond fixou os olhos do Major Smythe — acontece que Oberhauser era um velho amigo meu. Foi quem me ensinou a esquiar quando eu tinha pouco mais de dez anos. Era um esplêndido sujeito. Foi uma espécie de pai para mim, precisamente na época em que eu mais precisava de um...
— Compreendo. — E o Major Smythe desviou o olhar. — Sinto muito...
James Bond se levantou:
— Bem, preciso voltar a Kensington. — E levantou a mão, para deter o major. — Não, não precisa incomodar-se. Sei onde o carro ficou... — Olhou para o homem mais velho e disse, rispidamente, quase com brutalidade: — Dentro de uma semana, alguém virá buscá-lo...
E caminhou, em passos firmes, sem se voltar, pela alameda afora. O major ouviu o ruído do arranque do motor e o chiado dos pneus do táxi nas pedrinhas miúdas da estrada.
Agora, ele procurava a sua presa, ao longo do recife de coral, pensando exatamente no sentido das palavras de James Bond. E sorriu por trás da máscara Pirelli. Era uma versão nova de um velho dramalhão, que consistia em deixar uma pistola com o oficial culpado, para que este mesmo estourasse os miolos. Se James Bond quisesse, poderia ter telefonado para a Government House e pedido um oficial de igual patente do Regimento da Jamaica para levar preso o Major Smythe. De certo modo, o seu gesto fora decente. Ou não fora? Um suicídio era mais limpo, economizava uma porção de trabalho e de papéis, que consumiriam o dinheiro dos contribuintes. Devia agradecer a James Bond a solução que ele parecia sugerir? Acaso encontraria Mary no lugar para onde vão as almas dos suicidas? Ou era melhor a Corte Marcial, a indignidade, as formalidades cacetes, as manchetes, o aborrecimento e a solidão de uma prisão perpétua, da qual só o livraria a terceira crise das coronárias? Poderia defender-se: era tempo de guerra, lutara com Oberhauser no alto da montanha, ele era um prisioneiro e tentara fugir... Oberhauser sabia do esconderijo do dinheiro... E ele, pobre oficial dos Comandos, tantas vezes arriscando a vida pela pátria, fora fraco e não resistira à tentação... Poderia entregar-se dramaticamente à misericórdia do Tribunal Militar... Um coronel certamente seria designado para defendê-lo e o faria com a maior eloquência. Poderia haver um apelo à Corte Suprema. Seu caso comoveria a Inglaterra e se tornaria uma cause célebre. Venderia sua história, com as reminiscências de guerra, aos grandes jornais... Mas...
Cuidado, meu velho! Cuidado! Seus pés agora tocavam o chão, sob as ondas que encrespavam a superfície da praia de North Shore. Por onde estariam os peixes-escorpiões? O polvinho querido estava faminto, esperando o seu almoço. Apurando a vista, perto do recife de coral, o Major Smythe viu as antenas de um lagostim, acenando inquisitivamente para ele. Normalmente, ele se esqueceria de tudo, para capturar o lagostim, que era, talvez, o maior que até então encontrara. Mas agora só tinha uma preocupação: a de descobrir a silhueta irregular e provocante do peixe-escorpião. Só depois de mais dez minutos de busca encontraria o primeiro. Os olhos vermelhos e zangados do peixe, muito abertos, o observavam. Para fisgá-lo, com o arpão, teria que fazer uma investida rápida, na vertical, firme e certeira. Sabia que as agulhas envenenadas se projetariam para fora da cabeça pontiaguda do monstro. Tinha que se mover lentamente, na direção do peixe, usando o braço livre para nadar. E... Agora! Avançou, para a frente e para baixo, mas o peixe-escorpião sentira a aproximação do arpão antes que este o tocasse. Uma lufada de areia se levantou do fundo do mar, atingido pelo golpe. E qualquer coisa roça em seu corpo, dando a impressão do voo de um pássaro. O major praguejou e fez meia volta, dentro da água. Sim, o peixe-escorpião fizera o que tantas vezes fazia: fora buscar refúgio entre as algas e as rochas, confiante em sua soberba camuflagem. O major voltou à carga, em novo mergulho, dessa vez ainda mais atento, e zás! O peixe-escorpião se agitava, agora, na ponta do arpão. A excitação foi tão grande que o Major Smythe vacilou e sentiu a antiga dor oprimir-lhe o peito. Pôs-se de pé, firmou o arpão contra a areia, atravessando inteiramente a presa, que ainda se agitava desesperadamente, e dirigiu-se à praia, indo sentar-se num banco de madeira, ao lado do qual atirou o peixe, fisgado, a se debater. Uns cinco minutos depois, o Major Smythe sentiu uma curiosa dormência na região do plexo solar. Olhou para baixo e estremeceu, de horror e incredulidade. Uma região de sua pele, com o tamanho aproximado de uma bola de críquete, tornara-se impressionantemente branca, a despeito do bronzeado de seu busto. No centro dessa área, havia três pequenas manchas sanguíneas. Automaticamente, o Major Smythe limpou o sangue. Os furos eram do tamanho de picadas de agulhas. Ele se lembrou, então, da fuga do peixe-escorpião, quando tentara arpoá-lo da primeira vez, e exclamou alto, com pavor, mas sem animosidade: — Tu me apanhaste, bastardo! Tu me apanhaste!
Imóvel, olhava para o próprio corpo, recordando-se do que lera sobre os ferrões do peixe-escorpião no livro que tomara emprestado à biblioteca do Instituto e nunca devolvera — Perigosos Animais Marinhos, publicação norte-americana. Tocou delicadamente a pele da área atingida. Sim, a pele se tinha tornado intumescida e de todo insensível, mas por baixo começava a sentir dor. Em breve essa dor profunda e intensa percorreria o seu corpo inteiro, tão lancinante que o seu único desejo seria o de deitar-se na areia, gritando e rolando, para abafá-la. Vomitaria e deitaria espuma pela boca, teria delírio e convulsões, até perder a consciência. Então, sobreviria, inevitável, o colapso cardíaco mortal. De acordo com o livro, o ciclo completo desses tormentos não passaria de um quarto de hora. Era tudo quanto lhe restava: quinze minutos de atroz agonia! Haveria cura, é claro — com procaínas, antibióticos e anti-histamínicos —, se seu coração debilitado suportasse tais medicamentos. Mas estes deviam estar à mão. Mesmo que conseguisse chegar em casa e admitindo que Jimmy Greaves dispusesse de todos esses remédios modernos, ele não poderia alcançar Wavelets antes de uma hora.
A primeira descarga de dor fez o corpo do Major Smythe dobrar-se sobre si mesmo. Depois outra e mais outra, irradiando-se através do estômago e dos membros. Sentia um gosto metálico na boca e uma coceira insuportável nos lábios. Deixou escapar um gemido e saltou do banco para a praia. Sobre a areia, ainda arquejava o peixe-escorpião. Houve uma trégua nos espasmos da dor. Seu corpo inteiro estava em fogo. Apesar da agonia o raciocínio permanecia claro. Mas, ora essa! Ia esquecendo a experiência! Devia ir à loca do polvo, para servir seu almoço! “Polvo, polvinho, vai ser a última refeição que eu te dou!”, dizia a si mesmo o Major Smythe, ajustando a máscara no rosto. Depois, apanhou o arpão, com o peixe espetado e, apertando o estômago com a mão livre, caminhou pela água adentro e, depois, mergulhou junto ao recife de coral. Poucas jardas o separavam agora do polvo. E foi gritando dentro da máscara, arrastando-se, quase de joelhos, que ele as percorreu. À medida que a água se tornava mais profunda, a dor se fazia mais intensa e seus movimentos pareciam com os de um fantoche, impulsionado por um feixe de cordéis. Só a poder de uma grande força de vontade pôde continuar rumo à morada do polvo. Sim, a sua massa escura ainda estava lá! E parecia excitadíssima. Por quê? O Major Smythe viu que as feridas de seu peito vertiam filetes de sangue escuro, que se diluía na água do mar. Era claro! O querido polvo sentira o gosto do seu sangue. Uma descarga de dor atingiu o major e o fez vergar-se. Disse a si mesmo, em delírio: “Que é isso, Dexter?! Firme, meu velho. Você tem que dar almoço ao polvinho”. Endireitou-se, empunhando o arpão com firmeza e aproximando o peixe da toca do polvo. Aceitaria ele a isca envenenada que o Major Smythe lhe oferecia e à qual talvez um octópode poderia ser imune? Ah, se Bengry estivesse presente, para observar! Três tentáculos, ondulando excitadamente, saíram da loca e passearam ao redor do peixe-escorpião. Agora, havia uma espécie de nevoeiro diante dos olhos do Major Smythe. Reconhecendo estar à beira da inconsciência, ele agitou fracamente a cabeça, para dissipá-lo. E, então, os tentáculos deram um salto! Mas não para o peixe: apertaram a mão e o braço que empunhavam o arpão. A boca do Major Smythe se torceu, numa careta de prazer. Agora, ele e o polvo podiam se apertar as mãos! Como era excitante! Que coisa maravilhosa! Mas o polvo, calma e implacavelmente, continuou a enroscar os seus tentáculos e a chamar a si o corpo do major. Só então Smythe compreendeu que algo de terrível ia acontecer. Fez um apelo a todas as suas forças e tentou golpear o octópode com o arpão. Mas tudo quanto conseguiu foi bater com o peixe-escorpião na massa escura do polvo. E, com o movimento que fez, ofereceu-se ainda mais a este, que o atraía de forma inexorável. Tarde demais o Major Smythe retirou sua máscara. Conseguindo alcançar a superfície, soltou um grito que reboou pela baía deserta, mas logo foi puxado para baixo. E, depois de algumas bolhas de ar, vieram à tona as pernas do major. As ondas lavavam o seu corpo, enquanto o polvo fazia a primeira tentativa para devorá-lo. O resto de Smythe foram encontrados por dois jovens da Jamaica, que pescavam peixes-agulhas numa canoa. Eles mataram o polvo, recolheram o arpão do Major Smythe com o peixe-escorpião e levaram os três despojos para a praia. O cadáver do major foi entregue à polícia e o peixe-escorpião aproveitado para a ceia. O destino do polvo de estimação seria também a panela ... O correspondente do Daily Gleaner em North Shore comunicou que o Major Smythe tinha sido morto por um polvo. Mas a redação do jornal, para não alarmar os turistas, preferiu dizer que ele “fora encontrado afogado”. Mais tarde, em Londres, James Bond, embora certo de que se tratara de um suicídio, anotou no dossier Oberhauser a versão do afogamento, com a respectiva data, na última página, o que encerrava o assunto. Somente pelas notas do Dr. Greaves sobre a autópsia, por ele mesmo realizada, é que foi possível escrever esta espécie de post-scriptum sobre o estranho e patético fim do outrora corajoso e útil oficial do Serviço Secreto.
Encontro em Berlim
(THE LIVING DAYLIGHTS)
James Bond estendia-se em posição na marca das quinhentas jardas da famosa linha de tiro Century Range, em Bisley. A pequena estaca branca na grama a seu lado dizia 44 e o mesmo número se repetia bem alto no talude distante acima do solitário alvo de seis pés quadrados que, ao olho humano e no crepúsculo do fim de verão, não parecia maior que um selo de correio. Mas a luneta de Bond, uma Sniperscope infravermelha fixada sobre o seu rifle, cobria todo o quadro. Ele podia até distinguir com clareza as cores azul-pálido e bege em que se dividia o alvo, e a mosca semicircular de seis polegadas parecia tão grande como a meia lua que já começava a se mostrar baixa no céu que escurecia acima da crista remota de Chobham Ridges.
O último tiro de James Bond fora um esquerdo interno — não o satisfizera. Deu uma outra olhada às bandeiras de vento amarelas e azuis. Tremulavam do leste através da linha de tiro mais intensamente do que quando tinha começado o seu tiro meia hora antes, e ele mudou o anemômetro dois pontos para a direita e assestou os dois fios cruzados da Sniperscope de volta ao foco de mira. Instalou-se então, colocou o indicador de leve dentro da guarda e sobre a curva do gatilho, prendeu a respiração e muito, muito suavemente apertou.
O estampido vicioso ecoou ao longo do campo vazio. O alvo desapareceu abaixo do solo e imediatamente o “boneco” tomou o seu lugar. Sim, a marca negra estava embaixo no canto direito desta vez, não no canto esquerdo: mosca.
— Bom — disse a voz do oficial chefe da linha, atrás e acima dele. — Fique com a mira.
O alvo já subira de novo e Bond recolocou a bochecha sobre o trecho quente da volumosa coronha de madeira e o olho na borracha que cerca a ocular da luneta. Enxugou a mão de atirar contra o lado das calças e pegou na coronha da pistola que sobressaía angulosamente da guarda do gatilho. Abriu de uma polegada o ângulo das pernas. Agora haveria cinco descargas rápidas. Era interessante ver se isso não provocaria “desgaste”. Ele achava que não. Esta arma extraordinária que o armeiro tinha descoberto sabe lá como dava à gente a sensação de que um homem de pé à distância de uma milha seria prato fácil. Era mais um rifle Experimental de Alvo Internacional, calibre 308, construído pela Winchester para ajudar os ases americanos do tiro em campeonatos mundiais, e tinha os dispositivos usuais das armas de alvo superacuradas — uma “mão” espiralada de alumínio nas costas da coronha que se estendia debaixo da axila e mantinha a arma com firmeza junto ao ombro, e uma pequena roda dentada ajustável abaixo do centro de gravidade do rifle para permitir que ele “se agarrasse” ao sulco do seu descanso de madeira. O armeiro tinha mandado trocar o ferrolho de tiro único usual por um depósito de cinco tiros, e tinha garantido a Bond que se ele deixasse apenas dois segundos entre cada tiro para estabilizar a arma não haveria desgaste, mesmo a quinhentas jardas. Para o serviço que devia fazer, Bond achava que dois segundos poderiam representar uma perda perigosa de tempo se errasse o seu primeiro tiro. De qualquer forma, M dissera que a distância não seria maior que trezentas jardas. Bond encurtaria o tempo para um segundo — fogo quase contínuo.
— Pronto?
— Sim.
— Vou à contagem regressiva de cinco. Agora! Cinco, quatro, três, dois, um. Fogo!
O chão tremeu ligeiramente e o ar silvou enquanto as cinco cápsulas velozes de cuproníquel varejavam o crepúsculo. O alvo baixou e rapidamente voltou a erguer-se condecorado com quatro pequenos discos brancos agrupados bem juntos na mosca. Não houve nenhum quinto disco — nem mesmo um negro para indicar um interno ou externo.
— A última descarga foi baixa — disse o chefe da linha baixando seus binóculos noturnos. — Obrigado pela contribuição. Limpamos a areia atrás daqueles alvos todo fim de ano.
Nunca recolhemos menos de quinze toneladas de estilhaços em legítimo chumbo e cobre. Um bom dinheiro.
Bond tinha-se levantado. O cabo Menzies da seção dos armeiros surgiu do pavilhão do Clube de Tiro e ajoelhou-se para desmontar a Winchester e o seu descanso. Olhou para cima encarando Bond. Disse com uma ponta de crítica. — O senhor tocou a coisa um pouco rápido. A última descarga tinha de escoicear.
— Eu sei, cabo. Só queria ver com que rapidez eu podia tocar. Não quero pôr a culpa na arma. É um trabalho enxuto, infernal. Por favor, diga isso por mim ao armeiro. Agora é melhor ir andando. Você tem condução de volta a Londres, não?
— Tenho, sim senhor. Boa noite.
O oficial chefe da Linha entregou a Bond uma ficha de seu tiro — dois tiros de ensaio e depois dez descargas para cada cem jardas até as quinhentas. — Pontaria danada de boa com esta visibilidade. Você devia voltar aqui o ano que vem e tentar o Prêmio da Rainha. Hoje em dia está aberto para todos — isto é, da Comunidade Britânica.
— Obrigado. O problema é que não passo tanto tempo assim na Inglaterra. E muito obrigado por ter feito a marcação para mim.
Bond olhou para a distante Torre do Relógio. De cada lado, a bandeira vermelha de perigo e o tambor vermelho de sinalização estavam sendo arriados para mostrar que o tiroteio tinha cessado. Os braços marcavam nove e quinze. — Gostaria de oferecer-lhe um drinque, mas tenho um encontro em Londres. Podemos adiá-lo até o Prêmio da Rainha de que você estava falando?
O chefe da Linha fez que sim com a cabeça, neutramente. Ele tinha aguardado ansioso a oportunidade de conhecer mais coisas sobre este homem que surgira assim sem mais nem menos depois de uma série de avisos do Ministério da Defesa e fora em frente acertando bem mais de noventa porcento em todas as distâncias, isso depois de fechada a linha para a noite e com visibilidade entre sofrível e má. E por que tinha ele, que só oficiava no encontro anual de julho, sido escalado para estar presente? E por que lhe tinham dito para providenciar uma mosca de seis polegadas a 500 jardas para Bond, em vez da regulamentar de quinze polegadas? E por que todos esses cuidados com a bandeira de perigo e o tambor de sinalização que só se usavam em ocasiões cerimoniais? Para pressionar o homem? Para dar um clima de urgência ao tiro? Bond. Comandante James Bond. A A.N.R. certamente teria a ficha de uma pessoa que atirava tão bem assim. Não se esqueceria de dar-lhes um telefonema. Que hora estranha para um compromisso em Londres. Provavelmente uma garota. O rosto do chefe da Linha assumiu uma expressão de desagrado. O tipo do sujeito que apanhava todas as garotas que queria.
Os dois homens caminharam através da bela fachada da sede do clube além da linha de tiro até o carro de Bond que estava estacionado diante de uma reprodução em ferro do famoso “Veado em Fuga” de Landseer toda picotada de balaços. — Uma beleza de carro — comentou o chefe da Linha. Nunca vi uma carroçaria assim num Continental. Mandou fazê-la especialmente?
— Mandei. Os Sports Saloons na verdade só têm dois lugares. E muito pouco espaço para bagagem. Por isso pedi a Mulliner’s que o transformassem num verdadeiro dois-lugares e com porta-malas de sobra. Um carro egoísta, não há dúvida. Bem, boa noite. E novamente muito obrigado.
O escape roncou com saúde e as rodas traseiras cuspiram cascalho por um instante.
O oficial chefe da Linha observou os faróis rubis desaparecerem na King’s Avenue a caminho da estrada de Londres. Girou nos calcanhares e foi procurar o cabo Menzies numa busca de informação que terminaria sem frutos. O cabo permaneceu tão fechado como a grande caixa de mogno que estava colocando num Land-Rover caqui, limpo de símbolos militares. O chefe da Linha era um major. Tentou apelar para a hierarquia, mas sem êxito. O Land-Rover afastou-se rodando no rastro de Bond. O major dirigiu-se soturno aos escritórios da Associação Nacional do Rifle para tentar achar a informação que queria na biblioteca sob o nome “Bond, J.”
O compromisso de James Bond não era com uma garota. Era com um voo da B.E.A. para Hanover e Berlim. Enquanto engolia as milhas que o separavam do Aeroporto de Londres, pisando firme o grande carro a fim de ter tempo de sobra para um drinque, três drinques, antes da decolagem, apenas uma parte de sua mente fixava-se na estrada. O restante reexaminava pela enésima vez a sequência que agora o conduzia a um encontro com um aeroplano. Mas apenas um encontro provisório. Seu compromisso final numa das três próximas noites em Berlim era com um homem. Tinha que se encontrar com esse homem e infalivelmente matá-lo com um tiro.
Quando, por volta de duas e meia daquela tarde, James Bond atravessara as portas duplamente acolchoadas e sentara-se em frente do perfil voltado, do outro lado da grande escrivaninha, sentira imediatamente o perigo no ar. Não houve troca de cumprimentos. A cabeça de M afundava-se no colarinho duro numa pose churchilliana de sombria reflexão, e havia um traço de amargura nos cantos dos lábios. Girou a cadeira para encarar Bond, passou-lhe um olhar examinador como se, pensou Bond, quisesse verificar se sua gravata estava direita e o cabelo adequadamente penteado, e então começou a falar, rapidamente, atalhando suas sentenças como se desejasse ver-se livre do que estava dizendo, e de Bond, o mais depressa possível.
— O número 272. É um bom homem. Você talvez não o conheça. Pela simples razão de que ficou naquele buraco da Novaya Zemlya desde a guerra. Agora está tentando sair — carregado de material. Atômico e foguetes. E o plano deles para toda uma nova série de testes. Para 1961. Querem avivar o fogo no Ocidente. Algo a ver com Berlim. Não vejo bem o quadro mas o Foreign Office diz que se for verdade é uma coisa tremenda. Ridiculariza a Conferência de Genebra e toda essa demagogia sobre desarmamento nuclear que o bloco comunista vem fazendo. Ele conseguiu chegar até a Berlim Oriental. Mas tem praticamente toda a KGB no seu encalço — e as forças de segurança da Alemanha Oriental, é claro. Está entocado num buraco qualquer da cidade e conseguiu passar-nos uma mensagem — de que atravessaria entre seis e sete da tarde numa das três próximas noites — amanhã, depois de amanhã ou no dia seguinte. Indicou o ponto de travessia. O problema — a curva dos lábios de M, voltada para baixo, tomou-se ainda mais amarga — é que o mensageiro que ele usou fazia jogo duplo. A estação W.B. pilhou-o ontem. Por acaso. Deu sorte com um dos códigos da KGB O mensageiro será mandado de avião para julgamento, naturalmente. Mas isso não ajudará em nada. A KGB sabe que o 272 vai tentar a travessia. Sabem quando. Sabem onde. Sabem tanto quanto sabemos e nada mais. Ora, o código que deciframos ontem era um esquema de um só dia em suas máquinas. Mas conseguimos todo o tráfico daquele dia e isso foi bastante bom. Planejam alvejá-lo ao tentar a travessia. No cruzamento de ruas entre a Berlim Leste e a Oeste que nos indicou na mensagem. Estão montando uma operação daquelas — operação “Êxtase” como a chamam. Puseram o seu melhor tocaia no serviço. Tudo o que soubemos dele ó que seu nome cifrado é a palavra russa para “Gatilho”. A estação W.B. acha que é o mesmo homem já usado em outros serviços de tocaia. Um serviço de longo alcance através da fronteira. Ficará de guarda toda noite nesse cruzamento e sua missão é acertar no 272. É óbvio que eles certamente prefeririam fazer um serviço mais suave com metralhadoras e coisas do gênero. Mas Berlim está calma no momento e parece que a ordem é ficar assim. De qualquer forma — M sacudiu os ombros — eles têm confiança nesse operador “Gatilho” e o negócio vai ser assim!
— E onde é que eu entro? — James Bond tinha adivinhado a resposta, adivinhado porque M mostrava seu desagrado com a coisa toda. Ia ser trabalho sujo e Bond, porque pertencia à Seção Zero-Zero, tinha sido escolhido para fazê-lo. Perversamente, Bond queria forçar M a pôr o preto no branco. Iam ser notícias más, notícias sujas e ele não queria ouvi-las de um dos oficiais da Seção, nem mesmo do chefe do Estado-Maior. O negócio ia ser assassínio. Está bem. Que M tenha então a coragem de me dizer.
— Onde é que você entra, 007? — M olhou friamente do outro lado da escrivaninha. — Você sabe onde é que você entra. Você tem que matar esse tocaia. E tem que matá-lo antes que acerte no 272. É tudo. Está claro? — Os olhos azuis-claros permaneceram frios como gelo. Mas Bond sabia que só ficavam assim com um esforço da vontade. M não gostava de mandar qualquer homem para um homicídio. Mas, quando isso tinha de ser feito, ele sempre assumia a sua severa e fria ação de comando. Bond sabia a razão. Era para tirar um pouco da pressão, um pouco da culpa, dos ombros do matador.
Portanto Bond, que sabia dessas coisas, decidiu agora tornar fácil e rápida a tarefa de M. Levantou-se. — Está certo, sir. Suponho que o chefe do Estado-Maior tenha tudo pronto. É melhor eu ir praticar um pouco. Não seria bom errar.
Caminhou para a porta.
M disse calmamente: — Sinto ter que lhe dar essa tarefa. Serviço desagradável. Mas tem que ser bem executado.
— Farei o melhor — James Bond saiu fechando a porta atrás de si. Não gostava do serviço mas no final preferia fazê-lo a assumir a responsabilidade de mandar alguém em seu lugar.
O chefe do Estado-Maior tinha sido apenas um pouco mais simpático. — Lamento esta sua aquisição, James — dissera ele. — Mas Tanqueray foi inflexível, não tinha ninguém suficientemente bom na estação e esse não é o tipo de serviço que se pode pedir a um soldado regular para fazer. Há uma porção de excelentes tiros na B.A.O.R., mas um alvo vivo requer outro tipo de coragem. De qualquer forma, liguei para Bisley e marquei um exercício para você esta noite às oito e quinze quando a linha estiver fechada. A visibilidade será mais ou menos a mesma que você terá em Berlim cerca de uma hora antes. O armeiro está com a arma — verdadeira obra de arte para alvejar, e vai mandá-la por um de seus homens. Você irá com a sua própria condução. Depois, há um voo de carreira para Berlim à meia-noite reservado em seu nome na B.E.A. Tome um táxi até esse endereço. — Entregou a Bond um pedaço de papel. — Suba ao quarto andar e encontrará o número 2 de Tanqueray à sua espera. Depois disso, sinto que você terá que esperar sentado pelos próximos três dias.
— E a arma? Esperam que atravesse a alfândega alemã com ela dentro de um saco de golfe ou coisa assim?
O chefe do Estado-Maior não tinha achado graça. — Seguirá pela mala diplomática. Você a receberá amanhã ao meio-dia. — Tinha estendido a mão até o bloco de avisos. — Bem, é melhor ir andando. Vou avisar a Tanqueray que está tudo combinado.
James Bond baixou o olhar para o rosto azul difuso do relógio no painel do carro. Dez e quinze. Com um pouco de sorte, amanhã a esta hora estaria tudo terminado. Afinal, era a vida deste homem “Gatilho” contra a vida do 272. Não era exatamente homicídio. Estava perto disso, no entanto. Apertou maldosamente sua buzina-de-serra tripla ao passar por um quatro portas comum, ingressou no cruzamento circular com uma derrapagem seca desnecessária, girou violentamente o volante fazendo a correção e apontou o nariz do Bentley em direção do brilho distante que era o Aeroporto de Londres.
O edifício feio de seis andares na esquina da Kochstrasse e da Wilhelmstrasse era o único de pé na desolação de um espaço vazio bombardeado. Bond pagou o táxi e gravou uma breve impressão de capim, alto como a cintura, e de paredes de entulho mal reparadas, estendendo-se na direção de um grande cruzamento deserto iluminado por um feixe central de lâmpadas amareladas em arco, antes de apertar o botão para o quarto andar e imediatamente ouviu o clique do dispositivo que abria a porta do prédio. A porta fechou-se atrás dele e caminhou então sobre o chão de cimento sem tapete até o antiquado elevador. O cheiro de repolho, cigarro barato e suor rançoso lembravam outros prédios de apartamentos na Alemanha e Europa Central. Até o arrastar e o guincho fraco do elevador vagaroso eram parte de centenas de missões em que tinha sido lançado por M, como um projétil, a algum alvo distante onde um problema aguardava a sua chegada, à espera de ser resolvido por ele. Pelo menos desta vez o comitê de recepção estava do seu lado. Desta vez não havia nada a temer no fim da escada.
O número 2 da Estação W.B. de Serviço Secreto era um homem esguio e tenso de quarenta e poucos anos. Vestia o uniforme de sua profissão — terno bem cortado e bem usado de tweed leve ponto pé-de-pato num tom verde-escuro, camisa de seda macia branca e uma velha gravata de colégio — neste caso de Wykeham. Ao ver a gravata, enquanto trocavam as saudações convencionais no pequeno saguão mofado do apartamento, o ânimo de Bond, já baixo, desceu mais um degrau. Conhecia esse tipo: espinha dorsal do Serviço Público; superestudioso e mal-amado em Winchester; um bom segundo em P.P.E. em Oxford; a guerra, cargos funcionais que teria ocupado meticulosamente; talvez uma Ordem do Império Britânico; Comissão do Controle Aliado na Alemanha, onde fora recrutado no Ramo I e a partir de então — porque era o funcionário ideal e A. 1 junto à Segurança e porque pensava em encontrar vida, drama, romance, todas as coisas que nunca linha tido — lá fora ele para o Serviço Secreto. Um homem sóbrio, cuidadoso se fizera necessário para bancar a dama de companhia de Bond neste negócio feio. O Capitão Paul Sender, que já servira na Guarda Galesa, tinha sido a escolha óbvia. E tinha aceitado. Agora, como bom Wykehamista, escondia o seu desagrado pelo serviço debaixo de uma conversa cuidadosa e banal enquanto mostrava a Bond a planta do apartamento e as providências tomadas para a prontidão do carrasco e, numa medida modesta, para o seu conforto.
O apartamento consistia de um amplo dormitório conjugado, um banheiro e uma cozinha equipada de enlatados, leite, manteiga, ovos, chá, bacon, pão e uma garrafa de Dimple Haig. O único detalhe estranho no quarto de dormir era que uma das camas duplas estava encostada em ângulo contra as cortinas que cobriam o amplo janelão único e sobre ela se empilhavam três colchões cobertos pela roupa de cama.
O Capitão Sender disse: — Gostaria de dar uma olhada ao campo de fogo? Poderei então explicar o que é que o lado de lá tem em mente.
Bond estava cansado. Não desejava especialmente ir dormir com a imagem do campo de batalha na memória. Disse: — Seria ótimo.
O Capitão Sender apagou as luzes. Faixas luminosas das lâmpadas no cruzamento apareceram em volta das cortinas. — Não quero puxar as cortinas — disse o Capitão Sender. — É pouco provável, mas eles podem ter sido alertados contra um grupo de cobertura para o 272. Queria que você apenas se deitasse na cama e enfiasse a cabeça por baixo das cortinas. Explicarei o que você estiver vendo. Olhe para a esquerda.
Era uma janela de guilhotina e a metade inferior estava aberta. Os colchões, especialmente escolhidos, só cediam um pouco e James Bond encontrou-se mais ou menos na posição de tiro que tinha adotado em Century Range, mas agora olhava através de terreno descontínuo, coberto de densa vegetação e bombardeado, na direção do rio de luz que era a Zimmerstrasse — a fronteira com a Berlim Oriental. Parecia a umas cento e cinquenta jardas de distância. A voz do Capitão Sender acima dele e por trás da cortina começou a recitar. Lembrava a Bond uma sessão espírita.
— Ali é terreno bombardeado à sua frente. Bastante cobertura. Umas cento e trinta jardas até a fronteira. Depois a fronteira — a rua — e então um trecho grande ainda de terreno bombardeado no campo do inimigo. É por isso que o 272 escolheu essa passagem. É um dos poucos locais na cidade em que o terreno é descontínuo — capinzais cerrados, muros em ruínas, porões — nos dois lados da fronteira. Ele deverá es-gueirar-se entre aquela confusão do outro lado e arremessar-se através da Zimmerstrasse até alcançar a confusão do nosso lado. O problema é que terá de correr trinta jardas de fronteira fortemente iluminada. Será o espaço da matança. Certo?
Bond disse: — Sim.
Disse-o com suavidade. O cheiro do inimigo, a necessidade de tomar cuidado, já estavam atuando sobre seus nervos.
— À sua esquerda, aquele novo e imenso bloco de dez andares é a Haus der Ministerien, o grande centro cerebral de Berlim-Leste. Você pode ver que as luzes ainda estão acesas na maioria das janelas. A maior parte delas ficará assim toda a noite. Esses sujeitos trabalham mesmo — seus turnos dão a volta no relógio. Você provavelmente não precisará preocupar-se com as janelas acesas. Esse fulano “Gatilho” certamente vai atirar de uma das janelas escuras. Você verá que existe um grupo de quatro, juntas, na quina acima do cruzamento. Ficaram escuras na noite passada e esta noite. Elas têm o melhor campo de fogo. Daqui, o seu alcance varia entre trezentas e trezentas e dez jardas. Estou com todos os números e dados quando você quiser. Não é preciso preocupar-se muito mais. Aquela rua fica vazia durante a noite — apenas as patrulhas motorizadas cerca de cada meia hora — carros blindados leves com uma dupla de motocicletas por escolta. Na noite passada, que suponho normal, entre seis e sete, que é a hora em que se fará este serviço, havia umas poucas pessoas entrando e saindo por aquela porta lateral. Uns funcionários. Antes disso nada fora do comum — o fluxo costumeiro de pessoas entrando e saindo de um edifício de governo movimentado — com exceção, veja só, de uma miserável orquestra completa de mulheres. Fizeram uma confusão infernal numa sala de concertos que tem ali. Parte do bloco aloja o Ministério da Cultura. Fora disso nada — certamente nenhuma das pessoas da KGB que conhecemos, nem sinais de preparação para um serviço deste gênero. Mas nem pode haver sinais. São muito cuidadosos estes sujeitos da oposição. De qualquer maneira, dê uma boa olhada. Não esqueça que agora está mais escuro do que amanhã por volta das seis. Mas você pode formar um quadro geral.
Bond formou o quadro geral e o quadro ficou com ele muito tempo enquanto o outro homem já dormia e ressonava suavemente com um pequeno som regular que lembrava um fraco estalido — um ronco Wykehamista, refletiu Bond irritado.
Sim, tinha formado o quadro — o quadro de um lampejo movimento entre as ruínas sombreadas no outro lado do brilhante rio de luz, uma pausa, e então a desesperada corrida em ziguezague de um homem sob o impacto luminoso das lâmpadas, o espocar da arma de fogo e, ou um fardo retorcido espalhado no meio da rua larga, ou então a investida sempre em frente através do capinzal e do entulho no Setor Ocidental — morte súbita ou volta a casa. O grande desafio! Quanto tempo teria Bond para localizar o tocaia russo numa daquelas janelas escuras? E para matá-lo? Cinco segundos? Dez? Quando o amanhecer começava a cobrir as cortinas com o tom metálico das armas, Bond capitulou para sua mente agitada. Ela tinha ganho. Foi em silêncio até o banheiro e inspecionou as fileiras de remédios que um prestimoso Serviço Secreto tinha providenciado para manter o seu carrasco em boa forma. Escolheu o Tuinal, engoliu duas das cápsulas concentradas, rubis e azuis, com um copo de água e voltou à cama. Então, chumbado, dormiu.
Acordou ao meio-dia. O apartamento estava vazio. Bond abriu as cortinas para deixar entrar o dia cinzento prussiano e, de pé a uma boa distância da janela, ficou vendo a monotonia de Berlim e ouvindo o ruído dos bondes e o arranhar distante dos trens da U-Bahn na grande curva de entrada da estação do Zoo. Lançou um olhar rápido e relutante ao que já tinha examinado na noite anterior, notou que o capim no entulho de bombardeio era mais ou menos o mesmo de Londres — loendro, labaçol e samambaia — e dirigiu-se então à cozinha. Havia uma nota apoiada numa fatia de pão: “Meu amigo (eufemismo do Serviço Secreto que neste contexto significava o chefe de Sender) diz que não há mal em você sair. Mas esteja de volta às 17 horas. Seu equipamento (outra palavra para o rifle de Bond) chegou e o bagageiro a entregará esta tarde. P. Sender.”
Bond acendeu o fogão a gás e queimou a mensagem com desprezo por sua profissão e em seguida preparou um prato enorme de ovos mexidos e bacon que amontoou sobre uma torrada coberta de manteiga e comeu com acompanhamento de café preto no qual derramara uma porção liberal de uísque. Depois tomou um banho e barbeou-se, vestiu as roupas descoloridas, centro-europeias e anônimas que tinha trazido para a sua missão, olhou a sua cama em desordem, decidiu que tudo fosse para o inferno e desceu pelo elevador deixando o edifício.
James Bond sempre achara Berlim uma cidade deprimente e hostil, esmaltada no lado Ocidental com o verniz superficial de um polimento pretensioso parecido com os enfeites cromados dos carros americanos. Caminhou até a Kurfurstendamm, sentou-se no Café Marquardt, tomou um expresso e ficou observando com tédio as filas obedientes de pedestres esperando o sinal “Siga” nos postes de trânsito enquanto a corrente luminosa de carros continuava a sua perigosa quadrilha na movimentada intersecção. Fazia frio lá fora e o vento cortante das estepes russas fustigava as saias das garotas e os impermeáveis dos homens impacientes e apressados, cada um com a infalível pasta enfiada debaixo do braço. Os aquecedores de parede infravermelhos do café apontavam o vermelho para baixo e davam um brilho espúrio ao rosto dos cafeinômanos que degustavam sua tradicional “uma xícara de café e dez copos de água”, lendo de graça os jornais e revistas presos por paus, ou se curvavam com seriedade sobre papéis de negócios. Bond, fechando o pensamento para a noite, discutia consigo mesmo as maneiras de passar a tarde. Finalmente chegou à escolha entre uma visita àquela casa de respeitável fachada de pedra, na Clausewitzstrasse, conhecida de todos os porteiros e choferes de táxi, ou um passeio ao Wannsee e uma vigorosa caminhada no Grunewald. A virtude triunfou. Bond pagou o café, saiu no frio e tomou um táxi até a estação do Zoo.
As belas arvorezinhas jovens em volta do lago extenso já tinham sido tocadas pelo sopro do outono e havia um dourado aqui e ali no meio do verde. Bond caminhou com energia durante duas horas pelas veredas cobertas de folhas e então escolheu um restaurante com terraço envidraçado sobre o lago e saboreou com prazer um chá reforçado consistindo de uma porção dupla de arenques do Norte mergulhados em creme e anéis de cebola, e dois Molle mit Korn, o equivalente berlinense de um “fabricante de caldeiras e seu assistente” — schnapps, duplos, acompanhados por um chope Löwenbräu. Sentindo-se então mais animado tomou a S-Bahn para voltar à cidade.
Em frente do prédio de apartamentos, um jovem indefinível estava mexendo no motor de um Opel Kapitan negro. O jovem não tirou a cabeça debaixo do capo quando Bond passou bem perto dele e subiu até a porta e apertou o botão.
CONTINUA
Quando chegou embaixo, sentou-se no musgo, sob os abetos. Estendeu no chão a camisa, colocou no centro dela as barras de ouro e fez uma trouxa, amarrando bem as fraldas e as mangas. Depois, cavou um buraco no chão e enterrou a caixa metálica vazia. E vergando ao peso, quase dobrado em dois, caminhou pela estreita trilha, entre os pinheiros, rumo ao jipe. Até aquele dia não conseguira saber como tivera forças para alcançar o veículo. Os nós que dera na trouxa pareciam penetrar nas carnes de seu ombro, sob o peso das barras de ouro. Quando, finalmente, alcançou o jipe, quase teve um colapso, tão exausto estava. Mas não podia descansar, ainda. Precisava sair dali para enterrar o seu tesouro na floresta, perto de um grupo de grandes rochas, onde lhe seria fácil encontrá-lo de novo, na ocasião oportuna em dia, quando o horizonte estivesse limpo, voltaria, por outra rota, evitando o chalé de Oberhauser. Só então, terminado tudo, fora embebedar-se com uma garrafa de schnapps barato. Jantou e meteu-se na cama, para dormir como uma pedra. No dia seguinte, a Força A da DAG seguiu para o vale do Mittersill. Seis meses depois o Major Smythe estava em Londres. A sua guerra havia terminado. Mas os seus problemas, não. Ouro era coisa difícil de contrabandear, principalmente em grande quantidade. E era essencial que o Major Smythe transferisse as suas barras para um novo esconderijo. Por isso, ele procurou evitar a desmobilização e gozar os privilégios de seu comissionamento temporário, sobretudo o seu passe do Serviço Secreto Militar. Conseguiu ser mandado de volta para a Alemanha, como representante da Inglaterra no Centro Misto de Investigação de Munique. Aí, trabalhou durante seis meses e, nesse período, teve a oportunidade de recuperar o ouro, que levou para o seu alojamento numa velha valise. Depois, em dois fins de semana, fez viagens aéreas para Londres, levando, de cada vez, uma barra de ouro, em sua volumosa pasta. A caminhada nos aeroportos de Munique e de Londres, com a pasta sob o braço, como se contivesse apenas papéis, exigira dois tabletes de benzedrina e uma vontade de ferro. Finalmente, pôde esconder sua fortuna no porão da casa de uma tia, em Kensington, e assim, com tranquilidade, pôde desenvolver a parte final de seus planos. Pediu reforma nos Fuzileiros Reais e, uma vez desmobilizado, casou-se com uma das muitas moças com quem tivera aventuras durante o serviço da DAG, uma graciosa Wren chamada Maria Parnell. Comprou passagem para ambos num cargueiro para a Jamaica, que representava, para ambos, um paraíso ensolarado, com boa e farta comida, bebida barata, sem a melancolia e as restrições impostas na Inglaterra, após a guerra, pelo severo governo trabalhista. Antes do embarque, o Major Smythe mostrou a Mary as barras de ouro, das quais já havia raspado a cinzel os símbolos do Reichsbank.
— Tenho sido muito econômico e esperto, meu bem — disse ele. — Não confio na libra. Por isso, vendi todas as minhas ações e comprei um bocado de ouro. Teremos pelo menos 20 mil libras, se eu o vender bem. Isso basta para nos assegurar uma boa vida, até o fim dos nossos dias. Sempre que for preciso, eu venderei um pouquinho — explicou.
Mary Parnell não era familiarizada com as leis monetárias. Mas se ajoelhou e passou as mãos, carinhosamente, sobre as barras de ouro. Depois, com os braços ao redor do pescoço do marido, beijou-o e disse, quase em lágrimas: — Você é um homem maravilhoso... Sim, maravilhoso! Terrivelmente inteligente, bonito, simpático, herói da guerra e, além do mais, rico! Eu sou a garota mais feliz do mundo!
— Você tem razão pelo menos numa coisa: ricos, nós somos. Mas prometa não dizer uma só palavra a quem quer que seja! Pois, se disser, todos os ladrões da Jamaica irão rondar a nossa casa.. .
O Prince’s Club, ao pé das colinas que dominam os arredores de Kensington, era realmente esplêndido. Para os seus sócios, não havia nada melhor: maravilhosa criadagem, comida farta, bebida barata, belíssimos cenários tropicais, como nunca tinham visto antes. O casal era muito popular e os serviços de guerra do Major Smythe lhe davam ingresso na alta sociedade local e na Government House. A vida de ambos era uma série interminável de festas, misturadas com o tênis de Mary e o golfe do major (com os bastões metálicos de Henry Cotton!) durante o dia, e partidas de bridge (para ela) e de pôquer (para ele) durante as noites. Sim, era um paraíso, porque, na Inglaterra, havia racionamento, filas e mercado negro, um governo atroz e o pior inverno dos últimos trinta anos. A princípio, o casal enfrentou as despesas com as economias em dinheiro, que ambos haviam reunido, enquanto se vestiam, se alimentavam e se transportavam à custa do Exército. Só depois de um ano de cautelosas investigações é que o Major Smythe se decidiu a fazer negócio com os irmãos Fu, comerciantes importadores e exportadores. Altamente respeitados e muito ricos, os irmãos Fu eram conhecidos como uma espécie de junta governativa da comunidade chinesa da Jamaica. Ainda que alguns dos seus negócios se desviassem das boas normas, segundo a tradição chinesa, Smythe achou que poderia confiar neles. A Convenção de Bretton Woods, fixando um preço internacional para o ouro, sob rigoroso controle, tinha sido assinada deixando de parte Tânger e Macau, dois portos livres, em que a onça de ouro valia entre 99 e 100 dólares, quando nos outros lugares o preço oficial era de 35. E, para maior conveniência de seus negócios, os Fu tinham aberto um restaurante em Hong-Kong, transformado em entreposto para o contrabando de ouro para a vizinha Macau. Isso, na linguagem do Major Smythe, era sopa no mel. Ele tivera um agradável encontro com os Fu. Nenhuma pergunta estes fizeram, senão depois do exame das barras de ouro.
— Major — disse o mais velho dos irmãos —, no mercado de ouro em barras, as marcas dos bancos nacionais e dos negociantes respeitáveis são aceitos sem discussão. Essas marcas são a garantia da pureza do ouro. Mas outros bancos e outros vendedores têm seus próprios processos de refinação, que talvez, não sejam tão perfeitos...
— Quer dizer que eu fui enganado? — Perguntou, ansiosamente, o major. — Que isso não é senão uma barra de chumbo coberta de uma leve camada de ouro?
Os dois irmãos deram muxoxos tranquilizadores:
— Não, não, major... Não se trata disso. Mas, se uma pessoa não se recorda da proveniência dessas barras de ouro, por mais finas que elas sejam é sempre necessário submetê-las a um ensaio, para verificação do seu exato teor... Há muitos métodos para determinar o grau de pureza dessas barras. Meu irmão e eu somos competentes em qualquer deles. Quer deixar as barras de ouro conosco e vir saber o resultado depois do almoço? Nós lhe daremos um recibo...
Não havia alternativa. Teria que confiar nos Fu. Qualquer que fosse o preço por eles arbitrado, seria forçado a aceitar. Estava nas mãos deles. Foi a um bar, onde tomou dois drinques fortes e comeu um sanduíche que lhe ficou atravessado na garganta. Depois, voltou ao escritório refrigerado dos Fu. O cenário era o mesmo: os dois irmãos sorridentes, as duas barras de ouro, a pasta de couro, etc. Só havia a mais uma folha de papel e uma caneta-tinteiro de pena de ouro, em frente do irmão mais velho.
— Resolvemos o problema do seu ouro, major! — (Esplêndido! Obrigado, pensou Smythe.) — E estou certo de que o senhor terá interesse em conhecer sua origem...
— Claro! Qual é? — Fez o major, com uma corajosa demonstração de entusiasmo.
— São barras de ouro alemãs! Provavelmente saíram dos depósitos do Reichsbank, durante a guerra. Isso pode ser deduzido do fato de que contêm dez porcento de chumbo. Durante o regime de Hitler, o Reichsbank fez a tolice de adulterar por esse modo o seu ouro. Isso logo se espalhou e o preço das barras de ouro alemãs, vendidas na Suíça, sofreu logo uma redução de preço, correspondente à adulteração. Foi uma bobagem, que só teve um resultado: o banco nacional da Alemanha perdeu a reputação que conquistara durante séculos... Bobagem... Uma grandíssima bobagem... — Concluiu o chinês, com o seu invariável sorriso.
O Major Smythe estava maravilhado com a onisciência desses dois homens, tão afastados dos grandes canais de comércio do mundo. Mas ao mesmo tempo os amaldiçoava, intimamente. E agora?
— É muito interessante, Sr. Fu... Mas isso não é uma boa notícia para mim. Essas barras de ouro me foram entregues como coisa cem por cento...
— Não tem importância, major — disse o mais velho dos Fu. — Ou melhor, quase não tem importância. Venderemos o seu ouro pelo justo valor, ou seja, 89 dólares a onça. Terá que ser, ou não, refinado pelo último comprador. Mas isso não é da nossa conta. Nós o venderemos também como cem por cento...
— Mas a um preço mais baixo...
— Realmente, major. Mas creio que temos uma boa notícia para o senhor. Quanto calculava obter com essas duas barras?
— Cerca de 20 mil libras...
— Se as vendermos bem e aos pouquinhos — disse o mais velho dos Fu —, o senhor receberá mais de 100 mil dólares, major, sujeitos, é claro, ao desconto da nossa comissão, que inclui o transporte e outras despesas.
— E a quanto montará isso?
— Estou pensando em fixar em 10 por cento, major. Se lhe parecer satisfatório...
O Major Smythe tinha a impressão de que vendedores de ouro em barras recebiam apenas um por cento de comissão. Mas, que diabo, antes do almoço já estava disposto a largar tudo até por 10 mil libras. Disse “fechado” e levantou-se, estendendo a mão através da mesa. Desde então, de quatro em quatro meses, ia visitar o escritório dos Fu, levando uma valise vazia. Havia sempre quinhentas libras novas, da emissão da Jamaica, em pacotes, sobre a mesa, à sua espera, e um recibo da quantidade vendida, com o preço alcançado em Macau. As barras de ouro diminuíam de tamanho, de polegada em polegada. O negócio era simples e cordial. Duas mil libras limpas, por ano, eram o bastante para ele, e só o afligia a possibilidade de que o pessoal do imposto de renda começasse a apertá-lo, para saber do que estava vivendo. Ele disse isso aos Fu, que lhe fizeram saber que não precisava se preocupar. Nas duas vezes seguintes, havia apenas quatrocentas libras na mesa, mas nenhum comentário foi feito, por qualquer dos lados. E assim os dias iam se passando, preguiçosamente. Os Smythes engordavam e o major teve a primeira das duas complicações das coronárias. O médico lhe recomendou uma vida menos ativa, com menos álcool e menos cigarros. Evitasse, também, as gorduras e as comidas fritas. A princípio, Mary tentou ser severa com ele, mas quando o marido começou a beber escondido e a inventar pequenas mentiras e evasivas, ela recuou desse propósito. Teve medo de se transformar numa chata doméstica, a quem o Major Smythe passaria a evitar. Por isso, deu-lhe inteira liberdade, sabendo que ele não mais a amava, e quando a sua solidão se tornou demasiada e as insônias intoleráveis, viciou-se em tomar soníferos. Uma noite, depois de uma violenta briga, estando ambos embriagados, tomou ela uma dose excessiva, só “para dar-lhe uma lição”. A dose era tão exagerada que a matou. O suicídio foi dissimulado, mas ainda assim recaíram suspeitas sobre o major, em prejuízo de sua reputação social. E a tal ponto que ele teve de se retirar para North Shore que, embora a apenas três milhas de Kensington, parece pertencer a um outro mundo. Aí ele se instalou em Wavelets e, depois da segunda complicação das coronárias, começou a beber desenfreadamente. Foi então que entrou em cena James Bond com um mandado de prisão ou de morte no bolso.
O Major Smythe olhou para o relógio. Passavam alguns minutos do meio-dia. Ele se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale e foi para o jardim. James Bond estava sentado sob a frondosa amendoeira, olhando para o lar. Nem se voltou para o Major Smythe quando este puxou outra cadeira de alumínio e colocou o copo na relva, perto dele. Quando o Major Smythe acabou de narrar a sua história, James Bond disse, sem demonstrar qualquer emoção: — Era mais ou menos isso o que eu havia pensado...
— Quer que eu escreva tudo ou apenas assine?
— Faça como quiser. Mas isso não se entende comigo. Deve entregar à Corte Marcial. Seu velho Corpo de Fuzileiros Reais é que vai tomar conta do caso. Não tenho nada que ver com os aspectos legais. Farei apenas um relatório do que me disse, para a Procuradoria da Justiça, através da Scotland Yard...
— Posso perguntar uma coisa? Como foi que descobriu?
— A geleira era pequena. O corpo de Oberhauser chegou embaixo no início deste ano, quando as neves da primavera derreteram. Alguns alpinistas o encontraram. Todos os seus papéis e tudo o mais estava perfeito. A família o identificou. Depois, foi só uma questão de recuar no tempo. O calibre das balas deu logo a pista...
— Mas como se envolveu neste assunto?
— A Força da DAG era uma das minhas responsabilidades, um dos meus serviços. Quando o assunto chegou ao meu conhecimento, fui dar uma busca nos arquivos. Como tinha tempo livre, pedi que me entregassem a missão de descobrir o autor da morte de Oberhauser...
— Por quê?
— Porque — e James Bond fixou os olhos do Major Smythe — acontece que Oberhauser era um velho amigo meu. Foi quem me ensinou a esquiar quando eu tinha pouco mais de dez anos. Era um esplêndido sujeito. Foi uma espécie de pai para mim, precisamente na época em que eu mais precisava de um...
— Compreendo. — E o Major Smythe desviou o olhar. — Sinto muito...
James Bond se levantou:
— Bem, preciso voltar a Kensington. — E levantou a mão, para deter o major. — Não, não precisa incomodar-se. Sei onde o carro ficou... — Olhou para o homem mais velho e disse, rispidamente, quase com brutalidade: — Dentro de uma semana, alguém virá buscá-lo...
E caminhou, em passos firmes, sem se voltar, pela alameda afora. O major ouviu o ruído do arranque do motor e o chiado dos pneus do táxi nas pedrinhas miúdas da estrada.
Agora, ele procurava a sua presa, ao longo do recife de coral, pensando exatamente no sentido das palavras de James Bond. E sorriu por trás da máscara Pirelli. Era uma versão nova de um velho dramalhão, que consistia em deixar uma pistola com o oficial culpado, para que este mesmo estourasse os miolos. Se James Bond quisesse, poderia ter telefonado para a Government House e pedido um oficial de igual patente do Regimento da Jamaica para levar preso o Major Smythe. De certo modo, o seu gesto fora decente. Ou não fora? Um suicídio era mais limpo, economizava uma porção de trabalho e de papéis, que consumiriam o dinheiro dos contribuintes. Devia agradecer a James Bond a solução que ele parecia sugerir? Acaso encontraria Mary no lugar para onde vão as almas dos suicidas? Ou era melhor a Corte Marcial, a indignidade, as formalidades cacetes, as manchetes, o aborrecimento e a solidão de uma prisão perpétua, da qual só o livraria a terceira crise das coronárias? Poderia defender-se: era tempo de guerra, lutara com Oberhauser no alto da montanha, ele era um prisioneiro e tentara fugir... Oberhauser sabia do esconderijo do dinheiro... E ele, pobre oficial dos Comandos, tantas vezes arriscando a vida pela pátria, fora fraco e não resistira à tentação... Poderia entregar-se dramaticamente à misericórdia do Tribunal Militar... Um coronel certamente seria designado para defendê-lo e o faria com a maior eloquência. Poderia haver um apelo à Corte Suprema. Seu caso comoveria a Inglaterra e se tornaria uma cause célebre. Venderia sua história, com as reminiscências de guerra, aos grandes jornais... Mas...
Cuidado, meu velho! Cuidado! Seus pés agora tocavam o chão, sob as ondas que encrespavam a superfície da praia de North Shore. Por onde estariam os peixes-escorpiões? O polvinho querido estava faminto, esperando o seu almoço. Apurando a vista, perto do recife de coral, o Major Smythe viu as antenas de um lagostim, acenando inquisitivamente para ele. Normalmente, ele se esqueceria de tudo, para capturar o lagostim, que era, talvez, o maior que até então encontrara. Mas agora só tinha uma preocupação: a de descobrir a silhueta irregular e provocante do peixe-escorpião. Só depois de mais dez minutos de busca encontraria o primeiro. Os olhos vermelhos e zangados do peixe, muito abertos, o observavam. Para fisgá-lo, com o arpão, teria que fazer uma investida rápida, na vertical, firme e certeira. Sabia que as agulhas envenenadas se projetariam para fora da cabeça pontiaguda do monstro. Tinha que se mover lentamente, na direção do peixe, usando o braço livre para nadar. E... Agora! Avançou, para a frente e para baixo, mas o peixe-escorpião sentira a aproximação do arpão antes que este o tocasse. Uma lufada de areia se levantou do fundo do mar, atingido pelo golpe. E qualquer coisa roça em seu corpo, dando a impressão do voo de um pássaro. O major praguejou e fez meia volta, dentro da água. Sim, o peixe-escorpião fizera o que tantas vezes fazia: fora buscar refúgio entre as algas e as rochas, confiante em sua soberba camuflagem. O major voltou à carga, em novo mergulho, dessa vez ainda mais atento, e zás! O peixe-escorpião se agitava, agora, na ponta do arpão. A excitação foi tão grande que o Major Smythe vacilou e sentiu a antiga dor oprimir-lhe o peito. Pôs-se de pé, firmou o arpão contra a areia, atravessando inteiramente a presa, que ainda se agitava desesperadamente, e dirigiu-se à praia, indo sentar-se num banco de madeira, ao lado do qual atirou o peixe, fisgado, a se debater. Uns cinco minutos depois, o Major Smythe sentiu uma curiosa dormência na região do plexo solar. Olhou para baixo e estremeceu, de horror e incredulidade. Uma região de sua pele, com o tamanho aproximado de uma bola de críquete, tornara-se impressionantemente branca, a despeito do bronzeado de seu busto. No centro dessa área, havia três pequenas manchas sanguíneas. Automaticamente, o Major Smythe limpou o sangue. Os furos eram do tamanho de picadas de agulhas. Ele se lembrou, então, da fuga do peixe-escorpião, quando tentara arpoá-lo da primeira vez, e exclamou alto, com pavor, mas sem animosidade: — Tu me apanhaste, bastardo! Tu me apanhaste!
Imóvel, olhava para o próprio corpo, recordando-se do que lera sobre os ferrões do peixe-escorpião no livro que tomara emprestado à biblioteca do Instituto e nunca devolvera — Perigosos Animais Marinhos, publicação norte-americana. Tocou delicadamente a pele da área atingida. Sim, a pele se tinha tornado intumescida e de todo insensível, mas por baixo começava a sentir dor. Em breve essa dor profunda e intensa percorreria o seu corpo inteiro, tão lancinante que o seu único desejo seria o de deitar-se na areia, gritando e rolando, para abafá-la. Vomitaria e deitaria espuma pela boca, teria delírio e convulsões, até perder a consciência. Então, sobreviria, inevitável, o colapso cardíaco mortal. De acordo com o livro, o ciclo completo desses tormentos não passaria de um quarto de hora. Era tudo quanto lhe restava: quinze minutos de atroz agonia! Haveria cura, é claro — com procaínas, antibióticos e anti-histamínicos —, se seu coração debilitado suportasse tais medicamentos. Mas estes deviam estar à mão. Mesmo que conseguisse chegar em casa e admitindo que Jimmy Greaves dispusesse de todos esses remédios modernos, ele não poderia alcançar Wavelets antes de uma hora.
A primeira descarga de dor fez o corpo do Major Smythe dobrar-se sobre si mesmo. Depois outra e mais outra, irradiando-se através do estômago e dos membros. Sentia um gosto metálico na boca e uma coceira insuportável nos lábios. Deixou escapar um gemido e saltou do banco para a praia. Sobre a areia, ainda arquejava o peixe-escorpião. Houve uma trégua nos espasmos da dor. Seu corpo inteiro estava em fogo. Apesar da agonia o raciocínio permanecia claro. Mas, ora essa! Ia esquecendo a experiência! Devia ir à loca do polvo, para servir seu almoço! “Polvo, polvinho, vai ser a última refeição que eu te dou!”, dizia a si mesmo o Major Smythe, ajustando a máscara no rosto. Depois, apanhou o arpão, com o peixe espetado e, apertando o estômago com a mão livre, caminhou pela água adentro e, depois, mergulhou junto ao recife de coral. Poucas jardas o separavam agora do polvo. E foi gritando dentro da máscara, arrastando-se, quase de joelhos, que ele as percorreu. À medida que a água se tornava mais profunda, a dor se fazia mais intensa e seus movimentos pareciam com os de um fantoche, impulsionado por um feixe de cordéis. Só a poder de uma grande força de vontade pôde continuar rumo à morada do polvo. Sim, a sua massa escura ainda estava lá! E parecia excitadíssima. Por quê? O Major Smythe viu que as feridas de seu peito vertiam filetes de sangue escuro, que se diluía na água do mar. Era claro! O querido polvo sentira o gosto do seu sangue. Uma descarga de dor atingiu o major e o fez vergar-se. Disse a si mesmo, em delírio: “Que é isso, Dexter?! Firme, meu velho. Você tem que dar almoço ao polvinho”. Endireitou-se, empunhando o arpão com firmeza e aproximando o peixe da toca do polvo. Aceitaria ele a isca envenenada que o Major Smythe lhe oferecia e à qual talvez um octópode poderia ser imune? Ah, se Bengry estivesse presente, para observar! Três tentáculos, ondulando excitadamente, saíram da loca e passearam ao redor do peixe-escorpião. Agora, havia uma espécie de nevoeiro diante dos olhos do Major Smythe. Reconhecendo estar à beira da inconsciência, ele agitou fracamente a cabeça, para dissipá-lo. E, então, os tentáculos deram um salto! Mas não para o peixe: apertaram a mão e o braço que empunhavam o arpão. A boca do Major Smythe se torceu, numa careta de prazer. Agora, ele e o polvo podiam se apertar as mãos! Como era excitante! Que coisa maravilhosa! Mas o polvo, calma e implacavelmente, continuou a enroscar os seus tentáculos e a chamar a si o corpo do major. Só então Smythe compreendeu que algo de terrível ia acontecer. Fez um apelo a todas as suas forças e tentou golpear o octópode com o arpão. Mas tudo quanto conseguiu foi bater com o peixe-escorpião na massa escura do polvo. E, com o movimento que fez, ofereceu-se ainda mais a este, que o atraía de forma inexorável. Tarde demais o Major Smythe retirou sua máscara. Conseguindo alcançar a superfície, soltou um grito que reboou pela baía deserta, mas logo foi puxado para baixo. E, depois de algumas bolhas de ar, vieram à tona as pernas do major. As ondas lavavam o seu corpo, enquanto o polvo fazia a primeira tentativa para devorá-lo. O resto de Smythe foram encontrados por dois jovens da Jamaica, que pescavam peixes-agulhas numa canoa. Eles mataram o polvo, recolheram o arpão do Major Smythe com o peixe-escorpião e levaram os três despojos para a praia. O cadáver do major foi entregue à polícia e o peixe-escorpião aproveitado para a ceia. O destino do polvo de estimação seria também a panela ... O correspondente do Daily Gleaner em North Shore comunicou que o Major Smythe tinha sido morto por um polvo. Mas a redação do jornal, para não alarmar os turistas, preferiu dizer que ele “fora encontrado afogado”. Mais tarde, em Londres, James Bond, embora certo de que se tratara de um suicídio, anotou no dossier Oberhauser a versão do afogamento, com a respectiva data, na última página, o que encerrava o assunto. Somente pelas notas do Dr. Greaves sobre a autópsia, por ele mesmo realizada, é que foi possível escrever esta espécie de post-scriptum sobre o estranho e patético fim do outrora corajoso e útil oficial do Serviço Secreto.
Encontro em Berlim
(THE LIVING DAYLIGHTS)
James Bond estendia-se em posição na marca das quinhentas jardas da famosa linha de tiro Century Range, em Bisley. A pequena estaca branca na grama a seu lado dizia 44 e o mesmo número se repetia bem alto no talude distante acima do solitário alvo de seis pés quadrados que, ao olho humano e no crepúsculo do fim de verão, não parecia maior que um selo de correio. Mas a luneta de Bond, uma Sniperscope infravermelha fixada sobre o seu rifle, cobria todo o quadro. Ele podia até distinguir com clareza as cores azul-pálido e bege em que se dividia o alvo, e a mosca semicircular de seis polegadas parecia tão grande como a meia lua que já começava a se mostrar baixa no céu que escurecia acima da crista remota de Chobham Ridges.
O último tiro de James Bond fora um esquerdo interno — não o satisfizera. Deu uma outra olhada às bandeiras de vento amarelas e azuis. Tremulavam do leste através da linha de tiro mais intensamente do que quando tinha começado o seu tiro meia hora antes, e ele mudou o anemômetro dois pontos para a direita e assestou os dois fios cruzados da Sniperscope de volta ao foco de mira. Instalou-se então, colocou o indicador de leve dentro da guarda e sobre a curva do gatilho, prendeu a respiração e muito, muito suavemente apertou.
O estampido vicioso ecoou ao longo do campo vazio. O alvo desapareceu abaixo do solo e imediatamente o “boneco” tomou o seu lugar. Sim, a marca negra estava embaixo no canto direito desta vez, não no canto esquerdo: mosca.
— Bom — disse a voz do oficial chefe da linha, atrás e acima dele. — Fique com a mira.
O alvo já subira de novo e Bond recolocou a bochecha sobre o trecho quente da volumosa coronha de madeira e o olho na borracha que cerca a ocular da luneta. Enxugou a mão de atirar contra o lado das calças e pegou na coronha da pistola que sobressaía angulosamente da guarda do gatilho. Abriu de uma polegada o ângulo das pernas. Agora haveria cinco descargas rápidas. Era interessante ver se isso não provocaria “desgaste”. Ele achava que não. Esta arma extraordinária que o armeiro tinha descoberto sabe lá como dava à gente a sensação de que um homem de pé à distância de uma milha seria prato fácil. Era mais um rifle Experimental de Alvo Internacional, calibre 308, construído pela Winchester para ajudar os ases americanos do tiro em campeonatos mundiais, e tinha os dispositivos usuais das armas de alvo superacuradas — uma “mão” espiralada de alumínio nas costas da coronha que se estendia debaixo da axila e mantinha a arma com firmeza junto ao ombro, e uma pequena roda dentada ajustável abaixo do centro de gravidade do rifle para permitir que ele “se agarrasse” ao sulco do seu descanso de madeira. O armeiro tinha mandado trocar o ferrolho de tiro único usual por um depósito de cinco tiros, e tinha garantido a Bond que se ele deixasse apenas dois segundos entre cada tiro para estabilizar a arma não haveria desgaste, mesmo a quinhentas jardas. Para o serviço que devia fazer, Bond achava que dois segundos poderiam representar uma perda perigosa de tempo se errasse o seu primeiro tiro. De qualquer forma, M dissera que a distância não seria maior que trezentas jardas. Bond encurtaria o tempo para um segundo — fogo quase contínuo.
— Pronto?
— Sim.
— Vou à contagem regressiva de cinco. Agora! Cinco, quatro, três, dois, um. Fogo!
O chão tremeu ligeiramente e o ar silvou enquanto as cinco cápsulas velozes de cuproníquel varejavam o crepúsculo. O alvo baixou e rapidamente voltou a erguer-se condecorado com quatro pequenos discos brancos agrupados bem juntos na mosca. Não houve nenhum quinto disco — nem mesmo um negro para indicar um interno ou externo.
— A última descarga foi baixa — disse o chefe da linha baixando seus binóculos noturnos. — Obrigado pela contribuição. Limpamos a areia atrás daqueles alvos todo fim de ano.
Nunca recolhemos menos de quinze toneladas de estilhaços em legítimo chumbo e cobre. Um bom dinheiro.
Bond tinha-se levantado. O cabo Menzies da seção dos armeiros surgiu do pavilhão do Clube de Tiro e ajoelhou-se para desmontar a Winchester e o seu descanso. Olhou para cima encarando Bond. Disse com uma ponta de crítica. — O senhor tocou a coisa um pouco rápido. A última descarga tinha de escoicear.
— Eu sei, cabo. Só queria ver com que rapidez eu podia tocar. Não quero pôr a culpa na arma. É um trabalho enxuto, infernal. Por favor, diga isso por mim ao armeiro. Agora é melhor ir andando. Você tem condução de volta a Londres, não?
— Tenho, sim senhor. Boa noite.
O oficial chefe da Linha entregou a Bond uma ficha de seu tiro — dois tiros de ensaio e depois dez descargas para cada cem jardas até as quinhentas. — Pontaria danada de boa com esta visibilidade. Você devia voltar aqui o ano que vem e tentar o Prêmio da Rainha. Hoje em dia está aberto para todos — isto é, da Comunidade Britânica.
— Obrigado. O problema é que não passo tanto tempo assim na Inglaterra. E muito obrigado por ter feito a marcação para mim.
Bond olhou para a distante Torre do Relógio. De cada lado, a bandeira vermelha de perigo e o tambor vermelho de sinalização estavam sendo arriados para mostrar que o tiroteio tinha cessado. Os braços marcavam nove e quinze. — Gostaria de oferecer-lhe um drinque, mas tenho um encontro em Londres. Podemos adiá-lo até o Prêmio da Rainha de que você estava falando?
O chefe da Linha fez que sim com a cabeça, neutramente. Ele tinha aguardado ansioso a oportunidade de conhecer mais coisas sobre este homem que surgira assim sem mais nem menos depois de uma série de avisos do Ministério da Defesa e fora em frente acertando bem mais de noventa porcento em todas as distâncias, isso depois de fechada a linha para a noite e com visibilidade entre sofrível e má. E por que tinha ele, que só oficiava no encontro anual de julho, sido escalado para estar presente? E por que lhe tinham dito para providenciar uma mosca de seis polegadas a 500 jardas para Bond, em vez da regulamentar de quinze polegadas? E por que todos esses cuidados com a bandeira de perigo e o tambor de sinalização que só se usavam em ocasiões cerimoniais? Para pressionar o homem? Para dar um clima de urgência ao tiro? Bond. Comandante James Bond. A A.N.R. certamente teria a ficha de uma pessoa que atirava tão bem assim. Não se esqueceria de dar-lhes um telefonema. Que hora estranha para um compromisso em Londres. Provavelmente uma garota. O rosto do chefe da Linha assumiu uma expressão de desagrado. O tipo do sujeito que apanhava todas as garotas que queria.
Os dois homens caminharam através da bela fachada da sede do clube além da linha de tiro até o carro de Bond que estava estacionado diante de uma reprodução em ferro do famoso “Veado em Fuga” de Landseer toda picotada de balaços. — Uma beleza de carro — comentou o chefe da Linha. Nunca vi uma carroçaria assim num Continental. Mandou fazê-la especialmente?
— Mandei. Os Sports Saloons na verdade só têm dois lugares. E muito pouco espaço para bagagem. Por isso pedi a Mulliner’s que o transformassem num verdadeiro dois-lugares e com porta-malas de sobra. Um carro egoísta, não há dúvida. Bem, boa noite. E novamente muito obrigado.
O escape roncou com saúde e as rodas traseiras cuspiram cascalho por um instante.
O oficial chefe da Linha observou os faróis rubis desaparecerem na King’s Avenue a caminho da estrada de Londres. Girou nos calcanhares e foi procurar o cabo Menzies numa busca de informação que terminaria sem frutos. O cabo permaneceu tão fechado como a grande caixa de mogno que estava colocando num Land-Rover caqui, limpo de símbolos militares. O chefe da Linha era um major. Tentou apelar para a hierarquia, mas sem êxito. O Land-Rover afastou-se rodando no rastro de Bond. O major dirigiu-se soturno aos escritórios da Associação Nacional do Rifle para tentar achar a informação que queria na biblioteca sob o nome “Bond, J.”
O compromisso de James Bond não era com uma garota. Era com um voo da B.E.A. para Hanover e Berlim. Enquanto engolia as milhas que o separavam do Aeroporto de Londres, pisando firme o grande carro a fim de ter tempo de sobra para um drinque, três drinques, antes da decolagem, apenas uma parte de sua mente fixava-se na estrada. O restante reexaminava pela enésima vez a sequência que agora o conduzia a um encontro com um aeroplano. Mas apenas um encontro provisório. Seu compromisso final numa das três próximas noites em Berlim era com um homem. Tinha que se encontrar com esse homem e infalivelmente matá-lo com um tiro.
Quando, por volta de duas e meia daquela tarde, James Bond atravessara as portas duplamente acolchoadas e sentara-se em frente do perfil voltado, do outro lado da grande escrivaninha, sentira imediatamente o perigo no ar. Não houve troca de cumprimentos. A cabeça de M afundava-se no colarinho duro numa pose churchilliana de sombria reflexão, e havia um traço de amargura nos cantos dos lábios. Girou a cadeira para encarar Bond, passou-lhe um olhar examinador como se, pensou Bond, quisesse verificar se sua gravata estava direita e o cabelo adequadamente penteado, e então começou a falar, rapidamente, atalhando suas sentenças como se desejasse ver-se livre do que estava dizendo, e de Bond, o mais depressa possível.
— O número 272. É um bom homem. Você talvez não o conheça. Pela simples razão de que ficou naquele buraco da Novaya Zemlya desde a guerra. Agora está tentando sair — carregado de material. Atômico e foguetes. E o plano deles para toda uma nova série de testes. Para 1961. Querem avivar o fogo no Ocidente. Algo a ver com Berlim. Não vejo bem o quadro mas o Foreign Office diz que se for verdade é uma coisa tremenda. Ridiculariza a Conferência de Genebra e toda essa demagogia sobre desarmamento nuclear que o bloco comunista vem fazendo. Ele conseguiu chegar até a Berlim Oriental. Mas tem praticamente toda a KGB no seu encalço — e as forças de segurança da Alemanha Oriental, é claro. Está entocado num buraco qualquer da cidade e conseguiu passar-nos uma mensagem — de que atravessaria entre seis e sete da tarde numa das três próximas noites — amanhã, depois de amanhã ou no dia seguinte. Indicou o ponto de travessia. O problema — a curva dos lábios de M, voltada para baixo, tomou-se ainda mais amarga — é que o mensageiro que ele usou fazia jogo duplo. A estação W.B. pilhou-o ontem. Por acaso. Deu sorte com um dos códigos da KGB O mensageiro será mandado de avião para julgamento, naturalmente. Mas isso não ajudará em nada. A KGB sabe que o 272 vai tentar a travessia. Sabem quando. Sabem onde. Sabem tanto quanto sabemos e nada mais. Ora, o código que deciframos ontem era um esquema de um só dia em suas máquinas. Mas conseguimos todo o tráfico daquele dia e isso foi bastante bom. Planejam alvejá-lo ao tentar a travessia. No cruzamento de ruas entre a Berlim Leste e a Oeste que nos indicou na mensagem. Estão montando uma operação daquelas — operação “Êxtase” como a chamam. Puseram o seu melhor tocaia no serviço. Tudo o que soubemos dele ó que seu nome cifrado é a palavra russa para “Gatilho”. A estação W.B. acha que é o mesmo homem já usado em outros serviços de tocaia. Um serviço de longo alcance através da fronteira. Ficará de guarda toda noite nesse cruzamento e sua missão é acertar no 272. É óbvio que eles certamente prefeririam fazer um serviço mais suave com metralhadoras e coisas do gênero. Mas Berlim está calma no momento e parece que a ordem é ficar assim. De qualquer forma — M sacudiu os ombros — eles têm confiança nesse operador “Gatilho” e o negócio vai ser assim!
— E onde é que eu entro? — James Bond tinha adivinhado a resposta, adivinhado porque M mostrava seu desagrado com a coisa toda. Ia ser trabalho sujo e Bond, porque pertencia à Seção Zero-Zero, tinha sido escolhido para fazê-lo. Perversamente, Bond queria forçar M a pôr o preto no branco. Iam ser notícias más, notícias sujas e ele não queria ouvi-las de um dos oficiais da Seção, nem mesmo do chefe do Estado-Maior. O negócio ia ser assassínio. Está bem. Que M tenha então a coragem de me dizer.
— Onde é que você entra, 007? — M olhou friamente do outro lado da escrivaninha. — Você sabe onde é que você entra. Você tem que matar esse tocaia. E tem que matá-lo antes que acerte no 272. É tudo. Está claro? — Os olhos azuis-claros permaneceram frios como gelo. Mas Bond sabia que só ficavam assim com um esforço da vontade. M não gostava de mandar qualquer homem para um homicídio. Mas, quando isso tinha de ser feito, ele sempre assumia a sua severa e fria ação de comando. Bond sabia a razão. Era para tirar um pouco da pressão, um pouco da culpa, dos ombros do matador.
Portanto Bond, que sabia dessas coisas, decidiu agora tornar fácil e rápida a tarefa de M. Levantou-se. — Está certo, sir. Suponho que o chefe do Estado-Maior tenha tudo pronto. É melhor eu ir praticar um pouco. Não seria bom errar.
Caminhou para a porta.
M disse calmamente: — Sinto ter que lhe dar essa tarefa. Serviço desagradável. Mas tem que ser bem executado.
— Farei o melhor — James Bond saiu fechando a porta atrás de si. Não gostava do serviço mas no final preferia fazê-lo a assumir a responsabilidade de mandar alguém em seu lugar.
O chefe do Estado-Maior tinha sido apenas um pouco mais simpático. — Lamento esta sua aquisição, James — dissera ele. — Mas Tanqueray foi inflexível, não tinha ninguém suficientemente bom na estação e esse não é o tipo de serviço que se pode pedir a um soldado regular para fazer. Há uma porção de excelentes tiros na B.A.O.R., mas um alvo vivo requer outro tipo de coragem. De qualquer forma, liguei para Bisley e marquei um exercício para você esta noite às oito e quinze quando a linha estiver fechada. A visibilidade será mais ou menos a mesma que você terá em Berlim cerca de uma hora antes. O armeiro está com a arma — verdadeira obra de arte para alvejar, e vai mandá-la por um de seus homens. Você irá com a sua própria condução. Depois, há um voo de carreira para Berlim à meia-noite reservado em seu nome na B.E.A. Tome um táxi até esse endereço. — Entregou a Bond um pedaço de papel. — Suba ao quarto andar e encontrará o número 2 de Tanqueray à sua espera. Depois disso, sinto que você terá que esperar sentado pelos próximos três dias.
— E a arma? Esperam que atravesse a alfândega alemã com ela dentro de um saco de golfe ou coisa assim?
O chefe do Estado-Maior não tinha achado graça. — Seguirá pela mala diplomática. Você a receberá amanhã ao meio-dia. — Tinha estendido a mão até o bloco de avisos. — Bem, é melhor ir andando. Vou avisar a Tanqueray que está tudo combinado.
James Bond baixou o olhar para o rosto azul difuso do relógio no painel do carro. Dez e quinze. Com um pouco de sorte, amanhã a esta hora estaria tudo terminado. Afinal, era a vida deste homem “Gatilho” contra a vida do 272. Não era exatamente homicídio. Estava perto disso, no entanto. Apertou maldosamente sua buzina-de-serra tripla ao passar por um quatro portas comum, ingressou no cruzamento circular com uma derrapagem seca desnecessária, girou violentamente o volante fazendo a correção e apontou o nariz do Bentley em direção do brilho distante que era o Aeroporto de Londres.
O edifício feio de seis andares na esquina da Kochstrasse e da Wilhelmstrasse era o único de pé na desolação de um espaço vazio bombardeado. Bond pagou o táxi e gravou uma breve impressão de capim, alto como a cintura, e de paredes de entulho mal reparadas, estendendo-se na direção de um grande cruzamento deserto iluminado por um feixe central de lâmpadas amareladas em arco, antes de apertar o botão para o quarto andar e imediatamente ouviu o clique do dispositivo que abria a porta do prédio. A porta fechou-se atrás dele e caminhou então sobre o chão de cimento sem tapete até o antiquado elevador. O cheiro de repolho, cigarro barato e suor rançoso lembravam outros prédios de apartamentos na Alemanha e Europa Central. Até o arrastar e o guincho fraco do elevador vagaroso eram parte de centenas de missões em que tinha sido lançado por M, como um projétil, a algum alvo distante onde um problema aguardava a sua chegada, à espera de ser resolvido por ele. Pelo menos desta vez o comitê de recepção estava do seu lado. Desta vez não havia nada a temer no fim da escada.
O número 2 da Estação W.B. de Serviço Secreto era um homem esguio e tenso de quarenta e poucos anos. Vestia o uniforme de sua profissão — terno bem cortado e bem usado de tweed leve ponto pé-de-pato num tom verde-escuro, camisa de seda macia branca e uma velha gravata de colégio — neste caso de Wykeham. Ao ver a gravata, enquanto trocavam as saudações convencionais no pequeno saguão mofado do apartamento, o ânimo de Bond, já baixo, desceu mais um degrau. Conhecia esse tipo: espinha dorsal do Serviço Público; superestudioso e mal-amado em Winchester; um bom segundo em P.P.E. em Oxford; a guerra, cargos funcionais que teria ocupado meticulosamente; talvez uma Ordem do Império Britânico; Comissão do Controle Aliado na Alemanha, onde fora recrutado no Ramo I e a partir de então — porque era o funcionário ideal e A. 1 junto à Segurança e porque pensava em encontrar vida, drama, romance, todas as coisas que nunca linha tido — lá fora ele para o Serviço Secreto. Um homem sóbrio, cuidadoso se fizera necessário para bancar a dama de companhia de Bond neste negócio feio. O Capitão Paul Sender, que já servira na Guarda Galesa, tinha sido a escolha óbvia. E tinha aceitado. Agora, como bom Wykehamista, escondia o seu desagrado pelo serviço debaixo de uma conversa cuidadosa e banal enquanto mostrava a Bond a planta do apartamento e as providências tomadas para a prontidão do carrasco e, numa medida modesta, para o seu conforto.
O apartamento consistia de um amplo dormitório conjugado, um banheiro e uma cozinha equipada de enlatados, leite, manteiga, ovos, chá, bacon, pão e uma garrafa de Dimple Haig. O único detalhe estranho no quarto de dormir era que uma das camas duplas estava encostada em ângulo contra as cortinas que cobriam o amplo janelão único e sobre ela se empilhavam três colchões cobertos pela roupa de cama.
O Capitão Sender disse: — Gostaria de dar uma olhada ao campo de fogo? Poderei então explicar o que é que o lado de lá tem em mente.
Bond estava cansado. Não desejava especialmente ir dormir com a imagem do campo de batalha na memória. Disse: — Seria ótimo.
O Capitão Sender apagou as luzes. Faixas luminosas das lâmpadas no cruzamento apareceram em volta das cortinas. — Não quero puxar as cortinas — disse o Capitão Sender. — É pouco provável, mas eles podem ter sido alertados contra um grupo de cobertura para o 272. Queria que você apenas se deitasse na cama e enfiasse a cabeça por baixo das cortinas. Explicarei o que você estiver vendo. Olhe para a esquerda.
Era uma janela de guilhotina e a metade inferior estava aberta. Os colchões, especialmente escolhidos, só cediam um pouco e James Bond encontrou-se mais ou menos na posição de tiro que tinha adotado em Century Range, mas agora olhava através de terreno descontínuo, coberto de densa vegetação e bombardeado, na direção do rio de luz que era a Zimmerstrasse — a fronteira com a Berlim Oriental. Parecia a umas cento e cinquenta jardas de distância. A voz do Capitão Sender acima dele e por trás da cortina começou a recitar. Lembrava a Bond uma sessão espírita.
