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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ESCONDIDA / P. 2a
ESCONDIDA / P. 2a

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

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ESCONDIDA / Parte II

 

Series & Trilogias Literarias

 

 

 

 

 

 

9 Zoey

– Neferet precisa ser detida – Thanatos foi logo direto ao ponto.

– Finalmente uma boa notícia – Aphrodite disse. – Então, o Conselho Supremo inteiro vai aparecer aqui para declarar que tudo que ela disse naquela coletiva de imprensa ridícula é papo furado, ou Duantia vem sozinha?

– Não vejo a hora de os humanos ouvirem a verdade sobre ela – Stevie Rae falou em seguida, soando tão irritada quanto Aphrodite e sem dar chance a Thanatos para replicar – Estou realmente cansada de ver Neferet sorrindo, seduzindo, iludindo e fazendo todo mundo acreditar que ela é tudo de bom.

– Neferet faz muito mais do que seduzir, iludir e sorrir – Thanatos observou sombriamente. – Ela usa o seu dom concedido pela Deusa para manipular e ferir os outros. Os vampiros são sujeitos aos seus encantos, e os humanos praticamente não têm defesa contra ela.

– O que significa que o Conselho Supremo dos Vampiros precisa tomar uma posição e fazer alguma coisa em relação a ela – eu afirmei.

– Eu gostaria que fosse assim tão simples – Thanatos respondeu.

Meu estômago se contraiu. Tive uma daquelas intuições, e minhas intuições quase nunca eram boas.

– O que você quer dizer? Por que isso não seria algo simples? – perguntei.

– O Conselho Supremo não vai misturar humanos nos assuntos de vampiros – ela explicou.

– Mas Neferet já fez isso – eu argumentei.

– Pois é, não adianta fechar a porta do estábulo depois que o gado já fugiu – Stevie Rae concordou.

– Aquela vaca matou a mãe de Zoey – Aphrodite estava balançando a cabeça, incrédula. – Você está dizendo que o Conselho Supremo vai simplesmente ignorar isso e vai deixá-la escapar com um assassinato nas costas e falando merda sobre todos nós?

– E o que vocês querem que o Conselho Supremo faça? Que desmascare Neferet como uma assassina?

– Sim – eu disse, feliz por soar firme e madura, em vez de assustada e com doze anos, que era como eu realmente estava me sentindo com essa coisa toda. – Eu sei que ela é imortal e poderosa, mas ela matou a minha mãe.

– Nós não temos provas disso – Thanatos falou em voz baixa.

– Isso é besteira! – Aphrodite explodiu. – Todos nós vimos!

– Em um ritual de revelação realizado com um feitiço de morte. Nada disso pode ser repetido. A terra foi purificada desse ato de violência por meio dos cinco elementos.

– Ela tomou as Trevas como seu Consorte – Aphrodite alegou. – Ela não está apenas aliada ao mal, ela provavelmente está fazendo as coisas mais indecentes com ele!

– Eca! – Stevie Rae e eu exclamamos juntas.

– Os humanos nunca iriam acreditar em nada disso, mesmo se eles tivessem estado lá.

Nós todas nos voltamos para a voz de Shaylin, que até então estava em pé em silêncio, observando nós quatro com olhos vazios e uma expressão chocada. Mas o seu tom era seguro. É claro, ela parecia nervosa, mas o seu queixo estava levantado de novo e ela apresentava o que eu já estava reconhecendo como a sua cara de teimosa.

– Que diabo você sabe sobre isso e por que você está falando? – Aphrodite vociferou contra ela.

– No mês passado eu era humana. Os humanos não acreditam na magia dos vampiros – Shaylin encarou Aphrodite sem vacilar. – Vocês estão há muito tempo às voltas com essa magia. Vocês perderam totalmente a perspectiva.

– E você perdeu completamente a cabeça – Aphrodite rosnou, inchando como um baiacu.

– Crianças briguentas de novo – Thanatos não levantou a voz, mas as suas palavras atravessaram aquela tensão tipo briga de garotas entre Aphrodite e Shaylin.

– Elas não querem brigar – eu falei em meio ao súbito silêncio. – Nenhuma de nós quer. Mas estamos todas frustradas e esperávamos que você e o Conselho Supremo fossem fazer algo, qualquer coisa, para nos ajudar a combater Neferet.

– Deixem-me mostrar a verdade sobre quem vocês são, e então pode ser que vocês entendam mais sobre essa batalha em que vocês estão insistindo em envolver os humanos – Thanatos estendeu o seu braço direito, com a palma da mão voltada para cima na altura do peito. Ela fez uma concha com a mão, inspirou profundamente e, com a mão esquerda, agitou o ar acima da sua outra mão estendida, dizendo: – Observem o mundo! – a voz dela era poderosa, hipnotizante. Os meus olhos foram atraídos para a palma de sua mão. Sobre ela, um globo do planeta estava se formando. Era incrível, não era como aqueles globos entediantes que os professores de História usavam para juntar pó. Aquele parecia feito de fumaça negra. A água se ondulava e se agitava. Os continentes emergiam, como que esculpidos em ônix.

– Aiminhadeusa! – Stevie Rae exclamou. – É tão lindo!

– É mesmo – Thanatos disse. – E agora observem quem vocês são no mundo! – ela sacudiu os dedos da mão esquerda na direção do globo, como se estivesse salpicando água em cima dele. Aphrodite, Stevie Rae, Shaylin e eu ofegamos de surpresa. Pequenas faíscas começaram a aparecer, pontuando a massa de terra ônix com minúsculas luzes de diamante.

– Que bonito – comentei.

– São diamantes? Diamantes de verdade? – Aphrodite perguntou, aproximando-se mais.

– Não, jovem Profetisa. São almas. Almas de vampiros. Essas luzes somos nós.

– Mas há tão poucas luzes. Quero dizer, em comparação ao resto do globo, que é todo escuro – Shaylin observou.

Eu franzi a testa e me aproximei mais, juntando-me a Aphrodite. Shaylin estava certa. A terra parecia imensa comparada à pequena quantidade de pontos cintilantes. Fiquei encarando o globo. Os meus olhos foram atraídos para os agrupamentos de brilho: Veneza, a Ilha de Skye, algum lugar que eu achei ser a Alemanha. Um grupo de luzes na França, alguns borrões no Canadá e vários outros espalhados pelos Estados Unidos – vários, mas mesmo assim não muitos.

– Aqui é a Austrália? – Stevie Rae perguntou.

Dei uma olhada no outro lado do globo, reparando em outros diamantes salpicados.

– Sim – Thanatos confirmou. – E a Nova Zelândia também.

– Ali é o Japão, não é? – Shaylin apontou para outra pequena mancha de brilho.

– Sim, é – Thanatos afirmou.

– Os Estados Unidos não têm tantos diamantes quanto deveria – Aphrodite opinou.

Thanatos não respondeu. Ela encontrou o meu olhar. Eu desviei os olhos, analisando o globo novamente. Devagar, dei toda a volta ao redor dela, desejando que eu tivesse prestado mais atenção às aulas de Geografia – qualquer aula. Quando terminei de dar a volta, encontrei o olhar da Grande Sacerdotisa de novo.

– Não existem muitos de nós – eu concluí.

– Infelizmente, isso é a mais absoluta verdade – Thanatos concordou. – Nós somos brilhantes, poderosos e espetaculares, mas somos poucos.

– Então, mesmo que nós conseguíssemos fazer com que os humanos nos ouvissem, estaríamos abrindo portas para o nosso mundo que é melhor que fiquem fechadas – Aphrodite falou calmamente, soando madura e sem malícia, como não era próprio dela. – Senão eles podem começar a pensar que as leis deles se aplicam a nós, que nós precisamos deles para nos manterem na linha e isso significa que eles podem começar a apagar as nossas luzes.

– Simples, mas bem colocado – Thanatos juntou as mãos e o globo desapareceu em um sopro de fumaça brilhante.

– Então o que nós vamos fazer? Nós não podemos simplesmente deixar Neferet escapar com todas as coisas horríveis que ela fez. Ela não vai parar em uma coletiva de imprensa, uma comissão na Câmara e uma coluna no jornal. Ela quer morte e destruição. Caramba, ela é Consorte das Trevas! – Stevie Rae disse.

– Nós temos que lutar com as mesmas armas dela – Shaylin sugeriu.

– Ah, que merda. Não vou aguentar mais uma garota que usa metáforas ruins em vez de falar claramente – Aphrodite rebateu.

– O que eu quis dizer é que, se Neferet está envolvendo os humanos, nós também deveríamos fazer isso. Mas nos nossos próprios termos – Shaylin explicou. Eu vi quando ela movimentou a boca sem som, dizendo “detestável”, mas Aphrodite havia decidido ignorar a novata. De novo. E, felizmente, Aphrodite não estava olhando para ela.

– Shaylin, você despertou o meu interesse, filha. Por que você acompanhou as duas Sacerdotisas e a Profetisa até aqui? – Thanatos perguntou de repente.

Nós, as Sacerdotisas e a Profetisa, ficamos em silêncio. Pessoalmente, eu queria ver como Shaylin ia lidar com Thanatos. Imaginei que Stevie Rae ficou quieta pelo mesmo motivo. Eu já sabia as razões de Aphrodite, as quais Shaylin tinha resumido bem com a palavra que ela disse sem som: detestável.

A pequena novata vermelha levantou seu queixo e pareceu superobstinada.

– Eu vim com elas porque quero fazer perguntas a você sobre o meu dom. E elas concordaram – Shaylin fez uma pausa, deu uma olhada para Aphrodite e acrescentou: – Bem, duas delas concordaram.

– Qual dom Nyx concedeu a você, novata?

– A Visão Verdadeira – ela olhou nervosamente para Stevie Rae e para mim. – Certo?

– Nós achamos que sim – eu falei.

– É. Pelo menos foi o que a pesquisa de Damien nos disse, e ele está quase sempre certo em relação às coisas que pesquisa – Stevie Rae concordou.

– Ela disse que Neferet tinha cor de olho de peixe morto. Isso me faz pensar que ela pode ter algo mais do que uma simples doença mental – Aphrodite me surpreendeu ao dizer isso.

– Você vê auras? – Thanatos perguntou enquanto analisava Shaylin como se ela estivesse olhando em um microscópio e Shaylin estivesse sob uma lâmina de vidro.

– Eu vejo cores – Shaylin respondeu. – Não sei como chamar o que eu vejo. E-eu era cega até a noite em que fui Marcada. Eu era cega desde os cinco anos. De repente, zap! Ganhei uma lua crescente vermelha no meio da minha testa, minha visão voltou e, junto com ela, as cores. Muitas cores. Por causa delas, eu sei coisas sobre as pessoas. Tipo, eu sabia que Neferet era podre no mesmo instante em que a vi. Apesar de por fora ela ser bonita – ela contou a Thanatos, e eu percebi que ela entrelaçou as mãos com força atrás de si e permaneceu imóvel sob o escrutínio da Grande Sacerdotisa. – Do mesmo modo, eu sei que Erik Night é basicamente um cara legal, mas é fraco. Ele sempre escolheu o caminho mais fácil. A cor dele é preta, mas não um preto chapado. É um preto profundo e rico, e eu consigo ver pequenos raios de luz dourada relampejando através dele – ela suspirou. – Acho que você é realmente idosa, inteligente e poderosa, mas também tem um temperamento forte, que mantém sob controle. Na maior parte do tempo.

Thanatos curvou os lábios em um sorriso.

– Continue.

Shaylin olhou rapidamente para Stevie Rae e depois de novo para Thanatos.

– As cores de Stevie Rae são como fogos de artifício. Isso me faz pensar que ela é a pessoa mais doce e alegre que eu já conheci.

– Isso porque você não conheceu Jack – Stevie Rae falou, com um sorriso triste para Shaylin. – Mas, obrigada. Foi muito legal dizer isso sobre mim.

– Eu não tive a intenção de ser legal. Só estou tentando dizer a verdade – os olhos de Shaylin se voltaram para Aphrodite. – Bem, na maioria das vezes estou tentando dizer a verdade.

Aphrodite bufou.

Eu esperei que fosse a minha vez e que ela diria a Thanatos que as minhas cores tinham ficado mais escuras porque eu estava superpreocupada, mas ela não falou nada sobre mim. Ela apenas assentiu levemente com a cabeça, como se tivesse decidido internamente alguma coisa, e então concluiu:

– É por isso que eu estou aqui. Preciso da sua orientação sobre como usar o meu dom e quero saber a verdade sobre ele.

Acho que foi nessa hora que comecei a respeitá-la. Thanatos não era uma Grande Sacerdotisa qualquer. Ela era membro do Conselho Supremo e tinha afinidade com a Morte. Ok, Thanatos era assustadora. Sem brincadeira. Mesmo assim, ali estava Shaylin, com seus quarenta e poucos quilos, menos de um mês como novata, confrontando Thanatos, sem entregar nada privado sobre mim. Ela nem disse aquelas coisas sobre os pontos de luz trêmula do bem dentro de Aphrodite. Era preciso coragem. Muita coragem.

Olhei para as mãos entrelaçadas com força de Shaylin e reparei que os seus dedos haviam ficado brancos. Eu sabia como ela se sentia. Eu também tive que confrontar uma Grande Sacerdotisa poderosa logo depois de ser Marcada.

Eu me aproximei mais de Shaylin.

– Seja como for que você queria chamar o que Shaylin vê, ela tem um dom. Eu concordo com Damien. Acho que é a Visão Verdadeira.

– Todos nós achamos – Stevie Rae falou.

– Você pode me ajudar? – Shaylin perguntou.

Então Thanatos me surpreendeu. Ela não disse nada. Ela se virou e caminhou até a sua mesa, olhando para baixo, como se a resposta para a pergunta de Shaylin estivesse escrita no grande calendário que ela deixava em cima da escrivaninha. Ela ficou parada daquele jeito, com a cabeça abaixada, pelo que pareceu um tempo ridiculamente longo. Eu tinha decidido entrelaçar minhas mãos atrás do meu corpo para evitar me remexer também, até que a Grande Sacerdotisa finalmente se voltou para nós quatro e nos encarou.

– Shaylin, a resposta que eu tenho para você é a mesma que eu tenho para Zoey, Stevie Rae e Aphrodite.

Escutei Aphrodite murmurar algo sobre não se lembrar de ter feito nenhuma maldita pergunta, mas Thanatos a interrompeu e continuou:

– Cada uma de vocês recebeu um dom incomum concedido pela nossa Deusa, e isso vem a calhar para nós, pois vamos precisar de todos os poderes que a Luz pode nos dar se pretendemos combater as Trevas.

– Você quis dizer derrotar as Trevas, não quis? – Stevie Rae perguntou.

Eu sabia a resposta de Thanatos antes de ela falar.

– As Trevas nunca podem ser realmente derrotadas. Elas só podem ser combatidas e desmascaradas pelo amor, pela Luz e pela verdade – a Grande Sacerdotisa afirmou.

– Perdeu. De novo – Aphrodite disse em voz baixa.

– Vou dar uma tarefa a cada uma para que vocês possam exercitar os seus dons. Profetisa, a primeira é para você – Thanatos se dirigiu a Aphrodite.

Aphrodite deu um suspirou profundo.

– Você recebeu de Nyx o dom de ter visões com alertas sobre fatos horríveis que estão para acontecer. Você teve alguma visão antes da coletiva de imprensa de Neferet?

– Não – Aphrodite pareceu surpresa com a pergunta de Thanatos. – Não tenho nenhuma visão há cerca de uma semana.

– Então o quanto você é boa, Profetisa? – as palavras dela foram duras e frias. Thanatos soou quase cruel.

O rosto de Aphrodite ficou realmente pálido e logo depois ficou rosa.

– Quem é você para me questionar? Você não é Nyx. Eu não respondo a você. Eu respondo a ela!

– Exatamente! – a expressão de Thanatos se relaxou. – Então responda a ela. Ouça-a. Observe os seus sinais. As suas visões se tornaram cada vez mais difíceis e dolorosas, não é?

Aphrodite assentiu com um movimento tenso e rápido.

– Talvez porque a nossa Deusa queira que você exercite o seu dom de outros modos. Você fez isso recentemente, diante do Conselho Supremo. Lembra?

– É claro que eu lembro. Foi como eu soube que as almas de Kalona e de Zoey tinham saído de seus corpos.

– Mas você não precisou de uma visão que dissesse isso a você.

– Não.

– Já cheguei ao ponto que queria – Thanatos afirmou. Então ela se virou para Stevie Rae. – Você é a Grande Sacerdotisa mais jovem que já conheci na vida, e eu já vivi bastante. Você é a primeira Grande Sacerdotisa dos vampiros vermelhos na história do nosso povo. Você tem uma afinidade poderosa com a terra.

– Siiiiim... – Stevie Rae prolongou a palavra, como que esperando pelo golpe final de Thanatos.

– A sua tarefa é praticar liderança. Você acata as decisões de Zoey com muita frequência. Você é uma Grande Sacerdotisa. Extraia força da terra e comece a agir como uma Grande Sacerdotisa – Thanatos não deu chance para Stevie Rae responder. O seu olhar penetrante e sombrio se voltou para Shaylin. – Se você tem a Visão Verdadeira, o seu dom é tão bom quanto você for. Não o desperdice com trivialidades e mesquinharias.

– É por isso que eu estou aqui – Shaylin falou rapidamente. – Quero aprender a usar o meu dom do jeito certo.

– Isso, jovem novata, é algo que você precisa desenvolver e ensinar a si mesma. A sua tarefa é analisar aqueles ao seu redor. Leve os resultados até a sua Grande Sacerdotisa. Stevie Rae vai usar os poderes do elemento dela, assim como o seu crescente poder de liderança, para guiar você.

– Mas eu não sei... – Stevie Rae começou, mas Thanatos a cortou.

– E você nunca saberá. Nada. Nada importante de fato. A menos que você assuma a responsabilidade de ser uma Grande Sacerdotisa. Aprenda a confiar em si mesma, para que os outros possam se sentir seguros em confiar em você.

Stevie Rae fechou a sua boca e assentiu, parecendo que ela tinha doze anos, exatamente o oposto de uma Grande Sacerdotisa. Mas eu não tive tempo de dizer nada para ela porque finalmente Thanatos voltou suas baterias contra mim.

– Use a sua pedra da vidência.

– Ahn?

– Ela a intimida – Thanatos continuou como se eu não tivesse dito nada. – A verdade é que o mundo deve mesmo intimidar você, todas vocês, neste momento. Mas o medo não é razão para fugir às suas responsabilidades. Está em suas mãos uma peça de magia antiga que responde a você. Use-a.

– Como? Para quê? – falei sem pensar.

– Uma pedra da vidência, um dom da Visão Verdadeira, uma Profetisa, uma Grande Sacerdotisa: todas essas coisas poderosas são inúteis a menos que todas vocês comecem a responder essas questões a si mesmas. Você disse que vocês não são crianças birrentas? Provem. Podem ir agora – ela virou as costas para nós e deu passos firmes em direção à sua mesa.

Minhas amigas e eu obviamente tivemos o mesmo impulso ao mesmo tempo. Como se fôssemos uma só, começamos a andar apressadas a caminho da porta de saída.

– Eu vou acender a pira de Dragon Lankford à meia-noite. Estejam presentes à cerimônia. Logo depois, preciso de vocês e do resto do seu círculo no lobby da escola. Eu convoquei a minha própria coletiva de imprensa.

As palavras dela nos atingiram e nos fizeram parar como se fossem um muro invisível. Nós nos viramos e olhamos embasbacadas para ela. Eu engoli em seco o nó na minha garganta e falei:

– Mas você disse que nós não podemos confrontar Neferet na comunidade dos humanos. Então, sobre o que vai ser a nossa coletiva de imprensa?

– Nós vamos continuar de boa vontade aquilo que Neferet começou apenas para gerar caos e conflitos. Ela abriu esta escola para empregados humanos. Nós vamos anunciar na coletiva que, apesar de estarmos tristes por Neferet ter saído do seu emprego na nossa escola, estamos felizes em abrir inscrições para mais ocupações para a comunidade na Morada da Noite. Nós vamos sorrir. Nós seremos afetuosos e abertos. James Stark estará presente com seu jeito agradável, atraente e inofensivo.

– Você vai fazer com que Neferet pareça nada mais do que uma empregada descontente? Brilhante! – Aphrodite comentou.

– E normal – eu observei.

– Algo que os humanos vão entender completamente – Shaylin disse.

– Ei, se vocês realmente querem parecer normais como os humanos, nós precisamos fazer algo tipo um feira de empregos aberta ao público – Stevie Rae sugeriu e todas nos voltamos para ela.

– Continue. Qual é a sua ideia, Grande Sacerdotisa? – Thanatos perguntou.

– Bem, a minha escola de ensino médio costumava ter uma feira de empregos para os formandos no fim do ano. Era como qualquer festa aberta ao público, com ponche ruim, salgadinhos e tudo mais. Mas empresas de Tulsa, de Oklahoma City e até de Dallas apareciam e recebiam inscrições e marcavam entrevistas com os formandos enquanto o resto dos estudantes só ficava por ali, desejando que chegasse a sua vez – Stevie Rae sorriu timidamente e encolheu os ombros. – Acho que pensei nisso porque a minha vez não chegou, já que eu fui Marcada e tal.

– De fato, é uma ideia interessante – Thanatos me chocou ao dizer isso. – Nós vamos mencionar a nossa disposição de abrir a escola para uma feira de empregos – ela pronunciou essas palavras como se elas fossem de uma língua estrangeira – durante a coletiva de imprensa mais tarde.

– Se você realmente quer uma festa aberta ao público aqui na escola, precisamos ter um bocado de gente aqui. Que tal nós convidarmos os Street Cats e fazermos um evento para levantar fundos para a adoção de gatos? Isso seria algo que Tulsa apoiaria – Stevie Rae acrescentou.

– E isso seria normal – Aphrodite falou. – Eventos beneficentes são coisas normais e atraem as pessoas com muita grana, e isso é uma coisa boa.

– Bem pensado – Thanatos concordou.

– Minha avó pode ajudar a coordenar isso com os Street Cats. Ela e a irmã Mary Angela, a freira diretora dos Street Cats, são amigas – eu sugeri.

Thanatos assentiu.

– Então eu vou ligar para Sylvia e perguntar se ela poderia coordenar o que nós chamaremos de uma noite aberta ao público com uma feira de empregos para Tulsa. A presença de sua avó, além das freiras, vai dar uma sensação de normalidade e de tranquilidade.

– Minha mãe pode assar uma tonelada de cookies de chocolate e vir também – Stevie Rae ofereceu.

– Então a convide. Eu tenho fé em vocês, assim como Nyx tem. Não nos desapontem. E agora vocês podem ir mesmo.

Nós saímos da sala de Thanatos falando sobre a coletiva de imprensa e o evento aberto ao público, e comentando como era bom termos um plano. Foi só mais tarde que me dei conta de que eu não havia dito nem uma única palavra sobre o caso Aurox/Heath...


10 Shaunee

Os guerreiros Filhos de Erebus estavam com ares soturnos, ocupados com o trabalho de amontoar madeira para construir a pira de Dragon. Shaunee tentou fazer o que podia para ajudá-los. Ela sabia dizer se a madeira ia queimar bem só de tocá-la, então indicou todas as toras e tábuas mais secas e orientou os guerreiros para colocar tudo de forma correta, a fim de que o fogo queimasse sem empecilhos e rapidamente.

Shaunee tentou encorajá-los. Ela disse que eles estavam fazendo um bom trabalho e que Dragon ficaria orgulhoso deles, mas aquilo pareceu deixá-los ainda mais calados e soturnos. Até Darius estava em silêncio e parecia quase um estranho. Foi só quando Aphrodite surgiu atirando o cabelo para o lado e falando com aquele seu jeito dominador e sedutor que as coisas começaram a melhorar.

– Ei, bonitão, você lembra do sermão que Dragon deu em você quando nós começamos a sair? – Aphrodite piscou para vários guerreiros que estavam por perto. – Aposto que Stephen, Conner e Westin se lembram, não é? Não foram vocês que tiveram que fazer um treinamento extra com Darius depois que Dragon descobriu que ele estava confraternizando com uma novata? – Aphrodite fez um tom de voz baixo que soou muito parecido o Mestre da Espada.

Os guerreiros até sorriram.

– Dragon nos fez dar um trato no seu garoto aqui por três dias seguidos – Conner lembrou.

Darius bufou.

– Cuidado com as suas palavras, Conner. Eu não sou um garoto há décadas.

Conner riu.

– Acho que era exatamente com isso que Dragon estava tendo problemas.

Aphrodite sorriu de modo sedutor e passou a mão pelo bíceps grosso de Darius.

– Ele queria que você ficasse esgotado para que não tivesse energia suficiente para confraternizar comigo.

– Seria preciso um exército de vampiros para isso – Darius afirmou.

Foi a vez de Stephen provocá-lo.

– Sério? Então por que Anastasia teve que intervir?

Aphrodite levantou suas sobrancelhas loiras.

– Intervir? Anastasia? Você não me contou isso, bonitão.

– Devo ter esquecido, já que eu estava muito ocupado confraternizando com você, minha bela.

– Hahaha! – Westin caçoou. – É impossível que qualquer um de nós tenha se esquecido de Anastasia, com os cabelos ao vento, repreendendo o nosso Mestre da Espada por perseguir o pobre e jovem Darius.

Shaunee não conseguiu deixar de rir junto com eles.

– Ela disse mesmo que Dragon estava perseguindo Darius? – a novata quis saber.

Conner, que era alto, loiro e quase tão ardente quanto o elemento de Shaunee, respondeu:

– Sim, ela disse exatamente isso. Ela até chamou Dragon de Bryan e o lembrou de que, se ela não tivesse confraternizado com um novato um século atrás, a vida dele seria muito menos interessante.

– Eu convivi com Dragon Lankford por cinquenta anos – Stephen falou. – Eu nunca o vi ser superado por nenhum outro guerreiro, mas Anastasia conseguia detê-lo com um simples olhar.

– Que bom que eles estão juntos agora – Darius afirmou.

– Ele ficou perdido sem ela – Westin comentou.

– Isso é algo que eu posso entender muito bem – Darius pegou a mão de Aphrodite, beijando-a gentilmente.

– Vocês realmente viram os dois se reencontrando?

– Sim – Darius, Aphrodite e Shaunee responderam juntos.

– Ele está feliz de novo – Shaunee disse.

– Ela morreu primeiro, mas esperou por ele – Aphrodite sorriu para Darius, mas Shaunee pôde ver lágrimas nos olhos dela.

– Ela teve uma morte de guerreira – Westin lembrou.

– Assim como Dragon – Darius concordou.

– Nós precisamos nos lembrar disso hoje à noite – Shaunee sugeriu. – Lembrar da alegria e do Juramento deles, e que eles ainda se amam.

– Amar para sempre – Darius falou docemente, tocando o rosto de Aphrodite.

– Amar para sempre – Aphrodite ecoou e depois levantou uma sobrancelha loira. – Se você não estiver cansado demais, é isso aí.

– Ah! Então Anastasia estava certa! Nós estamos perseguindo o pobre e jovem Darius! – Stephen e os outros guerreiros riram, e Darius começou a se defender excitadamente, enquanto Aphrodite o provocava.

Shaunee se afastou um pouco da pira em construção e do grupo que a cercava. Fogo, aqueça essa pequena fagulha de alegria que Aphrodite conseguiu plantar dentro deles. Ajude os guerreiros a se lembrarem de que Dragon e Anastasia estão juntos e felizes. Ela sentiu o calor do seu elemento passar rapidamente por ela e envolver o grupo, um calor invisível e quase indetectável para quem não tinha afinidade com o fogo. Mas aquilo ajudou. Ela havia ajudado. Shaunee realmente acreditava nisso.

Sentindo-se levemente melhor, ela saiu caminhando a esmo. Shaunee sabia que tinha que ir até o estábulo, mas isso não significava que ela estava com pressa de encarar a destruição que o seu elemento havia causado. Mas eu não o estava manejando, ela lembrou a si mesma. Mesmo assim, ela fez um caminho mais longo e sinuoso, na direção do pátio que tinha uma bela fonte. Dali ela iria pegar o caminho dos fundos, passando pelo estacionamento, que iria dar mais diretamente no ginásio do que no estábulo.

Shaunee escutou a água antes de ouvir a voz de Erin.

Ela não quis ficar espreitando nem se escondendo. Ela só se moveu em silêncio pelas sombras em volta do pátio porque não queria uma cena com Erin, não porque ela a estava espionando.

Então ela escutou a outra voz. No começo, Shaunee não reconheceu de quem era. Ele não estava falando alto o bastante. Ela só reconheceu a risadinha sedutora de Erin. Shaunee estava tentando decidir se ter curiosidade era a mesma coisa que bisbilhotar quando a voz dele ficou mais alta e ela percebeu que o alvo da risadinha sedutora de Erin era Dallas!

Sentindo uma dor de estômago, Shaunee se aproximou mais.

– Sim, é isso mesmo que estou dizendo. Não consigo tirar você da cabeça, garota. Você sabe o que a água e a eletricidade fazem quando se juntam, não sabe?

Shaunee ficou completamente imóvel, esperando que Erin o chamasse de otário e falasse para ele voltar correndo para a nojenta da Nicole, que era da mesma laia dele; em vez disso, ela sentiu uma dor no estômago quando ouviu Erin responder flertando com ele:

– Relâmpagos... É isso o que a eletricidade e a água fazem. Parece interessante.

– É interessante. Você é interessante. E quente. Você é como uma sauna, garota. Ou como um banho de vapor no qual eu adoraria ficar ensopado.

Shaunee teve que apertar os lábios para evitar dizer “eca” e chamar Dallas de otário ela mesma. Erin ainda tinha que fazer isso. De jeito nenhum ela ia querer nada com Dallas. Ele era um completo idiota. Ele odiava Stevie Rae e Zoey! Stevie Rae disse que ele tinha tentado matá-la! Erin só estava levantando a bola dele para depois detoná-lo e colocá-lo no seu devido lugar.

Shaunee esperou por isso. Nada. Ela não ouviu mais nada. Andando sem fazer barulho, Shaunee se aproximou ainda mais. Provavelmente, Erin tinha ido embora, depois de revirar os olhos e sair andando sem nem se dar ao trabalho de falar para Dallas sumir da frente dela.

Mas Shaunee estava errada. Totalmente errada.

Erin havia se encostado na fonte. A água a estava molhando inteira. Seu cabelo, suas roupas, seu corpo. Dallas a estava encarando como se ele estivesse morrendo de fome e ela fosse uma bisteca suculenta. Erin levantou os braços acima da cabeça, fazendo com que seus peitos marcassem a sua camiseta molhada, que era branca e agora estava totalmente transparente.

– Que tal isto aqui para um concurso de camiseta molhada? – ela perguntou com uma voz toda sexy, fazendo os seus peitos balançarem um pouco.

– Você ganha. É a coisa mais gostosa que eu já vi na vida, garota.

– Eu posso te mostrar algo mais gostoso – Erin disse. Com um movimento rápido, ela tirou a sua camiseta ensopada e desabotoou o seu sutiã de renda.

A respiração de Dallas estava tão ofegante que Shaunee podia até escutar. Ele lambeu os lábios.

– Você estava certa, garota. Isso é mais gostoso.

– E que tal isto? – Erin enganchou os dedões na cintura da sua minissaia xadrez e a tirou. Ela sorriu para Dallas, que ficou olhando para a minúscula tanga de renda que ela ainda estava usando.

– Que tal tirar todo o resto? – a voz de Dallas estava intensa, e ele se aproximou mais dela.

– Parece uma boa ideia. Eu gosto de não vestir nada além de água – Erin tirou a tanga. Agora tudo o que ela estava usando eram suas botas Christian Louboutin. Ela passou a mão com água por todo o seu corpo. – Quer se molhar comigo?

– Não é só isso que eu quero fazer com você – ele sugeriu. – Garota, eu vou abrir as portas de um outro mundo inteiro para você.

– Estou pronta para isso – ela falou de modo sedutor, ainda tocando o próprio corpo. – Porque estou cansada do mundo entediante em que estou vivendo.

– Relâmpagos, garota. Vamos fazer relâmpagos e algumas mudanças.

– Vamos lá! – Erin disse.

Dallas acabou com a distância que ainda havia entre eles. Os dois ficaram tão abraçados e tão concentrados um no outro que Shaunee não teve que se preocupar se eles iriam ouvi-la quando ela saiu correndo, totalmente enojada, com os olhos cheios de lágrimas.

Zoey

– Se vocês não se importam, eu vou até o centro de mídia. Damien acha que posso encontrar alguns livros antigos sobre a Visão Verdadeira na seção de livros de referência, se eu procurar bastante. Provavelmente ele é melhor em pesquisa do que eu, mas sou teimosa – Shaylin afirmou. – Se há algo a ser encontrado, eu vou encontrar.

– Sem problemas – eu falei.

Stevie Rae deu de ombros, dizendo:

– Por mim tudo bem.

Shaylin começou a ir embora, mas fez uma pausa.

– Ei, obrigada por me deixarem ir com vocês falar com Thanatos. E obrigada por ouvirem o que eu tinha a dizer lá. Bem, e me desculpem de novo por aquela coisa com Aphrodite mais cedo.

– Não é comigo que você tem que continuar se desculpando – eu disse.

– É, eu sei, mas acho que você é a única que vai escutar – Shaylin falou, olhando para a direção em que Aphrodite havia saído andando bruscamente.

– Aphrodite vai escutar. Só não muito bem – Stevie Rae opinou. – Você falou bem lá dentro, Shaylin. Gostei do que você disse sobre as cores das pessoas. Acho que você deve se concentrar em seguir o seu instinto sobre o que você vê.

– Hum – Kramisha bufou enquanto se aproximava apressada da gente. – Eu digo que o instinto pode te levar para uma tonelada de problemas.

Eu estava pensando “frase do ano” quando Stevie Rae perguntou:

– O que está rolando, Kramisha?

– São os novatos vermelhos de Dallas. Eles estão agindo como se quisessem ajudar a limpar o estábulo.

Stevie Rae franziu as sobrancelhas. Eu mordi os lábios. Kramisha cruzou os braços e ficou batendo o pé no chão.

– Ajudar é uma coisa ruim? – Shaylin falou em meio àquele silêncio desconfortável.

– O grupo de Dallas tem sido, bem... – eu hesitei, tentando formar uma frase sem o tipo de palavras que eu tentava (bastante) evitar.

Kramisha foi mais rápida do que eu.

– Eles são encrenca.

– Talvez eles estejam tentando mudar – Shaylin sugeriu.

– Eles são encrenca dissimulada – Kramisha acrescentou.

– Nós não confiamos neles – eu expliquei.

– E a gente tem um monte de razões para não confiar neles – Stevie Rae reforçou. – Mas eu tenho uma ideia. Thanatos disse que eu tenho que praticar liderança e Shaylin precisa praticar a coisa da Visão Verdadeira dela. Então vamos fazer as duas coisas – Stevie Rae endireitou as costas e a sua voz deixou de ser doce e do tipo garotinha e passou a ser a voz de uma mulher que soava mais confiante e bem mais velha. – Shaylin, você pode ir até o centro de mídia mais tarde. Agora você vai comigo para o estábulo. Quero que você olhe para as cores dos novatos vermelhos que estão lá e me diga quais deles são mais perigosos.

– Sim, senhora – Shaylin respondeu.

– Ahn, você não precisa me chamar de senhora – Stevie Rae falou rapidamente, soando como ela mesma de novo. – Só me deixar bancar a chefe já é o bastante.

– Você não faz o tipo “chefe mandona” – Kramisha observou.

– Bem, estou tentando fazer – Stevie Rae suspirou e olhou para mim.

Eu sorri para ela.

– Você pode mandar em mim se quiser.

Ela me deu um olhar de surpresa.

– Se alguma vez eu tentar fazer isso, você pode me chamar de salsicha e me falar para bater em mim mesma com pão e mostarda.

Dei risada e então falei:

– Bom, então, se vocês não se importam, eu preciso ficar um tempo sozinha. Quero pensar nessa coisa da pedra da vidência. Mas eu encontro com vocês no estábulo daqui a pouco. Se você virem Stark, digam que estou bem e que logo estarei lá.

– Combinado – Stevie Rae disse.

Observei as três se afastarem. Consegui ouvir Kramisha perguntar qual era a sua cor para Shaylin e, antes que a garota pudesse responder, ela já estava falando que a cor dela não podia ser laranja de jeito nenhum porque ela não gostava de laranja. Shaylin parecia confusa, mas interessada. Stevie Rae parecia pensativa e determinada, como se estivesse tentando refletir por fora a liderança em que ela estava trabalhando por dentro.

E eu? Imagino que, se você colocasse um espelho na minha direção, eu pareceria confusa e cansada e veria que o meu rímel estava empelotando e o meu cabelo estava ficando cheio de frizz.

Eu queria ir com as minhas amigas ajudar a arrumar o estábulo. Eu queria encontrar Stark e queria que ele segurasse a minha mão e ficasse rindo de mim por eu me preocupar demais e por procurar no Google sobre sintomas de doenças. Mais do que tudo, eu queria esquecer sobre aquela pedra da vidência idiota em volta do meu pescoço e me concentrar em algo que fizesse mais sentido, como novatos vermelhos detestáveis ou lição de casa. Mas eu sabia que Thanatos estava certa. Nós iríamos precisar de todos os nossos dons para ter chance de pelo menos manter as Trevas em xeque. Então, em vez de seguir minhas amigas, tomei um caminho diferente. Limpei a minha mente o máximo que eu podia e deixei que meus instintos me guiassem. Então, quando ficou óbvio aonde os meus pés estavam me levando, sussurrei:

– Espírito, por favor, venha para mim. Ajude-me a não ter tanto medo – o elemento com o qual eu ficava mais confortável suavizou o meu medo, então na hora em que eu estava diante do carvalho despedaçado foi como se as minhas emoções estivessem envoltas em um cobertor macio e quentinho.

Eu precisava daquele cobertor confortável. Aquele lugar me assustava. A professora Nolan tinha sido assassinada ali. Stevie Rae quase havia sido morta ali. Kalona surgira rasgando a terra ali. Jack, o pobre e doce Jack, morrera ali.

O meu instinto tinha me levado até lá. E o pior de tudo era que a minha pedra da vidência começou a irradiar calor.

É, como Kramisha disse, seguir o seu instinto pode causar uma tonelada de problemas, eu pensei. Suspirei e admiti a verdade que a minha intuição havia seguido: se havia magia antiga na Morada da Noite, aquele era um lugar excelente para ela se esconder. Sgiach me contara que a magia antiga era poderosa. Ela também era imprevisível e perigosa. Eu me lembrei dela explicando que o modo como a magia antiga se manifestava tinha muito a ver com a Sacerdotisa que a invocava.

Então, o que aquilo significava para mim? Que tipo de Sacerdotisa eu estava me tornando?

Suspirei. Uma porcaria de Sacerdotisa confusa que não tinha dormido o suficiente.

Uma com potencial – o pensamento vagou pela minha mente.

Uma que não sabe o bastante, contra-argumentei mentalmente.

Uma que precisa acreditar em si mesma, o vento sussurrou para mim.

Uma que precisa parar de fazer besteira, minha mente insistiu.

Uma que precisa acreditar na sua Deusa.

E aquilo parou com a minha batalha mental.

– Eu acredito de verdade em você, Nyx. Sempre vou acreditar – decididamente, tirei a pedra da vidência quente que estava embaixo da minha camiseta, respirei fundo e a levantei, olhando através do pequeno buraco, tipo aquele furo de pastilhas Life Savers, para o carvalho despedaçado.

Por um segundo, nada aconteceu. Franzi os olhos, e o carvalho continuou sendo apenas uma velha árvore quebrada. Comecei a relaxar e, como de costume, foi então que o caos começou.

Do centro do tronco partido emergiu um redemoinho terrível e feio de sombras rodopiantes. Dentro daquele turbilhão eu vi criaturas horríveis com os corpos retorcidos, cobertos com uma pele manchada, como se estivessem apodrecendo de doenças nojentas. Os olhos deles eram cavidades profundas. As suas bocas eram costuradas. Eu podia sentir o cheiro deles. Era como o fedor de animais atropelados misturado ao cheiro de privada entupida. Eu tive ânsia e devo ter feito barulho de vômito, pois o grupo voltou seus rostos cegos para mim. Os seus dedos longos e esqueléticos se estenderam na minha direção.

– Não! Parem! – gritei. O conforto do espírito tinha se quebrado. Eu estava paralisada de medo.

E então, bem do meio do redemoinho, brilhou uma luz bonita, com a cor da lua cheia, reduzindo aquelas criaturas horrendas a nada e fazendo com que eu caísse sobre o meu traseiro. Soltei a pedra da vidência, cortando a minha ligação com a magia antiga. Num piscar de olhos, enquanto eu arfava, a árvore se tornou a árvore de novo. Velha e assustadora, mas mundana e quebrada.

Sem me importar com Thanatos ou ordens da Morte, levantei cambaleante e corri feito louca.

– Eu não sou louca. É a minha vida que é louca. Eu não sou louca. É a minha vida que é louca... – entre suspiros ofegantes, eu repetia as palavras para mim mesma como um mantra, sem parar, tentando voltar ao meu estado normal, ao meu centro, ou pelo menos a algum estado de calma, mas o meu coração estava batendo tão alto que eu podia ouvi-lo e não conseguia controlar a respiração. Ataque do coração, pensei. Esse nível de loucura é demais para mim e estou tendo um ataque do coração.

Foi então que percebi que eu não conseguia controlar a respiração e o meu coração estava batendo loucamente porque eu ainda estava correndo, e mãos fortes e familiares me agarraram, fazendo com que eu parasse abruptamente. Como uma garotinha, desabei em cima de Stark, tremendo e batendo os dentes.

– Zoey! Você está ferida? Quem está atrás de você? – Stark me manteve grudada nele, enquanto ele me virava para olhar a escuridão atrás de mim. Eu o abracei e senti que ele estava carregando seu arco e seu estojo de flechas sobre o ombro. Ele irradiava aptidão e presteza. Mesmo através do meu pânico, a presença dele me acalmou. Eu engoli o ar, balançando a cabeça.

– Não, eu estou bem. Estou bem.

Ele me segurou pelo ombro, à distância do seu braço esticado, olhando meu corpo de cima a baixo, como se estivesse procurando por ferimentos.

– O que aconteceu? Por que você estava apavorada, correndo feito uma louca?

Franzi a testa para ele.

– Eu não sou uma louca.

– Bem, você estava correndo como se fosse. E aqui dentro – ele pressionou um dedo contra o meu peito, sobre o meu coração que se acalmava – você estava se sentindo como se tivesse levado uma pancada.

– Magia antiga.

Ele arregalou os olhos.

– O touro?

– Não, não, nada disso. Eu olhei através da pedra da vidência para a árvore. Você sabe, aquela árvore, perto do muro leste.

– E por que diabos você faria isso?

– Porque Thanatos me disse que eu precisava praticar com a maldita pedra da vidência, para o caso de ela poder ser usada de algum modo na luta contra Neferet.

– Então você viu algo que veio atrás de você?

– Bem, não. Sim. Mais ou menos. Eu vi umas coisas assustadoras dentro de algo que parecia um tornado girando para cima, saindo do meio da árvore. Stark, eles eram a coisa mais nojenta que já vi na vida. E eles tinham um cheiro ruim. Muito, muito ruim. Na verdade, eu quase vomitei por causa do fedor. Tive uma ânsia de vômito, e foi quando repararam em mim, mas antes que pudessem fazer qualquer coisa uma luz brilhante acabou com eles – fiz uma pausa, tentando pensar em meio ao meu pânico. – Na verdade, a luz salvadora era tipo aquela luz de fada da Sookie. Você acha que existe alguma chance de eu ser uma fada?

– Não, Z. Foco. True Blood é ficção. Isto aqui é o mundo real. O que aconteceu depois dessa luz?

– Não sei. Eu corri – olhei em volta de nós e percebi que eu havia corrido todo o caminho pelo lado de dentro do muro e que eu estava quase no estábulo. – Eu realmente corri bastante.

– E?

– E nada. Exceto que você me agarrou. Deusa, eu achei que estava tendo um ataque do coração.

– Então você ficou assustada. É só isso?

Franzi a testa para ele de novo. A voz dele era gentil, mas a sua expressão estava tensa, como se ele estivesse tentando decidir se me sacudia ou me beijava.

– Bem – eu disse devagar. – Sim, mas eu fiquei realmente assustada.

As mãos dele, que estavam segurando os meus ombros, me deram um enorme e apertado abraço de urso. Senti o corpo dele relaxar. Ele soltou um longo suspiro que terminou com uma risadinha.

– Você me assustou pra caramba, Z.

– Desculpe – eu murmurei contra o peito dele, envolvendo-o com os meus braços e apertando-o também. – Obrigada por me encontrar e por estar totalmente pronto para me salvar.

– Você não tem por que se desculpar. Eu sou o seu guerreiro, o seu Guardião. É o meu trabalho salvar você. Apesar de você ser muito boa em se salvar sozinha.

Eu me inclinei para trás para poder olhar nos seus olhos.

– Eu sou um trabalho?

Ele deu aquele seu meio sorriso metidinho.

– De tempo integral. Totalmente. E sem benefícios nem folgas.

– Sério?

– Ok, não – o sorriso dele se alargou. – Eu me lembro de ter tirado uns dias de repouso quando uma flecha me queimou e mais alguns dias quando um escocês louco me retalhou. Então, eu retiro o que disse. Eu tenho alguns benefícios. Só que são bem poucos.

– Você está demitido! – tive vontade de dar um tapa em Stark, mas eu não queria tirar os meus braços dos ombros dele.

– Você não pode me demitir. Assinei um contrato vitalício – o sorriso de Stark despareceu dos seus lábios, mas continuou nos seus olhos. – Você é minha Sacerdotisa, minha rainha, mo bann ri. Eu nunca vou deixá-la. Sempre vou protegê-la. Eu amo você, Zoey Redbird – ele se inclinou e me beijou com tanta ternura que eu senti a verdade do seu compromisso no fundo da minha alma.

Quando os seus lábios finalmente deixaram os meus, levantei os olhos para ele.

– Eu também amo você. E você sabe que não precisa ter ciúmes de um cara morto, certo?

Ele tocou o meu rosto.

– Certo. Desculpe pela noite passada.

– Tudo bem. E, ahn, por falar nisso... Há algo que você precisa saber.

– O quê?

Respirei fundo e falei de uma vez:

– Na noite passada, no final do ritual, eu olhei através da pedra da vidência para Aurox e vi Heath. Foi por isso que eu não deixei que você e Darius o ferissem.

Senti a tensão no corpo de Stark disparar para o nível “Perigo! Alerta Vermelho!”.

– Foi por isso que você estava chamando por Heath durante o sono na noite passada? – ele soou mais magoado do que irritado.

– Não. Sim. Eu não sei! Eu falei a verdade. Não lembro com o que eu estava sonhando, mas faz sentido que Heath estivesse na minha mente depois de eu tê-lo visto quando olhei para Aurox.

– Aquela coisa feito touro não é Heath. Como você pode pensar isso?

– Não é que eu esteja pensando isso. É o que eu vi.

– Zoey, olha só, tem que haver uma explicação para o que você viu – ele deu um passo para trás. Meus braços se soltaram do seu ombro.

– É por isso que Thanatos quer que eu pratique mais essa coisa de olhar através da pedra da vidência, para que eu possa descobrir como isso funciona – eu me senti com frio e sozinha sem os braços dele em volta de mim. – Stark, eu sinto muito. Eu não quis ver Heath em Aurox. Eu não quero ver nem dizer nem fazer nada que machuque você. Nunca – eu estava piscando com força, tentando evitar explodir em lágrimas.

Stark passou a mão pelos seus cabelos.

– Z., por favor, não chore.

– Eu não estou chorando – eu disse, e então dei um pequeno soluço e enxuguei uma lágrima que de algum modo tinha escapado do meu olho.

Stark enfiou a mão no bolso da sua calça jeans e pegou um lenço de papel amassado. Ele se aproximou mais de mim de novo e enxugou a segunda lágrima que estava seguindo a primeira lágrima fugitiva. Então ele me beijou docemente e me entregou o lenço, puxando-me de volta para os seus braços.

– Não se preocupe, Z. Heath e eu ficamos em paz no Mundo do Além. Eu ficaria feliz em vê-lo de novo.

– Sério? – eu tive que me afastar um pouco do seu abraço para assoar meu nariz.

– Bem, sim. Feliz por vê-lo de novo, mas não tão feliz por você vê-lo de novo – a sinceridade dele arrancou um sorriso de nós dois. – E eu sei que você não me magoaria de propósito. Mas, Z., aquela coisa tipo touro não é Heath.

– Stark, eu soube que Aurox tinha alguma coisa a ver com magia antiga desde a primeira vez em que o vi. Ele fez com que eu me sentisse completamente estranha – eu odiava contar isso a ele, mas Stark merecia nada menos do que honestidade de minha parte.

– É claro que ele fez com que você se sentisse estranha. Ele é uma criatura das Trevas! E, sim, ele é magia antiga. Ele foi criado pelo tipo mais horrível dessa merda quando Neferet matou a sua mãe como sacrifício. Eu ficaria preocupado se ele não fizesse você se sentir estranha.

Soltei um longo suspiro.

– Bem, acho que isso realmente faz sentido.

– Sim, e aposto que, se a gente trabalhar junto, nós vamos descobrir por que a pedra mostrou Heath a você na noite passada – ele disse e eu apenas mordi o lábio. Então ele continuou, como se estivesse raciocinando em voz alta. – Pense nisso, Z. O que mais você viu através da pedra?

– Bem, em Skye eu vi aqueles duendes antigos, os elementais.

– Eles eram parecidos com as coisas que você viu hoje?

Encolhi os ombros.

– Não, de jeito nenhum. Os elementais eram sobrenaturais, misteriosos, estranhos, mas no bom sentido. O que eu vi hoje foi grotesco e assustador.

– Ok, exceto por agora na árvore e pela noite passada no ritual, a pedra da vidência mostrou a você mais alguma coisa desde que nós voltamos da Itália?

Eu encontrei o olhar dele.

– Sim. Você.


11 Zoey

– Eu? Z., o que você disse não faz o menor sentido – Stark falou.

– Eu sei, eu sei. Desculpe. É que eu me senti meio como se estivesse espionando você quando fiz isso porque você estava dormindo, e eu só fiz isso porque foi na época em que você estava tendo problemas para dormir, e na verdade foi mais uma coisa acidental, então eu nunca disse nada para você, e agora parece como se eu tivesse inventado tudo isso – terminei apressadamente.

– Zoey, eu posso ouvir as suas emoções. Isso é muito mais “espionagem” do que você olhar para mim através de uma pedra enquanto estou dormindo. Além do mais, você está certa. Meu sono realmente tem aumentado. Eu não a culpo por dar uma conferida em mim com a pedra. Apenas me conte o que você viu.

– Eu vi uma sombra em cima de você. Eu me lembro de pensar que parecia um guerreiro fantasma. Você abriu a sua mão e a espada do Guardião apareceu. Então a sombra-fantasma a segurou e ela se transformou em uma lança. Achei que ela estava ensanguentada. Aquilo me assustou, então chamei o espírito e ele afugentou aquela coisa. Você acordou e nós, ahn... – senti meu rosto esquentar. – Bem, nós fizemos amor e eu me esqueci disso.

– Z., gosto de pensar que eu sou bom de cama e tal, mas, mesmo assim, como você pode esquecer de ter visto um cara-fantasma com uma lança pairando em cima de mim?

– É sério, Stark. Logo depois disso começou o que Stevie Rae chamaria de um fuzuê danado aqui na Morada da Noite. Eu estava ocupada – cruzei os braços e olhei intensamente para ele. – Espere aí, eu não me esqueci totalmente disso. Eu contei para Lenobia sobre o cara da sombra.

– Ótimo, então uma professora sabe, mas eu não sabia.

– Agora você sabe.

– Bom, e o que Lenobia falou sobre isso?

– Basicamente, ela me disse para manter os meus olhos bem abertos aqui no mundo real em vez de ficar olhando embasbacada através da pedra, que foi o que eu fiz até a noite passada quando eu vi Heath – falei.

– Olhe para mim através da pedra de novo.

– Agora?

– Agora.

– Ok – levantei a pedra da vidência, respirei fundo e olhei através dela para Stark.

– E então? Que tal eu estou?

– Mal-humorado.

– E?

– Irritante.

– Nada mais?

– Talvez um pouco fofo. Mas apenas talvez – coloquei a pedra de volta embaixo da minha camiseta. – Simplesmente apenas você. Não achei mesmo que eu fosse ver nada. A pedra não estava quente.

– Ela fica quente?

– Sim, às vezes – mordi o lábio e pensei sobre isso. – Na verdade, foi por isso que eu olhei através dela para você da primeira vez. Ela tinha esquentado.

– A pedra estava quente quando você olhou através dela para Aurox? – ele perguntou.

– Não, mas eu sabia que tinha que olhar através dela. Foi como se eu me sentisse compelida a fazer isso – respondi. – E ela já tinha esquentado antes, quando Aurox estava por perto.

– Maldita magia antiga. Isso é um pé no saco – ele reclamou. – Podia pelo menos existir um manual com as regras da pedra descritas em algum lugar, mas não.

– Eu posso ligar para Sgiach. Quero dizer, ela me deu a pedra. Ela lida com magia antiga. Talvez ela possa me dar algumas orientações.

Ele bufou.

– Você não pediu isso a ela em Skye?

– Sim – eu disse.

– Se eu me lembro bem, ela não deu nenhuma resposta concreta.

– Você está certo. Ela falou inclusive que achava que a única magia antiga que ainda existia neste mundo estava em Skye.

– Ela estava errada – Stark afirmou.

– Sim, definitivamente.

– Quer saber o que eu acho?

Stark chegou mais perto de novo e colocou o seu braço em volta de mim. Encostei minha cabeça no ombro dele, deslizei o meu braço ao redor da sua cintura e falei:

– Que eu sou louca?

Ele abriu um sorriso e beijou minha testa.

– Você não é só louca. Você é muito louca. Caramba, Z., você é totalmente louca. Mas eu gosto de um pouco de loucura.

– Agora você pareceu a Stevie Rae – nós sorrimos um para o outro, mais relaxados, apoiados nas bases do nosso relacionamento: o nosso compromisso e a nossa crença um no outro. – Então, o que você ia dizer? O que você acha disso tudo?

– Eu acho que estou cansado de decidir o que fazer por causa do que os outros dizem. Especialmente adultos que nos entregam enigmas ou que nos largam no meio de uma tempestade de merda sem nos dar nenhuma ajuda de verdade – ele disse.

– Sim, eu entendo isso. Eu me senti assim quando Neferet ficou louca e eu era a única que sabia disso.

– Ok, então vamos decifrar essa coisa de magia antiga por nós mesmos. Z., você tem afinidade com todos os cinco elementos. Ninguém consegue nem se lembrar da última vez em que isso aconteceu com outra pessoa. Você é um tipo diferente de novata, um tipo diferente de Grande Sacerdotisa. Você é uma jovem rainha guerreira, e eu sou o seu Guardião. Juntos, não há nada que nós não possamos enfrentar – o seu sorriso metidinho estava de volta. – Nós combatemos no Mundo do Além e vencemos.

– É, exceto pela parte em que você morreu e tal – eu o lembrei.

– Só um pequeno detalhe. No fim deu tudo certo.

Eu o abracei, pressionando o meu corpo contra o seu dorso forte.

– Deu tudo mais do que certo.

Ele me beijou e eu extraí força do seu gosto, do seu toque e do seu amor. Talvez Stark estivesse certo. Talvez não existisse nada que nós não pudéssemos enfrentar. Suspirei de alegria e me aconcheguei no peito dele.

– Vamos para o estábulo – Stark indicou com o queixo o prédio comprido que não estava longe de nós.

– Sim, acho que devemos ir. Aposto que Erin está lá. Até daqui eu posso ver que parece tudo encharcado.

– Na verdade, já faz um tempo que não vejo Erin – Stark encolheu os ombros. – Talvez porque o estábulo esteja realmente muito melhor do que você imagina. A maior parte dos danos foi a fumaça. Só o que realmente queimou foram uma baia e um fardo de feno e forragem.

– Persephone está bem, certo? – Entrelaçando os meus dedos aos dele, nós começamos a caminhar devagar em direção ao estábulo, deixando os nossos braços e quadris roçarem um contra o outro.

– Ela está bem. Todos os cavalos estão bem. Bem, menos Bonnie. Ela está muito nervosa. Lenobia a colocou junto com Mujaji para acalmá-la. Aparentemente as duas se dão bem. O que me faz lembrar que vários novatos disseram que viram Lenobia beijando Travis antes de os paramédicos o levarem embora – Stark contou.

Meus olhos se arregalaram.

– Sério? Mal posso esperar até Aphrodite e Stevie Rae saberem disso!

Stark riu.

– Stevie Rae já soube por Kramisha, que está contando para todo mundo – ele me cutucou com o seu ombro. – Todo esse tempo que você passou na árvore fez com que você perdesse uma boa fofoca.

Levantei os olhos para ele, confusa.

– Todo esse tempo? Eu só fiquei lá por tipo um minuto.

Stark parou.

– Que horas você acha que são agora?

Dei de ombros.

– Sei lá. Eu teria que olhar no meu telefone, mas nós fomos até a sala de Thanatos às sete e meia. Ficamos lá provavelmente meia hora ou menos, então agora deve ser no máximo oito e meia.

– Zoey, são onze e meia. Nós só temos tempo para encontrar todo mundo no estábulo e ir até a pira funerária de Dragon.

Fiquei gelada por dentro.

– Stark, eu perdi mais de três horas!

– Sim, você perdeu, e eu não gosto nada disso. Prometa que você não vai olhar através dessa maldita pedra de novo, a menos que eu esteja com você.

Eu estava apavorada o bastante para não discutir com ele.

– Prometo. Dou minha palavra a você. Eu não vou olhar através dessa coisa a não ser que eu esteja com você.

Os ombros dele relaxaram e ele me deu um beijo rápido.

– Obrigado, Z. Algo que pode roubar tempo de você não é nada bom – ele deu ênfase especial às duas últimas palavras. – Eu sei que Sgiach disse que a magia antiga pode ser boa ou má, mas não faz diferença se ela chega sem avisar.

– Eu sei. Eu sei – a gente tinha começado a andar de novo, mas eu continuei segurando firme a mão dele. – Não me espanta que eu tenha me sentido como se fosse ter um ataque do coração. Eu fiquei parada ali, encarando aquelas coisas nojentas e fedidas por horas – encolhi os ombros.

– Está tudo bem. A gente vai decifrar essa magia antiga toda. Eu não vou deixar que nada aconteça com você.

Stark apertou minha mão e eu apertei a dele de volta. Eu queria acreditar nele. Eu realmente acreditava nele, na sua força e no seu amor. Era com o outro lado que eu estava preocupada. O lado desconhecido em que as Trevas estavam firmemente plantadas, que continuava espreitando e derrubando as pessoas que eu amava.

Fiquei pensando em como eu não queria perder mais ninguém quando aquela pedra da vidência idiota começou a esquentar. Eu parei, fazendo com que Stark parasse abruptamente comigo também. Pressionei a minha mão sobre o ponto quente no meu peito.

– O que foi? – ele perguntou.

– Está esquentando.

– Por quê?

– Stark, eu não tenho ideia. Você deveria me ajudar a decifrar isso, lembra?

– Ok, sim. Certo. Nós podemos fazer isso – ele começou a olhar em volta. – Então, vamos decifrar isso.

– Como?

– Bom, eu estou pensando – ele disse.

Suspirei e tentei pensar também. A gente havia parado embaixo de uma das grandes árvores bem próximas ao lado leste do estábulo. Levantei os olhos rapidamente, preocupada com coisas sem olhos e bocas costuradas à espreita. Mas não havia nada acima de nós. Na verdade, tudo estava em paz ao nosso redor. Tudo o que eu conseguia pensar era que não havia nada para pensar. Algumas vozes chegavam até nós do estábulo e eu podia ouvir equipamentos e outras coisas em funcionamento, como tratores e máquinas sendo usados para retirar o entulho e limpar os destroços. Escutei o som de outro motor, vindo de algum lugar atrás de nós e se aproximando.

– Que estranho – Stark comentou, olhando por sobre o meu ombro. – Táxis não costumam vir aqui.

Segui o olhar dele e vi o carro velho e marrom, com a palavra “TÁXI” escrita em letras pretas na sua lateral. Stark estava certo. Era superestranho ver um táxi na Morada da Noite. Que inferno, Tulsa não era exatamente conhecida por seu maravilhoso serviço de táxis. Dei de ombros mentalmente – o bonde do Centro da cidade era mais legal mesmo.

Então Lenobia saiu pela porta lateral do estábulo e praticamente correu até o carro. Ela abriu a porta traseira e se abaixou para ajudar o cowboy alto e enfaixado a descer do veículo. O táxi foi embora. Travis e Lenobia apenas ficaram parados ali, olhando um para o outro.

Minha pedra da vidência estava tão quente que parecia que ia queimar a minha camiseta e abrir um buraco nela. Eu a tirei e a segurei longe da minha pele. Mas não disse nada. Stark e eu estávamos muito ocupados olhando Travis e Lenobia. Eles não estavam muito perto de nós, mas mesmo assim parecia uma invasão de privacidade ficar ali olhando para eles ­– apesar de a gente continuar ali, olhando embasbacados para os dois.

Então caiu a ficha. Cutuquei o braço de Stark e falei em voz baixa:

– A pedra ficou superquente assim que Travis saiu do táxi.

Stark desviou os olhos de Travis e Lenobia, voltou-se para a pedra e depois para mim. Ele colocou uma mão firme no meu ombro e disse:

– Vá em frente. Olhe através da pedra para ele. Eu estou aqui com você. Não vou deixar que nada aconteça com você. Se alguma coisa tentar sugar o seu tempo, eu vou detê-la.

Eu assenti e, como se arrancasse um band-aid com um movimento rápido, levantei a pedra da vidência, enquadrando Travis e Lenobia dentro do seu círculo.

No começo, foi como tinha acontecido na árvore: a minha visão dos dois permaneceu exatamente a mesma. Observei Lenobia passando as mãos nervosamente sobre as mãos enfaixadas de Travis. Elas pareciam grandes luvas brancas, e eu reparei que a gaze chegava até o antebraço dele. Mesmo de onde estávamos, o rosto dele estava anormalmente vermelho e brilhante, como se ele tivesse se queimado muito no sol e tivesse passado um gel pós-sol. Mas não parecia que ele estava sentindo dor. Ele estava sorrindo. Muito. Para Lenobia. Eu estava quase largando a pedra e me preparando para dizer a Stark que eu era de fato totalmente louca, quando Travis se inclinou e beijou Lenobia.

Então tudo mudou. Houve um brilho tão forte que me fez piscar e, quando minha visão clareou, Travis tinha desaparecido. No lugar dele estava um cara negro, jovem e realmente bonito. Ele tinha cabelo comprido, que estava puxado para trás em um rabo de cavalo baixo, e ombros tão largos que parecia um linebacker. Ele estava beijando Lenobia como se fosse o último beijo dele no mundo. E ela o estava beijando de volta, só que era uma Lenobia diferente. Ela parecia jovem, como se tivesse apenas uns dezesseis anos. Ela o envolveu com os seus braços como se nunca mais fosse soltá-lo. Em toda a volta deles, o ar ondulava e tremeluzia, como se eu os estivesse observando por trás de uma panela efervescente. Só que, em vez do vapor subindo, eu juro que havia duendes de felicidade azul-turquesa esvoaçando ao redor deles. A felicidade cresceu dentro de mim e começou a borbulhar, como se a panela fosse a minha cabeça e a água, as minhas emoções. O chão sumiu de debaixo dos meus pés. Eu estava flutuando em alegria, amor e bolhas azuis.

Então minha cabeça ficou realmente zonza e o meu estômago, totalmente rebelde.

– Zoey! Chega! Abaixe a pedra agora!

Percebi que Stark estava gritando comigo e puxando a pedra da vidência. Senti a terra embaixo dos meus pés de novo. As bolhas azuis evaporaram e a alegria se foi, deixando-me enjoada, exausta e supertrêmula. Soltei a pedra da vidência a tempo de me abaixar e vomitar ao lado da árvore.

– Você está bem. Estou aqui com você, Z. Está tudo bem – Stark estava segurando o meu cabelo para trás enquanto eu continuava a vomitar e a botar minhas tripas para fora.

– Stark? Zoey? – Lenobia estava vindo na nossa direção, soando ofegante e preocupada. Eu ouvi Travis logo atrás dela, perguntando o que havia de errado. Mas eu não consegui responder. Eu estava muito ocupada vomitando. – Zoey! Ah, Deusa, não! – a preocupação de Lenobia disparou quando ela percebeu que eu estava vomitando.

– Ela não está rejeitando a Transformação. Ela está bem – Stark a tranquilizou enquanto eu pegava outro lenço de papel que ele tinha me oferecido e enxugava a boca. Quando finalmente parei de vomitar, eu me encostei na árvore, envergonhada e desconfortável. Eu realmente detestava vomitar.

– Então o que aconteceu? Por que você está enjoada?

Com Stark de um lado e Lenobia de outro, eles me guiaram até um banco de ferro forjado que não estava muito longe da árvore grande (mas longe o bastante para que ninguém sentisse o cheiro do meu vômito, eca).

– Vocês querem que eu chame alguém? – Travis perguntou.

– Não – respondi rapidamente. – Eu estou bem. Vou ficar melhor agora que estou sentada – olhei para Stark com ar de interrogação.

Ele assentiu.

– Seja o que for que você tenha visto, conte para ela. Nós confiamos nela.

Eu me voltei para Lenobia.

– E você confia em Travis?

– Com a minha vida – ela não hesitou.

O cowboy grandão sorriu e se aproximou mais dela. Os ombros deles se tocaram.

– Ok, o que aconteceu é que a minha pedra da vidência começou a esquentar. Quando Travis saiu do carro, ela ficou realmente quente. Stark estava aqui, então nós decidimos que eu deveria olhar através dela, bem, para vocês, e ver se isso poderia me ajudar a começar a entender o que ela me mostra. Então eu olhei através dela para vocês dois.

– Pedra da vidência? – Travis perguntou. Ele não soou nem um pouco assustado, apenas curioso.

– É um amuleto de magia antiga dado a Zoey por uma rainha vampira ancestral – Lenobia explicou. – E o que você viu?

– Bem, nada demais até que vocês dois se beijaram – eu sorri encabulada. – Desculpe por ficar olhando vocês se beijarem.

Travis sorriu e colocou um braço enfaixado em volta do ombro de Lenobia.

– No que depender de mim, mocinha, você vai me ver beijando esta bela garota aqui muitas vezes.

Esperei que Lenobia o fuzilasse com o seu olhar mortal. Em vez disso, ela levantou os olhos com adoração para ele, colocou a mão sobre o peito dele em cima do coração e encostou a cabeça cuidadosamente sobre o seu ombro. Então ela repetiu:

– O que você viu enquanto estávamos nos beijando?

– Travis se transformou em um cara negro grandão e você virou uma versão mais jovem de si mesma. E ao redor de vocês havia umas coisinhas borbulhantes, felizes e azuis. Tenho certeza de que eram duendes de algum tipo – arregalei os olhos. – Na verdade, agora que estou pensando nisso, aquelas bolhas me lembram o mar. Hum. Estranho. Enfim, fiquei totalmente capturada pela cena, como se eu tivesse saído do chão e estivesse em uma bolha azul e feliz do oceano. Desculpe. Eu sei que isso parece loucura – prendi a respiração, esperando Lenobia cair na risada e Travis começar a zombar de mim.

Mas eles também não fizeram isso. Em vez disso, Lenobia começou a chorar. Eu quero dizer chorar para valer. Ela caiu naquele choro convulsivo e cheio de catarro em que eu sou especialista. Travis apenas a abraçou mais forte. Ele abaixou os olhos para Lenobia como se ela fosse um milagre personificado.

– Eu já conheci você antes. É por isso que, com você, eu me sinto como se estivesse em casa.

Lenobia assentiu. Então, em meio às suas lágrimas, ela contou:

– Travis é o meu único companheiro humano, meu único amor, que voltou para mim depois de duzentos e vinte e quatro anos. Eu jurei nunca amar ninguém depois dele e não amei. Nós nos conhecemos e nos apaixonamos no mar, no navio que nos levou da França para Nova Orleans.

– Então a pedra da vidência me mostrou a verdade?

– Sim, Zoey. Com certeza absoluta – Lenobia disse antes de afundar o rosto no peito de Travis e chorar, enquanto ele a abraçava, deixando para trás dois séculos de espera, saudade e dor.

Eu me levantei e peguei a mão de Stark de novo, puxando-o para longe para que os dois pudessem ficar sozinhos. Enquanto entrávamos no estábulo, ele disse:

– Isso não significa que Aurox é Heath que voltou para você. Você sabe disso, certo?

Stevie Rae me salvou ao chegar apressada, falando efusivamente:

– Aiminhadeusa! Por onde você andou? Mal posso esperar para contar a você sobre Lenobia e Travis!

– Já vi esse filme antes – Stark falou. – Onde estão Darius e Aphrodite?

– Eles já estão na frente do Templo de Nyx, na pira funerária – Stevie Rae respondeu. – Nós vamos encontrar com eles já, já.

– Vou procurar Erin, Shaunee e Damien. A gente tem que ir.

– O que há com ele? – Stevie Rae perguntou, olhando Stark se afastar dando passos firmes.

– Heath pode estar realmente dentro de Aurox.

Stevie Rae ecoou exatamente meus pensamentos, dizendo:

– Ah, que inferno!


12 Kalona

Estar do lado da Luz não era tão interessante quanto ele se lembrava. Verdade seja dita, Kalona estava entediado. Sim, Kalona entendia por que Thanatos havia dito a ele para ficar em segundo plano e não chamar atenção para si mesmo até depois do funeral de Dragon. Era nessa hora que ela ia anunciar para a escola que ele era o seu novo guerreiro e que ele ia assumir o posto de Mestre da Espada e líder dos Filhos de Erebus da Morada da Noite de Tulsa. Até esse momento, a presença dele poderia ser algo confuso, se não insultuoso aos olhos dos outros guerreiros.

O problema é que Kalona nunca havia se preocupado por parecer insultuoso. Ele era um imortal poderoso. Por que ele deveria se importar com os sentimentos irrelevantes dos outros?

Porque aqueles que eu julgo mais irrelevantes às vezes me surpreendem: Heath, Stark, Dragon, Aurox, Rephaim. O último nome da sua lista mental o alarmou. Rephaim já pareceu sem importância para ele um dia, mas ele estava errado. Kalona tinha percebido que ele amava e precisava do seu filho.

Em que mais ele havia errado?

Provavelmente em um monte de coisas.

Esse pensamento o deixou deprimido.

Ele andou de um lado para o outro pelo lado mais escuro e cheio de sombras do Templo de Nyx. Ali ele estava perto o bastante da pira de Dragon para ouvir quando Thanatos o chamasse, mas ao mesmo tempo estava fora do campo de visão.

O fato de alguém dizer a ele o que deveria fazer o irritava. Isso sempre o irritara.

E havia aquela novata que tinha afinidade com o fogo, Shaunee. Ela parecia ter a habilidade de incitá-lo, de fazê-lo pensar em coisas em que ele não estava acostumado a perder tempo pensando.

Ela já havia feito isso antes. Ele havia tido a intenção de manipulá-la, para conseguir informações sobre Rephaim e a Vermelha. Mas o que havia acontecido era que ela o tinha presenteado com algo ridiculamente mundano e simples: um telefone celular. Aquele pequeno presente tinha salvado a vida do seu filho.

Agora ela o fizera pensar em todos aqueles éons que ele havia passado afastado de Nyx.

– Não! – ele falou a palavra em voz alta, fazendo que o pequeno bosque de olaias que estavam plantadas no lado oeste do Templo de Nyx chacoalhasse como se uma tempestade as ameaçasse. Kalona se concentrou e controlou o seu temperamento. – Não – ele repetiu usando uma voz que não estava mais repleta de poder sobrenatural. – Eu não vou pensar nos séculos que passei afastado dela. Não vou pensar nela de jeito nenhum.

Uma gargalhada soou ao redor dele, fazendo as olaias se mexerem, tremularem e então explodirem em plena floração, como se um facho da luz do sol do verão tivesse subitamente iluminado as árvores. Kalona cerrou os punhos e levantou os olhos.

Ele estava sentado no beiral de pedra do templo. Havia pouca luz naquele lado do edifício, motivo pelo qual Thanatos havia ordenado que ele esperasse ali, mas Erebus irradiava luz própria.

Erebus... seu irmão... o Consorte imortal de Nyx. O único ser do universo que era mais parecido com ele, e o único ser do universo que ele detestava mais do que a si mesmo. Ali! No reino mortal depois de todos esses éons? Por quê?

Kalona mascarou o seu choque com desdém.

– Você é mais baixo do que eu me lembrava.

Erebus sorriu.

– Que bom ver você de novo também, irmão.

– Como sempre, você coloca palavras da minha boca.

– Desculpe. Eu não preciso fazer isso. Não quando as suas próprias palavras são tão interessantes. “Não vou pensar nela de jeito nenhum” – Erebus não apenas era quase uma imagem espelhada de Kalona, como também imitava a voz de seu irmão perfeitamente.

– Eu estava falando de Neferet – Kalona rapidamente organizou seus pensamentos e mentiu com facilidade. Fazia éons, mas ele costumava ser bom em mentir para o seu irmão. Kalona achou que ainda levava jeito para a coisa.

– Não duvido de você, irmão – Erebus se inclinou para a frente, abriu suas asas douradas e planou graciosamente até o chão diante de Kalona. – Veja só, esse é exatamente o motivo da minha pequena visita.

– Você veio até o reino terreno porque eu era amante de Neferet? – Kalona cruzou os braços sobre o seu peito largo e encontrou o olhar âmbar de seu irmão.

– Não, eu vim porque você é um mentiroso e um ladrão. O estupro da última bondade de Neferet é apenas mais um de seus muitos crimes – Erebus disse. Ele também cruzou o braço sobre o peito.

Kalona deu uma gargalhada.

– Você não andou espionando muito bem se acha que estupro tem algo a ver com o que Neferet e eu compartilhamos. Ela estava mais do que desejosa e pronta para o meu corpo.

– Eu não estava falando do corpo dela! – a voz de Erebus se elevou e Kalona ouviu o som de vampiros chamando e perguntando o que estava havendo ali perto do Templo de Nyx.

– Como sempre, irmão, você apareceu para causar problemas para mim. Eu deveria ficar nas sombras, sem ser visto e esperando até ser convocado. Se bem que, pensando melhor, vai ser divertido assistir a você lidar com a descoberta dos mortais. Apenas um rápido aviso: até os vampiros tendem a ter reações exageradas quando encontram um deus.

Erebus não hesitou. Ele levantou as mãos e ordenou:

– Esconda-nos!

Houve uma onda de vento e uma sensação de claridade que Kalona achou tão familiar, tão agridoce, que só duas reações vieram à sua mente: raiva e desespero. Ele não ia permitir que Erebus visse o seu desespero.

– Você está desafiando Nyx? Ela determinou que eu não posso entrar no Mundo do Além. Como você se atreve a me trazer aqui? – as asas cor da noite de Kalona estavam totalmente abertas e tensionadas, prontas para atacar o seu irmão.

– Você sempre faz o papel do tolo impetuoso, irmão. Eu nunca iria contra as determinações da minha Consorte. Eu não o trouxe para o Mundo do Além. Apenas trouxe um pedaço do Mundo do Além para nos esconder, só por alguns momentos, dos olhos mortais – Erebus sorriu de novo. Desta vez, ele não obscureceu a beleza de sua expressão. Uma luz solar irradiava do seu corpo. As suas asas cintilavam com penas de ouro. A sua pele era perfeita, como se ele tivesse sido modelado com raios de sol.

Ele foi, Kalona pensou com desgosto. Ele foi modelado quando o céu beijou o sol. Assim como eu fui modelado quando o céu beijou a lua. O céu, como a maioria dos imortais, é um bastardo inconstante, que faz o que quer e depois não presta atenção nos filhos que deixa para trás.

– Que tal a sensação de estar no Mundo do Além? Deve ser melhor do que quando você entrou sorrateiramente, perseguindo aquela pequena novata, Zoey Redbird. Naquela ocasião você era só espírito. Você não podia sentir a mágica do reino de Nyx contra a sua pele. E você sempre ficou tão impressionado com qualquer coisa que você pudesse tocar, que pudesse fisicamente chamar de sua.

Ótimo, Kalona pensou, ele ficou nervoso. Isso vai ofuscar a sua perfeição.

Foi a vez de Kalona sorrir. A luz que ele emitiu para o seu irmão não era a luz quente e vistosa do sol. Era a luminescência prateada e fria da lua.

– Ainda enciumado por eu tê-la tocado depois de todo esse tempo? Você se lembra de que Nyx é uma Deusa, não lembra? Ela não pode ser tocada a não ser que seja a sua vontade, o seu desejo, ser tocada, acariciada, amada por...

– Eu não vim aqui para falar de minha Consorte! – as palavras explodiram em flashes de calor dourado ao redor de Kalona.

– Que amostra de temperamento divino! – Kalona riu sarcasticamente. – E ainda dizem que você é o irmão bom. Se ao menos os aduladores que preferiram ficar no Mundo do Além pudessem vê-lo agora.

– Eles não dizem que eu sou o irmão bom. Eles dizem que você é o usurpador – Erebus atirou as palavras no seu irmão.

– Verdade? Pergunte novamente a eles. Eu acredito, depois de éons de reflexão cuidadosa, que eles iriam me chamar de “aquele que se recusou a compartilhá-la” – Kalona disse.

– Ela me escolheu – a voz de Erebus estava baixa; os seus pulsos estavam cerrados ao lado de seu corpo.

– Escolheu mesmo? Minha memória é diferente.

– Você a traiu! – Erebus gritou.

Kalona ignorou o ataque de cólera de seu irmão. Ele já havia testemunhado isso antes. Em vez de se abalar, ele falou com a frieza da superfície da lua:

– Por que você veio? Diga o que tem a dizer e então desapareça. O mundo mortal não é um grande reino, mas ele é meu. E eu não vou compartilhá-lo com você, assim como eu não teria compartilhado Nyx com você.

– Eu vim adverti-lo. Nós escutamos o seu Juramento no Mundo do Além. Nós sabemos que você se comprometeu a ser o guerreiro da Morte e a se tornar o Mestre da Espada desta escola.

– E líder dos Filhos de Erebus – Kalona acrescentou. – Não se esqueça do resto do meu título.

– Eu nunca poderia esquecer que você pretende blasfemar contra os meus filhos.

– Seus filhos? Agora você anda se acasalando com humanas e produzindo machos que crescem para se tornar guerreiros vampiros? Isso é fascinante, especialmente porque eu fui julgado tão duramente por criar meus filhos.

– Vá embora – os olhos de Erebus começaram a ficar incandescentes. – Saia deste lugar e pare de se intrometer na vida dos vampiros de Nyx e dos valorosos guerreiros que se comprometeram a me servir.

– Mas você não está se intrometendo ao ordenar que eu parta? Estou surpreso que Nyx tenha permitido isso.

– A minha Consorte não sabe que estou aqui. Eu só vim porque, de novo, você a está perturbando. Eu vivo para evitar qualquer perturbação a ela. Essa é a única razão pela qual estou aqui – Erebus disse.

– Você vive para lamber os pés dela e está, como sempre, com ciúmes de mim – Kalona não pôde evitar uma onda de alegria pelo que as palavras de Erebus tinham revelado. Ainda posso fazer Nyx sentir algo! A Deusa me observa! O imortal controlou suas emoções. Ele tinha que esconder a sua alegria de Erebus. Quando ele falou novamente, a sua voz estava sem emoção. – Que isto fique claro: eu não jurei servir a você. Eu fiz um Juramento de servir a uma Grande Sacerdotisa que personifica a Morte através da sua afinidade concedida pela Deusa. Tudo o que a sua visita fez foi me dar motivos para fazer uma clara distinção entre os guerreiros que se dizem seus filhos e os que não. Eu não vou oprimir os seus filhos com a minha liderança.

– Então você vai embora desta Morada da Noite – Erebus afirmou.

– Não. Mas você vai. Leve esta mensagem minha para Nyx: a Morte não faz diferença entre aqueles que a seguem e aqueles que seguem outros deuses. A Morte chega para todos os mortais. Eu não preciso da sua permissão, nem da permissão da Deusa, para servir à Morte. Agora suma daqui, irmão. Eu tenho que participar de um funeral – Kalona colocou os braços à frente do seu corpo e juntou as palmas das mãos, provocando uma explosão de luz prateada e gelada que criou uma onda ao redor dele, despedaçando a pequena bolha de Mundo do Além que o seu irmão havia criado e arremessando Erebus para cima e para longe no céu.

Quando a luz em volta dele desapareceu, os pés de Kalona tocaram a terra de novo e ele estava em pé ao lado do Templo de Nyx.

Aphrodite surgiu de um canto apressada, parou e o encarou.

– Eu já fui convocado? – ele perguntou.

Ela piscou e esfregou os olhos, como se estivesse tendo problemas em clarear a sua visão.

– Você estava brincando com uma lanterna aqui?

– Não tenho nenhuma lanterna. Eu já fui convocado? – ele repetiu.

– Quase. Alguma retardada, ou melhor, Kramisha, porque ela estava responsável pelas velas, esqueceu a vela do espírito. Eu tenho que pegar uma no Templo de Nyx. Você deve voltar comigo para a pira de Dragon. Thanatos vai concluir o círculo, dizer algumas coisas bacanas sobre Dragon e depois apresentar você.

Sentindo-se estranhamente desconfortável sob o olhar da humana rude e estranha que Nyx tinha, por razões incompreensíveis a quase todos, escolhido como sua Profetisa, Kalona resmungou uma resposta sem palavras e se virou para abrir a porta lateral do templo.

Ela não se abriu.

Kalona tentou de novo.

Ele se esforçou, usando a sua enorme força imortal.

Ela absolutamente não se abriu.

Foi então que ele notou que a porta de madeira havia desaparecido. A maçaneta havia se transformado em uma pedra firme e espessa. Não havia nenhuma entrada. Nada.

De repente, Aphrodite o estava empurrando para o lado. Ela segurou a maçaneta e a girou. A pedra desapareceu, transformando-se de novo em uma porta de madeira, que se abriu facilmente para ela. Aphrodite levantou os olhos para Kalona, antes de passar pela entrada do templo da Deusa.

– Você é tão estranho – ela atirou o cabelo para trás e entrou.

A porta se fechou atrás dela. Kalona colocou sua mão nela e, sob sua palma, ela se transformou de uma receptiva madeira em pedra novamente.

Kalona se afastou para trás, com uma sensação terrível dentro dele.

Apenas alguns minutos depois, Aphrodite emergiu por uma porta completamente normal. Ela estava segurando uma grossa vela roxa e disse, ao passar por ele:

– Bom, vamos lá. Thanatos quer que você fique na beira do círculo e tente não chamar atenção. Apesar de que, você sabe, isso seria bem mais fácil se você usasse mais roupas.

Kalona a seguiu, tentando ignorar aquele vazio dentro dele. Ele era exatamente o que Erebus havia dito, um tolo impetuoso e um usurpador. Se Nyx o estava observando, não era com nada mais além de desdém. Ela negava tudo a ele: que ele entrasse no Mundo do Além, no seu templo e no seu coração...

Os séculos deveriam ter diminuído a sua dor, mas Kalona estava começando a entender que a verdade era o oposto disso.

Aurox

Nyx, se você é mesmo uma Deusa misericordiosa, por favor, me ajude... por favor...

Aurox não tinha escapado de seu esconderijo na terra. Em vez disso, ele ficou repetindo sem parar aquela única frase, aquela única prece. Talvez Nyx premiasse a determinação. Pele menos ele poderia oferecer isso à Deusa.

Foi durante a ladainha da sua prece silenciosa que a mágica começou a girar em um redemoinho ao redor dele. A princípio, o espírito dele se animou. Nyx me ouviu! Mas bastaram alguns instantes para que ele percebesse o quanto estava errado. As criaturas que se materializaram, saindo do ar frio e úmido ao redor dele, não podiam estar a serviço de uma Deusa misericordiosa.

Aurox se encolheu para se afastar delas. O fedor daquelas criaturas era quase insuportável. Era horrível olhar aquelas faces cegas. O coração dele começou a bater mais forte. O medo o fez estremecer e a besta dentro dele se agitou. Será que aquelas coisas tinham sido enviadas como julgamento pelos malfeitos que ele cometera a serviço de Neferet? Aurox usou o seu próprio medo e começou a alimentar a besta no seu interior. Ele não queria que ela despertasse, mas ele ia lutar antes de sucumbir ao redemoinho de malevolência que ameaçava engolfá-lo.

Mas Aurox não foi engolfado por elas. Devagar, as criaturas foram subindo em um redemoinho mágico. Quanto mais alto elas iam, mais rápido elas giravam. Parecia que elas haviam sido invocadas e estavam despertando aos poucos, atendendo a um chamado mudo.

Aurox acalmou o seu medo e a besta dentro dele retrocedeu. Aquelas coisas não o queriam. Elas não tinham prestado nenhuma atenção nele. A cauda do redemoinho estava deixando como rastro uma névoa escura e fétida. Sem saber ao certo o que o compelia, Aurox estendeu o braço e passou a mão naquele rastro.

A sua mão se tornou a névoa, como se elas fossem feitas da mesma substância. Ele não sentiu o redemoinho, apesar de aparentemente ele ter dissolvido a carne de Aurox. Com os olhos arregalados, ele tentou soltar sua mão, mas era tarde demais. Ele não tinha mais mão, e então um tremor tomou conta dele quando a névoa começou a absorver a sua carne. Impotente, Aurox viu o seu antebraço desaparecer, depois os seus bíceps, depois os seus ombros. Ele tentou despertar a besta, libertar o poder adormecido dentro dele, mas a névoa amortecia os seus sentimentos. Ela o anestesiava enquanto o sugava. Quando ela absorveu a sua cabeça, Aurox se tornou a névoa. Ele não sentia mais nada, exceto um desejo enorme, uma busca incompleta, uma necessidade implacável. Do quê? Aurox não sabia dizer. Tudo o que ele sabia é que havia sido engolfado pelas Trevas e que ele estava sendo levado em uma onda de desespero.

Tem que existir algo além disto para mim!, ele pensou freneticamente. Eu tenho que ser mais do que névoa, desejo, besta e escuridão! Mas parecia que ele não era nada além dessas coisas. O desespero tomou conta dele quando ele percebeu a verdade. Ele era todas essas coisas e ao mesmo tempo nenhuma dessas coisas. Aurox não era nada... Absolutamente nada.

Aurox pensou que o barulho de vômito fosse dele mesmo. Em algum lugar, de algum modo, o seu corpo deveria estar revoltado com o que estava acontecendo. Então ele a viu.

Zoey estava lá. Ela estava segurando a pedra branca à sua frente. Do mesmo modo como ela havia feito na noite anterior, no ritual em que ele tinha tentado fazer uma escolha, fazer a coisa certa.

Ele sentiu a névoa se agitar. Ela também viu Zoey.

A névoa ia absorvê-la.

Não! O seu espírito berrou profundamente. Não! A mente de Aurox ecoou aquele berro. Em vez de desespero, ele começou a sentir algo mais ao observar Zoey. Ele sentiu o medo dela e a sua força. A sua determinação e a sua fraqueza. E Aurox percebeu algo que o surpreendeu. Zoey se sentia tão insegura sobre si mesma e sobre o seu lugar no mundo quanto ele. Ela se preocupava em não ter a coragem necessária para fazer as coisas certas. Ela questionava as suas decisões e se envergonhava de seus erros. De vez em quando, até Zoey Redbird, a novata privilegiada tocada pela Deusa, sentia-se como um fracasso e pensava em desistir.

Exatamente como ele.

A compaixão e a compreensão fluíram através de Aurox, e nesse momento ele sentiu uma onda de um poder quente e claro. Em um flash de luz ofuscante, ele caiu do centro do redemoinho em desintegração, aterrissando com força no seu corpo restaurado, arfando em busca de ar fresco e tremendo inteiro.

Ele não ficou descansando muito tempo ali. Ainda trêmulo e fraco, Aurox encontrou apoio para as mãos e os pés no labirinto de raízes quebradas. Devagar, ele foi se puxando para cima até a beira do buraco. Isso levou muito tempo. Quando finalmente alcançou o topo, ele hesitou, procurando ouvir atentamente.

Ele não ouviu nada além do vento.

Aurox se ergueu do chão, usando o tronco quebrado como esconderijo. Zoey tinha desaparecido. Ele analisou a área ao seu redor e os seus olhos foram atraídos imediatamente para um monte enorme de madeiras e tábuas, em cujo topo havia uma figura coberta por uma mortalha. Apesar de aquele local estar aparentemente cercado pela Morada da Noite inteira, Aurox não teve dúvidas em reconhecer o que estava vendo. É a pira funerária de Dragon Lankford, foi o seu primeiro pensamento. Eu o matei, foi o segundo. Como o desespero na névoa mágica, o funeral o sugou.

Não foi difícil se aproximar do círculo de novatos e vampiros. Os guerreiros Filhos de Erebus estavam obviamente bem armados, mas a atenção de todos estava focada dentro do círculo e na pira no seu centro.

Aurox se moveu furtivamente, usando os grandes carvalhos antigos e as sombras abaixo deles como cobertura até chegar perto o bastante para entender as palavras que Thanatos estava dizendo. Então ele recuperou o controle sobre si mesmo e saltou. Agarrando um galho baixo, Aurox foi subindo na árvore até encontrar um lugar onde se agachou, com uma vista desimpedida do espetáculo macabro.

Thanatos havia acabado de traçar o círculo. Aurox podia ver que quatro professores vampiros estavam segurando velas e representando cada um dos elementos. Ele esperava ver Zoey no centro do círculo, perto da pira, mas em vez disso ele ficou surpreso ao ver que Thanatos estava segurando a vela roxa do espírito com uma mão e uma tocha grande com a outra.

Onde estava Zoey? Será que as criaturas da névoa a tinham capturado? Será que foi isso que fez com que a névoa se dissipasse? Freneticamente, ele procurou encontrá-la no círculo. Quando ele a encontrou em pé ao lado de Stark, rodeada pelo seu grupo de amigos, Aurox achou que ela parecia triste, mas sem ferimentos. Ela estava observando Thanatos atentamente. Aparentemente, não havia nada errado com Zoey, exceto que ela lamentava a perda do seu Mestre da Espada. Com aquela sensação de alívio, Aurox ficou tão fraco que quase caiu de seu poleiro na árvore.

Aurox encarou Zoey. Ela havia começado esse conflito interno que ele sentia. Por quê? Ele estava tão confuso com ela quanto estava em relação aos sentimentos que ela havia despertado dentro dele.

Ele voltou sua atenção para Thanatos. Ela estava andando graciosamente em volta da circunferência do círculo, falando com uma voz que acalmava até os seus nervos em frangalhos.

– O nosso Mestre da Espada morreu como ele viveu: como um guerreiro, fiel ao seu Juramento, fiel a esta Morada da Noite e fiel à sua Deusa. Há outra verdade aqui que precisa ser contada. Apesar de nós chorarmos a sua perda, nós reconhecemos que ele era apenas a casca de si mesmo sem a sua companheira, a amável Anastasia – Aurox olhou para Rephaim. Ele sabia que, como Raven Mocker, Rephaim havia matado Anastasia Lankford. Que ironia o fato de o Mestre da Espada ter morrido para protegê-lo. Ironia maior ainda era o rosto do garoto estar encharcado de lágrimas e ele chorar abertamente a morte de Dragon.

– A Morte foi gentil com Dragon Lankford. Ela não apenas permitiu que ele morresse como guerreiro, mas também serviu como um conduto para a Deusa. Nyx uniu novamente Bryan Dragon Lankford à sua amada e aos espíritos iluminados de seus dois familiares felinos, Shadowfax e Guinevere.

Os gatos deles também morreram? Eu não me lembro de nenhum gato no ritual. Confuso, Aurox analisou a pira funerária. Sim, agora que estava olhando mais de perto, ele podia ver dois pequenos volumes embrulhados na mortalha com Dragon, aninhados um de cada lado do guerreiro caído.

Thanatos havia parado de andar em volta do círculo e estava parada bem na frente de Zoey. A Grande Sacerdotisa sorriu para a novata.

– Conte-nos, Zoey Redbird. Já que você entrou no Mundo do Além e voltou, qual é a única constante lá?

– O amor – Zoey respondeu sem hesitar. – Sempre o amor.

– E você, James Stark? O que você encontrou no Mundo do Além? – Thanatos perguntou ao jovem guerreiro, que estava com seu braço em volta dos ombros de Zoey.

– O amor – Stark repetiu com uma voz forte e firme. – Sempre o amor.

– Isso é uma verdade – Thanatos continuou a andar ao redor do círculo. – Eu também posso dizer a vocês que a minha proximidade com a Morte já me mostrou relances do Mundo do Além. O que eu tive permissão para ver me ensinou que, apesar de o amor permanecer conosco quando passamos deste reino a outro, ele não pode existir eternamente sem compaixão, assim como a Luz não pode existir sem esperança e as Trevas não podem existir sem o ódio. Então, tendo em mente essa verdade dita e compreendida, eu gostaria de pedir que vocês abram os seus corações e deem as boas-vindas ao nosso novo Mestre da Espada e líder dos guerreiros Filhos de Erebus, meu guerreiro sob Juramento, Kalona!

Aurox refletiu a surpresa que ele viu em muitos rostos abaixo dele quando Kalona, o imortal alado que ele sabia que estava havia muito tempo ao lado das Trevas, entrou no círculo com passos firmes e se aproximou de Thanatos. Ele cruzou sua mão em punho sobre o peito e se curvou respeitosamente. Então ele levantou a cabeça e sua voz profunda preencheu o ar.

– Eu jurei ser o guerreiro da Morte, e assim será. Eu jurei ser o Mestre da Espada desta Morada da Noite, e assim será. Mas eu não tentarei tomar o lugar de Dragon como líder dos guerreiros Filhos de Erebus.

Aurox viu que Thanatos estava observando Kalona atentamente, apesar de a sua expressão parecer satisfeita. Os guerreiros que estavam espalhados por toda a volta do círculo se agitaram, como se não soubessem bem o que pensar a respeito da proclamação do imortal.

– Eu vou servir como guerreiro da Morte – Kalona repetiu. Ele estava se dirigindo a Thanatos, mas a sua voz chegava a todos no círculo e à multidão que havia se reunido para o funeral. – Vou proteger você e esta escola. Mas não vou receber um título que me liga a Erebus.

– Eu estava no Conselho Supremo quando você declarou ser Erebus de volta à Terra – Thanatos afirmou. – O que você tem a dizer sobre isso?

– Eu não reivindiquei esse título. Isso foi coisa de Neferet. Ela quer muito ser uma deusa, e isso significa que ela precisa de um Consorte imortal, então ela me nomeou Erebus de volta à Terra. Eu rejeitei esse papel quando rejeitei Neferet.

Sussurros zuniram através do círculo como se fosse o vento através das árvores. Thanatos levantou a tocha que ela ainda segurava.

– Silêncio! – as vozes se aquietaram, mas o choque e a descrença continuaram. – Kalona está falando a verdade sobre Neferet. Dragon foi morto pela criatura dela, Aurox. Ele não foi um presente de Nyx. Na noite passada, durante o ritual de revelação na fazenda de lavandas de Sylvia Redbird, a terra nos mostrou a terrível verdade. Aurox foi criado pelas Trevas através do sacrifício da mãe de Zoey Redbird. Ele é um Receptáculo escravo de Neferet. As Trevas continuam a controlá-lo através de sacrifícios sangrentos – ela apontou sua tocha para os três corpos em cima da pira. – Eu tenho evidências de que Neferet tirou a vida de Shadowfax para que as Trevas mantivessem o domínio sobre Aurox. Essa morte foi demais para a pequena Guinevere de Anastasia. A tristeza parou o seu coração e ela prontamente seguiu Shadowfax para o Mundo do Além, para se reencontrar com aqueles a quem os dois mais amavam.

O corpo de Aurox ficou imóvel. Ele mal conseguia respirar. Ele se sentia como se Thanatos tivesse acabado de estripá-lo. Ele queria gritar: “ Não é verdade! NÃO É VERDADE!”, mas as palavras dela continuavam a massacrá-lo.

– Zoey, Damien, Shaunee, Erin, Stevie Rae, Darius, Stark, Rephaim e eu! – ela gritou cada nome. – Nós testemunhamos os malfeitos sombrios de Neferet. Dragon Lankford morreu para que nosso testemunho pudesse se tornar público. Agora nós precisamos continuar a luta que derrubou o nosso Mestre da Espada. Kalona, estou satisfeita por ouvir a sua confissão. Você tentou usurpar Erebus, ainda que apenas na Terra. Ficou claro para o Conselho Supremo que você estava sendo incitado pelas tramoias de Neferet. Eu o aceito como guerreiro da Morte e protetor desta escola, mas você não pode liderar os guerreiros que fizeram Juramento como Filhos de Erebus. Isso seria desrespeitoso à Deusa e ao seu Consorte.

Aurox viu um lampejo de raiva passar pelos olhos de Kalona, mas ele abaixou a cabeça para Thanatos e cruzou sua mão em punho sobre o coração, dizendo:

– Que assim seja, Grande Sacerdotisa. – Então ele voltou para a beira do círculo, e as pessoas que estavam próximas a ele deram alguns passos discretos para trás.

Thanatos pediu que Shaunee invocasse o fogo e acendesse a pira funerária. Quando a coluna de fogo engolfou a pira de Dragon Lankford, Aurox desceu da árvore e, sem ser visto por ninguém, cambaleou de volta até o carvalho despedaçado e desapareceu abaixo do chão, onde, sozinho, chorou todo o seu desespero e o seu ódio por si mesmo dentro da terra partida.


13 Zoey

– Está tudo bem, Z.? – Stark falou baixo no meu ouvido quando o meu círculo e eu estávamos reunidos perto da entrada do lobby da escola. Thanatos havia pedido que nós esperássemos ela terminar de falar com os professores e guerreiros, e então ela iria se juntar a nós para a entrevista.

– Estou triste por causa de Dragon – sussurrei para ele.

– Não quis dizer isso – ele manteve a voz baixa, para que eu fosse a única capaz de ouvi-lo. – Eu queria saber se está tudo bem com a pedra. Eu vi quando você a tocou durante o funeral.

– Eu achei ter sentido a pedra esquentando por um momento, mas logo passou. Provavelmente foi porque nós estávamos bem perto da pira. E por falar nisso... – levantei a voz e me dirigi a Shaunee –, bom trabalho com a parte do fogo no funeral. Eu sei que não é fácil manter piras funerárias acesas, mas você ajudou. Você fez com que tudo acabasse mais rápido.

– Obrigada. Sim, todos nós estamos cansados de funerais. Pelo menos antes desse funeral nós pudemos assistir a Dragon entrando no Mundo do Além, mas ver os gatos lá na pira com ele deixou tudo especialmente triste – ela enxugou os olhos e eu me perguntei como ela (ou qualquer um) conseguia chorar e ainda ficar bonita. – Na verdade, isso me lembra de uma coisa... – Shaunee continuou, virando-se para encarar Erin, que estava na ponta do nosso grupo, olhando para os garotos que ainda estavam na pira como se ela estivesse procurando alguém. – Erin, tudo bem por você se eu mudar a caixa de areia e as coisas de Belzebu para o meu quarto? Ele tem dormido lá a maioria dos dias.

Erin olhou para Shaunee, deu de ombros e disse:

– Sim, tanto faz para mim. Aquela caixa de areia tem cheiro de merda mesmo.

– Erin, os gatos não gostam de usar caixas de areia sujas. Você tem que limpá-la todo dia – Damien a informou, franzindo a testa.

Erin bufou de um jeito sarcástico.

– Não, eu não preciso mais fazer isso – então ela voltou a olhar para os outros garotos.

Percebi que ela não estava chorando. Pensei nisso e me dei conta de que ela não havia chorado nenhuma vez durante o funeral inteiro. No começo, toda essa coisa da ruptura entre as gêmeas parecia ter mexido mais com Shaunee, mas com o passar do tempo comecei a notar que Erin não estava agindo como ela mesma. Apesar de eu supor que isso seria normal, já que agir como ela mesma costumava significar agir igual a Shaunee, que agora parecia bem mais madura e legal. Fiz uma nota mental de que eu precisava encontrar tempo para conversar com Erin, para me certificar de que ela estava bem.

– Que droga, eu preferia que Thanatos não tivesse dito para Rephaim esperar com os outros garotos no ônibus. Ele estava superperturbado no funeral. Eu odiei ter que deixá-lo sozinho nesse estado – Stevie Rae falou, vindo para o meu lado.

– Ele não está sozinho. Ele está com todos os outros novatos vermelhos. Eu vi quando eles foram para o ônibus. Kramisha estava falando para ele sobre como a poesia podia ser um caminho para extravasar as emoções.

­– Kramisha vai entreter o menino-pássaro com as suas tolices sobre poesia. Blá-blá... versos iâmbicos e blá-blá... – Aphrodite comentou. – Além disso, até você precisa entender que não é uma boa ideia deixar o público humano saber do seu pequeno “probleminha de pássaro” – ela colocou aspas no ar com os dedos.

– Olá, ahn, desculpem-me por interromper vocês, mas eu estou procurando o lobby da escola.

Todos nós nos viramos ao mesmo tempo e olhamos para o humano que estava andando na nossa direção pela calçada que vinha do estacionamento. Atrás dele, havia um cara segurando uma câmera e com uma grande bolsa preta abarrotada de coisas pendurada no seu ombro e uma espécie de fone de ouvido cinza na cabeça.

Como era de se prever, Damien foi o primeiro de nós a se recompor. Falando sério, Damien realmente devia ser coroado a Miss Simpatia da Morada da Noite de Tulsa.

– Você está no lugar certo. Parabéns por nos encontrar! – Damien sorriu tão afetuosamente que eu percebi que o humano relaxou os seus ombros tensos.

Então ele estendeu a mão e disse:

– Ótimo. Eu sou Adam Paluka, da Fox23 News. Estou aqui para entrevistar a sua Grande Sacerdotisa e, imagino, alguns de vocês também.

– Prazer em conhecê-lo, senhor Paluka. Eu sou Damien – ele disse, apertando a mão do humano. Então Damien deu uma risadinha e acrescentou: – Ai, que aperto forte!

O repórter sorriu.

– O prazer é meu. Pode me chamar de Adam. O senhor Paluka é o meu pai.

Damien deu outra risadinha. Adam também. Eles fizeram um supercontato visual. Stevie Rae me cutucou e nós demos aquele Olhar uma para a outra. Adam era fofo, muito fofo mesmo, de um jeito jovem, inteligente, promissor e metrossexual. Ele tinha cabelos e olhos escuros, bons dentes, sapatos caros e uma bolsa masculina, na qual Stevie Rae e eu reparamos juntas. Um namorado em potencial para Damien!, nossos olhares telegrafaram ao mesmo tempo.

– Olá, Adam. Eu sou Stevie Rae – ela estendeu a mão e, enquanto ele a apertava, ela perguntou: – Você não tem namorada, tem?

O sorriso cheio de dentes dele diminuiu, mas só um pouco.

– Não. Eu não tenho, não. Hum. Com certeza, eu não tenho namorada. – Então ele notou a Marca vermelha de Stevie Rae. – Então você é do novo tipo de vampiros de que a sua ex-Grande Sacerdotisa falou.

Stevie Rae abriu o sorriso para ele.

– Sim, eu sou a primeira Grande Sacerdotisa Vermelha. Legal, não é?

– A sua tatuagem é realmente muito bonita – Adam disse, parecendo mais curioso do que desconfortável.

– Obrigada! – Stevie Rae agradeceu efusivamente. – Este aqui é James Stark. Ele é o primeiro guerreiro vampiro vermelho. A tatuagem dele também é incrível.

Stark estendeu a mão.

– Prazer em conhecê-lo. E você não precisa me dizer que a minha tatuagem é bonita.

O rosto de Adam ficou um pouco pálido, mas ele apertou a mão de Stark. O sorriso dele pareceu sincero; nervoso, mas sincero.

– Olá – eu entrei na conversa, apertando a mão dele. – Eu sou Zoey.

O olhar de Adam rapidamente se voltou para a tatuagem completa do meu rosto, para a gola em V da minha camiseta e o relance de tatuagens em volta da minha clavícula, e depois para a palma da minha mão, que estava coberta com a mesma tatuagem cheia de filigranas.

– Eu não sabia que vampiros faziam tatuagens adicionais. O seu tatuador é daqui de Tulsa?

Eu sorri para ele.

– Bem, às vezes. Mas ela passa a maior parte do tempo no Mundo do Além. – Percebi que ele estava tentando entender o que eu havia acabado de dizer, então aproveitei a oportunidade e perguntei: – Ei, você disse que não tem namorada. E quanto a um namorado?

– Hum, não, eu também não tenho namorado. Pelo menos não atualmente – Adam se voltou para Damien, que encontrou o seu olhar.

Sucesso!, era o que eu estava pensando quando Aphrodite bufou.

– Ah, que merda, isto aqui não é The Bachelorette. Eu sou Aphrodite LaFont. Sim, o prefeito é o meu pai. Ipi-ipi-urra – ela deu o braço para Darius. – E este aqui é Darius, o meu guerreiro.

Adam levantou a sua bela sobrancelha quando ele reparou no suéter de sexto-formanda que Aphrodite estava usando, com a insígnia das três Moiras bordada no bolso do lado esquerdo do peito.

– Agora permitem que humanos frequentem a Morada da Noite?

– Aphrodite é uma Profetisa de Nyx, um fato provado pelo elo que ela tem com Darius, que é um guerreiro Filho de Erebus e fez o Juramento de ser o seu protetor – Thanatos falou enquanto saía das sombras e caminhava graciosamente na nossa direção. Eu achei o timing dela excelente, assim como a sua entrada. Ela era alta e poderosa, sem aparentar idade, e tinha uma beleza clássica. A sua voz era agradável e informativa, como se ela desse entrevistas para repórteres humanos todo dia. – Eu sei que o funcionamento interno da nossa sociedade não é senso comum, mas acredito que a maioria dos humanos sabe que um guerreiro não pode se ligar a um humano por um Juramento de proteção.

– Na verdade, apesar de esta entrevista ser de última hora, tive tempo para pesquisar um pouco, e esse é um fato que eu realmente descobri.

– O fato de Aphrodite ser uma Profetisa de Nyx e de estar frequentando esta escola, assim como vários novatos e vampiros vermelhos, vai ser um dos tópicos da nossa entrevista. Embora pareça que a entrevista já tenha começado – Thanatos saiu totalmente das sombras, indicando com a cabeça o cameraman que sem dúvida já estava nos filmando, apesar de nenhum de nós ter prestado atenção nele. – Eu sou Thanatos, a nova Grande Sacerdotisa da Morada da Noite de Tulsa. Merry meet, Adam Paluka. Você é bem-vindo à nossa escola.

– M-merry meet – Adam se atrapalhou um pouco. – Eu não quis ofender começando a filmagem mais cedo.

Thanatos sorriu.

– Você não nos ofendeu. Nós o convidamos a vir até aqui. Fico satisfeita que a entrevista tenha começado sem formalidades. Nós podemos ficar aqui, sob o belo céu da noite de Tulsa, e continuar a conversa?

– Claro – Adam disse após um aceno de cabeça do cameraman. – A luz dos lampiões a gás é uma boa iluminação. Se vocês nos derem um segundo, podemos usar um microfone boom e captar todos do grupo que quiserem participar.

– Parece ótimo. Zoey, Aphrodite, Stevie Rae, Stark e Damien, por favor, fiquem para a entrevista. Darius, Shaunee e Erin, vocês poderiam se certificar de que os novatos que estão reunidos voltem para os seus dormitórios? Esta foi uma noite difícil para a nossa escola.

Darius se curvou para Aphrodite e Thanatos, e então ele e Shaunee foram embora juntos. Erin saiu andando na direção contrária.

– Você disse que hoje foi uma noite difícil para a sua escola. O que quis dizer com isso?

– Com o seu faro para notícias, tenho certeza de que você sabe que tivemos recentemente um incêndio no campus – Thanatos explicou.

– Sim, nós inclusive fizemos uma reportagem sobre isso na Fox. Foi no estábulo, certo? – ele a estimulou a continuar.

– Certo. Foi um acidente infeliz, apesar de não totalmente surpreendente – Thanatos fez um gesto indicando os lampiões de cobre pendurados que faziam uma bela decoração ao nosso redor. – A luz dos lampiões a gás e a luz de velas é mais agradável aos nossos olhos do que lâmpadas elétricas. Como você já observou, esse tipo de iluminação ambiente é adorável, mas as chamas são vivas e às vezes voláteis. Um lampião foi deixado aceso sozinho no celeiro. Foi uma noite com muito vento. Uma rajada forte derrubou o lampião em cima de um fardo de feno, colocando fogo no estábulo.

– Espero que ninguém tenha se ferido – achei que Adam pareceu sinceramente preocupado.

– A nossa Mestra dos Cavalos e uma novata inalaram um pouco de fumaça, e o humano empregado como treinador do estábulo teve queimaduras, a maioria nas mãos. Ele vai se recuperar totalmente. Quero deixar aqui registrado que Travis Foster agiu como um herói. Ele cuidou para que todos os cavalos escapassem.

– Travis Foster é humano?

– Completamente humano, além de ótimo funcionário e amigo.

– Fascinante – Adam disse e olhou em volta. Pude ver quando o olhar dele se fixou na pira distante, que agora estava em combustão lenta e sem chamas, com um brilho alaranjado. – Por favor, corrija-me se eu estiver errado, mas acho que aquela pilha de madeira queimando não faz parte do estábulo. Durante a minha pesquisa, eu li que os vampiros queimam os seus mortos em piras funerárias. Será que eu escolhi uma hora inapropriada para esta entrevista? – ele fez a pergunta com um tom de consideração em sua voz, mas eu consegui enxergar a curiosidade que brilhava em seus olhos.

– Você não está errado. Aquilo são os restos de uma pira funerária. De fato, nós sofremos uma grande perda na Morada da Noite, que não teve nada a ver com o incêndio no estábulo. O nosso Mestre da Espada, Dragon Lankford, foi morto recentemente em um trágico acidente em uma fazenda de lavandas que faz divisa com a reserva nacional conhecida como Pradaria de Tallgrass – ela contou e eu fiquei de boca fechada, perguntando-me como diabos Thanatos ia transformar o assassinato de Dragon em um “trágico acidente” que pudesse ser explicado ao público humano. – Um bisão grande escapou das fronteiras da reserva. Alguns de nós estávamos terminando um adorável ritual de purificação na fazenda de lavandas, e aquela besta deve ter ficado confusa com a fumaça de sálvia e o nosso círculo. A criatura nos atacou. O nosso Mestre da Espada protegeu os nossos novatos, perdendo a vida ao fazê-lo.

– Isso é terrível! Eu sinto muito – Adam pareceu perturbado. Na verdade, todos nós parecemos perturbados, o que escondeu o nosso choque com a mentira gigante de Thanatos.

– Obrigada, Adam. Apesar de ter sido um acidente horrível e uma grande perda para a nossa Morada da Noite, o nosso Mestre da Espada morreu como ele viveu, como um guerreiro honrado que protegeu os mais jovens. Por causa dele, ninguém mais se feriu e o ritual foi concluído. Todos nós vamos lembrar da bravura de Dragon Lankford pelos séculos que virão – ela tocou levemente os olhos com um lenço rendado que tirou de dentro da luva. Foi realmente um momento tocante.

Adam ficou parado ali, parecendo compreensivo, enquanto o cameraman desviou a lente da pira de Dragon para focar a dor de Thanatos e o seu esforço muito humano para se recompor novamente.

Foi tudo muito bem encenado. Ela me fez pensar em quantas aulas de Teatro a Grande Sacerdotisa da Morte havia feito quando era uma novata.

Thanatos terminou de enxugar os olhos e suspirou profundamente.

– E respondendo à sua outra pergunta, não, não é uma hora inapropriada para a nossa entrevista. Nós o convidamos, lembra? Nós estamos felizes por recebê-lo na Morada da Noite, mesmo neste momento de tristeza. Então, vamos começar oficialmente. Aqui neste banco é um bom lugar? – Thanatos indicou com um gesto um dos longos bancos de pedra que se alinhavam no caminho de entrada para o lobby da escola. Durante uma noite normal de escola, haveria um monte de garotos aglomerados em volta dos bancos, fazendo lição de casa, flertando e fofocando. Naquela noite, os bancos estavam completamente vazios.

– Perfeito – Adam respondeu.

Enquanto ele e o cameraman se preparavam, Thanatos tomou o seu lugar no centro do banco. Em voz baixa, ela disse:

– Zoey, Stark, aqui ao meu lado – ela apontou para a direita, atrás dela. – Aphrodite, Stevie Rae e Damien, aqui – eles ficaram parados em pé à esquerda.

Quando Adam voltou e oficialmente começou a filmar, senti uma agitação nos meus nervos. Até os meus antigos amigos da South Intermediate High School iriam ver isso!

– Thanatos, eu estava pensando se você poderia dar mais detalhes sobre o comentário que Neferet, a ex-Grande Sacerdotisa da Morada da Noite de Tulsa, fez sobre você na noite passada. Ela disse que a Morte era a nova Grande Sacerdotisa daqui – Adam fez uma pausa e sorriu. – Para mim, você não parece a Morte.

– Você conhece bem a Morte, jovem Adam? – Thanatos perguntou com uma voz suave e espirituosa.

– Não, na verdade eu nunca morri – ele respondeu no mesmo tom de brincadeira.

– Bem, o comentário de Neferet pode ser facilmente explicado. Eu não sou a Morte propriamente dita. Eu simplesmente recebi o dom de ajudar os mortos a passarem deste reino para o próximo. Eu sou tanto a Morte quanto você é a Humanidade. Nós dois somos apenas a representação de ambos. Pode ser mais fácil de entender se você pensar em mim como uma médium muito boa.

– Neferet também mencionou um novo tipo de vampiros, os vampiros vermelhos, e sugeriu que eles podem ser perigosos – ele falou, e eu percebi que a câmera se voltou para Stark e Stevie Rae. – Você também pode explicar isso melhor?

– Certamente, mas primeiro eu sinto que preciso deixar algo bem claro. Neferet não é mais funcionária da Morada da Noite de Tulsa. Na verdade, pelo modo como a nossa sociedade funciona, uma vez que uma Grande Sacerdotisa perde o seu emprego, ela perde essa posição para sempre. Ela nunca mais vai servir como Grande Sacerdotisa em nenhuma outra Morada da Noite. Como você pode imaginar, isso pode ser uma transição difícil e frequentemente embaraçosa para o empregado demitido, assim como para o seu empregador. Os vampiros não têm leis de calúnia e difamação. Nós usamos o sistema de Juramento e honra. Obviamente, desta vez esse sistema não funcionou.

– Então você está dizendo que Neferet é... – ele não concluiu e fez um gesto com a cabeça, encorajando Thanatos a concluir a frase por ele.

– Sim, é um fato triste, mas verdadeiro. Neferet é uma ex-funcionária descontente que não apita mais nada – Thanatos disse calmamente.

Adam olhou para Stark, que estava ao meu lado, não muito longe de Thanatos.

– Essa ex-funcionária fez alguns comentários sobre um membro da Morada da Noite em particular: James Stark.

– Sou eu – Stark falou na hora. Eu percebi que ele estava desconfortável, mas acho que ninguém mais, incluindo os telespectadores, iriam ver qualquer coisa além de um cara muito bonito com uma tatuagem vermelha no rosto que lembrava flechas.

– Então, Jim. Posso chamá-lo assim? – Adam perguntou.

– Bem, sim, mas seria melhor você me chamar de Stark. Todo mundo me chama assim.

– Ok, Stark, Neferet disse que você matou o seu mentor na Morada da Noite de Chicago, e ela sugeriu que você é uma ameaça para a comunidade daqui. Você gostaria de responder a isso?

– Bem, isso é um monte de papo-furado! – escutei a minha boca dizer.

Stark abriu o seu meio sorriso metidinho e pegou a minha mão, entrelaçando os seus dedos aos meus de modo que todos os telespectadores podiam ver.

– Z., quase você fala um palavrão na TV. Não faça isso, a sua avó pode ouvir e isso não seria legal.

– Desculpe – murmurei. – Que tal eu simplesmente deixar você falar?

Stark abriu ainda mais o sorriso.

– Bem, sempre há uma primeira vez para tudo.

Infelizmente, todos os meus amigos riram. Eu olhei zangada para ele. Stark continuou falando, apesar de eu pensar em sufocá-lo com um travesseiro da próxima vez que nós fôssemos dormir.

A voz dele foi hesitante no começo, mas, quanto mais ele falava, mais forte e seguro ficava.

– O meu mentor, William Chidsey, era incrível. Ele era legal. E inteligente. Estou falando inteligente mesmo. E talentoso. Ele me ajudou. Na verdade, ele foi mais um pai do que um mentor para mim – Stark fez uma pausa e passou a mão pelo rosto. Quando ele começou a falar de novo, foi como se só ele e o repórter estivessem ali sozinhos, como se ele tivesse esquecido que a câmera estava ali e tudo o mais. – Adam, eu descobri bem cedo, quando eu estava no segundo ano do ensino médio, que eu tinha recebido um dom – Stark enfatizou bem a última palavra, não sarcasticamente, mas também não como se aquilo fosse uma coisa fantástica. O tom de voz dele deixava claro que o seu dom era uma responsabilidade, e não uma responsabilidade fácil. – Eu não consigo errar o alvo. Eu sou um arqueiro – ele explicou quando Adam o olhou de modo questionador. – Você sabe, arco e flecha. Enfim, seja para onde for que eu mire, eu acerto. Infelizmente, não é tão literal assim. Pense nisso: há bastante diferença entre o lugar para onde você está olhando e o que você está realmente pensando e o que você está alvejando. Um exemplo simples: imagine que você pega um arco e uma flecha e mira em uma placa com um sinal de “Pare”. Então, você puxa o arco, aponta a flecha e dispara no meio de uma grande placa vermelha. Mas e se dentro da sua cabeça você estiver pensando: “Ok, quero atingir aquela coisa que faz os carros pararem”? Quando você se dá conta, a sua flecha está atravessada no radiador do primeiro carro que aparece.

– Bem, eu posso entender como isso pode causar grandes problemas – Adam disse.

– Sim, problemas de proporções épicas. Levou um tempo para que eu descobrisse e aprendesse a controlar isso. Nesse tempo, eu cometi um erro realmente terrível – Stark fez uma pausa de novo e eu apertei a sua mão, tentando transmitir o meu apoio. – E por causa disso o meu mentor morreu. Eu não vou deixar que isso aconteça de novo. Fiz um Juramento de que isso não vai mais acontecer.

– E é por isso que James Stark está aqui na Morada da Noite de Tulsa – Thanatos retomou o controle da conversa, e a câmera a seguiu. – Em Tulsa, nós acreditamos em dar outra chance – o olhar dela se voltou para Aphrodite. Tive que cuidar para não ficar de queixo caído quando ela falou tranquilamente: – Você não diria que este é um excelente lugar para segundas chances, Aphrodite LaFont?

Eu não deveria ter me preocupado. Na frente de uma câmera gravando, Aphrodite se sentia em casa. Ela caminhou para a frente, na direção da câmera (é claro), e então se sentou ao lado de Thanatos.

– Eu concordo totalmente com você, Grande Sacerdotisa. Eu fui uma novata por quase quatro anos, mas Nyx, a nossa Deusa benevolente, decidiu tirar a sua Marca de mim e substituí-la por um dom profético. Os meus pais concordam com a minha decisão de permanecer na Morada da Noite. Na verdade, nós falamos sobre a possibilidade de eu fazer um treinamento no Conselho Supremo em Veneza quando eu me formar aqui. Minha mãe e meu pai me dão muito apoio – ela sorriu para a câmera. – Você pode comprovar isso se olhar as nossas contas de cartão de crédito dos últimos meses. Uau! Eu tenho pais tão incrivelmente legais!

Ok, sem brincadeira. Aquilo era uma montanha de besteiras podres e fedidas tão grande que eu nem conseguia falar. Felizmente, Stevie Rae não era tão muda.

– Falando em pais incríveis, a minha mãe, Ginny Johnson, vai fazer os melhores cookies de chocolate do universo e trazê-los para o evento aberto ao público com venda de guloseimas que nós vamos fazer aqui em breve, certo, Thanatos?

Thanatos não perdeu tempo.

– Você está absolutamente certa, Stevie Rae. Na próxima semana, se o tempo sujeito a tempestades de Oklahoma permitir, nós estaremos organizando um evento aberto ao público no campus. Esperamos que os Street Cats estejam aqui com gatos para adoção. Aproveitando, eu gostaria de anunciar que todos os lucros da nossa venda de guloseimas – ela sorriu na direção de Stevie Rae – vão beneficiar as obras de caridade dos Street Cats. Além disso, a avó da nossa Grande Sacerdotisa novata, Zoey Redbird, vai vender os seus produtos de lavanda nos nossos jardins.

– Não se esqueça da feira de empregos.

Todos, incluindo o cameraman, se viraram ao som da voz da Mestra dos Cavalos. Lenobia estava em pé ali, conduzindo sua bela égua negra, Mujaji, que parecia um sonho.

– Professora Lenobia, que bom que você se juntou à nossa entrevista – Thanatos afirmou.

– Uau! Que belo cavalo ele é! – Adam falou entusiasmado quando o cameraman deu um close em Mujaji.

Damien tocou o braço de Adam e sorriu.

– Querido, é ela, não ele.

– Ah, eu me enganei – Adam levou numa boa, sorrindo com um rubor gracioso em suas bochechas. – Essa coisa de ele ou ela nunca fez muita diferença para mim.

– Porque nós somos todos iguais – ouvi as palavras saindo da minha boca e silenciosamente agradeci a Nyx por elas. – Meninos, meninas, humanos, vampiros, que diferença faz? Todos nós vivemos em Tulsa e amamos esta cidade. Então, vamos apenas nos dar bem uns com os outros!

Thanatos riu, e o som da sua risada foi como música.

– Ah, Zoey, eu não poderia ter dito isso de melhor forma. E Lenobia, você fez bem em me lembrar. Adam, eu gostaria de anunciar que, durante a noite aberta ao público e o evento beneficente para os Street Cats, a Morada da Noite de Tulsa vai, como a primeira Morada da Noite da nossa história escrita, receber inscrições de humanos para vagas de professores. Vamos fazer entrevistas para colocações de professores nos nossos departamentos de Teatro e de Literatura – Thanatos se levantou e abriu os braços, parecendo benevolente e sábia. – A Morada da Noite dá as boas-vindas a Tulsa. Até sábado, nós desejamos a vocês merry meet, merry part e merry meet again.


14 Neferet

Neferet não teria visto a entrevista se ela não tivesse chamado o serviço de quarto até a sua cobertura. O subserviente garoto loiro era quase jovem demais para despertar o interesse dela. O último mensageiro que havia tido a sorte de atender ao seu chamado ia ter que tirar uma licença médica do trabalho pelos próximos dias. Fraco e cheio de hematomas, ele não iria se lembrar de nada, além da fascinação pela sua beleza e de uma série de sonhos eróticos e sombrios. Sonhos febris – o seu médico sem dúvida iria chamá-los assim. Os humanos eram criaturas tão frágeis. Era uma pena que ela precisasse constantemente encontrar novos brinquedinhos.

Neferet analisou o mensageiro. Ele era alto e parecia extremamente nervoso. A sua pele era ruim. Ele praticamente exalava virgindade por todos os seus poros dilatados. Pensando que sangue virgem iria combinar bem com a garrafa resfriada de champanhe que ele estava trazendo, ela fez um gesto em direção à sua sala de estar.

– Por favor, traga a garrafa aqui para dentro – Neferet ronronou.

O sangue virgem era tão doce que aquela aparência ruim e as mãos cheias de suor podiam ser facilmente ignoradas. Afinal de contas, ela não ia tocá-lo. Pelo menos não muito...

– Aqui está bem, madame? – os olhos dele continuavam passeando rapidamente dos seios dela para a sua boca e depois de volta para a garrafa que ele estava abrindo, enquanto ele fedia a desejo sexual, medo e fascinação.

– Aqui está perfeito – Neferet deslizou uma unha comprida e pontuda pelo corpete decotado do seu robe de seda.

– Uau – ele engoliu em seco, tirando a folha metálica dourada da boca da garrafa de champanhe com mãos trêmulas e inexperientes. – Espero que não se importe por eu dizer isto, mas você é muito mais bonita do que aqueles outros vampiros no telejornal.

– Outros vampiros? Telejornal?

– Sim, madame. Eles estão agora no jornal da noite da Fox23.

– Ligue a TV para mim! – ela falou rispidamente.

– Mas o champanhe não está...

– Deixe a garrafa de lado! Eu sou plenamente capaz de abri-la sozinha. Ligue a TV no telejornal e vá embora.

O garoto fez o que ela ordenara e então se retirou envergonhadamente, ainda dando olhares desejosos para ela. Neferet não prestou atenção nele. Ela estava totalmente absorta na cena que se descortinava à frente dela na grande televisão de tela plana. Thanatos, Zoey e alguns do seu grupo estavam lá. Eles estavam ao ar livre na Morada da Noite, bem agrupados e conversando facilmente com o repórter. Neferet franziu a testa. Todos pareciam tão normais.

Ela sorriu um pouco quando ouviu Thanatos explicar a morte de Dragon Lankford como um trágico acidente com um bisão.

– Aquele Aurox imprestável! – Neferet resmungou. – Receptáculo imperfeito e inepto! Tudo isso é culpa dele.

Ela continuou assistindo à entrevista, sorrindo ironicamente para Stark e Zoey, apenas se concentrando mais quando ouviu o seu próprio nome ser mencionado. Neferet apertou o botão para aumentar o volume e Thanatos proclamou em voz alta:

– ... Neferet é uma ex-funcionária descontente que não apita mais nada.

O corpo de Neferet se congelou.

– Ela se atreve a me chamar de funcionária! – Neferet continuou a assistir. A raiva dela cresceu com tanta intensidade que a porta de vidro que dava para a varanda da cobertura se abriu com força, espalhando estilhaços de cristal sobre o chão de mármore.

– Todos nós vivemos em Tulsa e amamos esta cidade. Então, vamos apenas nos dar bem uns com os outros! – a voz ridiculamente alegre de Zoey provocou arrepios de raiva que subiram e desceram pela espinha de Neferet.

– Eu não vou permitir que você desfaça o que eu comecei, sua criança odiosa! – Neferet explodiu. Quando Thanatos anunciou que a Morada da Noite ia receber inscrições de humanos para vagas de professores, ela ficou de queixo caído junto com o repórter. Após a saudação benevolente da nova Grande Sacerdotisa, merry meet, merry part e merry meet again, Neferet assistiu incrédula aos âncoras do telejornal conversarem tolamente sobre como a interação com os vampiros era interessante e como o evento aberto ao público e a feira de empregos seria ótima para a cidade, com um close congelado do rosto sorridente de Zoey decorando a tela. Ela apertou com força o botão de desligar a TV, incapaz de suportar Zoey Redbird por um só instante.

Do pequeno recanto que ficava entre a sala de estar e a sala de jantar, o computador de Neferet começou a chamar. Na tela, a silhueta da imagem de Nyx com os braços levantados piscou e, ao lado do ícone, apareceram as palavras: CONSELHO SUPREMO DOS VAMPIROS.

Neferet caminhou devagar até o computador e clicou no mouse para atender ao chamado, automaticamente ativando a câmera de vídeo. Ela sorriu friamente para as seis Grandes Sacerdotisas com expressões sérias que estavam sentadas em seus tronos esculpidos em mármore.

– Eu estava esperando a sua ligação.

Duantia, membro sênior do Conselho Supremo dos Vampiros, falou primeiro. Neferet achou que ela soou muito, muito velha. Certamente o seu cabelo longo e grosso parecia mais prata do que castanho, e Neferet teve certeza de ver bolsas embaixo de seus olhos escuros.

– Você foi convocada a aparecer diante de nós, mas aí está você em Tulsa, e aqui estamos nós em Veneza. Qual o motivo da sua demora?

– Eu estou ocupada – Neferet modulou a sua voz para parecer mais entretida do que irritada. Ou com medo. Ela não podia permitir nunca que as vampiras do Conselho Supremo acreditassem que ela tinha medo delas ou de qualquer um. – Não é conveniente viajar para a Itália nesta época.

– Então você nos obriga a julgá-la absente reo 3 .

Neferet zombou.

– Guarde o seu latim para os vampiros velhos demais para viver no presente.

Duantia continuou como se ela não tivesse falado nada.

– Nossa irmã Grande Sacerdotisa, sétimo membro deste Conselho Supremo, Thanatos, produziu provas irrefutáveis através de um ritual de revelação testemunhado pela Grande Sacerdotisa Zoey Redbird, pelo seu...

– Aquela criança insolente não é uma Grande Sacerdotisa!

– Você não vai me interromper! – mesmo pela internet, a milhares de quilômetros de distância, o poder de Duantia era palpável. Foi preciso um esforço supremo para que Neferet não se encolhesse de medo da tela do computador.

– Diga o que tem a dizer. Eu não vou interrompê-la de novo – Neferet disse sem emoção.

– O ritual de revelação que Thanatos presidiu foi testemunhado pela jovem Grande Sacerdotisa Zoey Redbird, pelo seu círculo, em que cada membro recebeu de Nyx o dom de uma afinidade elemental, além de vários guerreiros Filhos de Erebus. Durante esse ritual, a terra mostrou o registro de que você assassinou uma humana, sacrificando-a para o touro branco das Trevas, que aparenta ser o seu Consorte.

Neferet observou que as vampiras do Conselho Supremo se agitaram nervosamente, como se apenas ouvir a palavra Consorte associada ao touro branco fosse difícil de suportar. Isso a agradou. Muito em breve o Conselho Supremo iria ter que suportar muito mais do que apenas palavras.

– Neferet, o que você tem a dizer em sua defesa? – Duantia concluiu.

Neferet se levantou, atingindo a sua altura máxima. Ela sentiu os filamentos de Trevas roçando em volta dela, enrolando-se nos seus tornozelos e serpenteando em suas panturrilhas.

– Eu não preciso de defesa. Matar a humana não foi um ato de assassinato. Foi um sacrifício sagrado.

– Você se atreve a chamar as Trevas de sagradas? – a vampira membro do Conselho Supremo chamada Alitheia gritou.

– Alitheia, ou Verdade, como nós diríamos em uma língua que não está morta, eu vou conceder um pouco de você mesma a todas vocês. A verdade é que eu sou imortal. Em pouco mais de uma centena de anos eu obtive mais poder do que vocês, com todos os seus séculos, conseguiram adquirir. A verdade é que dentro de mais alguma centena de anos, a maioria de vocês será pó, e eu ainda vou ser jovem, poderosa, bonita e uma deusa. Se eu decido sacrificar uma humana, não importa por qual motivo, isso é sagrado, e não pecado!

– Neferet, você é Consorte das Trevas? – a pergunta de Duantia foi disparada em meio ao silêncio que se seguiu ao grito de Neferet.

– Conjure o touro branco e pergunte às Trevas você mesma. Mas apenas se você tiver coragem – Neferet sorriu com sarcasmo.

– Conselho Supremo, qual é o seu julgamento? – Duantia perguntou. Ela manteve o olhar fixo em Neferet enquanto cada vampira membro do Conselho Supremo se levantou e, uma de cada vez, pronunciou repetidamente a mesma palavra: “Banida!”.

Duantia se levantou por último.

– Banida! – ela disse com firmeza. – Deste dia em diante, você não será mais reconhecida como uma Grande Sacerdotisa de Nyx. Você não será mais reconhecida nem como uma vampira. Daqui em diante, você está morta para nós – Duantia falou e todas as vampiras do Conselho Supremo deram as costas para Neferet. Então o computador emitiu aquele som de final de chamada e a imagem delas se apagou.

Neferet olhou para a tela escura. Ela estava respirando pesadamente, tentando controlar o tumulto dentro dela. O Conselho Supremo a havia banido!

– Velhas horrendas! – ela explodiu. Era cedo demais! Neferet tinha a intenção, é claro, de romper com o Conselho Supremo, mas não antes de ela provocar uma divisão interna e atiçar umas contra outras para que elas ficassem ocupadas demais com a própria destruição e não se intrometessem no mundo que ela estava criando do lado de fora da charmosa ilhazinha delas. – Eu quase consegui isso antes, quando Kalona estava posando de Erebus ao meu lado. Mas Zoey estragou tudo, forçando-me a revelar que ele era uma fraude. – Incapaz de acalmar a sua frustração, Neferet andou com passos largos pela sala, com seu salto agulha triturando o vidro quebrado. Ela saiu para a varanda, apoiando as mãos no parapeito de pedra. – Zoey fez com que Thanatos fosse enviada a Tulsa para me espionar. E a mãe de Zoey foi um sacrifício fraco e imperfeito demais. Se Aurox não fosse um Receptáculo defeituoso, o ritual de revelação teria sido interrompido com a morte de Rephaim. E agora eu fui banida pelo Conselho Supremo e sou vista como uma aliada domesticada pelos humanos de Tulsa – Neferet levantou os braços para o céu e descarregou a sua raiva. – Zoey Redbird vai pagar por tudo que ela causou!

Neferet abaixou as mãos e rasgou o seu robe de seda, desnudando o seu corpo para a noite. Nua, ela estendeu os braços e inclinou a cabeça para trás de modo que o seu cabelo comprido a encobrisse como uma cortina escura.

– Trevas, venham para mim! – ela se apoiou, preparando-se para o prazer doloroso do toque gélido do seu touro branco.

Nada aconteceu.

O único movimento na noite era das gavinhas escuras e agitadas que haviam se tornado sua companhia constante.

– Meu senhor! Venha para mim! Eu preciso de você – Neferet chamou.

– O seu chamado não é uma surpresa, minha cara impiedosa.

Neferet ouviu a voz dele em sua cabeça, como sempre, mas ela não sentiu a sua presença imponente e poderosa. Ela abaixou os braços, virando-se, procurando por ele.

– Meu senhor, eu não posso vê-lo.

– Você precisa de algo.

Ainda sem entender por que ele não havia aparecido para ela, Neferet não permitiu que a sua confusão transparecesse. Em vez disso, ela respondeu sedutoramente:

– Eu preciso de você, meu senhor.

Instantaneamente, o filamento mais grosso feito uma serpente, comandado pelas Trevas, soltou-se dos outros que estavam enrolados em seus tornozelos. Ele deu uma chicotada ao redor da cintura dela, abrindo uma ferida na sua pele macia e desenhando um perfeito círculo escarlate. As outras gavinhas subiram se arrastando pelas suas pernas, para se alimentar do seu sangue quente.

Neferet teve que se esforçar muito para não gritar de dor.

– Mentir para mim não é sábio de sua parte, minha cara impiedosa.

– Eu preciso de mais poder – Neferet admitiu. – Quero matar Zoey Redbird, e ela está bem protegida.

– Ela está bem protegida e é amada por uma Deusa. Nem você está preparada para destruir abertamente alguém como ela.

– Então me ajude. Eu imploro, meu senhor – Neferet bajulou o touro, ignorando o filamento afiado como uma lâmina que continuava a ferir a sua pele e as outras gavinhas que estavam se alimentando dela.

– Você me desapontou. Eu já esperava que você me chamasse e implorasse pela minha ajuda. Veja bem, minha cara impiedosa, eu não deveria conseguir prever as suas ações. Isso me deixa entediado, e eu não desejo desperdiçar os meus poderes com nada previsível e tedioso – a voz dele martelou implacavelmente na sua mente.

Neferet não recuou.

– Eu não vou pedir que você me perdoe – ela disse friamente. – Você sabia como eu era desde a primeira vez em que nos encontramos. Eu não mudei. E não vou mudar.

– De fato, e é por isso que eu sempre a chamo de minha cara impiedosa – a voz dele era quase uma violação. Agora ela tinha um tom de divertimento. – Você me lembrou de como nós começamos bem. Você era uma surpresa tão deliciosa. Surpreenda-me de novo, e eu vou pensar em vir ajudá-la. Até lá, eu concedo a você o controle sobre os filamentos de Trevas que escolherem permanecer com você. Não se desespere. Muitos vão escolher você. Você os alimenta tão bem. Eu a verei de novo, minha cara impiedosa, quando... se... você despertar o meu interesse o bastante para que eu volte – a voz dele cessou quando a gavinha grossa enroscada na cintura dela se soltou e desapareceu na noite.

Neferet desabou. Ela ficou deitada na varanda de pedra fria, observando os filamentos de Trevas lamberem o seu sangue. Ela não os deteve. Ela deixou que eles se alimentassem dela enquanto os acariciava, encorajando-os, analisando quantos haviam permanecido fiéis a ela.

Se o touro não ia ajudá-la, Neferet se ajudaria sozinha. Zoey Redbird era um problema havia tempo demais. Havia tempo demais ela permitia que aquela garota interferisse nos seus planos. Mas ela não iria matá-la. Isso provocaria a ira de Nyx cedo demais. Ao contrário do Conselho Supremo dos Vampiros, uma Deusa não podia ser ignorada. Não, Neferet pensou, eu não preciso matar Zoey. Tudo o que eu preciso fazer é criar um ser para fazer o serviço por mim. O Receptáculo falhou uma vez por causa de um sacrifício imperfeito. Com o sacrifício perfeito, eu não vou falhar.

– Eu sou imortal. Eu não preciso do touro para criar. Tudo o que eu preciso é de um sacrifício sagrado e de poder. Eu já aprendi o feitiço. Aurox foi só o começo... – Neferet acariciou os filamentos de Trevas e permitiu que eles continuassem a se alimentar dela.

Há filamentos o bastante, ela assegurou a si mesma. Sobrou apenas o suficiente.

Zoey

– A Deusa sabe que eu odeio dizer isso, mas eu estava errada. Isso é sim como assistir àquele programa idiota The Bachelorette – Aphrodite balançou a cabeça e revirou os olhos.

Ela, Stevie Rae e eu caminhávamos devagar para o estacionamento na direção do ônibus cheio de garotos que estava à nossa espera. Nós estávamos indo devagar porque a gente estava superocupada olhando para Damien e o repórter, Adam. Os dois estavam parados, sorrindo e conversando, perto da van da Fox23 News.

– Shhh! – sussurrei para Aphrodite. – Eles vão ouvir você e isso vai deixar Damien constrangido.

– Ah, por favor! – Aphrodite bufou. – Os garotos gays estão bem animadinhos e entretidos. Ele não está prestando a menor atenção em nós.

– Eu estou tão feliz que ele está flertando – comentei.

– Vejam! Eles estão pegando os telefones!!! – Stevie Rae sussurrou efusivamente com pontos de exclamação demais para ser um sussurro.

