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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


EXCALIBUR / Bernard Cornwell
EXCALIBUR / Bernard Cornwell

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

E X C A L I B U R

Primeira Parte

 

As Fogueiras de Mai Dun

Mulheres: quão obsessiva é a sua presença nesta história! Quando comecei a escrever a história de Artur, julguei que seria uma história de homens; um relato de espadas e lanças, de batalhas vencidas e fronteiras estabelecidas, de tratados anulados e monarcas destronados, pois não é este o modo como a própria história é contada? Quando cantamos a genealogia dos nossos reis não nomeamos as suas mães nem as suas avós, mas dizemos Mordred ap Mordred ap Uther ap Kustennin ap Kynnar e assim por diante, recuando até ao grande Beli Mawr, o pai de todos nós. A História é um relato feito pelos homens e composto por eles, todavia nesta história de Artur, como o débil luzir do salmão nas águas turvas de limos, as mulheres brilham.

 

Na verdade, são os homens que fazem a história, e não posso negar que foram eles que causaram a decadência da Bretanha. Nós éramos centenas, todos aprestados com cabedal e ferro, de nós pendendo escudos, espadas e lanças, pensámos que a Bretanha estava sob o nosso comando, pois éramos guerreiros, mas foram necessários um homem e uma mulher para fazer a Bretanha decair, e dos dois foi ela quem causou maior dano. Ela rogou uma praga e pereceu um exército, e o que se segue é a sua história, pois ela era inimiga de Artur.

 

Quem? perguntará Igraine quando ler isto.

 

Igraine é a minha Rainha. Ela está grávida, algo que a todos nós muito alegra. O seu esposo é o rei Brochvael de Powys, e agora vivo sob a sua protecção no pequeno mosteiro de Dinnewrac, onde escrevo a história de Artur. Faço-o sob as ordens da Rainha Igraine, que é demasiado jovem para ter conhecido o Imperador. Era assim que tratávamos Artur, o Imperador, Amherawdr na língua britânica, embora raramente Artur usasse o título. Escrevo na língua saxónica, uma vez que sou saxão, e porque o bispo Sansum, o santo que governa a nossa pequena comunidade em Dinnewrac, nunca consentiria que eu escrevesse a história de Artur. Sansum odeia Artur, injuria a sua memória e apelida-o de traidor, por isso Igraine e eu dissemos ao santo que escrevo um evangelho sobre nosso Senhor Jesus Cristo na língua saxã e, porque Sansum não sabe falar saxão nem ler nenhuma língua, a fraude tem até agora poupado a história.

Nesta etapa, a história torna-se mais sombria e difícil de contar. Por vezes, quando penso no meu bem-amado Artur, vejo a época áurea da sua glória como um dia de luz intensa; contudo como chegaram velozes as nuvens! Mais tarde, como veremos, as nuvens dissiparam-se e o sol inundou a sua paisagem uma vez mais, mas depois veio a noite e desde então deixámos de ver o sol.

 

Foi Guinevere quem obscureceu o sol do meio-dia. Tudo aconteceu durante a rebelião quando Lancelote, a quem Artur tinha como amigo, tentou usurpar o trono de Dumnónia. Para tal contou com a ajuda dos cristãos, que se haviam desiludido com os seus líderes, entre os quais estava o bispo Sansum entre eles, acreditando que era seu dever sagrado expulsar os pagãos do país e, deste modo, preparar a ilha da Bretanha para a segunda vinda do Senhor Jesus Cristo no ano 500. Lancelote também teve o auxílio de Cerdic, o rei saxão que empreendeu um terrível ataque a toda a extensão do vale do Tamisa na tentativa de dividir a Bretanha. Se os saxões tivessem alcançado o mar Severn, então os reinos britânicos do norte teriam sido separados dos do sul. Todavia, com a graça dos deuses, derrotámos não só Lancelote e a sua gentalha cristã mas também Cerdic. No entanto, com a derrota Artur descobriu a traição de Guinevere. Encontrou-a nua nos braços de outro homem, e foi como se o Sol tivesse desaparecido do seu céu.

 

Não consigo compreender exactamente disse-me Igraine um dia, no último Verão.

 

O que não conseguis compreender, querida Senhora? perguntei-lhe.

 

Artur amava Guinevere, não é verdade?

 

Assim era.

 

Então porque não conseguia ele perdoar-lhe? Eu perdoei Brochvael por causa de Nwylle.

 

Nwylle fora amante de Brochvael, mas contraíra uma doença de pele que desfigurara a sua beleza. Suspeito, embora nunca tenha perguntado, que Igraine fez um feitiço para que a sua rival ficasse doente. A minha rainha pode dizer-se cristã, mas o Cristianismo não é uma religião que ofereça o consolo da vingança aos seus fiéis. Para isso teremos de procurar as mulheres idosas que sabem que ervas apanhar e que encantamentos dizer sob uma Lua em quarto-minguante.

 

Vós haveis perdoado Brochvael concordei, mas ter-vos-ia Brochvael perdoado?

 

Ela estremeceu.

 

Claro que não! Ter-me-ia queimado viva, mas essa é a lei.

 

Artur podia ter enviado Guinevere para a fogueira disse eu e houve muitos homens que o aconselharam a fazê-lo, mas sem dúvida que ele a amava, ele amava-a apaixonadamente, e foi por essa razão que não conseguiu matá-la nem perdoar-lhe. Pelo menos, no início.

 

Então ele era um tolo! disse Igraine.

Ela é muito jovem e tem a gloriosa certeza da juventude.

 

Ele era muito orgulhoso afirmei, e na verdade talvez isso fizesse de Artur um tolo, mas fazia o mesmo de todos nós. Fiz uma pausa, meditativo. Ele queria muitas coisas prossegui queria uma Bretanha livre e os Saxões derrotados, mas no seu íntimo desejava a constante reafirmação de Guinevere de que ele era um homem bom. E ao dormir com Lancelote ela provou a Artur que ele era o homem com menor importância. Claro que não era verdade, mas isso magoou-o. E como o feriu. Nunca vi homem nenhum tão magoado. Ela destroçou-lhe o coração.

 

Por isso ele a encarcerou? perguntou-me Igraine.

 

Encarcerou-a respondi-lhe, e recordei-me de como fui obrigado a levar Guinevere para o santuário do Espinheiro Sagrado em Ynys Wydryn onde Morgana, a irmã de Artur, ficou como sua carcereira. Nunca existiu muito afecto entre Guinevere e Morgana. Uma era pagã, a outra cristã, e o dia em que encerrei Guinevere nos domínios do santuário foi uma das poucas alturas em que eu a vi chorar.

 

Ela permanecerá aí disse-me Artur até ao dia em que morrer.

 

Os homens são loucos declarou Igraine, depois lançou-me um olhar de soslaio. Alguma vez foste infiel a Ceinwyn?

 

Não respondi-lhe com verdade.

 

Alguma vez quiseste sê-lo?

 

Ah, sim. A luxúria não desaparece com a felicidade, Senhora. Além disso, que mérito tem a fidelidade se nunca for colocada à prova?

 

Pensas que existe mérito na fidelidade? perguntou ela, e eu questionei-me que jovem e belo guerreiro do condado do seu marido lhe havia chamado a atenção. A sua gravidez evitaria qualquer tolice por enquanto, mas temi o que pudesse acontecer mais tarde. Talvez nada viesse a suceder.

 

Sorri.

 

Desejamos que os nossos amantes nos sejam fiéis, Senhora, então não é natural que eles desejem o mesmo de nós? A fidelidade é algo que oferecemos àqueles que amamos. Artur ofereceu-a a Guinevere, mas ela não foi capaz de a retribuir. Ela queria algo diferente.

 

Que era?

 

Magnificência, e ele sempre foi adverso a ela. Alcançou-a, mas não se deleitava com ela. Ela queria um séquito de mil cavaleiros, resplandecentes estandartes que esvoaçassem sobre ela, e que toda a ilha da Bretanha se prostrasse diante de si. E tudo o que ele sempre quis foi justiça e boas colheitas.

 

E uma Bretanha livre e os saxões derrotados recordou-me Igraine secamente.

 

Isso também asseverei e ele queria outra coisa ainda. E queria-a mais do que a todas as outras. Sorri com a recordação, e então pensei que de todas as ambições de Artur talvez esta última fosse a que ele achara que seria a mais difícil de conseguir e aquela que poucos de nós, que éramos seus amigos, acreditámos verdadeiramente que ele quisesse.

 

Continua disse Igraine, suspeitando que eu ia passar pelo sono.

 

Ele queria apenas um pedaço de terra afirmei, um palácio, algum gado, a sua própria oficina de ferrador. Ele queria ser uma pessoa vulgar. Queria que outros homens olhassem pela Bretanha enquanto ele buscava a felicidade.

 

E nunca a encontrou? perguntou Igraine.

 

Encontrou garanti-lhe, mas não naquele Verão após a rebelião de Lancelote. Fora um Verão de sangue, uma época de retaliação, uma altura em que Artur forçou a Dumnónia a uma submissão irascível.

 

Lancelote fugira para sul para a sua região de Belgae. Artur teria adorado persegui-lo, mas os invasores do saxão Cerdic eram nessa altura o maior perigo. Haviam avançado até tão longe quanto Corinium quando a rebelião terminou, e podiam até ter conquistado essa cidade não tivessem os deuses enviado uma praga que dizimou o seu exército. As entranhas dos homens esvaziavam-se ininterruptamente, eles vomitavam sangue, estavam de tal modo enfraquecidos que não se tinham em pé, e foi na altura em que a praga mais se acentuou que as forças de Artur os atacaram. Cerdic tentou reagrupar os seus homens, mas os saxões julgaram ter sido abandonados pelos seus deuses e fugiram.

 

Mas voltarão disse-me Artur ao determo-nos entre os despojos ensanguentados da retaguarda derrotada de Cerdic. Na próxima Primavera disse ele voltarão. Limpou a lâmina da Excalibur à sua capa manchada de sangue e deslizou-a para o interior da bainha. Deixara crescer uma pequena barba que surgia grisalha. Parecia mais velho, muito mais velho, enquanto a dor provocada pela traição de Guinevere tornara lúgubre o seu longo rosto, de tal modo que quem nunca tivesse visto Artur até àquele Verão acharia assustadora a sua aparência, e ele nada fazia para atenuar essa impressão. Nunca fora um homem paciente, mas agora a sua ira estava muito mais à flor da pele e podia irromper à mais pequena provocação.

 

Foi um Verão de sangue, uma época de vingança, e o destino de Guinevere era ficar encarcerada no santuário de Morgana. Artur condenou a sua esposa a uma sepultura viva, e aos seus guardas ordenou que a mantivessem aí para sempre. Guinevere, uma Princesa de Henis-Wyren, desaparecera para o mundo.

 

Não sejas disparatado, Derfel interrompeu-me Merlim abruptamente uma semana mais tarde dentro de dois anos ela estará fora dali! Talvez um ano. Se Artur quisesse que ela saísse da sua vida tê-la-ia atirado para a fogueira, que é o que ele devia ter feito. Nada melhor do que uma boa queimadura para melhorar o comportamento de uma mulher, mas não adianta dizê-lo a Artur. O idiota está apaixonado por ela! E é um pateta. Pensa bem! Com Lancelote, Mordred, Cerdic e Guinevere vivos! Se alguém quiser viver para sempre neste mundo, parece muito boa ideia tornar-se inimigo de Artur. Sou-o tanto quanto me é esperado sê-lo, obrigado por perguntares.

 

De facto, perguntei-to antes afirmei pacientemente e ignoraste-me.

 

São os meus ouvidos, Derfel. Quase não ouço nada bateu num ouvido. Surdo como uma porta. É da idade, Derfel, a pura velhice. Decaio a olhos vistos.

 

Não era de todo verdade. Nessa altura ele estava melhor do que nunca e a sua audição, estou certo, era tão apurada como a sua visão e essa, apesar dos seus oitenta ou mais anos, era ainda tão arguta como a de um falcão. Merlim não decaíra, parecia antes ter uma nova energia, trazida pelos Tesouros da Bretanha. Esses treze Tesouros eram antigos, tão antigos como a Bretanha, e durante séculos haviam estado perdidos, mas Merlim tinha finalmente conseguido encontrá-los. Os Tesouros tinham o poder de convocar os antigos Deuses e trazê-los de novo para a Bretanha, um poder que nunca antes fora testado, mas que agora, no ano do tumulto da Dumnónia, Merlim iria usar numa grande magia.

 

Eu procurara Merlim no dia em que levara Guinevere para Ynys Wydryn. Foi num dia em que chovia intensamente, e eu subira ao Tor com a certeza de encontrar Merlim. Todavia descobri o topo da colina vazio e triste. Outrora, Merlim possuíra um enorme palácio no Tor com uma torre de sonho junto dele, mas o palácio fora consumido pelas chamas. Detive-me no meio das ruínas do Tor e senti uma enorme desolação. Artur, o meu amigo, estava ferido. Ceinwyn, a minha esposa, estava bem distante em Powys. Morwenna e Seren, as minhas duas filhas, estavam com Ceinwyn, enquanto Dian, a mais nova, estava no Outro Mundo, morta naquele mesmo local por uma das espadas de Lancelote. Os meus amigos tinham morrido ou estavam bem longe dali. Os saxões preparavam-se para nos defrontar no novo ano, a minha casa estava em cinzas e a minha vida parecia sombria. Talvez fosse a tristeza de Guinevere que me influenciava, mas nessa manhã, na colina de Ynys Wydryn lavada pela chuva, senti-me mais só do que nunca; por isso ajoelhei-me nas cinzas lamacentas do palácio e rezei a Bei. Pedi a Deus que nos salvasse e, como uma criança, roguei a Bei um sinal que mostrasse que os Deuses se preocupavam connosco.

 

Esse sinal chegou uma semana mais tarde. Artur cavalgara para leste para devastar a fronteira saxã, mas eu ficara em Caer Cadarn aguardando que Ceinwyn e as minhas filhas chegassem a casa. Durante algum tempo, nessa semana, Merlim e a sua companheira, Nimue, foram para o enorme palácio vazio próximo de Lindinis. Outrora eu vivera aí, detendo a custódia do nosso Rei, Mordred, mas no momento em que este atingiu a maioridade o palácio foi entregue ao bispo Sansum para que dele fizesse um mosteiro. Agora, os monges de Sansum haviam sido desalojados, perseguidos por vingativos lanceiros dos imponentes palácios romanos e, por essa razão, o imenso palácio encontrava-se agora vazio.

 

As gentes locais disseram-nos que o Druida se encontrava no palácio. Contaram histórias de aparições, de sinais prodigiosos e de Deuses que vagueavam pela noite, por isso desci até ao palácio, mas não encontrei qualquer vestígio de Merlim. Estavam duzentas ou trezentas pessoas acampadas fora dos portões do palácio e com grande entusiasmo repetiam as histórias das visões nocturnas. Ao ouvi-las o meu coração apertou-se. Dumnónia acabara de resistir ao furor de uma rebelião cristã cheia de loucas superstições semelhantes e agora parecia que os pagãos estavam prestes a igualar a loucura dos cristãos. Com um empurrão abri os portões do palácio, atravessei o grande pátio e caminhei em largas passadas pelos salões vazios de Lindinis. Gritei por Merlim, mas não obtive resposta. Encontrei um forno ainda quente numa das cozinhas e sinais de que outro aposento fora varrido pouco tempo antes, mas nada mais aí vivia do que ratazanas e ratos.

 

Contudo, durante todo esse dia juntou-se mais gente em Lindinis. Vinham de toda a Dumnónia e vislumbrava-se uma esperança patética em todos os rostos. Haviam trazido os seus doentes e mutilados e esperaram pacientemente até anoitecer, altura em que os portões do palácio se abriram de rompante e eles conseguiram caminhar, coxear, rastejar ou ser transportados para o pátio exterior do palácio. Eu podia jurar que ninguém estivera no interior do vasto edifício, mas alguém abrira os portões e alumiara grandes tochas que iluminavam as arcadas do pátio.

 

Juntei-me à multidão que se amontoava dentro do pátio. Estava acompanhado de Issa, o meu segundo-comandante, e os dois permanecemos paramentados nas nossas longas capas escuras junto ao portão. Vi que a multidão era composta por gentes do campo. Vestiam roupas pobres e tinham os rostos escuros e atormentados de quem tem de se afadigar para conseguir retirar o seu sustento da terra; contudo aqueles rostos estavam cheios de esperança à luz brilhante das tochas. Artur teria odiado tudo aquilo, porque se ressentia sempre por dar esperança sobrenatural às gentes que sofriam, mas como esta multidão necessitava de esperança! As mulheres elevavam no ar os bebés doentes ou empurravam crianças estropiadas para diante, e todos ouviam avidamente as histórias milagrosas das aparições de Merlim. Aquela era a terceira noite dos prodígios e já nessa altura tanta gente queria testemunhar os milagres que nem todos conseguiam entrar no pátio. Alguns empoleiravam-se no muro por trás de mim e outros amontoavam-se no portão da entrada, mas ninguém invadia a arcada que corria ao longo de três lados do pátio, porque essa passagem ladeada por colunas e resguardada estava protegida por quatro lanceiros, que usavam as suas longas armas para deter a multidão. Os quatro guerreiros eram Escudos Negros, lanceiros irlandeses de Demétia, o reino de Oengus Mac Airem, e eu questionei-me sobre o que fariam eles tão longe de casa.

 

A última réstia de sol extinguiu-se no céu e morcegos passavam em voos rápidos sobre as tochas enquanto a multidão se instalava nas lajes para olhar, expectante, pela porta principal do palácio que ficava no lado contrário ao do portão do pátio. De quando em vez, uma mulher soltava um lamento em voz alta. Crianças choravam e eram aquietadas. Os quatro lanceiros inclinavam-se nas extremidades da arcada.

 

Aguardámos. Pareceu-me que esperávamos havia horas e o meu espírito vagueava, pensando em Ceinwyn e em Dian, a minha filha que morrera, quando de repente se ouviu um enorme estrondo de ferro no interior do palácio, como se alguém tivesse desferido um golpe num caldeirão com uma espada. A multidão estremeceu num sobressalto e algumas das mulheres levantaram-se e, oscilando à luz das tochas, agitaram as mãos no ar e invocaram os Deuses. Contudo, nenhuma aparição surgiu, permanecendo fechadas as portas do grande palácio. Toquei no copo de ferro da Hywelbane, e a espada tranquilizou-me. A intensidade da histeria da multidão era perturbadora, mas não tanto como as próprias circunstâncias da ocasião, pois eu nunca presumira que Merlim necessitasse de audiência para a sua magia. Na verdade, ele desprezava aqueles druidas que juntavam multidões. ”Qualquer trapaceiro consegue impressionar patetas” gostava ele de dizer, mas ali, naquela noite, parecia ser ele o único a querer impressionar os patetas. Tinha a multidão preparada, tinha-a gemebunda e ondulante, e quando a enorme pancada metálica voltou a soar todos se levantaram e começaram a gritar o nome de Merlim.

 

Então, as portas do palácio abriram-se e, aos poucos, a multidão ficou silenciosa.

 

Por breves instantes, a entrada mais não era do que um vácuo escuro, depois um jovem guerreiro ataviado com a armadura completa de combate caminhou para fora da escuridão, detendo-se no primeiro degrau da arcada.

 

Não havia nele nada de mágico, excepto o facto de ser belo. Era esta a palavra que mais se lhe adequava. Num mundo de membros retorcidos, pernas mancas, pescoços com papeira, rostos com cicatrizes e almas enfastiadas, este guerreiro era belo. Era alto, delgado e de cabelo dourado, e tinha um rosto sereno que apenas podia ser descrito como simpático, até mesmo afável. Os seus olhos eram de um azul surpreendente. Não trazia elmo, por isso o seu cabelo, tão longo como o de uma rapariga, caía abaixo dos seus ombros. Tinha uma couraça branca, caneleiras brancas e uma bainha branca. O ornamento de guerra parecia dispendioso e questionei-me sobre quem seria ele. Pensara eu que conhecia a maior parte dos guerreiros da Bretanha pelo menos aqueles que podiam comprar armaduras como a deste jovem mas desconhecia-o.

Sorriu para a multidão, depois ergueu as duas mãos e fez-lhes sinal para que se ajoelhassem.

 

Issa e eu permanecemos de pé. Talvez fosse a nossa arrogância de guerreiros, ou talvez apenas quiséssemos ver por entre as cabeças que se interpunham.

 

O guerreiro de cabelos longos nada disse, mas depois de a multidão se ter ajoelhado, agradeceu-lhes sorrindo e então caminhou em volta da arcada apagando as tochas, retirando-as das suas aselhas e mergulhando-as em barris cheios de água que ali estavam para o efeito. Era, conforme percebi, uma representação que fora cuidadosamente ensaiada. O pátio ficou cada vez mais escuro até ser apenas iluminado pelas duas tochas que ladeavam a grande porta do palácio. Havia pouco luar e a noite estava muito escura e fria.

 

O guerreiro branco deteve-se entre as duas últimas tochas.

 

Filhos da Bretanha disse ele, e a sua voz igualava a sua beleza, uma voz afável, cheia de vivacidade orai aos vossos Deuses! No interior destes muros estão os Tesouros da Bretanha e em breve, muito em breve, o seu poder será liberto, mas agora, para que possais ver o seu poder, deixaremos que os Deuses nos falem. Com estas palavras apagou as duas últimas tochas e, de repente, o pátio ficou às escuras.

 

Nada aconteceu. A multidão resmoneou, pedindo a Bei, Gofannon, Grannos e Don que mostrassem o seu poder. Senti um formigueiro na pele e agarrei no copo da Hywelbane. Rodear-nos-iam os Deuses? Levantei os olhos para o sítio onde um conjunto de estrelas cintilava por entre as nuvens e imaginei os Deuses supremos pairando nessa camada superior da atmosfera, e então Issa sobressaltou-se e eu desviei o olhar das estrelas.

 

Também eu fiquei sem fôlego.

 

Porque uma rapariga, pouco mais do que uma criança prestes a tornar-se mulher, aparecera na escuridão. Era uma rapariga delicada, de uma juventude sedutora e uma beleza graciosa, e estava nua como um recém-nascido. Era esguia, com pequenos seios hirtos e coxas redondas. Numa mão trazia um raminho de lírios e na outra uma espada de lâmina curta.

 

E eu olhei-a, simplesmente estarrecido. Porque na escuridão fria que se seguiu à extinção das chamas, a rapariga resplandecia. Ela resplandecia, de facto. Reluzia com uma luz branca difusa. Não era uma luz brilhante, não ofuscava, apenas alumiava, como pedacinhos de estrelas lançados sobre a sua pele branca. Era um esplendor pulverulento e difuso que tocava o seu corpo, pernas, braços e cabelo, mas não o seu rosto. Os lírios cintilavam, e o resplendor reflectia-se na longa e fina lâmina da sua espada.

 

A rapariga resplandecente caminhou em direcção às arcadas. Parecia absorta enquanto a multidão do pátio estendia os seus membros estropiados e as crianças doentes. Ela ignorou-os, avançando apenas delicada e suavemente ao longo da arcada com o seu rosto obscurecido voltado para baixo, para as pedras. Os seus passos eram leves como plumas. Jíla parecia ocupada consigo mesma, perdida no seu próprio sonho, e as gentes lamentavam-se e tentavam chamar a sua atenção, mas ela não olhava para elas. Caminhava simplesmente, e a estranha luz cintilava no seu corpo, nos seus braços e pernas e no longo cabelo escuro que lhe caía para o rosto, uma máscara negra por entre o brilho arrepiante; mas de certo modo, talvez por instinto, pareceu-me que era um rosto belo. Ela aproximou-se do local onde Issa e eu nos encontrávamos e, de repente, fez com que aquela sombra negra como o azeviche desaparecesse do seu rosto e olhou fixamente na nossa direcção. Senti o cheiro de algo que me lembrou o mar, e depois, tão repentinamente como aparecera, desapareceu por uma porta e a multidão ciciou.

 

O que foi aquilo? sussurrou-me Issa.

 

Não sei respondi-lhe. Eu estava assustado. Aquilo não era delírio mas algo bem real, porque eu o vira, mas o que seria? Uma Deusa? Mas porque sentira eu o cheiro do mar? Talvez fosse um dos espíritos de Manawydan disse eu a Issa. Manawydan era o Deus do mar, e sem dúvida que as suas ninfas teriam esse cheiro a sal.

 

Esperámos muito tempo pela segunda aparição, e o seu efeito foi muito menos impressionante do que a resplandecente ninfa do mar. Surgiu uma figura no telhado do palácio, uma figura negra que lentamente engrandeceu até se transformar num guerreiro armado coberto por uma capa e com um monstruoso elmo ornamentado com os chifres de um enorme veado. Mal se conseguia ver o homem na escuridão, mas quando uma nuvem descobriu a Lua vimos o que era e a multidão gemeu enquanto ele permanecia de pé acima de nós de braços abertos, o rosto escondido pelas enormes protecções laterais do seu elmo. Trazia consigo uma lança e uma espada. Permaneceu ali por um instante e depois também ele desapareceu, embora eu pudesse jurar ter ouvido uma telha a deslizar do lado mais afastado do telhado enquanto ele desaparecia.

 

Foi então que, ao desaparecer, a rapariga nua voltou a surgir. Desta vez, porém, parecia que se tinha simplesmente materializado no primeiro degrau da arcada. Um segundo depois veio a escuridão, e ali ficou o seu longo e cintilante corpo imóvel, recto e brilhante. O seu rosto estava de novo na escuridão, parecendo por isso uma máscara de sombras orlada pelos cabelos onde luziam raios de luz. Ela permaneceu imóvel durante alguns instantes, depois iniciou uma dança suave, apontando delicadamente os dedos dos pés enquanto pisava um intrincado padrão que circundava e cruzava o exacto local da arcada. Enquanto dançava olhava fixamente para baixo. Pareceu-me que a luz cintilante e etérea fora retirada da sua pele, porque a vi mais brilhante em certas partes do que noutras, mas sem dúvida que não fora obra de mão humana. Agora, Issa e eu estávamos ajoelhados, porque isto tinha de ser um sinal dos Deuses. Era luz na escuridão, beleza por entre os despojos. A ninfa continuou a dançar com a luz do seu corpo a desvanecer-se lentamente, e depois, quando ela era apenas uma centelha de graciosidade cintilante na sombra da arcada, deteve-se, afastou completamente os braços e as pernas e olhou-nos com ousadia, desaparecendo em seguida.

 

Um instante mais tarde, duas tochas acesas foram transportadas para fora do palácio. Agora a multidão gritava, invocando os seus Deuses e pedindo para ver Merlim. Por fim, ele surgiu à entrada do palácio. O guerreiro branco trazia uma das tochas acesas e a Nimue com um só olho trazia a segunda.

 

Merlim chegou ao primeiro degrau e aí se deteve, imenso, na sua longa túnica branca. Deixou que a multidão continuasse a gritar pelo seu nome. A sua barba grisalha, que quase lhe chegava à cintura, estava entrançada e presa com fitas pretas, tal como o seu longo cabelo branco. Trazia o seu bastão preto e, pouco depois, ergueu-o para silenciar a multidão.

 

Apareceu alguma coisa? perguntou ansioso.

 

Sim, sim! respondeu-lhe a multidão, e no rosto do ancião, esperto e malicioso de Merlim surgiu uma expressão de agradada surpresa, como se ele não soubesse o que tinha acontecido no pátio.

 

Ele sorriu, depois afastou-se para o lado e fez um aceno com a mão que estava livre. Duas crianças, um rapaz e uma rapariga, saíram do palácio trazendo o Caldeirão de Clyddno Eiddyn. A maior parte dos Tesouros da Bretanha eram coisas sem importância, até mesmo trivialidades, mas o Caldeirão era um Tesouro genuíno e, dos treze, o que tinha mais poder. Era uma enorme tigela em prata decorada com um rendilhado dourado, guerreiros e animais. As duas crianças debatiam-se com o imenso peso do Caldeirão, mas conseguiram colocá-lo junto do Druida.

 

Eu tenho os Tesouros da Bretanha! anunciou Merlim, e a multidão suspirou em resposta. Em breve, muito em breve continuou ele o poder dos Tesouros será liberto. A Bretanha será revigorada. Os nossos inimigos serão vencidos! Fez uma pausa para deixar que as aclamações ecoassem pelo pátio. Esta noite haveis visto o poder dos Deuses, mas o que vistes é coisa pouca, uma coisa insignificante. Em breve toda a Bretanha verá. Todavia, se vamos invocar os Deuses, então preciso do vosso auxílio.

 

A multidão gritou-lhe que a teria e Merlim sorriu-lhes aprovativamente. Aquele sorriso benevolente fez-me desconfiar. Uma parte de mim pressentiu que ele fazia um jogo com aquela gente, mas nem Merlim, pensei, conseguia fazer com que uma rapariga resplandecesse na escuridão. Eu vira-a, e queria tanto acreditar, e a memória daquele corpo ágil e reluzente convenceu-me que os Deuses não nos tinham abandonado.

 

Tendes de vir a Maí Dun! disse Merlim com severidade. Tendes de vir por tanto tempo quanto puderdes, e tendes de levar alimentos. Se tiverdes armas, tendes de as levar também. Em Mai Dun iremos trabalhar, e o trabalho será longo e árduo, mas no Samain, quando os mortos caminharem, invocaremos os Deuses juntos. Vocês e eu! Fez uma pausa, depois segurou na extremidade do seu bastão e dirigiu-o à multidão. A vara negra ondeou, como se procurasse alguém no amontoado de gente, depois fixou-se em mim. Lorde Derfel Cadarn! gritou Merlim.

 

Senhor? respondi, embaraçado por ser escolhido no meio da multidão.

 

Tu ficarás, Derfel. Os demais ide-vos agora. Ide para vossas casas, pois os Deuses não voltarão até à Véspera do Samain. Ide para as vossas casas, tratai dos vossos campos, depois vinde a Mai Dun. Trazei machados, trazei mantimentos e preparai-vos para ver os vossos Deuses em toda a sua glória! Agora, ide! Ide!

 

Obediente, a multidão dispersou. Muitos pararam para tocar na minha capa, pois eu era um dos guerreiros que havia retirado o Caldeirão de Clyddno Eiddyn do seu esconderijo em Ynys Mon e, pelo menos para os pagãos, isso fazia de mim um herói. Tocaram igualmente em Issa, pois também ele era outro Guerreiro do Caldeirão, mas depois de a multidão se ter retirado ele esperou-me ao portão enquanto eu fui ao encontro de Merlim. Cumprimentei-o, mas ele ignorou as minhas perguntas sobre a sua saúde, perguntando, pelo contrário, se me tinham agradado os estranhos acontecimentos daquela tarde.

 

O que foi aquilo? perguntei.

 

O que foi o quê? perguntou-me, inocentemente.

 

A rapariga na escuridão respondi-lhe.

 

Os seus olhos arregalaram-se numa perplexidade trocista.

 

Ela esteve aqui de novo, foi? Mas que interessante! Era a rapariga alada ou a que brilhava? A rapariga resplandecente! Não faço ideia de quem seja, Derfel. Eu não consigo decifrar todos os mistérios deste mundo. Tu passaste demasiado tempo com Artur e, tal como ele, acreditas que tudo tem de ter uma explicação trivial, mas infelizmente, raras vezes os Deuses escolhem fazer-se compreender. Podes ser-me útil e trazer o Caldeirão para dentro?

 

Levantei o enorme Caldeirão e levei-o para o salão de recepções do palácio. Quando aí estivera bem cedo, nesse dia, o aposento encontrava-se vazio, mas agora havia um sofá, uma mesa baixa e quatro mesinhas de ferro onde se encontravam candeeiros a óleo. O jovem e bonito guerreiro de armadura branca, e cabelos muito longos, sorriu sentado no sofá, enquanto Nimue, com um vestido preto esfarrapado, tocava com um círio aceso nos pavios dos candeeiros.

 

Esta tarde, este aposento estava vazio afirmei, acusadoramente.

 

Deve ter-te parecido assim disse Merlim com desenvoltura, mas talvez tenhamos simplesmente escolhido não nos mostrar. Conheces o Príncipe Gawain? Fez um gesto com a mão em direcção ao jovem, que se levantou e fez uma vénia, cumprimentando-me. Gawain é filho do rei Budic de Broceliande apresentou-me Merlim ao Príncipe sendo, portanto, sobrinho de Artur.

Meu Príncipe e Senhor cumprimentei Gawain. Eu ouvira falar de Gawain, embora nunca o tivesse conhecido. Broceliande era o reino britânico do outro lado do mar na Armórica e, dado que os Francos pressionavam fortemente a sua fronteira, ultimamente eram escassos os visitantes vindos desse reino.

 

Muito me honra conhecer-vos, Lorde Derfel disse Gawain com cortesia. A vossa reputação bem longe dista da Bretanha.

 

Não sejas tolo, Gawain disse Merlim em tom ríspido. A reputação de Derfel não vai a lado nenhum, a não ser talvez ter subido à sua untuosa cabeça. Gawain está aqui para me ajudar explicou-me ele.

 

A fazer o quê? perguntei.

 

A proteger os Tesouros, claro. Ele é um lanceiro formidável, ou assim me constou. É verdade, Gawain? És formidável?

 

Gawain apenas sorriu. Não tinha uma aparência muito formidável, porque não passava de um jovem, talvez apenas com quinze ou dezasseis Verões, que ainda não precisava de se barbear. O longo cabelo loiro dava ao seu rosto uma aparência efeminada, enquanto a sua armadura branca, que eu há pouco julgara ser muito dispendiosa, se revelava agora uma simples cota com evidentes adornos de ferro pintados com leite de cal. Não fora a sua segurança e a sua inegável beleza e ele seria ridículo.

 

Então, o que tens feito desde a última vez que nos vimos? perguntou-me Merlim, e foi nessa altura que eu lhe contei o que sucedera a Guinevere e ele zombou da minha convicção de que ela ficaria encarcerada para o resto da sua vida. Artur é um tolo insistiu ele. Guinevere pode ser esperta, mas ele não precisa dela. Ele precisa de uma qualquer, honesta e estúpida, alguém que lhe mantenha a cama quente enquanto ele se preocupa com os Saxões. Sentou-se no sofá e sorriu enquanto as duas crianças que haviam transportado o Caldeirão para o pátio lhe traziam um prato com pão e queijo e uma garrafa de hidromel. A ceia! disse ele, feliz. Faz-me companhia, Derfel, pois queremos falar contigo. Senta-te! Acharás o chão bastante confortável. Senta-te ao lado de Nimue.

 

Sentei-me. Até aí Nimue havia-me ignorado. A cavidade do seu olho perdido, que lhe fora arrancado do rosto por um rei, estava coberta por uma pala, e o seu cabelo, que fora cortado rente antes de irmos para sul, para o palácio do mar de Guinevere, voltara a crescer, embora estivesse ainda suficientemente curto para lhe dar uma aparência arrapazada. Ela parecia zangada, mas era como Nimue sempre parecia. A sua vida era votada apenas a uma coisa, a busca dos Deuses, e desprezava tudo o que a desviasse dessa busca. Talvez ela pensasse que os gracejos irónicos de Merlim eram de algum modo uma perda de tempo. Ela e eu havíamos crescido juntos e nos anos que se seguiram à nossa meninice mais de uma vez a sustentei, alimentando-a e vestindo-a, apesar de ela me tratar como se eu fosse um tolo.

Quem governa a Bretanha? perguntou-me ela, abruptamente.

 

Pergunta errada! disse-lhe Merlim, secamente, com uma veemência inesperada. Pergunta errada!

 

Então? exigiu-me ela uma resposta, ignorando a irritação de Merlim.

 

Ninguém governa a Bretanha respondi-lhe.

 

Resposta certa disse Merlim vingativo. O seu mau génio perturbara Gawain, que estava de pé por trás do sofá de Merlim e olhava ansiosamente para Nimue. Estava com medo dela, mas não posso censurá-lo por isso. Nimue assustava a maior parte das pessoas.

 

Então, quem governa Dumnónia? perguntou-me ela.

 

É Artur respondi-lhe.

 

Nimue lançou a Merlim um olhar triunfante, mas o Druida limitou-se a abanar a cabeça.

 

A palavra é rex disse ele rex, e se algum de vocês tivesse a mais pequena noção de Latim saberia que rex significa rei, não imperador. A palavra para imperador é imperator. Devemos pôr tudo em perigo por vocês serem ignorantes?

 

Artur governa Dumnónia insistiu Nimue. Merlim ignorou-a.

 

Quem é aqui o Rei? perguntou-me ele.

 

Mordred, claro.

 

Claro repetiu ele. Mordred! Gritou ele a Nimue. Mordred! Como se ele estivesse a ser entediante, ela afastou-se. Eu estava longe de tudo aquilo, sem fazer a mínima ideia do motivo da sua disputa, e não tive oportunidade de perguntar porque é que as duas crianças surgiram de novo passando a entrada resguardada com cortinas, trazendo mais pão e queijo. Assim que colocaram os pratos no chão senti um ténue cheiro a mar, aquela brisa salgada e o odor a algas que acompanhara a aparição nua, mas depois as crianças retiraram-se por detrás das cortinas e o cheiro desapareceu com elas.

 

Então disse-me Merlim com o ar satisfeito de um homem que viu o seu argumento ganho, Mordred já tem filhos?

 

Provavelmente vários respondi-lhe. Ele violava raparigas por toda a parte.

 

Como fazem os reis afirmou Merlim descuidado, e os príncipes também. Violas raparigas, Gawain?

 

Não, Senhor. Gawain pareceu chocado com a sugestão.

 

Mordred sempre foi um violador afirmou Merlim. Nisso saiu ao pai e ao avô, embora eu deva dizer que ambos eram muito mais afáveis do que Mordred. Agora, Uther nunca conseguia resistir a uma cara bonita. Ou a uma feia se lhe apetecesse. Todavia, Artur nunca teve tendência para a violação. Nisso, ele é como tu, Gawain.

Muito me apraz ouvi-lo disse Gawain, e Merlim revirou os olhos em sinal de exasperação trocista.

 

Então o que irá Artur fazer com Mordred? perguntou-me o Druida.

 

Está prestes a ser feito prisioneiro aqui, Senhor respondi-lhe fazendo um gesto que envolvia o palácio.

 

Feito prisioneiro! Merlim pareceu divertido. Guinevere presa, o bispo Sansum encarcerado, por este andar em breve todos os que se cruzam com Artur estarão feitos prisioneiros! Seremos todos colocados a pão bolorento e água. Que tolo é Artur! Ele devia estoirar com os miolos de Mordred. Mordred era uma criança quando herdou o reinado e Artur exercera o poder real enquanto o rapaz crescia, mas quando Mordred atingiu a maioridade, e para cumprir a promessa que fizera ao Grande Rei Uther, Artur entregou o reino a Mordred. Mordred desperdiçou esse poder e chegou mesmo a conspirar a morte de Artur. Aliás, foi esse conluio que encorajou Sansum e Lancelote à sua revolta. Neste momento Mordred devia estar preso, apesar de Artur estar convencido que o Rei legítimo da Dumnónia, em cujas veias corria o sangue dos Deuses, devesse ser tratado com honra ainda que não lhe fosse concedido poder. Ele seria mantido sob vigilância neste sumptuoso palácio, ser-lhe-iam concedidos todos os luxos que ele exigisse, mas seria mantido afastado da desordem. Então, tu achas perguntou-me Merlim, que Mordred tem de facto filhos?

 

Penso que terá dúzias.

 

Se é que alguma vez pensas disse Merlim incisivo. Dá-me um nome, Derfel! Dá-me um nome!

 

Reflecti por breves instantes. Estava em melhor posição para conhecer os pecados de Mordred do que a maioria dos homens, já que fora seu tutor, uma tarefa que eu desempenhara mal e com relutância. Nunca consegui ser um pai para ele, e embora a minha Ceinwyn tivesse tentado ser uma mãe, também ela falhara e o rapaz perverso havia crescido insociável e mau.

 

Havia aqui uma criada disse eu e ele manteve-a na sua companhia durante muito tempo.

 

Como se chama? perguntou Merlim com a boca cheia de queijo.

 

Cywwylog.

 

Cywwylog! Ele pareceu divertido com o nome. E dizes tu que ele confessou a paternidade de um filho dessa Cywwylog?

 

Um rapaz respondi. Se é que era dele, o que é provável.

 

E essa Cywwylog disse ele, gesticulando com a faca onde poderá ela estar?

 

Provavelmente algures muito próximo respondi. Ela nunca se mudou connosco para a casa senhorial de Ermid e Ceinwyn sempre supôs que Mordred lhe dera dinheiro.

 

Então ele gostava dela?

 

Creio que sim.

 

Que gratificante saber que existe algo de bom no horrível rapaz. Cywwylog, heim? Consegues encontrá-la, Gawain?

 

Tentarei, Senhor afirmou Gawain ardentemente.

 

Não basta tentar, encontra-a! disse Merlim rispidamente. Como era ela, Derfel, essa rapariga curiosamente chamada Cywwylog?

 

Baixa afirmei, roliça e de cabelo preto.

 

Com isso conseguimos restringir a nossa busca a todas as raparigas da Bretanha que rondam os vinte anos. Não podes ser mais preciso? Que idade terá agora a criança?

 

Seis afirmei, e se a memória não me falha, ele era ruivo.

 

E a rapariga? Abanei a cabeça.

 

Bastante agradável, mas nada de extraordinária.

 

Todas as raparigas são extraordinárias afirmou Merlim, altivo, sobretudo as que se chamam Cywwylog. Encontra-a, Gawain.

 

Por que queres encontrá-la? perguntei.

 

Meto o nariz nos teus assuntos? perguntou-me Merlim. Será que me aproximo de ti e faço perguntas patetas sobre lanças e escudos? Estarei eu sempre a importunar-te com interrogatórios idiotas sobre o modo como administras a justiça? Será que me preocupo com as tuas colheitas? Em suma, ter-me-ei dado ao incómodo de interferir na tua vida, Derfel?

 

Não, Senhor.

 

Então, peço-te que não sejas curioso em relação à minha. Não é permitido aos musaranhos compreenderem os caminhos da águia. Agora come um pouco de queijo, Derfel.

 

Nimue recusou-se a comer. Estava amuada, zangada com a forma como Merlim rejeitara a sua asserção de que Artur era o verdadeiro governante da Dumnónia. Merlim ignorou-a, preferindo gracejar com Gawain. Não voltou a mencionar o nome de Mordred, nem falou sobre o que planeava fazer em Mai Dun, embora por fim tivesse falado dos Tesouros enquanto me acompanhava ao portão exterior do palácio onde Issa ainda me aguardava. O bastão negro do Druida fazia um ruído seco nas pedras enquanto caminhávamos pelo pátio, onde a multidão observara o início e o fim das aparições.

 

Sabes, eu preciso de gente disse Merlim porque se os Deuses vão ser invocados, então temos de trabalhar, e Nimue e eu não conseguimos de modo algum fazê-lo sozinhos. Precisamos de cem pessoas, talvez mais!

 

Para fazer o quê?

 

Verás, verás. Gostaste de Gawain?

 

Parece prestimoso.

 

Ah, prestimoso sem dúvida, mas será isso admirável? Os cães são prestimosos. Ele recorda-me Artur quando era jovem. Todo aquele desejo intenso de praticar o bem. Deu uma gargalhada.

 

Senhor disse eu, ansioso por uma reafirmação, o que irá acontecer em Mai Dun?

 

Invocaremos os Deuses, claro. É um procedimento complicado e a única coisa que posso fazer é rezar para que consiga fazê-lo bem. Sem dúvida que temo que não resulte. Nimue, como deves calcular, acha que estou a fazer tudo mal, mas veremos, veremos. Deu mais dois passos em silêncio. Todavia, se nós o fizermos bem, Derfel, se o fizermos bem, que visão iremos testemunhar! Os Deuses surgindo com todo o seu poder. Manawydan saindo do mar, todo molhado e glorioso. Taranis estilhaçando os céus com relâmpagos, Bei deixando um rasto de fogo no céu, e Don fendendo as nuvens com a sua lança de fogo. Isto deverá assustar os Cristãos, ha! Ensaiou dois passos desajeitados por puro divertimento. Então, nessa altura, os bispos mijam as suas vestes negras, ha?

 

Mas não podeis ter a certeza afirmei ansioso pela reafirmação.

 

Não sejas tolo, Derfel. Porque queres sempre certezas de mim? Tudo o que posso fazer é representar o ritual e esperar fazê-lo bem! Mas hoje testemunhaste alguma coisa, não foi? Aquilo não te convenceu?

