O olho do molusco o observava cuidadosamente, de sua loca, no recife de coral. Agora, a ponta de um dos oito tentáculos avançava uma ou duas polegadas, ondulando hesitantemente, como se fizesse uma vaga exploração com as ventosas rosadas. Dexter Smythe sorriu com satisfação. Se lhe fosse dado o tempo necessário, ao menos um mês mais, além dos dois durante os quais se acamaradara com o polvo, decerto domesticaria inteiramente o fascinante animal. Mas temia que não chegasse a viver tanto. Devia aproveitar aquela oportunidade para se aproximar do molusco e lhe oferecer a mão de amigo. Sim... Em vez de limitar-se a lhe dar comida, na ponta de um arpão, devia, por assim dizer, apertar-lhe a mão, não era mesmo? “Não, ainda não, meu negrinho — pensou —, ainda não posso ter confiança em você...” Com toda a certeza, se fosse imprudente, outros tentáculos sairiam da loca lhe envolveriam o braço. E, puxado pelo polvo, a válvula de corliça da máscara se fecharia automaticamente. Ficaria sufocado. Ou, se o polvo a arrancasse, na certa morreria afogado. Quando muito, com um golpe rápido e feliz do arpão, poderia ferir o octópode, mas para matá-lo seria preciso muito mais do que isso. Não... Talvez mais tarde. Agora, seria o mesmo que enfrentar uma rolêta-russa, com cinco chances contra e uma só a favor. Poderia, mesmo, representar um meio rápido, eficaz e bizarro de pôr termo aos seus aborrecimentos! Mas, agora... não! Isso deixaria insolúvel uma questão sumamente interessante. E ele havia prometido resolvê-la... Dera a sua palavra ao simpático Professor Bengry, do Instituto Biológico Marinho. Dexter Smythe afastou-se do recife de coral, nadando lentamente. Seus olhos atentos buscavam, com empenho, a forma estranha e sinistra do peixe-escorpião, ou, como diria Bengry, do Scorpaena Plumieri.
O Major Dexter Smythe, condecorado com a Ordem do Império Britânico, oficial do Corpo de Fuzileiros Reais (reformado), era o que restava de um outrora bravo militar e homem encantador, que fazia conquistas sexuais fáceis em todos os meios em que atuava fardado. Principalmente entre o pessoal das organizações militares femininas — as Wrens, as Wracs e as moças do ATS, incumbidas das comunicações e do secretariado das forças-tarefas especiais, de que ele fizera parte, no fim de sua carreira. Tinha agora cinquenta e quatro anos. Estava ligeiramente calvo. E sua barriga se acomodava com certa dificuldade nos apertados limites do calção de banho. Além disso, tivera já duas complicações coronárias. Seu médico era Jimmy Graves, que fora um dos seus parceiros no jogo de pôquer de cacife altíssimo, no Queen’s Club, logo que ele chegara, com a mulher, à Jamaica. Meio a sério, meio brincando, o médico havia descrito a última dessas complicações, ocorrida um mês antes, como sendo a “segunda advertência”. Mas, em suas roupas bem talhadas, ocultas as muitas varizes às vistas indiscretas, com a barriga comprimida por uma larga cinta que o imaculado colête-faixa disfarçava, o antigo militar ainda fazia boa figura, num coquetel ou num jantar, em North Shore. Para seus amigos e vizinhos dessa praia, era um mistério o motivo pelo qual desafiava ele as recomendações do médico. Este lhe impusera uma dieta de uísque e de cigarros, limitados respectivamente a dois e a dez por dia, mas ele insistia em fumar como uma chaminé e em ir sempre para a cama bêbedo. Agradàvelmente bêbedo.
A verdade é que Dexter Smythe tinha chegado à fronteira em que o instinto da vida começa a ceder ao desejo da morte. As origens desse estado de espírito eram muitas e complexas. Estava irremediavelmente amarrado à Jamaica. A indolência tropical apoderara-se gradualmente de seu organismo, de tal modo que, se aparentava ser uma sólida peça de madeira de lei, interiormente não era mais que um tronco fofo, corroído pelos cupins. Tinha um exterior envernizado, mas ilusório. A preguiça, o relaxamento, o sentimento de culpas antigas, o total desgosto em relação a si mesmo haviam erodido o seu cerne, transformando-o em pó de serragem. Desde a morte de Mary, dois anos antes, não tinha mais amado a ninguém. Nem sequer estava certo de que realmente a havia amado. Sabia, porém, que sentia a ausência dela a todas as horas do dia, que sentia falta de seu afeto e de sua alegria, de sua presença desmazelada, barulhenta e, por vezes, irritante. Enquanto devorava canapés e bebia martinis da ralé internacional que frequentava em North Shore, ele se apercebia de que não nutria por essa gente outro sentimento que não fosse o de completo desprezo. Poderia, talvez, ter feito amigos entre elementos mais respeitáveis, os fazendeiros do interior da ilha, os proprietários do litoral, os representantes das profissões liberais e do mundo político local. Mas isso significaria voltar a ter propósitos sérios numa vida em que a preguiça e o embotamento espiritual limitaram-se ao fundo das garrafas. Tal coisa estava inteiramente fora de suas cogitações.
O Major Smythe estava mortalmente entendiado e, se não fosse por determinado motivo, já teria há muito tempo engolido o vidro de barbitúricos que com facilidade adquirira a um dos médicos da ilha. O fio que ainda o prendia à vida era muito tênue. Os grandes bebedores tendem a exagerar o seu temperamento básico, que é sempre um destes quatro: sanguíneo, fleumático, colérico e melancólico. O bêbedo sanguíneo torna-se alegre até à histeria ou à idiotia. O fleumático afunda-se num abatimento sombrio. O colérico é o ébrio turbulento das caricaturas, que passa a maior parte do tempo na prisão, por ter quebrado coisas ou agredido pessoas. E o melancólico é o beberrão que tem pena de si mesmo, geralmente vomitando ou se desmanchando em prantos. O Major Smythe era um melancólico, com a curiosa e divertida fantasia de fazer relações pessoais com aves, insetos e peixes existentes nos cinco acres de Wavelet, isto é, de Ondinhas, nome sintomático que dera à sua pequena villa. A praia e o recife de coral, além dela, eram os seus lugares prediletos. E, entre todos os seres, preferia os peixes. Referia-se a eles como à “gente do mar” e, uma vez que os peixes, como as aves, são fiéis aos seus recantos, ao fim de dois anos ele os conhecia a todos intimamente, amava-os e acreditava ser retribuído por eles com igual amor.
Certo, eles o conheciam, como os animais de um Jardim Zoológico conhecem os seus tratadores. Como estes, ele lhes ia levar o alimento diário, arrecadando pedacinhos de algas e revolvendo a areia o os seixos do fundo do mar, para ajudar os que se alimentam nos lugares mais profundos. Desenterrava ovos e ouriços para os pequenos carnívoros e levava sobras de carne para os grandes. E agora, enquanto nadava lenta e pesadamente, de um lado para o outro do recife de coral e através dos canais que conduzem às águas profundas, sua “gente do mar” enxameava ao redor dele, sem nenhum medo, em atitude de expectativa, quase roçando a aguda ponta de seu arpão, que conheciam apenas como uma espécie de longa colher dadivosa. Vinham namorar o vidro da máscara Pirelli e, em alguns casos, como certas mulheres provocantes, tomavam intimidades perigosas, roçando em suas pernas e em seus pés.
Parte da mente do Major Smythe estava fixada nessa “gente” brilhante e colorida, mas outra parte se preocupava com uma tarefa que devia realizar naquele dia. Ele cumprimentava os peixes com palavras que não chegava a proferir — “Bom dia, beleza!” Era a sua mensagem a um peixe azul-escuro, salpicado de malhas que semelhavam lentejoulas, de um azul ainda mais intenso e brilhante. É o “peixe-joia”, que parece um vidro estrelado do perfume Vol de Nuit, de Worth. “Sinto muito, hoje não, meu bem”, dizia em silêncio a um peixe-borboleta, esvoaçante, com falsos “olhos” na cauda. “Você está gordo demais, meninão”, afirmava mentalmente a um peixe-papagaio de côr azul-índigo, que devia pesar uns bons cinco quilos. Seus olhos estavam sempre atentos, à procura de sua “gente”. No recife de coral, seu único inimigo que ele matava à primeira vista, era o peixe-escorpião.
O peixe-escorpião habita principalmente nas águas tépidas do sul e o rascasse, que é a base da bouillabaisse, pertence à mesma família. A variedade do Caribe alcança apenas cerca de doze polegadas de comprimento e pesa, talvez, meio quilo. É o mais feio peixe do mar, como se a natureza ao engendrá-lo assim tivesse querido nos fazer uma advertência. Sarapintado de marrom-acinzentado, tem uma cabeçorra felpuda, de feitio cuneiforme. Os olhos são de um vermelho agressivo e consegue dissimular perfeitamente a sua silhueta, em meio dos recifes. Embora sendo um peixe pequeno, sua boca amplamente guarnecida de dentes pontiagudos é tão grande que ele pode engolir, sem dificuldade, a maioria dos peixinhos que vivem ao redor dos corais. Mas a sua arma suprema consiste nas eretas barbatanas dorsais, as primeiros das quais agem por contato como agulhas hipodérmicas, alimentadas por glândulas venenosas, que contêm tetrodotoxina suficiente para matar um homem, se o atingirem num lugar vulnerável — por exemplo, numa artéria, sobre o coração ou nas virilhas. Esse é o único perigo real para quem se aventura a nadar nos recifes. Muito mais perigoso do que as barracudas e os tubarões, é extremamente confiante em sua camuflagem e em suas armas, não fugindo de coisa alguma, exceto de uma exagerada aproximação de um pé humano ou mesmo de um contato direto. Nossas ocasiões, o peixe-escorpião nada apenas alguns metros com seu largo peitoral, bizarramente listrado, parando atento, ou pousado na areia, onde por mimetismo parece uma formação coralina, ou entre as rochas e algas, onde virtualmente desaparece. O Major Smythe estava decidido a encontrar um, arpoá-lo e dá-lo a seu polvo, para ver se este o aceitava ou rejeitava. Queria saber se um dos grandes predadores do oceano reconheceria a periculosidade, o poder mortífero do veneno do outro. Consumiria o polvo a parte inferior do peixe-escorpião, sem lhe tocar nas espinhas letais? Devorá-las-ia também e viria a sofrer um castigo, atingido pelo veneno? Eram essas as perguntas que Bengry, do Instituto, desejava esclarecer. E, agora, sentindo o princípio do fim de sua vida, o solitário de Wavelets pensou que esse poderia ser também o fim do seu querido polvo. E decidiu dar resposta àquelas perguntas, deixando uma pequena lembrança de sua vida fútil e inútil num recanto empoeirado dos arquivos do Instituto.
É que, apenas duas ou três horas antes, o Major Dexter Smythe vira a sua vida transformar-se, passando de mal a pior. Para uma condição tão pior que ele teria muita sorte se, dentro de uma semana — tempo necessário para a troca de telegramas entre o governo da ilha e o Ministério das Colônias, que por sua vez se comunicaria com o Serviço Secreto e, através deste, com a Scotland Yard e a Procuradoria da Justiça, bem como para a transferência do Major Smythe para Londres, sob escolta policial —, na melhor das hipóteses, saísse de um inevitável julgamento condenado à prisão perpétua. E tudo isso por causa de um homem chamado Bond — Comandante James Bond —, que aparecera em Wavelets às 10h 30m da manhã, num táxi que tomara em Kingston. O dia tinha começado normalmente. O Major Smythe acordara de seu sono à base de seconal, engolira dois comprimidos de panadol (o precário estado cardíaco lhe proibira o uso da aspirina), tomara um banho de chuveiro e fora devorar o seu pequeno almoço debaixo de frondosa amendoeira, no jardim, onde passara uma hora, alimentando pássaros famintos com as sobras da refeição. Depois, tomou as doses de anticoagulante receitadas pelo médico e as pílulas contra a alta pressão arterial, matando o tempo com a leitura do Daily Gleaner e fazendo hora para tomar o seu primeiro trago. Antes, esperava até às 11 horas. Mas, por último, fixara esse momento em 10h 30m. Já havia servido dois conhaques com ginger ale — a bebida de quem sabe embebedar-se — quando ouviu o ruído do automóvel que se aproximava. Luana, a governante negra, não tardou a aparecer no jardim para anunciar: — Um cara tá aí para falar com o sinhô, Majó.
— Como se chama?
— Sei não, Majó. Disse não. Só falou que é negócio da casa do gunverno.
O Major Smythe vestia apenas uns velhos shorts de brim caqui e calçava um par de alpercatas. Não podia receber um visitante assim.
— Mande entrar para a sala, Luana, e diga que não demorarei a atendê-lo.
Foi ao seu quarto, vestiu um blusão branco, umas calças e penteou o que ainda lhe restava da antiga cabeleira. Um representante do governo! Que diabo quereria com ele? Mal entrou na sala, viu um homem alto, com um terno de tropical azul, debruçado na janela, olhando para o mar. O Major teve logo a sensação de que ia receber más notícias. E quando o homem se voltou encarando-o atentamente, com os olhos azul-cinza, Smythe teve a certeza de que ele estava, realmente, em missão oficial. E em missão nada amistosa, porque nem ao menos retribuiu o seu cordial sorriso. Um calafrio percorreu a espinha do major. Teriam, então, descoberto tudo?
— Bem, bem, eu sou Smythe. Pelo que sei, o senhor representa o governo da ilha. Como vai Sir Kenneth?
Não houve sequer um aperto de mão. O homem disse:
— Ainda não o vi. Faz só uns três dias que cheguei. Estive procurando ver os pontos pitorescos da ilha. Meu nome é Bond. James Bond. Sou do Ministério da Defesa.
O Major Smythe se lembrava do eufemismo habitualmente usado para designar o Serviço Secreto. E disse, esforçando-se para se mostrar animado e alegre: — Oh... A velha firma? Prefere conversar aqui mesmo, ou no jardim? Que tal um drinque? (E o Major pôs um cubo de gelo num copo, que já tinha nas mãos.) Rum e ginger ale é o mais popular veneno local... Eu, porém, prefiro ginger ale, sem mais nada...
A mentira lhe escapou com facilidade, graças ao automatismo dos alcoólatras. — Não me sirva nada. E falemos aqui mesmo — disse o recém-vindo, recostando-se no parapeito da janela, lavrado em mogno.
O Major Smythe sentou-se, passou uma perna sobre o braço da confortável poltrona e tomou um grande trago de seu copo, que depositou depois ao lado.
— Bem — disse, olhando o visitante com firmeza, cara a cara. — Em que poderei lhe ser útil? Alguém está fazendo sujeiras em North Shore e vocês estão precisando de ajuda? Terei prazer em voltar ao antigo trabalho. Já vai longe o tempo em que fui agente secreto, mas ainda me lembro de algumas técnicas...
— Não se incomoda que eu fume?
O visitante, ao fazer a pergunta, já tinha, nas mãos, uma cigarreira de forma achatada que poderia, no entanto, conter cinquenta cigarros. A esse sinal de fraqueza, comum a ambos, o major se sentiu confortado.
— Em absoluto, meu caro. (E fez um movimento, aproximando o seu isqueiro, aceso.) — Obrigado. (James Bond já havia acendido o cigarro.) Mas não vim aqui para tratar de assuntos locais. O que realmente me trouxe a North Shore foi o desejo de pedir-lhe que se recorde minuciosamente de seu trabalho para o Serviço Secreto, nos últimos dias da II Grande Guerra... (Fez uma pausa, para observar o efeito de suas palavras no Major Smythe) Principalmente quando trabalhou na Divisão de Assuntos Gerais...
O Major Smythe teve um riso breve e escarninho. Ele sabia. Estava absolutamente certo. Mas, quando a revelação saiu dos lábios daquele homem, não pôde conter a gargalhada, reação de alguém que se via golpeado em cheio e procurava dar a impressão contrária.
— Mas, Santo Deus! A velha DAG! Claro que me lembro ainda dela... E de tudo o mais...
Riu de novo. E sentiu aguilhoar-lhe o peito a dor constritiva da angina, provocada pela pressão do que certamente iria acontecer. Enfiou a mão no bolso da calça, despejou o conteúdo de um pequeno frasco no côncavo da outra mão e, depois, colocou sob a língua os pequenos comprimidos brancos de TNT. Observava divertidamente a crescente tensão estampada na fisionomia do visitante, cujos olhos se apertavam para melhor fitá-lo. Não precisava ter medo, não. Não se tratava de pílulas de cianureto ou qualquer outro veneno. O major despistou: — A acidose não o persegue? Não? Pois a azia é o meu tormento. Ontem à noite, fui a uma festa no Jamaica Inn. Preciso me lembrar de que não tenho mais 25 anos... Bem, mas ainda posso voltar para a DAG. Creio que hoje somos bem poucos, os veteranos, não? (Sentiu outra vez a dor no peito.) É alguma coisa a respeito da história oficial da guerra?
James Bond, olhando para a ponta do cigarro, disse que não se tratava exatamente disso.
— Pensava... Porque, não sei se sabe: eu escrevi quase todo o capítulo sobre o Serviço Secreto no War Book... Já faz muito tempo. Mas duvido que haja algo de realmente importante a acrescentar...
— Nem mesmo alguma coisa sobre certa operação no Tirol? Num lugar chamado Ober Aurach, a cerca de uma milha de distância de Kitzbuhel?
A menção desses nomes provocou outro pequeno riso do major:
— Mas essa operação foi uma ninharia... Tudo muito fácil. Aqueles sujeitos da Gestapo tinham mais fanatismo do que competência... Uns bêbedos. Conservaram em seus arquivos todas as pistas. E os entregaram sem nenhum protesto. Esperavam, em troca, a nossa indulgência, talvez... A grande maioria foi enforcada por crimes de guerra, acredito. Levei tudo para o Quartel-General, em Salzburgo. Depois, fui para o vale do Mittersill, à procura de outro esconderijo... O Major Smythe tomou outro trago e acendeu um cigarro. Depois, olhando para cima: — Acho que não há mais nada a acrescentar a essas linhas gerais...
— O senhor, se não me engano, foi nessa época o número 2... O commanding officer era um americano, não? O Coronel King, do Exército do General Patton...
— É verdade, ele foi meu chefe. Excelente sujeito. Usava um bigodinho, coisa que não é muito de americano. Tinha competência indiscutível para escolher vinhos. Um tipo muito civilizado...
— No seu relatório sobre aquela operação, ele afirma que lhe entregou todos os documentos necessários às buscas e investigações preliminares, por ser o senhor o perito em assuntos germânicos do grupo... O senhor devolveu esses papéis a ele com algumas notas ou observações? (James Bond fez uma pausa.) Todos, sem falta de um só?
O Major Smythe ignorou a insinuação:
— É verdade. O que ele me deu foi, principalmente, uma lista de nomes. Indicações recebidas da contra-espionagem. Os agentes da CE em Salzburgo ficaram muito satisfeitos com essas pistas. E puderam aprofundar as buscas em várias direções. Acredito que os originais devem estar arquivados em algum lugar, uma vez que foram usados nos julgamentos de Nuremberg. Isso mesmo! (O Major Smythe parecia forçar a memória.) Posso dizer que os mais alegres anos de minha vida foram os do período em que trabalhei para a DAG. Vinho, mulheres, música! Ah, se eu pudesse viver esse bom tempo outra vez!
Nessa ocasião, o Major Smythe dizia a pura verdade. Ele sustentara uma perigosa e desconfortável luta até 1945. Quando os famosos Comandos ingleses foram formados em 1941, ele se apresentara como voluntário, sendo transferido dos Fuzileiros Reais para o Quartel-General das Operações Combinadas, sob a direção de Lorde Mountbatten. Seu domínio da língua alemã (que lhe vinha da mãe, nascida em Heidelberg) qualificara-o para o invejável lugar de coletor de informações nas operações de Comandos através do canal da Mancha. Tivera a sorte de permanecer durante dois anos nesse trabalho sem um arranhão e de receber a Ordem do Império Britânico, tão ciosa e avaramente distribuída durante a última guerra. E, depois, quando se preparava o golpe final contra a Alemanha, a Divisão de Assuntos Gerais fora formada, em conjunto, pelo Serviço Secreto e os Comandos. O Major Smythe, comissionado, então, como tenente-coronel, recebeu a incumbência de formar a unidade que devia descobrir e limpar os esconderijos dos graúdos da Gestapo e da Abwehr no momento em que se desse o colapso do nazismo. O Serviço Secreto, ao aprovar o plano, insistiu em que fosse acompanhado o avanço americano não por uma única, mas por seis dessas unidades, que operariam na Alemanha e na Áustria no momento da rendição. Eram unidades de vinte homens, cada uma com um carro blindado ligeiro, seis jipes, três camionetas e um caminhão com instalações de radiotelefonia. Controladas por um comando misto, anglo-americano, teriam elas à sua disposição o pessoal do Serviço de Inteligência do Exército, do SIS e do OSS. O Major Smythe fora o número 2 da Força A, destinada a atuar no Tirol, área cheia de bons esconderijos, com fácil acesso à fronteira de outros países. Por isso mesmo, era considerada o valhacouto n.° 1 pelo pessoal da DAG. E, como confessara o Major Smythe a James Bond, a operação fora praticamente uma festa, não tendo sido preciso disparar um só tiro. Exceto, é claro, dois que foram disparados pelo próprio Major Smythe. James Bond perguntou-lhe com ar mais casual do mundo: — O nome de Hannes Oberhauser lhe evoca alguma lembrança?
O Major Smythe franziu o sobrecenho, como que num esforço para se lembrar:
— Não, creio que não... (Fazia 32 graus à sombra, mas ele tremia de frio.) — Permita que eu lhe refresque a memória... No mesmo dia em que os documentos lhe foram entregues para exame, o senhor fez perguntas no Tiefenbrunner Hotel, onde se hospedou, sobre quem era o melhor guia alpino de Kitzbuhel. Foi-lhe indicado o guia Oberhauser. No dia seguinte, o senhor pediu ao seu comandante um dia livre, que lhe foi concedido. Na manhã desse dia, o senhor se dirigiu ao chalé de Oberhauser, prendeu-o com a cláusula de incomunicabilidade, e o levou no seu jipe. Não está se lembrando dessas particularidades?
Como era familiar aquela frase sobre o refrescamento da memória! Quantas vezes o próprio Major Smythe não a usara, como armadilha, para nela colher um mentiroso nazista?... Mas não devia, agora, se afobar. Há anos que estava preparado para alguma coisa nesse estilo. E, por isso, respondeu: — Não... Eu absolutamente não me lembro.
— Oberhauser era um homem de cabelo grisalho e claudicava de uma perna. Falava algum inglês, pois antes da guerra costumava trabalhar como instrutor de esqui, tendo como aprendizes ingleses e americanos...
O Major Smythe olhou impàvidamente para o visitante, fixando-lhe os olhos frios e claros:
— Sinto muito... Mas não posso ajudá-lo. Não me recordo.
James Bond tirou do bolso o pequeno caderno de notas, folheando-o ligeiramente. Deteve-se numa das páginas e disse:
— Vou ajudar um pouco mais a sua memória. Nesse tempo, como arma de uso pessoal, o senhor tinha um revólver regulamentar Webley & Scott, calibre 45, com o número da série 8967/362...
— Sim, era Webley... Um trabucão enorme, difícil de carregar. Espero que tenham adotado algo melhor. Assim como um Luger ou uma Beretta pesada. Mas eu nunca me dei ao trabalho de anotar o número...
— O número é esse mesmo — disse James Bond. — Verifiquei a data em que o recebeu do QG e a data em que o devolveu. O senhor assinou o livro de carga, ambas as vezes...
— Então, deve ter sido essa mesma a minha arma — concordou o Major Smythe, dando de ombros. — Mas... (E agora havia impaciência em sua voz) ... Mas, se me permite a pergunta, em que é que isso pode interessar?
James Bond o olhou com certa curiosidade. Depois falou e não se poderia dizer que o seu tom fosse cruel:
— Bem sabe que isso é fundamental, Smythe. (Fez uma pausa e pareceu refletir.) Façamos um acordo. Eu irei ao jardim, por uns dez minutos, pouco mais ou menos. Dou-lhe tempo para se lembrar de tudo com exatidão. Quando se tiver lembrado, me chame... (E acrescentou, a sério:) — Tornará as coisas bem mais fáceis para você a reconstituição do caso em suas próprias palavras... (Caminhou para a porta do jardim, mas se voltou.) — Creio que se trata apenas de pingar os ii e cortar os tt... Quero que saiba que, antes de vir aqui esta manhã, tive uma boa conversa com os irmãos Fu, em Kingston...
0 Major Smythe sentiu-se de certa forma desoprimido. Acabara a batalha das insinuações e das evasivas, a tentativa de despistar e de inventar álibis. Era o fim das negaças. Se o tal James Bond conversara com os irmãos Fu, sem dúvida arrancara alguma coisa dos chineses. De modo algum quereriam eles qualquer complicação com as autoridades. E, além do mais, ainda tinham uma parte da muamba em seu poder. O Major se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale, quase meio a meio. O melhor era tomar uns bons tragos, enquanto ainda podia! O futuro não lhe ofereceria muitas oportunidades como essa. Voltou para a poltrona, acendeu o vigésimo cigarro do dia e olhou para o relógio. Eram 11h30m. Se pudesse livrar-se daquele importuno dentro de uma hora, ainda poderia ir ver a sua “gente”. Sentou-se e bebeu, mergulhado em seus pensamentos. Poderia prolongar ou abreviar a sua história, se adicionasse alguma coisa sobre o estado do tempo, o perfume das flores dos pinheiros que aspirara nas montanhas... Mas poderia omitir a paisagem e abreviá-la. Preferiu abreviar. Viu-se na cama dupla, no Tiefenbrunner Hotel, com montanhas de papelório para examinar. Não procurava nada de especial. Apenas apanhava, a esmo, um documento aqui, outro ali, concentrando-se principalmente nos que tinham o timbre, em vermelho, de KOMMANDOSACHE, HOECHST VERTRAULICH. Não existiam muitos destes, que eram quase sempre informações confidenciais sobre nazistas graúdos, sobre códigos aliados que os alemães tinham decifrado e sobre esconderijos secretos. Desde que estes eram um dos principais objetivos da Força A, o Major Smythe os havia examinado com particular excitação — eram esconderijos de alimentos, de explosivos, de armas, de fichários de espionagem e do pessoal da Gestapo, uma imensa rede de arrasto com toda a espécie de peixes! E, ainda, no fim de toda a papelada, um simples envelope lacrado, com o aviso: PARA SER ABERTO APENAS EM CASO DE EMERGÊNCIA. O envelope continha uma só folha de papel. Não havia assinatura sob as palavras escritas em letra vermelha.
No cabeçalho, havia a palavra VALUTA.
Embaixo, lia-se: WILDE KAISER. FRANZISKANER HALT. 100 M. OESTLICH STEINHUGEL. WAFFENKISTE. ZWEI BAR 24 KT. e uma lista de medidas em centímetros. O Major Smythe afastou as mãos, como se numa história de pescaria, estivesse mostrando as dimensões de um peixe. Duas barras de ouro de 24 quilates, cada uma, quase tão grande como dois tijolos! E pensar que um simples soberano inglês, de apenas dezoito quilates, valia naquele momento entre duas e três libras! As duas barras de ouro representam uma verdadeira fortuna! Quarenta, cinquenta mil libras, era quanto valeriam! Não tinha ainda ideia alguma a respeito, mas — era o melhor — riscou um fósforo e acendeu o papel e o envelope, reduzindo-os a cinzas, que colocou na pia e fez desaparecer sob um jorro d’água. Apanhou, depois, o mapa da área, em grande escala, preparado pela artilharia austríaca e, um momento depois, tinha sob o dedo o Franziskaner Halt. Nele estava indicado um abrigo alpino desabitado, refúgio de montanhistas, numa espécie de pequeno platô logo abaixo do mais alto pico das montanhas do Kaiser, essa imensa massa de pedras dentadas que fecha, ao norte, o horizonte de Kitzbuhel. E ali, onde o seu dedo repousava, devia existir o marco de pequenas pedras amontoadas. Significava isso que uma fortuna estava ao seu alcance, a apenas dez milhas de distância e, talvez, a apenas cinco horas de subida!
O princípio tinha sido tal como James Bond descrevera. Fora ao chalé de Oberhauser às 4 horas da madrugada. Prendera-o e dissera a seus familiares, todos em lágrimas, que o ia levar para o centro de interrogatórios, em Munique. Se o guia estivesse isento de culpa, estaria de volta dentro de uma semana. Se a família fizesse algum protesto isso só poderia prejudicar Oberhauser, tornando as coisas ainda mais difíceis. Smythe se recusara a declinar o seu nome e tivera a precaução de ocultar o número do jipe. Dentro de 24 horas, a Força A deixaria o lugar e o governo militar se instalaria em Kitzbuhel. E então o incidente seria sepultado no esquecimento pelo tumulto e pelas complicações decorrentes da própria ocupação militar.
Oberhauser revelou-se um excelente sujeito, disposto a cooperar, assim que perdeu o medo inicial. E quando Smythe começou a lhe falar de alpinismo e de esqui se tornou uma camaradão. O caminho passava ao sopé das montanhas, rumo a Kufstein. Smythe dirigia lentamente, fazendo comentários admirativos sobre os picos em que já se refletiam as primeiras luzes matinais. Finalmente, junto à base do Pico do Ouro, voltou-se para Oberhauser e lhe disse: — Oberhauser, você é uma pessoa com quem simpatizo. Temos muitos interesses em comum e, pela sua conversa, estou convencido de que não cooperou com os nazistas. Eu lhe explico o que pretendo fazer por você. Passaremos o dia escalando as montanhas do Kaiser e, depois, eu o levo de volta para Kitzbuhel. Direi, então, ao meu chefe que, interrogado em Munique, você foi imediatamente liberado... Que me diz a isso? — Rematou, com um sorriso.
O homem quase derramou lágrimas de gratidão. Mas era preciso que ele tivesse, em seu poder, um papel mostrando que estava isento de culpa? Certamente. A assinatura do Major Smythe seria mais que suficiente. Feito o pacto, o jipe foi dirigido através de um atalho e ficou escondido, longe da estrada, entre os pinheiros. Smythe estava preparado para a excursão, sem nada sob a jaqueta, vestindo um short e calçando botas de paraquedistas, fornecidas à unidade pelos americanos. A carga que levava era apenas o revólver Webley & Scott, absolutamente necessário, pois afinal de contas Oberhauser era um inimigo. O guia vestia a sua melhor roupa e calçava as suas botas alpinas. Não estava preocupado com a subida. E assegurou ao Major Smythe que não seria necessário usar nem cordas, nem ganchos, até chegarem à cabana, em que poderiam parar para descansar. Era aí o Franziskaner Halt.
— É esse o nome? — Perguntou o Major.
— Sim. E um pouco abaixo há uma pequena geleira. Passaremos ao largo, pois nela há muitas fendas.
— Assim faremos... — Disse o Major Smythe, pensativamente, examinando a parte posterior da cabeça de Oberhauser, por onde o suor escorria. Ora, afinal, ele era apenas um reles comedor de chucrute, talvez da mesma laia que os nazistas. Seria tão fácil liquidá-lo... A única coisa que preocupava o major era trazer a muamba pela montanha abaixo. Poderia colocar as barras de ouro às costas. Ou arrastá-las — por que não? — Durante grande parte do percurso, na sua caixa de munição. Longa e tortuosa foi a caminhada, montanha acima. Quando deixaram para trás os pinheiros, já o sol se alteava, dardejante. A princípio, caminharam entre rochas e entulhos, em constantes zigue-zagues. Sem o auxílio de um guia, nunca conseguiria o major chegar ao cimo do penhasco cinzento e ameaçador, que parecia tocar o azul do céu. Ambos caminhavam agora nus da cintura para cima, banhados em suor, que lhes escorria pelas pernas para dentro das botas. Embora o guia claudicasse, subiam com relativa rapidez. Quando pararam, para um drinque e um breve descanso, Oberhauser se congratulou com Smythe por estar em tão boa forma. O major, com a cabeça escaldando, tantos eram os seus planos, disse ríspida e mentirosamente que todos os ingleses eram cobras, em matéria de escalar montanhas. Subir ao penhasco não era difícil. Se lá havia uma cabana, é porque o material para a sua construção fora levado para ali nos ombros de alguém. Em certos lugares, pontos de apoio tinham sido cavados na rocha. E havia, ocasionalmente, grampos de ferro, em que os alpinistas podiam se agarrar. Mas achar as passagens exatas era o mesmo que descobrir os segredos de um labirinto. Ainda bem que trouxera o guia. Este, em certo momento, sondando o chão, para verificar se estava firme, fizera correr pequenina avalancha de pedras afrouxadas por muitos anos de ventanias e nevascas. Elas se precipitaram, com estrondo, lá embaixo. O Major Smythe pensou logo no barulho, que poderia despertar atenção. Perguntou se não haveria gente nas proximidades.
— Qual! Ninguém... A não ser nas proximidades de Kufstein... — Disse Oberhauser, apontando uma larga extensão, ao redor. — Aqui há pouca água e nenhum pasto. E, desde o princípio da guerra... (Interrompeu-se, deixando a frase incompleta.) Ladearam a geleira e continuaram a subida. A vista do Major Smythe media a extensão e a largura das fendas, por onde iriam passar. A uns cem pés acima, viram, então, a cabana, batida pelas intempéries. O major mediu o ângulo do declive. Era quase uma linha reta. Agora? Ou depois? Preferiu que fosse depois. O caminho para a última parte da travessia ainda não estava claramente definido. Alcançaram a cabana ao fim de cinco horas. O Major Smythe disse que queria aliviar um pouco a bexiga e caminhou para o leste, sem dar atenção alguma aos belos panoramas da Áustria e da Baviera, que se estendiam por cinquenta milhas, sob o sol estival. Ele contava os passos com extremo cuidado. Exatamente a 120 havia o montículo de pedras, talvez um marco carinhosamente erguido em memória de um alpinista desaparecido. Era isso o que qualquer pessoa normalmente pensaria. Mas o Major Smythe, sabendo que não se tratava disso, ardia de desejos de desfazer a pequena pirâmide de pedras soltas. Mas, em vez de fazê-lo, tirou do coldre o seu Webley & Scott, soltou a trava e examinou o cilindro. E voltou, então, rumo à cabana, onde Oberhauser entrara. Fazia frio, a tal altura — uns bons 3 mil metros —, e o guia acendia o fogo. Smythe controlou o seu horror e pediu: — Oberhauser, venha me mostrar as paisagens. Há vistas maravilhosas, aqui em cima!
— Com prazer, major — disse o guia, seguindo Smythe para fora da cabana. Uma vez lá fora, tirou do bolso um papel, no qual havia alguma coisa embrulhada. Ofereceu-a ao major, acrescentando: — Isto é o que chamamos Soldat. É uma salsicha defumada. Dura, mas muito saborosa. (Sorriu.) Parece com aquilo que os americanos comem nos filmes de Far-West. Como é mesmo o nome?
— Charque — disse o major. Depois — e mais tarde se arrependeu de o ter privado da pequena refeição — aconselhou: — Deixe isso na cabana. Depois, viremos comer. Será que daqui podemos ver Innsbruck? Mostre-me para que lado é...
Oberhauser entrou na cabana e logo saiu de novo. O major caminhou por trás dele, que falava e gesticulava, mostrando aqui o pico de uma montanha, além a torre de uma igreja distante. Chegaram ao lugar acima da geleira. O major tirou então o revólver e, a uma distância de pouco mais de meio metro, disparou dois tiros na base do crânio de Hannes Oberhauser. Que nem estrebuchou. Caiu já morto. O impacto das balas atirou o guia na borda do precipício. O Major Smythe o empurrou para baixo. O corpo bateu em duas anfractuosidades do penhasco e caiu em cima da geleira. Mas sem escorregar para as fendas. Ficou a meio do caminho, junto a um monte de neve antiga, acumulada.
— Com os diabos! — Disse o major.
Os estampidos repercutiram naquelas alturas como se fossem tiros de morteiros e o eco os repetiu a distância. O Major Smythe lançou um olhar sobre a figura imóvel, estendida junto ao monte de neve, e logo correu para o montículo de pedra. Devia cuidar das coisas mais importantes em primeiro lugar! Começou a afastar as pedras, com uma pressa diabólica, atirando as mais roliças pela montanha abaixo. Feriu-se em arestas cortantes e, quando deu pela coisa, sua mão estava sangrando, mas não ligou importância. Um pouco de sangue, que é que tinha? Precisava era andar depressa, depressa — e continuou a escavar, furiosamente. O monte de pedra desaparecia. E então! Sim! Lá estava alguma coisa que parecia ser uma tampa metálica. Mais algumas pedras foram retiradas e apareceu uma velha caixa de munições da Wehrmacht. Em cima dela, ainda havia traços de seu antigo letreiro. O Major Smythe soltou um grunhido de alegria. Sentou-se sobre uma pedra e sua imaginação entrou em órbita, descrevendo círculos sobre carros Rolls Royce, iate em Monte Carlo, apartamentos de cobertura, joias de Cartier, champanha, caviar e, no meio de tudo, uma vez que amava o golfe, uma nova coleção de bastões metálicos de Henry Cotton.
Embriagado com esses sonhos, o Major Smythe ficou ali sentado um bom quarto de hora fitando a caixa metálica, como que fascinado. Depois, olhou para o relógio e levantou-se. Não devia perder tempo. Tinha que eliminar as pistas. A caixa tinha alças de ambos os lados. O major esperara que fosse pesada. Mentalmente, ele a havia comparado à coisa mais pesada que até então carregara — um salmão de vinte quilos que pescara na Escócia, pouco antes da guerra —, mas a caixa tinha mais do dobro desse peso. E ele só com muita dificuldade a retirara do seu leito entre as pedras para colocá-la sobre a rala relva alpina. Amarrou, então, o seu lenço numa das alças e, pondo-a desajeitadamente no ombro, levou-a para a cabana. Sentou-se, então, na soleira da porta e, sem despregar inteiramente os olhos da caixa, cortou a salsicha defumada de Oberhauser com seus dentes vigorosos e começou a comê-la, pensando como havia de transportar as suas 50 mil libras — era esse o seu cálculo — pela montanha abaixo. A salsicha era, realmente, uma ótima refeição montanhesa, dura, gorda, rescendendo a tempero forte à base de alho. Partículas dela ficaram incômodamente presas aos seus dentes. Limpou-os com um palito de prata. Sua preocupação era fazer desaparecer todos os vestígios de sua presença. De agora em diante, era um criminoso. Tão criminoso como alguém que tivesse roubado um banco e assassinado o vigia. Precisava lembrar-se disso! Se não se lembrasse, teria a morte, em vez das coisas maravilhosas com que sonhava. Precisava ter infinita cautela. E teria! Seria, para sempre, rico e feliz. Depois de tomar precauções ridiculamente minuciosa para não deixar na cabana o menor traço de sua passagem, arrastou a caixa metálica para a borda do precipício, distante da geleira, e de lá atirou-a embaixo, rezando para que chegasse intacta. A caixa cinzenta rolou no espaço, bateu numa ponta de pedra, continuou a descer, chocou-se cem metros abaixo com outra anfractuosidade e, por fim, atingiu o chão de um entulho, onde parou. O Major Smythe não podia vê-la, de onde estava, e não podia saber se estava aberta. Tanto fazia que estivesse ou não! A própria montanha poderia tê-lo poupado ao trabalho de abri-la...
Depois de um último olhar em torno, ele começou a descer, experimentando com prudência a solidez de cada grampo e de cada ponto de apoio, antes de firmar-se com todo o peso de seu corpo. Na descida, sua vida tinha um valor muito maior que na subida. Caminhou para a geleira e atravessou a passagem em que a neve começava a derreter-se formando sobre o gelo uma mancha escura. Dentro de mais alguns dias, toda a neve estaria derretida. Chegou até onde estava o cadáver. Tinha visto muitos, durante a guerra. Ossos fraturados e carnes sangrentas nada significavam para ele. Arrastou os restos de Oberhauser para a fenda mais próxima e, depois, atirou em cima a neve, acumulada nas bordas. Enterrado o corpo, mostrou-se satisfeito com o seu trabalho, tendo, ao voltar, o cuidado de recolocar os pés sobre as mesmas pegadas que fizera na vinda. E então empreendeu à descida, ao encontro da caixa metálica. Sim, como esperava, a montanha a havia aberto para ele! Com um gesto despreocupado, desfez os invólucros, em papel empregado na fabricação de cartuchos. As duas grandes barras de metal cintilaram ao sol. Tinham ambas as mesmas marcas: a cruz suástica num círculo, sob uma águia, e a data de 1943, símbolos usados pelo Reichsbank. O Major Smythe fez um movimento de aprovação com a cabeça. Recompôs os invólucros e, como a lingueta da tampa, que saltara, não fechasse mais a tampa, teve de bater-lhe com uma pedra, até voltar ao lugar. Passou, então, numa das alças o cinturão em que costumava conduzir o revólver, e continuou a descida, arrastando-a atrás de si. Era então 1 hora da tarde e o sol lhe queimava o busto nu, fritando-o em seu próprio suor. Seus ombros, avermelhados, estavam em fogo. A soalheira também queimava o seu rosto. Com os diabos! Parou junto a uma cascata que descia dos gelos da montanha, embebeu o lenço em água fria e o colocou na cabeça. Bebeu, depois, largamente e prosseguiu, praguejando, às vezes com fúria, quando em alguns declives mais fortes a caixa de metal o atropelava, machucando-lhe os calcanhares. Mas esses desconfortos, as queimaduras e os arranhões, não eram nada comparados com o que ele ainda teria que enfrentar no vale, onde o terreno era nivelado. Até então, tivera a lei da gravidade a seu lado. Mas na última milha é que seria um problema carregar aquela infernal muamba! 0 Major Smythe sentia as costas e o pescoço em fogo. Disse, porém, a si mesmo, para encorajar-se: — Bolas! Il faut souffrir pour être millionaire!
CONTINUA
O olho do molusco o observava cuidadosamente, de sua loca, no recife de coral. Agora, a ponta de um dos oito tentáculos avançava uma ou duas polegadas, ondulando hesitantemente, como se fizesse uma vaga exploração com as ventosas rosadas. Dexter Smythe sorriu com satisfação. Se lhe fosse dado o tempo necessário, ao menos um mês mais, além dos dois durante os quais se acamaradara com o polvo, decerto domesticaria inteiramente o fascinante animal. Mas temia que não chegasse a viver tanto. Devia aproveitar aquela oportunidade para se aproximar do molusco e lhe oferecer a mão de amigo. Sim... Em vez de limitar-se a lhe dar comida, na ponta de um arpão, devia, por assim dizer, apertar-lhe a mão, não era mesmo? “Não, ainda não, meu negrinho — pensou —, ainda não posso ter confiança em você...” Com toda a certeza, se fosse imprudente, outros tentáculos sairiam da loca lhe envolveriam o braço. E, puxado pelo polvo, a válvula de corliça da máscara se fecharia automaticamente. Ficaria sufocado. Ou, se o polvo a arrancasse, na certa morreria afogado. Quando muito, com um golpe rápido e feliz do arpão, poderia ferir o octópode, mas para matá-lo seria preciso muito mais do que isso. Não... Talvez mais tarde. Agora, seria o mesmo que enfrentar uma rolêta-russa, com cinco chances contra e uma só a favor. Poderia, mesmo, representar um meio rápido, eficaz e bizarro de pôr termo aos seus aborrecimentos! Mas, agora... não! Isso deixaria insolúvel uma questão sumamente interessante. E ele havia prometido resolvê-la... Dera a sua palavra ao simpático Professor Bengry, do Instituto Biológico Marinho. Dexter Smythe afastou-se do recife de coral, nadando lentamente. Seus olhos atentos buscavam, com empenho, a forma estranha e sinistra do peixe-escorpião, ou, como diria Bengry, do Scorpaena Plumieri.
O Major Dexter Smythe, condecorado com a Ordem do Império Britânico, oficial do Corpo de Fuzileiros Reais (reformado), era o que restava de um outrora bravo militar e homem encantador, que fazia conquistas sexuais fáceis em todos os meios em que atuava fardado. Principalmente entre o pessoal das organizações militares femininas — as Wrens, as Wracs e as moças do ATS, incumbidas das comunicações e do secretariado das forças-tarefas especiais, de que ele fizera parte, no fim de sua carreira. Tinha agora cinquenta e quatro anos. Estava ligeiramente calvo. E sua barriga se acomodava com certa dificuldade nos apertados limites do calção de banho. Além disso, tivera já duas complicações coronárias. Seu médico era Jimmy Graves, que fora um dos seus parceiros no jogo de pôquer de cacife altíssimo, no Queen’s Club, logo que ele chegara, com a mulher, à Jamaica. Meio a sério, meio brincando, o médico havia descrito a última dessas complicações, ocorrida um mês antes, como sendo a “segunda advertência”. Mas, em suas roupas bem talhadas, ocultas as muitas varizes às vistas indiscretas, com a barriga comprimida por uma larga cinta que o imaculado colête-faixa disfarçava, o antigo militar ainda fazia boa figura, num coquetel ou num jantar, em North Shore. Para seus amigos e vizinhos dessa praia, era um mistério o motivo pelo qual desafiava ele as recomendações do médico. Este lhe impusera uma dieta de uísque e de cigarros, limitados respectivamente a dois e a dez por dia, mas ele insistia em fumar como uma chaminé e em ir sempre para a cama bêbedo. Agradàvelmente bêbedo.
A verdade é que Dexter Smythe tinha chegado à fronteira em que o instinto da vida começa a ceder ao desejo da morte. As origens desse estado de espírito eram muitas e complexas. Estava irremediavelmente amarrado à Jamaica. A indolência tropical apoderara-se gradualmente de seu organismo, de tal modo que, se aparentava ser uma sólida peça de madeira de lei, interiormente não era mais que um tronco fofo, corroído pelos cupins. Tinha um exterior envernizado, mas ilusório. A preguiça, o relaxamento, o sentimento de culpas antigas, o total desgosto em relação a si mesmo haviam erodido o seu cerne, transformando-o em pó de serragem. Desde a morte de Mary, dois anos antes, não tinha mais amado a ninguém. Nem sequer estava certo de que realmente a havia amado. Sabia, porém, que sentia a ausência dela a todas as horas do dia, que sentia falta de seu afeto e de sua alegria, de sua presença desmazelada, barulhenta e, por vezes, irritante. Enquanto devorava canapés e bebia martinis da ralé internacional que frequentava em North Shore, ele se apercebia de que não nutria por essa gente outro sentimento que não fosse o de completo desprezo. Poderia, talvez, ter feito amigos entre elementos mais respeitáveis, os fazendeiros do interior da ilha, os proprietários do litoral, os representantes das profissões liberais e do mundo político local. Mas isso significaria voltar a ter propósitos sérios numa vida em que a preguiça e o embotamento espiritual limitaram-se ao fundo das garrafas. Tal coisa estava inteiramente fora de suas cogitações.
O Major Smythe estava mortalmente entendiado e, se não fosse por determinado motivo, já teria há muito tempo engolido o vidro de barbitúricos que com facilidade adquirira a um dos médicos da ilha. O fio que ainda o prendia à vida era muito tênue. Os grandes bebedores tendem a exagerar o seu temperamento básico, que é sempre um destes quatro: sanguíneo, fleumático, colérico e melancólico. O bêbedo sanguíneo torna-se alegre até à histeria ou à idiotia. O fleumático afunda-se num abatimento sombrio. O colérico é o ébrio turbulento das caricaturas, que passa a maior parte do tempo na prisão, por ter quebrado coisas ou agredido pessoas. E o melancólico é o beberrão que tem pena de si mesmo, geralmente vomitando ou se desmanchando em prantos. O Major Smythe era um melancólico, com a curiosa e divertida fantasia de fazer relações pessoais com aves, insetos e peixes existentes nos cinco acres de Wavelet, isto é, de Ondinhas, nome sintomático que dera à sua pequena villa. A praia e o recife de coral, além dela, eram os seus lugares prediletos. E, entre todos os seres, preferia os peixes. Referia-se a eles como à “gente do mar” e, uma vez que os peixes, como as aves, são fiéis aos seus recantos, ao fim de dois anos ele os conhecia a todos intimamente, amava-os e acreditava ser retribuído por eles com igual amor.
Certo, eles o conheciam, como os animais de um Jardim Zoológico conhecem os seus tratadores. Como estes, ele lhes ia levar o alimento diário, arrecadando pedacinhos de algas e revolvendo a areia o os seixos do fundo do mar, para ajudar os que se alimentam nos lugares mais profundos. Desenterrava ovos e ouriços para os pequenos carnívoros e levava sobras de carne para os grandes. E agora, enquanto nadava lenta e pesadamente, de um lado para o outro do recife de coral e através dos canais que conduzem às águas profundas, sua “gente do mar” enxameava ao redor dele, sem nenhum medo, em atitude de expectativa, quase roçando a aguda ponta de seu arpão, que conheciam apenas como uma espécie de longa colher dadivosa. Vinham namorar o vidro da máscara Pirelli e, em alguns casos, como certas mulheres provocantes, tomavam intimidades perigosas, roçando em suas pernas e em seus pés.
Parte da mente do Major Smythe estava fixada nessa “gente” brilhante e colorida, mas outra parte se preocupava com uma tarefa que devia realizar naquele dia. Ele cumprimentava os peixes com palavras que não chegava a proferir — “Bom dia, beleza!” Era a sua mensagem a um peixe azul-escuro, salpicado de malhas que semelhavam lentejoulas, de um azul ainda mais intenso e brilhante. É o “peixe-joia”, que parece um vidro estrelado do perfume Vol de Nuit, de Worth. “Sinto muito, hoje não, meu bem”, dizia em silêncio a um peixe-borboleta, esvoaçante, com falsos “olhos” na cauda. “Você está gordo demais, meninão”, afirmava mentalmente a um peixe-papagaio de côr azul-índigo, que devia pesar uns bons cinco quilos. Seus olhos estavam sempre atentos, à procura de sua “gente”. No recife de coral, seu único inimigo que ele matava à primeira vista, era o peixe-escorpião.
O peixe-escorpião habita principalmente nas águas tépidas do sul e o rascasse, que é a base da bouillabaisse, pertence à mesma família. A variedade do Caribe alcança apenas cerca de doze polegadas de comprimento e pesa, talvez, meio quilo. É o mais feio peixe do mar, como se a natureza ao engendrá-lo assim tivesse querido nos fazer uma advertência. Sarapintado de marrom-acinzentado, tem uma cabeçorra felpuda, de feitio cuneiforme. Os olhos são de um vermelho agressivo e consegue dissimular perfeitamente a sua silhueta, em meio dos recifes. Embora sendo um peixe pequeno, sua boca amplamente guarnecida de dentes pontiagudos é tão grande que ele pode engolir, sem dificuldade, a maioria dos peixinhos que vivem ao redor dos corais. Mas a sua arma suprema consiste nas eretas barbatanas dorsais, as primeiros das quais agem por contato como agulhas hipodérmicas, alimentadas por glândulas venenosas, que contêm tetrodotoxina suficiente para matar um homem, se o atingirem num lugar vulnerável — por exemplo, numa artéria, sobre o coração ou nas virilhas. Esse é o único perigo real para quem se aventura a nadar nos recifes. Muito mais perigoso do que as barracudas e os tubarões, é extremamente confiante em sua camuflagem e em suas armas, não fugindo de coisa alguma, exceto de uma exagerada aproximação de um pé humano ou mesmo de um contato direto. Nossas ocasiões, o peixe-escorpião nada apenas alguns metros com seu largo peitoral, bizarramente listrado, parando atento, ou pousado na areia, onde por mimetismo parece uma formação coralina, ou entre as rochas e algas, onde virtualmente desaparece. O Major Smythe estava decidido a encontrar um, arpoá-lo e dá-lo a seu polvo, para ver se este o aceitava ou rejeitava. Queria saber se um dos grandes predadores do oceano reconheceria a periculosidade, o poder mortífero do veneno do outro. Consumiria o polvo a parte inferior do peixe-escorpião, sem lhe tocar nas espinhas letais? Devorá-las-ia também e viria a sofrer um castigo, atingido pelo veneno? Eram essas as perguntas que Bengry, do Instituto, desejava esclarecer. E, agora, sentindo o princípio do fim de sua vida, o solitário de Wavelets pensou que esse poderia ser também o fim do seu querido polvo. E decidiu dar resposta àquelas perguntas, deixando uma pequena lembrança de sua vida fútil e inútil num recanto empoeirado dos arquivos do Instituto.
É que, apenas duas ou três horas antes, o Major Dexter Smythe vira a sua vida transformar-se, passando de mal a pior. Para uma condição tão pior que ele teria muita sorte se, dentro de uma semana — tempo necessário para a troca de telegramas entre o governo da ilha e o Ministério das Colônias, que por sua vez se comunicaria com o Serviço Secreto e, através deste, com a Scotland Yard e a Procuradoria da Justiça, bem como para a transferência do Major Smythe para Londres, sob escolta policial —, na melhor das hipóteses, saísse de um inevitável julgamento condenado à prisão perpétua. E tudo isso por causa de um homem chamado Bond — Comandante James Bond —, que aparecera em Wavelets às 10h 30m da manhã, num táxi que tomara em Kingston. O dia tinha começado normalmente. O Major Smythe acordara de seu sono à base de seconal, engolira dois comprimidos de panadol (o precário estado cardíaco lhe proibira o uso da aspirina), tomara um banho de chuveiro e fora devorar o seu pequeno almoço debaixo de frondosa amendoeira, no jardim, onde passara uma hora, alimentando pássaros famintos com as sobras da refeição. Depois, tomou as doses de anticoagulante receitadas pelo médico e as pílulas contra a alta pressão arterial, matando o tempo com a leitura do Daily Gleaner e fazendo hora para tomar o seu primeiro trago. Antes, esperava até às 11 horas. Mas, por último, fixara esse momento em 10h 30m. Já havia servido dois conhaques com ginger ale — a bebida de quem sabe embebedar-se — quando ouviu o ruído do automóvel que se aproximava. Luana, a governante negra, não tardou a aparecer no jardim para anunciar: — Um cara tá aí para falar com o sinhô, Majó.
— Como se chama?
— Sei não, Majó. Disse não. Só falou que é negócio da casa do gunverno.
O Major Smythe vestia apenas uns velhos shorts de brim caqui e calçava um par de alpercatas. Não podia receber um visitante assim.
— Mande entrar para a sala, Luana, e diga que não demorarei a atendê-lo.
Foi ao seu quarto, vestiu um blusão branco, umas calças e penteou o que ainda lhe restava da antiga cabeleira. Um representante do governo! Que diabo quereria com ele? Mal entrou na sala, viu um homem alto, com um terno de tropical azul, debruçado na janela, olhando para o mar. O Major teve logo a sensação de que ia receber más notícias. E quando o homem se voltou encarando-o atentamente, com os olhos azul-cinza, Smythe teve a certeza de que ele estava, realmente, em missão oficial. E em missão nada amistosa, porque nem ao menos retribuiu o seu cordial sorriso. Um calafrio percorreu a espinha do major. Teriam, então, descoberto tudo?
— Bem, bem, eu sou Smythe. Pelo que sei, o senhor representa o governo da ilha. Como vai Sir Kenneth?
Não houve sequer um aperto de mão. O homem disse:
— Ainda não o vi. Faz só uns três dias que cheguei. Estive procurando ver os pontos pitorescos da ilha. Meu nome é Bond. James Bond. Sou do Ministério da Defesa.
O Major Smythe se lembrava do eufemismo habitualmente usado para designar o Serviço Secreto. E disse, esforçando-se para se mostrar animado e alegre: — Oh... A velha firma? Prefere conversar aqui mesmo, ou no jardim? Que tal um drinque? (E o Major pôs um cubo de gelo num copo, que já tinha nas mãos.) Rum e ginger ale é o mais popular veneno local... Eu, porém, prefiro ginger ale, sem mais nada...
A mentira lhe escapou com facilidade, graças ao automatismo dos alcoólatras. — Não me sirva nada. E falemos aqui mesmo — disse o recém-vindo, recostando-se no parapeito da janela, lavrado em mogno.
O Major Smythe sentou-se, passou uma perna sobre o braço da confortável poltrona e tomou um grande trago de seu copo, que depositou depois ao lado.
— Bem — disse, olhando o visitante com firmeza, cara a cara. — Em que poderei lhe ser útil? Alguém está fazendo sujeiras em North Shore e vocês estão precisando de ajuda? Terei prazer em voltar ao antigo trabalho. Já vai longe o tempo em que fui agente secreto, mas ainda me lembro de algumas técnicas...
— Não se incomoda que eu fume?
O visitante, ao fazer a pergunta, já tinha, nas mãos, uma cigarreira de forma achatada que poderia, no entanto, conter cinquenta cigarros. A esse sinal de fraqueza, comum a ambos, o major se sentiu confortado.
— Em absoluto, meu caro. (E fez um movimento, aproximando o seu isqueiro, aceso.) — Obrigado. (James Bond já havia acendido o cigarro.) Mas não vim aqui para tratar de assuntos locais. O que realmente me trouxe a North Shore foi o desejo de pedir-lhe que se recorde minuciosamente de seu trabalho para o Serviço Secreto, nos últimos dias da II Grande Guerra... (Fez uma pausa, para observar o efeito de suas palavras no Major Smythe) Principalmente quando trabalhou na Divisão de Assuntos Gerais...
O Major Smythe teve um riso breve e escarninho. Ele sabia. Estava absolutamente certo. Mas, quando a revelação saiu dos lábios daquele homem, não pôde conter a gargalhada, reação de alguém que se via golpeado em cheio e procurava dar a impressão contrária.
— Mas, Santo Deus! A velha DAG! Claro que me lembro ainda dela... E de tudo o mais...
Riu de novo. E sentiu aguilhoar-lhe o peito a dor constritiva da angina, provocada pela pressão do que certamente iria acontecer. Enfiou a mão no bolso da calça, despejou o conteúdo de um pequeno frasco no côncavo da outra mão e, depois, colocou sob a língua os pequenos comprimidos brancos de TNT. Observava divertidamente a crescente tensão estampada na fisionomia do visitante, cujos olhos se apertavam para melhor fitá-lo. Não precisava ter medo, não. Não se tratava de pílulas de cianureto ou qualquer outro veneno. O major despistou: — A acidose não o persegue? Não? Pois a azia é o meu tormento. Ontem à noite, fui a uma festa no Jamaica Inn. Preciso me lembrar de que não tenho mais 25 anos... Bem, mas ainda posso voltar para a DAG. Creio que hoje somos bem poucos, os veteranos, não? (Sentiu outra vez a dor no peito.) É alguma coisa a respeito da história oficial da guerra?
James Bond, olhando para a ponta do cigarro, disse que não se tratava exatamente disso.
— Pensava... Porque, não sei se sabe: eu escrevi quase todo o capítulo sobre o Serviço Secreto no War Book... Já faz muito tempo. Mas duvido que haja algo de realmente importante a acrescentar...
— Nem mesmo alguma coisa sobre certa operação no Tirol? Num lugar chamado Ober Aurach, a cerca de uma milha de distância de Kitzbuhel?
A menção desses nomes provocou outro pequeno riso do major:
— Mas essa operação foi uma ninharia... Tudo muito fácil. Aqueles sujeitos da Gestapo tinham mais fanatismo do que competência... Uns bêbedos. Conservaram em seus arquivos todas as pistas. E os entregaram sem nenhum protesto. Esperavam, em troca, a nossa indulgência, talvez... A grande maioria foi enforcada por crimes de guerra, acredito. Levei tudo para o Quartel-General, em Salzburgo. Depois, fui para o vale do Mittersill, à procura de outro esconderijo... O Major Smythe tomou outro trago e acendeu um cigarro. Depois, olhando para cima: — Acho que não há mais nada a acrescentar a essas linhas gerais...
— O senhor, se não me engano, foi nessa época o número 2... O commanding officer era um americano, não? O Coronel King, do Exército do General Patton...
— É verdade, ele foi meu chefe. Excelente sujeito. Usava um bigodinho, coisa que não é muito de americano. Tinha competência indiscutível para escolher vinhos. Um tipo muito civilizado...
— No seu relatório sobre aquela operação, ele afirma que lhe entregou todos os documentos necessários às buscas e investigações preliminares, por ser o senhor o perito em assuntos germânicos do grupo... O senhor devolveu esses papéis a ele com algumas notas ou observações? (James Bond fez uma pausa.) Todos, sem falta de um só?
O Major Smythe ignorou a insinuação:
— É verdade. O que ele me deu foi, principalmente, uma lista de nomes. Indicações recebidas da contra-espionagem. Os agentes da CE em Salzburgo ficaram muito satisfeitos com essas pistas. E puderam aprofundar as buscas em várias direções. Acredito que os originais devem estar arquivados em algum lugar, uma vez que foram usados nos julgamentos de Nuremberg. Isso mesmo! (O Major Smythe parecia forçar a memória.) Posso dizer que os mais alegres anos de minha vida foram os do período em que trabalhei para a DAG. Vinho, mulheres, música! Ah, se eu pudesse viver esse bom tempo outra vez!
Nessa ocasião, o Major Smythe dizia a pura verdade. Ele sustentara uma perigosa e desconfortável luta até 1945. Quando os famosos Comandos ingleses foram formados em 1941, ele se apresentara como voluntário, sendo transferido dos Fuzileiros Reais para o Quartel-General das Operações Combinadas, sob a direção de Lorde Mountbatten. Seu domínio da língua alemã (que lhe vinha da mãe, nascida em Heidelberg) qualificara-o para o invejável lugar de coletor de informações nas operações de Comandos através do canal da Mancha. Tivera a sorte de permanecer durante dois anos nesse trabalho sem um arranhão e de receber a Ordem do Império Britânico, tão ciosa e avaramente distribuída durante a última guerra. E, depois, quando se preparava o golpe final contra a Alemanha, a Divisão de Assuntos Gerais fora formada, em conjunto, pelo Serviço Secreto e os Comandos. O Major Smythe, comissionado, então, como tenente-coronel, recebeu a incumbência de formar a unidade que devia descobrir e limpar os esconderijos dos graúdos da Gestapo e da Abwehr no momento em que se desse o colapso do nazismo. O Serviço Secreto, ao aprovar o plano, insistiu em que fosse acompanhado o avanço americano não por uma única, mas por seis dessas unidades, que operariam na Alemanha e na Áustria no momento da rendição. Eram unidades de vinte homens, cada uma com um carro blindado ligeiro, seis jipes, três camionetas e um caminhão com instalações de radiotelefonia. Controladas por um comando misto, anglo-americano, teriam elas à sua disposição o pessoal do Serviço de Inteligência do Exército, do SIS e do OSS. O Major Smythe fora o número 2 da Força A, destinada a atuar no Tirol, área cheia de bons esconderijos, com fácil acesso à fronteira de outros países. Por isso mesmo, era considerada o valhacouto n.° 1 pelo pessoal da DAG. E, como confessara o Major Smythe a James Bond, a operação fora praticamente uma festa, não tendo sido preciso disparar um só tiro. Exceto, é claro, dois que foram disparados pelo próprio Major Smythe. James Bond perguntou-lhe com ar mais casual do mundo: — O nome de Hannes Oberhauser lhe evoca alguma lembrança?