– Eu estava errada de novo – Aphrodite falou. – Isso aqui não é como assistir a The Bachelorette. É como assistir ao National Geographic Channel.

– Eu acho que ele é uma gracinha – Stevie Rae disse.

– O cara que está conversando com Damien? – Shaylin perguntou quando se juntou a nós.

– Sim. A gente acha que eles estão marcando um encontro – Stevie Rae respondeu, ainda olhando para os dois.

– Ele tem cores suaves e bonitas – Shaylin observou. – Na verdade, as cores dele combinam bem com as de Damien.

– Como assim, os arco-íris deles estão se fundindo? – Aphrodite bufou sarcasticamente.

Shaylin franziu a testa.

– Eles não têm cores de arco-íris. Isso é um estereótipo horrível. Eles têm a cor do céu de verão, com tons de azul e amarelo. Damien também tem um pouco de branco encrespado e fofo que se parece bastante com nuvens densas.

– Ah, que merda, isso aí não tem nenhum senso de humor – Aphrodite protestou.

– Aphrodite, você tem que parar de chamar Shaylin de isso. Não é nada legal – Stevie Rae a repreendeu.

– Então me diga, para futura referência, o quanto isso não é legal na escala daquela palavra maldosa, “retardada”? – ela levantou uma sobrancelha loira com cara de interrogação para Stevie Rae. – Não é legal no nível de “debiloide” ou “monga”, ou mais como a palavra tradicional e explícita “retardada” mesmo?

– Você é a Grande Sacerdotisa, mas eu acho que responder qualquer coisa apenas a encoraja. Você sabe, é como acontece quando você pega um bebê chorando, ele continua chorando – Shaylin afirmou, soando bem prática.

Afe, Aphrodite vai arrancar os cabelos dela pela raiz, foi só o que eu consegui pensar.

Em vez disso, Aphrodite deu risada.

– Ei, isso fez uma piada! Pode até ser que isso tenha alguma personalidade.

– Aphrodite, eu acho que você deve ter algum dano cerebral – Stevie Rae disse.

– Obrigada – Aphrodite respondeu. – Eu vou entrar no ônibus. E vou cronometrar o Garoto Gay. Se ele continuar flertando por mais do que cinco minutos, eu vou... – ela parou de falar quando se virou em direção ao ônibus. Os meus olhos seguiram os dela. Shaunee e Erin estavam paradas do lado da porta aberta do ônibus. Shaunee parecia perturbada. O rosto de Erin não tinha nenhuma expressão. Eu podia ver que elas estavam conversando, mas nós estávamos muito longe para ouvir o que elas estavam dizendo.

– Há algo errado com ela – Shaylin observou.

– Ela quem? – Stevie Rae perguntou.

– Erin.

– Shaylin está certa. Tem alguma coisa errada com Erin – Aphrodite concordou.

Eu não sabia o que havia me chocado mais, se era o que Shaylin e Aphrodite estavam dizendo ou o fato de elas estarem de acordo.

– Conte-me o que você está vendo – Stevie Rae falou em voz baixa para Shaylin.

– Este é o melhor jeito de eu descrever o que vejo: havia um canal que passava atrás da casa onde eu morava quando era criança, um pouco antes de eu perder a visão. Eu costumava brincar ali perto e fingia que o canal era um córrego da montanha lindo e borbulhante, e que eu estava crescendo nas Montanhas Rochosas do Colorado, porque ele era claro e até mesmo bonito. Mas, assim que eu me aproximava, podia sentir o fedor do canal. Tinha um cheiro de coisas químicas e de algo mais, algo podre. A água parecia boa, mas abaixo da superfície ela era suja e poluída.

– Shaylin – eu estava quase perdendo a paciência. Eu me sentia como se estivesse ouvindo um dos poemas de Kramisha, e isso não é necessariamente uma coisa boa. – Que diabo você quer dizer? Erin tem cor de água poluída? E se ela tem, por que você nunca disse nada até agora?

– Ela está mudando! – Erin gritou! Quando vários rostos no ônibus, além de Erin e Shaunee, voltaram-se na nossa direção, ela disfarçou: – O inverno parece estar mudando para a primavera! Hoje não está uma bela noite?

Os garotos balançaram a cabeça e franziram a testa para ela, mas pelo menos pareceu que eles pararam de prestar atenção em nós.

– Ah, que merda. Você não é nada boa em espionagem – Aphrodite abaixou a voz e nos agrupou. – Z., se liga. É simples. O que Shaylin está dizendo é que Erin parece ser a mesma de sempre: bonita, loira, popular, perfeita. Você sabe, típica. Mas a verdade é que por baixo da superfície há algo apodrecendo. Você não pode ver isso. Eu não posso ver isso. Mas Shaylin pode – Aphrodite deu uma olhada no ônibus. Todos nós acompanhamos o olhar dela a tempo de ver Shaunee balançar a cabeça como quem diz não e subir rapidamente os degraus pretos com piso emborrachado, enquanto Erin continuou ali com uma aparência bonita, mas muito, muito fria. – Parece que Shaunee pode ver isso também. Não que a gente tenha acreditado nela. A gente achou que ela só estava irritada com Erin porque as gêmeas siamesas idiotas tinham sido separadas cirurgicamente.

– Eu acho que isso é muito rude – eu falei.

– Também acho – Stevie Rae concordou. – Mas o meu instinto me diz que é verdade.

– O meu também – Damien disse, aproximando-se de nós. As suas bochechas ainda estavam vermelhas e ele acenou alegremente quando a van da Fox23 foi embora, mas a sua atenção estava voltada para Erin. – E o meu instinto também está me dizendo mais uma coisa.

– Que você e o Garoto das Notícias estão quase virando amiguinhos de cama? –Aphrodite falou com uma voz animada e educada, que contrastava radicalmente com o que ela havia dito.

– Isso não é da sua conta. – Damien respondeu. E então acrescentou em um tom suave: – E acho que você vai querer prestar atenção, Aphrodite. O que eu vou falar vai abalar o seu mundo.

– Que coisa mais velha de se dizer – Aphrodite comentou.

– Velho não significa impreciso – Damien rebateu. – Você traduziu o que Shaylin pressentiu. Isso significa que você está agindo como um oráculo.

– Eu não sou um maldito oráculo. Sou uma Profetisa – Aphrodite pareceu realmente irritada.

– Oráculo... Profetisa – Damien levantou primeiro uma mão e depois a outra, como se ele estivesse comparando o peso de algo na palma de suas mãos, até que ambas ficaram na mesma altura. – Para mim é a mesma coisa. Pesquise a sua história, Profetisa. Sibila, Delfos, Cassandra. Esses nomes não dizem nada a você?

– Não. Sério. Eu tento não ler demais.

– Bem, eu começaria a ler se fosse você. Esses são apenas os nomes top três que vêm à minha mente culta. Alguns os chamam de Oráculos. Alguns os chamam de Profetisas. É a mesma coisa.

– Eu posso pegar o resumo na internet? – Aphrodite estava tentando parecer engraçadinha, mas o seu rosto tinha perdido toda a cor e os seus olhos pareciam gigantes e ainda mais azul-topázio do que o normal. E assustados. Ela parecia superassustada.

– Ok. Bem, lição aprendida. Parabéns para nós! – eu falei animadamente. Todo mundo simplesmente olhou para mim, então tentei explicar: – Thanatos disse que nós temos que praticar os nossos dons. Acho que o que acabou de acontecer é como uma nota extra nessa prova. Que tal agora a gente entrar no ônibus, voltar para os túneis e assistir um pouco às reprises de Fringe?

– Fringe? Estou dentro – Shaylin começou a andar na direção do ônibus.

– Eu gosto de Walter – Aphrodite comentou. – Ele me lembra o meu avô. Bem, exceto que Walter é um pouco mais inteligente e é doidão e louco, em vez de bêbado e antissocial. Mesmo assim, ambos são estranhamente adoráveis.

– Você tem um avô? E você gosta dele? – Stevie Rae perguntou antes de mim.

– É claro que eu tenho avô. Você é uma retardada em Biologia? – então Aphrodite deu de ombros. – Que seja. Minha família é meio difícil de explicar. Eu vou seguir isso e entrar no ônibus – e foi o que ela fez, seguindo Shaylin.

Ficamos só Stevie Rae, Damien e eu.

– Ela é totalmente louca – foi só o que pensei em dizer.

– De fato – Damien concordou.

– Ok, bem, vocês acham que está todo mundo no ônibus? – perguntei.

– Espero que sim. Eu sei que Rephaim está aí, e que nós só temos algumas horas até o sol nascer. Tenho certeza de que ele nunca viu nenhum episódio de Fringe, e acho que ele vai gostar. Assistir a uma série abraçadinha com ele parece uma ótima ideia agora, mesmo se a gente tiver que fazer isso com a louca da Aphrodite – ela sorriu para mim. – A gente pode pedir pizza no Andolini?

– Claro que sim – respondi.

– Ahn-han – Damien simulou bem o ato de limpar a garganta.

– Sim? – perguntei.

– Hum, vocês achariam estranho se eu, hum, talvez fosse me encontrar com alguém para tomar um café? Mais tarde. Hoje à noite. No The Coffee House On Cherry Street.

– Eles ainda estão abertos? – eu perguntei, dando uma olhada no meu celular. Afe, já eram quase 4 h da manhã.

– Eles começaram a funcionar 24 horas por dia. A tempestade de gelo acabou com os negócios por semanas e eles estão tentando compensar o prejuízo atendendo, bem, a turma da noite – Damien explicou.

– Sério? Eles estão ficando abertos por nossa causa? – eu me lembrava tanto dos sanduíches incríveis deles e da bela arte local que eles exibiam. Eles costumavam fechar às 23 h!

– Não mais – ele disse alegremente.

– Uau, que legal. Quero dizer, eu nunca estive lá, mas o fato de uma coffee shop ficar aberta no Centro da cidade para que a gente possa se encontrar lá é sensacional – Stevie Rae falou.

– Que tal se amanhã Darius desviar o ônibus para lá na volta para a estação? – eu segui o meu instinto. É normal que um grupo de estudantes do ensino médio queira parar em uma coffee shop depois da escola. – Damien, se você for lá hoje, pode perguntar para algum funcionário se tudo bem a gente aparecer lá amanhã?

– Com certeza, vou fazer um reconhecimento da área para vocês! – então a expressão de Damien murchou. – E então, o que vocês acham? Jack iria me odiar?

– Oh, claro que não, querido! – falei rapidamente.

– Jack entenderia – Stevie Rae acrescentou. – Ele não ia querer que você ficasse triste e sozinho enquanto espera que ele volte.

– Ele vai voltar, não vai? – Damien me encarou bem no fundo dos meus olhos. – Jack vai voltar, certo?

As almas deles estão destinadas a se encontrar novamente... as palavras foram sussurradas na minha mente. Reconhecendo a voz sábia e familiar de Nyx, eu sorri, dando o braço para Damien.

– Ele vai. Eu prometo. E a Deusa também promete.

Damien piscou forte para segurar as lágrimas.

– Eu tenho um encontro! E vou ficar feliz com isso.

– É isso aí! – eu o encorajei.

– Estou tão feliz que eu poderia cuspir! Mesmo que isso seja um pouco grosseiro – Stevie Rae pegou a outra mão de Damien.

– Esse é um ditado estranho – Damien observou.

– Totalmente – eu disse. – Foi nojento quando Leonardo fez toda aquela cena da cuspida com Kate em Titanic.

– Essa cena nunca deveria ter acontecido – Damien concordou. – Foi a única falha do filme.

– Bem, essa cena e aquela do Leo se transformando em um lindo picolé – acrescentei.

Damien e Stevie Rae fizeram sons de total concordância comigo enquanto nos aproximávamos do ônibus. Eu podia ver os rostos dos garotos nas janelinhas. Parecia que o ônibus estava cheio, o que me deu uma onda enorme de alívio porque eu estava mais do que pronta para ir para casa. Stark estava lá, em pé no alto da escada, ao lado de Darius. Os olhos dele me encontraram, e isso fez minha pele esquentar e formigar. Rephaim estava no primeiro assento, bem na frente de Kramisha, e eu praticamente pude sentir Stevie Rae vibrando de alegria ao acenar para ele. Shaylin e Aphrodite estavam subindo as escadas. Eu não conseguia ver o rosto de Aphrodite, mas o jeito com que ela jogou o cabelo para trás me dizia que ela já estava flertando com o seu guerreiro.

Ok, as Trevas eram um pé no saco e muitas coisas difíceis haviam acontecido com a gente, mas pelo menos estávamos juntos e tínhamos amor. Sempre o amor.

– Preciso conversar com você.

A voz sem emoção de Erin foi como um banho de água fria na minha alegria.

– Ok, claro. Ei, daqui a um instante eu estarei no ônibus – avisei Stevie Rae e Damien.

– Eu vou ficar – Erin disse as três palavras assim que ficamos sozinhas.

– Ficar? Você quer dizer aqui? – Eu tinha entendido o que ela queria dizer, mas precisava ganhar tempo para tentar processar as perguntas na minha mente. Eu tinha impedido Shaunee quando ela havia tentado se separar de nós e voltar para a Morada da Noite logo depois que ela e Erin começaram a ter problemas. Eu não deveria impedir Erin também?

– Sim, é claro que eu estou falando daqui. Estou cansada dos túneis. A umidade está deixando o meu cabelo cheio de frizz.

– Ahn, há produtos para isso. Tem alguns da Aveda. Podemos pegar para você no salão Ilhoff da Utica Square amanhã – sugeri.

– Ok, então, não é só o meu cabelo. Eu não quero morar nos túneis. É aqui que eu moro. Nesta escola. Eu não quero ser levada de ônibus. É idiota.

– Erin, eu sei que pegar o ônibus da escola é idiota. Que inferno, isso já era idiota antes de eu ser Marcada. Mas eu acho que nós precisamos ficar juntos. A gente é mais do que um grupo ou uma panelinha, a gente é uma família.

– Não, a gente não é uma família. Nós somos um grupo de garotos que vai para a mesma escola. Só isso. Ponto final.

– As nossas afinidades fazem com que a gente seja mais do que isso – ela estava me deixando chocada... não apenas pelo que ela estava dizendo, mas pela sua atitude. Erin era tão fria! – Erin, nós passamos por coisas demais juntos para acreditarmos que somos apenas um grupo de garotos que por acaso frequenta a mesma escola.

– E se isso for o jeito como você se sente, mas não como eu me sinto? Eu não posso escolher? Achei que Nyx concedesse o livre-arbítrio.

– Sim, mas isso não quer dizer que não podemos dizer algo quando alguém com quem a gente se importa está fazendo besteira.

– Deixe-a ficar.

Erin e eu levantamos os olhos e vimos Aphrodite em pé no primeiro degrau do ônibus. Ela estava encostada na porta com os braços cruzados. Eu esperei ver aquele sorriso irônico típico de Aphrodite em seu rosto, mas ela não parecia brava. Ela não soou irônica. Ela apenas pareceu bastante segura de si. Atrás dela, eu podia ver Stevie Rae e Shaylin. Elas concordaram com a cabeça, e aquele apoio mudo a Aphrodite me venceu quando eu percebi que o meu Conselho havia decidido – elas resolveram o que era melhor para todos nós, mesmo que aquilo não fosse o melhor para Erin.

– Obrigada, Aphrodite. Quem poderia imaginar que você seria a única a concordar comigo? – Erin riu, soando petulante e infantil em comparação com o despertar da maturidade serena de Aphrodite.

– Sabe de uma coisa, Erin, estou feliz que você e Aphrodite tenham me lembrado de uma coisa – afirmei. – Nyx realmente nos dá o livre-arbítrio e, se você prefere viver na Morada da Noite, então vou respeitar isso. Espero que isso não mude as coisas no nosso círculo. Você ainda é a água. O seu elemento e você ainda são importantes para nós.

Erin sorriu um pouco, mas o sorriso dela não chegou aos seus frios olhos azuis.

– Sim, é claro. Eu sempre serei a água, e a água pode correr em qualquer lugar. É só me chamar se precisar de mim. Eu vou estar lá na mesma hora.

– Que ótimo – falei rapidamente, sentindo-me superconstrangida. – Bem, então acho que a gente se vê amanhã.

– Sim, claro. Vejo vocês na aula – Erin acenou de modo petulante e saiu andando.

Subi as escadas do ônibus, perguntando para Darius:

– Estão todos aqui?

– Todos já foram contados e estão presentes – ele respondeu.

– Então vamos para casa – eu disse. Todos se espalharam pelos seus assentos, Stevie Rae ao lado de Rephaim, Aphrodite na primeira poltrona logo atrás de Darius como motorista. Stark estava esperando por mim na poltrona atrás dela, e eu me inclinei, beijando-o rapidamente e sussurrando: – Vou dar uma olhada em Shaunee e já volto.

– Vou estar aqui esperando. Sempre – ele tocou o meu rosto delicadamente.

Fui sacolejando até o fundo do ônibus, onde Shaunee estava sentada sozinha, enquanto Darius passava pelos buracos do estacionamento e fazia um retorno em direção ao caminho de saída da escola.

– Posso sentar aqui por um instante?

– Sim, claro – ela respondeu.

– Então, você e Erin não estão mais se falando direito?

Shaunee mordeu a bochecha e balançou a cabeça.

– Não.

– Ela está bem brava – eu estava tentando pensar em algo para dizer que ajudaria Shaunee a se abrir comigo.

– Não, acho que ela não está brava – Shaunee afirmou.

Franzi a testa.

– Bem, ela pareceu brava.

– Não – Shaunee repetiu, olhando para fora da janela. – Pense em como ela vem agindo nos últimos dias, principalmente hoje. “Brava” não é a melhor palavra para descrevê-la.

Eu realmente pensei. Erin estava sendo fria e sem emoções. Só isso.

– Bem, você está certa. Agora que eu pensei mesmo nisso, ela não tem sido nada além de desinteressada, e isso é estranho.

– Sabe o que é mais estranho? Aquela garota ali está demonstrando mais sentimentos do que Erin – Shaunee apontou pela janela na direção do pequeno jardim dos professores, não muito longe dos limites do estacionamento. Uma garota estava sentada ao lado da fonte. Quando o ônibus passou ali perto, havia luz suficiente para ver de relance que ela estava com a cabeça apoiada nas mãos. Os seus ombros estavam chacoalhando como se ela estivesse chorando convulsivamente.

– Quem é ela?

– Nicole.

– Nicole, a novata vermelha? Você tem certeza? – estiquei o pescoço, tentando olhar melhor para ela, mas nós já estávamos pegando a pista com árvores enfileiradas, e a minha visão da garota ficou completamente encoberta.

– Tenho. Eu a vi lá quando estava indo para o ônibus.

– Hum. E você imagina o que está se passando com ela? – eu perguntei.

– Acho que as coisas estão mudando para muitos de nós, e às vezes isso enche o saco.

– Há algo que eu possa fazer para tornar isso menos pé no saco para você? – eu quis saber.

Então Shaunee olhou para mim.

– Apenas seja minha amiga.

Eu pisquei surpresa.

– Eu sou sua amiga.

– Mesmo sem a Erin?

– Eu gosto mais de você sem a Erin – falei honestamente.

– Eu também – Shaunee concordou. – Eu também.

Um pouco depois voltei para o meu assento ao lado de Stark e deixei que ele colocasse o seu braço ao redor de mim. Encostei a cabeça no ombro dele e fiquei escutando a batida do seu coração, apoiando-me na sua força e no seu amor.

– Prometa-me que você nunca vai pirar e se transformar em um estranho frio e distante – pedi em voz baixa para ele.

– Prometo. Não importa o que aconteça – ele afirmou sem hesitar. – Agora, tire qualquer coisa de sua cabeça, exceto o fato de que eu vou forçá-la a experimentar uma pizza diferente hoje à noite.

– Não vamos pedir a Santino? Mas a gente adora essa pizza!

– Confie em mim, Z. Damien me falou sobre a pizza Athenian. Ele disse que ela é a ambrosia das pizzas. Não entendi exatamente o que ele quis dizer, mas acho que isso significa mais do que bom, então vamos experimentar.

Eu sorri, relaxei ao lado dele e, no curto caminho da Morada da Noite até a estação, fingi que o meu maior problema era decidir se expandia os meus horizontes em relação aos sabores de pizza.

 


C O N T I N U A

9 Zoey

– Neferet precisa ser detida – Thanatos foi logo direto ao ponto.

– Finalmente uma boa notícia – Aphrodite disse. – Então, o Conselho Supremo inteiro vai aparecer aqui para declarar que tudo que ela disse naquela coletiva de imprensa ridícula é papo furado, ou Duantia vem sozinha?

– Não vejo a hora de os humanos ouvirem a verdade sobre ela – Stevie Rae falou em seguida, soando tão irritada quanto Aphrodite e sem dar chance a Thanatos para replicar – Estou realmente cansada de ver Neferet sorrindo, seduzindo, iludindo e fazendo todo mundo acreditar que ela é tudo de bom.

– Neferet faz muito mais do que seduzir, iludir e sorrir – Thanatos observou sombriamente. – Ela usa o seu dom concedido pela Deusa para manipular e ferir os outros. Os vampiros são sujeitos aos seus encantos, e os humanos praticamente não têm defesa contra ela.

– O que significa que o Conselho Supremo dos Vampiros precisa tomar uma posição e fazer alguma coisa em relação a ela – eu afirmei.

– Eu gostaria que fosse assim tão simples – Thanatos respondeu.

Meu estômago se contraiu. Tive uma daquelas intuições, e minhas intuições quase nunca eram boas.

– O que você quer dizer? Por que isso não seria algo simples? – perguntei.

– O Conselho Supremo não vai misturar humanos nos assuntos de vampiros – ela explicou.

– Mas Neferet já fez isso – eu argumentei.

– Pois é, não adianta fechar a porta do estábulo depois que o gado já fugiu – Stevie Rae concordou.

– Aquela vaca matou a mãe de Zoey – Aphrodite estava balançando a cabeça, incrédula. – Você está dizendo que o Conselho Supremo vai simplesmente ignorar isso e vai deixá-la escapar com um assassinato nas costas e falando merda sobre todos nós?

– E o que vocês querem que o Conselho Supremo faça? Que desmascare Neferet como uma assassina?

– Sim – eu disse, feliz por soar firme e madura, em vez de assustada e com doze anos, que era como eu realmente estava me sentindo com essa coisa toda. – Eu sei que ela é imortal e poderosa, mas ela matou a minha mãe.

– Nós não temos provas disso – Thanatos falou em voz baixa.

– Isso é besteira! – Aphrodite explodiu. – Todos nós vimos!

– Em um ritual de revelação realizado com um feitiço de morte. Nada disso pode ser repetido. A terra foi purificada desse ato de violência por meio dos cinco elementos.

– Ela tomou as Trevas como seu Consorte – Aphrodite alegou. – Ela não está apenas aliada ao mal, ela provavelmente está fazendo as coisas mais indecentes com ele!

– Eca! – Stevie Rae e eu exclamamos juntas.

– Os humanos nunca iriam acreditar em nada disso, mesmo se eles tivessem estado lá.

Nós todas nos voltamos para a voz de Shaylin, que até então estava em pé em silêncio, observando nós quatro com olhos vazios e uma expressão chocada. Mas o seu tom era seguro. É claro, ela parecia nervosa, mas o seu queixo estava levantado de novo e ela apresentava o que eu já estava reconhecendo como a sua cara de teimosa.

– Que diabo você sabe sobre isso e por que você está falando? – Aphrodite vociferou contra ela.

– No mês passado eu era humana. Os humanos não acreditam na magia dos vampiros – Shaylin encarou Aphrodite sem vacilar. – Vocês estão há muito tempo às voltas com essa magia. Vocês perderam totalmente a perspectiva.

– E você perdeu completamente a cabeça – Aphrodite rosnou, inchando como um baiacu.

– Crianças briguentas de novo – Thanatos não levantou a voz, mas as suas palavras atravessaram aquela tensão tipo briga de garotas entre Aphrodite e Shaylin.

– Elas não querem brigar – eu falei em meio ao súbito silêncio. – Nenhuma de nós quer. Mas estamos todas frustradas e esperávamos que você e o Conselho Supremo fossem fazer algo, qualquer coisa, para nos ajudar a combater Neferet.

– Deixem-me mostrar a verdade sobre quem vocês são, e então pode ser que vocês entendam mais sobre essa batalha em que vocês estão insistindo em envolver os humanos – Thanatos estendeu o seu braço direito, com a palma da mão voltada para cima na altura do peito. Ela fez uma concha com a mão, inspirou profundamente e, com a mão esquerda, agitou o ar acima da sua outra mão estendida, dizendo: – Observem o mundo! – a voz dela era poderosa, hipnotizante. Os meus olhos foram atraídos para a palma de sua mão. Sobre ela, um globo do planeta estava se formando. Era incrível, não era como aqueles globos entediantes que os professores de História usavam para juntar pó. Aquele parecia feito de fumaça negra. A água se ondulava e se agitava. Os continentes emergiam, como que esculpidos em ônix.

– Aiminhadeusa! – Stevie Rae exclamou. – É tão lindo!

– É mesmo – Thanatos disse. – E agora observem quem vocês são no mundo! – ela sacudiu os dedos da mão esquerda na direção do globo, como se estivesse salpicando água em cima dele. Aphrodite, Stevie Rae, Shaylin e eu ofegamos de surpresa. Pequenas faíscas começaram a aparecer, pontuando a massa de terra ônix com minúsculas luzes de diamante.

– Que bonito – comentei.

– São diamantes? Diamantes de verdade? – Aphrodite perguntou, aproximando-se mais.

– Não, jovem Profetisa. São almas. Almas de vampiros. Essas luzes somos nós.

– Mas há tão poucas luzes. Quero dizer, em comparação ao resto do globo, que é todo escuro – Shaylin observou.

Eu franzi a testa e me aproximei mais, juntando-me a Aphrodite. Shaylin estava certa. A terra parecia imensa comparada à pequena quantidade de pontos cintilantes. Fiquei encarando o globo. Os meus olhos foram atraídos para os agrupamentos de brilho: Veneza, a Ilha de Skye, algum lugar que eu achei ser a Alemanha. Um grupo de luzes na França, alguns borrões no Canadá e vários outros espalhados pelos Estados Unidos – vários, mas mesmo assim não muitos.

– Aqui é a Austrália? – Stevie Rae perguntou.

Dei uma olhada no outro lado do globo, reparando em outros diamantes salpicados.

– Sim – Thanatos confirmou. – E a Nova Zelândia também.

– Ali é o Japão, não é? – Shaylin apontou para outra pequena mancha de brilho.

– Sim, é – Thanatos afirmou.

– Os Estados Unidos não têm tantos diamantes quanto deveria – Aphrodite opinou.

Thanatos não respondeu. Ela encontrou o meu olhar. Eu desviei os olhos, analisando o globo novamente. Devagar, dei toda a volta ao redor dela, desejando que eu tivesse prestado mais atenção às aulas de Geografia – qualquer aula. Quando terminei de dar a volta, encontrei o olhar da Grande Sacerdotisa de novo.

– Não existem muitos de nós – eu concluí.

– Infelizmente, isso é a mais absoluta verdade – Thanatos concordou. – Nós somos brilhantes, poderosos e espetaculares, mas somos poucos.

– Então, mesmo que nós conseguíssemos fazer com que os humanos nos ouvissem, estaríamos abrindo portas para o nosso mundo que é melhor que fiquem fechadas – Aphrodite falou calmamente, soando madura e sem malícia, como não era próprio dela. – Senão eles podem começar a pensar que as leis deles se aplicam a nós, que nós precisamos deles para nos manterem na linha e isso significa que eles podem começar a apagar as nossas luzes.

– Simples, mas bem colocado – Thanatos juntou as mãos e o globo desapareceu em um sopro de fumaça brilhante.

– Então o que nós vamos fazer? Nós não podemos simplesmente deixar Neferet escapar com todas as coisas horríveis que ela fez. Ela não vai parar em uma coletiva de imprensa, uma comissão na Câmara e uma coluna no jornal. Ela quer morte e destruição. Caramba, ela é Consorte das Trevas! – Stevie Rae disse.

– Nós temos que lutar com as mesmas armas dela – Shaylin sugeriu.

– Ah, que merda. Não vou aguentar mais uma garota que usa metáforas ruins em vez de falar claramente – Aphrodite rebateu.

– O que eu quis dizer é que, se Neferet está envolvendo os humanos, nós também deveríamos fazer isso. Mas nos nossos próprios termos – Shaylin explicou. Eu vi quando ela movimentou a boca sem som, dizendo “detestável”, mas Aphrodite havia decidido ignorar a novata. De novo. E, felizmente, Aphrodite não estava olhando para ela.

– Shaylin, você despertou o meu interesse, filha. Por que você acompanhou as duas Sacerdotisas e a Profetisa até aqui? – Thanatos perguntou de repente.

Nós, as Sacerdotisas e a Profetisa, ficamos em silêncio. Pessoalmente, eu queria ver como Shaylin ia lidar com Thanatos. Imaginei que Stevie Rae ficou quieta pelo mesmo motivo. Eu já sabia as razões de Aphrodite, as quais Shaylin tinha resumido bem com a palavra que ela disse sem som: detestável.

A pequena novata vermelha levantou seu queixo e pareceu superobstinada.

– Eu vim com elas porque quero fazer perguntas a você sobre o meu dom. E elas concordaram – Shaylin fez uma pausa, deu uma olhada para Aphrodite e acrescentou: – Bem, duas delas concordaram.

– Qual dom Nyx concedeu a você, novata?

– A Visão Verdadeira – ela olhou nervosamente para Stevie Rae e para mim. – Certo?

– Nós achamos que sim – eu falei.

– É. Pelo menos foi o que a pesquisa de Damien nos disse, e ele está quase sempre certo em relação às coisas que pesquisa – Stevie Rae concordou.

– Ela disse que Neferet tinha cor de olho de peixe morto. Isso me faz pensar que ela pode ter algo mais do que uma simples doença mental – Aphrodite me surpreendeu ao dizer isso.

– Você vê auras? – Thanatos perguntou enquanto analisava Shaylin como se ela estivesse olhando em um microscópio e Shaylin estivesse sob uma lâmina de vidro.

– Eu vejo cores – Shaylin respondeu. – Não sei como chamar o que eu vejo. E-eu era cega até a noite em que fui Marcada. Eu era cega desde os cinco anos. De repente, zap! Ganhei uma lua crescente vermelha no meio da minha testa, minha visão voltou e, junto com ela, as cores. Muitas cores. Por causa delas, eu sei coisas sobre as pessoas. Tipo, eu sabia que Neferet era podre no mesmo instante em que a vi. Apesar de por fora ela ser bonita – ela contou a Thanatos, e eu percebi que ela entrelaçou as mãos com força atrás de si e permaneceu imóvel sob o escrutínio da Grande Sacerdotisa. – Do mesmo modo, eu sei que Erik Night é basicamente um cara legal, mas é fraco. Ele sempre escolheu o caminho mais fácil. A cor dele é preta, mas não um preto chapado. É um preto profundo e rico, e eu consigo ver pequenos raios de luz dourada relampejando através dele – ela suspirou. – Acho que você é realmente idosa, inteligente e poderosa, mas também tem um temperamento forte, que mantém sob controle. Na maior parte do tempo.

Thanatos curvou os lábios em um sorriso.

– Continue.

Shaylin olhou rapidamente para Stevie Rae e depois de novo para Thanatos.

– As cores de Stevie Rae são como fogos de artifício. Isso me faz pensar que ela é a pessoa mais doce e alegre que eu já conheci.

– Isso porque você não conheceu Jack – Stevie Rae falou, com um sorriso triste para Shaylin. – Mas, obrigada. Foi muito legal dizer isso sobre mim.

– Eu não tive a intenção de ser legal. Só estou tentando dizer a verdade – os olhos de Shaylin se voltaram para Aphrodite. – Bem, na maioria das vezes estou tentando dizer a verdade.

Aphrodite bufou.

Eu esperei que fosse a minha vez e que ela diria a Thanatos que as minhas cores tinham ficado mais escuras porque eu estava superpreocupada, mas ela não falou nada sobre mim. Ela apenas assentiu levemente com a cabeça, como se tivesse decidido internamente alguma coisa, e então concluiu:

– É por isso que eu estou aqui. Preciso da sua orientação sobre como usar o meu dom e quero saber a verdade sobre ele.

Acho que foi nessa hora que comecei a respeitá-la. Thanatos não era uma Grande Sacerdotisa qualquer. Ela era membro do Conselho Supremo e tinha afinidade com a Morte. Ok, Thanatos era assustadora. Sem brincadeira. Mesmo assim, ali estava Shaylin, com seus quarenta e poucos quilos, menos de um mês como novata, confrontando Thanatos, sem entregar nada privado sobre mim. Ela nem disse aquelas coisas sobre os pontos de luz trêmula do bem dentro de Aphrodite. Era preciso coragem. Muita coragem.

Olhei para as mãos entrelaçadas com força de Shaylin e reparei que os seus dedos haviam ficado brancos. Eu sabia como ela se sentia. Eu também tive que confrontar uma Grande Sacerdotisa poderosa logo depois de ser Marcada.

Eu me aproximei mais de Shaylin.

– Seja como for que você queria chamar o que Shaylin vê, ela tem um dom. Eu concordo com Damien. Acho que é a Visão Verdadeira.

– Todos nós achamos – Stevie Rae falou.

– Você pode me ajudar? – Shaylin perguntou.

Então Thanatos me surpreendeu. Ela não disse nada. Ela se virou e caminhou até a sua mesa, olhando para baixo, como se a resposta para a pergunta de Shaylin estivesse escrita no grande calendário que ela deixava em cima da escrivaninha. Ela ficou parada daquele jeito, com a cabeça abaixada, pelo que pareceu um tempo ridiculamente longo. Eu tinha decidido entrelaçar minhas mãos atrás do meu corpo para evitar me remexer também, até que a Grande Sacerdotisa finalmente se voltou para nós quatro e nos encarou.

– Shaylin, a resposta que eu tenho para você é a mesma que eu tenho para Zoey, Stevie Rae e Aphrodite.

Escutei Aphrodite murmurar algo sobre não se lembrar de ter feito nenhuma maldita pergunta, mas Thanatos a interrompeu e continuou:

– Cada uma de vocês recebeu um dom incomum concedido pela nossa Deusa, e isso vem a calhar para nós, pois vamos precisar de todos os poderes que a Luz pode nos dar se pretendemos combater as Trevas.

– Você quis dizer derrotar as Trevas, não quis? – Stevie Rae perguntou.

Eu sabia a resposta de Thanatos antes de ela falar.

– As Trevas nunca podem ser realmente derrotadas. Elas só podem ser combatidas e desmascaradas pelo amor, pela Luz e pela verdade – a Grande Sacerdotisa afirmou.

– Perdeu. De novo – Aphrodite disse em voz baixa.

– Vou dar uma tarefa a cada uma para que vocês possam exercitar os seus dons. Profetisa, a primeira é para você – Thanatos se dirigiu a Aphrodite.

Aphrodite deu um suspirou profundo.

– Você recebeu de Nyx o dom de ter visões com alertas sobre fatos horríveis que estão para acontecer. Você teve alguma visão antes da coletiva de imprensa de Neferet?

– Não – Aphrodite pareceu surpresa com a pergunta de Thanatos. – Não tenho nenhuma visão há cerca de uma semana.

– Então o quanto você é boa, Profetisa? – as palavras dela foram duras e frias. Thanatos soou quase cruel.

O rosto de Aphrodite ficou realmente pálido e logo depois ficou rosa.

– Quem é você para me questionar? Você não é Nyx. Eu não respondo a você. Eu respondo a ela!

– Exatamente! – a expressão de Thanatos se relaxou. – Então responda a ela. Ouça-a. Observe os seus sinais. As suas visões se tornaram cada vez mais difíceis e dolorosas, não é?

Aphrodite assentiu com um movimento tenso e rápido.

– Talvez porque a nossa Deusa queira que você exercite o seu dom de outros modos. Você fez isso recentemente, diante do Conselho Supremo. Lembra?

– É claro que eu lembro. Foi como eu soube que as almas de Kalona e de Zoey tinham saído de seus corpos.

– Mas você não precisou de uma visão que dissesse isso a você.

– Não.

– Já cheguei ao ponto que queria – Thanatos afirmou. Então ela se virou para Stevie Rae. – Você é a Grande Sacerdotisa mais jovem que já conheci na vida, e eu já vivi bastante. Você é a primeira Grande Sacerdotisa dos vampiros vermelhos na história do nosso povo. Você tem uma afinidade poderosa com a terra.

– Siiiiim... – Stevie Rae prolongou a palavra, como que esperando pelo golpe final de Thanatos.

– A sua tarefa é praticar liderança. Você acata as decisões de Zoey com muita frequência. Você é uma Grande Sacerdotisa. Extraia força da terra e comece a agir como uma Grande Sacerdotisa – Thanatos não deu chance para Stevie Rae responder. O seu olhar penetrante e sombrio se voltou para Shaylin. – Se você tem a Visão Verdadeira, o seu dom é tão bom quanto você for. Não o desperdice com trivialidades e mesquinharias.

– É por isso que eu estou aqui – Shaylin falou rapidamente. – Quero aprender a usar o meu dom do jeito certo.

– Isso, jovem novata, é algo que você precisa desenvolver e ensinar a si mesma. A sua tarefa é analisar aqueles ao seu redor. Leve os resultados até a sua Grande Sacerdotisa. Stevie Rae vai usar os poderes do elemento dela, assim como o seu crescente poder de liderança, para guiar você.

– Mas eu não sei... – Stevie Rae começou, mas Thanatos a cortou.

– E você nunca saberá. Nada. Nada importante de fato. A menos que você assuma a responsabilidade de ser uma Grande Sacerdotisa. Aprenda a confiar em si mesma, para que os outros possam se sentir seguros em confiar em você.

Stevie Rae fechou a sua boca e assentiu, parecendo que ela tinha doze anos, exatamente o oposto de uma Grande Sacerdotisa. Mas eu não tive tempo de dizer nada para ela porque finalmente Thanatos voltou suas baterias contra mim.

– Use a sua pedra da vidência.

– Ahn?

– Ela a intimida – Thanatos continuou como se eu não tivesse dito nada. – A verdade é que o mundo deve mesmo intimidar você, todas vocês, neste momento. Mas o medo não é razão para fugir às suas responsabilidades. Está em suas mãos uma peça de magia antiga que responde a você. Use-a.

– Como? Para quê? – falei sem pensar.

– Uma pedra da vidência, um dom da Visão Verdadeira, uma Profetisa, uma Grande Sacerdotisa: todas essas coisas poderosas são inúteis a menos que todas vocês comecem a responder essas questões a si mesmas. Você disse que vocês não são crianças birrentas? Provem. Podem ir agora – ela virou as costas para nós e deu passos firmes em direção à sua mesa.

Minhas amigas e eu obviamente tivemos o mesmo impulso ao mesmo tempo. Como se fôssemos uma só, começamos a andar apressadas a caminho da porta de saída.

– Eu vou acender a pira de Dragon Lankford à meia-noite. Estejam presentes à cerimônia. Logo depois, preciso de vocês e do resto do seu círculo no lobby da escola. Eu convoquei a minha própria coletiva de imprensa.

As palavras dela nos atingiram e nos fizeram parar como se fossem um muro invisível. Nós nos viramos e olhamos embasbacadas para ela. Eu engoli em seco o nó na minha garganta e falei:

– Mas você disse que nós não podemos confrontar Neferet na comunidade dos humanos. Então, sobre o que vai ser a nossa coletiva de imprensa?

– Nós vamos continuar de boa vontade aquilo que Neferet começou apenas para gerar caos e conflitos. Ela abriu esta escola para empregados humanos. Nós vamos anunciar na coletiva que, apesar de estarmos tristes por Neferet ter saído do seu emprego na nossa escola, estamos felizes em abrir inscrições para mais ocupações para a comunidade na Morada da Noite. Nós vamos sorrir. Nós seremos afetuosos e abertos. James Stark estará presente com seu jeito agradável, atraente e inofensivo.

– Você vai fazer com que Neferet pareça nada mais do que uma empregada descontente? Brilhante! – Aphrodite comentou.

– E normal – eu observei.

– Algo que os humanos vão entender completamente – Shaylin disse.

– Ei, se vocês realmente querem parecer normais como os humanos, nós precisamos fazer algo tipo um feira de empregos aberta ao público – Stevie Rae sugeriu e todas nos voltamos para ela.

– Continue. Qual é a sua ideia, Grande Sacerdotisa? – Thanatos perguntou.

– Bem, a minha escola de ensino médio costumava ter uma feira de empregos para os formandos no fim do ano. Era como qualquer festa aberta ao público, com ponche ruim, salgadinhos e tudo mais. Mas empresas de Tulsa, de Oklahoma City e até de Dallas apareciam e recebiam inscrições e marcavam entrevistas com os formandos enquanto o resto dos estudantes só ficava por ali, desejando que chegasse a sua vez – Stevie Rae sorriu timidamente e encolheu os ombros. – Acho que pensei nisso porque a minha vez não chegou, já que eu fui Marcada e tal.

– De fato, é uma ideia interessante – Thanatos me chocou ao dizer isso. – Nós vamos mencionar a nossa disposição de abrir a escola para uma feira de empregos – ela pronunciou essas palavras como se elas fossem de uma língua estrangeira – durante a coletiva de imprensa mais tarde.

– Se você realmente quer uma festa aberta ao público aqui na escola, precisamos ter um bocado de gente aqui. Que tal nós convidarmos os Street Cats e fazermos um evento para levantar fundos para a adoção de gatos? Isso seria algo que Tulsa apoiaria – Stevie Rae acrescentou.

– E isso seria normal – Aphrodite falou. – Eventos beneficentes são coisas normais e atraem as pessoas com muita grana, e isso é uma coisa boa.

– Bem pensado – Thanatos concordou.

– Minha avó pode ajudar a coordenar isso com os Street Cats. Ela e a irmã Mary Angela, a freira diretora dos Street Cats, são amigas – eu sugeri.

Thanatos assentiu.

– Então eu vou ligar para Sylvia e perguntar se ela poderia coordenar o que nós chamaremos de uma noite aberta ao público com uma feira de empregos para Tulsa. A presença de sua avó, além das freiras, vai dar uma sensação de normalidade e de tranquilidade.

– Minha mãe pode assar uma tonelada de cookies de chocolate e vir também – Stevie Rae ofereceu.

– Então a convide. Eu tenho fé em vocês, assim como Nyx tem. Não nos desapontem. E agora vocês podem ir mesmo.

Nós saímos da sala de Thanatos falando sobre a coletiva de imprensa e o evento aberto ao público, e comentando como era bom termos um plano. Foi só mais tarde que me dei conta de que eu não havia dito nem uma única palavra sobre o caso Aurox/Heath...


10 Shaunee

Os guerreiros Filhos de Erebus estavam com ares soturnos, ocupados com o trabalho de amontoar madeira para construir a pira de Dragon. Shaunee tentou fazer o que podia para ajudá-los. Ela sabia dizer se a madeira ia queimar bem só de tocá-la, então indicou todas as toras e tábuas mais secas e orientou os guerreiros para colocar tudo de forma correta, a fim de que o fogo queimasse sem empecilhos e rapidamente.

Shaunee tentou encorajá-los. Ela disse que eles estavam fazendo um bom trabalho e que Dragon ficaria orgulhoso deles, mas aquilo pareceu deixá-los ainda mais calados e soturnos. Até Darius estava em silêncio e parecia quase um estranho. Foi só quando Aphrodite surgiu atirando o cabelo para o lado e falando com aquele seu jeito dominador e sedutor que as coisas começaram a melhorar.

– Ei, bonitão, você lembra do sermão que Dragon deu em você quando nós começamos a sair? – Aphrodite piscou para vários guerreiros que estavam por perto. – Aposto que Stephen, Conner e Westin se lembram, não é? Não foram vocês que tiveram que fazer um treinamento extra com Darius depois que Dragon descobriu que ele estava confraternizando com uma novata? – Aphrodite fez um tom de voz baixo que soou muito parecido o Mestre da Espada.

Os guerreiros até sorriram.

– Dragon nos fez dar um trato no seu garoto aqui por três dias seguidos – Conner lembrou.

Darius bufou.

– Cuidado com as suas palavras, Conner. Eu não sou um garoto há décadas.

Conner riu.

– Acho que era exatamente com isso que Dragon estava tendo problemas.

Aphrodite sorriu de modo sedutor e passou a mão pelo bíceps grosso de Darius.

– Ele queria que você ficasse esgotado para que não tivesse energia suficiente para confraternizar comigo.

– Seria preciso um exército de vampiros para isso – Darius afirmou.

Foi a vez de Stephen provocá-lo.

– Sério? Então por que Anastasia teve que intervir?

Aphrodite levantou suas sobrancelhas loiras.

– Intervir? Anastasia? Você não me contou isso, bonitão.

– Devo ter esquecido, já que eu estava muito ocupado confraternizando com você, minha bela.

– Hahaha! – Westin caçoou. – É impossível que qualquer um de nós tenha se esquecido de Anastasia, com os cabelos ao vento, repreendendo o nosso Mestre da Espada por perseguir o pobre e jovem Darius.

Shaunee não conseguiu deixar de rir junto com eles.

– Ela disse mesmo que Dragon estava perseguindo Darius? – a novata quis saber.

Conner, que era alto, loiro e quase tão ardente quanto o elemento de Shaunee, respondeu:

– Sim, ela disse exatamente isso. Ela até chamou Dragon de Bryan e o lembrou de que, se ela não tivesse confraternizado com um novato um século atrás, a vida dele seria muito menos interessante.

– Eu convivi com Dragon Lankford por cinquenta anos – Stephen falou. – Eu nunca o vi ser superado por nenhum outro guerreiro, mas Anastasia conseguia detê-lo com um simples olhar.

– Que bom que eles estão juntos agora – Darius afirmou.

– Ele ficou perdido sem ela – Westin comentou.

– Isso é algo que eu posso entender muito bem – Darius pegou a mão de Aphrodite, beijando-a gentilmente.

– Vocês realmente viram os dois se reencontrando?

– Sim – Darius, Aphrodite e Shaunee responderam juntos.

– Ele está feliz de novo – Shaunee disse.

– Ela morreu primeiro, mas esperou por ele – Aphrodite sorriu para Darius, mas Shaunee pôde ver lágrimas nos olhos dela.

– Ela teve uma morte de guerreira – Westin lembrou.

– Assim como Dragon – Darius concordou.

– Nós precisamos nos lembrar disso hoje à noite – Shaunee sugeriu. – Lembrar da alegria e do Juramento deles, e que eles ainda se amam.

– Amar para sempre – Darius falou docemente, tocando o rosto de Aphrodite.

– Amar para sempre – Aphrodite ecoou e depois levantou uma sobrancelha loira. – Se você não estiver cansado demais, é isso aí.

– Ah! Então Anastasia estava certa! Nós estamos perseguindo o pobre e jovem Darius! – Stephen e os outros guerreiros riram, e Darius começou a se defender excitadamente, enquanto Aphrodite o provocava.

Shaunee se afastou um pouco da pira em construção e do grupo que a cercava. Fogo, aqueça essa pequena fagulha de alegria que Aphrodite conseguiu plantar dentro deles. Ajude os guerreiros a se lembrarem de que Dragon e Anastasia estão juntos e felizes. Ela sentiu o calor do seu elemento passar rapidamente por ela e envolver o grupo, um calor invisível e quase indetectável para quem não tinha afinidade com o fogo. Mas aquilo ajudou. Ela havia ajudado. Shaunee realmente acreditava nisso.

Sentindo-se levemente melhor, ela saiu caminhando a esmo. Shaunee sabia que tinha que ir até o estábulo, mas isso não significava que ela estava com pressa de encarar a destruição que o seu elemento havia causado. Mas eu não o estava manejando, ela lembrou a si mesma. Mesmo assim, ela fez um caminho mais longo e sinuoso, na direção do pátio que tinha uma bela fonte. Dali ela iria pegar o caminho dos fundos, passando pelo estacionamento, que iria dar mais diretamente no ginásio do que no estábulo.

Shaunee escutou a água antes de ouvir a voz de Erin.

Ela não quis ficar espreitando nem se escondendo. Ela só se moveu em silêncio pelas sombras em volta do pátio porque não queria uma cena com Erin, não porque ela a estava espionando.

Então ela escutou a outra voz. No começo, Shaunee não reconheceu de quem era. Ele não estava falando alto o bastante. Ela só reconheceu a risadinha sedutora de Erin. Shaunee estava tentando decidir se ter curiosidade era a mesma coisa que bisbilhotar quando a voz dele ficou mais alta e ela percebeu que o alvo da risadinha sedutora de Erin era Dallas!

Sentindo uma dor de estômago, Shaunee se aproximou mais.

– Sim, é isso mesmo que estou dizendo. Não consigo tirar você da cabeça, garota. Você sabe o que a água e a eletricidade fazem quando se juntam, não sabe?

Shaunee ficou completamente imóvel, esperando que Erin o chamasse de otário e falasse para ele voltar correndo para a nojenta da Nicole, que era da mesma laia dele; em vez disso, ela sentiu uma dor no estômago quando ouviu Erin responder flertando com ele:

– Relâmpagos... É isso o que a eletricidade e a água fazem. Parece interessante.

– É interessante. Você é interessante. E quente. Você é como uma sauna, garota. Ou como um banho de vapor no qual eu adoraria ficar ensopado.

Shaunee teve que apertar os lábios para evitar dizer “eca” e chamar Dallas de otário ela mesma. Erin ainda tinha que fazer isso. De jeito nenhum ela ia querer nada com Dallas. Ele era um completo idiota. Ele odiava Stevie Rae e Zoey! Stevie Rae disse que ele tinha tentado matá-la! Erin só estava levantando a bola dele para depois detoná-lo e colocá-lo no seu devido lugar.

Shaunee esperou por isso. Nada. Ela não ouviu mais nada. Andando sem fazer barulho, Shaunee se aproximou ainda mais. Provavelmente, Erin tinha ido embora, depois de revirar os olhos e sair andando sem nem se dar ao trabalho de falar para Dallas sumir da frente dela.

Mas Shaunee estava errada. Totalmente errada.

Erin havia se encostado na fonte. A água a estava molhando inteira. Seu cabelo, suas roupas, seu corpo. Dallas a estava encarando como se ele estivesse morrendo de fome e ela fosse uma bisteca suculenta. Erin levantou os braços acima da cabeça, fazendo com que seus peitos marcassem a sua camiseta molhada, que era branca e agora estava totalmente transparente.

– Que tal isto aqui para um concurso de camiseta molhada? – ela perguntou com uma voz toda sexy, fazendo os seus peitos balançarem um pouco.

– Você ganha. É a coisa mais gostosa que eu já vi na vida, garota.

– Eu posso te mostrar algo mais gostoso – Erin disse. Com um movimento rápido, ela tirou a sua camiseta ensopada e desabotoou o seu sutiã de renda.

A respiração de Dallas estava tão ofegante que Shaunee podia até escutar. Ele lambeu os lábios.

– Você estava certa, garota. Isso é mais gostoso.

– E que tal isto? – Erin enganchou os dedões na cintura da sua minissaia xadrez e a tirou. Ela sorriu para Dallas, que ficou olhando para a minúscula tanga de renda que ela ainda estava usando.

– Que tal tirar todo o resto? – a voz de Dallas estava intensa, e ele se aproximou mais dela.

– Parece uma boa ideia. Eu gosto de não vestir nada além de água – Erin tirou a tanga. Agora tudo o que ela estava usando eram suas botas Christian Louboutin. Ela passou a mão com água por todo o seu corpo. – Quer se molhar comigo?

– Não é só isso que eu quero fazer com você – ele sugeriu. – Garota, eu vou abrir as portas de um outro mundo inteiro para você.

– Estou pronta para isso – ela falou de modo sedutor, ainda tocando o próprio corpo. – Porque estou cansada do mundo entediante em que estou vivendo.

– Relâmpagos, garota. Vamos fazer relâmpagos e algumas mudanças.

– Vamos lá! – Erin disse.

Dallas acabou com a distância que ainda havia entre eles. Os dois ficaram tão abraçados e tão concentrados um no outro que Shaunee não teve que se preocupar se eles iriam ouvi-la quando ela saiu correndo, totalmente enojada, com os olhos cheios de lágrimas.

Zoey

– Se vocês não se importam, eu vou até o centro de mídia. Damien acha que posso encontrar alguns livros antigos sobre a Visão Verdadeira na seção de livros de referência, se eu procurar bastante. Provavelmente ele é melhor em pesquisa do que eu, mas sou teimosa – Shaylin afirmou. – Se há algo a ser encontrado, eu vou encontrar.

– Sem problemas – eu falei.

Stevie Rae deu de ombros, dizendo:

– Por mim tudo bem.

Shaylin começou a ir embora, mas fez uma pausa.

– Ei, obrigada por me deixarem ir com vocês falar com Thanatos. E obrigada por ouvirem o que eu tinha a dizer lá. Bem, e me desculpem de novo por aquela coisa com Aphrodite mais cedo.

– Não é comigo que você tem que continuar se desculpando – eu disse.

– É, eu sei, mas acho que você é a única que vai escutar – Shaylin falou, olhando para a direção em que Aphrodite havia saído andando bruscamente.

– Aphrodite vai escutar. Só não muito bem – Stevie Rae opinou. – Você falou bem lá dentro, Shaylin. Gostei do que você disse sobre as cores das pessoas. Acho que você deve se concentrar em seguir o seu instinto sobre o que você vê.

– Hum – Kramisha bufou enquanto se aproximava apressada da gente. – Eu digo que o instinto pode te levar para uma tonelada de problemas.

Eu estava pensando “frase do ano” quando Stevie Rae perguntou:

– O que está rolando, Kramisha?

– São os novatos vermelhos de Dallas. Eles estão agindo como se quisessem ajudar a limpar o estábulo.

Stevie Rae franziu as sobrancelhas. Eu mordi os lábios. Kramisha cruzou os braços e ficou batendo o pé no chão.

– Ajudar é uma coisa ruim? – Shaylin falou em meio àquele silêncio desconfortável.

– O grupo de Dallas tem sido, bem... – eu hesitei, tentando formar uma frase sem o tipo de palavras que eu tentava (bastante) evitar.

Kramisha foi mais rápida do que eu.

– Eles são encrenca.

– Talvez eles estejam tentando mudar – Shaylin sugeriu.

– Eles são encrenca dissimulada – Kramisha acrescentou.

– Nós não confiamos neles – eu expliquei.

– E a gente tem um monte de razões para não confiar neles – Stevie Rae reforçou. – Mas eu tenho uma ideia. Thanatos disse que eu tenho que praticar liderança e Shaylin precisa praticar a coisa da Visão Verdadeira dela. Então vamos fazer as duas coisas – Stevie Rae endireitou as costas e a sua voz deixou de ser doce e do tipo garotinha e passou a ser a voz de uma mulher que soava mais confiante e bem mais velha. – Shaylin, você pode ir até o centro de mídia mais tarde. Agora você vai comigo para o estábulo. Quero que você olhe para as cores dos novatos vermelhos que estão lá e me diga quais deles são mais perigosos.

– Sim, senhora – Shaylin respondeu.

– Ahn, você não precisa me chamar de senhora – Stevie Rae falou rapidamente, soando como ela mesma de novo. – Só me deixar bancar a chefe já é o bastante.

– Você não faz o tipo “chefe mandona” – Kramisha observou.

– Bem, estou tentando fazer – Stevie Rae suspirou e olhou para mim.

Eu sorri para ela.

– Você pode mandar em mim se quiser.

Ela me deu um olhar de surpresa.

– Se alguma vez eu tentar fazer isso, você pode me chamar de salsicha e me falar para bater em mim mesma com pão e mostarda.

Dei risada e então falei:

– Bom, então, se vocês não se importam, eu preciso ficar um tempo sozinha. Quero pensar nessa coisa da pedra da vidência. Mas eu encontro com vocês no estábulo daqui a pouco. Se você virem Stark, digam que estou bem e que logo estarei lá.

– Combinado – Stevie Rae disse.

Observei as três se afastarem. Consegui ouvir Kramisha perguntar qual era a sua cor para Shaylin e, antes que a garota pudesse responder, ela já estava falando que a cor dela não podia ser laranja de jeito nenhum porque ela não gostava de laranja. Shaylin parecia confusa, mas interessada. Stevie Rae parecia pensativa e determinada, como se estivesse tentando refletir por fora a liderança em que ela estava trabalhando por dentro.

E eu? Imagino que, se você colocasse um espelho na minha direção, eu pareceria confusa e cansada e veria que o meu rímel estava empelotando e o meu cabelo estava ficando cheio de frizz.

Eu queria ir com as minhas amigas ajudar a arrumar o estábulo. Eu queria encontrar Stark e queria que ele segurasse a minha mão e ficasse rindo de mim por eu me preocupar demais e por procurar no Google sobre sintomas de doenças. Mais do que tudo, eu queria esquecer sobre aquela pedra da vidência idiota em volta do meu pescoço e me concentrar em algo que fizesse mais sentido, como novatos vermelhos detestáveis ou lição de casa. Mas eu sabia que Thanatos estava certa. Nós iríamos precisar de todos os nossos dons para ter chance de pelo menos manter as Trevas em xeque. Então, em vez de seguir minhas amigas, tomei um caminho diferente. Limpei a minha mente o máximo que eu podia e deixei que meus instintos me guiassem. Então, quando ficou óbvio aonde os meus pés estavam me levando, sussurrei:

– Espírito, por favor, venha para mim. Ajude-me a não ter tanto medo – o elemento com o qual eu ficava mais confortável suavizou o meu medo, então na hora em que eu estava diante do carvalho despedaçado foi como se as minhas emoções estivessem envoltas em um cobertor macio e quentinho.

Eu precisava daquele cobertor confortável. Aquele lugar me assustava. A professora Nolan tinha sido assassinada ali. Stevie Rae quase havia sido morta ali. Kalona surgira rasgando a terra ali. Jack, o pobre e doce Jack, morrera ali.

O meu instinto tinha me levado até lá. E o pior de tudo era que a minha pedra da vidência começou a irradiar calor.

É, como Kramisha disse, seguir o seu instinto pode causar uma tonelada de problemas, eu pensei. Suspirei e admiti a verdade que a minha intuição havia seguido: se havia magia antiga na Morada da Noite, aquele era um lugar excelente para ela se esconder. Sgiach me contara que a magia antiga era poderosa. Ela também era imprevisível e perigosa. Eu me lembrei dela explicando que o modo como a magia antiga se manifestava tinha muito a ver com a Sacerdotisa que a invocava.

Então, o que aquilo significava para mim? Que tipo de Sacerdotisa eu estava me tornando?

Suspirei. Uma porcaria de Sacerdotisa confusa que não tinha dormido o suficiente.

Uma com potencial – o pensamento vagou pela minha mente.

Uma que não sabe o bastante, contra-argumentei mentalmente.

Uma que precisa acreditar em si mesma, o vento sussurrou para mim.

Uma que precisa parar de fazer besteira, minha mente insistiu.

Uma que precisa acreditar na sua Deusa.

E aquilo parou com a minha batalha mental.

– Eu acredito de verdade em você, Nyx. Sempre vou acreditar – decididamente, tirei a pedra da vidência quente que estava embaixo da minha camiseta, respirei fundo e a levantei, olhando através do pequeno buraco, tipo aquele furo de pastilhas Life Savers, para o carvalho despedaçado.

Por um segundo, nada aconteceu. Franzi os olhos, e o carvalho continuou sendo apenas uma velha árvore quebrada. Comecei a relaxar e, como de costume, foi então que o caos começou.

Do centro do tronco partido emergiu um redemoinho terrível e feio de sombras rodopiantes. Dentro daquele turbilhão eu vi criaturas horríveis com os corpos retorcidos, cobertos com uma pele manchada, como se estivessem apodrecendo de doenças nojentas. Os olhos deles eram cavidades profundas. As suas bocas eram costuradas. Eu podia sentir o cheiro deles. Era como o fedor de animais atropelados misturado ao cheiro de privada entupida. Eu tive ânsia e devo ter feito barulho de vômito, pois o grupo voltou seus rostos cegos para mim. Os seus dedos longos e esqueléticos se estenderam na minha direção.

– Não! Parem! – gritei. O conforto do espírito tinha se quebrado. Eu estava paralisada de medo.

E então, bem do meio do redemoinho, brilhou uma luz bonita, com a cor da lua cheia, reduzindo aquelas criaturas horrendas a nada e fazendo com que eu caísse sobre o meu traseiro. Soltei a pedra da vidência, cortando a minha ligação com a magia antiga. Num piscar de olhos, enquanto eu arfava, a árvore se tornou a árvore de novo. Velha e assustadora, mas mundana e quebrada.

Sem me importar com Thanatos ou ordens da Morte, levantei cambaleante e corri feito louca.

– Eu não sou louca. É a minha vida que é louca. Eu não sou louca. É a minha vida que é louca... – entre suspiros ofegantes, eu repetia as palavras para mim mesma como um mantra, sem parar, tentando voltar ao meu estado normal, ao meu centro, ou pelo menos a algum estado de calma, mas o meu coração estava batendo tão alto que eu podia ouvi-lo e não conseguia controlar a respiração. Ataque do coração, pensei. Esse nível de loucura é demais para mim e estou tendo um ataque do coração.

Foi então que percebi que eu não conseguia controlar a respiração e o meu coração estava batendo loucamente porque eu ainda estava correndo, e mãos fortes e familiares me agarraram, fazendo com que eu parasse abruptamente. Como uma garotinha, desabei em cima de Stark, tremendo e batendo os dentes.

– Zoey! Você está ferida? Quem está atrás de você? – Stark me manteve grudada nele, enquanto ele me virava para olhar a escuridão atrás de mim. Eu o abracei e senti que ele estava carregando seu arco e seu estojo de flechas sobre o ombro. Ele irradiava aptidão e presteza. Mesmo através do meu pânico, a presença dele me acalmou. Eu engoli o ar, balançando a cabeça.

– Não, eu estou bem. Estou bem.

Ele me segurou pelo ombro, à distância do seu braço esticado, olhando meu corpo de cima a baixo, como se estivesse procurando por ferimentos.

– O que aconteceu? Por que você estava apavorada, correndo feito uma louca?

Franzi a testa para ele.

– Eu não sou uma louca.

– Bem, você estava correndo como se fosse. E aqui dentro – ele pressionou um dedo contra o meu peito, sobre o meu coração que se acalmava – você estava se sentindo como se tivesse levado uma pancada.

– Magia antiga.

Ele arregalou os olhos.

– O touro?

– Não, não, nada disso. Eu olhei através da pedra da vidência para a árvore. Você sabe, aquela árvore, perto do muro leste.

– E por que diabos você faria isso?

– Porque Thanatos me disse que eu precisava praticar com a maldita pedra da vidência, para o caso de ela poder ser usada de algum modo na luta contra Neferet.

– Então você viu algo que veio atrás de você?

– Bem, não. Sim. Mais ou menos. Eu vi umas coisas assustadoras dentro de algo que parecia um tornado girando para cima, saindo do meio da árvore. Stark, eles eram a coisa mais nojenta que já vi na vida. E eles tinham um cheiro ruim. Muito, muito ruim. Na verdade, eu quase vomitei por causa do fedor. Tive uma ânsia de vômito, e foi quando repararam em mim, mas antes que pudessem fazer qualquer coisa uma luz brilhante acabou com eles – fiz uma pausa, tentando pensar em meio ao meu pânico. – Na verdade, a luz salvadora era tipo aquela luz de fada da Sookie. Você acha que existe alguma chance de eu ser uma fada?

– Não, Z. Foco. True Blood é ficção. Isto aqui é o mundo real. O que aconteceu depois dessa luz?

– Não sei. Eu corri – olhei em volta de nós e percebi que eu havia corrido todo o caminho pelo lado de dentro do muro e que eu estava quase no estábulo. – Eu realmente corri bastante.

– E?

– E nada. Exceto que você me agarrou. Deusa, eu achei que estava tendo um ataque do coração.

– Então você ficou assustada. É só isso?

Franzi a testa para ele de novo. A voz dele era gentil, mas a sua expressão estava tensa, como se ele estivesse tentando decidir se me sacudia ou me beijava.

– Bem – eu disse devagar. – Sim, mas eu fiquei realmente assustada.

As mãos dele, que estavam segurando os meus ombros, me deram um enorme e apertado abraço de urso. Senti o corpo dele relaxar. Ele soltou um longo suspiro que terminou com uma risadinha.

– Você me assustou pra caramba, Z.

– Desculpe – eu murmurei contra o peito dele, envolvendo-o com os meus braços e apertando-o também. – Obrigada por me encontrar e por estar totalmente pronto para me salvar.

– Você não tem por que se desculpar. Eu sou o seu guerreiro, o seu Guardião. É o meu trabalho salvar você. Apesar de você ser muito boa em se salvar sozinha.

Eu me inclinei para trás para poder olhar nos seus olhos.

– Eu sou um trabalho?

Ele deu aquele seu meio sorriso metidinho.

– De tempo integral. Totalmente. E sem benefícios nem folgas.

– Sério?

– Ok, não – o sorriso dele se alargou. – Eu me lembro de ter tirado uns dias de repouso quando uma flecha me queimou e mais alguns dias quando um escocês louco me retalhou. Então, eu retiro o que disse. Eu tenho alguns benefícios. Só que são bem poucos.

– Você está demitido! – tive vontade de dar um tapa em Stark, mas eu não queria tirar os meus braços dos ombros dele.

– Você não pode me demitir. Assinei um contrato vitalício – o sorriso de Stark despareceu dos seus lábios, mas continuou nos seus olhos. – Você é minha Sacerdotisa, minha rainha, mo bann ri. Eu nunca vou deixá-la. Sempre vou protegê-la. Eu amo você, Zoey Redbird – ele se inclinou e me beijou com tanta ternura que eu senti a verdade do seu compromisso no fundo da minha alma.

Quando os seus lábios finalmente deixaram os meus, levantei os olhos para ele.

– Eu também amo você. E você sabe que não precisa ter ciúmes de um cara morto, certo?

Ele tocou o meu rosto.

– Certo. Desculpe pela noite passada.

– Tudo bem. E, ahn, por falar nisso... Há algo que você precisa saber.

– O quê?

Respirei fundo e falei de uma vez:

– Na noite passada, no final do ritual, eu olhei através da pedra da vidência para Aurox e vi Heath. Foi por isso que eu não deixei que você e Darius o ferissem.

Senti a tensão no corpo de Stark disparar para o nível “Perigo! Alerta Vermelho!”.

– Foi por isso que você estava chamando por Heath durante o sono na noite passada? – ele soou mais magoado do que irritado.

– Não. Sim. Eu não sei! Eu falei a verdade. Não lembro com o que eu estava sonhando, mas faz sentido que Heath estivesse na minha mente depois de eu tê-lo visto quando olhei para Aurox.

– Aquela coisa feito touro não é Heath. Como você pode pensar isso?

– Não é que eu esteja pensando isso. É o que eu vi.

– Zoey, olha só, tem que haver uma explicação para o que você viu – ele deu um passo para trás. Meus braços se soltaram do seu ombro.

– É por isso que Thanatos quer que eu pratique mais essa coisa de olhar através da pedra da vidência, para que eu possa descobrir como isso funciona – eu me senti com frio e sozinha sem os braços dele em volta de mim. – Stark, eu sinto muito. Eu não quis ver Heath em Aurox. Eu não quero ver nem dizer nem fazer nada que machuque você. Nunca – eu estava piscando com força, tentando evitar explodir em lágrimas.

Stark passou a mão pelos seus cabelos.

– Z., por favor, não chore.

– Eu não estou chorando – eu disse, e então dei um pequeno soluço e enxuguei uma lágrima que de algum modo tinha escapado do meu olho.

Stark enfiou a mão no bolso da sua calça jeans e pegou um lenço de papel amassado. Ele se aproximou mais de mim de novo e enxugou a segunda lágrima que estava seguindo a primeira lágrima fugitiva. Então ele me beijou docemente e me entregou o lenço, puxando-me de volta para os seus braços.

– Não se preocupe, Z. Heath e eu ficamos em paz no Mundo do Além. Eu ficaria feliz em vê-lo de novo.

– Sério? – eu tive que me afastar um pouco do seu abraço para assoar meu nariz.

– Bem, sim. Feliz por vê-lo de novo, mas não tão feliz por você vê-lo de novo – a sinceridade dele arrancou um sorriso de nós dois. – E eu sei que você não me magoaria de propósito. Mas, Z., aquela coisa tipo touro não é Heath.

– Stark, eu soube que Aurox tinha alguma coisa a ver com magia antiga desde a primeira vez em que o vi. Ele fez com que eu me sentisse completamente estranha – eu odiava contar isso a ele, mas Stark merecia nada menos do que honestidade de minha parte.

– É claro que ele fez com que você se sentisse estranha. Ele é uma criatura das Trevas! E, sim, ele é magia antiga. Ele foi criado pelo tipo mais horrível dessa merda quando Neferet matou a sua mãe como sacrifício. Eu ficaria preocupado se ele não fizesse você se sentir estranha.

Soltei um longo suspiro.

– Bem, acho que isso realmente faz sentido.

– Sim, e aposto que, se a gente trabalhar junto, nós vamos descobrir por que a pedra mostrou Heath a você na noite passada – ele disse e eu apenas mordi o lábio. Então ele continuou, como se estivesse raciocinando em voz alta. – Pense nisso, Z. O que mais você viu através da pedra?

– Bem, em Skye eu vi aqueles duendes antigos, os elementais.

– Eles eram parecidos com as coisas que você viu hoje?

Encolhi os ombros.

– Não, de jeito nenhum. Os elementais eram sobrenaturais, misteriosos, estranhos, mas no bom sentido. O que eu vi hoje foi grotesco e assustador.

– Ok, exceto por agora na árvore e pela noite passada no ritual, a pedra da vidência mostrou a você mais alguma coisa desde que nós voltamos da Itália?

Eu encontrei o olhar dele.

– Sim. Você.


11 Zoey

– Eu? Z., o que você disse não faz o menor sentido – Stark falou.

– Eu sei, eu sei. Desculpe. É que eu me senti meio como se estivesse espionando você quando fiz isso porque você estava dormindo, e eu só fiz isso porque foi na época em que você estava tendo problemas para dormir, e na verdade foi mais uma coisa acidental, então eu nunca disse nada para você, e agora parece como se eu tivesse inventado tudo isso – terminei apressadamente.

– Zoey, eu posso ouvir as suas emoções. Isso é muito mais “espionagem” do que você olhar para mim através de uma pedra enquanto estou dormindo. Além do mais, você está certa. Meu sono realmente tem aumentado. Eu não a culpo por dar uma conferida em mim com a pedra. Apenas me conte o que você viu.

– Eu vi uma sombra em cima de você. Eu me lembro de pensar que parecia um guerreiro fantasma. Você abriu a sua mão e a espada do Guardião apareceu. Então a sombra-fantasma a segurou e ela se transformou em uma lança. Achei que ela estava ensanguentada. Aquilo me assustou, então chamei o espírito e ele afugentou aquela coisa. Você acordou e nós, ahn... – senti meu rosto esquentar. – Bem, nós fizemos amor e eu me esqueci disso.

– Z., gosto de pensar que eu sou bom de cama e tal, mas, mesmo assim, como você pode esquecer de ter visto um cara-fantasma com uma lança pairando em cima de mim?

– É sério, Stark. Logo depois disso começou o que Stevie Rae chamaria de um fuzuê danado aqui na Morada da Noite. Eu estava ocupada – cruzei os braços e olhei intensamente para ele. – Espere aí, eu não me esqueci totalmente disso. Eu contei para Lenobia sobre o cara da sombra.

– Ótimo, então uma professora sabe, mas eu não sabia.

– Agora você sabe.

– Bom, e o que Lenobia falou sobre isso?

– Basicamente, ela me disse para manter os meus olhos bem abertos aqui no mundo real em vez de ficar olhando embasbacada através da pedra, que foi o que eu fiz até a noite passada quando eu vi Heath – falei.

– Olhe para mim através da pedra de novo.

– Agora?

– Agora.

– Ok – levantei a pedra da vidência, respirei fundo e olhei através dela para Stark.

– E então? Que tal eu estou?

– Mal-humorado.

– E?

– Irritante.

– Nada mais?

– Talvez um pouco fofo. Mas apenas talvez – coloquei a pedra de volta embaixo da minha camiseta. – Simplesmente apenas você. Não achei mesmo que eu fosse ver nada. A pedra não estava quente.

– Ela fica quente?

– Sim, às vezes – mordi o lábio e pensei sobre isso. – Na verdade, foi por isso que eu olhei através dela para você da primeira vez. Ela tinha esquentado.

– A pedra estava quente quando você olhou através dela para Aurox? – ele perguntou.

– Não, mas eu sabia que tinha que olhar através dela. Foi como se eu me sentisse compelida a fazer isso – respondi. – E ela já tinha esquentado antes, quando Aurox estava por perto.

– Maldita magia antiga. Isso é um pé no saco – ele reclamou. – Podia pelo menos existir um manual com as regras da pedra descritas em algum lugar, mas não.

– Eu posso ligar para Sgiach. Quero dizer, ela me deu a pedra. Ela lida com magia antiga. Talvez ela possa me dar algumas orientações.

Ele bufou.

– Você não pediu isso a ela em Skye?

– Sim – eu disse.

– Se eu me lembro bem, ela não deu nenhuma resposta concreta.

– Você está certo. Ela falou inclusive que achava que a única magia antiga que ainda existia neste mundo estava em Skye.

– Ela estava errada – Stark afirmou.

– Sim, definitivamente.

– Quer saber o que eu acho?

Stark chegou mais perto de novo e colocou o seu braço em volta de mim. Encostei minha cabeça no ombro dele, deslizei o meu braço ao redor da sua cintura e falei:

– Que eu sou louca?

Ele abriu um sorriso e beijou minha testa.

– Você não é só louca. Você é muito louca. Caramba, Z., você é totalmente louca. Mas eu gosto de um pouco de loucura.

– Agora você pareceu a Stevie Rae – nós sorrimos um para o outro, mais relaxados, apoiados nas bases do nosso relacionamento: o nosso compromisso e a nossa crença um no outro. – Então, o que você ia dizer? O que você acha disso tudo?

– Eu acho que estou cansado de decidir o que fazer por causa do que os outros dizem. Especialmente adultos que nos entregam enigmas ou que nos largam no meio de uma tempestade de merda sem nos dar nenhuma ajuda de verdade – ele disse.

– Sim, eu entendo isso. Eu me senti assim quando Neferet ficou louca e eu era a única que sabia disso.

– Ok, então vamos decifrar essa coisa de magia antiga por nós mesmos. Z., você tem afinidade com todos os cinco elementos. Ninguém consegue nem se lembrar da última vez em que isso aconteceu com outra pessoa. Você é um tipo diferente de novata, um tipo diferente de Grande Sacerdotisa. Você é uma jovem rainha guerreira, e eu sou o seu Guardião. Juntos, não há nada que nós não possamos enfrentar – o seu sorriso metidinho estava de volta. – Nós combatemos no Mundo do Além e vencemos.

– É, exceto pela parte em que você morreu e tal – eu o lembrei.

– Só um pequeno detalhe. No fim deu tudo certo.

Eu o abracei, pressionando o meu corpo contra o seu dorso forte.

– Deu tudo mais do que certo.

Ele me beijou e eu extraí força do seu gosto, do seu toque e do seu amor. Talvez Stark estivesse certo. Talvez não existisse nada que nós não pudéssemos enfrentar. Suspirei de alegria e me aconcheguei no peito dele.

– Vamos para o estábulo – Stark indicou com o queixo o prédio comprido que não estava longe de nós.

– Sim, acho que devemos ir. Aposto que Erin está lá. Até daqui eu posso ver que parece tudo encharcado.

– Na verdade, já faz um tempo que não vejo Erin – Stark encolheu os ombros. – Talvez porque o estábulo esteja realmente muito melhor do que você imagina. A maior parte dos danos foi a fumaça. Só o que realmente queimou foram uma baia e um fardo de feno e forragem.

– Persephone está bem, certo? – Entrelaçando os meus dedos aos dele, nós começamos a caminhar devagar em direção ao estábulo, deixando os nossos braços e quadris roçarem um contra o outro.

– Ela está bem. Todos os cavalos estão bem. Bem, menos Bonnie. Ela está muito nervosa. Lenobia a colocou junto com Mujaji para acalmá-la. Aparentemente as duas se dão bem. O que me faz lembrar que vários novatos disseram que viram Lenobia beijando Travis antes de os paramédicos o levarem embora – Stark contou.

Meus olhos se arregalaram.

– Sério? Mal posso esperar até Aphrodite e Stevie Rae saberem disso!

Stark riu.

– Stevie Rae já soube por Kramisha, que está contando para todo mundo – ele me cutucou com o seu ombro. – Todo esse tempo que você passou na árvore fez com que você perdesse uma boa fofoca.

Levantei os olhos para ele, confusa.

– Todo esse tempo? Eu só fiquei lá por tipo um minuto.

Stark parou.

– Que horas você acha que são agora?

Dei de ombros.

– Sei lá. Eu teria que olhar no meu telefone, mas nós fomos até a sala de Thanatos às sete e meia. Ficamos lá provavelmente meia hora ou menos, então agora deve ser no máximo oito e meia.

– Zoey, são onze e meia. Nós só temos tempo para encontrar todo mundo no estábulo e ir até a pira funerária de Dragon.

Fiquei gelada por dentro.

– Stark, eu perdi mais de três horas!

– Sim, você perdeu, e eu não gosto nada disso. Prometa que você não vai olhar através dessa maldita pedra de novo, a menos que eu esteja com você.

Eu estava apavorada o bastante para não discutir com ele.

– Prometo. Dou minha palavra a você. Eu não vou olhar através dessa coisa a não ser que eu esteja com você.

Os ombros dele relaxaram e ele me deu um beijo rápido.

– Obrigado, Z. Algo que pode roubar tempo de você não é nada bom – ele deu ênfase especial às duas últimas palavras. – Eu sei que Sgiach disse que a magia antiga pode ser boa ou má, mas não faz diferença se ela chega sem avisar.

– Eu sei. Eu sei – a gente tinha começado a andar de novo, mas eu continuei segurando firme a mão dele. – Não me espanta que eu tenha me sentido como se fosse ter um ataque do coração. Eu fiquei parada ali, encarando aquelas coisas nojentas e fedidas por horas – encolhi os ombros.

– Está tudo bem. A gente vai decifrar essa magia antiga toda. Eu não vou deixar que nada aconteça com você.

Stark apertou minha mão e eu apertei a dele de volta. Eu queria acreditar nele. Eu realmente acreditava nele, na sua força e no seu amor. Era com o outro lado que eu estava preocupada. O lado desconhecido em que as Trevas estavam firmemente plantadas, que continuava espreitando e derrubando as pessoas que eu amava.

Fiquei pensando em como eu não queria perder mais ninguém quando aquela pedra da vidência idiota começou a esquentar. Eu parei, fazendo com que Stark parasse abruptamente comigo também. Pressionei a minha mão sobre o ponto quente no meu peito.

– O que foi? – ele perguntou.

– Está esquentando.

– Por quê?

– Stark, eu não tenho ideia. Você deveria me ajudar a decifrar isso, lembra?

– Ok, sim. Certo. Nós podemos fazer isso – ele começou a olhar em volta. – Então, vamos decifrar isso.

– Como?

– Bom, eu estou pensando – ele disse.

Suspirei e tentei pensar também. A gente havia parado embaixo de uma das grandes árvores bem próximas ao lado leste do estábulo. Levantei os olhos rapidamente, preocupada com coisas sem olhos e bocas costuradas à espreita. Mas não havia nada acima de nós. Na verdade, tudo estava em paz ao nosso redor. Tudo o que eu conseguia pensar era que não havia nada para pensar. Algumas vozes chegavam até nós do estábulo e eu podia ouvir equipamentos e outras coisas em funcionamento, como tratores e máquinas sendo usados para retirar o entulho e limpar os destroços. Escutei o som de outro motor, vindo de algum lugar atrás de nós e se aproximando.

– Que estranho – Stark comentou, olhando por sobre o meu ombro. – Táxis não costumam vir aqui.

Segui o olhar dele e vi o carro velho e marrom, com a palavra “TÁXI” escrita em letras pretas na sua lateral. Stark estava certo. Era superestranho ver um táxi na Morada da Noite. Que inferno, Tulsa não era exatamente conhecida por seu maravilhoso serviço de táxis. Dei de ombros mentalmente – o bonde do Centro da cidade era mais legal mesmo.

Então Lenobia saiu pela porta lateral do estábulo e praticamente correu até o carro. Ela abriu a porta traseira e se abaixou para ajudar o cowboy alto e enfaixado a descer do veículo. O táxi foi embora. Travis e Lenobia apenas ficaram parados ali, olhando um para o outro.

Minha pedra da vidência estava tão quente que parecia que ia queimar a minha camiseta e abrir um buraco nela. Eu a tirei e a segurei longe da minha pele. Mas não disse nada. Stark e eu estávamos muito ocupados olhando Travis e Lenobia. Eles não estavam muito perto de nós, mas mesmo assim parecia uma invasão de privacidade ficar ali olhando para eles ­– apesar de a gente continuar ali, olhando embasbacados para os dois.

Então caiu a ficha. Cutuquei o braço de Stark e falei em voz baixa:

– A pedra ficou superquente assim que Travis saiu do táxi.

Stark desviou os olhos de Travis e Lenobia, voltou-se para a pedra e depois para mim. Ele colocou uma mão firme no meu ombro e disse:

– Vá em frente. Olhe através da pedra para ele. Eu estou aqui com você. Não vou deixar que nada aconteça com você. Se alguma coisa tentar sugar o seu tempo, eu vou detê-la.

Eu assenti e, como se arrancasse um band-aid com um movimento rápido, levantei a pedra da vidência, enquadrando Travis e Lenobia dentro do seu círculo.

No começo, foi como tinha acontecido na árvore: a minha visão dos dois permaneceu exatamente a mesma. Observei Lenobia passando as mãos nervosamente sobre as mãos enfaixadas de Travis. Elas pareciam grandes luvas brancas, e eu reparei que a gaze chegava até o antebraço dele. Mesmo de onde estávamos, o rosto dele estava anormalmente vermelho e brilhante, como se ele tivesse se queimado muito no sol e tivesse passado um gel pós-sol. Mas não parecia que ele estava sentindo dor. Ele estava sorrindo. Muito. Para Lenobia. Eu estava quase largando a pedra e me preparando para dizer a Stark que eu era de fato totalmente louca, quando Travis se inclinou e beijou Lenobia.

Então tudo mudou. Houve um brilho tão forte que me fez piscar e, quando minha visão clareou, Travis tinha desaparecido. No lugar dele estava um cara negro, jovem e realmente bonito. Ele tinha cabelo comprido, que estava puxado para trás em um rabo de cavalo baixo, e ombros tão largos que parecia um linebacker. Ele estava beijando Lenobia como se fosse o último beijo dele no mundo. E ela o estava beijando de volta, só que era uma Lenobia diferente. Ela parecia jovem, como se tivesse apenas uns dezesseis anos. Ela o envolveu com os seus braços como se nunca mais fosse soltá-lo. Em toda a volta deles, o ar ondulava e tremeluzia, como se eu os estivesse observando por trás de uma panela efervescente. Só que, em vez do vapor subindo, eu juro que havia duendes de felicidade azul-turquesa esvoaçando ao redor deles. A felicidade cresceu dentro de mim e começou a borbulhar, como se a panela fosse a minha cabeça e a água, as minhas emoções. O chão sumiu de debaixo dos meus pés. Eu estava flutuando em alegria, amor e bolhas azuis.

Então minha cabeça ficou realmente zonza e o meu estômago, totalmente rebelde.

– Zoey! Chega! Abaixe a pedra agora!

Percebi que Stark estava gritando comigo e puxando a pedra da vidência. Senti a terra embaixo dos meus pés de novo. As bolhas azuis evaporaram e a alegria se foi, deixando-me enjoada, exausta e supertrêmula. Soltei a pedra da vidência a tempo de me abaixar e vomitar ao lado da árvore.

– Você está bem. Estou aqui com você, Z. Está tudo bem – Stark estava segurando o meu cabelo para trás enquanto eu continuava a vomitar e a botar minhas tripas para fora.

– Stark? Zoey? – Lenobia estava vindo na nossa direção, soando ofegante e preocupada. Eu ouvi Travis logo atrás dela, perguntando o que havia de errado. Mas eu não consegui responder. Eu estava muito ocupada vomitando. – Zoey! Ah, Deusa, não! – a preocupação de Lenobia disparou quando ela percebeu que eu estava vomitando.

– Ela não está rejeitando a Transformação. Ela está bem – Stark a tranquilizou enquanto eu pegava outro lenço de papel que ele tinha me oferecido e enxugava a boca. Quando finalmente parei de vomitar, eu me encostei na árvore, envergonhada e desconfortável. Eu realmente detestava vomitar.

– Então o que aconteceu? Por que você está enjoada?

Com Stark de um lado e Lenobia de outro, eles me guiaram até um banco de ferro forjado que não estava muito longe da árvore grande (mas longe o bastante para que ninguém sentisse o cheiro do meu vômito, eca).

– Vocês querem que eu chame alguém? – Travis perguntou.

– Não – respondi rapidamente. – Eu estou bem. Vou ficar melhor agora que estou sentada – olhei para Stark com ar de interrogação.

Ele assentiu.

– Seja o que for que você tenha visto, conte para ela. Nós confiamos nela.

Eu me voltei para Lenobia.

– E você confia em Travis?

– Com a minha vida – ela não hesitou.

O cowboy grandão sorriu e se aproximou mais dela. Os ombros deles se tocaram.

– Ok, o que aconteceu é que a minha pedra da vidência começou a esquentar. Quando Travis saiu do carro, ela ficou realmente quente. Stark estava aqui, então nós decidimos que eu deveria olhar através dela, bem, para vocês, e ver se isso poderia me ajudar a começar a entender o que ela me mostra. Então eu olhei através dela para vocês dois.

– Pedra da vidência? – Travis perguntou. Ele não soou nem um pouco assustado, apenas curioso.

– É um amuleto de magia antiga dado a Zoey por uma rainha vampira ancestral – Lenobia explicou. – E o que você viu?

– Bem, nada demais até que vocês dois se beijaram – eu sorri encabulada. – Desculpe por ficar olhando vocês se beijarem.

Travis sorriu e colocou um braço enfaixado em volta do ombro de Lenobia.

– No que depender de mim, mocinha, você vai me ver beijando esta bela garota aqui muitas vezes.

Esperei que Lenobia o fuzilasse com o seu olhar mortal. Em vez disso, ela levantou os olhos com adoração para ele, colocou a mão sobre o peito dele em cima do coração e encostou a cabeça cuidadosamente sobre o seu ombro. Então ela repetiu:

– O que você viu enquanto estávamos nos beijando?

– Travis se transformou em um cara negro grandão e você virou uma versão mais jovem de si mesma. E ao redor de vocês havia umas coisinhas borbulhantes, felizes e azuis. Tenho certeza de que eram duendes de algum tipo – arregalei os olhos. – Na verdade, agora que estou pensando nisso, aquelas bolhas me lembram o mar. Hum. Estranho. Enfim, fiquei totalmente capturada pela cena, como se eu tivesse saído do chão e estivesse em uma bolha azul e feliz do oceano. Desculpe. Eu sei que isso parece loucura – prendi a respiração, esperando Lenobia cair na risada e Travis começar a zombar de mim.

Mas eles também não fizeram isso. Em vez disso, Lenobia começou a chorar. Eu quero dizer chorar para valer. Ela caiu naquele choro convulsivo e cheio de catarro em que eu sou especialista. Travis apenas a abraçou mais forte. Ele abaixou os olhos para Lenobia como se ela fosse um milagre personificado.

– Eu já conheci você antes. É por isso que, com você, eu me sinto como se estivesse em casa.

Lenobia assentiu. Então, em meio às suas lágrimas, ela contou:

– Travis é o meu único companheiro humano, meu único amor, que voltou para mim depois de duzentos e vinte e quatro anos. Eu jurei nunca amar ninguém depois dele e não amei. Nós nos conhecemos e nos apaixonamos no mar, no navio que nos levou da França para Nova Orleans.

– Então a pedra da vidência me mostrou a verdade?

– Sim, Zoey. Com certeza absoluta – Lenobia disse antes de afundar o rosto no peito de Travis e chorar, enquanto ele a abraçava, deixando para trás dois séculos de espera, saudade e dor.

Eu me levantei e peguei a mão de Stark de novo, puxando-o para longe para que os dois pudessem ficar sozinhos. Enquanto entrávamos no estábulo, ele disse:

– Isso não significa que Aurox é Heath que voltou para você. Você sabe disso, certo?

Stevie Rae me salvou ao chegar apressada, falando efusivamente:

– Aiminhadeusa! Por onde você andou? Mal posso esperar para contar a você sobre Lenobia e Travis!

– Já vi esse filme antes – Stark falou. – Onde estão Darius e Aphrodite?

– Eles já estão na frente do Templo de Nyx, na pira funerária – Stevie Rae respondeu. – Nós vamos encontrar com eles já, já.

– Vou procurar Erin, Shaunee e Damien. A gente tem que ir.

– O que há com ele? – Stevie Rae perguntou, olhando Stark se afastar dando passos firmes.

– Heath pode estar realmente dentro de Aurox.

Stevie Rae ecoou exatamente meus pensamentos, dizendo:

– Ah, que inferno!


12 Kalona

Estar do lado da Luz não era tão interessante quanto ele se lembrava. Verdade seja dita, Kalona estava entediado. Sim, Kalona entendia por que Thanatos havia dito a ele para ficar em segundo plano e não chamar atenção para si mesmo até depois do funeral de Dragon. Era nessa hora que ela ia anunciar para a escola que ele era o seu novo guerreiro e que ele ia assumir o posto de Mestre da Espada e líder dos Filhos de Erebus da Morada da Noite de Tulsa. Até esse momento, a presença dele poderia ser algo confuso, se não insultuoso aos olhos dos outros guerreiros.

O problema é que Kalona nunca havia se preocupado por parecer insultuoso. Ele era um imortal poderoso. Por que ele deveria se importar com os sentimentos irrelevantes dos outros?

Porque aqueles que eu julgo mais irrelevantes às vezes me surpreendem: Heath, Stark, Dragon, Aurox, Rephaim. O último nome da sua lista mental o alarmou. Rephaim já pareceu sem importância para ele um dia, mas ele estava errado. Kalona tinha percebido que ele amava e precisava do seu filho.

Em que mais ele havia errado?

Provavelmente em um monte de coisas.

Esse pensamento o deixou deprimido.

Ele andou de um lado para o outro pelo lado mais escuro e cheio de sombras do Templo de Nyx. Ali ele estava perto o bastante da pira de Dragon para ouvir quando Thanatos o chamasse, mas ao mesmo tempo estava fora do campo de visão.

O fato de alguém dizer a ele o que deveria fazer o irritava. Isso sempre o irritara.

E havia aquela novata que tinha afinidade com o fogo, Shaunee. Ela parecia ter a habilidade de incitá-lo, de fazê-lo pensar em coisas em que ele não estava acostumado a perder tempo pensando.

Ela já havia feito isso antes. Ele havia tido a intenção de manipulá-la, para conseguir informações sobre Rephaim e a Vermelha. Mas o que havia acontecido era que ela o tinha presenteado com algo ridiculamente mundano e simples: um telefone celular. Aquele pequeno presente tinha salvado a vida do seu filho.

Agora ela o fizera pensar em todos aqueles éons que ele havia passado afastado de Nyx.

– Não! – ele falou a palavra em voz alta, fazendo que o pequeno bosque de olaias que estavam plantadas no lado oeste do Templo de Nyx chacoalhasse como se uma tempestade as ameaçasse. Kalona se concentrou e controlou o seu temperamento. – Não – ele repetiu usando uma voz que não estava mais repleta de poder sobrenatural. – Eu não vou pensar nos séculos que passei afastado dela. Não vou pensar nela de jeito nenhum.

Uma gargalhada soou ao redor dele, fazendo as olaias se mexerem, tremularem e então explodirem em plena floração, como se um facho da luz do sol do verão tivesse subitamente iluminado as árvores. Kalona cerrou os punhos e levantou os olhos.

Ele estava sentado no beiral de pedra do templo. Havia pouca luz naquele lado do edifício, motivo pelo qual Thanatos havia ordenado que ele esperasse ali, mas Erebus irradiava luz própria.

Erebus... seu irmão... o Consorte imortal de Nyx. O único ser do universo que era mais parecido com ele, e o único ser do universo que ele detestava mais do que a si mesmo. Ali! No reino mortal depois de todos esses éons? Por quê?

Kalona mascarou o seu choque com desdém.

– Você é mais baixo do que eu me lembrava.

Erebus sorriu.

– Que bom ver você de novo também, irmão.

– Como sempre, você coloca palavras da minha boca.

– Desculpe. Eu não preciso fazer isso. Não quando as suas próprias palavras são tão interessantes. “Não vou pensar nela de jeito nenhum” – Erebus não apenas era quase uma imagem espelhada de Kalona, como também imitava a voz de seu irmão perfeitamente.

– Eu estava falando de Neferet – Kalona rapidamente organizou seus pensamentos e mentiu com facilidade. Fazia éons, mas ele costumava ser bom em mentir para o seu irmão. Kalona achou que ainda levava jeito para a coisa.

– Não duvido de você, irmão – Erebus se inclinou para a frente, abriu suas asas douradas e planou graciosamente até o chão diante de Kalona. – Veja só, esse é exatamente o motivo da minha pequena visita.

– Você veio até o reino terreno porque eu era amante de Neferet? – Kalona cruzou os braços sobre o seu peito largo e encontrou o olhar âmbar de seu irmão.

– Não, eu vim porque você é um mentiroso e um ladrão. O estupro da última bondade de Neferet é apenas mais um de seus muitos crimes – Erebus disse. Ele também cruzou o braço sobre o peito.

Kalona deu uma gargalhada.

– Você não andou espionando muito bem se acha que estupro tem algo a ver com o que Neferet e eu compartilhamos. Ela estava mais do que desejosa e pronta para o meu corpo.

– Eu não estava falando do corpo dela! – a voz de Erebus se elevou e Kalona ouviu o som de vampiros chamando e perguntando o que estava havendo ali perto do Templo de Nyx.

– Como sempre, irmão, você apareceu para causar problemas para mim. Eu deveria ficar nas sombras, sem ser visto e esperando até ser convocado. Se bem que, pensando melhor, vai ser divertido assistir a você lidar com a descoberta dos mortais. Apenas um rápido aviso: até os vampiros tendem a ter reações exageradas quando encontram um deus.

Erebus não hesitou. Ele levantou as mãos e ordenou:

– Esconda-nos!

Houve uma onda de vento e uma sensação de claridade que Kalona achou tão familiar, tão agridoce, que só duas reações vieram à sua mente: raiva e desespero. Ele não ia permitir que Erebus visse o seu desespero.

– Você está desafiando Nyx? Ela determinou que eu não posso entrar no Mundo do Além. Como você se atreve a me trazer aqui? – as asas cor da noite de Kalona estavam totalmente abertas e tensionadas, prontas para atacar o seu irmão.

– Você sempre faz o papel do tolo impetuoso, irmão. Eu nunca iria contra as determinações da minha Consorte. Eu não o trouxe para o Mundo do Além. Apenas trouxe um pedaço do Mundo do Além para nos esconder, só por alguns momentos, dos olhos mortais – Erebus sorriu de novo. Desta vez, ele não obscureceu a beleza de sua expressão. Uma luz solar irradiava do seu corpo. As suas asas cintilavam com penas de ouro. A sua pele era perfeita, como se ele tivesse sido modelado com raios de sol.

Ele foi, Kalona pensou com desgosto. Ele foi modelado quando o céu beijou o sol. Assim como eu fui modelado quando o céu beijou a lua. O céu, como a maioria dos imortais, é um bastardo inconstante, que faz o que quer e depois não presta atenção nos filhos que deixa para trás.

– Que tal a sensação de estar no Mundo do Além? Deve ser melhor do que quando você entrou sorrateiramente, perseguindo aquela pequena novata, Zoey Redbird. Naquela ocasião você era só espírito. Você não podia sentir a mágica do reino de Nyx contra a sua pele. E você sempre ficou tão impressionado com qualquer coisa que você pudesse tocar, que pudesse fisicamente chamar de sua.

Ótimo, Kalona pensou, ele ficou nervoso. Isso vai ofuscar a sua perfeição.

Foi a vez de Kalona sorrir. A luz que ele emitiu para o seu irmão não era a luz quente e vistosa do sol. Era a luminescência prateada e fria da lua.

– Ainda enciumado por eu tê-la tocado depois de todo esse tempo? Você se lembra de que Nyx é uma Deusa, não lembra? Ela não pode ser tocada a não ser que seja a sua vontade, o seu desejo, ser tocada, acariciada, amada por...

– Eu não vim aqui para falar de minha Consorte! – as palavras explodiram em flashes de calor dourado ao redor de Kalona.

– Que amostra de temperamento divino! – Kalona riu sarcasticamente. – E ainda dizem que você é o irmão bom. Se ao menos os aduladores que preferiram ficar no Mundo do Além pudessem vê-lo agora.

– Eles não dizem que eu sou o irmão bom. Eles dizem que você é o usurpador – Erebus atirou as palavras no seu irmão.

– Verdade? Pergunte novamente a eles. Eu acredito, depois de éons de reflexão cuidadosa, que eles iriam me chamar de “aquele que se recusou a compartilhá-la” – Kalona disse.

– Ela me escolheu – a voz de Erebus estava baixa; os seus pulsos estavam cerrados ao lado de seu corpo.

– Escolheu mesmo? Minha memória é diferente.

– Você a traiu! – Erebus gritou.

Kalona ignorou o ataque de cólera de seu irmão. Ele já havia testemunhado isso antes. Em vez de se abalar, ele falou com a frieza da superfície da lua:

– Por que você veio? Diga o que tem a dizer e então desapareça. O mundo mortal não é um grande reino, mas ele é meu. E eu não vou compartilhá-lo com você, assim como eu não teria compartilhado Nyx com você.

– Eu vim adverti-lo. Nós escutamos o seu Juramento no Mundo do Além. Nós sabemos que você se comprometeu a ser o guerreiro da Morte e a se tornar o Mestre da Espada desta escola.

– E líder dos Filhos de Erebus – Kalona acrescentou. – Não se esqueça do resto do meu título.

– Eu nunca poderia esquecer que você pretende blasfemar contra os meus filhos.

– Seus filhos? Agora você anda se acasalando com humanas e produzindo machos que crescem para se tornar guerreiros vampiros? Isso é fascinante, especialmente porque eu fui julgado tão duramente por criar meus filhos.

– Vá embora – os olhos de Erebus começaram a ficar incandescentes. – Saia deste lugar e pare de se intrometer na vida dos vampiros de Nyx e dos valorosos guerreiros que se comprometeram a me servir.

– Mas você não está se intrometendo ao ordenar que eu parta? Estou surpreso que Nyx tenha permitido isso.

– A minha Consorte não sabe que estou aqui. Eu só vim porque, de novo, você a está perturbando. Eu vivo para evitar qualquer perturbação a ela. Essa é a única razão pela qual estou aqui – Erebus disse.

– Você vive para lamber os pés dela e está, como sempre, com ciúmes de mim – Kalona não pôde evitar uma onda de alegria pelo que as palavras de Erebus tinham revelado. Ainda posso fazer Nyx sentir algo! A Deusa me observa! O imortal controlou suas emoções. Ele tinha que esconder a sua alegria de Erebus. Quando ele falou novamente, a sua voz estava sem emoção. – Que isto fique claro: eu não jurei servir a você. Eu fiz um Juramento de servir a uma Grande Sacerdotisa que personifica a Morte através da sua afinidade concedida pela Deusa. Tudo o que a sua visita fez foi me dar motivos para fazer uma clara distinção entre os guerreiros que se dizem seus filhos e os que não. Eu não vou oprimir os seus filhos com a minha liderança.

– Então você vai embora desta Morada da Noite – Erebus afirmou.

– Não. Mas você vai. Leve esta mensagem minha para Nyx: a Morte não faz diferença entre aqueles que a seguem e aqueles que seguem outros deuses. A Morte chega para todos os mortais. Eu não preciso da sua permissão, nem da permissão da Deusa, para servir à Morte. Agora suma daqui, irmão. Eu tenho que participar de um funeral – Kalona colocou os braços à frente do seu corpo e juntou as palmas das mãos, provocando uma explosão de luz prateada e gelada que criou uma onda ao redor dele, despedaçando a pequena bolha de Mundo do Além que o seu irmão havia criado e arremessando Erebus para cima e para longe no céu.

Quando a luz em volta dele desapareceu, os pés de Kalona tocaram a terra de novo e ele estava em pé ao lado do Templo de Nyx.

Aphrodite surgiu de um canto apressada, parou e o encarou.

– Eu já fui convocado? – ele perguntou.

Ela piscou e esfregou os olhos, como se estivesse tendo problemas em clarear a sua visão.

– Você estava brincando com uma lanterna aqui?

– Não tenho nenhuma lanterna. Eu já fui convocado? – ele repetiu.

– Quase. Alguma retardada, ou melhor, Kramisha, porque ela estava responsável pelas velas, esqueceu a vela do espírito. Eu tenho que pegar uma no Templo de Nyx. Você deve voltar comigo para a pira de Dragon. Thanatos vai concluir o círculo, dizer algumas coisas bacanas sobre Dragon e depois apresentar você.

Sentindo-se estranhamente desconfortável sob o olhar da humana rude e estranha que Nyx tinha, por razões incompreensíveis a quase todos, escolhido como sua Profetisa, Kalona resmungou uma resposta sem palavras e se virou para abrir a porta lateral do templo.

Ela não se abriu.

Kalona tentou de novo.

Ele se esforçou, usando a sua enorme força imortal.

Ela absolutamente não se abriu.

Foi então que ele notou que a porta de madeira havia desaparecido. A maçaneta havia se transformado em uma pedra firme e espessa. Não havia nenhuma entrada. Nada.

De repente, Aphrodite o estava empurrando para o lado. Ela segurou a maçaneta e a girou. A pedra desapareceu, transformando-se de novo em uma porta de madeira, que se abriu facilmente para ela. Aphrodite levantou os olhos para Kalona, antes de passar pela entrada do templo da Deusa.

– Você é tão estranho – ela atirou o cabelo para trás e entrou.

A porta se fechou atrás dela. Kalona colocou sua mão nela e, sob sua palma, ela se transformou de uma receptiva madeira em pedra novamente.

Kalona se afastou para trás, com uma sensação terrível dentro dele.

Apenas alguns minutos depois, Aphrodite emergiu por uma porta completamente normal. Ela estava segurando uma grossa vela roxa e disse, ao passar por ele:

– Bom, vamos lá. Thanatos quer que você fique na beira do círculo e tente não chamar atenção. Apesar de que, você sabe, isso seria bem mais fácil se você usasse mais roupas.

Kalona a seguiu, tentando ignorar aquele vazio dentro dele. Ele era exatamente o que Erebus havia dito, um tolo impetuoso e um usurpador. Se Nyx o estava observando, não era com nada mais além de desdém. Ela negava tudo a ele: que ele entrasse no Mundo do Além, no seu templo e no seu coração...

Os séculos deveriam ter diminuído a sua dor, mas Kalona estava começando a entender que a verdade era o oposto disso.

Aurox

Nyx, se você é mesmo uma Deusa misericordiosa, por favor, me ajude... por favor...

Aurox não tinha escapado de seu esconderijo na terra. Em vez disso, ele ficou repetindo sem parar aquela única frase, aquela única prece. Talvez Nyx premiasse a determinação. Pele menos ele poderia oferecer isso à Deusa.

Foi durante a ladainha da sua prece silenciosa que a mágica começou a girar em um redemoinho ao redor dele. A princípio, o espírito dele se animou. Nyx me ouviu! Mas bastaram alguns instantes para que ele percebesse o quanto estava errado. As criaturas que se materializaram, saindo do ar frio e úmido ao redor dele, não podiam estar a serviço de uma Deusa misericordiosa.

Aurox se encolheu para se afastar delas. O fedor daquelas criaturas era quase insuportável. Era horrível olhar aquelas faces cegas. O coração dele começou a bater mais forte. O medo o fez estremecer e a besta dentro dele se agitou. Será que aquelas coisas tinham sido enviadas como julgamento pelos malfeitos que ele cometera a serviço de Neferet? Aurox usou o seu próprio medo e começou a alimentar a besta no seu interior. Ele não queria que ela despertasse, mas ele ia lutar antes de sucumbir ao redemoinho de malevolência que ameaçava engolfá-lo.

Mas Aurox não foi engolfado por elas. Devagar, as criaturas foram subindo em um redemoinho mágico. Quanto mais alto elas iam, mais rápido elas giravam. Parecia que elas haviam sido invocadas e estavam despertando aos poucos, atendendo a um chamado mudo.

Aurox acalmou o seu medo e a besta dentro dele retrocedeu. Aquelas coisas não o queriam. Elas não tinham prestado nenhuma atenção nele. A cauda do redemoinho estava deixando como rastro uma névoa escura e fétida. Sem saber ao certo o que o compelia, Aurox estendeu o braço e passou a mão naquele rastro.

A sua mão se tornou a névoa, como se elas fossem feitas da mesma substância. Ele não sentiu o redemoinho, apesar de aparentemente ele ter dissolvido a carne de Aurox. Com os olhos arregalados, ele tentou soltar sua mão, mas era tarde demais. Ele não tinha mais mão, e então um tremor tomou conta dele quando a névoa começou a absorver a sua carne. Impotente, Aurox viu o seu antebraço desaparecer, depois os seus bíceps, depois os seus ombros. Ele tentou despertar a besta, libertar o poder adormecido dentro dele, mas a névoa amortecia os seus sentimentos. Ela o anestesiava enquanto o sugava. Quando ela absorveu a sua cabeça, Aurox se tornou a névoa. Ele não sentia mais nada, exceto um desejo enorme, uma busca incompleta, uma necessidade implacável. Do quê? Aurox não sabia dizer. Tudo o que ele sabia é que havia sido engolfado pelas Trevas e que ele estava sendo levado em uma onda de desespero.

Tem que existir algo além disto para mim!, ele pensou freneticamente. Eu tenho que ser mais do que névoa, desejo, besta e escuridão! Mas parecia que ele não era nada além dessas coisas. O desespero tomou conta dele quando ele percebeu a verdade. Ele era todas essas coisas e ao mesmo tempo nenhuma dessas coisas. Aurox não era nada... Absolutamente nada.

Aurox pensou que o barulho de vômito fosse dele mesmo. Em algum lugar, de algum modo, o seu corpo deveria estar revoltado com o que estava acontecendo. Então ele a viu.

Zoey estava lá. Ela estava segurando a pedra branca à sua frente. Do mesmo modo como ela havia feito na noite anterior, no ritual em que ele tinha tentado fazer uma escolha, fazer a coisa certa.

Ele sentiu a névoa se agitar. Ela também viu Zoey.

A névoa ia absorvê-la.

Não! O seu espírito berrou profundamente. Não! A mente de Aurox ecoou aquele berro. Em vez de desespero, ele começou a sentir algo mais ao observar Zoey. Ele sentiu o medo dela e a sua força. A sua determinação e a sua fraqueza. E Aurox percebeu algo que o surpreendeu. Zoey se sentia tão insegura sobre si mesma e sobre o seu lugar no mundo quanto ele. Ela se preocupava em não ter a coragem necessária para fazer as coisas certas. Ela questionava as suas decisões e se envergonhava de seus erros. De vez em quando, até Zoey Redbird, a novata privilegiada tocada pela Deusa, sentia-se como um fracasso e pensava em desistir.

Exatamente como ele.

A compaixão e a compreensão fluíram através de Aurox, e nesse momento ele sentiu uma onda de um poder quente e claro. Em um flash de luz ofuscante, ele caiu do centro do redemoinho em desintegração, aterrissando com força no seu corpo restaurado, arfando em busca de ar fresco e tremendo inteiro.

Ele não ficou descansando muito tempo ali. Ainda trêmulo e fraco, Aurox encontrou apoio para as mãos e os pés no labirinto de raízes quebradas. Devagar, ele foi se puxando para cima até a beira do buraco. Isso levou muito tempo. Quando finalmente alcançou o topo, ele hesitou, procurando ouvir atentamente.

Ele não ouviu nada além do vento.

Aurox se ergueu do chão, usando o tronco quebrado como esconderijo. Zoey tinha desaparecido. Ele analisou a área ao seu redor e os seus olhos foram atraídos imediatamente para um monte enorme de madeiras e tábuas, em cujo topo havia uma figura coberta por uma mortalha. Apesar de aquele local estar aparentemente cercado pela Morada da Noite inteira, Aurox não teve dúvidas em reconhecer o que estava vendo. É a pira funerária de Dragon Lankford, foi o seu primeiro pensamento. Eu o matei, foi o segundo. Como o desespero na névoa mágica, o funeral o sugou.

Não foi difícil se aproximar do círculo de novatos e vampiros. Os guerreiros Filhos de Erebus estavam obviamente bem armados, mas a atenção de todos estava focada dentro do círculo e na pira no seu centro.

Aurox se moveu furtivamente, usando os grandes carvalhos antigos e as sombras abaixo deles como cobertura até chegar perto o bastante para entender as palavras que Thanatos estava dizendo. Então ele recuperou o controle sobre si mesmo e saltou. Agarrando um galho baixo, Aurox foi subindo na árvore até encontrar um lugar onde se agachou, com uma vista desimpedida do espetáculo macabro.

Thanatos havia acabado de traçar o círculo. Aurox podia ver que quatro professores vampiros estavam segurando velas e representando cada um dos elementos. Ele esperava ver Zoey no centro do círculo, perto da pira, mas em vez disso ele ficou surpreso ao ver que Thanatos estava segurando a vela roxa do espírito com uma mão e uma tocha grande com a outra.

Onde estava Zoey? Será que as criaturas da névoa a tinham capturado? Será que foi isso que fez com que a névoa se dissipasse? Freneticamente, ele procurou encontrá-la no círculo. Quando ele a encontrou em pé ao lado de Stark, rodeada pelo seu grupo de amigos, Aurox achou que ela parecia triste, mas sem ferimentos. Ela estava observando Thanatos atentamente. Aparentemente, não havia nada errado com Zoey, exceto que ela lamentava a perda do seu Mestre da Espada. Com aquela sensação de alívio, Aurox ficou tão fraco que quase caiu de seu poleiro na árvore.

Aurox encarou Zoey. Ela havia começado esse conflito interno que ele sentia. Por quê? Ele estava tão confuso com ela quanto estava em relação aos sentimentos que ela havia despertado dentro dele.

Ele voltou sua atenção para Thanatos. Ela estava andando graciosamente em volta da circunferência do círculo, falando com uma voz que acalmava até os seus nervos em frangalhos.

– O nosso Mestre da Espada morreu como ele viveu: como um guerreiro, fiel ao seu Juramento, fiel a esta Morada da Noite e fiel à sua Deusa. Há outra verdade aqui que precisa ser contada. Apesar de nós chorarmos a sua perda, nós reconhecemos que ele era apenas a casca de si mesmo sem a sua companheira, a amável Anastasia – Aurox olhou para Rephaim. Ele sabia que, como Raven Mocker, Rephaim havia matado Anastasia Lankford. Que ironia o fato de o Mestre da Espada ter morrido para protegê-lo. Ironia maior ainda era o rosto do garoto estar encharcado de lágrimas e ele chorar abertamente a morte de Dragon.

– A Morte foi gentil com Dragon Lankford. Ela não apenas permitiu que ele morresse como guerreiro, mas também serviu como um conduto para a Deusa. Nyx uniu novamente Bryan Dragon Lankford à sua amada e aos espíritos iluminados de seus dois familiares felinos, Shadowfax e Guinevere.

Os gatos deles também morreram? Eu não me lembro de nenhum gato no ritual. Confuso, Aurox analisou a pira funerária. Sim, agora que estava olhando mais de perto, ele podia ver dois pequenos volumes embrulhados na mortalha com Dragon, aninhados um de cada lado do guerreiro caído.

Thanatos havia parado de andar em volta do círculo e estava parada bem na frente de Zoey. A Grande Sacerdotisa sorriu para a novata.

– Conte-nos, Zoey Redbird. Já que você entrou no Mundo do Além e voltou, qual é a única constante lá?

– O amor – Zoey respondeu sem hesitar. – Sempre o amor.

– E você, James Stark? O que você encontrou no Mundo do Além? – Thanatos perguntou ao jovem guerreiro, que estava com seu braço em volta dos ombros de Zoey.

– O amor – Stark repetiu com uma voz forte e firme. – Sempre o amor.

– Isso é uma verdade – Thanatos continuou a andar ao redor do círculo. – Eu também posso dizer a vocês que a minha proximidade com a Morte já me mostrou relances do Mundo do Além. O que eu tive permissão para ver me ensinou que, apesar de o amor permanecer conosco quando passamos deste reino a outro, ele não pode existir eternamente sem compaixão, assim como a Luz não pode existir sem esperança e as Trevas não podem existir sem o ódio. Então, tendo em mente essa verdade dita e compreendida, eu gostaria de pedir que vocês abram os seus corações e deem as boas-vindas ao nosso novo Mestre da Espada e líder dos guerreiros Filhos de Erebus, meu guerreiro sob Juramento, Kalona!

Aurox refletiu a surpresa que ele viu em muitos rostos abaixo dele quando Kalona, o imortal alado que ele sabia que estava havia muito tempo ao lado das Trevas, entrou no círculo com passos firmes e se aproximou de Thanatos. Ele cruzou sua mão em punho sobre o peito e se curvou respeitosamente. Então ele levantou a cabeça e sua voz profunda preencheu o ar.

– Eu jurei ser o guerreiro da Morte, e assim será. Eu jurei ser o Mestre da Espada desta Morada da Noite, e assim será. Mas eu não tentarei tomar o lugar de Dragon como líder dos guerreiros Filhos de Erebus.

Aurox viu que Thanatos estava observando Kalona atentamente, apesar de a sua expressão parecer satisfeita. Os guerreiros que estavam espalhados por toda a volta do círculo se agitaram, como se não soubessem bem o que pensar a respeito da proclamação do imortal.

– Eu vou servir como guerreiro da Morte – Kalona repetiu. Ele estava se dirigindo a Thanatos, mas a sua voz chegava a todos no círculo e à multidão que havia se reunido para o funeral. – Vou proteger você e esta escola. Mas não vou receber um título que me liga a Erebus.

– Eu estava no Conselho Supremo quando você declarou ser Erebus de volta à Terra – Thanatos afirmou. – O que você tem a dizer sobre isso?

– Eu não reivindiquei esse título. Isso foi coisa de Neferet. Ela quer muito ser uma deusa, e isso significa que ela precisa de um Consorte imortal, então ela me nomeou Erebus de volta à Terra. Eu rejeitei esse papel quando rejeitei Neferet.

Sussurros zuniram através do círculo como se fosse o vento através das árvores. Thanatos levantou a tocha que ela ainda segurava.

– Silêncio! – as vozes se aquietaram, mas o choque e a descrença continuaram. – Kalona está falando a verdade sobre Neferet. Dragon foi morto pela criatura dela, Aurox. Ele não foi um presente de Nyx. Na noite passada, durante o ritual de revelação na fazenda de lavandas de Sylvia Redbird, a terra nos mostrou a terrível verdade. Aurox foi criado pelas Trevas através do sacrifício da mãe de Zoey Redbird. Ele é um Receptáculo escravo de Neferet. As Trevas continuam a controlá-lo através de sacrifícios sangrentos – ela apontou sua tocha para os três corpos em cima da pira. – Eu tenho evidências de que Neferet tirou a vida de Shadowfax para que as Trevas mantivessem o domínio sobre Aurox. Essa morte foi demais para a pequena Guinevere de Anastasia. A tristeza parou o seu coração e ela prontamente seguiu Shadowfax para o Mundo do Além, para se reencontrar com aqueles a quem os dois mais amavam.

O corpo de Aurox ficou imóvel. Ele mal conseguia respirar. Ele se sentia como se Thanatos tivesse acabado de estripá-lo. Ele queria gritar: “ Não é verdade! NÃO É VERDADE!”, mas as palavras dela continuavam a massacrá-lo.

– Zoey, Damien, Shaunee, Erin, Stevie Rae, Darius, Stark, Rephaim e eu! – ela gritou cada nome. – Nós testemunhamos os malfeitos sombrios de Neferet. Dragon Lankford morreu para que nosso testemunho pudesse se tornar público. Agora nós precisamos continuar a luta que derrubou o nosso Mestre da Espada. Kalona, estou satisfeita por ouvir a sua confissão. Você tentou usurpar Erebus, ainda que apenas na Terra. Ficou claro para o Conselho Supremo que você estava sendo incitado pelas tramoias de Neferet. Eu o aceito como guerreiro da Morte e protetor desta escola, mas você não pode liderar os guerreiros que fizeram Juramento como Filhos de Erebus. Isso seria desrespeitoso à Deusa e ao seu Consorte.

Aurox viu um lampejo de raiva passar pelos olhos de Kalona, mas ele abaixou a cabeça para Thanatos e cruzou sua mão em punho sobre o coração, dizendo:

– Que assim seja, Grande Sacerdotisa. – Então ele voltou para a beira do círculo, e as pessoas que estavam próximas a ele deram alguns passos discretos para trás.

Thanatos pediu que Shaunee invocasse o fogo e acendesse a pira funerária. Quando a coluna de fogo engolfou a pira de Dragon Lankford, Aurox desceu da árvore e, sem ser visto por ninguém, cambaleou de volta até o carvalho despedaçado e desapareceu abaixo do chão, onde, sozinho, chorou todo o seu desespero e o seu ódio por si mesmo dentro da terra partida.


13 Zoey

– Está tudo bem, Z.? – Stark falou baixo no meu ouvido quando o meu círculo e eu estávamos reunidos perto da entrada do lobby da escola. Thanatos havia pedido que nós esperássemos ela terminar de falar com os professores e guerreiros, e então ela iria se juntar a nós para a entrevista.

– Estou triste por causa de Dragon – sussurrei para ele.

– Não quis dizer isso – ele manteve a voz baixa, para que eu fosse a única capaz de ouvi-lo. – Eu queria saber se está tudo bem com a pedra. Eu vi quando você a tocou durante o funeral.

– Eu achei ter sentido a pedra esquentando por um momento, mas logo passou. Provavelmente foi porque nós estávamos bem perto da pira. E por falar nisso... – levantei a voz e me dirigi a Shaunee –, bom trabalho com a parte do fogo no funeral. Eu sei que não é fácil manter piras funerárias acesas, mas você ajudou. Você fez com que tudo acabasse mais rápido.

– Obrigada. Sim, todos nós estamos cansados de funerais. Pelo menos antes desse funeral nós pudemos assistir a Dragon entrando no Mundo do Além, mas ver os gatos lá na pira com ele deixou tudo especialmente triste – ela enxugou os olhos e eu me perguntei como ela (ou qualquer um) conseguia chorar e ainda ficar bonita. – Na verdade, isso me lembra de uma coisa... – Shaunee continuou, virando-se para encarar Erin, que estava na ponta do nosso grupo, olhando para os garotos que ainda estavam na pira como se ela estivesse procurando alguém. – Erin, tudo bem por você se eu mudar a caixa de areia e as coisas de Belzebu para o meu quarto? Ele tem dormido lá a maioria dos dias.

Erin olhou para Shaunee, deu de ombros e disse:

– Sim, tanto faz para mim. Aquela caixa de areia tem cheiro de merda mesmo.

– Erin, os gatos não gostam de usar caixas de areia sujas. Você tem que limpá-la todo dia – Damien a informou, franzindo a testa.

Erin bufou de um jeito sarcástico.

– Não, eu não preciso mais fazer isso – então ela voltou a olhar para os outros garotos.

Percebi que ela não estava chorando. Pensei nisso e me dei conta de que ela não havia chorado nenhuma vez durante o funeral inteiro. No começo, toda essa coisa da ruptura entre as gêmeas parecia ter mexido mais com Shaunee, mas com o passar do tempo comecei a notar que Erin não estava agindo como ela mesma. Apesar de eu supor que isso seria normal, já que agir como ela mesma costumava significar agir igual a Shaunee, que agora parecia bem mais madura e legal. Fiz uma nota mental de que eu precisava encontrar tempo para conversar com Erin, para me certificar de que ela estava bem.

– Que droga, eu preferia que Thanatos não tivesse dito para Rephaim esperar com os outros garotos no ônibus. Ele estava superperturbado no funeral. Eu odiei ter que deixá-lo sozinho nesse estado – Stevie Rae falou, vindo para o meu lado.

– Ele não está sozinho. Ele está com todos os outros novatos vermelhos. Eu vi quando eles foram para o ônibus. Kramisha estava falando para ele sobre como a poesia podia ser um caminho para extravasar as emoções.

­– Kramisha vai entreter o menino-pássaro com as suas tolices sobre poesia. Blá-blá... versos iâmbicos e blá-blá... – Aphrodite comentou. – Além disso, até você precisa entender que não é uma boa ideia deixar o público humano saber do seu pequeno “probleminha de pássaro” – ela colocou aspas no ar com os dedos.

– Olá, ahn, desculpem-me por interromper vocês, mas eu estou procurando o lobby da escola.

Todos nós nos viramos ao mesmo tempo e olhamos para o humano que estava andando na nossa direção pela calçada que vinha do estacionamento. Atrás dele, havia um cara segurando uma câmera e com uma grande bolsa preta abarrotada de coisas pendurada no seu ombro e uma espécie de fone de ouvido cinza na cabeça.

Como era de se prever, Damien foi o primeiro de nós a se recompor. Falando sério, Damien realmente devia ser coroado a Miss Simpatia da Morada da Noite de Tulsa.

– Você está no lugar certo. Parabéns por nos encontrar! – Damien sorriu tão afetuosamente que eu percebi que o humano relaxou os seus ombros tensos.

Então ele estendeu a mão e disse:

– Ótimo. Eu sou Adam Paluka, da Fox23 News. Estou aqui para entrevistar a sua Grande Sacerdotisa e, imagino, alguns de vocês também.

– Prazer em conhecê-lo, senhor Paluka. Eu sou Damien – ele disse, apertando a mão do humano. Então Damien deu uma risadinha e acrescentou: – Ai, que aperto forte!

O repórter sorriu.

– O prazer é meu. Pode me chamar de Adam. O senhor Paluka é o meu pai.

Damien deu outra risadinha. Adam também. Eles fizeram um supercontato visual. Stevie Rae me cutucou e nós demos aquele Olhar uma para a outra. Adam era fofo, muito fofo mesmo, de um jeito jovem, inteligente, promissor e metrossexual. Ele tinha cabelos e olhos escuros, bons dentes, sapatos caros e uma bolsa masculina, na qual Stevie Rae e eu reparamos juntas. Um namorado em potencial para Damien!, nossos olhares telegrafaram ao mesmo tempo.

– Olá, Adam. Eu sou Stevie Rae – ela estendeu a mão e, enquanto ele a apertava, ela perguntou: – Você não tem namorada, tem?

O sorriso cheio de dentes dele diminuiu, mas só um pouco.

– Não. Eu não tenho, não. Hum. Com certeza, eu não tenho namorada. – Então ele notou a Marca vermelha de Stevie Rae. – Então você é do novo tipo de vampiros de que a sua ex-Grande Sacerdotisa falou.

Stevie Rae abriu o sorriso para ele.

– Sim, eu sou a primeira Grande Sacerdotisa Vermelha. Legal, não é?

– A sua tatuagem é realmente muito bonita – Adam disse, parecendo mais curioso do que desconfortável.

– Obrigada! – Stevie Rae agradeceu efusivamente. – Este aqui é James Stark. Ele é o primeiro guerreiro vampiro vermelho. A tatuagem dele também é incrível.

Stark estendeu a mão.

– Prazer em conhecê-lo. E você não precisa me dizer que a minha tatuagem é bonita.

O rosto de Adam ficou um pouco pálido, mas ele apertou a mão de Stark. O sorriso dele pareceu sincero; nervoso, mas sincero.

– Olá – eu entrei na conversa, apertando a mão dele. – Eu sou Zoey.

O olhar de Adam rapidamente se voltou para a tatuagem completa do meu rosto, para a gola em V da minha camiseta e o relance de tatuagens em volta da minha clavícula, e depois para a palma da minha mão, que estava coberta com a mesma tatuagem cheia de filigranas.

– Eu não sabia que vampiros faziam tatuagens adicionais. O seu tatuador é daqui de Tulsa?

Eu sorri para ele.

– Bem, às vezes. Mas ela passa a maior parte do tempo no Mundo do Além. – Percebi que ele estava tentando entender o que eu havia acabado de dizer, então aproveitei a oportunidade e perguntei: – Ei, você disse que não tem namorada. E quanto a um namorado?

– Hum, não, eu também não tenho namorado. Pelo menos não atualmente – Adam se voltou para Damien, que encontrou o seu olhar.

Sucesso!, era o que eu estava pensando quando Aphrodite bufou.

– Ah, que merda, isto aqui não é The Bachelorette. Eu sou Aphrodite LaFont. Sim, o prefeito é o meu pai. Ipi-ipi-urra – ela deu o braço para Darius. – E este aqui é Darius, o meu guerreiro.

Adam levantou a sua bela sobrancelha quando ele reparou no suéter de sexto-formanda que Aphrodite estava usando, com a insígnia das três Moiras bordada no bolso do lado esquerdo do peito.

– Agora permitem que humanos frequentem a Morada da Noite?

– Aphrodite é uma Profetisa de Nyx, um fato provado pelo elo que ela tem com Darius, que é um guerreiro Filho de Erebus e fez o Juramento de ser o seu protetor – Thanatos falou enquanto saía das sombras e caminhava graciosamente na nossa direção. Eu achei o timing dela excelente, assim como a sua entrada. Ela era alta e poderosa, sem aparentar idade, e tinha uma beleza clássica. A sua voz era agradável e informativa, como se ela desse entrevistas para repórteres humanos todo dia. – Eu sei que o funcionamento interno da nossa sociedade não é senso comum, mas acredito que a maioria dos humanos sabe que um guerreiro não pode se ligar a um humano por um Juramento de proteção.

– Na verdade, apesar de esta entrevista ser de última hora, tive tempo para pesquisar um pouco, e esse é um fato que eu realmente descobri.

– O fato de Aphrodite ser uma Profetisa de Nyx e de estar frequentando esta escola, assim como vários novatos e vampiros vermelhos, vai ser um dos tópicos da nossa entrevista. Embora pareça que a entrevista já tenha começado – Thanatos saiu totalmente das sombras, indicando com a cabeça o cameraman que sem dúvida já estava nos filmando, apesar de nenhum de nós ter prestado atenção nele. – Eu sou Thanatos, a nova Grande Sacerdotisa da Morada da Noite de Tulsa. Merry meet, Adam Paluka. Você é bem-vindo à nossa escola.

– M-merry meet – Adam se atrapalhou um pouco. – Eu não quis ofender começando a filmagem mais cedo.

Thanatos sorriu.

– Você não nos ofendeu. Nós o convidamos a vir até aqui. Fico satisfeita que a entrevista tenha começado sem formalidades. Nós podemos ficar aqui, sob o belo céu da noite de Tulsa, e continuar a conversa?

– Claro – Adam disse após um aceno de cabeça do cameraman. – A luz dos lampiões a gás é uma boa iluminação. Se vocês nos derem um segundo, podemos usar um microfone boom e captar todos do grupo que quiserem participar.

– Parece ótimo. Zoey, Aphrodite, Stevie Rae, Stark e Damien, por favor, fiquem para a entrevista. Darius, Shaunee e Erin, vocês poderiam se certificar de que os novatos que estão reunidos voltem para os seus dormitórios? Esta foi uma noite difícil para a nossa escola.

Darius se curvou para Aphrodite e Thanatos, e então ele e Shaunee foram embora juntos. Erin saiu andando na direção contrária.

– Você disse que hoje foi uma noite difícil para a sua escola. O que quis dizer com isso?

– Com o seu faro para notícias, tenho certeza de que você sabe que tivemos recentemente um incêndio no campus – Thanatos explicou.

– Sim, nós inclusive fizemos uma reportagem sobre isso na Fox. Foi no estábulo, certo? – ele a estimulou a continuar.

– Certo. Foi um acidente infeliz, apesar de não totalmente surpreendente – Thanatos fez um gesto indicando os lampiões de cobre pendurados que faziam uma bela decoração ao nosso redor. – A luz dos lampiões a gás e a luz de velas é mais agradável aos nossos olhos do que lâmpadas elétricas. Como você já observou, esse tipo de iluminação ambiente é adorável, mas as chamas são vivas e às vezes voláteis. Um lampião foi deixado aceso sozinho no celeiro. Foi uma noite com muito vento. Uma rajada forte derrubou o lampião em cima de um fardo de feno, colocando fogo no estábulo.

– Espero que ninguém tenha se ferido – achei que Adam pareceu sinceramente preocupado.

– A nossa Mestra dos Cavalos e uma novata inalaram um pouco de fumaça, e o humano empregado como treinador do estábulo teve queimaduras, a maioria nas mãos. Ele vai se recuperar totalmente. Quero deixar aqui registrado que Travis Foster agiu como um herói. Ele cuidou para que todos os cavalos escapassem.

– Travis Foster é humano?

– Completamente humano, além de ótimo funcionário e amigo.

– Fascinante – Adam disse e olhou em volta. Pude ver quando o olhar dele se fixou na pira distante, que agora estava em combustão lenta e sem chamas, com um brilho alaranjado. – Por favor, corrija-me se eu estiver errado, mas acho que aquela pilha de madeira queimando não faz parte do estábulo. Durante a minha pesquisa, eu li que os vampiros queimam os seus mortos em piras funerárias. Será que eu escolhi uma hora inapropriada para esta entrevista? – ele fez a pergunta com um tom de consideração em sua voz, mas eu consegui enxergar a curiosidade que brilhava em seus olhos.

– Você não está errado. Aquilo são os restos de uma pira funerária. De fato, nós sofremos uma grande perda na Morada da Noite, que não teve nada a ver com o incêndio no estábulo. O nosso Mestre da Espada, Dragon Lankford, foi morto recentemente em um trágico acidente em uma fazenda de lavandas que faz divisa com a reserva nacional conhecida como Pradaria de Tallgrass – ela contou e eu fiquei de boca fechada, perguntando-me como diabos Thanatos ia transformar o assassinato de Dragon em um “trágico acidente” que pudesse ser explicado ao público humano. – Um bisão grande escapou das fronteiras da reserva. Alguns de nós estávamos terminando um adorável ritual de purificação na fazenda de lavandas, e aquela besta deve ter ficado confusa com a fumaça de sálvia e o nosso círculo. A criatura nos atacou. O nosso Mestre da Espada protegeu os nossos novatos, perdendo a vida ao fazê-lo.

– Isso é terrível! Eu sinto muito – Adam pareceu perturbado. Na verdade, todos nós parecemos perturbados, o que escondeu o nosso choque com a mentira gigante de Thanatos.

– Obrigada, Adam. Apesar de ter sido um acidente horrível e uma grande perda para a nossa Morada da Noite, o nosso Mestre da Espada morreu como ele viveu, como um guerreiro honrado que protegeu os mais jovens. Por causa dele, ninguém mais se feriu e o ritual foi concluído. Todos nós vamos lembrar da bravura de Dragon Lankford pelos séculos que virão – ela tocou levemente os olhos com um lenço rendado que tirou de dentro da luva. Foi realmente um momento tocante.

Adam ficou parado ali, parecendo compreensivo, enquanto o cameraman desviou a lente da pira de Dragon para focar a dor de Thanatos e o seu esforço muito humano para se recompor novamente.

Foi tudo muito bem encenado. Ela me fez pensar em quantas aulas de Teatro a Grande Sacerdotisa da Morte havia feito quando era uma novata.

Thanatos terminou de enxugar os olhos e suspirou profundamente.

– E respondendo à sua outra pergunta, não, não é uma hora inapropriada para a nossa entrevista. Nós o convidamos, lembra? Nós estamos felizes por recebê-lo na Morada da Noite, mesmo neste momento de tristeza. Então, vamos começar oficialmente. Aqui neste banco é um bom lugar? – Thanatos indicou com um gesto um dos longos bancos de pedra que se alinhavam no caminho de entrada para o lobby da escola. Durante uma noite normal de escola, haveria um monte de garotos aglomerados em volta dos bancos, fazendo lição de casa, flertando e fofocando. Naquela noite, os bancos estavam completamente vazios.

– Perfeito – Adam respondeu.

Enquanto ele e o cameraman se preparavam, Thanatos tomou o seu lugar no centro do banco. Em voz baixa, ela disse:

– Zoey, Stark, aqui ao meu lado – ela apontou para a direita, atrás dela. – Aphrodite, Stevie Rae e Damien, aqui – eles ficaram parados em pé à esquerda.

Quando Adam voltou e oficialmente começou a filmar, senti uma agitação nos meus nervos. Até os meus antigos amigos da South Intermediate High School iriam ver isso!

– Thanatos, eu estava pensando se você poderia dar mais detalhes sobre o comentário que Neferet, a ex-Grande Sacerdotisa da Morada da Noite de Tulsa, fez sobre você na noite passada. Ela disse que a Morte era a nova Grande Sacerdotisa daqui – Adam fez uma pausa e sorriu. – Para mim, você não parece a Morte.

– Você conhece bem a Morte, jovem Adam? – Thanatos perguntou com uma voz suave e espirituosa.

– Não, na verdade eu nunca morri – ele respondeu no mesmo tom de brincadeira.

– Bem, o comentário de Neferet pode ser facilmente explicado. Eu não sou a Morte propriamente dita. Eu simplesmente recebi o dom de ajudar os mortos a passarem deste reino para o próximo. Eu sou tanto a Morte quanto você é a Humanidade. Nós dois somos apenas a representação de ambos. Pode ser mais fácil de entender se você pensar em mim como uma médium muito boa.

– Neferet também mencionou um novo tipo de vampiros, os vampiros vermelhos, e sugeriu que eles podem ser perigosos – ele falou, e eu percebi que a câmera se voltou para Stark e Stevie Rae. – Você também pode explicar isso melhor?

– Certamente, mas primeiro eu sinto que preciso deixar algo bem claro. Neferet não é mais funcionária da Morada da Noite de Tulsa. Na verdade, pelo modo como a nossa sociedade funciona, uma vez que uma Grande Sacerdotisa perde o seu emprego, ela perde essa posição para sempre. Ela nunca mais vai servir como Grande Sacerdotisa em nenhuma outra Morada da Noite. Como você pode imaginar, isso pode ser uma transição difícil e frequentemente embaraçosa para o empregado demitido, assim como para o seu empregador. Os vampiros não têm leis de calúnia e difamação. Nós usamos o sistema de Juramento e honra. Obviamente, desta vez esse sistema não funcionou.

– Então você está dizendo que Neferet é... – ele não concluiu e fez um gesto com a cabeça, encorajando Thanatos a concluir a frase por ele.

– Sim, é um fato triste, mas verdadeiro. Neferet é uma ex-funcionária descontente que não apita mais nada – Thanatos disse calmamente.

Adam olhou para Stark, que estava ao meu lado, não muito longe de Thanatos.

– Essa ex-funcionária fez alguns comentários sobre um membro da Morada da Noite em particular: James Stark.

– Sou eu – Stark falou na hora. Eu percebi que ele estava desconfortável, mas acho que ninguém mais, incluindo os telespectadores, iriam ver qualquer coisa além de um cara muito bonito com uma tatuagem vermelha no rosto que lembrava flechas.

– Então, Jim. Posso chamá-lo assim? – Adam perguntou.

– Bem, sim, mas seria melhor você me chamar de Stark. Todo mundo me chama assim.

– Ok, Stark, Neferet disse que você matou o seu mentor na Morada da Noite de Chicago, e ela sugeriu que você é uma ameaça para a comunidade daqui. Você gostaria de responder a isso?

– Bem, isso é um monte de papo-furado! – escutei a minha boca dizer.

Stark abriu o seu meio sorriso metidinho e pegou a minha mão, entrelaçando os seus dedos aos meus de modo que todos os telespectadores podiam ver.

– Z., quase você fala um palavrão na TV. Não faça isso, a sua avó pode ouvir e isso não seria legal.

– Desculpe – murmurei. – Que tal eu simplesmente deixar você falar?

Stark abriu ainda mais o sorriso.

– Bem, sempre há uma primeira vez para tudo.

Infelizmente, todos os meus amigos riram. Eu olhei zangada para ele. Stark continuou falando, apesar de eu pensar em sufocá-lo com um travesseiro da próxima vez que nós fôssemos dormir.

A voz dele foi hesitante no começo, mas, quanto mais ele falava, mais forte e seguro ficava.

– O meu mentor, William Chidsey, era incrível. Ele era legal. E inteligente. Estou falando inteligente mesmo. E talentoso. Ele me ajudou. Na verdade, ele foi mais um pai do que um mentor para mim – Stark fez uma pausa e passou a mão pelo rosto. Quando ele começou a falar de novo, foi como se só ele e o repórter estivessem ali sozinhos, como se ele tivesse esquecido que a câmera estava ali e tudo o mais. – Adam, eu descobri bem cedo, quando eu estava no segundo ano do ensino médio, que eu tinha recebido um dom – Stark enfatizou bem a última palavra, não sarcasticamente, mas também não como se aquilo fosse uma coisa fantástica. O tom de voz dele deixava claro que o seu dom era uma responsabilidade, e não uma responsabilidade fácil. – Eu não consigo errar o alvo. Eu sou um arqueiro – ele explicou quando Adam o olhou de modo questionador. – Você sabe, arco e flecha. Enfim, seja para onde for que eu mire, eu acerto. Infelizmente, não é tão literal assim. Pense nisso: há bastante diferença entre o lugar para onde você está olhando e o que você está realmente pensando e o que você está alvejando. Um exemplo simples: imagine que você pega um arco e uma flecha e mira em uma placa com um sinal de “Pare”. Então, você puxa o arco, aponta a flecha e dispara no meio de uma grande placa vermelha. Mas e se dentro da sua cabeça você estiver pensando: “Ok, quero atingir aquela coisa que faz os carros pararem”? Quando você se dá conta, a sua flecha está atravessada no radiador do primeiro carro que aparece.

– Bem, eu posso entender como isso pode causar grandes problemas – Adam disse.

– Sim, problemas de proporções épicas. Levou um tempo para que eu descobrisse e aprendesse a controlar isso. Nesse tempo, eu cometi um erro realmente terrível – Stark fez uma pausa de novo e eu apertei a sua mão, tentando transmitir o meu apoio. – E por causa disso o meu mentor morreu. Eu não vou deixar que isso aconteça de novo. Fiz um Juramento de que isso não vai mais acontecer.

– E é por isso que James Stark está aqui na Morada da Noite de Tulsa – Thanatos retomou o controle da conversa, e a câmera a seguiu. – Em Tulsa, nós acreditamos em dar outra chance – o olhar dela se voltou para Aphrodite. Tive que cuidar para não ficar de queixo caído quando ela falou tranquilamente: – Você não diria que este é um excelente lugar para segundas chances, Aphrodite LaFont?