 

Hesitei, questionando-me sobre se o que presenciara era algum truque. Mas que truque podia fazer com que a pele de uma rapariga brilhasse na escuridão?

 

E irão os Deuses lutar contra os Saxões? perguntei.

 

É por isso que os invocamos, Derfel respondeu Merlim, pacientemente. A pretensão é restabelecer a Bretanha e torná-la como era antes da sua perfeição ser manchada pelos Saxões e pelos Cristãos. Deteve-se ao portão e olhou fixamente para o campo na penumbra. Eu amo verdadeiramente a Bretanha afirmou ele num tom de voz que, de repente, se tornou lânguido.

 

Eu amo realmente esta ilha. É um lugar especial. Pousou uma mão no meu ombro. Lancelote incendiou a vossa casa. Onde vives agora?

 

Tive de construir uma casa respondi, embora não fosse na casa senhorial de Ermid onde a minha pequena Dian morrera.

 

Dun Carie está vazia disse Merlim e eu deixar-te-ei viver aí, mas com uma condição: que quando a minha tarefa estiver acabada e os Deuses estiverem connosco, eu possa vir morrer na tua casa.

 

Podeis vir e aí viver, Senhor respondi.

 

Para morrer, Derfel, para morrer. Estou velho. Falta-me realizar uma tarefa, e tentarei fazê-lo em Mai Dun. Manteve a sua mão no meu ombro.

 

Julgas que não sei os riscos que corro?

 

Pressenti o seu receio.

 

Que riscos, Senhor? perguntei acanhadamente.

 

O piar de uma coruja soou vindo da escuridão, e Merlim escutou com a cabeça inclinada, aguardando que ela piasse de novo, mas nada mais se ouviu.

 

Durante toda a minha vida disse ele, algum tempo depois, pensei fazer com que os Deuses voltassem à Bretanha, e agora tenho os meios para o fazer, mas não sei se irei conseguir. Ou sequer se sou o homem que deve representar os ritos. Ou ainda se vou viver o suficiente para ver isso acontecer. A sua mão apertou-me o ombro. Vai, Derfel disse ele, vai. Tenho de dormir, porque amanhã viajo para sul. Mas vem a Durnovária no Samain. Vem e testemunha os Deuses.

 

Lá estarei, Senhor.

 

Sorriu e afastou-se. E eu regressei a Caer, confuso, cheio de esperança e assaltado por receios, perguntando a mim mesmo onde nos levaria agora a magia, ou se nos levaria a outro lado que não até ao domínio dos Saxões que viriam na Primavera. Porque, se Merlim não conseguisse invocar os Deuses, então a Bretanha estaria definitivamente perdida.

 

Lentamente, como um lago que se acalma depois de ter sido agitado num turbilhão, a Bretanha aquietou-se. Lancelote recolheu-se em Venta, temendo a vingança de Artur. Mordred, o nosso Rei legítimo, veio para Lindinis onde lhe foram concedidas todas as honrarias, mas cercado por lanceiros. Guinevere permaneceu em Ynys Wydryn sob a vigilância atenta de Morgana, enquanto Sansum, o marido de Morgana, estava encarcerado nas masmorras do anfitrião de Emrys, o bispo de Durnovária. Os saxões haviam-se retirado para lá das’ suas fronteiras, embora depois de as colheitas estarem guardadas em ambos os lados desferissem ataques-surpresa a um e a outro. Sagramor, o comandante númida de Artur, vigiava a fronteira saxónica, enquanto Culhwuch, o primo de Artur, e agora uma vez mais um dos seus chefes de batalha, vigiava a fronteira belga de Lancelote da nossa fortaleza de Dunum. O nosso aliado, o rei Cuneglas de Powys, deixara uma centena de lanceiros sob o comando de Artur, depois regressara ao seu próprio reino, tendo encontrado no caminho a sua irmã, a princesa Ceinwyn, de regresso a Dumnónia. Ceinwyn era minha esposa como eu era seu esposo, embora ela tivesse prestado o juramento de nunca se casar. Ela voltou com as nossas duas filhas no início do Outono, e confesso que não me senti verdadeiramente feliz enquanto ela não chegou. Encontrei-me com ela na estrada, a sul de Glevum e apertei-a por longo tempo nos meus braços, pois houvera momentos em que pensara que não mais a veria. Era uma perfeição, a minha Ceinwyn, uma princesa de cabelos de ouro. Certa vez, muito tempo antes destes acontecimentos, fora prometida em casamento a Artur, e depois de ele ter abandonado esse casamento planeado para ficar com Guinevere, a mão de Ceinwyn fora prometida a outros grandes príncipes, mas ela e eu fugíramos juntos e atrevo-me a dizer que ambos agimos bem ao fazê-lo.

 

Tínhamos a nossa nova casa em Dun Carie, que fica a curta distância a norte de Caer Cadarn. Dun Carie significa ”A Colina junto ao Belo Ribeiro”, e o nome era apropriado, pois era um local belo, onde julguei que iríamos ser felizes. O palácio no topo da colina fora construído com madeira de carvalho e o telhado coberto de colmo com palha de centeio, e circundava-o uma dúzia de edifícios exteriores cercados por uma paliçada de madeira apodrecida. As gentes que viviam na pequena aldeia no sopé da colina acreditavam que o palácio estava assombrado, porque Merlim deixara um Druida ancião, Balise, viver a sua vida no local, o que levou os meus lanceiros a retirarem dali os ninhos, a bicharada e toda a parafernália ritual de Balise. Não tive dúvidas que os aldeãos, apesar de recearem o velho palácio, haviam já retirado os Caldeirões, tripés e tudo o resto com verdadeiro valor. Desse modo, ficámos apenas com as peles de cobra, os ossos secos e os corpos dissecados de aves, tudo isso envolvido em volumosas teias de aranha. Muitos dos ossos eram humanos, formando enormes pilhas. Então, enterrámos esses restos mortais em vários túmulos para que as almas dos mortos não pudessem voltar a unir-se e regressar para nos perseguirem.

 

Artur enviara-me uma dúzia de jovens para que eu os treinasse como guerreiros e durante todo esse Outono ensinei-lhes a disciplina da lança e do escudo, e uma vez por semana, mais por hábito do que por prazer, eu visitava Guinevere perto de Ynys Wydryn. Levava-lhe alimentos, e, quando arrefeceu mais, uma bela capa de pêlo de urso. Por vezes, levava comigo o seu filho, Gwydre, mas ela nunca se sentia verdadeiramente à vontade na sua presença. Aborrecia-se com as suas histórias sobre a pesca no ribeiro de Dun Carie ou a caça nas nossas matas. Ela própria adorava caçar, mas esse prazer já não lhe era permitido, por isso fazia exercício caminhando pelos domínios do santuário. A sua beleza não diminuíra, de facto o seu tormento concedera aos seus grandes olhos uma luminosidade que outrora lhes faltara, embora ela nunca aceitasse a tristeza como verdadeira. Era demasiado orgulhosa para o fazer, apesar de eu conseguir perceber que era infeliz. Morgana humilhava-a, cercando-a com orações cristãs e acusando-a constantemente de ser a grande prostituta da Babilónia. Guinevere suportava-o pacientemente e a única queixa que alguma vez proferiu foi no início do Outono quando as noites se tornaram mais longas e as primeiras geadas nocturnas tornaram brancos os buracos escuros, e ela me disse que os seus aposentos estavam sempre demasiado frios. Artur pôs cobro a isso, ordenando que Guinevere podia consumir tanta lenha quanta desejasse. Ele ainda a amava, embora detestasse ouvir-me proferir o seu nome. Quanto a Guinevere, eu não sabia quem ela amava. Ela perguntava-me sempre por novas de Artur, mas nem uma vez mencionou o nome de Lancelote.

 

Também Artur era prisioneiro, mas apenas dos seus próprios tormentos. A sua casa, se é que a tinha de facto, era o palácio real em Durnovária, mas ele preferia andar por Dumnónia, indo de fortaleza em fortaleza e falando-nos de tudo sobre a guerra contra os saxões, que deveriam chegar no ano novo.

 

Mas se havia sítio onde ele passava mais tempo do que em qualquer outro era connosco, em Dun Carie. Víamo-lo chegar do nosso palácio no topo da colina, e um instante mais tarde soava um lur avisando que os seus cavaleiros atravessavam o ribeiro.

 

Gwydre, o seu filho, descia a colina a correr para ir ao seu encontro e Artur inclinava-se na sela de Llamrei e içava o rapaz antes de esporear o cavalo em direcção ao nosso portão. Ele mostrava ternura por Gwydre, na verdade por todas as crianças, mas com os adultos mostrava uma fria reserva. O velho Artur, o homem de alegre entusiasmo desaparecera. Abria a sua alma apenas com Ceinwyn, e sempre que vinha a Dun Carie, falava com ela durante horas. Falavam de Guinevere, de quem mais?

 

Ele ainda a ama disse-me Ceinwyn.

 

Devia casar-se novamente respondi-lhe.

 

Como pode ele fazê-lo? perguntou-me ela. Ele não pensa em mais ninguém senão nela.

 

O que costumas dizer-lhe?

 

Que a perdoe, claro. Duvido que ela volte a fazer alguma tolice, e se ela é a mulher que o faz feliz, então ele devia esquecer o orgulho e aceitá-la de novo.

 

É demasiado orgulhoso para o fazer.

 

Evidentemente disse ela, reprovadora. Pousou a roca e o fuso. Julgo que, primeiro, talvez tenha de matar Lancelote. Isso deixá-lo-ia contente.

 

Artur tentou nesse Outono. Conduziu um ataque-surpresa a Venta, o capitólio de Lancelote, mas este soubera do ataque e fugira para junto de Cerdic, o seu protector. Levou consigo Amhar e Loholt, os filhos de Artur e de Ailleann, a sua amante irlandesa. Os gémeos sempre se haviam ressentido da sua condição de bastardos e tinham-se aliado aos inimigos de Artur. Artur não conseguiu encontrar Lancelote, mas trouxe consigo uma bela quantidade de cereais, que eram de grande necessidade, dado que o tumulto do Verão afectara inevitavelmente as nossas colheitas.

 

A meio do Outono, apenas a duas semanas do Samain e nos dias que se seguiram ao seu ataque súbito a Venta, Artur regressou a Dun Carie. Ele emagrecera ainda mais e o seu rosto estava mais lúgubre ainda. Nunca fora um homem com uma presença atemorizadora, mas agora tornara-se de tal modo circunspecto que os homens não lhe conheciam os pensamentos, e essa reserva conferia-lhe algo misterioso, enquanto a tristeza da sua alma lhe acrescentava dureza. Sempre fora paciente, mas agora o seu génio inflamava-se à mais pequena provocação. Estava zangado, sobretudo consigo mesmo, por acreditar que havia falhado. Os seus dois primeiros filhos haviam-no abandonado, o seu casamento desgastara-se e Dumnónia decaíra com ele. Ele julgara que conseguiria criar um reino perfeito, um lugar justo, seguro e pacífico, mas os Cristãos haviam preferido a mortandade. Culpou-se por não ter visto o que estava para chegar, e agora, na acalmia depois da tempestade, duvidava da sua própria perspicácia.

 

Temos apenas de nos instalar para fazer as pequenas coisas, Derfel disse-me ele nesse dia.

 

Estava um dia perfeito de Outono. O céu estava mosqueado de nuvens, de modo que manchas de luz do Sol penetravam a paisagem castanho-amarelada que se estendia para Ocidente. Por uma única vez Artur não procurou a companhia de Ceinwyn, levando-me para um campo relvado junto ao lado exterior da paliçada reparada de Dun Carie de onde fitou, taciturno, o Tor que se elevava na linha do horizonte. Olhou fixamente para Ynys Wydryn, onde estava Guinevere.

 

As coisas pequenas? perguntei-lhe.

 

Derrotar os saxões, claro. Fez um esgar, sabendo que derrotar os saxões não era empresa fácil. Eles recusam-se a falar connosco. Se eu enviar algum mensageiro, eles matam-no. Disseram-mo na semana passada.

 

Eles? perguntei.

 

Eles confirmou-me ameaçador, referindo-se a Cerdic e Aelle. Normalmente, os dois reis saxões pelejavam entre si, algo que nós encorajávamos com enormes subornos; mas agora, segundo parecia, haviam aprendido a lição que Artur tão bem ensinara aos reinos britânicos: que a vitória apenas se consegue com a união. Os dois monarcas saxões uniam agora as suas forças para esmagar Dumnónia e a decisão de não receberem quaisquer mensageiros era um sinal da sua resolução, bem como uma medida de autoprotecção. Os mensageiros de Artur podiam levar consigo subornos que talvez enfraquecessem os chefes de tribo, e todos os mensageiros, por muito séria que fosse a sua busca pela paz, serviam para espiar o inimigo. Nesse momento, Cerdic e Aelle não corriam quaisquer riscos. Pretendiam ocultar as suas diferenças e juntar forças para nos esmagarem.

 

Eu tive esperanças que a praga os tivesse enfraquecido afirmei.

 

Mas outros homens surgiram, Derfel disse Artur. Consta que os seus barcos descarregam todos os dias, e todos eles estão cheios de almas famintas. Eles sabem que estamos fracos, por isso virão milhares no próximo ano, milhares atrás de milhares. Artur pareceu divertido com a perspectiva extremista. Uma horda! Será essa a forma como iremos acabar, tu e eu? Dois velhos amigos, escudos lado a lado, esquartejados por machados bárbaros.

 

Há piores formas de morrer, Senhor.

 

E melhores afirmou incisivo.

 

Olhou fixamente na direcção do Tor. De facto, quando vinha a Dun Carie sentava-se sempre naquela encosta oeste, nunca no lado leste, nem na encosta sul diante de Caer Cadarn, mas sempre aqui, a olhar para lá do vale. Eu sabia em que pensava, e ele sabia-o, mas não mencionou o seu nome, porque não queria que eu soubesse que acordava todas as manhãs a pensar nela e rezava todas as noites para sonhar com ela. Depois, apercebendo-se de repente do meu olhar fixo baixou os olhos para os terrenos onde Issa treinava alguns rapazes para se tornarem guerreiros. O ar do Outono enchera-se com os ruídos secos dos golpes das hastes das lanças e com a voz rouca de Issa gritando para que mantivessem as lâminas em baixo e os escudos elevados.

 

Como estão eles? perguntou-me Artur, acenando com a cabeça na direcção dos recrutas.

 

Como nós há vinte anos respondi-lhe, e nessa altura os mais velhos diziam que nunca seríamos guerreiros, e daqui a vinte anos aqueles rapazes dirão o mesmo dos seus filhos. Eles serão bons. Uma batalha amadurecê-los-á. Depois dessa, serão tão úteis como qualquer guerreiro da Bretanha.

 

Uma batalha disse Artur severamente, pode acontecer que travemos apenas uma batalha. Quando os saxões vierem, Derfel, serão em muito maior número do que nós. Ainda que Powys e Gwent mandem todos os seus homens, estaremos em menor número. Aquilo soou como uma verdade amarga. Merlim diz que eu não devia preocupar-me acrescentou Artur com sarcasmo, diz que o seu trabalho em Mai Dun tornará a guerra desnecessária. Já visitaste o local?

 

Ainda não.

 

Centenas de tolos a transportarem lenha para o cume. Demência. Cuspiu para a encosta. Não confio em Tesouros, Derfel, mas sim em escudos defensivos e em lanças afiadas. E tenho uma outra esperança. Fez uma pausa.

 

Que é? instiguei-o. Virou-se para me olhar.

 

Se mais uma vez conseguíssemos dividir os nossos inimigos afirmou, teríamos ainda uma hipótese. Se Cerdic vier sozinho conseguimos derrotá-lo, desde que Powys e Gwent nos ajudem, mas não consigo vencer Cerdic e Aelle juntos. Talvez eu vencesse se tivesse cinco anos para renovar o nosso exército, mas não o consigo fazer até à próxima Primavera. A nossa única esperança, Derfel, é que os nossos inimigos se zanguem. Era a nossa antiga forma de fazer a guerra. Subornar um rei saxão para lutar contra o outro, mas segundo o que Artur me contara, os saxões estavam a tomar todas as precauções para garantir que tal não acontecesse nesse Inverno. Irei oferecer a Aelle uma paz duradoura continuou Artur. Ele poderá ficar com todas as suas actuais regiões e com todas as que conseguir tirar a Cerdic, e ele e os seus descendentes poderão governá-las para sempre. Segues o meu raciocínio? Conceder-lhe-ei essa região perpetuamente, caso lute ao nosso lado na próxima batalha.

 

Eu nada disse durante algum tempo. O velho Artur, o Artur que fora meu amigo antes dessa noite no templo de ísis, nunca teria proferido tais palavras, porque não eram verdadeiras. Homem algum cederia terras britânicas aos Sais. Artur mentia na esperança de que Aelle acreditasse na mentira, e dentro de poucos anos Artur quebraria a promessa e atacaria Aelle. Percebi isso, mas percebi também que era melhor não contestar a mentira, porque então eu próprio não poderia fingir que acreditava nela. Em vez de o fazer recordei a Artur um antigo juramento que fora prestado numa pedra junto a uma árvore afastada.

 

Jurastes matar Aelle recordei-lhe. Estará esse juramento esquecido?

 

Agora não me preocupo com juramento algum afirmou friamente, mas depois tornou, sereno, e por que razão havia eu de o fazer? Alguém cumpre os juramentos que faz comigo?

 

Eu cumpro, Senhor.

 

Então obedece-me, Derfel afirmou conciso, e vai ao encontro de Aelle.

 

Eu sabia que esse pedido acabaria por surgir. Primeiramente não respondi, observando apenas Issa instigando os seus jovens a atacarem um escudo defensivo pouco firme. Depois virei-me para Artur.

 

Julgava que Aelle prometera matar os vossos mensageiros.

 

Artur não olhou para mim. Em vez de o fazer, fitou a charneca verde distante.

 

Dizem os velhos que este irá ser um Inverno rigoroso afirmou, e eu quero ter a resposta de Aelle antes das primeiras neves caírem.

 

Sim, Senhor respondi.

 

Ele deve ter notado tristeza na minha voz, porque se voltou de novo para mim.

 

Aelle não matará o seu próprio filho.

 

Temos de ter esperança que não o faça, Senhor afirmei maliciosamente.

 

Então vai ao seu encontro, Derfel disse Artur. Sabendo o que sabia, acabava de me condenar à morte, mas não demonstrou qualquer arrependimento. Levantou-se e sacudiu os pedacinhos de relva da sua capa branca. Basta conseguirmos derrotar Cerdic na próxima Primavera, Derfel, e então poderemos reconstruir a Bretanha.

 

Sim, Senhor afirmei. Ele fez com que tudo parecesse tão simples: apenas vencer os saxões e depois reconstruir a Bretanha. Recordei-me que sempre fora assim; uma última grande tarefa, depois seguir-se-ia sempre a felicidade. De certo modo, nunca tal aconteceu, mas agora, desesperados como estávamos e para que tivéssemos uma última oportunidade, eu devia viajar para me encontrar com meu pai.

 

Eu sou saxão. A minha mãe, Erce, também ela saxã, enquanto estava grávida foi feita prisioneira de Uther e tornada escrava pouco antes de eu nascer. Fui retirado de minha mãe quando era criança ainda bem pequena, mas apenas depois de ter aprendido a língua saxónica. Mais tarde, muito mais tarde, justamente na véspera da rebelião de Lancelote, encontrei a minha mãe e soube que o meu pai era Aelle.

 

Assim sendo, o meu sangue é genuinamente saxão, e por isso semi-real, embora por ter sido criado com os bretões eu não sinta qualquer afinidade com os Sais. Para mim, tal como para Artur ou para qualquer outro bretão nascido em liberdade, os Sais são uma praga que nos foi trazida do outro lado do mar Oriental.

 

De onde vieram, ninguém sabe ao certo. Sagramor, que viajou mais do que qualquer outro comandante de Artur, conta-me que a terra dos Saxões é um lugar distante e oculto pelo nevoeiro com lodaçais e matas, embora confesse nunca aí ter estado. Apenas sabe que fica algures do outro lado do mar, e que estão a abandoná-la, conforme ele afirma, porque as terras da Bretanha são melhores, embora também me tenha constado que o território dos Saxões está cercado por outros inimigos, igualmente estranhos, que vêm do extremo mais longínquo do mundo. Mas por uma qualquer razão, desde há cem anos os Saxões têm atravessado o mar para se apossarem das nossas terras, e agora detêm todo o Leste da Bretanha. Chamámos a esse território roubado Lloegyr, as Terras Perdidas, e não existe uma única alma na Bretanha livre que não sonhe em recuperar as Terras Perdidas. Merlim e Nimue acreditam que essas terras serão recuperadas apenas pelos Deuses, enquanto Artur deseja fazê-lo com a espada. E a minha missão era dividir os nossos inimigos para facilitar a tarefa tanto aos Deuses como a Artur.

 

Viajei no Outono quando os carvalhos se tornavam cor-de-bronze, as faias vermelhas e o frio cobria o amanhecer com uma neblina branca. Viajei sozinho, já que se Aelle homenageasse a chegada de um mensageiro com a morte, seria melhor morrer apenas um homem. Ceinwyn rogara-me que levasse um grupo de guerra, mas com que propósito? Um grupo de guerra não me dava esperanças de comprometer o poder de todo o exército de Aelle, e desse modo, quando o vento levou as primeiras folhas amarelas dos ulmeiros, dirigi-me para leste. Ceinwyn tentara convencer-me a partir apenas depois do Samain, uma vez que se as invocações de Merlim resultassem em Mai Dun, certamente não seria necessário nenhum emissário ir ao encontro dos Saxões, mas Artur não admitiria qualquer demora. Ele confiara na traição de Aelle e queria uma resposta do Rei saxão, por isso parti, fazendo apenas votos para que sobrevivesse e regressasse à Dumnónia na véspera do Samain. Levava a minha espada e tinha um escudo pendurado nas costas, mas não levava mais nenhuma arma nem armadura.

 

Não me dirigi de imediato para leste, porque essa estrada me levaria perigosamente para junto do território de Cerdic, por isso, rumei para norte, passei por Gwent, e depois para leste, dirigindo-me para a fronteira saxónica onde Aelle governava. Durante um dia e meio caminhei passando pelas regiões das ricas quintas de Gwent, por casas de campo e herdades de cujas chaminés saía fumo. Os campos tinham as marcas lamacentas das patas dos animais que estavam a ser encerrados, aguardando as matanças do Inverno, e o seu mugido imprimia um tom melancólico à minha viagem. O ar revelava já os primeiros indícios do Inverno e, de manhã, o sol permanecia baixo e fraco por entre o nevoeiro. Estorninhos juntavam-se em bandos nos terrenos em pousio.

 

A paisagem mudava à medida que eu rumava para leste. Gwent era uma região cristã, e no início passei por grandes igrejas trabalhadas. No segundo dia, porém, as igrejas eram bastante mais pequenas e as quintas menos prósperas até por fim alcançar as terras intermédias, os sítios bravios onde nem saxões nem bretões governavam, mas onde ambos tinham os seus terrenos de morte. Aqui, as campinas que outrora haviam alimentado famílias inteiras estavam cheias de carvalhos novos, espinheiros-alvar, vidoeiros e freixos, as casas de campo eram ruínas sem telhados e os palácios esqueletos queimados e hirtos. Todavia, ainda aí viviam pessoas, e quando certa vez ouvi alguém correr num bosque que ficava próximo desembainhei a Hywelbane com medo dos homens sem senhor que se refugiavam nestes ermos vales; mas ninguém me abordou, até essa tarde em que um grupo de lanceiros me barrou o caminho. Eram homens de Gwent e, à semelhança de todos os soldados do rei Meurig, traziam vestígios do antigo uniforme romano; couraças de bronze, elmos encimados com plumas de pêlo de cavalo de um vermelho vivo e capas cor-de-ferrugem. O seu chefe era um cristão de nome Carig, que me convidou a entrar na sua fortaleza situada numa clareira num alto espinhaço com arvoredo. A incumbência de Carig era vigiar a fronteira, e, bruscamente, interrogou-me sobre o que me levava ali, mas não fez mais perguntas quando lhe disse o meu nome e que ia ao serviço de Artur.

 

A fortaleza de Carig era uma simples paliçada de madeira, no interior da qual haviam sido construídas duas cabanas cujas lareiras acesas as enchiam de fumo. Aqueci-me enquanto uma dúzia de homens de Carig se afadigava a cozinhar um quadril de veado num espeto feito com a lança de um saxão capturado. Havia uma dúzia dessas fortalezas num’raio de um dia de marcha, todas viradas para leste para barrarem os atacantes de Aelle. Dumnónia tinha justamente as mesmas precauções, embora mantivéssemos um exército permanentemente junto à nossa fronteira. O custo de tal exército era exorbitante, e reclamado por parte daqueles cujos impostos sobre os cereais, o couro, o sal e os velos pagavam as tropas. Artur sempre lutara para que esses impostos fossem justos e não demasiado pesados, apesar de nessa altura, após a rebelião, ter lançado um duro castigo cobrando implacáveis impostos a todos os senhores abastados que haviam seguido Lancelote. Essa cobrança foi desproporcionada em relação aos Cristãos, e Meurig, o Rei cristão de Gwent, enviou um protesto que Artur ignorou. Carig, o leal seguidor de Meurig, tratou-me com uma certa reserva, embora tivesse feito o possível para me prevenir sobre o que me esperava para lá da fronteira.

 

Sabeis, Senhor disse ele que os Sais estão a recusar-se a deixar os homens atravessarem a fronteira?

 

Sim, constou-me.

 

Dois mercadores atravessaram-na há uma semana disse Carig. Levavam cerâmica e velos. Avisei-os, mas fez uma pausa e encolheu os ombros, os saxões ficaram com os potes e a lã, mas devolveram duas cabeças.

 

Se a minha cabeça vos for enviada pedi-lhe mandai-a a Artur.

 

Observei a gordura a pingar do veado e a incendiar-se no fogo. Os viajantes regressam de Lloegyr?

 

Há semanas que não disse Carig, mas no próximo ano, sem dúvida, vereis inúmeros lanceiros saxões na Dumnónia.

 

E em Gwent, não? desafiei-o.

 

Aelle não tem nenhuma contenda connosco disse Carig com firmeza. Era um jovem nervoso a quem não agradava muito a sua posição a descoberto na fronteira da Bretanha, apesar de cumprir o seu dever com razoável consciência e de os seus homens, reparei nesse facto, estarem bem disciplinados.

 

Sois bretões disse eu a Carig e Aelle é saxão, não é isso motivo suficiente?

 

Carig encolheu os ombros.

 

A Dumnónia está enfraquecida, Senhor, os Saxões sabem-no. Gwent está forte. Atacar-vos-ão, não a nós. A sua voz soou terrivelmente complacente.

 

Mas uma vez vencida a Dumnónia afirmei, tocando no ferro do copo da minha espada para afastar o mau agoiro implícito nas minhas palavras quanto tempo demorarão eles a rumar para norte, em direcção a Gwent?

Cristo proteger-nos-á disse Carig piamente, e fez o sinal da Cruz. Um crucifixo estava pendurado na parede da cabana e um dos seus homens lambeu os dedos e tocou nos pés do Cristo torturado. Sub-repticiamente, cuspi para o lume.

 

Na manhã seguinte rumei para leste. O céu havia ficado com nuvens durante a noite e a aurora saudou-me com uma chuva miúda e fria que me fustigava o rosto. A estrada romana, agora com fendas e cheia de ervas daninhas, estendia-se até uma mata húmida e fria, e quanto mais eu caminhava mais os meus ânimos se afundavam. Tudo o que eu ouvira no forte fronteiriço de Carig sugeria que Gwent não lutaria por Artur. Meurig, o jovem Rei de Gwent, sempre fora um guerreiro obstinado. O seu pai, Tewdric, sabia que os Bretões tinham de se unir contra o seu inimigo comum, mas Tewdric renunciara ao trono e fora viver como monge junto ao rio Wye e o seu filho não era um senhor da guerra. Sem as tropas bem treinadas de Gwent, a Dumnónia estava decididamente condenada, a menos que uma ninfa nua e luminosa pressagiasse uma qualquer intervenção milagrosa dos Deuses. Ou a menos que Aelle acreditasse na mentira de Artur. E chegaria Aelle a receber-me? Acreditaria ele tão-pouco que eu era seu filho? Para mim, o rei saxão cumprira o seu papel nas escassas ocasiões em que nos encontráramos, mas isso nada significava, porque eu continuava a ser seu inimigo, e quanto mais avançava através dos chuviscos frios, por entre as árvores altas e molhadas, mais aumentava o meu desespero. Eu tinha a certeza que Artur me enviara em direcção à morte, e pior ainda, que ele o fizera com a insensibilidade de um jogador que perde e que arrisca tudo num lançamento final.

 

A meio da manhã cheguei às últimas árvores e caminhei para o centro de uma vasta clareira no meio da qual corria um ribeiro. A estrada seguia o pequeno curso de água, mas junto à passadeira e espetado num morro, que se elevava à altura da cintura de um homem, encontrei um aberto morto com oferendas penduradas. A prestidigitação era-me estranha, por isso eu não fazia ideia se a árvore ornamentada protegia a estrada, acalmava o ribeiro ou era uma simples brincadeira de crianças. Deslizei do dorso do meu cavalo e vi que os objectos pendurados nos frágeis ramos eram os pequenos ossos da coluna de um homem. Não era nenhuma brincadeira de crianças, conclui, mas o que seria? Cuspi para um dos lados do morro para afastar o agoiro, toquei no ferro do copo da Hywelbane e depois conduzi o meu cavalo através do vau.

 

Trinta passos adiante do ribeiro começava novamente a mata e eu não percorrera ainda metade dessa distância quando um machado foi lançado das sombras por baixo dos ramos. Guinou ao passar por mim com a luz do dia cinzento a tremeluzir na sua lâmina. O arremesso fora mau, e o machado sibilou até uns bons quatro passos de distância. Ninguém me desafiou, mas também não surgiu outra arma vinda das árvores.

Eu sou saxão! gritei nessa língua. Ninguém disse nada, mas ouvi um sussurro de vozes e o estalido de galhos a quebrarem-se. Sou saxão! voltei a dizer, e questionei-me se os observadores escondidos não seriam saxões mas bretões fora-da-lei, já que eu estava ainda em terra de ninguém onde os homens sem senhor de todas as tribos e regiões se escondiam da justiça.

 

Preparava-me para dizer em bretão que não queria fazer-lhes mal quando uma voz gritou no meio das sombras em saxão.

 

Atira a tua espada para aqui! ordenou-me um homem.

 

Podes vir aqui tomar a minha espada respondi. Houve uma pausa.

 

Como te chamas? perguntou a voz.

 

Derfel! respondi. Filho de Aelle.

 

Referi o nome de meu pai como um desafio, e isso deve tê-los tranquilizado porque uma vez mais ouvi o murmúrio baixo das vozes. Depois, um instante mais tarde, seis homens passaram por entre os ramos dos espinheiros e entraram na clareira. Todos tinham grossas peles, que os saxões preferiam às armaduras, e todos traziam lanças. Um deles tinha um elmo com cornos e esse, sem dúvida o chefe, desceu desde o início da estrada na minha direcção.

 

Derfel disse ele, detendo-se a meia dúzia de passos de mim. Derfel repetiu. Já ouvi esse nome, e não é saxão.

 

É o meu nome respondi e eu sou saxão. -

 

Um filho de Aelle? Ele desconfiava.

 

Sim.

 

Examinou-me por um momento. Era um homem alto, com uma massa de cabelo castanho enrolada no elmo com cornos. A barba dava-lhe quase pela cintura e os bigodes pendiam-lhe até ao início da couraça de cabedal que usava por baixo da capa de pêlo. Calculei que fosse um chefe de tribo local, ou talvez um guerreiro destacado para vigiar aquela parte da fronteira. Encaracolou um dos bigodes com a mão livre e depois deixou as pontas desenrolarem-se.

 

Conheço Hrothgar, filho de Aelle afirmou, pensativo, e Cyrning, filho de Aelle, de quem sou amigo. Penda, Saebold e Yffe, filhos de Aelle, vi-os combater. Mas Derfel, filho de Aelle? Abanou a cabeça.

 

Vê-lo agora respondi.

 

Tomou o peso da sua lança, reparando que o meu escudo ainda pendia da sela do meu cavalo.

 

De Derfel, amigo de Artur, já ouvi falar disse ele acusador.

 

Também o vês neste instante afirmei e ele tem assuntos a tratar com Aelle.

 

Nenhum bretão tem assuntos a tratar com Aelle respondeu, e os seus homens resmonearam a sua concordância.

 

Eu sou saxão insisti.

 

Então que assunto te traz?

 

Cabe a meu pai ouvi-lo e a mim falar dele. Tu nada tens com isso. Virou-se e gesticulou para os seus homens.

 

Torná-lo-emos um assunto nosso.

 

Como te chamas? perguntei.

 

Ele hesitou, depois concluiu que mal nenhum faria revelar o seu nome.

 

Ceolwulf afirmou filho de Eadbehrt.

 

Então, Ceolwulf perguntei-lhe, julgas que meu pai te recompensará quando souber que atrasaste a minha viagem? O que pensas que te dará? Ouro? Ou uma sepultura?

 

Foi uma pequena artimanha, mas deu resultado. Eu não fazia ideia se Aelle me receberia de braços abertos ou se me mataria, mas Ceolwulf teve suficiente medo da ira do seu rei para, de má vontade, me deixar passar e ordenar que quatro lanceiros me escoltassem, penetrando nós cada vez mais nas Terras Perdidas.

 

E foi assim que viajei por sítios que, durante uma geração, poucos bretões livres haviam pisado. Aquelas eram as terras que ficavam no coração do território do inimigo, e durante dois dias atravessei-as. À primeira vista, a região parecia ter poucas diferenças em relação à região bretã, uma vez que os saxões se haviam apoderado dos nossos campos e amanhavam-nos de forma muito idêntica à nossa, embora eu tivesse reparado que as suas medas de feno eram empilhadas a maior altura e eram também mais quadradas, e as suas casas mais robustas. As vilas romanas estavam quase todas desertas, embora aqui e ali algumas herdades ainda se mantivessem em funcionamento. Ali não havia igrejas cristãs, nem, que eu tivesse visto, nenhum santuário, apesar de termos passado por um ídolo britânico com algumas oferendas de pouca monta na base. Ainda aí viviam bretões e alguns até possuíam o seu próprio terreno, mas a maioria eram escravos ou mulheres casadas com saxões. Os nomes dos locais haviam sido todos alterados e a minha escolta nem tão-pouco sabia como se chamavam na altura em que os britânicos governavam. Passámos por Lycceword e Steortford, depois por Leodasham e Celmeresfort, todos com estranhos nomes saxões mas lugares prósperos. Estes não eram lares nem quintas de invasores, mas colónias de gentes que se haviam fixado. Em Celmeresfort virámos para sul atravessando Beadewan e Wicford, e à medida que avançávamos, os meus companheiros disseram-me orgulhosamente que naquele instante passávamos pela quinta que Cerdic entregara a Aelle no Verão. O terreno foi o preço, afirmaram eles, da lealdade de Aelle na guerra que está para vir e que empurrará estas gentes ao longo da Bretanha para o mar Ocidental. A minha escolta estava confiante que venceriam. Todos tinham ouvido como Dumnónia havia enfraquecido com a rebelião de Lancelote, e essa revolta encorajara os Reis saxões a unirem-se num único esforço para conquistarem todo o Sul da Bretanha.

 

Os aposentos de Inverno de Aelle situavam-se num local a que os Saxões chamavam Thunreslea. Ficavam numa colina alta, numa região plana de campos argilosos e pântanos escuros, e do cume plano da montanha podia-se olhar para sul, para lá do vasto Tamisa, até à região brumosa onde Cerdic governava. Um enorme palácio erguia-se na colina. Era um edifício sólido com troncos de carvalho escuro, e bem alto na sua íngreme e pontiaguda empena estava a insígnia de Aelle: o crânio de um touro pintado com sangue. No crepúsculo, o solitário palácio surgia escuro e enorme, um local sinistro. A leste, para lá de algumas árvores, existia uma aldeia, onde eu conseguia ver o crepitar de uma miríade de fogueiras. Parecia que chegara a Thunreslea na altura de uma reunião, e as fogueiras mostravam onde as gentes estavam acampadas.

 

É um festim disse-me um dos do meu séquito.

 

Em homenagem aos Deuses? inquiri.

 

Em homenagem a Cerdic. Ele veio falar com o nosso Rei.

 

As minhas esperanças, que já eram escassas, desvaneceram-se. Com Aelle eu tinha algumas hipóteses de sobreviver, mas com Cerdic, pensei, não tinha nenhuma. Cerdic era um homem frio e insensível, enquanto Aelle tinha um espírito emotivo, até mesmo generoso.

 

Toquei no copo da Hywelbane e pensei em Ceinwyn. Rezei aos Deuses para que me deixassem vê-la de novo. Agora era altura de descer do dorso do meu fatigado cavalo, compor a minha capa com um gesto seco, retirar o escudo do arção da minha sela e ir ao encontro dos meus inimigos.

 

Deviam estar trezentos guerreiros a festejar no chão coberto de junco daquele alto e lúgubre palácio, no topo da húmida colina. Trezentos homens odiosos e animados, barbudos e de rostos vermelhos, que, ao contrário de nós Bretões, nada viam de errado em levarem armas para os festins no palácio de um senhor. Três enormes fogueiras crepitavam no centro do salão e o fumo era tão espesso que, no início, não consegui ver o homem que se encontrava sentado atrás da longa mesa, no extremo mais longínquo do salão. Ninguém deu pela minha entrada, já que com o meu longo e farto cabelo e a barba cerrada parecia um lanceiro saxão, mas ao passar pelas fogueiras crepitantes um guerreiro viu a estrela branca de cinco pontas do meu escudo e recordou-se de ter visto aquele símbolo no campo de batalha. Um resmuneio sobressaiu do meio do tumulto de vozes e risos, ecoando até todos os homens daquele palácio vociferarem contra mim, ao mesmo tempo que eu caminhava na direcção do estrado onde se encontrava a grande mesa. Os guerreiros vociferantes pousaram os seus chifres de cerveja e começaram a bater com as mãos no chão ou nos escudos, de tal modo que o tecto alto ecoou com o barulho medonho.

 

O embate de uma lâmina na mesa fez com que o barulho se dissipasse. Aelle havia-se levantado, e fora a sua espada que lançara pelo ar lascas da mesa tosca onde via uma dúzia de homens com pratos empilhados à sua frente e chifres cheios. Ladeavam-no Cerdic e Lancelote. Lancelote não era o único bretão presente. Bors, seu primo, persistia ao seu lado numa posição relaxada enquanto Amhar e Loholt, os filhos de Artur, ocupavam a extremidade da mesa. Todos eles eram meus inimigos, e eu toquei no copo da Hywelbane e rezei para que tivesse uma morte digna.

 

Aelle fitou-me. Conhecia-me suficientemente bem, mas saberia ele que eu era seu filho? Lancelote pareceu surpreendido por me ver, chegando a corar, depois chamou um intérprete com um aceno, disse-lhe algumas palavras breves e este inclinou-se para Cerdic e sussurrou ao ouvido do monarca. Cerdic também me conhecia, mas nem as palavras de Lancelote nem o reconhecimento de um inimigo, alteraram a impenetrável expressão do seu rosto. Era um rosto de eclesiástico, sem barba, queixo estreito e com uma testa alta e larga. Os seus lábios eram finos e o seu cabelo ralo fora penteado com severidade para trás, formando um nó atrás do crânio. Por outro lado, o rosto banal tornava-se memorável por causa dos seus olhos. Eram olhos mortiços e cruéis, os olhos de um assassino.

 

Aelle pareceu demasiado admirado para dizer alguma coisa. Era muito mais velho do que Cerdic, de facto, passava um ou dois anos dos cinquenta, o que permitia dizer que se tratava de um homem velho, mas tinha ainda um aspecto formidável. Era alto, bem constituído, e tinha um rosto longo e severo, o nariz partido, bochechas com cicatrizes e uma barba preta e farta. Tinha vestida uma bela túnica escarlate e usava um grosso cordão de ouro ao pescoço e mais ouro nos pulsos. Nenhuma jóia, porém, conseguia disfarçar o facto de Aelle ser acima de tudo um soldado, um belo exemplar dos guerreiros saxões. Faltavam-lhe dois dedos na sua mão direita, cortados em alguma batalha travada há muito, atrever-me-ia a dizer, onde ele consumara uma vingança sanguinária. Por fim falou.

 

Atreves-te a vir aqui?

 

Para vos ver, meu Rei e Senhor respondi, colocando um joelho no chão. Fiz uma vénia a Aelle, depois a Cerdic, mas ignorei Lancelote. Para mim, ele nada mais era do que um protegido do rei Cerdic, um traidor britânico elegante cujo rosto sombrio estava cheio de aversão por mim.

 

Cerdic espetou um pedaço de carne com uma enorme faca, levou-o à boca, depois hesitou.

 

Não recebemos nenhum mensageiro de Artur afirmou ele com indiferença e aquele que for suficientemente louco para vir até aqui será morto. Colocou a carne na boca, depois virou-se parecendo abandonar-me como a um pormenor de um assunto trivial. Os seus homens gritaram pela minha morte.

 

De novo Aelle silenciou o salão ao bater com a lâmina da sua espada na mesa.

 

Vens da parte de Artur? desafiou-me ele. Achei que os Deuses me perdoariam uma mentira.

 

Trago-vos cumprimentos, meu Rei e Senhor respondi, de Erce, e a filial estima do filho de Erce que é, para seu contentamento, também vosso.

 

Para Cerdic as palavras nada significaram. Lancelote, que ouvira uma tradução, sussurrou rapidamente ao seu intérprete e este voltou a falar com Cerdic. Não tenho dúvidas de que ele encorajou aquilo que Cerdic então pronunciou.

 

Ele tem de morrer insistiu Cerdic. Falou muito pausadamente, como se a minha morte fosse uma coisa sem importância. Nós temos um acordo lembrou ele a Aelle.

 

O nosso acordo afirma que não receberemos nenhum mensageiro dos nossos inimigos afirmou Aelle, fitando-me.

 

E que mais é ele? perguntou Cerdic, finalmente mostrando alguma irritação.

 

Ele é meu filho afirmou Aelle simplesmente, e um arquejo soou por todo o palácio cheio de gente. Ele é meu filho repetiu Aelle, não és?

 

Sou, meu Rei e Senhor.

 

Tens mais filhos disse Cerdic a Aelle despreocupadamente, e gesticulou para alguns homens barbudos sentados à esquerda de Aelle. Aqueles homens, que presumi fossem meus meio-irmãos, fitavam-me confusos. Ele traz uma mensagem de Artur! insistiu Cerdic. Esse cão apontou a sua faca na minha direcção está sempre ao serviço de Artur.

 

Trazes alguma mensagem de Artur? perguntou Aelle.

 

Trago as palavras de um filho para o seu pai voltei a mentir, nada mais.

 

Ele tem de morrer! afirmou Cerdic lacónico, e todos os seus partidários no salão murmuraram a sua concordância.

 

Não matarei o meu próprio filho disse Aelle, no meu próprio palácio.

 

Então, posso eu fazê-lo? perguntou Cerdic com azedume. Se algum bretão vier ter connosco terá de ser morto. Proferiu estas palavras dirigindo-se a todo o palácio. Isto foi acordado entre nós! insistiu Cerdic, e os seus homens bradaram a sua aprovação e bateram com os copos das suas lanças nos escudos. Essa coisa afirmou Cerdic agitando uma mão na minha direcção é um saxão que luta por Artur! É um verme, e sabes o que se faz a um verme! Os guerreiros pediram a minha morte e os seus cães juntaram-se ao clamor com uivos e latidos. Lancelote observava-me com o rosto inexpressivo, enquanto Amhar e Loholt pareciam ansiosos por me trespassar com a espada. Loholt tinha um ódio especial por mim, porque eu lhe segurara no braço enquanto o pai decepara a sua mão direita.

 

Aelle esperou até o tumulto se desvanecer.

 

No meu palácio afirmou, acentuando o possessivo para mostrar que era ele quem ali mandava e não Cerdic um guerreiro morre com a sua espada na mão. Há aqui algum homem que queira matar Derfel armado com a sua espada? Olhou para todo o salão, convidando alguém a desafiar-me. Ninguém o fez, e Aelle baixou os olhos para o Rei, seu par. Não quebrarei nenhum acordo contigo, Cerdic. Os nossos lanceiros caminharão lado a lado e nada do que o meu filho diga poderá impedir essa vitória. Cerdic retirou um pedaço de carne de entre os dentes.