O Major Smythe franziu o sobrecenho, como que num esforço para se lembrar:
— Não, creio que não... (Fazia 32 graus à sombra, mas ele tremia de frio.) — Permita que eu lhe refresque a memória... No mesmo dia em que os documentos lhe foram entregues para exame, o senhor fez perguntas no Tiefenbrunner Hotel, onde se hospedou, sobre quem era o melhor guia alpino de Kitzbuhel. Foi-lhe indicado o guia Oberhauser. No dia seguinte, o senhor pediu ao seu comandante um dia livre, que lhe foi concedido. Na manhã desse dia, o senhor se dirigiu ao chalé de Oberhauser, prendeu-o com a cláusula de incomunicabilidade, e o levou no seu jipe. Não está se lembrando dessas particularidades?
Como era familiar aquela frase sobre o refrescamento da memória! Quantas vezes o próprio Major Smythe não a usara, como armadilha, para nela colher um mentiroso nazista?... Mas não devia, agora, se afobar. Há anos que estava preparado para alguma coisa nesse estilo. E, por isso, respondeu: — Não... Eu absolutamente não me lembro.
— Oberhauser era um homem de cabelo grisalho e claudicava de uma perna. Falava algum inglês, pois antes da guerra costumava trabalhar como instrutor de esqui, tendo como aprendizes ingleses e americanos...
O Major Smythe olhou impàvidamente para o visitante, fixando-lhe os olhos frios e claros:
— Sinto muito... Mas não posso ajudá-lo. Não me recordo.
James Bond tirou do bolso o pequeno caderno de notas, folheando-o ligeiramente. Deteve-se numa das páginas e disse:
— Vou ajudar um pouco mais a sua memória. Nesse tempo, como arma de uso pessoal, o senhor tinha um revólver regulamentar Webley & Scott, calibre 45, com o número da série 8967/362...
— Sim, era Webley... Um trabucão enorme, difícil de carregar. Espero que tenham adotado algo melhor. Assim como um Luger ou uma Beretta pesada. Mas eu nunca me dei ao trabalho de anotar o número...
— O número é esse mesmo — disse James Bond. — Verifiquei a data em que o recebeu do QG e a data em que o devolveu. O senhor assinou o livro de carga, ambas as vezes...
— Então, deve ter sido essa mesma a minha arma — concordou o Major Smythe, dando de ombros. — Mas... (E agora havia impaciência em sua voz) ... Mas, se me permite a pergunta, em que é que isso pode interessar?
James Bond o olhou com certa curiosidade. Depois falou e não se poderia dizer que o seu tom fosse cruel:
— Bem sabe que isso é fundamental, Smythe. (Fez uma pausa e pareceu refletir.) Façamos um acordo. Eu irei ao jardim, por uns dez minutos, pouco mais ou menos. Dou-lhe tempo para se lembrar de tudo com exatidão. Quando se tiver lembrado, me chame... (E acrescentou, a sério:) — Tornará as coisas bem mais fáceis para você a reconstituição do caso em suas próprias palavras... (Caminhou para a porta do jardim, mas se voltou.) — Creio que se trata apenas de pingar os ii e cortar os tt... Quero que saiba que, antes de vir aqui esta manhã, tive uma boa conversa com os irmãos Fu, em Kingston...
0 Major Smythe sentiu-se de certa forma desoprimido. Acabara a batalha das insinuações e das evasivas, a tentativa de despistar e de inventar álibis. Era o fim das negaças. Se o tal James Bond conversara com os irmãos Fu, sem dúvida arrancara alguma coisa dos chineses. De modo algum quereriam eles qualquer complicação com as autoridades. E, além do mais, ainda tinham uma parte da muamba em seu poder. O Major se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale, quase meio a meio. O melhor era tomar uns bons tragos, enquanto ainda podia! O futuro não lhe ofereceria muitas oportunidades como essa. Voltou para a poltrona, acendeu o vigésimo cigarro do dia e olhou para o relógio. Eram 11h30m. Se pudesse livrar-se daquele importuno dentro de uma hora, ainda poderia ir ver a sua “gente”. Sentou-se e bebeu, mergulhado em seus pensamentos. Poderia prolongar ou abreviar a sua história, se adicionasse alguma coisa sobre o estado do tempo, o perfume das flores dos pinheiros que aspirara nas montanhas... Mas poderia omitir a paisagem e abreviá-la. Preferiu abreviar. Viu-se na cama dupla, no Tiefenbrunner Hotel, com montanhas de papelório para examinar. Não procurava nada de especial. Apenas apanhava, a esmo, um documento aqui, outro ali, concentrando-se principalmente nos que tinham o timbre, em vermelho, de KOMMANDOSACHE, HOECHST VERTRAULICH. Não existiam muitos destes, que eram quase sempre informações confidenciais sobre nazistas graúdos, sobre códigos aliados que os alemães tinham decifrado e sobre esconderijos secretos. Desde que estes eram um dos principais objetivos da Força A, o Major Smythe os havia examinado com particular excitação — eram esconderijos de alimentos, de explosivos, de armas, de fichários de espionagem e do pessoal da Gestapo, uma imensa rede de arrasto com toda a espécie de peixes! E, ainda, no fim de toda a papelada, um simples envelope lacrado, com o aviso: PARA SER ABERTO APENAS EM CASO DE EMERGÊNCIA. O envelope continha uma só folha de papel. Não havia assinatura sob as palavras escritas em letra vermelha.
No cabeçalho, havia a palavra VALUTA.
Embaixo, lia-se: WILDE KAISER. FRANZISKANER HALT. 100 M. OESTLICH STEINHUGEL. WAFFENKISTE. ZWEI BAR 24 KT. e uma lista de medidas em centímetros. O Major Smythe afastou as mãos, como se numa história de pescaria, estivesse mostrando as dimensões de um peixe. Duas barras de ouro de 24 quilates, cada uma, quase tão grande como dois tijolos! E pensar que um simples soberano inglês, de apenas dezoito quilates, valia naquele momento entre duas e três libras! As duas barras de ouro representam uma verdadeira fortuna! Quarenta, cinquenta mil libras, era quanto valeriam! Não tinha ainda ideia alguma a respeito, mas — era o melhor — riscou um fósforo e acendeu o papel e o envelope, reduzindo-os a cinzas, que colocou na pia e fez desaparecer sob um jorro d’água. Apanhou, depois, o mapa da área, em grande escala, preparado pela artilharia austríaca e, um momento depois, tinha sob o dedo o Franziskaner Halt. Nele estava indicado um abrigo alpino desabitado, refúgio de montanhistas, numa espécie de pequeno platô logo abaixo do mais alto pico das montanhas do Kaiser, essa imensa massa de pedras dentadas que fecha, ao norte, o horizonte de Kitzbuhel. E ali, onde o seu dedo repousava, devia existir o marco de pequenas pedras amontoadas. Significava isso que uma fortuna estava ao seu alcance, a apenas dez milhas de distância e, talvez, a apenas cinco horas de subida!
O princípio tinha sido tal como James Bond descrevera. Fora ao chalé de Oberhauser às 4 horas da madrugada. Prendera-o e dissera a seus familiares, todos em lágrimas, que o ia levar para o centro de interrogatórios, em Munique. Se o guia estivesse isento de culpa, estaria de volta dentro de uma semana. Se a família fizesse algum protesto isso só poderia prejudicar Oberhauser, tornando as coisas ainda mais difíceis. Smythe se recusara a declinar o seu nome e tivera a precaução de ocultar o número do jipe. Dentro de 24 horas, a Força A deixaria o lugar e o governo militar se instalaria em Kitzbuhel. E então o incidente seria sepultado no esquecimento pelo tumulto e pelas complicações decorrentes da própria ocupação militar.
Oberhauser revelou-se um excelente sujeito, disposto a cooperar, assim que perdeu o medo inicial. E quando Smythe começou a lhe falar de alpinismo e de esqui se tornou uma camaradão. O caminho passava ao sopé das montanhas, rumo a Kufstein. Smythe dirigia lentamente, fazendo comentários admirativos sobre os picos em que já se refletiam as primeiras luzes matinais. Finalmente, junto à base do Pico do Ouro, voltou-se para Oberhauser e lhe disse: — Oberhauser, você é uma pessoa com quem simpatizo. Temos muitos interesses em comum e, pela sua conversa, estou convencido de que não cooperou com os nazistas. Eu lhe explico o que pretendo fazer por você. Passaremos o dia escalando as montanhas do Kaiser e, depois, eu o levo de volta para Kitzbuhel. Direi, então, ao meu chefe que, interrogado em Munique, você foi imediatamente liberado... Que me diz a isso? — Rematou, com um sorriso.
O homem quase derramou lágrimas de gratidão. Mas era preciso que ele tivesse, em seu poder, um papel mostrando que estava isento de culpa? Certamente. A assinatura do Major Smythe seria mais que suficiente. Feito o pacto, o jipe foi dirigido através de um atalho e ficou escondido, longe da estrada, entre os pinheiros. Smythe estava preparado para a excursão, sem nada sob a jaqueta, vestindo um short e calçando botas de paraquedistas, fornecidas à unidade pelos americanos. A carga que levava era apenas o revólver Webley & Scott, absolutamente necessário, pois afinal de contas Oberhauser era um inimigo. O guia vestia a sua melhor roupa e calçava as suas botas alpinas. Não estava preocupado com a subida. E assegurou ao Major Smythe que não seria necessário usar nem cordas, nem ganchos, até chegarem à cabana, em que poderiam parar para descansar. Era aí o Franziskaner Halt.
— É esse o nome? — Perguntou o Major.
— Sim. E um pouco abaixo há uma pequena geleira. Passaremos ao largo, pois nela há muitas fendas.
— Assim faremos... — Disse o Major Smythe, pensativamente, examinando a parte posterior da cabeça de Oberhauser, por onde o suor escorria. Ora, afinal, ele era apenas um reles comedor de chucrute, talvez da mesma laia que os nazistas. Seria tão fácil liquidá-lo... A única coisa que preocupava o major era trazer a muamba pela montanha abaixo. Poderia colocar as barras de ouro às costas. Ou arrastá-las — por que não? — Durante grande parte do percurso, na sua caixa de munição. Longa e tortuosa foi a caminhada, montanha acima. Quando deixaram para trás os pinheiros, já o sol se alteava, dardejante. A princípio, caminharam entre rochas e entulhos, em constantes zigue-zagues. Sem o auxílio de um guia, nunca conseguiria o major chegar ao cimo do penhasco cinzento e ameaçador, que parecia tocar o azul do céu. Ambos caminhavam agora nus da cintura para cima, banhados em suor, que lhes escorria pelas pernas para dentro das botas. Embora o guia claudicasse, subiam com relativa rapidez. Quando pararam, para um drinque e um breve descanso, Oberhauser se congratulou com Smythe por estar em tão boa forma. O major, com a cabeça escaldando, tantos eram os seus planos, disse ríspida e mentirosamente que todos os ingleses eram cobras, em matéria de escalar montanhas. Subir ao penhasco não era difícil. Se lá havia uma cabana, é porque o material para a sua construção fora levado para ali nos ombros de alguém. Em certos lugares, pontos de apoio tinham sido cavados na rocha. E havia, ocasionalmente, grampos de ferro, em que os alpinistas podiam se agarrar. Mas achar as passagens exatas era o mesmo que descobrir os segredos de um labirinto. Ainda bem que trouxera o guia. Este, em certo momento, sondando o chão, para verificar se estava firme, fizera correr pequenina avalancha de pedras afrouxadas por muitos anos de ventanias e nevascas. Elas se precipitaram, com estrondo, lá embaixo. O Major Smythe pensou logo no barulho, que poderia despertar atenção. Perguntou se não haveria gente nas proximidades.
— Qual! Ninguém... A não ser nas proximidades de Kufstein... — Disse Oberhauser, apontando uma larga extensão, ao redor. — Aqui há pouca água e nenhum pasto. E, desde o princípio da guerra... (Interrompeu-se, deixando a frase incompleta.) Ladearam a geleira e continuaram a subida. A vista do Major Smythe media a extensão e a largura das fendas, por onde iriam passar. A uns cem pés acima, viram, então, a cabana, batida pelas intempéries. O major mediu o ângulo do declive. Era quase uma linha reta. Agora? Ou depois? Preferiu que fosse depois. O caminho para a última parte da travessia ainda não estava claramente definido. Alcançaram a cabana ao fim de cinco horas. O Major Smythe disse que queria aliviar um pouco a bexiga e caminhou para o leste, sem dar atenção alguma aos belos panoramas da Áustria e da Baviera, que se estendiam por cinquenta milhas, sob o sol estival. Ele contava os passos com extremo cuidado. Exatamente a 120 havia o montículo de pedras, talvez um marco carinhosamente erguido em memória de um alpinista desaparecido. Era isso o que qualquer pessoa normalmente pensaria. Mas o Major Smythe, sabendo que não se tratava disso, ardia de desejos de desfazer a pequena pirâmide de pedras soltas. Mas, em vez de fazê-lo, tirou do coldre o seu Webley & Scott, soltou a trava e examinou o cilindro. E voltou, então, rumo à cabana, onde Oberhauser entrara. Fazia frio, a tal altura — uns bons 3 mil metros —, e o guia acendia o fogo. Smythe controlou o seu horror e pediu: — Oberhauser, venha me mostrar as paisagens. Há vistas maravilhosas, aqui em cima!
— Com prazer, major — disse o guia, seguindo Smythe para fora da cabana. Uma vez lá fora, tirou do bolso um papel, no qual havia alguma coisa embrulhada. Ofereceu-a ao major, acrescentando: — Isto é o que chamamos Soldat. É uma salsicha defumada. Dura, mas muito saborosa. (Sorriu.) Parece com aquilo que os americanos comem nos filmes de Far-West. Como é mesmo o nome?
— Charque — disse o major. Depois — e mais tarde se arrependeu de o ter privado da pequena refeição — aconselhou: — Deixe isso na cabana. Depois, viremos comer. Será que daqui podemos ver Innsbruck? Mostre-me para que lado é...
Oberhauser entrou na cabana e logo saiu de novo. O major caminhou por trás dele, que falava e gesticulava, mostrando aqui o pico de uma montanha, além a torre de uma igreja distante. Chegaram ao lugar acima da geleira. O major tirou então o revólver e, a uma distância de pouco mais de meio metro, disparou dois tiros na base do crânio de Hannes Oberhauser. Que nem estrebuchou. Caiu já morto. O impacto das balas atirou o guia na borda do precipício. O Major Smythe o empurrou para baixo. O corpo bateu em duas anfractuosidades do penhasco e caiu em cima da geleira. Mas sem escorregar para as fendas. Ficou a meio do caminho, junto a um monte de neve antiga, acumulada.
— Com os diabos! — Disse o major.
Os estampidos repercutiram naquelas alturas como se fossem tiros de morteiros e o eco os repetiu a distância. O Major Smythe lançou um olhar sobre a figura imóvel, estendida junto ao monte de neve, e logo correu para o montículo de pedra. Devia cuidar das coisas mais importantes em primeiro lugar! Começou a afastar as pedras, com uma pressa diabólica, atirando as mais roliças pela montanha abaixo. Feriu-se em arestas cortantes e, quando deu pela coisa, sua mão estava sangrando, mas não ligou importância. Um pouco de sangue, que é que tinha? Precisava era andar depressa, depressa — e continuou a escavar, furiosamente. O monte de pedra desaparecia. E então! Sim! Lá estava alguma coisa que parecia ser uma tampa metálica. Mais algumas pedras foram retiradas e apareceu uma velha caixa de munições da Wehrmacht. Em cima dela, ainda havia traços de seu antigo letreiro. O Major Smythe soltou um grunhido de alegria. Sentou-se sobre uma pedra e sua imaginação entrou em órbita, descrevendo círculos sobre carros Rolls Royce, iate em Monte Carlo, apartamentos de cobertura, joias de Cartier, champanha, caviar e, no meio de tudo, uma vez que amava o golfe, uma nova coleção de bastões metálicos de Henry Cotton.
Embriagado com esses sonhos, o Major Smythe ficou ali sentado um bom quarto de hora fitando a caixa metálica, como que fascinado. Depois, olhou para o relógio e levantou-se. Não devia perder tempo. Tinha que eliminar as pistas. A caixa tinha alças de ambos os lados. O major esperara que fosse pesada. Mentalmente, ele a havia comparado à coisa mais pesada que até então carregara — um salmão de vinte quilos que pescara na Escócia, pouco antes da guerra —, mas a caixa tinha mais do dobro desse peso. E ele só com muita dificuldade a retirara do seu leito entre as pedras para colocá-la sobre a rala relva alpina. Amarrou, então, o seu lenço numa das alças e, pondo-a desajeitadamente no ombro, levou-a para a cabana. Sentou-se, então, na soleira da porta e, sem despregar inteiramente os olhos da caixa, cortou a salsicha defumada de Oberhauser com seus dentes vigorosos e começou a comê-la, pensando como havia de transportar as suas 50 mil libras — era esse o seu cálculo — pela montanha abaixo. A salsicha era, realmente, uma ótima refeição montanhesa, dura, gorda, rescendendo a tempero forte à base de alho. Partículas dela ficaram incômodamente presas aos seus dentes. Limpou-os com um palito de prata. Sua preocupação era fazer desaparecer todos os vestígios de sua presença. De agora em diante, era um criminoso. Tão criminoso como alguém que tivesse roubado um banco e assassinado o vigia. Precisava lembrar-se disso! Se não se lembrasse, teria a morte, em vez das coisas maravilhosas com que sonhava. Precisava ter infinita cautela. E teria! Seria, para sempre, rico e feliz. Depois de tomar precauções ridiculamente minuciosa para não deixar na cabana o menor traço de sua passagem, arrastou a caixa metálica para a borda do precipício, distante da geleira, e de lá atirou-a embaixo, rezando para que chegasse intacta. A caixa cinzenta rolou no espaço, bateu numa ponta de pedra, continuou a descer, chocou-se cem metros abaixo com outra anfractuosidade e, por fim, atingiu o chão de um entulho, onde parou. O Major Smythe não podia vê-la, de onde estava, e não podia saber se estava aberta. Tanto fazia que estivesse ou não! A própria montanha poderia tê-lo poupado ao trabalho de abri-la...
Depois de um último olhar em torno, ele começou a descer, experimentando com prudência a solidez de cada grampo e de cada ponto de apoio, antes de firmar-se com todo o peso de seu corpo. Na descida, sua vida tinha um valor muito maior que na subida. Caminhou para a geleira e atravessou a passagem em que a neve começava a derreter-se formando sobre o gelo uma mancha escura. Dentro de mais alguns dias, toda a neve estaria derretida. Chegou até onde estava o cadáver. Tinha visto muitos, durante a guerra. Ossos fraturados e carnes sangrentas nada significavam para ele. Arrastou os restos de Oberhauser para a fenda mais próxima e, depois, atirou em cima a neve, acumulada nas bordas. Enterrado o corpo, mostrou-se satisfeito com o seu trabalho, tendo, ao voltar, o cuidado de recolocar os pés sobre as mesmas pegadas que fizera na vinda. E então empreendeu à descida, ao encontro da caixa metálica. Sim, como esperava, a montanha a havia aberto para ele! Com um gesto despreocupado, desfez os invólucros, em papel empregado na fabricação de cartuchos. As duas grandes barras de metal cintilaram ao sol. Tinham ambas as mesmas marcas: a cruz suástica num círculo, sob uma águia, e a data de 1943, símbolos usados pelo Reichsbank. O Major Smythe fez um movimento de aprovação com a cabeça. Recompôs os invólucros e, como a lingueta da tampa, que saltara, não fechasse mais a tampa, teve de bater-lhe com uma pedra, até voltar ao lugar. Passou, então, numa das alças o cinturão em que costumava conduzir o revólver, e continuou a descida, arrastando-a atrás de si. Era então 1 hora da tarde e o sol lhe queimava o busto nu, fritando-o em seu próprio suor. Seus ombros, avermelhados, estavam em fogo. A soalheira também queimava o seu rosto. Com os diabos! Parou junto a uma cascata que descia dos gelos da montanha, embebeu o lenço em água fria e o colocou na cabeça. Bebeu, depois, largamente e prosseguiu, praguejando, às vezes com fúria, quando em alguns declives mais fortes a caixa de metal o atropelava, machucando-lhe os calcanhares. Mas esses desconfortos, as queimaduras e os arranhões, não eram nada comparados com o que ele ainda teria que enfrentar no vale, onde o terreno era nivelado. Até então, tivera a lei da gravidade a seu lado. Mas na última milha é que seria um problema carregar aquela infernal muamba! 0 Major Smythe sentia as costas e o pescoço em fogo. Disse, porém, a si mesmo, para encorajar-se: — Bolas! Il faut souffrir pour être millionaire!
CONTINUA
O olho do molusco o observava cuidadosamente, de sua loca, no recife de coral. Agora, a ponta de um dos oito tentáculos avançava uma ou duas polegadas, ondulando hesitantemente, como se fizesse uma vaga exploração com as ventosas rosadas. Dexter Smythe sorriu com satisfação. Se lhe fosse dado o tempo necessário, ao menos um mês mais, além dos dois durante os quais se acamaradara com o polvo, decerto domesticaria inteiramente o fascinante animal. Mas temia que não chegasse a viver tanto. Devia aproveitar aquela oportunidade para se aproximar do molusco e lhe oferecer a mão de amigo. Sim... Em vez de limitar-se a lhe dar comida, na ponta de um arpão, devia, por assim dizer, apertar-lhe a mão, não era mesmo? “Não, ainda não, meu negrinho — pensou —, ainda não posso ter confiança em você...” Com toda a certeza, se fosse imprudente, outros tentáculos sairiam da loca lhe envolveriam o braço. E, puxado pelo polvo, a válvula de corliça da máscara se fecharia automaticamente. Ficaria sufocado. Ou, se o polvo a arrancasse, na certa morreria afogado. Quando muito, com um golpe rápido e feliz do arpão, poderia ferir o octópode, mas para matá-lo seria preciso muito mais do que isso. Não... Talvez mais tarde. Agora, seria o mesmo que enfrentar uma rolêta-russa, com cinco chances contra e uma só a favor. Poderia, mesmo, representar um meio rápido, eficaz e bizarro de pôr termo aos seus aborrecimentos! Mas, agora... não! Isso deixaria insolúvel uma questão sumamente interessante. E ele havia prometido resolvê-la... Dera a sua palavra ao simpático Professor Bengry, do Instituto Biológico Marinho. Dexter Smythe afastou-se do recife de coral, nadando lentamente. Seus olhos atentos buscavam, com empenho, a forma estranha e sinistra do peixe-escorpião, ou, como diria Bengry, do Scorpaena Plumieri.
O Major Dexter Smythe, condecorado com a Ordem do Império Britânico, oficial do Corpo de Fuzileiros Reais (reformado), era o que restava de um outrora bravo militar e homem encantador, que fazia conquistas sexuais fáceis em todos os meios em que atuava fardado. Principalmente entre o pessoal das organizações militares femininas — as Wrens, as Wracs e as moças do ATS, incumbidas das comunicações e do secretariado das forças-tarefas especiais, de que ele fizera parte, no fim de sua carreira. Tinha agora cinquenta e quatro anos. Estava ligeiramente calvo. E sua barriga se acomodava com certa dificuldade nos apertados limites do calção de banho. Além disso, tivera já duas complicações coronárias. Seu médico era Jimmy Graves, que fora um dos seus parceiros no jogo de pôquer de cacife altíssimo, no Queen’s Club, logo que ele chegara, com a mulher, à Jamaica. Meio a sério, meio brincando, o médico havia descrito a última dessas complicações, ocorrida um mês antes, como sendo a “segunda advertência”. Mas, em suas roupas bem talhadas, ocultas as muitas varizes às vistas indiscretas, com a barriga comprimida por uma larga cinta que o imaculado colête-faixa disfarçava, o antigo militar ainda fazia boa figura, num coquetel ou num jantar, em North Shore. Para seus amigos e vizinhos dessa praia, era um mistério o motivo pelo qual desafiava ele as recomendações do médico. Este lhe impusera uma dieta de uísque e de cigarros, limitados respectivamente a dois e a dez por dia, mas ele insistia em fumar como uma chaminé e em ir sempre para a cama bêbedo. Agradàvelmente bêbedo.
A verdade é que Dexter Smythe tinha chegado à fronteira em que o instinto da vida começa a ceder ao desejo da morte. As origens desse estado de espírito eram muitas e complexas. Estava irremediavelmente amarrado à Jamaica. A indolência tropical apoderara-se gradualmente de seu organismo, de tal modo que, se aparentava ser uma sólida peça de madeira de lei, interiormente não era mais que um tronco fofo, corroído pelos cupins. Tinha um exterior envernizado, mas ilusório. A preguiça, o relaxamento, o sentimento de culpas antigas, o total desgosto em relação a si mesmo haviam erodido o seu cerne, transformando-o em pó de serragem. Desde a morte de Mary, dois anos antes, não tinha mais amado a ninguém. Nem sequer estava certo de que realmente a havia amado. Sabia, porém, que sentia a ausência dela a todas as horas do dia, que sentia falta de seu afeto e de sua alegria, de sua presença desmazelada, barulhenta e, por vezes, irritante. Enquanto devorava canapés e bebia martinis da ralé internacional que frequentava em North Shore, ele se apercebia de que não nutria por essa gente outro sentimento que não fosse o de completo desprezo. Poderia, talvez, ter feito amigos entre elementos mais respeitáveis, os fazendeiros do interior da ilha, os proprietários do litoral, os representantes das profissões liberais e do mundo político local. Mas isso significaria voltar a ter propósitos sérios numa vida em que a preguiça e o embotamento espiritual limitaram-se ao fundo das garrafas. Tal coisa estava inteiramente fora de suas cogitações.
O Major Smythe estava mortalmente entendiado e, se não fosse por determinado motivo, já teria há muito tempo engolido o vidro de barbitúricos que com facilidade adquirira a um dos médicos da ilha. O fio que ainda o prendia à vida era muito tênue. Os grandes bebedores tendem a exagerar o seu temperamento básico, que é sempre um destes quatro: sanguíneo, fleumático, colérico e melancólico. O bêbedo sanguíneo torna-se alegre até à histeria ou à idiotia. O fleumático afunda-se num abatimento sombrio. O colérico é o ébrio turbulento das caricaturas, que passa a maior parte do tempo na prisão, por ter quebrado coisas ou agredido pessoas. E o melancólico é o beberrão que tem pena de si mesmo, geralmente vomitando ou se desmanchando em prantos. O Major Smythe era um melancólico, com a curiosa e divertida fantasia de fazer relações pessoais com aves, insetos e peixes existentes nos cinco acres de Wavelet, isto é, de Ondinhas, nome sintomático que dera à sua pequena villa. A praia e o recife de coral, além dela, eram os seus lugares prediletos. E, entre todos os seres, preferia os peixes. Referia-se a eles como à “gente do mar” e, uma vez que os peixes, como as aves, são fiéis aos seus recantos, ao fim de dois anos ele os conhecia a todos intimamente, amava-os e acreditava ser retribuído por eles com igual amor.
Certo, eles o conheciam, como os animais de um Jardim Zoológico conhecem os seus tratadores. Como estes, ele lhes ia levar o alimento diário, arrecadando pedacinhos de algas e revolvendo a areia o os seixos do fundo do mar, para ajudar os que se alimentam nos lugares mais profundos. Desenterrava ovos e ouriços para os pequenos carnívoros e levava sobras de carne para os grandes. E agora, enquanto nadava lenta e pesadamente, de um lado para o outro do recife de coral e através dos canais que conduzem às águas profundas, sua “gente do mar” enxameava ao redor dele, sem nenhum medo, em atitude de expectativa, quase roçando a aguda ponta de seu arpão, que conheciam apenas como uma espécie de longa colher dadivosa. Vinham namorar o vidro da máscara Pirelli e, em alguns casos, como certas mulheres provocantes, tomavam intimidades perigosas, roçando em suas pernas e em seus pés.
Parte da mente do Major Smythe estava fixada nessa “gente” brilhante e colorida, mas outra parte se preocupava com uma tarefa que devia realizar naquele dia. Ele cumprimentava os peixes com palavras que não chegava a proferir — “Bom dia, beleza!” Era a sua mensagem a um peixe azul-escuro, salpicado de malhas que semelhavam lentejoulas, de um azul ainda mais intenso e brilhante. É o “peixe-joia”, que parece um vidro estrelado do perfume Vol de Nuit, de Worth. “Sinto muito, hoje não, meu bem”, dizia em silêncio a um peixe-borboleta, esvoaçante, com falsos “olhos” na cauda. “Você está gordo demais, meninão”, afirmava mentalmente a um peixe-papagaio de côr azul-índigo, que devia pesar uns bons cinco quilos. Seus olhos estavam sempre atentos, à procura de sua “gente”. No recife de coral, seu único inimigo que ele matava à primeira vista, era o peixe-escorpião.
O peixe-escorpião habita principalmente nas águas tépidas do sul e o rascasse, que é a base da bouillabaisse, pertence à mesma família. A variedade do Caribe alcança apenas cerca de doze polegadas de comprimento e pesa, talvez, meio quilo. É o mais feio peixe do mar, como se a natureza ao engendrá-lo assim tivesse querido nos fazer uma advertência. Sarapintado de marrom-acinzentado, tem uma cabeçorra felpuda, de feitio cuneiforme. Os olhos são de um vermelho agressivo e consegue dissimular perfeitamente a sua silhueta, em meio dos recifes. Embora sendo um peixe pequeno, sua boca amplamente guarnecida de dentes pontiagudos é tão grande que ele pode engolir, sem dificuldade, a maioria dos peixinhos que vivem ao redor dos corais. Mas a sua arma suprema consiste nas eretas barbatanas dorsais, as primeiros das quais agem por contato como agulhas hipodérmicas, alimentadas por glândulas venenosas, que contêm tetrodotoxina suficiente para matar um homem, se o atingirem num lugar vulnerável — por exemplo, numa artéria, sobre o coração ou nas virilhas. Esse é o único perigo real para quem se aventura a nadar nos recifes. Muito mais perigoso do que as barracudas e os tubarões, é extremamente confiante em sua camuflagem e em suas armas, não fugindo de coisa alguma, exceto de uma exagerada aproximação de um pé humano ou mesmo de um contato direto. Nossas ocasiões, o peixe-escorpião nada apenas alguns metros com seu largo peitoral, bizarramente listrado, parando atento, ou pousado na areia, onde por mimetismo parece uma formação coralina, ou entre as rochas e algas, onde virtualmente desaparece. O Major Smythe estava decidido a encontrar um, arpoá-lo e dá-lo a seu polvo, para ver se este o aceitava ou rejeitava. Queria saber se um dos grandes predadores do oceano reconheceria a periculosidade, o poder mortífero do veneno do outro. Consumiria o polvo a parte inferior do peixe-escorpião, sem lhe tocar nas espinhas letais? Devorá-las-ia também e viria a sofrer um castigo, atingido pelo veneno? Eram essas as perguntas que Bengry, do Instituto, desejava esclarecer. E, agora, sentindo o princípio do fim de sua vida, o solitário de Wavelets pensou que esse poderia ser também o fim do seu querido polvo. E decidiu dar resposta àquelas perguntas, deixando uma pequena lembrança de sua vida fútil e inútil num recanto empoeirado dos arquivos do Instituto.
É que, apenas duas ou três horas antes, o Major Dexter Smythe vira a sua vida transformar-se, passando de mal a pior. Para uma condição tão pior que ele teria muita sorte se, dentro de uma semana — tempo necessário para a troca de telegramas entre o governo da ilha e o Ministério das Colônias, que por sua vez se comunicaria com o Serviço Secreto e, através deste, com a Scotland Yard e a Procuradoria da Justiça, bem como para a transferência do Major Smythe para Londres, sob escolta policial —, na melhor das hipóteses, saísse de um inevitável julgamento condenado à prisão perpétua. E tudo isso por causa de um homem chamado Bond — Comandante James Bond —, que aparecera em Wavelets às 10h 30m da manhã, num táxi que tomara em Kingston. O dia tinha começado normalmente. O Major Smythe acordara de seu sono à base de seconal, engolira dois comprimidos de panadol (o precário estado cardíaco lhe proibira o uso da aspirina), tomara um banho de chuveiro e fora devorar o seu pequeno almoço debaixo de frondosa amendoeira, no jardim, onde passara uma hora, alimentando pássaros famintos com as sobras da refeição. Depois, tomou as doses de anticoagulante receitadas pelo médico e as pílulas contra a alta pressão arterial, matando o tempo com a leitura do Daily Gleaner e fazendo hora para tomar o seu primeiro trago. Antes, esperava até às 11 horas. Mas, por último, fixara esse momento em 10h 30m. Já havia servido dois conhaques com ginger ale — a bebida de quem sabe embebedar-se — quando ouviu o ruído do automóvel que se aproximava. Luana, a governante negra, não tardou a aparecer no jardim para anunciar: — Um cara tá aí para falar com o sinhô, Majó.
— Como se chama?
— Sei não, Majó. Disse não. Só falou que é negócio da casa do gunverno.
O Major Smythe vestia apenas uns velhos shorts de brim caqui e calçava um par de alpercatas. Não podia receber um visitante assim.
— Mande entrar para a sala, Luana, e diga que não demorarei a atendê-lo.
Foi ao seu quarto, vestiu um blusão branco, umas calças e penteou o que ainda lhe restava da antiga cabeleira. Um representante do governo! Que diabo quereria com ele? Mal entrou na sala, viu um homem alto, com um terno de tropical azul, debruçado na janela, olhando para o mar. O Major teve logo a sensação de que ia receber más notícias. E quando o homem se voltou encarando-o atentamente, com os olhos azul-cinza, Smythe teve a certeza de que ele estava, realmente, em missão oficial. E em missão nada amistosa, porque nem ao menos retribuiu o seu cordial sorriso. Um calafrio percorreu a espinha do major. Teriam, então, descoberto tudo?
— Bem, bem, eu sou Smythe. Pelo que sei, o senhor representa o governo da ilha. Como vai Sir Kenneth?
Não houve sequer um aperto de mão. O homem disse:
— Ainda não o vi. Faz só uns três dias que cheguei. Estive procurando ver os pontos pitorescos da ilha. Meu nome é Bond. James Bond. Sou do Ministério da Defesa.
O Major Smythe se lembrava do eufemismo habitualmente usado para designar o Serviço Secreto. E disse, esforçando-se para se mostrar animado e alegre: — Oh... A velha firma? Prefere conversar aqui mesmo, ou no jardim? Que tal um drinque? (E o Major pôs um cubo de gelo num copo, que já tinha nas mãos.) Rum e ginger ale é o mais popular veneno local... Eu, porém, prefiro ginger ale, sem mais nada...
A mentira lhe escapou com facilidade, graças ao automatismo dos alcoólatras. — Não me sirva nada. E falemos aqui mesmo — disse o recém-vindo, recostando-se no parapeito da janela, lavrado em mogno.
O Major Smythe sentou-se, passou uma perna sobre o braço da confortável poltrona e tomou um grande trago de seu copo, que depositou depois ao lado.
— Bem — disse, olhando o visitante com firmeza, cara a cara. — Em que poderei lhe ser útil? Alguém está fazendo sujeiras em North Shore e vocês estão precisando de ajuda? Terei prazer em voltar ao antigo trabalho. Já vai longe o tempo em que fui agente secreto, mas ainda me lembro de algumas técnicas...
— Não se incomoda que eu fume?
O visitante, ao fazer a pergunta, já tinha, nas mãos, uma cigarreira de forma achatada que poderia, no entanto, conter cinquenta cigarros. A esse sinal de fraqueza, comum a ambos, o major se sentiu confortado.
— Em absoluto, meu caro. (E fez um movimento, aproximando o seu isqueiro, aceso.) — Obrigado. (James Bond já havia acendido o cigarro.) Mas não vim aqui para tratar de assuntos locais. O que realmente me trouxe a North Shore foi o desejo de pedir-lhe que se recorde minuciosamente de seu trabalho para o Serviço Secreto, nos últimos dias da II Grande Guerra... (Fez uma pausa, para observar o efeito de suas palavras no Major Smythe) Principalmente quando trabalhou na Divisão de Assuntos Gerais...
O Major Smythe teve um riso breve e escarninho. Ele sabia. Estava absolutamente certo. Mas, quando a revelação saiu dos lábios daquele homem, não pôde conter a gargalhada, reação de alguém que se via golpeado em cheio e procurava dar a impressão contrária.
— Mas, Santo Deus! A velha DAG! Claro que me lembro ainda dela... E de tudo o mais...
Riu de novo. E sentiu aguilhoar-lhe o peito a dor constritiva da angina, provocada pela pressão do que certamente iria acontecer. Enfiou a mão no bolso da calça, despejou o conteúdo de um pequeno frasco no côncavo da outra mão e, depois, colocou sob a língua os pequenos comprimidos brancos de TNT. Observava divertidamente a crescente tensão estampada na fisionomia do visitante, cujos olhos se apertavam para melhor fitá-lo. Não precisava ter medo, não. Não se tratava de pílulas de cianureto ou qualquer outro veneno. O major despistou: — A acidose não o persegue? Não? Pois a azia é o meu tormento. Ontem à noite, fui a uma festa no Jamaica Inn. Preciso me lembrar de que não tenho mais 25 anos... Bem, mas ainda posso voltar para a DAG. Creio que hoje somos bem poucos, os veteranos, não? (Sentiu outra vez a dor no peito.) É alguma coisa a respeito da história oficial da guerra?
James Bond, olhando para a ponta do cigarro, disse que não se tratava exatamente disso.
— Pensava... Porque, não sei se sabe: eu escrevi quase todo o capítulo sobre o Serviço Secreto no War Book... Já faz muito tempo. Mas duvido que haja algo de realmente importante a acrescentar...
— Nem mesmo alguma coisa sobre certa operação no Tirol? Num lugar chamado Ober Aurach, a cerca de uma milha de distância de Kitzbuhel?
A menção desses nomes provocou outro pequeno riso do major:
— Mas essa operação foi uma ninharia... Tudo muito fácil. Aqueles sujeitos da Gestapo tinham mais fanatismo do que competência... Uns bêbedos. Conservaram em seus arquivos todas as pistas. E os entregaram sem nenhum protesto. Esperavam, em troca, a nossa indulgência, talvez... A grande maioria foi enforcada por crimes de guerra, acredito. Levei tudo para o Quartel-General, em Salzburgo. Depois, fui para o vale do Mittersill, à procura de outro esconderijo... O Major Smythe tomou outro trago e acendeu um cigarro. Depois, olhando para cima: — Acho que não há mais nada a acrescentar a essas linhas gerais...
— O senhor, se não me engano, foi nessa época o número 2... O commanding officer era um americano, não? O Coronel King, do Exército do General Patton...
— É verdade, ele foi meu chefe. Excelente sujeito. Usava um bigodinho, coisa que não é muito de americano. Tinha competência indiscutível para escolher vinhos. Um tipo muito civilizado...
— No seu relatório sobre aquela operação, ele afirma que lhe entregou todos os documentos necessários às buscas e investigações preliminares, por ser o senhor o perito em assuntos germânicos do grupo... O senhor devolveu esses papéis a ele com algumas notas ou observações? (James Bond fez uma pausa.) Todos, sem falta de um só?
O Major Smythe ignorou a insinuação:
— É verdade. O que ele me deu foi, principalmente, uma lista de nomes. Indicações recebidas da contra-espionagem. Os agentes da CE em Salzburgo ficaram muito satisfeitos com essas pistas. E puderam aprofundar as buscas em várias direções. Acredito que os originais devem estar arquivados em algum lugar, uma vez que foram usados nos julgamentos de Nuremberg. Isso mesmo! (O Major Smythe parecia forçar a memória.) Posso dizer que os mais alegres anos de minha vida foram os do período em que trabalhei para a DAG. Vinho, mulheres, música! Ah, se eu pudesse viver esse bom tempo outra vez!
Nessa ocasião, o Major Smythe dizia a pura verdade. Ele sustentara uma perigosa e desconfortável luta até 1945. Quando os famosos Comandos ingleses foram formados em 1941, ele se apresentara como voluntário, sendo transferido dos Fuzileiros Reais para o Quartel-General das Operações Combinadas, sob a direção de Lorde Mountbatten. Seu domínio da língua alemã (que lhe vinha da mãe, nascida em Heidelberg) qualificara-o para o invejável lugar de coletor de informações nas operações de Comandos através do canal da Mancha. Tivera a sorte de permanecer durante dois anos nesse trabalho sem um arranhão e de receber a Ordem do Império Britânico, tão ciosa e avaramente distribuída durante a última guerra. E, depois, quando se preparava o golpe final contra a Alemanha, a Divisão de Assuntos Gerais fora formada, em conjunto, pelo Serviço Secreto e os Comandos. O Major Smythe, comissionado, então, como tenente-coronel, recebeu a incumbência de formar a unidade que devia descobrir e limpar os esconderijos dos graúdos da Gestapo e da Abwehr no momento em que se desse o colapso do nazismo. O Serviço Secreto, ao aprovar o plano, insistiu em que fosse acompanhado o avanço americano não por uma única, mas por seis dessas unidades, que operariam na Alemanha e na Áustria no momento da rendição. Eram unidades de vinte homens, cada uma com um carro blindado ligeiro, seis jipes, três camionetas e um caminhão com instalações de radiotelefonia. Controladas por um comando misto, anglo-americano, teriam elas à sua disposição o pessoal do Serviço de Inteligência do Exército, do SIS e do OSS. O Major Smythe fora o número 2 da Força A, destinada a atuar no Tirol, área cheia de bons esconderijos, com fácil acesso à fronteira de outros países. Por isso mesmo, era considerada o valhacouto n.° 1 pelo pessoal da DAG. E, como confessara o Major Smythe a James Bond, a operação fora praticamente uma festa, não tendo sido preciso disparar um só tiro. Exceto, é claro, dois que foram disparados pelo próprio Major Smythe. James Bond perguntou-lhe com ar mais casual do mundo: — O nome de Hannes Oberhauser lhe evoca alguma lembrança?
O Major Smythe franziu o sobrecenho, como que num esforço para se lembrar:
— Não, creio que não... (Fazia 32 graus à sombra, mas ele tremia de frio.) — Permita que eu lhe refresque a memória... No mesmo dia em que os documentos lhe foram entregues para exame, o senhor fez perguntas no Tiefenbrunner Hotel, onde se hospedou, sobre quem era o melhor guia alpino de Kitzbuhel. Foi-lhe indicado o guia Oberhauser. No dia seguinte, o senhor pediu ao seu comandante um dia livre, que lhe foi concedido. Na manhã desse dia, o senhor se dirigiu ao chalé de Oberhauser, prendeu-o com a cláusula de incomunicabilidade, e o levou no seu jipe. Não está se lembrando dessas particularidades?
Como era familiar aquela frase sobre o refrescamento da memória! Quantas vezes o próprio Major Smythe não a usara, como armadilha, para nela colher um mentiroso nazista?... Mas não devia, agora, se afobar. Há anos que estava preparado para alguma coisa nesse estilo. E, por isso, respondeu: — Não... Eu absolutamente não me lembro.
— Oberhauser era um homem de cabelo grisalho e claudicava de uma perna. Falava algum inglês, pois antes da guerra costumava trabalhar como instrutor de esqui, tendo como aprendizes ingleses e americanos...
O Major Smythe olhou impàvidamente para o visitante, fixando-lhe os olhos frios e claros:
— Sinto muito... Mas não posso ajudá-lo. Não me recordo.
James Bond tirou do bolso o pequeno caderno de notas, folheando-o ligeiramente. Deteve-se numa das páginas e disse:
— Vou ajudar um pouco mais a sua memória. Nesse tempo, como arma de uso pessoal, o senhor tinha um revólver regulamentar Webley & Scott, calibre 45, com o número da série 8967/362...
— Sim, era Webley... Um trabucão enorme, difícil de carregar. Espero que tenham adotado algo melhor. Assim como um Luger ou uma Beretta pesada. Mas eu nunca me dei ao trabalho de anotar o número...
— O número é esse mesmo — disse James Bond. — Verifiquei a data em que o recebeu do QG e a data em que o devolveu. O senhor assinou o livro de carga, ambas as vezes...
— Então, deve ter sido essa mesma a minha arma — concordou o Major Smythe, dando de ombros. — Mas... (E agora havia impaciência em sua voz) ... Mas, se me permite a pergunta, em que é que isso pode interessar?
James Bond o olhou com certa curiosidade. Depois falou e não se poderia dizer que o seu tom fosse cruel:
— Bem sabe que isso é fundamental, Smythe. (Fez uma pausa e pareceu refletir.) Façamos um acordo. Eu irei ao jardim, por uns dez minutos, pouco mais ou menos. Dou-lhe tempo para se lembrar de tudo com exatidão. Quando se tiver lembrado, me chame... (E acrescentou, a sério:) — Tornará as coisas bem mais fáceis para você a reconstituição do caso em suas próprias palavras... (Caminhou para a porta do jardim, mas se voltou.) — Creio que se trata apenas de pingar os ii e cortar os tt... Quero que saiba que, antes de vir aqui esta manhã, tive uma boa conversa com os irmãos Fu, em Kingston...
0 Major Smythe sentiu-se de certa forma desoprimido. Acabara a batalha das insinuações e das evasivas, a tentativa de despistar e de inventar álibis. Era o fim das negaças. Se o tal James Bond conversara com os irmãos Fu, sem dúvida arrancara alguma coisa dos chineses. De modo algum quereriam eles qualquer complicação com as autoridades. E, além do mais, ainda tinham uma parte da muamba em seu poder. O Major se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale, quase meio a meio. O melhor era tomar uns bons tragos, enquanto ainda podia! O futuro não lhe ofereceria muitas oportunidades como essa. Voltou para a poltrona, acendeu o vigésimo cigarro do dia e olhou para o relógio. Eram 11h30m. Se pudesse livrar-se daquele importuno dentro de uma hora, ainda poderia ir ver a sua “gente”. Sentou-se e bebeu, mergulhado em seus pensamentos. Poderia prolongar ou abreviar a sua história, se adicionasse alguma coisa sobre o estado do tempo, o perfume das flores dos pinheiros que aspirara nas montanhas... Mas poderia omitir a paisagem e abreviá-la. Preferiu abreviar. Viu-se na cama dupla, no Tiefenbrunner Hotel, com montanhas de papelório para examinar. Não procurava nada de especial. Apenas apanhava, a esmo, um documento aqui, outro ali, concentrando-se principalmente nos que tinham o timbre, em vermelho, de KOMMANDOSACHE, HOECHST VERTRAULICH. Não existiam muitos destes, que eram quase sempre informações confidenciais sobre nazistas graúdos, sobre códigos aliados que os alemães tinham decifrado e sobre esconderijos secretos. Desde que estes eram um dos principais objetivos da Força A, o Major Smythe os havia examinado com particular excitação — eram esconderijos de alimentos, de explosivos, de armas, de fichários de espionagem e do pessoal da Gestapo, uma imensa rede de arrasto com toda a espécie de peixes! E, ainda, no fim de toda a papelada, um simples envelope lacrado, com o aviso: PARA SER ABERTO APENAS EM CASO DE EMERGÊNCIA. O envelope continha uma só folha de papel. Não havia assinatura sob as palavras escritas em letra vermelha.
No cabeçalho, havia a palavra VALUTA.
Embaixo, lia-se: WILDE KAISER. FRANZISKANER HALT. 100 M. OESTLICH STEINHUGEL. WAFFENKISTE. ZWEI BAR 24 KT. e uma lista de medidas em centímetros. O Major Smythe afastou as mãos, como se numa história de pescaria, estivesse mostrando as dimensões de um peixe. Duas barras de ouro de 24 quilates, cada uma, quase tão grande como dois tijolos! E pensar que um simples soberano inglês, de apenas dezoito quilates, valia naquele momento entre duas e três libras! As duas barras de ouro representam uma verdadeira fortuna! Quarenta, cinquenta mil libras, era quanto valeriam! Não tinha ainda ideia alguma a respeito, mas — era o melhor — riscou um fósforo e acendeu o papel e o envelope, reduzindo-os a cinzas, que colocou na pia e fez desaparecer sob um jorro d’água. Apanhou, depois, o mapa da área, em grande escala, preparado pela artilharia austríaca e, um momento depois, tinha sob o dedo o Franziskaner Halt. Nele estava indicado um abrigo alpino desabitado, refúgio de montanhistas, numa espécie de pequeno platô logo abaixo do mais alto pico das montanhas do Kaiser, essa imensa massa de pedras dentadas que fecha, ao norte, o horizonte de Kitzbuhel. E ali, onde o seu dedo repousava, devia existir o marco de pequenas pedras amontoadas. Significava isso que uma fortuna estava ao seu alcance, a apenas dez milhas de distância e, talvez, a apenas cinco horas de subida!
O princípio tinha sido tal como James Bond descrevera. Fora ao chalé de Oberhauser às 4 horas da madrugada. Prendera-o e dissera a seus familiares, todos em lágrimas, que o ia levar para o centro de interrogatórios, em Munique. Se o guia estivesse isento de culpa, estaria de volta dentro de uma semana. Se a família fizesse algum protesto isso só poderia prejudicar Oberhauser, tornando as coisas ainda mais difíceis. Smythe se recusara a declinar o seu nome e tivera a precaução de ocultar o número do jipe. Dentro de 24 horas, a Força A deixaria o lugar e o governo militar se instalaria em Kitzbuhel. E então o incidente seria sepultado no esquecimento pelo tumulto e pelas complicações decorrentes da própria ocupação militar.
Oberhauser revelou-se um excelente sujeito, disposto a cooperar, assim que perdeu o medo inicial. E quando Smythe começou a lhe falar de alpinismo e de esqui se tornou uma camaradão. O caminho passava ao sopé das montanhas, rumo a Kufstein. Smythe dirigia lentamente, fazendo comentários admirativos sobre os picos em que já se refletiam as primeiras luzes matinais. Finalmente, junto à base do Pico do Ouro, voltou-se para Oberhauser e lhe disse: — Oberhauser, você é uma pessoa com quem simpatizo. Temos muitos interesses em comum e, pela sua conversa, estou convencido de que não cooperou com os nazistas. Eu lhe explico o que pretendo fazer por você. Passaremos o dia escalando as montanhas do Kaiser e, depois, eu o levo de volta para Kitzbuhel. Direi, então, ao meu chefe que, interrogado em Munique, você foi imediatamente liberado... Que me diz a isso? — Rematou, com um sorriso.
O homem quase derramou lágrimas de gratidão. Mas era preciso que ele tivesse, em seu poder, um papel mostrando que estava isento de culpa? Certamente. A assinatura do Major Smythe seria mais que suficiente. Feito o pacto, o jipe foi dirigido através de um atalho e ficou escondido, longe da estrada, entre os pinheiros. Smythe estava preparado para a excursão, sem nada sob a jaqueta, vestindo um short e calçando botas de paraquedistas, fornecidas à unidade pelos americanos. A carga que levava era apenas o revólver Webley & Scott, absolutamente necessário, pois afinal de contas Oberhauser era um inimigo. O guia vestia a sua melhor roupa e calçava as suas botas alpinas. Não estava preocupado com a subida. E assegurou ao Major Smythe que não seria necessário usar nem cordas, nem ganchos, até chegarem à cabana, em que poderiam parar para descansar. Era aí o Franziskaner Halt.
— É esse o nome? — Perguntou o Major.
— Sim. E um pouco abaixo há uma pequena geleira. Passaremos ao largo, pois nela há muitas fendas.
— Assim faremos... — Disse o Major Smythe, pensativamente, examinando a parte posterior da cabeça de Oberhauser, por onde o suor escorria. Ora, afinal, ele era apenas um reles comedor de chucrute, talvez da mesma laia que os nazistas. Seria tão fácil liquidá-lo... A única coisa que preocupava o major era trazer a muamba pela montanha abaixo. Poderia colocar as barras de ouro às costas. Ou arrastá-las — por que não? — Durante grande parte do percurso, na sua caixa de munição. Longa e tortuosa foi a caminhada, montanha acima. Quando deixaram para trás os pinheiros, já o sol se alteava, dardejante. A princípio, caminharam entre rochas e entulhos, em constantes zigue-zagues. Sem o auxílio de um guia, nunca conseguiria o major chegar ao cimo do penhasco cinzento e ameaçador, que parecia tocar o azul do céu. Ambos caminhavam agora nus da cintura para cima, banhados em suor, que lhes escorria pelas pernas para dentro das botas. Embora o guia claudicasse, subiam com relativa rapidez. Quando pararam, para um drinque e um breve descanso, Oberhauser se congratulou com Smythe por estar em tão boa forma. O major, com a cabeça escaldando, tantos eram os seus planos, disse ríspida e mentirosamente que todos os ingleses eram cobras, em matéria de escalar montanhas. Subir ao penhasco não era difícil. Se lá havia uma cabana, é porque o material para a sua construção fora levado para ali nos ombros de alguém. Em certos lugares, pontos de apoio tinham sido cavados na rocha. E havia, ocasionalmente, grampos de ferro, em que os alpinistas podiam se agarrar. Mas achar as passagens exatas era o mesmo que descobrir os segredos de um labirinto. Ainda bem que trouxera o guia. Este, em certo momento, sondando o chão, para verificar se estava firme, fizera correr pequenina avalancha de pedras afrouxadas por muitos anos de ventanias e nevascas. Elas se precipitaram, com estrondo, lá embaixo. O Major Smythe pensou logo no barulho, que poderia despertar atenção. Perguntou se não haveria gente nas proximidades.
— Qual! Ninguém... A não ser nas proximidades de Kufstein... — Disse Oberhauser, apontando uma larga extensão, ao redor. — Aqui há pouca água e nenhum pasto. E, desde o princípio da guerra... (Interrompeu-se, deixando a frase incompleta.) Ladearam a geleira e continuaram a subida. A vista do Major Smythe media a extensão e a largura das fendas, por onde iriam passar. A uns cem pés acima, viram, então, a cabana, batida pelas intempéries. O major mediu o ângulo do declive. Era quase uma linha reta. Agora? Ou depois? Preferiu que fosse depois. O caminho para a última parte da travessia ainda não estava claramente definido. Alcançaram a cabana ao fim de cinco horas. O Major Smythe disse que queria aliviar um pouco a bexiga e caminhou para o leste, sem dar atenção alguma aos belos panoramas da Áustria e da Baviera, que se estendiam por cinquenta milhas, sob o sol estival. Ele contava os passos com extremo cuidado. Exatamente a 120 havia o montículo de pedras, talvez um marco carinhosamente erguido em memória de um alpinista desaparecido. Era isso o que qualquer pessoa normalmente pensaria. Mas o Major Smythe, sabendo que não se tratava disso, ardia de desejos de desfazer a pequena pirâmide de pedras soltas. Mas, em vez de fazê-lo, tirou do coldre o seu Webley & Scott, soltou a trava e examinou o cilindro. E voltou, então, rumo à cabana, onde Oberhauser entrara. Fazia frio, a tal altura — uns bons 3 mil metros —, e o guia acendia o fogo. Smythe controlou o seu horror e pediu: — Oberhauser, venha me mostrar as paisagens. Há vistas maravilhosas, aqui em cima!
— Com prazer, major — disse o guia, seguindo Smythe para fora da cabana. Uma vez lá fora, tirou do bolso um papel, no qual havia alguma coisa embrulhada. Ofereceu-a ao major, acrescentando: — Isto é o que chamamos Soldat. É uma salsicha defumada. Dura, mas muito saborosa. (Sorriu.) Parece com aquilo que os americanos comem nos filmes de Far-West. Como é mesmo o nome?
— Charque — disse o major. Depois — e mais tarde se arrependeu de o ter privado da pequena refeição — aconselhou: — Deixe isso na cabana. Depois, viremos comer. Será que daqui podemos ver Innsbruck? Mostre-me para que lado é...
Oberhauser entrou na cabana e logo saiu de novo. O major caminhou por trás dele, que falava e gesticulava, mostrando aqui o pico de uma montanha, além a torre de uma igreja distante. Chegaram ao lugar acima da geleira. O major tirou então o revólver e, a uma distância de pouco mais de meio metro, disparou dois tiros na base do crânio de Hannes Oberhauser. Que nem estrebuchou. Caiu já morto. O impacto das balas atirou o guia na borda do precipício. O Major Smythe o empurrou para baixo. O corpo bateu em duas anfractuosidades do penhasco e caiu em cima da geleira. Mas sem escorregar para as fendas. Ficou a meio do caminho, junto a um monte de neve antiga, acumulada.
— Com os diabos! — Disse o major.
Os estampidos repercutiram naquelas alturas como se fossem tiros de morteiros e o eco os repetiu a distância. O Major Smythe lançou um olhar sobre a figura imóvel, estendida junto ao monte de neve, e logo correu para o montículo de pedra. Devia cuidar das coisas mais importantes em primeiro lugar! Começou a afastar as pedras, com uma pressa diabólica, atirando as mais roliças pela montanha abaixo. Feriu-se em arestas cortantes e, quando deu pela coisa, sua mão estava sangrando, mas não ligou importância. Um pouco de sangue, que é que tinha? Precisava era andar depressa, depressa — e continuou a escavar, furiosamente. O monte de pedra desaparecia. E então! Sim! Lá estava alguma coisa que parecia ser uma tampa metálica. Mais algumas pedras foram retiradas e apareceu uma velha caixa de munições da Wehrmacht. Em cima dela, ainda havia traços de seu antigo letreiro. O Major Smythe soltou um grunhido de alegria. Sentou-se sobre uma pedra e sua imaginação entrou em órbita, descrevendo círculos sobre carros Rolls Royce, iate em Monte Carlo, apartamentos de cobertura, joias de Cartier, champanha, caviar e, no meio de tudo, uma vez que amava o golfe, uma nova coleção de bastões metálicos de Henry Cotton.
Embriagado com esses sonhos, o Major Smythe ficou ali sentado um bom quarto de hora fitando a caixa metálica, como que fascinado. Depois, olhou para o relógio e levantou-se. Não devia perder tempo. Tinha que eliminar as pistas. A caixa tinha alças de ambos os lados. O major esperara que fosse pesada. Mentalmente, ele a havia comparado à coisa mais pesada que até então carregara — um salmão de vinte quilos que pescara na Escócia, pouco antes da guerra —, mas a caixa tinha mais do dobro desse peso. E ele só com muita dificuldade a retirara do seu leito entre as pedras para colocá-la sobre a rala relva alpina. Amarrou, então, o seu lenço numa das alças e, pondo-a desajeitadamente no ombro, levou-a para a cabana. Sentou-se, então, na soleira da porta e, sem despregar inteiramente os olhos da caixa, cortou a salsicha defumada de Oberhauser com seus dentes vigorosos e começou a comê-la, pensando como havia de transportar as suas 50 mil libras — era esse o seu cálculo — pela montanha abaixo. A salsicha era, realmente, uma ótima refeição montanhesa, dura, gorda, rescendendo a tempero forte à base de alho. Partículas dela ficaram incômodamente presas aos seus dentes. Limpou-os com um palito de prata. Sua preocupação era fazer desaparecer todos os vestígios de sua presença. De agora em diante, era um criminoso. Tão criminoso como alguém que tivesse roubado um banco e assassinado o vigia. Precisava lembrar-se disso! Se não se lembrasse, teria a morte, em vez das coisas maravilhosas com que sonhava. Precisava ter infinita cautela. E teria! Seria, para sempre, rico e feliz. Depois de tomar precauções ridiculamente minuciosa para não deixar na cabana o menor traço de sua passagem, arrastou a caixa metálica para a borda do precipício, distante da geleira, e de lá atirou-a embaixo, rezando para que chegasse intacta. A caixa cinzenta rolou no espaço, bateu numa ponta de pedra, continuou a descer, chocou-se cem metros abaixo com outra anfractuosidade e, por fim, atingiu o chão de um entulho, onde parou. O Major Smythe não podia vê-la, de onde estava, e não podia saber se estava aberta. Tanto fazia que estivesse ou não! A própria montanha poderia tê-lo poupado ao trabalho de abri-la...
Depois de um último olhar em torno, ele começou a descer, experimentando com prudência a solidez de cada grampo e de cada ponto de apoio, antes de firmar-se com todo o peso de seu corpo. Na descida, sua vida tinha um valor muito maior que na subida. Caminhou para a geleira e atravessou a passagem em que a neve começava a derreter-se formando sobre o gelo uma mancha escura. Dentro de mais alguns dias, toda a neve estaria derretida. Chegou até onde estava o cadáver. Tinha visto muitos, durante a guerra. Ossos fraturados e carnes sangrentas nada significavam para ele. Arrastou os restos de Oberhauser para a fenda mais próxima e, depois, atirou em cima a neve, acumulada nas bordas. Enterrado o corpo, mostrou-se satisfeito com o seu trabalho, tendo, ao voltar, o cuidado de recolocar os pés sobre as mesmas pegadas que fizera na vinda. E então empreendeu à descida, ao encontro da caixa metálica. Sim, como esperava, a montanha a havia aberto para ele! Com um gesto despreocupado, desfez os invólucros, em papel empregado na fabricação de cartuchos. As duas grandes barras de metal cintilaram ao sol. Tinham ambas as mesmas marcas: a cruz suástica num círculo, sob uma águia, e a data de 1943, símbolos usados pelo Reichsbank. O Major Smythe fez um movimento de aprovação com a cabeça. Recompôs os invólucros e, como a lingueta da tampa, que saltara, não fechasse mais a tampa, teve de bater-lhe com uma pedra, até voltar ao lugar. Passou, então, numa das alças o cinturão em que costumava conduzir o revólver, e continuou a descida, arrastando-a atrás de si. Era então 1 hora da tarde e o sol lhe queimava o busto nu, fritando-o em seu próprio suor. Seus ombros, avermelhados, estavam em fogo. A soalheira também queimava o seu rosto. Com os diabos! Parou junto a uma cascata que descia dos gelos da montanha, embebeu o lenço em água fria e o colocou na cabeça. Bebeu, depois, largamente e prosseguiu, praguejando, às vezes com fúria, quando em alguns declives mais fortes a caixa de metal o atropelava, machucando-lhe os calcanhares. Mas esses desconfortos, as queimaduras e os arranhões, não eram nada comparados com o que ele ainda teria que enfrentar no vale, onde o terreno era nivelado. Até então, tivera a lei da gravidade a seu lado. Mas na última milha é que seria um problema carregar aquela infernal muamba! 0 Major Smythe sentia as costas e o pescoço em fogo. Disse, porém, a si mesmo, para encorajar-se: — Bolas! Il faut souffrir pour être millionaire!