Eu não deveria ter me preocupado. Na frente de uma câmera gravando, Aphrodite se sentia em casa. Ela caminhou para a frente, na direção da câmera (é claro), e então se sentou ao lado de Thanatos.

– Eu concordo totalmente com você, Grande Sacerdotisa. Eu fui uma novata por quase quatro anos, mas Nyx, a nossa Deusa benevolente, decidiu tirar a sua Marca de mim e substituí-la por um dom profético. Os meus pais concordam com a minha decisão de permanecer na Morada da Noite. Na verdade, nós falamos sobre a possibilidade de eu fazer um treinamento no Conselho Supremo em Veneza quando eu me formar aqui. Minha mãe e meu pai me dão muito apoio – ela sorriu para a câmera. – Você pode comprovar isso se olhar as nossas contas de cartão de crédito dos últimos meses. Uau! Eu tenho pais tão incrivelmente legais!

Ok, sem brincadeira. Aquilo era uma montanha de besteiras podres e fedidas tão grande que eu nem conseguia falar. Felizmente, Stevie Rae não era tão muda.

– Falando em pais incríveis, a minha mãe, Ginny Johnson, vai fazer os melhores cookies de chocolate do universo e trazê-los para o evento aberto ao público com venda de guloseimas que nós vamos fazer aqui em breve, certo, Thanatos?

Thanatos não perdeu tempo.

– Você está absolutamente certa, Stevie Rae. Na próxima semana, se o tempo sujeito a tempestades de Oklahoma permitir, nós estaremos organizando um evento aberto ao público no campus. Esperamos que os Street Cats estejam aqui com gatos para adoção. Aproveitando, eu gostaria de anunciar que todos os lucros da nossa venda de guloseimas – ela sorriu na direção de Stevie Rae – vão beneficiar as obras de caridade dos Street Cats. Além disso, a avó da nossa Grande Sacerdotisa novata, Zoey Redbird, vai vender os seus produtos de lavanda nos nossos jardins.

– Não se esqueça da feira de empregos.

Todos, incluindo o cameraman, se viraram ao som da voz da Mestra dos Cavalos. Lenobia estava em pé ali, conduzindo sua bela égua negra, Mujaji, que parecia um sonho.

– Professora Lenobia, que bom que você se juntou à nossa entrevista – Thanatos afirmou.

– Uau! Que belo cavalo ele é! – Adam falou entusiasmado quando o cameraman deu um close em Mujaji.

Damien tocou o braço de Adam e sorriu.

– Querido, é ela, não ele.

– Ah, eu me enganei – Adam levou numa boa, sorrindo com um rubor gracioso em suas bochechas. – Essa coisa de ele ou ela nunca fez muita diferença para mim.

– Porque nós somos todos iguais – ouvi as palavras saindo da minha boca e silenciosamente agradeci a Nyx por elas. – Meninos, meninas, humanos, vampiros, que diferença faz? Todos nós vivemos em Tulsa e amamos esta cidade. Então, vamos apenas nos dar bem uns com os outros!

Thanatos riu, e o som da sua risada foi como música.

– Ah, Zoey, eu não poderia ter dito isso de melhor forma. E Lenobia, você fez bem em me lembrar. Adam, eu gostaria de anunciar que, durante a noite aberta ao público e o evento beneficente para os Street Cats, a Morada da Noite de Tulsa vai, como a primeira Morada da Noite da nossa história escrita, receber inscrições de humanos para vagas de professores. Vamos fazer entrevistas para colocações de professores nos nossos departamentos de Teatro e de Literatura – Thanatos se levantou e abriu os braços, parecendo benevolente e sábia. – A Morada da Noite dá as boas-vindas a Tulsa. Até sábado, nós desejamos a vocês merry meet, merry part e merry meet again.


14 Neferet

Neferet não teria visto a entrevista se ela não tivesse chamado o serviço de quarto até a sua cobertura. O subserviente garoto loiro era quase jovem demais para despertar o interesse dela. O último mensageiro que havia tido a sorte de atender ao seu chamado ia ter que tirar uma licença médica do trabalho pelos próximos dias. Fraco e cheio de hematomas, ele não iria se lembrar de nada, além da fascinação pela sua beleza e de uma série de sonhos eróticos e sombrios. Sonhos febris – o seu médico sem dúvida iria chamá-los assim. Os humanos eram criaturas tão frágeis. Era uma pena que ela precisasse constantemente encontrar novos brinquedinhos.

Neferet analisou o mensageiro. Ele era alto e parecia extremamente nervoso. A sua pele era ruim. Ele praticamente exalava virgindade por todos os seus poros dilatados. Pensando que sangue virgem iria combinar bem com a garrafa resfriada de champanhe que ele estava trazendo, ela fez um gesto em direção à sua sala de estar.

– Por favor, traga a garrafa aqui para dentro – Neferet ronronou.

O sangue virgem era tão doce que aquela aparência ruim e as mãos cheias de suor podiam ser facilmente ignoradas. Afinal de contas, ela não ia tocá-lo. Pelo menos não muito...

– Aqui está bem, madame? – os olhos dele continuavam passeando rapidamente dos seios dela para a sua boca e depois de volta para a garrafa que ele estava abrindo, enquanto ele fedia a desejo sexual, medo e fascinação.

– Aqui está perfeito – Neferet deslizou uma unha comprida e pontuda pelo corpete decotado do seu robe de seda.

– Uau – ele engoliu em seco, tirando a folha metálica dourada da boca da garrafa de champanhe com mãos trêmulas e inexperientes. – Espero que não se importe por eu dizer isto, mas você é muito mais bonita do que aqueles outros vampiros no telejornal.

– Outros vampiros? Telejornal?

– Sim, madame. Eles estão agora no jornal da noite da Fox23.

– Ligue a TV para mim! – ela falou rispidamente.

– Mas o champanhe não está...

– Deixe a garrafa de lado! Eu sou plenamente capaz de abri-la sozinha. Ligue a TV no telejornal e vá embora.

O garoto fez o que ela ordenara e então se retirou envergonhadamente, ainda dando olhares desejosos para ela. Neferet não prestou atenção nele. Ela estava totalmente absorta na cena que se descortinava à frente dela na grande televisão de tela plana. Thanatos, Zoey e alguns do seu grupo estavam lá. Eles estavam ao ar livre na Morada da Noite, bem agrupados e conversando facilmente com o repórter. Neferet franziu a testa. Todos pareciam tão normais.

Ela sorriu um pouco quando ouviu Thanatos explicar a morte de Dragon Lankford como um trágico acidente com um bisão.

– Aquele Aurox imprestável! – Neferet resmungou. – Receptáculo imperfeito e inepto! Tudo isso é culpa dele.

Ela continuou assistindo à entrevista, sorrindo ironicamente para Stark e Zoey, apenas se concentrando mais quando ouviu o seu próprio nome ser mencionado. Neferet apertou o botão para aumentar o volume e Thanatos proclamou em voz alta:

– ... Neferet é uma ex-funcionária descontente que não apita mais nada.

O corpo de Neferet se congelou.

– Ela se atreve a me chamar de funcionária! – Neferet continuou a assistir. A raiva dela cresceu com tanta intensidade que a porta de vidro que dava para a varanda da cobertura se abriu com força, espalhando estilhaços de cristal sobre o chão de mármore.

– Todos nós vivemos em Tulsa e amamos esta cidade. Então, vamos apenas nos dar bem uns com os outros! – a voz ridiculamente alegre de Zoey provocou arrepios de raiva que subiram e desceram pela espinha de Neferet.

– Eu não vou permitir que você desfaça o que eu comecei, sua criança odiosa! – Neferet explodiu. Quando Thanatos anunciou que a Morada da Noite ia receber inscrições de humanos para vagas de professores, ela ficou de queixo caído junto com o repórter. Após a saudação benevolente da nova Grande Sacerdotisa, merry meet, merry part e merry meet again, Neferet assistiu incrédula aos âncoras do telejornal conversarem tolamente sobre como a interação com os vampiros era interessante e como o evento aberto ao público e a feira de empregos seria ótima para a cidade, com um close congelado do rosto sorridente de Zoey decorando a tela. Ela apertou com força o botão de desligar a TV, incapaz de suportar Zoey Redbird por um só instante.

Do pequeno recanto que ficava entre a sala de estar e a sala de jantar, o computador de Neferet começou a chamar. Na tela, a silhueta da imagem de Nyx com os braços levantados piscou e, ao lado do ícone, apareceram as palavras: CONSELHO SUPREMO DOS VAMPIROS.

Neferet caminhou devagar até o computador e clicou no mouse para atender ao chamado, automaticamente ativando a câmera de vídeo. Ela sorriu friamente para as seis Grandes Sacerdotisas com expressões sérias que estavam sentadas em seus tronos esculpidos em mármore.

– Eu estava esperando a sua ligação.

Duantia, membro sênior do Conselho Supremo dos Vampiros, falou primeiro. Neferet achou que ela soou muito, muito velha. Certamente o seu cabelo longo e grosso parecia mais prata do que castanho, e Neferet teve certeza de ver bolsas embaixo de seus olhos escuros.

– Você foi convocada a aparecer diante de nós, mas aí está você em Tulsa, e aqui estamos nós em Veneza. Qual o motivo da sua demora?

– Eu estou ocupada – Neferet modulou a sua voz para parecer mais entretida do que irritada. Ou com medo. Ela não podia permitir nunca que as vampiras do Conselho Supremo acreditassem que ela tinha medo delas ou de qualquer um. – Não é conveniente viajar para a Itália nesta época.

– Então você nos obriga a julgá-la absente reo 3 .

Neferet zombou.

– Guarde o seu latim para os vampiros velhos demais para viver no presente.

Duantia continuou como se ela não tivesse falado nada.

– Nossa irmã Grande Sacerdotisa, sétimo membro deste Conselho Supremo, Thanatos, produziu provas irrefutáveis através de um ritual de revelação testemunhado pela Grande Sacerdotisa Zoey Redbird, pelo seu...

– Aquela criança insolente não é uma Grande Sacerdotisa!

– Você não vai me interromper! – mesmo pela internet, a milhares de quilômetros de distância, o poder de Duantia era palpável. Foi preciso um esforço supremo para que Neferet não se encolhesse de medo da tela do computador.

– Diga o que tem a dizer. Eu não vou interrompê-la de novo – Neferet disse sem emoção.

– O ritual de revelação que Thanatos presidiu foi testemunhado pela jovem Grande Sacerdotisa Zoey Redbird, pelo seu círculo, em que cada membro recebeu de Nyx o dom de uma afinidade elemental, além de vários guerreiros Filhos de Erebus. Durante esse ritual, a terra mostrou o registro de que você assassinou uma humana, sacrificando-a para o touro branco das Trevas, que aparenta ser o seu Consorte.

Neferet observou que as vampiras do Conselho Supremo se agitaram nervosamente, como se apenas ouvir a palavra Consorte associada ao touro branco fosse difícil de suportar. Isso a agradou. Muito em breve o Conselho Supremo iria ter que suportar muito mais do que apenas palavras.

– Neferet, o que você tem a dizer em sua defesa? – Duantia concluiu.

Neferet se levantou, atingindo a sua altura máxima. Ela sentiu os filamentos de Trevas roçando em volta dela, enrolando-se nos seus tornozelos e serpenteando em suas panturrilhas.

– Eu não preciso de defesa. Matar a humana não foi um ato de assassinato. Foi um sacrifício sagrado.

– Você se atreve a chamar as Trevas de sagradas? – a vampira membro do Conselho Supremo chamada Alitheia gritou.

– Alitheia, ou Verdade, como nós diríamos em uma língua que não está morta, eu vou conceder um pouco de você mesma a todas vocês. A verdade é que eu sou imortal. Em pouco mais de uma centena de anos eu obtive mais poder do que vocês, com todos os seus séculos, conseguiram adquirir. A verdade é que dentro de mais alguma centena de anos, a maioria de vocês será pó, e eu ainda vou ser jovem, poderosa, bonita e uma deusa. Se eu decido sacrificar uma humana, não importa por qual motivo, isso é sagrado, e não pecado!

– Neferet, você é Consorte das Trevas? – a pergunta de Duantia foi disparada em meio ao silêncio que se seguiu ao grito de Neferet.

– Conjure o touro branco e pergunte às Trevas você mesma. Mas apenas se você tiver coragem – Neferet sorriu com sarcasmo.

– Conselho Supremo, qual é o seu julgamento? – Duantia perguntou. Ela manteve o olhar fixo em Neferet enquanto cada vampira membro do Conselho Supremo se levantou e, uma de cada vez, pronunciou repetidamente a mesma palavra: “Banida!”.

Duantia se levantou por último.

– Banida! – ela disse com firmeza. – Deste dia em diante, você não será mais reconhecida como uma Grande Sacerdotisa de Nyx. Você não será mais reconhecida nem como uma vampira. Daqui em diante, você está morta para nós – Duantia falou e todas as vampiras do Conselho Supremo deram as costas para Neferet. Então o computador emitiu aquele som de final de chamada e a imagem delas se apagou.

Neferet olhou para a tela escura. Ela estava respirando pesadamente, tentando controlar o tumulto dentro dela. O Conselho Supremo a havia banido!

– Velhas horrendas! – ela explodiu. Era cedo demais! Neferet tinha a intenção, é claro, de romper com o Conselho Supremo, mas não antes de ela provocar uma divisão interna e atiçar umas contra outras para que elas ficassem ocupadas demais com a própria destruição e não se intrometessem no mundo que ela estava criando do lado de fora da charmosa ilhazinha delas. – Eu quase consegui isso antes, quando Kalona estava posando de Erebus ao meu lado. Mas Zoey estragou tudo, forçando-me a revelar que ele era uma fraude. – Incapaz de acalmar a sua frustração, Neferet andou com passos largos pela sala, com seu salto agulha triturando o vidro quebrado. Ela saiu para a varanda, apoiando as mãos no parapeito de pedra. – Zoey fez com que Thanatos fosse enviada a Tulsa para me espionar. E a mãe de Zoey foi um sacrifício fraco e imperfeito demais. Se Aurox não fosse um Receptáculo defeituoso, o ritual de revelação teria sido interrompido com a morte de Rephaim. E agora eu fui banida pelo Conselho Supremo e sou vista como uma aliada domesticada pelos humanos de Tulsa – Neferet levantou os braços para o céu e descarregou a sua raiva. – Zoey Redbird vai pagar por tudo que ela causou!

Neferet abaixou as mãos e rasgou o seu robe de seda, desnudando o seu corpo para a noite. Nua, ela estendeu os braços e inclinou a cabeça para trás de modo que o seu cabelo comprido a encobrisse como uma cortina escura.

– Trevas, venham para mim! – ela se apoiou, preparando-se para o prazer doloroso do toque gélido do seu touro branco.

Nada aconteceu.

O único movimento na noite era das gavinhas escuras e agitadas que haviam se tornado sua companhia constante.

– Meu senhor! Venha para mim! Eu preciso de você – Neferet chamou.

– O seu chamado não é uma surpresa, minha cara impiedosa.

Neferet ouviu a voz dele em sua cabeça, como sempre, mas ela não sentiu a sua presença imponente e poderosa. Ela abaixou os braços, virando-se, procurando por ele.

– Meu senhor, eu não posso vê-lo.

– Você precisa de algo.

Ainda sem entender por que ele não havia aparecido para ela, Neferet não permitiu que a sua confusão transparecesse. Em vez disso, ela respondeu sedutoramente:

– Eu preciso de você, meu senhor.

Instantaneamente, o filamento mais grosso feito uma serpente, comandado pelas Trevas, soltou-se dos outros que estavam enrolados em seus tornozelos. Ele deu uma chicotada ao redor da cintura dela, abrindo uma ferida na sua pele macia e desenhando um perfeito círculo escarlate. As outras gavinhas subiram se arrastando pelas suas pernas, para se alimentar do seu sangue quente.

Neferet teve que se esforçar muito para não gritar de dor.

– Mentir para mim não é sábio de sua parte, minha cara impiedosa.

– Eu preciso de mais poder – Neferet admitiu. – Quero matar Zoey Redbird, e ela está bem protegida.

– Ela está bem protegida e é amada por uma Deusa. Nem você está preparada para destruir abertamente alguém como ela.

– Então me ajude. Eu imploro, meu senhor – Neferet bajulou o touro, ignorando o filamento afiado como uma lâmina que continuava a ferir a sua pele e as outras gavinhas que estavam se alimentando dela.

– Você me desapontou. Eu já esperava que você me chamasse e implorasse pela minha ajuda. Veja bem, minha cara impiedosa, eu não deveria conseguir prever as suas ações. Isso me deixa entediado, e eu não desejo desperdiçar os meus poderes com nada previsível e tedioso – a voz dele martelou implacavelmente na sua mente.

Neferet não recuou.

– Eu não vou pedir que você me perdoe – ela disse friamente. – Você sabia como eu era desde a primeira vez em que nos encontramos. Eu não mudei. E não vou mudar.

– De fato, e é por isso que eu sempre a chamo de minha cara impiedosa – a voz dele era quase uma violação. Agora ela tinha um tom de divertimento. – Você me lembrou de como nós começamos bem. Você era uma surpresa tão deliciosa. Surpreenda-me de novo, e eu vou pensar em vir ajudá-la. Até lá, eu concedo a você o controle sobre os filamentos de Trevas que escolherem permanecer com você. Não se desespere. Muitos vão escolher você. Você os alimenta tão bem. Eu a verei de novo, minha cara impiedosa, quando... se... você despertar o meu interesse o bastante para que eu volte – a voz dele cessou quando a gavinha grossa enroscada na cintura dela se soltou e desapareceu na noite.

Neferet desabou. Ela ficou deitada na varanda de pedra fria, observando os filamentos de Trevas lamberem o seu sangue. Ela não os deteve. Ela deixou que eles se alimentassem dela enquanto os acariciava, encorajando-os, analisando quantos haviam permanecido fiéis a ela.

Se o touro não ia ajudá-la, Neferet se ajudaria sozinha. Zoey Redbird era um problema havia tempo demais. Havia tempo demais ela permitia que aquela garota interferisse nos seus planos. Mas ela não iria matá-la. Isso provocaria a ira de Nyx cedo demais. Ao contrário do Conselho Supremo dos Vampiros, uma Deusa não podia ser ignorada. Não, Neferet pensou, eu não preciso matar Zoey. Tudo o que eu preciso fazer é criar um ser para fazer o serviço por mim. O Receptáculo falhou uma vez por causa de um sacrifício imperfeito. Com o sacrifício perfeito, eu não vou falhar.

– Eu sou imortal. Eu não preciso do touro para criar. Tudo o que eu preciso é de um sacrifício sagrado e de poder. Eu já aprendi o feitiço. Aurox foi só o começo... – Neferet acariciou os filamentos de Trevas e permitiu que eles continuassem a se alimentar dela.

Há filamentos o bastante, ela assegurou a si mesma. Sobrou apenas o suficiente.

Zoey

– A Deusa sabe que eu odeio dizer isso, mas eu estava errada. Isso é sim como assistir àquele programa idiota The Bachelorette – Aphrodite balançou a cabeça e revirou os olhos.

Ela, Stevie Rae e eu caminhávamos devagar para o estacionamento na direção do ônibus cheio de garotos que estava à nossa espera. Nós estávamos indo devagar porque a gente estava superocupada olhando para Damien e o repórter, Adam. Os dois estavam parados, sorrindo e conversando, perto da van da Fox23 News.

– Shhh! – sussurrei para Aphrodite. – Eles vão ouvir você e isso vai deixar Damien constrangido.

– Ah, por favor! – Aphrodite bufou. – Os garotos gays estão bem animadinhos e entretidos. Ele não está prestando a menor atenção em nós.

– Eu estou tão feliz que ele está flertando – comentei.

– Vejam! Eles estão pegando os telefones!!! – Stevie Rae sussurrou efusivamente com pontos de exclamação demais para ser um sussurro.

– Eu estava errada de novo – Aphrodite falou. – Isso aqui não é como assistir a The Bachelorette. É como assistir ao National Geographic Channel.

– Eu acho que ele é uma gracinha – Stevie Rae disse.

– O cara que está conversando com Damien? – Shaylin perguntou quando se juntou a nós.

– Sim. A gente acha que eles estão marcando um encontro – Stevie Rae respondeu, ainda olhando para os dois.

– Ele tem cores suaves e bonitas – Shaylin observou. – Na verdade, as cores dele combinam bem com as de Damien.

– Como assim, os arco-íris deles estão se fundindo? – Aphrodite bufou sarcasticamente.

Shaylin franziu a testa.

– Eles não têm cores de arco-íris. Isso é um estereótipo horrível. Eles têm a cor do céu de verão, com tons de azul e amarelo. Damien também tem um pouco de branco encrespado e fofo que se parece bastante com nuvens densas.

– Ah, que merda, isso aí não tem nenhum senso de humor – Aphrodite protestou.

– Aphrodite, você tem que parar de chamar Shaylin de isso. Não é nada legal – Stevie Rae a repreendeu.

– Então me diga, para futura referência, o quanto isso não é legal na escala daquela palavra maldosa, “retardada”? – ela levantou uma sobrancelha loira com cara de interrogação para Stevie Rae. – Não é legal no nível de “debiloide” ou “monga”, ou mais como a palavra tradicional e explícita “retardada” mesmo?

– Você é a Grande Sacerdotisa, mas eu acho que responder qualquer coisa apenas a encoraja. Você sabe, é como acontece quando você pega um bebê chorando, ele continua chorando – Shaylin afirmou, soando bem prática.

Afe, Aphrodite vai arrancar os cabelos dela pela raiz, foi só o que eu consegui pensar.

Em vez disso, Aphrodite deu risada.

– Ei, isso fez uma piada! Pode até ser que isso tenha alguma personalidade.

– Aphrodite, eu acho que você deve ter algum dano cerebral – Stevie Rae disse.

– Obrigada – Aphrodite respondeu. – Eu vou entrar no ônibus. E vou cronometrar o Garoto Gay. Se ele continuar flertando por mais do que cinco minutos, eu vou... – ela parou de falar quando se virou em direção ao ônibus. Os meus olhos seguiram os dela. Shaunee e Erin estavam paradas do lado da porta aberta do ônibus. Shaunee parecia perturbada. O rosto de Erin não tinha nenhuma expressão. Eu podia ver que elas estavam conversando, mas nós estávamos muito longe para ouvir o que elas estavam dizendo.

– Há algo errado com ela – Shaylin observou.

– Ela quem? – Stevie Rae perguntou.

– Erin.

– Shaylin está certa. Tem alguma coisa errada com Erin – Aphrodite concordou.

Eu não sabia o que havia me chocado mais, se era o que Shaylin e Aphrodite estavam dizendo ou o fato de elas estarem de acordo.

– Conte-me o que você está vendo – Stevie Rae falou em voz baixa para Shaylin.

– Este é o melhor jeito de eu descrever o que vejo: havia um canal que passava atrás da casa onde eu morava quando era criança, um pouco antes de eu perder a visão. Eu costumava brincar ali perto e fingia que o canal era um córrego da montanha lindo e borbulhante, e que eu estava crescendo nas Montanhas Rochosas do Colorado, porque ele era claro e até mesmo bonito. Mas, assim que eu me aproximava, podia sentir o fedor do canal. Tinha um cheiro de coisas químicas e de algo mais, algo podre. A água parecia boa, mas abaixo da superfície ela era suja e poluída.

– Shaylin – eu estava quase perdendo a paciência. Eu me sentia como se estivesse ouvindo um dos poemas de Kramisha, e isso não é necessariamente uma coisa boa. – Que diabo você quer dizer? Erin tem cor de água poluída? E se ela tem, por que você nunca disse nada até agora?

– Ela está mudando! – Erin gritou! Quando vários rostos no ônibus, além de Erin e Shaunee, voltaram-se na nossa direção, ela disfarçou: – O inverno parece estar mudando para a primavera! Hoje não está uma bela noite?

Os garotos balançaram a cabeça e franziram a testa para ela, mas pelo menos pareceu que eles pararam de prestar atenção em nós.

– Ah, que merda. Você não é nada boa em espionagem – Aphrodite abaixou a voz e nos agrupou. – Z., se liga. É simples. O que Shaylin está dizendo é que Erin parece ser a mesma de sempre: bonita, loira, popular, perfeita. Você sabe, típica. Mas a verdade é que por baixo da superfície há algo apodrecendo. Você não pode ver isso. Eu não posso ver isso. Mas Shaylin pode – Aphrodite deu uma olhada no ônibus. Todos nós acompanhamos o olhar dela a tempo de ver Shaunee balançar a cabeça como quem diz não e subir rapidamente os degraus pretos com piso emborrachado, enquanto Erin continuou ali com uma aparência bonita, mas muito, muito fria. – Parece que Shaunee pode ver isso também. Não que a gente tenha acreditado nela. A gente achou que ela só estava irritada com Erin porque as gêmeas siamesas idiotas tinham sido separadas cirurgicamente.

– Eu acho que isso é muito rude – eu falei.

– Também acho – Stevie Rae concordou. – Mas o meu instinto me diz que é verdade.

– O meu também – Damien disse, aproximando-se de nós. As suas bochechas ainda estavam vermelhas e ele acenou alegremente quando a van da Fox23 foi embora, mas a sua atenção estava voltada para Erin. – E o meu instinto também está me dizendo mais uma coisa.

– Que você e o Garoto das Notícias estão quase virando amiguinhos de cama? –Aphrodite falou com uma voz animada e educada, que contrastava radicalmente com o que ela havia dito.

– Isso não é da sua conta. – Damien respondeu. E então acrescentou em um tom suave: – E acho que você vai querer prestar atenção, Aphrodite. O que eu vou falar vai abalar o seu mundo.

– Que coisa mais velha de se dizer – Aphrodite comentou.

– Velho não significa impreciso – Damien rebateu. – Você traduziu o que Shaylin pressentiu. Isso significa que você está agindo como um oráculo.

– Eu não sou um maldito oráculo. Sou uma Profetisa – Aphrodite pareceu realmente irritada.

– Oráculo... Profetisa – Damien levantou primeiro uma mão e depois a outra, como se ele estivesse comparando o peso de algo na palma de suas mãos, até que ambas ficaram na mesma altura. – Para mim é a mesma coisa. Pesquise a sua história, Profetisa. Sibila, Delfos, Cassandra. Esses nomes não dizem nada a você?

– Não. Sério. Eu tento não ler demais.

– Bem, eu começaria a ler se fosse você. Esses são apenas os nomes top três que vêm à minha mente culta. Alguns os chamam de Oráculos. Alguns os chamam de Profetisas. É a mesma coisa.

– Eu posso pegar o resumo na internet? – Aphrodite estava tentando parecer engraçadinha, mas o seu rosto tinha perdido toda a cor e os seus olhos pareciam gigantes e ainda mais azul-topázio do que o normal. E assustados. Ela parecia superassustada.

– Ok. Bem, lição aprendida. Parabéns para nós! – eu falei animadamente. Todo mundo simplesmente olhou para mim, então tentei explicar: – Thanatos disse que nós temos que praticar os nossos dons. Acho que o que acabou de acontecer é como uma nota extra nessa prova. Que tal agora a gente entrar no ônibus, voltar para os túneis e assistir um pouco às reprises de Fringe?

– Fringe? Estou dentro – Shaylin começou a andar na direção do ônibus.

– Eu gosto de Walter – Aphrodite comentou. – Ele me lembra o meu avô. Bem, exceto que Walter é um pouco mais inteligente e é doidão e louco, em vez de bêbado e antissocial. Mesmo assim, ambos são estranhamente adoráveis.

– Você tem um avô? E você gosta dele? – Stevie Rae perguntou antes de mim.

– É claro que eu tenho avô. Você é uma retardada em Biologia? – então Aphrodite deu de ombros. – Que seja. Minha família é meio difícil de explicar. Eu vou seguir isso e entrar no ônibus – e foi o que ela fez, seguindo Shaylin.

Ficamos só Stevie Rae, Damien e eu.

– Ela é totalmente louca – foi só o que pensei em dizer.

– De fato – Damien concordou.

– Ok, bem, vocês acham que está todo mundo no ônibus? – perguntei.

– Espero que sim. Eu sei que Rephaim está aí, e que nós só temos algumas horas até o sol nascer. Tenho certeza de que ele nunca viu nenhum episódio de Fringe, e acho que ele vai gostar. Assistir a uma série abraçadinha com ele parece uma ótima ideia agora, mesmo se a gente tiver que fazer isso com a louca da Aphrodite – ela sorriu para mim. – A gente pode pedir pizza no Andolini?

– Claro que sim – respondi.

– Ahn-han – Damien simulou bem o ato de limpar a garganta.

– Sim? – perguntei.

– Hum, vocês achariam estranho se eu, hum, talvez fosse me encontrar com alguém para tomar um café? Mais tarde. Hoje à noite. No The Coffee House On Cherry Street.

– Eles ainda estão abertos? – eu perguntei, dando uma olhada no meu celular. Afe, já eram quase 4 h da manhã.

– Eles começaram a funcionar 24 horas por dia. A tempestade de gelo acabou com os negócios por semanas e eles estão tentando compensar o prejuízo atendendo, bem, a turma da noite – Damien explicou.

– Sério? Eles estão ficando abertos por nossa causa? – eu me lembrava tanto dos sanduíches incríveis deles e da bela arte local que eles exibiam. Eles costumavam fechar às 23 h!

– Não mais – ele disse alegremente.

– Uau, que legal. Quero dizer, eu nunca estive lá, mas o fato de uma coffee shop ficar aberta no Centro da cidade para que a gente possa se encontrar lá é sensacional – Stevie Rae falou.

– Que tal se amanhã Darius desviar o ônibus para lá na volta para a estação? – eu segui o meu instinto. É normal que um grupo de estudantes do ensino médio queira parar em uma coffee shop depois da escola. – Damien, se você for lá hoje, pode perguntar para algum funcionário se tudo bem a gente aparecer lá amanhã?

– Com certeza, vou fazer um reconhecimento da área para vocês! – então a expressão de Damien murchou. – E então, o que vocês acham? Jack iria me odiar?

– Oh, claro que não, querido! – falei rapidamente.

– Jack entenderia – Stevie Rae acrescentou. – Ele não ia querer que você ficasse triste e sozinho enquanto espera que ele volte.

– Ele vai voltar, não vai? – Damien me encarou bem no fundo dos meus olhos. – Jack vai voltar, certo?

As almas deles estão destinadas a se encontrar novamente... as palavras foram sussurradas na minha mente. Reconhecendo a voz sábia e familiar de Nyx, eu sorri, dando o braço para Damien.

– Ele vai. Eu prometo. E a Deusa também promete.

Damien piscou forte para segurar as lágrimas.

– Eu tenho um encontro! E vou ficar feliz com isso.

– É isso aí! – eu o encorajei.

– Estou tão feliz que eu poderia cuspir! Mesmo que isso seja um pouco grosseiro – Stevie Rae pegou a outra mão de Damien.

– Esse é um ditado estranho – Damien observou.

– Totalmente – eu disse. – Foi nojento quando Leonardo fez toda aquela cena da cuspida com Kate em Titanic.

– Essa cena nunca deveria ter acontecido – Damien concordou. – Foi a única falha do filme.

– Bem, essa cena e aquela do Leo se transformando em um lindo picolé – acrescentei.

Damien e Stevie Rae fizeram sons de total concordância comigo enquanto nos aproximávamos do ônibus. Eu podia ver os rostos dos garotos nas janelinhas. Parecia que o ônibus estava cheio, o que me deu uma onda enorme de alívio porque eu estava mais do que pronta para ir para casa. Stark estava lá, em pé no alto da escada, ao lado de Darius. Os olhos dele me encontraram, e isso fez minha pele esquentar e formigar. Rephaim estava no primeiro assento, bem na frente de Kramisha, e eu praticamente pude sentir Stevie Rae vibrando de alegria ao acenar para ele. Shaylin e Aphrodite estavam subindo as escadas. Eu não conseguia ver o rosto de Aphrodite, mas o jeito com que ela jogou o cabelo para trás me dizia que ela já estava flertando com o seu guerreiro.

Ok, as Trevas eram um pé no saco e muitas coisas difíceis haviam acontecido com a gente, mas pelo menos estávamos juntos e tínhamos amor. Sempre o amor.

– Preciso conversar com você.

A voz sem emoção de Erin foi como um banho de água fria na minha alegria.

– Ok, claro. Ei, daqui a um instante eu estarei no ônibus – avisei Stevie Rae e Damien.

– Eu vou ficar – Erin disse as três palavras assim que ficamos sozinhas.

– Ficar? Você quer dizer aqui? – Eu tinha entendido o que ela queria dizer, mas precisava ganhar tempo para tentar processar as perguntas na minha mente. Eu tinha impedido Shaunee quando ela havia tentado se separar de nós e voltar para a Morada da Noite logo depois que ela e Erin começaram a ter problemas. Eu não deveria impedir Erin também?

– Sim, é claro que eu estou falando daqui. Estou cansada dos túneis. A umidade está deixando o meu cabelo cheio de frizz.

– Ahn, há produtos para isso. Tem alguns da Aveda. Podemos pegar para você no salão Ilhoff da Utica Square amanhã – sugeri.

– Ok, então, não é só o meu cabelo. Eu não quero morar nos túneis. É aqui que eu moro. Nesta escola. Eu não quero ser levada de ônibus. É idiota.

– Erin, eu sei que pegar o ônibus da escola é idiota. Que inferno, isso já era idiota antes de eu ser Marcada. Mas eu acho que nós precisamos ficar juntos. A gente é mais do que um grupo ou uma panelinha, a gente é uma família.

– Não, a gente não é uma família. Nós somos um grupo de garotos que vai para a mesma escola. Só isso. Ponto final.

– As nossas afinidades fazem com que a gente seja mais do que isso – ela estava me deixando chocada... não apenas pelo que ela estava dizendo, mas pela sua atitude. Erin era tão fria! – Erin, nós passamos por coisas demais juntos para acreditarmos que somos apenas um grupo de garotos que por acaso frequenta a mesma escola.

– E se isso for o jeito como você se sente, mas não como eu me sinto? Eu não posso escolher? Achei que Nyx concedesse o livre-arbítrio.

– Sim, mas isso não quer dizer que não podemos dizer algo quando alguém com quem a gente se importa está fazendo besteira.

– Deixe-a ficar.

Erin e eu levantamos os olhos e vimos Aphrodite em pé no primeiro degrau do ônibus. Ela estava encostada na porta com os braços cruzados. Eu esperei ver aquele sorriso irônico típico de Aphrodite em seu rosto, mas ela não parecia brava. Ela não soou irônica. Ela apenas pareceu bastante segura de si. Atrás dela, eu podia ver Stevie Rae e Shaylin. Elas concordaram com a cabeça, e aquele apoio mudo a Aphrodite me venceu quando eu percebi que o meu Conselho havia decidido – elas resolveram o que era melhor para todos nós, mesmo que aquilo não fosse o melhor para Erin.

– Obrigada, Aphrodite. Quem poderia imaginar que você seria a única a concordar comigo? – Erin riu, soando petulante e infantil em comparação com o despertar da maturidade serena de Aphrodite.

– Sabe de uma coisa, Erin, estou feliz que você e Aphrodite tenham me lembrado de uma coisa – afirmei. – Nyx realmente nos dá o livre-arbítrio e, se você prefere viver na Morada da Noite, então vou respeitar isso. Espero que isso não mude as coisas no nosso círculo. Você ainda é a água. O seu elemento e você ainda são importantes para nós.

Erin sorriu um pouco, mas o sorriso dela não chegou aos seus frios olhos azuis.

– Sim, é claro. Eu sempre serei a água, e a água pode correr em qualquer lugar. É só me chamar se precisar de mim. Eu vou estar lá na mesma hora.

– Que ótimo – falei rapidamente, sentindo-me superconstrangida. – Bem, então acho que a gente se vê amanhã.

– Sim, claro. Vejo vocês na aula – Erin acenou de modo petulante e saiu andando.

Subi as escadas do ônibus, perguntando para Darius:

– Estão todos aqui?

– Todos já foram contados e estão presentes – ele respondeu.

– Então vamos para casa – eu disse. Todos se espalharam pelos seus assentos, Stevie Rae ao lado de Rephaim, Aphrodite na primeira poltrona logo atrás de Darius como motorista. Stark estava esperando por mim na poltrona atrás dela, e eu me inclinei, beijando-o rapidamente e sussurrando: – Vou dar uma olhada em Shaunee e já volto.

– Vou estar aqui esperando. Sempre – ele tocou o meu rosto delicadamente.

Fui sacolejando até o fundo do ônibus, onde Shaunee estava sentada sozinha, enquanto Darius passava pelos buracos do estacionamento e fazia um retorno em direção ao caminho de saída da escola.

– Posso sentar aqui por um instante?

– Sim, claro – ela respondeu.

– Então, você e Erin não estão mais se falando direito?

Shaunee mordeu a bochecha e balançou a cabeça.

– Não.

– Ela está bem brava – eu estava tentando pensar em algo para dizer que ajudaria Shaunee a se abrir comigo.

– Não, acho que ela não está brava – Shaunee afirmou.

Franzi a testa.

– Bem, ela pareceu brava.

– Não – Shaunee repetiu, olhando para fora da janela. – Pense em como ela vem agindo nos últimos dias, principalmente hoje. “Brava” não é a melhor palavra para descrevê-la.

Eu realmente pensei. Erin estava sendo fria e sem emoções. Só isso.

– Bem, você está certa. Agora que eu pensei mesmo nisso, ela não tem sido nada além de desinteressada, e isso é estranho.

– Sabe o que é mais estranho? Aquela garota ali está demonstrando mais sentimentos do que Erin – Shaunee apontou pela janela na direção do pequeno jardim dos professores, não muito longe dos limites do estacionamento. Uma garota estava sentada ao lado da fonte. Quando o ônibus passou ali perto, havia luz suficiente para ver de relance que ela estava com a cabeça apoiada nas mãos. Os seus ombros estavam chacoalhando como se ela estivesse chorando convulsivamente.

– Quem é ela?

– Nicole.

– Nicole, a novata vermelha? Você tem certeza? – estiquei o pescoço, tentando olhar melhor para ela, mas nós já estávamos pegando a pista com árvores enfileiradas, e a minha visão da garota ficou completamente encoberta.

– Tenho. Eu a vi lá quando estava indo para o ônibus.

– Hum. E você imagina o que está se passando com ela? – eu perguntei.

– Acho que as coisas estão mudando para muitos de nós, e às vezes isso enche o saco.

– Há algo que eu possa fazer para tornar isso menos pé no saco para você? – eu quis saber.

Então Shaunee olhou para mim.

– Apenas seja minha amiga.

Eu pisquei surpresa.

– Eu sou sua amiga.

– Mesmo sem a Erin?

– Eu gosto mais de você sem a Erin – falei honestamente.

– Eu também – Shaunee concordou. – Eu também.

Um pouco depois voltei para o meu assento ao lado de Stark e deixei que ele colocasse o seu braço ao redor de mim. Encostei a cabeça no ombro dele e fiquei escutando a batida do seu coração, apoiando-me na sua força e no seu amor.

– Prometa-me que você nunca vai pirar e se transformar em um estranho frio e distante – pedi em voz baixa para ele.

– Prometo. Não importa o que aconteça – ele afirmou sem hesitar. – Agora, tire qualquer coisa de sua cabeça, exceto o fato de que eu vou forçá-la a experimentar uma pizza diferente hoje à noite.

– Não vamos pedir a Santino? Mas a gente adora essa pizza!

– Confie em mim, Z. Damien me falou sobre a pizza Athenian. Ele disse que ela é a ambrosia das pizzas. Não entendi exatamente o que ele quis dizer, mas acho que isso significa mais do que bom, então vamos experimentar.

Eu sorri, relaxei ao lado dele e, no curto caminho da Morada da Noite até a estação, fingi que o meu maior problema era decidir se expandia os meus horizontes em relação aos sabores de pizza.

 


C O N T I N U A

9 Zoey

– Neferet precisa ser detida – Thanatos foi logo direto ao ponto.

– Finalmente uma boa notícia – Aphrodite disse. – Então, o Conselho Supremo inteiro vai aparecer aqui para declarar que tudo que ela disse naquela coletiva de imprensa ridícula é papo furado, ou Duantia vem sozinha?

– Não vejo a hora de os humanos ouvirem a verdade sobre ela – Stevie Rae falou em seguida, soando tão irritada quanto Aphrodite e sem dar chance a Thanatos para replicar – Estou realmente cansada de ver Neferet sorrindo, seduzindo, iludindo e fazendo todo mundo acreditar que ela é tudo de bom.

– Neferet faz muito mais do que seduzir, iludir e sorrir – Thanatos observou sombriamente. – Ela usa o seu dom concedido pela Deusa para manipular e ferir os outros. Os vampiros são sujeitos aos seus encantos, e os humanos praticamente não têm defesa contra ela.

– O que significa que o Conselho Supremo dos Vampiros precisa tomar uma posição e fazer alguma coisa em relação a ela – eu afirmei.

– Eu gostaria que fosse assim tão simples – Thanatos respondeu.

Meu estômago se contraiu. Tive uma daquelas intuições, e minhas intuições quase nunca eram boas.

– O que você quer dizer? Por que isso não seria algo simples? – perguntei.

– O Conselho Supremo não vai misturar humanos nos assuntos de vampiros – ela explicou.

– Mas Neferet já fez isso – eu argumentei.

– Pois é, não adianta fechar a porta do estábulo depois que o gado já fugiu – Stevie Rae concordou.

– Aquela vaca matou a mãe de Zoey – Aphrodite estava balançando a cabeça, incrédula. – Você está dizendo que o Conselho Supremo vai simplesmente ignorar isso e vai deixá-la escapar com um assassinato nas costas e falando merda sobre todos nós?

– E o que vocês querem que o Conselho Supremo faça? Que desmascare Neferet como uma assassina?

– Sim – eu disse, feliz por soar firme e madura, em vez de assustada e com doze anos, que era como eu realmente estava me sentindo com essa coisa toda. – Eu sei que ela é imortal e poderosa, mas ela matou a minha mãe.

– Nós não temos provas disso – Thanatos falou em voz baixa.

– Isso é besteira! – Aphrodite explodiu. – Todos nós vimos!

– Em um ritual de revelação realizado com um feitiço de morte. Nada disso pode ser repetido. A terra foi purificada desse ato de violência por meio dos cinco elementos.

– Ela tomou as Trevas como seu Consorte – Aphrodite alegou. – Ela não está apenas aliada ao mal, ela provavelmente está fazendo as coisas mais indecentes com ele!

– Eca! – Stevie Rae e eu exclamamos juntas.

– Os humanos nunca iriam acreditar em nada disso, mesmo se eles tivessem estado lá.

Nós todas nos voltamos para a voz de Shaylin, que até então estava em pé em silêncio, observando nós quatro com olhos vazios e uma expressão chocada. Mas o seu tom era seguro. É claro, ela parecia nervosa, mas o seu queixo estava levantado de novo e ela apresentava o que eu já estava reconhecendo como a sua cara de teimosa.

– Que diabo você sabe sobre isso e por que você está falando? – Aphrodite vociferou contra ela.

– No mês passado eu era humana. Os humanos não acreditam na magia dos vampiros – Shaylin encarou Aphrodite sem vacilar. – Vocês estão há muito tempo às voltas com essa magia. Vocês perderam totalmente a perspectiva.

– E você perdeu completamente a cabeça – Aphrodite rosnou, inchando como um baiacu.

– Crianças briguentas de novo – Thanatos não levantou a voz, mas as suas palavras atravessaram aquela tensão tipo briga de garotas entre Aphrodite e Shaylin.

– Elas não querem brigar – eu falei em meio ao súbito silêncio. – Nenhuma de nós quer. Mas estamos todas frustradas e esperávamos que você e o Conselho Supremo fossem fazer algo, qualquer coisa, para nos ajudar a combater Neferet.

– Deixem-me mostrar a verdade sobre quem vocês são, e então pode ser que vocês entendam mais sobre essa batalha em que vocês estão insistindo em envolver os humanos – Thanatos estendeu o seu braço direito, com a palma da mão voltada para cima na altura do peito. Ela fez uma concha com a mão, inspirou profundamente e, com a mão esquerda, agitou o ar acima da sua outra mão estendida, dizendo: – Observem o mundo! – a voz dela era poderosa, hipnotizante. Os meus olhos foram atraídos para a palma de sua mão. Sobre ela, um globo do planeta estava se formando. Era incrível, não era como aqueles globos entediantes que os professores de História usavam para juntar pó. Aquele parecia feito de fumaça negra. A água se ondulava e se agitava. Os continentes emergiam, como que esculpidos em ônix.

– Aiminhadeusa! – Stevie Rae exclamou. – É tão lindo!

– É mesmo – Thanatos disse. – E agora observem quem vocês são no mundo! – ela sacudiu os dedos da mão esquerda na direção do globo, como se estivesse salpicando água em cima dele. Aphrodite, Stevie Rae, Shaylin e eu ofegamos de surpresa. Pequenas faíscas começaram a aparecer, pontuando a massa de terra ônix com minúsculas luzes de diamante.

– Que bonito – comentei.

– São diamantes? Diamantes de verdade? – Aphrodite perguntou, aproximando-se mais.

– Não, jovem Profetisa. São almas. Almas de vampiros. Essas luzes somos nós.

– Mas há tão poucas luzes. Quero dizer, em comparação ao resto do globo, que é todo escuro – Shaylin observou.

Eu franzi a testa e me aproximei mais, juntando-me a Aphrodite. Shaylin estava certa. A terra parecia imensa comparada à pequena quantidade de pontos cintilantes. Fiquei encarando o globo. Os meus olhos foram atraídos para os agrupamentos de brilho: Veneza, a Ilha de Skye, algum lugar que eu achei ser a Alemanha. Um grupo de luzes na França, alguns borrões no Canadá e vários outros espalhados pelos Estados Unidos – vários, mas mesmo assim não muitos.

– Aqui é a Austrália? – Stevie Rae perguntou.

Dei uma olhada no outro lado do globo, reparando em outros diamantes salpicados.

– Sim – Thanatos confirmou. – E a Nova Zelândia também.

– Ali é o Japão, não é? – Shaylin apontou para outra pequena mancha de brilho.

– Sim, é – Thanatos afirmou.

– Os Estados Unidos não têm tantos diamantes quanto deveria – Aphrodite opinou.

Thanatos não respondeu. Ela encontrou o meu olhar. Eu desviei os olhos, analisando o globo novamente. Devagar, dei toda a volta ao redor dela, desejando que eu tivesse prestado mais atenção às aulas de Geografia – qualquer aula. Quando terminei de dar a volta, encontrei o olhar da Grande Sacerdotisa de novo.

– Não existem muitos de nós – eu concluí.

– Infelizmente, isso é a mais absoluta verdade – Thanatos concordou. – Nós somos brilhantes, poderosos e espetaculares, mas somos poucos.

– Então, mesmo que nós conseguíssemos fazer com que os humanos nos ouvissem, estaríamos abrindo portas para o nosso mundo que é melhor que fiquem fechadas – Aphrodite falou calmamente, soando madura e sem malícia, como não era próprio dela. – Senão eles podem começar a pensar que as leis deles se aplicam a nós, que nós precisamos deles para nos manterem na linha e isso significa que eles podem começar a apagar as nossas luzes.

– Simples, mas bem colocado – Thanatos juntou as mãos e o globo desapareceu em um sopro de fumaça brilhante.

– Então o que nós vamos fazer? Nós não podemos simplesmente deixar Neferet escapar com todas as coisas horríveis que ela fez. Ela não vai parar em uma coletiva de imprensa, uma comissão na Câmara e uma coluna no jornal. Ela quer morte e destruição. Caramba, ela é Consorte das Trevas! – Stevie Rae disse.

– Nós temos que lutar com as mesmas armas dela – Shaylin sugeriu.

– Ah, que merda. Não vou aguentar mais uma garota que usa metáforas ruins em vez de falar claramente – Aphrodite rebateu.

– O que eu quis dizer é que, se Neferet está envolvendo os humanos, nós também deveríamos fazer isso. Mas nos nossos próprios termos – Shaylin explicou. Eu vi quando ela movimentou a boca sem som, dizendo “detestável”, mas Aphrodite havia decidido ignorar a novata. De novo. E, felizmente, Aphrodite não estava olhando para ela.

– Shaylin, você despertou o meu interesse, filha. Por que você acompanhou as duas Sacerdotisas e a Profetisa até aqui? – Thanatos perguntou de repente.

Nós, as Sacerdotisas e a Profetisa, ficamos em silêncio. Pessoalmente, eu queria ver como Shaylin ia lidar com Thanatos. Imaginei que Stevie Rae ficou quieta pelo mesmo motivo. Eu já sabia as razões de Aphrodite, as quais Shaylin tinha resumido bem com a palavra que ela disse sem som: detestável.

A pequena novata vermelha levantou seu queixo e pareceu superobstinada.

– Eu vim com elas porque quero fazer perguntas a você sobre o meu dom. E elas concordaram – Shaylin fez uma pausa, deu uma olhada para Aphrodite e acrescentou: – Bem, duas delas concordaram.

– Qual dom Nyx concedeu a você, novata?

– A Visão Verdadeira – ela olhou nervosamente para Stevie Rae e para mim. – Certo?

– Nós achamos que sim – eu falei.

– É. Pelo menos foi o que a pesquisa de Damien nos disse, e ele está quase sempre certo em relação às coisas que pesquisa – Stevie Rae concordou.

– Ela disse que Neferet tinha cor de olho de peixe morto. Isso me faz pensar que ela pode ter algo mais do que uma simples doença mental – Aphrodite me surpreendeu ao dizer isso.

– Você vê auras? – Thanatos perguntou enquanto analisava Shaylin como se ela estivesse olhando em um microscópio e Shaylin estivesse sob uma lâmina de vidro.

– Eu vejo cores – Shaylin respondeu. – Não sei como chamar o que eu vejo. E-eu era cega até a noite em que fui Marcada. Eu era cega desde os cinco anos. De repente, zap! Ganhei uma lua crescente vermelha no meio da minha testa, minha visão voltou e, junto com ela, as cores. Muitas cores. Por causa delas, eu sei coisas sobre as pessoas. Tipo, eu sabia que Neferet era podre no mesmo instante em que a vi. Apesar de por fora ela ser bonita – ela contou a Thanatos, e eu percebi que ela entrelaçou as mãos com força atrás de si e permaneceu imóvel sob o escrutínio da Grande Sacerdotisa. – Do mesmo modo, eu sei que Erik Night é basicamente um cara legal, mas é fraco. Ele sempre escolheu o caminho mais fácil. A cor dele é preta, mas não um preto chapado. É um preto profundo e rico, e eu consigo ver pequenos raios de luz dourada relampejando através dele – ela suspirou. – Acho que você é realmente idosa, inteligente e poderosa, mas também tem um temperamento forte, que mantém sob controle. Na maior parte do tempo.

Thanatos curvou os lábios em um sorriso.

– Continue.

Shaylin olhou rapidamente para Stevie Rae e depois de novo para Thanatos.

– As cores de Stevie Rae são como fogos de artifício. Isso me faz pensar que ela é a pessoa mais doce e alegre que eu já conheci.

– Isso porque você não conheceu Jack – Stevie Rae falou, com um sorriso triste para Shaylin. – Mas, obrigada. Foi muito legal dizer isso sobre mim.

– Eu não tive a intenção de ser legal. Só estou tentando dizer a verdade – os olhos de Shaylin se voltaram para Aphrodite. – Bem, na maioria das vezes estou tentando dizer a verdade.

Aphrodite bufou.

Eu esperei que fosse a minha vez e que ela diria a Thanatos que as minhas cores tinham ficado mais escuras porque eu estava superpreocupada, mas ela não falou nada sobre mim. Ela apenas assentiu levemente com a cabeça, como se tivesse decidido internamente alguma coisa, e então concluiu:

– É por isso que eu estou aqui. Preciso da sua orientação sobre como usar o meu dom e quero saber a verdade sobre ele.

Acho que foi nessa hora que comecei a respeitá-la. Thanatos não era uma Grande Sacerdotisa qualquer. Ela era membro do Conselho Supremo e tinha afinidade com a Morte. Ok, Thanatos era assustadora. Sem brincadeira. Mesmo assim, ali estava Shaylin, com seus quarenta e poucos quilos, menos de um mês como novata, confrontando Thanatos, sem entregar nada privado sobre mim. Ela nem disse aquelas coisas sobre os pontos de luz trêmula do bem dentro de Aphrodite. Era preciso coragem. Muita coragem.

Olhei para as mãos entrelaçadas com força de Shaylin e reparei que os seus dedos haviam ficado brancos. Eu sabia como ela se sentia. Eu também tive que confrontar uma Grande Sacerdotisa poderosa logo depois de ser Marcada.

Eu me aproximei mais de Shaylin.

– Seja como for que você queria chamar o que Shaylin vê, ela tem um dom. Eu concordo com Damien. Acho que é a Visão Verdadeira.

– Todos nós achamos – Stevie Rae falou.

– Você pode me ajudar? – Shaylin perguntou.

Então Thanatos me surpreendeu. Ela não disse nada. Ela se virou e caminhou até a sua mesa, olhando para baixo, como se a resposta para a pergunta de Shaylin estivesse escrita no grande calendário que ela deixava em cima da escrivaninha. Ela ficou parada daquele jeito, com a cabeça abaixada, pelo que pareceu um tempo ridiculamente longo. Eu tinha decidido entrelaçar minhas mãos atrás do meu corpo para evitar me remexer também, até que a Grande Sacerdotisa finalmente se voltou para nós quatro e nos encarou.

– Shaylin, a resposta que eu tenho para você é a mesma que eu tenho para Zoey, Stevie Rae e Aphrodite.

Escutei Aphrodite murmurar algo sobre não se lembrar de ter feito nenhuma maldita pergunta, mas Thanatos a interrompeu e continuou:

– Cada uma de vocês recebeu um dom incomum concedido pela nossa Deusa, e isso vem a calhar para nós, pois vamos precisar de todos os poderes que a Luz pode nos dar se pretendemos combater as Trevas.

– Você quis dizer derrotar as Trevas, não quis? – Stevie Rae perguntou.

Eu sabia a resposta de Thanatos antes de ela falar.

– As Trevas nunca podem ser realmente derrotadas. Elas só podem ser combatidas e desmascaradas pelo amor, pela Luz e pela verdade – a Grande Sacerdotisa afirmou.

– Perdeu. De novo – Aphrodite disse em voz baixa.

– Vou dar uma tarefa a cada uma para que vocês possam exercitar os seus dons. Profetisa, a primeira é para você – Thanatos se dirigiu a Aphrodite.

Aphrodite deu um suspirou profundo.

– Você recebeu de Nyx o dom de ter visões com alertas sobre fatos horríveis que estão para acontecer. Você teve alguma visão antes da coletiva de imprensa de Neferet?

– Não – Aphrodite pareceu surpresa com a pergunta de Thanatos. – Não tenho nenhuma visão há cerca de uma semana.

– Então o quanto você é boa, Profetisa? – as palavras dela foram duras e frias. Thanatos soou quase cruel.

O rosto de Aphrodite ficou realmente pálido e logo depois ficou rosa.

– Quem é você para me questionar? Você não é Nyx. Eu não respondo a você. Eu respondo a ela!

– Exatamente! – a expressão de Thanatos se relaxou. – Então responda a ela. Ouça-a. Observe os seus sinais. As suas visões se tornaram cada vez mais difíceis e dolorosas, não é?

Aphrodite assentiu com um movimento tenso e rápido.

– Talvez porque a nossa Deusa queira que você exercite o seu dom de outros modos. Você fez isso recentemente, diante do Conselho Supremo. Lembra?

– É claro que eu lembro. Foi como eu soube que as almas de Kalona e de Zoey tinham saído de seus corpos.

– Mas você não precisou de uma visão que dissesse isso a você.

– Não.

– Já cheguei ao ponto que queria – Thanatos afirmou. Então ela se virou para Stevie Rae. – Você é a Grande Sacerdotisa mais jovem que já conheci na vida, e eu já vivi bastante. Você é a primeira Grande Sacerdotisa dos vampiros vermelhos na história do nosso povo. Você tem uma afinidade poderosa com a terra.

– Siiiiim... – Stevie Rae prolongou a palavra, como que esperando pelo golpe final de Thanatos.

– A sua tarefa é praticar liderança. Você acata as decisões de Zoey com muita frequência. Você é uma Grande Sacerdotisa. Extraia força da terra e comece a agir como uma Grande Sacerdotisa – Thanatos não deu chance para Stevie Rae responder. O seu olhar penetrante e sombrio se voltou para Shaylin. – Se você tem a Visão Verdadeira, o seu dom é tão bom quanto você for. Não o desperdice com trivialidades e mesquinharias.

– É por isso que eu estou aqui – Shaylin falou rapidamente. – Quero aprender a usar o meu dom do jeito certo.

– Isso, jovem novata, é algo que você precisa desenvolver e ensinar a si mesma. A sua tarefa é analisar aqueles ao seu redor. Leve os resultados até a sua Grande Sacerdotisa. Stevie Rae vai usar os poderes do elemento dela, assim como o seu crescente poder de liderança, para guiar você.

– Mas eu não sei... – Stevie Rae começou, mas Thanatos a cortou.

– E você nunca saberá. Nada. Nada importante de fato. A menos que você assuma a responsabilidade de ser uma Grande Sacerdotisa. Aprenda a confiar em si mesma, para que os outros possam se sentir seguros em confiar em você.

Stevie Rae fechou a sua boca e assentiu, parecendo que ela tinha doze anos, exatamente o oposto de uma Grande Sacerdotisa. Mas eu não tive tempo de dizer nada para ela porque finalmente Thanatos voltou suas baterias contra mim.

– Use a sua pedra da vidência.

– Ahn?

– Ela a intimida – Thanatos continuou como se eu não tivesse dito nada. – A verdade é que o mundo deve mesmo intimidar você, todas vocês, neste momento. Mas o medo não é razão para fugir às suas responsabilidades. Está em suas mãos uma peça de magia antiga que responde a você. Use-a.

– Como? Para quê? – falei sem pensar.

– Uma pedra da vidência, um dom da Visão Verdadeira, uma Profetisa, uma Grande Sacerdotisa: todas essas coisas poderosas são inúteis a menos que todas vocês comecem a responder essas questões a si mesmas. Você disse que vocês não são crianças birrentas? Provem. Podem ir agora – ela virou as costas para nós e deu passos firmes em direção à sua mesa.

Minhas amigas e eu obviamente tivemos o mesmo impulso ao mesmo tempo. Como se fôssemos uma só, começamos a andar apressadas a caminho da porta de saída.

– Eu vou acender a pira de Dragon Lankford à meia-noite. Estejam presentes à cerimônia. Logo depois, preciso de vocês e do resto do seu círculo no lobby da escola. Eu convoquei a minha própria coletiva de imprensa.

As palavras dela nos atingiram e nos fizeram parar como se fossem um muro invisível. Nós nos viramos e olhamos embasbacadas para ela. Eu engoli em seco o nó na minha garganta e falei:

– Mas você disse que nós não podemos confrontar Neferet na comunidade dos humanos. Então, sobre o que vai ser a nossa coletiva de imprensa?

– Nós vamos continuar de boa vontade aquilo que Neferet começou apenas para gerar caos e conflitos. Ela abriu esta escola para empregados humanos. Nós vamos anunciar na coletiva que, apesar de estarmos tristes por Neferet ter saído do seu emprego na nossa escola, estamos felizes em abrir inscrições para mais ocupações para a comunidade na Morada da Noite. Nós vamos sorrir. Nós seremos afetuosos e abertos. James Stark estará presente com seu jeito agradável, atraente e inofensivo.

– Você vai fazer com que Neferet pareça nada mais do que uma empregada descontente? Brilhante! – Aphrodite comentou.

– E normal – eu observei.

– Algo que os humanos vão entender completamente – Shaylin disse.

– Ei, se vocês realmente querem parecer normais como os humanos, nós precisamos fazer algo tipo um feira de empregos aberta ao público – Stevie Rae sugeriu e todas nos voltamos para ela.

– Continue. Qual é a sua ideia, Grande Sacerdotisa? – Thanatos perguntou.

– Bem, a minha escola de ensino médio costumava ter uma feira de empregos para os formandos no fim do ano. Era como qualquer festa aberta ao público, com ponche ruim, salgadinhos e tudo mais. Mas empresas de Tulsa, de Oklahoma City e até de Dallas apareciam e recebiam inscrições e marcavam entrevistas com os formandos enquanto o resto dos estudantes só ficava por ali, desejando que chegasse a sua vez – Stevie Rae sorriu timidamente e encolheu os ombros. – Acho que pensei nisso porque a minha vez não chegou, já que eu fui Marcada e tal.

– De fato, é uma ideia interessante – Thanatos me chocou ao dizer isso. – Nós vamos mencionar a nossa disposição de abrir a escola para uma feira de empregos – ela pronunciou essas palavras como se elas fossem de uma língua estrangeira – durante a coletiva de imprensa mais tarde.

– Se você realmente quer uma festa aberta ao público aqui na escola, precisamos ter um bocado de gente aqui. Que tal nós convidarmos os Street Cats e fazermos um evento para levantar fundos para a adoção de gatos? Isso seria algo que Tulsa apoiaria – Stevie Rae acrescentou.

– E isso seria normal – Aphrodite falou. – Eventos beneficentes são coisas normais e atraem as pessoas com muita grana, e isso é uma coisa boa.

– Bem pensado – Thanatos concordou.

– Minha avó pode ajudar a coordenar isso com os Street Cats. Ela e a irmã Mary Angela, a freira diretora dos Street Cats, são amigas – eu sugeri.

Thanatos assentiu.

– Então eu vou ligar para Sylvia e perguntar se ela poderia coordenar o que nós chamaremos de uma noite aberta ao público com uma feira de empregos para Tulsa. A presença de sua avó, além das freiras, vai dar uma sensação de normalidade e de tranquilidade.

– Minha mãe pode assar uma tonelada de cookies de chocolate e vir também – Stevie Rae ofereceu.

– Então a convide. Eu tenho fé em vocês, assim como Nyx tem. Não nos desapontem. E agora vocês podem ir mesmo.

Nós saímos da sala de Thanatos falando sobre a coletiva de imprensa e o evento aberto ao público, e comentando como era bom termos um plano. Foi só mais tarde que me dei conta de que eu não havia dito nem uma única palavra sobre o caso Aurox/Heath...


10 Shaunee

Os guerreiros Filhos de Erebus estavam com ares soturnos, ocupados com o trabalho de amontoar madeira para construir a pira de Dragon. Shaunee tentou fazer o que podia para ajudá-los. Ela sabia dizer se a madeira ia queimar bem só de tocá-la, então indicou todas as toras e tábuas mais secas e orientou os guerreiros para colocar tudo de forma correta, a fim de que o fogo queimasse sem empecilhos e rapidamente.

Shaunee tentou encorajá-los. Ela disse que eles estavam fazendo um bom trabalho e que Dragon ficaria orgulhoso deles, mas aquilo pareceu deixá-los ainda mais calados e soturnos. Até Darius estava em silêncio e parecia quase um estranho. Foi só quando Aphrodite surgiu atirando o cabelo para o lado e falando com aquele seu jeito dominador e sedutor que as coisas começaram a melhorar.

– Ei, bonitão, você lembra do sermão que Dragon deu em você quando nós começamos a sair? – Aphrodite piscou para vários guerreiros que estavam por perto. – Aposto que Stephen, Conner e Westin se lembram, não é? Não foram vocês que tiveram que fazer um treinamento extra com Darius depois que Dragon descobriu que ele estava confraternizando com uma novata? – Aphrodite fez um tom de voz baixo que soou muito parecido o Mestre da Espada.

Os guerreiros até sorriram.

– Dragon nos fez dar um trato no seu garoto aqui por três dias seguidos – Conner lembrou.

Darius bufou.

– Cuidado com as suas palavras, Conner. Eu não sou um garoto há décadas.

Conner riu.

– Acho que era exatamente com isso que Dragon estava tendo problemas.

Aphrodite sorriu de modo sedutor e passou a mão pelo bíceps grosso de Darius.

– Ele queria que você ficasse esgotado para que não tivesse energia suficiente para confraternizar comigo.

– Seria preciso um exército de vampiros para isso – Darius afirmou.

Foi a vez de Stephen provocá-lo.

– Sério? Então por que Anastasia teve que intervir?

Aphrodite levantou suas sobrancelhas loiras.

– Intervir? Anastasia? Você não me contou isso, bonitão.

– Devo ter esquecido, já que eu estava muito ocupado confraternizando com você, minha bela.

– Hahaha! – Westin caçoou. – É impossível que qualquer um de nós tenha se esquecido de Anastasia, com os cabelos ao vento, repreendendo o nosso Mestre da Espada por perseguir o pobre e jovem Darius.

Shaunee não conseguiu deixar de rir junto com eles.

– Ela disse mesmo que Dragon estava perseguindo Darius? – a novata quis saber.

Conner, que era alto, loiro e quase tão ardente quanto o elemento de Shaunee, respondeu:

– Sim, ela disse exatamente isso. Ela até chamou Dragon de Bryan e o lembrou de que, se ela não tivesse confraternizado com um novato um século atrás, a vida dele seria muito menos interessante.

– Eu convivi com Dragon Lankford por cinquenta anos – Stephen falou. – Eu nunca o vi ser superado por nenhum outro guerreiro, mas Anastasia conseguia detê-lo com um simples olhar.

– Que bom que eles estão juntos agora – Darius afirmou.

– Ele ficou perdido sem ela – Westin comentou.

– Isso é algo que eu posso entender muito bem – Darius pegou a mão de Aphrodite, beijando-a gentilmente.

– Vocês realmente viram os dois se reencontrando?

– Sim – Darius, Aphrodite e Shaunee responderam juntos.

– Ele está feliz de novo – Shaunee disse.

– Ela morreu primeiro, mas esperou por ele – Aphrodite sorriu para Darius, mas Shaunee pôde ver lágrimas nos olhos dela.

– Ela teve uma morte de guerreira – Westin lembrou.

– Assim como Dragon – Darius concordou.

– Nós precisamos nos lembrar disso hoje à noite – Shaunee sugeriu. – Lembrar da alegria e do Juramento deles, e que eles ainda se amam.

– Amar para sempre – Darius falou docemente, tocando o rosto de Aphrodite.

– Amar para sempre – Aphrodite ecoou e depois levantou uma sobrancelha loira. – Se você não estiver cansado demais, é isso aí.

– Ah! Então Anastasia estava certa! Nós estamos perseguindo o pobre e jovem Darius! – Stephen e os outros guerreiros riram, e Darius começou a se defender excitadamente, enquanto Aphrodite o provocava.

Shaunee se afastou um pouco da pira em construção e do grupo que a cercava. Fogo, aqueça essa pequena fagulha de alegria que Aphrodite conseguiu plantar dentro deles. Ajude os guerreiros a se lembrarem de que Dragon e Anastasia estão juntos e felizes. Ela sentiu o calor do seu elemento passar rapidamente por ela e envolver o grupo, um calor invisível e quase indetectável para quem não tinha afinidade com o fogo. Mas aquilo ajudou. Ela havia ajudado. Shaunee realmente acreditava nisso.

Sentindo-se levemente melhor, ela saiu caminhando a esmo. Shaunee sabia que tinha que ir até o estábulo, mas isso não significava que ela estava com pressa de encarar a destruição que o seu elemento havia causado. Mas eu não o estava manejando, ela lembrou a si mesma. Mesmo assim, ela fez um caminho mais longo e sinuoso, na direção do pátio que tinha uma bela fonte. Dali ela iria pegar o caminho dos fundos, passando pelo estacionamento, que iria dar mais diretamente no ginásio do que no estábulo.

Shaunee escutou a água antes de ouvir a voz de Erin.

Ela não quis ficar espreitando nem se escondendo. Ela só se moveu em silêncio pelas sombras em volta do pátio porque não queria uma cena com Erin, não porque ela a estava espionando.

Então ela escutou a outra voz. No começo, Shaunee não reconheceu de quem era. Ele não estava falando alto o bastante. Ela só reconheceu a risadinha sedutora de Erin. Shaunee estava tentando decidir se ter curiosidade era a mesma coisa que bisbilhotar quando a voz dele ficou mais alta e ela percebeu que o alvo da risadinha sedutora de Erin era Dallas!

Sentindo uma dor de estômago, Shaunee se aproximou mais.

– Sim, é isso mesmo que estou dizendo. Não consigo tirar você da cabeça, garota. Você sabe o que a água e a eletricidade fazem quando se juntam, não sabe?

Shaunee ficou completamente imóvel, esperando que Erin o chamasse de otário e falasse para ele voltar correndo para a nojenta da Nicole, que era da mesma laia dele; em vez disso, ela sentiu uma dor no estômago quando ouviu Erin responder flertando com ele:

– Relâmpagos... É isso o que a eletricidade e a água fazem. Parece interessante.

– É interessante. Você é interessante. E quente. Você é como uma sauna, garota. Ou como um banho de vapor no qual eu adoraria ficar ensopado.

Shaunee teve que apertar os lábios para evitar dizer “eca” e chamar Dallas de otário ela mesma. Erin ainda tinha que fazer isso. De jeito nenhum ela ia querer nada com Dallas. Ele era um completo idiota. Ele odiava Stevie Rae e Zoey! Stevie Rae disse que ele tinha tentado matá-la! Erin só estava levantando a bola dele para depois detoná-lo e colocá-lo no seu devido lugar.

Shaunee esperou por isso. Nada. Ela não ouviu mais nada. Andando sem fazer barulho, Shaunee se aproximou ainda mais. Provavelmente, Erin tinha ido embora, depois de revirar os olhos e sair andando sem nem se dar ao trabalho de falar para Dallas sumir da frente dela.

Mas Shaunee estava errada. Totalmente errada.

Erin havia se encostado na fonte. A água a estava molhando inteira. Seu cabelo, suas roupas, seu corpo. Dallas a estava encarando como se ele estivesse morrendo de fome e ela fosse uma bisteca suculenta. Erin levantou os braços acima da cabeça, fazendo com que seus peitos marcassem a sua camiseta molhada, que era branca e agora estava totalmente transparente.

– Que tal isto aqui para um concurso de camiseta molhada? – ela perguntou com uma voz toda sexy, fazendo os seus peitos balançarem um pouco.

– Você ganha. É a coisa mais gostosa que eu já vi na vida, garota.

– Eu posso te mostrar algo mais gostoso – Erin disse. Com um movimento rápido, ela tirou a sua camiseta ensopada e desabotoou o seu sutiã de renda.

A respiração de Dallas estava tão ofegante que Shaunee podia até escutar. Ele lambeu os lábios.

– Você estava certa, garota. Isso é mais gostoso.

– E que tal isto? – Erin enganchou os dedões na cintura da sua minissaia xadrez e a tirou. Ela sorriu para Dallas, que ficou olhando para a minúscula tanga de renda que ela ainda estava usando.

– Que tal tirar todo o resto? – a voz de Dallas estava intensa, e ele se aproximou mais dela.

– Parece uma boa ideia. Eu gosto de não vestir nada além de água – Erin tirou a tanga. Agora tudo o que ela estava usando eram suas botas Christian Louboutin. Ela passou a mão com água por todo o seu corpo. – Quer se molhar comigo?

– Não é só isso que eu quero fazer com você – ele sugeriu. – Garota, eu vou abrir as portas de um outro mundo inteiro para você.

– Estou pronta para isso – ela falou de modo sedutor, ainda tocando o próprio corpo. – Porque estou cansada do mundo entediante em que estou vivendo.

– Relâmpagos, garota. Vamos fazer relâmpagos e algumas mudanças.

– Vamos lá! – Erin disse.

Dallas acabou com a distância que ainda havia entre eles. Os dois ficaram tão abraçados e tão concentrados um no outro que Shaunee não teve que se preocupar se eles iriam ouvi-la quando ela saiu correndo, totalmente enojada, com os olhos cheios de lágrimas.

Zoey

– Se vocês não se importam, eu vou até o centro de mídia. Damien acha que posso encontrar alguns livros antigos sobre a Visão Verdadeira na seção de livros de referência, se eu procurar bastante. Provavelmente ele é melhor em pesquisa do que eu, mas sou teimosa – Shaylin afirmou. – Se há algo a ser encontrado, eu vou encontrar.

– Sem problemas – eu falei.

Stevie Rae deu de ombros, dizendo:

– Por mim tudo bem.

Shaylin começou a ir embora, mas fez uma pausa.

– Ei, obrigada por me deixarem ir com vocês falar com Thanatos. E obrigada por ouvirem o que eu tinha a dizer lá. Bem, e me desculpem de novo por aquela coisa com Aphrodite mais cedo.

– Não é comigo que você tem que continuar se desculpando – eu disse.

– É, eu sei, mas acho que você é a única que vai escutar – Shaylin falou, olhando para a direção em que Aphrodite havia saído andando bruscamente.

– Aphrodite vai escutar. Só não muito bem – Stevie Rae opinou. – Você falou bem lá dentro, Shaylin. Gostei do que você disse sobre as cores das pessoas. Acho que você deve se concentrar em seguir o seu instinto sobre o que você vê.

– Hum – Kramisha bufou enquanto se aproximava apressada da gente. – Eu digo que o instinto pode te levar para uma tonelada de problemas.

Eu estava pensando “frase do ano” quando Stevie Rae perguntou:

– O que está rolando, Kramisha?

– São os novatos vermelhos de Dallas. Eles estão agindo como se quisessem ajudar a limpar o estábulo.

Stevie Rae franziu as sobrancelhas. Eu mordi os lábios. Kramisha cruzou os braços e ficou batendo o pé no chão.

– Ajudar é uma coisa ruim? – Shaylin falou em meio àquele silêncio desconfortável.

– O grupo de Dallas tem sido, bem... – eu hesitei, tentando formar uma frase sem o tipo de palavras que eu tentava (bastante) evitar.

Kramisha foi mais rápida do que eu.

– Eles são encrenca.

– Talvez eles estejam tentando mudar – Shaylin sugeriu.

– Eles são encrenca dissimulada – Kramisha acrescentou.

– Nós não confiamos neles – eu expliquei.

– E a gente tem um monte de razões para não confiar neles – Stevie Rae reforçou. – Mas eu tenho uma ideia. Thanatos disse que eu tenho que praticar liderança e Shaylin precisa praticar a coisa da Visão Verdadeira dela. Então vamos fazer as duas coisas – Stevie Rae endireitou as costas e a sua voz deixou de ser doce e do tipo garotinha e passou a ser a voz de uma mulher que soava mais confiante e bem mais velha. – Shaylin, você pode ir até o centro de mídia mais tarde. Agora você vai comigo para o estábulo. Quero que você olhe para as cores dos novatos vermelhos que estão lá e me diga quais deles são mais perigosos.

– Sim, senhora – Shaylin respondeu.

– Ahn, você não precisa me chamar de senhora – Stevie Rae falou rapidamente, soando como ela mesma de novo. – Só me deixar bancar a chefe já é o bastante.

– Você não faz o tipo “chefe mandona” – Kramisha observou.

– Bem, estou tentando fazer – Stevie Rae suspirou e olhou para mim.

Eu sorri para ela.

– Você pode mandar em mim se quiser.

Ela me deu um olhar de surpresa.

– Se alguma vez eu tentar fazer isso, você pode me chamar de salsicha e me falar para bater em mim mesma com pão e mostarda.

Dei risada e então falei:

– Bom, então, se vocês não se importam, eu preciso ficar um tempo sozinha. Quero pensar nessa coisa da pedra da vidência. Mas eu encontro com vocês no estábulo daqui a pouco. Se você virem Stark, digam que estou bem e que logo estarei lá.

– Combinado – Stevie Rae disse.

Observei as três se afastarem. Consegui ouvir Kramisha perguntar qual era a sua cor para Shaylin e, antes que a garota pudesse responder, ela já estava falando que a cor dela não podia ser laranja de jeito nenhum porque ela não gostava de laranja. Shaylin parecia confusa, mas interessada. Stevie Rae parecia pensativa e determinada, como se estivesse tentando refletir por fora a liderança em que ela estava trabalhando por dentro.

E eu? Imagino que, se você colocasse um espelho na minha direção, eu pareceria confusa e cansada e veria que o meu rímel estava empelotando e o meu cabelo estava ficando cheio de frizz.

Eu queria ir com as minhas amigas ajudar a arrumar o estábulo. Eu queria encontrar Stark e queria que ele segurasse a minha mão e ficasse rindo de mim por eu me preocupar demais e por procurar no Google sobre sintomas de doenças. Mais do que tudo, eu queria esquecer sobre aquela pedra da vidência idiota em volta do meu pescoço e me concentrar em algo que fizesse mais sentido, como novatos vermelhos detestáveis ou lição de casa. Mas eu sabia que Thanatos estava certa. Nós iríamos precisar de todos os nossos dons para ter chance de pelo menos manter as Trevas em xeque. Então, em vez de seguir minhas amigas, tomei um caminho diferente. Limpei a minha mente o máximo que eu podia e deixei que meus instintos me guiassem. Então, quando ficou óbvio aonde os meus pés estavam me levando, sussurrei:

– Espírito, por favor, venha para mim. Ajude-me a não ter tanto medo – o elemento com o qual eu ficava mais confortável suavizou o meu medo, então na hora em que eu estava diante do carvalho despedaçado foi como se as minhas emoções estivessem envoltas em um cobertor macio e quentinho.

Eu precisava daquele cobertor confortável. Aquele lugar me assustava. A professora Nolan tinha sido assassinada ali. Stevie Rae quase havia sido morta ali. Kalona surgira rasgando a terra ali. Jack, o pobre e doce Jack, morrera ali.

O meu instinto tinha me levado até lá. E o pior de tudo era que a minha pedra da vidência começou a irradiar calor.

É, como Kramisha disse, seguir o seu instinto pode causar uma tonelada de problemas, eu pensei. Suspirei e admiti a verdade que a minha intuição havia seguido: se havia magia antiga na Morada da Noite, aquele era um lugar excelente para ela se esconder. Sgiach me contara que a magia antiga era poderosa. Ela também era imprevisível e perigosa. Eu me lembrei dela explicando que o modo como a magia antiga se manifestava tinha muito a ver com a Sacerdotisa que a invocava.

Então, o que aquilo significava para mim? Que tipo de Sacerdotisa eu estava me tornando?

Suspirei. Uma porcaria de Sacerdotisa confusa que não tinha dormido o suficiente.

Uma com potencial – o pensamento vagou pela minha mente.

Uma que não sabe o bastante, contra-argumentei mentalmente.

Uma que precisa acreditar em si mesma, o vento sussurrou para mim.

Uma que precisa parar de fazer besteira, minha mente insistiu.

Uma que precisa acreditar na sua Deusa.

E aquilo parou com a minha batalha mental.

– Eu acredito de verdade em você, Nyx. Sempre vou acreditar – decididamente, tirei a pedra da vidência quente que estava embaixo da minha camiseta, respirei fundo e a levantei, olhando através do pequeno buraco, tipo aquele furo de pastilhas Life Savers, para o carvalho despedaçado.

Por um segundo, nada aconteceu. Franzi os olhos, e o carvalho continuou sendo apenas uma velha árvore quebrada. Comecei a relaxar e, como de costume, foi então que o caos começou.

Do centro do tronco partido emergiu um redemoinho terrível e feio de sombras rodopiantes. Dentro daquele turbilhão eu vi criaturas horríveis com os corpos retorcidos, cobertos com uma pele manchada, como se estivessem apodrecendo de doenças nojentas. Os olhos deles eram cavidades profundas. As suas bocas eram costuradas. Eu podia sentir o cheiro deles. Era como o fedor de animais atropelados misturado ao cheiro de privada entupida. Eu tive ânsia e devo ter feito barulho de vômito, pois o grupo voltou seus rostos cegos para mim. Os seus dedos longos e esqueléticos se estenderam na minha direção.

– Não! Parem! – gritei. O conforto do espírito tinha se quebrado. Eu estava paralisada de medo.

E então, bem do meio do redemoinho, brilhou uma luz bonita, com a cor da lua cheia, reduzindo aquelas criaturas horrendas a nada e fazendo com que eu caísse sobre o meu traseiro. Soltei a pedra da vidência, cortando a minha ligação com a magia antiga. Num piscar de olhos, enquanto eu arfava, a árvore se tornou a árvore de novo. Velha e assustadora, mas mundana e quebrada.

Sem me importar com Thanatos ou ordens da Morte, levantei cambaleante e corri feito louca.

– Eu não sou louca. É a minha vida que é louca. Eu não sou louca. É a minha vida que é louca... – entre suspiros ofegantes, eu repetia as palavras para mim mesma como um mantra, sem parar, tentando voltar ao meu estado normal, ao meu centro, ou pelo menos a algum estado de calma, mas o meu coração estava batendo tão alto que eu podia ouvi-lo e não conseguia controlar a respiração. Ataque do coração, pensei. Esse nível de loucura é demais para mim e estou tendo um ataque do coração.

Foi então que percebi que eu não conseguia controlar a respiração e o meu coração estava batendo loucamente porque eu ainda estava correndo, e mãos fortes e familiares me agarraram, fazendo com que eu parasse abruptamente. Como uma garotinha, desabei em cima de Stark, tremendo e batendo os dentes.

– Zoey! Você está ferida? Quem está atrás de você? – Stark me manteve grudada nele, enquanto ele me virava para olhar a escuridão atrás de mim. Eu o abracei e senti que ele estava carregando seu arco e seu estojo de flechas sobre o ombro. Ele irradiava aptidão e presteza. Mesmo através do meu pânico, a presença dele me acalmou. Eu engoli o ar, balançando a cabeça.

– Não, eu estou bem. Estou bem.

Ele me segurou pelo ombro, à distância do seu braço esticado, olhando meu corpo de cima a baixo, como se estivesse procurando por ferimentos.

– O que aconteceu? Por que você estava apavorada, correndo feito uma louca?

Franzi a testa para ele.

– Eu não sou uma louca.

– Bem, você estava correndo como se fosse. E aqui dentro – ele pressionou um dedo contra o meu peito, sobre o meu coração que se acalmava – você estava se sentindo como se tivesse levado uma pancada.

– Magia antiga.

Ele arregalou os olhos.

– O touro?

– Não, não, nada disso. Eu olhei através da pedra da vidência para a árvore. Você sabe, aquela árvore, perto do muro leste.

– E por que diabos você faria isso?

– Porque Thanatos me disse que eu precisava praticar com a maldita pedra da vidência, para o caso de ela poder ser usada de algum modo na luta contra Neferet.

– Então você viu algo que veio atrás de você?

– Bem, não. Sim. Mais ou menos. Eu vi umas coisas assustadoras dentro de algo que parecia um tornado girando para cima, saindo do meio da árvore. Stark, eles eram a coisa mais nojenta que já vi na vida. E eles tinham um cheiro ruim. Muito, muito ruim. Na verdade, eu quase vomitei por causa do fedor. Tive uma ânsia de vômito, e foi quando repararam em mim, mas antes que pudessem fazer qualquer coisa uma luz brilhante acabou com eles – fiz uma pausa, tentando pensar em meio ao meu pânico. – Na verdade, a luz salvadora era tipo aquela luz de fada da Sookie. Você acha que existe alguma chance de eu ser uma fada?

– Não, Z. Foco. True Blood é ficção. Isto aqui é o mundo real. O que aconteceu depois dessa luz?

– Não sei. Eu corri – olhei em volta de nós e percebi que eu havia corrido todo o caminho pelo lado de dentro do muro e que eu estava quase no estábulo. – Eu realmente corri bastante.

– E?

– E nada. Exceto que você me agarrou. Deusa, eu achei que estava tendo um ataque do coração.

– Então você ficou assustada. É só isso?

Franzi a testa para ele de novo. A voz dele era gentil, mas a sua expressão estava tensa, como se ele estivesse tentando decidir se me sacudia ou me beijava.

– Bem – eu disse devagar. – Sim, mas eu fiquei realmente assustada.

As mãos dele, que estavam segurando os meus ombros, me deram um enorme e apertado abraço de urso. Senti o corpo dele relaxar. Ele soltou um longo suspiro que terminou com uma risadinha.

– Você me assustou pra caramba, Z.

– Desculpe – eu murmurei contra o peito dele, envolvendo-o com os meus braços e apertando-o também. – Obrigada por me encontrar e por estar totalmente pronto para me salvar.

– Você não tem por que se desculpar. Eu sou o seu guerreiro, o seu Guardião. É o meu trabalho salvar você. Apesar de você ser muito boa em se salvar sozinha.

Eu me inclinei para trás para poder olhar nos seus olhos.

– Eu sou um trabalho?

Ele deu aquele seu meio sorriso metidinho.

– De tempo integral. Totalmente. E sem benefícios nem folgas.

– Sério?

– Ok, não – o sorriso dele se alargou. – Eu me lembro de ter tirado uns dias de repouso quando uma flecha me queimou e mais alguns dias quando um escocês louco me retalhou. Então, eu retiro o que disse. Eu tenho alguns benefícios. Só que são bem poucos.

– Você está demitido! – tive vontade de dar um tapa em Stark, mas eu não queria tirar os meus braços dos ombros dele.

– Você não pode me demitir. Assinei um contrato vitalício – o sorriso de Stark despareceu dos seus lábios, mas continuou nos seus olhos. – Você é minha Sacerdotisa, minha rainha, mo bann ri. Eu nunca vou deixá-la. Sempre vou protegê-la. Eu amo você, Zoey Redbird – ele se inclinou e me beijou com tanta ternura que eu senti a verdade do seu compromisso no fundo da minha alma.

Quando os seus lábios finalmente deixaram os meus, levantei os olhos para ele.

– Eu também amo você. E você sabe que não precisa ter ciúmes de um cara morto, certo?

Ele tocou o meu rosto.

– Certo. Desculpe pela noite passada.

– Tudo bem. E, ahn, por falar nisso... Há algo que você precisa saber.

– O quê?

Respirei fundo e falei de uma vez:

– Na noite passada, no final do ritual, eu olhei através da pedra da vidência para Aurox e vi Heath. Foi por isso que eu não deixei que você e Darius o ferissem.

Senti a tensão no corpo de Stark disparar para o nível “Perigo! Alerta Vermelho!”.

– Foi por isso que você estava chamando por Heath durante o sono na noite passada? – ele soou mais magoado do que irritado.

– Não. Sim. Eu não sei! Eu falei a verdade. Não lembro com o que eu estava sonhando, mas faz sentido que Heath estivesse na minha mente depois de eu tê-lo visto quando olhei para Aurox.

– Aquela coisa feito touro não é Heath. Como você pode pensar isso?

– Não é que eu esteja pensando isso. É o que eu vi.

– Zoey, olha só, tem que haver uma explicação para o que você viu – ele deu um passo para trás. Meus braços se soltaram do seu ombro.

– É por isso que Thanatos quer que eu pratique mais essa coisa de olhar através da pedra da vidência, para que eu possa descobrir como isso funciona – eu me senti com frio e sozinha sem os braços dele em volta de mim. – Stark, eu sinto muito. Eu não quis ver Heath em Aurox. Eu não quero ver nem dizer nem fazer nada que machuque você. Nunca – eu estava piscando com força, tentando evitar explodir em lágrimas.

Stark passou a mão pelos seus cabelos.

– Z., por favor, não chore.

– Eu não estou chorando – eu disse, e então dei um pequeno soluço e enxuguei uma lágrima que de algum modo tinha escapado do meu olho.

Stark enfiou a mão no bolso da sua calça jeans e pegou um lenço de papel amassado. Ele se aproximou mais de mim de novo e enxugou a segunda lágrima que estava seguindo a primeira lágrima fugitiva. Então ele me beijou docemente e me entregou o lenço, puxando-me de volta para os seus braços.

– Não se preocupe, Z. Heath e eu ficamos em paz no Mundo do Além. Eu ficaria feliz em vê-lo de novo.

– Sério? – eu tive que me afastar um pouco do seu abraço para assoar meu nariz.

– Bem, sim. Feliz por vê-lo de novo, mas não tão feliz por você vê-lo de novo – a sinceridade dele arrancou um sorriso de nós dois. – E eu sei que você não me magoaria de propósito. Mas, Z., aquela coisa tipo touro não é Heath.

– Stark, eu soube que Aurox tinha alguma coisa a ver com magia antiga desde a primeira vez em que o vi. Ele fez com que eu me sentisse completamente estranha – eu odiava contar isso a ele, mas Stark merecia nada menos do que honestidade de minha parte.

– É claro que ele fez com que você se sentisse estranha. Ele é uma criatura das Trevas! E, sim, ele é magia antiga. Ele foi criado pelo tipo mais horrível dessa merda quando Neferet matou a sua mãe como sacrifício. Eu ficaria preocupado se ele não fizesse você se sentir estranha.

Soltei um longo suspiro.

– Bem, acho que isso realmente faz sentido.

– Sim, e aposto que, se a gente trabalhar junto, nós vamos descobrir por que a pedra mostrou Heath a você na noite passada – ele disse e eu apenas mordi o lábio. Então ele continuou, como se estivesse raciocinando em voz alta. – Pense nisso, Z. O que mais você viu através da pedra?

– Bem, em Skye eu vi aqueles duendes antigos, os elementais.

– Eles eram parecidos com as coisas que você viu hoje?

Encolhi os ombros.

– Não, de jeito nenhum. Os elementais eram sobrenaturais, misteriosos, estranhos, mas no bom sentido. O que eu vi hoje foi grotesco e assustador.

– Ok, exceto por agora na árvore e pela noite passada no ritual, a pedra da vidência mostrou a você mais alguma coisa desde que nós voltamos da Itália?

Eu encontrei o olhar dele.

– Sim. Você.


11 Zoey

– Eu? Z., o que você disse não faz o menor sentido – Stark falou.

– Eu sei, eu sei. Desculpe. É que eu me senti meio como se estivesse espionando você quando fiz isso porque você estava dormindo, e eu só fiz isso porque foi na época em que você estava tendo problemas para dormir, e na verdade foi mais uma coisa acidental, então eu nunca disse nada para você, e agora parece como se eu tivesse inventado tudo isso – terminei apressadamente.

– Zoey, eu posso ouvir as suas emoções. Isso é muito mais “espionagem” do que você olhar para mim através de uma pedra enquanto estou dormindo. Além do mais, você está certa. Meu sono realmente tem aumentado. Eu não a culpo por dar uma conferida em mim com a pedra. Apenas me conte o que você viu.

– Eu vi uma sombra em cima de você. Eu me lembro de pensar que parecia um guerreiro fantasma. Você abriu a sua mão e a espada do Guardião apareceu. Então a sombra-fantasma a segurou e ela se transformou em uma lança. Achei que ela estava ensanguentada. Aquilo me assustou, então chamei o espírito e ele afugentou aquela coisa. Você acordou e nós, ahn... – senti meu rosto esquentar. – Bem, nós fizemos amor e eu me esqueci disso.

– Z., gosto de pensar que eu sou bom de cama e tal, mas, mesmo assim, como você pode esquecer de ter visto um cara-fantasma com uma lança pairando em cima de mim?

– É sério, Stark. Logo depois disso começou o que Stevie Rae chamaria de um fuzuê danado aqui na Morada da Noite. Eu estava ocupada – cruzei os braços e olhei intensamente para ele. – Espere aí, eu não me esqueci totalmente disso. Eu contei para Lenobia sobre o cara da sombra.

– Ótimo, então uma professora sabe, mas eu não sabia.

– Agora você sabe.

– Bom, e o que Lenobia falou sobre isso?

– Basicamente, ela me disse para manter os meus olhos bem abertos aqui no mundo real em vez de ficar olhando embasbacada através da pedra, que foi o que eu fiz até a noite passada quando eu vi Heath – falei.

– Olhe para mim através da pedra de novo.

– Agora?

– Agora.

– Ok – levantei a pedra da vidência, respirei fundo e olhei através dela para Stark.

– E então? Que tal eu estou?

– Mal-humorado.

– E?

– Irritante.

– Nada mais?

– Talvez um pouco fofo. Mas apenas talvez – coloquei a pedra de volta embaixo da minha camiseta. – Simplesmente apenas você. Não achei mesmo que eu fosse ver nada. A pedra não estava quente.

– Ela fica quente?

– Sim, às vezes – mordi o lábio e pensei sobre isso. – Na verdade, foi por isso que eu olhei através dela para você da primeira vez. Ela tinha esquentado.

– A pedra estava quente quando você olhou através dela para Aurox? – ele perguntou.

– Não, mas eu sabia que tinha que olhar através dela. Foi como se eu me sentisse compelida a fazer isso – respondi. – E ela já tinha esquentado antes, quando Aurox estava por perto.

– Maldita magia antiga. Isso é um pé no saco – ele reclamou. – Podia pelo menos existir um manual com as regras da pedra descritas em algum lugar, mas não.

– Eu posso ligar para Sgiach. Quero dizer, ela me deu a pedra. Ela lida com magia antiga. Talvez ela possa me dar algumas orientações.

Ele bufou.

– Você não pediu isso a ela em Skye?

– Sim – eu disse.

– Se eu me lembro bem, ela não deu nenhuma resposta concreta.

– Você está certo. Ela falou inclusive que achava que a única magia antiga que ainda existia neste mundo estava em Skye.

– Ela estava errada – Stark afirmou.

– Sim, definitivamente.

– Quer saber o que eu acho?

Stark chegou mais perto de novo e colocou o seu braço em volta de mim. Encostei minha cabeça no ombro dele, deslizei o meu braço ao redor da sua cintura e falei:

– Que eu sou louca?

Ele abriu um sorriso e beijou minha testa.

– Você não é só louca. Você é muito louca. Caramba, Z., você é totalmente louca. Mas eu gosto de um pouco de loucura.

– Agora você pareceu a Stevie Rae – nós sorrimos um para o outro, mais relaxados, apoiados nas bases do nosso relacionamento: o nosso compromisso e a nossa crença um no outro. – Então, o que você ia dizer? O que você acha disso tudo?

– Eu acho que estou cansado de decidir o que fazer por causa do que os outros dizem. Especialmente adultos que nos entregam enigmas ou que nos largam no meio de uma tempestade de merda sem nos dar nenhuma ajuda de verdade – ele disse.

– Sim, eu entendo isso. Eu me senti assim quando Neferet ficou louca e eu era a única que sabia disso.

– Ok, então vamos decifrar essa coisa de magia antiga por nós mesmos. Z., você tem afinidade com todos os cinco elementos. Ninguém consegue nem se lembrar da última vez em que isso aconteceu com outra pessoa. Você é um tipo diferente de novata, um tipo diferente de Grande Sacerdotisa. Você é uma jovem rainha guerreira, e eu sou o seu Guardião. Juntos, não há nada que nós não possamos enfrentar – o seu sorriso metidinho estava de volta. – Nós combatemos no Mundo do Além e vencemos.

– É, exceto pela parte em que você morreu e tal – eu o lembrei.

– Só um pequeno detalhe. No fim deu tudo certo.

Eu o abracei, pressionando o meu corpo contra o seu dorso forte.

– Deu tudo mais do que certo.

Ele me beijou e eu extraí força do seu gosto, do seu toque e do seu amor. Talvez Stark estivesse certo. Talvez não existisse nada que nós não pudéssemos enfrentar. Suspirei de alegria e me aconcheguei no peito dele.

– Vamos para o estábulo – Stark indicou com o queixo o prédio comprido que não estava longe de nós.

– Sim, acho que devemos ir. Aposto que Erin está lá. Até daqui eu posso ver que parece tudo encharcado.

– Na verdade, já faz um tempo que não vejo Erin – Stark encolheu os ombros. – Talvez porque o estábulo esteja realmente muito melhor do que você imagina. A maior parte dos danos foi a fumaça. Só o que realmente queimou foram uma baia e um fardo de feno e forragem.

– Persephone está bem, certo? – Entrelaçando os meus dedos aos dele, nós começamos a caminhar devagar em direção ao estábulo, deixando os nossos braços e quadris roçarem um contra o outro.

– Ela está bem. Todos os cavalos estão bem. Bem, menos Bonnie. Ela está muito nervosa. Lenobia a colocou junto com Mujaji para acalmá-la. Aparentemente as duas se dão bem. O que me faz lembrar que vários novatos disseram que viram Lenobia beijando Travis antes de os paramédicos o levarem embora – Stark contou.

Meus olhos se arregalaram.

– Sério? Mal posso esperar até Aphrodite e Stevie Rae saberem disso!

Stark riu.

– Stevie Rae já soube por Kramisha, que está contando para todo mundo – ele me cutucou com o seu ombro. – Todo esse tempo que você passou na árvore fez com que você perdesse uma boa fofoca.

Levantei os olhos para ele, confusa.

– Todo esse tempo? Eu só fiquei lá por tipo um minuto.

Stark parou.

– Que horas você acha que são agora?

Dei de ombros.

– Sei lá. Eu teria que olhar no meu telefone, mas nós fomos até a sala de Thanatos às sete e meia. Ficamos lá provavelmente meia hora ou menos, então agora deve ser no máximo oito e meia.

– Zoey, são onze e meia. Nós só temos tempo para encontrar todo mundo no estábulo e ir até a pira funerária de Dragon.

Fiquei gelada por dentro.

– Stark, eu perdi mais de três horas!

– Sim, você perdeu, e eu não gosto nada disso. Prometa que você não vai olhar através dessa maldita pedra de novo, a menos que eu esteja com você.

Eu estava apavorada o bastante para não discutir com ele.

– Prometo. Dou minha palavra a você. Eu não vou olhar através dessa coisa a não ser que eu esteja com você.

Os ombros dele relaxaram e ele me deu um beijo rápido.

– Obrigado, Z. Algo que pode roubar tempo de você não é nada bom – ele deu ênfase especial às duas últimas palavras. – Eu sei que Sgiach disse que a magia antiga pode ser boa ou má, mas não faz diferença se ela chega sem avisar.

– Eu sei. Eu sei – a gente tinha começado a andar de novo, mas eu continuei segurando firme a mão dele. – Não me espanta que eu tenha me sentido como se fosse ter um ataque do coração. Eu fiquei parada ali, encarando aquelas coisas nojentas e fedidas por horas – encolhi os ombros.

– Está tudo bem. A gente vai decifrar essa magia antiga toda. Eu não vou deixar que nada aconteça com você.

Stark apertou minha mão e eu apertei a dele de volta. Eu queria acreditar nele. Eu realmente acreditava nele, na sua força e no seu amor. Era com o outro lado que eu estava preocupada. O lado desconhecido em que as Trevas estavam firmemente plantadas, que continuava espreitando e derrubando as pessoas que eu amava.

Fiquei pensando em como eu não queria perder mais ninguém quando aquela pedra da vidência idiota começou a esquentar. Eu parei, fazendo com que Stark parasse abruptamente comigo também. Pressionei a minha mão sobre o ponto quente no meu peito.

– O que foi? – ele perguntou.

– Está esquentando.

– Por quê?

– Stark, eu não tenho ideia. Você deveria me ajudar a decifrar isso, lembra?

– Ok, sim. Certo. Nós podemos fazer isso – ele começou a olhar em volta. – Então, vamos decifrar isso.

– Como?

– Bom, eu estou pensando – ele disse.

Suspirei e tentei pensar também. A gente havia parado embaixo de uma das grandes árvores bem próximas ao lado leste do estábulo. Levantei os olhos rapidamente, preocupada com coisas sem olhos e bocas costuradas à espreita. Mas não havia nada acima de nós. Na verdade, tudo estava em paz ao nosso redor. Tudo o que eu conseguia pensar era que não havia nada para pensar. Algumas vozes chegavam até nós do estábulo e eu podia ouvir equipamentos e outras coisas em funcionamento, como tratores e máquinas sendo usados para retirar o entulho e limpar os destroços. Escutei o som de outro motor, vindo de algum lugar atrás de nós e se aproximando.

– Que estranho – Stark comentou, olhando por sobre o meu ombro. – Táxis não costumam vir aqui.

Segui o olhar dele e vi o carro velho e marrom, com a palavra “TÁXI” escrita em letras pretas na sua lateral. Stark estava certo. Era superestranho ver um táxi na Morada da Noite. Que inferno, Tulsa não era exatamente conhecida por seu maravilhoso serviço de táxis. Dei de ombros mentalmente – o bonde do Centro da cidade era mais legal mesmo.

Então Lenobia saiu pela porta lateral do estábulo e praticamente correu até o carro. Ela abriu a porta traseira e se abaixou para ajudar o cowboy alto e enfaixado a descer do veículo. O táxi foi embora. Travis e Lenobia apenas ficaram parados ali, olhando um para o outro.

Minha pedra da vidência estava tão quente que parecia que ia queimar a minha camiseta e abrir um buraco nela. Eu a tirei e a segurei longe da minha pele. Mas não disse nada. Stark e eu estávamos muito ocupados olhando Travis e Lenobia. Eles não estavam muito perto de nós, mas mesmo assim parecia uma invasão de privacidade ficar ali olhando para eles ­– apesar de a gente continuar ali, olhando embasbacados para os dois.

Então caiu a ficha. Cutuquei o braço de Stark e falei em voz baixa:

– A pedra ficou superquente assim que Travis saiu do táxi.

Stark desviou os olhos de Travis e Lenobia, voltou-se para a pedra e depois para mim. Ele colocou uma mão firme no meu ombro e disse:

– Vá em frente. Olhe através da pedra para ele. Eu estou aqui com você. Não vou deixar que nada aconteça com você. Se alguma coisa tentar sugar o seu tempo, eu vou detê-la.

Eu assenti e, como se arrancasse um band-aid com um movimento rápido, levantei a pedra da vidência, enquadrando Travis e Lenobia dentro do seu círculo.

No começo, foi como tinha acontecido na árvore: a minha visão dos dois permaneceu exatamente a mesma. Observei Lenobia passando as mãos nervosamente sobre as mãos enfaixadas de Travis. Elas pareciam grandes luvas brancas, e eu reparei que a gaze chegava até o antebraço dele. Mesmo de onde estávamos, o rosto dele estava anormalmente vermelho e brilhante, como se ele tivesse se queimado muito no sol e tivesse passado um gel pós-sol. Mas não parecia que ele estava sentindo dor. Ele estava sorrindo. Muito. Para Lenobia. Eu estava quase largando a pedra e me preparando para dizer a Stark que eu era de fato totalmente louca, quando Travis se inclinou e beijou Lenobia.

Então tudo mudou. Houve um brilho tão forte que me fez piscar e, quando minha visão clareou, Travis tinha desaparecido. No lugar dele estava um cara negro, jovem e realmente bonito. Ele tinha cabelo comprido, que estava puxado para trás em um rabo de cavalo baixo, e ombros tão largos que parecia um linebacker. Ele estava beijando Lenobia como se fosse o último beijo dele no mundo. E ela o estava beijando de volta, só que era uma Lenobia diferente. Ela parecia jovem, como se tivesse apenas uns dezesseis anos. Ela o envolveu com os seus braços como se nunca mais fosse soltá-lo. Em toda a volta deles, o ar ondulava e tremeluzia, como se eu os estivesse observando por trás de uma panela efervescente. Só que, em vez do vapor subindo, eu juro que havia duendes de felicidade azul-turquesa esvoaçando ao redor deles. A felicidade cresceu dentro de mim e começou a borbulhar, como se a panela fosse a minha cabeça e a água, as minhas emoções. O chão sumiu de debaixo dos meus pés. Eu estava flutuando em alegria, amor e bolhas azuis.

Então minha cabeça ficou realmente zonza e o meu estômago, totalmente rebelde.

– Zoey! Chega! Abaixe a pedra agora!

Percebi que Stark estava gritando comigo e puxando a pedra da vidência. Senti a terra embaixo dos meus pés de novo. As bolhas azuis evaporaram e a alegria se foi, deixando-me enjoada, exausta e supertrêmula. Soltei a pedra da vidência a tempo de me abaixar e vomitar ao lado da árvore.

– Você está bem. Estou aqui com você, Z. Está tudo bem – Stark estava segurando o meu cabelo para trás enquanto eu continuava a vomitar e a botar minhas tripas para fora.

– Stark? Zoey? – Lenobia estava vindo na nossa direção, soando ofegante e preocupada. Eu ouvi Travis logo atrás dela, perguntando o que havia de errado. Mas eu não consegui responder. Eu estava muito ocupada vomitando. – Zoey! Ah, Deusa, não! – a preocupação de Lenobia disparou quando ela percebeu que eu estava vomitando.

– Ela não está rejeitando a Transformação. Ela está bem – Stark a tranquilizou enquanto eu pegava outro lenço de papel que ele tinha me oferecido e enxugava a boca. Quando finalmente parei de vomitar, eu me encostei na árvore, envergonhada e desconfortável. Eu realmente detestava vomitar.

– Então o que aconteceu? Por que você está enjoada?

Com Stark de um lado e Lenobia de outro, eles me guiaram até um banco de ferro forjado que não estava muito longe da árvore grande (mas longe o bastante para que ninguém sentisse o cheiro do meu vômito, eca).

– Vocês querem que eu chame alguém? – Travis perguntou.

– Não – respondi rapidamente. – Eu estou bem. Vou ficar melhor agora que estou sentada – olhei para Stark com ar de interrogação.

Ele assentiu.

– Seja o que for que você tenha visto, conte para ela. Nós confiamos nela.

Eu me voltei para Lenobia.

– E você confia em Travis?

– Com a minha vida – ela não hesitou.

O cowboy grandão sorriu e se aproximou mais dela. Os ombros deles se tocaram.

– Ok, o que aconteceu é que a minha pedra da vidência começou a esquentar. Quando Travis saiu do carro, ela ficou realmente quente. Stark estava aqui, então nós decidimos que eu deveria olhar através dela, bem, para vocês, e ver se isso poderia me ajudar a começar a entender o que ela me mostra. Então eu olhei através dela para vocês dois.

– Pedra da vidência? – Travis perguntou. Ele não soou nem um pouco assustado, apenas curioso.

– É um amuleto de magia antiga dado a Zoey por uma rainha vampira ancestral – Lenobia explicou. – E o que você viu?

– Bem, nada demais até que vocês dois se beijaram – eu sorri encabulada. – Desculpe por ficar olhando vocês se beijarem.

Travis sorriu e colocou um braço enfaixado em volta do ombro de Lenobia.

– No que depender de mim, mocinha, você vai me ver beijando esta bela garota aqui muitas vezes.

Esperei que Lenobia o fuzilasse com o seu olhar mortal. Em vez disso, ela levantou os olhos com adoração para ele, colocou a mão sobre o peito dele em cima do coração e encostou a cabeça cuidadosamente sobre o seu ombro. Então ela repetiu:

– O que você viu enquanto estávamos nos beijando?

– Travis se transformou em um cara negro grandão e você virou uma versão mais jovem de si mesma. E ao redor de vocês havia umas coisinhas borbulhantes, felizes e azuis. Tenho certeza de que eram duendes de algum tipo – arregalei os olhos. – Na verdade, agora que estou pensando nisso, aquelas bolhas me lembram o mar. Hum. Estranho. Enfim, fiquei totalmente capturada pela cena, como se eu tivesse saído do chão e estivesse em uma bolha azul e feliz do oceano. Desculpe. Eu sei que isso parece loucura – prendi a respiração, esperando Lenobia cair na risada e Travis começar a zombar de mim.

Mas eles também não fizeram isso. Em vez disso, Lenobia começou a chorar. Eu quero dizer chorar para valer. Ela caiu naquele choro convulsivo e cheio de catarro em que eu sou especialista. Travis apenas a abraçou mais forte. Ele abaixou os olhos para Lenobia como se ela fosse um milagre personificado.

– Eu já conheci você antes. É por isso que, com você, eu me sinto como se estivesse em casa.

Lenobia assentiu. Então, em meio às suas lágrimas, ela contou:

– Travis é o meu único companheiro humano, meu único amor, que voltou para mim depois de duzentos e vinte e quatro anos. Eu jurei nunca amar ninguém depois dele e não amei. Nós nos conhecemos e nos apaixonamos no mar, no navio que nos levou da França para Nova Orleans.

– Então a pedra da vidência me mostrou a verdade?

– Sim, Zoey. Com certeza absoluta – Lenobia disse antes de afundar o rosto no peito de Travis e chorar, enquanto ele a abraçava, deixando para trás dois séculos de espera, saudade e dor.

Eu me levantei e peguei a mão de Stark de novo, puxando-o para longe para que os dois pudessem ficar sozinhos. Enquanto entrávamos no estábulo, ele disse:

– Isso não significa que Aurox é Heath que voltou para você. Você sabe disso, certo?

Stevie Rae me salvou ao chegar apressada, falando efusivamente:

– Aiminhadeusa! Por onde você andou? Mal posso esperar para contar a você sobre Lenobia e Travis!

– Já vi esse filme antes – Stark falou. – Onde estão Darius e Aphrodite?

– Eles já estão na frente do Templo de Nyx, na pira funerária – Stevie Rae respondeu. – Nós vamos encontrar com eles já, já.

– Vou procurar Erin, Shaunee e Damien. A gente tem que ir.

– O que há com ele? – Stevie Rae perguntou, olhando Stark se afastar dando passos firmes.

– Heath pode estar realmente dentro de Aurox.

Stevie Rae ecoou exatamente meus pensamentos, dizendo:

– Ah, que inferno!


12 Kalona

Estar do lado da Luz não era tão interessante quanto ele se lembrava. Verdade seja dita, Kalona estava entediado. Sim, Kalona entendia por que Thanatos havia dito a ele para ficar em segundo plano e não chamar atenção para si mesmo até depois do funeral de Dragon. Era nessa hora que ela ia anunciar para a escola que ele era o seu novo guerreiro e que ele ia assumir o posto de Mestre da Espada e líder dos Filhos de Erebus da Morada da Noite de Tulsa. Até esse momento, a presença dele poderia ser algo confuso, se não insultuoso aos olhos dos outros guerreiros.

O problema é que Kalona nunca havia se preocupado por parecer insultuoso. Ele era um imortal poderoso. Por que ele deveria se importar com os sentimentos irrelevantes dos outros?

Porque aqueles que eu julgo mais irrelevantes às vezes me surpreendem: Heath, Stark, Dragon, Aurox, Rephaim. O último nome da sua lista mental o alarmou. Rephaim já pareceu sem importância para ele um dia, mas ele estava errado. Kalona tinha percebido que ele amava e precisava do seu filho.

Em que mais ele havia errado?

Provavelmente em um monte de coisas.

Esse pensamento o deixou deprimido.

Ele andou de um lado para o outro pelo lado mais escuro e cheio de sombras do Templo de Nyx. Ali ele estava perto o bastante da pira de Dragon para ouvir quando Thanatos o chamasse, mas ao mesmo tempo estava fora do campo de visão.

O fato de alguém dizer a ele o que deveria fazer o irritava. Isso sempre o irritara.

E havia aquela novata que tinha afinidade com o fogo, Shaunee. Ela parecia ter a habilidade de incitá-lo, de fazê-lo pensar em coisas em que ele não estava acostumado a perder tempo pensando.

Ela já havia feito isso antes. Ele havia tido a intenção de manipulá-la, para conseguir informações sobre Rephaim e a Vermelha. Mas o que havia acontecido era que ela o tinha presenteado com algo ridiculamente mundano e simples: um telefone celular. Aquele pequeno presente tinha salvado a vida do seu filho.

Agora ela o fizera pensar em todos aqueles éons que ele havia passado afastado de Nyx.

– Não! – ele falou a palavra em voz alta, fazendo que o pequeno bosque de olaias que estavam plantadas no lado oeste do Templo de Nyx chacoalhasse como se uma tempestade as ameaçasse. Kalona se concentrou e controlou o seu temperamento. – Não – ele repetiu usando uma voz que não estava mais repleta de poder sobrenatural. – Eu não vou pensar nos séculos que passei afastado dela. Não vou pensar nela de jeito nenhum.

Uma gargalhada soou ao redor dele, fazendo as olaias se mexerem, tremularem e então explodirem em plena floração, como se um facho da luz do sol do verão tivesse subitamente iluminado as árvores. Kalona cerrou os punhos e levantou os olhos.

Ele estava sentado no beiral de pedra do templo. Havia pouca luz naquele lado do edifício, motivo pelo qual Thanatos havia ordenado que ele esperasse ali, mas Erebus irradiava luz própria.

Erebus... seu irmão... o Consorte imortal de Nyx. O único ser do universo que era mais parecido com ele, e o único ser do universo que ele detestava mais do que a si mesmo. Ali! No reino mortal depois de todos esses éons? Por quê?

Kalona mascarou o seu choque com desdém.

– Você é mais baixo do que eu me lembrava.

Erebus sorriu.

– Que bom ver você de novo também, irmão.

– Como sempre, você coloca palavras da minha boca.

– Desculpe. Eu não preciso fazer isso. Não quando as suas próprias palavras são tão interessantes. “Não vou pensar nela de jeito nenhum” – Erebus não apenas era quase uma imagem espelhada de Kalona, como também imitava a voz de seu irmão perfeitamente.

– Eu estava falando de Neferet – Kalona rapidamente organizou seus pensamentos e mentiu com facilidade. Fazia éons, mas ele costumava ser bom em mentir para o seu irmão. Kalona achou que ainda levava jeito para a coisa.

– Não duvido de você, irmão – Erebus se inclinou para a frente, abriu suas asas douradas e planou graciosamente até o chão diante de Kalona. – Veja só, esse é exatamente o motivo da minha pequena visita.

– Você veio até o reino terreno porque eu era amante de Neferet? – Kalona cruzou os braços sobre o seu peito largo e encontrou o olhar âmbar de seu irmão.

– Não, eu vim porque você é um mentiroso e um ladrão. O estupro da última bondade de Neferet é apenas mais um de seus muitos crimes – Erebus disse. Ele também cruzou o braço sobre o peito.

Kalona deu uma gargalhada.

– Você não andou espionando muito bem se acha que estupro tem algo a ver com o que Neferet e eu compartilhamos. Ela estava mais do que desejosa e pronta para o meu corpo.

– Eu não estava falando do corpo dela! – a voz de Erebus se elevou e Kalona ouviu o som de vampiros chamando e perguntando o que estava havendo ali perto do Templo de Nyx.

– Como sempre, irmão, você apareceu para causar problemas para mim. Eu deveria ficar nas sombras, sem ser visto e esperando até ser convocado. Se bem que, pensando melhor, vai ser divertido assistir a você lidar com a descoberta dos mortais. Apenas um rápido aviso: até os vampiros tendem a ter reações exageradas quando encontram um deus.

Erebus não hesitou. Ele levantou as mãos e ordenou:

– Esconda-nos!

Houve uma onda de vento e uma sensação de claridade que Kalona achou tão familiar, tão agridoce, que só duas reações vieram à sua mente: raiva e desespero. Ele não ia permitir que Erebus visse o seu desespero.

– Você está desafiando Nyx? Ela determinou que eu não posso entrar no Mundo do Além. Como você se atreve a me trazer aqui? – as asas cor da noite de Kalona estavam totalmente abertas e tensionadas, prontas para atacar o seu irmão.

– Você sempre faz o papel do tolo impetuoso, irmão. Eu nunca iria contra as determinações da minha Consorte. Eu não o trouxe para o Mundo do Além. Apenas trouxe um pedaço do Mundo do Além para nos esconder, só por alguns momentos, dos olhos mortais – Erebus sorriu de novo. Desta vez, ele não obscureceu a beleza de sua expressão. Uma luz solar irradiava do seu corpo. As suas asas cintilavam com penas de ouro. A sua pele era perfeita, como se ele tivesse sido modelado com raios de sol.

Ele foi, Kalona pensou com desgosto. Ele foi modelado quando o céu beijou o sol. Assim como eu fui modelado quando o céu beijou a lua. O céu, como a maioria dos imortais, é um bastardo inconstante, que faz o que quer e depois não presta atenção nos filhos que deixa para trás.

– Que tal a sensação de estar no Mundo do Além? Deve ser melhor do que quando você entrou sorrateiramente, perseguindo aquela pequena novata, Zoey Redbird. Naquela ocasião você era só espírito. Você não podia sentir a mágica do reino de Nyx contra a sua pele. E você sempre ficou tão impressionado com qualquer coisa que você pudesse tocar, que pudesse fisicamente chamar de sua.

Ótimo, Kalona pensou, ele ficou nervoso. Isso vai ofuscar a sua perfeição.

Foi a vez de Kalona sorrir. A luz que ele emitiu para o seu irmão não era a luz quente e vistosa do sol. Era a luminescência prateada e fria da lua.

– Ainda enciumado por eu tê-la tocado depois de todo esse tempo? Você se lembra de que Nyx é uma Deusa, não lembra? Ela não pode ser tocada a não ser que seja a sua vontade, o seu desejo, ser tocada, acariciada, amada por...

– Eu não vim aqui para falar de minha Consorte! – as palavras explodiram em flashes de calor dourado ao redor de Kalona.

– Que amostra de temperamento divino! – Kalona riu sarcasticamente. – E ainda dizem que você é o irmão bom. Se ao menos os aduladores que preferiram ficar no Mundo do Além pudessem vê-lo agora.

– Eles não dizem que eu sou o irmão bom. Eles dizem que você é o usurpador – Erebus atirou as palavras no seu irmão.

– Verdade? Pergunte novamente a eles. Eu acredito, depois de éons de reflexão cuidadosa, que eles iriam me chamar de “aquele que se recusou a compartilhá-la” – Kalona disse.

– Ela me escolheu – a voz de Erebus estava baixa; os seus pulsos estavam cerrados ao lado de seu corpo.

– Escolheu mesmo? Minha memória é diferente.

– Você a traiu! – Erebus gritou.

Kalona ignorou o ataque de cólera de seu irmão. Ele já havia testemunhado isso antes. Em vez de se abalar, ele falou com a frieza da superfície da lua:

– Por que você veio? Diga o que tem a dizer e então desapareça. O mundo mortal não é um grande reino, mas ele é meu. E eu não vou compartilhá-lo com você, assim como eu não teria compartilhado Nyx com você.

– Eu vim adverti-lo. Nós escutamos o seu Juramento no Mundo do Além. Nós sabemos que você se comprometeu a ser o guerreiro da Morte e a se tornar o Mestre da Espada desta escola.

– E líder dos Filhos de Erebus – Kalona acrescentou. – Não se esqueça do resto do meu título.

– Eu nunca poderia esquecer que você pretende blasfemar contra os meus filhos.

– Seus filhos? Agora você anda se acasalando com humanas e produzindo machos que crescem para se tornar guerreiros vampiros? Isso é fascinante, especialmente porque eu fui julgado tão duramente por criar meus filhos.

– Vá embora – os olhos de Erebus começaram a ficar incandescentes. – Saia deste lugar e pare de se intrometer na vida dos vampiros de Nyx e dos valorosos guerreiros que se comprometeram a me servir.

– Mas você não está se intrometendo ao ordenar que eu parta? Estou surpreso que Nyx tenha permitido isso.

– A minha Consorte não sabe que estou aqui. Eu só vim porque, de novo, você a está perturbando. Eu vivo para evitar qualquer perturbação a ela. Essa é a única razão pela qual estou aqui – Erebus disse.

– Você vive para lamber os pés dela e está, como sempre, com ciúmes de mim – Kalona não pôde evitar uma onda de alegria pelo que as palavras de Erebus tinham revelado. Ainda posso fazer Nyx sentir algo! A Deusa me observa! O imortal controlou suas emoções. Ele tinha que esconder a sua alegria de Erebus. Quando ele falou novamente, a sua voz estava sem emoção. – Que isto fique claro: eu não jurei servir a você. Eu fiz um Juramento de servir a uma Grande Sacerdotisa que personifica a Morte através da sua afinidade concedida pela Deusa. Tudo o que a sua visita fez foi me dar motivos para fazer uma clara distinção entre os guerreiros que se dizem seus filhos e os que não. Eu não vou oprimir os seus filhos com a minha liderança.

– Então você vai embora desta Morada da Noite – Erebus afirmou.

– Não. Mas você vai. Leve esta mensagem minha para Nyx: a Morte não faz diferença entre aqueles que a seguem e aqueles que seguem outros deuses. A Morte chega para todos os mortais. Eu não preciso da sua permissão, nem da permissão da Deusa, para servir à Morte. Agora suma daqui, irmão. Eu tenho que participar de um funeral – Kalona colocou os braços à frente do seu corpo e juntou as palmas das mãos, provocando uma explosão de luz prateada e gelada que criou uma onda ao redor dele, despedaçando a pequena bolha de Mundo do Além que o seu irmão havia criado e arremessando Erebus para cima e para longe no céu.

Quando a luz em volta dele desapareceu, os pés de Kalona tocaram a terra de novo e ele estava em pé ao lado do Templo de Nyx.

Aphrodite surgiu de um canto apressada, parou e o encarou.

– Eu já fui convocado? – ele perguntou.

Ela piscou e esfregou os olhos, como se estivesse tendo problemas em clarear a sua visão.

– Você estava brincando com uma lanterna aqui?

– Não tenho nenhuma lanterna. Eu já fui convocado? – ele repetiu.

– Quase. Alguma retardada, ou melhor, Kramisha, porque ela estava responsável pelas velas, esqueceu a vela do espírito. Eu tenho que pegar uma no Templo de Nyx. Você deve voltar comigo para a pira de Dragon. Thanatos vai concluir o círculo, dizer algumas coisas bacanas sobre Dragon e depois apresentar você.

Sentindo-se estranhamente desconfortável sob o olhar da humana rude e estranha que Nyx tinha, por razões incompreensíveis a quase todos, escolhido como sua Profetisa, Kalona resmungou uma resposta sem palavras e se virou para abrir a porta lateral do templo.

Ela não se abriu.

Kalona tentou de novo.

Ele se esforçou, usando a sua enorme força imortal.

Ela absolutamente não se abriu.

Foi então que ele notou que a porta de madeira havia desaparecido. A maçaneta havia se transformado em uma pedra firme e espessa. Não havia nenhuma entrada. Nada.

De repente, Aphrodite o estava empurrando para o lado. Ela segurou a maçaneta e a girou. A pedra desapareceu, transformando-se de novo em uma porta de madeira, que se abriu facilmente para ela. Aphrodite levantou os olhos para Kalona, antes de passar pela entrada do templo da Deusa.

– Você é tão estranho – ela atirou o cabelo para trás e entrou.

A porta se fechou atrás dela. Kalona colocou sua mão nela e, sob sua palma, ela se transformou de uma receptiva madeira em pedra novamente.

Kalona se afastou para trás, com uma sensação terrível dentro dele.

Apenas alguns minutos depois, Aphrodite emergiu por uma porta completamente normal. Ela estava segurando uma grossa vela roxa e disse, ao passar por ele:

– Bom, vamos lá. Thanatos quer que você fique na beira do círculo e tente não chamar atenção. Apesar de que, você sabe, isso seria bem mais fácil se você usasse mais roupas.

Kalona a seguiu, tentando ignorar aquele vazio dentro dele. Ele era exatamente o que Erebus havia dito, um tolo impetuoso e um usurpador. Se Nyx o estava observando, não era com nada mais além de desdém. Ela negava tudo a ele: que ele entrasse no Mundo do Além, no seu templo e no seu coração...

Os séculos deveriam ter diminuído a sua dor, mas Kalona estava começando a entender que a verdade era o oposto disso.

Aurox

Nyx, se você é mesmo uma Deusa misericordiosa, por favor, me ajude... por favor...

Aurox não tinha escapado de seu esconderijo na terra. Em vez disso, ele ficou repetindo sem parar aquela única frase, aquela única prece. Talvez Nyx premiasse a determinação. Pele menos ele poderia oferecer isso à Deusa.

Foi durante a ladainha da sua prece silenciosa que a mágica começou a girar em um redemoinho ao redor dele. A princípio, o espírito dele se animou. Nyx me ouviu! Mas bastaram alguns instantes para que ele percebesse o quanto estava errado. As criaturas que se materializaram, saindo do ar frio e úmido ao redor dele, não podiam estar a serviço de uma Deusa misericordiosa.

Aurox se encolheu para se afastar delas. O fedor daquelas criaturas era quase insuportável. Era horrível olhar aquelas faces cegas. O coração dele começou a bater mais forte. O medo o fez estremecer e a besta dentro dele se agitou. Será que aquelas coisas tinham sido enviadas como julgamento pelos malfeitos que ele cometera a serviço de Neferet? Aurox usou o seu próprio medo e começou a alimentar a besta no seu interior. Ele não queria que ela despertasse, mas ele ia lutar antes de sucumbir ao redemoinho de malevolência que ameaçava engolfá-lo.

Mas Aurox não foi engolfado por elas. Devagar, as criaturas foram subindo em um redemoinho mágico. Quanto mais alto elas iam, mais rápido elas giravam. Parecia que elas haviam sido invocadas e estavam despertando aos poucos, atendendo a um chamado mudo.

Aurox acalmou o seu medo e a besta dentro dele retrocedeu. Aquelas coisas não o queriam. Elas não tinham prestado nenhuma atenção nele. A cauda do redemoinho estava deixando como rastro uma névoa escura e fétida. Sem saber ao certo o que o compelia, Aurox estendeu o braço e passou a mão naquele rastro.

A sua mão se tornou a névoa, como se elas fossem feitas da mesma substância. Ele não sentiu o redemoinho, apesar de aparentemente ele ter dissolvido a carne de Aurox. Com os olhos arregalados, ele tentou soltar sua mão, mas era tarde demais. Ele não tinha mais mão, e então um tremor tomou conta dele quando a névoa começou a absorver a sua carne. Impotente, Aurox viu o seu antebraço desaparecer, depois os seus bíceps, depois os seus ombros. Ele tentou despertar a besta, libertar o poder adormecido dentro dele, mas a névoa amortecia os seus sentimentos. Ela o anestesiava enquanto o sugava. Quando ela absorveu a sua cabeça, Aurox se tornou a névoa. Ele não sentia mais nada, exceto um desejo enorme, uma busca incompleta, uma necessidade implacável. Do quê? Aurox não sabia dizer. Tudo o que ele sabia é que havia sido engolfado pelas Trevas e que ele estava sendo levado em uma onda de desespero.

Tem que existir algo além disto para mim!, ele pensou freneticamente. Eu tenho que ser mais do que névoa, desejo, besta e escuridão! Mas parecia que ele não era nada além dessas coisas. O desespero tomou conta dele quando ele percebeu a verdade. Ele era todas essas coisas e ao mesmo tempo nenhuma dessas coisas. Aurox não era nada... Absolutamente nada.

Aurox pensou que o barulho de vômito fosse dele mesmo. Em algum lugar, de algum modo, o seu corpo deveria estar revoltado com o que estava acontecendo. Então ele a viu.

Zoey estava lá. Ela estava segurando a pedra branca à sua frente. Do mesmo modo como ela havia feito na noite anterior, no ritual em que ele tinha tentado fazer uma escolha, fazer a coisa certa.

Ele sentiu a névoa se agitar. Ela também viu Zoey.

A névoa ia absorvê-la.

Não! O seu espírito berrou profundamente. Não! A mente de Aurox ecoou aquele berro. Em vez de desespero, ele começou a sentir algo mais ao observar Zoey. Ele sentiu o medo dela e a sua força. A sua determinação e a sua fraqueza. E Aurox percebeu algo que o surpreendeu. Zoey se sentia tão insegura sobre si mesma e sobre o seu lugar no mundo quanto ele. Ela se preocupava em não ter a coragem necessária para fazer as coisas certas. Ela questionava as suas decisões e se envergonhava de seus erros. De vez em quando, até Zoey Redbird, a novata privilegiada tocada pela Deusa, sentia-se como um fracasso e pensava em desistir.

Exatamente como ele.

A compaixão e a compreensão fluíram através de Aurox, e nesse momento ele sentiu uma onda de um poder quente e claro. Em um flash de luz ofuscante, ele caiu do centro do redemoinho em desintegração, aterrissando com força no seu corpo restaurado, arfando em busca de ar fresco e tremendo inteiro.

Ele não ficou descansando muito tempo ali. Ainda trêmulo e fraco, Aurox encontrou apoio para as mãos e os pés no labirinto de raízes quebradas. Devagar, ele foi se puxando para cima até a beira do buraco. Isso levou muito tempo. Quando finalmente alcançou o topo, ele hesitou, procurando ouvir atentamente.

Ele não ouviu nada além do vento.

Aurox se ergueu do chão, usando o tronco quebrado como esconderijo. Zoey tinha desaparecido. Ele analisou a área ao seu redor e os seus olhos foram atraídos imediatamente para um monte enorme de madeiras e tábuas, em cujo topo havia uma figura coberta por uma mortalha. Apesar de aquele local estar aparentemente cercado pela Morada da Noite inteira, Aurox não teve dúvidas em reconhecer o que estava vendo. É a pira funerária de Dragon Lankford, foi o seu primeiro pensamento. Eu o matei, foi o segundo. Como o desespero na névoa mágica, o funeral o sugou.

Não foi difícil se aproximar do círculo de novatos e vampiros. Os guerreiros Filhos de Erebus estavam obviamente bem armados, mas a atenção de todos estava focada dentro do círculo e na pira no seu centro.

Aurox se moveu furtivamente, usando os grandes carvalhos antigos e as sombras abaixo deles como cobertura até chegar perto o bastante para entender as palavras que Thanatos estava dizendo. Então ele recuperou o controle sobre si mesmo e saltou. Agarrando um galho baixo, Aurox foi subindo na árvore até encontrar um lugar onde se agachou, com uma vista desimpedida do espetáculo macabro.

Thanatos havia acabado de traçar o círculo. Aurox podia ver que quatro professores vampiros estavam segurando velas e representando cada um dos elementos. Ele esperava ver Zoey no centro do círculo, perto da pira, mas em vez disso ele ficou surpreso ao ver que Thanatos estava segurando a vela roxa do espírito com uma mão e uma tocha grande com a outra.

Onde estava Zoey? Será que as criaturas da névoa a tinham capturado? Será que foi isso que fez com que a névoa se dissipasse? Freneticamente, ele procurou encontrá-la no círculo. Quando ele a encontrou em pé ao lado de Stark, rodeada pelo seu grupo de amigos, Aurox achou que ela parecia triste, mas sem ferimentos. Ela estava observando Thanatos atentamente. Aparentemente, não havia nada errado com Zoey, exceto que ela lamentava a perda do seu Mestre da Espada. Com aquela sensação de alívio, Aurox ficou tão fraco que quase caiu de seu poleiro na árvore.

Aurox encarou Zoey. Ela havia começado esse conflito interno que ele sentia. Por quê? Ele estava tão confuso com ela quanto estava em relação aos sentimentos que ela havia despertado dentro dele.

Ele voltou sua atenção para Thanatos. Ela estava andando graciosamente em volta da circunferência do círculo, falando com uma voz que acalmava até os seus nervos em frangalhos.

– O nosso Mestre da Espada morreu como ele viveu: como um guerreiro, fiel ao seu Juramento, fiel a esta Morada da Noite e fiel à sua Deusa. Há outra verdade aqui que precisa ser contada. Apesar de nós chorarmos a sua perda, nós reconhecemos que ele era apenas a casca de si mesmo sem a sua companheira, a amável Anastasia – Aurox olhou para Rephaim. Ele sabia que, como Raven Mocker, Rephaim havia matado Anastasia Lankford. Que ironia o fato de o Mestre da Espada ter morrido para protegê-lo. Ironia maior ainda era o rosto do garoto estar encharcado de lágrimas e ele chorar abertamente a morte de Dragon.

– A Morte foi gentil com Dragon Lankford. Ela não apenas permitiu que ele morresse como guerreiro, mas também serviu como um conduto para a Deusa. Nyx uniu novamente Bryan Dragon Lankford à sua amada e aos espíritos iluminados de seus dois familiares felinos, Shadowfax e Guinevere.

Os gatos deles também morreram? Eu não me lembro de nenhum gato no ritual. Confuso, Aurox analisou a pira funerária. Sim, agora que estava olhando mais de perto, ele podia ver dois pequenos volumes embrulhados na mortalha com Dragon, aninhados um de cada lado do guerreiro caído.

Thanatos havia parado de andar em volta do círculo e estava parada bem na frente de Zoey. A Grande Sacerdotisa sorriu para a novata.

– Conte-nos, Zoey Redbird. Já que você entrou no Mundo do Além e voltou, qual é a única constante lá?

– O amor – Zoey respondeu sem hesitar. – Sempre o amor.

– E você, James Stark? O que você encontrou no Mundo do Além? – Thanatos perguntou ao jovem guerreiro, que estava com seu braço em volta dos ombros de Zoey.

– O amor – Stark repetiu com uma voz forte e firme. – Sempre o amor.

– Isso é uma verdade – Thanatos continuou a andar ao redor do círculo. – Eu também posso dizer a vocês que a minha proximidade com a Morte já me mostrou relances do Mundo do Além. O que eu tive permissão para ver me ensinou que, apesar de o amor permanecer conosco quando passamos deste reino a outro, ele não pode existir eternamente sem compaixão, assim como a Luz não pode existir sem esperança e as Trevas não podem existir sem o ódio. Então, tendo em mente essa verdade dita e compreendida, eu gostaria de pedir que vocês abram os seus corações e deem as boas-vindas ao nosso novo Mestre da Espada e líder dos guerreiros Filhos de Erebus, meu guerreiro sob Juramento, Kalona!

Aurox refletiu a surpresa que ele viu em muitos rostos abaixo dele quando Kalona, o imortal alado que ele sabia que estava havia muito tempo ao lado das Trevas, entrou no círculo com passos firmes e se aproximou de Thanatos. Ele cruzou sua mão em punho sobre o peito e se curvou respeitosamente. Então ele levantou a cabeça e sua voz profunda preencheu o ar.

– Eu jurei ser o guerreiro da Morte, e assim será. Eu jurei ser o Mestre da Espada desta Morada da Noite, e assim será. Mas eu não tentarei tomar o lugar de Dragon como líder dos guerreiros Filhos de Erebus.

Aurox viu que Thanatos estava observando Kalona atentamente, apesar de a sua expressão parecer satisfeita. Os guerreiros que estavam espalhados por toda a volta do círculo se agitaram, como se não soubessem bem o que pensar a respeito da proclamação do imortal.

– Eu vou servir como guerreiro da Morte – Kalona repetiu. Ele estava se dirigindo a Thanatos, mas a sua voz chegava a todos no círculo e à multidão que havia se reunido para o funeral. – Vou proteger você e esta escola. Mas não vou receber um título que me liga a Erebus.

– Eu estava no Conselho Supremo quando você declarou ser Erebus de volta à Terra – Thanatos afirmou. – O que você tem a dizer sobre isso?

– Eu não reivindiquei esse título. Isso foi coisa de Neferet. Ela quer muito ser uma deusa, e isso significa que ela precisa de um Consorte imortal, então ela me nomeou Erebus de volta à Terra. Eu rejeitei esse papel quando rejeitei Neferet.

Sussurros zuniram através do círculo como se fosse o vento através das árvores. Thanatos levantou a tocha que ela ainda segurava.

– Silêncio! – as vozes se aquietaram, mas o choque e a descrença continuaram. – Kalona está falando a verdade sobre Neferet. Dragon foi morto pela criatura dela, Aurox. Ele não foi um presente de Nyx. Na noite passada, durante o ritual de revelação na fazenda de lavandas de Sylvia Redbird, a terra nos mostrou a terrível verdade. Aurox foi criado pelas Trevas através do sacrifício da mãe de Zoey Redbird. Ele é um Receptáculo escravo de Neferet. As Trevas continuam a controlá-lo através de sacrifícios sangrentos – ela apontou sua tocha para os três corpos em cima da pira. – Eu tenho evidências de que Neferet tirou a vida de Shadowfax para que as Trevas mantivessem o domínio sobre Aurox. Essa morte foi demais para a pequena Guinevere de Anastasia. A tristeza parou o seu coração e ela prontamente seguiu Shadowfax para o Mundo do Além, para se reencontrar com aqueles a quem os dois mais amavam.

O corpo de Aurox ficou imóvel. Ele mal conseguia respirar. Ele se sentia como se Thanatos tivesse acabado de estripá-lo. Ele queria gritar: “ Não é verdade! NÃO É VERDADE!”, mas as palavras dela continuavam a massacrá-lo.

– Zoey, Damien, Shaunee, Erin, Stevie Rae, Darius, Stark, Rephaim e eu! – ela gritou cada nome. – Nós testemunhamos os malfeitos sombrios de Neferet. Dragon Lankford morreu para que nosso testemunho pudesse se tornar público. Agora nós precisamos continuar a luta que derrubou o nosso Mestre da Espada. Kalona, estou satisfeita por ouvir a sua confissão. Você tentou usurpar Erebus, ainda que apenas na Terra. Ficou claro para o Conselho Supremo que você estava sendo incitado pelas tramoias de Neferet. Eu o aceito como guerreiro da Morte e protetor desta escola, mas você não pode liderar os guerreiros que fizeram Juramento como Filhos de Erebus. Isso seria desrespeitoso à Deusa e ao seu Consorte.

Aurox viu um lampejo de raiva passar pelos olhos de Kalona, mas ele abaixou a cabeça para Thanatos e cruzou sua mão em punho sobre o coração, dizendo:

– Que assim seja, Grande Sacerdotisa. – Então ele voltou para a beira do círculo, e as pessoas que estavam próximas a ele deram alguns passos discretos para trás.

Thanatos pediu que Shaunee invocasse o fogo e acendesse a pira funerária. Quando a coluna de fogo engolfou a pira de Dragon Lankford, Aurox desceu da árvore e, sem ser visto por ninguém, cambaleou de volta até o carvalho despedaçado e desapareceu abaixo do chão, onde, sozinho, chorou todo o seu desespero e o seu ódio por si mesmo dentro da terra partida.


13 Zoey

– Está tudo bem, Z.? – Stark falou baixo no meu ouvido quando o meu círculo e eu estávamos reunidos perto da entrada do lobby da escola. Thanatos havia pedido que nós esperássemos ela terminar de falar com os professores e guerreiros, e então ela iria se juntar a nós para a entrevista.

– Estou triste por causa de Dragon – sussurrei para ele.

– Não quis dizer isso – ele manteve a voz baixa, para que eu fosse a única capaz de ouvi-lo. – Eu queria saber se está tudo bem com a pedra. Eu vi quando você a tocou durante o funeral.

– Eu achei ter sentido a pedra esquentando por um momento, mas logo passou. Provavelmente foi porque nós estávamos bem perto da pira. E por falar nisso... – levantei a voz e me dirigi a Shaunee –, bom trabalho com a parte do fogo no funeral. Eu sei que não é fácil manter piras funerárias acesas, mas você ajudou. Você fez com que tudo acabasse mais rápido.

– Obrigada. Sim, todos nós estamos cansados de funerais. Pelo menos antes desse funeral nós pudemos assistir a Dragon entrando no Mundo do Além, mas ver os gatos lá na pira com ele deixou tudo especialmente triste – ela enxugou os olhos e eu me perguntei como ela (ou qualquer um) conseguia chorar e ainda ficar bonita. – Na verdade, isso me lembra de uma coisa... – Shaunee continuou, virando-se para encarar Erin, que estava na ponta do nosso grupo, olhando para os garotos que ainda estavam na pira como se ela estivesse procurando alguém. – Erin, tudo bem por você se eu mudar a caixa de areia e as coisas de Belzebu para o meu quarto? Ele tem dormido lá a maioria dos dias.