— Ali é terreno bombardeado à sua frente. Bastante cobertura. Umas cento e trinta jardas até a fronteira. Depois a fronteira — a rua — e então um trecho grande ainda de terreno bombardeado no campo do inimigo. É por isso que o 272 escolheu essa passagem. É um dos poucos locais na cidade em que o terreno é descontínuo — capinzais cerrados, muros em ruínas, porões — nos dois lados da fronteira. Ele deverá es-gueirar-se entre aquela confusão do outro lado e arremessar-se através da Zimmerstrasse até alcançar a confusão do nosso lado. O problema é que terá de correr trinta jardas de fronteira fortemente iluminada. Será o espaço da matança. Certo?
Bond disse: — Sim.
Disse-o com suavidade. O cheiro do inimigo, a necessidade de tomar cuidado, já estavam atuando sobre seus nervos.
— À sua esquerda, aquele novo e imenso bloco de dez andares é a Haus der Ministerien, o grande centro cerebral de Berlim-Leste. Você pode ver que as luzes ainda estão acesas na maioria das janelas. A maior parte delas ficará assim toda a noite. Esses sujeitos trabalham mesmo — seus turnos dão a volta no relógio. Você provavelmente não precisará preocupar-se com as janelas acesas. Esse fulano “Gatilho” certamente vai atirar de uma das janelas escuras. Você verá que existe um grupo de quatro, juntas, na quina acima do cruzamento. Ficaram escuras na noite passada e esta noite. Elas têm o melhor campo de fogo. Daqui, o seu alcance varia entre trezentas e trezentas e dez jardas. Estou com todos os números e dados quando você quiser. Não é preciso preocupar-se muito mais. Aquela rua fica vazia durante a noite — apenas as patrulhas motorizadas cerca de cada meia hora — carros blindados leves com uma dupla de motocicletas por escolta. Na noite passada, que suponho normal, entre seis e sete, que é a hora em que se fará este serviço, havia umas poucas pessoas entrando e saindo por aquela porta lateral. Uns funcionários. Antes disso nada fora do comum — o fluxo costumeiro de pessoas entrando e saindo de um edifício de governo movimentado — com exceção, veja só, de uma miserável orquestra completa de mulheres. Fizeram uma confusão infernal numa sala de concertos que tem ali. Parte do bloco aloja o Ministério da Cultura. Fora disso nada — certamente nenhuma das pessoas da KGB que conhecemos, nem sinais de preparação para um serviço deste gênero. Mas nem pode haver sinais. São muito cuidadosos estes sujeitos da oposição. De qualquer maneira, dê uma boa olhada. Não esqueça que agora está mais escuro do que amanhã por volta das seis. Mas você pode formar um quadro geral.
Bond formou o quadro geral e o quadro ficou com ele muito tempo enquanto o outro homem já dormia e ressonava suavemente com um pequeno som regular que lembrava um fraco estalido — um ronco Wykehamista, refletiu Bond irritado.
Sim, tinha formado o quadro — o quadro de um lampejo movimento entre as ruínas sombreadas no outro lado do brilhante rio de luz, uma pausa, e então a desesperada corrida em ziguezague de um homem sob o impacto luminoso das lâmpadas, o espocar da arma de fogo e, ou um fardo retorcido espalhado no meio da rua larga, ou então a investida sempre em frente através do capinzal e do entulho no Setor Ocidental — morte súbita ou volta a casa. O grande desafio! Quanto tempo teria Bond para localizar o tocaia russo numa daquelas janelas escuras? E para matá-lo? Cinco segundos? Dez? Quando o amanhecer começava a cobrir as cortinas com o tom metálico das armas, Bond capitulou para sua mente agitada. Ela tinha ganho. Foi em silêncio até o banheiro e inspecionou as fileiras de remédios que um prestimoso Serviço Secreto tinha providenciado para manter o seu carrasco em boa forma. Escolheu o Tuinal, engoliu duas das cápsulas concentradas, rubis e azuis, com um copo de água e voltou à cama. Então, chumbado, dormiu.
Acordou ao meio-dia. O apartamento estava vazio. Bond abriu as cortinas para deixar entrar o dia cinzento prussiano e, de pé a uma boa distância da janela, ficou vendo a monotonia de Berlim e ouvindo o ruído dos bondes e o arranhar distante dos trens da U-Bahn na grande curva de entrada da estação do Zoo. Lançou um olhar rápido e relutante ao que já tinha examinado na noite anterior, notou que o capim no entulho de bombardeio era mais ou menos o mesmo de Londres — loendro, labaçol e samambaia — e dirigiu-se então à cozinha. Havia uma nota apoiada numa fatia de pão: “Meu amigo (eufemismo do Serviço Secreto que neste contexto significava o chefe de Sender) diz que não há mal em você sair. Mas esteja de volta às 17 horas. Seu equipamento (outra palavra para o rifle de Bond) chegou e o bagageiro a entregará esta tarde. P. Sender.”
Bond acendeu o fogão a gás e queimou a mensagem com desprezo por sua profissão e em seguida preparou um prato enorme de ovos mexidos e bacon que amontoou sobre uma torrada coberta de manteiga e comeu com acompanhamento de café preto no qual derramara uma porção liberal de uísque. Depois tomou um banho e barbeou-se, vestiu as roupas descoloridas, centro-europeias e anônimas que tinha trazido para a sua missão, olhou a sua cama em desordem, decidiu que tudo fosse para o inferno e desceu pelo elevador deixando o edifício.
James Bond sempre achara Berlim uma cidade deprimente e hostil, esmaltada no lado Ocidental com o verniz superficial de um polimento pretensioso parecido com os enfeites cromados dos carros americanos. Caminhou até a Kurfurstendamm, sentou-se no Café Marquardt, tomou um expresso e ficou observando com tédio as filas obedientes de pedestres esperando o sinal “Siga” nos postes de trânsito enquanto a corrente luminosa de carros continuava a sua perigosa quadrilha na movimentada intersecção. Fazia frio lá fora e o vento cortante das estepes russas fustigava as saias das garotas e os impermeáveis dos homens impacientes e apressados, cada um com a infalível pasta enfiada debaixo do braço. Os aquecedores de parede infravermelhos do café apontavam o vermelho para baixo e davam um brilho espúrio ao rosto dos cafeinômanos que degustavam sua tradicional “uma xícara de café e dez copos de água”, lendo de graça os jornais e revistas presos por paus, ou se curvavam com seriedade sobre papéis de negócios. Bond, fechando o pensamento para a noite, discutia consigo mesmo as maneiras de passar a tarde. Finalmente chegou à escolha entre uma visita àquela casa de respeitável fachada de pedra, na Clausewitzstrasse, conhecida de todos os porteiros e choferes de táxi, ou um passeio ao Wannsee e uma vigorosa caminhada no Grunewald. A virtude triunfou. Bond pagou o café, saiu no frio e tomou um táxi até a estação do Zoo.
As belas arvorezinhas jovens em volta do lago extenso já tinham sido tocadas pelo sopro do outono e havia um dourado aqui e ali no meio do verde. Bond caminhou com energia durante duas horas pelas veredas cobertas de folhas e então escolheu um restaurante com terraço envidraçado sobre o lago e saboreou com prazer um chá reforçado consistindo de uma porção dupla de arenques do Norte mergulhados em creme e anéis de cebola, e dois Molle mit Korn, o equivalente berlinense de um “fabricante de caldeiras e seu assistente” — schnapps, duplos, acompanhados por um chope Löwenbräu. Sentindo-se então mais animado tomou a S-Bahn para voltar à cidade.
Em frente do prédio de apartamentos, um jovem indefinível estava mexendo no motor de um Opel Kapitan negro. O jovem não tirou a cabeça debaixo do capo quando Bond passou bem perto dele e subiu até a porta e apertou o botão.
CONTINUA
Quando chegou embaixo, sentou-se no musgo, sob os abetos. Estendeu no chão a camisa, colocou no centro dela as barras de ouro e fez uma trouxa, amarrando bem as fraldas e as mangas. Depois, cavou um buraco no chão e enterrou a caixa metálica vazia. E vergando ao peso, quase dobrado em dois, caminhou pela estreita trilha, entre os pinheiros, rumo ao jipe. Até aquele dia não conseguira saber como tivera forças para alcançar o veículo. Os nós que dera na trouxa pareciam penetrar nas carnes de seu ombro, sob o peso das barras de ouro. Quando, finalmente, alcançou o jipe, quase teve um colapso, tão exausto estava. Mas não podia descansar, ainda. Precisava sair dali para enterrar o seu tesouro na floresta, perto de um grupo de grandes rochas, onde lhe seria fácil encontrá-lo de novo, na ocasião oportuna em dia, quando o horizonte estivesse limpo, voltaria, por outra rota, evitando o chalé de Oberhauser. Só então, terminado tudo, fora embebedar-se com uma garrafa de schnapps barato. Jantou e meteu-se na cama, para dormir como uma pedra. No dia seguinte, a Força A da DAG seguiu para o vale do Mittersill. Seis meses depois o Major Smythe estava em Londres. A sua guerra havia terminado. Mas os seus problemas, não. Ouro era coisa difícil de contrabandear, principalmente em grande quantidade. E era essencial que o Major Smythe transferisse as suas barras para um novo esconderijo. Por isso, ele procurou evitar a desmobilização e gozar os privilégios de seu comissionamento temporário, sobretudo o seu passe do Serviço Secreto Militar. Conseguiu ser mandado de volta para a Alemanha, como representante da Inglaterra no Centro Misto de Investigação de Munique. Aí, trabalhou durante seis meses e, nesse período, teve a oportunidade de recuperar o ouro, que levou para o seu alojamento numa velha valise. Depois, em dois fins de semana, fez viagens aéreas para Londres, levando, de cada vez, uma barra de ouro, em sua volumosa pasta. A caminhada nos aeroportos de Munique e de Londres, com a pasta sob o braço, como se contivesse apenas papéis, exigira dois tabletes de benzedrina e uma vontade de ferro. Finalmente, pôde esconder sua fortuna no porão da casa de uma tia, em Kensington, e assim, com tranquilidade, pôde desenvolver a parte final de seus planos. Pediu reforma nos Fuzileiros Reais e, uma vez desmobilizado, casou-se com uma das muitas moças com quem tivera aventuras durante o serviço da DAG, uma graciosa Wren chamada Maria Parnell. Comprou passagem para ambos num cargueiro para a Jamaica, que representava, para ambos, um paraíso ensolarado, com boa e farta comida, bebida barata, sem a melancolia e as restrições impostas na Inglaterra, após a guerra, pelo severo governo trabalhista. Antes do embarque, o Major Smythe mostrou a Mary as barras de ouro, das quais já havia raspado a cinzel os símbolos do Reichsbank.
— Tenho sido muito econômico e esperto, meu bem — disse ele. — Não confio na libra. Por isso, vendi todas as minhas ações e comprei um bocado de ouro. Teremos pelo menos 20 mil libras, se eu o vender bem. Isso basta para nos assegurar uma boa vida, até o fim dos nossos dias. Sempre que for preciso, eu venderei um pouquinho — explicou.
Mary Parnell não era familiarizada com as leis monetárias. Mas se ajoelhou e passou as mãos, carinhosamente, sobre as barras de ouro. Depois, com os braços ao redor do pescoço do marido, beijou-o e disse, quase em lágrimas: — Você é um homem maravilhoso... Sim, maravilhoso! Terrivelmente inteligente, bonito, simpático, herói da guerra e, além do mais, rico! Eu sou a garota mais feliz do mundo!
— Você tem razão pelo menos numa coisa: ricos, nós somos. Mas prometa não dizer uma só palavra a quem quer que seja! Pois, se disser, todos os ladrões da Jamaica irão rondar a nossa casa.. .
O Prince’s Club, ao pé das colinas que dominam os arredores de Kensington, era realmente esplêndido. Para os seus sócios, não havia nada melhor: maravilhosa criadagem, comida farta, bebida barata, belíssimos cenários tropicais, como nunca tinham visto antes. O casal era muito popular e os serviços de guerra do Major Smythe lhe davam ingresso na alta sociedade local e na Government House. A vida de ambos era uma série interminável de festas, misturadas com o tênis de Mary e o golfe do major (com os bastões metálicos de Henry Cotton!) durante o dia, e partidas de bridge (para ela) e de pôquer (para ele) durante as noites. Sim, era um paraíso, porque, na Inglaterra, havia racionamento, filas e mercado negro, um governo atroz e o pior inverno dos últimos trinta anos. A princípio, o casal enfrentou as despesas com as economias em dinheiro, que ambos haviam reunido, enquanto se vestiam, se alimentavam e se transportavam à custa do Exército. Só depois de um ano de cautelosas investigações é que o Major Smythe se decidiu a fazer negócio com os irmãos Fu, comerciantes importadores e exportadores. Altamente respeitados e muito ricos, os irmãos Fu eram conhecidos como uma espécie de junta governativa da comunidade chinesa da Jamaica. Ainda que alguns dos seus negócios se desviassem das boas normas, segundo a tradição chinesa, Smythe achou que poderia confiar neles. A Convenção de Bretton Woods, fixando um preço internacional para o ouro, sob rigoroso controle, tinha sido assinada deixando de parte Tânger e Macau, dois portos livres, em que a onça de ouro valia entre 99 e 100 dólares, quando nos outros lugares o preço oficial era de 35. E, para maior conveniência de seus negócios, os Fu tinham aberto um restaurante em Hong-Kong, transformado em entreposto para o contrabando de ouro para a vizinha Macau. Isso, na linguagem do Major Smythe, era sopa no mel. Ele tivera um agradável encontro com os Fu. Nenhuma pergunta estes fizeram, senão depois do exame das barras de ouro.
— Major — disse o mais velho dos irmãos —, no mercado de ouro em barras, as marcas dos bancos nacionais e dos negociantes respeitáveis são aceitos sem discussão. Essas marcas são a garantia da pureza do ouro. Mas outros bancos e outros vendedores têm seus próprios processos de refinação, que talvez, não sejam tão perfeitos...
— Quer dizer que eu fui enganado? — Perguntou, ansiosamente, o major. — Que isso não é senão uma barra de chumbo coberta de uma leve camada de ouro?
Os dois irmãos deram muxoxos tranquilizadores:
— Não, não, major... Não se trata disso. Mas, se uma pessoa não se recorda da proveniência dessas barras de ouro, por mais finas que elas sejam é sempre necessário submetê-las a um ensaio, para verificação do seu exato teor... Há muitos métodos para determinar o grau de pureza dessas barras. Meu irmão e eu somos competentes em qualquer deles. Quer deixar as barras de ouro conosco e vir saber o resultado depois do almoço? Nós lhe daremos um recibo...
Não havia alternativa. Teria que confiar nos Fu. Qualquer que fosse o preço por eles arbitrado, seria forçado a aceitar. Estava nas mãos deles. Foi a um bar, onde tomou dois drinques fortes e comeu um sanduíche que lhe ficou atravessado na garganta. Depois, voltou ao escritório refrigerado dos Fu. O cenário era o mesmo: os dois irmãos sorridentes, as duas barras de ouro, a pasta de couro, etc. Só havia a mais uma folha de papel e uma caneta-tinteiro de pena de ouro, em frente do irmão mais velho.
— Resolvemos o problema do seu ouro, major! — (Esplêndido! Obrigado, pensou Smythe.) — E estou certo de que o senhor terá interesse em conhecer sua origem...
— Claro! Qual é? — Fez o major, com uma corajosa demonstração de entusiasmo.
— São barras de ouro alemãs! Provavelmente saíram dos depósitos do Reichsbank, durante a guerra. Isso pode ser deduzido do fato de que contêm dez porcento de chumbo. Durante o regime de Hitler, o Reichsbank fez a tolice de adulterar por esse modo o seu ouro. Isso logo se espalhou e o preço das barras de ouro alemãs, vendidas na Suíça, sofreu logo uma redução de preço, correspondente à adulteração. Foi uma bobagem, que só teve um resultado: o banco nacional da Alemanha perdeu a reputação que conquistara durante séculos... Bobagem... Uma grandíssima bobagem... — Concluiu o chinês, com o seu invariável sorriso.
O Major Smythe estava maravilhado com a onisciência desses dois homens, tão afastados dos grandes canais de comércio do mundo. Mas ao mesmo tempo os amaldiçoava, intimamente. E agora?
— É muito interessante, Sr. Fu... Mas isso não é uma boa notícia para mim. Essas barras de ouro me foram entregues como coisa cem por cento...
— Não tem importância, major — disse o mais velho dos Fu. — Ou melhor, quase não tem importância. Venderemos o seu ouro pelo justo valor, ou seja, 89 dólares a onça. Terá que ser, ou não, refinado pelo último comprador. Mas isso não é da nossa conta. Nós o venderemos também como cem por cento...
— Mas a um preço mais baixo...
— Realmente, major. Mas creio que temos uma boa notícia para o senhor. Quanto calculava obter com essas duas barras?
— Cerca de 20 mil libras...
— Se as vendermos bem e aos pouquinhos — disse o mais velho dos Fu —, o senhor receberá mais de 100 mil dólares, major, sujeitos, é claro, ao desconto da nossa comissão, que inclui o transporte e outras despesas.
— E a quanto montará isso?
— Estou pensando em fixar em 10 por cento, major. Se lhe parecer satisfatório...
O Major Smythe tinha a impressão de que vendedores de ouro em barras recebiam apenas um por cento de comissão. Mas, que diabo, antes do almoço já estava disposto a largar tudo até por 10 mil libras. Disse “fechado” e levantou-se, estendendo a mão através da mesa. Desde então, de quatro em quatro meses, ia visitar o escritório dos Fu, levando uma valise vazia. Havia sempre quinhentas libras novas, da emissão da Jamaica, em pacotes, sobre a mesa, à sua espera, e um recibo da quantidade vendida, com o preço alcançado em Macau. As barras de ouro diminuíam de tamanho, de polegada em polegada. O negócio era simples e cordial. Duas mil libras limpas, por ano, eram o bastante para ele, e só o afligia a possibilidade de que o pessoal do imposto de renda começasse a apertá-lo, para saber do que estava vivendo. Ele disse isso aos Fu, que lhe fizeram saber que não precisava se preocupar. Nas duas vezes seguintes, havia apenas quatrocentas libras na mesa, mas nenhum comentário foi feito, por qualquer dos lados. E assim os dias iam se passando, preguiçosamente. Os Smythes engordavam e o major teve a primeira das duas complicações das coronárias. O médico lhe recomendou uma vida menos ativa, com menos álcool e menos cigarros. Evitasse, também, as gorduras e as comidas fritas. A princípio, Mary tentou ser severa com ele, mas quando o marido começou a beber escondido e a inventar pequenas mentiras e evasivas, ela recuou desse propósito. Teve medo de se transformar numa chata doméstica, a quem o Major Smythe passaria a evitar. Por isso, deu-lhe inteira liberdade, sabendo que ele não mais a amava, e quando a sua solidão se tornou demasiada e as insônias intoleráveis, viciou-se em tomar soníferos. Uma noite, depois de uma violenta briga, estando ambos embriagados, tomou ela uma dose excessiva, só “para dar-lhe uma lição”. A dose era tão exagerada que a matou. O suicídio foi dissimulado, mas ainda assim recaíram suspeitas sobre o major, em prejuízo de sua reputação social. E a tal ponto que ele teve de se retirar para North Shore que, embora a apenas três milhas de Kensington, parece pertencer a um outro mundo. Aí ele se instalou em Wavelets e, depois da segunda complicação das coronárias, começou a beber desenfreadamente. Foi então que entrou em cena James Bond com um mandado de prisão ou de morte no bolso.
O Major Smythe olhou para o relógio. Passavam alguns minutos do meio-dia. Ele se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale e foi para o jardim. James Bond estava sentado sob a frondosa amendoeira, olhando para o lar. Nem se voltou para o Major Smythe quando este puxou outra cadeira de alumínio e colocou o copo na relva, perto dele. Quando o Major Smythe acabou de narrar a sua história, James Bond disse, sem demonstrar qualquer emoção: — Era mais ou menos isso o que eu havia pensado...
— Quer que eu escreva tudo ou apenas assine?
— Faça como quiser. Mas isso não se entende comigo. Deve entregar à Corte Marcial. Seu velho Corpo de Fuzileiros Reais é que vai tomar conta do caso. Não tenho nada que ver com os aspectos legais. Farei apenas um relatório do que me disse, para a Procuradoria da Justiça, através da Scotland Yard...
— Posso perguntar uma coisa? Como foi que descobriu?
— A geleira era pequena. O corpo de Oberhauser chegou embaixo no início deste ano, quando as neves da primavera derreteram. Alguns alpinistas o encontraram. Todos os seus papéis e tudo o mais estava perfeito. A família o identificou. Depois, foi só uma questão de recuar no tempo. O calibre das balas deu logo a pista...
— Mas como se envolveu neste assunto?
— A Força da DAG era uma das minhas responsabilidades, um dos meus serviços. Quando o assunto chegou ao meu conhecimento, fui dar uma busca nos arquivos. Como tinha tempo livre, pedi que me entregassem a missão de descobrir o autor da morte de Oberhauser...
— Por quê?
— Porque — e James Bond fixou os olhos do Major Smythe — acontece que Oberhauser era um velho amigo meu. Foi quem me ensinou a esquiar quando eu tinha pouco mais de dez anos. Era um esplêndido sujeito. Foi uma espécie de pai para mim, precisamente na época em que eu mais precisava de um...
— Compreendo. — E o Major Smythe desviou o olhar. — Sinto muito...
James Bond se levantou:
— Bem, preciso voltar a Kensington. — E levantou a mão, para deter o major. — Não, não precisa incomodar-se. Sei onde o carro ficou... — Olhou para o homem mais velho e disse, rispidamente, quase com brutalidade: — Dentro de uma semana, alguém virá buscá-lo...
E caminhou, em passos firmes, sem se voltar, pela alameda afora. O major ouviu o ruído do arranque do motor e o chiado dos pneus do táxi nas pedrinhas miúdas da estrada.
Agora, ele procurava a sua presa, ao longo do recife de coral, pensando exatamente no sentido das palavras de James Bond. E sorriu por trás da máscara Pirelli. Era uma versão nova de um velho dramalhão, que consistia em deixar uma pistola com o oficial culpado, para que este mesmo estourasse os miolos. Se James Bond quisesse, poderia ter telefonado para a Government House e pedido um oficial de igual patente do Regimento da Jamaica para levar preso o Major Smythe. De certo modo, o seu gesto fora decente. Ou não fora? Um suicídio era mais limpo, economizava uma porção de trabalho e de papéis, que consumiriam o dinheiro dos contribuintes. Devia agradecer a James Bond a solução que ele parecia sugerir? Acaso encontraria Mary no lugar para onde vão as almas dos suicidas? Ou era melhor a Corte Marcial, a indignidade, as formalidades cacetes, as manchetes, o aborrecimento e a solidão de uma prisão perpétua, da qual só o livraria a terceira crise das coronárias? Poderia defender-se: era tempo de guerra, lutara com Oberhauser no alto da montanha, ele era um prisioneiro e tentara fugir... Oberhauser sabia do esconderijo do dinheiro... E ele, pobre oficial dos Comandos, tantas vezes arriscando a vida pela pátria, fora fraco e não resistira à tentação... Poderia entregar-se dramaticamente à misericórdia do Tribunal Militar... Um coronel certamente seria designado para defendê-lo e o faria com a maior eloquência. Poderia haver um apelo à Corte Suprema. Seu caso comoveria a Inglaterra e se tornaria uma cause célebre. Venderia sua história, com as reminiscências de guerra, aos grandes jornais... Mas...
Cuidado, meu velho! Cuidado! Seus pés agora tocavam o chão, sob as ondas que encrespavam a superfície da praia de North Shore. Por onde estariam os peixes-escorpiões? O polvinho querido estava faminto, esperando o seu almoço. Apurando a vista, perto do recife de coral, o Major Smythe viu as antenas de um lagostim, acenando inquisitivamente para ele. Normalmente, ele se esqueceria de tudo, para capturar o lagostim, que era, talvez, o maior que até então encontrara. Mas agora só tinha uma preocupação: a de descobrir a silhueta irregular e provocante do peixe-escorpião. Só depois de mais dez minutos de busca encontraria o primeiro. Os olhos vermelhos e zangados do peixe, muito abertos, o observavam. Para fisgá-lo, com o arpão, teria que fazer uma investida rápida, na vertical, firme e certeira. Sabia que as agulhas envenenadas se projetariam para fora da cabeça pontiaguda do monstro. Tinha que se mover lentamente, na direção do peixe, usando o braço livre para nadar. E... Agora! Avançou, para a frente e para baixo, mas o peixe-escorpião sentira a aproximação do arpão antes que este o tocasse. Uma lufada de areia se levantou do fundo do mar, atingido pelo golpe. E qualquer coisa roça em seu corpo, dando a impressão do voo de um pássaro. O major praguejou e fez meia volta, dentro da água. Sim, o peixe-escorpião fizera o que tantas vezes fazia: fora buscar refúgio entre as algas e as rochas, confiante em sua soberba camuflagem. O major voltou à carga, em novo mergulho, dessa vez ainda mais atento, e zás! O peixe-escorpião se agitava, agora, na ponta do arpão. A excitação foi tão grande que o Major Smythe vacilou e sentiu a antiga dor oprimir-lhe o peito. Pôs-se de pé, firmou o arpão contra a areia, atravessando inteiramente a presa, que ainda se agitava desesperadamente, e dirigiu-se à praia, indo sentar-se num banco de madeira, ao lado do qual atirou o peixe, fisgado, a se debater. Uns cinco minutos depois, o Major Smythe sentiu uma curiosa dormência na região do plexo solar. Olhou para baixo e estremeceu, de horror e incredulidade. Uma região de sua pele, com o tamanho aproximado de uma bola de críquete, tornara-se impressionantemente branca, a despeito do bronzeado de seu busto. No centro dessa área, havia três pequenas manchas sanguíneas. Automaticamente, o Major Smythe limpou o sangue. Os furos eram do tamanho de picadas de agulhas. Ele se lembrou, então, da fuga do peixe-escorpião, quando tentara arpoá-lo da primeira vez, e exclamou alto, com pavor, mas sem animosidade: — Tu me apanhaste, bastardo! Tu me apanhaste!
Imóvel, olhava para o próprio corpo, recordando-se do que lera sobre os ferrões do peixe-escorpião no livro que tomara emprestado à biblioteca do Instituto e nunca devolvera — Perigosos Animais Marinhos, publicação norte-americana. Tocou delicadamente a pele da área atingida. Sim, a pele se tinha tornado intumescida e de todo insensível, mas por baixo começava a sentir dor. Em breve essa dor profunda e intensa percorreria o seu corpo inteiro, tão lancinante que o seu único desejo seria o de deitar-se na areia, gritando e rolando, para abafá-la. Vomitaria e deitaria espuma pela boca, teria delírio e convulsões, até perder a consciência. Então, sobreviria, inevitável, o colapso cardíaco mortal. De acordo com o livro, o ciclo completo desses tormentos não passaria de um quarto de hora. Era tudo quanto lhe restava: quinze minutos de atroz agonia! Haveria cura, é claro — com procaínas, antibióticos e anti-histamínicos —, se seu coração debilitado suportasse tais medicamentos. Mas estes deviam estar à mão. Mesmo que conseguisse chegar em casa e admitindo que Jimmy Greaves dispusesse de todos esses remédios modernos, ele não poderia alcançar Wavelets antes de uma hora.
A primeira descarga de dor fez o corpo do Major Smythe dobrar-se sobre si mesmo. Depois outra e mais outra, irradiando-se através do estômago e dos membros. Sentia um gosto metálico na boca e uma coceira insuportável nos lábios. Deixou escapar um gemido e saltou do banco para a praia. Sobre a areia, ainda arquejava o peixe-escorpião. Houve uma trégua nos espasmos da dor. Seu corpo inteiro estava em fogo. Apesar da agonia o raciocínio permanecia claro. Mas, ora essa! Ia esquecendo a experiência! Devia ir à loca do polvo, para servir seu almoço! “Polvo, polvinho, vai ser a última refeição que eu te dou!”, dizia a si mesmo o Major Smythe, ajustando a máscara no rosto. Depois, apanhou o arpão, com o peixe espetado e, apertando o estômago com a mão livre, caminhou pela água adentro e, depois, mergulhou junto ao recife de coral. Poucas jardas o separavam agora do polvo. E foi gritando dentro da máscara, arrastando-se, quase de joelhos, que ele as percorreu. À medida que a água se tornava mais profunda, a dor se fazia mais intensa e seus movimentos pareciam com os de um fantoche, impulsionado por um feixe de cordéis. Só a poder de uma grande força de vontade pôde continuar rumo à morada do polvo. Sim, a sua massa escura ainda estava lá! E parecia excitadíssima. Por quê? O Major Smythe viu que as feridas de seu peito vertiam filetes de sangue escuro, que se diluía na água do mar. Era claro! O querido polvo sentira o gosto do seu sangue. Uma descarga de dor atingiu o major e o fez vergar-se. Disse a si mesmo, em delírio: “Que é isso, Dexter?! Firme, meu velho. Você tem que dar almoço ao polvinho”. Endireitou-se, empunhando o arpão com firmeza e aproximando o peixe da toca do polvo. Aceitaria ele a isca envenenada que o Major Smythe lhe oferecia e à qual talvez um octópode poderia ser imune? Ah, se Bengry estivesse presente, para observar! Três tentáculos, ondulando excitadamente, saíram da loca e passearam ao redor do peixe-escorpião. Agora, havia uma espécie de nevoeiro diante dos olhos do Major Smythe. Reconhecendo estar à beira da inconsciência, ele agitou fracamente a cabeça, para dissipá-lo. E, então, os tentáculos deram um salto! Mas não para o peixe: apertaram a mão e o braço que empunhavam o arpão. A boca do Major Smythe se torceu, numa careta de prazer. Agora, ele e o polvo podiam se apertar as mãos! Como era excitante! Que coisa maravilhosa! Mas o polvo, calma e implacavelmente, continuou a enroscar os seus tentáculos e a chamar a si o corpo do major. Só então Smythe compreendeu que algo de terrível ia acontecer. Fez um apelo a todas as suas forças e tentou golpear o octópode com o arpão. Mas tudo quanto conseguiu foi bater com o peixe-escorpião na massa escura do polvo. E, com o movimento que fez, ofereceu-se ainda mais a este, que o atraía de forma inexorável. Tarde demais o Major Smythe retirou sua máscara. Conseguindo alcançar a superfície, soltou um grito que reboou pela baía deserta, mas logo foi puxado para baixo. E, depois de algumas bolhas de ar, vieram à tona as pernas do major. As ondas lavavam o seu corpo, enquanto o polvo fazia a primeira tentativa para devorá-lo. O resto de Smythe foram encontrados por dois jovens da Jamaica, que pescavam peixes-agulhas numa canoa. Eles mataram o polvo, recolheram o arpão do Major Smythe com o peixe-escorpião e levaram os três despojos para a praia. O cadáver do major foi entregue à polícia e o peixe-escorpião aproveitado para a ceia. O destino do polvo de estimação seria também a panela ... O correspondente do Daily Gleaner em North Shore comunicou que o Major Smythe tinha sido morto por um polvo. Mas a redação do jornal, para não alarmar os turistas, preferiu dizer que ele “fora encontrado afogado”. Mais tarde, em Londres, James Bond, embora certo de que se tratara de um suicídio, anotou no dossier Oberhauser a versão do afogamento, com a respectiva data, na última página, o que encerrava o assunto. Somente pelas notas do Dr. Greaves sobre a autópsia, por ele mesmo realizada, é que foi possível escrever esta espécie de post-scriptum sobre o estranho e patético fim do outrora corajoso e útil oficial do Serviço Secreto.
Encontro em Berlim
(THE LIVING DAYLIGHTS)
James Bond estendia-se em posição na marca das quinhentas jardas da famosa linha de tiro Century Range, em Bisley. A pequena estaca branca na grama a seu lado dizia 44 e o mesmo número se repetia bem alto no talude distante acima do solitário alvo de seis pés quadrados que, ao olho humano e no crepúsculo do fim de verão, não parecia maior que um selo de correio. Mas a luneta de Bond, uma Sniperscope infravermelha fixada sobre o seu rifle, cobria todo o quadro. Ele podia até distinguir com clareza as cores azul-pálido e bege em que se dividia o alvo, e a mosca semicircular de seis polegadas parecia tão grande como a meia lua que já começava a se mostrar baixa no céu que escurecia acima da crista remota de Chobham Ridges.
O último tiro de James Bond fora um esquerdo interno — não o satisfizera. Deu uma outra olhada às bandeiras de vento amarelas e azuis. Tremulavam do leste através da linha de tiro mais intensamente do que quando tinha começado o seu tiro meia hora antes, e ele mudou o anemômetro dois pontos para a direita e assestou os dois fios cruzados da Sniperscope de volta ao foco de mira. Instalou-se então, colocou o indicador de leve dentro da guarda e sobre a curva do gatilho, prendeu a respiração e muito, muito suavemente apertou.
O estampido vicioso ecoou ao longo do campo vazio. O alvo desapareceu abaixo do solo e imediatamente o “boneco” tomou o seu lugar. Sim, a marca negra estava embaixo no canto direito desta vez, não no canto esquerdo: mosca.
— Bom — disse a voz do oficial chefe da linha, atrás e acima dele. — Fique com a mira.
O alvo já subira de novo e Bond recolocou a bochecha sobre o trecho quente da volumosa coronha de madeira e o olho na borracha que cerca a ocular da luneta. Enxugou a mão de atirar contra o lado das calças e pegou na coronha da pistola que sobressaía angulosamente da guarda do gatilho. Abriu de uma polegada o ângulo das pernas. Agora haveria cinco descargas rápidas. Era interessante ver se isso não provocaria “desgaste”. Ele achava que não. Esta arma extraordinária que o armeiro tinha descoberto sabe lá como dava à gente a sensação de que um homem de pé à distância de uma milha seria prato fácil. Era mais um rifle Experimental de Alvo Internacional, calibre 308, construído pela Winchester para ajudar os ases americanos do tiro em campeonatos mundiais, e tinha os dispositivos usuais das armas de alvo superacuradas — uma “mão” espiralada de alumínio nas costas da coronha que se estendia debaixo da axila e mantinha a arma com firmeza junto ao ombro, e uma pequena roda dentada ajustável abaixo do centro de gravidade do rifle para permitir que ele “se agarrasse” ao sulco do seu descanso de madeira. O armeiro tinha mandado trocar o ferrolho de tiro único usual por um depósito de cinco tiros, e tinha garantido a Bond que se ele deixasse apenas dois segundos entre cada tiro para estabilizar a arma não haveria desgaste, mesmo a quinhentas jardas. Para o serviço que devia fazer, Bond achava que dois segundos poderiam representar uma perda perigosa de tempo se errasse o seu primeiro tiro. De qualquer forma, M dissera que a distância não seria maior que trezentas jardas. Bond encurtaria o tempo para um segundo — fogo quase contínuo.
— Pronto?
— Sim.
— Vou à contagem regressiva de cinco. Agora! Cinco, quatro, três, dois, um. Fogo!
O chão tremeu ligeiramente e o ar silvou enquanto as cinco cápsulas velozes de cuproníquel varejavam o crepúsculo. O alvo baixou e rapidamente voltou a erguer-se condecorado com quatro pequenos discos brancos agrupados bem juntos na mosca. Não houve nenhum quinto disco — nem mesmo um negro para indicar um interno ou externo.
— A última descarga foi baixa — disse o chefe da linha baixando seus binóculos noturnos. — Obrigado pela contribuição. Limpamos a areia atrás daqueles alvos todo fim de ano.
Nunca recolhemos menos de quinze toneladas de estilhaços em legítimo chumbo e cobre. Um bom dinheiro.
Bond tinha-se levantado. O cabo Menzies da seção dos armeiros surgiu do pavilhão do Clube de Tiro e ajoelhou-se para desmontar a Winchester e o seu descanso. Olhou para cima encarando Bond. Disse com uma ponta de crítica. — O senhor tocou a coisa um pouco rápido. A última descarga tinha de escoicear.
— Eu sei, cabo. Só queria ver com que rapidez eu podia tocar. Não quero pôr a culpa na arma. É um trabalho enxuto, infernal. Por favor, diga isso por mim ao armeiro. Agora é melhor ir andando. Você tem condução de volta a Londres, não?
— Tenho, sim senhor. Boa noite.
O oficial chefe da Linha entregou a Bond uma ficha de seu tiro — dois tiros de ensaio e depois dez descargas para cada cem jardas até as quinhentas. — Pontaria danada de boa com esta visibilidade. Você devia voltar aqui o ano que vem e tentar o Prêmio da Rainha. Hoje em dia está aberto para todos — isto é, da Comunidade Britânica.
— Obrigado. O problema é que não passo tanto tempo assim na Inglaterra. E muito obrigado por ter feito a marcação para mim.
Bond olhou para a distante Torre do Relógio. De cada lado, a bandeira vermelha de perigo e o tambor vermelho de sinalização estavam sendo arriados para mostrar que o tiroteio tinha cessado. Os braços marcavam nove e quinze. — Gostaria de oferecer-lhe um drinque, mas tenho um encontro em Londres. Podemos adiá-lo até o Prêmio da Rainha de que você estava falando?
O chefe da Linha fez que sim com a cabeça, neutramente. Ele tinha aguardado ansioso a oportunidade de conhecer mais coisas sobre este homem que surgira assim sem mais nem menos depois de uma série de avisos do Ministério da Defesa e fora em frente acertando bem mais de noventa porcento em todas as distâncias, isso depois de fechada a linha para a noite e com visibilidade entre sofrível e má. E por que tinha ele, que só oficiava no encontro anual de julho, sido escalado para estar presente? E por que lhe tinham dito para providenciar uma mosca de seis polegadas a 500 jardas para Bond, em vez da regulamentar de quinze polegadas? E por que todos esses cuidados com a bandeira de perigo e o tambor de sinalização que só se usavam em ocasiões cerimoniais? Para pressionar o homem? Para dar um clima de urgência ao tiro? Bond. Comandante James Bond. A A.N.R. certamente teria a ficha de uma pessoa que atirava tão bem assim. Não se esqueceria de dar-lhes um telefonema. Que hora estranha para um compromisso em Londres. Provavelmente uma garota. O rosto do chefe da Linha assumiu uma expressão de desagrado. O tipo do sujeito que apanhava todas as garotas que queria.
Os dois homens caminharam através da bela fachada da sede do clube além da linha de tiro até o carro de Bond que estava estacionado diante de uma reprodução em ferro do famoso “Veado em Fuga” de Landseer toda picotada de balaços. — Uma beleza de carro — comentou o chefe da Linha. Nunca vi uma carroçaria assim num Continental. Mandou fazê-la especialmente?
— Mandei. Os Sports Saloons na verdade só têm dois lugares. E muito pouco espaço para bagagem. Por isso pedi a Mulliner’s que o transformassem num verdadeiro dois-lugares e com porta-malas de sobra. Um carro egoísta, não há dúvida. Bem, boa noite. E novamente muito obrigado.
O escape roncou com saúde e as rodas traseiras cuspiram cascalho por um instante.
O oficial chefe da Linha observou os faróis rubis desaparecerem na King’s Avenue a caminho da estrada de Londres. Girou nos calcanhares e foi procurar o cabo Menzies numa busca de informação que terminaria sem frutos. O cabo permaneceu tão fechado como a grande caixa de mogno que estava colocando num Land-Rover caqui, limpo de símbolos militares. O chefe da Linha era um major. Tentou apelar para a hierarquia, mas sem êxito. O Land-Rover afastou-se rodando no rastro de Bond. O major dirigiu-se soturno aos escritórios da Associação Nacional do Rifle para tentar achar a informação que queria na biblioteca sob o nome “Bond, J.”
O compromisso de James Bond não era com uma garota. Era com um voo da B.E.A. para Hanover e Berlim. Enquanto engolia as milhas que o separavam do Aeroporto de Londres, pisando firme o grande carro a fim de ter tempo de sobra para um drinque, três drinques, antes da decolagem, apenas uma parte de sua mente fixava-se na estrada. O restante reexaminava pela enésima vez a sequência que agora o conduzia a um encontro com um aeroplano. Mas apenas um encontro provisório. Seu compromisso final numa das três próximas noites em Berlim era com um homem. Tinha que se encontrar com esse homem e infalivelmente matá-lo com um tiro.
Quando, por volta de duas e meia daquela tarde, James Bond atravessara as portas duplamente acolchoadas e sentara-se em frente do perfil voltado, do outro lado da grande escrivaninha, sentira imediatamente o perigo no ar. Não houve troca de cumprimentos. A cabeça de M afundava-se no colarinho duro numa pose churchilliana de sombria reflexão, e havia um traço de amargura nos cantos dos lábios. Girou a cadeira para encarar Bond, passou-lhe um olhar examinador como se, pensou Bond, quisesse verificar se sua gravata estava direita e o cabelo adequadamente penteado, e então começou a falar, rapidamente, atalhando suas sentenças como se desejasse ver-se livre do que estava dizendo, e de Bond, o mais depressa possível.
— O número 272. É um bom homem. Você talvez não o conheça. Pela simples razão de que ficou naquele buraco da Novaya Zemlya desde a guerra. Agora está tentando sair — carregado de material. Atômico e foguetes. E o plano deles para toda uma nova série de testes. Para 1961. Querem avivar o fogo no Ocidente. Algo a ver com Berlim. Não vejo bem o quadro mas o Foreign Office diz que se for verdade é uma coisa tremenda. Ridiculariza a Conferência de Genebra e toda essa demagogia sobre desarmamento nuclear que o bloco comunista vem fazendo. Ele conseguiu chegar até a Berlim Oriental. Mas tem praticamente toda a KGB no seu encalço — e as forças de segurança da Alemanha Oriental, é claro. Está entocado num buraco qualquer da cidade e conseguiu passar-nos uma mensagem — de que atravessaria entre seis e sete da tarde numa das três próximas noites — amanhã, depois de amanhã ou no dia seguinte. Indicou o ponto de travessia. O problema — a curva dos lábios de M, voltada para baixo, tomou-se ainda mais amarga — é que o mensageiro que ele usou fazia jogo duplo. A estação W.B. pilhou-o ontem. Por acaso. Deu sorte com um dos códigos da KGB O mensageiro será mandado de avião para julgamento, naturalmente. Mas isso não ajudará em nada. A KGB sabe que o 272 vai tentar a travessia. Sabem quando. Sabem onde. Sabem tanto quanto sabemos e nada mais. Ora, o código que deciframos ontem era um esquema de um só dia em suas máquinas. Mas conseguimos todo o tráfico daquele dia e isso foi bastante bom. Planejam alvejá-lo ao tentar a travessia. No cruzamento de ruas entre a Berlim Leste e a Oeste que nos indicou na mensagem. Estão montando uma operação daquelas — operação “Êxtase” como a chamam. Puseram o seu melhor tocaia no serviço. Tudo o que soubemos dele ó que seu nome cifrado é a palavra russa para “Gatilho”. A estação W.B. acha que é o mesmo homem já usado em outros serviços de tocaia. Um serviço de longo alcance através da fronteira. Ficará de guarda toda noite nesse cruzamento e sua missão é acertar no 272. É óbvio que eles certamente prefeririam fazer um serviço mais suave com metralhadoras e coisas do gênero. Mas Berlim está calma no momento e parece que a ordem é ficar assim. De qualquer forma — M sacudiu os ombros — eles têm confiança nesse operador “Gatilho” e o negócio vai ser assim!
— E onde é que eu entro? — James Bond tinha adivinhado a resposta, adivinhado porque M mostrava seu desagrado com a coisa toda. Ia ser trabalho sujo e Bond, porque pertencia à Seção Zero-Zero, tinha sido escolhido para fazê-lo. Perversamente, Bond queria forçar M a pôr o preto no branco. Iam ser notícias más, notícias sujas e ele não queria ouvi-las de um dos oficiais da Seção, nem mesmo do chefe do Estado-Maior. O negócio ia ser assassínio. Está bem. Que M tenha então a coragem de me dizer.
— Onde é que você entra, 007? — M olhou friamente do outro lado da escrivaninha. — Você sabe onde é que você entra. Você tem que matar esse tocaia. E tem que matá-lo antes que acerte no 272. É tudo. Está claro? — Os olhos azuis-claros permaneceram frios como gelo. Mas Bond sabia que só ficavam assim com um esforço da vontade. M não gostava de mandar qualquer homem para um homicídio. Mas, quando isso tinha de ser feito, ele sempre assumia a sua severa e fria ação de comando. Bond sabia a razão. Era para tirar um pouco da pressão, um pouco da culpa, dos ombros do matador.
Portanto Bond, que sabia dessas coisas, decidiu agora tornar fácil e rápida a tarefa de M. Levantou-se. — Está certo, sir. Suponho que o chefe do Estado-Maior tenha tudo pronto. É melhor eu ir praticar um pouco. Não seria bom errar.
Caminhou para a porta.
M disse calmamente: — Sinto ter que lhe dar essa tarefa. Serviço desagradável. Mas tem que ser bem executado.
— Farei o melhor — James Bond saiu fechando a porta atrás de si. Não gostava do serviço mas no final preferia fazê-lo a assumir a responsabilidade de mandar alguém em seu lugar.
O chefe do Estado-Maior tinha sido apenas um pouco mais simpático. — Lamento esta sua aquisição, James — dissera ele. — Mas Tanqueray foi inflexível, não tinha ninguém suficientemente bom na estação e esse não é o tipo de serviço que se pode pedir a um soldado regular para fazer. Há uma porção de excelentes tiros na B.A.O.R., mas um alvo vivo requer outro tipo de coragem. De qualquer forma, liguei para Bisley e marquei um exercício para você esta noite às oito e quinze quando a linha estiver fechada. A visibilidade será mais ou menos a mesma que você terá em Berlim cerca de uma hora antes. O armeiro está com a arma — verdadeira obra de arte para alvejar, e vai mandá-la por um de seus homens. Você irá com a sua própria condução. Depois, há um voo de carreira para Berlim à meia-noite reservado em seu nome na B.E.A. Tome um táxi até esse endereço. — Entregou a Bond um pedaço de papel. — Suba ao quarto andar e encontrará o número 2 de Tanqueray à sua espera. Depois disso, sinto que você terá que esperar sentado pelos próximos três dias.
— E a arma? Esperam que atravesse a alfândega alemã com ela dentro de um saco de golfe ou coisa assim?
O chefe do Estado-Maior não tinha achado graça. — Seguirá pela mala diplomática. Você a receberá amanhã ao meio-dia. — Tinha estendido a mão até o bloco de avisos. — Bem, é melhor ir andando. Vou avisar a Tanqueray que está tudo combinado.
James Bond baixou o olhar para o rosto azul difuso do relógio no painel do carro. Dez e quinze. Com um pouco de sorte, amanhã a esta hora estaria tudo terminado. Afinal, era a vida deste homem “Gatilho” contra a vida do 272. Não era exatamente homicídio. Estava perto disso, no entanto. Apertou maldosamente sua buzina-de-serra tripla ao passar por um quatro portas comum, ingressou no cruzamento circular com uma derrapagem seca desnecessária, girou violentamente o volante fazendo a correção e apontou o nariz do Bentley em direção do brilho distante que era o Aeroporto de Londres.
O edifício feio de seis andares na esquina da Kochstrasse e da Wilhelmstrasse era o único de pé na desolação de um espaço vazio bombardeado. Bond pagou o táxi e gravou uma breve impressão de capim, alto como a cintura, e de paredes de entulho mal reparadas, estendendo-se na direção de um grande cruzamento deserto iluminado por um feixe central de lâmpadas amareladas em arco, antes de apertar o botão para o quarto andar e imediatamente ouviu o clique do dispositivo que abria a porta do prédio. A porta fechou-se atrás dele e caminhou então sobre o chão de cimento sem tapete até o antiquado elevador. O cheiro de repolho, cigarro barato e suor rançoso lembravam outros prédios de apartamentos na Alemanha e Europa Central. Até o arrastar e o guincho fraco do elevador vagaroso eram parte de centenas de missões em que tinha sido lançado por M, como um projétil, a algum alvo distante onde um problema aguardava a sua chegada, à espera de ser resolvido por ele. Pelo menos desta vez o comitê de recepção estava do seu lado. Desta vez não havia nada a temer no fim da escada.
O número 2 da Estação W.B. de Serviço Secreto era um homem esguio e tenso de quarenta e poucos anos. Vestia o uniforme de sua profissão — terno bem cortado e bem usado de tweed leve ponto pé-de-pato num tom verde-escuro, camisa de seda macia branca e uma velha gravata de colégio — neste caso de Wykeham. Ao ver a gravata, enquanto trocavam as saudações convencionais no pequeno saguão mofado do apartamento, o ânimo de Bond, já baixo, desceu mais um degrau. Conhecia esse tipo: espinha dorsal do Serviço Público; superestudioso e mal-amado em Winchester; um bom segundo em P.P.E. em Oxford; a guerra, cargos funcionais que teria ocupado meticulosamente; talvez uma Ordem do Império Britânico; Comissão do Controle Aliado na Alemanha, onde fora recrutado no Ramo I e a partir de então — porque era o funcionário ideal e A. 1 junto à Segurança e porque pensava em encontrar vida, drama, romance, todas as coisas que nunca linha tido — lá fora ele para o Serviço Secreto. Um homem sóbrio, cuidadoso se fizera necessário para bancar a dama de companhia de Bond neste negócio feio. O Capitão Paul Sender, que já servira na Guarda Galesa, tinha sido a escolha óbvia. E tinha aceitado. Agora, como bom Wykehamista, escondia o seu desagrado pelo serviço debaixo de uma conversa cuidadosa e banal enquanto mostrava a Bond a planta do apartamento e as providências tomadas para a prontidão do carrasco e, numa medida modesta, para o seu conforto.
O apartamento consistia de um amplo dormitório conjugado, um banheiro e uma cozinha equipada de enlatados, leite, manteiga, ovos, chá, bacon, pão e uma garrafa de Dimple Haig. O único detalhe estranho no quarto de dormir era que uma das camas duplas estava encostada em ângulo contra as cortinas que cobriam o amplo janelão único e sobre ela se empilhavam três colchões cobertos pela roupa de cama.
O Capitão Sender disse: — Gostaria de dar uma olhada ao campo de fogo? Poderei então explicar o que é que o lado de lá tem em mente.
Bond estava cansado. Não desejava especialmente ir dormir com a imagem do campo de batalha na memória. Disse: — Seria ótimo.
O Capitão Sender apagou as luzes. Faixas luminosas das lâmpadas no cruzamento apareceram em volta das cortinas. — Não quero puxar as cortinas — disse o Capitão Sender. — É pouco provável, mas eles podem ter sido alertados contra um grupo de cobertura para o 272. Queria que você apenas se deitasse na cama e enfiasse a cabeça por baixo das cortinas. Explicarei o que você estiver vendo. Olhe para a esquerda.
Era uma janela de guilhotina e a metade inferior estava aberta. Os colchões, especialmente escolhidos, só cediam um pouco e James Bond encontrou-se mais ou menos na posição de tiro que tinha adotado em Century Range, mas agora olhava através de terreno descontínuo, coberto de densa vegetação e bombardeado, na direção do rio de luz que era a Zimmerstrasse — a fronteira com a Berlim Oriental. Parecia a umas cento e cinquenta jardas de distância. A voz do Capitão Sender acima dele e por trás da cortina começou a recitar. Lembrava a Bond uma sessão espírita.
— Ali é terreno bombardeado à sua frente. Bastante cobertura. Umas cento e trinta jardas até a fronteira. Depois a fronteira — a rua — e então um trecho grande ainda de terreno bombardeado no campo do inimigo. É por isso que o 272 escolheu essa passagem. É um dos poucos locais na cidade em que o terreno é descontínuo — capinzais cerrados, muros em ruínas, porões — nos dois lados da fronteira. Ele deverá es-gueirar-se entre aquela confusão do outro lado e arremessar-se através da Zimmerstrasse até alcançar a confusão do nosso lado. O problema é que terá de correr trinta jardas de fronteira fortemente iluminada. Será o espaço da matança. Certo?
Bond disse: — Sim.
Disse-o com suavidade. O cheiro do inimigo, a necessidade de tomar cuidado, já estavam atuando sobre seus nervos.
— À sua esquerda, aquele novo e imenso bloco de dez andares é a Haus der Ministerien, o grande centro cerebral de Berlim-Leste. Você pode ver que as luzes ainda estão acesas na maioria das janelas. A maior parte delas ficará assim toda a noite. Esses sujeitos trabalham mesmo — seus turnos dão a volta no relógio. Você provavelmente não precisará preocupar-se com as janelas acesas. Esse fulano “Gatilho” certamente vai atirar de uma das janelas escuras. Você verá que existe um grupo de quatro, juntas, na quina acima do cruzamento. Ficaram escuras na noite passada e esta noite. Elas têm o melhor campo de fogo. Daqui, o seu alcance varia entre trezentas e trezentas e dez jardas. Estou com todos os números e dados quando você quiser. Não é preciso preocupar-se muito mais. Aquela rua fica vazia durante a noite — apenas as patrulhas motorizadas cerca de cada meia hora — carros blindados leves com uma dupla de motocicletas por escolta. Na noite passada, que suponho normal, entre seis e sete, que é a hora em que se fará este serviço, havia umas poucas pessoas entrando e saindo por aquela porta lateral. Uns funcionários. Antes disso nada fora do comum — o fluxo costumeiro de pessoas entrando e saindo de um edifício de governo movimentado — com exceção, veja só, de uma miserável orquestra completa de mulheres. Fizeram uma confusão infernal numa sala de concertos que tem ali. Parte do bloco aloja o Ministério da Cultura. Fora disso nada — certamente nenhuma das pessoas da KGB que conhecemos, nem sinais de preparação para um serviço deste gênero. Mas nem pode haver sinais. São muito cuidadosos estes sujeitos da oposição. De qualquer maneira, dê uma boa olhada. Não esqueça que agora está mais escuro do que amanhã por volta das seis. Mas você pode formar um quadro geral.
Bond formou o quadro geral e o quadro ficou com ele muito tempo enquanto o outro homem já dormia e ressonava suavemente com um pequeno som regular que lembrava um fraco estalido — um ronco Wykehamista, refletiu Bond irritado.
Sim, tinha formado o quadro — o quadro de um lampejo movimento entre as ruínas sombreadas no outro lado do brilhante rio de luz, uma pausa, e então a desesperada corrida em ziguezague de um homem sob o impacto luminoso das lâmpadas, o espocar da arma de fogo e, ou um fardo retorcido espalhado no meio da rua larga, ou então a investida sempre em frente através do capinzal e do entulho no Setor Ocidental — morte súbita ou volta a casa. O grande desafio! Quanto tempo teria Bond para localizar o tocaia russo numa daquelas janelas escuras? E para matá-lo? Cinco segundos? Dez? Quando o amanhecer começava a cobrir as cortinas com o tom metálico das armas, Bond capitulou para sua mente agitada. Ela tinha ganho. Foi em silêncio até o banheiro e inspecionou as fileiras de remédios que um prestimoso Serviço Secreto tinha providenciado para manter o seu carrasco em boa forma. Escolheu o Tuinal, engoliu duas das cápsulas concentradas, rubis e azuis, com um copo de água e voltou à cama. Então, chumbado, dormiu.
Acordou ao meio-dia. O apartamento estava vazio. Bond abriu as cortinas para deixar entrar o dia cinzento prussiano e, de pé a uma boa distância da janela, ficou vendo a monotonia de Berlim e ouvindo o ruído dos bondes e o arranhar distante dos trens da U-Bahn na grande curva de entrada da estação do Zoo. Lançou um olhar rápido e relutante ao que já tinha examinado na noite anterior, notou que o capim no entulho de bombardeio era mais ou menos o mesmo de Londres — loendro, labaçol e samambaia — e dirigiu-se então à cozinha. Havia uma nota apoiada numa fatia de pão: “Meu amigo (eufemismo do Serviço Secreto que neste contexto significava o chefe de Sender) diz que não há mal em você sair. Mas esteja de volta às 17 horas. Seu equipamento (outra palavra para o rifle de Bond) chegou e o bagageiro a entregará esta tarde. P. Sender.”
Bond acendeu o fogão a gás e queimou a mensagem com desprezo por sua profissão e em seguida preparou um prato enorme de ovos mexidos e bacon que amontoou sobre uma torrada coberta de manteiga e comeu com acompanhamento de café preto no qual derramara uma porção liberal de uísque. Depois tomou um banho e barbeou-se, vestiu as roupas descoloridas, centro-europeias e anônimas que tinha trazido para a sua missão, olhou a sua cama em desordem, decidiu que tudo fosse para o inferno e desceu pelo elevador deixando o edifício.
James Bond sempre achara Berlim uma cidade deprimente e hostil, esmaltada no lado Ocidental com o verniz superficial de um polimento pretensioso parecido com os enfeites cromados dos carros americanos. Caminhou até a Kurfurstendamm, sentou-se no Café Marquardt, tomou um expresso e ficou observando com tédio as filas obedientes de pedestres esperando o sinal “Siga” nos postes de trânsito enquanto a corrente luminosa de carros continuava a sua perigosa quadrilha na movimentada intersecção. Fazia frio lá fora e o vento cortante das estepes russas fustigava as saias das garotas e os impermeáveis dos homens impacientes e apressados, cada um com a infalível pasta enfiada debaixo do braço. Os aquecedores de parede infravermelhos do café apontavam o vermelho para baixo e davam um brilho espúrio ao rosto dos cafeinômanos que degustavam sua tradicional “uma xícara de café e dez copos de água”, lendo de graça os jornais e revistas presos por paus, ou se curvavam com seriedade sobre papéis de negócios. Bond, fechando o pensamento para a noite, discutia consigo mesmo as maneiras de passar a tarde. Finalmente chegou à escolha entre uma visita àquela casa de respeitável fachada de pedra, na Clausewitzstrasse, conhecida de todos os porteiros e choferes de táxi, ou um passeio ao Wannsee e uma vigorosa caminhada no Grunewald. A virtude triunfou. Bond pagou o café, saiu no frio e tomou um táxi até a estação do Zoo.
As belas arvorezinhas jovens em volta do lago extenso já tinham sido tocadas pelo sopro do outono e havia um dourado aqui e ali no meio do verde. Bond caminhou com energia durante duas horas pelas veredas cobertas de folhas e então escolheu um restaurante com terraço envidraçado sobre o lago e saboreou com prazer um chá reforçado consistindo de uma porção dupla de arenques do Norte mergulhados em creme e anéis de cebola, e dois Molle mit Korn, o equivalente berlinense de um “fabricante de caldeiras e seu assistente” — schnapps, duplos, acompanhados por um chope Löwenbräu. Sentindo-se então mais animado tomou a S-Bahn para voltar à cidade.
Em frente do prédio de apartamentos, um jovem indefinível estava mexendo no motor de um Opel Kapitan negro. O jovem não tirou a cabeça debaixo do capo quando Bond passou bem perto dele e subiu até a porta e apertou o botão.
CONTINUA
Quando chegou embaixo, sentou-se no musgo, sob os abetos. Estendeu no chão a camisa, colocou no centro dela as barras de ouro e fez uma trouxa, amarrando bem as fraldas e as mangas. Depois, cavou um buraco no chão e enterrou a caixa metálica vazia. E vergando ao peso, quase dobrado em dois, caminhou pela estreita trilha, entre os pinheiros, rumo ao jipe. Até aquele dia não conseguira saber como tivera forças para alcançar o veículo. Os nós que dera na trouxa pareciam penetrar nas carnes de seu ombro, sob o peso das barras de ouro. Quando, finalmente, alcançou o jipe, quase teve um colapso, tão exausto estava. Mas não podia descansar, ainda. Precisava sair dali para enterrar o seu tesouro na floresta, perto de um grupo de grandes rochas, onde lhe seria fácil encontrá-lo de novo, na ocasião oportuna em dia, quando o horizonte estivesse limpo, voltaria, por outra rota, evitando o chalé de Oberhauser. Só então, terminado tudo, fora embebedar-se com uma garrafa de schnapps barato. Jantou e meteu-se na cama, para dormir como uma pedra. No dia seguinte, a Força A da DAG seguiu para o vale do Mittersill. Seis meses depois o Major Smythe estava em Londres. A sua guerra havia terminado. Mas os seus problemas, não. Ouro era coisa difícil de contrabandear, principalmente em grande quantidade. E era essencial que o Major Smythe transferisse as suas barras para um novo esconderijo. Por isso, ele procurou evitar a desmobilização e gozar os privilégios de seu comissionamento temporário, sobretudo o seu passe do Serviço Secreto Militar. Conseguiu ser mandado de volta para a Alemanha, como representante da Inglaterra no Centro Misto de Investigação de Munique. Aí, trabalhou durante seis meses e, nesse período, teve a oportunidade de recuperar o ouro, que levou para o seu alojamento numa velha valise. Depois, em dois fins de semana, fez viagens aéreas para Londres, levando, de cada vez, uma barra de ouro, em sua volumosa pasta. A caminhada nos aeroportos de Munique e de Londres, com a pasta sob o braço, como se contivesse apenas papéis, exigira dois tabletes de benzedrina e uma vontade de ferro. Finalmente, pôde esconder sua fortuna no porão da casa de uma tia, em Kensington, e assim, com tranquilidade, pôde desenvolver a parte final de seus planos. Pediu reforma nos Fuzileiros Reais e, uma vez desmobilizado, casou-se com uma das muitas moças com quem tivera aventuras durante o serviço da DAG, uma graciosa Wren chamada Maria Parnell. Comprou passagem para ambos num cargueiro para a Jamaica, que representava, para ambos, um paraíso ensolarado, com boa e farta comida, bebida barata, sem a melancolia e as restrições impostas na Inglaterra, após a guerra, pelo severo governo trabalhista. Antes do embarque, o Major Smythe mostrou a Mary as barras de ouro, das quais já havia raspado a cinzel os símbolos do Reichsbank.
— Tenho sido muito econômico e esperto, meu bem — disse ele. — Não confio na libra. Por isso, vendi todas as minhas ações e comprei um bocado de ouro. Teremos pelo menos 20 mil libras, se eu o vender bem. Isso basta para nos assegurar uma boa vida, até o fim dos nossos dias. Sempre que for preciso, eu venderei um pouquinho — explicou.
Mary Parnell não era familiarizada com as leis monetárias. Mas se ajoelhou e passou as mãos, carinhosamente, sobre as barras de ouro. Depois, com os braços ao redor do pescoço do marido, beijou-o e disse, quase em lágrimas: — Você é um homem maravilhoso... Sim, maravilhoso! Terrivelmente inteligente, bonito, simpático, herói da guerra e, além do mais, rico! Eu sou a garota mais feliz do mundo!
— Você tem razão pelo menos numa coisa: ricos, nós somos. Mas prometa não dizer uma só palavra a quem quer que seja! Pois, se disser, todos os ladrões da Jamaica irão rondar a nossa casa.. .
O Prince’s Club, ao pé das colinas que dominam os arredores de Kensington, era realmente esplêndido. Para os seus sócios, não havia nada melhor: maravilhosa criadagem, comida farta, bebida barata, belíssimos cenários tropicais, como nunca tinham visto antes. O casal era muito popular e os serviços de guerra do Major Smythe lhe davam ingresso na alta sociedade local e na Government House. A vida de ambos era uma série interminável de festas, misturadas com o tênis de Mary e o golfe do major (com os bastões metálicos de Henry Cotton!) durante o dia, e partidas de bridge (para ela) e de pôquer (para ele) durante as noites. Sim, era um paraíso, porque, na Inglaterra, havia racionamento, filas e mercado negro, um governo atroz e o pior inverno dos últimos trinta anos. A princípio, o casal enfrentou as despesas com as economias em dinheiro, que ambos haviam reunido, enquanto se vestiam, se alimentavam e se transportavam à custa do Exército. Só depois de um ano de cautelosas investigações é que o Major Smythe se decidiu a fazer negócio com os irmãos Fu, comerciantes importadores e exportadores. Altamente respeitados e muito ricos, os irmãos Fu eram conhecidos como uma espécie de junta governativa da comunidade chinesa da Jamaica. Ainda que alguns dos seus negócios se desviassem das boas normas, segundo a tradição chinesa, Smythe achou que poderia confiar neles. A Convenção de Bretton Woods, fixando um preço internacional para o ouro, sob rigoroso controle, tinha sido assinada deixando de parte Tânger e Macau, dois portos livres, em que a onça de ouro valia entre 99 e 100 dólares, quando nos outros lugares o preço oficial era de 35. E, para maior conveniência de seus negócios, os Fu tinham aberto um restaurante em Hong-Kong, transformado em entreposto para o contrabando de ouro para a vizinha Macau. Isso, na linguagem do Major Smythe, era sopa no mel. Ele tivera um agradável encontro com os Fu. Nenhuma pergunta estes fizeram, senão depois do exame das barras de ouro.
— Major — disse o mais velho dos irmãos —, no mercado de ouro em barras, as marcas dos bancos nacionais e dos negociantes respeitáveis são aceitos sem discussão. Essas marcas são a garantia da pureza do ouro. Mas outros bancos e outros vendedores têm seus próprios processos de refinação, que talvez, não sejam tão perfeitos...
— Quer dizer que eu fui enganado? — Perguntou, ansiosamente, o major. — Que isso não é senão uma barra de chumbo coberta de uma leve camada de ouro?
Os dois irmãos deram muxoxos tranquilizadores:
— Não, não, major... Não se trata disso. Mas, se uma pessoa não se recorda da proveniência dessas barras de ouro, por mais finas que elas sejam é sempre necessário submetê-las a um ensaio, para verificação do seu exato teor... Há muitos métodos para determinar o grau de pureza dessas barras. Meu irmão e eu somos competentes em qualquer deles. Quer deixar as barras de ouro conosco e vir saber o resultado depois do almoço? Nós lhe daremos um recibo...
Não havia alternativa. Teria que confiar nos Fu. Qualquer que fosse o preço por eles arbitrado, seria forçado a aceitar. Estava nas mãos deles. Foi a um bar, onde tomou dois drinques fortes e comeu um sanduíche que lhe ficou atravessado na garganta. Depois, voltou ao escritório refrigerado dos Fu. O cenário era o mesmo: os dois irmãos sorridentes, as duas barras de ouro, a pasta de couro, etc. Só havia a mais uma folha de papel e uma caneta-tinteiro de pena de ouro, em frente do irmão mais velho.
— Resolvemos o problema do seu ouro, major! — (Esplêndido! Obrigado, pensou Smythe.) — E estou certo de que o senhor terá interesse em conhecer sua origem...
— Claro! Qual é? — Fez o major, com uma corajosa demonstração de entusiasmo.
— São barras de ouro alemãs! Provavelmente saíram dos depósitos do Reichsbank, durante a guerra. Isso pode ser deduzido do fato de que contêm dez porcento de chumbo. Durante o regime de Hitler, o Reichsbank fez a tolice de adulterar por esse modo o seu ouro. Isso logo se espalhou e o preço das barras de ouro alemãs, vendidas na Suíça, sofreu logo uma redução de preço, correspondente à adulteração. Foi uma bobagem, que só teve um resultado: o banco nacional da Alemanha perdeu a reputação que conquistara durante séculos... Bobagem... Uma grandíssima bobagem... — Concluiu o chinês, com o seu invariável sorriso.
O Major Smythe estava maravilhado com a onisciência desses dois homens, tão afastados dos grandes canais de comércio do mundo. Mas ao mesmo tempo os amaldiçoava, intimamente. E agora?
— É muito interessante, Sr. Fu... Mas isso não é uma boa notícia para mim. Essas barras de ouro me foram entregues como coisa cem por cento...
— Não tem importância, major — disse o mais velho dos Fu. — Ou melhor, quase não tem importância. Venderemos o seu ouro pelo justo valor, ou seja, 89 dólares a onça. Terá que ser, ou não, refinado pelo último comprador. Mas isso não é da nossa conta. Nós o venderemos também como cem por cento...
— Mas a um preço mais baixo...
— Realmente, major. Mas creio que temos uma boa notícia para o senhor. Quanto calculava obter com essas duas barras?
— Cerca de 20 mil libras...
— Se as vendermos bem e aos pouquinhos — disse o mais velho dos Fu —, o senhor receberá mais de 100 mil dólares, major, sujeitos, é claro, ao desconto da nossa comissão, que inclui o transporte e outras despesas.
— E a quanto montará isso?
— Estou pensando em fixar em 10 por cento, major. Se lhe parecer satisfatório...
O Major Smythe tinha a impressão de que vendedores de ouro em barras recebiam apenas um por cento de comissão. Mas, que diabo, antes do almoço já estava disposto a largar tudo até por 10 mil libras. Disse “fechado” e levantou-se, estendendo a mão através da mesa. Desde então, de quatro em quatro meses, ia visitar o escritório dos Fu, levando uma valise vazia. Havia sempre quinhentas libras novas, da emissão da Jamaica, em pacotes, sobre a mesa, à sua espera, e um recibo da quantidade vendida, com o preço alcançado em Macau. As barras de ouro diminuíam de tamanho, de polegada em polegada. O negócio era simples e cordial. Duas mil libras limpas, por ano, eram o bastante para ele, e só o afligia a possibilidade de que o pessoal do imposto de renda começasse a apertá-lo, para saber do que estava vivendo. Ele disse isso aos Fu, que lhe fizeram saber que não precisava se preocupar. Nas duas vezes seguintes, havia apenas quatrocentas libras na mesa, mas nenhum comentário foi feito, por qualquer dos lados. E assim os dias iam se passando, preguiçosamente. Os Smythes engordavam e o major teve a primeira das duas complicações das coronárias. O médico lhe recomendou uma vida menos ativa, com menos álcool e menos cigarros. Evitasse, também, as gorduras e as comidas fritas. A princípio, Mary tentou ser severa com ele, mas quando o marido começou a beber escondido e a inventar pequenas mentiras e evasivas, ela recuou desse propósito. Teve medo de se transformar numa chata doméstica, a quem o Major Smythe passaria a evitar. Por isso, deu-lhe inteira liberdade, sabendo que ele não mais a amava, e quando a sua solidão se tornou demasiada e as insônias intoleráveis, viciou-se em tomar soníferos. Uma noite, depois de uma violenta briga, estando ambos embriagados, tomou ela uma dose excessiva, só “para dar-lhe uma lição”. A dose era tão exagerada que a matou. O suicídio foi dissimulado, mas ainda assim recaíram suspeitas sobre o major, em prejuízo de sua reputação social. E a tal ponto que ele teve de se retirar para North Shore que, embora a apenas três milhas de Kensington, parece pertencer a um outro mundo. Aí ele se instalou em Wavelets e, depois da segunda complicação das coronárias, começou a beber desenfreadamente. Foi então que entrou em cena James Bond com um mandado de prisão ou de morte no bolso.
O Major Smythe olhou para o relógio. Passavam alguns minutos do meio-dia. Ele se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale e foi para o jardim. James Bond estava sentado sob a frondosa amendoeira, olhando para o lar. Nem se voltou para o Major Smythe quando este puxou outra cadeira de alumínio e colocou o copo na relva, perto dele. Quando o Major Smythe acabou de narrar a sua história, James Bond disse, sem demonstrar qualquer emoção: — Era mais ou menos isso o que eu havia pensado...
— Quer que eu escreva tudo ou apenas assine?
— Faça como quiser. Mas isso não se entende comigo. Deve entregar à Corte Marcial. Seu velho Corpo de Fuzileiros Reais é que vai tomar conta do caso. Não tenho nada que ver com os aspectos legais. Farei apenas um relatório do que me disse, para a Procuradoria da Justiça, através da Scotland Yard...
— Posso perguntar uma coisa? Como foi que descobriu?
— A geleira era pequena. O corpo de Oberhauser chegou embaixo no início deste ano, quando as neves da primavera derreteram. Alguns alpinistas o encontraram. Todos os seus papéis e tudo o mais estava perfeito. A família o identificou. Depois, foi só uma questão de recuar no tempo. O calibre das balas deu logo a pista...
— Mas como se envolveu neste assunto?
— A Força da DAG era uma das minhas responsabilidades, um dos meus serviços. Quando o assunto chegou ao meu conhecimento, fui dar uma busca nos arquivos. Como tinha tempo livre, pedi que me entregassem a missão de descobrir o autor da morte de Oberhauser...
— Por quê?
— Porque — e James Bond fixou os olhos do Major Smythe — acontece que Oberhauser era um velho amigo meu. Foi quem me ensinou a esquiar quando eu tinha pouco mais de dez anos. Era um esplêndido sujeito. Foi uma espécie de pai para mim, precisamente na época em que eu mais precisava de um...
— Compreendo. — E o Major Smythe desviou o olhar. — Sinto muito...
James Bond se levantou:
— Bem, preciso voltar a Kensington. — E levantou a mão, para deter o major. — Não, não precisa incomodar-se. Sei onde o carro ficou... — Olhou para o homem mais velho e disse, rispidamente, quase com brutalidade: — Dentro de uma semana, alguém virá buscá-lo...
E caminhou, em passos firmes, sem se voltar, pela alameda afora. O major ouviu o ruído do arranque do motor e o chiado dos pneus do táxi nas pedrinhas miúdas da estrada.
Agora, ele procurava a sua presa, ao longo do recife de coral, pensando exatamente no sentido das palavras de James Bond. E sorriu por trás da máscara Pirelli. Era uma versão nova de um velho dramalhão, que consistia em deixar uma pistola com o oficial culpado, para que este mesmo estourasse os miolos. Se James Bond quisesse, poderia ter telefonado para a Government House e pedido um oficial de igual patente do Regimento da Jamaica para levar preso o Major Smythe. De certo modo, o seu gesto fora decente. Ou não fora? Um suicídio era mais limpo, economizava uma porção de trabalho e de papéis, que consumiriam o dinheiro dos contribuintes. Devia agradecer a James Bond a solução que ele parecia sugerir? Acaso encontraria Mary no lugar para onde vão as almas dos suicidas? Ou era melhor a Corte Marcial, a indignidade, as formalidades cacetes, as manchetes, o aborrecimento e a solidão de uma prisão perpétua, da qual só o livraria a terceira crise das coronárias? Poderia defender-se: era tempo de guerra, lutara com Oberhauser no alto da montanha, ele era um prisioneiro e tentara fugir... Oberhauser sabia do esconderijo do dinheiro... E ele, pobre oficial dos Comandos, tantas vezes arriscando a vida pela pátria, fora fraco e não resistira à tentação... Poderia entregar-se dramaticamente à misericórdia do Tribunal Militar... Um coronel certamente seria designado para defendê-lo e o faria com a maior eloquência. Poderia haver um apelo à Corte Suprema. Seu caso comoveria a Inglaterra e se tornaria uma cause célebre. Venderia sua história, com as reminiscências de guerra, aos grandes jornais... Mas...
Cuidado, meu velho! Cuidado! Seus pés agora tocavam o chão, sob as ondas que encrespavam a superfície da praia de North Shore. Por onde estariam os peixes-escorpiões? O polvinho querido estava faminto, esperando o seu almoço. Apurando a vista, perto do recife de coral, o Major Smythe viu as antenas de um lagostim, acenando inquisitivamente para ele. Normalmente, ele se esqueceria de tudo, para capturar o lagostim, que era, talvez, o maior que até então encontrara. Mas agora só tinha uma preocupação: a de descobrir a silhueta irregular e provocante do peixe-escorpião. Só depois de mais dez minutos de busca encontraria o primeiro. Os olhos vermelhos e zangados do peixe, muito abertos, o observavam. Para fisgá-lo, com o arpão, teria que fazer uma investida rápida, na vertical, firme e certeira. Sabia que as agulhas envenenadas se projetariam para fora da cabeça pontiaguda do monstro. Tinha que se mover lentamente, na direção do peixe, usando o braço livre para nadar. E... Agora! Avançou, para a frente e para baixo, mas o peixe-escorpião sentira a aproximação do arpão antes que este o tocasse. Uma lufada de areia se levantou do fundo do mar, atingido pelo golpe. E qualquer coisa roça em seu corpo, dando a impressão do voo de um pássaro. O major praguejou e fez meia volta, dentro da água. Sim, o peixe-escorpião fizera o que tantas vezes fazia: fora buscar refúgio entre as algas e as rochas, confiante em sua soberba camuflagem. O major voltou à carga, em novo mergulho, dessa vez ainda mais atento, e zás! O peixe-escorpião se agitava, agora, na ponta do arpão. A excitação foi tão grande que o Major Smythe vacilou e sentiu a antiga dor oprimir-lhe o peito. Pôs-se de pé, firmou o arpão contra a areia, atravessando inteiramente a presa, que ainda se agitava desesperadamente, e dirigiu-se à praia, indo sentar-se num banco de madeira, ao lado do qual atirou o peixe, fisgado, a se debater. Uns cinco minutos depois, o Major Smythe sentiu uma curiosa dormência na região do plexo solar. Olhou para baixo e estremeceu, de horror e incredulidade. Uma região de sua pele, com o tamanho aproximado de uma bola de críquete, tornara-se impressionantemente branca, a despeito do bronzeado de seu busto. No centro dessa área, havia três pequenas manchas sanguíneas. Automaticamente, o Major Smythe limpou o sangue. Os furos eram do tamanho de picadas de agulhas. Ele se lembrou, então, da fuga do peixe-escorpião, quando tentara arpoá-lo da primeira vez, e exclamou alto, com pavor, mas sem animosidade: — Tu me apanhaste, bastardo! Tu me apanhaste!
Imóvel, olhava para o próprio corpo, recordando-se do que lera sobre os ferrões do peixe-escorpião no livro que tomara emprestado à biblioteca do Instituto e nunca devolvera — Perigosos Animais Marinhos, publicação norte-americana. Tocou delicadamente a pele da área atingida. Sim, a pele se tinha tornado intumescida e de todo insensível, mas por baixo começava a sentir dor. Em breve essa dor profunda e intensa percorreria o seu corpo inteiro, tão lancinante que o seu único desejo seria o de deitar-se na areia, gritando e rolando, para abafá-la. Vomitaria e deitaria espuma pela boca, teria delírio e convulsões, até perder a consciência. Então, sobreviria, inevitável, o colapso cardíaco mortal. De acordo com o livro, o ciclo completo desses tormentos não passaria de um quarto de hora. Era tudo quanto lhe restava: quinze minutos de atroz agonia! Haveria cura, é claro — com procaínas, antibióticos e anti-histamínicos —, se seu coração debilitado suportasse tais medicamentos. Mas estes deviam estar à mão. Mesmo que conseguisse chegar em casa e admitindo que Jimmy Greaves dispusesse de todos esses remédios modernos, ele não poderia alcançar Wavelets antes de uma hora.
A primeira descarga de dor fez o corpo do Major Smythe dobrar-se sobre si mesmo. Depois outra e mais outra, irradiando-se através do estômago e dos membros. Sentia um gosto metálico na boca e uma coceira insuportável nos lábios. Deixou escapar um gemido e saltou do banco para a praia. Sobre a areia, ainda arquejava o peixe-escorpião. Houve uma trégua nos espasmos da dor. Seu corpo inteiro estava em fogo. Apesar da agonia o raciocínio permanecia claro. Mas, ora essa! Ia esquecendo a experiência! Devia ir à loca do polvo, para servir seu almoço! “Polvo, polvinho, vai ser a última refeição que eu te dou!”, dizia a si mesmo o Major Smythe, ajustando a máscara no rosto. Depois, apanhou o arpão, com o peixe espetado e, apertando o estômago com a mão livre, caminhou pela água adentro e, depois, mergulhou junto ao recife de coral. Poucas jardas o separavam agora do polvo. E foi gritando dentro da máscara, arrastando-se, quase de joelhos, que ele as percorreu. À medida que a água se tornava mais profunda, a dor se fazia mais intensa e seus movimentos pareciam com os de um fantoche, impulsionado por um feixe de cordéis. Só a poder de uma grande força de vontade pôde continuar rumo à morada do polvo. Sim, a sua massa escura ainda estava lá! E parecia excitadíssima. Por quê? O Major Smythe viu que as feridas de seu peito vertiam filetes de sangue escuro, que se diluía na água do mar. Era claro! O querido polvo sentira o gosto do seu sangue. Uma descarga de dor atingiu o major e o fez vergar-se. Disse a si mesmo, em delírio: “Que é isso, Dexter?! Firme, meu velho. Você tem que dar almoço ao polvinho”. Endireitou-se, empunhando o arpão com firmeza e aproximando o peixe da toca do polvo. Aceitaria ele a isca envenenada que o Major Smythe lhe oferecia e à qual talvez um octópode poderia ser imune? Ah, se Bengry estivesse presente, para observar! Três tentáculos, ondulando excitadamente, saíram da loca e passearam ao redor do peixe-escorpião. Agora, havia uma espécie de nevoeiro diante dos olhos do Major Smythe. Reconhecendo estar à beira da inconsciência, ele agitou fracamente a cabeça, para dissipá-lo. E, então, os tentáculos deram um salto! Mas não para o peixe: apertaram a mão e o braço que empunhavam o arpão. A boca do Major Smythe se torceu, numa careta de prazer. Agora, ele e o polvo podiam se apertar as mãos! Como era excitante! Que coisa maravilhosa! Mas o polvo, calma e implacavelmente, continuou a enroscar os seus tentáculos e a chamar a si o corpo do major. Só então Smythe compreendeu que algo de terrível ia acontecer. Fez um apelo a todas as suas forças e tentou golpear o octópode com o arpão. Mas tudo quanto conseguiu foi bater com o peixe-escorpião na massa escura do polvo. E, com o movimento que fez, ofereceu-se ainda mais a este, que o atraía de forma inexorável. Tarde demais o Major Smythe retirou sua máscara. Conseguindo alcançar a superfície, soltou um grito que reboou pela baía deserta, mas logo foi puxado para baixo. E, depois de algumas bolhas de ar, vieram à tona as pernas do major. As ondas lavavam o seu corpo, enquanto o polvo fazia a primeira tentativa para devorá-lo. O resto de Smythe foram encontrados por dois jovens da Jamaica, que pescavam peixes-agulhas numa canoa. Eles mataram o polvo, recolheram o arpão do Major Smythe com o peixe-escorpião e levaram os três despojos para a praia. O cadáver do major foi entregue à polícia e o peixe-escorpião aproveitado para a ceia. O destino do polvo de estimação seria também a panela ... O correspondente do Daily Gleaner em North Shore comunicou que o Major Smythe tinha sido morto por um polvo. Mas a redação do jornal, para não alarmar os turistas, preferiu dizer que ele “fora encontrado afogado”. Mais tarde, em Londres, James Bond, embora certo de que se tratara de um suicídio, anotou no dossier Oberhauser a versão do afogamento, com a respectiva data, na última página, o que encerrava o assunto. Somente pelas notas do Dr. Greaves sobre a autópsia, por ele mesmo realizada, é que foi possível escrever esta espécie de post-scriptum sobre o estranho e patético fim do outrora corajoso e útil oficial do Serviço Secreto.