CONTINUA
O olho do molusco o observava cuidadosamente, de sua loca, no recife de coral. Agora, a ponta de um dos oito tentáculos avançava uma ou duas polegadas, ondulando hesitantemente, como se fizesse uma vaga exploração com as ventosas rosadas. Dexter Smythe sorriu com satisfação. Se lhe fosse dado o tempo necessário, ao menos um mês mais, além dos dois durante os quais se acamaradara com o polvo, decerto domesticaria inteiramente o fascinante animal. Mas temia que não chegasse a viver tanto. Devia aproveitar aquela oportunidade para se aproximar do molusco e lhe oferecer a mão de amigo. Sim... Em vez de limitar-se a lhe dar comida, na ponta de um arpão, devia, por assim dizer, apertar-lhe a mão, não era mesmo? “Não, ainda não, meu negrinho — pensou —, ainda não posso ter confiança em você...” Com toda a certeza, se fosse imprudente, outros tentáculos sairiam da loca lhe envolveriam o braço. E, puxado pelo polvo, a válvula de corliça da máscara se fecharia automaticamente. Ficaria sufocado. Ou, se o polvo a arrancasse, na certa morreria afogado. Quando muito, com um golpe rápido e feliz do arpão, poderia ferir o octópode, mas para matá-lo seria preciso muito mais do que isso. Não... Talvez mais tarde. Agora, seria o mesmo que enfrentar uma rolêta-russa, com cinco chances contra e uma só a favor. Poderia, mesmo, representar um meio rápido, eficaz e bizarro de pôr termo aos seus aborrecimentos! Mas, agora... não! Isso deixaria insolúvel uma questão sumamente interessante. E ele havia prometido resolvê-la... Dera a sua palavra ao simpático Professor Bengry, do Instituto Biológico Marinho. Dexter Smythe afastou-se do recife de coral, nadando lentamente. Seus olhos atentos buscavam, com empenho, a forma estranha e sinistra do peixe-escorpião, ou, como diria Bengry, do Scorpaena Plumieri.
O Major Dexter Smythe, condecorado com a Ordem do Império Britânico, oficial do Corpo de Fuzileiros Reais (reformado), era o que restava de um outrora bravo militar e homem encantador, que fazia conquistas sexuais fáceis em todos os meios em que atuava fardado. Principalmente entre o pessoal das organizações militares femininas — as Wrens, as Wracs e as moças do ATS, incumbidas das comunicações e do secretariado das forças-tarefas especiais, de que ele fizera parte, no fim de sua carreira. Tinha agora cinquenta e quatro anos. Estava ligeiramente calvo. E sua barriga se acomodava com certa dificuldade nos apertados limites do calção de banho. Além disso, tivera já duas complicações coronárias. Seu médico era Jimmy Graves, que fora um dos seus parceiros no jogo de pôquer de cacife altíssimo, no Queen’s Club, logo que ele chegara, com a mulher, à Jamaica. Meio a sério, meio brincando, o médico havia descrito a última dessas complicações, ocorrida um mês antes, como sendo a “segunda advertência”. Mas, em suas roupas bem talhadas, ocultas as muitas varizes às vistas indiscretas, com a barriga comprimida por uma larga cinta que o imaculado colête-faixa disfarçava, o antigo militar ainda fazia boa figura, num coquetel ou num jantar, em North Shore. Para seus amigos e vizinhos dessa praia, era um mistério o motivo pelo qual desafiava ele as recomendações do médico. Este lhe impusera uma dieta de uísque e de cigarros, limitados respectivamente a dois e a dez por dia, mas ele insistia em fumar como uma chaminé e em ir sempre para a cama bêbedo. Agradàvelmente bêbedo.
A verdade é que Dexter Smythe tinha chegado à fronteira em que o instinto da vida começa a ceder ao desejo da morte. As origens desse estado de espírito eram muitas e complexas. Estava irremediavelmente amarrado à Jamaica. A indolência tropical apoderara-se gradualmente de seu organismo, de tal modo que, se aparentava ser uma sólida peça de madeira de lei, interiormente não era mais que um tronco fofo, corroído pelos cupins. Tinha um exterior envernizado, mas ilusório. A preguiça, o relaxamento, o sentimento de culpas antigas, o total desgosto em relação a si mesmo haviam erodido o seu cerne, transformando-o em pó de serragem. Desde a morte de Mary, dois anos antes, não tinha mais amado a ninguém. Nem sequer estava certo de que realmente a havia amado. Sabia, porém, que sentia a ausência dela a todas as horas do dia, que sentia falta de seu afeto e de sua alegria, de sua presença desmazelada, barulhenta e, por vezes, irritante. Enquanto devorava canapés e bebia martinis da ralé internacional que frequentava em North Shore, ele se apercebia de que não nutria por essa gente outro sentimento que não fosse o de completo desprezo. Poderia, talvez, ter feito amigos entre elementos mais respeitáveis, os fazendeiros do interior da ilha, os proprietários do litoral, os representantes das profissões liberais e do mundo político local. Mas isso significaria voltar a ter propósitos sérios numa vida em que a preguiça e o embotamento espiritual limitaram-se ao fundo das garrafas. Tal coisa estava inteiramente fora de suas cogitações.
O Major Smythe estava mortalmente entendiado e, se não fosse por determinado motivo, já teria há muito tempo engolido o vidro de barbitúricos que com facilidade adquirira a um dos médicos da ilha. O fio que ainda o prendia à vida era muito tênue. Os grandes bebedores tendem a exagerar o seu temperamento básico, que é sempre um destes quatro: sanguíneo, fleumático, colérico e melancólico. O bêbedo sanguíneo torna-se alegre até à histeria ou à idiotia. O fleumático afunda-se num abatimento sombrio. O colérico é o ébrio turbulento das caricaturas, que passa a maior parte do tempo na prisão, por ter quebrado coisas ou agredido pessoas. E o melancólico é o beberrão que tem pena de si mesmo, geralmente vomitando ou se desmanchando em prantos. O Major Smythe era um melancólico, com a curiosa e divertida fantasia de fazer relações pessoais com aves, insetos e peixes existentes nos cinco acres de Wavelet, isto é, de Ondinhas, nome sintomático que dera à sua pequena villa. A praia e o recife de coral, além dela, eram os seus lugares prediletos. E, entre todos os seres, preferia os peixes. Referia-se a eles como à “gente do mar” e, uma vez que os peixes, como as aves, são fiéis aos seus recantos, ao fim de dois anos ele os conhecia a todos intimamente, amava-os e acreditava ser retribuído por eles com igual amor.
Certo, eles o conheciam, como os animais de um Jardim Zoológico conhecem os seus tratadores. Como estes, ele lhes ia levar o alimento diário, arrecadando pedacinhos de algas e revolvendo a areia o os seixos do fundo do mar, para ajudar os que se alimentam nos lugares mais profundos. Desenterrava ovos e ouriços para os pequenos carnívoros e levava sobras de carne para os grandes. E agora, enquanto nadava lenta e pesadamente, de um lado para o outro do recife de coral e através dos canais que conduzem às águas profundas, sua “gente do mar” enxameava ao redor dele, sem nenhum medo, em atitude de expectativa, quase roçando a aguda ponta de seu arpão, que conheciam apenas como uma espécie de longa colher dadivosa. Vinham namorar o vidro da máscara Pirelli e, em alguns casos, como certas mulheres provocantes, tomavam intimidades perigosas, roçando em suas pernas e em seus pés.
Parte da mente do Major Smythe estava fixada nessa “gente” brilhante e colorida, mas outra parte se preocupava com uma tarefa que devia realizar naquele dia. Ele cumprimentava os peixes com palavras que não chegava a proferir — “Bom dia, beleza!” Era a sua mensagem a um peixe azul-escuro, salpicado de malhas que semelhavam lentejoulas, de um azul ainda mais intenso e brilhante. É o “peixe-joia”, que parece um vidro estrelado do perfume Vol de Nuit, de Worth. “Sinto muito, hoje não, meu bem”, dizia em silêncio a um peixe-borboleta, esvoaçante, com falsos “olhos” na cauda. “Você está gordo demais, meninão”, afirmava mentalmente a um peixe-papagaio de côr azul-índigo, que devia pesar uns bons cinco quilos. Seus olhos estavam sempre atentos, à procura de sua “gente”. No recife de coral, seu único inimigo que ele matava à primeira vista, era o peixe-escorpião.
O peixe-escorpião habita principalmente nas águas tépidas do sul e o rascasse, que é a base da bouillabaisse, pertence à mesma família. A variedade do Caribe alcança apenas cerca de doze polegadas de comprimento e pesa, talvez, meio quilo. É o mais feio peixe do mar, como se a natureza ao engendrá-lo assim tivesse querido nos fazer uma advertência. Sarapintado de marrom-acinzentado, tem uma cabeçorra felpuda, de feitio cuneiforme. Os olhos são de um vermelho agressivo e consegue dissimular perfeitamente a sua silhueta, em meio dos recifes. Embora sendo um peixe pequeno, sua boca amplamente guarnecida de dentes pontiagudos é tão grande que ele pode engolir, sem dificuldade, a maioria dos peixinhos que vivem ao redor dos corais. Mas a sua arma suprema consiste nas eretas barbatanas dorsais, as primeiros das quais agem por contato como agulhas hipodérmicas, alimentadas por glândulas venenosas, que contêm tetrodotoxina suficiente para matar um homem, se o atingirem num lugar vulnerável — por exemplo, numa artéria, sobre o coração ou nas virilhas. Esse é o único perigo real para quem se aventura a nadar nos recifes. Muito mais perigoso do que as barracudas e os tubarões, é extremamente confiante em sua camuflagem e em suas armas, não fugindo de coisa alguma, exceto de uma exagerada aproximação de um pé humano ou mesmo de um contato direto. Nossas ocasiões, o peixe-escorpião nada apenas alguns metros com seu largo peitoral, bizarramente listrado, parando atento, ou pousado na areia, onde por mimetismo parece uma formação coralina, ou entre as rochas e algas, onde virtualmente desaparece. O Major Smythe estava decidido a encontrar um, arpoá-lo e dá-lo a seu polvo, para ver se este o aceitava ou rejeitava. Queria saber se um dos grandes predadores do oceano reconheceria a periculosidade, o poder mortífero do veneno do outro. Consumiria o polvo a parte inferior do peixe-escorpião, sem lhe tocar nas espinhas letais? Devorá-las-ia também e viria a sofrer um castigo, atingido pelo veneno? Eram essas as perguntas que Bengry, do Instituto, desejava esclarecer. E, agora, sentindo o princípio do fim de sua vida, o solitário de Wavelets pensou que esse poderia ser também o fim do seu querido polvo. E decidiu dar resposta àquelas perguntas, deixando uma pequena lembrança de sua vida fútil e inútil num recanto empoeirado dos arquivos do Instituto.
É que, apenas duas ou três horas antes, o Major Dexter Smythe vira a sua vida transformar-se, passando de mal a pior. Para uma condição tão pior que ele teria muita sorte se, dentro de uma semana — tempo necessário para a troca de telegramas entre o governo da ilha e o Ministério das Colônias, que por sua vez se comunicaria com o Serviço Secreto e, através deste, com a Scotland Yard e a Procuradoria da Justiça, bem como para a transferência do Major Smythe para Londres, sob escolta policial —, na melhor das hipóteses, saísse de um inevitável julgamento condenado à prisão perpétua. E tudo isso por causa de um homem chamado Bond — Comandante James Bond —, que aparecera em Wavelets às 10h 30m da manhã, num táxi que tomara em Kingston. O dia tinha começado normalmente. O Major Smythe acordara de seu sono à base de seconal, engolira dois comprimidos de panadol (o precário estado cardíaco lhe proibira o uso da aspirina), tomara um banho de chuveiro e fora devorar o seu pequeno almoço debaixo de frondosa amendoeira, no jardim, onde passara uma hora, alimentando pássaros famintos com as sobras da refeição. Depois, tomou as doses de anticoagulante receitadas pelo médico e as pílulas contra a alta pressão arterial, matando o tempo com a leitura do Daily Gleaner e fazendo hora para tomar o seu primeiro trago. Antes, esperava até às 11 horas. Mas, por último, fixara esse momento em 10h 30m. Já havia servido dois conhaques com ginger ale — a bebida de quem sabe embebedar-se — quando ouviu o ruído do automóvel que se aproximava. Luana, a governante negra, não tardou a aparecer no jardim para anunciar: — Um cara tá aí para falar com o sinhô, Majó.
— Como se chama?
— Sei não, Majó. Disse não. Só falou que é negócio da casa do gunverno.
O Major Smythe vestia apenas uns velhos shorts de brim caqui e calçava um par de alpercatas. Não podia receber um visitante assim.
— Mande entrar para a sala, Luana, e diga que não demorarei a atendê-lo.
Foi ao seu quarto, vestiu um blusão branco, umas calças e penteou o que ainda lhe restava da antiga cabeleira. Um representante do governo! Que diabo quereria com ele? Mal entrou na sala, viu um homem alto, com um terno de tropical azul, debruçado na janela, olhando para o mar. O Major teve logo a sensação de que ia receber más notícias. E quando o homem se voltou encarando-o atentamente, com os olhos azul-cinza, Smythe teve a certeza de que ele estava, realmente, em missão oficial. E em missão nada amistosa, porque nem ao menos retribuiu o seu cordial sorriso. Um calafrio percorreu a espinha do major. Teriam, então, descoberto tudo?
— Bem, bem, eu sou Smythe. Pelo que sei, o senhor representa o governo da ilha. Como vai Sir Kenneth?
Não houve sequer um aperto de mão. O homem disse:
— Ainda não o vi. Faz só uns três dias que cheguei. Estive procurando ver os pontos pitorescos da ilha. Meu nome é Bond. James Bond. Sou do Ministério da Defesa.
O Major Smythe se lembrava do eufemismo habitualmente usado para designar o Serviço Secreto. E disse, esforçando-se para se mostrar animado e alegre: — Oh... A velha firma? Prefere conversar aqui mesmo, ou no jardim? Que tal um drinque? (E o Major pôs um cubo de gelo num copo, que já tinha nas mãos.) Rum e ginger ale é o mais popular veneno local... Eu, porém, prefiro ginger ale, sem mais nada...
A mentira lhe escapou com facilidade, graças ao automatismo dos alcoólatras. — Não me sirva nada. E falemos aqui mesmo — disse o recém-vindo, recostando-se no parapeito da janela, lavrado em mogno.
O Major Smythe sentou-se, passou uma perna sobre o braço da confortável poltrona e tomou um grande trago de seu copo, que depositou depois ao lado.
— Bem — disse, olhando o visitante com firmeza, cara a cara. — Em que poderei lhe ser útil? Alguém está fazendo sujeiras em North Shore e vocês estão precisando de ajuda? Terei prazer em voltar ao antigo trabalho. Já vai longe o tempo em que fui agente secreto, mas ainda me lembro de algumas técnicas...
— Não se incomoda que eu fume?
O visitante, ao fazer a pergunta, já tinha, nas mãos, uma cigarreira de forma achatada que poderia, no entanto, conter cinquenta cigarros. A esse sinal de fraqueza, comum a ambos, o major se sentiu confortado.
— Em absoluto, meu caro. (E fez um movimento, aproximando o seu isqueiro, aceso.) — Obrigado. (James Bond já havia acendido o cigarro.) Mas não vim aqui para tratar de assuntos locais. O que realmente me trouxe a North Shore foi o desejo de pedir-lhe que se recorde minuciosamente de seu trabalho para o Serviço Secreto, nos últimos dias da II Grande Guerra... (Fez uma pausa, para observar o efeito de suas palavras no Major Smythe) Principalmente quando trabalhou na Divisão de Assuntos Gerais...
O Major Smythe teve um riso breve e escarninho. Ele sabia. Estava absolutamente certo. Mas, quando a revelação saiu dos lábios daquele homem, não pôde conter a gargalhada, reação de alguém que se via golpeado em cheio e procurava dar a impressão contrária.
— Mas, Santo Deus! A velha DAG! Claro que me lembro ainda dela... E de tudo o mais...
Riu de novo. E sentiu aguilhoar-lhe o peito a dor constritiva da angina, provocada pela pressão do que certamente iria acontecer. Enfiou a mão no bolso da calça, despejou o conteúdo de um pequeno frasco no côncavo da outra mão e, depois, colocou sob a língua os pequenos comprimidos brancos de TNT. Observava divertidamente a crescente tensão estampada na fisionomia do visitante, cujos olhos se apertavam para melhor fitá-lo. Não precisava ter medo, não. Não se tratava de pílulas de cianureto ou qualquer outro veneno. O major despistou: — A acidose não o persegue? Não? Pois a azia é o meu tormento. Ontem à noite, fui a uma festa no Jamaica Inn. Preciso me lembrar de que não tenho mais 25 anos... Bem, mas ainda posso voltar para a DAG. Creio que hoje somos bem poucos, os veteranos, não? (Sentiu outra vez a dor no peito.) É alguma coisa a respeito da história oficial da guerra?
James Bond, olhando para a ponta do cigarro, disse que não se tratava exatamente disso.
— Pensava... Porque, não sei se sabe: eu escrevi quase todo o capítulo sobre o Serviço Secreto no War Book... Já faz muito tempo. Mas duvido que haja algo de realmente importante a acrescentar...
— Nem mesmo alguma coisa sobre certa operação no Tirol? Num lugar chamado Ober Aurach, a cerca de uma milha de distância de Kitzbuhel?
A menção desses nomes provocou outro pequeno riso do major:
— Mas essa operação foi uma ninharia... Tudo muito fácil. Aqueles sujeitos da Gestapo tinham mais fanatismo do que competência... Uns bêbedos. Conservaram em seus arquivos todas as pistas. E os entregaram sem nenhum protesto. Esperavam, em troca, a nossa indulgência, talvez... A grande maioria foi enforcada por crimes de guerra, acredito. Levei tudo para o Quartel-General, em Salzburgo. Depois, fui para o vale do Mittersill, à procura de outro esconderijo... O Major Smythe tomou outro trago e acendeu um cigarro. Depois, olhando para cima: — Acho que não há mais nada a acrescentar a essas linhas gerais...
— O senhor, se não me engano, foi nessa época o número 2... O commanding officer era um americano, não? O Coronel King, do Exército do General Patton...
— É verdade, ele foi meu chefe. Excelente sujeito. Usava um bigodinho, coisa que não é muito de americano. Tinha competência indiscutível para escolher vinhos. Um tipo muito civilizado...
— No seu relatório sobre aquela operação, ele afirma que lhe entregou todos os documentos necessários às buscas e investigações preliminares, por ser o senhor o perito em assuntos germânicos do grupo... O senhor devolveu esses papéis a ele com algumas notas ou observações? (James Bond fez uma pausa.) Todos, sem falta de um só?
O Major Smythe ignorou a insinuação:
— É verdade. O que ele me deu foi, principalmente, uma lista de nomes. Indicações recebidas da contra-espionagem. Os agentes da CE em Salzburgo ficaram muito satisfeitos com essas pistas. E puderam aprofundar as buscas em várias direções. Acredito que os originais devem estar arquivados em algum lugar, uma vez que foram usados nos julgamentos de Nuremberg. Isso mesmo! (O Major Smythe parecia forçar a memória.) Posso dizer que os mais alegres anos de minha vida foram os do período em que trabalhei para a DAG. Vinho, mulheres, música! Ah, se eu pudesse viver esse bom tempo outra vez!
Nessa ocasião, o Major Smythe dizia a pura verdade. Ele sustentara uma perigosa e desconfortável luta até 1945. Quando os famosos Comandos ingleses foram formados em 1941, ele se apresentara como voluntário, sendo transferido dos Fuzileiros Reais para o Quartel-General das Operações Combinadas, sob a direção de Lorde Mountbatten. Seu domínio da língua alemã (que lhe vinha da mãe, nascida em Heidelberg) qualificara-o para o invejável lugar de coletor de informações nas operações de Comandos através do canal da Mancha. Tivera a sorte de permanecer durante dois anos nesse trabalho sem um arranhão e de receber a Ordem do Império Britânico, tão ciosa e avaramente distribuída durante a última guerra. E, depois, quando se preparava o golpe final contra a Alemanha, a Divisão de Assuntos Gerais fora formada, em conjunto, pelo Serviço Secreto e os Comandos. O Major Smythe, comissionado, então, como tenente-coronel, recebeu a incumbência de formar a unidade que devia descobrir e limpar os esconderijos dos graúdos da Gestapo e da Abwehr no momento em que se desse o colapso do nazismo. O Serviço Secreto, ao aprovar o plano, insistiu em que fosse acompanhado o avanço americano não por uma única, mas por seis dessas unidades, que operariam na Alemanha e na Áustria no momento da rendição. Eram unidades de vinte homens, cada uma com um carro blindado ligeiro, seis jipes, três camionetas e um caminhão com instalações de radiotelefonia. Controladas por um comando misto, anglo-americano, teriam elas à sua disposição o pessoal do Serviço de Inteligência do Exército, do SIS e do OSS. O Major Smythe fora o número 2 da Força A, destinada a atuar no Tirol, área cheia de bons esconderijos, com fácil acesso à fronteira de outros países. Por isso mesmo, era considerada o valhacouto n.° 1 pelo pessoal da DAG. E, como confessara o Major Smythe a James Bond, a operação fora praticamente uma festa, não tendo sido preciso disparar um só tiro. Exceto, é claro, dois que foram disparados pelo próprio Major Smythe. James Bond perguntou-lhe com ar mais casual do mundo: — O nome de Hannes Oberhauser lhe evoca alguma lembrança?
O Major Smythe franziu o sobrecenho, como que num esforço para se lembrar:
— Não, creio que não... (Fazia 32 graus à sombra, mas ele tremia de frio.) — Permita que eu lhe refresque a memória... No mesmo dia em que os documentos lhe foram entregues para exame, o senhor fez perguntas no Tiefenbrunner Hotel, onde se hospedou, sobre quem era o melhor guia alpino de Kitzbuhel. Foi-lhe indicado o guia Oberhauser. No dia seguinte, o senhor pediu ao seu comandante um dia livre, que lhe foi concedido. Na manhã desse dia, o senhor se dirigiu ao chalé de Oberhauser, prendeu-o com a cláusula de incomunicabilidade, e o levou no seu jipe. Não está se lembrando dessas particularidades?
Como era familiar aquela frase sobre o refrescamento da memória! Quantas vezes o próprio Major Smythe não a usara, como armadilha, para nela colher um mentiroso nazista?... Mas não devia, agora, se afobar. Há anos que estava preparado para alguma coisa nesse estilo. E, por isso, respondeu: — Não... Eu absolutamente não me lembro.
— Oberhauser era um homem de cabelo grisalho e claudicava de uma perna. Falava algum inglês, pois antes da guerra costumava trabalhar como instrutor de esqui, tendo como aprendizes ingleses e americanos...
O Major Smythe olhou impàvidamente para o visitante, fixando-lhe os olhos frios e claros:
— Sinto muito... Mas não posso ajudá-lo. Não me recordo.
James Bond tirou do bolso o pequeno caderno de notas, folheando-o ligeiramente. Deteve-se numa das páginas e disse:
— Vou ajudar um pouco mais a sua memória. Nesse tempo, como arma de uso pessoal, o senhor tinha um revólver regulamentar Webley & Scott, calibre 45, com o número da série 8967/362...
— Sim, era Webley... Um trabucão enorme, difícil de carregar. Espero que tenham adotado algo melhor. Assim como um Luger ou uma Beretta pesada. Mas eu nunca me dei ao trabalho de anotar o número...
— O número é esse mesmo — disse James Bond. — Verifiquei a data em que o recebeu do QG e a data em que o devolveu. O senhor assinou o livro de carga, ambas as vezes...
— Então, deve ter sido essa mesma a minha arma — concordou o Major Smythe, dando de ombros. — Mas... (E agora havia impaciência em sua voz) ... Mas, se me permite a pergunta, em que é que isso pode interessar?
James Bond o olhou com certa curiosidade. Depois falou e não se poderia dizer que o seu tom fosse cruel:
— Bem sabe que isso é fundamental, Smythe. (Fez uma pausa e pareceu refletir.) Façamos um acordo. Eu irei ao jardim, por uns dez minutos, pouco mais ou menos. Dou-lhe tempo para se lembrar de tudo com exatidão. Quando se tiver lembrado, me chame... (E acrescentou, a sério:) — Tornará as coisas bem mais fáceis para você a reconstituição do caso em suas próprias palavras... (Caminhou para a porta do jardim, mas se voltou.) — Creio que se trata apenas de pingar os ii e cortar os tt... Quero que saiba que, antes de vir aqui esta manhã, tive uma boa conversa com os irmãos Fu, em Kingston...
0 Major Smythe sentiu-se de certa forma desoprimido. Acabara a batalha das insinuações e das evasivas, a tentativa de despistar e de inventar álibis. Era o fim das negaças. Se o tal James Bond conversara com os irmãos Fu, sem dúvida arrancara alguma coisa dos chineses. De modo algum quereriam eles qualquer complicação com as autoridades. E, além do mais, ainda tinham uma parte da muamba em seu poder. O Major se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale, quase meio a meio. O melhor era tomar uns bons tragos, enquanto ainda podia! O futuro não lhe ofereceria muitas oportunidades como essa. Voltou para a poltrona, acendeu o vigésimo cigarro do dia e olhou para o relógio. Eram 11h30m. Se pudesse livrar-se daquele importuno dentro de uma hora, ainda poderia ir ver a sua “gente”. Sentou-se e bebeu, mergulhado em seus pensamentos. Poderia prolongar ou abreviar a sua história, se adicionasse alguma coisa sobre o estado do tempo, o perfume das flores dos pinheiros que aspirara nas montanhas... Mas poderia omitir a paisagem e abreviá-la. Preferiu abreviar. Viu-se na cama dupla, no Tiefenbrunner Hotel, com montanhas de papelório para examinar. Não procurava nada de especial. Apenas apanhava, a esmo, um documento aqui, outro ali, concentrando-se principalmente nos que tinham o timbre, em vermelho, de KOMMANDOSACHE, HOECHST VERTRAULICH. Não existiam muitos destes, que eram quase sempre informações confidenciais sobre nazistas graúdos, sobre códigos aliados que os alemães tinham decifrado e sobre esconderijos secretos. Desde que estes eram um dos principais objetivos da Força A, o Major Smythe os havia examinado com particular excitação — eram esconderijos de alimentos, de explosivos, de armas, de fichários de espionagem e do pessoal da Gestapo, uma imensa rede de arrasto com toda a espécie de peixes! E, ainda, no fim de toda a papelada, um simples envelope lacrado, com o aviso: PARA SER ABERTO APENAS EM CASO DE EMERGÊNCIA. O envelope continha uma só folha de papel. Não havia assinatura sob as palavras escritas em letra vermelha.
No cabeçalho, havia a palavra VALUTA.
Embaixo, lia-se: WILDE KAISER. FRANZISKANER HALT. 100 M. OESTLICH STEINHUGEL. WAFFENKISTE. ZWEI BAR 24 KT. e uma lista de medidas em centímetros. O Major Smythe afastou as mãos, como se numa história de pescaria, estivesse mostrando as dimensões de um peixe. Duas barras de ouro de 24 quilates, cada uma, quase tão grande como dois tijolos! E pensar que um simples soberano inglês, de apenas dezoito quilates, valia naquele momento entre duas e três libras! As duas barras de ouro representam uma verdadeira fortuna! Quarenta, cinquenta mil libras, era quanto valeriam! Não tinha ainda ideia alguma a respeito, mas — era o melhor — riscou um fósforo e acendeu o papel e o envelope, reduzindo-os a cinzas, que colocou na pia e fez desaparecer sob um jorro d’água. Apanhou, depois, o mapa da área, em grande escala, preparado pela artilharia austríaca e, um momento depois, tinha sob o dedo o Franziskaner Halt. Nele estava indicado um abrigo alpino desabitado, refúgio de montanhistas, numa espécie de pequeno platô logo abaixo do mais alto pico das montanhas do Kaiser, essa imensa massa de pedras dentadas que fecha, ao norte, o horizonte de Kitzbuhel. E ali, onde o seu dedo repousava, devia existir o marco de pequenas pedras amontoadas. Significava isso que uma fortuna estava ao seu alcance, a apenas dez milhas de distância e, talvez, a apenas cinco horas de subida!
O princípio tinha sido tal como James Bond descrevera. Fora ao chalé de Oberhauser às 4 horas da madrugada. Prendera-o e dissera a seus familiares, todos em lágrimas, que o ia levar para o centro de interrogatórios, em Munique. Se o guia estivesse isento de culpa, estaria de volta dentro de uma semana. Se a família fizesse algum protesto isso só poderia prejudicar Oberhauser, tornando as coisas ainda mais difíceis. Smythe se recusara a declinar o seu nome e tivera a precaução de ocultar o número do jipe. Dentro de 24 horas, a Força A deixaria o lugar e o governo militar se instalaria em Kitzbuhel. E então o incidente seria sepultado no esquecimento pelo tumulto e pelas complicações decorrentes da própria ocupação militar.
Oberhauser revelou-se um excelente sujeito, disposto a cooperar, assim que perdeu o medo inicial. E quando Smythe começou a lhe falar de alpinismo e de esqui se tornou uma camaradão. O caminho passava ao sopé das montanhas, rumo a Kufstein. Smythe dirigia lentamente, fazendo comentários admirativos sobre os picos em que já se refletiam as primeiras luzes matinais. Finalmente, junto à base do Pico do Ouro, voltou-se para Oberhauser e lhe disse: — Oberhauser, você é uma pessoa com quem simpatizo. Temos muitos interesses em comum e, pela sua conversa, estou convencido de que não cooperou com os nazistas. Eu lhe explico o que pretendo fazer por você. Passaremos o dia escalando as montanhas do Kaiser e, depois, eu o levo de volta para Kitzbuhel. Direi, então, ao meu chefe que, interrogado em Munique, você foi imediatamente liberado... Que me diz a isso? — Rematou, com um sorriso.
O homem quase derramou lágrimas de gratidão. Mas era preciso que ele tivesse, em seu poder, um papel mostrando que estava isento de culpa? Certamente. A assinatura do Major Smythe seria mais que suficiente. Feito o pacto, o jipe foi dirigido através de um atalho e ficou escondido, longe da estrada, entre os pinheiros. Smythe estava preparado para a excursão, sem nada sob a jaqueta, vestindo um short e calçando botas de paraquedistas, fornecidas à unidade pelos americanos. A carga que levava era apenas o revólver Webley & Scott, absolutamente necessário, pois afinal de contas Oberhauser era um inimigo. O guia vestia a sua melhor roupa e calçava as suas botas alpinas. Não estava preocupado com a subida. E assegurou ao Major Smythe que não seria necessário usar nem cordas, nem ganchos, até chegarem à cabana, em que poderiam parar para descansar. Era aí o Franziskaner Halt.
— É esse o nome? — Perguntou o Major.
— Sim. E um pouco abaixo há uma pequena geleira. Passaremos ao largo, pois nela há muitas fendas.
— Assim faremos... — Disse o Major Smythe, pensativamente, examinando a parte posterior da cabeça de Oberhauser, por onde o suor escorria. Ora, afinal, ele era apenas um reles comedor de chucrute, talvez da mesma laia que os nazistas. Seria tão fácil liquidá-lo... A única coisa que preocupava o major era trazer a muamba pela montanha abaixo. Poderia colocar as barras de ouro às costas. Ou arrastá-las — por que não? — Durante grande parte do percurso, na sua caixa de munição. Longa e tortuosa foi a caminhada, montanha acima. Quando deixaram para trás os pinheiros, já o sol se alteava, dardejante. A princípio, caminharam entre rochas e entulhos, em constantes zigue-zagues. Sem o auxílio de um guia, nunca conseguiria o major chegar ao cimo do penhasco cinzento e ameaçador, que parecia tocar o azul do céu. Ambos caminhavam agora nus da cintura para cima, banhados em suor, que lhes escorria pelas pernas para dentro das botas. Embora o guia claudicasse, subiam com relativa rapidez. Quando pararam, para um drinque e um breve descanso, Oberhauser se congratulou com Smythe por estar em tão boa forma. O major, com a cabeça escaldando, tantos eram os seus planos, disse ríspida e mentirosamente que todos os ingleses eram cobras, em matéria de escalar montanhas. Subir ao penhasco não era difícil. Se lá havia uma cabana, é porque o material para a sua construção fora levado para ali nos ombros de alguém. Em certos lugares, pontos de apoio tinham sido cavados na rocha. E havia, ocasionalmente, grampos de ferro, em que os alpinistas podiam se agarrar. Mas achar as passagens exatas era o mesmo que descobrir os segredos de um labirinto. Ainda bem que trouxera o guia. Este, em certo momento, sondando o chão, para verificar se estava firme, fizera correr pequenina avalancha de pedras afrouxadas por muitos anos de ventanias e nevascas. Elas se precipitaram, com estrondo, lá embaixo. O Major Smythe pensou logo no barulho, que poderia despertar atenção. Perguntou se não haveria gente nas proximidades.
— Qual! Ninguém... A não ser nas proximidades de Kufstein... — Disse Oberhauser, apontando uma larga extensão, ao redor. — Aqui há pouca água e nenhum pasto. E, desde o princípio da guerra... (Interrompeu-se, deixando a frase incompleta.) Ladearam a geleira e continuaram a subida. A vista do Major Smythe media a extensão e a largura das fendas, por onde iriam passar. A uns cem pés acima, viram, então, a cabana, batida pelas intempéries. O major mediu o ângulo do declive. Era quase uma linha reta. Agora? Ou depois? Preferiu que fosse depois. O caminho para a última parte da travessia ainda não estava claramente definido. Alcançaram a cabana ao fim de cinco horas. O Major Smythe disse que queria aliviar um pouco a bexiga e caminhou para o leste, sem dar atenção alguma aos belos panoramas da Áustria e da Baviera, que se estendiam por cinquenta milhas, sob o sol estival. Ele contava os passos com extremo cuidado. Exatamente a 120 havia o montículo de pedras, talvez um marco carinhosamente erguido em memória de um alpinista desaparecido. Era isso o que qualquer pessoa normalmente pensaria. Mas o Major Smythe, sabendo que não se tratava disso, ardia de desejos de desfazer a pequena pirâmide de pedras soltas. Mas, em vez de fazê-lo, tirou do coldre o seu Webley & Scott, soltou a trava e examinou o cilindro. E voltou, então, rumo à cabana, onde Oberhauser entrara. Fazia frio, a tal altura — uns bons 3 mil metros —, e o guia acendia o fogo. Smythe controlou o seu horror e pediu: — Oberhauser, venha me mostrar as paisagens. Há vistas maravilhosas, aqui em cima!
— Com prazer, major — disse o guia, seguindo Smythe para fora da cabana. Uma vez lá fora, tirou do bolso um papel, no qual havia alguma coisa embrulhada. Ofereceu-a ao major, acrescentando: — Isto é o que chamamos Soldat. É uma salsicha defumada. Dura, mas muito saborosa. (Sorriu.) Parece com aquilo que os americanos comem nos filmes de Far-West. Como é mesmo o nome?
— Charque — disse o major. Depois — e mais tarde se arrependeu de o ter privado da pequena refeição — aconselhou: — Deixe isso na cabana. Depois, viremos comer. Será que daqui podemos ver Innsbruck? Mostre-me para que lado é...
Oberhauser entrou na cabana e logo saiu de novo. O major caminhou por trás dele, que falava e gesticulava, mostrando aqui o pico de uma montanha, além a torre de uma igreja distante. Chegaram ao lugar acima da geleira. O major tirou então o revólver e, a uma distância de pouco mais de meio metro, disparou dois tiros na base do crânio de Hannes Oberhauser. Que nem estrebuchou. Caiu já morto. O impacto das balas atirou o guia na borda do precipício. O Major Smythe o empurrou para baixo. O corpo bateu em duas anfractuosidades do penhasco e caiu em cima da geleira. Mas sem escorregar para as fendas. Ficou a meio do caminho, junto a um monte de neve antiga, acumulada.
— Com os diabos! — Disse o major.
Os estampidos repercutiram naquelas alturas como se fossem tiros de morteiros e o eco os repetiu a distância. O Major Smythe lançou um olhar sobre a figura imóvel, estendida junto ao monte de neve, e logo correu para o montículo de pedra. Devia cuidar das coisas mais importantes em primeiro lugar! Começou a afastar as pedras, com uma pressa diabólica, atirando as mais roliças pela montanha abaixo. Feriu-se em arestas cortantes e, quando deu pela coisa, sua mão estava sangrando, mas não ligou importância. Um pouco de sangue, que é que tinha? Precisava era andar depressa, depressa — e continuou a escavar, furiosamente. O monte de pedra desaparecia. E então! Sim! Lá estava alguma coisa que parecia ser uma tampa metálica. Mais algumas pedras foram retiradas e apareceu uma velha caixa de munições da Wehrmacht. Em cima dela, ainda havia traços de seu antigo letreiro. O Major Smythe soltou um grunhido de alegria. Sentou-se sobre uma pedra e sua imaginação entrou em órbita, descrevendo círculos sobre carros Rolls Royce, iate em Monte Carlo, apartamentos de cobertura, joias de Cartier, champanha, caviar e, no meio de tudo, uma vez que amava o golfe, uma nova coleção de bastões metálicos de Henry Cotton.
Embriagado com esses sonhos, o Major Smythe ficou ali sentado um bom quarto de hora fitando a caixa metálica, como que fascinado. Depois, olhou para o relógio e levantou-se. Não devia perder tempo. Tinha que eliminar as pistas. A caixa tinha alças de ambos os lados. O major esperara que fosse pesada. Mentalmente, ele a havia comparado à coisa mais pesada que até então carregara — um salmão de vinte quilos que pescara na Escócia, pouco antes da guerra —, mas a caixa tinha mais do dobro desse peso. E ele só com muita dificuldade a retirara do seu leito entre as pedras para colocá-la sobre a rala relva alpina. Amarrou, então, o seu lenço numa das alças e, pondo-a desajeitadamente no ombro, levou-a para a cabana. Sentou-se, então, na soleira da porta e, sem despregar inteiramente os olhos da caixa, cortou a salsicha defumada de Oberhauser com seus dentes vigorosos e começou a comê-la, pensando como havia de transportar as suas 50 mil libras — era esse o seu cálculo — pela montanha abaixo. A salsicha era, realmente, uma ótima refeição montanhesa, dura, gorda, rescendendo a tempero forte à base de alho. Partículas dela ficaram incômodamente presas aos seus dentes. Limpou-os com um palito de prata. Sua preocupação era fazer desaparecer todos os vestígios de sua presença. De agora em diante, era um criminoso. Tão criminoso como alguém que tivesse roubado um banco e assassinado o vigia. Precisava lembrar-se disso! Se não se lembrasse, teria a morte, em vez das coisas maravilhosas com que sonhava. Precisava ter infinita cautela. E teria! Seria, para sempre, rico e feliz. Depois de tomar precauções ridiculamente minuciosa para não deixar na cabana o menor traço de sua passagem, arrastou a caixa metálica para a borda do precipício, distante da geleira, e de lá atirou-a embaixo, rezando para que chegasse intacta. A caixa cinzenta rolou no espaço, bateu numa ponta de pedra, continuou a descer, chocou-se cem metros abaixo com outra anfractuosidade e, por fim, atingiu o chão de um entulho, onde parou. O Major Smythe não podia vê-la, de onde estava, e não podia saber se estava aberta. Tanto fazia que estivesse ou não! A própria montanha poderia tê-lo poupado ao trabalho de abri-la...
Depois de um último olhar em torno, ele começou a descer, experimentando com prudência a solidez de cada grampo e de cada ponto de apoio, antes de firmar-se com todo o peso de seu corpo. Na descida, sua vida tinha um valor muito maior que na subida. Caminhou para a geleira e atravessou a passagem em que a neve começava a derreter-se formando sobre o gelo uma mancha escura. Dentro de mais alguns dias, toda a neve estaria derretida. Chegou até onde estava o cadáver. Tinha visto muitos, durante a guerra. Ossos fraturados e carnes sangrentas nada significavam para ele. Arrastou os restos de Oberhauser para a fenda mais próxima e, depois, atirou em cima a neve, acumulada nas bordas. Enterrado o corpo, mostrou-se satisfeito com o seu trabalho, tendo, ao voltar, o cuidado de recolocar os pés sobre as mesmas pegadas que fizera na vinda. E então empreendeu à descida, ao encontro da caixa metálica. Sim, como esperava, a montanha a havia aberto para ele! Com um gesto despreocupado, desfez os invólucros, em papel empregado na fabricação de cartuchos. As duas grandes barras de metal cintilaram ao sol. Tinham ambas as mesmas marcas: a cruz suástica num círculo, sob uma águia, e a data de 1943, símbolos usados pelo Reichsbank. O Major Smythe fez um movimento de aprovação com a cabeça. Recompôs os invólucros e, como a lingueta da tampa, que saltara, não fechasse mais a tampa, teve de bater-lhe com uma pedra, até voltar ao lugar. Passou, então, numa das alças o cinturão em que costumava conduzir o revólver, e continuou a descida, arrastando-a atrás de si. Era então 1 hora da tarde e o sol lhe queimava o busto nu, fritando-o em seu próprio suor. Seus ombros, avermelhados, estavam em fogo. A soalheira também queimava o seu rosto. Com os diabos! Parou junto a uma cascata que descia dos gelos da montanha, embebeu o lenço em água fria e o colocou na cabeça. Bebeu, depois, largamente e prosseguiu, praguejando, às vezes com fúria, quando em alguns declives mais fortes a caixa de metal o atropelava, machucando-lhe os calcanhares. Mas esses desconfortos, as queimaduras e os arranhões, não eram nada comparados com o que ele ainda teria que enfrentar no vale, onde o terreno era nivelado. Até então, tivera a lei da gravidade a seu lado. Mas na última milha é que seria um problema carregar aquela infernal muamba! 0 Major Smythe sentia as costas e o pescoço em fogo. Disse, porém, a si mesmo, para encorajar-se: — Bolas! Il faut souffrir pour être millionaire!
CONTINUA
O olho do molusco o observava cuidadosamente, de sua loca, no recife de coral. Agora, a ponta de um dos oito tentáculos avançava uma ou duas polegadas, ondulando hesitantemente, como se fizesse uma vaga exploração com as ventosas rosadas. Dexter Smythe sorriu com satisfação. Se lhe fosse dado o tempo necessário, ao menos um mês mais, além dos dois durante os quais se acamaradara com o polvo, decerto domesticaria inteiramente o fascinante animal. Mas temia que não chegasse a viver tanto. Devia aproveitar aquela oportunidade para se aproximar do molusco e lhe oferecer a mão de amigo. Sim... Em vez de limitar-se a lhe dar comida, na ponta de um arpão, devia, por assim dizer, apertar-lhe a mão, não era mesmo? “Não, ainda não, meu negrinho — pensou —, ainda não posso ter confiança em você...” Com toda a certeza, se fosse imprudente, outros tentáculos sairiam da loca lhe envolveriam o braço. E, puxado pelo polvo, a válvula de corliça da máscara se fecharia automaticamente. Ficaria sufocado. Ou, se o polvo a arrancasse, na certa morreria afogado. Quando muito, com um golpe rápido e feliz do arpão, poderia ferir o octópode, mas para matá-lo seria preciso muito mais do que isso. Não... Talvez mais tarde. Agora, seria o mesmo que enfrentar uma rolêta-russa, com cinco chances contra e uma só a favor. Poderia, mesmo, representar um meio rápido, eficaz e bizarro de pôr termo aos seus aborrecimentos! Mas, agora... não! Isso deixaria insolúvel uma questão sumamente interessante. E ele havia prometido resolvê-la... Dera a sua palavra ao simpático Professor Bengry, do Instituto Biológico Marinho. Dexter Smythe afastou-se do recife de coral, nadando lentamente. Seus olhos atentos buscavam, com empenho, a forma estranha e sinistra do peixe-escorpião, ou, como diria Bengry, do Scorpaena Plumieri.
O Major Dexter Smythe, condecorado com a Ordem do Império Britânico, oficial do Corpo de Fuzileiros Reais (reformado), era o que restava de um outrora bravo militar e homem encantador, que fazia conquistas sexuais fáceis em todos os meios em que atuava fardado. Principalmente entre o pessoal das organizações militares femininas — as Wrens, as Wracs e as moças do ATS, incumbidas das comunicações e do secretariado das forças-tarefas especiais, de que ele fizera parte, no fim de sua carreira. Tinha agora cinquenta e quatro anos. Estava ligeiramente calvo. E sua barriga se acomodava com certa dificuldade nos apertados limites do calção de banho. Além disso, tivera já duas complicações coronárias. Seu médico era Jimmy Graves, que fora um dos seus parceiros no jogo de pôquer de cacife altíssimo, no Queen’s Club, logo que ele chegara, com a mulher, à Jamaica. Meio a sério, meio brincando, o médico havia descrito a última dessas complicações, ocorrida um mês antes, como sendo a “segunda advertência”. Mas, em suas roupas bem talhadas, ocultas as muitas varizes às vistas indiscretas, com a barriga comprimida por uma larga cinta que o imaculado colête-faixa disfarçava, o antigo militar ainda fazia boa figura, num coquetel ou num jantar, em North Shore. Para seus amigos e vizinhos dessa praia, era um mistério o motivo pelo qual desafiava ele as recomendações do médico. Este lhe impusera uma dieta de uísque e de cigarros, limitados respectivamente a dois e a dez por dia, mas ele insistia em fumar como uma chaminé e em ir sempre para a cama bêbedo. Agradàvelmente bêbedo.
A verdade é que Dexter Smythe tinha chegado à fronteira em que o instinto da vida começa a ceder ao desejo da morte. As origens desse estado de espírito eram muitas e complexas. Estava irremediavelmente amarrado à Jamaica. A indolência tropical apoderara-se gradualmente de seu organismo, de tal modo que, se aparentava ser uma sólida peça de madeira de lei, interiormente não era mais que um tronco fofo, corroído pelos cupins. Tinha um exterior envernizado, mas ilusório. A preguiça, o relaxamento, o sentimento de culpas antigas, o total desgosto em relação a si mesmo haviam erodido o seu cerne, transformando-o em pó de serragem. Desde a morte de Mary, dois anos antes, não tinha mais amado a ninguém. Nem sequer estava certo de que realmente a havia amado. Sabia, porém, que sentia a ausência dela a todas as horas do dia, que sentia falta de seu afeto e de sua alegria, de sua presença desmazelada, barulhenta e, por vezes, irritante. Enquanto devorava canapés e bebia martinis da ralé internacional que frequentava em North Shore, ele se apercebia de que não nutria por essa gente outro sentimento que não fosse o de completo desprezo. Poderia, talvez, ter feito amigos entre elementos mais respeitáveis, os fazendeiros do interior da ilha, os proprietários do litoral, os representantes das profissões liberais e do mundo político local. Mas isso significaria voltar a ter propósitos sérios numa vida em que a preguiça e o embotamento espiritual limitaram-se ao fundo das garrafas. Tal coisa estava inteiramente fora de suas cogitações.
O Major Smythe estava mortalmente entendiado e, se não fosse por determinado motivo, já teria há muito tempo engolido o vidro de barbitúricos que com facilidade adquirira a um dos médicos da ilha. O fio que ainda o prendia à vida era muito tênue. Os grandes bebedores tendem a exagerar o seu temperamento básico, que é sempre um destes quatro: sanguíneo, fleumático, colérico e melancólico. O bêbedo sanguíneo torna-se alegre até à histeria ou à idiotia. O fleumático afunda-se num abatimento sombrio. O colérico é o ébrio turbulento das caricaturas, que passa a maior parte do tempo na prisão, por ter quebrado coisas ou agredido pessoas. E o melancólico é o beberrão que tem pena de si mesmo, geralmente vomitando ou se desmanchando em prantos. O Major Smythe era um melancólico, com a curiosa e divertida fantasia de fazer relações pessoais com aves, insetos e peixes existentes nos cinco acres de Wavelet, isto é, de Ondinhas, nome sintomático que dera à sua pequena villa. A praia e o recife de coral, além dela, eram os seus lugares prediletos. E, entre todos os seres, preferia os peixes. Referia-se a eles como à “gente do mar” e, uma vez que os peixes, como as aves, são fiéis aos seus recantos, ao fim de dois anos ele os conhecia a todos intimamente, amava-os e acreditava ser retribuído por eles com igual amor.
Certo, eles o conheciam, como os animais de um Jardim Zoológico conhecem os seus tratadores. Como estes, ele lhes ia levar o alimento diário, arrecadando pedacinhos de algas e revolvendo a areia o os seixos do fundo do mar, para ajudar os que se alimentam nos lugares mais profundos. Desenterrava ovos e ouriços para os pequenos carnívoros e levava sobras de carne para os grandes. E agora, enquanto nadava lenta e pesadamente, de um lado para o outro do recife de coral e através dos canais que conduzem às águas profundas, sua “gente do mar” enxameava ao redor dele, sem nenhum medo, em atitude de expectativa, quase roçando a aguda ponta de seu arpão, que conheciam apenas como uma espécie de longa colher dadivosa. Vinham namorar o vidro da máscara Pirelli e, em alguns casos, como certas mulheres provocantes, tomavam intimidades perigosas, roçando em suas pernas e em seus pés.
Parte da mente do Major Smythe estava fixada nessa “gente” brilhante e colorida, mas outra parte se preocupava com uma tarefa que devia realizar naquele dia. Ele cumprimentava os peixes com palavras que não chegava a proferir — “Bom dia, beleza!” Era a sua mensagem a um peixe azul-escuro, salpicado de malhas que semelhavam lentejoulas, de um azul ainda mais intenso e brilhante. É o “peixe-joia”, que parece um vidro estrelado do perfume Vol de Nuit, de Worth. “Sinto muito, hoje não, meu bem”, dizia em silêncio a um peixe-borboleta, esvoaçante, com falsos “olhos” na cauda. “Você está gordo demais, meninão”, afirmava mentalmente a um peixe-papagaio de côr azul-índigo, que devia pesar uns bons cinco quilos. Seus olhos estavam sempre atentos, à procura de sua “gente”. No recife de coral, seu único inimigo que ele matava à primeira vista, era o peixe-escorpião.
O peixe-escorpião habita principalmente nas águas tépidas do sul e o rascasse, que é a base da bouillabaisse, pertence à mesma família. A variedade do Caribe alcança apenas cerca de doze polegadas de comprimento e pesa, talvez, meio quilo. É o mais feio peixe do mar, como se a natureza ao engendrá-lo assim tivesse querido nos fazer uma advertência. Sarapintado de marrom-acinzentado, tem uma cabeçorra felpuda, de feitio cuneiforme. Os olhos são de um vermelho agressivo e consegue dissimular perfeitamente a sua silhueta, em meio dos recifes. Embora sendo um peixe pequeno, sua boca amplamente guarnecida de dentes pontiagudos é tão grande que ele pode engolir, sem dificuldade, a maioria dos peixinhos que vivem ao redor dos corais. Mas a sua arma suprema consiste nas eretas barbatanas dorsais, as primeiros das quais agem por contato como agulhas hipodérmicas, alimentadas por glândulas venenosas, que contêm tetrodotoxina suficiente para matar um homem, se o atingirem num lugar vulnerável — por exemplo, numa artéria, sobre o coração ou nas virilhas. Esse é o único perigo real para quem se aventura a nadar nos recifes. Muito mais perigoso do que as barracudas e os tubarões, é extremamente confiante em sua camuflagem e em suas armas, não fugindo de coisa alguma, exceto de uma exagerada aproximação de um pé humano ou mesmo de um contato direto. Nossas ocasiões, o peixe-escorpião nada apenas alguns metros com seu largo peitoral, bizarramente listrado, parando atento, ou pousado na areia, onde por mimetismo parece uma formação coralina, ou entre as rochas e algas, onde virtualmente desaparece. O Major Smythe estava decidido a encontrar um, arpoá-lo e dá-lo a seu polvo, para ver se este o aceitava ou rejeitava. Queria saber se um dos grandes predadores do oceano reconheceria a periculosidade, o poder mortífero do veneno do outro. Consumiria o polvo a parte inferior do peixe-escorpião, sem lhe tocar nas espinhas letais? Devorá-las-ia também e viria a sofrer um castigo, atingido pelo veneno? Eram essas as perguntas que Bengry, do Instituto, desejava esclarecer. E, agora, sentindo o princípio do fim de sua vida, o solitário de Wavelets pensou que esse poderia ser também o fim do seu querido polvo. E decidiu dar resposta àquelas perguntas, deixando uma pequena lembrança de sua vida fútil e inútil num recanto empoeirado dos arquivos do Instituto.
É que, apenas duas ou três horas antes, o Major Dexter Smythe vira a sua vida transformar-se, passando de mal a pior. Para uma condição tão pior que ele teria muita sorte se, dentro de uma semana — tempo necessário para a troca de telegramas entre o governo da ilha e o Ministério das Colônias, que por sua vez se comunicaria com o Serviço Secreto e, através deste, com a Scotland Yard e a Procuradoria da Justiça, bem como para a transferência do Major Smythe para Londres, sob escolta policial —, na melhor das hipóteses, saísse de um inevitável julgamento condenado à prisão perpétua. E tudo isso por causa de um homem chamado Bond — Comandante James Bond —, que aparecera em Wavelets às 10h 30m da manhã, num táxi que tomara em Kingston. O dia tinha começado normalmente. O Major Smythe acordara de seu sono à base de seconal, engolira dois comprimidos de panadol (o precário estado cardíaco lhe proibira o uso da aspirina), tomara um banho de chuveiro e fora devorar o seu pequeno almoço debaixo de frondosa amendoeira, no jardim, onde passara uma hora, alimentando pássaros famintos com as sobras da refeição. Depois, tomou as doses de anticoagulante receitadas pelo médico e as pílulas contra a alta pressão arterial, matando o tempo com a leitura do Daily Gleaner e fazendo hora para tomar o seu primeiro trago. Antes, esperava até às 11 horas. Mas, por último, fixara esse momento em 10h 30m. Já havia servido dois conhaques com ginger ale — a bebida de quem sabe embebedar-se — quando ouviu o ruído do automóvel que se aproximava. Luana, a governante negra, não tardou a aparecer no jardim para anunciar: — Um cara tá aí para falar com o sinhô, Majó.
— Como se chama?
— Sei não, Majó. Disse não. Só falou que é negócio da casa do gunverno.
O Major Smythe vestia apenas uns velhos shorts de brim caqui e calçava um par de alpercatas. Não podia receber um visitante assim.
— Mande entrar para a sala, Luana, e diga que não demorarei a atendê-lo.
Foi ao seu quarto, vestiu um blusão branco, umas calças e penteou o que ainda lhe restava da antiga cabeleira. Um representante do governo! Que diabo quereria com ele? Mal entrou na sala, viu um homem alto, com um terno de tropical azul, debruçado na janela, olhando para o mar. O Major teve logo a sensação de que ia receber más notícias. E quando o homem se voltou encarando-o atentamente, com os olhos azul-cinza, Smythe teve a certeza de que ele estava, realmente, em missão oficial. E em missão nada amistosa, porque nem ao menos retribuiu o seu cordial sorriso. Um calafrio percorreu a espinha do major. Teriam, então, descoberto tudo?
— Bem, bem, eu sou Smythe. Pelo que sei, o senhor representa o governo da ilha. Como vai Sir Kenneth?
Não houve sequer um aperto de mão. O homem disse:
— Ainda não o vi. Faz só uns três dias que cheguei. Estive procurando ver os pontos pitorescos da ilha. Meu nome é Bond. James Bond. Sou do Ministério da Defesa.
O Major Smythe se lembrava do eufemismo habitualmente usado para designar o Serviço Secreto. E disse, esforçando-se para se mostrar animado e alegre: — Oh... A velha firma? Prefere conversar aqui mesmo, ou no jardim? Que tal um drinque? (E o Major pôs um cubo de gelo num copo, que já tinha nas mãos.) Rum e ginger ale é o mais popular veneno local... Eu, porém, prefiro ginger ale, sem mais nada...
A mentira lhe escapou com facilidade, graças ao automatismo dos alcoólatras. — Não me sirva nada. E falemos aqui mesmo — disse o recém-vindo, recostando-se no parapeito da janela, lavrado em mogno.
O Major Smythe sentou-se, passou uma perna sobre o braço da confortável poltrona e tomou um grande trago de seu copo, que depositou depois ao lado.
— Bem — disse, olhando o visitante com firmeza, cara a cara. — Em que poderei lhe ser útil? Alguém está fazendo sujeiras em North Shore e vocês estão precisando de ajuda? Terei prazer em voltar ao antigo trabalho. Já vai longe o tempo em que fui agente secreto, mas ainda me lembro de algumas técnicas...
— Não se incomoda que eu fume?
O visitante, ao fazer a pergunta, já tinha, nas mãos, uma cigarreira de forma achatada que poderia, no entanto, conter cinquenta cigarros. A esse sinal de fraqueza, comum a ambos, o major se sentiu confortado.
— Em absoluto, meu caro. (E fez um movimento, aproximando o seu isqueiro, aceso.) — Obrigado. (James Bond já havia acendido o cigarro.) Mas não vim aqui para tratar de assuntos locais. O que realmente me trouxe a North Shore foi o desejo de pedir-lhe que se recorde minuciosamente de seu trabalho para o Serviço Secreto, nos últimos dias da II Grande Guerra... (Fez uma pausa, para observar o efeito de suas palavras no Major Smythe) Principalmente quando trabalhou na Divisão de Assuntos Gerais...
O Major Smythe teve um riso breve e escarninho. Ele sabia. Estava absolutamente certo. Mas, quando a revelação saiu dos lábios daquele homem, não pôde conter a gargalhada, reação de alguém que se via golpeado em cheio e procurava dar a impressão contrária.
— Mas, Santo Deus! A velha DAG! Claro que me lembro ainda dela... E de tudo o mais...
Riu de novo. E sentiu aguilhoar-lhe o peito a dor constritiva da angina, provocada pela pressão do que certamente iria acontecer. Enfiou a mão no bolso da calça, despejou o conteúdo de um pequeno frasco no côncavo da outra mão e, depois, colocou sob a língua os pequenos comprimidos brancos de TNT. Observava divertidamente a crescente tensão estampada na fisionomia do visitante, cujos olhos se apertavam para melhor fitá-lo. Não precisava ter medo, não. Não se tratava de pílulas de cianureto ou qualquer outro veneno. O major despistou: — A acidose não o persegue? Não? Pois a azia é o meu tormento. Ontem à noite, fui a uma festa no Jamaica Inn. Preciso me lembrar de que não tenho mais 25 anos... Bem, mas ainda posso voltar para a DAG. Creio que hoje somos bem poucos, os veteranos, não? (Sentiu outra vez a dor no peito.) É alguma coisa a respeito da história oficial da guerra?
James Bond, olhando para a ponta do cigarro, disse que não se tratava exatamente disso.
— Pensava... Porque, não sei se sabe: eu escrevi quase todo o capítulo sobre o Serviço Secreto no War Book... Já faz muito tempo. Mas duvido que haja algo de realmente importante a acrescentar...
— Nem mesmo alguma coisa sobre certa operação no Tirol? Num lugar chamado Ober Aurach, a cerca de uma milha de distância de Kitzbuhel?
A menção desses nomes provocou outro pequeno riso do major:
— Mas essa operação foi uma ninharia... Tudo muito fácil. Aqueles sujeitos da Gestapo tinham mais fanatismo do que competência... Uns bêbedos. Conservaram em seus arquivos todas as pistas. E os entregaram sem nenhum protesto. Esperavam, em troca, a nossa indulgência, talvez... A grande maioria foi enforcada por crimes de guerra, acredito. Levei tudo para o Quartel-General, em Salzburgo. Depois, fui para o vale do Mittersill, à procura de outro esconderijo... O Major Smythe tomou outro trago e acendeu um cigarro. Depois, olhando para cima: — Acho que não há mais nada a acrescentar a essas linhas gerais...
— O senhor, se não me engano, foi nessa época o número 2... O commanding officer era um americano, não? O Coronel King, do Exército do General Patton...
— É verdade, ele foi meu chefe. Excelente sujeito. Usava um bigodinho, coisa que não é muito de americano. Tinha competência indiscutível para escolher vinhos. Um tipo muito civilizado...
— No seu relatório sobre aquela operação, ele afirma que lhe entregou todos os documentos necessários às buscas e investigações preliminares, por ser o senhor o perito em assuntos germânicos do grupo... O senhor devolveu esses papéis a ele com algumas notas ou observações? (James Bond fez uma pausa.) Todos, sem falta de um só?
O Major Smythe ignorou a insinuação:
— É verdade. O que ele me deu foi, principalmente, uma lista de nomes. Indicações recebidas da contra-espionagem. Os agentes da CE em Salzburgo ficaram muito satisfeitos com essas pistas. E puderam aprofundar as buscas em várias direções. Acredito que os originais devem estar arquivados em algum lugar, uma vez que foram usados nos julgamentos de Nuremberg. Isso mesmo! (O Major Smythe parecia forçar a memória.) Posso dizer que os mais alegres anos de minha vida foram os do período em que trabalhei para a DAG. Vinho, mulheres, música! Ah, se eu pudesse viver esse bom tempo outra vez!
Nessa ocasião, o Major Smythe dizia a pura verdade. Ele sustentara uma perigosa e desconfortável luta até 1945. Quando os famosos Comandos ingleses foram formados em 1941, ele se apresentara como voluntário, sendo transferido dos Fuzileiros Reais para o Quartel-General das Operações Combinadas, sob a direção de Lorde Mountbatten. Seu domínio da língua alemã (que lhe vinha da mãe, nascida em Heidelberg) qualificara-o para o invejável lugar de coletor de informações nas operações de Comandos através do canal da Mancha. Tivera a sorte de permanecer durante dois anos nesse trabalho sem um arranhão e de receber a Ordem do Império Britânico, tão ciosa e avaramente distribuída durante a última guerra. E, depois, quando se preparava o golpe final contra a Alemanha, a Divisão de Assuntos Gerais fora formada, em conjunto, pelo Serviço Secreto e os Comandos. O Major Smythe, comissionado, então, como tenente-coronel, recebeu a incumbência de formar a unidade que devia descobrir e limpar os esconderijos dos graúdos da Gestapo e da Abwehr no momento em que se desse o colapso do nazismo. O Serviço Secreto, ao aprovar o plano, insistiu em que fosse acompanhado o avanço americano não por uma única, mas por seis dessas unidades, que operariam na Alemanha e na Áustria no momento da rendição. Eram unidades de vinte homens, cada uma com um carro blindado ligeiro, seis jipes, três camionetas e um caminhão com instalações de radiotelefonia. Controladas por um comando misto, anglo-americano, teriam elas à sua disposição o pessoal do Serviço de Inteligência do Exército, do SIS e do OSS. O Major Smythe fora o número 2 da Força A, destinada a atuar no Tirol, área cheia de bons esconderijos, com fácil acesso à fronteira de outros países. Por isso mesmo, era considerada o valhacouto n.° 1 pelo pessoal da DAG. E, como confessara o Major Smythe a James Bond, a operação fora praticamente uma festa, não tendo sido preciso disparar um só tiro. Exceto, é claro, dois que foram disparados pelo próprio Major Smythe. James Bond perguntou-lhe com ar mais casual do mundo: — O nome de Hannes Oberhauser lhe evoca alguma lembrança?