 

A sua cabeça disse ele, apontando para mim fará um belo estandarte para a batalha. Eu quero que ele morra.

 

Então mata-o disse Aelle com desdém. Podiam ser aliados, mas existia pouco afecto entre os dois. Aelle ressentia-se com a arrogância do jovem Cerdic, enquanto este achava que faltava crueldade ao velho.

 

Cerdic esboçou um sorriso irónico perante o desafio de Aelle.

 

Eu não, disse ele, calmamente mas o meu paladino fará o trabalho. Baixou os olhos para o salão, encontrou o homem que procurava e apontou um dedo. Liofa! Está aqui um verme. Mata-o!

 

Os guerreiros aplaudiram de novo. Rejubilavam com a ideia de um combate, e sem dúvida que antes de a noite terminar a cerveja que bebiam causaria mais do que uns tantos combates mortais, mas uma luta até à morte entre o paladino de um Rei e o filho de um outro Rei era um divertimento muito maior do que uma qualquer rixa de bêbados e uma diversão muito mais agradável do que a melodia dos dois harpistas que observavam dos extremos do salão.

 

Virei-me para ver o meu adversário, na esperança de que ele me desse mostras de já estar meio ébrio, e desse modo ser uma presa fácil para a Hywelbane; mas o homem que saiu do meio dos comensais não era de todo o que eu esperava. Pensei que seria um homem enorme, não muito diferente de Aelle, mas este paladino era um guerreiro esguio e ágil com um rosto calmo e sagaz sem uma única cicatriz. Olhou-me de relance, despreocupadamente, ao mesmo tempo que deixava cair a sua capa; depois puxou da sua bainha de cabedal uma espada enorme com uma lâmina fina. Tinha poucas jóias, apenas um cordão de prata, e as suas vestes nada tinham dos adornos que a maioria dos paladinos usava. Tudo nele transparecia a experiência e confiança, enquanto o seu rosto sem cicatrizes sugeria tanto uma sorte fabulosa como uma habilidade fora do comum. Pareceu-me também assustadoramente sóbrio assim que avançou para o espaço livre diante da mesa alta, fazendo depois uma vénia aos Reis.

 

Aelle pareceu perturbado.

 

O preço para falares comigo disse-me ele é defenderes-te de Liofa. Ou podes partir agora e regressar a casa ileso. Os guerreiros zombaram dessa sugestão.

 

Falarei convosco, meu Rei e Senhor afirmei.

 

Aelle acenou com a cabeça, depois sentou-se. Continuou a parecer infeliz e eu calculei que Liofa tivesse uma temível reputação como esgrimista. Tinha de ser bom, caso contrário não seria o paladino de Cerdic, mas algo no rosto de Aelle me disse que Liofa era mais do que simplesmente bom.

 

Todavia, também eu tinha uma boa reputação, e isso parecia preocupar Bors, que rapidamente sussurrou ao ouvido de Lancelote. Depois de o seu primo terminar, Lancelote acenou ao intérprete que, por sua vez, falou com Cerdic. O Rei ouviu-o e, em seguida, lançou-me um olhar sinistro.

 

Como sabemos nós, Aelle perguntou ele que este teu filho não traz com ele nenhum feitiço de Merlim?

 

Os Saxões sempre temeram Merlim, e a sugestão fê-los resmunear iradamente.

 

Aelle franziu as sobrancelhas.

 

Trazes algum, Derfel?

 

Não, meu Rei e Senhor. Cerdic não estava convencido.

 

Estes homens reconhecerão qualquer feitiço de Merlim insistiu ele, gesticulando para Lancelote e Bors; depois falou com o intérprete, que passou as suas ordens a Bors. Este encolheu os ombros, levantou-se e caminhou em volta da mesa descendo, por fim, do estrado. Hesitou ao aproximar-se de mim, mas eu afastei os braços como que para lhe mostrar que não queria fazer-lhe mal. Bors examinou os meus pulsos, talvez à procura de fios de canas com nós ou qualquer outro amuleto, depois desatou com um puxão as fitas do meu justilho de cabedal.

 

Tem cuidado com ele, Derfel murmurou ele em inglês, e percebi, para surpresa minha, que afinal Bors não era meu inimigo. Convencera Lancelote e Cerdic a revistar-me para poder sussurrar-me este aviso. É rápido como uma doninha continuou Bors e combate com as duas mãos. Fica de olho no estupor quando fingir que escorrega. Viu o pequeno broche de ouro que Ceinwyn me oferecera de presente. Está enfeitiçado? perguntou-me.

 

- Não.

 

Em todo o caso guardá-lo-ei comigo disse ele, desprendendo o broche e mostrando-o ao salão, e os guerreiros vociferaram irados que eu podia estar a esconder o talismã. E dá-me o teu escudo ordenou Bors, porque Liofa não tinha o dele.

 

Desapertei as presilhas do meu braço esquerdo e entreguei o escudo a Bors. Agarrou nele e encostou-o ao estrado, equilibrando na sua extremidade superior o broche de Ceinwyn. Olhou para mim como-que para se certificar de que eu tinha visto onde ele o havia colocado e eu acenei-lhe com a cabeça.

 

O paladino de Cerdic desferiu um golpe com a sua espada no ar fuliginoso.

 

Matei quarenta e oito homens num único combate disse-me ele numa voz suave, quase monótona e perdi a conta dos que me atacaram em combate. Fez uma pausa e tocou no seu rosto. Nem uma única vez, em nenhum desses combates afirmou fiquei com cicatrizes. Se quiseres ter uma morte rápida podes dar-te agora por vencido.

 

Podes entregar-me a tua espada disse-lhe eu e poupares uma derrota a ti próprio.

 

A troca de insultos era uma formalidade. Liofa recusou a minha oferta com um encolher de ombros e virou-se para os reis. Fez de novo uma vénia e eu imitei-o. Estávamos a uma distância de dez passos um do outro, no centro do espaço vazio, entre o estrado e a mais próxima das três fogueiras, encontrando-se de ambos os lados do salão um amontoado de homens excitados. Eu conseguia ouvir o tilintar de moedas à medida que as apostas iam sendo feitas.

 

Aelle acenou-nos com a cabeça, dando autorização para o início do combate. Desembainhei a Hywelbane e levei o seu copo aos lábios. Beijei um dos pequenos pedaços de osso de porco nele colocados. Os dois fragmentos de osso eram os meus verdadeiros talismãs e eram muito mais poderosos do que o broche, porque os ossos de porco haviam outrora feito parte de uma magia de Merlim. Os fragmentos de osso não me davam qualquer protecção mágica, mas eu beijei o copo uma segunda vez e depois enfrentei Liofa.

 

As nossas espadas são coisas pesadas e desajeitadas que não ajudam a levar vantagem durante o combate. Deste modo, pouco mais são do que enormes mocas de ferro que exigem no seu manejo uma força considerável. A luta de espadas nada tem de difícil, embora exija habilidade. A habilidade reside no engano, em convencer um opositor que um golpe virá da esquerda, e quando ele mantiver a guarda desse lado, atacar pela direita, embora a maioria dos combates com espadas não sejam ganhos devido a essa perícia, mas sim por causa da força bruta. Um homem enfraquece e, desse modo, a sua guarda é baixa e a espada do vencedor livremente desferida golpeia-o, matando-o.

 

Todavia, Liofa não lutava deste modo. De facto, nunca antes nem depois, voltei a lutar com ninguém como Liofa. Senti a diferença assim que se aproximou de mim, porque a lâmina da sua espada, apesar de ser tão longa como a da Hywelbane, era muito mais esguia e leve. Ele havia sacrificado o peso à velocidade, e eu percebi que este homem iria ser tão rápido como Bors me avisara, veloz como um relâmpago, e no preciso instante em que me apercebia disso, ele atacou. Contudo, em vez de passar velozmente a lâmina de modo a fazer uma grande curva, ele precipitou-se com ela, tentando passar a sua ponta nos músculos do meu braço direito.

 

Eu afastei-me da estocada. Estas coisas acontecem tão depressa que depois do combate, ao tentar lembrar-me dos passos da luta, a mente não conseguiu firmar cada movimento e cada contragolpe, mas eu vira um pestanejo nos seus olhos, vira que a sua espada só conseguia estocar para diante e eu movera-me no exacto momento em que ele precipitava a estocada na minha direcção. Fingi que a velocidade do seu golpe não me surpreendera, por isso não me esquivei, passando apenas por ele. Depois, quando calculei que ele estaria em desequilíbrio rosnei e oscilei a Hywelbane trazendo-a de trás num golpe que teria desmembrado um boi.

 

Ele deu um salto para trás, equilibrando-se perfeitamente, e abriu tanto os braços que o meu golpe ceifou a uns perigosos centímetros da sua barriga. Esperou que eu a oscilasse de novo, mas em vez de o fazer esperei por ele. Os homens gritavam-nos, pedindo sangue, mas eu não lhes prestei atenção, mantendo os olhos fixos nas pupilas cinzentas e serenas de Liofa. Ele tomou o peso da espada na sua mão direita, volteou-a para diante para tocar na minha lâmina, depois gingou na minha direcção.

 

Detive-o com facilidade, depois contra-ataquei a sua investida, que surgiu tão naturalmente como o dia surge a seguir à noite. O clangor das espadas era sonoro, mas eu sentia que os golpes de Liofa não eram desferidos com verdadeiro esforço. Ele oferecia-me o combate que eu esperara, mas também me avaliava quando investia e quando desferia golpe atrás de golpe. Detive-os, pressentindo as alturas em que eles se tornavam mais fortes, e justamente quando eu esperava que ele fizesse um verdadeiro esforço susteve o golpe, largou a espada no ar, apanhou-a com a mão esquerda e desferiu-a para baixo em direcção à minha cabeça. Fê-lo à velocidade da picada de uma víbora.

 

A Hywelbane aparou aquele golpe descendente. Não sei como o conseguiu. Eu aparara um golpe lateral e, de repente, não estava lá nenhuma espada,, apenas a morte por cima da minha cabeça. Contudo, seja como for, a minha lâmina estava no sítio certo e a sua espada, mais leve, deslizou para o copo da Hywelbane. Tentei converter a defesa num contragolpe, mas não houve força na minha resposta e ele recuou de um salto com facilidade. Eu continuei para diante, golpeando como ele fizera, mas aplicando todas as minhas forças, de modo que nenhum dos golpes conseguiu estripá-lo, e a velocidade e a força das minhas investidas não lhe deram outra alternativa senão recuar. Ele aparou os golpes com tanta facilidade quanto eu havia aparado os seus, mas não havia resistência nas defesas. Ele deixava-me oscilar, e em vez de defender com a sua espada, protegia-se com constantes retiradas. Também me deixava esgotar as minhas forças no ar em vez de ser num osso, num músculo ou no sangue. Desferi um último golpe maciço, sustendo a espada a meio da oscilação e torcendo o pulso para alojar a Hywelbane na sua barriga.

 

A sua espada deslocou-se na direcção da estocada, depois ripostou para mim quando ele deu um passo para o lado. Também eu dei rapidamente um passo para o lado, para que ambos falhássemos. Em vez disso, chocámos, peito com peito, e eu senti o seu hálito. Senti um vago cheiro a cerveja, embora sem dúvida ele não estivesse embriagado. Por momentos ficou imóvel, depois delicadamente moveu para o lado o braço que empunhava a espada e olhou para mim motejador, como se sugerisse que concordássemos em nos separar. Acenei-lhe com a cabeça, e ambos demos um passo atrás, com as espadas bem afastadas, enquanto a multidão falava excitadamente. Sabiam que presenciavam um combate raro. Liofa era famoso entre eles, e atrevo-me a dizer que o meu nome não era desconhecido, mas eu sabia que provavelmente seria derrotado. As minhas proezas, se tinha alguma, eram as de um soldado. Eu sabia como romper um escudo defensivo, como lutar com lança e escudo ou com espada e escudo, mas Liofa, o paladino de Cerdic, tinha apenas uma habilidade: a luta corpo a corpo com espada. Nisso, ele era mortal.

 

Recuámos seis ou sete passos, depois Liofa saltou para diante, com pés tão ligeiros como os de um dançarino, e estocou na minha direcção com rapidez. A Hywelbane aparou o golpe com força e eu vi-o recuar, vacilante, com a sólida defesa. Eu fora mais rápido do que ele esperara, ou talvez ele tivesse sido mais lento do que o habitual, pois até uma pequena quantidade de cerveja diminuirá a rapidez de um homem. Alguns homens apenas lutam embriagados, mas os que vivem mais tempo lutam sóbrios.

 

Questionei-me sobre a razão da sua vacilação. Não fora ferido, contudo eu apoquentara-o visivelmente. Golpeei-o e ele recuou com um salto, e esse salto permitiu-me outra pausa para reflectir. O que o fizera vacilar? Depois recordei-me da fraqueza das suas defesas e percebi que ele não se atrevia a arriscar a sua lâmina contra a minha, por ser demasiado leve. Se eu conseguisse bater naquela lâmina com todas as minhas forças, então seria provável que ela partisse; por isso bati de novo, mas desta vez continuei a bater vociferando contra ele ao mesmo tempo que batia violentamente com os pés no chão na sua direcção. Amaldiçoei-o com o ar, o fogo e o mar. Chamei-lhe fêmea, cuspi na sua sepultura e na sepultura de cão onde a sua mãe havia sido enterrada, e durante todo esse tempo ele não proferiu uma única palavra, deixando apenas que a sua espada encontrasse a minha e deslizasse para o lado, voltando sempre a recuar com aqueles olhos mortiços a observarem-me.

 

Então escorregou. O seu pé direito pareceu deslizar num montículo de junco e a perna fugiu-lhe. Caiu de costas e amparou-se com a mão esquerda para se erguer, mas eu bradei a sua morte erguendo a Hywelbane bem alto.

 

Então afastei-me dele um passo, sem mesmo tentar terminar o golpe de misericórdia.

 

Eu fora avisado desse deslize por Bors e estivera a aguardá-lo. Vê-lo foi maravilhoso, e por pouco fui de facto enganado, porque podia jurar que o deslize fora acidental, mas Liofa era tanto um acrobata como um esgrimista e o deslize aparentemente desequilibrado tornou-se num súbito movimento ágil que varreu a sua espada num círculo para onde os meus pés deviam estar. Ainda hoje consigo ouvir o silvo daquela longa e fina lâmina quando passou apenas a alguns centímetros acima do chão. O golpe deveria ter-me atingido nos tornozelos, mutilando-me, mas eu não estava lá.

 

Havia recuado e agora observava-o calmamente. Ele olhou para cima, pesarosamente.

 

Levanta-te, Liofa ordenei-lhe numa voz firme, dizendo-lhe que toda a minha ira fora fingida.

 

Penso que ele percebeu naquela altura que eu era, de facto, perigoso. Ele pestanejou uma ou duas vezes e percebi que usara os seus melhores truques comigo. Nenhum resultara, porém, e a sua confiança desvanecia-se. Mas não a sua destreza, e então avançou veemente e rápido para me fazer recuar com uma sucessão estonteante de golpes curtos, varredelas rápidas e investidas repentinas. Deixei as varredelas prosseguirem sem as deter, enquanto os outros ataques foram por mim defendidos o melhor que consegui, desviando-os e tentando quebrar-lhes o ritmo. Por fim, um golpe atingiu-me directamente no antebraço esquerdo, e a manga de cabedal quebrou a força da espada, apesar de eu ter ficado com uma ferida durante quase um mês depois disso. A multidão suspirou. Haviam assistido ao combate com entusiasmo e estavam radiantes por ver o primeiro vestígio de sangue. Liofa retirou a lâmina com um sacão do meu antebraço, tentando mover o seu gume para trás e para diante através do cabedal até ao osso, mas eu retirei-o com um movimento rápido, estoquei com a Hywelbane e, desse modo, fi-lo recuar.

 

Ele esperou por mim para prosseguir o ataque, mas chegara a minha vez de pôr em prática os meus truques. Propositadamente, não me movi na sua direcção. Em vez disso, baixei a minha espada alguns centímetros enquanto inspirava profundamente. Abanei a cabeça, tentando afastar da minha testa as farripas de cabelo ensopadas de suor, porque junto àquela grande fogueira o calor era enorme. Liofa observou-me, cauteloso. Ele via agora que eu estava sem fôlego e percebeu que a minha espada hesitava, contudo ele não havia morto quarenta e oito homens correndo riscos. Desferiu um dos seus golpes rápidos para testar a minha reacção. Fê-lo com uma breve oscilação que exigiu uma defesa, embora não fosse uma pancada semelhante a um machado que penetra na carne. Aparei-o tarde, deliberadamente tarde, e deixei que a ponta da espada de Liofa me batesse no braço ao mesmo tempo que a Hywelbane ressoava na parte mais grossa da sua espada. Gemi, simulei uma oscilação, depois fiz com que a minha lâmina recuasse enquanto ele se afastava com facilidade.

 

Esperei de novo por ele. Ele estocou e eu empurrei a sua espada para o lado, mas desta vez não tentei contra-atacar. A multidão estava em silêncio, pressentindo que este combate estava prestes a terminar. Liofa tentou outra estocada e eu detive-a de novo. Ele preferia as estocadas, porque matavam sem danificar a sua preciosa lâmina, mas eu percebi também que se detivesse essas estocadas rápidas bastantes vezes provavelmente ele matar-me-ia da forma tradicional. Tentou mais duas estocadas e eu afastei violentamente a primeira de forma desajeitada, recuei à segunda e depois bati nos olhos com a manga esquerda da minha camisa, porque o suor me causava ardor.

 

Então ele vacilou. Pela primeira vez gritou bem alto quando imprimiu à sua espada uma oscilação poderosa que partiu bem acima da sua cabeça e desenhou uma curva descendo em direcção ao meu pescoço, Detive-a, facilmente, mas vacilei quando fiz deslizar o seu golpe ceifado em segurança por cima da minha cabeça com a lâmina da Hywelbane, depois deixei-a descair um pouco e ele fez o que eu esperava que fizesse.

 

Ripostou com todas as suas forças. Fê-lo com rapidez e bem, mas agora eu sabia exactamente qual a sua velocidade, por isso levantei a Hywelbane num contragolpe igualmente rápido. Eu tinha as duas mãos no seu copo e coloquei todas as minhas forças nesse golpe devastador vindo de cima, que não era dirigido a Liofa, mas à sua espada.

 

As duas espadas encontraram-se na vertical.

 

Todavia, desta vez não se ouviu um som vibrante, mas um ruído repentino e seco.

 

Quebrara-se a espada de Liofa. Os dois terços exteriores saltaram, caindo no meio da multidão, deixando apenas um pedaço na sua mão. Ele pareceu horrorizado. Depois, por instantes, pareceu tentado a atacar-me com o que restava da sua espada, mas eu imprimi a Hywelbane dois rápidos golpes que o fizeram recuar. Nessa altura, ele percebeu que eu não estava de todo cansado. Também percebeu que era um homem morto, mas ainda assim tentou deter a Hywelbane com a sua arma partida, mas ela afastou aquele pequeno pedaço de metal para o lado e depois feri-o com uma estocada.

 

Mantive a lâmina imóvel junto ao cordão de prata que tinha em volta do pescoço.

 

Meu Rei e Senhor? gritei, mantendo os olhos fixos nos de Liofa. O salão estava em silêncio. Os saxões haviam visto o seu paladino ser derrotado e mantiveram-se em silêncio. Meu Rei e Senhor! gritei de novo.

 

Lorde Derfel? respondeu Aelle.

 

Pedistes-me para lutar com o paladino do rei Cerdic, não me ordenastes que o matasse. Peço-vos a sua vida.

 

Aelle fez uma pausa.

 

A sua vida é tua, Derfel.

 

Rendes-te? perguntei a Liofa. Não respondeu de pronto. O seu orgulho procurava ainda uma vitória, mas como hesitasse passei a ponta de Hywelbane da sua garganta para a bochecha direita. Então? instiguei-o.

 

Rendo-me disse ele, e atirou para o chão o que restava da sua espada.

 

Impeli a Hywelbane apenas com a força suficiente para lhe arrancar pele e carne da maçã do rosto.

 

Uma cicatriz, Liofa disse eu, para te lembrares que lutaste com Lorde Derfel Cadarn, filho de Aelle, e que perdeste. Deixei-o a sangrar. A multidão aplaudia. Os homens são seres estranhos. Num momento, eles gritavam pelo meu sangue, agora gritavam aclamações por eu ter poupado a vida do seu paladino. Fui buscar o broche de Ceinwyn, depois peguei no meu escudo e levantei os olhos para o meu pai. Trago-vos cumprimentos de Erce, meu Rei e Senhor disse eu.

 

E são bem-vindos, Lorde Derfel disse Aelle. São bem-vindos.

 

Fez um gesto para uma cadeira à sua esquerda, que um dos seus filhos deixara vaga, e assim me juntei aos inimigos de Artur na sua bela mesa. E banqueteámos.

 

Depois de o festim ter terminado, Aelle levou-me para os seus próprios aposentos, situados por detrás do estrado. Era um quarto enorme com um pé direito alto. No seu centro estava uma lareira acesa e a cama de peles encontrava-se por baixo da empena. Ele fechou a porta onde colocara guardas, depois fez-me sinal para que me sentasse numa arca de madeira junto à parede enquanto ele caminhou para o lado oposto do quarto, desapertou as ceroulas e urinou para um buraco fundo aberto no chão de terra.

 

Liofa é rápido disse-me ele enquanto urinava.

 

Muito.

 

Pensei que te venceria.

 

Não é suficientemente rápido respondi ou então a cerveja tornou-o mais lento. Agora cuspi nela.

 

Cuspo em quê? perguntou meu pai.

 

Na vossa urina. Para afastar a má-sorte.

 

Os meus Deuses não dão importância à urina nem ao cuspe, Derfel afirmou divertido. Ele convidara dois dos seus filhos a irem ao quarto e ambos, Hrothgar e Cyrning, me olhavam com curiosidade. Então, que mensagem perguntou Aelle me envia Artur?

 

Porque havia ele de enviar alguma?

 

Porque de outro modo não estarias aqui. Julgas que foste feito por um tolo, rapaz? Então, o que quer Artur? Não, não digas, deixa-me adivinhar. Apertou o cordão que lhe segurava as ceroulas, depois foi sentar-se na única cadeira que havia no quarto, uma cadeira de braços romana feita em madeira preta e com incrustações de marfim, embora já lhe faltassem muitas. Ele oferece-me tranquilidade na minha região, é isso perguntou Aelle, se eu atacar Cerdic no próximo ano?

 

Sim, meu Senhor.

 

A resposta é não resmungou ele. Um homem oferece-me o que já é meu! Que oferta é essa?

 

Uma paz perpétua, meu Rei e Senhor disse eu. Aelle sorriu.

 

Quando um homem promete algo para sempre, está a proceder descuidadamente com a verdade. Nada é para sempre, rapaz, nada. Diz a Artur que os meus lanceiros marcharão com Cerdic no próximo ano. Deu uma gargalhada. Desperdiçaste o teu tempo, Derfel, mas estou contente por teres vindo. Amanhã falaremos de Erce. Queres uma mulher para passar a noite contigo?

 

Não, meu Rei e Senhor.

 

A tua princesa nunca o saberá zombou ele.

 

Não, meu Rei e Senhor.

 

E diz-se ele meu filho! riu Aelle, e os seus filhos riram com ele. Eram ambos altos e, embora os seus cabelos fossem mais escuros do que o meu, desconfio que eram parecidos comigo, tal como suspeitei que haviam sido levados para a câmara do rei para testemunharem aquela troca de palavras e, desse modo, divulgarem aos outros chefes saxões a recusa liminar de Aelle. Podeis dormir junto à minha porta afirmou Aelle, fazendo um aceno aos filhos para que saíssem do quarto aí estareis fora de perigo. Aguardou que Hrothgar e Cyrning abandonassem os seus aposentos, depois deteve-me com uma mão. Cerdic disse o meu pai em voz baixa partirá amanhã, e levará Lancelote consigo. Cerdic irá desconfiar que eu te deixo vivo, mas eu escaparei à sua suspeição. Amanhã falaremos, Derfel, e eu terei uma longa resposta para o teu Artur. Não será a resposta que ele deseja, mas talvez seja uma com a qual ele consiga viver. Agora vai, tenho a minha companhia a chegar.

 

Dormi no espaço exíguo entre o estrado e a porta dos aposentos de meu pai. Durante a noite uma rapariga passou por mim, esgueirando-se para a cama de Aelle, enquanto no salão os guerreiros cantavam e brigavam, bebiam e eventualmente dormiam, apesar de já estar a amanhecer quando o último homem começou a ressonar. Foi na altura em que acordei com o canto dos galos que estavam na colina de Thunreslea. Afivelei a Hywelbane à cintura, apanhei a minha capa e o meu escudo e passei pelas brasas das fogueiras, saindo depois para o ar gelado e húmido. A neblina uniu-se ao elevado planalto, adensando-se em nevoeiro à medida que o terreno descia em declive para o ponto onde o Tamisa se juntava com o mar. Afastei-me do palácio até ao extremo da colina olhando daí para baixo para a alvura por cima do rio.

 

O meu Rei e Senhor disse uma voz atrás de mim ordenou-me que vos matasse se vos encontrasse sozinho.

 

Virei-me e vi Bors, o primo e paladino de Lancelote.

 

Tenho de vos agradecer disse-lhe eu.

 

Por vos ter avisado em relação a Liofa?

 

Bors encolheu os ombros como se o seu aviso tivesse sido coisa de pouca monta.

 

Ele é rápido, não é? Rápido e mortal. Bors veio colocar-se ao meu lado. Deu uma dentada numa maçã, achou que estava mole e deitou-a fora. Era mais um guerreiro enorme, um outro lanceiro com cicatrizes e de barba preta que estivera em muitos escudos defensivos e vira demasiados amigos serem mortos. Arrotou. Nunca me importei de lutar para entregar o trono de Dumnónia a meu primo disse ele mas nunca quis lutar por um saxão. E não quis ver-vos ser morto para divertimento de Cerdic.

 

Mas no próximo ano, Senhor disse eu estareis a lutar por Cerdic.

 

Estarei? perguntou-me ele. Pareceu divertido. Não sei o que irei fazer no próximo ano, Derfel. Talvez parta de barco para Lyonesse? Dizem que aí estão as mulheres mais belas do mundo. Têm cabelos de prata, corpos de ouro e não têm língua. Deu uma gargalhada, depois tirou outra maçã da bolsa e poliu-a com a manga. Agora, o meu Rei e Senhor disse ele, referindo-se a Lancelote irá lutar por Cerdic, mas que outra alternativa tem ele? Artur não o aceitará de novo.

 

Então, percebi o que Bors insinuava.

 

Artur, o meu Senhor disse eu, cautelosamente, não tem nenhuma questão convosco.

 

Nem eu com ele disse Bors com a boca cheia de maçã. Então talvez nos voltemos a encontrar, Lorde Derfel. Foi pena não vos ter encontrado esta manhã. O meu Rei e Senhor ter-me-ia dado uma bela recompensa se eu vos tivesse morto. Sorriu ironicamente e afastou-se.

 

Duas horas mais tarde vi Bors partir com Cerdic, descendo a colina onde a névoa se dissipava por entre as árvores de folhas vermelhas. Uma centena de homens acompanhava Cerdic, a maioria sofrendo as consequências da noite de festim, bem como os homens de Aelle que compunham a escolta dos seus convidados que partiam. Segui atrás de Aelle, cujo cavalo era puxado enquanto ele caminhava ao lado do rei Cerdic e de Lancelote. Imediatamente atrás deles caminhavam dois porta-estandartes, um transportando um bordão com a cabeça de touro de Aelle salpicada com sangue e o outro erguendo num mastro a cabeça de lobo de Cerdic pintada de vermelho e pendurada com a pele esfolada de um homem morto. Lancelote ignorou-me. Bem cedo pela manhã, quando inesperadamente nos encontrámos perto do palácio, ele apenas fingira não me ver e eu não reagi ao encontro inesperado. Os seus homens haviam assassinado a minha filha mais nova, e apesar de eu ter morto os assassinos, teria gostado de vingar ainda a alma de Dian no próprio Lancelote, mas o palácio de Aelle não era o local indicado para o fazer. Agora, de uma cumeada coberta de erva acima das margens lamacentas do Tamisa, eu observava Lancelote e os seus escassos guardas caminhando em direcção aos barcos de Cerdic que os aguardavam.

 

Só Amhar e Loholt se atreveram a desafiar-me. Os gémeos eram jovens soturnos que odiavam o pai e desprezavam a mãe. Aos seus próprios olhos eles eram príncipes, mas Artur, que menosprezava os títulos, recusou-se a conceder-lhes a honraria, facto que apenas aumentou a sua indignação. Eles acreditavam que haviam sido enganados em relação à posição real, às terras, à riqueza e à honra, e lutariam por quem tentasse derrotar Artur, a quem culpavam por todo o seu infortúnio. O coto do braço direito de Loholt estava revestido a prata, ao qual ele juntara um par de garras de urso. Foi Loholt quem se virou para mim.

 

Encontrar-nos-emos no próximo ano disse-me ele.

 

Eu sabia que ele ansiava por um combate, mas mantive a voz em tom moderado.

 

Esperarei ansiosamente por esse encontro.

 

Ele levantou o coto revestido a prata, lembrando-me como eu segurara o seu braço enquanto o pai desferira o golpe com a Excalibur.

 

Deves-me uma mão, Derfel.

 

Eu não disse nada. Amhar fora colocar-se ao lado do irmão. Ambos tinham o rosto do pai, uns ossos largos e um queixo comprido. Os seus, porém, haviam endurecido, de modo que não mostravam nenhuma da força de Artur. Pelo contrário, eles pareciam matreiros, quase semelhantes a lobos.

 

Não me ouviste? perguntou Loholt.

 

Dá-te por satisfeito disse-lhe eu por ainda teres uma mão. E quanto à minha dívida para contigo, Loholt, pagá-la-ei com a Hywelbane.

 

Eles hesitaram, mas não tinham a certeza se os guardas de Cerdic os apoiariam caso desembainhassem as suas espadas, e, por fim, contentaram-se em cuspir-me antes de se virarem e desceram com um andar empertigado para a praia lamacenta onde os dois barcos de Cerdic aguardavam.

 

Esta costa junto a Thunreslea era um local miserável, composto por uma parte de terra e outra de mar, onde o encontro do rio com o oceano dera origem a uma paisagem enevoada de taludes lamacentos, baixios e emaranhados de ancoradouros. Gaivotas piaram quando os lanceiros de Cerdic atravessaram a estreita zona da praia deixada a descoberto pela maré-baixa, se comprimiram na pequena enseada e se içaram para os talabardões de madeira dos seus longos barcos. Vi Lancelote levantar a ponta da sua capa enquanto escolhia o seu delicado percurso através da lama malcheirosa. Loholt e Amhar seguiram-no e, ao chegarem ao seu barco, viraram-se e apontaram os dedos para mim, um gesto que significava o lançar de um mau agoiro. Ignorei-os. As velas dos barcos já estavam içadas, mas o vento soprava fraco e os dois barcos de proas altas tiveram de ser manobrados para fora do exíguo ancoradouro vazante com longos remos manejados pelos lanceiros de Cerdic. E uma vez os barcos de proas ornamentadas com o lobo virados para o vasto oceano, os guerreiros remadores iniciaram um cântico que imprimia ritmo às suas remadas.

 

Hwaet pela tua mãe cantavam eles e hwaet pela tua garota, e hwaet pela tua amante que tu hwaet no chão e a cada ”hwaet” eles gritavam mais alto e puxavam os seus longos remos e os dois barcos ganhavam velocidade até, por fim, o nevoeiro envolver as suas velas grosseiramente pintadas com cabeças de lobos. E hwaet pela tua mãe começou de novo o cântico, mas desta vez as vozes eram mais fracas por causa da bruma e hwaet pela tua rapariga e os cascos baixos tornaram-se indistintos no meio da neblina até, por fim, os barcos desaparecerem na atmosfera esbranquiçada e hwaet pela tua amante, que tu hwaet no chão. O som chegou como se viesse de nenhures, e depois desvaneceu-se com o chapinhar dos seus remos. Dois dos homens de Aelle ajudaram o seu senhor a subir para cima do seu cavalo.

 

Dormiste? perguntou-me ele enquanto se acomodava na sela.

 

Sim, meu Rei e Senhor.

 

Eu tive melhores coisas para fazer disse ele concisamente. Agora segue-me. Bateu vigorosamente com os calcanhares no cavalo e conduziu-o ao longo da costa onde as águas encrespavam nas enseadas e puxavam à medida que a maré baixava. Nessa manhã, em honra dos seus convidados que partiam, Aelle havia-se vestido como um rei guerreiro. O seu elmo de ferro estava decorado a ouro e encimado com um leque de penas pretas, e trazia ainda a sua couraça de cabedal e botas altas tingidas de preto, enquanto dos seus ombros pendia uma longa capa preta de pele de urso que enfezava o seu pequeno cavalo. Uma dúzia dos seus homens seguia-nos a cavalo, um deles levando o estandarte da cabeça de touro. Aelle, tal como eu, andava desajeitadamente a cavalo.

 

Eu sabia que Artur te enviaria disse ele, de repente e, como eu não respondesse, virou-se para mim. Então encontraste a tua mãe?

 

Sim, meu Rei e Senhor.

 

Como está ela?

 

Velha disse eu com sinceridade. Velha, gorda e doente. Ele suspirou com estas notícias.

 

Elas começam como jovens tão belas que conseguem partir os corações de um exército inteiro, e depois de terem dois filhos, todas parecem velhas, gordas e doentes. Fez uma pausa, reflectindo no que dissera. Mas, de certo modo, pensei que isso nunca aconteceria a Erce. Ela era muito bonita afirmou melancólico, depois fez um sorriso irónico mas graças aos Deuses há um constante fornecimento de jovens, ha? Riu e depois olhou-me novamente de soslaio. Quando me falaste pela primeira vez no nome da tua mãe, percebi que eras meu filho. Fez uma pausa. O meu primogénito.

 

O vosso primogénito bastardo disse eu.

 

E então? Sangue é sangue, Derfel.

 

E eu sinto orgulho em ter o vosso, meu Rei e Senhor.

 

E assim deve ser, rapaz, embora o partilhes com mais alguns. Não tenho sido egoísta com o meu sangue. Soltou um riso abafado, depois virou o cavalo para um banco de lama e vergastou-o para que subisse a encosta escorregadia até ao local onde uma frota de barcos estava encalhada. Olha para eles, Derfel! disse o meu pai, obrigando o seu cavalo a seguir a passo e gesticulando para os barcos. Olha para eles! Agora inúteis, mas quase todos vieram este Verão e todos estavam cheios de pessoas até ao talabardão. Deu de novo um toque no cavalo com os calcanhares e continuámos devagar, passando por aquela deplorável linha de barcos encalhados.

 

Devia haver oitenta ou noventa embarcações no banco de lama. Todas tinham extremidades duplas e eram navios elegantes, mas todos estavam agora apodrecidos. Os seus tabuados estavam verdes do lodo, o fundo dos seus porões inundados e as madeiras negras por causa do apodrecimento. Alguns dos barcos, que deviam ali estar havia mais de um ano, eram apenas esqueletos escuros.

 

Sessenta pessoas em cada barco, Derfel disse Aelle pelo menos sessenta, e cada maré trouxe outras tantas. Agora, quando as tempestades assolam o mar alto, eles não vêm, mas estão a construir mais barcos e esses chegarão na Primavera. E não apenas aqui, Derfel, mas ao longo de toda a costa! Fez um gesto largo com o braço para abarcar toda a costa leste da Bretanha barcos e barcos! Todos cheios com a nossa gente, todos querendo um lar, todos querendo um território Proferiu a última palavra com ira, depois afastou o seu cavalo de mim sem esperar por resposta alguma. Anda! gritou, e eu segui o seu cavalo pelo banco cheio de lama, quando subimos um talude com seixos e depois ao passarmos por tufos de espinheiros e à medida que subíamos a colina onde se erguia o seu imponente palácio.

 

Aelle virou o cavalo numa saliência da colina onde esperou por mim, depois, assim que cheguei junto dele, apontou em silêncio para baixo para uma depressão oblonga de terra. Estava aí um exército. Eu não conseguia contá-los, tantos eram os homens que se juntavam nessa reentrância de terra, e esses homens, conforme eu sabia, eram apenas uma parte do exército de Aelle. De pé, os guerreiros saxões juntaram-se numa imensa multidão e ao verem o seu Rei na linha do horizonte irromperam num coro de aclamações ensurdecedor e começaram a bater com as hastes das suas lanças nos escudos até todo o céu cinzento se encher com o seu barulho terrível. Aelle ergueu a mão direita, coberta de cicatrizes, e o barulho desvaneceu-se.

 

Vês, Derfel? perguntou-me ele.

 

Vejo o que haveis escolhido mostrar-me, meu Rei e Senhor respondi-lhe evasivo, sabendo exactamente que mensagem estava ele a transmitir-me com os barcos encalhados e a massa de homens armados.

 

Agora estou forte disse Aelle e Artur está fraco. Pode ele ainda apresentar quinhentos homens? Duvido. Os lanceiros de Powys virão em seu auxílio, mas serão eles suficientes? Tenho dúvidas. Eu tenho mil lanceiros treinados, Derfel, e o dobro de homens famintos, que empunharão um machado para ganharem um metro de terra a que possam chamar seu. E Cerdic tem ainda mais homens, muitos mais, e ele precisa ainda mais desesperadamente de terras do que eu. Ambos precisamos de terras, Derfel, ambos precisamos de terras, e Artur tem-nas, e Artur está fraco.

 

Gwent tem mil lanceiros disse eu e se vós invadirdes a Dumnónia, Gwent acorrerá em seu auxílio. Eu não estava certo disso, mas não prejudicaria a causa de Artur parecer confiante. Gwent, Dumnónia e Powys disse eu todos lutarão, e há ainda outros que virão em auxílio do estandarte de Artur. Os Escudos Negros lutarão por nós, e virão lanceiros de Gwynedd e Elmet, até mesmo de Rheged e de Lothian.

 

Aelle sorriu diante da minha gabarolice.

 

A tua lição ainda não terminou, Derfel disse ele por isso vem. E esporeou de novo o cavalo, continuando a subir a colina, mas agora virava para leste passando por uma mata. Desmontou junto ao bosque, gesticulou à sua escolta para que permanecesse onde estava, depois conduziu-me ao longo de um estreito caminho pantanoso até uma clareira onde se encontravam dois pequenos edifícios de madeira. Eram pouco maiores do que cabanas com telhados inclinados de colmo e paredes baixas feitas de troncos de árvores não aparadas.

 

Vês? disse ele, apontando para a empena da cabana mais próxima. Cuspi para afastar o mal, porque ali, bem alto naquela empena, estava

 

uma cruz de madeira. Aqui na pagã Lloegyr, estava uma das últimas coisas que eu alguma vez esperara ver: uma igreja cristã. A segunda cabana, levemente mais baixa do que a igreja, era sem sombra de dúvida os aposentos do sacerdote, que acorreu à nossa chegada arrastando-se para fora da porta baixa da sua choupana. Ele tinha tonsura, usava as vestes negras de um monge e uma barba castanha emaranhada. Reconheceu Aelle e fez-lhe uma longa vénia.

 

Saudações de Cristo, meu Rei e Senhor! disse o homem com uma má pronúncia saxónica.

 

De onde és? perguntei na língua inglesa.

 

Ele pareceu surpreendido por lhe falarem na sua língua nativa.

 

De Gobannium, Senhor respondeu-me. A mulher do monge, uma criatura desgrenhada de olhar rancoroso, arrastou-se para fora da choupana ficando de pé ao lado do marido.

 

O que fazes aqui? perguntei-lhe.

 

O Bom Jesus Cristo abriu os olhos do rei Aelle, Senhor disse ele e convidou-nos a trazer as novas de Cristo ao seu povo. Estou aqui com o meu irmão, o sacerdote Gorfydd para pregar os Evangelhos aos Sais.

 

Olhei para Aelle,. que sorria dissimuladamente.

 

Missionários de Gwent? perguntei.

 

Criaturas débeis, não são? inquiriu Aelle, fazendo um gesto ao monge e à sua mulher para que voltassem para dentro da cabana. Mas eles pensam que nos irão afastar da adoração de Thunor e Seaxnet e a mim satisfaz-me deixá-los pensar desse modo. Por enquanto.

 

Porque disse eu, lentamente o rei Meurig vos prometeu tréguas desde que deixásseis os seus sacerdotes virem pregar ao vosso povo?

 

Aelle riu.

 

É um tolo, esse Meurig. Preocupa-se mais com as almas da minha gente do que com a segurança do seu território, e dois sacerdotes são um preço baixo a pagar por manter os mil lanceiros de Gwent parados enquanto nós tomamos Dumnónia. Colocou um braço em volta dos meus ombros e conduziu-me em direcção aos cavalos. Vês, Derfel? Gwent não lutará, pelo menos enquanto o seu rei acreditar que há uma hipótese de espalhar a sua religião entre as minhas gentes.

 

E a religião está a expandir-se? perguntei. Ele soprou.

 

Entre alguns escravos e mulheres, mas poucos, e não se espalhará muito. Tratarei de o impedir. Eu vi o que essa religião fez à Dumnónia, e não o permitirei aqui. Os nossos antigos Deuses são suficientemente bons para nós, Derfel, então porque precisaríamos de novos? Essa é uma parte dos infortúnios dos Bretões. Eles perderam os seus Deuses.

 

Merlim não, afirmei.

 

Isso fez com que Aelle hesitasse. Virou-se nas sombras das árvores e vi no seu rosto que estava preocupado. Ele sempre temera Merlim.

 

Eu ouço histórias disse ele sem convicção.

 

Os Tesouros da Bretanha afirmei.

 

O que são? perguntou-me.

 

Coisas de pouca monta, meu Rei e Senhor respondi-lhe sendo bastante honesto, apenas uma colecção de coisas velhas e desgarradas. Apenas duas têm de facto valor; uma espada e um caldeirão.

 

Já os viste? perguntou ele, receoso.

 

Sim.

 

O que fazem eles? Encolhi os ombros.

 

Ninguém sabe. Artur acha que não farão nada, mas Merlim diz que comandam os Deuses e que se ele fizer a magia certa na altura certa, então os antigos Deuses da Bretanha acederão à sua ordem.

 

E ele libertará esses Deuses sobre nós?

 

Sim, meu Rei e Senhor afirmei, e seria em breve, muito em breve, mas eu não o disse a meu pai.

 

Aelle franziu as sobrancelhas.

 

Também nós temos Deuses disse ele.

 

Então evocai-os, meu Rei e Senhor. Deixai que os Deuses lutem entre si.

 

Os Deuses não são tolos, rapaz resmungou ele, porque haviam eles de lutar, quando podem ser os homens a matar por eles? Começou a caminhar de novo. Agora estou velho disse-me ele e em todos os anos que já vivi nunca vi os Deuses. Nós acreditamos neles, mas será que eles se importam connosco? Lançou-me um olhar preocupado. Acreditas nesses Tesouros?

 

Acredito no poder de Merlim, meu Rei e Senhor.

 

Mas caminham os Deuses pela terra? Reflectiu nisso durante algum tempo, depois abanou a cabeça. E se os teus Deuses vierem, por que não viriam os nossos para nos proteger? Até tu, Derfel falou com sarcasmo, acharias difícil lutar com o martelo de Thunor. Ele conduzira-me para fora do arvoredo e eu vi que as suas duas escoltas e os nossos cavalos haviam desaparecido. Podemos caminhar disse Aelle e eu dir-te-ei tudo o que se passa na Dumnónia.

 

Eu sei o que se passa na Dumnónia, meu Rei e Senhor.

 

Então sabes, Derfel, que o seu Rei é um tolo, e que o seu governante não quer ser rei, nem tão pouco, o que quer que vocês lhe chamem, um kaiser?

 

Um imperador respondi.

 

Um imperador repetiu ele, troçando da palavra com a sua má pronúncia. Conduziu-me por um caminho junto ao bosque. Não havia mais ninguém à vista. À nossa esquerda, o terreno desaparecia até às zonas planas e brumosas do estuário, enquanto a norte ficavam os bosques densos, húmidos e frios.