Encontro em Berlim
(THE LIVING DAYLIGHTS)
James Bond estendia-se em posição na marca das quinhentas jardas da famosa linha de tiro Century Range, em Bisley. A pequena estaca branca na grama a seu lado dizia 44 e o mesmo número se repetia bem alto no talude distante acima do solitário alvo de seis pés quadrados que, ao olho humano e no crepúsculo do fim de verão, não parecia maior que um selo de correio. Mas a luneta de Bond, uma Sniperscope infravermelha fixada sobre o seu rifle, cobria todo o quadro. Ele podia até distinguir com clareza as cores azul-pálido e bege em que se dividia o alvo, e a mosca semicircular de seis polegadas parecia tão grande como a meia lua que já começava a se mostrar baixa no céu que escurecia acima da crista remota de Chobham Ridges.
O último tiro de James Bond fora um esquerdo interno — não o satisfizera. Deu uma outra olhada às bandeiras de vento amarelas e azuis. Tremulavam do leste através da linha de tiro mais intensamente do que quando tinha começado o seu tiro meia hora antes, e ele mudou o anemômetro dois pontos para a direita e assestou os dois fios cruzados da Sniperscope de volta ao foco de mira. Instalou-se então, colocou o indicador de leve dentro da guarda e sobre a curva do gatilho, prendeu a respiração e muito, muito suavemente apertou.
O estampido vicioso ecoou ao longo do campo vazio. O alvo desapareceu abaixo do solo e imediatamente o “boneco” tomou o seu lugar. Sim, a marca negra estava embaixo no canto direito desta vez, não no canto esquerdo: mosca.
— Bom — disse a voz do oficial chefe da linha, atrás e acima dele. — Fique com a mira.
O alvo já subira de novo e Bond recolocou a bochecha sobre o trecho quente da volumosa coronha de madeira e o olho na borracha que cerca a ocular da luneta. Enxugou a mão de atirar contra o lado das calças e pegou na coronha da pistola que sobressaía angulosamente da guarda do gatilho. Abriu de uma polegada o ângulo das pernas. Agora haveria cinco descargas rápidas. Era interessante ver se isso não provocaria “desgaste”. Ele achava que não. Esta arma extraordinária que o armeiro tinha descoberto sabe lá como dava à gente a sensação de que um homem de pé à distância de uma milha seria prato fácil. Era mais um rifle Experimental de Alvo Internacional, calibre 308, construído pela Winchester para ajudar os ases americanos do tiro em campeonatos mundiais, e tinha os dispositivos usuais das armas de alvo superacuradas — uma “mão” espiralada de alumínio nas costas da coronha que se estendia debaixo da axila e mantinha a arma com firmeza junto ao ombro, e uma pequena roda dentada ajustável abaixo do centro de gravidade do rifle para permitir que ele “se agarrasse” ao sulco do seu descanso de madeira. O armeiro tinha mandado trocar o ferrolho de tiro único usual por um depósito de cinco tiros, e tinha garantido a Bond que se ele deixasse apenas dois segundos entre cada tiro para estabilizar a arma não haveria desgaste, mesmo a quinhentas jardas. Para o serviço que devia fazer, Bond achava que dois segundos poderiam representar uma perda perigosa de tempo se errasse o seu primeiro tiro. De qualquer forma, M dissera que a distância não seria maior que trezentas jardas. Bond encurtaria o tempo para um segundo — fogo quase contínuo.
— Pronto?
— Sim.
— Vou à contagem regressiva de cinco. Agora! Cinco, quatro, três, dois, um. Fogo!
O chão tremeu ligeiramente e o ar silvou enquanto as cinco cápsulas velozes de cuproníquel varejavam o crepúsculo. O alvo baixou e rapidamente voltou a erguer-se condecorado com quatro pequenos discos brancos agrupados bem juntos na mosca. Não houve nenhum quinto disco — nem mesmo um negro para indicar um interno ou externo.
— A última descarga foi baixa — disse o chefe da linha baixando seus binóculos noturnos. — Obrigado pela contribuição. Limpamos a areia atrás daqueles alvos todo fim de ano.
Nunca recolhemos menos de quinze toneladas de estilhaços em legítimo chumbo e cobre. Um bom dinheiro.
Bond tinha-se levantado. O cabo Menzies da seção dos armeiros surgiu do pavilhão do Clube de Tiro e ajoelhou-se para desmontar a Winchester e o seu descanso. Olhou para cima encarando Bond. Disse com uma ponta de crítica. — O senhor tocou a coisa um pouco rápido. A última descarga tinha de escoicear.
— Eu sei, cabo. Só queria ver com que rapidez eu podia tocar. Não quero pôr a culpa na arma. É um trabalho enxuto, infernal. Por favor, diga isso por mim ao armeiro. Agora é melhor ir andando. Você tem condução de volta a Londres, não?
— Tenho, sim senhor. Boa noite.
O oficial chefe da Linha entregou a Bond uma ficha de seu tiro — dois tiros de ensaio e depois dez descargas para cada cem jardas até as quinhentas. — Pontaria danada de boa com esta visibilidade. Você devia voltar aqui o ano que vem e tentar o Prêmio da Rainha. Hoje em dia está aberto para todos — isto é, da Comunidade Britânica.
— Obrigado. O problema é que não passo tanto tempo assim na Inglaterra. E muito obrigado por ter feito a marcação para mim.
Bond olhou para a distante Torre do Relógio. De cada lado, a bandeira vermelha de perigo e o tambor vermelho de sinalização estavam sendo arriados para mostrar que o tiroteio tinha cessado. Os braços marcavam nove e quinze. — Gostaria de oferecer-lhe um drinque, mas tenho um encontro em Londres. Podemos adiá-lo até o Prêmio da Rainha de que você estava falando?
O chefe da Linha fez que sim com a cabeça, neutramente. Ele tinha aguardado ansioso a oportunidade de conhecer mais coisas sobre este homem que surgira assim sem mais nem menos depois de uma série de avisos do Ministério da Defesa e fora em frente acertando bem mais de noventa porcento em todas as distâncias, isso depois de fechada a linha para a noite e com visibilidade entre sofrível e má. E por que tinha ele, que só oficiava no encontro anual de julho, sido escalado para estar presente? E por que lhe tinham dito para providenciar uma mosca de seis polegadas a 500 jardas para Bond, em vez da regulamentar de quinze polegadas? E por que todos esses cuidados com a bandeira de perigo e o tambor de sinalização que só se usavam em ocasiões cerimoniais? Para pressionar o homem? Para dar um clima de urgência ao tiro? Bond. Comandante James Bond. A A.N.R. certamente teria a ficha de uma pessoa que atirava tão bem assim. Não se esqueceria de dar-lhes um telefonema. Que hora estranha para um compromisso em Londres. Provavelmente uma garota. O rosto do chefe da Linha assumiu uma expressão de desagrado. O tipo do sujeito que apanhava todas as garotas que queria.
Os dois homens caminharam através da bela fachada da sede do clube além da linha de tiro até o carro de Bond que estava estacionado diante de uma reprodução em ferro do famoso “Veado em Fuga” de Landseer toda picotada de balaços. — Uma beleza de carro — comentou o chefe da Linha. Nunca vi uma carroçaria assim num Continental. Mandou fazê-la especialmente?
— Mandei. Os Sports Saloons na verdade só têm dois lugares. E muito pouco espaço para bagagem. Por isso pedi a Mulliner’s que o transformassem num verdadeiro dois-lugares e com porta-malas de sobra. Um carro egoísta, não há dúvida. Bem, boa noite. E novamente muito obrigado.
O escape roncou com saúde e as rodas traseiras cuspiram cascalho por um instante.
O oficial chefe da Linha observou os faróis rubis desaparecerem na King’s Avenue a caminho da estrada de Londres. Girou nos calcanhares e foi procurar o cabo Menzies numa busca de informação que terminaria sem frutos. O cabo permaneceu tão fechado como a grande caixa de mogno que estava colocando num Land-Rover caqui, limpo de símbolos militares. O chefe da Linha era um major. Tentou apelar para a hierarquia, mas sem êxito. O Land-Rover afastou-se rodando no rastro de Bond. O major dirigiu-se soturno aos escritórios da Associação Nacional do Rifle para tentar achar a informação que queria na biblioteca sob o nome “Bond, J.”
O compromisso de James Bond não era com uma garota. Era com um voo da B.E.A. para Hanover e Berlim. Enquanto engolia as milhas que o separavam do Aeroporto de Londres, pisando firme o grande carro a fim de ter tempo de sobra para um drinque, três drinques, antes da decolagem, apenas uma parte de sua mente fixava-se na estrada. O restante reexaminava pela enésima vez a sequência que agora o conduzia a um encontro com um aeroplano. Mas apenas um encontro provisório. Seu compromisso final numa das três próximas noites em Berlim era com um homem. Tinha que se encontrar com esse homem e infalivelmente matá-lo com um tiro.
Quando, por volta de duas e meia daquela tarde, James Bond atravessara as portas duplamente acolchoadas e sentara-se em frente do perfil voltado, do outro lado da grande escrivaninha, sentira imediatamente o perigo no ar. Não houve troca de cumprimentos. A cabeça de M afundava-se no colarinho duro numa pose churchilliana de sombria reflexão, e havia um traço de amargura nos cantos dos lábios. Girou a cadeira para encarar Bond, passou-lhe um olhar examinador como se, pensou Bond, quisesse verificar se sua gravata estava direita e o cabelo adequadamente penteado, e então começou a falar, rapidamente, atalhando suas sentenças como se desejasse ver-se livre do que estava dizendo, e de Bond, o mais depressa possível.
— O número 272. É um bom homem. Você talvez não o conheça. Pela simples razão de que ficou naquele buraco da Novaya Zemlya desde a guerra. Agora está tentando sair — carregado de material. Atômico e foguetes. E o plano deles para toda uma nova série de testes. Para 1961. Querem avivar o fogo no Ocidente. Algo a ver com Berlim. Não vejo bem o quadro mas o Foreign Office diz que se for verdade é uma coisa tremenda. Ridiculariza a Conferência de Genebra e toda essa demagogia sobre desarmamento nuclear que o bloco comunista vem fazendo. Ele conseguiu chegar até a Berlim Oriental. Mas tem praticamente toda a KGB no seu encalço — e as forças de segurança da Alemanha Oriental, é claro. Está entocado num buraco qualquer da cidade e conseguiu passar-nos uma mensagem — de que atravessaria entre seis e sete da tarde numa das três próximas noites — amanhã, depois de amanhã ou no dia seguinte. Indicou o ponto de travessia. O problema — a curva dos lábios de M, voltada para baixo, tomou-se ainda mais amarga — é que o mensageiro que ele usou fazia jogo duplo. A estação W.B. pilhou-o ontem. Por acaso. Deu sorte com um dos códigos da KGB O mensageiro será mandado de avião para julgamento, naturalmente. Mas isso não ajudará em nada. A KGB sabe que o 272 vai tentar a travessia. Sabem quando. Sabem onde. Sabem tanto quanto sabemos e nada mais. Ora, o código que deciframos ontem era um esquema de um só dia em suas máquinas. Mas conseguimos todo o tráfico daquele dia e isso foi bastante bom. Planejam alvejá-lo ao tentar a travessia. No cruzamento de ruas entre a Berlim Leste e a Oeste que nos indicou na mensagem. Estão montando uma operação daquelas — operação “Êxtase” como a chamam. Puseram o seu melhor tocaia no serviço. Tudo o que soubemos dele ó que seu nome cifrado é a palavra russa para “Gatilho”. A estação W.B. acha que é o mesmo homem já usado em outros serviços de tocaia. Um serviço de longo alcance através da fronteira. Ficará de guarda toda noite nesse cruzamento e sua missão é acertar no 272. É óbvio que eles certamente prefeririam fazer um serviço mais suave com metralhadoras e coisas do gênero. Mas Berlim está calma no momento e parece que a ordem é ficar assim. De qualquer forma — M sacudiu os ombros — eles têm confiança nesse operador “Gatilho” e o negócio vai ser assim!
— E onde é que eu entro? — James Bond tinha adivinhado a resposta, adivinhado porque M mostrava seu desagrado com a coisa toda. Ia ser trabalho sujo e Bond, porque pertencia à Seção Zero-Zero, tinha sido escolhido para fazê-lo. Perversamente, Bond queria forçar M a pôr o preto no branco. Iam ser notícias más, notícias sujas e ele não queria ouvi-las de um dos oficiais da Seção, nem mesmo do chefe do Estado-Maior. O negócio ia ser assassínio. Está bem. Que M tenha então a coragem de me dizer.
— Onde é que você entra, 007? — M olhou friamente do outro lado da escrivaninha. — Você sabe onde é que você entra. Você tem que matar esse tocaia. E tem que matá-lo antes que acerte no 272. É tudo. Está claro? — Os olhos azuis-claros permaneceram frios como gelo. Mas Bond sabia que só ficavam assim com um esforço da vontade. M não gostava de mandar qualquer homem para um homicídio. Mas, quando isso tinha de ser feito, ele sempre assumia a sua severa e fria ação de comando. Bond sabia a razão. Era para tirar um pouco da pressão, um pouco da culpa, dos ombros do matador.
Portanto Bond, que sabia dessas coisas, decidiu agora tornar fácil e rápida a tarefa de M. Levantou-se. — Está certo, sir. Suponho que o chefe do Estado-Maior tenha tudo pronto. É melhor eu ir praticar um pouco. Não seria bom errar.
Caminhou para a porta.
M disse calmamente: — Sinto ter que lhe dar essa tarefa. Serviço desagradável. Mas tem que ser bem executado.
— Farei o melhor — James Bond saiu fechando a porta atrás de si. Não gostava do serviço mas no final preferia fazê-lo a assumir a responsabilidade de mandar alguém em seu lugar.
O chefe do Estado-Maior tinha sido apenas um pouco mais simpático. — Lamento esta sua aquisição, James — dissera ele. — Mas Tanqueray foi inflexível, não tinha ninguém suficientemente bom na estação e esse não é o tipo de serviço que se pode pedir a um soldado regular para fazer. Há uma porção de excelentes tiros na B.A.O.R., mas um alvo vivo requer outro tipo de coragem. De qualquer forma, liguei para Bisley e marquei um exercício para você esta noite às oito e quinze quando a linha estiver fechada. A visibilidade será mais ou menos a mesma que você terá em Berlim cerca de uma hora antes. O armeiro está com a arma — verdadeira obra de arte para alvejar, e vai mandá-la por um de seus homens. Você irá com a sua própria condução. Depois, há um voo de carreira para Berlim à meia-noite reservado em seu nome na B.E.A. Tome um táxi até esse endereço. — Entregou a Bond um pedaço de papel. — Suba ao quarto andar e encontrará o número 2 de Tanqueray à sua espera. Depois disso, sinto que você terá que esperar sentado pelos próximos três dias.
— E a arma? Esperam que atravesse a alfândega alemã com ela dentro de um saco de golfe ou coisa assim?
O chefe do Estado-Maior não tinha achado graça. — Seguirá pela mala diplomática. Você a receberá amanhã ao meio-dia. — Tinha estendido a mão até o bloco de avisos. — Bem, é melhor ir andando. Vou avisar a Tanqueray que está tudo combinado.
James Bond baixou o olhar para o rosto azul difuso do relógio no painel do carro. Dez e quinze. Com um pouco de sorte, amanhã a esta hora estaria tudo terminado. Afinal, era a vida deste homem “Gatilho” contra a vida do 272. Não era exatamente homicídio. Estava perto disso, no entanto. Apertou maldosamente sua buzina-de-serra tripla ao passar por um quatro portas comum, ingressou no cruzamento circular com uma derrapagem seca desnecessária, girou violentamente o volante fazendo a correção e apontou o nariz do Bentley em direção do brilho distante que era o Aeroporto de Londres.
O edifício feio de seis andares na esquina da Kochstrasse e da Wilhelmstrasse era o único de pé na desolação de um espaço vazio bombardeado. Bond pagou o táxi e gravou uma breve impressão de capim, alto como a cintura, e de paredes de entulho mal reparadas, estendendo-se na direção de um grande cruzamento deserto iluminado por um feixe central de lâmpadas amareladas em arco, antes de apertar o botão para o quarto andar e imediatamente ouviu o clique do dispositivo que abria a porta do prédio. A porta fechou-se atrás dele e caminhou então sobre o chão de cimento sem tapete até o antiquado elevador. O cheiro de repolho, cigarro barato e suor rançoso lembravam outros prédios de apartamentos na Alemanha e Europa Central. Até o arrastar e o guincho fraco do elevador vagaroso eram parte de centenas de missões em que tinha sido lançado por M, como um projétil, a algum alvo distante onde um problema aguardava a sua chegada, à espera de ser resolvido por ele. Pelo menos desta vez o comitê de recepção estava do seu lado. Desta vez não havia nada a temer no fim da escada.
O número 2 da Estação W.B. de Serviço Secreto era um homem esguio e tenso de quarenta e poucos anos. Vestia o uniforme de sua profissão — terno bem cortado e bem usado de tweed leve ponto pé-de-pato num tom verde-escuro, camisa de seda macia branca e uma velha gravata de colégio — neste caso de Wykeham. Ao ver a gravata, enquanto trocavam as saudações convencionais no pequeno saguão mofado do apartamento, o ânimo de Bond, já baixo, desceu mais um degrau. Conhecia esse tipo: espinha dorsal do Serviço Público; superestudioso e mal-amado em Winchester; um bom segundo em P.P.E. em Oxford; a guerra, cargos funcionais que teria ocupado meticulosamente; talvez uma Ordem do Império Britânico; Comissão do Controle Aliado na Alemanha, onde fora recrutado no Ramo I e a partir de então — porque era o funcionário ideal e A. 1 junto à Segurança e porque pensava em encontrar vida, drama, romance, todas as coisas que nunca linha tido — lá fora ele para o Serviço Secreto. Um homem sóbrio, cuidadoso se fizera necessário para bancar a dama de companhia de Bond neste negócio feio. O Capitão Paul Sender, que já servira na Guarda Galesa, tinha sido a escolha óbvia. E tinha aceitado. Agora, como bom Wykehamista, escondia o seu desagrado pelo serviço debaixo de uma conversa cuidadosa e banal enquanto mostrava a Bond a planta do apartamento e as providências tomadas para a prontidão do carrasco e, numa medida modesta, para o seu conforto.
O apartamento consistia de um amplo dormitório conjugado, um banheiro e uma cozinha equipada de enlatados, leite, manteiga, ovos, chá, bacon, pão e uma garrafa de Dimple Haig. O único detalhe estranho no quarto de dormir era que uma das camas duplas estava encostada em ângulo contra as cortinas que cobriam o amplo janelão único e sobre ela se empilhavam três colchões cobertos pela roupa de cama.
O Capitão Sender disse: — Gostaria de dar uma olhada ao campo de fogo? Poderei então explicar o que é que o lado de lá tem em mente.
Bond estava cansado. Não desejava especialmente ir dormir com a imagem do campo de batalha na memória. Disse: — Seria ótimo.
O Capitão Sender apagou as luzes. Faixas luminosas das lâmpadas no cruzamento apareceram em volta das cortinas. — Não quero puxar as cortinas — disse o Capitão Sender. — É pouco provável, mas eles podem ter sido alertados contra um grupo de cobertura para o 272. Queria que você apenas se deitasse na cama e enfiasse a cabeça por baixo das cortinas. Explicarei o que você estiver vendo. Olhe para a esquerda.
Era uma janela de guilhotina e a metade inferior estava aberta. Os colchões, especialmente escolhidos, só cediam um pouco e James Bond encontrou-se mais ou menos na posição de tiro que tinha adotado em Century Range, mas agora olhava através de terreno descontínuo, coberto de densa vegetação e bombardeado, na direção do rio de luz que era a Zimmerstrasse — a fronteira com a Berlim Oriental. Parecia a umas cento e cinquenta jardas de distância. A voz do Capitão Sender acima dele e por trás da cortina começou a recitar. Lembrava a Bond uma sessão espírita.
— Ali é terreno bombardeado à sua frente. Bastante cobertura. Umas cento e trinta jardas até a fronteira. Depois a fronteira — a rua — e então um trecho grande ainda de terreno bombardeado no campo do inimigo. É por isso que o 272 escolheu essa passagem. É um dos poucos locais na cidade em que o terreno é descontínuo — capinzais cerrados, muros em ruínas, porões — nos dois lados da fronteira. Ele deverá es-gueirar-se entre aquela confusão do outro lado e arremessar-se através da Zimmerstrasse até alcançar a confusão do nosso lado. O problema é que terá de correr trinta jardas de fronteira fortemente iluminada. Será o espaço da matança. Certo?
Bond disse: — Sim.
Disse-o com suavidade. O cheiro do inimigo, a necessidade de tomar cuidado, já estavam atuando sobre seus nervos.
— À sua esquerda, aquele novo e imenso bloco de dez andares é a Haus der Ministerien, o grande centro cerebral de Berlim-Leste. Você pode ver que as luzes ainda estão acesas na maioria das janelas. A maior parte delas ficará assim toda a noite. Esses sujeitos trabalham mesmo — seus turnos dão a volta no relógio. Você provavelmente não precisará preocupar-se com as janelas acesas. Esse fulano “Gatilho” certamente vai atirar de uma das janelas escuras. Você verá que existe um grupo de quatro, juntas, na quina acima do cruzamento. Ficaram escuras na noite passada e esta noite. Elas têm o melhor campo de fogo. Daqui, o seu alcance varia entre trezentas e trezentas e dez jardas. Estou com todos os números e dados quando você quiser. Não é preciso preocupar-se muito mais. Aquela rua fica vazia durante a noite — apenas as patrulhas motorizadas cerca de cada meia hora — carros blindados leves com uma dupla de motocicletas por escolta. Na noite passada, que suponho normal, entre seis e sete, que é a hora em que se fará este serviço, havia umas poucas pessoas entrando e saindo por aquela porta lateral. Uns funcionários. Antes disso nada fora do comum — o fluxo costumeiro de pessoas entrando e saindo de um edifício de governo movimentado — com exceção, veja só, de uma miserável orquestra completa de mulheres. Fizeram uma confusão infernal numa sala de concertos que tem ali. Parte do bloco aloja o Ministério da Cultura. Fora disso nada — certamente nenhuma das pessoas da KGB que conhecemos, nem sinais de preparação para um serviço deste gênero. Mas nem pode haver sinais. São muito cuidadosos estes sujeitos da oposição. De qualquer maneira, dê uma boa olhada. Não esqueça que agora está mais escuro do que amanhã por volta das seis. Mas você pode formar um quadro geral.
Bond formou o quadro geral e o quadro ficou com ele muito tempo enquanto o outro homem já dormia e ressonava suavemente com um pequeno som regular que lembrava um fraco estalido — um ronco Wykehamista, refletiu Bond irritado.
Sim, tinha formado o quadro — o quadro de um lampejo movimento entre as ruínas sombreadas no outro lado do brilhante rio de luz, uma pausa, e então a desesperada corrida em ziguezague de um homem sob o impacto luminoso das lâmpadas, o espocar da arma de fogo e, ou um fardo retorcido espalhado no meio da rua larga, ou então a investida sempre em frente através do capinzal e do entulho no Setor Ocidental — morte súbita ou volta a casa. O grande desafio! Quanto tempo teria Bond para localizar o tocaia russo numa daquelas janelas escuras? E para matá-lo? Cinco segundos? Dez? Quando o amanhecer começava a cobrir as cortinas com o tom metálico das armas, Bond capitulou para sua mente agitada. Ela tinha ganho. Foi em silêncio até o banheiro e inspecionou as fileiras de remédios que um prestimoso Serviço Secreto tinha providenciado para manter o seu carrasco em boa forma. Escolheu o Tuinal, engoliu duas das cápsulas concentradas, rubis e azuis, com um copo de água e voltou à cama. Então, chumbado, dormiu.
Acordou ao meio-dia. O apartamento estava vazio. Bond abriu as cortinas para deixar entrar o dia cinzento prussiano e, de pé a uma boa distância da janela, ficou vendo a monotonia de Berlim e ouvindo o ruído dos bondes e o arranhar distante dos trens da U-Bahn na grande curva de entrada da estação do Zoo. Lançou um olhar rápido e relutante ao que já tinha examinado na noite anterior, notou que o capim no entulho de bombardeio era mais ou menos o mesmo de Londres — loendro, labaçol e samambaia — e dirigiu-se então à cozinha. Havia uma nota apoiada numa fatia de pão: “Meu amigo (eufemismo do Serviço Secreto que neste contexto significava o chefe de Sender) diz que não há mal em você sair. Mas esteja de volta às 17 horas. Seu equipamento (outra palavra para o rifle de Bond) chegou e o bagageiro a entregará esta tarde. P. Sender.”
Bond acendeu o fogão a gás e queimou a mensagem com desprezo por sua profissão e em seguida preparou um prato enorme de ovos mexidos e bacon que amontoou sobre uma torrada coberta de manteiga e comeu com acompanhamento de café preto no qual derramara uma porção liberal de uísque. Depois tomou um banho e barbeou-se, vestiu as roupas descoloridas, centro-europeias e anônimas que tinha trazido para a sua missão, olhou a sua cama em desordem, decidiu que tudo fosse para o inferno e desceu pelo elevador deixando o edifício.
James Bond sempre achara Berlim uma cidade deprimente e hostil, esmaltada no lado Ocidental com o verniz superficial de um polimento pretensioso parecido com os enfeites cromados dos carros americanos. Caminhou até a Kurfurstendamm, sentou-se no Café Marquardt, tomou um expresso e ficou observando com tédio as filas obedientes de pedestres esperando o sinal “Siga” nos postes de trânsito enquanto a corrente luminosa de carros continuava a sua perigosa quadrilha na movimentada intersecção. Fazia frio lá fora e o vento cortante das estepes russas fustigava as saias das garotas e os impermeáveis dos homens impacientes e apressados, cada um com a infalível pasta enfiada debaixo do braço. Os aquecedores de parede infravermelhos do café apontavam o vermelho para baixo e davam um brilho espúrio ao rosto dos cafeinômanos que degustavam sua tradicional “uma xícara de café e dez copos de água”, lendo de graça os jornais e revistas presos por paus, ou se curvavam com seriedade sobre papéis de negócios. Bond, fechando o pensamento para a noite, discutia consigo mesmo as maneiras de passar a tarde. Finalmente chegou à escolha entre uma visita àquela casa de respeitável fachada de pedra, na Clausewitzstrasse, conhecida de todos os porteiros e choferes de táxi, ou um passeio ao Wannsee e uma vigorosa caminhada no Grunewald. A virtude triunfou. Bond pagou o café, saiu no frio e tomou um táxi até a estação do Zoo.
As belas arvorezinhas jovens em volta do lago extenso já tinham sido tocadas pelo sopro do outono e havia um dourado aqui e ali no meio do verde. Bond caminhou com energia durante duas horas pelas veredas cobertas de folhas e então escolheu um restaurante com terraço envidraçado sobre o lago e saboreou com prazer um chá reforçado consistindo de uma porção dupla de arenques do Norte mergulhados em creme e anéis de cebola, e dois Molle mit Korn, o equivalente berlinense de um “fabricante de caldeiras e seu assistente” — schnapps, duplos, acompanhados por um chope Löwenbräu. Sentindo-se então mais animado tomou a S-Bahn para voltar à cidade.
Em frente do prédio de apartamentos, um jovem indefinível estava mexendo no motor de um Opel Kapitan negro. O jovem não tirou a cabeça debaixo do capo quando Bond passou bem perto dele e subiu até a porta e apertou o botão.
CONTINUA
Quando chegou embaixo, sentou-se no musgo, sob os abetos. Estendeu no chão a camisa, colocou no centro dela as barras de ouro e fez uma trouxa, amarrando bem as fraldas e as mangas. Depois, cavou um buraco no chão e enterrou a caixa metálica vazia. E vergando ao peso, quase dobrado em dois, caminhou pela estreita trilha, entre os pinheiros, rumo ao jipe. Até aquele dia não conseguira saber como tivera forças para alcançar o veículo. Os nós que dera na trouxa pareciam penetrar nas carnes de seu ombro, sob o peso das barras de ouro. Quando, finalmente, alcançou o jipe, quase teve um colapso, tão exausto estava. Mas não podia descansar, ainda. Precisava sair dali para enterrar o seu tesouro na floresta, perto de um grupo de grandes rochas, onde lhe seria fácil encontrá-lo de novo, na ocasião oportuna em dia, quando o horizonte estivesse limpo, voltaria, por outra rota, evitando o chalé de Oberhauser. Só então, terminado tudo, fora embebedar-se com uma garrafa de schnapps barato. Jantou e meteu-se na cama, para dormir como uma pedra. No dia seguinte, a Força A da DAG seguiu para o vale do Mittersill. Seis meses depois o Major Smythe estava em Londres. A sua guerra havia terminado. Mas os seus problemas, não. Ouro era coisa difícil de contrabandear, principalmente em grande quantidade. E era essencial que o Major Smythe transferisse as suas barras para um novo esconderijo. Por isso, ele procurou evitar a desmobilização e gozar os privilégios de seu comissionamento temporário, sobretudo o seu passe do Serviço Secreto Militar. Conseguiu ser mandado de volta para a Alemanha, como representante da Inglaterra no Centro Misto de Investigação de Munique. Aí, trabalhou durante seis meses e, nesse período, teve a oportunidade de recuperar o ouro, que levou para o seu alojamento numa velha valise. Depois, em dois fins de semana, fez viagens aéreas para Londres, levando, de cada vez, uma barra de ouro, em sua volumosa pasta. A caminhada nos aeroportos de Munique e de Londres, com a pasta sob o braço, como se contivesse apenas papéis, exigira dois tabletes de benzedrina e uma vontade de ferro. Finalmente, pôde esconder sua fortuna no porão da casa de uma tia, em Kensington, e assim, com tranquilidade, pôde desenvolver a parte final de seus planos. Pediu reforma nos Fuzileiros Reais e, uma vez desmobilizado, casou-se com uma das muitas moças com quem tivera aventuras durante o serviço da DAG, uma graciosa Wren chamada Maria Parnell. Comprou passagem para ambos num cargueiro para a Jamaica, que representava, para ambos, um paraíso ensolarado, com boa e farta comida, bebida barata, sem a melancolia e as restrições impostas na Inglaterra, após a guerra, pelo severo governo trabalhista. Antes do embarque, o Major Smythe mostrou a Mary as barras de ouro, das quais já havia raspado a cinzel os símbolos do Reichsbank.
— Tenho sido muito econômico e esperto, meu bem — disse ele. — Não confio na libra. Por isso, vendi todas as minhas ações e comprei um bocado de ouro. Teremos pelo menos 20 mil libras, se eu o vender bem. Isso basta para nos assegurar uma boa vida, até o fim dos nossos dias. Sempre que for preciso, eu venderei um pouquinho — explicou.
Mary Parnell não era familiarizada com as leis monetárias. Mas se ajoelhou e passou as mãos, carinhosamente, sobre as barras de ouro. Depois, com os braços ao redor do pescoço do marido, beijou-o e disse, quase em lágrimas: — Você é um homem maravilhoso... Sim, maravilhoso! Terrivelmente inteligente, bonito, simpático, herói da guerra e, além do mais, rico! Eu sou a garota mais feliz do mundo!
— Você tem razão pelo menos numa coisa: ricos, nós somos. Mas prometa não dizer uma só palavra a quem quer que seja! Pois, se disser, todos os ladrões da Jamaica irão rondar a nossa casa.. .
O Prince’s Club, ao pé das colinas que dominam os arredores de Kensington, era realmente esplêndido. Para os seus sócios, não havia nada melhor: maravilhosa criadagem, comida farta, bebida barata, belíssimos cenários tropicais, como nunca tinham visto antes. O casal era muito popular e os serviços de guerra do Major Smythe lhe davam ingresso na alta sociedade local e na Government House. A vida de ambos era uma série interminável de festas, misturadas com o tênis de Mary e o golfe do major (com os bastões metálicos de Henry Cotton!) durante o dia, e partidas de bridge (para ela) e de pôquer (para ele) durante as noites. Sim, era um paraíso, porque, na Inglaterra, havia racionamento, filas e mercado negro, um governo atroz e o pior inverno dos últimos trinta anos. A princípio, o casal enfrentou as despesas com as economias em dinheiro, que ambos haviam reunido, enquanto se vestiam, se alimentavam e se transportavam à custa do Exército. Só depois de um ano de cautelosas investigações é que o Major Smythe se decidiu a fazer negócio com os irmãos Fu, comerciantes importadores e exportadores. Altamente respeitados e muito ricos, os irmãos Fu eram conhecidos como uma espécie de junta governativa da comunidade chinesa da Jamaica. Ainda que alguns dos seus negócios se desviassem das boas normas, segundo a tradição chinesa, Smythe achou que poderia confiar neles. A Convenção de Bretton Woods, fixando um preço internacional para o ouro, sob rigoroso controle, tinha sido assinada deixando de parte Tânger e Macau, dois portos livres, em que a onça de ouro valia entre 99 e 100 dólares, quando nos outros lugares o preço oficial era de 35. E, para maior conveniência de seus negócios, os Fu tinham aberto um restaurante em Hong-Kong, transformado em entreposto para o contrabando de ouro para a vizinha Macau. Isso, na linguagem do Major Smythe, era sopa no mel. Ele tivera um agradável encontro com os Fu. Nenhuma pergunta estes fizeram, senão depois do exame das barras de ouro.
— Major — disse o mais velho dos irmãos —, no mercado de ouro em barras, as marcas dos bancos nacionais e dos negociantes respeitáveis são aceitos sem discussão. Essas marcas são a garantia da pureza do ouro. Mas outros bancos e outros vendedores têm seus próprios processos de refinação, que talvez, não sejam tão perfeitos...
— Quer dizer que eu fui enganado? — Perguntou, ansiosamente, o major. — Que isso não é senão uma barra de chumbo coberta de uma leve camada de ouro?
Os dois irmãos deram muxoxos tranquilizadores:
— Não, não, major... Não se trata disso. Mas, se uma pessoa não se recorda da proveniência dessas barras de ouro, por mais finas que elas sejam é sempre necessário submetê-las a um ensaio, para verificação do seu exato teor... Há muitos métodos para determinar o grau de pureza dessas barras. Meu irmão e eu somos competentes em qualquer deles. Quer deixar as barras de ouro conosco e vir saber o resultado depois do almoço? Nós lhe daremos um recibo...
Não havia alternativa. Teria que confiar nos Fu. Qualquer que fosse o preço por eles arbitrado, seria forçado a aceitar. Estava nas mãos deles. Foi a um bar, onde tomou dois drinques fortes e comeu um sanduíche que lhe ficou atravessado na garganta. Depois, voltou ao escritório refrigerado dos Fu. O cenário era o mesmo: os dois irmãos sorridentes, as duas barras de ouro, a pasta de couro, etc. Só havia a mais uma folha de papel e uma caneta-tinteiro de pena de ouro, em frente do irmão mais velho.
— Resolvemos o problema do seu ouro, major! — (Esplêndido! Obrigado, pensou Smythe.) — E estou certo de que o senhor terá interesse em conhecer sua origem...
— Claro! Qual é? — Fez o major, com uma corajosa demonstração de entusiasmo.
— São barras de ouro alemãs! Provavelmente saíram dos depósitos do Reichsbank, durante a guerra. Isso pode ser deduzido do fato de que contêm dez porcento de chumbo. Durante o regime de Hitler, o Reichsbank fez a tolice de adulterar por esse modo o seu ouro. Isso logo se espalhou e o preço das barras de ouro alemãs, vendidas na Suíça, sofreu logo uma redução de preço, correspondente à adulteração. Foi uma bobagem, que só teve um resultado: o banco nacional da Alemanha perdeu a reputação que conquistara durante séculos... Bobagem... Uma grandíssima bobagem... — Concluiu o chinês, com o seu invariável sorriso.
O Major Smythe estava maravilhado com a onisciência desses dois homens, tão afastados dos grandes canais de comércio do mundo. Mas ao mesmo tempo os amaldiçoava, intimamente. E agora?
— É muito interessante, Sr. Fu... Mas isso não é uma boa notícia para mim. Essas barras de ouro me foram entregues como coisa cem por cento...
— Não tem importância, major — disse o mais velho dos Fu. — Ou melhor, quase não tem importância. Venderemos o seu ouro pelo justo valor, ou seja, 89 dólares a onça. Terá que ser, ou não, refinado pelo último comprador. Mas isso não é da nossa conta. Nós o venderemos também como cem por cento...
— Mas a um preço mais baixo...
— Realmente, major. Mas creio que temos uma boa notícia para o senhor. Quanto calculava obter com essas duas barras?
— Cerca de 20 mil libras...
— Se as vendermos bem e aos pouquinhos — disse o mais velho dos Fu —, o senhor receberá mais de 100 mil dólares, major, sujeitos, é claro, ao desconto da nossa comissão, que inclui o transporte e outras despesas.
— E a quanto montará isso?
— Estou pensando em fixar em 10 por cento, major. Se lhe parecer satisfatório...
O Major Smythe tinha a impressão de que vendedores de ouro em barras recebiam apenas um por cento de comissão. Mas, que diabo, antes do almoço já estava disposto a largar tudo até por 10 mil libras. Disse “fechado” e levantou-se, estendendo a mão através da mesa. Desde então, de quatro em quatro meses, ia visitar o escritório dos Fu, levando uma valise vazia. Havia sempre quinhentas libras novas, da emissão da Jamaica, em pacotes, sobre a mesa, à sua espera, e um recibo da quantidade vendida, com o preço alcançado em Macau. As barras de ouro diminuíam de tamanho, de polegada em polegada. O negócio era simples e cordial. Duas mil libras limpas, por ano, eram o bastante para ele, e só o afligia a possibilidade de que o pessoal do imposto de renda começasse a apertá-lo, para saber do que estava vivendo. Ele disse isso aos Fu, que lhe fizeram saber que não precisava se preocupar. Nas duas vezes seguintes, havia apenas quatrocentas libras na mesa, mas nenhum comentário foi feito, por qualquer dos lados. E assim os dias iam se passando, preguiçosamente. Os Smythes engordavam e o major teve a primeira das duas complicações das coronárias. O médico lhe recomendou uma vida menos ativa, com menos álcool e menos cigarros. Evitasse, também, as gorduras e as comidas fritas. A princípio, Mary tentou ser severa com ele, mas quando o marido começou a beber escondido e a inventar pequenas mentiras e evasivas, ela recuou desse propósito. Teve medo de se transformar numa chata doméstica, a quem o Major Smythe passaria a evitar. Por isso, deu-lhe inteira liberdade, sabendo que ele não mais a amava, e quando a sua solidão se tornou demasiada e as insônias intoleráveis, viciou-se em tomar soníferos. Uma noite, depois de uma violenta briga, estando ambos embriagados, tomou ela uma dose excessiva, só “para dar-lhe uma lição”. A dose era tão exagerada que a matou. O suicídio foi dissimulado, mas ainda assim recaíram suspeitas sobre o major, em prejuízo de sua reputação social. E a tal ponto que ele teve de se retirar para North Shore que, embora a apenas três milhas de Kensington, parece pertencer a um outro mundo. Aí ele se instalou em Wavelets e, depois da segunda complicação das coronárias, começou a beber desenfreadamente. Foi então que entrou em cena James Bond com um mandado de prisão ou de morte no bolso.
O Major Smythe olhou para o relógio. Passavam alguns minutos do meio-dia. Ele se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale e foi para o jardim. James Bond estava sentado sob a frondosa amendoeira, olhando para o lar. Nem se voltou para o Major Smythe quando este puxou outra cadeira de alumínio e colocou o copo na relva, perto dele. Quando o Major Smythe acabou de narrar a sua história, James Bond disse, sem demonstrar qualquer emoção: — Era mais ou menos isso o que eu havia pensado...
— Quer que eu escreva tudo ou apenas assine?
— Faça como quiser. Mas isso não se entende comigo. Deve entregar à Corte Marcial. Seu velho Corpo de Fuzileiros Reais é que vai tomar conta do caso. Não tenho nada que ver com os aspectos legais. Farei apenas um relatório do que me disse, para a Procuradoria da Justiça, através da Scotland Yard...
— Posso perguntar uma coisa? Como foi que descobriu?
— A geleira era pequena. O corpo de Oberhauser chegou embaixo no início deste ano, quando as neves da primavera derreteram. Alguns alpinistas o encontraram. Todos os seus papéis e tudo o mais estava perfeito. A família o identificou. Depois, foi só uma questão de recuar no tempo. O calibre das balas deu logo a pista...
— Mas como se envolveu neste assunto?
— A Força da DAG era uma das minhas responsabilidades, um dos meus serviços. Quando o assunto chegou ao meu conhecimento, fui dar uma busca nos arquivos. Como tinha tempo livre, pedi que me entregassem a missão de descobrir o autor da morte de Oberhauser...
— Por quê?
— Porque — e James Bond fixou os olhos do Major Smythe — acontece que Oberhauser era um velho amigo meu. Foi quem me ensinou a esquiar quando eu tinha pouco mais de dez anos. Era um esplêndido sujeito. Foi uma espécie de pai para mim, precisamente na época em que eu mais precisava de um...
— Compreendo. — E o Major Smythe desviou o olhar. — Sinto muito...
James Bond se levantou:
— Bem, preciso voltar a Kensington. — E levantou a mão, para deter o major. — Não, não precisa incomodar-se. Sei onde o carro ficou... — Olhou para o homem mais velho e disse, rispidamente, quase com brutalidade: — Dentro de uma semana, alguém virá buscá-lo...
E caminhou, em passos firmes, sem se voltar, pela alameda afora. O major ouviu o ruído do arranque do motor e o chiado dos pneus do táxi nas pedrinhas miúdas da estrada.
Agora, ele procurava a sua presa, ao longo do recife de coral, pensando exatamente no sentido das palavras de James Bond. E sorriu por trás da máscara Pirelli. Era uma versão nova de um velho dramalhão, que consistia em deixar uma pistola com o oficial culpado, para que este mesmo estourasse os miolos. Se James Bond quisesse, poderia ter telefonado para a Government House e pedido um oficial de igual patente do Regimento da Jamaica para levar preso o Major Smythe. De certo modo, o seu gesto fora decente. Ou não fora? Um suicídio era mais limpo, economizava uma porção de trabalho e de papéis, que consumiriam o dinheiro dos contribuintes. Devia agradecer a James Bond a solução que ele parecia sugerir? Acaso encontraria Mary no lugar para onde vão as almas dos suicidas? Ou era melhor a Corte Marcial, a indignidade, as formalidades cacetes, as manchetes, o aborrecimento e a solidão de uma prisão perpétua, da qual só o livraria a terceira crise das coronárias? Poderia defender-se: era tempo de guerra, lutara com Oberhauser no alto da montanha, ele era um prisioneiro e tentara fugir... Oberhauser sabia do esconderijo do dinheiro... E ele, pobre oficial dos Comandos, tantas vezes arriscando a vida pela pátria, fora fraco e não resistira à tentação... Poderia entregar-se dramaticamente à misericórdia do Tribunal Militar... Um coronel certamente seria designado para defendê-lo e o faria com a maior eloquência. Poderia haver um apelo à Corte Suprema. Seu caso comoveria a Inglaterra e se tornaria uma cause célebre. Venderia sua história, com as reminiscências de guerra, aos grandes jornais... Mas...
Cuidado, meu velho! Cuidado! Seus pés agora tocavam o chão, sob as ondas que encrespavam a superfície da praia de North Shore. Por onde estariam os peixes-escorpiões? O polvinho querido estava faminto, esperando o seu almoço. Apurando a vista, perto do recife de coral, o Major Smythe viu as antenas de um lagostim, acenando inquisitivamente para ele. Normalmente, ele se esqueceria de tudo, para capturar o lagostim, que era, talvez, o maior que até então encontrara. Mas agora só tinha uma preocupação: a de descobrir a silhueta irregular e provocante do peixe-escorpião. Só depois de mais dez minutos de busca encontraria o primeiro. Os olhos vermelhos e zangados do peixe, muito abertos, o observavam. Para fisgá-lo, com o arpão, teria que fazer uma investida rápida, na vertical, firme e certeira. Sabia que as agulhas envenenadas se projetariam para fora da cabeça pontiaguda do monstro. Tinha que se mover lentamente, na direção do peixe, usando o braço livre para nadar. E... Agora! Avançou, para a frente e para baixo, mas o peixe-escorpião sentira a aproximação do arpão antes que este o tocasse. Uma lufada de areia se levantou do fundo do mar, atingido pelo golpe. E qualquer coisa roça em seu corpo, dando a impressão do voo de um pássaro. O major praguejou e fez meia volta, dentro da água. Sim, o peixe-escorpião fizera o que tantas vezes fazia: fora buscar refúgio entre as algas e as rochas, confiante em sua soberba camuflagem. O major voltou à carga, em novo mergulho, dessa vez ainda mais atento, e zás! O peixe-escorpião se agitava, agora, na ponta do arpão. A excitação foi tão grande que o Major Smythe vacilou e sentiu a antiga dor oprimir-lhe o peito. Pôs-se de pé, firmou o arpão contra a areia, atravessando inteiramente a presa, que ainda se agitava desesperadamente, e dirigiu-se à praia, indo sentar-se num banco de madeira, ao lado do qual atirou o peixe, fisgado, a se debater. Uns cinco minutos depois, o Major Smythe sentiu uma curiosa dormência na região do plexo solar. Olhou para baixo e estremeceu, de horror e incredulidade. Uma região de sua pele, com o tamanho aproximado de uma bola de críquete, tornara-se impressionantemente branca, a despeito do bronzeado de seu busto. No centro dessa área, havia três pequenas manchas sanguíneas. Automaticamente, o Major Smythe limpou o sangue. Os furos eram do tamanho de picadas de agulhas. Ele se lembrou, então, da fuga do peixe-escorpião, quando tentara arpoá-lo da primeira vez, e exclamou alto, com pavor, mas sem animosidade: — Tu me apanhaste, bastardo! Tu me apanhaste!
Imóvel, olhava para o próprio corpo, recordando-se do que lera sobre os ferrões do peixe-escorpião no livro que tomara emprestado à biblioteca do Instituto e nunca devolvera — Perigosos Animais Marinhos, publicação norte-americana. Tocou delicadamente a pele da área atingida. Sim, a pele se tinha tornado intumescida e de todo insensível, mas por baixo começava a sentir dor. Em breve essa dor profunda e intensa percorreria o seu corpo inteiro, tão lancinante que o seu único desejo seria o de deitar-se na areia, gritando e rolando, para abafá-la. Vomitaria e deitaria espuma pela boca, teria delírio e convulsões, até perder a consciência. Então, sobreviria, inevitável, o colapso cardíaco mortal. De acordo com o livro, o ciclo completo desses tormentos não passaria de um quarto de hora. Era tudo quanto lhe restava: quinze minutos de atroz agonia! Haveria cura, é claro — com procaínas, antibióticos e anti-histamínicos —, se seu coração debilitado suportasse tais medicamentos. Mas estes deviam estar à mão. Mesmo que conseguisse chegar em casa e admitindo que Jimmy Greaves dispusesse de todos esses remédios modernos, ele não poderia alcançar Wavelets antes de uma hora.
A primeira descarga de dor fez o corpo do Major Smythe dobrar-se sobre si mesmo. Depois outra e mais outra, irradiando-se através do estômago e dos membros. Sentia um gosto metálico na boca e uma coceira insuportável nos lábios. Deixou escapar um gemido e saltou do banco para a praia. Sobre a areia, ainda arquejava o peixe-escorpião. Houve uma trégua nos espasmos da dor. Seu corpo inteiro estava em fogo. Apesar da agonia o raciocínio permanecia claro. Mas, ora essa! Ia esquecendo a experiência! Devia ir à loca do polvo, para servir seu almoço! “Polvo, polvinho, vai ser a última refeição que eu te dou!”, dizia a si mesmo o Major Smythe, ajustando a máscara no rosto. Depois, apanhou o arpão, com o peixe espetado e, apertando o estômago com a mão livre, caminhou pela água adentro e, depois, mergulhou junto ao recife de coral. Poucas jardas o separavam agora do polvo. E foi gritando dentro da máscara, arrastando-se, quase de joelhos, que ele as percorreu. À medida que a água se tornava mais profunda, a dor se fazia mais intensa e seus movimentos pareciam com os de um fantoche, impulsionado por um feixe de cordéis. Só a poder de uma grande força de vontade pôde continuar rumo à morada do polvo. Sim, a sua massa escura ainda estava lá! E parecia excitadíssima. Por quê? O Major Smythe viu que as feridas de seu peito vertiam filetes de sangue escuro, que se diluía na água do mar. Era claro! O querido polvo sentira o gosto do seu sangue. Uma descarga de dor atingiu o major e o fez vergar-se. Disse a si mesmo, em delírio: “Que é isso, Dexter?! Firme, meu velho. Você tem que dar almoço ao polvinho”. Endireitou-se, empunhando o arpão com firmeza e aproximando o peixe da toca do polvo. Aceitaria ele a isca envenenada que o Major Smythe lhe oferecia e à qual talvez um octópode poderia ser imune? Ah, se Bengry estivesse presente, para observar! Três tentáculos, ondulando excitadamente, saíram da loca e passearam ao redor do peixe-escorpião. Agora, havia uma espécie de nevoeiro diante dos olhos do Major Smythe. Reconhecendo estar à beira da inconsciência, ele agitou fracamente a cabeça, para dissipá-lo. E, então, os tentáculos deram um salto! Mas não para o peixe: apertaram a mão e o braço que empunhavam o arpão. A boca do Major Smythe se torceu, numa careta de prazer. Agora, ele e o polvo podiam se apertar as mãos! Como era excitante! Que coisa maravilhosa! Mas o polvo, calma e implacavelmente, continuou a enroscar os seus tentáculos e a chamar a si o corpo do major. Só então Smythe compreendeu que algo de terrível ia acontecer. Fez um apelo a todas as suas forças e tentou golpear o octópode com o arpão. Mas tudo quanto conseguiu foi bater com o peixe-escorpião na massa escura do polvo. E, com o movimento que fez, ofereceu-se ainda mais a este, que o atraía de forma inexorável. Tarde demais o Major Smythe retirou sua máscara. Conseguindo alcançar a superfície, soltou um grito que reboou pela baía deserta, mas logo foi puxado para baixo. E, depois de algumas bolhas de ar, vieram à tona as pernas do major. As ondas lavavam o seu corpo, enquanto o polvo fazia a primeira tentativa para devorá-lo. O resto de Smythe foram encontrados por dois jovens da Jamaica, que pescavam peixes-agulhas numa canoa. Eles mataram o polvo, recolheram o arpão do Major Smythe com o peixe-escorpião e levaram os três despojos para a praia. O cadáver do major foi entregue à polícia e o peixe-escorpião aproveitado para a ceia. O destino do polvo de estimação seria também a panela ... O correspondente do Daily Gleaner em North Shore comunicou que o Major Smythe tinha sido morto por um polvo. Mas a redação do jornal, para não alarmar os turistas, preferiu dizer que ele “fora encontrado afogado”. Mais tarde, em Londres, James Bond, embora certo de que se tratara de um suicídio, anotou no dossier Oberhauser a versão do afogamento, com a respectiva data, na última página, o que encerrava o assunto. Somente pelas notas do Dr. Greaves sobre a autópsia, por ele mesmo realizada, é que foi possível escrever esta espécie de post-scriptum sobre o estranho e patético fim do outrora corajoso e útil oficial do Serviço Secreto.
Encontro em Berlim
(THE LIVING DAYLIGHTS)
James Bond estendia-se em posição na marca das quinhentas jardas da famosa linha de tiro Century Range, em Bisley. A pequena estaca branca na grama a seu lado dizia 44 e o mesmo número se repetia bem alto no talude distante acima do solitário alvo de seis pés quadrados que, ao olho humano e no crepúsculo do fim de verão, não parecia maior que um selo de correio. Mas a luneta de Bond, uma Sniperscope infravermelha fixada sobre o seu rifle, cobria todo o quadro. Ele podia até distinguir com clareza as cores azul-pálido e bege em que se dividia o alvo, e a mosca semicircular de seis polegadas parecia tão grande como a meia lua que já começava a se mostrar baixa no céu que escurecia acima da crista remota de Chobham Ridges.
O último tiro de James Bond fora um esquerdo interno — não o satisfizera. Deu uma outra olhada às bandeiras de vento amarelas e azuis. Tremulavam do leste através da linha de tiro mais intensamente do que quando tinha começado o seu tiro meia hora antes, e ele mudou o anemômetro dois pontos para a direita e assestou os dois fios cruzados da Sniperscope de volta ao foco de mira. Instalou-se então, colocou o indicador de leve dentro da guarda e sobre a curva do gatilho, prendeu a respiração e muito, muito suavemente apertou.
O estampido vicioso ecoou ao longo do campo vazio. O alvo desapareceu abaixo do solo e imediatamente o “boneco” tomou o seu lugar. Sim, a marca negra estava embaixo no canto direito desta vez, não no canto esquerdo: mosca.
— Bom — disse a voz do oficial chefe da linha, atrás e acima dele. — Fique com a mira.
O alvo já subira de novo e Bond recolocou a bochecha sobre o trecho quente da volumosa coronha de madeira e o olho na borracha que cerca a ocular da luneta. Enxugou a mão de atirar contra o lado das calças e pegou na coronha da pistola que sobressaía angulosamente da guarda do gatilho. Abriu de uma polegada o ângulo das pernas. Agora haveria cinco descargas rápidas. Era interessante ver se isso não provocaria “desgaste”. Ele achava que não. Esta arma extraordinária que o armeiro tinha descoberto sabe lá como dava à gente a sensação de que um homem de pé à distância de uma milha seria prato fácil. Era mais um rifle Experimental de Alvo Internacional, calibre 308, construído pela Winchester para ajudar os ases americanos do tiro em campeonatos mundiais, e tinha os dispositivos usuais das armas de alvo superacuradas — uma “mão” espiralada de alumínio nas costas da coronha que se estendia debaixo da axila e mantinha a arma com firmeza junto ao ombro, e uma pequena roda dentada ajustável abaixo do centro de gravidade do rifle para permitir que ele “se agarrasse” ao sulco do seu descanso de madeira. O armeiro tinha mandado trocar o ferrolho de tiro único usual por um depósito de cinco tiros, e tinha garantido a Bond que se ele deixasse apenas dois segundos entre cada tiro para estabilizar a arma não haveria desgaste, mesmo a quinhentas jardas. Para o serviço que devia fazer, Bond achava que dois segundos poderiam representar uma perda perigosa de tempo se errasse o seu primeiro tiro. De qualquer forma, M dissera que a distância não seria maior que trezentas jardas. Bond encurtaria o tempo para um segundo — fogo quase contínuo.
— Pronto?
— Sim.
— Vou à contagem regressiva de cinco. Agora! Cinco, quatro, três, dois, um. Fogo!
O chão tremeu ligeiramente e o ar silvou enquanto as cinco cápsulas velozes de cuproníquel varejavam o crepúsculo. O alvo baixou e rapidamente voltou a erguer-se condecorado com quatro pequenos discos brancos agrupados bem juntos na mosca. Não houve nenhum quinto disco — nem mesmo um negro para indicar um interno ou externo.
— A última descarga foi baixa — disse o chefe da linha baixando seus binóculos noturnos. — Obrigado pela contribuição. Limpamos a areia atrás daqueles alvos todo fim de ano.
Nunca recolhemos menos de quinze toneladas de estilhaços em legítimo chumbo e cobre. Um bom dinheiro.
Bond tinha-se levantado. O cabo Menzies da seção dos armeiros surgiu do pavilhão do Clube de Tiro e ajoelhou-se para desmontar a Winchester e o seu descanso. Olhou para cima encarando Bond. Disse com uma ponta de crítica. — O senhor tocou a coisa um pouco rápido. A última descarga tinha de escoicear.
— Eu sei, cabo. Só queria ver com que rapidez eu podia tocar. Não quero pôr a culpa na arma. É um trabalho enxuto, infernal. Por favor, diga isso por mim ao armeiro. Agora é melhor ir andando. Você tem condução de volta a Londres, não?
— Tenho, sim senhor. Boa noite.
O oficial chefe da Linha entregou a Bond uma ficha de seu tiro — dois tiros de ensaio e depois dez descargas para cada cem jardas até as quinhentas. — Pontaria danada de boa com esta visibilidade. Você devia voltar aqui o ano que vem e tentar o Prêmio da Rainha. Hoje em dia está aberto para todos — isto é, da Comunidade Britânica.
— Obrigado. O problema é que não passo tanto tempo assim na Inglaterra. E muito obrigado por ter feito a marcação para mim.
Bond olhou para a distante Torre do Relógio. De cada lado, a bandeira vermelha de perigo e o tambor vermelho de sinalização estavam sendo arriados para mostrar que o tiroteio tinha cessado. Os braços marcavam nove e quinze. — Gostaria de oferecer-lhe um drinque, mas tenho um encontro em Londres. Podemos adiá-lo até o Prêmio da Rainha de que você estava falando?
O chefe da Linha fez que sim com a cabeça, neutramente. Ele tinha aguardado ansioso a oportunidade de conhecer mais coisas sobre este homem que surgira assim sem mais nem menos depois de uma série de avisos do Ministério da Defesa e fora em frente acertando bem mais de noventa porcento em todas as distâncias, isso depois de fechada a linha para a noite e com visibilidade entre sofrível e má. E por que tinha ele, que só oficiava no encontro anual de julho, sido escalado para estar presente? E por que lhe tinham dito para providenciar uma mosca de seis polegadas a 500 jardas para Bond, em vez da regulamentar de quinze polegadas? E por que todos esses cuidados com a bandeira de perigo e o tambor de sinalização que só se usavam em ocasiões cerimoniais? Para pressionar o homem? Para dar um clima de urgência ao tiro? Bond. Comandante James Bond. A A.N.R. certamente teria a ficha de uma pessoa que atirava tão bem assim. Não se esqueceria de dar-lhes um telefonema. Que hora estranha para um compromisso em Londres. Provavelmente uma garota. O rosto do chefe da Linha assumiu uma expressão de desagrado. O tipo do sujeito que apanhava todas as garotas que queria.
Os dois homens caminharam através da bela fachada da sede do clube além da linha de tiro até o carro de Bond que estava estacionado diante de uma reprodução em ferro do famoso “Veado em Fuga” de Landseer toda picotada de balaços. — Uma beleza de carro — comentou o chefe da Linha. Nunca vi uma carroçaria assim num Continental. Mandou fazê-la especialmente?
— Mandei. Os Sports Saloons na verdade só têm dois lugares. E muito pouco espaço para bagagem. Por isso pedi a Mulliner’s que o transformassem num verdadeiro dois-lugares e com porta-malas de sobra. Um carro egoísta, não há dúvida. Bem, boa noite. E novamente muito obrigado.
O escape roncou com saúde e as rodas traseiras cuspiram cascalho por um instante.
O oficial chefe da Linha observou os faróis rubis desaparecerem na King’s Avenue a caminho da estrada de Londres. Girou nos calcanhares e foi procurar o cabo Menzies numa busca de informação que terminaria sem frutos. O cabo permaneceu tão fechado como a grande caixa de mogno que estava colocando num Land-Rover caqui, limpo de símbolos militares. O chefe da Linha era um major. Tentou apelar para a hierarquia, mas sem êxito. O Land-Rover afastou-se rodando no rastro de Bond. O major dirigiu-se soturno aos escritórios da Associação Nacional do Rifle para tentar achar a informação que queria na biblioteca sob o nome “Bond, J.”
O compromisso de James Bond não era com uma garota. Era com um voo da B.E.A. para Hanover e Berlim. Enquanto engolia as milhas que o separavam do Aeroporto de Londres, pisando firme o grande carro a fim de ter tempo de sobra para um drinque, três drinques, antes da decolagem, apenas uma parte de sua mente fixava-se na estrada. O restante reexaminava pela enésima vez a sequência que agora o conduzia a um encontro com um aeroplano. Mas apenas um encontro provisório. Seu compromisso final numa das três próximas noites em Berlim era com um homem. Tinha que se encontrar com esse homem e infalivelmente matá-lo com um tiro.
Quando, por volta de duas e meia daquela tarde, James Bond atravessara as portas duplamente acolchoadas e sentara-se em frente do perfil voltado, do outro lado da grande escrivaninha, sentira imediatamente o perigo no ar. Não houve troca de cumprimentos. A cabeça de M afundava-se no colarinho duro numa pose churchilliana de sombria reflexão, e havia um traço de amargura nos cantos dos lábios. Girou a cadeira para encarar Bond, passou-lhe um olhar examinador como se, pensou Bond, quisesse verificar se sua gravata estava direita e o cabelo adequadamente penteado, e então começou a falar, rapidamente, atalhando suas sentenças como se desejasse ver-se livre do que estava dizendo, e de Bond, o mais depressa possível.
— O número 272. É um bom homem. Você talvez não o conheça. Pela simples razão de que ficou naquele buraco da Novaya Zemlya desde a guerra. Agora está tentando sair — carregado de material. Atômico e foguetes. E o plano deles para toda uma nova série de testes. Para 1961. Querem avivar o fogo no Ocidente. Algo a ver com Berlim. Não vejo bem o quadro mas o Foreign Office diz que se for verdade é uma coisa tremenda. Ridiculariza a Conferência de Genebra e toda essa demagogia sobre desarmamento nuclear que o bloco comunista vem fazendo. Ele conseguiu chegar até a Berlim Oriental. Mas tem praticamente toda a KGB no seu encalço — e as forças de segurança da Alemanha Oriental, é claro. Está entocado num buraco qualquer da cidade e conseguiu passar-nos uma mensagem — de que atravessaria entre seis e sete da tarde numa das três próximas noites — amanhã, depois de amanhã ou no dia seguinte. Indicou o ponto de travessia. O problema — a curva dos lábios de M, voltada para baixo, tomou-se ainda mais amarga — é que o mensageiro que ele usou fazia jogo duplo. A estação W.B. pilhou-o ontem. Por acaso. Deu sorte com um dos códigos da KGB O mensageiro será mandado de avião para julgamento, naturalmente. Mas isso não ajudará em nada. A KGB sabe que o 272 vai tentar a travessia. Sabem quando. Sabem onde. Sabem tanto quanto sabemos e nada mais. Ora, o código que deciframos ontem era um esquema de um só dia em suas máquinas. Mas conseguimos todo o tráfico daquele dia e isso foi bastante bom. Planejam alvejá-lo ao tentar a travessia. No cruzamento de ruas entre a Berlim Leste e a Oeste que nos indicou na mensagem. Estão montando uma operação daquelas — operação “Êxtase” como a chamam. Puseram o seu melhor tocaia no serviço. Tudo o que soubemos dele ó que seu nome cifrado é a palavra russa para “Gatilho”. A estação W.B. acha que é o mesmo homem já usado em outros serviços de tocaia. Um serviço de longo alcance através da fronteira. Ficará de guarda toda noite nesse cruzamento e sua missão é acertar no 272. É óbvio que eles certamente prefeririam fazer um serviço mais suave com metralhadoras e coisas do gênero. Mas Berlim está calma no momento e parece que a ordem é ficar assim. De qualquer forma — M sacudiu os ombros — eles têm confiança nesse operador “Gatilho” e o negócio vai ser assim!
— E onde é que eu entro? — James Bond tinha adivinhado a resposta, adivinhado porque M mostrava seu desagrado com a coisa toda. Ia ser trabalho sujo e Bond, porque pertencia à Seção Zero-Zero, tinha sido escolhido para fazê-lo. Perversamente, Bond queria forçar M a pôr o preto no branco. Iam ser notícias más, notícias sujas e ele não queria ouvi-las de um dos oficiais da Seção, nem mesmo do chefe do Estado-Maior. O negócio ia ser assassínio. Está bem. Que M tenha então a coragem de me dizer.
— Onde é que você entra, 007? — M olhou friamente do outro lado da escrivaninha. — Você sabe onde é que você entra. Você tem que matar esse tocaia. E tem que matá-lo antes que acerte no 272. É tudo. Está claro? — Os olhos azuis-claros permaneceram frios como gelo. Mas Bond sabia que só ficavam assim com um esforço da vontade. M não gostava de mandar qualquer homem para um homicídio. Mas, quando isso tinha de ser feito, ele sempre assumia a sua severa e fria ação de comando. Bond sabia a razão. Era para tirar um pouco da pressão, um pouco da culpa, dos ombros do matador.
Portanto Bond, que sabia dessas coisas, decidiu agora tornar fácil e rápida a tarefa de M. Levantou-se. — Está certo, sir. Suponho que o chefe do Estado-Maior tenha tudo pronto. É melhor eu ir praticar um pouco. Não seria bom errar.
Caminhou para a porta.
M disse calmamente: — Sinto ter que lhe dar essa tarefa. Serviço desagradável. Mas tem que ser bem executado.
— Farei o melhor — James Bond saiu fechando a porta atrás de si. Não gostava do serviço mas no final preferia fazê-lo a assumir a responsabilidade de mandar alguém em seu lugar.
O chefe do Estado-Maior tinha sido apenas um pouco mais simpático. — Lamento esta sua aquisição, James — dissera ele. — Mas Tanqueray foi inflexível, não tinha ninguém suficientemente bom na estação e esse não é o tipo de serviço que se pode pedir a um soldado regular para fazer. Há uma porção de excelentes tiros na B.A.O.R., mas um alvo vivo requer outro tipo de coragem. De qualquer forma, liguei para Bisley e marquei um exercício para você esta noite às oito e quinze quando a linha estiver fechada. A visibilidade será mais ou menos a mesma que você terá em Berlim cerca de uma hora antes. O armeiro está com a arma — verdadeira obra de arte para alvejar, e vai mandá-la por um de seus homens. Você irá com a sua própria condução. Depois, há um voo de carreira para Berlim à meia-noite reservado em seu nome na B.E.A. Tome um táxi até esse endereço. — Entregou a Bond um pedaço de papel. — Suba ao quarto andar e encontrará o número 2 de Tanqueray à sua espera. Depois disso, sinto que você terá que esperar sentado pelos próximos três dias.
— E a arma? Esperam que atravesse a alfândega alemã com ela dentro de um saco de golfe ou coisa assim?
O chefe do Estado-Maior não tinha achado graça. — Seguirá pela mala diplomática. Você a receberá amanhã ao meio-dia. — Tinha estendido a mão até o bloco de avisos. — Bem, é melhor ir andando. Vou avisar a Tanqueray que está tudo combinado.
James Bond baixou o olhar para o rosto azul difuso do relógio no painel do carro. Dez e quinze. Com um pouco de sorte, amanhã a esta hora estaria tudo terminado. Afinal, era a vida deste homem “Gatilho” contra a vida do 272. Não era exatamente homicídio. Estava perto disso, no entanto. Apertou maldosamente sua buzina-de-serra tripla ao passar por um quatro portas comum, ingressou no cruzamento circular com uma derrapagem seca desnecessária, girou violentamente o volante fazendo a correção e apontou o nariz do Bentley em direção do brilho distante que era o Aeroporto de Londres.
O edifício feio de seis andares na esquina da Kochstrasse e da Wilhelmstrasse era o único de pé na desolação de um espaço vazio bombardeado. Bond pagou o táxi e gravou uma breve impressão de capim, alto como a cintura, e de paredes de entulho mal reparadas, estendendo-se na direção de um grande cruzamento deserto iluminado por um feixe central de lâmpadas amareladas em arco, antes de apertar o botão para o quarto andar e imediatamente ouviu o clique do dispositivo que abria a porta do prédio. A porta fechou-se atrás dele e caminhou então sobre o chão de cimento sem tapete até o antiquado elevador. O cheiro de repolho, cigarro barato e suor rançoso lembravam outros prédios de apartamentos na Alemanha e Europa Central. Até o arrastar e o guincho fraco do elevador vagaroso eram parte de centenas de missões em que tinha sido lançado por M, como um projétil, a algum alvo distante onde um problema aguardava a sua chegada, à espera de ser resolvido por ele. Pelo menos desta vez o comitê de recepção estava do seu lado. Desta vez não havia nada a temer no fim da escada.
O número 2 da Estação W.B. de Serviço Secreto era um homem esguio e tenso de quarenta e poucos anos. Vestia o uniforme de sua profissão — terno bem cortado e bem usado de tweed leve ponto pé-de-pato num tom verde-escuro, camisa de seda macia branca e uma velha gravata de colégio — neste caso de Wykeham. Ao ver a gravata, enquanto trocavam as saudações convencionais no pequeno saguão mofado do apartamento, o ânimo de Bond, já baixo, desceu mais um degrau. Conhecia esse tipo: espinha dorsal do Serviço Público; superestudioso e mal-amado em Winchester; um bom segundo em P.P.E. em Oxford; a guerra, cargos funcionais que teria ocupado meticulosamente; talvez uma Ordem do Império Britânico; Comissão do Controle Aliado na Alemanha, onde fora recrutado no Ramo I e a partir de então — porque era o funcionário ideal e A. 1 junto à Segurança e porque pensava em encontrar vida, drama, romance, todas as coisas que nunca linha tido — lá fora ele para o Serviço Secreto. Um homem sóbrio, cuidadoso se fizera necessário para bancar a dama de companhia de Bond neste negócio feio. O Capitão Paul Sender, que já servira na Guarda Galesa, tinha sido a escolha óbvia. E tinha aceitado. Agora, como bom Wykehamista, escondia o seu desagrado pelo serviço debaixo de uma conversa cuidadosa e banal enquanto mostrava a Bond a planta do apartamento e as providências tomadas para a prontidão do carrasco e, numa medida modesta, para o seu conforto.
O apartamento consistia de um amplo dormitório conjugado, um banheiro e uma cozinha equipada de enlatados, leite, manteiga, ovos, chá, bacon, pão e uma garrafa de Dimple Haig. O único detalhe estranho no quarto de dormir era que uma das camas duplas estava encostada em ângulo contra as cortinas que cobriam o amplo janelão único e sobre ela se empilhavam três colchões cobertos pela roupa de cama.
O Capitão Sender disse: — Gostaria de dar uma olhada ao campo de fogo? Poderei então explicar o que é que o lado de lá tem em mente.
Bond estava cansado. Não desejava especialmente ir dormir com a imagem do campo de batalha na memória. Disse: — Seria ótimo.
O Capitão Sender apagou as luzes. Faixas luminosas das lâmpadas no cruzamento apareceram em volta das cortinas. — Não quero puxar as cortinas — disse o Capitão Sender. — É pouco provável, mas eles podem ter sido alertados contra um grupo de cobertura para o 272. Queria que você apenas se deitasse na cama e enfiasse a cabeça por baixo das cortinas. Explicarei o que você estiver vendo. Olhe para a esquerda.
Era uma janela de guilhotina e a metade inferior estava aberta. Os colchões, especialmente escolhidos, só cediam um pouco e James Bond encontrou-se mais ou menos na posição de tiro que tinha adotado em Century Range, mas agora olhava através de terreno descontínuo, coberto de densa vegetação e bombardeado, na direção do rio de luz que era a Zimmerstrasse — a fronteira com a Berlim Oriental. Parecia a umas cento e cinquenta jardas de distância. A voz do Capitão Sender acima dele e por trás da cortina começou a recitar. Lembrava a Bond uma sessão espírita.
— Ali é terreno bombardeado à sua frente. Bastante cobertura. Umas cento e trinta jardas até a fronteira. Depois a fronteira — a rua — e então um trecho grande ainda de terreno bombardeado no campo do inimigo. É por isso que o 272 escolheu essa passagem. É um dos poucos locais na cidade em que o terreno é descontínuo — capinzais cerrados, muros em ruínas, porões — nos dois lados da fronteira. Ele deverá es-gueirar-se entre aquela confusão do outro lado e arremessar-se através da Zimmerstrasse até alcançar a confusão do nosso lado. O problema é que terá de correr trinta jardas de fronteira fortemente iluminada. Será o espaço da matança. Certo?
Bond disse: — Sim.
Disse-o com suavidade. O cheiro do inimigo, a necessidade de tomar cuidado, já estavam atuando sobre seus nervos.
— À sua esquerda, aquele novo e imenso bloco de dez andares é a Haus der Ministerien, o grande centro cerebral de Berlim-Leste. Você pode ver que as luzes ainda estão acesas na maioria das janelas. A maior parte delas ficará assim toda a noite. Esses sujeitos trabalham mesmo — seus turnos dão a volta no relógio. Você provavelmente não precisará preocupar-se com as janelas acesas. Esse fulano “Gatilho” certamente vai atirar de uma das janelas escuras. Você verá que existe um grupo de quatro, juntas, na quina acima do cruzamento. Ficaram escuras na noite passada e esta noite. Elas têm o melhor campo de fogo. Daqui, o seu alcance varia entre trezentas e trezentas e dez jardas. Estou com todos os números e dados quando você quiser. Não é preciso preocupar-se muito mais. Aquela rua fica vazia durante a noite — apenas as patrulhas motorizadas cerca de cada meia hora — carros blindados leves com uma dupla de motocicletas por escolta. Na noite passada, que suponho normal, entre seis e sete, que é a hora em que se fará este serviço, havia umas poucas pessoas entrando e saindo por aquela porta lateral. Uns funcionários. Antes disso nada fora do comum — o fluxo costumeiro de pessoas entrando e saindo de um edifício de governo movimentado — com exceção, veja só, de uma miserável orquestra completa de mulheres. Fizeram uma confusão infernal numa sala de concertos que tem ali. Parte do bloco aloja o Ministério da Cultura. Fora disso nada — certamente nenhuma das pessoas da KGB que conhecemos, nem sinais de preparação para um serviço deste gênero. Mas nem pode haver sinais. São muito cuidadosos estes sujeitos da oposição. De qualquer maneira, dê uma boa olhada. Não esqueça que agora está mais escuro do que amanhã por volta das seis. Mas você pode formar um quadro geral.
Bond formou o quadro geral e o quadro ficou com ele muito tempo enquanto o outro homem já dormia e ressonava suavemente com um pequeno som regular que lembrava um fraco estalido — um ronco Wykehamista, refletiu Bond irritado.
Sim, tinha formado o quadro — o quadro de um lampejo movimento entre as ruínas sombreadas no outro lado do brilhante rio de luz, uma pausa, e então a desesperada corrida em ziguezague de um homem sob o impacto luminoso das lâmpadas, o espocar da arma de fogo e, ou um fardo retorcido espalhado no meio da rua larga, ou então a investida sempre em frente através do capinzal e do entulho no Setor Ocidental — morte súbita ou volta a casa. O grande desafio! Quanto tempo teria Bond para localizar o tocaia russo numa daquelas janelas escuras? E para matá-lo? Cinco segundos? Dez? Quando o amanhecer começava a cobrir as cortinas com o tom metálico das armas, Bond capitulou para sua mente agitada. Ela tinha ganho. Foi em silêncio até o banheiro e inspecionou as fileiras de remédios que um prestimoso Serviço Secreto tinha providenciado para manter o seu carrasco em boa forma. Escolheu o Tuinal, engoliu duas das cápsulas concentradas, rubis e azuis, com um copo de água e voltou à cama. Então, chumbado, dormiu.
Acordou ao meio-dia. O apartamento estava vazio. Bond abriu as cortinas para deixar entrar o dia cinzento prussiano e, de pé a uma boa distância da janela, ficou vendo a monotonia de Berlim e ouvindo o ruído dos bondes e o arranhar distante dos trens da U-Bahn na grande curva de entrada da estação do Zoo. Lançou um olhar rápido e relutante ao que já tinha examinado na noite anterior, notou que o capim no entulho de bombardeio era mais ou menos o mesmo de Londres — loendro, labaçol e samambaia — e dirigiu-se então à cozinha. Havia uma nota apoiada numa fatia de pão: “Meu amigo (eufemismo do Serviço Secreto que neste contexto significava o chefe de Sender) diz que não há mal em você sair. Mas esteja de volta às 17 horas. Seu equipamento (outra palavra para o rifle de Bond) chegou e o bagageiro a entregará esta tarde. P. Sender.”
Bond acendeu o fogão a gás e queimou a mensagem com desprezo por sua profissão e em seguida preparou um prato enorme de ovos mexidos e bacon que amontoou sobre uma torrada coberta de manteiga e comeu com acompanhamento de café preto no qual derramara uma porção liberal de uísque. Depois tomou um banho e barbeou-se, vestiu as roupas descoloridas, centro-europeias e anônimas que tinha trazido para a sua missão, olhou a sua cama em desordem, decidiu que tudo fosse para o inferno e desceu pelo elevador deixando o edifício.
James Bond sempre achara Berlim uma cidade deprimente e hostil, esmaltada no lado Ocidental com o verniz superficial de um polimento pretensioso parecido com os enfeites cromados dos carros americanos. Caminhou até a Kurfurstendamm, sentou-se no Café Marquardt, tomou um expresso e ficou observando com tédio as filas obedientes de pedestres esperando o sinal “Siga” nos postes de trânsito enquanto a corrente luminosa de carros continuava a sua perigosa quadrilha na movimentada intersecção. Fazia frio lá fora e o vento cortante das estepes russas fustigava as saias das garotas e os impermeáveis dos homens impacientes e apressados, cada um com a infalível pasta enfiada debaixo do braço. Os aquecedores de parede infravermelhos do café apontavam o vermelho para baixo e davam um brilho espúrio ao rosto dos cafeinômanos que degustavam sua tradicional “uma xícara de café e dez copos de água”, lendo de graça os jornais e revistas presos por paus, ou se curvavam com seriedade sobre papéis de negócios. Bond, fechando o pensamento para a noite, discutia consigo mesmo as maneiras de passar a tarde. Finalmente chegou à escolha entre uma visita àquela casa de respeitável fachada de pedra, na Clausewitzstrasse, conhecida de todos os porteiros e choferes de táxi, ou um passeio ao Wannsee e uma vigorosa caminhada no Grunewald. A virtude triunfou. Bond pagou o café, saiu no frio e tomou um táxi até a estação do Zoo.
As belas arvorezinhas jovens em volta do lago extenso já tinham sido tocadas pelo sopro do outono e havia um dourado aqui e ali no meio do verde. Bond caminhou com energia durante duas horas pelas veredas cobertas de folhas e então escolheu um restaurante com terraço envidraçado sobre o lago e saboreou com prazer um chá reforçado consistindo de uma porção dupla de arenques do Norte mergulhados em creme e anéis de cebola, e dois Molle mit Korn, o equivalente berlinense de um “fabricante de caldeiras e seu assistente” — schnapps, duplos, acompanhados por um chope Löwenbräu. Sentindo-se então mais animado tomou a S-Bahn para voltar à cidade.
Em frente do prédio de apartamentos, um jovem indefinível estava mexendo no motor de um Opel Kapitan negro. O jovem não tirou a cabeça debaixo do capo quando Bond passou bem perto dele e subiu até a porta e apertou o botão.
CONTINUA
Quando chegou embaixo, sentou-se no musgo, sob os abetos. Estendeu no chão a camisa, colocou no centro dela as barras de ouro e fez uma trouxa, amarrando bem as fraldas e as mangas. Depois, cavou um buraco no chão e enterrou a caixa metálica vazia. E vergando ao peso, quase dobrado em dois, caminhou pela estreita trilha, entre os pinheiros, rumo ao jipe. Até aquele dia não conseguira saber como tivera forças para alcançar o veículo. Os nós que dera na trouxa pareciam penetrar nas carnes de seu ombro, sob o peso das barras de ouro. Quando, finalmente, alcançou o jipe, quase teve um colapso, tão exausto estava. Mas não podia descansar, ainda. Precisava sair dali para enterrar o seu tesouro na floresta, perto de um grupo de grandes rochas, onde lhe seria fácil encontrá-lo de novo, na ocasião oportuna em dia, quando o horizonte estivesse limpo, voltaria, por outra rota, evitando o chalé de Oberhauser. Só então, terminado tudo, fora embebedar-se com uma garrafa de schnapps barato. Jantou e meteu-se na cama, para dormir como uma pedra. No dia seguinte, a Força A da DAG seguiu para o vale do Mittersill. Seis meses depois o Major Smythe estava em Londres. A sua guerra havia terminado. Mas os seus problemas, não. Ouro era coisa difícil de contrabandear, principalmente em grande quantidade. E era essencial que o Major Smythe transferisse as suas barras para um novo esconderijo. Por isso, ele procurou evitar a desmobilização e gozar os privilégios de seu comissionamento temporário, sobretudo o seu passe do Serviço Secreto Militar. Conseguiu ser mandado de volta para a Alemanha, como representante da Inglaterra no Centro Misto de Investigação de Munique. Aí, trabalhou durante seis meses e, nesse período, teve a oportunidade de recuperar o ouro, que levou para o seu alojamento numa velha valise. Depois, em dois fins de semana, fez viagens aéreas para Londres, levando, de cada vez, uma barra de ouro, em sua volumosa pasta. A caminhada nos aeroportos de Munique e de Londres, com a pasta sob o braço, como se contivesse apenas papéis, exigira dois tabletes de benzedrina e uma vontade de ferro. Finalmente, pôde esconder sua fortuna no porão da casa de uma tia, em Kensington, e assim, com tranquilidade, pôde desenvolver a parte final de seus planos. Pediu reforma nos Fuzileiros Reais e, uma vez desmobilizado, casou-se com uma das muitas moças com quem tivera aventuras durante o serviço da DAG, uma graciosa Wren chamada Maria Parnell. Comprou passagem para ambos num cargueiro para a Jamaica, que representava, para ambos, um paraíso ensolarado, com boa e farta comida, bebida barata, sem a melancolia e as restrições impostas na Inglaterra, após a guerra, pelo severo governo trabalhista. Antes do embarque, o Major Smythe mostrou a Mary as barras de ouro, das quais já havia raspado a cinzel os símbolos do Reichsbank.