Erin olhou para Shaunee, deu de ombros e disse:

– Sim, tanto faz para mim. Aquela caixa de areia tem cheiro de merda mesmo.

– Erin, os gatos não gostam de usar caixas de areia sujas. Você tem que limpá-la todo dia – Damien a informou, franzindo a testa.

Erin bufou de um jeito sarcástico.

– Não, eu não preciso mais fazer isso – então ela voltou a olhar para os outros garotos.

Percebi que ela não estava chorando. Pensei nisso e me dei conta de que ela não havia chorado nenhuma vez durante o funeral inteiro. No começo, toda essa coisa da ruptura entre as gêmeas parecia ter mexido mais com Shaunee, mas com o passar do tempo comecei a notar que Erin não estava agindo como ela mesma. Apesar de eu supor que isso seria normal, já que agir como ela mesma costumava significar agir igual a Shaunee, que agora parecia bem mais madura e legal. Fiz uma nota mental de que eu precisava encontrar tempo para conversar com Erin, para me certificar de que ela estava bem.

– Que droga, eu preferia que Thanatos não tivesse dito para Rephaim esperar com os outros garotos no ônibus. Ele estava superperturbado no funeral. Eu odiei ter que deixá-lo sozinho nesse estado – Stevie Rae falou, vindo para o meu lado.

– Ele não está sozinho. Ele está com todos os outros novatos vermelhos. Eu vi quando eles foram para o ônibus. Kramisha estava falando para ele sobre como a poesia podia ser um caminho para extravasar as emoções.

­– Kramisha vai entreter o menino-pássaro com as suas tolices sobre poesia. Blá-blá... versos iâmbicos e blá-blá... – Aphrodite comentou. – Além disso, até você precisa entender que não é uma boa ideia deixar o público humano saber do seu pequeno “probleminha de pássaro” – ela colocou aspas no ar com os dedos.

– Olá, ahn, desculpem-me por interromper vocês, mas eu estou procurando o lobby da escola.

Todos nós nos viramos ao mesmo tempo e olhamos para o humano que estava andando na nossa direção pela calçada que vinha do estacionamento. Atrás dele, havia um cara segurando uma câmera e com uma grande bolsa preta abarrotada de coisas pendurada no seu ombro e uma espécie de fone de ouvido cinza na cabeça.

Como era de se prever, Damien foi o primeiro de nós a se recompor. Falando sério, Damien realmente devia ser coroado a Miss Simpatia da Morada da Noite de Tulsa.

– Você está no lugar certo. Parabéns por nos encontrar! – Damien sorriu tão afetuosamente que eu percebi que o humano relaxou os seus ombros tensos.

Então ele estendeu a mão e disse:

– Ótimo. Eu sou Adam Paluka, da Fox23 News. Estou aqui para entrevistar a sua Grande Sacerdotisa e, imagino, alguns de vocês também.

– Prazer em conhecê-lo, senhor Paluka. Eu sou Damien – ele disse, apertando a mão do humano. Então Damien deu uma risadinha e acrescentou: – Ai, que aperto forte!

O repórter sorriu.

– O prazer é meu. Pode me chamar de Adam. O senhor Paluka é o meu pai.

Damien deu outra risadinha. Adam também. Eles fizeram um supercontato visual. Stevie Rae me cutucou e nós demos aquele Olhar uma para a outra. Adam era fofo, muito fofo mesmo, de um jeito jovem, inteligente, promissor e metrossexual. Ele tinha cabelos e olhos escuros, bons dentes, sapatos caros e uma bolsa masculina, na qual Stevie Rae e eu reparamos juntas. Um namorado em potencial para Damien!, nossos olhares telegrafaram ao mesmo tempo.

– Olá, Adam. Eu sou Stevie Rae – ela estendeu a mão e, enquanto ele a apertava, ela perguntou: – Você não tem namorada, tem?

O sorriso cheio de dentes dele diminuiu, mas só um pouco.

– Não. Eu não tenho, não. Hum. Com certeza, eu não tenho namorada. – Então ele notou a Marca vermelha de Stevie Rae. – Então você é do novo tipo de vampiros de que a sua ex-Grande Sacerdotisa falou.

Stevie Rae abriu o sorriso para ele.

– Sim, eu sou a primeira Grande Sacerdotisa Vermelha. Legal, não é?

– A sua tatuagem é realmente muito bonita – Adam disse, parecendo mais curioso do que desconfortável.

– Obrigada! – Stevie Rae agradeceu efusivamente. – Este aqui é James Stark. Ele é o primeiro guerreiro vampiro vermelho. A tatuagem dele também é incrível.

Stark estendeu a mão.

– Prazer em conhecê-lo. E você não precisa me dizer que a minha tatuagem é bonita.

O rosto de Adam ficou um pouco pálido, mas ele apertou a mão de Stark. O sorriso dele pareceu sincero; nervoso, mas sincero.

– Olá – eu entrei na conversa, apertando a mão dele. – Eu sou Zoey.

O olhar de Adam rapidamente se voltou para a tatuagem completa do meu rosto, para a gola em V da minha camiseta e o relance de tatuagens em volta da minha clavícula, e depois para a palma da minha mão, que estava coberta com a mesma tatuagem cheia de filigranas.

– Eu não sabia que vampiros faziam tatuagens adicionais. O seu tatuador é daqui de Tulsa?

Eu sorri para ele.

– Bem, às vezes. Mas ela passa a maior parte do tempo no Mundo do Além. – Percebi que ele estava tentando entender o que eu havia acabado de dizer, então aproveitei a oportunidade e perguntei: – Ei, você disse que não tem namorada. E quanto a um namorado?

– Hum, não, eu também não tenho namorado. Pelo menos não atualmente – Adam se voltou para Damien, que encontrou o seu olhar.

Sucesso!, era o que eu estava pensando quando Aphrodite bufou.

– Ah, que merda, isto aqui não é The Bachelorette. Eu sou Aphrodite LaFont. Sim, o prefeito é o meu pai. Ipi-ipi-urra – ela deu o braço para Darius. – E este aqui é Darius, o meu guerreiro.

Adam levantou a sua bela sobrancelha quando ele reparou no suéter de sexto-formanda que Aphrodite estava usando, com a insígnia das três Moiras bordada no bolso do lado esquerdo do peito.

– Agora permitem que humanos frequentem a Morada da Noite?

– Aphrodite é uma Profetisa de Nyx, um fato provado pelo elo que ela tem com Darius, que é um guerreiro Filho de Erebus e fez o Juramento de ser o seu protetor – Thanatos falou enquanto saía das sombras e caminhava graciosamente na nossa direção. Eu achei o timing dela excelente, assim como a sua entrada. Ela era alta e poderosa, sem aparentar idade, e tinha uma beleza clássica. A sua voz era agradável e informativa, como se ela desse entrevistas para repórteres humanos todo dia. – Eu sei que o funcionamento interno da nossa sociedade não é senso comum, mas acredito que a maioria dos humanos sabe que um guerreiro não pode se ligar a um humano por um Juramento de proteção.

– Na verdade, apesar de esta entrevista ser de última hora, tive tempo para pesquisar um pouco, e esse é um fato que eu realmente descobri.

– O fato de Aphrodite ser uma Profetisa de Nyx e de estar frequentando esta escola, assim como vários novatos e vampiros vermelhos, vai ser um dos tópicos da nossa entrevista. Embora pareça que a entrevista já tenha começado – Thanatos saiu totalmente das sombras, indicando com a cabeça o cameraman que sem dúvida já estava nos filmando, apesar de nenhum de nós ter prestado atenção nele. – Eu sou Thanatos, a nova Grande Sacerdotisa da Morada da Noite de Tulsa. Merry meet, Adam Paluka. Você é bem-vindo à nossa escola.

– M-merry meet – Adam se atrapalhou um pouco. – Eu não quis ofender começando a filmagem mais cedo.

Thanatos sorriu.

– Você não nos ofendeu. Nós o convidamos a vir até aqui. Fico satisfeita que a entrevista tenha começado sem formalidades. Nós podemos ficar aqui, sob o belo céu da noite de Tulsa, e continuar a conversa?

– Claro – Adam disse após um aceno de cabeça do cameraman. – A luz dos lampiões a gás é uma boa iluminação. Se vocês nos derem um segundo, podemos usar um microfone boom e captar todos do grupo que quiserem participar.

– Parece ótimo. Zoey, Aphrodite, Stevie Rae, Stark e Damien, por favor, fiquem para a entrevista. Darius, Shaunee e Erin, vocês poderiam se certificar de que os novatos que estão reunidos voltem para os seus dormitórios? Esta foi uma noite difícil para a nossa escola.

Darius se curvou para Aphrodite e Thanatos, e então ele e Shaunee foram embora juntos. Erin saiu andando na direção contrária.

– Você disse que hoje foi uma noite difícil para a sua escola. O que quis dizer com isso?

– Com o seu faro para notícias, tenho certeza de que você sabe que tivemos recentemente um incêndio no campus – Thanatos explicou.

– Sim, nós inclusive fizemos uma reportagem sobre isso na Fox. Foi no estábulo, certo? – ele a estimulou a continuar.

– Certo. Foi um acidente infeliz, apesar de não totalmente surpreendente – Thanatos fez um gesto indicando os lampiões de cobre pendurados que faziam uma bela decoração ao nosso redor. – A luz dos lampiões a gás e a luz de velas é mais agradável aos nossos olhos do que lâmpadas elétricas. Como você já observou, esse tipo de iluminação ambiente é adorável, mas as chamas são vivas e às vezes voláteis. Um lampião foi deixado aceso sozinho no celeiro. Foi uma noite com muito vento. Uma rajada forte derrubou o lampião em cima de um fardo de feno, colocando fogo no estábulo.

– Espero que ninguém tenha se ferido – achei que Adam pareceu sinceramente preocupado.

– A nossa Mestra dos Cavalos e uma novata inalaram um pouco de fumaça, e o humano empregado como treinador do estábulo teve queimaduras, a maioria nas mãos. Ele vai se recuperar totalmente. Quero deixar aqui registrado que Travis Foster agiu como um herói. Ele cuidou para que todos os cavalos escapassem.

– Travis Foster é humano?

– Completamente humano, além de ótimo funcionário e amigo.

– Fascinante – Adam disse e olhou em volta. Pude ver quando o olhar dele se fixou na pira distante, que agora estava em combustão lenta e sem chamas, com um brilho alaranjado. – Por favor, corrija-me se eu estiver errado, mas acho que aquela pilha de madeira queimando não faz parte do estábulo. Durante a minha pesquisa, eu li que os vampiros queimam os seus mortos em piras funerárias. Será que eu escolhi uma hora inapropriada para esta entrevista? – ele fez a pergunta com um tom de consideração em sua voz, mas eu consegui enxergar a curiosidade que brilhava em seus olhos.

– Você não está errado. Aquilo são os restos de uma pira funerária. De fato, nós sofremos uma grande perda na Morada da Noite, que não teve nada a ver com o incêndio no estábulo. O nosso Mestre da Espada, Dragon Lankford, foi morto recentemente em um trágico acidente em uma fazenda de lavandas que faz divisa com a reserva nacional conhecida como Pradaria de Tallgrass – ela contou e eu fiquei de boca fechada, perguntando-me como diabos Thanatos ia transformar o assassinato de Dragon em um “trágico acidente” que pudesse ser explicado ao público humano. – Um bisão grande escapou das fronteiras da reserva. Alguns de nós estávamos terminando um adorável ritual de purificação na fazenda de lavandas, e aquela besta deve ter ficado confusa com a fumaça de sálvia e o nosso círculo. A criatura nos atacou. O nosso Mestre da Espada protegeu os nossos novatos, perdendo a vida ao fazê-lo.

– Isso é terrível! Eu sinto muito – Adam pareceu perturbado. Na verdade, todos nós parecemos perturbados, o que escondeu o nosso choque com a mentira gigante de Thanatos.

– Obrigada, Adam. Apesar de ter sido um acidente horrível e uma grande perda para a nossa Morada da Noite, o nosso Mestre da Espada morreu como ele viveu, como um guerreiro honrado que protegeu os mais jovens. Por causa dele, ninguém mais se feriu e o ritual foi concluído. Todos nós vamos lembrar da bravura de Dragon Lankford pelos séculos que virão – ela tocou levemente os olhos com um lenço rendado que tirou de dentro da luva. Foi realmente um momento tocante.

Adam ficou parado ali, parecendo compreensivo, enquanto o cameraman desviou a lente da pira de Dragon para focar a dor de Thanatos e o seu esforço muito humano para se recompor novamente.

Foi tudo muito bem encenado. Ela me fez pensar em quantas aulas de Teatro a Grande Sacerdotisa da Morte havia feito quando era uma novata.

Thanatos terminou de enxugar os olhos e suspirou profundamente.

– E respondendo à sua outra pergunta, não, não é uma hora inapropriada para a nossa entrevista. Nós o convidamos, lembra? Nós estamos felizes por recebê-lo na Morada da Noite, mesmo neste momento de tristeza. Então, vamos começar oficialmente. Aqui neste banco é um bom lugar? – Thanatos indicou com um gesto um dos longos bancos de pedra que se alinhavam no caminho de entrada para o lobby da escola. Durante uma noite normal de escola, haveria um monte de garotos aglomerados em volta dos bancos, fazendo lição de casa, flertando e fofocando. Naquela noite, os bancos estavam completamente vazios.

– Perfeito – Adam respondeu.

Enquanto ele e o cameraman se preparavam, Thanatos tomou o seu lugar no centro do banco. Em voz baixa, ela disse:

– Zoey, Stark, aqui ao meu lado – ela apontou para a direita, atrás dela. – Aphrodite, Stevie Rae e Damien, aqui – eles ficaram parados em pé à esquerda.

Quando Adam voltou e oficialmente começou a filmar, senti uma agitação nos meus nervos. Até os meus antigos amigos da South Intermediate High School iriam ver isso!

– Thanatos, eu estava pensando se você poderia dar mais detalhes sobre o comentário que Neferet, a ex-Grande Sacerdotisa da Morada da Noite de Tulsa, fez sobre você na noite passada. Ela disse que a Morte era a nova Grande Sacerdotisa daqui – Adam fez uma pausa e sorriu. – Para mim, você não parece a Morte.

– Você conhece bem a Morte, jovem Adam? – Thanatos perguntou com uma voz suave e espirituosa.

– Não, na verdade eu nunca morri – ele respondeu no mesmo tom de brincadeira.

– Bem, o comentário de Neferet pode ser facilmente explicado. Eu não sou a Morte propriamente dita. Eu simplesmente recebi o dom de ajudar os mortos a passarem deste reino para o próximo. Eu sou tanto a Morte quanto você é a Humanidade. Nós dois somos apenas a representação de ambos. Pode ser mais fácil de entender se você pensar em mim como uma médium muito boa.

– Neferet também mencionou um novo tipo de vampiros, os vampiros vermelhos, e sugeriu que eles podem ser perigosos – ele falou, e eu percebi que a câmera se voltou para Stark e Stevie Rae. – Você também pode explicar isso melhor?

– Certamente, mas primeiro eu sinto que preciso deixar algo bem claro. Neferet não é mais funcionária da Morada da Noite de Tulsa. Na verdade, pelo modo como a nossa sociedade funciona, uma vez que uma Grande Sacerdotisa perde o seu emprego, ela perde essa posição para sempre. Ela nunca mais vai servir como Grande Sacerdotisa em nenhuma outra Morada da Noite. Como você pode imaginar, isso pode ser uma transição difícil e frequentemente embaraçosa para o empregado demitido, assim como para o seu empregador. Os vampiros não têm leis de calúnia e difamação. Nós usamos o sistema de Juramento e honra. Obviamente, desta vez esse sistema não funcionou.

– Então você está dizendo que Neferet é... – ele não concluiu e fez um gesto com a cabeça, encorajando Thanatos a concluir a frase por ele.

– Sim, é um fato triste, mas verdadeiro. Neferet é uma ex-funcionária descontente que não apita mais nada – Thanatos disse calmamente.

Adam olhou para Stark, que estava ao meu lado, não muito longe de Thanatos.

– Essa ex-funcionária fez alguns comentários sobre um membro da Morada da Noite em particular: James Stark.

– Sou eu – Stark falou na hora. Eu percebi que ele estava desconfortável, mas acho que ninguém mais, incluindo os telespectadores, iriam ver qualquer coisa além de um cara muito bonito com uma tatuagem vermelha no rosto que lembrava flechas.

– Então, Jim. Posso chamá-lo assim? – Adam perguntou.

– Bem, sim, mas seria melhor você me chamar de Stark. Todo mundo me chama assim.

– Ok, Stark, Neferet disse que você matou o seu mentor na Morada da Noite de Chicago, e ela sugeriu que você é uma ameaça para a comunidade daqui. Você gostaria de responder a isso?

– Bem, isso é um monte de papo-furado! – escutei a minha boca dizer.

Stark abriu o seu meio sorriso metidinho e pegou a minha mão, entrelaçando os seus dedos aos meus de modo que todos os telespectadores podiam ver.

– Z., quase você fala um palavrão na TV. Não faça isso, a sua avó pode ouvir e isso não seria legal.

– Desculpe – murmurei. – Que tal eu simplesmente deixar você falar?

Stark abriu ainda mais o sorriso.

– Bem, sempre há uma primeira vez para tudo.

Infelizmente, todos os meus amigos riram. Eu olhei zangada para ele. Stark continuou falando, apesar de eu pensar em sufocá-lo com um travesseiro da próxima vez que nós fôssemos dormir.

A voz dele foi hesitante no começo, mas, quanto mais ele falava, mais forte e seguro ficava.

– O meu mentor, William Chidsey, era incrível. Ele era legal. E inteligente. Estou falando inteligente mesmo. E talentoso. Ele me ajudou. Na verdade, ele foi mais um pai do que um mentor para mim – Stark fez uma pausa e passou a mão pelo rosto. Quando ele começou a falar de novo, foi como se só ele e o repórter estivessem ali sozinhos, como se ele tivesse esquecido que a câmera estava ali e tudo o mais. – Adam, eu descobri bem cedo, quando eu estava no segundo ano do ensino médio, que eu tinha recebido um dom – Stark enfatizou bem a última palavra, não sarcasticamente, mas também não como se aquilo fosse uma coisa fantástica. O tom de voz dele deixava claro que o seu dom era uma responsabilidade, e não uma responsabilidade fácil. – Eu não consigo errar o alvo. Eu sou um arqueiro – ele explicou quando Adam o olhou de modo questionador. – Você sabe, arco e flecha. Enfim, seja para onde for que eu mire, eu acerto. Infelizmente, não é tão literal assim. Pense nisso: há bastante diferença entre o lugar para onde você está olhando e o que você está realmente pensando e o que você está alvejando. Um exemplo simples: imagine que você pega um arco e uma flecha e mira em uma placa com um sinal de “Pare”. Então, você puxa o arco, aponta a flecha e dispara no meio de uma grande placa vermelha. Mas e se dentro da sua cabeça você estiver pensando: “Ok, quero atingir aquela coisa que faz os carros pararem”? Quando você se dá conta, a sua flecha está atravessada no radiador do primeiro carro que aparece.

– Bem, eu posso entender como isso pode causar grandes problemas – Adam disse.

– Sim, problemas de proporções épicas. Levou um tempo para que eu descobrisse e aprendesse a controlar isso. Nesse tempo, eu cometi um erro realmente terrível – Stark fez uma pausa de novo e eu apertei a sua mão, tentando transmitir o meu apoio. – E por causa disso o meu mentor morreu. Eu não vou deixar que isso aconteça de novo. Fiz um Juramento de que isso não vai mais acontecer.

– E é por isso que James Stark está aqui na Morada da Noite de Tulsa – Thanatos retomou o controle da conversa, e a câmera a seguiu. – Em Tulsa, nós acreditamos em dar outra chance – o olhar dela se voltou para Aphrodite. Tive que cuidar para não ficar de queixo caído quando ela falou tranquilamente: – Você não diria que este é um excelente lugar para segundas chances, Aphrodite LaFont?

Eu não deveria ter me preocupado. Na frente de uma câmera gravando, Aphrodite se sentia em casa. Ela caminhou para a frente, na direção da câmera (é claro), e então se sentou ao lado de Thanatos.

– Eu concordo totalmente com você, Grande Sacerdotisa. Eu fui uma novata por quase quatro anos, mas Nyx, a nossa Deusa benevolente, decidiu tirar a sua Marca de mim e substituí-la por um dom profético. Os meus pais concordam com a minha decisão de permanecer na Morada da Noite. Na verdade, nós falamos sobre a possibilidade de eu fazer um treinamento no Conselho Supremo em Veneza quando eu me formar aqui. Minha mãe e meu pai me dão muito apoio – ela sorriu para a câmera. – Você pode comprovar isso se olhar as nossas contas de cartão de crédito dos últimos meses. Uau! Eu tenho pais tão incrivelmente legais!

Ok, sem brincadeira. Aquilo era uma montanha de besteiras podres e fedidas tão grande que eu nem conseguia falar. Felizmente, Stevie Rae não era tão muda.

– Falando em pais incríveis, a minha mãe, Ginny Johnson, vai fazer os melhores cookies de chocolate do universo e trazê-los para o evento aberto ao público com venda de guloseimas que nós vamos fazer aqui em breve, certo, Thanatos?

Thanatos não perdeu tempo.

– Você está absolutamente certa, Stevie Rae. Na próxima semana, se o tempo sujeito a tempestades de Oklahoma permitir, nós estaremos organizando um evento aberto ao público no campus. Esperamos que os Street Cats estejam aqui com gatos para adoção. Aproveitando, eu gostaria de anunciar que todos os lucros da nossa venda de guloseimas – ela sorriu na direção de Stevie Rae – vão beneficiar as obras de caridade dos Street Cats. Além disso, a avó da nossa Grande Sacerdotisa novata, Zoey Redbird, vai vender os seus produtos de lavanda nos nossos jardins.

– Não se esqueça da feira de empregos.

Todos, incluindo o cameraman, se viraram ao som da voz da Mestra dos Cavalos. Lenobia estava em pé ali, conduzindo sua bela égua negra, Mujaji, que parecia um sonho.

– Professora Lenobia, que bom que você se juntou à nossa entrevista – Thanatos afirmou.

– Uau! Que belo cavalo ele é! – Adam falou entusiasmado quando o cameraman deu um close em Mujaji.

Damien tocou o braço de Adam e sorriu.

– Querido, é ela, não ele.

– Ah, eu me enganei – Adam levou numa boa, sorrindo com um rubor gracioso em suas bochechas. – Essa coisa de ele ou ela nunca fez muita diferença para mim.

– Porque nós somos todos iguais – ouvi as palavras saindo da minha boca e silenciosamente agradeci a Nyx por elas. – Meninos, meninas, humanos, vampiros, que diferença faz? Todos nós vivemos em Tulsa e amamos esta cidade. Então, vamos apenas nos dar bem uns com os outros!

Thanatos riu, e o som da sua risada foi como música.

– Ah, Zoey, eu não poderia ter dito isso de melhor forma. E Lenobia, você fez bem em me lembrar. Adam, eu gostaria de anunciar que, durante a noite aberta ao público e o evento beneficente para os Street Cats, a Morada da Noite de Tulsa vai, como a primeira Morada da Noite da nossa história escrita, receber inscrições de humanos para vagas de professores. Vamos fazer entrevistas para colocações de professores nos nossos departamentos de Teatro e de Literatura – Thanatos se levantou e abriu os braços, parecendo benevolente e sábia. – A Morada da Noite dá as boas-vindas a Tulsa. Até sábado, nós desejamos a vocês merry meet, merry part e merry meet again.


14 Neferet

Neferet não teria visto a entrevista se ela não tivesse chamado o serviço de quarto até a sua cobertura. O subserviente garoto loiro era quase jovem demais para despertar o interesse dela. O último mensageiro que havia tido a sorte de atender ao seu chamado ia ter que tirar uma licença médica do trabalho pelos próximos dias. Fraco e cheio de hematomas, ele não iria se lembrar de nada, além da fascinação pela sua beleza e de uma série de sonhos eróticos e sombrios. Sonhos febris – o seu médico sem dúvida iria chamá-los assim. Os humanos eram criaturas tão frágeis. Era uma pena que ela precisasse constantemente encontrar novos brinquedinhos.

Neferet analisou o mensageiro. Ele era alto e parecia extremamente nervoso. A sua pele era ruim. Ele praticamente exalava virgindade por todos os seus poros dilatados. Pensando que sangue virgem iria combinar bem com a garrafa resfriada de champanhe que ele estava trazendo, ela fez um gesto em direção à sua sala de estar.

– Por favor, traga a garrafa aqui para dentro – Neferet ronronou.

O sangue virgem era tão doce que aquela aparência ruim e as mãos cheias de suor podiam ser facilmente ignoradas. Afinal de contas, ela não ia tocá-lo. Pelo menos não muito...

– Aqui está bem, madame? – os olhos dele continuavam passeando rapidamente dos seios dela para a sua boca e depois de volta para a garrafa que ele estava abrindo, enquanto ele fedia a desejo sexual, medo e fascinação.

– Aqui está perfeito – Neferet deslizou uma unha comprida e pontuda pelo corpete decotado do seu robe de seda.

– Uau – ele engoliu em seco, tirando a folha metálica dourada da boca da garrafa de champanhe com mãos trêmulas e inexperientes. – Espero que não se importe por eu dizer isto, mas você é muito mais bonita do que aqueles outros vampiros no telejornal.

– Outros vampiros? Telejornal?

– Sim, madame. Eles estão agora no jornal da noite da Fox23.

– Ligue a TV para mim! – ela falou rispidamente.

– Mas o champanhe não está...

– Deixe a garrafa de lado! Eu sou plenamente capaz de abri-la sozinha. Ligue a TV no telejornal e vá embora.

O garoto fez o que ela ordenara e então se retirou envergonhadamente, ainda dando olhares desejosos para ela. Neferet não prestou atenção nele. Ela estava totalmente absorta na cena que se descortinava à frente dela na grande televisão de tela plana. Thanatos, Zoey e alguns do seu grupo estavam lá. Eles estavam ao ar livre na Morada da Noite, bem agrupados e conversando facilmente com o repórter. Neferet franziu a testa. Todos pareciam tão normais.

Ela sorriu um pouco quando ouviu Thanatos explicar a morte de Dragon Lankford como um trágico acidente com um bisão.

– Aquele Aurox imprestável! – Neferet resmungou. – Receptáculo imperfeito e inepto! Tudo isso é culpa dele.

Ela continuou assistindo à entrevista, sorrindo ironicamente para Stark e Zoey, apenas se concentrando mais quando ouviu o seu próprio nome ser mencionado. Neferet apertou o botão para aumentar o volume e Thanatos proclamou em voz alta:

– ... Neferet é uma ex-funcionária descontente que não apita mais nada.

O corpo de Neferet se congelou.

– Ela se atreve a me chamar de funcionária! – Neferet continuou a assistir. A raiva dela cresceu com tanta intensidade que a porta de vidro que dava para a varanda da cobertura se abriu com força, espalhando estilhaços de cristal sobre o chão de mármore.

– Todos nós vivemos em Tulsa e amamos esta cidade. Então, vamos apenas nos dar bem uns com os outros! – a voz ridiculamente alegre de Zoey provocou arrepios de raiva que subiram e desceram pela espinha de Neferet.

– Eu não vou permitir que você desfaça o que eu comecei, sua criança odiosa! – Neferet explodiu. Quando Thanatos anunciou que a Morada da Noite ia receber inscrições de humanos para vagas de professores, ela ficou de queixo caído junto com o repórter. Após a saudação benevolente da nova Grande Sacerdotisa, merry meet, merry part e merry meet again, Neferet assistiu incrédula aos âncoras do telejornal conversarem tolamente sobre como a interação com os vampiros era interessante e como o evento aberto ao público e a feira de empregos seria ótima para a cidade, com um close congelado do rosto sorridente de Zoey decorando a tela. Ela apertou com força o botão de desligar a TV, incapaz de suportar Zoey Redbird por um só instante.

Do pequeno recanto que ficava entre a sala de estar e a sala de jantar, o computador de Neferet começou a chamar. Na tela, a silhueta da imagem de Nyx com os braços levantados piscou e, ao lado do ícone, apareceram as palavras: CONSELHO SUPREMO DOS VAMPIROS.

Neferet caminhou devagar até o computador e clicou no mouse para atender ao chamado, automaticamente ativando a câmera de vídeo. Ela sorriu friamente para as seis Grandes Sacerdotisas com expressões sérias que estavam sentadas em seus tronos esculpidos em mármore.

– Eu estava esperando a sua ligação.

Duantia, membro sênior do Conselho Supremo dos Vampiros, falou primeiro. Neferet achou que ela soou muito, muito velha. Certamente o seu cabelo longo e grosso parecia mais prata do que castanho, e Neferet teve certeza de ver bolsas embaixo de seus olhos escuros.

– Você foi convocada a aparecer diante de nós, mas aí está você em Tulsa, e aqui estamos nós em Veneza. Qual o motivo da sua demora?

– Eu estou ocupada – Neferet modulou a sua voz para parecer mais entretida do que irritada. Ou com medo. Ela não podia permitir nunca que as vampiras do Conselho Supremo acreditassem que ela tinha medo delas ou de qualquer um. – Não é conveniente viajar para a Itália nesta época.

– Então você nos obriga a julgá-la absente reo 3 .

Neferet zombou.

– Guarde o seu latim para os vampiros velhos demais para viver no presente.

Duantia continuou como se ela não tivesse falado nada.

– Nossa irmã Grande Sacerdotisa, sétimo membro deste Conselho Supremo, Thanatos, produziu provas irrefutáveis através de um ritual de revelação testemunhado pela Grande Sacerdotisa Zoey Redbird, pelo seu...

– Aquela criança insolente não é uma Grande Sacerdotisa!

– Você não vai me interromper! – mesmo pela internet, a milhares de quilômetros de distância, o poder de Duantia era palpável. Foi preciso um esforço supremo para que Neferet não se encolhesse de medo da tela do computador.

– Diga o que tem a dizer. Eu não vou interrompê-la de novo – Neferet disse sem emoção.

– O ritual de revelação que Thanatos presidiu foi testemunhado pela jovem Grande Sacerdotisa Zoey Redbird, pelo seu círculo, em que cada membro recebeu de Nyx o dom de uma afinidade elemental, além de vários guerreiros Filhos de Erebus. Durante esse ritual, a terra mostrou o registro de que você assassinou uma humana, sacrificando-a para o touro branco das Trevas, que aparenta ser o seu Consorte.

Neferet observou que as vampiras do Conselho Supremo se agitaram nervosamente, como se apenas ouvir a palavra Consorte associada ao touro branco fosse difícil de suportar. Isso a agradou. Muito em breve o Conselho Supremo iria ter que suportar muito mais do que apenas palavras.

– Neferet, o que você tem a dizer em sua defesa? – Duantia concluiu.

Neferet se levantou, atingindo a sua altura máxima. Ela sentiu os filamentos de Trevas roçando em volta dela, enrolando-se nos seus tornozelos e serpenteando em suas panturrilhas.

– Eu não preciso de defesa. Matar a humana não foi um ato de assassinato. Foi um sacrifício sagrado.

– Você se atreve a chamar as Trevas de sagradas? – a vampira membro do Conselho Supremo chamada Alitheia gritou.

– Alitheia, ou Verdade, como nós diríamos em uma língua que não está morta, eu vou conceder um pouco de você mesma a todas vocês. A verdade é que eu sou imortal. Em pouco mais de uma centena de anos eu obtive mais poder do que vocês, com todos os seus séculos, conseguiram adquirir. A verdade é que dentro de mais alguma centena de anos, a maioria de vocês será pó, e eu ainda vou ser jovem, poderosa, bonita e uma deusa. Se eu decido sacrificar uma humana, não importa por qual motivo, isso é sagrado, e não pecado!

– Neferet, você é Consorte das Trevas? – a pergunta de Duantia foi disparada em meio ao silêncio que se seguiu ao grito de Neferet.

– Conjure o touro branco e pergunte às Trevas você mesma. Mas apenas se você tiver coragem – Neferet sorriu com sarcasmo.

– Conselho Supremo, qual é o seu julgamento? – Duantia perguntou. Ela manteve o olhar fixo em Neferet enquanto cada vampira membro do Conselho Supremo se levantou e, uma de cada vez, pronunciou repetidamente a mesma palavra: “Banida!”.

Duantia se levantou por último.

– Banida! – ela disse com firmeza. – Deste dia em diante, você não será mais reconhecida como uma Grande Sacerdotisa de Nyx. Você não será mais reconhecida nem como uma vampira. Daqui em diante, você está morta para nós – Duantia falou e todas as vampiras do Conselho Supremo deram as costas para Neferet. Então o computador emitiu aquele som de final de chamada e a imagem delas se apagou.

Neferet olhou para a tela escura. Ela estava respirando pesadamente, tentando controlar o tumulto dentro dela. O Conselho Supremo a havia banido!

– Velhas horrendas! – ela explodiu. Era cedo demais! Neferet tinha a intenção, é claro, de romper com o Conselho Supremo, mas não antes de ela provocar uma divisão interna e atiçar umas contra outras para que elas ficassem ocupadas demais com a própria destruição e não se intrometessem no mundo que ela estava criando do lado de fora da charmosa ilhazinha delas. – Eu quase consegui isso antes, quando Kalona estava posando de Erebus ao meu lado. Mas Zoey estragou tudo, forçando-me a revelar que ele era uma fraude. – Incapaz de acalmar a sua frustração, Neferet andou com passos largos pela sala, com seu salto agulha triturando o vidro quebrado. Ela saiu para a varanda, apoiando as mãos no parapeito de pedra. – Zoey fez com que Thanatos fosse enviada a Tulsa para me espionar. E a mãe de Zoey foi um sacrifício fraco e imperfeito demais. Se Aurox não fosse um Receptáculo defeituoso, o ritual de revelação teria sido interrompido com a morte de Rephaim. E agora eu fui banida pelo Conselho Supremo e sou vista como uma aliada domesticada pelos humanos de Tulsa – Neferet levantou os braços para o céu e descarregou a sua raiva. – Zoey Redbird vai pagar por tudo que ela causou!

Neferet abaixou as mãos e rasgou o seu robe de seda, desnudando o seu corpo para a noite. Nua, ela estendeu os braços e inclinou a cabeça para trás de modo que o seu cabelo comprido a encobrisse como uma cortina escura.

– Trevas, venham para mim! – ela se apoiou, preparando-se para o prazer doloroso do toque gélido do seu touro branco.

Nada aconteceu.

O único movimento na noite era das gavinhas escuras e agitadas que haviam se tornado sua companhia constante.

– Meu senhor! Venha para mim! Eu preciso de você – Neferet chamou.

– O seu chamado não é uma surpresa, minha cara impiedosa.

Neferet ouviu a voz dele em sua cabeça, como sempre, mas ela não sentiu a sua presença imponente e poderosa. Ela abaixou os braços, virando-se, procurando por ele.

– Meu senhor, eu não posso vê-lo.

– Você precisa de algo.

Ainda sem entender por que ele não havia aparecido para ela, Neferet não permitiu que a sua confusão transparecesse. Em vez disso, ela respondeu sedutoramente:

– Eu preciso de você, meu senhor.

Instantaneamente, o filamento mais grosso feito uma serpente, comandado pelas Trevas, soltou-se dos outros que estavam enrolados em seus tornozelos. Ele deu uma chicotada ao redor da cintura dela, abrindo uma ferida na sua pele macia e desenhando um perfeito círculo escarlate. As outras gavinhas subiram se arrastando pelas suas pernas, para se alimentar do seu sangue quente.

Neferet teve que se esforçar muito para não gritar de dor.

– Mentir para mim não é sábio de sua parte, minha cara impiedosa.

– Eu preciso de mais poder – Neferet admitiu. – Quero matar Zoey Redbird, e ela está bem protegida.

– Ela está bem protegida e é amada por uma Deusa. Nem você está preparada para destruir abertamente alguém como ela.

– Então me ajude. Eu imploro, meu senhor – Neferet bajulou o touro, ignorando o filamento afiado como uma lâmina que continuava a ferir a sua pele e as outras gavinhas que estavam se alimentando dela.

– Você me desapontou. Eu já esperava que você me chamasse e implorasse pela minha ajuda. Veja bem, minha cara impiedosa, eu não deveria conseguir prever as suas ações. Isso me deixa entediado, e eu não desejo desperdiçar os meus poderes com nada previsível e tedioso – a voz dele martelou implacavelmente na sua mente.

Neferet não recuou.

– Eu não vou pedir que você me perdoe – ela disse friamente. – Você sabia como eu era desde a primeira vez em que nos encontramos. Eu não mudei. E não vou mudar.

– De fato, e é por isso que eu sempre a chamo de minha cara impiedosa – a voz dele era quase uma violação. Agora ela tinha um tom de divertimento. – Você me lembrou de como nós começamos bem. Você era uma surpresa tão deliciosa. Surpreenda-me de novo, e eu vou pensar em vir ajudá-la. Até lá, eu concedo a você o controle sobre os filamentos de Trevas que escolherem permanecer com você. Não se desespere. Muitos vão escolher você. Você os alimenta tão bem. Eu a verei de novo, minha cara impiedosa, quando... se... você despertar o meu interesse o bastante para que eu volte – a voz dele cessou quando a gavinha grossa enroscada na cintura dela se soltou e desapareceu na noite.

Neferet desabou. Ela ficou deitada na varanda de pedra fria, observando os filamentos de Trevas lamberem o seu sangue. Ela não os deteve. Ela deixou que eles se alimentassem dela enquanto os acariciava, encorajando-os, analisando quantos haviam permanecido fiéis a ela.

Se o touro não ia ajudá-la, Neferet se ajudaria sozinha. Zoey Redbird era um problema havia tempo demais. Havia tempo demais ela permitia que aquela garota interferisse nos seus planos. Mas ela não iria matá-la. Isso provocaria a ira de Nyx cedo demais. Ao contrário do Conselho Supremo dos Vampiros, uma Deusa não podia ser ignorada. Não, Neferet pensou, eu não preciso matar Zoey. Tudo o que eu preciso fazer é criar um ser para fazer o serviço por mim. O Receptáculo falhou uma vez por causa de um sacrifício imperfeito. Com o sacrifício perfeito, eu não vou falhar.

– Eu sou imortal. Eu não preciso do touro para criar. Tudo o que eu preciso é de um sacrifício sagrado e de poder. Eu já aprendi o feitiço. Aurox foi só o começo... – Neferet acariciou os filamentos de Trevas e permitiu que eles continuassem a se alimentar dela.

Há filamentos o bastante, ela assegurou a si mesma. Sobrou apenas o suficiente.

Zoey

– A Deusa sabe que eu odeio dizer isso, mas eu estava errada. Isso é sim como assistir àquele programa idiota The Bachelorette – Aphrodite balançou a cabeça e revirou os olhos.

Ela, Stevie Rae e eu caminhávamos devagar para o estacionamento na direção do ônibus cheio de garotos que estava à nossa espera. Nós estávamos indo devagar porque a gente estava superocupada olhando para Damien e o repórter, Adam. Os dois estavam parados, sorrindo e conversando, perto da van da Fox23 News.

– Shhh! – sussurrei para Aphrodite. – Eles vão ouvir você e isso vai deixar Damien constrangido.

– Ah, por favor! – Aphrodite bufou. – Os garotos gays estão bem animadinhos e entretidos. Ele não está prestando a menor atenção em nós.

– Eu estou tão feliz que ele está flertando – comentei.

– Vejam! Eles estão pegando os telefones!!! – Stevie Rae sussurrou efusivamente com pontos de exclamação demais para ser um sussurro.

– Eu estava errada de novo – Aphrodite falou. – Isso aqui não é como assistir a The Bachelorette. É como assistir ao National Geographic Channel.

– Eu acho que ele é uma gracinha – Stevie Rae disse.

– O cara que está conversando com Damien? – Shaylin perguntou quando se juntou a nós.

– Sim. A gente acha que eles estão marcando um encontro – Stevie Rae respondeu, ainda olhando para os dois.

– Ele tem cores suaves e bonitas – Shaylin observou. – Na verdade, as cores dele combinam bem com as de Damien.

– Como assim, os arco-íris deles estão se fundindo? – Aphrodite bufou sarcasticamente.

Shaylin franziu a testa.

– Eles não têm cores de arco-íris. Isso é um estereótipo horrível. Eles têm a cor do céu de verão, com tons de azul e amarelo. Damien também tem um pouco de branco encrespado e fofo que se parece bastante com nuvens densas.

– Ah, que merda, isso aí não tem nenhum senso de humor – Aphrodite protestou.

– Aphrodite, você tem que parar de chamar Shaylin de isso. Não é nada legal – Stevie Rae a repreendeu.

– Então me diga, para futura referência, o quanto isso não é legal na escala daquela palavra maldosa, “retardada”? – ela levantou uma sobrancelha loira com cara de interrogação para Stevie Rae. – Não é legal no nível de “debiloide” ou “monga”, ou mais como a palavra tradicional e explícita “retardada” mesmo?

– Você é a Grande Sacerdotisa, mas eu acho que responder qualquer coisa apenas a encoraja. Você sabe, é como acontece quando você pega um bebê chorando, ele continua chorando – Shaylin afirmou, soando bem prática.

Afe, Aphrodite vai arrancar os cabelos dela pela raiz, foi só o que eu consegui pensar.

Em vez disso, Aphrodite deu risada.

– Ei, isso fez uma piada! Pode até ser que isso tenha alguma personalidade.

– Aphrodite, eu acho que você deve ter algum dano cerebral – Stevie Rae disse.

– Obrigada – Aphrodite respondeu. – Eu vou entrar no ônibus. E vou cronometrar o Garoto Gay. Se ele continuar flertando por mais do que cinco minutos, eu vou... – ela parou de falar quando se virou em direção ao ônibus. Os meus olhos seguiram os dela. Shaunee e Erin estavam paradas do lado da porta aberta do ônibus. Shaunee parecia perturbada. O rosto de Erin não tinha nenhuma expressão. Eu podia ver que elas estavam conversando, mas nós estávamos muito longe para ouvir o que elas estavam dizendo.

– Há algo errado com ela – Shaylin observou.

– Ela quem? – Stevie Rae perguntou.

– Erin.

– Shaylin está certa. Tem alguma coisa errada com Erin – Aphrodite concordou.

Eu não sabia o que havia me chocado mais, se era o que Shaylin e Aphrodite estavam dizendo ou o fato de elas estarem de acordo.

– Conte-me o que você está vendo – Stevie Rae falou em voz baixa para Shaylin.

– Este é o melhor jeito de eu descrever o que vejo: havia um canal que passava atrás da casa onde eu morava quando era criança, um pouco antes de eu perder a visão. Eu costumava brincar ali perto e fingia que o canal era um córrego da montanha lindo e borbulhante, e que eu estava crescendo nas Montanhas Rochosas do Colorado, porque ele era claro e até mesmo bonito. Mas, assim que eu me aproximava, podia sentir o fedor do canal. Tinha um cheiro de coisas químicas e de algo mais, algo podre. A água parecia boa, mas abaixo da superfície ela era suja e poluída.

– Shaylin – eu estava quase perdendo a paciência. Eu me sentia como se estivesse ouvindo um dos poemas de Kramisha, e isso não é necessariamente uma coisa boa. – Que diabo você quer dizer? Erin tem cor de água poluída? E se ela tem, por que você nunca disse nada até agora?

– Ela está mudando! – Erin gritou! Quando vários rostos no ônibus, além de Erin e Shaunee, voltaram-se na nossa direção, ela disfarçou: – O inverno parece estar mudando para a primavera! Hoje não está uma bela noite?

Os garotos balançaram a cabeça e franziram a testa para ela, mas pelo menos pareceu que eles pararam de prestar atenção em nós.

– Ah, que merda. Você não é nada boa em espionagem – Aphrodite abaixou a voz e nos agrupou. – Z., se liga. É simples. O que Shaylin está dizendo é que Erin parece ser a mesma de sempre: bonita, loira, popular, perfeita. Você sabe, típica. Mas a verdade é que por baixo da superfície há algo apodrecendo. Você não pode ver isso. Eu não posso ver isso. Mas Shaylin pode – Aphrodite deu uma olhada no ônibus. Todos nós acompanhamos o olhar dela a tempo de ver Shaunee balançar a cabeça como quem diz não e subir rapidamente os degraus pretos com piso emborrachado, enquanto Erin continuou ali com uma aparência bonita, mas muito, muito fria. – Parece que Shaunee pode ver isso também. Não que a gente tenha acreditado nela. A gente achou que ela só estava irritada com Erin porque as gêmeas siamesas idiotas tinham sido separadas cirurgicamente.

– Eu acho que isso é muito rude – eu falei.

– Também acho – Stevie Rae concordou. – Mas o meu instinto me diz que é verdade.

– O meu também – Damien disse, aproximando-se de nós. As suas bochechas ainda estavam vermelhas e ele acenou alegremente quando a van da Fox23 foi embora, mas a sua atenção estava voltada para Erin. – E o meu instinto também está me dizendo mais uma coisa.

– Que você e o Garoto das Notícias estão quase virando amiguinhos de cama? –Aphrodite falou com uma voz animada e educada, que contrastava radicalmente com o que ela havia dito.

– Isso não é da sua conta. – Damien respondeu. E então acrescentou em um tom suave: – E acho que você vai querer prestar atenção, Aphrodite. O que eu vou falar vai abalar o seu mundo.

– Que coisa mais velha de se dizer – Aphrodite comentou.

– Velho não significa impreciso – Damien rebateu. – Você traduziu o que Shaylin pressentiu. Isso significa que você está agindo como um oráculo.

– Eu não sou um maldito oráculo. Sou uma Profetisa – Aphrodite pareceu realmente irritada.

– Oráculo... Profetisa – Damien levantou primeiro uma mão e depois a outra, como se ele estivesse comparando o peso de algo na palma de suas mãos, até que ambas ficaram na mesma altura. – Para mim é a mesma coisa. Pesquise a sua história, Profetisa. Sibila, Delfos, Cassandra. Esses nomes não dizem nada a você?

– Não. Sério. Eu tento não ler demais.

– Bem, eu começaria a ler se fosse você. Esses são apenas os nomes top três que vêm à minha mente culta. Alguns os chamam de Oráculos. Alguns os chamam de Profetisas. É a mesma coisa.

– Eu posso pegar o resumo na internet? – Aphrodite estava tentando parecer engraçadinha, mas o seu rosto tinha perdido toda a cor e os seus olhos pareciam gigantes e ainda mais azul-topázio do que o normal. E assustados. Ela parecia superassustada.

– Ok. Bem, lição aprendida. Parabéns para nós! – eu falei animadamente. Todo mundo simplesmente olhou para mim, então tentei explicar: – Thanatos disse que nós temos que praticar os nossos dons. Acho que o que acabou de acontecer é como uma nota extra nessa prova. Que tal agora a gente entrar no ônibus, voltar para os túneis e assistir um pouco às reprises de Fringe?

– Fringe? Estou dentro – Shaylin começou a andar na direção do ônibus.

– Eu gosto de Walter – Aphrodite comentou. – Ele me lembra o meu avô. Bem, exceto que Walter é um pouco mais inteligente e é doidão e louco, em vez de bêbado e antissocial. Mesmo assim, ambos são estranhamente adoráveis.

– Você tem um avô? E você gosta dele? – Stevie Rae perguntou antes de mim.

– É claro que eu tenho avô. Você é uma retardada em Biologia? – então Aphrodite deu de ombros. – Que seja. Minha família é meio difícil de explicar. Eu vou seguir isso e entrar no ônibus – e foi o que ela fez, seguindo Shaylin.

Ficamos só Stevie Rae, Damien e eu.

– Ela é totalmente louca – foi só o que pensei em dizer.

– De fato – Damien concordou.

– Ok, bem, vocês acham que está todo mundo no ônibus? – perguntei.

– Espero que sim. Eu sei que Rephaim está aí, e que nós só temos algumas horas até o sol nascer. Tenho certeza de que ele nunca viu nenhum episódio de Fringe, e acho que ele vai gostar. Assistir a uma série abraçadinha com ele parece uma ótima ideia agora, mesmo se a gente tiver que fazer isso com a louca da Aphrodite – ela sorriu para mim. – A gente pode pedir pizza no Andolini?

– Claro que sim – respondi.

– Ahn-han – Damien simulou bem o ato de limpar a garganta.

– Sim? – perguntei.

– Hum, vocês achariam estranho se eu, hum, talvez fosse me encontrar com alguém para tomar um café? Mais tarde. Hoje à noite. No The Coffee House On Cherry Street.

– Eles ainda estão abertos? – eu perguntei, dando uma olhada no meu celular. Afe, já eram quase 4 h da manhã.

– Eles começaram a funcionar 24 horas por dia. A tempestade de gelo acabou com os negócios por semanas e eles estão tentando compensar o prejuízo atendendo, bem, a turma da noite – Damien explicou.

– Sério? Eles estão ficando abertos por nossa causa? – eu me lembrava tanto dos sanduíches incríveis deles e da bela arte local que eles exibiam. Eles costumavam fechar às 23 h!

– Não mais – ele disse alegremente.

– Uau, que legal. Quero dizer, eu nunca estive lá, mas o fato de uma coffee shop ficar aberta no Centro da cidade para que a gente possa se encontrar lá é sensacional – Stevie Rae falou.

– Que tal se amanhã Darius desviar o ônibus para lá na volta para a estação? – eu segui o meu instinto. É normal que um grupo de estudantes do ensino médio queira parar em uma coffee shop depois da escola. – Damien, se você for lá hoje, pode perguntar para algum funcionário se tudo bem a gente aparecer lá amanhã?

– Com certeza, vou fazer um reconhecimento da área para vocês! – então a expressão de Damien murchou. – E então, o que vocês acham? Jack iria me odiar?

– Oh, claro que não, querido! – falei rapidamente.

– Jack entenderia – Stevie Rae acrescentou. – Ele não ia querer que você ficasse triste e sozinho enquanto espera que ele volte.

– Ele vai voltar, não vai? – Damien me encarou bem no fundo dos meus olhos. – Jack vai voltar, certo?

As almas deles estão destinadas a se encontrar novamente... as palavras foram sussurradas na minha mente. Reconhecendo a voz sábia e familiar de Nyx, eu sorri, dando o braço para Damien.

– Ele vai. Eu prometo. E a Deusa também promete.

Damien piscou forte para segurar as lágrimas.

– Eu tenho um encontro! E vou ficar feliz com isso.

– É isso aí! – eu o encorajei.

– Estou tão feliz que eu poderia cuspir! Mesmo que isso seja um pouco grosseiro – Stevie Rae pegou a outra mão de Damien.

– Esse é um ditado estranho – Damien observou.

– Totalmente – eu disse. – Foi nojento quando Leonardo fez toda aquela cena da cuspida com Kate em Titanic.

– Essa cena nunca deveria ter acontecido – Damien concordou. – Foi a única falha do filme.

– Bem, essa cena e aquela do Leo se transformando em um lindo picolé – acrescentei.

Damien e Stevie Rae fizeram sons de total concordância comigo enquanto nos aproximávamos do ônibus. Eu podia ver os rostos dos garotos nas janelinhas. Parecia que o ônibus estava cheio, o que me deu uma onda enorme de alívio porque eu estava mais do que pronta para ir para casa. Stark estava lá, em pé no alto da escada, ao lado de Darius. Os olhos dele me encontraram, e isso fez minha pele esquentar e formigar. Rephaim estava no primeiro assento, bem na frente de Kramisha, e eu praticamente pude sentir Stevie Rae vibrando de alegria ao acenar para ele. Shaylin e Aphrodite estavam subindo as escadas. Eu não conseguia ver o rosto de Aphrodite, mas o jeito com que ela jogou o cabelo para trás me dizia que ela já estava flertando com o seu guerreiro.

Ok, as Trevas eram um pé no saco e muitas coisas difíceis haviam acontecido com a gente, mas pelo menos estávamos juntos e tínhamos amor. Sempre o amor.

– Preciso conversar com você.

A voz sem emoção de Erin foi como um banho de água fria na minha alegria.

– Ok, claro. Ei, daqui a um instante eu estarei no ônibus – avisei Stevie Rae e Damien.

– Eu vou ficar – Erin disse as três palavras assim que ficamos sozinhas.

– Ficar? Você quer dizer aqui? – Eu tinha entendido o que ela queria dizer, mas precisava ganhar tempo para tentar processar as perguntas na minha mente. Eu tinha impedido Shaunee quando ela havia tentado se separar de nós e voltar para a Morada da Noite logo depois que ela e Erin começaram a ter problemas. Eu não deveria impedir Erin também?

– Sim, é claro que eu estou falando daqui. Estou cansada dos túneis. A umidade está deixando o meu cabelo cheio de frizz.

– Ahn, há produtos para isso. Tem alguns da Aveda. Podemos pegar para você no salão Ilhoff da Utica Square amanhã – sugeri.

– Ok, então, não é só o meu cabelo. Eu não quero morar nos túneis. É aqui que eu moro. Nesta escola. Eu não quero ser levada de ônibus. É idiota.

– Erin, eu sei que pegar o ônibus da escola é idiota. Que inferno, isso já era idiota antes de eu ser Marcada. Mas eu acho que nós precisamos ficar juntos. A gente é mais do que um grupo ou uma panelinha, a gente é uma família.

– Não, a gente não é uma família. Nós somos um grupo de garotos que vai para a mesma escola. Só isso. Ponto final.

– As nossas afinidades fazem com que a gente seja mais do que isso – ela estava me deixando chocada... não apenas pelo que ela estava dizendo, mas pela sua atitude. Erin era tão fria! – Erin, nós passamos por coisas demais juntos para acreditarmos que somos apenas um grupo de garotos que por acaso frequenta a mesma escola.

– E se isso for o jeito como você se sente, mas não como eu me sinto? Eu não posso escolher? Achei que Nyx concedesse o livre-arbítrio.

– Sim, mas isso não quer dizer que não podemos dizer algo quando alguém com quem a gente se importa está fazendo besteira.

– Deixe-a ficar.

Erin e eu levantamos os olhos e vimos Aphrodite em pé no primeiro degrau do ônibus. Ela estava encostada na porta com os braços cruzados. Eu esperei ver aquele sorriso irônico típico de Aphrodite em seu rosto, mas ela não parecia brava. Ela não soou irônica. Ela apenas pareceu bastante segura de si. Atrás dela, eu podia ver Stevie Rae e Shaylin. Elas concordaram com a cabeça, e aquele apoio mudo a Aphrodite me venceu quando eu percebi que o meu Conselho havia decidido – elas resolveram o que era melhor para todos nós, mesmo que aquilo não fosse o melhor para Erin.

– Obrigada, Aphrodite. Quem poderia imaginar que você seria a única a concordar comigo? – Erin riu, soando petulante e infantil em comparação com o despertar da maturidade serena de Aphrodite.

– Sabe de uma coisa, Erin, estou feliz que você e Aphrodite tenham me lembrado de uma coisa – afirmei. – Nyx realmente nos dá o livre-arbítrio e, se você prefere viver na Morada da Noite, então vou respeitar isso. Espero que isso não mude as coisas no nosso círculo. Você ainda é a água. O seu elemento e você ainda são importantes para nós.

Erin sorriu um pouco, mas o sorriso dela não chegou aos seus frios olhos azuis.

– Sim, é claro. Eu sempre serei a água, e a água pode correr em qualquer lugar. É só me chamar se precisar de mim. Eu vou estar lá na mesma hora.

– Que ótimo – falei rapidamente, sentindo-me superconstrangida. – Bem, então acho que a gente se vê amanhã.

– Sim, claro. Vejo vocês na aula – Erin acenou de modo petulante e saiu andando.

Subi as escadas do ônibus, perguntando para Darius:

– Estão todos aqui?

– Todos já foram contados e estão presentes – ele respondeu.

– Então vamos para casa – eu disse. Todos se espalharam pelos seus assentos, Stevie Rae ao lado de Rephaim, Aphrodite na primeira poltrona logo atrás de Darius como motorista. Stark estava esperando por mim na poltrona atrás dela, e eu me inclinei, beijando-o rapidamente e sussurrando: – Vou dar uma olhada em Shaunee e já volto.

– Vou estar aqui esperando. Sempre – ele tocou o meu rosto delicadamente.

Fui sacolejando até o fundo do ônibus, onde Shaunee estava sentada sozinha, enquanto Darius passava pelos buracos do estacionamento e fazia um retorno em direção ao caminho de saída da escola.

– Posso sentar aqui por um instante?

– Sim, claro – ela respondeu.

– Então, você e Erin não estão mais se falando direito?

Shaunee mordeu a bochecha e balançou a cabeça.

– Não.

– Ela está bem brava – eu estava tentando pensar em algo para dizer que ajudaria Shaunee a se abrir comigo.

– Não, acho que ela não está brava – Shaunee afirmou.

Franzi a testa.

– Bem, ela pareceu brava.

– Não – Shaunee repetiu, olhando para fora da janela. – Pense em como ela vem agindo nos últimos dias, principalmente hoje. “Brava” não é a melhor palavra para descrevê-la.

Eu realmente pensei. Erin estava sendo fria e sem emoções. Só isso.

– Bem, você está certa. Agora que eu pensei mesmo nisso, ela não tem sido nada além de desinteressada, e isso é estranho.

– Sabe o que é mais estranho? Aquela garota ali está demonstrando mais sentimentos do que Erin – Shaunee apontou pela janela na direção do pequeno jardim dos professores, não muito longe dos limites do estacionamento. Uma garota estava sentada ao lado da fonte. Quando o ônibus passou ali perto, havia luz suficiente para ver de relance que ela estava com a cabeça apoiada nas mãos. Os seus ombros estavam chacoalhando como se ela estivesse chorando convulsivamente.

– Quem é ela?

– Nicole.

– Nicole, a novata vermelha? Você tem certeza? – estiquei o pescoço, tentando olhar melhor para ela, mas nós já estávamos pegando a pista com árvores enfileiradas, e a minha visão da garota ficou completamente encoberta.

– Tenho. Eu a vi lá quando estava indo para o ônibus.

– Hum. E você imagina o que está se passando com ela? – eu perguntei.

– Acho que as coisas estão mudando para muitos de nós, e às vezes isso enche o saco.

– Há algo que eu possa fazer para tornar isso menos pé no saco para você? – eu quis saber.

Então Shaunee olhou para mim.

– Apenas seja minha amiga.

Eu pisquei surpresa.

– Eu sou sua amiga.

– Mesmo sem a Erin?

– Eu gosto mais de você sem a Erin – falei honestamente.

– Eu também – Shaunee concordou. – Eu também.

Um pouco depois voltei para o meu assento ao lado de Stark e deixei que ele colocasse o seu braço ao redor de mim. Encostei a cabeça no ombro dele e fiquei escutando a batida do seu coração, apoiando-me na sua força e no seu amor.

– Prometa-me que você nunca vai pirar e se transformar em um estranho frio e distante – pedi em voz baixa para ele.

– Prometo. Não importa o que aconteça – ele afirmou sem hesitar. – Agora, tire qualquer coisa de sua cabeça, exceto o fato de que eu vou forçá-la a experimentar uma pizza diferente hoje à noite.

– Não vamos pedir a Santino? Mas a gente adora essa pizza!

– Confie em mim, Z. Damien me falou sobre a pizza Athenian. Ele disse que ela é a ambrosia das pizzas. Não entendi exatamente o que ele quis dizer, mas acho que isso significa mais do que bom, então vamos experimentar.

Eu sorri, relaxei ao lado dele e, no curto caminho da Morada da Noite até a estação, fingi que o meu maior problema era decidir se expandia os meus horizontes em relação aos sabores de pizza.

 


C O N T I N U A

9 Zoey

– Neferet precisa ser detida – Thanatos foi logo direto ao ponto.

– Finalmente uma boa notícia – Aphrodite disse. – Então, o Conselho Supremo inteiro vai aparecer aqui para declarar que tudo que ela disse naquela coletiva de imprensa ridícula é papo furado, ou Duantia vem sozinha?

– Não vejo a hora de os humanos ouvirem a verdade sobre ela – Stevie Rae falou em seguida, soando tão irritada quanto Aphrodite e sem dar chance a Thanatos para replicar – Estou realmente cansada de ver Neferet sorrindo, seduzindo, iludindo e fazendo todo mundo acreditar que ela é tudo de bom.

– Neferet faz muito mais do que seduzir, iludir e sorrir – Thanatos observou sombriamente. – Ela usa o seu dom concedido pela Deusa para manipular e ferir os outros. Os vampiros são sujeitos aos seus encantos, e os humanos praticamente não têm defesa contra ela.

– O que significa que o Conselho Supremo dos Vampiros precisa tomar uma posição e fazer alguma coisa em relação a ela – eu afirmei.

– Eu gostaria que fosse assim tão simples – Thanatos respondeu.

Meu estômago se contraiu. Tive uma daquelas intuições, e minhas intuições quase nunca eram boas.

– O que você quer dizer? Por que isso não seria algo simples? – perguntei.

– O Conselho Supremo não vai misturar humanos nos assuntos de vampiros – ela explicou.

– Mas Neferet já fez isso – eu argumentei.

– Pois é, não adianta fechar a porta do estábulo depois que o gado já fugiu – Stevie Rae concordou.

– Aquela vaca matou a mãe de Zoey – Aphrodite estava balançando a cabeça, incrédula. – Você está dizendo que o Conselho Supremo vai simplesmente ignorar isso e vai deixá-la escapar com um assassinato nas costas e falando merda sobre todos nós?

– E o que vocês querem que o Conselho Supremo faça? Que desmascare Neferet como uma assassina?

– Sim – eu disse, feliz por soar firme e madura, em vez de assustada e com doze anos, que era como eu realmente estava me sentindo com essa coisa toda. – Eu sei que ela é imortal e poderosa, mas ela matou a minha mãe.

– Nós não temos provas disso – Thanatos falou em voz baixa.

– Isso é besteira! – Aphrodite explodiu. – Todos nós vimos!

– Em um ritual de revelação realizado com um feitiço de morte. Nada disso pode ser repetido. A terra foi purificada desse ato de violência por meio dos cinco elementos.

– Ela tomou as Trevas como seu Consorte – Aphrodite alegou. – Ela não está apenas aliada ao mal, ela provavelmente está fazendo as coisas mais indecentes com ele!

– Eca! – Stevie Rae e eu exclamamos juntas.

– Os humanos nunca iriam acreditar em nada disso, mesmo se eles tivessem estado lá.

Nós todas nos voltamos para a voz de Shaylin, que até então estava em pé em silêncio, observando nós quatro com olhos vazios e uma expressão chocada. Mas o seu tom era seguro. É claro, ela parecia nervosa, mas o seu queixo estava levantado de novo e ela apresentava o que eu já estava reconhecendo como a sua cara de teimosa.

– Que diabo você sabe sobre isso e por que você está falando? – Aphrodite vociferou contra ela.

– No mês passado eu era humana. Os humanos não acreditam na magia dos vampiros – Shaylin encarou Aphrodite sem vacilar. – Vocês estão há muito tempo às voltas com essa magia. Vocês perderam totalmente a perspectiva.

– E você perdeu completamente a cabeça – Aphrodite rosnou, inchando como um baiacu.

– Crianças briguentas de novo – Thanatos não levantou a voz, mas as suas palavras atravessaram aquela tensão tipo briga de garotas entre Aphrodite e Shaylin.

– Elas não querem brigar – eu falei em meio ao súbito silêncio. – Nenhuma de nós quer. Mas estamos todas frustradas e esperávamos que você e o Conselho Supremo fossem fazer algo, qualquer coisa, para nos ajudar a combater Neferet.

– Deixem-me mostrar a verdade sobre quem vocês são, e então pode ser que vocês entendam mais sobre essa batalha em que vocês estão insistindo em envolver os humanos – Thanatos estendeu o seu braço direito, com a palma da mão voltada para cima na altura do peito. Ela fez uma concha com a mão, inspirou profundamente e, com a mão esquerda, agitou o ar acima da sua outra mão estendida, dizendo: – Observem o mundo! – a voz dela era poderosa, hipnotizante. Os meus olhos foram atraídos para a palma de sua mão. Sobre ela, um globo do planeta estava se formando. Era incrível, não era como aqueles globos entediantes que os professores de História usavam para juntar pó. Aquele parecia feito de fumaça negra. A água se ondulava e se agitava. Os continentes emergiam, como que esculpidos em ônix.

– Aiminhadeusa! – Stevie Rae exclamou. – É tão lindo!

– É mesmo – Thanatos disse. – E agora observem quem vocês são no mundo! – ela sacudiu os dedos da mão esquerda na direção do globo, como se estivesse salpicando água em cima dele. Aphrodite, Stevie Rae, Shaylin e eu ofegamos de surpresa. Pequenas faíscas começaram a aparecer, pontuando a massa de terra ônix com minúsculas luzes de diamante.

– Que bonito – comentei.

– São diamantes? Diamantes de verdade? – Aphrodite perguntou, aproximando-se mais.

– Não, jovem Profetisa. São almas. Almas de vampiros. Essas luzes somos nós.

– Mas há tão poucas luzes. Quero dizer, em comparação ao resto do globo, que é todo escuro – Shaylin observou.

Eu franzi a testa e me aproximei mais, juntando-me a Aphrodite. Shaylin estava certa. A terra parecia imensa comparada à pequena quantidade de pontos cintilantes. Fiquei encarando o globo. Os meus olhos foram atraídos para os agrupamentos de brilho: Veneza, a Ilha de Skye, algum lugar que eu achei ser a Alemanha. Um grupo de luzes na França, alguns borrões no Canadá e vários outros espalhados pelos Estados Unidos – vários, mas mesmo assim não muitos.

– Aqui é a Austrália? – Stevie Rae perguntou.

Dei uma olhada no outro lado do globo, reparando em outros diamantes salpicados.

– Sim – Thanatos confirmou. – E a Nova Zelândia também.

– Ali é o Japão, não é? – Shaylin apontou para outra pequena mancha de brilho.

– Sim, é – Thanatos afirmou.

– Os Estados Unidos não têm tantos diamantes quanto deveria – Aphrodite opinou.

Thanatos não respondeu. Ela encontrou o meu olhar. Eu desviei os olhos, analisando o globo novamente. Devagar, dei toda a volta ao redor dela, desejando que eu tivesse prestado mais atenção às aulas de Geografia – qualquer aula. Quando terminei de dar a volta, encontrei o olhar da Grande Sacerdotisa de novo.

– Não existem muitos de nós – eu concluí.

– Infelizmente, isso é a mais absoluta verdade – Thanatos concordou. – Nós somos brilhantes, poderosos e espetaculares, mas somos poucos.

– Então, mesmo que nós conseguíssemos fazer com que os humanos nos ouvissem, estaríamos abrindo portas para o nosso mundo que é melhor que fiquem fechadas – Aphrodite falou calmamente, soando madura e sem malícia, como não era próprio dela. – Senão eles podem começar a pensar que as leis deles se aplicam a nós, que nós precisamos deles para nos manterem na linha e isso significa que eles podem começar a apagar as nossas luzes.

– Simples, mas bem colocado – Thanatos juntou as mãos e o globo desapareceu em um sopro de fumaça brilhante.

– Então o que nós vamos fazer? Nós não podemos simplesmente deixar Neferet escapar com todas as coisas horríveis que ela fez. Ela não vai parar em uma coletiva de imprensa, uma comissão na Câmara e uma coluna no jornal. Ela quer morte e destruição. Caramba, ela é Consorte das Trevas! – Stevie Rae disse.

– Nós temos que lutar com as mesmas armas dela – Shaylin sugeriu.

– Ah, que merda. Não vou aguentar mais uma garota que usa metáforas ruins em vez de falar claramente – Aphrodite rebateu.

– O que eu quis dizer é que, se Neferet está envolvendo os humanos, nós também deveríamos fazer isso. Mas nos nossos próprios termos – Shaylin explicou. Eu vi quando ela movimentou a boca sem som, dizendo “detestável”, mas Aphrodite havia decidido ignorar a novata. De novo. E, felizmente, Aphrodite não estava olhando para ela.

– Shaylin, você despertou o meu interesse, filha. Por que você acompanhou as duas Sacerdotisas e a Profetisa até aqui? – Thanatos perguntou de repente.

Nós, as Sacerdotisas e a Profetisa, ficamos em silêncio. Pessoalmente, eu queria ver como Shaylin ia lidar com Thanatos. Imaginei que Stevie Rae ficou quieta pelo mesmo motivo. Eu já sabia as razões de Aphrodite, as quais Shaylin tinha resumido bem com a palavra que ela disse sem som: detestável.

A pequena novata vermelha levantou seu queixo e pareceu superobstinada.

– Eu vim com elas porque quero fazer perguntas a você sobre o meu dom. E elas concordaram – Shaylin fez uma pausa, deu uma olhada para Aphrodite e acrescentou: – Bem, duas delas concordaram.

– Qual dom Nyx concedeu a você, novata?

– A Visão Verdadeira – ela olhou nervosamente para Stevie Rae e para mim. – Certo?

– Nós achamos que sim – eu falei.

– É. Pelo menos foi o que a pesquisa de Damien nos disse, e ele está quase sempre certo em relação às coisas que pesquisa – Stevie Rae concordou.

– Ela disse que Neferet tinha cor de olho de peixe morto. Isso me faz pensar que ela pode ter algo mais do que uma simples doença mental – Aphrodite me surpreendeu ao dizer isso.

– Você vê auras? – Thanatos perguntou enquanto analisava Shaylin como se ela estivesse olhando em um microscópio e Shaylin estivesse sob uma lâmina de vidro.

– Eu vejo cores – Shaylin respondeu. – Não sei como chamar o que eu vejo. E-eu era cega até a noite em que fui Marcada. Eu era cega desde os cinco anos. De repente, zap! Ganhei uma lua crescente vermelha no meio da minha testa, minha visão voltou e, junto com ela, as cores. Muitas cores. Por causa delas, eu sei coisas sobre as pessoas. Tipo, eu sabia que Neferet era podre no mesmo instante em que a vi. Apesar de por fora ela ser bonita – ela contou a Thanatos, e eu percebi que ela entrelaçou as mãos com força atrás de si e permaneceu imóvel sob o escrutínio da Grande Sacerdotisa. – Do mesmo modo, eu sei que Erik Night é basicamente um cara legal, mas é fraco. Ele sempre escolheu o caminho mais fácil. A cor dele é preta, mas não um preto chapado. É um preto profundo e rico, e eu consigo ver pequenos raios de luz dourada relampejando através dele – ela suspirou. – Acho que você é realmente idosa, inteligente e poderosa, mas também tem um temperamento forte, que mantém sob controle. Na maior parte do tempo.

Thanatos curvou os lábios em um sorriso.

– Continue.

Shaylin olhou rapidamente para Stevie Rae e depois de novo para Thanatos.

– As cores de Stevie Rae são como fogos de artifício. Isso me faz pensar que ela é a pessoa mais doce e alegre que eu já conheci.

– Isso porque você não conheceu Jack – Stevie Rae falou, com um sorriso triste para Shaylin. – Mas, obrigada. Foi muito legal dizer isso sobre mim.

– Eu não tive a intenção de ser legal. Só estou tentando dizer a verdade – os olhos de Shaylin se voltaram para Aphrodite. – Bem, na maioria das vezes estou tentando dizer a verdade.

Aphrodite bufou.

Eu esperei que fosse a minha vez e que ela diria a Thanatos que as minhas cores tinham ficado mais escuras porque eu estava superpreocupada, mas ela não falou nada sobre mim. Ela apenas assentiu levemente com a cabeça, como se tivesse decidido internamente alguma coisa, e então concluiu:

– É por isso que eu estou aqui. Preciso da sua orientação sobre como usar o meu dom e quero saber a verdade sobre ele.

Acho que foi nessa hora que comecei a respeitá-la. Thanatos não era uma Grande Sacerdotisa qualquer. Ela era membro do Conselho Supremo e tinha afinidade com a Morte. Ok, Thanatos era assustadora. Sem brincadeira. Mesmo assim, ali estava Shaylin, com seus quarenta e poucos quilos, menos de um mês como novata, confrontando Thanatos, sem entregar nada privado sobre mim. Ela nem disse aquelas coisas sobre os pontos de luz trêmula do bem dentro de Aphrodite. Era preciso coragem. Muita coragem.

Olhei para as mãos entrelaçadas com força de Shaylin e reparei que os seus dedos haviam ficado brancos. Eu sabia como ela se sentia. Eu também tive que confrontar uma Grande Sacerdotisa poderosa logo depois de ser Marcada.

Eu me aproximei mais de Shaylin.

– Seja como for que você queria chamar o que Shaylin vê, ela tem um dom. Eu concordo com Damien. Acho que é a Visão Verdadeira.

– Todos nós achamos – Stevie Rae falou.

– Você pode me ajudar? – Shaylin perguntou.

Então Thanatos me surpreendeu. Ela não disse nada. Ela se virou e caminhou até a sua mesa, olhando para baixo, como se a resposta para a pergunta de Shaylin estivesse escrita no grande calendário que ela deixava em cima da escrivaninha. Ela ficou parada daquele jeito, com a cabeça abaixada, pelo que pareceu um tempo ridiculamente longo. Eu tinha decidido entrelaçar minhas mãos atrás do meu corpo para evitar me remexer também, até que a Grande Sacerdotisa finalmente se voltou para nós quatro e nos encarou.

– Shaylin, a resposta que eu tenho para você é a mesma que eu tenho para Zoey, Stevie Rae e Aphrodite.

Escutei Aphrodite murmurar algo sobre não se lembrar de ter feito nenhuma maldita pergunta, mas Thanatos a interrompeu e continuou:

– Cada uma de vocês recebeu um dom incomum concedido pela nossa Deusa, e isso vem a calhar para nós, pois vamos precisar de todos os poderes que a Luz pode nos dar se pretendemos combater as Trevas.

– Você quis dizer derrotar as Trevas, não quis? – Stevie Rae perguntou.

Eu sabia a resposta de Thanatos antes de ela falar.

– As Trevas nunca podem ser realmente derrotadas. Elas só podem ser combatidas e desmascaradas pelo amor, pela Luz e pela verdade – a Grande Sacerdotisa afirmou.

– Perdeu. De novo – Aphrodite disse em voz baixa.

– Vou dar uma tarefa a cada uma para que vocês possam exercitar os seus dons. Profetisa, a primeira é para você – Thanatos se dirigiu a Aphrodite.

Aphrodite deu um suspirou profundo.

– Você recebeu de Nyx o dom de ter visões com alertas sobre fatos horríveis que estão para acontecer. Você teve alguma visão antes da coletiva de imprensa de Neferet?

– Não – Aphrodite pareceu surpresa com a pergunta de Thanatos. – Não tenho nenhuma visão há cerca de uma semana.

– Então o quanto você é boa, Profetisa? – as palavras dela foram duras e frias. Thanatos soou quase cruel.

O rosto de Aphrodite ficou realmente pálido e logo depois ficou rosa.

– Quem é você para me questionar? Você não é Nyx. Eu não respondo a você. Eu respondo a ela!

– Exatamente! – a expressão de Thanatos se relaxou. – Então responda a ela. Ouça-a. Observe os seus sinais. As suas visões se tornaram cada vez mais difíceis e dolorosas, não é?

Aphrodite assentiu com um movimento tenso e rápido.

– Talvez porque a nossa Deusa queira que você exercite o seu dom de outros modos. Você fez isso recentemente, diante do Conselho Supremo. Lembra?

– É claro que eu lembro. Foi como eu soube que as almas de Kalona e de Zoey tinham saído de seus corpos.

– Mas você não precisou de uma visão que dissesse isso a você.

– Não.

– Já cheguei ao ponto que queria – Thanatos afirmou. Então ela se virou para Stevie Rae. – Você é a Grande Sacerdotisa mais jovem que já conheci na vida, e eu já vivi bastante. Você é a primeira Grande Sacerdotisa dos vampiros vermelhos na história do nosso povo. Você tem uma afinidade poderosa com a terra.

– Siiiiim... – Stevie Rae prolongou a palavra, como que esperando pelo golpe final de Thanatos.

– A sua tarefa é praticar liderança. Você acata as decisões de Zoey com muita frequência. Você é uma Grande Sacerdotisa. Extraia força da terra e comece a agir como uma Grande Sacerdotisa – Thanatos não deu chance para Stevie Rae responder. O seu olhar penetrante e sombrio se voltou para Shaylin. – Se você tem a Visão Verdadeira, o seu dom é tão bom quanto você for. Não o desperdice com trivialidades e mesquinharias.

– É por isso que eu estou aqui – Shaylin falou rapidamente. – Quero aprender a usar o meu dom do jeito certo.

– Isso, jovem novata, é algo que você precisa desenvolver e ensinar a si mesma. A sua tarefa é analisar aqueles ao seu redor. Leve os resultados até a sua Grande Sacerdotisa. Stevie Rae vai usar os poderes do elemento dela, assim como o seu crescente poder de liderança, para guiar você.

– Mas eu não sei... – Stevie Rae começou, mas Thanatos a cortou.

– E você nunca saberá. Nada. Nada importante de fato. A menos que você assuma a responsabilidade de ser uma Grande Sacerdotisa. Aprenda a confiar em si mesma, para que os outros possam se sentir seguros em confiar em você.

Stevie Rae fechou a sua boca e assentiu, parecendo que ela tinha doze anos, exatamente o oposto de uma Grande Sacerdotisa. Mas eu não tive tempo de dizer nada para ela porque finalmente Thanatos voltou suas baterias contra mim.

– Use a sua pedra da vidência.

– Ahn?

– Ela a intimida – Thanatos continuou como se eu não tivesse dito nada. – A verdade é que o mundo deve mesmo intimidar você, todas vocês, neste momento. Mas o medo não é razão para fugir às suas responsabilidades. Está em suas mãos uma peça de magia antiga que responde a você. Use-a.

– Como? Para quê? – falei sem pensar.

– Uma pedra da vidência, um dom da Visão Verdadeira, uma Profetisa, uma Grande Sacerdotisa: todas essas coisas poderosas são inúteis a menos que todas vocês comecem a responder essas questões a si mesmas. Você disse que vocês não são crianças birrentas? Provem. Podem ir agora – ela virou as costas para nós e deu passos firmes em direção à sua mesa.

Minhas amigas e eu obviamente tivemos o mesmo impulso ao mesmo tempo. Como se fôssemos uma só, começamos a andar apressadas a caminho da porta de saída.

– Eu vou acender a pira de Dragon Lankford à meia-noite. Estejam presentes à cerimônia. Logo depois, preciso de vocês e do resto do seu círculo no lobby da escola. Eu convoquei a minha própria coletiva de imprensa.

As palavras dela nos atingiram e nos fizeram parar como se fossem um muro invisível. Nós nos viramos e olhamos embasbacadas para ela. Eu engoli em seco o nó na minha garganta e falei:

– Mas você disse que nós não podemos confrontar Neferet na comunidade dos humanos. Então, sobre o que vai ser a nossa coletiva de imprensa?

– Nós vamos continuar de boa vontade aquilo que Neferet começou apenas para gerar caos e conflitos. Ela abriu esta escola para empregados humanos. Nós vamos anunciar na coletiva que, apesar de estarmos tristes por Neferet ter saído do seu emprego na nossa escola, estamos felizes em abrir inscrições para mais ocupações para a comunidade na Morada da Noite. Nós vamos sorrir. Nós seremos afetuosos e abertos. James Stark estará presente com seu jeito agradável, atraente e inofensivo.

– Você vai fazer com que Neferet pareça nada mais do que uma empregada descontente? Brilhante! – Aphrodite comentou.

– E normal – eu observei.

– Algo que os humanos vão entender completamente – Shaylin disse.

– Ei, se vocês realmente querem parecer normais como os humanos, nós precisamos fazer algo tipo um feira de empregos aberta ao público – Stevie Rae sugeriu e todas nos voltamos para ela.

– Continue. Qual é a sua ideia, Grande Sacerdotisa? – Thanatos perguntou.

– Bem, a minha escola de ensino médio costumava ter uma feira de empregos para os formandos no fim do ano. Era como qualquer festa aberta ao público, com ponche ruim, salgadinhos e tudo mais. Mas empresas de Tulsa, de Oklahoma City e até de Dallas apareciam e recebiam inscrições e marcavam entrevistas com os formandos enquanto o resto dos estudantes só ficava por ali, desejando que chegasse a sua vez – Stevie Rae sorriu timidamente e encolheu os ombros. – Acho que pensei nisso porque a minha vez não chegou, já que eu fui Marcada e tal.

– De fato, é uma ideia interessante – Thanatos me chocou ao dizer isso. – Nós vamos mencionar a nossa disposição de abrir a escola para uma feira de empregos – ela pronunciou essas palavras como se elas fossem de uma língua estrangeira – durante a coletiva de imprensa mais tarde.

– Se você realmente quer uma festa aberta ao público aqui na escola, precisamos ter um bocado de gente aqui. Que tal nós convidarmos os Street Cats e fazermos um evento para levantar fundos para a adoção de gatos? Isso seria algo que Tulsa apoiaria – Stevie Rae acrescentou.

– E isso seria normal – Aphrodite falou. – Eventos beneficentes são coisas normais e atraem as pessoas com muita grana, e isso é uma coisa boa.

– Bem pensado – Thanatos concordou.

– Minha avó pode ajudar a coordenar isso com os Street Cats. Ela e a irmã Mary Angela, a freira diretora dos Street Cats, são amigas – eu sugeri.

Thanatos assentiu.

– Então eu vou ligar para Sylvia e perguntar se ela poderia coordenar o que nós chamaremos de uma noite aberta ao público com uma feira de empregos para Tulsa. A presença de sua avó, além das freiras, vai dar uma sensação de normalidade e de tranquilidade.

– Minha mãe pode assar uma tonelada de cookies de chocolate e vir também – Stevie Rae ofereceu.

– Então a convide. Eu tenho fé em vocês, assim como Nyx tem. Não nos desapontem. E agora vocês podem ir mesmo.

Nós saímos da sala de Thanatos falando sobre a coletiva de imprensa e o evento aberto ao público, e comentando como era bom termos um plano. Foi só mais tarde que me dei conta de que eu não havia dito nem uma única palavra sobre o caso Aurox/Heath...


10 Shaunee

Os guerreiros Filhos de Erebus estavam com ares soturnos, ocupados com o trabalho de amontoar madeira para construir a pira de Dragon. Shaunee tentou fazer o que podia para ajudá-los. Ela sabia dizer se a madeira ia queimar bem só de tocá-la, então indicou todas as toras e tábuas mais secas e orientou os guerreiros para colocar tudo de forma correta, a fim de que o fogo queimasse sem empecilhos e rapidamente.

Shaunee tentou encorajá-los. Ela disse que eles estavam fazendo um bom trabalho e que Dragon ficaria orgulhoso deles, mas aquilo pareceu deixá-los ainda mais calados e soturnos. Até Darius estava em silêncio e parecia quase um estranho. Foi só quando Aphrodite surgiu atirando o cabelo para o lado e falando com aquele seu jeito dominador e sedutor que as coisas começaram a melhorar.

– Ei, bonitão, você lembra do sermão que Dragon deu em você quando nós começamos a sair? – Aphrodite piscou para vários guerreiros que estavam por perto. – Aposto que Stephen, Conner e Westin se lembram, não é? Não foram vocês que tiveram que fazer um treinamento extra com Darius depois que Dragon descobriu que ele estava confraternizando com uma novata? – Aphrodite fez um tom de voz baixo que soou muito parecido o Mestre da Espada.

Os guerreiros até sorriram.

– Dragon nos fez dar um trato no seu garoto aqui por três dias seguidos – Conner lembrou.

Darius bufou.

– Cuidado com as suas palavras, Conner. Eu não sou um garoto há décadas.

Conner riu.

– Acho que era exatamente com isso que Dragon estava tendo problemas.

Aphrodite sorriu de modo sedutor e passou a mão pelo bíceps grosso de Darius.

– Ele queria que você ficasse esgotado para que não tivesse energia suficiente para confraternizar comigo.

– Seria preciso um exército de vampiros para isso – Darius afirmou.

Foi a vez de Stephen provocá-lo.

– Sério? Então por que Anastasia teve que intervir?

Aphrodite levantou suas sobrancelhas loiras.

– Intervir? Anastasia? Você não me contou isso, bonitão.

– Devo ter esquecido, já que eu estava muito ocupado confraternizando com você, minha bela.

– Hahaha! – Westin caçoou. – É impossível que qualquer um de nós tenha se esquecido de Anastasia, com os cabelos ao vento, repreendendo o nosso Mestre da Espada por perseguir o pobre e jovem Darius.

Shaunee não conseguiu deixar de rir junto com eles.

– Ela disse mesmo que Dragon estava perseguindo Darius? – a novata quis saber.

Conner, que era alto, loiro e quase tão ardente quanto o elemento de Shaunee, respondeu:

– Sim, ela disse exatamente isso. Ela até chamou Dragon de Bryan e o lembrou de que, se ela não tivesse confraternizado com um novato um século atrás, a vida dele seria muito menos interessante.

– Eu convivi com Dragon Lankford por cinquenta anos – Stephen falou. – Eu nunca o vi ser superado por nenhum outro guerreiro, mas Anastasia conseguia detê-lo com um simples olhar.

– Que bom que eles estão juntos agora – Darius afirmou.

– Ele ficou perdido sem ela – Westin comentou.

– Isso é algo que eu posso entender muito bem – Darius pegou a mão de Aphrodite, beijando-a gentilmente.

– Vocês realmente viram os dois se reencontrando?

– Sim – Darius, Aphrodite e Shaunee responderam juntos.

– Ele está feliz de novo – Shaunee disse.

– Ela morreu primeiro, mas esperou por ele – Aphrodite sorriu para Darius, mas Shaunee pôde ver lágrimas nos olhos dela.

– Ela teve uma morte de guerreira – Westin lembrou.

– Assim como Dragon – Darius concordou.

– Nós precisamos nos lembrar disso hoje à noite – Shaunee sugeriu. – Lembrar da alegria e do Juramento deles, e que eles ainda se amam.

– Amar para sempre – Darius falou docemente, tocando o rosto de Aphrodite.

– Amar para sempre – Aphrodite ecoou e depois levantou uma sobrancelha loira. – Se você não estiver cansado demais, é isso aí.

– Ah! Então Anastasia estava certa! Nós estamos perseguindo o pobre e jovem Darius! – Stephen e os outros guerreiros riram, e Darius começou a se defender excitadamente, enquanto Aphrodite o provocava.

Shaunee se afastou um pouco da pira em construção e do grupo que a cercava. Fogo, aqueça essa pequena fagulha de alegria que Aphrodite conseguiu plantar dentro deles. Ajude os guerreiros a se lembrarem de que Dragon e Anastasia estão juntos e felizes. Ela sentiu o calor do seu elemento passar rapidamente por ela e envolver o grupo, um calor invisível e quase indetectável para quem não tinha afinidade com o fogo. Mas aquilo ajudou. Ela havia ajudado. Shaunee realmente acreditava nisso.

Sentindo-se levemente melhor, ela saiu caminhando a esmo. Shaunee sabia que tinha que ir até o estábulo, mas isso não significava que ela estava com pressa de encarar a destruição que o seu elemento havia causado. Mas eu não o estava manejando, ela lembrou a si mesma. Mesmo assim, ela fez um caminho mais longo e sinuoso, na direção do pátio que tinha uma bela fonte. Dali ela iria pegar o caminho dos fundos, passando pelo estacionamento, que iria dar mais diretamente no ginásio do que no estábulo.

Shaunee escutou a água antes de ouvir a voz de Erin.

Ela não quis ficar espreitando nem se escondendo. Ela só se moveu em silêncio pelas sombras em volta do pátio porque não queria uma cena com Erin, não porque ela a estava espionando.

Então ela escutou a outra voz. No começo, Shaunee não reconheceu de quem era. Ele não estava falando alto o bastante. Ela só reconheceu a risadinha sedutora de Erin. Shaunee estava tentando decidir se ter curiosidade era a mesma coisa que bisbilhotar quando a voz dele ficou mais alta e ela percebeu que o alvo da risadinha sedutora de Erin era Dallas!

Sentindo uma dor de estômago, Shaunee se aproximou mais.

– Sim, é isso mesmo que estou dizendo. Não consigo tirar você da cabeça, garota. Você sabe o que a água e a eletricidade fazem quando se juntam, não sabe?

Shaunee ficou completamente imóvel, esperando que Erin o chamasse de otário e falasse para ele voltar correndo para a nojenta da Nicole, que era da mesma laia dele; em vez disso, ela sentiu uma dor no estômago quando ouviu Erin responder flertando com ele:

– Relâmpagos... É isso o que a eletricidade e a água fazem. Parece interessante.

– É interessante. Você é interessante. E quente. Você é como uma sauna, garota. Ou como um banho de vapor no qual eu adoraria ficar ensopado.

Shaunee teve que apertar os lábios para evitar dizer “eca” e chamar Dallas de otário ela mesma. Erin ainda tinha que fazer isso. De jeito nenhum ela ia querer nada com Dallas. Ele era um completo idiota. Ele odiava Stevie Rae e Zoey! Stevie Rae disse que ele tinha tentado matá-la! Erin só estava levantando a bola dele para depois detoná-lo e colocá-lo no seu devido lugar.

Shaunee esperou por isso. Nada. Ela não ouviu mais nada. Andando sem fazer barulho, Shaunee se aproximou ainda mais. Provavelmente, Erin tinha ido embora, depois de revirar os olhos e sair andando sem nem se dar ao trabalho de falar para Dallas sumir da frente dela.

Mas Shaunee estava errada. Totalmente errada.

Erin havia se encostado na fonte. A água a estava molhando inteira. Seu cabelo, suas roupas, seu corpo. Dallas a estava encarando como se ele estivesse morrendo de fome e ela fosse uma bisteca suculenta. Erin levantou os braços acima da cabeça, fazendo com que seus peitos marcassem a sua camiseta molhada, que era branca e agora estava totalmente transparente.

– Que tal isto aqui para um concurso de camiseta molhada? – ela perguntou com uma voz toda sexy, fazendo os seus peitos balançarem um pouco.

– Você ganha. É a coisa mais gostosa que eu já vi na vida, garota.

– Eu posso te mostrar algo mais gostoso – Erin disse. Com um movimento rápido, ela tirou a sua camiseta ensopada e desabotoou o seu sutiã de renda.

A respiração de Dallas estava tão ofegante que Shaunee podia até escutar. Ele lambeu os lábios.

– Você estava certa, garota. Isso é mais gostoso.

– E que tal isto? – Erin enganchou os dedões na cintura da sua minissaia xadrez e a tirou. Ela sorriu para Dallas, que ficou olhando para a minúscula tanga de renda que ela ainda estava usando.

– Que tal tirar todo o resto? – a voz de Dallas estava intensa, e ele se aproximou mais dela.

– Parece uma boa ideia. Eu gosto de não vestir nada além de água – Erin tirou a tanga. Agora tudo o que ela estava usando eram suas botas Christian Louboutin. Ela passou a mão com água por todo o seu corpo. – Quer se molhar comigo?

– Não é só isso que eu quero fazer com você – ele sugeriu. – Garota, eu vou abrir as portas de um outro mundo inteiro para você.

– Estou pronta para isso – ela falou de modo sedutor, ainda tocando o próprio corpo. – Porque estou cansada do mundo entediante em que estou vivendo.

– Relâmpagos, garota. Vamos fazer relâmpagos e algumas mudanças.

– Vamos lá! – Erin disse.

Dallas acabou com a distância que ainda havia entre eles. Os dois ficaram tão abraçados e tão concentrados um no outro que Shaunee não teve que se preocupar se eles iriam ouvi-la quando ela saiu correndo, totalmente enojada, com os olhos cheios de lágrimas.

Zoey

– Se vocês não se importam, eu vou até o centro de mídia. Damien acha que posso encontrar alguns livros antigos sobre a Visão Verdadeira na seção de livros de referência, se eu procurar bastante. Provavelmente ele é melhor em pesquisa do que eu, mas sou teimosa – Shaylin afirmou. – Se há algo a ser encontrado, eu vou encontrar.

– Sem problemas – eu falei.

Stevie Rae deu de ombros, dizendo:

– Por mim tudo bem.

Shaylin começou a ir embora, mas fez uma pausa.

– Ei, obrigada por me deixarem ir com vocês falar com Thanatos. E obrigada por ouvirem o que eu tinha a dizer lá. Bem, e me desculpem de novo por aquela coisa com Aphrodite mais cedo.

– Não é comigo que você tem que continuar se desculpando – eu disse.

– É, eu sei, mas acho que você é a única que vai escutar – Shaylin falou, olhando para a direção em que Aphrodite havia saído andando bruscamente.

– Aphrodite vai escutar. Só não muito bem – Stevie Rae opinou. – Você falou bem lá dentro, Shaylin. Gostei do que você disse sobre as cores das pessoas. Acho que você deve se concentrar em seguir o seu instinto sobre o que você vê.

– Hum – Kramisha bufou enquanto se aproximava apressada da gente. – Eu digo que o instinto pode te levar para uma tonelada de problemas.

Eu estava pensando “frase do ano” quando Stevie Rae perguntou:

– O que está rolando, Kramisha?

– São os novatos vermelhos de Dallas. Eles estão agindo como se quisessem ajudar a limpar o estábulo.

Stevie Rae franziu as sobrancelhas. Eu mordi os lábios. Kramisha cruzou os braços e ficou batendo o pé no chão.

– Ajudar é uma coisa ruim? – Shaylin falou em meio àquele silêncio desconfortável.

– O grupo de Dallas tem sido, bem... – eu hesitei, tentando formar uma frase sem o tipo de palavras que eu tentava (bastante) evitar.

Kramisha foi mais rápida do que eu.

– Eles são encrenca.

– Talvez eles estejam tentando mudar – Shaylin sugeriu.

– Eles são encrenca dissimulada – Kramisha acrescentou.

– Nós não confiamos neles – eu expliquei.

– E a gente tem um monte de razões para não confiar neles – Stevie Rae reforçou. – Mas eu tenho uma ideia. Thanatos disse que eu tenho que praticar liderança e Shaylin precisa praticar a coisa da Visão Verdadeira dela. Então vamos fazer as duas coisas – Stevie Rae endireitou as costas e a sua voz deixou de ser doce e do tipo garotinha e passou a ser a voz de uma mulher que soava mais confiante e bem mais velha. – Shaylin, você pode ir até o centro de mídia mais tarde. Agora você vai comigo para o estábulo. Quero que você olhe para as cores dos novatos vermelhos que estão lá e me diga quais deles são mais perigosos.

– Sim, senhora – Shaylin respondeu.

– Ahn, você não precisa me chamar de senhora – Stevie Rae falou rapidamente, soando como ela mesma de novo. – Só me deixar bancar a chefe já é o bastante.

– Você não faz o tipo “chefe mandona” – Kramisha observou.

– Bem, estou tentando fazer – Stevie Rae suspirou e olhou para mim.

Eu sorri para ela.

– Você pode mandar em mim se quiser.

Ela me deu um olhar de surpresa.

– Se alguma vez eu tentar fazer isso, você pode me chamar de salsicha e me falar para bater em mim mesma com pão e mostarda.

Dei risada e então falei:

– Bom, então, se vocês não se importam, eu preciso ficar um tempo sozinha. Quero pensar nessa coisa da pedra da vidência. Mas eu encontro com vocês no estábulo daqui a pouco. Se você virem Stark, digam que estou bem e que logo estarei lá.

– Combinado – Stevie Rae disse.

Observei as três se afastarem. Consegui ouvir Kramisha perguntar qual era a sua cor para Shaylin e, antes que a garota pudesse responder, ela já estava falando que a cor dela não podia ser laranja de jeito nenhum porque ela não gostava de laranja. Shaylin parecia confusa, mas interessada. Stevie Rae parecia pensativa e determinada, como se estivesse tentando refletir por fora a liderança em que ela estava trabalhando por dentro.

E eu? Imagino que, se você colocasse um espelho na minha direção, eu pareceria confusa e cansada e veria que o meu rímel estava empelotando e o meu cabelo estava ficando cheio de frizz.

Eu queria ir com as minhas amigas ajudar a arrumar o estábulo. Eu queria encontrar Stark e queria que ele segurasse a minha mão e ficasse rindo de mim por eu me preocupar demais e por procurar no Google sobre sintomas de doenças. Mais do que tudo, eu queria esquecer sobre aquela pedra da vidência idiota em volta do meu pescoço e me concentrar em algo que fizesse mais sentido, como novatos vermelhos detestáveis ou lição de casa. Mas eu sabia que Thanatos estava certa. Nós iríamos precisar de todos os nossos dons para ter chance de pelo menos manter as Trevas em xeque. Então, em vez de seguir minhas amigas, tomei um caminho diferente. Limpei a minha mente o máximo que eu podia e deixei que meus instintos me guiassem. Então, quando ficou óbvio aonde os meus pés estavam me levando, sussurrei:

– Espírito, por favor, venha para mim. Ajude-me a não ter tanto medo – o elemento com o qual eu ficava mais confortável suavizou o meu medo, então na hora em que eu estava diante do carvalho despedaçado foi como se as minhas emoções estivessem envoltas em um cobertor macio e quentinho.

Eu precisava daquele cobertor confortável. Aquele lugar me assustava. A professora Nolan tinha sido assassinada ali. Stevie Rae quase havia sido morta ali. Kalona surgira rasgando a terra ali. Jack, o pobre e doce Jack, morrera ali.

O meu instinto tinha me levado até lá. E o pior de tudo era que a minha pedra da vidência começou a irradiar calor.

É, como Kramisha disse, seguir o seu instinto pode causar uma tonelada de problemas, eu pensei. Suspirei e admiti a verdade que a minha intuição havia seguido: se havia magia antiga na Morada da Noite, aquele era um lugar excelente para ela se esconder. Sgiach me contara que a magia antiga era poderosa. Ela também era imprevisível e perigosa. Eu me lembrei dela explicando que o modo como a magia antiga se manifestava tinha muito a ver com a Sacerdotisa que a invocava.

Então, o que aquilo significava para mim? Que tipo de Sacerdotisa eu estava me tornando?

Suspirei. Uma porcaria de Sacerdotisa confusa que não tinha dormido o suficiente.

Uma com potencial – o pensamento vagou pela minha mente.

Uma que não sabe o bastante, contra-argumentei mentalmente.

Uma que precisa acreditar em si mesma, o vento sussurrou para mim.

Uma que precisa parar de fazer besteira, minha mente insistiu.

Uma que precisa acreditar na sua Deusa.

E aquilo parou com a minha batalha mental.

– Eu acredito de verdade em você, Nyx. Sempre vou acreditar – decididamente, tirei a pedra da vidência quente que estava embaixo da minha camiseta, respirei fundo e a levantei, olhando através do pequeno buraco, tipo aquele furo de pastilhas Life Savers, para o carvalho despedaçado.

Por um segundo, nada aconteceu. Franzi os olhos, e o carvalho continuou sendo apenas uma velha árvore quebrada. Comecei a relaxar e, como de costume, foi então que o caos começou.

Do centro do tronco partido emergiu um redemoinho terrível e feio de sombras rodopiantes. Dentro daquele turbilhão eu vi criaturas horríveis com os corpos retorcidos, cobertos com uma pele manchada, como se estivessem apodrecendo de doenças nojentas. Os olhos deles eram cavidades profundas. As suas bocas eram costuradas. Eu podia sentir o cheiro deles. Era como o fedor de animais atropelados misturado ao cheiro de privada entupida. Eu tive ânsia e devo ter feito barulho de vômito, pois o grupo voltou seus rostos cegos para mim. Os seus dedos longos e esqueléticos se estenderam na minha direção.

– Não! Parem! – gritei. O conforto do espírito tinha se quebrado. Eu estava paralisada de medo.

E então, bem do meio do redemoinho, brilhou uma luz bonita, com a cor da lua cheia, reduzindo aquelas criaturas horrendas a nada e fazendo com que eu caísse sobre o meu traseiro. Soltei a pedra da vidência, cortando a minha ligação com a magia antiga. Num piscar de olhos, enquanto eu arfava, a árvore se tornou a árvore de novo. Velha e assustadora, mas mundana e quebrada.

Sem me importar com Thanatos ou ordens da Morte, levantei cambaleante e corri feito louca.

– Eu não sou louca. É a minha vida que é louca. Eu não sou louca. É a minha vida que é louca... – entre suspiros ofegantes, eu repetia as palavras para mim mesma como um mantra, sem parar, tentando voltar ao meu estado normal, ao meu centro, ou pelo menos a algum estado de calma, mas o meu coração estava batendo tão alto que eu podia ouvi-lo e não conseguia controlar a respiração. Ataque do coração, pensei. Esse nível de loucura é demais para mim e estou tendo um ataque do coração.

Foi então que percebi que eu não conseguia controlar a respiração e o meu coração estava batendo loucamente porque eu ainda estava correndo, e mãos fortes e familiares me agarraram, fazendo com que eu parasse abruptamente. Como uma garotinha, desabei em cima de Stark, tremendo e batendo os dentes.

– Zoey! Você está ferida? Quem está atrás de você? – Stark me manteve grudada nele, enquanto ele me virava para olhar a escuridão atrás de mim. Eu o abracei e senti que ele estava carregando seu arco e seu estojo de flechas sobre o ombro. Ele irradiava aptidão e presteza. Mesmo através do meu pânico, a presença dele me acalmou. Eu engoli o ar, balançando a cabeça.

– Não, eu estou bem. Estou bem.

Ele me segurou pelo ombro, à distância do seu braço esticado, olhando meu corpo de cima a baixo, como se estivesse procurando por ferimentos.

– O que aconteceu? Por que você estava apavorada, correndo feito uma louca?

Franzi a testa para ele.

– Eu não sou uma louca.

– Bem, você estava correndo como se fosse. E aqui dentro – ele pressionou um dedo contra o meu peito, sobre o meu coração que se acalmava – você estava se sentindo como se tivesse levado uma pancada.

– Magia antiga.

Ele arregalou os olhos.

– O touro?

– Não, não, nada disso. Eu olhei através da pedra da vidência para a árvore. Você sabe, aquela árvore, perto do muro leste.

– E por que diabos você faria isso?

– Porque Thanatos me disse que eu precisava praticar com a maldita pedra da vidência, para o caso de ela poder ser usada de algum modo na luta contra Neferet.

– Então você viu algo que veio atrás de você?

– Bem, não. Sim. Mais ou menos. Eu vi umas coisas assustadoras dentro de algo que parecia um tornado girando para cima, saindo do meio da árvore. Stark, eles eram a coisa mais nojenta que já vi na vida. E eles tinham um cheiro ruim. Muito, muito ruim. Na verdade, eu quase vomitei por causa do fedor. Tive uma ânsia de vômito, e foi quando repararam em mim, mas antes que pudessem fazer qualquer coisa uma luz brilhante acabou com eles – fiz uma pausa, tentando pensar em meio ao meu pânico. – Na verdade, a luz salvadora era tipo aquela luz de fada da Sookie. Você acha que existe alguma chance de eu ser uma fada?

– Não, Z. Foco. True Blood é ficção. Isto aqui é o mundo real. O que aconteceu depois dessa luz?

– Não sei. Eu corri – olhei em volta de nós e percebi que eu havia corrido todo o caminho pelo lado de dentro do muro e que eu estava quase no estábulo. – Eu realmente corri bastante.

– E?

– E nada. Exceto que você me agarrou. Deusa, eu achei que estava tendo um ataque do coração.

– Então você ficou assustada. É só isso?

Franzi a testa para ele de novo. A voz dele era gentil, mas a sua expressão estava tensa, como se ele estivesse tentando decidir se me sacudia ou me beijava.

– Bem – eu disse devagar. – Sim, mas eu fiquei realmente assustada.

As mãos dele, que estavam segurando os meus ombros, me deram um enorme e apertado abraço de urso. Senti o corpo dele relaxar. Ele soltou um longo suspiro que terminou com uma risadinha.

– Você me assustou pra caramba, Z.

– Desculpe – eu murmurei contra o peito dele, envolvendo-o com os meus braços e apertando-o também. – Obrigada por me encontrar e por estar totalmente pronto para me salvar.

– Você não tem por que se desculpar. Eu sou o seu guerreiro, o seu Guardião. É o meu trabalho salvar você. Apesar de você ser muito boa em se salvar sozinha.

Eu me inclinei para trás para poder olhar nos seus olhos.

– Eu sou um trabalho?

Ele deu aquele seu meio sorriso metidinho.

– De tempo integral. Totalmente. E sem benefícios nem folgas.

– Sério?

– Ok, não – o sorriso dele se alargou. – Eu me lembro de ter tirado uns dias de repouso quando uma flecha me queimou e mais alguns dias quando um escocês louco me retalhou. Então, eu retiro o que disse. Eu tenho alguns benefícios. Só que são bem poucos.

– Você está demitido! – tive vontade de dar um tapa em Stark, mas eu não queria tirar os meus braços dos ombros dele.

– Você não pode me demitir. Assinei um contrato vitalício – o sorriso de Stark despareceu dos seus lábios, mas continuou nos seus olhos. – Você é minha Sacerdotisa, minha rainha, mo bann ri. Eu nunca vou deixá-la. Sempre vou protegê-la. Eu amo você, Zoey Redbird – ele se inclinou e me beijou com tanta ternura que eu senti a verdade do seu compromisso no fundo da minha alma.

Quando os seus lábios finalmente deixaram os meus, levantei os olhos para ele.

– Eu também amo você. E você sabe que não precisa ter ciúmes de um cara morto, certo?

Ele tocou o meu rosto.

– Certo. Desculpe pela noite passada.

– Tudo bem. E, ahn, por falar nisso... Há algo que você precisa saber.

– O quê?

Respirei fundo e falei de uma vez:

– Na noite passada, no final do ritual, eu olhei através da pedra da vidência para Aurox e vi Heath. Foi por isso que eu não deixei que você e Darius o ferissem.

Senti a tensão no corpo de Stark disparar para o nível “Perigo! Alerta Vermelho!”.

– Foi por isso que você estava chamando por Heath durante o sono na noite passada? – ele soou mais magoado do que irritado.

– Não. Sim. Eu não sei! Eu falei a verdade. Não lembro com o que eu estava sonhando, mas faz sentido que Heath estivesse na minha mente depois de eu tê-lo visto quando olhei para Aurox.

– Aquela coisa feito touro não é Heath. Como você pode pensar isso?

– Não é que eu esteja pensando isso. É o que eu vi.

– Zoey, olha só, tem que haver uma explicação para o que você viu – ele deu um passo para trás. Meus braços se soltaram do seu ombro.

– É por isso que Thanatos quer que eu pratique mais essa coisa de olhar através da pedra da vidência, para que eu possa descobrir como isso funciona – eu me senti com frio e sozinha sem os braços dele em volta de mim. – Stark, eu sinto muito. Eu não quis ver Heath em Aurox. Eu não quero ver nem dizer nem fazer nada que machuque você. Nunca – eu estava piscando com força, tentando evitar explodir em lágrimas.

Stark passou a mão pelos seus cabelos.

– Z., por favor, não chore.

– Eu não estou chorando – eu disse, e então dei um pequeno soluço e enxuguei uma lágrima que de algum modo tinha escapado do meu olho.

Stark enfiou a mão no bolso da sua calça jeans e pegou um lenço de papel amassado. Ele se aproximou mais de mim de novo e enxugou a segunda lágrima que estava seguindo a primeira lágrima fugitiva. Então ele me beijou docemente e me entregou o lenço, puxando-me de volta para os seus braços.

– Não se preocupe, Z. Heath e eu ficamos em paz no Mundo do Além. Eu ficaria feliz em vê-lo de novo.

– Sério? – eu tive que me afastar um pouco do seu abraço para assoar meu nariz.

– Bem, sim. Feliz por vê-lo de novo, mas não tão feliz por você vê-lo de novo – a sinceridade dele arrancou um sorriso de nós dois. – E eu sei que você não me magoaria de propósito. Mas, Z., aquela coisa tipo touro não é Heath.

– Stark, eu soube que Aurox tinha alguma coisa a ver com magia antiga desde a primeira vez em que o vi. Ele fez com que eu me sentisse completamente estranha – eu odiava contar isso a ele, mas Stark merecia nada menos do que honestidade de minha parte.

– É claro que ele fez com que você se sentisse estranha. Ele é uma criatura das Trevas! E, sim, ele é magia antiga. Ele foi criado pelo tipo mais horrível dessa merda quando Neferet matou a sua mãe como sacrifício. Eu ficaria preocupado se ele não fizesse você se sentir estranha.

Soltei um longo suspiro.

– Bem, acho que isso realmente faz sentido.

– Sim, e aposto que, se a gente trabalhar junto, nós vamos descobrir por que a pedra mostrou Heath a você na noite passada – ele disse e eu apenas mordi o lábio. Então ele continuou, como se estivesse raciocinando em voz alta. – Pense nisso, Z. O que mais você viu através da pedra?

– Bem, em Skye eu vi aqueles duendes antigos, os elementais.

– Eles eram parecidos com as coisas que você viu hoje?

Encolhi os ombros.

– Não, de jeito nenhum. Os elementais eram sobrenaturais, misteriosos, estranhos, mas no bom sentido. O que eu vi hoje foi grotesco e assustador.

– Ok, exceto por agora na árvore e pela noite passada no ritual, a pedra da vidência mostrou a você mais alguma coisa desde que nós voltamos da Itália?

Eu encontrei o olhar dele.

– Sim. Você.


11 Zoey

– Eu? Z., o que você disse não faz o menor sentido – Stark falou.

– Eu sei, eu sei. Desculpe. É que eu me senti meio como se estivesse espionando você quando fiz isso porque você estava dormindo, e eu só fiz isso porque foi na época em que você estava tendo problemas para dormir, e na verdade foi mais uma coisa acidental, então eu nunca disse nada para você, e agora parece como se eu tivesse inventado tudo isso – terminei apressadamente.

– Zoey, eu posso ouvir as suas emoções. Isso é muito mais “espionagem” do que você olhar para mim através de uma pedra enquanto estou dormindo. Além do mais, você está certa. Meu sono realmente tem aumentado. Eu não a culpo por dar uma conferida em mim com a pedra. Apenas me conte o que você viu.

– Eu vi uma sombra em cima de você. Eu me lembro de pensar que parecia um guerreiro fantasma. Você abriu a sua mão e a espada do Guardião apareceu. Então a sombra-fantasma a segurou e ela se transformou em uma lança. Achei que ela estava ensanguentada. Aquilo me assustou, então chamei o espírito e ele afugentou aquela coisa. Você acordou e nós, ahn... – senti meu rosto esquentar. – Bem, nós fizemos amor e eu me esqueci disso.

– Z., gosto de pensar que eu sou bom de cama e tal, mas, mesmo assim, como você pode esquecer de ter visto um cara-fantasma com uma lança pairando em cima de mim?

– É sério, Stark. Logo depois disso começou o que Stevie Rae chamaria de um fuzuê danado aqui na Morada da Noite. Eu estava ocupada – cruzei os braços e olhei intensamente para ele. – Espere aí, eu não me esqueci totalmente disso. Eu contei para Lenobia sobre o cara da sombra.

– Ótimo, então uma professora sabe, mas eu não sabia.

– Agora você sabe.

– Bom, e o que Lenobia falou sobre isso?

– Basicamente, ela me disse para manter os meus olhos bem abertos aqui no mundo real em vez de ficar olhando embasbacada através da pedra, que foi o que eu fiz até a noite passada quando eu vi Heath – falei.

– Olhe para mim através da pedra de novo.

– Agora?

– Agora.

– Ok – levantei a pedra da vidência, respirei fundo e olhei através dela para Stark.

– E então? Que tal eu estou?

– Mal-humorado.

– E?

– Irritante.

– Nada mais?

– Talvez um pouco fofo. Mas apenas talvez – coloquei a pedra de volta embaixo da minha camiseta. – Simplesmente apenas você. Não achei mesmo que eu fosse ver nada. A pedra não estava quente.

– Ela fica quente?

– Sim, às vezes – mordi o lábio e pensei sobre isso. – Na verdade, foi por isso que eu olhei através dela para você da primeira vez. Ela tinha esquentado.

– A pedra estava quente quando você olhou através dela para Aurox? – ele perguntou.

– Não, mas eu sabia que tinha que olhar através dela. Foi como se eu me sentisse compelida a fazer isso – respondi. – E ela já tinha esquentado antes, quando Aurox estava por perto.

– Maldita magia antiga. Isso é um pé no saco – ele reclamou. – Podia pelo menos existir um manual com as regras da pedra descritas em algum lugar, mas não.

– Eu posso ligar para Sgiach. Quero dizer, ela me deu a pedra. Ela lida com magia antiga. Talvez ela possa me dar algumas orientações.

Ele bufou.

– Você não pediu isso a ela em Skye?

– Sim – eu disse.

– Se eu me lembro bem, ela não deu nenhuma resposta concreta.

– Você está certo. Ela falou inclusive que achava que a única magia antiga que ainda existia neste mundo estava em Skye.

– Ela estava errada – Stark afirmou.

– Sim, definitivamente.

– Quer saber o que eu acho?

Stark chegou mais perto de novo e colocou o seu braço em volta de mim. Encostei minha cabeça no ombro dele, deslizei o meu braço ao redor da sua cintura e falei:

– Que eu sou louca?

Ele abriu um sorriso e beijou minha testa.

– Você não é só louca. Você é muito louca. Caramba, Z., você é totalmente louca. Mas eu gosto de um pouco de loucura.

– Agora você pareceu a Stevie Rae – nós sorrimos um para o outro, mais relaxados, apoiados nas bases do nosso relacionamento: o nosso compromisso e a nossa crença um no outro. – Então, o que você ia dizer? O que você acha disso tudo?

– Eu acho que estou cansado de decidir o que fazer por causa do que os outros dizem. Especialmente adultos que nos entregam enigmas ou que nos largam no meio de uma tempestade de merda sem nos dar nenhuma ajuda de verdade – ele disse.

– Sim, eu entendo isso. Eu me senti assim quando Neferet ficou louca e eu era a única que sabia disso.

– Ok, então vamos decifrar essa coisa de magia antiga por nós mesmos. Z., você tem afinidade com todos os cinco elementos. Ninguém consegue nem se lembrar da última vez em que isso aconteceu com outra pessoa. Você é um tipo diferente de novata, um tipo diferente de Grande Sacerdotisa. Você é uma jovem rainha guerreira, e eu sou o seu Guardião. Juntos, não há nada que nós não possamos enfrentar – o seu sorriso metidinho estava de volta. – Nós combatemos no Mundo do Além e vencemos.

– É, exceto pela parte em que você morreu e tal – eu o lembrei.

– Só um pequeno detalhe. No fim deu tudo certo.

Eu o abracei, pressionando o meu corpo contra o seu dorso forte.

– Deu tudo mais do que certo.

Ele me beijou e eu extraí força do seu gosto, do seu toque e do seu amor. Talvez Stark estivesse certo. Talvez não existisse nada que nós não pudéssemos enfrentar. Suspirei de alegria e me aconcheguei no peito dele.

– Vamos para o estábulo – Stark indicou com o queixo o prédio comprido que não estava longe de nós.

– Sim, acho que devemos ir. Aposto que Erin está lá. Até daqui eu posso ver que parece tudo encharcado.

– Na verdade, já faz um tempo que não vejo Erin – Stark encolheu os ombros. – Talvez porque o estábulo esteja realmente muito melhor do que você imagina. A maior parte dos danos foi a fumaça. Só o que realmente queimou foram uma baia e um fardo de feno e forragem.

– Persephone está bem, certo? – Entrelaçando os meus dedos aos dele, nós começamos a caminhar devagar em direção ao estábulo, deixando os nossos braços e quadris roçarem um contra o outro.

– Ela está bem. Todos os cavalos estão bem. Bem, menos Bonnie. Ela está muito nervosa. Lenobia a colocou junto com Mujaji para acalmá-la. Aparentemente as duas se dão bem. O que me faz lembrar que vários novatos disseram que viram Lenobia beijando Travis antes de os paramédicos o levarem embora – Stark contou.

Meus olhos se arregalaram.

– Sério? Mal posso esperar até Aphrodite e Stevie Rae saberem disso!

Stark riu.

– Stevie Rae já soube por Kramisha, que está contando para todo mundo – ele me cutucou com o seu ombro. – Todo esse tempo que você passou na árvore fez com que você perdesse uma boa fofoca.

Levantei os olhos para ele, confusa.

– Todo esse tempo? Eu só fiquei lá por tipo um minuto.

Stark parou.

– Que horas você acha que são agora?

Dei de ombros.

– Sei lá. Eu teria que olhar no meu telefone, mas nós fomos até a sala de Thanatos às sete e meia. Ficamos lá provavelmente meia hora ou menos, então agora deve ser no máximo oito e meia.

– Zoey, são onze e meia. Nós só temos tempo para encontrar todo mundo no estábulo e ir até a pira funerária de Dragon.

Fiquei gelada por dentro.

– Stark, eu perdi mais de três horas!

– Sim, você perdeu, e eu não gosto nada disso. Prometa que você não vai olhar através dessa maldita pedra de novo, a menos que eu esteja com você.

Eu estava apavorada o bastante para não discutir com ele.

– Prometo. Dou minha palavra a você. Eu não vou olhar através dessa coisa a não ser que eu esteja com você.

Os ombros dele relaxaram e ele me deu um beijo rápido.

– Obrigado, Z. Algo que pode roubar tempo de você não é nada bom – ele deu ênfase especial às duas últimas palavras. – Eu sei que Sgiach disse que a magia antiga pode ser boa ou má, mas não faz diferença se ela chega sem avisar.

– Eu sei. Eu sei – a gente tinha começado a andar de novo, mas eu continuei segurando firme a mão dele. – Não me espanta que eu tenha me sentido como se fosse ter um ataque do coração. Eu fiquei parada ali, encarando aquelas coisas nojentas e fedidas por horas – encolhi os ombros.

– Está tudo bem. A gente vai decifrar essa magia antiga toda. Eu não vou deixar que nada aconteça com você.

Stark apertou minha mão e eu apertei a dele de volta. Eu queria acreditar nele. Eu realmente acreditava nele, na sua força e no seu amor. Era com o outro lado que eu estava preocupada. O lado desconhecido em que as Trevas estavam firmemente plantadas, que continuava espreitando e derrubando as pessoas que eu amava.

Fiquei pensando em como eu não queria perder mais ninguém quando aquela pedra da vidência idiota começou a esquentar. Eu parei, fazendo com que Stark parasse abruptamente comigo também. Pressionei a minha mão sobre o ponto quente no meu peito.

– O que foi? – ele perguntou.

– Está esquentando.

– Por quê?

– Stark, eu não tenho ideia. Você deveria me ajudar a decifrar isso, lembra?

– Ok, sim. Certo. Nós podemos fazer isso – ele começou a olhar em volta. – Então, vamos decifrar isso.

– Como?

– Bom, eu estou pensando – ele disse.

Suspirei e tentei pensar também. A gente havia parado embaixo de uma das grandes árvores bem próximas ao lado leste do estábulo. Levantei os olhos rapidamente, preocupada com coisas sem olhos e bocas costuradas à espreita. Mas não havia nada acima de nós. Na verdade, tudo estava em paz ao nosso redor. Tudo o que eu conseguia pensar era que não havia nada para pensar. Algumas vozes chegavam até nós do estábulo e eu podia ouvir equipamentos e outras coisas em funcionamento, como tratores e máquinas sendo usados para retirar o entulho e limpar os destroços. Escutei o som de outro motor, vindo de algum lugar atrás de nós e se aproximando.

– Que estranho – Stark comentou, olhando por sobre o meu ombro. – Táxis não costumam vir aqui.

Segui o olhar dele e vi o carro velho e marrom, com a palavra “TÁXI” escrita em letras pretas na sua lateral. Stark estava certo. Era superestranho ver um táxi na Morada da Noite. Que inferno, Tulsa não era exatamente conhecida por seu maravilhoso serviço de táxis. Dei de ombros mentalmente – o bonde do Centro da cidade era mais legal mesmo.

Então Lenobia saiu pela porta lateral do estábulo e praticamente correu até o carro. Ela abriu a porta traseira e se abaixou para ajudar o cowboy alto e enfaixado a descer do veículo. O táxi foi embora. Travis e Lenobia apenas ficaram parados ali, olhando um para o outro.

Minha pedra da vidência estava tão quente que parecia que ia queimar a minha camiseta e abrir um buraco nela. Eu a tirei e a segurei longe da minha pele. Mas não disse nada. Stark e eu estávamos muito ocupados olhando Travis e Lenobia. Eles não estavam muito perto de nós, mas mesmo assim parecia uma invasão de privacidade ficar ali olhando para eles ­– apesar de a gente continuar ali, olhando embasbacados para os dois.

Então caiu a ficha. Cutuquei o braço de Stark e falei em voz baixa:

– A pedra ficou superquente assim que Travis saiu do táxi.

Stark desviou os olhos de Travis e Lenobia, voltou-se para a pedra e depois para mim. Ele colocou uma mão firme no meu ombro e disse:

– Vá em frente. Olhe através da pedra para ele. Eu estou aqui com você. Não vou deixar que nada aconteça com você. Se alguma coisa tentar sugar o seu tempo, eu vou detê-la.

Eu assenti e, como se arrancasse um band-aid com um movimento rápido, levantei a pedra da vidência, enquadrando Travis e Lenobia dentro do seu círculo.

No começo, foi como tinha acontecido na árvore: a minha visão dos dois permaneceu exatamente a mesma. Observei Lenobia passando as mãos nervosamente sobre as mãos enfaixadas de Travis. Elas pareciam grandes luvas brancas, e eu reparei que a gaze chegava até o antebraço dele. Mesmo de onde estávamos, o rosto dele estava anormalmente vermelho e brilhante, como se ele tivesse se queimado muito no sol e tivesse passado um gel pós-sol. Mas não parecia que ele estava sentindo dor. Ele estava sorrindo. Muito. Para Lenobia. Eu estava quase largando a pedra e me preparando para dizer a Stark que eu era de fato totalmente louca, quando Travis se inclinou e beijou Lenobia.

Então tudo mudou. Houve um brilho tão forte que me fez piscar e, quando minha visão clareou, Travis tinha desaparecido. No lugar dele estava um cara negro, jovem e realmente bonito. Ele tinha cabelo comprido, que estava puxado para trás em um rabo de cavalo baixo, e ombros tão largos que parecia um linebacker. Ele estava beijando Lenobia como se fosse o último beijo dele no mundo. E ela o estava beijando de volta, só que era uma Lenobia diferente. Ela parecia jovem, como se tivesse apenas uns dezesseis anos. Ela o envolveu com os seus braços como se nunca mais fosse soltá-lo. Em toda a volta deles, o ar ondulava e tremeluzia, como se eu os estivesse observando por trás de uma panela efervescente. Só que, em vez do vapor subindo, eu juro que havia duendes de felicidade azul-turquesa esvoaçando ao redor deles. A felicidade cresceu dentro de mim e começou a borbulhar, como se a panela fosse a minha cabeça e a água, as minhas emoções. O chão sumiu de debaixo dos meus pés. Eu estava flutuando em alegria, amor e bolhas azuis.

Então minha cabeça ficou realmente zonza e o meu estômago, totalmente rebelde.

– Zoey! Chega! Abaixe a pedra agora!

Percebi que Stark estava gritando comigo e puxando a pedra da vidência. Senti a terra embaixo dos meus pés de novo. As bolhas azuis evaporaram e a alegria se foi, deixando-me enjoada, exausta e supertrêmula. Soltei a pedra da vidência a tempo de me abaixar e vomitar ao lado da árvore.

– Você está bem. Estou aqui com você, Z. Está tudo bem – Stark estava segurando o meu cabelo para trás enquanto eu continuava a vomitar e a botar minhas tripas para fora.

– Stark? Zoey? – Lenobia estava vindo na nossa direção, soando ofegante e preocupada. Eu ouvi Travis logo atrás dela, perguntando o que havia de errado. Mas eu não consegui responder. Eu estava muito ocupada vomitando. – Zoey! Ah, Deusa, não! – a preocupação de Lenobia disparou quando ela percebeu que eu estava vomitando.

– Ela não está rejeitando a Transformação. Ela está bem – Stark a tranquilizou enquanto eu pegava outro lenço de papel que ele tinha me oferecido e enxugava a boca. Quando finalmente parei de vomitar, eu me encostei na árvore, envergonhada e desconfortável. Eu realmente detestava vomitar.

– Então o que aconteceu? Por que você está enjoada?

Com Stark de um lado e Lenobia de outro, eles me guiaram até um banco de ferro forjado que não estava muito longe da árvore grande (mas longe o bastante para que ninguém sentisse o cheiro do meu vômito, eca).

– Vocês querem que eu chame alguém? – Travis perguntou.

– Não – respondi rapidamente. – Eu estou bem. Vou ficar melhor agora que estou sentada – olhei para Stark com ar de interrogação.

Ele assentiu.

– Seja o que for que você tenha visto, conte para ela. Nós confiamos nela.

Eu me voltei para Lenobia.

– E você confia em Travis?

– Com a minha vida – ela não hesitou.

O cowboy grandão sorriu e se aproximou mais dela. Os ombros deles se tocaram.

– Ok, o que aconteceu é que a minha pedra da vidência começou a esquentar. Quando Travis saiu do carro, ela ficou realmente quente. Stark estava aqui, então nós decidimos que eu deveria olhar através dela, bem, para vocês, e ver se isso poderia me ajudar a começar a entender o que ela me mostra. Então eu olhei através dela para vocês dois.

– Pedra da vidência? – Travis perguntou. Ele não soou nem um pouco assustado, apenas curioso.

– É um amuleto de magia antiga dado a Zoey por uma rainha vampira ancestral – Lenobia explicou. – E o que você viu?

– Bem, nada demais até que vocês dois se beijaram – eu sorri encabulada. – Desculpe por ficar olhando vocês se beijarem.

Travis sorriu e colocou um braço enfaixado em volta do ombro de Lenobia.

– No que depender de mim, mocinha, você vai me ver beijando esta bela garota aqui muitas vezes.

Esperei que Lenobia o fuzilasse com o seu olhar mortal. Em vez disso, ela levantou os olhos com adoração para ele, colocou a mão sobre o peito dele em cima do coração e encostou a cabeça cuidadosamente sobre o seu ombro. Então ela repetiu:

– O que você viu enquanto estávamos nos beijando?

– Travis se transformou em um cara negro grandão e você virou uma versão mais jovem de si mesma. E ao redor de vocês havia umas coisinhas borbulhantes, felizes e azuis. Tenho certeza de que eram duendes de algum tipo – arregalei os olhos. – Na verdade, agora que estou pensando nisso, aquelas bolhas me lembram o mar. Hum. Estranho. Enfim, fiquei totalmente capturada pela cena, como se eu tivesse saído do chão e estivesse em uma bolha azul e feliz do oceano. Desculpe. Eu sei que isso parece loucura – prendi a respiração, esperando Lenobia cair na risada e Travis começar a zombar de mim.

Mas eles também não fizeram isso. Em vez disso, Lenobia começou a chorar. Eu quero dizer chorar para valer. Ela caiu naquele choro convulsivo e cheio de catarro em que eu sou especialista. Travis apenas a abraçou mais forte. Ele abaixou os olhos para Lenobia como se ela fosse um milagre personificado.

– Eu já conheci você antes. É por isso que, com você, eu me sinto como se estivesse em casa.

Lenobia assentiu. Então, em meio às suas lágrimas, ela contou:

– Travis é o meu único companheiro humano, meu único amor, que voltou para mim depois de duzentos e vinte e quatro anos. Eu jurei nunca amar ninguém depois dele e não amei. Nós nos conhecemos e nos apaixonamos no mar, no navio que nos levou da França para Nova Orleans.

– Então a pedra da vidência me mostrou a verdade?

– Sim, Zoey. Com certeza absoluta – Lenobia disse antes de afundar o rosto no peito de Travis e chorar, enquanto ele a abraçava, deixando para trás dois séculos de espera, saudade e dor.

Eu me levantei e peguei a mão de Stark de novo, puxando-o para longe para que os dois pudessem ficar sozinhos. Enquanto entrávamos no estábulo, ele disse:

– Isso não significa que Aurox é Heath que voltou para você. Você sabe disso, certo?

Stevie Rae me salvou ao chegar apressada, falando efusivamente:

– Aiminhadeusa! Por onde você andou? Mal posso esperar para contar a você sobre Lenobia e Travis!

– Já vi esse filme antes – Stark falou. – Onde estão Darius e Aphrodite?

– Eles já estão na frente do Templo de Nyx, na pira funerária – Stevie Rae respondeu. – Nós vamos encontrar com eles já, já.

– Vou procurar Erin, Shaunee e Damien. A gente tem que ir.

– O que há com ele? – Stevie Rae perguntou, olhando Stark se afastar dando passos firmes.

– Heath pode estar realmente dentro de Aurox.

Stevie Rae ecoou exatamente meus pensamentos, dizendo:

– Ah, que inferno!


12 Kalona

Estar do lado da Luz não era tão interessante quanto ele se lembrava. Verdade seja dita, Kalona estava entediado. Sim, Kalona entendia por que Thanatos havia dito a ele para ficar em segundo plano e não chamar atenção para si mesmo até depois do funeral de Dragon. Era nessa hora que ela ia anunciar para a escola que ele era o seu novo guerreiro e que ele ia assumir o posto de Mestre da Espada e líder dos Filhos de Erebus da Morada da Noite de Tulsa. Até esse momento, a presença dele poderia ser algo confuso, se não insultuoso aos olhos dos outros guerreiros.

O problema é que Kalona nunca havia se preocupado por parecer insultuoso. Ele era um imortal poderoso. Por que ele deveria se importar com os sentimentos irrelevantes dos outros?

Porque aqueles que eu julgo mais irrelevantes às vezes me surpreendem: Heath, Stark, Dragon, Aurox, Rephaim. O último nome da sua lista mental o alarmou. Rephaim já pareceu sem importância para ele um dia, mas ele estava errado. Kalona tinha percebido que ele amava e precisava do seu filho.

Em que mais ele havia errado?

Provavelmente em um monte de coisas.

Esse pensamento o deixou deprimido.

Ele andou de um lado para o outro pelo lado mais escuro e cheio de sombras do Templo de Nyx. Ali ele estava perto o bastante da pira de Dragon para ouvir quando Thanatos o chamasse, mas ao mesmo tempo estava fora do campo de visão.

O fato de alguém dizer a ele o que deveria fazer o irritava. Isso sempre o irritara.

E havia aquela novata que tinha afinidade com o fogo, Shaunee. Ela parecia ter a habilidade de incitá-lo, de fazê-lo pensar em coisas em que ele não estava acostumado a perder tempo pensando.

Ela já havia feito isso antes. Ele havia tido a intenção de manipulá-la, para conseguir informações sobre Rephaim e a Vermelha. Mas o que havia acontecido era que ela o tinha presenteado com algo ridiculamente mundano e simples: um telefone celular. Aquele pequeno presente tinha salvado a vida do seu filho.

Agora ela o fizera pensar em todos aqueles éons que ele havia passado afastado de Nyx.

– Não! – ele falou a palavra em voz alta, fazendo que o pequeno bosque de olaias que estavam plantadas no lado oeste do Templo de Nyx chacoalhasse como se uma tempestade as ameaçasse. Kalona se concentrou e controlou o seu temperamento. – Não – ele repetiu usando uma voz que não estava mais repleta de poder sobrenatural. – Eu não vou pensar nos séculos que passei afastado dela. Não vou pensar nela de jeito nenhum.

Uma gargalhada soou ao redor dele, fazendo as olaias se mexerem, tremularem e então explodirem em plena floração, como se um facho da luz do sol do verão tivesse subitamente iluminado as árvores. Kalona cerrou os punhos e levantou os olhos.

Ele estava sentado no beiral de pedra do templo. Havia pouca luz naquele lado do edifício, motivo pelo qual Thanatos havia ordenado que ele esperasse ali, mas Erebus irradiava luz própria.

Erebus... seu irmão... o Consorte imortal de Nyx. O único ser do universo que era mais parecido com ele, e o único ser do universo que ele detestava mais do que a si mesmo. Ali! No reino mortal depois de todos esses éons? Por quê?

Kalona mascarou o seu choque com desdém.

– Você é mais baixo do que eu me lembrava.

Erebus sorriu.

– Que bom ver você de novo também, irmão.

– Como sempre, você coloca palavras da minha boca.

– Desculpe. Eu não preciso fazer isso. Não quando as suas próprias palavras são tão interessantes. “Não vou pensar nela de jeito nenhum” – Erebus não apenas era quase uma imagem espelhada de Kalona, como também imitava a voz de seu irmão perfeitamente.

– Eu estava falando de Neferet – Kalona rapidamente organizou seus pensamentos e mentiu com facilidade. Fazia éons, mas ele costumava ser bom em mentir para o seu irmão. Kalona achou que ainda levava jeito para a coisa.

– Não duvido de você, irmão – Erebus se inclinou para a frente, abriu suas asas douradas e planou graciosamente até o chão diante de Kalona. – Veja só, esse é exatamente o motivo da minha pequena visita.

– Você veio até o reino terreno porque eu era amante de Neferet? – Kalona cruzou os braços sobre o seu peito largo e encontrou o olhar âmbar de seu irmão.

– Não, eu vim porque você é um mentiroso e um ladrão. O estupro da última bondade de Neferet é apenas mais um de seus muitos crimes – Erebus disse. Ele também cruzou o braço sobre o peito.

Kalona deu uma gargalhada.

– Você não andou espionando muito bem se acha que estupro tem algo a ver com o que Neferet e eu compartilhamos. Ela estava mais do que desejosa e pronta para o meu corpo.

– Eu não estava falando do corpo dela! – a voz de Erebus se elevou e Kalona ouviu o som de vampiros chamando e perguntando o que estava havendo ali perto do Templo de Nyx.

– Como sempre, irmão, você apareceu para causar problemas para mim. Eu deveria ficar nas sombras, sem ser visto e esperando até ser convocado. Se bem que, pensando melhor, vai ser divertido assistir a você lidar com a descoberta dos mortais. Apenas um rápido aviso: até os vampiros tendem a ter reações exageradas quando encontram um deus.

Erebus não hesitou. Ele levantou as mãos e ordenou:

– Esconda-nos!

Houve uma onda de vento e uma sensação de claridade que Kalona achou tão familiar, tão agridoce, que só duas reações vieram à sua mente: raiva e desespero. Ele não ia permitir que Erebus visse o seu desespero.

– Você está desafiando Nyx? Ela determinou que eu não posso entrar no Mundo do Além. Como você se atreve a me trazer aqui? – as asas cor da noite de Kalona estavam totalmente abertas e tensionadas, prontas para atacar o seu irmão.

– Você sempre faz o papel do tolo impetuoso, irmão. Eu nunca iria contra as determinações da minha Consorte. Eu não o trouxe para o Mundo do Além. Apenas trouxe um pedaço do Mundo do Além para nos esconder, só por alguns momentos, dos olhos mortais – Erebus sorriu de novo. Desta vez, ele não obscureceu a beleza de sua expressão. Uma luz solar irradiava do seu corpo. As suas asas cintilavam com penas de ouro. A sua pele era perfeita, como se ele tivesse sido modelado com raios de sol.

Ele foi, Kalona pensou com desgosto. Ele foi modelado quando o céu beijou o sol. Assim como eu fui modelado quando o céu beijou a lua. O céu, como a maioria dos imortais, é um bastardo inconstante, que faz o que quer e depois não presta atenção nos filhos que deixa para trás.

– Que tal a sensação de estar no Mundo do Além? Deve ser melhor do que quando você entrou sorrateiramente, perseguindo aquela pequena novata, Zoey Redbird. Naquela ocasião você era só espírito. Você não podia sentir a mágica do reino de Nyx contra a sua pele. E você sempre ficou tão impressionado com qualquer coisa que você pudesse tocar, que pudesse fisicamente chamar de sua.

Ótimo, Kalona pensou, ele ficou nervoso. Isso vai ofuscar a sua perfeição.

Foi a vez de Kalona sorrir. A luz que ele emitiu para o seu irmão não era a luz quente e vistosa do sol. Era a luminescência prateada e fria da lua.

– Ainda enciumado por eu tê-la tocado depois de todo esse tempo? Você se lembra de que Nyx é uma Deusa, não lembra? Ela não pode ser tocada a não ser que seja a sua vontade, o seu desejo, ser tocada, acariciada, amada por...

– Eu não vim aqui para falar de minha Consorte! – as palavras explodiram em flashes de calor dourado ao redor de Kalona.

– Que amostra de temperamento divino! – Kalona riu sarcasticamente. – E ainda dizem que você é o irmão bom. Se ao menos os aduladores que preferiram ficar no Mundo do Além pudessem vê-lo agora.

– Eles não dizem que eu sou o irmão bom. Eles dizem que você é o usurpador – Erebus atirou as palavras no seu irmão.

– Verdade? Pergunte novamente a eles. Eu acredito, depois de éons de reflexão cuidadosa, que eles iriam me chamar de “aquele que se recusou a compartilhá-la” – Kalona disse.

– Ela me escolheu – a voz de Erebus estava baixa; os seus pulsos estavam cerrados ao lado de seu corpo.

– Escolheu mesmo? Minha memória é diferente.

– Você a traiu! – Erebus gritou.

Kalona ignorou o ataque de cólera de seu irmão. Ele já havia testemunhado isso antes. Em vez de se abalar, ele falou com a frieza da superfície da lua:

– Por que você veio? Diga o que tem a dizer e então desapareça. O mundo mortal não é um grande reino, mas ele é meu. E eu não vou compartilhá-lo com você, assim como eu não teria compartilhado Nyx com você.

– Eu vim adverti-lo. Nós escutamos o seu Juramento no Mundo do Além. Nós sabemos que você se comprometeu a ser o guerreiro da Morte e a se tornar o Mestre da Espada desta escola.

– E líder dos Filhos de Erebus – Kalona acrescentou. – Não se esqueça do resto do meu título.

– Eu nunca poderia esquecer que você pretende blasfemar contra os meus filhos.

– Seus filhos? Agora você anda se acasalando com humanas e produzindo machos que crescem para se tornar guerreiros vampiros? Isso é fascinante, especialmente porque eu fui julgado tão duramente por criar meus filhos.

– Vá embora – os olhos de Erebus começaram a ficar incandescentes. – Saia deste lugar e pare de se intrometer na vida dos vampiros de Nyx e dos valorosos guerreiros que se comprometeram a me servir.

– Mas você não está se intrometendo ao ordenar que eu parta? Estou surpreso que Nyx tenha permitido isso.

– A minha Consorte não sabe que estou aqui. Eu só vim porque, de novo, você a está perturbando. Eu vivo para evitar qualquer perturbação a ela. Essa é a única razão pela qual estou aqui – Erebus disse.