 

Os vossos cristãos são rebeldes resumiu Aelle o seu argumento, o vosso Rei é um tolo coxo e os vossos comandantes recusam-se a roubar o trono ao tolo. Com o tempo, Derfel, e mais cedo do que tarde, outro homem irá querer esse trono. Lancelote quase o tomou, e um homem melhor do que Lancelote tentará fazê-lo muito em breve. Fez uma pausa, franzindo as sobrancelhas. Por que razão Guinevere lhe abriu as pernas? perguntou-me ele.

 

Porque Artur não iria ser rei respondi com tristeza.

 

Então ele é um tolo. E no próximo ano será um tolo assassinado, a menos que aceite uma proposta.

 

Que proposta, meu Rei e Senhor? perguntei, detendo-me por baixo de uma faia fogosamente vermelha.

 

Ele parou e colocou as mãos nos meus ombros.

 

Diz a Artur que te entregue o trono, Derfel.

 

Olhei fixamente nos olhos de meu pai. Por instantes pensei que ele gracejava, depois vi que falava tão seriamente quanto um homem pode fazê-lo.

 

Eu? perguntei, surpreendido.

 

Tu, disse Aelle se jurares-me lealdade. De ti exigirei terras, mas podes pedir a Artur que te entregue o trono e tu poderás governar a Dumnónia. O meu povo instalar-se-á nessa terra e amanhá-la-á, e tu governá-la-ás, mas como meu rei-vassalo. Tu e eu constituiremos uma federação. Pai e filho. Tu governas a Dumnónia e eu Aengeland.

 

Aengeland? perguntei, porque a palavra me era estranha.

 

Retirou as mãos dos meus ombros e fez um gesto largo para a paisagem.

 

Aqui! Vocês chamam-nos saxões, mas na verdade tu e eu somos Aengles. Cerdic é saxão, mas tu e eu somos Aenglish e o nosso país é a Aengeland. Isto é Aengeland! Disse-o com orgulho, olhando para aquele topo húmido da colina.

 

E em relação a Cerdic? perguntei.

 

Tu e eu mataremos Cerdic respondeu com sinceridade, depois puxou-me pelo cotovelo e começou de novo a caminhar. Simplesmente desta vez conduziu-me por um caminho que seguia por entre as árvores onde porcos fossavam no meio das folhas que haviam caído havia pouco, à procura dos frutos das faias. Comunica a Artur a minha sugestão disse Aelle. Diz-lhe que pode ficar com o trono em vez de ti, se for isso o que ele quer, mas aquele de vós que o tomar, fá-lo-á em meu nome.

 

Dir-lhe-ei, meu Rei e Senhor afirmei, embora soubesse que Artur iria desdenhar a proposta. Julgo que também Aelle o sabia, mas a sua aversão por Cerdic levara-o a sugeri-lo. Ele sabia que ainda que ele e Cerdic conquistassem todo o sul da Bretanha, teria de haver outra batalha para determinar qual deles seria o Bretwalda, o nome que lhe dão para Grande Rei. Suponho, nesse caso disse eu que Artur e vós atacaríeis Cerdic juntos no próximo ano?

 

Aelle abanou a cabeça.

 

Cerdic deu demasiado ouro aos meus comandantes. Eles não lutarão contra ele, pelo menos enquanto ele lhes oferecer a Dumnónia como recompensa. Mas se Artur te der Dumnónia, e tu ma entregares, nesse caso eles não precisarão do ouro de Cerdic. Diz isto a Artur.

 

Dir-lhe-ei, meu Rei e Senhor repeti, mas eu continuava certo de que Artur nunca concordaria com esta proposta, porque isso significaria quebrar o seu juramento a Uther, o juramento que prometia fazer de Mordred Rei, e esse juramento estava na base de toda a vida de Artur. De facto, eu tinha tanta certeza que ele não quebraria esse juramento que, apesar das minhas afirmações a Aelle, tinha dúvidas que chegasse a mencionar esta proposta a Artur.

 

Então, Aelle conduziu-me a uma vasta clareira onde vi que o meu cavalo me aguardava, e com ele uma escolta de lanceiros montados. No centro da clareira havia uma enorme pedra rugosa da altura de um homem, e apesar de ser pouco vistosa comparada com os blocos de arenito bem conservados dos antigos templos da Dumnónia, ou com as grandes pedras arredondadas e lisas onde aclamávamos os nossos reis, sem dúvida que esta era uma pedra sagrada, uma vez que se erguia sozinha no círculo de relva e nenhum dos guerreiros saxões se atrevia a aproximar-se dela, apesar de um dos seus objectos sagrados, um grande tronco de árvore com um rosto cruel gravado na sua casca, ter sido colocado no terreno contíguo. Aelle conduziu-me na direcção do enorme rochedo, mas deteve-se a alguma distância dele e agarrou numa bolsa que pendia do cinturão da sua espada. Retirou do seu interior um pequeno saco de cabedal e abriu-o, despejando depois qualquer coisa na palma da sua mão. Estendeu-me o objecto e vi tratar-se de um minúsculo anel de ouro com uma pequena ágata lascada.

 

Eu ia dar isto à tua mãe disse-me ele, mas Uther capturou-a antes de eu ter oportunidade de lho dar, e desde essa altura que o guardo. Fica com ele.

 

Peguei no anel. Era uma coisa simples, feita no campo. Não era um trabalho romano, uma vez que as suas jóias são requmtadamente decoradas, nem era feita por saxões, porque eles gostam da sua joalharia pesada, mas talvez o anel tivesse sido feito por algum pobre bretão que se rendera a uma espada saxónica. A pedra verde quadrada nem sequer tinha sido colocada direita, contudo o minúsculo anel possuía uma formosura estranha e frágil.

 

Nunca o dei à tua mãe disse Aelle e se ela está gorda, então agora não consegue usá-lo. Por isso dá-o à tua princesa de Powys. Ouvi dizer que ela é uma boa esposa?

 

É sim, meu Rei e Senhor.

 

Dá-lho ordenou-me Aelle e diz-lhe que se os nossos países se defrontarem na guerra eu pouparei a mulher que usar este anel, poupá-la-ei a ela e à sua família.

 

Obrigado, meu Rei e Senhor disse eu, e coloquei o pequeno anel na minha bolsa.

 

Tenho uma última coisa para te dar disse-me ele e colocou um braço em volta dos meus ombros, levando-me até junto da pedra. Sentia-me culpado por não lhe ter levado nenhuma oferenda; de facto, com medo de vir a Lloegyr a ideia nem tão pouco me ocorreu, mas Aelle deixou passar a minha falha. Deteve-se junto ao bloco de pedra arredondada. Outrora, esta pedra pertenceu aos Bretões afirmou e para eles ela era sagrada. Tem um buraco, vês? Chega-te para o lado, rapaz, olha.

 

Caminhei para o lado da pedra e vi que, de facto, existia um enorme buraco negro que se dirigia para o seu centro.

 

Certa vez falei com um velho escravo britânico confessou-me Aelle, e ele disse-me que se sussurrarmos para o interior do buraco conseguiremos falar com os mortos.

 

Mas vós não acreditais nisso? perguntei-lhe, tendo percebido cepticismo na sua voz.

 

Nós acreditamos que podemos falar com Thunor, Woden e Seaxnet através deste buraco disse Aelle mas, e tu? Talvez consigas chegar aos mortos, Derfel. Ele sorriu. Havemos de nos encontrar de novo, rapaz.

 

Assim o espero, meu Rei e Senhor respondi-lhe, e depois lembrei-me da estranha profecia de minha mãe, de que Aelle seria morto pelo seu filho, e tentei afastá-la como fazendo parte dos delírios de uma mulher velha e louca; mas os Deuses escolhem muitas vezes essas mulheres para suas porta-vozes e, de repente, fiquei sem palavras.

Aelle abraçou-me, apertando o meu rosto contra a gola da sua grande capa de pêlo.

 

A tua mãe tem ainda muito tempo de vida? perguntou-me.

 

Não, meu Rei e Senhor.

 

Enterra-a disse-me ele com os pés para Norte. É um costume da nossa gente. Deu-me um último abraço. Serás levado a casa em segurança afirmou, depois recuou. Para falar aos mortos acrescentou bruscamente tens de dar três voltas à pedra, depois ajoelhares-te diante do buraco. Dá um beijo às minhas netas por mim. Sorriu, satisfeito por me ter surpreendido com a revelação de tão íntimo conhecimento da minha vida. Depois virou-se e afastou-se.

 

A escolta que me aguardava observou-me enquanto eu caminhava três vezes em volta da pedra, quando me ajoelhei e me inclinei para o buraco. De repente tive vontade de chorar e a minha voz embargou-se quando sussurrei o nome da minha filha.

 

Dian? murmurei para o centro da pedra. Minha querida Dian? Espera por nós, minha querida, iremos ter contigo, Dian. A minha filha morta, a minha adorada Dian, assassinada pelos homens de Lancelote. Disse-lhe que nós a amávamos, mandei-lhe o beijo de Aelle, depois inclinei a testa sobre a rocha fria e pensei naquele pequeno corpinho-sombra completamente sozinho no Outro Mundo. Merlim, era verdade, havia-me dito que as crianças brincam felizes por baixo das macieiras de Annwn nesse mundo de morte, mas eu ainda chorava quando, de repente, imaginava que ouvira a sua voz. Teria ela olhado para cima? Estaria ela, como eu, a chorar?

 

Pus-me de novo a caminho. Demorei três dias a chegar a Dun Carie e dei o pequeno anel de ouro a Ceinwyn. Ela sempre gostara de coisas simples e o anel ficava-lhe muito melhor do que algumas jóias romanas trabalhadas. Colocou-o no dedo mindinho da mão direita, o único dedo onde cabia.

 

Embora duvide que me venha a salvar a vida disse ela, lugubremente.

 

Porque não? perguntei. Ela sorriu, admirando o anel.

 

Que saxão fará uma pausa para procurar o anel? Primeiro violar e depois pilhar, não é esse o lema do lanceiro?

 

Tu não estarás aqui quando os saxões chegarem disse eu. Tens de voltar para Powys.

 

Ela abanou a cabeça.

 

Ficarei. Não posso estar sempre a fugir para o meu irmão quando surgem os problemas.

 

Deixei-a sustentar aquele argumento até chegar a altura certa e enviei mensageiros a Durnovária e Caer Cadarn para dar conhecimento a Artur do meu regresso. Quatro dias depois ele veio a Dun Carie, onde lhe comuniquei a recusa de Aelle. Artur encolheu os ombros como se não esperasse outra coisa.

 

Valeu a pena tentar disse ele, em tom de despedida. Não lhe falei na proposta que Aelle me tinha feito, porque com o seu espírito irascível provavelmente pensaria que eu estava tentado a aceitar e podia nunca mais voltar a confiar em mim. Também não lhe disse que Lancelote estivera em Thunreslea, porque eu sabia como ele odiava até mesmo a simples menção daquele nome. Todavia, falei-lhe dos sacerdotes vindos de Gwent e essa notícia fê-lo carregar o sobrolho.

 

Suponho que tenho de visitar Meurig disse ele, com tristeza, fitando o Tor. Depois, virou-se para mim. Sabias perguntou-me, acusadoramente que a Excalibur é um dos Tesouros da Bretanha?

 

Sim, meu Senhor admiti. Merlim dissera-mo há muito, mas havia-me feito jurar segredo com medo que Artur pudesse destruir a espada para demonstrar que não era supersticioso.

 

Merlim pediu-me que a devolvesse disse Artur. Ele sempre soubera que esse pedido seria feito, justamente desde o dia em que Merlim entregara ao jovem Artur a espada mágica.

 

Entregar-lha-ei? perguntei ansioso. Ele fez uma careta.

 

Se eu não o fizer, Derfel, será que isso impedirá a tolice de Merlim?

 

Se for de facto uma tolice, Senhor afirmei, e lembrei-me daquela rapariga nua e reluzente, e afirmei para mim próprio que ela era uma mensageira de coisas prodigiosas.

 

Artur desapertou o cinto da sua bainha em forma de cruz.

 

Leva-lha tu, Derfel disse ele com ressentimento leva-lha tu. Empurrou a preciosa espada para as minhas mãos. Mas diz a Merlim que eu a quero novamente.

 

Direi, Senhor prometi. Porque se os Deuses não vierem na Véspera do Samain, a Excalibur terá de ser desembainhada e usada contra o exército de todos os Saxões.

 

Todavia, naquele momento, a Véspera do Samain estava já próxima e, nessa mesma noite dos mortos, os Deuses seriam evocados.

 

E, no dia seguinte, levei a Excalibur para sul para que o conseguíssemos.

 

Mai Dun é uma enorme colina situada a Sul de Durnovária e em determinada época terá sido a maior fortaleza de toda a Bretanha. Tem um cume amplo, suave e arredondado que se estende para leste e oeste e em torno do qual os antigos construíram três enormes muros com taludes de turfa. Ninguém sabe quando foram construídos, nem mesmo como, e alguns acreditam que os próprios Deuses escavaram os taludes, porque aquele muro triplo parece demasiado alto, e os seus fossos demasiado profundos, para serem meros trabalhos feitos pela mão do homem, embora nem a altura dos muros nem a profundidade dos fossos evitassem que os romanos assaltassem a fortaleza e matassem os seus guardas. Mai Dun havia permanecido vazia desde esse dia, à excepção de um pequeno templo de pedra dedicado a Mitras que os vitoriosos romanos construíram no extremo leste da zona plana do cume. No Verão, a velha fortaleza é um lugar bonito, onde as ovelhas apascentam junto aos muros íngremes e as borboletas tremuleiam por cima da relva, do timo selvagem e das orquídeas. No fim do Outono, porém, quando as noites caem cedo e as chuvas se precipitam de Oeste por toda a Dumnónia, o cume consegue ser um ponto elevado muito frio onde o vento é cortante.

 

O caminho principal para o cume, semelhante a um labirinto, conduz ao portão oeste e quando levei a Excalibur a Merlim o chão estava escorregadio por causa da lama. Uma horda de gente simples caminhava penosamente comigo. Alguns carregavam enormes molhos de lenha às costas, outros acartavam odres com água para beber, enquanto alguns outros acicatavam os bois que arrastavam enormes troncos de árvores ou puxavam trenós empilhados com ramos. Os flancos dos bois escorriam sangue e eles debatiam-se para que as suas cargas subissem o caminho íngreme e tortuoso de onde, bem acima de mim no talude de relva mais distante, pude ver lanceiros montando guarda. A presença de tais lanceiros confirmou o que me fora dito em Durnovária, que Merlim encerrara o acesso a Mai Dun a todas as pessoas excepto aos que vinham para trabalhar.

 

Dois lanceiros guardavam o portão. Eram ambos guerreiros irlandeses Escudos Negros, alugados a Oengus mac Airem, e eu questionei-me sobre quanto da fortuna de Merlim estava a ser gasta a preparar este desolador forte de erva para a vinda dos Deuses. Os homens perceberam que eu não era um dos que trabalhavam em Mai Dun e desceram a encosta ao meu encontro. Tendes algo a tratar aqui, Senhor? perguntou-me um deles, respeitosamente. Eu não colocara a minha armadura, mas levava a Hywelbane e a sua bainha era suficiente para mostrar que era um homem de posição.

 

Venho tratar de um assunto com Merlim respondi. O Escudo Negro não se afastou para o lado.

 

Muita gente vem aqui, Senhor disse ele e diz ter assuntos a tratar com Merlim. Mas terá Merlim assuntos a tratar com eles?

 

Diz-lhe, ordenei, que Lorde Derfel lhe trouxe o último Tesouro. Tentei imbuir as palavras com o devido sentido de formalidade, mas não pareceram impressionar os Escudos Negros. O mais novo afastou-se subindo com a mensagem, enquanto o mais velho ficou a conversar comigo. Tal como a maioria dos lanceiros de Oengus ele parecia um simpático trapaceiro. Os Escudos Negros vieram da Demétia, um reino Oengus que surgira na costa oeste bretã, mas apesar de serem invasores, os lanceiros irlandeses de Oengus não eram odiados como os Saxões. Os Irlandeses lutavam contra nós, roubavam-nos, faziam de nós escravos e tiravam-nos as nossas terras, mas falavam uma linguagem próxima da nossa, os seus Deuses eram os nossos Deuses e, quando não lutavam contra nós, misturavam-se com bastante facilidade com os bretões nativos. Alguns, como o próprio Oengus, pareciam agora mais britânicos do que irlandeses, porque a sua Irlanda natal, que sempre se orgulhara de nunca ter sido invadida pelos romanos, havia nessa altura sucumbido à religião que os romanos haviam trazido. Os Irlandeses tinham adoptado o Cristianismo, apesar de os Senhores de Além-Mar, aqueles reis irlandeses como Oengus que se haviam apoderado de terras na Bretanha, ainda se manterem fiéis aos seus antigos Deuses. ”Na próxima Primavera”, pensei, ”a menos que os ritos de Merlim tragam esses Deuses para nos auxiliar, estes lanceiros Escudos Negros lutarão, sem dúvida, pela Bretanha contra os Saxões.”

 

Foi o jovem príncipe Gawain quem surgiu no cume para me receber. Desceu pelo caminho com grandes passadas, coberto pela sua armadura de lâminas metálicas brancas como a cal, embora o seu esplendor se tivesse desvanecido quando os pés lhe escorregaram no caminho lamacento e ele caiu sentado poucos metros mais adiante.

 

Lorde Derfel! gritou ele enquanto se erguia amparando-se com as mãos Lorde Derfel! Vinde, vinde! Bem-vindo! Fez um sorriso radiante quando me aproximei. Não é emocionante? perguntou.

 

Ainda não sei, meu Príncipe e Senhor.

 

Um triunfo! disse ele com entusiasmo, pisando cuidadosamente em volta do pedaço lamacento que provocara a sua queda. Um belíssimo trabalho! Rezemos para que não seja em vão.

 

Toda a Bretanha reza para que assim seja disse eu excepto talvez os Cristãos.

 

Dentro de três dias, Lorde Derfel assegurou-me já não haverá cristãos na Bretanha, porque todos terão visto os verdadeiros Deuses diante de si. Desde que acrescentou ansiosamente não chova. Olhou para cima, para as nuvens carregadas e, de repente, pareceu prestes a chorar.

 

Chuva? perguntei.

 

Ou talvez sejam as nuvens que impedem a vinda dos Deuses. Chuva ou nuvens, não tenho a certeza, e Merlim está impaciente. Ele não diz, mas] eu penso que a chuva é o pior, ou talvez sejam as nuvens. Fez uma pausa continuando cabisbaixo. Talvez ambas. Perguntei a Nimue, mas ela não gosta de mim, ele pareceu-me muito infeliz por isso não tenho a certeza, mas continuo a suplicar aos Deuses para que limpem os céus. E, recentemente, tem estado nublado, muito nublado, e desconfio que os cristãos estão a pedir para que chova. Tendes mesmo trazido a Excalibur?

 

Desatei o pano que cobria a espada embainhada e empunhei o copo na sua direcção. Por um instante não se atreveu a tocar-lhe, depois cautelosamente retirou Excalibur da bainha. Olhou fixa e reverentemente para a lâmina, depois tocou com um dedo nos embutidos em espiral e nos dragões cravados que decoravam o aço.

 

Feita no Outro Mundo disse ele, a voz cheia de admiração pelo próprio Gofannon!

 

É mais provável que tenha sido forjada na Irlanda disse eu pouco indulgente, porque havia algo na juventude e credulidade de Gawain que me levava a destruir a sua inocência devota.

 

Não, Lorde assegurou-me ele com seriedade, foi feita no Outro Mundo. Entregou-me de novo Excalibur. Vinde, Lorde disse eu, tentando apressar-me, mas voltou a escorregar na lama equilibrando-se com dificuldade. A sua armadura branca, tão impressionante à distância, era andrajosa. As suas lâminas metálicas estavam salpicadas de lama e esbatidas, mas ele possuía uma indubitável autoconfiança que impedia que parecesse ridículo. O seu longo cabelo dourado estava preso com um tecido axadrezado que lhe pendia até ao fundo das costas. Quando transpusemos a passagem da entrada que serpenteava por entre os grandes taludes de relva perguntei a Gawain como conhecera Merlim. Oh, desde sempre que conheço Merlim! respondeu-me satisfeito o príncipe. Ele frequentava a corte de meu pai, embora não muito ultimamente, mas quando eu era apenas um garoto ele estava sempre lá. Era o meu professor.

 

O vosso professor? pareci surpreendido e estava-o realmente, mas Merlim sempre fora reservado e nunca me havia falado de Gawain.

 

Não na escrita disse Gawain, isso ensinaram-mo as mulheres. Não, Merlim ensinou-me a conhecer o meu destino. Sorriu envergonhado. Ensinou-me a ser puro.

 

A ser puro! lancei-lhe um olhar curioso. Sem mulheres?

 

Nenhuma, Senhor admitiu, inocentemente. Merlim insiste. Pelo menos já não, apesar de antes, claro. A sua voz esmoreceu e ele, de facto, corou.

 

Não admira afirmei que rezes a pedir céus limpos.

 

Não, Senhor, não! protestou Gawain. Eu rezo a pedir céus limpos para que os Deuses venham! E quando isso acontecer, eles trarão Olwen, a Prateada consigo? Voltou a corar.

 

Olwen, a Prateada?

 

Tende-la visto, Senhor, em Lindinis. O seu lindo rosto tornou-se quase etéreo. Caminha com mais suavidade do que uma brisa de vento, a sua pele brilha no escuro e nascem flores nas suas pegadas.

 

E ela está-te destinada? perguntei, reprimindo uma maldosa pontinha de inveja perante a ideia de esse espírito ágil e brilhante ser dado ao jovem Gawain.

 

Casar-me-ei com ela quando a minha tarefa estiver terminada disse ele com um ar sério, apesar de agora o meu dever ser guardar os Tesouros. Mas dentro de três dias darei as boas-vindas aos Deuses e levá-los-ei ao encontro do inimigo. Deverei ser eu o libertador da Bretanha. Esta jactância ultrajante foi dita com toda a calma, como se fosse uma tarefa vulgar. Fiquei calado, seguindo-o apenas e passando pelo fundo fosso que se encontra entre o centro de Mai Dun e os muros interiores e reparei que o seu valado estava cheio de pequenos abrigos temporários feitos com ramos e colmo. Dentro de dois dias Gawain viu para onde eu olhava desmancharemos estes abrigos e atirá-los-emos para as fogueiras.

 

Fogueiras?

 

Ireis ver, Senhor, ireis ver.

 

Embora no início, quando cheguei ao cume, não tivesse conseguido perceber o que via. O pico de Mai Dun é um espaço alongado e coberto de relva onde se pode abrigar uma tribo inteira com todos os seus haveres em tempo de guerra, mas agora a extremidade oeste da colina estava vedada e gradeada com um complexo arranjo de sebes secas.

 

Ali! disse Gawain orgulhoso, apontando para as sebes como se tivessem sido feitas apenas por ele.

 

As pessoas que carregavam a lenha eram dirigidas para uma das sebes mais próximas, para onde atiravam os seus molhos e se apressavam a apanhar ainda mais lenha. Então vi que as sebes eram, na verdade, enormes vigas de madeira que estavam a ser preparadas para arder. As pilhas eram maiores do que um homem, e pareceu-me haver quilómetros delas, mas só quando Gawain me levou para cima da muralha mais interior é que vi o desenho que as sebes formavam.

 

Enchiam toda a parte oeste do planalto e no seu centro estavam cinco pilhas de lenha, que formavam um círculo no meio de um espaço vazio com cerca de sessenta ou setenta passos de largura. Este vasto espaço estava rodeado por uma sebe em espiral, que serpenteava em três voltas inteiras, de modo que toda aquela espiral, incluindo o centro, tinha mais de cento e cinquenta passos de comprimento. Fora da espiral havia um círculo de relva vazio bordejado por um anel de seis espirais duplas, cada uma desenrolando-se de um espaço circular e enrolando-se de novo para se juntar a outra, de modo que ficavam doze espaços com fogueiras em círculo no intrincado anel exterior. As espirais duplas tocavam uma na outra de modo a formarem uma muralha de fogueiras a toda a volta do compacto desenho.

 

Doze círculos mais pequenos perguntei a Gawain para treze Tesouros?

 

O Caldeirão, Senhor, estará no centro respondeu ele com medo na voz.

 

Era um trabalho gigantesco. As sebes eram altas, bem acima da altura de um homem, e estavam todas cheias de combustível; de facto, no topo daquela colina devia haver já lenha suficiente para manter as fogueiras de Durnovária a arder durante nove ou dez Invernos. As espirais duplas no extremo oeste da fortaleza estavam ainda a ser completadas, e eu conseguia ver os homens a descarregarem energicamente a madeira para que as fogueiras não se consumissem rapidamente, mas ardessem durante muito tempo e intensamente. Havia troncos inteiros de árvores a aguardar as chamas no interior dos madeiros dos taludes. ”Deveria ser um fogo”, pensei, ”para assinalar o fim do mundo.”

 

E, de certo modo, supunha eu, era exactamente isso o que as fogueiras pretendiam assinalar. Seria o fim do mundo como nós o conhecíamos, porque se Merlim tivesse razão então os Deuses da Bretanha viriam até este lugar alto. Seriam menos os Deuses que iriam para os círculos mais pequenos do anel exterior enquanto Bei descesse para o centro fogoso de Mai Dun, onde o seu Caldeirão aguardava. O Grande Bei, Deus dos Deuses, o Senhor da Bretanha, viria numa enorme corrente de ar com as estrelas a luzirem na sua esteira, semelhantes a folhas outonais lançadas por um vento tempestuoso. E aí, no local onde as cinco fogueiras individuais marcavam o centro dos círculos de chama de Merlim, Bei pisaria de novo em Ynys Prydain, a Ilha da Bretanha. De repente senti a pele fria. Até esse momento não compreendera exactamente a magnificência do sonho de Merlim, e agora quase me soterrava. Dentro de três dias, apenas três dias, os Deuses estariam ali.

 

Temos mais de quatrocentas pessoas a trabalhar nas fogueiras disse-me Gawain com seriedade.

 

Acredito que sim.

 

E marcámos as espirais continuou ele com corda de fadas.

 

Com quê?

 

Uma corda, Senhor, tecida a partir do cabelo de uma virgem e apenas com um fio de largura. Nimue ficou no centro e eu marquei o perímetro com passos e Merlim, o meu Senhor, assinalou os meus passos com pedras de gnomos. As espirais tinham de ficar perfeitas. Levou uma semana a fazê-las, porque a corda partia-se constantemente e sempre que isso acontecia tínhamos de começar de novo.

 

Afinal, talvez não fosse uma corda de fadas, meu Príncipe? gracejei com ele.

 

Ah, era, Senhor assegurou-me Gawain. Foi tecida com o meu próprio cabelo.

 

E na Véspera do Samain perguntei-lhe, acendereis as fogueiras e esperareis?

 

Três horas passadas sobre outras três, Senhor, as fogueiras terão de arder, e à sexta hora iniciamos a cerimónia. E depois, em qualquer altura essa noite deverá tornar-se dia claro, o céu encher-se-á de fogo e o ar cheio de fumo será varrido num redemoinho pelo bater das asas dos Deuses.

 

Gawain havia-me conduzido ao longo do muro norte do forte, mas agora gesticulava para baixo, indicando o sítio onde se erguia o pequeno Templo de Mitras, mesmo a Leste dos círculos de lenha.

 

Podeis esperar aqui, Senhor disse ele enquanto vou buscar Merlim.

 

Ele está longe? perguntei, pensando que Merlim estivesse num dos abrigos temporários virados para a extremidade leste do planalto.

 

Não tenho a certeza onde está confessou Gawain, mas sei que foi buscar Anbarr e julgo saber onde possa estar.

 

Anbarr? perguntei. Eu apenas conhecia Anbarr das histórias em que ele era um cavalo mágico, um garanhão indomável afamado por galopar tão velozmente na água como em terra.

 

Montarei Anbarr ao lado dos Deuses disse Gawain, orgulhoso e empunharei o meu estandarte contra o inimigo. Apontou para o templo onde uma enorme bandeira se inclinava sem cerimónia sobre o baixo telhado de telhas. O estandarte da Bretanha acrescentou Gawain, e conduziu-me ao templo onde desfraldou o estandarte. Era um vasto quadrado de tecido branco decorado com o desafiador dragão vermelho da Dumnónia. Toda a fera era garras, cauda e fogo. É, sem dúvida, o estandarte da Dumnónia confessou Gawain, mas não creio que os outros reis britânicos se importem, não achais?

 

Não, se levardes os Sais para o mar disse eu.

 

Essa é a minha tarefa, Senhor disse Gawain com grande solenidade. Com a ajuda dos Deuses, claro, e disto tocou em Excalibur que estava ainda debaixo do meu braço.

 

Excalibur! pareci surpreendido, uma vez que não conseguia imaginar homem nenhum sem ser Artur empunhando a espada mágica.

 

Que mais? perguntou-me Gawain. Devo empunhar a Excalibur, montar Anbarr e expulsar o inimigo da Bretanha. Sorriu satisfeito, depois indicou com um gesto um banco que se encontrava junto à porta do templo. Se esperardes, Senhor, irei à procura de Merlim.

 

O templo era guardado por seis lanceiros Escudos Negros, mas uma vez que eu tinha ido até ali na companhia de Gawain, eles nem tentaram deter-me quando me curvei para passar sob o baixo lintel da entrada. Não explorei o pequeno edifício por mera curiosidade, mas porque, naquela época, Mitras era o meu principal Deus. Ele era o Deus dos soldados, o Deus secreto. Haviam sido os Romanos quem introduzira o seu culto na Bretanha e, apesar de já há muito terem partido, Mitras era ainda um dos Deuses favoritos da maioria dos guerreiros. Este templo era minúsculo, apenas com duas pequenas salas sem janelas imitando a gruta onde Mitras nascera. A sala exterior estava cheia de caixas de madeira e cestos de vime que, suspeitei, continham os Tesouros da Bretanha, embora não tivesse levantado nenhuma das tampas para me certificar. Em vez disso, baixei-me para passar pela porta interior que dava acesso ao escuro santuário e nele encontrei, tremeluzindo, o grande Caldeirão de ouro e prata de Clyddno Eiddyn. Para além do Caldeirão, e apenas vislumbrando-se à escassa luz acinzentada que penetrava pelas duas portas baixas, encontrava-se aí também o altar de Mitras. Merlim ou Nimue, ambos ridicularizavam Mitras, havia colocado um crânio de texugo no altar para desviar a atenção dos Deuses. Afastei o crânio com uma palmada, e ajoelhei-me ao lado do Caldeirão, rezando. Pedi a Mitras que ajudasse os nossos outros Deuses e rezei também para que ele viesse a Mai Dun e emprestasse o seu terror para matar os nossos inimigos. Toquei com o copo da Excalibur na sua pedra e questionei-me sobre a última vez que um touro ali fora sacrificado. Imaginei os soldados romanos forçando o touro a ajoelhar-se, depois empurrando-lhe as ancas e puxando os chifres para o fazer passar pelas portas baixas até, uma vez no santuário interior, levantar-se e mugir com medo, cheirando-lhe apenas a inúmeros lanceiros na escuridão. E aí, na escuridão aterradora, ele seria estropiado pelo corte dos tendões da parte de trás dos joelhos. Mugiria de novo, cairia, mas ainda assim agitaria violentamente os seus enormes chifres para os idólatras, mas eles vencê-lo-iam e escoariam o seu sangue, e o touro morreria devagar, e o templo encher-se-ia com o cheiro pestilento dos seus excrementos e do seu sangue. Depois, os idólatras beberiam o sangue do touro em homenagem a Mitras, tal como ele nos ordenara. Os Cristãos, haviam-me dito, tinham uma cerimónia semelhante, mas eles afirmavam que não matavam nada durante os seus ritos, apesar de poucos pagãos acreditarem nisso, já que a morte é o emolumento que devemos aos Deuses como agradecimento pela vida que eles nos dão.

 

Permaneci de joelhos na escuridão, como um guerreiro de Mitras que vai a um dos seus templos esquecidos, e enquanto rezava, senti o mesmo cheiro a mar que me recordou o cheiro a algas marinhas e o intenso odor a sal que invadira as nossas narinas quando Olwen a Prateada caminhara imponente, tão esguia, delicada e bela para a arcada de Lindinis. Por um instante pensei que fosse da presença de um qualquer Deus, ou talvez que Olwen a Prateada tivesse, ela própria, vindo a Mai Dun, mas nada se moveu; não ocorreu nenhuma visão, nenhuma pele nua reluziu, apenas continuei a sentir o leve odor a sal do mar e o suave sussurro do vento no exterior do templo.

 

Voltei-me e passei pela porta interior e aí, na sala exterior, o cheiro a mar tornou-se mais forte. Abri as tampas das caixas com um puxão e levantei as coberturas de serapilheira dos cestos de vime. Pensei ter aí encontrado o motivo do cheiro a mar, mas descobri que dois dos cestos estavam cheios de sal que empedernira ao ar húmido do Outono. Contudo, o cheiro a mar não provinha do sal, mas de um terceiro cesto que estava cheio de algas molhadas. Toquei nelas e lambi o dedo ficando com um gosto a água salgada na boca. Um enorme cântaro de barro estava junto do cesto, tapado, e, ao levantar a tampa, descobri que o pote estava cheio de água do mar, provavelmente para manter as algas húmidas. Remexi dentro do cesto das algas e encontrei, logo abaixo da superfície, uma camada de crustáceos. O peixe tinha longas, finas e elegantes conchas dos dois lados, que fazia lembrar mexilhão, embora estes fossem um pouco maiores do que os mexilhões e as suas conchas fossem de um branco acinzentado em vez de serem pretas. Tirei um, cheirei-o e pensei que fosse apenas alguma iguaria que Merlim gostasse de comer. O crustáceo, talvez ressentindo-se do meu toque, abriu as suas conchas e espichou um esguicho de líquido para a minha mão. Voltei a colocá-lo no cesto e tapei a camada de crustáceos vivos com as algas.

 

Assim que me virei para a porta exterior, planeando aguardar do lado de fora, olhei para a minha mão. Fiquei a fitá-la durante alguns instantes, julgando que os meus olhos me enganavam, mas com a ténue luz que entrava pela porta exterior não consegui ter a certeza, por isso recuei para a porta interior para junto do grande Caldeirão ao lado do altar e aí, na parte mais escura do templo de Mitras, mantive a mão direita diante do rosto.

 

E vi que brilhava.

 

Fitei-a. Não conseguia acreditar no que via, mas a minha mão brilhava. Não era luminosa, não uma luz interior, mas vi laivos de um indubitável brilho na palma da minha mão. Passei um dedo pela mancha húmida deixada pelo crustáceo, e esse gesto deixou um rasto escuro na superfície reluzente. Então, afinal, Olwen a Prateada não era nenhuma ninfa, nenhum mensageiro dos Deuses, apenas uma rapariga humana besuntada com o líquido dos crustáceos. A magia não provinha dos Deuses mas de Merlim, e todas as minhas esperanças pareceram desvanecer-se naquela sala escura.

 

Limpei a mão à minha capa e saí para a luz do dia. Sentei-me no banco junto à porta do templo e olhei fixamente para o talude interior onde um grupo de crianças davam trambolhões e escorregavam brincando alegre e ruidosamente. Voltava a sentir a angústia que me assaltara durante a minha viagem a Lloegyr. Queria desesperadamente acreditar nos Deuses, contudo estava cheio de dúvidas. Que importava isso, disse a mim mesmo, que a rapariga fosse humana e que a sua luminosidade inumana e difusa fosse um truque de Merlim? Isso não negava os Tesouros, mas sempre que eu pensasse nos Tesouros, e sempre que fosse tentado a duvidar da sua eficácia, tinha de me tranquilizar com a lembrança daquela rapariga nua reluzente. E agora, conforme parecia, ela afinal não era nenhum mensageiro dos Deuses, mas apenas uma das ilusões de Merlim.

 

Senhor? A voz de uma rapariga interrompeu-me os pensamentos. Senhor? perguntou-me novamente, e eu levantei os olhos e vi uma senhorinha roliça e de cabelo escuro sorrindo nervosamente para mim. Trazia um vestido simples e uma capa, tinha uma fita em volta dos seus pequenos caracóis escuros e segurava a mão de um rapazinho ruivo. Não vos lembrais de mim, Senhor? perguntou-me, tristonha.

 

Cywwylog respondi, lembrando-me do seu nome. Ela fora uma das nossas servas em Lindinis, onde fora seduzida por Mordred. Levantei-me. Como estás? perguntei-lhe.

 

Bem, tanto quanto posso estar, Senhor respondeu, agradada por me recordar dela. E este é o pequeno Mardoc. Parecido com o pai, não é?

 

Olhei para o rapaz. Tinha, talvez, seis ou sete anos e um rosto robusto e redondo, e o seu cabelo espigado e hirto era justamente igual ao de seu pai, Mordred. Mas em feitio, não sai ao pai disse Cywwylog. É um bom rapazinho, uma jóia, Senhor. Nunca deu um instante de preocupações, pois não, meu querido? Ela inclinou-se e deu um beijo a Mardoc. O rapaz ficou embaraçado com a demonstração de afecto, mas ainda assim fez um sorriso rasgado. Como está a Senhora Ceinwyn? perguntou-me Cywwylog.

 

Muito bem. Muito lhe agradará saber que nos encontrámos.

 

Ela sempre foi boa para mim afirmou Cywwylog. Eu teria ido para a vossa nova casa, Senhor, mas conheci um homem. Agora sou casada.

 

Quem é ele?

 

Idfael Meric, Senhor. Agora está ao serviço de Lorde Lanval. Lanval comandava a guarda que mantinha Mordred na sua prisão dourada.

 

Pensámos que tinhas deixado a nossa casa confessei a Cywwylog

 

por Mordred te ter dado dinheiro.

 

Ele? Dar-me dinheiro! Cywwylog riu. Viverei para ver as estrelas caírem antes que isso aconteça, Senhor. Naquela altura eu era uma tola

 

confessou-me Cywwylog, alegremente. Claro que não sabia o tipo de homem que Mordred era, e ele também não era um verdadeiro homem, não nessa altura, e creio que fiquei com a cabeça à roda por ele ser Rei, mas não fui a primeira rapariga, pois não? E atrevo-me a dizer que não serei a última. Mas tudo se resolveu pelo melhor. O meu Idfael é um homem bom, e não se importa que o pequeno Mardoc seja um cuco no seu ninho. É o que tu és, meu querido disse ela um cuco! E inclinou-se para abraçar Mardoc, que se contorceu nos seus braços e largou em grandes gargalhadas quando ela lhe fez cócegas.

 

O que fazes aqui? perguntei-lhe.

 

O Senhor Merlim mandou-nos chamar disse Cywwylog, orgulhosa. Ele gosta do pequeno Mardoc, lá isso gosta. Estraga-o com mimos! Está sempre a dar-lhe comida, lá isso está, e tu vais ficar gordo, vais sim, ficarás gordo como um porco! E fez de novo cócegas no rapaz, que riu, tentou libertar-se, e por fim conseguiu soltar-se. Não correu para longe, ficando apenas a alguns metros de distância, onde me observou com o dedo polegar na boca.

 

Merlim mandou-te chamar? perguntei-lhe.

 

Precisava de uma cozinheira, Senhor, foi o que ele disse, e atrevo-me a dizer que sou tão boa cozinheira como qualquer outra, e com o dinheiro que ele ofereceu, bem, Idfael disse que eu tinha de vir. Não que o Senhor Merlim coma muito. Ele gosta do seu queijo, não é, mas para isso não precisa de nenhuma cozinheira, não é?

 

Ele come crustáceos?

 

Ele gosta das suas amêijoas, mas não come muitas. Não, o que ele mais come é queijo. Queijo e ovos. Ele não é como vós, Senhor, lembro-me que apreciáveis muito a carne.

 

E ainda aprecio afirmei.

 

Foram bons tempos disse Cywwylog. Aqui o pequeno Mardoc tem a mesma idade da vossa Dian. Pensei muitas vezes que eles fariam um bom par. Como está ela?

 

Ela morreu, Cywwylog disse-lhe eu. O seu rosto esmoreceu.

 

Oh, não, Senhor, dizei que não é verdade!

 

Foi morta pelos homens de Lancelote. Ela cuspiu para a relva.

 

Malvados, todos eles. Lamento muito, Senhor.

 

Mas ela é feliz no Outro Mundo garanti-lhe e um dia todos lhe faremos companhia.

 

Fareis, Senhor, fareis. Mas e as outras?

 

Morwenna e Seren estão bem.

 

Ainda bem, Senhor. Sorriu. Ficais aqui para as Evocações?

 

As Evocações? Era a primeira vez que eu ouvia chamar-lhe aquilo. Não, disse eu não fui convidado. Pensei em vê-las de Durnovária.

 

Será uma coisa digna de se ver disse ela; depois sorriu e agradeceu-me por ter falado com ela, e a seguir fingiu apanhar Mardoc que fugia dela, dando gargalhadas de excitação. Sentei-me, satisfeito por a ter encontrado de novo, e depois questionei-me sobre os planos de Merlim. Porque teria ele querido encontrar Cywwylog? E porquê contratar uma cozinheira, quando ele jamais havia empregue alguém para lhe preparar as refeições?

 

Uma agitação repentina para lá dos taludes interrompeu-me os pensamentos e dispersou as crianças que brincavam. Levantei-me no preciso instante em que dois homens surgiram puxando uma corda. Gawain apareceu apressado uns segundos depois, e então, no fim da corda vi um enorme e violento garanhão preto. O cavalo tentava libertar-se e por pouco não arrastou os dois homens de encontro ao muro, mas eles agarraram subitamente no cabresto e empurravam o aterrorizado animal para diante quando, de repente, o cavalo se libertou e arrastou os homens atrás de si. Gawain gritou-lhes para que tivessem cuidado, depois entre escorregadelas e passos de corrida foi atrás do enorme animal. Merlim, aparentemente indiferente ao pequeno drama, seguiu-os com Nimue. Ficou a observar enquanto o cavalo era levado para um dos abrigos a leste e depois ele e Nimue desceram em direcção ao templo.

 

Ah, Derfel! cumprimentou-me ele, descuidadamente. Pareces muito sorumbático. Tens dores de dentes?

 

Trouxe-vos a Excalibur afirmei com severidade.

 

Vejo-o com os meus próprios olhos. Sabes que não sou cego? Às vezes, um tanto surdo, e a vesícula é fraca, mas que mais se pode esperar com a minha idade? Tirou-me a Excalibur, desembainhou-a a alguns centímetros da bainha, depois beijou o aço. A espada de Rhydderch afirmou com receio, e por instantes o seu rosto mostrou um estranho olhar extático, antes de abruptamente embainhar a espada e deixar que Nimue lha tirasse. Então foste ter com teu pai disse-me Merlim. Gostaste dele?

 

Sim, Senhor.

 

Sempre foste um tipo absurdamente emotivo, Derfel disse Merlim, depois lançou um olhar rápido a Nimue, que libertara a Excalibur da sua bainha e segurava com força a lâmina nua contra o seu corpo magro. Por uma qualquer razão Merlim pareceu incomodado com isso e arrancou-lhe a bainha, tentando depois agarrar a espada. Ela não queria largá-la e Merlim, depois de se debater com ela por breves instantes, abandonou a tentativa. Constou-me que poupaste Liofa? perguntou, virando-me as costas. Isso foi um erro. Liofa é uma fera muito perigosa.

 

Como sabeis que o poupei? Merlim lançou-me um olhar reprovador.

 

Talvez eu fosse uma das corujas que estava na empena do palácio de Aelle, Derfel, ou talvez fosse um dos ratos que correm no seu chão? Precipitou-se para Nimue e desta vez conseguiu tirar-lhe a espada das mãos. Não se pode estragar a magia murmurou ele, fazendo com que a lâmina deslizasse desajeitadamente para o interior da bainha. Artur não se importou de emprestar a espada? perguntou-me ele.

 

Porque haveria de se importar, Senhor?

 

Porque Artur está perigosamente próximo do cepticismo respondeu Merlim, inclinando a Excalibur para passar pela porta baixa do templo. Ele acha que nos conseguimos orientar sem os Deuses.

 

Então é uma pena afirmei sarcasticamente, que ele nunca tenha visto Olwen, a Prateada, brilhando na escuridão.

 

Nimue sibilou-me. Merlim fez uma pausa, depois, virou-se lentamente e endireitou-se junto à porta da entrada, lançando-me um olhar severo.

 

Porquê, Derfel, por que razão é uma pena? perguntou num tom de voz grave.