O Major Smythe franziu o sobrecenho, como que num esforço para se lembrar:
— Não, creio que não... (Fazia 32 graus à sombra, mas ele tremia de frio.) — Permita que eu lhe refresque a memória... No mesmo dia em que os documentos lhe foram entregues para exame, o senhor fez perguntas no Tiefenbrunner Hotel, onde se hospedou, sobre quem era o melhor guia alpino de Kitzbuhel. Foi-lhe indicado o guia Oberhauser. No dia seguinte, o senhor pediu ao seu comandante um dia livre, que lhe foi concedido. Na manhã desse dia, o senhor se dirigiu ao chalé de Oberhauser, prendeu-o com a cláusula de incomunicabilidade, e o levou no seu jipe. Não está se lembrando dessas particularidades?
Como era familiar aquela frase sobre o refrescamento da memória! Quantas vezes o próprio Major Smythe não a usara, como armadilha, para nela colher um mentiroso nazista?... Mas não devia, agora, se afobar. Há anos que estava preparado para alguma coisa nesse estilo. E, por isso, respondeu: — Não... Eu absolutamente não me lembro.
— Oberhauser era um homem de cabelo grisalho e claudicava de uma perna. Falava algum inglês, pois antes da guerra costumava trabalhar como instrutor de esqui, tendo como aprendizes ingleses e americanos...
O Major Smythe olhou impàvidamente para o visitante, fixando-lhe os olhos frios e claros:
— Sinto muito... Mas não posso ajudá-lo. Não me recordo.
James Bond tirou do bolso o pequeno caderno de notas, folheando-o ligeiramente. Deteve-se numa das páginas e disse:
— Vou ajudar um pouco mais a sua memória. Nesse tempo, como arma de uso pessoal, o senhor tinha um revólver regulamentar Webley & Scott, calibre 45, com o número da série 8967/362...
— Sim, era Webley... Um trabucão enorme, difícil de carregar. Espero que tenham adotado algo melhor. Assim como um Luger ou uma Beretta pesada. Mas eu nunca me dei ao trabalho de anotar o número...
— O número é esse mesmo — disse James Bond. — Verifiquei a data em que o recebeu do QG e a data em que o devolveu. O senhor assinou o livro de carga, ambas as vezes...
— Então, deve ter sido essa mesma a minha arma — concordou o Major Smythe, dando de ombros. — Mas... (E agora havia impaciência em sua voz) ... Mas, se me permite a pergunta, em que é que isso pode interessar?
James Bond o olhou com certa curiosidade. Depois falou e não se poderia dizer que o seu tom fosse cruel:
— Bem sabe que isso é fundamental, Smythe. (Fez uma pausa e pareceu refletir.) Façamos um acordo. Eu irei ao jardim, por uns dez minutos, pouco mais ou menos. Dou-lhe tempo para se lembrar de tudo com exatidão. Quando se tiver lembrado, me chame... (E acrescentou, a sério:) — Tornará as coisas bem mais fáceis para você a reconstituição do caso em suas próprias palavras... (Caminhou para a porta do jardim, mas se voltou.) — Creio que se trata apenas de pingar os ii e cortar os tt... Quero que saiba que, antes de vir aqui esta manhã, tive uma boa conversa com os irmãos Fu, em Kingston...
0 Major Smythe sentiu-se de certa forma desoprimido. Acabara a batalha das insinuações e das evasivas, a tentativa de despistar e de inventar álibis. Era o fim das negaças. Se o tal James Bond conversara com os irmãos Fu, sem dúvida arrancara alguma coisa dos chineses. De modo algum quereriam eles qualquer complicação com as autoridades. E, além do mais, ainda tinham uma parte da muamba em seu poder. O Major se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale, quase meio a meio. O melhor era tomar uns bons tragos, enquanto ainda podia! O futuro não lhe ofereceria muitas oportunidades como essa. Voltou para a poltrona, acendeu o vigésimo cigarro do dia e olhou para o relógio. Eram 11h30m. Se pudesse livrar-se daquele importuno dentro de uma hora, ainda poderia ir ver a sua “gente”. Sentou-se e bebeu, mergulhado em seus pensamentos. Poderia prolongar ou abreviar a sua história, se adicionasse alguma coisa sobre o estado do tempo, o perfume das flores dos pinheiros que aspirara nas montanhas... Mas poderia omitir a paisagem e abreviá-la. Preferiu abreviar. Viu-se na cama dupla, no Tiefenbrunner Hotel, com montanhas de papelório para examinar. Não procurava nada de especial. Apenas apanhava, a esmo, um documento aqui, outro ali, concentrando-se principalmente nos que tinham o timbre, em vermelho, de KOMMANDOSACHE, HOECHST VERTRAULICH. Não existiam muitos destes, que eram quase sempre informações confidenciais sobre nazistas graúdos, sobre códigos aliados que os alemães tinham decifrado e sobre esconderijos secretos. Desde que estes eram um dos principais objetivos da Força A, o Major Smythe os havia examinado com particular excitação — eram esconderijos de alimentos, de explosivos, de armas, de fichários de espionagem e do pessoal da Gestapo, uma imensa rede de arrasto com toda a espécie de peixes! E, ainda, no fim de toda a papelada, um simples envelope lacrado, com o aviso: PARA SER ABERTO APENAS EM CASO DE EMERGÊNCIA. O envelope continha uma só folha de papel. Não havia assinatura sob as palavras escritas em letra vermelha.
No cabeçalho, havia a palavra VALUTA.
Embaixo, lia-se: WILDE KAISER. FRANZISKANER HALT. 100 M. OESTLICH STEINHUGEL. WAFFENKISTE. ZWEI BAR 24 KT. e uma lista de medidas em centímetros. O Major Smythe afastou as mãos, como se numa história de pescaria, estivesse mostrando as dimensões de um peixe. Duas barras de ouro de 24 quilates, cada uma, quase tão grande como dois tijolos! E pensar que um simples soberano inglês, de apenas dezoito quilates, valia naquele momento entre duas e três libras! As duas barras de ouro representam uma verdadeira fortuna! Quarenta, cinquenta mil libras, era quanto valeriam! Não tinha ainda ideia alguma a respeito, mas — era o melhor — riscou um fósforo e acendeu o papel e o envelope, reduzindo-os a cinzas, que colocou na pia e fez desaparecer sob um jorro d’água. Apanhou, depois, o mapa da área, em grande escala, preparado pela artilharia austríaca e, um momento depois, tinha sob o dedo o Franziskaner Halt. Nele estava indicado um abrigo alpino desabitado, refúgio de montanhistas, numa espécie de pequeno platô logo abaixo do mais alto pico das montanhas do Kaiser, essa imensa massa de pedras dentadas que fecha, ao norte, o horizonte de Kitzbuhel. E ali, onde o seu dedo repousava, devia existir o marco de pequenas pedras amontoadas. Significava isso que uma fortuna estava ao seu alcance, a apenas dez milhas de distância e, talvez, a apenas cinco horas de subida!
O princípio tinha sido tal como James Bond descrevera. Fora ao chalé de Oberhauser às 4 horas da madrugada. Prendera-o e dissera a seus familiares, todos em lágrimas, que o ia levar para o centro de interrogatórios, em Munique. Se o guia estivesse isento de culpa, estaria de volta dentro de uma semana. Se a família fizesse algum protesto isso só poderia prejudicar Oberhauser, tornando as coisas ainda mais difíceis. Smythe se recusara a declinar o seu nome e tivera a precaução de ocultar o número do jipe. Dentro de 24 horas, a Força A deixaria o lugar e o governo militar se instalaria em Kitzbuhel. E então o incidente seria sepultado no esquecimento pelo tumulto e pelas complicações decorrentes da própria ocupação militar.
Oberhauser revelou-se um excelente sujeito, disposto a cooperar, assim que perdeu o medo inicial. E quando Smythe começou a lhe falar de alpinismo e de esqui se tornou uma camaradão. O caminho passava ao sopé das montanhas, rumo a Kufstein. Smythe dirigia lentamente, fazendo comentários admirativos sobre os picos em que já se refletiam as primeiras luzes matinais. Finalmente, junto à base do Pico do Ouro, voltou-se para Oberhauser e lhe disse: — Oberhauser, você é uma pessoa com quem simpatizo. Temos muitos interesses em comum e, pela sua conversa, estou convencido de que não cooperou com os nazistas. Eu lhe explico o que pretendo fazer por você. Passaremos o dia escalando as montanhas do Kaiser e, depois, eu o levo de volta para Kitzbuhel. Direi, então, ao meu chefe que, interrogado em Munique, você foi imediatamente liberado... Que me diz a isso? — Rematou, com um sorriso.
O homem quase derramou lágrimas de gratidão. Mas era preciso que ele tivesse, em seu poder, um papel mostrando que estava isento de culpa? Certamente. A assinatura do Major Smythe seria mais que suficiente. Feito o pacto, o jipe foi dirigido através de um atalho e ficou escondido, longe da estrada, entre os pinheiros. Smythe estava preparado para a excursão, sem nada sob a jaqueta, vestindo um short e calçando botas de paraquedistas, fornecidas à unidade pelos americanos. A carga que levava era apenas o revólver Webley & Scott, absolutamente necessário, pois afinal de contas Oberhauser era um inimigo. O guia vestia a sua melhor roupa e calçava as suas botas alpinas. Não estava preocupado com a subida. E assegurou ao Major Smythe que não seria necessário usar nem cordas, nem ganchos, até chegarem à cabana, em que poderiam parar para descansar. Era aí o Franziskaner Halt.
— É esse o nome? — Perguntou o Major.
— Sim. E um pouco abaixo há uma pequena geleira. Passaremos ao largo, pois nela há muitas fendas.
— Assim faremos... — Disse o Major Smythe, pensativamente, examinando a parte posterior da cabeça de Oberhauser, por onde o suor escorria. Ora, afinal, ele era apenas um reles comedor de chucrute, talvez da mesma laia que os nazistas. Seria tão fácil liquidá-lo... A única coisa que preocupava o major era trazer a muamba pela montanha abaixo. Poderia colocar as barras de ouro às costas. Ou arrastá-las — por que não? — Durante grande parte do percurso, na sua caixa de munição. Longa e tortuosa foi a caminhada, montanha acima. Quando deixaram para trás os pinheiros, já o sol se alteava, dardejante. A princípio, caminharam entre rochas e entulhos, em constantes zigue-zagues. Sem o auxílio de um guia, nunca conseguiria o major chegar ao cimo do penhasco cinzento e ameaçador, que parecia tocar o azul do céu. Ambos caminhavam agora nus da cintura para cima, banhados em suor, que lhes escorria pelas pernas para dentro das botas. Embora o guia claudicasse, subiam com relativa rapidez. Quando pararam, para um drinque e um breve descanso, Oberhauser se congratulou com Smythe por estar em tão boa forma. O major, com a cabeça escaldando, tantos eram os seus planos, disse ríspida e mentirosamente que todos os ingleses eram cobras, em matéria de escalar montanhas. Subir ao penhasco não era difícil. Se lá havia uma cabana, é porque o material para a sua construção fora levado para ali nos ombros de alguém. Em certos lugares, pontos de apoio tinham sido cavados na rocha. E havia, ocasionalmente, grampos de ferro, em que os alpinistas podiam se agarrar. Mas achar as passagens exatas era o mesmo que descobrir os segredos de um labirinto. Ainda bem que trouxera o guia. Este, em certo momento, sondando o chão, para verificar se estava firme, fizera correr pequenina avalancha de pedras afrouxadas por muitos anos de ventanias e nevascas. Elas se precipitaram, com estrondo, lá embaixo. O Major Smythe pensou logo no barulho, que poderia despertar atenção. Perguntou se não haveria gente nas proximidades.
— Qual! Ninguém... A não ser nas proximidades de Kufstein... — Disse Oberhauser, apontando uma larga extensão, ao redor. — Aqui há pouca água e nenhum pasto. E, desde o princípio da guerra... (Interrompeu-se, deixando a frase incompleta.) Ladearam a geleira e continuaram a subida. A vista do Major Smythe media a extensão e a largura das fendas, por onde iriam passar. A uns cem pés acima, viram, então, a cabana, batida pelas intempéries. O major mediu o ângulo do declive. Era quase uma linha reta. Agora? Ou depois? Preferiu que fosse depois. O caminho para a última parte da travessia ainda não estava claramente definido. Alcançaram a cabana ao fim de cinco horas. O Major Smythe disse que queria aliviar um pouco a bexiga e caminhou para o leste, sem dar atenção alguma aos belos panoramas da Áustria e da Baviera, que se estendiam por cinquenta milhas, sob o sol estival. Ele contava os passos com extremo cuidado. Exatamente a 120 havia o montículo de pedras, talvez um marco carinhosamente erguido em memória de um alpinista desaparecido. Era isso o que qualquer pessoa normalmente pensaria. Mas o Major Smythe, sabendo que não se tratava disso, ardia de desejos de desfazer a pequena pirâmide de pedras soltas. Mas, em vez de fazê-lo, tirou do coldre o seu Webley & Scott, soltou a trava e examinou o cilindro. E voltou, então, rumo à cabana, onde Oberhauser entrara. Fazia frio, a tal altura — uns bons 3 mil metros —, e o guia acendia o fogo. Smythe controlou o seu horror e pediu: — Oberhauser, venha me mostrar as paisagens. Há vistas maravilhosas, aqui em cima!
— Com prazer, major — disse o guia, seguindo Smythe para fora da cabana. Uma vez lá fora, tirou do bolso um papel, no qual havia alguma coisa embrulhada. Ofereceu-a ao major, acrescentando: — Isto é o que chamamos Soldat. É uma salsicha defumada. Dura, mas muito saborosa. (Sorriu.) Parece com aquilo que os americanos comem nos filmes de Far-West. Como é mesmo o nome?
— Charque — disse o major. Depois — e mais tarde se arrependeu de o ter privado da pequena refeição — aconselhou: — Deixe isso na cabana. Depois, viremos comer. Será que daqui podemos ver Innsbruck? Mostre-me para que lado é...
Oberhauser entrou na cabana e logo saiu de novo. O major caminhou por trás dele, que falava e gesticulava, mostrando aqui o pico de uma montanha, além a torre de uma igreja distante. Chegaram ao lugar acima da geleira. O major tirou então o revólver e, a uma distância de pouco mais de meio metro, disparou dois tiros na base do crânio de Hannes Oberhauser. Que nem estrebuchou. Caiu já morto. O impacto das balas atirou o guia na borda do precipício. O Major Smythe o empurrou para baixo. O corpo bateu em duas anfractuosidades do penhasco e caiu em cima da geleira. Mas sem escorregar para as fendas. Ficou a meio do caminho, junto a um monte de neve antiga, acumulada.
— Com os diabos! — Disse o major.
Os estampidos repercutiram naquelas alturas como se fossem tiros de morteiros e o eco os repetiu a distância. O Major Smythe lançou um olhar sobre a figura imóvel, estendida junto ao monte de neve, e logo correu para o montículo de pedra. Devia cuidar das coisas mais importantes em primeiro lugar! Começou a afastar as pedras, com uma pressa diabólica, atirando as mais roliças pela montanha abaixo. Feriu-se em arestas cortantes e, quando deu pela coisa, sua mão estava sangrando, mas não ligou importância. Um pouco de sangue, que é que tinha? Precisava era andar depressa, depressa — e continuou a escavar, furiosamente. O monte de pedra desaparecia. E então! Sim! Lá estava alguma coisa que parecia ser uma tampa metálica. Mais algumas pedras foram retiradas e apareceu uma velha caixa de munições da Wehrmacht. Em cima dela, ainda havia traços de seu antigo letreiro. O Major Smythe soltou um grunhido de alegria. Sentou-se sobre uma pedra e sua imaginação entrou em órbita, descrevendo círculos sobre carros Rolls Royce, iate em Monte Carlo, apartamentos de cobertura, joias de Cartier, champanha, caviar e, no meio de tudo, uma vez que amava o golfe, uma nova coleção de bastões metálicos de Henry Cotton.
Embriagado com esses sonhos, o Major Smythe ficou ali sentado um bom quarto de hora fitando a caixa metálica, como que fascinado. Depois, olhou para o relógio e levantou-se. Não devia perder tempo. Tinha que eliminar as pistas. A caixa tinha alças de ambos os lados. O major esperara que fosse pesada. Mentalmente, ele a havia comparado à coisa mais pesada que até então carregara — um salmão de vinte quilos que pescara na Escócia, pouco antes da guerra —, mas a caixa tinha mais do dobro desse peso. E ele só com muita dificuldade a retirara do seu leito entre as pedras para colocá-la sobre a rala relva alpina. Amarrou, então, o seu lenço numa das alças e, pondo-a desajeitadamente no ombro, levou-a para a cabana. Sentou-se, então, na soleira da porta e, sem despregar inteiramente os olhos da caixa, cortou a salsicha defumada de Oberhauser com seus dentes vigorosos e começou a comê-la, pensando como havia de transportar as suas 50 mil libras — era esse o seu cálculo — pela montanha abaixo. A salsicha era, realmente, uma ótima refeição montanhesa, dura, gorda, rescendendo a tempero forte à base de alho. Partículas dela ficaram incômodamente presas aos seus dentes. Limpou-os com um palito de prata. Sua preocupação era fazer desaparecer todos os vestígios de sua presença. De agora em diante, era um criminoso. Tão criminoso como alguém que tivesse roubado um banco e assassinado o vigia. Precisava lembrar-se disso! Se não se lembrasse, teria a morte, em vez das coisas maravilhosas com que sonhava. Precisava ter infinita cautela. E teria! Seria, para sempre, rico e feliz. Depois de tomar precauções ridiculamente minuciosa para não deixar na cabana o menor traço de sua passagem, arrastou a caixa metálica para a borda do precipício, distante da geleira, e de lá atirou-a embaixo, rezando para que chegasse intacta. A caixa cinzenta rolou no espaço, bateu numa ponta de pedra, continuou a descer, chocou-se cem metros abaixo com outra anfractuosidade e, por fim, atingiu o chão de um entulho, onde parou. O Major Smythe não podia vê-la, de onde estava, e não podia saber se estava aberta. Tanto fazia que estivesse ou não! A própria montanha poderia tê-lo poupado ao trabalho de abri-la...
Depois de um último olhar em torno, ele começou a descer, experimentando com prudência a solidez de cada grampo e de cada ponto de apoio, antes de firmar-se com todo o peso de seu corpo. Na descida, sua vida tinha um valor muito maior que na subida. Caminhou para a geleira e atravessou a passagem em que a neve começava a derreter-se formando sobre o gelo uma mancha escura. Dentro de mais alguns dias, toda a neve estaria derretida. Chegou até onde estava o cadáver. Tinha visto muitos, durante a guerra. Ossos fraturados e carnes sangrentas nada significavam para ele. Arrastou os restos de Oberhauser para a fenda mais próxima e, depois, atirou em cima a neve, acumulada nas bordas. Enterrado o corpo, mostrou-se satisfeito com o seu trabalho, tendo, ao voltar, o cuidado de recolocar os pés sobre as mesmas pegadas que fizera na vinda. E então empreendeu à descida, ao encontro da caixa metálica. Sim, como esperava, a montanha a havia aberto para ele! Com um gesto despreocupado, desfez os invólucros, em papel empregado na fabricação de cartuchos. As duas grandes barras de metal cintilaram ao sol. Tinham ambas as mesmas marcas: a cruz suástica num círculo, sob uma águia, e a data de 1943, símbolos usados pelo Reichsbank. O Major Smythe fez um movimento de aprovação com a cabeça. Recompôs os invólucros e, como a lingueta da tampa, que saltara, não fechasse mais a tampa, teve de bater-lhe com uma pedra, até voltar ao lugar. Passou, então, numa das alças o cinturão em que costumava conduzir o revólver, e continuou a descida, arrastando-a atrás de si. Era então 1 hora da tarde e o sol lhe queimava o busto nu, fritando-o em seu próprio suor. Seus ombros, avermelhados, estavam em fogo. A soalheira também queimava o seu rosto. Com os diabos! Parou junto a uma cascata que descia dos gelos da montanha, embebeu o lenço em água fria e o colocou na cabeça. Bebeu, depois, largamente e prosseguiu, praguejando, às vezes com fúria, quando em alguns declives mais fortes a caixa de metal o atropelava, machucando-lhe os calcanhares. Mas esses desconfortos, as queimaduras e os arranhões, não eram nada comparados com o que ele ainda teria que enfrentar no vale, onde o terreno era nivelado. Até então, tivera a lei da gravidade a seu lado. Mas na última milha é que seria um problema carregar aquela infernal muamba! 0 Major Smythe sentia as costas e o pescoço em fogo. Disse, porém, a si mesmo, para encorajar-se: — Bolas! Il faut souffrir pour être millionaire!
CONTINUA
O olho do molusco o observava cuidadosamente, de sua loca, no recife de coral. Agora, a ponta de um dos oito tentáculos avançava uma ou duas polegadas, ondulando hesitantemente, como se fizesse uma vaga exploração com as ventosas rosadas. Dexter Smythe sorriu com satisfação. Se lhe fosse dado o tempo necessário, ao menos um mês mais, além dos dois durante os quais se acamaradara com o polvo, decerto domesticaria inteiramente o fascinante animal. Mas temia que não chegasse a viver tanto. Devia aproveitar aquela oportunidade para se aproximar do molusco e lhe oferecer a mão de amigo. Sim... Em vez de limitar-se a lhe dar comida, na ponta de um arpão, devia, por assim dizer, apertar-lhe a mão, não era mesmo? “Não, ainda não, meu negrinho — pensou —, ainda não posso ter confiança em você...” Com toda a certeza, se fosse imprudente, outros tentáculos sairiam da loca lhe envolveriam o braço. E, puxado pelo polvo, a válvula de corliça da máscara se fecharia automaticamente. Ficaria sufocado. Ou, se o polvo a arrancasse, na certa morreria afogado. Quando muito, com um golpe rápido e feliz do arpão, poderia ferir o octópode, mas para matá-lo seria preciso muito mais do que isso. Não... Talvez mais tarde. Agora, seria o mesmo que enfrentar uma rolêta-russa, com cinco chances contra e uma só a favor. Poderia, mesmo, representar um meio rápido, eficaz e bizarro de pôr termo aos seus aborrecimentos! Mas, agora... não! Isso deixaria insolúvel uma questão sumamente interessante. E ele havia prometido resolvê-la... Dera a sua palavra ao simpático Professor Bengry, do Instituto Biológico Marinho. Dexter Smythe afastou-se do recife de coral, nadando lentamente. Seus olhos atentos buscavam, com empenho, a forma estranha e sinistra do peixe-escorpião, ou, como diria Bengry, do Scorpaena Plumieri.
O Major Dexter Smythe, condecorado com a Ordem do Império Britânico, oficial do Corpo de Fuzileiros Reais (reformado), era o que restava de um outrora bravo militar e homem encantador, que fazia conquistas sexuais fáceis em todos os meios em que atuava fardado. Principalmente entre o pessoal das organizações militares femininas — as Wrens, as Wracs e as moças do ATS, incumbidas das comunicações e do secretariado das forças-tarefas especiais, de que ele fizera parte, no fim de sua carreira. Tinha agora cinquenta e quatro anos. Estava ligeiramente calvo. E sua barriga se acomodava com certa dificuldade nos apertados limites do calção de banho. Além disso, tivera já duas complicações coronárias. Seu médico era Jimmy Graves, que fora um dos seus parceiros no jogo de pôquer de cacife altíssimo, no Queen’s Club, logo que ele chegara, com a mulher, à Jamaica. Meio a sério, meio brincando, o médico havia descrito a última dessas complicações, ocorrida um mês antes, como sendo a “segunda advertência”. Mas, em suas roupas bem talhadas, ocultas as muitas varizes às vistas indiscretas, com a barriga comprimida por uma larga cinta que o imaculado colête-faixa disfarçava, o antigo militar ainda fazia boa figura, num coquetel ou num jantar, em North Shore. Para seus amigos e vizinhos dessa praia, era um mistério o motivo pelo qual desafiava ele as recomendações do médico. Este lhe impusera uma dieta de uísque e de cigarros, limitados respectivamente a dois e a dez por dia, mas ele insistia em fumar como uma chaminé e em ir sempre para a cama bêbedo. Agradàvelmente bêbedo.
A verdade é que Dexter Smythe tinha chegado à fronteira em que o instinto da vida começa a ceder ao desejo da morte. As origens desse estado de espírito eram muitas e complexas. Estava irremediavelmente amarrado à Jamaica. A indolência tropical apoderara-se gradualmente de seu organismo, de tal modo que, se aparentava ser uma sólida peça de madeira de lei, interiormente não era mais que um tronco fofo, corroído pelos cupins. Tinha um exterior envernizado, mas ilusório. A preguiça, o relaxamento, o sentimento de culpas antigas, o total desgosto em relação a si mesmo haviam erodido o seu cerne, transformando-o em pó de serragem. Desde a morte de Mary, dois anos antes, não tinha mais amado a ninguém. Nem sequer estava certo de que realmente a havia amado. Sabia, porém, que sentia a ausência dela a todas as horas do dia, que sentia falta de seu afeto e de sua alegria, de sua presença desmazelada, barulhenta e, por vezes, irritante. Enquanto devorava canapés e bebia martinis da ralé internacional que frequentava em North Shore, ele se apercebia de que não nutria por essa gente outro sentimento que não fosse o de completo desprezo. Poderia, talvez, ter feito amigos entre elementos mais respeitáveis, os fazendeiros do interior da ilha, os proprietários do litoral, os representantes das profissões liberais e do mundo político local. Mas isso significaria voltar a ter propósitos sérios numa vida em que a preguiça e o embotamento espiritual limitaram-se ao fundo das garrafas. Tal coisa estava inteiramente fora de suas cogitações.
O Major Smythe estava mortalmente entendiado e, se não fosse por determinado motivo, já teria há muito tempo engolido o vidro de barbitúricos que com facilidade adquirira a um dos médicos da ilha. O fio que ainda o prendia à vida era muito tênue. Os grandes bebedores tendem a exagerar o seu temperamento básico, que é sempre um destes quatro: sanguíneo, fleumático, colérico e melancólico. O bêbedo sanguíneo torna-se alegre até à histeria ou à idiotia. O fleumático afunda-se num abatimento sombrio. O colérico é o ébrio turbulento das caricaturas, que passa a maior parte do tempo na prisão, por ter quebrado coisas ou agredido pessoas. E o melancólico é o beberrão que tem pena de si mesmo, geralmente vomitando ou se desmanchando em prantos. O Major Smythe era um melancólico, com a curiosa e divertida fantasia de fazer relações pessoais com aves, insetos e peixes existentes nos cinco acres de Wavelet, isto é, de Ondinhas, nome sintomático que dera à sua pequena villa. A praia e o recife de coral, além dela, eram os seus lugares prediletos. E, entre todos os seres, preferia os peixes. Referia-se a eles como à “gente do mar” e, uma vez que os peixes, como as aves, são fiéis aos seus recantos, ao fim de dois anos ele os conhecia a todos intimamente, amava-os e acreditava ser retribuído por eles com igual amor.
Certo, eles o conheciam, como os animais de um Jardim Zoológico conhecem os seus tratadores. Como estes, ele lhes ia levar o alimento diário, arrecadando pedacinhos de algas e revolvendo a areia o os seixos do fundo do mar, para ajudar os que se alimentam nos lugares mais profundos. Desenterrava ovos e ouriços para os pequenos carnívoros e levava sobras de carne para os grandes. E agora, enquanto nadava lenta e pesadamente, de um lado para o outro do recife de coral e através dos canais que conduzem às águas profundas, sua “gente do mar” enxameava ao redor dele, sem nenhum medo, em atitude de expectativa, quase roçando a aguda ponta de seu arpão, que conheciam apenas como uma espécie de longa colher dadivosa. Vinham namorar o vidro da máscara Pirelli e, em alguns casos, como certas mulheres provocantes, tomavam intimidades perigosas, roçando em suas pernas e em seus pés.
Parte da mente do Major Smythe estava fixada nessa “gente” brilhante e colorida, mas outra parte se preocupava com uma tarefa que devia realizar naquele dia. Ele cumprimentava os peixes com palavras que não chegava a proferir — “Bom dia, beleza!” Era a sua mensagem a um peixe azul-escuro, salpicado de malhas que semelhavam lentejoulas, de um azul ainda mais intenso e brilhante. É o “peixe-joia”, que parece um vidro estrelado do perfume Vol de Nuit, de Worth. “Sinto muito, hoje não, meu bem”, dizia em silêncio a um peixe-borboleta, esvoaçante, com falsos “olhos” na cauda. “Você está gordo demais, meninão”, afirmava mentalmente a um peixe-papagaio de côr azul-índigo, que devia pesar uns bons cinco quilos. Seus olhos estavam sempre atentos, à procura de sua “gente”. No recife de coral, seu único inimigo que ele matava à primeira vista, era o peixe-escorpião.
O peixe-escorpião habita principalmente nas águas tépidas do sul e o rascasse, que é a base da bouillabaisse, pertence à mesma família. A variedade do Caribe alcança apenas cerca de doze polegadas de comprimento e pesa, talvez, meio quilo. É o mais feio peixe do mar, como se a natureza ao engendrá-lo assim tivesse querido nos fazer uma advertência. Sarapintado de marrom-acinzentado, tem uma cabeçorra felpuda, de feitio cuneiforme. Os olhos são de um vermelho agressivo e consegue dissimular perfeitamente a sua silhueta, em meio dos recifes. Embora sendo um peixe pequeno, sua boca amplamente guarnecida de dentes pontiagudos é tão grande que ele pode engolir, sem dificuldade, a maioria dos peixinhos que vivem ao redor dos corais. Mas a sua arma suprema consiste nas eretas barbatanas dorsais, as primeiros das quais agem por contato como agulhas hipodérmicas, alimentadas por glândulas venenosas, que contêm tetrodotoxina suficiente para matar um homem, se o atingirem num lugar vulnerável — por exemplo, numa artéria, sobre o coração ou nas virilhas. Esse é o único perigo real para quem se aventura a nadar nos recifes. Muito mais perigoso do que as barracudas e os tubarões, é extremamente confiante em sua camuflagem e em suas armas, não fugindo de coisa alguma, exceto de uma exagerada aproximação de um pé humano ou mesmo de um contato direto. Nossas ocasiões, o peixe-escorpião nada apenas alguns metros com seu largo peitoral, bizarramente listrado, parando atento, ou pousado na areia, onde por mimetismo parece uma formação coralina, ou entre as rochas e algas, onde virtualmente desaparece. O Major Smythe estava decidido a encontrar um, arpoá-lo e dá-lo a seu polvo, para ver se este o aceitava ou rejeitava. Queria saber se um dos grandes predadores do oceano reconheceria a periculosidade, o poder mortífero do veneno do outro. Consumiria o polvo a parte inferior do peixe-escorpião, sem lhe tocar nas espinhas letais? Devorá-las-ia também e viria a sofrer um castigo, atingido pelo veneno? Eram essas as perguntas que Bengry, do Instituto, desejava esclarecer. E, agora, sentindo o princípio do fim de sua vida, o solitário de Wavelets pensou que esse poderia ser também o fim do seu querido polvo. E decidiu dar resposta àquelas perguntas, deixando uma pequena lembrança de sua vida fútil e inútil num recanto empoeirado dos arquivos do Instituto.
É que, apenas duas ou três horas antes, o Major Dexter Smythe vira a sua vida transformar-se, passando de mal a pior. Para uma condição tão pior que ele teria muita sorte se, dentro de uma semana — tempo necessário para a troca de telegramas entre o governo da ilha e o Ministério das Colônias, que por sua vez se comunicaria com o Serviço Secreto e, através deste, com a Scotland Yard e a Procuradoria da Justiça, bem como para a transferência do Major Smythe para Londres, sob escolta policial —, na melhor das hipóteses, saísse de um inevitável julgamento condenado à prisão perpétua. E tudo isso por causa de um homem chamado Bond — Comandante James Bond —, que aparecera em Wavelets às 10h 30m da manhã, num táxi que tomara em Kingston. O dia tinha começado normalmente. O Major Smythe acordara de seu sono à base de seconal, engolira dois comprimidos de panadol (o precário estado cardíaco lhe proibira o uso da aspirina), tomara um banho de chuveiro e fora devorar o seu pequeno almoço debaixo de frondosa amendoeira, no jardim, onde passara uma hora, alimentando pássaros famintos com as sobras da refeição. Depois, tomou as doses de anticoagulante receitadas pelo médico e as pílulas contra a alta pressão arterial, matando o tempo com a leitura do Daily Gleaner e fazendo hora para tomar o seu primeiro trago. Antes, esperava até às 11 horas. Mas, por último, fixara esse momento em 10h 30m. Já havia servido dois conhaques com ginger ale — a bebida de quem sabe embebedar-se — quando ouviu o ruído do automóvel que se aproximava. Luana, a governante negra, não tardou a aparecer no jardim para anunciar: — Um cara tá aí para falar com o sinhô, Majó.
— Como se chama?
— Sei não, Majó. Disse não. Só falou que é negócio da casa do gunverno.
O Major Smythe vestia apenas uns velhos shorts de brim caqui e calçava um par de alpercatas. Não podia receber um visitante assim.
— Mande entrar para a sala, Luana, e diga que não demorarei a atendê-lo.
Foi ao seu quarto, vestiu um blusão branco, umas calças e penteou o que ainda lhe restava da antiga cabeleira. Um representante do governo! Que diabo quereria com ele? Mal entrou na sala, viu um homem alto, com um terno de tropical azul, debruçado na janela, olhando para o mar. O Major teve logo a sensação de que ia receber más notícias. E quando o homem se voltou encarando-o atentamente, com os olhos azul-cinza, Smythe teve a certeza de que ele estava, realmente, em missão oficial. E em missão nada amistosa, porque nem ao menos retribuiu o seu cordial sorriso. Um calafrio percorreu a espinha do major. Teriam, então, descoberto tudo?
— Bem, bem, eu sou Smythe. Pelo que sei, o senhor representa o governo da ilha. Como vai Sir Kenneth?
Não houve sequer um aperto de mão. O homem disse:
— Ainda não o vi. Faz só uns três dias que cheguei. Estive procurando ver os pontos pitorescos da ilha. Meu nome é Bond. James Bond. Sou do Ministério da Defesa.
O Major Smythe se lembrava do eufemismo habitualmente usado para designar o Serviço Secreto. E disse, esforçando-se para se mostrar animado e alegre: — Oh... A velha firma? Prefere conversar aqui mesmo, ou no jardim? Que tal um drinque? (E o Major pôs um cubo de gelo num copo, que já tinha nas mãos.) Rum e ginger ale é o mais popular veneno local... Eu, porém, prefiro ginger ale, sem mais nada...
A mentira lhe escapou com facilidade, graças ao automatismo dos alcoólatras. — Não me sirva nada. E falemos aqui mesmo — disse o recém-vindo, recostando-se no parapeito da janela, lavrado em mogno.
O Major Smythe sentou-se, passou uma perna sobre o braço da confortável poltrona e tomou um grande trago de seu copo, que depositou depois ao lado.
— Bem — disse, olhando o visitante com firmeza, cara a cara. — Em que poderei lhe ser útil? Alguém está fazendo sujeiras em North Shore e vocês estão precisando de ajuda? Terei prazer em voltar ao antigo trabalho. Já vai longe o tempo em que fui agente secreto, mas ainda me lembro de algumas técnicas...
— Não se incomoda que eu fume?
O visitante, ao fazer a pergunta, já tinha, nas mãos, uma cigarreira de forma achatada que poderia, no entanto, conter cinquenta cigarros. A esse sinal de fraqueza, comum a ambos, o major se sentiu confortado.
— Em absoluto, meu caro. (E fez um movimento, aproximando o seu isqueiro, aceso.) — Obrigado. (James Bond já havia acendido o cigarro.) Mas não vim aqui para tratar de assuntos locais. O que realmente me trouxe a North Shore foi o desejo de pedir-lhe que se recorde minuciosamente de seu trabalho para o Serviço Secreto, nos últimos dias da II Grande Guerra... (Fez uma pausa, para observar o efeito de suas palavras no Major Smythe) Principalmente quando trabalhou na Divisão de Assuntos Gerais...
O Major Smythe teve um riso breve e escarninho. Ele sabia. Estava absolutamente certo. Mas, quando a revelação saiu dos lábios daquele homem, não pôde conter a gargalhada, reação de alguém que se via golpeado em cheio e procurava dar a impressão contrária.
— Mas, Santo Deus! A velha DAG! Claro que me lembro ainda dela... E de tudo o mais...
Riu de novo. E sentiu aguilhoar-lhe o peito a dor constritiva da angina, provocada pela pressão do que certamente iria acontecer. Enfiou a mão no bolso da calça, despejou o conteúdo de um pequeno frasco no côncavo da outra mão e, depois, colocou sob a língua os pequenos comprimidos brancos de TNT. Observava divertidamente a crescente tensão estampada na fisionomia do visitante, cujos olhos se apertavam para melhor fitá-lo. Não precisava ter medo, não. Não se tratava de pílulas de cianureto ou qualquer outro veneno. O major despistou: — A acidose não o persegue? Não? Pois a azia é o meu tormento. Ontem à noite, fui a uma festa no Jamaica Inn. Preciso me lembrar de que não tenho mais 25 anos... Bem, mas ainda posso voltar para a DAG. Creio que hoje somos bem poucos, os veteranos, não? (Sentiu outra vez a dor no peito.) É alguma coisa a respeito da história oficial da guerra?
James Bond, olhando para a ponta do cigarro, disse que não se tratava exatamente disso.
— Pensava... Porque, não sei se sabe: eu escrevi quase todo o capítulo sobre o Serviço Secreto no War Book... Já faz muito tempo. Mas duvido que haja algo de realmente importante a acrescentar...
— Nem mesmo alguma coisa sobre certa operação no Tirol? Num lugar chamado Ober Aurach, a cerca de uma milha de distância de Kitzbuhel?
A menção desses nomes provocou outro pequeno riso do major:
— Mas essa operação foi uma ninharia... Tudo muito fácil. Aqueles sujeitos da Gestapo tinham mais fanatismo do que competência... Uns bêbedos. Conservaram em seus arquivos todas as pistas. E os entregaram sem nenhum protesto. Esperavam, em troca, a nossa indulgência, talvez... A grande maioria foi enforcada por crimes de guerra, acredito. Levei tudo para o Quartel-General, em Salzburgo. Depois, fui para o vale do Mittersill, à procura de outro esconderijo... O Major Smythe tomou outro trago e acendeu um cigarro. Depois, olhando para cima: — Acho que não há mais nada a acrescentar a essas linhas gerais...
— O senhor, se não me engano, foi nessa época o número 2... O commanding officer era um americano, não? O Coronel King, do Exército do General Patton...
— É verdade, ele foi meu chefe. Excelente sujeito. Usava um bigodinho, coisa que não é muito de americano. Tinha competência indiscutível para escolher vinhos. Um tipo muito civilizado...
— No seu relatório sobre aquela operação, ele afirma que lhe entregou todos os documentos necessários às buscas e investigações preliminares, por ser o senhor o perito em assuntos germânicos do grupo... O senhor devolveu esses papéis a ele com algumas notas ou observações? (James Bond fez uma pausa.) Todos, sem falta de um só?
O Major Smythe ignorou a insinuação:
— É verdade. O que ele me deu foi, principalmente, uma lista de nomes. Indicações recebidas da contra-espionagem. Os agentes da CE em Salzburgo ficaram muito satisfeitos com essas pistas. E puderam aprofundar as buscas em várias direções. Acredito que os originais devem estar arquivados em algum lugar, uma vez que foram usados nos julgamentos de Nuremberg. Isso mesmo! (O Major Smythe parecia forçar a memória.) Posso dizer que os mais alegres anos de minha vida foram os do período em que trabalhei para a DAG. Vinho, mulheres, música! Ah, se eu pudesse viver esse bom tempo outra vez!
Nessa ocasião, o Major Smythe dizia a pura verdade. Ele sustentara uma perigosa e desconfortável luta até 1945. Quando os famosos Comandos ingleses foram formados em 1941, ele se apresentara como voluntário, sendo transferido dos Fuzileiros Reais para o Quartel-General das Operações Combinadas, sob a direção de Lorde Mountbatten. Seu domínio da língua alemã (que lhe vinha da mãe, nascida em Heidelberg) qualificara-o para o invejável lugar de coletor de informações nas operações de Comandos através do canal da Mancha. Tivera a sorte de permanecer durante dois anos nesse trabalho sem um arranhão e de receber a Ordem do Império Britânico, tão ciosa e avaramente distribuída durante a última guerra. E, depois, quando se preparava o golpe final contra a Alemanha, a Divisão de Assuntos Gerais fora formada, em conjunto, pelo Serviço Secreto e os Comandos. O Major Smythe, comissionado, então, como tenente-coronel, recebeu a incumbência de formar a unidade que devia descobrir e limpar os esconderijos dos graúdos da Gestapo e da Abwehr no momento em que se desse o colapso do nazismo. O Serviço Secreto, ao aprovar o plano, insistiu em que fosse acompanhado o avanço americano não por uma única, mas por seis dessas unidades, que operariam na Alemanha e na Áustria no momento da rendição. Eram unidades de vinte homens, cada uma com um carro blindado ligeiro, seis jipes, três camionetas e um caminhão com instalações de radiotelefonia. Controladas por um comando misto, anglo-americano, teriam elas à sua disposição o pessoal do Serviço de Inteligência do Exército, do SIS e do OSS. O Major Smythe fora o número 2 da Força A, destinada a atuar no Tirol, área cheia de bons esconderijos, com fácil acesso à fronteira de outros países. Por isso mesmo, era considerada o valhacouto n.° 1 pelo pessoal da DAG. E, como confessara o Major Smythe a James Bond, a operação fora praticamente uma festa, não tendo sido preciso disparar um só tiro. Exceto, é claro, dois que foram disparados pelo próprio Major Smythe. James Bond perguntou-lhe com ar mais casual do mundo: — O nome de Hannes Oberhauser lhe evoca alguma lembrança?
O Major Smythe franziu o sobrecenho, como que num esforço para se lembrar:
— Não, creio que não... (Fazia 32 graus à sombra, mas ele tremia de frio.) — Permita que eu lhe refresque a memória... No mesmo dia em que os documentos lhe foram entregues para exame, o senhor fez perguntas no Tiefenbrunner Hotel, onde se hospedou, sobre quem era o melhor guia alpino de Kitzbuhel. Foi-lhe indicado o guia Oberhauser. No dia seguinte, o senhor pediu ao seu comandante um dia livre, que lhe foi concedido. Na manhã desse dia, o senhor se dirigiu ao chalé de Oberhauser, prendeu-o com a cláusula de incomunicabilidade, e o levou no seu jipe. Não está se lembrando dessas particularidades?
Como era familiar aquela frase sobre o refrescamento da memória! Quantas vezes o próprio Major Smythe não a usara, como armadilha, para nela colher um mentiroso nazista?... Mas não devia, agora, se afobar. Há anos que estava preparado para alguma coisa nesse estilo. E, por isso, respondeu: — Não... Eu absolutamente não me lembro.
— Oberhauser era um homem de cabelo grisalho e claudicava de uma perna. Falava algum inglês, pois antes da guerra costumava trabalhar como instrutor de esqui, tendo como aprendizes ingleses e americanos...
O Major Smythe olhou impàvidamente para o visitante, fixando-lhe os olhos frios e claros:
— Sinto muito... Mas não posso ajudá-lo. Não me recordo.
James Bond tirou do bolso o pequeno caderno de notas, folheando-o ligeiramente. Deteve-se numa das páginas e disse:
— Vou ajudar um pouco mais a sua memória. Nesse tempo, como arma de uso pessoal, o senhor tinha um revólver regulamentar Webley & Scott, calibre 45, com o número da série 8967/362...
— Sim, era Webley... Um trabucão enorme, difícil de carregar. Espero que tenham adotado algo melhor. Assim como um Luger ou uma Beretta pesada. Mas eu nunca me dei ao trabalho de anotar o número...
— O número é esse mesmo — disse James Bond. — Verifiquei a data em que o recebeu do QG e a data em que o devolveu. O senhor assinou o livro de carga, ambas as vezes...
— Então, deve ter sido essa mesma a minha arma — concordou o Major Smythe, dando de ombros. — Mas... (E agora havia impaciência em sua voz) ... Mas, se me permite a pergunta, em que é que isso pode interessar?
James Bond o olhou com certa curiosidade. Depois falou e não se poderia dizer que o seu tom fosse cruel:
— Bem sabe que isso é fundamental, Smythe. (Fez uma pausa e pareceu refletir.) Façamos um acordo. Eu irei ao jardim, por uns dez minutos, pouco mais ou menos. Dou-lhe tempo para se lembrar de tudo com exatidão. Quando se tiver lembrado, me chame... (E acrescentou, a sério:) — Tornará as coisas bem mais fáceis para você a reconstituição do caso em suas próprias palavras... (Caminhou para a porta do jardim, mas se voltou.) — Creio que se trata apenas de pingar os ii e cortar os tt... Quero que saiba que, antes de vir aqui esta manhã, tive uma boa conversa com os irmãos Fu, em Kingston...
0 Major Smythe sentiu-se de certa forma desoprimido. Acabara a batalha das insinuações e das evasivas, a tentativa de despistar e de inventar álibis. Era o fim das negaças. Se o tal James Bond conversara com os irmãos Fu, sem dúvida arrancara alguma coisa dos chineses. De modo algum quereriam eles qualquer complicação com as autoridades. E, além do mais, ainda tinham uma parte da muamba em seu poder. O Major se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale, quase meio a meio. O melhor era tomar uns bons tragos, enquanto ainda podia! O futuro não lhe ofereceria muitas oportunidades como essa. Voltou para a poltrona, acendeu o vigésimo cigarro do dia e olhou para o relógio. Eram 11h30m. Se pudesse livrar-se daquele importuno dentro de uma hora, ainda poderia ir ver a sua “gente”. Sentou-se e bebeu, mergulhado em seus pensamentos. Poderia prolongar ou abreviar a sua história, se adicionasse alguma coisa sobre o estado do tempo, o perfume das flores dos pinheiros que aspirara nas montanhas... Mas poderia omitir a paisagem e abreviá-la. Preferiu abreviar. Viu-se na cama dupla, no Tiefenbrunner Hotel, com montanhas de papelório para examinar. Não procurava nada de especial. Apenas apanhava, a esmo, um documento aqui, outro ali, concentrando-se principalmente nos que tinham o timbre, em vermelho, de KOMMANDOSACHE, HOECHST VERTRAULICH. Não existiam muitos destes, que eram quase sempre informações confidenciais sobre nazistas graúdos, sobre códigos aliados que os alemães tinham decifrado e sobre esconderijos secretos. Desde que estes eram um dos principais objetivos da Força A, o Major Smythe os havia examinado com particular excitação — eram esconderijos de alimentos, de explosivos, de armas, de fichários de espionagem e do pessoal da Gestapo, uma imensa rede de arrasto com toda a espécie de peixes! E, ainda, no fim de toda a papelada, um simples envelope lacrado, com o aviso: PARA SER ABERTO APENAS EM CASO DE EMERGÊNCIA. O envelope continha uma só folha de papel. Não havia assinatura sob as palavras escritas em letra vermelha.
No cabeçalho, havia a palavra VALUTA.
Embaixo, lia-se: WILDE KAISER. FRANZISKANER HALT. 100 M. OESTLICH STEINHUGEL. WAFFENKISTE. ZWEI BAR 24 KT. e uma lista de medidas em centímetros. O Major Smythe afastou as mãos, como se numa história de pescaria, estivesse mostrando as dimensões de um peixe. Duas barras de ouro de 24 quilates, cada uma, quase tão grande como dois tijolos! E pensar que um simples soberano inglês, de apenas dezoito quilates, valia naquele momento entre duas e três libras! As duas barras de ouro representam uma verdadeira fortuna! Quarenta, cinquenta mil libras, era quanto valeriam! Não tinha ainda ideia alguma a respeito, mas — era o melhor — riscou um fósforo e acendeu o papel e o envelope, reduzindo-os a cinzas, que colocou na pia e fez desaparecer sob um jorro d’água. Apanhou, depois, o mapa da área, em grande escala, preparado pela artilharia austríaca e, um momento depois, tinha sob o dedo o Franziskaner Halt. Nele estava indicado um abrigo alpino desabitado, refúgio de montanhistas, numa espécie de pequeno platô logo abaixo do mais alto pico das montanhas do Kaiser, essa imensa massa de pedras dentadas que fecha, ao norte, o horizonte de Kitzbuhel. E ali, onde o seu dedo repousava, devia existir o marco de pequenas pedras amontoadas. Significava isso que uma fortuna estava ao seu alcance, a apenas dez milhas de distância e, talvez, a apenas cinco horas de subida!
O princípio tinha sido tal como James Bond descrevera. Fora ao chalé de Oberhauser às 4 horas da madrugada. Prendera-o e dissera a seus familiares, todos em lágrimas, que o ia levar para o centro de interrogatórios, em Munique. Se o guia estivesse isento de culpa, estaria de volta dentro de uma semana. Se a família fizesse algum protesto isso só poderia prejudicar Oberhauser, tornando as coisas ainda mais difíceis. Smythe se recusara a declinar o seu nome e tivera a precaução de ocultar o número do jipe. Dentro de 24 horas, a Força A deixaria o lugar e o governo militar se instalaria em Kitzbuhel. E então o incidente seria sepultado no esquecimento pelo tumulto e pelas complicações decorrentes da própria ocupação militar.
Oberhauser revelou-se um excelente sujeito, disposto a cooperar, assim que perdeu o medo inicial. E quando Smythe começou a lhe falar de alpinismo e de esqui se tornou uma camaradão. O caminho passava ao sopé das montanhas, rumo a Kufstein. Smythe dirigia lentamente, fazendo comentários admirativos sobre os picos em que já se refletiam as primeiras luzes matinais. Finalmente, junto à base do Pico do Ouro, voltou-se para Oberhauser e lhe disse: — Oberhauser, você é uma pessoa com quem simpatizo. Temos muitos interesses em comum e, pela sua conversa, estou convencido de que não cooperou com os nazistas. Eu lhe explico o que pretendo fazer por você. Passaremos o dia escalando as montanhas do Kaiser e, depois, eu o levo de volta para Kitzbuhel. Direi, então, ao meu chefe que, interrogado em Munique, você foi imediatamente liberado... Que me diz a isso? — Rematou, com um sorriso.
O homem quase derramou lágrimas de gratidão. Mas era preciso que ele tivesse, em seu poder, um papel mostrando que estava isento de culpa? Certamente. A assinatura do Major Smythe seria mais que suficiente. Feito o pacto, o jipe foi dirigido através de um atalho e ficou escondido, longe da estrada, entre os pinheiros. Smythe estava preparado para a excursão, sem nada sob a jaqueta, vestindo um short e calçando botas de paraquedistas, fornecidas à unidade pelos americanos. A carga que levava era apenas o revólver Webley & Scott, absolutamente necessário, pois afinal de contas Oberhauser era um inimigo. O guia vestia a sua melhor roupa e calçava as suas botas alpinas. Não estava preocupado com a subida. E assegurou ao Major Smythe que não seria necessário usar nem cordas, nem ganchos, até chegarem à cabana, em que poderiam parar para descansar. Era aí o Franziskaner Halt.
— É esse o nome? — Perguntou o Major.
— Sim. E um pouco abaixo há uma pequena geleira. Passaremos ao largo, pois nela há muitas fendas.
— Assim faremos... — Disse o Major Smythe, pensativamente, examinando a parte posterior da cabeça de Oberhauser, por onde o suor escorria. Ora, afinal, ele era apenas um reles comedor de chucrute, talvez da mesma laia que os nazistas. Seria tão fácil liquidá-lo... A única coisa que preocupava o major era trazer a muamba pela montanha abaixo. Poderia colocar as barras de ouro às costas. Ou arrastá-las — por que não? — Durante grande parte do percurso, na sua caixa de munição. Longa e tortuosa foi a caminhada, montanha acima. Quando deixaram para trás os pinheiros, já o sol se alteava, dardejante. A princípio, caminharam entre rochas e entulhos, em constantes zigue-zagues. Sem o auxílio de um guia, nunca conseguiria o major chegar ao cimo do penhasco cinzento e ameaçador, que parecia tocar o azul do céu. Ambos caminhavam agora nus da cintura para cima, banhados em suor, que lhes escorria pelas pernas para dentro das botas. Embora o guia claudicasse, subiam com relativa rapidez. Quando pararam, para um drinque e um breve descanso, Oberhauser se congratulou com Smythe por estar em tão boa forma. O major, com a cabeça escaldando, tantos eram os seus planos, disse ríspida e mentirosamente que todos os ingleses eram cobras, em matéria de escalar montanhas. Subir ao penhasco não era difícil. Se lá havia uma cabana, é porque o material para a sua construção fora levado para ali nos ombros de alguém. Em certos lugares, pontos de apoio tinham sido cavados na rocha. E havia, ocasionalmente, grampos de ferro, em que os alpinistas podiam se agarrar. Mas achar as passagens exatas era o mesmo que descobrir os segredos de um labirinto. Ainda bem que trouxera o guia. Este, em certo momento, sondando o chão, para verificar se estava firme, fizera correr pequenina avalancha de pedras afrouxadas por muitos anos de ventanias e nevascas. Elas se precipitaram, com estrondo, lá embaixo. O Major Smythe pensou logo no barulho, que poderia despertar atenção. Perguntou se não haveria gente nas proximidades.
— Qual! Ninguém... A não ser nas proximidades de Kufstein... — Disse Oberhauser, apontando uma larga extensão, ao redor. — Aqui há pouca água e nenhum pasto. E, desde o princípio da guerra... (Interrompeu-se, deixando a frase incompleta.) Ladearam a geleira e continuaram a subida. A vista do Major Smythe media a extensão e a largura das fendas, por onde iriam passar. A uns cem pés acima, viram, então, a cabana, batida pelas intempéries. O major mediu o ângulo do declive. Era quase uma linha reta. Agora? Ou depois? Preferiu que fosse depois. O caminho para a última parte da travessia ainda não estava claramente definido. Alcançaram a cabana ao fim de cinco horas. O Major Smythe disse que queria aliviar um pouco a bexiga e caminhou para o leste, sem dar atenção alguma aos belos panoramas da Áustria e da Baviera, que se estendiam por cinquenta milhas, sob o sol estival. Ele contava os passos com extremo cuidado. Exatamente a 120 havia o montículo de pedras, talvez um marco carinhosamente erguido em memória de um alpinista desaparecido. Era isso o que qualquer pessoa normalmente pensaria. Mas o Major Smythe, sabendo que não se tratava disso, ardia de desejos de desfazer a pequena pirâmide de pedras soltas. Mas, em vez de fazê-lo, tirou do coldre o seu Webley & Scott, soltou a trava e examinou o cilindro. E voltou, então, rumo à cabana, onde Oberhauser entrara. Fazia frio, a tal altura — uns bons 3 mil metros —, e o guia acendia o fogo. Smythe controlou o seu horror e pediu: — Oberhauser, venha me mostrar as paisagens. Há vistas maravilhosas, aqui em cima!
— Com prazer, major — disse o guia, seguindo Smythe para fora da cabana. Uma vez lá fora, tirou do bolso um papel, no qual havia alguma coisa embrulhada. Ofereceu-a ao major, acrescentando: — Isto é o que chamamos Soldat. É uma salsicha defumada. Dura, mas muito saborosa. (Sorriu.) Parece com aquilo que os americanos comem nos filmes de Far-West. Como é mesmo o nome?
— Charque — disse o major. Depois — e mais tarde se arrependeu de o ter privado da pequena refeição — aconselhou: — Deixe isso na cabana. Depois, viremos comer. Será que daqui podemos ver Innsbruck? Mostre-me para que lado é...
Oberhauser entrou na cabana e logo saiu de novo. O major caminhou por trás dele, que falava e gesticulava, mostrando aqui o pico de uma montanha, além a torre de uma igreja distante. Chegaram ao lugar acima da geleira. O major tirou então o revólver e, a uma distância de pouco mais de meio metro, disparou dois tiros na base do crânio de Hannes Oberhauser. Que nem estrebuchou. Caiu já morto. O impacto das balas atirou o guia na borda do precipício. O Major Smythe o empurrou para baixo. O corpo bateu em duas anfractuosidades do penhasco e caiu em cima da geleira. Mas sem escorregar para as fendas. Ficou a meio do caminho, junto a um monte de neve antiga, acumulada.
— Com os diabos! — Disse o major.
Os estampidos repercutiram naquelas alturas como se fossem tiros de morteiros e o eco os repetiu a distância. O Major Smythe lançou um olhar sobre a figura imóvel, estendida junto ao monte de neve, e logo correu para o montículo de pedra. Devia cuidar das coisas mais importantes em primeiro lugar! Começou a afastar as pedras, com uma pressa diabólica, atirando as mais roliças pela montanha abaixo. Feriu-se em arestas cortantes e, quando deu pela coisa, sua mão estava sangrando, mas não ligou importância. Um pouco de sangue, que é que tinha? Precisava era andar depressa, depressa — e continuou a escavar, furiosamente. O monte de pedra desaparecia. E então! Sim! Lá estava alguma coisa que parecia ser uma tampa metálica. Mais algumas pedras foram retiradas e apareceu uma velha caixa de munições da Wehrmacht. Em cima dela, ainda havia traços de seu antigo letreiro. O Major Smythe soltou um grunhido de alegria. Sentou-se sobre uma pedra e sua imaginação entrou em órbita, descrevendo círculos sobre carros Rolls Royce, iate em Monte Carlo, apartamentos de cobertura, joias de Cartier, champanha, caviar e, no meio de tudo, uma vez que amava o golfe, uma nova coleção de bastões metálicos de Henry Cotton.
Embriagado com esses sonhos, o Major Smythe ficou ali sentado um bom quarto de hora fitando a caixa metálica, como que fascinado. Depois, olhou para o relógio e levantou-se. Não devia perder tempo. Tinha que eliminar as pistas. A caixa tinha alças de ambos os lados. O major esperara que fosse pesada. Mentalmente, ele a havia comparado à coisa mais pesada que até então carregara — um salmão de vinte quilos que pescara na Escócia, pouco antes da guerra —, mas a caixa tinha mais do dobro desse peso. E ele só com muita dificuldade a retirara do seu leito entre as pedras para colocá-la sobre a rala relva alpina. Amarrou, então, o seu lenço numa das alças e, pondo-a desajeitadamente no ombro, levou-a para a cabana. Sentou-se, então, na soleira da porta e, sem despregar inteiramente os olhos da caixa, cortou a salsicha defumada de Oberhauser com seus dentes vigorosos e começou a comê-la, pensando como havia de transportar as suas 50 mil libras — era esse o seu cálculo — pela montanha abaixo. A salsicha era, realmente, uma ótima refeição montanhesa, dura, gorda, rescendendo a tempero forte à base de alho. Partículas dela ficaram incômodamente presas aos seus dentes. Limpou-os com um palito de prata. Sua preocupação era fazer desaparecer todos os vestígios de sua presença. De agora em diante, era um criminoso. Tão criminoso como alguém que tivesse roubado um banco e assassinado o vigia. Precisava lembrar-se disso! Se não se lembrasse, teria a morte, em vez das coisas maravilhosas com que sonhava. Precisava ter infinita cautela. E teria! Seria, para sempre, rico e feliz. Depois de tomar precauções ridiculamente minuciosa para não deixar na cabana o menor traço de sua passagem, arrastou a caixa metálica para a borda do precipício, distante da geleira, e de lá atirou-a embaixo, rezando para que chegasse intacta. A caixa cinzenta rolou no espaço, bateu numa ponta de pedra, continuou a descer, chocou-se cem metros abaixo com outra anfractuosidade e, por fim, atingiu o chão de um entulho, onde parou. O Major Smythe não podia vê-la, de onde estava, e não podia saber se estava aberta. Tanto fazia que estivesse ou não! A própria montanha poderia tê-lo poupado ao trabalho de abri-la...
Depois de um último olhar em torno, ele começou a descer, experimentando com prudência a solidez de cada grampo e de cada ponto de apoio, antes de firmar-se com todo o peso de seu corpo. Na descida, sua vida tinha um valor muito maior que na subida. Caminhou para a geleira e atravessou a passagem em que a neve começava a derreter-se formando sobre o gelo uma mancha escura. Dentro de mais alguns dias, toda a neve estaria derretida. Chegou até onde estava o cadáver. Tinha visto muitos, durante a guerra. Ossos fraturados e carnes sangrentas nada significavam para ele. Arrastou os restos de Oberhauser para a fenda mais próxima e, depois, atirou em cima a neve, acumulada nas bordas. Enterrado o corpo, mostrou-se satisfeito com o seu trabalho, tendo, ao voltar, o cuidado de recolocar os pés sobre as mesmas pegadas que fizera na vinda. E então empreendeu à descida, ao encontro da caixa metálica. Sim, como esperava, a montanha a havia aberto para ele! Com um gesto despreocupado, desfez os invólucros, em papel empregado na fabricação de cartuchos. As duas grandes barras de metal cintilaram ao sol. Tinham ambas as mesmas marcas: a cruz suástica num círculo, sob uma águia, e a data de 1943, símbolos usados pelo Reichsbank. O Major Smythe fez um movimento de aprovação com a cabeça. Recompôs os invólucros e, como a lingueta da tampa, que saltara, não fechasse mais a tampa, teve de bater-lhe com uma pedra, até voltar ao lugar. Passou, então, numa das alças o cinturão em que costumava conduzir o revólver, e continuou a descida, arrastando-a atrás de si. Era então 1 hora da tarde e o sol lhe queimava o busto nu, fritando-o em seu próprio suor. Seus ombros, avermelhados, estavam em fogo. A soalheira também queimava o seu rosto. Com os diabos! Parou junto a uma cascata que descia dos gelos da montanha, embebeu o lenço em água fria e o colocou na cabeça. Bebeu, depois, largamente e prosseguiu, praguejando, às vezes com fúria, quando em alguns declives mais fortes a caixa de metal o atropelava, machucando-lhe os calcanhares. Mas esses desconfortos, as queimaduras e os arranhões, não eram nada comparados com o que ele ainda teria que enfrentar no vale, onde o terreno era nivelado. Até então, tivera a lei da gravidade a seu lado. Mas na última milha é que seria um problema carregar aquela infernal muamba! 0 Major Smythe sentia as costas e o pescoço em fogo. Disse, porém, a si mesmo, para encorajar-se: — Bolas! Il faut souffrir pour être millionaire!