– Você vive para lamber os pés dela e está, como sempre, com ciúmes de mim – Kalona não pôde evitar uma onda de alegria pelo que as palavras de Erebus tinham revelado. Ainda posso fazer Nyx sentir algo! A Deusa me observa! O imortal controlou suas emoções. Ele tinha que esconder a sua alegria de Erebus. Quando ele falou novamente, a sua voz estava sem emoção. – Que isto fique claro: eu não jurei servir a você. Eu fiz um Juramento de servir a uma Grande Sacerdotisa que personifica a Morte através da sua afinidade concedida pela Deusa. Tudo o que a sua visita fez foi me dar motivos para fazer uma clara distinção entre os guerreiros que se dizem seus filhos e os que não. Eu não vou oprimir os seus filhos com a minha liderança.

– Então você vai embora desta Morada da Noite – Erebus afirmou.

– Não. Mas você vai. Leve esta mensagem minha para Nyx: a Morte não faz diferença entre aqueles que a seguem e aqueles que seguem outros deuses. A Morte chega para todos os mortais. Eu não preciso da sua permissão, nem da permissão da Deusa, para servir à Morte. Agora suma daqui, irmão. Eu tenho que participar de um funeral – Kalona colocou os braços à frente do seu corpo e juntou as palmas das mãos, provocando uma explosão de luz prateada e gelada que criou uma onda ao redor dele, despedaçando a pequena bolha de Mundo do Além que o seu irmão havia criado e arremessando Erebus para cima e para longe no céu.

Quando a luz em volta dele desapareceu, os pés de Kalona tocaram a terra de novo e ele estava em pé ao lado do Templo de Nyx.

Aphrodite surgiu de um canto apressada, parou e o encarou.

– Eu já fui convocado? – ele perguntou.

Ela piscou e esfregou os olhos, como se estivesse tendo problemas em clarear a sua visão.

– Você estava brincando com uma lanterna aqui?

– Não tenho nenhuma lanterna. Eu já fui convocado? – ele repetiu.

– Quase. Alguma retardada, ou melhor, Kramisha, porque ela estava responsável pelas velas, esqueceu a vela do espírito. Eu tenho que pegar uma no Templo de Nyx. Você deve voltar comigo para a pira de Dragon. Thanatos vai concluir o círculo, dizer algumas coisas bacanas sobre Dragon e depois apresentar você.

Sentindo-se estranhamente desconfortável sob o olhar da humana rude e estranha que Nyx tinha, por razões incompreensíveis a quase todos, escolhido como sua Profetisa, Kalona resmungou uma resposta sem palavras e se virou para abrir a porta lateral do templo.

Ela não se abriu.

Kalona tentou de novo.

Ele se esforçou, usando a sua enorme força imortal.

Ela absolutamente não se abriu.

Foi então que ele notou que a porta de madeira havia desaparecido. A maçaneta havia se transformado em uma pedra firme e espessa. Não havia nenhuma entrada. Nada.

De repente, Aphrodite o estava empurrando para o lado. Ela segurou a maçaneta e a girou. A pedra desapareceu, transformando-se de novo em uma porta de madeira, que se abriu facilmente para ela. Aphrodite levantou os olhos para Kalona, antes de passar pela entrada do templo da Deusa.

– Você é tão estranho – ela atirou o cabelo para trás e entrou.

A porta se fechou atrás dela. Kalona colocou sua mão nela e, sob sua palma, ela se transformou de uma receptiva madeira em pedra novamente.

Kalona se afastou para trás, com uma sensação terrível dentro dele.

Apenas alguns minutos depois, Aphrodite emergiu por uma porta completamente normal. Ela estava segurando uma grossa vela roxa e disse, ao passar por ele:

– Bom, vamos lá. Thanatos quer que você fique na beira do círculo e tente não chamar atenção. Apesar de que, você sabe, isso seria bem mais fácil se você usasse mais roupas.

Kalona a seguiu, tentando ignorar aquele vazio dentro dele. Ele era exatamente o que Erebus havia dito, um tolo impetuoso e um usurpador. Se Nyx o estava observando, não era com nada mais além de desdém. Ela negava tudo a ele: que ele entrasse no Mundo do Além, no seu templo e no seu coração...

Os séculos deveriam ter diminuído a sua dor, mas Kalona estava começando a entender que a verdade era o oposto disso.

Aurox

Nyx, se você é mesmo uma Deusa misericordiosa, por favor, me ajude... por favor...

Aurox não tinha escapado de seu esconderijo na terra. Em vez disso, ele ficou repetindo sem parar aquela única frase, aquela única prece. Talvez Nyx premiasse a determinação. Pele menos ele poderia oferecer isso à Deusa.

Foi durante a ladainha da sua prece silenciosa que a mágica começou a girar em um redemoinho ao redor dele. A princípio, o espírito dele se animou. Nyx me ouviu! Mas bastaram alguns instantes para que ele percebesse o quanto estava errado. As criaturas que se materializaram, saindo do ar frio e úmido ao redor dele, não podiam estar a serviço de uma Deusa misericordiosa.

Aurox se encolheu para se afastar delas. O fedor daquelas criaturas era quase insuportável. Era horrível olhar aquelas faces cegas. O coração dele começou a bater mais forte. O medo o fez estremecer e a besta dentro dele se agitou. Será que aquelas coisas tinham sido enviadas como julgamento pelos malfeitos que ele cometera a serviço de Neferet? Aurox usou o seu próprio medo e começou a alimentar a besta no seu interior. Ele não queria que ela despertasse, mas ele ia lutar antes de sucumbir ao redemoinho de malevolência que ameaçava engolfá-lo.

Mas Aurox não foi engolfado por elas. Devagar, as criaturas foram subindo em um redemoinho mágico. Quanto mais alto elas iam, mais rápido elas giravam. Parecia que elas haviam sido invocadas e estavam despertando aos poucos, atendendo a um chamado mudo.

Aurox acalmou o seu medo e a besta dentro dele retrocedeu. Aquelas coisas não o queriam. Elas não tinham prestado nenhuma atenção nele. A cauda do redemoinho estava deixando como rastro uma névoa escura e fétida. Sem saber ao certo o que o compelia, Aurox estendeu o braço e passou a mão naquele rastro.

A sua mão se tornou a névoa, como se elas fossem feitas da mesma substância. Ele não sentiu o redemoinho, apesar de aparentemente ele ter dissolvido a carne de Aurox. Com os olhos arregalados, ele tentou soltar sua mão, mas era tarde demais. Ele não tinha mais mão, e então um tremor tomou conta dele quando a névoa começou a absorver a sua carne. Impotente, Aurox viu o seu antebraço desaparecer, depois os seus bíceps, depois os seus ombros. Ele tentou despertar a besta, libertar o poder adormecido dentro dele, mas a névoa amortecia os seus sentimentos. Ela o anestesiava enquanto o sugava. Quando ela absorveu a sua cabeça, Aurox se tornou a névoa. Ele não sentia mais nada, exceto um desejo enorme, uma busca incompleta, uma necessidade implacável. Do quê? Aurox não sabia dizer. Tudo o que ele sabia é que havia sido engolfado pelas Trevas e que ele estava sendo levado em uma onda de desespero.

Tem que existir algo além disto para mim!, ele pensou freneticamente. Eu tenho que ser mais do que névoa, desejo, besta e escuridão! Mas parecia que ele não era nada além dessas coisas. O desespero tomou conta dele quando ele percebeu a verdade. Ele era todas essas coisas e ao mesmo tempo nenhuma dessas coisas. Aurox não era nada... Absolutamente nada.

Aurox pensou que o barulho de vômito fosse dele mesmo. Em algum lugar, de algum modo, o seu corpo deveria estar revoltado com o que estava acontecendo. Então ele a viu.

Zoey estava lá. Ela estava segurando a pedra branca à sua frente. Do mesmo modo como ela havia feito na noite anterior, no ritual em que ele tinha tentado fazer uma escolha, fazer a coisa certa.

Ele sentiu a névoa se agitar. Ela também viu Zoey.

A névoa ia absorvê-la.

Não! O seu espírito berrou profundamente. Não! A mente de Aurox ecoou aquele berro. Em vez de desespero, ele começou a sentir algo mais ao observar Zoey. Ele sentiu o medo dela e a sua força. A sua determinação e a sua fraqueza. E Aurox percebeu algo que o surpreendeu. Zoey se sentia tão insegura sobre si mesma e sobre o seu lugar no mundo quanto ele. Ela se preocupava em não ter a coragem necessária para fazer as coisas certas. Ela questionava as suas decisões e se envergonhava de seus erros. De vez em quando, até Zoey Redbird, a novata privilegiada tocada pela Deusa, sentia-se como um fracasso e pensava em desistir.

Exatamente como ele.

A compaixão e a compreensão fluíram através de Aurox, e nesse momento ele sentiu uma onda de um poder quente e claro. Em um flash de luz ofuscante, ele caiu do centro do redemoinho em desintegração, aterrissando com força no seu corpo restaurado, arfando em busca de ar fresco e tremendo inteiro.

Ele não ficou descansando muito tempo ali. Ainda trêmulo e fraco, Aurox encontrou apoio para as mãos e os pés no labirinto de raízes quebradas. Devagar, ele foi se puxando para cima até a beira do buraco. Isso levou muito tempo. Quando finalmente alcançou o topo, ele hesitou, procurando ouvir atentamente.

Ele não ouviu nada além do vento.

Aurox se ergueu do chão, usando o tronco quebrado como esconderijo. Zoey tinha desaparecido. Ele analisou a área ao seu redor e os seus olhos foram atraídos imediatamente para um monte enorme de madeiras e tábuas, em cujo topo havia uma figura coberta por uma mortalha. Apesar de aquele local estar aparentemente cercado pela Morada da Noite inteira, Aurox não teve dúvidas em reconhecer o que estava vendo. É a pira funerária de Dragon Lankford, foi o seu primeiro pensamento. Eu o matei, foi o segundo. Como o desespero na névoa mágica, o funeral o sugou.

Não foi difícil se aproximar do círculo de novatos e vampiros. Os guerreiros Filhos de Erebus estavam obviamente bem armados, mas a atenção de todos estava focada dentro do círculo e na pira no seu centro.

Aurox se moveu furtivamente, usando os grandes carvalhos antigos e as sombras abaixo deles como cobertura até chegar perto o bastante para entender as palavras que Thanatos estava dizendo. Então ele recuperou o controle sobre si mesmo e saltou. Agarrando um galho baixo, Aurox foi subindo na árvore até encontrar um lugar onde se agachou, com uma vista desimpedida do espetáculo macabro.

Thanatos havia acabado de traçar o círculo. Aurox podia ver que quatro professores vampiros estavam segurando velas e representando cada um dos elementos. Ele esperava ver Zoey no centro do círculo, perto da pira, mas em vez disso ele ficou surpreso ao ver que Thanatos estava segurando a vela roxa do espírito com uma mão e uma tocha grande com a outra.

Onde estava Zoey? Será que as criaturas da névoa a tinham capturado? Será que foi isso que fez com que a névoa se dissipasse? Freneticamente, ele procurou encontrá-la no círculo. Quando ele a encontrou em pé ao lado de Stark, rodeada pelo seu grupo de amigos, Aurox achou que ela parecia triste, mas sem ferimentos. Ela estava observando Thanatos atentamente. Aparentemente, não havia nada errado com Zoey, exceto que ela lamentava a perda do seu Mestre da Espada. Com aquela sensação de alívio, Aurox ficou tão fraco que quase caiu de seu poleiro na árvore.

Aurox encarou Zoey. Ela havia começado esse conflito interno que ele sentia. Por quê? Ele estava tão confuso com ela quanto estava em relação aos sentimentos que ela havia despertado dentro dele.

Ele voltou sua atenção para Thanatos. Ela estava andando graciosamente em volta da circunferência do círculo, falando com uma voz que acalmava até os seus nervos em frangalhos.

– O nosso Mestre da Espada morreu como ele viveu: como um guerreiro, fiel ao seu Juramento, fiel a esta Morada da Noite e fiel à sua Deusa. Há outra verdade aqui que precisa ser contada. Apesar de nós chorarmos a sua perda, nós reconhecemos que ele era apenas a casca de si mesmo sem a sua companheira, a amável Anastasia – Aurox olhou para Rephaim. Ele sabia que, como Raven Mocker, Rephaim havia matado Anastasia Lankford. Que ironia o fato de o Mestre da Espada ter morrido para protegê-lo. Ironia maior ainda era o rosto do garoto estar encharcado de lágrimas e ele chorar abertamente a morte de Dragon.

– A Morte foi gentil com Dragon Lankford. Ela não apenas permitiu que ele morresse como guerreiro, mas também serviu como um conduto para a Deusa. Nyx uniu novamente Bryan Dragon Lankford à sua amada e aos espíritos iluminados de seus dois familiares felinos, Shadowfax e Guinevere.

Os gatos deles também morreram? Eu não me lembro de nenhum gato no ritual. Confuso, Aurox analisou a pira funerária. Sim, agora que estava olhando mais de perto, ele podia ver dois pequenos volumes embrulhados na mortalha com Dragon, aninhados um de cada lado do guerreiro caído.

Thanatos havia parado de andar em volta do círculo e estava parada bem na frente de Zoey. A Grande Sacerdotisa sorriu para a novata.

– Conte-nos, Zoey Redbird. Já que você entrou no Mundo do Além e voltou, qual é a única constante lá?

– O amor – Zoey respondeu sem hesitar. – Sempre o amor.

– E você, James Stark? O que você encontrou no Mundo do Além? – Thanatos perguntou ao jovem guerreiro, que estava com seu braço em volta dos ombros de Zoey.

– O amor – Stark repetiu com uma voz forte e firme. – Sempre o amor.

– Isso é uma verdade – Thanatos continuou a andar ao redor do círculo. – Eu também posso dizer a vocês que a minha proximidade com a Morte já me mostrou relances do Mundo do Além. O que eu tive permissão para ver me ensinou que, apesar de o amor permanecer conosco quando passamos deste reino a outro, ele não pode existir eternamente sem compaixão, assim como a Luz não pode existir sem esperança e as Trevas não podem existir sem o ódio. Então, tendo em mente essa verdade dita e compreendida, eu gostaria de pedir que vocês abram os seus corações e deem as boas-vindas ao nosso novo Mestre da Espada e líder dos guerreiros Filhos de Erebus, meu guerreiro sob Juramento, Kalona!

Aurox refletiu a surpresa que ele viu em muitos rostos abaixo dele quando Kalona, o imortal alado que ele sabia que estava havia muito tempo ao lado das Trevas, entrou no círculo com passos firmes e se aproximou de Thanatos. Ele cruzou sua mão em punho sobre o peito e se curvou respeitosamente. Então ele levantou a cabeça e sua voz profunda preencheu o ar.

– Eu jurei ser o guerreiro da Morte, e assim será. Eu jurei ser o Mestre da Espada desta Morada da Noite, e assim será. Mas eu não tentarei tomar o lugar de Dragon como líder dos guerreiros Filhos de Erebus.

Aurox viu que Thanatos estava observando Kalona atentamente, apesar de a sua expressão parecer satisfeita. Os guerreiros que estavam espalhados por toda a volta do círculo se agitaram, como se não soubessem bem o que pensar a respeito da proclamação do imortal.

– Eu vou servir como guerreiro da Morte – Kalona repetiu. Ele estava se dirigindo a Thanatos, mas a sua voz chegava a todos no círculo e à multidão que havia se reunido para o funeral. – Vou proteger você e esta escola. Mas não vou receber um título que me liga a Erebus.

– Eu estava no Conselho Supremo quando você declarou ser Erebus de volta à Terra – Thanatos afirmou. – O que você tem a dizer sobre isso?

– Eu não reivindiquei esse título. Isso foi coisa de Neferet. Ela quer muito ser uma deusa, e isso significa que ela precisa de um Consorte imortal, então ela me nomeou Erebus de volta à Terra. Eu rejeitei esse papel quando rejeitei Neferet.

Sussurros zuniram através do círculo como se fosse o vento através das árvores. Thanatos levantou a tocha que ela ainda segurava.

– Silêncio! – as vozes se aquietaram, mas o choque e a descrença continuaram. – Kalona está falando a verdade sobre Neferet. Dragon foi morto pela criatura dela, Aurox. Ele não foi um presente de Nyx. Na noite passada, durante o ritual de revelação na fazenda de lavandas de Sylvia Redbird, a terra nos mostrou a terrível verdade. Aurox foi criado pelas Trevas através do sacrifício da mãe de Zoey Redbird. Ele é um Receptáculo escravo de Neferet. As Trevas continuam a controlá-lo através de sacrifícios sangrentos – ela apontou sua tocha para os três corpos em cima da pira. – Eu tenho evidências de que Neferet tirou a vida de Shadowfax para que as Trevas mantivessem o domínio sobre Aurox. Essa morte foi demais para a pequena Guinevere de Anastasia. A tristeza parou o seu coração e ela prontamente seguiu Shadowfax para o Mundo do Além, para se reencontrar com aqueles a quem os dois mais amavam.

O corpo de Aurox ficou imóvel. Ele mal conseguia respirar. Ele se sentia como se Thanatos tivesse acabado de estripá-lo. Ele queria gritar: “ Não é verdade! NÃO É VERDADE!”, mas as palavras dela continuavam a massacrá-lo.

– Zoey, Damien, Shaunee, Erin, Stevie Rae, Darius, Stark, Rephaim e eu! – ela gritou cada nome. – Nós testemunhamos os malfeitos sombrios de Neferet. Dragon Lankford morreu para que nosso testemunho pudesse se tornar público. Agora nós precisamos continuar a luta que derrubou o nosso Mestre da Espada. Kalona, estou satisfeita por ouvir a sua confissão. Você tentou usurpar Erebus, ainda que apenas na Terra. Ficou claro para o Conselho Supremo que você estava sendo incitado pelas tramoias de Neferet. Eu o aceito como guerreiro da Morte e protetor desta escola, mas você não pode liderar os guerreiros que fizeram Juramento como Filhos de Erebus. Isso seria desrespeitoso à Deusa e ao seu Consorte.

Aurox viu um lampejo de raiva passar pelos olhos de Kalona, mas ele abaixou a cabeça para Thanatos e cruzou sua mão em punho sobre o coração, dizendo:

– Que assim seja, Grande Sacerdotisa. – Então ele voltou para a beira do círculo, e as pessoas que estavam próximas a ele deram alguns passos discretos para trás.

Thanatos pediu que Shaunee invocasse o fogo e acendesse a pira funerária. Quando a coluna de fogo engolfou a pira de Dragon Lankford, Aurox desceu da árvore e, sem ser visto por ninguém, cambaleou de volta até o carvalho despedaçado e desapareceu abaixo do chão, onde, sozinho, chorou todo o seu desespero e o seu ódio por si mesmo dentro da terra partida.


13 Zoey

– Está tudo bem, Z.? – Stark falou baixo no meu ouvido quando o meu círculo e eu estávamos reunidos perto da entrada do lobby da escola. Thanatos havia pedido que nós esperássemos ela terminar de falar com os professores e guerreiros, e então ela iria se juntar a nós para a entrevista.

– Estou triste por causa de Dragon – sussurrei para ele.

– Não quis dizer isso – ele manteve a voz baixa, para que eu fosse a única capaz de ouvi-lo. – Eu queria saber se está tudo bem com a pedra. Eu vi quando você a tocou durante o funeral.

– Eu achei ter sentido a pedra esquentando por um momento, mas logo passou. Provavelmente foi porque nós estávamos bem perto da pira. E por falar nisso... – levantei a voz e me dirigi a Shaunee –, bom trabalho com a parte do fogo no funeral. Eu sei que não é fácil manter piras funerárias acesas, mas você ajudou. Você fez com que tudo acabasse mais rápido.

– Obrigada. Sim, todos nós estamos cansados de funerais. Pelo menos antes desse funeral nós pudemos assistir a Dragon entrando no Mundo do Além, mas ver os gatos lá na pira com ele deixou tudo especialmente triste – ela enxugou os olhos e eu me perguntei como ela (ou qualquer um) conseguia chorar e ainda ficar bonita. – Na verdade, isso me lembra de uma coisa... – Shaunee continuou, virando-se para encarar Erin, que estava na ponta do nosso grupo, olhando para os garotos que ainda estavam na pira como se ela estivesse procurando alguém. – Erin, tudo bem por você se eu mudar a caixa de areia e as coisas de Belzebu para o meu quarto? Ele tem dormido lá a maioria dos dias.

Erin olhou para Shaunee, deu de ombros e disse:

– Sim, tanto faz para mim. Aquela caixa de areia tem cheiro de merda mesmo.

– Erin, os gatos não gostam de usar caixas de areia sujas. Você tem que limpá-la todo dia – Damien a informou, franzindo a testa.

Erin bufou de um jeito sarcástico.

– Não, eu não preciso mais fazer isso – então ela voltou a olhar para os outros garotos.

Percebi que ela não estava chorando. Pensei nisso e me dei conta de que ela não havia chorado nenhuma vez durante o funeral inteiro. No começo, toda essa coisa da ruptura entre as gêmeas parecia ter mexido mais com Shaunee, mas com o passar do tempo comecei a notar que Erin não estava agindo como ela mesma. Apesar de eu supor que isso seria normal, já que agir como ela mesma costumava significar agir igual a Shaunee, que agora parecia bem mais madura e legal. Fiz uma nota mental de que eu precisava encontrar tempo para conversar com Erin, para me certificar de que ela estava bem.

– Que droga, eu preferia que Thanatos não tivesse dito para Rephaim esperar com os outros garotos no ônibus. Ele estava superperturbado no funeral. Eu odiei ter que deixá-lo sozinho nesse estado – Stevie Rae falou, vindo para o meu lado.

– Ele não está sozinho. Ele está com todos os outros novatos vermelhos. Eu vi quando eles foram para o ônibus. Kramisha estava falando para ele sobre como a poesia podia ser um caminho para extravasar as emoções.

­– Kramisha vai entreter o menino-pássaro com as suas tolices sobre poesia. Blá-blá... versos iâmbicos e blá-blá... – Aphrodite comentou. – Além disso, até você precisa entender que não é uma boa ideia deixar o público humano saber do seu pequeno “probleminha de pássaro” – ela colocou aspas no ar com os dedos.

– Olá, ahn, desculpem-me por interromper vocês, mas eu estou procurando o lobby da escola.

Todos nós nos viramos ao mesmo tempo e olhamos para o humano que estava andando na nossa direção pela calçada que vinha do estacionamento. Atrás dele, havia um cara segurando uma câmera e com uma grande bolsa preta abarrotada de coisas pendurada no seu ombro e uma espécie de fone de ouvido cinza na cabeça.

Como era de se prever, Damien foi o primeiro de nós a se recompor. Falando sério, Damien realmente devia ser coroado a Miss Simpatia da Morada da Noite de Tulsa.

– Você está no lugar certo. Parabéns por nos encontrar! – Damien sorriu tão afetuosamente que eu percebi que o humano relaxou os seus ombros tensos.

Então ele estendeu a mão e disse:

– Ótimo. Eu sou Adam Paluka, da Fox23 News. Estou aqui para entrevistar a sua Grande Sacerdotisa e, imagino, alguns de vocês também.

– Prazer em conhecê-lo, senhor Paluka. Eu sou Damien – ele disse, apertando a mão do humano. Então Damien deu uma risadinha e acrescentou: – Ai, que aperto forte!

O repórter sorriu.

– O prazer é meu. Pode me chamar de Adam. O senhor Paluka é o meu pai.

Damien deu outra risadinha. Adam também. Eles fizeram um supercontato visual. Stevie Rae me cutucou e nós demos aquele Olhar uma para a outra. Adam era fofo, muito fofo mesmo, de um jeito jovem, inteligente, promissor e metrossexual. Ele tinha cabelos e olhos escuros, bons dentes, sapatos caros e uma bolsa masculina, na qual Stevie Rae e eu reparamos juntas. Um namorado em potencial para Damien!, nossos olhares telegrafaram ao mesmo tempo.

– Olá, Adam. Eu sou Stevie Rae – ela estendeu a mão e, enquanto ele a apertava, ela perguntou: – Você não tem namorada, tem?

O sorriso cheio de dentes dele diminuiu, mas só um pouco.

– Não. Eu não tenho, não. Hum. Com certeza, eu não tenho namorada. – Então ele notou a Marca vermelha de Stevie Rae. – Então você é do novo tipo de vampiros de que a sua ex-Grande Sacerdotisa falou.

Stevie Rae abriu o sorriso para ele.

– Sim, eu sou a primeira Grande Sacerdotisa Vermelha. Legal, não é?

– A sua tatuagem é realmente muito bonita – Adam disse, parecendo mais curioso do que desconfortável.

– Obrigada! – Stevie Rae agradeceu efusivamente. – Este aqui é James Stark. Ele é o primeiro guerreiro vampiro vermelho. A tatuagem dele também é incrível.

Stark estendeu a mão.

– Prazer em conhecê-lo. E você não precisa me dizer que a minha tatuagem é bonita.

O rosto de Adam ficou um pouco pálido, mas ele apertou a mão de Stark. O sorriso dele pareceu sincero; nervoso, mas sincero.

– Olá – eu entrei na conversa, apertando a mão dele. – Eu sou Zoey.

O olhar de Adam rapidamente se voltou para a tatuagem completa do meu rosto, para a gola em V da minha camiseta e o relance de tatuagens em volta da minha clavícula, e depois para a palma da minha mão, que estava coberta com a mesma tatuagem cheia de filigranas.

– Eu não sabia que vampiros faziam tatuagens adicionais. O seu tatuador é daqui de Tulsa?

Eu sorri para ele.

– Bem, às vezes. Mas ela passa a maior parte do tempo no Mundo do Além. – Percebi que ele estava tentando entender o que eu havia acabado de dizer, então aproveitei a oportunidade e perguntei: – Ei, você disse que não tem namorada. E quanto a um namorado?

– Hum, não, eu também não tenho namorado. Pelo menos não atualmente – Adam se voltou para Damien, que encontrou o seu olhar.

Sucesso!, era o que eu estava pensando quando Aphrodite bufou.

– Ah, que merda, isto aqui não é The Bachelorette. Eu sou Aphrodite LaFont. Sim, o prefeito é o meu pai. Ipi-ipi-urra – ela deu o braço para Darius. – E este aqui é Darius, o meu guerreiro.

Adam levantou a sua bela sobrancelha quando ele reparou no suéter de sexto-formanda que Aphrodite estava usando, com a insígnia das três Moiras bordada no bolso do lado esquerdo do peito.

– Agora permitem que humanos frequentem a Morada da Noite?

– Aphrodite é uma Profetisa de Nyx, um fato provado pelo elo que ela tem com Darius, que é um guerreiro Filho de Erebus e fez o Juramento de ser o seu protetor – Thanatos falou enquanto saía das sombras e caminhava graciosamente na nossa direção. Eu achei o timing dela excelente, assim como a sua entrada. Ela era alta e poderosa, sem aparentar idade, e tinha uma beleza clássica. A sua voz era agradável e informativa, como se ela desse entrevistas para repórteres humanos todo dia. – Eu sei que o funcionamento interno da nossa sociedade não é senso comum, mas acredito que a maioria dos humanos sabe que um guerreiro não pode se ligar a um humano por um Juramento de proteção.

– Na verdade, apesar de esta entrevista ser de última hora, tive tempo para pesquisar um pouco, e esse é um fato que eu realmente descobri.

– O fato de Aphrodite ser uma Profetisa de Nyx e de estar frequentando esta escola, assim como vários novatos e vampiros vermelhos, vai ser um dos tópicos da nossa entrevista. Embora pareça que a entrevista já tenha começado – Thanatos saiu totalmente das sombras, indicando com a cabeça o cameraman que sem dúvida já estava nos filmando, apesar de nenhum de nós ter prestado atenção nele. – Eu sou Thanatos, a nova Grande Sacerdotisa da Morada da Noite de Tulsa. Merry meet, Adam Paluka. Você é bem-vindo à nossa escola.

– M-merry meet – Adam se atrapalhou um pouco. – Eu não quis ofender começando a filmagem mais cedo.

Thanatos sorriu.

– Você não nos ofendeu. Nós o convidamos a vir até aqui. Fico satisfeita que a entrevista tenha começado sem formalidades. Nós podemos ficar aqui, sob o belo céu da noite de Tulsa, e continuar a conversa?

– Claro – Adam disse após um aceno de cabeça do cameraman. – A luz dos lampiões a gás é uma boa iluminação. Se vocês nos derem um segundo, podemos usar um microfone boom e captar todos do grupo que quiserem participar.

– Parece ótimo. Zoey, Aphrodite, Stevie Rae, Stark e Damien, por favor, fiquem para a entrevista. Darius, Shaunee e Erin, vocês poderiam se certificar de que os novatos que estão reunidos voltem para os seus dormitórios? Esta foi uma noite difícil para a nossa escola.

Darius se curvou para Aphrodite e Thanatos, e então ele e Shaunee foram embora juntos. Erin saiu andando na direção contrária.

– Você disse que hoje foi uma noite difícil para a sua escola. O que quis dizer com isso?

– Com o seu faro para notícias, tenho certeza de que você sabe que tivemos recentemente um incêndio no campus – Thanatos explicou.

– Sim, nós inclusive fizemos uma reportagem sobre isso na Fox. Foi no estábulo, certo? – ele a estimulou a continuar.

– Certo. Foi um acidente infeliz, apesar de não totalmente surpreendente – Thanatos fez um gesto indicando os lampiões de cobre pendurados que faziam uma bela decoração ao nosso redor. – A luz dos lampiões a gás e a luz de velas é mais agradável aos nossos olhos do que lâmpadas elétricas. Como você já observou, esse tipo de iluminação ambiente é adorável, mas as chamas são vivas e às vezes voláteis. Um lampião foi deixado aceso sozinho no celeiro. Foi uma noite com muito vento. Uma rajada forte derrubou o lampião em cima de um fardo de feno, colocando fogo no estábulo.

– Espero que ninguém tenha se ferido – achei que Adam pareceu sinceramente preocupado.

– A nossa Mestra dos Cavalos e uma novata inalaram um pouco de fumaça, e o humano empregado como treinador do estábulo teve queimaduras, a maioria nas mãos. Ele vai se recuperar totalmente. Quero deixar aqui registrado que Travis Foster agiu como um herói. Ele cuidou para que todos os cavalos escapassem.

– Travis Foster é humano?

– Completamente humano, além de ótimo funcionário e amigo.

– Fascinante – Adam disse e olhou em volta. Pude ver quando o olhar dele se fixou na pira distante, que agora estava em combustão lenta e sem chamas, com um brilho alaranjado. – Por favor, corrija-me se eu estiver errado, mas acho que aquela pilha de madeira queimando não faz parte do estábulo. Durante a minha pesquisa, eu li que os vampiros queimam os seus mortos em piras funerárias. Será que eu escolhi uma hora inapropriada para esta entrevista? – ele fez a pergunta com um tom de consideração em sua voz, mas eu consegui enxergar a curiosidade que brilhava em seus olhos.

– Você não está errado. Aquilo são os restos de uma pira funerária. De fato, nós sofremos uma grande perda na Morada da Noite, que não teve nada a ver com o incêndio no estábulo. O nosso Mestre da Espada, Dragon Lankford, foi morto recentemente em um trágico acidente em uma fazenda de lavandas que faz divisa com a reserva nacional conhecida como Pradaria de Tallgrass – ela contou e eu fiquei de boca fechada, perguntando-me como diabos Thanatos ia transformar o assassinato de Dragon em um “trágico acidente” que pudesse ser explicado ao público humano. – Um bisão grande escapou das fronteiras da reserva. Alguns de nós estávamos terminando um adorável ritual de purificação na fazenda de lavandas, e aquela besta deve ter ficado confusa com a fumaça de sálvia e o nosso círculo. A criatura nos atacou. O nosso Mestre da Espada protegeu os nossos novatos, perdendo a vida ao fazê-lo.

– Isso é terrível! Eu sinto muito – Adam pareceu perturbado. Na verdade, todos nós parecemos perturbados, o que escondeu o nosso choque com a mentira gigante de Thanatos.

– Obrigada, Adam. Apesar de ter sido um acidente horrível e uma grande perda para a nossa Morada da Noite, o nosso Mestre da Espada morreu como ele viveu, como um guerreiro honrado que protegeu os mais jovens. Por causa dele, ninguém mais se feriu e o ritual foi concluído. Todos nós vamos lembrar da bravura de Dragon Lankford pelos séculos que virão – ela tocou levemente os olhos com um lenço rendado que tirou de dentro da luva. Foi realmente um momento tocante.

Adam ficou parado ali, parecendo compreensivo, enquanto o cameraman desviou a lente da pira de Dragon para focar a dor de Thanatos e o seu esforço muito humano para se recompor novamente.

Foi tudo muito bem encenado. Ela me fez pensar em quantas aulas de Teatro a Grande Sacerdotisa da Morte havia feito quando era uma novata.

Thanatos terminou de enxugar os olhos e suspirou profundamente.

– E respondendo à sua outra pergunta, não, não é uma hora inapropriada para a nossa entrevista. Nós o convidamos, lembra? Nós estamos felizes por recebê-lo na Morada da Noite, mesmo neste momento de tristeza. Então, vamos começar oficialmente. Aqui neste banco é um bom lugar? – Thanatos indicou com um gesto um dos longos bancos de pedra que se alinhavam no caminho de entrada para o lobby da escola. Durante uma noite normal de escola, haveria um monte de garotos aglomerados em volta dos bancos, fazendo lição de casa, flertando e fofocando. Naquela noite, os bancos estavam completamente vazios.

– Perfeito – Adam respondeu.

Enquanto ele e o cameraman se preparavam, Thanatos tomou o seu lugar no centro do banco. Em voz baixa, ela disse:

– Zoey, Stark, aqui ao meu lado – ela apontou para a direita, atrás dela. – Aphrodite, Stevie Rae e Damien, aqui – eles ficaram parados em pé à esquerda.

Quando Adam voltou e oficialmente começou a filmar, senti uma agitação nos meus nervos. Até os meus antigos amigos da South Intermediate High School iriam ver isso!

– Thanatos, eu estava pensando se você poderia dar mais detalhes sobre o comentário que Neferet, a ex-Grande Sacerdotisa da Morada da Noite de Tulsa, fez sobre você na noite passada. Ela disse que a Morte era a nova Grande Sacerdotisa daqui – Adam fez uma pausa e sorriu. – Para mim, você não parece a Morte.

– Você conhece bem a Morte, jovem Adam? – Thanatos perguntou com uma voz suave e espirituosa.

– Não, na verdade eu nunca morri – ele respondeu no mesmo tom de brincadeira.

– Bem, o comentário de Neferet pode ser facilmente explicado. Eu não sou a Morte propriamente dita. Eu simplesmente recebi o dom de ajudar os mortos a passarem deste reino para o próximo. Eu sou tanto a Morte quanto você é a Humanidade. Nós dois somos apenas a representação de ambos. Pode ser mais fácil de entender se você pensar em mim como uma médium muito boa.

– Neferet também mencionou um novo tipo de vampiros, os vampiros vermelhos, e sugeriu que eles podem ser perigosos – ele falou, e eu percebi que a câmera se voltou para Stark e Stevie Rae. – Você também pode explicar isso melhor?

– Certamente, mas primeiro eu sinto que preciso deixar algo bem claro. Neferet não é mais funcionária da Morada da Noite de Tulsa. Na verdade, pelo modo como a nossa sociedade funciona, uma vez que uma Grande Sacerdotisa perde o seu emprego, ela perde essa posição para sempre. Ela nunca mais vai servir como Grande Sacerdotisa em nenhuma outra Morada da Noite. Como você pode imaginar, isso pode ser uma transição difícil e frequentemente embaraçosa para o empregado demitido, assim como para o seu empregador. Os vampiros não têm leis de calúnia e difamação. Nós usamos o sistema de Juramento e honra. Obviamente, desta vez esse sistema não funcionou.

– Então você está dizendo que Neferet é... – ele não concluiu e fez um gesto com a cabeça, encorajando Thanatos a concluir a frase por ele.

– Sim, é um fato triste, mas verdadeiro. Neferet é uma ex-funcionária descontente que não apita mais nada – Thanatos disse calmamente.

Adam olhou para Stark, que estava ao meu lado, não muito longe de Thanatos.

– Essa ex-funcionária fez alguns comentários sobre um membro da Morada da Noite em particular: James Stark.

– Sou eu – Stark falou na hora. Eu percebi que ele estava desconfortável, mas acho que ninguém mais, incluindo os telespectadores, iriam ver qualquer coisa além de um cara muito bonito com uma tatuagem vermelha no rosto que lembrava flechas.

– Então, Jim. Posso chamá-lo assim? – Adam perguntou.

– Bem, sim, mas seria melhor você me chamar de Stark. Todo mundo me chama assim.

– Ok, Stark, Neferet disse que você matou o seu mentor na Morada da Noite de Chicago, e ela sugeriu que você é uma ameaça para a comunidade daqui. Você gostaria de responder a isso?

– Bem, isso é um monte de papo-furado! – escutei a minha boca dizer.

Stark abriu o seu meio sorriso metidinho e pegou a minha mão, entrelaçando os seus dedos aos meus de modo que todos os telespectadores podiam ver.

– Z., quase você fala um palavrão na TV. Não faça isso, a sua avó pode ouvir e isso não seria legal.

– Desculpe – murmurei. – Que tal eu simplesmente deixar você falar?

Stark abriu ainda mais o sorriso.

– Bem, sempre há uma primeira vez para tudo.

Infelizmente, todos os meus amigos riram. Eu olhei zangada para ele. Stark continuou falando, apesar de eu pensar em sufocá-lo com um travesseiro da próxima vez que nós fôssemos dormir.

A voz dele foi hesitante no começo, mas, quanto mais ele falava, mais forte e seguro ficava.

– O meu mentor, William Chidsey, era incrível. Ele era legal. E inteligente. Estou falando inteligente mesmo. E talentoso. Ele me ajudou. Na verdade, ele foi mais um pai do que um mentor para mim – Stark fez uma pausa e passou a mão pelo rosto. Quando ele começou a falar de novo, foi como se só ele e o repórter estivessem ali sozinhos, como se ele tivesse esquecido que a câmera estava ali e tudo o mais. – Adam, eu descobri bem cedo, quando eu estava no segundo ano do ensino médio, que eu tinha recebido um dom – Stark enfatizou bem a última palavra, não sarcasticamente, mas também não como se aquilo fosse uma coisa fantástica. O tom de voz dele deixava claro que o seu dom era uma responsabilidade, e não uma responsabilidade fácil. – Eu não consigo errar o alvo. Eu sou um arqueiro – ele explicou quando Adam o olhou de modo questionador. – Você sabe, arco e flecha. Enfim, seja para onde for que eu mire, eu acerto. Infelizmente, não é tão literal assim. Pense nisso: há bastante diferença entre o lugar para onde você está olhando e o que você está realmente pensando e o que você está alvejando. Um exemplo simples: imagine que você pega um arco e uma flecha e mira em uma placa com um sinal de “Pare”. Então, você puxa o arco, aponta a flecha e dispara no meio de uma grande placa vermelha. Mas e se dentro da sua cabeça você estiver pensando: “Ok, quero atingir aquela coisa que faz os carros pararem”? Quando você se dá conta, a sua flecha está atravessada no radiador do primeiro carro que aparece.

– Bem, eu posso entender como isso pode causar grandes problemas – Adam disse.

– Sim, problemas de proporções épicas. Levou um tempo para que eu descobrisse e aprendesse a controlar isso. Nesse tempo, eu cometi um erro realmente terrível – Stark fez uma pausa de novo e eu apertei a sua mão, tentando transmitir o meu apoio. – E por causa disso o meu mentor morreu. Eu não vou deixar que isso aconteça de novo. Fiz um Juramento de que isso não vai mais acontecer.

– E é por isso que James Stark está aqui na Morada da Noite de Tulsa – Thanatos retomou o controle da conversa, e a câmera a seguiu. – Em Tulsa, nós acreditamos em dar outra chance – o olhar dela se voltou para Aphrodite. Tive que cuidar para não ficar de queixo caído quando ela falou tranquilamente: – Você não diria que este é um excelente lugar para segundas chances, Aphrodite LaFont?

Eu não deveria ter me preocupado. Na frente de uma câmera gravando, Aphrodite se sentia em casa. Ela caminhou para a frente, na direção da câmera (é claro), e então se sentou ao lado de Thanatos.

– Eu concordo totalmente com você, Grande Sacerdotisa. Eu fui uma novata por quase quatro anos, mas Nyx, a nossa Deusa benevolente, decidiu tirar a sua Marca de mim e substituí-la por um dom profético. Os meus pais concordam com a minha decisão de permanecer na Morada da Noite. Na verdade, nós falamos sobre a possibilidade de eu fazer um treinamento no Conselho Supremo em Veneza quando eu me formar aqui. Minha mãe e meu pai me dão muito apoio – ela sorriu para a câmera. – Você pode comprovar isso se olhar as nossas contas de cartão de crédito dos últimos meses. Uau! Eu tenho pais tão incrivelmente legais!

Ok, sem brincadeira. Aquilo era uma montanha de besteiras podres e fedidas tão grande que eu nem conseguia falar. Felizmente, Stevie Rae não era tão muda.

– Falando em pais incríveis, a minha mãe, Ginny Johnson, vai fazer os melhores cookies de chocolate do universo e trazê-los para o evento aberto ao público com venda de guloseimas que nós vamos fazer aqui em breve, certo, Thanatos?

Thanatos não perdeu tempo.

– Você está absolutamente certa, Stevie Rae. Na próxima semana, se o tempo sujeito a tempestades de Oklahoma permitir, nós estaremos organizando um evento aberto ao público no campus. Esperamos que os Street Cats estejam aqui com gatos para adoção. Aproveitando, eu gostaria de anunciar que todos os lucros da nossa venda de guloseimas – ela sorriu na direção de Stevie Rae – vão beneficiar as obras de caridade dos Street Cats. Além disso, a avó da nossa Grande Sacerdotisa novata, Zoey Redbird, vai vender os seus produtos de lavanda nos nossos jardins.

– Não se esqueça da feira de empregos.

Todos, incluindo o cameraman, se viraram ao som da voz da Mestra dos Cavalos. Lenobia estava em pé ali, conduzindo sua bela égua negra, Mujaji, que parecia um sonho.

– Professora Lenobia, que bom que você se juntou à nossa entrevista – Thanatos afirmou.

– Uau! Que belo cavalo ele é! – Adam falou entusiasmado quando o cameraman deu um close em Mujaji.

Damien tocou o braço de Adam e sorriu.

– Querido, é ela, não ele.

– Ah, eu me enganei – Adam levou numa boa, sorrindo com um rubor gracioso em suas bochechas. – Essa coisa de ele ou ela nunca fez muita diferença para mim.

– Porque nós somos todos iguais – ouvi as palavras saindo da minha boca e silenciosamente agradeci a Nyx por elas. – Meninos, meninas, humanos, vampiros, que diferença faz? Todos nós vivemos em Tulsa e amamos esta cidade. Então, vamos apenas nos dar bem uns com os outros!

Thanatos riu, e o som da sua risada foi como música.

– Ah, Zoey, eu não poderia ter dito isso de melhor forma. E Lenobia, você fez bem em me lembrar. Adam, eu gostaria de anunciar que, durante a noite aberta ao público e o evento beneficente para os Street Cats, a Morada da Noite de Tulsa vai, como a primeira Morada da Noite da nossa história escrita, receber inscrições de humanos para vagas de professores. Vamos fazer entrevistas para colocações de professores nos nossos departamentos de Teatro e de Literatura – Thanatos se levantou e abriu os braços, parecendo benevolente e sábia. – A Morada da Noite dá as boas-vindas a Tulsa. Até sábado, nós desejamos a vocês merry meet, merry part e merry meet again.


14 Neferet

Neferet não teria visto a entrevista se ela não tivesse chamado o serviço de quarto até a sua cobertura. O subserviente garoto loiro era quase jovem demais para despertar o interesse dela. O último mensageiro que havia tido a sorte de atender ao seu chamado ia ter que tirar uma licença médica do trabalho pelos próximos dias. Fraco e cheio de hematomas, ele não iria se lembrar de nada, além da fascinação pela sua beleza e de uma série de sonhos eróticos e sombrios. Sonhos febris – o seu médico sem dúvida iria chamá-los assim. Os humanos eram criaturas tão frágeis. Era uma pena que ela precisasse constantemente encontrar novos brinquedinhos.

Neferet analisou o mensageiro. Ele era alto e parecia extremamente nervoso. A sua pele era ruim. Ele praticamente exalava virgindade por todos os seus poros dilatados. Pensando que sangue virgem iria combinar bem com a garrafa resfriada de champanhe que ele estava trazendo, ela fez um gesto em direção à sua sala de estar.

– Por favor, traga a garrafa aqui para dentro – Neferet ronronou.

O sangue virgem era tão doce que aquela aparência ruim e as mãos cheias de suor podiam ser facilmente ignoradas. Afinal de contas, ela não ia tocá-lo. Pelo menos não muito...

– Aqui está bem, madame? – os olhos dele continuavam passeando rapidamente dos seios dela para a sua boca e depois de volta para a garrafa que ele estava abrindo, enquanto ele fedia a desejo sexual, medo e fascinação.

– Aqui está perfeito – Neferet deslizou uma unha comprida e pontuda pelo corpete decotado do seu robe de seda.

– Uau – ele engoliu em seco, tirando a folha metálica dourada da boca da garrafa de champanhe com mãos trêmulas e inexperientes. – Espero que não se importe por eu dizer isto, mas você é muito mais bonita do que aqueles outros vampiros no telejornal.

– Outros vampiros? Telejornal?

– Sim, madame. Eles estão agora no jornal da noite da Fox23.

– Ligue a TV para mim! – ela falou rispidamente.

– Mas o champanhe não está...

– Deixe a garrafa de lado! Eu sou plenamente capaz de abri-la sozinha. Ligue a TV no telejornal e vá embora.

O garoto fez o que ela ordenara e então se retirou envergonhadamente, ainda dando olhares desejosos para ela. Neferet não prestou atenção nele. Ela estava totalmente absorta na cena que se descortinava à frente dela na grande televisão de tela plana. Thanatos, Zoey e alguns do seu grupo estavam lá. Eles estavam ao ar livre na Morada da Noite, bem agrupados e conversando facilmente com o repórter. Neferet franziu a testa. Todos pareciam tão normais.

Ela sorriu um pouco quando ouviu Thanatos explicar a morte de Dragon Lankford como um trágico acidente com um bisão.

– Aquele Aurox imprestável! – Neferet resmungou. – Receptáculo imperfeito e inepto! Tudo isso é culpa dele.

Ela continuou assistindo à entrevista, sorrindo ironicamente para Stark e Zoey, apenas se concentrando mais quando ouviu o seu próprio nome ser mencionado. Neferet apertou o botão para aumentar o volume e Thanatos proclamou em voz alta:

– ... Neferet é uma ex-funcionária descontente que não apita mais nada.

O corpo de Neferet se congelou.

– Ela se atreve a me chamar de funcionária! – Neferet continuou a assistir. A raiva dela cresceu com tanta intensidade que a porta de vidro que dava para a varanda da cobertura se abriu com força, espalhando estilhaços de cristal sobre o chão de mármore.

– Todos nós vivemos em Tulsa e amamos esta cidade. Então, vamos apenas nos dar bem uns com os outros! – a voz ridiculamente alegre de Zoey provocou arrepios de raiva que subiram e desceram pela espinha de Neferet.

– Eu não vou permitir que você desfaça o que eu comecei, sua criança odiosa! – Neferet explodiu. Quando Thanatos anunciou que a Morada da Noite ia receber inscrições de humanos para vagas de professores, ela ficou de queixo caído junto com o repórter. Após a saudação benevolente da nova Grande Sacerdotisa, merry meet, merry part e merry meet again, Neferet assistiu incrédula aos âncoras do telejornal conversarem tolamente sobre como a interação com os vampiros era interessante e como o evento aberto ao público e a feira de empregos seria ótima para a cidade, com um close congelado do rosto sorridente de Zoey decorando a tela. Ela apertou com força o botão de desligar a TV, incapaz de suportar Zoey Redbird por um só instante.

Do pequeno recanto que ficava entre a sala de estar e a sala de jantar, o computador de Neferet começou a chamar. Na tela, a silhueta da imagem de Nyx com os braços levantados piscou e, ao lado do ícone, apareceram as palavras: CONSELHO SUPREMO DOS VAMPIROS.

Neferet caminhou devagar até o computador e clicou no mouse para atender ao chamado, automaticamente ativando a câmera de vídeo. Ela sorriu friamente para as seis Grandes Sacerdotisas com expressões sérias que estavam sentadas em seus tronos esculpidos em mármore.

– Eu estava esperando a sua ligação.

Duantia, membro sênior do Conselho Supremo dos Vampiros, falou primeiro. Neferet achou que ela soou muito, muito velha. Certamente o seu cabelo longo e grosso parecia mais prata do que castanho, e Neferet teve certeza de ver bolsas embaixo de seus olhos escuros.

– Você foi convocada a aparecer diante de nós, mas aí está você em Tulsa, e aqui estamos nós em Veneza. Qual o motivo da sua demora?

– Eu estou ocupada – Neferet modulou a sua voz para parecer mais entretida do que irritada. Ou com medo. Ela não podia permitir nunca que as vampiras do Conselho Supremo acreditassem que ela tinha medo delas ou de qualquer um. – Não é conveniente viajar para a Itália nesta época.

– Então você nos obriga a julgá-la absente reo 3 .

Neferet zombou.

– Guarde o seu latim para os vampiros velhos demais para viver no presente.

Duantia continuou como se ela não tivesse falado nada.

– Nossa irmã Grande Sacerdotisa, sétimo membro deste Conselho Supremo, Thanatos, produziu provas irrefutáveis através de um ritual de revelação testemunhado pela Grande Sacerdotisa Zoey Redbird, pelo seu...

– Aquela criança insolente não é uma Grande Sacerdotisa!

– Você não vai me interromper! – mesmo pela internet, a milhares de quilômetros de distância, o poder de Duantia era palpável. Foi preciso um esforço supremo para que Neferet não se encolhesse de medo da tela do computador.

– Diga o que tem a dizer. Eu não vou interrompê-la de novo – Neferet disse sem emoção.

– O ritual de revelação que Thanatos presidiu foi testemunhado pela jovem Grande Sacerdotisa Zoey Redbird, pelo seu círculo, em que cada membro recebeu de Nyx o dom de uma afinidade elemental, além de vários guerreiros Filhos de Erebus. Durante esse ritual, a terra mostrou o registro de que você assassinou uma humana, sacrificando-a para o touro branco das Trevas, que aparenta ser o seu Consorte.

Neferet observou que as vampiras do Conselho Supremo se agitaram nervosamente, como se apenas ouvir a palavra Consorte associada ao touro branco fosse difícil de suportar. Isso a agradou. Muito em breve o Conselho Supremo iria ter que suportar muito mais do que apenas palavras.

– Neferet, o que você tem a dizer em sua defesa? – Duantia concluiu.

Neferet se levantou, atingindo a sua altura máxima. Ela sentiu os filamentos de Trevas roçando em volta dela, enrolando-se nos seus tornozelos e serpenteando em suas panturrilhas.

– Eu não preciso de defesa. Matar a humana não foi um ato de assassinato. Foi um sacrifício sagrado.

– Você se atreve a chamar as Trevas de sagradas? – a vampira membro do Conselho Supremo chamada Alitheia gritou.

– Alitheia, ou Verdade, como nós diríamos em uma língua que não está morta, eu vou conceder um pouco de você mesma a todas vocês. A verdade é que eu sou imortal. Em pouco mais de uma centena de anos eu obtive mais poder do que vocês, com todos os seus séculos, conseguiram adquirir. A verdade é que dentro de mais alguma centena de anos, a maioria de vocês será pó, e eu ainda vou ser jovem, poderosa, bonita e uma deusa. Se eu decido sacrificar uma humana, não importa por qual motivo, isso é sagrado, e não pecado!

– Neferet, você é Consorte das Trevas? – a pergunta de Duantia foi disparada em meio ao silêncio que se seguiu ao grito de Neferet.

– Conjure o touro branco e pergunte às Trevas você mesma. Mas apenas se você tiver coragem – Neferet sorriu com sarcasmo.

– Conselho Supremo, qual é o seu julgamento? – Duantia perguntou. Ela manteve o olhar fixo em Neferet enquanto cada vampira membro do Conselho Supremo se levantou e, uma de cada vez, pronunciou repetidamente a mesma palavra: “Banida!”.

Duantia se levantou por último.

– Banida! – ela disse com firmeza. – Deste dia em diante, você não será mais reconhecida como uma Grande Sacerdotisa de Nyx. Você não será mais reconhecida nem como uma vampira. Daqui em diante, você está morta para nós – Duantia falou e todas as vampiras do Conselho Supremo deram as costas para Neferet. Então o computador emitiu aquele som de final de chamada e a imagem delas se apagou.

Neferet olhou para a tela escura. Ela estava respirando pesadamente, tentando controlar o tumulto dentro dela. O Conselho Supremo a havia banido!

– Velhas horrendas! – ela explodiu. Era cedo demais! Neferet tinha a intenção, é claro, de romper com o Conselho Supremo, mas não antes de ela provocar uma divisão interna e atiçar umas contra outras para que elas ficassem ocupadas demais com a própria destruição e não se intrometessem no mundo que ela estava criando do lado de fora da charmosa ilhazinha delas. – Eu quase consegui isso antes, quando Kalona estava posando de Erebus ao meu lado. Mas Zoey estragou tudo, forçando-me a revelar que ele era uma fraude. – Incapaz de acalmar a sua frustração, Neferet andou com passos largos pela sala, com seu salto agulha triturando o vidro quebrado. Ela saiu para a varanda, apoiando as mãos no parapeito de pedra. – Zoey fez com que Thanatos fosse enviada a Tulsa para me espionar. E a mãe de Zoey foi um sacrifício fraco e imperfeito demais. Se Aurox não fosse um Receptáculo defeituoso, o ritual de revelação teria sido interrompido com a morte de Rephaim. E agora eu fui banida pelo Conselho Supremo e sou vista como uma aliada domesticada pelos humanos de Tulsa – Neferet levantou os braços para o céu e descarregou a sua raiva. – Zoey Redbird vai pagar por tudo que ela causou!

Neferet abaixou as mãos e rasgou o seu robe de seda, desnudando o seu corpo para a noite. Nua, ela estendeu os braços e inclinou a cabeça para trás de modo que o seu cabelo comprido a encobrisse como uma cortina escura.

– Trevas, venham para mim! – ela se apoiou, preparando-se para o prazer doloroso do toque gélido do seu touro branco.

Nada aconteceu.

O único movimento na noite era das gavinhas escuras e agitadas que haviam se tornado sua companhia constante.

– Meu senhor! Venha para mim! Eu preciso de você – Neferet chamou.

– O seu chamado não é uma surpresa, minha cara impiedosa.

Neferet ouviu a voz dele em sua cabeça, como sempre, mas ela não sentiu a sua presença imponente e poderosa. Ela abaixou os braços, virando-se, procurando por ele.

– Meu senhor, eu não posso vê-lo.

– Você precisa de algo.

Ainda sem entender por que ele não havia aparecido para ela, Neferet não permitiu que a sua confusão transparecesse. Em vez disso, ela respondeu sedutoramente:

– Eu preciso de você, meu senhor.

Instantaneamente, o filamento mais grosso feito uma serpente, comandado pelas Trevas, soltou-se dos outros que estavam enrolados em seus tornozelos. Ele deu uma chicotada ao redor da cintura dela, abrindo uma ferida na sua pele macia e desenhando um perfeito círculo escarlate. As outras gavinhas subiram se arrastando pelas suas pernas, para se alimentar do seu sangue quente.

Neferet teve que se esforçar muito para não gritar de dor.

– Mentir para mim não é sábio de sua parte, minha cara impiedosa.

– Eu preciso de mais poder – Neferet admitiu. – Quero matar Zoey Redbird, e ela está bem protegida.

– Ela está bem protegida e é amada por uma Deusa. Nem você está preparada para destruir abertamente alguém como ela.

– Então me ajude. Eu imploro, meu senhor – Neferet bajulou o touro, ignorando o filamento afiado como uma lâmina que continuava a ferir a sua pele e as outras gavinhas que estavam se alimentando dela.

– Você me desapontou. Eu já esperava que você me chamasse e implorasse pela minha ajuda. Veja bem, minha cara impiedosa, eu não deveria conseguir prever as suas ações. Isso me deixa entediado, e eu não desejo desperdiçar os meus poderes com nada previsível e tedioso – a voz dele martelou implacavelmente na sua mente.

Neferet não recuou.

– Eu não vou pedir que você me perdoe – ela disse friamente. – Você sabia como eu era desde a primeira vez em que nos encontramos. Eu não mudei. E não vou mudar.

– De fato, e é por isso que eu sempre a chamo de minha cara impiedosa – a voz dele era quase uma violação. Agora ela tinha um tom de divertimento. – Você me lembrou de como nós começamos bem. Você era uma surpresa tão deliciosa. Surpreenda-me de novo, e eu vou pensar em vir ajudá-la. Até lá, eu concedo a você o controle sobre os filamentos de Trevas que escolherem permanecer com você. Não se desespere. Muitos vão escolher você. Você os alimenta tão bem. Eu a verei de novo, minha cara impiedosa, quando... se... você despertar o meu interesse o bastante para que eu volte – a voz dele cessou quando a gavinha grossa enroscada na cintura dela se soltou e desapareceu na noite.

Neferet desabou. Ela ficou deitada na varanda de pedra fria, observando os filamentos de Trevas lamberem o seu sangue. Ela não os deteve. Ela deixou que eles se alimentassem dela enquanto os acariciava, encorajando-os, analisando quantos haviam permanecido fiéis a ela.

Se o touro não ia ajudá-la, Neferet se ajudaria sozinha. Zoey Redbird era um problema havia tempo demais. Havia tempo demais ela permitia que aquela garota interferisse nos seus planos. Mas ela não iria matá-la. Isso provocaria a ira de Nyx cedo demais. Ao contrário do Conselho Supremo dos Vampiros, uma Deusa não podia ser ignorada. Não, Neferet pensou, eu não preciso matar Zoey. Tudo o que eu preciso fazer é criar um ser para fazer o serviço por mim. O Receptáculo falhou uma vez por causa de um sacrifício imperfeito. Com o sacrifício perfeito, eu não vou falhar.

– Eu sou imortal. Eu não preciso do touro para criar. Tudo o que eu preciso é de um sacrifício sagrado e de poder. Eu já aprendi o feitiço. Aurox foi só o começo... – Neferet acariciou os filamentos de Trevas e permitiu que eles continuassem a se alimentar dela.

Há filamentos o bastante, ela assegurou a si mesma. Sobrou apenas o suficiente.

Zoey

– A Deusa sabe que eu odeio dizer isso, mas eu estava errada. Isso é sim como assistir àquele programa idiota The Bachelorette – Aphrodite balançou a cabeça e revirou os olhos.

Ela, Stevie Rae e eu caminhávamos devagar para o estacionamento na direção do ônibus cheio de garotos que estava à nossa espera. Nós estávamos indo devagar porque a gente estava superocupada olhando para Damien e o repórter, Adam. Os dois estavam parados, sorrindo e conversando, perto da van da Fox23 News.

– Shhh! – sussurrei para Aphrodite. – Eles vão ouvir você e isso vai deixar Damien constrangido.

– Ah, por favor! – Aphrodite bufou. – Os garotos gays estão bem animadinhos e entretidos. Ele não está prestando a menor atenção em nós.

– Eu estou tão feliz que ele está flertando – comentei.

– Vejam! Eles estão pegando os telefones!!! – Stevie Rae sussurrou efusivamente com pontos de exclamação demais para ser um sussurro.

– Eu estava errada de novo – Aphrodite falou. – Isso aqui não é como assistir a The Bachelorette. É como assistir ao National Geographic Channel.

– Eu acho que ele é uma gracinha – Stevie Rae disse.

– O cara que está conversando com Damien? – Shaylin perguntou quando se juntou a nós.

– Sim. A gente acha que eles estão marcando um encontro – Stevie Rae respondeu, ainda olhando para os dois.

– Ele tem cores suaves e bonitas – Shaylin observou. – Na verdade, as cores dele combinam bem com as de Damien.

– Como assim, os arco-íris deles estão se fundindo? – Aphrodite bufou sarcasticamente.

Shaylin franziu a testa.

– Eles não têm cores de arco-íris. Isso é um estereótipo horrível. Eles têm a cor do céu de verão, com tons de azul e amarelo. Damien também tem um pouco de branco encrespado e fofo que se parece bastante com nuvens densas.

– Ah, que merda, isso aí não tem nenhum senso de humor – Aphrodite protestou.

– Aphrodite, você tem que parar de chamar Shaylin de isso. Não é nada legal – Stevie Rae a repreendeu.

– Então me diga, para futura referência, o quanto isso não é legal na escala daquela palavra maldosa, “retardada”? – ela levantou uma sobrancelha loira com cara de interrogação para Stevie Rae. – Não é legal no nível de “debiloide” ou “monga”, ou mais como a palavra tradicional e explícita “retardada” mesmo?

– Você é a Grande Sacerdotisa, mas eu acho que responder qualquer coisa apenas a encoraja. Você sabe, é como acontece quando você pega um bebê chorando, ele continua chorando – Shaylin afirmou, soando bem prática.

Afe, Aphrodite vai arrancar os cabelos dela pela raiz, foi só o que eu consegui pensar.

Em vez disso, Aphrodite deu risada.

– Ei, isso fez uma piada! Pode até ser que isso tenha alguma personalidade.

– Aphrodite, eu acho que você deve ter algum dano cerebral – Stevie Rae disse.

– Obrigada – Aphrodite respondeu. – Eu vou entrar no ônibus. E vou cronometrar o Garoto Gay. Se ele continuar flertando por mais do que cinco minutos, eu vou... – ela parou de falar quando se virou em direção ao ônibus. Os meus olhos seguiram os dela. Shaunee e Erin estavam paradas do lado da porta aberta do ônibus. Shaunee parecia perturbada. O rosto de Erin não tinha nenhuma expressão. Eu podia ver que elas estavam conversando, mas nós estávamos muito longe para ouvir o que elas estavam dizendo.

– Há algo errado com ela – Shaylin observou.

– Ela quem? – Stevie Rae perguntou.

– Erin.

– Shaylin está certa. Tem alguma coisa errada com Erin – Aphrodite concordou.

Eu não sabia o que havia me chocado mais, se era o que Shaylin e Aphrodite estavam dizendo ou o fato de elas estarem de acordo.

– Conte-me o que você está vendo – Stevie Rae falou em voz baixa para Shaylin.

– Este é o melhor jeito de eu descrever o que vejo: havia um canal que passava atrás da casa onde eu morava quando era criança, um pouco antes de eu perder a visão. Eu costumava brincar ali perto e fingia que o canal era um córrego da montanha lindo e borbulhante, e que eu estava crescendo nas Montanhas Rochosas do Colorado, porque ele era claro e até mesmo bonito. Mas, assim que eu me aproximava, podia sentir o fedor do canal. Tinha um cheiro de coisas químicas e de algo mais, algo podre. A água parecia boa, mas abaixo da superfície ela era suja e poluída.

– Shaylin – eu estava quase perdendo a paciência. Eu me sentia como se estivesse ouvindo um dos poemas de Kramisha, e isso não é necessariamente uma coisa boa. – Que diabo você quer dizer? Erin tem cor de água poluída? E se ela tem, por que você nunca disse nada até agora?

– Ela está mudando! – Erin gritou! Quando vários rostos no ônibus, além de Erin e Shaunee, voltaram-se na nossa direção, ela disfarçou: – O inverno parece estar mudando para a primavera! Hoje não está uma bela noite?

Os garotos balançaram a cabeça e franziram a testa para ela, mas pelo menos pareceu que eles pararam de prestar atenção em nós.

– Ah, que merda. Você não é nada boa em espionagem – Aphrodite abaixou a voz e nos agrupou. – Z., se liga. É simples. O que Shaylin está dizendo é que Erin parece ser a mesma de sempre: bonita, loira, popular, perfeita. Você sabe, típica. Mas a verdade é que por baixo da superfície há algo apodrecendo. Você não pode ver isso. Eu não posso ver isso. Mas Shaylin pode – Aphrodite deu uma olhada no ônibus. Todos nós acompanhamos o olhar dela a tempo de ver Shaunee balançar a cabeça como quem diz não e subir rapidamente os degraus pretos com piso emborrachado, enquanto Erin continuou ali com uma aparência bonita, mas muito, muito fria. – Parece que Shaunee pode ver isso também. Não que a gente tenha acreditado nela. A gente achou que ela só estava irritada com Erin porque as gêmeas siamesas idiotas tinham sido separadas cirurgicamente.

– Eu acho que isso é muito rude – eu falei.

– Também acho – Stevie Rae concordou. – Mas o meu instinto me diz que é verdade.

– O meu também – Damien disse, aproximando-se de nós. As suas bochechas ainda estavam vermelhas e ele acenou alegremente quando a van da Fox23 foi embora, mas a sua atenção estava voltada para Erin. – E o meu instinto também está me dizendo mais uma coisa.

– Que você e o Garoto das Notícias estão quase virando amiguinhos de cama? –Aphrodite falou com uma voz animada e educada, que contrastava radicalmente com o que ela havia dito.

– Isso não é da sua conta. – Damien respondeu. E então acrescentou em um tom suave: – E acho que você vai querer prestar atenção, Aphrodite. O que eu vou falar vai abalar o seu mundo.

– Que coisa mais velha de se dizer – Aphrodite comentou.

– Velho não significa impreciso – Damien rebateu. – Você traduziu o que Shaylin pressentiu. Isso significa que você está agindo como um oráculo.

– Eu não sou um maldito oráculo. Sou uma Profetisa – Aphrodite pareceu realmente irritada.

– Oráculo... Profetisa – Damien levantou primeiro uma mão e depois a outra, como se ele estivesse comparando o peso de algo na palma de suas mãos, até que ambas ficaram na mesma altura. – Para mim é a mesma coisa. Pesquise a sua história, Profetisa. Sibila, Delfos, Cassandra. Esses nomes não dizem nada a você?

– Não. Sério. Eu tento não ler demais.

– Bem, eu começaria a ler se fosse você. Esses são apenas os nomes top três que vêm à minha mente culta. Alguns os chamam de Oráculos. Alguns os chamam de Profetisas. É a mesma coisa.

– Eu posso pegar o resumo na internet? – Aphrodite estava tentando parecer engraçadinha, mas o seu rosto tinha perdido toda a cor e os seus olhos pareciam gigantes e ainda mais azul-topázio do que o normal. E assustados. Ela parecia superassustada.

– Ok. Bem, lição aprendida. Parabéns para nós! – eu falei animadamente. Todo mundo simplesmente olhou para mim, então tentei explicar: – Thanatos disse que nós temos que praticar os nossos dons. Acho que o que acabou de acontecer é como uma nota extra nessa prova. Que tal agora a gente entrar no ônibus, voltar para os túneis e assistir um pouco às reprises de Fringe?

– Fringe? Estou dentro – Shaylin começou a andar na direção do ônibus.

– Eu gosto de Walter – Aphrodite comentou. – Ele me lembra o meu avô. Bem, exceto que Walter é um pouco mais inteligente e é doidão e louco, em vez de bêbado e antissocial. Mesmo assim, ambos são estranhamente adoráveis.

– Você tem um avô? E você gosta dele? – Stevie Rae perguntou antes de mim.

– É claro que eu tenho avô. Você é uma retardada em Biologia? – então Aphrodite deu de ombros. – Que seja. Minha família é meio difícil de explicar. Eu vou seguir isso e entrar no ônibus – e foi o que ela fez, seguindo Shaylin.

Ficamos só Stevie Rae, Damien e eu.

– Ela é totalmente louca – foi só o que pensei em dizer.

– De fato – Damien concordou.

– Ok, bem, vocês acham que está todo mundo no ônibus? – perguntei.

– Espero que sim. Eu sei que Rephaim está aí, e que nós só temos algumas horas até o sol nascer. Tenho certeza de que ele nunca viu nenhum episódio de Fringe, e acho que ele vai gostar. Assistir a uma série abraçadinha com ele parece uma ótima ideia agora, mesmo se a gente tiver que fazer isso com a louca da Aphrodite – ela sorriu para mim. – A gente pode pedir pizza no Andolini?

– Claro que sim – respondi.

– Ahn-han – Damien simulou bem o ato de limpar a garganta.

– Sim? – perguntei.

– Hum, vocês achariam estranho se eu, hum, talvez fosse me encontrar com alguém para tomar um café? Mais tarde. Hoje à noite. No The Coffee House On Cherry Street.

– Eles ainda estão abertos? – eu perguntei, dando uma olhada no meu celular. Afe, já eram quase 4 h da manhã.

– Eles começaram a funcionar 24 horas por dia. A tempestade de gelo acabou com os negócios por semanas e eles estão tentando compensar o prejuízo atendendo, bem, a turma da noite – Damien explicou.

– Sério? Eles estão ficando abertos por nossa causa? – eu me lembrava tanto dos sanduíches incríveis deles e da bela arte local que eles exibiam. Eles costumavam fechar às 23 h!

– Não mais – ele disse alegremente.

– Uau, que legal. Quero dizer, eu nunca estive lá, mas o fato de uma coffee shop ficar aberta no Centro da cidade para que a gente possa se encontrar lá é sensacional – Stevie Rae falou.

– Que tal se amanhã Darius desviar o ônibus para lá na volta para a estação? – eu segui o meu instinto. É normal que um grupo de estudantes do ensino médio queira parar em uma coffee shop depois da escola. – Damien, se você for lá hoje, pode perguntar para algum funcionário se tudo bem a gente aparecer lá amanhã?

– Com certeza, vou fazer um reconhecimento da área para vocês! – então a expressão de Damien murchou. – E então, o que vocês acham? Jack iria me odiar?

– Oh, claro que não, querido! – falei rapidamente.

– Jack entenderia – Stevie Rae acrescentou. – Ele não ia querer que você ficasse triste e sozinho enquanto espera que ele volte.

– Ele vai voltar, não vai? – Damien me encarou bem no fundo dos meus olhos. – Jack vai voltar, certo?

As almas deles estão destinadas a se encontrar novamente... as palavras foram sussurradas na minha mente. Reconhecendo a voz sábia e familiar de Nyx, eu sorri, dando o braço para Damien.

– Ele vai. Eu prometo. E a Deusa também promete.

Damien piscou forte para segurar as lágrimas.

– Eu tenho um encontro! E vou ficar feliz com isso.

– É isso aí! – eu o encorajei.

– Estou tão feliz que eu poderia cuspir! Mesmo que isso seja um pouco grosseiro – Stevie Rae pegou a outra mão de Damien.

– Esse é um ditado estranho – Damien observou.

– Totalmente – eu disse. – Foi nojento quando Leonardo fez toda aquela cena da cuspida com Kate em Titanic.

– Essa cena nunca deveria ter acontecido – Damien concordou. – Foi a única falha do filme.

– Bem, essa cena e aquela do Leo se transformando em um lindo picolé – acrescentei.

Damien e Stevie Rae fizeram sons de total concordância comigo enquanto nos aproximávamos do ônibus. Eu podia ver os rostos dos garotos nas janelinhas. Parecia que o ônibus estava cheio, o que me deu uma onda enorme de alívio porque eu estava mais do que pronta para ir para casa. Stark estava lá, em pé no alto da escada, ao lado de Darius. Os olhos dele me encontraram, e isso fez minha pele esquentar e formigar. Rephaim estava no primeiro assento, bem na frente de Kramisha, e eu praticamente pude sentir Stevie Rae vibrando de alegria ao acenar para ele. Shaylin e Aphrodite estavam subindo as escadas. Eu não conseguia ver o rosto de Aphrodite, mas o jeito com que ela jogou o cabelo para trás me dizia que ela já estava flertando com o seu guerreiro.

Ok, as Trevas eram um pé no saco e muitas coisas difíceis haviam acontecido com a gente, mas pelo menos estávamos juntos e tínhamos amor. Sempre o amor.

– Preciso conversar com você.

A voz sem emoção de Erin foi como um banho de água fria na minha alegria.

– Ok, claro. Ei, daqui a um instante eu estarei no ônibus – avisei Stevie Rae e Damien.

– Eu vou ficar – Erin disse as três palavras assim que ficamos sozinhas.

– Ficar? Você quer dizer aqui? – Eu tinha entendido o que ela queria dizer, mas precisava ganhar tempo para tentar processar as perguntas na minha mente. Eu tinha impedido Shaunee quando ela havia tentado se separar de nós e voltar para a Morada da Noite logo depois que ela e Erin começaram a ter problemas. Eu não deveria impedir Erin também?

– Sim, é claro que eu estou falando daqui. Estou cansada dos túneis. A umidade está deixando o meu cabelo cheio de frizz.

– Ahn, há produtos para isso. Tem alguns da Aveda. Podemos pegar para você no salão Ilhoff da Utica Square amanhã – sugeri.

– Ok, então, não é só o meu cabelo. Eu não quero morar nos túneis. É aqui que eu moro. Nesta escola. Eu não quero ser levada de ônibus. É idiota.

– Erin, eu sei que pegar o ônibus da escola é idiota. Que inferno, isso já era idiota antes de eu ser Marcada. Mas eu acho que nós precisamos ficar juntos. A gente é mais do que um grupo ou uma panelinha, a gente é uma família.

– Não, a gente não é uma família. Nós somos um grupo de garotos que vai para a mesma escola. Só isso. Ponto final.

– As nossas afinidades fazem com que a gente seja mais do que isso – ela estava me deixando chocada... não apenas pelo que ela estava dizendo, mas pela sua atitude. Erin era tão fria! – Erin, nós passamos por coisas demais juntos para acreditarmos que somos apenas um grupo de garotos que por acaso frequenta a mesma escola.

– E se isso for o jeito como você se sente, mas não como eu me sinto? Eu não posso escolher? Achei que Nyx concedesse o livre-arbítrio.

– Sim, mas isso não quer dizer que não podemos dizer algo quando alguém com quem a gente se importa está fazendo besteira.

– Deixe-a ficar.

Erin e eu levantamos os olhos e vimos Aphrodite em pé no primeiro degrau do ônibus. Ela estava encostada na porta com os braços cruzados. Eu esperei ver aquele sorriso irônico típico de Aphrodite em seu rosto, mas ela não parecia brava. Ela não soou irônica. Ela apenas pareceu bastante segura de si. Atrás dela, eu podia ver Stevie Rae e Shaylin. Elas concordaram com a cabeça, e aquele apoio mudo a Aphrodite me venceu quando eu percebi que o meu Conselho havia decidido – elas resolveram o que era melhor para todos nós, mesmo que aquilo não fosse o melhor para Erin.

– Obrigada, Aphrodite. Quem poderia imaginar que você seria a única a concordar comigo? – Erin riu, soando petulante e infantil em comparação com o despertar da maturidade serena de Aphrodite.

– Sabe de uma coisa, Erin, estou feliz que você e Aphrodite tenham me lembrado de uma coisa – afirmei. – Nyx realmente nos dá o livre-arbítrio e, se você prefere viver na Morada da Noite, então vou respeitar isso. Espero que isso não mude as coisas no nosso círculo. Você ainda é a água. O seu elemento e você ainda são importantes para nós.

Erin sorriu um pouco, mas o sorriso dela não chegou aos seus frios olhos azuis.

– Sim, é claro. Eu sempre serei a água, e a água pode correr em qualquer lugar. É só me chamar se precisar de mim. Eu vou estar lá na mesma hora.

– Que ótimo – falei rapidamente, sentindo-me superconstrangida. – Bem, então acho que a gente se vê amanhã.

– Sim, claro. Vejo vocês na aula – Erin acenou de modo petulante e saiu andando.

Subi as escadas do ônibus, perguntando para Darius:

– Estão todos aqui?

– Todos já foram contados e estão presentes – ele respondeu.

– Então vamos para casa – eu disse. Todos se espalharam pelos seus assentos, Stevie Rae ao lado de Rephaim, Aphrodite na primeira poltrona logo atrás de Darius como motorista. Stark estava esperando por mim na poltrona atrás dela, e eu me inclinei, beijando-o rapidamente e sussurrando: – Vou dar uma olhada em Shaunee e já volto.

– Vou estar aqui esperando. Sempre – ele tocou o meu rosto delicadamente.

Fui sacolejando até o fundo do ônibus, onde Shaunee estava sentada sozinha, enquanto Darius passava pelos buracos do estacionamento e fazia um retorno em direção ao caminho de saída da escola.

– Posso sentar aqui por um instante?

– Sim, claro – ela respondeu.

– Então, você e Erin não estão mais se falando direito?

Shaunee mordeu a bochecha e balançou a cabeça.

– Não.

– Ela está bem brava – eu estava tentando pensar em algo para dizer que ajudaria Shaunee a se abrir comigo.

– Não, acho que ela não está brava – Shaunee afirmou.

Franzi a testa.

– Bem, ela pareceu brava.

– Não – Shaunee repetiu, olhando para fora da janela. – Pense em como ela vem agindo nos últimos dias, principalmente hoje. “Brava” não é a melhor palavra para descrevê-la.

Eu realmente pensei. Erin estava sendo fria e sem emoções. Só isso.

– Bem, você está certa. Agora que eu pensei mesmo nisso, ela não tem sido nada além de desinteressada, e isso é estranho.

– Sabe o que é mais estranho? Aquela garota ali está demonstrando mais sentimentos do que Erin – Shaunee apontou pela janela na direção do pequeno jardim dos professores, não muito longe dos limites do estacionamento. Uma garota estava sentada ao lado da fonte. Quando o ônibus passou ali perto, havia luz suficiente para ver de relance que ela estava com a cabeça apoiada nas mãos. Os seus ombros estavam chacoalhando como se ela estivesse chorando convulsivamente.

– Quem é ela?

– Nicole.

– Nicole, a novata vermelha? Você tem certeza? – estiquei o pescoço, tentando olhar melhor para ela, mas nós já estávamos pegando a pista com árvores enfileiradas, e a minha visão da garota ficou completamente encoberta.

– Tenho. Eu a vi lá quando estava indo para o ônibus.

– Hum. E você imagina o que está se passando com ela? – eu perguntei.

– Acho que as coisas estão mudando para muitos de nós, e às vezes isso enche o saco.

– Há algo que eu possa fazer para tornar isso menos pé no saco para você? – eu quis saber.

Então Shaunee olhou para mim.

– Apenas seja minha amiga.

Eu pisquei surpresa.

– Eu sou sua amiga.

– Mesmo sem a Erin?

– Eu gosto mais de você sem a Erin – falei honestamente.

– Eu também – Shaunee concordou. – Eu também.

Um pouco depois voltei para o meu assento ao lado de Stark e deixei que ele colocasse o seu braço ao redor de mim. Encostei a cabeça no ombro dele e fiquei escutando a batida do seu coração, apoiando-me na sua força e no seu amor.

– Prometa-me que você nunca vai pirar e se transformar em um estranho frio e distante – pedi em voz baixa para ele.

– Prometo. Não importa o que aconteça – ele afirmou sem hesitar. – Agora, tire qualquer coisa de sua cabeça, exceto o fato de que eu vou forçá-la a experimentar uma pizza diferente hoje à noite.

– Não vamos pedir a Santino? Mas a gente adora essa pizza!

– Confie em mim, Z. Damien me falou sobre a pizza Athenian. Ele disse que ela é a ambrosia das pizzas. Não entendi exatamente o que ele quis dizer, mas acho que isso significa mais do que bom, então vamos experimentar.

Eu sorri, relaxei ao lado dele e, no curto caminho da Morada da Noite até a estação, fingi que o meu maior problema era decidir se expandia os meus horizontes em relação aos sabores de pizza.

 


C O N T I N U A

9 Zoey

– Neferet precisa ser detida – Thanatos foi logo direto ao ponto.

– Finalmente uma boa notícia – Aphrodite disse. – Então, o Conselho Supremo inteiro vai aparecer aqui para declarar que tudo que ela disse naquela coletiva de imprensa ridícula é papo furado, ou Duantia vem sozinha?

– Não vejo a hora de os humanos ouvirem a verdade sobre ela – Stevie Rae falou em seguida, soando tão irritada quanto Aphrodite e sem dar chance a Thanatos para replicar – Estou realmente cansada de ver Neferet sorrindo, seduzindo, iludindo e fazendo todo mundo acreditar que ela é tudo de bom.

– Neferet faz muito mais do que seduzir, iludir e sorrir – Thanatos observou sombriamente. – Ela usa o seu dom concedido pela Deusa para manipular e ferir os outros. Os vampiros são sujeitos aos seus encantos, e os humanos praticamente não têm defesa contra ela.

– O que significa que o Conselho Supremo dos Vampiros precisa tomar uma posição e fazer alguma coisa em relação a ela – eu afirmei.

– Eu gostaria que fosse assim tão simples – Thanatos respondeu.

Meu estômago se contraiu. Tive uma daquelas intuições, e minhas intuições quase nunca eram boas.

– O que você quer dizer? Por que isso não seria algo simples? – perguntei.

– O Conselho Supremo não vai misturar humanos nos assuntos de vampiros – ela explicou.

– Mas Neferet já fez isso – eu argumentei.

– Pois é, não adianta fechar a porta do estábulo depois que o gado já fugiu – Stevie Rae concordou.

– Aquela vaca matou a mãe de Zoey – Aphrodite estava balançando a cabeça, incrédula. – Você está dizendo que o Conselho Supremo vai simplesmente ignorar isso e vai deixá-la escapar com um assassinato nas costas e falando merda sobre todos nós?

– E o que vocês querem que o Conselho Supremo faça? Que desmascare Neferet como uma assassina?

– Sim – eu disse, feliz por soar firme e madura, em vez de assustada e com doze anos, que era como eu realmente estava me sentindo com essa coisa toda. – Eu sei que ela é imortal e poderosa, mas ela matou a minha mãe.

– Nós não temos provas disso – Thanatos falou em voz baixa.

– Isso é besteira! – Aphrodite explodiu. – Todos nós vimos!

– Em um ritual de revelação realizado com um feitiço de morte. Nada disso pode ser repetido. A terra foi purificada desse ato de violência por meio dos cinco elementos.

– Ela tomou as Trevas como seu Consorte – Aphrodite alegou. – Ela não está apenas aliada ao mal, ela provavelmente está fazendo as coisas mais indecentes com ele!

– Eca! – Stevie Rae e eu exclamamos juntas.

– Os humanos nunca iriam acreditar em nada disso, mesmo se eles tivessem estado lá.

Nós todas nos voltamos para a voz de Shaylin, que até então estava em pé em silêncio, observando nós quatro com olhos vazios e uma expressão chocada. Mas o seu tom era seguro. É claro, ela parecia nervosa, mas o seu queixo estava levantado de novo e ela apresentava o que eu já estava reconhecendo como a sua cara de teimosa.

– Que diabo você sabe sobre isso e por que você está falando? – Aphrodite vociferou contra ela.

– No mês passado eu era humana. Os humanos não acreditam na magia dos vampiros – Shaylin encarou Aphrodite sem vacilar. – Vocês estão há muito tempo às voltas com essa magia. Vocês perderam totalmente a perspectiva.

– E você perdeu completamente a cabeça – Aphrodite rosnou, inchando como um baiacu.

– Crianças briguentas de novo – Thanatos não levantou a voz, mas as suas palavras atravessaram aquela tensão tipo briga de garotas entre Aphrodite e Shaylin.

– Elas não querem brigar – eu falei em meio ao súbito silêncio. – Nenhuma de nós quer. Mas estamos todas frustradas e esperávamos que você e o Conselho Supremo fossem fazer algo, qualquer coisa, para nos ajudar a combater Neferet.

– Deixem-me mostrar a verdade sobre quem vocês são, e então pode ser que vocês entendam mais sobre essa batalha em que vocês estão insistindo em envolver os humanos – Thanatos estendeu o seu braço direito, com a palma da mão voltada para cima na altura do peito. Ela fez uma concha com a mão, inspirou profundamente e, com a mão esquerda, agitou o ar acima da sua outra mão estendida, dizendo: – Observem o mundo! – a voz dela era poderosa, hipnotizante. Os meus olhos foram atraídos para a palma de sua mão. Sobre ela, um globo do planeta estava se formando. Era incrível, não era como aqueles globos entediantes que os professores de História usavam para juntar pó. Aquele parecia feito de fumaça negra. A água se ondulava e se agitava. Os continentes emergiam, como que esculpidos em ônix.

– Aiminhadeusa! – Stevie Rae exclamou. – É tão lindo!

– É mesmo – Thanatos disse. – E agora observem quem vocês são no mundo! – ela sacudiu os dedos da mão esquerda na direção do globo, como se estivesse salpicando água em cima dele. Aphrodite, Stevie Rae, Shaylin e eu ofegamos de surpresa. Pequenas faíscas começaram a aparecer, pontuando a massa de terra ônix com minúsculas luzes de diamante.

– Que bonito – comentei.

– São diamantes? Diamantes de verdade? – Aphrodite perguntou, aproximando-se mais.

– Não, jovem Profetisa. São almas. Almas de vampiros. Essas luzes somos nós.

– Mas há tão poucas luzes. Quero dizer, em comparação ao resto do globo, que é todo escuro – Shaylin observou.

Eu franzi a testa e me aproximei mais, juntando-me a Aphrodite. Shaylin estava certa. A terra parecia imensa comparada à pequena quantidade de pontos cintilantes. Fiquei encarando o globo. Os meus olhos foram atraídos para os agrupamentos de brilho: Veneza, a Ilha de Skye, algum lugar que eu achei ser a Alemanha. Um grupo de luzes na França, alguns borrões no Canadá e vários outros espalhados pelos Estados Unidos – vários, mas mesmo assim não muitos.

– Aqui é a Austrália? – Stevie Rae perguntou.

Dei uma olhada no outro lado do globo, reparando em outros diamantes salpicados.

– Sim – Thanatos confirmou. – E a Nova Zelândia também.

– Ali é o Japão, não é? – Shaylin apontou para outra pequena mancha de brilho.

– Sim, é – Thanatos afirmou.

– Os Estados Unidos não têm tantos diamantes quanto deveria – Aphrodite opinou.

Thanatos não respondeu. Ela encontrou o meu olhar. Eu desviei os olhos, analisando o globo novamente. Devagar, dei toda a volta ao redor dela, desejando que eu tivesse prestado mais atenção às aulas de Geografia – qualquer aula. Quando terminei de dar a volta, encontrei o olhar da Grande Sacerdotisa de novo.

– Não existem muitos de nós – eu concluí.

– Infelizmente, isso é a mais absoluta verdade – Thanatos concordou. – Nós somos brilhantes, poderosos e espetaculares, mas somos poucos.

– Então, mesmo que nós conseguíssemos fazer com que os humanos nos ouvissem, estaríamos abrindo portas para o nosso mundo que é melhor que fiquem fechadas – Aphrodite falou calmamente, soando madura e sem malícia, como não era próprio dela. – Senão eles podem começar a pensar que as leis deles se aplicam a nós, que nós precisamos deles para nos manterem na linha e isso significa que eles podem começar a apagar as nossas luzes.

– Simples, mas bem colocado – Thanatos juntou as mãos e o globo desapareceu em um sopro de fumaça brilhante.

– Então o que nós vamos fazer? Nós não podemos simplesmente deixar Neferet escapar com todas as coisas horríveis que ela fez. Ela não vai parar em uma coletiva de imprensa, uma comissão na Câmara e uma coluna no jornal. Ela quer morte e destruição. Caramba, ela é Consorte das Trevas! – Stevie Rae disse.

– Nós temos que lutar com as mesmas armas dela – Shaylin sugeriu.

– Ah, que merda. Não vou aguentar mais uma garota que usa metáforas ruins em vez de falar claramente – Aphrodite rebateu.

– O que eu quis dizer é que, se Neferet está envolvendo os humanos, nós também deveríamos fazer isso. Mas nos nossos próprios termos – Shaylin explicou. Eu vi quando ela movimentou a boca sem som, dizendo “detestável”, mas Aphrodite havia decidido ignorar a novata. De novo. E, felizmente, Aphrodite não estava olhando para ela.

– Shaylin, você despertou o meu interesse, filha. Por que você acompanhou as duas Sacerdotisas e a Profetisa até aqui? – Thanatos perguntou de repente.

Nós, as Sacerdotisas e a Profetisa, ficamos em silêncio. Pessoalmente, eu queria ver como Shaylin ia lidar com Thanatos. Imaginei que Stevie Rae ficou quieta pelo mesmo motivo. Eu já sabia as razões de Aphrodite, as quais Shaylin tinha resumido bem com a palavra que ela disse sem som: detestável.

A pequena novata vermelha levantou seu queixo e pareceu superobstinada.

– Eu vim com elas porque quero fazer perguntas a você sobre o meu dom. E elas concordaram – Shaylin fez uma pausa, deu uma olhada para Aphrodite e acrescentou: – Bem, duas delas concordaram.

– Qual dom Nyx concedeu a você, novata?

– A Visão Verdadeira – ela olhou nervosamente para Stevie Rae e para mim. – Certo?

– Nós achamos que sim – eu falei.

– É. Pelo menos foi o que a pesquisa de Damien nos disse, e ele está quase sempre certo em relação às coisas que pesquisa – Stevie Rae concordou.

– Ela disse que Neferet tinha cor de olho de peixe morto. Isso me faz pensar que ela pode ter algo mais do que uma simples doença mental – Aphrodite me surpreendeu ao dizer isso.

– Você vê auras? – Thanatos perguntou enquanto analisava Shaylin como se ela estivesse olhando em um microscópio e Shaylin estivesse sob uma lâmina de vidro.

– Eu vejo cores – Shaylin respondeu. – Não sei como chamar o que eu vejo. E-eu era cega até a noite em que fui Marcada. Eu era cega desde os cinco anos. De repente, zap! Ganhei uma lua crescente vermelha no meio da minha testa, minha visão voltou e, junto com ela, as cores. Muitas cores. Por causa delas, eu sei coisas sobre as pessoas. Tipo, eu sabia que Neferet era podre no mesmo instante em que a vi. Apesar de por fora ela ser bonita – ela contou a Thanatos, e eu percebi que ela entrelaçou as mãos com força atrás de si e permaneceu imóvel sob o escrutínio da Grande Sacerdotisa. – Do mesmo modo, eu sei que Erik Night é basicamente um cara legal, mas é fraco. Ele sempre escolheu o caminho mais fácil. A cor dele é preta, mas não um preto chapado. É um preto profundo e rico, e eu consigo ver pequenos raios de luz dourada relampejando através dele – ela suspirou. – Acho que você é realmente idosa, inteligente e poderosa, mas também tem um temperamento forte, que mantém sob controle. Na maior parte do tempo.

Thanatos curvou os lábios em um sorriso.

– Continue.

Shaylin olhou rapidamente para Stevie Rae e depois de novo para Thanatos.

– As cores de Stevie Rae são como fogos de artifício. Isso me faz pensar que ela é a pessoa mais doce e alegre que eu já conheci.

– Isso porque você não conheceu Jack – Stevie Rae falou, com um sorriso triste para Shaylin. – Mas, obrigada. Foi muito legal dizer isso sobre mim.

– Eu não tive a intenção de ser legal. Só estou tentando dizer a verdade – os olhos de Shaylin se voltaram para Aphrodite. – Bem, na maioria das vezes estou tentando dizer a verdade.

Aphrodite bufou.

Eu esperei que fosse a minha vez e que ela diria a Thanatos que as minhas cores tinham ficado mais escuras porque eu estava superpreocupada, mas ela não falou nada sobre mim. Ela apenas assentiu levemente com a cabeça, como se tivesse decidido internamente alguma coisa, e então concluiu:

– É por isso que eu estou aqui. Preciso da sua orientação sobre como usar o meu dom e quero saber a verdade sobre ele.

Acho que foi nessa hora que comecei a respeitá-la. Thanatos não era uma Grande Sacerdotisa qualquer. Ela era membro do Conselho Supremo e tinha afinidade com a Morte. Ok, Thanatos era assustadora. Sem brincadeira. Mesmo assim, ali estava Shaylin, com seus quarenta e poucos quilos, menos de um mês como novata, confrontando Thanatos, sem entregar nada privado sobre mim. Ela nem disse aquelas coisas sobre os pontos de luz trêmula do bem dentro de Aphrodite. Era preciso coragem. Muita coragem.

Olhei para as mãos entrelaçadas com força de Shaylin e reparei que os seus dedos haviam ficado brancos. Eu sabia como ela se sentia. Eu também tive que confrontar uma Grande Sacerdotisa poderosa logo depois de ser Marcada.

Eu me aproximei mais de Shaylin.

– Seja como for que você queria chamar o que Shaylin vê, ela tem um dom. Eu concordo com Damien. Acho que é a Visão Verdadeira.

– Todos nós achamos – Stevie Rae falou.

– Você pode me ajudar? – Shaylin perguntou.

Então Thanatos me surpreendeu. Ela não disse nada. Ela se virou e caminhou até a sua mesa, olhando para baixo, como se a resposta para a pergunta de Shaylin estivesse escrita no grande calendário que ela deixava em cima da escrivaninha. Ela ficou parada daquele jeito, com a cabeça abaixada, pelo que pareceu um tempo ridiculamente longo. Eu tinha decidido entrelaçar minhas mãos atrás do meu corpo para evitar me remexer também, até que a Grande Sacerdotisa finalmente se voltou para nós quatro e nos encarou.

– Shaylin, a resposta que eu tenho para você é a mesma que eu tenho para Zoey, Stevie Rae e Aphrodite.

Escutei Aphrodite murmurar algo sobre não se lembrar de ter feito nenhuma maldita pergunta, mas Thanatos a interrompeu e continuou:

– Cada uma de vocês recebeu um dom incomum concedido pela nossa Deusa, e isso vem a calhar para nós, pois vamos precisar de todos os poderes que a Luz pode nos dar se pretendemos combater as Trevas.

– Você quis dizer derrotar as Trevas, não quis? – Stevie Rae perguntou.

Eu sabia a resposta de Thanatos antes de ela falar.

– As Trevas nunca podem ser realmente derrotadas. Elas só podem ser combatidas e desmascaradas pelo amor, pela Luz e pela verdade – a Grande Sacerdotisa afirmou.

– Perdeu. De novo – Aphrodite disse em voz baixa.

– Vou dar uma tarefa a cada uma para que vocês possam exercitar os seus dons. Profetisa, a primeira é para você – Thanatos se dirigiu a Aphrodite.

Aphrodite deu um suspirou profundo.

– Você recebeu de Nyx o dom de ter visões com alertas sobre fatos horríveis que estão para acontecer. Você teve alguma visão antes da coletiva de imprensa de Neferet?

– Não – Aphrodite pareceu surpresa com a pergunta de Thanatos. – Não tenho nenhuma visão há cerca de uma semana.

– Então o quanto você é boa, Profetisa? – as palavras dela foram duras e frias. Thanatos soou quase cruel.

O rosto de Aphrodite ficou realmente pálido e logo depois ficou rosa.

– Quem é você para me questionar? Você não é Nyx. Eu não respondo a você. Eu respondo a ela!

– Exatamente! – a expressão de Thanatos se relaxou. – Então responda a ela. Ouça-a. Observe os seus sinais. As suas visões se tornaram cada vez mais difíceis e dolorosas, não é?

Aphrodite assentiu com um movimento tenso e rápido.

– Talvez porque a nossa Deusa queira que você exercite o seu dom de outros modos. Você fez isso recentemente, diante do Conselho Supremo. Lembra?

– É claro que eu lembro. Foi como eu soube que as almas de Kalona e de Zoey tinham saído de seus corpos.

– Mas você não precisou de uma visão que dissesse isso a você.

– Não.

– Já cheguei ao ponto que queria – Thanatos afirmou. Então ela se virou para Stevie Rae. – Você é a Grande Sacerdotisa mais jovem que já conheci na vida, e eu já vivi bastante. Você é a primeira Grande Sacerdotisa dos vampiros vermelhos na história do nosso povo. Você tem uma afinidade poderosa com a terra.

– Siiiiim... – Stevie Rae prolongou a palavra, como que esperando pelo golpe final de Thanatos.

– A sua tarefa é praticar liderança. Você acata as decisões de Zoey com muita frequência. Você é uma Grande Sacerdotisa. Extraia força da terra e comece a agir como uma Grande Sacerdotisa – Thanatos não deu chance para Stevie Rae responder. O seu olhar penetrante e sombrio se voltou para Shaylin. – Se você tem a Visão Verdadeira, o seu dom é tão bom quanto você for. Não o desperdice com trivialidades e mesquinharias.

– É por isso que eu estou aqui – Shaylin falou rapidamente. – Quero aprender a usar o meu dom do jeito certo.

– Isso, jovem novata, é algo que você precisa desenvolver e ensinar a si mesma. A sua tarefa é analisar aqueles ao seu redor. Leve os resultados até a sua Grande Sacerdotisa. Stevie Rae vai usar os poderes do elemento dela, assim como o seu crescente poder de liderança, para guiar você.

– Mas eu não sei... – Stevie Rae começou, mas Thanatos a cortou.

– E você nunca saberá. Nada. Nada importante de fato. A menos que você assuma a responsabilidade de ser uma Grande Sacerdotisa. Aprenda a confiar em si mesma, para que os outros possam se sentir seguros em confiar em você.

Stevie Rae fechou a sua boca e assentiu, parecendo que ela tinha doze anos, exatamente o oposto de uma Grande Sacerdotisa. Mas eu não tive tempo de dizer nada para ela porque finalmente Thanatos voltou suas baterias contra mim.

– Use a sua pedra da vidência.

– Ahn?

– Ela a intimida – Thanatos continuou como se eu não tivesse dito nada. – A verdade é que o mundo deve mesmo intimidar você, todas vocês, neste momento. Mas o medo não é razão para fugir às suas responsabilidades. Está em suas mãos uma peça de magia antiga que responde a você. Use-a.

– Como? Para quê? – falei sem pensar.

– Uma pedra da vidência, um dom da Visão Verdadeira, uma Profetisa, uma Grande Sacerdotisa: todas essas coisas poderosas são inúteis a menos que todas vocês comecem a responder essas questões a si mesmas. Você disse que vocês não são crianças birrentas? Provem. Podem ir agora – ela virou as costas para nós e deu passos firmes em direção à sua mesa.

Minhas amigas e eu obviamente tivemos o mesmo impulso ao mesmo tempo. Como se fôssemos uma só, começamos a andar apressadas a caminho da porta de saída.

– Eu vou acender a pira de Dragon Lankford à meia-noite. Estejam presentes à cerimônia. Logo depois, preciso de vocês e do resto do seu círculo no lobby da escola. Eu convoquei a minha própria coletiva de imprensa.

As palavras dela nos atingiram e nos fizeram parar como se fossem um muro invisível. Nós nos viramos e olhamos embasbacadas para ela. Eu engoli em seco o nó na minha garganta e falei:

– Mas você disse que nós não podemos confrontar Neferet na comunidade dos humanos. Então, sobre o que vai ser a nossa coletiva de imprensa?

– Nós vamos continuar de boa vontade aquilo que Neferet começou apenas para gerar caos e conflitos. Ela abriu esta escola para empregados humanos. Nós vamos anunciar na coletiva que, apesar de estarmos tristes por Neferet ter saído do seu emprego na nossa escola, estamos felizes em abrir inscrições para mais ocupações para a comunidade na Morada da Noite. Nós vamos sorrir. Nós seremos afetuosos e abertos. James Stark estará presente com seu jeito agradável, atraente e inofensivo.

– Você vai fazer com que Neferet pareça nada mais do que uma empregada descontente? Brilhante! – Aphrodite comentou.

– E normal – eu observei.

– Algo que os humanos vão entender completamente – Shaylin disse.

– Ei, se vocês realmente querem parecer normais como os humanos, nós precisamos fazer algo tipo um feira de empregos aberta ao público – Stevie Rae sugeriu e todas nos voltamos para ela.

– Continue. Qual é a sua ideia, Grande Sacerdotisa? – Thanatos perguntou.

– Bem, a minha escola de ensino médio costumava ter uma feira de empregos para os formandos no fim do ano. Era como qualquer festa aberta ao público, com ponche ruim, salgadinhos e tudo mais. Mas empresas de Tulsa, de Oklahoma City e até de Dallas apareciam e recebiam inscrições e marcavam entrevistas com os formandos enquanto o resto dos estudantes só ficava por ali, desejando que chegasse a sua vez – Stevie Rae sorriu timidamente e encolheu os ombros. – Acho que pensei nisso porque a minha vez não chegou, já que eu fui Marcada e tal.

– De fato, é uma ideia interessante – Thanatos me chocou ao dizer isso. – Nós vamos mencionar a nossa disposição de abrir a escola para uma feira de empregos – ela pronunciou essas palavras como se elas fossem de uma língua estrangeira – durante a coletiva de imprensa mais tarde.

– Se você realmente quer uma festa aberta ao público aqui na escola, precisamos ter um bocado de gente aqui. Que tal nós convidarmos os Street Cats e fazermos um evento para levantar fundos para a adoção de gatos? Isso seria algo que Tulsa apoiaria – Stevie Rae acrescentou.

– E isso seria normal – Aphrodite falou. – Eventos beneficentes são coisas normais e atraem as pessoas com muita grana, e isso é uma coisa boa.

– Bem pensado – Thanatos concordou.

– Minha avó pode ajudar a coordenar isso com os Street Cats. Ela e a irmã Mary Angela, a freira diretora dos Street Cats, são amigas – eu sugeri.

Thanatos assentiu.

– Então eu vou ligar para Sylvia e perguntar se ela poderia coordenar o que nós chamaremos de uma noite aberta ao público com uma feira de empregos para Tulsa. A presença de sua avó, além das freiras, vai dar uma sensação de normalidade e de tranquilidade.

– Minha mãe pode assar uma tonelada de cookies de chocolate e vir também – Stevie Rae ofereceu.

– Então a convide. Eu tenho fé em vocês, assim como Nyx tem. Não nos desapontem. E agora vocês podem ir mesmo.

Nós saímos da sala de Thanatos falando sobre a coletiva de imprensa e o evento aberto ao público, e comentando como era bom termos um plano. Foi só mais tarde que me dei conta de que eu não havia dito nem uma única palavra sobre o caso Aurox/Heath...


10 Shaunee

Os guerreiros Filhos de Erebus estavam com ares soturnos, ocupados com o trabalho de amontoar madeira para construir a pira de Dragon. Shaunee tentou fazer o que podia para ajudá-los. Ela sabia dizer se a madeira ia queimar bem só de tocá-la, então indicou todas as toras e tábuas mais secas e orientou os guerreiros para colocar tudo de forma correta, a fim de que o fogo queimasse sem empecilhos e rapidamente.

Shaunee tentou encorajá-los. Ela disse que eles estavam fazendo um bom trabalho e que Dragon ficaria orgulhoso deles, mas aquilo pareceu deixá-los ainda mais calados e soturnos. Até Darius estava em silêncio e parecia quase um estranho. Foi só quando Aphrodite surgiu atirando o cabelo para o lado e falando com aquele seu jeito dominador e sedutor que as coisas começaram a melhorar.

– Ei, bonitão, você lembra do sermão que Dragon deu em você quando nós começamos a sair? – Aphrodite piscou para vários guerreiros que estavam por perto. – Aposto que Stephen, Conner e Westin se lembram, não é? Não foram vocês que tiveram que fazer um treinamento extra com Darius depois que Dragon descobriu que ele estava confraternizando com uma novata? – Aphrodite fez um tom de voz baixo que soou muito parecido o Mestre da Espada.

Os guerreiros até sorriram.

– Dragon nos fez dar um trato no seu garoto aqui por três dias seguidos – Conner lembrou.

Darius bufou.

– Cuidado com as suas palavras, Conner. Eu não sou um garoto há décadas.

Conner riu.

– Acho que era exatamente com isso que Dragon estava tendo problemas.

Aphrodite sorriu de modo sedutor e passou a mão pelo bíceps grosso de Darius.

– Ele queria que você ficasse esgotado para que não tivesse energia suficiente para confraternizar comigo.

– Seria preciso um exército de vampiros para isso – Darius afirmou.

Foi a vez de Stephen provocá-lo.

– Sério? Então por que Anastasia teve que intervir?

Aphrodite levantou suas sobrancelhas loiras.

– Intervir? Anastasia? Você não me contou isso, bonitão.

– Devo ter esquecido, já que eu estava muito ocupado confraternizando com você, minha bela.

– Hahaha! – Westin caçoou. – É impossível que qualquer um de nós tenha se esquecido de Anastasia, com os cabelos ao vento, repreendendo o nosso Mestre da Espada por perseguir o pobre e jovem Darius.

Shaunee não conseguiu deixar de rir junto com eles.

– Ela disse mesmo que Dragon estava perseguindo Darius? – a novata quis saber.

Conner, que era alto, loiro e quase tão ardente quanto o elemento de Shaunee, respondeu:

– Sim, ela disse exatamente isso. Ela até chamou Dragon de Bryan e o lembrou de que, se ela não tivesse confraternizado com um novato um século atrás, a vida dele seria muito menos interessante.

– Eu convivi com Dragon Lankford por cinquenta anos – Stephen falou. – Eu nunca o vi ser superado por nenhum outro guerreiro, mas Anastasia conseguia detê-lo com um simples olhar.

– Que bom que eles estão juntos agora – Darius afirmou.

– Ele ficou perdido sem ela – Westin comentou.

– Isso é algo que eu posso entender muito bem – Darius pegou a mão de Aphrodite, beijando-a gentilmente.

– Vocês realmente viram os dois se reencontrando?

– Sim – Darius, Aphrodite e Shaunee responderam juntos.

– Ele está feliz de novo – Shaunee disse.

– Ela morreu primeiro, mas esperou por ele – Aphrodite sorriu para Darius, mas Shaunee pôde ver lágrimas nos olhos dela.

– Ela teve uma morte de guerreira – Westin lembrou.

– Assim como Dragon – Darius concordou.

– Nós precisamos nos lembrar disso hoje à noite – Shaunee sugeriu. – Lembrar da alegria e do Juramento deles, e que eles ainda se amam.

– Amar para sempre – Darius falou docemente, tocando o rosto de Aphrodite.

– Amar para sempre – Aphrodite ecoou e depois levantou uma sobrancelha loira. – Se você não estiver cansado demais, é isso aí.

– Ah! Então Anastasia estava certa! Nós estamos perseguindo o pobre e jovem Darius! – Stephen e os outros guerreiros riram, e Darius começou a se defender excitadamente, enquanto Aphrodite o provocava.

Shaunee se afastou um pouco da pira em construção e do grupo que a cercava. Fogo, aqueça essa pequena fagulha de alegria que Aphrodite conseguiu plantar dentro deles. Ajude os guerreiros a se lembrarem de que Dragon e Anastasia estão juntos e felizes. Ela sentiu o calor do seu elemento passar rapidamente por ela e envolver o grupo, um calor invisível e quase indetectável para quem não tinha afinidade com o fogo. Mas aquilo ajudou. Ela havia ajudado. Shaunee realmente acreditava nisso.

Sentindo-se levemente melhor, ela saiu caminhando a esmo. Shaunee sabia que tinha que ir até o estábulo, mas isso não significava que ela estava com pressa de encarar a destruição que o seu elemento havia causado. Mas eu não o estava manejando, ela lembrou a si mesma. Mesmo assim, ela fez um caminho mais longo e sinuoso, na direção do pátio que tinha uma bela fonte. Dali ela iria pegar o caminho dos fundos, passando pelo estacionamento, que iria dar mais diretamente no ginásio do que no estábulo.

Shaunee escutou a água antes de ouvir a voz de Erin.

Ela não quis ficar espreitando nem se escondendo. Ela só se moveu em silêncio pelas sombras em volta do pátio porque não queria uma cena com Erin, não porque ela a estava espionando.

Então ela escutou a outra voz. No começo, Shaunee não reconheceu de quem era. Ele não estava falando alto o bastante. Ela só reconheceu a risadinha sedutora de Erin. Shaunee estava tentando decidir se ter curiosidade era a mesma coisa que bisbilhotar quando a voz dele ficou mais alta e ela percebeu que o alvo da risadinha sedutora de Erin era Dallas!

Sentindo uma dor de estômago, Shaunee se aproximou mais.

– Sim, é isso mesmo que estou dizendo. Não consigo tirar você da cabeça, garota. Você sabe o que a água e a eletricidade fazem quando se juntam, não sabe?

Shaunee ficou completamente imóvel, esperando que Erin o chamasse de otário e falasse para ele voltar correndo para a nojenta da Nicole, que era da mesma laia dele; em vez disso, ela sentiu uma dor no estômago quando ouviu Erin responder flertando com ele:

– Relâmpagos... É isso o que a eletricidade e a água fazem. Parece interessante.

– É interessante. Você é interessante. E quente. Você é como uma sauna, garota. Ou como um banho de vapor no qual eu adoraria ficar ensopado.

Shaunee teve que apertar os lábios para evitar dizer “eca” e chamar Dallas de otário ela mesma. Erin ainda tinha que fazer isso. De jeito nenhum ela ia querer nada com Dallas. Ele era um completo idiota. Ele odiava Stevie Rae e Zoey! Stevie Rae disse que ele tinha tentado matá-la! Erin só estava levantando a bola dele para depois detoná-lo e colocá-lo no seu devido lugar.

Shaunee esperou por isso. Nada. Ela não ouviu mais nada. Andando sem fazer barulho, Shaunee se aproximou ainda mais. Provavelmente, Erin tinha ido embora, depois de revirar os olhos e sair andando sem nem se dar ao trabalho de falar para Dallas sumir da frente dela.

Mas Shaunee estava errada. Totalmente errada.

Erin havia se encostado na fonte. A água a estava molhando inteira. Seu cabelo, suas roupas, seu corpo. Dallas a estava encarando como se ele estivesse morrendo de fome e ela fosse uma bisteca suculenta. Erin levantou os braços acima da cabeça, fazendo com que seus peitos marcassem a sua camiseta molhada, que era branca e agora estava totalmente transparente.

– Que tal isto aqui para um concurso de camiseta molhada? – ela perguntou com uma voz toda sexy, fazendo os seus peitos balançarem um pouco.

– Você ganha. É a coisa mais gostosa que eu já vi na vida, garota.

– Eu posso te mostrar algo mais gostoso – Erin disse. Com um movimento rápido, ela tirou a sua camiseta ensopada e desabotoou o seu sutiã de renda.

A respiração de Dallas estava tão ofegante que Shaunee podia até escutar. Ele lambeu os lábios.

– Você estava certa, garota. Isso é mais gostoso.

– E que tal isto? – Erin enganchou os dedões na cintura da sua minissaia xadrez e a tirou. Ela sorriu para Dallas, que ficou olhando para a minúscula tanga de renda que ela ainda estava usando.

– Que tal tirar todo o resto? – a voz de Dallas estava intensa, e ele se aproximou mais dela.

– Parece uma boa ideia. Eu gosto de não vestir nada além de água – Erin tirou a tanga. Agora tudo o que ela estava usando eram suas botas Christian Louboutin. Ela passou a mão com água por todo o seu corpo. – Quer se molhar comigo?

– Não é só isso que eu quero fazer com você – ele sugeriu. – Garota, eu vou abrir as portas de um outro mundo inteiro para você.

– Estou pronta para isso – ela falou de modo sedutor, ainda tocando o próprio corpo. – Porque estou cansada do mundo entediante em que estou vivendo.

– Relâmpagos, garota. Vamos fazer relâmpagos e algumas mudanças.

– Vamos lá! – Erin disse.

Dallas acabou com a distância que ainda havia entre eles. Os dois ficaram tão abraçados e tão concentrados um no outro que Shaunee não teve que se preocupar se eles iriam ouvi-la quando ela saiu correndo, totalmente enojada, com os olhos cheios de lágrimas.

Zoey

– Se vocês não se importam, eu vou até o centro de mídia. Damien acha que posso encontrar alguns livros antigos sobre a Visão Verdadeira na seção de livros de referência, se eu procurar bastante. Provavelmente ele é melhor em pesquisa do que eu, mas sou teimosa – Shaylin afirmou. – Se há algo a ser encontrado, eu vou encontrar.

– Sem problemas – eu falei.

Stevie Rae deu de ombros, dizendo:

– Por mim tudo bem.

Shaylin começou a ir embora, mas fez uma pausa.

– Ei, obrigada por me deixarem ir com vocês falar com Thanatos. E obrigada por ouvirem o que eu tinha a dizer lá. Bem, e me desculpem de novo por aquela coisa com Aphrodite mais cedo.

– Não é comigo que você tem que continuar se desculpando – eu disse.

– É, eu sei, mas acho que você é a única que vai escutar – Shaylin falou, olhando para a direção em que Aphrodite havia saído andando bruscamente.

– Aphrodite vai escutar. Só não muito bem – Stevie Rae opinou. – Você falou bem lá dentro, Shaylin. Gostei do que você disse sobre as cores das pessoas. Acho que você deve se concentrar em seguir o seu instinto sobre o que você vê.

– Hum – Kramisha bufou enquanto se aproximava apressada da gente. – Eu digo que o instinto pode te levar para uma tonelada de problemas.

Eu estava pensando “frase do ano” quando Stevie Rae perguntou:

– O que está rolando, Kramisha?

– São os novatos vermelhos de Dallas. Eles estão agindo como se quisessem ajudar a limpar o estábulo.

Stevie Rae franziu as sobrancelhas. Eu mordi os lábios. Kramisha cruzou os braços e ficou batendo o pé no chão.

– Ajudar é uma coisa ruim? – Shaylin falou em meio àquele silêncio desconfortável.

– O grupo de Dallas tem sido, bem... – eu hesitei, tentando formar uma frase sem o tipo de palavras que eu tentava (bastante) evitar.

Kramisha foi mais rápida do que eu.

– Eles são encrenca.

– Talvez eles estejam tentando mudar – Shaylin sugeriu.

– Eles são encrenca dissimulada – Kramisha acrescentou.

– Nós não confiamos neles – eu expliquei.

– E a gente tem um monte de razões para não confiar neles – Stevie Rae reforçou. – Mas eu tenho uma ideia. Thanatos disse que eu tenho que praticar liderança e Shaylin precisa praticar a coisa da Visão Verdadeira dela. Então vamos fazer as duas coisas – Stevie Rae endireitou as costas e a sua voz deixou de ser doce e do tipo garotinha e passou a ser a voz de uma mulher que soava mais confiante e bem mais velha. – Shaylin, você pode ir até o centro de mídia mais tarde. Agora você vai comigo para o estábulo. Quero que você olhe para as cores dos novatos vermelhos que estão lá e me diga quais deles são mais perigosos.

– Sim, senhora – Shaylin respondeu.

– Ahn, você não precisa me chamar de senhora – Stevie Rae falou rapidamente, soando como ela mesma de novo. – Só me deixar bancar a chefe já é o bastante.

– Você não faz o tipo “chefe mandona” – Kramisha observou.

– Bem, estou tentando fazer – Stevie Rae suspirou e olhou para mim.

Eu sorri para ela.

– Você pode mandar em mim se quiser.

Ela me deu um olhar de surpresa.

– Se alguma vez eu tentar fazer isso, você pode me chamar de salsicha e me falar para bater em mim mesma com pão e mostarda.

Dei risada e então falei:

– Bom, então, se vocês não se importam, eu preciso ficar um tempo sozinha. Quero pensar nessa coisa da pedra da vidência. Mas eu encontro com vocês no estábulo daqui a pouco. Se você virem Stark, digam que estou bem e que logo estarei lá.

– Combinado – Stevie Rae disse.

Observei as três se afastarem. Consegui ouvir Kramisha perguntar qual era a sua cor para Shaylin e, antes que a garota pudesse responder, ela já estava falando que a cor dela não podia ser laranja de jeito nenhum porque ela não gostava de laranja. Shaylin parecia confusa, mas interessada. Stevie Rae parecia pensativa e determinada, como se estivesse tentando refletir por fora a liderança em que ela estava trabalhando por dentro.

E eu? Imagino que, se você colocasse um espelho na minha direção, eu pareceria confusa e cansada e veria que o meu rímel estava empelotando e o meu cabelo estava ficando cheio de frizz.

Eu queria ir com as minhas amigas ajudar a arrumar o estábulo. Eu queria encontrar Stark e queria que ele segurasse a minha mão e ficasse rindo de mim por eu me preocupar demais e por procurar no Google sobre sintomas de doenças. Mais do que tudo, eu queria esquecer sobre aquela pedra da vidência idiota em volta do meu pescoço e me concentrar em algo que fizesse mais sentido, como novatos vermelhos detestáveis ou lição de casa. Mas eu sabia que Thanatos estava certa. Nós iríamos precisar de todos os nossos dons para ter chance de pelo menos manter as Trevas em xeque. Então, em vez de seguir minhas amigas, tomei um caminho diferente. Limpei a minha mente o máximo que eu podia e deixei que meus instintos me guiassem. Então, quando ficou óbvio aonde os meus pés estavam me levando, sussurrei:

– Espírito, por favor, venha para mim. Ajude-me a não ter tanto medo – o elemento com o qual eu ficava mais confortável suavizou o meu medo, então na hora em que eu estava diante do carvalho despedaçado foi como se as minhas emoções estivessem envoltas em um cobertor macio e quentinho.

Eu precisava daquele cobertor confortável. Aquele lugar me assustava. A professora Nolan tinha sido assassinada ali. Stevie Rae quase havia sido morta ali. Kalona surgira rasgando a terra ali. Jack, o pobre e doce Jack, morrera ali.

O meu instinto tinha me levado até lá. E o pior de tudo era que a minha pedra da vidência começou a irradiar calor.

É, como Kramisha disse, seguir o seu instinto pode causar uma tonelada de problemas, eu pensei. Suspirei e admiti a verdade que a minha intuição havia seguido: se havia magia antiga na Morada da Noite, aquele era um lugar excelente para ela se esconder. Sgiach me contara que a magia antiga era poderosa. Ela também era imprevisível e perigosa. Eu me lembrei dela explicando que o modo como a magia antiga se manifestava tinha muito a ver com a Sacerdotisa que a invocava.

Então, o que aquilo significava para mim? Que tipo de Sacerdotisa eu estava me tornando?

Suspirei. Uma porcaria de Sacerdotisa confusa que não tinha dormido o suficiente.

Uma com potencial – o pensamento vagou pela minha mente.

Uma que não sabe o bastante, contra-argumentei mentalmente.

Uma que precisa acreditar em si mesma, o vento sussurrou para mim.

Uma que precisa parar de fazer besteira, minha mente insistiu.

Uma que precisa acreditar na sua Deusa.

E aquilo parou com a minha batalha mental.

– Eu acredito de verdade em você, Nyx. Sempre vou acreditar – decididamente, tirei a pedra da vidência quente que estava embaixo da minha camiseta, respirei fundo e a levantei, olhando através do pequeno buraco, tipo aquele furo de pastilhas Life Savers, para o carvalho despedaçado.

Por um segundo, nada aconteceu. Franzi os olhos, e o carvalho continuou sendo apenas uma velha árvore quebrada. Comecei a relaxar e, como de costume, foi então que o caos começou.

Do centro do tronco partido emergiu um redemoinho terrível e feio de sombras rodopiantes. Dentro daquele turbilhão eu vi criaturas horríveis com os corpos retorcidos, cobertos com uma pele manchada, como se estivessem apodrecendo de doenças nojentas. Os olhos deles eram cavidades profundas. As suas bocas eram costuradas. Eu podia sentir o cheiro deles. Era como o fedor de animais atropelados misturado ao cheiro de privada entupida. Eu tive ânsia e devo ter feito barulho de vômito, pois o grupo voltou seus rostos cegos para mim. Os seus dedos longos e esqueléticos se estenderam na minha direção.

– Não! Parem! – gritei. O conforto do espírito tinha se quebrado. Eu estava paralisada de medo.

E então, bem do meio do redemoinho, brilhou uma luz bonita, com a cor da lua cheia, reduzindo aquelas criaturas horrendas a nada e fazendo com que eu caísse sobre o meu traseiro. Soltei a pedra da vidência, cortando a minha ligação com a magia antiga. Num piscar de olhos, enquanto eu arfava, a árvore se tornou a árvore de novo. Velha e assustadora, mas mundana e quebrada.

Sem me importar com Thanatos ou ordens da Morte, levantei cambaleante e corri feito louca.

– Eu não sou louca. É a minha vida que é louca. Eu não sou louca. É a minha vida que é louca... – entre suspiros ofegantes, eu repetia as palavras para mim mesma como um mantra, sem parar, tentando voltar ao meu estado normal, ao meu centro, ou pelo menos a algum estado de calma, mas o meu coração estava batendo tão alto que eu podia ouvi-lo e não conseguia controlar a respiração. Ataque do coração, pensei. Esse nível de loucura é demais para mim e estou tendo um ataque do coração.

Foi então que percebi que eu não conseguia controlar a respiração e o meu coração estava batendo loucamente porque eu ainda estava correndo, e mãos fortes e familiares me agarraram, fazendo com que eu parasse abruptamente. Como uma garotinha, desabei em cima de Stark, tremendo e batendo os dentes.

– Zoey! Você está ferida? Quem está atrás de você? – Stark me manteve grudada nele, enquanto ele me virava para olhar a escuridão atrás de mim. Eu o abracei e senti que ele estava carregando seu arco e seu estojo de flechas sobre o ombro. Ele irradiava aptidão e presteza. Mesmo através do meu pânico, a presença dele me acalmou. Eu engoli o ar, balançando a cabeça.

– Não, eu estou bem. Estou bem.

Ele me segurou pelo ombro, à distância do seu braço esticado, olhando meu corpo de cima a baixo, como se estivesse procurando por ferimentos.

– O que aconteceu? Por que você estava apavorada, correndo feito uma louca?

Franzi a testa para ele.

– Eu não sou uma louca.

– Bem, você estava correndo como se fosse. E aqui dentro – ele pressionou um dedo contra o meu peito, sobre o meu coração que se acalmava – você estava se sentindo como se tivesse levado uma pancada.

– Magia antiga.

Ele arregalou os olhos.

– O touro?

– Não, não, nada disso. Eu olhei através da pedra da vidência para a árvore. Você sabe, aquela árvore, perto do muro leste.

– E por que diabos você faria isso?

– Porque Thanatos me disse que eu precisava praticar com a maldita pedra da vidência, para o caso de ela poder ser usada de algum modo na luta contra Neferet.

– Então você viu algo que veio atrás de você?

– Bem, não. Sim. Mais ou menos. Eu vi umas coisas assustadoras dentro de algo que parecia um tornado girando para cima, saindo do meio da árvore. Stark, eles eram a coisa mais nojenta que já vi na vida. E eles tinham um cheiro ruim. Muito, muito ruim. Na verdade, eu quase vomitei por causa do fedor. Tive uma ânsia de vômito, e foi quando repararam em mim, mas antes que pudessem fazer qualquer coisa uma luz brilhante acabou com eles – fiz uma pausa, tentando pensar em meio ao meu pânico. – Na verdade, a luz salvadora era tipo aquela luz de fada da Sookie. Você acha que existe alguma chance de eu ser uma fada?

– Não, Z. Foco. True Blood é ficção. Isto aqui é o mundo real. O que aconteceu depois dessa luz?

– Não sei. Eu corri – olhei em volta de nós e percebi que eu havia corrido todo o caminho pelo lado de dentro do muro e que eu estava quase no estábulo. – Eu realmente corri bastante.

– E?

– E nada. Exceto que você me agarrou. Deusa, eu achei que estava tendo um ataque do coração.

– Então você ficou assustada. É só isso?

Franzi a testa para ele de novo. A voz dele era gentil, mas a sua expressão estava tensa, como se ele estivesse tentando decidir se me sacudia ou me beijava.

– Bem – eu disse devagar. – Sim, mas eu fiquei realmente assustada.

As mãos dele, que estavam segurando os meus ombros, me deram um enorme e apertado abraço de urso. Senti o corpo dele relaxar. Ele soltou um longo suspiro que terminou com uma risadinha.

– Você me assustou pra caramba, Z.

– Desculpe – eu murmurei contra o peito dele, envolvendo-o com os meus braços e apertando-o também. – Obrigada por me encontrar e por estar totalmente pronto para me salvar.

– Você não tem por que se desculpar. Eu sou o seu guerreiro, o seu Guardião. É o meu trabalho salvar você. Apesar de você ser muito boa em se salvar sozinha.

Eu me inclinei para trás para poder olhar nos seus olhos.

– Eu sou um trabalho?

Ele deu aquele seu meio sorriso metidinho.

– De tempo integral. Totalmente. E sem benefícios nem folgas.

– Sério?

– Ok, não – o sorriso dele se alargou. – Eu me lembro de ter tirado uns dias de repouso quando uma flecha me queimou e mais alguns dias quando um escocês louco me retalhou. Então, eu retiro o que disse. Eu tenho alguns benefícios. Só que são bem poucos.

– Você está demitido! – tive vontade de dar um tapa em Stark, mas eu não queria tirar os meus braços dos ombros dele.

– Você não pode me demitir. Assinei um contrato vitalício – o sorriso de Stark despareceu dos seus lábios, mas continuou nos seus olhos. – Você é minha Sacerdotisa, minha rainha, mo bann ri. Eu nunca vou deixá-la. Sempre vou protegê-la. Eu amo você, Zoey Redbird – ele se inclinou e me beijou com tanta ternura que eu senti a verdade do seu compromisso no fundo da minha alma.

Quando os seus lábios finalmente deixaram os meus, levantei os olhos para ele.

– Eu também amo você. E você sabe que não precisa ter ciúmes de um cara morto, certo?

Ele tocou o meu rosto.

– Certo. Desculpe pela noite passada.

– Tudo bem. E, ahn, por falar nisso... Há algo que você precisa saber.

– O quê?

Respirei fundo e falei de uma vez:

– Na noite passada, no final do ritual, eu olhei através da pedra da vidência para Aurox e vi Heath. Foi por isso que eu não deixei que você e Darius o ferissem.

Senti a tensão no corpo de Stark disparar para o nível “Perigo! Alerta Vermelho!”.

– Foi por isso que você estava chamando por Heath durante o sono na noite passada? – ele soou mais magoado do que irritado.

– Não. Sim. Eu não sei! Eu falei a verdade. Não lembro com o que eu estava sonhando, mas faz sentido que Heath estivesse na minha mente depois de eu tê-lo visto quando olhei para Aurox.

– Aquela coisa feito touro não é Heath. Como você pode pensar isso?

– Não é que eu esteja pensando isso. É o que eu vi.

– Zoey, olha só, tem que haver uma explicação para o que você viu – ele deu um passo para trás. Meus braços se soltaram do seu ombro.

– É por isso que Thanatos quer que eu pratique mais essa coisa de olhar através da pedra da vidência, para que eu possa descobrir como isso funciona – eu me senti com frio e sozinha sem os braços dele em volta de mim. – Stark, eu sinto muito. Eu não quis ver Heath em Aurox. Eu não quero ver nem dizer nem fazer nada que machuque você. Nunca – eu estava piscando com força, tentando evitar explodir em lágrimas.

Stark passou a mão pelos seus cabelos.

– Z., por favor, não chore.

– Eu não estou chorando – eu disse, e então dei um pequeno soluço e enxuguei uma lágrima que de algum modo tinha escapado do meu olho.

Stark enfiou a mão no bolso da sua calça jeans e pegou um lenço de papel amassado. Ele se aproximou mais de mim de novo e enxugou a segunda lágrima que estava seguindo a primeira lágrima fugitiva. Então ele me beijou docemente e me entregou o lenço, puxando-me de volta para os seus braços.

– Não se preocupe, Z. Heath e eu ficamos em paz no Mundo do Além. Eu ficaria feliz em vê-lo de novo.

– Sério? – eu tive que me afastar um pouco do seu abraço para assoar meu nariz.

– Bem, sim. Feliz por vê-lo de novo, mas não tão feliz por você vê-lo de novo – a sinceridade dele arrancou um sorriso de nós dois. – E eu sei que você não me magoaria de propósito. Mas, Z., aquela coisa tipo touro não é Heath.

– Stark, eu soube que Aurox tinha alguma coisa a ver com magia antiga desde a primeira vez em que o vi. Ele fez com que eu me sentisse completamente estranha – eu odiava contar isso a ele, mas Stark merecia nada menos do que honestidade de minha parte.

– É claro que ele fez com que você se sentisse estranha. Ele é uma criatura das Trevas! E, sim, ele é magia antiga. Ele foi criado pelo tipo mais horrível dessa merda quando Neferet matou a sua mãe como sacrifício. Eu ficaria preocupado se ele não fizesse você se sentir estranha.

Soltei um longo suspiro.

– Bem, acho que isso realmente faz sentido.

– Sim, e aposto que, se a gente trabalhar junto, nós vamos descobrir por que a pedra mostrou Heath a você na noite passada – ele disse e eu apenas mordi o lábio. Então ele continuou, como se estivesse raciocinando em voz alta. – Pense nisso, Z. O que mais você viu através da pedra?

– Bem, em Skye eu vi aqueles duendes antigos, os elementais.

– Eles eram parecidos com as coisas que você viu hoje?

Encolhi os ombros.

– Não, de jeito nenhum. Os elementais eram sobrenaturais, misteriosos, estranhos, mas no bom sentido. O que eu vi hoje foi grotesco e assustador.

– Ok, exceto por agora na árvore e pela noite passada no ritual, a pedra da vidência mostrou a você mais alguma coisa desde que nós voltamos da Itália?

Eu encontrei o olhar dele.

– Sim. Você.


11 Zoey

– Eu? Z., o que você disse não faz o menor sentido – Stark falou.

– Eu sei, eu sei. Desculpe. É que eu me senti meio como se estivesse espionando você quando fiz isso porque você estava dormindo, e eu só fiz isso porque foi na época em que você estava tendo problemas para dormir, e na verdade foi mais uma coisa acidental, então eu nunca disse nada para você, e agora parece como se eu tivesse inventado tudo isso – terminei apressadamente.

– Zoey, eu posso ouvir as suas emoções. Isso é muito mais “espionagem” do que você olhar para mim através de uma pedra enquanto estou dormindo. Além do mais, você está certa. Meu sono realmente tem aumentado. Eu não a culpo por dar uma conferida em mim com a pedra. Apenas me conte o que você viu.

– Eu vi uma sombra em cima de você. Eu me lembro de pensar que parecia um guerreiro fantasma. Você abriu a sua mão e a espada do Guardião apareceu. Então a sombra-fantasma a segurou e ela se transformou em uma lança. Achei que ela estava ensanguentada. Aquilo me assustou, então chamei o espírito e ele afugentou aquela coisa. Você acordou e nós, ahn... – senti meu rosto esquentar. – Bem, nós fizemos amor e eu me esqueci disso.

– Z., gosto de pensar que eu sou bom de cama e tal, mas, mesmo assim, como você pode esquecer de ter visto um cara-fantasma com uma lança pairando em cima de mim?

– É sério, Stark. Logo depois disso começou o que Stevie Rae chamaria de um fuzuê danado aqui na Morada da Noite. Eu estava ocupada – cruzei os braços e olhei intensamente para ele. – Espere aí, eu não me esqueci totalmente disso. Eu contei para Lenobia sobre o cara da sombra.

– Ótimo, então uma professora sabe, mas eu não sabia.

– Agora você sabe.

– Bom, e o que Lenobia falou sobre isso?

– Basicamente, ela me disse para manter os meus olhos bem abertos aqui no mundo real em vez de ficar olhando embasbacada através da pedra, que foi o que eu fiz até a noite passada quando eu vi Heath – falei.

– Olhe para mim através da pedra de novo.

– Agora?

– Agora.

– Ok – levantei a pedra da vidência, respirei fundo e olhei através dela para Stark.

– E então? Que tal eu estou?

– Mal-humorado.

– E?

– Irritante.

– Nada mais?

– Talvez um pouco fofo. Mas apenas talvez – coloquei a pedra de volta embaixo da minha camiseta. – Simplesmente apenas você. Não achei mesmo que eu fosse ver nada. A pedra não estava quente.

– Ela fica quente?

– Sim, às vezes – mordi o lábio e pensei sobre isso. – Na verdade, foi por isso que eu olhei através dela para você da primeira vez. Ela tinha esquentado.

– A pedra estava quente quando você olhou através dela para Aurox? – ele perguntou.

– Não, mas eu sabia que tinha que olhar através dela. Foi como se eu me sentisse compelida a fazer isso – respondi. – E ela já tinha esquentado antes, quando Aurox estava por perto.

– Maldita magia antiga. Isso é um pé no saco – ele reclamou. – Podia pelo menos existir um manual com as regras da pedra descritas em algum lugar, mas não.

– Eu posso ligar para Sgiach. Quero dizer, ela me deu a pedra. Ela lida com magia antiga. Talvez ela possa me dar algumas orientações.

Ele bufou.

– Você não pediu isso a ela em Skye?

– Sim – eu disse.

– Se eu me lembro bem, ela não deu nenhuma resposta concreta.

– Você está certo. Ela falou inclusive que achava que a única magia antiga que ainda existia neste mundo estava em Skye.

– Ela estava errada – Stark afirmou.

– Sim, definitivamente.

– Quer saber o que eu acho?

Stark chegou mais perto de novo e colocou o seu braço em volta de mim. Encostei minha cabeça no ombro dele, deslizei o meu braço ao redor da sua cintura e falei:

– Que eu sou louca?

Ele abriu um sorriso e beijou minha testa.

– Você não é só louca. Você é muito louca. Caramba, Z., você é totalmente louca. Mas eu gosto de um pouco de loucura.

– Agora você pareceu a Stevie Rae – nós sorrimos um para o outro, mais relaxados, apoiados nas bases do nosso relacionamento: o nosso compromisso e a nossa crença um no outro. – Então, o que você ia dizer? O que você acha disso tudo?

– Eu acho que estou cansado de decidir o que fazer por causa do que os outros dizem. Especialmente adultos que nos entregam enigmas ou que nos largam no meio de uma tempestade de merda sem nos dar nenhuma ajuda de verdade – ele disse.

– Sim, eu entendo isso. Eu me senti assim quando Neferet ficou louca e eu era a única que sabia disso.

– Ok, então vamos decifrar essa coisa de magia antiga por nós mesmos. Z., você tem afinidade com todos os cinco elementos. Ninguém consegue nem se lembrar da última vez em que isso aconteceu com outra pessoa. Você é um tipo diferente de novata, um tipo diferente de Grande Sacerdotisa. Você é uma jovem rainha guerreira, e eu sou o seu Guardião. Juntos, não há nada que nós não possamos enfrentar – o seu sorriso metidinho estava de volta. – Nós combatemos no Mundo do Além e vencemos.

– É, exceto pela parte em que você morreu e tal – eu o lembrei.

– Só um pequeno detalhe. No fim deu tudo certo.

Eu o abracei, pressionando o meu corpo contra o seu dorso forte.

– Deu tudo mais do que certo.

Ele me beijou e eu extraí força do seu gosto, do seu toque e do seu amor. Talvez Stark estivesse certo. Talvez não existisse nada que nós não pudéssemos enfrentar. Suspirei de alegria e me aconcheguei no peito dele.

– Vamos para o estábulo – Stark indicou com o queixo o prédio comprido que não estava longe de nós.

– Sim, acho que devemos ir. Aposto que Erin está lá. Até daqui eu posso ver que parece tudo encharcado.

– Na verdade, já faz um tempo que não vejo Erin – Stark encolheu os ombros. – Talvez porque o estábulo esteja realmente muito melhor do que você imagina. A maior parte dos danos foi a fumaça. Só o que realmente queimou foram uma baia e um fardo de feno e forragem.

– Persephone está bem, certo? – Entrelaçando os meus dedos aos dele, nós começamos a caminhar devagar em direção ao estábulo, deixando os nossos braços e quadris roçarem um contra o outro.

– Ela está bem. Todos os cavalos estão bem. Bem, menos Bonnie. Ela está muito nervosa. Lenobia a colocou junto com Mujaji para acalmá-la. Aparentemente as duas se dão bem. O que me faz lembrar que vários novatos disseram que viram Lenobia beijando Travis antes de os paramédicos o levarem embora – Stark contou.

Meus olhos se arregalaram.

– Sério? Mal posso esperar até Aphrodite e Stevie Rae saberem disso!

Stark riu.

– Stevie Rae já soube por Kramisha, que está contando para todo mundo – ele me cutucou com o seu ombro. – Todo esse tempo que você passou na árvore fez com que você perdesse uma boa fofoca.

Levantei os olhos para ele, confusa.

– Todo esse tempo? Eu só fiquei lá por tipo um minuto.

Stark parou.

– Que horas você acha que são agora?

Dei de ombros.

– Sei lá. Eu teria que olhar no meu telefone, mas nós fomos até a sala de Thanatos às sete e meia. Ficamos lá provavelmente meia hora ou menos, então agora deve ser no máximo oito e meia.

– Zoey, são onze e meia. Nós só temos tempo para encontrar todo mundo no estábulo e ir até a pira funerária de Dragon.

Fiquei gelada por dentro.

– Stark, eu perdi mais de três horas!

– Sim, você perdeu, e eu não gosto nada disso. Prometa que você não vai olhar através dessa maldita pedra de novo, a menos que eu esteja com você.

Eu estava apavorada o bastante para não discutir com ele.

– Prometo. Dou minha palavra a você. Eu não vou olhar através dessa coisa a não ser que eu esteja com você.

Os ombros dele relaxaram e ele me deu um beijo rápido.

– Obrigado, Z. Algo que pode roubar tempo de você não é nada bom – ele deu ênfase especial às duas últimas palavras. – Eu sei que Sgiach disse que a magia antiga pode ser boa ou má, mas não faz diferença se ela chega sem avisar.

– Eu sei. Eu sei – a gente tinha começado a andar de novo, mas eu continuei segurando firme a mão dele. – Não me espanta que eu tenha me sentido como se fosse ter um ataque do coração. Eu fiquei parada ali, encarando aquelas coisas nojentas e fedidas por horas – encolhi os ombros.

– Está tudo bem. A gente vai decifrar essa magia antiga toda. Eu não vou deixar que nada aconteça com você.

Stark apertou minha mão e eu apertei a dele de volta. Eu queria acreditar nele. Eu realmente acreditava nele, na sua força e no seu amor. Era com o outro lado que eu estava preocupada. O lado desconhecido em que as Trevas estavam firmemente plantadas, que continuava espreitando e derrubando as pessoas que eu amava.

Fiquei pensando em como eu não queria perder mais ninguém quando aquela pedra da vidência idiota começou a esquentar. Eu parei, fazendo com que Stark parasse abruptamente comigo também. Pressionei a minha mão sobre o ponto quente no meu peito.

– O que foi? – ele perguntou.

– Está esquentando.

– Por quê?

– Stark, eu não tenho ideia. Você deveria me ajudar a decifrar isso, lembra?

– Ok, sim. Certo. Nós podemos fazer isso – ele começou a olhar em volta. – Então, vamos decifrar isso.

– Como?

– Bom, eu estou pensando – ele disse.