— Tenho sido muito econômico e esperto, meu bem — disse ele. — Não confio na libra. Por isso, vendi todas as minhas ações e comprei um bocado de ouro. Teremos pelo menos 20 mil libras, se eu o vender bem. Isso basta para nos assegurar uma boa vida, até o fim dos nossos dias. Sempre que for preciso, eu venderei um pouquinho — explicou.
Mary Parnell não era familiarizada com as leis monetárias. Mas se ajoelhou e passou as mãos, carinhosamente, sobre as barras de ouro. Depois, com os braços ao redor do pescoço do marido, beijou-o e disse, quase em lágrimas: — Você é um homem maravilhoso... Sim, maravilhoso! Terrivelmente inteligente, bonito, simpático, herói da guerra e, além do mais, rico! Eu sou a garota mais feliz do mundo!
— Você tem razão pelo menos numa coisa: ricos, nós somos. Mas prometa não dizer uma só palavra a quem quer que seja! Pois, se disser, todos os ladrões da Jamaica irão rondar a nossa casa.. .
O Prince’s Club, ao pé das colinas que dominam os arredores de Kensington, era realmente esplêndido. Para os seus sócios, não havia nada melhor: maravilhosa criadagem, comida farta, bebida barata, belíssimos cenários tropicais, como nunca tinham visto antes. O casal era muito popular e os serviços de guerra do Major Smythe lhe davam ingresso na alta sociedade local e na Government House. A vida de ambos era uma série interminável de festas, misturadas com o tênis de Mary e o golfe do major (com os bastões metálicos de Henry Cotton!) durante o dia, e partidas de bridge (para ela) e de pôquer (para ele) durante as noites. Sim, era um paraíso, porque, na Inglaterra, havia racionamento, filas e mercado negro, um governo atroz e o pior inverno dos últimos trinta anos. A princípio, o casal enfrentou as despesas com as economias em dinheiro, que ambos haviam reunido, enquanto se vestiam, se alimentavam e se transportavam à custa do Exército. Só depois de um ano de cautelosas investigações é que o Major Smythe se decidiu a fazer negócio com os irmãos Fu, comerciantes importadores e exportadores. Altamente respeitados e muito ricos, os irmãos Fu eram conhecidos como uma espécie de junta governativa da comunidade chinesa da Jamaica. Ainda que alguns dos seus negócios se desviassem das boas normas, segundo a tradição chinesa, Smythe achou que poderia confiar neles. A Convenção de Bretton Woods, fixando um preço internacional para o ouro, sob rigoroso controle, tinha sido assinada deixando de parte Tânger e Macau, dois portos livres, em que a onça de ouro valia entre 99 e 100 dólares, quando nos outros lugares o preço oficial era de 35. E, para maior conveniência de seus negócios, os Fu tinham aberto um restaurante em Hong-Kong, transformado em entreposto para o contrabando de ouro para a vizinha Macau. Isso, na linguagem do Major Smythe, era sopa no mel. Ele tivera um agradável encontro com os Fu. Nenhuma pergunta estes fizeram, senão depois do exame das barras de ouro.
— Major — disse o mais velho dos irmãos —, no mercado de ouro em barras, as marcas dos bancos nacionais e dos negociantes respeitáveis são aceitos sem discussão. Essas marcas são a garantia da pureza do ouro. Mas outros bancos e outros vendedores têm seus próprios processos de refinação, que talvez, não sejam tão perfeitos...
— Quer dizer que eu fui enganado? — Perguntou, ansiosamente, o major. — Que isso não é senão uma barra de chumbo coberta de uma leve camada de ouro?
Os dois irmãos deram muxoxos tranquilizadores:
— Não, não, major... Não se trata disso. Mas, se uma pessoa não se recorda da proveniência dessas barras de ouro, por mais finas que elas sejam é sempre necessário submetê-las a um ensaio, para verificação do seu exato teor... Há muitos métodos para determinar o grau de pureza dessas barras. Meu irmão e eu somos competentes em qualquer deles. Quer deixar as barras de ouro conosco e vir saber o resultado depois do almoço? Nós lhe daremos um recibo...
Não havia alternativa. Teria que confiar nos Fu. Qualquer que fosse o preço por eles arbitrado, seria forçado a aceitar. Estava nas mãos deles. Foi a um bar, onde tomou dois drinques fortes e comeu um sanduíche que lhe ficou atravessado na garganta. Depois, voltou ao escritório refrigerado dos Fu. O cenário era o mesmo: os dois irmãos sorridentes, as duas barras de ouro, a pasta de couro, etc. Só havia a mais uma folha de papel e uma caneta-tinteiro de pena de ouro, em frente do irmão mais velho.
— Resolvemos o problema do seu ouro, major! — (Esplêndido! Obrigado, pensou Smythe.) — E estou certo de que o senhor terá interesse em conhecer sua origem...
— Claro! Qual é? — Fez o major, com uma corajosa demonstração de entusiasmo.
— São barras de ouro alemãs! Provavelmente saíram dos depósitos do Reichsbank, durante a guerra. Isso pode ser deduzido do fato de que contêm dez porcento de chumbo. Durante o regime de Hitler, o Reichsbank fez a tolice de adulterar por esse modo o seu ouro. Isso logo se espalhou e o preço das barras de ouro alemãs, vendidas na Suíça, sofreu logo uma redução de preço, correspondente à adulteração. Foi uma bobagem, que só teve um resultado: o banco nacional da Alemanha perdeu a reputação que conquistara durante séculos... Bobagem... Uma grandíssima bobagem... — Concluiu o chinês, com o seu invariável sorriso.
O Major Smythe estava maravilhado com a onisciência desses dois homens, tão afastados dos grandes canais de comércio do mundo. Mas ao mesmo tempo os amaldiçoava, intimamente. E agora?
— É muito interessante, Sr. Fu... Mas isso não é uma boa notícia para mim. Essas barras de ouro me foram entregues como coisa cem por cento...
— Não tem importância, major — disse o mais velho dos Fu. — Ou melhor, quase não tem importância. Venderemos o seu ouro pelo justo valor, ou seja, 89 dólares a onça. Terá que ser, ou não, refinado pelo último comprador. Mas isso não é da nossa conta. Nós o venderemos também como cem por cento...
— Mas a um preço mais baixo...
— Realmente, major. Mas creio que temos uma boa notícia para o senhor. Quanto calculava obter com essas duas barras?
— Cerca de 20 mil libras...
— Se as vendermos bem e aos pouquinhos — disse o mais velho dos Fu —, o senhor receberá mais de 100 mil dólares, major, sujeitos, é claro, ao desconto da nossa comissão, que inclui o transporte e outras despesas.
— E a quanto montará isso?
— Estou pensando em fixar em 10 por cento, major. Se lhe parecer satisfatório...
O Major Smythe tinha a impressão de que vendedores de ouro em barras recebiam apenas um por cento de comissão. Mas, que diabo, antes do almoço já estava disposto a largar tudo até por 10 mil libras. Disse “fechado” e levantou-se, estendendo a mão através da mesa. Desde então, de quatro em quatro meses, ia visitar o escritório dos Fu, levando uma valise vazia. Havia sempre quinhentas libras novas, da emissão da Jamaica, em pacotes, sobre a mesa, à sua espera, e um recibo da quantidade vendida, com o preço alcançado em Macau. As barras de ouro diminuíam de tamanho, de polegada em polegada. O negócio era simples e cordial. Duas mil libras limpas, por ano, eram o bastante para ele, e só o afligia a possibilidade de que o pessoal do imposto de renda começasse a apertá-lo, para saber do que estava vivendo. Ele disse isso aos Fu, que lhe fizeram saber que não precisava se preocupar. Nas duas vezes seguintes, havia apenas quatrocentas libras na mesa, mas nenhum comentário foi feito, por qualquer dos lados. E assim os dias iam se passando, preguiçosamente. Os Smythes engordavam e o major teve a primeira das duas complicações das coronárias. O médico lhe recomendou uma vida menos ativa, com menos álcool e menos cigarros. Evitasse, também, as gorduras e as comidas fritas. A princípio, Mary tentou ser severa com ele, mas quando o marido começou a beber escondido e a inventar pequenas mentiras e evasivas, ela recuou desse propósito. Teve medo de se transformar numa chata doméstica, a quem o Major Smythe passaria a evitar. Por isso, deu-lhe inteira liberdade, sabendo que ele não mais a amava, e quando a sua solidão se tornou demasiada e as insônias intoleráveis, viciou-se em tomar soníferos. Uma noite, depois de uma violenta briga, estando ambos embriagados, tomou ela uma dose excessiva, só “para dar-lhe uma lição”. A dose era tão exagerada que a matou. O suicídio foi dissimulado, mas ainda assim recaíram suspeitas sobre o major, em prejuízo de sua reputação social. E a tal ponto que ele teve de se retirar para North Shore que, embora a apenas três milhas de Kensington, parece pertencer a um outro mundo. Aí ele se instalou em Wavelets e, depois da segunda complicação das coronárias, começou a beber desenfreadamente. Foi então que entrou em cena James Bond com um mandado de prisão ou de morte no bolso.
O Major Smythe olhou para o relógio. Passavam alguns minutos do meio-dia. Ele se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale e foi para o jardim. James Bond estava sentado sob a frondosa amendoeira, olhando para o lar. Nem se voltou para o Major Smythe quando este puxou outra cadeira de alumínio e colocou o copo na relva, perto dele. Quando o Major Smythe acabou de narrar a sua história, James Bond disse, sem demonstrar qualquer emoção: — Era mais ou menos isso o que eu havia pensado...
— Quer que eu escreva tudo ou apenas assine?
— Faça como quiser. Mas isso não se entende comigo. Deve entregar à Corte Marcial. Seu velho Corpo de Fuzileiros Reais é que vai tomar conta do caso. Não tenho nada que ver com os aspectos legais. Farei apenas um relatório do que me disse, para a Procuradoria da Justiça, através da Scotland Yard...
— Posso perguntar uma coisa? Como foi que descobriu?
— A geleira era pequena. O corpo de Oberhauser chegou embaixo no início deste ano, quando as neves da primavera derreteram. Alguns alpinistas o encontraram. Todos os seus papéis e tudo o mais estava perfeito. A família o identificou. Depois, foi só uma questão de recuar no tempo. O calibre das balas deu logo a pista...
— Mas como se envolveu neste assunto?
— A Força da DAG era uma das minhas responsabilidades, um dos meus serviços. Quando o assunto chegou ao meu conhecimento, fui dar uma busca nos arquivos. Como tinha tempo livre, pedi que me entregassem a missão de descobrir o autor da morte de Oberhauser...
— Por quê?
— Porque — e James Bond fixou os olhos do Major Smythe — acontece que Oberhauser era um velho amigo meu. Foi quem me ensinou a esquiar quando eu tinha pouco mais de dez anos. Era um esplêndido sujeito. Foi uma espécie de pai para mim, precisamente na época em que eu mais precisava de um...
— Compreendo. — E o Major Smythe desviou o olhar. — Sinto muito...
James Bond se levantou:
— Bem, preciso voltar a Kensington. — E levantou a mão, para deter o major. — Não, não precisa incomodar-se. Sei onde o carro ficou... — Olhou para o homem mais velho e disse, rispidamente, quase com brutalidade: — Dentro de uma semana, alguém virá buscá-lo...
E caminhou, em passos firmes, sem se voltar, pela alameda afora. O major ouviu o ruído do arranque do motor e o chiado dos pneus do táxi nas pedrinhas miúdas da estrada.
Agora, ele procurava a sua presa, ao longo do recife de coral, pensando exatamente no sentido das palavras de James Bond. E sorriu por trás da máscara Pirelli. Era uma versão nova de um velho dramalhão, que consistia em deixar uma pistola com o oficial culpado, para que este mesmo estourasse os miolos. Se James Bond quisesse, poderia ter telefonado para a Government House e pedido um oficial de igual patente do Regimento da Jamaica para levar preso o Major Smythe. De certo modo, o seu gesto fora decente. Ou não fora? Um suicídio era mais limpo, economizava uma porção de trabalho e de papéis, que consumiriam o dinheiro dos contribuintes. Devia agradecer a James Bond a solução que ele parecia sugerir? Acaso encontraria Mary no lugar para onde vão as almas dos suicidas? Ou era melhor a Corte Marcial, a indignidade, as formalidades cacetes, as manchetes, o aborrecimento e a solidão de uma prisão perpétua, da qual só o livraria a terceira crise das coronárias? Poderia defender-se: era tempo de guerra, lutara com Oberhauser no alto da montanha, ele era um prisioneiro e tentara fugir... Oberhauser sabia do esconderijo do dinheiro... E ele, pobre oficial dos Comandos, tantas vezes arriscando a vida pela pátria, fora fraco e não resistira à tentação... Poderia entregar-se dramaticamente à misericórdia do Tribunal Militar... Um coronel certamente seria designado para defendê-lo e o faria com a maior eloquência. Poderia haver um apelo à Corte Suprema. Seu caso comoveria a Inglaterra e se tornaria uma cause célebre. Venderia sua história, com as reminiscências de guerra, aos grandes jornais... Mas...
Cuidado, meu velho! Cuidado! Seus pés agora tocavam o chão, sob as ondas que encrespavam a superfície da praia de North Shore. Por onde estariam os peixes-escorpiões? O polvinho querido estava faminto, esperando o seu almoço. Apurando a vista, perto do recife de coral, o Major Smythe viu as antenas de um lagostim, acenando inquisitivamente para ele. Normalmente, ele se esqueceria de tudo, para capturar o lagostim, que era, talvez, o maior que até então encontrara. Mas agora só tinha uma preocupação: a de descobrir a silhueta irregular e provocante do peixe-escorpião. Só depois de mais dez minutos de busca encontraria o primeiro. Os olhos vermelhos e zangados do peixe, muito abertos, o observavam. Para fisgá-lo, com o arpão, teria que fazer uma investida rápida, na vertical, firme e certeira. Sabia que as agulhas envenenadas se projetariam para fora da cabeça pontiaguda do monstro. Tinha que se mover lentamente, na direção do peixe, usando o braço livre para nadar. E... Agora! Avançou, para a frente e para baixo, mas o peixe-escorpião sentira a aproximação do arpão antes que este o tocasse. Uma lufada de areia se levantou do fundo do mar, atingido pelo golpe. E qualquer coisa roça em seu corpo, dando a impressão do voo de um pássaro. O major praguejou e fez meia volta, dentro da água. Sim, o peixe-escorpião fizera o que tantas vezes fazia: fora buscar refúgio entre as algas e as rochas, confiante em sua soberba camuflagem. O major voltou à carga, em novo mergulho, dessa vez ainda mais atento, e zás! O peixe-escorpião se agitava, agora, na ponta do arpão. A excitação foi tão grande que o Major Smythe vacilou e sentiu a antiga dor oprimir-lhe o peito. Pôs-se de pé, firmou o arpão contra a areia, atravessando inteiramente a presa, que ainda se agitava desesperadamente, e dirigiu-se à praia, indo sentar-se num banco de madeira, ao lado do qual atirou o peixe, fisgado, a se debater. Uns cinco minutos depois, o Major Smythe sentiu uma curiosa dormência na região do plexo solar. Olhou para baixo e estremeceu, de horror e incredulidade. Uma região de sua pele, com o tamanho aproximado de uma bola de críquete, tornara-se impressionantemente branca, a despeito do bronzeado de seu busto. No centro dessa área, havia três pequenas manchas sanguíneas. Automaticamente, o Major Smythe limpou o sangue. Os furos eram do tamanho de picadas de agulhas. Ele se lembrou, então, da fuga do peixe-escorpião, quando tentara arpoá-lo da primeira vez, e exclamou alto, com pavor, mas sem animosidade: — Tu me apanhaste, bastardo! Tu me apanhaste!
Imóvel, olhava para o próprio corpo, recordando-se do que lera sobre os ferrões do peixe-escorpião no livro que tomara emprestado à biblioteca do Instituto e nunca devolvera — Perigosos Animais Marinhos, publicação norte-americana. Tocou delicadamente a pele da área atingida. Sim, a pele se tinha tornado intumescida e de todo insensível, mas por baixo começava a sentir dor. Em breve essa dor profunda e intensa percorreria o seu corpo inteiro, tão lancinante que o seu único desejo seria o de deitar-se na areia, gritando e rolando, para abafá-la. Vomitaria e deitaria espuma pela boca, teria delírio e convulsões, até perder a consciência. Então, sobreviria, inevitável, o colapso cardíaco mortal. De acordo com o livro, o ciclo completo desses tormentos não passaria de um quarto de hora. Era tudo quanto lhe restava: quinze minutos de atroz agonia! Haveria cura, é claro — com procaínas, antibióticos e anti-histamínicos —, se seu coração debilitado suportasse tais medicamentos. Mas estes deviam estar à mão. Mesmo que conseguisse chegar em casa e admitindo que Jimmy Greaves dispusesse de todos esses remédios modernos, ele não poderia alcançar Wavelets antes de uma hora.
A primeira descarga de dor fez o corpo do Major Smythe dobrar-se sobre si mesmo. Depois outra e mais outra, irradiando-se através do estômago e dos membros. Sentia um gosto metálico na boca e uma coceira insuportável nos lábios. Deixou escapar um gemido e saltou do banco para a praia. Sobre a areia, ainda arquejava o peixe-escorpião. Houve uma trégua nos espasmos da dor. Seu corpo inteiro estava em fogo. Apesar da agonia o raciocínio permanecia claro. Mas, ora essa! Ia esquecendo a experiência! Devia ir à loca do polvo, para servir seu almoço! “Polvo, polvinho, vai ser a última refeição que eu te dou!”, dizia a si mesmo o Major Smythe, ajustando a máscara no rosto. Depois, apanhou o arpão, com o peixe espetado e, apertando o estômago com a mão livre, caminhou pela água adentro e, depois, mergulhou junto ao recife de coral. Poucas jardas o separavam agora do polvo. E foi gritando dentro da máscara, arrastando-se, quase de joelhos, que ele as percorreu. À medida que a água se tornava mais profunda, a dor se fazia mais intensa e seus movimentos pareciam com os de um fantoche, impulsionado por um feixe de cordéis. Só a poder de uma grande força de vontade pôde continuar rumo à morada do polvo. Sim, a sua massa escura ainda estava lá! E parecia excitadíssima. Por quê? O Major Smythe viu que as feridas de seu peito vertiam filetes de sangue escuro, que se diluía na água do mar. Era claro! O querido polvo sentira o gosto do seu sangue. Uma descarga de dor atingiu o major e o fez vergar-se. Disse a si mesmo, em delírio: “Que é isso, Dexter?! Firme, meu velho. Você tem que dar almoço ao polvinho”. Endireitou-se, empunhando o arpão com firmeza e aproximando o peixe da toca do polvo. Aceitaria ele a isca envenenada que o Major Smythe lhe oferecia e à qual talvez um octópode poderia ser imune? Ah, se Bengry estivesse presente, para observar! Três tentáculos, ondulando excitadamente, saíram da loca e passearam ao redor do peixe-escorpião. Agora, havia uma espécie de nevoeiro diante dos olhos do Major Smythe. Reconhecendo estar à beira da inconsciência, ele agitou fracamente a cabeça, para dissipá-lo. E, então, os tentáculos deram um salto! Mas não para o peixe: apertaram a mão e o braço que empunhavam o arpão. A boca do Major Smythe se torceu, numa careta de prazer. Agora, ele e o polvo podiam se apertar as mãos! Como era excitante! Que coisa maravilhosa! Mas o polvo, calma e implacavelmente, continuou a enroscar os seus tentáculos e a chamar a si o corpo do major. Só então Smythe compreendeu que algo de terrível ia acontecer. Fez um apelo a todas as suas forças e tentou golpear o octópode com o arpão. Mas tudo quanto conseguiu foi bater com o peixe-escorpião na massa escura do polvo. E, com o movimento que fez, ofereceu-se ainda mais a este, que o atraía de forma inexorável. Tarde demais o Major Smythe retirou sua máscara. Conseguindo alcançar a superfície, soltou um grito que reboou pela baía deserta, mas logo foi puxado para baixo. E, depois de algumas bolhas de ar, vieram à tona as pernas do major. As ondas lavavam o seu corpo, enquanto o polvo fazia a primeira tentativa para devorá-lo. O resto de Smythe foram encontrados por dois jovens da Jamaica, que pescavam peixes-agulhas numa canoa. Eles mataram o polvo, recolheram o arpão do Major Smythe com o peixe-escorpião e levaram os três despojos para a praia. O cadáver do major foi entregue à polícia e o peixe-escorpião aproveitado para a ceia. O destino do polvo de estimação seria também a panela ... O correspondente do Daily Gleaner em North Shore comunicou que o Major Smythe tinha sido morto por um polvo. Mas a redação do jornal, para não alarmar os turistas, preferiu dizer que ele “fora encontrado afogado”. Mais tarde, em Londres, James Bond, embora certo de que se tratara de um suicídio, anotou no dossier Oberhauser a versão do afogamento, com a respectiva data, na última página, o que encerrava o assunto. Somente pelas notas do Dr. Greaves sobre a autópsia, por ele mesmo realizada, é que foi possível escrever esta espécie de post-scriptum sobre o estranho e patético fim do outrora corajoso e útil oficial do Serviço Secreto.
Encontro em Berlim
(THE LIVING DAYLIGHTS)
James Bond estendia-se em posição na marca das quinhentas jardas da famosa linha de tiro Century Range, em Bisley. A pequena estaca branca na grama a seu lado dizia 44 e o mesmo número se repetia bem alto no talude distante acima do solitário alvo de seis pés quadrados que, ao olho humano e no crepúsculo do fim de verão, não parecia maior que um selo de correio. Mas a luneta de Bond, uma Sniperscope infravermelha fixada sobre o seu rifle, cobria todo o quadro. Ele podia até distinguir com clareza as cores azul-pálido e bege em que se dividia o alvo, e a mosca semicircular de seis polegadas parecia tão grande como a meia lua que já começava a se mostrar baixa no céu que escurecia acima da crista remota de Chobham Ridges.
O último tiro de James Bond fora um esquerdo interno — não o satisfizera. Deu uma outra olhada às bandeiras de vento amarelas e azuis. Tremulavam do leste através da linha de tiro mais intensamente do que quando tinha começado o seu tiro meia hora antes, e ele mudou o anemômetro dois pontos para a direita e assestou os dois fios cruzados da Sniperscope de volta ao foco de mira. Instalou-se então, colocou o indicador de leve dentro da guarda e sobre a curva do gatilho, prendeu a respiração e muito, muito suavemente apertou.
O estampido vicioso ecoou ao longo do campo vazio. O alvo desapareceu abaixo do solo e imediatamente o “boneco” tomou o seu lugar. Sim, a marca negra estava embaixo no canto direito desta vez, não no canto esquerdo: mosca.
— Bom — disse a voz do oficial chefe da linha, atrás e acima dele. — Fique com a mira.
O alvo já subira de novo e Bond recolocou a bochecha sobre o trecho quente da volumosa coronha de madeira e o olho na borracha que cerca a ocular da luneta. Enxugou a mão de atirar contra o lado das calças e pegou na coronha da pistola que sobressaía angulosamente da guarda do gatilho. Abriu de uma polegada o ângulo das pernas. Agora haveria cinco descargas rápidas. Era interessante ver se isso não provocaria “desgaste”. Ele achava que não. Esta arma extraordinária que o armeiro tinha descoberto sabe lá como dava à gente a sensação de que um homem de pé à distância de uma milha seria prato fácil. Era mais um rifle Experimental de Alvo Internacional, calibre 308, construído pela Winchester para ajudar os ases americanos do tiro em campeonatos mundiais, e tinha os dispositivos usuais das armas de alvo superacuradas — uma “mão” espiralada de alumínio nas costas da coronha que se estendia debaixo da axila e mantinha a arma com firmeza junto ao ombro, e uma pequena roda dentada ajustável abaixo do centro de gravidade do rifle para permitir que ele “se agarrasse” ao sulco do seu descanso de madeira. O armeiro tinha mandado trocar o ferrolho de tiro único usual por um depósito de cinco tiros, e tinha garantido a Bond que se ele deixasse apenas dois segundos entre cada tiro para estabilizar a arma não haveria desgaste, mesmo a quinhentas jardas. Para o serviço que devia fazer, Bond achava que dois segundos poderiam representar uma perda perigosa de tempo se errasse o seu primeiro tiro. De qualquer forma, M dissera que a distância não seria maior que trezentas jardas. Bond encurtaria o tempo para um segundo — fogo quase contínuo.
— Pronto?
— Sim.
— Vou à contagem regressiva de cinco. Agora! Cinco, quatro, três, dois, um. Fogo!
O chão tremeu ligeiramente e o ar silvou enquanto as cinco cápsulas velozes de cuproníquel varejavam o crepúsculo. O alvo baixou e rapidamente voltou a erguer-se condecorado com quatro pequenos discos brancos agrupados bem juntos na mosca. Não houve nenhum quinto disco — nem mesmo um negro para indicar um interno ou externo.
— A última descarga foi baixa — disse o chefe da linha baixando seus binóculos noturnos. — Obrigado pela contribuição. Limpamos a areia atrás daqueles alvos todo fim de ano.
Nunca recolhemos menos de quinze toneladas de estilhaços em legítimo chumbo e cobre. Um bom dinheiro.
Bond tinha-se levantado. O cabo Menzies da seção dos armeiros surgiu do pavilhão do Clube de Tiro e ajoelhou-se para desmontar a Winchester e o seu descanso. Olhou para cima encarando Bond. Disse com uma ponta de crítica. — O senhor tocou a coisa um pouco rápido. A última descarga tinha de escoicear.
— Eu sei, cabo. Só queria ver com que rapidez eu podia tocar. Não quero pôr a culpa na arma. É um trabalho enxuto, infernal. Por favor, diga isso por mim ao armeiro. Agora é melhor ir andando. Você tem condução de volta a Londres, não?
— Tenho, sim senhor. Boa noite.
O oficial chefe da Linha entregou a Bond uma ficha de seu tiro — dois tiros de ensaio e depois dez descargas para cada cem jardas até as quinhentas. — Pontaria danada de boa com esta visibilidade. Você devia voltar aqui o ano que vem e tentar o Prêmio da Rainha. Hoje em dia está aberto para todos — isto é, da Comunidade Britânica.
— Obrigado. O problema é que não passo tanto tempo assim na Inglaterra. E muito obrigado por ter feito a marcação para mim.
Bond olhou para a distante Torre do Relógio. De cada lado, a bandeira vermelha de perigo e o tambor vermelho de sinalização estavam sendo arriados para mostrar que o tiroteio tinha cessado. Os braços marcavam nove e quinze. — Gostaria de oferecer-lhe um drinque, mas tenho um encontro em Londres. Podemos adiá-lo até o Prêmio da Rainha de que você estava falando?
O chefe da Linha fez que sim com a cabeça, neutramente. Ele tinha aguardado ansioso a oportunidade de conhecer mais coisas sobre este homem que surgira assim sem mais nem menos depois de uma série de avisos do Ministério da Defesa e fora em frente acertando bem mais de noventa porcento em todas as distâncias, isso depois de fechada a linha para a noite e com visibilidade entre sofrível e má. E por que tinha ele, que só oficiava no encontro anual de julho, sido escalado para estar presente? E por que lhe tinham dito para providenciar uma mosca de seis polegadas a 500 jardas para Bond, em vez da regulamentar de quinze polegadas? E por que todos esses cuidados com a bandeira de perigo e o tambor de sinalização que só se usavam em ocasiões cerimoniais? Para pressionar o homem? Para dar um clima de urgência ao tiro? Bond. Comandante James Bond. A A.N.R. certamente teria a ficha de uma pessoa que atirava tão bem assim. Não se esqueceria de dar-lhes um telefonema. Que hora estranha para um compromisso em Londres. Provavelmente uma garota. O rosto do chefe da Linha assumiu uma expressão de desagrado. O tipo do sujeito que apanhava todas as garotas que queria.
Os dois homens caminharam através da bela fachada da sede do clube além da linha de tiro até o carro de Bond que estava estacionado diante de uma reprodução em ferro do famoso “Veado em Fuga” de Landseer toda picotada de balaços. — Uma beleza de carro — comentou o chefe da Linha. Nunca vi uma carroçaria assim num Continental. Mandou fazê-la especialmente?
— Mandei. Os Sports Saloons na verdade só têm dois lugares. E muito pouco espaço para bagagem. Por isso pedi a Mulliner’s que o transformassem num verdadeiro dois-lugares e com porta-malas de sobra. Um carro egoísta, não há dúvida. Bem, boa noite. E novamente muito obrigado.
O escape roncou com saúde e as rodas traseiras cuspiram cascalho por um instante.
O oficial chefe da Linha observou os faróis rubis desaparecerem na King’s Avenue a caminho da estrada de Londres. Girou nos calcanhares e foi procurar o cabo Menzies numa busca de informação que terminaria sem frutos. O cabo permaneceu tão fechado como a grande caixa de mogno que estava colocando num Land-Rover caqui, limpo de símbolos militares. O chefe da Linha era um major. Tentou apelar para a hierarquia, mas sem êxito. O Land-Rover afastou-se rodando no rastro de Bond. O major dirigiu-se soturno aos escritórios da Associação Nacional do Rifle para tentar achar a informação que queria na biblioteca sob o nome “Bond, J.”
O compromisso de James Bond não era com uma garota. Era com um voo da B.E.A. para Hanover e Berlim. Enquanto engolia as milhas que o separavam do Aeroporto de Londres, pisando firme o grande carro a fim de ter tempo de sobra para um drinque, três drinques, antes da decolagem, apenas uma parte de sua mente fixava-se na estrada. O restante reexaminava pela enésima vez a sequência que agora o conduzia a um encontro com um aeroplano. Mas apenas um encontro provisório. Seu compromisso final numa das três próximas noites em Berlim era com um homem. Tinha que se encontrar com esse homem e infalivelmente matá-lo com um tiro.
Quando, por volta de duas e meia daquela tarde, James Bond atravessara as portas duplamente acolchoadas e sentara-se em frente do perfil voltado, do outro lado da grande escrivaninha, sentira imediatamente o perigo no ar. Não houve troca de cumprimentos. A cabeça de M afundava-se no colarinho duro numa pose churchilliana de sombria reflexão, e havia um traço de amargura nos cantos dos lábios. Girou a cadeira para encarar Bond, passou-lhe um olhar examinador como se, pensou Bond, quisesse verificar se sua gravata estava direita e o cabelo adequadamente penteado, e então começou a falar, rapidamente, atalhando suas sentenças como se desejasse ver-se livre do que estava dizendo, e de Bond, o mais depressa possível.
— O número 272. É um bom homem. Você talvez não o conheça. Pela simples razão de que ficou naquele buraco da Novaya Zemlya desde a guerra. Agora está tentando sair — carregado de material. Atômico e foguetes. E o plano deles para toda uma nova série de testes. Para 1961. Querem avivar o fogo no Ocidente. Algo a ver com Berlim. Não vejo bem o quadro mas o Foreign Office diz que se for verdade é uma coisa tremenda. Ridiculariza a Conferência de Genebra e toda essa demagogia sobre desarmamento nuclear que o bloco comunista vem fazendo. Ele conseguiu chegar até a Berlim Oriental. Mas tem praticamente toda a KGB no seu encalço — e as forças de segurança da Alemanha Oriental, é claro. Está entocado num buraco qualquer da cidade e conseguiu passar-nos uma mensagem — de que atravessaria entre seis e sete da tarde numa das três próximas noites — amanhã, depois de amanhã ou no dia seguinte. Indicou o ponto de travessia. O problema — a curva dos lábios de M, voltada para baixo, tomou-se ainda mais amarga — é que o mensageiro que ele usou fazia jogo duplo. A estação W.B. pilhou-o ontem. Por acaso. Deu sorte com um dos códigos da KGB O mensageiro será mandado de avião para julgamento, naturalmente. Mas isso não ajudará em nada. A KGB sabe que o 272 vai tentar a travessia. Sabem quando. Sabem onde. Sabem tanto quanto sabemos e nada mais. Ora, o código que deciframos ontem era um esquema de um só dia em suas máquinas. Mas conseguimos todo o tráfico daquele dia e isso foi bastante bom. Planejam alvejá-lo ao tentar a travessia. No cruzamento de ruas entre a Berlim Leste e a Oeste que nos indicou na mensagem. Estão montando uma operação daquelas — operação “Êxtase” como a chamam. Puseram o seu melhor tocaia no serviço. Tudo o que soubemos dele ó que seu nome cifrado é a palavra russa para “Gatilho”. A estação W.B. acha que é o mesmo homem já usado em outros serviços de tocaia. Um serviço de longo alcance através da fronteira. Ficará de guarda toda noite nesse cruzamento e sua missão é acertar no 272. É óbvio que eles certamente prefeririam fazer um serviço mais suave com metralhadoras e coisas do gênero. Mas Berlim está calma no momento e parece que a ordem é ficar assim. De qualquer forma — M sacudiu os ombros — eles têm confiança nesse operador “Gatilho” e o negócio vai ser assim!
— E onde é que eu entro? — James Bond tinha adivinhado a resposta, adivinhado porque M mostrava seu desagrado com a coisa toda. Ia ser trabalho sujo e Bond, porque pertencia à Seção Zero-Zero, tinha sido escolhido para fazê-lo. Perversamente, Bond queria forçar M a pôr o preto no branco. Iam ser notícias más, notícias sujas e ele não queria ouvi-las de um dos oficiais da Seção, nem mesmo do chefe do Estado-Maior. O negócio ia ser assassínio. Está bem. Que M tenha então a coragem de me dizer.
— Onde é que você entra, 007? — M olhou friamente do outro lado da escrivaninha. — Você sabe onde é que você entra. Você tem que matar esse tocaia. E tem que matá-lo antes que acerte no 272. É tudo. Está claro? — Os olhos azuis-claros permaneceram frios como gelo. Mas Bond sabia que só ficavam assim com um esforço da vontade. M não gostava de mandar qualquer homem para um homicídio. Mas, quando isso tinha de ser feito, ele sempre assumia a sua severa e fria ação de comando. Bond sabia a razão. Era para tirar um pouco da pressão, um pouco da culpa, dos ombros do matador.
Portanto Bond, que sabia dessas coisas, decidiu agora tornar fácil e rápida a tarefa de M. Levantou-se. — Está certo, sir. Suponho que o chefe do Estado-Maior tenha tudo pronto. É melhor eu ir praticar um pouco. Não seria bom errar.
Caminhou para a porta.
M disse calmamente: — Sinto ter que lhe dar essa tarefa. Serviço desagradável. Mas tem que ser bem executado.
— Farei o melhor — James Bond saiu fechando a porta atrás de si. Não gostava do serviço mas no final preferia fazê-lo a assumir a responsabilidade de mandar alguém em seu lugar.
O chefe do Estado-Maior tinha sido apenas um pouco mais simpático. — Lamento esta sua aquisição, James — dissera ele. — Mas Tanqueray foi inflexível, não tinha ninguém suficientemente bom na estação e esse não é o tipo de serviço que se pode pedir a um soldado regular para fazer. Há uma porção de excelentes tiros na B.A.O.R., mas um alvo vivo requer outro tipo de coragem. De qualquer forma, liguei para Bisley e marquei um exercício para você esta noite às oito e quinze quando a linha estiver fechada. A visibilidade será mais ou menos a mesma que você terá em Berlim cerca de uma hora antes. O armeiro está com a arma — verdadeira obra de arte para alvejar, e vai mandá-la por um de seus homens. Você irá com a sua própria condução. Depois, há um voo de carreira para Berlim à meia-noite reservado em seu nome na B.E.A. Tome um táxi até esse endereço. — Entregou a Bond um pedaço de papel. — Suba ao quarto andar e encontrará o número 2 de Tanqueray à sua espera. Depois disso, sinto que você terá que esperar sentado pelos próximos três dias.
— E a arma? Esperam que atravesse a alfândega alemã com ela dentro de um saco de golfe ou coisa assim?
O chefe do Estado-Maior não tinha achado graça. — Seguirá pela mala diplomática. Você a receberá amanhã ao meio-dia. — Tinha estendido a mão até o bloco de avisos. — Bem, é melhor ir andando. Vou avisar a Tanqueray que está tudo combinado.
James Bond baixou o olhar para o rosto azul difuso do relógio no painel do carro. Dez e quinze. Com um pouco de sorte, amanhã a esta hora estaria tudo terminado. Afinal, era a vida deste homem “Gatilho” contra a vida do 272. Não era exatamente homicídio. Estava perto disso, no entanto. Apertou maldosamente sua buzina-de-serra tripla ao passar por um quatro portas comum, ingressou no cruzamento circular com uma derrapagem seca desnecessária, girou violentamente o volante fazendo a correção e apontou o nariz do Bentley em direção do brilho distante que era o Aeroporto de Londres.
O edifício feio de seis andares na esquina da Kochstrasse e da Wilhelmstrasse era o único de pé na desolação de um espaço vazio bombardeado. Bond pagou o táxi e gravou uma breve impressão de capim, alto como a cintura, e de paredes de entulho mal reparadas, estendendo-se na direção de um grande cruzamento deserto iluminado por um feixe central de lâmpadas amareladas em arco, antes de apertar o botão para o quarto andar e imediatamente ouviu o clique do dispositivo que abria a porta do prédio. A porta fechou-se atrás dele e caminhou então sobre o chão de cimento sem tapete até o antiquado elevador. O cheiro de repolho, cigarro barato e suor rançoso lembravam outros prédios de apartamentos na Alemanha e Europa Central. Até o arrastar e o guincho fraco do elevador vagaroso eram parte de centenas de missões em que tinha sido lançado por M, como um projétil, a algum alvo distante onde um problema aguardava a sua chegada, à espera de ser resolvido por ele. Pelo menos desta vez o comitê de recepção estava do seu lado. Desta vez não havia nada a temer no fim da escada.
O número 2 da Estação W.B. de Serviço Secreto era um homem esguio e tenso de quarenta e poucos anos. Vestia o uniforme de sua profissão — terno bem cortado e bem usado de tweed leve ponto pé-de-pato num tom verde-escuro, camisa de seda macia branca e uma velha gravata de colégio — neste caso de Wykeham. Ao ver a gravata, enquanto trocavam as saudações convencionais no pequeno saguão mofado do apartamento, o ânimo de Bond, já baixo, desceu mais um degrau. Conhecia esse tipo: espinha dorsal do Serviço Público; superestudioso e mal-amado em Winchester; um bom segundo em P.P.E. em Oxford; a guerra, cargos funcionais que teria ocupado meticulosamente; talvez uma Ordem do Império Britânico; Comissão do Controle Aliado na Alemanha, onde fora recrutado no Ramo I e a partir de então — porque era o funcionário ideal e A. 1 junto à Segurança e porque pensava em encontrar vida, drama, romance, todas as coisas que nunca linha tido — lá fora ele para o Serviço Secreto. Um homem sóbrio, cuidadoso se fizera necessário para bancar a dama de companhia de Bond neste negócio feio. O Capitão Paul Sender, que já servira na Guarda Galesa, tinha sido a escolha óbvia. E tinha aceitado. Agora, como bom Wykehamista, escondia o seu desagrado pelo serviço debaixo de uma conversa cuidadosa e banal enquanto mostrava a Bond a planta do apartamento e as providências tomadas para a prontidão do carrasco e, numa medida modesta, para o seu conforto.
O apartamento consistia de um amplo dormitório conjugado, um banheiro e uma cozinha equipada de enlatados, leite, manteiga, ovos, chá, bacon, pão e uma garrafa de Dimple Haig. O único detalhe estranho no quarto de dormir era que uma das camas duplas estava encostada em ângulo contra as cortinas que cobriam o amplo janelão único e sobre ela se empilhavam três colchões cobertos pela roupa de cama.
O Capitão Sender disse: — Gostaria de dar uma olhada ao campo de fogo? Poderei então explicar o que é que o lado de lá tem em mente.
Bond estava cansado. Não desejava especialmente ir dormir com a imagem do campo de batalha na memória. Disse: — Seria ótimo.
O Capitão Sender apagou as luzes. Faixas luminosas das lâmpadas no cruzamento apareceram em volta das cortinas. — Não quero puxar as cortinas — disse o Capitão Sender. — É pouco provável, mas eles podem ter sido alertados contra um grupo de cobertura para o 272. Queria que você apenas se deitasse na cama e enfiasse a cabeça por baixo das cortinas. Explicarei o que você estiver vendo. Olhe para a esquerda.
Era uma janela de guilhotina e a metade inferior estava aberta. Os colchões, especialmente escolhidos, só cediam um pouco e James Bond encontrou-se mais ou menos na posição de tiro que tinha adotado em Century Range, mas agora olhava através de terreno descontínuo, coberto de densa vegetação e bombardeado, na direção do rio de luz que era a Zimmerstrasse — a fronteira com a Berlim Oriental. Parecia a umas cento e cinquenta jardas de distância. A voz do Capitão Sender acima dele e por trás da cortina começou a recitar. Lembrava a Bond uma sessão espírita.
— Ali é terreno bombardeado à sua frente. Bastante cobertura. Umas cento e trinta jardas até a fronteira. Depois a fronteira — a rua — e então um trecho grande ainda de terreno bombardeado no campo do inimigo. É por isso que o 272 escolheu essa passagem. É um dos poucos locais na cidade em que o terreno é descontínuo — capinzais cerrados, muros em ruínas, porões — nos dois lados da fronteira. Ele deverá es-gueirar-se entre aquela confusão do outro lado e arremessar-se através da Zimmerstrasse até alcançar a confusão do nosso lado. O problema é que terá de correr trinta jardas de fronteira fortemente iluminada. Será o espaço da matança. Certo?
Bond disse: — Sim.
Disse-o com suavidade. O cheiro do inimigo, a necessidade de tomar cuidado, já estavam atuando sobre seus nervos.
— À sua esquerda, aquele novo e imenso bloco de dez andares é a Haus der Ministerien, o grande centro cerebral de Berlim-Leste. Você pode ver que as luzes ainda estão acesas na maioria das janelas. A maior parte delas ficará assim toda a noite. Esses sujeitos trabalham mesmo — seus turnos dão a volta no relógio. Você provavelmente não precisará preocupar-se com as janelas acesas. Esse fulano “Gatilho” certamente vai atirar de uma das janelas escuras. Você verá que existe um grupo de quatro, juntas, na quina acima do cruzamento. Ficaram escuras na noite passada e esta noite. Elas têm o melhor campo de fogo. Daqui, o seu alcance varia entre trezentas e trezentas e dez jardas. Estou com todos os números e dados quando você quiser. Não é preciso preocupar-se muito mais. Aquela rua fica vazia durante a noite — apenas as patrulhas motorizadas cerca de cada meia hora — carros blindados leves com uma dupla de motocicletas por escolta. Na noite passada, que suponho normal, entre seis e sete, que é a hora em que se fará este serviço, havia umas poucas pessoas entrando e saindo por aquela porta lateral. Uns funcionários. Antes disso nada fora do comum — o fluxo costumeiro de pessoas entrando e saindo de um edifício de governo movimentado — com exceção, veja só, de uma miserável orquestra completa de mulheres. Fizeram uma confusão infernal numa sala de concertos que tem ali. Parte do bloco aloja o Ministério da Cultura. Fora disso nada — certamente nenhuma das pessoas da KGB que conhecemos, nem sinais de preparação para um serviço deste gênero. Mas nem pode haver sinais. São muito cuidadosos estes sujeitos da oposição. De qualquer maneira, dê uma boa olhada. Não esqueça que agora está mais escuro do que amanhã por volta das seis. Mas você pode formar um quadro geral.
Bond formou o quadro geral e o quadro ficou com ele muito tempo enquanto o outro homem já dormia e ressonava suavemente com um pequeno som regular que lembrava um fraco estalido — um ronco Wykehamista, refletiu Bond irritado.
Sim, tinha formado o quadro — o quadro de um lampejo movimento entre as ruínas sombreadas no outro lado do brilhante rio de luz, uma pausa, e então a desesperada corrida em ziguezague de um homem sob o impacto luminoso das lâmpadas, o espocar da arma de fogo e, ou um fardo retorcido espalhado no meio da rua larga, ou então a investida sempre em frente através do capinzal e do entulho no Setor Ocidental — morte súbita ou volta a casa. O grande desafio! Quanto tempo teria Bond para localizar o tocaia russo numa daquelas janelas escuras? E para matá-lo? Cinco segundos? Dez? Quando o amanhecer começava a cobrir as cortinas com o tom metálico das armas, Bond capitulou para sua mente agitada. Ela tinha ganho. Foi em silêncio até o banheiro e inspecionou as fileiras de remédios que um prestimoso Serviço Secreto tinha providenciado para manter o seu carrasco em boa forma. Escolheu o Tuinal, engoliu duas das cápsulas concentradas, rubis e azuis, com um copo de água e voltou à cama. Então, chumbado, dormiu.
Acordou ao meio-dia. O apartamento estava vazio. Bond abriu as cortinas para deixar entrar o dia cinzento prussiano e, de pé a uma boa distância da janela, ficou vendo a monotonia de Berlim e ouvindo o ruído dos bondes e o arranhar distante dos trens da U-Bahn na grande curva de entrada da estação do Zoo. Lançou um olhar rápido e relutante ao que já tinha examinado na noite anterior, notou que o capim no entulho de bombardeio era mais ou menos o mesmo de Londres — loendro, labaçol e samambaia — e dirigiu-se então à cozinha. Havia uma nota apoiada numa fatia de pão: “Meu amigo (eufemismo do Serviço Secreto que neste contexto significava o chefe de Sender) diz que não há mal em você sair. Mas esteja de volta às 17 horas. Seu equipamento (outra palavra para o rifle de Bond) chegou e o bagageiro a entregará esta tarde. P. Sender.”
Bond acendeu o fogão a gás e queimou a mensagem com desprezo por sua profissão e em seguida preparou um prato enorme de ovos mexidos e bacon que amontoou sobre uma torrada coberta de manteiga e comeu com acompanhamento de café preto no qual derramara uma porção liberal de uísque. Depois tomou um banho e barbeou-se, vestiu as roupas descoloridas, centro-europeias e anônimas que tinha trazido para a sua missão, olhou a sua cama em desordem, decidiu que tudo fosse para o inferno e desceu pelo elevador deixando o edifício.
James Bond sempre achara Berlim uma cidade deprimente e hostil, esmaltada no lado Ocidental com o verniz superficial de um polimento pretensioso parecido com os enfeites cromados dos carros americanos. Caminhou até a Kurfurstendamm, sentou-se no Café Marquardt, tomou um expresso e ficou observando com tédio as filas obedientes de pedestres esperando o sinal “Siga” nos postes de trânsito enquanto a corrente luminosa de carros continuava a sua perigosa quadrilha na movimentada intersecção. Fazia frio lá fora e o vento cortante das estepes russas fustigava as saias das garotas e os impermeáveis dos homens impacientes e apressados, cada um com a infalível pasta enfiada debaixo do braço. Os aquecedores de parede infravermelhos do café apontavam o vermelho para baixo e davam um brilho espúrio ao rosto dos cafeinômanos que degustavam sua tradicional “uma xícara de café e dez copos de água”, lendo de graça os jornais e revistas presos por paus, ou se curvavam com seriedade sobre papéis de negócios. Bond, fechando o pensamento para a noite, discutia consigo mesmo as maneiras de passar a tarde. Finalmente chegou à escolha entre uma visita àquela casa de respeitável fachada de pedra, na Clausewitzstrasse, conhecida de todos os porteiros e choferes de táxi, ou um passeio ao Wannsee e uma vigorosa caminhada no Grunewald. A virtude triunfou. Bond pagou o café, saiu no frio e tomou um táxi até a estação do Zoo.
As belas arvorezinhas jovens em volta do lago extenso já tinham sido tocadas pelo sopro do outono e havia um dourado aqui e ali no meio do verde. Bond caminhou com energia durante duas horas pelas veredas cobertas de folhas e então escolheu um restaurante com terraço envidraçado sobre o lago e saboreou com prazer um chá reforçado consistindo de uma porção dupla de arenques do Norte mergulhados em creme e anéis de cebola, e dois Molle mit Korn, o equivalente berlinense de um “fabricante de caldeiras e seu assistente” — schnapps, duplos, acompanhados por um chope Löwenbräu. Sentindo-se então mais animado tomou a S-Bahn para voltar à cidade.
Em frente do prédio de apartamentos, um jovem indefinível estava mexendo no motor de um Opel Kapitan negro. O jovem não tirou a cabeça debaixo do capo quando Bond passou bem perto dele e subiu até a porta e apertou o botão.
CONTINUA
Quando chegou embaixo, sentou-se no musgo, sob os abetos. Estendeu no chão a camisa, colocou no centro dela as barras de ouro e fez uma trouxa, amarrando bem as fraldas e as mangas. Depois, cavou um buraco no chão e enterrou a caixa metálica vazia. E vergando ao peso, quase dobrado em dois, caminhou pela estreita trilha, entre os pinheiros, rumo ao jipe. Até aquele dia não conseguira saber como tivera forças para alcançar o veículo. Os nós que dera na trouxa pareciam penetrar nas carnes de seu ombro, sob o peso das barras de ouro. Quando, finalmente, alcançou o jipe, quase teve um colapso, tão exausto estava. Mas não podia descansar, ainda. Precisava sair dali para enterrar o seu tesouro na floresta, perto de um grupo de grandes rochas, onde lhe seria fácil encontrá-lo de novo, na ocasião oportuna em dia, quando o horizonte estivesse limpo, voltaria, por outra rota, evitando o chalé de Oberhauser. Só então, terminado tudo, fora embebedar-se com uma garrafa de schnapps barato. Jantou e meteu-se na cama, para dormir como uma pedra. No dia seguinte, a Força A da DAG seguiu para o vale do Mittersill. Seis meses depois o Major Smythe estava em Londres. A sua guerra havia terminado. Mas os seus problemas, não. Ouro era coisa difícil de contrabandear, principalmente em grande quantidade. E era essencial que o Major Smythe transferisse as suas barras para um novo esconderijo. Por isso, ele procurou evitar a desmobilização e gozar os privilégios de seu comissionamento temporário, sobretudo o seu passe do Serviço Secreto Militar. Conseguiu ser mandado de volta para a Alemanha, como representante da Inglaterra no Centro Misto de Investigação de Munique. Aí, trabalhou durante seis meses e, nesse período, teve a oportunidade de recuperar o ouro, que levou para o seu alojamento numa velha valise. Depois, em dois fins de semana, fez viagens aéreas para Londres, levando, de cada vez, uma barra de ouro, em sua volumosa pasta. A caminhada nos aeroportos de Munique e de Londres, com a pasta sob o braço, como se contivesse apenas papéis, exigira dois tabletes de benzedrina e uma vontade de ferro. Finalmente, pôde esconder sua fortuna no porão da casa de uma tia, em Kensington, e assim, com tranquilidade, pôde desenvolver a parte final de seus planos. Pediu reforma nos Fuzileiros Reais e, uma vez desmobilizado, casou-se com uma das muitas moças com quem tivera aventuras durante o serviço da DAG, uma graciosa Wren chamada Maria Parnell. Comprou passagem para ambos num cargueiro para a Jamaica, que representava, para ambos, um paraíso ensolarado, com boa e farta comida, bebida barata, sem a melancolia e as restrições impostas na Inglaterra, após a guerra, pelo severo governo trabalhista. Antes do embarque, o Major Smythe mostrou a Mary as barras de ouro, das quais já havia raspado a cinzel os símbolos do Reichsbank.
— Tenho sido muito econômico e esperto, meu bem — disse ele. — Não confio na libra. Por isso, vendi todas as minhas ações e comprei um bocado de ouro. Teremos pelo menos 20 mil libras, se eu o vender bem. Isso basta para nos assegurar uma boa vida, até o fim dos nossos dias. Sempre que for preciso, eu venderei um pouquinho — explicou.
Mary Parnell não era familiarizada com as leis monetárias. Mas se ajoelhou e passou as mãos, carinhosamente, sobre as barras de ouro. Depois, com os braços ao redor do pescoço do marido, beijou-o e disse, quase em lágrimas: — Você é um homem maravilhoso... Sim, maravilhoso! Terrivelmente inteligente, bonito, simpático, herói da guerra e, além do mais, rico! Eu sou a garota mais feliz do mundo!
— Você tem razão pelo menos numa coisa: ricos, nós somos. Mas prometa não dizer uma só palavra a quem quer que seja! Pois, se disser, todos os ladrões da Jamaica irão rondar a nossa casa.. .
O Prince’s Club, ao pé das colinas que dominam os arredores de Kensington, era realmente esplêndido. Para os seus sócios, não havia nada melhor: maravilhosa criadagem, comida farta, bebida barata, belíssimos cenários tropicais, como nunca tinham visto antes. O casal era muito popular e os serviços de guerra do Major Smythe lhe davam ingresso na alta sociedade local e na Government House. A vida de ambos era uma série interminável de festas, misturadas com o tênis de Mary e o golfe do major (com os bastões metálicos de Henry Cotton!) durante o dia, e partidas de bridge (para ela) e de pôquer (para ele) durante as noites. Sim, era um paraíso, porque, na Inglaterra, havia racionamento, filas e mercado negro, um governo atroz e o pior inverno dos últimos trinta anos. A princípio, o casal enfrentou as despesas com as economias em dinheiro, que ambos haviam reunido, enquanto se vestiam, se alimentavam e se transportavam à custa do Exército. Só depois de um ano de cautelosas investigações é que o Major Smythe se decidiu a fazer negócio com os irmãos Fu, comerciantes importadores e exportadores. Altamente respeitados e muito ricos, os irmãos Fu eram conhecidos como uma espécie de junta governativa da comunidade chinesa da Jamaica. Ainda que alguns dos seus negócios se desviassem das boas normas, segundo a tradição chinesa, Smythe achou que poderia confiar neles. A Convenção de Bretton Woods, fixando um preço internacional para o ouro, sob rigoroso controle, tinha sido assinada deixando de parte Tânger e Macau, dois portos livres, em que a onça de ouro valia entre 99 e 100 dólares, quando nos outros lugares o preço oficial era de 35. E, para maior conveniência de seus negócios, os Fu tinham aberto um restaurante em Hong-Kong, transformado em entreposto para o contrabando de ouro para a vizinha Macau. Isso, na linguagem do Major Smythe, era sopa no mel. Ele tivera um agradável encontro com os Fu. Nenhuma pergunta estes fizeram, senão depois do exame das barras de ouro.
— Major — disse o mais velho dos irmãos —, no mercado de ouro em barras, as marcas dos bancos nacionais e dos negociantes respeitáveis são aceitos sem discussão. Essas marcas são a garantia da pureza do ouro. Mas outros bancos e outros vendedores têm seus próprios processos de refinação, que talvez, não sejam tão perfeitos...
— Quer dizer que eu fui enganado? — Perguntou, ansiosamente, o major. — Que isso não é senão uma barra de chumbo coberta de uma leve camada de ouro?
Os dois irmãos deram muxoxos tranquilizadores:
— Não, não, major... Não se trata disso. Mas, se uma pessoa não se recorda da proveniência dessas barras de ouro, por mais finas que elas sejam é sempre necessário submetê-las a um ensaio, para verificação do seu exato teor... Há muitos métodos para determinar o grau de pureza dessas barras. Meu irmão e eu somos competentes em qualquer deles. Quer deixar as barras de ouro conosco e vir saber o resultado depois do almoço? Nós lhe daremos um recibo...
Não havia alternativa. Teria que confiar nos Fu. Qualquer que fosse o preço por eles arbitrado, seria forçado a aceitar. Estava nas mãos deles. Foi a um bar, onde tomou dois drinques fortes e comeu um sanduíche que lhe ficou atravessado na garganta. Depois, voltou ao escritório refrigerado dos Fu. O cenário era o mesmo: os dois irmãos sorridentes, as duas barras de ouro, a pasta de couro, etc. Só havia a mais uma folha de papel e uma caneta-tinteiro de pena de ouro, em frente do irmão mais velho.
— Resolvemos o problema do seu ouro, major! — (Esplêndido! Obrigado, pensou Smythe.) — E estou certo de que o senhor terá interesse em conhecer sua origem...
— Claro! Qual é? — Fez o major, com uma corajosa demonstração de entusiasmo.
— São barras de ouro alemãs! Provavelmente saíram dos depósitos do Reichsbank, durante a guerra. Isso pode ser deduzido do fato de que contêm dez porcento de chumbo. Durante o regime de Hitler, o Reichsbank fez a tolice de adulterar por esse modo o seu ouro. Isso logo se espalhou e o preço das barras de ouro alemãs, vendidas na Suíça, sofreu logo uma redução de preço, correspondente à adulteração. Foi uma bobagem, que só teve um resultado: o banco nacional da Alemanha perdeu a reputação que conquistara durante séculos... Bobagem... Uma grandíssima bobagem... — Concluiu o chinês, com o seu invariável sorriso.
O Major Smythe estava maravilhado com a onisciência desses dois homens, tão afastados dos grandes canais de comércio do mundo. Mas ao mesmo tempo os amaldiçoava, intimamente. E agora?
— É muito interessante, Sr. Fu... Mas isso não é uma boa notícia para mim. Essas barras de ouro me foram entregues como coisa cem por cento...
— Não tem importância, major — disse o mais velho dos Fu. — Ou melhor, quase não tem importância. Venderemos o seu ouro pelo justo valor, ou seja, 89 dólares a onça. Terá que ser, ou não, refinado pelo último comprador. Mas isso não é da nossa conta. Nós o venderemos também como cem por cento...
— Mas a um preço mais baixo...
— Realmente, major. Mas creio que temos uma boa notícia para o senhor. Quanto calculava obter com essas duas barras?
— Cerca de 20 mil libras...
— Se as vendermos bem e aos pouquinhos — disse o mais velho dos Fu —, o senhor receberá mais de 100 mil dólares, major, sujeitos, é claro, ao desconto da nossa comissão, que inclui o transporte e outras despesas.
— E a quanto montará isso?
— Estou pensando em fixar em 10 por cento, major. Se lhe parecer satisfatório...
O Major Smythe tinha a impressão de que vendedores de ouro em barras recebiam apenas um por cento de comissão. Mas, que diabo, antes do almoço já estava disposto a largar tudo até por 10 mil libras. Disse “fechado” e levantou-se, estendendo a mão através da mesa. Desde então, de quatro em quatro meses, ia visitar o escritório dos Fu, levando uma valise vazia. Havia sempre quinhentas libras novas, da emissão da Jamaica, em pacotes, sobre a mesa, à sua espera, e um recibo da quantidade vendida, com o preço alcançado em Macau. As barras de ouro diminuíam de tamanho, de polegada em polegada. O negócio era simples e cordial. Duas mil libras limpas, por ano, eram o bastante para ele, e só o afligia a possibilidade de que o pessoal do imposto de renda começasse a apertá-lo, para saber do que estava vivendo. Ele disse isso aos Fu, que lhe fizeram saber que não precisava se preocupar. Nas duas vezes seguintes, havia apenas quatrocentas libras na mesa, mas nenhum comentário foi feito, por qualquer dos lados. E assim os dias iam se passando, preguiçosamente. Os Smythes engordavam e o major teve a primeira das duas complicações das coronárias. O médico lhe recomendou uma vida menos ativa, com menos álcool e menos cigarros. Evitasse, também, as gorduras e as comidas fritas. A princípio, Mary tentou ser severa com ele, mas quando o marido começou a beber escondido e a inventar pequenas mentiras e evasivas, ela recuou desse propósito. Teve medo de se transformar numa chata doméstica, a quem o Major Smythe passaria a evitar. Por isso, deu-lhe inteira liberdade, sabendo que ele não mais a amava, e quando a sua solidão se tornou demasiada e as insônias intoleráveis, viciou-se em tomar soníferos. Uma noite, depois de uma violenta briga, estando ambos embriagados, tomou ela uma dose excessiva, só “para dar-lhe uma lição”. A dose era tão exagerada que a matou. O suicídio foi dissimulado, mas ainda assim recaíram suspeitas sobre o major, em prejuízo de sua reputação social. E a tal ponto que ele teve de se retirar para North Shore que, embora a apenas três milhas de Kensington, parece pertencer a um outro mundo. Aí ele se instalou em Wavelets e, depois da segunda complicação das coronárias, começou a beber desenfreadamente. Foi então que entrou em cena James Bond com um mandado de prisão ou de morte no bolso.
O Major Smythe olhou para o relógio. Passavam alguns minutos do meio-dia. Ele se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale e foi para o jardim. James Bond estava sentado sob a frondosa amendoeira, olhando para o lar. Nem se voltou para o Major Smythe quando este puxou outra cadeira de alumínio e colocou o copo na relva, perto dele. Quando o Major Smythe acabou de narrar a sua história, James Bond disse, sem demonstrar qualquer emoção: — Era mais ou menos isso o que eu havia pensado...
— Quer que eu escreva tudo ou apenas assine?
— Faça como quiser. Mas isso não se entende comigo. Deve entregar à Corte Marcial. Seu velho Corpo de Fuzileiros Reais é que vai tomar conta do caso. Não tenho nada que ver com os aspectos legais. Farei apenas um relatório do que me disse, para a Procuradoria da Justiça, através da Scotland Yard...
— Posso perguntar uma coisa? Como foi que descobriu?
— A geleira era pequena. O corpo de Oberhauser chegou embaixo no início deste ano, quando as neves da primavera derreteram. Alguns alpinistas o encontraram. Todos os seus papéis e tudo o mais estava perfeito. A família o identificou. Depois, foi só uma questão de recuar no tempo. O calibre das balas deu logo a pista...
— Mas como se envolveu neste assunto?
— A Força da DAG era uma das minhas responsabilidades, um dos meus serviços. Quando o assunto chegou ao meu conhecimento, fui dar uma busca nos arquivos. Como tinha tempo livre, pedi que me entregassem a missão de descobrir o autor da morte de Oberhauser...
— Por quê?
— Porque — e James Bond fixou os olhos do Major Smythe — acontece que Oberhauser era um velho amigo meu. Foi quem me ensinou a esquiar quando eu tinha pouco mais de dez anos. Era um esplêndido sujeito. Foi uma espécie de pai para mim, precisamente na época em que eu mais precisava de um...
— Compreendo. — E o Major Smythe desviou o olhar. — Sinto muito...
James Bond se levantou:
— Bem, preciso voltar a Kensington. — E levantou a mão, para deter o major. — Não, não precisa incomodar-se. Sei onde o carro ficou... — Olhou para o homem mais velho e disse, rispidamente, quase com brutalidade: — Dentro de uma semana, alguém virá buscá-lo...
E caminhou, em passos firmes, sem se voltar, pela alameda afora. O major ouviu o ruído do arranque do motor e o chiado dos pneus do táxi nas pedrinhas miúdas da estrada.
Agora, ele procurava a sua presa, ao longo do recife de coral, pensando exatamente no sentido das palavras de James Bond. E sorriu por trás da máscara Pirelli. Era uma versão nova de um velho dramalhão, que consistia em deixar uma pistola com o oficial culpado, para que este mesmo estourasse os miolos. Se James Bond quisesse, poderia ter telefonado para a Government House e pedido um oficial de igual patente do Regimento da Jamaica para levar preso o Major Smythe. De certo modo, o seu gesto fora decente. Ou não fora? Um suicídio era mais limpo, economizava uma porção de trabalho e de papéis, que consumiriam o dinheiro dos contribuintes. Devia agradecer a James Bond a solução que ele parecia sugerir? Acaso encontraria Mary no lugar para onde vão as almas dos suicidas? Ou era melhor a Corte Marcial, a indignidade, as formalidades cacetes, as manchetes, o aborrecimento e a solidão de uma prisão perpétua, da qual só o livraria a terceira crise das coronárias? Poderia defender-se: era tempo de guerra, lutara com Oberhauser no alto da montanha, ele era um prisioneiro e tentara fugir... Oberhauser sabia do esconderijo do dinheiro... E ele, pobre oficial dos Comandos, tantas vezes arriscando a vida pela pátria, fora fraco e não resistira à tentação... Poderia entregar-se dramaticamente à misericórdia do Tribunal Militar... Um coronel certamente seria designado para defendê-lo e o faria com a maior eloquência. Poderia haver um apelo à Corte Suprema. Seu caso comoveria a Inglaterra e se tornaria uma cause célebre. Venderia sua história, com as reminiscências de guerra, aos grandes jornais... Mas...
Cuidado, meu velho! Cuidado! Seus pés agora tocavam o chão, sob as ondas que encrespavam a superfície da praia de North Shore. Por onde estariam os peixes-escorpiões? O polvinho querido estava faminto, esperando o seu almoço. Apurando a vista, perto do recife de coral, o Major Smythe viu as antenas de um lagostim, acenando inquisitivamente para ele. Normalmente, ele se esqueceria de tudo, para capturar o lagostim, que era, talvez, o maior que até então encontrara. Mas agora só tinha uma preocupação: a de descobrir a silhueta irregular e provocante do peixe-escorpião. Só depois de mais dez minutos de busca encontraria o primeiro. Os olhos vermelhos e zangados do peixe, muito abertos, o observavam. Para fisgá-lo, com o arpão, teria que fazer uma investida rápida, na vertical, firme e certeira. Sabia que as agulhas envenenadas se projetariam para fora da cabeça pontiaguda do monstro. Tinha que se mover lentamente, na direção do peixe, usando o braço livre para nadar. E... Agora! Avançou, para a frente e para baixo, mas o peixe-escorpião sentira a aproximação do arpão antes que este o tocasse. Uma lufada de areia se levantou do fundo do mar, atingido pelo golpe. E qualquer coisa roça em seu corpo, dando a impressão do voo de um pássaro. O major praguejou e fez meia volta, dentro da água. Sim, o peixe-escorpião fizera o que tantas vezes fazia: fora buscar refúgio entre as algas e as rochas, confiante em sua soberba camuflagem. O major voltou à carga, em novo mergulho, dessa vez ainda mais atento, e zás! O peixe-escorpião se agitava, agora, na ponta do arpão. A excitação foi tão grande que o Major Smythe vacilou e sentiu a antiga dor oprimir-lhe o peito. Pôs-se de pé, firmou o arpão contra a areia, atravessando inteiramente a presa, que ainda se agitava desesperadamente, e dirigiu-se à praia, indo sentar-se num banco de madeira, ao lado do qual atirou o peixe, fisgado, a se debater. Uns cinco minutos depois, o Major Smythe sentiu uma curiosa dormência na região do plexo solar. Olhou para baixo e estremeceu, de horror e incredulidade. Uma região de sua pele, com o tamanho aproximado de uma bola de críquete, tornara-se impressionantemente branca, a despeito do bronzeado de seu busto. No centro dessa área, havia três pequenas manchas sanguíneas. Automaticamente, o Major Smythe limpou o sangue. Os furos eram do tamanho de picadas de agulhas. Ele se lembrou, então, da fuga do peixe-escorpião, quando tentara arpoá-lo da primeira vez, e exclamou alto, com pavor, mas sem animosidade: — Tu me apanhaste, bastardo! Tu me apanhaste!
Imóvel, olhava para o próprio corpo, recordando-se do que lera sobre os ferrões do peixe-escorpião no livro que tomara emprestado à biblioteca do Instituto e nunca devolvera — Perigosos Animais Marinhos, publicação norte-americana. Tocou delicadamente a pele da área atingida. Sim, a pele se tinha tornado intumescida e de todo insensível, mas por baixo começava a sentir dor. Em breve essa dor profunda e intensa percorreria o seu corpo inteiro, tão lancinante que o seu único desejo seria o de deitar-se na areia, gritando e rolando, para abafá-la. Vomitaria e deitaria espuma pela boca, teria delírio e convulsões, até perder a consciência. Então, sobreviria, inevitável, o colapso cardíaco mortal. De acordo com o livro, o ciclo completo desses tormentos não passaria de um quarto de hora. Era tudo quanto lhe restava: quinze minutos de atroz agonia! Haveria cura, é claro — com procaínas, antibióticos e anti-histamínicos —, se seu coração debilitado suportasse tais medicamentos. Mas estes deviam estar à mão. Mesmo que conseguisse chegar em casa e admitindo que Jimmy Greaves dispusesse de todos esses remédios modernos, ele não poderia alcançar Wavelets antes de uma hora.
A primeira descarga de dor fez o corpo do Major Smythe dobrar-se sobre si mesmo. Depois outra e mais outra, irradiando-se através do estômago e dos membros. Sentia um gosto metálico na boca e uma coceira insuportável nos lábios. Deixou escapar um gemido e saltou do banco para a praia. Sobre a areia, ainda arquejava o peixe-escorpião. Houve uma trégua nos espasmos da dor. Seu corpo inteiro estava em fogo. Apesar da agonia o raciocínio permanecia claro. Mas, ora essa! Ia esquecendo a experiência! Devia ir à loca do polvo, para servir seu almoço! “Polvo, polvinho, vai ser a última refeição que eu te dou!”, dizia a si mesmo o Major Smythe, ajustando a máscara no rosto. Depois, apanhou o arpão, com o peixe espetado e, apertando o estômago com a mão livre, caminhou pela água adentro e, depois, mergulhou junto ao recife de coral. Poucas jardas o separavam agora do polvo. E foi gritando dentro da máscara, arrastando-se, quase de joelhos, que ele as percorreu. À medida que a água se tornava mais profunda, a dor se fazia mais intensa e seus movimentos pareciam com os de um fantoche, impulsionado por um feixe de cordéis. Só a poder de uma grande força de vontade pôde continuar rumo à morada do polvo. Sim, a sua massa escura ainda estava lá! E parecia excitadíssima. Por quê? O Major Smythe viu que as feridas de seu peito vertiam filetes de sangue escuro, que se diluía na água do mar. Era claro! O querido polvo sentira o gosto do seu sangue. Uma descarga de dor atingiu o major e o fez vergar-se. Disse a si mesmo, em delírio: “Que é isso, Dexter?! Firme, meu velho. Você tem que dar almoço ao polvinho”. Endireitou-se, empunhando o arpão com firmeza e aproximando o peixe da toca do polvo. Aceitaria ele a isca envenenada que o Major Smythe lhe oferecia e à qual talvez um octópode poderia ser imune? Ah, se Bengry estivesse presente, para observar! Três tentáculos, ondulando excitadamente, saíram da loca e passearam ao redor do peixe-escorpião. Agora, havia uma espécie de nevoeiro diante dos olhos do Major Smythe. Reconhecendo estar à beira da inconsciência, ele agitou fracamente a cabeça, para dissipá-lo. E, então, os tentáculos deram um salto! Mas não para o peixe: apertaram a mão e o braço que empunhavam o arpão. A boca do Major Smythe se torceu, numa careta de prazer. Agora, ele e o polvo podiam se apertar as mãos! Como era excitante! Que coisa maravilhosa! Mas o polvo, calma e implacavelmente, continuou a enroscar os seus tentáculos e a chamar a si o corpo do major. Só então Smythe compreendeu que algo de terrível ia acontecer. Fez um apelo a todas as suas forças e tentou golpear o octópode com o arpão. Mas tudo quanto conseguiu foi bater com o peixe-escorpião na massa escura do polvo. E, com o movimento que fez, ofereceu-se ainda mais a este, que o atraía de forma inexorável. Tarde demais o Major Smythe retirou sua máscara. Conseguindo alcançar a superfície, soltou um grito que reboou pela baía deserta, mas logo foi puxado para baixo. E, depois de algumas bolhas de ar, vieram à tona as pernas do major. As ondas lavavam o seu corpo, enquanto o polvo fazia a primeira tentativa para devorá-lo. O resto de Smythe foram encontrados por dois jovens da Jamaica, que pescavam peixes-agulhas numa canoa. Eles mataram o polvo, recolheram o arpão do Major Smythe com o peixe-escorpião e levaram os três despojos para a praia. O cadáver do major foi entregue à polícia e o peixe-escorpião aproveitado para a ceia. O destino do polvo de estimação seria também a panela ... O correspondente do Daily Gleaner em North Shore comunicou que o Major Smythe tinha sido morto por um polvo. Mas a redação do jornal, para não alarmar os turistas, preferiu dizer que ele “fora encontrado afogado”. Mais tarde, em Londres, James Bond, embora certo de que se tratara de um suicídio, anotou no dossier Oberhauser a versão do afogamento, com a respectiva data, na última página, o que encerrava o assunto. Somente pelas notas do Dr. Greaves sobre a autópsia, por ele mesmo realizada, é que foi possível escrever esta espécie de post-scriptum sobre o estranho e patético fim do outrora corajoso e útil oficial do Serviço Secreto.
Encontro em Berlim
(THE LIVING DAYLIGHTS)
James Bond estendia-se em posição na marca das quinhentas jardas da famosa linha de tiro Century Range, em Bisley. A pequena estaca branca na grama a seu lado dizia 44 e o mesmo número se repetia bem alto no talude distante acima do solitário alvo de seis pés quadrados que, ao olho humano e no crepúsculo do fim de verão, não parecia maior que um selo de correio. Mas a luneta de Bond, uma Sniperscope infravermelha fixada sobre o seu rifle, cobria todo o quadro. Ele podia até distinguir com clareza as cores azul-pálido e bege em que se dividia o alvo, e a mosca semicircular de seis polegadas parecia tão grande como a meia lua que já começava a se mostrar baixa no céu que escurecia acima da crista remota de Chobham Ridges.
O último tiro de James Bond fora um esquerdo interno — não o satisfizera. Deu uma outra olhada às bandeiras de vento amarelas e azuis. Tremulavam do leste através da linha de tiro mais intensamente do que quando tinha começado o seu tiro meia hora antes, e ele mudou o anemômetro dois pontos para a direita e assestou os dois fios cruzados da Sniperscope de volta ao foco de mira. Instalou-se então, colocou o indicador de leve dentro da guarda e sobre a curva do gatilho, prendeu a respiração e muito, muito suavemente apertou.
O estampido vicioso ecoou ao longo do campo vazio. O alvo desapareceu abaixo do solo e imediatamente o “boneco” tomou o seu lugar. Sim, a marca negra estava embaixo no canto direito desta vez, não no canto esquerdo: mosca.
— Bom — disse a voz do oficial chefe da linha, atrás e acima dele. — Fique com a mira.
O alvo já subira de novo e Bond recolocou a bochecha sobre o trecho quente da volumosa coronha de madeira e o olho na borracha que cerca a ocular da luneta. Enxugou a mão de atirar contra o lado das calças e pegou na coronha da pistola que sobressaía angulosamente da guarda do gatilho. Abriu de uma polegada o ângulo das pernas. Agora haveria cinco descargas rápidas. Era interessante ver se isso não provocaria “desgaste”. Ele achava que não. Esta arma extraordinária que o armeiro tinha descoberto sabe lá como dava à gente a sensação de que um homem de pé à distância de uma milha seria prato fácil. Era mais um rifle Experimental de Alvo Internacional, calibre 308, construído pela Winchester para ajudar os ases americanos do tiro em campeonatos mundiais, e tinha os dispositivos usuais das armas de alvo superacuradas — uma “mão” espiralada de alumínio nas costas da coronha que se estendia debaixo da axila e mantinha a arma com firmeza junto ao ombro, e uma pequena roda dentada ajustável abaixo do centro de gravidade do rifle para permitir que ele “se agarrasse” ao sulco do seu descanso de madeira. O armeiro tinha mandado trocar o ferrolho de tiro único usual por um depósito de cinco tiros, e tinha garantido a Bond que se ele deixasse apenas dois segundos entre cada tiro para estabilizar a arma não haveria desgaste, mesmo a quinhentas jardas. Para o serviço que devia fazer, Bond achava que dois segundos poderiam representar uma perda perigosa de tempo se errasse o seu primeiro tiro. De qualquer forma, M dissera que a distância não seria maior que trezentas jardas. Bond encurtaria o tempo para um segundo — fogo quase contínuo.
— Pronto?
— Sim.
— Vou à contagem regressiva de cinco. Agora! Cinco, quatro, três, dois, um. Fogo!
O chão tremeu ligeiramente e o ar silvou enquanto as cinco cápsulas velozes de cuproníquel varejavam o crepúsculo. O alvo baixou e rapidamente voltou a erguer-se condecorado com quatro pequenos discos brancos agrupados bem juntos na mosca. Não houve nenhum quinto disco — nem mesmo um negro para indicar um interno ou externo.
— A última descarga foi baixa — disse o chefe da linha baixando seus binóculos noturnos. — Obrigado pela contribuição. Limpamos a areia atrás daqueles alvos todo fim de ano.
Nunca recolhemos menos de quinze toneladas de estilhaços em legítimo chumbo e cobre. Um bom dinheiro.
Bond tinha-se levantado. O cabo Menzies da seção dos armeiros surgiu do pavilhão do Clube de Tiro e ajoelhou-se para desmontar a Winchester e o seu descanso. Olhou para cima encarando Bond. Disse com uma ponta de crítica. — O senhor tocou a coisa um pouco rápido. A última descarga tinha de escoicear.
— Eu sei, cabo. Só queria ver com que rapidez eu podia tocar. Não quero pôr a culpa na arma. É um trabalho enxuto, infernal. Por favor, diga isso por mim ao armeiro. Agora é melhor ir andando. Você tem condução de volta a Londres, não?
— Tenho, sim senhor. Boa noite.
O oficial chefe da Linha entregou a Bond uma ficha de seu tiro — dois tiros de ensaio e depois dez descargas para cada cem jardas até as quinhentas. — Pontaria danada de boa com esta visibilidade. Você devia voltar aqui o ano que vem e tentar o Prêmio da Rainha. Hoje em dia está aberto para todos — isto é, da Comunidade Britânica.
— Obrigado. O problema é que não passo tanto tempo assim na Inglaterra. E muito obrigado por ter feito a marcação para mim.
Bond olhou para a distante Torre do Relógio. De cada lado, a bandeira vermelha de perigo e o tambor vermelho de sinalização estavam sendo arriados para mostrar que o tiroteio tinha cessado. Os braços marcavam nove e quinze. — Gostaria de oferecer-lhe um drinque, mas tenho um encontro em Londres. Podemos adiá-lo até o Prêmio da Rainha de que você estava falando?
O chefe da Linha fez que sim com a cabeça, neutramente. Ele tinha aguardado ansioso a oportunidade de conhecer mais coisas sobre este homem que surgira assim sem mais nem menos depois de uma série de avisos do Ministério da Defesa e fora em frente acertando bem mais de noventa porcento em todas as distâncias, isso depois de fechada a linha para a noite e com visibilidade entre sofrível e má. E por que tinha ele, que só oficiava no encontro anual de julho, sido escalado para estar presente? E por que lhe tinham dito para providenciar uma mosca de seis polegadas a 500 jardas para Bond, em vez da regulamentar de quinze polegadas? E por que todos esses cuidados com a bandeira de perigo e o tambor de sinalização que só se usavam em ocasiões cerimoniais? Para pressionar o homem? Para dar um clima de urgência ao tiro? Bond. Comandante James Bond. A A.N.R. certamente teria a ficha de uma pessoa que atirava tão bem assim. Não se esqueceria de dar-lhes um telefonema. Que hora estranha para um compromisso em Londres. Provavelmente uma garota. O rosto do chefe da Linha assumiu uma expressão de desagrado. O tipo do sujeito que apanhava todas as garotas que queria.
Os dois homens caminharam através da bela fachada da sede do clube além da linha de tiro até o carro de Bond que estava estacionado diante de uma reprodução em ferro do famoso “Veado em Fuga” de Landseer toda picotada de balaços. — Uma beleza de carro — comentou o chefe da Linha. Nunca vi uma carroçaria assim num Continental. Mandou fazê-la especialmente?
— Mandei. Os Sports Saloons na verdade só têm dois lugares. E muito pouco espaço para bagagem. Por isso pedi a Mulliner’s que o transformassem num verdadeiro dois-lugares e com porta-malas de sobra. Um carro egoísta, não há dúvida. Bem, boa noite. E novamente muito obrigado.
O escape roncou com saúde e as rodas traseiras cuspiram cascalho por um instante.
O oficial chefe da Linha observou os faróis rubis desaparecerem na King’s Avenue a caminho da estrada de Londres. Girou nos calcanhares e foi procurar o cabo Menzies numa busca de informação que terminaria sem frutos. O cabo permaneceu tão fechado como a grande caixa de mogno que estava colocando num Land-Rover caqui, limpo de símbolos militares. O chefe da Linha era um major. Tentou apelar para a hierarquia, mas sem êxito. O Land-Rover afastou-se rodando no rastro de Bond. O major dirigiu-se soturno aos escritórios da Associação Nacional do Rifle para tentar achar a informação que queria na biblioteca sob o nome “Bond, J.”