 

Porque se ele a tivesse visto, Senhor, certamente que acreditaria nos Deuses. Desde que, evidentemente, não descobrisse os vossos crustáceos.

 

Então é isso disse ele. Andaste a investigar, não foi? Andaste a meter o teu gordo nariz saxão onde não eras chamado e encontraste os meus bivalves.

 

Bivalves?

 

Os crustáceos, tolo, chamam-se bivalves. Pelo menos, os plebeus chamam-lhes assim.

 

E brilham? perguntei.

 

O seu suco tem qualidades luminosas admitiu Merlim com desenvoltura. Percebi que estava aborrecido com a minha descoberta, mas fazia os possíveis por não se mostrar irritado.

 

Plínio refere o fenómeno, mas depois fala em tantas coisas que é muito difícil saber exactamente em que acreditar. A maioria das suas noções são completos disparates, claro. Todos esses disparates sobre os druidas que cortam visco-branco ao sexto dia da lua nova! Eu nunca fiz isso, nunca! Ao quinto dia, sim, e por vezes, ao sétimo, mas ao sexto? Nunca! E ele também recomenda, tanto quanto me recordo, que se amarre a faixa do peito de uma mulher em volta do crânio para curar as dores de cabeça, mas o remédio não dá resultado. Como podia dar? A magia está nos seios, não na faixa, por isso é evidentemente muito mais eficaz enterrar a cabeça doente nos próprios seios. Comigo, o remédio nunca falhou, seguramente. Leste Plínio, Derfel?

 

Não, Senhor.

 

É verdade, nunca te ensinei Latim. Descuido meu. Bom, ele estudou o bivalve e notou que as mãos e as bocas daqueles que comiam a criatura, depois de o fazerem reluziam, e confesso que fiquei intrigado. Quem não ficaria? Eu estava relutante em explorar mais o fenómeno, porque desperdiçara muito do meu tempo nas noções mais credíveis de Plínio, mas essa revelou-se exacta. Lembras-te de Caddwg? O barqueiro que nos libertou de Ynys Trebes? Agora ele é o meu pescador de bivalves. As criaturas vivem nos buracos das rochas, o que é bastante maçador, mas eu pago bem a Caddwg e ele apanha-os assiduamente como um verdadeiro caçador de bivalves. Pareces desiludido, Derfel.

 

Eu pensei, Senhor comecei, depois hesitei, sabendo que ia ser motejado.

 

Oh! Tu pensaste que a rapariga vinha dos céus! Merlim terminou a frase por mim, depois assobiou com ridicularia. Ouviste isto, Nimue? O nosso bravo guerreiro, Derfel Cadarn, acreditou que a nossa pequena Olwen era uma aparição! Arrastou a última palavra, imprimindo-lhe um tom portentoso.

 

Era suposto ele acreditar nisso disse Nimue, secamente.

 

Pensando bem, creio que sim admitiu Merlim. É um bom truque, não é, Derfel?

 

Todavia, não passa de um truque, Senhor disse eu, incapaz de esconder a minha desilusão.

 

Merlim suspirou.

 

És absurdo, Derfel, completamente absurdo. A existência de truques não implica a ausência de magia, mas a magia nem sempre nos é concedida pelos Deuses. Não consegues perceber nada? Esta última pergunta foi feita de forma irritada.

 

Eu sei que fui iludido, Senhor.

 

Iludido! Iludido! Não sejas tão patético. És pior do que Gawain! um druida no seu segundo dia de treino conseguia iludir-te! A nossa tarefa não é satisfazer a tua curiosidade infantil, mas sim fazer o trabalho dos Deuses, e esses Deuses, Derfel, afastaram-se muito de nós. Partiram para longe! Desapareceram, sumiram-se na escuridão, mergulharam no abismo de Annwn. Eles têm de ser evocados, e para o fazer preciso de trabalhadores, e para atrair trabalhadores tenho de oferecer um pouco de esperança. Achas que eu e Nimue conseguíamos construir as fogueiras sozinhos? Nós precisávamos de gente! De centenas de pessoas! E besuntar uma rapariga com o líquido dos bivalves trouxe-os até nós, e tudo o que tu fazes é queixares-te por teres sido iludido. Quem se importa com o que tu pensas? Porque não te vais daqui e mascas um bivalve? Talvez isso te ilumine. Deu um pontapé no copo da Excalibur, que ainda se projectava para fora do templo. Suponho que aquele tolo do Gawain te mostrou tudo?

 

Ele mostrou-me os anéis de fogo, Senhor.

 

E suponho que agora queiras saber para que servem?

 

Sim, Senhor.

 

Qualquer pessoa de inteligência mediana conseguiria descobri-lo por si disse Merlim, imponente. Os Deuses estão muito longe, isso é óbvio, ou então não nos ignorariam, mas há muitos anos eles concederam-nos os meios para os evocarmos: os Tesouros. Há tanto tempo que os Deuses partiram para o vazio de Annwn que os Tesouros só por si não funcionam. Por isso temos de atrair a atenção dos Deuses; e como o conseguiremos? É simples! Enviamos um sinal para o abismo, e esse sinal é apenas um enorme desenho de fogo, e nesse desenho colocamos os Tesouros. Depois fazemos uma ou duas outras coisas que não têm, de facto, muita importância. Depois disso já posso morrer em paz, em vez de ter de explicar as matérias mais elementares a idiotas absolutamente crédulos. E não, acrescentou ele antes de eu sequer dizer alguma coisa, ou fazer alguma pergunta tu não podes estar aqui em cima, na Véspera do Samain. Quero aqui apenas aqueles em quem posso confiar. E se cá voltares ordenarei aos guardas que usem a tua barriga para a prática de esgrima.

 

Porque não circundar apenas a colina com uma barreira de espíritos? perguntei. Uma barreira de espíritos era uma linha de crânios, enfeitiçados por um druida, que ninguém se atrevia a transpor.

 

Merlim fitou-me de olhos esbugalhados como se o meu juízo tivesse desaparecido.

 

Uma barreira de espíritos! Na Véspera do Samain! É a única noite do ano, idiota, em que as barreiras de espíritos não dão resultado! Tenho de te explicar tudo? Uma barreira de espíritos, palerma, funciona, porque prende as almas dos mortos para assustar os vivos, mas na Véspera do Samain as almas dos mortos são libertadas para vaguearem e, por isso, não podem ser presas. Na Véspera do Samain, uma barreira de espíritos é quase tão útil para o mundo como a tua massa cinzenta.

 

Acatei calmamente a sua repreensão.

 

Só faço votos para que não haja nuvens afirmei, tentando acalmá-lo.

 

Nuvens? desafiou-me Merlim. Porque haviam as nuvens de me preocupar? Ah, compreendo! Esse tolo do Gawain falou contigo e ele percebe tudo ao contrário. Se estiver nublado, Derfel, ainda assim os Deuses verão o nosso sinal, porque a sua visão, ao contrário da nossa, não é toldada pelas nuvens; mas se estiver muito nublado então é provável que chova, fez com que a sua voz soasse semelhante à de um homem que explica algo muito simples a uma criancinha, e a chuva intensa apagará todas as grandes fogueiras. Pronto, era de facto difícil para ti conseguir descobrir isto sozinho, não era? Olhou para mim furioso, depois virou-se e fitou os círculos de lenha. Apoiou-se no seu bastão preto, cismando na enorme coisa que fizera no cume de Mai Dun. Permaneceu em silêncio durante longo tempo, depois, de repente encolheu os ombros.

 

Já alguma vez pensaste perguntou-me o que poderia ter acontecido se os Cristãos tivessem conseguido colocar Lancelote no trono? A sua ira tinha desaparecido e fora substituída pela melancolia.

 

Não, Senhor respondi.

 

O seu ano 500 teria chegado e todos eles teriam esperado pela vinda gloriosa daquele seu absurdo Deus crucificado. Merlim estivera a olhar para os círculos enquanto falava, mas depois virou-se para olhar para mim. E se ele nunca tivesse vindo? perguntou ele, perplexo. Supõe que os Cristãos estavam todos prontos, todos com as suas melhores capas, todos lavados e limpos e em oração, e depois nada acontecia?

 

Nesse caso, no ano 501 afirmei não haveria Cristãos. Merlim abanou a cabeça.

 

Tenho dúvidas. É a função dos sacerdotes explicarem o inexplicável. Homens como Sansum teriam inventado uma razão, e as pessoas teriam acreditado neles, porque elas querem acreditar desesperadamente. Os povos não desistem da esperança por causa da desilusão, Derfel, eles apenas redobram a sua esperança. Que tolos somos todos nós.

 

Então estais com receio indaguei, sentindo um súbito laivo de pena dele, que nada aconteça no Samain?

 

Claro que estou com receio, seu idiota. Nimue não está. Olhou de soslaio para Nimue, que nos espiava com um olhar taciturno. Tu estás cheia de certezas, minha pequenina, não estás? Merlim troçou dela. Mas quanto a mim, Derfel, gostaria que isto nunca tivesse sido necessário. Nós nem tão-pouco sabemos o que é suposto acontecer quando acendermos as fogueiras. Talvez os Deuses venham, ou talvez aguardem a sua hora. Lançou-me um olhar terrível. Se nada acontecer, Derfel, isso não significa que nada aconteceu. Compreendes isto?

 

Julgo que sim, Senhor.

 

Duvido que compreendas. Nem tão-pouco sei porque me incomodo a desperdiçar explicações contigo! É o mesmo que ensinar a um touro os mais requintados elementos da retórica! Que homem absurdo tu és. Agora podes ir-te. Já entregaste a Excalibur.

 

Artur quere-a de novo disse eu, lembrando-me de dar a mensagem de Artur.

 

Tenho a certeza que sim, e talvez ele a tenha de novo quando Gawain tiver tudo acabado. Ou talvez não. O que importa isso? Deixa-te de me preocupares com ninharias, Derfel. E adeus. Seguiu com passos imponentes, de novo zangado, mas parou alguns metros mais adiante e virou-se, chamando Nimue. Anda, rapariga!

 

Certificar-me-ei de que Derfel parte disse Nimue, e com estas palavras pegou-me pelo cotovelo e encaminhou-me para o talude interior.

 

Nimue! gritou Merlim.

 

Ela ignorou-o, puxando-me pela encosta de relva acima para onde o caminho corria ao longo do talude. Olhei fixamente para os complexos círculos de fogueiras.

 

Vocês fizeram um trabalho imenso afirmei de modo pouco convincente.

 

E tudo será desperdiçado se tu não representares os rituais correctamente disse Nimue petulante. Merlim andava zangado comigo, mas, na maior parte das vezes, a sua ira era fingida e surgia e desaparecia como um relâmpago; contudo, a raiva de Nimue era profunda e convincente e tornava mais pequeno o seu rosto branco e em forma de cunha. Ela nunca fora bonita, e a perda do seu olho conferira ao seu rosto um aspecto terrível. No entanto, havia uma ferocidade e uma inteligência nos seus olhares que a tornavam inesquecível, e agora naquele alto talude com o vento soprando de oeste, ela parecia mais formidável do que nunca.

 

Existe algum perigo perguntei-lhe de o ritual não ser feito correctamente?

 

Merlim é como tu afirmou ela zangada, ignorando a minha pergunta. É emotivo.

 

Disparate afirmei.

 

E o que sabes tu, Derfel? disse ela, com brusquidão. Tens de aguentar as suas fanfarronadas? Tens de discutir com ele? Tens de o tranquilizar? Tens de o ver a cometer o maior erro de toda a história? Fez-me estas perguntas abruptamente. Tens de o ver desperdiçar todo este esforço? Acenou uma mão magra para as fogueiras. És um tolo acrescentou, amargamente. Se Merlim se peidar, achas que é a sabedoria a falar. Ele é um homem velho, Derfel, não viverá por muito mais tempo, e está a perder o seu poder. E o poder, Derfel, vem de dentro. Bateu com a mão entre os seus pequenos seios. Parara no cimo do talude e virou-se para me olhar de frente. Eu era um soldado robusto, ela uma mulher magra, contudo o seu poder suplantava o meu. Sempre assim fora. Em Nimue existia uma paixão tão profunda, obscura e forte que quase nada conseguia suplantá-la.

 

Por que razão as emoções de Merlim põem em perigo o ritual? perguntei-lhe.

 

Porque põem! disse Nimue, e virou-se, continuando a caminhar.

 

Diz-me exigi-lhe.

 

Nunca! disse ela, rispidamente. És um tolo. Caminhei atrás dela.

 

Quem é Olwen, a Prateada? perguntei-lhe.

 

Uma escrava que comprámos em Demétia. Ela foi capturada por Powys e custou-nos mais de seis moedas de ouro por ser tão bonita.

 

E é confirmei, recordando-me dos seus delicados passos pela noite calma de Lindinis.

 

Merlim também acha disse Nimue, com desdém. Ele treme quando a vê, mas hoje em dia está demasiado velho, e além disso temos de fingir que ela é uma virgem por causa de Gawain. E ele acredita em nós! Mas aquele tolo acreditará em qualquer coisa! É um idiota!

 

E casará com Olwen quando tudo isto terminar? Nimue deu uma gargalhada.

 

Isso foi o que prometemos ao tolo, embora possa mudar de ideias quando descobrir que ela nasceu escrava e não é espírito nenhum. Por isso, talvez venhamos a vendê-la. Gostarias de a comprar? Lançou-me um olhar manhoso.

 

Não.

 

Continuas fiel a Ceinwyn? perguntou ela, motejadora. Como está ela?

 

Está bem afirmei.

 

E ela vem para Durnovária para ver as evocações?

 

Não, afirmei.

 

Nimue virou-se lançando-me um olhar desconfiado.

 

Mas tu vens?

 

Irei vê-las, sim.

 

E Gwydre perguntou ela, vais trazê-lo?

 

Sim, ele quer vir, mas primeiro pedirei autorização a seu pai.

 

Diz a Artur que devia deixá-lo vir. Todas as crianças da Bretanha deviam testemunhar a vinda dos Deuses. Será uma visão que jamais se conseguirá esquecer, Derfel.

 

Então, sempre se realiza? perguntei. Apesar dos erros de Merlim?

 

Realiza-se afirmou Nimue, vingativa apesar de Merlim. Realiza-se, porque eu farei com que se realize. Eu darei àquele velho tonto o que ele pretende, quer ele goste ou não. Ela deteve-se, virou-se e agarrou-me na mão esquerda, olhando fixamente com o seu único olho para a cicatriz marcada na sua palma. Aquela cicatriz obrigava-me por juramento a obedecer-lhe e eu pressenti que ela estava prestes a fazer-me algum pedido; mas depois um qualquer impulso de precaução deteve-a. Inspirou fundo, olhou-me fixamente, depois deixou cair a minha mão marcada com a cicatriz. A partir daqui já sabes o caminho disse ela num tom amargo, depois afastou-se.

 

Desci a colina. As pessoas ainda caminhavam penosamente com os seus fardos de lenha em direcção ao cume de Mai Dun. Durante nove horas, dissera Gawain, as fogueiras teriam de arder. Nove horas para encher um céu com chamas e trazer os Deuses à terra. Ou talvez, se os ritos fossem feitos de maneira errada, as fogueiras nada trouxessem.

 

E dentro de três noites descobriríamos qual destas hipóteses se realizaria.

 

Ceinwyn teria gostado de vir a Durnovária para testemunhar a evocação dos Deuses, mas a Véspera do Samain é a noite em que os mortos caminham sobre a terra e ela queria ter a certeza que deixávamos oferendas a Dian. Pensou que o local para as deixar era onde Dian morrera, por isso levou as nossas outras duas filhas até às ruínas da casa senhorial de Ermid e aí, por entre as cinzas da casa, colocou uma bilha de hidromel diluído, algum pão com manteiga e uma mão-cheia de avelãs cobertas com mel que Dian sempre adorara. As suas irmãs colocaram nas cinzas algumas nozes e ovos bem cozidos, depois todas se abrigaram na cabana do guarda-florestal situada nas proximidades e guardada pelos meus lanceiros. Não viram Dian, porque na Véspera do Samain os mortos nunca se expõem, mas ignorar a sua presença é um convite ao infortúnio. De manhã, disse-me Ceinwyn, mais tarde, todos os alimentos haviam desaparecido e a bilha estava vazia.

 

Eu estava em Durnovária quando Issa se juntou a mim com Gwydre. Artur havia dado autorização ao filho para assistir à evocação e Gwydre estava excitado. Nesse ano, ele tinha onze anos, estava cheio de entusiasmo, vida e curiosidade. Tinha a constituição esguia do pai, mas tinha a beleza de Guinevere, porque tinha o seu nariz longo e os seus olhos arrojados. Era travesso, mas não era mau, e tanto Ceinwyn como eu teríamos ficado contentes se a profecia de seu pai se realizasse e ele casasse com Morwenna. Essa decisão não seria tomada antes de dois ou três anos, e até essa altura Gwydre viveria connosco. Ele queria estar no cume de Mai Dun e ficou desiludido quando lhe expliquei que ninguém podia lá estar, excepto aqueles que representavam as cerimónias. Até mesmo as gentes que haviam construído as enormes fogueiras tinham sido mandados embora durante o dia. À semelhança das centenas de pessoas curiosas que haviam vindo de toda a Bretanha, também eles veriam as evocações dos campos junto ao antigo forte.

 

Artur chegou na manhã da Véspera do Samain e eu vi a alegria com que cumprimentou Gwydre. O rapaz era a sua única fonte de felicidade naqueles dias sombrios. Culhwuch, o primo de Artur, chegou de Dunum com meia dúzia de lanceiros.

 

Artur disse-me que eu não devia vir disse-me ele com um sorriso rasgado mas eu não podia perder isto. Culhwuch coxeou até Galaad para o cumprimentar. Passara os últimos meses com Sagramor vigiando a fronteira contra os saxões de Aelle, e enquanto Sagramor obedecera às ordens de Artur para permanecer no seu posto, pedira a Galaad que fosse a Durnovária para levar às suas forças as notícias dos acontecimentos da noite. As grandes expectativas preocupavam Artur, que temeu que os seus seguidores sofressem uma terrível decepção se nada acontecesse.

 

As expectativas continuavam a aumentar, porque nessa tarde o rei Cuneglas de Powys cavalgou para a cidade, levando consigo uma dúzia de homens, incluindo o seu filho Perddel, que era agora um jovem consciente de si mesmo, tentando fazer com que os seus primeiros bigodes crescessem. Cuneglas abraçou-me. Era irmão de Ceinwyn e um dos homens mais decentes e honestos que já existiram. Ele havia visitado Meurig de Gwent durante a sua viagem para sul e agora confirmava aquela relutância monárquica em lutar contra os Saxões.

 

Ele acha que o seu Deus o irá proteger afirmou Cuneglas, severamente.

 

Também nós disse eu, fazendo um gesto amplo para fora da janela do palácio, para os taludes mais baixos de Mai Dun cheios de pessoas que esperavam estar prestes a assistir ao momento extraordinário que a noite pudesse trazer. Muitas das pessoas haviam tentado subir até ao topo da colina, mas os lanceiros Escudos Negros de Merlim haviam-nos mantido a todos à distância. No campo mesmo a norte da fortaleza, um desafiador grupo de cristãos orava ruidosamente ao seu Deus para que enviasse chuva que anulasse os ritos ateus, mas foram escorraçados por uma multidão furiosa. Uma mulher cristã foi agredida até perder os sentidos, e Artur mandou que os seus soldados apaziguassem os ânimos.

 

Então, o que irá acontecer esta noite? perguntou-me Cuneglas.

 

Talvez nada, meu Rei e Senhor.

 

Vim eu de tão longe para nada ver? resmungou Culhwuch. Ele era um homem atarracado, belicoso e intempestivo, que eu contava como um dos meus amigos mais chegados. Coxeava desde que uma lâmina saxónica se enterrara fundo na sua perna na batalha contra os saxões de Aelle às portas de Londres, mas ele não fazia grande alarido por causa da ferida anelada pela cicatriz e afirmava que continuava a ser um formidável lanceiro como sempre fora. E o que fazes tu aqui? desafiou Galaad. Julguei que fosses cristão.

 

E sou.

 

Então vens rezar para que chova, é? acusou-o Culhwuch. Chovia enquanto falávamos, embora fosse apenas uma ligeira chuva miudinha vinda de oeste. Alguns homens acreditavam que o bom tempo se seguiria a esta chuva, mas inevitavelmente havia pessimistas que previam um dilúvio.

 

Se, de facto, chover a cântaros esta noite Galaad espicaçou Culhwuch, admites que o meu Deus é mais grandioso do que os vossos?

 

Corto-te a goela resmungou Culhwuch, mas não faria tal coisa, porque ele, tal como eu, há muito que era amigo de Galaad.

 

Cuneglas foi falar com Artur, Culhwuch desapareceu para ver se uma rapariga ruiva ainda trabalhava numa taberna junto ao portão norte de Durnovária, enquanto Galaad e eu caminhámos até à cidade com o jovem Gwydre. A atmosfera era alegre, de facto era como se uma grande feira de Outono tivesse enchido as ruas de Durnovária e se tivesse alargado às campinas vizinhas. Os mercadores haviam armado as suas bancas, as tabernas estavam a fazer um bom negócio, malabaristas encantavam as multidões com as suas habilidades e um grande número de bardos cantava as suas canções. Um urso amestrado deslocava-se pesadamente subindo e descendo a colina de Durnovária junto à casa do bispo Emrys, tornando-se cada vez mais perigoso à medida que as gentes enchiam a sua tigela com hidromel. Reparei no bispo Sansum espreitando por uma janela o enorme animal, mas assim que me viu, escondeu-se para dentro e fechou a portada de madeira.

 

Durante quanto tempo ficará ele prisioneiro? perguntou-me Galaad.

 

Até Artur lhe perdoar afirmei, o que acontecerá, porque Artur perdoa sempre aos seus inimigos.

 

Que cristão da parte dele.

 

Que estupidez da parte dele disse eu, certificando-me de que Gwydre não ouvia. Ele afastara-se para ir ver o urso. Mas eu não consigo ver Artur a perdoar ao teu meio-irmão continuei. Vi-o há alguns dias.

 

Lancelote? perguntou Galaad, parecendo surpreendido. Onde?

 

Com Cerdic.

 

Galaad fez o sinal da cruz, indiferente aos olhares carrancudos que atraiu. Em Durnovária, tal como na maioria das cidades de Dumnónia, a maior parte das pessoas era cristã, mas naquele dia as ruas estavam cheias de pagãos vindos do campo e muitos estavam ansiosos por iniciar brigas com os seus inimigos cristãos.

 

Achas que Lancelote lutará por Cerdic? perguntou-me Galaad.

 

Alguma vez combateu? respondi causticamente.

 

Ele pode fazê-lo.

 

Então, se chegar a lutar afirmei será por Cerdic.

 

Então rezarei para que me seja concedida a oportunidade de o matar disse Galaad, e fez de novo o sinal da cruz.

 

Se o estratagema de Merlim resultar disse eu não haverá guerra. Apenas uma matança feita pelos Deuses.

 

Galaad sorriu.

 

Sê sincero comigo, Derfel, resultará?

 

É para ver isso que aqui estamos afirmei evasivamente, e lembrei-me, de repente, que devia haver um grande número de espiões saxões na cidade que teriam vindo para ver a mesma coisa. Aqueles homens seriam provavelmente seguidores de Lancelote, bretões que conseguiam passar despercebidos no seio da multidão expectante que se avolumara durante todo o dia. ”Se Merlim falhasse”, pensei, ”então os Saxões encher-se-iam de confiança e as batalhas da Primavera seriam as mais duras de sempre.”

 

A chuva começou a cair com maior intensidade e eu chamei Gwydre, e os três voltámos a correr para o palácio. Gwydre pediu autorização a seu pai para ver a evocação a partir dos campos mesmo por baixo dos taludes de Mai Dun, mas Artur abanou a cabeça.

 

Se chover assim disse-lhe Artur nada acontecerá em lado nenhum. Apenas te constiparás, e depois... calou-se abruptamente. E depois a tua mãe zanga-se comigo, ia ele quase a dizer.

 

Depois passas a constipação para Morwenna e Seren disse eu e eu apanho-a a partir delas, e passo-a para o teu pai, e todos os exércitos estarão a espirrar quando os saxões vierem.

 

Gwydre meditou no assunto por breves instantes, achou que era um disparate e puxou a mão de seu pai.

 

Por favor! pediu ele.

 

Podes ver connosco, do salão mais alto insistiu Artur.

 

Então posso ir lá ver o urso, pai? Está a ficar bêbado e vão lançar-lhe os cães. Eu fico debaixo de um alpendre para me manter seco. Prometo. Por favor, pai?

 

Artur deixou-o ir e eu mandei Issa vigiá-lo, depois Galaad e eu subimos para o salão mais elevado do palácio. Um ano antes, quando Guinevere por vezes ainda visitava este palácio, ele era elegante e asseado, mas agora estava abandonado e sujo. Era um edifício romano e Guinevere tentara restaurá-lo, conferindo-lhe o seu antigo esplendor, mas havia sido saqueado pelas forças de Lancelote durante a rebelião e nada fora feito para reparar os estragos. Os homens de Cuneglas haviam ateado uma fogueira no chão do salão e o topo dos barrotes deformava as pequenas telhas. O próprio Cuneglas estava de pé, junto à ampla janela de onde olhava fixa e tristemente para os telhados de colmo e de telha de Durnovária, ao longo das encostas de Mai Dun, quase escondidos pelas cortinas da chuva.

 

Vai levantar, não vai? perguntou-nos enquanto entrávamos.

 

Provavelmente irá piorar disse Galaad, e nesse mesmo instante o ribombar de um trovão soou a norte e a chuva intensificou-se visivelmente, caindo violentamente nos telhados. A lenha no cume de Mai Dun deveria estar encharcada, mas até então só as camadas exteriores estariam ensopadas, enquanto a madeira no interior das fogueiras ainda estava seca. De facto, essa madeira interior permaneceria seca durante uma hora ou mais debaixo daquela chuva intensa, e a madeira seca no centro de uma fogueira rapidamente seca a humidade das camadas exteriores, mas se a chuva persistisse noite dentro, então as fogueiras nunca arderiam convenientemente. Ao menos a chuva tornará sóbrios os ébrios observou Galaad.

 

O bispo Emrys surgiu à porta do salão com as saias pretas das suas vestes de sacerdote encharcadas e lamacentas. Lançou um olhar preocupado aos lanceiros pagãos de Cuneglas e depois apressou-se a juntar-se a nós, à janela.

 

Artur está cá? perguntou-me.

 

Está algures no palácio respondi, depois apresentei Emrys ao rei Cuneglas e acrescentei que o bispo era um dos nossos cristãos bons.

 

Creio que somos todos bons, Lorde Derfel disse Emrys, fazendo uma vénia ao rei.

 

Para mim disse ele os cristãos bons são aqueles que não se revoltam contra Artur.

 

Foi uma rebelião? perguntou Emrys. Penso que foi uma loucura, Lorde Derfel, levada a cabo por uma devoção exagerada, e atrevo-me a dizer que o que Merlim está hoje a fazer é justamente a mesma coisa. Desconfio que ele irá ficar desapontado, tal como a minha pobre gente ficou desapontada no ano passado. Mas no desapontamento desta noite, o que poderá acontecer? É por isso que aqui estou.

 

O que irá acontecer? perguntou Cuneglas.

 

Emrys encolheu os ombros.

 

Se os Deuses de Merlim não aparecerem, meu Rei e Senhor, quem irá ser censurado? Os cristãos. E quem será trucidado pela populaça? Os Cristãos.

 

Emrys fez o sinal da cruz. Eu quero que Artur prometa proteger-nos.

 

Estou certo de que ele a concederá de bom grado afirmou Galaad.

 

A vós, bispo acrescentei ele fá-lo-á. Emrys havia permanecido fiel a Artur, e era um homem bom, ainda que fosse tão cauteloso no seu conselho como era pesado no seu velho corpo. Tal como eu, o bispo era um dos membros do Conselho Real, o corpo que aparentemente aconselhava Mordred, apesar de nessa altura, em que o nosso rei estava feito prisioneiro em Lindinis, o conselho raramente se reunia. Artur recebia os conselheiros em privado, depois tomava as suas próprias decisões, mas as únicas que tinham de facto de ser tomadas eram as que preparavam a Dumnónia para a invasão saxónica, e todos nós estávamos satisfeitos por deixar Artur carregar esse fardo.

 

Um raio de luz rompeu por entre as nuvens cinzentas, e um instante depois o ribombar de um trovão soou tão alto que involuntariamente todos estremecemos. A chuva, já intensa, de repente intensificou-se ainda mais, batendo furiosamente nos telhados e escorrendo em riachos de água lamacenta pelas ruas e veredas de Durnovária. Poças de água espalharam-se pelo chão do salão.

 

Talvez observou Cuneglas, friamente os Deuses não queiram ser evocados? Merlim diz que eles estão muito longe disse eu, por isso esta chuva não é obra sua.

 

O que prova, sem dúvida, que um Deus maior está por detrás da chuva argumentou Emrys.

 

A vosso pedido? questionou Cuneglas, com azedume.

 

Eu não rezei para que chovesse, meu Rei e Senhor afirmou Emrys.

 

De facto, se vos aprouver, rezarei para que a chuva cesse.

 

E com estas palavras fechou os olhos, abriu bem os braços e levantou a cabeça em oração. A solenidade do momento foi de alguma forma estragada por uma gota de água da chuva que escoou das telhas caindo exactamente na sua testa careca. No entanto, ele terminou a sua oração e fez o sinal da cruz.

 

E, milagrosamente, no preciso instante em que a mão de Emrys terminava o sinal da cruz, a chuva começou a diminuir de intensidade. Alguma chuva intensa ainda era atirada com força pelo vento oeste, mas o tamborilar no telhado cessou abruptamente e a paisagem entre a nossa janela alta e o pico de Mai Dun começou a clarear. A colina ainda estava escura sob as nuvens cinzentas, e não se conseguia ver nada na velha fortaleza excepto um punhado de lanceiros que vigiavam os taludes e, abaixo deles, alguns peregrinos que haviam conseguido subir bem alto nas encostas da colina. Emrys não tinha a certeza se havia de estar satisfeito ou triste com a eficácia da sua oração, mas todos nós estávamos impressionados, sobretudo quando uma aberta surgiu entre as nuvens, a oeste, e uma réstia de luz do sol desceu obliquamente, tornando verdes as encostas de Mai Dun.

 

Alguns escravos trouxeram-nos hidromel quente e carne de veado fria, mas eu não tinha apetite. Preferi ficar a ver como a tarde se afundava na noite e como as nuvens se dissipavam em farrapos. O céu clareava, e o ocaso tornava-se numa enorme fornalha de fogo vermelho por cima da distante Lyonesse. O Sol punha-se na Véspera do Samain, e por toda a Bretanha e até mesmo na Irlanda cristã, as gentes deixavam alimentos e bebidas aos mortos, que passariam o abismo de Annwn atravessando a ponte das espadas. Esta era a noite em que a procissão espectral dos corpos-sombra vinha visitar a terra onde eles haviam respirado, amado e morrido. Muitos haviam morrido em Mai Dun e, nessa noite, essa colina estaria cheia com os seus espectros; depois, inevitavelmente, pensei no corpinho-sombra de Dian vagueando por entre as ruínas da Casa Senhorial de Ermid.

 

Artur foi ao palácio e eu pensei quão diferente ele parecia sem a Excalibur a baloiçar dentro da sua bainha em forma de cruz. Gemeu quando viu que a chuva tinha parado, depois ouviu o pleito do bispo Emrys.

 

Colocarei os meus lanceiros nas ruas assegurou ao bispo e desde que as vossas gentes não vituperem os pagãos, estarão seguras. Pegou num corno de hidromel que um escravo segurava, depois voltou-se de novo para o bispo. Em todo o caso, queria falar-vos disse ele, e contou ao bispo as suas inquietações relativamente ao rei Meurig de Gwent. Se Gwent não lutar Artur preveniu Emrys, então os saxões suplantar-nos-ão em número.

 

Emrys empalideceu.

 

Certamente que Gwent não deixará Dumnónia cair!

 

Gwent tem sido subornada, bispo informei-o, e descrevi como Aelle havia permitido que mensageiros de Meurig entrassem no seu território. Enquanto Meurig pensar que existe uma possibilidade de converter os Sais afirmei não levantará uma espada contra eles.

 

Confesso que me regozijo com a ideia de evangelizar os Saxões disse Emrys, piamente.

 

Não o faça avisei-o. Quando esses sacerdotes tiverem servido o propósito de Aelle, ele cortar-lhes-á as gargantas.

 

E depois disso cortará as nossas acrescentou Cuneglas, ameaçador. Artur e ele haviam decidido fazer uma visita ao rei de Gwent em conjunto e agora Artur pedia a Emrys que os acompanhasse.

 

Ele ouvir-vos-á, bispo disse Artur e se o convencerdes que os cristãos da Dumnónia são mais ameaçados pelos saxões do que por mim, talvez ele mude de ideias.

 

Irei com prazer disse Emrys. Com todo o gosto.

 

E no mínimo disse Cuneglas, severamente o jovem Meurig precisará de ser convencido a deixar que o meu exército atravesse o seu território.

 

Artur pareceu alarmado.

 

Poderá ele recusar?

 

Assim o dizem os meus informadores afirmou Cuneglas e depois encolheu os ombros. No entanto, Artur, se os saxões vierem, de facto, eu atravessarei o seu território quer ele o permita quer não.

 

Nesse caso, eclodirá a guerra entre Gwent e Powys observou Artur, irritado, e isso só ajudará os Sais. Estremeceu com um arrepio. Por que razão Tewdric desistiu do trono?

 

Tewdric era o pai de Meurig, e, embora Tewdric fosse cristão, sempre conduzira os seus homens ao lado de Artur contra os saxões.

 

Desvaneceu-se a oeste a última réstia de luz vermelha. Por breves instantes, o mundo ficou suspenso entre a luz e a penumbra, e depois o abismo engoliu-nos. Ficámos de pé à janela, gelados pelo vento húmido e admirámos o primeiro cintilar das estrelas por entre os espaços vazios das nuvens. A lua em quarto crescente estava baixa sobre o mar do sul, sendo a sua luz difundida pelas extremidades de uma nuvem atrás da qual se escondia as estrelas que formavam a cabeça da constelação da cobra. Caía a noite na Véspera do Samain e os mortos estavam prestes a chegar.

 

Algumas lareiras iluminavam as casas de Durnovária, mas o campo fora do seu alcance estava totalmente escuro, excepto onde um raio de luar iluminava uma zona de árvores na protuberância de uma colina distante. Mai Dun era apenas uma sombra indefinida na escuridão, uma negritude no interior escuro da noite dos mortos. A escuridão tornou-se mais profunda, mais estrelas surgiram e a Lua deslizava livremente por entre nuvens em farrapos. Agora os mortos passavam em grande número a ponte das espadas e estavam ali entre nós, embora não os conseguíssemos ver nem ouvir, mas eles estavam ali, no palácio, nas ruas, em todos os vales, cidades e casas da Bretanha, enquanto nos campos de batalha, onde tantas almas haviam sido arrancadas aos seus corpos terrenos, os mortos vagueavam tão numerosos como estorninhos. Dian estava sob as árvores da casa senhorial de Ermid, e os corpos-sombra ainda afluíam pela ponte das espadas para encher a ilha da Bretanha. Pensei que, também um dia, eu voltaria nesta noite para ver as minhas filhas e os seus filhos e os filhos dos seus filhos. Pensei que para todo o sempre a minha alma vaguearia pela terra em todas as Vésperas do Samain.

 

O vento acalmou. A lua estava de novo escondida por um enorme aglomerado de nuvens suspensas sobre Armórica, mas por cima de nós os céus estavam mais limpos. As estrelas, onde viviam os Deuses, cintilavam no vazio. Culhwuch regressara ao palácio e juntara-se a nós à janela, onde nos apinhávamos para observar a noite. Gwydre havia regressado da cidade, embora pouco depois se tivesse aborrecido de olhar para a escuridão húmida e tivesse ido ter com os seus amigos entre alguns lanceiros do palácio.

 

Quando começam os ritos? perguntou Artur.

 

Já não faltará muito avisei-o. As fogueiras deverão arder durante seis horas antes de a cerimónia ter início.

 

Como conta Merlim as horas? perguntou Cuneglas.

 

Na sua cabeça, meu Rei e Senhor respondi-lhe.

 

Os mortos passavam suavemente por entre nós. O vento parara e a quietude fazia com que os cães uivassem na cidade. As estrelas, emolduradas pelas nuvens com recortes de prata, pareciam forçadamente brilhantes.

 

E então, muito de repente, da escuridão no interior da noite, no cume fortificado de Mai Dun, ateou-se a primeira fogueira, iniciando-se a evocação dos Deuses.

 

Por breves instantes uma chama saltou, límpida e brilhante, por cima dos taludes de Mai Dun, depois o fogo alastrou-se até à vasta escudela, formada pelos taludes de relva dos muros da fortaleza, estar cheia de uma luz difusa e fumegante. Imaginei homens empunhando tochas bem alto, a toda a extensão das sebes, depois correndo com as chamas para transportarem o fogo para a espiral do centro ou ao longo dos círculos exteriores. No início, as fogueiras arderam lentamente com as chamas a lutarem com as madeiras encharcadas por cima delas, depois gradualmente o calor secou a humidade e a luminosidade das chamas tornou-se cada vez mais brilhante até o fogo ter finalmente atingido todo aquele enorme desenho e a luz cintilar, formidável e triunfante, na noite. O pico da colina era agora uma sebe de fogo, um túmulo ardente por cima do qual o fumo, em contacto com o vermelho, se agitava em direcção ao céu. As fogueiras estavam suficientemente brilhantes para eliminarem sombras trémulas em Durnovária, onde as ruas estavam cheias de pessoas; algumas tinham até trepado para o topo dos telhados para ver a conflagração distante.

 

Seis horas? perguntou-me Culhwuch, desconfiado.

 

Assim me foi dito por Merlim. Culhwuch repetiu, violento.

 

Seis horas! Eu podia voltar para junto da ruiva. Mas não se mexeu, de facto nenhum de nós o fez; ficámos a observar a dança das chamas por cima da colina. Eram as fogueiras da Bretanha, o fim da história, as evocações dos Deuses, e nós observámo-las num silêncio tenso como se esperássemos ver o fumo lívido desfazer-se com a descida dos Deuses.

 

Foi Artur que quebrou a tensão.

 

Mantimentos disse ele, bruscamente. Se temos de esperar seis horas, então também podemos comer.

 

Pouco se disse durante essa refeição, mas na sua maioria a conversa reportou-se ao rei Meurig de Gwent e à terrível possibilidade de ele manter os seus lanceiros fora da guerra que se aproximava. Se, eu não parava de pensar, chegasse sequer a haver guerra, e eu lançava constantes olhares pela janela para o sítio onde as chamas crepitavam e o fumo se agitava. Tentei calcular a passagem das horas, mas na verdade não fazia ideia se passara uma ou duas horas antes de a refeição terminar e estarmos, uma vez mais, junto à grande janela aberta a olhar para Mai Dun, onde pela primeira vez, os Tesouros da Bretanha estavam reunidos. O Cesto de Garanhir, uma travessa feita de salgueiro que levava um pão e alguns peixes, embora o entrelaçado estivesse tão esfarrapado que qualquer mulher respeitável há muito teria destinado o cesto à fogueira. A Trompa de Bran Galed era um chifre de boi que enegrecera com o tempo e lascara nas extremidades orladas a estanho. A Quadriga de Modron partira-se ao longo dos anos e era tão pequena que só uma criança conseguia andar nela, se, de facto, alguma vez pudesse ser montada de novo. O Cabresto de Eiddyn era um cabresto de corda puída e rodas de ferro ferrugento, que até o mais pobre dos aldeões hesitaria em utilizar. A Faca de Laufrodedd estava embotada, com uma lâmina grosseira e um cabo de madeira partido, enquanto a Pedra de Amolar de Tudwal era uma coisa desgastada que qualquer artífice se envergonharia de possuir. A Capa de Padarn estava coçada e remendada, um trajo de pedinte, ainda assim mais bem consertada do que a Capa de Rhegadd, que era suposto conceder a invisibilidade àquele que a envergasse, mas que agora pouco mais era do que uma teia de aranha. O Prato de Rhygenydd era uma escudela em madeira achatada e partida sem ser pelo uso, enquanto o Quadro de Arremesso de Gwenddolau era um pedaço de madeira velha e empenada da qual as marcas do jogo quase haviam desaparecido com o uso. O Anel de Eluned parecia um vulgar anel de guerreiro, os simples círculos de metal que os lanceiros gostavam de fazer com as armas dos seus inimigos mortos, mas todos nós havíamos deitado fora anéis de guerreiro com melhor aspecto do que o Anel de Eluned. Apenas dois dos Tesouros tinham algum valor intrínseco. Um era a Espada de Rhydderch, Excalibur, que fora forjada no Outro Mundo pelo próprio Gofannon, e o outro era o Caldeirão de Clyddno Eiddyn. Agora, todos eles, cheios de aparato e esplendor, estavam circundados por fogo para assinalarem o local aos seus Deuses distantes.

 

O céu continuava a ficar cada vez mais limpo, apesar de algumas nuvens ainda se amontoarem por cima do horizonte a sul onde, à medida que entrávamos nessa noite dos mortos, a luz começava a vacilar. Essa luminosidade era o primeiro sinal dos Deuses e, temente a eles, toquei no ferro do copo da Hywelbane. No entanto, os enormes raios de luz estavam bem longe, talvez por cima do mar distante ou talvez mais longe ainda para cima de Armórica. Durante uma hora ou mais a luz varreu o céu a sul, mas sempre em silêncio. A certa altura, toda uma nuvem pareceu acender-se a partir do interior, todos nos sobressaltámos e o bispo Emrys benzeu-se.

 

A luz distante desvaneceu-se, deixando apenas a grande fogueira encolerizada no interior das muralhas de Mai Dun. Era um sinal de fogo a cruzar o Abismo de Annwn, uma chama a penetrar na escuridão existente entre os mundos. Questionei-me sobre o que estariam os mortos a pensar. Seria uma horda de almas-sombra a aglomerar-se em torno de Mai Dun para testemunharem a evocação dos Deuses? Imaginei os reflexos daquelas chamas a tremeluzirem ao longo das lâminas de aço da ponte das espadas e talvez a alcançarem e a penetrarem no Outro Mundo e confesso que fiquei assustado. A luminosidade havia-se dissipado, e agora nada parecia estar a acontecer para além da grande violência do fogo, mas creio que todos estávamos cientes de que o mundo estremecia com a mudança que se aproximava.

 

Depois, algures durante a passagem daquelas horas, surgiu o sinal seguinte. Foi Galaad quem primeiro o viu. Benzeu-se, olhou fixamente pela janela como se não conseguisse acreditar no que via, depois apontou para cima da grande coroa de fumo que lançava um véu por entre as estrelas.

 

Vedes? perguntou, e todos nos comprimimos à janela para olhar fixamente para cima.

 

E vi que as luzes do céu nocturno haviam surgido.

 

Já noutras ocasiões todos víramos aquelas luzes, embora não muitas vezes, mas a sua chegada naquela noite era certamente significativa. No início havia apenas uma trémula bruma azul no escuro, mas aos poucos a bruma intensificou-se e tornou-se mais brilhante, e uma cortina vermelha de fogo juntou-se ao azul ficando suspensa como um tecido esvoaçante por entre as estrelas. Merlim dissera-me que semelhantes luzes eram comuns no longínquo Norte, mas estas estavam suspensas no Sul, e depois, esplêndida e abruptamente, todo o espaço por cima das nossas cabeças se encheu de cascatas carmesim com reflexos azuis e prateados. Descemos todos para o pátio para ver melhor, e aí ficámos aterrados quando os céus se iluminaram. Do pátio já não conseguíamos ver as fogueiras de Mai Dun, mas a sua luz enchia o céu a sul, à medida que as luzes sobrenaturais formavam gloriosamente um arco por cima das nossas cabeças.

 

Acreditais agora, bispo? perguntou Culhwuch.

 

Emrys parecia não conseguir falar, mas depois estremeceu e tocou na cruz de madeira que lhe pendia do pescoço.

 

Nós nunca afirmou, em voz baixa negámos a existência de outros poderes. Acontece que acreditamos que o nosso Deus é o único Deus verdadeiro.

 

E os outros Deuses, o que são? perguntou Cuneglas.

 

Emrys franziu as sobrancelhas, a princípio sem vontade de responder, mas a honestidade obrigou-o a falar.

 

Eles são os poderes das trevas, meu Rei e Senhor.