CONTINUA
O olho do molusco o observava cuidadosamente, de sua loca, no recife de coral. Agora, a ponta de um dos oito tentáculos avançava uma ou duas polegadas, ondulando hesitantemente, como se fizesse uma vaga exploração com as ventosas rosadas. Dexter Smythe sorriu com satisfação. Se lhe fosse dado o tempo necessário, ao menos um mês mais, além dos dois durante os quais se acamaradara com o polvo, decerto domesticaria inteiramente o fascinante animal. Mas temia que não chegasse a viver tanto. Devia aproveitar aquela oportunidade para se aproximar do molusco e lhe oferecer a mão de amigo. Sim... Em vez de limitar-se a lhe dar comida, na ponta de um arpão, devia, por assim dizer, apertar-lhe a mão, não era mesmo? “Não, ainda não, meu negrinho — pensou —, ainda não posso ter confiança em você...” Com toda a certeza, se fosse imprudente, outros tentáculos sairiam da loca lhe envolveriam o braço. E, puxado pelo polvo, a válvula de corliça da máscara se fecharia automaticamente. Ficaria sufocado. Ou, se o polvo a arrancasse, na certa morreria afogado. Quando muito, com um golpe rápido e feliz do arpão, poderia ferir o octópode, mas para matá-lo seria preciso muito mais do que isso. Não... Talvez mais tarde. Agora, seria o mesmo que enfrentar uma rolêta-russa, com cinco chances contra e uma só a favor. Poderia, mesmo, representar um meio rápido, eficaz e bizarro de pôr termo aos seus aborrecimentos! Mas, agora... não! Isso deixaria insolúvel uma questão sumamente interessante. E ele havia prometido resolvê-la... Dera a sua palavra ao simpático Professor Bengry, do Instituto Biológico Marinho. Dexter Smythe afastou-se do recife de coral, nadando lentamente. Seus olhos atentos buscavam, com empenho, a forma estranha e sinistra do peixe-escorpião, ou, como diria Bengry, do Scorpaena Plumieri.
O Major Dexter Smythe, condecorado com a Ordem do Império Britânico, oficial do Corpo de Fuzileiros Reais (reformado), era o que restava de um outrora bravo militar e homem encantador, que fazia conquistas sexuais fáceis em todos os meios em que atuava fardado. Principalmente entre o pessoal das organizações militares femininas — as Wrens, as Wracs e as moças do ATS, incumbidas das comunicações e do secretariado das forças-tarefas especiais, de que ele fizera parte, no fim de sua carreira. Tinha agora cinquenta e quatro anos. Estava ligeiramente calvo. E sua barriga se acomodava com certa dificuldade nos apertados limites do calção de banho. Além disso, tivera já duas complicações coronárias. Seu médico era Jimmy Graves, que fora um dos seus parceiros no jogo de pôquer de cacife altíssimo, no Queen’s Club, logo que ele chegara, com a mulher, à Jamaica. Meio a sério, meio brincando, o médico havia descrito a última dessas complicações, ocorrida um mês antes, como sendo a “segunda advertência”. Mas, em suas roupas bem talhadas, ocultas as muitas varizes às vistas indiscretas, com a barriga comprimida por uma larga cinta que o imaculado colête-faixa disfarçava, o antigo militar ainda fazia boa figura, num coquetel ou num jantar, em North Shore. Para seus amigos e vizinhos dessa praia, era um mistério o motivo pelo qual desafiava ele as recomendações do médico. Este lhe impusera uma dieta de uísque e de cigarros, limitados respectivamente a dois e a dez por dia, mas ele insistia em fumar como uma chaminé e em ir sempre para a cama bêbedo. Agradàvelmente bêbedo.
A verdade é que Dexter Smythe tinha chegado à fronteira em que o instinto da vida começa a ceder ao desejo da morte. As origens desse estado de espírito eram muitas e complexas. Estava irremediavelmente amarrado à Jamaica. A indolência tropical apoderara-se gradualmente de seu organismo, de tal modo que, se aparentava ser uma sólida peça de madeira de lei, interiormente não era mais que um tronco fofo, corroído pelos cupins. Tinha um exterior envernizado, mas ilusório. A preguiça, o relaxamento, o sentimento de culpas antigas, o total desgosto em relação a si mesmo haviam erodido o seu cerne, transformando-o em pó de serragem. Desde a morte de Mary, dois anos antes, não tinha mais amado a ninguém. Nem sequer estava certo de que realmente a havia amado. Sabia, porém, que sentia a ausência dela a todas as horas do dia, que sentia falta de seu afeto e de sua alegria, de sua presença desmazelada, barulhenta e, por vezes, irritante. Enquanto devorava canapés e bebia martinis da ralé internacional que frequentava em North Shore, ele se apercebia de que não nutria por essa gente outro sentimento que não fosse o de completo desprezo. Poderia, talvez, ter feito amigos entre elementos mais respeitáveis, os fazendeiros do interior da ilha, os proprietários do litoral, os representantes das profissões liberais e do mundo político local. Mas isso significaria voltar a ter propósitos sérios numa vida em que a preguiça e o embotamento espiritual limitaram-se ao fundo das garrafas. Tal coisa estava inteiramente fora de suas cogitações.
O Major Smythe estava mortalmente entendiado e, se não fosse por determinado motivo, já teria há muito tempo engolido o vidro de barbitúricos que com facilidade adquirira a um dos médicos da ilha. O fio que ainda o prendia à vida era muito tênue. Os grandes bebedores tendem a exagerar o seu temperamento básico, que é sempre um destes quatro: sanguíneo, fleumático, colérico e melancólico. O bêbedo sanguíneo torna-se alegre até à histeria ou à idiotia. O fleumático afunda-se num abatimento sombrio. O colérico é o ébrio turbulento das caricaturas, que passa a maior parte do tempo na prisão, por ter quebrado coisas ou agredido pessoas. E o melancólico é o beberrão que tem pena de si mesmo, geralmente vomitando ou se desmanchando em prantos. O Major Smythe era um melancólico, com a curiosa e divertida fantasia de fazer relações pessoais com aves, insetos e peixes existentes nos cinco acres de Wavelet, isto é, de Ondinhas, nome sintomático que dera à sua pequena villa. A praia e o recife de coral, além dela, eram os seus lugares prediletos. E, entre todos os seres, preferia os peixes. Referia-se a eles como à “gente do mar” e, uma vez que os peixes, como as aves, são fiéis aos seus recantos, ao fim de dois anos ele os conhecia a todos intimamente, amava-os e acreditava ser retribuído por eles com igual amor.
Certo, eles o conheciam, como os animais de um Jardim Zoológico conhecem os seus tratadores. Como estes, ele lhes ia levar o alimento diário, arrecadando pedacinhos de algas e revolvendo a areia o os seixos do fundo do mar, para ajudar os que se alimentam nos lugares mais profundos. Desenterrava ovos e ouriços para os pequenos carnívoros e levava sobras de carne para os grandes. E agora, enquanto nadava lenta e pesadamente, de um lado para o outro do recife de coral e através dos canais que conduzem às águas profundas, sua “gente do mar” enxameava ao redor dele, sem nenhum medo, em atitude de expectativa, quase roçando a aguda ponta de seu arpão, que conheciam apenas como uma espécie de longa colher dadivosa. Vinham namorar o vidro da máscara Pirelli e, em alguns casos, como certas mulheres provocantes, tomavam intimidades perigosas, roçando em suas pernas e em seus pés.
Parte da mente do Major Smythe estava fixada nessa “gente” brilhante e colorida, mas outra parte se preocupava com uma tarefa que devia realizar naquele dia. Ele cumprimentava os peixes com palavras que não chegava a proferir — “Bom dia, beleza!” Era a sua mensagem a um peixe azul-escuro, salpicado de malhas que semelhavam lentejoulas, de um azul ainda mais intenso e brilhante. É o “peixe-joia”, que parece um vidro estrelado do perfume Vol de Nuit, de Worth. “Sinto muito, hoje não, meu bem”, dizia em silêncio a um peixe-borboleta, esvoaçante, com falsos “olhos” na cauda. “Você está gordo demais, meninão”, afirmava mentalmente a um peixe-papagaio de côr azul-índigo, que devia pesar uns bons cinco quilos. Seus olhos estavam sempre atentos, à procura de sua “gente”. No recife de coral, seu único inimigo que ele matava à primeira vista, era o peixe-escorpião.
O peixe-escorpião habita principalmente nas águas tépidas do sul e o rascasse, que é a base da bouillabaisse, pertence à mesma família. A variedade do Caribe alcança apenas cerca de doze polegadas de comprimento e pesa, talvez, meio quilo. É o mais feio peixe do mar, como se a natureza ao engendrá-lo assim tivesse querido nos fazer uma advertência. Sarapintado de marrom-acinzentado, tem uma cabeçorra felpuda, de feitio cuneiforme. Os olhos são de um vermelho agressivo e consegue dissimular perfeitamente a sua silhueta, em meio dos recifes. Embora sendo um peixe pequeno, sua boca amplamente guarnecida de dentes pontiagudos é tão grande que ele pode engolir, sem dificuldade, a maioria dos peixinhos que vivem ao redor dos corais. Mas a sua arma suprema consiste nas eretas barbatanas dorsais, as primeiros das quais agem por contato como agulhas hipodérmicas, alimentadas por glândulas venenosas, que contêm tetrodotoxina suficiente para matar um homem, se o atingirem num lugar vulnerável — por exemplo, numa artéria, sobre o coração ou nas virilhas. Esse é o único perigo real para quem se aventura a nadar nos recifes. Muito mais perigoso do que as barracudas e os tubarões, é extremamente confiante em sua camuflagem e em suas armas, não fugindo de coisa alguma, exceto de uma exagerada aproximação de um pé humano ou mesmo de um contato direto. Nossas ocasiões, o peixe-escorpião nada apenas alguns metros com seu largo peitoral, bizarramente listrado, parando atento, ou pousado na areia, onde por mimetismo parece uma formação coralina, ou entre as rochas e algas, onde virtualmente desaparece. O Major Smythe estava decidido a encontrar um, arpoá-lo e dá-lo a seu polvo, para ver se este o aceitava ou rejeitava. Queria saber se um dos grandes predadores do oceano reconheceria a periculosidade, o poder mortífero do veneno do outro. Consumiria o polvo a parte inferior do peixe-escorpião, sem lhe tocar nas espinhas letais? Devorá-las-ia também e viria a sofrer um castigo, atingido pelo veneno? Eram essas as perguntas que Bengry, do Instituto, desejava esclarecer. E, agora, sentindo o princípio do fim de sua vida, o solitário de Wavelets pensou que esse poderia ser também o fim do seu querido polvo. E decidiu dar resposta àquelas perguntas, deixando uma pequena lembrança de sua vida fútil e inútil num recanto empoeirado dos arquivos do Instituto.
É que, apenas duas ou três horas antes, o Major Dexter Smythe vira a sua vida transformar-se, passando de mal a pior. Para uma condição tão pior que ele teria muita sorte se, dentro de uma semana — tempo necessário para a troca de telegramas entre o governo da ilha e o Ministério das Colônias, que por sua vez se comunicaria com o Serviço Secreto e, através deste, com a Scotland Yard e a Procuradoria da Justiça, bem como para a transferência do Major Smythe para Londres, sob escolta policial —, na melhor das hipóteses, saísse de um inevitável julgamento condenado à prisão perpétua. E tudo isso por causa de um homem chamado Bond — Comandante James Bond —, que aparecera em Wavelets às 10h 30m da manhã, num táxi que tomara em Kingston. O dia tinha começado normalmente. O Major Smythe acordara de seu sono à base de seconal, engolira dois comprimidos de panadol (o precário estado cardíaco lhe proibira o uso da aspirina), tomara um banho de chuveiro e fora devorar o seu pequeno almoço debaixo de frondosa amendoeira, no jardim, onde passara uma hora, alimentando pássaros famintos com as sobras da refeição. Depois, tomou as doses de anticoagulante receitadas pelo médico e as pílulas contra a alta pressão arterial, matando o tempo com a leitura do Daily Gleaner e fazendo hora para tomar o seu primeiro trago. Antes, esperava até às 11 horas. Mas, por último, fixara esse momento em 10h 30m. Já havia servido dois conhaques com ginger ale — a bebida de quem sabe embebedar-se — quando ouviu o ruído do automóvel que se aproximava. Luana, a governante negra, não tardou a aparecer no jardim para anunciar: — Um cara tá aí para falar com o sinhô, Majó.
— Como se chama?
— Sei não, Majó. Disse não. Só falou que é negócio da casa do gunverno.
O Major Smythe vestia apenas uns velhos shorts de brim caqui e calçava um par de alpercatas. Não podia receber um visitante assim.
— Mande entrar para a sala, Luana, e diga que não demorarei a atendê-lo.
Foi ao seu quarto, vestiu um blusão branco, umas calças e penteou o que ainda lhe restava da antiga cabeleira. Um representante do governo! Que diabo quereria com ele? Mal entrou na sala, viu um homem alto, com um terno de tropical azul, debruçado na janela, olhando para o mar. O Major teve logo a sensação de que ia receber más notícias. E quando o homem se voltou encarando-o atentamente, com os olhos azul-cinza, Smythe teve a certeza de que ele estava, realmente, em missão oficial. E em missão nada amistosa, porque nem ao menos retribuiu o seu cordial sorriso. Um calafrio percorreu a espinha do major. Teriam, então, descoberto tudo?
— Bem, bem, eu sou Smythe. Pelo que sei, o senhor representa o governo da ilha. Como vai Sir Kenneth?
Não houve sequer um aperto de mão. O homem disse:
— Ainda não o vi. Faz só uns três dias que cheguei. Estive procurando ver os pontos pitorescos da ilha. Meu nome é Bond. James Bond. Sou do Ministério da Defesa.
O Major Smythe se lembrava do eufemismo habitualmente usado para designar o Serviço Secreto. E disse, esforçando-se para se mostrar animado e alegre: — Oh... A velha firma? Prefere conversar aqui mesmo, ou no jardim? Que tal um drinque? (E o Major pôs um cubo de gelo num copo, que já tinha nas mãos.) Rum e ginger ale é o mais popular veneno local... Eu, porém, prefiro ginger ale, sem mais nada...
A mentira lhe escapou com facilidade, graças ao automatismo dos alcoólatras. — Não me sirva nada. E falemos aqui mesmo — disse o recém-vindo, recostando-se no parapeito da janela, lavrado em mogno.
O Major Smythe sentou-se, passou uma perna sobre o braço da confortável poltrona e tomou um grande trago de seu copo, que depositou depois ao lado.
— Bem — disse, olhando o visitante com firmeza, cara a cara. — Em que poderei lhe ser útil? Alguém está fazendo sujeiras em North Shore e vocês estão precisando de ajuda? Terei prazer em voltar ao antigo trabalho. Já vai longe o tempo em que fui agente secreto, mas ainda me lembro de algumas técnicas...
— Não se incomoda que eu fume?
O visitante, ao fazer a pergunta, já tinha, nas mãos, uma cigarreira de forma achatada que poderia, no entanto, conter cinquenta cigarros. A esse sinal de fraqueza, comum a ambos, o major se sentiu confortado.
— Em absoluto, meu caro. (E fez um movimento, aproximando o seu isqueiro, aceso.) — Obrigado. (James Bond já havia acendido o cigarro.) Mas não vim aqui para tratar de assuntos locais. O que realmente me trouxe a North Shore foi o desejo de pedir-lhe que se recorde minuciosamente de seu trabalho para o Serviço Secreto, nos últimos dias da II Grande Guerra... (Fez uma pausa, para observar o efeito de suas palavras no Major Smythe) Principalmente quando trabalhou na Divisão de Assuntos Gerais...
O Major Smythe teve um riso breve e escarninho. Ele sabia. Estava absolutamente certo. Mas, quando a revelação saiu dos lábios daquele homem, não pôde conter a gargalhada, reação de alguém que se via golpeado em cheio e procurava dar a impressão contrária.
— Mas, Santo Deus! A velha DAG! Claro que me lembro ainda dela... E de tudo o mais...
Riu de novo. E sentiu aguilhoar-lhe o peito a dor constritiva da angina, provocada pela pressão do que certamente iria acontecer. Enfiou a mão no bolso da calça, despejou o conteúdo de um pequeno frasco no côncavo da outra mão e, depois, colocou sob a língua os pequenos comprimidos brancos de TNT. Observava divertidamente a crescente tensão estampada na fisionomia do visitante, cujos olhos se apertavam para melhor fitá-lo. Não precisava ter medo, não. Não se tratava de pílulas de cianureto ou qualquer outro veneno. O major despistou: — A acidose não o persegue? Não? Pois a azia é o meu tormento. Ontem à noite, fui a uma festa no Jamaica Inn. Preciso me lembrar de que não tenho mais 25 anos... Bem, mas ainda posso voltar para a DAG. Creio que hoje somos bem poucos, os veteranos, não? (Sentiu outra vez a dor no peito.) É alguma coisa a respeito da história oficial da guerra?
James Bond, olhando para a ponta do cigarro, disse que não se tratava exatamente disso.
— Pensava... Porque, não sei se sabe: eu escrevi quase todo o capítulo sobre o Serviço Secreto no War Book... Já faz muito tempo. Mas duvido que haja algo de realmente importante a acrescentar...
— Nem mesmo alguma coisa sobre certa operação no Tirol? Num lugar chamado Ober Aurach, a cerca de uma milha de distância de Kitzbuhel?
A menção desses nomes provocou outro pequeno riso do major:
— Mas essa operação foi uma ninharia... Tudo muito fácil. Aqueles sujeitos da Gestapo tinham mais fanatismo do que competência... Uns bêbedos. Conservaram em seus arquivos todas as pistas. E os entregaram sem nenhum protesto. Esperavam, em troca, a nossa indulgência, talvez... A grande maioria foi enforcada por crimes de guerra, acredito. Levei tudo para o Quartel-General, em Salzburgo. Depois, fui para o vale do Mittersill, à procura de outro esconderijo... O Major Smythe tomou outro trago e acendeu um cigarro. Depois, olhando para cima: — Acho que não há mais nada a acrescentar a essas linhas gerais...
— O senhor, se não me engano, foi nessa época o número 2... O commanding officer era um americano, não? O Coronel King, do Exército do General Patton...
— É verdade, ele foi meu chefe. Excelente sujeito. Usava um bigodinho, coisa que não é muito de americano. Tinha competência indiscutível para escolher vinhos. Um tipo muito civilizado...
— No seu relatório sobre aquela operação, ele afirma que lhe entregou todos os documentos necessários às buscas e investigações preliminares, por ser o senhor o perito em assuntos germânicos do grupo... O senhor devolveu esses papéis a ele com algumas notas ou observações? (James Bond fez uma pausa.) Todos, sem falta de um só?
O Major Smythe ignorou a insinuação:
— É verdade. O que ele me deu foi, principalmente, uma lista de nomes. Indicações recebidas da contra-espionagem. Os agentes da CE em Salzburgo ficaram muito satisfeitos com essas pistas. E puderam aprofundar as buscas em várias direções. Acredito que os originais devem estar arquivados em algum lugar, uma vez que foram usados nos julgamentos de Nuremberg. Isso mesmo! (O Major Smythe parecia forçar a memória.) Posso dizer que os mais alegres anos de minha vida foram os do período em que trabalhei para a DAG. Vinho, mulheres, música! Ah, se eu pudesse viver esse bom tempo outra vez!
Nessa ocasião, o Major Smythe dizia a pura verdade. Ele sustentara uma perigosa e desconfortável luta até 1945. Quando os famosos Comandos ingleses foram formados em 1941, ele se apresentara como voluntário, sendo transferido dos Fuzileiros Reais para o Quartel-General das Operações Combinadas, sob a direção de Lorde Mountbatten. Seu domínio da língua alemã (que lhe vinha da mãe, nascida em Heidelberg) qualificara-o para o invejável lugar de coletor de informações nas operações de Comandos através do canal da Mancha. Tivera a sorte de permanecer durante dois anos nesse trabalho sem um arranhão e de receber a Ordem do Império Britânico, tão ciosa e avaramente distribuída durante a última guerra. E, depois, quando se preparava o golpe final contra a Alemanha, a Divisão de Assuntos Gerais fora formada, em conjunto, pelo Serviço Secreto e os Comandos. O Major Smythe, comissionado, então, como tenente-coronel, recebeu a incumbência de formar a unidade que devia descobrir e limpar os esconderijos dos graúdos da Gestapo e da Abwehr no momento em que se desse o colapso do nazismo. O Serviço Secreto, ao aprovar o plano, insistiu em que fosse acompanhado o avanço americano não por uma única, mas por seis dessas unidades, que operariam na Alemanha e na Áustria no momento da rendição. Eram unidades de vinte homens, cada uma com um carro blindado ligeiro, seis jipes, três camionetas e um caminhão com instalações de radiotelefonia. Controladas por um comando misto, anglo-americano, teriam elas à sua disposição o pessoal do Serviço de Inteligência do Exército, do SIS e do OSS. O Major Smythe fora o número 2 da Força A, destinada a atuar no Tirol, área cheia de bons esconderijos, com fácil acesso à fronteira de outros países. Por isso mesmo, era considerada o valhacouto n.° 1 pelo pessoal da DAG. E, como confessara o Major Smythe a James Bond, a operação fora praticamente uma festa, não tendo sido preciso disparar um só tiro. Exceto, é claro, dois que foram disparados pelo próprio Major Smythe. James Bond perguntou-lhe com ar mais casual do mundo: — O nome de Hannes Oberhauser lhe evoca alguma lembrança?
O Major Smythe franziu o sobrecenho, como que num esforço para se lembrar:
— Não, creio que não... (Fazia 32 graus à sombra, mas ele tremia de frio.) — Permita que eu lhe refresque a memória... No mesmo dia em que os documentos lhe foram entregues para exame, o senhor fez perguntas no Tiefenbrunner Hotel, onde se hospedou, sobre quem era o melhor guia alpino de Kitzbuhel. Foi-lhe indicado o guia Oberhauser. No dia seguinte, o senhor pediu ao seu comandante um dia livre, que lhe foi concedido. Na manhã desse dia, o senhor se dirigiu ao chalé de Oberhauser, prendeu-o com a cláusula de incomunicabilidade, e o levou no seu jipe. Não está se lembrando dessas particularidades?
Como era familiar aquela frase sobre o refrescamento da memória! Quantas vezes o próprio Major Smythe não a usara, como armadilha, para nela colher um mentiroso nazista?... Mas não devia, agora, se afobar. Há anos que estava preparado para alguma coisa nesse estilo. E, por isso, respondeu: — Não... Eu absolutamente não me lembro.
— Oberhauser era um homem de cabelo grisalho e claudicava de uma perna. Falava algum inglês, pois antes da guerra costumava trabalhar como instrutor de esqui, tendo como aprendizes ingleses e americanos...
O Major Smythe olhou impàvidamente para o visitante, fixando-lhe os olhos frios e claros:
— Sinto muito... Mas não posso ajudá-lo. Não me recordo.
James Bond tirou do bolso o pequeno caderno de notas, folheando-o ligeiramente. Deteve-se numa das páginas e disse:
— Vou ajudar um pouco mais a sua memória. Nesse tempo, como arma de uso pessoal, o senhor tinha um revólver regulamentar Webley & Scott, calibre 45, com o número da série 8967/362...
— Sim, era Webley... Um trabucão enorme, difícil de carregar. Espero que tenham adotado algo melhor. Assim como um Luger ou uma Beretta pesada. Mas eu nunca me dei ao trabalho de anotar o número...
— O número é esse mesmo — disse James Bond. — Verifiquei a data em que o recebeu do QG e a data em que o devolveu. O senhor assinou o livro de carga, ambas as vezes...
— Então, deve ter sido essa mesma a minha arma — concordou o Major Smythe, dando de ombros. — Mas... (E agora havia impaciência em sua voz) ... Mas, se me permite a pergunta, em que é que isso pode interessar?
James Bond o olhou com certa curiosidade. Depois falou e não se poderia dizer que o seu tom fosse cruel:
— Bem sabe que isso é fundamental, Smythe. (Fez uma pausa e pareceu refletir.) Façamos um acordo. Eu irei ao jardim, por uns dez minutos, pouco mais ou menos. Dou-lhe tempo para se lembrar de tudo com exatidão. Quando se tiver lembrado, me chame... (E acrescentou, a sério:) — Tornará as coisas bem mais fáceis para você a reconstituição do caso em suas próprias palavras... (Caminhou para a porta do jardim, mas se voltou.) — Creio que se trata apenas de pingar os ii e cortar os tt... Quero que saiba que, antes de vir aqui esta manhã, tive uma boa conversa com os irmãos Fu, em Kingston...
0 Major Smythe sentiu-se de certa forma desoprimido. Acabara a batalha das insinuações e das evasivas, a tentativa de despistar e de inventar álibis. Era o fim das negaças. Se o tal James Bond conversara com os irmãos Fu, sem dúvida arrancara alguma coisa dos chineses. De modo algum quereriam eles qualquer complicação com as autoridades. E, além do mais, ainda tinham uma parte da muamba em seu poder. O Major se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale, quase meio a meio. O melhor era tomar uns bons tragos, enquanto ainda podia! O futuro não lhe ofereceria muitas oportunidades como essa. Voltou para a poltrona, acendeu o vigésimo cigarro do dia e olhou para o relógio. Eram 11h30m. Se pudesse livrar-se daquele importuno dentro de uma hora, ainda poderia ir ver a sua “gente”. Sentou-se e bebeu, mergulhado em seus pensamentos. Poderia prolongar ou abreviar a sua história, se adicionasse alguma coisa sobre o estado do tempo, o perfume das flores dos pinheiros que aspirara nas montanhas... Mas poderia omitir a paisagem e abreviá-la. Preferiu abreviar. Viu-se na cama dupla, no Tiefenbrunner Hotel, com montanhas de papelório para examinar. Não procurava nada de especial. Apenas apanhava, a esmo, um documento aqui, outro ali, concentrando-se principalmente nos que tinham o timbre, em vermelho, de KOMMANDOSACHE, HOECHST VERTRAULICH. Não existiam muitos destes, que eram quase sempre informações confidenciais sobre nazistas graúdos, sobre códigos aliados que os alemães tinham decifrado e sobre esconderijos secretos. Desde que estes eram um dos principais objetivos da Força A, o Major Smythe os havia examinado com particular excitação — eram esconderijos de alimentos, de explosivos, de armas, de fichários de espionagem e do pessoal da Gestapo, uma imensa rede de arrasto com toda a espécie de peixes! E, ainda, no fim de toda a papelada, um simples envelope lacrado, com o aviso: PARA SER ABERTO APENAS EM CASO DE EMERGÊNCIA. O envelope continha uma só folha de papel. Não havia assinatura sob as palavras escritas em letra vermelha.
No cabeçalho, havia a palavra VALUTA.
Embaixo, lia-se: WILDE KAISER. FRANZISKANER HALT. 100 M. OESTLICH STEINHUGEL. WAFFENKISTE. ZWEI BAR 24 KT. e uma lista de medidas em centímetros. O Major Smythe afastou as mãos, como se numa história de pescaria, estivesse mostrando as dimensões de um peixe. Duas barras de ouro de 24 quilates, cada uma, quase tão grande como dois tijolos! E pensar que um simples soberano inglês, de apenas dezoito quilates, valia naquele momento entre duas e três libras! As duas barras de ouro representam uma verdadeira fortuna! Quarenta, cinquenta mil libras, era quanto valeriam! Não tinha ainda ideia alguma a respeito, mas — era o melhor — riscou um fósforo e acendeu o papel e o envelope, reduzindo-os a cinzas, que colocou na pia e fez desaparecer sob um jorro d’água. Apanhou, depois, o mapa da área, em grande escala, preparado pela artilharia austríaca e, um momento depois, tinha sob o dedo o Franziskaner Halt. Nele estava indicado um abrigo alpino desabitado, refúgio de montanhistas, numa espécie de pequeno platô logo abaixo do mais alto pico das montanhas do Kaiser, essa imensa massa de pedras dentadas que fecha, ao norte, o horizonte de Kitzbuhel. E ali, onde o seu dedo repousava, devia existir o marco de pequenas pedras amontoadas. Significava isso que uma fortuna estava ao seu alcance, a apenas dez milhas de distância e, talvez, a apenas cinco horas de subida!
O princípio tinha sido tal como James Bond descrevera. Fora ao chalé de Oberhauser às 4 horas da madrugada. Prendera-o e dissera a seus familiares, todos em lágrimas, que o ia levar para o centro de interrogatórios, em Munique. Se o guia estivesse isento de culpa, estaria de volta dentro de uma semana. Se a família fizesse algum protesto isso só poderia prejudicar Oberhauser, tornando as coisas ainda mais difíceis. Smythe se recusara a declinar o seu nome e tivera a precaução de ocultar o número do jipe. Dentro de 24 horas, a Força A deixaria o lugar e o governo militar se instalaria em Kitzbuhel. E então o incidente seria sepultado no esquecimento pelo tumulto e pelas complicações decorrentes da própria ocupação militar.
Oberhauser revelou-se um excelente sujeito, disposto a cooperar, assim que perdeu o medo inicial. E quando Smythe começou a lhe falar de alpinismo e de esqui se tornou uma camaradão. O caminho passava ao sopé das montanhas, rumo a Kufstein. Smythe dirigia lentamente, fazendo comentários admirativos sobre os picos em que já se refletiam as primeiras luzes matinais. Finalmente, junto à base do Pico do Ouro, voltou-se para Oberhauser e lhe disse: — Oberhauser, você é uma pessoa com quem simpatizo. Temos muitos interesses em comum e, pela sua conversa, estou convencido de que não cooperou com os nazistas. Eu lhe explico o que pretendo fazer por você. Passaremos o dia escalando as montanhas do Kaiser e, depois, eu o levo de volta para Kitzbuhel. Direi, então, ao meu chefe que, interrogado em Munique, você foi imediatamente liberado... Que me diz a isso? — Rematou, com um sorriso.
O homem quase derramou lágrimas de gratidão. Mas era preciso que ele tivesse, em seu poder, um papel mostrando que estava isento de culpa? Certamente. A assinatura do Major Smythe seria mais que suficiente. Feito o pacto, o jipe foi dirigido através de um atalho e ficou escondido, longe da estrada, entre os pinheiros. Smythe estava preparado para a excursão, sem nada sob a jaqueta, vestindo um short e calçando botas de paraquedistas, fornecidas à unidade pelos americanos. A carga que levava era apenas o revólver Webley & Scott, absolutamente necessário, pois afinal de contas Oberhauser era um inimigo. O guia vestia a sua melhor roupa e calçava as suas botas alpinas. Não estava preocupado com a subida. E assegurou ao Major Smythe que não seria necessário usar nem cordas, nem ganchos, até chegarem à cabana, em que poderiam parar para descansar. Era aí o Franziskaner Halt.
— É esse o nome? — Perguntou o Major.
— Sim. E um pouco abaixo há uma pequena geleira. Passaremos ao largo, pois nela há muitas fendas.
— Assim faremos... — Disse o Major Smythe, pensativamente, examinando a parte posterior da cabeça de Oberhauser, por onde o suor escorria. Ora, afinal, ele era apenas um reles comedor de chucrute, talvez da mesma laia que os nazistas. Seria tão fácil liquidá-lo... A única coisa que preocupava o major era trazer a muamba pela montanha abaixo. Poderia colocar as barras de ouro às costas. Ou arrastá-las — por que não? — Durante grande parte do percurso, na sua caixa de munição. Longa e tortuosa foi a caminhada, montanha acima. Quando deixaram para trás os pinheiros, já o sol se alteava, dardejante. A princípio, caminharam entre rochas e entulhos, em constantes zigue-zagues. Sem o auxílio de um guia, nunca conseguiria o major chegar ao cimo do penhasco cinzento e ameaçador, que parecia tocar o azul do céu. Ambos caminhavam agora nus da cintura para cima, banhados em suor, que lhes escorria pelas pernas para dentro das botas. Embora o guia claudicasse, subiam com relativa rapidez. Quando pararam, para um drinque e um breve descanso, Oberhauser se congratulou com Smythe por estar em tão boa forma. O major, com a cabeça escaldando, tantos eram os seus planos, disse ríspida e mentirosamente que todos os ingleses eram cobras, em matéria de escalar montanhas. Subir ao penhasco não era difícil. Se lá havia uma cabana, é porque o material para a sua construção fora levado para ali nos ombros de alguém. Em certos lugares, pontos de apoio tinham sido cavados na rocha. E havia, ocasionalmente, grampos de ferro, em que os alpinistas podiam se agarrar. Mas achar as passagens exatas era o mesmo que descobrir os segredos de um labirinto. Ainda bem que trouxera o guia. Este, em certo momento, sondando o chão, para verificar se estava firme, fizera correr pequenina avalancha de pedras afrouxadas por muitos anos de ventanias e nevascas. Elas se precipitaram, com estrondo, lá embaixo. O Major Smythe pensou logo no barulho, que poderia despertar atenção. Perguntou se não haveria gente nas proximidades.
— Qual! Ninguém... A não ser nas proximidades de Kufstein... — Disse Oberhauser, apontando uma larga extensão, ao redor. — Aqui há pouca água e nenhum pasto. E, desde o princípio da guerra... (Interrompeu-se, deixando a frase incompleta.) Ladearam a geleira e continuaram a subida. A vista do Major Smythe media a extensão e a largura das fendas, por onde iriam passar. A uns cem pés acima, viram, então, a cabana, batida pelas intempéries. O major mediu o ângulo do declive. Era quase uma linha reta. Agora? Ou depois? Preferiu que fosse depois. O caminho para a última parte da travessia ainda não estava claramente definido. Alcançaram a cabana ao fim de cinco horas. O Major Smythe disse que queria aliviar um pouco a bexiga e caminhou para o leste, sem dar atenção alguma aos belos panoramas da Áustria e da Baviera, que se estendiam por cinquenta milhas, sob o sol estival. Ele contava os passos com extremo cuidado. Exatamente a 120 havia o montículo de pedras, talvez um marco carinhosamente erguido em memória de um alpinista desaparecido. Era isso o que qualquer pessoa normalmente pensaria. Mas o Major Smythe, sabendo que não se tratava disso, ardia de desejos de desfazer a pequena pirâmide de pedras soltas. Mas, em vez de fazê-lo, tirou do coldre o seu Webley & Scott, soltou a trava e examinou o cilindro. E voltou, então, rumo à cabana, onde Oberhauser entrara. Fazia frio, a tal altura — uns bons 3 mil metros —, e o guia acendia o fogo. Smythe controlou o seu horror e pediu: — Oberhauser, venha me mostrar as paisagens. Há vistas maravilhosas, aqui em cima!
— Com prazer, major — disse o guia, seguindo Smythe para fora da cabana. Uma vez lá fora, tirou do bolso um papel, no qual havia alguma coisa embrulhada. Ofereceu-a ao major, acrescentando: — Isto é o que chamamos Soldat. É uma salsicha defumada. Dura, mas muito saborosa. (Sorriu.) Parece com aquilo que os americanos comem nos filmes de Far-West. Como é mesmo o nome?
— Charque — disse o major. Depois — e mais tarde se arrependeu de o ter privado da pequena refeição — aconselhou: — Deixe isso na cabana. Depois, viremos comer. Será que daqui podemos ver Innsbruck? Mostre-me para que lado é...
Oberhauser entrou na cabana e logo saiu de novo. O major caminhou por trás dele, que falava e gesticulava, mostrando aqui o pico de uma montanha, além a torre de uma igreja distante. Chegaram ao lugar acima da geleira. O major tirou então o revólver e, a uma distância de pouco mais de meio metro, disparou dois tiros na base do crânio de Hannes Oberhauser. Que nem estrebuchou. Caiu já morto. O impacto das balas atirou o guia na borda do precipício. O Major Smythe o empurrou para baixo. O corpo bateu em duas anfractuosidades do penhasco e caiu em cima da geleira. Mas sem escorregar para as fendas. Ficou a meio do caminho, junto a um monte de neve antiga, acumulada.
— Com os diabos! — Disse o major.
Os estampidos repercutiram naquelas alturas como se fossem tiros de morteiros e o eco os repetiu a distância. O Major Smythe lançou um olhar sobre a figura imóvel, estendida junto ao monte de neve, e logo correu para o montículo de pedra. Devia cuidar das coisas mais importantes em primeiro lugar! Começou a afastar as pedras, com uma pressa diabólica, atirando as mais roliças pela montanha abaixo. Feriu-se em arestas cortantes e, quando deu pela coisa, sua mão estava sangrando, mas não ligou importância. Um pouco de sangue, que é que tinha? Precisava era andar depressa, depressa — e continuou a escavar, furiosamente. O monte de pedra desaparecia. E então! Sim! Lá estava alguma coisa que parecia ser uma tampa metálica. Mais algumas pedras foram retiradas e apareceu uma velha caixa de munições da Wehrmacht. Em cima dela, ainda havia traços de seu antigo letreiro. O Major Smythe soltou um grunhido de alegria. Sentou-se sobre uma pedra e sua imaginação entrou em órbita, descrevendo círculos sobre carros Rolls Royce, iate em Monte Carlo, apartamentos de cobertura, joias de Cartier, champanha, caviar e, no meio de tudo, uma vez que amava o golfe, uma nova coleção de bastões metálicos de Henry Cotton.
Embriagado com esses sonhos, o Major Smythe ficou ali sentado um bom quarto de hora fitando a caixa metálica, como que fascinado. Depois, olhou para o relógio e levantou-se. Não devia perder tempo. Tinha que eliminar as pistas. A caixa tinha alças de ambos os lados. O major esperara que fosse pesada. Mentalmente, ele a havia comparado à coisa mais pesada que até então carregara — um salmão de vinte quilos que pescara na Escócia, pouco antes da guerra —, mas a caixa tinha mais do dobro desse peso. E ele só com muita dificuldade a retirara do seu leito entre as pedras para colocá-la sobre a rala relva alpina. Amarrou, então, o seu lenço numa das alças e, pondo-a desajeitadamente no ombro, levou-a para a cabana. Sentou-se, então, na soleira da porta e, sem despregar inteiramente os olhos da caixa, cortou a salsicha defumada de Oberhauser com seus dentes vigorosos e começou a comê-la, pensando como havia de transportar as suas 50 mil libras — era esse o seu cálculo — pela montanha abaixo. A salsicha era, realmente, uma ótima refeição montanhesa, dura, gorda, rescendendo a tempero forte à base de alho. Partículas dela ficaram incômodamente presas aos seus dentes. Limpou-os com um palito de prata. Sua preocupação era fazer desaparecer todos os vestígios de sua presença. De agora em diante, era um criminoso. Tão criminoso como alguém que tivesse roubado um banco e assassinado o vigia. Precisava lembrar-se disso! Se não se lembrasse, teria a morte, em vez das coisas maravilhosas com que sonhava. Precisava ter infinita cautela. E teria! Seria, para sempre, rico e feliz. Depois de tomar precauções ridiculamente minuciosa para não deixar na cabana o menor traço de sua passagem, arrastou a caixa metálica para a borda do precipício, distante da geleira, e de lá atirou-a embaixo, rezando para que chegasse intacta. A caixa cinzenta rolou no espaço, bateu numa ponta de pedra, continuou a descer, chocou-se cem metros abaixo com outra anfractuosidade e, por fim, atingiu o chão de um entulho, onde parou. O Major Smythe não podia vê-la, de onde estava, e não podia saber se estava aberta. Tanto fazia que estivesse ou não! A própria montanha poderia tê-lo poupado ao trabalho de abri-la...
Depois de um último olhar em torno, ele começou a descer, experimentando com prudência a solidez de cada grampo e de cada ponto de apoio, antes de firmar-se com todo o peso de seu corpo. Na descida, sua vida tinha um valor muito maior que na subida. Caminhou para a geleira e atravessou a passagem em que a neve começava a derreter-se formando sobre o gelo uma mancha escura. Dentro de mais alguns dias, toda a neve estaria derretida. Chegou até onde estava o cadáver. Tinha visto muitos, durante a guerra. Ossos fraturados e carnes sangrentas nada significavam para ele. Arrastou os restos de Oberhauser para a fenda mais próxima e, depois, atirou em cima a neve, acumulada nas bordas. Enterrado o corpo, mostrou-se satisfeito com o seu trabalho, tendo, ao voltar, o cuidado de recolocar os pés sobre as mesmas pegadas que fizera na vinda. E então empreendeu à descida, ao encontro da caixa metálica. Sim, como esperava, a montanha a havia aberto para ele! Com um gesto despreocupado, desfez os invólucros, em papel empregado na fabricação de cartuchos. As duas grandes barras de metal cintilaram ao sol. Tinham ambas as mesmas marcas: a cruz suástica num círculo, sob uma águia, e a data de 1943, símbolos usados pelo Reichsbank. O Major Smythe fez um movimento de aprovação com a cabeça. Recompôs os invólucros e, como a lingueta da tampa, que saltara, não fechasse mais a tampa, teve de bater-lhe com uma pedra, até voltar ao lugar. Passou, então, numa das alças o cinturão em que costumava conduzir o revólver, e continuou a descida, arrastando-a atrás de si. Era então 1 hora da tarde e o sol lhe queimava o busto nu, fritando-o em seu próprio suor. Seus ombros, avermelhados, estavam em fogo. A soalheira também queimava o seu rosto. Com os diabos! Parou junto a uma cascata que descia dos gelos da montanha, embebeu o lenço em água fria e o colocou na cabeça. Bebeu, depois, largamente e prosseguiu, praguejando, às vezes com fúria, quando em alguns declives mais fortes a caixa de metal o atropelava, machucando-lhe os calcanhares. Mas esses desconfortos, as queimaduras e os arranhões, não eram nada comparados com o que ele ainda teria que enfrentar no vale, onde o terreno era nivelado. Até então, tivera a lei da gravidade a seu lado. Mas na última milha é que seria um problema carregar aquela infernal muamba! 0 Major Smythe sentia as costas e o pescoço em fogo. Disse, porém, a si mesmo, para encorajar-se: — Bolas! Il faut souffrir pour être millionaire!
CONTINUA
O olho do molusco o observava cuidadosamente, de sua loca, no recife de coral. Agora, a ponta de um dos oito tentáculos avançava uma ou duas polegadas, ondulando hesitantemente, como se fizesse uma vaga exploração com as ventosas rosadas. Dexter Smythe sorriu com satisfação. Se lhe fosse dado o tempo necessário, ao menos um mês mais, além dos dois durante os quais se acamaradara com o polvo, decerto domesticaria inteiramente o fascinante animal. Mas temia que não chegasse a viver tanto. Devia aproveitar aquela oportunidade para se aproximar do molusco e lhe oferecer a mão de amigo. Sim... Em vez de limitar-se a lhe dar comida, na ponta de um arpão, devia, por assim dizer, apertar-lhe a mão, não era mesmo? “Não, ainda não, meu negrinho — pensou —, ainda não posso ter confiança em você...” Com toda a certeza, se fosse imprudente, outros tentáculos sairiam da loca lhe envolveriam o braço. E, puxado pelo polvo, a válvula de corliça da máscara se fecharia automaticamente. Ficaria sufocado. Ou, se o polvo a arrancasse, na certa morreria afogado. Quando muito, com um golpe rápido e feliz do arpão, poderia ferir o octópode, mas para matá-lo seria preciso muito mais do que isso. Não... Talvez mais tarde. Agora, seria o mesmo que enfrentar uma rolêta-russa, com cinco chances contra e uma só a favor. Poderia, mesmo, representar um meio rápido, eficaz e bizarro de pôr termo aos seus aborrecimentos! Mas, agora... não! Isso deixaria insolúvel uma questão sumamente interessante. E ele havia prometido resolvê-la... Dera a sua palavra ao simpático Professor Bengry, do Instituto Biológico Marinho. Dexter Smythe afastou-se do recife de coral, nadando lentamente. Seus olhos atentos buscavam, com empenho, a forma estranha e sinistra do peixe-escorpião, ou, como diria Bengry, do Scorpaena Plumieri.
O Major Dexter Smythe, condecorado com a Ordem do Império Britânico, oficial do Corpo de Fuzileiros Reais (reformado), era o que restava de um outrora bravo militar e homem encantador, que fazia conquistas sexuais fáceis em todos os meios em que atuava fardado. Principalmente entre o pessoal das organizações militares femininas — as Wrens, as Wracs e as moças do ATS, incumbidas das comunicações e do secretariado das forças-tarefas especiais, de que ele fizera parte, no fim de sua carreira. Tinha agora cinquenta e quatro anos. Estava ligeiramente calvo. E sua barriga se acomodava com certa dificuldade nos apertados limites do calção de banho. Além disso, tivera já duas complicações coronárias. Seu médico era Jimmy Graves, que fora um dos seus parceiros no jogo de pôquer de cacife altíssimo, no Queen’s Club, logo que ele chegara, com a mulher, à Jamaica. Meio a sério, meio brincando, o médico havia descrito a última dessas complicações, ocorrida um mês antes, como sendo a “segunda advertência”. Mas, em suas roupas bem talhadas, ocultas as muitas varizes às vistas indiscretas, com a barriga comprimida por uma larga cinta que o imaculado colête-faixa disfarçava, o antigo militar ainda fazia boa figura, num coquetel ou num jantar, em North Shore. Para seus amigos e vizinhos dessa praia, era um mistério o motivo pelo qual desafiava ele as recomendações do médico. Este lhe impusera uma dieta de uísque e de cigarros, limitados respectivamente a dois e a dez por dia, mas ele insistia em fumar como uma chaminé e em ir sempre para a cama bêbedo. Agradàvelmente bêbedo.
A verdade é que Dexter Smythe tinha chegado à fronteira em que o instinto da vida começa a ceder ao desejo da morte. As origens desse estado de espírito eram muitas e complexas. Estava irremediavelmente amarrado à Jamaica. A indolência tropical apoderara-se gradualmente de seu organismo, de tal modo que, se aparentava ser uma sólida peça de madeira de lei, interiormente não era mais que um tronco fofo, corroído pelos cupins. Tinha um exterior envernizado, mas ilusório. A preguiça, o relaxamento, o sentimento de culpas antigas, o total desgosto em relação a si mesmo haviam erodido o seu cerne, transformando-o em pó de serragem. Desde a morte de Mary, dois anos antes, não tinha mais amado a ninguém. Nem sequer estava certo de que realmente a havia amado. Sabia, porém, que sentia a ausência dela a todas as horas do dia, que sentia falta de seu afeto e de sua alegria, de sua presença desmazelada, barulhenta e, por vezes, irritante. Enquanto devorava canapés e bebia martinis da ralé internacional que frequentava em North Shore, ele se apercebia de que não nutria por essa gente outro sentimento que não fosse o de completo desprezo. Poderia, talvez, ter feito amigos entre elementos mais respeitáveis, os fazendeiros do interior da ilha, os proprietários do litoral, os representantes das profissões liberais e do mundo político local. Mas isso significaria voltar a ter propósitos sérios numa vida em que a preguiça e o embotamento espiritual limitaram-se ao fundo das garrafas. Tal coisa estava inteiramente fora de suas cogitações.
O Major Smythe estava mortalmente entendiado e, se não fosse por determinado motivo, já teria há muito tempo engolido o vidro de barbitúricos que com facilidade adquirira a um dos médicos da ilha. O fio que ainda o prendia à vida era muito tênue. Os grandes bebedores tendem a exagerar o seu temperamento básico, que é sempre um destes quatro: sanguíneo, fleumático, colérico e melancólico. O bêbedo sanguíneo torna-se alegre até à histeria ou à idiotia. O fleumático afunda-se num abatimento sombrio. O colérico é o ébrio turbulento das caricaturas, que passa a maior parte do tempo na prisão, por ter quebrado coisas ou agredido pessoas. E o melancólico é o beberrão que tem pena de si mesmo, geralmente vomitando ou se desmanchando em prantos. O Major Smythe era um melancólico, com a curiosa e divertida fantasia de fazer relações pessoais com aves, insetos e peixes existentes nos cinco acres de Wavelet, isto é, de Ondinhas, nome sintomático que dera à sua pequena villa. A praia e o recife de coral, além dela, eram os seus lugares prediletos. E, entre todos os seres, preferia os peixes. Referia-se a eles como à “gente do mar” e, uma vez que os peixes, como as aves, são fiéis aos seus recantos, ao fim de dois anos ele os conhecia a todos intimamente, amava-os e acreditava ser retribuído por eles com igual amor.
Certo, eles o conheciam, como os animais de um Jardim Zoológico conhecem os seus tratadores. Como estes, ele lhes ia levar o alimento diário, arrecadando pedacinhos de algas e revolvendo a areia o os seixos do fundo do mar, para ajudar os que se alimentam nos lugares mais profundos. Desenterrava ovos e ouriços para os pequenos carnívoros e levava sobras de carne para os grandes. E agora, enquanto nadava lenta e pesadamente, de um lado para o outro do recife de coral e através dos canais que conduzem às águas profundas, sua “gente do mar” enxameava ao redor dele, sem nenhum medo, em atitude de expectativa, quase roçando a aguda ponta de seu arpão, que conheciam apenas como uma espécie de longa colher dadivosa. Vinham namorar o vidro da máscara Pirelli e, em alguns casos, como certas mulheres provocantes, tomavam intimidades perigosas, roçando em suas pernas e em seus pés.
Parte da mente do Major Smythe estava fixada nessa “gente” brilhante e colorida, mas outra parte se preocupava com uma tarefa que devia realizar naquele dia. Ele cumprimentava os peixes com palavras que não chegava a proferir — “Bom dia, beleza!” Era a sua mensagem a um peixe azul-escuro, salpicado de malhas que semelhavam lentejoulas, de um azul ainda mais intenso e brilhante. É o “peixe-joia”, que parece um vidro estrelado do perfume Vol de Nuit, de Worth. “Sinto muito, hoje não, meu bem”, dizia em silêncio a um peixe-borboleta, esvoaçante, com falsos “olhos” na cauda. “Você está gordo demais, meninão”, afirmava mentalmente a um peixe-papagaio de côr azul-índigo, que devia pesar uns bons cinco quilos. Seus olhos estavam sempre atentos, à procura de sua “gente”. No recife de coral, seu único inimigo que ele matava à primeira vista, era o peixe-escorpião.
O peixe-escorpião habita principalmente nas águas tépidas do sul e o rascasse, que é a base da bouillabaisse, pertence à mesma família. A variedade do Caribe alcança apenas cerca de doze polegadas de comprimento e pesa, talvez, meio quilo. É o mais feio peixe do mar, como se a natureza ao engendrá-lo assim tivesse querido nos fazer uma advertência. Sarapintado de marrom-acinzentado, tem uma cabeçorra felpuda, de feitio cuneiforme. Os olhos são de um vermelho agressivo e consegue dissimular perfeitamente a sua silhueta, em meio dos recifes. Embora sendo um peixe pequeno, sua boca amplamente guarnecida de dentes pontiagudos é tão grande que ele pode engolir, sem dificuldade, a maioria dos peixinhos que vivem ao redor dos corais. Mas a sua arma suprema consiste nas eretas barbatanas dorsais, as primeiros das quais agem por contato como agulhas hipodérmicas, alimentadas por glândulas venenosas, que contêm tetrodotoxina suficiente para matar um homem, se o atingirem num lugar vulnerável — por exemplo, numa artéria, sobre o coração ou nas virilhas. Esse é o único perigo real para quem se aventura a nadar nos recifes. Muito mais perigoso do que as barracudas e os tubarões, é extremamente confiante em sua camuflagem e em suas armas, não fugindo de coisa alguma, exceto de uma exagerada aproximação de um pé humano ou mesmo de um contato direto. Nossas ocasiões, o peixe-escorpião nada apenas alguns metros com seu largo peitoral, bizarramente listrado, parando atento, ou pousado na areia, onde por mimetismo parece uma formação coralina, ou entre as rochas e algas, onde virtualmente desaparece. O Major Smythe estava decidido a encontrar um, arpoá-lo e dá-lo a seu polvo, para ver se este o aceitava ou rejeitava. Queria saber se um dos grandes predadores do oceano reconheceria a periculosidade, o poder mortífero do veneno do outro. Consumiria o polvo a parte inferior do peixe-escorpião, sem lhe tocar nas espinhas letais? Devorá-las-ia também e viria a sofrer um castigo, atingido pelo veneno? Eram essas as perguntas que Bengry, do Instituto, desejava esclarecer. E, agora, sentindo o princípio do fim de sua vida, o solitário de Wavelets pensou que esse poderia ser também o fim do seu querido polvo. E decidiu dar resposta àquelas perguntas, deixando uma pequena lembrança de sua vida fútil e inútil num recanto empoeirado dos arquivos do Instituto.
É que, apenas duas ou três horas antes, o Major Dexter Smythe vira a sua vida transformar-se, passando de mal a pior. Para uma condição tão pior que ele teria muita sorte se, dentro de uma semana — tempo necessário para a troca de telegramas entre o governo da ilha e o Ministério das Colônias, que por sua vez se comunicaria com o Serviço Secreto e, através deste, com a Scotland Yard e a Procuradoria da Justiça, bem como para a transferência do Major Smythe para Londres, sob escolta policial —, na melhor das hipóteses, saísse de um inevitável julgamento condenado à prisão perpétua. E tudo isso por causa de um homem chamado Bond — Comandante James Bond —, que aparecera em Wavelets às 10h 30m da manhã, num táxi que tomara em Kingston. O dia tinha começado normalmente. O Major Smythe acordara de seu sono à base de seconal, engolira dois comprimidos de panadol (o precário estado cardíaco lhe proibira o uso da aspirina), tomara um banho de chuveiro e fora devorar o seu pequeno almoço debaixo de frondosa amendoeira, no jardim, onde passara uma hora, alimentando pássaros famintos com as sobras da refeição. Depois, tomou as doses de anticoagulante receitadas pelo médico e as pílulas contra a alta pressão arterial, matando o tempo com a leitura do Daily Gleaner e fazendo hora para tomar o seu primeiro trago. Antes, esperava até às 11 horas. Mas, por último, fixara esse momento em 10h 30m. Já havia servido dois conhaques com ginger ale — a bebida de quem sabe embebedar-se — quando ouviu o ruído do automóvel que se aproximava. Luana, a governante negra, não tardou a aparecer no jardim para anunciar: — Um cara tá aí para falar com o sinhô, Majó.
— Como se chama?
— Sei não, Majó. Disse não. Só falou que é negócio da casa do gunverno.
O Major Smythe vestia apenas uns velhos shorts de brim caqui e calçava um par de alpercatas. Não podia receber um visitante assim.
— Mande entrar para a sala, Luana, e diga que não demorarei a atendê-lo.
Foi ao seu quarto, vestiu um blusão branco, umas calças e penteou o que ainda lhe restava da antiga cabeleira. Um representante do governo! Que diabo quereria com ele? Mal entrou na sala, viu um homem alto, com um terno de tropical azul, debruçado na janela, olhando para o mar. O Major teve logo a sensação de que ia receber más notícias. E quando o homem se voltou encarando-o atentamente, com os olhos azul-cinza, Smythe teve a certeza de que ele estava, realmente, em missão oficial. E em missão nada amistosa, porque nem ao menos retribuiu o seu cordial sorriso. Um calafrio percorreu a espinha do major. Teriam, então, descoberto tudo?
— Bem, bem, eu sou Smythe. Pelo que sei, o senhor representa o governo da ilha. Como vai Sir Kenneth?
Não houve sequer um aperto de mão. O homem disse:
— Ainda não o vi. Faz só uns três dias que cheguei. Estive procurando ver os pontos pitorescos da ilha. Meu nome é Bond. James Bond. Sou do Ministério da Defesa.
O Major Smythe se lembrava do eufemismo habitualmente usado para designar o Serviço Secreto. E disse, esforçando-se para se mostrar animado e alegre: — Oh... A velha firma? Prefere conversar aqui mesmo, ou no jardim? Que tal um drinque? (E o Major pôs um cubo de gelo num copo, que já tinha nas mãos.) Rum e ginger ale é o mais popular veneno local... Eu, porém, prefiro ginger ale, sem mais nada...
A mentira lhe escapou com facilidade, graças ao automatismo dos alcoólatras. — Não me sirva nada. E falemos aqui mesmo — disse o recém-vindo, recostando-se no parapeito da janela, lavrado em mogno.
O Major Smythe sentou-se, passou uma perna sobre o braço da confortável poltrona e tomou um grande trago de seu copo, que depositou depois ao lado.
— Bem — disse, olhando o visitante com firmeza, cara a cara. — Em que poderei lhe ser útil? Alguém está fazendo sujeiras em North Shore e vocês estão precisando de ajuda? Terei prazer em voltar ao antigo trabalho. Já vai longe o tempo em que fui agente secreto, mas ainda me lembro de algumas técnicas...
— Não se incomoda que eu fume?
O visitante, ao fazer a pergunta, já tinha, nas mãos, uma cigarreira de forma achatada que poderia, no entanto, conter cinquenta cigarros. A esse sinal de fraqueza, comum a ambos, o major se sentiu confortado.
— Em absoluto, meu caro. (E fez um movimento, aproximando o seu isqueiro, aceso.) — Obrigado. (James Bond já havia acendido o cigarro.) Mas não vim aqui para tratar de assuntos locais. O que realmente me trouxe a North Shore foi o desejo de pedir-lhe que se recorde minuciosamente de seu trabalho para o Serviço Secreto, nos últimos dias da II Grande Guerra... (Fez uma pausa, para observar o efeito de suas palavras no Major Smythe) Principalmente quando trabalhou na Divisão de Assuntos Gerais...
O Major Smythe teve um riso breve e escarninho. Ele sabia. Estava absolutamente certo. Mas, quando a revelação saiu dos lábios daquele homem, não pôde conter a gargalhada, reação de alguém que se via golpeado em cheio e procurava dar a impressão contrária.
— Mas, Santo Deus! A velha DAG! Claro que me lembro ainda dela... E de tudo o mais...
Riu de novo. E sentiu aguilhoar-lhe o peito a dor constritiva da angina, provocada pela pressão do que certamente iria acontecer. Enfiou a mão no bolso da calça, despejou o conteúdo de um pequeno frasco no côncavo da outra mão e, depois, colocou sob a língua os pequenos comprimidos brancos de TNT. Observava divertidamente a crescente tensão estampada na fisionomia do visitante, cujos olhos se apertavam para melhor fitá-lo. Não precisava ter medo, não. Não se tratava de pílulas de cianureto ou qualquer outro veneno. O major despistou: — A acidose não o persegue? Não? Pois a azia é o meu tormento. Ontem à noite, fui a uma festa no Jamaica Inn. Preciso me lembrar de que não tenho mais 25 anos... Bem, mas ainda posso voltar para a DAG. Creio que hoje somos bem poucos, os veteranos, não? (Sentiu outra vez a dor no peito.) É alguma coisa a respeito da história oficial da guerra?
James Bond, olhando para a ponta do cigarro, disse que não se tratava exatamente disso.
— Pensava... Porque, não sei se sabe: eu escrevi quase todo o capítulo sobre o Serviço Secreto no War Book... Já faz muito tempo. Mas duvido que haja algo de realmente importante a acrescentar...
— Nem mesmo alguma coisa sobre certa operação no Tirol? Num lugar chamado Ober Aurach, a cerca de uma milha de distância de Kitzbuhel?
A menção desses nomes provocou outro pequeno riso do major:
— Mas essa operação foi uma ninharia... Tudo muito fácil. Aqueles sujeitos da Gestapo tinham mais fanatismo do que competência... Uns bêbedos. Conservaram em seus arquivos todas as pistas. E os entregaram sem nenhum protesto. Esperavam, em troca, a nossa indulgência, talvez... A grande maioria foi enforcada por crimes de guerra, acredito. Levei tudo para o Quartel-General, em Salzburgo. Depois, fui para o vale do Mittersill, à procura de outro esconderijo... O Major Smythe tomou outro trago e acendeu um cigarro. Depois, olhando para cima: — Acho que não há mais nada a acrescentar a essas linhas gerais...
— O senhor, se não me engano, foi nessa época o número 2... O commanding officer era um americano, não? O Coronel King, do Exército do General Patton...
— É verdade, ele foi meu chefe. Excelente sujeito. Usava um bigodinho, coisa que não é muito de americano. Tinha competência indiscutível para escolher vinhos. Um tipo muito civilizado...
— No seu relatório sobre aquela operação, ele afirma que lhe entregou todos os documentos necessários às buscas e investigações preliminares, por ser o senhor o perito em assuntos germânicos do grupo... O senhor devolveu esses papéis a ele com algumas notas ou observações? (James Bond fez uma pausa.) Todos, sem falta de um só?
O Major Smythe ignorou a insinuação:
— É verdade. O que ele me deu foi, principalmente, uma lista de nomes. Indicações recebidas da contra-espionagem. Os agentes da CE em Salzburgo ficaram muito satisfeitos com essas pistas. E puderam aprofundar as buscas em várias direções. Acredito que os originais devem estar arquivados em algum lugar, uma vez que foram usados nos julgamentos de Nuremberg. Isso mesmo! (O Major Smythe parecia forçar a memória.) Posso dizer que os mais alegres anos de minha vida foram os do período em que trabalhei para a DAG. Vinho, mulheres, música! Ah, se eu pudesse viver esse bom tempo outra vez!
Nessa ocasião, o Major Smythe dizia a pura verdade. Ele sustentara uma perigosa e desconfortável luta até 1945. Quando os famosos Comandos ingleses foram formados em 1941, ele se apresentara como voluntário, sendo transferido dos Fuzileiros Reais para o Quartel-General das Operações Combinadas, sob a direção de Lorde Mountbatten. Seu domínio da língua alemã (que lhe vinha da mãe, nascida em Heidelberg) qualificara-o para o invejável lugar de coletor de informações nas operações de Comandos através do canal da Mancha. Tivera a sorte de permanecer durante dois anos nesse trabalho sem um arranhão e de receber a Ordem do Império Britânico, tão ciosa e avaramente distribuída durante a última guerra. E, depois, quando se preparava o golpe final contra a Alemanha, a Divisão de Assuntos Gerais fora formada, em conjunto, pelo Serviço Secreto e os Comandos. O Major Smythe, comissionado, então, como tenente-coronel, recebeu a incumbência de formar a unidade que devia descobrir e limpar os esconderijos dos graúdos da Gestapo e da Abwehr no momento em que se desse o colapso do nazismo. O Serviço Secreto, ao aprovar o plano, insistiu em que fosse acompanhado o avanço americano não por uma única, mas por seis dessas unidades, que operariam na Alemanha e na Áustria no momento da rendição. Eram unidades de vinte homens, cada uma com um carro blindado ligeiro, seis jipes, três camionetas e um caminhão com instalações de radiotelefonia. Controladas por um comando misto, anglo-americano, teriam elas à sua disposição o pessoal do Serviço de Inteligência do Exército, do SIS e do OSS. O Major Smythe fora o número 2 da Força A, destinada a atuar no Tirol, área cheia de bons esconderijos, com fácil acesso à fronteira de outros países. Por isso mesmo, era considerada o valhacouto n.° 1 pelo pessoal da DAG. E, como confessara o Major Smythe a James Bond, a operação fora praticamente uma festa, não tendo sido preciso disparar um só tiro. Exceto, é claro, dois que foram disparados pelo próprio Major Smythe. James Bond perguntou-lhe com ar mais casual do mundo: — O nome de Hannes Oberhauser lhe evoca alguma lembrança?