O compromisso de James Bond não era com uma garota. Era com um voo da B.E.A. para Hanover e Berlim. Enquanto engolia as milhas que o separavam do Aeroporto de Londres, pisando firme o grande carro a fim de ter tempo de sobra para um drinque, três drinques, antes da decolagem, apenas uma parte de sua mente fixava-se na estrada. O restante reexaminava pela enésima vez a sequência que agora o conduzia a um encontro com um aeroplano. Mas apenas um encontro provisório. Seu compromisso final numa das três próximas noites em Berlim era com um homem. Tinha que se encontrar com esse homem e infalivelmente matá-lo com um tiro.
Quando, por volta de duas e meia daquela tarde, James Bond atravessara as portas duplamente acolchoadas e sentara-se em frente do perfil voltado, do outro lado da grande escrivaninha, sentira imediatamente o perigo no ar. Não houve troca de cumprimentos. A cabeça de M afundava-se no colarinho duro numa pose churchilliana de sombria reflexão, e havia um traço de amargura nos cantos dos lábios. Girou a cadeira para encarar Bond, passou-lhe um olhar examinador como se, pensou Bond, quisesse verificar se sua gravata estava direita e o cabelo adequadamente penteado, e então começou a falar, rapidamente, atalhando suas sentenças como se desejasse ver-se livre do que estava dizendo, e de Bond, o mais depressa possível.
— O número 272. É um bom homem. Você talvez não o conheça. Pela simples razão de que ficou naquele buraco da Novaya Zemlya desde a guerra. Agora está tentando sair — carregado de material. Atômico e foguetes. E o plano deles para toda uma nova série de testes. Para 1961. Querem avivar o fogo no Ocidente. Algo a ver com Berlim. Não vejo bem o quadro mas o Foreign Office diz que se for verdade é uma coisa tremenda. Ridiculariza a Conferência de Genebra e toda essa demagogia sobre desarmamento nuclear que o bloco comunista vem fazendo. Ele conseguiu chegar até a Berlim Oriental. Mas tem praticamente toda a KGB no seu encalço — e as forças de segurança da Alemanha Oriental, é claro. Está entocado num buraco qualquer da cidade e conseguiu passar-nos uma mensagem — de que atravessaria entre seis e sete da tarde numa das três próximas noites — amanhã, depois de amanhã ou no dia seguinte. Indicou o ponto de travessia. O problema — a curva dos lábios de M, voltada para baixo, tomou-se ainda mais amarga — é que o mensageiro que ele usou fazia jogo duplo. A estação W.B. pilhou-o ontem. Por acaso. Deu sorte com um dos códigos da KGB O mensageiro será mandado de avião para julgamento, naturalmente. Mas isso não ajudará em nada. A KGB sabe que o 272 vai tentar a travessia. Sabem quando. Sabem onde. Sabem tanto quanto sabemos e nada mais. Ora, o código que deciframos ontem era um esquema de um só dia em suas máquinas. Mas conseguimos todo o tráfico daquele dia e isso foi bastante bom. Planejam alvejá-lo ao tentar a travessia. No cruzamento de ruas entre a Berlim Leste e a Oeste que nos indicou na mensagem. Estão montando uma operação daquelas — operação “Êxtase” como a chamam. Puseram o seu melhor tocaia no serviço. Tudo o que soubemos dele ó que seu nome cifrado é a palavra russa para “Gatilho”. A estação W.B. acha que é o mesmo homem já usado em outros serviços de tocaia. Um serviço de longo alcance através da fronteira. Ficará de guarda toda noite nesse cruzamento e sua missão é acertar no 272. É óbvio que eles certamente prefeririam fazer um serviço mais suave com metralhadoras e coisas do gênero. Mas Berlim está calma no momento e parece que a ordem é ficar assim. De qualquer forma — M sacudiu os ombros — eles têm confiança nesse operador “Gatilho” e o negócio vai ser assim!
— E onde é que eu entro? — James Bond tinha adivinhado a resposta, adivinhado porque M mostrava seu desagrado com a coisa toda. Ia ser trabalho sujo e Bond, porque pertencia à Seção Zero-Zero, tinha sido escolhido para fazê-lo. Perversamente, Bond queria forçar M a pôr o preto no branco. Iam ser notícias más, notícias sujas e ele não queria ouvi-las de um dos oficiais da Seção, nem mesmo do chefe do Estado-Maior. O negócio ia ser assassínio. Está bem. Que M tenha então a coragem de me dizer.
— Onde é que você entra, 007? — M olhou friamente do outro lado da escrivaninha. — Você sabe onde é que você entra. Você tem que matar esse tocaia. E tem que matá-lo antes que acerte no 272. É tudo. Está claro? — Os olhos azuis-claros permaneceram frios como gelo. Mas Bond sabia que só ficavam assim com um esforço da vontade. M não gostava de mandar qualquer homem para um homicídio. Mas, quando isso tinha de ser feito, ele sempre assumia a sua severa e fria ação de comando. Bond sabia a razão. Era para tirar um pouco da pressão, um pouco da culpa, dos ombros do matador.
Portanto Bond, que sabia dessas coisas, decidiu agora tornar fácil e rápida a tarefa de M. Levantou-se. — Está certo, sir. Suponho que o chefe do Estado-Maior tenha tudo pronto. É melhor eu ir praticar um pouco. Não seria bom errar.
Caminhou para a porta.
M disse calmamente: — Sinto ter que lhe dar essa tarefa. Serviço desagradável. Mas tem que ser bem executado.
— Farei o melhor — James Bond saiu fechando a porta atrás de si. Não gostava do serviço mas no final preferia fazê-lo a assumir a responsabilidade de mandar alguém em seu lugar.
O chefe do Estado-Maior tinha sido apenas um pouco mais simpático. — Lamento esta sua aquisição, James — dissera ele. — Mas Tanqueray foi inflexível, não tinha ninguém suficientemente bom na estação e esse não é o tipo de serviço que se pode pedir a um soldado regular para fazer. Há uma porção de excelentes tiros na B.A.O.R., mas um alvo vivo requer outro tipo de coragem. De qualquer forma, liguei para Bisley e marquei um exercício para você esta noite às oito e quinze quando a linha estiver fechada. A visibilidade será mais ou menos a mesma que você terá em Berlim cerca de uma hora antes. O armeiro está com a arma — verdadeira obra de arte para alvejar, e vai mandá-la por um de seus homens. Você irá com a sua própria condução. Depois, há um voo de carreira para Berlim à meia-noite reservado em seu nome na B.E.A. Tome um táxi até esse endereço. — Entregou a Bond um pedaço de papel. — Suba ao quarto andar e encontrará o número 2 de Tanqueray à sua espera. Depois disso, sinto que você terá que esperar sentado pelos próximos três dias.
— E a arma? Esperam que atravesse a alfândega alemã com ela dentro de um saco de golfe ou coisa assim?
O chefe do Estado-Maior não tinha achado graça. — Seguirá pela mala diplomática. Você a receberá amanhã ao meio-dia. — Tinha estendido a mão até o bloco de avisos. — Bem, é melhor ir andando. Vou avisar a Tanqueray que está tudo combinado.
James Bond baixou o olhar para o rosto azul difuso do relógio no painel do carro. Dez e quinze. Com um pouco de sorte, amanhã a esta hora estaria tudo terminado. Afinal, era a vida deste homem “Gatilho” contra a vida do 272. Não era exatamente homicídio. Estava perto disso, no entanto. Apertou maldosamente sua buzina-de-serra tripla ao passar por um quatro portas comum, ingressou no cruzamento circular com uma derrapagem seca desnecessária, girou violentamente o volante fazendo a correção e apontou o nariz do Bentley em direção do brilho distante que era o Aeroporto de Londres.
O edifício feio de seis andares na esquina da Kochstrasse e da Wilhelmstrasse era o único de pé na desolação de um espaço vazio bombardeado. Bond pagou o táxi e gravou uma breve impressão de capim, alto como a cintura, e de paredes de entulho mal reparadas, estendendo-se na direção de um grande cruzamento deserto iluminado por um feixe central de lâmpadas amareladas em arco, antes de apertar o botão para o quarto andar e imediatamente ouviu o clique do dispositivo que abria a porta do prédio. A porta fechou-se atrás dele e caminhou então sobre o chão de cimento sem tapete até o antiquado elevador. O cheiro de repolho, cigarro barato e suor rançoso lembravam outros prédios de apartamentos na Alemanha e Europa Central. Até o arrastar e o guincho fraco do elevador vagaroso eram parte de centenas de missões em que tinha sido lançado por M, como um projétil, a algum alvo distante onde um problema aguardava a sua chegada, à espera de ser resolvido por ele. Pelo menos desta vez o comitê de recepção estava do seu lado. Desta vez não havia nada a temer no fim da escada.
O número 2 da Estação W.B. de Serviço Secreto era um homem esguio e tenso de quarenta e poucos anos. Vestia o uniforme de sua profissão — terno bem cortado e bem usado de tweed leve ponto pé-de-pato num tom verde-escuro, camisa de seda macia branca e uma velha gravata de colégio — neste caso de Wykeham. Ao ver a gravata, enquanto trocavam as saudações convencionais no pequeno saguão mofado do apartamento, o ânimo de Bond, já baixo, desceu mais um degrau. Conhecia esse tipo: espinha dorsal do Serviço Público; superestudioso e mal-amado em Winchester; um bom segundo em P.P.E. em Oxford; a guerra, cargos funcionais que teria ocupado meticulosamente; talvez uma Ordem do Império Britânico; Comissão do Controle Aliado na Alemanha, onde fora recrutado no Ramo I e a partir de então — porque era o funcionário ideal e A. 1 junto à Segurança e porque pensava em encontrar vida, drama, romance, todas as coisas que nunca linha tido — lá fora ele para o Serviço Secreto. Um homem sóbrio, cuidadoso se fizera necessário para bancar a dama de companhia de Bond neste negócio feio. O Capitão Paul Sender, que já servira na Guarda Galesa, tinha sido a escolha óbvia. E tinha aceitado. Agora, como bom Wykehamista, escondia o seu desagrado pelo serviço debaixo de uma conversa cuidadosa e banal enquanto mostrava a Bond a planta do apartamento e as providências tomadas para a prontidão do carrasco e, numa medida modesta, para o seu conforto.
O apartamento consistia de um amplo dormitório conjugado, um banheiro e uma cozinha equipada de enlatados, leite, manteiga, ovos, chá, bacon, pão e uma garrafa de Dimple Haig. O único detalhe estranho no quarto de dormir era que uma das camas duplas estava encostada em ângulo contra as cortinas que cobriam o amplo janelão único e sobre ela se empilhavam três colchões cobertos pela roupa de cama.
O Capitão Sender disse: — Gostaria de dar uma olhada ao campo de fogo? Poderei então explicar o que é que o lado de lá tem em mente.
Bond estava cansado. Não desejava especialmente ir dormir com a imagem do campo de batalha na memória. Disse: — Seria ótimo.
O Capitão Sender apagou as luzes. Faixas luminosas das lâmpadas no cruzamento apareceram em volta das cortinas. — Não quero puxar as cortinas — disse o Capitão Sender. — É pouco provável, mas eles podem ter sido alertados contra um grupo de cobertura para o 272. Queria que você apenas se deitasse na cama e enfiasse a cabeça por baixo das cortinas. Explicarei o que você estiver vendo. Olhe para a esquerda.
Era uma janela de guilhotina e a metade inferior estava aberta. Os colchões, especialmente escolhidos, só cediam um pouco e James Bond encontrou-se mais ou menos na posição de tiro que tinha adotado em Century Range, mas agora olhava através de terreno descontínuo, coberto de densa vegetação e bombardeado, na direção do rio de luz que era a Zimmerstrasse — a fronteira com a Berlim Oriental. Parecia a umas cento e cinquenta jardas de distância. A voz do Capitão Sender acima dele e por trás da cortina começou a recitar. Lembrava a Bond uma sessão espírita.
— Ali é terreno bombardeado à sua frente. Bastante cobertura. Umas cento e trinta jardas até a fronteira. Depois a fronteira — a rua — e então um trecho grande ainda de terreno bombardeado no campo do inimigo. É por isso que o 272 escolheu essa passagem. É um dos poucos locais na cidade em que o terreno é descontínuo — capinzais cerrados, muros em ruínas, porões — nos dois lados da fronteira. Ele deverá es-gueirar-se entre aquela confusão do outro lado e arremessar-se através da Zimmerstrasse até alcançar a confusão do nosso lado. O problema é que terá de correr trinta jardas de fronteira fortemente iluminada. Será o espaço da matança. Certo?
Bond disse: — Sim.
Disse-o com suavidade. O cheiro do inimigo, a necessidade de tomar cuidado, já estavam atuando sobre seus nervos.
— À sua esquerda, aquele novo e imenso bloco de dez andares é a Haus der Ministerien, o grande centro cerebral de Berlim-Leste. Você pode ver que as luzes ainda estão acesas na maioria das janelas. A maior parte delas ficará assim toda a noite. Esses sujeitos trabalham mesmo — seus turnos dão a volta no relógio. Você provavelmente não precisará preocupar-se com as janelas acesas. Esse fulano “Gatilho” certamente vai atirar de uma das janelas escuras. Você verá que existe um grupo de quatro, juntas, na quina acima do cruzamento. Ficaram escuras na noite passada e esta noite. Elas têm o melhor campo de fogo. Daqui, o seu alcance varia entre trezentas e trezentas e dez jardas. Estou com todos os números e dados quando você quiser. Não é preciso preocupar-se muito mais. Aquela rua fica vazia durante a noite — apenas as patrulhas motorizadas cerca de cada meia hora — carros blindados leves com uma dupla de motocicletas por escolta. Na noite passada, que suponho normal, entre seis e sete, que é a hora em que se fará este serviço, havia umas poucas pessoas entrando e saindo por aquela porta lateral. Uns funcionários. Antes disso nada fora do comum — o fluxo costumeiro de pessoas entrando e saindo de um edifício de governo movimentado — com exceção, veja só, de uma miserável orquestra completa de mulheres. Fizeram uma confusão infernal numa sala de concertos que tem ali. Parte do bloco aloja o Ministério da Cultura. Fora disso nada — certamente nenhuma das pessoas da KGB que conhecemos, nem sinais de preparação para um serviço deste gênero. Mas nem pode haver sinais. São muito cuidadosos estes sujeitos da oposição. De qualquer maneira, dê uma boa olhada. Não esqueça que agora está mais escuro do que amanhã por volta das seis. Mas você pode formar um quadro geral.
Bond formou o quadro geral e o quadro ficou com ele muito tempo enquanto o outro homem já dormia e ressonava suavemente com um pequeno som regular que lembrava um fraco estalido — um ronco Wykehamista, refletiu Bond irritado.
Sim, tinha formado o quadro — o quadro de um lampejo movimento entre as ruínas sombreadas no outro lado do brilhante rio de luz, uma pausa, e então a desesperada corrida em ziguezague de um homem sob o impacto luminoso das lâmpadas, o espocar da arma de fogo e, ou um fardo retorcido espalhado no meio da rua larga, ou então a investida sempre em frente através do capinzal e do entulho no Setor Ocidental — morte súbita ou volta a casa. O grande desafio! Quanto tempo teria Bond para localizar o tocaia russo numa daquelas janelas escuras? E para matá-lo? Cinco segundos? Dez? Quando o amanhecer começava a cobrir as cortinas com o tom metálico das armas, Bond capitulou para sua mente agitada. Ela tinha ganho. Foi em silêncio até o banheiro e inspecionou as fileiras de remédios que um prestimoso Serviço Secreto tinha providenciado para manter o seu carrasco em boa forma. Escolheu o Tuinal, engoliu duas das cápsulas concentradas, rubis e azuis, com um copo de água e voltou à cama. Então, chumbado, dormiu.
Acordou ao meio-dia. O apartamento estava vazio. Bond abriu as cortinas para deixar entrar o dia cinzento prussiano e, de pé a uma boa distância da janela, ficou vendo a monotonia de Berlim e ouvindo o ruído dos bondes e o arranhar distante dos trens da U-Bahn na grande curva de entrada da estação do Zoo. Lançou um olhar rápido e relutante ao que já tinha examinado na noite anterior, notou que o capim no entulho de bombardeio era mais ou menos o mesmo de Londres — loendro, labaçol e samambaia — e dirigiu-se então à cozinha. Havia uma nota apoiada numa fatia de pão: “Meu amigo (eufemismo do Serviço Secreto que neste contexto significava o chefe de Sender) diz que não há mal em você sair. Mas esteja de volta às 17 horas. Seu equipamento (outra palavra para o rifle de Bond) chegou e o bagageiro a entregará esta tarde. P. Sender.”
Bond acendeu o fogão a gás e queimou a mensagem com desprezo por sua profissão e em seguida preparou um prato enorme de ovos mexidos e bacon que amontoou sobre uma torrada coberta de manteiga e comeu com acompanhamento de café preto no qual derramara uma porção liberal de uísque. Depois tomou um banho e barbeou-se, vestiu as roupas descoloridas, centro-europeias e anônimas que tinha trazido para a sua missão, olhou a sua cama em desordem, decidiu que tudo fosse para o inferno e desceu pelo elevador deixando o edifício.
James Bond sempre achara Berlim uma cidade deprimente e hostil, esmaltada no lado Ocidental com o verniz superficial de um polimento pretensioso parecido com os enfeites cromados dos carros americanos. Caminhou até a Kurfurstendamm, sentou-se no Café Marquardt, tomou um expresso e ficou observando com tédio as filas obedientes de pedestres esperando o sinal “Siga” nos postes de trânsito enquanto a corrente luminosa de carros continuava a sua perigosa quadrilha na movimentada intersecção. Fazia frio lá fora e o vento cortante das estepes russas fustigava as saias das garotas e os impermeáveis dos homens impacientes e apressados, cada um com a infalível pasta enfiada debaixo do braço. Os aquecedores de parede infravermelhos do café apontavam o vermelho para baixo e davam um brilho espúrio ao rosto dos cafeinômanos que degustavam sua tradicional “uma xícara de café e dez copos de água”, lendo de graça os jornais e revistas presos por paus, ou se curvavam com seriedade sobre papéis de negócios. Bond, fechando o pensamento para a noite, discutia consigo mesmo as maneiras de passar a tarde. Finalmente chegou à escolha entre uma visita àquela casa de respeitável fachada de pedra, na Clausewitzstrasse, conhecida de todos os porteiros e choferes de táxi, ou um passeio ao Wannsee e uma vigorosa caminhada no Grunewald. A virtude triunfou. Bond pagou o café, saiu no frio e tomou um táxi até a estação do Zoo.
As belas arvorezinhas jovens em volta do lago extenso já tinham sido tocadas pelo sopro do outono e havia um dourado aqui e ali no meio do verde. Bond caminhou com energia durante duas horas pelas veredas cobertas de folhas e então escolheu um restaurante com terraço envidraçado sobre o lago e saboreou com prazer um chá reforçado consistindo de uma porção dupla de arenques do Norte mergulhados em creme e anéis de cebola, e dois Molle mit Korn, o equivalente berlinense de um “fabricante de caldeiras e seu assistente” — schnapps, duplos, acompanhados por um chope Löwenbräu. Sentindo-se então mais animado tomou a S-Bahn para voltar à cidade.
Em frente do prédio de apartamentos, um jovem indefinível estava mexendo no motor de um Opel Kapitan negro. O jovem não tirou a cabeça debaixo do capo quando Bond passou bem perto dele e subiu até a porta e apertou o botão.
CONTINUA
Quando chegou embaixo, sentou-se no musgo, sob os abetos. Estendeu no chão a camisa, colocou no centro dela as barras de ouro e fez uma trouxa, amarrando bem as fraldas e as mangas. Depois, cavou um buraco no chão e enterrou a caixa metálica vazia. E vergando ao peso, quase dobrado em dois, caminhou pela estreita trilha, entre os pinheiros, rumo ao jipe. Até aquele dia não conseguira saber como tivera forças para alcançar o veículo. Os nós que dera na trouxa pareciam penetrar nas carnes de seu ombro, sob o peso das barras de ouro. Quando, finalmente, alcançou o jipe, quase teve um colapso, tão exausto estava. Mas não podia descansar, ainda. Precisava sair dali para enterrar o seu tesouro na floresta, perto de um grupo de grandes rochas, onde lhe seria fácil encontrá-lo de novo, na ocasião oportuna em dia, quando o horizonte estivesse limpo, voltaria, por outra rota, evitando o chalé de Oberhauser. Só então, terminado tudo, fora embebedar-se com uma garrafa de schnapps barato. Jantou e meteu-se na cama, para dormir como uma pedra. No dia seguinte, a Força A da DAG seguiu para o vale do Mittersill. Seis meses depois o Major Smythe estava em Londres. A sua guerra havia terminado. Mas os seus problemas, não. Ouro era coisa difícil de contrabandear, principalmente em grande quantidade. E era essencial que o Major Smythe transferisse as suas barras para um novo esconderijo. Por isso, ele procurou evitar a desmobilização e gozar os privilégios de seu comissionamento temporário, sobretudo o seu passe do Serviço Secreto Militar. Conseguiu ser mandado de volta para a Alemanha, como representante da Inglaterra no Centro Misto de Investigação de Munique. Aí, trabalhou durante seis meses e, nesse período, teve a oportunidade de recuperar o ouro, que levou para o seu alojamento numa velha valise. Depois, em dois fins de semana, fez viagens aéreas para Londres, levando, de cada vez, uma barra de ouro, em sua volumosa pasta. A caminhada nos aeroportos de Munique e de Londres, com a pasta sob o braço, como se contivesse apenas papéis, exigira dois tabletes de benzedrina e uma vontade de ferro. Finalmente, pôde esconder sua fortuna no porão da casa de uma tia, em Kensington, e assim, com tranquilidade, pôde desenvolver a parte final de seus planos. Pediu reforma nos Fuzileiros Reais e, uma vez desmobilizado, casou-se com uma das muitas moças com quem tivera aventuras durante o serviço da DAG, uma graciosa Wren chamada Maria Parnell. Comprou passagem para ambos num cargueiro para a Jamaica, que representava, para ambos, um paraíso ensolarado, com boa e farta comida, bebida barata, sem a melancolia e as restrições impostas na Inglaterra, após a guerra, pelo severo governo trabalhista. Antes do embarque, o Major Smythe mostrou a Mary as barras de ouro, das quais já havia raspado a cinzel os símbolos do Reichsbank.
— Tenho sido muito econômico e esperto, meu bem — disse ele. — Não confio na libra. Por isso, vendi todas as minhas ações e comprei um bocado de ouro. Teremos pelo menos 20 mil libras, se eu o vender bem. Isso basta para nos assegurar uma boa vida, até o fim dos nossos dias. Sempre que for preciso, eu venderei um pouquinho — explicou.
Mary Parnell não era familiarizada com as leis monetárias. Mas se ajoelhou e passou as mãos, carinhosamente, sobre as barras de ouro. Depois, com os braços ao redor do pescoço do marido, beijou-o e disse, quase em lágrimas: — Você é um homem maravilhoso... Sim, maravilhoso! Terrivelmente inteligente, bonito, simpático, herói da guerra e, além do mais, rico! Eu sou a garota mais feliz do mundo!
— Você tem razão pelo menos numa coisa: ricos, nós somos. Mas prometa não dizer uma só palavra a quem quer que seja! Pois, se disser, todos os ladrões da Jamaica irão rondar a nossa casa.. .
O Prince’s Club, ao pé das colinas que dominam os arredores de Kensington, era realmente esplêndido. Para os seus sócios, não havia nada melhor: maravilhosa criadagem, comida farta, bebida barata, belíssimos cenários tropicais, como nunca tinham visto antes. O casal era muito popular e os serviços de guerra do Major Smythe lhe davam ingresso na alta sociedade local e na Government House. A vida de ambos era uma série interminável de festas, misturadas com o tênis de Mary e o golfe do major (com os bastões metálicos de Henry Cotton!) durante o dia, e partidas de bridge (para ela) e de pôquer (para ele) durante as noites. Sim, era um paraíso, porque, na Inglaterra, havia racionamento, filas e mercado negro, um governo atroz e o pior inverno dos últimos trinta anos. A princípio, o casal enfrentou as despesas com as economias em dinheiro, que ambos haviam reunido, enquanto se vestiam, se alimentavam e se transportavam à custa do Exército. Só depois de um ano de cautelosas investigações é que o Major Smythe se decidiu a fazer negócio com os irmãos Fu, comerciantes importadores e exportadores. Altamente respeitados e muito ricos, os irmãos Fu eram conhecidos como uma espécie de junta governativa da comunidade chinesa da Jamaica. Ainda que alguns dos seus negócios se desviassem das boas normas, segundo a tradição chinesa, Smythe achou que poderia confiar neles. A Convenção de Bretton Woods, fixando um preço internacional para o ouro, sob rigoroso controle, tinha sido assinada deixando de parte Tânger e Macau, dois portos livres, em que a onça de ouro valia entre 99 e 100 dólares, quando nos outros lugares o preço oficial era de 35. E, para maior conveniência de seus negócios, os Fu tinham aberto um restaurante em Hong-Kong, transformado em entreposto para o contrabando de ouro para a vizinha Macau. Isso, na linguagem do Major Smythe, era sopa no mel. Ele tivera um agradável encontro com os Fu. Nenhuma pergunta estes fizeram, senão depois do exame das barras de ouro.
— Major — disse o mais velho dos irmãos —, no mercado de ouro em barras, as marcas dos bancos nacionais e dos negociantes respeitáveis são aceitos sem discussão. Essas marcas são a garantia da pureza do ouro. Mas outros bancos e outros vendedores têm seus próprios processos de refinação, que talvez, não sejam tão perfeitos...
— Quer dizer que eu fui enganado? — Perguntou, ansiosamente, o major. — Que isso não é senão uma barra de chumbo coberta de uma leve camada de ouro?
Os dois irmãos deram muxoxos tranquilizadores:
— Não, não, major... Não se trata disso. Mas, se uma pessoa não se recorda da proveniência dessas barras de ouro, por mais finas que elas sejam é sempre necessário submetê-las a um ensaio, para verificação do seu exato teor... Há muitos métodos para determinar o grau de pureza dessas barras. Meu irmão e eu somos competentes em qualquer deles. Quer deixar as barras de ouro conosco e vir saber o resultado depois do almoço? Nós lhe daremos um recibo...
Não havia alternativa. Teria que confiar nos Fu. Qualquer que fosse o preço por eles arbitrado, seria forçado a aceitar. Estava nas mãos deles. Foi a um bar, onde tomou dois drinques fortes e comeu um sanduíche que lhe ficou atravessado na garganta. Depois, voltou ao escritório refrigerado dos Fu. O cenário era o mesmo: os dois irmãos sorridentes, as duas barras de ouro, a pasta de couro, etc. Só havia a mais uma folha de papel e uma caneta-tinteiro de pena de ouro, em frente do irmão mais velho.
— Resolvemos o problema do seu ouro, major! — (Esplêndido! Obrigado, pensou Smythe.) — E estou certo de que o senhor terá interesse em conhecer sua origem...
— Claro! Qual é? — Fez o major, com uma corajosa demonstração de entusiasmo.
— São barras de ouro alemãs! Provavelmente saíram dos depósitos do Reichsbank, durante a guerra. Isso pode ser deduzido do fato de que contêm dez porcento de chumbo. Durante o regime de Hitler, o Reichsbank fez a tolice de adulterar por esse modo o seu ouro. Isso logo se espalhou e o preço das barras de ouro alemãs, vendidas na Suíça, sofreu logo uma redução de preço, correspondente à adulteração. Foi uma bobagem, que só teve um resultado: o banco nacional da Alemanha perdeu a reputação que conquistara durante séculos... Bobagem... Uma grandíssima bobagem... — Concluiu o chinês, com o seu invariável sorriso.
O Major Smythe estava maravilhado com a onisciência desses dois homens, tão afastados dos grandes canais de comércio do mundo. Mas ao mesmo tempo os amaldiçoava, intimamente. E agora?
— É muito interessante, Sr. Fu... Mas isso não é uma boa notícia para mim. Essas barras de ouro me foram entregues como coisa cem por cento...
— Não tem importância, major — disse o mais velho dos Fu. — Ou melhor, quase não tem importância. Venderemos o seu ouro pelo justo valor, ou seja, 89 dólares a onça. Terá que ser, ou não, refinado pelo último comprador. Mas isso não é da nossa conta. Nós o venderemos também como cem por cento...
— Mas a um preço mais baixo...
— Realmente, major. Mas creio que temos uma boa notícia para o senhor. Quanto calculava obter com essas duas barras?
— Cerca de 20 mil libras...
— Se as vendermos bem e aos pouquinhos — disse o mais velho dos Fu —, o senhor receberá mais de 100 mil dólares, major, sujeitos, é claro, ao desconto da nossa comissão, que inclui o transporte e outras despesas.
— E a quanto montará isso?
— Estou pensando em fixar em 10 por cento, major. Se lhe parecer satisfatório...
O Major Smythe tinha a impressão de que vendedores de ouro em barras recebiam apenas um por cento de comissão. Mas, que diabo, antes do almoço já estava disposto a largar tudo até por 10 mil libras. Disse “fechado” e levantou-se, estendendo a mão através da mesa. Desde então, de quatro em quatro meses, ia visitar o escritório dos Fu, levando uma valise vazia. Havia sempre quinhentas libras novas, da emissão da Jamaica, em pacotes, sobre a mesa, à sua espera, e um recibo da quantidade vendida, com o preço alcançado em Macau. As barras de ouro diminuíam de tamanho, de polegada em polegada. O negócio era simples e cordial. Duas mil libras limpas, por ano, eram o bastante para ele, e só o afligia a possibilidade de que o pessoal do imposto de renda começasse a apertá-lo, para saber do que estava vivendo. Ele disse isso aos Fu, que lhe fizeram saber que não precisava se preocupar. Nas duas vezes seguintes, havia apenas quatrocentas libras na mesa, mas nenhum comentário foi feito, por qualquer dos lados. E assim os dias iam se passando, preguiçosamente. Os Smythes engordavam e o major teve a primeira das duas complicações das coronárias. O médico lhe recomendou uma vida menos ativa, com menos álcool e menos cigarros. Evitasse, também, as gorduras e as comidas fritas. A princípio, Mary tentou ser severa com ele, mas quando o marido começou a beber escondido e a inventar pequenas mentiras e evasivas, ela recuou desse propósito. Teve medo de se transformar numa chata doméstica, a quem o Major Smythe passaria a evitar. Por isso, deu-lhe inteira liberdade, sabendo que ele não mais a amava, e quando a sua solidão se tornou demasiada e as insônias intoleráveis, viciou-se em tomar soníferos. Uma noite, depois de uma violenta briga, estando ambos embriagados, tomou ela uma dose excessiva, só “para dar-lhe uma lição”. A dose era tão exagerada que a matou. O suicídio foi dissimulado, mas ainda assim recaíram suspeitas sobre o major, em prejuízo de sua reputação social. E a tal ponto que ele teve de se retirar para North Shore que, embora a apenas três milhas de Kensington, parece pertencer a um outro mundo. Aí ele se instalou em Wavelets e, depois da segunda complicação das coronárias, começou a beber desenfreadamente. Foi então que entrou em cena James Bond com um mandado de prisão ou de morte no bolso.
O Major Smythe olhou para o relógio. Passavam alguns minutos do meio-dia. Ele se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale e foi para o jardim. James Bond estava sentado sob a frondosa amendoeira, olhando para o lar. Nem se voltou para o Major Smythe quando este puxou outra cadeira de alumínio e colocou o copo na relva, perto dele. Quando o Major Smythe acabou de narrar a sua história, James Bond disse, sem demonstrar qualquer emoção: — Era mais ou menos isso o que eu havia pensado...
— Quer que eu escreva tudo ou apenas assine?
— Faça como quiser. Mas isso não se entende comigo. Deve entregar à Corte Marcial. Seu velho Corpo de Fuzileiros Reais é que vai tomar conta do caso. Não tenho nada que ver com os aspectos legais. Farei apenas um relatório do que me disse, para a Procuradoria da Justiça, através da Scotland Yard...
— Posso perguntar uma coisa? Como foi que descobriu?
— A geleira era pequena. O corpo de Oberhauser chegou embaixo no início deste ano, quando as neves da primavera derreteram. Alguns alpinistas o encontraram. Todos os seus papéis e tudo o mais estava perfeito. A família o identificou. Depois, foi só uma questão de recuar no tempo. O calibre das balas deu logo a pista...
— Mas como se envolveu neste assunto?
— A Força da DAG era uma das minhas responsabilidades, um dos meus serviços. Quando o assunto chegou ao meu conhecimento, fui dar uma busca nos arquivos. Como tinha tempo livre, pedi que me entregassem a missão de descobrir o autor da morte de Oberhauser...
— Por quê?
— Porque — e James Bond fixou os olhos do Major Smythe — acontece que Oberhauser era um velho amigo meu. Foi quem me ensinou a esquiar quando eu tinha pouco mais de dez anos. Era um esplêndido sujeito. Foi uma espécie de pai para mim, precisamente na época em que eu mais precisava de um...
— Compreendo. — E o Major Smythe desviou o olhar. — Sinto muito...
James Bond se levantou:
— Bem, preciso voltar a Kensington. — E levantou a mão, para deter o major. — Não, não precisa incomodar-se. Sei onde o carro ficou... — Olhou para o homem mais velho e disse, rispidamente, quase com brutalidade: — Dentro de uma semana, alguém virá buscá-lo...
E caminhou, em passos firmes, sem se voltar, pela alameda afora. O major ouviu o ruído do arranque do motor e o chiado dos pneus do táxi nas pedrinhas miúdas da estrada.
Agora, ele procurava a sua presa, ao longo do recife de coral, pensando exatamente no sentido das palavras de James Bond. E sorriu por trás da máscara Pirelli. Era uma versão nova de um velho dramalhão, que consistia em deixar uma pistola com o oficial culpado, para que este mesmo estourasse os miolos. Se James Bond quisesse, poderia ter telefonado para a Government House e pedido um oficial de igual patente do Regimento da Jamaica para levar preso o Major Smythe. De certo modo, o seu gesto fora decente. Ou não fora? Um suicídio era mais limpo, economizava uma porção de trabalho e de papéis, que consumiriam o dinheiro dos contribuintes. Devia agradecer a James Bond a solução que ele parecia sugerir? Acaso encontraria Mary no lugar para onde vão as almas dos suicidas? Ou era melhor a Corte Marcial, a indignidade, as formalidades cacetes, as manchetes, o aborrecimento e a solidão de uma prisão perpétua, da qual só o livraria a terceira crise das coronárias? Poderia defender-se: era tempo de guerra, lutara com Oberhauser no alto da montanha, ele era um prisioneiro e tentara fugir... Oberhauser sabia do esconderijo do dinheiro... E ele, pobre oficial dos Comandos, tantas vezes arriscando a vida pela pátria, fora fraco e não resistira à tentação... Poderia entregar-se dramaticamente à misericórdia do Tribunal Militar... Um coronel certamente seria designado para defendê-lo e o faria com a maior eloquência. Poderia haver um apelo à Corte Suprema. Seu caso comoveria a Inglaterra e se tornaria uma cause célebre. Venderia sua história, com as reminiscências de guerra, aos grandes jornais... Mas...
Cuidado, meu velho! Cuidado! Seus pés agora tocavam o chão, sob as ondas que encrespavam a superfície da praia de North Shore. Por onde estariam os peixes-escorpiões? O polvinho querido estava faminto, esperando o seu almoço. Apurando a vista, perto do recife de coral, o Major Smythe viu as antenas de um lagostim, acenando inquisitivamente para ele. Normalmente, ele se esqueceria de tudo, para capturar o lagostim, que era, talvez, o maior que até então encontrara. Mas agora só tinha uma preocupação: a de descobrir a silhueta irregular e provocante do peixe-escorpião. Só depois de mais dez minutos de busca encontraria o primeiro. Os olhos vermelhos e zangados do peixe, muito abertos, o observavam. Para fisgá-lo, com o arpão, teria que fazer uma investida rápida, na vertical, firme e certeira. Sabia que as agulhas envenenadas se projetariam para fora da cabeça pontiaguda do monstro. Tinha que se mover lentamente, na direção do peixe, usando o braço livre para nadar. E... Agora! Avançou, para a frente e para baixo, mas o peixe-escorpião sentira a aproximação do arpão antes que este o tocasse. Uma lufada de areia se levantou do fundo do mar, atingido pelo golpe. E qualquer coisa roça em seu corpo, dando a impressão do voo de um pássaro. O major praguejou e fez meia volta, dentro da água. Sim, o peixe-escorpião fizera o que tantas vezes fazia: fora buscar refúgio entre as algas e as rochas, confiante em sua soberba camuflagem. O major voltou à carga, em novo mergulho, dessa vez ainda mais atento, e zás! O peixe-escorpião se agitava, agora, na ponta do arpão. A excitação foi tão grande que o Major Smythe vacilou e sentiu a antiga dor oprimir-lhe o peito. Pôs-se de pé, firmou o arpão contra a areia, atravessando inteiramente a presa, que ainda se agitava desesperadamente, e dirigiu-se à praia, indo sentar-se num banco de madeira, ao lado do qual atirou o peixe, fisgado, a se debater. Uns cinco minutos depois, o Major Smythe sentiu uma curiosa dormência na região do plexo solar. Olhou para baixo e estremeceu, de horror e incredulidade. Uma região de sua pele, com o tamanho aproximado de uma bola de críquete, tornara-se impressionantemente branca, a despeito do bronzeado de seu busto. No centro dessa área, havia três pequenas manchas sanguíneas. Automaticamente, o Major Smythe limpou o sangue. Os furos eram do tamanho de picadas de agulhas. Ele se lembrou, então, da fuga do peixe-escorpião, quando tentara arpoá-lo da primeira vez, e exclamou alto, com pavor, mas sem animosidade: — Tu me apanhaste, bastardo! Tu me apanhaste!
Imóvel, olhava para o próprio corpo, recordando-se do que lera sobre os ferrões do peixe-escorpião no livro que tomara emprestado à biblioteca do Instituto e nunca devolvera — Perigosos Animais Marinhos, publicação norte-americana. Tocou delicadamente a pele da área atingida. Sim, a pele se tinha tornado intumescida e de todo insensível, mas por baixo começava a sentir dor. Em breve essa dor profunda e intensa percorreria o seu corpo inteiro, tão lancinante que o seu único desejo seria o de deitar-se na areia, gritando e rolando, para abafá-la. Vomitaria e deitaria espuma pela boca, teria delírio e convulsões, até perder a consciência. Então, sobreviria, inevitável, o colapso cardíaco mortal. De acordo com o livro, o ciclo completo desses tormentos não passaria de um quarto de hora. Era tudo quanto lhe restava: quinze minutos de atroz agonia! Haveria cura, é claro — com procaínas, antibióticos e anti-histamínicos —, se seu coração debilitado suportasse tais medicamentos. Mas estes deviam estar à mão. Mesmo que conseguisse chegar em casa e admitindo que Jimmy Greaves dispusesse de todos esses remédios modernos, ele não poderia alcançar Wavelets antes de uma hora.
A primeira descarga de dor fez o corpo do Major Smythe dobrar-se sobre si mesmo. Depois outra e mais outra, irradiando-se através do estômago e dos membros. Sentia um gosto metálico na boca e uma coceira insuportável nos lábios. Deixou escapar um gemido e saltou do banco para a praia. Sobre a areia, ainda arquejava o peixe-escorpião. Houve uma trégua nos espasmos da dor. Seu corpo inteiro estava em fogo. Apesar da agonia o raciocínio permanecia claro. Mas, ora essa! Ia esquecendo a experiência! Devia ir à loca do polvo, para servir seu almoço! “Polvo, polvinho, vai ser a última refeição que eu te dou!”, dizia a si mesmo o Major Smythe, ajustando a máscara no rosto. Depois, apanhou o arpão, com o peixe espetado e, apertando o estômago com a mão livre, caminhou pela água adentro e, depois, mergulhou junto ao recife de coral. Poucas jardas o separavam agora do polvo. E foi gritando dentro da máscara, arrastando-se, quase de joelhos, que ele as percorreu. À medida que a água se tornava mais profunda, a dor se fazia mais intensa e seus movimentos pareciam com os de um fantoche, impulsionado por um feixe de cordéis. Só a poder de uma grande força de vontade pôde continuar rumo à morada do polvo. Sim, a sua massa escura ainda estava lá! E parecia excitadíssima. Por quê? O Major Smythe viu que as feridas de seu peito vertiam filetes de sangue escuro, que se diluía na água do mar. Era claro! O querido polvo sentira o gosto do seu sangue. Uma descarga de dor atingiu o major e o fez vergar-se. Disse a si mesmo, em delírio: “Que é isso, Dexter?! Firme, meu velho. Você tem que dar almoço ao polvinho”. Endireitou-se, empunhando o arpão com firmeza e aproximando o peixe da toca do polvo. Aceitaria ele a isca envenenada que o Major Smythe lhe oferecia e à qual talvez um octópode poderia ser imune? Ah, se Bengry estivesse presente, para observar! Três tentáculos, ondulando excitadamente, saíram da loca e passearam ao redor do peixe-escorpião. Agora, havia uma espécie de nevoeiro diante dos olhos do Major Smythe. Reconhecendo estar à beira da inconsciência, ele agitou fracamente a cabeça, para dissipá-lo. E, então, os tentáculos deram um salto! Mas não para o peixe: apertaram a mão e o braço que empunhavam o arpão. A boca do Major Smythe se torceu, numa careta de prazer. Agora, ele e o polvo podiam se apertar as mãos! Como era excitante! Que coisa maravilhosa! Mas o polvo, calma e implacavelmente, continuou a enroscar os seus tentáculos e a chamar a si o corpo do major. Só então Smythe compreendeu que algo de terrível ia acontecer. Fez um apelo a todas as suas forças e tentou golpear o octópode com o arpão. Mas tudo quanto conseguiu foi bater com o peixe-escorpião na massa escura do polvo. E, com o movimento que fez, ofereceu-se ainda mais a este, que o atraía de forma inexorável. Tarde demais o Major Smythe retirou sua máscara. Conseguindo alcançar a superfície, soltou um grito que reboou pela baía deserta, mas logo foi puxado para baixo. E, depois de algumas bolhas de ar, vieram à tona as pernas do major. As ondas lavavam o seu corpo, enquanto o polvo fazia a primeira tentativa para devorá-lo. O resto de Smythe foram encontrados por dois jovens da Jamaica, que pescavam peixes-agulhas numa canoa. Eles mataram o polvo, recolheram o arpão do Major Smythe com o peixe-escorpião e levaram os três despojos para a praia. O cadáver do major foi entregue à polícia e o peixe-escorpião aproveitado para a ceia. O destino do polvo de estimação seria também a panela ... O correspondente do Daily Gleaner em North Shore comunicou que o Major Smythe tinha sido morto por um polvo. Mas a redação do jornal, para não alarmar os turistas, preferiu dizer que ele “fora encontrado afogado”. Mais tarde, em Londres, James Bond, embora certo de que se tratara de um suicídio, anotou no dossier Oberhauser a versão do afogamento, com a respectiva data, na última página, o que encerrava o assunto. Somente pelas notas do Dr. Greaves sobre a autópsia, por ele mesmo realizada, é que foi possível escrever esta espécie de post-scriptum sobre o estranho e patético fim do outrora corajoso e útil oficial do Serviço Secreto.
Encontro em Berlim
(THE LIVING DAYLIGHTS)
James Bond estendia-se em posição na marca das quinhentas jardas da famosa linha de tiro Century Range, em Bisley. A pequena estaca branca na grama a seu lado dizia 44 e o mesmo número se repetia bem alto no talude distante acima do solitário alvo de seis pés quadrados que, ao olho humano e no crepúsculo do fim de verão, não parecia maior que um selo de correio. Mas a luneta de Bond, uma Sniperscope infravermelha fixada sobre o seu rifle, cobria todo o quadro. Ele podia até distinguir com clareza as cores azul-pálido e bege em que se dividia o alvo, e a mosca semicircular de seis polegadas parecia tão grande como a meia lua que já começava a se mostrar baixa no céu que escurecia acima da crista remota de Chobham Ridges.
O último tiro de James Bond fora um esquerdo interno — não o satisfizera. Deu uma outra olhada às bandeiras de vento amarelas e azuis. Tremulavam do leste através da linha de tiro mais intensamente do que quando tinha começado o seu tiro meia hora antes, e ele mudou o anemômetro dois pontos para a direita e assestou os dois fios cruzados da Sniperscope de volta ao foco de mira. Instalou-se então, colocou o indicador de leve dentro da guarda e sobre a curva do gatilho, prendeu a respiração e muito, muito suavemente apertou.
O estampido vicioso ecoou ao longo do campo vazio. O alvo desapareceu abaixo do solo e imediatamente o “boneco” tomou o seu lugar. Sim, a marca negra estava embaixo no canto direito desta vez, não no canto esquerdo: mosca.
— Bom — disse a voz do oficial chefe da linha, atrás e acima dele. — Fique com a mira.
O alvo já subira de novo e Bond recolocou a bochecha sobre o trecho quente da volumosa coronha de madeira e o olho na borracha que cerca a ocular da luneta. Enxugou a mão de atirar contra o lado das calças e pegou na coronha da pistola que sobressaía angulosamente da guarda do gatilho. Abriu de uma polegada o ângulo das pernas. Agora haveria cinco descargas rápidas. Era interessante ver se isso não provocaria “desgaste”. Ele achava que não. Esta arma extraordinária que o armeiro tinha descoberto sabe lá como dava à gente a sensação de que um homem de pé à distância de uma milha seria prato fácil. Era mais um rifle Experimental de Alvo Internacional, calibre 308, construído pela Winchester para ajudar os ases americanos do tiro em campeonatos mundiais, e tinha os dispositivos usuais das armas de alvo superacuradas — uma “mão” espiralada de alumínio nas costas da coronha que se estendia debaixo da axila e mantinha a arma com firmeza junto ao ombro, e uma pequena roda dentada ajustável abaixo do centro de gravidade do rifle para permitir que ele “se agarrasse” ao sulco do seu descanso de madeira. O armeiro tinha mandado trocar o ferrolho de tiro único usual por um depósito de cinco tiros, e tinha garantido a Bond que se ele deixasse apenas dois segundos entre cada tiro para estabilizar a arma não haveria desgaste, mesmo a quinhentas jardas. Para o serviço que devia fazer, Bond achava que dois segundos poderiam representar uma perda perigosa de tempo se errasse o seu primeiro tiro. De qualquer forma, M dissera que a distância não seria maior que trezentas jardas. Bond encurtaria o tempo para um segundo — fogo quase contínuo.
— Pronto?
— Sim.
— Vou à contagem regressiva de cinco. Agora! Cinco, quatro, três, dois, um. Fogo!
O chão tremeu ligeiramente e o ar silvou enquanto as cinco cápsulas velozes de cuproníquel varejavam o crepúsculo. O alvo baixou e rapidamente voltou a erguer-se condecorado com quatro pequenos discos brancos agrupados bem juntos na mosca. Não houve nenhum quinto disco — nem mesmo um negro para indicar um interno ou externo.
— A última descarga foi baixa — disse o chefe da linha baixando seus binóculos noturnos. — Obrigado pela contribuição. Limpamos a areia atrás daqueles alvos todo fim de ano.
Nunca recolhemos menos de quinze toneladas de estilhaços em legítimo chumbo e cobre. Um bom dinheiro.
Bond tinha-se levantado. O cabo Menzies da seção dos armeiros surgiu do pavilhão do Clube de Tiro e ajoelhou-se para desmontar a Winchester e o seu descanso. Olhou para cima encarando Bond. Disse com uma ponta de crítica. — O senhor tocou a coisa um pouco rápido. A última descarga tinha de escoicear.
— Eu sei, cabo. Só queria ver com que rapidez eu podia tocar. Não quero pôr a culpa na arma. É um trabalho enxuto, infernal. Por favor, diga isso por mim ao armeiro. Agora é melhor ir andando. Você tem condução de volta a Londres, não?
— Tenho, sim senhor. Boa noite.
O oficial chefe da Linha entregou a Bond uma ficha de seu tiro — dois tiros de ensaio e depois dez descargas para cada cem jardas até as quinhentas. — Pontaria danada de boa com esta visibilidade. Você devia voltar aqui o ano que vem e tentar o Prêmio da Rainha. Hoje em dia está aberto para todos — isto é, da Comunidade Britânica.
— Obrigado. O problema é que não passo tanto tempo assim na Inglaterra. E muito obrigado por ter feito a marcação para mim.
Bond olhou para a distante Torre do Relógio. De cada lado, a bandeira vermelha de perigo e o tambor vermelho de sinalização estavam sendo arriados para mostrar que o tiroteio tinha cessado. Os braços marcavam nove e quinze. — Gostaria de oferecer-lhe um drinque, mas tenho um encontro em Londres. Podemos adiá-lo até o Prêmio da Rainha de que você estava falando?
O chefe da Linha fez que sim com a cabeça, neutramente. Ele tinha aguardado ansioso a oportunidade de conhecer mais coisas sobre este homem que surgira assim sem mais nem menos depois de uma série de avisos do Ministério da Defesa e fora em frente acertando bem mais de noventa porcento em todas as distâncias, isso depois de fechada a linha para a noite e com visibilidade entre sofrível e má. E por que tinha ele, que só oficiava no encontro anual de julho, sido escalado para estar presente? E por que lhe tinham dito para providenciar uma mosca de seis polegadas a 500 jardas para Bond, em vez da regulamentar de quinze polegadas? E por que todos esses cuidados com a bandeira de perigo e o tambor de sinalização que só se usavam em ocasiões cerimoniais? Para pressionar o homem? Para dar um clima de urgência ao tiro? Bond. Comandante James Bond. A A.N.R. certamente teria a ficha de uma pessoa que atirava tão bem assim. Não se esqueceria de dar-lhes um telefonema. Que hora estranha para um compromisso em Londres. Provavelmente uma garota. O rosto do chefe da Linha assumiu uma expressão de desagrado. O tipo do sujeito que apanhava todas as garotas que queria.
Os dois homens caminharam através da bela fachada da sede do clube além da linha de tiro até o carro de Bond que estava estacionado diante de uma reprodução em ferro do famoso “Veado em Fuga” de Landseer toda picotada de balaços. — Uma beleza de carro — comentou o chefe da Linha. Nunca vi uma carroçaria assim num Continental. Mandou fazê-la especialmente?
— Mandei. Os Sports Saloons na verdade só têm dois lugares. E muito pouco espaço para bagagem. Por isso pedi a Mulliner’s que o transformassem num verdadeiro dois-lugares e com porta-malas de sobra. Um carro egoísta, não há dúvida. Bem, boa noite. E novamente muito obrigado.
O escape roncou com saúde e as rodas traseiras cuspiram cascalho por um instante.
O oficial chefe da Linha observou os faróis rubis desaparecerem na King’s Avenue a caminho da estrada de Londres. Girou nos calcanhares e foi procurar o cabo Menzies numa busca de informação que terminaria sem frutos. O cabo permaneceu tão fechado como a grande caixa de mogno que estava colocando num Land-Rover caqui, limpo de símbolos militares. O chefe da Linha era um major. Tentou apelar para a hierarquia, mas sem êxito. O Land-Rover afastou-se rodando no rastro de Bond. O major dirigiu-se soturno aos escritórios da Associação Nacional do Rifle para tentar achar a informação que queria na biblioteca sob o nome “Bond, J.”
O compromisso de James Bond não era com uma garota. Era com um voo da B.E.A. para Hanover e Berlim. Enquanto engolia as milhas que o separavam do Aeroporto de Londres, pisando firme o grande carro a fim de ter tempo de sobra para um drinque, três drinques, antes da decolagem, apenas uma parte de sua mente fixava-se na estrada. O restante reexaminava pela enésima vez a sequência que agora o conduzia a um encontro com um aeroplano. Mas apenas um encontro provisório. Seu compromisso final numa das três próximas noites em Berlim era com um homem. Tinha que se encontrar com esse homem e infalivelmente matá-lo com um tiro.
Quando, por volta de duas e meia daquela tarde, James Bond atravessara as portas duplamente acolchoadas e sentara-se em frente do perfil voltado, do outro lado da grande escrivaninha, sentira imediatamente o perigo no ar. Não houve troca de cumprimentos. A cabeça de M afundava-se no colarinho duro numa pose churchilliana de sombria reflexão, e havia um traço de amargura nos cantos dos lábios. Girou a cadeira para encarar Bond, passou-lhe um olhar examinador como se, pensou Bond, quisesse verificar se sua gravata estava direita e o cabelo adequadamente penteado, e então começou a falar, rapidamente, atalhando suas sentenças como se desejasse ver-se livre do que estava dizendo, e de Bond, o mais depressa possível.
— O número 272. É um bom homem. Você talvez não o conheça. Pela simples razão de que ficou naquele buraco da Novaya Zemlya desde a guerra. Agora está tentando sair — carregado de material. Atômico e foguetes. E o plano deles para toda uma nova série de testes. Para 1961. Querem avivar o fogo no Ocidente. Algo a ver com Berlim. Não vejo bem o quadro mas o Foreign Office diz que se for verdade é uma coisa tremenda. Ridiculariza a Conferência de Genebra e toda essa demagogia sobre desarmamento nuclear que o bloco comunista vem fazendo. Ele conseguiu chegar até a Berlim Oriental. Mas tem praticamente toda a KGB no seu encalço — e as forças de segurança da Alemanha Oriental, é claro. Está entocado num buraco qualquer da cidade e conseguiu passar-nos uma mensagem — de que atravessaria entre seis e sete da tarde numa das três próximas noites — amanhã, depois de amanhã ou no dia seguinte. Indicou o ponto de travessia. O problema — a curva dos lábios de M, voltada para baixo, tomou-se ainda mais amarga — é que o mensageiro que ele usou fazia jogo duplo. A estação W.B. pilhou-o ontem. Por acaso. Deu sorte com um dos códigos da KGB O mensageiro será mandado de avião para julgamento, naturalmente. Mas isso não ajudará em nada. A KGB sabe que o 272 vai tentar a travessia. Sabem quando. Sabem onde. Sabem tanto quanto sabemos e nada mais. Ora, o código que deciframos ontem era um esquema de um só dia em suas máquinas. Mas conseguimos todo o tráfico daquele dia e isso foi bastante bom. Planejam alvejá-lo ao tentar a travessia. No cruzamento de ruas entre a Berlim Leste e a Oeste que nos indicou na mensagem. Estão montando uma operação daquelas — operação “Êxtase” como a chamam. Puseram o seu melhor tocaia no serviço. Tudo o que soubemos dele ó que seu nome cifrado é a palavra russa para “Gatilho”. A estação W.B. acha que é o mesmo homem já usado em outros serviços de tocaia. Um serviço de longo alcance através da fronteira. Ficará de guarda toda noite nesse cruzamento e sua missão é acertar no 272. É óbvio que eles certamente prefeririam fazer um serviço mais suave com metralhadoras e coisas do gênero. Mas Berlim está calma no momento e parece que a ordem é ficar assim. De qualquer forma — M sacudiu os ombros — eles têm confiança nesse operador “Gatilho” e o negócio vai ser assim!
— E onde é que eu entro? — James Bond tinha adivinhado a resposta, adivinhado porque M mostrava seu desagrado com a coisa toda. Ia ser trabalho sujo e Bond, porque pertencia à Seção Zero-Zero, tinha sido escolhido para fazê-lo. Perversamente, Bond queria forçar M a pôr o preto no branco. Iam ser notícias más, notícias sujas e ele não queria ouvi-las de um dos oficiais da Seção, nem mesmo do chefe do Estado-Maior. O negócio ia ser assassínio. Está bem. Que M tenha então a coragem de me dizer.
— Onde é que você entra, 007? — M olhou friamente do outro lado da escrivaninha. — Você sabe onde é que você entra. Você tem que matar esse tocaia. E tem que matá-lo antes que acerte no 272. É tudo. Está claro? — Os olhos azuis-claros permaneceram frios como gelo. Mas Bond sabia que só ficavam assim com um esforço da vontade. M não gostava de mandar qualquer homem para um homicídio. Mas, quando isso tinha de ser feito, ele sempre assumia a sua severa e fria ação de comando. Bond sabia a razão. Era para tirar um pouco da pressão, um pouco da culpa, dos ombros do matador.
Portanto Bond, que sabia dessas coisas, decidiu agora tornar fácil e rápida a tarefa de M. Levantou-se. — Está certo, sir. Suponho que o chefe do Estado-Maior tenha tudo pronto. É melhor eu ir praticar um pouco. Não seria bom errar.
Caminhou para a porta.
M disse calmamente: — Sinto ter que lhe dar essa tarefa. Serviço desagradável. Mas tem que ser bem executado.
— Farei o melhor — James Bond saiu fechando a porta atrás de si. Não gostava do serviço mas no final preferia fazê-lo a assumir a responsabilidade de mandar alguém em seu lugar.
O chefe do Estado-Maior tinha sido apenas um pouco mais simpático. — Lamento esta sua aquisição, James — dissera ele. — Mas Tanqueray foi inflexível, não tinha ninguém suficientemente bom na estação e esse não é o tipo de serviço que se pode pedir a um soldado regular para fazer. Há uma porção de excelentes tiros na B.A.O.R., mas um alvo vivo requer outro tipo de coragem. De qualquer forma, liguei para Bisley e marquei um exercício para você esta noite às oito e quinze quando a linha estiver fechada. A visibilidade será mais ou menos a mesma que você terá em Berlim cerca de uma hora antes. O armeiro está com a arma — verdadeira obra de arte para alvejar, e vai mandá-la por um de seus homens. Você irá com a sua própria condução. Depois, há um voo de carreira para Berlim à meia-noite reservado em seu nome na B.E.A. Tome um táxi até esse endereço. — Entregou a Bond um pedaço de papel. — Suba ao quarto andar e encontrará o número 2 de Tanqueray à sua espera. Depois disso, sinto que você terá que esperar sentado pelos próximos três dias.
— E a arma? Esperam que atravesse a alfândega alemã com ela dentro de um saco de golfe ou coisa assim?
O chefe do Estado-Maior não tinha achado graça. — Seguirá pela mala diplomática. Você a receberá amanhã ao meio-dia. — Tinha estendido a mão até o bloco de avisos. — Bem, é melhor ir andando. Vou avisar a Tanqueray que está tudo combinado.
James Bond baixou o olhar para o rosto azul difuso do relógio no painel do carro. Dez e quinze. Com um pouco de sorte, amanhã a esta hora estaria tudo terminado. Afinal, era a vida deste homem “Gatilho” contra a vida do 272. Não era exatamente homicídio. Estava perto disso, no entanto. Apertou maldosamente sua buzina-de-serra tripla ao passar por um quatro portas comum, ingressou no cruzamento circular com uma derrapagem seca desnecessária, girou violentamente o volante fazendo a correção e apontou o nariz do Bentley em direção do brilho distante que era o Aeroporto de Londres.
O edifício feio de seis andares na esquina da Kochstrasse e da Wilhelmstrasse era o único de pé na desolação de um espaço vazio bombardeado. Bond pagou o táxi e gravou uma breve impressão de capim, alto como a cintura, e de paredes de entulho mal reparadas, estendendo-se na direção de um grande cruzamento deserto iluminado por um feixe central de lâmpadas amareladas em arco, antes de apertar o botão para o quarto andar e imediatamente ouviu o clique do dispositivo que abria a porta do prédio. A porta fechou-se atrás dele e caminhou então sobre o chão de cimento sem tapete até o antiquado elevador. O cheiro de repolho, cigarro barato e suor rançoso lembravam outros prédios de apartamentos na Alemanha e Europa Central. Até o arrastar e o guincho fraco do elevador vagaroso eram parte de centenas de missões em que tinha sido lançado por M, como um projétil, a algum alvo distante onde um problema aguardava a sua chegada, à espera de ser resolvido por ele. Pelo menos desta vez o comitê de recepção estava do seu lado. Desta vez não havia nada a temer no fim da escada.
O número 2 da Estação W.B. de Serviço Secreto era um homem esguio e tenso de quarenta e poucos anos. Vestia o uniforme de sua profissão — terno bem cortado e bem usado de tweed leve ponto pé-de-pato num tom verde-escuro, camisa de seda macia branca e uma velha gravata de colégio — neste caso de Wykeham. Ao ver a gravata, enquanto trocavam as saudações convencionais no pequeno saguão mofado do apartamento, o ânimo de Bond, já baixo, desceu mais um degrau. Conhecia esse tipo: espinha dorsal do Serviço Público; superestudioso e mal-amado em Winchester; um bom segundo em P.P.E. em Oxford; a guerra, cargos funcionais que teria ocupado meticulosamente; talvez uma Ordem do Império Britânico; Comissão do Controle Aliado na Alemanha, onde fora recrutado no Ramo I e a partir de então — porque era o funcionário ideal e A. 1 junto à Segurança e porque pensava em encontrar vida, drama, romance, todas as coisas que nunca linha tido — lá fora ele para o Serviço Secreto. Um homem sóbrio, cuidadoso se fizera necessário para bancar a dama de companhia de Bond neste negócio feio. O Capitão Paul Sender, que já servira na Guarda Galesa, tinha sido a escolha óbvia. E tinha aceitado. Agora, como bom Wykehamista, escondia o seu desagrado pelo serviço debaixo de uma conversa cuidadosa e banal enquanto mostrava a Bond a planta do apartamento e as providências tomadas para a prontidão do carrasco e, numa medida modesta, para o seu conforto.
O apartamento consistia de um amplo dormitório conjugado, um banheiro e uma cozinha equipada de enlatados, leite, manteiga, ovos, chá, bacon, pão e uma garrafa de Dimple Haig. O único detalhe estranho no quarto de dormir era que uma das camas duplas estava encostada em ângulo contra as cortinas que cobriam o amplo janelão único e sobre ela se empilhavam três colchões cobertos pela roupa de cama.
O Capitão Sender disse: — Gostaria de dar uma olhada ao campo de fogo? Poderei então explicar o que é que o lado de lá tem em mente.
Bond estava cansado. Não desejava especialmente ir dormir com a imagem do campo de batalha na memória. Disse: — Seria ótimo.
O Capitão Sender apagou as luzes. Faixas luminosas das lâmpadas no cruzamento apareceram em volta das cortinas. — Não quero puxar as cortinas — disse o Capitão Sender. — É pouco provável, mas eles podem ter sido alertados contra um grupo de cobertura para o 272. Queria que você apenas se deitasse na cama e enfiasse a cabeça por baixo das cortinas. Explicarei o que você estiver vendo. Olhe para a esquerda.
Era uma janela de guilhotina e a metade inferior estava aberta. Os colchões, especialmente escolhidos, só cediam um pouco e James Bond encontrou-se mais ou menos na posição de tiro que tinha adotado em Century Range, mas agora olhava através de terreno descontínuo, coberto de densa vegetação e bombardeado, na direção do rio de luz que era a Zimmerstrasse — a fronteira com a Berlim Oriental. Parecia a umas cento e cinquenta jardas de distância. A voz do Capitão Sender acima dele e por trás da cortina começou a recitar. Lembrava a Bond uma sessão espírita.
— Ali é terreno bombardeado à sua frente. Bastante cobertura. Umas cento e trinta jardas até a fronteira. Depois a fronteira — a rua — e então um trecho grande ainda de terreno bombardeado no campo do inimigo. É por isso que o 272 escolheu essa passagem. É um dos poucos locais na cidade em que o terreno é descontínuo — capinzais cerrados, muros em ruínas, porões — nos dois lados da fronteira. Ele deverá es-gueirar-se entre aquela confusão do outro lado e arremessar-se através da Zimmerstrasse até alcançar a confusão do nosso lado. O problema é que terá de correr trinta jardas de fronteira fortemente iluminada. Será o espaço da matança. Certo?
Bond disse: — Sim.
Disse-o com suavidade. O cheiro do inimigo, a necessidade de tomar cuidado, já estavam atuando sobre seus nervos.
— À sua esquerda, aquele novo e imenso bloco de dez andares é a Haus der Ministerien, o grande centro cerebral de Berlim-Leste. Você pode ver que as luzes ainda estão acesas na maioria das janelas. A maior parte delas ficará assim toda a noite. Esses sujeitos trabalham mesmo — seus turnos dão a volta no relógio. Você provavelmente não precisará preocupar-se com as janelas acesas. Esse fulano “Gatilho” certamente vai atirar de uma das janelas escuras. Você verá que existe um grupo de quatro, juntas, na quina acima do cruzamento. Ficaram escuras na noite passada e esta noite. Elas têm o melhor campo de fogo. Daqui, o seu alcance varia entre trezentas e trezentas e dez jardas. Estou com todos os números e dados quando você quiser. Não é preciso preocupar-se muito mais. Aquela rua fica vazia durante a noite — apenas as patrulhas motorizadas cerca de cada meia hora — carros blindados leves com uma dupla de motocicletas por escolta. Na noite passada, que suponho normal, entre seis e sete, que é a hora em que se fará este serviço, havia umas poucas pessoas entrando e saindo por aquela porta lateral. Uns funcionários. Antes disso nada fora do comum — o fluxo costumeiro de pessoas entrando e saindo de um edifício de governo movimentado — com exceção, veja só, de uma miserável orquestra completa de mulheres. Fizeram uma confusão infernal numa sala de concertos que tem ali. Parte do bloco aloja o Ministério da Cultura. Fora disso nada — certamente nenhuma das pessoas da KGB que conhecemos, nem sinais de preparação para um serviço deste gênero. Mas nem pode haver sinais. São muito cuidadosos estes sujeitos da oposição. De qualquer maneira, dê uma boa olhada. Não esqueça que agora está mais escuro do que amanhã por volta das seis. Mas você pode formar um quadro geral.
Bond formou o quadro geral e o quadro ficou com ele muito tempo enquanto o outro homem já dormia e ressonava suavemente com um pequeno som regular que lembrava um fraco estalido — um ronco Wykehamista, refletiu Bond irritado.
Sim, tinha formado o quadro — o quadro de um lampejo movimento entre as ruínas sombreadas no outro lado do brilhante rio de luz, uma pausa, e então a desesperada corrida em ziguezague de um homem sob o impacto luminoso das lâmpadas, o espocar da arma de fogo e, ou um fardo retorcido espalhado no meio da rua larga, ou então a investida sempre em frente através do capinzal e do entulho no Setor Ocidental — morte súbita ou volta a casa. O grande desafio! Quanto tempo teria Bond para localizar o tocaia russo numa daquelas janelas escuras? E para matá-lo? Cinco segundos? Dez? Quando o amanhecer começava a cobrir as cortinas com o tom metálico das armas, Bond capitulou para sua mente agitada. Ela tinha ganho. Foi em silêncio até o banheiro e inspecionou as fileiras de remédios que um prestimoso Serviço Secreto tinha providenciado para manter o seu carrasco em boa forma. Escolheu o Tuinal, engoliu duas das cápsulas concentradas, rubis e azuis, com um copo de água e voltou à cama. Então, chumbado, dormiu.
Acordou ao meio-dia. O apartamento estava vazio. Bond abriu as cortinas para deixar entrar o dia cinzento prussiano e, de pé a uma boa distância da janela, ficou vendo a monotonia de Berlim e ouvindo o ruído dos bondes e o arranhar distante dos trens da U-Bahn na grande curva de entrada da estação do Zoo. Lançou um olhar rápido e relutante ao que já tinha examinado na noite anterior, notou que o capim no entulho de bombardeio era mais ou menos o mesmo de Londres — loendro, labaçol e samambaia — e dirigiu-se então à cozinha. Havia uma nota apoiada numa fatia de pão: “Meu amigo (eufemismo do Serviço Secreto que neste contexto significava o chefe de Sender) diz que não há mal em você sair. Mas esteja de volta às 17 horas. Seu equipamento (outra palavra para o rifle de Bond) chegou e o bagageiro a entregará esta tarde. P. Sender.”
Bond acendeu o fogão a gás e queimou a mensagem com desprezo por sua profissão e em seguida preparou um prato enorme de ovos mexidos e bacon que amontoou sobre uma torrada coberta de manteiga e comeu com acompanhamento de café preto no qual derramara uma porção liberal de uísque. Depois tomou um banho e barbeou-se, vestiu as roupas descoloridas, centro-europeias e anônimas que tinha trazido para a sua missão, olhou a sua cama em desordem, decidiu que tudo fosse para o inferno e desceu pelo elevador deixando o edifício.
James Bond sempre achara Berlim uma cidade deprimente e hostil, esmaltada no lado Ocidental com o verniz superficial de um polimento pretensioso parecido com os enfeites cromados dos carros americanos. Caminhou até a Kurfurstendamm, sentou-se no Café Marquardt, tomou um expresso e ficou observando com tédio as filas obedientes de pedestres esperando o sinal “Siga” nos postes de trânsito enquanto a corrente luminosa de carros continuava a sua perigosa quadrilha na movimentada intersecção. Fazia frio lá fora e o vento cortante das estepes russas fustigava as saias das garotas e os impermeáveis dos homens impacientes e apressados, cada um com a infalível pasta enfiada debaixo do braço. Os aquecedores de parede infravermelhos do café apontavam o vermelho para baixo e davam um brilho espúrio ao rosto dos cafeinômanos que degustavam sua tradicional “uma xícara de café e dez copos de água”, lendo de graça os jornais e revistas presos por paus, ou se curvavam com seriedade sobre papéis de negócios. Bond, fechando o pensamento para a noite, discutia consigo mesmo as maneiras de passar a tarde. Finalmente chegou à escolha entre uma visita àquela casa de respeitável fachada de pedra, na Clausewitzstrasse, conhecida de todos os porteiros e choferes de táxi, ou um passeio ao Wannsee e uma vigorosa caminhada no Grunewald. A virtude triunfou. Bond pagou o café, saiu no frio e tomou um táxi até a estação do Zoo.
As belas arvorezinhas jovens em volta do lago extenso já tinham sido tocadas pelo sopro do outono e havia um dourado aqui e ali no meio do verde. Bond caminhou com energia durante duas horas pelas veredas cobertas de folhas e então escolheu um restaurante com terraço envidraçado sobre o lago e saboreou com prazer um chá reforçado consistindo de uma porção dupla de arenques do Norte mergulhados em creme e anéis de cebola, e dois Molle mit Korn, o equivalente berlinense de um “fabricante de caldeiras e seu assistente” — schnapps, duplos, acompanhados por um chope Löwenbräu. Sentindo-se então mais animado tomou a S-Bahn para voltar à cidade.
Em frente do prédio de apartamentos, um jovem indefinível estava mexendo no motor de um Opel Kapitan negro. O jovem não tirou a cabeça debaixo do capo quando Bond passou bem perto dele e subiu até a porta e apertou o botão.
CONTINUA
Quando chegou embaixo, sentou-se no musgo, sob os abetos. Estendeu no chão a camisa, colocou no centro dela as barras de ouro e fez uma trouxa, amarrando bem as fraldas e as mangas. Depois, cavou um buraco no chão e enterrou a caixa metálica vazia. E vergando ao peso, quase dobrado em dois, caminhou pela estreita trilha, entre os pinheiros, rumo ao jipe. Até aquele dia não conseguira saber como tivera forças para alcançar o veículo. Os nós que dera na trouxa pareciam penetrar nas carnes de seu ombro, sob o peso das barras de ouro. Quando, finalmente, alcançou o jipe, quase teve um colapso, tão exausto estava. Mas não podia descansar, ainda. Precisava sair dali para enterrar o seu tesouro na floresta, perto de um grupo de grandes rochas, onde lhe seria fácil encontrá-lo de novo, na ocasião oportuna em dia, quando o horizonte estivesse limpo, voltaria, por outra rota, evitando o chalé de Oberhauser. Só então, terminado tudo, fora embebedar-se com uma garrafa de schnapps barato. Jantou e meteu-se na cama, para dormir como uma pedra. No dia seguinte, a Força A da DAG seguiu para o vale do Mittersill. Seis meses depois o Major Smythe estava em Londres. A sua guerra havia terminado. Mas os seus problemas, não. Ouro era coisa difícil de contrabandear, principalmente em grande quantidade. E era essencial que o Major Smythe transferisse as suas barras para um novo esconderijo. Por isso, ele procurou evitar a desmobilização e gozar os privilégios de seu comissionamento temporário, sobretudo o seu passe do Serviço Secreto Militar. Conseguiu ser mandado de volta para a Alemanha, como representante da Inglaterra no Centro Misto de Investigação de Munique. Aí, trabalhou durante seis meses e, nesse período, teve a oportunidade de recuperar o ouro, que levou para o seu alojamento numa velha valise. Depois, em dois fins de semana, fez viagens aéreas para Londres, levando, de cada vez, uma barra de ouro, em sua volumosa pasta. A caminhada nos aeroportos de Munique e de Londres, com a pasta sob o braço, como se contivesse apenas papéis, exigira dois tabletes de benzedrina e uma vontade de ferro. Finalmente, pôde esconder sua fortuna no porão da casa de uma tia, em Kensington, e assim, com tranquilidade, pôde desenvolver a parte final de seus planos. Pediu reforma nos Fuzileiros Reais e, uma vez desmobilizado, casou-se com uma das muitas moças com quem tivera aventuras durante o serviço da DAG, uma graciosa Wren chamada Maria Parnell. Comprou passagem para ambos num cargueiro para a Jamaica, que representava, para ambos, um paraíso ensolarado, com boa e farta comida, bebida barata, sem a melancolia e as restrições impostas na Inglaterra, após a guerra, pelo severo governo trabalhista. Antes do embarque, o Major Smythe mostrou a Mary as barras de ouro, das quais já havia raspado a cinzel os símbolos do Reichsbank.
— Tenho sido muito econômico e esperto, meu bem — disse ele. — Não confio na libra. Por isso, vendi todas as minhas ações e comprei um bocado de ouro. Teremos pelo menos 20 mil libras, se eu o vender bem. Isso basta para nos assegurar uma boa vida, até o fim dos nossos dias. Sempre que for preciso, eu venderei um pouquinho — explicou.
Mary Parnell não era familiarizada com as leis monetárias. Mas se ajoelhou e passou as mãos, carinhosamente, sobre as barras de ouro. Depois, com os braços ao redor do pescoço do marido, beijou-o e disse, quase em lágrimas: — Você é um homem maravilhoso... Sim, maravilhoso! Terrivelmente inteligente, bonito, simpático, herói da guerra e, além do mais, rico! Eu sou a garota mais feliz do mundo!
— Você tem razão pelo menos numa coisa: ricos, nós somos. Mas prometa não dizer uma só palavra a quem quer que seja! Pois, se disser, todos os ladrões da Jamaica irão rondar a nossa casa.. .
O Prince’s Club, ao pé das colinas que dominam os arredores de Kensington, era realmente esplêndido. Para os seus sócios, não havia nada melhor: maravilhosa criadagem, comida farta, bebida barata, belíssimos cenários tropicais, como nunca tinham visto antes. O casal era muito popular e os serviços de guerra do Major Smythe lhe davam ingresso na alta sociedade local e na Government House. A vida de ambos era uma série interminável de festas, misturadas com o tênis de Mary e o golfe do major (com os bastões metálicos de Henry Cotton!) durante o dia, e partidas de bridge (para ela) e de pôquer (para ele) durante as noites. Sim, era um paraíso, porque, na Inglaterra, havia racionamento, filas e mercado negro, um governo atroz e o pior inverno dos últimos trinta anos. A princípio, o casal enfrentou as despesas com as economias em dinheiro, que ambos haviam reunido, enquanto se vestiam, se alimentavam e se transportavam à custa do Exército. Só depois de um ano de cautelosas investigações é que o Major Smythe se decidiu a fazer negócio com os irmãos Fu, comerciantes importadores e exportadores. Altamente respeitados e muito ricos, os irmãos Fu eram conhecidos como uma espécie de junta governativa da comunidade chinesa da Jamaica. Ainda que alguns dos seus negócios se desviassem das boas normas, segundo a tradição chinesa, Smythe achou que poderia confiar neles. A Convenção de Bretton Woods, fixando um preço internacional para o ouro, sob rigoroso controle, tinha sido assinada deixando de parte Tânger e Macau, dois portos livres, em que a onça de ouro valia entre 99 e 100 dólares, quando nos outros lugares o preço oficial era de 35. E, para maior conveniência de seus negócios, os Fu tinham aberto um restaurante em Hong-Kong, transformado em entreposto para o contrabando de ouro para a vizinha Macau. Isso, na linguagem do Major Smythe, era sopa no mel. Ele tivera um agradável encontro com os Fu. Nenhuma pergunta estes fizeram, senão depois do exame das barras de ouro.
— Major — disse o mais velho dos irmãos —, no mercado de ouro em barras, as marcas dos bancos nacionais e dos negociantes respeitáveis são aceitos sem discussão. Essas marcas são a garantia da pureza do ouro. Mas outros bancos e outros vendedores têm seus próprios processos de refinação, que talvez, não sejam tão perfeitos...
— Quer dizer que eu fui enganado? — Perguntou, ansiosamente, o major. — Que isso não é senão uma barra de chumbo coberta de uma leve camada de ouro?
Os dois irmãos deram muxoxos tranquilizadores:
— Não, não, major... Não se trata disso. Mas, se uma pessoa não se recorda da proveniência dessas barras de ouro, por mais finas que elas sejam é sempre necessário submetê-las a um ensaio, para verificação do seu exato teor... Há muitos métodos para determinar o grau de pureza dessas barras. Meu irmão e eu somos competentes em qualquer deles. Quer deixar as barras de ouro conosco e vir saber o resultado depois do almoço? Nós lhe daremos um recibo...
Não havia alternativa. Teria que confiar nos Fu. Qualquer que fosse o preço por eles arbitrado, seria forçado a aceitar. Estava nas mãos deles. Foi a um bar, onde tomou dois drinques fortes e comeu um sanduíche que lhe ficou atravessado na garganta. Depois, voltou ao escritório refrigerado dos Fu. O cenário era o mesmo: os dois irmãos sorridentes, as duas barras de ouro, a pasta de couro, etc. Só havia a mais uma folha de papel e uma caneta-tinteiro de pena de ouro, em frente do irmão mais velho.
— Resolvemos o problema do seu ouro, major! — (Esplêndido! Obrigado, pensou Smythe.) — E estou certo de que o senhor terá interesse em conhecer sua origem...
— Claro! Qual é? — Fez o major, com uma corajosa demonstração de entusiasmo.
— São barras de ouro alemãs! Provavelmente saíram dos depósitos do Reichsbank, durante a guerra. Isso pode ser deduzido do fato de que contêm dez porcento de chumbo. Durante o regime de Hitler, o Reichsbank fez a tolice de adulterar por esse modo o seu ouro. Isso logo se espalhou e o preço das barras de ouro alemãs, vendidas na Suíça, sofreu logo uma redução de preço, correspondente à adulteração. Foi uma bobagem, que só teve um resultado: o banco nacional da Alemanha perdeu a reputação que conquistara durante séculos... Bobagem... Uma grandíssima bobagem... — Concluiu o chinês, com o seu invariável sorriso.
O Major Smythe estava maravilhado com a onisciência desses dois homens, tão afastados dos grandes canais de comércio do mundo. Mas ao mesmo tempo os amaldiçoava, intimamente. E agora?
— É muito interessante, Sr. Fu... Mas isso não é uma boa notícia para mim. Essas barras de ouro me foram entregues como coisa cem por cento...
— Não tem importância, major — disse o mais velho dos Fu. — Ou melhor, quase não tem importância. Venderemos o seu ouro pelo justo valor, ou seja, 89 dólares a onça. Terá que ser, ou não, refinado pelo último comprador. Mas isso não é da nossa conta. Nós o venderemos também como cem por cento...
— Mas a um preço mais baixo...
— Realmente, major. Mas creio que temos uma boa notícia para o senhor. Quanto calculava obter com essas duas barras?
— Cerca de 20 mil libras...
— Se as vendermos bem e aos pouquinhos — disse o mais velho dos Fu —, o senhor receberá mais de 100 mil dólares, major, sujeitos, é claro, ao desconto da nossa comissão, que inclui o transporte e outras despesas.
— E a quanto montará isso?
— Estou pensando em fixar em 10 por cento, major. Se lhe parecer satisfatório...
O Major Smythe tinha a impressão de que vendedores de ouro em barras recebiam apenas um por cento de comissão. Mas, que diabo, antes do almoço já estava disposto a largar tudo até por 10 mil libras. Disse “fechado” e levantou-se, estendendo a mão através da mesa. Desde então, de quatro em quatro meses, ia visitar o escritório dos Fu, levando uma valise vazia. Havia sempre quinhentas libras novas, da emissão da Jamaica, em pacotes, sobre a mesa, à sua espera, e um recibo da quantidade vendida, com o preço alcançado em Macau. As barras de ouro diminuíam de tamanho, de polegada em polegada. O negócio era simples e cordial. Duas mil libras limpas, por ano, eram o bastante para ele, e só o afligia a possibilidade de que o pessoal do imposto de renda começasse a apertá-lo, para saber do que estava vivendo. Ele disse isso aos Fu, que lhe fizeram saber que não precisava se preocupar. Nas duas vezes seguintes, havia apenas quatrocentas libras na mesa, mas nenhum comentário foi feito, por qualquer dos lados. E assim os dias iam se passando, preguiçosamente. Os Smythes engordavam e o major teve a primeira das duas complicações das coronárias. O médico lhe recomendou uma vida menos ativa, com menos álcool e menos cigarros. Evitasse, também, as gorduras e as comidas fritas. A princípio, Mary tentou ser severa com ele, mas quando o marido começou a beber escondido e a inventar pequenas mentiras e evasivas, ela recuou desse propósito. Teve medo de se transformar numa chata doméstica, a quem o Major Smythe passaria a evitar. Por isso, deu-lhe inteira liberdade, sabendo que ele não mais a amava, e quando a sua solidão se tornou demasiada e as insônias intoleráveis, viciou-se em tomar soníferos. Uma noite, depois de uma violenta briga, estando ambos embriagados, tomou ela uma dose excessiva, só “para dar-lhe uma lição”. A dose era tão exagerada que a matou. O suicídio foi dissimulado, mas ainda assim recaíram suspeitas sobre o major, em prejuízo de sua reputação social. E a tal ponto que ele teve de se retirar para North Shore que, embora a apenas três milhas de Kensington, parece pertencer a um outro mundo. Aí ele se instalou em Wavelets e, depois da segunda complicação das coronárias, começou a beber desenfreadamente. Foi então que entrou em cena James Bond com um mandado de prisão ou de morte no bolso.