 

Os poderes da luz, sem dúvida disse Artur receoso, pois até ele estava impressionado. Artur, que teria preferido que os Deuses nunca sequer nos tivessem perturbado, via o seu poder no céu e estava maravilhado. Então, o que vai acontecer agora? perguntou.

 

Fora a mim que ele fizera a pergunta, mas foi o bispo Emrys que respondeu.

 

Será a morte, Senhor disse ele.

 

Morte? perguntou Artur, não tendo a certeza se tinha ouvido correctamente.

 

Emrys havia-se retirado para ir colocar-se sob a arcada, como se temesse a força da magia que tremeluzia e se espalhava tão brilhante por entre as estrelas.

 

Todas as religiões utilizam a morte, Senhor afirmei com pedantismo, até os nossos devotos acreditam no sacrifício. Simplesmente, no Cristianismo foi o Filho de Deus que foi morto para que mais ninguém tivesse de ser esquartejado no altar; mas não me lembro de nenhuma religião que não utilize a morte como parte do seu dogma religioso. Osiris foi morta de repente, apercebeu-se de que falava do culto de ísis, a causa da ruína da vida de Artur, e continuou rapidamente Mitras também morreu e a sua veneração exige a morte de touros.

 

Todos os nossos Deuses morrem, Senhor disse o bispo e todas as religiões, excepto o Cristianismo recriam essas mortes como parte da sua veneração.

 

Nós, Cristãos, passámos para além da morte disse Galaad para a vida.

 

Nós temos um Deus glorificado concordou Emrys, fazendo o sinal da cruz mas Merlim não tem. As luzes no céu eram agora mais brilhantes; enormes colunas de cores através das quais, semelhantes a fios numa tapeçaria, raios de luz branca raiavam e desapareciam. A morte é a magia mais poderosa disse o bispo, desaprovadoramente. Um Deus misericordioso não o permitiria, e o nosso Deus pôs fim a isso com a morte do seu próprio Filho.

 

Merlim não utiliza a morte afirmou Culhwuch, zangado.

 

Utiliza, sim falei com suavidade. Antes de irmos buscar o Caldeirão ele fez um sacrifício humano. Ele disse-mo.

 

Quem? perguntou Artur, com rispidez.

 

Não sei, Senhor.

 

Provavelmente mentia disse Culhwuch, olhando para cima. Ele gosta de o fazer.

 

Ou, o que é mais provável, disse a verdade afirmou Emrys. A antiga religião exigia muito sangue e, em geral, era humano. Certamente que sabemos muito pouco, mas lembro-me do velho Balise me dizer que os druidas gostavam de matar pessoas. Normalmente eram prisioneiros. Alguns eram queimados vivos, outros colocados em sepulturas.

 

E outros fugiam acrescentei suavemente, porque eu próprio havia sido atirado para uma sepultura druida quando era criança, e a minha fuga desse horror da morte, de corpos destroçados levara a que Merlim me adoptasse.

 

Emrys ignorou o meu comentário.

 

Noutras ocasiões, certamente prosseguiu ele impunha-se um sacrifício de maior valor. Em Elmet e Cornóvia falam ainda de sacrifícios praticados no Ano Negro.

 

Que sacrifício era esse? perguntou Artur.

 

Pode ser apenas uma lenda disse Emrys porque aconteceu há muito para que a memória seja fiel. O bispo falava do Ano Negro em que os Romanos se haviam apoderado de Ynys Mon e, desse modo, dilacerado o âmago da religião dos druidas, um acontecimento sombrio que teria ocorrido há mais de quatrocentos anos no nosso passado. Mas nessas paragens as gentes ainda falam do sacrifício do rei Cefydd continuou Emrys. Há muito que ouvi a história, mas Balise sempre acreditou nela. É certo que Cefydd defrontava o exército romano e parece provável que ele tenha sido suplantado em número, por isso sacrificou o seu bem mais valioso.

 

Que era? perguntou Artur. Esquecera-se das luzes no céu e olhava fixamente para o bispo.

 

O seu filho, claro. Sempre assim sucedeu, Senhor. O nosso próprio Deus sacrificou o Seu Filho, Jesus Cristo, e até pediu a Abraão que matasse Isaac, embora, claro Ele se tivesse compadecido e renunciado a esse desejo. Mas os Druidas de Cefydd convenceram-no a matar o seu filho. Obviamente, não resultou. Conta a História que os romanos mataram Cefydd e todo o seu exército e depois destruíram os bosques dos druidas em Ynys Mon.

 

Pressenti que o bispo estava tentado a acrescentar alguns agradecimentos ao seu Deus por essa destruição, mas Emrys era diferente de Sansum e, desse modo, foi suficientemente diplomata para guardar os agradecimentos para si.

 

Artur dirigiu-se para a arcada.

 

O que se estará a passar no topo daquela colina, bispo? perguntou em voz baixa.

 

Não vos sei dizer, Senhor disse Emrys, indignado.

 

Mas achais que estão a matar alguém?

 

Julgo que é possível, Senhor afirmou Emrys, nervosamente. Julgo que é até provável.

 

Quem? perguntou Artur, e a dureza da sua voz fez com que todos os homens no pátio desviassem a sua atenção do resplendor no céu e olhassem fixamente para ele.

 

Se for o antigo sacrifício, Senhor, é o sacrifício supremo disse Emrys então será o filho do governante.

 

Gawain, filho de Budic afirmei, suavemente, e Mardoc.

 

Mardoc? Artur virou-se, de repente, para mim.

 

Um filho de Mordred respondi, percebendo de repente por que razão Merlim havia chamado Cywyllog, e por que razão ele havia levado a criança para Mai Dun, e ainda por que tratara o rapaz tão bem. Porque não percebera eu isso antes? Agora parecia óbvio.

 

Onde está Gwydre? perguntou Artur, de repente.

 

Por breves instantes ninguém respondeu, depois Galaad fez um gesto na direcção da entrada da casa.

 

Ele estava com os lanceiros afirmou Galaad, enquanto comíamos. Mas Gwydre já lá não estava, nem estava nos aposentos onde Artur dormia quando estava em Durnovária. Não conseguimos encontrá-lo em parte alguma, e ninguém se lembrava de o ter visto depois de a noite cair. Artur esqueceu-se por completo das luzes mágicas enquanto revistava o palácio, procurando-o das caves até ao pomar, mas não encontrou vestígios do seu filho. Pensei nas palavras que Nimue me dissera em Mai Dun quando me encorajara a levar Gwydre para Durnovária, recordei a sua discussão com Merlim em Lindinis sobre o verdadeiro governante de Dumnónia e não quis acreditar nas minhas suspeitas, embora não conseguisse ignorá-las.

 

Senhor peguei na manga de Artur. Creio que ele foi levado para a colina. Não por Merlim, mas por Nimue.

 

Ele não é filho de um rei disse Emrys, muito nervoso.

 

Gwydre é filho de um governante! gritou Artur. Há aqui alguém que o negue? Ninguém o fez e, de repente, ninguém se atreveu a dizer o que quer que fosse. Artur virou-se para o palácio. Hygwydd! Uma espada, lança, escudo, Llamrei. Depressa!

 

Senhor! interveio Culhwuch.

 

Silêncio! gritou Artur. Nessa altura estava furioso e foi em mim que descarregou a sua ira por eu o ter encorajado a permitir que Gwydre viesse a Durnovária. Sabias o que ia acontecer? perguntou-me.

 

Claro que não, Senhor. E continuo sem saber. Acaso achais que eu faria mal a Gwydre?

 

Artur fitou-me severamente, depois afastou-se.

 

Nenhum de vós precisa de vir disse ele por cima do ombro, mas eu vou imediatamente a Mai Dun buscar o meu filho.

 

Atravessou o pátio em passos largos até ao sítio onde Hygwydd, o seu servo, segurava Llamrei enquanto um moço da estrebaria lhe colocava a sela. Galaad seguiu-o em silêncio.

 

Confesso que durante alguns segundos não me mexi. Não queria fazê-lo. Eu queria que os Deuses viessem. Queria que todos os nossos problemas terminassem com o bater de grandes asas e o milagre de Beli Mawr galgando a terra com uma passada. Eu queria a Bretanha de Merlim.

 

E depois lembrei-me de Dian. Estaria a minha filha mais nova no pátio do palácio, nessa noite? A sua alma devia ter estado na terra, porque era Véspera do Samain, e de repente vieram-me lágrimas aos olhos quando me lembrei do sofrimento pela perda de uma criança. Não podia permanecer no pátio do palácio de Durnovária enquanto Gwydre morria, nem enquanto Mardoc sofria. Não queria ir a Mai Dun, mas sabia que não conseguiria encarar Ceinwyn se nada fizesse para evitar a morte de uma criança, por isso segui Artur e Galaad.

 

Culhwuch deteve-me.

 

Gwydre é filho de uma prostituta resmungou ele demasiado baixo para que Artur ouvisse.

 

Optei por não discutir sobre a linhagem do filho de Artur.

 

Se Artur for sozinho disse eu, em vez disso, será morto. Há duas dezenas de Escudos Negros naquela colina.

 

E se nós formos, comportar-nos-emos como inimigos de Merlim, avisou-me Culhwuch.

 

E se não formos afirmei comportar-nos-emos como inimigos de Artur.

 

Cuneglas veio para junto de mim e colocou uma mão no meu ombro.

 

Então?

 

Eu vou com Artur respondi. Não queria, mas não podia proceder de outro modo.

 

Issa! gritei. Um cavalo!

 

Se fores resmungou Culhwuch, descontente, suponho que também terei de ir. Apenas para me certificar de que não és ferido.

 

Então, de repente, todos gritávamos por cavalos, armas e escudos.

 

Por que íamos nós? Pensei tantas vezes nessa noite. Ainda vejo as luzes trémulas vacilando nos céus, e sinto o cheiro do fumo brotando do cume de Mai Dun, e o enorme peso da magia que oprimia a Bretanha. E, contudo, cavalgámos. Sei que estava confuso naquela noite rasgada pelas chamas. Eu era levado por um sentimentalismo por causa da morte de uma criança, pela memória de Dian, e pelo meu sentimento de culpa por ter encorajado Gwydre a ir a Durnovária, mas acima de tudo era movido pelo meu afecto por Artur. E, então, o meu afecto por Merlim e Nimue? Suponho que nunca pensei que precisassem de mim, mas Artur sim. E nessa noite em que a Bretanha estava encerrada entre o fogo e a luz, cavalguei à procura do seu filho.

 

Éramos doze. Artur, Galaad, Culhwuch, Derfel e Issa eram dumnonianos, os outros eram Cuneglas e os seus seguidores. Hoje, quando se conta a história, diz-se às crianças que Artur, Galaad e eu éramos três saqueadores da Bretanha, mas havia doze cavaleiros nessa noite dos mortos. Nós não tínhamos armaduras, apenas os nossos escudos, mas cada homem transportava uma lança e uma espada.

 

As gentes afastaram-se para as bermas da estrada iluminada pelas fogueiras quando avançámos em direcção ao portão sul de Durnovária, que estava aberto, como era deixado todas as Vésperas do Samain para permitir o acesso dos mortos à cidade. Baixámo-nos ao passar sob as vigas do portão, depois galopámos para sul e para o oeste, atravessando os campos cheios de pessoas que olhavam enfeitiçadas para o misto agitado de chamas e fumo que saía do cume da colina.

 

Artur impunha uma marcha terrível e eu agarrei-me ao arção da minha sela, com medo de ser lançado ao chão. As nossas capas agitavam-se atrás, as bainhas das nossas espadas saltavam ruidosamente para baixo e para cima, enquanto por cima de nós os céus estavam cheios de fumo e luz. Senti o cheiro a madeira queimada e ouvi o crepitar das chamas muito antes de chegarmos à encosta da colina.

 

Ninguém tentou deter-nos enquanto nos apressámos a subir a colina. Só ao atingirmos o intrincado emaranhado do labirinto do portão da entrada é que alguns lanceiros nos barraram o caminho. Artur conhecia a fortaleza, porque quando Guinevere e ele viveram em Durnovária vinham com frequência ao seu cume no Verão; ele conduziu-nos sem se enganar através da tortuosa passagem e foi aí que três Escudos Negros levantaram as suas lanças para nos deterem. Artur não hesitou. Baixou os calcanhares, apontou-lhes a sua longa lança e deixou que Llamrei corresse. Os Escudos Negros desviaram-se para o lado, gritando desesperados enquanto os grandes cavalos passavam como relâmpagos.

 

Agora, a noite enchera-se de barulho e luz. O barulho provinha de uma enorme fogueira e do crepitar de árvores inteiras colocadas no centro das chamas ávidas. O fumo envolvia as luzes no céu. Havia lanceiros que nos gritavam dos taludes, mas nenhum nos fez frente quando irrompemos pelo talude interior para o cume de Mai Dun.

 

E aí fomos detidos, não pelos Escudos Negros, mas por um bafo de calor abrasador. Vi Llamrei empinar-se e afastar-se das chamas, Artur segurar-se com firmeza à sua crina e os seus olhos a faiscarem vermelhos com o reflexo do fogo. O calor era semelhante ao de mil fornalhas de ferrador; uma baforada retumbante de ar abrasador fez-nos estremecer e recuar, vacilantes. Eu não conseguia ver nada no interior das chamas, porque o centro do desenho de Merlim estava escondido pelos muros ferventes de fogo. Artur estocou Llamrei na minha direcção.

 

Por onde? gritou ele.

 

Eu devo ter encolhido os ombros.

 

Como entrou Merlim? perguntou Artur. Disse à sorte.

 

Pelo lado mais afastado, Senhor.

 

O templo ficava no lado este do labirinto de fogo e eu calculei que certamente teria sido deixada uma passagem através das espirais exteriores.

 

Artur puxou as rédeas e apressou Llamrei a subir o declive do talude interior para o caminho que seguia para o cume. Os Escudos Negros dispersaram, em vez de o defrontarem. Subimos o talude atrás de Artur, e apesar de os nossos cavalos estarem aterrorizados com o enorme fogo à sua direita, seguiram Uamrei por entre o fumo e as fagulhas crepitantes. Quando uma enorme parte da fogueira caiu ao passarmos a galope, o meu cavalo desviou-se do inferno para o lado exterior do talude interior. Por instantes pensei que ele fosse cair no fosso e debrucei-me, desesperadamente, para fora da sela com a mão esquerda enleada na sua crina, mas não sei como, ele equilibrou-se, voltou ao caminho e continuou a galopar.

 

Uma vez passada a extremidade norte dos grandes círculos de fogo, Artur virou para baixo subindo de novo para o cume plano. Uma brasa incandescente aterrou na sua capa branca e começou a queimar a lã. Segui, coloquei-me ao seu lado e extingui o pequeno fogo.

 

Onde? perguntou-me ele.

 

Ali, Senhor apontei para as espirais de fogo mais próximas do templo. Não vi nenhuma abertura, mas à medida que nos aproximámos mais, parecia ter havido uma abertura que fora fechada com lenha, embora essa madeira nova não estivesse tão densamente empilhada como a restante e houvesse um espaço exíguo onde a lenha, em vez de ter dois ou três metros de altura, não ia além da cintura de um homem. Para lá daquela baixa abertura ficava o espaço aberto entre as espirais interiores e as exteriores, e nesse espaço vimos mais Escudos Negros aguardando.

 

Artur encaminhou Uamrei através da abertura. Estava inclinado para diante, falando com a montada, quase como se estivesse a explicar-lhe o que pretendia. Ela estava assustada. As suas orelhas continuavam recuadas e dava pequenos passos nervosos, mas não se afastava das fogueiras enraivecidas que ardiam em cada um dos lados da única passagem que conduzia ao interior da fogueira no topo da colina. Artur deteve-a apenas a alguns passos da passagem e acalmou-a, uma vez que a sua cabeça não parava de abanar e os seus olhos estavam enormes e brancos. Deixou-a olhar para a abertura, depois fez-lhe uma festa no pescoço, voltou a falar-lhe e avançou.

 

Fê-la andar a trote num amplo círculo, esporeou-a num meio-galope, depois esporeou-a de novo quando apontou para a abertura. Ela agitou a cabeça e eu pensei que fosse recusar, mas depois pareceu decidir-se e correu para as chamas. Cuneglas e Galaad seguiram-na. Culhwuch amaldiçoou o risco que corríamos e depois todos estocámos os nossos cavalos atrás de Uamrei.

 

Artur inclinou-se sobre o pescoço da égua à medida que ela batia ruidosamente com os cascos no chão em direcção à fogueira. Deixou Uamrei escolher o seu caminho e ela voltou a abrandar. Pensei que estivesse de novo retraída, depois vi que se preparava para saltar por entre as chamas. Gritei, tentando esconder o medo, depois Uamrd saltou e eu perdi-a de vista, uma vez que o vento atirou um manto de fumo incandescente para a abertura. Galaad estava próximo do interior do espaço, mas o cavalo de Cuneglas guinou para o lado. Eu galopava velozmente atrás de Culhwuch, e o calor e o clamor das fogueiras enchiam o ar barulhento. Penso que quase quis que a minha montada se recusasse, mas ela continuou e eu fechei os olhos quando as chamas e o fumo me rodearam. Senti o cavalo a subir, ouvi o seu relincho, depois caímos com um ruído surdo no interior do círculo exterior de chamas, sentindo um imenso alívio e querendo gritar triunfante.

 

Então, uma lança rasgou-me a capa mesmo por detrás do ombro. Estivera tão atento a vigiar o fogo que nem pensara no que nos esperava no interior do círculo de chamas. Um Escudo Negro havia-me estocado e falhado, mas agora abandonara a lança e corria para me empurrar da sela. Estava demasiado próximo da lâmina da minha lança para que eu pudesse usá-la, por isso bati simplesmente com a haste na sua cabeça e com os calcanhares no meu cavalo. O homem agarrou-me na lança. Larguei-a, desembainhei a Hywelbane e ripostei uma vez. Vislumbrei Artur andando em círculos sobre Llamrei e malhando com a espada para a esquerda e para a direita; agora, eu fazia o mesmo. Galaad bateu no rosto de um homem, estocou outro, depois esporou o cavalo, afastando-se. Culhwuch agarrara no cimo do elmo de um Escudo Negro e arrastava o homem em direcção à fogueira. O homem tentava desesperadamente desapertar a correia que lhe passava por baixo do queixo, depois gritou quando Culhwuch o atirou para as chamas antes de se afastar rodopiando.

 

Issa passava agora pela abertura, tal como Cuneglas e os seus seis seguidores. Os Escudos Negros sobreviventes haviam fugido para o centro do labirinto de fogo e nós seguimo-los a trote por entre dois muros de chamas. A espada emprestada na mão de Artur estava vermelha com a luz. Esporou Llamrei e ela seguiu a meio-galope e os Escudos Negros, sabendo que seriam apanhados, afastaram-se a correr e largaram as suas lanças mostrando-nos que não lutariam mais.

 

Tivemos de cavalgar metade do caminho em torno do círculo à procura da entrada para a espiral interior. A abertura entre as fogueiras interiores e as exteriores tinha uns bons trinta passos de um lado ao outro, sendo suficientemente ampla para nos deixar cavalgar sem sermos fritos vivos, mas o espaço no interior da passagem da espiral tinha menos de dez passos de largura, e estas eram as maiores fogueiras, as mais temíveis, pelo que todos hesitámos à entrada. Continuávamos sem ver nada do que acontecia no interior do círculo. Saberia Merlim que nós ali estávamos? E os Deuses? Olhei para cima, quase esperando que uma lança vingativa fosse violentamente lançada dos céus, mas havia apenas o dossel tortuoso do fumo a encobrir o céu torturado pelo fogo e em cascatas de luz.

 

E assim cavalgámos para a última espiral com firmeza e rapidez, galopando numa curva apertada por entre o barulho vociferador de chamas a saltar. As nossas narinas estavam cheias de fumo, enquanto as brasas nos queimavam os rostos, mas curva sobre curva aproximávamo-nos cada vez mais do centro do mistério.

 

O barulho das fogueiras ocultou a nossa chegada. Julgo que Merlim e Nimue não faziam a mínima ideia que o seu ritual estava prestes a terminar, porque não nos viram. Pelo contrário, os guardas no centro do círculo foram os primeiros a ver-nos e gritaram um aviso, correndo para nos barrarem o caminho. Mas Artur saiu das fogueiras como um demónio com uma capa de fumo. De facto, as suas vestes fumegavam à medida que ele gritava um desafio e atirava Llamrei violentamente de encontro ao escudo defensivo mal formado e feito à pressa pelos Escudos Negros. Quebrou esse muro com uma velocidade e um peso impressionantes, e nós seguimo-lo com as espadas vacilantes, enquanto o punhado de Escudos Negros leais se juntava.

 

Gwydre estava ali. E Gwydre estava vivo.

 

Estava nas garras de dois Escudos Negros que, ao verem Artur, soltaram o rapaz. Nimue gritou-nos, rogando pragas através do círculo central de cinco fogueiras, enquanto Gwydre corria soluçante para junto do pai. Artur curvou-se e apenas com um braço puxou o filho para a sela. Depois virou-se para olhar para Merlim.

 

Merlim, de cujo rosto escorria suor, olhou fixa e calmamente para nós. Estava a meio de uma escada, de mão encostada a uma forca feita de troncos de árvore enterrados a direito no chão e cruzados por um terceiro, e essa forca encontrava-se agora justamente no centro das cinco fogueiras que constituíam o círculo do meio. O druida tinha vestida uma túnica branca, cujas mangas estavam vermelhas de sangue desde os punhos até aos cotovelos. Na sua mão tinha uma enorme faca, mas no seu rosto, posso jurar, vislumbrava-se um olhar momentâneo de completo alívio.

 

O pequeno Mardoc estava vivo, apesar de não sobreviver por muito tempo. A criança já estava nua, apenas com um pedaço de tecido que lhe fora atado à boca para silenciar os seus gritos, e pendia da forca pelos tornozelos. Junto dele, também pendurado pelos tornozelos, estava um corpo pálido e magro que parecia muito branco à luz das chamas. Simplesmente, a garganta do cadáver tinha sido cortada quase até à coluna e todo o sangue do homem escorrera para o interior do Caldeirão, pingando ainda das pontas lisas e avermelhadas do longo cabelo de Gawain. O seu cabelo era tão comprido que as tranças ensanguentadas caíam dentro do rebordo dourado do Caldeirão de prata de Clyddno Eiddyn, e foi apenas por esse cabelo comprido que eu percebi que era Gawain quem ali estava pendurado, uma vez que o seu belo rosto estava coberto de sangue, escondido pelo sangue, disfarçado pelo sangue.

 

Merlim, ainda com a longa faca com que tinha morto Gawain na mão, parecia ter emudecido com a nossa chegada. O seu olhar de alívio desaparecera e agora eu não conseguia de todo ler o que quer que fosse no seu rosto, mas Nimue guinchava connosco. Ergueu a palma da mão esquerda, a que tinha a cicatriz igual à da minha mão esquerda.

Mata Artur! gritou-me ela. Derfel! Tu prestaste-me juramento! Mata-o! Agora não podemos parar!

 

De repente, a lâmina de uma espada reluziu junto à minha barba. Era Galaad quem a empunhava e sorria gentilmente para mim.

 

Não te mexas, meu amigo disse ele. Ele conhecia o poder dos juramentos, mas também sabia que eu não mataria Artur e tentava, por isso, poupar-me à vingança de Nimue. Se Derfel se mexer disse ele a Nimue, cortar-lhe-ei a goela.

 

Corta! gritou ela. Esta é uma noite pela morte dos filhos dos reis!

 

Não do meu filho disse Artur.

 

Tu não és Rei, Artur Uther por fim, Merlim falou. Pensaste que eu iria matar Gwydre?

 

Então, porque está ele aqui? perguntou Artur. Tinha um braço em volta de Gwydre, enquanto o outro segurava a sua espada ensanguentada. Porque está ele aqui? Artur voltou a perguntar, mais zangado.

 

Pela primeira vez, Merlim nada tinha para dizer e foi Nimue quem respondeu.

 

Ele está aqui, Artur Uther disse ela com um sorriso escarninho, porque a morte dessa miserável criatura pode não ser suficiente. E apontou para Mardoc, que se contorcia desesperadamente na forca. Ele é filho de um rei, mas não o herdeiro legítimo.

 

Então Gwydre teria morrido? perguntou Artur.

 

E voltado à vida! disse Nimue, de forma beligerante. Ela tinha de gritar para ser ouvida por causa do barulho estilhaçante e encolerizado das fogueiras. Não conheces o poder do Caldeirão? Coloca os mortos no caldeirão de Clyddno Eiddyn e eles voltarão a caminhar, a respirar e a viver. Dirigiu-se com um passo imponente para Artur, a demência espelhada no seu único olho. Dá-me o rapaz, Artur.

 

Não, Artur puxou as rédeas de Llamrei e a égua afastou-se de Nimue. Ela virou-se para Merlim.

 

Mata-o! gritou ela, apontando para Mardoc. Ao menos podemos tentar com ele. Mata-o!

 

Não! gritei.

 

Mata-o! guinchou Nimue, e depois, como Merlim não se mexia, ela correu em direcção à forca.

 

Merlim parecia incapaz de se mexer, mas Artur voltou a virar Llamrei e evitou Nimue novamente. Deixou que o seu cavalo batesse nela, fazendo-a cair na turfa.

 

Deixa a criança viver disse Artur para Merlim. Nimue enclavinhou as mãos como garras e virou-as para ele, mãe, ele empurrou-a e, ao voltar-se novamente para ele, vendo-se-lhe apenas os dentes e as mãos como ganchos, oscilou a espada em direcção à cabeça dela, e essa ameaça acalmou-a.

 

Merlim moveu a lâmina brilhante para junto da garganta de Mardoc. O druida parecia quase afável, apesar das suas mangas ensopadas de sangue e da longa espada na sua mão.

 

Julgas, Artur Uther, que podes derrotar os Saxões sem a ajuda dos Deuses? perguntou ele.

 

Artur ignorou a pergunta.

 

Liberta o rapaz ordenou ele. Nimue virou-se para ele.

 

Pretendes ser amaldiçoado, Artur?

 

Eu estou amaldiçoado respondeu, amargamente.

 

Deixa o rapaz morrer! gritou Merlim da escada. Ele não te é nada, Artur. Uma aventura passageira de um rei, um bastardo nascido de uma prostituta.

 

E que mais sou eu gritou Artur do que uma aventura passageira de um rei, um bastardo nascido de uma prostituta?

 

Ele tem de morrer afirmou Merlim, pacientemente, e a sua morte irá trazer os Deuses até nós, e quando eles chegarem, Artur, colocaremos o seu corpo no Caldeirão e deixaremos que o sopro da vida volte.

 

Artur gesticulou na direcção do corpo horripilante e sem vida de Gawain, seu sobrinho.

 

E uma morte não basta?

 

Uma morte nunca é suficiente disse Nimue. Ela contornara o cavalo de Artur correndo para tentar alcançar a forca onde agora segurava com firmeza a cabeça de Mardoc para que Merlim pudesse cortar-lhe a garganta.

 

Artur aproximou Llamrei ainda mais da forca.

 

E se os Deuses não vierem depois de duas mortes consumadas, Merlim perguntou ele, quantas mais se seguirão?

 

Tantas quantas as necessárias respondeu Nimue.

 

E sempre Artur falou em voz alta, para que todos o pudéssemos ouvir que a Bretanha estiver em aflições, sempre que surgir um inimigo, sempre que surgir uma peste, sempre que os homens e as mulheres estiverem assustados, levaremos crianças para o cadafalso?

 

Se os Deuses vierem afirmou Merlim, jamais haverá pestes, medos ou guerras.

 

E virão eles? perguntou Artur.

 

Vêm a caminho! gritou Nimue. Olha! E apontou para cima com a sua mão livre. Todos olhámos e eu vi que as luzes no céu se desvaneciam. Os azuis brilhantes obscureciam-se em preto-púrpura, os vermelhos esfumavam-se e tornavam-se indistintos, e as estrelas brilhavam de novo para lá daquelas cortinas que agora se extinguiam.

 

Não! gemeu Nimue Não! E lançou o último grito num lamento que parecia durar para sempre.

 

Artur havia conduzido Llamrei até à forca.

 

Chamas-me o Amherawdr da Bretanha disse ele a Merlim, e um imperador tem de governar ou deixar de ser imperador, e eu não governarei numa Bretanha onde as crianças têm de morrer para salvar as vidas dos adultos.

 

Não sejas ridículo! protestou Merlim. Puro sentimentalismo!

 

Eu seria recordado disse Artur como um homem justo, e há já demasiado sangue nas minhas mãos.

 

Serás recordado gritou-lhe Nimue, como um traidor, um saqueador, um cobarde.

 

Mas não disse Artur, calmamente pelos descendentes desta criança e com estas palavras alcançou a forca e com a sua espada cortou a corda que segurava os tornozelos de Mardoc. Nimue gritou quando o rapaz caiu, depois saltou de novo para Artur com os punhos enclavinhados como garras, mas Artur ripostou batendo-lhe com força na cabeça com a parte achatada da sua espada, fazendo-a rodopiar aturdida. Conseguiu-se ouvir com facilidade a força do golpe por cima do crepitar das chamas. Nimue cambaleou, balbuciou, o seu único olho toldou-se, e depois caiu.

 

Devia ter feito isto a Guinevere resmungou Culhwuch para mim.

 

Galaad havia saído de ao pé de mim, tinha desmontado e agora soltava as amarras de Mardoc. De imediato, a criança começou a gritar pela mãe.

 

Nunca consegui habituar-me a crianças barulhentas disse Merlim calmamente, depois mudou a escada para que ficasse junto à corda que prendia Gawain à viga mestra. Subiu os degraus devagar. Não sei afirmou ele enquanto subia com esforço se os Deuses vieram ou não. Vós todos esperáveis demasiado, e talvez eles já aqui estejam. Quem sabe? Mas nós acabaremos sem o sangue do filho de Mordred e com isto serrou, desajeitadamente, a corda que prendia os tornozelos de Gawain. O corpo oscilava de tal modo, enquanto ele o soltava, que o cabelo ensopado de sangue batia no bordo do Caldeirão, mas assim que a corda se partiu o corpo caiu pesadamente no sangue, salpicando e manchando o rebordo do Caldeirão. Merlim desceu da escada devagar, depois ordenou aos Escudos Negros que haviam estado a observar a confrontação que trouxessem os enormes cestos de verga com sal que se encontravam a alguns metros de distância. Os homens vazaram o sal para dentro do Caldeirão, comprimindo-o com firmeza em torno do corpo arqueado e nu de Gawain.

 

E agora? perguntou Artur, embainhando a sua espada.

 

Nada afirmou Merlim. Terminou.

 

A Excalibur? perguntou Artur.

 

Está na espiral mais a sul disse Merlim, apontando nessa direcção, embora desconfie que tenhas de esperar até que as fogueiras se extingam antes de conseguires retirá-la.

 

Não! Nimue havia-se restabelecido o suficiente para protestar. O sangue jorrava do interior da bochecha que fora aberta pelo golpe de Artur. Os Tesouros são nossos!

 

Os Tesouros disse Merlim, penosamente foram reunidos e usados. Agora já nada valem. Artur pode ficar com a sua espada. Ele irá precisar dela. Virou-se e atirou a sua longa faca para a fogueira mais próxima, depois voltou a virar-se para olhar para os dois Escudos Negros que acabavam de comprimir o conteúdo do Caldeirão. O sal tornava-se rosa à medida que cobria o corpo hediondamente ferido de Gawain.

 

Na Primavera disse Merlim virão os Saxões, e nessa altura veremos se hoje aqui houve alguma magia.

 

Nimue gritou connosco. Chorou e bradou, cuspiu e amaldiçoou, prometeu-nos que a morte viria do ar, do fogo, da terra e do mar. Merlim ignorou-a, mas Nimue nunca estava preparada para aceitar meias medidas, e nessa noite tornou-se inimiga de Artur. Ainda nessa noite começou a trabalhar em maldições que lhe permitiriam vingar-se dos homens que haviam impedido a vinda dos Deuses a Mai Dun. Chamou-nos os saqueadores da Bretanha e prometeu-nos horrores.

 

Permanecemos na colina durante toda a noite. Os Deuses não vieram, e as fogueiras arderam tão furiosamente que apenas na tarde do dia seguinte Artur conseguiu reaver a Excalibur. Mardoc foi entregue a sua mãe, apesar de mais tarde ter vindo a saber que ele morrera nesse Inverno devido a uma febre.

 

Merlim e Nimue levaram consigo os outros Tesouros. Uma carroça puxada por bois levou o Caldeirão com o seu sinistro conteúdo. Nimue caminhava à frente e Merlim, como um velho obediente, seguia-a. Levaram Anbarr, o cavalo preto não domado de Gawain e levaram também o enorme estandarte da Bretanha. Para onde iam, nenhum de nós sabia, mas calculámos que seria para um sítio ermo, a oeste, onde as pragas de Nimue podiam ser aperfeiçoadas pelas tempestades do Inverno.

 

Antes de os Saxões chegarem.

 

É estranho, ao olhar para trás, lembrar como Artur era odiado nessa altura. No Verão, ele havia deitado por terra as esperanças dos Cristãos e agora, no final do Outono, destruíra os sonhos pagãos. Como sempre, pareceu surpreendido com a sua impopularidade.

 

Que mais era suposto eu fazer? perguntou-me. Deixar o meu filho morrer?

 

Cefydd fê-lo afirmei, inutilmente.

 

E ainda assim Cefydd perdeu a batalha! disse Artur, rispidamente. Seguíamos a cavalo para norte. Eu ia para casa, para Dun Carie, enquanto Artur, juntamente com Cuneglas e o bispo Emrys, viajava ao encontro do rei Meurig de Gwent. Esse encontro era o único assunto que interessava a Artur. Ele nunca acreditara que os Deuses salvassem a Bretanha dos Sais, mas achava que os oitocentos ou novecentos lanceiros bem treinados de Gwent podiam actuar como factor decisivo. Nesse Inverno, a sua cabeça fervilhava com números. Dumnónia, calculou ele, podia pôr em campo seiscentos lanceiros dos quais cem já haviam sido testados no campo de batalha. Cuneglas traria outros quatrocentos, os Escudos Negros irlandeses outros cento e cinquenta e a esses podíamos acrescentar talvez cem homens sem senhor que podiam vir da Armórica ou dos reinos a norte, em busca dos saques.

 

Digamos mil e duzentos homens calcularia Artur, depois afadigar-se-ia a ajustar para mais ou para menos de acordo com a sua disposição.

 

Se esta era optimista, por vezes, atrevia-se a acrescentar oitocentos homens de Gwent, dando-nos um total de dois mil homens. Contudo até mesmo isso, clamava ele, podia não ser o suficiente, porque os Saxões provavelmente teriam um exército ainda maior. Aelle podia reunir pelo menos setecentas lanças, e o dele era o mais fraco dos dois reinos saxões. Estimávamos que Cerdic teria mil lanças, e chegavam-nos rumores de que Cerdic comprara lanceiros a Clovis, o Rei dos Francos. Esses homens assoldadados recebiam em ouro e era-lhes prometido mais ouro quando a vitória os brindasse com os tesouros da Dumnónia. Os nossos espiões também informaram que os saxões esperariam até à passagem da Festa de Eostre, o seu festival da Primavera, para dar tempo a que os novos barcos chegassem do outro lado do mar. Eles terão dois mil e quinhentos homens, calculou Artur, e nós apenas temos mil e duzentos se Meurig não combater. Certamente que nós podíamos aumentar o recrutamento, mas nenhum recrutamento seria suficiente contra guerreiros muito bem treinados, e o nosso recrutamento de homens velhos e rapazes contrastaria com o fyrd saxão.

 

Então, sem os lanceiros de Gwent afirmei, sombriamente estamos condenados.

 

Artur raramente sorrira desde a traição de Guinevere, mas naquela altura sorriu.

 

Condenados? Quem diz isso?

 

Vós o dizeis, Senhor. Os números o dizem.

 

Tu nunca lutaste e ganhaste, estando em desvantagem numérica?

 

Sim, Senhor, assim já aconteceu.

 

Então, por que não podemos nós ganhar novamente?

 

Só um louco procura lutar contra um inimigo mais forte, Senhor afirmei.

 

Só um louco procura lutar afirmou ele, vigorosamente. Não quero lutar na Primavera. São os Saxões que pretendem fazê-lo, e nós não temos outra alternativa. Acredita em mim, Derfel, eu não quero estar em inferioridade numérica, e o que quer que eu consiga fazer para convencer Meurig a lutar, farei, mas se Gwent não quiser avançar então teremos de derrotar os saxões sozinhos. E nós podemos vencê-los! Acredita nisso, Derfel!

 

Eu acredito nos Tesouros, Senhor. Ele deu uma gargalhada ridícula.

 

Este é o Tesouro em que eu acredito disse ele, batendo ao de leve no copo da Excalibur. Acredita na vitória, Derfel! Se defrontarmos os Saxões como homens derrotados, eles darão os nossos ossos aos lobos. Mas se nós os defrontarmos como vencedores ouvi-los-emos gemer.

 

Era uma bela bravata, mas era difícil acreditar na vitória. Dumnónia estava envolta em pessimismo. Havíamos perdido os nossos Deuses, e o povo dizia que fora Artur quem os havia afastado. Ele não era apenas o inimigo do Deus cristão, agora era o inimigo de todos os Deuses e os homens diziam que os Saxões eram o seu castigo. Até mesmo o tempo pressagiava infortúnio porque, na manhã seguinte à minha separação de Artur, começou a chover e parecia que essa chuva não mais iria parar. Os dias que se seguiram trouxeram nuvens cinzentas baixas, um vento gelado, e uma chuva persistente. Tudo estava molhado. As nossas roupas, as nossas camas, a nossa lenha, todas as paredes das nossas casas pareciam untadas por causa da humidade. As lanças enferrujavam nos seus armeiros, os cereais armazenados germinavam ou ficavam bolorentos, e ainda assim a chuva fustigava implacavelmente vinda de oeste. Ceinwyn e eu fizemos os possíveis por vedar o palácio de Dun Carie. O irmão dela presenteou-a com peles de lobo que trouxera de Powys e nós usámo-las para forrar as paredes de madeira, mas o próprio ar por baixo das vigas do telhado parecia encharcado. Fogueiras ardiam com aspecto lúgubre dando-nos de má vontade um calor intermitente e fuliginoso que ruborescia os nossos olhos. As nossas duas filhas estavam intratáveis no início desse Inverno. Morwenna, a mais velha, que normalmente era a mais plácida e bem disposta das crianças, tornou-se violenta e tão insistentemente egoísta que Ceinwyn chegou a bater-lhe com o cinto.

 

Ela tem saudades de Gwydre disse-me Ceinwyn ao cabo de algum tempo.

 

Artur ordenara que Gwydre não saísse de ao pé de si, por isso o rapaz havia partido com o pai para se encontrarem com o rei Meurig.

 

Eles devem casar-se no próximo ano acrescentou Ceinwyn. Isso curá-la-á.

 

Se Artur deixar que Gwydre case com ela respondi, sombriamente. Nos tempos que correm, ele não sente grande afecto por nós. Eu quis acompanhar Artur a Gwent, mas ele recusou-se peremptoriamente. Houve uma época em que eu próprio pensei ser o seu melhor amigo, mas agora ele resmungava quando me via, em vez de me acolher com prazer. Ele pensa que eu pus em risco a vida de Gwydre afirmei.

 

Não discordou Ceinwyn. Ele tem sido distante contigo desde a noite em que descobriu Guinevere.

 

Porque é que isso haveria de mudar as coisas?

 

Porque tu estavas com ele, meu querido disse Ceinwyn, pacientemente, e contigo ele não pode fingir que nada mudou. Tu foste uma testemunha da sua vergonha. Ele vê-te e recorda-se dela. Também tem ciúmes.

 

Ciúmes? Ela sorriu.

 

Ele acha que tu és feliz. Agora, pensa que se tivesse casado comigo também seria feliz.

 

Provavelmente seria afirmei.

 

Até o sugeriu disse Ceinwyn, despreocupadamente.

 

Ele fez o quê? irrompi. Ela contou-me a verdade.

 

Não foi a sério, Derfel. O pobre homem precisa novamente de confiança. Ele julga que porque uma mulher o rejeitou, todas as mulheres poderão fazê-lo e, por isso, pediu-me.

 

Toquei no copo da Hywelbane.

 

Nunca me contaste isso.

 

Porque havia de o fazer? Nada havia para contar. Ele fez uma pergunta muito tímida e eu disse-lhe que jurara aos Deuses ficar contigo. Disse-lho com muita delicadeza, e depois disso ele sentiu-se muito envergonhado. Também lhe prometi que não te contaria, e agora quebrei essa promessa, o que significa que serei castigada pelos Deuses. Encolheu os ombros como se sugerisse que o castigo era merecido e, por isso, aceite. Ele precisa de uma esposa acrescentou ela de modo estranho.

 

Ou de uma mulher.

 

Não disse Ceinwyn. Não é um homem fortuito. Ele não consegue dormir com uma mulher e depois ir-se embora. Confunde desejo com amor. Quando Artur dá a sua alma, dá tudo, e não consegue dar apenas um pouco de si próprio.

 

Eu continuava furioso.

 

E que achou ele que eu faria enquanto casava contigo?

 

Ele pensou que tu governarias Dumnónia como guardião de Mordred

 

disse Ceinwyn. Tinha essa estranha ideia de que eu iria com ele para Broceliande e aí viveríamos como crianças sob a luz do sol, e tu ficarias aqui e derrotarias os Saxões. Ela deu uma gargalhada.

 

Quando te fez ele essa pergunta?

 

No dia em que te ordenou que partisses ao encontro de Aelle. Creio que pensou que eu fugiria com ele enquanto tu estavas fora.

 

Ou tinha esperança que Aelle me matasse afirmei ressentido, lembrando-me da promessa dos saxões de matarem todos os mensageiros.

 

Depois disso ficou muito envergonhado garantiu-me Ceinwyn, seriamente. E não lhe vais falar no que eu te contei. Ela fez-mo prometer e eu mantive a promessa. Foi uma coisa sem importância nenhuma acrescentou ela, acabando com a conversa. Ele teria ficado muito chocado se eu tivesse dito que sim. Ele fez a pergunta, Derfel, porque sofre, e os homens que sofrem comportam-se de modo desesperado. O que ele realmente deseja é fugir com Guinevere, mas não pode, porque o seu orgulho não o deixa, e ele sabe que todos precisamos dele para derrotar os Saxões.

 

Para o fazer precisávamos dos lanceiros de Meurig, mas não tivéramos quaisquer notícias sobre as negociações de Artur com Gwent. As semanas passavam e continuavam a não chegar notícias verdadeiras do Norte. Um sacerdote que viajara de Gwent contou-nos que Artur, Meurig, Cuneglas e Emrys haviam falado durante uma semana em Burrium, a capital de Gwent, mas o sacerdote nada sabia sobre o que fora decidido. O sacerdote era um homem baixo e sombrio, estrábico e com uma pequena barba, que moldava na forma de uma cruz com cera de abelha. Ele viera a Dun Carie, porque não havia nenhuma igreja na pequena vila e ele pretendia aí estabelecer uma. À semelhança de muitos destes sacerdotes errantes, tinha um grupo de mulheres; três criaturas sostras que se agrupavam protectoramente em volta dele. Eu soube pela primeira vez da sua chegada quando começou a pregar à porta da oficina do ferrador junto à nascente, e eu enviei Issa e mais dois lanceiros para pararem com o seu disparate e o levarem ao palácio. Demos-lhe a comer uma papa muito líquida de grãos de cevada germinados, que ele comeu avidamente, pondo colheradas da quente mistura na boca e depois sibilando e lançando perdigotos, porque a comida lhe queimava a língua. Bocados de papa alojaram-se na sua barba de formas estranhas. As mulheres que o acompanhavam recusaram-se a comer enquanto ele não tivesse acabado.

 

Tudo o que sei, Senhor respondeu ele às nossas impacientes perguntas é que Artur viajou agora para oeste.

 

Para onde?

 

Para Demétia, Senhor. Para se encontrar com Oengus mac Airem.

 

Porquê?

 

Ele encolheu os ombros.

 

Não sei, Senhor.

 

Está o rei Meurig a fazer preparativos para a guerra? perguntei.

 

Ele está preparado para defender o seu território, Senhor.

 

E para defender a Dumnónia?