O Major Smythe franziu o sobrecenho, como que num esforço para se lembrar:
— Não, creio que não... (Fazia 32 graus à sombra, mas ele tremia de frio.) — Permita que eu lhe refresque a memória... No mesmo dia em que os documentos lhe foram entregues para exame, o senhor fez perguntas no Tiefenbrunner Hotel, onde se hospedou, sobre quem era o melhor guia alpino de Kitzbuhel. Foi-lhe indicado o guia Oberhauser. No dia seguinte, o senhor pediu ao seu comandante um dia livre, que lhe foi concedido. Na manhã desse dia, o senhor se dirigiu ao chalé de Oberhauser, prendeu-o com a cláusula de incomunicabilidade, e o levou no seu jipe. Não está se lembrando dessas particularidades?
Como era familiar aquela frase sobre o refrescamento da memória! Quantas vezes o próprio Major Smythe não a usara, como armadilha, para nela colher um mentiroso nazista?... Mas não devia, agora, se afobar. Há anos que estava preparado para alguma coisa nesse estilo. E, por isso, respondeu: — Não... Eu absolutamente não me lembro.
— Oberhauser era um homem de cabelo grisalho e claudicava de uma perna. Falava algum inglês, pois antes da guerra costumava trabalhar como instrutor de esqui, tendo como aprendizes ingleses e americanos...
O Major Smythe olhou impàvidamente para o visitante, fixando-lhe os olhos frios e claros:
— Sinto muito... Mas não posso ajudá-lo. Não me recordo.
James Bond tirou do bolso o pequeno caderno de notas, folheando-o ligeiramente. Deteve-se numa das páginas e disse:
— Vou ajudar um pouco mais a sua memória. Nesse tempo, como arma de uso pessoal, o senhor tinha um revólver regulamentar Webley & Scott, calibre 45, com o número da série 8967/362...
— Sim, era Webley... Um trabucão enorme, difícil de carregar. Espero que tenham adotado algo melhor. Assim como um Luger ou uma Beretta pesada. Mas eu nunca me dei ao trabalho de anotar o número...
— O número é esse mesmo — disse James Bond. — Verifiquei a data em que o recebeu do QG e a data em que o devolveu. O senhor assinou o livro de carga, ambas as vezes...
— Então, deve ter sido essa mesma a minha arma — concordou o Major Smythe, dando de ombros. — Mas... (E agora havia impaciência em sua voz) ... Mas, se me permite a pergunta, em que é que isso pode interessar?
James Bond o olhou com certa curiosidade. Depois falou e não se poderia dizer que o seu tom fosse cruel:
— Bem sabe que isso é fundamental, Smythe. (Fez uma pausa e pareceu refletir.) Façamos um acordo. Eu irei ao jardim, por uns dez minutos, pouco mais ou menos. Dou-lhe tempo para se lembrar de tudo com exatidão. Quando se tiver lembrado, me chame... (E acrescentou, a sério:) — Tornará as coisas bem mais fáceis para você a reconstituição do caso em suas próprias palavras... (Caminhou para a porta do jardim, mas se voltou.) — Creio que se trata apenas de pingar os ii e cortar os tt... Quero que saiba que, antes de vir aqui esta manhã, tive uma boa conversa com os irmãos Fu, em Kingston...
0 Major Smythe sentiu-se de certa forma desoprimido. Acabara a batalha das insinuações e das evasivas, a tentativa de despistar e de inventar álibis. Era o fim das negaças. Se o tal James Bond conversara com os irmãos Fu, sem dúvida arrancara alguma coisa dos chineses. De modo algum quereriam eles qualquer complicação com as autoridades. E, além do mais, ainda tinham uma parte da muamba em seu poder. O Major se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale, quase meio a meio. O melhor era tomar uns bons tragos, enquanto ainda podia! O futuro não lhe ofereceria muitas oportunidades como essa. Voltou para a poltrona, acendeu o vigésimo cigarro do dia e olhou para o relógio. Eram 11h30m. Se pudesse livrar-se daquele importuno dentro de uma hora, ainda poderia ir ver a sua “gente”. Sentou-se e bebeu, mergulhado em seus pensamentos. Poderia prolongar ou abreviar a sua história, se adicionasse alguma coisa sobre o estado do tempo, o perfume das flores dos pinheiros que aspirara nas montanhas... Mas poderia omitir a paisagem e abreviá-la. Preferiu abreviar. Viu-se na cama dupla, no Tiefenbrunner Hotel, com montanhas de papelório para examinar. Não procurava nada de especial. Apenas apanhava, a esmo, um documento aqui, outro ali, concentrando-se principalmente nos que tinham o timbre, em vermelho, de KOMMANDOSACHE, HOECHST VERTRAULICH. Não existiam muitos destes, que eram quase sempre informações confidenciais sobre nazistas graúdos, sobre códigos aliados que os alemães tinham decifrado e sobre esconderijos secretos. Desde que estes eram um dos principais objetivos da Força A, o Major Smythe os havia examinado com particular excitação — eram esconderijos de alimentos, de explosivos, de armas, de fichários de espionagem e do pessoal da Gestapo, uma imensa rede de arrasto com toda a espécie de peixes! E, ainda, no fim de toda a papelada, um simples envelope lacrado, com o aviso: PARA SER ABERTO APENAS EM CASO DE EMERGÊNCIA. O envelope continha uma só folha de papel. Não havia assinatura sob as palavras escritas em letra vermelha.
No cabeçalho, havia a palavra VALUTA.
Embaixo, lia-se: WILDE KAISER. FRANZISKANER HALT. 100 M. OESTLICH STEINHUGEL. WAFFENKISTE. ZWEI BAR 24 KT. e uma lista de medidas em centímetros. O Major Smythe afastou as mãos, como se numa história de pescaria, estivesse mostrando as dimensões de um peixe. Duas barras de ouro de 24 quilates, cada uma, quase tão grande como dois tijolos! E pensar que um simples soberano inglês, de apenas dezoito quilates, valia naquele momento entre duas e três libras! As duas barras de ouro representam uma verdadeira fortuna! Quarenta, cinquenta mil libras, era quanto valeriam! Não tinha ainda ideia alguma a respeito, mas — era o melhor — riscou um fósforo e acendeu o papel e o envelope, reduzindo-os a cinzas, que colocou na pia e fez desaparecer sob um jorro d’água. Apanhou, depois, o mapa da área, em grande escala, preparado pela artilharia austríaca e, um momento depois, tinha sob o dedo o Franziskaner Halt. Nele estava indicado um abrigo alpino desabitado, refúgio de montanhistas, numa espécie de pequeno platô logo abaixo do mais alto pico das montanhas do Kaiser, essa imensa massa de pedras dentadas que fecha, ao norte, o horizonte de Kitzbuhel. E ali, onde o seu dedo repousava, devia existir o marco de pequenas pedras amontoadas. Significava isso que uma fortuna estava ao seu alcance, a apenas dez milhas de distância e, talvez, a apenas cinco horas de subida!
O princípio tinha sido tal como James Bond descrevera. Fora ao chalé de Oberhauser às 4 horas da madrugada. Prendera-o e dissera a seus familiares, todos em lágrimas, que o ia levar para o centro de interrogatórios, em Munique. Se o guia estivesse isento de culpa, estaria de volta dentro de uma semana. Se a família fizesse algum protesto isso só poderia prejudicar Oberhauser, tornando as coisas ainda mais difíceis. Smythe se recusara a declinar o seu nome e tivera a precaução de ocultar o número do jipe. Dentro de 24 horas, a Força A deixaria o lugar e o governo militar se instalaria em Kitzbuhel. E então o incidente seria sepultado no esquecimento pelo tumulto e pelas complicações decorrentes da própria ocupação militar.
Oberhauser revelou-se um excelente sujeito, disposto a cooperar, assim que perdeu o medo inicial. E quando Smythe começou a lhe falar de alpinismo e de esqui se tornou uma camaradão. O caminho passava ao sopé das montanhas, rumo a Kufstein. Smythe dirigia lentamente, fazendo comentários admirativos sobre os picos em que já se refletiam as primeiras luzes matinais. Finalmente, junto à base do Pico do Ouro, voltou-se para Oberhauser e lhe disse: — Oberhauser, você é uma pessoa com quem simpatizo. Temos muitos interesses em comum e, pela sua conversa, estou convencido de que não cooperou com os nazistas. Eu lhe explico o que pretendo fazer por você. Passaremos o dia escalando as montanhas do Kaiser e, depois, eu o levo de volta para Kitzbuhel. Direi, então, ao meu chefe que, interrogado em Munique, você foi imediatamente liberado... Que me diz a isso? — Rematou, com um sorriso.
O homem quase derramou lágrimas de gratidão. Mas era preciso que ele tivesse, em seu poder, um papel mostrando que estava isento de culpa? Certamente. A assinatura do Major Smythe seria mais que suficiente. Feito o pacto, o jipe foi dirigido através de um atalho e ficou escondido, longe da estrada, entre os pinheiros. Smythe estava preparado para a excursão, sem nada sob a jaqueta, vestindo um short e calçando botas de paraquedistas, fornecidas à unidade pelos americanos. A carga que levava era apenas o revólver Webley & Scott, absolutamente necessário, pois afinal de contas Oberhauser era um inimigo. O guia vestia a sua melhor roupa e calçava as suas botas alpinas. Não estava preocupado com a subida. E assegurou ao Major Smythe que não seria necessário usar nem cordas, nem ganchos, até chegarem à cabana, em que poderiam parar para descansar. Era aí o Franziskaner Halt.
— É esse o nome? — Perguntou o Major.
— Sim. E um pouco abaixo há uma pequena geleira. Passaremos ao largo, pois nela há muitas fendas.
— Assim faremos... — Disse o Major Smythe, pensativamente, examinando a parte posterior da cabeça de Oberhauser, por onde o suor escorria. Ora, afinal, ele era apenas um reles comedor de chucrute, talvez da mesma laia que os nazistas. Seria tão fácil liquidá-lo... A única coisa que preocupava o major era trazer a muamba pela montanha abaixo. Poderia colocar as barras de ouro às costas. Ou arrastá-las — por que não? — Durante grande parte do percurso, na sua caixa de munição. Longa e tortuosa foi a caminhada, montanha acima. Quando deixaram para trás os pinheiros, já o sol se alteava, dardejante. A princípio, caminharam entre rochas e entulhos, em constantes zigue-zagues. Sem o auxílio de um guia, nunca conseguiria o major chegar ao cimo do penhasco cinzento e ameaçador, que parecia tocar o azul do céu. Ambos caminhavam agora nus da cintura para cima, banhados em suor, que lhes escorria pelas pernas para dentro das botas. Embora o guia claudicasse, subiam com relativa rapidez. Quando pararam, para um drinque e um breve descanso, Oberhauser se congratulou com Smythe por estar em tão boa forma. O major, com a cabeça escaldando, tantos eram os seus planos, disse ríspida e mentirosamente que todos os ingleses eram cobras, em matéria de escalar montanhas. Subir ao penhasco não era difícil. Se lá havia uma cabana, é porque o material para a sua construção fora levado para ali nos ombros de alguém. Em certos lugares, pontos de apoio tinham sido cavados na rocha. E havia, ocasionalmente, grampos de ferro, em que os alpinistas podiam se agarrar. Mas achar as passagens exatas era o mesmo que descobrir os segredos de um labirinto. Ainda bem que trouxera o guia. Este, em certo momento, sondando o chão, para verificar se estava firme, fizera correr pequenina avalancha de pedras afrouxadas por muitos anos de ventanias e nevascas. Elas se precipitaram, com estrondo, lá embaixo. O Major Smythe pensou logo no barulho, que poderia despertar atenção. Perguntou se não haveria gente nas proximidades.
— Qual! Ninguém... A não ser nas proximidades de Kufstein... — Disse Oberhauser, apontando uma larga extensão, ao redor. — Aqui há pouca água e nenhum pasto. E, desde o princípio da guerra... (Interrompeu-se, deixando a frase incompleta.) Ladearam a geleira e continuaram a subida. A vista do Major Smythe media a extensão e a largura das fendas, por onde iriam passar. A uns cem pés acima, viram, então, a cabana, batida pelas intempéries. O major mediu o ângulo do declive. Era quase uma linha reta. Agora? Ou depois? Preferiu que fosse depois. O caminho para a última parte da travessia ainda não estava claramente definido. Alcançaram a cabana ao fim de cinco horas. O Major Smythe disse que queria aliviar um pouco a bexiga e caminhou para o leste, sem dar atenção alguma aos belos panoramas da Áustria e da Baviera, que se estendiam por cinquenta milhas, sob o sol estival. Ele contava os passos com extremo cuidado. Exatamente a 120 havia o montículo de pedras, talvez um marco carinhosamente erguido em memória de um alpinista desaparecido. Era isso o que qualquer pessoa normalmente pensaria. Mas o Major Smythe, sabendo que não se tratava disso, ardia de desejos de desfazer a pequena pirâmide de pedras soltas. Mas, em vez de fazê-lo, tirou do coldre o seu Webley & Scott, soltou a trava e examinou o cilindro. E voltou, então, rumo à cabana, onde Oberhauser entrara. Fazia frio, a tal altura — uns bons 3 mil metros —, e o guia acendia o fogo. Smythe controlou o seu horror e pediu: — Oberhauser, venha me mostrar as paisagens. Há vistas maravilhosas, aqui em cima!
— Com prazer, major — disse o guia, seguindo Smythe para fora da cabana. Uma vez lá fora, tirou do bolso um papel, no qual havia alguma coisa embrulhada. Ofereceu-a ao major, acrescentando: — Isto é o que chamamos Soldat. É uma salsicha defumada. Dura, mas muito saborosa. (Sorriu.) Parece com aquilo que os americanos comem nos filmes de Far-West. Como é mesmo o nome?
— Charque — disse o major. Depois — e mais tarde se arrependeu de o ter privado da pequena refeição — aconselhou: — Deixe isso na cabana. Depois, viremos comer. Será que daqui podemos ver Innsbruck? Mostre-me para que lado é...
Oberhauser entrou na cabana e logo saiu de novo. O major caminhou por trás dele, que falava e gesticulava, mostrando aqui o pico de uma montanha, além a torre de uma igreja distante. Chegaram ao lugar acima da geleira. O major tirou então o revólver e, a uma distância de pouco mais de meio metro, disparou dois tiros na base do crânio de Hannes Oberhauser. Que nem estrebuchou. Caiu já morto. O impacto das balas atirou o guia na borda do precipício. O Major Smythe o empurrou para baixo. O corpo bateu em duas anfractuosidades do penhasco e caiu em cima da geleira. Mas sem escorregar para as fendas. Ficou a meio do caminho, junto a um monte de neve antiga, acumulada.
— Com os diabos! — Disse o major.
Os estampidos repercutiram naquelas alturas como se fossem tiros de morteiros e o eco os repetiu a distância. O Major Smythe lançou um olhar sobre a figura imóvel, estendida junto ao monte de neve, e logo correu para o montículo de pedra. Devia cuidar das coisas mais importantes em primeiro lugar! Começou a afastar as pedras, com uma pressa diabólica, atirando as mais roliças pela montanha abaixo. Feriu-se em arestas cortantes e, quando deu pela coisa, sua mão estava sangrando, mas não ligou importância. Um pouco de sangue, que é que tinha? Precisava era andar depressa, depressa — e continuou a escavar, furiosamente. O monte de pedra desaparecia. E então! Sim! Lá estava alguma coisa que parecia ser uma tampa metálica. Mais algumas pedras foram retiradas e apareceu uma velha caixa de munições da Wehrmacht. Em cima dela, ainda havia traços de seu antigo letreiro. O Major Smythe soltou um grunhido de alegria. Sentou-se sobre uma pedra e sua imaginação entrou em órbita, descrevendo círculos sobre carros Rolls Royce, iate em Monte Carlo, apartamentos de cobertura, joias de Cartier, champanha, caviar e, no meio de tudo, uma vez que amava o golfe, uma nova coleção de bastões metálicos de Henry Cotton.
Embriagado com esses sonhos, o Major Smythe ficou ali sentado um bom quarto de hora fitando a caixa metálica, como que fascinado. Depois, olhou para o relógio e levantou-se. Não devia perder tempo. Tinha que eliminar as pistas. A caixa tinha alças de ambos os lados. O major esperara que fosse pesada. Mentalmente, ele a havia comparado à coisa mais pesada que até então carregara — um salmão de vinte quilos que pescara na Escócia, pouco antes da guerra —, mas a caixa tinha mais do dobro desse peso. E ele só com muita dificuldade a retirara do seu leito entre as pedras para colocá-la sobre a rala relva alpina. Amarrou, então, o seu lenço numa das alças e, pondo-a desajeitadamente no ombro, levou-a para a cabana. Sentou-se, então, na soleira da porta e, sem despregar inteiramente os olhos da caixa, cortou a salsicha defumada de Oberhauser com seus dentes vigorosos e começou a comê-la, pensando como havia de transportar as suas 50 mil libras — era esse o seu cálculo — pela montanha abaixo. A salsicha era, realmente, uma ótima refeição montanhesa, dura, gorda, rescendendo a tempero forte à base de alho. Partículas dela ficaram incômodamente presas aos seus dentes. Limpou-os com um palito de prata. Sua preocupação era fazer desaparecer todos os vestígios de sua presença. De agora em diante, era um criminoso. Tão criminoso como alguém que tivesse roubado um banco e assassinado o vigia. Precisava lembrar-se disso! Se não se lembrasse, teria a morte, em vez das coisas maravilhosas com que sonhava. Precisava ter infinita cautela. E teria! Seria, para sempre, rico e feliz. Depois de tomar precauções ridiculamente minuciosa para não deixar na cabana o menor traço de sua passagem, arrastou a caixa metálica para a borda do precipício, distante da geleira, e de lá atirou-a embaixo, rezando para que chegasse intacta. A caixa cinzenta rolou no espaço, bateu numa ponta de pedra, continuou a descer, chocou-se cem metros abaixo com outra anfractuosidade e, por fim, atingiu o chão de um entulho, onde parou. O Major Smythe não podia vê-la, de onde estava, e não podia saber se estava aberta. Tanto fazia que estivesse ou não! A própria montanha poderia tê-lo poupado ao trabalho de abri-la...
Depois de um último olhar em torno, ele começou a descer, experimentando com prudência a solidez de cada grampo e de cada ponto de apoio, antes de firmar-se com todo o peso de seu corpo. Na descida, sua vida tinha um valor muito maior que na subida. Caminhou para a geleira e atravessou a passagem em que a neve começava a derreter-se formando sobre o gelo uma mancha escura. Dentro de mais alguns dias, toda a neve estaria derretida. Chegou até onde estava o cadáver. Tinha visto muitos, durante a guerra. Ossos fraturados e carnes sangrentas nada significavam para ele. Arrastou os restos de Oberhauser para a fenda mais próxima e, depois, atirou em cima a neve, acumulada nas bordas. Enterrado o corpo, mostrou-se satisfeito com o seu trabalho, tendo, ao voltar, o cuidado de recolocar os pés sobre as mesmas pegadas que fizera na vinda. E então empreendeu à descida, ao encontro da caixa metálica. Sim, como esperava, a montanha a havia aberto para ele! Com um gesto despreocupado, desfez os invólucros, em papel empregado na fabricação de cartuchos. As duas grandes barras de metal cintilaram ao sol. Tinham ambas as mesmas marcas: a cruz suástica num círculo, sob uma águia, e a data de 1943, símbolos usados pelo Reichsbank. O Major Smythe fez um movimento de aprovação com a cabeça. Recompôs os invólucros e, como a lingueta da tampa, que saltara, não fechasse mais a tampa, teve de bater-lhe com uma pedra, até voltar ao lugar. Passou, então, numa das alças o cinturão em que costumava conduzir o revólver, e continuou a descida, arrastando-a atrás de si. Era então 1 hora da tarde e o sol lhe queimava o busto nu, fritando-o em seu próprio suor. Seus ombros, avermelhados, estavam em fogo. A soalheira também queimava o seu rosto. Com os diabos! Parou junto a uma cascata que descia dos gelos da montanha, embebeu o lenço em água fria e o colocou na cabeça. Bebeu, depois, largamente e prosseguiu, praguejando, às vezes com fúria, quando em alguns declives mais fortes a caixa de metal o atropelava, machucando-lhe os calcanhares. Mas esses desconfortos, as queimaduras e os arranhões, não eram nada comparados com o que ele ainda teria que enfrentar no vale, onde o terreno era nivelado. Até então, tivera a lei da gravidade a seu lado. Mas na última milha é que seria um problema carregar aquela infernal muamba! 0 Major Smythe sentia as costas e o pescoço em fogo. Disse, porém, a si mesmo, para encorajar-se: — Bolas! Il faut souffrir pour être millionaire!
CONTINUA
O olho do molusco o observava cuidadosamente, de sua loca, no recife de coral. Agora, a ponta de um dos oito tentáculos avançava uma ou duas polegadas, ondulando hesitantemente, como se fizesse uma vaga exploração com as ventosas rosadas. Dexter Smythe sorriu com satisfação. Se lhe fosse dado o tempo necessário, ao menos um mês mais, além dos dois durante os quais se acamaradara com o polvo, decerto domesticaria inteiramente o fascinante animal. Mas temia que não chegasse a viver tanto. Devia aproveitar aquela oportunidade para se aproximar do molusco e lhe oferecer a mão de amigo. Sim... Em vez de limitar-se a lhe dar comida, na ponta de um arpão, devia, por assim dizer, apertar-lhe a mão, não era mesmo? “Não, ainda não, meu negrinho — pensou —, ainda não posso ter confiança em você...” Com toda a certeza, se fosse imprudente, outros tentáculos sairiam da loca lhe envolveriam o braço. E, puxado pelo polvo, a válvula de corliça da máscara se fecharia automaticamente. Ficaria sufocado. Ou, se o polvo a arrancasse, na certa morreria afogado. Quando muito, com um golpe rápido e feliz do arpão, poderia ferir o octópode, mas para matá-lo seria preciso muito mais do que isso. Não... Talvez mais tarde. Agora, seria o mesmo que enfrentar uma rolêta-russa, com cinco chances contra e uma só a favor. Poderia, mesmo, representar um meio rápido, eficaz e bizarro de pôr termo aos seus aborrecimentos! Mas, agora... não! Isso deixaria insolúvel uma questão sumamente interessante. E ele havia prometido resolvê-la... Dera a sua palavra ao simpático Professor Bengry, do Instituto Biológico Marinho. Dexter Smythe afastou-se do recife de coral, nadando lentamente. Seus olhos atentos buscavam, com empenho, a forma estranha e sinistra do peixe-escorpião, ou, como diria Bengry, do Scorpaena Plumieri.
O Major Dexter Smythe, condecorado com a Ordem do Império Britânico, oficial do Corpo de Fuzileiros Reais (reformado), era o que restava de um outrora bravo militar e homem encantador, que fazia conquistas sexuais fáceis em todos os meios em que atuava fardado. Principalmente entre o pessoal das organizações militares femininas — as Wrens, as Wracs e as moças do ATS, incumbidas das comunicações e do secretariado das forças-tarefas especiais, de que ele fizera parte, no fim de sua carreira. Tinha agora cinquenta e quatro anos. Estava ligeiramente calvo. E sua barriga se acomodava com certa dificuldade nos apertados limites do calção de banho. Além disso, tivera já duas complicações coronárias. Seu médico era Jimmy Graves, que fora um dos seus parceiros no jogo de pôquer de cacife altíssimo, no Queen’s Club, logo que ele chegara, com a mulher, à Jamaica. Meio a sério, meio brincando, o médico havia descrito a última dessas complicações, ocorrida um mês antes, como sendo a “segunda advertência”. Mas, em suas roupas bem talhadas, ocultas as muitas varizes às vistas indiscretas, com a barriga comprimida por uma larga cinta que o imaculado colête-faixa disfarçava, o antigo militar ainda fazia boa figura, num coquetel ou num jantar, em North Shore. Para seus amigos e vizinhos dessa praia, era um mistério o motivo pelo qual desafiava ele as recomendações do médico. Este lhe impusera uma dieta de uísque e de cigarros, limitados respectivamente a dois e a dez por dia, mas ele insistia em fumar como uma chaminé e em ir sempre para a cama bêbedo. Agradàvelmente bêbedo.
A verdade é que Dexter Smythe tinha chegado à fronteira em que o instinto da vida começa a ceder ao desejo da morte. As origens desse estado de espírito eram muitas e complexas. Estava irremediavelmente amarrado à Jamaica. A indolência tropical apoderara-se gradualmente de seu organismo, de tal modo que, se aparentava ser uma sólida peça de madeira de lei, interiormente não era mais que um tronco fofo, corroído pelos cupins. Tinha um exterior envernizado, mas ilusório. A preguiça, o relaxamento, o sentimento de culpas antigas, o total desgosto em relação a si mesmo haviam erodido o seu cerne, transformando-o em pó de serragem. Desde a morte de Mary, dois anos antes, não tinha mais amado a ninguém. Nem sequer estava certo de que realmente a havia amado. Sabia, porém, que sentia a ausência dela a todas as horas do dia, que sentia falta de seu afeto e de sua alegria, de sua presença desmazelada, barulhenta e, por vezes, irritante. Enquanto devorava canapés e bebia martinis da ralé internacional que frequentava em North Shore, ele se apercebia de que não nutria por essa gente outro sentimento que não fosse o de completo desprezo. Poderia, talvez, ter feito amigos entre elementos mais respeitáveis, os fazendeiros do interior da ilha, os proprietários do litoral, os representantes das profissões liberais e do mundo político local. Mas isso significaria voltar a ter propósitos sérios numa vida em que a preguiça e o embotamento espiritual limitaram-se ao fundo das garrafas. Tal coisa estava inteiramente fora de suas cogitações.
O Major Smythe estava mortalmente entendiado e, se não fosse por determinado motivo, já teria há muito tempo engolido o vidro de barbitúricos que com facilidade adquirira a um dos médicos da ilha. O fio que ainda o prendia à vida era muito tênue. Os grandes bebedores tendem a exagerar o seu temperamento básico, que é sempre um destes quatro: sanguíneo, fleumático, colérico e melancólico. O bêbedo sanguíneo torna-se alegre até à histeria ou à idiotia. O fleumático afunda-se num abatimento sombrio. O colérico é o ébrio turbulento das caricaturas, que passa a maior parte do tempo na prisão, por ter quebrado coisas ou agredido pessoas. E o melancólico é o beberrão que tem pena de si mesmo, geralmente vomitando ou se desmanchando em prantos. O Major Smythe era um melancólico, com a curiosa e divertida fantasia de fazer relações pessoais com aves, insetos e peixes existentes nos cinco acres de Wavelet, isto é, de Ondinhas, nome sintomático que dera à sua pequena villa. A praia e o recife de coral, além dela, eram os seus lugares prediletos. E, entre todos os seres, preferia os peixes. Referia-se a eles como à “gente do mar” e, uma vez que os peixes, como as aves, são fiéis aos seus recantos, ao fim de dois anos ele os conhecia a todos intimamente, amava-os e acreditava ser retribuído por eles com igual amor.
Certo, eles o conheciam, como os animais de um Jardim Zoológico conhecem os seus tratadores. Como estes, ele lhes ia levar o alimento diário, arrecadando pedacinhos de algas e revolvendo a areia o os seixos do fundo do mar, para ajudar os que se alimentam nos lugares mais profundos. Desenterrava ovos e ouriços para os pequenos carnívoros e levava sobras de carne para os grandes. E agora, enquanto nadava lenta e pesadamente, de um lado para o outro do recife de coral e através dos canais que conduzem às águas profundas, sua “gente do mar” enxameava ao redor dele, sem nenhum medo, em atitude de expectativa, quase roçando a aguda ponta de seu arpão, que conheciam apenas como uma espécie de longa colher dadivosa. Vinham namorar o vidro da máscara Pirelli e, em alguns casos, como certas mulheres provocantes, tomavam intimidades perigosas, roçando em suas pernas e em seus pés.
Parte da mente do Major Smythe estava fixada nessa “gente” brilhante e colorida, mas outra parte se preocupava com uma tarefa que devia realizar naquele dia. Ele cumprimentava os peixes com palavras que não chegava a proferir — “Bom dia, beleza!” Era a sua mensagem a um peixe azul-escuro, salpicado de malhas que semelhavam lentejoulas, de um azul ainda mais intenso e brilhante. É o “peixe-joia”, que parece um vidro estrelado do perfume Vol de Nuit, de Worth. “Sinto muito, hoje não, meu bem”, dizia em silêncio a um peixe-borboleta, esvoaçante, com falsos “olhos” na cauda. “Você está gordo demais, meninão”, afirmava mentalmente a um peixe-papagaio de côr azul-índigo, que devia pesar uns bons cinco quilos. Seus olhos estavam sempre atentos, à procura de sua “gente”. No recife de coral, seu único inimigo que ele matava à primeira vista, era o peixe-escorpião.
O peixe-escorpião habita principalmente nas águas tépidas do sul e o rascasse, que é a base da bouillabaisse, pertence à mesma família. A variedade do Caribe alcança apenas cerca de doze polegadas de comprimento e pesa, talvez, meio quilo. É o mais feio peixe do mar, como se a natureza ao engendrá-lo assim tivesse querido nos fazer uma advertência. Sarapintado de marrom-acinzentado, tem uma cabeçorra felpuda, de feitio cuneiforme. Os olhos são de um vermelho agressivo e consegue dissimular perfeitamente a sua silhueta, em meio dos recifes. Embora sendo um peixe pequeno, sua boca amplamente guarnecida de dentes pontiagudos é tão grande que ele pode engolir, sem dificuldade, a maioria dos peixinhos que vivem ao redor dos corais. Mas a sua arma suprema consiste nas eretas barbatanas dorsais, as primeiros das quais agem por contato como agulhas hipodérmicas, alimentadas por glândulas venenosas, que contêm tetrodotoxina suficiente para matar um homem, se o atingirem num lugar vulnerável — por exemplo, numa artéria, sobre o coração ou nas virilhas. Esse é o único perigo real para quem se aventura a nadar nos recifes. Muito mais perigoso do que as barracudas e os tubarões, é extremamente confiante em sua camuflagem e em suas armas, não fugindo de coisa alguma, exceto de uma exagerada aproximação de um pé humano ou mesmo de um contato direto. Nossas ocasiões, o peixe-escorpião nada apenas alguns metros com seu largo peitoral, bizarramente listrado, parando atento, ou pousado na areia, onde por mimetismo parece uma formação coralina, ou entre as rochas e algas, onde virtualmente desaparece. O Major Smythe estava decidido a encontrar um, arpoá-lo e dá-lo a seu polvo, para ver se este o aceitava ou rejeitava. Queria saber se um dos grandes predadores do oceano reconheceria a periculosidade, o poder mortífero do veneno do outro. Consumiria o polvo a parte inferior do peixe-escorpião, sem lhe tocar nas espinhas letais? Devorá-las-ia também e viria a sofrer um castigo, atingido pelo veneno? Eram essas as perguntas que Bengry, do Instituto, desejava esclarecer. E, agora, sentindo o princípio do fim de sua vida, o solitário de Wavelets pensou que esse poderia ser também o fim do seu querido polvo. E decidiu dar resposta àquelas perguntas, deixando uma pequena lembrança de sua vida fútil e inútil num recanto empoeirado dos arquivos do Instituto.
É que, apenas duas ou três horas antes, o Major Dexter Smythe vira a sua vida transformar-se, passando de mal a pior. Para uma condição tão pior que ele teria muita sorte se, dentro de uma semana — tempo necessário para a troca de telegramas entre o governo da ilha e o Ministério das Colônias, que por sua vez se comunicaria com o Serviço Secreto e, através deste, com a Scotland Yard e a Procuradoria da Justiça, bem como para a transferência do Major Smythe para Londres, sob escolta policial —, na melhor das hipóteses, saísse de um inevitável julgamento condenado à prisão perpétua. E tudo isso por causa de um homem chamado Bond — Comandante James Bond —, que aparecera em Wavelets às 10h 30m da manhã, num táxi que tomara em Kingston. O dia tinha começado normalmente. O Major Smythe acordara de seu sono à base de seconal, engolira dois comprimidos de panadol (o precário estado cardíaco lhe proibira o uso da aspirina), tomara um banho de chuveiro e fora devorar o seu pequeno almoço debaixo de frondosa amendoeira, no jardim, onde passara uma hora, alimentando pássaros famintos com as sobras da refeição. Depois, tomou as doses de anticoagulante receitadas pelo médico e as pílulas contra a alta pressão arterial, matando o tempo com a leitura do Daily Gleaner e fazendo hora para tomar o seu primeiro trago. Antes, esperava até às 11 horas. Mas, por último, fixara esse momento em 10h 30m. Já havia servido dois conhaques com ginger ale — a bebida de quem sabe embebedar-se — quando ouviu o ruído do automóvel que se aproximava. Luana, a governante negra, não tardou a aparecer no jardim para anunciar: — Um cara tá aí para falar com o sinhô, Majó.
— Como se chama?
— Sei não, Majó. Disse não. Só falou que é negócio da casa do gunverno.
O Major Smythe vestia apenas uns velhos shorts de brim caqui e calçava um par de alpercatas. Não podia receber um visitante assim.
— Mande entrar para a sala, Luana, e diga que não demorarei a atendê-lo.
Foi ao seu quarto, vestiu um blusão branco, umas calças e penteou o que ainda lhe restava da antiga cabeleira. Um representante do governo! Que diabo quereria com ele? Mal entrou na sala, viu um homem alto, com um terno de tropical azul, debruçado na janela, olhando para o mar. O Major teve logo a sensação de que ia receber más notícias. E quando o homem se voltou encarando-o atentamente, com os olhos azul-cinza, Smythe teve a certeza de que ele estava, realmente, em missão oficial. E em missão nada amistosa, porque nem ao menos retribuiu o seu cordial sorriso. Um calafrio percorreu a espinha do major. Teriam, então, descoberto tudo?
— Bem, bem, eu sou Smythe. Pelo que sei, o senhor representa o governo da ilha. Como vai Sir Kenneth?
Não houve sequer um aperto de mão. O homem disse:
— Ainda não o vi. Faz só uns três dias que cheguei. Estive procurando ver os pontos pitorescos da ilha. Meu nome é Bond. James Bond. Sou do Ministério da Defesa.
O Major Smythe se lembrava do eufemismo habitualmente usado para designar o Serviço Secreto. E disse, esforçando-se para se mostrar animado e alegre: — Oh... A velha firma? Prefere conversar aqui mesmo, ou no jardim? Que tal um drinque? (E o Major pôs um cubo de gelo num copo, que já tinha nas mãos.) Rum e ginger ale é o mais popular veneno local... Eu, porém, prefiro ginger ale, sem mais nada...
A mentira lhe escapou com facilidade, graças ao automatismo dos alcoólatras. — Não me sirva nada. E falemos aqui mesmo — disse o recém-vindo, recostando-se no parapeito da janela, lavrado em mogno.
O Major Smythe sentou-se, passou uma perna sobre o braço da confortável poltrona e tomou um grande trago de seu copo, que depositou depois ao lado.
— Bem — disse, olhando o visitante com firmeza, cara a cara. — Em que poderei lhe ser útil? Alguém está fazendo sujeiras em North Shore e vocês estão precisando de ajuda? Terei prazer em voltar ao antigo trabalho. Já vai longe o tempo em que fui agente secreto, mas ainda me lembro de algumas técnicas...
— Não se incomoda que eu fume?
O visitante, ao fazer a pergunta, já tinha, nas mãos, uma cigarreira de forma achatada que poderia, no entanto, conter cinquenta cigarros. A esse sinal de fraqueza, comum a ambos, o major se sentiu confortado.
— Em absoluto, meu caro. (E fez um movimento, aproximando o seu isqueiro, aceso.) — Obrigado. (James Bond já havia acendido o cigarro.) Mas não vim aqui para tratar de assuntos locais. O que realmente me trouxe a North Shore foi o desejo de pedir-lhe que se recorde minuciosamente de seu trabalho para o Serviço Secreto, nos últimos dias da II Grande Guerra... (Fez uma pausa, para observar o efeito de suas palavras no Major Smythe) Principalmente quando trabalhou na Divisão de Assuntos Gerais...
O Major Smythe teve um riso breve e escarninho. Ele sabia. Estava absolutamente certo. Mas, quando a revelação saiu dos lábios daquele homem, não pôde conter a gargalhada, reação de alguém que se via golpeado em cheio e procurava dar a impressão contrária.
— Mas, Santo Deus! A velha DAG! Claro que me lembro ainda dela... E de tudo o mais...
Riu de novo. E sentiu aguilhoar-lhe o peito a dor constritiva da angina, provocada pela pressão do que certamente iria acontecer. Enfiou a mão no bolso da calça, despejou o conteúdo de um pequeno frasco no côncavo da outra mão e, depois, colocou sob a língua os pequenos comprimidos brancos de TNT. Observava divertidamente a crescente tensão estampada na fisionomia do visitante, cujos olhos se apertavam para melhor fitá-lo. Não precisava ter medo, não. Não se tratava de pílulas de cianureto ou qualquer outro veneno. O major despistou: — A acidose não o persegue? Não? Pois a azia é o meu tormento. Ontem à noite, fui a uma festa no Jamaica Inn. Preciso me lembrar de que não tenho mais 25 anos... Bem, mas ainda posso voltar para a DAG. Creio que hoje somos bem poucos, os veteranos, não? (Sentiu outra vez a dor no peito.) É alguma coisa a respeito da história oficial da guerra?
James Bond, olhando para a ponta do cigarro, disse que não se tratava exatamente disso.
— Pensava... Porque, não sei se sabe: eu escrevi quase todo o capítulo sobre o Serviço Secreto no War Book... Já faz muito tempo. Mas duvido que haja algo de realmente importante a acrescentar...
— Nem mesmo alguma coisa sobre certa operação no Tirol? Num lugar chamado Ober Aurach, a cerca de uma milha de distância de Kitzbuhel?
A menção desses nomes provocou outro pequeno riso do major:
— Mas essa operação foi uma ninharia... Tudo muito fácil. Aqueles sujeitos da Gestapo tinham mais fanatismo do que competência... Uns bêbedos. Conservaram em seus arquivos todas as pistas. E os entregaram sem nenhum protesto. Esperavam, em troca, a nossa indulgência, talvez... A grande maioria foi enforcada por crimes de guerra, acredito. Levei tudo para o Quartel-General, em Salzburgo. Depois, fui para o vale do Mittersill, à procura de outro esconderijo... O Major Smythe tomou outro trago e acendeu um cigarro. Depois, olhando para cima: — Acho que não há mais nada a acrescentar a essas linhas gerais...
— O senhor, se não me engano, foi nessa época o número 2... O commanding officer era um americano, não? O Coronel King, do Exército do General Patton...
— É verdade, ele foi meu chefe. Excelente sujeito. Usava um bigodinho, coisa que não é muito de americano. Tinha competência indiscutível para escolher vinhos. Um tipo muito civilizado...
— No seu relatório sobre aquela operação, ele afirma que lhe entregou todos os documentos necessários às buscas e investigações preliminares, por ser o senhor o perito em assuntos germânicos do grupo... O senhor devolveu esses papéis a ele com algumas notas ou observações? (James Bond fez uma pausa.) Todos, sem falta de um só?
O Major Smythe ignorou a insinuação:
— É verdade. O que ele me deu foi, principalmente, uma lista de nomes. Indicações recebidas da contra-espionagem. Os agentes da CE em Salzburgo ficaram muito satisfeitos com essas pistas. E puderam aprofundar as buscas em várias direções. Acredito que os originais devem estar arquivados em algum lugar, uma vez que foram usados nos julgamentos de Nuremberg. Isso mesmo! (O Major Smythe parecia forçar a memória.) Posso dizer que os mais alegres anos de minha vida foram os do período em que trabalhei para a DAG. Vinho, mulheres, música! Ah, se eu pudesse viver esse bom tempo outra vez!
Nessa ocasião, o Major Smythe dizia a pura verdade. Ele sustentara uma perigosa e desconfortável luta até 1945. Quando os famosos Comandos ingleses foram formados em 1941, ele se apresentara como voluntário, sendo transferido dos Fuzileiros Reais para o Quartel-General das Operações Combinadas, sob a direção de Lorde Mountbatten. Seu domínio da língua alemã (que lhe vinha da mãe, nascida em Heidelberg) qualificara-o para o invejável lugar de coletor de informações nas operações de Comandos através do canal da Mancha. Tivera a sorte de permanecer durante dois anos nesse trabalho sem um arranhão e de receber a Ordem do Império Britânico, tão ciosa e avaramente distribuída durante a última guerra. E, depois, quando se preparava o golpe final contra a Alemanha, a Divisão de Assuntos Gerais fora formada, em conjunto, pelo Serviço Secreto e os Comandos. O Major Smythe, comissionado, então, como tenente-coronel, recebeu a incumbência de formar a unidade que devia descobrir e limpar os esconderijos dos graúdos da Gestapo e da Abwehr no momento em que se desse o colapso do nazismo. O Serviço Secreto, ao aprovar o plano, insistiu em que fosse acompanhado o avanço americano não por uma única, mas por seis dessas unidades, que operariam na Alemanha e na Áustria no momento da rendição. Eram unidades de vinte homens, cada uma com um carro blindado ligeiro, seis jipes, três camionetas e um caminhão com instalações de radiotelefonia. Controladas por um comando misto, anglo-americano, teriam elas à sua disposição o pessoal do Serviço de Inteligência do Exército, do SIS e do OSS. O Major Smythe fora o número 2 da Força A, destinada a atuar no Tirol, área cheia de bons esconderijos, com fácil acesso à fronteira de outros países. Por isso mesmo, era considerada o valhacouto n.° 1 pelo pessoal da DAG. E, como confessara o Major Smythe a James Bond, a operação fora praticamente uma festa, não tendo sido preciso disparar um só tiro. Exceto, é claro, dois que foram disparados pelo próprio Major Smythe. James Bond perguntou-lhe com ar mais casual do mundo: — O nome de Hannes Oberhauser lhe evoca alguma lembrança?
O Major Smythe franziu o sobrecenho, como que num esforço para se lembrar:
— Não, creio que não... (Fazia 32 graus à sombra, mas ele tremia de frio.) — Permita que eu lhe refresque a memória... No mesmo dia em que os documentos lhe foram entregues para exame, o senhor fez perguntas no Tiefenbrunner Hotel, onde se hospedou, sobre quem era o melhor guia alpino de Kitzbuhel. Foi-lhe indicado o guia Oberhauser. No dia seguinte, o senhor pediu ao seu comandante um dia livre, que lhe foi concedido. Na manhã desse dia, o senhor se dirigiu ao chalé de Oberhauser, prendeu-o com a cláusula de incomunicabilidade, e o levou no seu jipe. Não está se lembrando dessas particularidades?
Como era familiar aquela frase sobre o refrescamento da memória! Quantas vezes o próprio Major Smythe não a usara, como armadilha, para nela colher um mentiroso nazista?... Mas não devia, agora, se afobar. Há anos que estava preparado para alguma coisa nesse estilo. E, por isso, respondeu: — Não... Eu absolutamente não me lembro.
— Oberhauser era um homem de cabelo grisalho e claudicava de uma perna. Falava algum inglês, pois antes da guerra costumava trabalhar como instrutor de esqui, tendo como aprendizes ingleses e americanos...
O Major Smythe olhou impàvidamente para o visitante, fixando-lhe os olhos frios e claros:
— Sinto muito... Mas não posso ajudá-lo. Não me recordo.
James Bond tirou do bolso o pequeno caderno de notas, folheando-o ligeiramente. Deteve-se numa das páginas e disse:
— Vou ajudar um pouco mais a sua memória. Nesse tempo, como arma de uso pessoal, o senhor tinha um revólver regulamentar Webley & Scott, calibre 45, com o número da série 8967/362...
— Sim, era Webley... Um trabucão enorme, difícil de carregar. Espero que tenham adotado algo melhor. Assim como um Luger ou uma Beretta pesada. Mas eu nunca me dei ao trabalho de anotar o número...
— O número é esse mesmo — disse James Bond. — Verifiquei a data em que o recebeu do QG e a data em que o devolveu. O senhor assinou o livro de carga, ambas as vezes...
— Então, deve ter sido essa mesma a minha arma — concordou o Major Smythe, dando de ombros. — Mas... (E agora havia impaciência em sua voz) ... Mas, se me permite a pergunta, em que é que isso pode interessar?
James Bond o olhou com certa curiosidade. Depois falou e não se poderia dizer que o seu tom fosse cruel:
— Bem sabe que isso é fundamental, Smythe. (Fez uma pausa e pareceu refletir.) Façamos um acordo. Eu irei ao jardim, por uns dez minutos, pouco mais ou menos. Dou-lhe tempo para se lembrar de tudo com exatidão. Quando se tiver lembrado, me chame... (E acrescentou, a sério:) — Tornará as coisas bem mais fáceis para você a reconstituição do caso em suas próprias palavras... (Caminhou para a porta do jardim, mas se voltou.) — Creio que se trata apenas de pingar os ii e cortar os tt... Quero que saiba que, antes de vir aqui esta manhã, tive uma boa conversa com os irmãos Fu, em Kingston...
0 Major Smythe sentiu-se de certa forma desoprimido. Acabara a batalha das insinuações e das evasivas, a tentativa de despistar e de inventar álibis. Era o fim das negaças. Se o tal James Bond conversara com os irmãos Fu, sem dúvida arrancara alguma coisa dos chineses. De modo algum quereriam eles qualquer complicação com as autoridades. E, além do mais, ainda tinham uma parte da muamba em seu poder. O Major se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale, quase meio a meio. O melhor era tomar uns bons tragos, enquanto ainda podia! O futuro não lhe ofereceria muitas oportunidades como essa. Voltou para a poltrona, acendeu o vigésimo cigarro do dia e olhou para o relógio. Eram 11h30m. Se pudesse livrar-se daquele importuno dentro de uma hora, ainda poderia ir ver a sua “gente”. Sentou-se e bebeu, mergulhado em seus pensamentos. Poderia prolongar ou abreviar a sua história, se adicionasse alguma coisa sobre o estado do tempo, o perfume das flores dos pinheiros que aspirara nas montanhas... Mas poderia omitir a paisagem e abreviá-la. Preferiu abreviar. Viu-se na cama dupla, no Tiefenbrunner Hotel, com montanhas de papelório para examinar. Não procurava nada de especial. Apenas apanhava, a esmo, um documento aqui, outro ali, concentrando-se principalmente nos que tinham o timbre, em vermelho, de KOMMANDOSACHE, HOECHST VERTRAULICH. Não existiam muitos destes, que eram quase sempre informações confidenciais sobre nazistas graúdos, sobre códigos aliados que os alemães tinham decifrado e sobre esconderijos secretos. Desde que estes eram um dos principais objetivos da Força A, o Major Smythe os havia examinado com particular excitação — eram esconderijos de alimentos, de explosivos, de armas, de fichários de espionagem e do pessoal da Gestapo, uma imensa rede de arrasto com toda a espécie de peixes! E, ainda, no fim de toda a papelada, um simples envelope lacrado, com o aviso: PARA SER ABERTO APENAS EM CASO DE EMERGÊNCIA. O envelope continha uma só folha de papel. Não havia assinatura sob as palavras escritas em letra vermelha.
No cabeçalho, havia a palavra VALUTA.
Embaixo, lia-se: WILDE KAISER. FRANZISKANER HALT. 100 M. OESTLICH STEINHUGEL. WAFFENKISTE. ZWEI BAR 24 KT. e uma lista de medidas em centímetros. O Major Smythe afastou as mãos, como se numa história de pescaria, estivesse mostrando as dimensões de um peixe. Duas barras de ouro de 24 quilates, cada uma, quase tão grande como dois tijolos! E pensar que um simples soberano inglês, de apenas dezoito quilates, valia naquele momento entre duas e três libras! As duas barras de ouro representam uma verdadeira fortuna! Quarenta, cinquenta mil libras, era quanto valeriam! Não tinha ainda ideia alguma a respeito, mas — era o melhor — riscou um fósforo e acendeu o papel e o envelope, reduzindo-os a cinzas, que colocou na pia e fez desaparecer sob um jorro d’água. Apanhou, depois, o mapa da área, em grande escala, preparado pela artilharia austríaca e, um momento depois, tinha sob o dedo o Franziskaner Halt. Nele estava indicado um abrigo alpino desabitado, refúgio de montanhistas, numa espécie de pequeno platô logo abaixo do mais alto pico das montanhas do Kaiser, essa imensa massa de pedras dentadas que fecha, ao norte, o horizonte de Kitzbuhel. E ali, onde o seu dedo repousava, devia existir o marco de pequenas pedras amontoadas. Significava isso que uma fortuna estava ao seu alcance, a apenas dez milhas de distância e, talvez, a apenas cinco horas de subida!
O princípio tinha sido tal como James Bond descrevera. Fora ao chalé de Oberhauser às 4 horas da madrugada. Prendera-o e dissera a seus familiares, todos em lágrimas, que o ia levar para o centro de interrogatórios, em Munique. Se o guia estivesse isento de culpa, estaria de volta dentro de uma semana. Se a família fizesse algum protesto isso só poderia prejudicar Oberhauser, tornando as coisas ainda mais difíceis. Smythe se recusara a declinar o seu nome e tivera a precaução de ocultar o número do jipe. Dentro de 24 horas, a Força A deixaria o lugar e o governo militar se instalaria em Kitzbuhel. E então o incidente seria sepultado no esquecimento pelo tumulto e pelas complicações decorrentes da própria ocupação militar.
Oberhauser revelou-se um excelente sujeito, disposto a cooperar, assim que perdeu o medo inicial. E quando Smythe começou a lhe falar de alpinismo e de esqui se tornou uma camaradão. O caminho passava ao sopé das montanhas, rumo a Kufstein. Smythe dirigia lentamente, fazendo comentários admirativos sobre os picos em que já se refletiam as primeiras luzes matinais. Finalmente, junto à base do Pico do Ouro, voltou-se para Oberhauser e lhe disse: — Oberhauser, você é uma pessoa com quem simpatizo. Temos muitos interesses em comum e, pela sua conversa, estou convencido de que não cooperou com os nazistas. Eu lhe explico o que pretendo fazer por você. Passaremos o dia escalando as montanhas do Kaiser e, depois, eu o levo de volta para Kitzbuhel. Direi, então, ao meu chefe que, interrogado em Munique, você foi imediatamente liberado... Que me diz a isso? — Rematou, com um sorriso.
O homem quase derramou lágrimas de gratidão. Mas era preciso que ele tivesse, em seu poder, um papel mostrando que estava isento de culpa? Certamente. A assinatura do Major Smythe seria mais que suficiente. Feito o pacto, o jipe foi dirigido através de um atalho e ficou escondido, longe da estrada, entre os pinheiros. Smythe estava preparado para a excursão, sem nada sob a jaqueta, vestindo um short e calçando botas de paraquedistas, fornecidas à unidade pelos americanos. A carga que levava era apenas o revólver Webley & Scott, absolutamente necessário, pois afinal de contas Oberhauser era um inimigo. O guia vestia a sua melhor roupa e calçava as suas botas alpinas. Não estava preocupado com a subida. E assegurou ao Major Smythe que não seria necessário usar nem cordas, nem ganchos, até chegarem à cabana, em que poderiam parar para descansar. Era aí o Franziskaner Halt.
— É esse o nome? — Perguntou o Major.
— Sim. E um pouco abaixo há uma pequena geleira. Passaremos ao largo, pois nela há muitas fendas.
— Assim faremos... — Disse o Major Smythe, pensativamente, examinando a parte posterior da cabeça de Oberhauser, por onde o suor escorria. Ora, afinal, ele era apenas um reles comedor de chucrute, talvez da mesma laia que os nazistas. Seria tão fácil liquidá-lo... A única coisa que preocupava o major era trazer a muamba pela montanha abaixo. Poderia colocar as barras de ouro às costas. Ou arrastá-las — por que não? — Durante grande parte do percurso, na sua caixa de munição. Longa e tortuosa foi a caminhada, montanha acima. Quando deixaram para trás os pinheiros, já o sol se alteava, dardejante. A princípio, caminharam entre rochas e entulhos, em constantes zigue-zagues. Sem o auxílio de um guia, nunca conseguiria o major chegar ao cimo do penhasco cinzento e ameaçador, que parecia tocar o azul do céu. Ambos caminhavam agora nus da cintura para cima, banhados em suor, que lhes escorria pelas pernas para dentro das botas. Embora o guia claudicasse, subiam com relativa rapidez. Quando pararam, para um drinque e um breve descanso, Oberhauser se congratulou com Smythe por estar em tão boa forma. O major, com a cabeça escaldando, tantos eram os seus planos, disse ríspida e mentirosamente que todos os ingleses eram cobras, em matéria de escalar montanhas. Subir ao penhasco não era difícil. Se lá havia uma cabana, é porque o material para a sua construção fora levado para ali nos ombros de alguém. Em certos lugares, pontos de apoio tinham sido cavados na rocha. E havia, ocasionalmente, grampos de ferro, em que os alpinistas podiam se agarrar. Mas achar as passagens exatas era o mesmo que descobrir os segredos de um labirinto. Ainda bem que trouxera o guia. Este, em certo momento, sondando o chão, para verificar se estava firme, fizera correr pequenina avalancha de pedras afrouxadas por muitos anos de ventanias e nevascas. Elas se precipitaram, com estrondo, lá embaixo. O Major Smythe pensou logo no barulho, que poderia despertar atenção. Perguntou se não haveria gente nas proximidades.
— Qual! Ninguém... A não ser nas proximidades de Kufstein... — Disse Oberhauser, apontando uma larga extensão, ao redor. — Aqui há pouca água e nenhum pasto. E, desde o princípio da guerra... (Interrompeu-se, deixando a frase incompleta.) Ladearam a geleira e continuaram a subida. A vista do Major Smythe media a extensão e a largura das fendas, por onde iriam passar. A uns cem pés acima, viram, então, a cabana, batida pelas intempéries. O major mediu o ângulo do declive. Era quase uma linha reta. Agora? Ou depois? Preferiu que fosse depois. O caminho para a última parte da travessia ainda não estava claramente definido. Alcançaram a cabana ao fim de cinco horas. O Major Smythe disse que queria aliviar um pouco a bexiga e caminhou para o leste, sem dar atenção alguma aos belos panoramas da Áustria e da Baviera, que se estendiam por cinquenta milhas, sob o sol estival. Ele contava os passos com extremo cuidado. Exatamente a 120 havia o montículo de pedras, talvez um marco carinhosamente erguido em memória de um alpinista desaparecido. Era isso o que qualquer pessoa normalmente pensaria. Mas o Major Smythe, sabendo que não se tratava disso, ardia de desejos de desfazer a pequena pirâmide de pedras soltas. Mas, em vez de fazê-lo, tirou do coldre o seu Webley & Scott, soltou a trava e examinou o cilindro. E voltou, então, rumo à cabana, onde Oberhauser entrara. Fazia frio, a tal altura — uns bons 3 mil metros —, e o guia acendia o fogo. Smythe controlou o seu horror e pediu: — Oberhauser, venha me mostrar as paisagens. Há vistas maravilhosas, aqui em cima!
— Com prazer, major — disse o guia, seguindo Smythe para fora da cabana. Uma vez lá fora, tirou do bolso um papel, no qual havia alguma coisa embrulhada. Ofereceu-a ao major, acrescentando: — Isto é o que chamamos Soldat. É uma salsicha defumada. Dura, mas muito saborosa. (Sorriu.) Parece com aquilo que os americanos comem nos filmes de Far-West. Como é mesmo o nome?
— Charque — disse o major. Depois — e mais tarde se arrependeu de o ter privado da pequena refeição — aconselhou: — Deixe isso na cabana. Depois, viremos comer. Será que daqui podemos ver Innsbruck? Mostre-me para que lado é...
Oberhauser entrou na cabana e logo saiu de novo. O major caminhou por trás dele, que falava e gesticulava, mostrando aqui o pico de uma montanha, além a torre de uma igreja distante. Chegaram ao lugar acima da geleira. O major tirou então o revólver e, a uma distância de pouco mais de meio metro, disparou dois tiros na base do crânio de Hannes Oberhauser. Que nem estrebuchou. Caiu já morto. O impacto das balas atirou o guia na borda do precipício. O Major Smythe o empurrou para baixo. O corpo bateu em duas anfractuosidades do penhasco e caiu em cima da geleira. Mas sem escorregar para as fendas. Ficou a meio do caminho, junto a um monte de neve antiga, acumulada.
— Com os diabos! — Disse o major.
Os estampidos repercutiram naquelas alturas como se fossem tiros de morteiros e o eco os repetiu a distância. O Major Smythe lançou um olhar sobre a figura imóvel, estendida junto ao monte de neve, e logo correu para o montículo de pedra. Devia cuidar das coisas mais importantes em primeiro lugar! Começou a afastar as pedras, com uma pressa diabólica, atirando as mais roliças pela montanha abaixo. Feriu-se em arestas cortantes e, quando deu pela coisa, sua mão estava sangrando, mas não ligou importância. Um pouco de sangue, que é que tinha? Precisava era andar depressa, depressa — e continuou a escavar, furiosamente. O monte de pedra desaparecia. E então! Sim! Lá estava alguma coisa que parecia ser uma tampa metálica. Mais algumas pedras foram retiradas e apareceu uma velha caixa de munições da Wehrmacht. Em cima dela, ainda havia traços de seu antigo letreiro. O Major Smythe soltou um grunhido de alegria. Sentou-se sobre uma pedra e sua imaginação entrou em órbita, descrevendo círculos sobre carros Rolls Royce, iate em Monte Carlo, apartamentos de cobertura, joias de Cartier, champanha, caviar e, no meio de tudo, uma vez que amava o golfe, uma nova coleção de bastões metálicos de Henry Cotton.
Embriagado com esses sonhos, o Major Smythe ficou ali sentado um bom quarto de hora fitando a caixa metálica, como que fascinado. Depois, olhou para o relógio e levantou-se. Não devia perder tempo. Tinha que eliminar as pistas. A caixa tinha alças de ambos os lados. O major esperara que fosse pesada. Mentalmente, ele a havia comparado à coisa mais pesada que até então carregara — um salmão de vinte quilos que pescara na Escócia, pouco antes da guerra —, mas a caixa tinha mais do dobro desse peso. E ele só com muita dificuldade a retirara do seu leito entre as pedras para colocá-la sobre a rala relva alpina. Amarrou, então, o seu lenço numa das alças e, pondo-a desajeitadamente no ombro, levou-a para a cabana. Sentou-se, então, na soleira da porta e, sem despregar inteiramente os olhos da caixa, cortou a salsicha defumada de Oberhauser com seus dentes vigorosos e começou a comê-la, pensando como havia de transportar as suas 50 mil libras — era esse o seu cálculo — pela montanha abaixo. A salsicha era, realmente, uma ótima refeição montanhesa, dura, gorda, rescendendo a tempero forte à base de alho. Partículas dela ficaram incômodamente presas aos seus dentes. Limpou-os com um palito de prata. Sua preocupação era fazer desaparecer todos os vestígios de sua presença. De agora em diante, era um criminoso. Tão criminoso como alguém que tivesse roubado um banco e assassinado o vigia. Precisava lembrar-se disso! Se não se lembrasse, teria a morte, em vez das coisas maravilhosas com que sonhava. Precisava ter infinita cautela. E teria! Seria, para sempre, rico e feliz. Depois de tomar precauções ridiculamente minuciosa para não deixar na cabana o menor traço de sua passagem, arrastou a caixa metálica para a borda do precipício, distante da geleira, e de lá atirou-a embaixo, rezando para que chegasse intacta. A caixa cinzenta rolou no espaço, bateu numa ponta de pedra, continuou a descer, chocou-se cem metros abaixo com outra anfractuosidade e, por fim, atingiu o chão de um entulho, onde parou. O Major Smythe não podia vê-la, de onde estava, e não podia saber se estava aberta. Tanto fazia que estivesse ou não! A própria montanha poderia tê-lo poupado ao trabalho de abri-la...
Depois de um último olhar em torno, ele começou a descer, experimentando com prudência a solidez de cada grampo e de cada ponto de apoio, antes de firmar-se com todo o peso de seu corpo. Na descida, sua vida tinha um valor muito maior que na subida. Caminhou para a geleira e atravessou a passagem em que a neve começava a derreter-se formando sobre o gelo uma mancha escura. Dentro de mais alguns dias, toda a neve estaria derretida. Chegou até onde estava o cadáver. Tinha visto muitos, durante a guerra. Ossos fraturados e carnes sangrentas nada significavam para ele. Arrastou os restos de Oberhauser para a fenda mais próxima e, depois, atirou em cima a neve, acumulada nas bordas. Enterrado o corpo, mostrou-se satisfeito com o seu trabalho, tendo, ao voltar, o cuidado de recolocar os pés sobre as mesmas pegadas que fizera na vinda. E então empreendeu à descida, ao encontro da caixa metálica. Sim, como esperava, a montanha a havia aberto para ele! Com um gesto despreocupado, desfez os invólucros, em papel empregado na fabricação de cartuchos. As duas grandes barras de metal cintilaram ao sol. Tinham ambas as mesmas marcas: a cruz suástica num círculo, sob uma águia, e a data de 1943, símbolos usados pelo Reichsbank. O Major Smythe fez um movimento de aprovação com a cabeça. Recompôs os invólucros e, como a lingueta da tampa, que saltara, não fechasse mais a tampa, teve de bater-lhe com uma pedra, até voltar ao lugar. Passou, então, numa das alças o cinturão em que costumava conduzir o revólver, e continuou a descida, arrastando-a atrás de si. Era então 1 hora da tarde e o sol lhe queimava o busto nu, fritando-o em seu próprio suor. Seus ombros, avermelhados, estavam em fogo. A soalheira também queimava o seu rosto. Com os diabos! Parou junto a uma cascata que descia dos gelos da montanha, embebeu o lenço em água fria e o colocou na cabeça. Bebeu, depois, largamente e prosseguiu, praguejando, às vezes com fúria, quando em alguns declives mais fortes a caixa de metal o atropelava, machucando-lhe os calcanhares. Mas esses desconfortos, as queimaduras e os arranhões, não eram nada comparados com o que ele ainda teria que enfrentar no vale, onde o terreno era nivelado. Até então, tivera a lei da gravidade a seu lado. Mas na última milha é que seria um problema carregar aquela infernal muamba! 0 Major Smythe sentia as costas e o pescoço em fogo. Disse, porém, a si mesmo, para encorajar-se: — Bolas! Il faut souffrir pour être millionaire!