O Major Smythe olhou para o relógio. Passavam alguns minutos do meio-dia. Ele se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale e foi para o jardim. James Bond estava sentado sob a frondosa amendoeira, olhando para o lar. Nem se voltou para o Major Smythe quando este puxou outra cadeira de alumínio e colocou o copo na relva, perto dele. Quando o Major Smythe acabou de narrar a sua história, James Bond disse, sem demonstrar qualquer emoção: — Era mais ou menos isso o que eu havia pensado...
— Quer que eu escreva tudo ou apenas assine?
— Faça como quiser. Mas isso não se entende comigo. Deve entregar à Corte Marcial. Seu velho Corpo de Fuzileiros Reais é que vai tomar conta do caso. Não tenho nada que ver com os aspectos legais. Farei apenas um relatório do que me disse, para a Procuradoria da Justiça, através da Scotland Yard...
— Posso perguntar uma coisa? Como foi que descobriu?
— A geleira era pequena. O corpo de Oberhauser chegou embaixo no início deste ano, quando as neves da primavera derreteram. Alguns alpinistas o encontraram. Todos os seus papéis e tudo o mais estava perfeito. A família o identificou. Depois, foi só uma questão de recuar no tempo. O calibre das balas deu logo a pista...
— Mas como se envolveu neste assunto?
— A Força da DAG era uma das minhas responsabilidades, um dos meus serviços. Quando o assunto chegou ao meu conhecimento, fui dar uma busca nos arquivos. Como tinha tempo livre, pedi que me entregassem a missão de descobrir o autor da morte de Oberhauser...
— Por quê?
— Porque — e James Bond fixou os olhos do Major Smythe — acontece que Oberhauser era um velho amigo meu. Foi quem me ensinou a esquiar quando eu tinha pouco mais de dez anos. Era um esplêndido sujeito. Foi uma espécie de pai para mim, precisamente na época em que eu mais precisava de um...
— Compreendo. — E o Major Smythe desviou o olhar. — Sinto muito...
James Bond se levantou:
— Bem, preciso voltar a Kensington. — E levantou a mão, para deter o major. — Não, não precisa incomodar-se. Sei onde o carro ficou... — Olhou para o homem mais velho e disse, rispidamente, quase com brutalidade: — Dentro de uma semana, alguém virá buscá-lo...
E caminhou, em passos firmes, sem se voltar, pela alameda afora. O major ouviu o ruído do arranque do motor e o chiado dos pneus do táxi nas pedrinhas miúdas da estrada.
Agora, ele procurava a sua presa, ao longo do recife de coral, pensando exatamente no sentido das palavras de James Bond. E sorriu por trás da máscara Pirelli. Era uma versão nova de um velho dramalhão, que consistia em deixar uma pistola com o oficial culpado, para que este mesmo estourasse os miolos. Se James Bond quisesse, poderia ter telefonado para a Government House e pedido um oficial de igual patente do Regimento da Jamaica para levar preso o Major Smythe. De certo modo, o seu gesto fora decente. Ou não fora? Um suicídio era mais limpo, economizava uma porção de trabalho e de papéis, que consumiriam o dinheiro dos contribuintes. Devia agradecer a James Bond a solução que ele parecia sugerir? Acaso encontraria Mary no lugar para onde vão as almas dos suicidas? Ou era melhor a Corte Marcial, a indignidade, as formalidades cacetes, as manchetes, o aborrecimento e a solidão de uma prisão perpétua, da qual só o livraria a terceira crise das coronárias? Poderia defender-se: era tempo de guerra, lutara com Oberhauser no alto da montanha, ele era um prisioneiro e tentara fugir... Oberhauser sabia do esconderijo do dinheiro... E ele, pobre oficial dos Comandos, tantas vezes arriscando a vida pela pátria, fora fraco e não resistira à tentação... Poderia entregar-se dramaticamente à misericórdia do Tribunal Militar... Um coronel certamente seria designado para defendê-lo e o faria com a maior eloquência. Poderia haver um apelo à Corte Suprema. Seu caso comoveria a Inglaterra e se tornaria uma cause célebre. Venderia sua história, com as reminiscências de guerra, aos grandes jornais... Mas...
Cuidado, meu velho! Cuidado! Seus pés agora tocavam o chão, sob as ondas que encrespavam a superfície da praia de North Shore. Por onde estariam os peixes-escorpiões? O polvinho querido estava faminto, esperando o seu almoço. Apurando a vista, perto do recife de coral, o Major Smythe viu as antenas de um lagostim, acenando inquisitivamente para ele. Normalmente, ele se esqueceria de tudo, para capturar o lagostim, que era, talvez, o maior que até então encontrara. Mas agora só tinha uma preocupação: a de descobrir a silhueta irregular e provocante do peixe-escorpião. Só depois de mais dez minutos de busca encontraria o primeiro. Os olhos vermelhos e zangados do peixe, muito abertos, o observavam. Para fisgá-lo, com o arpão, teria que fazer uma investida rápida, na vertical, firme e certeira. Sabia que as agulhas envenenadas se projetariam para fora da cabeça pontiaguda do monstro. Tinha que se mover lentamente, na direção do peixe, usando o braço livre para nadar. E... Agora! Avançou, para a frente e para baixo, mas o peixe-escorpião sentira a aproximação do arpão antes que este o tocasse. Uma lufada de areia se levantou do fundo do mar, atingido pelo golpe. E qualquer coisa roça em seu corpo, dando a impressão do voo de um pássaro. O major praguejou e fez meia volta, dentro da água. Sim, o peixe-escorpião fizera o que tantas vezes fazia: fora buscar refúgio entre as algas e as rochas, confiante em sua soberba camuflagem. O major voltou à carga, em novo mergulho, dessa vez ainda mais atento, e zás! O peixe-escorpião se agitava, agora, na ponta do arpão. A excitação foi tão grande que o Major Smythe vacilou e sentiu a antiga dor oprimir-lhe o peito. Pôs-se de pé, firmou o arpão contra a areia, atravessando inteiramente a presa, que ainda se agitava desesperadamente, e dirigiu-se à praia, indo sentar-se num banco de madeira, ao lado do qual atirou o peixe, fisgado, a se debater. Uns cinco minutos depois, o Major Smythe sentiu uma curiosa dormência na região do plexo solar. Olhou para baixo e estremeceu, de horror e incredulidade. Uma região de sua pele, com o tamanho aproximado de uma bola de críquete, tornara-se impressionantemente branca, a despeito do bronzeado de seu busto. No centro dessa área, havia três pequenas manchas sanguíneas. Automaticamente, o Major Smythe limpou o sangue. Os furos eram do tamanho de picadas de agulhas. Ele se lembrou, então, da fuga do peixe-escorpião, quando tentara arpoá-lo da primeira vez, e exclamou alto, com pavor, mas sem animosidade: — Tu me apanhaste, bastardo! Tu me apanhaste!
Imóvel, olhava para o próprio corpo, recordando-se do que lera sobre os ferrões do peixe-escorpião no livro que tomara emprestado à biblioteca do Instituto e nunca devolvera — Perigosos Animais Marinhos, publicação norte-americana. Tocou delicadamente a pele da área atingida. Sim, a pele se tinha tornado intumescida e de todo insensível, mas por baixo começava a sentir dor. Em breve essa dor profunda e intensa percorreria o seu corpo inteiro, tão lancinante que o seu único desejo seria o de deitar-se na areia, gritando e rolando, para abafá-la. Vomitaria e deitaria espuma pela boca, teria delírio e convulsões, até perder a consciência. Então, sobreviria, inevitável, o colapso cardíaco mortal. De acordo com o livro, o ciclo completo desses tormentos não passaria de um quarto de hora. Era tudo quanto lhe restava: quinze minutos de atroz agonia! Haveria cura, é claro — com procaínas, antibióticos e anti-histamínicos —, se seu coração debilitado suportasse tais medicamentos. Mas estes deviam estar à mão. Mesmo que conseguisse chegar em casa e admitindo que Jimmy Greaves dispusesse de todos esses remédios modernos, ele não poderia alcançar Wavelets antes de uma hora.
A primeira descarga de dor fez o corpo do Major Smythe dobrar-se sobre si mesmo. Depois outra e mais outra, irradiando-se através do estômago e dos membros. Sentia um gosto metálico na boca e uma coceira insuportável nos lábios. Deixou escapar um gemido e saltou do banco para a praia. Sobre a areia, ainda arquejava o peixe-escorpião. Houve uma trégua nos espasmos da dor. Seu corpo inteiro estava em fogo. Apesar da agonia o raciocínio permanecia claro. Mas, ora essa! Ia esquecendo a experiência! Devia ir à loca do polvo, para servir seu almoço! “Polvo, polvinho, vai ser a última refeição que eu te dou!”, dizia a si mesmo o Major Smythe, ajustando a máscara no rosto. Depois, apanhou o arpão, com o peixe espetado e, apertando o estômago com a mão livre, caminhou pela água adentro e, depois, mergulhou junto ao recife de coral. Poucas jardas o separavam agora do polvo. E foi gritando dentro da máscara, arrastando-se, quase de joelhos, que ele as percorreu. À medida que a água se tornava mais profunda, a dor se fazia mais intensa e seus movimentos pareciam com os de um fantoche, impulsionado por um feixe de cordéis. Só a poder de uma grande força de vontade pôde continuar rumo à morada do polvo. Sim, a sua massa escura ainda estava lá! E parecia excitadíssima. Por quê? O Major Smythe viu que as feridas de seu peito vertiam filetes de sangue escuro, que se diluía na água do mar. Era claro! O querido polvo sentira o gosto do seu sangue. Uma descarga de dor atingiu o major e o fez vergar-se. Disse a si mesmo, em delírio: “Que é isso, Dexter?! Firme, meu velho. Você tem que dar almoço ao polvinho”. Endireitou-se, empunhando o arpão com firmeza e aproximando o peixe da toca do polvo. Aceitaria ele a isca envenenada que o Major Smythe lhe oferecia e à qual talvez um octópode poderia ser imune? Ah, se Bengry estivesse presente, para observar! Três tentáculos, ondulando excitadamente, saíram da loca e passearam ao redor do peixe-escorpião. Agora, havia uma espécie de nevoeiro diante dos olhos do Major Smythe. Reconhecendo estar à beira da inconsciência, ele agitou fracamente a cabeça, para dissipá-lo. E, então, os tentáculos deram um salto! Mas não para o peixe: apertaram a mão e o braço que empunhavam o arpão. A boca do Major Smythe se torceu, numa careta de prazer. Agora, ele e o polvo podiam se apertar as mãos! Como era excitante! Que coisa maravilhosa! Mas o polvo, calma e implacavelmente, continuou a enroscar os seus tentáculos e a chamar a si o corpo do major. Só então Smythe compreendeu que algo de terrível ia acontecer. Fez um apelo a todas as suas forças e tentou golpear o octópode com o arpão. Mas tudo quanto conseguiu foi bater com o peixe-escorpião na massa escura do polvo. E, com o movimento que fez, ofereceu-se ainda mais a este, que o atraía de forma inexorável. Tarde demais o Major Smythe retirou sua máscara. Conseguindo alcançar a superfície, soltou um grito que reboou pela baía deserta, mas logo foi puxado para baixo. E, depois de algumas bolhas de ar, vieram à tona as pernas do major. As ondas lavavam o seu corpo, enquanto o polvo fazia a primeira tentativa para devorá-lo. O resto de Smythe foram encontrados por dois jovens da Jamaica, que pescavam peixes-agulhas numa canoa. Eles mataram o polvo, recolheram o arpão do Major Smythe com o peixe-escorpião e levaram os três despojos para a praia. O cadáver do major foi entregue à polícia e o peixe-escorpião aproveitado para a ceia. O destino do polvo de estimação seria também a panela ... O correspondente do Daily Gleaner em North Shore comunicou que o Major Smythe tinha sido morto por um polvo. Mas a redação do jornal, para não alarmar os turistas, preferiu dizer que ele “fora encontrado afogado”. Mais tarde, em Londres, James Bond, embora certo de que se tratara de um suicídio, anotou no dossier Oberhauser a versão do afogamento, com a respectiva data, na última página, o que encerrava o assunto. Somente pelas notas do Dr. Greaves sobre a autópsia, por ele mesmo realizada, é que foi possível escrever esta espécie de post-scriptum sobre o estranho e patético fim do outrora corajoso e útil oficial do Serviço Secreto.
Encontro em Berlim
(THE LIVING DAYLIGHTS)
James Bond estendia-se em posição na marca das quinhentas jardas da famosa linha de tiro Century Range, em Bisley. A pequena estaca branca na grama a seu lado dizia 44 e o mesmo número se repetia bem alto no talude distante acima do solitário alvo de seis pés quadrados que, ao olho humano e no crepúsculo do fim de verão, não parecia maior que um selo de correio. Mas a luneta de Bond, uma Sniperscope infravermelha fixada sobre o seu rifle, cobria todo o quadro. Ele podia até distinguir com clareza as cores azul-pálido e bege em que se dividia o alvo, e a mosca semicircular de seis polegadas parecia tão grande como a meia lua que já começava a se mostrar baixa no céu que escurecia acima da crista remota de Chobham Ridges.
O último tiro de James Bond fora um esquerdo interno — não o satisfizera. Deu uma outra olhada às bandeiras de vento amarelas e azuis. Tremulavam do leste através da linha de tiro mais intensamente do que quando tinha começado o seu tiro meia hora antes, e ele mudou o anemômetro dois pontos para a direita e assestou os dois fios cruzados da Sniperscope de volta ao foco de mira. Instalou-se então, colocou o indicador de leve dentro da guarda e sobre a curva do gatilho, prendeu a respiração e muito, muito suavemente apertou.
O estampido vicioso ecoou ao longo do campo vazio. O alvo desapareceu abaixo do solo e imediatamente o “boneco” tomou o seu lugar. Sim, a marca negra estava embaixo no canto direito desta vez, não no canto esquerdo: mosca.
— Bom — disse a voz do oficial chefe da linha, atrás e acima dele. — Fique com a mira.
O alvo já subira de novo e Bond recolocou a bochecha sobre o trecho quente da volumosa coronha de madeira e o olho na borracha que cerca a ocular da luneta. Enxugou a mão de atirar contra o lado das calças e pegou na coronha da pistola que sobressaía angulosamente da guarda do gatilho. Abriu de uma polegada o ângulo das pernas. Agora haveria cinco descargas rápidas. Era interessante ver se isso não provocaria “desgaste”. Ele achava que não. Esta arma extraordinária que o armeiro tinha descoberto sabe lá como dava à gente a sensação de que um homem de pé à distância de uma milha seria prato fácil. Era mais um rifle Experimental de Alvo Internacional, calibre 308, construído pela Winchester para ajudar os ases americanos do tiro em campeonatos mundiais, e tinha os dispositivos usuais das armas de alvo superacuradas — uma “mão” espiralada de alumínio nas costas da coronha que se estendia debaixo da axila e mantinha a arma com firmeza junto ao ombro, e uma pequena roda dentada ajustável abaixo do centro de gravidade do rifle para permitir que ele “se agarrasse” ao sulco do seu descanso de madeira. O armeiro tinha mandado trocar o ferrolho de tiro único usual por um depósito de cinco tiros, e tinha garantido a Bond que se ele deixasse apenas dois segundos entre cada tiro para estabilizar a arma não haveria desgaste, mesmo a quinhentas jardas. Para o serviço que devia fazer, Bond achava que dois segundos poderiam representar uma perda perigosa de tempo se errasse o seu primeiro tiro. De qualquer forma, M dissera que a distância não seria maior que trezentas jardas. Bond encurtaria o tempo para um segundo — fogo quase contínuo.
— Pronto?
— Sim.
— Vou à contagem regressiva de cinco. Agora! Cinco, quatro, três, dois, um. Fogo!
O chão tremeu ligeiramente e o ar silvou enquanto as cinco cápsulas velozes de cuproníquel varejavam o crepúsculo. O alvo baixou e rapidamente voltou a erguer-se condecorado com quatro pequenos discos brancos agrupados bem juntos na mosca. Não houve nenhum quinto disco — nem mesmo um negro para indicar um interno ou externo.
— A última descarga foi baixa — disse o chefe da linha baixando seus binóculos noturnos. — Obrigado pela contribuição. Limpamos a areia atrás daqueles alvos todo fim de ano.
Nunca recolhemos menos de quinze toneladas de estilhaços em legítimo chumbo e cobre. Um bom dinheiro.
Bond tinha-se levantado. O cabo Menzies da seção dos armeiros surgiu do pavilhão do Clube de Tiro e ajoelhou-se para desmontar a Winchester e o seu descanso. Olhou para cima encarando Bond. Disse com uma ponta de crítica. — O senhor tocou a coisa um pouco rápido. A última descarga tinha de escoicear.
— Eu sei, cabo. Só queria ver com que rapidez eu podia tocar. Não quero pôr a culpa na arma. É um trabalho enxuto, infernal. Por favor, diga isso por mim ao armeiro. Agora é melhor ir andando. Você tem condução de volta a Londres, não?
— Tenho, sim senhor. Boa noite.
O oficial chefe da Linha entregou a Bond uma ficha de seu tiro — dois tiros de ensaio e depois dez descargas para cada cem jardas até as quinhentas. — Pontaria danada de boa com esta visibilidade. Você devia voltar aqui o ano que vem e tentar o Prêmio da Rainha. Hoje em dia está aberto para todos — isto é, da Comunidade Britânica.
— Obrigado. O problema é que não passo tanto tempo assim na Inglaterra. E muito obrigado por ter feito a marcação para mim.
Bond olhou para a distante Torre do Relógio. De cada lado, a bandeira vermelha de perigo e o tambor vermelho de sinalização estavam sendo arriados para mostrar que o tiroteio tinha cessado. Os braços marcavam nove e quinze. — Gostaria de oferecer-lhe um drinque, mas tenho um encontro em Londres. Podemos adiá-lo até o Prêmio da Rainha de que você estava falando?
O chefe da Linha fez que sim com a cabeça, neutramente. Ele tinha aguardado ansioso a oportunidade de conhecer mais coisas sobre este homem que surgira assim sem mais nem menos depois de uma série de avisos do Ministério da Defesa e fora em frente acertando bem mais de noventa porcento em todas as distâncias, isso depois de fechada a linha para a noite e com visibilidade entre sofrível e má. E por que tinha ele, que só oficiava no encontro anual de julho, sido escalado para estar presente? E por que lhe tinham dito para providenciar uma mosca de seis polegadas a 500 jardas para Bond, em vez da regulamentar de quinze polegadas? E por que todos esses cuidados com a bandeira de perigo e o tambor de sinalização que só se usavam em ocasiões cerimoniais? Para pressionar o homem? Para dar um clima de urgência ao tiro? Bond. Comandante James Bond. A A.N.R. certamente teria a ficha de uma pessoa que atirava tão bem assim. Não se esqueceria de dar-lhes um telefonema. Que hora estranha para um compromisso em Londres. Provavelmente uma garota. O rosto do chefe da Linha assumiu uma expressão de desagrado. O tipo do sujeito que apanhava todas as garotas que queria.
Os dois homens caminharam através da bela fachada da sede do clube além da linha de tiro até o carro de Bond que estava estacionado diante de uma reprodução em ferro do famoso “Veado em Fuga” de Landseer toda picotada de balaços. — Uma beleza de carro — comentou o chefe da Linha. Nunca vi uma carroçaria assim num Continental. Mandou fazê-la especialmente?
— Mandei. Os Sports Saloons na verdade só têm dois lugares. E muito pouco espaço para bagagem. Por isso pedi a Mulliner’s que o transformassem num verdadeiro dois-lugares e com porta-malas de sobra. Um carro egoísta, não há dúvida. Bem, boa noite. E novamente muito obrigado.
O escape roncou com saúde e as rodas traseiras cuspiram cascalho por um instante.
O oficial chefe da Linha observou os faróis rubis desaparecerem na King’s Avenue a caminho da estrada de Londres. Girou nos calcanhares e foi procurar o cabo Menzies numa busca de informação que terminaria sem frutos. O cabo permaneceu tão fechado como a grande caixa de mogno que estava colocando num Land-Rover caqui, limpo de símbolos militares. O chefe da Linha era um major. Tentou apelar para a hierarquia, mas sem êxito. O Land-Rover afastou-se rodando no rastro de Bond. O major dirigiu-se soturno aos escritórios da Associação Nacional do Rifle para tentar achar a informação que queria na biblioteca sob o nome “Bond, J.”
O compromisso de James Bond não era com uma garota. Era com um voo da B.E.A. para Hanover e Berlim. Enquanto engolia as milhas que o separavam do Aeroporto de Londres, pisando firme o grande carro a fim de ter tempo de sobra para um drinque, três drinques, antes da decolagem, apenas uma parte de sua mente fixava-se na estrada. O restante reexaminava pela enésima vez a sequência que agora o conduzia a um encontro com um aeroplano. Mas apenas um encontro provisório. Seu compromisso final numa das três próximas noites em Berlim era com um homem. Tinha que se encontrar com esse homem e infalivelmente matá-lo com um tiro.
Quando, por volta de duas e meia daquela tarde, James Bond atravessara as portas duplamente acolchoadas e sentara-se em frente do perfil voltado, do outro lado da grande escrivaninha, sentira imediatamente o perigo no ar. Não houve troca de cumprimentos. A cabeça de M afundava-se no colarinho duro numa pose churchilliana de sombria reflexão, e havia um traço de amargura nos cantos dos lábios. Girou a cadeira para encarar Bond, passou-lhe um olhar examinador como se, pensou Bond, quisesse verificar se sua gravata estava direita e o cabelo adequadamente penteado, e então começou a falar, rapidamente, atalhando suas sentenças como se desejasse ver-se livre do que estava dizendo, e de Bond, o mais depressa possível.
— O número 272. É um bom homem. Você talvez não o conheça. Pela simples razão de que ficou naquele buraco da Novaya Zemlya desde a guerra. Agora está tentando sair — carregado de material. Atômico e foguetes. E o plano deles para toda uma nova série de testes. Para 1961. Querem avivar o fogo no Ocidente. Algo a ver com Berlim. Não vejo bem o quadro mas o Foreign Office diz que se for verdade é uma coisa tremenda. Ridiculariza a Conferência de Genebra e toda essa demagogia sobre desarmamento nuclear que o bloco comunista vem fazendo. Ele conseguiu chegar até a Berlim Oriental. Mas tem praticamente toda a KGB no seu encalço — e as forças de segurança da Alemanha Oriental, é claro. Está entocado num buraco qualquer da cidade e conseguiu passar-nos uma mensagem — de que atravessaria entre seis e sete da tarde numa das três próximas noites — amanhã, depois de amanhã ou no dia seguinte. Indicou o ponto de travessia. O problema — a curva dos lábios de M, voltada para baixo, tomou-se ainda mais amarga — é que o mensageiro que ele usou fazia jogo duplo. A estação W.B. pilhou-o ontem. Por acaso. Deu sorte com um dos códigos da KGB O mensageiro será mandado de avião para julgamento, naturalmente. Mas isso não ajudará em nada. A KGB sabe que o 272 vai tentar a travessia. Sabem quando. Sabem onde. Sabem tanto quanto sabemos e nada mais. Ora, o código que deciframos ontem era um esquema de um só dia em suas máquinas. Mas conseguimos todo o tráfico daquele dia e isso foi bastante bom. Planejam alvejá-lo ao tentar a travessia. No cruzamento de ruas entre a Berlim Leste e a Oeste que nos indicou na mensagem. Estão montando uma operação daquelas — operação “Êxtase” como a chamam. Puseram o seu melhor tocaia no serviço. Tudo o que soubemos dele ó que seu nome cifrado é a palavra russa para “Gatilho”. A estação W.B. acha que é o mesmo homem já usado em outros serviços de tocaia. Um serviço de longo alcance através da fronteira. Ficará de guarda toda noite nesse cruzamento e sua missão é acertar no 272. É óbvio que eles certamente prefeririam fazer um serviço mais suave com metralhadoras e coisas do gênero. Mas Berlim está calma no momento e parece que a ordem é ficar assim. De qualquer forma — M sacudiu os ombros — eles têm confiança nesse operador “Gatilho” e o negócio vai ser assim!
— E onde é que eu entro? — James Bond tinha adivinhado a resposta, adivinhado porque M mostrava seu desagrado com a coisa toda. Ia ser trabalho sujo e Bond, porque pertencia à Seção Zero-Zero, tinha sido escolhido para fazê-lo. Perversamente, Bond queria forçar M a pôr o preto no branco. Iam ser notícias más, notícias sujas e ele não queria ouvi-las de um dos oficiais da Seção, nem mesmo do chefe do Estado-Maior. O negócio ia ser assassínio. Está bem. Que M tenha então a coragem de me dizer.
— Onde é que você entra, 007? — M olhou friamente do outro lado da escrivaninha. — Você sabe onde é que você entra. Você tem que matar esse tocaia. E tem que matá-lo antes que acerte no 272. É tudo. Está claro? — Os olhos azuis-claros permaneceram frios como gelo. Mas Bond sabia que só ficavam assim com um esforço da vontade. M não gostava de mandar qualquer homem para um homicídio. Mas, quando isso tinha de ser feito, ele sempre assumia a sua severa e fria ação de comando. Bond sabia a razão. Era para tirar um pouco da pressão, um pouco da culpa, dos ombros do matador.
Portanto Bond, que sabia dessas coisas, decidiu agora tornar fácil e rápida a tarefa de M. Levantou-se. — Está certo, sir. Suponho que o chefe do Estado-Maior tenha tudo pronto. É melhor eu ir praticar um pouco. Não seria bom errar.
Caminhou para a porta.
M disse calmamente: — Sinto ter que lhe dar essa tarefa. Serviço desagradável. Mas tem que ser bem executado.
— Farei o melhor — James Bond saiu fechando a porta atrás de si. Não gostava do serviço mas no final preferia fazê-lo a assumir a responsabilidade de mandar alguém em seu lugar.
O chefe do Estado-Maior tinha sido apenas um pouco mais simpático. — Lamento esta sua aquisição, James — dissera ele. — Mas Tanqueray foi inflexível, não tinha ninguém suficientemente bom na estação e esse não é o tipo de serviço que se pode pedir a um soldado regular para fazer. Há uma porção de excelentes tiros na B.A.O.R., mas um alvo vivo requer outro tipo de coragem. De qualquer forma, liguei para Bisley e marquei um exercício para você esta noite às oito e quinze quando a linha estiver fechada. A visibilidade será mais ou menos a mesma que você terá em Berlim cerca de uma hora antes. O armeiro está com a arma — verdadeira obra de arte para alvejar, e vai mandá-la por um de seus homens. Você irá com a sua própria condução. Depois, há um voo de carreira para Berlim à meia-noite reservado em seu nome na B.E.A. Tome um táxi até esse endereço. — Entregou a Bond um pedaço de papel. — Suba ao quarto andar e encontrará o número 2 de Tanqueray à sua espera. Depois disso, sinto que você terá que esperar sentado pelos próximos três dias.
— E a arma? Esperam que atravesse a alfândega alemã com ela dentro de um saco de golfe ou coisa assim?
O chefe do Estado-Maior não tinha achado graça. — Seguirá pela mala diplomática. Você a receberá amanhã ao meio-dia. — Tinha estendido a mão até o bloco de avisos. — Bem, é melhor ir andando. Vou avisar a Tanqueray que está tudo combinado.
James Bond baixou o olhar para o rosto azul difuso do relógio no painel do carro. Dez e quinze. Com um pouco de sorte, amanhã a esta hora estaria tudo terminado. Afinal, era a vida deste homem “Gatilho” contra a vida do 272. Não era exatamente homicídio. Estava perto disso, no entanto. Apertou maldosamente sua buzina-de-serra tripla ao passar por um quatro portas comum, ingressou no cruzamento circular com uma derrapagem seca desnecessária, girou violentamente o volante fazendo a correção e apontou o nariz do Bentley em direção do brilho distante que era o Aeroporto de Londres.
O edifício feio de seis andares na esquina da Kochstrasse e da Wilhelmstrasse era o único de pé na desolação de um espaço vazio bombardeado. Bond pagou o táxi e gravou uma breve impressão de capim, alto como a cintura, e de paredes de entulho mal reparadas, estendendo-se na direção de um grande cruzamento deserto iluminado por um feixe central de lâmpadas amareladas em arco, antes de apertar o botão para o quarto andar e imediatamente ouviu o clique do dispositivo que abria a porta do prédio. A porta fechou-se atrás dele e caminhou então sobre o chão de cimento sem tapete até o antiquado elevador. O cheiro de repolho, cigarro barato e suor rançoso lembravam outros prédios de apartamentos na Alemanha e Europa Central. Até o arrastar e o guincho fraco do elevador vagaroso eram parte de centenas de missões em que tinha sido lançado por M, como um projétil, a algum alvo distante onde um problema aguardava a sua chegada, à espera de ser resolvido por ele. Pelo menos desta vez o comitê de recepção estava do seu lado. Desta vez não havia nada a temer no fim da escada.
O número 2 da Estação W.B. de Serviço Secreto era um homem esguio e tenso de quarenta e poucos anos. Vestia o uniforme de sua profissão — terno bem cortado e bem usado de tweed leve ponto pé-de-pato num tom verde-escuro, camisa de seda macia branca e uma velha gravata de colégio — neste caso de Wykeham. Ao ver a gravata, enquanto trocavam as saudações convencionais no pequeno saguão mofado do apartamento, o ânimo de Bond, já baixo, desceu mais um degrau. Conhecia esse tipo: espinha dorsal do Serviço Público; superestudioso e mal-amado em Winchester; um bom segundo em P.P.E. em Oxford; a guerra, cargos funcionais que teria ocupado meticulosamente; talvez uma Ordem do Império Britânico; Comissão do Controle Aliado na Alemanha, onde fora recrutado no Ramo I e a partir de então — porque era o funcionário ideal e A. 1 junto à Segurança e porque pensava em encontrar vida, drama, romance, todas as coisas que nunca linha tido — lá fora ele para o Serviço Secreto. Um homem sóbrio, cuidadoso se fizera necessário para bancar a dama de companhia de Bond neste negócio feio. O Capitão Paul Sender, que já servira na Guarda Galesa, tinha sido a escolha óbvia. E tinha aceitado. Agora, como bom Wykehamista, escondia o seu desagrado pelo serviço debaixo de uma conversa cuidadosa e banal enquanto mostrava a Bond a planta do apartamento e as providências tomadas para a prontidão do carrasco e, numa medida modesta, para o seu conforto.
O apartamento consistia de um amplo dormitório conjugado, um banheiro e uma cozinha equipada de enlatados, leite, manteiga, ovos, chá, bacon, pão e uma garrafa de Dimple Haig. O único detalhe estranho no quarto de dormir era que uma das camas duplas estava encostada em ângulo contra as cortinas que cobriam o amplo janelão único e sobre ela se empilhavam três colchões cobertos pela roupa de cama.
O Capitão Sender disse: — Gostaria de dar uma olhada ao campo de fogo? Poderei então explicar o que é que o lado de lá tem em mente.
Bond estava cansado. Não desejava especialmente ir dormir com a imagem do campo de batalha na memória. Disse: — Seria ótimo.
O Capitão Sender apagou as luzes. Faixas luminosas das lâmpadas no cruzamento apareceram em volta das cortinas. — Não quero puxar as cortinas — disse o Capitão Sender. — É pouco provável, mas eles podem ter sido alertados contra um grupo de cobertura para o 272. Queria que você apenas se deitasse na cama e enfiasse a cabeça por baixo das cortinas. Explicarei o que você estiver vendo. Olhe para a esquerda.
Era uma janela de guilhotina e a metade inferior estava aberta. Os colchões, especialmente escolhidos, só cediam um pouco e James Bond encontrou-se mais ou menos na posição de tiro que tinha adotado em Century Range, mas agora olhava através de terreno descontínuo, coberto de densa vegetação e bombardeado, na direção do rio de luz que era a Zimmerstrasse — a fronteira com a Berlim Oriental. Parecia a umas cento e cinquenta jardas de distância. A voz do Capitão Sender acima dele e por trás da cortina começou a recitar. Lembrava a Bond uma sessão espírita.
— Ali é terreno bombardeado à sua frente. Bastante cobertura. Umas cento e trinta jardas até a fronteira. Depois a fronteira — a rua — e então um trecho grande ainda de terreno bombardeado no campo do inimigo. É por isso que o 272 escolheu essa passagem. É um dos poucos locais na cidade em que o terreno é descontínuo — capinzais cerrados, muros em ruínas, porões — nos dois lados da fronteira. Ele deverá es-gueirar-se entre aquela confusão do outro lado e arremessar-se através da Zimmerstrasse até alcançar a confusão do nosso lado. O problema é que terá de correr trinta jardas de fronteira fortemente iluminada. Será o espaço da matança. Certo?
Bond disse: — Sim.
Disse-o com suavidade. O cheiro do inimigo, a necessidade de tomar cuidado, já estavam atuando sobre seus nervos.
— À sua esquerda, aquele novo e imenso bloco de dez andares é a Haus der Ministerien, o grande centro cerebral de Berlim-Leste. Você pode ver que as luzes ainda estão acesas na maioria das janelas. A maior parte delas ficará assim toda a noite. Esses sujeitos trabalham mesmo — seus turnos dão a volta no relógio. Você provavelmente não precisará preocupar-se com as janelas acesas. Esse fulano “Gatilho” certamente vai atirar de uma das janelas escuras. Você verá que existe um grupo de quatro, juntas, na quina acima do cruzamento. Ficaram escuras na noite passada e esta noite. Elas têm o melhor campo de fogo. Daqui, o seu alcance varia entre trezentas e trezentas e dez jardas. Estou com todos os números e dados quando você quiser. Não é preciso preocupar-se muito mais. Aquela rua fica vazia durante a noite — apenas as patrulhas motorizadas cerca de cada meia hora — carros blindados leves com uma dupla de motocicletas por escolta. Na noite passada, que suponho normal, entre seis e sete, que é a hora em que se fará este serviço, havia umas poucas pessoas entrando e saindo por aquela porta lateral. Uns funcionários. Antes disso nada fora do comum — o fluxo costumeiro de pessoas entrando e saindo de um edifício de governo movimentado — com exceção, veja só, de uma miserável orquestra completa de mulheres. Fizeram uma confusão infernal numa sala de concertos que tem ali. Parte do bloco aloja o Ministério da Cultura. Fora disso nada — certamente nenhuma das pessoas da KGB que conhecemos, nem sinais de preparação para um serviço deste gênero. Mas nem pode haver sinais. São muito cuidadosos estes sujeitos da oposição. De qualquer maneira, dê uma boa olhada. Não esqueça que agora está mais escuro do que amanhã por volta das seis. Mas você pode formar um quadro geral.
Bond formou o quadro geral e o quadro ficou com ele muito tempo enquanto o outro homem já dormia e ressonava suavemente com um pequeno som regular que lembrava um fraco estalido — um ronco Wykehamista, refletiu Bond irritado.
Sim, tinha formado o quadro — o quadro de um lampejo movimento entre as ruínas sombreadas no outro lado do brilhante rio de luz, uma pausa, e então a desesperada corrida em ziguezague de um homem sob o impacto luminoso das lâmpadas, o espocar da arma de fogo e, ou um fardo retorcido espalhado no meio da rua larga, ou então a investida sempre em frente através do capinzal e do entulho no Setor Ocidental — morte súbita ou volta a casa. O grande desafio! Quanto tempo teria Bond para localizar o tocaia russo numa daquelas janelas escuras? E para matá-lo? Cinco segundos? Dez? Quando o amanhecer começava a cobrir as cortinas com o tom metálico das armas, Bond capitulou para sua mente agitada. Ela tinha ganho. Foi em silêncio até o banheiro e inspecionou as fileiras de remédios que um prestimoso Serviço Secreto tinha providenciado para manter o seu carrasco em boa forma. Escolheu o Tuinal, engoliu duas das cápsulas concentradas, rubis e azuis, com um copo de água e voltou à cama. Então, chumbado, dormiu.
Acordou ao meio-dia. O apartamento estava vazio. Bond abriu as cortinas para deixar entrar o dia cinzento prussiano e, de pé a uma boa distância da janela, ficou vendo a monotonia de Berlim e ouvindo o ruído dos bondes e o arranhar distante dos trens da U-Bahn na grande curva de entrada da estação do Zoo. Lançou um olhar rápido e relutante ao que já tinha examinado na noite anterior, notou que o capim no entulho de bombardeio era mais ou menos o mesmo de Londres — loendro, labaçol e samambaia — e dirigiu-se então à cozinha. Havia uma nota apoiada numa fatia de pão: “Meu amigo (eufemismo do Serviço Secreto que neste contexto significava o chefe de Sender) diz que não há mal em você sair. Mas esteja de volta às 17 horas. Seu equipamento (outra palavra para o rifle de Bond) chegou e o bagageiro a entregará esta tarde. P. Sender.”
Bond acendeu o fogão a gás e queimou a mensagem com desprezo por sua profissão e em seguida preparou um prato enorme de ovos mexidos e bacon que amontoou sobre uma torrada coberta de manteiga e comeu com acompanhamento de café preto no qual derramara uma porção liberal de uísque. Depois tomou um banho e barbeou-se, vestiu as roupas descoloridas, centro-europeias e anônimas que tinha trazido para a sua missão, olhou a sua cama em desordem, decidiu que tudo fosse para o inferno e desceu pelo elevador deixando o edifício.
James Bond sempre achara Berlim uma cidade deprimente e hostil, esmaltada no lado Ocidental com o verniz superficial de um polimento pretensioso parecido com os enfeites cromados dos carros americanos. Caminhou até a Kurfurstendamm, sentou-se no Café Marquardt, tomou um expresso e ficou observando com tédio as filas obedientes de pedestres esperando o sinal “Siga” nos postes de trânsito enquanto a corrente luminosa de carros continuava a sua perigosa quadrilha na movimentada intersecção. Fazia frio lá fora e o vento cortante das estepes russas fustigava as saias das garotas e os impermeáveis dos homens impacientes e apressados, cada um com a infalível pasta enfiada debaixo do braço. Os aquecedores de parede infravermelhos do café apontavam o vermelho para baixo e davam um brilho espúrio ao rosto dos cafeinômanos que degustavam sua tradicional “uma xícara de café e dez copos de água”, lendo de graça os jornais e revistas presos por paus, ou se curvavam com seriedade sobre papéis de negócios. Bond, fechando o pensamento para a noite, discutia consigo mesmo as maneiras de passar a tarde. Finalmente chegou à escolha entre uma visita àquela casa de respeitável fachada de pedra, na Clausewitzstrasse, conhecida de todos os porteiros e choferes de táxi, ou um passeio ao Wannsee e uma vigorosa caminhada no Grunewald. A virtude triunfou. Bond pagou o café, saiu no frio e tomou um táxi até a estação do Zoo.
As belas arvorezinhas jovens em volta do lago extenso já tinham sido tocadas pelo sopro do outono e havia um dourado aqui e ali no meio do verde. Bond caminhou com energia durante duas horas pelas veredas cobertas de folhas e então escolheu um restaurante com terraço envidraçado sobre o lago e saboreou com prazer um chá reforçado consistindo de uma porção dupla de arenques do Norte mergulhados em creme e anéis de cebola, e dois Molle mit Korn, o equivalente berlinense de um “fabricante de caldeiras e seu assistente” — schnapps, duplos, acompanhados por um chope Löwenbräu. Sentindo-se então mais animado tomou a S-Bahn para voltar à cidade.
Em frente do prédio de apartamentos, um jovem indefinível estava mexendo no motor de um Opel Kapitan negro. O jovem não tirou a cabeça debaixo do capo quando Bond passou bem perto dele e subiu até a porta e apertou o botão.
CONTINUA
Quando chegou embaixo, sentou-se no musgo, sob os abetos. Estendeu no chão a camisa, colocou no centro dela as barras de ouro e fez uma trouxa, amarrando bem as fraldas e as mangas. Depois, cavou um buraco no chão e enterrou a caixa metálica vazia. E vergando ao peso, quase dobrado em dois, caminhou pela estreita trilha, entre os pinheiros, rumo ao jipe. Até aquele dia não conseguira saber como tivera forças para alcançar o veículo. Os nós que dera na trouxa pareciam penetrar nas carnes de seu ombro, sob o peso das barras de ouro. Quando, finalmente, alcançou o jipe, quase teve um colapso, tão exausto estava. Mas não podia descansar, ainda. Precisava sair dali para enterrar o seu tesouro na floresta, perto de um grupo de grandes rochas, onde lhe seria fácil encontrá-lo de novo, na ocasião oportuna em dia, quando o horizonte estivesse limpo, voltaria, por outra rota, evitando o chalé de Oberhauser. Só então, terminado tudo, fora embebedar-se com uma garrafa de schnapps barato. Jantou e meteu-se na cama, para dormir como uma pedra. No dia seguinte, a Força A da DAG seguiu para o vale do Mittersill. Seis meses depois o Major Smythe estava em Londres. A sua guerra havia terminado. Mas os seus problemas, não. Ouro era coisa difícil de contrabandear, principalmente em grande quantidade. E era essencial que o Major Smythe transferisse as suas barras para um novo esconderijo. Por isso, ele procurou evitar a desmobilização e gozar os privilégios de seu comissionamento temporário, sobretudo o seu passe do Serviço Secreto Militar. Conseguiu ser mandado de volta para a Alemanha, como representante da Inglaterra no Centro Misto de Investigação de Munique. Aí, trabalhou durante seis meses e, nesse período, teve a oportunidade de recuperar o ouro, que levou para o seu alojamento numa velha valise. Depois, em dois fins de semana, fez viagens aéreas para Londres, levando, de cada vez, uma barra de ouro, em sua volumosa pasta. A caminhada nos aeroportos de Munique e de Londres, com a pasta sob o braço, como se contivesse apenas papéis, exigira dois tabletes de benzedrina e uma vontade de ferro. Finalmente, pôde esconder sua fortuna no porão da casa de uma tia, em Kensington, e assim, com tranquilidade, pôde desenvolver a parte final de seus planos. Pediu reforma nos Fuzileiros Reais e, uma vez desmobilizado, casou-se com uma das muitas moças com quem tivera aventuras durante o serviço da DAG, uma graciosa Wren chamada Maria Parnell. Comprou passagem para ambos num cargueiro para a Jamaica, que representava, para ambos, um paraíso ensolarado, com boa e farta comida, bebida barata, sem a melancolia e as restrições impostas na Inglaterra, após a guerra, pelo severo governo trabalhista. Antes do embarque, o Major Smythe mostrou a Mary as barras de ouro, das quais já havia raspado a cinzel os símbolos do Reichsbank.
— Tenho sido muito econômico e esperto, meu bem — disse ele. — Não confio na libra. Por isso, vendi todas as minhas ações e comprei um bocado de ouro. Teremos pelo menos 20 mil libras, se eu o vender bem. Isso basta para nos assegurar uma boa vida, até o fim dos nossos dias. Sempre que for preciso, eu venderei um pouquinho — explicou.
Mary Parnell não era familiarizada com as leis monetárias. Mas se ajoelhou e passou as mãos, carinhosamente, sobre as barras de ouro. Depois, com os braços ao redor do pescoço do marido, beijou-o e disse, quase em lágrimas: — Você é um homem maravilhoso... Sim, maravilhoso! Terrivelmente inteligente, bonito, simpático, herói da guerra e, além do mais, rico! Eu sou a garota mais feliz do mundo!
— Você tem razão pelo menos numa coisa: ricos, nós somos. Mas prometa não dizer uma só palavra a quem quer que seja! Pois, se disser, todos os ladrões da Jamaica irão rondar a nossa casa.. .
O Prince’s Club, ao pé das colinas que dominam os arredores de Kensington, era realmente esplêndido. Para os seus sócios, não havia nada melhor: maravilhosa criadagem, comida farta, bebida barata, belíssimos cenários tropicais, como nunca tinham visto antes. O casal era muito popular e os serviços de guerra do Major Smythe lhe davam ingresso na alta sociedade local e na Government House. A vida de ambos era uma série interminável de festas, misturadas com o tênis de Mary e o golfe do major (com os bastões metálicos de Henry Cotton!) durante o dia, e partidas de bridge (para ela) e de pôquer (para ele) durante as noites. Sim, era um paraíso, porque, na Inglaterra, havia racionamento, filas e mercado negro, um governo atroz e o pior inverno dos últimos trinta anos. A princípio, o casal enfrentou as despesas com as economias em dinheiro, que ambos haviam reunido, enquanto se vestiam, se alimentavam e se transportavam à custa do Exército. Só depois de um ano de cautelosas investigações é que o Major Smythe se decidiu a fazer negócio com os irmãos Fu, comerciantes importadores e exportadores. Altamente respeitados e muito ricos, os irmãos Fu eram conhecidos como uma espécie de junta governativa da comunidade chinesa da Jamaica. Ainda que alguns dos seus negócios se desviassem das boas normas, segundo a tradição chinesa, Smythe achou que poderia confiar neles. A Convenção de Bretton Woods, fixando um preço internacional para o ouro, sob rigoroso controle, tinha sido assinada deixando de parte Tânger e Macau, dois portos livres, em que a onça de ouro valia entre 99 e 100 dólares, quando nos outros lugares o preço oficial era de 35. E, para maior conveniência de seus negócios, os Fu tinham aberto um restaurante em Hong-Kong, transformado em entreposto para o contrabando de ouro para a vizinha Macau. Isso, na linguagem do Major Smythe, era sopa no mel. Ele tivera um agradável encontro com os Fu. Nenhuma pergunta estes fizeram, senão depois do exame das barras de ouro.
— Major — disse o mais velho dos irmãos —, no mercado de ouro em barras, as marcas dos bancos nacionais e dos negociantes respeitáveis são aceitos sem discussão. Essas marcas são a garantia da pureza do ouro. Mas outros bancos e outros vendedores têm seus próprios processos de refinação, que talvez, não sejam tão perfeitos...
— Quer dizer que eu fui enganado? — Perguntou, ansiosamente, o major. — Que isso não é senão uma barra de chumbo coberta de uma leve camada de ouro?
Os dois irmãos deram muxoxos tranquilizadores:
— Não, não, major... Não se trata disso. Mas, se uma pessoa não se recorda da proveniência dessas barras de ouro, por mais finas que elas sejam é sempre necessário submetê-las a um ensaio, para verificação do seu exato teor... Há muitos métodos para determinar o grau de pureza dessas barras. Meu irmão e eu somos competentes em qualquer deles. Quer deixar as barras de ouro conosco e vir saber o resultado depois do almoço? Nós lhe daremos um recibo...
Não havia alternativa. Teria que confiar nos Fu. Qualquer que fosse o preço por eles arbitrado, seria forçado a aceitar. Estava nas mãos deles. Foi a um bar, onde tomou dois drinques fortes e comeu um sanduíche que lhe ficou atravessado na garganta. Depois, voltou ao escritório refrigerado dos Fu. O cenário era o mesmo: os dois irmãos sorridentes, as duas barras de ouro, a pasta de couro, etc. Só havia a mais uma folha de papel e uma caneta-tinteiro de pena de ouro, em frente do irmão mais velho.
— Resolvemos o problema do seu ouro, major! — (Esplêndido! Obrigado, pensou Smythe.) — E estou certo de que o senhor terá interesse em conhecer sua origem...
— Claro! Qual é? — Fez o major, com uma corajosa demonstração de entusiasmo.
— São barras de ouro alemãs! Provavelmente saíram dos depósitos do Reichsbank, durante a guerra. Isso pode ser deduzido do fato de que contêm dez porcento de chumbo. Durante o regime de Hitler, o Reichsbank fez a tolice de adulterar por esse modo o seu ouro. Isso logo se espalhou e o preço das barras de ouro alemãs, vendidas na Suíça, sofreu logo uma redução de preço, correspondente à adulteração. Foi uma bobagem, que só teve um resultado: o banco nacional da Alemanha perdeu a reputação que conquistara durante séculos... Bobagem... Uma grandíssima bobagem... — Concluiu o chinês, com o seu invariável sorriso.
O Major Smythe estava maravilhado com a onisciência desses dois homens, tão afastados dos grandes canais de comércio do mundo. Mas ao mesmo tempo os amaldiçoava, intimamente. E agora?
— É muito interessante, Sr. Fu... Mas isso não é uma boa notícia para mim. Essas barras de ouro me foram entregues como coisa cem por cento...
— Não tem importância, major — disse o mais velho dos Fu. — Ou melhor, quase não tem importância. Venderemos o seu ouro pelo justo valor, ou seja, 89 dólares a onça. Terá que ser, ou não, refinado pelo último comprador. Mas isso não é da nossa conta. Nós o venderemos também como cem por cento...
— Mas a um preço mais baixo...
— Realmente, major. Mas creio que temos uma boa notícia para o senhor. Quanto calculava obter com essas duas barras?
— Cerca de 20 mil libras...
— Se as vendermos bem e aos pouquinhos — disse o mais velho dos Fu —, o senhor receberá mais de 100 mil dólares, major, sujeitos, é claro, ao desconto da nossa comissão, que inclui o transporte e outras despesas.
— E a quanto montará isso?
— Estou pensando em fixar em 10 por cento, major. Se lhe parecer satisfatório...
O Major Smythe tinha a impressão de que vendedores de ouro em barras recebiam apenas um por cento de comissão. Mas, que diabo, antes do almoço já estava disposto a largar tudo até por 10 mil libras. Disse “fechado” e levantou-se, estendendo a mão através da mesa. Desde então, de quatro em quatro meses, ia visitar o escritório dos Fu, levando uma valise vazia. Havia sempre quinhentas libras novas, da emissão da Jamaica, em pacotes, sobre a mesa, à sua espera, e um recibo da quantidade vendida, com o preço alcançado em Macau. As barras de ouro diminuíam de tamanho, de polegada em polegada. O negócio era simples e cordial. Duas mil libras limpas, por ano, eram o bastante para ele, e só o afligia a possibilidade de que o pessoal do imposto de renda começasse a apertá-lo, para saber do que estava vivendo. Ele disse isso aos Fu, que lhe fizeram saber que não precisava se preocupar. Nas duas vezes seguintes, havia apenas quatrocentas libras na mesa, mas nenhum comentário foi feito, por qualquer dos lados. E assim os dias iam se passando, preguiçosamente. Os Smythes engordavam e o major teve a primeira das duas complicações das coronárias. O médico lhe recomendou uma vida menos ativa, com menos álcool e menos cigarros. Evitasse, também, as gorduras e as comidas fritas. A princípio, Mary tentou ser severa com ele, mas quando o marido começou a beber escondido e a inventar pequenas mentiras e evasivas, ela recuou desse propósito. Teve medo de se transformar numa chata doméstica, a quem o Major Smythe passaria a evitar. Por isso, deu-lhe inteira liberdade, sabendo que ele não mais a amava, e quando a sua solidão se tornou demasiada e as insônias intoleráveis, viciou-se em tomar soníferos. Uma noite, depois de uma violenta briga, estando ambos embriagados, tomou ela uma dose excessiva, só “para dar-lhe uma lição”. A dose era tão exagerada que a matou. O suicídio foi dissimulado, mas ainda assim recaíram suspeitas sobre o major, em prejuízo de sua reputação social. E a tal ponto que ele teve de se retirar para North Shore que, embora a apenas três milhas de Kensington, parece pertencer a um outro mundo. Aí ele se instalou em Wavelets e, depois da segunda complicação das coronárias, começou a beber desenfreadamente. Foi então que entrou em cena James Bond com um mandado de prisão ou de morte no bolso.
O Major Smythe olhou para o relógio. Passavam alguns minutos do meio-dia. Ele se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale e foi para o jardim. James Bond estava sentado sob a frondosa amendoeira, olhando para o lar. Nem se voltou para o Major Smythe quando este puxou outra cadeira de alumínio e colocou o copo na relva, perto dele. Quando o Major Smythe acabou de narrar a sua história, James Bond disse, sem demonstrar qualquer emoção: — Era mais ou menos isso o que eu havia pensado...
— Quer que eu escreva tudo ou apenas assine?
— Faça como quiser. Mas isso não se entende comigo. Deve entregar à Corte Marcial. Seu velho Corpo de Fuzileiros Reais é que vai tomar conta do caso. Não tenho nada que ver com os aspectos legais. Farei apenas um relatório do que me disse, para a Procuradoria da Justiça, através da Scotland Yard...
— Posso perguntar uma coisa? Como foi que descobriu?
— A geleira era pequena. O corpo de Oberhauser chegou embaixo no início deste ano, quando as neves da primavera derreteram. Alguns alpinistas o encontraram. Todos os seus papéis e tudo o mais estava perfeito. A família o identificou. Depois, foi só uma questão de recuar no tempo. O calibre das balas deu logo a pista...
— Mas como se envolveu neste assunto?
— A Força da DAG era uma das minhas responsabilidades, um dos meus serviços. Quando o assunto chegou ao meu conhecimento, fui dar uma busca nos arquivos. Como tinha tempo livre, pedi que me entregassem a missão de descobrir o autor da morte de Oberhauser...
— Por quê?
— Porque — e James Bond fixou os olhos do Major Smythe — acontece que Oberhauser era um velho amigo meu. Foi quem me ensinou a esquiar quando eu tinha pouco mais de dez anos. Era um esplêndido sujeito. Foi uma espécie de pai para mim, precisamente na época em que eu mais precisava de um...
— Compreendo. — E o Major Smythe desviou o olhar. — Sinto muito...
James Bond se levantou:
— Bem, preciso voltar a Kensington. — E levantou a mão, para deter o major. — Não, não precisa incomodar-se. Sei onde o carro ficou... — Olhou para o homem mais velho e disse, rispidamente, quase com brutalidade: — Dentro de uma semana, alguém virá buscá-lo...
E caminhou, em passos firmes, sem se voltar, pela alameda afora. O major ouviu o ruído do arranque do motor e o chiado dos pneus do táxi nas pedrinhas miúdas da estrada.
Agora, ele procurava a sua presa, ao longo do recife de coral, pensando exatamente no sentido das palavras de James Bond. E sorriu por trás da máscara Pirelli. Era uma versão nova de um velho dramalhão, que consistia em deixar uma pistola com o oficial culpado, para que este mesmo estourasse os miolos. Se James Bond quisesse, poderia ter telefonado para a Government House e pedido um oficial de igual patente do Regimento da Jamaica para levar preso o Major Smythe. De certo modo, o seu gesto fora decente. Ou não fora? Um suicídio era mais limpo, economizava uma porção de trabalho e de papéis, que consumiriam o dinheiro dos contribuintes. Devia agradecer a James Bond a solução que ele parecia sugerir? Acaso encontraria Mary no lugar para onde vão as almas dos suicidas? Ou era melhor a Corte Marcial, a indignidade, as formalidades cacetes, as manchetes, o aborrecimento e a solidão de uma prisão perpétua, da qual só o livraria a terceira crise das coronárias? Poderia defender-se: era tempo de guerra, lutara com Oberhauser no alto da montanha, ele era um prisioneiro e tentara fugir... Oberhauser sabia do esconderijo do dinheiro... E ele, pobre oficial dos Comandos, tantas vezes arriscando a vida pela pátria, fora fraco e não resistira à tentação... Poderia entregar-se dramaticamente à misericórdia do Tribunal Militar... Um coronel certamente seria designado para defendê-lo e o faria com a maior eloquência. Poderia haver um apelo à Corte Suprema. Seu caso comoveria a Inglaterra e se tornaria uma cause célebre. Venderia sua história, com as reminiscências de guerra, aos grandes jornais... Mas...
Cuidado, meu velho! Cuidado! Seus pés agora tocavam o chão, sob as ondas que encrespavam a superfície da praia de North Shore. Por onde estariam os peixes-escorpiões? O polvinho querido estava faminto, esperando o seu almoço. Apurando a vista, perto do recife de coral, o Major Smythe viu as antenas de um lagostim, acenando inquisitivamente para ele. Normalmente, ele se esqueceria de tudo, para capturar o lagostim, que era, talvez, o maior que até então encontrara. Mas agora só tinha uma preocupação: a de descobrir a silhueta irregular e provocante do peixe-escorpião. Só depois de mais dez minutos de busca encontraria o primeiro. Os olhos vermelhos e zangados do peixe, muito abertos, o observavam. Para fisgá-lo, com o arpão, teria que fazer uma investida rápida, na vertical, firme e certeira. Sabia que as agulhas envenenadas se projetariam para fora da cabeça pontiaguda do monstro. Tinha que se mover lentamente, na direção do peixe, usando o braço livre para nadar. E... Agora! Avançou, para a frente e para baixo, mas o peixe-escorpião sentira a aproximação do arpão antes que este o tocasse. Uma lufada de areia se levantou do fundo do mar, atingido pelo golpe. E qualquer coisa roça em seu corpo, dando a impressão do voo de um pássaro. O major praguejou e fez meia volta, dentro da água. Sim, o peixe-escorpião fizera o que tantas vezes fazia: fora buscar refúgio entre as algas e as rochas, confiante em sua soberba camuflagem. O major voltou à carga, em novo mergulho, dessa vez ainda mais atento, e zás! O peixe-escorpião se agitava, agora, na ponta do arpão. A excitação foi tão grande que o Major Smythe vacilou e sentiu a antiga dor oprimir-lhe o peito. Pôs-se de pé, firmou o arpão contra a areia, atravessando inteiramente a presa, que ainda se agitava desesperadamente, e dirigiu-se à praia, indo sentar-se num banco de madeira, ao lado do qual atirou o peixe, fisgado, a se debater. Uns cinco minutos depois, o Major Smythe sentiu uma curiosa dormência na região do plexo solar. Olhou para baixo e estremeceu, de horror e incredulidade. Uma região de sua pele, com o tamanho aproximado de uma bola de críquete, tornara-se impressionantemente branca, a despeito do bronzeado de seu busto. No centro dessa área, havia três pequenas manchas sanguíneas. Automaticamente, o Major Smythe limpou o sangue. Os furos eram do tamanho de picadas de agulhas. Ele se lembrou, então, da fuga do peixe-escorpião, quando tentara arpoá-lo da primeira vez, e exclamou alto, com pavor, mas sem animosidade: — Tu me apanhaste, bastardo! Tu me apanhaste!
Imóvel, olhava para o próprio corpo, recordando-se do que lera sobre os ferrões do peixe-escorpião no livro que tomara emprestado à biblioteca do Instituto e nunca devolvera — Perigosos Animais Marinhos, publicação norte-americana. Tocou delicadamente a pele da área atingida. Sim, a pele se tinha tornado intumescida e de todo insensível, mas por baixo começava a sentir dor. Em breve essa dor profunda e intensa percorreria o seu corpo inteiro, tão lancinante que o seu único desejo seria o de deitar-se na areia, gritando e rolando, para abafá-la. Vomitaria e deitaria espuma pela boca, teria delírio e convulsões, até perder a consciência. Então, sobreviria, inevitável, o colapso cardíaco mortal. De acordo com o livro, o ciclo completo desses tormentos não passaria de um quarto de hora. Era tudo quanto lhe restava: quinze minutos de atroz agonia! Haveria cura, é claro — com procaínas, antibióticos e anti-histamínicos —, se seu coração debilitado suportasse tais medicamentos. Mas estes deviam estar à mão. Mesmo que conseguisse chegar em casa e admitindo que Jimmy Greaves dispusesse de todos esses remédios modernos, ele não poderia alcançar Wavelets antes de uma hora.
A primeira descarga de dor fez o corpo do Major Smythe dobrar-se sobre si mesmo. Depois outra e mais outra, irradiando-se através do estômago e dos membros. Sentia um gosto metálico na boca e uma coceira insuportável nos lábios. Deixou escapar um gemido e saltou do banco para a praia. Sobre a areia, ainda arquejava o peixe-escorpião. Houve uma trégua nos espasmos da dor. Seu corpo inteiro estava em fogo. Apesar da agonia o raciocínio permanecia claro. Mas, ora essa! Ia esquecendo a experiência! Devia ir à loca do polvo, para servir seu almoço! “Polvo, polvinho, vai ser a última refeição que eu te dou!”, dizia a si mesmo o Major Smythe, ajustando a máscara no rosto. Depois, apanhou o arpão, com o peixe espetado e, apertando o estômago com a mão livre, caminhou pela água adentro e, depois, mergulhou junto ao recife de coral. Poucas jardas o separavam agora do polvo. E foi gritando dentro da máscara, arrastando-se, quase de joelhos, que ele as percorreu. À medida que a água se tornava mais profunda, a dor se fazia mais intensa e seus movimentos pareciam com os de um fantoche, impulsionado por um feixe de cordéis. Só a poder de uma grande força de vontade pôde continuar rumo à morada do polvo. Sim, a sua massa escura ainda estava lá! E parecia excitadíssima. Por quê? O Major Smythe viu que as feridas de seu peito vertiam filetes de sangue escuro, que se diluía na água do mar. Era claro! O querido polvo sentira o gosto do seu sangue. Uma descarga de dor atingiu o major e o fez vergar-se. Disse a si mesmo, em delírio: “Que é isso, Dexter?! Firme, meu velho. Você tem que dar almoço ao polvinho”. Endireitou-se, empunhando o arpão com firmeza e aproximando o peixe da toca do polvo. Aceitaria ele a isca envenenada que o Major Smythe lhe oferecia e à qual talvez um octópode poderia ser imune? Ah, se Bengry estivesse presente, para observar! Três tentáculos, ondulando excitadamente, saíram da loca e passearam ao redor do peixe-escorpião. Agora, havia uma espécie de nevoeiro diante dos olhos do Major Smythe. Reconhecendo estar à beira da inconsciência, ele agitou fracamente a cabeça, para dissipá-lo. E, então, os tentáculos deram um salto! Mas não para o peixe: apertaram a mão e o braço que empunhavam o arpão. A boca do Major Smythe se torceu, numa careta de prazer. Agora, ele e o polvo podiam se apertar as mãos! Como era excitante! Que coisa maravilhosa! Mas o polvo, calma e implacavelmente, continuou a enroscar os seus tentáculos e a chamar a si o corpo do major. Só então Smythe compreendeu que algo de terrível ia acontecer. Fez um apelo a todas as suas forças e tentou golpear o octópode com o arpão. Mas tudo quanto conseguiu foi bater com o peixe-escorpião na massa escura do polvo. E, com o movimento que fez, ofereceu-se ainda mais a este, que o atraía de forma inexorável. Tarde demais o Major Smythe retirou sua máscara. Conseguindo alcançar a superfície, soltou um grito que reboou pela baía deserta, mas logo foi puxado para baixo. E, depois de algumas bolhas de ar, vieram à tona as pernas do major. As ondas lavavam o seu corpo, enquanto o polvo fazia a primeira tentativa para devorá-lo. O resto de Smythe foram encontrados por dois jovens da Jamaica, que pescavam peixes-agulhas numa canoa. Eles mataram o polvo, recolheram o arpão do Major Smythe com o peixe-escorpião e levaram os três despojos para a praia. O cadáver do major foi entregue à polícia e o peixe-escorpião aproveitado para a ceia. O destino do polvo de estimação seria também a panela ... O correspondente do Daily Gleaner em North Shore comunicou que o Major Smythe tinha sido morto por um polvo. Mas a redação do jornal, para não alarmar os turistas, preferiu dizer que ele “fora encontrado afogado”. Mais tarde, em Londres, James Bond, embora certo de que se tratara de um suicídio, anotou no dossier Oberhauser a versão do afogamento, com a respectiva data, na última página, o que encerrava o assunto. Somente pelas notas do Dr. Greaves sobre a autópsia, por ele mesmo realizada, é que foi possível escrever esta espécie de post-scriptum sobre o estranho e patético fim do outrora corajoso e útil oficial do Serviço Secreto.
Encontro em Berlim
(THE LIVING DAYLIGHTS)
James Bond estendia-se em posição na marca das quinhentas jardas da famosa linha de tiro Century Range, em Bisley. A pequena estaca branca na grama a seu lado dizia 44 e o mesmo número se repetia bem alto no talude distante acima do solitário alvo de seis pés quadrados que, ao olho humano e no crepúsculo do fim de verão, não parecia maior que um selo de correio. Mas a luneta de Bond, uma Sniperscope infravermelha fixada sobre o seu rifle, cobria todo o quadro. Ele podia até distinguir com clareza as cores azul-pálido e bege em que se dividia o alvo, e a mosca semicircular de seis polegadas parecia tão grande como a meia lua que já começava a se mostrar baixa no céu que escurecia acima da crista remota de Chobham Ridges.
O último tiro de James Bond fora um esquerdo interno — não o satisfizera. Deu uma outra olhada às bandeiras de vento amarelas e azuis. Tremulavam do leste através da linha de tiro mais intensamente do que quando tinha começado o seu tiro meia hora antes, e ele mudou o anemômetro dois pontos para a direita e assestou os dois fios cruzados da Sniperscope de volta ao foco de mira. Instalou-se então, colocou o indicador de leve dentro da guarda e sobre a curva do gatilho, prendeu a respiração e muito, muito suavemente apertou.
O estampido vicioso ecoou ao longo do campo vazio. O alvo desapareceu abaixo do solo e imediatamente o “boneco” tomou o seu lugar. Sim, a marca negra estava embaixo no canto direito desta vez, não no canto esquerdo: mosca.
— Bom — disse a voz do oficial chefe da linha, atrás e acima dele. — Fique com a mira.
O alvo já subira de novo e Bond recolocou a bochecha sobre o trecho quente da volumosa coronha de madeira e o olho na borracha que cerca a ocular da luneta. Enxugou a mão de atirar contra o lado das calças e pegou na coronha da pistola que sobressaía angulosamente da guarda do gatilho. Abriu de uma polegada o ângulo das pernas. Agora haveria cinco descargas rápidas. Era interessante ver se isso não provocaria “desgaste”. Ele achava que não. Esta arma extraordinária que o armeiro tinha descoberto sabe lá como dava à gente a sensação de que um homem de pé à distância de uma milha seria prato fácil. Era mais um rifle Experimental de Alvo Internacional, calibre 308, construído pela Winchester para ajudar os ases americanos do tiro em campeonatos mundiais, e tinha os dispositivos usuais das armas de alvo superacuradas — uma “mão” espiralada de alumínio nas costas da coronha que se estendia debaixo da axila e mantinha a arma com firmeza junto ao ombro, e uma pequena roda dentada ajustável abaixo do centro de gravidade do rifle para permitir que ele “se agarrasse” ao sulco do seu descanso de madeira. O armeiro tinha mandado trocar o ferrolho de tiro único usual por um depósito de cinco tiros, e tinha garantido a Bond que se ele deixasse apenas dois segundos entre cada tiro para estabilizar a arma não haveria desgaste, mesmo a quinhentas jardas. Para o serviço que devia fazer, Bond achava que dois segundos poderiam representar uma perda perigosa de tempo se errasse o seu primeiro tiro. De qualquer forma, M dissera que a distância não seria maior que trezentas jardas. Bond encurtaria o tempo para um segundo — fogo quase contínuo.
— Pronto?
— Sim.
— Vou à contagem regressiva de cinco. Agora! Cinco, quatro, três, dois, um. Fogo!
O chão tremeu ligeiramente e o ar silvou enquanto as cinco cápsulas velozes de cuproníquel varejavam o crepúsculo. O alvo baixou e rapidamente voltou a erguer-se condecorado com quatro pequenos discos brancos agrupados bem juntos na mosca. Não houve nenhum quinto disco — nem mesmo um negro para indicar um interno ou externo.
— A última descarga foi baixa — disse o chefe da linha baixando seus binóculos noturnos. — Obrigado pela contribuição. Limpamos a areia atrás daqueles alvos todo fim de ano.
Nunca recolhemos menos de quinze toneladas de estilhaços em legítimo chumbo e cobre. Um bom dinheiro.
Bond tinha-se levantado. O cabo Menzies da seção dos armeiros surgiu do pavilhão do Clube de Tiro e ajoelhou-se para desmontar a Winchester e o seu descanso. Olhou para cima encarando Bond. Disse com uma ponta de crítica. — O senhor tocou a coisa um pouco rápido. A última descarga tinha de escoicear.
— Eu sei, cabo. Só queria ver com que rapidez eu podia tocar. Não quero pôr a culpa na arma. É um trabalho enxuto, infernal. Por favor, diga isso por mim ao armeiro. Agora é melhor ir andando. Você tem condução de volta a Londres, não?
— Tenho, sim senhor. Boa noite.
O oficial chefe da Linha entregou a Bond uma ficha de seu tiro — dois tiros de ensaio e depois dez descargas para cada cem jardas até as quinhentas. — Pontaria danada de boa com esta visibilidade. Você devia voltar aqui o ano que vem e tentar o Prêmio da Rainha. Hoje em dia está aberto para todos — isto é, da Comunidade Britânica.
— Obrigado. O problema é que não passo tanto tempo assim na Inglaterra. E muito obrigado por ter feito a marcação para mim.
Bond olhou para a distante Torre do Relógio. De cada lado, a bandeira vermelha de perigo e o tambor vermelho de sinalização estavam sendo arriados para mostrar que o tiroteio tinha cessado. Os braços marcavam nove e quinze. — Gostaria de oferecer-lhe um drinque, mas tenho um encontro em Londres. Podemos adiá-lo até o Prêmio da Rainha de que você estava falando?
O chefe da Linha fez que sim com a cabeça, neutramente. Ele tinha aguardado ansioso a oportunidade de conhecer mais coisas sobre este homem que surgira assim sem mais nem menos depois de uma série de avisos do Ministério da Defesa e fora em frente acertando bem mais de noventa porcento em todas as distâncias, isso depois de fechada a linha para a noite e com visibilidade entre sofrível e má. E por que tinha ele, que só oficiava no encontro anual de julho, sido escalado para estar presente? E por que lhe tinham dito para providenciar uma mosca de seis polegadas a 500 jardas para Bond, em vez da regulamentar de quinze polegadas? E por que todos esses cuidados com a bandeira de perigo e o tambor de sinalização que só se usavam em ocasiões cerimoniais? Para pressionar o homem? Para dar um clima de urgência ao tiro? Bond. Comandante James Bond. A A.N.R. certamente teria a ficha de uma pessoa que atirava tão bem assim. Não se esqueceria de dar-lhes um telefonema. Que hora estranha para um compromisso em Londres. Provavelmente uma garota. O rosto do chefe da Linha assumiu uma expressão de desagrado. O tipo do sujeito que apanhava todas as garotas que queria.
Os dois homens caminharam através da bela fachada da sede do clube além da linha de tiro até o carro de Bond que estava estacionado diante de uma reprodução em ferro do famoso “Veado em Fuga” de Landseer toda picotada de balaços. — Uma beleza de carro — comentou o chefe da Linha. Nunca vi uma carroçaria assim num Continental. Mandou fazê-la especialmente?
— Mandei. Os Sports Saloons na verdade só têm dois lugares. E muito pouco espaço para bagagem. Por isso pedi a Mulliner’s que o transformassem num verdadeiro dois-lugares e com porta-malas de sobra. Um carro egoísta, não há dúvida. Bem, boa noite. E novamente muito obrigado.
O escape roncou com saúde e as rodas traseiras cuspiram cascalho por um instante.
O oficial chefe da Linha observou os faróis rubis desaparecerem na King’s Avenue a caminho da estrada de Londres. Girou nos calcanhares e foi procurar o cabo Menzies numa busca de informação que terminaria sem frutos. O cabo permaneceu tão fechado como a grande caixa de mogno que estava colocando num Land-Rover caqui, limpo de símbolos militares. O chefe da Linha era um major. Tentou apelar para a hierarquia, mas sem êxito. O Land-Rover afastou-se rodando no rastro de Bond. O major dirigiu-se soturno aos escritórios da Associação Nacional do Rifle para tentar achar a informação que queria na biblioteca sob o nome “Bond, J.”
O compromisso de James Bond não era com uma garota. Era com um voo da B.E.A. para Hanover e Berlim. Enquanto engolia as milhas que o separavam do Aeroporto de Londres, pisando firme o grande carro a fim de ter tempo de sobra para um drinque, três drinques, antes da decolagem, apenas uma parte de sua mente fixava-se na estrada. O restante reexaminava pela enésima vez a sequência que agora o conduzia a um encontro com um aeroplano. Mas apenas um encontro provisório. Seu compromisso final numa das três próximas noites em Berlim era com um homem. Tinha que se encontrar com esse homem e infalivelmente matá-lo com um tiro.
Quando, por volta de duas e meia daquela tarde, James Bond atravessara as portas duplamente acolchoadas e sentara-se em frente do perfil voltado, do outro lado da grande escrivaninha, sentira imediatamente o perigo no ar. Não houve troca de cumprimentos. A cabeça de M afundava-se no colarinho duro numa pose churchilliana de sombria reflexão, e havia um traço de amargura nos cantos dos lábios. Girou a cadeira para encarar Bond, passou-lhe um olhar examinador como se, pensou Bond, quisesse verificar se sua gravata estava direita e o cabelo adequadamente penteado, e então começou a falar, rapidamente, atalhando suas sentenças como se desejasse ver-se livre do que estava dizendo, e de Bond, o mais depressa possível.
— O número 272. É um bom homem. Você talvez não o conheça. Pela simples razão de que ficou naquele buraco da Novaya Zemlya desde a guerra. Agora está tentando sair — carregado de material. Atômico e foguetes. E o plano deles para toda uma nova série de testes. Para 1961. Querem avivar o fogo no Ocidente. Algo a ver com Berlim. Não vejo bem o quadro mas o Foreign Office diz que se for verdade é uma coisa tremenda. Ridiculariza a Conferência de Genebra e toda essa demagogia sobre desarmamento nuclear que o bloco comunista vem fazendo. Ele conseguiu chegar até a Berlim Oriental. Mas tem praticamente toda a KGB no seu encalço — e as forças de segurança da Alemanha Oriental, é claro. Está entocado num buraco qualquer da cidade e conseguiu passar-nos uma mensagem — de que atravessaria entre seis e sete da tarde numa das três próximas noites — amanhã, depois de amanhã ou no dia seguinte. Indicou o ponto de travessia. O problema — a curva dos lábios de M, voltada para baixo, tomou-se ainda mais amarga — é que o mensageiro que ele usou fazia jogo duplo. A estação W.B. pilhou-o ontem. Por acaso. Deu sorte com um dos códigos da KGB O mensageiro será mandado de avião para julgamento, naturalmente. Mas isso não ajudará em nada. A KGB sabe que o 272 vai tentar a travessia. Sabem quando. Sabem onde. Sabem tanto quanto sabemos e nada mais. Ora, o código que deciframos ontem era um esquema de um só dia em suas máquinas. Mas conseguimos todo o tráfico daquele dia e isso foi bastante bom. Planejam alvejá-lo ao tentar a travessia. No cruzamento de ruas entre a Berlim Leste e a Oeste que nos indicou na mensagem. Estão montando uma operação daquelas — operação “Êxtase” como a chamam. Puseram o seu melhor tocaia no serviço. Tudo o que soubemos dele ó que seu nome cifrado é a palavra russa para “Gatilho”. A estação W.B. acha que é o mesmo homem já usado em outros serviços de tocaia. Um serviço de longo alcance através da fronteira. Ficará de guarda toda noite nesse cruzamento e sua missão é acertar no 272. É óbvio que eles certamente prefeririam fazer um serviço mais suave com metralhadoras e coisas do gênero. Mas Berlim está calma no momento e parece que a ordem é ficar assim. De qualquer forma — M sacudiu os ombros — eles têm confiança nesse operador “Gatilho” e o negócio vai ser assim!
— E onde é que eu entro? — James Bond tinha adivinhado a resposta, adivinhado porque M mostrava seu desagrado com a coisa toda. Ia ser trabalho sujo e Bond, porque pertencia à Seção Zero-Zero, tinha sido escolhido para fazê-lo. Perversamente, Bond queria forçar M a pôr o preto no branco. Iam ser notícias más, notícias sujas e ele não queria ouvi-las de um dos oficiais da Seção, nem mesmo do chefe do Estado-Maior. O negócio ia ser assassínio. Está bem. Que M tenha então a coragem de me dizer.
— Onde é que você entra, 007? — M olhou friamente do outro lado da escrivaninha. — Você sabe onde é que você entra. Você tem que matar esse tocaia. E tem que matá-lo antes que acerte no 272. É tudo. Está claro? — Os olhos azuis-claros permaneceram frios como gelo. Mas Bond sabia que só ficavam assim com um esforço da vontade. M não gostava de mandar qualquer homem para um homicídio. Mas, quando isso tinha de ser feito, ele sempre assumia a sua severa e fria ação de comando. Bond sabia a razão. Era para tirar um pouco da pressão, um pouco da culpa, dos ombros do matador.
Portanto Bond, que sabia dessas coisas, decidiu agora tornar fácil e rápida a tarefa de M. Levantou-se. — Está certo, sir. Suponho que o chefe do Estado-Maior tenha tudo pronto. É melhor eu ir praticar um pouco. Não seria bom errar.
Caminhou para a porta.
M disse calmamente: — Sinto ter que lhe dar essa tarefa. Serviço desagradável. Mas tem que ser bem executado.
— Farei o melhor — James Bond saiu fechando a porta atrás de si. Não gostava do serviço mas no final preferia fazê-lo a assumir a responsabilidade de mandar alguém em seu lugar.
O chefe do Estado-Maior tinha sido apenas um pouco mais simpático. — Lamento esta sua aquisição, James — dissera ele. — Mas Tanqueray foi inflexível, não tinha ninguém suficientemente bom na estação e esse não é o tipo de serviço que se pode pedir a um soldado regular para fazer. Há uma porção de excelentes tiros na B.A.O.R., mas um alvo vivo requer outro tipo de coragem. De qualquer forma, liguei para Bisley e marquei um exercício para você esta noite às oito e quinze quando a linha estiver fechada. A visibilidade será mais ou menos a mesma que você terá em Berlim cerca de uma hora antes. O armeiro está com a arma — verdadeira obra de arte para alvejar, e vai mandá-la por um de seus homens. Você irá com a sua própria condução. Depois, há um voo de carreira para Berlim à meia-noite reservado em seu nome na B.E.A. Tome um táxi até esse endereço. — Entregou a Bond um pedaço de papel. — Suba ao quarto andar e encontrará o número 2 de Tanqueray à sua espera. Depois disso, sinto que você terá que esperar sentado pelos próximos três dias.
— E a arma? Esperam que atravesse a alfândega alemã com ela dentro de um saco de golfe ou coisa assim?
O chefe do Estado-Maior não tinha achado graça. — Seguirá pela mala diplomática. Você a receberá amanhã ao meio-dia. — Tinha estendido a mão até o bloco de avisos. — Bem, é melhor ir andando. Vou avisar a Tanqueray que está tudo combinado.
James Bond baixou o olhar para o rosto azul difuso do relógio no painel do carro. Dez e quinze. Com um pouco de sorte, amanhã a esta hora estaria tudo terminado. Afinal, era a vida deste homem “Gatilho” contra a vida do 272. Não era exatamente homicídio. Estava perto disso, no entanto. Apertou maldosamente sua buzina-de-serra tripla ao passar por um quatro portas comum, ingressou no cruzamento circular com uma derrapagem seca desnecessária, girou violentamente o volante fazendo a correção e apontou o nariz do Bentley em direção do brilho distante que era o Aeroporto de Londres.
O edifício feio de seis andares na esquina da Kochstrasse e da Wilhelmstrasse era o único de pé na desolação de um espaço vazio bombardeado. Bond pagou o táxi e gravou uma breve impressão de capim, alto como a cintura, e de paredes de entulho mal reparadas, estendendo-se na direção de um grande cruzamento deserto iluminado por um feixe central de lâmpadas amareladas em arco, antes de apertar o botão para o quarto andar e imediatamente ouviu o clique do dispositivo que abria a porta do prédio. A porta fechou-se atrás dele e caminhou então sobre o chão de cimento sem tapete até o antiquado elevador. O cheiro de repolho, cigarro barato e suor rançoso lembravam outros prédios de apartamentos na Alemanha e Europa Central. Até o arrastar e o guincho fraco do elevador vagaroso eram parte de centenas de missões em que tinha sido lançado por M, como um projétil, a algum alvo distante onde um problema aguardava a sua chegada, à espera de ser resolvido por ele. Pelo menos desta vez o comitê de recepção estava do seu lado. Desta vez não havia nada a temer no fim da escada.
O número 2 da Estação W.B. de Serviço Secreto era um homem esguio e tenso de quarenta e poucos anos. Vestia o uniforme de sua profissão — terno bem cortado e bem usado de tweed leve ponto pé-de-pato num tom verde-escuro, camisa de seda macia branca e uma velha gravata de colégio — neste caso de Wykeham. Ao ver a gravata, enquanto trocavam as saudações convencionais no pequeno saguão mofado do apartamento, o ânimo de Bond, já baixo, desceu mais um degrau. Conhecia esse tipo: espinha dorsal do Serviço Público; superestudioso e mal-amado em Winchester; um bom segundo em P.P.E. em Oxford; a guerra, cargos funcionais que teria ocupado meticulosamente; talvez uma Ordem do Império Britânico; Comissão do Controle Aliado na Alemanha, onde fora recrutado no Ramo I e a partir de então — porque era o funcionário ideal e A. 1 junto à Segurança e porque pensava em encontrar vida, drama, romance, todas as coisas que nunca linha tido — lá fora ele para o Serviço Secreto. Um homem sóbrio, cuidadoso se fizera necessário para bancar a dama de companhia de Bond neste negócio feio. O Capitão Paul Sender, que já servira na Guarda Galesa, tinha sido a escolha óbvia. E tinha aceitado. Agora, como bom Wykehamista, escondia o seu desagrado pelo serviço debaixo de uma conversa cuidadosa e banal enquanto mostrava a Bond a planta do apartamento e as providências tomadas para a prontidão do carrasco e, numa medida modesta, para o seu conforto.