Suspirei e tentei pensar também. A gente havia parado embaixo de uma das grandes árvores bem próximas ao lado leste do estábulo. Levantei os olhos rapidamente, preocupada com coisas sem olhos e bocas costuradas à espreita. Mas não havia nada acima de nós. Na verdade, tudo estava em paz ao nosso redor. Tudo o que eu conseguia pensar era que não havia nada para pensar. Algumas vozes chegavam até nós do estábulo e eu podia ouvir equipamentos e outras coisas em funcionamento, como tratores e máquinas sendo usados para retirar o entulho e limpar os destroços. Escutei o som de outro motor, vindo de algum lugar atrás de nós e se aproximando.

– Que estranho – Stark comentou, olhando por sobre o meu ombro. – Táxis não costumam vir aqui.

Segui o olhar dele e vi o carro velho e marrom, com a palavra “TÁXI” escrita em letras pretas na sua lateral. Stark estava certo. Era superestranho ver um táxi na Morada da Noite. Que inferno, Tulsa não era exatamente conhecida por seu maravilhoso serviço de táxis. Dei de ombros mentalmente – o bonde do Centro da cidade era mais legal mesmo.

Então Lenobia saiu pela porta lateral do estábulo e praticamente correu até o carro. Ela abriu a porta traseira e se abaixou para ajudar o cowboy alto e enfaixado a descer do veículo. O táxi foi embora. Travis e Lenobia apenas ficaram parados ali, olhando um para o outro.

Minha pedra da vidência estava tão quente que parecia que ia queimar a minha camiseta e abrir um buraco nela. Eu a tirei e a segurei longe da minha pele. Mas não disse nada. Stark e eu estávamos muito ocupados olhando Travis e Lenobia. Eles não estavam muito perto de nós, mas mesmo assim parecia uma invasão de privacidade ficar ali olhando para eles ­– apesar de a gente continuar ali, olhando embasbacados para os dois.

Então caiu a ficha. Cutuquei o braço de Stark e falei em voz baixa:

– A pedra ficou superquente assim que Travis saiu do táxi.

Stark desviou os olhos de Travis e Lenobia, voltou-se para a pedra e depois para mim. Ele colocou uma mão firme no meu ombro e disse:

– Vá em frente. Olhe através da pedra para ele. Eu estou aqui com você. Não vou deixar que nada aconteça com você. Se alguma coisa tentar sugar o seu tempo, eu vou detê-la.

Eu assenti e, como se arrancasse um band-aid com um movimento rápido, levantei a pedra da vidência, enquadrando Travis e Lenobia dentro do seu círculo.

No começo, foi como tinha acontecido na árvore: a minha visão dos dois permaneceu exatamente a mesma. Observei Lenobia passando as mãos nervosamente sobre as mãos enfaixadas de Travis. Elas pareciam grandes luvas brancas, e eu reparei que a gaze chegava até o antebraço dele. Mesmo de onde estávamos, o rosto dele estava anormalmente vermelho e brilhante, como se ele tivesse se queimado muito no sol e tivesse passado um gel pós-sol. Mas não parecia que ele estava sentindo dor. Ele estava sorrindo. Muito. Para Lenobia. Eu estava quase largando a pedra e me preparando para dizer a Stark que eu era de fato totalmente louca, quando Travis se inclinou e beijou Lenobia.

Então tudo mudou. Houve um brilho tão forte que me fez piscar e, quando minha visão clareou, Travis tinha desaparecido. No lugar dele estava um cara negro, jovem e realmente bonito. Ele tinha cabelo comprido, que estava puxado para trás em um rabo de cavalo baixo, e ombros tão largos que parecia um linebacker. Ele estava beijando Lenobia como se fosse o último beijo dele no mundo. E ela o estava beijando de volta, só que era uma Lenobia diferente. Ela parecia jovem, como se tivesse apenas uns dezesseis anos. Ela o envolveu com os seus braços como se nunca mais fosse soltá-lo. Em toda a volta deles, o ar ondulava e tremeluzia, como se eu os estivesse observando por trás de uma panela efervescente. Só que, em vez do vapor subindo, eu juro que havia duendes de felicidade azul-turquesa esvoaçando ao redor deles. A felicidade cresceu dentro de mim e começou a borbulhar, como se a panela fosse a minha cabeça e a água, as minhas emoções. O chão sumiu de debaixo dos meus pés. Eu estava flutuando em alegria, amor e bolhas azuis.

Então minha cabeça ficou realmente zonza e o meu estômago, totalmente rebelde.

– Zoey! Chega! Abaixe a pedra agora!

Percebi que Stark estava gritando comigo e puxando a pedra da vidência. Senti a terra embaixo dos meus pés de novo. As bolhas azuis evaporaram e a alegria se foi, deixando-me enjoada, exausta e supertrêmula. Soltei a pedra da vidência a tempo de me abaixar e vomitar ao lado da árvore.

– Você está bem. Estou aqui com você, Z. Está tudo bem – Stark estava segurando o meu cabelo para trás enquanto eu continuava a vomitar e a botar minhas tripas para fora.

– Stark? Zoey? – Lenobia estava vindo na nossa direção, soando ofegante e preocupada. Eu ouvi Travis logo atrás dela, perguntando o que havia de errado. Mas eu não consegui responder. Eu estava muito ocupada vomitando. – Zoey! Ah, Deusa, não! – a preocupação de Lenobia disparou quando ela percebeu que eu estava vomitando.

– Ela não está rejeitando a Transformação. Ela está bem – Stark a tranquilizou enquanto eu pegava outro lenço de papel que ele tinha me oferecido e enxugava a boca. Quando finalmente parei de vomitar, eu me encostei na árvore, envergonhada e desconfortável. Eu realmente detestava vomitar.

– Então o que aconteceu? Por que você está enjoada?

Com Stark de um lado e Lenobia de outro, eles me guiaram até um banco de ferro forjado que não estava muito longe da árvore grande (mas longe o bastante para que ninguém sentisse o cheiro do meu vômito, eca).

– Vocês querem que eu chame alguém? – Travis perguntou.

– Não – respondi rapidamente. – Eu estou bem. Vou ficar melhor agora que estou sentada – olhei para Stark com ar de interrogação.

Ele assentiu.

– Seja o que for que você tenha visto, conte para ela. Nós confiamos nela.

Eu me voltei para Lenobia.

– E você confia em Travis?

– Com a minha vida – ela não hesitou.

O cowboy grandão sorriu e se aproximou mais dela. Os ombros deles se tocaram.

– Ok, o que aconteceu é que a minha pedra da vidência começou a esquentar. Quando Travis saiu do carro, ela ficou realmente quente. Stark estava aqui, então nós decidimos que eu deveria olhar através dela, bem, para vocês, e ver se isso poderia me ajudar a começar a entender o que ela me mostra. Então eu olhei através dela para vocês dois.

– Pedra da vidência? – Travis perguntou. Ele não soou nem um pouco assustado, apenas curioso.

– É um amuleto de magia antiga dado a Zoey por uma rainha vampira ancestral – Lenobia explicou. – E o que você viu?

– Bem, nada demais até que vocês dois se beijaram – eu sorri encabulada. – Desculpe por ficar olhando vocês se beijarem.

Travis sorriu e colocou um braço enfaixado em volta do ombro de Lenobia.

– No que depender de mim, mocinha, você vai me ver beijando esta bela garota aqui muitas vezes.

Esperei que Lenobia o fuzilasse com o seu olhar mortal. Em vez disso, ela levantou os olhos com adoração para ele, colocou a mão sobre o peito dele em cima do coração e encostou a cabeça cuidadosamente sobre o seu ombro. Então ela repetiu:

– O que você viu enquanto estávamos nos beijando?

– Travis se transformou em um cara negro grandão e você virou uma versão mais jovem de si mesma. E ao redor de vocês havia umas coisinhas borbulhantes, felizes e azuis. Tenho certeza de que eram duendes de algum tipo – arregalei os olhos. – Na verdade, agora que estou pensando nisso, aquelas bolhas me lembram o mar. Hum. Estranho. Enfim, fiquei totalmente capturada pela cena, como se eu tivesse saído do chão e estivesse em uma bolha azul e feliz do oceano. Desculpe. Eu sei que isso parece loucura – prendi a respiração, esperando Lenobia cair na risada e Travis começar a zombar de mim.

Mas eles também não fizeram isso. Em vez disso, Lenobia começou a chorar. Eu quero dizer chorar para valer. Ela caiu naquele choro convulsivo e cheio de catarro em que eu sou especialista. Travis apenas a abraçou mais forte. Ele abaixou os olhos para Lenobia como se ela fosse um milagre personificado.

– Eu já conheci você antes. É por isso que, com você, eu me sinto como se estivesse em casa.

Lenobia assentiu. Então, em meio às suas lágrimas, ela contou:

– Travis é o meu único companheiro humano, meu único amor, que voltou para mim depois de duzentos e vinte e quatro anos. Eu jurei nunca amar ninguém depois dele e não amei. Nós nos conhecemos e nos apaixonamos no mar, no navio que nos levou da França para Nova Orleans.

– Então a pedra da vidência me mostrou a verdade?

– Sim, Zoey. Com certeza absoluta – Lenobia disse antes de afundar o rosto no peito de Travis e chorar, enquanto ele a abraçava, deixando para trás dois séculos de espera, saudade e dor.

Eu me levantei e peguei a mão de Stark de novo, puxando-o para longe para que os dois pudessem ficar sozinhos. Enquanto entrávamos no estábulo, ele disse:

– Isso não significa que Aurox é Heath que voltou para você. Você sabe disso, certo?

Stevie Rae me salvou ao chegar apressada, falando efusivamente:

– Aiminhadeusa! Por onde você andou? Mal posso esperar para contar a você sobre Lenobia e Travis!

– Já vi esse filme antes – Stark falou. – Onde estão Darius e Aphrodite?

– Eles já estão na frente do Templo de Nyx, na pira funerária – Stevie Rae respondeu. – Nós vamos encontrar com eles já, já.

– Vou procurar Erin, Shaunee e Damien. A gente tem que ir.

– O que há com ele? – Stevie Rae perguntou, olhando Stark se afastar dando passos firmes.

– Heath pode estar realmente dentro de Aurox.

Stevie Rae ecoou exatamente meus pensamentos, dizendo:

– Ah, que inferno!


12 Kalona

Estar do lado da Luz não era tão interessante quanto ele se lembrava. Verdade seja dita, Kalona estava entediado. Sim, Kalona entendia por que Thanatos havia dito a ele para ficar em segundo plano e não chamar atenção para si mesmo até depois do funeral de Dragon. Era nessa hora que ela ia anunciar para a escola que ele era o seu novo guerreiro e que ele ia assumir o posto de Mestre da Espada e líder dos Filhos de Erebus da Morada da Noite de Tulsa. Até esse momento, a presença dele poderia ser algo confuso, se não insultuoso aos olhos dos outros guerreiros.

O problema é que Kalona nunca havia se preocupado por parecer insultuoso. Ele era um imortal poderoso. Por que ele deveria se importar com os sentimentos irrelevantes dos outros?

Porque aqueles que eu julgo mais irrelevantes às vezes me surpreendem: Heath, Stark, Dragon, Aurox, Rephaim. O último nome da sua lista mental o alarmou. Rephaim já pareceu sem importância para ele um dia, mas ele estava errado. Kalona tinha percebido que ele amava e precisava do seu filho.

Em que mais ele havia errado?

Provavelmente em um monte de coisas.

Esse pensamento o deixou deprimido.

Ele andou de um lado para o outro pelo lado mais escuro e cheio de sombras do Templo de Nyx. Ali ele estava perto o bastante da pira de Dragon para ouvir quando Thanatos o chamasse, mas ao mesmo tempo estava fora do campo de visão.

O fato de alguém dizer a ele o que deveria fazer o irritava. Isso sempre o irritara.

E havia aquela novata que tinha afinidade com o fogo, Shaunee. Ela parecia ter a habilidade de incitá-lo, de fazê-lo pensar em coisas em que ele não estava acostumado a perder tempo pensando.

Ela já havia feito isso antes. Ele havia tido a intenção de manipulá-la, para conseguir informações sobre Rephaim e a Vermelha. Mas o que havia acontecido era que ela o tinha presenteado com algo ridiculamente mundano e simples: um telefone celular. Aquele pequeno presente tinha salvado a vida do seu filho.

Agora ela o fizera pensar em todos aqueles éons que ele havia passado afastado de Nyx.

– Não! – ele falou a palavra em voz alta, fazendo que o pequeno bosque de olaias que estavam plantadas no lado oeste do Templo de Nyx chacoalhasse como se uma tempestade as ameaçasse. Kalona se concentrou e controlou o seu temperamento. – Não – ele repetiu usando uma voz que não estava mais repleta de poder sobrenatural. – Eu não vou pensar nos séculos que passei afastado dela. Não vou pensar nela de jeito nenhum.

Uma gargalhada soou ao redor dele, fazendo as olaias se mexerem, tremularem e então explodirem em plena floração, como se um facho da luz do sol do verão tivesse subitamente iluminado as árvores. Kalona cerrou os punhos e levantou os olhos.

Ele estava sentado no beiral de pedra do templo. Havia pouca luz naquele lado do edifício, motivo pelo qual Thanatos havia ordenado que ele esperasse ali, mas Erebus irradiava luz própria.

Erebus... seu irmão... o Consorte imortal de Nyx. O único ser do universo que era mais parecido com ele, e o único ser do universo que ele detestava mais do que a si mesmo. Ali! No reino mortal depois de todos esses éons? Por quê?

Kalona mascarou o seu choque com desdém.

– Você é mais baixo do que eu me lembrava.

Erebus sorriu.

– Que bom ver você de novo também, irmão.

– Como sempre, você coloca palavras da minha boca.

– Desculpe. Eu não preciso fazer isso. Não quando as suas próprias palavras são tão interessantes. “Não vou pensar nela de jeito nenhum” – Erebus não apenas era quase uma imagem espelhada de Kalona, como também imitava a voz de seu irmão perfeitamente.

– Eu estava falando de Neferet – Kalona rapidamente organizou seus pensamentos e mentiu com facilidade. Fazia éons, mas ele costumava ser bom em mentir para o seu irmão. Kalona achou que ainda levava jeito para a coisa.

– Não duvido de você, irmão – Erebus se inclinou para a frente, abriu suas asas douradas e planou graciosamente até o chão diante de Kalona. – Veja só, esse é exatamente o motivo da minha pequena visita.

– Você veio até o reino terreno porque eu era amante de Neferet? – Kalona cruzou os braços sobre o seu peito largo e encontrou o olhar âmbar de seu irmão.

– Não, eu vim porque você é um mentiroso e um ladrão. O estupro da última bondade de Neferet é apenas mais um de seus muitos crimes – Erebus disse. Ele também cruzou o braço sobre o peito.

Kalona deu uma gargalhada.

– Você não andou espionando muito bem se acha que estupro tem algo a ver com o que Neferet e eu compartilhamos. Ela estava mais do que desejosa e pronta para o meu corpo.

– Eu não estava falando do corpo dela! – a voz de Erebus se elevou e Kalona ouviu o som de vampiros chamando e perguntando o que estava havendo ali perto do Templo de Nyx.

– Como sempre, irmão, você apareceu para causar problemas para mim. Eu deveria ficar nas sombras, sem ser visto e esperando até ser convocado. Se bem que, pensando melhor, vai ser divertido assistir a você lidar com a descoberta dos mortais. Apenas um rápido aviso: até os vampiros tendem a ter reações exageradas quando encontram um deus.

Erebus não hesitou. Ele levantou as mãos e ordenou:

– Esconda-nos!

Houve uma onda de vento e uma sensação de claridade que Kalona achou tão familiar, tão agridoce, que só duas reações vieram à sua mente: raiva e desespero. Ele não ia permitir que Erebus visse o seu desespero.

– Você está desafiando Nyx? Ela determinou que eu não posso entrar no Mundo do Além. Como você se atreve a me trazer aqui? – as asas cor da noite de Kalona estavam totalmente abertas e tensionadas, prontas para atacar o seu irmão.

– Você sempre faz o papel do tolo impetuoso, irmão. Eu nunca iria contra as determinações da minha Consorte. Eu não o trouxe para o Mundo do Além. Apenas trouxe um pedaço do Mundo do Além para nos esconder, só por alguns momentos, dos olhos mortais – Erebus sorriu de novo. Desta vez, ele não obscureceu a beleza de sua expressão. Uma luz solar irradiava do seu corpo. As suas asas cintilavam com penas de ouro. A sua pele era perfeita, como se ele tivesse sido modelado com raios de sol.

Ele foi, Kalona pensou com desgosto. Ele foi modelado quando o céu beijou o sol. Assim como eu fui modelado quando o céu beijou a lua. O céu, como a maioria dos imortais, é um bastardo inconstante, que faz o que quer e depois não presta atenção nos filhos que deixa para trás.

– Que tal a sensação de estar no Mundo do Além? Deve ser melhor do que quando você entrou sorrateiramente, perseguindo aquela pequena novata, Zoey Redbird. Naquela ocasião você era só espírito. Você não podia sentir a mágica do reino de Nyx contra a sua pele. E você sempre ficou tão impressionado com qualquer coisa que você pudesse tocar, que pudesse fisicamente chamar de sua.

Ótimo, Kalona pensou, ele ficou nervoso. Isso vai ofuscar a sua perfeição.

Foi a vez de Kalona sorrir. A luz que ele emitiu para o seu irmão não era a luz quente e vistosa do sol. Era a luminescência prateada e fria da lua.

– Ainda enciumado por eu tê-la tocado depois de todo esse tempo? Você se lembra de que Nyx é uma Deusa, não lembra? Ela não pode ser tocada a não ser que seja a sua vontade, o seu desejo, ser tocada, acariciada, amada por...

– Eu não vim aqui para falar de minha Consorte! – as palavras explodiram em flashes de calor dourado ao redor de Kalona.

– Que amostra de temperamento divino! – Kalona riu sarcasticamente. – E ainda dizem que você é o irmão bom. Se ao menos os aduladores que preferiram ficar no Mundo do Além pudessem vê-lo agora.

– Eles não dizem que eu sou o irmão bom. Eles dizem que você é o usurpador – Erebus atirou as palavras no seu irmão.

– Verdade? Pergunte novamente a eles. Eu acredito, depois de éons de reflexão cuidadosa, que eles iriam me chamar de “aquele que se recusou a compartilhá-la” – Kalona disse.

– Ela me escolheu – a voz de Erebus estava baixa; os seus pulsos estavam cerrados ao lado de seu corpo.

– Escolheu mesmo? Minha memória é diferente.

– Você a traiu! – Erebus gritou.

Kalona ignorou o ataque de cólera de seu irmão. Ele já havia testemunhado isso antes. Em vez de se abalar, ele falou com a frieza da superfície da lua:

– Por que você veio? Diga o que tem a dizer e então desapareça. O mundo mortal não é um grande reino, mas ele é meu. E eu não vou compartilhá-lo com você, assim como eu não teria compartilhado Nyx com você.

– Eu vim adverti-lo. Nós escutamos o seu Juramento no Mundo do Além. Nós sabemos que você se comprometeu a ser o guerreiro da Morte e a se tornar o Mestre da Espada desta escola.

– E líder dos Filhos de Erebus – Kalona acrescentou. – Não se esqueça do resto do meu título.

– Eu nunca poderia esquecer que você pretende blasfemar contra os meus filhos.

– Seus filhos? Agora você anda se acasalando com humanas e produzindo machos que crescem para se tornar guerreiros vampiros? Isso é fascinante, especialmente porque eu fui julgado tão duramente por criar meus filhos.

– Vá embora – os olhos de Erebus começaram a ficar incandescentes. – Saia deste lugar e pare de se intrometer na vida dos vampiros de Nyx e dos valorosos guerreiros que se comprometeram a me servir.

– Mas você não está se intrometendo ao ordenar que eu parta? Estou surpreso que Nyx tenha permitido isso.

– A minha Consorte não sabe que estou aqui. Eu só vim porque, de novo, você a está perturbando. Eu vivo para evitar qualquer perturbação a ela. Essa é a única razão pela qual estou aqui – Erebus disse.

– Você vive para lamber os pés dela e está, como sempre, com ciúmes de mim – Kalona não pôde evitar uma onda de alegria pelo que as palavras de Erebus tinham revelado. Ainda posso fazer Nyx sentir algo! A Deusa me observa! O imortal controlou suas emoções. Ele tinha que esconder a sua alegria de Erebus. Quando ele falou novamente, a sua voz estava sem emoção. – Que isto fique claro: eu não jurei servir a você. Eu fiz um Juramento de servir a uma Grande Sacerdotisa que personifica a Morte através da sua afinidade concedida pela Deusa. Tudo o que a sua visita fez foi me dar motivos para fazer uma clara distinção entre os guerreiros que se dizem seus filhos e os que não. Eu não vou oprimir os seus filhos com a minha liderança.

– Então você vai embora desta Morada da Noite – Erebus afirmou.

– Não. Mas você vai. Leve esta mensagem minha para Nyx: a Morte não faz diferença entre aqueles que a seguem e aqueles que seguem outros deuses. A Morte chega para todos os mortais. Eu não preciso da sua permissão, nem da permissão da Deusa, para servir à Morte. Agora suma daqui, irmão. Eu tenho que participar de um funeral – Kalona colocou os braços à frente do seu corpo e juntou as palmas das mãos, provocando uma explosão de luz prateada e gelada que criou uma onda ao redor dele, despedaçando a pequena bolha de Mundo do Além que o seu irmão havia criado e arremessando Erebus para cima e para longe no céu.

Quando a luz em volta dele desapareceu, os pés de Kalona tocaram a terra de novo e ele estava em pé ao lado do Templo de Nyx.

Aphrodite surgiu de um canto apressada, parou e o encarou.

– Eu já fui convocado? – ele perguntou.

Ela piscou e esfregou os olhos, como se estivesse tendo problemas em clarear a sua visão.

– Você estava brincando com uma lanterna aqui?

– Não tenho nenhuma lanterna. Eu já fui convocado? – ele repetiu.

– Quase. Alguma retardada, ou melhor, Kramisha, porque ela estava responsável pelas velas, esqueceu a vela do espírito. Eu tenho que pegar uma no Templo de Nyx. Você deve voltar comigo para a pira de Dragon. Thanatos vai concluir o círculo, dizer algumas coisas bacanas sobre Dragon e depois apresentar você.

Sentindo-se estranhamente desconfortável sob o olhar da humana rude e estranha que Nyx tinha, por razões incompreensíveis a quase todos, escolhido como sua Profetisa, Kalona resmungou uma resposta sem palavras e se virou para abrir a porta lateral do templo.

Ela não se abriu.

Kalona tentou de novo.

Ele se esforçou, usando a sua enorme força imortal.

Ela absolutamente não se abriu.

Foi então que ele notou que a porta de madeira havia desaparecido. A maçaneta havia se transformado em uma pedra firme e espessa. Não havia nenhuma entrada. Nada.

De repente, Aphrodite o estava empurrando para o lado. Ela segurou a maçaneta e a girou. A pedra desapareceu, transformando-se de novo em uma porta de madeira, que se abriu facilmente para ela. Aphrodite levantou os olhos para Kalona, antes de passar pela entrada do templo da Deusa.

– Você é tão estranho – ela atirou o cabelo para trás e entrou.

A porta se fechou atrás dela. Kalona colocou sua mão nela e, sob sua palma, ela se transformou de uma receptiva madeira em pedra novamente.

Kalona se afastou para trás, com uma sensação terrível dentro dele.

Apenas alguns minutos depois, Aphrodite emergiu por uma porta completamente normal. Ela estava segurando uma grossa vela roxa e disse, ao passar por ele:

– Bom, vamos lá. Thanatos quer que você fique na beira do círculo e tente não chamar atenção. Apesar de que, você sabe, isso seria bem mais fácil se você usasse mais roupas.

Kalona a seguiu, tentando ignorar aquele vazio dentro dele. Ele era exatamente o que Erebus havia dito, um tolo impetuoso e um usurpador. Se Nyx o estava observando, não era com nada mais além de desdém. Ela negava tudo a ele: que ele entrasse no Mundo do Além, no seu templo e no seu coração...

Os séculos deveriam ter diminuído a sua dor, mas Kalona estava começando a entender que a verdade era o oposto disso.

Aurox

Nyx, se você é mesmo uma Deusa misericordiosa, por favor, me ajude... por favor...

Aurox não tinha escapado de seu esconderijo na terra. Em vez disso, ele ficou repetindo sem parar aquela única frase, aquela única prece. Talvez Nyx premiasse a determinação. Pele menos ele poderia oferecer isso à Deusa.

Foi durante a ladainha da sua prece silenciosa que a mágica começou a girar em um redemoinho ao redor dele. A princípio, o espírito dele se animou. Nyx me ouviu! Mas bastaram alguns instantes para que ele percebesse o quanto estava errado. As criaturas que se materializaram, saindo do ar frio e úmido ao redor dele, não podiam estar a serviço de uma Deusa misericordiosa.

Aurox se encolheu para se afastar delas. O fedor daquelas criaturas era quase insuportável. Era horrível olhar aquelas faces cegas. O coração dele começou a bater mais forte. O medo o fez estremecer e a besta dentro dele se agitou. Será que aquelas coisas tinham sido enviadas como julgamento pelos malfeitos que ele cometera a serviço de Neferet? Aurox usou o seu próprio medo e começou a alimentar a besta no seu interior. Ele não queria que ela despertasse, mas ele ia lutar antes de sucumbir ao redemoinho de malevolência que ameaçava engolfá-lo.

Mas Aurox não foi engolfado por elas. Devagar, as criaturas foram subindo em um redemoinho mágico. Quanto mais alto elas iam, mais rápido elas giravam. Parecia que elas haviam sido invocadas e estavam despertando aos poucos, atendendo a um chamado mudo.

Aurox acalmou o seu medo e a besta dentro dele retrocedeu. Aquelas coisas não o queriam. Elas não tinham prestado nenhuma atenção nele. A cauda do redemoinho estava deixando como rastro uma névoa escura e fétida. Sem saber ao certo o que o compelia, Aurox estendeu o braço e passou a mão naquele rastro.

A sua mão se tornou a névoa, como se elas fossem feitas da mesma substância. Ele não sentiu o redemoinho, apesar de aparentemente ele ter dissolvido a carne de Aurox. Com os olhos arregalados, ele tentou soltar sua mão, mas era tarde demais. Ele não tinha mais mão, e então um tremor tomou conta dele quando a névoa começou a absorver a sua carne. Impotente, Aurox viu o seu antebraço desaparecer, depois os seus bíceps, depois os seus ombros. Ele tentou despertar a besta, libertar o poder adormecido dentro dele, mas a névoa amortecia os seus sentimentos. Ela o anestesiava enquanto o sugava. Quando ela absorveu a sua cabeça, Aurox se tornou a névoa. Ele não sentia mais nada, exceto um desejo enorme, uma busca incompleta, uma necessidade implacável. Do quê? Aurox não sabia dizer. Tudo o que ele sabia é que havia sido engolfado pelas Trevas e que ele estava sendo levado em uma onda de desespero.

Tem que existir algo além disto para mim!, ele pensou freneticamente. Eu tenho que ser mais do que névoa, desejo, besta e escuridão! Mas parecia que ele não era nada além dessas coisas. O desespero tomou conta dele quando ele percebeu a verdade. Ele era todas essas coisas e ao mesmo tempo nenhuma dessas coisas. Aurox não era nada... Absolutamente nada.

Aurox pensou que o barulho de vômito fosse dele mesmo. Em algum lugar, de algum modo, o seu corpo deveria estar revoltado com o que estava acontecendo. Então ele a viu.

Zoey estava lá. Ela estava segurando a pedra branca à sua frente. Do mesmo modo como ela havia feito na noite anterior, no ritual em que ele tinha tentado fazer uma escolha, fazer a coisa certa.

Ele sentiu a névoa se agitar. Ela também viu Zoey.

A névoa ia absorvê-la.

Não! O seu espírito berrou profundamente. Não! A mente de Aurox ecoou aquele berro. Em vez de desespero, ele começou a sentir algo mais ao observar Zoey. Ele sentiu o medo dela e a sua força. A sua determinação e a sua fraqueza. E Aurox percebeu algo que o surpreendeu. Zoey se sentia tão insegura sobre si mesma e sobre o seu lugar no mundo quanto ele. Ela se preocupava em não ter a coragem necessária para fazer as coisas certas. Ela questionava as suas decisões e se envergonhava de seus erros. De vez em quando, até Zoey Redbird, a novata privilegiada tocada pela Deusa, sentia-se como um fracasso e pensava em desistir.

Exatamente como ele.

A compaixão e a compreensão fluíram através de Aurox, e nesse momento ele sentiu uma onda de um poder quente e claro. Em um flash de luz ofuscante, ele caiu do centro do redemoinho em desintegração, aterrissando com força no seu corpo restaurado, arfando em busca de ar fresco e tremendo inteiro.

Ele não ficou descansando muito tempo ali. Ainda trêmulo e fraco, Aurox encontrou apoio para as mãos e os pés no labirinto de raízes quebradas. Devagar, ele foi se puxando para cima até a beira do buraco. Isso levou muito tempo. Quando finalmente alcançou o topo, ele hesitou, procurando ouvir atentamente.

Ele não ouviu nada além do vento.

Aurox se ergueu do chão, usando o tronco quebrado como esconderijo. Zoey tinha desaparecido. Ele analisou a área ao seu redor e os seus olhos foram atraídos imediatamente para um monte enorme de madeiras e tábuas, em cujo topo havia uma figura coberta por uma mortalha. Apesar de aquele local estar aparentemente cercado pela Morada da Noite inteira, Aurox não teve dúvidas em reconhecer o que estava vendo. É a pira funerária de Dragon Lankford, foi o seu primeiro pensamento. Eu o matei, foi o segundo. Como o desespero na névoa mágica, o funeral o sugou.

Não foi difícil se aproximar do círculo de novatos e vampiros. Os guerreiros Filhos de Erebus estavam obviamente bem armados, mas a atenção de todos estava focada dentro do círculo e na pira no seu centro.

Aurox se moveu furtivamente, usando os grandes carvalhos antigos e as sombras abaixo deles como cobertura até chegar perto o bastante para entender as palavras que Thanatos estava dizendo. Então ele recuperou o controle sobre si mesmo e saltou. Agarrando um galho baixo, Aurox foi subindo na árvore até encontrar um lugar onde se agachou, com uma vista desimpedida do espetáculo macabro.

Thanatos havia acabado de traçar o círculo. Aurox podia ver que quatro professores vampiros estavam segurando velas e representando cada um dos elementos. Ele esperava ver Zoey no centro do círculo, perto da pira, mas em vez disso ele ficou surpreso ao ver que Thanatos estava segurando a vela roxa do espírito com uma mão e uma tocha grande com a outra.

Onde estava Zoey? Será que as criaturas da névoa a tinham capturado? Será que foi isso que fez com que a névoa se dissipasse? Freneticamente, ele procurou encontrá-la no círculo. Quando ele a encontrou em pé ao lado de Stark, rodeada pelo seu grupo de amigos, Aurox achou que ela parecia triste, mas sem ferimentos. Ela estava observando Thanatos atentamente. Aparentemente, não havia nada errado com Zoey, exceto que ela lamentava a perda do seu Mestre da Espada. Com aquela sensação de alívio, Aurox ficou tão fraco que quase caiu de seu poleiro na árvore.

Aurox encarou Zoey. Ela havia começado esse conflito interno que ele sentia. Por quê? Ele estava tão confuso com ela quanto estava em relação aos sentimentos que ela havia despertado dentro dele.

Ele voltou sua atenção para Thanatos. Ela estava andando graciosamente em volta da circunferência do círculo, falando com uma voz que acalmava até os seus nervos em frangalhos.

– O nosso Mestre da Espada morreu como ele viveu: como um guerreiro, fiel ao seu Juramento, fiel a esta Morada da Noite e fiel à sua Deusa. Há outra verdade aqui que precisa ser contada. Apesar de nós chorarmos a sua perda, nós reconhecemos que ele era apenas a casca de si mesmo sem a sua companheira, a amável Anastasia – Aurox olhou para Rephaim. Ele sabia que, como Raven Mocker, Rephaim havia matado Anastasia Lankford. Que ironia o fato de o Mestre da Espada ter morrido para protegê-lo. Ironia maior ainda era o rosto do garoto estar encharcado de lágrimas e ele chorar abertamente a morte de Dragon.

– A Morte foi gentil com Dragon Lankford. Ela não apenas permitiu que ele morresse como guerreiro, mas também serviu como um conduto para a Deusa. Nyx uniu novamente Bryan Dragon Lankford à sua amada e aos espíritos iluminados de seus dois familiares felinos, Shadowfax e Guinevere.

Os gatos deles também morreram? Eu não me lembro de nenhum gato no ritual. Confuso, Aurox analisou a pira funerária. Sim, agora que estava olhando mais de perto, ele podia ver dois pequenos volumes embrulhados na mortalha com Dragon, aninhados um de cada lado do guerreiro caído.

Thanatos havia parado de andar em volta do círculo e estava parada bem na frente de Zoey. A Grande Sacerdotisa sorriu para a novata.

– Conte-nos, Zoey Redbird. Já que você entrou no Mundo do Além e voltou, qual é a única constante lá?

– O amor – Zoey respondeu sem hesitar. – Sempre o amor.

– E você, James Stark? O que você encontrou no Mundo do Além? – Thanatos perguntou ao jovem guerreiro, que estava com seu braço em volta dos ombros de Zoey.

– O amor – Stark repetiu com uma voz forte e firme. – Sempre o amor.

– Isso é uma verdade – Thanatos continuou a andar ao redor do círculo. – Eu também posso dizer a vocês que a minha proximidade com a Morte já me mostrou relances do Mundo do Além. O que eu tive permissão para ver me ensinou que, apesar de o amor permanecer conosco quando passamos deste reino a outro, ele não pode existir eternamente sem compaixão, assim como a Luz não pode existir sem esperança e as Trevas não podem existir sem o ódio. Então, tendo em mente essa verdade dita e compreendida, eu gostaria de pedir que vocês abram os seus corações e deem as boas-vindas ao nosso novo Mestre da Espada e líder dos guerreiros Filhos de Erebus, meu guerreiro sob Juramento, Kalona!

Aurox refletiu a surpresa que ele viu em muitos rostos abaixo dele quando Kalona, o imortal alado que ele sabia que estava havia muito tempo ao lado das Trevas, entrou no círculo com passos firmes e se aproximou de Thanatos. Ele cruzou sua mão em punho sobre o peito e se curvou respeitosamente. Então ele levantou a cabeça e sua voz profunda preencheu o ar.

– Eu jurei ser o guerreiro da Morte, e assim será. Eu jurei ser o Mestre da Espada desta Morada da Noite, e assim será. Mas eu não tentarei tomar o lugar de Dragon como líder dos guerreiros Filhos de Erebus.

Aurox viu que Thanatos estava observando Kalona atentamente, apesar de a sua expressão parecer satisfeita. Os guerreiros que estavam espalhados por toda a volta do círculo se agitaram, como se não soubessem bem o que pensar a respeito da proclamação do imortal.

– Eu vou servir como guerreiro da Morte – Kalona repetiu. Ele estava se dirigindo a Thanatos, mas a sua voz chegava a todos no círculo e à multidão que havia se reunido para o funeral. – Vou proteger você e esta escola. Mas não vou receber um título que me liga a Erebus.

– Eu estava no Conselho Supremo quando você declarou ser Erebus de volta à Terra – Thanatos afirmou. – O que você tem a dizer sobre isso?

– Eu não reivindiquei esse título. Isso foi coisa de Neferet. Ela quer muito ser uma deusa, e isso significa que ela precisa de um Consorte imortal, então ela me nomeou Erebus de volta à Terra. Eu rejeitei esse papel quando rejeitei Neferet.

Sussurros zuniram através do círculo como se fosse o vento através das árvores. Thanatos levantou a tocha que ela ainda segurava.

– Silêncio! – as vozes se aquietaram, mas o choque e a descrença continuaram. – Kalona está falando a verdade sobre Neferet. Dragon foi morto pela criatura dela, Aurox. Ele não foi um presente de Nyx. Na noite passada, durante o ritual de revelação na fazenda de lavandas de Sylvia Redbird, a terra nos mostrou a terrível verdade. Aurox foi criado pelas Trevas através do sacrifício da mãe de Zoey Redbird. Ele é um Receptáculo escravo de Neferet. As Trevas continuam a controlá-lo através de sacrifícios sangrentos – ela apontou sua tocha para os três corpos em cima da pira. – Eu tenho evidências de que Neferet tirou a vida de Shadowfax para que as Trevas mantivessem o domínio sobre Aurox. Essa morte foi demais para a pequena Guinevere de Anastasia. A tristeza parou o seu coração e ela prontamente seguiu Shadowfax para o Mundo do Além, para se reencontrar com aqueles a quem os dois mais amavam.

O corpo de Aurox ficou imóvel. Ele mal conseguia respirar. Ele se sentia como se Thanatos tivesse acabado de estripá-lo. Ele queria gritar: “ Não é verdade! NÃO É VERDADE!”, mas as palavras dela continuavam a massacrá-lo.

– Zoey, Damien, Shaunee, Erin, Stevie Rae, Darius, Stark, Rephaim e eu! – ela gritou cada nome. – Nós testemunhamos os malfeitos sombrios de Neferet. Dragon Lankford morreu para que nosso testemunho pudesse se tornar público. Agora nós precisamos continuar a luta que derrubou o nosso Mestre da Espada. Kalona, estou satisfeita por ouvir a sua confissão. Você tentou usurpar Erebus, ainda que apenas na Terra. Ficou claro para o Conselho Supremo que você estava sendo incitado pelas tramoias de Neferet. Eu o aceito como guerreiro da Morte e protetor desta escola, mas você não pode liderar os guerreiros que fizeram Juramento como Filhos de Erebus. Isso seria desrespeitoso à Deusa e ao seu Consorte.

Aurox viu um lampejo de raiva passar pelos olhos de Kalona, mas ele abaixou a cabeça para Thanatos e cruzou sua mão em punho sobre o coração, dizendo:

– Que assim seja, Grande Sacerdotisa. – Então ele voltou para a beira do círculo, e as pessoas que estavam próximas a ele deram alguns passos discretos para trás.

Thanatos pediu que Shaunee invocasse o fogo e acendesse a pira funerária. Quando a coluna de fogo engolfou a pira de Dragon Lankford, Aurox desceu da árvore e, sem ser visto por ninguém, cambaleou de volta até o carvalho despedaçado e desapareceu abaixo do chão, onde, sozinho, chorou todo o seu desespero e o seu ódio por si mesmo dentro da terra partida.


13 Zoey

– Está tudo bem, Z.? – Stark falou baixo no meu ouvido quando o meu círculo e eu estávamos reunidos perto da entrada do lobby da escola. Thanatos havia pedido que nós esperássemos ela terminar de falar com os professores e guerreiros, e então ela iria se juntar a nós para a entrevista.

– Estou triste por causa de Dragon – sussurrei para ele.

– Não quis dizer isso – ele manteve a voz baixa, para que eu fosse a única capaz de ouvi-lo. – Eu queria saber se está tudo bem com a pedra. Eu vi quando você a tocou durante o funeral.

– Eu achei ter sentido a pedra esquentando por um momento, mas logo passou. Provavelmente foi porque nós estávamos bem perto da pira. E por falar nisso... – levantei a voz e me dirigi a Shaunee –, bom trabalho com a parte do fogo no funeral. Eu sei que não é fácil manter piras funerárias acesas, mas você ajudou. Você fez com que tudo acabasse mais rápido.

– Obrigada. Sim, todos nós estamos cansados de funerais. Pelo menos antes desse funeral nós pudemos assistir a Dragon entrando no Mundo do Além, mas ver os gatos lá na pira com ele deixou tudo especialmente triste – ela enxugou os olhos e eu me perguntei como ela (ou qualquer um) conseguia chorar e ainda ficar bonita. – Na verdade, isso me lembra de uma coisa... – Shaunee continuou, virando-se para encarar Erin, que estava na ponta do nosso grupo, olhando para os garotos que ainda estavam na pira como se ela estivesse procurando alguém. – Erin, tudo bem por você se eu mudar a caixa de areia e as coisas de Belzebu para o meu quarto? Ele tem dormido lá a maioria dos dias.

Erin olhou para Shaunee, deu de ombros e disse:

– Sim, tanto faz para mim. Aquela caixa de areia tem cheiro de merda mesmo.

– Erin, os gatos não gostam de usar caixas de areia sujas. Você tem que limpá-la todo dia – Damien a informou, franzindo a testa.

Erin bufou de um jeito sarcástico.

– Não, eu não preciso mais fazer isso – então ela voltou a olhar para os outros garotos.

Percebi que ela não estava chorando. Pensei nisso e me dei conta de que ela não havia chorado nenhuma vez durante o funeral inteiro. No começo, toda essa coisa da ruptura entre as gêmeas parecia ter mexido mais com Shaunee, mas com o passar do tempo comecei a notar que Erin não estava agindo como ela mesma. Apesar de eu supor que isso seria normal, já que agir como ela mesma costumava significar agir igual a Shaunee, que agora parecia bem mais madura e legal. Fiz uma nota mental de que eu precisava encontrar tempo para conversar com Erin, para me certificar de que ela estava bem.

– Que droga, eu preferia que Thanatos não tivesse dito para Rephaim esperar com os outros garotos no ônibus. Ele estava superperturbado no funeral. Eu odiei ter que deixá-lo sozinho nesse estado – Stevie Rae falou, vindo para o meu lado.

– Ele não está sozinho. Ele está com todos os outros novatos vermelhos. Eu vi quando eles foram para o ônibus. Kramisha estava falando para ele sobre como a poesia podia ser um caminho para extravasar as emoções.

­– Kramisha vai entreter o menino-pássaro com as suas tolices sobre poesia. Blá-blá... versos iâmbicos e blá-blá... – Aphrodite comentou. – Além disso, até você precisa entender que não é uma boa ideia deixar o público humano saber do seu pequeno “probleminha de pássaro” – ela colocou aspas no ar com os dedos.

– Olá, ahn, desculpem-me por interromper vocês, mas eu estou procurando o lobby da escola.

Todos nós nos viramos ao mesmo tempo e olhamos para o humano que estava andando na nossa direção pela calçada que vinha do estacionamento. Atrás dele, havia um cara segurando uma câmera e com uma grande bolsa preta abarrotada de coisas pendurada no seu ombro e uma espécie de fone de ouvido cinza na cabeça.

Como era de se prever, Damien foi o primeiro de nós a se recompor. Falando sério, Damien realmente devia ser coroado a Miss Simpatia da Morada da Noite de Tulsa.

– Você está no lugar certo. Parabéns por nos encontrar! – Damien sorriu tão afetuosamente que eu percebi que o humano relaxou os seus ombros tensos.

Então ele estendeu a mão e disse:

– Ótimo. Eu sou Adam Paluka, da Fox23 News. Estou aqui para entrevistar a sua Grande Sacerdotisa e, imagino, alguns de vocês também.

– Prazer em conhecê-lo, senhor Paluka. Eu sou Damien – ele disse, apertando a mão do humano. Então Damien deu uma risadinha e acrescentou: – Ai, que aperto forte!

O repórter sorriu.

– O prazer é meu. Pode me chamar de Adam. O senhor Paluka é o meu pai.

Damien deu outra risadinha. Adam também. Eles fizeram um supercontato visual. Stevie Rae me cutucou e nós demos aquele Olhar uma para a outra. Adam era fofo, muito fofo mesmo, de um jeito jovem, inteligente, promissor e metrossexual. Ele tinha cabelos e olhos escuros, bons dentes, sapatos caros e uma bolsa masculina, na qual Stevie Rae e eu reparamos juntas. Um namorado em potencial para Damien!, nossos olhares telegrafaram ao mesmo tempo.

– Olá, Adam. Eu sou Stevie Rae – ela estendeu a mão e, enquanto ele a apertava, ela perguntou: – Você não tem namorada, tem?

O sorriso cheio de dentes dele diminuiu, mas só um pouco.

– Não. Eu não tenho, não. Hum. Com certeza, eu não tenho namorada. – Então ele notou a Marca vermelha de Stevie Rae. – Então você é do novo tipo de vampiros de que a sua ex-Grande Sacerdotisa falou.

Stevie Rae abriu o sorriso para ele.

– Sim, eu sou a primeira Grande Sacerdotisa Vermelha. Legal, não é?

– A sua tatuagem é realmente muito bonita – Adam disse, parecendo mais curioso do que desconfortável.

– Obrigada! – Stevie Rae agradeceu efusivamente. – Este aqui é James Stark. Ele é o primeiro guerreiro vampiro vermelho. A tatuagem dele também é incrível.

Stark estendeu a mão.

– Prazer em conhecê-lo. E você não precisa me dizer que a minha tatuagem é bonita.

O rosto de Adam ficou um pouco pálido, mas ele apertou a mão de Stark. O sorriso dele pareceu sincero; nervoso, mas sincero.

– Olá – eu entrei na conversa, apertando a mão dele. – Eu sou Zoey.

O olhar de Adam rapidamente se voltou para a tatuagem completa do meu rosto, para a gola em V da minha camiseta e o relance de tatuagens em volta da minha clavícula, e depois para a palma da minha mão, que estava coberta com a mesma tatuagem cheia de filigranas.

– Eu não sabia que vampiros faziam tatuagens adicionais. O seu tatuador é daqui de Tulsa?

Eu sorri para ele.

– Bem, às vezes. Mas ela passa a maior parte do tempo no Mundo do Além. – Percebi que ele estava tentando entender o que eu havia acabado de dizer, então aproveitei a oportunidade e perguntei: – Ei, você disse que não tem namorada. E quanto a um namorado?

– Hum, não, eu também não tenho namorado. Pelo menos não atualmente – Adam se voltou para Damien, que encontrou o seu olhar.

Sucesso!, era o que eu estava pensando quando Aphrodite bufou.

– Ah, que merda, isto aqui não é The Bachelorette. Eu sou Aphrodite LaFont. Sim, o prefeito é o meu pai. Ipi-ipi-urra – ela deu o braço para Darius. – E este aqui é Darius, o meu guerreiro.

Adam levantou a sua bela sobrancelha quando ele reparou no suéter de sexto-formanda que Aphrodite estava usando, com a insígnia das três Moiras bordada no bolso do lado esquerdo do peito.

– Agora permitem que humanos frequentem a Morada da Noite?

– Aphrodite é uma Profetisa de Nyx, um fato provado pelo elo que ela tem com Darius, que é um guerreiro Filho de Erebus e fez o Juramento de ser o seu protetor – Thanatos falou enquanto saía das sombras e caminhava graciosamente na nossa direção. Eu achei o timing dela excelente, assim como a sua entrada. Ela era alta e poderosa, sem aparentar idade, e tinha uma beleza clássica. A sua voz era agradável e informativa, como se ela desse entrevistas para repórteres humanos todo dia. – Eu sei que o funcionamento interno da nossa sociedade não é senso comum, mas acredito que a maioria dos humanos sabe que um guerreiro não pode se ligar a um humano por um Juramento de proteção.

– Na verdade, apesar de esta entrevista ser de última hora, tive tempo para pesquisar um pouco, e esse é um fato que eu realmente descobri.

– O fato de Aphrodite ser uma Profetisa de Nyx e de estar frequentando esta escola, assim como vários novatos e vampiros vermelhos, vai ser um dos tópicos da nossa entrevista. Embora pareça que a entrevista já tenha começado – Thanatos saiu totalmente das sombras, indicando com a cabeça o cameraman que sem dúvida já estava nos filmando, apesar de nenhum de nós ter prestado atenção nele. – Eu sou Thanatos, a nova Grande Sacerdotisa da Morada da Noite de Tulsa. Merry meet, Adam Paluka. Você é bem-vindo à nossa escola.

– M-merry meet – Adam se atrapalhou um pouco. – Eu não quis ofender começando a filmagem mais cedo.

Thanatos sorriu.

– Você não nos ofendeu. Nós o convidamos a vir até aqui. Fico satisfeita que a entrevista tenha começado sem formalidades. Nós podemos ficar aqui, sob o belo céu da noite de Tulsa, e continuar a conversa?

– Claro – Adam disse após um aceno de cabeça do cameraman. – A luz dos lampiões a gás é uma boa iluminação. Se vocês nos derem um segundo, podemos usar um microfone boom e captar todos do grupo que quiserem participar.

– Parece ótimo. Zoey, Aphrodite, Stevie Rae, Stark e Damien, por favor, fiquem para a entrevista. Darius, Shaunee e Erin, vocês poderiam se certificar de que os novatos que estão reunidos voltem para os seus dormitórios? Esta foi uma noite difícil para a nossa escola.

Darius se curvou para Aphrodite e Thanatos, e então ele e Shaunee foram embora juntos. Erin saiu andando na direção contrária.

– Você disse que hoje foi uma noite difícil para a sua escola. O que quis dizer com isso?

– Com o seu faro para notícias, tenho certeza de que você sabe que tivemos recentemente um incêndio no campus – Thanatos explicou.

– Sim, nós inclusive fizemos uma reportagem sobre isso na Fox. Foi no estábulo, certo? – ele a estimulou a continuar.

– Certo. Foi um acidente infeliz, apesar de não totalmente surpreendente – Thanatos fez um gesto indicando os lampiões de cobre pendurados que faziam uma bela decoração ao nosso redor. – A luz dos lampiões a gás e a luz de velas é mais agradável aos nossos olhos do que lâmpadas elétricas. Como você já observou, esse tipo de iluminação ambiente é adorável, mas as chamas são vivas e às vezes voláteis. Um lampião foi deixado aceso sozinho no celeiro. Foi uma noite com muito vento. Uma rajada forte derrubou o lampião em cima de um fardo de feno, colocando fogo no estábulo.

– Espero que ninguém tenha se ferido – achei que Adam pareceu sinceramente preocupado.

– A nossa Mestra dos Cavalos e uma novata inalaram um pouco de fumaça, e o humano empregado como treinador do estábulo teve queimaduras, a maioria nas mãos. Ele vai se recuperar totalmente. Quero deixar aqui registrado que Travis Foster agiu como um herói. Ele cuidou para que todos os cavalos escapassem.

– Travis Foster é humano?

– Completamente humano, além de ótimo funcionário e amigo.

– Fascinante – Adam disse e olhou em volta. Pude ver quando o olhar dele se fixou na pira distante, que agora estava em combustão lenta e sem chamas, com um brilho alaranjado. – Por favor, corrija-me se eu estiver errado, mas acho que aquela pilha de madeira queimando não faz parte do estábulo. Durante a minha pesquisa, eu li que os vampiros queimam os seus mortos em piras funerárias. Será que eu escolhi uma hora inapropriada para esta entrevista? – ele fez a pergunta com um tom de consideração em sua voz, mas eu consegui enxergar a curiosidade que brilhava em seus olhos.

– Você não está errado. Aquilo são os restos de uma pira funerária. De fato, nós sofremos uma grande perda na Morada da Noite, que não teve nada a ver com o incêndio no estábulo. O nosso Mestre da Espada, Dragon Lankford, foi morto recentemente em um trágico acidente em uma fazenda de lavandas que faz divisa com a reserva nacional conhecida como Pradaria de Tallgrass – ela contou e eu fiquei de boca fechada, perguntando-me como diabos Thanatos ia transformar o assassinato de Dragon em um “trágico acidente” que pudesse ser explicado ao público humano. – Um bisão grande escapou das fronteiras da reserva. Alguns de nós estávamos terminando um adorável ritual de purificação na fazenda de lavandas, e aquela besta deve ter ficado confusa com a fumaça de sálvia e o nosso círculo. A criatura nos atacou. O nosso Mestre da Espada protegeu os nossos novatos, perdendo a vida ao fazê-lo.

– Isso é terrível! Eu sinto muito – Adam pareceu perturbado. Na verdade, todos nós parecemos perturbados, o que escondeu o nosso choque com a mentira gigante de Thanatos.

– Obrigada, Adam. Apesar de ter sido um acidente horrível e uma grande perda para a nossa Morada da Noite, o nosso Mestre da Espada morreu como ele viveu, como um guerreiro honrado que protegeu os mais jovens. Por causa dele, ninguém mais se feriu e o ritual foi concluído. Todos nós vamos lembrar da bravura de Dragon Lankford pelos séculos que virão – ela tocou levemente os olhos com um lenço rendado que tirou de dentro da luva. Foi realmente um momento tocante.

Adam ficou parado ali, parecendo compreensivo, enquanto o cameraman desviou a lente da pira de Dragon para focar a dor de Thanatos e o seu esforço muito humano para se recompor novamente.

Foi tudo muito bem encenado. Ela me fez pensar em quantas aulas de Teatro a Grande Sacerdotisa da Morte havia feito quando era uma novata.

Thanatos terminou de enxugar os olhos e suspirou profundamente.

– E respondendo à sua outra pergunta, não, não é uma hora inapropriada para a nossa entrevista. Nós o convidamos, lembra? Nós estamos felizes por recebê-lo na Morada da Noite, mesmo neste momento de tristeza. Então, vamos começar oficialmente. Aqui neste banco é um bom lugar? – Thanatos indicou com um gesto um dos longos bancos de pedra que se alinhavam no caminho de entrada para o lobby da escola. Durante uma noite normal de escola, haveria um monte de garotos aglomerados em volta dos bancos, fazendo lição de casa, flertando e fofocando. Naquela noite, os bancos estavam completamente vazios.

– Perfeito – Adam respondeu.

Enquanto ele e o cameraman se preparavam, Thanatos tomou o seu lugar no centro do banco. Em voz baixa, ela disse:

– Zoey, Stark, aqui ao meu lado – ela apontou para a direita, atrás dela. – Aphrodite, Stevie Rae e Damien, aqui – eles ficaram parados em pé à esquerda.

Quando Adam voltou e oficialmente começou a filmar, senti uma agitação nos meus nervos. Até os meus antigos amigos da South Intermediate High School iriam ver isso!

– Thanatos, eu estava pensando se você poderia dar mais detalhes sobre o comentário que Neferet, a ex-Grande Sacerdotisa da Morada da Noite de Tulsa, fez sobre você na noite passada. Ela disse que a Morte era a nova Grande Sacerdotisa daqui – Adam fez uma pausa e sorriu. – Para mim, você não parece a Morte.

– Você conhece bem a Morte, jovem Adam? – Thanatos perguntou com uma voz suave e espirituosa.

– Não, na verdade eu nunca morri – ele respondeu no mesmo tom de brincadeira.

– Bem, o comentário de Neferet pode ser facilmente explicado. Eu não sou a Morte propriamente dita. Eu simplesmente recebi o dom de ajudar os mortos a passarem deste reino para o próximo. Eu sou tanto a Morte quanto você é a Humanidade. Nós dois somos apenas a representação de ambos. Pode ser mais fácil de entender se você pensar em mim como uma médium muito boa.

– Neferet também mencionou um novo tipo de vampiros, os vampiros vermelhos, e sugeriu que eles podem ser perigosos – ele falou, e eu percebi que a câmera se voltou para Stark e Stevie Rae. – Você também pode explicar isso melhor?

– Certamente, mas primeiro eu sinto que preciso deixar algo bem claro. Neferet não é mais funcionária da Morada da Noite de Tulsa. Na verdade, pelo modo como a nossa sociedade funciona, uma vez que uma Grande Sacerdotisa perde o seu emprego, ela perde essa posição para sempre. Ela nunca mais vai servir como Grande Sacerdotisa em nenhuma outra Morada da Noite. Como você pode imaginar, isso pode ser uma transição difícil e frequentemente embaraçosa para o empregado demitido, assim como para o seu empregador. Os vampiros não têm leis de calúnia e difamação. Nós usamos o sistema de Juramento e honra. Obviamente, desta vez esse sistema não funcionou.

– Então você está dizendo que Neferet é... – ele não concluiu e fez um gesto com a cabeça, encorajando Thanatos a concluir a frase por ele.

– Sim, é um fato triste, mas verdadeiro. Neferet é uma ex-funcionária descontente que não apita mais nada – Thanatos disse calmamente.

Adam olhou para Stark, que estava ao meu lado, não muito longe de Thanatos.

– Essa ex-funcionária fez alguns comentários sobre um membro da Morada da Noite em particular: James Stark.

– Sou eu – Stark falou na hora. Eu percebi que ele estava desconfortável, mas acho que ninguém mais, incluindo os telespectadores, iriam ver qualquer coisa além de um cara muito bonito com uma tatuagem vermelha no rosto que lembrava flechas.

– Então, Jim. Posso chamá-lo assim? – Adam perguntou.

– Bem, sim, mas seria melhor você me chamar de Stark. Todo mundo me chama assim.

– Ok, Stark, Neferet disse que você matou o seu mentor na Morada da Noite de Chicago, e ela sugeriu que você é uma ameaça para a comunidade daqui. Você gostaria de responder a isso?

– Bem, isso é um monte de papo-furado! – escutei a minha boca dizer.

Stark abriu o seu meio sorriso metidinho e pegou a minha mão, entrelaçando os seus dedos aos meus de modo que todos os telespectadores podiam ver.

– Z., quase você fala um palavrão na TV. Não faça isso, a sua avó pode ouvir e isso não seria legal.

– Desculpe – murmurei. – Que tal eu simplesmente deixar você falar?

Stark abriu ainda mais o sorriso.

– Bem, sempre há uma primeira vez para tudo.

Infelizmente, todos os meus amigos riram. Eu olhei zangada para ele. Stark continuou falando, apesar de eu pensar em sufocá-lo com um travesseiro da próxima vez que nós fôssemos dormir.

A voz dele foi hesitante no começo, mas, quanto mais ele falava, mais forte e seguro ficava.

– O meu mentor, William Chidsey, era incrível. Ele era legal. E inteligente. Estou falando inteligente mesmo. E talentoso. Ele me ajudou. Na verdade, ele foi mais um pai do que um mentor para mim – Stark fez uma pausa e passou a mão pelo rosto. Quando ele começou a falar de novo, foi como se só ele e o repórter estivessem ali sozinhos, como se ele tivesse esquecido que a câmera estava ali e tudo o mais. – Adam, eu descobri bem cedo, quando eu estava no segundo ano do ensino médio, que eu tinha recebido um dom – Stark enfatizou bem a última palavra, não sarcasticamente, mas também não como se aquilo fosse uma coisa fantástica. O tom de voz dele deixava claro que o seu dom era uma responsabilidade, e não uma responsabilidade fácil. – Eu não consigo errar o alvo. Eu sou um arqueiro – ele explicou quando Adam o olhou de modo questionador. – Você sabe, arco e flecha. Enfim, seja para onde for que eu mire, eu acerto. Infelizmente, não é tão literal assim. Pense nisso: há bastante diferença entre o lugar para onde você está olhando e o que você está realmente pensando e o que você está alvejando. Um exemplo simples: imagine que você pega um arco e uma flecha e mira em uma placa com um sinal de “Pare”. Então, você puxa o arco, aponta a flecha e dispara no meio de uma grande placa vermelha. Mas e se dentro da sua cabeça você estiver pensando: “Ok, quero atingir aquela coisa que faz os carros pararem”? Quando você se dá conta, a sua flecha está atravessada no radiador do primeiro carro que aparece.

– Bem, eu posso entender como isso pode causar grandes problemas – Adam disse.

– Sim, problemas de proporções épicas. Levou um tempo para que eu descobrisse e aprendesse a controlar isso. Nesse tempo, eu cometi um erro realmente terrível – Stark fez uma pausa de novo e eu apertei a sua mão, tentando transmitir o meu apoio. – E por causa disso o meu mentor morreu. Eu não vou deixar que isso aconteça de novo. Fiz um Juramento de que isso não vai mais acontecer.

– E é por isso que James Stark está aqui na Morada da Noite de Tulsa – Thanatos retomou o controle da conversa, e a câmera a seguiu. – Em Tulsa, nós acreditamos em dar outra chance – o olhar dela se voltou para Aphrodite. Tive que cuidar para não ficar de queixo caído quando ela falou tranquilamente: – Você não diria que este é um excelente lugar para segundas chances, Aphrodite LaFont?

Eu não deveria ter me preocupado. Na frente de uma câmera gravando, Aphrodite se sentia em casa. Ela caminhou para a frente, na direção da câmera (é claro), e então se sentou ao lado de Thanatos.

– Eu concordo totalmente com você, Grande Sacerdotisa. Eu fui uma novata por quase quatro anos, mas Nyx, a nossa Deusa benevolente, decidiu tirar a sua Marca de mim e substituí-la por um dom profético. Os meus pais concordam com a minha decisão de permanecer na Morada da Noite. Na verdade, nós falamos sobre a possibilidade de eu fazer um treinamento no Conselho Supremo em Veneza quando eu me formar aqui. Minha mãe e meu pai me dão muito apoio – ela sorriu para a câmera. – Você pode comprovar isso se olhar as nossas contas de cartão de crédito dos últimos meses. Uau! Eu tenho pais tão incrivelmente legais!

Ok, sem brincadeira. Aquilo era uma montanha de besteiras podres e fedidas tão grande que eu nem conseguia falar. Felizmente, Stevie Rae não era tão muda.

– Falando em pais incríveis, a minha mãe, Ginny Johnson, vai fazer os melhores cookies de chocolate do universo e trazê-los para o evento aberto ao público com venda de guloseimas que nós vamos fazer aqui em breve, certo, Thanatos?

Thanatos não perdeu tempo.

– Você está absolutamente certa, Stevie Rae. Na próxima semana, se o tempo sujeito a tempestades de Oklahoma permitir, nós estaremos organizando um evento aberto ao público no campus. Esperamos que os Street Cats estejam aqui com gatos para adoção. Aproveitando, eu gostaria de anunciar que todos os lucros da nossa venda de guloseimas – ela sorriu na direção de Stevie Rae – vão beneficiar as obras de caridade dos Street Cats. Além disso, a avó da nossa Grande Sacerdotisa novata, Zoey Redbird, vai vender os seus produtos de lavanda nos nossos jardins.

– Não se esqueça da feira de empregos.

Todos, incluindo o cameraman, se viraram ao som da voz da Mestra dos Cavalos. Lenobia estava em pé ali, conduzindo sua bela égua negra, Mujaji, que parecia um sonho.

– Professora Lenobia, que bom que você se juntou à nossa entrevista – Thanatos afirmou.

– Uau! Que belo cavalo ele é! – Adam falou entusiasmado quando o cameraman deu um close em Mujaji.

Damien tocou o braço de Adam e sorriu.

– Querido, é ela, não ele.

– Ah, eu me enganei – Adam levou numa boa, sorrindo com um rubor gracioso em suas bochechas. – Essa coisa de ele ou ela nunca fez muita diferença para mim.

– Porque nós somos todos iguais – ouvi as palavras saindo da minha boca e silenciosamente agradeci a Nyx por elas. – Meninos, meninas, humanos, vampiros, que diferença faz? Todos nós vivemos em Tulsa e amamos esta cidade. Então, vamos apenas nos dar bem uns com os outros!

Thanatos riu, e o som da sua risada foi como música.

– Ah, Zoey, eu não poderia ter dito isso de melhor forma. E Lenobia, você fez bem em me lembrar. Adam, eu gostaria de anunciar que, durante a noite aberta ao público e o evento beneficente para os Street Cats, a Morada da Noite de Tulsa vai, como a primeira Morada da Noite da nossa história escrita, receber inscrições de humanos para vagas de professores. Vamos fazer entrevistas para colocações de professores nos nossos departamentos de Teatro e de Literatura – Thanatos se levantou e abriu os braços, parecendo benevolente e sábia. – A Morada da Noite dá as boas-vindas a Tulsa. Até sábado, nós desejamos a vocês merry meet, merry part e merry meet again.


14 Neferet

Neferet não teria visto a entrevista se ela não tivesse chamado o serviço de quarto até a sua cobertura. O subserviente garoto loiro era quase jovem demais para despertar o interesse dela. O último mensageiro que havia tido a sorte de atender ao seu chamado ia ter que tirar uma licença médica do trabalho pelos próximos dias. Fraco e cheio de hematomas, ele não iria se lembrar de nada, além da fascinação pela sua beleza e de uma série de sonhos eróticos e sombrios. Sonhos febris – o seu médico sem dúvida iria chamá-los assim. Os humanos eram criaturas tão frágeis. Era uma pena que ela precisasse constantemente encontrar novos brinquedinhos.

Neferet analisou o mensageiro. Ele era alto e parecia extremamente nervoso. A sua pele era ruim. Ele praticamente exalava virgindade por todos os seus poros dilatados. Pensando que sangue virgem iria combinar bem com a garrafa resfriada de champanhe que ele estava trazendo, ela fez um gesto em direção à sua sala de estar.

– Por favor, traga a garrafa aqui para dentro – Neferet ronronou.

O sangue virgem era tão doce que aquela aparência ruim e as mãos cheias de suor podiam ser facilmente ignoradas. Afinal de contas, ela não ia tocá-lo. Pelo menos não muito...

– Aqui está bem, madame? – os olhos dele continuavam passeando rapidamente dos seios dela para a sua boca e depois de volta para a garrafa que ele estava abrindo, enquanto ele fedia a desejo sexual, medo e fascinação.

– Aqui está perfeito – Neferet deslizou uma unha comprida e pontuda pelo corpete decotado do seu robe de seda.

– Uau – ele engoliu em seco, tirando a folha metálica dourada da boca da garrafa de champanhe com mãos trêmulas e inexperientes. – Espero que não se importe por eu dizer isto, mas você é muito mais bonita do que aqueles outros vampiros no telejornal.

– Outros vampiros? Telejornal?

– Sim, madame. Eles estão agora no jornal da noite da Fox23.

– Ligue a TV para mim! – ela falou rispidamente.

– Mas o champanhe não está...

– Deixe a garrafa de lado! Eu sou plenamente capaz de abri-la sozinha. Ligue a TV no telejornal e vá embora.

O garoto fez o que ela ordenara e então se retirou envergonhadamente, ainda dando olhares desejosos para ela. Neferet não prestou atenção nele. Ela estava totalmente absorta na cena que se descortinava à frente dela na grande televisão de tela plana. Thanatos, Zoey e alguns do seu grupo estavam lá. Eles estavam ao ar livre na Morada da Noite, bem agrupados e conversando facilmente com o repórter. Neferet franziu a testa. Todos pareciam tão normais.

Ela sorriu um pouco quando ouviu Thanatos explicar a morte de Dragon Lankford como um trágico acidente com um bisão.

– Aquele Aurox imprestável! – Neferet resmungou. – Receptáculo imperfeito e inepto! Tudo isso é culpa dele.

Ela continuou assistindo à entrevista, sorrindo ironicamente para Stark e Zoey, apenas se concentrando mais quando ouviu o seu próprio nome ser mencionado. Neferet apertou o botão para aumentar o volume e Thanatos proclamou em voz alta:

– ... Neferet é uma ex-funcionária descontente que não apita mais nada.

O corpo de Neferet se congelou.

– Ela se atreve a me chamar de funcionária! – Neferet continuou a assistir. A raiva dela cresceu com tanta intensidade que a porta de vidro que dava para a varanda da cobertura se abriu com força, espalhando estilhaços de cristal sobre o chão de mármore.

– Todos nós vivemos em Tulsa e amamos esta cidade. Então, vamos apenas nos dar bem uns com os outros! – a voz ridiculamente alegre de Zoey provocou arrepios de raiva que subiram e desceram pela espinha de Neferet.

– Eu não vou permitir que você desfaça o que eu comecei, sua criança odiosa! – Neferet explodiu. Quando Thanatos anunciou que a Morada da Noite ia receber inscrições de humanos para vagas de professores, ela ficou de queixo caído junto com o repórter. Após a saudação benevolente da nova Grande Sacerdotisa, merry meet, merry part e merry meet again, Neferet assistiu incrédula aos âncoras do telejornal conversarem tolamente sobre como a interação com os vampiros era interessante e como o evento aberto ao público e a feira de empregos seria ótima para a cidade, com um close congelado do rosto sorridente de Zoey decorando a tela. Ela apertou com força o botão de desligar a TV, incapaz de suportar Zoey Redbird por um só instante.

Do pequeno recanto que ficava entre a sala de estar e a sala de jantar, o computador de Neferet começou a chamar. Na tela, a silhueta da imagem de Nyx com os braços levantados piscou e, ao lado do ícone, apareceram as palavras: CONSELHO SUPREMO DOS VAMPIROS.

Neferet caminhou devagar até o computador e clicou no mouse para atender ao chamado, automaticamente ativando a câmera de vídeo. Ela sorriu friamente para as seis Grandes Sacerdotisas com expressões sérias que estavam sentadas em seus tronos esculpidos em mármore.

– Eu estava esperando a sua ligação.

Duantia, membro sênior do Conselho Supremo dos Vampiros, falou primeiro. Neferet achou que ela soou muito, muito velha. Certamente o seu cabelo longo e grosso parecia mais prata do que castanho, e Neferet teve certeza de ver bolsas embaixo de seus olhos escuros.

– Você foi convocada a aparecer diante de nós, mas aí está você em Tulsa, e aqui estamos nós em Veneza. Qual o motivo da sua demora?

– Eu estou ocupada – Neferet modulou a sua voz para parecer mais entretida do que irritada. Ou com medo. Ela não podia permitir nunca que as vampiras do Conselho Supremo acreditassem que ela tinha medo delas ou de qualquer um. – Não é conveniente viajar para a Itália nesta época.

– Então você nos obriga a julgá-la absente reo 3 .

Neferet zombou.

– Guarde o seu latim para os vampiros velhos demais para viver no presente.

Duantia continuou como se ela não tivesse falado nada.

– Nossa irmã Grande Sacerdotisa, sétimo membro deste Conselho Supremo, Thanatos, produziu provas irrefutáveis através de um ritual de revelação testemunhado pela Grande Sacerdotisa Zoey Redbird, pelo seu...

– Aquela criança insolente não é uma Grande Sacerdotisa!

– Você não vai me interromper! – mesmo pela internet, a milhares de quilômetros de distância, o poder de Duantia era palpável. Foi preciso um esforço supremo para que Neferet não se encolhesse de medo da tela do computador.

– Diga o que tem a dizer. Eu não vou interrompê-la de novo – Neferet disse sem emoção.

– O ritual de revelação que Thanatos presidiu foi testemunhado pela jovem Grande Sacerdotisa Zoey Redbird, pelo seu círculo, em que cada membro recebeu de Nyx o dom de uma afinidade elemental, além de vários guerreiros Filhos de Erebus. Durante esse ritual, a terra mostrou o registro de que você assassinou uma humana, sacrificando-a para o touro branco das Trevas, que aparenta ser o seu Consorte.

Neferet observou que as vampiras do Conselho Supremo se agitaram nervosamente, como se apenas ouvir a palavra Consorte associada ao touro branco fosse difícil de suportar. Isso a agradou. Muito em breve o Conselho Supremo iria ter que suportar muito mais do que apenas palavras.

– Neferet, o que você tem a dizer em sua defesa? – Duantia concluiu.

Neferet se levantou, atingindo a sua altura máxima. Ela sentiu os filamentos de Trevas roçando em volta dela, enrolando-se nos seus tornozelos e serpenteando em suas panturrilhas.

– Eu não preciso de defesa. Matar a humana não foi um ato de assassinato. Foi um sacrifício sagrado.

– Você se atreve a chamar as Trevas de sagradas? – a vampira membro do Conselho Supremo chamada Alitheia gritou.

– Alitheia, ou Verdade, como nós diríamos em uma língua que não está morta, eu vou conceder um pouco de você mesma a todas vocês. A verdade é que eu sou imortal. Em pouco mais de uma centena de anos eu obtive mais poder do que vocês, com todos os seus séculos, conseguiram adquirir. A verdade é que dentro de mais alguma centena de anos, a maioria de vocês será pó, e eu ainda vou ser jovem, poderosa, bonita e uma deusa. Se eu decido sacrificar uma humana, não importa por qual motivo, isso é sagrado, e não pecado!

– Neferet, você é Consorte das Trevas? – a pergunta de Duantia foi disparada em meio ao silêncio que se seguiu ao grito de Neferet.

– Conjure o touro branco e pergunte às Trevas você mesma. Mas apenas se você tiver coragem – Neferet sorriu com sarcasmo.

– Conselho Supremo, qual é o seu julgamento? – Duantia perguntou. Ela manteve o olhar fixo em Neferet enquanto cada vampira membro do Conselho Supremo se levantou e, uma de cada vez, pronunciou repetidamente a mesma palavra: “Banida!”.

Duantia se levantou por último.

– Banida! – ela disse com firmeza. – Deste dia em diante, você não será mais reconhecida como uma Grande Sacerdotisa de Nyx. Você não será mais reconhecida nem como uma vampira. Daqui em diante, você está morta para nós – Duantia falou e todas as vampiras do Conselho Supremo deram as costas para Neferet. Então o computador emitiu aquele som de final de chamada e a imagem delas se apagou.

Neferet olhou para a tela escura. Ela estava respirando pesadamente, tentando controlar o tumulto dentro dela. O Conselho Supremo a havia banido!

– Velhas horrendas! – ela explodiu. Era cedo demais! Neferet tinha a intenção, é claro, de romper com o Conselho Supremo, mas não antes de ela provocar uma divisão interna e atiçar umas contra outras para que elas ficassem ocupadas demais com a própria destruição e não se intrometessem no mundo que ela estava criando do lado de fora da charmosa ilhazinha delas. – Eu quase consegui isso antes, quando Kalona estava posando de Erebus ao meu lado. Mas Zoey estragou tudo, forçando-me a revelar que ele era uma fraude. – Incapaz de acalmar a sua frustração, Neferet andou com passos largos pela sala, com seu salto agulha triturando o vidro quebrado. Ela saiu para a varanda, apoiando as mãos no parapeito de pedra. – Zoey fez com que Thanatos fosse enviada a Tulsa para me espionar. E a mãe de Zoey foi um sacrifício fraco e imperfeito demais. Se Aurox não fosse um Receptáculo defeituoso, o ritual de revelação teria sido interrompido com a morte de Rephaim. E agora eu fui banida pelo Conselho Supremo e sou vista como uma aliada domesticada pelos humanos de Tulsa – Neferet levantou os braços para o céu e descarregou a sua raiva. – Zoey Redbird vai pagar por tudo que ela causou!

Neferet abaixou as mãos e rasgou o seu robe de seda, desnudando o seu corpo para a noite. Nua, ela estendeu os braços e inclinou a cabeça para trás de modo que o seu cabelo comprido a encobrisse como uma cortina escura.

– Trevas, venham para mim! – ela se apoiou, preparando-se para o prazer doloroso do toque gélido do seu touro branco.

Nada aconteceu.

O único movimento na noite era das gavinhas escuras e agitadas que haviam se tornado sua companhia constante.

– Meu senhor! Venha para mim! Eu preciso de você – Neferet chamou.

– O seu chamado não é uma surpresa, minha cara impiedosa.

Neferet ouviu a voz dele em sua cabeça, como sempre, mas ela não sentiu a sua presença imponente e poderosa. Ela abaixou os braços, virando-se, procurando por ele.

– Meu senhor, eu não posso vê-lo.

– Você precisa de algo.

Ainda sem entender por que ele não havia aparecido para ela, Neferet não permitiu que a sua confusão transparecesse. Em vez disso, ela respondeu sedutoramente:

– Eu preciso de você, meu senhor.

Instantaneamente, o filamento mais grosso feito uma serpente, comandado pelas Trevas, soltou-se dos outros que estavam enrolados em seus tornozelos. Ele deu uma chicotada ao redor da cintura dela, abrindo uma ferida na sua pele macia e desenhando um perfeito círculo escarlate. As outras gavinhas subiram se arrastando pelas suas pernas, para se alimentar do seu sangue quente.

Neferet teve que se esforçar muito para não gritar de dor.

– Mentir para mim não é sábio de sua parte, minha cara impiedosa.

– Eu preciso de mais poder – Neferet admitiu. – Quero matar Zoey Redbird, e ela está bem protegida.

– Ela está bem protegida e é amada por uma Deusa. Nem você está preparada para destruir abertamente alguém como ela.

– Então me ajude. Eu imploro, meu senhor – Neferet bajulou o touro, ignorando o filamento afiado como uma lâmina que continuava a ferir a sua pele e as outras gavinhas que estavam se alimentando dela.

– Você me desapontou. Eu já esperava que você me chamasse e implorasse pela minha ajuda. Veja bem, minha cara impiedosa, eu não deveria conseguir prever as suas ações. Isso me deixa entediado, e eu não desejo desperdiçar os meus poderes com nada previsível e tedioso – a voz dele martelou implacavelmente na sua mente.

Neferet não recuou.

– Eu não vou pedir que você me perdoe – ela disse friamente. – Você sabia como eu era desde a primeira vez em que nos encontramos. Eu não mudei. E não vou mudar.

– De fato, e é por isso que eu sempre a chamo de minha cara impiedosa – a voz dele era quase uma violação. Agora ela tinha um tom de divertimento. – Você me lembrou de como nós começamos bem. Você era uma surpresa tão deliciosa. Surpreenda-me de novo, e eu vou pensar em vir ajudá-la. Até lá, eu concedo a você o controle sobre os filamentos de Trevas que escolherem permanecer com você. Não se desespere. Muitos vão escolher você. Você os alimenta tão bem. Eu a verei de novo, minha cara impiedosa, quando... se... você despertar o meu interesse o bastante para que eu volte – a voz dele cessou quando a gavinha grossa enroscada na cintura dela se soltou e desapareceu na noite.

Neferet desabou. Ela ficou deitada na varanda de pedra fria, observando os filamentos de Trevas lamberem o seu sangue. Ela não os deteve. Ela deixou que eles se alimentassem dela enquanto os acariciava, encorajando-os, analisando quantos haviam permanecido fiéis a ela.

Se o touro não ia ajudá-la, Neferet se ajudaria sozinha. Zoey Redbird era um problema havia tempo demais. Havia tempo demais ela permitia que aquela garota interferisse nos seus planos. Mas ela não iria matá-la. Isso provocaria a ira de Nyx cedo demais. Ao contrário do Conselho Supremo dos Vampiros, uma Deusa não podia ser ignorada. Não, Neferet pensou, eu não preciso matar Zoey. Tudo o que eu preciso fazer é criar um ser para fazer o serviço por mim. O Receptáculo falhou uma vez por causa de um sacrifício imperfeito. Com o sacrifício perfeito, eu não vou falhar.

– Eu sou imortal. Eu não preciso do touro para criar. Tudo o que eu preciso é de um sacrifício sagrado e de poder. Eu já aprendi o feitiço. Aurox foi só o começo... – Neferet acariciou os filamentos de Trevas e permitiu que eles continuassem a se alimentar dela.

Há filamentos o bastante, ela assegurou a si mesma. Sobrou apenas o suficiente.

Zoey

– A Deusa sabe que eu odeio dizer isso, mas eu estava errada. Isso é sim como assistir àquele programa idiota The Bachelorette – Aphrodite balançou a cabeça e revirou os olhos.

Ela, Stevie Rae e eu caminhávamos devagar para o estacionamento na direção do ônibus cheio de garotos que estava à nossa espera. Nós estávamos indo devagar porque a gente estava superocupada olhando para Damien e o repórter, Adam. Os dois estavam parados, sorrindo e conversando, perto da van da Fox23 News.

– Shhh! – sussurrei para Aphrodite. – Eles vão ouvir você e isso vai deixar Damien constrangido.

– Ah, por favor! – Aphrodite bufou. – Os garotos gays estão bem animadinhos e entretidos. Ele não está prestando a menor atenção em nós.

– Eu estou tão feliz que ele está flertando – comentei.

– Vejam! Eles estão pegando os telefones!!! – Stevie Rae sussurrou efusivamente com pontos de exclamação demais para ser um sussurro.

– Eu estava errada de novo – Aphrodite falou. – Isso aqui não é como assistir a The Bachelorette. É como assistir ao National Geographic Channel.

– Eu acho que ele é uma gracinha – Stevie Rae disse.

– O cara que está conversando com Damien? – Shaylin perguntou quando se juntou a nós.

– Sim. A gente acha que eles estão marcando um encontro – Stevie Rae respondeu, ainda olhando para os dois.

– Ele tem cores suaves e bonitas – Shaylin observou. – Na verdade, as cores dele combinam bem com as de Damien.

– Como assim, os arco-íris deles estão se fundindo? – Aphrodite bufou sarcasticamente.

Shaylin franziu a testa.

– Eles não têm cores de arco-íris. Isso é um estereótipo horrível. Eles têm a cor do céu de verão, com tons de azul e amarelo. Damien também tem um pouco de branco encrespado e fofo que se parece bastante com nuvens densas.

– Ah, que merda, isso aí não tem nenhum senso de humor – Aphrodite protestou.

– Aphrodite, você tem que parar de chamar Shaylin de isso. Não é nada legal – Stevie Rae a repreendeu.

– Então me diga, para futura referência, o quanto isso não é legal na escala daquela palavra maldosa, “retardada”? – ela levantou uma sobrancelha loira com cara de interrogação para Stevie Rae. – Não é legal no nível de “debiloide” ou “monga”, ou mais como a palavra tradicional e explícita “retardada” mesmo?

– Você é a Grande Sacerdotisa, mas eu acho que responder qualquer coisa apenas a encoraja. Você sabe, é como acontece quando você pega um bebê chorando, ele continua chorando – Shaylin afirmou, soando bem prática.

Afe, Aphrodite vai arrancar os cabelos dela pela raiz, foi só o que eu consegui pensar.

Em vez disso, Aphrodite deu risada.

– Ei, isso fez uma piada! Pode até ser que isso tenha alguma personalidade.

– Aphrodite, eu acho que você deve ter algum dano cerebral – Stevie Rae disse.

– Obrigada – Aphrodite respondeu. – Eu vou entrar no ônibus. E vou cronometrar o Garoto Gay. Se ele continuar flertando por mais do que cinco minutos, eu vou... – ela parou de falar quando se virou em direção ao ônibus. Os meus olhos seguiram os dela. Shaunee e Erin estavam paradas do lado da porta aberta do ônibus. Shaunee parecia perturbada. O rosto de Erin não tinha nenhuma expressão. Eu podia ver que elas estavam conversando, mas nós estávamos muito longe para ouvir o que elas estavam dizendo.

– Há algo errado com ela – Shaylin observou.

– Ela quem? – Stevie Rae perguntou.

– Erin.

– Shaylin está certa. Tem alguma coisa errada com Erin – Aphrodite concordou.

Eu não sabia o que havia me chocado mais, se era o que Shaylin e Aphrodite estavam dizendo ou o fato de elas estarem de acordo.

– Conte-me o que você está vendo – Stevie Rae falou em voz baixa para Shaylin.

– Este é o melhor jeito de eu descrever o que vejo: havia um canal que passava atrás da casa onde eu morava quando era criança, um pouco antes de eu perder a visão. Eu costumava brincar ali perto e fingia que o canal era um córrego da montanha lindo e borbulhante, e que eu estava crescendo nas Montanhas Rochosas do Colorado, porque ele era claro e até mesmo bonito. Mas, assim que eu me aproximava, podia sentir o fedor do canal. Tinha um cheiro de coisas químicas e de algo mais, algo podre. A água parecia boa, mas abaixo da superfície ela era suja e poluída.

– Shaylin – eu estava quase perdendo a paciência. Eu me sentia como se estivesse ouvindo um dos poemas de Kramisha, e isso não é necessariamente uma coisa boa. – Que diabo você quer dizer? Erin tem cor de água poluída? E se ela tem, por que você nunca disse nada até agora?

– Ela está mudando! – Erin gritou! Quando vários rostos no ônibus, além de Erin e Shaunee, voltaram-se na nossa direção, ela disfarçou: – O inverno parece estar mudando para a primavera! Hoje não está uma bela noite?

Os garotos balançaram a cabeça e franziram a testa para ela, mas pelo menos pareceu que eles pararam de prestar atenção em nós.

– Ah, que merda. Você não é nada boa em espionagem – Aphrodite abaixou a voz e nos agrupou. – Z., se liga. É simples. O que Shaylin está dizendo é que Erin parece ser a mesma de sempre: bonita, loira, popular, perfeita. Você sabe, típica. Mas a verdade é que por baixo da superfície há algo apodrecendo. Você não pode ver isso. Eu não posso ver isso. Mas Shaylin pode – Aphrodite deu uma olhada no ônibus. Todos nós acompanhamos o olhar dela a tempo de ver Shaunee balançar a cabeça como quem diz não e subir rapidamente os degraus pretos com piso emborrachado, enquanto Erin continuou ali com uma aparência bonita, mas muito, muito fria. – Parece que Shaunee pode ver isso também. Não que a gente tenha acreditado nela. A gente achou que ela só estava irritada com Erin porque as gêmeas siamesas idiotas tinham sido separadas cirurgicamente.

– Eu acho que isso é muito rude – eu falei.

– Também acho – Stevie Rae concordou. – Mas o meu instinto me diz que é verdade.

– O meu também – Damien disse, aproximando-se de nós. As suas bochechas ainda estavam vermelhas e ele acenou alegremente quando a van da Fox23 foi embora, mas a sua atenção estava voltada para Erin. – E o meu instinto também está me dizendo mais uma coisa.

– Que você e o Garoto das Notícias estão quase virando amiguinhos de cama? –Aphrodite falou com uma voz animada e educada, que contrastava radicalmente com o que ela havia dito.

– Isso não é da sua conta. – Damien respondeu. E então acrescentou em um tom suave: – E acho que você vai querer prestar atenção, Aphrodite. O que eu vou falar vai abalar o seu mundo.

– Que coisa mais velha de se dizer – Aphrodite comentou.

– Velho não significa impreciso – Damien rebateu. – Você traduziu o que Shaylin pressentiu. Isso significa que você está agindo como um oráculo.

– Eu não sou um maldito oráculo. Sou uma Profetisa – Aphrodite pareceu realmente irritada.

– Oráculo... Profetisa – Damien levantou primeiro uma mão e depois a outra, como se ele estivesse comparando o peso de algo na palma de suas mãos, até que ambas ficaram na mesma altura. – Para mim é a mesma coisa. Pesquise a sua história, Profetisa. Sibila, Delfos, Cassandra. Esses nomes não dizem nada a você?

– Não. Sério. Eu tento não ler demais.

– Bem, eu começaria a ler se fosse você. Esses são apenas os nomes top três que vêm à minha mente culta. Alguns os chamam de Oráculos. Alguns os chamam de Profetisas. É a mesma coisa.

– Eu posso pegar o resumo na internet? – Aphrodite estava tentando parecer engraçadinha, mas o seu rosto tinha perdido toda a cor e os seus olhos pareciam gigantes e ainda mais azul-topázio do que o normal. E assustados. Ela parecia superassustada.

– Ok. Bem, lição aprendida. Parabéns para nós! – eu falei animadamente. Todo mundo simplesmente olhou para mim, então tentei explicar: – Thanatos disse que nós temos que praticar os nossos dons. Acho que o que acabou de acontecer é como uma nota extra nessa prova. Que tal agora a gente entrar no ônibus, voltar para os túneis e assistir um pouco às reprises de Fringe?

– Fringe? Estou dentro – Shaylin começou a andar na direção do ônibus.

– Eu gosto de Walter – Aphrodite comentou. – Ele me lembra o meu avô. Bem, exceto que Walter é um pouco mais inteligente e é doidão e louco, em vez de bêbado e antissocial. Mesmo assim, ambos são estranhamente adoráveis.

– Você tem um avô? E você gosta dele? – Stevie Rae perguntou antes de mim.

– É claro que eu tenho avô. Você é uma retardada em Biologia? – então Aphrodite deu de ombros. – Que seja. Minha família é meio difícil de explicar. Eu vou seguir isso e entrar no ônibus – e foi o que ela fez, seguindo Shaylin.

Ficamos só Stevie Rae, Damien e eu.

– Ela é totalmente louca – foi só o que pensei em dizer.

– De fato – Damien concordou.

– Ok, bem, vocês acham que está todo mundo no ônibus? – perguntei.

– Espero que sim. Eu sei que Rephaim está aí, e que nós só temos algumas horas até o sol nascer. Tenho certeza de que ele nunca viu nenhum episódio de Fringe, e acho que ele vai gostar. Assistir a uma série abraçadinha com ele parece uma ótima ideia agora, mesmo se a gente tiver que fazer isso com a louca da Aphrodite – ela sorriu para mim. – A gente pode pedir pizza no Andolini?

– Claro que sim – respondi.

– Ahn-han – Damien simulou bem o ato de limpar a garganta.

– Sim? – perguntei.

– Hum, vocês achariam estranho se eu, hum, talvez fosse me encontrar com alguém para tomar um café? Mais tarde. Hoje à noite. No The Coffee House On Cherry Street.

– Eles ainda estão abertos? – eu perguntei, dando uma olhada no meu celular. Afe, já eram quase 4 h da manhã.

– Eles começaram a funcionar 24 horas por dia. A tempestade de gelo acabou com os negócios por semanas e eles estão tentando compensar o prejuízo atendendo, bem, a turma da noite – Damien explicou.

– Sério? Eles estão ficando abertos por nossa causa? – eu me lembrava tanto dos sanduíches incríveis deles e da bela arte local que eles exibiam. Eles costumavam fechar às 23 h!

– Não mais – ele disse alegremente.

– Uau, que legal. Quero dizer, eu nunca estive lá, mas o fato de uma coffee shop ficar aberta no Centro da cidade para que a gente possa se encontrar lá é sensacional – Stevie Rae falou.

– Que tal se amanhã Darius desviar o ônibus para lá na volta para a estação? – eu segui o meu instinto. É normal que um grupo de estudantes do ensino médio queira parar em uma coffee shop depois da escola. – Damien, se você for lá hoje, pode perguntar para algum funcionário se tudo bem a gente aparecer lá amanhã?

– Com certeza, vou fazer um reconhecimento da área para vocês! – então a expressão de Damien murchou. – E então, o que vocês acham? Jack iria me odiar?

– Oh, claro que não, querido! – falei rapidamente.

– Jack entenderia – Stevie Rae acrescentou. – Ele não ia querer que você ficasse triste e sozinho enquanto espera que ele volte.

– Ele vai voltar, não vai? – Damien me encarou bem no fundo dos meus olhos. – Jack vai voltar, certo?

As almas deles estão destinadas a se encontrar novamente... as palavras foram sussurradas na minha mente. Reconhecendo a voz sábia e familiar de Nyx, eu sorri, dando o braço para Damien.

– Ele vai. Eu prometo. E a Deusa também promete.

Damien piscou forte para segurar as lágrimas.

– Eu tenho um encontro! E vou ficar feliz com isso.

– É isso aí! – eu o encorajei.

– Estou tão feliz que eu poderia cuspir! Mesmo que isso seja um pouco grosseiro – Stevie Rae pegou a outra mão de Damien.

– Esse é um ditado estranho – Damien observou.

– Totalmente – eu disse. – Foi nojento quando Leonardo fez toda aquela cena da cuspida com Kate em Titanic.

– Essa cena nunca deveria ter acontecido – Damien concordou. – Foi a única falha do filme.

– Bem, essa cena e aquela do Leo se transformando em um lindo picolé – acrescentei.

Damien e Stevie Rae fizeram sons de total concordância comigo enquanto nos aproximávamos do ônibus. Eu podia ver os rostos dos garotos nas janelinhas. Parecia que o ônibus estava cheio, o que me deu uma onda enorme de alívio porque eu estava mais do que pronta para ir para casa. Stark estava lá, em pé no alto da escada, ao lado de Darius. Os olhos dele me encontraram, e isso fez minha pele esquentar e formigar. Rephaim estava no primeiro assento, bem na frente de Kramisha, e eu praticamente pude sentir Stevie Rae vibrando de alegria ao acenar para ele. Shaylin e Aphrodite estavam subindo as escadas. Eu não conseguia ver o rosto de Aphrodite, mas o jeito com que ela jogou o cabelo para trás me dizia que ela já estava flertando com o seu guerreiro.

Ok, as Trevas eram um pé no saco e muitas coisas difíceis haviam acontecido com a gente, mas pelo menos estávamos juntos e tínhamos amor. Sempre o amor.

– Preciso conversar com você.

A voz sem emoção de Erin foi como um banho de água fria na minha alegria.

– Ok, claro. Ei, daqui a um instante eu estarei no ônibus – avisei Stevie Rae e Damien.

– Eu vou ficar – Erin disse as três palavras assim que ficamos sozinhas.

– Ficar? Você quer dizer aqui? – Eu tinha entendido o que ela queria dizer, mas precisava ganhar tempo para tentar processar as perguntas na minha mente. Eu tinha impedido Shaunee quando ela havia tentado se separar de nós e voltar para a Morada da Noite logo depois que ela e Erin começaram a ter problemas. Eu não deveria impedir Erin também?

– Sim, é claro que eu estou falando daqui. Estou cansada dos túneis. A umidade está deixando o meu cabelo cheio de frizz.

– Ahn, há produtos para isso. Tem alguns da Aveda. Podemos pegar para você no salão Ilhoff da Utica Square amanhã – sugeri.

– Ok, então, não é só o meu cabelo. Eu não quero morar nos túneis. É aqui que eu moro. Nesta escola. Eu não quero ser levada de ônibus. É idiota.

– Erin, eu sei que pegar o ônibus da escola é idiota. Que inferno, isso já era idiota antes de eu ser Marcada. Mas eu acho que nós precisamos ficar juntos. A gente é mais do que um grupo ou uma panelinha, a gente é uma família.

– Não, a gente não é uma família. Nós somos um grupo de garotos que vai para a mesma escola. Só isso. Ponto final.

– As nossas afinidades fazem com que a gente seja mais do que isso – ela estava me deixando chocada... não apenas pelo que ela estava dizendo, mas pela sua atitude. Erin era tão fria! – Erin, nós passamos por coisas demais juntos para acreditarmos que somos apenas um grupo de garotos que por acaso frequenta a mesma escola.

– E se isso for o jeito como você se sente, mas não como eu me sinto? Eu não posso escolher? Achei que Nyx concedesse o livre-arbítrio.

– Sim, mas isso não quer dizer que não podemos dizer algo quando alguém com quem a gente se importa está fazendo besteira.

– Deixe-a ficar.

Erin e eu levantamos os olhos e vimos Aphrodite em pé no primeiro degrau do ônibus. Ela estava encostada na porta com os braços cruzados. Eu esperei ver aquele sorriso irônico típico de Aphrodite em seu rosto, mas ela não parecia brava. Ela não soou irônica. Ela apenas pareceu bastante segura de si. Atrás dela, eu podia ver Stevie Rae e Shaylin. Elas concordaram com a cabeça, e aquele apoio mudo a Aphrodite me venceu quando eu percebi que o meu Conselho havia decidido – elas resolveram o que era melhor para todos nós, mesmo que aquilo não fosse o melhor para Erin.

– Obrigada, Aphrodite. Quem poderia imaginar que você seria a única a concordar comigo? – Erin riu, soando petulante e infantil em comparação com o despertar da maturidade serena de Aphrodite.

– Sabe de uma coisa, Erin, estou feliz que você e Aphrodite tenham me lembrado de uma coisa – afirmei. – Nyx realmente nos dá o livre-arbítrio e, se você prefere viver na Morada da Noite, então vou respeitar isso. Espero que isso não mude as coisas no nosso círculo. Você ainda é a água. O seu elemento e você ainda são importantes para nós.

Erin sorriu um pouco, mas o sorriso dela não chegou aos seus frios olhos azuis.

– Sim, é claro. Eu sempre serei a água, e a água pode correr em qualquer lugar. É só me chamar se precisar de mim. Eu vou estar lá na mesma hora.

– Que ótimo – falei rapidamente, sentindo-me superconstrangida. – Bem, então acho que a gente se vê amanhã.

– Sim, claro. Vejo vocês na aula – Erin acenou de modo petulante e saiu andando.

Subi as escadas do ônibus, perguntando para Darius:

– Estão todos aqui?

– Todos já foram contados e estão presentes – ele respondeu.

– Então vamos para casa – eu disse. Todos se espalharam pelos seus assentos, Stevie Rae ao lado de Rephaim, Aphrodite na primeira poltrona logo atrás de Darius como motorista. Stark estava esperando por mim na poltrona atrás dela, e eu me inclinei, beijando-o rapidamente e sussurrando: – Vou dar uma olhada em Shaunee e já volto.

– Vou estar aqui esperando. Sempre – ele tocou o meu rosto delicadamente.

Fui sacolejando até o fundo do ônibus, onde Shaunee estava sentada sozinha, enquanto Darius passava pelos buracos do estacionamento e fazia um retorno em direção ao caminho de saída da escola.

– Posso sentar aqui por um instante?

– Sim, claro – ela respondeu.

– Então, você e Erin não estão mais se falando direito?

Shaunee mordeu a bochecha e balançou a cabeça.

– Não.

– Ela está bem brava – eu estava tentando pensar em algo para dizer que ajudaria Shaunee a se abrir comigo.

– Não, acho que ela não está brava – Shaunee afirmou.

Franzi a testa.

– Bem, ela pareceu brava.

– Não – Shaunee repetiu, olhando para fora da janela. – Pense em como ela vem agindo nos últimos dias, principalmente hoje. “Brava” não é a melhor palavra para descrevê-la.

Eu realmente pensei. Erin estava sendo fria e sem emoções. Só isso.

– Bem, você está certa. Agora que eu pensei mesmo nisso, ela não tem sido nada além de desinteressada, e isso é estranho.

– Sabe o que é mais estranho? Aquela garota ali está demonstrando mais sentimentos do que Erin – Shaunee apontou pela janela na direção do pequeno jardim dos professores, não muito longe dos limites do estacionamento. Uma garota estava sentada ao lado da fonte. Quando o ônibus passou ali perto, havia luz suficiente para ver de relance que ela estava com a cabeça apoiada nas mãos. Os seus ombros estavam chacoalhando como se ela estivesse chorando convulsivamente.

– Quem é ela?

– Nicole.

– Nicole, a novata vermelha? Você tem certeza? – estiquei o pescoço, tentando olhar melhor para ela, mas nós já estávamos pegando a pista com árvores enfileiradas, e a minha visão da garota ficou completamente encoberta.

– Tenho. Eu a vi lá quando estava indo para o ônibus.

– Hum. E você imagina o que está se passando com ela? – eu perguntei.

– Acho que as coisas estão mudando para muitos de nós, e às vezes isso enche o saco.

– Há algo que eu possa fazer para tornar isso menos pé no saco para você? – eu quis saber.

Então Shaunee olhou para mim.

– Apenas seja minha amiga.

Eu pisquei surpresa.

– Eu sou sua amiga.

– Mesmo sem a Erin?

– Eu gosto mais de você sem a Erin – falei honestamente.

– Eu também – Shaunee concordou. – Eu também.

Um pouco depois voltei para o meu assento ao lado de Stark e deixei que ele colocasse o seu braço ao redor de mim. Encostei a cabeça no ombro dele e fiquei escutando a batida do seu coração, apoiando-me na sua força e no seu amor.

– Prometa-me que você nunca vai pirar e se transformar em um estranho frio e distante – pedi em voz baixa para ele.

– Prometo. Não importa o que aconteça – ele afirmou sem hesitar. – Agora, tire qualquer coisa de sua cabeça, exceto o fato de que eu vou forçá-la a experimentar uma pizza diferente hoje à noite.

– Não vamos pedir a Santino? Mas a gente adora essa pizza!

– Confie em mim, Z. Damien me falou sobre a pizza Athenian. Ele disse que ela é a ambrosia das pizzas. Não entendi exatamente o que ele quis dizer, mas acho que isso significa mais do que bom, então vamos experimentar.

Eu sorri, relaxei ao lado dele e, no curto caminho da Morada da Noite até a estação, fingi que o meu maior problema era decidir se expandia os meus horizontes em relação aos sabores de pizza.

 


C O N T I N U A

 

 

 

 

9 Zoey

– Neferet precisa ser detida – Thanatos foi logo direto ao ponto.

– Finalmente uma boa notícia – Aphrodite disse. – Então, o Conselho Supremo inteiro vai aparecer aqui para declarar que tudo que ela disse naquela coletiva de imprensa ridícula é papo furado, ou Duantia vem sozinha?

– Não vejo a hora de os humanos ouvirem a verdade sobre ela – Stevie Rae falou em seguida, soando tão irritada quanto Aphrodite e sem dar chance a Thanatos para replicar – Estou realmente cansada de ver Neferet sorrindo, seduzindo, iludindo e fazendo todo mundo acreditar que ela é tudo de bom.

– Neferet faz muito mais do que seduzir, iludir e sorrir – Thanatos observou sombriamente. – Ela usa o seu dom concedido pela Deusa para manipular e ferir os outros. Os vampiros são sujeitos aos seus encantos, e os humanos praticamente não têm defesa contra ela.

– O que significa que o Conselho Supremo dos Vampiros precisa tomar uma posição e fazer alguma coisa em relação a ela – eu afirmei.

– Eu gostaria que fosse assim tão simples – Thanatos respondeu.

Meu estômago se contraiu. Tive uma daquelas intuições, e minhas intuições quase nunca eram boas.

– O que você quer dizer? Por que isso não seria algo simples? – perguntei.

– O Conselho Supremo não vai misturar humanos nos assuntos de vampiros – ela explicou.

– Mas Neferet já fez isso – eu argumentei.

– Pois é, não adianta fechar a porta do estábulo depois que o gado já fugiu – Stevie Rae concordou.

– Aquela vaca matou a mãe de Zoey – Aphrodite estava balançando a cabeça, incrédula. – Você está dizendo que o Conselho Supremo vai simplesmente ignorar isso e vai deixá-la escapar com um assassinato nas costas e falando merda sobre todos nós?

– E o que vocês querem que o Conselho Supremo faça? Que desmascare Neferet como uma assassina?

– Sim – eu disse, feliz por soar firme e madura, em vez de assustada e com doze anos, que era como eu realmente estava me sentindo com essa coisa toda. – Eu sei que ela é imortal e poderosa, mas ela matou a minha mãe.

– Nós não temos provas disso – Thanatos falou em voz baixa.

– Isso é besteira! – Aphrodite explodiu. – Todos nós vimos!

– Em um ritual de revelação realizado com um feitiço de morte. Nada disso pode ser repetido. A terra foi purificada desse ato de violência por meio dos cinco elementos.

– Ela tomou as Trevas como seu Consorte – Aphrodite alegou. – Ela não está apenas aliada ao mal, ela provavelmente está fazendo as coisas mais indecentes com ele!

– Eca! – Stevie Rae e eu exclamamos juntas.

– Os humanos nunca iriam acreditar em nada disso, mesmo se eles tivessem estado lá.

Nós todas nos voltamos para a voz de Shaylin, que até então estava em pé em silêncio, observando nós quatro com olhos vazios e uma expressão chocada. Mas o seu tom era seguro. É claro, ela parecia nervosa, mas o seu queixo estava levantado de novo e ela apresentava o que eu já estava reconhecendo como a sua cara de teimosa.

– Que diabo você sabe sobre isso e por que você está falando? – Aphrodite vociferou contra ela.

– No mês passado eu era humana. Os humanos não acreditam na magia dos vampiros – Shaylin encarou Aphrodite sem vacilar. – Vocês estão há muito tempo às voltas com essa magia. Vocês perderam totalmente a perspectiva.

– E você perdeu completamente a cabeça – Aphrodite rosnou, inchando como um baiacu.

– Crianças briguentas de novo – Thanatos não levantou a voz, mas as suas palavras atravessaram aquela tensão tipo briga de garotas entre Aphrodite e Shaylin.

– Elas não querem brigar – eu falei em meio ao súbito silêncio. – Nenhuma de nós quer. Mas estamos todas frustradas e esperávamos que você e o Conselho Supremo fossem fazer algo, qualquer coisa, para nos ajudar a combater Neferet.

– Deixem-me mostrar a verdade sobre quem vocês são, e então pode ser que vocês entendam mais sobre essa batalha em que vocês estão insistindo em envolver os humanos – Thanatos estendeu o seu braço direito, com a palma da mão voltada para cima na altura do peito. Ela fez uma concha com a mão, inspirou profundamente e, com a mão esquerda, agitou o ar acima da sua outra mão estendida, dizendo: – Observem o mundo! – a voz dela era poderosa, hipnotizante. Os meus olhos foram atraídos para a palma de sua mão. Sobre ela, um globo do planeta estava se formando. Era incrível, não era como aqueles globos entediantes que os professores de História usavam para juntar pó. Aquele parecia feito de fumaça negra. A água se ondulava e se agitava. Os continentes emergiam, como que esculpidos em ônix.

– Aiminhadeusa! – Stevie Rae exclamou. – É tão lindo!

– É mesmo – Thanatos disse. – E agora observem quem vocês são no mundo! – ela sacudiu os dedos da mão esquerda na direção do globo, como se estivesse salpicando água em cima dele. Aphrodite, Stevie Rae, Shaylin e eu ofegamos de surpresa. Pequenas faíscas começaram a aparecer, pontuando a massa de terra ônix com minúsculas luzes de diamante.

– Que bonito – comentei.

– São diamantes? Diamantes de verdade? – Aphrodite perguntou, aproximando-se mais.

– Não, jovem Profetisa. São almas. Almas de vampiros. Essas luzes somos nós.

– Mas há tão poucas luzes. Quero dizer, em comparação ao resto do globo, que é todo escuro – Shaylin observou.

Eu franzi a testa e me aproximei mais, juntando-me a Aphrodite. Shaylin estava certa. A terra parecia imensa comparada à pequena quantidade de pontos cintilantes. Fiquei encarando o globo. Os meus olhos foram atraídos para os agrupamentos de brilho: Veneza, a Ilha de Skye, algum lugar que eu achei ser a Alemanha. Um grupo de luzes na França, alguns borrões no Canadá e vários outros espalhados pelos Estados Unidos – vários, mas mesmo assim não muitos.

– Aqui é a Austrália? – Stevie Rae perguntou.

Dei uma olhada no outro lado do globo, reparando em outros diamantes salpicados.

– Sim – Thanatos confirmou. – E a Nova Zelândia também.

– Ali é o Japão, não é? – Shaylin apontou para outra pequena mancha de brilho.

– Sim, é – Thanatos afirmou.

– Os Estados Unidos não têm tantos diamantes quanto deveria – Aphrodite opinou.

Thanatos não respondeu. Ela encontrou o meu olhar. Eu desviei os olhos, analisando o globo novamente. Devagar, dei toda a volta ao redor dela, desejando que eu tivesse prestado mais atenção às aulas de Geografia – qualquer aula. Quando terminei de dar a volta, encontrei o olhar da Grande Sacerdotisa de novo.

– Não existem muitos de nós – eu concluí.

– Infelizmente, isso é a mais absoluta verdade – Thanatos concordou. – Nós somos brilhantes, poderosos e espetaculares, mas somos poucos.

– Então, mesmo que nós conseguíssemos fazer com que os humanos nos ouvissem, estaríamos abrindo portas para o nosso mundo que é melhor que fiquem fechadas – Aphrodite falou calmamente, soando madura e sem malícia, como não era próprio dela. – Senão eles podem começar a pensar que as leis deles se aplicam a nós, que nós precisamos deles para nos manterem na linha e isso significa que eles podem começar a apagar as nossas luzes.

– Simples, mas bem colocado – Thanatos juntou as mãos e o globo desapareceu em um sopro de fumaça brilhante.

– Então o que nós vamos fazer? Nós não podemos simplesmente deixar Neferet escapar com todas as coisas horríveis que ela fez. Ela não vai parar em uma coletiva de imprensa, uma comissão na Câmara e uma coluna no jornal. Ela quer morte e destruição. Caramba, ela é Consorte das Trevas! – Stevie Rae disse.

– Nós temos que lutar com as mesmas armas dela – Shaylin sugeriu.

– Ah, que merda. Não vou aguentar mais uma garota que usa metáforas ruins em vez de falar claramente – Aphrodite rebateu.

– O que eu quis dizer é que, se Neferet está envolvendo os humanos, nós também deveríamos fazer isso. Mas nos nossos próprios termos – Shaylin explicou. Eu vi quando ela movimentou a boca sem som, dizendo “detestável”, mas Aphrodite havia decidido ignorar a novata. De novo. E, felizmente, Aphrodite não estava olhando para ela.

– Shaylin, você despertou o meu interesse, filha. Por que você acompanhou as duas Sacerdotisas e a Profetisa até aqui? – Thanatos perguntou de repente.

Nós, as Sacerdotisas e a Profetisa, ficamos em silêncio. Pessoalmente, eu queria ver como Shaylin ia lidar com Thanatos. Imaginei que Stevie Rae ficou quieta pelo mesmo motivo. Eu já sabia as razões de Aphrodite, as quais Shaylin tinha resumido bem com a palavra que ela disse sem som: detestável.

A pequena novata vermelha levantou seu queixo e pareceu superobstinada.

– Eu vim com elas porque quero fazer perguntas a você sobre o meu dom. E elas concordaram – Shaylin fez uma pausa, deu uma olhada para Aphrodite e acrescentou: – Bem, duas delas concordaram.

– Qual dom Nyx concedeu a você, novata?

– A Visão Verdadeira – ela olhou nervosamente para Stevie Rae e para mim. – Certo?

– Nós achamos que sim – eu falei.

– É. Pelo menos foi o que a pesquisa de Damien nos disse, e ele está quase sempre certo em relação às coisas que pesquisa – Stevie Rae concordou.

– Ela disse que Neferet tinha cor de olho de peixe morto. Isso me faz pensar que ela pode ter algo mais do que uma simples doença mental – Aphrodite me surpreendeu ao dizer isso.

– Você vê auras? – Thanatos perguntou enquanto analisava Shaylin como se ela estivesse olhando em um microscópio e Shaylin estivesse sob uma lâmina de vidro.

– Eu vejo cores – Shaylin respondeu. – Não sei como chamar o que eu vejo. E-eu era cega até a noite em que fui Marcada. Eu era cega desde os cinco anos. De repente, zap! Ganhei uma lua crescente vermelha no meio da minha testa, minha visão voltou e, junto com ela, as cores. Muitas cores. Por causa delas, eu sei coisas sobre as pessoas. Tipo, eu sabia que Neferet era podre no mesmo instante em que a vi. Apesar de por fora ela ser bonita – ela contou a Thanatos, e eu percebi que ela entrelaçou as mãos com força atrás de si e permaneceu imóvel sob o escrutínio da Grande Sacerdotisa. – Do mesmo modo, eu sei que Erik Night é basicamente um cara legal, mas é fraco. Ele sempre escolheu o caminho mais fácil. A cor dele é preta, mas não um preto chapado. É um preto profundo e rico, e eu consigo ver pequenos raios de luz dourada relampejando através dele – ela suspirou. – Acho que você é realmente idosa, inteligente e poderosa, mas também tem um temperamento forte, que mantém sob controle. Na maior parte do tempo.

Thanatos curvou os lábios em um sorriso.

– Continue.

Shaylin olhou rapidamente para Stevie Rae e depois de novo para Thanatos.

– As cores de Stevie Rae são como fogos de artifício. Isso me faz pensar que ela é a pessoa mais doce e alegre que eu já conheci.

– Isso porque você não conheceu Jack – Stevie Rae falou, com um sorriso triste para Shaylin. – Mas, obrigada. Foi muito legal dizer isso sobre mim.

– Eu não tive a intenção de ser legal. Só estou tentando dizer a verdade – os olhos de Shaylin se voltaram para Aphrodite. – Bem, na maioria das vezes estou tentando dizer a verdade.

Aphrodite bufou.

Eu esperei que fosse a minha vez e que ela diria a Thanatos que as minhas cores tinham ficado mais escuras porque eu estava superpreocupada, mas ela não falou nada sobre mim. Ela apenas assentiu levemente com a cabeça, como se tivesse decidido internamente alguma coisa, e então concluiu:

– É por isso que eu estou aqui. Preciso da sua orientação sobre como usar o meu dom e quero saber a verdade sobre ele.

Acho que foi nessa hora que comecei a respeitá-la. Thanatos não era uma Grande Sacerdotisa qualquer. Ela era membro do Conselho Supremo e tinha afinidade com a Morte. Ok, Thanatos era assustadora. Sem brincadeira. Mesmo assim, ali estava Shaylin, com seus quarenta e poucos quilos, menos de um mês como novata, confrontando Thanatos, sem entregar nada privado sobre mim. Ela nem disse aquelas coisas sobre os pontos de luz trêmula do bem dentro de Aphrodite. Era preciso coragem. Muita coragem.

Olhei para as mãos entrelaçadas com força de Shaylin e reparei que os seus dedos haviam ficado brancos. Eu sabia como ela se sentia. Eu também tive que confrontar uma Grande Sacerdotisa poderosa logo depois de ser Marcada.

Eu me aproximei mais de Shaylin.

– Seja como for que você queria chamar o que Shaylin vê, ela tem um dom. Eu concordo com Damien. Acho que é a Visão Verdadeira.

– Todos nós achamos – Stevie Rae falou.

– Você pode me ajudar? – Shaylin perguntou.

Então Thanatos me surpreendeu. Ela não disse nada. Ela se virou e caminhou até a sua mesa, olhando para baixo, como se a resposta para a pergunta de Shaylin estivesse escrita no grande calendário que ela deixava em cima da escrivaninha. Ela ficou parada daquele jeito, com a cabeça abaixada, pelo que pareceu um tempo ridiculamente longo. Eu tinha decidido entrelaçar minhas mãos atrás do meu corpo para evitar me remexer também, até que a Grande Sacerdotisa finalmente se voltou para nós quatro e nos encarou.

– Shaylin, a resposta que eu tenho para você é a mesma que eu tenho para Zoey, Stevie Rae e Aphrodite.

Escutei Aphrodite murmurar algo sobre não se lembrar de ter feito nenhuma maldita pergunta, mas Thanatos a interrompeu e continuou:

– Cada uma de vocês recebeu um dom incomum concedido pela nossa Deusa, e isso vem a calhar para nós, pois vamos precisar de todos os poderes que a Luz pode nos dar se pretendemos combater as Trevas.

– Você quis dizer derrotar as Trevas, não quis? – Stevie Rae perguntou.

Eu sabia a resposta de Thanatos antes de ela falar.

– As Trevas nunca podem ser realmente derrotadas. Elas só podem ser combatidas e desmascaradas pelo amor, pela Luz e pela verdade – a Grande Sacerdotisa afirmou.

– Perdeu. De novo – Aphrodite disse em voz baixa.

– Vou dar uma tarefa a cada uma para que vocês possam exercitar os seus dons. Profetisa, a primeira é para você – Thanatos se dirigiu a Aphrodite.

Aphrodite deu um suspirou profundo.

– Você recebeu de Nyx o dom de ter visões com alertas sobre fatos horríveis que estão para acontecer. Você teve alguma visão antes da coletiva de imprensa de Neferet?

– Não – Aphrodite pareceu surpresa com a pergunta de Thanatos. – Não tenho nenhuma visão há cerca de uma semana.

– Então o quanto você é boa, Profetisa? – as palavras dela foram duras e frias. Thanatos soou quase cruel.

O rosto de Aphrodite ficou realmente pálido e logo depois ficou rosa.

– Quem é você para me questionar? Você não é Nyx. Eu não respondo a você. Eu respondo a ela!

– Exatamente! – a expressão de Thanatos se relaxou. – Então responda a ela. Ouça-a. Observe os seus sinais. As suas visões se tornaram cada vez mais difíceis e dolorosas, não é?

Aphrodite assentiu com um movimento tenso e rápido.

– Talvez porque a nossa Deusa queira que você exercite o seu dom de outros modos. Você fez isso recentemente, diante do Conselho Supremo. Lembra?

– É claro que eu lembro. Foi como eu soube que as almas de Kalona e de Zoey tinham saído de seus corpos.

– Mas você não precisou de uma visão que dissesse isso a você.

– Não.

– Já cheguei ao ponto que queria – Thanatos afirmou. Então ela se virou para Stevie Rae. – Você é a Grande Sacerdotisa mais jovem que já conheci na vida, e eu já vivi bastante. Você é a primeira Grande Sacerdotisa dos vampiros vermelhos na história do nosso povo. Você tem uma afinidade poderosa com a terra.

– Siiiiim... – Stevie Rae prolongou a palavra, como que esperando pelo golpe final de Thanatos.

– A sua tarefa é praticar liderança. Você acata as decisões de Zoey com muita frequência. Você é uma Grande Sacerdotisa. Extraia força da terra e comece a agir como uma Grande Sacerdotisa – Thanatos não deu chance para Stevie Rae responder. O seu olhar penetrante e sombrio se voltou para Shaylin. – Se você tem a Visão Verdadeira, o seu dom é tão bom quanto você for. Não o desperdice com trivialidades e mesquinharias.

– É por isso que eu estou aqui – Shaylin falou rapidamente. – Quero aprender a usar o meu dom do jeito certo.

– Isso, jovem novata, é algo que você precisa desenvolver e ensinar a si mesma. A sua tarefa é analisar aqueles ao seu redor. Leve os resultados até a sua Grande Sacerdotisa. Stevie Rae vai usar os poderes do elemento dela, assim como o seu crescente poder de liderança, para guiar você.

– Mas eu não sei... – Stevie Rae começou, mas Thanatos a cortou.

– E você nunca saberá. Nada. Nada importante de fato. A menos que você assuma a responsabilidade de ser uma Grande Sacerdotisa. Aprenda a confiar em si mesma, para que os outros possam se sentir seguros em confiar em você.

Stevie Rae fechou a sua boca e assentiu, parecendo que ela tinha doze anos, exatamente o oposto de uma Grande Sacerdotisa. Mas eu não tive tempo de dizer nada para ela porque finalmente Thanatos voltou suas baterias contra mim.

– Use a sua pedra da vidência.

– Ahn?

– Ela a intimida – Thanatos continuou como se eu não tivesse dito nada. – A verdade é que o mundo deve mesmo intimidar você, todas vocês, neste momento. Mas o medo não é razão para fugir às suas responsabilidades. Está em suas mãos uma peça de magia antiga que responde a você. Use-a.

– Como? Para quê? – falei sem pensar.

– Uma pedra da vidência, um dom da Visão Verdadeira, uma Profetisa, uma Grande Sacerdotisa: todas essas coisas poderosas são inúteis a menos que todas vocês comecem a responder essas questões a si mesmas. Você disse que vocês não são crianças birrentas? Provem. Podem ir agora – ela virou as costas para nós e deu passos firmes em direção à sua mesa.

Minhas amigas e eu obviamente tivemos o mesmo impulso ao mesmo tempo. Como se fôssemos uma só, começamos a andar apressadas a caminho da porta de saída.

– Eu vou acender a pira de Dragon Lankford à meia-noite. Estejam presentes à cerimônia. Logo depois, preciso de vocês e do resto do seu círculo no lobby da escola. Eu convoquei a minha própria coletiva de imprensa.

As palavras dela nos atingiram e nos fizeram parar como se fossem um muro invisível. Nós nos viramos e olhamos embasbacadas para ela. Eu engoli em seco o nó na minha garganta e falei:

– Mas você disse que nós não podemos confrontar Neferet na comunidade dos humanos. Então, sobre o que vai ser a nossa coletiva de imprensa?

– Nós vamos continuar de boa vontade aquilo que Neferet começou apenas para gerar caos e conflitos. Ela abriu esta escola para empregados humanos. Nós vamos anunciar na coletiva que, apesar de estarmos tristes por Neferet ter saído do seu emprego na nossa escola, estamos felizes em abrir inscrições para mais ocupações para a comunidade na Morada da Noite. Nós vamos sorrir. Nós seremos afetuosos e abertos. James Stark estará presente com seu jeito agradável, atraente e inofensivo.

– Você vai fazer com que Neferet pareça nada mais do que uma empregada descontente? Brilhante! – Aphrodite comentou.

– E normal – eu observei.

– Algo que os humanos vão entender completamente – Shaylin disse.

– Ei, se vocês realmente querem parecer normais como os humanos, nós precisamos fazer algo tipo um feira de empregos aberta ao público – Stevie Rae sugeriu e todas nos voltamos para ela.

– Continue. Qual é a sua ideia, Grande Sacerdotisa? – Thanatos perguntou.

– Bem, a minha escola de ensino médio costumava ter uma feira de empregos para os formandos no fim do ano. Era como qualquer festa aberta ao público, com ponche ruim, salgadinhos e tudo mais. Mas empresas de Tulsa, de Oklahoma City e até de Dallas apareciam e recebiam inscrições e marcavam entrevistas com os formandos enquanto o resto dos estudantes só ficava por ali, desejando que chegasse a sua vez – Stevie Rae sorriu timidamente e encolheu os ombros. – Acho que pensei nisso porque a minha vez não chegou, já que eu fui Marcada e tal.

– De fato, é uma ideia interessante – Thanatos me chocou ao dizer isso. – Nós vamos mencionar a nossa disposição de abrir a escola para uma feira de empregos – ela pronunciou essas palavras como se elas fossem de uma língua estrangeira – durante a coletiva de imprensa mais tarde.

– Se você realmente quer uma festa aberta ao público aqui na escola, precisamos ter um bocado de gente aqui. Que tal nós convidarmos os Street Cats e fazermos um evento para levantar fundos para a adoção de gatos? Isso seria algo que Tulsa apoiaria – Stevie Rae acrescentou.

– E isso seria normal – Aphrodite falou. – Eventos beneficentes são coisas normais e atraem as pessoas com muita grana, e isso é uma coisa boa.

– Bem pensado – Thanatos concordou.

– Minha avó pode ajudar a coordenar isso com os Street Cats. Ela e a irmã Mary Angela, a freira diretora dos Street Cats, são amigas – eu sugeri.

Thanatos assentiu.

– Então eu vou ligar para Sylvia e perguntar se ela poderia coordenar o que nós chamaremos de uma noite aberta ao público com uma feira de empregos para Tulsa. A presença de sua avó, além das freiras, vai dar uma sensação de normalidade e de tranquilidade.

– Minha mãe pode assar uma tonelada de cookies de chocolate e vir também – Stevie Rae ofereceu.

– Então a convide. Eu tenho fé em vocês, assim como Nyx tem. Não nos desapontem. E agora vocês podem ir mesmo.

Nós saímos da sala de Thanatos falando sobre a coletiva de imprensa e o evento aberto ao público, e comentando como era bom termos um plano. Foi só mais tarde que me dei conta de que eu não havia dito nem uma única palavra sobre o caso Aurox/Heath...


10 Shaunee

Os guerreiros Filhos de Erebus estavam com ares soturnos, ocupados com o trabalho de amontoar madeira para construir a pira de Dragon. Shaunee tentou fazer o que podia para ajudá-los. Ela sabia dizer se a madeira ia queimar bem só de tocá-la, então indicou todas as toras e tábuas mais secas e orientou os guerreiros para colocar tudo de forma correta, a fim de que o fogo queimasse sem empecilhos e rapidamente.

Shaunee tentou encorajá-los. Ela disse que eles estavam fazendo um bom trabalho e que Dragon ficaria orgulhoso deles, mas aquilo pareceu deixá-los ainda mais calados e soturnos. Até Darius estava em silêncio e parecia quase um estranho. Foi só quando Aphrodite surgiu atirando o cabelo para o lado e falando com aquele seu jeito dominador e sedutor que as coisas começaram a melhorar.

– Ei, bonitão, você lembra do sermão que Dragon deu em você quando nós começamos a sair? – Aphrodite piscou para vários guerreiros que estavam por perto. – Aposto que Stephen, Conner e Westin se lembram, não é? Não foram vocês que tiveram que fazer um treinamento extra com Darius depois que Dragon descobriu que ele estava confraternizando com uma novata? – Aphrodite fez um tom de voz baixo que soou muito parecido o Mestre da Espada.

Os guerreiros até sorriram.

– Dragon nos fez dar um trato no seu garoto aqui por três dias seguidos – Conner lembrou.

Darius bufou.

– Cuidado com as suas palavras, Conner. Eu não sou um garoto há décadas.

Conner riu.

– Acho que era exatamente com isso que Dragon estava tendo problemas.

Aphrodite sorriu de modo sedutor e passou a mão pelo bíceps grosso de Darius.

– Ele queria que você ficasse esgotado para que não tivesse energia suficiente para confraternizar comigo.

– Seria preciso um exército de vampiros para isso – Darius afirmou.

Foi a vez de Stephen provocá-lo.

– Sério? Então por que Anastasia teve que intervir?

Aphrodite levantou suas sobrancelhas loiras.

– Intervir? Anastasia? Você não me contou isso, bonitão.

– Devo ter esquecido, já que eu estava muito ocupado confraternizando com você, minha bela.

– Hahaha! – Westin caçoou. – É impossível que qualquer um de nós tenha se esquecido de Anastasia, com os cabelos ao vento, repreendendo o nosso Mestre da Espada por perseguir o pobre e jovem Darius.

Shaunee não conseguiu deixar de rir junto com eles.

– Ela disse mesmo que Dragon estava perseguindo Darius? – a novata quis saber.

Conner, que era alto, loiro e quase tão ardente quanto o elemento de Shaunee, respondeu:

– Sim, ela disse exatamente isso. Ela até chamou Dragon de Bryan e o lembrou de que, se ela não tivesse confraternizado com um novato um século atrás, a vida dele seria muito menos interessante.

– Eu convivi com Dragon Lankford por cinquenta anos – Stephen falou. – Eu nunca o vi ser superado por nenhum outro guerreiro, mas Anastasia conseguia detê-lo com um simples olhar.

– Que bom que eles estão juntos agora – Darius afirmou.

– Ele ficou perdido sem ela – Westin comentou.

– Isso é algo que eu posso entender muito bem – Darius pegou a mão de Aphrodite, beijando-a gentilmente.

– Vocês realmente viram os dois se reencontrando?

– Sim – Darius, Aphrodite e Shaunee responderam juntos.

– Ele está feliz de novo – Shaunee disse.

– Ela morreu primeiro, mas esperou por ele – Aphrodite sorriu para Darius, mas Shaunee pôde ver lágrimas nos olhos dela.

– Ela teve uma morte de guerreira – Westin lembrou.

– Assim como Dragon – Darius concordou.

– Nós precisamos nos lembrar disso hoje à noite – Shaunee sugeriu. – Lembrar da alegria e do Juramento deles, e que eles ainda se amam.

– Amar para sempre – Darius falou docemente, tocando o rosto de Aphrodite.

– Amar para sempre – Aphrodite ecoou e depois levantou uma sobrancelha loira. – Se você não estiver cansado demais, é isso aí.

– Ah! Então Anastasia estava certa! Nós estamos perseguindo o pobre e jovem Darius! – Stephen e os outros guerreiros riram, e Darius começou a se defender excitadamente, enquanto Aphrodite o provocava.

Shaunee se afastou um pouco da pira em construção e do grupo que a cercava. Fogo, aqueça essa pequena fagulha de alegria que Aphrodite conseguiu plantar dentro deles. Ajude os guerreiros a se lembrarem de que Dragon e Anastasia estão juntos e felizes. Ela sentiu o calor do seu elemento passar rapidamente por ela e envolver o grupo, um calor invisível e quase indetectável para quem não tinha afinidade com o fogo. Mas aquilo ajudou. Ela havia ajudado. Shaunee realmente acreditava nisso.

Sentindo-se levemente melhor, ela saiu caminhando a esmo. Shaunee sabia que tinha que ir até o estábulo, mas isso não significava que ela estava com pressa de encarar a destruição que o seu elemento havia causado. Mas eu não o estava manejando, ela lembrou a si mesma. Mesmo assim, ela fez um caminho mais longo e sinuoso, na direção do pátio que tinha uma bela fonte. Dali ela iria pegar o caminho dos fundos, passando pelo estacionamento, que iria dar mais diretamente no ginásio do que no estábulo.

Shaunee escutou a água antes de ouvir a voz de Erin.

Ela não quis ficar espreitando nem se escondendo. Ela só se moveu em silêncio pelas sombras em volta do pátio porque não queria uma cena com Erin, não porque ela a estava espionando.

Então ela escutou a outra voz. No começo, Shaunee não reconheceu de quem era. Ele não estava falando alto o bastante. Ela só reconheceu a risadinha sedutora de Erin. Shaunee estava tentando decidir se ter curiosidade era a mesma coisa que bisbilhotar quando a voz dele ficou mais alta e ela percebeu que o alvo da risadinha sedutora de Erin era Dallas!

Sentindo uma dor de estômago, Shaunee se aproximou mais.

– Sim, é isso mesmo que estou dizendo. Não consigo tirar você da cabeça, garota. Você sabe o que a água e a eletricidade fazem quando se juntam, não sabe?

Shaunee ficou completamente imóvel, esperando que Erin o chamasse de otário e falasse para ele voltar correndo para a nojenta da Nicole, que era da mesma laia dele; em vez disso, ela sentiu uma dor no estômago quando ouviu Erin responder flertando com ele:

– Relâmpagos... É isso o que a eletricidade e a água fazem. Parece interessante.

– É interessante. Você é interessante. E quente. Você é como uma sauna, garota. Ou como um banho de vapor no qual eu adoraria ficar ensopado.

Shaunee teve que apertar os lábios para evitar dizer “eca” e chamar Dallas de otário ela mesma. Erin ainda tinha que fazer isso. De jeito nenhum ela ia querer nada com Dallas. Ele era um completo idiota. Ele odiava Stevie Rae e Zoey! Stevie Rae disse que ele tinha tentado matá-la! Erin só estava levantando a bola dele para depois detoná-lo e colocá-lo no seu devido lugar.

Shaunee esperou por isso. Nada. Ela não ouviu mais nada. Andando sem fazer barulho, Shaunee se aproximou ainda mais. Provavelmente, Erin tinha ido embora, depois de revirar os olhos e sair andando sem nem se dar ao trabalho de falar para Dallas sumir da frente dela.

Mas Shaunee estava errada. Totalmente errada.

Erin havia se encostado na fonte. A água a estava molhando inteira. Seu cabelo, suas roupas, seu corpo. Dallas a estava encarando como se ele estivesse morrendo de fome e ela fosse uma bisteca suculenta. Erin levantou os braços acima da cabeça, fazendo com que seus peitos marcassem a sua camiseta molhada, que era branca e agora estava totalmente transparente.

– Que tal isto aqui para um concurso de camiseta molhada? – ela perguntou com uma voz toda sexy, fazendo os seus peitos balançarem um pouco.

– Você ganha. É a coisa mais gostosa que eu já vi na vida, garota.

– Eu posso te mostrar algo mais gostoso – Erin disse. Com um movimento rápido, ela tirou a sua camiseta ensopada e desabotoou o seu sutiã de renda.

A respiração de Dallas estava tão ofegante que Shaunee podia até escutar. Ele lambeu os lábios.

– Você estava certa, garota. Isso é mais gostoso.

– E que tal isto? – Erin enganchou os dedões na cintura da sua minissaia xadrez e a tirou. Ela sorriu para Dallas, que ficou olhando para a minúscula tanga de renda que ela ainda estava usando.

– Que tal tirar todo o resto? – a voz de Dallas estava intensa, e ele se aproximou mais dela.

– Parece uma boa ideia. Eu gosto de não vestir nada além de água – Erin tirou a tanga. Agora tudo o que ela estava usando eram suas botas Christian Louboutin. Ela passou a mão com água por todo o seu corpo. – Quer se molhar comigo?

– Não é só isso que eu quero fazer com você – ele sugeriu. – Garota, eu vou abrir as portas de um outro mundo inteiro para você.

– Estou pronta para isso – ela falou de modo sedutor, ainda tocando o próprio corpo. – Porque estou cansada do mundo entediante em que estou vivendo.

– Relâmpagos, garota. Vamos fazer relâmpagos e algumas mudanças.

– Vamos lá! – Erin disse.

Dallas acabou com a distância que ainda havia entre eles. Os dois ficaram tão abraçados e tão concentrados um no outro que Shaunee não teve que se preocupar se eles iriam ouvi-la quando ela saiu correndo, totalmente enojada, com os olhos cheios de lágrimas.

Zoey

– Se vocês não se importam, eu vou até o centro de mídia. Damien acha que posso encontrar alguns livros antigos sobre a Visão Verdadeira na seção de livros de referência, se eu procurar bastante. Provavelmente ele é melhor em pesquisa do que eu, mas sou teimosa – Shaylin afirmou. – Se há algo a ser encontrado, eu vou encontrar.

– Sem problemas – eu falei.

Stevie Rae deu de ombros, dizendo:

– Por mim tudo bem.

Shaylin começou a ir embora, mas fez uma pausa.

– Ei, obrigada por me deixarem ir com vocês falar com Thanatos. E obrigada por ouvirem o que eu tinha a dizer lá. Bem, e me desculpem de novo por aquela coisa com Aphrodite mais cedo.

– Não é comigo que você tem que continuar se desculpando – eu disse.

– É, eu sei, mas acho que você é a única que vai escutar – Shaylin falou, olhando para a direção em que Aphrodite havia saído andando bruscamente.

– Aphrodite vai escutar. Só não muito bem – Stevie Rae opinou. – Você falou bem lá dentro, Shaylin. Gostei do que você disse sobre as cores das pessoas. Acho que você deve se concentrar em seguir o seu instinto sobre o que você vê.

– Hum – Kramisha bufou enquanto se aproximava apressada da gente. – Eu digo que o instinto pode te levar para uma tonelada de problemas.

Eu estava pensando “frase do ano” quando Stevie Rae perguntou:

– O que está rolando, Kramisha?

– São os novatos vermelhos de Dallas. Eles estão agindo como se quisessem ajudar a limpar o estábulo.

Stevie Rae franziu as sobrancelhas. Eu mordi os lábios. Kramisha cruzou os braços e ficou batendo o pé no chão.

– Ajudar é uma coisa ruim? – Shaylin falou em meio àquele silêncio desconfortável.

– O grupo de Dallas tem sido, bem... – eu hesitei, tentando formar uma frase sem o tipo de palavras que eu tentava (bastante) evitar.

Kramisha foi mais rápida do que eu.

– Eles são encrenca.

– Talvez eles estejam tentando mudar – Shaylin sugeriu.

– Eles são encrenca dissimulada – Kramisha acrescentou.

– Nós não confiamos neles – eu expliquei.

– E a gente tem um monte de razões para não confiar neles – Stevie Rae reforçou. – Mas eu tenho uma ideia. Thanatos disse que eu tenho que praticar liderança e Shaylin precisa praticar a coisa da Visão Verdadeira dela. Então vamos fazer as duas coisas – Stevie Rae endireitou as costas e a sua voz deixou de ser doce e do tipo garotinha e passou a ser a voz de uma mulher que soava mais confiante e bem mais velha. – Shaylin, você pode ir até o centro de mídia mais tarde. Agora você vai comigo para o estábulo. Quero que você olhe para as cores dos novatos vermelhos que estão lá e me diga quais deles são mais perigosos.

– Sim, senhora – Shaylin respondeu.

– Ahn, você não precisa me chamar de senhora – Stevie Rae falou rapidamente, soando como ela mesma de novo. – Só me deixar bancar a chefe já é o bastante.

– Você não faz o tipo “chefe mandona” – Kramisha observou.

– Bem, estou tentando fazer – Stevie Rae suspirou e olhou para mim.

Eu sorri para ela.

– Você pode mandar em mim se quiser.

Ela me deu um olhar de surpresa.

– Se alguma vez eu tentar fazer isso, você pode me chamar de salsicha e me falar para bater em mim mesma com pão e mostarda.

Dei risada e então falei:

– Bom, então, se vocês não se importam, eu preciso ficar um tempo sozinha. Quero pensar nessa coisa da pedra da vidência. Mas eu encontro com vocês no estábulo daqui a pouco. Se você virem Stark, digam que estou bem e que logo estarei lá.

– Combinado – Stevie Rae disse.

Observei as três se afastarem. Consegui ouvir Kramisha perguntar qual era a sua cor para Shaylin e, antes que a garota pudesse responder, ela já estava falando que a cor dela não podia ser laranja de jeito nenhum porque ela não gostava de laranja. Shaylin parecia confusa, mas interessada. Stevie Rae parecia pensativa e determinada, como se estivesse tentando refletir por fora a liderança em que ela estava trabalhando por dentro.

E eu? Imagino que, se você colocasse um espelho na minha direção, eu pareceria confusa e cansada e veria que o meu rímel estava empelotando e o meu cabelo estava ficando cheio de frizz.

Eu queria ir com as minhas amigas ajudar a arrumar o estábulo. Eu queria encontrar Stark e queria que ele segurasse a minha mão e ficasse rindo de mim por eu me preocupar demais e por procurar no Google sobre sintomas de doenças. Mais do que tudo, eu queria esquecer sobre aquela pedra da vidência idiota em volta do meu pescoço e me concentrar em algo que fizesse mais sentido, como novatos vermelhos detestáveis ou lição de casa. Mas eu sabia que Thanatos estava certa. Nós iríamos precisar de todos os nossos dons para ter chance de pelo menos manter as Trevas em xeque. Então, em vez de seguir minhas amigas, tomei um caminho diferente. Limpei a minha mente o máximo que eu podia e deixei que meus instintos me guiassem. Então, quando ficou óbvio aonde os meus pés estavam me levando, sussurrei:

– Espírito, por favor, venha para mim. Ajude-me a não ter tanto medo – o elemento com o qual eu ficava mais confortável suavizou o meu medo, então na hora em que eu estava diante do carvalho despedaçado foi como se as minhas emoções estivessem envoltas em um cobertor macio e quentinho.

Eu precisava daquele cobertor confortável. Aquele lugar me assustava. A professora Nolan tinha sido assassinada ali. Stevie Rae quase havia sido morta ali. Kalona surgira rasgando a terra ali. Jack, o pobre e doce Jack, morrera ali.

O meu instinto tinha me levado até lá. E o pior de tudo era que a minha pedra da vidência começou a irradiar calor.

É, como Kramisha disse, seguir o seu instinto pode causar uma tonelada de problemas, eu pensei. Suspirei e admiti a verdade que a minha intuição havia seguido: se havia magia antiga na Morada da Noite, aquele era um lugar excelente para ela se esconder. Sgiach me contara que a magia antiga era poderosa. Ela também era imprevisível e perigosa. Eu me lembrei dela explicando que o modo como a magia antiga se manifestava tinha muito a ver com a Sacerdotisa que a invocava.

Então, o que aquilo significava para mim? Que tipo de Sacerdotisa eu estava me tornando?

Suspirei. Uma porcaria de Sacerdotisa confusa que não tinha dormido o suficiente.

Uma com potencial – o pensamento vagou pela minha mente.

Uma que não sabe o bastante, contra-argumentei mentalmente.

Uma que precisa acreditar em si mesma, o vento sussurrou para mim.

Uma que precisa parar de fazer besteira, minha mente insistiu.

Uma que precisa acreditar na sua Deusa.

E aquilo parou com a minha batalha mental.

– Eu acredito de verdade em você, Nyx. Sempre vou acreditar – decididamente, tirei a pedra da vidência quente que estava embaixo da minha camiseta, respirei fundo e a levantei, olhando através do pequeno buraco, tipo aquele furo de pastilhas Life Savers, para o carvalho despedaçado.

Por um segundo, nada aconteceu. Franzi os olhos, e o carvalho continuou sendo apenas uma velha árvore quebrada. Comecei a relaxar e, como de costume, foi então que o caos começou.