 

Apenas se a Dumnónia reconhecer o único Deus, o Deus verdadeiro afirmou o sacerdote, fazendo o sinal da cruz com a colher de madeira e salpicando as suas vestes sujas com bocados da papa de cevada. O nosso Rei está convencido de que a cruz e as suas lanças não serão entregues aos pagãos.

 

Levantou os olhos para o crânio de boi que estava pregado a uma das nossas grandes vigas e fez de novo o sinal da cruz.

 

Se os Saxões tomarem a Dumnónia afirmei, então Gwent não estará muito longe.

 

Cristo irá proteger Gwent insistiu o sacerdote. Entregou a tigela a uma das suas mulheres, que rapou os escassos restos com um dedo imundo.

 

Cristo proteger-vos-á, Senhor continuou o sacerdote se vos tornardes humildes diante Dele. Se renunciardes aos vossos Deuses e vos baptizardes, então tereis a vitória no novo ano.

 

Então, porque não saiu Lancelote vitorioso no Verão passado? perguntou Ceinwyn.

 

O sacerdote olhou-a com o olho são, enquanto o outro vagueava entre sombras.

 

O rei Lancelote, Senhora, não foi O Escolhido. O rei Meurig, sim. Dizem as nossas Escrituras que um homem será escolhido e parece que o rei Lancelote não era esse homem.

 

Escolhido para fazer o quê? perguntou Ceinwyn.

 

O sacerdote olhou fixamente para ela; era ainda uma mulher bonita, tão preciosa e calma, a estrela de Powys.

 

Escolhido, Senhora afirmou ele para unir todos os povos da Bretanha sob o Deus vivo. Saxões e Bretões, Gwentianos e Dumnonianos, Irlandeses e Picos, todos venerando o único Deus verdadeiro e todos vivendo em paz e amor.

 

E se nós decidirmos não seguir o rei Meurig? perguntou Ceinwyn.

 

Nesse caso, o nosso Deus destruir-vos-á.

 

E essa perguntei é a mensagem que vieste aqui pregar?

 

Outra coisa não posso fazer, Senhor. Foi-me ordenado.

 

Por Meurig?

 

Por Deus.

 

Mas eu sou o senhor das terras dos dois lados da nascente afirmei e de todas as terras para sul até Caer Cadarn e para norte até Aquae Sulis e tu não vais pregar aqui sem a minha autorização.

 

Homem nenhum pode contrariar a palavra de Deus, Senhor afirmou o sacerdote.

 

Isto pode disse eu, desembainhando a Hywelbane.

 

As mulheres sibilaram. O sacerdote olhou fixamente para a espada, depois cuspiu para a lareira.

 

Arriscais-vos à ira de Deus?

 

Arriscas-te à minha ira disse eu e se amanhã ao pôr-do-Sol ainda estiveres nas terras que governo entrego-te como escravo aos meus escravos. Esta noite podes dormir com os animais, mas amanhã partirás.

 

No dia seguinte ele partiu ressentido e, como que para me castigar, a primeira neve desse Inverno chegou com a sua partida. Essa neve vinha cedo, prometendo uma estação rigorosa. No início caiu como saraiva, mas ao cair da noite tornara-se uma neve espessa que branqueava a terra na penumbra. Ficou mais frio na semana seguinte. Pingentes de gelo pendiam do interior do nosso telhado e começou, então, a longa luta de Inverno para nos aquecermos. Na vila, as gentes dormiam com o gado, enquanto nós combatíamos o ar gelado com enormes fogueiras que faziam com que os pingentes de gelo pingassem do colmo. Colocámos o nosso gado para o Inverno no alpendre para os animais, e matámos os outros, guardando a sua carne em sal como Merlim havia conservado o corpo ensopado de sangue de Gawain. Durante dois dias a vila ecoou com os mugidos enfurecidos de bois que eram arrastados para a morte. A neve estava salpicada de vermelho e o ar fedia a sangue, sal e excrementos. Dentro do palácio as fogueiras bramiam, mas aqueciam-nos pouco. Acordávamos frios, tremíamos embrulhados nas nossas peles e aguardávamos em vão um degelo. A nascente gelou de tal modo que todos os dias tínhamos de quebrar o gelo para retirar a água.

 

Continuámos ainda assim a treinar os nossos jovens lanceiros. Fizemo-los marchar na neve, enrijecendo os seus músculos para lutarem contra os Saxões. Nos dias em que nevava com maior intensidade e o vento fazia com que os espessos flocos serpenteassem em volta das empenas encrustadas de neve das pequenas casas da vila, fiz com que os homens retirassem os seus escudos dos pranchões em salgueiro cobertos com cabedal. Eu formava um grupo de guerra, mas ao observá-los a trabalhar temi pelas suas vidas, questionando-me quantos iriam sobreviver para ver o Sol do Verão.

 

Chegou uma mensagem de Artur mesmo antes do Solstício. Em Dun Carie estávamos ocupados a preparar o grande festival que duraria toda a semana até à morte do sol, quando o bispo Emrys chegou. Montava um cavalo com os cascos envoltos em cabedal e era escoltado por seis lanceiros de Artur. O bispo disse-nos que ficara em Gwent a discutir com Meurig, enquanto Artur fora para Demétia.

 

O rei Meurig não recusou liminarmente ajudar-nos disse-nos o bispo, tremendo junto à lareira, onde abrira um espaço para si, empurrando dois dos nossos cães para o lado. Dirigiu as suas mãos rechonchudas e com gretas vermelhas na direcção das chamas. Todavia, as suas condições para essa ajuda são, receio eu, inaceitáveis. Espirrou. Querido. Senhora, sois muito amável disse ele a Ceinwyn que lhe trouxera um corno de hidromel quente.

 

Que condições? perguntei. Emrys abanou a cabeça, tristemente.

 

Ele quer o trono de Dumnónia, Senhor.

 

Ele quer o quê? explodi.

 

Emrys ergueu uma mão rechonchuda e gretada para silenciar a minha ira.

 

Ele diz que Mordred não tem capacidade para governar, que Artur não deseja governar, e que a Dumnónia precisa de um rei cristão. Ele oferece-se.

 

Estupor disse eu. O estupor traidor e covarde.

 

Artur não pode aceitá-lo, claro disse Emrys o seu juramento a Uther garante-o. Bebeu um pequeno gole de hidromel e suspirou apreciadoramente. É tão bom estar novamente quente.

 

Então, a menos que concedamos o reino a Meurig afirmei zangado, ele não nos ajudará?

 

Assim o afirma. Ele insiste que Deus irá proteger Gwent e que, a menos que o aclamemos rei, teremos de defender Dumnónia sozinhos.

 

Caminhei para a porta do palácio, afastei a cortina de cabedal e olhei fixamente para a neve que formava um monte alto nas pontas da nossa paliçada de madeira.

 

Haveis falado com o seu pai? perguntei a Emrys.

 

Estive, de facto, com Tewdric disse o bispo. Fui com Agrícola, que vos manda as melhores saudações.

 

Agrícola fora o senhor da guerra do rei Tewdric, um magnífico guerreiro que combatera com uma armadura romana e com uma ferocidade arrepiante Mas agora Agrícola era um homem velho, e Tewdric, o seu senhor, desistira do trono e rapara a cabeça numa tonsura de sacerdote, e deste modo concedera o poder ao seu filho.

 

Agrícola está bem? perguntei a Emrys.

 

Velho, mas vigoroso. Ele concorda connosco, claro, mas... Emrys encolheu os ombros. Quando Tewdric abdicou do trono, desistiu do seu poder. Ele diz que não pode mudar a opinião do seu filho.

 

Não o fará resmunguei, voltando para junto da fogueira.

 

Provavelmente não o fará concordou Emrys. Suspirou. Eu gosto de Tewdric, mas por enquanto ele está ocupado com outros problemas.

 

Que problemas? perguntei com demasiada veemência.

 

Ele gostaria de saber respondeu Emrys, acanhadamente, se no céu comeremos como mortais, ou se seremos poupados à necessidade de alimentos terrenos. Existe uma crença, deveis ter ouvido, que afirma que os anjos nada comem, que de facto são poupados a todos os vulgares e terrenos apetites, e o velho Rei está a tentar reproduzir esse modo de vida. Come muito pouco, de facto, vangloriou-se por certa vez conseguir estar três semanas inteiras sem defecar e, depois disso, sentir-se muito mais piedoso. Ceinwyn sorriu, mas eu nada disse, limitando-me a olhar fixamente para o bispo sem acreditar.

 

Emrys acabou o hidromel.

 

Tewdric afirma acrescentou ele dubiamente que passará fome até atingir o estado de graça. Confesso que não estou convencido disso, mas ele parece de facto um homem muitíssimo piedoso. Todos devíamos ser igualmente abençoados.

 

O que diz Agrícola? perguntei.

 

Ele vangloria-se da frequência com que defeca. Perdoai-me, Senhora.

 

Deve ter sido uma alegre reunião para ambos disse Ceinwyn, secamente.

 

Não foi útil no imediato admitiu Emrys. Eu tinha esperança de convencer Tewdric a mudar a opinião de seu filho, mas infelizmente encolheu os ombros, tudo o que agora podemos fazer é rezar.

 

E manter as nossas lanças aguçadas afirmei com ar triste.

 

Isso também concordou o bispo. Voltou a espirrar e fez o sinal da cruz para afastar a má sorte do espirro.

 

Meurig deixará que os lanceiros de Powys atravessem as suas terras? perguntei.

 

Cuneglas disse-lhe que se ele recusasse essa autorização atravessaria sem ela.

 

Soltei um gemido. A última coisa que precisávamos era que um reino britânico lutasse contra outro. Durante anos, semelhante estado de guerra enfraquecera a Bretanha e havia permitido que os Saxões se apoderassem de vales e cidades, apesar de ultimamente terem sido os Saxões a lutarem entre si, e nós quem obtivera vantagem da sua animosidade infligindo-lhes derrotas; mas Cerdic e Aelle haviam aprendido a lição que Artur inculcara nos Bretões: que a vitória surgia com a união. Agora eram os Saxões que estavam unidos e os Britânicos divididos.

 

Creio que Meurig deixará Cuneglas atravessar disse Emrys, porque ele não quer fazer a guerra com ninguém. Ele apenas pretende a paz.

 

Todos nós pretendemos a paz afirmei, mas se a Dumnónia cair, então Gwent será o próximo país a sentir as lâminas dos saxões.

 

Meurig insiste que não disse o bispo e está a oferecer imunidade a todo o dumnoniano cristão que deseje evitar a guerra.

 

Estas eram más notícias, porque significavam que quem quer que não tivesse coragem para enfrentar Aelle e Cerdic apenas teria de clamar a fé cristã para ter refúgio no reino de Meurig.

 

Ele acredita verdadeiramente que o seu Deus o protegerá? perguntei a Emrys.

 

Ele é obrigado a isso, Senhor, senão para que serviria o Deus? Claro que Deus pode ter outros planos. É tão difícil ler a Sua mente. Agora o bispo estava suficientemente quente para experimentar retirar a grande capa de pêlo de urso dos ombros. Por baixo dela vestia um justilho de pêlo de ovelha. Colocou a mão dentro do justilho e eu presumi que esmagava um piolho, mas em vez disso retirou um pergaminho enrolado atado com uma fita e selado com uma gota de cera fundida. Artur enviou-me isto de Demétia afirmou, oferecendo-me o pergaminho, e pediu que o entregueis à princesa Guinevere.

 

Certamente disse eu, pegando no pergaminho. Confesso que me senti tentado a quebrar o selo e a ler o documento, mas resisti à tentação. Sabeis o que diz? perguntei ao bispo.

 

Infelizmente não, Senhor disse Emrys, apesar de não olhar para mim, e eu desconfiei que o velho quebrara o selo e sabia de facto o conteúdo da carta, mas era incapaz de admitir esse pequeno pecado. Estou certo de que não será nada de importante disse o bispo, mas ele pediu especialmente que ela o receba antes do solstício. Ou seja, antes de ele voltar.

 

Porque foi ele a Demétia? perguntou Ceinwyn.

 

Para se certificar de que os Escudos Negros lutarão na próxima Primavera, suponho disse o bispo, mas eu percebi uma certa evasão na sua voz. Desconfiei que a carta continha o verdadeiro motivo da visita de Artur a Oengus mac Airem, mas Emrys não podia revelá-lo sem também admitir que quebrara o selo.

 

No dia seguinte dirigi-me para Ynys Wydryn. Não ficava longe, mas a viagem durou a maior parte da manhã, porque em alguns sítios, onde os caminhos estavam cheios de neve, tive de puxar o meu cavalo e a mula. A mula levava uma dúzia de peles de lobo que Cuneglas nos trouxera e eram a prova de uma oferenda de boas-vindas, porque o quarto com paredes de madeira onde Guinevere estava prisioneira tinha inúmeras rachas por onde o vento gelado sibilava. Fui encontrá-la inclinada junto à fogueira que ardia no centro do quarto. Ela endireitou-se quando fui anunciado, depois mandou que as suas duas servas se retirassem para as cozinhas.

 

Estou tentada disse ela a tornar-me serva de cozinha. Pelo menos a cozinha é mais quente, mas infelizmente está cheia de cristãos hipócritas. Não partem um ovo sem louvar ao seu desprezível Deus. Arrepiou-se e ajustou mais a sua capa em volta dos ombros estreitos. Os Romanos disse ela sabiam como manter-se quentes, mas parece que nós perdemos essa capacidade.

 

Ceinwyn manda-vos isto, Senhora disse eu, deitando as peles para o chão.

 

Agradece-lhe por mim disse Guinevere e depois, apesar do frio, afastou-se e abriu os postigos de uma janela para que a luz do dia pudesse entrar no quarto. O fogo agitou-se com a corrente de ar frio e fagulhas elevaram-se serpenteando até às vigas enegrecidas. Guinevere estava embrulhada numa grossa lã castanha. Estava pálida, mas aquele rosto altivo e de olhos verdes não perdera uma ponta do seu poder nem do seu orgulho. Eu esperava ver-te mais cedo censurou-me ela.

 

Tem sido uma estação rigorosa, Senhora disse eu, desculpando a minha longa ausência.

 

Eu quero saber, Derfel, o que aconteceu em Mai Dun disse ela.

 

Contar-vos-ei, Senhora, mas primeiro foi-me ordenado que vos entregasse isto. Retirei o pergaminho de Artur da bolsa colocada no meu cinto e dei-lho. Ela arrancou a fita, levantou o selo de cera com uma unha e desdobrou o documento. Leu-o com o auxílio do brilho intenso da luz reflectida pela neve e que entrava pela janela. Vi o seu rosto comprimir-se, mas não demonstrou nenhuma outra reacção. Pareceu-me que lia a carta segunda vez, depois enrolou-a e atirou-a para um cofre de madeira.

 

Então, fala-me de Mai Dun disse ela.

 

O que sabeis ao certo? perguntei-lhe.

 

Eu sei aquilo que Morgana escolhe contar-me, e o que essa cadela escolhe é uma versão da verdade do seu Deus miserável. Falou suficientemente alto para ser ouvida por alguém que escutasse à porta a nossa conversa.

 

Duvido que o Deus de Morgana tenha ficado decepcionado com o que aconteceu afirmei, depois contei-lhe tudo o que aconteceu naquela Véspera do Samain. Quando terminei ela permaneceu em silêncio, olhando apenas fixamente pela janela, para os domínios cobertos de neve onde uma dúzia de resistentes peregrinos se ajoelhava diante do Espinheiro Sagrado. Alimentei o fogo com cepos da pilha que se encontrava junto à parede.

 

Então Nimue levou Gwydre para o cume? perguntou Guinevere.

 

Ela enviou Escudos Negros para que lho levassem. Na verdade, para que o raptassem. Não foi difícil. A cidade estava cheia de estranhos e todo o tipo de lanceiros entrava e saía do palácio. Fiz uma pausa. Todavia, tenho dúvidas de que ele alguma vez tenha estado verdadeiramente em perigo.

 

Claro que esteve! disse ela, bruscamente. A sua veemência surpreendeu-me.

 

Era a outra criança que iria ser morta protestei o filho de Mordred. Ele estava nu, pronto para ser morto, e Gwydre não.

 

E se a morte dessa outra criança em nada tivesse resultado? Nessa altura o que teria acontecido? perguntou Guinevere. Julgas que Merlim não teria pendurado Gwydre pelos tornozelos?

 

Merlim não faria isso ao filho de Artur respondi, embora, confesso, não houvesse convicção na minha voz.

 

Mas Nimue faria disse Guinevere. Nimue mataria todas as crianças da Bretanha para trazer os Deuses novamente para a Bretanha, e Merlim ter-se-ia sentido tentado a fazê-lo. Ficar a esta distância ela desenhou um espaço com um dedo e o polegar onde cabia somente uma moeda e apenas com a vida de Gwydre entre Merlim e a vinda dos Deuses? Ah, creio que ele se teria sentido tentado.

 

Ela caminhou na direcção da fogueira e abriu o manto para deixar que o calor penetrasse nas suas pregas. Usava um vestido preto por baixo do manto e não tinha uma única jóia à vista. Nem tão pouco um anel nos dedos.

 

Merlim disse ela, suavemente pode ter sentido o tormento da culpa por ir matar Gwydre, mas não Nimue. Ela não vê qualquer diferença entre este mundo e o Outro Mundo, por isso o que lhe importa que uma criança viva ou morra? No entanto, a criança que importa, Derfel, é o filho do governante. Para conquistar o que é mais precioso tens de desistir do que é mais valioso, e o que é valioso na Dumnónia não é uma qualquer cria bastarda de Mordred. É Artur quem aqui governa, não é Mordred. Nimue queria a morte de Gwydre. Merlim sabia-o, ele apenas teve esperança que os mortos de menor importância bastassem. Mas Nimue não se preocupa com isso. Um dia, Derfel, ela reunirá de novo os Tesouros e então Gwydre terá o seu sangue vertido para o Caldeirão.

 

Não enquanto Artur viver.

 

Não enquanto também eu viver! declarou ela furiosamente, e depois, reconhecendo a sua incapacidade, encolheu os ombros. Virou-se de costas para a janela e deixou cair o manto castanho. Eu não tenho sido uma boa mãe afirmou, inesperadamente.

 

Eu não sabia o que dizer, por isso permaneci em silêncio. Nunca fora chegado a Guinevere, de facto ela tratava-me com o mesmo misto rude de afecto e irrisão que podia demonstrar por um cão estúpido mas submisso, mas agora, talvez por não ter mais ninguém com quem partilhar os seus pensamentos, ela oferecia-mos.

 

Eu nem tão-pouco gosto de ser mãe admitiu ela. Agora, aquelas mulheres apontou para as mulheres de Morgana vestidas de branco que se apressavam pela neve por entre os edifícios do santuário todas elas veneram a maternidade, mas todas estão secas como cascas. Choram pela sua Maria e

dizem-me que só uma mãe consegue sentir a verdadeira tristeza, mas quem a quer sentir? Fez a pergunta com rispidez. É tudo um enorme desperdício de vida! Agora estava amargamente zangada. As vacas dão boas mães e as cabras amamentam de forma perfeitamente adequada, por isso que mérito tem a maternidade? Qualquer rapariga estúpida pode ser mãe! Aliás, é apenas para isso que a maioria serve! A maternidade não é uma proeza, é uma inevitabilidade! Vi que ela chorava, apesar da sua ira. Mas foi tudo o que Artur sempre quis que eu fosse! Uma vaca parideira!

 

Não, Senhora respondi.

 

Ela virou-se para mim enraivecida e com os olhos a brilharem com lágrimas.

 

Sabes mais do que eu sobre isto, Derfel?

 

Ele tinha orgulho em vós, Senhora afirmei, acanhadamente. Ele rejubilava com a vossa beleza.

 

Ele podia ter feito uma estátua minha se era tudo o que queria! Uma estátua com canais de leite onde podia amontoar os seus infantes!

 

Ele amava-vos protestei.

 

Ela olhou-me fixamente e eu pensei que fosse irromper num acesso de cólera, mas em vez disso sorriu tristemente.

 

Ele venerava-me, Derfel disse ela, enfastiada, e isso não é a mesma coisa que estar apaixonado. Sentou-se de repente, caindo num banco colocado junto à arca de madeira. E ser venerada, Derfel, é muito cansativo. Mas agora parece ter encontrado uma nova deusa.

 

Ele fez o quê, Senhora?

 

Não sabias? Ela pareceu surpreendida, depois agarrou na carta com um puxão. Toma, lê.

 

Tomei o pergaminho da sua mão. Não tinha data, apenas o endereço Moridunum, mostrando que havia sido escrita na capital de Oengus mac Airem. A carta estava redigida com a letra firme de Artur e era tão fria como a neve espessa sobre o peitoril da janela. ”Deveis saber, Senhora” escrevera ele, ”que renuncio a vós como minha esposa e tomo Argante, filha de Oengus mac Airem no vosso lugar. Não renuncio a Gwydre, apenas a vós.” Era tudo. Nem tão-pouco estava assinada.

 

Não sabias mesmo? perguntou-me Guinevere.

 

Não, Senhora afirmei.

 

Eu estava muito mais admirado do que Guinevere. Ouvira dizer aos homens que Artur devia tomar outra mulher, mas ele nada me dissera e senti-me ofendido por ele não ter confiado em mim. Senti-me ofendido e desiludido.

 

Eu não sabia insisti.

 

Alguém abriu a carta disse Guinevere num divertimento perverso. Podes ver que deixaram uma mancha de sujidade na parte inferior da folha. Artur não o teria feito. Ela recostou-se de tal modo que o seu cabelo ruivo solto ficou esmagado contra a parede. Porque vai ele casar-se? perguntou ela.

 

Encolhi os ombros.

 

Um homem deve ser casado, Senhora.

 

Disparate. Certamente não tens Galaad em menor conta por nunca se ter casado.

 

Um homem precisa... Comecei, depois a minha voz esmoreceu.

 

Eu sei de que precisa um homem disse Guinevere, divertida. Mas porque vai Artur casar-se agora? Achas que ele ama esta rapariga?

 

Assim o espero, Senhora. Ela sorriu.

 

Ele vai casar-se, Derfel, para provar que não me ama.

 

Acreditei no que disse, mas não me atrevi a concordar com ela. Em vez de o fazer, afirmei:

 

Tenho a certeza que é por amor, Senhora. Ela riu-se.

 

Que idade tem essa Argante?

 

Quinze? calculei. Talvez apenas catorze? Ela franziu as sobrancelhas, recordando-se.

 

Pensei que ela estava prometida a Mordred?

 

Também eu o julgava respondi, porque me lembrava de Oengus a oferecer em casamento ao nosso Rei.

 

Mas porque havia Oengus de casar a rapariga com um idiota coxo como Mordred quando pode pô-la na cama de Artur? disse Guinevere. Apenas quinze anos, pensas tu?

 

Se já os tiver.

 

É bonita?

 

Nunca a vi, Senhora, mas Oengus assim o afirma.

 

O Uí Liatháin, gera, de facto, raparigas bonitas afirmou Guinevere. A irmã dele era bonita?

 

Isolda? Sim, de certo modo.

 

Esta rapariguinha terá de ser bonita disse Guinevere num tom de voz divertido. De outro modo, Artur não olhará para ela. Todos os homens têm de o invejar. Isso, tão só, exige ele às suas mulheres. Elas têm de ser belas e, claro, muito mais bem comportadas do que eu fui. Deu uma gargalhada e olhou-me de soslaio. Mas ainda que ela seja bonita e bem comportada, não resultará, Derfel.

 

Não?

 

Oh, tenho a certeza que a rapariguinha consegue dar-lhe bebés se é isso o que ele quer, mas a menos que seja esperta ele enfadar-se-á bastante na sua companhia. Virou-se para olhar fixamente para a fogueira. Porque pensas tu que me escreveu a contar?

 

Porque acha que devíeis saber afirmei. Ela riu-se da minha afirmação.

 

Eu devia saber? Porque havia eu de me importar que ele durma com uma qualquer rapariguinha irlandesa? Eu não preciso de saber, mas ele precisa de mo dizer. Voltou a olhar para mim. E ele quererá saber qual foi a minha reacção, não é?

 

É? perguntei um pouco confuso.

 

Claro que sim. Por isso diz-lhe, Derfel, que eu me ri, olhava-me fixa e desafiadoramente, depois, de repente encolheu os ombros. Não, não digas. Diz-lhe que lhe desejo as maiores felicidades. Diz-lhe o que quiseres, mas pede-lhe um favor em meu nome. Fez uma pausa, e eu percebi como ela detestava pedir favores. Eu não quero morrer, Derfel, violada por uma horda de guerreiros saxões cheios de piolhos. Quando Cerdic vier na próxima Primavera, pede a Artur para mudar o meu cárcere para um local mais seguro.

 

Creio que aqui estareis em segurança, Senhora afirmei.

 

Diz-me porque pensas isso? ordenou-me, rispidamente. Demorei alguns instantes a organizar o meu raciocínio.

 

Quando os Saxões vierem afirmei, avançarão ao longo do vale do Tamisa. O seu objectivo é alcançar o mar Severn e esse é o caminho mais rápido.

 

Guinevere abanou a cabeça.

 

O exército de Aelle virá ao longo do Tamisa, Derfel, mas Cerdic atacará no sul e rumará para norte para se juntar a Aelle. Ele virá por aqui.

 

Artur diz que não, insisti. Ele acredita que eles não confiam um no outro, por isso quererão manter-se juntos para impedir qualquer traição.

 

Guinevere rejeitou de novo o que eu afirmava abanando, abruptamente, a cabeça.

 

Aelle e Cerdic não são tolos, Derfel. Eles sabem que têm de confiar um no outro o tempo suficiente para ganharem. Depois disso podem zangar-se, mas nunca antes. Quantos homens trarão eles?

 

Pensamos que dois mil, talvez dois mil e quinhentos. Ela acenou com a cabeça.

 

O primeiro ataque ocorrerá no Tamisa, e será suficientemente vasto para vos fazer crer que é o seu maior ataque. E depois de Artur ter reunido as suas forças para se opor a esse exército, Cerdic marchará a sul. Ele investirá selvaticamente, Derfel, e Artur terá de enviar homens para lhe fazerem frente, e quando o fizer, Aelle atacará os restantes.

 

A menos que Artur deixe Cerdic investir selvaticamente disse eu, não acreditando na sua previsão nem por um instante.

 

Ele podia fazê-lo concordou ela, mas se assim for, então Ynys Wydryn ficará em mãos saxónicas e eu não quero estar aqui quando isso acontecer. Se ele não quiser libertar-me, então pede-lhe que me prenda em Glevum.

 

Hesitei. Não vi razão para não passar o seu pedido a Artur, mas queria ter a certeza de que ela estava a ser sincera.

 

Se Cerdic vier de facto nesta direcção, Senhora atrevi-me a dizer, é provável que traga amigos vossos no seu exército.

 

Ela lançou-me um olhar mortífero. Manteve-o por longos instantes antes de falar.

 

Não tenho amigos em Lloegyr afirmou, por fim, friamente. Hesitei, depois decidi continuar.

 

Eu vi Cerdic há menos de dois meses afirmei e Lancelote estava na sua companhia.

 

Nunca antes eu lhe mencionara o nome de Lancelote e ela fez um movimento seco e brusco com a cabeça como se eu lhe tivesse batido.

 

O que estás tu a dizer, Derfel? perguntou ela, suavemente.

 

Estou a dizer, Senhora, que Lancelote virá aqui na Primavera. Estou a sugerir, Senhora, que Cerdic fará dele senhor destas terras.

 

Ela fechou os olhos e, durante alguns segundos, não tive a certeza se ria se chorava. Depois vi que era o riso que a fazia estremecer.

 

És um tolo disse ela, olhando novamente para mim. Tu estás a tentar ajudar-me! Julgas que amo Lancelote?

 

Tendes querido que ele fosse Rei afirmei.

 

O que tem isso que ver com o amor? perguntou ela, de forma ridícula. Eu quero que ele seja Rei, porque é um homem fraco, e uma mulher só pode governar neste mundo através de um homem fraco como ele. Artur não é fraco. Ela respirou bem fundo. Mas Lancelote é, e talvez ele governe aqui quando os Saxões vierem, mas se houver alguém que controle Lancelote não serei eu, nem nenhuma mulher, mas Cerdic, e esse, segundo consta, é tudo menos fraco.

 

Ela levantou-se, passou por mim e arrancou-me a carta das mãos. Desdobrou-a, leu-a uma última vez, depois atirou o pergaminho para o meio das chamas. Escureceu, encaracolou-se, depois consumiu-se nas chamas.

 

Vai disse ela, olhando para as labaredas e diz a Artur que eu chorei com as suas notícias. É o que ele quer ouvir, por isso diz-lhe. Diz-lhe que chorei.

 

Deixei-a. Nos dias que se seguiram, a neve derreteu, mas as chuvas voltaram e as árvores despidas e escuras gotejavam numa região que parecia decompor-se no desânimo das brumas. O solstício aproximava-se, apesar de o Sol nunca aparecer. O mundo mergulhava num desespero sombrio e profundo. Esperei pelo regresso de Artur, mas ele não me mandou chamar. Levou a sua nova noiva para Durnovária e celebrou aí o solstício. Se ele se importava com o que Guinevere pensava sobre o seu novo casamento, não me perguntou. Demos o festim do solstício de Inverno no palácio de Dun Carie e não havia uma única pessoa presente que não suspeitasse que aquele seria o nosso último festim. Fizemos as nossas oferendas ao Sol do solstício de Inverno, mas sabíamos que quando o sol nascesse de novo não traria vida à região, mas sim morte. Traria lanças, espadas e machados saxões. Rezámos, festejámos e tememos que estávamos condenados. E a chuva continuou a cair sem parar.

 

               Mynydd Baddon

 

Quem? perguntou Igraine depois de ter lido a primeira folha da última pilha de pergaminhos. Ela aprendeu algumas coisas em língua saxónica nos últimos meses e sente-se muito orgulhosa com essa proeza, apesar de na verdade ser uma língua bárbara e muito menos subtil do que o britânico.

 

Quem? repeti a pergunta.

 

Quem foi a mulher que levou a Bretanha à destruição? Foi Nimue, não foi?

 

Se me concederdes tempo para escrever a história, querida Senhora, descobrireis.

 

Eu sabia que dirias isso. Nem tão-pouco sei porque perguntei. Sentou-se no grande rebordo do peitoril da minha janela com uma mão na barriga saliente e a cabeça inclinada para um dos lados, como se estivesse à escuta. Passado algum tempo, um olhar de deleite travesso surgiu-lhe no rosto.

 

O bebé está a dar pontapés disse ela. Queres senti-lo? Estremeci.

 

Não.

 

Porque não?

 

Nunca me interessei por bebés. Mostrou-me o seu desacordo.

 

Irás adorar o meu, Derfel.

 

Será?

 

Ele será lindo!

 

Como sabeis inquiri, que é um rapaz?

 

Porque nenhuma rapariga consegue dar pontapés com tamanha força, é por isso. Olha! E a minha Rainha alisou bem o vestido azul por cima da sua barriga e riu quando aquela parte do tecido estremeceu. Fala-me de Argante disse ela, largando o vestido.

 

Pequena, morena, magra, bela.

 

Igraine mostrou-se discordante diante da inadequação da minha descrição.

 

Ela era esperta?

 

Reflecti sobre isso.

 

Ela era astuta, por isso sim, tinha um certo tipo de esperteza, mas nunca foi desenvolvida pela educação.

 

Como resposta a esta declaração, a minha Rainha encolheu os ombros desdenhosamente.

 

E a educação, é assim tão importante?

 

Penso que é, sim. Sempre lamentei nunca ter aprendido Latim.

 

Porquê? perguntou Igraine.

 

Porque muitas das experiências da humanidade estão escritas nessa língua, Senhora, e uma das coisas que uma educação nos dá é o acesso a todas as coisas que os outros povos conheceram, temeram, aquilo com que sonharam e o que alcançaram. Quando estais em apuros ajuda descobrir alguém que tenha anteriormente passado pela mesma aflição. Isso explica as coisas.

 

Tais como? perguntou Igraine. Encolhi os ombros.

 

Recordo-me de uma coisa que Guinevere me disse certa vez. Eu não sabia o que significava, porque era em Latim, mas ela traduziu-o, e isso explicou exactamente Artur. Também nunca o esqueci.

 

Então? Continua.

 

Odi at amo citei as estranhas palavras, devagar excrucior.

 

Que significa?

 

Odeio e amo, sofro. Um poeta escreveu o verso, esqueci-me do seu nome, mas Guinevere havia lido o poema e, um dia, quando falávamos de Artur, ela citou o verso. Sabeis que ela o compreendia perfeitamente.

 

Argante compreendia-o?

 

Oh, não.

 

Ela sabia ler?

 

Não tenho a certeza. Não me recordo. Provavelmente não.

 

Como era ela?

 

Tinha uma pele muito pálida disse eu, porque se recusava a apanhar sol. Gostava da noite, isso sim. E tinha um cabelo muito escuro, tão brilhante como as penas de um corvo.

 

Dizes que ela era pequena e magra? perguntou Igraine.

 

Muito magra e bastante baixa respondi, mas do que melhor me recordo em relação a Argante é que muito raramente sorria. Observava tudo e nada lhe escapava, transparecendo sempre um olhar avaliador no seu rosto. As pessoas confundiam esse olhar com esperteza, mas não o era de todo. Ela era simplesmente a mais nova de sete ou oito filhas e, desse modo, estava sempre com receio de ser posta de parte. Estava constantemente atenta ao seu quinhão, e nem por um momento deixava de pensar que o não recebia.

 

Igraine fez uma careta.

 

Fá-la parecer horrível!

 

Ela era gananciosa, fria e muito jovem afirmei, mas também era bonita. Tinha uma delicadeza muito comovente. Fiz uma pausa e suspirei. Pobre Artur. Na verdade, escolheu muito mal as suas mulheres. Excepto Ailleann, claro, mas no fim de contas ele não a escolheu. Ela foi-lhe dada como escrava.

 

O que aconteceu a Ailleann?

 

Morreu durante a Guerra Saxónica.

 

Foi morta? Igraine estremeceu.

 

Por uma epidemia respondi. Era uma morte muito comum. Cristo.

 

Este nome parece realmente estranho na página, mas deixá-lo-ei aí. No preciso instante em que Igraine e eu falávamos sobre Ailleann, o bispo Sansum entrou nos aposentos. O santo não sabe ler, e porque desaprovaria terminantemente o meu relato sobre esta história de Artur, Igraine e eu fingimos que estou a escrever um Evangelho na língua saxónica. Digo que ele não sabe ler, mas Sansum tem a habilidade de reconhecer algumas palavras e Cristo é uma delas. Por isso a escrevi. Ele também a viu e soltou um gemido em tom duvidoso. Ultimamente parece muito velho. Quase todos os seus cabelos desapareceram, embora ainda tenha dois tufos brancos como as orelhas de Lughtigern, o Lorde Rato. Sente dores quando urina, mas não submeterá o seu corpo às feiticeiras para que o curem, porque afirma serem todas pagãs. Deus, reclama o santo, curá-lo-á, embora haja alturas, Deus me perdoe, em que eu rezo para que o santo esteja prestes a morrer, porque então este pequeno mosteiro teria um novo bispo.

 

A minha Senhora está bem? perguntou ele a Igraine depois de olhar de soslaio para o pergaminho.

 

Obrigada, bispo, estou sim.

 

Sansum percorreu o aposento, olhando aqui e ali à procura de algo de errado, embora eu não saiba dizer o que esperava ele encontrar. O quarto é muito simples; uma cama pequena, uma escrivaninha, um banquinho e uma lareira. Ele teria gostado de me criticar por queimar muita lenha, mas hoje está um dia de Inverno mais ameno e estou a poupar a pouca lenha que o santo me permite ter. Com uma palmada afastou um pedaço de sujidade. Decidiu não comentar o facto, e em vez de o fazer examinou Igraine.

 

Deverá ser para breve a vossa altura, Senhora.

 

Menos de duas luas, segundo dizem, bispo informou Igraine, e fez o sinal da cruz batendo no seu vestido azul.

 

Sabeis, certamente, que os nossos sacerdotes intercederão nos céus a favor de vossa Senhoria disse Sansum, sem sentir uma só palavra que proferia.

 

Rezai também disse Igraine para que os saxões não estejam próximos.

 

Estão? perguntou Sansum, alarmado.

 

Dizem a meu esposo que eles estão a preparar-se para atacar Ratae.

 

Ratae fica bem distante disse o bispo, rejeitando a sua afirmação.

 

Um dia e meio? disse Igraine e se Ratae cair, que fortaleza resta entre nós e os saxões?

 

Deus proteger-nos-á afirmou o bispo, ecoando inconscientemente a crença há muito desaparecida do pio rei Meurig de Gwent, tal como Deus protegerá vossa Senhoria na hora da vossa provação.

 

Ele ficou mais alguns minutos, mas não tinha nenhum assunto, nem nada digno desse nome, a tratar com nenhum de nós. Hoje em dia, o santo anda enfadado. Falta-lhe o favorecimento dos prejuízos morais. O irmão Maelgwyn, o mais forte de todos nós é quem fazia muito do trabalho físico do mosteiro, morreu há algumas semanas e, com a sua morte, o bispo perdeu um dos alvos favoritos do seu menosprezo. Ele sente pouco prazer em me atormentar, porque eu tolero o seu desprezo, pacientemente, e além disso, sou protegido de Igraine e do seu esposo.

 

Por fim, Sansum saiu e Igraine fez uma careta nas suas costas.

 

Diz-me, Derfel disse ela depois de o santo estar fora do nosso alcance o que hei-de preparar para o parto?

 

Porque diabo mo perguntais? inquiri, espantado. Nada sei sobre partos, graças a Deus! Nem nunca tão pouco vi uma criança nascer, nem pretendo ver.

 

Mas tu conheces as coisas antigas disse ela, rapidamente, é isso que quero dizer.

 

As mulheres no vosso caer saberão bem mais sobre isso do que eu respondi, mas em todas as ocasiões em que Ceinwyn deu à luz verificámos sempre se havia ferro na cama, urina de mulher no degrau da porta, artemísia na lareira e, claro, tínhamos uma virgem pronta para levantar o recém-nascido da palha onde nascia. O mais importante de tudo continuei, seriamente não pode estar nenhum homem nos aposentos. Nada traz pior sorte do que ter um homem presente durante o nascimento.

 

Toquei no prego protuberante da minha escrivaninha para afastar a má sorte por sequer mencionar semelhante circunstância azarenta. Sem dúvida que nós, cristãos, não acreditamos que tocar em ferro tenha qualquer influência sobre a boa ou a má fortuna, mas a cabeça do prego da minha secretária está ainda muito polida por eu lhe tocar.

 

É verdade o que se diz sobre os Saxões? perguntei. Igraine assentiu com a cabeça.

 

Eles estão a aproximar-se, Derfel. Friccionei de novo a cabeça do prego.

 

Então, avisai o vosso esposo para que tenha lanças afiadas.

 

Ele não necessita de qualquer aviso disse ela, de modo sinistro.

 

Questiono-me se alguma vez a guerra irá terminar. Porque durante todo o tempo em que vivi, os Bretões pelejaram contra os Saxões, e apesar de termos conseguido uma grande vitória sobre eles, nos anos que se lhe seguiram temos visto muitas terras perdidas e, com elas, também as histórias ligadas aos vales e aos cumes das colinas. A História não é apenas um relato feito pelos homens, é algo ligado à terra. Damos o nome de um herói à colina onde ele morreu, ou a um rio, o nome de uma princesa que fugiu para as suas margens, e quando os nomes antigos desaparecem, as histórias esfumam-se com eles e os novos nomes nenhuma recordação trazem do passado. Os Sais apoderam-se das nossas terras e da nossa história. Eles alastram como uma doença contagiosa, e nós já não temos Artur para nos proteger. Artur, o tormento dos Sais, o Senhor da Bretanha e o homem cujo amor o feriu mais do que qualquer ferimento aberto com espada ou lança. Como tenho saudades de Artur.

 

O solstício de Inverno ocorreu quando orávamos aos Deuses, para que não abandonassem a terra às imensas trevas. No Inverno mais frio, muitas vezes essas preces pareceram rogos de desespero, e isso não mais voltou a repetir-se até ao ano anterior ao ataque dos Saxões, quando o nosso mundo havia já perdido as forças sob uma concha de gelo e neve antiga. Para aqueles de entre nós que eram devotos de Mitras, o solstício teve um duplo significado, porque era também a altura da celebração do nascimento do nosso Deus. Depois do grande festival do solstício, em Dun Carie, levei Issa para oeste, para as grutas onde realizámos as nossas cerimónias mais solenes, iniciando-o aí na veneração de Mitras. Ele passou os ordálios com êxito e, deste modo, foi acolhido no grupo de elite dos guerreiros que representam os mistérios de Deus. Depois disso fizemos um banquete. Nesse ano eu matei o touro, primeiro jarretando o animal para que não conseguisse mexer-se, depois vacilando o machado na gruta baixa para fender o seu espinhaço. Recordo-me que o touro tinha um fígado ressequido, pressupondo mau agouro, e nesse Inverno frio não houve bons agouros.

 

Quarenta homens assistiram aos ritos, a despeito do tempo rigoroso. Apesar de há muito ter sido iniciado, Artur não compareceu, mas Sagramor e Culhwuch haviam deixado os seus postos fronteiriços para estarem presentes nas cerimónias. No fim do banquete, quando a maior parte dos guerreiros já dormia sob o efeito do hidromel, nós os três retirámo-nos para uma galeria baixa onde o fumo não era espesso e podíamos falar em particular.

 

Tanto Sagramor como Culhwuch tinham a certeza de que os Saxões atacariam justamente ao longo do vale do Tamisa.

 

O que eu ouvi disse-nos Sagramor é que eles estão a encher Londres e Pontes de mantimentos e provisões. Fez uma pausa para arrancar de um osso um bocado de carne com os dentes. Haviam passado meses desde que eu vira Sagramor, e achei a sua companhia tranquilizadora; o númida era o mais valente e o mais terrível de todos os senhores da guerra de Artur, e o seu heroísmo reflectia-se no seu rosto estreito e afilado como um machado. Era o mais fiel dos homens, um amigo leal, e um excelente contador de histórias, mas acima de tudo era um guerreiro natural que conseguia levar a melhor sobre qualquer inimigo. Os Saxões temiam Sagramor, acreditando que ele era um demónio negro vindo do Outro Mundo. Nós ficávamos contentes por eles viverem em semelhante medo entorpecedor e, para nós, era reconfortante que, mesmo estando em menor número, tivéssemos a sua espada e os seus experimentados lanceiros do nosso lado.

 

Não irá Cerdic atacar a Sul? perguntei. Culhwuch abanou a cabeça.

 

Não dá mostras disso. Não há quaisquer sinais em Venta.

 

Eles não confiam um no outro Sagramor falava de Cerdic e Aelle. Não se atrevem a perder-se mutuamente de vista. Cerdic teme que nós subornemos Aelle, e Aelle teme que Cerdic o engane na repartição dos espólios, por isso manter-se-ão mais juntos do que irmãos.

 

Então, o que irá fazer Artur? perguntei.

 

Esperávamos que nos dissesses respondeu Culhwuch.

 

Ultimamente, Artur não tem falado comigo afirmei, sem me dar ao trabalho de esconder a minha amargura.

 

Já somos dois resmungou Culhwuch.

 

Três disse Sagramor. Ele encontra-se comigo, faz-me perguntas, participa em ataques-surpresa e depois vai-se embora, sem dizer nada.

 

Façamos votos para que ele esteja a meditar disse eu.

 

Provavelmente está muito ocupado com aquela nova noiva propôs Culhwuch, irritado.

 

Tende-la conhecido? perguntei.

 

Uma rapariguinha irlandesa despachada afirmou, negativamente, com garras. Culhwuch contou-nos que visitara Artur e a sua nova noiva quando viera para o norte, para esta reunião com Mitras. Ela tem alguma beleza disse ele, com má vontade. Se vocês a adquirissem como escrava, possivelmente gostariam de a manter nas vossas cozinhas por algum tempo. Bem, eu gostaria. Tu não, Derfel. Culhwuch espicaçava-me, com frequência, por causa da minha lealdade a Ceinwyn, embora a minha fidelidade não fosse coisa assim tão invulgar. Sagramor tomara uma saxã cativa por mulher e, tal como eu, era famosamente leal à sua esposa. Qual a utilidade de um touro que apenas serve uma vaca? perguntou então Culhwuch, mas nenhum de nós respondeu à sua zombaria.

 

Em vez disso, Sagramor disse:

 

Artur está assustado.