O apartamento consistia de um amplo dormitório conjugado, um banheiro e uma cozinha equipada de enlatados, leite, manteiga, ovos, chá, bacon, pão e uma garrafa de Dimple Haig. O único detalhe estranho no quarto de dormir era que uma das camas duplas estava encostada em ângulo contra as cortinas que cobriam o amplo janelão único e sobre ela se empilhavam três colchões cobertos pela roupa de cama.
O Capitão Sender disse: — Gostaria de dar uma olhada ao campo de fogo? Poderei então explicar o que é que o lado de lá tem em mente.
Bond estava cansado. Não desejava especialmente ir dormir com a imagem do campo de batalha na memória. Disse: — Seria ótimo.
O Capitão Sender apagou as luzes. Faixas luminosas das lâmpadas no cruzamento apareceram em volta das cortinas. — Não quero puxar as cortinas — disse o Capitão Sender. — É pouco provável, mas eles podem ter sido alertados contra um grupo de cobertura para o 272. Queria que você apenas se deitasse na cama e enfiasse a cabeça por baixo das cortinas. Explicarei o que você estiver vendo. Olhe para a esquerda.
Era uma janela de guilhotina e a metade inferior estava aberta. Os colchões, especialmente escolhidos, só cediam um pouco e James Bond encontrou-se mais ou menos na posição de tiro que tinha adotado em Century Range, mas agora olhava através de terreno descontínuo, coberto de densa vegetação e bombardeado, na direção do rio de luz que era a Zimmerstrasse — a fronteira com a Berlim Oriental. Parecia a umas cento e cinquenta jardas de distância. A voz do Capitão Sender acima dele e por trás da cortina começou a recitar. Lembrava a Bond uma sessão espírita.
— Ali é terreno bombardeado à sua frente. Bastante cobertura. Umas cento e trinta jardas até a fronteira. Depois a fronteira — a rua — e então um trecho grande ainda de terreno bombardeado no campo do inimigo. É por isso que o 272 escolheu essa passagem. É um dos poucos locais na cidade em que o terreno é descontínuo — capinzais cerrados, muros em ruínas, porões — nos dois lados da fronteira. Ele deverá es-gueirar-se entre aquela confusão do outro lado e arremessar-se através da Zimmerstrasse até alcançar a confusão do nosso lado. O problema é que terá de correr trinta jardas de fronteira fortemente iluminada. Será o espaço da matança. Certo?
Bond disse: — Sim.
Disse-o com suavidade. O cheiro do inimigo, a necessidade de tomar cuidado, já estavam atuando sobre seus nervos.
— À sua esquerda, aquele novo e imenso bloco de dez andares é a Haus der Ministerien, o grande centro cerebral de Berlim-Leste. Você pode ver que as luzes ainda estão acesas na maioria das janelas. A maior parte delas ficará assim toda a noite. Esses sujeitos trabalham mesmo — seus turnos dão a volta no relógio. Você provavelmente não precisará preocupar-se com as janelas acesas. Esse fulano “Gatilho” certamente vai atirar de uma das janelas escuras. Você verá que existe um grupo de quatro, juntas, na quina acima do cruzamento. Ficaram escuras na noite passada e esta noite. Elas têm o melhor campo de fogo. Daqui, o seu alcance varia entre trezentas e trezentas e dez jardas. Estou com todos os números e dados quando você quiser. Não é preciso preocupar-se muito mais. Aquela rua fica vazia durante a noite — apenas as patrulhas motorizadas cerca de cada meia hora — carros blindados leves com uma dupla de motocicletas por escolta. Na noite passada, que suponho normal, entre seis e sete, que é a hora em que se fará este serviço, havia umas poucas pessoas entrando e saindo por aquela porta lateral. Uns funcionários. Antes disso nada fora do comum — o fluxo costumeiro de pessoas entrando e saindo de um edifício de governo movimentado — com exceção, veja só, de uma miserável orquestra completa de mulheres. Fizeram uma confusão infernal numa sala de concertos que tem ali. Parte do bloco aloja o Ministério da Cultura. Fora disso nada — certamente nenhuma das pessoas da KGB que conhecemos, nem sinais de preparação para um serviço deste gênero. Mas nem pode haver sinais. São muito cuidadosos estes sujeitos da oposição. De qualquer maneira, dê uma boa olhada. Não esqueça que agora está mais escuro do que amanhã por volta das seis. Mas você pode formar um quadro geral.
Bond formou o quadro geral e o quadro ficou com ele muito tempo enquanto o outro homem já dormia e ressonava suavemente com um pequeno som regular que lembrava um fraco estalido — um ronco Wykehamista, refletiu Bond irritado.
Sim, tinha formado o quadro — o quadro de um lampejo movimento entre as ruínas sombreadas no outro lado do brilhante rio de luz, uma pausa, e então a desesperada corrida em ziguezague de um homem sob o impacto luminoso das lâmpadas, o espocar da arma de fogo e, ou um fardo retorcido espalhado no meio da rua larga, ou então a investida sempre em frente através do capinzal e do entulho no Setor Ocidental — morte súbita ou volta a casa. O grande desafio! Quanto tempo teria Bond para localizar o tocaia russo numa daquelas janelas escuras? E para matá-lo? Cinco segundos? Dez? Quando o amanhecer começava a cobrir as cortinas com o tom metálico das armas, Bond capitulou para sua mente agitada. Ela tinha ganho. Foi em silêncio até o banheiro e inspecionou as fileiras de remédios que um prestimoso Serviço Secreto tinha providenciado para manter o seu carrasco em boa forma. Escolheu o Tuinal, engoliu duas das cápsulas concentradas, rubis e azuis, com um copo de água e voltou à cama. Então, chumbado, dormiu.
Acordou ao meio-dia. O apartamento estava vazio. Bond abriu as cortinas para deixar entrar o dia cinzento prussiano e, de pé a uma boa distância da janela, ficou vendo a monotonia de Berlim e ouvindo o ruído dos bondes e o arranhar distante dos trens da U-Bahn na grande curva de entrada da estação do Zoo. Lançou um olhar rápido e relutante ao que já tinha examinado na noite anterior, notou que o capim no entulho de bombardeio era mais ou menos o mesmo de Londres — loendro, labaçol e samambaia — e dirigiu-se então à cozinha. Havia uma nota apoiada numa fatia de pão: “Meu amigo (eufemismo do Serviço Secreto que neste contexto significava o chefe de Sender) diz que não há mal em você sair. Mas esteja de volta às 17 horas. Seu equipamento (outra palavra para o rifle de Bond) chegou e o bagageiro a entregará esta tarde. P. Sender.”
Bond acendeu o fogão a gás e queimou a mensagem com desprezo por sua profissão e em seguida preparou um prato enorme de ovos mexidos e bacon que amontoou sobre uma torrada coberta de manteiga e comeu com acompanhamento de café preto no qual derramara uma porção liberal de uísque. Depois tomou um banho e barbeou-se, vestiu as roupas descoloridas, centro-europeias e anônimas que tinha trazido para a sua missão, olhou a sua cama em desordem, decidiu que tudo fosse para o inferno e desceu pelo elevador deixando o edifício.
James Bond sempre achara Berlim uma cidade deprimente e hostil, esmaltada no lado Ocidental com o verniz superficial de um polimento pretensioso parecido com os enfeites cromados dos carros americanos. Caminhou até a Kurfurstendamm, sentou-se no Café Marquardt, tomou um expresso e ficou observando com tédio as filas obedientes de pedestres esperando o sinal “Siga” nos postes de trânsito enquanto a corrente luminosa de carros continuava a sua perigosa quadrilha na movimentada intersecção. Fazia frio lá fora e o vento cortante das estepes russas fustigava as saias das garotas e os impermeáveis dos homens impacientes e apressados, cada um com a infalível pasta enfiada debaixo do braço. Os aquecedores de parede infravermelhos do café apontavam o vermelho para baixo e davam um brilho espúrio ao rosto dos cafeinômanos que degustavam sua tradicional “uma xícara de café e dez copos de água”, lendo de graça os jornais e revistas presos por paus, ou se curvavam com seriedade sobre papéis de negócios. Bond, fechando o pensamento para a noite, discutia consigo mesmo as maneiras de passar a tarde. Finalmente chegou à escolha entre uma visita àquela casa de respeitável fachada de pedra, na Clausewitzstrasse, conhecida de todos os porteiros e choferes de táxi, ou um passeio ao Wannsee e uma vigorosa caminhada no Grunewald. A virtude triunfou. Bond pagou o café, saiu no frio e tomou um táxi até a estação do Zoo.
As belas arvorezinhas jovens em volta do lago extenso já tinham sido tocadas pelo sopro do outono e havia um dourado aqui e ali no meio do verde. Bond caminhou com energia durante duas horas pelas veredas cobertas de folhas e então escolheu um restaurante com terraço envidraçado sobre o lago e saboreou com prazer um chá reforçado consistindo de uma porção dupla de arenques do Norte mergulhados em creme e anéis de cebola, e dois Molle mit Korn, o equivalente berlinense de um “fabricante de caldeiras e seu assistente” — schnapps, duplos, acompanhados por um chope Löwenbräu. Sentindo-se então mais animado tomou a S-Bahn para voltar à cidade.
Em frente do prédio de apartamentos, um jovem indefinível estava mexendo no motor de um Opel Kapitan negro. O jovem não tirou a cabeça debaixo do capo quando Bond passou bem perto dele e subiu até a porta e apertou o botão.
CONTINUA
Quando chegou embaixo, sentou-se no musgo, sob os abetos. Estendeu no chão a camisa, colocou no centro dela as barras de ouro e fez uma trouxa, amarrando bem as fraldas e as mangas. Depois, cavou um buraco no chão e enterrou a caixa metálica vazia. E vergando ao peso, quase dobrado em dois, caminhou pela estreita trilha, entre os pinheiros, rumo ao jipe. Até aquele dia não conseguira saber como tivera forças para alcançar o veículo. Os nós que dera na trouxa pareciam penetrar nas carnes de seu ombro, sob o peso das barras de ouro. Quando, finalmente, alcançou o jipe, quase teve um colapso, tão exausto estava. Mas não podia descansar, ainda. Precisava sair dali para enterrar o seu tesouro na floresta, perto de um grupo de grandes rochas, onde lhe seria fácil encontrá-lo de novo, na ocasião oportuna em dia, quando o horizonte estivesse limpo, voltaria, por outra rota, evitando o chalé de Oberhauser. Só então, terminado tudo, fora embebedar-se com uma garrafa de schnapps barato. Jantou e meteu-se na cama, para dormir como uma pedra. No dia seguinte, a Força A da DAG seguiu para o vale do Mittersill. Seis meses depois o Major Smythe estava em Londres. A sua guerra havia terminado. Mas os seus problemas, não. Ouro era coisa difícil de contrabandear, principalmente em grande quantidade. E era essencial que o Major Smythe transferisse as suas barras para um novo esconderijo. Por isso, ele procurou evitar a desmobilização e gozar os privilégios de seu comissionamento temporário, sobretudo o seu passe do Serviço Secreto Militar. Conseguiu ser mandado de volta para a Alemanha, como representante da Inglaterra no Centro Misto de Investigação de Munique. Aí, trabalhou durante seis meses e, nesse período, teve a oportunidade de recuperar o ouro, que levou para o seu alojamento numa velha valise. Depois, em dois fins de semana, fez viagens aéreas para Londres, levando, de cada vez, uma barra de ouro, em sua volumosa pasta. A caminhada nos aeroportos de Munique e de Londres, com a pasta sob o braço, como se contivesse apenas papéis, exigira dois tabletes de benzedrina e uma vontade de ferro. Finalmente, pôde esconder sua fortuna no porão da casa de uma tia, em Kensington, e assim, com tranquilidade, pôde desenvolver a parte final de seus planos. Pediu reforma nos Fuzileiros Reais e, uma vez desmobilizado, casou-se com uma das muitas moças com quem tivera aventuras durante o serviço da DAG, uma graciosa Wren chamada Maria Parnell. Comprou passagem para ambos num cargueiro para a Jamaica, que representava, para ambos, um paraíso ensolarado, com boa e farta comida, bebida barata, sem a melancolia e as restrições impostas na Inglaterra, após a guerra, pelo severo governo trabalhista. Antes do embarque, o Major Smythe mostrou a Mary as barras de ouro, das quais já havia raspado a cinzel os símbolos do Reichsbank.
— Tenho sido muito econômico e esperto, meu bem — disse ele. — Não confio na libra. Por isso, vendi todas as minhas ações e comprei um bocado de ouro. Teremos pelo menos 20 mil libras, se eu o vender bem. Isso basta para nos assegurar uma boa vida, até o fim dos nossos dias. Sempre que for preciso, eu venderei um pouquinho — explicou.
Mary Parnell não era familiarizada com as leis monetárias. Mas se ajoelhou e passou as mãos, carinhosamente, sobre as barras de ouro. Depois, com os braços ao redor do pescoço do marido, beijou-o e disse, quase em lágrimas: — Você é um homem maravilhoso... Sim, maravilhoso! Terrivelmente inteligente, bonito, simpático, herói da guerra e, além do mais, rico! Eu sou a garota mais feliz do mundo!
— Você tem razão pelo menos numa coisa: ricos, nós somos. Mas prometa não dizer uma só palavra a quem quer que seja! Pois, se disser, todos os ladrões da Jamaica irão rondar a nossa casa.. .
O Prince’s Club, ao pé das colinas que dominam os arredores de Kensington, era realmente esplêndido. Para os seus sócios, não havia nada melhor: maravilhosa criadagem, comida farta, bebida barata, belíssimos cenários tropicais, como nunca tinham visto antes. O casal era muito popular e os serviços de guerra do Major Smythe lhe davam ingresso na alta sociedade local e na Government House. A vida de ambos era uma série interminável de festas, misturadas com o tênis de Mary e o golfe do major (com os bastões metálicos de Henry Cotton!) durante o dia, e partidas de bridge (para ela) e de pôquer (para ele) durante as noites. Sim, era um paraíso, porque, na Inglaterra, havia racionamento, filas e mercado negro, um governo atroz e o pior inverno dos últimos trinta anos. A princípio, o casal enfrentou as despesas com as economias em dinheiro, que ambos haviam reunido, enquanto se vestiam, se alimentavam e se transportavam à custa do Exército. Só depois de um ano de cautelosas investigações é que o Major Smythe se decidiu a fazer negócio com os irmãos Fu, comerciantes importadores e exportadores. Altamente respeitados e muito ricos, os irmãos Fu eram conhecidos como uma espécie de junta governativa da comunidade chinesa da Jamaica. Ainda que alguns dos seus negócios se desviassem das boas normas, segundo a tradição chinesa, Smythe achou que poderia confiar neles. A Convenção de Bretton Woods, fixando um preço internacional para o ouro, sob rigoroso controle, tinha sido assinada deixando de parte Tânger e Macau, dois portos livres, em que a onça de ouro valia entre 99 e 100 dólares, quando nos outros lugares o preço oficial era de 35. E, para maior conveniência de seus negócios, os Fu tinham aberto um restaurante em Hong-Kong, transformado em entreposto para o contrabando de ouro para a vizinha Macau. Isso, na linguagem do Major Smythe, era sopa no mel. Ele tivera um agradável encontro com os Fu. Nenhuma pergunta estes fizeram, senão depois do exame das barras de ouro.
— Major — disse o mais velho dos irmãos —, no mercado de ouro em barras, as marcas dos bancos nacionais e dos negociantes respeitáveis são aceitos sem discussão. Essas marcas são a garantia da pureza do ouro. Mas outros bancos e outros vendedores têm seus próprios processos de refinação, que talvez, não sejam tão perfeitos...
— Quer dizer que eu fui enganado? — Perguntou, ansiosamente, o major. — Que isso não é senão uma barra de chumbo coberta de uma leve camada de ouro?
Os dois irmãos deram muxoxos tranquilizadores:
— Não, não, major... Não se trata disso. Mas, se uma pessoa não se recorda da proveniência dessas barras de ouro, por mais finas que elas sejam é sempre necessário submetê-las a um ensaio, para verificação do seu exato teor... Há muitos métodos para determinar o grau de pureza dessas barras. Meu irmão e eu somos competentes em qualquer deles. Quer deixar as barras de ouro conosco e vir saber o resultado depois do almoço? Nós lhe daremos um recibo...
Não havia alternativa. Teria que confiar nos Fu. Qualquer que fosse o preço por eles arbitrado, seria forçado a aceitar. Estava nas mãos deles. Foi a um bar, onde tomou dois drinques fortes e comeu um sanduíche que lhe ficou atravessado na garganta. Depois, voltou ao escritório refrigerado dos Fu. O cenário era o mesmo: os dois irmãos sorridentes, as duas barras de ouro, a pasta de couro, etc. Só havia a mais uma folha de papel e uma caneta-tinteiro de pena de ouro, em frente do irmão mais velho.
— Resolvemos o problema do seu ouro, major! — (Esplêndido! Obrigado, pensou Smythe.) — E estou certo de que o senhor terá interesse em conhecer sua origem...
— Claro! Qual é? — Fez o major, com uma corajosa demonstração de entusiasmo.
— São barras de ouro alemãs! Provavelmente saíram dos depósitos do Reichsbank, durante a guerra. Isso pode ser deduzido do fato de que contêm dez porcento de chumbo. Durante o regime de Hitler, o Reichsbank fez a tolice de adulterar por esse modo o seu ouro. Isso logo se espalhou e o preço das barras de ouro alemãs, vendidas na Suíça, sofreu logo uma redução de preço, correspondente à adulteração. Foi uma bobagem, que só teve um resultado: o banco nacional da Alemanha perdeu a reputação que conquistara durante séculos... Bobagem... Uma grandíssima bobagem... — Concluiu o chinês, com o seu invariável sorriso.
O Major Smythe estava maravilhado com a onisciência desses dois homens, tão afastados dos grandes canais de comércio do mundo. Mas ao mesmo tempo os amaldiçoava, intimamente. E agora?
— É muito interessante, Sr. Fu... Mas isso não é uma boa notícia para mim. Essas barras de ouro me foram entregues como coisa cem por cento...
— Não tem importância, major — disse o mais velho dos Fu. — Ou melhor, quase não tem importância. Venderemos o seu ouro pelo justo valor, ou seja, 89 dólares a onça. Terá que ser, ou não, refinado pelo último comprador. Mas isso não é da nossa conta. Nós o venderemos também como cem por cento...
— Mas a um preço mais baixo...
— Realmente, major. Mas creio que temos uma boa notícia para o senhor. Quanto calculava obter com essas duas barras?
— Cerca de 20 mil libras...
— Se as vendermos bem e aos pouquinhos — disse o mais velho dos Fu —, o senhor receberá mais de 100 mil dólares, major, sujeitos, é claro, ao desconto da nossa comissão, que inclui o transporte e outras despesas.
— E a quanto montará isso?
— Estou pensando em fixar em 10 por cento, major. Se lhe parecer satisfatório...
O Major Smythe tinha a impressão de que vendedores de ouro em barras recebiam apenas um por cento de comissão. Mas, que diabo, antes do almoço já estava disposto a largar tudo até por 10 mil libras. Disse “fechado” e levantou-se, estendendo a mão através da mesa. Desde então, de quatro em quatro meses, ia visitar o escritório dos Fu, levando uma valise vazia. Havia sempre quinhentas libras novas, da emissão da Jamaica, em pacotes, sobre a mesa, à sua espera, e um recibo da quantidade vendida, com o preço alcançado em Macau. As barras de ouro diminuíam de tamanho, de polegada em polegada. O negócio era simples e cordial. Duas mil libras limpas, por ano, eram o bastante para ele, e só o afligia a possibilidade de que o pessoal do imposto de renda começasse a apertá-lo, para saber do que estava vivendo. Ele disse isso aos Fu, que lhe fizeram saber que não precisava se preocupar. Nas duas vezes seguintes, havia apenas quatrocentas libras na mesa, mas nenhum comentário foi feito, por qualquer dos lados. E assim os dias iam se passando, preguiçosamente. Os Smythes engordavam e o major teve a primeira das duas complicações das coronárias. O médico lhe recomendou uma vida menos ativa, com menos álcool e menos cigarros. Evitasse, também, as gorduras e as comidas fritas. A princípio, Mary tentou ser severa com ele, mas quando o marido começou a beber escondido e a inventar pequenas mentiras e evasivas, ela recuou desse propósito. Teve medo de se transformar numa chata doméstica, a quem o Major Smythe passaria a evitar. Por isso, deu-lhe inteira liberdade, sabendo que ele não mais a amava, e quando a sua solidão se tornou demasiada e as insônias intoleráveis, viciou-se em tomar soníferos. Uma noite, depois de uma violenta briga, estando ambos embriagados, tomou ela uma dose excessiva, só “para dar-lhe uma lição”. A dose era tão exagerada que a matou. O suicídio foi dissimulado, mas ainda assim recaíram suspeitas sobre o major, em prejuízo de sua reputação social. E a tal ponto que ele teve de se retirar para North Shore que, embora a apenas três milhas de Kensington, parece pertencer a um outro mundo. Aí ele se instalou em Wavelets e, depois da segunda complicação das coronárias, começou a beber desenfreadamente. Foi então que entrou em cena James Bond com um mandado de prisão ou de morte no bolso.
O Major Smythe olhou para o relógio. Passavam alguns minutos do meio-dia. Ele se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale e foi para o jardim. James Bond estava sentado sob a frondosa amendoeira, olhando para o lar. Nem se voltou para o Major Smythe quando este puxou outra cadeira de alumínio e colocou o copo na relva, perto dele. Quando o Major Smythe acabou de narrar a sua história, James Bond disse, sem demonstrar qualquer emoção: — Era mais ou menos isso o que eu havia pensado...
— Quer que eu escreva tudo ou apenas assine?
— Faça como quiser. Mas isso não se entende comigo. Deve entregar à Corte Marcial. Seu velho Corpo de Fuzileiros Reais é que vai tomar conta do caso. Não tenho nada que ver com os aspectos legais. Farei apenas um relatório do que me disse, para a Procuradoria da Justiça, através da Scotland Yard...
— Posso perguntar uma coisa? Como foi que descobriu?
— A geleira era pequena. O corpo de Oberhauser chegou embaixo no início deste ano, quando as neves da primavera derreteram. Alguns alpinistas o encontraram. Todos os seus papéis e tudo o mais estava perfeito. A família o identificou. Depois, foi só uma questão de recuar no tempo. O calibre das balas deu logo a pista...
— Mas como se envolveu neste assunto?
— A Força da DAG era uma das minhas responsabilidades, um dos meus serviços. Quando o assunto chegou ao meu conhecimento, fui dar uma busca nos arquivos. Como tinha tempo livre, pedi que me entregassem a missão de descobrir o autor da morte de Oberhauser...
— Por quê?
— Porque — e James Bond fixou os olhos do Major Smythe — acontece que Oberhauser era um velho amigo meu. Foi quem me ensinou a esquiar quando eu tinha pouco mais de dez anos. Era um esplêndido sujeito. Foi uma espécie de pai para mim, precisamente na época em que eu mais precisava de um...
— Compreendo. — E o Major Smythe desviou o olhar. — Sinto muito...
James Bond se levantou:
— Bem, preciso voltar a Kensington. — E levantou a mão, para deter o major. — Não, não precisa incomodar-se. Sei onde o carro ficou... — Olhou para o homem mais velho e disse, rispidamente, quase com brutalidade: — Dentro de uma semana, alguém virá buscá-lo...
E caminhou, em passos firmes, sem se voltar, pela alameda afora. O major ouviu o ruído do arranque do motor e o chiado dos pneus do táxi nas pedrinhas miúdas da estrada.
Agora, ele procurava a sua presa, ao longo do recife de coral, pensando exatamente no sentido das palavras de James Bond. E sorriu por trás da máscara Pirelli. Era uma versão nova de um velho dramalhão, que consistia em deixar uma pistola com o oficial culpado, para que este mesmo estourasse os miolos. Se James Bond quisesse, poderia ter telefonado para a Government House e pedido um oficial de igual patente do Regimento da Jamaica para levar preso o Major Smythe. De certo modo, o seu gesto fora decente. Ou não fora? Um suicídio era mais limpo, economizava uma porção de trabalho e de papéis, que consumiriam o dinheiro dos contribuintes. Devia agradecer a James Bond a solução que ele parecia sugerir? Acaso encontraria Mary no lugar para onde vão as almas dos suicidas? Ou era melhor a Corte Marcial, a indignidade, as formalidades cacetes, as manchetes, o aborrecimento e a solidão de uma prisão perpétua, da qual só o livraria a terceira crise das coronárias? Poderia defender-se: era tempo de guerra, lutara com Oberhauser no alto da montanha, ele era um prisioneiro e tentara fugir... Oberhauser sabia do esconderijo do dinheiro... E ele, pobre oficial dos Comandos, tantas vezes arriscando a vida pela pátria, fora fraco e não resistira à tentação... Poderia entregar-se dramaticamente à misericórdia do Tribunal Militar... Um coronel certamente seria designado para defendê-lo e o faria com a maior eloquência. Poderia haver um apelo à Corte Suprema. Seu caso comoveria a Inglaterra e se tornaria uma cause célebre. Venderia sua história, com as reminiscências de guerra, aos grandes jornais... Mas...
Cuidado, meu velho! Cuidado! Seus pés agora tocavam o chão, sob as ondas que encrespavam a superfície da praia de North Shore. Por onde estariam os peixes-escorpiões? O polvinho querido estava faminto, esperando o seu almoço. Apurando a vista, perto do recife de coral, o Major Smythe viu as antenas de um lagostim, acenando inquisitivamente para ele. Normalmente, ele se esqueceria de tudo, para capturar o lagostim, que era, talvez, o maior que até então encontrara. Mas agora só tinha uma preocupação: a de descobrir a silhueta irregular e provocante do peixe-escorpião. Só depois de mais dez minutos de busca encontraria o primeiro. Os olhos vermelhos e zangados do peixe, muito abertos, o observavam. Para fisgá-lo, com o arpão, teria que fazer uma investida rápida, na vertical, firme e certeira. Sabia que as agulhas envenenadas se projetariam para fora da cabeça pontiaguda do monstro. Tinha que se mover lentamente, na direção do peixe, usando o braço livre para nadar. E... Agora! Avançou, para a frente e para baixo, mas o peixe-escorpião sentira a aproximação do arpão antes que este o tocasse. Uma lufada de areia se levantou do fundo do mar, atingido pelo golpe. E qualquer coisa roça em seu corpo, dando a impressão do voo de um pássaro. O major praguejou e fez meia volta, dentro da água. Sim, o peixe-escorpião fizera o que tantas vezes fazia: fora buscar refúgio entre as algas e as rochas, confiante em sua soberba camuflagem. O major voltou à carga, em novo mergulho, dessa vez ainda mais atento, e zás! O peixe-escorpião se agitava, agora, na ponta do arpão. A excitação foi tão grande que o Major Smythe vacilou e sentiu a antiga dor oprimir-lhe o peito. Pôs-se de pé, firmou o arpão contra a areia, atravessando inteiramente a presa, que ainda se agitava desesperadamente, e dirigiu-se à praia, indo sentar-se num banco de madeira, ao lado do qual atirou o peixe, fisgado, a se debater. Uns cinco minutos depois, o Major Smythe sentiu uma curiosa dormência na região do plexo solar. Olhou para baixo e estremeceu, de horror e incredulidade. Uma região de sua pele, com o tamanho aproximado de uma bola de críquete, tornara-se impressionantemente branca, a despeito do bronzeado de seu busto. No centro dessa área, havia três pequenas manchas sanguíneas. Automaticamente, o Major Smythe limpou o sangue. Os furos eram do tamanho de picadas de agulhas. Ele se lembrou, então, da fuga do peixe-escorpião, quando tentara arpoá-lo da primeira vez, e exclamou alto, com pavor, mas sem animosidade: — Tu me apanhaste, bastardo! Tu me apanhaste!
Imóvel, olhava para o próprio corpo, recordando-se do que lera sobre os ferrões do peixe-escorpião no livro que tomara emprestado à biblioteca do Instituto e nunca devolvera — Perigosos Animais Marinhos, publicação norte-americana. Tocou delicadamente a pele da área atingida. Sim, a pele se tinha tornado intumescida e de todo insensível, mas por baixo começava a sentir dor. Em breve essa dor profunda e intensa percorreria o seu corpo inteiro, tão lancinante que o seu único desejo seria o de deitar-se na areia, gritando e rolando, para abafá-la. Vomitaria e deitaria espuma pela boca, teria delírio e convulsões, até perder a consciência. Então, sobreviria, inevitável, o colapso cardíaco mortal. De acordo com o livro, o ciclo completo desses tormentos não passaria de um quarto de hora. Era tudo quanto lhe restava: quinze minutos de atroz agonia! Haveria cura, é claro — com procaínas, antibióticos e anti-histamínicos —, se seu coração debilitado suportasse tais medicamentos. Mas estes deviam estar à mão. Mesmo que conseguisse chegar em casa e admitindo que Jimmy Greaves dispusesse de todos esses remédios modernos, ele não poderia alcançar Wavelets antes de uma hora.
A primeira descarga de dor fez o corpo do Major Smythe dobrar-se sobre si mesmo. Depois outra e mais outra, irradiando-se através do estômago e dos membros. Sentia um gosto metálico na boca e uma coceira insuportável nos lábios. Deixou escapar um gemido e saltou do banco para a praia. Sobre a areia, ainda arquejava o peixe-escorpião. Houve uma trégua nos espasmos da dor. Seu corpo inteiro estava em fogo. Apesar da agonia o raciocínio permanecia claro. Mas, ora essa! Ia esquecendo a experiência! Devia ir à loca do polvo, para servir seu almoço! “Polvo, polvinho, vai ser a última refeição que eu te dou!”, dizia a si mesmo o Major Smythe, ajustando a máscara no rosto. Depois, apanhou o arpão, com o peixe espetado e, apertando o estômago com a mão livre, caminhou pela água adentro e, depois, mergulhou junto ao recife de coral. Poucas jardas o separavam agora do polvo. E foi gritando dentro da máscara, arrastando-se, quase de joelhos, que ele as percorreu. À medida que a água se tornava mais profunda, a dor se fazia mais intensa e seus movimentos pareciam com os de um fantoche, impulsionado por um feixe de cordéis. Só a poder de uma grande força de vontade pôde continuar rumo à morada do polvo. Sim, a sua massa escura ainda estava lá! E parecia excitadíssima. Por quê? O Major Smythe viu que as feridas de seu peito vertiam filetes de sangue escuro, que se diluía na água do mar. Era claro! O querido polvo sentira o gosto do seu sangue. Uma descarga de dor atingiu o major e o fez vergar-se. Disse a si mesmo, em delírio: “Que é isso, Dexter?! Firme, meu velho. Você tem que dar almoço ao polvinho”. Endireitou-se, empunhando o arpão com firmeza e aproximando o peixe da toca do polvo. Aceitaria ele a isca envenenada que o Major Smythe lhe oferecia e à qual talvez um octópode poderia ser imune? Ah, se Bengry estivesse presente, para observar! Três tentáculos, ondulando excitadamente, saíram da loca e passearam ao redor do peixe-escorpião. Agora, havia uma espécie de nevoeiro diante dos olhos do Major Smythe. Reconhecendo estar à beira da inconsciência, ele agitou fracamente a cabeça, para dissipá-lo. E, então, os tentáculos deram um salto! Mas não para o peixe: apertaram a mão e o braço que empunhavam o arpão. A boca do Major Smythe se torceu, numa careta de prazer. Agora, ele e o polvo podiam se apertar as mãos! Como era excitante! Que coisa maravilhosa! Mas o polvo, calma e implacavelmente, continuou a enroscar os seus tentáculos e a chamar a si o corpo do major. Só então Smythe compreendeu que algo de terrível ia acontecer. Fez um apelo a todas as suas forças e tentou golpear o octópode com o arpão. Mas tudo quanto conseguiu foi bater com o peixe-escorpião na massa escura do polvo. E, com o movimento que fez, ofereceu-se ainda mais a este, que o atraía de forma inexorável. Tarde demais o Major Smythe retirou sua máscara. Conseguindo alcançar a superfície, soltou um grito que reboou pela baía deserta, mas logo foi puxado para baixo. E, depois de algumas bolhas de ar, vieram à tona as pernas do major. As ondas lavavam o seu corpo, enquanto o polvo fazia a primeira tentativa para devorá-lo. O resto de Smythe foram encontrados por dois jovens da Jamaica, que pescavam peixes-agulhas numa canoa. Eles mataram o polvo, recolheram o arpão do Major Smythe com o peixe-escorpião e levaram os três despojos para a praia. O cadáver do major foi entregue à polícia e o peixe-escorpião aproveitado para a ceia. O destino do polvo de estimação seria também a panela ... O correspondente do Daily Gleaner em North Shore comunicou que o Major Smythe tinha sido morto por um polvo. Mas a redação do jornal, para não alarmar os turistas, preferiu dizer que ele “fora encontrado afogado”. Mais tarde, em Londres, James Bond, embora certo de que se tratara de um suicídio, anotou no dossier Oberhauser a versão do afogamento, com a respectiva data, na última página, o que encerrava o assunto. Somente pelas notas do Dr. Greaves sobre a autópsia, por ele mesmo realizada, é que foi possível escrever esta espécie de post-scriptum sobre o estranho e patético fim do outrora corajoso e útil oficial do Serviço Secreto.
Encontro em Berlim
(THE LIVING DAYLIGHTS)
James Bond estendia-se em posição na marca das quinhentas jardas da famosa linha de tiro Century Range, em Bisley. A pequena estaca branca na grama a seu lado dizia 44 e o mesmo número se repetia bem alto no talude distante acima do solitário alvo de seis pés quadrados que, ao olho humano e no crepúsculo do fim de verão, não parecia maior que um selo de correio. Mas a luneta de Bond, uma Sniperscope infravermelha fixada sobre o seu rifle, cobria todo o quadro. Ele podia até distinguir com clareza as cores azul-pálido e bege em que se dividia o alvo, e a mosca semicircular de seis polegadas parecia tão grande como a meia lua que já começava a se mostrar baixa no céu que escurecia acima da crista remota de Chobham Ridges.
O último tiro de James Bond fora um esquerdo interno — não o satisfizera. Deu uma outra olhada às bandeiras de vento amarelas e azuis. Tremulavam do leste através da linha de tiro mais intensamente do que quando tinha começado o seu tiro meia hora antes, e ele mudou o anemômetro dois pontos para a direita e assestou os dois fios cruzados da Sniperscope de volta ao foco de mira. Instalou-se então, colocou o indicador de leve dentro da guarda e sobre a curva do gatilho, prendeu a respiração e muito, muito suavemente apertou.
O estampido vicioso ecoou ao longo do campo vazio. O alvo desapareceu abaixo do solo e imediatamente o “boneco” tomou o seu lugar. Sim, a marca negra estava embaixo no canto direito desta vez, não no canto esquerdo: mosca.
— Bom — disse a voz do oficial chefe da linha, atrás e acima dele. — Fique com a mira.
O alvo já subira de novo e Bond recolocou a bochecha sobre o trecho quente da volumosa coronha de madeira e o olho na borracha que cerca a ocular da luneta. Enxugou a mão de atirar contra o lado das calças e pegou na coronha da pistola que sobressaía angulosamente da guarda do gatilho. Abriu de uma polegada o ângulo das pernas. Agora haveria cinco descargas rápidas. Era interessante ver se isso não provocaria “desgaste”. Ele achava que não. Esta arma extraordinária que o armeiro tinha descoberto sabe lá como dava à gente a sensação de que um homem de pé à distância de uma milha seria prato fácil. Era mais um rifle Experimental de Alvo Internacional, calibre 308, construído pela Winchester para ajudar os ases americanos do tiro em campeonatos mundiais, e tinha os dispositivos usuais das armas de alvo superacuradas — uma “mão” espiralada de alumínio nas costas da coronha que se estendia debaixo da axila e mantinha a arma com firmeza junto ao ombro, e uma pequena roda dentada ajustável abaixo do centro de gravidade do rifle para permitir que ele “se agarrasse” ao sulco do seu descanso de madeira. O armeiro tinha mandado trocar o ferrolho de tiro único usual por um depósito de cinco tiros, e tinha garantido a Bond que se ele deixasse apenas dois segundos entre cada tiro para estabilizar a arma não haveria desgaste, mesmo a quinhentas jardas. Para o serviço que devia fazer, Bond achava que dois segundos poderiam representar uma perda perigosa de tempo se errasse o seu primeiro tiro. De qualquer forma, M dissera que a distância não seria maior que trezentas jardas. Bond encurtaria o tempo para um segundo — fogo quase contínuo.
— Pronto?
— Sim.
— Vou à contagem regressiva de cinco. Agora! Cinco, quatro, três, dois, um. Fogo!
O chão tremeu ligeiramente e o ar silvou enquanto as cinco cápsulas velozes de cuproníquel varejavam o crepúsculo. O alvo baixou e rapidamente voltou a erguer-se condecorado com quatro pequenos discos brancos agrupados bem juntos na mosca. Não houve nenhum quinto disco — nem mesmo um negro para indicar um interno ou externo.
— A última descarga foi baixa — disse o chefe da linha baixando seus binóculos noturnos. — Obrigado pela contribuição. Limpamos a areia atrás daqueles alvos todo fim de ano.
Nunca recolhemos menos de quinze toneladas de estilhaços em legítimo chumbo e cobre. Um bom dinheiro.
Bond tinha-se levantado. O cabo Menzies da seção dos armeiros surgiu do pavilhão do Clube de Tiro e ajoelhou-se para desmontar a Winchester e o seu descanso. Olhou para cima encarando Bond. Disse com uma ponta de crítica. — O senhor tocou a coisa um pouco rápido. A última descarga tinha de escoicear.
— Eu sei, cabo. Só queria ver com que rapidez eu podia tocar. Não quero pôr a culpa na arma. É um trabalho enxuto, infernal. Por favor, diga isso por mim ao armeiro. Agora é melhor ir andando. Você tem condução de volta a Londres, não?
— Tenho, sim senhor. Boa noite.
O oficial chefe da Linha entregou a Bond uma ficha de seu tiro — dois tiros de ensaio e depois dez descargas para cada cem jardas até as quinhentas. — Pontaria danada de boa com esta visibilidade. Você devia voltar aqui o ano que vem e tentar o Prêmio da Rainha. Hoje em dia está aberto para todos — isto é, da Comunidade Britânica.
— Obrigado. O problema é que não passo tanto tempo assim na Inglaterra. E muito obrigado por ter feito a marcação para mim.
Bond olhou para a distante Torre do Relógio. De cada lado, a bandeira vermelha de perigo e o tambor vermelho de sinalização estavam sendo arriados para mostrar que o tiroteio tinha cessado. Os braços marcavam nove e quinze. — Gostaria de oferecer-lhe um drinque, mas tenho um encontro em Londres. Podemos adiá-lo até o Prêmio da Rainha de que você estava falando?
O chefe da Linha fez que sim com a cabeça, neutramente. Ele tinha aguardado ansioso a oportunidade de conhecer mais coisas sobre este homem que surgira assim sem mais nem menos depois de uma série de avisos do Ministério da Defesa e fora em frente acertando bem mais de noventa porcento em todas as distâncias, isso depois de fechada a linha para a noite e com visibilidade entre sofrível e má. E por que tinha ele, que só oficiava no encontro anual de julho, sido escalado para estar presente? E por que lhe tinham dito para providenciar uma mosca de seis polegadas a 500 jardas para Bond, em vez da regulamentar de quinze polegadas? E por que todos esses cuidados com a bandeira de perigo e o tambor de sinalização que só se usavam em ocasiões cerimoniais? Para pressionar o homem? Para dar um clima de urgência ao tiro? Bond. Comandante James Bond. A A.N.R. certamente teria a ficha de uma pessoa que atirava tão bem assim. Não se esqueceria de dar-lhes um telefonema. Que hora estranha para um compromisso em Londres. Provavelmente uma garota. O rosto do chefe da Linha assumiu uma expressão de desagrado. O tipo do sujeito que apanhava todas as garotas que queria.
Os dois homens caminharam através da bela fachada da sede do clube além da linha de tiro até o carro de Bond que estava estacionado diante de uma reprodução em ferro do famoso “Veado em Fuga” de Landseer toda picotada de balaços. — Uma beleza de carro — comentou o chefe da Linha. Nunca vi uma carroçaria assim num Continental. Mandou fazê-la especialmente?
— Mandei. Os Sports Saloons na verdade só têm dois lugares. E muito pouco espaço para bagagem. Por isso pedi a Mulliner’s que o transformassem num verdadeiro dois-lugares e com porta-malas de sobra. Um carro egoísta, não há dúvida. Bem, boa noite. E novamente muito obrigado.
O escape roncou com saúde e as rodas traseiras cuspiram cascalho por um instante.
O oficial chefe da Linha observou os faróis rubis desaparecerem na King’s Avenue a caminho da estrada de Londres. Girou nos calcanhares e foi procurar o cabo Menzies numa busca de informação que terminaria sem frutos. O cabo permaneceu tão fechado como a grande caixa de mogno que estava colocando num Land-Rover caqui, limpo de símbolos militares. O chefe da Linha era um major. Tentou apelar para a hierarquia, mas sem êxito. O Land-Rover afastou-se rodando no rastro de Bond. O major dirigiu-se soturno aos escritórios da Associação Nacional do Rifle para tentar achar a informação que queria na biblioteca sob o nome “Bond, J.”
O compromisso de James Bond não era com uma garota. Era com um voo da B.E.A. para Hanover e Berlim. Enquanto engolia as milhas que o separavam do Aeroporto de Londres, pisando firme o grande carro a fim de ter tempo de sobra para um drinque, três drinques, antes da decolagem, apenas uma parte de sua mente fixava-se na estrada. O restante reexaminava pela enésima vez a sequência que agora o conduzia a um encontro com um aeroplano. Mas apenas um encontro provisório. Seu compromisso final numa das três próximas noites em Berlim era com um homem. Tinha que se encontrar com esse homem e infalivelmente matá-lo com um tiro.
Quando, por volta de duas e meia daquela tarde, James Bond atravessara as portas duplamente acolchoadas e sentara-se em frente do perfil voltado, do outro lado da grande escrivaninha, sentira imediatamente o perigo no ar. Não houve troca de cumprimentos. A cabeça de M afundava-se no colarinho duro numa pose churchilliana de sombria reflexão, e havia um traço de amargura nos cantos dos lábios. Girou a cadeira para encarar Bond, passou-lhe um olhar examinador como se, pensou Bond, quisesse verificar se sua gravata estava direita e o cabelo adequadamente penteado, e então começou a falar, rapidamente, atalhando suas sentenças como se desejasse ver-se livre do que estava dizendo, e de Bond, o mais depressa possível.
— O número 272. É um bom homem. Você talvez não o conheça. Pela simples razão de que ficou naquele buraco da Novaya Zemlya desde a guerra. Agora está tentando sair — carregado de material. Atômico e foguetes. E o plano deles para toda uma nova série de testes. Para 1961. Querem avivar o fogo no Ocidente. Algo a ver com Berlim. Não vejo bem o quadro mas o Foreign Office diz que se for verdade é uma coisa tremenda. Ridiculariza a Conferência de Genebra e toda essa demagogia sobre desarmamento nuclear que o bloco comunista vem fazendo. Ele conseguiu chegar até a Berlim Oriental. Mas tem praticamente toda a KGB no seu encalço — e as forças de segurança da Alemanha Oriental, é claro. Está entocado num buraco qualquer da cidade e conseguiu passar-nos uma mensagem — de que atravessaria entre seis e sete da tarde numa das três próximas noites — amanhã, depois de amanhã ou no dia seguinte. Indicou o ponto de travessia. O problema — a curva dos lábios de M, voltada para baixo, tomou-se ainda mais amarga — é que o mensageiro que ele usou fazia jogo duplo. A estação W.B. pilhou-o ontem. Por acaso. Deu sorte com um dos códigos da KGB O mensageiro será mandado de avião para julgamento, naturalmente. Mas isso não ajudará em nada. A KGB sabe que o 272 vai tentar a travessia. Sabem quando. Sabem onde. Sabem tanto quanto sabemos e nada mais. Ora, o código que deciframos ontem era um esquema de um só dia em suas máquinas. Mas conseguimos todo o tráfico daquele dia e isso foi bastante bom. Planejam alvejá-lo ao tentar a travessia. No cruzamento de ruas entre a Berlim Leste e a Oeste que nos indicou na mensagem. Estão montando uma operação daquelas — operação “Êxtase” como a chamam. Puseram o seu melhor tocaia no serviço. Tudo o que soubemos dele ó que seu nome cifrado é a palavra russa para “Gatilho”. A estação W.B. acha que é o mesmo homem já usado em outros serviços de tocaia. Um serviço de longo alcance através da fronteira. Ficará de guarda toda noite nesse cruzamento e sua missão é acertar no 272. É óbvio que eles certamente prefeririam fazer um serviço mais suave com metralhadoras e coisas do gênero. Mas Berlim está calma no momento e parece que a ordem é ficar assim. De qualquer forma — M sacudiu os ombros — eles têm confiança nesse operador “Gatilho” e o negócio vai ser assim!
— E onde é que eu entro? — James Bond tinha adivinhado a resposta, adivinhado porque M mostrava seu desagrado com a coisa toda. Ia ser trabalho sujo e Bond, porque pertencia à Seção Zero-Zero, tinha sido escolhido para fazê-lo. Perversamente, Bond queria forçar M a pôr o preto no branco. Iam ser notícias más, notícias sujas e ele não queria ouvi-las de um dos oficiais da Seção, nem mesmo do chefe do Estado-Maior. O negócio ia ser assassínio. Está bem. Que M tenha então a coragem de me dizer.
— Onde é que você entra, 007? — M olhou friamente do outro lado da escrivaninha. — Você sabe onde é que você entra. Você tem que matar esse tocaia. E tem que matá-lo antes que acerte no 272. É tudo. Está claro? — Os olhos azuis-claros permaneceram frios como gelo. Mas Bond sabia que só ficavam assim com um esforço da vontade. M não gostava de mandar qualquer homem para um homicídio. Mas, quando isso tinha de ser feito, ele sempre assumia a sua severa e fria ação de comando. Bond sabia a razão. Era para tirar um pouco da pressão, um pouco da culpa, dos ombros do matador.
Portanto Bond, que sabia dessas coisas, decidiu agora tornar fácil e rápida a tarefa de M. Levantou-se. — Está certo, sir. Suponho que o chefe do Estado-Maior tenha tudo pronto. É melhor eu ir praticar um pouco. Não seria bom errar.
Caminhou para a porta.
M disse calmamente: — Sinto ter que lhe dar essa tarefa. Serviço desagradável. Mas tem que ser bem executado.
— Farei o melhor — James Bond saiu fechando a porta atrás de si. Não gostava do serviço mas no final preferia fazê-lo a assumir a responsabilidade de mandar alguém em seu lugar.
O chefe do Estado-Maior tinha sido apenas um pouco mais simpático. — Lamento esta sua aquisição, James — dissera ele. — Mas Tanqueray foi inflexível, não tinha ninguém suficientemente bom na estação e esse não é o tipo de serviço que se pode pedir a um soldado regular para fazer. Há uma porção de excelentes tiros na B.A.O.R., mas um alvo vivo requer outro tipo de coragem. De qualquer forma, liguei para Bisley e marquei um exercício para você esta noite às oito e quinze quando a linha estiver fechada. A visibilidade será mais ou menos a mesma que você terá em Berlim cerca de uma hora antes. O armeiro está com a arma — verdadeira obra de arte para alvejar, e vai mandá-la por um de seus homens. Você irá com a sua própria condução. Depois, há um voo de carreira para Berlim à meia-noite reservado em seu nome na B.E.A. Tome um táxi até esse endereço. — Entregou a Bond um pedaço de papel. — Suba ao quarto andar e encontrará o número 2 de Tanqueray à sua espera. Depois disso, sinto que você terá que esperar sentado pelos próximos três dias.
— E a arma? Esperam que atravesse a alfândega alemã com ela dentro de um saco de golfe ou coisa assim?
O chefe do Estado-Maior não tinha achado graça. — Seguirá pela mala diplomática. Você a receberá amanhã ao meio-dia. — Tinha estendido a mão até o bloco de avisos. — Bem, é melhor ir andando. Vou avisar a Tanqueray que está tudo combinado.
James Bond baixou o olhar para o rosto azul difuso do relógio no painel do carro. Dez e quinze. Com um pouco de sorte, amanhã a esta hora estaria tudo terminado. Afinal, era a vida deste homem “Gatilho” contra a vida do 272. Não era exatamente homicídio. Estava perto disso, no entanto. Apertou maldosamente sua buzina-de-serra tripla ao passar por um quatro portas comum, ingressou no cruzamento circular com uma derrapagem seca desnecessária, girou violentamente o volante fazendo a correção e apontou o nariz do Bentley em direção do brilho distante que era o Aeroporto de Londres.
O edifício feio de seis andares na esquina da Kochstrasse e da Wilhelmstrasse era o único de pé na desolação de um espaço vazio bombardeado. Bond pagou o táxi e gravou uma breve impressão de capim, alto como a cintura, e de paredes de entulho mal reparadas, estendendo-se na direção de um grande cruzamento deserto iluminado por um feixe central de lâmpadas amareladas em arco, antes de apertar o botão para o quarto andar e imediatamente ouviu o clique do dispositivo que abria a porta do prédio. A porta fechou-se atrás dele e caminhou então sobre o chão de cimento sem tapete até o antiquado elevador. O cheiro de repolho, cigarro barato e suor rançoso lembravam outros prédios de apartamentos na Alemanha e Europa Central. Até o arrastar e o guincho fraco do elevador vagaroso eram parte de centenas de missões em que tinha sido lançado por M, como um projétil, a algum alvo distante onde um problema aguardava a sua chegada, à espera de ser resolvido por ele. Pelo menos desta vez o comitê de recepção estava do seu lado. Desta vez não havia nada a temer no fim da escada.
O número 2 da Estação W.B. de Serviço Secreto era um homem esguio e tenso de quarenta e poucos anos. Vestia o uniforme de sua profissão — terno bem cortado e bem usado de tweed leve ponto pé-de-pato num tom verde-escuro, camisa de seda macia branca e uma velha gravata de colégio — neste caso de Wykeham. Ao ver a gravata, enquanto trocavam as saudações convencionais no pequeno saguão mofado do apartamento, o ânimo de Bond, já baixo, desceu mais um degrau. Conhecia esse tipo: espinha dorsal do Serviço Público; superestudioso e mal-amado em Winchester; um bom segundo em P.P.E. em Oxford; a guerra, cargos funcionais que teria ocupado meticulosamente; talvez uma Ordem do Império Britânico; Comissão do Controle Aliado na Alemanha, onde fora recrutado no Ramo I e a partir de então — porque era o funcionário ideal e A. 1 junto à Segurança e porque pensava em encontrar vida, drama, romance, todas as coisas que nunca linha tido — lá fora ele para o Serviço Secreto. Um homem sóbrio, cuidadoso se fizera necessário para bancar a dama de companhia de Bond neste negócio feio. O Capitão Paul Sender, que já servira na Guarda Galesa, tinha sido a escolha óbvia. E tinha aceitado. Agora, como bom Wykehamista, escondia o seu desagrado pelo serviço debaixo de uma conversa cuidadosa e banal enquanto mostrava a Bond a planta do apartamento e as providências tomadas para a prontidão do carrasco e, numa medida modesta, para o seu conforto.
O apartamento consistia de um amplo dormitório conjugado, um banheiro e uma cozinha equipada de enlatados, leite, manteiga, ovos, chá, bacon, pão e uma garrafa de Dimple Haig. O único detalhe estranho no quarto de dormir era que uma das camas duplas estava encostada em ângulo contra as cortinas que cobriam o amplo janelão único e sobre ela se empilhavam três colchões cobertos pela roupa de cama.
O Capitão Sender disse: — Gostaria de dar uma olhada ao campo de fogo? Poderei então explicar o que é que o lado de lá tem em mente.
Bond estava cansado. Não desejava especialmente ir dormir com a imagem do campo de batalha na memória. Disse: — Seria ótimo.
O Capitão Sender apagou as luzes. Faixas luminosas das lâmpadas no cruzamento apareceram em volta das cortinas. — Não quero puxar as cortinas — disse o Capitão Sender. — É pouco provável, mas eles podem ter sido alertados contra um grupo de cobertura para o 272. Queria que você apenas se deitasse na cama e enfiasse a cabeça por baixo das cortinas. Explicarei o que você estiver vendo. Olhe para a esquerda.
Era uma janela de guilhotina e a metade inferior estava aberta. Os colchões, especialmente escolhidos, só cediam um pouco e James Bond encontrou-se mais ou menos na posição de tiro que tinha adotado em Century Range, mas agora olhava através de terreno descontínuo, coberto de densa vegetação e bombardeado, na direção do rio de luz que era a Zimmerstrasse — a fronteira com a Berlim Oriental. Parecia a umas cento e cinquenta jardas de distância. A voz do Capitão Sender acima dele e por trás da cortina começou a recitar. Lembrava a Bond uma sessão espírita.
— Ali é terreno bombardeado à sua frente. Bastante cobertura. Umas cento e trinta jardas até a fronteira. Depois a fronteira — a rua — e então um trecho grande ainda de terreno bombardeado no campo do inimigo. É por isso que o 272 escolheu essa passagem. É um dos poucos locais na cidade em que o terreno é descontínuo — capinzais cerrados, muros em ruínas, porões — nos dois lados da fronteira. Ele deverá es-gueirar-se entre aquela confusão do outro lado e arremessar-se através da Zimmerstrasse até alcançar a confusão do nosso lado. O problema é que terá de correr trinta jardas de fronteira fortemente iluminada. Será o espaço da matança. Certo?
Bond disse: — Sim.
Disse-o com suavidade. O cheiro do inimigo, a necessidade de tomar cuidado, já estavam atuando sobre seus nervos.
— À sua esquerda, aquele novo e imenso bloco de dez andares é a Haus der Ministerien, o grande centro cerebral de Berlim-Leste. Você pode ver que as luzes ainda estão acesas na maioria das janelas. A maior parte delas ficará assim toda a noite. Esses sujeitos trabalham mesmo — seus turnos dão a volta no relógio. Você provavelmente não precisará preocupar-se com as janelas acesas. Esse fulano “Gatilho” certamente vai atirar de uma das janelas escuras. Você verá que existe um grupo de quatro, juntas, na quina acima do cruzamento. Ficaram escuras na noite passada e esta noite. Elas têm o melhor campo de fogo. Daqui, o seu alcance varia entre trezentas e trezentas e dez jardas. Estou com todos os números e dados quando você quiser. Não é preciso preocupar-se muito mais. Aquela rua fica vazia durante a noite — apenas as patrulhas motorizadas cerca de cada meia hora — carros blindados leves com uma dupla de motocicletas por escolta. Na noite passada, que suponho normal, entre seis e sete, que é a hora em que se fará este serviço, havia umas poucas pessoas entrando e saindo por aquela porta lateral. Uns funcionários. Antes disso nada fora do comum — o fluxo costumeiro de pessoas entrando e saindo de um edifício de governo movimentado — com exceção, veja só, de uma miserável orquestra completa de mulheres. Fizeram uma confusão infernal numa sala de concertos que tem ali. Parte do bloco aloja o Ministério da Cultura. Fora disso nada — certamente nenhuma das pessoas da KGB que conhecemos, nem sinais de preparação para um serviço deste gênero. Mas nem pode haver sinais. São muito cuidadosos estes sujeitos da oposição. De qualquer maneira, dê uma boa olhada. Não esqueça que agora está mais escuro do que amanhã por volta das seis. Mas você pode formar um quadro geral.
Bond formou o quadro geral e o quadro ficou com ele muito tempo enquanto o outro homem já dormia e ressonava suavemente com um pequeno som regular que lembrava um fraco estalido — um ronco Wykehamista, refletiu Bond irritado.
Sim, tinha formado o quadro — o quadro de um lampejo movimento entre as ruínas sombreadas no outro lado do brilhante rio de luz, uma pausa, e então a desesperada corrida em ziguezague de um homem sob o impacto luminoso das lâmpadas, o espocar da arma de fogo e, ou um fardo retorcido espalhado no meio da rua larga, ou então a investida sempre em frente através do capinzal e do entulho no Setor Ocidental — morte súbita ou volta a casa. O grande desafio! Quanto tempo teria Bond para localizar o tocaia russo numa daquelas janelas escuras? E para matá-lo? Cinco segundos? Dez? Quando o amanhecer começava a cobrir as cortinas com o tom metálico das armas, Bond capitulou para sua mente agitada. Ela tinha ganho. Foi em silêncio até o banheiro e inspecionou as fileiras de remédios que um prestimoso Serviço Secreto tinha providenciado para manter o seu carrasco em boa forma. Escolheu o Tuinal, engoliu duas das cápsulas concentradas, rubis e azuis, com um copo de água e voltou à cama. Então, chumbado, dormiu.
Acordou ao meio-dia. O apartamento estava vazio. Bond abriu as cortinas para deixar entrar o dia cinzento prussiano e, de pé a uma boa distância da janela, ficou vendo a monotonia de Berlim e ouvindo o ruído dos bondes e o arranhar distante dos trens da U-Bahn na grande curva de entrada da estação do Zoo. Lançou um olhar rápido e relutante ao que já tinha examinado na noite anterior, notou que o capim no entulho de bombardeio era mais ou menos o mesmo de Londres — loendro, labaçol e samambaia — e dirigiu-se então à cozinha. Havia uma nota apoiada numa fatia de pão: “Meu amigo (eufemismo do Serviço Secreto que neste contexto significava o chefe de Sender) diz que não há mal em você sair. Mas esteja de volta às 17 horas. Seu equipamento (outra palavra para o rifle de Bond) chegou e o bagageiro a entregará esta tarde. P. Sender.”
Bond acendeu o fogão a gás e queimou a mensagem com desprezo por sua profissão e em seguida preparou um prato enorme de ovos mexidos e bacon que amontoou sobre uma torrada coberta de manteiga e comeu com acompanhamento de café preto no qual derramara uma porção liberal de uísque. Depois tomou um banho e barbeou-se, vestiu as roupas descoloridas, centro-europeias e anônimas que tinha trazido para a sua missão, olhou a sua cama em desordem, decidiu que tudo fosse para o inferno e desceu pelo elevador deixando o edifício.
James Bond sempre achara Berlim uma cidade deprimente e hostil, esmaltada no lado Ocidental com o verniz superficial de um polimento pretensioso parecido com os enfeites cromados dos carros americanos. Caminhou até a Kurfurstendamm, sentou-se no Café Marquardt, tomou um expresso e ficou observando com tédio as filas obedientes de pedestres esperando o sinal “Siga” nos postes de trânsito enquanto a corrente luminosa de carros continuava a sua perigosa quadrilha na movimentada intersecção. Fazia frio lá fora e o vento cortante das estepes russas fustigava as saias das garotas e os impermeáveis dos homens impacientes e apressados, cada um com a infalível pasta enfiada debaixo do braço. Os aquecedores de parede infravermelhos do café apontavam o vermelho para baixo e davam um brilho espúrio ao rosto dos cafeinômanos que degustavam sua tradicional “uma xícara de café e dez copos de água”, lendo de graça os jornais e revistas presos por paus, ou se curvavam com seriedade sobre papéis de negócios. Bond, fechando o pensamento para a noite, discutia consigo mesmo as maneiras de passar a tarde. Finalmente chegou à escolha entre uma visita àquela casa de respeitável fachada de pedra, na Clausewitzstrasse, conhecida de todos os porteiros e choferes de táxi, ou um passeio ao Wannsee e uma vigorosa caminhada no Grunewald. A virtude triunfou. Bond pagou o café, saiu no frio e tomou um táxi até a estação do Zoo.
As belas arvorezinhas jovens em volta do lago extenso já tinham sido tocadas pelo sopro do outono e havia um dourado aqui e ali no meio do verde. Bond caminhou com energia durante duas horas pelas veredas cobertas de folhas e então escolheu um restaurante com terraço envidraçado sobre o lago e saboreou com prazer um chá reforçado consistindo de uma porção dupla de arenques do Norte mergulhados em creme e anéis de cebola, e dois Molle mit Korn, o equivalente berlinense de um “fabricante de caldeiras e seu assistente” — schnapps, duplos, acompanhados por um chope Löwenbräu. Sentindo-se então mais animado tomou a S-Bahn para voltar à cidade.
Em frente do prédio de apartamentos, um jovem indefinível estava mexendo no motor de um Opel Kapitan negro. O jovem não tirou a cabeça debaixo do capo quando Bond passou bem perto dele e subiu até a porta e apertou o botão.
CONTINUA
Quando chegou embaixo, sentou-se no musgo, sob os abetos. Estendeu no chão a camisa, colocou no centro dela as barras de ouro e fez uma trouxa, amarrando bem as fraldas e as mangas. Depois, cavou um buraco no chão e enterrou a caixa metálica vazia. E vergando ao peso, quase dobrado em dois, caminhou pela estreita trilha, entre os pinheiros, rumo ao jipe. Até aquele dia não conseguira saber como tivera forças para alcançar o veículo. Os nós que dera na trouxa pareciam penetrar nas carnes de seu ombro, sob o peso das barras de ouro. Quando, finalmente, alcançou o jipe, quase teve um colapso, tão exausto estava. Mas não podia descansar, ainda. Precisava sair dali para enterrar o seu tesouro na floresta, perto de um grupo de grandes rochas, onde lhe seria fácil encontrá-lo de novo, na ocasião oportuna em dia, quando o horizonte estivesse limpo, voltaria, por outra rota, evitando o chalé de Oberhauser. Só então, terminado tudo, fora embebedar-se com uma garrafa de schnapps barato. Jantou e meteu-se na cama, para dormir como uma pedra. No dia seguinte, a Força A da DAG seguiu para o vale do Mittersill. Seis meses depois o Major Smythe estava em Londres. A sua guerra havia terminado. Mas os seus problemas, não. Ouro era coisa difícil de contrabandear, principalmente em grande quantidade. E era essencial que o Major Smythe transferisse as suas barras para um novo esconderijo. Por isso, ele procurou evitar a desmobilização e gozar os privilégios de seu comissionamento temporário, sobretudo o seu passe do Serviço Secreto Militar. Conseguiu ser mandado de volta para a Alemanha, como representante da Inglaterra no Centro Misto de Investigação de Munique. Aí, trabalhou durante seis meses e, nesse período, teve a oportunidade de recuperar o ouro, que levou para o seu alojamento numa velha valise. Depois, em dois fins de semana, fez viagens aéreas para Londres, levando, de cada vez, uma barra de ouro, em sua volumosa pasta. A caminhada nos aeroportos de Munique e de Londres, com a pasta sob o braço, como se contivesse apenas papéis, exigira dois tabletes de benzedrina e uma vontade de ferro. Finalmente, pôde esconder sua fortuna no porão da casa de uma tia, em Kensington, e assim, com tranquilidade, pôde desenvolver a parte final de seus planos. Pediu reforma nos Fuzileiros Reais e, uma vez desmobilizado, casou-se com uma das muitas moças com quem tivera aventuras durante o serviço da DAG, uma graciosa Wren chamada Maria Parnell. Comprou passagem para ambos num cargueiro para a Jamaica, que representava, para ambos, um paraíso ensolarado, com boa e farta comida, bebida barata, sem a melancolia e as restrições impostas na Inglaterra, após a guerra, pelo severo governo trabalhista. Antes do embarque, o Major Smythe mostrou a Mary as barras de ouro, das quais já havia raspado a cinzel os símbolos do Reichsbank.
— Tenho sido muito econômico e esperto, meu bem — disse ele. — Não confio na libra. Por isso, vendi todas as minhas ações e comprei um bocado de ouro. Teremos pelo menos 20 mil libras, se eu o vender bem. Isso basta para nos assegurar uma boa vida, até o fim dos nossos dias. Sempre que for preciso, eu venderei um pouquinho — explicou.
Mary Parnell não era familiarizada com as leis monetárias. Mas se ajoelhou e passou as mãos, carinhosamente, sobre as barras de ouro. Depois, com os braços ao redor do pescoço do marido, beijou-o e disse, quase em lágrimas: — Você é um homem maravilhoso... Sim, maravilhoso! Terrivelmente inteligente, bonito, simpático, herói da guerra e, além do mais, rico! Eu sou a garota mais feliz do mundo!
— Você tem razão pelo menos numa coisa: ricos, nós somos. Mas prometa não dizer uma só palavra a quem quer que seja! Pois, se disser, todos os ladrões da Jamaica irão rondar a nossa casa.. .
O Prince’s Club, ao pé das colinas que dominam os arredores de Kensington, era realmente esplêndido. Para os seus sócios, não havia nada melhor: maravilhosa criadagem, comida farta, bebida barata, belíssimos cenários tropicais, como nunca tinham visto antes. O casal era muito popular e os serviços de guerra do Major Smythe lhe davam ingresso na alta sociedade local e na Government House. A vida de ambos era uma série interminável de festas, misturadas com o tênis de Mary e o golfe do major (com os bastões metálicos de Henry Cotton!) durante o dia, e partidas de bridge (para ela) e de pôquer (para ele) durante as noites. Sim, era um paraíso, porque, na Inglaterra, havia racionamento, filas e mercado negro, um governo atroz e o pior inverno dos últimos trinta anos. A princípio, o casal enfrentou as despesas com as economias em dinheiro, que ambos haviam reunido, enquanto se vestiam, se alimentavam e se transportavam à custa do Exército. Só depois de um ano de cautelosas investigações é que o Major Smythe se decidiu a fazer negócio com os irmãos Fu, comerciantes importadores e exportadores. Altamente respeitados e muito ricos, os irmãos Fu eram conhecidos como uma espécie de junta governativa da comunidade chinesa da Jamaica. Ainda que alguns dos seus negócios se desviassem das boas normas, segundo a tradição chinesa, Smythe achou que poderia confiar neles. A Convenção de Bretton Woods, fixando um preço internacional para o ouro, sob rigoroso controle, tinha sido assinada deixando de parte Tânger e Macau, dois portos livres, em que a onça de ouro valia entre 99 e 100 dólares, quando nos outros lugares o preço oficial era de 35. E, para maior conveniência de seus negócios, os Fu tinham aberto um restaurante em Hong-Kong, transformado em entreposto para o contrabando de ouro para a vizinha Macau. Isso, na linguagem do Major Smythe, era sopa no mel. Ele tivera um agradável encontro com os Fu. Nenhuma pergunta estes fizeram, senão depois do exame das barras de ouro.
— Major — disse o mais velho dos irmãos —, no mercado de ouro em barras, as marcas dos bancos nacionais e dos negociantes respeitáveis são aceitos sem discussão. Essas marcas são a garantia da pureza do ouro. Mas outros bancos e outros vendedores têm seus próprios processos de refinação, que talvez, não sejam tão perfeitos...
— Quer dizer que eu fui enganado? — Perguntou, ansiosamente, o major. — Que isso não é senão uma barra de chumbo coberta de uma leve camada de ouro?
Os dois irmãos deram muxoxos tranquilizadores:
— Não, não, major... Não se trata disso. Mas, se uma pessoa não se recorda da proveniência dessas barras de ouro, por mais finas que elas sejam é sempre necessário submetê-las a um ensaio, para verificação do seu exato teor... Há muitos métodos para determinar o grau de pureza dessas barras. Meu irmão e eu somos competentes em qualquer deles. Quer deixar as barras de ouro conosco e vir saber o resultado depois do almoço? Nós lhe daremos um recibo...
Não havia alternativa. Teria que confiar nos Fu. Qualquer que fosse o preço por eles arbitrado, seria forçado a aceitar. Estava nas mãos deles. Foi a um bar, onde tomou dois drinques fortes e comeu um sanduíche que lhe ficou atravessado na garganta. Depois, voltou ao escritório refrigerado dos Fu. O cenário era o mesmo: os dois irmãos sorridentes, as duas barras de ouro, a pasta de couro, etc. Só havia a mais uma folha de papel e uma caneta-tinteiro de pena de ouro, em frente do irmão mais velho.
— Resolvemos o problema do seu ouro, major! — (Esplêndido! Obrigado, pensou Smythe.) — E estou certo de que o senhor terá interesse em conhecer sua origem...
— Claro! Qual é? — Fez o major, com uma corajosa demonstração de entusiasmo.
— São barras de ouro alemãs! Provavelmente saíram dos depósitos do Reichsbank, durante a guerra. Isso pode ser deduzido do fato de que contêm dez porcento de chumbo. Durante o regime de Hitler, o Reichsbank fez a tolice de adulterar por esse modo o seu ouro. Isso logo se espalhou e o preço das barras de ouro alemãs, vendidas na Suíça, sofreu logo uma redução de preço, correspondente à adulteração. Foi uma bobagem, que só teve um resultado: o banco nacional da Alemanha perdeu a reputação que conquistara durante séculos... Bobagem... Uma grandíssima bobagem... — Concluiu o chinês, com o seu invariável sorriso.
O Major Smythe estava maravilhado com a onisciência desses dois homens, tão afastados dos grandes canais de comércio do mundo. Mas ao mesmo tempo os amaldiçoava, intimamente. E agora?
— É muito interessante, Sr. Fu... Mas isso não é uma boa notícia para mim. Essas barras de ouro me foram entregues como coisa cem por cento...
— Não tem importância, major — disse o mais velho dos Fu. — Ou melhor, quase não tem importância. Venderemos o seu ouro pelo justo valor, ou seja, 89 dólares a onça. Terá que ser, ou não, refinado pelo último comprador. Mas isso não é da nossa conta. Nós o venderemos também como cem por cento...
— Mas a um preço mais baixo...
— Realmente, major. Mas creio que temos uma boa notícia para o senhor. Quanto calculava obter com essas duas barras?
— Cerca de 20 mil libras...
— Se as vendermos bem e aos pouquinhos — disse o mais velho dos Fu —, o senhor receberá mais de 100 mil dólares, major, sujeitos, é claro, ao desconto da nossa comissão, que inclui o transporte e outras despesas.
— E a quanto montará isso?
— Estou pensando em fixar em 10 por cento, major. Se lhe parecer satisfatório...
O Major Smythe tinha a impressão de que vendedores de ouro em barras recebiam apenas um por cento de comissão. Mas, que diabo, antes do almoço já estava disposto a largar tudo até por 10 mil libras. Disse “fechado” e levantou-se, estendendo a mão através da mesa. Desde então, de quatro em quatro meses, ia visitar o escritório dos Fu, levando uma valise vazia. Havia sempre quinhentas libras novas, da emissão da Jamaica, em pacotes, sobre a mesa, à sua espera, e um recibo da quantidade vendida, com o preço alcançado em Macau. As barras de ouro diminuíam de tamanho, de polegada em polegada. O negócio era simples e cordial. Duas mil libras limpas, por ano, eram o bastante para ele, e só o afligia a possibilidade de que o pessoal do imposto de renda começasse a apertá-lo, para saber do que estava vivendo. Ele disse isso aos Fu, que lhe fizeram saber que não precisava se preocupar. Nas duas vezes seguintes, havia apenas quatrocentas libras na mesa, mas nenhum comentário foi feito, por qualquer dos lados. E assim os dias iam se passando, preguiçosamente. Os Smythes engordavam e o major teve a primeira das duas complicações das coronárias. O médico lhe recomendou uma vida menos ativa, com menos álcool e menos cigarros. Evitasse, também, as gorduras e as comidas fritas. A princípio, Mary tentou ser severa com ele, mas quando o marido começou a beber escondido e a inventar pequenas mentiras e evasivas, ela recuou desse propósito. Teve medo de se transformar numa chata doméstica, a quem o Major Smythe passaria a evitar. Por isso, deu-lhe inteira liberdade, sabendo que ele não mais a amava, e quando a sua solidão se tornou demasiada e as insônias intoleráveis, viciou-se em tomar soníferos. Uma noite, depois de uma violenta briga, estando ambos embriagados, tomou ela uma dose excessiva, só “para dar-lhe uma lição”. A dose era tão exagerada que a matou. O suicídio foi dissimulado, mas ainda assim recaíram suspeitas sobre o major, em prejuízo de sua reputação social. E a tal ponto que ele teve de se retirar para North Shore que, embora a apenas três milhas de Kensington, parece pertencer a um outro mundo. Aí ele se instalou em Wavelets e, depois da segunda complicação das coronárias, começou a beber desenfreadamente. Foi então que entrou em cena James Bond com um mandado de prisão ou de morte no bolso.
O Major Smythe olhou para o relógio. Passavam alguns minutos do meio-dia. Ele se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale e foi para o jardim. James Bond estava sentado sob a frondosa amendoeira, olhando para o lar. Nem se voltou para o Major Smythe quando este puxou outra cadeira de alumínio e colocou o copo na relva, perto dele. Quando o Major Smythe acabou de narrar a sua história, James Bond disse, sem demonstrar qualquer emoção: — Era mais ou menos isso o que eu havia pensado...
— Quer que eu escreva tudo ou apenas assine?
— Faça como quiser. Mas isso não se entende comigo. Deve entregar à Corte Marcial. Seu velho Corpo de Fuzileiros Reais é que vai tomar conta do caso. Não tenho nada que ver com os aspectos legais. Farei apenas um relatório do que me disse, para a Procuradoria da Justiça, através da Scotland Yard...
— Posso perguntar uma coisa? Como foi que descobriu?
— A geleira era pequena. O corpo de Oberhauser chegou embaixo no início deste ano, quando as neves da primavera derreteram. Alguns alpinistas o encontraram. Todos os seus papéis e tudo o mais estava perfeito. A família o identificou. Depois, foi só uma questão de recuar no tempo. O calibre das balas deu logo a pista...
— Mas como se envolveu neste assunto?
— A Força da DAG era uma das minhas responsabilidades, um dos meus serviços. Quando o assunto chegou ao meu conhecimento, fui dar uma busca nos arquivos. Como tinha tempo livre, pedi que me entregassem a missão de descobrir o autor da morte de Oberhauser...
— Por quê?
— Porque — e James Bond fixou os olhos do Major Smythe — acontece que Oberhauser era um velho amigo meu. Foi quem me ensinou a esquiar quando eu tinha pouco mais de dez anos. Era um esplêndido sujeito. Foi uma espécie de pai para mim, precisamente na época em que eu mais precisava de um...
— Compreendo. — E o Major Smythe desviou o olhar. — Sinto muito...
James Bond se levantou:
— Bem, preciso voltar a Kensington. — E levantou a mão, para deter o major. — Não, não precisa incomodar-se. Sei onde o carro ficou... — Olhou para o homem mais velho e disse, rispidamente, quase com brutalidade: — Dentro de uma semana, alguém virá buscá-lo...
E caminhou, em passos firmes, sem se voltar, pela alameda afora. O major ouviu o ruído do arranque do motor e o chiado dos pneus do táxi nas pedrinhas miúdas da estrada.
Agora, ele procurava a sua presa, ao longo do recife de coral, pensando exatamente no sentido das palavras de James Bond. E sorriu por trás da máscara Pirelli. Era uma versão nova de um velho dramalhão, que consistia em deixar uma pistola com o oficial culpado, para que este mesmo estourasse os miolos. Se James Bond quisesse, poderia ter telefonado para a Government House e pedido um oficial de igual patente do Regimento da Jamaica para levar preso o Major Smythe. De certo modo, o seu gesto fora decente. Ou não fora? Um suicídio era mais limpo, economizava uma porção de trabalho e de papéis, que consumiriam o dinheiro dos contribuintes. Devia agradecer a James Bond a solução que ele parecia sugerir? Acaso encontraria Mary no lugar para onde vão as almas dos suicidas? Ou era melhor a Corte Marcial, a indignidade, as formalidades cacetes, as manchetes, o aborrecimento e a solidão de uma prisão perpétua, da qual só o livraria a terceira crise das coronárias? Poderia defender-se: era tempo de guerra, lutara com Oberhauser no alto da montanha, ele era um prisioneiro e tentara fugir... Oberhauser sabia do esconderijo do dinheiro... E ele, pobre oficial dos Comandos, tantas vezes arriscando a vida pela pátria, fora fraco e não resistira à tentação... Poderia entregar-se dramaticamente à misericórdia do Tribunal Militar... Um coronel certamente seria designado para defendê-lo e o faria com a maior eloquência. Poderia haver um apelo à Corte Suprema. Seu caso comoveria a Inglaterra e se tornaria uma cause célebre. Venderia sua história, com as reminiscências de guerra, aos grandes jornais... Mas...
Cuidado, meu velho! Cuidado! Seus pés agora tocavam o chão, sob as ondas que encrespavam a superfície da praia de North Shore. Por onde estariam os peixes-escorpiões? O polvinho querido estava faminto, esperando o seu almoço. Apurando a vista, perto do recife de coral, o Major Smythe viu as antenas de um lagostim, acenando inquisitivamente para ele. Normalmente, ele se esqueceria de tudo, para capturar o lagostim, que era, talvez, o maior que até então encontrara. Mas agora só tinha uma preocupação: a de descobrir a silhueta irregular e provocante do peixe-escorpião. Só depois de mais dez minutos de busca encontraria o primeiro. Os olhos vermelhos e zangados do peixe, muito abertos, o observavam. Para fisgá-lo, com o arpão, teria que fazer uma investida rápida, na vertical, firme e certeira. Sabia que as agulhas envenenadas se projetariam para fora da cabeça pontiaguda do monstro. Tinha que se mover lentamente, na direção do peixe, usando o braço livre para nadar. E... Agora! Avançou, para a frente e para baixo, mas o peixe-escorpião sentira a aproximação do arpão antes que este o tocasse. Uma lufada de areia se levantou do fundo do mar, atingido pelo golpe. E qualquer coisa roça em seu corpo, dando a impressão do voo de um pássaro. O major praguejou e fez meia volta, dentro da água. Sim, o peixe-escorpião fizera o que tantas vezes fazia: fora buscar refúgio entre as algas e as rochas, confiante em sua soberba camuflagem. O major voltou à carga, em novo mergulho, dessa vez ainda mais atento, e zás! O peixe-escorpião se agitava, agora, na ponta do arpão. A excitação foi tão grande que o Major Smythe vacilou e sentiu a antiga dor oprimir-lhe o peito. Pôs-se de pé, firmou o arpão contra a areia, atravessando inteiramente a presa, que ainda se agitava desesperadamente, e dirigiu-se à praia, indo sentar-se num banco de madeira, ao lado do qual atirou o peixe, fisgado, a se debater. Uns cinco minutos depois, o Major Smythe sentiu uma curiosa dormência na região do plexo solar. Olhou para baixo e estremeceu, de horror e incredulidade. Uma região de sua pele, com o tamanho aproximado de uma bola de críquete, tornara-se impressionantemente branca, a despeito do bronzeado de seu busto. No centro dessa área, havia três pequenas manchas sanguíneas. Automaticamente, o Major Smythe limpou o sangue. Os furos eram do tamanho de picadas de agulhas. Ele se lembrou, então, da fuga do peixe-escorpião, quando tentara arpoá-lo da primeira vez, e exclamou alto, com pavor, mas sem animosidade: — Tu me apanhaste, bastardo! Tu me apanhaste!
Imóvel, olhava para o próprio corpo, recordando-se do que lera sobre os ferrões do peixe-escorpião no livro que tomara emprestado à biblioteca do Instituto e nunca devolvera — Perigosos Animais Marinhos, publicação norte-americana. Tocou delicadamente a pele da área atingida. Sim, a pele se tinha tornado intumescida e de todo insensível, mas por baixo começava a sentir dor. Em breve essa dor profunda e intensa percorreria o seu corpo inteiro, tão lancinante que o seu único desejo seria o de deitar-se na areia, gritando e rolando, para abafá-la. Vomitaria e deitaria espuma pela boca, teria delírio e convulsões, até perder a consciência. Então, sobreviria, inevitável, o colapso cardíaco mortal. De acordo com o livro, o ciclo completo desses tormentos não passaria de um quarto de hora. Era tudo quanto lhe restava: quinze minutos de atroz agonia! Haveria cura, é claro — com procaínas, antibióticos e anti-histamínicos —, se seu coração debilitado suportasse tais medicamentos. Mas estes deviam estar à mão. Mesmo que conseguisse chegar em casa e admitindo que Jimmy Greaves dispusesse de todos esses remédios modernos, ele não poderia alcançar Wavelets antes de uma hora.