CONTINUA
O olho do molusco o observava cuidadosamente, de sua loca, no recife de coral. Agora, a ponta de um dos oito tentáculos avançava uma ou duas polegadas, ondulando hesitantemente, como se fizesse uma vaga exploração com as ventosas rosadas. Dexter Smythe sorriu com satisfação. Se lhe fosse dado o tempo necessário, ao menos um mês mais, além dos dois durante os quais se acamaradara com o polvo, decerto domesticaria inteiramente o fascinante animal. Mas temia que não chegasse a viver tanto. Devia aproveitar aquela oportunidade para se aproximar do molusco e lhe oferecer a mão de amigo. Sim... Em vez de limitar-se a lhe dar comida, na ponta de um arpão, devia, por assim dizer, apertar-lhe a mão, não era mesmo? “Não, ainda não, meu negrinho — pensou —, ainda não posso ter confiança em você...” Com toda a certeza, se fosse imprudente, outros tentáculos sairiam da loca lhe envolveriam o braço. E, puxado pelo polvo, a válvula de corliça da máscara se fecharia automaticamente. Ficaria sufocado. Ou, se o polvo a arrancasse, na certa morreria afogado. Quando muito, com um golpe rápido e feliz do arpão, poderia ferir o octópode, mas para matá-lo seria preciso muito mais do que isso. Não... Talvez mais tarde. Agora, seria o mesmo que enfrentar uma rolêta-russa, com cinco chances contra e uma só a favor. Poderia, mesmo, representar um meio rápido, eficaz e bizarro de pôr termo aos seus aborrecimentos! Mas, agora... não! Isso deixaria insolúvel uma questão sumamente interessante. E ele havia prometido resolvê-la... Dera a sua palavra ao simpático Professor Bengry, do Instituto Biológico Marinho. Dexter Smythe afastou-se do recife de coral, nadando lentamente. Seus olhos atentos buscavam, com empenho, a forma estranha e sinistra do peixe-escorpião, ou, como diria Bengry, do Scorpaena Plumieri.
O Major Dexter Smythe, condecorado com a Ordem do Império Britânico, oficial do Corpo de Fuzileiros Reais (reformado), era o que restava de um outrora bravo militar e homem encantador, que fazia conquistas sexuais fáceis em todos os meios em que atuava fardado. Principalmente entre o pessoal das organizações militares femininas — as Wrens, as Wracs e as moças do ATS, incumbidas das comunicações e do secretariado das forças-tarefas especiais, de que ele fizera parte, no fim de sua carreira. Tinha agora cinquenta e quatro anos. Estava ligeiramente calvo. E sua barriga se acomodava com certa dificuldade nos apertados limites do calção de banho. Além disso, tivera já duas complicações coronárias. Seu médico era Jimmy Graves, que fora um dos seus parceiros no jogo de pôquer de cacife altíssimo, no Queen’s Club, logo que ele chegara, com a mulher, à Jamaica. Meio a sério, meio brincando, o médico havia descrito a última dessas complicações, ocorrida um mês antes, como sendo a “segunda advertência”. Mas, em suas roupas bem talhadas, ocultas as muitas varizes às vistas indiscretas, com a barriga comprimida por uma larga cinta que o imaculado colête-faixa disfarçava, o antigo militar ainda fazia boa figura, num coquetel ou num jantar, em North Shore. Para seus amigos e vizinhos dessa praia, era um mistério o motivo pelo qual desafiava ele as recomendações do médico. Este lhe impusera uma dieta de uísque e de cigarros, limitados respectivamente a dois e a dez por dia, mas ele insistia em fumar como uma chaminé e em ir sempre para a cama bêbedo. Agradàvelmente bêbedo.
A verdade é que Dexter Smythe tinha chegado à fronteira em que o instinto da vida começa a ceder ao desejo da morte. As origens desse estado de espírito eram muitas e complexas. Estava irremediavelmente amarrado à Jamaica. A indolência tropical apoderara-se gradualmente de seu organismo, de tal modo que, se aparentava ser uma sólida peça de madeira de lei, interiormente não era mais que um tronco fofo, corroído pelos cupins. Tinha um exterior envernizado, mas ilusório. A preguiça, o relaxamento, o sentimento de culpas antigas, o total desgosto em relação a si mesmo haviam erodido o seu cerne, transformando-o em pó de serragem. Desde a morte de Mary, dois anos antes, não tinha mais amado a ninguém. Nem sequer estava certo de que realmente a havia amado. Sabia, porém, que sentia a ausência dela a todas as horas do dia, que sentia falta de seu afeto e de sua alegria, de sua presença desmazelada, barulhenta e, por vezes, irritante. Enquanto devorava canapés e bebia martinis da ralé internacional que frequentava em North Shore, ele se apercebia de que não nutria por essa gente outro sentimento que não fosse o de completo desprezo. Poderia, talvez, ter feito amigos entre elementos mais respeitáveis, os fazendeiros do interior da ilha, os proprietários do litoral, os representantes das profissões liberais e do mundo político local. Mas isso significaria voltar a ter propósitos sérios numa vida em que a preguiça e o embotamento espiritual limitaram-se ao fundo das garrafas. Tal coisa estava inteiramente fora de suas cogitações.
O Major Smythe estava mortalmente entendiado e, se não fosse por determinado motivo, já teria há muito tempo engolido o vidro de barbitúricos que com facilidade adquirira a um dos médicos da ilha. O fio que ainda o prendia à vida era muito tênue. Os grandes bebedores tendem a exagerar o seu temperamento básico, que é sempre um destes quatro: sanguíneo, fleumático, colérico e melancólico. O bêbedo sanguíneo torna-se alegre até à histeria ou à idiotia. O fleumático afunda-se num abatimento sombrio. O colérico é o ébrio turbulento das caricaturas, que passa a maior parte do tempo na prisão, por ter quebrado coisas ou agredido pessoas. E o melancólico é o beberrão que tem pena de si mesmo, geralmente vomitando ou se desmanchando em prantos. O Major Smythe era um melancólico, com a curiosa e divertida fantasia de fazer relações pessoais com aves, insetos e peixes existentes nos cinco acres de Wavelet, isto é, de Ondinhas, nome sintomático que dera à sua pequena villa. A praia e o recife de coral, além dela, eram os seus lugares prediletos. E, entre todos os seres, preferia os peixes. Referia-se a eles como à “gente do mar” e, uma vez que os peixes, como as aves, são fiéis aos seus recantos, ao fim de dois anos ele os conhecia a todos intimamente, amava-os e acreditava ser retribuído por eles com igual amor.
Certo, eles o conheciam, como os animais de um Jardim Zoológico conhecem os seus tratadores. Como estes, ele lhes ia levar o alimento diário, arrecadando pedacinhos de algas e revolvendo a areia o os seixos do fundo do mar, para ajudar os que se alimentam nos lugares mais profundos. Desenterrava ovos e ouriços para os pequenos carnívoros e levava sobras de carne para os grandes. E agora, enquanto nadava lenta e pesadamente, de um lado para o outro do recife de coral e através dos canais que conduzem às águas profundas, sua “gente do mar” enxameava ao redor dele, sem nenhum medo, em atitude de expectativa, quase roçando a aguda ponta de seu arpão, que conheciam apenas como uma espécie de longa colher dadivosa. Vinham namorar o vidro da máscara Pirelli e, em alguns casos, como certas mulheres provocantes, tomavam intimidades perigosas, roçando em suas pernas e em seus pés.
Parte da mente do Major Smythe estava fixada nessa “gente” brilhante e colorida, mas outra parte se preocupava com uma tarefa que devia realizar naquele dia. Ele cumprimentava os peixes com palavras que não chegava a proferir — “Bom dia, beleza!” Era a sua mensagem a um peixe azul-escuro, salpicado de malhas que semelhavam lentejoulas, de um azul ainda mais intenso e brilhante. É o “peixe-joia”, que parece um vidro estrelado do perfume Vol de Nuit, de Worth. “Sinto muito, hoje não, meu bem”, dizia em silêncio a um peixe-borboleta, esvoaçante, com falsos “olhos” na cauda. “Você está gordo demais, meninão”, afirmava mentalmente a um peixe-papagaio de côr azul-índigo, que devia pesar uns bons cinco quilos. Seus olhos estavam sempre atentos, à procura de sua “gente”. No recife de coral, seu único inimigo que ele matava à primeira vista, era o peixe-escorpião.
O peixe-escorpião habita principalmente nas águas tépidas do sul e o rascasse, que é a base da bouillabaisse, pertence à mesma família. A variedade do Caribe alcança apenas cerca de doze polegadas de comprimento e pesa, talvez, meio quilo. É o mais feio peixe do mar, como se a natureza ao engendrá-lo assim tivesse querido nos fazer uma advertência. Sarapintado de marrom-acinzentado, tem uma cabeçorra felpuda, de feitio cuneiforme. Os olhos são de um vermelho agressivo e consegue dissimular perfeitamente a sua silhueta, em meio dos recifes. Embora sendo um peixe pequeno, sua boca amplamente guarnecida de dentes pontiagudos é tão grande que ele pode engolir, sem dificuldade, a maioria dos peixinhos que vivem ao redor dos corais. Mas a sua arma suprema consiste nas eretas barbatanas dorsais, as primeiros das quais agem por contato como agulhas hipodérmicas, alimentadas por glândulas venenosas, que contêm tetrodotoxina suficiente para matar um homem, se o atingirem num lugar vulnerável — por exemplo, numa artéria, sobre o coração ou nas virilhas. Esse é o único perigo real para quem se aventura a nadar nos recifes. Muito mais perigoso do que as barracudas e os tubarões, é extremamente confiante em sua camuflagem e em suas armas, não fugindo de coisa alguma, exceto de uma exagerada aproximação de um pé humano ou mesmo de um contato direto. Nossas ocasiões, o peixe-escorpião nada apenas alguns metros com seu largo peitoral, bizarramente listrado, parando atento, ou pousado na areia, onde por mimetismo parece uma formação coralina, ou entre as rochas e algas, onde virtualmente desaparece. O Major Smythe estava decidido a encontrar um, arpoá-lo e dá-lo a seu polvo, para ver se este o aceitava ou rejeitava. Queria saber se um dos grandes predadores do oceano reconheceria a periculosidade, o poder mortífero do veneno do outro. Consumiria o polvo a parte inferior do peixe-escorpião, sem lhe tocar nas espinhas letais? Devorá-las-ia também e viria a sofrer um castigo, atingido pelo veneno? Eram essas as perguntas que Bengry, do Instituto, desejava esclarecer. E, agora, sentindo o princípio do fim de sua vida, o solitário de Wavelets pensou que esse poderia ser também o fim do seu querido polvo. E decidiu dar resposta àquelas perguntas, deixando uma pequena lembrança de sua vida fútil e inútil num recanto empoeirado dos arquivos do Instituto.
É que, apenas duas ou três horas antes, o Major Dexter Smythe vira a sua vida transformar-se, passando de mal a pior. Para uma condição tão pior que ele teria muita sorte se, dentro de uma semana — tempo necessário para a troca de telegramas entre o governo da ilha e o Ministério das Colônias, que por sua vez se comunicaria com o Serviço Secreto e, através deste, com a Scotland Yard e a Procuradoria da Justiça, bem como para a transferência do Major Smythe para Londres, sob escolta policial —, na melhor das hipóteses, saísse de um inevitável julgamento condenado à prisão perpétua. E tudo isso por causa de um homem chamado Bond — Comandante James Bond —, que aparecera em Wavelets às 10h 30m da manhã, num táxi que tomara em Kingston. O dia tinha começado normalmente. O Major Smythe acordara de seu sono à base de seconal, engolira dois comprimidos de panadol (o precário estado cardíaco lhe proibira o uso da aspirina), tomara um banho de chuveiro e fora devorar o seu pequeno almoço debaixo de frondosa amendoeira, no jardim, onde passara uma hora, alimentando pássaros famintos com as sobras da refeição. Depois, tomou as doses de anticoagulante receitadas pelo médico e as pílulas contra a alta pressão arterial, matando o tempo com a leitura do Daily Gleaner e fazendo hora para tomar o seu primeiro trago. Antes, esperava até às 11 horas. Mas, por último, fixara esse momento em 10h 30m. Já havia servido dois conhaques com ginger ale — a bebida de quem sabe embebedar-se — quando ouviu o ruído do automóvel que se aproximava. Luana, a governante negra, não tardou a aparecer no jardim para anunciar: — Um cara tá aí para falar com o sinhô, Majó.
— Como se chama?
— Sei não, Majó. Disse não. Só falou que é negócio da casa do gunverno.
O Major Smythe vestia apenas uns velhos shorts de brim caqui e calçava um par de alpercatas. Não podia receber um visitante assim.
— Mande entrar para a sala, Luana, e diga que não demorarei a atendê-lo.
Foi ao seu quarto, vestiu um blusão branco, umas calças e penteou o que ainda lhe restava da antiga cabeleira. Um representante do governo! Que diabo quereria com ele? Mal entrou na sala, viu um homem alto, com um terno de tropical azul, debruçado na janela, olhando para o mar. O Major teve logo a sensação de que ia receber más notícias. E quando o homem se voltou encarando-o atentamente, com os olhos azul-cinza, Smythe teve a certeza de que ele estava, realmente, em missão oficial. E em missão nada amistosa, porque nem ao menos retribuiu o seu cordial sorriso. Um calafrio percorreu a espinha do major. Teriam, então, descoberto tudo?
— Bem, bem, eu sou Smythe. Pelo que sei, o senhor representa o governo da ilha. Como vai Sir Kenneth?
Não houve sequer um aperto de mão. O homem disse:
— Ainda não o vi. Faz só uns três dias que cheguei. Estive procurando ver os pontos pitorescos da ilha. Meu nome é Bond. James Bond. Sou do Ministério da Defesa.
O Major Smythe se lembrava do eufemismo habitualmente usado para designar o Serviço Secreto. E disse, esforçando-se para se mostrar animado e alegre: — Oh... A velha firma? Prefere conversar aqui mesmo, ou no jardim? Que tal um drinque? (E o Major pôs um cubo de gelo num copo, que já tinha nas mãos.) Rum e ginger ale é o mais popular veneno local... Eu, porém, prefiro ginger ale, sem mais nada...
A mentira lhe escapou com facilidade, graças ao automatismo dos alcoólatras. — Não me sirva nada. E falemos aqui mesmo — disse o recém-vindo, recostando-se no parapeito da janela, lavrado em mogno.
O Major Smythe sentou-se, passou uma perna sobre o braço da confortável poltrona e tomou um grande trago de seu copo, que depositou depois ao lado.
— Bem — disse, olhando o visitante com firmeza, cara a cara. — Em que poderei lhe ser útil? Alguém está fazendo sujeiras em North Shore e vocês estão precisando de ajuda? Terei prazer em voltar ao antigo trabalho. Já vai longe o tempo em que fui agente secreto, mas ainda me lembro de algumas técnicas...
— Não se incomoda que eu fume?
O visitante, ao fazer a pergunta, já tinha, nas mãos, uma cigarreira de forma achatada que poderia, no entanto, conter cinquenta cigarros. A esse sinal de fraqueza, comum a ambos, o major se sentiu confortado.
— Em absoluto, meu caro. (E fez um movimento, aproximando o seu isqueiro, aceso.) — Obrigado. (James Bond já havia acendido o cigarro.) Mas não vim aqui para tratar de assuntos locais. O que realmente me trouxe a North Shore foi o desejo de pedir-lhe que se recorde minuciosamente de seu trabalho para o Serviço Secreto, nos últimos dias da II Grande Guerra... (Fez uma pausa, para observar o efeito de suas palavras no Major Smythe) Principalmente quando trabalhou na Divisão de Assuntos Gerais...
O Major Smythe teve um riso breve e escarninho. Ele sabia. Estava absolutamente certo. Mas, quando a revelação saiu dos lábios daquele homem, não pôde conter a gargalhada, reação de alguém que se via golpeado em cheio e procurava dar a impressão contrária.
— Mas, Santo Deus! A velha DAG! Claro que me lembro ainda dela... E de tudo o mais...
Riu de novo. E sentiu aguilhoar-lhe o peito a dor constritiva da angina, provocada pela pressão do que certamente iria acontecer. Enfiou a mão no bolso da calça, despejou o conteúdo de um pequeno frasco no côncavo da outra mão e, depois, colocou sob a língua os pequenos comprimidos brancos de TNT. Observava divertidamente a crescente tensão estampada na fisionomia do visitante, cujos olhos se apertavam para melhor fitá-lo. Não precisava ter medo, não. Não se tratava de pílulas de cianureto ou qualquer outro veneno. O major despistou: — A acidose não o persegue? Não? Pois a azia é o meu tormento. Ontem à noite, fui a uma festa no Jamaica Inn. Preciso me lembrar de que não tenho mais 25 anos... Bem, mas ainda posso voltar para a DAG. Creio que hoje somos bem poucos, os veteranos, não? (Sentiu outra vez a dor no peito.) É alguma coisa a respeito da história oficial da guerra?
James Bond, olhando para a ponta do cigarro, disse que não se tratava exatamente disso.
— Pensava... Porque, não sei se sabe: eu escrevi quase todo o capítulo sobre o Serviço Secreto no War Book... Já faz muito tempo. Mas duvido que haja algo de realmente importante a acrescentar...
— Nem mesmo alguma coisa sobre certa operação no Tirol? Num lugar chamado Ober Aurach, a cerca de uma milha de distância de Kitzbuhel?
A menção desses nomes provocou outro pequeno riso do major:
— Mas essa operação foi uma ninharia... Tudo muito fácil. Aqueles sujeitos da Gestapo tinham mais fanatismo do que competência... Uns bêbedos. Conservaram em seus arquivos todas as pistas. E os entregaram sem nenhum protesto. Esperavam, em troca, a nossa indulgência, talvez... A grande maioria foi enforcada por crimes de guerra, acredito. Levei tudo para o Quartel-General, em Salzburgo. Depois, fui para o vale do Mittersill, à procura de outro esconderijo... O Major Smythe tomou outro trago e acendeu um cigarro. Depois, olhando para cima: — Acho que não há mais nada a acrescentar a essas linhas gerais...
— O senhor, se não me engano, foi nessa época o número 2... O commanding officer era um americano, não? O Coronel King, do Exército do General Patton...
— É verdade, ele foi meu chefe. Excelente sujeito. Usava um bigodinho, coisa que não é muito de americano. Tinha competência indiscutível para escolher vinhos. Um tipo muito civilizado...
— No seu relatório sobre aquela operação, ele afirma que lhe entregou todos os documentos necessários às buscas e investigações preliminares, por ser o senhor o perito em assuntos germânicos do grupo... O senhor devolveu esses papéis a ele com algumas notas ou observações? (James Bond fez uma pausa.) Todos, sem falta de um só?
O Major Smythe ignorou a insinuação:
— É verdade. O que ele me deu foi, principalmente, uma lista de nomes. Indicações recebidas da contra-espionagem. Os agentes da CE em Salzburgo ficaram muito satisfeitos com essas pistas. E puderam aprofundar as buscas em várias direções. Acredito que os originais devem estar arquivados em algum lugar, uma vez que foram usados nos julgamentos de Nuremberg. Isso mesmo! (O Major Smythe parecia forçar a memória.) Posso dizer que os mais alegres anos de minha vida foram os do período em que trabalhei para a DAG. Vinho, mulheres, música! Ah, se eu pudesse viver esse bom tempo outra vez!
Nessa ocasião, o Major Smythe dizia a pura verdade. Ele sustentara uma perigosa e desconfortável luta até 1945. Quando os famosos Comandos ingleses foram formados em 1941, ele se apresentara como voluntário, sendo transferido dos Fuzileiros Reais para o Quartel-General das Operações Combinadas, sob a direção de Lorde Mountbatten. Seu domínio da língua alemã (que lhe vinha da mãe, nascida em Heidelberg) qualificara-o para o invejável lugar de coletor de informações nas operações de Comandos através do canal da Mancha. Tivera a sorte de permanecer durante dois anos nesse trabalho sem um arranhão e de receber a Ordem do Império Britânico, tão ciosa e avaramente distribuída durante a última guerra. E, depois, quando se preparava o golpe final contra a Alemanha, a Divisão de Assuntos Gerais fora formada, em conjunto, pelo Serviço Secreto e os Comandos. O Major Smythe, comissionado, então, como tenente-coronel, recebeu a incumbência de formar a unidade que devia descobrir e limpar os esconderijos dos graúdos da Gestapo e da Abwehr no momento em que se desse o colapso do nazismo. O Serviço Secreto, ao aprovar o plano, insistiu em que fosse acompanhado o avanço americano não por uma única, mas por seis dessas unidades, que operariam na Alemanha e na Áustria no momento da rendição. Eram unidades de vinte homens, cada uma com um carro blindado ligeiro, seis jipes, três camionetas e um caminhão com instalações de radiotelefonia. Controladas por um comando misto, anglo-americano, teriam elas à sua disposição o pessoal do Serviço de Inteligência do Exército, do SIS e do OSS. O Major Smythe fora o número 2 da Força A, destinada a atuar no Tirol, área cheia de bons esconderijos, com fácil acesso à fronteira de outros países. Por isso mesmo, era considerada o valhacouto n.° 1 pelo pessoal da DAG. E, como confessara o Major Smythe a James Bond, a operação fora praticamente uma festa, não tendo sido preciso disparar um só tiro. Exceto, é claro, dois que foram disparados pelo próprio Major Smythe. James Bond perguntou-lhe com ar mais casual do mundo: — O nome de Hannes Oberhauser lhe evoca alguma lembrança?
O Major Smythe franziu o sobrecenho, como que num esforço para se lembrar:
— Não, creio que não... (Fazia 32 graus à sombra, mas ele tremia de frio.) — Permita que eu lhe refresque a memória... No mesmo dia em que os documentos lhe foram entregues para exame, o senhor fez perguntas no Tiefenbrunner Hotel, onde se hospedou, sobre quem era o melhor guia alpino de Kitzbuhel. Foi-lhe indicado o guia Oberhauser. No dia seguinte, o senhor pediu ao seu comandante um dia livre, que lhe foi concedido. Na manhã desse dia, o senhor se dirigiu ao chalé de Oberhauser, prendeu-o com a cláusula de incomunicabilidade, e o levou no seu jipe. Não está se lembrando dessas particularidades?
Como era familiar aquela frase sobre o refrescamento da memória! Quantas vezes o próprio Major Smythe não a usara, como armadilha, para nela colher um mentiroso nazista?... Mas não devia, agora, se afobar. Há anos que estava preparado para alguma coisa nesse estilo. E, por isso, respondeu: — Não... Eu absolutamente não me lembro.
— Oberhauser era um homem de cabelo grisalho e claudicava de uma perna. Falava algum inglês, pois antes da guerra costumava trabalhar como instrutor de esqui, tendo como aprendizes ingleses e americanos...
O Major Smythe olhou impàvidamente para o visitante, fixando-lhe os olhos frios e claros:
— Sinto muito... Mas não posso ajudá-lo. Não me recordo.
James Bond tirou do bolso o pequeno caderno de notas, folheando-o ligeiramente. Deteve-se numa das páginas e disse:
— Vou ajudar um pouco mais a sua memória. Nesse tempo, como arma de uso pessoal, o senhor tinha um revólver regulamentar Webley & Scott, calibre 45, com o número da série 8967/362...
— Sim, era Webley... Um trabucão enorme, difícil de carregar. Espero que tenham adotado algo melhor. Assim como um Luger ou uma Beretta pesada. Mas eu nunca me dei ao trabalho de anotar o número...
— O número é esse mesmo — disse James Bond. — Verifiquei a data em que o recebeu do QG e a data em que o devolveu. O senhor assinou o livro de carga, ambas as vezes...
— Então, deve ter sido essa mesma a minha arma — concordou o Major Smythe, dando de ombros. — Mas... (E agora havia impaciência em sua voz) ... Mas, se me permite a pergunta, em que é que isso pode interessar?
James Bond o olhou com certa curiosidade. Depois falou e não se poderia dizer que o seu tom fosse cruel:
— Bem sabe que isso é fundamental, Smythe. (Fez uma pausa e pareceu refletir.) Façamos um acordo. Eu irei ao jardim, por uns dez minutos, pouco mais ou menos. Dou-lhe tempo para se lembrar de tudo com exatidão. Quando se tiver lembrado, me chame... (E acrescentou, a sério:) — Tornará as coisas bem mais fáceis para você a reconstituição do caso em suas próprias palavras... (Caminhou para a porta do jardim, mas se voltou.) — Creio que se trata apenas de pingar os ii e cortar os tt... Quero que saiba que, antes de vir aqui esta manhã, tive uma boa conversa com os irmãos Fu, em Kingston...
0 Major Smythe sentiu-se de certa forma desoprimido. Acabara a batalha das insinuações e das evasivas, a tentativa de despistar e de inventar álibis. Era o fim das negaças. Se o tal James Bond conversara com os irmãos Fu, sem dúvida arrancara alguma coisa dos chineses. De modo algum quereriam eles qualquer complicação com as autoridades. E, além do mais, ainda tinham uma parte da muamba em seu poder. O Major se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale, quase meio a meio. O melhor era tomar uns bons tragos, enquanto ainda podia! O futuro não lhe ofereceria muitas oportunidades como essa. Voltou para a poltrona, acendeu o vigésimo cigarro do dia e olhou para o relógio. Eram 11h30m. Se pudesse livrar-se daquele importuno dentro de uma hora, ainda poderia ir ver a sua “gente”. Sentou-se e bebeu, mergulhado em seus pensamentos. Poderia prolongar ou abreviar a sua história, se adicionasse alguma coisa sobre o estado do tempo, o perfume das flores dos pinheiros que aspirara nas montanhas... Mas poderia omitir a paisagem e abreviá-la. Preferiu abreviar. Viu-se na cama dupla, no Tiefenbrunner Hotel, com montanhas de papelório para examinar. Não procurava nada de especial. Apenas apanhava, a esmo, um documento aqui, outro ali, concentrando-se principalmente nos que tinham o timbre, em vermelho, de KOMMANDOSACHE, HOECHST VERTRAULICH. Não existiam muitos destes, que eram quase sempre informações confidenciais sobre nazistas graúdos, sobre códigos aliados que os alemães tinham decifrado e sobre esconderijos secretos. Desde que estes eram um dos principais objetivos da Força A, o Major Smythe os havia examinado com particular excitação — eram esconderijos de alimentos, de explosivos, de armas, de fichários de espionagem e do pessoal da Gestapo, uma imensa rede de arrasto com toda a espécie de peixes! E, ainda, no fim de toda a papelada, um simples envelope lacrado, com o aviso: PARA SER ABERTO APENAS EM CASO DE EMERGÊNCIA. O envelope continha uma só folha de papel. Não havia assinatura sob as palavras escritas em letra vermelha.
No cabeçalho, havia a palavra VALUTA.
Embaixo, lia-se: WILDE KAISER. FRANZISKANER HALT. 100 M. OESTLICH STEINHUGEL. WAFFENKISTE. ZWEI BAR 24 KT. e uma lista de medidas em centímetros. O Major Smythe afastou as mãos, como se numa história de pescaria, estivesse mostrando as dimensões de um peixe. Duas barras de ouro de 24 quilates, cada uma, quase tão grande como dois tijolos! E pensar que um simples soberano inglês, de apenas dezoito quilates, valia naquele momento entre duas e três libras! As duas barras de ouro representam uma verdadeira fortuna! Quarenta, cinquenta mil libras, era quanto valeriam! Não tinha ainda ideia alguma a respeito, mas — era o melhor — riscou um fósforo e acendeu o papel e o envelope, reduzindo-os a cinzas, que colocou na pia e fez desaparecer sob um jorro d’água. Apanhou, depois, o mapa da área, em grande escala, preparado pela artilharia austríaca e, um momento depois, tinha sob o dedo o Franziskaner Halt. Nele estava indicado um abrigo alpino desabitado, refúgio de montanhistas, numa espécie de pequeno platô logo abaixo do mais alto pico das montanhas do Kaiser, essa imensa massa de pedras dentadas que fecha, ao norte, o horizonte de Kitzbuhel. E ali, onde o seu dedo repousava, devia existir o marco de pequenas pedras amontoadas. Significava isso que uma fortuna estava ao seu alcance, a apenas dez milhas de distância e, talvez, a apenas cinco horas de subida!
O princípio tinha sido tal como James Bond descrevera. Fora ao chalé de Oberhauser às 4 horas da madrugada. Prendera-o e dissera a seus familiares, todos em lágrimas, que o ia levar para o centro de interrogatórios, em Munique. Se o guia estivesse isento de culpa, estaria de volta dentro de uma semana. Se a família fizesse algum protesto isso só poderia prejudicar Oberhauser, tornando as coisas ainda mais difíceis. Smythe se recusara a declinar o seu nome e tivera a precaução de ocultar o número do jipe. Dentro de 24 horas, a Força A deixaria o lugar e o governo militar se instalaria em Kitzbuhel. E então o incidente seria sepultado no esquecimento pelo tumulto e pelas complicações decorrentes da própria ocupação militar.
Oberhauser revelou-se um excelente sujeito, disposto a cooperar, assim que perdeu o medo inicial. E quando Smythe começou a lhe falar de alpinismo e de esqui se tornou uma camaradão. O caminho passava ao sopé das montanhas, rumo a Kufstein. Smythe dirigia lentamente, fazendo comentários admirativos sobre os picos em que já se refletiam as primeiras luzes matinais. Finalmente, junto à base do Pico do Ouro, voltou-se para Oberhauser e lhe disse: — Oberhauser, você é uma pessoa com quem simpatizo. Temos muitos interesses em comum e, pela sua conversa, estou convencido de que não cooperou com os nazistas. Eu lhe explico o que pretendo fazer por você. Passaremos o dia escalando as montanhas do Kaiser e, depois, eu o levo de volta para Kitzbuhel. Direi, então, ao meu chefe que, interrogado em Munique, você foi imediatamente liberado... Que me diz a isso? — Rematou, com um sorriso.
O homem quase derramou lágrimas de gratidão. Mas era preciso que ele tivesse, em seu poder, um papel mostrando que estava isento de culpa? Certamente. A assinatura do Major Smythe seria mais que suficiente. Feito o pacto, o jipe foi dirigido através de um atalho e ficou escondido, longe da estrada, entre os pinheiros. Smythe estava preparado para a excursão, sem nada sob a jaqueta, vestindo um short e calçando botas de paraquedistas, fornecidas à unidade pelos americanos. A carga que levava era apenas o revólver Webley & Scott, absolutamente necessário, pois afinal de contas Oberhauser era um inimigo. O guia vestia a sua melhor roupa e calçava as suas botas alpinas. Não estava preocupado com a subida. E assegurou ao Major Smythe que não seria necessário usar nem cordas, nem ganchos, até chegarem à cabana, em que poderiam parar para descansar. Era aí o Franziskaner Halt.
— É esse o nome? — Perguntou o Major.
— Sim. E um pouco abaixo há uma pequena geleira. Passaremos ao largo, pois nela há muitas fendas.
— Assim faremos... — Disse o Major Smythe, pensativamente, examinando a parte posterior da cabeça de Oberhauser, por onde o suor escorria. Ora, afinal, ele era apenas um reles comedor de chucrute, talvez da mesma laia que os nazistas. Seria tão fácil liquidá-lo... A única coisa que preocupava o major era trazer a muamba pela montanha abaixo. Poderia colocar as barras de ouro às costas. Ou arrastá-las — por que não? — Durante grande parte do percurso, na sua caixa de munição. Longa e tortuosa foi a caminhada, montanha acima. Quando deixaram para trás os pinheiros, já o sol se alteava, dardejante. A princípio, caminharam entre rochas e entulhos, em constantes zigue-zagues. Sem o auxílio de um guia, nunca conseguiria o major chegar ao cimo do penhasco cinzento e ameaçador, que parecia tocar o azul do céu. Ambos caminhavam agora nus da cintura para cima, banhados em suor, que lhes escorria pelas pernas para dentro das botas. Embora o guia claudicasse, subiam com relativa rapidez. Quando pararam, para um drinque e um breve descanso, Oberhauser se congratulou com Smythe por estar em tão boa forma. O major, com a cabeça escaldando, tantos eram os seus planos, disse ríspida e mentirosamente que todos os ingleses eram cobras, em matéria de escalar montanhas. Subir ao penhasco não era difícil. Se lá havia uma cabana, é porque o material para a sua construção fora levado para ali nos ombros de alguém. Em certos lugares, pontos de apoio tinham sido cavados na rocha. E havia, ocasionalmente, grampos de ferro, em que os alpinistas podiam se agarrar. Mas achar as passagens exatas era o mesmo que descobrir os segredos de um labirinto. Ainda bem que trouxera o guia. Este, em certo momento, sondando o chão, para verificar se estava firme, fizera correr pequenina avalancha de pedras afrouxadas por muitos anos de ventanias e nevascas. Elas se precipitaram, com estrondo, lá embaixo. O Major Smythe pensou logo no barulho, que poderia despertar atenção. Perguntou se não haveria gente nas proximidades.
— Qual! Ninguém... A não ser nas proximidades de Kufstein... — Disse Oberhauser, apontando uma larga extensão, ao redor. — Aqui há pouca água e nenhum pasto. E, desde o princípio da guerra... (Interrompeu-se, deixando a frase incompleta.) Ladearam a geleira e continuaram a subida. A vista do Major Smythe media a extensão e a largura das fendas, por onde iriam passar. A uns cem pés acima, viram, então, a cabana, batida pelas intempéries. O major mediu o ângulo do declive. Era quase uma linha reta. Agora? Ou depois? Preferiu que fosse depois. O caminho para a última parte da travessia ainda não estava claramente definido. Alcançaram a cabana ao fim de cinco horas. O Major Smythe disse que queria aliviar um pouco a bexiga e caminhou para o leste, sem dar atenção alguma aos belos panoramas da Áustria e da Baviera, que se estendiam por cinquenta milhas, sob o sol estival. Ele contava os passos com extremo cuidado. Exatamente a 120 havia o montículo de pedras, talvez um marco carinhosamente erguido em memória de um alpinista desaparecido. Era isso o que qualquer pessoa normalmente pensaria. Mas o Major Smythe, sabendo que não se tratava disso, ardia de desejos de desfazer a pequena pirâmide de pedras soltas. Mas, em vez de fazê-lo, tirou do coldre o seu Webley & Scott, soltou a trava e examinou o cilindro. E voltou, então, rumo à cabana, onde Oberhauser entrara. Fazia frio, a tal altura — uns bons 3 mil metros —, e o guia acendia o fogo. Smythe controlou o seu horror e pediu: — Oberhauser, venha me mostrar as paisagens. Há vistas maravilhosas, aqui em cima!
— Com prazer, major — disse o guia, seguindo Smythe para fora da cabana. Uma vez lá fora, tirou do bolso um papel, no qual havia alguma coisa embrulhada. Ofereceu-a ao major, acrescentando: — Isto é o que chamamos Soldat. É uma salsicha defumada. Dura, mas muito saborosa. (Sorriu.) Parece com aquilo que os americanos comem nos filmes de Far-West. Como é mesmo o nome?
— Charque — disse o major. Depois — e mais tarde se arrependeu de o ter privado da pequena refeição — aconselhou: — Deixe isso na cabana. Depois, viremos comer. Será que daqui podemos ver Innsbruck? Mostre-me para que lado é...
Oberhauser entrou na cabana e logo saiu de novo. O major caminhou por trás dele, que falava e gesticulava, mostrando aqui o pico de uma montanha, além a torre de uma igreja distante. Chegaram ao lugar acima da geleira. O major tirou então o revólver e, a uma distância de pouco mais de meio metro, disparou dois tiros na base do crânio de Hannes Oberhauser. Que nem estrebuchou. Caiu já morto. O impacto das balas atirou o guia na borda do precipício. O Major Smythe o empurrou para baixo. O corpo bateu em duas anfractuosidades do penhasco e caiu em cima da geleira. Mas sem escorregar para as fendas. Ficou a meio do caminho, junto a um monte de neve antiga, acumulada.
— Com os diabos! — Disse o major.
Os estampidos repercutiram naquelas alturas como se fossem tiros de morteiros e o eco os repetiu a distância. O Major Smythe lançou um olhar sobre a figura imóvel, estendida junto ao monte de neve, e logo correu para o montículo de pedra. Devia cuidar das coisas mais importantes em primeiro lugar! Começou a afastar as pedras, com uma pressa diabólica, atirando as mais roliças pela montanha abaixo. Feriu-se em arestas cortantes e, quando deu pela coisa, sua mão estava sangrando, mas não ligou importância. Um pouco de sangue, que é que tinha? Precisava era andar depressa, depressa — e continuou a escavar, furiosamente. O monte de pedra desaparecia. E então! Sim! Lá estava alguma coisa que parecia ser uma tampa metálica. Mais algumas pedras foram retiradas e apareceu uma velha caixa de munições da Wehrmacht. Em cima dela, ainda havia traços de seu antigo letreiro. O Major Smythe soltou um grunhido de alegria. Sentou-se sobre uma pedra e sua imaginação entrou em órbita, descrevendo círculos sobre carros Rolls Royce, iate em Monte Carlo, apartamentos de cobertura, joias de Cartier, champanha, caviar e, no meio de tudo, uma vez que amava o golfe, uma nova coleção de bastões metálicos de Henry Cotton.
Embriagado com esses sonhos, o Major Smythe ficou ali sentado um bom quarto de hora fitando a caixa metálica, como que fascinado. Depois, olhou para o relógio e levantou-se. Não devia perder tempo. Tinha que eliminar as pistas. A caixa tinha alças de ambos os lados. O major esperara que fosse pesada. Mentalmente, ele a havia comparado à coisa mais pesada que até então carregara — um salmão de vinte quilos que pescara na Escócia, pouco antes da guerra —, mas a caixa tinha mais do dobro desse peso. E ele só com muita dificuldade a retirara do seu leito entre as pedras para colocá-la sobre a rala relva alpina. Amarrou, então, o seu lenço numa das alças e, pondo-a desajeitadamente no ombro, levou-a para a cabana. Sentou-se, então, na soleira da porta e, sem despregar inteiramente os olhos da caixa, cortou a salsicha defumada de Oberhauser com seus dentes vigorosos e começou a comê-la, pensando como havia de transportar as suas 50 mil libras — era esse o seu cálculo — pela montanha abaixo. A salsicha era, realmente, uma ótima refeição montanhesa, dura, gorda, rescendendo a tempero forte à base de alho. Partículas dela ficaram incômodamente presas aos seus dentes. Limpou-os com um palito de prata. Sua preocupação era fazer desaparecer todos os vestígios de sua presença. De agora em diante, era um criminoso. Tão criminoso como alguém que tivesse roubado um banco e assassinado o vigia. Precisava lembrar-se disso! Se não se lembrasse, teria a morte, em vez das coisas maravilhosas com que sonhava. Precisava ter infinita cautela. E teria! Seria, para sempre, rico e feliz. Depois de tomar precauções ridiculamente minuciosa para não deixar na cabana o menor traço de sua passagem, arrastou a caixa metálica para a borda do precipício, distante da geleira, e de lá atirou-a embaixo, rezando para que chegasse intacta. A caixa cinzenta rolou no espaço, bateu numa ponta de pedra, continuou a descer, chocou-se cem metros abaixo com outra anfractuosidade e, por fim, atingiu o chão de um entulho, onde parou. O Major Smythe não podia vê-la, de onde estava, e não podia saber se estava aberta. Tanto fazia que estivesse ou não! A própria montanha poderia tê-lo poupado ao trabalho de abri-la...
Depois de um último olhar em torno, ele começou a descer, experimentando com prudência a solidez de cada grampo e de cada ponto de apoio, antes de firmar-se com todo o peso de seu corpo. Na descida, sua vida tinha um valor muito maior que na subida. Caminhou para a geleira e atravessou a passagem em que a neve começava a derreter-se formando sobre o gelo uma mancha escura. Dentro de mais alguns dias, toda a neve estaria derretida. Chegou até onde estava o cadáver. Tinha visto muitos, durante a guerra. Ossos fraturados e carnes sangrentas nada significavam para ele. Arrastou os restos de Oberhauser para a fenda mais próxima e, depois, atirou em cima a neve, acumulada nas bordas. Enterrado o corpo, mostrou-se satisfeito com o seu trabalho, tendo, ao voltar, o cuidado de recolocar os pés sobre as mesmas pegadas que fizera na vinda. E então empreendeu à descida, ao encontro da caixa metálica. Sim, como esperava, a montanha a havia aberto para ele! Com um gesto despreocupado, desfez os invólucros, em papel empregado na fabricação de cartuchos. As duas grandes barras de metal cintilaram ao sol. Tinham ambas as mesmas marcas: a cruz suástica num círculo, sob uma águia, e a data de 1943, símbolos usados pelo Reichsbank. O Major Smythe fez um movimento de aprovação com a cabeça. Recompôs os invólucros e, como a lingueta da tampa, que saltara, não fechasse mais a tampa, teve de bater-lhe com uma pedra, até voltar ao lugar. Passou, então, numa das alças o cinturão em que costumava conduzir o revólver, e continuou a descida, arrastando-a atrás de si. Era então 1 hora da tarde e o sol lhe queimava o busto nu, fritando-o em seu próprio suor. Seus ombros, avermelhados, estavam em fogo. A soalheira também queimava o seu rosto. Com os diabos! Parou junto a uma cascata que descia dos gelos da montanha, embebeu o lenço em água fria e o colocou na cabeça. Bebeu, depois, largamente e prosseguiu, praguejando, às vezes com fúria, quando em alguns declives mais fortes a caixa de metal o atropelava, machucando-lhe os calcanhares. Mas esses desconfortos, as queimaduras e os arranhões, não eram nada comparados com o que ele ainda teria que enfrentar no vale, onde o terreno era nivelado. Até então, tivera a lei da gravidade a seu lado. Mas na última milha é que seria um problema carregar aquela infernal muamba! 0 Major Smythe sentia as costas e o pescoço em fogo. Disse, porém, a si mesmo, para encorajar-se: — Bolas! Il faut souffrir pour être millionaire!
CONTINUA
O olho do molusco o observava cuidadosamente, de sua loca, no recife de coral. Agora, a ponta de um dos oito tentáculos avançava uma ou duas polegadas, ondulando hesitantemente, como se fizesse uma vaga exploração com as ventosas rosadas. Dexter Smythe sorriu com satisfação. Se lhe fosse dado o tempo necessário, ao menos um mês mais, além dos dois durante os quais se acamaradara com o polvo, decerto domesticaria inteiramente o fascinante animal. Mas temia que não chegasse a viver tanto. Devia aproveitar aquela oportunidade para se aproximar do molusco e lhe oferecer a mão de amigo. Sim... Em vez de limitar-se a lhe dar comida, na ponta de um arpão, devia, por assim dizer, apertar-lhe a mão, não era mesmo? “Não, ainda não, meu negrinho — pensou —, ainda não posso ter confiança em você...” Com toda a certeza, se fosse imprudente, outros tentáculos sairiam da loca lhe envolveriam o braço. E, puxado pelo polvo, a válvula de corliça da máscara se fecharia automaticamente. Ficaria sufocado. Ou, se o polvo a arrancasse, na certa morreria afogado. Quando muito, com um golpe rápido e feliz do arpão, poderia ferir o octópode, mas para matá-lo seria preciso muito mais do que isso. Não... Talvez mais tarde. Agora, seria o mesmo que enfrentar uma rolêta-russa, com cinco chances contra e uma só a favor. Poderia, mesmo, representar um meio rápido, eficaz e bizarro de pôr termo aos seus aborrecimentos! Mas, agora... não! Isso deixaria insolúvel uma questão sumamente interessante. E ele havia prometido resolvê-la... Dera a sua palavra ao simpático Professor Bengry, do Instituto Biológico Marinho. Dexter Smythe afastou-se do recife de coral, nadando lentamente. Seus olhos atentos buscavam, com empenho, a forma estranha e sinistra do peixe-escorpião, ou, como diria Bengry, do Scorpaena Plumieri.
O Major Dexter Smythe, condecorado com a Ordem do Império Britânico, oficial do Corpo de Fuzileiros Reais (reformado), era o que restava de um outrora bravo militar e homem encantador, que fazia conquistas sexuais fáceis em todos os meios em que atuava fardado. Principalmente entre o pessoal das organizações militares femininas — as Wrens, as Wracs e as moças do ATS, incumbidas das comunicações e do secretariado das forças-tarefas especiais, de que ele fizera parte, no fim de sua carreira. Tinha agora cinquenta e quatro anos. Estava ligeiramente calvo. E sua barriga se acomodava com certa dificuldade nos apertados limites do calção de banho. Além disso, tivera já duas complicações coronárias. Seu médico era Jimmy Graves, que fora um dos seus parceiros no jogo de pôquer de cacife altíssimo, no Queen’s Club, logo que ele chegara, com a mulher, à Jamaica. Meio a sério, meio brincando, o médico havia descrito a última dessas complicações, ocorrida um mês antes, como sendo a “segunda advertência”. Mas, em suas roupas bem talhadas, ocultas as muitas varizes às vistas indiscretas, com a barriga comprimida por uma larga cinta que o imaculado colête-faixa disfarçava, o antigo militar ainda fazia boa figura, num coquetel ou num jantar, em North Shore. Para seus amigos e vizinhos dessa praia, era um mistério o motivo pelo qual desafiava ele as recomendações do médico. Este lhe impusera uma dieta de uísque e de cigarros, limitados respectivamente a dois e a dez por dia, mas ele insistia em fumar como uma chaminé e em ir sempre para a cama bêbedo. Agradàvelmente bêbedo.
A verdade é que Dexter Smythe tinha chegado à fronteira em que o instinto da vida começa a ceder ao desejo da morte. As origens desse estado de espírito eram muitas e complexas. Estava irremediavelmente amarrado à Jamaica. A indolência tropical apoderara-se gradualmente de seu organismo, de tal modo que, se aparentava ser uma sólida peça de madeira de lei, interiormente não era mais que um tronco fofo, corroído pelos cupins. Tinha um exterior envernizado, mas ilusório. A preguiça, o relaxamento, o sentimento de culpas antigas, o total desgosto em relação a si mesmo haviam erodido o seu cerne, transformando-o em pó de serragem. Desde a morte de Mary, dois anos antes, não tinha mais amado a ninguém. Nem sequer estava certo de que realmente a havia amado. Sabia, porém, que sentia a ausência dela a todas as horas do dia, que sentia falta de seu afeto e de sua alegria, de sua presença desmazelada, barulhenta e, por vezes, irritante. Enquanto devorava canapés e bebia martinis da ralé internacional que frequentava em North Shore, ele se apercebia de que não nutria por essa gente outro sentimento que não fosse o de completo desprezo. Poderia, talvez, ter feito amigos entre elementos mais respeitáveis, os fazendeiros do interior da ilha, os proprietários do litoral, os representantes das profissões liberais e do mundo político local. Mas isso significaria voltar a ter propósitos sérios numa vida em que a preguiça e o embotamento espiritual limitaram-se ao fundo das garrafas. Tal coisa estava inteiramente fora de suas cogitações.
O Major Smythe estava mortalmente entendiado e, se não fosse por determinado motivo, já teria há muito tempo engolido o vidro de barbitúricos que com facilidade adquirira a um dos médicos da ilha. O fio que ainda o prendia à vida era muito tênue. Os grandes bebedores tendem a exagerar o seu temperamento básico, que é sempre um destes quatro: sanguíneo, fleumático, colérico e melancólico. O bêbedo sanguíneo torna-se alegre até à histeria ou à idiotia. O fleumático afunda-se num abatimento sombrio. O colérico é o ébrio turbulento das caricaturas, que passa a maior parte do tempo na prisão, por ter quebrado coisas ou agredido pessoas. E o melancólico é o beberrão que tem pena de si mesmo, geralmente vomitando ou se desmanchando em prantos. O Major Smythe era um melancólico, com a curiosa e divertida fantasia de fazer relações pessoais com aves, insetos e peixes existentes nos cinco acres de Wavelet, isto é, de Ondinhas, nome sintomático que dera à sua pequena villa. A praia e o recife de coral, além dela, eram os seus lugares prediletos. E, entre todos os seres, preferia os peixes. Referia-se a eles como à “gente do mar” e, uma vez que os peixes, como as aves, são fiéis aos seus recantos, ao fim de dois anos ele os conhecia a todos intimamente, amava-os e acreditava ser retribuído por eles com igual amor.
Certo, eles o conheciam, como os animais de um Jardim Zoológico conhecem os seus tratadores. Como estes, ele lhes ia levar o alimento diário, arrecadando pedacinhos de algas e revolvendo a areia o os seixos do fundo do mar, para ajudar os que se alimentam nos lugares mais profundos. Desenterrava ovos e ouriços para os pequenos carnívoros e levava sobras de carne para os grandes. E agora, enquanto nadava lenta e pesadamente, de um lado para o outro do recife de coral e através dos canais que conduzem às águas profundas, sua “gente do mar” enxameava ao redor dele, sem nenhum medo, em atitude de expectativa, quase roçando a aguda ponta de seu arpão, que conheciam apenas como uma espécie de longa colher dadivosa. Vinham namorar o vidro da máscara Pirelli e, em alguns casos, como certas mulheres provocantes, tomavam intimidades perigosas, roçando em suas pernas e em seus pés.
Parte da mente do Major Smythe estava fixada nessa “gente” brilhante e colorida, mas outra parte se preocupava com uma tarefa que devia realizar naquele dia. Ele cumprimentava os peixes com palavras que não chegava a proferir — “Bom dia, beleza!” Era a sua mensagem a um peixe azul-escuro, salpicado de malhas que semelhavam lentejoulas, de um azul ainda mais intenso e brilhante. É o “peixe-joia”, que parece um vidro estrelado do perfume Vol de Nuit, de Worth. “Sinto muito, hoje não, meu bem”, dizia em silêncio a um peixe-borboleta, esvoaçante, com falsos “olhos” na cauda. “Você está gordo demais, meninão”, afirmava mentalmente a um peixe-papagaio de côr azul-índigo, que devia pesar uns bons cinco quilos. Seus olhos estavam sempre atentos, à procura de sua “gente”. No recife de coral, seu único inimigo que ele matava à primeira vista, era o peixe-escorpião.
O peixe-escorpião habita principalmente nas águas tépidas do sul e o rascasse, que é a base da bouillabaisse, pertence à mesma família. A variedade do Caribe alcança apenas cerca de doze polegadas de comprimento e pesa, talvez, meio quilo. É o mais feio peixe do mar, como se a natureza ao engendrá-lo assim tivesse querido nos fazer uma advertência. Sarapintado de marrom-acinzentado, tem uma cabeçorra felpuda, de feitio cuneiforme. Os olhos são de um vermelho agressivo e consegue dissimular perfeitamente a sua silhueta, em meio dos recifes. Embora sendo um peixe pequeno, sua boca amplamente guarnecida de dentes pontiagudos é tão grande que ele pode engolir, sem dificuldade, a maioria dos peixinhos que vivem ao redor dos corais. Mas a sua arma suprema consiste nas eretas barbatanas dorsais, as primeiros das quais agem por contato como agulhas hipodérmicas, alimentadas por glândulas venenosas, que contêm tetrodotoxina suficiente para matar um homem, se o atingirem num lugar vulnerável — por exemplo, numa artéria, sobre o coração ou nas virilhas. Esse é o único perigo real para quem se aventura a nadar nos recifes. Muito mais perigoso do que as barracudas e os tubarões, é extremamente confiante em sua camuflagem e em suas armas, não fugindo de coisa alguma, exceto de uma exagerada aproximação de um pé humano ou mesmo de um contato direto. Nossas ocasiões, o peixe-escorpião nada apenas alguns metros com seu largo peitoral, bizarramente listrado, parando atento, ou pousado na areia, onde por mimetismo parece uma formação coralina, ou entre as rochas e algas, onde virtualmente desaparece. O Major Smythe estava decidido a encontrar um, arpoá-lo e dá-lo a seu polvo, para ver se este o aceitava ou rejeitava. Queria saber se um dos grandes predadores do oceano reconheceria a periculosidade, o poder mortífero do veneno do outro. Consumiria o polvo a parte inferior do peixe-escorpião, sem lhe tocar nas espinhas letais? Devorá-las-ia também e viria a sofrer um castigo, atingido pelo veneno? Eram essas as perguntas que Bengry, do Instituto, desejava esclarecer. E, agora, sentindo o princípio do fim de sua vida, o solitário de Wavelets pensou que esse poderia ser também o fim do seu querido polvo. E decidiu dar resposta àquelas perguntas, deixando uma pequena lembrança de sua vida fútil e inútil num recanto empoeirado dos arquivos do Instituto.
É que, apenas duas ou três horas antes, o Major Dexter Smythe vira a sua vida transformar-se, passando de mal a pior. Para uma condição tão pior que ele teria muita sorte se, dentro de uma semana — tempo necessário para a troca de telegramas entre o governo da ilha e o Ministério das Colônias, que por sua vez se comunicaria com o Serviço Secreto e, através deste, com a Scotland Yard e a Procuradoria da Justiça, bem como para a transferência do Major Smythe para Londres, sob escolta policial —, na melhor das hipóteses, saísse de um inevitável julgamento condenado à prisão perpétua. E tudo isso por causa de um homem chamado Bond — Comandante James Bond —, que aparecera em Wavelets às 10h 30m da manhã, num táxi que tomara em Kingston. O dia tinha começado normalmente. O Major Smythe acordara de seu sono à base de seconal, engolira dois comprimidos de panadol (o precário estado cardíaco lhe proibira o uso da aspirina), tomara um banho de chuveiro e fora devorar o seu pequeno almoço debaixo de frondosa amendoeira, no jardim, onde passara uma hora, alimentando pássaros famintos com as sobras da refeição. Depois, tomou as doses de anticoagulante receitadas pelo médico e as pílulas contra a alta pressão arterial, matando o tempo com a leitura do Daily Gleaner e fazendo hora para tomar o seu primeiro trago. Antes, esperava até às 11 horas. Mas, por último, fixara esse momento em 10h 30m. Já havia servido dois conhaques com ginger ale — a bebida de quem sabe embebedar-se — quando ouviu o ruído do automóvel que se aproximava. Luana, a governante negra, não tardou a aparecer no jardim para anunciar: — Um cara tá aí para falar com o sinhô, Majó.
— Como se chama?
— Sei não, Majó. Disse não. Só falou que é negócio da casa do gunverno.
O Major Smythe vestia apenas uns velhos shorts de brim caqui e calçava um par de alpercatas. Não podia receber um visitante assim.
— Mande entrar para a sala, Luana, e diga que não demorarei a atendê-lo.
Foi ao seu quarto, vestiu um blusão branco, umas calças e penteou o que ainda lhe restava da antiga cabeleira. Um representante do governo! Que diabo quereria com ele? Mal entrou na sala, viu um homem alto, com um terno de tropical azul, debruçado na janela, olhando para o mar. O Major teve logo a sensação de que ia receber más notícias. E quando o homem se voltou encarando-o atentamente, com os olhos azul-cinza, Smythe teve a certeza de que ele estava, realmente, em missão oficial. E em missão nada amistosa, porque nem ao menos retribuiu o seu cordial sorriso. Um calafrio percorreu a espinha do major. Teriam, então, descoberto tudo?
— Bem, bem, eu sou Smythe. Pelo que sei, o senhor representa o governo da ilha. Como vai Sir Kenneth?
Não houve sequer um aperto de mão. O homem disse:
— Ainda não o vi. Faz só uns três dias que cheguei. Estive procurando ver os pontos pitorescos da ilha. Meu nome é Bond. James Bond. Sou do Ministério da Defesa.
O Major Smythe se lembrava do eufemismo habitualmente usado para designar o Serviço Secreto. E disse, esforçando-se para se mostrar animado e alegre: — Oh... A velha firma? Prefere conversar aqui mesmo, ou no jardim? Que tal um drinque? (E o Major pôs um cubo de gelo num copo, que já tinha nas mãos.) Rum e ginger ale é o mais popular veneno local... Eu, porém, prefiro ginger ale, sem mais nada...
A mentira lhe escapou com facilidade, graças ao automatismo dos alcoólatras. — Não me sirva nada. E falemos aqui mesmo — disse o recém-vindo, recostando-se no parapeito da janela, lavrado em mogno.
O Major Smythe sentou-se, passou uma perna sobre o braço da confortável poltrona e tomou um grande trago de seu copo, que depositou depois ao lado.
— Bem — disse, olhando o visitante com firmeza, cara a cara. — Em que poderei lhe ser útil? Alguém está fazendo sujeiras em North Shore e vocês estão precisando de ajuda? Terei prazer em voltar ao antigo trabalho. Já vai longe o tempo em que fui agente secreto, mas ainda me lembro de algumas técnicas...
— Não se incomoda que eu fume?
O visitante, ao fazer a pergunta, já tinha, nas mãos, uma cigarreira de forma achatada que poderia, no entanto, conter cinquenta cigarros. A esse sinal de fraqueza, comum a ambos, o major se sentiu confortado.
— Em absoluto, meu caro. (E fez um movimento, aproximando o seu isqueiro, aceso.) — Obrigado. (James Bond já havia acendido o cigarro.) Mas não vim aqui para tratar de assuntos locais. O que realmente me trouxe a North Shore foi o desejo de pedir-lhe que se recorde minuciosamente de seu trabalho para o Serviço Secreto, nos últimos dias da II Grande Guerra... (Fez uma pausa, para observar o efeito de suas palavras no Major Smythe) Principalmente quando trabalhou na Divisão de Assuntos Gerais...
O Major Smythe teve um riso breve e escarninho. Ele sabia. Estava absolutamente certo. Mas, quando a revelação saiu dos lábios daquele homem, não pôde conter a gargalhada, reação de alguém que se via golpeado em cheio e procurava dar a impressão contrária.
— Mas, Santo Deus! A velha DAG! Claro que me lembro ainda dela... E de tudo o mais...
Riu de novo. E sentiu aguilhoar-lhe o peito a dor constritiva da angina, provocada pela pressão do que certamente iria acontecer. Enfiou a mão no bolso da calça, despejou o conteúdo de um pequeno frasco no côncavo da outra mão e, depois, colocou sob a língua os pequenos comprimidos brancos de TNT. Observava divertidamente a crescente tensão estampada na fisionomia do visitante, cujos olhos se apertavam para melhor fitá-lo. Não precisava ter medo, não. Não se tratava de pílulas de cianureto ou qualquer outro veneno. O major despistou: — A acidose não o persegue? Não? Pois a azia é o meu tormento. Ontem à noite, fui a uma festa no Jamaica Inn. Preciso me lembrar de que não tenho mais 25 anos... Bem, mas ainda posso voltar para a DAG. Creio que hoje somos bem poucos, os veteranos, não? (Sentiu outra vez a dor no peito.) É alguma coisa a respeito da história oficial da guerra?
James Bond, olhando para a ponta do cigarro, disse que não se tratava exatamente disso.
— Pensava... Porque, não sei se sabe: eu escrevi quase todo o capítulo sobre o Serviço Secreto no War Book... Já faz muito tempo. Mas duvido que haja algo de realmente importante a acrescentar...
— Nem mesmo alguma coisa sobre certa operação no Tirol? Num lugar chamado Ober Aurach, a cerca de uma milha de distância de Kitzbuhel?
A menção desses nomes provocou outro pequeno riso do major:
— Mas essa operação foi uma ninharia... Tudo muito fácil. Aqueles sujeitos da Gestapo tinham mais fanatismo do que competência... Uns bêbedos. Conservaram em seus arquivos todas as pistas. E os entregaram sem nenhum protesto. Esperavam, em troca, a nossa indulgência, talvez... A grande maioria foi enforcada por crimes de guerra, acredito. Levei tudo para o Quartel-General, em Salzburgo. Depois, fui para o vale do Mittersill, à procura de outro esconderijo... O Major Smythe tomou outro trago e acendeu um cigarro. Depois, olhando para cima: — Acho que não há mais nada a acrescentar a essas linhas gerais...
— O senhor, se não me engano, foi nessa época o número 2... O commanding officer era um americano, não? O Coronel King, do Exército do General Patton...
— É verdade, ele foi meu chefe. Excelente sujeito. Usava um bigodinho, coisa que não é muito de americano. Tinha competência indiscutível para escolher vinhos. Um tipo muito civilizado...
— No seu relatório sobre aquela operação, ele afirma que lhe entregou todos os documentos necessários às buscas e investigações preliminares, por ser o senhor o perito em assuntos germânicos do grupo... O senhor devolveu esses papéis a ele com algumas notas ou observações? (James Bond fez uma pausa.) Todos, sem falta de um só?
O Major Smythe ignorou a insinuação:
— É verdade. O que ele me deu foi, principalmente, uma lista de nomes. Indicações recebidas da contra-espionagem. Os agentes da CE em Salzburgo ficaram muito satisfeitos com essas pistas. E puderam aprofundar as buscas em várias direções. Acredito que os originais devem estar arquivados em algum lugar, uma vez que foram usados nos julgamentos de Nuremberg. Isso mesmo! (O Major Smythe parecia forçar a memória.) Posso dizer que os mais alegres anos de minha vida foram os do período em que trabalhei para a DAG. Vinho, mulheres, música! Ah, se eu pudesse viver esse bom tempo outra vez!
Nessa ocasião, o Major Smythe dizia a pura verdade. Ele sustentara uma perigosa e desconfortável luta até 1945. Quando os famosos Comandos ingleses foram formados em 1941, ele se apresentara como voluntário, sendo transferido dos Fuzileiros Reais para o Quartel-General das Operações Combinadas, sob a direção de Lorde Mountbatten. Seu domínio da língua alemã (que lhe vinha da mãe, nascida em Heidelberg) qualificara-o para o invejável lugar de coletor de informações nas operações de Comandos através do canal da Mancha. Tivera a sorte de permanecer durante dois anos nesse trabalho sem um arranhão e de receber a Ordem do Império Britânico, tão ciosa e avaramente distribuída durante a última guerra. E, depois, quando se preparava o golpe final contra a Alemanha, a Divisão de Assuntos Gerais fora formada, em conjunto, pelo Serviço Secreto e os Comandos. O Major Smythe, comissionado, então, como tenente-coronel, recebeu a incumbência de formar a unidade que devia descobrir e limpar os esconderijos dos graúdos da Gestapo e da Abwehr no momento em que se desse o colapso do nazismo. O Serviço Secreto, ao aprovar o plano, insistiu em que fosse acompanhado o avanço americano não por uma única, mas por seis dessas unidades, que operariam na Alemanha e na Áustria no momento da rendição. Eram unidades de vinte homens, cada uma com um carro blindado ligeiro, seis jipes, três camionetas e um caminhão com instalações de radiotelefonia. Controladas por um comando misto, anglo-americano, teriam elas à sua disposição o pessoal do Serviço de Inteligência do Exército, do SIS e do OSS. O Major Smythe fora o número 2 da Força A, destinada a atuar no Tirol, área cheia de bons esconderijos, com fácil acesso à fronteira de outros países. Por isso mesmo, era considerada o valhacouto n.° 1 pelo pessoal da DAG. E, como confessara o Major Smythe a James Bond, a operação fora praticamente uma festa, não tendo sido preciso disparar um só tiro. Exceto, é claro, dois que foram disparados pelo próprio Major Smythe. James Bond perguntou-lhe com ar mais casual do mundo: — O nome de Hannes Oberhauser lhe evoca alguma lembrança?