Do centro do tronco partido emergiu um redemoinho terrível e feio de sombras rodopiantes. Dentro daquele turbilhão eu vi criaturas horríveis com os corpos retorcidos, cobertos com uma pele manchada, como se estivessem apodrecendo de doenças nojentas. Os olhos deles eram cavidades profundas. As suas bocas eram costuradas. Eu podia sentir o cheiro deles. Era como o fedor de animais atropelados misturado ao cheiro de privada entupida. Eu tive ânsia e devo ter feito barulho de vômito, pois o grupo voltou seus rostos cegos para mim. Os seus dedos longos e esqueléticos se estenderam na minha direção.

– Não! Parem! – gritei. O conforto do espírito tinha se quebrado. Eu estava paralisada de medo.

E então, bem do meio do redemoinho, brilhou uma luz bonita, com a cor da lua cheia, reduzindo aquelas criaturas horrendas a nada e fazendo com que eu caísse sobre o meu traseiro. Soltei a pedra da vidência, cortando a minha ligação com a magia antiga. Num piscar de olhos, enquanto eu arfava, a árvore se tornou a árvore de novo. Velha e assustadora, mas mundana e quebrada.

Sem me importar com Thanatos ou ordens da Morte, levantei cambaleante e corri feito louca.

– Eu não sou louca. É a minha vida que é louca. Eu não sou louca. É a minha vida que é louca... – entre suspiros ofegantes, eu repetia as palavras para mim mesma como um mantra, sem parar, tentando voltar ao meu estado normal, ao meu centro, ou pelo menos a algum estado de calma, mas o meu coração estava batendo tão alto que eu podia ouvi-lo e não conseguia controlar a respiração. Ataque do coração, pensei. Esse nível de loucura é demais para mim e estou tendo um ataque do coração.

Foi então que percebi que eu não conseguia controlar a respiração e o meu coração estava batendo loucamente porque eu ainda estava correndo, e mãos fortes e familiares me agarraram, fazendo com que eu parasse abruptamente. Como uma garotinha, desabei em cima de Stark, tremendo e batendo os dentes.

– Zoey! Você está ferida? Quem está atrás de você? – Stark me manteve grudada nele, enquanto ele me virava para olhar a escuridão atrás de mim. Eu o abracei e senti que ele estava carregando seu arco e seu estojo de flechas sobre o ombro. Ele irradiava aptidão e presteza. Mesmo através do meu pânico, a presença dele me acalmou. Eu engoli o ar, balançando a cabeça.

– Não, eu estou bem. Estou bem.

Ele me segurou pelo ombro, à distância do seu braço esticado, olhando meu corpo de cima a baixo, como se estivesse procurando por ferimentos.

– O que aconteceu? Por que você estava apavorada, correndo feito uma louca?

Franzi a testa para ele.

– Eu não sou uma louca.

– Bem, você estava correndo como se fosse. E aqui dentro – ele pressionou um dedo contra o meu peito, sobre o meu coração que se acalmava – você estava se sentindo como se tivesse levado uma pancada.

– Magia antiga.

Ele arregalou os olhos.

– O touro?

– Não, não, nada disso. Eu olhei através da pedra da vidência para a árvore. Você sabe, aquela árvore, perto do muro leste.

– E por que diabos você faria isso?

– Porque Thanatos me disse que eu precisava praticar com a maldita pedra da vidência, para o caso de ela poder ser usada de algum modo na luta contra Neferet.

– Então você viu algo que veio atrás de você?

– Bem, não. Sim. Mais ou menos. Eu vi umas coisas assustadoras dentro de algo que parecia um tornado girando para cima, saindo do meio da árvore. Stark, eles eram a coisa mais nojenta que já vi na vida. E eles tinham um cheiro ruim. Muito, muito ruim. Na verdade, eu quase vomitei por causa do fedor. Tive uma ânsia de vômito, e foi quando repararam em mim, mas antes que pudessem fazer qualquer coisa uma luz brilhante acabou com eles – fiz uma pausa, tentando pensar em meio ao meu pânico. – Na verdade, a luz salvadora era tipo aquela luz de fada da Sookie. Você acha que existe alguma chance de eu ser uma fada?

– Não, Z. Foco. True Blood é ficção. Isto aqui é o mundo real. O que aconteceu depois dessa luz?

– Não sei. Eu corri – olhei em volta de nós e percebi que eu havia corrido todo o caminho pelo lado de dentro do muro e que eu estava quase no estábulo. – Eu realmente corri bastante.

– E?

– E nada. Exceto que você me agarrou. Deusa, eu achei que estava tendo um ataque do coração.

– Então você ficou assustada. É só isso?

Franzi a testa para ele de novo. A voz dele era gentil, mas a sua expressão estava tensa, como se ele estivesse tentando decidir se me sacudia ou me beijava.

– Bem – eu disse devagar. – Sim, mas eu fiquei realmente assustada.

As mãos dele, que estavam segurando os meus ombros, me deram um enorme e apertado abraço de urso. Senti o corpo dele relaxar. Ele soltou um longo suspiro que terminou com uma risadinha.

– Você me assustou pra caramba, Z.

– Desculpe – eu murmurei contra o peito dele, envolvendo-o com os meus braços e apertando-o também. – Obrigada por me encontrar e por estar totalmente pronto para me salvar.

– Você não tem por que se desculpar. Eu sou o seu guerreiro, o seu Guardião. É o meu trabalho salvar você. Apesar de você ser muito boa em se salvar sozinha.

Eu me inclinei para trás para poder olhar nos seus olhos.

– Eu sou um trabalho?

Ele deu aquele seu meio sorriso metidinho.

– De tempo integral. Totalmente. E sem benefícios nem folgas.

– Sério?

– Ok, não – o sorriso dele se alargou. – Eu me lembro de ter tirado uns dias de repouso quando uma flecha me queimou e mais alguns dias quando um escocês louco me retalhou. Então, eu retiro o que disse. Eu tenho alguns benefícios. Só que são bem poucos.

– Você está demitido! – tive vontade de dar um tapa em Stark, mas eu não queria tirar os meus braços dos ombros dele.

– Você não pode me demitir. Assinei um contrato vitalício – o sorriso de Stark despareceu dos seus lábios, mas continuou nos seus olhos. – Você é minha Sacerdotisa, minha rainha, mo bann ri. Eu nunca vou deixá-la. Sempre vou protegê-la. Eu amo você, Zoey Redbird – ele se inclinou e me beijou com tanta ternura que eu senti a verdade do seu compromisso no fundo da minha alma.

Quando os seus lábios finalmente deixaram os meus, levantei os olhos para ele.

– Eu também amo você. E você sabe que não precisa ter ciúmes de um cara morto, certo?

Ele tocou o meu rosto.

– Certo. Desculpe pela noite passada.

– Tudo bem. E, ahn, por falar nisso... Há algo que você precisa saber.

– O quê?

Respirei fundo e falei de uma vez:

– Na noite passada, no final do ritual, eu olhei através da pedra da vidência para Aurox e vi Heath. Foi por isso que eu não deixei que você e Darius o ferissem.

Senti a tensão no corpo de Stark disparar para o nível “Perigo! Alerta Vermelho!”.

– Foi por isso que você estava chamando por Heath durante o sono na noite passada? – ele soou mais magoado do que irritado.

– Não. Sim. Eu não sei! Eu falei a verdade. Não lembro com o que eu estava sonhando, mas faz sentido que Heath estivesse na minha mente depois de eu tê-lo visto quando olhei para Aurox.

– Aquela coisa feito touro não é Heath. Como você pode pensar isso?

– Não é que eu esteja pensando isso. É o que eu vi.

– Zoey, olha só, tem que haver uma explicação para o que você viu – ele deu um passo para trás. Meus braços se soltaram do seu ombro.

– É por isso que Thanatos quer que eu pratique mais essa coisa de olhar através da pedra da vidência, para que eu possa descobrir como isso funciona – eu me senti com frio e sozinha sem os braços dele em volta de mim. – Stark, eu sinto muito. Eu não quis ver Heath em Aurox. Eu não quero ver nem dizer nem fazer nada que machuque você. Nunca – eu estava piscando com força, tentando evitar explodir em lágrimas.

Stark passou a mão pelos seus cabelos.

– Z., por favor, não chore.

– Eu não estou chorando – eu disse, e então dei um pequeno soluço e enxuguei uma lágrima que de algum modo tinha escapado do meu olho.

Stark enfiou a mão no bolso da sua calça jeans e pegou um lenço de papel amassado. Ele se aproximou mais de mim de novo e enxugou a segunda lágrima que estava seguindo a primeira lágrima fugitiva. Então ele me beijou docemente e me entregou o lenço, puxando-me de volta para os seus braços.

– Não se preocupe, Z. Heath e eu ficamos em paz no Mundo do Além. Eu ficaria feliz em vê-lo de novo.

– Sério? – eu tive que me afastar um pouco do seu abraço para assoar meu nariz.

– Bem, sim. Feliz por vê-lo de novo, mas não tão feliz por você vê-lo de novo – a sinceridade dele arrancou um sorriso de nós dois. – E eu sei que você não me magoaria de propósito. Mas, Z., aquela coisa tipo touro não é Heath.

– Stark, eu soube que Aurox tinha alguma coisa a ver com magia antiga desde a primeira vez em que o vi. Ele fez com que eu me sentisse completamente estranha – eu odiava contar isso a ele, mas Stark merecia nada menos do que honestidade de minha parte.

– É claro que ele fez com que você se sentisse estranha. Ele é uma criatura das Trevas! E, sim, ele é magia antiga. Ele foi criado pelo tipo mais horrível dessa merda quando Neferet matou a sua mãe como sacrifício. Eu ficaria preocupado se ele não fizesse você se sentir estranha.

Soltei um longo suspiro.

– Bem, acho que isso realmente faz sentido.

– Sim, e aposto que, se a gente trabalhar junto, nós vamos descobrir por que a pedra mostrou Heath a você na noite passada – ele disse e eu apenas mordi o lábio. Então ele continuou, como se estivesse raciocinando em voz alta. – Pense nisso, Z. O que mais você viu através da pedra?

– Bem, em Skye eu vi aqueles duendes antigos, os elementais.

– Eles eram parecidos com as coisas que você viu hoje?

Encolhi os ombros.

– Não, de jeito nenhum. Os elementais eram sobrenaturais, misteriosos, estranhos, mas no bom sentido. O que eu vi hoje foi grotesco e assustador.

– Ok, exceto por agora na árvore e pela noite passada no ritual, a pedra da vidência mostrou a você mais alguma coisa desde que nós voltamos da Itália?

Eu encontrei o olhar dele.

– Sim. Você.


11 Zoey

– Eu? Z., o que você disse não faz o menor sentido – Stark falou.

– Eu sei, eu sei. Desculpe. É que eu me senti meio como se estivesse espionando você quando fiz isso porque você estava dormindo, e eu só fiz isso porque foi na época em que você estava tendo problemas para dormir, e na verdade foi mais uma coisa acidental, então eu nunca disse nada para você, e agora parece como se eu tivesse inventado tudo isso – terminei apressadamente.

– Zoey, eu posso ouvir as suas emoções. Isso é muito mais “espionagem” do que você olhar para mim através de uma pedra enquanto estou dormindo. Além do mais, você está certa. Meu sono realmente tem aumentado. Eu não a culpo por dar uma conferida em mim com a pedra. Apenas me conte o que você viu.

– Eu vi uma sombra em cima de você. Eu me lembro de pensar que parecia um guerreiro fantasma. Você abriu a sua mão e a espada do Guardião apareceu. Então a sombra-fantasma a segurou e ela se transformou em uma lança. Achei que ela estava ensanguentada. Aquilo me assustou, então chamei o espírito e ele afugentou aquela coisa. Você acordou e nós, ahn... – senti meu rosto esquentar. – Bem, nós fizemos amor e eu me esqueci disso.

– Z., gosto de pensar que eu sou bom de cama e tal, mas, mesmo assim, como você pode esquecer de ter visto um cara-fantasma com uma lança pairando em cima de mim?

– É sério, Stark. Logo depois disso começou o que Stevie Rae chamaria de um fuzuê danado aqui na Morada da Noite. Eu estava ocupada – cruzei os braços e olhei intensamente para ele. – Espere aí, eu não me esqueci totalmente disso. Eu contei para Lenobia sobre o cara da sombra.

– Ótimo, então uma professora sabe, mas eu não sabia.

– Agora você sabe.

– Bom, e o que Lenobia falou sobre isso?

– Basicamente, ela me disse para manter os meus olhos bem abertos aqui no mundo real em vez de ficar olhando embasbacada através da pedra, que foi o que eu fiz até a noite passada quando eu vi Heath – falei.

– Olhe para mim através da pedra de novo.

– Agora?

– Agora.

– Ok – levantei a pedra da vidência, respirei fundo e olhei através dela para Stark.

– E então? Que tal eu estou?

– Mal-humorado.

– E?

– Irritante.

– Nada mais?

– Talvez um pouco fofo. Mas apenas talvez – coloquei a pedra de volta embaixo da minha camiseta. – Simplesmente apenas você. Não achei mesmo que eu fosse ver nada. A pedra não estava quente.

– Ela fica quente?

– Sim, às vezes – mordi o lábio e pensei sobre isso. – Na verdade, foi por isso que eu olhei através dela para você da primeira vez. Ela tinha esquentado.

– A pedra estava quente quando você olhou através dela para Aurox? – ele perguntou.

– Não, mas eu sabia que tinha que olhar através dela. Foi como se eu me sentisse compelida a fazer isso – respondi. – E ela já tinha esquentado antes, quando Aurox estava por perto.

– Maldita magia antiga. Isso é um pé no saco – ele reclamou. – Podia pelo menos existir um manual com as regras da pedra descritas em algum lugar, mas não.

– Eu posso ligar para Sgiach. Quero dizer, ela me deu a pedra. Ela lida com magia antiga. Talvez ela possa me dar algumas orientações.

Ele bufou.

– Você não pediu isso a ela em Skye?

– Sim – eu disse.

– Se eu me lembro bem, ela não deu nenhuma resposta concreta.

– Você está certo. Ela falou inclusive que achava que a única magia antiga que ainda existia neste mundo estava em Skye.

– Ela estava errada – Stark afirmou.

– Sim, definitivamente.

– Quer saber o que eu acho?

Stark chegou mais perto de novo e colocou o seu braço em volta de mim. Encostei minha cabeça no ombro dele, deslizei o meu braço ao redor da sua cintura e falei:

– Que eu sou louca?

Ele abriu um sorriso e beijou minha testa.

– Você não é só louca. Você é muito louca. Caramba, Z., você é totalmente louca. Mas eu gosto de um pouco de loucura.

– Agora você pareceu a Stevie Rae – nós sorrimos um para o outro, mais relaxados, apoiados nas bases do nosso relacionamento: o nosso compromisso e a nossa crença um no outro. – Então, o que você ia dizer? O que você acha disso tudo?

– Eu acho que estou cansado de decidir o que fazer por causa do que os outros dizem. Especialmente adultos que nos entregam enigmas ou que nos largam no meio de uma tempestade de merda sem nos dar nenhuma ajuda de verdade – ele disse.

– Sim, eu entendo isso. Eu me senti assim quando Neferet ficou louca e eu era a única que sabia disso.

– Ok, então vamos decifrar essa coisa de magia antiga por nós mesmos. Z., você tem afinidade com todos os cinco elementos. Ninguém consegue nem se lembrar da última vez em que isso aconteceu com outra pessoa. Você é um tipo diferente de novata, um tipo diferente de Grande Sacerdotisa. Você é uma jovem rainha guerreira, e eu sou o seu Guardião. Juntos, não há nada que nós não possamos enfrentar – o seu sorriso metidinho estava de volta. – Nós combatemos no Mundo do Além e vencemos.

– É, exceto pela parte em que você morreu e tal – eu o lembrei.

– Só um pequeno detalhe. No fim deu tudo certo.

Eu o abracei, pressionando o meu corpo contra o seu dorso forte.

– Deu tudo mais do que certo.

Ele me beijou e eu extraí força do seu gosto, do seu toque e do seu amor. Talvez Stark estivesse certo. Talvez não existisse nada que nós não pudéssemos enfrentar. Suspirei de alegria e me aconcheguei no peito dele.

– Vamos para o estábulo – Stark indicou com o queixo o prédio comprido que não estava longe de nós.

– Sim, acho que devemos ir. Aposto que Erin está lá. Até daqui eu posso ver que parece tudo encharcado.

– Na verdade, já faz um tempo que não vejo Erin – Stark encolheu os ombros. – Talvez porque o estábulo esteja realmente muito melhor do que você imagina. A maior parte dos danos foi a fumaça. Só o que realmente queimou foram uma baia e um fardo de feno e forragem.

– Persephone está bem, certo? – Entrelaçando os meus dedos aos dele, nós começamos a caminhar devagar em direção ao estábulo, deixando os nossos braços e quadris roçarem um contra o outro.

– Ela está bem. Todos os cavalos estão bem. Bem, menos Bonnie. Ela está muito nervosa. Lenobia a colocou junto com Mujaji para acalmá-la. Aparentemente as duas se dão bem. O que me faz lembrar que vários novatos disseram que viram Lenobia beijando Travis antes de os paramédicos o levarem embora – Stark contou.

Meus olhos se arregalaram.

– Sério? Mal posso esperar até Aphrodite e Stevie Rae saberem disso!

Stark riu.

– Stevie Rae já soube por Kramisha, que está contando para todo mundo – ele me cutucou com o seu ombro. – Todo esse tempo que você passou na árvore fez com que você perdesse uma boa fofoca.

Levantei os olhos para ele, confusa.

– Todo esse tempo? Eu só fiquei lá por tipo um minuto.

Stark parou.

– Que horas você acha que são agora?

Dei de ombros.

– Sei lá. Eu teria que olhar no meu telefone, mas nós fomos até a sala de Thanatos às sete e meia. Ficamos lá provavelmente meia hora ou menos, então agora deve ser no máximo oito e meia.

– Zoey, são onze e meia. Nós só temos tempo para encontrar todo mundo no estábulo e ir até a pira funerária de Dragon.

Fiquei gelada por dentro.

– Stark, eu perdi mais de três horas!

– Sim, você perdeu, e eu não gosto nada disso. Prometa que você não vai olhar através dessa maldita pedra de novo, a menos que eu esteja com você.

Eu estava apavorada o bastante para não discutir com ele.

– Prometo. Dou minha palavra a você. Eu não vou olhar através dessa coisa a não ser que eu esteja com você.

Os ombros dele relaxaram e ele me deu um beijo rápido.

– Obrigado, Z. Algo que pode roubar tempo de você não é nada bom – ele deu ênfase especial às duas últimas palavras. – Eu sei que Sgiach disse que a magia antiga pode ser boa ou má, mas não faz diferença se ela chega sem avisar.

– Eu sei. Eu sei – a gente tinha começado a andar de novo, mas eu continuei segurando firme a mão dele. – Não me espanta que eu tenha me sentido como se fosse ter um ataque do coração. Eu fiquei parada ali, encarando aquelas coisas nojentas e fedidas por horas – encolhi os ombros.

– Está tudo bem. A gente vai decifrar essa magia antiga toda. Eu não vou deixar que nada aconteça com você.

Stark apertou minha mão e eu apertei a dele de volta. Eu queria acreditar nele. Eu realmente acreditava nele, na sua força e no seu amor. Era com o outro lado que eu estava preocupada. O lado desconhecido em que as Trevas estavam firmemente plantadas, que continuava espreitando e derrubando as pessoas que eu amava.

Fiquei pensando em como eu não queria perder mais ninguém quando aquela pedra da vidência idiota começou a esquentar. Eu parei, fazendo com que Stark parasse abruptamente comigo também. Pressionei a minha mão sobre o ponto quente no meu peito.

– O que foi? – ele perguntou.

– Está esquentando.

– Por quê?

– Stark, eu não tenho ideia. Você deveria me ajudar a decifrar isso, lembra?

– Ok, sim. Certo. Nós podemos fazer isso – ele começou a olhar em volta. – Então, vamos decifrar isso.

– Como?

– Bom, eu estou pensando – ele disse.

Suspirei e tentei pensar também. A gente havia parado embaixo de uma das grandes árvores bem próximas ao lado leste do estábulo. Levantei os olhos rapidamente, preocupada com coisas sem olhos e bocas costuradas à espreita. Mas não havia nada acima de nós. Na verdade, tudo estava em paz ao nosso redor. Tudo o que eu conseguia pensar era que não havia nada para pensar. Algumas vozes chegavam até nós do estábulo e eu podia ouvir equipamentos e outras coisas em funcionamento, como tratores e máquinas sendo usados para retirar o entulho e limpar os destroços. Escutei o som de outro motor, vindo de algum lugar atrás de nós e se aproximando.

– Que estranho – Stark comentou, olhando por sobre o meu ombro. – Táxis não costumam vir aqui.

Segui o olhar dele e vi o carro velho e marrom, com a palavra “TÁXI” escrita em letras pretas na sua lateral. Stark estava certo. Era superestranho ver um táxi na Morada da Noite. Que inferno, Tulsa não era exatamente conhecida por seu maravilhoso serviço de táxis. Dei de ombros mentalmente – o bonde do Centro da cidade era mais legal mesmo.

Então Lenobia saiu pela porta lateral do estábulo e praticamente correu até o carro. Ela abriu a porta traseira e se abaixou para ajudar o cowboy alto e enfaixado a descer do veículo. O táxi foi embora. Travis e Lenobia apenas ficaram parados ali, olhando um para o outro.

Minha pedra da vidência estava tão quente que parecia que ia queimar a minha camiseta e abrir um buraco nela. Eu a tirei e a segurei longe da minha pele. Mas não disse nada. Stark e eu estávamos muito ocupados olhando Travis e Lenobia. Eles não estavam muito perto de nós, mas mesmo assim parecia uma invasão de privacidade ficar ali olhando para eles ­– apesar de a gente continuar ali, olhando embasbacados para os dois.

Então caiu a ficha. Cutuquei o braço de Stark e falei em voz baixa:

– A pedra ficou superquente assim que Travis saiu do táxi.

Stark desviou os olhos de Travis e Lenobia, voltou-se para a pedra e depois para mim. Ele colocou uma mão firme no meu ombro e disse:

– Vá em frente. Olhe através da pedra para ele. Eu estou aqui com você. Não vou deixar que nada aconteça com você. Se alguma coisa tentar sugar o seu tempo, eu vou detê-la.

Eu assenti e, como se arrancasse um band-aid com um movimento rápido, levantei a pedra da vidência, enquadrando Travis e Lenobia dentro do seu círculo.

No começo, foi como tinha acontecido na árvore: a minha visão dos dois permaneceu exatamente a mesma. Observei Lenobia passando as mãos nervosamente sobre as mãos enfaixadas de Travis. Elas pareciam grandes luvas brancas, e eu reparei que a gaze chegava até o antebraço dele. Mesmo de onde estávamos, o rosto dele estava anormalmente vermelho e brilhante, como se ele tivesse se queimado muito no sol e tivesse passado um gel pós-sol. Mas não parecia que ele estava sentindo dor. Ele estava sorrindo. Muito. Para Lenobia. Eu estava quase largando a pedra e me preparando para dizer a Stark que eu era de fato totalmente louca, quando Travis se inclinou e beijou Lenobia.

Então tudo mudou. Houve um brilho tão forte que me fez piscar e, quando minha visão clareou, Travis tinha desaparecido. No lugar dele estava um cara negro, jovem e realmente bonito. Ele tinha cabelo comprido, que estava puxado para trás em um rabo de cavalo baixo, e ombros tão largos que parecia um linebacker. Ele estava beijando Lenobia como se fosse o último beijo dele no mundo. E ela o estava beijando de volta, só que era uma Lenobia diferente. Ela parecia jovem, como se tivesse apenas uns dezesseis anos. Ela o envolveu com os seus braços como se nunca mais fosse soltá-lo. Em toda a volta deles, o ar ondulava e tremeluzia, como se eu os estivesse observando por trás de uma panela efervescente. Só que, em vez do vapor subindo, eu juro que havia duendes de felicidade azul-turquesa esvoaçando ao redor deles. A felicidade cresceu dentro de mim e começou a borbulhar, como se a panela fosse a minha cabeça e a água, as minhas emoções. O chão sumiu de debaixo dos meus pés. Eu estava flutuando em alegria, amor e bolhas azuis.

Então minha cabeça ficou realmente zonza e o meu estômago, totalmente rebelde.

– Zoey! Chega! Abaixe a pedra agora!

Percebi que Stark estava gritando comigo e puxando a pedra da vidência. Senti a terra embaixo dos meus pés de novo. As bolhas azuis evaporaram e a alegria se foi, deixando-me enjoada, exausta e supertrêmula. Soltei a pedra da vidência a tempo de me abaixar e vomitar ao lado da árvore.

– Você está bem. Estou aqui com você, Z. Está tudo bem – Stark estava segurando o meu cabelo para trás enquanto eu continuava a vomitar e a botar minhas tripas para fora.

– Stark? Zoey? – Lenobia estava vindo na nossa direção, soando ofegante e preocupada. Eu ouvi Travis logo atrás dela, perguntando o que havia de errado. Mas eu não consegui responder. Eu estava muito ocupada vomitando. – Zoey! Ah, Deusa, não! – a preocupação de Lenobia disparou quando ela percebeu que eu estava vomitando.

– Ela não está rejeitando a Transformação. Ela está bem – Stark a tranquilizou enquanto eu pegava outro lenço de papel que ele tinha me oferecido e enxugava a boca. Quando finalmente parei de vomitar, eu me encostei na árvore, envergonhada e desconfortável. Eu realmente detestava vomitar.

– Então o que aconteceu? Por que você está enjoada?

Com Stark de um lado e Lenobia de outro, eles me guiaram até um banco de ferro forjado que não estava muito longe da árvore grande (mas longe o bastante para que ninguém sentisse o cheiro do meu vômito, eca).

– Vocês querem que eu chame alguém? – Travis perguntou.

– Não – respondi rapidamente. – Eu estou bem. Vou ficar melhor agora que estou sentada – olhei para Stark com ar de interrogação.

Ele assentiu.

– Seja o que for que você tenha visto, conte para ela. Nós confiamos nela.

Eu me voltei para Lenobia.

– E você confia em Travis?

– Com a minha vida – ela não hesitou.

O cowboy grandão sorriu e se aproximou mais dela. Os ombros deles se tocaram.

– Ok, o que aconteceu é que a minha pedra da vidência começou a esquentar. Quando Travis saiu do carro, ela ficou realmente quente. Stark estava aqui, então nós decidimos que eu deveria olhar através dela, bem, para vocês, e ver se isso poderia me ajudar a começar a entender o que ela me mostra. Então eu olhei através dela para vocês dois.

– Pedra da vidência? – Travis perguntou. Ele não soou nem um pouco assustado, apenas curioso.

– É um amuleto de magia antiga dado a Zoey por uma rainha vampira ancestral – Lenobia explicou. – E o que você viu?

– Bem, nada demais até que vocês dois se beijaram – eu sorri encabulada. – Desculpe por ficar olhando vocês se beijarem.

Travis sorriu e colocou um braço enfaixado em volta do ombro de Lenobia.

– No que depender de mim, mocinha, você vai me ver beijando esta bela garota aqui muitas vezes.

Esperei que Lenobia o fuzilasse com o seu olhar mortal. Em vez disso, ela levantou os olhos com adoração para ele, colocou a mão sobre o peito dele em cima do coração e encostou a cabeça cuidadosamente sobre o seu ombro. Então ela repetiu:

– O que você viu enquanto estávamos nos beijando?

– Travis se transformou em um cara negro grandão e você virou uma versão mais jovem de si mesma. E ao redor de vocês havia umas coisinhas borbulhantes, felizes e azuis. Tenho certeza de que eram duendes de algum tipo – arregalei os olhos. – Na verdade, agora que estou pensando nisso, aquelas bolhas me lembram o mar. Hum. Estranho. Enfim, fiquei totalmente capturada pela cena, como se eu tivesse saído do chão e estivesse em uma bolha azul e feliz do oceano. Desculpe. Eu sei que isso parece loucura – prendi a respiração, esperando Lenobia cair na risada e Travis começar a zombar de mim.

Mas eles também não fizeram isso. Em vez disso, Lenobia começou a chorar. Eu quero dizer chorar para valer. Ela caiu naquele choro convulsivo e cheio de catarro em que eu sou especialista. Travis apenas a abraçou mais forte. Ele abaixou os olhos para Lenobia como se ela fosse um milagre personificado.

– Eu já conheci você antes. É por isso que, com você, eu me sinto como se estivesse em casa.

Lenobia assentiu. Então, em meio às suas lágrimas, ela contou:

– Travis é o meu único companheiro humano, meu único amor, que voltou para mim depois de duzentos e vinte e quatro anos. Eu jurei nunca amar ninguém depois dele e não amei. Nós nos conhecemos e nos apaixonamos no mar, no navio que nos levou da França para Nova Orleans.

– Então a pedra da vidência me mostrou a verdade?

– Sim, Zoey. Com certeza absoluta – Lenobia disse antes de afundar o rosto no peito de Travis e chorar, enquanto ele a abraçava, deixando para trás dois séculos de espera, saudade e dor.

Eu me levantei e peguei a mão de Stark de novo, puxando-o para longe para que os dois pudessem ficar sozinhos. Enquanto entrávamos no estábulo, ele disse:

– Isso não significa que Aurox é Heath que voltou para você. Você sabe disso, certo?

Stevie Rae me salvou ao chegar apressada, falando efusivamente:

– Aiminhadeusa! Por onde você andou? Mal posso esperar para contar a você sobre Lenobia e Travis!

– Já vi esse filme antes – Stark falou. – Onde estão Darius e Aphrodite?

– Eles já estão na frente do Templo de Nyx, na pira funerária – Stevie Rae respondeu. – Nós vamos encontrar com eles já, já.

– Vou procurar Erin, Shaunee e Damien. A gente tem que ir.

– O que há com ele? – Stevie Rae perguntou, olhando Stark se afastar dando passos firmes.

– Heath pode estar realmente dentro de Aurox.

Stevie Rae ecoou exatamente meus pensamentos, dizendo:

– Ah, que inferno!


12 Kalona

Estar do lado da Luz não era tão interessante quanto ele se lembrava. Verdade seja dita, Kalona estava entediado. Sim, Kalona entendia por que Thanatos havia dito a ele para ficar em segundo plano e não chamar atenção para si mesmo até depois do funeral de Dragon. Era nessa hora que ela ia anunciar para a escola que ele era o seu novo guerreiro e que ele ia assumir o posto de Mestre da Espada e líder dos Filhos de Erebus da Morada da Noite de Tulsa. Até esse momento, a presença dele poderia ser algo confuso, se não insultuoso aos olhos dos outros guerreiros.

O problema é que Kalona nunca havia se preocupado por parecer insultuoso. Ele era um imortal poderoso. Por que ele deveria se importar com os sentimentos irrelevantes dos outros?

Porque aqueles que eu julgo mais irrelevantes às vezes me surpreendem: Heath, Stark, Dragon, Aurox, Rephaim. O último nome da sua lista mental o alarmou. Rephaim já pareceu sem importância para ele um dia, mas ele estava errado. Kalona tinha percebido que ele amava e precisava do seu filho.

Em que mais ele havia errado?

Provavelmente em um monte de coisas.

Esse pensamento o deixou deprimido.

Ele andou de um lado para o outro pelo lado mais escuro e cheio de sombras do Templo de Nyx. Ali ele estava perto o bastante da pira de Dragon para ouvir quando Thanatos o chamasse, mas ao mesmo tempo estava fora do campo de visão.

O fato de alguém dizer a ele o que deveria fazer o irritava. Isso sempre o irritara.

E havia aquela novata que tinha afinidade com o fogo, Shaunee. Ela parecia ter a habilidade de incitá-lo, de fazê-lo pensar em coisas em que ele não estava acostumado a perder tempo pensando.

Ela já havia feito isso antes. Ele havia tido a intenção de manipulá-la, para conseguir informações sobre Rephaim e a Vermelha. Mas o que havia acontecido era que ela o tinha presenteado com algo ridiculamente mundano e simples: um telefone celular. Aquele pequeno presente tinha salvado a vida do seu filho.

Agora ela o fizera pensar em todos aqueles éons que ele havia passado afastado de Nyx.

– Não! – ele falou a palavra em voz alta, fazendo que o pequeno bosque de olaias que estavam plantadas no lado oeste do Templo de Nyx chacoalhasse como se uma tempestade as ameaçasse. Kalona se concentrou e controlou o seu temperamento. – Não – ele repetiu usando uma voz que não estava mais repleta de poder sobrenatural. – Eu não vou pensar nos séculos que passei afastado dela. Não vou pensar nela de jeito nenhum.

Uma gargalhada soou ao redor dele, fazendo as olaias se mexerem, tremularem e então explodirem em plena floração, como se um facho da luz do sol do verão tivesse subitamente iluminado as árvores. Kalona cerrou os punhos e levantou os olhos.

Ele estava sentado no beiral de pedra do templo. Havia pouca luz naquele lado do edifício, motivo pelo qual Thanatos havia ordenado que ele esperasse ali, mas Erebus irradiava luz própria.

Erebus... seu irmão... o Consorte imortal de Nyx. O único ser do universo que era mais parecido com ele, e o único ser do universo que ele detestava mais do que a si mesmo. Ali! No reino mortal depois de todos esses éons? Por quê?

Kalona mascarou o seu choque com desdém.

– Você é mais baixo do que eu me lembrava.

Erebus sorriu.

– Que bom ver você de novo também, irmão.

– Como sempre, você coloca palavras da minha boca.

– Desculpe. Eu não preciso fazer isso. Não quando as suas próprias palavras são tão interessantes. “Não vou pensar nela de jeito nenhum” – Erebus não apenas era quase uma imagem espelhada de Kalona, como também imitava a voz de seu irmão perfeitamente.

– Eu estava falando de Neferet – Kalona rapidamente organizou seus pensamentos e mentiu com facilidade. Fazia éons, mas ele costumava ser bom em mentir para o seu irmão. Kalona achou que ainda levava jeito para a coisa.

– Não duvido de você, irmão – Erebus se inclinou para a frente, abriu suas asas douradas e planou graciosamente até o chão diante de Kalona. – Veja só, esse é exatamente o motivo da minha pequena visita.

– Você veio até o reino terreno porque eu era amante de Neferet? – Kalona cruzou os braços sobre o seu peito largo e encontrou o olhar âmbar de seu irmão.

– Não, eu vim porque você é um mentiroso e um ladrão. O estupro da última bondade de Neferet é apenas mais um de seus muitos crimes – Erebus disse. Ele também cruzou o braço sobre o peito.

Kalona deu uma gargalhada.

– Você não andou espionando muito bem se acha que estupro tem algo a ver com o que Neferet e eu compartilhamos. Ela estava mais do que desejosa e pronta para o meu corpo.

– Eu não estava falando do corpo dela! – a voz de Erebus se elevou e Kalona ouviu o som de vampiros chamando e perguntando o que estava havendo ali perto do Templo de Nyx.

– Como sempre, irmão, você apareceu para causar problemas para mim. Eu deveria ficar nas sombras, sem ser visto e esperando até ser convocado. Se bem que, pensando melhor, vai ser divertido assistir a você lidar com a descoberta dos mortais. Apenas um rápido aviso: até os vampiros tendem a ter reações exageradas quando encontram um deus.

Erebus não hesitou. Ele levantou as mãos e ordenou:

– Esconda-nos!

Houve uma onda de vento e uma sensação de claridade que Kalona achou tão familiar, tão agridoce, que só duas reações vieram à sua mente: raiva e desespero. Ele não ia permitir que Erebus visse o seu desespero.

– Você está desafiando Nyx? Ela determinou que eu não posso entrar no Mundo do Além. Como você se atreve a me trazer aqui? – as asas cor da noite de Kalona estavam totalmente abertas e tensionadas, prontas para atacar o seu irmão.

– Você sempre faz o papel do tolo impetuoso, irmão. Eu nunca iria contra as determinações da minha Consorte. Eu não o trouxe para o Mundo do Além. Apenas trouxe um pedaço do Mundo do Além para nos esconder, só por alguns momentos, dos olhos mortais – Erebus sorriu de novo. Desta vez, ele não obscureceu a beleza de sua expressão. Uma luz solar irradiava do seu corpo. As suas asas cintilavam com penas de ouro. A sua pele era perfeita, como se ele tivesse sido modelado com raios de sol.

Ele foi, Kalona pensou com desgosto. Ele foi modelado quando o céu beijou o sol. Assim como eu fui modelado quando o céu beijou a lua. O céu, como a maioria dos imortais, é um bastardo inconstante, que faz o que quer e depois não presta atenção nos filhos que deixa para trás.

– Que tal a sensação de estar no Mundo do Além? Deve ser melhor do que quando você entrou sorrateiramente, perseguindo aquela pequena novata, Zoey Redbird. Naquela ocasião você era só espírito. Você não podia sentir a mágica do reino de Nyx contra a sua pele. E você sempre ficou tão impressionado com qualquer coisa que você pudesse tocar, que pudesse fisicamente chamar de sua.

Ótimo, Kalona pensou, ele ficou nervoso. Isso vai ofuscar a sua perfeição.

Foi a vez de Kalona sorrir. A luz que ele emitiu para o seu irmão não era a luz quente e vistosa do sol. Era a luminescência prateada e fria da lua.

– Ainda enciumado por eu tê-la tocado depois de todo esse tempo? Você se lembra de que Nyx é uma Deusa, não lembra? Ela não pode ser tocada a não ser que seja a sua vontade, o seu desejo, ser tocada, acariciada, amada por...

– Eu não vim aqui para falar de minha Consorte! – as palavras explodiram em flashes de calor dourado ao redor de Kalona.

– Que amostra de temperamento divino! – Kalona riu sarcasticamente. – E ainda dizem que você é o irmão bom. Se ao menos os aduladores que preferiram ficar no Mundo do Além pudessem vê-lo agora.

– Eles não dizem que eu sou o irmão bom. Eles dizem que você é o usurpador – Erebus atirou as palavras no seu irmão.

– Verdade? Pergunte novamente a eles. Eu acredito, depois de éons de reflexão cuidadosa, que eles iriam me chamar de “aquele que se recusou a compartilhá-la” – Kalona disse.

– Ela me escolheu – a voz de Erebus estava baixa; os seus pulsos estavam cerrados ao lado de seu corpo.

– Escolheu mesmo? Minha memória é diferente.

– Você a traiu! – Erebus gritou.

Kalona ignorou o ataque de cólera de seu irmão. Ele já havia testemunhado isso antes. Em vez de se abalar, ele falou com a frieza da superfície da lua:

– Por que você veio? Diga o que tem a dizer e então desapareça. O mundo mortal não é um grande reino, mas ele é meu. E eu não vou compartilhá-lo com você, assim como eu não teria compartilhado Nyx com você.

– Eu vim adverti-lo. Nós escutamos o seu Juramento no Mundo do Além. Nós sabemos que você se comprometeu a ser o guerreiro da Morte e a se tornar o Mestre da Espada desta escola.

– E líder dos Filhos de Erebus – Kalona acrescentou. – Não se esqueça do resto do meu título.

– Eu nunca poderia esquecer que você pretende blasfemar contra os meus filhos.

– Seus filhos? Agora você anda se acasalando com humanas e produzindo machos que crescem para se tornar guerreiros vampiros? Isso é fascinante, especialmente porque eu fui julgado tão duramente por criar meus filhos.

– Vá embora – os olhos de Erebus começaram a ficar incandescentes. – Saia deste lugar e pare de se intrometer na vida dos vampiros de Nyx e dos valorosos guerreiros que se comprometeram a me servir.

– Mas você não está se intrometendo ao ordenar que eu parta? Estou surpreso que Nyx tenha permitido isso.

– A minha Consorte não sabe que estou aqui. Eu só vim porque, de novo, você a está perturbando. Eu vivo para evitar qualquer perturbação a ela. Essa é a única razão pela qual estou aqui – Erebus disse.

– Você vive para lamber os pés dela e está, como sempre, com ciúmes de mim – Kalona não pôde evitar uma onda de alegria pelo que as palavras de Erebus tinham revelado. Ainda posso fazer Nyx sentir algo! A Deusa me observa! O imortal controlou suas emoções. Ele tinha que esconder a sua alegria de Erebus. Quando ele falou novamente, a sua voz estava sem emoção. – Que isto fique claro: eu não jurei servir a você. Eu fiz um Juramento de servir a uma Grande Sacerdotisa que personifica a Morte através da sua afinidade concedida pela Deusa. Tudo o que a sua visita fez foi me dar motivos para fazer uma clara distinção entre os guerreiros que se dizem seus filhos e os que não. Eu não vou oprimir os seus filhos com a minha liderança.

– Então você vai embora desta Morada da Noite – Erebus afirmou.

– Não. Mas você vai. Leve esta mensagem minha para Nyx: a Morte não faz diferença entre aqueles que a seguem e aqueles que seguem outros deuses. A Morte chega para todos os mortais. Eu não preciso da sua permissão, nem da permissão da Deusa, para servir à Morte. Agora suma daqui, irmão. Eu tenho que participar de um funeral – Kalona colocou os braços à frente do seu corpo e juntou as palmas das mãos, provocando uma explosão de luz prateada e gelada que criou uma onda ao redor dele, despedaçando a pequena bolha de Mundo do Além que o seu irmão havia criado e arremessando Erebus para cima e para longe no céu.

Quando a luz em volta dele desapareceu, os pés de Kalona tocaram a terra de novo e ele estava em pé ao lado do Templo de Nyx.

Aphrodite surgiu de um canto apressada, parou e o encarou.

– Eu já fui convocado? – ele perguntou.

Ela piscou e esfregou os olhos, como se estivesse tendo problemas em clarear a sua visão.

– Você estava brincando com uma lanterna aqui?

– Não tenho nenhuma lanterna. Eu já fui convocado? – ele repetiu.

– Quase. Alguma retardada, ou melhor, Kramisha, porque ela estava responsável pelas velas, esqueceu a vela do espírito. Eu tenho que pegar uma no Templo de Nyx. Você deve voltar comigo para a pira de Dragon. Thanatos vai concluir o círculo, dizer algumas coisas bacanas sobre Dragon e depois apresentar você.

Sentindo-se estranhamente desconfortável sob o olhar da humana rude e estranha que Nyx tinha, por razões incompreensíveis a quase todos, escolhido como sua Profetisa, Kalona resmungou uma resposta sem palavras e se virou para abrir a porta lateral do templo.

Ela não se abriu.

Kalona tentou de novo.

Ele se esforçou, usando a sua enorme força imortal.

Ela absolutamente não se abriu.

Foi então que ele notou que a porta de madeira havia desaparecido. A maçaneta havia se transformado em uma pedra firme e espessa. Não havia nenhuma entrada. Nada.

De repente, Aphrodite o estava empurrando para o lado. Ela segurou a maçaneta e a girou. A pedra desapareceu, transformando-se de novo em uma porta de madeira, que se abriu facilmente para ela. Aphrodite levantou os olhos para Kalona, antes de passar pela entrada do templo da Deusa.

– Você é tão estranho – ela atirou o cabelo para trás e entrou.

A porta se fechou atrás dela. Kalona colocou sua mão nela e, sob sua palma, ela se transformou de uma receptiva madeira em pedra novamente.

Kalona se afastou para trás, com uma sensação terrível dentro dele.

Apenas alguns minutos depois, Aphrodite emergiu por uma porta completamente normal. Ela estava segurando uma grossa vela roxa e disse, ao passar por ele:

– Bom, vamos lá. Thanatos quer que você fique na beira do círculo e tente não chamar atenção. Apesar de que, você sabe, isso seria bem mais fácil se você usasse mais roupas.

Kalona a seguiu, tentando ignorar aquele vazio dentro dele. Ele era exatamente o que Erebus havia dito, um tolo impetuoso e um usurpador. Se Nyx o estava observando, não era com nada mais além de desdém. Ela negava tudo a ele: que ele entrasse no Mundo do Além, no seu templo e no seu coração...

Os séculos deveriam ter diminuído a sua dor, mas Kalona estava começando a entender que a verdade era o oposto disso.

Aurox

Nyx, se você é mesmo uma Deusa misericordiosa, por favor, me ajude... por favor...

Aurox não tinha escapado de seu esconderijo na terra. Em vez disso, ele ficou repetindo sem parar aquela única frase, aquela única prece. Talvez Nyx premiasse a determinação. Pele menos ele poderia oferecer isso à Deusa.

Foi durante a ladainha da sua prece silenciosa que a mágica começou a girar em um redemoinho ao redor dele. A princípio, o espírito dele se animou. Nyx me ouviu! Mas bastaram alguns instantes para que ele percebesse o quanto estava errado. As criaturas que se materializaram, saindo do ar frio e úmido ao redor dele, não podiam estar a serviço de uma Deusa misericordiosa.

Aurox se encolheu para se afastar delas. O fedor daquelas criaturas era quase insuportável. Era horrível olhar aquelas faces cegas. O coração dele começou a bater mais forte. O medo o fez estremecer e a besta dentro dele se agitou. Será que aquelas coisas tinham sido enviadas como julgamento pelos malfeitos que ele cometera a serviço de Neferet? Aurox usou o seu próprio medo e começou a alimentar a besta no seu interior. Ele não queria que ela despertasse, mas ele ia lutar antes de sucumbir ao redemoinho de malevolência que ameaçava engolfá-lo.

Mas Aurox não foi engolfado por elas. Devagar, as criaturas foram subindo em um redemoinho mágico. Quanto mais alto elas iam, mais rápido elas giravam. Parecia que elas haviam sido invocadas e estavam despertando aos poucos, atendendo a um chamado mudo.

Aurox acalmou o seu medo e a besta dentro dele retrocedeu. Aquelas coisas não o queriam. Elas não tinham prestado nenhuma atenção nele. A cauda do redemoinho estava deixando como rastro uma névoa escura e fétida. Sem saber ao certo o que o compelia, Aurox estendeu o braço e passou a mão naquele rastro.

A sua mão se tornou a névoa, como se elas fossem feitas da mesma substância. Ele não sentiu o redemoinho, apesar de aparentemente ele ter dissolvido a carne de Aurox. Com os olhos arregalados, ele tentou soltar sua mão, mas era tarde demais. Ele não tinha mais mão, e então um tremor tomou conta dele quando a névoa começou a absorver a sua carne. Impotente, Aurox viu o seu antebraço desaparecer, depois os seus bíceps, depois os seus ombros. Ele tentou despertar a besta, libertar o poder adormecido dentro dele, mas a névoa amortecia os seus sentimentos. Ela o anestesiava enquanto o sugava. Quando ela absorveu a sua cabeça, Aurox se tornou a névoa. Ele não sentia mais nada, exceto um desejo enorme, uma busca incompleta, uma necessidade implacável. Do quê? Aurox não sabia dizer. Tudo o que ele sabia é que havia sido engolfado pelas Trevas e que ele estava sendo levado em uma onda de desespero.

Tem que existir algo além disto para mim!, ele pensou freneticamente. Eu tenho que ser mais do que névoa, desejo, besta e escuridão! Mas parecia que ele não era nada além dessas coisas. O desespero tomou conta dele quando ele percebeu a verdade. Ele era todas essas coisas e ao mesmo tempo nenhuma dessas coisas. Aurox não era nada... Absolutamente nada.

Aurox pensou que o barulho de vômito fosse dele mesmo. Em algum lugar, de algum modo, o seu corpo deveria estar revoltado com o que estava acontecendo. Então ele a viu.

Zoey estava lá. Ela estava segurando a pedra branca à sua frente. Do mesmo modo como ela havia feito na noite anterior, no ritual em que ele tinha tentado fazer uma escolha, fazer a coisa certa.

Ele sentiu a névoa se agitar. Ela também viu Zoey.

A névoa ia absorvê-la.

Não! O seu espírito berrou profundamente. Não! A mente de Aurox ecoou aquele berro. Em vez de desespero, ele começou a sentir algo mais ao observar Zoey. Ele sentiu o medo dela e a sua força. A sua determinação e a sua fraqueza. E Aurox percebeu algo que o surpreendeu. Zoey se sentia tão insegura sobre si mesma e sobre o seu lugar no mundo quanto ele. Ela se preocupava em não ter a coragem necessária para fazer as coisas certas. Ela questionava as suas decisões e se envergonhava de seus erros. De vez em quando, até Zoey Redbird, a novata privilegiada tocada pela Deusa, sentia-se como um fracasso e pensava em desistir.

Exatamente como ele.

A compaixão e a compreensão fluíram através de Aurox, e nesse momento ele sentiu uma onda de um poder quente e claro. Em um flash de luz ofuscante, ele caiu do centro do redemoinho em desintegração, aterrissando com força no seu corpo restaurado, arfando em busca de ar fresco e tremendo inteiro.

Ele não ficou descansando muito tempo ali. Ainda trêmulo e fraco, Aurox encontrou apoio para as mãos e os pés no labirinto de raízes quebradas. Devagar, ele foi se puxando para cima até a beira do buraco. Isso levou muito tempo. Quando finalmente alcançou o topo, ele hesitou, procurando ouvir atentamente.

Ele não ouviu nada além do vento.

Aurox se ergueu do chão, usando o tronco quebrado como esconderijo. Zoey tinha desaparecido. Ele analisou a área ao seu redor e os seus olhos foram atraídos imediatamente para um monte enorme de madeiras e tábuas, em cujo topo havia uma figura coberta por uma mortalha. Apesar de aquele local estar aparentemente cercado pela Morada da Noite inteira, Aurox não teve dúvidas em reconhecer o que estava vendo. É a pira funerária de Dragon Lankford, foi o seu primeiro pensamento. Eu o matei, foi o segundo. Como o desespero na névoa mágica, o funeral o sugou.

Não foi difícil se aproximar do círculo de novatos e vampiros. Os guerreiros Filhos de Erebus estavam obviamente bem armados, mas a atenção de todos estava focada dentro do círculo e na pira no seu centro.

Aurox se moveu furtivamente, usando os grandes carvalhos antigos e as sombras abaixo deles como cobertura até chegar perto o bastante para entender as palavras que Thanatos estava dizendo. Então ele recuperou o controle sobre si mesmo e saltou. Agarrando um galho baixo, Aurox foi subindo na árvore até encontrar um lugar onde se agachou, com uma vista desimpedida do espetáculo macabro.

Thanatos havia acabado de traçar o círculo. Aurox podia ver que quatro professores vampiros estavam segurando velas e representando cada um dos elementos. Ele esperava ver Zoey no centro do círculo, perto da pira, mas em vez disso ele ficou surpreso ao ver que Thanatos estava segurando a vela roxa do espírito com uma mão e uma tocha grande com a outra.

Onde estava Zoey? Será que as criaturas da névoa a tinham capturado? Será que foi isso que fez com que a névoa se dissipasse? Freneticamente, ele procurou encontrá-la no círculo. Quando ele a encontrou em pé ao lado de Stark, rodeada pelo seu grupo de amigos, Aurox achou que ela parecia triste, mas sem ferimentos. Ela estava observando Thanatos atentamente. Aparentemente, não havia nada errado com Zoey, exceto que ela lamentava a perda do seu Mestre da Espada. Com aquela sensação de alívio, Aurox ficou tão fraco que quase caiu de seu poleiro na árvore.

Aurox encarou Zoey. Ela havia começado esse conflito interno que ele sentia. Por quê? Ele estava tão confuso com ela quanto estava em relação aos sentimentos que ela havia despertado dentro dele.

Ele voltou sua atenção para Thanatos. Ela estava andando graciosamente em volta da circunferência do círculo, falando com uma voz que acalmava até os seus nervos em frangalhos.

– O nosso Mestre da Espada morreu como ele viveu: como um guerreiro, fiel ao seu Juramento, fiel a esta Morada da Noite e fiel à sua Deusa. Há outra verdade aqui que precisa ser contada. Apesar de nós chorarmos a sua perda, nós reconhecemos que ele era apenas a casca de si mesmo sem a sua companheira, a amável Anastasia – Aurox olhou para Rephaim. Ele sabia que, como Raven Mocker, Rephaim havia matado Anastasia Lankford. Que ironia o fato de o Mestre da Espada ter morrido para protegê-lo. Ironia maior ainda era o rosto do garoto estar encharcado de lágrimas e ele chorar abertamente a morte de Dragon.

– A Morte foi gentil com Dragon Lankford. Ela não apenas permitiu que ele morresse como guerreiro, mas também serviu como um conduto para a Deusa. Nyx uniu novamente Bryan Dragon Lankford à sua amada e aos espíritos iluminados de seus dois familiares felinos, Shadowfax e Guinevere.

Os gatos deles também morreram? Eu não me lembro de nenhum gato no ritual. Confuso, Aurox analisou a pira funerária. Sim, agora que estava olhando mais de perto, ele podia ver dois pequenos volumes embrulhados na mortalha com Dragon, aninhados um de cada lado do guerreiro caído.

Thanatos havia parado de andar em volta do círculo e estava parada bem na frente de Zoey. A Grande Sacerdotisa sorriu para a novata.

– Conte-nos, Zoey Redbird. Já que você entrou no Mundo do Além e voltou, qual é a única constante lá?

– O amor – Zoey respondeu sem hesitar. – Sempre o amor.

– E você, James Stark? O que você encontrou no Mundo do Além? – Thanatos perguntou ao jovem guerreiro, que estava com seu braço em volta dos ombros de Zoey.

– O amor – Stark repetiu com uma voz forte e firme. – Sempre o amor.

– Isso é uma verdade – Thanatos continuou a andar ao redor do círculo. – Eu também posso dizer a vocês que a minha proximidade com a Morte já me mostrou relances do Mundo do Além. O que eu tive permissão para ver me ensinou que, apesar de o amor permanecer conosco quando passamos deste reino a outro, ele não pode existir eternamente sem compaixão, assim como a Luz não pode existir sem esperança e as Trevas não podem existir sem o ódio. Então, tendo em mente essa verdade dita e compreendida, eu gostaria de pedir que vocês abram os seus corações e deem as boas-vindas ao nosso novo Mestre da Espada e líder dos guerreiros Filhos de Erebus, meu guerreiro sob Juramento, Kalona!

Aurox refletiu a surpresa que ele viu em muitos rostos abaixo dele quando Kalona, o imortal alado que ele sabia que estava havia muito tempo ao lado das Trevas, entrou no círculo com passos firmes e se aproximou de Thanatos. Ele cruzou sua mão em punho sobre o peito e se curvou respeitosamente. Então ele levantou a cabeça e sua voz profunda preencheu o ar.

– Eu jurei ser o guerreiro da Morte, e assim será. Eu jurei ser o Mestre da Espada desta Morada da Noite, e assim será. Mas eu não tentarei tomar o lugar de Dragon como líder dos guerreiros Filhos de Erebus.

Aurox viu que Thanatos estava observando Kalona atentamente, apesar de a sua expressão parecer satisfeita. Os guerreiros que estavam espalhados por toda a volta do círculo se agitaram, como se não soubessem bem o que pensar a respeito da proclamação do imortal.

– Eu vou servir como guerreiro da Morte – Kalona repetiu. Ele estava se dirigindo a Thanatos, mas a sua voz chegava a todos no círculo e à multidão que havia se reunido para o funeral. – Vou proteger você e esta escola. Mas não vou receber um título que me liga a Erebus.

– Eu estava no Conselho Supremo quando você declarou ser Erebus de volta à Terra – Thanatos afirmou. – O que você tem a dizer sobre isso?

– Eu não reivindiquei esse título. Isso foi coisa de Neferet. Ela quer muito ser uma deusa, e isso significa que ela precisa de um Consorte imortal, então ela me nomeou Erebus de volta à Terra. Eu rejeitei esse papel quando rejeitei Neferet.

Sussurros zuniram através do círculo como se fosse o vento através das árvores. Thanatos levantou a tocha que ela ainda segurava.

– Silêncio! – as vozes se aquietaram, mas o choque e a descrença continuaram. – Kalona está falando a verdade sobre Neferet. Dragon foi morto pela criatura dela, Aurox. Ele não foi um presente de Nyx. Na noite passada, durante o ritual de revelação na fazenda de lavandas de Sylvia Redbird, a terra nos mostrou a terrível verdade. Aurox foi criado pelas Trevas através do sacrifício da mãe de Zoey Redbird. Ele é um Receptáculo escravo de Neferet. As Trevas continuam a controlá-lo através de sacrifícios sangrentos – ela apontou sua tocha para os três corpos em cima da pira. – Eu tenho evidências de que Neferet tirou a vida de Shadowfax para que as Trevas mantivessem o domínio sobre Aurox. Essa morte foi demais para a pequena Guinevere de Anastasia. A tristeza parou o seu coração e ela prontamente seguiu Shadowfax para o Mundo do Além, para se reencontrar com aqueles a quem os dois mais amavam.

O corpo de Aurox ficou imóvel. Ele mal conseguia respirar. Ele se sentia como se Thanatos tivesse acabado de estripá-lo. Ele queria gritar: “ Não é verdade! NÃO É VERDADE!”, mas as palavras dela continuavam a massacrá-lo.

– Zoey, Damien, Shaunee, Erin, Stevie Rae, Darius, Stark, Rephaim e eu! – ela gritou cada nome. – Nós testemunhamos os malfeitos sombrios de Neferet. Dragon Lankford morreu para que nosso testemunho pudesse se tornar público. Agora nós precisamos continuar a luta que derrubou o nosso Mestre da Espada. Kalona, estou satisfeita por ouvir a sua confissão. Você tentou usurpar Erebus, ainda que apenas na Terra. Ficou claro para o Conselho Supremo que você estava sendo incitado pelas tramoias de Neferet. Eu o aceito como guerreiro da Morte e protetor desta escola, mas você não pode liderar os guerreiros que fizeram Juramento como Filhos de Erebus. Isso seria desrespeitoso à Deusa e ao seu Consorte.

Aurox viu um lampejo de raiva passar pelos olhos de Kalona, mas ele abaixou a cabeça para Thanatos e cruzou sua mão em punho sobre o coração, dizendo:

– Que assim seja, Grande Sacerdotisa. – Então ele voltou para a beira do círculo, e as pessoas que estavam próximas a ele deram alguns passos discretos para trás.

Thanatos pediu que Shaunee invocasse o fogo e acendesse a pira funerária. Quando a coluna de fogo engolfou a pira de Dragon Lankford, Aurox desceu da árvore e, sem ser visto por ninguém, cambaleou de volta até o carvalho despedaçado e desapareceu abaixo do chão, onde, sozinho, chorou todo o seu desespero e o seu ódio por si mesmo dentro da terra partida.


13 Zoey

– Está tudo bem, Z.? – Stark falou baixo no meu ouvido quando o meu círculo e eu estávamos reunidos perto da entrada do lobby da escola. Thanatos havia pedido que nós esperássemos ela terminar de falar com os professores e guerreiros, e então ela iria se juntar a nós para a entrevista.

– Estou triste por causa de Dragon – sussurrei para ele.

– Não quis dizer isso – ele manteve a voz baixa, para que eu fosse a única capaz de ouvi-lo. – Eu queria saber se está tudo bem com a pedra. Eu vi quando você a tocou durante o funeral.

– Eu achei ter sentido a pedra esquentando por um momento, mas logo passou. Provavelmente foi porque nós estávamos bem perto da pira. E por falar nisso... – levantei a voz e me dirigi a Shaunee –, bom trabalho com a parte do fogo no funeral. Eu sei que não é fácil manter piras funerárias acesas, mas você ajudou. Você fez com que tudo acabasse mais rápido.

– Obrigada. Sim, todos nós estamos cansados de funerais. Pelo menos antes desse funeral nós pudemos assistir a Dragon entrando no Mundo do Além, mas ver os gatos lá na pira com ele deixou tudo especialmente triste – ela enxugou os olhos e eu me perguntei como ela (ou qualquer um) conseguia chorar e ainda ficar bonita. – Na verdade, isso me lembra de uma coisa... – Shaunee continuou, virando-se para encarar Erin, que estava na ponta do nosso grupo, olhando para os garotos que ainda estavam na pira como se ela estivesse procurando alguém. – Erin, tudo bem por você se eu mudar a caixa de areia e as coisas de Belzebu para o meu quarto? Ele tem dormido lá a maioria dos dias.

Erin olhou para Shaunee, deu de ombros e disse:

– Sim, tanto faz para mim. Aquela caixa de areia tem cheiro de merda mesmo.

– Erin, os gatos não gostam de usar caixas de areia sujas. Você tem que limpá-la todo dia – Damien a informou, franzindo a testa.

Erin bufou de um jeito sarcástico.

– Não, eu não preciso mais fazer isso – então ela voltou a olhar para os outros garotos.

Percebi que ela não estava chorando. Pensei nisso e me dei conta de que ela não havia chorado nenhuma vez durante o funeral inteiro. No começo, toda essa coisa da ruptura entre as gêmeas parecia ter mexido mais com Shaunee, mas com o passar do tempo comecei a notar que Erin não estava agindo como ela mesma. Apesar de eu supor que isso seria normal, já que agir como ela mesma costumava significar agir igual a Shaunee, que agora parecia bem mais madura e legal. Fiz uma nota mental de que eu precisava encontrar tempo para conversar com Erin, para me certificar de que ela estava bem.

– Que droga, eu preferia que Thanatos não tivesse dito para Rephaim esperar com os outros garotos no ônibus. Ele estava superperturbado no funeral. Eu odiei ter que deixá-lo sozinho nesse estado – Stevie Rae falou, vindo para o meu lado.

– Ele não está sozinho. Ele está com todos os outros novatos vermelhos. Eu vi quando eles foram para o ônibus. Kramisha estava falando para ele sobre como a poesia podia ser um caminho para extravasar as emoções.

­– Kramisha vai entreter o menino-pássaro com as suas tolices sobre poesia. Blá-blá... versos iâmbicos e blá-blá... – Aphrodite comentou. – Além disso, até você precisa entender que não é uma boa ideia deixar o público humano saber do seu pequeno “probleminha de pássaro” – ela colocou aspas no ar com os dedos.

– Olá, ahn, desculpem-me por interromper vocês, mas eu estou procurando o lobby da escola.

Todos nós nos viramos ao mesmo tempo e olhamos para o humano que estava andando na nossa direção pela calçada que vinha do estacionamento. Atrás dele, havia um cara segurando uma câmera e com uma grande bolsa preta abarrotada de coisas pendurada no seu ombro e uma espécie de fone de ouvido cinza na cabeça.

Como era de se prever, Damien foi o primeiro de nós a se recompor. Falando sério, Damien realmente devia ser coroado a Miss Simpatia da Morada da Noite de Tulsa.

– Você está no lugar certo. Parabéns por nos encontrar! – Damien sorriu tão afetuosamente que eu percebi que o humano relaxou os seus ombros tensos.

Então ele estendeu a mão e disse:

– Ótimo. Eu sou Adam Paluka, da Fox23 News. Estou aqui para entrevistar a sua Grande Sacerdotisa e, imagino, alguns de vocês também.

– Prazer em conhecê-lo, senhor Paluka. Eu sou Damien – ele disse, apertando a mão do humano. Então Damien deu uma risadinha e acrescentou: – Ai, que aperto forte!

O repórter sorriu.

– O prazer é meu. Pode me chamar de Adam. O senhor Paluka é o meu pai.

Damien deu outra risadinha. Adam também. Eles fizeram um supercontato visual. Stevie Rae me cutucou e nós demos aquele Olhar uma para a outra. Adam era fofo, muito fofo mesmo, de um jeito jovem, inteligente, promissor e metrossexual. Ele tinha cabelos e olhos escuros, bons dentes, sapatos caros e uma bolsa masculina, na qual Stevie Rae e eu reparamos juntas. Um namorado em potencial para Damien!, nossos olhares telegrafaram ao mesmo tempo.

– Olá, Adam. Eu sou Stevie Rae – ela estendeu a mão e, enquanto ele a apertava, ela perguntou: – Você não tem namorada, tem?

O sorriso cheio de dentes dele diminuiu, mas só um pouco.

– Não. Eu não tenho, não. Hum. Com certeza, eu não tenho namorada. – Então ele notou a Marca vermelha de Stevie Rae. – Então você é do novo tipo de vampiros de que a sua ex-Grande Sacerdotisa falou.

Stevie Rae abriu o sorriso para ele.

– Sim, eu sou a primeira Grande Sacerdotisa Vermelha. Legal, não é?

– A sua tatuagem é realmente muito bonita – Adam disse, parecendo mais curioso do que desconfortável.

– Obrigada! – Stevie Rae agradeceu efusivamente. – Este aqui é James Stark. Ele é o primeiro guerreiro vampiro vermelho. A tatuagem dele também é incrível.

Stark estendeu a mão.

– Prazer em conhecê-lo. E você não precisa me dizer que a minha tatuagem é bonita.

O rosto de Adam ficou um pouco pálido, mas ele apertou a mão de Stark. O sorriso dele pareceu sincero; nervoso, mas sincero.

– Olá – eu entrei na conversa, apertando a mão dele. – Eu sou Zoey.

O olhar de Adam rapidamente se voltou para a tatuagem completa do meu rosto, para a gola em V da minha camiseta e o relance de tatuagens em volta da minha clavícula, e depois para a palma da minha mão, que estava coberta com a mesma tatuagem cheia de filigranas.

– Eu não sabia que vampiros faziam tatuagens adicionais. O seu tatuador é daqui de Tulsa?

Eu sorri para ele.

– Bem, às vezes. Mas ela passa a maior parte do tempo no Mundo do Além. – Percebi que ele estava tentando entender o que eu havia acabado de dizer, então aproveitei a oportunidade e perguntei: – Ei, você disse que não tem namorada. E quanto a um namorado?

– Hum, não, eu também não tenho namorado. Pelo menos não atualmente – Adam se voltou para Damien, que encontrou o seu olhar.

Sucesso!, era o que eu estava pensando quando Aphrodite bufou.

– Ah, que merda, isto aqui não é The Bachelorette. Eu sou Aphrodite LaFont. Sim, o prefeito é o meu pai. Ipi-ipi-urra – ela deu o braço para Darius. – E este aqui é Darius, o meu guerreiro.

Adam levantou a sua bela sobrancelha quando ele reparou no suéter de sexto-formanda que Aphrodite estava usando, com a insígnia das três Moiras bordada no bolso do lado esquerdo do peito.

– Agora permitem que humanos frequentem a Morada da Noite?

– Aphrodite é uma Profetisa de Nyx, um fato provado pelo elo que ela tem com Darius, que é um guerreiro Filho de Erebus e fez o Juramento de ser o seu protetor – Thanatos falou enquanto saía das sombras e caminhava graciosamente na nossa direção. Eu achei o timing dela excelente, assim como a sua entrada. Ela era alta e poderosa, sem aparentar idade, e tinha uma beleza clássica. A sua voz era agradável e informativa, como se ela desse entrevistas para repórteres humanos todo dia. – Eu sei que o funcionamento interno da nossa sociedade não é senso comum, mas acredito que a maioria dos humanos sabe que um guerreiro não pode se ligar a um humano por um Juramento de proteção.

– Na verdade, apesar de esta entrevista ser de última hora, tive tempo para pesquisar um pouco, e esse é um fato que eu realmente descobri.

– O fato de Aphrodite ser uma Profetisa de Nyx e de estar frequentando esta escola, assim como vários novatos e vampiros vermelhos, vai ser um dos tópicos da nossa entrevista. Embora pareça que a entrevista já tenha começado – Thanatos saiu totalmente das sombras, indicando com a cabeça o cameraman que sem dúvida já estava nos filmando, apesar de nenhum de nós ter prestado atenção nele. – Eu sou Thanatos, a nova Grande Sacerdotisa da Morada da Noite de Tulsa. Merry meet, Adam Paluka. Você é bem-vindo à nossa escola.

– M-merry meet – Adam se atrapalhou um pouco. – Eu não quis ofender começando a filmagem mais cedo.

Thanatos sorriu.

– Você não nos ofendeu. Nós o convidamos a vir até aqui. Fico satisfeita que a entrevista tenha começado sem formalidades. Nós podemos ficar aqui, sob o belo céu da noite de Tulsa, e continuar a conversa?

– Claro – Adam disse após um aceno de cabeça do cameraman. – A luz dos lampiões a gás é uma boa iluminação. Se vocês nos derem um segundo, podemos usar um microfone boom e captar todos do grupo que quiserem participar.

– Parece ótimo. Zoey, Aphrodite, Stevie Rae, Stark e Damien, por favor, fiquem para a entrevista. Darius, Shaunee e Erin, vocês poderiam se certificar de que os novatos que estão reunidos voltem para os seus dormitórios? Esta foi uma noite difícil para a nossa escola.

Darius se curvou para Aphrodite e Thanatos, e então ele e Shaunee foram embora juntos. Erin saiu andando na direção contrária.

– Você disse que hoje foi uma noite difícil para a sua escola. O que quis dizer com isso?

– Com o seu faro para notícias, tenho certeza de que você sabe que tivemos recentemente um incêndio no campus – Thanatos explicou.

– Sim, nós inclusive fizemos uma reportagem sobre isso na Fox. Foi no estábulo, certo? – ele a estimulou a continuar.

– Certo. Foi um acidente infeliz, apesar de não totalmente surpreendente – Thanatos fez um gesto indicando os lampiões de cobre pendurados que faziam uma bela decoração ao nosso redor. – A luz dos lampiões a gás e a luz de velas é mais agradável aos nossos olhos do que lâmpadas elétricas. Como você já observou, esse tipo de iluminação ambiente é adorável, mas as chamas são vivas e às vezes voláteis. Um lampião foi deixado aceso sozinho no celeiro. Foi uma noite com muito vento. Uma rajada forte derrubou o lampião em cima de um fardo de feno, colocando fogo no estábulo.

– Espero que ninguém tenha se ferido – achei que Adam pareceu sinceramente preocupado.

– A nossa Mestra dos Cavalos e uma novata inalaram um pouco de fumaça, e o humano empregado como treinador do estábulo teve queimaduras, a maioria nas mãos. Ele vai se recuperar totalmente. Quero deixar aqui registrado que Travis Foster agiu como um herói. Ele cuidou para que todos os cavalos escapassem.

– Travis Foster é humano?

– Completamente humano, além de ótimo funcionário e amigo.

– Fascinante – Adam disse e olhou em volta. Pude ver quando o olhar dele se fixou na pira distante, que agora estava em combustão lenta e sem chamas, com um brilho alaranjado. – Por favor, corrija-me se eu estiver errado, mas acho que aquela pilha de madeira queimando não faz parte do estábulo. Durante a minha pesquisa, eu li que os vampiros queimam os seus mortos em piras funerárias. Será que eu escolhi uma hora inapropriada para esta entrevista? – ele fez a pergunta com um tom de consideração em sua voz, mas eu consegui enxergar a curiosidade que brilhava em seus olhos.

– Você não está errado. Aquilo são os restos de uma pira funerária. De fato, nós sofremos uma grande perda na Morada da Noite, que não teve nada a ver com o incêndio no estábulo. O nosso Mestre da Espada, Dragon Lankford, foi morto recentemente em um trágico acidente em uma fazenda de lavandas que faz divisa com a reserva nacional conhecida como Pradaria de Tallgrass – ela contou e eu fiquei de boca fechada, perguntando-me como diabos Thanatos ia transformar o assassinato de Dragon em um “trágico acidente” que pudesse ser explicado ao público humano. – Um bisão grande escapou das fronteiras da reserva. Alguns de nós estávamos terminando um adorável ritual de purificação na fazenda de lavandas, e aquela besta deve ter ficado confusa com a fumaça de sálvia e o nosso círculo. A criatura nos atacou. O nosso Mestre da Espada protegeu os nossos novatos, perdendo a vida ao fazê-lo.

– Isso é terrível! Eu sinto muito – Adam pareceu perturbado. Na verdade, todos nós parecemos perturbados, o que escondeu o nosso choque com a mentira gigante de Thanatos.

– Obrigada, Adam. Apesar de ter sido um acidente horrível e uma grande perda para a nossa Morada da Noite, o nosso Mestre da Espada morreu como ele viveu, como um guerreiro honrado que protegeu os mais jovens. Por causa dele, ninguém mais se feriu e o ritual foi concluído. Todos nós vamos lembrar da bravura de Dragon Lankford pelos séculos que virão – ela tocou levemente os olhos com um lenço rendado que tirou de dentro da luva. Foi realmente um momento tocante.

Adam ficou parado ali, parecendo compreensivo, enquanto o cameraman desviou a lente da pira de Dragon para focar a dor de Thanatos e o seu esforço muito humano para se recompor novamente.

Foi tudo muito bem encenado. Ela me fez pensar em quantas aulas de Teatro a Grande Sacerdotisa da Morte havia feito quando era uma novata.

Thanatos terminou de enxugar os olhos e suspirou profundamente.

– E respondendo à sua outra pergunta, não, não é uma hora inapropriada para a nossa entrevista. Nós o convidamos, lembra? Nós estamos felizes por recebê-lo na Morada da Noite, mesmo neste momento de tristeza. Então, vamos começar oficialmente. Aqui neste banco é um bom lugar? – Thanatos indicou com um gesto um dos longos bancos de pedra que se alinhavam no caminho de entrada para o lobby da escola. Durante uma noite normal de escola, haveria um monte de garotos aglomerados em volta dos bancos, fazendo lição de casa, flertando e fofocando. Naquela noite, os bancos estavam completamente vazios.

– Perfeito – Adam respondeu.

Enquanto ele e o cameraman se preparavam, Thanatos tomou o seu lugar no centro do banco. Em voz baixa, ela disse:

– Zoey, Stark, aqui ao meu lado – ela apontou para a direita, atrás dela. – Aphrodite, Stevie Rae e Damien, aqui – eles ficaram parados em pé à esquerda.

Quando Adam voltou e oficialmente começou a filmar, senti uma agitação nos meus nervos. Até os meus antigos amigos da South Intermediate High School iriam ver isso!

– Thanatos, eu estava pensando se você poderia dar mais detalhes sobre o comentário que Neferet, a ex-Grande Sacerdotisa da Morada da Noite de Tulsa, fez sobre você na noite passada. Ela disse que a Morte era a nova Grande Sacerdotisa daqui – Adam fez uma pausa e sorriu. – Para mim, você não parece a Morte.

– Você conhece bem a Morte, jovem Adam? – Thanatos perguntou com uma voz suave e espirituosa.

– Não, na verdade eu nunca morri – ele respondeu no mesmo tom de brincadeira.

– Bem, o comentário de Neferet pode ser facilmente explicado. Eu não sou a Morte propriamente dita. Eu simplesmente recebi o dom de ajudar os mortos a passarem deste reino para o próximo. Eu sou tanto a Morte quanto você é a Humanidade. Nós dois somos apenas a representação de ambos. Pode ser mais fácil de entender se você pensar em mim como uma médium muito boa.

– Neferet também mencionou um novo tipo de vampiros, os vampiros vermelhos, e sugeriu que eles podem ser perigosos – ele falou, e eu percebi que a câmera se voltou para Stark e Stevie Rae. – Você também pode explicar isso melhor?

– Certamente, mas primeiro eu sinto que preciso deixar algo bem claro. Neferet não é mais funcionária da Morada da Noite de Tulsa. Na verdade, pelo modo como a nossa sociedade funciona, uma vez que uma Grande Sacerdotisa perde o seu emprego, ela perde essa posição para sempre. Ela nunca mais vai servir como Grande Sacerdotisa em nenhuma outra Morada da Noite. Como você pode imaginar, isso pode ser uma transição difícil e frequentemente embaraçosa para o empregado demitido, assim como para o seu empregador. Os vampiros não têm leis de calúnia e difamação. Nós usamos o sistema de Juramento e honra. Obviamente, desta vez esse sistema não funcionou.

– Então você está dizendo que Neferet é... – ele não concluiu e fez um gesto com a cabeça, encorajando Thanatos a concluir a frase por ele.

– Sim, é um fato triste, mas verdadeiro. Neferet é uma ex-funcionária descontente que não apita mais nada – Thanatos disse calmamente.

Adam olhou para Stark, que estava ao meu lado, não muito longe de Thanatos.

– Essa ex-funcionária fez alguns comentários sobre um membro da Morada da Noite em particular: James Stark.

– Sou eu – Stark falou na hora. Eu percebi que ele estava desconfortável, mas acho que ninguém mais, incluindo os telespectadores, iriam ver qualquer coisa além de um cara muito bonito com uma tatuagem vermelha no rosto que lembrava flechas.

– Então, Jim. Posso chamá-lo assim? – Adam perguntou.

– Bem, sim, mas seria melhor você me chamar de Stark. Todo mundo me chama assim.

– Ok, Stark, Neferet disse que você matou o seu mentor na Morada da Noite de Chicago, e ela sugeriu que você é uma ameaça para a comunidade daqui. Você gostaria de responder a isso?

– Bem, isso é um monte de papo-furado! – escutei a minha boca dizer.

Stark abriu o seu meio sorriso metidinho e pegou a minha mão, entrelaçando os seus dedos aos meus de modo que todos os telespectadores podiam ver.

– Z., quase você fala um palavrão na TV. Não faça isso, a sua avó pode ouvir e isso não seria legal.

– Desculpe – murmurei. – Que tal eu simplesmente deixar você falar?

Stark abriu ainda mais o sorriso.

– Bem, sempre há uma primeira vez para tudo.

Infelizmente, todos os meus amigos riram. Eu olhei zangada para ele. Stark continuou falando, apesar de eu pensar em sufocá-lo com um travesseiro da próxima vez que nós fôssemos dormir.

A voz dele foi hesitante no começo, mas, quanto mais ele falava, mais forte e seguro ficava.

– O meu mentor, William Chidsey, era incrível. Ele era legal. E inteligente. Estou falando inteligente mesmo. E talentoso. Ele me ajudou. Na verdade, ele foi mais um pai do que um mentor para mim – Stark fez uma pausa e passou a mão pelo rosto. Quando ele começou a falar de novo, foi como se só ele e o repórter estivessem ali sozinhos, como se ele tivesse esquecido que a câmera estava ali e tudo o mais. – Adam, eu descobri bem cedo, quando eu estava no segundo ano do ensino médio, que eu tinha recebido um dom – Stark enfatizou bem a última palavra, não sarcasticamente, mas também não como se aquilo fosse uma coisa fantástica. O tom de voz dele deixava claro que o seu dom era uma responsabilidade, e não uma responsabilidade fácil. – Eu não consigo errar o alvo. Eu sou um arqueiro – ele explicou quando Adam o olhou de modo questionador. – Você sabe, arco e flecha. Enfim, seja para onde for que eu mire, eu acerto. Infelizmente, não é tão literal assim. Pense nisso: há bastante diferença entre o lugar para onde você está olhando e o que você está realmente pensando e o que você está alvejando. Um exemplo simples: imagine que você pega um arco e uma flecha e mira em uma placa com um sinal de “Pare”. Então, você puxa o arco, aponta a flecha e dispara no meio de uma grande placa vermelha. Mas e se dentro da sua cabeça você estiver pensando: “Ok, quero atingir aquela coisa que faz os carros pararem”? Quando você se dá conta, a sua flecha está atravessada no radiador do primeiro carro que aparece.

– Bem, eu posso entender como isso pode causar grandes problemas – Adam disse.

– Sim, problemas de proporções épicas. Levou um tempo para que eu descobrisse e aprendesse a controlar isso. Nesse tempo, eu cometi um erro realmente terrível – Stark fez uma pausa de novo e eu apertei a sua mão, tentando transmitir o meu apoio. – E por causa disso o meu mentor morreu. Eu não vou deixar que isso aconteça de novo. Fiz um Juramento de que isso não vai mais acontecer.

– E é por isso que James Stark está aqui na Morada da Noite de Tulsa – Thanatos retomou o controle da conversa, e a câmera a seguiu. – Em Tulsa, nós acreditamos em dar outra chance – o olhar dela se voltou para Aphrodite. Tive que cuidar para não ficar de queixo caído quando ela falou tranquilamente: – Você não diria que este é um excelente lugar para segundas chances, Aphrodite LaFont?

Eu não deveria ter me preocupado. Na frente de uma câmera gravando, Aphrodite se sentia em casa. Ela caminhou para a frente, na direção da câmera (é claro), e então se sentou ao lado de Thanatos.

– Eu concordo totalmente com você, Grande Sacerdotisa. Eu fui uma novata por quase quatro anos, mas Nyx, a nossa Deusa benevolente, decidiu tirar a sua Marca de mim e substituí-la por um dom profético. Os meus pais concordam com a minha decisão de permanecer na Morada da Noite. Na verdade, nós falamos sobre a possibilidade de eu fazer um treinamento no Conselho Supremo em Veneza quando eu me formar aqui. Minha mãe e meu pai me dão muito apoio – ela sorriu para a câmera. – Você pode comprovar isso se olhar as nossas contas de cartão de crédito dos últimos meses. Uau! Eu tenho pais tão incrivelmente legais!

Ok, sem brincadeira. Aquilo era uma montanha de besteiras podres e fedidas tão grande que eu nem conseguia falar. Felizmente, Stevie Rae não era tão muda.

– Falando em pais incríveis, a minha mãe, Ginny Johnson, vai fazer os melhores cookies de chocolate do universo e trazê-los para o evento aberto ao público com venda de guloseimas que nós vamos fazer aqui em breve, certo, Thanatos?

Thanatos não perdeu tempo.

– Você está absolutamente certa, Stevie Rae. Na próxima semana, se o tempo sujeito a tempestades de Oklahoma permitir, nós estaremos organizando um evento aberto ao público no campus. Esperamos que os Street Cats estejam aqui com gatos para adoção. Aproveitando, eu gostaria de anunciar que todos os lucros da nossa venda de guloseimas – ela sorriu na direção de Stevie Rae – vão beneficiar as obras de caridade dos Street Cats. Além disso, a avó da nossa Grande Sacerdotisa novata, Zoey Redbird, vai vender os seus produtos de lavanda nos nossos jardins.

– Não se esqueça da feira de empregos.

Todos, incluindo o cameraman, se viraram ao som da voz da Mestra dos Cavalos. Lenobia estava em pé ali, conduzindo sua bela égua negra, Mujaji, que parecia um sonho.

– Professora Lenobia, que bom que você se juntou à nossa entrevista – Thanatos afirmou.

– Uau! Que belo cavalo ele é! – Adam falou entusiasmado quando o cameraman deu um close em Mujaji.

Damien tocou o braço de Adam e sorriu.

– Querido, é ela, não ele.

– Ah, eu me enganei – Adam levou numa boa, sorrindo com um rubor gracioso em suas bochechas. – Essa coisa de ele ou ela nunca fez muita diferença para mim.

– Porque nós somos todos iguais – ouvi as palavras saindo da minha boca e silenciosamente agradeci a Nyx por elas. – Meninos, meninas, humanos, vampiros, que diferença faz? Todos nós vivemos em Tulsa e amamos esta cidade. Então, vamos apenas nos dar bem uns com os outros!

Thanatos riu, e o som da sua risada foi como música.

– Ah, Zoey, eu não poderia ter dito isso de melhor forma. E Lenobia, você fez bem em me lembrar. Adam, eu gostaria de anunciar que, durante a noite aberta ao público e o evento beneficente para os Street Cats, a Morada da Noite de Tulsa vai, como a primeira Morada da Noite da nossa história escrita, receber inscrições de humanos para vagas de professores. Vamos fazer entrevistas para colocações de professores nos nossos departamentos de Teatro e de Literatura – Thanatos se levantou e abriu os braços, parecendo benevolente e sábia. – A Morada da Noite dá as boas-vindas a Tulsa. Até sábado, nós desejamos a vocês merry meet, merry part e merry meet again.


14 Neferet

Neferet não teria visto a entrevista se ela não tivesse chamado o serviço de quarto até a sua cobertura. O subserviente garoto loiro era quase jovem demais para despertar o interesse dela. O último mensageiro que havia tido a sorte de atender ao seu chamado ia ter que tirar uma licença médica do trabalho pelos próximos dias. Fraco e cheio de hematomas, ele não iria se lembrar de nada, além da fascinação pela sua beleza e de uma série de sonhos eróticos e sombrios. Sonhos febris – o seu médico sem dúvida iria chamá-los assim. Os humanos eram criaturas tão frágeis. Era uma pena que ela precisasse constantemente encontrar novos brinquedinhos.

Neferet analisou o mensageiro. Ele era alto e parecia extremamente nervoso. A sua pele era ruim. Ele praticamente exalava virgindade por todos os seus poros dilatados. Pensando que sangue virgem iria combinar bem com a garrafa resfriada de champanhe que ele estava trazendo, ela fez um gesto em direção à sua sala de estar.

– Por favor, traga a garrafa aqui para dentro – Neferet ronronou.

O sangue virgem era tão doce que aquela aparência ruim e as mãos cheias de suor podiam ser facilmente ignoradas. Afinal de contas, ela não ia tocá-lo. Pelo menos não muito...

– Aqui está bem, madame? – os olhos dele continuavam passeando rapidamente dos seios dela para a sua boca e depois de volta para a garrafa que ele estava abrindo, enquanto ele fedia a desejo sexual, medo e fascinação.

– Aqui está perfeito – Neferet deslizou uma unha comprida e pontuda pelo corpete decotado do seu robe de seda.

– Uau – ele engoliu em seco, tirando a folha metálica dourada da boca da garrafa de champanhe com mãos trêmulas e inexperientes. – Espero que não se importe por eu dizer isto, mas você é muito mais bonita do que aqueles outros vampiros no telejornal.

– Outros vampiros? Telejornal?

– Sim, madame. Eles estão agora no jornal da noite da Fox23.

– Ligue a TV para mim! – ela falou rispidamente.

– Mas o champanhe não está...

– Deixe a garrafa de lado! Eu sou plenamente capaz de abri-la sozinha. Ligue a TV no telejornal e vá embora.

O garoto fez o que ela ordenara e então se retirou envergonhadamente, ainda dando olhares desejosos para ela. Neferet não prestou atenção nele. Ela estava totalmente absorta na cena que se descortinava à frente dela na grande televisão de tela plana. Thanatos, Zoey e alguns do seu grupo estavam lá. Eles estavam ao ar livre na Morada da Noite, bem agrupados e conversando facilmente com o repórter. Neferet franziu a testa. Todos pareciam tão normais.

Ela sorriu um pouco quando ouviu Thanatos explicar a morte de Dragon Lankford como um trágico acidente com um bisão.

– Aquele Aurox imprestável! – Neferet resmungou. – Receptáculo imperfeito e inepto! Tudo isso é culpa dele.

Ela continuou assistindo à entrevista, sorrindo ironicamente para Stark e Zoey, apenas se concentrando mais quando ouviu o seu próprio nome ser mencionado. Neferet apertou o botão para aumentar o volume e Thanatos proclamou em voz alta:

– ... Neferet é uma ex-funcionária descontente que não apita mais nada.

O corpo de Neferet se congelou.

– Ela se atreve a me chamar de funcionária! – Neferet continuou a assistir. A raiva dela cresceu com tanta intensidade que a porta de vidro que dava para a varanda da cobertura se abriu com força, espalhando estilhaços de cristal sobre o chão de mármore.

– Todos nós vivemos em Tulsa e amamos esta cidade. Então, vamos apenas nos dar bem uns com os outros! – a voz ridiculamente alegre de Zoey provocou arrepios de raiva que subiram e desceram pela espinha de Neferet.

– Eu não vou permitir que você desfaça o que eu comecei, sua criança odiosa! – Neferet explodiu. Quando Thanatos anunciou que a Morada da Noite ia receber inscrições de humanos para vagas de professores, ela ficou de queixo caído junto com o repórter. Após a saudação benevolente da nova Grande Sacerdotisa, merry meet, merry part e merry meet again, Neferet assistiu incrédula aos âncoras do telejornal conversarem tolamente sobre como a interação com os vampiros era interessante e como o evento aberto ao público e a feira de empregos seria ótima para a cidade, com um close congelado do rosto sorridente de Zoey decorando a tela. Ela apertou com força o botão de desligar a TV, incapaz de suportar Zoey Redbird por um só instante.

Do pequeno recanto que ficava entre a sala de estar e a sala de jantar, o computador de Neferet começou a chamar. Na tela, a silhueta da imagem de Nyx com os braços levantados piscou e, ao lado do ícone, apareceram as palavras: CONSELHO SUPREMO DOS VAMPIROS.

Neferet caminhou devagar até o computador e clicou no mouse para atender ao chamado, automaticamente ativando a câmera de vídeo. Ela sorriu friamente para as seis Grandes Sacerdotisas com expressões sérias que estavam sentadas em seus tronos esculpidos em mármore.

– Eu estava esperando a sua ligação.

Duantia, membro sênior do Conselho Supremo dos Vampiros, falou primeiro. Neferet achou que ela soou muito, muito velha. Certamente o seu cabelo longo e grosso parecia mais prata do que castanho, e Neferet teve certeza de ver bolsas embaixo de seus olhos escuros.

– Você foi convocada a aparecer diante de nós, mas aí está você em Tulsa, e aqui estamos nós em Veneza. Qual o motivo da sua demora?

– Eu estou ocupada – Neferet modulou a sua voz para parecer mais entretida do que irritada. Ou com medo. Ela não podia permitir nunca que as vampiras do Conselho Supremo acreditassem que ela tinha medo delas ou de qualquer um. – Não é conveniente viajar para a Itália nesta época.

– Então você nos obriga a julgá-la absente reo 3 .

Neferet zombou.

– Guarde o seu latim para os vampiros velhos demais para viver no presente.

Duantia continuou como se ela não tivesse falado nada.

– Nossa irmã Grande Sacerdotisa, sétimo membro deste Conselho Supremo, Thanatos, produziu provas irrefutáveis através de um ritual de revelação testemunhado pela Grande Sacerdotisa Zoey Redbird, pelo seu...

– Aquela criança insolente não é uma Grande Sacerdotisa!

– Você não vai me interromper! – mesmo pela internet, a milhares de quilômetros de distância, o poder de Duantia era palpável. Foi preciso um esforço supremo para que Neferet não se encolhesse de medo da tela do computador.

– Diga o que tem a dizer. Eu não vou interrompê-la de novo – Neferet disse sem emoção.

– O ritual de revelação que Thanatos presidiu foi testemunhado pela jovem Grande Sacerdotisa Zoey Redbird, pelo seu círculo, em que cada membro recebeu de Nyx o dom de uma afinidade elemental, além de vários guerreiros Filhos de Erebus. Durante esse ritual, a terra mostrou o registro de que você assassinou uma humana, sacrificando-a para o touro branco das Trevas, que aparenta ser o seu Consorte.

Neferet observou que as vampiras do Conselho Supremo se agitaram nervosamente, como se apenas ouvir a palavra Consorte associada ao touro branco fosse difícil de suportar. Isso a agradou. Muito em breve o Conselho Supremo iria ter que suportar muito mais do que apenas palavras.

– Neferet, o que você tem a dizer em sua defesa? – Duantia concluiu.

Neferet se levantou, atingindo a sua altura máxima. Ela sentiu os filamentos de Trevas roçando em volta dela, enrolando-se nos seus tornozelos e serpenteando em suas panturrilhas.

– Eu não preciso de defesa. Matar a humana não foi um ato de assassinato. Foi um sacrifício sagrado.

– Você se atreve a chamar as Trevas de sagradas? – a vampira membro do Conselho Supremo chamada Alitheia gritou.

– Alitheia, ou Verdade, como nós diríamos em uma língua que não está morta, eu vou conceder um pouco de você mesma a todas vocês. A verdade é que eu sou imortal. Em pouco mais de uma centena de anos eu obtive mais poder do que vocês, com todos os seus séculos, conseguiram adquirir. A verdade é que dentro de mais alguma centena de anos, a maioria de vocês será pó, e eu ainda vou ser jovem, poderosa, bonita e uma deusa. Se eu decido sacrificar uma humana, não importa por qual motivo, isso é sagrado, e não pecado!

– Neferet, você é Consorte das Trevas? – a pergunta de Duantia foi disparada em meio ao silêncio que se seguiu ao grito de Neferet.

– Conjure o touro branco e pergunte às Trevas você mesma. Mas apenas se você tiver coragem – Neferet sorriu com sarcasmo.

– Conselho Supremo, qual é o seu julgamento? – Duantia perguntou. Ela manteve o olhar fixo em Neferet enquanto cada vampira membro do Conselho Supremo se levantou e, uma de cada vez, pronunciou repetidamente a mesma palavra: “Banida!”.

Duantia se levantou por último.

– Banida! – ela disse com firmeza. – Deste dia em diante, você não será mais reconhecida como uma Grande Sacerdotisa de Nyx. Você não será mais reconhecida nem como uma vampira. Daqui em diante, você está morta para nós – Duantia falou e todas as vampiras do Conselho Supremo deram as costas para Neferet. Então o computador emitiu aquele som de final de chamada e a imagem delas se apagou.

Neferet olhou para a tela escura. Ela estava respirando pesadamente, tentando controlar o tumulto dentro dela. O Conselho Supremo a havia banido!

– Velhas horrendas! – ela explodiu. Era cedo demais! Neferet tinha a intenção, é claro, de romper com o Conselho Supremo, mas não antes de ela provocar uma divisão interna e atiçar umas contra outras para que elas ficassem ocupadas demais com a própria destruição e não se intrometessem no mundo que ela estava criando do lado de fora da charmosa ilhazinha delas. – Eu quase consegui isso antes, quando Kalona estava posando de Erebus ao meu lado. Mas Zoey estragou tudo, forçando-me a revelar que ele era uma fraude. – Incapaz de acalmar a sua frustração, Neferet andou com passos largos pela sala, com seu salto agulha triturando o vidro quebrado. Ela saiu para a varanda, apoiando as mãos no parapeito de pedra. – Zoey fez com que Thanatos fosse enviada a Tulsa para me espionar. E a mãe de Zoey foi um sacrifício fraco e imperfeito demais. Se Aurox não fosse um Receptáculo defeituoso, o ritual de revelação teria sido interrompido com a morte de Rephaim. E agora eu fui banida pelo Conselho Supremo e sou vista como uma aliada domesticada pelos humanos de Tulsa – Neferet levantou os braços para o céu e descarregou a sua raiva. – Zoey Redbird vai pagar por tudo que ela causou!

Neferet abaixou as mãos e rasgou o seu robe de seda, desnudando o seu corpo para a noite. Nua, ela estendeu os braços e inclinou a cabeça para trás de modo que o seu cabelo comprido a encobrisse como uma cortina escura.

– Trevas, venham para mim! – ela se apoiou, preparando-se para o prazer doloroso do toque gélido do seu touro branco.

Nada aconteceu.

O único movimento na noite era das gavinhas escuras e agitadas que haviam se tornado sua companhia constante.

– Meu senhor! Venha para mim! Eu preciso de você – Neferet chamou.

– O seu chamado não é uma surpresa, minha cara impiedosa.

Neferet ouviu a voz dele em sua cabeça, como sempre, mas ela não sentiu a sua presença imponente e poderosa. Ela abaixou os braços, virando-se, procurando por ele.

– Meu senhor, eu não posso vê-lo.

– Você precisa de algo.

Ainda sem entender por que ele não havia aparecido para ela, Neferet não permitiu que a sua confusão transparecesse. Em vez disso, ela respondeu sedutoramente:

– Eu preciso de você, meu senhor.

Instantaneamente, o filamento mais grosso feito uma serpente, comandado pelas Trevas, soltou-se dos outros que estavam enrolados em seus tornozelos. Ele deu uma chicotada ao redor da cintura dela, abrindo uma ferida na sua pele macia e desenhando um perfeito círculo escarlate. As outras gavinhas subiram se arrastando pelas suas pernas, para se alimentar do seu sangue quente.

Neferet teve que se esforçar muito para não gritar de dor.

– Mentir para mim não é sábio de sua parte, minha cara impiedosa.

– Eu preciso de mais poder – Neferet admitiu. – Quero matar Zoey Redbird, e ela está bem protegida.

– Ela está bem protegida e é amada por uma Deusa. Nem você está preparada para destruir abertamente alguém como ela.

– Então me ajude. Eu imploro, meu senhor – Neferet bajulou o touro, ignorando o filamento afiado como uma lâmina que continuava a ferir a sua pele e as outras gavinhas que estavam se alimentando dela.

– Você me desapontou. Eu já esperava que você me chamasse e implorasse pela minha ajuda. Veja bem, minha cara impiedosa, eu não deveria conseguir prever as suas ações. Isso me deixa entediado, e eu não desejo desperdiçar os meus poderes com nada previsível e tedioso – a voz dele martelou implacavelmente na sua mente.

Neferet não recuou.

– Eu não vou pedir que você me perdoe – ela disse friamente. – Você sabia como eu era desde a primeira vez em que nos encontramos. Eu não mudei. E não vou mudar.

– De fato, e é por isso que eu sempre a chamo de minha cara impiedosa – a voz dele era quase uma violação. Agora ela tinha um tom de divertimento. – Você me lembrou de como nós começamos bem. Você era uma surpresa tão deliciosa. Surpreenda-me de novo, e eu vou pensar em vir ajudá-la. Até lá, eu concedo a você o controle sobre os filamentos de Trevas que escolherem permanecer com você. Não se desespere. Muitos vão escolher você. Você os alimenta tão bem. Eu a verei de novo, minha cara impiedosa, quando... se... você despertar o meu interesse o bastante para que eu volte – a voz dele cessou quando a gavinha grossa enroscada na cintura dela se soltou e desapareceu na noite.

Neferet desabou. Ela ficou deitada na varanda de pedra fria, observando os filamentos de Trevas lamberem o seu sangue. Ela não os deteve. Ela deixou que eles se alimentassem dela enquanto os acariciava, encorajando-os, analisando quantos haviam permanecido fiéis a ela.

Se o touro não ia ajudá-la, Neferet se ajudaria sozinha. Zoey Redbird era um problema havia tempo demais. Havia tempo demais ela permitia que aquela garota interferisse nos seus planos. Mas ela não iria matá-la. Isso provocaria a ira de Nyx cedo demais. Ao contrário do Conselho Supremo dos Vampiros, uma Deusa não podia ser ignorada. Não, Neferet pensou, eu não preciso matar Zoey. Tudo o que eu preciso fazer é criar um ser para fazer o serviço por mim. O Receptáculo falhou uma vez por causa de um sacrifício imperfeito. Com o sacrifício perfeito, eu não vou falhar.

– Eu sou imortal. Eu não preciso do touro para criar. Tudo o que eu preciso é de um sacrifício sagrado e de poder. Eu já aprendi o feitiço. Aurox foi só o começo... – Neferet acariciou os filamentos de Trevas e permitiu que eles continuassem a se alimentar dela.

Há filamentos o bastante, ela assegurou a si mesma. Sobrou apenas o suficiente.

Zoey

– A Deusa sabe que eu odeio dizer isso, mas eu estava errada. Isso é sim como assistir àquele programa idiota The Bachelorette – Aphrodite balançou a cabeça e revirou os olhos.

Ela, Stevie Rae e eu caminhávamos devagar para o estacionamento na direção do ônibus cheio de garotos que estava à nossa espera. Nós estávamos indo devagar porque a gente estava superocupada olhando para Damien e o repórter, Adam. Os dois estavam parados, sorrindo e conversando, perto da van da Fox23 News.

– Shhh! – sussurrei para Aphrodite. – Eles vão ouvir você e isso vai deixar Damien constrangido.

– Ah, por favor! – Aphrodite bufou. – Os garotos gays estão bem animadinhos e entretidos. Ele não está prestando a menor atenção em nós.

– Eu estou tão feliz que ele está flertando – comentei.

– Vejam! Eles estão pegando os telefones!!! – Stevie Rae sussurrou efusivamente com pontos de exclamação demais para ser um sussurro.

– Eu estava errada de novo – Aphrodite falou. – Isso aqui não é como assistir a The Bachelorette. É como assistir ao National Geographic Channel.

– Eu acho que ele é uma gracinha – Stevie Rae disse.

– O cara que está conversando com Damien? – Shaylin perguntou quando se juntou a nós.

– Sim. A gente acha que eles estão marcando um encontro – Stevie Rae respondeu, ainda olhando para os dois.

– Ele tem cores suaves e bonitas – Shaylin observou. – Na verdade, as cores dele combinam bem com as de Damien.

– Como assim, os arco-íris deles estão se fundindo? – Aphrodite bufou sarcasticamente.

Shaylin franziu a testa.

– Eles não têm cores de arco-íris. Isso é um estereótipo horrível. Eles têm a cor do céu de verão, com tons de azul e amarelo. Damien também tem um pouco de branco encrespado e fofo que se parece bastante com nuvens densas.

– Ah, que merda, isso aí não tem nenhum senso de humor – Aphrodite protestou.

– Aphrodite, você tem que parar de chamar Shaylin de isso. Não é nada legal – Stevie Rae a repreendeu.

– Então me diga, para futura referência, o quanto isso não é legal na escala daquela palavra maldosa, “retardada”? – ela levantou uma sobrancelha loira com cara de interrogação para Stevie Rae. – Não é legal no nível de “debiloide” ou “monga”, ou mais como a palavra tradicional e explícita “retardada” mesmo?

– Você é a Grande Sacerdotisa, mas eu acho que responder qualquer coisa apenas a encoraja. Você sabe, é como acontece quando você pega um bebê chorando, ele continua chorando – Shaylin afirmou, soando bem prática.

Afe, Aphrodite vai arrancar os cabelos dela pela raiz, foi só o que eu consegui pensar.

Em vez disso, Aphrodite deu risada.

– Ei, isso fez uma piada! Pode até ser que isso tenha alguma personalidade.

– Aphrodite, eu acho que você deve ter algum dano cerebral – Stevie Rae disse.

– Obrigada – Aphrodite respondeu. – Eu vou entrar no ônibus. E vou cronometrar o Garoto Gay. Se ele continuar flertando por mais do que cinco minutos, eu vou... – ela parou de falar quando se virou em direção ao ônibus. Os meus olhos seguiram os dela. Shaunee e Erin estavam paradas do lado da porta aberta do ônibus. Shaunee parecia perturbada. O rosto de Erin não tinha nenhuma expressão. Eu podia ver que elas estavam conversando, mas nós estávamos muito longe para ouvir o que elas estavam dizendo.

– Há algo errado com ela – Shaylin observou.

– Ela quem? – Stevie Rae perguntou.

– Erin.

– Shaylin está certa. Tem alguma coisa errada com Erin – Aphrodite concordou.

Eu não sabia o que havia me chocado mais, se era o que Shaylin e Aphrodite estavam dizendo ou o fato de elas estarem de acordo.

– Conte-me o que você está vendo – Stevie Rae falou em voz baixa para Shaylin.

– Este é o melhor jeito de eu descrever o que vejo: havia um canal que passava atrás da casa onde eu morava quando era criança, um pouco antes de eu perder a visão. Eu costumava brincar ali perto e fingia que o canal era um córrego da montanha lindo e borbulhante, e que eu estava crescendo nas Montanhas Rochosas do Colorado, porque ele era claro e até mesmo bonito. Mas, assim que eu me aproximava, podia sentir o fedor do canal. Tinha um cheiro de coisas químicas e de algo mais, algo podre. A água parecia boa, mas abaixo da superfície ela era suja e poluída.

– Shaylin – eu estava quase perdendo a paciência. Eu me sentia como se estivesse ouvindo um dos poemas de Kramisha, e isso não é necessariamente uma coisa boa. – Que diabo você quer dizer? Erin tem cor de água poluída? E se ela tem, por que você nunca disse nada até agora?

– Ela está mudando! – Erin gritou! Quando vários rostos no ônibus, além de Erin e Shaunee, voltaram-se na nossa direção, ela disfarçou: – O inverno parece estar mudando para a primavera! Hoje não está uma bela noite?

Os garotos balançaram a cabeça e franziram a testa para ela, mas pelo menos pareceu que eles pararam de prestar atenção em nós.

– Ah, que merda. Você não é nada boa em espionagem – Aphrodite abaixou a voz e nos agrupou. – Z., se liga. É simples. O que Shaylin está dizendo é que Erin parece ser a mesma de sempre: bonita, loira, popular, perfeita. Você sabe, típica. Mas a verdade é que por baixo da superfície há algo apodrecendo. Você não pode ver isso. Eu não posso ver isso. Mas Shaylin pode – Aphrodite deu uma olhada no ônibus. Todos nós acompanhamos o olhar dela a tempo de ver Shaunee balançar a cabeça como quem diz não e subir rapidamente os degraus pretos com piso emborrachado, enquanto Erin continuou ali com uma aparência bonita, mas muito, muito fria. – Parece que Shaunee pode ver isso também. Não que a gente tenha acreditado nela. A gente achou que ela só estava irritada com Erin porque as gêmeas siamesas idiotas tinham sido separadas cirurgicamente.

– Eu acho que isso é muito rude – eu falei.

– Também acho – Stevie Rae concordou. – Mas o meu instinto me diz que é verdade.

– O meu também – Damien disse, aproximando-se de nós. As suas bochechas ainda estavam vermelhas e ele acenou alegremente quando a van da Fox23 foi embora, mas a sua atenção estava voltada para Erin. – E o meu instinto também está me dizendo mais uma coisa.

– Que você e o Garoto das Notícias estão quase virando amiguinhos de cama? –Aphrodite falou com uma voz animada e educada, que contrastava radicalmente com o que ela havia dito.

– Isso não é da sua conta. – Damien respondeu. E então acrescentou em um tom suave: – E acho que você vai querer prestar atenção, Aphrodite. O que eu vou falar vai abalar o seu mundo.

– Que coisa mais velha de se dizer – Aphrodite comentou.

– Velho não significa impreciso – Damien rebateu. – Você traduziu o que Shaylin pressentiu. Isso significa que você está agindo como um oráculo.

– Eu não sou um maldito oráculo. Sou uma Profetisa – Aphrodite pareceu realmente irritada.

– Oráculo... Profetisa – Damien levantou primeiro uma mão e depois a outra, como se ele estivesse comparando o peso de algo na palma de suas mãos, até que ambas ficaram na mesma altura. – Para mim é a mesma coisa. Pesquise a sua história, Profetisa. Sibila, Delfos, Cassandra. Esses nomes não dizem nada a você?

– Não. Sério. Eu tento não ler demais.

– Bem, eu começaria a ler se fosse você. Esses são apenas os nomes top três que vêm à minha mente culta. Alguns os chamam de Oráculos. Alguns os chamam de Profetisas. É a mesma coisa.

– Eu posso pegar o resumo na internet? – Aphrodite estava tentando parecer engraçadinha, mas o seu rosto tinha perdido toda a cor e os seus olhos pareciam gigantes e ainda mais azul-topázio do que o normal. E assustados. Ela parecia superassustada.

– Ok. Bem, lição aprendida. Parabéns para nós! – eu falei animadamente. Todo mundo simplesmente olhou para mim, então tentei explicar: – Thanatos disse que nós temos que praticar os nossos dons. Acho que o que acabou de acontecer é como uma nota extra nessa prova. Que tal agora a gente entrar no ônibus, voltar para os túneis e assistir um pouco às reprises de Fringe?

– Fringe? Estou dentro – Shaylin começou a andar na direção do ônibus.

– Eu gosto de Walter – Aphrodite comentou. – Ele me lembra o meu avô. Bem, exceto que Walter é um pouco mais inteligente e é doidão e louco, em vez de bêbado e antissocial. Mesmo assim, ambos são estranhamente adoráveis.

– Você tem um avô? E você gosta dele? – Stevie Rae perguntou antes de mim.

– É claro que eu tenho avô. Você é uma retardada em Biologia? – então Aphrodite deu de ombros. – Que seja. Minha família é meio difícil de explicar. Eu vou seguir isso e entrar no ônibus – e foi o que ela fez, seguindo Shaylin.

Ficamos só Stevie Rae, Damien e eu.

– Ela é totalmente louca – foi só o que pensei em dizer.

– De fato – Damien concordou.

– Ok, bem, vocês acham que está todo mundo no ônibus? – perguntei.

– Espero que sim. Eu sei que Rephaim está aí, e que nós só temos algumas horas até o sol nascer. Tenho certeza de que ele nunca viu nenhum episódio de Fringe, e acho que ele vai gostar. Assistir a uma série abraçadinha com ele parece uma ótima ideia agora, mesmo se a gente tiver que fazer isso com a louca da Aphrodite – ela sorriu para mim. – A gente pode pedir pizza no Andolini?

– Claro que sim – respondi.

– Ahn-han – Damien simulou bem o ato de limpar a garganta.

– Sim? – perguntei.

– Hum, vocês achariam estranho se eu, hum, talvez fosse me encontrar com alguém para tomar um café? Mais tarde. Hoje à noite. No The Coffee House On Cherry Street.

– Eles ainda estão abertos? – eu perguntei, dando uma olhada no meu celular. Afe, já eram quase 4 h da manhã.

– Eles começaram a funcionar 24 horas por dia. A tempestade de gelo acabou com os negócios por semanas e eles estão tentando compensar o prejuízo atendendo, bem, a turma da noite – Damien explicou.

– Sério? Eles estão ficando abertos por nossa causa? – eu me lembrava tanto dos sanduíches incríveis deles e da bela arte local que eles exibiam. Eles costumavam fechar às 23 h!

– Não mais – ele disse alegremente.

– Uau, que legal. Quero dizer, eu nunca estive lá, mas o fato de uma coffee shop ficar aberta no Centro da cidade para que a gente possa se encontrar lá é sensacional – Stevie Rae falou.

– Que tal se amanhã Darius desviar o ônibus para lá na volta para a estação? – eu segui o meu instinto. É normal que um grupo de estudantes do ensino médio queira parar em uma coffee shop depois da escola. – Damien, se você for lá hoje, pode perguntar para algum funcionário se tudo bem a gente aparecer lá amanhã?

– Com certeza, vou fazer um reconhecimento da área para vocês! – então a expressão de Damien murchou. – E então, o que vocês acham? Jack iria me odiar?

– Oh, claro que não, querido! – falei rapidamente.

– Jack entenderia – Stevie Rae acrescentou. – Ele não ia querer que você ficasse triste e sozinho enquanto espera que ele volte.

– Ele vai voltar, não vai? – Damien me encarou bem no fundo dos meus olhos. – Jack vai voltar, certo?

As almas deles estão destinadas a se encontrar novamente... as palavras foram sussurradas na minha mente. Reconhecendo a voz sábia e familiar de Nyx, eu sorri, dando o braço para Damien.

– Ele vai. Eu prometo. E a Deusa também promete.

Damien piscou forte para segurar as lágrimas.

– Eu tenho um encontro! E vou ficar feliz com isso.

– É isso aí! – eu o encorajei.

– Estou tão feliz que eu poderia cuspir! Mesmo que isso seja um pouco grosseiro – Stevie Rae pegou a outra mão de Damien.

– Esse é um ditado estranho – Damien observou.

– Totalmente – eu disse. – Foi nojento quando Leonardo fez toda aquela cena da cuspida com Kate em Titanic.

– Essa cena nunca deveria ter acontecido – Damien concordou. – Foi a única falha do filme.

– Bem, essa cena e aquela do Leo se transformando em um lindo picolé – acrescentei.

Damien e Stevie Rae fizeram sons de total concordância comigo enquanto nos aproximávamos do ônibus. Eu podia ver os rostos dos garotos nas janelinhas. Parecia que o ônibus estava cheio, o que me deu uma onda enorme de alívio porque eu estava mais do que pronta para ir para casa. Stark estava lá, em pé no alto da escada, ao lado de Darius. Os olhos dele me encontraram, e isso fez minha pele esquentar e formigar. Rephaim estava no primeiro assento, bem na frente de Kramisha, e eu praticamente pude sentir Stevie Rae vibrando de alegria ao acenar para ele. Shaylin e Aphrodite estavam subindo as escadas. Eu não conseguia ver o rosto de Aphrodite, mas o jeito com que ela jogou o cabelo para trás me dizia que ela já estava flertando com o seu guerreiro.

Ok, as Trevas eram um pé no saco e muitas coisas difíceis haviam acontecido com a gente, mas pelo menos estávamos juntos e tínhamos amor. Sempre o amor.

– Preciso conversar com você.

A voz sem emoção de Erin foi como um banho de água fria na minha alegria.

– Ok, claro. Ei, daqui a um instante eu estarei no ônibus – avisei Stevie Rae e Damien.

– Eu vou ficar – Erin disse as três palavras assim que ficamos sozinhas.

– Ficar? Você quer dizer aqui? – Eu tinha entendido o que ela queria dizer, mas precisava ganhar tempo para tentar processar as perguntas na minha mente. Eu tinha impedido Shaunee quando ela havia tentado se separar de nós e voltar para a Morada da Noite logo depois que ela e Erin começaram a ter problemas. Eu não deveria impedir Erin também?

– Sim, é claro que eu estou falando daqui. Estou cansada dos túneis. A umidade está deixando o meu cabelo cheio de frizz.

– Ahn, há produtos para isso. Tem alguns da Aveda. Podemos pegar para você no salão Ilhoff da Utica Square amanhã – sugeri.

– Ok, então, não é só o meu cabelo. Eu não quero morar nos túneis. É aqui que eu moro. Nesta escola. Eu não quero ser levada de ônibus. É idiota.

– Erin, eu sei que pegar o ônibus da escola é idiota. Que inferno, isso já era idiota antes de eu ser Marcada. Mas eu acho que nós precisamos ficar juntos. A gente é mais do que um grupo ou uma panelinha, a gente é uma família.

– Não, a gente não é uma família. Nós somos um grupo de garotos que vai para a mesma escola. Só isso. Ponto final.

– As nossas afinidades fazem com que a gente seja mais do que isso – ela estava me deixando chocada... não apenas pelo que ela estava dizendo, mas pela sua atitude. Erin era tão fria! – Erin, nós passamos por coisas demais juntos para acreditarmos que somos apenas um grupo de garotos que por acaso frequenta a mesma escola.

– E se isso for o jeito como você se sente, mas não como eu me sinto? Eu não posso escolher? Achei que Nyx concedesse o livre-arbítrio.

– Sim, mas isso não quer dizer que não podemos dizer algo quando alguém com quem a gente se importa está fazendo besteira.

– Deixe-a ficar.

Erin e eu levantamos os olhos e vimos Aphrodite em pé no primeiro degrau do ônibus. Ela estava encostada na porta com os braços cruzados. Eu esperei ver aquele sorriso irônico típico de Aphrodite em seu rosto, mas ela não parecia brava. Ela não soou irônica. Ela apenas pareceu bastante segura de si. Atrás dela, eu podia ver Stevie Rae e Shaylin. Elas concordaram com a cabeça, e aquele apoio mudo a Aphrodite me venceu quando eu percebi que o meu Conselho havia decidido – elas resolveram o que era melhor para todos nós, mesmo que aquilo não fosse o melhor para Erin.

– Obrigada, Aphrodite. Quem poderia imaginar que você seria a única a concordar comigo? – Erin riu, soando petulante e infantil em comparação com o despertar da maturidade serena de Aphrodite.

– Sabe de uma coisa, Erin, estou feliz que você e Aphrodite tenham me lembrado de uma coisa – afirmei. – Nyx realmente nos dá o livre-arbítrio e, se você prefere viver na Morada da Noite, então vou respeitar isso. Espero que isso não mude as coisas no nosso círculo. Você ainda é a água. O seu elemento e você ainda são importantes para nós.

Erin sorriu um pouco, mas o sorriso dela não chegou aos seus frios olhos azuis.

– Sim, é claro. Eu sempre serei a água, e a água pode correr em qualquer lugar. É só me chamar se precisar de mim. Eu vou estar lá na mesma hora.

– Que ótimo – falei rapidamente, sentindo-me superconstrangida. – Bem, então acho que a gente se vê amanhã.

– Sim, claro. Vejo vocês na aula – Erin acenou de modo petulante e saiu andando.

Subi as escadas do ônibus, perguntando para Darius:

– Estão todos aqui?

– Todos já foram contados e estão presentes – ele respondeu.

– Então vamos para casa – eu disse. Todos se espalharam pelos seus assentos, Stevie Rae ao lado de Rephaim, Aphrodite na primeira poltrona logo atrás de Darius como motorista. Stark estava esperando por mim na poltrona atrás dela, e eu me inclinei, beijando-o rapidamente e sussurrando: – Vou dar uma olhada em Shaunee e já volto.

– Vou estar aqui esperando. Sempre – ele tocou o meu rosto delicadamente.

Fui sacolejando até o fundo do ônibus, onde Shaunee estava sentada sozinha, enquanto Darius passava pelos buracos do estacionamento e fazia um retorno em direção ao caminho de saída da escola.

– Posso sentar aqui por um instante?

– Sim, claro – ela respondeu.

– Então, você e Erin não estão mais se falando direito?

Shaunee mordeu a bochecha e balançou a cabeça.

– Não.

– Ela está bem brava – eu estava tentando pensar em algo para dizer que ajudaria Shaunee a se abrir comigo.

– Não, acho que ela não está brava – Shaunee afirmou.

Franzi a testa.

– Bem, ela pareceu brava.

– Não – Shaunee repetiu, olhando para fora da janela. – Pense em como ela vem agindo nos últimos dias, principalmente hoje. “Brava” não é a melhor palavra para descrevê-la.

Eu realmente pensei. Erin estava sendo fria e sem emoções. Só isso.

– Bem, você está certa. Agora que eu pensei mesmo nisso, ela não tem sido nada além de desinteressada, e isso é estranho.

– Sabe o que é mais estranho? Aquela garota ali está demonstrando mais sentimentos do que Erin – Shaunee apontou pela janela na direção do pequeno jardim dos professores, não muito longe dos limites do estacionamento. Uma garota estava sentada ao lado da fonte. Quando o ônibus passou ali perto, havia luz suficiente para ver de relance que ela estava com a cabeça apoiada nas mãos. Os seus ombros estavam chacoalhando como se ela estivesse chorando convulsivamente.

– Quem é ela?

– Nicole.

– Nicole, a novata vermelha? Você tem certeza? – estiquei o pescoço, tentando olhar melhor para ela, mas nós já estávamos pegando a pista com árvores enfileiradas, e a minha visão da garota ficou completamente encoberta.

– Tenho. Eu a vi lá quando estava indo para o ônibus.

– Hum. E você imagina o que está se passando com ela? – eu perguntei.

– Acho que as coisas estão mudando para muitos de nós, e às vezes isso enche o saco.

– Há algo que eu possa fazer para tornar isso menos pé no saco para você? – eu quis saber.

Então Shaunee olhou para mim.

– Apenas seja minha amiga.

Eu pisquei surpresa.

– Eu sou sua amiga.

– Mesmo sem a Erin?

– Eu gosto mais de você sem a Erin – falei honestamente.

– Eu também – Shaunee concordou. – Eu também.

Um pouco depois voltei para o meu assento ao lado de Stark e deixei que ele colocasse o seu braço ao redor de mim. Encostei a cabeça no ombro dele e fiquei escutando a batida do seu coração, apoiando-me na sua força e no seu amor.

– Prometa-me que você nunca vai pirar e se transformar em um estranho frio e distante – pedi em voz baixa para ele.

– Prometo. Não importa o que aconteça – ele afirmou sem hesitar. – Agora, tire qualquer coisa de sua cabeça, exceto o fato de que eu vou forçá-la a experimentar uma pizza diferente hoje à noite.

– Não vamos pedir a Santino? Mas a gente adora essa pizza!

– Confie em mim, Z. Damien me falou sobre a pizza Athenian. Ele disse que ela é a ambrosia das pizzas. Não entendi exatamente o que ele quis dizer, mas acho que isso significa mais do que bom, então vamos experimentar.

Eu sorri, relaxei ao lado dele e, no curto caminho da Morada da Noite até a estação, fingi que o meu maior problema era decidir se expandia os meus horizontes em relação aos sabores de pizza.

 


C O N T I N U A

9 Zoey

– Neferet precisa ser detida – Thanatos foi logo direto ao ponto.

– Finalmente uma boa notícia – Aphrodite disse. – Então, o Conselho Supremo inteiro vai aparecer aqui para declarar que tudo que ela disse naquela coletiva de imprensa ridícula é papo furado, ou Duantia vem sozinha?

– Não vejo a hora de os humanos ouvirem a verdade sobre ela – Stevie Rae falou em seguida, soando tão irritada quanto Aphrodite e sem dar chance a Thanatos para replicar – Estou realmente cansada de ver Neferet sorrindo, seduzindo, iludindo e fazendo todo mundo acreditar que ela é tudo de bom.

– Neferet faz muito mais do que seduzir, iludir e sorrir – Thanatos observou sombriamente. – Ela usa o seu dom concedido pela Deusa para manipular e ferir os outros. Os vampiros são sujeitos aos seus encantos, e os humanos praticamente não têm defesa contra ela.

– O que significa que o Conselho Supremo dos Vampiros precisa tomar uma posição e fazer alguma coisa em relação a ela – eu afirmei.

– Eu gostaria que fosse assim tão simples – Thanatos respondeu.

Meu estômago se contraiu. Tive uma daquelas intuições, e minhas intuições quase nunca eram boas.

– O que você quer dizer? Por que isso não seria algo simples? – perguntei.

– O Conselho Supremo não vai misturar humanos nos assuntos de vampiros – ela explicou.

– Mas Neferet já fez isso – eu argumentei.

– Pois é, não adianta fechar a porta do estábulo depois que o gado já fugiu – Stevie Rae concordou.

– Aquela vaca matou a mãe de Zoey – Aphrodite estava balançando a cabeça, incrédula. – Você está dizendo que o Conselho Supremo vai simplesmente ignorar isso e vai deixá-la escapar com um assassinato nas costas e falando merda sobre todos nós?

– E o que vocês querem que o Conselho Supremo faça? Que desmascare Neferet como uma assassina?

– Sim – eu disse, feliz por soar firme e madura, em vez de assustada e com doze anos, que era como eu realmente estava me sentindo com essa coisa toda. – Eu sei que ela é imortal e poderosa, mas ela matou a minha mãe.

– Nós não temos provas disso – Thanatos falou em voz baixa.

– Isso é besteira! – Aphrodite explodiu. – Todos nós vimos!

– Em um ritual de revelação realizado com um feitiço de morte. Nada disso pode ser repetido. A terra foi purificada desse ato de violência por meio dos cinco elementos.

– Ela tomou as Trevas como seu Consorte – Aphrodite alegou. – Ela não está apenas aliada ao mal, ela provavelmente está fazendo as coisas mais indecentes com ele!

– Eca! – Stevie Rae e eu exclamamos juntas.

– Os humanos nunca iriam acreditar em nada disso, mesmo se eles tivessem estado lá.

Nós todas nos voltamos para a voz de Shaylin, que até então estava em pé em silêncio, observando nós quatro com olhos vazios e uma expressão chocada. Mas o seu tom era seguro. É claro, ela parecia nervosa, mas o seu queixo estava levantado de novo e ela apresentava o que eu já estava reconhecendo como a sua cara de teimosa.

– Que diabo você sabe sobre isso e por que você está falando? – Aphrodite vociferou contra ela.

– No mês passado eu era humana. Os humanos não acreditam na magia dos vampiros – Shaylin encarou Aphrodite sem vacilar. – Vocês estão há muito tempo às voltas com essa magia. Vocês perderam totalmente a perspectiva.

– E você perdeu completamente a cabeça – Aphrodite rosnou, inchando como um baiacu.

– Crianças briguentas de novo – Thanatos não levantou a voz, mas as suas palavras atravessaram aquela tensão tipo briga de garotas entre Aphrodite e Shaylin.

– Elas não querem brigar – eu falei em meio ao súbito silêncio. – Nenhuma de nós quer. Mas estamos todas frustradas e esperávamos que você e o Conselho Supremo fossem fazer algo, qualquer coisa, para nos ajudar a combater Neferet.

– Deixem-me mostrar a verdade sobre quem vocês são, e então pode ser que vocês entendam mais sobre essa batalha em que vocês estão insistindo em envolver os humanos – Thanatos estendeu o seu braço direito, com a palma da mão voltada para cima na altura do peito. Ela fez uma concha com a mão, inspirou profundamente e, com a mão esquerda, agitou o ar acima da sua outra mão estendida, dizendo: – Observem o mundo! – a voz dela era poderosa, hipnotizante. Os meus olhos foram atraídos para a palma de sua mão. Sobre ela, um globo do planeta estava se formando. Era incrível, não era como aqueles globos entediantes que os professores de História usavam para juntar pó. Aquele parecia feito de fumaça negra. A água se ondulava e se agitava. Os continentes emergiam, como que esculpidos em ônix.

– Aiminhadeusa! – Stevie Rae exclamou. – É tão lindo!

– É mesmo – Thanatos disse. – E agora observem quem vocês são no mundo! – ela sacudiu os dedos da mão esquerda na direção do globo, como se estivesse salpicando água em cima dele. Aphrodite, Stevie Rae, Shaylin e eu ofegamos de surpresa. Pequenas faíscas começaram a aparecer, pontuando a massa de terra ônix com minúsculas luzes de diamante.

– Que bonito – comentei.

– São diamantes? Diamantes de verdade? – Aphrodite perguntou, aproximando-se mais.

– Não, jovem Profetisa. São almas. Almas de vampiros. Essas luzes somos nós.

– Mas há tão poucas luzes. Quero dizer, em comparação ao resto do globo, que é todo escuro – Shaylin observou.

Eu franzi a testa e me aproximei mais, juntando-me a Aphrodite. Shaylin estava certa. A terra parecia imensa comparada à pequena quantidade de pontos cintilantes. Fiquei encarando o globo. Os meus olhos foram atraídos para os agrupamentos de brilho: Veneza, a Ilha de Skye, algum lugar que eu achei ser a Alemanha. Um grupo de luzes na França, alguns borrões no Canadá e vários outros espalhados pelos Estados Unidos – vários, mas mesmo assim não muitos.

– Aqui é a Austrália? – Stevie Rae perguntou.

Dei uma olhada no outro lado do globo, reparando em outros diamantes salpicados.

– Sim – Thanatos confirmou. – E a Nova Zelândia também.

– Ali é o Japão, não é? – Shaylin apontou para outra pequena mancha de brilho.

– Sim, é – Thanatos afirmou.

– Os Estados Unidos não têm tantos diamantes quanto deveria – Aphrodite opinou.

Thanatos não respondeu. Ela encontrou o meu olhar. Eu desviei os olhos, analisando o globo novamente. Devagar, dei toda a volta ao redor dela, desejando que eu tivesse prestado mais atenção às aulas de Geografia – qualquer aula. Quando terminei de dar a volta, encontrei o olhar da Grande Sacerdotisa de novo.

– Não existem muitos de nós – eu concluí.

– Infelizmente, isso é a mais absoluta verdade – Thanatos concordou. – Nós somos brilhantes, poderosos e espetaculares, mas somos poucos.

– Então, mesmo que nós conseguíssemos fazer com que os humanos nos ouvissem, estaríamos abrindo portas para o nosso mundo que é melhor que fiquem fechadas – Aphrodite falou calmamente, soando madura e sem malícia, como não era próprio dela. – Senão eles podem começar a pensar que as leis deles se aplicam a nós, que nós precisamos deles para nos manterem na linha e isso significa que eles podem começar a apagar as nossas luzes.

– Simples, mas bem colocado – Thanatos juntou as mãos e o globo desapareceu em um sopro de fumaça brilhante.

– Então o que nós vamos fazer? Nós não podemos simplesmente deixar Neferet escapar com todas as coisas horríveis que ela fez. Ela não vai parar em uma coletiva de imprensa, uma comissão na Câmara e uma coluna no jornal. Ela quer morte e destruição. Caramba, ela é Consorte das Trevas! – Stevie Rae disse.

– Nós temos que lutar com as mesmas armas dela – Shaylin sugeriu.

– Ah, que merda. Não vou aguentar mais uma garota que usa metáforas ruins em vez de falar claramente – Aphrodite rebateu.

– O que eu quis dizer é que, se Neferet está envolvendo os humanos, nós também deveríamos fazer isso. Mas nos nossos próprios termos – Shaylin explicou. Eu vi quando ela movimentou a boca sem som, dizendo “detestável”, mas Aphrodite havia decidido ignorar a novata. De novo. E, felizmente, Aphrodite não estava olhando para ela.

– Shaylin, você despertou o meu interesse, filha. Por que você acompanhou as duas Sacerdotisas e a Profetisa até aqui? – Thanatos perguntou de repente.

Nós, as Sacerdotisas e a Profetisa, ficamos em silêncio. Pessoalmente, eu queria ver como Shaylin ia lidar com Thanatos. Imaginei que Stevie Rae ficou quieta pelo mesmo motivo. Eu já sabia as razões de Aphrodite, as quais Shaylin tinha resumido bem com a palavra que ela disse sem som: detestável.

A pequena novata vermelha levantou seu queixo e pareceu superobstinada.

– Eu vim com elas porque quero fazer perguntas a você sobre o meu dom. E elas concordaram – Shaylin fez uma pausa, deu uma olhada para Aphrodite e acrescentou: – Bem, duas delas concordaram.

– Qual dom Nyx concedeu a você, novata?

– A Visão Verdadeira – ela olhou nervosamente para Stevie Rae e para mim. – Certo?

– Nós achamos que sim – eu falei.

– É. Pelo menos foi o que a pesquisa de Damien nos disse, e ele está quase sempre certo em relação às coisas que pesquisa – Stevie Rae concordou.

– Ela disse que Neferet tinha cor de olho de peixe morto. Isso me faz pensar que ela pode ter algo mais do que uma simples doença mental – Aphrodite me surpreendeu ao dizer isso.

– Você vê auras? – Thanatos perguntou enquanto analisava Shaylin como se ela estivesse olhando em um microscópio e Shaylin estivesse sob uma lâmina de vidro.

– Eu vejo cores – Shaylin respondeu. – Não sei como chamar o que eu vejo. E-eu era cega até a noite em que fui Marcada. Eu era cega desde os cinco anos. De repente, zap! Ganhei uma lua crescente vermelha no meio da minha testa, minha visão voltou e, junto com ela, as cores. Muitas cores. Por causa delas, eu sei coisas sobre as pessoas. Tipo, eu sabia que Neferet era podre no mesmo instante em que a vi. Apesar de por fora ela ser bonita – ela contou a Thanatos, e eu percebi que ela entrelaçou as mãos com força atrás de si e permaneceu imóvel sob o escrutínio da Grande Sacerdotisa. – Do mesmo modo, eu sei que Erik Night é basicamente um cara legal, mas é fraco. Ele sempre escolheu o caminho mais fácil. A cor dele é preta, mas não um preto chapado. É um preto profundo e rico, e eu consigo ver pequenos raios de luz dourada relampejando através dele – ela suspirou. – Acho que você é realmente idosa, inteligente e poderosa, mas também tem um temperamento forte, que mantém sob controle. Na maior parte do tempo.

Thanatos curvou os lábios em um sorriso.

– Continue.

Shaylin olhou rapidamente para Stevie Rae e depois de novo para Thanatos.

– As cores de Stevie Rae são como fogos de artifício. Isso me faz pensar que ela é a pessoa mais doce e alegre que eu já conheci.

– Isso porque você não conheceu Jack – Stevie Rae falou, com um sorriso triste para Shaylin. – Mas, obrigada. Foi muito legal dizer isso sobre mim.

– Eu não tive a intenção de ser legal. Só estou tentando dizer a verdade – os olhos de Shaylin se voltaram para Aphrodite. – Bem, na maioria das vezes estou tentando dizer a verdade.

Aphrodite bufou.

Eu esperei que fosse a minha vez e que ela diria a Thanatos que as minhas cores tinham ficado mais escuras porque eu estava superpreocupada, mas ela não falou nada sobre mim. Ela apenas assentiu levemente com a cabeça, como se tivesse decidido internamente alguma coisa, e então concluiu:

– É por isso que eu estou aqui. Preciso da sua orientação sobre como usar o meu dom e quero saber a verdade sobre ele.

Acho que foi nessa hora que comecei a respeitá-la. Thanatos não era uma Grande Sacerdotisa qualquer. Ela era membro do Conselho Supremo e tinha afinidade com a Morte. Ok, Thanatos era assustadora. Sem brincadeira. Mesmo assim, ali estava Shaylin, com seus quarenta e poucos quilos, menos de um mês como novata, confrontando Thanatos, sem entregar nada privado sobre mim. Ela nem disse aquelas coisas sobre os pontos de luz trêmula do bem dentro de Aphrodite. Era preciso coragem. Muita coragem.

Olhei para as mãos entrelaçadas com força de Shaylin e reparei que os seus dedos haviam ficado brancos. Eu sabia como ela se sentia. Eu também tive que confrontar uma Grande Sacerdotisa poderosa logo depois de ser Marcada.

Eu me aproximei mais de Shaylin.

– Seja como for que você queria chamar o que Shaylin vê, ela tem um dom. Eu concordo com Damien. Acho que é a Visão Verdadeira.

– Todos nós achamos – Stevie Rae falou.

– Você pode me ajudar? – Shaylin perguntou.

Então Thanatos me surpreendeu. Ela não disse nada. Ela se virou e caminhou até a sua mesa, olhando para baixo, como se a resposta para a pergunta de Shaylin estivesse escrita no grande calendário que ela deixava em cima da escrivaninha. Ela ficou parada daquele jeito, com a cabeça abaixada, pelo que pareceu um tempo ridiculamente longo. Eu tinha decidido entrelaçar minhas mãos atrás do meu corpo para evitar me remexer também, até que a Grande Sacerdotisa finalmente se voltou para nós quatro e nos encarou.

– Shaylin, a resposta que eu tenho para você é a mesma que eu tenho para Zoey, Stevie Rae e Aphrodite.

Escutei Aphrodite murmurar algo sobre não se lembrar de ter feito nenhuma maldita pergunta, mas Thanatos a interrompeu e continuou:

– Cada uma de vocês recebeu um dom incomum concedido pela nossa Deusa, e isso vem a calhar para nós, pois vamos precisar de todos os poderes que a Luz pode nos dar se pretendemos combater as Trevas.

– Você quis dizer derrotar as Trevas, não quis? – Stevie Rae perguntou.

Eu sabia a resposta de Thanatos antes de ela falar.

– As Trevas nunca podem ser realmente derrotadas. Elas só podem ser combatidas e desmascaradas pelo amor, pela Luz e pela verdade – a Grande Sacerdotisa afirmou.

– Perdeu. De novo – Aphrodite disse em voz baixa.

– Vou dar uma tarefa a cada uma para que vocês possam exercitar os seus dons. Profetisa, a primeira é para você – Thanatos se dirigiu a Aphrodite.

Aphrodite deu um suspirou profundo.

– Você recebeu de Nyx o dom de ter visões com alertas sobre fatos horríveis que estão para acontecer. Você teve alguma visão antes da coletiva de imprensa de Neferet?

– Não – Aphrodite pareceu surpresa com a pergunta de Thanatos. – Não tenho nenhuma visão há cerca de uma semana.

– Então o quanto você é boa, Profetisa? – as palavras dela foram duras e frias. Thanatos soou quase cruel.

O rosto de Aphrodite ficou realmente pálido e logo depois ficou rosa.

– Quem é você para me questionar? Você não é Nyx. Eu não respondo a você. Eu respondo a ela!

– Exatamente! – a expressão de Thanatos se relaxou. – Então responda a ela. Ouça-a. Observe os seus sinais. As suas visões se tornaram cada vez mais difíceis e dolorosas, não é?

Aphrodite assentiu com um movimento tenso e rápido.

– Talvez porque a nossa Deusa queira que você exercite o seu dom de outros modos. Você fez isso recentemente, diante do Conselho Supremo. Lembra?

– É claro que eu lembro. Foi como eu soube que as almas de Kalona e de Zoey tinham saído de seus corpos.

– Mas você não precisou de uma visão que dissesse isso a você.

– Não.

– Já cheguei ao ponto que queria – Thanatos afirmou. Então ela se virou para Stevie Rae. – Você é a Grande Sacerdotisa mais jovem que já conheci na vida, e eu já vivi bastante. Você é a primeira Grande Sacerdotisa dos vampiros vermelhos na história do nosso povo. Você tem uma afinidade poderosa com a terra.

– Siiiiim... – Stevie Rae prolongou a palavra, como que esperando pelo golpe final de Thanatos.

– A sua tarefa é praticar liderança. Você acata as decisões de Zoey com muita frequência. Você é uma Grande Sacerdotisa. Extraia força da terra e comece a agir como uma Grande Sacerdotisa – Thanatos não deu chance para Stevie Rae responder. O seu olhar penetrante e sombrio se voltou para Shaylin. – Se você tem a Visão Verdadeira, o seu dom é tão bom quanto você for. Não o desperdice com trivialidades e mesquinharias.

– É por isso que eu estou aqui – Shaylin falou rapidamente. – Quero aprender a usar o meu dom do jeito certo.

– Isso, jovem novata, é algo que você precisa desenvolver e ensinar a si mesma. A sua tarefa é analisar aqueles ao seu redor. Leve os resultados até a sua Grande Sacerdotisa. Stevie Rae vai usar os poderes do elemento dela, assim como o seu crescente poder de liderança, para guiar você.

– Mas eu não sei... – Stevie Rae começou, mas Thanatos a cortou.

– E você nunca saberá. Nada. Nada importante de fato. A menos que você assuma a responsabilidade de ser uma Grande Sacerdotisa. Aprenda a confiar em si mesma, para que os outros possam se sentir seguros em confiar em você.

Stevie Rae fechou a sua boca e assentiu, parecendo que ela tinha doze anos, exatamente o oposto de uma Grande Sacerdotisa. Mas eu não tive tempo de dizer nada para ela porque finalmente Thanatos voltou suas baterias contra mim.

– Use a sua pedra da vidência.

– Ahn?

– Ela a intimida – Thanatos continuou como se eu não tivesse dito nada. – A verdade é que o mundo deve mesmo intimidar você, todas vocês, neste momento. Mas o medo não é razão para fugir às suas responsabilidades. Está em suas mãos uma peça de magia antiga que responde a você. Use-a.

– Como? Para quê? – falei sem pensar.

– Uma pedra da vidência, um dom da Visão Verdadeira, uma Profetisa, uma Grande Sacerdotisa: todas essas coisas poderosas são inúteis a menos que todas vocês comecem a responder essas questões a si mesmas. Você disse que vocês não são crianças birrentas? Provem. Podem ir agora – ela virou as costas para nós e deu passos firmes em direção à sua mesa.

Minhas amigas e eu obviamente tivemos o mesmo impulso ao mesmo tempo. Como se fôssemos uma só, começamos a andar apressadas a caminho da porta de saída.

– Eu vou acender a pira de Dragon Lankford à meia-noite. Estejam presentes à cerimônia. Logo depois, preciso de vocês e do resto do seu círculo no lobby da escola. Eu convoquei a minha própria coletiva de imprensa.

As palavras dela nos atingiram e nos fizeram parar como se fossem um muro invisível. Nós nos viramos e olhamos embasbacadas para ela. Eu engoli em seco o nó na minha garganta e falei:

– Mas você disse que nós não podemos confrontar Neferet na comunidade dos humanos. Então, sobre o que vai ser a nossa coletiva de imprensa?

– Nós vamos continuar de boa vontade aquilo que Neferet começou apenas para gerar caos e conflitos. Ela abriu esta escola para empregados humanos. Nós vamos anunciar na coletiva que, apesar de estarmos tristes por Neferet ter saído do seu emprego na nossa escola, estamos felizes em abrir inscrições para mais ocupações para a comunidade na Morada da Noite. Nós vamos sorrir. Nós seremos afetuosos e abertos. James Stark estará presente com seu jeito agradável, atraente e inofensivo.

– Você vai fazer com que Neferet pareça nada mais do que uma empregada descontente? Brilhante! – Aphrodite comentou.