A primeira descarga de dor fez o corpo do Major Smythe dobrar-se sobre si mesmo. Depois outra e mais outra, irradiando-se através do estômago e dos membros. Sentia um gosto metálico na boca e uma coceira insuportável nos lábios. Deixou escapar um gemido e saltou do banco para a praia. Sobre a areia, ainda arquejava o peixe-escorpião. Houve uma trégua nos espasmos da dor. Seu corpo inteiro estava em fogo. Apesar da agonia o raciocínio permanecia claro. Mas, ora essa! Ia esquecendo a experiência! Devia ir à loca do polvo, para servir seu almoço! “Polvo, polvinho, vai ser a última refeição que eu te dou!”, dizia a si mesmo o Major Smythe, ajustando a máscara no rosto. Depois, apanhou o arpão, com o peixe espetado e, apertando o estômago com a mão livre, caminhou pela água adentro e, depois, mergulhou junto ao recife de coral. Poucas jardas o separavam agora do polvo. E foi gritando dentro da máscara, arrastando-se, quase de joelhos, que ele as percorreu. À medida que a água se tornava mais profunda, a dor se fazia mais intensa e seus movimentos pareciam com os de um fantoche, impulsionado por um feixe de cordéis. Só a poder de uma grande força de vontade pôde continuar rumo à morada do polvo. Sim, a sua massa escura ainda estava lá! E parecia excitadíssima. Por quê? O Major Smythe viu que as feridas de seu peito vertiam filetes de sangue escuro, que se diluía na água do mar. Era claro! O querido polvo sentira o gosto do seu sangue. Uma descarga de dor atingiu o major e o fez vergar-se. Disse a si mesmo, em delírio: “Que é isso, Dexter?! Firme, meu velho. Você tem que dar almoço ao polvinho”. Endireitou-se, empunhando o arpão com firmeza e aproximando o peixe da toca do polvo. Aceitaria ele a isca envenenada que o Major Smythe lhe oferecia e à qual talvez um octópode poderia ser imune? Ah, se Bengry estivesse presente, para observar! Três tentáculos, ondulando excitadamente, saíram da loca e passearam ao redor do peixe-escorpião. Agora, havia uma espécie de nevoeiro diante dos olhos do Major Smythe. Reconhecendo estar à beira da inconsciência, ele agitou fracamente a cabeça, para dissipá-lo. E, então, os tentáculos deram um salto! Mas não para o peixe: apertaram a mão e o braço que empunhavam o arpão. A boca do Major Smythe se torceu, numa careta de prazer. Agora, ele e o polvo podiam se apertar as mãos! Como era excitante! Que coisa maravilhosa! Mas o polvo, calma e implacavelmente, continuou a enroscar os seus tentáculos e a chamar a si o corpo do major. Só então Smythe compreendeu que algo de terrível ia acontecer. Fez um apelo a todas as suas forças e tentou golpear o octópode com o arpão. Mas tudo quanto conseguiu foi bater com o peixe-escorpião na massa escura do polvo. E, com o movimento que fez, ofereceu-se ainda mais a este, que o atraía de forma inexorável. Tarde demais o Major Smythe retirou sua máscara. Conseguindo alcançar a superfície, soltou um grito que reboou pela baía deserta, mas logo foi puxado para baixo. E, depois de algumas bolhas de ar, vieram à tona as pernas do major. As ondas lavavam o seu corpo, enquanto o polvo fazia a primeira tentativa para devorá-lo. O resto de Smythe foram encontrados por dois jovens da Jamaica, que pescavam peixes-agulhas numa canoa. Eles mataram o polvo, recolheram o arpão do Major Smythe com o peixe-escorpião e levaram os três despojos para a praia. O cadáver do major foi entregue à polícia e o peixe-escorpião aproveitado para a ceia. O destino do polvo de estimação seria também a panela ... O correspondente do Daily Gleaner em North Shore comunicou que o Major Smythe tinha sido morto por um polvo. Mas a redação do jornal, para não alarmar os turistas, preferiu dizer que ele “fora encontrado afogado”. Mais tarde, em Londres, James Bond, embora certo de que se tratara de um suicídio, anotou no dossier Oberhauser a versão do afogamento, com a respectiva data, na última página, o que encerrava o assunto. Somente pelas notas do Dr. Greaves sobre a autópsia, por ele mesmo realizada, é que foi possível escrever esta espécie de post-scriptum sobre o estranho e patético fim do outrora corajoso e útil oficial do Serviço Secreto.
Encontro em Berlim
(THE LIVING DAYLIGHTS)
James Bond estendia-se em posição na marca das quinhentas jardas da famosa linha de tiro Century Range, em Bisley. A pequena estaca branca na grama a seu lado dizia 44 e o mesmo número se repetia bem alto no talude distante acima do solitário alvo de seis pés quadrados que, ao olho humano e no crepúsculo do fim de verão, não parecia maior que um selo de correio. Mas a luneta de Bond, uma Sniperscope infravermelha fixada sobre o seu rifle, cobria todo o quadro. Ele podia até distinguir com clareza as cores azul-pálido e bege em que se dividia o alvo, e a mosca semicircular de seis polegadas parecia tão grande como a meia lua que já começava a se mostrar baixa no céu que escurecia acima da crista remota de Chobham Ridges.
O último tiro de James Bond fora um esquerdo interno — não o satisfizera. Deu uma outra olhada às bandeiras de vento amarelas e azuis. Tremulavam do leste através da linha de tiro mais intensamente do que quando tinha começado o seu tiro meia hora antes, e ele mudou o anemômetro dois pontos para a direita e assestou os dois fios cruzados da Sniperscope de volta ao foco de mira. Instalou-se então, colocou o indicador de leve dentro da guarda e sobre a curva do gatilho, prendeu a respiração e muito, muito suavemente apertou.
O estampido vicioso ecoou ao longo do campo vazio. O alvo desapareceu abaixo do solo e imediatamente o “boneco” tomou o seu lugar. Sim, a marca negra estava embaixo no canto direito desta vez, não no canto esquerdo: mosca.
— Bom — disse a voz do oficial chefe da linha, atrás e acima dele. — Fique com a mira.
O alvo já subira de novo e Bond recolocou a bochecha sobre o trecho quente da volumosa coronha de madeira e o olho na borracha que cerca a ocular da luneta. Enxugou a mão de atirar contra o lado das calças e pegou na coronha da pistola que sobressaía angulosamente da guarda do gatilho. Abriu de uma polegada o ângulo das pernas. Agora haveria cinco descargas rápidas. Era interessante ver se isso não provocaria “desgaste”. Ele achava que não. Esta arma extraordinária que o armeiro tinha descoberto sabe lá como dava à gente a sensação de que um homem de pé à distância de uma milha seria prato fácil. Era mais um rifle Experimental de Alvo Internacional, calibre 308, construído pela Winchester para ajudar os ases americanos do tiro em campeonatos mundiais, e tinha os dispositivos usuais das armas de alvo superacuradas — uma “mão” espiralada de alumínio nas costas da coronha que se estendia debaixo da axila e mantinha a arma com firmeza junto ao ombro, e uma pequena roda dentada ajustável abaixo do centro de gravidade do rifle para permitir que ele “se agarrasse” ao sulco do seu descanso de madeira. O armeiro tinha mandado trocar o ferrolho de tiro único usual por um depósito de cinco tiros, e tinha garantido a Bond que se ele deixasse apenas dois segundos entre cada tiro para estabilizar a arma não haveria desgaste, mesmo a quinhentas jardas. Para o serviço que devia fazer, Bond achava que dois segundos poderiam representar uma perda perigosa de tempo se errasse o seu primeiro tiro. De qualquer forma, M dissera que a distância não seria maior que trezentas jardas. Bond encurtaria o tempo para um segundo — fogo quase contínuo.
— Pronto?
— Sim.
— Vou à contagem regressiva de cinco. Agora! Cinco, quatro, três, dois, um. Fogo!
O chão tremeu ligeiramente e o ar silvou enquanto as cinco cápsulas velozes de cuproníquel varejavam o crepúsculo. O alvo baixou e rapidamente voltou a erguer-se condecorado com quatro pequenos discos brancos agrupados bem juntos na mosca. Não houve nenhum quinto disco — nem mesmo um negro para indicar um interno ou externo.
— A última descarga foi baixa — disse o chefe da linha baixando seus binóculos noturnos. — Obrigado pela contribuição. Limpamos a areia atrás daqueles alvos todo fim de ano.
Nunca recolhemos menos de quinze toneladas de estilhaços em legítimo chumbo e cobre. Um bom dinheiro.
Bond tinha-se levantado. O cabo Menzies da seção dos armeiros surgiu do pavilhão do Clube de Tiro e ajoelhou-se para desmontar a Winchester e o seu descanso. Olhou para cima encarando Bond. Disse com uma ponta de crítica. — O senhor tocou a coisa um pouco rápido. A última descarga tinha de escoicear.
— Eu sei, cabo. Só queria ver com que rapidez eu podia tocar. Não quero pôr a culpa na arma. É um trabalho enxuto, infernal. Por favor, diga isso por mim ao armeiro. Agora é melhor ir andando. Você tem condução de volta a Londres, não?
— Tenho, sim senhor. Boa noite.
O oficial chefe da Linha entregou a Bond uma ficha de seu tiro — dois tiros de ensaio e depois dez descargas para cada cem jardas até as quinhentas. — Pontaria danada de boa com esta visibilidade. Você devia voltar aqui o ano que vem e tentar o Prêmio da Rainha. Hoje em dia está aberto para todos — isto é, da Comunidade Britânica.
— Obrigado. O problema é que não passo tanto tempo assim na Inglaterra. E muito obrigado por ter feito a marcação para mim.
Bond olhou para a distante Torre do Relógio. De cada lado, a bandeira vermelha de perigo e o tambor vermelho de sinalização estavam sendo arriados para mostrar que o tiroteio tinha cessado. Os braços marcavam nove e quinze. — Gostaria de oferecer-lhe um drinque, mas tenho um encontro em Londres. Podemos adiá-lo até o Prêmio da Rainha de que você estava falando?
O chefe da Linha fez que sim com a cabeça, neutramente. Ele tinha aguardado ansioso a oportunidade de conhecer mais coisas sobre este homem que surgira assim sem mais nem menos depois de uma série de avisos do Ministério da Defesa e fora em frente acertando bem mais de noventa porcento em todas as distâncias, isso depois de fechada a linha para a noite e com visibilidade entre sofrível e má. E por que tinha ele, que só oficiava no encontro anual de julho, sido escalado para estar presente? E por que lhe tinham dito para providenciar uma mosca de seis polegadas a 500 jardas para Bond, em vez da regulamentar de quinze polegadas? E por que todos esses cuidados com a bandeira de perigo e o tambor de sinalização que só se usavam em ocasiões cerimoniais? Para pressionar o homem? Para dar um clima de urgência ao tiro? Bond. Comandante James Bond. A A.N.R. certamente teria a ficha de uma pessoa que atirava tão bem assim. Não se esqueceria de dar-lhes um telefonema. Que hora estranha para um compromisso em Londres. Provavelmente uma garota. O rosto do chefe da Linha assumiu uma expressão de desagrado. O tipo do sujeito que apanhava todas as garotas que queria.
Os dois homens caminharam através da bela fachada da sede do clube além da linha de tiro até o carro de Bond que estava estacionado diante de uma reprodução em ferro do famoso “Veado em Fuga” de Landseer toda picotada de balaços. — Uma beleza de carro — comentou o chefe da Linha. Nunca vi uma carroçaria assim num Continental. Mandou fazê-la especialmente?
— Mandei. Os Sports Saloons na verdade só têm dois lugares. E muito pouco espaço para bagagem. Por isso pedi a Mulliner’s que o transformassem num verdadeiro dois-lugares e com porta-malas de sobra. Um carro egoísta, não há dúvida. Bem, boa noite. E novamente muito obrigado.
O escape roncou com saúde e as rodas traseiras cuspiram cascalho por um instante.
O oficial chefe da Linha observou os faróis rubis desaparecerem na King’s Avenue a caminho da estrada de Londres. Girou nos calcanhares e foi procurar o cabo Menzies numa busca de informação que terminaria sem frutos. O cabo permaneceu tão fechado como a grande caixa de mogno que estava colocando num Land-Rover caqui, limpo de símbolos militares. O chefe da Linha era um major. Tentou apelar para a hierarquia, mas sem êxito. O Land-Rover afastou-se rodando no rastro de Bond. O major dirigiu-se soturno aos escritórios da Associação Nacional do Rifle para tentar achar a informação que queria na biblioteca sob o nome “Bond, J.”
O compromisso de James Bond não era com uma garota. Era com um voo da B.E.A. para Hanover e Berlim. Enquanto engolia as milhas que o separavam do Aeroporto de Londres, pisando firme o grande carro a fim de ter tempo de sobra para um drinque, três drinques, antes da decolagem, apenas uma parte de sua mente fixava-se na estrada. O restante reexaminava pela enésima vez a sequência que agora o conduzia a um encontro com um aeroplano. Mas apenas um encontro provisório. Seu compromisso final numa das três próximas noites em Berlim era com um homem. Tinha que se encontrar com esse homem e infalivelmente matá-lo com um tiro.
Quando, por volta de duas e meia daquela tarde, James Bond atravessara as portas duplamente acolchoadas e sentara-se em frente do perfil voltado, do outro lado da grande escrivaninha, sentira imediatamente o perigo no ar. Não houve troca de cumprimentos. A cabeça de M afundava-se no colarinho duro numa pose churchilliana de sombria reflexão, e havia um traço de amargura nos cantos dos lábios. Girou a cadeira para encarar Bond, passou-lhe um olhar examinador como se, pensou Bond, quisesse verificar se sua gravata estava direita e o cabelo adequadamente penteado, e então começou a falar, rapidamente, atalhando suas sentenças como se desejasse ver-se livre do que estava dizendo, e de Bond, o mais depressa possível.
— O número 272. É um bom homem. Você talvez não o conheça. Pela simples razão de que ficou naquele buraco da Novaya Zemlya desde a guerra. Agora está tentando sair — carregado de material. Atômico e foguetes. E o plano deles para toda uma nova série de testes. Para 1961. Querem avivar o fogo no Ocidente. Algo a ver com Berlim. Não vejo bem o quadro mas o Foreign Office diz que se for verdade é uma coisa tremenda. Ridiculariza a Conferência de Genebra e toda essa demagogia sobre desarmamento nuclear que o bloco comunista vem fazendo. Ele conseguiu chegar até a Berlim Oriental. Mas tem praticamente toda a KGB no seu encalço — e as forças de segurança da Alemanha Oriental, é claro. Está entocado num buraco qualquer da cidade e conseguiu passar-nos uma mensagem — de que atravessaria entre seis e sete da tarde numa das três próximas noites — amanhã, depois de amanhã ou no dia seguinte. Indicou o ponto de travessia. O problema — a curva dos lábios de M, voltada para baixo, tomou-se ainda mais amarga — é que o mensageiro que ele usou fazia jogo duplo. A estação W.B. pilhou-o ontem. Por acaso. Deu sorte com um dos códigos da KGB O mensageiro será mandado de avião para julgamento, naturalmente. Mas isso não ajudará em nada. A KGB sabe que o 272 vai tentar a travessia. Sabem quando. Sabem onde. Sabem tanto quanto sabemos e nada mais. Ora, o código que deciframos ontem era um esquema de um só dia em suas máquinas. Mas conseguimos todo o tráfico daquele dia e isso foi bastante bom. Planejam alvejá-lo ao tentar a travessia. No cruzamento de ruas entre a Berlim Leste e a Oeste que nos indicou na mensagem. Estão montando uma operação daquelas — operação “Êxtase” como a chamam. Puseram o seu melhor tocaia no serviço. Tudo o que soubemos dele ó que seu nome cifrado é a palavra russa para “Gatilho”. A estação W.B. acha que é o mesmo homem já usado em outros serviços de tocaia. Um serviço de longo alcance através da fronteira. Ficará de guarda toda noite nesse cruzamento e sua missão é acertar no 272. É óbvio que eles certamente prefeririam fazer um serviço mais suave com metralhadoras e coisas do gênero. Mas Berlim está calma no momento e parece que a ordem é ficar assim. De qualquer forma — M sacudiu os ombros — eles têm confiança nesse operador “Gatilho” e o negócio vai ser assim!
— E onde é que eu entro? — James Bond tinha adivinhado a resposta, adivinhado porque M mostrava seu desagrado com a coisa toda. Ia ser trabalho sujo e Bond, porque pertencia à Seção Zero-Zero, tinha sido escolhido para fazê-lo. Perversamente, Bond queria forçar M a pôr o preto no branco. Iam ser notícias más, notícias sujas e ele não queria ouvi-las de um dos oficiais da Seção, nem mesmo do chefe do Estado-Maior. O negócio ia ser assassínio. Está bem. Que M tenha então a coragem de me dizer.
— Onde é que você entra, 007? — M olhou friamente do outro lado da escrivaninha. — Você sabe onde é que você entra. Você tem que matar esse tocaia. E tem que matá-lo antes que acerte no 272. É tudo. Está claro? — Os olhos azuis-claros permaneceram frios como gelo. Mas Bond sabia que só ficavam assim com um esforço da vontade. M não gostava de mandar qualquer homem para um homicídio. Mas, quando isso tinha de ser feito, ele sempre assumia a sua severa e fria ação de comando. Bond sabia a razão. Era para tirar um pouco da pressão, um pouco da culpa, dos ombros do matador.
Portanto Bond, que sabia dessas coisas, decidiu agora tornar fácil e rápida a tarefa de M. Levantou-se. — Está certo, sir. Suponho que o chefe do Estado-Maior tenha tudo pronto. É melhor eu ir praticar um pouco. Não seria bom errar.
Caminhou para a porta.
M disse calmamente: — Sinto ter que lhe dar essa tarefa. Serviço desagradável. Mas tem que ser bem executado.
— Farei o melhor — James Bond saiu fechando a porta atrás de si. Não gostava do serviço mas no final preferia fazê-lo a assumir a responsabilidade de mandar alguém em seu lugar.
O chefe do Estado-Maior tinha sido apenas um pouco mais simpático. — Lamento esta sua aquisição, James — dissera ele. — Mas Tanqueray foi inflexível, não tinha ninguém suficientemente bom na estação e esse não é o tipo de serviço que se pode pedir a um soldado regular para fazer. Há uma porção de excelentes tiros na B.A.O.R., mas um alvo vivo requer outro tipo de coragem. De qualquer forma, liguei para Bisley e marquei um exercício para você esta noite às oito e quinze quando a linha estiver fechada. A visibilidade será mais ou menos a mesma que você terá em Berlim cerca de uma hora antes. O armeiro está com a arma — verdadeira obra de arte para alvejar, e vai mandá-la por um de seus homens. Você irá com a sua própria condução. Depois, há um voo de carreira para Berlim à meia-noite reservado em seu nome na B.E.A. Tome um táxi até esse endereço. — Entregou a Bond um pedaço de papel. — Suba ao quarto andar e encontrará o número 2 de Tanqueray à sua espera. Depois disso, sinto que você terá que esperar sentado pelos próximos três dias.
— E a arma? Esperam que atravesse a alfândega alemã com ela dentro de um saco de golfe ou coisa assim?
O chefe do Estado-Maior não tinha achado graça. — Seguirá pela mala diplomática. Você a receberá amanhã ao meio-dia. — Tinha estendido a mão até o bloco de avisos. — Bem, é melhor ir andando. Vou avisar a Tanqueray que está tudo combinado.
James Bond baixou o olhar para o rosto azul difuso do relógio no painel do carro. Dez e quinze. Com um pouco de sorte, amanhã a esta hora estaria tudo terminado. Afinal, era a vida deste homem “Gatilho” contra a vida do 272. Não era exatamente homicídio. Estava perto disso, no entanto. Apertou maldosamente sua buzina-de-serra tripla ao passar por um quatro portas comum, ingressou no cruzamento circular com uma derrapagem seca desnecessária, girou violentamente o volante fazendo a correção e apontou o nariz do Bentley em direção do brilho distante que era o Aeroporto de Londres.
O edifício feio de seis andares na esquina da Kochstrasse e da Wilhelmstrasse era o único de pé na desolação de um espaço vazio bombardeado. Bond pagou o táxi e gravou uma breve impressão de capim, alto como a cintura, e de paredes de entulho mal reparadas, estendendo-se na direção de um grande cruzamento deserto iluminado por um feixe central de lâmpadas amareladas em arco, antes de apertar o botão para o quarto andar e imediatamente ouviu o clique do dispositivo que abria a porta do prédio. A porta fechou-se atrás dele e caminhou então sobre o chão de cimento sem tapete até o antiquado elevador. O cheiro de repolho, cigarro barato e suor rançoso lembravam outros prédios de apartamentos na Alemanha e Europa Central. Até o arrastar e o guincho fraco do elevador vagaroso eram parte de centenas de missões em que tinha sido lançado por M, como um projétil, a algum alvo distante onde um problema aguardava a sua chegada, à espera de ser resolvido por ele. Pelo menos desta vez o comitê de recepção estava do seu lado. Desta vez não havia nada a temer no fim da escada.
O número 2 da Estação W.B. de Serviço Secreto era um homem esguio e tenso de quarenta e poucos anos. Vestia o uniforme de sua profissão — terno bem cortado e bem usado de tweed leve ponto pé-de-pato num tom verde-escuro, camisa de seda macia branca e uma velha gravata de colégio — neste caso de Wykeham. Ao ver a gravata, enquanto trocavam as saudações convencionais no pequeno saguão mofado do apartamento, o ânimo de Bond, já baixo, desceu mais um degrau. Conhecia esse tipo: espinha dorsal do Serviço Público; superestudioso e mal-amado em Winchester; um bom segundo em P.P.E. em Oxford; a guerra, cargos funcionais que teria ocupado meticulosamente; talvez uma Ordem do Império Britânico; Comissão do Controle Aliado na Alemanha, onde fora recrutado no Ramo I e a partir de então — porque era o funcionário ideal e A. 1 junto à Segurança e porque pensava em encontrar vida, drama, romance, todas as coisas que nunca linha tido — lá fora ele para o Serviço Secreto. Um homem sóbrio, cuidadoso se fizera necessário para bancar a dama de companhia de Bond neste negócio feio. O Capitão Paul Sender, que já servira na Guarda Galesa, tinha sido a escolha óbvia. E tinha aceitado. Agora, como bom Wykehamista, escondia o seu desagrado pelo serviço debaixo de uma conversa cuidadosa e banal enquanto mostrava a Bond a planta do apartamento e as providências tomadas para a prontidão do carrasco e, numa medida modesta, para o seu conforto.
O apartamento consistia de um amplo dormitório conjugado, um banheiro e uma cozinha equipada de enlatados, leite, manteiga, ovos, chá, bacon, pão e uma garrafa de Dimple Haig. O único detalhe estranho no quarto de dormir era que uma das camas duplas estava encostada em ângulo contra as cortinas que cobriam o amplo janelão único e sobre ela se empilhavam três colchões cobertos pela roupa de cama.
O Capitão Sender disse: — Gostaria de dar uma olhada ao campo de fogo? Poderei então explicar o que é que o lado de lá tem em mente.
Bond estava cansado. Não desejava especialmente ir dormir com a imagem do campo de batalha na memória. Disse: — Seria ótimo.
O Capitão Sender apagou as luzes. Faixas luminosas das lâmpadas no cruzamento apareceram em volta das cortinas. — Não quero puxar as cortinas — disse o Capitão Sender. — É pouco provável, mas eles podem ter sido alertados contra um grupo de cobertura para o 272. Queria que você apenas se deitasse na cama e enfiasse a cabeça por baixo das cortinas. Explicarei o que você estiver vendo. Olhe para a esquerda.
Era uma janela de guilhotina e a metade inferior estava aberta. Os colchões, especialmente escolhidos, só cediam um pouco e James Bond encontrou-se mais ou menos na posição de tiro que tinha adotado em Century Range, mas agora olhava através de terreno descontínuo, coberto de densa vegetação e bombardeado, na direção do rio de luz que era a Zimmerstrasse — a fronteira com a Berlim Oriental. Parecia a umas cento e cinquenta jardas de distância. A voz do Capitão Sender acima dele e por trás da cortina começou a recitar. Lembrava a Bond uma sessão espírita.
— Ali é terreno bombardeado à sua frente. Bastante cobertura. Umas cento e trinta jardas até a fronteira. Depois a fronteira — a rua — e então um trecho grande ainda de terreno bombardeado no campo do inimigo. É por isso que o 272 escolheu essa passagem. É um dos poucos locais na cidade em que o terreno é descontínuo — capinzais cerrados, muros em ruínas, porões — nos dois lados da fronteira. Ele deverá es-gueirar-se entre aquela confusão do outro lado e arremessar-se através da Zimmerstrasse até alcançar a confusão do nosso lado. O problema é que terá de correr trinta jardas de fronteira fortemente iluminada. Será o espaço da matança. Certo?
Bond disse: — Sim.
Disse-o com suavidade. O cheiro do inimigo, a necessidade de tomar cuidado, já estavam atuando sobre seus nervos.
— À sua esquerda, aquele novo e imenso bloco de dez andares é a Haus der Ministerien, o grande centro cerebral de Berlim-Leste. Você pode ver que as luzes ainda estão acesas na maioria das janelas. A maior parte delas ficará assim toda a noite. Esses sujeitos trabalham mesmo — seus turnos dão a volta no relógio. Você provavelmente não precisará preocupar-se com as janelas acesas. Esse fulano “Gatilho” certamente vai atirar de uma das janelas escuras. Você verá que existe um grupo de quatro, juntas, na quina acima do cruzamento. Ficaram escuras na noite passada e esta noite. Elas têm o melhor campo de fogo. Daqui, o seu alcance varia entre trezentas e trezentas e dez jardas. Estou com todos os números e dados quando você quiser. Não é preciso preocupar-se muito mais. Aquela rua fica vazia durante a noite — apenas as patrulhas motorizadas cerca de cada meia hora — carros blindados leves com uma dupla de motocicletas por escolta. Na noite passada, que suponho normal, entre seis e sete, que é a hora em que se fará este serviço, havia umas poucas pessoas entrando e saindo por aquela porta lateral. Uns funcionários. Antes disso nada fora do comum — o fluxo costumeiro de pessoas entrando e saindo de um edifício de governo movimentado — com exceção, veja só, de uma miserável orquestra completa de mulheres. Fizeram uma confusão infernal numa sala de concertos que tem ali. Parte do bloco aloja o Ministério da Cultura. Fora disso nada — certamente nenhuma das pessoas da KGB que conhecemos, nem sinais de preparação para um serviço deste gênero. Mas nem pode haver sinais. São muito cuidadosos estes sujeitos da oposição. De qualquer maneira, dê uma boa olhada. Não esqueça que agora está mais escuro do que amanhã por volta das seis. Mas você pode formar um quadro geral.
Bond formou o quadro geral e o quadro ficou com ele muito tempo enquanto o outro homem já dormia e ressonava suavemente com um pequeno som regular que lembrava um fraco estalido — um ronco Wykehamista, refletiu Bond irritado.
Sim, tinha formado o quadro — o quadro de um lampejo movimento entre as ruínas sombreadas no outro lado do brilhante rio de luz, uma pausa, e então a desesperada corrida em ziguezague de um homem sob o impacto luminoso das lâmpadas, o espocar da arma de fogo e, ou um fardo retorcido espalhado no meio da rua larga, ou então a investida sempre em frente através do capinzal e do entulho no Setor Ocidental — morte súbita ou volta a casa. O grande desafio! Quanto tempo teria Bond para localizar o tocaia russo numa daquelas janelas escuras? E para matá-lo? Cinco segundos? Dez? Quando o amanhecer começava a cobrir as cortinas com o tom metálico das armas, Bond capitulou para sua mente agitada. Ela tinha ganho. Foi em silêncio até o banheiro e inspecionou as fileiras de remédios que um prestimoso Serviço Secreto tinha providenciado para manter o seu carrasco em boa forma. Escolheu o Tuinal, engoliu duas das cápsulas concentradas, rubis e azuis, com um copo de água e voltou à cama. Então, chumbado, dormiu.
Acordou ao meio-dia. O apartamento estava vazio. Bond abriu as cortinas para deixar entrar o dia cinzento prussiano e, de pé a uma boa distância da janela, ficou vendo a monotonia de Berlim e ouvindo o ruído dos bondes e o arranhar distante dos trens da U-Bahn na grande curva de entrada da estação do Zoo. Lançou um olhar rápido e relutante ao que já tinha examinado na noite anterior, notou que o capim no entulho de bombardeio era mais ou menos o mesmo de Londres — loendro, labaçol e samambaia — e dirigiu-se então à cozinha. Havia uma nota apoiada numa fatia de pão: “Meu amigo (eufemismo do Serviço Secreto que neste contexto significava o chefe de Sender) diz que não há mal em você sair. Mas esteja de volta às 17 horas. Seu equipamento (outra palavra para o rifle de Bond) chegou e o bagageiro a entregará esta tarde. P. Sender.”
Bond acendeu o fogão a gás e queimou a mensagem com desprezo por sua profissão e em seguida preparou um prato enorme de ovos mexidos e bacon que amontoou sobre uma torrada coberta de manteiga e comeu com acompanhamento de café preto no qual derramara uma porção liberal de uísque. Depois tomou um banho e barbeou-se, vestiu as roupas descoloridas, centro-europeias e anônimas que tinha trazido para a sua missão, olhou a sua cama em desordem, decidiu que tudo fosse para o inferno e desceu pelo elevador deixando o edifício.
James Bond sempre achara Berlim uma cidade deprimente e hostil, esmaltada no lado Ocidental com o verniz superficial de um polimento pretensioso parecido com os enfeites cromados dos carros americanos. Caminhou até a Kurfurstendamm, sentou-se no Café Marquardt, tomou um expresso e ficou observando com tédio as filas obedientes de pedestres esperando o sinal “Siga” nos postes de trânsito enquanto a corrente luminosa de carros continuava a sua perigosa quadrilha na movimentada intersecção. Fazia frio lá fora e o vento cortante das estepes russas fustigava as saias das garotas e os impermeáveis dos homens impacientes e apressados, cada um com a infalível pasta enfiada debaixo do braço. Os aquecedores de parede infravermelhos do café apontavam o vermelho para baixo e davam um brilho espúrio ao rosto dos cafeinômanos que degustavam sua tradicional “uma xícara de café e dez copos de água”, lendo de graça os jornais e revistas presos por paus, ou se curvavam com seriedade sobre papéis de negócios. Bond, fechando o pensamento para a noite, discutia consigo mesmo as maneiras de passar a tarde. Finalmente chegou à escolha entre uma visita àquela casa de respeitável fachada de pedra, na Clausewitzstrasse, conhecida de todos os porteiros e choferes de táxi, ou um passeio ao Wannsee e uma vigorosa caminhada no Grunewald. A virtude triunfou. Bond pagou o café, saiu no frio e tomou um táxi até a estação do Zoo.
As belas arvorezinhas jovens em volta do lago extenso já tinham sido tocadas pelo sopro do outono e havia um dourado aqui e ali no meio do verde. Bond caminhou com energia durante duas horas pelas veredas cobertas de folhas e então escolheu um restaurante com terraço envidraçado sobre o lago e saboreou com prazer um chá reforçado consistindo de uma porção dupla de arenques do Norte mergulhados em creme e anéis de cebola, e dois Molle mit Korn, o equivalente berlinense de um “fabricante de caldeiras e seu assistente” — schnapps, duplos, acompanhados por um chope Löwenbräu. Sentindo-se então mais animado tomou a S-Bahn para voltar à cidade.
Em frente do prédio de apartamentos, um jovem indefinível estava mexendo no motor de um Opel Kapitan negro. O jovem não tirou a cabeça debaixo do capo quando Bond passou bem perto dele e subiu até a porta e apertou o botão.
CONTINUA
Quando chegou embaixo, sentou-se no musgo, sob os abetos. Estendeu no chão a camisa, colocou no centro dela as barras de ouro e fez uma trouxa, amarrando bem as fraldas e as mangas. Depois, cavou um buraco no chão e enterrou a caixa metálica vazia. E vergando ao peso, quase dobrado em dois, caminhou pela estreita trilha, entre os pinheiros, rumo ao jipe. Até aquele dia não conseguira saber como tivera forças para alcançar o veículo. Os nós que dera na trouxa pareciam penetrar nas carnes de seu ombro, sob o peso das barras de ouro. Quando, finalmente, alcançou o jipe, quase teve um colapso, tão exausto estava. Mas não podia descansar, ainda. Precisava sair dali para enterrar o seu tesouro na floresta, perto de um grupo de grandes rochas, onde lhe seria fácil encontrá-lo de novo, na ocasião oportuna em dia, quando o horizonte estivesse limpo, voltaria, por outra rota, evitando o chalé de Oberhauser. Só então, terminado tudo, fora embebedar-se com uma garrafa de schnapps barato. Jantou e meteu-se na cama, para dormir como uma pedra. No dia seguinte, a Força A da DAG seguiu para o vale do Mittersill. Seis meses depois o Major Smythe estava em Londres. A sua guerra havia terminado. Mas os seus problemas, não. Ouro era coisa difícil de contrabandear, principalmente em grande quantidade. E era essencial que o Major Smythe transferisse as suas barras para um novo esconderijo. Por isso, ele procurou evitar a desmobilização e gozar os privilégios de seu comissionamento temporário, sobretudo o seu passe do Serviço Secreto Militar. Conseguiu ser mandado de volta para a Alemanha, como representante da Inglaterra no Centro Misto de Investigação de Munique. Aí, trabalhou durante seis meses e, nesse período, teve a oportunidade de recuperar o ouro, que levou para o seu alojamento numa velha valise. Depois, em dois fins de semana, fez viagens aéreas para Londres, levando, de cada vez, uma barra de ouro, em sua volumosa pasta. A caminhada nos aeroportos de Munique e de Londres, com a pasta sob o braço, como se contivesse apenas papéis, exigira dois tabletes de benzedrina e uma vontade de ferro. Finalmente, pôde esconder sua fortuna no porão da casa de uma tia, em Kensington, e assim, com tranquilidade, pôde desenvolver a parte final de seus planos. Pediu reforma nos Fuzileiros Reais e, uma vez desmobilizado, casou-se com uma das muitas moças com quem tivera aventuras durante o serviço da DAG, uma graciosa Wren chamada Maria Parnell. Comprou passagem para ambos num cargueiro para a Jamaica, que representava, para ambos, um paraíso ensolarado, com boa e farta comida, bebida barata, sem a melancolia e as restrições impostas na Inglaterra, após a guerra, pelo severo governo trabalhista. Antes do embarque, o Major Smythe mostrou a Mary as barras de ouro, das quais já havia raspado a cinzel os símbolos do Reichsbank.
— Tenho sido muito econômico e esperto, meu bem — disse ele. — Não confio na libra. Por isso, vendi todas as minhas ações e comprei um bocado de ouro. Teremos pelo menos 20 mil libras, se eu o vender bem. Isso basta para nos assegurar uma boa vida, até o fim dos nossos dias. Sempre que for preciso, eu venderei um pouquinho — explicou.
Mary Parnell não era familiarizada com as leis monetárias. Mas se ajoelhou e passou as mãos, carinhosamente, sobre as barras de ouro. Depois, com os braços ao redor do pescoço do marido, beijou-o e disse, quase em lágrimas: — Você é um homem maravilhoso... Sim, maravilhoso! Terrivelmente inteligente, bonito, simpático, herói da guerra e, além do mais, rico! Eu sou a garota mais feliz do mundo!
— Você tem razão pelo menos numa coisa: ricos, nós somos. Mas prometa não dizer uma só palavra a quem quer que seja! Pois, se disser, todos os ladrões da Jamaica irão rondar a nossa casa.. .
O Prince’s Club, ao pé das colinas que dominam os arredores de Kensington, era realmente esplêndido. Para os seus sócios, não havia nada melhor: maravilhosa criadagem, comida farta, bebida barata, belíssimos cenários tropicais, como nunca tinham visto antes. O casal era muito popular e os serviços de guerra do Major Smythe lhe davam ingresso na alta sociedade local e na Government House. A vida de ambos era uma série interminável de festas, misturadas com o tênis de Mary e o golfe do major (com os bastões metálicos de Henry Cotton!) durante o dia, e partidas de bridge (para ela) e de pôquer (para ele) durante as noites. Sim, era um paraíso, porque, na Inglaterra, havia racionamento, filas e mercado negro, um governo atroz e o pior inverno dos últimos trinta anos. A princípio, o casal enfrentou as despesas com as economias em dinheiro, que ambos haviam reunido, enquanto se vestiam, se alimentavam e se transportavam à custa do Exército. Só depois de um ano de cautelosas investigações é que o Major Smythe se decidiu a fazer negócio com os irmãos Fu, comerciantes importadores e exportadores. Altamente respeitados e muito ricos, os irmãos Fu eram conhecidos como uma espécie de junta governativa da comunidade chinesa da Jamaica. Ainda que alguns dos seus negócios se desviassem das boas normas, segundo a tradição chinesa, Smythe achou que poderia confiar neles. A Convenção de Bretton Woods, fixando um preço internacional para o ouro, sob rigoroso controle, tinha sido assinada deixando de parte Tânger e Macau, dois portos livres, em que a onça de ouro valia entre 99 e 100 dólares, quando nos outros lugares o preço oficial era de 35. E, para maior conveniência de seus negócios, os Fu tinham aberto um restaurante em Hong-Kong, transformado em entreposto para o contrabando de ouro para a vizinha Macau. Isso, na linguagem do Major Smythe, era sopa no mel. Ele tivera um agradável encontro com os Fu. Nenhuma pergunta estes fizeram, senão depois do exame das barras de ouro.
— Major — disse o mais velho dos irmãos —, no mercado de ouro em barras, as marcas dos bancos nacionais e dos negociantes respeitáveis são aceitos sem discussão. Essas marcas são a garantia da pureza do ouro. Mas outros bancos e outros vendedores têm seus próprios processos de refinação, que talvez, não sejam tão perfeitos...
— Quer dizer que eu fui enganado? — Perguntou, ansiosamente, o major. — Que isso não é senão uma barra de chumbo coberta de uma leve camada de ouro?
Os dois irmãos deram muxoxos tranquilizadores:
— Não, não, major... Não se trata disso. Mas, se uma pessoa não se recorda da proveniência dessas barras de ouro, por mais finas que elas sejam é sempre necessário submetê-las a um ensaio, para verificação do seu exato teor... Há muitos métodos para determinar o grau de pureza dessas barras. Meu irmão e eu somos competentes em qualquer deles. Quer deixar as barras de ouro conosco e vir saber o resultado depois do almoço? Nós lhe daremos um recibo...
Não havia alternativa. Teria que confiar nos Fu. Qualquer que fosse o preço por eles arbitrado, seria forçado a aceitar. Estava nas mãos deles. Foi a um bar, onde tomou dois drinques fortes e comeu um sanduíche que lhe ficou atravessado na garganta. Depois, voltou ao escritório refrigerado dos Fu. O cenário era o mesmo: os dois irmãos sorridentes, as duas barras de ouro, a pasta de couro, etc. Só havia a mais uma folha de papel e uma caneta-tinteiro de pena de ouro, em frente do irmão mais velho.
— Resolvemos o problema do seu ouro, major! — (Esplêndido! Obrigado, pensou Smythe.) — E estou certo de que o senhor terá interesse em conhecer sua origem...
— Claro! Qual é? — Fez o major, com uma corajosa demonstração de entusiasmo.
— São barras de ouro alemãs! Provavelmente saíram dos depósitos do Reichsbank, durante a guerra. Isso pode ser deduzido do fato de que contêm dez porcento de chumbo. Durante o regime de Hitler, o Reichsbank fez a tolice de adulterar por esse modo o seu ouro. Isso logo se espalhou e o preço das barras de ouro alemãs, vendidas na Suíça, sofreu logo uma redução de preço, correspondente à adulteração. Foi uma bobagem, que só teve um resultado: o banco nacional da Alemanha perdeu a reputação que conquistara durante séculos... Bobagem... Uma grandíssima bobagem... — Concluiu o chinês, com o seu invariável sorriso.
O Major Smythe estava maravilhado com a onisciência desses dois homens, tão afastados dos grandes canais de comércio do mundo. Mas ao mesmo tempo os amaldiçoava, intimamente. E agora?
— É muito interessante, Sr. Fu... Mas isso não é uma boa notícia para mim. Essas barras de ouro me foram entregues como coisa cem por cento...
— Não tem importância, major — disse o mais velho dos Fu. — Ou melhor, quase não tem importância. Venderemos o seu ouro pelo justo valor, ou seja, 89 dólares a onça. Terá que ser, ou não, refinado pelo último comprador. Mas isso não é da nossa conta. Nós o venderemos também como cem por cento...
— Mas a um preço mais baixo...
— Realmente, major. Mas creio que temos uma boa notícia para o senhor. Quanto calculava obter com essas duas barras?
— Cerca de 20 mil libras...
— Se as vendermos bem e aos pouquinhos — disse o mais velho dos Fu —, o senhor receberá mais de 100 mil dólares, major, sujeitos, é claro, ao desconto da nossa comissão, que inclui o transporte e outras despesas.
— E a quanto montará isso?
— Estou pensando em fixar em 10 por cento, major. Se lhe parecer satisfatório...
O Major Smythe tinha a impressão de que vendedores de ouro em barras recebiam apenas um por cento de comissão. Mas, que diabo, antes do almoço já estava disposto a largar tudo até por 10 mil libras. Disse “fechado” e levantou-se, estendendo a mão através da mesa. Desde então, de quatro em quatro meses, ia visitar o escritório dos Fu, levando uma valise vazia. Havia sempre quinhentas libras novas, da emissão da Jamaica, em pacotes, sobre a mesa, à sua espera, e um recibo da quantidade vendida, com o preço alcançado em Macau. As barras de ouro diminuíam de tamanho, de polegada em polegada. O negócio era simples e cordial. Duas mil libras limpas, por ano, eram o bastante para ele, e só o afligia a possibilidade de que o pessoal do imposto de renda começasse a apertá-lo, para saber do que estava vivendo. Ele disse isso aos Fu, que lhe fizeram saber que não precisava se preocupar. Nas duas vezes seguintes, havia apenas quatrocentas libras na mesa, mas nenhum comentário foi feito, por qualquer dos lados. E assim os dias iam se passando, preguiçosamente. Os Smythes engordavam e o major teve a primeira das duas complicações das coronárias. O médico lhe recomendou uma vida menos ativa, com menos álcool e menos cigarros. Evitasse, também, as gorduras e as comidas fritas. A princípio, Mary tentou ser severa com ele, mas quando o marido começou a beber escondido e a inventar pequenas mentiras e evasivas, ela recuou desse propósito. Teve medo de se transformar numa chata doméstica, a quem o Major Smythe passaria a evitar. Por isso, deu-lhe inteira liberdade, sabendo que ele não mais a amava, e quando a sua solidão se tornou demasiada e as insônias intoleráveis, viciou-se em tomar soníferos. Uma noite, depois de uma violenta briga, estando ambos embriagados, tomou ela uma dose excessiva, só “para dar-lhe uma lição”. A dose era tão exagerada que a matou. O suicídio foi dissimulado, mas ainda assim recaíram suspeitas sobre o major, em prejuízo de sua reputação social. E a tal ponto que ele teve de se retirar para North Shore que, embora a apenas três milhas de Kensington, parece pertencer a um outro mundo. Aí ele se instalou em Wavelets e, depois da segunda complicação das coronárias, começou a beber desenfreadamente. Foi então que entrou em cena James Bond com um mandado de prisão ou de morte no bolso.
O Major Smythe olhou para o relógio. Passavam alguns minutos do meio-dia. Ele se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale e foi para o jardim. James Bond estava sentado sob a frondosa amendoeira, olhando para o lar. Nem se voltou para o Major Smythe quando este puxou outra cadeira de alumínio e colocou o copo na relva, perto dele. Quando o Major Smythe acabou de narrar a sua história, James Bond disse, sem demonstrar qualquer emoção: — Era mais ou menos isso o que eu havia pensado...
— Quer que eu escreva tudo ou apenas assine?
— Faça como quiser. Mas isso não se entende comigo. Deve entregar à Corte Marcial. Seu velho Corpo de Fuzileiros Reais é que vai tomar conta do caso. Não tenho nada que ver com os aspectos legais. Farei apenas um relatório do que me disse, para a Procuradoria da Justiça, através da Scotland Yard...
— Posso perguntar uma coisa? Como foi que descobriu?
— A geleira era pequena. O corpo de Oberhauser chegou embaixo no início deste ano, quando as neves da primavera derreteram. Alguns alpinistas o encontraram. Todos os seus papéis e tudo o mais estava perfeito. A família o identificou. Depois, foi só uma questão de recuar no tempo. O calibre das balas deu logo a pista...
— Mas como se envolveu neste assunto?
— A Força da DAG era uma das minhas responsabilidades, um dos meus serviços. Quando o assunto chegou ao meu conhecimento, fui dar uma busca nos arquivos. Como tinha tempo livre, pedi que me entregassem a missão de descobrir o autor da morte de Oberhauser...
— Por quê?
— Porque — e James Bond fixou os olhos do Major Smythe — acontece que Oberhauser era um velho amigo meu. Foi quem me ensinou a esquiar quando eu tinha pouco mais de dez anos. Era um esplêndido sujeito. Foi uma espécie de pai para mim, precisamente na época em que eu mais precisava de um...
— Compreendo. — E o Major Smythe desviou o olhar. — Sinto muito...
James Bond se levantou:
— Bem, preciso voltar a Kensington. — E levantou a mão, para deter o major. — Não, não precisa incomodar-se. Sei onde o carro ficou... — Olhou para o homem mais velho e disse, rispidamente, quase com brutalidade: — Dentro de uma semana, alguém virá buscá-lo...
E caminhou, em passos firmes, sem se voltar, pela alameda afora. O major ouviu o ruído do arranque do motor e o chiado dos pneus do táxi nas pedrinhas miúdas da estrada.
Agora, ele procurava a sua presa, ao longo do recife de coral, pensando exatamente no sentido das palavras de James Bond. E sorriu por trás da máscara Pirelli. Era uma versão nova de um velho dramalhão, que consistia em deixar uma pistola com o oficial culpado, para que este mesmo estourasse os miolos. Se James Bond quisesse, poderia ter telefonado para a Government House e pedido um oficial de igual patente do Regimento da Jamaica para levar preso o Major Smythe. De certo modo, o seu gesto fora decente. Ou não fora? Um suicídio era mais limpo, economizava uma porção de trabalho e de papéis, que consumiriam o dinheiro dos contribuintes. Devia agradecer a James Bond a solução que ele parecia sugerir? Acaso encontraria Mary no lugar para onde vão as almas dos suicidas? Ou era melhor a Corte Marcial, a indignidade, as formalidades cacetes, as manchetes, o aborrecimento e a solidão de uma prisão perpétua, da qual só o livraria a terceira crise das coronárias? Poderia defender-se: era tempo de guerra, lutara com Oberhauser no alto da montanha, ele era um prisioneiro e tentara fugir... Oberhauser sabia do esconderijo do dinheiro... E ele, pobre oficial dos Comandos, tantas vezes arriscando a vida pela pátria, fora fraco e não resistira à tentação... Poderia entregar-se dramaticamente à misericórdia do Tribunal Militar... Um coronel certamente seria designado para defendê-lo e o faria com a maior eloquência. Poderia haver um apelo à Corte Suprema. Seu caso comoveria a Inglaterra e se tornaria uma cause célebre. Venderia sua história, com as reminiscências de guerra, aos grandes jornais... Mas...
Cuidado, meu velho! Cuidado! Seus pés agora tocavam o chão, sob as ondas que encrespavam a superfície da praia de North Shore. Por onde estariam os peixes-escorpiões? O polvinho querido estava faminto, esperando o seu almoço. Apurando a vista, perto do recife de coral, o Major Smythe viu as antenas de um lagostim, acenando inquisitivamente para ele. Normalmente, ele se esqueceria de tudo, para capturar o lagostim, que era, talvez, o maior que até então encontrara. Mas agora só tinha uma preocupação: a de descobrir a silhueta irregular e provocante do peixe-escorpião. Só depois de mais dez minutos de busca encontraria o primeiro. Os olhos vermelhos e zangados do peixe, muito abertos, o observavam. Para fisgá-lo, com o arpão, teria que fazer uma investida rápida, na vertical, firme e certeira. Sabia que as agulhas envenenadas se projetariam para fora da cabeça pontiaguda do monstro. Tinha que se mover lentamente, na direção do peixe, usando o braço livre para nadar. E... Agora! Avançou, para a frente e para baixo, mas o peixe-escorpião sentira a aproximação do arpão antes que este o tocasse. Uma lufada de areia se levantou do fundo do mar, atingido pelo golpe. E qualquer coisa roça em seu corpo, dando a impressão do voo de um pássaro. O major praguejou e fez meia volta, dentro da água. Sim, o peixe-escorpião fizera o que tantas vezes fazia: fora buscar refúgio entre as algas e as rochas, confiante em sua soberba camuflagem. O major voltou à carga, em novo mergulho, dessa vez ainda mais atento, e zás! O peixe-escorpião se agitava, agora, na ponta do arpão. A excitação foi tão grande que o Major Smythe vacilou e sentiu a antiga dor oprimir-lhe o peito. Pôs-se de pé, firmou o arpão contra a areia, atravessando inteiramente a presa, que ainda se agitava desesperadamente, e dirigiu-se à praia, indo sentar-se num banco de madeira, ao lado do qual atirou o peixe, fisgado, a se debater. Uns cinco minutos depois, o Major Smythe sentiu uma curiosa dormência na região do plexo solar. Olhou para baixo e estremeceu, de horror e incredulidade. Uma região de sua pele, com o tamanho aproximado de uma bola de críquete, tornara-se impressionantemente branca, a despeito do bronzeado de seu busto. No centro dessa área, havia três pequenas manchas sanguíneas. Automaticamente, o Major Smythe limpou o sangue. Os furos eram do tamanho de picadas de agulhas. Ele se lembrou, então, da fuga do peixe-escorpião, quando tentara arpoá-lo da primeira vez, e exclamou alto, com pavor, mas sem animosidade: — Tu me apanhaste, bastardo! Tu me apanhaste!
Imóvel, olhava para o próprio corpo, recordando-se do que lera sobre os ferrões do peixe-escorpião no livro que tomara emprestado à biblioteca do Instituto e nunca devolvera — Perigosos Animais Marinhos, publicação norte-americana. Tocou delicadamente a pele da área atingida. Sim, a pele se tinha tornado intumescida e de todo insensível, mas por baixo começava a sentir dor. Em breve essa dor profunda e intensa percorreria o seu corpo inteiro, tão lancinante que o seu único desejo seria o de deitar-se na areia, gritando e rolando, para abafá-la. Vomitaria e deitaria espuma pela boca, teria delírio e convulsões, até perder a consciência. Então, sobreviria, inevitável, o colapso cardíaco mortal. De acordo com o livro, o ciclo completo desses tormentos não passaria de um quarto de hora. Era tudo quanto lhe restava: quinze minutos de atroz agonia! Haveria cura, é claro — com procaínas, antibióticos e anti-histamínicos —, se seu coração debilitado suportasse tais medicamentos. Mas estes deviam estar à mão. Mesmo que conseguisse chegar em casa e admitindo que Jimmy Greaves dispusesse de todos esses remédios modernos, ele não poderia alcançar Wavelets antes de uma hora.
A primeira descarga de dor fez o corpo do Major Smythe dobrar-se sobre si mesmo. Depois outra e mais outra, irradiando-se através do estômago e dos membros. Sentia um gosto metálico na boca e uma coceira insuportável nos lábios. Deixou escapar um gemido e saltou do banco para a praia. Sobre a areia, ainda arquejava o peixe-escorpião. Houve uma trégua nos espasmos da dor. Seu corpo inteiro estava em fogo. Apesar da agonia o raciocínio permanecia claro. Mas, ora essa! Ia esquecendo a experiência! Devia ir à loca do polvo, para servir seu almoço! “Polvo, polvinho, vai ser a última refeição que eu te dou!”, dizia a si mesmo o Major Smythe, ajustando a máscara no rosto. Depois, apanhou o arpão, com o peixe espetado e, apertando o estômago com a mão livre, caminhou pela água adentro e, depois, mergulhou junto ao recife de coral. Poucas jardas o separavam agora do polvo. E foi gritando dentro da máscara, arrastando-se, quase de joelhos, que ele as percorreu. À medida que a água se tornava mais profunda, a dor se fazia mais intensa e seus movimentos pareciam com os de um fantoche, impulsionado por um feixe de cordéis. Só a poder de uma grande força de vontade pôde continuar rumo à morada do polvo. Sim, a sua massa escura ainda estava lá! E parecia excitadíssima. Por quê? O Major Smythe viu que as feridas de seu peito vertiam filetes de sangue escuro, que se diluía na água do mar. Era claro! O querido polvo sentira o gosto do seu sangue. Uma descarga de dor atingiu o major e o fez vergar-se. Disse a si mesmo, em delírio: “Que é isso, Dexter?! Firme, meu velho. Você tem que dar almoço ao polvinho”. Endireitou-se, empunhando o arpão com firmeza e aproximando o peixe da toca do polvo. Aceitaria ele a isca envenenada que o Major Smythe lhe oferecia e à qual talvez um octópode poderia ser imune? Ah, se Bengry estivesse presente, para observar! Três tentáculos, ondulando excitadamente, saíram da loca e passearam ao redor do peixe-escorpião. Agora, havia uma espécie de nevoeiro diante dos olhos do Major Smythe. Reconhecendo estar à beira da inconsciência, ele agitou fracamente a cabeça, para dissipá-lo. E, então, os tentáculos deram um salto! Mas não para o peixe: apertaram a mão e o braço que empunhavam o arpão. A boca do Major Smythe se torceu, numa careta de prazer. Agora, ele e o polvo podiam se apertar as mãos! Como era excitante! Que coisa maravilhosa! Mas o polvo, calma e implacavelmente, continuou a enroscar os seus tentáculos e a chamar a si o corpo do major. Só então Smythe compreendeu que algo de terrível ia acontecer. Fez um apelo a todas as suas forças e tentou golpear o octópode com o arpão. Mas tudo quanto conseguiu foi bater com o peixe-escorpião na massa escura do polvo. E, com o movimento que fez, ofereceu-se ainda mais a este, que o atraía de forma inexorável. Tarde demais o Major Smythe retirou sua máscara. Conseguindo alcançar a superfície, soltou um grito que reboou pela baía deserta, mas logo foi puxado para baixo. E, depois de algumas bolhas de ar, vieram à tona as pernas do major. As ondas lavavam o seu corpo, enquanto o polvo fazia a primeira tentativa para devorá-lo. O resto de Smythe foram encontrados por dois jovens da Jamaica, que pescavam peixes-agulhas numa canoa. Eles mataram o polvo, recolheram o arpão do Major Smythe com o peixe-escorpião e levaram os três despojos para a praia. O cadáver do major foi entregue à polícia e o peixe-escorpião aproveitado para a ceia. O destino do polvo de estimação seria também a panela ... O correspondente do Daily Gleaner em North Shore comunicou que o Major Smythe tinha sido morto por um polvo. Mas a redação do jornal, para não alarmar os turistas, preferiu dizer que ele “fora encontrado afogado”. Mais tarde, em Londres, James Bond, embora certo de que se tratara de um suicídio, anotou no dossier Oberhauser a versão do afogamento, com a respectiva data, na última página, o que encerrava o assunto. Somente pelas notas do Dr. Greaves sobre a autópsia, por ele mesmo realizada, é que foi possível escrever esta espécie de post-scriptum sobre o estranho e patético fim do outrora corajoso e útil oficial do Serviço Secreto.
Encontro em Berlim
(THE LIVING DAYLIGHTS)
James Bond estendia-se em posição na marca das quinhentas jardas da famosa linha de tiro Century Range, em Bisley. A pequena estaca branca na grama a seu lado dizia 44 e o mesmo número se repetia bem alto no talude distante acima do solitário alvo de seis pés quadrados que, ao olho humano e no crepúsculo do fim de verão, não parecia maior que um selo de correio. Mas a luneta de Bond, uma Sniperscope infravermelha fixada sobre o seu rifle, cobria todo o quadro. Ele podia até distinguir com clareza as cores azul-pálido e bege em que se dividia o alvo, e a mosca semicircular de seis polegadas parecia tão grande como a meia lua que já começava a se mostrar baixa no céu que escurecia acima da crista remota de Chobham Ridges.
O último tiro de James Bond fora um esquerdo interno — não o satisfizera. Deu uma outra olhada às bandeiras de vento amarelas e azuis. Tremulavam do leste através da linha de tiro mais intensamente do que quando tinha começado o seu tiro meia hora antes, e ele mudou o anemômetro dois pontos para a direita e assestou os dois fios cruzados da Sniperscope de volta ao foco de mira. Instalou-se então, colocou o indicador de leve dentro da guarda e sobre a curva do gatilho, prendeu a respiração e muito, muito suavemente apertou.
O estampido vicioso ecoou ao longo do campo vazio. O alvo desapareceu abaixo do solo e imediatamente o “boneco” tomou o seu lugar. Sim, a marca negra estava embaixo no canto direito desta vez, não no canto esquerdo: mosca.
— Bom — disse a voz do oficial chefe da linha, atrás e acima dele. — Fique com a mira.
O alvo já subira de novo e Bond recolocou a bochecha sobre o trecho quente da volumosa coronha de madeira e o olho na borracha que cerca a ocular da luneta. Enxugou a mão de atirar contra o lado das calças e pegou na coronha da pistola que sobressaía angulosamente da guarda do gatilho. Abriu de uma polegada o ângulo das pernas. Agora haveria cinco descargas rápidas. Era interessante ver se isso não provocaria “desgaste”. Ele achava que não. Esta arma extraordinária que o armeiro tinha descoberto sabe lá como dava à gente a sensação de que um homem de pé à distância de uma milha seria prato fácil. Era mais um rifle Experimental de Alvo Internacional, calibre 308, construído pela Winchester para ajudar os ases americanos do tiro em campeonatos mundiais, e tinha os dispositivos usuais das armas de alvo superacuradas — uma “mão” espiralada de alumínio nas costas da coronha que se estendia debaixo da axila e mantinha a arma com firmeza junto ao ombro, e uma pequena roda dentada ajustável abaixo do centro de gravidade do rifle para permitir que ele “se agarrasse” ao sulco do seu descanso de madeira. O armeiro tinha mandado trocar o ferrolho de tiro único usual por um depósito de cinco tiros, e tinha garantido a Bond que se ele deixasse apenas dois segundos entre cada tiro para estabilizar a arma não haveria desgaste, mesmo a quinhentas jardas. Para o serviço que devia fazer, Bond achava que dois segundos poderiam representar uma perda perigosa de tempo se errasse o seu primeiro tiro. De qualquer forma, M dissera que a distância não seria maior que trezentas jardas. Bond encurtaria o tempo para um segundo — fogo quase contínuo.
— Pronto?
— Sim.
— Vou à contagem regressiva de cinco. Agora! Cinco, quatro, três, dois, um. Fogo!
O chão tremeu ligeiramente e o ar silvou enquanto as cinco cápsulas velozes de cuproníquel varejavam o crepúsculo. O alvo baixou e rapidamente voltou a erguer-se condecorado com quatro pequenos discos brancos agrupados bem juntos na mosca. Não houve nenhum quinto disco — nem mesmo um negro para indicar um interno ou externo.
— A última descarga foi baixa — disse o chefe da linha baixando seus binóculos noturnos. — Obrigado pela contribuição. Limpamos a areia atrás daqueles alvos todo fim de ano.
Nunca recolhemos menos de quinze toneladas de estilhaços em legítimo chumbo e cobre. Um bom dinheiro.
Bond tinha-se levantado. O cabo Menzies da seção dos armeiros surgiu do pavilhão do Clube de Tiro e ajoelhou-se para desmontar a Winchester e o seu descanso. Olhou para cima encarando Bond. Disse com uma ponta de crítica. — O senhor tocou a coisa um pouco rápido. A última descarga tinha de escoicear.
— Eu sei, cabo. Só queria ver com que rapidez eu podia tocar. Não quero pôr a culpa na arma. É um trabalho enxuto, infernal. Por favor, diga isso por mim ao armeiro. Agora é melhor ir andando. Você tem condução de volta a Londres, não?
— Tenho, sim senhor. Boa noite.
O oficial chefe da Linha entregou a Bond uma ficha de seu tiro — dois tiros de ensaio e depois dez descargas para cada cem jardas até as quinhentas. — Pontaria danada de boa com esta visibilidade. Você devia voltar aqui o ano que vem e tentar o Prêmio da Rainha. Hoje em dia está aberto para todos — isto é, da Comunidade Britânica.
— Obrigado. O problema é que não passo tanto tempo assim na Inglaterra. E muito obrigado por ter feito a marcação para mim.
Bond olhou para a distante Torre do Relógio. De cada lado, a bandeira vermelha de perigo e o tambor vermelho de sinalização estavam sendo arriados para mostrar que o tiroteio tinha cessado. Os braços marcavam nove e quinze. — Gostaria de oferecer-lhe um drinque, mas tenho um encontro em Londres. Podemos adiá-lo até o Prêmio da Rainha de que você estava falando?
O chefe da Linha fez que sim com a cabeça, neutramente. Ele tinha aguardado ansioso a oportunidade de conhecer mais coisas sobre este homem que surgira assim sem mais nem menos depois de uma série de avisos do Ministério da Defesa e fora em frente acertando bem mais de noventa porcento em todas as distâncias, isso depois de fechada a linha para a noite e com visibilidade entre sofrível e má. E por que tinha ele, que só oficiava no encontro anual de julho, sido escalado para estar presente? E por que lhe tinham dito para providenciar uma mosca de seis polegadas a 500 jardas para Bond, em vez da regulamentar de quinze polegadas? E por que todos esses cuidados com a bandeira de perigo e o tambor de sinalização que só se usavam em ocasiões cerimoniais? Para pressionar o homem? Para dar um clima de urgência ao tiro? Bond. Comandante James Bond. A A.N.R. certamente teria a ficha de uma pessoa que atirava tão bem assim. Não se esqueceria de dar-lhes um telefonema. Que hora estranha para um compromisso em Londres. Provavelmente uma garota. O rosto do chefe da Linha assumiu uma expressão de desagrado. O tipo do sujeito que apanhava todas as garotas que queria.
Os dois homens caminharam através da bela fachada da sede do clube além da linha de tiro até o carro de Bond que estava estacionado diante de uma reprodução em ferro do famoso “Veado em Fuga” de Landseer toda picotada de balaços. — Uma beleza de carro — comentou o chefe da Linha. Nunca vi uma carroçaria assim num Continental. Mandou fazê-la especialmente?
— Mandei. Os Sports Saloons na verdade só têm dois lugares. E muito pouco espaço para bagagem. Por isso pedi a Mulliner’s que o transformassem num verdadeiro dois-lugares e com porta-malas de sobra. Um carro egoísta, não há dúvida. Bem, boa noite. E novamente muito obrigado.
O escape roncou com saúde e as rodas traseiras cuspiram cascalho por um instante.
O oficial chefe da Linha observou os faróis rubis desaparecerem na King’s Avenue a caminho da estrada de Londres. Girou nos calcanhares e foi procurar o cabo Menzies numa busca de informação que terminaria sem frutos. O cabo permaneceu tão fechado como a grande caixa de mogno que estava colocando num Land-Rover caqui, limpo de símbolos militares. O chefe da Linha era um major. Tentou apelar para a hierarquia, mas sem êxito. O Land-Rover afastou-se rodando no rastro de Bond. O major dirigiu-se soturno aos escritórios da Associação Nacional do Rifle para tentar achar a informação que queria na biblioteca sob o nome “Bond, J.”
O compromisso de James Bond não era com uma garota. Era com um voo da B.E.A. para Hanover e Berlim. Enquanto engolia as milhas que o separavam do Aeroporto de Londres, pisando firme o grande carro a fim de ter tempo de sobra para um drinque, três drinques, antes da decolagem, apenas uma parte de sua mente fixava-se na estrada. O restante reexaminava pela enésima vez a sequência que agora o conduzia a um encontro com um aeroplano. Mas apenas um encontro provisório. Seu compromisso final numa das três próximas noites em Berlim era com um homem. Tinha que se encontrar com esse homem e infalivelmente matá-lo com um tiro.
Quando, por volta de duas e meia daquela tarde, James Bond atravessara as portas duplamente acolchoadas e sentara-se em frente do perfil voltado, do outro lado da grande escrivaninha, sentira imediatamente o perigo no ar. Não houve troca de cumprimentos. A cabeça de M afundava-se no colarinho duro numa pose churchilliana de sombria reflexão, e havia um traço de amargura nos cantos dos lábios. Girou a cadeira para encarar Bond, passou-lhe um olhar examinador como se, pensou Bond, quisesse verificar se sua gravata estava direita e o cabelo adequadamente penteado, e então começou a falar, rapidamente, atalhando suas sentenças como se desejasse ver-se livre do que estava dizendo, e de Bond, o mais depressa possível.
— O número 272. É um bom homem. Você talvez não o conheça. Pela simples razão de que ficou naquele buraco da Novaya Zemlya desde a guerra. Agora está tentando sair — carregado de material. Atômico e foguetes. E o plano deles para toda uma nova série de testes. Para 1961. Querem avivar o fogo no Ocidente. Algo a ver com Berlim. Não vejo bem o quadro mas o Foreign Office diz que se for verdade é uma coisa tremenda. Ridiculariza a Conferência de Genebra e toda essa demagogia sobre desarmamento nuclear que o bloco comunista vem fazendo. Ele conseguiu chegar até a Berlim Oriental. Mas tem praticamente toda a KGB no seu encalço — e as forças de segurança da Alemanha Oriental, é claro. Está entocado num buraco qualquer da cidade e conseguiu passar-nos uma mensagem — de que atravessaria entre seis e sete da tarde numa das três próximas noites — amanhã, depois de amanhã ou no dia seguinte. Indicou o ponto de travessia. O problema — a curva dos lábios de M, voltada para baixo, tomou-se ainda mais amarga — é que o mensageiro que ele usou fazia jogo duplo. A estação W.B. pilhou-o ontem. Por acaso. Deu sorte com um dos códigos da KGB O mensageiro será mandado de avião para julgamento, naturalmente. Mas isso não ajudará em nada. A KGB sabe que o 272 vai tentar a travessia. Sabem quando. Sabem onde. Sabem tanto quanto sabemos e nada mais. Ora, o código que deciframos ontem era um esquema de um só dia em suas máquinas. Mas conseguimos todo o tráfico daquele dia e isso foi bastante bom. Planejam alvejá-lo ao tentar a travessia. No cruzamento de ruas entre a Berlim Leste e a Oeste que nos indicou na mensagem. Estão montando uma operação daquelas — operação “Êxtase” como a chamam. Puseram o seu melhor tocaia no serviço. Tudo o que soubemos dele ó que seu nome cifrado é a palavra russa para “Gatilho”. A estação W.B. acha que é o mesmo homem já usado em outros serviços de tocaia. Um serviço de longo alcance através da fronteira. Ficará de guarda toda noite nesse cruzamento e sua missão é acertar no 272. É óbvio que eles certamente prefeririam fazer um serviço mais suave com metralhadoras e coisas do gênero. Mas Berlim está calma no momento e parece que a ordem é ficar assim. De qualquer forma — M sacudiu os ombros — eles têm confiança nesse operador “Gatilho” e o negócio vai ser assim!
— E onde é que eu entro? — James Bond tinha adivinhado a resposta, adivinhado porque M mostrava seu desagrado com a coisa toda. Ia ser trabalho sujo e Bond, porque pertencia à Seção Zero-Zero, tinha sido escolhido para fazê-lo. Perversamente, Bond queria forçar M a pôr o preto no branco. Iam ser notícias más, notícias sujas e ele não queria ouvi-las de um dos oficiais da Seção, nem mesmo do chefe do Estado-Maior. O negócio ia ser assassínio. Está bem. Que M tenha então a coragem de me dizer.
— Onde é que você entra, 007? — M olhou friamente do outro lado da escrivaninha. — Você sabe onde é que você entra. Você tem que matar esse tocaia. E tem que matá-lo antes que acerte no 272. É tudo. Está claro? — Os olhos azuis-claros permaneceram frios como gelo. Mas Bond sabia que só ficavam assim com um esforço da vontade. M não gostava de mandar qualquer homem para um homicídio. Mas, quando isso tinha de ser feito, ele sempre assumia a sua severa e fria ação de comando. Bond sabia a razão. Era para tirar um pouco da pressão, um pouco da culpa, dos ombros do matador.
Portanto Bond, que sabia dessas coisas, decidiu agora tornar fácil e rápida a tarefa de M. Levantou-se. — Está certo, sir. Suponho que o chefe do Estado-Maior tenha tudo pronto. É melhor eu ir praticar um pouco. Não seria bom errar.
Caminhou para a porta.
M disse calmamente: — Sinto ter que lhe dar essa tarefa. Serviço desagradável. Mas tem que ser bem executado.
— Farei o melhor — James Bond saiu fechando a porta atrás de si. Não gostava do serviço mas no final preferia fazê-lo a assumir a responsabilidade de mandar alguém em seu lugar.
O chefe do Estado-Maior tinha sido apenas um pouco mais simpático. — Lamento esta sua aquisição, James — dissera ele. — Mas Tanqueray foi inflexível, não tinha ninguém suficientemente bom na estação e esse não é o tipo de serviço que se pode pedir a um soldado regular para fazer. Há uma porção de excelentes tiros na B.A.O.R., mas um alvo vivo requer outro tipo de coragem. De qualquer forma, liguei para Bisley e marquei um exercício para você esta noite às oito e quinze quando a linha estiver fechada. A visibilidade será mais ou menos a mesma que você terá em Berlim cerca de uma hora antes. O armeiro está com a arma — verdadeira obra de arte para alvejar, e vai mandá-la por um de seus homens. Você irá com a sua própria condução. Depois, há um voo de carreira para Berlim à meia-noite reservado em seu nome na B.E.A. Tome um táxi até esse endereço. — Entregou a Bond um pedaço de papel. — Suba ao quarto andar e encontrará o número 2 de Tanqueray à sua espera. Depois disso, sinto que você terá que esperar sentado pelos próximos três dias.
— E a arma? Esperam que atravesse a alfândega alemã com ela dentro de um saco de golfe ou coisa assim?
O chefe do Estado-Maior não tinha achado graça. — Seguirá pela mala diplomática. Você a receberá amanhã ao meio-dia. — Tinha estendido a mão até o bloco de avisos. — Bem, é melhor ir andando. Vou avisar a Tanqueray que está tudo combinado.
James Bond baixou o olhar para o rosto azul difuso do relógio no painel do carro. Dez e quinze. Com um pouco de sorte, amanhã a esta hora estaria tudo terminado. Afinal, era a vida deste homem “Gatilho” contra a vida do 272. Não era exatamente homicídio. Estava perto disso, no entanto. Apertou maldosamente sua buzina-de-serra tripla ao passar por um quatro portas comum, ingressou no cruzamento circular com uma derrapagem seca desnecessária, girou violentamente o volante fazendo a correção e apontou o nariz do Bentley em direção do brilho distante que era o Aeroporto de Londres.
O edifício feio de seis andares na esquina da Kochstrasse e da Wilhelmstrasse era o único de pé na desolação de um espaço vazio bombardeado. Bond pagou o táxi e gravou uma breve impressão de capim, alto como a cintura, e de paredes de entulho mal reparadas, estendendo-se na direção de um grande cruzamento deserto iluminado por um feixe central de lâmpadas amareladas em arco, antes de apertar o botão para o quarto andar e imediatamente ouviu o clique do dispositivo que abria a porta do prédio. A porta fechou-se atrás dele e caminhou então sobre o chão de cimento sem tapete até o antiquado elevador. O cheiro de repolho, cigarro barato e suor rançoso lembravam outros prédios de apartamentos na Alemanha e Europa Central. Até o arrastar e o guincho fraco do elevador vagaroso eram parte de centenas de missões em que tinha sido lançado por M, como um projétil, a algum alvo distante onde um problema aguardava a sua chegada, à espera de ser resolvido por ele. Pelo menos desta vez o comitê de recepção estava do seu lado. Desta vez não havia nada a temer no fim da escada.
O número 2 da Estação W.B. de Serviço Secreto era um homem esguio e tenso de quarenta e poucos anos. Vestia o uniforme de sua profissão — terno bem cortado e bem usado de tweed leve ponto pé-de-pato num tom verde-escuro, camisa de seda macia branca e uma velha gravata de colégio — neste caso de Wykeham. Ao ver a gravata, enquanto trocavam as saudações convencionais no pequeno saguão mofado do apartamento, o ânimo de Bond, já baixo, desceu mais um degrau. Conhecia esse tipo: espinha dorsal do Serviço Público; superestudioso e mal-amado em Winchester; um bom segundo em P.P.E. em Oxford; a guerra, cargos funcionais que teria ocupado meticulosamente; talvez uma Ordem do Império Britânico; Comissão do Controle Aliado na Alemanha, onde fora recrutado no Ramo I e a partir de então — porque era o funcionário ideal e A. 1 junto à Segurança e porque pensava em encontrar vida, drama, romance, todas as coisas que nunca linha tido — lá fora ele para o Serviço Secreto. Um homem sóbrio, cuidadoso se fizera necessário para bancar a dama de companhia de Bond neste negócio feio. O Capitão Paul Sender, que já servira na Guarda Galesa, tinha sido a escolha óbvia. E tinha aceitado. Agora, como bom Wykehamista, escondia o seu desagrado pelo serviço debaixo de uma conversa cuidadosa e banal enquanto mostrava a Bond a planta do apartamento e as providências tomadas para a prontidão do carrasco e, numa medida modesta, para o seu conforto.
O apartamento consistia de um amplo dormitório conjugado, um banheiro e uma cozinha equipada de enlatados, leite, manteiga, ovos, chá, bacon, pão e uma garrafa de Dimple Haig. O único detalhe estranho no quarto de dormir era que uma das camas duplas estava encostada em ângulo contra as cortinas que cobriam o amplo janelão único e sobre ela se empilhavam três colchões cobertos pela roupa de cama.
O Capitão Sender disse: — Gostaria de dar uma olhada ao campo de fogo? Poderei então explicar o que é que o lado de lá tem em mente.
Bond estava cansado. Não desejava especialmente ir dormir com a imagem do campo de batalha na memória. Disse: — Seria ótimo.
O Capitão Sender apagou as luzes. Faixas luminosas das lâmpadas no cruzamento apareceram em volta das cortinas. — Não quero puxar as cortinas — disse o Capitão Sender. — É pouco provável, mas eles podem ter sido alertados contra um grupo de cobertura para o 272. Queria que você apenas se deitasse na cama e enfiasse a cabeça por baixo das cortinas. Explicarei o que você estiver vendo. Olhe para a esquerda.
Era uma janela de guilhotina e a metade inferior estava aberta. Os colchões, especialmente escolhidos, só cediam um pouco e James Bond encontrou-se mais ou menos na posição de tiro que tinha adotado em Century Range, mas agora olhava através de terreno descontínuo, coberto de densa vegetação e bombardeado, na direção do rio de luz que era a Zimmerstrasse — a fronteira com a Berlim Oriental. Parecia a umas cento e cinquenta jardas de distância. A voz do Capitão Sender acima dele e por trás da cortina começou a recitar. Lembrava a Bond uma sessão espírita.
— Ali é terreno bombardeado à sua frente. Bastante cobertura. Umas cento e trinta jardas até a fronteira. Depois a fronteira — a rua — e então um trecho grande ainda de terreno bombardeado no campo do inimigo. É por isso que o 272 escolheu essa passagem. É um dos poucos locais na cidade em que o terreno é descontínuo — capinzais cerrados, muros em ruínas, porões — nos dois lados da fronteira. Ele deverá es-gueirar-se entre aquela confusão do outro lado e arremessar-se através da Zimmerstrasse até alcançar a confusão do nosso lado. O problema é que terá de correr trinta jardas de fronteira fortemente iluminada. Será o espaço da matança. Certo?
Bond disse: — Sim.
Disse-o com suavidade. O cheiro do inimigo, a necessidade de tomar cuidado, já estavam atuando sobre seus nervos.
— À sua esquerda, aquele novo e imenso bloco de dez andares é a Haus der Ministerien, o grande centro cerebral de Berlim-Leste. Você pode ver que as luzes ainda estão acesas na maioria das janelas. A maior parte delas ficará assim toda a noite. Esses sujeitos trabalham mesmo — seus turnos dão a volta no relógio. Você provavelmente não precisará preocupar-se com as janelas acesas. Esse fulano “Gatilho” certamente vai atirar de uma das janelas escuras. Você verá que existe um grupo de quatro, juntas, na quina acima do cruzamento. Ficaram escuras na noite passada e esta noite. Elas têm o melhor campo de fogo. Daqui, o seu alcance varia entre trezentas e trezentas e dez jardas. Estou com todos os números e dados quando você quiser. Não é preciso preocupar-se muito mais. Aquela rua fica vazia durante a noite — apenas as patrulhas motorizadas cerca de cada meia hora — carros blindados leves com uma dupla de motocicletas por escolta. Na noite passada, que suponho normal, entre seis e sete, que é a hora em que se fará este serviço, havia umas poucas pessoas entrando e saindo por aquela porta lateral. Uns funcionários. Antes disso nada fora do comum — o fluxo costumeiro de pessoas entrando e saindo de um edifício de governo movimentado — com exceção, veja só, de uma miserável orquestra completa de mulheres. Fizeram uma confusão infernal numa sala de concertos que tem ali. Parte do bloco aloja o Ministério da Cultura. Fora disso nada — certamente nenhuma das pessoas da KGB que conhecemos, nem sinais de preparação para um serviço deste gênero. Mas nem pode haver sinais. São muito cuidadosos estes sujeitos da oposição. De qualquer maneira, dê uma boa olhada. Não esqueça que agora está mais escuro do que amanhã por volta das seis. Mas você pode formar um quadro geral.
Bond formou o quadro geral e o quadro ficou com ele muito tempo enquanto o outro homem já dormia e ressonava suavemente com um pequeno som regular que lembrava um fraco estalido — um ronco Wykehamista, refletiu Bond irritado.
Sim, tinha formado o quadro — o quadro de um lampejo movimento entre as ruínas sombreadas no outro lado do brilhante rio de luz, uma pausa, e então a desesperada corrida em ziguezague de um homem sob o impacto luminoso das lâmpadas, o espocar da arma de fogo e, ou um fardo retorcido espalhado no meio da rua larga, ou então a investida sempre em frente através do capinzal e do entulho no Setor Ocidental — morte súbita ou volta a casa. O grande desafio! Quanto tempo teria Bond para localizar o tocaia russo numa daquelas janelas escuras? E para matá-lo? Cinco segundos? Dez? Quando o amanhecer começava a cobrir as cortinas com o tom metálico das armas, Bond capitulou para sua mente agitada. Ela tinha ganho. Foi em silêncio até o banheiro e inspecionou as fileiras de remédios que um prestimoso Serviço Secreto tinha providenciado para manter o seu carrasco em boa forma. Escolheu o Tuinal, engoliu duas das cápsulas concentradas, rubis e azuis, com um copo de água e voltou à cama. Então, chumbado, dormiu.
Acordou ao meio-dia. O apartamento estava vazio. Bond abriu as cortinas para deixar entrar o dia cinzento prussiano e, de pé a uma boa distância da janela, ficou vendo a monotonia de Berlim e ouvindo o ruído dos bondes e o arranhar distante dos trens da U-Bahn na grande curva de entrada da estação do Zoo. Lançou um olhar rápido e relutante ao que já tinha examinado na noite anterior, notou que o capim no entulho de bombardeio era mais ou menos o mesmo de Londres — loendro, labaçol e samambaia — e dirigiu-se então à cozinha. Havia uma nota apoiada numa fatia de pão: “Meu amigo (eufemismo do Serviço Secreto que neste contexto significava o chefe de Sender) diz que não há mal em você sair. Mas esteja de volta às 17 horas. Seu equipamento (outra palavra para o rifle de Bond) chegou e o bagageiro a entregará esta tarde. P. Sender.”
Bond acendeu o fogão a gás e queimou a mensagem com desprezo por sua profissão e em seguida preparou um prato enorme de ovos mexidos e bacon que amontoou sobre uma torrada coberta de manteiga e comeu com acompanhamento de café preto no qual derramara uma porção liberal de uísque. Depois tomou um banho e barbeou-se, vestiu as roupas descoloridas, centro-europeias e anônimas que tinha trazido para a sua missão, olhou a sua cama em desordem, decidiu que tudo fosse para o inferno e desceu pelo elevador deixando o edifício.
James Bond sempre achara Berlim uma cidade deprimente e hostil, esmaltada no lado Ocidental com o verniz superficial de um polimento pretensioso parecido com os enfeites cromados dos carros americanos. Caminhou até a Kurfurstendamm, sentou-se no Café Marquardt, tomou um expresso e ficou observando com tédio as filas obedientes de pedestres esperando o sinal “Siga” nos postes de trânsito enquanto a corrente luminosa de carros continuava a sua perigosa quadrilha na movimentada intersecção. Fazia frio lá fora e o vento cortante das estepes russas fustigava as saias das garotas e os impermeáveis dos homens impacientes e apressados, cada um com a infalível pasta enfiada debaixo do braço. Os aquecedores de parede infravermelhos do café apontavam o vermelho para baixo e davam um brilho espúrio ao rosto dos cafeinômanos que degustavam sua tradicional “uma xícara de café e dez copos de água”, lendo de graça os jornais e revistas presos por paus, ou se curvavam com seriedade sobre papéis de negócios. Bond, fechando o pensamento para a noite, discutia consigo mesmo as maneiras de passar a tarde. Finalmente chegou à escolha entre uma visita àquela casa de respeitável fachada de pedra, na Clausewitzstrasse, conhecida de todos os porteiros e choferes de táxi, ou um passeio ao Wannsee e uma vigorosa caminhada no Grunewald. A virtude triunfou. Bond pagou o café, saiu no frio e tomou um táxi até a estação do Zoo.
As belas arvorezinhas jovens em volta do lago extenso já tinham sido tocadas pelo sopro do outono e havia um dourado aqui e ali no meio do verde. Bond caminhou com energia durante duas horas pelas veredas cobertas de folhas e então escolheu um restaurante com terraço envidraçado sobre o lago e saboreou com prazer um chá reforçado consistindo de uma porção dupla de arenques do Norte mergulhados em creme e anéis de cebola, e dois Molle mit Korn, o equivalente berlinense de um “fabricante de caldeiras e seu assistente” — schnapps, duplos, acompanhados por um chope Löwenbräu. Sentindo-se então mais animado tomou a S-Bahn para voltar à cidade.
Em frente do prédio de apartamentos, um jovem indefinível estava mexendo no motor de um Opel Kapitan negro. O jovem não tirou a cabeça debaixo do capo quando Bond passou bem perto dele e subiu até a porta e apertou o botão.