O Major Smythe franziu o sobrecenho, como que num esforço para se lembrar:
— Não, creio que não... (Fazia 32 graus à sombra, mas ele tremia de frio.) — Permita que eu lhe refresque a memória... No mesmo dia em que os documentos lhe foram entregues para exame, o senhor fez perguntas no Tiefenbrunner Hotel, onde se hospedou, sobre quem era o melhor guia alpino de Kitzbuhel. Foi-lhe indicado o guia Oberhauser. No dia seguinte, o senhor pediu ao seu comandante um dia livre, que lhe foi concedido. Na manhã desse dia, o senhor se dirigiu ao chalé de Oberhauser, prendeu-o com a cláusula de incomunicabilidade, e o levou no seu jipe. Não está se lembrando dessas particularidades?
Como era familiar aquela frase sobre o refrescamento da memória! Quantas vezes o próprio Major Smythe não a usara, como armadilha, para nela colher um mentiroso nazista?... Mas não devia, agora, se afobar. Há anos que estava preparado para alguma coisa nesse estilo. E, por isso, respondeu: — Não... Eu absolutamente não me lembro.
— Oberhauser era um homem de cabelo grisalho e claudicava de uma perna. Falava algum inglês, pois antes da guerra costumava trabalhar como instrutor de esqui, tendo como aprendizes ingleses e americanos...
O Major Smythe olhou impàvidamente para o visitante, fixando-lhe os olhos frios e claros:
— Sinto muito... Mas não posso ajudá-lo. Não me recordo.
James Bond tirou do bolso o pequeno caderno de notas, folheando-o ligeiramente. Deteve-se numa das páginas e disse:
— Vou ajudar um pouco mais a sua memória. Nesse tempo, como arma de uso pessoal, o senhor tinha um revólver regulamentar Webley & Scott, calibre 45, com o número da série 8967/362...
— Sim, era Webley... Um trabucão enorme, difícil de carregar. Espero que tenham adotado algo melhor. Assim como um Luger ou uma Beretta pesada. Mas eu nunca me dei ao trabalho de anotar o número...
— O número é esse mesmo — disse James Bond. — Verifiquei a data em que o recebeu do QG e a data em que o devolveu. O senhor assinou o livro de carga, ambas as vezes...
— Então, deve ter sido essa mesma a minha arma — concordou o Major Smythe, dando de ombros. — Mas... (E agora havia impaciência em sua voz) ... Mas, se me permite a pergunta, em que é que isso pode interessar?
James Bond o olhou com certa curiosidade. Depois falou e não se poderia dizer que o seu tom fosse cruel:
— Bem sabe que isso é fundamental, Smythe. (Fez uma pausa e pareceu refletir.) Façamos um acordo. Eu irei ao jardim, por uns dez minutos, pouco mais ou menos. Dou-lhe tempo para se lembrar de tudo com exatidão. Quando se tiver lembrado, me chame... (E acrescentou, a sério:) — Tornará as coisas bem mais fáceis para você a reconstituição do caso em suas próprias palavras... (Caminhou para a porta do jardim, mas se voltou.) — Creio que se trata apenas de pingar os ii e cortar os tt... Quero que saiba que, antes de vir aqui esta manhã, tive uma boa conversa com os irmãos Fu, em Kingston...
0 Major Smythe sentiu-se de certa forma desoprimido. Acabara a batalha das insinuações e das evasivas, a tentativa de despistar e de inventar álibis. Era o fim das negaças. Se o tal James Bond conversara com os irmãos Fu, sem dúvida arrancara alguma coisa dos chineses. De modo algum quereriam eles qualquer complicação com as autoridades. E, além do mais, ainda tinham uma parte da muamba em seu poder. O Major se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale, quase meio a meio. O melhor era tomar uns bons tragos, enquanto ainda podia! O futuro não lhe ofereceria muitas oportunidades como essa. Voltou para a poltrona, acendeu o vigésimo cigarro do dia e olhou para o relógio. Eram 11h30m. Se pudesse livrar-se daquele importuno dentro de uma hora, ainda poderia ir ver a sua “gente”. Sentou-se e bebeu, mergulhado em seus pensamentos. Poderia prolongar ou abreviar a sua história, se adicionasse alguma coisa sobre o estado do tempo, o perfume das flores dos pinheiros que aspirara nas montanhas... Mas poderia omitir a paisagem e abreviá-la. Preferiu abreviar. Viu-se na cama dupla, no Tiefenbrunner Hotel, com montanhas de papelório para examinar. Não procurava nada de especial. Apenas apanhava, a esmo, um documento aqui, outro ali, concentrando-se principalmente nos que tinham o timbre, em vermelho, de KOMMANDOSACHE, HOECHST VERTRAULICH. Não existiam muitos destes, que eram quase sempre informações confidenciais sobre nazistas graúdos, sobre códigos aliados que os alemães tinham decifrado e sobre esconderijos secretos. Desde que estes eram um dos principais objetivos da Força A, o Major Smythe os havia examinado com particular excitação — eram esconderijos de alimentos, de explosivos, de armas, de fichários de espionagem e do pessoal da Gestapo, uma imensa rede de arrasto com toda a espécie de peixes! E, ainda, no fim de toda a papelada, um simples envelope lacrado, com o aviso: PARA SER ABERTO APENAS EM CASO DE EMERGÊNCIA. O envelope continha uma só folha de papel. Não havia assinatura sob as palavras escritas em letra vermelha.
No cabeçalho, havia a palavra VALUTA.
Embaixo, lia-se: WILDE KAISER. FRANZISKANER HALT. 100 M. OESTLICH STEINHUGEL. WAFFENKISTE. ZWEI BAR 24 KT. e uma lista de medidas em centímetros. O Major Smythe afastou as mãos, como se numa história de pescaria, estivesse mostrando as dimensões de um peixe. Duas barras de ouro de 24 quilates, cada uma, quase tão grande como dois tijolos! E pensar que um simples soberano inglês, de apenas dezoito quilates, valia naquele momento entre duas e três libras! As duas barras de ouro representam uma verdadeira fortuna! Quarenta, cinquenta mil libras, era quanto valeriam! Não tinha ainda ideia alguma a respeito, mas — era o melhor — riscou um fósforo e acendeu o papel e o envelope, reduzindo-os a cinzas, que colocou na pia e fez desaparecer sob um jorro d’água. Apanhou, depois, o mapa da área, em grande escala, preparado pela artilharia austríaca e, um momento depois, tinha sob o dedo o Franziskaner Halt. Nele estava indicado um abrigo alpino desabitado, refúgio de montanhistas, numa espécie de pequeno platô logo abaixo do mais alto pico das montanhas do Kaiser, essa imensa massa de pedras dentadas que fecha, ao norte, o horizonte de Kitzbuhel. E ali, onde o seu dedo repousava, devia existir o marco de pequenas pedras amontoadas. Significava isso que uma fortuna estava ao seu alcance, a apenas dez milhas de distância e, talvez, a apenas cinco horas de subida!
O princípio tinha sido tal como James Bond descrevera. Fora ao chalé de Oberhauser às 4 horas da madrugada. Prendera-o e dissera a seus familiares, todos em lágrimas, que o ia levar para o centro de interrogatórios, em Munique. Se o guia estivesse isento de culpa, estaria de volta dentro de uma semana. Se a família fizesse algum protesto isso só poderia prejudicar Oberhauser, tornando as coisas ainda mais difíceis. Smythe se recusara a declinar o seu nome e tivera a precaução de ocultar o número do jipe. Dentro de 24 horas, a Força A deixaria o lugar e o governo militar se instalaria em Kitzbuhel. E então o incidente seria sepultado no esquecimento pelo tumulto e pelas complicações decorrentes da própria ocupação militar.
Oberhauser revelou-se um excelente sujeito, disposto a cooperar, assim que perdeu o medo inicial. E quando Smythe começou a lhe falar de alpinismo e de esqui se tornou uma camaradão. O caminho passava ao sopé das montanhas, rumo a Kufstein. Smythe dirigia lentamente, fazendo comentários admirativos sobre os picos em que já se refletiam as primeiras luzes matinais. Finalmente, junto à base do Pico do Ouro, voltou-se para Oberhauser e lhe disse: — Oberhauser, você é uma pessoa com quem simpatizo. Temos muitos interesses em comum e, pela sua conversa, estou convencido de que não cooperou com os nazistas. Eu lhe explico o que pretendo fazer por você. Passaremos o dia escalando as montanhas do Kaiser e, depois, eu o levo de volta para Kitzbuhel. Direi, então, ao meu chefe que, interrogado em Munique, você foi imediatamente liberado... Que me diz a isso? — Rematou, com um sorriso.
O homem quase derramou lágrimas de gratidão. Mas era preciso que ele tivesse, em seu poder, um papel mostrando que estava isento de culpa? Certamente. A assinatura do Major Smythe seria mais que suficiente. Feito o pacto, o jipe foi dirigido através de um atalho e ficou escondido, longe da estrada, entre os pinheiros. Smythe estava preparado para a excursão, sem nada sob a jaqueta, vestindo um short e calçando botas de paraquedistas, fornecidas à unidade pelos americanos. A carga que levava era apenas o revólver Webley & Scott, absolutamente necessário, pois afinal de contas Oberhauser era um inimigo. O guia vestia a sua melhor roupa e calçava as suas botas alpinas. Não estava preocupado com a subida. E assegurou ao Major Smythe que não seria necessário usar nem cordas, nem ganchos, até chegarem à cabana, em que poderiam parar para descansar. Era aí o Franziskaner Halt.
— É esse o nome? — Perguntou o Major.
— Sim. E um pouco abaixo há uma pequena geleira. Passaremos ao largo, pois nela há muitas fendas.
— Assim faremos... — Disse o Major Smythe, pensativamente, examinando a parte posterior da cabeça de Oberhauser, por onde o suor escorria. Ora, afinal, ele era apenas um reles comedor de chucrute, talvez da mesma laia que os nazistas. Seria tão fácil liquidá-lo... A única coisa que preocupava o major era trazer a muamba pela montanha abaixo. Poderia colocar as barras de ouro às costas. Ou arrastá-las — por que não? — Durante grande parte do percurso, na sua caixa de munição. Longa e tortuosa foi a caminhada, montanha acima. Quando deixaram para trás os pinheiros, já o sol se alteava, dardejante. A princípio, caminharam entre rochas e entulhos, em constantes zigue-zagues. Sem o auxílio de um guia, nunca conseguiria o major chegar ao cimo do penhasco cinzento e ameaçador, que parecia tocar o azul do céu. Ambos caminhavam agora nus da cintura para cima, banhados em suor, que lhes escorria pelas pernas para dentro das botas. Embora o guia claudicasse, subiam com relativa rapidez. Quando pararam, para um drinque e um breve descanso, Oberhauser se congratulou com Smythe por estar em tão boa forma. O major, com a cabeça escaldando, tantos eram os seus planos, disse ríspida e mentirosamente que todos os ingleses eram cobras, em matéria de escalar montanhas. Subir ao penhasco não era difícil. Se lá havia uma cabana, é porque o material para a sua construção fora levado para ali nos ombros de alguém. Em certos lugares, pontos de apoio tinham sido cavados na rocha. E havia, ocasionalmente, grampos de ferro, em que os alpinistas podiam se agarrar. Mas achar as passagens exatas era o mesmo que descobrir os segredos de um labirinto. Ainda bem que trouxera o guia. Este, em certo momento, sondando o chão, para verificar se estava firme, fizera correr pequenina avalancha de pedras afrouxadas por muitos anos de ventanias e nevascas. Elas se precipitaram, com estrondo, lá embaixo. O Major Smythe pensou logo no barulho, que poderia despertar atenção. Perguntou se não haveria gente nas proximidades.
— Qual! Ninguém... A não ser nas proximidades de Kufstein... — Disse Oberhauser, apontando uma larga extensão, ao redor. — Aqui há pouca água e nenhum pasto. E, desde o princípio da guerra... (Interrompeu-se, deixando a frase incompleta.) Ladearam a geleira e continuaram a subida. A vista do Major Smythe media a extensão e a largura das fendas, por onde iriam passar. A uns cem pés acima, viram, então, a cabana, batida pelas intempéries. O major mediu o ângulo do declive. Era quase uma linha reta. Agora? Ou depois? Preferiu que fosse depois. O caminho para a última parte da travessia ainda não estava claramente definido. Alcançaram a cabana ao fim de cinco horas. O Major Smythe disse que queria aliviar um pouco a bexiga e caminhou para o leste, sem dar atenção alguma aos belos panoramas da Áustria e da Baviera, que se estendiam por cinquenta milhas, sob o sol estival. Ele contava os passos com extremo cuidado. Exatamente a 120 havia o montículo de pedras, talvez um marco carinhosamente erguido em memória de um alpinista desaparecido. Era isso o que qualquer pessoa normalmente pensaria. Mas o Major Smythe, sabendo que não se tratava disso, ardia de desejos de desfazer a pequena pirâmide de pedras soltas. Mas, em vez de fazê-lo, tirou do coldre o seu Webley & Scott, soltou a trava e examinou o cilindro. E voltou, então, rumo à cabana, onde Oberhauser entrara. Fazia frio, a tal altura — uns bons 3 mil metros —, e o guia acendia o fogo. Smythe controlou o seu horror e pediu: — Oberhauser, venha me mostrar as paisagens. Há vistas maravilhosas, aqui em cima!
— Com prazer, major — disse o guia, seguindo Smythe para fora da cabana. Uma vez lá fora, tirou do bolso um papel, no qual havia alguma coisa embrulhada. Ofereceu-a ao major, acrescentando: — Isto é o que chamamos Soldat. É uma salsicha defumada. Dura, mas muito saborosa. (Sorriu.) Parece com aquilo que os americanos comem nos filmes de Far-West. Como é mesmo o nome?
— Charque — disse o major. Depois — e mais tarde se arrependeu de o ter privado da pequena refeição — aconselhou: — Deixe isso na cabana. Depois, viremos comer. Será que daqui podemos ver Innsbruck? Mostre-me para que lado é...
Oberhauser entrou na cabana e logo saiu de novo. O major caminhou por trás dele, que falava e gesticulava, mostrando aqui o pico de uma montanha, além a torre de uma igreja distante. Chegaram ao lugar acima da geleira. O major tirou então o revólver e, a uma distância de pouco mais de meio metro, disparou dois tiros na base do crânio de Hannes Oberhauser. Que nem estrebuchou. Caiu já morto. O impacto das balas atirou o guia na borda do precipício. O Major Smythe o empurrou para baixo. O corpo bateu em duas anfractuosidades do penhasco e caiu em cima da geleira. Mas sem escorregar para as fendas. Ficou a meio do caminho, junto a um monte de neve antiga, acumulada.
— Com os diabos! — Disse o major.
Os estampidos repercutiram naquelas alturas como se fossem tiros de morteiros e o eco os repetiu a distância. O Major Smythe lançou um olhar sobre a figura imóvel, estendida junto ao monte de neve, e logo correu para o montículo de pedra. Devia cuidar das coisas mais importantes em primeiro lugar! Começou a afastar as pedras, com uma pressa diabólica, atirando as mais roliças pela montanha abaixo. Feriu-se em arestas cortantes e, quando deu pela coisa, sua mão estava sangrando, mas não ligou importância. Um pouco de sangue, que é que tinha? Precisava era andar depressa, depressa — e continuou a escavar, furiosamente. O monte de pedra desaparecia. E então! Sim! Lá estava alguma coisa que parecia ser uma tampa metálica. Mais algumas pedras foram retiradas e apareceu uma velha caixa de munições da Wehrmacht. Em cima dela, ainda havia traços de seu antigo letreiro. O Major Smythe soltou um grunhido de alegria. Sentou-se sobre uma pedra e sua imaginação entrou em órbita, descrevendo círculos sobre carros Rolls Royce, iate em Monte Carlo, apartamentos de cobertura, joias de Cartier, champanha, caviar e, no meio de tudo, uma vez que amava o golfe, uma nova coleção de bastões metálicos de Henry Cotton.
Embriagado com esses sonhos, o Major Smythe ficou ali sentado um bom quarto de hora fitando a caixa metálica, como que fascinado. Depois, olhou para o relógio e levantou-se. Não devia perder tempo. Tinha que eliminar as pistas. A caixa tinha alças de ambos os lados. O major esperara que fosse pesada. Mentalmente, ele a havia comparado à coisa mais pesada que até então carregara — um salmão de vinte quilos que pescara na Escócia, pouco antes da guerra —, mas a caixa tinha mais do dobro desse peso. E ele só com muita dificuldade a retirara do seu leito entre as pedras para colocá-la sobre a rala relva alpina. Amarrou, então, o seu lenço numa das alças e, pondo-a desajeitadamente no ombro, levou-a para a cabana. Sentou-se, então, na soleira da porta e, sem despregar inteiramente os olhos da caixa, cortou a salsicha defumada de Oberhauser com seus dentes vigorosos e começou a comê-la, pensando como havia de transportar as suas 50 mil libras — era esse o seu cálculo — pela montanha abaixo. A salsicha era, realmente, uma ótima refeição montanhesa, dura, gorda, rescendendo a tempero forte à base de alho. Partículas dela ficaram incômodamente presas aos seus dentes. Limpou-os com um palito de prata. Sua preocupação era fazer desaparecer todos os vestígios de sua presença. De agora em diante, era um criminoso. Tão criminoso como alguém que tivesse roubado um banco e assassinado o vigia. Precisava lembrar-se disso! Se não se lembrasse, teria a morte, em vez das coisas maravilhosas com que sonhava. Precisava ter infinita cautela. E teria! Seria, para sempre, rico e feliz. Depois de tomar precauções ridiculamente minuciosa para não deixar na cabana o menor traço de sua passagem, arrastou a caixa metálica para a borda do precipício, distante da geleira, e de lá atirou-a embaixo, rezando para que chegasse intacta. A caixa cinzenta rolou no espaço, bateu numa ponta de pedra, continuou a descer, chocou-se cem metros abaixo com outra anfractuosidade e, por fim, atingiu o chão de um entulho, onde parou. O Major Smythe não podia vê-la, de onde estava, e não podia saber se estava aberta. Tanto fazia que estivesse ou não! A própria montanha poderia tê-lo poupado ao trabalho de abri-la...
Depois de um último olhar em torno, ele começou a descer, experimentando com prudência a solidez de cada grampo e de cada ponto de apoio, antes de firmar-se com todo o peso de seu corpo. Na descida, sua vida tinha um valor muito maior que na subida. Caminhou para a geleira e atravessou a passagem em que a neve começava a derreter-se formando sobre o gelo uma mancha escura. Dentro de mais alguns dias, toda a neve estaria derretida. Chegou até onde estava o cadáver. Tinha visto muitos, durante a guerra. Ossos fraturados e carnes sangrentas nada significavam para ele. Arrastou os restos de Oberhauser para a fenda mais próxima e, depois, atirou em cima a neve, acumulada nas bordas. Enterrado o corpo, mostrou-se satisfeito com o seu trabalho, tendo, ao voltar, o cuidado de recolocar os pés sobre as mesmas pegadas que fizera na vinda. E então empreendeu à descida, ao encontro da caixa metálica. Sim, como esperava, a montanha a havia aberto para ele! Com um gesto despreocupado, desfez os invólucros, em papel empregado na fabricação de cartuchos. As duas grandes barras de metal cintilaram ao sol. Tinham ambas as mesmas marcas: a cruz suástica num círculo, sob uma águia, e a data de 1943, símbolos usados pelo Reichsbank. O Major Smythe fez um movimento de aprovação com a cabeça. Recompôs os invólucros e, como a lingueta da tampa, que saltara, não fechasse mais a tampa, teve de bater-lhe com uma pedra, até voltar ao lugar. Passou, então, numa das alças o cinturão em que costumava conduzir o revólver, e continuou a descida, arrastando-a atrás de si. Era então 1 hora da tarde e o sol lhe queimava o busto nu, fritando-o em seu próprio suor. Seus ombros, avermelhados, estavam em fogo. A soalheira também queimava o seu rosto. Com os diabos! Parou junto a uma cascata que descia dos gelos da montanha, embebeu o lenço em água fria e o colocou na cabeça. Bebeu, depois, largamente e prosseguiu, praguejando, às vezes com fúria, quando em alguns declives mais fortes a caixa de metal o atropelava, machucando-lhe os calcanhares. Mas esses desconfortos, as queimaduras e os arranhões, não eram nada comparados com o que ele ainda teria que enfrentar no vale, onde o terreno era nivelado. Até então, tivera a lei da gravidade a seu lado. Mas na última milha é que seria um problema carregar aquela infernal muamba! 0 Major Smythe sentia as costas e o pescoço em fogo. Disse, porém, a si mesmo, para encorajar-se: — Bolas! Il faut souffrir pour être millionaire!
CONTINUA
O olho do molusco o observava cuidadosamente, de sua loca, no recife de coral. Agora, a ponta de um dos oito tentáculos avançava uma ou duas polegadas, ondulando hesitantemente, como se fizesse uma vaga exploração com as ventosas rosadas. Dexter Smythe sorriu com satisfação. Se lhe fosse dado o tempo necessário, ao menos um mês mais, além dos dois durante os quais se acamaradara com o polvo, decerto domesticaria inteiramente o fascinante animal. Mas temia que não chegasse a viver tanto. Devia aproveitar aquela oportunidade para se aproximar do molusco e lhe oferecer a mão de amigo. Sim... Em vez de limitar-se a lhe dar comida, na ponta de um arpão, devia, por assim dizer, apertar-lhe a mão, não era mesmo? “Não, ainda não, meu negrinho — pensou —, ainda não posso ter confiança em você...” Com toda a certeza, se fosse imprudente, outros tentáculos sairiam da loca lhe envolveriam o braço. E, puxado pelo polvo, a válvula de corliça da máscara se fecharia automaticamente. Ficaria sufocado. Ou, se o polvo a arrancasse, na certa morreria afogado. Quando muito, com um golpe rápido e feliz do arpão, poderia ferir o octópode, mas para matá-lo seria preciso muito mais do que isso. Não... Talvez mais tarde. Agora, seria o mesmo que enfrentar uma rolêta-russa, com cinco chances contra e uma só a favor. Poderia, mesmo, representar um meio rápido, eficaz e bizarro de pôr termo aos seus aborrecimentos! Mas, agora... não! Isso deixaria insolúvel uma questão sumamente interessante. E ele havia prometido resolvê-la... Dera a sua palavra ao simpático Professor Bengry, do Instituto Biológico Marinho. Dexter Smythe afastou-se do recife de coral, nadando lentamente. Seus olhos atentos buscavam, com empenho, a forma estranha e sinistra do peixe-escorpião, ou, como diria Bengry, do Scorpaena Plumieri.
O Major Dexter Smythe, condecorado com a Ordem do Império Britânico, oficial do Corpo de Fuzileiros Reais (reformado), era o que restava de um outrora bravo militar e homem encantador, que fazia conquistas sexuais fáceis em todos os meios em que atuava fardado. Principalmente entre o pessoal das organizações militares femininas — as Wrens, as Wracs e as moças do ATS, incumbidas das comunicações e do secretariado das forças-tarefas especiais, de que ele fizera parte, no fim de sua carreira. Tinha agora cinquenta e quatro anos. Estava ligeiramente calvo. E sua barriga se acomodava com certa dificuldade nos apertados limites do calção de banho. Além disso, tivera já duas complicações coronárias. Seu médico era Jimmy Graves, que fora um dos seus parceiros no jogo de pôquer de cacife altíssimo, no Queen’s Club, logo que ele chegara, com a mulher, à Jamaica. Meio a sério, meio brincando, o médico havia descrito a última dessas complicações, ocorrida um mês antes, como sendo a “segunda advertência”. Mas, em suas roupas bem talhadas, ocultas as muitas varizes às vistas indiscretas, com a barriga comprimida por uma larga cinta que o imaculado colête-faixa disfarçava, o antigo militar ainda fazia boa figura, num coquetel ou num jantar, em North Shore. Para seus amigos e vizinhos dessa praia, era um mistério o motivo pelo qual desafiava ele as recomendações do médico. Este lhe impusera uma dieta de uísque e de cigarros, limitados respectivamente a dois e a dez por dia, mas ele insistia em fumar como uma chaminé e em ir sempre para a cama bêbedo. Agradàvelmente bêbedo.
A verdade é que Dexter Smythe tinha chegado à fronteira em que o instinto da vida começa a ceder ao desejo da morte. As origens desse estado de espírito eram muitas e complexas. Estava irremediavelmente amarrado à Jamaica. A indolência tropical apoderara-se gradualmente de seu organismo, de tal modo que, se aparentava ser uma sólida peça de madeira de lei, interiormente não era mais que um tronco fofo, corroído pelos cupins. Tinha um exterior envernizado, mas ilusório. A preguiça, o relaxamento, o sentimento de culpas antigas, o total desgosto em relação a si mesmo haviam erodido o seu cerne, transformando-o em pó de serragem. Desde a morte de Mary, dois anos antes, não tinha mais amado a ninguém. Nem sequer estava certo de que realmente a havia amado. Sabia, porém, que sentia a ausência dela a todas as horas do dia, que sentia falta de seu afeto e de sua alegria, de sua presença desmazelada, barulhenta e, por vezes, irritante. Enquanto devorava canapés e bebia martinis da ralé internacional que frequentava em North Shore, ele se apercebia de que não nutria por essa gente outro sentimento que não fosse o de completo desprezo. Poderia, talvez, ter feito amigos entre elementos mais respeitáveis, os fazendeiros do interior da ilha, os proprietários do litoral, os representantes das profissões liberais e do mundo político local. Mas isso significaria voltar a ter propósitos sérios numa vida em que a preguiça e o embotamento espiritual limitaram-se ao fundo das garrafas. Tal coisa estava inteiramente fora de suas cogitações.
O Major Smythe estava mortalmente entendiado e, se não fosse por determinado motivo, já teria há muito tempo engolido o vidro de barbitúricos que com facilidade adquirira a um dos médicos da ilha. O fio que ainda o prendia à vida era muito tênue. Os grandes bebedores tendem a exagerar o seu temperamento básico, que é sempre um destes quatro: sanguíneo, fleumático, colérico e melancólico. O bêbedo sanguíneo torna-se alegre até à histeria ou à idiotia. O fleumático afunda-se num abatimento sombrio. O colérico é o ébrio turbulento das caricaturas, que passa a maior parte do tempo na prisão, por ter quebrado coisas ou agredido pessoas. E o melancólico é o beberrão que tem pena de si mesmo, geralmente vomitando ou se desmanchando em prantos. O Major Smythe era um melancólico, com a curiosa e divertida fantasia de fazer relações pessoais com aves, insetos e peixes existentes nos cinco acres de Wavelet, isto é, de Ondinhas, nome sintomático que dera à sua pequena villa. A praia e o recife de coral, além dela, eram os seus lugares prediletos. E, entre todos os seres, preferia os peixes. Referia-se a eles como à “gente do mar” e, uma vez que os peixes, como as aves, são fiéis aos seus recantos, ao fim de dois anos ele os conhecia a todos intimamente, amava-os e acreditava ser retribuído por eles com igual amor.
Certo, eles o conheciam, como os animais de um Jardim Zoológico conhecem os seus tratadores. Como estes, ele lhes ia levar o alimento diário, arrecadando pedacinhos de algas e revolvendo a areia o os seixos do fundo do mar, para ajudar os que se alimentam nos lugares mais profundos. Desenterrava ovos e ouriços para os pequenos carnívoros e levava sobras de carne para os grandes. E agora, enquanto nadava lenta e pesadamente, de um lado para o outro do recife de coral e através dos canais que conduzem às águas profundas, sua “gente do mar” enxameava ao redor dele, sem nenhum medo, em atitude de expectativa, quase roçando a aguda ponta de seu arpão, que conheciam apenas como uma espécie de longa colher dadivosa. Vinham namorar o vidro da máscara Pirelli e, em alguns casos, como certas mulheres provocantes, tomavam intimidades perigosas, roçando em suas pernas e em seus pés.
Parte da mente do Major Smythe estava fixada nessa “gente” brilhante e colorida, mas outra parte se preocupava com uma tarefa que devia realizar naquele dia. Ele cumprimentava os peixes com palavras que não chegava a proferir — “Bom dia, beleza!” Era a sua mensagem a um peixe azul-escuro, salpicado de malhas que semelhavam lentejoulas, de um azul ainda mais intenso e brilhante. É o “peixe-joia”, que parece um vidro estrelado do perfume Vol de Nuit, de Worth. “Sinto muito, hoje não, meu bem”, dizia em silêncio a um peixe-borboleta, esvoaçante, com falsos “olhos” na cauda. “Você está gordo demais, meninão”, afirmava mentalmente a um peixe-papagaio de côr azul-índigo, que devia pesar uns bons cinco quilos. Seus olhos estavam sempre atentos, à procura de sua “gente”. No recife de coral, seu único inimigo que ele matava à primeira vista, era o peixe-escorpião.
O peixe-escorpião habita principalmente nas águas tépidas do sul e o rascasse, que é a base da bouillabaisse, pertence à mesma família. A variedade do Caribe alcança apenas cerca de doze polegadas de comprimento e pesa, talvez, meio quilo. É o mais feio peixe do mar, como se a natureza ao engendrá-lo assim tivesse querido nos fazer uma advertência. Sarapintado de marrom-acinzentado, tem uma cabeçorra felpuda, de feitio cuneiforme. Os olhos são de um vermelho agressivo e consegue dissimular perfeitamente a sua silhueta, em meio dos recifes. Embora sendo um peixe pequeno, sua boca amplamente guarnecida de dentes pontiagudos é tão grande que ele pode engolir, sem dificuldade, a maioria dos peixinhos que vivem ao redor dos corais. Mas a sua arma suprema consiste nas eretas barbatanas dorsais, as primeiros das quais agem por contato como agulhas hipodérmicas, alimentadas por glândulas venenosas, que contêm tetrodotoxina suficiente para matar um homem, se o atingirem num lugar vulnerável — por exemplo, numa artéria, sobre o coração ou nas virilhas. Esse é o único perigo real para quem se aventura a nadar nos recifes. Muito mais perigoso do que as barracudas e os tubarões, é extremamente confiante em sua camuflagem e em suas armas, não fugindo de coisa alguma, exceto de uma exagerada aproximação de um pé humano ou mesmo de um contato direto. Nossas ocasiões, o peixe-escorpião nada apenas alguns metros com seu largo peitoral, bizarramente listrado, parando atento, ou pousado na areia, onde por mimetismo parece uma formação coralina, ou entre as rochas e algas, onde virtualmente desaparece. O Major Smythe estava decidido a encontrar um, arpoá-lo e dá-lo a seu polvo, para ver se este o aceitava ou rejeitava. Queria saber se um dos grandes predadores do oceano reconheceria a periculosidade, o poder mortífero do veneno do outro. Consumiria o polvo a parte inferior do peixe-escorpião, sem lhe tocar nas espinhas letais? Devorá-las-ia também e viria a sofrer um castigo, atingido pelo veneno? Eram essas as perguntas que Bengry, do Instituto, desejava esclarecer. E, agora, sentindo o princípio do fim de sua vida, o solitário de Wavelets pensou que esse poderia ser também o fim do seu querido polvo. E decidiu dar resposta àquelas perguntas, deixando uma pequena lembrança de sua vida fútil e inútil num recanto empoeirado dos arquivos do Instituto.
É que, apenas duas ou três horas antes, o Major Dexter Smythe vira a sua vida transformar-se, passando de mal a pior. Para uma condição tão pior que ele teria muita sorte se, dentro de uma semana — tempo necessário para a troca de telegramas entre o governo da ilha e o Ministério das Colônias, que por sua vez se comunicaria com o Serviço Secreto e, através deste, com a Scotland Yard e a Procuradoria da Justiça, bem como para a transferência do Major Smythe para Londres, sob escolta policial —, na melhor das hipóteses, saísse de um inevitável julgamento condenado à prisão perpétua. E tudo isso por causa de um homem chamado Bond — Comandante James Bond —, que aparecera em Wavelets às 10h 30m da manhã, num táxi que tomara em Kingston. O dia tinha começado normalmente. O Major Smythe acordara de seu sono à base de seconal, engolira dois comprimidos de panadol (o precário estado cardíaco lhe proibira o uso da aspirina), tomara um banho de chuveiro e fora devorar o seu pequeno almoço debaixo de frondosa amendoeira, no jardim, onde passara uma hora, alimentando pássaros famintos com as sobras da refeição. Depois, tomou as doses de anticoagulante receitadas pelo médico e as pílulas contra a alta pressão arterial, matando o tempo com a leitura do Daily Gleaner e fazendo hora para tomar o seu primeiro trago. Antes, esperava até às 11 horas. Mas, por último, fixara esse momento em 10h 30m. Já havia servido dois conhaques com ginger ale — a bebida de quem sabe embebedar-se — quando ouviu o ruído do automóvel que se aproximava. Luana, a governante negra, não tardou a aparecer no jardim para anunciar: — Um cara tá aí para falar com o sinhô, Majó.
— Como se chama?
— Sei não, Majó. Disse não. Só falou que é negócio da casa do gunverno.
O Major Smythe vestia apenas uns velhos shorts de brim caqui e calçava um par de alpercatas. Não podia receber um visitante assim.
— Mande entrar para a sala, Luana, e diga que não demorarei a atendê-lo.
Foi ao seu quarto, vestiu um blusão branco, umas calças e penteou o que ainda lhe restava da antiga cabeleira. Um representante do governo! Que diabo quereria com ele? Mal entrou na sala, viu um homem alto, com um terno de tropical azul, debruçado na janela, olhando para o mar. O Major teve logo a sensação de que ia receber más notícias. E quando o homem se voltou encarando-o atentamente, com os olhos azul-cinza, Smythe teve a certeza de que ele estava, realmente, em missão oficial. E em missão nada amistosa, porque nem ao menos retribuiu o seu cordial sorriso. Um calafrio percorreu a espinha do major. Teriam, então, descoberto tudo?
— Bem, bem, eu sou Smythe. Pelo que sei, o senhor representa o governo da ilha. Como vai Sir Kenneth?
Não houve sequer um aperto de mão. O homem disse:
— Ainda não o vi. Faz só uns três dias que cheguei. Estive procurando ver os pontos pitorescos da ilha. Meu nome é Bond. James Bond. Sou do Ministério da Defesa.
O Major Smythe se lembrava do eufemismo habitualmente usado para designar o Serviço Secreto. E disse, esforçando-se para se mostrar animado e alegre: — Oh... A velha firma? Prefere conversar aqui mesmo, ou no jardim? Que tal um drinque? (E o Major pôs um cubo de gelo num copo, que já tinha nas mãos.) Rum e ginger ale é o mais popular veneno local... Eu, porém, prefiro ginger ale, sem mais nada...
A mentira lhe escapou com facilidade, graças ao automatismo dos alcoólatras. — Não me sirva nada. E falemos aqui mesmo — disse o recém-vindo, recostando-se no parapeito da janela, lavrado em mogno.
O Major Smythe sentou-se, passou uma perna sobre o braço da confortável poltrona e tomou um grande trago de seu copo, que depositou depois ao lado.
— Bem — disse, olhando o visitante com firmeza, cara a cara. — Em que poderei lhe ser útil? Alguém está fazendo sujeiras em North Shore e vocês estão precisando de ajuda? Terei prazer em voltar ao antigo trabalho. Já vai longe o tempo em que fui agente secreto, mas ainda me lembro de algumas técnicas...
— Não se incomoda que eu fume?
O visitante, ao fazer a pergunta, já tinha, nas mãos, uma cigarreira de forma achatada que poderia, no entanto, conter cinquenta cigarros. A esse sinal de fraqueza, comum a ambos, o major se sentiu confortado.
— Em absoluto, meu caro. (E fez um movimento, aproximando o seu isqueiro, aceso.) — Obrigado. (James Bond já havia acendido o cigarro.) Mas não vim aqui para tratar de assuntos locais. O que realmente me trouxe a North Shore foi o desejo de pedir-lhe que se recorde minuciosamente de seu trabalho para o Serviço Secreto, nos últimos dias da II Grande Guerra... (Fez uma pausa, para observar o efeito de suas palavras no Major Smythe) Principalmente quando trabalhou na Divisão de Assuntos Gerais...
O Major Smythe teve um riso breve e escarninho. Ele sabia. Estava absolutamente certo. Mas, quando a revelação saiu dos lábios daquele homem, não pôde conter a gargalhada, reação de alguém que se via golpeado em cheio e procurava dar a impressão contrária.
— Mas, Santo Deus! A velha DAG! Claro que me lembro ainda dela... E de tudo o mais...
Riu de novo. E sentiu aguilhoar-lhe o peito a dor constritiva da angina, provocada pela pressão do que certamente iria acontecer. Enfiou a mão no bolso da calça, despejou o conteúdo de um pequeno frasco no côncavo da outra mão e, depois, colocou sob a língua os pequenos comprimidos brancos de TNT. Observava divertidamente a crescente tensão estampada na fisionomia do visitante, cujos olhos se apertavam para melhor fitá-lo. Não precisava ter medo, não. Não se tratava de pílulas de cianureto ou qualquer outro veneno. O major despistou: — A acidose não o persegue? Não? Pois a azia é o meu tormento. Ontem à noite, fui a uma festa no Jamaica Inn. Preciso me lembrar de que não tenho mais 25 anos... Bem, mas ainda posso voltar para a DAG. Creio que hoje somos bem poucos, os veteranos, não? (Sentiu outra vez a dor no peito.) É alguma coisa a respeito da história oficial da guerra?
James Bond, olhando para a ponta do cigarro, disse que não se tratava exatamente disso.
— Pensava... Porque, não sei se sabe: eu escrevi quase todo o capítulo sobre o Serviço Secreto no War Book... Já faz muito tempo. Mas duvido que haja algo de realmente importante a acrescentar...
— Nem mesmo alguma coisa sobre certa operação no Tirol? Num lugar chamado Ober Aurach, a cerca de uma milha de distância de Kitzbuhel?
A menção desses nomes provocou outro pequeno riso do major:
— Mas essa operação foi uma ninharia... Tudo muito fácil. Aqueles sujeitos da Gestapo tinham mais fanatismo do que competência... Uns bêbedos. Conservaram em seus arquivos todas as pistas. E os entregaram sem nenhum protesto. Esperavam, em troca, a nossa indulgência, talvez... A grande maioria foi enforcada por crimes de guerra, acredito. Levei tudo para o Quartel-General, em Salzburgo. Depois, fui para o vale do Mittersill, à procura de outro esconderijo... O Major Smythe tomou outro trago e acendeu um cigarro. Depois, olhando para cima: — Acho que não há mais nada a acrescentar a essas linhas gerais...
— O senhor, se não me engano, foi nessa época o número 2... O commanding officer era um americano, não? O Coronel King, do Exército do General Patton...
— É verdade, ele foi meu chefe. Excelente sujeito. Usava um bigodinho, coisa que não é muito de americano. Tinha competência indiscutível para escolher vinhos. Um tipo muito civilizado...
— No seu relatório sobre aquela operação, ele afirma que lhe entregou todos os documentos necessários às buscas e investigações preliminares, por ser o senhor o perito em assuntos germânicos do grupo... O senhor devolveu esses papéis a ele com algumas notas ou observações? (James Bond fez uma pausa.) Todos, sem falta de um só?
O Major Smythe ignorou a insinuação:
— É verdade. O que ele me deu foi, principalmente, uma lista de nomes. Indicações recebidas da contra-espionagem. Os agentes da CE em Salzburgo ficaram muito satisfeitos com essas pistas. E puderam aprofundar as buscas em várias direções. Acredito que os originais devem estar arquivados em algum lugar, uma vez que foram usados nos julgamentos de Nuremberg. Isso mesmo! (O Major Smythe parecia forçar a memória.) Posso dizer que os mais alegres anos de minha vida foram os do período em que trabalhei para a DAG. Vinho, mulheres, música! Ah, se eu pudesse viver esse bom tempo outra vez!
Nessa ocasião, o Major Smythe dizia a pura verdade. Ele sustentara uma perigosa e desconfortável luta até 1945. Quando os famosos Comandos ingleses foram formados em 1941, ele se apresentara como voluntário, sendo transferido dos Fuzileiros Reais para o Quartel-General das Operações Combinadas, sob a direção de Lorde Mountbatten. Seu domínio da língua alemã (que lhe vinha da mãe, nascida em Heidelberg) qualificara-o para o invejável lugar de coletor de informações nas operações de Comandos através do canal da Mancha. Tivera a sorte de permanecer durante dois anos nesse trabalho sem um arranhão e de receber a Ordem do Império Britânico, tão ciosa e avaramente distribuída durante a última guerra. E, depois, quando se preparava o golpe final contra a Alemanha, a Divisão de Assuntos Gerais fora formada, em conjunto, pelo Serviço Secreto e os Comandos. O Major Smythe, comissionado, então, como tenente-coronel, recebeu a incumbência de formar a unidade que devia descobrir e limpar os esconderijos dos graúdos da Gestapo e da Abwehr no momento em que se desse o colapso do nazismo. O Serviço Secreto, ao aprovar o plano, insistiu em que fosse acompanhado o avanço americano não por uma única, mas por seis dessas unidades, que operariam na Alemanha e na Áustria no momento da rendição. Eram unidades de vinte homens, cada uma com um carro blindado ligeiro, seis jipes, três camionetas e um caminhão com instalações de radiotelefonia. Controladas por um comando misto, anglo-americano, teriam elas à sua disposição o pessoal do Serviço de Inteligência do Exército, do SIS e do OSS. O Major Smythe fora o número 2 da Força A, destinada a atuar no Tirol, área cheia de bons esconderijos, com fácil acesso à fronteira de outros países. Por isso mesmo, era considerada o valhacouto n.° 1 pelo pessoal da DAG. E, como confessara o Major Smythe a James Bond, a operação fora praticamente uma festa, não tendo sido preciso disparar um só tiro. Exceto, é claro, dois que foram disparados pelo próprio Major Smythe. James Bond perguntou-lhe com ar mais casual do mundo: — O nome de Hannes Oberhauser lhe evoca alguma lembrança?
O Major Smythe franziu o sobrecenho, como que num esforço para se lembrar:
— Não, creio que não... (Fazia 32 graus à sombra, mas ele tremia de frio.) — Permita que eu lhe refresque a memória... No mesmo dia em que os documentos lhe foram entregues para exame, o senhor fez perguntas no Tiefenbrunner Hotel, onde se hospedou, sobre quem era o melhor guia alpino de Kitzbuhel. Foi-lhe indicado o guia Oberhauser. No dia seguinte, o senhor pediu ao seu comandante um dia livre, que lhe foi concedido. Na manhã desse dia, o senhor se dirigiu ao chalé de Oberhauser, prendeu-o com a cláusula de incomunicabilidade, e o levou no seu jipe. Não está se lembrando dessas particularidades?
Como era familiar aquela frase sobre o refrescamento da memória! Quantas vezes o próprio Major Smythe não a usara, como armadilha, para nela colher um mentiroso nazista?... Mas não devia, agora, se afobar. Há anos que estava preparado para alguma coisa nesse estilo. E, por isso, respondeu: — Não... Eu absolutamente não me lembro.
— Oberhauser era um homem de cabelo grisalho e claudicava de uma perna. Falava algum inglês, pois antes da guerra costumava trabalhar como instrutor de esqui, tendo como aprendizes ingleses e americanos...
O Major Smythe olhou impàvidamente para o visitante, fixando-lhe os olhos frios e claros:
— Sinto muito... Mas não posso ajudá-lo. Não me recordo.
James Bond tirou do bolso o pequeno caderno de notas, folheando-o ligeiramente. Deteve-se numa das páginas e disse:
— Vou ajudar um pouco mais a sua memória. Nesse tempo, como arma de uso pessoal, o senhor tinha um revólver regulamentar Webley & Scott, calibre 45, com o número da série 8967/362...
— Sim, era Webley... Um trabucão enorme, difícil de carregar. Espero que tenham adotado algo melhor. Assim como um Luger ou uma Beretta pesada. Mas eu nunca me dei ao trabalho de anotar o número...
— O número é esse mesmo — disse James Bond. — Verifiquei a data em que o recebeu do QG e a data em que o devolveu. O senhor assinou o livro de carga, ambas as vezes...
— Então, deve ter sido essa mesma a minha arma — concordou o Major Smythe, dando de ombros. — Mas... (E agora havia impaciência em sua voz) ... Mas, se me permite a pergunta, em que é que isso pode interessar?
James Bond o olhou com certa curiosidade. Depois falou e não se poderia dizer que o seu tom fosse cruel:
— Bem sabe que isso é fundamental, Smythe. (Fez uma pausa e pareceu refletir.) Façamos um acordo. Eu irei ao jardim, por uns dez minutos, pouco mais ou menos. Dou-lhe tempo para se lembrar de tudo com exatidão. Quando se tiver lembrado, me chame... (E acrescentou, a sério:) — Tornará as coisas bem mais fáceis para você a reconstituição do caso em suas próprias palavras... (Caminhou para a porta do jardim, mas se voltou.) — Creio que se trata apenas de pingar os ii e cortar os tt... Quero que saiba que, antes de vir aqui esta manhã, tive uma boa conversa com os irmãos Fu, em Kingston...
0 Major Smythe sentiu-se de certa forma desoprimido. Acabara a batalha das insinuações e das evasivas, a tentativa de despistar e de inventar álibis. Era o fim das negaças. Se o tal James Bond conversara com os irmãos Fu, sem dúvida arrancara alguma coisa dos chineses. De modo algum quereriam eles qualquer complicação com as autoridades. E, além do mais, ainda tinham uma parte da muamba em seu poder. O Major se levantou, serviu outro conhaque com ginger ale, quase meio a meio. O melhor era tomar uns bons tragos, enquanto ainda podia! O futuro não lhe ofereceria muitas oportunidades como essa. Voltou para a poltrona, acendeu o vigésimo cigarro do dia e olhou para o relógio. Eram 11h30m. Se pudesse livrar-se daquele importuno dentro de uma hora, ainda poderia ir ver a sua “gente”. Sentou-se e bebeu, mergulhado em seus pensamentos. Poderia prolongar ou abreviar a sua história, se adicionasse alguma coisa sobre o estado do tempo, o perfume das flores dos pinheiros que aspirara nas montanhas... Mas poderia omitir a paisagem e abreviá-la. Preferiu abreviar. Viu-se na cama dupla, no Tiefenbrunner Hotel, com montanhas de papelório para examinar. Não procurava nada de especial. Apenas apanhava, a esmo, um documento aqui, outro ali, concentrando-se principalmente nos que tinham o timbre, em vermelho, de KOMMANDOSACHE, HOECHST VERTRAULICH. Não existiam muitos destes, que eram quase sempre informações confidenciais sobre nazistas graúdos, sobre códigos aliados que os alemães tinham decifrado e sobre esconderijos secretos. Desde que estes eram um dos principais objetivos da Força A, o Major Smythe os havia examinado com particular excitação — eram esconderijos de alimentos, de explosivos, de armas, de fichários de espionagem e do pessoal da Gestapo, uma imensa rede de arrasto com toda a espécie de peixes! E, ainda, no fim de toda a papelada, um simples envelope lacrado, com o aviso: PARA SER ABERTO APENAS EM CASO DE EMERGÊNCIA. O envelope continha uma só folha de papel. Não havia assinatura sob as palavras escritas em letra vermelha.
No cabeçalho, havia a palavra VALUTA.
Embaixo, lia-se: WILDE KAISER. FRANZISKANER HALT. 100 M. OESTLICH STEINHUGEL. WAFFENKISTE. ZWEI BAR 24 KT. e uma lista de medidas em centímetros. O Major Smythe afastou as mãos, como se numa história de pescaria, estivesse mostrando as dimensões de um peixe. Duas barras de ouro de 24 quilates, cada uma, quase tão grande como dois tijolos! E pensar que um simples soberano inglês, de apenas dezoito quilates, valia naquele momento entre duas e três libras! As duas barras de ouro representam uma verdadeira fortuna! Quarenta, cinquenta mil libras, era quanto valeriam! Não tinha ainda ideia alguma a respeito, mas — era o melhor — riscou um fósforo e acendeu o papel e o envelope, reduzindo-os a cinzas, que colocou na pia e fez desaparecer sob um jorro d’água. Apanhou, depois, o mapa da área, em grande escala, preparado pela artilharia austríaca e, um momento depois, tinha sob o dedo o Franziskaner Halt. Nele estava indicado um abrigo alpino desabitado, refúgio de montanhistas, numa espécie de pequeno platô logo abaixo do mais alto pico das montanhas do Kaiser, essa imensa massa de pedras dentadas que fecha, ao norte, o horizonte de Kitzbuhel. E ali, onde o seu dedo repousava, devia existir o marco de pequenas pedras amontoadas. Significava isso que uma fortuna estava ao seu alcance, a apenas dez milhas de distância e, talvez, a apenas cinco horas de subida!
O princípio tinha sido tal como James Bond descrevera. Fora ao chalé de Oberhauser às 4 horas da madrugada. Prendera-o e dissera a seus familiares, todos em lágrimas, que o ia levar para o centro de interrogatórios, em Munique. Se o guia estivesse isento de culpa, estaria de volta dentro de uma semana. Se a família fizesse algum protesto isso só poderia prejudicar Oberhauser, tornando as coisas ainda mais difíceis. Smythe se recusara a declinar o seu nome e tivera a precaução de ocultar o número do jipe. Dentro de 24 horas, a Força A deixaria o lugar e o governo militar se instalaria em Kitzbuhel. E então o incidente seria sepultado no esquecimento pelo tumulto e pelas complicações decorrentes da própria ocupação militar.
Oberhauser revelou-se um excelente sujeito, disposto a cooperar, assim que perdeu o medo inicial. E quando Smythe começou a lhe falar de alpinismo e de esqui se tornou uma camaradão. O caminho passava ao sopé das montanhas, rumo a Kufstein. Smythe dirigia lentamente, fazendo comentários admirativos sobre os picos em que já se refletiam as primeiras luzes matinais. Finalmente, junto à base do Pico do Ouro, voltou-se para Oberhauser e lhe disse: — Oberhauser, você é uma pessoa com quem simpatizo. Temos muitos interesses em comum e, pela sua conversa, estou convencido de que não cooperou com os nazistas. Eu lhe explico o que pretendo fazer por você. Passaremos o dia escalando as montanhas do Kaiser e, depois, eu o levo de volta para Kitzbuhel. Direi, então, ao meu chefe que, interrogado em Munique, você foi imediatamente liberado... Que me diz a isso? — Rematou, com um sorriso.
O homem quase derramou lágrimas de gratidão. Mas era preciso que ele tivesse, em seu poder, um papel mostrando que estava isento de culpa? Certamente. A assinatura do Major Smythe seria mais que suficiente. Feito o pacto, o jipe foi dirigido através de um atalho e ficou escondido, longe da estrada, entre os pinheiros. Smythe estava preparado para a excursão, sem nada sob a jaqueta, vestindo um short e calçando botas de paraquedistas, fornecidas à unidade pelos americanos. A carga que levava era apenas o revólver Webley & Scott, absolutamente necessário, pois afinal de contas Oberhauser era um inimigo. O guia vestia a sua melhor roupa e calçava as suas botas alpinas. Não estava preocupado com a subida. E assegurou ao Major Smythe que não seria necessário usar nem cordas, nem ganchos, até chegarem à cabana, em que poderiam parar para descansar. Era aí o Franziskaner Halt.
— É esse o nome? — Perguntou o Major.
— Sim. E um pouco abaixo há uma pequena geleira. Passaremos ao largo, pois nela há muitas fendas.
— Assim faremos... — Disse o Major Smythe, pensativamente, examinando a parte posterior da cabeça de Oberhauser, por onde o suor escorria. Ora, afinal, ele era apenas um reles comedor de chucrute, talvez da mesma laia que os nazistas. Seria tão fácil liquidá-lo... A única coisa que preocupava o major era trazer a muamba pela montanha abaixo. Poderia colocar as barras de ouro às costas. Ou arrastá-las — por que não? — Durante grande parte do percurso, na sua caixa de munição. Longa e tortuosa foi a caminhada, montanha acima. Quando deixaram para trás os pinheiros, já o sol se alteava, dardejante. A princípio, caminharam entre rochas e entulhos, em constantes zigue-zagues. Sem o auxílio de um guia, nunca conseguiria o major chegar ao cimo do penhasco cinzento e ameaçador, que parecia tocar o azul do céu. Ambos caminhavam agora nus da cintura para cima, banhados em suor, que lhes escorria pelas pernas para dentro das botas. Embora o guia claudicasse, subiam com relativa rapidez. Quando pararam, para um drinque e um breve descanso, Oberhauser se congratulou com Smythe por estar em tão boa forma. O major, com a cabeça escaldando, tantos eram os seus planos, disse ríspida e mentirosamente que todos os ingleses eram cobras, em matéria de escalar montanhas. Subir ao penhasco não era difícil. Se lá havia uma cabana, é porque o material para a sua construção fora levado para ali nos ombros de alguém. Em certos lugares, pontos de apoio tinham sido cavados na rocha. E havia, ocasionalmente, grampos de ferro, em que os alpinistas podiam se agarrar. Mas achar as passagens exatas era o mesmo que descobrir os segredos de um labirinto. Ainda bem que trouxera o guia. Este, em certo momento, sondando o chão, para verificar se estava firme, fizera correr pequenina avalancha de pedras afrouxadas por muitos anos de ventanias e nevascas. Elas se precipitaram, com estrondo, lá embaixo. O Major Smythe pensou logo no barulho, que poderia despertar atenção. Perguntou se não haveria gente nas proximidades.
— Qual! Ninguém... A não ser nas proximidades de Kufstein... — Disse Oberhauser, apontando uma larga extensão, ao redor. — Aqui há pouca água e nenhum pasto. E, desde o princípio da guerra... (Interrompeu-se, deixando a frase incompleta.) Ladearam a geleira e continuaram a subida. A vista do Major Smythe media a extensão e a largura das fendas, por onde iriam passar. A uns cem pés acima, viram, então, a cabana, batida pelas intempéries. O major mediu o ângulo do declive. Era quase uma linha reta. Agora? Ou depois? Preferiu que fosse depois. O caminho para a última parte da travessia ainda não estava claramente definido. Alcançaram a cabana ao fim de cinco horas. O Major Smythe disse que queria aliviar um pouco a bexiga e caminhou para o leste, sem dar atenção alguma aos belos panoramas da Áustria e da Baviera, que se estendiam por cinquenta milhas, sob o sol estival. Ele contava os passos com extremo cuidado. Exatamente a 120 havia o montículo de pedras, talvez um marco carinhosamente erguido em memória de um alpinista desaparecido. Era isso o que qualquer pessoa normalmente pensaria. Mas o Major Smythe, sabendo que não se tratava disso, ardia de desejos de desfazer a pequena pirâmide de pedras soltas. Mas, em vez de fazê-lo, tirou do coldre o seu Webley & Scott, soltou a trava e examinou o cilindro. E voltou, então, rumo à cabana, onde Oberhauser entrara. Fazia frio, a tal altura — uns bons 3 mil metros —, e o guia acendia o fogo. Smythe controlou o seu horror e pediu: — Oberhauser, venha me mostrar as paisagens. Há vistas maravilhosas, aqui em cima!
— Com prazer, major — disse o guia, seguindo Smythe para fora da cabana. Uma vez lá fora, tirou do bolso um papel, no qual havia alguma coisa embrulhada. Ofereceu-a ao major, acrescentando: — Isto é o que chamamos Soldat. É uma salsicha defumada. Dura, mas muito saborosa. (Sorriu.) Parece com aquilo que os americanos comem nos filmes de Far-West. Como é mesmo o nome?
— Charque — disse o major. Depois — e mais tarde se arrependeu de o ter privado da pequena refeição — aconselhou: — Deixe isso na cabana. Depois, viremos comer. Será que daqui podemos ver Innsbruck? Mostre-me para que lado é...
Oberhauser entrou na cabana e logo saiu de novo. O major caminhou por trás dele, que falava e gesticulava, mostrando aqui o pico de uma montanha, além a torre de uma igreja distante. Chegaram ao lugar acima da geleira. O major tirou então o revólver e, a uma distância de pouco mais de meio metro, disparou dois tiros na base do crânio de Hannes Oberhauser. Que nem estrebuchou. Caiu já morto. O impacto das balas atirou o guia na borda do precipício. O Major Smythe o empurrou para baixo. O corpo bateu em duas anfractuosidades do penhasco e caiu em cima da geleira. Mas sem escorregar para as fendas. Ficou a meio do caminho, junto a um monte de neve antiga, acumulada.
— Com os diabos! — Disse o major.
Os estampidos repercutiram naquelas alturas como se fossem tiros de morteiros e o eco os repetiu a distância. O Major Smythe lançou um olhar sobre a figura imóvel, estendida junto ao monte de neve, e logo correu para o montículo de pedra. Devia cuidar das coisas mais importantes em primeiro lugar! Começou a afastar as pedras, com uma pressa diabólica, atirando as mais roliças pela montanha abaixo. Feriu-se em arestas cortantes e, quando deu pela coisa, sua mão estava sangrando, mas não ligou importância. Um pouco de sangue, que é que tinha? Precisava era andar depressa, depressa — e continuou a escavar, furiosamente. O monte de pedra desaparecia. E então! Sim! Lá estava alguma coisa que parecia ser uma tampa metálica. Mais algumas pedras foram retiradas e apareceu uma velha caixa de munições da Wehrmacht. Em cima dela, ainda havia traços de seu antigo letreiro. O Major Smythe soltou um grunhido de alegria. Sentou-se sobre uma pedra e sua imaginação entrou em órbita, descrevendo círculos sobre carros Rolls Royce, iate em Monte Carlo, apartamentos de cobertura, joias de Cartier, champanha, caviar e, no meio de tudo, uma vez que amava o golfe, uma nova coleção de bastões metálicos de Henry Cotton.
Embriagado com esses sonhos, o Major Smythe ficou ali sentado um bom quarto de hora fitando a caixa metálica, como que fascinado. Depois, olhou para o relógio e levantou-se. Não devia perder tempo. Tinha que eliminar as pistas. A caixa tinha alças de ambos os lados. O major esperara que fosse pesada. Mentalmente, ele a havia comparado à coisa mais pesada que até então carregara — um salmão de vinte quilos que pescara na Escócia, pouco antes da guerra —, mas a caixa tinha mais do dobro desse peso. E ele só com muita dificuldade a retirara do seu leito entre as pedras para colocá-la sobre a rala relva alpina. Amarrou, então, o seu lenço numa das alças e, pondo-a desajeitadamente no ombro, levou-a para a cabana. Sentou-se, então, na soleira da porta e, sem despregar inteiramente os olhos da caixa, cortou a salsicha defumada de Oberhauser com seus dentes vigorosos e começou a comê-la, pensando como havia de transportar as suas 50 mil libras — era esse o seu cálculo — pela montanha abaixo. A salsicha era, realmente, uma ótima refeição montanhesa, dura, gorda, rescendendo a tempero forte à base de alho. Partículas dela ficaram incômodamente presas aos seus dentes. Limpou-os com um palito de prata. Sua preocupação era fazer desaparecer todos os vestígios de sua presença. De agora em diante, era um criminoso. Tão criminoso como alguém que tivesse roubado um banco e assassinado o vigia. Precisava lembrar-se disso! Se não se lembrasse, teria a morte, em vez das coisas maravilhosas com que sonhava. Precisava ter infinita cautela. E teria! Seria, para sempre, rico e feliz. Depois de tomar precauções ridiculamente minuciosa para não deixar na cabana o menor traço de sua passagem, arrastou a caixa metálica para a borda do precipício, distante da geleira, e de lá atirou-a embaixo, rezando para que chegasse intacta. A caixa cinzenta rolou no espaço, bateu numa ponta de pedra, continuou a descer, chocou-se cem metros abaixo com outra anfractuosidade e, por fim, atingiu o chão de um entulho, onde parou. O Major Smythe não podia vê-la, de onde estava, e não podia saber se estava aberta. Tanto fazia que estivesse ou não! A própria montanha poderia tê-lo poupado ao trabalho de abri-la...
Depois de um último olhar em torno, ele começou a descer, experimentando com prudência a solidez de cada grampo e de cada ponto de apoio, antes de firmar-se com todo o peso de seu corpo. Na descida, sua vida tinha um valor muito maior que na subida. Caminhou para a geleira e atravessou a passagem em que a neve começava a derreter-se formando sobre o gelo uma mancha escura. Dentro de mais alguns dias, toda a neve estaria derretida. Chegou até onde estava o cadáver. Tinha visto muitos, durante a guerra. Ossos fraturados e carnes sangrentas nada significavam para ele. Arrastou os restos de Oberhauser para a fenda mais próxima e, depois, atirou em cima a neve, acumulada nas bordas. Enterrado o corpo, mostrou-se satisfeito com o seu trabalho, tendo, ao voltar, o cuidado de recolocar os pés sobre as mesmas pegadas que fizera na vinda. E então empreendeu à descida, ao encontro da caixa metálica. Sim, como esperava, a montanha a havia aberto para ele! Com um gesto despreocupado, desfez os invólucros, em papel empregado na fabricação de cartuchos. As duas grandes barras de metal cintilaram ao sol. Tinham ambas as mesmas marcas: a cruz suástica num círculo, sob uma águia, e a data de 1943, símbolos usados pelo Reichsbank. O Major Smythe fez um movimento de aprovação com a cabeça. Recompôs os invólucros e, como a lingueta da tampa, que saltara, não fechasse mais a tampa, teve de bater-lhe com uma pedra, até voltar ao lugar. Passou, então, numa das alças o cinturão em que costumava conduzir o revólver, e continuou a descida, arrastando-a atrás de si. Era então 1 hora da tarde e o sol lhe queimava o busto nu, fritando-o em seu próprio suor. Seus ombros, avermelhados, estavam em fogo. A soalheira também queimava o seu rosto. Com os diabos! Parou junto a uma cascata que descia dos gelos da montanha, embebeu o lenço em água fria e o colocou na cabeça. Bebeu, depois, largamente e prosseguiu, praguejando, às vezes com fúria, quando em alguns declives mais fortes a caixa de metal o atropelava, machucando-lhe os calcanhares. Mas esses desconfortos, as queimaduras e os arranhões, não eram nada comparados com o que ele ainda teria que enfrentar no vale, onde o terreno era nivelado. Até então, tivera a lei da gravidade a seu lado. Mas na última milha é que seria um problema carregar aquela infernal muamba! 0 Major Smythe sentia as costas e o pescoço em fogo. Disse, porém, a si mesmo, para encorajar-se: — Bolas! Il faut souffrir pour être millionaire!