– E normal – eu observei.

– Algo que os humanos vão entender completamente – Shaylin disse.

– Ei, se vocês realmente querem parecer normais como os humanos, nós precisamos fazer algo tipo um feira de empregos aberta ao público – Stevie Rae sugeriu e todas nos voltamos para ela.

– Continue. Qual é a sua ideia, Grande Sacerdotisa? – Thanatos perguntou.

– Bem, a minha escola de ensino médio costumava ter uma feira de empregos para os formandos no fim do ano. Era como qualquer festa aberta ao público, com ponche ruim, salgadinhos e tudo mais. Mas empresas de Tulsa, de Oklahoma City e até de Dallas apareciam e recebiam inscrições e marcavam entrevistas com os formandos enquanto o resto dos estudantes só ficava por ali, desejando que chegasse a sua vez – Stevie Rae sorriu timidamente e encolheu os ombros. – Acho que pensei nisso porque a minha vez não chegou, já que eu fui Marcada e tal.

– De fato, é uma ideia interessante – Thanatos me chocou ao dizer isso. – Nós vamos mencionar a nossa disposição de abrir a escola para uma feira de empregos – ela pronunciou essas palavras como se elas fossem de uma língua estrangeira – durante a coletiva de imprensa mais tarde.

– Se você realmente quer uma festa aberta ao público aqui na escola, precisamos ter um bocado de gente aqui. Que tal nós convidarmos os Street Cats e fazermos um evento para levantar fundos para a adoção de gatos? Isso seria algo que Tulsa apoiaria – Stevie Rae acrescentou.

– E isso seria normal – Aphrodite falou. – Eventos beneficentes são coisas normais e atraem as pessoas com muita grana, e isso é uma coisa boa.

– Bem pensado – Thanatos concordou.

– Minha avó pode ajudar a coordenar isso com os Street Cats. Ela e a irmã Mary Angela, a freira diretora dos Street Cats, são amigas – eu sugeri.

Thanatos assentiu.

– Então eu vou ligar para Sylvia e perguntar se ela poderia coordenar o que nós chamaremos de uma noite aberta ao público com uma feira de empregos para Tulsa. A presença de sua avó, além das freiras, vai dar uma sensação de normalidade e de tranquilidade.

– Minha mãe pode assar uma tonelada de cookies de chocolate e vir também – Stevie Rae ofereceu.

– Então a convide. Eu tenho fé em vocês, assim como Nyx tem. Não nos desapontem. E agora vocês podem ir mesmo.

Nós saímos da sala de Thanatos falando sobre a coletiva de imprensa e o evento aberto ao público, e comentando como era bom termos um plano. Foi só mais tarde que me dei conta de que eu não havia dito nem uma única palavra sobre o caso Aurox/Heath...


10 Shaunee

Os guerreiros Filhos de Erebus estavam com ares soturnos, ocupados com o trabalho de amontoar madeira para construir a pira de Dragon. Shaunee tentou fazer o que podia para ajudá-los. Ela sabia dizer se a madeira ia queimar bem só de tocá-la, então indicou todas as toras e tábuas mais secas e orientou os guerreiros para colocar tudo de forma correta, a fim de que o fogo queimasse sem empecilhos e rapidamente.

Shaunee tentou encorajá-los. Ela disse que eles estavam fazendo um bom trabalho e que Dragon ficaria orgulhoso deles, mas aquilo pareceu deixá-los ainda mais calados e soturnos. Até Darius estava em silêncio e parecia quase um estranho. Foi só quando Aphrodite surgiu atirando o cabelo para o lado e falando com aquele seu jeito dominador e sedutor que as coisas começaram a melhorar.

– Ei, bonitão, você lembra do sermão que Dragon deu em você quando nós começamos a sair? – Aphrodite piscou para vários guerreiros que estavam por perto. – Aposto que Stephen, Conner e Westin se lembram, não é? Não foram vocês que tiveram que fazer um treinamento extra com Darius depois que Dragon descobriu que ele estava confraternizando com uma novata? – Aphrodite fez um tom de voz baixo que soou muito parecido o Mestre da Espada.

Os guerreiros até sorriram.

– Dragon nos fez dar um trato no seu garoto aqui por três dias seguidos – Conner lembrou.

Darius bufou.

– Cuidado com as suas palavras, Conner. Eu não sou um garoto há décadas.

Conner riu.

– Acho que era exatamente com isso que Dragon estava tendo problemas.

Aphrodite sorriu de modo sedutor e passou a mão pelo bíceps grosso de Darius.

– Ele queria que você ficasse esgotado para que não tivesse energia suficiente para confraternizar comigo.

– Seria preciso um exército de vampiros para isso – Darius afirmou.

Foi a vez de Stephen provocá-lo.

– Sério? Então por que Anastasia teve que intervir?

Aphrodite levantou suas sobrancelhas loiras.

– Intervir? Anastasia? Você não me contou isso, bonitão.

– Devo ter esquecido, já que eu estava muito ocupado confraternizando com você, minha bela.

– Hahaha! – Westin caçoou. – É impossível que qualquer um de nós tenha se esquecido de Anastasia, com os cabelos ao vento, repreendendo o nosso Mestre da Espada por perseguir o pobre e jovem Darius.

Shaunee não conseguiu deixar de rir junto com eles.

– Ela disse mesmo que Dragon estava perseguindo Darius? – a novata quis saber.

Conner, que era alto, loiro e quase tão ardente quanto o elemento de Shaunee, respondeu:

– Sim, ela disse exatamente isso. Ela até chamou Dragon de Bryan e o lembrou de que, se ela não tivesse confraternizado com um novato um século atrás, a vida dele seria muito menos interessante.

– Eu convivi com Dragon Lankford por cinquenta anos – Stephen falou. – Eu nunca o vi ser superado por nenhum outro guerreiro, mas Anastasia conseguia detê-lo com um simples olhar.

– Que bom que eles estão juntos agora – Darius afirmou.

– Ele ficou perdido sem ela – Westin comentou.

– Isso é algo que eu posso entender muito bem – Darius pegou a mão de Aphrodite, beijando-a gentilmente.

– Vocês realmente viram os dois se reencontrando?

– Sim – Darius, Aphrodite e Shaunee responderam juntos.

– Ele está feliz de novo – Shaunee disse.

– Ela morreu primeiro, mas esperou por ele – Aphrodite sorriu para Darius, mas Shaunee pôde ver lágrimas nos olhos dela.

– Ela teve uma morte de guerreira – Westin lembrou.

– Assim como Dragon – Darius concordou.

– Nós precisamos nos lembrar disso hoje à noite – Shaunee sugeriu. – Lembrar da alegria e do Juramento deles, e que eles ainda se amam.

– Amar para sempre – Darius falou docemente, tocando o rosto de Aphrodite.

– Amar para sempre – Aphrodite ecoou e depois levantou uma sobrancelha loira. – Se você não estiver cansado demais, é isso aí.

– Ah! Então Anastasia estava certa! Nós estamos perseguindo o pobre e jovem Darius! – Stephen e os outros guerreiros riram, e Darius começou a se defender excitadamente, enquanto Aphrodite o provocava.

Shaunee se afastou um pouco da pira em construção e do grupo que a cercava. Fogo, aqueça essa pequena fagulha de alegria que Aphrodite conseguiu plantar dentro deles. Ajude os guerreiros a se lembrarem de que Dragon e Anastasia estão juntos e felizes. Ela sentiu o calor do seu elemento passar rapidamente por ela e envolver o grupo, um calor invisível e quase indetectável para quem não tinha afinidade com o fogo. Mas aquilo ajudou. Ela havia ajudado. Shaunee realmente acreditava nisso.

Sentindo-se levemente melhor, ela saiu caminhando a esmo. Shaunee sabia que tinha que ir até o estábulo, mas isso não significava que ela estava com pressa de encarar a destruição que o seu elemento havia causado. Mas eu não o estava manejando, ela lembrou a si mesma. Mesmo assim, ela fez um caminho mais longo e sinuoso, na direção do pátio que tinha uma bela fonte. Dali ela iria pegar o caminho dos fundos, passando pelo estacionamento, que iria dar mais diretamente no ginásio do que no estábulo.

Shaunee escutou a água antes de ouvir a voz de Erin.

Ela não quis ficar espreitando nem se escondendo. Ela só se moveu em silêncio pelas sombras em volta do pátio porque não queria uma cena com Erin, não porque ela a estava espionando.

Então ela escutou a outra voz. No começo, Shaunee não reconheceu de quem era. Ele não estava falando alto o bastante. Ela só reconheceu a risadinha sedutora de Erin. Shaunee estava tentando decidir se ter curiosidade era a mesma coisa que bisbilhotar quando a voz dele ficou mais alta e ela percebeu que o alvo da risadinha sedutora de Erin era Dallas!

Sentindo uma dor de estômago, Shaunee se aproximou mais.

– Sim, é isso mesmo que estou dizendo. Não consigo tirar você da cabeça, garota. Você sabe o que a água e a eletricidade fazem quando se juntam, não sabe?

Shaunee ficou completamente imóvel, esperando que Erin o chamasse de otário e falasse para ele voltar correndo para a nojenta da Nicole, que era da mesma laia dele; em vez disso, ela sentiu uma dor no estômago quando ouviu Erin responder flertando com ele:

– Relâmpagos... É isso o que a eletricidade e a água fazem. Parece interessante.

– É interessante. Você é interessante. E quente. Você é como uma sauna, garota. Ou como um banho de vapor no qual eu adoraria ficar ensopado.

Shaunee teve que apertar os lábios para evitar dizer “eca” e chamar Dallas de otário ela mesma. Erin ainda tinha que fazer isso. De jeito nenhum ela ia querer nada com Dallas. Ele era um completo idiota. Ele odiava Stevie Rae e Zoey! Stevie Rae disse que ele tinha tentado matá-la! Erin só estava levantando a bola dele para depois detoná-lo e colocá-lo no seu devido lugar.

Shaunee esperou por isso. Nada. Ela não ouviu mais nada. Andando sem fazer barulho, Shaunee se aproximou ainda mais. Provavelmente, Erin tinha ido embora, depois de revirar os olhos e sair andando sem nem se dar ao trabalho de falar para Dallas sumir da frente dela.

Mas Shaunee estava errada. Totalmente errada.

Erin havia se encostado na fonte. A água a estava molhando inteira. Seu cabelo, suas roupas, seu corpo. Dallas a estava encarando como se ele estivesse morrendo de fome e ela fosse uma bisteca suculenta. Erin levantou os braços acima da cabeça, fazendo com que seus peitos marcassem a sua camiseta molhada, que era branca e agora estava totalmente transparente.

– Que tal isto aqui para um concurso de camiseta molhada? – ela perguntou com uma voz toda sexy, fazendo os seus peitos balançarem um pouco.

– Você ganha. É a coisa mais gostosa que eu já vi na vida, garota.

– Eu posso te mostrar algo mais gostoso – Erin disse. Com um movimento rápido, ela tirou a sua camiseta ensopada e desabotoou o seu sutiã de renda.

A respiração de Dallas estava tão ofegante que Shaunee podia até escutar. Ele lambeu os lábios.

– Você estava certa, garota. Isso é mais gostoso.

– E que tal isto? – Erin enganchou os dedões na cintura da sua minissaia xadrez e a tirou. Ela sorriu para Dallas, que ficou olhando para a minúscula tanga de renda que ela ainda estava usando.

– Que tal tirar todo o resto? – a voz de Dallas estava intensa, e ele se aproximou mais dela.

– Parece uma boa ideia. Eu gosto de não vestir nada além de água – Erin tirou a tanga. Agora tudo o que ela estava usando eram suas botas Christian Louboutin. Ela passou a mão com água por todo o seu corpo. – Quer se molhar comigo?

– Não é só isso que eu quero fazer com você – ele sugeriu. – Garota, eu vou abrir as portas de um outro mundo inteiro para você.

– Estou pronta para isso – ela falou de modo sedutor, ainda tocando o próprio corpo. – Porque estou cansada do mundo entediante em que estou vivendo.

– Relâmpagos, garota. Vamos fazer relâmpagos e algumas mudanças.

– Vamos lá! – Erin disse.

Dallas acabou com a distância que ainda havia entre eles. Os dois ficaram tão abraçados e tão concentrados um no outro que Shaunee não teve que se preocupar se eles iriam ouvi-la quando ela saiu correndo, totalmente enojada, com os olhos cheios de lágrimas.

Zoey

– Se vocês não se importam, eu vou até o centro de mídia. Damien acha que posso encontrar alguns livros antigos sobre a Visão Verdadeira na seção de livros de referência, se eu procurar bastante. Provavelmente ele é melhor em pesquisa do que eu, mas sou teimosa – Shaylin afirmou. – Se há algo a ser encontrado, eu vou encontrar.

– Sem problemas – eu falei.

Stevie Rae deu de ombros, dizendo:

– Por mim tudo bem.

Shaylin começou a ir embora, mas fez uma pausa.

– Ei, obrigada por me deixarem ir com vocês falar com Thanatos. E obrigada por ouvirem o que eu tinha a dizer lá. Bem, e me desculpem de novo por aquela coisa com Aphrodite mais cedo.

– Não é comigo que você tem que continuar se desculpando – eu disse.

– É, eu sei, mas acho que você é a única que vai escutar – Shaylin falou, olhando para a direção em que Aphrodite havia saído andando bruscamente.

– Aphrodite vai escutar. Só não muito bem – Stevie Rae opinou. – Você falou bem lá dentro, Shaylin. Gostei do que você disse sobre as cores das pessoas. Acho que você deve se concentrar em seguir o seu instinto sobre o que você vê.

– Hum – Kramisha bufou enquanto se aproximava apressada da gente. – Eu digo que o instinto pode te levar para uma tonelada de problemas.

Eu estava pensando “frase do ano” quando Stevie Rae perguntou:

– O que está rolando, Kramisha?

– São os novatos vermelhos de Dallas. Eles estão agindo como se quisessem ajudar a limpar o estábulo.

Stevie Rae franziu as sobrancelhas. Eu mordi os lábios. Kramisha cruzou os braços e ficou batendo o pé no chão.

– Ajudar é uma coisa ruim? – Shaylin falou em meio àquele silêncio desconfortável.

– O grupo de Dallas tem sido, bem... – eu hesitei, tentando formar uma frase sem o tipo de palavras que eu tentava (bastante) evitar.

Kramisha foi mais rápida do que eu.

– Eles são encrenca.

– Talvez eles estejam tentando mudar – Shaylin sugeriu.

– Eles são encrenca dissimulada – Kramisha acrescentou.

– Nós não confiamos neles – eu expliquei.

– E a gente tem um monte de razões para não confiar neles – Stevie Rae reforçou. – Mas eu tenho uma ideia. Thanatos disse que eu tenho que praticar liderança e Shaylin precisa praticar a coisa da Visão Verdadeira dela. Então vamos fazer as duas coisas – Stevie Rae endireitou as costas e a sua voz deixou de ser doce e do tipo garotinha e passou a ser a voz de uma mulher que soava mais confiante e bem mais velha. – Shaylin, você pode ir até o centro de mídia mais tarde. Agora você vai comigo para o estábulo. Quero que você olhe para as cores dos novatos vermelhos que estão lá e me diga quais deles são mais perigosos.

– Sim, senhora – Shaylin respondeu.

– Ahn, você não precisa me chamar de senhora – Stevie Rae falou rapidamente, soando como ela mesma de novo. – Só me deixar bancar a chefe já é o bastante.

– Você não faz o tipo “chefe mandona” – Kramisha observou.

– Bem, estou tentando fazer – Stevie Rae suspirou e olhou para mim.

Eu sorri para ela.

– Você pode mandar em mim se quiser.

Ela me deu um olhar de surpresa.

– Se alguma vez eu tentar fazer isso, você pode me chamar de salsicha e me falar para bater em mim mesma com pão e mostarda.

Dei risada e então falei:

– Bom, então, se vocês não se importam, eu preciso ficar um tempo sozinha. Quero pensar nessa coisa da pedra da vidência. Mas eu encontro com vocês no estábulo daqui a pouco. Se você virem Stark, digam que estou bem e que logo estarei lá.

– Combinado – Stevie Rae disse.

Observei as três se afastarem. Consegui ouvir Kramisha perguntar qual era a sua cor para Shaylin e, antes que a garota pudesse responder, ela já estava falando que a cor dela não podia ser laranja de jeito nenhum porque ela não gostava de laranja. Shaylin parecia confusa, mas interessada. Stevie Rae parecia pensativa e determinada, como se estivesse tentando refletir por fora a liderança em que ela estava trabalhando por dentro.

E eu? Imagino que, se você colocasse um espelho na minha direção, eu pareceria confusa e cansada e veria que o meu rímel estava empelotando e o meu cabelo estava ficando cheio de frizz.

Eu queria ir com as minhas amigas ajudar a arrumar o estábulo. Eu queria encontrar Stark e queria que ele segurasse a minha mão e ficasse rindo de mim por eu me preocupar demais e por procurar no Google sobre sintomas de doenças. Mais do que tudo, eu queria esquecer sobre aquela pedra da vidência idiota em volta do meu pescoço e me concentrar em algo que fizesse mais sentido, como novatos vermelhos detestáveis ou lição de casa. Mas eu sabia que Thanatos estava certa. Nós iríamos precisar de todos os nossos dons para ter chance de pelo menos manter as Trevas em xeque. Então, em vez de seguir minhas amigas, tomei um caminho diferente. Limpei a minha mente o máximo que eu podia e deixei que meus instintos me guiassem. Então, quando ficou óbvio aonde os meus pés estavam me levando, sussurrei:

– Espírito, por favor, venha para mim. Ajude-me a não ter tanto medo – o elemento com o qual eu ficava mais confortável suavizou o meu medo, então na hora em que eu estava diante do carvalho despedaçado foi como se as minhas emoções estivessem envoltas em um cobertor macio e quentinho.

Eu precisava daquele cobertor confortável. Aquele lugar me assustava. A professora Nolan tinha sido assassinada ali. Stevie Rae quase havia sido morta ali. Kalona surgira rasgando a terra ali. Jack, o pobre e doce Jack, morrera ali.

O meu instinto tinha me levado até lá. E o pior de tudo era que a minha pedra da vidência começou a irradiar calor.

É, como Kramisha disse, seguir o seu instinto pode causar uma tonelada de problemas, eu pensei. Suspirei e admiti a verdade que a minha intuição havia seguido: se havia magia antiga na Morada da Noite, aquele era um lugar excelente para ela se esconder. Sgiach me contara que a magia antiga era poderosa. Ela também era imprevisível e perigosa. Eu me lembrei dela explicando que o modo como a magia antiga se manifestava tinha muito a ver com a Sacerdotisa que a invocava.

Então, o que aquilo significava para mim? Que tipo de Sacerdotisa eu estava me tornando?

Suspirei. Uma porcaria de Sacerdotisa confusa que não tinha dormido o suficiente.

Uma com potencial – o pensamento vagou pela minha mente.

Uma que não sabe o bastante, contra-argumentei mentalmente.

Uma que precisa acreditar em si mesma, o vento sussurrou para mim.

Uma que precisa parar de fazer besteira, minha mente insistiu.

Uma que precisa acreditar na sua Deusa.

E aquilo parou com a minha batalha mental.

– Eu acredito de verdade em você, Nyx. Sempre vou acreditar – decididamente, tirei a pedra da vidência quente que estava embaixo da minha camiseta, respirei fundo e a levantei, olhando através do pequeno buraco, tipo aquele furo de pastilhas Life Savers, para o carvalho despedaçado.

Por um segundo, nada aconteceu. Franzi os olhos, e o carvalho continuou sendo apenas uma velha árvore quebrada. Comecei a relaxar e, como de costume, foi então que o caos começou.

Do centro do tronco partido emergiu um redemoinho terrível e feio de sombras rodopiantes. Dentro daquele turbilhão eu vi criaturas horríveis com os corpos retorcidos, cobertos com uma pele manchada, como se estivessem apodrecendo de doenças nojentas. Os olhos deles eram cavidades profundas. As suas bocas eram costuradas. Eu podia sentir o cheiro deles. Era como o fedor de animais atropelados misturado ao cheiro de privada entupida. Eu tive ânsia e devo ter feito barulho de vômito, pois o grupo voltou seus rostos cegos para mim. Os seus dedos longos e esqueléticos se estenderam na minha direção.

– Não! Parem! – gritei. O conforto do espírito tinha se quebrado. Eu estava paralisada de medo.

E então, bem do meio do redemoinho, brilhou uma luz bonita, com a cor da lua cheia, reduzindo aquelas criaturas horrendas a nada e fazendo com que eu caísse sobre o meu traseiro. Soltei a pedra da vidência, cortando a minha ligação com a magia antiga. Num piscar de olhos, enquanto eu arfava, a árvore se tornou a árvore de novo. Velha e assustadora, mas mundana e quebrada.

Sem me importar com Thanatos ou ordens da Morte, levantei cambaleante e corri feito louca.

– Eu não sou louca. É a minha vida que é louca. Eu não sou louca. É a minha vida que é louca... – entre suspiros ofegantes, eu repetia as palavras para mim mesma como um mantra, sem parar, tentando voltar ao meu estado normal, ao meu centro, ou pelo menos a algum estado de calma, mas o meu coração estava batendo tão alto que eu podia ouvi-lo e não conseguia controlar a respiração. Ataque do coração, pensei. Esse nível de loucura é demais para mim e estou tendo um ataque do coração.

Foi então que percebi que eu não conseguia controlar a respiração e o meu coração estava batendo loucamente porque eu ainda estava correndo, e mãos fortes e familiares me agarraram, fazendo com que eu parasse abruptamente. Como uma garotinha, desabei em cima de Stark, tremendo e batendo os dentes.

– Zoey! Você está ferida? Quem está atrás de você? – Stark me manteve grudada nele, enquanto ele me virava para olhar a escuridão atrás de mim. Eu o abracei e senti que ele estava carregando seu arco e seu estojo de flechas sobre o ombro. Ele irradiava aptidão e presteza. Mesmo através do meu pânico, a presença dele me acalmou. Eu engoli o ar, balançando a cabeça.

– Não, eu estou bem. Estou bem.

Ele me segurou pelo ombro, à distância do seu braço esticado, olhando meu corpo de cima a baixo, como se estivesse procurando por ferimentos.

– O que aconteceu? Por que você estava apavorada, correndo feito uma louca?

Franzi a testa para ele.

– Eu não sou uma louca.

– Bem, você estava correndo como se fosse. E aqui dentro – ele pressionou um dedo contra o meu peito, sobre o meu coração que se acalmava – você estava se sentindo como se tivesse levado uma pancada.

– Magia antiga.

Ele arregalou os olhos.

– O touro?

– Não, não, nada disso. Eu olhei através da pedra da vidência para a árvore. Você sabe, aquela árvore, perto do muro leste.

– E por que diabos você faria isso?

– Porque Thanatos me disse que eu precisava praticar com a maldita pedra da vidência, para o caso de ela poder ser usada de algum modo na luta contra Neferet.

– Então você viu algo que veio atrás de você?

– Bem, não. Sim. Mais ou menos. Eu vi umas coisas assustadoras dentro de algo que parecia um tornado girando para cima, saindo do meio da árvore. Stark, eles eram a coisa mais nojenta que já vi na vida. E eles tinham um cheiro ruim. Muito, muito ruim. Na verdade, eu quase vomitei por causa do fedor. Tive uma ânsia de vômito, e foi quando repararam em mim, mas antes que pudessem fazer qualquer coisa uma luz brilhante acabou com eles – fiz uma pausa, tentando pensar em meio ao meu pânico. – Na verdade, a luz salvadora era tipo aquela luz de fada da Sookie. Você acha que existe alguma chance de eu ser uma fada?

– Não, Z. Foco. True Blood é ficção. Isto aqui é o mundo real. O que aconteceu depois dessa luz?

– Não sei. Eu corri – olhei em volta de nós e percebi que eu havia corrido todo o caminho pelo lado de dentro do muro e que eu estava quase no estábulo. – Eu realmente corri bastante.

– E?

– E nada. Exceto que você me agarrou. Deusa, eu achei que estava tendo um ataque do coração.

– Então você ficou assustada. É só isso?

Franzi a testa para ele de novo. A voz dele era gentil, mas a sua expressão estava tensa, como se ele estivesse tentando decidir se me sacudia ou me beijava.

– Bem – eu disse devagar. – Sim, mas eu fiquei realmente assustada.

As mãos dele, que estavam segurando os meus ombros, me deram um enorme e apertado abraço de urso. Senti o corpo dele relaxar. Ele soltou um longo suspiro que terminou com uma risadinha.

– Você me assustou pra caramba, Z.

– Desculpe – eu murmurei contra o peito dele, envolvendo-o com os meus braços e apertando-o também. – Obrigada por me encontrar e por estar totalmente pronto para me salvar.

– Você não tem por que se desculpar. Eu sou o seu guerreiro, o seu Guardião. É o meu trabalho salvar você. Apesar de você ser muito boa em se salvar sozinha.

Eu me inclinei para trás para poder olhar nos seus olhos.

– Eu sou um trabalho?

Ele deu aquele seu meio sorriso metidinho.

– De tempo integral. Totalmente. E sem benefícios nem folgas.

– Sério?

– Ok, não – o sorriso dele se alargou. – Eu me lembro de ter tirado uns dias de repouso quando uma flecha me queimou e mais alguns dias quando um escocês louco me retalhou. Então, eu retiro o que disse. Eu tenho alguns benefícios. Só que são bem poucos.

– Você está demitido! – tive vontade de dar um tapa em Stark, mas eu não queria tirar os meus braços dos ombros dele.

– Você não pode me demitir. Assinei um contrato vitalício – o sorriso de Stark despareceu dos seus lábios, mas continuou nos seus olhos. – Você é minha Sacerdotisa, minha rainha, mo bann ri. Eu nunca vou deixá-la. Sempre vou protegê-la. Eu amo você, Zoey Redbird – ele se inclinou e me beijou com tanta ternura que eu senti a verdade do seu compromisso no fundo da minha alma.

Quando os seus lábios finalmente deixaram os meus, levantei os olhos para ele.

– Eu também amo você. E você sabe que não precisa ter ciúmes de um cara morto, certo?

Ele tocou o meu rosto.

– Certo. Desculpe pela noite passada.

– Tudo bem. E, ahn, por falar nisso... Há algo que você precisa saber.

– O quê?

Respirei fundo e falei de uma vez:

– Na noite passada, no final do ritual, eu olhei através da pedra da vidência para Aurox e vi Heath. Foi por isso que eu não deixei que você e Darius o ferissem.

Senti a tensão no corpo de Stark disparar para o nível “Perigo! Alerta Vermelho!”.

– Foi por isso que você estava chamando por Heath durante o sono na noite passada? – ele soou mais magoado do que irritado.

– Não. Sim. Eu não sei! Eu falei a verdade. Não lembro com o que eu estava sonhando, mas faz sentido que Heath estivesse na minha mente depois de eu tê-lo visto quando olhei para Aurox.

– Aquela coisa feito touro não é Heath. Como você pode pensar isso?

– Não é que eu esteja pensando isso. É o que eu vi.

– Zoey, olha só, tem que haver uma explicação para o que você viu – ele deu um passo para trás. Meus braços se soltaram do seu ombro.

– É por isso que Thanatos quer que eu pratique mais essa coisa de olhar através da pedra da vidência, para que eu possa descobrir como isso funciona – eu me senti com frio e sozinha sem os braços dele em volta de mim. – Stark, eu sinto muito. Eu não quis ver Heath em Aurox. Eu não quero ver nem dizer nem fazer nada que machuque você. Nunca – eu estava piscando com força, tentando evitar explodir em lágrimas.

Stark passou a mão pelos seus cabelos.

– Z., por favor, não chore.

– Eu não estou chorando – eu disse, e então dei um pequeno soluço e enxuguei uma lágrima que de algum modo tinha escapado do meu olho.

Stark enfiou a mão no bolso da sua calça jeans e pegou um lenço de papel amassado. Ele se aproximou mais de mim de novo e enxugou a segunda lágrima que estava seguindo a primeira lágrima fugitiva. Então ele me beijou docemente e me entregou o lenço, puxando-me de volta para os seus braços.

– Não se preocupe, Z. Heath e eu ficamos em paz no Mundo do Além. Eu ficaria feliz em vê-lo de novo.

– Sério? – eu tive que me afastar um pouco do seu abraço para assoar meu nariz.

– Bem, sim. Feliz por vê-lo de novo, mas não tão feliz por você vê-lo de novo – a sinceridade dele arrancou um sorriso de nós dois. – E eu sei que você não me magoaria de propósito. Mas, Z., aquela coisa tipo touro não é Heath.

– Stark, eu soube que Aurox tinha alguma coisa a ver com magia antiga desde a primeira vez em que o vi. Ele fez com que eu me sentisse completamente estranha – eu odiava contar isso a ele, mas Stark merecia nada menos do que honestidade de minha parte.

– É claro que ele fez com que você se sentisse estranha. Ele é uma criatura das Trevas! E, sim, ele é magia antiga. Ele foi criado pelo tipo mais horrível dessa merda quando Neferet matou a sua mãe como sacrifício. Eu ficaria preocupado se ele não fizesse você se sentir estranha.

Soltei um longo suspiro.

– Bem, acho que isso realmente faz sentido.

– Sim, e aposto que, se a gente trabalhar junto, nós vamos descobrir por que a pedra mostrou Heath a você na noite passada – ele disse e eu apenas mordi o lábio. Então ele continuou, como se estivesse raciocinando em voz alta. – Pense nisso, Z. O que mais você viu através da pedra?

– Bem, em Skye eu vi aqueles duendes antigos, os elementais.

– Eles eram parecidos com as coisas que você viu hoje?

Encolhi os ombros.

– Não, de jeito nenhum. Os elementais eram sobrenaturais, misteriosos, estranhos, mas no bom sentido. O que eu vi hoje foi grotesco e assustador.

– Ok, exceto por agora na árvore e pela noite passada no ritual, a pedra da vidência mostrou a você mais alguma coisa desde que nós voltamos da Itália?

Eu encontrei o olhar dele.

– Sim. Você.


11 Zoey

– Eu? Z., o que você disse não faz o menor sentido – Stark falou.

– Eu sei, eu sei. Desculpe. É que eu me senti meio como se estivesse espionando você quando fiz isso porque você estava dormindo, e eu só fiz isso porque foi na época em que você estava tendo problemas para dormir, e na verdade foi mais uma coisa acidental, então eu nunca disse nada para você, e agora parece como se eu tivesse inventado tudo isso – terminei apressadamente.

– Zoey, eu posso ouvir as suas emoções. Isso é muito mais “espionagem” do que você olhar para mim através de uma pedra enquanto estou dormindo. Além do mais, você está certa. Meu sono realmente tem aumentado. Eu não a culpo por dar uma conferida em mim com a pedra. Apenas me conte o que você viu.

– Eu vi uma sombra em cima de você. Eu me lembro de pensar que parecia um guerreiro fantasma. Você abriu a sua mão e a espada do Guardião apareceu. Então a sombra-fantasma a segurou e ela se transformou em uma lança. Achei que ela estava ensanguentada. Aquilo me assustou, então chamei o espírito e ele afugentou aquela coisa. Você acordou e nós, ahn... – senti meu rosto esquentar. – Bem, nós fizemos amor e eu me esqueci disso.

– Z., gosto de pensar que eu sou bom de cama e tal, mas, mesmo assim, como você pode esquecer de ter visto um cara-fantasma com uma lança pairando em cima de mim?

– É sério, Stark. Logo depois disso começou o que Stevie Rae chamaria de um fuzuê danado aqui na Morada da Noite. Eu estava ocupada – cruzei os braços e olhei intensamente para ele. – Espere aí, eu não me esqueci totalmente disso. Eu contei para Lenobia sobre o cara da sombra.

– Ótimo, então uma professora sabe, mas eu não sabia.

– Agora você sabe.

– Bom, e o que Lenobia falou sobre isso?

– Basicamente, ela me disse para manter os meus olhos bem abertos aqui no mundo real em vez de ficar olhando embasbacada através da pedra, que foi o que eu fiz até a noite passada quando eu vi Heath – falei.

– Olhe para mim através da pedra de novo.

– Agora?

– Agora.

– Ok – levantei a pedra da vidência, respirei fundo e olhei através dela para Stark.

– E então? Que tal eu estou?

– Mal-humorado.

– E?

– Irritante.

– Nada mais?

– Talvez um pouco fofo. Mas apenas talvez – coloquei a pedra de volta embaixo da minha camiseta. – Simplesmente apenas você. Não achei mesmo que eu fosse ver nada. A pedra não estava quente.

– Ela fica quente?

– Sim, às vezes – mordi o lábio e pensei sobre isso. – Na verdade, foi por isso que eu olhei através dela para você da primeira vez. Ela tinha esquentado.

– A pedra estava quente quando você olhou através dela para Aurox? – ele perguntou.

– Não, mas eu sabia que tinha que olhar através dela. Foi como se eu me sentisse compelida a fazer isso – respondi. – E ela já tinha esquentado antes, quando Aurox estava por perto.

– Maldita magia antiga. Isso é um pé no saco – ele reclamou. – Podia pelo menos existir um manual com as regras da pedra descritas em algum lugar, mas não.

– Eu posso ligar para Sgiach. Quero dizer, ela me deu a pedra. Ela lida com magia antiga. Talvez ela possa me dar algumas orientações.

Ele bufou.

– Você não pediu isso a ela em Skye?

– Sim – eu disse.

– Se eu me lembro bem, ela não deu nenhuma resposta concreta.

– Você está certo. Ela falou inclusive que achava que a única magia antiga que ainda existia neste mundo estava em Skye.

– Ela estava errada – Stark afirmou.

– Sim, definitivamente.

– Quer saber o que eu acho?

Stark chegou mais perto de novo e colocou o seu braço em volta de mim. Encostei minha cabeça no ombro dele, deslizei o meu braço ao redor da sua cintura e falei:

– Que eu sou louca?

Ele abriu um sorriso e beijou minha testa.

– Você não é só louca. Você é muito louca. Caramba, Z., você é totalmente louca. Mas eu gosto de um pouco de loucura.

– Agora você pareceu a Stevie Rae – nós sorrimos um para o outro, mais relaxados, apoiados nas bases do nosso relacionamento: o nosso compromisso e a nossa crença um no outro. – Então, o que você ia dizer? O que você acha disso tudo?

– Eu acho que estou cansado de decidir o que fazer por causa do que os outros dizem. Especialmente adultos que nos entregam enigmas ou que nos largam no meio de uma tempestade de merda sem nos dar nenhuma ajuda de verdade – ele disse.

– Sim, eu entendo isso. Eu me senti assim quando Neferet ficou louca e eu era a única que sabia disso.

– Ok, então vamos decifrar essa coisa de magia antiga por nós mesmos. Z., você tem afinidade com todos os cinco elementos. Ninguém consegue nem se lembrar da última vez em que isso aconteceu com outra pessoa. Você é um tipo diferente de novata, um tipo diferente de Grande Sacerdotisa. Você é uma jovem rainha guerreira, e eu sou o seu Guardião. Juntos, não há nada que nós não possamos enfrentar – o seu sorriso metidinho estava de volta. – Nós combatemos no Mundo do Além e vencemos.

– É, exceto pela parte em que você morreu e tal – eu o lembrei.

– Só um pequeno detalhe. No fim deu tudo certo.

Eu o abracei, pressionando o meu corpo contra o seu dorso forte.

– Deu tudo mais do que certo.

Ele me beijou e eu extraí força do seu gosto, do seu toque e do seu amor. Talvez Stark estivesse certo. Talvez não existisse nada que nós não pudéssemos enfrentar. Suspirei de alegria e me aconcheguei no peito dele.

– Vamos para o estábulo – Stark indicou com o queixo o prédio comprido que não estava longe de nós.

– Sim, acho que devemos ir. Aposto que Erin está lá. Até daqui eu posso ver que parece tudo encharcado.

– Na verdade, já faz um tempo que não vejo Erin – Stark encolheu os ombros. – Talvez porque o estábulo esteja realmente muito melhor do que você imagina. A maior parte dos danos foi a fumaça. Só o que realmente queimou foram uma baia e um fardo de feno e forragem.

– Persephone está bem, certo? – Entrelaçando os meus dedos aos dele, nós começamos a caminhar devagar em direção ao estábulo, deixando os nossos braços e quadris roçarem um contra o outro.

– Ela está bem. Todos os cavalos estão bem. Bem, menos Bonnie. Ela está muito nervosa. Lenobia a colocou junto com Mujaji para acalmá-la. Aparentemente as duas se dão bem. O que me faz lembrar que vários novatos disseram que viram Lenobia beijando Travis antes de os paramédicos o levarem embora – Stark contou.

Meus olhos se arregalaram.

– Sério? Mal posso esperar até Aphrodite e Stevie Rae saberem disso!

Stark riu.

– Stevie Rae já soube por Kramisha, que está contando para todo mundo – ele me cutucou com o seu ombro. – Todo esse tempo que você passou na árvore fez com que você perdesse uma boa fofoca.

Levantei os olhos para ele, confusa.

– Todo esse tempo? Eu só fiquei lá por tipo um minuto.

Stark parou.

– Que horas você acha que são agora?

Dei de ombros.

– Sei lá. Eu teria que olhar no meu telefone, mas nós fomos até a sala de Thanatos às sete e meia. Ficamos lá provavelmente meia hora ou menos, então agora deve ser no máximo oito e meia.

– Zoey, são onze e meia. Nós só temos tempo para encontrar todo mundo no estábulo e ir até a pira funerária de Dragon.

Fiquei gelada por dentro.

– Stark, eu perdi mais de três horas!

– Sim, você perdeu, e eu não gosto nada disso. Prometa que você não vai olhar através dessa maldita pedra de novo, a menos que eu esteja com você.

Eu estava apavorada o bastante para não discutir com ele.

– Prometo. Dou minha palavra a você. Eu não vou olhar através dessa coisa a não ser que eu esteja com você.

Os ombros dele relaxaram e ele me deu um beijo rápido.

– Obrigado, Z. Algo que pode roubar tempo de você não é nada bom – ele deu ênfase especial às duas últimas palavras. – Eu sei que Sgiach disse que a magia antiga pode ser boa ou má, mas não faz diferença se ela chega sem avisar.

– Eu sei. Eu sei – a gente tinha começado a andar de novo, mas eu continuei segurando firme a mão dele. – Não me espanta que eu tenha me sentido como se fosse ter um ataque do coração. Eu fiquei parada ali, encarando aquelas coisas nojentas e fedidas por horas – encolhi os ombros.

– Está tudo bem. A gente vai decifrar essa magia antiga toda. Eu não vou deixar que nada aconteça com você.

Stark apertou minha mão e eu apertei a dele de volta. Eu queria acreditar nele. Eu realmente acreditava nele, na sua força e no seu amor. Era com o outro lado que eu estava preocupada. O lado desconhecido em que as Trevas estavam firmemente plantadas, que continuava espreitando e derrubando as pessoas que eu amava.

Fiquei pensando em como eu não queria perder mais ninguém quando aquela pedra da vidência idiota começou a esquentar. Eu parei, fazendo com que Stark parasse abruptamente comigo também. Pressionei a minha mão sobre o ponto quente no meu peito.

– O que foi? – ele perguntou.

– Está esquentando.

– Por quê?

– Stark, eu não tenho ideia. Você deveria me ajudar a decifrar isso, lembra?

– Ok, sim. Certo. Nós podemos fazer isso – ele começou a olhar em volta. – Então, vamos decifrar isso.

– Como?

– Bom, eu estou pensando – ele disse.

Suspirei e tentei pensar também. A gente havia parado embaixo de uma das grandes árvores bem próximas ao lado leste do estábulo. Levantei os olhos rapidamente, preocupada com coisas sem olhos e bocas costuradas à espreita. Mas não havia nada acima de nós. Na verdade, tudo estava em paz ao nosso redor. Tudo o que eu conseguia pensar era que não havia nada para pensar. Algumas vozes chegavam até nós do estábulo e eu podia ouvir equipamentos e outras coisas em funcionamento, como tratores e máquinas sendo usados para retirar o entulho e limpar os destroços. Escutei o som de outro motor, vindo de algum lugar atrás de nós e se aproximando.

– Que estranho – Stark comentou, olhando por sobre o meu ombro. – Táxis não costumam vir aqui.

Segui o olhar dele e vi o carro velho e marrom, com a palavra “TÁXI” escrita em letras pretas na sua lateral. Stark estava certo. Era superestranho ver um táxi na Morada da Noite. Que inferno, Tulsa não era exatamente conhecida por seu maravilhoso serviço de táxis. Dei de ombros mentalmente – o bonde do Centro da cidade era mais legal mesmo.

Então Lenobia saiu pela porta lateral do estábulo e praticamente correu até o carro. Ela abriu a porta traseira e se abaixou para ajudar o cowboy alto e enfaixado a descer do veículo. O táxi foi embora. Travis e Lenobia apenas ficaram parados ali, olhando um para o outro.

Minha pedra da vidência estava tão quente que parecia que ia queimar a minha camiseta e abrir um buraco nela. Eu a tirei e a segurei longe da minha pele. Mas não disse nada. Stark e eu estávamos muito ocupados olhando Travis e Lenobia. Eles não estavam muito perto de nós, mas mesmo assim parecia uma invasão de privacidade ficar ali olhando para eles ­– apesar de a gente continuar ali, olhando embasbacados para os dois.

Então caiu a ficha. Cutuquei o braço de Stark e falei em voz baixa:

– A pedra ficou superquente assim que Travis saiu do táxi.

Stark desviou os olhos de Travis e Lenobia, voltou-se para a pedra e depois para mim. Ele colocou uma mão firme no meu ombro e disse:

– Vá em frente. Olhe através da pedra para ele. Eu estou aqui com você. Não vou deixar que nada aconteça com você. Se alguma coisa tentar sugar o seu tempo, eu vou detê-la.

Eu assenti e, como se arrancasse um band-aid com um movimento rápido, levantei a pedra da vidência, enquadrando Travis e Lenobia dentro do seu círculo.

No começo, foi como tinha acontecido na árvore: a minha visão dos dois permaneceu exatamente a mesma. Observei Lenobia passando as mãos nervosamente sobre as mãos enfaixadas de Travis. Elas pareciam grandes luvas brancas, e eu reparei que a gaze chegava até o antebraço dele. Mesmo de onde estávamos, o rosto dele estava anormalmente vermelho e brilhante, como se ele tivesse se queimado muito no sol e tivesse passado um gel pós-sol. Mas não parecia que ele estava sentindo dor. Ele estava sorrindo. Muito. Para Lenobia. Eu estava quase largando a pedra e me preparando para dizer a Stark que eu era de fato totalmente louca, quando Travis se inclinou e beijou Lenobia.

Então tudo mudou. Houve um brilho tão forte que me fez piscar e, quando minha visão clareou, Travis tinha desaparecido. No lugar dele estava um cara negro, jovem e realmente bonito. Ele tinha cabelo comprido, que estava puxado para trás em um rabo de cavalo baixo, e ombros tão largos que parecia um linebacker. Ele estava beijando Lenobia como se fosse o último beijo dele no mundo. E ela o estava beijando de volta, só que era uma Lenobia diferente. Ela parecia jovem, como se tivesse apenas uns dezesseis anos. Ela o envolveu com os seus braços como se nunca mais fosse soltá-lo. Em toda a volta deles, o ar ondulava e tremeluzia, como se eu os estivesse observando por trás de uma panela efervescente. Só que, em vez do vapor subindo, eu juro que havia duendes de felicidade azul-turquesa esvoaçando ao redor deles. A felicidade cresceu dentro de mim e começou a borbulhar, como se a panela fosse a minha cabeça e a água, as minhas emoções. O chão sumiu de debaixo dos meus pés. Eu estava flutuando em alegria, amor e bolhas azuis.

Então minha cabeça ficou realmente zonza e o meu estômago, totalmente rebelde.

– Zoey! Chega! Abaixe a pedra agora!

Percebi que Stark estava gritando comigo e puxando a pedra da vidência. Senti a terra embaixo dos meus pés de novo. As bolhas azuis evaporaram e a alegria se foi, deixando-me enjoada, exausta e supertrêmula. Soltei a pedra da vidência a tempo de me abaixar e vomitar ao lado da árvore.

– Você está bem. Estou aqui com você, Z. Está tudo bem – Stark estava segurando o meu cabelo para trás enquanto eu continuava a vomitar e a botar minhas tripas para fora.

– Stark? Zoey? – Lenobia estava vindo na nossa direção, soando ofegante e preocupada. Eu ouvi Travis logo atrás dela, perguntando o que havia de errado. Mas eu não consegui responder. Eu estava muito ocupada vomitando. – Zoey! Ah, Deusa, não! – a preocupação de Lenobia disparou quando ela percebeu que eu estava vomitando.

– Ela não está rejeitando a Transformação. Ela está bem – Stark a tranquilizou enquanto eu pegava outro lenço de papel que ele tinha me oferecido e enxugava a boca. Quando finalmente parei de vomitar, eu me encostei na árvore, envergonhada e desconfortável. Eu realmente detestava vomitar.

– Então o que aconteceu? Por que você está enjoada?

Com Stark de um lado e Lenobia de outro, eles me guiaram até um banco de ferro forjado que não estava muito longe da árvore grande (mas longe o bastante para que ninguém sentisse o cheiro do meu vômito, eca).

– Vocês querem que eu chame alguém? – Travis perguntou.

– Não – respondi rapidamente. – Eu estou bem. Vou ficar melhor agora que estou sentada – olhei para Stark com ar de interrogação.

Ele assentiu.

– Seja o que for que você tenha visto, conte para ela. Nós confiamos nela.

Eu me voltei para Lenobia.

– E você confia em Travis?

– Com a minha vida – ela não hesitou.

O cowboy grandão sorriu e se aproximou mais dela. Os ombros deles se tocaram.

– Ok, o que aconteceu é que a minha pedra da vidência começou a esquentar. Quando Travis saiu do carro, ela ficou realmente quente. Stark estava aqui, então nós decidimos que eu deveria olhar através dela, bem, para vocês, e ver se isso poderia me ajudar a começar a entender o que ela me mostra. Então eu olhei através dela para vocês dois.

– Pedra da vidência? – Travis perguntou. Ele não soou nem um pouco assustado, apenas curioso.

– É um amuleto de magia antiga dado a Zoey por uma rainha vampira ancestral – Lenobia explicou. – E o que você viu?

– Bem, nada demais até que vocês dois se beijaram – eu sorri encabulada. – Desculpe por ficar olhando vocês se beijarem.

Travis sorriu e colocou um braço enfaixado em volta do ombro de Lenobia.

– No que depender de mim, mocinha, você vai me ver beijando esta bela garota aqui muitas vezes.

Esperei que Lenobia o fuzilasse com o seu olhar mortal. Em vez disso, ela levantou os olhos com adoração para ele, colocou a mão sobre o peito dele em cima do coração e encostou a cabeça cuidadosamente sobre o seu ombro. Então ela repetiu:

– O que você viu enquanto estávamos nos beijando?

– Travis se transformou em um cara negro grandão e você virou uma versão mais jovem de si mesma. E ao redor de vocês havia umas coisinhas borbulhantes, felizes e azuis. Tenho certeza de que eram duendes de algum tipo – arregalei os olhos. – Na verdade, agora que estou pensando nisso, aquelas bolhas me lembram o mar. Hum. Estranho. Enfim, fiquei totalmente capturada pela cena, como se eu tivesse saído do chão e estivesse em uma bolha azul e feliz do oceano. Desculpe. Eu sei que isso parece loucura – prendi a respiração, esperando Lenobia cair na risada e Travis começar a zombar de mim.

Mas eles também não fizeram isso. Em vez disso, Lenobia começou a chorar. Eu quero dizer chorar para valer. Ela caiu naquele choro convulsivo e cheio de catarro em que eu sou especialista. Travis apenas a abraçou mais forte. Ele abaixou os olhos para Lenobia como se ela fosse um milagre personificado.

– Eu já conheci você antes. É por isso que, com você, eu me sinto como se estivesse em casa.

Lenobia assentiu. Então, em meio às suas lágrimas, ela contou:

– Travis é o meu único companheiro humano, meu único amor, que voltou para mim depois de duzentos e vinte e quatro anos. Eu jurei nunca amar ninguém depois dele e não amei. Nós nos conhecemos e nos apaixonamos no mar, no navio que nos levou da França para Nova Orleans.

– Então a pedra da vidência me mostrou a verdade?

– Sim, Zoey. Com certeza absoluta – Lenobia disse antes de afundar o rosto no peito de Travis e chorar, enquanto ele a abraçava, deixando para trás dois séculos de espera, saudade e dor.

Eu me levantei e peguei a mão de Stark de novo, puxando-o para longe para que os dois pudessem ficar sozinhos. Enquanto entrávamos no estábulo, ele disse:

– Isso não significa que Aurox é Heath que voltou para você. Você sabe disso, certo?

Stevie Rae me salvou ao chegar apressada, falando efusivamente:

– Aiminhadeusa! Por onde você andou? Mal posso esperar para contar a você sobre Lenobia e Travis!

– Já vi esse filme antes – Stark falou. – Onde estão Darius e Aphrodite?

– Eles já estão na frente do Templo de Nyx, na pira funerária – Stevie Rae respondeu. – Nós vamos encontrar com eles já, já.

– Vou procurar Erin, Shaunee e Damien. A gente tem que ir.

– O que há com ele? – Stevie Rae perguntou, olhando Stark se afastar dando passos firmes.

– Heath pode estar realmente dentro de Aurox.

Stevie Rae ecoou exatamente meus pensamentos, dizendo:

– Ah, que inferno!


12 Kalona

Estar do lado da Luz não era tão interessante quanto ele se lembrava. Verdade seja dita, Kalona estava entediado. Sim, Kalona entendia por que Thanatos havia dito a ele para ficar em segundo plano e não chamar atenção para si mesmo até depois do funeral de Dragon. Era nessa hora que ela ia anunciar para a escola que ele era o seu novo guerreiro e que ele ia assumir o posto de Mestre da Espada e líder dos Filhos de Erebus da Morada da Noite de Tulsa. Até esse momento, a presença dele poderia ser algo confuso, se não insultuoso aos olhos dos outros guerreiros.

O problema é que Kalona nunca havia se preocupado por parecer insultuoso. Ele era um imortal poderoso. Por que ele deveria se importar com os sentimentos irrelevantes dos outros?

Porque aqueles que eu julgo mais irrelevantes às vezes me surpreendem: Heath, Stark, Dragon, Aurox, Rephaim. O último nome da sua lista mental o alarmou. Rephaim já pareceu sem importância para ele um dia, mas ele estava errado. Kalona tinha percebido que ele amava e precisava do seu filho.

Em que mais ele havia errado?

Provavelmente em um monte de coisas.

Esse pensamento o deixou deprimido.

Ele andou de um lado para o outro pelo lado mais escuro e cheio de sombras do Templo de Nyx. Ali ele estava perto o bastante da pira de Dragon para ouvir quando Thanatos o chamasse, mas ao mesmo tempo estava fora do campo de visão.

O fato de alguém dizer a ele o que deveria fazer o irritava. Isso sempre o irritara.

E havia aquela novata que tinha afinidade com o fogo, Shaunee. Ela parecia ter a habilidade de incitá-lo, de fazê-lo pensar em coisas em que ele não estava acostumado a perder tempo pensando.

Ela já havia feito isso antes. Ele havia tido a intenção de manipulá-la, para conseguir informações sobre Rephaim e a Vermelha. Mas o que havia acontecido era que ela o tinha presenteado com algo ridiculamente mundano e simples: um telefone celular. Aquele pequeno presente tinha salvado a vida do seu filho.

Agora ela o fizera pensar em todos aqueles éons que ele havia passado afastado de Nyx.

– Não! – ele falou a palavra em voz alta, fazendo que o pequeno bosque de olaias que estavam plantadas no lado oeste do Templo de Nyx chacoalhasse como se uma tempestade as ameaçasse. Kalona se concentrou e controlou o seu temperamento. – Não – ele repetiu usando uma voz que não estava mais repleta de poder sobrenatural. – Eu não vou pensar nos séculos que passei afastado dela. Não vou pensar nela de jeito nenhum.

Uma gargalhada soou ao redor dele, fazendo as olaias se mexerem, tremularem e então explodirem em plena floração, como se um facho da luz do sol do verão tivesse subitamente iluminado as árvores. Kalona cerrou os punhos e levantou os olhos.

Ele estava sentado no beiral de pedra do templo. Havia pouca luz naquele lado do edifício, motivo pelo qual Thanatos havia ordenado que ele esperasse ali, mas Erebus irradiava luz própria.

Erebus... seu irmão... o Consorte imortal de Nyx. O único ser do universo que era mais parecido com ele, e o único ser do universo que ele detestava mais do que a si mesmo. Ali! No reino mortal depois de todos esses éons? Por quê?

Kalona mascarou o seu choque com desdém.

– Você é mais baixo do que eu me lembrava.

Erebus sorriu.

– Que bom ver você de novo também, irmão.

– Como sempre, você coloca palavras da minha boca.

– Desculpe. Eu não preciso fazer isso. Não quando as suas próprias palavras são tão interessantes. “Não vou pensar nela de jeito nenhum” – Erebus não apenas era quase uma imagem espelhada de Kalona, como também imitava a voz de seu irmão perfeitamente.

– Eu estava falando de Neferet – Kalona rapidamente organizou seus pensamentos e mentiu com facilidade. Fazia éons, mas ele costumava ser bom em mentir para o seu irmão. Kalona achou que ainda levava jeito para a coisa.

– Não duvido de você, irmão – Erebus se inclinou para a frente, abriu suas asas douradas e planou graciosamente até o chão diante de Kalona. – Veja só, esse é exatamente o motivo da minha pequena visita.

– Você veio até o reino terreno porque eu era amante de Neferet? – Kalona cruzou os braços sobre o seu peito largo e encontrou o olhar âmbar de seu irmão.

– Não, eu vim porque você é um mentiroso e um ladrão. O estupro da última bondade de Neferet é apenas mais um de seus muitos crimes – Erebus disse. Ele também cruzou o braço sobre o peito.

Kalona deu uma gargalhada.

– Você não andou espionando muito bem se acha que estupro tem algo a ver com o que Neferet e eu compartilhamos. Ela estava mais do que desejosa e pronta para o meu corpo.

– Eu não estava falando do corpo dela! – a voz de Erebus se elevou e Kalona ouviu o som de vampiros chamando e perguntando o que estava havendo ali perto do Templo de Nyx.

– Como sempre, irmão, você apareceu para causar problemas para mim. Eu deveria ficar nas sombras, sem ser visto e esperando até ser convocado. Se bem que, pensando melhor, vai ser divertido assistir a você lidar com a descoberta dos mortais. Apenas um rápido aviso: até os vampiros tendem a ter reações exageradas quando encontram um deus.

Erebus não hesitou. Ele levantou as mãos e ordenou:

– Esconda-nos!

Houve uma onda de vento e uma sensação de claridade que Kalona achou tão familiar, tão agridoce, que só duas reações vieram à sua mente: raiva e desespero. Ele não ia permitir que Erebus visse o seu desespero.

– Você está desafiando Nyx? Ela determinou que eu não posso entrar no Mundo do Além. Como você se atreve a me trazer aqui? – as asas cor da noite de Kalona estavam totalmente abertas e tensionadas, prontas para atacar o seu irmão.

– Você sempre faz o papel do tolo impetuoso, irmão. Eu nunca iria contra as determinações da minha Consorte. Eu não o trouxe para o Mundo do Além. Apenas trouxe um pedaço do Mundo do Além para nos esconder, só por alguns momentos, dos olhos mortais – Erebus sorriu de novo. Desta vez, ele não obscureceu a beleza de sua expressão. Uma luz solar irradiava do seu corpo. As suas asas cintilavam com penas de ouro. A sua pele era perfeita, como se ele tivesse sido modelado com raios de sol.

Ele foi, Kalona pensou com desgosto. Ele foi modelado quando o céu beijou o sol. Assim como eu fui modelado quando o céu beijou a lua. O céu, como a maioria dos imortais, é um bastardo inconstante, que faz o que quer e depois não presta atenção nos filhos que deixa para trás.

– Que tal a sensação de estar no Mundo do Além? Deve ser melhor do que quando você entrou sorrateiramente, perseguindo aquela pequena novata, Zoey Redbird. Naquela ocasião você era só espírito. Você não podia sentir a mágica do reino de Nyx contra a sua pele. E você sempre ficou tão impressionado com qualquer coisa que você pudesse tocar, que pudesse fisicamente chamar de sua.

Ótimo, Kalona pensou, ele ficou nervoso. Isso vai ofuscar a sua perfeição.

Foi a vez de Kalona sorrir. A luz que ele emitiu para o seu irmão não era a luz quente e vistosa do sol. Era a luminescência prateada e fria da lua.

– Ainda enciumado por eu tê-la tocado depois de todo esse tempo? Você se lembra de que Nyx é uma Deusa, não lembra? Ela não pode ser tocada a não ser que seja a sua vontade, o seu desejo, ser tocada, acariciada, amada por...

– Eu não vim aqui para falar de minha Consorte! – as palavras explodiram em flashes de calor dourado ao redor de Kalona.

– Que amostra de temperamento divino! – Kalona riu sarcasticamente. – E ainda dizem que você é o irmão bom. Se ao menos os aduladores que preferiram ficar no Mundo do Além pudessem vê-lo agora.

– Eles não dizem que eu sou o irmão bom. Eles dizem que você é o usurpador – Erebus atirou as palavras no seu irmão.

– Verdade? Pergunte novamente a eles. Eu acredito, depois de éons de reflexão cuidadosa, que eles iriam me chamar de “aquele que se recusou a compartilhá-la” – Kalona disse.

– Ela me escolheu – a voz de Erebus estava baixa; os seus pulsos estavam cerrados ao lado de seu corpo.

– Escolheu mesmo? Minha memória é diferente.

– Você a traiu! – Erebus gritou.

Kalona ignorou o ataque de cólera de seu irmão. Ele já havia testemunhado isso antes. Em vez de se abalar, ele falou com a frieza da superfície da lua:

– Por que você veio? Diga o que tem a dizer e então desapareça. O mundo mortal não é um grande reino, mas ele é meu. E eu não vou compartilhá-lo com você, assim como eu não teria compartilhado Nyx com você.

– Eu vim adverti-lo. Nós escutamos o seu Juramento no Mundo do Além. Nós sabemos que você se comprometeu a ser o guerreiro da Morte e a se tornar o Mestre da Espada desta escola.

– E líder dos Filhos de Erebus – Kalona acrescentou. – Não se esqueça do resto do meu título.

– Eu nunca poderia esquecer que você pretende blasfemar contra os meus filhos.

– Seus filhos? Agora você anda se acasalando com humanas e produzindo machos que crescem para se tornar guerreiros vampiros? Isso é fascinante, especialmente porque eu fui julgado tão duramente por criar meus filhos.

– Vá embora – os olhos de Erebus começaram a ficar incandescentes. – Saia deste lugar e pare de se intrometer na vida dos vampiros de Nyx e dos valorosos guerreiros que se comprometeram a me servir.

– Mas você não está se intrometendo ao ordenar que eu parta? Estou surpreso que Nyx tenha permitido isso.

– A minha Consorte não sabe que estou aqui. Eu só vim porque, de novo, você a está perturbando. Eu vivo para evitar qualquer perturbação a ela. Essa é a única razão pela qual estou aqui – Erebus disse.

– Você vive para lamber os pés dela e está, como sempre, com ciúmes de mim – Kalona não pôde evitar uma onda de alegria pelo que as palavras de Erebus tinham revelado. Ainda posso fazer Nyx sentir algo! A Deusa me observa! O imortal controlou suas emoções. Ele tinha que esconder a sua alegria de Erebus. Quando ele falou novamente, a sua voz estava sem emoção. – Que isto fique claro: eu não jurei servir a você. Eu fiz um Juramento de servir a uma Grande Sacerdotisa que personifica a Morte através da sua afinidade concedida pela Deusa. Tudo o que a sua visita fez foi me dar motivos para fazer uma clara distinção entre os guerreiros que se dizem seus filhos e os que não. Eu não vou oprimir os seus filhos com a minha liderança.

– Então você vai embora desta Morada da Noite – Erebus afirmou.

– Não. Mas você vai. Leve esta mensagem minha para Nyx: a Morte não faz diferença entre aqueles que a seguem e aqueles que seguem outros deuses. A Morte chega para todos os mortais. Eu não preciso da sua permissão, nem da permissão da Deusa, para servir à Morte. Agora suma daqui, irmão. Eu tenho que participar de um funeral – Kalona colocou os braços à frente do seu corpo e juntou as palmas das mãos, provocando uma explosão de luz prateada e gelada que criou uma onda ao redor dele, despedaçando a pequena bolha de Mundo do Além que o seu irmão havia criado e arremessando Erebus para cima e para longe no céu.

Quando a luz em volta dele desapareceu, os pés de Kalona tocaram a terra de novo e ele estava em pé ao lado do Templo de Nyx.

Aphrodite surgiu de um canto apressada, parou e o encarou.

– Eu já fui convocado? – ele perguntou.

Ela piscou e esfregou os olhos, como se estivesse tendo problemas em clarear a sua visão.

– Você estava brincando com uma lanterna aqui?

– Não tenho nenhuma lanterna. Eu já fui convocado? – ele repetiu.

– Quase. Alguma retardada, ou melhor, Kramisha, porque ela estava responsável pelas velas, esqueceu a vela do espírito. Eu tenho que pegar uma no Templo de Nyx. Você deve voltar comigo para a pira de Dragon. Thanatos vai concluir o círculo, dizer algumas coisas bacanas sobre Dragon e depois apresentar você.

Sentindo-se estranhamente desconfortável sob o olhar da humana rude e estranha que Nyx tinha, por razões incompreensíveis a quase todos, escolhido como sua Profetisa, Kalona resmungou uma resposta sem palavras e se virou para abrir a porta lateral do templo.

Ela não se abriu.

Kalona tentou de novo.

Ele se esforçou, usando a sua enorme força imortal.

Ela absolutamente não se abriu.

Foi então que ele notou que a porta de madeira havia desaparecido. A maçaneta havia se transformado em uma pedra firme e espessa. Não havia nenhuma entrada. Nada.

De repente, Aphrodite o estava empurrando para o lado. Ela segurou a maçaneta e a girou. A pedra desapareceu, transformando-se de novo em uma porta de madeira, que se abriu facilmente para ela. Aphrodite levantou os olhos para Kalona, antes de passar pela entrada do templo da Deusa.

– Você é tão estranho – ela atirou o cabelo para trás e entrou.

A porta se fechou atrás dela. Kalona colocou sua mão nela e, sob sua palma, ela se transformou de uma receptiva madeira em pedra novamente.

Kalona se afastou para trás, com uma sensação terrível dentro dele.

Apenas alguns minutos depois, Aphrodite emergiu por uma porta completamente normal. Ela estava segurando uma grossa vela roxa e disse, ao passar por ele:

– Bom, vamos lá. Thanatos quer que você fique na beira do círculo e tente não chamar atenção. Apesar de que, você sabe, isso seria bem mais fácil se você usasse mais roupas.

Kalona a seguiu, tentando ignorar aquele vazio dentro dele. Ele era exatamente o que Erebus havia dito, um tolo impetuoso e um usurpador. Se Nyx o estava observando, não era com nada mais além de desdém. Ela negava tudo a ele: que ele entrasse no Mundo do Além, no seu templo e no seu coração...

Os séculos deveriam ter diminuído a sua dor, mas Kalona estava começando a entender que a verdade era o oposto disso.

Aurox

Nyx, se você é mesmo uma Deusa misericordiosa, por favor, me ajude... por favor...

Aurox não tinha escapado de seu esconderijo na terra. Em vez disso, ele ficou repetindo sem parar aquela única frase, aquela única prece. Talvez Nyx premiasse a determinação. Pele menos ele poderia oferecer isso à Deusa.

Foi durante a ladainha da sua prece silenciosa que a mágica começou a girar em um redemoinho ao redor dele. A princípio, o espírito dele se animou. Nyx me ouviu! Mas bastaram alguns instantes para que ele percebesse o quanto estava errado. As criaturas que se materializaram, saindo do ar frio e úmido ao redor dele, não podiam estar a serviço de uma Deusa misericordiosa.

Aurox se encolheu para se afastar delas. O fedor daquelas criaturas era quase insuportável. Era horrível olhar aquelas faces cegas. O coração dele começou a bater mais forte. O medo o fez estremecer e a besta dentro dele se agitou. Será que aquelas coisas tinham sido enviadas como julgamento pelos malfeitos que ele cometera a serviço de Neferet? Aurox usou o seu próprio medo e começou a alimentar a besta no seu interior. Ele não queria que ela despertasse, mas ele ia lutar antes de sucumbir ao redemoinho de malevolência que ameaçava engolfá-lo.

Mas Aurox não foi engolfado por elas. Devagar, as criaturas foram subindo em um redemoinho mágico. Quanto mais alto elas iam, mais rápido elas giravam. Parecia que elas haviam sido invocadas e estavam despertando aos poucos, atendendo a um chamado mudo.

Aurox acalmou o seu medo e a besta dentro dele retrocedeu. Aquelas coisas não o queriam. Elas não tinham prestado nenhuma atenção nele. A cauda do redemoinho estava deixando como rastro uma névoa escura e fétida. Sem saber ao certo o que o compelia, Aurox estendeu o braço e passou a mão naquele rastro.

A sua mão se tornou a névoa, como se elas fossem feitas da mesma substância. Ele não sentiu o redemoinho, apesar de aparentemente ele ter dissolvido a carne de Aurox. Com os olhos arregalados, ele tentou soltar sua mão, mas era tarde demais. Ele não tinha mais mão, e então um tremor tomou conta dele quando a névoa começou a absorver a sua carne. Impotente, Aurox viu o seu antebraço desaparecer, depois os seus bíceps, depois os seus ombros. Ele tentou despertar a besta, libertar o poder adormecido dentro dele, mas a névoa amortecia os seus sentimentos. Ela o anestesiava enquanto o sugava. Quando ela absorveu a sua cabeça, Aurox se tornou a névoa. Ele não sentia mais nada, exceto um desejo enorme, uma busca incompleta, uma necessidade implacável. Do quê? Aurox não sabia dizer. Tudo o que ele sabia é que havia sido engolfado pelas Trevas e que ele estava sendo levado em uma onda de desespero.

Tem que existir algo além disto para mim!, ele pensou freneticamente. Eu tenho que ser mais do que névoa, desejo, besta e escuridão! Mas parecia que ele não era nada além dessas coisas. O desespero tomou conta dele quando ele percebeu a verdade. Ele era todas essas coisas e ao mesmo tempo nenhuma dessas coisas. Aurox não era nada... Absolutamente nada.

Aurox pensou que o barulho de vômito fosse dele mesmo. Em algum lugar, de algum modo, o seu corpo deveria estar revoltado com o que estava acontecendo. Então ele a viu.

Zoey estava lá. Ela estava segurando a pedra branca à sua frente. Do mesmo modo como ela havia feito na noite anterior, no ritual em que ele tinha tentado fazer uma escolha, fazer a coisa certa.

Ele sentiu a névoa se agitar. Ela também viu Zoey.

A névoa ia absorvê-la.

Não! O seu espírito berrou profundamente. Não! A mente de Aurox ecoou aquele berro. Em vez de desespero, ele começou a sentir algo mais ao observar Zoey. Ele sentiu o medo dela e a sua força. A sua determinação e a sua fraqueza. E Aurox percebeu algo que o surpreendeu. Zoey se sentia tão insegura sobre si mesma e sobre o seu lugar no mundo quanto ele. Ela se preocupava em não ter a coragem necessária para fazer as coisas certas. Ela questionava as suas decisões e se envergonhava de seus erros. De vez em quando, até Zoey Redbird, a novata privilegiada tocada pela Deusa, sentia-se como um fracasso e pensava em desistir.

Exatamente como ele.

A compaixão e a compreensão fluíram através de Aurox, e nesse momento ele sentiu uma onda de um poder quente e claro. Em um flash de luz ofuscante, ele caiu do centro do redemoinho em desintegração, aterrissando com força no seu corpo restaurado, arfando em busca de ar fresco e tremendo inteiro.

Ele não ficou descansando muito tempo ali. Ainda trêmulo e fraco, Aurox encontrou apoio para as mãos e os pés no labirinto de raízes quebradas. Devagar, ele foi se puxando para cima até a beira do buraco. Isso levou muito tempo. Quando finalmente alcançou o topo, ele hesitou, procurando ouvir atentamente.

Ele não ouviu nada além do vento.

Aurox se ergueu do chão, usando o tronco quebrado como esconderijo. Zoey tinha desaparecido. Ele analisou a área ao seu redor e os seus olhos foram atraídos imediatamente para um monte enorme de madeiras e tábuas, em cujo topo havia uma figura coberta por uma mortalha. Apesar de aquele local estar aparentemente cercado pela Morada da Noite inteira, Aurox não teve dúvidas em reconhecer o que estava vendo. É a pira funerária de Dragon Lankford, foi o seu primeiro pensamento. Eu o matei, foi o segundo. Como o desespero na névoa mágica, o funeral o sugou.

Não foi difícil se aproximar do círculo de novatos e vampiros. Os guerreiros Filhos de Erebus estavam obviamente bem armados, mas a atenção de todos estava focada dentro do círculo e na pira no seu centro.

Aurox se moveu furtivamente, usando os grandes carvalhos antigos e as sombras abaixo deles como cobertura até chegar perto o bastante para entender as palavras que Thanatos estava dizendo. Então ele recuperou o controle sobre si mesmo e saltou. Agarrando um galho baixo, Aurox foi subindo na árvore até encontrar um lugar onde se agachou, com uma vista desimpedida do espetáculo macabro.

Thanatos havia acabado de traçar o círculo. Aurox podia ver que quatro professores vampiros estavam segurando velas e representando cada um dos elementos. Ele esperava ver Zoey no centro do círculo, perto da pira, mas em vez disso ele ficou surpreso ao ver que Thanatos estava segurando a vela roxa do espírito com uma mão e uma tocha grande com a outra.

Onde estava Zoey? Será que as criaturas da névoa a tinham capturado? Será que foi isso que fez com que a névoa se dissipasse? Freneticamente, ele procurou encontrá-la no círculo. Quando ele a encontrou em pé ao lado de Stark, rodeada pelo seu grupo de amigos, Aurox achou que ela parecia triste, mas sem ferimentos. Ela estava observando Thanatos atentamente. Aparentemente, não havia nada errado com Zoey, exceto que ela lamentava a perda do seu Mestre da Espada. Com aquela sensação de alívio, Aurox ficou tão fraco que quase caiu de seu poleiro na árvore.

Aurox encarou Zoey. Ela havia começado esse conflito interno que ele sentia. Por quê? Ele estava tão confuso com ela quanto estava em relação aos sentimentos que ela havia despertado dentro dele.

Ele voltou sua atenção para Thanatos. Ela estava andando graciosamente em volta da circunferência do círculo, falando com uma voz que acalmava até os seus nervos em frangalhos.

– O nosso Mestre da Espada morreu como ele viveu: como um guerreiro, fiel ao seu Juramento, fiel a esta Morada da Noite e fiel à sua Deusa. Há outra verdade aqui que precisa ser contada. Apesar de nós chorarmos a sua perda, nós reconhecemos que ele era apenas a casca de si mesmo sem a sua companheira, a amável Anastasia – Aurox olhou para Rephaim. Ele sabia que, como Raven Mocker, Rephaim havia matado Anastasia Lankford. Que ironia o fato de o Mestre da Espada ter morrido para protegê-lo. Ironia maior ainda era o rosto do garoto estar encharcado de lágrimas e ele chorar abertamente a morte de Dragon.

– A Morte foi gentil com Dragon Lankford. Ela não apenas permitiu que ele morresse como guerreiro, mas também serviu como um conduto para a Deusa. Nyx uniu novamente Bryan Dragon Lankford à sua amada e aos espíritos iluminados de seus dois familiares felinos, Shadowfax e Guinevere.

Os gatos deles também morreram? Eu não me lembro de nenhum gato no ritual. Confuso, Aurox analisou a pira funerária. Sim, agora que estava olhando mais de perto, ele podia ver dois pequenos volumes embrulhados na mortalha com Dragon, aninhados um de cada lado do guerreiro caído.

Thanatos havia parado de andar em volta do círculo e estava parada bem na frente de Zoey. A Grande Sacerdotisa sorriu para a novata.

– Conte-nos, Zoey Redbird. Já que você entrou no Mundo do Além e voltou, qual é a única constante lá?

– O amor – Zoey respondeu sem hesitar. – Sempre o amor.

– E você, James Stark? O que você encontrou no Mundo do Além? – Thanatos perguntou ao jovem guerreiro, que estava com seu braço em volta dos ombros de Zoey.

– O amor – Stark repetiu com uma voz forte e firme. – Sempre o amor.

– Isso é uma verdade – Thanatos continuou a andar ao redor do círculo. – Eu também posso dizer a vocês que a minha proximidade com a Morte já me mostrou relances do Mundo do Além. O que eu tive permissão para ver me ensinou que, apesar de o amor permanecer conosco quando passamos deste reino a outro, ele não pode existir eternamente sem compaixão, assim como a Luz não pode existir sem esperança e as Trevas não podem existir sem o ódio. Então, tendo em mente essa verdade dita e compreendida, eu gostaria de pedir que vocês abram os seus corações e deem as boas-vindas ao nosso novo Mestre da Espada e líder dos guerreiros Filhos de Erebus, meu guerreiro sob Juramento, Kalona!

Aurox refletiu a surpresa que ele viu em muitos rostos abaixo dele quando Kalona, o imortal alado que ele sabia que estava havia muito tempo ao lado das Trevas, entrou no círculo com passos firmes e se aproximou de Thanatos. Ele cruzou sua mão em punho sobre o peito e se curvou respeitosamente. Então ele levantou a cabeça e sua voz profunda preencheu o ar.

– Eu jurei ser o guerreiro da Morte, e assim será. Eu jurei ser o Mestre da Espada desta Morada da Noite, e assim será. Mas eu não tentarei tomar o lugar de Dragon como líder dos guerreiros Filhos de Erebus.

Aurox viu que Thanatos estava observando Kalona atentamente, apesar de a sua expressão parecer satisfeita. Os guerreiros que estavam espalhados por toda a volta do círculo se agitaram, como se não soubessem bem o que pensar a respeito da proclamação do imortal.

– Eu vou servir como guerreiro da Morte – Kalona repetiu. Ele estava se dirigindo a Thanatos, mas a sua voz chegava a todos no círculo e à multidão que havia se reunido para o funeral. – Vou proteger você e esta escola. Mas não vou receber um título que me liga a Erebus.

– Eu estava no Conselho Supremo quando você declarou ser Erebus de volta à Terra – Thanatos afirmou. – O que você tem a dizer sobre isso?

– Eu não reivindiquei esse título. Isso foi coisa de Neferet. Ela quer muito ser uma deusa, e isso significa que ela precisa de um Consorte imortal, então ela me nomeou Erebus de volta à Terra. Eu rejeitei esse papel quando rejeitei Neferet.

Sussurros zuniram através do círculo como se fosse o vento através das árvores. Thanatos levantou a tocha que ela ainda segurava.

– Silêncio! – as vozes se aquietaram, mas o choque e a descrença continuaram. – Kalona está falando a verdade sobre Neferet. Dragon foi morto pela criatura dela, Aurox. Ele não foi um presente de Nyx. Na noite passada, durante o ritual de revelação na fazenda de lavandas de Sylvia Redbird, a terra nos mostrou a terrível verdade. Aurox foi criado pelas Trevas através do sacrifício da mãe de Zoey Redbird. Ele é um Receptáculo escravo de Neferet. As Trevas continuam a controlá-lo através de sacrifícios sangrentos – ela apontou sua tocha para os três corpos em cima da pira. – Eu tenho evidências de que Neferet tirou a vida de Shadowfax para que as Trevas mantivessem o domínio sobre Aurox. Essa morte foi demais para a pequena Guinevere de Anastasia. A tristeza parou o seu coração e ela prontamente seguiu Shadowfax para o Mundo do Além, para se reencontrar com aqueles a quem os dois mais amavam.

O corpo de Aurox ficou imóvel. Ele mal conseguia respirar. Ele se sentia como se Thanatos tivesse acabado de estripá-lo. Ele queria gritar: “ Não é verdade! NÃO É VERDADE!”, mas as palavras dela continuavam a massacrá-lo.

– Zoey, Damien, Shaunee, Erin, Stevie Rae, Darius, Stark, Rephaim e eu! – ela gritou cada nome. – Nós testemunhamos os malfeitos sombrios de Neferet. Dragon Lankford morreu para que nosso testemunho pudesse se tornar público. Agora nós precisamos continuar a luta que derrubou o nosso Mestre da Espada. Kalona, estou satisfeita por ouvir a sua confissão. Você tentou usurpar Erebus, ainda que apenas na Terra. Ficou claro para o Conselho Supremo que você estava sendo incitado pelas tramoias de Neferet. Eu o aceito como guerreiro da Morte e protetor desta escola, mas você não pode liderar os guerreiros que fizeram Juramento como Filhos de Erebus. Isso seria desrespeitoso à Deusa e ao seu Consorte.

Aurox viu um lampejo de raiva passar pelos olhos de Kalona, mas ele abaixou a cabeça para Thanatos e cruzou sua mão em punho sobre o coração, dizendo:

– Que assim seja, Grande Sacerdotisa. – Então ele voltou para a beira do círculo, e as pessoas que estavam próximas a ele deram alguns passos discretos para trás.

Thanatos pediu que Shaunee invocasse o fogo e acendesse a pira funerária. Quando a coluna de fogo engolfou a pira de Dragon Lankford, Aurox desceu da árvore e, sem ser visto por ninguém, cambaleou de volta até o carvalho despedaçado e desapareceu abaixo do chão, onde, sozinho, chorou todo o seu desespero e o seu ódio por si mesmo dentro da terra partida.


13 Zoey

– Está tudo bem, Z.? – Stark falou baixo no meu ouvido quando o meu círculo e eu estávamos reunidos perto da entrada do lobby da escola. Thanatos havia pedido que nós esperássemos ela terminar de falar com os professores e guerreiros, e então ela iria se juntar a nós para a entrevista.

– Estou triste por causa de Dragon – sussurrei para ele.

– Não quis dizer isso – ele manteve a voz baixa, para que eu fosse a única capaz de ouvi-lo. – Eu queria saber se está tudo bem com a pedra. Eu vi quando você a tocou durante o funeral.

– Eu achei ter sentido a pedra esquentando por um momento, mas logo passou. Provavelmente foi porque nós estávamos bem perto da pira. E por falar nisso... – levantei a voz e me dirigi a Shaunee –, bom trabalho com a parte do fogo no funeral. Eu sei que não é fácil manter piras funerárias acesas, mas você ajudou. Você fez com que tudo acabasse mais rápido.

– Obrigada. Sim, todos nós estamos cansados de funerais. Pelo menos antes desse funeral nós pudemos assistir a Dragon entrando no Mundo do Além, mas ver os gatos lá na pira com ele deixou tudo especialmente triste – ela enxugou os olhos e eu me perguntei como ela (ou qualquer um) conseguia chorar e ainda ficar bonita. – Na verdade, isso me lembra de uma coisa... – Shaunee continuou, virando-se para encarar Erin, que estava na ponta do nosso grupo, olhando para os garotos que ainda estavam na pira como se ela estivesse procurando alguém. – Erin, tudo bem por você se eu mudar a caixa de areia e as coisas de Belzebu para o meu quarto? Ele tem dormido lá a maioria dos dias.

Erin olhou para Shaunee, deu de ombros e disse:

– Sim, tanto faz para mim. Aquela caixa de areia tem cheiro de merda mesmo.

– Erin, os gatos não gostam de usar caixas de areia sujas. Você tem que limpá-la todo dia – Damien a informou, franzindo a testa.

Erin bufou de um jeito sarcástico.

– Não, eu não preciso mais fazer isso – então ela voltou a olhar para os outros garotos.

Percebi que ela não estava chorando. Pensei nisso e me dei conta de que ela não havia chorado nenhuma vez durante o funeral inteiro. No começo, toda essa coisa da ruptura entre as gêmeas parecia ter mexido mais com Shaunee, mas com o passar do tempo comecei a notar que Erin não estava agindo como ela mesma. Apesar de eu supor que isso seria normal, já que agir como ela mesma costumava significar agir igual a Shaunee, que agora parecia bem mais madura e legal. Fiz uma nota mental de que eu precisava encontrar tempo para conversar com Erin, para me certificar de que ela estava bem.

– Que droga, eu preferia que Thanatos não tivesse dito para Rephaim esperar com os outros garotos no ônibus. Ele estava superperturbado no funeral. Eu odiei ter que deixá-lo sozinho nesse estado – Stevie Rae falou, vindo para o meu lado.

– Ele não está sozinho. Ele está com todos os outros novatos vermelhos. Eu vi quando eles foram para o ônibus. Kramisha estava falando para ele sobre como a poesia podia ser um caminho para extravasar as emoções.

­– Kramisha vai entreter o menino-pássaro com as suas tolices sobre poesia. Blá-blá... versos iâmbicos e blá-blá... – Aphrodite comentou. – Além disso, até você precisa entender que não é uma boa ideia deixar o público humano saber do seu pequeno “probleminha de pássaro” – ela colocou aspas no ar com os dedos.

– Olá, ahn, desculpem-me por interromper vocês, mas eu estou procurando o lobby da escola.

Todos nós nos viramos ao mesmo tempo e olhamos para o humano que estava andando na nossa direção pela calçada que vinha do estacionamento. Atrás dele, havia um cara segurando uma câmera e com uma grande bolsa preta abarrotada de coisas pendurada no seu ombro e uma espécie de fone de ouvido cinza na cabeça.

Como era de se prever, Damien foi o primeiro de nós a se recompor. Falando sério, Damien realmente devia ser coroado a Miss Simpatia da Morada da Noite de Tulsa.

– Você está no lugar certo. Parabéns por nos encontrar! – Damien sorriu tão afetuosamente que eu percebi que o humano relaxou os seus ombros tensos.

Então ele estendeu a mão e disse:

– Ótimo. Eu sou Adam Paluka, da Fox23 News. Estou aqui para entrevistar a sua Grande Sacerdotisa e, imagino, alguns de vocês também.

– Prazer em conhecê-lo, senhor Paluka. Eu sou Damien – ele disse, apertando a mão do humano. Então Damien deu uma risadinha e acrescentou: – Ai, que aperto forte!

O repórter sorriu.

– O prazer é meu. Pode me chamar de Adam. O senhor Paluka é o meu pai.

Damien deu outra risadinha. Adam também. Eles fizeram um supercontato visual. Stevie Rae me cutucou e nós demos aquele Olhar uma para a outra. Adam era fofo, muito fofo mesmo, de um jeito jovem, inteligente, promissor e metrossexual. Ele tinha cabelos e olhos escuros, bons dentes, sapatos caros e uma bolsa masculina, na qual Stevie Rae e eu reparamos juntas. Um namorado em potencial para Damien!, nossos olhares telegrafaram ao mesmo tempo.

– Olá, Adam. Eu sou Stevie Rae – ela estendeu a mão e, enquanto ele a apertava, ela perguntou: – Você não tem namorada, tem?

O sorriso cheio de dentes dele diminuiu, mas só um pouco.

– Não. Eu não tenho, não. Hum. Com certeza, eu não tenho namorada. – Então ele notou a Marca vermelha de Stevie Rae. – Então você é do novo tipo de vampiros de que a sua ex-Grande Sacerdotisa falou.

Stevie Rae abriu o sorriso para ele.

– Sim, eu sou a primeira Grande Sacerdotisa Vermelha. Legal, não é?

– A sua tatuagem é realmente muito bonita – Adam disse, parecendo mais curioso do que desconfortável.

– Obrigada! – Stevie Rae agradeceu efusivamente. – Este aqui é James Stark. Ele é o primeiro guerreiro vampiro vermelho. A tatuagem dele também é incrível.

Stark estendeu a mão.

– Prazer em conhecê-lo. E você não precisa me dizer que a minha tatuagem é bonita.

O rosto de Adam ficou um pouco pálido, mas ele apertou a mão de Stark. O sorriso dele pareceu sincero; nervoso, mas sincero.

– Olá – eu entrei na conversa, apertando a mão dele. – Eu sou Zoey.

O olhar de Adam rapidamente se voltou para a tatuagem completa do meu rosto, para a gola em V da minha camiseta e o relance de tatuagens em volta da minha clavícula, e depois para a palma da minha mão, que estava coberta com a mesma tatuagem cheia de filigranas.

– Eu não sabia que vampiros faziam tatuagens adicionais. O seu tatuador é daqui de Tulsa?

Eu sorri para ele.

– Bem, às vezes. Mas ela passa a maior parte do tempo no Mundo do Além. – Percebi que ele estava tentando entender o que eu havia acabado de dizer, então aproveitei a oportunidade e perguntei: – Ei, você disse que não tem namorada. E quanto a um namorado?

– Hum, não, eu também não tenho namorado. Pelo menos não atualmente – Adam se voltou para Damien, que encontrou o seu olhar.

Sucesso!, era o que eu estava pensando quando Aphrodite bufou.

– Ah, que merda, isto aqui não é The Bachelorette. Eu sou Aphrodite LaFont. Sim, o prefeito é o meu pai. Ipi-ipi-urra – ela deu o braço para Darius. – E este aqui é Darius, o meu guerreiro.

Adam levantou a sua bela sobrancelha quando ele reparou no suéter de sexto-formanda que Aphrodite estava usando, com a insígnia das três Moiras bordada no bolso do lado esquerdo do peito.

– Agora permitem que humanos frequentem a Morada da Noite?

– Aphrodite é uma Profetisa de Nyx, um fato provado pelo elo que ela tem com Darius, que é um guerreiro Filho de Erebus e fez o Juramento de ser o seu protetor – Thanatos falou enquanto saía das sombras e caminhava graciosamente na nossa direção. Eu achei o timing dela excelente, assim como a sua entrada. Ela era alta e poderosa, sem aparentar idade, e tinha uma beleza clássica. A sua voz era agradável e informativa, como se ela desse entrevistas para repórteres humanos todo dia. – Eu sei que o funcionamento interno da nossa sociedade não é senso comum, mas acredito que a maioria dos humanos sabe que um guerreiro não pode se ligar a um humano por um Juramento de proteção.

– Na verdade, apesar de esta entrevista ser de última hora, tive tempo para pesquisar um pouco, e esse é um fato que eu realmente descobri.

– O fato de Aphrodite ser uma Profetisa de Nyx e de estar frequentando esta escola, assim como vários novatos e vampiros vermelhos, vai ser um dos tópicos da nossa entrevista. Embora pareça que a entrevista já tenha começado – Thanatos saiu totalmente das sombras, indicando com a cabeça o cameraman que sem dúvida já estava nos filmando, apesar de nenhum de nós ter prestado atenção nele. – Eu sou Thanatos, a nova Grande Sacerdotisa da Morada da Noite de Tulsa. Merry meet, Adam Paluka. Você é bem-vindo à nossa escola.

– M-merry meet – Adam se atrapalhou um pouco. – Eu não quis ofender começando a filmagem mais cedo.

Thanatos sorriu.

– Você não nos ofendeu. Nós o convidamos a vir até aqui. Fico satisfeita que a entrevista tenha começado sem formalidades. Nós podemos ficar aqui, sob o belo céu da noite de Tulsa, e continuar a conversa?

– Claro – Adam disse após um aceno de cabeça do cameraman. – A luz dos lampiões a gás é uma boa iluminação. Se vocês nos derem um segundo, podemos usar um microfone boom e captar todos do grupo que quiserem participar.

– Parece ótimo. Zoey, Aphrodite, Stevie Rae, Stark e Damien, por favor, fiquem para a entrevista. Darius, Shaunee e Erin, vocês poderiam se certificar de que os novatos que estão reunidos voltem para os seus dormitórios? Esta foi uma noite difícil para a nossa escola.

Darius se curvou para Aphrodite e Thanatos, e então ele e Shaunee foram embora juntos. Erin saiu andando na direção contrária.

– Você disse que hoje foi uma noite difícil para a sua escola. O que quis dizer com isso?

– Com o seu faro para notícias, tenho certeza de que você sabe que tivemos recentemente um incêndio no campus – Thanatos explicou.

– Sim, nós inclusive fizemos uma reportagem sobre isso na Fox. Foi no estábulo, certo? – ele a estimulou a continuar.

– Certo. Foi um acidente infeliz, apesar de não totalmente surpreendente – Thanatos fez um gesto indicando os lampiões de cobre pendurados que faziam uma bela decoração ao nosso redor. – A luz dos lampiões a gás e a luz de velas é mais agradável aos nossos olhos do que lâmpadas elétricas. Como você já observou, esse tipo de iluminação ambiente é adorável, mas as chamas são vivas e às vezes voláteis. Um lampião foi deixado aceso sozinho no celeiro. Foi uma noite com muito vento. Uma rajada forte derrubou o lampião em cima de um fardo de feno, colocando fogo no estábulo.

– Espero que ninguém tenha se ferido – achei que Adam pareceu sinceramente preocupado.

– A nossa Mestra dos Cavalos e uma novata inalaram um pouco de fumaça, e o humano empregado como treinador do estábulo teve queimaduras, a maioria nas mãos. Ele vai se recuperar totalmente. Quero deixar aqui registrado que Travis Foster agiu como um herói. Ele cuidou para que todos os cavalos escapassem.

– Travis Foster é humano?

– Completamente humano, além de ótimo funcionário e amigo.

– Fascinante – Adam disse e olhou em volta. Pude ver quando o olhar dele se fixou na pira distante, que agora estava em combustão lenta e sem chamas, com um brilho alaranjado. – Por favor, corrija-me se eu estiver errado, mas acho que aquela pilha de madeira queimando não faz parte do estábulo. Durante a minha pesquisa, eu li que os vampiros queimam os seus mortos em piras funerárias. Será que eu escolhi uma hora inapropriada para esta entrevista? – ele fez a pergunta com um tom de consideração em sua voz, mas eu consegui enxergar a curiosidade que brilhava em seus olhos.

– Você não está errado. Aquilo são os restos de uma pira funerária. De fato, nós sofremos uma grande perda na Morada da Noite, que não teve nada a ver com o incêndio no estábulo. O nosso Mestre da Espada, Dragon Lankford, foi morto recentemente em um trágico acidente em uma fazenda de lavandas que faz divisa com a reserva nacional conhecida como Pradaria de Tallgrass – ela contou e eu fiquei de boca fechada, perguntando-me como diabos Thanatos ia transformar o assassinato de Dragon em um “trágico acidente” que pudesse ser explicado ao público humano. – Um bisão grande escapou das fronteiras da reserva. Alguns de nós estávamos terminando um adorável ritual de purificação na fazenda de lavandas, e aquela besta deve ter ficado confusa com a fumaça de sálvia e o nosso círculo. A criatura nos atacou. O nosso Mestre da Espada protegeu os nossos novatos, perdendo a vida ao fazê-lo.

– Isso é terrível! Eu sinto muito – Adam pareceu perturbado. Na verdade, todos nós parecemos perturbados, o que escondeu o nosso choque com a mentira gigante de Thanatos.

– Obrigada, Adam. Apesar de ter sido um acidente horrível e uma grande perda para a nossa Morada da Noite, o nosso Mestre da Espada morreu como ele viveu, como um guerreiro honrado que protegeu os mais jovens. Por causa dele, ninguém mais se feriu e o ritual foi concluído. Todos nós vamos lembrar da bravura de Dragon Lankford pelos séculos que virão – ela tocou levemente os olhos com um lenço rendado que tirou de dentro da luva. Foi realmente um momento tocante.

Adam ficou parado ali, parecendo compreensivo, enquanto o cameraman desviou a lente da pira de Dragon para focar a dor de Thanatos e o seu esforço muito humano para se recompor novamente.

Foi tudo muito bem encenado. Ela me fez pensar em quantas aulas de Teatro a Grande Sacerdotisa da Morte havia feito quando era uma novata.

Thanatos terminou de enxugar os olhos e suspirou profundamente.

– E respondendo à sua outra pergunta, não, não é uma hora inapropriada para a nossa entrevista. Nós o convidamos, lembra? Nós estamos felizes por recebê-lo na Morada da Noite, mesmo neste momento de tristeza. Então, vamos começar oficialmente. Aqui neste banco é um bom lugar? – Thanatos indicou com um gesto um dos longos bancos de pedra que se alinhavam no caminho de entrada para o lobby da escola. Durante uma noite normal de escola, haveria um monte de garotos aglomerados em volta dos bancos, fazendo lição de casa, flertando e fofocando. Naquela noite, os bancos estavam completamente vazios.

– Perfeito – Adam respondeu.

Enquanto ele e o cameraman se preparavam, Thanatos tomou o seu lugar no centro do banco. Em voz baixa, ela disse:

– Zoey, Stark, aqui ao meu lado – ela apontou para a direita, atrás dela. – Aphrodite, Stevie Rae e Damien, aqui – eles ficaram parados em pé à esquerda.

Quando Adam voltou e oficialmente começou a filmar, senti uma agitação nos meus nervos. Até os meus antigos amigos da South Intermediate High School iriam ver isso!

– Thanatos, eu estava pensando se você poderia dar mais detalhes sobre o comentário que Neferet, a ex-Grande Sacerdotisa da Morada da Noite de Tulsa, fez sobre você na noite passada. Ela disse que a Morte era a nova Grande Sacerdotisa daqui – Adam fez uma pausa e sorriu. – Para mim, você não parece a Morte.

– Você conhece bem a Morte, jovem Adam? – Thanatos perguntou com uma voz suave e espirituosa.

– Não, na verdade eu nunca morri – ele respondeu no mesmo tom de brincadeira.

– Bem, o comentário de Neferet pode ser facilmente explicado. Eu não sou a Morte propriamente dita. Eu simplesmente recebi o dom de ajudar os mortos a passarem deste reino para o próximo. Eu sou tanto a Morte quanto você é a Humanidade. Nós dois somos apenas a representação de ambos. Pode ser mais fácil de entender se você pensar em mim como uma médium muito boa.

– Neferet também mencionou um novo tipo de vampiros, os vampiros vermelhos, e sugeriu que eles podem ser perigosos – ele falou, e eu percebi que a câmera se voltou para Stark e Stevie Rae. – Você também pode explicar isso melhor?

– Certamente, mas primeiro eu sinto que preciso deixar algo bem claro. Neferet não é mais funcionária da Morada da Noite de Tulsa. Na verdade, pelo modo como a nossa sociedade funciona, uma vez que uma Grande Sacerdotisa perde o seu emprego, ela perde essa posição para sempre. Ela nunca mais vai servir como Grande Sacerdotisa em nenhuma outra Morada da Noite. Como você pode imaginar, isso pode ser uma transição difícil e frequentemente embaraçosa para o empregado demitido, assim como para o seu empregador. Os vampiros não têm leis de calúnia e difamação. Nós usamos o sistema de Juramento e honra. Obviamente, desta vez esse sistema não funcionou.

– Então você está dizendo que Neferet é... – ele não concluiu e fez um gesto com a cabeça, encorajando Thanatos a concluir a frase por ele.

– Sim, é um fato triste, mas verdadeiro. Neferet é uma ex-funcionária descontente que não apita mais nada – Thanatos disse calmamente.

Adam olhou para Stark, que estava ao meu lado, não muito longe de Thanatos.

– Essa ex-funcionária fez alguns comentários sobre um membro da Morada da Noite em particular: James Stark.

– Sou eu – Stark falou na hora. Eu percebi que ele estava desconfortável, mas acho que ninguém mais, incluindo os telespectadores, iriam ver qualquer coisa além de um cara muito bonito com uma tatuagem vermelha no rosto que lembrava flechas.

– Então, Jim. Posso chamá-lo assim? – Adam perguntou.

– Bem, sim, mas seria melhor você me chamar de Stark. Todo mundo me chama assim.

– Ok, Stark, Neferet disse que você matou o seu mentor na Morada da Noite de Chicago, e ela sugeriu que você é uma ameaça para a comunidade daqui. Você gostaria de responder a isso?

– Bem, isso é um monte de papo-furado! – escutei a minha boca dizer.

Stark abriu o seu meio sorriso metidinho e pegou a minha mão, entrelaçando os seus dedos aos meus de modo que todos os telespectadores podiam ver.

– Z., quase você fala um palavrão na TV. Não faça isso, a sua avó pode ouvir e isso não seria legal.

– Desculpe – murmurei. – Que tal eu simplesmente deixar você falar?

Stark abriu ainda mais o sorriso.

– Bem, sempre há uma primeira vez para tudo.

Infelizmente, todos os meus amigos riram. Eu olhei zangada para ele. Stark continuou falando, apesar de eu pensar em sufocá-lo com um travesseiro da próxima vez que nós fôssemos dormir.

A voz dele foi hesitante no começo, mas, quanto mais ele falava, mais forte e seguro ficava.

– O meu mentor, William Chidsey, era incrível. Ele era legal. E inteligente. Estou falando inteligente mesmo. E talentoso. Ele me ajudou. Na verdade, ele foi mais um pai do que um mentor para mim – Stark fez uma pausa e passou a mão pelo rosto. Quando ele começou a falar de novo, foi como se só ele e o repórter estivessem ali sozinhos, como se ele tivesse esquecido que a câmera estava ali e tudo o mais. – Adam, eu descobri bem cedo, quando eu estava no segundo ano do ensino médio, que eu tinha recebido um dom – Stark enfatizou bem a última palavra, não sarcasticamente, mas também não como se aquilo fosse uma coisa fantástica. O tom de voz dele deixava claro que o seu dom era uma responsabilidade, e não uma responsabilidade fácil. – Eu não consigo errar o alvo. Eu sou um arqueiro – ele explicou quando Adam o olhou de modo questionador. – Você sabe, arco e flecha. Enfim, seja para onde for que eu mire, eu acerto. Infelizmente, não é tão literal assim. Pense nisso: há bastante diferença entre o lugar para onde você está olhando e o que você está realmente pensando e o que você está alvejando. Um exemplo simples: imagine que você pega um arco e uma flecha e mira em uma placa com um sinal de “Pare”. Então, você puxa o arco, aponta a flecha e dispara no meio de uma grande placa vermelha. Mas e se dentro da sua cabeça você estiver pensando: “Ok, quero atingir aquela coisa que faz os carros pararem”? Quando você se dá conta, a sua flecha está atravessada no radiador do primeiro carro que aparece.

– Bem, eu posso entender como isso pode causar grandes problemas – Adam disse.

– Sim, problemas de proporções épicas. Levou um tempo para que eu descobrisse e aprendesse a controlar isso. Nesse tempo, eu cometi um erro realmente terrível – Stark fez uma pausa de novo e eu apertei a sua mão, tentando transmitir o meu apoio. – E por causa disso o meu mentor morreu. Eu não vou deixar que isso aconteça de novo. Fiz um Juramento de que isso não vai mais acontecer.

– E é por isso que James Stark está aqui na Morada da Noite de Tulsa – Thanatos retomou o controle da conversa, e a câmera a seguiu. – Em Tulsa, nós acreditamos em dar outra chance – o olhar dela se voltou para Aphrodite. Tive que cuidar para não ficar de queixo caído quando ela falou tranquilamente: – Você não diria que este é um excelente lugar para segundas chances, Aphrodite LaFont?

Eu não deveria ter me preocupado. Na frente de uma câmera gravando, Aphrodite se sentia em casa. Ela caminhou para a frente, na direção da câmera (é claro), e então se sentou ao lado de Thanatos.

– Eu concordo totalmente com você, Grande Sacerdotisa. Eu fui uma novata por quase quatro anos, mas Nyx, a nossa Deusa benevolente, decidiu tirar a sua Marca de mim e substituí-la por um dom profético. Os meus pais concordam com a minha decisão de permanecer na Morada da Noite. Na verdade, nós falamos sobre a possibilidade de eu fazer um treinamento no Conselho Supremo em Veneza quando eu me formar aqui. Minha mãe e meu pai me dão muito apoio – ela sorriu para a câmera. – Você pode comprovar isso se olhar as nossas contas de cartão de crédito dos últimos meses. Uau! Eu tenho pais tão incrivelmente legais!

Ok, sem brincadeira. Aquilo era uma montanha de besteiras podres e fedidas tão grande que eu nem conseguia falar. Felizmente, Stevie Rae não era tão muda.

– Falando em pais incríveis, a minha mãe, Ginny Johnson, vai fazer os melhores cookies de chocolate do universo e trazê-los para o evento aberto ao público com venda de guloseimas que nós vamos fazer aqui em breve, certo, Thanatos?

Thanatos não perdeu tempo.

– Você está absolutamente certa, Stevie Rae. Na próxima semana, se o tempo sujeito a tempestades de Oklahoma permitir, nós estaremos organizando um evento aberto ao público no campus. Esperamos que os Street Cats estejam aqui com gatos para adoção. Aproveitando, eu gostaria de anunciar que todos os lucros da nossa venda de guloseimas – ela sorriu na direção de Stevie Rae – vão beneficiar as obras de caridade dos Street Cats. Além disso, a avó da nossa Grande Sacerdotisa novata, Zoey Redbird, vai vender os seus produtos de lavanda nos nossos jardins.

– Não se esqueça da feira de empregos.

Todos, incluindo o cameraman, se viraram ao som da voz da Mestra dos Cavalos. Lenobia estava em pé ali, conduzindo sua bela égua negra, Mujaji, que parecia um sonho.

– Professora Lenobia, que bom que você se juntou à nossa entrevista – Thanatos afirmou.

– Uau! Que belo cavalo ele é! – Adam falou entusiasmado quando o cameraman deu um close em Mujaji.

Damien tocou o braço de Adam e sorriu.

– Querido, é ela, não ele.

– Ah, eu me enganei – Adam levou numa boa, sorrindo com um rubor gracioso em suas bochechas. – Essa coisa de ele ou ela nunca fez muita diferença para mim.

– Porque nós somos todos iguais – ouvi as palavras saindo da minha boca e silenciosamente agradeci a Nyx por elas. – Meninos, meninas, humanos, vampiros, que diferença faz? Todos nós vivemos em Tulsa e amamos esta cidade. Então, vamos apenas nos dar bem uns com os outros!

Thanatos riu, e o som da sua risada foi como música.

– Ah, Zoey, eu não poderia ter dito isso de melhor forma. E Lenobia, você fez bem em me lembrar. Adam, eu gostaria de anunciar que, durante a noite aberta ao público e o evento beneficente para os Street Cats, a Morada da Noite de Tulsa vai, como a primeira Morada da Noite da nossa história escrita, receber inscrições de humanos para vagas de professores. Vamos fazer entrevistas para colocações de professores nos nossos departamentos de Teatro e de Literatura – Thanatos se levantou e abriu os braços, parecendo benevolente e sábia. – A Morada da Noite dá as boas-vindas a Tulsa. Até sábado, nós desejamos a vocês merry meet, merry part e merry meet again.


14 Neferet

Neferet não teria visto a entrevista se ela não tivesse chamado o serviço de quarto até a sua cobertura. O subserviente garoto loiro era quase jovem demais para despertar o interesse dela. O último mensageiro que havia tido a sorte de atender ao seu chamado ia ter que tirar uma licença médica do trabalho pelos próximos dias. Fraco e cheio de hematomas, ele não iria se lembrar de nada, além da fascinação pela sua beleza e de uma série de sonhos eróticos e sombrios. Sonhos febris – o seu médico sem dúvida iria chamá-los assim. Os humanos eram criaturas tão frágeis. Era uma pena que ela precisasse constantemente encontrar novos brinquedinhos.

Neferet analisou o mensageiro. Ele era alto e parecia extremamente nervoso. A sua pele era ruim. Ele praticamente exalava virgindade por todos os seus poros dilatados. Pensando que sangue virgem iria combinar bem com a garrafa resfriada de champanhe que ele estava trazendo, ela fez um gesto em direção à sua sala de estar.

– Por favor, traga a garrafa aqui para dentro – Neferet ronronou.

O sangue virgem era tão doce que aquela aparência ruim e as mãos cheias de suor podiam ser facilmente ignoradas. Afinal de contas, ela não ia tocá-lo. Pelo menos não muito...

– Aqui está bem, madame? – os olhos dele continuavam passeando rapidamente dos seios dela para a sua boca e depois de volta para a garrafa que ele estava abrindo, enquanto ele fedia a desejo sexual, medo e fascinação.

– Aqui está perfeito – Neferet deslizou uma unha comprida e pontuda pelo corpete decotado do seu robe de seda.

– Uau – ele engoliu em seco, tirando a folha metálica dourada da boca da garrafa de champanhe com mãos trêmulas e inexperientes. – Espero que não se importe por eu dizer isto, mas você é muito mais bonita do que aqueles outros vampiros no telejornal.

– Outros vampiros? Telejornal?

– Sim, madame. Eles estão agora no jornal da noite da Fox23.

– Ligue a TV para mim! – ela falou rispidamente.

– Mas o champanhe não está...

– Deixe a garrafa de lado! Eu sou plenamente capaz de abri-la sozinha. Ligue a TV no telejornal e vá embora.

O garoto fez o que ela ordenara e então se retirou envergonhadamente, ainda dando olhares desejosos para ela. Neferet não prestou atenção nele. Ela estava totalmente absorta na cena que se descortinava à frente dela na grande televisão de tela plana. Thanatos, Zoey e alguns do seu grupo estavam lá. Eles estavam ao ar livre na Morada da Noite, bem agrupados e conversando facilmente com o repórter. Neferet franziu a testa. Todos pareciam tão normais.

Ela sorriu um pouco quando ouviu Thanatos explicar a morte de Dragon Lankford como um trágico acidente com um bisão.

– Aquele Aurox imprestável! – Neferet resmungou. – Receptáculo imperfeito e inepto! Tudo isso é culpa dele.

Ela continuou assistindo à entrevista, sorrindo ironicamente para Stark e Zoey, apenas se concentrando mais quando ouviu o seu próprio nome ser mencionado. Neferet apertou o botão para aumentar o volume e Thanatos proclamou em voz alta:

– ... Neferet é uma ex-funcionária descontente que não apita mais nada.

O corpo de Neferet se congelou.

– Ela se atreve a me chamar de funcionária! – Neferet continuou a assistir. A raiva dela cresceu com tanta intensidade que a porta de vidro que dava para a varanda da cobertura se abriu com força, espalhando estilhaços de cristal sobre o chão de mármore.

– Todos nós vivemos em Tulsa e amamos esta cidade. Então, vamos apenas nos dar bem uns com os outros! – a voz ridiculamente alegre de Zoey provocou arrepios de raiva que subiram e desceram pela espinha de Neferet.

– Eu não vou permitir que você desfaça o que eu comecei, sua criança odiosa! – Neferet explodiu. Quando Thanatos anunciou que a Morada da Noite ia receber inscrições de humanos para vagas de professores, ela ficou de queixo caído junto com o repórter. Após a saudação benevolente da nova Grande Sacerdotisa, merry meet, merry part e merry meet again, Neferet assistiu incrédula aos âncoras do telejornal conversarem tolamente sobre como a interação com os vampiros era interessante e como o evento aberto ao público e a feira de empregos seria ótima para a cidade, com um close congelado do rosto sorridente de Zoey decorando a tela. Ela apertou com força o botão de desligar a TV, incapaz de suportar Zoey Redbird por um só instante.

Do pequeno recanto que ficava entre a sala de estar e a sala de jantar, o computador de Neferet começou a chamar. Na tela, a silhueta da imagem de Nyx com os braços levantados piscou e, ao lado do ícone, apareceram as palavras: CONSELHO SUPREMO DOS VAMPIROS.

Neferet caminhou devagar até o computador e clicou no mouse para atender ao chamado, automaticamente ativando a câmera de vídeo. Ela sorriu friamente para as seis Grandes Sacerdotisas com expressões sérias que estavam sentadas em seus tronos esculpidos em mármore.

– Eu estava esperando a sua ligação.

Duantia, membro sênior do Conselho Supremo dos Vampiros, falou primeiro. Neferet achou que ela soou muito, muito velha. Certamente o seu cabelo longo e grosso parecia mais prata do que castanho, e Neferet teve certeza de ver bolsas embaixo de seus olhos escuros.

– Você foi convocada a aparecer diante de nós, mas aí está você em Tulsa, e aqui estamos nós em Veneza. Qual o motivo da sua demora?

– Eu estou ocupada – Neferet modulou a sua voz para parecer mais entretida do que irritada. Ou com medo. Ela não podia permitir nunca que as vampiras do Conselho Supremo acreditassem que ela tinha medo delas ou de qualquer um. – Não é conveniente viajar para a Itália nesta época.

– Então você nos obriga a julgá-la absente reo 3 .

Neferet zombou.

– Guarde o seu latim para os vampiros velhos demais para viver no presente.

Duantia continuou como se ela não tivesse falado nada.

– Nossa irmã Grande Sacerdotisa, sétimo membro deste Conselho Supremo, Thanatos, produziu provas irrefutáveis através de um ritual de revelação testemunhado pela Grande Sacerdotisa Zoey Redbird, pelo seu...

– Aquela criança insolente não é uma Grande Sacerdotisa!

– Você não vai me interromper! – mesmo pela internet, a milhares de quilômetros de distância, o poder de Duantia era palpável. Foi preciso um esforço supremo para que Neferet não se encolhesse de medo da tela do computador.

– Diga o que tem a dizer. Eu não vou interrompê-la de novo – Neferet disse sem emoção.

– O ritual de revelação que Thanatos presidiu foi testemunhado pela jovem Grande Sacerdotisa Zoey Redbird, pelo seu círculo, em que cada membro recebeu de Nyx o dom de uma afinidade elemental, além de vários guerreiros Filhos de Erebus. Durante esse ritual, a terra mostrou o registro de que você assassinou uma humana, sacrificando-a para o touro branco das Trevas, que aparenta ser o seu Consorte.

Neferet observou que as vampiras do Conselho Supremo se agitaram nervosamente, como se apenas ouvir a palavra Consorte associada ao touro branco fosse difícil de suportar. Isso a agradou. Muito em breve o Conselho Supremo iria ter que suportar muito mais do que apenas palavras.

– Neferet, o que você tem a dizer em sua defesa? – Duantia concluiu.

Neferet se levantou, atingindo a sua altura máxima. Ela sentiu os filamentos de Trevas roçando em volta dela, enrolando-se nos seus tornozelos e serpenteando em suas panturrilhas.

– Eu não preciso de defesa. Matar a humana não foi um ato de assassinato. Foi um sacrifício sagrado.

– Você se atreve a chamar as Trevas de sagradas? – a vampira membro do Conselho Supremo chamada Alitheia gritou.

– Alitheia, ou Verdade, como nós diríamos em uma língua que não está morta, eu vou conceder um pouco de você mesma a todas vocês. A verdade é que eu sou imortal. Em pouco mais de uma centena de anos eu obtive mais poder do que vocês, com todos os seus séculos, conseguiram adquirir. A verdade é que dentro de mais alguma centena de anos, a maioria de vocês será pó, e eu ainda vou ser jovem, poderosa, bonita e uma deusa. Se eu decido sacrificar uma humana, não importa por qual motivo, isso é sagrado, e não pecado!

– Neferet, você é Consorte das Trevas? – a pergunta de Duantia foi disparada em meio ao silêncio que se seguiu ao grito de Neferet.

– Conjure o touro branco e pergunte às Trevas você mesma. Mas apenas se você tiver coragem – Neferet sorriu com sarcasmo.

– Conselho Supremo, qual é o seu julgamento? – Duantia perguntou. Ela manteve o olhar fixo em Neferet enquanto cada vampira membro do Conselho Supremo se levantou e, uma de cada vez, pronunciou repetidamente a mesma palavra: “Banida!”.

Duantia se levantou por último.

– Banida! – ela disse com firmeza. – Deste dia em diante, você não será mais reconhecida como uma Grande Sacerdotisa de Nyx. Você não será mais reconhecida nem como uma vampira. Daqui em diante, você está morta para nós – Duantia falou e todas as vampiras do Conselho Supremo deram as costas para Neferet. Então o computador emitiu aquele som de final de chamada e a imagem delas se apagou.

Neferet olhou para a tela escura. Ela estava respirando pesadamente, tentando controlar o tumulto dentro dela. O Conselho Supremo a havia banido!

– Velhas horrendas! – ela explodiu. Era cedo demais! Neferet tinha a intenção, é claro, de romper com o Conselho Supremo, mas não antes de ela provocar uma divisão interna e atiçar umas contra outras para que elas ficassem ocupadas demais com a própria destruição e não se intrometessem no mundo que ela estava criando do lado de fora da charmosa ilhazinha delas. – Eu quase consegui isso antes, quando Kalona estava posando de Erebus ao meu lado. Mas Zoey estragou tudo, forçando-me a revelar que ele era uma fraude. – Incapaz de acalmar a sua frustração, Neferet andou com passos largos pela sala, com seu salto agulha triturando o vidro quebrado. Ela saiu para a varanda, apoiando as mãos no parapeito de pedra. – Zoey fez com que Thanatos fosse enviada a Tulsa para me espionar. E a mãe de Zoey foi um sacrifício fraco e imperfeito demais. Se Aurox não fosse um Receptáculo defeituoso, o ritual de revelação teria sido interrompido com a morte de Rephaim. E agora eu fui banida pelo Conselho Supremo e sou vista como uma aliada domesticada pelos humanos de Tulsa – Neferet levantou os braços para o céu e descarregou a sua raiva. – Zoey Redbird vai pagar por tudo que ela causou!

Neferet abaixou as mãos e rasgou o seu robe de seda, desnudando o seu corpo para a noite. Nua, ela estendeu os braços e inclinou a cabeça para trás de modo que o seu cabelo comprido a encobrisse como uma cortina escura.

– Trevas, venham para mim! – ela se apoiou, preparando-se para o prazer doloroso do toque gélido do seu touro branco.

Nada aconteceu.

O único movimento na noite era das gavinhas escuras e agitadas que haviam se tornado sua companhia constante.

– Meu senhor! Venha para mim! Eu preciso de você – Neferet chamou.

– O seu chamado não é uma surpresa, minha cara impiedosa.

Neferet ouviu a voz dele em sua cabeça, como sempre, mas ela não sentiu a sua presença imponente e poderosa. Ela abaixou os braços, virando-se, procurando por ele.

– Meu senhor, eu não posso vê-lo.

– Você precisa de algo.

Ainda sem entender por que ele não havia aparecido para ela, Neferet não permitiu que a sua confusão transparecesse. Em vez disso, ela respondeu sedutoramente:

– Eu preciso de você, meu senhor.

Instantaneamente, o filamento mais grosso feito uma serpente, comandado pelas Trevas, soltou-se dos outros que estavam enrolados em seus tornozelos. Ele deu uma chicotada ao redor da cintura dela, abrindo uma ferida na sua pele macia e desenhando um perfeito círculo escarlate. As outras gavinhas subiram se arrastando pelas suas pernas, para se alimentar do seu sangue quente.

Neferet teve que se esforçar muito para não gritar de dor.

– Mentir para mim não é sábio de sua parte, minha cara impiedosa.

– Eu preciso de mais poder – Neferet admitiu. – Quero matar Zoey Redbird, e ela está bem protegida.

– Ela está bem protegida e é amada por uma Deusa. Nem você está preparada para destruir abertamente alguém como ela.

– Então me ajude. Eu imploro, meu senhor – Neferet bajulou o touro, ignorando o filamento afiado como uma lâmina que continuava a ferir a sua pele e as outras gavinhas que estavam se alimentando dela.

– Você me desapontou. Eu já esperava que você me chamasse e implorasse pela minha ajuda. Veja bem, minha cara impiedosa, eu não deveria conseguir prever as suas ações. Isso me deixa entediado, e eu não desejo desperdiçar os meus poderes com nada previsível e tedioso – a voz dele martelou implacavelmente na sua mente.

Neferet não recuou.

– Eu não vou pedir que você me perdoe – ela disse friamente. – Você sabia como eu era desde a primeira vez em que nos encontramos. Eu não mudei. E não vou mudar.

– De fato, e é por isso que eu sempre a chamo de minha cara impiedosa – a voz dele era quase uma violação. Agora ela tinha um tom de divertimento. – Você me lembrou de como nós começamos bem. Você era uma surpresa tão deliciosa. Surpreenda-me de novo, e eu vou pensar em vir ajudá-la. Até lá, eu concedo a você o controle sobre os filamentos de Trevas que escolherem permanecer com você. Não se desespere. Muitos vão escolher você. Você os alimenta tão bem. Eu a verei de novo, minha cara impiedosa, quando... se... você despertar o meu interesse o bastante para que eu volte – a voz dele cessou quando a gavinha grossa enroscada na cintura dela se soltou e desapareceu na noite.

Neferet desabou. Ela ficou deitada na varanda de pedra fria, observando os filamentos de Trevas lamberem o seu sangue. Ela não os deteve. Ela deixou que eles se alimentassem dela enquanto os acariciava, encorajando-os, analisando quantos haviam permanecido fiéis a ela.

Se o touro não ia ajudá-la, Neferet se ajudaria sozinha. Zoey Redbird era um problema havia tempo demais. Havia tempo demais ela permitia que aquela garota interferisse nos seus planos. Mas ela não iria matá-la. Isso provocaria a ira de Nyx cedo demais. Ao contrário do Conselho Supremo dos Vampiros, uma Deusa não podia ser ignorada. Não, Neferet pensou, eu não preciso matar Zoey. Tudo o que eu preciso fazer é criar um ser para fazer o serviço por mim. O Receptáculo falhou uma vez por causa de um sacrifício imperfeito. Com o sacrifício perfeito, eu não vou falhar.

– Eu sou imortal. Eu não preciso do touro para criar. Tudo o que eu preciso é de um sacrifício sagrado e de poder. Eu já aprendi o feitiço. Aurox foi só o começo... – Neferet acariciou os filamentos de Trevas e permitiu que eles continuassem a se alimentar dela.

Há filamentos o bastante, ela assegurou a si mesma. Sobrou apenas o suficiente.

Zoey

– A Deusa sabe que eu odeio dizer isso, mas eu estava errada. Isso é sim como assistir àquele programa idiota The Bachelorette – Aphrodite balançou a cabeça e revirou os olhos.

Ela, Stevie Rae e eu caminhávamos devagar para o estacionamento na direção do ônibus cheio de garotos que estava à nossa espera. Nós estávamos indo devagar porque a gente estava superocupada olhando para Damien e o repórter, Adam. Os dois estavam parados, sorrindo e conversando, perto da van da Fox23 News.

– Shhh! – sussurrei para Aphrodite. – Eles vão ouvir você e isso vai deixar Damien constrangido.

– Ah, por favor! – Aphrodite bufou. – Os garotos gays estão bem animadinhos e entretidos. Ele não está prestando a menor atenção em nós.

– Eu estou tão feliz que ele está flertando – comentei.

– Vejam! Eles estão pegando os telefones!!! – Stevie Rae sussurrou efusivamente com pontos de exclamação demais para ser um sussurro.

– Eu estava errada de novo – Aphrodite falou. – Isso aqui não é como assistir a The Bachelorette. É como assistir ao National Geographic Channel.

– Eu acho que ele é uma gracinha – Stevie Rae disse.

– O cara que está conversando com Damien? – Shaylin perguntou quando se juntou a nós.

– Sim. A gente acha que eles estão marcando um encontro – Stevie Rae respondeu, ainda olhando para os dois.

– Ele tem cores suaves e bonitas – Shaylin observou. – Na verdade, as cores dele combinam bem com as de Damien.

– Como assim, os arco-íris deles estão se fundindo? – Aphrodite bufou sarcasticamente.

Shaylin franziu a testa.

– Eles não têm cores de arco-íris. Isso é um estereótipo horrível. Eles têm a cor do céu de verão, com tons de azul e amarelo. Damien também tem um pouco de branco encrespado e fofo que se parece bastante com nuvens densas.

– Ah, que merda, isso aí não tem nenhum senso de humor – Aphrodite protestou.

– Aphrodite, você tem que parar de chamar Shaylin de isso. Não é nada legal – Stevie Rae a repreendeu.

– Então me diga, para futura referência, o quanto isso não é legal na escala daquela palavra maldosa, “retardada”? – ela levantou uma sobrancelha loira com cara de interrogação para Stevie Rae. – Não é legal no nível de “debiloide” ou “monga”, ou mais como a palavra tradicional e explícita “retardada” mesmo?

– Você é a Grande Sacerdotisa, mas eu acho que responder qualquer coisa apenas a encoraja. Você sabe, é como acontece quando você pega um bebê chorando, ele continua chorando – Shaylin afirmou, soando bem prática.

Afe, Aphrodite vai arrancar os cabelos dela pela raiz, foi só o que eu consegui pensar.

Em vez disso, Aphrodite deu risada.

– Ei, isso fez uma piada! Pode até ser que isso tenha alguma personalidade.

– Aphrodite, eu acho que você deve ter algum dano cerebral – Stevie Rae disse.

– Obrigada – Aphrodite respondeu. – Eu vou entrar no ônibus. E vou cronometrar o Garoto Gay. Se ele continuar flertando por mais do que cinco minutos, eu vou... – ela parou de falar quando se virou em direção ao ônibus. Os meus olhos seguiram os dela. Shaunee e Erin estavam paradas do lado da porta aberta do ônibus. Shaunee parecia perturbada. O rosto de Erin não tinha nenhuma expressão. Eu podia ver que elas estavam conversando, mas nós estávamos muito longe para ouvir o que elas estavam dizendo.

– Há algo errado com ela – Shaylin observou.

– Ela quem? – Stevie Rae perguntou.

– Erin.

– Shaylin está certa. Tem alguma coisa errada com Erin – Aphrodite concordou.

Eu não sabia o que havia me chocado mais, se era o que Shaylin e Aphrodite estavam dizendo ou o fato de elas estarem de acordo.

– Conte-me o que você está vendo – Stevie Rae falou em voz baixa para Shaylin.

– Este é o melhor jeito de eu descrever o que vejo: havia um canal que passava atrás da casa onde eu morava quando era criança, um pouco antes de eu perder a visão. Eu costumava brincar ali perto e fingia que o canal era um córrego da montanha lindo e borbulhante, e que eu estava crescendo nas Montanhas Rochosas do Colorado, porque ele era claro e até mesmo bonito. Mas, assim que eu me aproximava, podia sentir o fedor do canal. Tinha um cheiro de coisas químicas e de algo mais, algo podre. A água parecia boa, mas abaixo da superfície ela era suja e poluída.

– Shaylin – eu estava quase perdendo a paciência. Eu me sentia como se estivesse ouvindo um dos poemas de Kramisha, e isso não é necessariamente uma coisa boa. – Que diabo você quer dizer? Erin tem cor de água poluída? E se ela tem, por que você nunca disse nada até agora?

– Ela está mudando! – Erin gritou! Quando vários rostos no ônibus, além de Erin e Shaunee, voltaram-se na nossa direção, ela disfarçou: – O inverno parece estar mudando para a primavera! Hoje não está uma bela noite?

Os garotos balançaram a cabeça e franziram a testa para ela, mas pelo menos pareceu que eles pararam de prestar atenção em nós.

– Ah, que merda. Você não é nada boa em espionagem – Aphrodite abaixou a voz e nos agrupou. – Z., se liga. É simples. O que Shaylin está dizendo é que Erin parece ser a mesma de sempre: bonita, loira, popular, perfeita. Você sabe, típica. Mas a verdade é que por baixo da superfície há algo apodrecendo. Você não pode ver isso. Eu não posso ver isso. Mas Shaylin pode – Aphrodite deu uma olhada no ônibus. Todos nós acompanhamos o olhar dela a tempo de ver Shaunee balançar a cabeça como quem diz não e subir rapidamente os degraus pretos com piso emborrachado, enquanto Erin continuou ali com uma aparência bonita, mas muito, muito fria. – Parece que Shaunee pode ver isso também. Não que a gente tenha acreditado nela. A gente achou que ela só estava irritada com Erin porque as gêmeas siamesas idiotas tinham sido separadas cirurgicamente.

– Eu acho que isso é muito rude – eu falei.

– Também acho – Stevie Rae concordou. – Mas o meu instinto me diz que é verdade.

– O meu também – Damien disse, aproximando-se de nós. As suas bochechas ainda estavam vermelhas e ele acenou alegremente quando a van da Fox23 foi embora, mas a sua atenção estava voltada para Erin. – E o meu instinto também está me dizendo mais uma coisa.

– Que você e o Garoto das Notícias estão quase virando amiguinhos de cama? –Aphrodite falou com uma voz animada e educada, que contrastava radicalmente com o que ela havia dito.

– Isso não é da sua conta. – Damien respondeu. E então acrescentou em um tom suave: – E acho que você vai querer prestar atenção, Aphrodite. O que eu vou falar vai abalar o seu mundo.

– Que coisa mais velha de se dizer – Aphrodite comentou.

– Velho não significa impreciso – Damien rebateu. – Você traduziu o que Shaylin pressentiu. Isso significa que você está agindo como um oráculo.

– Eu não sou um maldito oráculo. Sou uma Profetisa – Aphrodite pareceu realmente irritada.

– Oráculo... Profetisa – Damien levantou primeiro uma mão e depois a outra, como se ele estivesse comparando o peso de algo na palma de suas mãos, até que ambas ficaram na mesma altura. – Para mim é a mesma coisa. Pesquise a sua história, Profetisa. Sibila, Delfos, Cassandra. Esses nomes não dizem nada a você?

– Não. Sério. Eu tento não ler demais.

– Bem, eu começaria a ler se fosse você. Esses são apenas os nomes top três que vêm à minha mente culta. Alguns os chamam de Oráculos. Alguns os chamam de Profetisas. É a mesma coisa.

– Eu posso pegar o resumo na internet? – Aphrodite estava tentando parecer engraçadinha, mas o seu rosto tinha perdido toda a cor e os seus olhos pareciam gigantes e ainda mais azul-topázio do que o normal. E assustados. Ela parecia superassustada.

– Ok. Bem, lição aprendida. Parabéns para nós! – eu falei animadamente. Todo mundo simplesmente olhou para mim, então tentei explicar: – Thanatos disse que nós temos que praticar os nossos dons. Acho que o que acabou de acontecer é como uma nota extra nessa prova. Que tal agora a gente entrar no ônibus, voltar para os túneis e assistir um pouco às reprises de Fringe?

– Fringe? Estou dentro – Shaylin começou a andar na direção do ônibus.

– Eu gosto de Walter – Aphrodite comentou. – Ele me lembra o meu avô. Bem, exceto que Walter é um pouco mais inteligente e é doidão e louco, em vez de bêbado e antissocial. Mesmo assim, ambos são estranhamente adoráveis.

– Você tem um avô? E você gosta dele? – Stevie Rae perguntou antes de mim.

– É claro que eu tenho avô. Você é uma retardada em Biologia? – então Aphrodite deu de ombros. – Que seja. Minha família é meio difícil de explicar. Eu vou seguir isso e entrar no ônibus – e foi o que ela fez, seguindo Shaylin.

Ficamos só Stevie Rae, Damien e eu.

– Ela é totalmente louca – foi só o que pensei em dizer.

– De fato – Damien concordou.

– Ok, bem, vocês acham que está todo mundo no ônibus? – perguntei.

– Espero que sim. Eu sei que Rephaim está aí, e que nós só temos algumas horas até o sol nascer. Tenho certeza de que ele nunca viu nenhum episódio de Fringe, e acho que ele vai gostar. Assistir a uma série abraçadinha com ele parece uma ótima ideia agora, mesmo se a gente tiver que fazer isso com a louca da Aphrodite – ela sorriu para mim. – A gente pode pedir pizza no Andolini?

– Claro que sim – respondi.

– Ahn-han – Damien simulou bem o ato de limpar a garganta.

– Sim? – perguntei.

– Hum, vocês achariam estranho se eu, hum, talvez fosse me encontrar com alguém para tomar um café? Mais tarde. Hoje à noite. No The Coffee House On Cherry Street.

– Eles ainda estão abertos? – eu perguntei, dando uma olhada no meu celular. Afe, já eram quase 4 h da manhã.

– Eles começaram a funcionar 24 horas por dia. A tempestade de gelo acabou com os negócios por semanas e eles estão tentando compensar o prejuízo atendendo, bem, a turma da noite – Damien explicou.

– Sério? Eles estão ficando abertos por nossa causa? – eu me lembrava tanto dos sanduíches incríveis deles e da bela arte local que eles exibiam. Eles costumavam fechar às 23 h!

– Não mais – ele disse alegremente.

– Uau, que legal. Quero dizer, eu nunca estive lá, mas o fato de uma coffee shop ficar aberta no Centro da cidade para que a gente possa se encontrar lá é sensacional – Stevie Rae falou.

– Que tal se amanhã Darius desviar o ônibus para lá na volta para a estação? – eu segui o meu instinto. É normal que um grupo de estudantes do ensino médio queira parar em uma coffee shop depois da escola. – Damien, se você for lá hoje, pode perguntar para algum funcionário se tudo bem a gente aparecer lá amanhã?

– Com certeza, vou fazer um reconhecimento da área para vocês! – então a expressão de Damien murchou. – E então, o que vocês acham? Jack iria me odiar?

– Oh, claro que não, querido! – falei rapidamente.

– Jack entenderia – Stevie Rae acrescentou. – Ele não ia querer que você ficasse triste e sozinho enquanto espera que ele volte.

– Ele vai voltar, não vai? – Damien me encarou bem no fundo dos meus olhos. – Jack vai voltar, certo?

As almas deles estão destinadas a se encontrar novamente... as palavras foram sussurradas na minha mente. Reconhecendo a voz sábia e familiar de Nyx, eu sorri, dando o braço para Damien.

– Ele vai. Eu prometo. E a Deusa também promete.

Damien piscou forte para segurar as lágrimas.

– Eu tenho um encontro! E vou ficar feliz com isso.

– É isso aí! – eu o encorajei.

– Estou tão feliz que eu poderia cuspir! Mesmo que isso seja um pouco grosseiro – Stevie Rae pegou a outra mão de Damien.

– Esse é um ditado estranho – Damien observou.

– Totalmente – eu disse. – Foi nojento quando Leonardo fez toda aquela cena da cuspida com Kate em Titanic.

– Essa cena nunca deveria ter acontecido – Damien concordou. – Foi a única falha do filme.

– Bem, essa cena e aquela do Leo se transformando em um lindo picolé – acrescentei.

Damien e Stevie Rae fizeram sons de total concordância comigo enquanto nos aproximávamos do ônibus. Eu podia ver os rostos dos garotos nas janelinhas. Parecia que o ônibus estava cheio, o que me deu uma onda enorme de alívio porque eu estava mais do que pronta para ir para casa. Stark estava lá, em pé no alto da escada, ao lado de Darius. Os olhos dele me encontraram, e isso fez minha pele esquentar e formigar. Rephaim estava no primeiro assento, bem na frente de Kramisha, e eu praticamente pude sentir Stevie Rae vibrando de alegria ao acenar para ele. Shaylin e Aphrodite estavam subindo as escadas. Eu não conseguia ver o rosto de Aphrodite, mas o jeito com que ela jogou o cabelo para trás me dizia que ela já estava flertando com o seu guerreiro.

Ok, as Trevas eram um pé no saco e muitas coisas difíceis haviam acontecido com a gente, mas pelo menos estávamos juntos e tínhamos amor. Sempre o amor.

– Preciso conversar com você.

A voz sem emoção de Erin foi como um banho de água fria na minha alegria.

– Ok, claro. Ei, daqui a um instante eu estarei no ônibus – avisei Stevie Rae e Damien.

– Eu vou ficar – Erin disse as três palavras assim que ficamos sozinhas.

– Ficar? Você quer dizer aqui? – Eu tinha entendido o que ela queria dizer, mas precisava ganhar tempo para tentar processar as perguntas na minha mente. Eu tinha impedido Shaunee quando ela havia tentado se separar de nós e voltar para a Morada da Noite logo depois que ela e Erin começaram a ter problemas. Eu não deveria impedir Erin também?

– Sim, é claro que eu estou falando daqui. Estou cansada dos túneis. A umidade está deixando o meu cabelo cheio de frizz.

– Ahn, há produtos para isso. Tem alguns da Aveda. Podemos pegar para você no salão Ilhoff da Utica Square amanhã – sugeri.

– Ok, então, não é só o meu cabelo. Eu não quero morar nos túneis. É aqui que eu moro. Nesta escola. Eu não quero ser levada de ônibus. É idiota.

– Erin, eu sei que pegar o ônibus da escola é idiota. Que inferno, isso já era idiota antes de eu ser Marcada. Mas eu acho que nós precisamos ficar juntos. A gente é mais do que um grupo ou uma panelinha, a gente é uma família.

– Não, a gente não é uma família. Nós somos um grupo de garotos que vai para a mesma escola. Só isso. Ponto final.

– As nossas afinidades fazem com que a gente seja mais do que isso – ela estava me deixando chocada... não apenas pelo que ela estava dizendo, mas pela sua atitude. Erin era tão fria! – Erin, nós passamos por coisas demais juntos para acreditarmos que somos apenas um grupo de garotos que por acaso frequenta a mesma escola.

– E se isso for o jeito como você se sente, mas não como eu me sinto? Eu não posso escolher? Achei que Nyx concedesse o livre-arbítrio.

– Sim, mas isso não quer dizer que não podemos dizer algo quando alguém com quem a gente se importa está fazendo besteira.

– Deixe-a ficar.

Erin e eu levantamos os olhos e vimos Aphrodite em pé no primeiro degrau do ônibus. Ela estava encostada na porta com os braços cruzados. Eu esperei ver aquele sorriso irônico típico de Aphrodite em seu rosto, mas ela não parecia brava. Ela não soou irônica. Ela apenas pareceu bastante segura de si. Atrás dela, eu podia ver Stevie Rae e Shaylin. Elas concordaram com a cabeça, e aquele apoio mudo a Aphrodite me venceu quando eu percebi que o meu Conselho havia decidido – elas resolveram o que era melhor para todos nós, mesmo que aquilo não fosse o melhor para Erin.

– Obrigada, Aphrodite. Quem poderia imaginar que você seria a única a concordar comigo? – Erin riu, soando petulante e infantil em comparação com o despertar da maturidade serena de Aphrodite.

– Sabe de uma coisa, Erin, estou feliz que você e Aphrodite tenham me lembrado de uma coisa – afirmei. – Nyx realmente nos dá o livre-arbítrio e, se você prefere viver na Morada da Noite, então vou respeitar isso. Espero que isso não mude as coisas no nosso círculo. Você ainda é a água. O seu elemento e você ainda são importantes para nós.

Erin sorriu um pouco, mas o sorriso dela não chegou aos seus frios olhos azuis.

– Sim, é claro. Eu sempre serei a água, e a água pode correr em qualquer lugar. É só me chamar se precisar de mim. Eu vou estar lá na mesma hora.

– Que ótimo – falei rapidamente, sentindo-me superconstrangida. – Bem, então acho que a gente se vê amanhã.

– Sim, claro. Vejo vocês na aula – Erin acenou de modo petulante e saiu andando.

Subi as escadas do ônibus, perguntando para Darius:

– Estão todos aqui?

– Todos já foram contados e estão presentes – ele respondeu.

– Então vamos para casa – eu disse. Todos se espalharam pelos seus assentos, Stevie Rae ao lado de Rephaim, Aphrodite na primeira poltrona logo atrás de Darius como motorista. Stark estava esperando por mim na poltrona atrás dela, e eu me inclinei, beijando-o rapidamente e sussurrando: – Vou dar uma olhada em Shaunee e já volto.

– Vou estar aqui esperando. Sempre – ele tocou o meu rosto delicadamente.

Fui sacolejando até o fundo do ônibus, onde Shaunee estava sentada sozinha, enquanto Darius passava pelos buracos do estacionamento e fazia um retorno em direção ao caminho de saída da escola.

– Posso sentar aqui por um instante?

– Sim, claro – ela respondeu.

– Então, você e Erin não estão mais se falando direito?

Shaunee mordeu a bochecha e balançou a cabeça.

– Não.

– Ela está bem brava – eu estava tentando pensar em algo para dizer que ajudaria Shaunee a se abrir comigo.

– Não, acho que ela não está brava – Shaunee afirmou.

Franzi a testa.

– Bem, ela pareceu brava.

– Não – Shaunee repetiu, olhando para fora da janela. – Pense em como ela vem agindo nos últimos dias, principalmente hoje. “Brava” não é a melhor palavra para descrevê-la.

Eu realmente pensei. Erin estava sendo fria e sem emoções. Só isso.

– Bem, você está certa. Agora que eu pensei mesmo nisso, ela não tem sido nada além de desinteressada, e isso é estranho.

– Sabe o que é mais estranho? Aquela garota ali está demonstrando mais sentimentos do que Erin – Shaunee apontou pela janela na direção do pequeno jardim dos professores, não muito longe dos limites do estacionamento. Uma garota estava sentada ao lado da fonte. Quando o ônibus passou ali perto, havia luz suficiente para ver de relance que ela estava com a cabeça apoiada nas mãos. Os seus ombros estavam chacoalhando como se ela estivesse chorando convulsivamente.

– Quem é ela?

– Nicole.

– Nicole, a novata vermelha? Você tem certeza? – estiquei o pescoço, tentando olhar melhor para ela, mas nós já estávamos pegando a pista com árvores enfileiradas, e a minha visão da garota ficou completamente encoberta.

– Tenho. Eu a vi lá quando estava indo para o ônibus.

– Hum. E você imagina o que está se passando com ela? – eu perguntei.

– Acho que as coisas estão mudando para muitos de nós, e às vezes isso enche o saco.

– Há algo que eu possa fazer para tornar isso menos pé no saco para você? – eu quis saber.

Então Shaunee olhou para mim.

– Apenas seja minha amiga.

Eu pisquei surpresa.

– Eu sou sua amiga.

– Mesmo sem a Erin?

– Eu gosto mais de você sem a Erin – falei honestamente.

– Eu também – Shaunee concordou. – Eu também.

Um pouco depois voltei para o meu assento ao lado de Stark e deixei que ele colocasse o seu braço ao redor de mim. Encostei a cabeça no ombro dele e fiquei escutando a batida do seu coração, apoiando-me na sua força e no seu amor.

– Prometa-me que você nunca vai pirar e se transformar em um estranho frio e distante – pedi em voz baixa para ele.

– Prometo. Não importa o que aconteça – ele afirmou sem hesitar. – Agora, tire qualquer coisa de sua cabeça, exceto o fato de que eu vou forçá-la a experimentar uma pizza diferente hoje à noite.

– Não vamos pedir a Santino? Mas a gente adora essa pizza!

– Confie em mim, Z. Damien me falou sobre a pizza Athenian. Ele disse que ela é a ambrosia das pizzas. Não entendi exatamente o que ele quis dizer, mas acho que isso significa mais do que bom, então vamos experimentar.

Eu sorri, relaxei ao lado dele e, no curto caminho da Morada da Noite até a estação, fingi que o meu maior problema era decidir se expandia os meus horizontes em relação aos sabores de pizza.

 

 

 


C O N T I N U A