 

Fez uma pausa, organizando os seus pensamentos. O númida falava bem a língua britânica, apesar de ter um sotaque deplorável, mas esta não era a sua língua de origem e, com frequência, falava devagar para ter a certeza que expressava exactamente as suas ideias.

 

Ele desafiou os Deuses, e não apenas em Mai Dun, mas ao assumir o poder de Mordred. Os Cristãos odeiam-no e agora os pagãos dizem que ele é seu inimigo. Vedes quão só isso o torna?

 

O problema de Artur é que ele não acredita nos Deuses disse Culhwuch, negativamente.

 

Ele acredita em si próprio afirmou Sagramor e quando Guinevere o traiu, sofreu um rude golpe no seu íntimo. Sente vergonha. Perdeu muito do orgulho que tinha, e ele é um homem orgulhoso. Pensa que todos nos rimos dele, e por isso afasta-se de nós.

 

Eu não me rio dele protestei.

 

Eu, sim disse Culhwuch, estremecendo ao esticar a perna ferida. Idiota. Devia ter amaciado as costas de Guinevere, algumas vezes, com o cinto da sua espada. Isso teria ensinado a lição àquela cabra.

 

Agora continuou Sagramor, ignorando com jovialidade a opinião predizível de Culhwuch teme a derrota. Que outra coisa poderá ele ser senão soldado? Ele gosta de pensar que é um homem bom, que governa por ser um governante genuíno, mas terá sido a espada que lhe conferiu o poder? No seu íntimo sabe-o e, se perder esta guerra, então perderá aquilo que mais o preocupa: a sua reputação. Será recordado como o usurpador que não fosse suficientemente bom para conseguir manter o que usurpou. Está aterrorizado com uma segunda derrota por causa da sua reputação.

 

Talvez Argante consiga sarar a primeira derrota disse eu.

 

Duvido afirmou Sagramor. Galaad disse-me que Artur não queria, efectivamente, casar com ela.

 

Então por que o fez? perguntei, sombriamente. Sagramor encolheu os ombros.

 

Para vexar Guinevere? Para agradar a Oengus? Para nos mostrar que não precisa de Guinevere?

 

Para dormir com uma rapariga bonita? sugeriu Culhwuch.

 

Se tão-pouco o fizer disse Sagramor. Culhwuch fitou o númida, aparentemente chocado.

 

Claro que o faz disse Culhwuch. Sagramor abanou a cabeça.

 

Ouvi dizer que não. Apenas rumores, claro, e os rumores são menos fiáveis quando têm que ver com o relacionamento entre um homem e a sua mulher. Mas eu acho que esta Princesa é demasiado jovem para o gosto de Artur.

 

Elas nunca são demasiado jovens resmungou Culhwuch. Sagramor limitou-se a encolher os ombros. Era um homem muito mais subtil do que Culhwuch e isso dava-lhe uma visão muito mais ampla de Artur, que gostava de surgir tão recto, mas cuja alma era na verdade tão complicada como as curvas serpenteantes e os dragões enrolados que decoravam a lâmina da Excalibur.

 

Partimos de manhã com as lâminas das nossas lanças e das nossas espadas ainda tingidas com o sangue do touro sacrificado. Issa estava excitado. Alguns anos antes, ele era ainda um rapaz do campo, mas agora era um crente de Mitras e, em breve, dissera-me ele, seria pai, porque Scarach, a sua esposa, estava grávida. Tendo ganho confiança com a sua iniciação a Mitras, de repente, Issa tinha a certeza que podíamos vencer os saxões sem o auxílio de Gwent, mas eu não acreditava em tal coisa. Eu podia não gostar de Guinevere, mas nunca julguei que fosse tola, e estava preocupado com a sua previsão de que Cerdic atacaria pelo sul. Claro que a alternativa fazia sentido; Cerdic e Aelle eram aliados relutantes e iriam querer manter uma cuidadosa vigilância um sobre o outro. Um ataque esmagador ao longo do Tamisa seria a forma mais rápida de chegar ao mar Severn e, assim, dividir os reinos britânicos em duas partes; mas por que razão haviam os saxões de sacrificar a sua vantagem numérica, dividindo as suas forças em dois pequenos exércitos que Artur podia derrotar um a seguir ao outro? Todavia, se Artur esperasse apenas um ataque, e se defendesse somente contra ele, as vantagens de um assalto a sul eram imensas. Enquanto Artur estivesse ocupado com um exército saxão no vale do Tamisa, o outro podia contornar o seu flanco direito e alcançar o Severn quase sem oposição. Contudo, Issa não estava preocupado com semelhantes coisas. Ele apenas se imaginava no escudo defensivo onde, nobilitado pela aceitação de Mitras, derrotaria os saxões como um agricultor ceifa o feno.

 

O tempo continuou frio depois do solstício. Todas as manhãs despontavam geladas e mortiças, com o Sol pouco maior do que um disco avermelhado pendurado a pouca altura nas nuvens, a sul. Os lobos penetravam bem no interior das quintas, à procura das ovelhas que havíamos fechado em cercas de vimes, e num dia glorioso abatemos seis dessas feras cinzentas, conseguindo desse modo arranjar mais seis novas caudas de lobo para os meus elmos de guerra. Os meus homens haviam começado a usar semelhantes caudas nos picos dos seus elmos, nos profundos bosques da Armórica onde havíamos combatido os Francos, porque os havíamos surpreendido com um ataque súbito como feras devastadoras. Eles haviam-nos chamado lobos e nós tornáramos o insulto como um elogio. Éramos os Caudas de Lobo, apesar de os nossos escudos, em vez de uma máscara de lobo, terem pintada uma estrela de cinco pontas como tributo prestado a Ceinwyn.

 

Ceinwyn continuava a insistir que não fugiria para Powys, na Primavera. Morwenna e Seren podiam ir, afirmou, mas ela ficaria. Eu fiquei zangado com aquela decisão.

 

Então, as meninas podem perder tanto o pai como a mãe? perguntei.

 

Se for isso o que os Deuses decretarem, sim disse ela, placidamente e depois encolheu os ombros. Posso estar a ser egoísta, mas é isso o que pretendo.

 

Pretendes morrer? É isso egoísmo?

 

Eu não quero estar tão longe, Derfel disse ela. Sabes o que é estar num país distante enquanto o nosso homem luta? Espera-se, em constante terror. Teme-se todos os mensageiros. Dá-se ouvidos a todos os rumores. Desta vez ficarei.

 

Para me dares mais um motivo de preocupação?

 

Que homem arrogante tu és disse ela, calmamente. Julgas que não sou capaz de tomar conta de mim?

 

Esse pequeno anel não te manterá a salvo dos saxões afirmei, apontando para o pedaço de ágata no seu dedo.

 

Então manter-me-ei a salvo. Não te preocupes, Derfel, não te atrapalharei e não deixarei que me façam cativa.

 

No dia seguinte, nasceram os primeiros cordeiros num redil, no sopé da colina de Dun Carie. Era muito cedo para tais nascimentos, mas eu tomei-o como um sinal positivo dos Deuses. Antes que Ceinwyn o conseguisse evitar, o primeiro desses cordeiros foi sacrificado para garantir que na restante época os nascimentos corressem bem. A pequena pele ensanguentada do animal foi pregada a um salgueiro junto à nascente, florindo por baixo dele, no dia seguinte, um acónito, as pequenas pétalas amarelas mostrando os primeiros vestígios de cor na passagem do ano. Também nesse dia vi três guarda-rios brilhando junto às margens geladas da nascente. A vida despontava. Ao amanhecer, depois de os galipos nos terem acordado, voltámos a ouvir o canto dos tordos, dos piscos, das cotovias, das carriças e dos pardais.

 

Artur mandou-nos chamar duas semanas após o nascimento dos primeiros cordeiros. A neve havia derretido, e o seu mensageiro caminhara com dificuldade pelas estradas lamacentas para nos trazer as convocatórias exigindo a nossa presença no palácio de Lindinis. Devíamos aí estar nos festejos do Imbolc, a primeira festividade após o solstício, e que era dedicada à Deusa da fertilidade. No Imbolc, passamos cordeiros recém-nascidos por aros em chamas e depois, quando julgam que ninguém está a ver, as jovens raparigas atravessam de um salto os aros incandescentes e tocam com os seus dedos nas cinzas das fogueiras do Imbolc, esfregando a fuligem cinzenta bem fundo entre as suas coxas. Uma criança nascida em Novembro é chamada uma criança do Imbolc e tem as cinzas como sua mãe e o fogo como seu pai. Ceinwyn e eu chegámos na tarde da Véspera do Imbolc quando o sol invernoso atirava longas sombras sobre a relva pálida. Os lanceiros de Artur rodeavam o palácio, defendendo-o da hostilidade obstinada das gentes que se lembravam ainda da invocação mágica de Merlim, da rapariga brilhante no pátio do palácio.

 

Para surpresa minha, descobri que o pátio estava preparado para o Imbolc. Artur nunca se importara com semelhantes coisas, deixando a maior parte dos ritos religiosos para Guinevere, e ela nunca celebrara os rudes e campesinos festivais como o Imbolc; mas agora, um grande aro com palha entrançada encontrava-se preparado para receber as chamas no centro do pátio, enquanto uma mão-cheia de cordeiros recém-nascidos estava encerrada com as suas mães no interior de uma pequena cerca de vime. Culhwuch cumprimentou-nos, fazendo um dissimulado aceno de cabeça para o aro.

 

Uma oportunidade de teres outro filho disse ele a Ceinwyn.

 

Por que outro motivo estaria eu aqui? respondeu ela, dando-lhe um beijo. E quantos tens tu agora?

 

Vinte e um disse ele orgulhoso.

 

De quantas mães?

 

Dez fez um sorriso largo, depois deu-me uma palmada nas costas. Vamos receber as nossas ordens amanhã.

 

Vamos?

 

Tu, eu, Sagramor, Galaad, Lanval, Balin, Morfans Culhwuch encolheu os ombros toda a gente.

 

Argante está aqui? perguntei.

 

Quem julgas tu que se lembrou do aro? perguntou ele. Foi tudo ideia dela. Trouxe um druida de Demétia, e esta noite, antes de começarmos a comer, todos teremos de venerar Nantosuelta.

 

Quem? perguntou Ceinwyn.

 

Uma Deusa disse Culhwuch, despreocupadamente. Havia tantos Deuses e Deusas que era impossível alguém, excepto um druida, saber todos os seus nomes, e nem Ceinwyn nem eu alguma vez tínhamos ouvido falar de Nantosuelta.

 

Apenas vimos Artur e Argante depois de anoitecer quando Hygwydd, a serva de Artur, nos chamou a todos para o pátio iluminado por tochas humedecidas com resina luzindo nas suas aselhas de ferro. Lembrei-me da noite de Merlim que ali passámos e da multidão atemorizada que havia oferecido os seus bebés estropiados e doentes a Olwen, a Prateada. Agora, um grupo de lordes aguardava acanhadamente com as suas damas em cada lado do aro entrançado com palha, enquanto colocadas num estrado no extremo oeste do pátio, estavam três cadeiras cobertas com panos brancos. Um druida, estava de pé, junto ao aro, e presumi que fosse ele o feiticeiro que Argante trouxera do reino de seu pai. Era um homem baixo e atarracado com uma barba preta em desalinho, entrançada com tufos de pêlo de raposa e pedacinhos de ossos pequenos.

 

Ele chama-se Fergal disse-me Galaad e odeia os cristãos. Esteve toda a tarde a fazer feitiços contra mim, depois Sagramor chegou e Fergal quase desmaiou de terror. Pensou que via Crom Dubh em pessoa. Galaad deu uma gargalhada.

 

De facto, Sagramor podia ser esse deus sombrio, porque estava vestido com cabedal preto e tinha à cintura uma espada com um punho preto. Chegara a Lindinis com a sua grande e plácida mulher saxónica, Ralla, e os dois mantiveram-se afastados de todos nós, no canto mais longínquo do pátio. Sagramor venerava Mitras, mas tinha pouco tempo para os Deuses britânicos, enquanto Ralla ainda orava a Woden, Eostre, Thunor, Fir e Seaxnet: todas elas divindades saxónicas.

 

Todos os comandantes de Artur estavam presentes, embora, enquanto esperávamos por Artur, eu tivesse pensado nos homens ausentes. Cei, que crescera com Artur na distante Gwynedd, morrera na dumnoniana Isca durante a rebelião de Lancelote. Fora assassinado por Cristãos. Agravain, que durante anos fora o comandante dos cavaleiros de Artur, morrera durante o Inverno, atacado por uma febre. Balin assumira as obrigações de Agravain e trouxera três esposas a Lindinis juntamente com um grupo de criancinhas atarracadas que olhavam horrorizadas para Morfans, o homem mais feio da Bretanha, cujo rosto nos era agora tão familiar que nem reparávamos no seu lábio-leporino, no seu pescoço papudo ou no seu queixo torto. À excepção de Gwydre, que era ainda um rapaz, eu era provavelmente o homem mais novo que ali se encontrava, e essa percepção chocou-me. Precisávamos de novos senhores da guerra, e foi então que decidi que, mal a guerra contra os Saxões terminasse, daria a Issa o seu próprio grupo de homens. Se Issa sobrevivesse. Se eu sobrevivesse.

 

Galaad tomava conta de Gwydre e os dois vieram juntar-se a mim e a Ceinwyn. Galaad sempre fora um homem bem-parecido, mas agora, à medida que chegava à meia-idade, a sua beleza adquiria uma nova dignidade. O seu cabelo dourado brilhante tornara-se grisalho e agora usava uma barba pequena e pontiaguda. Ele e eu sempre fôramos chegados, mas naquele Inverno difícil provavelmente ele esteve mais próximo de Artur do que de qualquer outro. Galaad não presenciara a vergonha de Artur no palácio do mar, e isso, juntamente com a sua serena simpatia, tornara-o aceite por Artur. Mantendo a voz baixa para que Gwydre não a ouvisse, Ceinwyn perguntou-lhe como estava Artur.

 

Quem me dera saber respondeu ele.

 

Está certamente feliz observou Ceinwyn.

 

Porquê?

 

Uma nova esposa? sugeriu Ceinwyn. Galaad sorriu.

 

Quando um homem faz uma viagem, querida Senhora, e lhe roubam o cavalo no seu percurso, precipita-se com frequência a comprar um substituto.

 

E não volta a montá-lo depois de a viagem terminar, conforme me consta acrescentei, abruptamente.

 

Tens ouvido isso, Derfel? respondeu Galaad, não confirmando nem negando o rumor. Ele sorriu. O casamento é um tamanho mistério para mim... acrescentou, vagamente.

 

O próprio Galaad nunca casara. De facto, ele nunca assentara desde que Ynys Trebes, a sua terra, caíra nas mãos dos Francos. Desde então, ele estivera na Dumnónia e vira uma geração de crianças chegar à idade adulta durante esse período, mas continuava a parecer um forasteiro. Tinha aposentos no palácio, em Durnovária, mas mantinha aí pouca mobília e um conforto escasso. Vagueou, errante, ao serviço de Artur, viajando por toda a Bretanha para resolver os problemas com outros reinos, ou então participando com Sagramor em ataques-surpresa, na fronteira saxónica, e parecia mais feliz quando estava ocupado com esses assuntos. Por vezes, suspeitei que ele estava apaixonado por Guinevere, mas Ceinwyn sempre gracejou dessa minha ideia. Galaad, dizia ela, está apaixonado pela perfeição e é demasiado enfadonho para amar uma mulher real. Ele ama a ideia de mulher, acrescentava Ceinwyn, mas não consegue suportar a realidade da doença, do sangue e da dor. Não mostra qualquer repulsa por tais coisas no campo de batalha, mas isso, declarava Ceinwyn, é porque aí são os homens que são feridos e falíveis, e Galaad nunca idealizou homens, apenas mulheres. E talvez ela tivesse razão. Eu apenas sabia que em determinadas alturas o meu amigo tinha de se sentir só, apesar de nunca se queixar.

 

Artur tem muito orgulho em Argante afirmou então, calmamente, embora num tom de voz que sugeria que deixava algo por dizer.

 

Mas ela não é Guinevere! sugeri.

 

Certamente que ela não é Guinevere concordou Galaad, agradecido por eu dar voz àquela ideia, embora não seja diferente dela em alguns aspectos.

 

Tais como? perguntou Ceinwyn.

 

Ela tem ambições disse Galaad, dubiamente. Acha que Artur devia ceder Silúria a seu pai.

 

Não cabe a ele ceder Silúria! afirmei.

 

Não, concordou Galaad, mas Argante pensa que ele podia conquistá-la.

 

Cuspi. Para conquistar Silúria, Artur teria de combater Gwent e até mesmo Powys, os dois países que em conjunto governavam o território.

 

Louca afirmei.

 

Ambiciosa, senão mesmo irrealista corrigiu-me Galaad.

 

Gostas de Argante? perguntou-lhe Ceinwyn, directamente.

 

Ele foi poupado à necessidade de responder, porque a porta do palácio abriu-se de rompante e Artur apareceu finalmente. Envergava o seu habitual fato branco, e o seu rosto, que se tornara tão lúgubre nos últimos meses, parecia, de repente, envelhecido. Aquele era um cruel destino, porque apoiada no seu braço, vestida a ouro, estava a sua nova noiva, que pouco mais era do que uma criança.

 

Era a primeira vez que eu via Argante, Princesa do Uí Liatháin e irmã de Isolda, e em muitos aspectos ela assemelhava-se à falecida Isolda. Argante era uma criatura frágil, mantendo-se entre a criança e a mulher, e nessa noite da Véspera do Imbolc parecia mais próxima da infância do que da idade adulta, porque estava envolta numa enorme capa de linho rijo que, certamente, pertencera em tempos a Guinevere. Não havia dúvida de que o vestido era demasiado grande para Argante, que caminhava, desajeitadamente, nas suas pregas de ouro. Lembro-me de ver a irmã com jóias e de pensar que Isolda parecia uma criança ataviada com o ouro da sua mãe, e Argante dava a mesma impressão de estar a brincar com os seus vestidos. E tal como uma criança que finge ser adulta, ela comportava-se com uma solenidade compenetrada para encobrir a sua inata falta de dignidade. Usava o seu cabelo preto lustroso preso numa longa trança que serpenteava em volta do crânio e era mantida firme com um broche de âmbar-negro, a mesma cor dos escudos dos temíveis guerreiros de seu pai. O estilo adulto assentava de forma constrangedora no seu jovem rosto, tal como o pesado torc de ouro em volta do seu pescoço parecia demasiado maciço para a sua garganta delgada. Artur conduziu-a para o estrado, indicando-lhe a cadeira à esquerda, e eu tive dúvidas de que houvesse uma única alma no pátio, quer fosse convidado, druida ou guarda, que não pensasse na parecença entre pai e filha. Houve uma pausa depois de Argante tomar o seu lugar. Foi um momento desconfortável, como se uma parte do ritual tivesse sido esquecida e uma cerimónia solene corresse o risco de se tornar ridícula, mas nessa altura ouviu-se um tumulto junto à porta de entrada, risos abafados e Mordred surgiu.

 

O nosso Rei coxeou com o seu pé manco e com um sorriso dissimulado no rosto. Tal como Argante, ele representava um papel, mas ao contrário dela ele era um actor indesejado. Sabia que todos os homens que se encontravam no pátio eram homens de Artur e que todos eles o odiavam e que, enquanto eles fingissem que ele era o seu Rei, viveria apenas pela sua tolerância. Subiu para o estrado. Artur fez-lhe uma vénia e todos nós o acompanhámos nesse gesto. Mordred, com o seu cabelo espigado, mais rebelde do que nunca, e com a sua barba formando uma feia orla em volta do rosto redondo, assentiu com a cabeça num gesto breve, depois sentou-se na cadeira do centro. Argante lançou-lhe um olhar surpreendentemente amigável. Artur tomou a última cadeira, e aí se sentaram, Imperador, Rei e jovem noiva.

 

Não pude evitar pensar que Guinevere teria preparado tudo aquilo muito melhor. Teria havido hidromel quente para beber, mais fogueiras para nos aquecer e música para preencher os embaraçosos silêncios; mas nessa noite ninguém parecia saber o que era suposto acontecer, até que Argante sibilou para o druida de seu pai. Fergal lançou um olhar nervoso em volta, depois atravessou apressadamente o pátio e agarrou numa das tochas que estavam nas aselhas. Usou a tocha para acender o aro, depois murmurou feitiços incompreensíveis assim que as chamas atingiram a palha.

 

Nota: Torc Colar de metal torcido usado pelos antigos Gauleses. N. da T.

 

Os cinco cordeiros recém-nascidos foram trazidos do redil por escravos. As ovelhas gritavam de forma deplorável pelas suas crias que se contorciam nos braços dos escravos. Fergal esperou até o aro se transformar num completo círculo de fogo, depois ordenou que os cordeiros fossem passados através das chamas. Seguiu-se a confusão. Os cordeiros, não fazendo a mínima ideia que a fertilidade de Dumnónia dependia da sua obediência, correram em todas as direcções menos na do fogo e os filhos de Balin juntaram-se felizes à caçada em alvoroço, conseguindo apenas acrescentar-lhe confusão. Por fim, um a um, os cordeiros foram apanhados e enxotados na direcção do aro, e depressa os cinco foram convencidos a saltar pelo círculo de fogo. Todavia, nessa altura, a planeada solenidade do pátio já fora abalada. Argante, que estava sem dúvida habituada a assistir a tais cerimónias muito mais bem representadas na sua nativa Demétia, franziu as sobrancelhas, mas todos nós ríamos e conversávamos. Fergal restituiu a dignidade da noite ao soltar, de repente, um grito selvagem que nos gelou a todos. O druida estava de pé, com a sua cabeça inclinada para trás, fitando as nuvens, e na sua mão direita estava erguida uma grosseira faca de sílex, enquanto na mão esquerda, lutando indefeso, estava um cordeiro.

 

Oh, não protestou Ceinwyn e virou-se. Gwydre fez uma careta e eu coloquei um braço em volta dos seus ombros.

 

Fergal bramiu o seu desafio à noite, depois elevou ambos, cordeiro e faca, bem acima da sua cabeça. Voltou a gritar, depois matou o cordeiro, penetrando e rasgando o seu pequeno corpo com a faca tosca e embotada. O cordeiro lutou cada vez com menos força e baliu para a sua mãe que lhe respondia, desesperada, enquanto todo o sangue esguichava do seu velo para o rosto levantado de Fergal e para a sua barba desalinhada com ossos pendurados e tranças de pêlo de raposa.

 

Sinto-me muito feliz murmurou Galaad ao meu ouvido por não viver na Demétia.

 

Olhei de relance para Artur enquanto este extraordinário sacrifício tinha lugar e vi um olhar de imediata reacção súbita no seu rosto. Depois reparou que eu o observava e o seu rosto endureceu. Com a boca avidamente aberta, Argante inclinava-se para diante para observar o druida. Mordred fazia um sorriso rasgado.

 

O cordeiro morreu e Fergal, para horror de todos nós, começou a caminhar arrogante pelo pátio, abanando o cadáver e gritando orações. Pingos de sangue salpicaram-nos. Atirei a minha capa, protectoramente, sobre Ceinwyn quando o druida, com o seu próprio rosto escorrendo sangue, passou por nós a dançar. Manifestamente, Artur não tinha a mais pequena ideia de que esta morte bárbara teria lugar. Sem dúvida, pensara que a sua nova noiva planeara uma qualquer cerimónia decorosa para anteceder o festim, mas o rito transformara-se numa orgia de sangue. Os cinco cordeiros foram mortos, e quando a última pequena garganta foi cortada pela lâmina escura e romba, Fergal recuou e fez um gesto na direcção do aro.

 

Nantosuelta aguarda-vos gritou-nos ele. Aqui está ela! Vinde até ela!

 

Era evidente que ele esperava uma resposta, mas nenhum de nós se mexeu. Sagramor fitava a Lua e Culhwuch perseguia um piolho na sua barba. Pequenas labaredas tremeluziram ao longo do aro e fagulhas de palha a arder caíram no sítio onde os cadáveres dilacerados e ensanguentados jaziam sobre as pedras do pátio. Ainda assim, nenhum de nós se mexeu.

 

Vinde a Nantosuelta! gritou Fergal com uma voz rouca.

 

Então, Argante levantou-se. Com um encolher de ombros retirou o manto de ouro, mostrando um vestido azul simples que a fazia parecer ainda mais infantil. Tinha umas ancas estreitas como as de um rapaz, umas mãos pequenas e um rosto delicado, tão alvo como os velos dos cordeiros haviam sido antes da faca negra lhes ter tirado a vida. Fergal chamou-a.

 

Vinde entoou ele vinde até Nantosuelta, ela chama-vos, vinde até Nantosuelta e continuou o trauteio, chamando Argante à sua Deusa.

 

Argante, agora quase em transe, avançava devagar para diante, fazendo para cada passo um esforço separado de forma que se movia e parava, movia e parava, à medida que o druida a incitava para continuar.

 

Vinde até Nantosuelta entoou Fergal Nantosuelta chama-vos, vinde até Nantosuelta. Argante tinha os olhos fechados. Pelo menos para ela este era um momento terrível, enquanto para todos nós, suponho, era embaràçoso. Artur pareceu consternado, e não era de admirar, pois parecia que ele apenas trocara ísis por Nantosuelta, enquanto Mordred, que em tempos havia sido prometido a Argante, observava com uma expressão impaciente a rapariga vacilar para diante.

 

Vinde até Nantosuelta, Nantosuelta chama-vos incitava-a Fergal, simplesmente agora a sua voz elevara-se a um grito simulado e feminino.

 

Argante alcançou o aro e quando o calor das últimas chamas lhe tocou o rosto, ela abriu os olhos e quase pareceu surpreendida por se encontrar junto ao fogo da Deusa. Ela olhou para Fergal, depois curvou-se de súbito, passando pelo anel fumegante. Sorriu triunfante e Fergal aplaudiu-a, convidando-nos a todos a juntarmo-nos ao seu aplauso. Educadamente fizemo-lo, embora o nosso, sem entusiasmo, terminasse assim que Argante se inclinou junto dos cordeiros mortos. Ficámos todos em silêncio enquanto ela enfiava um dedo delicado numa das feridas provocadas pela faca. Retirou o dedo e elevou-o para que todos víssemos o sangue espesso na sua extremidade. Depois virou-se, para que Artur pudesse ver. Olhava-o fixamente enquanto abria a boca, mostrando pequenos dentes brancos, depois lentamente colocou o dedo entre os dentes e fechou os lábios à volta dele. Chupou-o até estar limpo. Vi que Gwydre estava estarrecido fitando a madrasta. Ela não era muito mais velha do que ele. Ceinwyn estremeceu e a sua mão agarrou a minha com firmeza.

 

Argante ainda não havia terminado. Virou-se, molhou o dedo de novo no sangue, e enterrou-o ensanguentado no meio das brasas quentes do aro. Depois, ainda inclinada, tacteou por baixo da bainha do seu vestido azul, transferindo o sangue e as cinzas para as suas coxas. Assegurava-se de que teria filhos. Usava o poder de Nantosuelta para iniciar a sua própria dinastia e todos nós éramos testemunhas dessa ambição. Tinha de novo os olhos fechados, quase em êxtase, depois de repente o rito terminou. Ela ergueu-se, de novo com a mão visível e chamou Artur com um aceno. Pela primeira vez, nessa tarde, ela sorriu e eu vi como era bonita. Tinha uma beleza hirta, no entanto, a seu modo tão insensível como a de Guinevere, mas sem o emaranhado de cabelo brilhante de Guinevere que a suavizasse.

 

Ela voltou a acenar a Artur, pois parecia que o ritual exigia que também ele tivesse de passar pelo aro. Por um segundo ele hesitou, depois olhou para Gwydre e, incapaz de suportar por mais tempo a superstição, levantou-se e abanou a cabeça.

 

Vamos comer disse ele, com severidade, e depois atenuou o seco convite sorrindo para os convidados; todavia, nesse instante olhei de relance para Argante e vi um olhar de fúria extrema no seu pálido rosto. Por um breve momento pensei que ela fosse gritar a Artur. O seu pequeno corpo estava hirto de tão tenso e tinha os punhos cerrados, mas Fergal, que tal como eu parecera reparar na sua ira, sussurrou-lhe ao ouvido e ela tremeu enquanto a fúria se dissipava. Artur nada notara. Trazei as tochas ordenou ele aos guardas, e as chamas foram levadas para o interior do palácio para iluminar o salão de banquetes. Vinde disse-nos Artur e nós, reconhecidamente, dirigimo-nos para as portas do palácio.

 

Argante hesitou, mas Fergal sussurrou-lhe novamente e ela obedeceu ao chamamento de Artur. O druida permaneceu junto ao aro fumegante.

 

Ceinwyn e eu fomos os últimos convidados a deixar o pátio. Um qualquer impulso havia-me mantido para trás, e toquei no braço de Ceinwyn puxando-a para o lado, para as sombras da arcada, de onde vimos que mais alguém havia também permanecido no pátio. Depois, quando pareceu já sem ninguém, à excepção das ovelhas ensanguentadas e do druida cheio de sangue, essa pessoa saiu das sombras. Era Mordred. Passou pelo estrado a coxear, percorreu as lajes e deteve-se junto ao aro. Por instantes, ele e o druida olharam-se fixamente, depois Mordred fez um gesto estranho com a mão, como se pedisse autorização para passar pelos restos incandescentes do círculo de fogo. Fergal hesitou e depois, abruptamente, anuiu com a cabeça. Mordred baixou a cabeça e atravessou o aro. Parou no lado mais distante e molhou o dedo no sangue, mas eu não esperei para ver o que ia fazer. Conduzi Ceinwyn para o interior do palácio, onde as chamas fumegantes iluminavam as enormes paredes pintadas com Deuses e caçadas romanos.

 

Se servirem cordeiro disse Ceinwyn recuso-me a comer.

 

Artur serviu salmão, varrão e veado. Um harpista tocava. Mordred, cuja chegada tardia não foi notada, tomou o seu lugar na cabeceira da mesa onde se sentou com um sorriso matreiro no rosto embotado. Não falou com ninguém e ninguém falou com ele, mas de quando em vez olhava de soslaio para a pálida e magra Argante, que parecia ser a única na sala que não retirava qualquer prazer do festim. Vi-a captar o olhar de Mordred uma vez e ambos trocaram encolhimentos de ombros exasperados, como se sugerissem que nos desprezavam a todos. Mas para além desse único olhar, ela apenas permaneceu amuada, deixando Artur embaraçado por sua causa, enquanto todos nós fingíamos não reparar na sua disposição. Claro que Mordred apreciou a sua insociabilidade.

 

Na manhã seguinte fomos caçar. Uma dúzia de nós, todos homens, afastámo-nos a cavalo. Ceinwyn gostava de caçar, mas Artur havia-lhe pedido que passasse a manhã com Argante e Ceinwyn assentiu, relutante.

 

Percorremos as matas a oeste, embora sem grande esperança porque Mordred caçava com frequência por entre estas árvores e o batedor tinha dúvidas que aí encontrássemos caça grossa. Os galgos escoceses de Guinevere, agora ao cuidado de Artur, saltaram para o meio dos troncos escuros e conseguiram levantar uma corça que nos proporcionou um belo galope no meio do arvoredo, mas o batedor deteve os cães ao ver que a corça estava grávida. Artur e eu cavalgáramos tangencialmente à corrida, pensando apanhar a presa no extremo do bosque, mas obrigámos os cavalos a seguir a passo assim que ouvimos as trompas. Artur olhou em volta, como se esperasse encontrar mais alguém que nos acompanhasse, depois resmungou quando viu que estava sozinho comigo.

 

Uma situação estranha, a de ontem à noite disse ele pouco à vontade. Mas as mulheres gostam destas coisas acrescentou, negativamente.

 

Ceinwyn não gosta afirmei.

 

Ele lançou-me um olhar cortante. Deveria ter-se interrogado se ela me falara da sua proposta de casamento, mas o meu rosto nada traiu e ele deve ter concluído que ela nada dissera.

 

Não disse ele. Voltou a hesitar, depois riu acanhadamente. Argante acha que eu devia ter passado pelas chamas como forma de marcar o casamento, mas disse-lhe que não preciso que cordeiros mortos me digam que me casei.

 

Nunca tive oportunidade de vos felicitar pelo vosso casamento afirmei, com grande formalidade por isso deixai que o faça agora. Ela é uma bonita rapariga.

 

Aquilo agradou-lhe.

 

É verdade disse ele, depois corou. Mas é apenas uma criança.

 

Culhwuch diz que todas elas deviam ser tomadas jovens, Senhor disse eu, levianamente.

 

Ele ignorou a minha frivolidade.

 

Eu não fazia tenções de casar disse ele em voz baixa.

 

Eu nada disse. Ele não olhava para mim, fitando antes os terrenos de pousio.

 

Mas um homem deve casar-se disse ele com firmeza, como se tentasse convencer-se.

 

Efectivamente concordei.

 

E Oengus estava entusiasmado. Assim que a Primavera vier, Derfel, ele trará todo o seu exército. E os Escudos Negros são uns bons lutadores.

 

Não há melhores, Senhor disse eu, mas perguntei a mim próprio se Oengus traria os seus guerreiros, quer Artur casasse quer não com Argante.

 

O que Oengus havia, sem dúvida, desejado era a aliança de Artur contra Cuneglas de Powys, cujas terras os lanceiros de Oengus atacavam constantemente. Mas, de facto, o astuto Rei irlandês havia sugerido a Artur que o casamento garantiria a chegada dos seus Escudos Negros para a campanha da Primavera. O casamento fora obviamente preparado à pressa e agora, com a mesma evidência, Artur arrependia-se dele.

 

Certamente que ela deseja crianças disse Artur, pensando ainda nos horripilantes ritos que haviam ensanguentado o pátio de Lindinis.

 

Vós não, Senhor?

 

Ainda não disse ele, concisamente. Penso que é melhor esperar até a questão dos saxões estar resolvida.

 

A propósito da qual afirmei tenho um pedido a fazer-vos, da parte da Senhora Guinevere.

 

Artur lançou-me outro olhar cortante, mas nada disse.

 

Guinevere teme continuei vir a ficar vulnerável se os saxões atacarem pelo Sul. Ela pede-vos que mudeis o seu cárcere para um local mais seguro.

 

Artur inclinou-se para diante para acariciar as orelhas do seu cavalo. Esperava que ele ficasse zangado com a menção de Guinevere, mas não mostrou qualquer irritação.

 

Talvez os saxões ataquem no Sul disse ele, calmamente na verdade espero que o façam, porque então dividirão as suas forças em duas e nós poderemos vencê-las uma de cada vez. Mas o maior perigo, Derfel, é se eles fazem um único ataque ao longo do Tamisa, e eu tenho de fazer planos para o maior perigo, não para o menor.

 

Mas não seria, certamente, prudente insisti no pedido afastar tudo o que é valioso do sul da Dumnónia?

 

Ele virou-se para olhar para mim. O seu olhar era trocista, como se me desprezasse por mostrar simpatia por Guinevere.

 

Ela é valiosa, Derfel? perguntou-me ele. Eu nada disse e Artur desviou os olhos para os fixar nos campos pálidos, onde tordos e melros percorriam os regos à procura de minhocas. Deverei matá-la? perguntou-me, de repente.

 

Matar Guinevere? respondi, chocado com a sugestão, depois concluí que aquelas eram possivelmente palavras de Argante. Ela devia estar ressentida por Guinevere continuar viva depois de ter cometido uma ofensa pela qual a sua irmã morrera. A decisão, Senhor disse eu não é minha, mas sem dúvida que, se era a morte o que ela merecia, já a devia ter tido há meses! Não agora.

 

Ele fez uma careta perante este conselho.

 

O que irão os saxões fazer-lhe? perguntou ele.

 

Ela acha que a violarão. Suponho que a colocarão num trono.

 

Ele olhou, ameaçadoramente, a pálida paisagem. Sabia que eu me referia ao trono de Lancelote, e ele imaginava o embaraço de ter o seu inimigo de morte no trono de Dumnónia com Guinevere a seu lado e Cerdic garantindo o poder de ambos. Era uma ideia insuportável.

 

Se ela correr o risco de ser capturada disse ele, rudemente, então matá-la-ei.

 

Quase não acreditei no que acabava de ouvir. Fiquei a olhar para ele, estarrecido, mas ele recusou-se a olhar-me nos olhos.

 

Sem dúvida que é mais simples disse eu deslocá-la para um sítio seguro. Não poderá ela ir para Glevum?

 

Tenho muito com que me preocupar disse ele,

bruscamente sem ser desperdiçar o pensamento com a segurança de traidores. Por alguns instantes, o seu rosto pareceu mais zangado do que nunca, mas depois abanou a cabeça e suspirou. Sabes quem eu invejo? perguntou-me.

 

Dizei-me, Senhor.

 

Tewdric.

 

Dei uma gargalhada.

 

Tewdric! Quereis ser um monge com obstipação?

 

Ele é feliz disse Artur, com firmeza encontrou a vida que sempre quis. Eu não quero a tonsura e não me interessa o seu Deus, mas de qualquer modo invejo-o. Fez uma careta. Esgoto-me a preparar-me para uma guerra em que ninguém, excepto eu, acredita que podemos ganhar, e eu não quero nada disso. Nada disso! Mordred devia ser Rei, nós prestámos o juramento de fazer dele Rei, e se derrotarmos os saxões, Derfel, deixá-lo-ei governar. Falou de forma desafiadora, e eu não acreditei nele. Tudo o que sempre quis continuou foi um palácio, um pedaço de terra, algum gado, colheitas na altura própria, madeira para arder, um ferreiro para trabalhar o ferro e um poço para ter água. Será isto demasiado?

 

Raramente ele se entregava a semelhante autocomiseração, e eu apenas deixei que a sua ira se libertasse. Já por várias vezes ele expressara o sonho de ter uma casa cercada com a sua própria paliçada, resguardada do mundo por densos bosques e vastas planícies e povoado apenas com as suas gentes. Agora, porém, com Cerdic e Aelle a juntarem as suas lanças, ele devia saber que era um sonho impossível.

 

Eu não consigo manter a Dumnónia para sempre disse ele e quando nós conseguirmos derrotar os saxões essa poderá ser a altura certa para deixar que outros homens refreiem Mordred. Quanto a mim, seguirei os passos de Tewdric na felicidade. Juntou as rédeas. Agora não posso pensar em Guinevere afirmou, mas se ela correr algum perigo, tu tratarás dela.

 

E com esta breve ordem bateu os joelhos e conduziu o seu cavalo, afastando-se.

 

Eu permaneci no mesmo sítio. Estava aterrado, mas se pensasse em algo mais para além do meu descontentamento por essa ordem, certamente que teria sabido o que me ia no espírito. Ele sabia que eu não mataria Guinevere e, por isso, sabia que ela estava em segurança. No entanto, ao dar-me a desapiedada ordem, ele não era obrigado a demonstrar qualquer afecto por ela.

Odi aí amo, excrucior.

 

Nada matámos, nessa manhã.

 

À tarde, os guerreiros reuniram-se no salão de banquetes. Mordred estava presente, de costas arqueadas na cadeira que lhe servia de trono. Nada tinha a acrescentar, porque era um rei sem reino, contudo Artur conferia-lhe as devidas cortesias. De facto, Artur começou por dizer que quando os saxões chegassem, Mordred montaria com ele e que todo o exército lutaria sob o estandarte do dragão vermelho de Mordred. Este assentiu a sua concordância, mas que mais podia ele fazer? Na verdade, e todos nós o sabíamos, Artur não oferecia a Mordred uma oportunidade de redimir a sua reputação no campo de batalha, certificando-se pelo contrário de que ele não lançaria qualquer discórdia. A melhor oportunidade de Mordred voltar a recuperar o seu poder era aliar-se aos nossos inimigos oferecendo-se a Cerdic como um rei fantoche. Em vez disso, ele permaneceria um prisioneiro dos severos guerreiros de Artur.

 

Depois, Artur confirmou que o rei Meurig de Gwent não lutaria. Esta notícia, apesar de não ser surpreendente, foi recebida com um resmungo de ódio. Artur silenciou o protesto. Meurig, afirmou, estava convencido que a guerra que se aproximava não era uma batalha de Gwent, mas o Rei havia dado a sua autorização contrariada para que Cuneglas trouxesse o exército de Powys pelo sul, atravessando as terras de Gwent, e para que Oengus fizesse os seus Escudos Negros marcharem através do seu reino. Artur nada disse relativamente à vontade de Meurig de governar a Dumnónia, talvez por saber que tal anúncio apenas faria com que ficássemos ainda mais zangados com o Rei de Gwent, e Artur desejava ainda de alguma forma mudar a opinião de Meurig e, por isso, não quis provocar mais ódio entre nós e Gwent. As forças de Powys e Demétia, afirmou Artur, juntar-se-iam em Corinium, porque essa cidade romana rodeada de muralhas deveria ser a base de Artur e o lugar onde todas as nossas provisões deveriam estar concentradas.

 

Começamos a abastecer Corinium, amanhã disse Artur. Quero-a farta em mantimentos, porque será aí que iremos travar a nossa batalha. Fez uma pausa. Uma longa batalha afirmou com todas as suas forças contra todos os homens que conseguirmos reunir.

 

Um cerco? perguntou Culhwuch, surpreendido.

 

Não respondeu Artur.

 

Explicou que a sua intenção era usar Corinium como um engodo. Os Saxões cedo saberiam que a cidade estava cheia de carne salgada, peixe seco e cereais e, tal como acontecia normalmente, eles próprios ficariam sem comida e, desse modo, seriam atraídos a Corinium como uma raposa a um lago de patos. E era aí que ele planeara destruí-los.

 

Eles sitiá-la-ão disse ele e Morfans defendê-la-á. Morfans, prevenido de tal incumbência, assentiu a sua concordância.

 

Todavia, os restantes continuou Artur estaremos nas colinas ao norte da cidade. Cerdic ouvi-lo-á e saberá que tem de nos destruir, por isso quebrará o seu cerco. Nessa altura, combatê-lo-emos no local que escolhermos.

 

Todo o plano dependia do avanço dos dois exércitos saxões pelo vale do Tamisa, e tudo indicava que esta era, de facto, a intenção dos saxões. Eles reforçavam Londres e Pontes com provisões e não faziam quaisquer preparativos na fronteira sul. Culhwuch, que vigiava essa fronteira a sul, penetrara bem no interior de Lloegyr e disse-nos que não havia visto nenhuma concentração de lanceiros, nem qualquer indicação de que Cerdic estava a armazenar cereais ou carne em Venta ou em qualquer outra das cidades fronteiriças. Tudo apontava, segundo Artur, para um assalto simples, brutal e arrasador acima do Tamisa dirigido à margem do mar Severn com a batalha decisiva a ser travada algures próximo de Corinium. Os homens de Sagramor haviam já construído enormes sinalizações luminosas nos cumes das colinas de cada um dos lados do vale do Tamisa, e ainda mais sinalizações haviam sido erguidas nas colinas que se espalhavam para sul e para oeste da Dumnónia. Quando víssemos o fumo dessas fogueiras todos deveríamos dirigir-nos para os nossos lugares.

 

Isso será apenas depois do Beltain disse Artur.

 

Ele tinha espiões, tanto no castelo de Aelle como no de Cerdic, e todos haviam afirmado que os saxões aguardariam até depois das festividades em honra da sua Deusa Eostre, que seriam celebradas durante uma semana inteira a seguir ao Beltain. Artur explicou que os Saxões desejavam ter a bênção da Deusa e queriam dar aos seus novos barcos tempo para atravessarem o mar com os seus cascos cheios com homens ainda mais sedentos de luta.

 

Todavia, depois das festividades de Eostre, afirmou, os saxões avançariam e ele deixá-los-ia penetrar bem no interior da Dumnónia sem oferecer resistência, embora planeasse persegui-los durante o percurso. Sagramor, com os seus lanceiros endurecidos pelas batalhas, bateria em retirada diante da horda de saxões mas ofereceria toda a resistência com um pequeno escudo defensivo, enquanto Artur se juntaria ao exército aliado em Corinium.

 

Culhwuch e eu tínhamos instruções diferentes. A nossa tarefa era defender as colinas a sul do vale do Tamisa. Não devíamos esperar derrotar qualquer arremetida de saxões determinados que viesse do sul dessas colinas, mas Artur não contava com um ataque semelhante. Os saxões, dizia ele vezes sem conta, continuariam a marchar para oeste, até mesmo para oeste ao longo do Tamisa, mas seriam obrigados a fazer ataques súbitos nas montanhas, a sul, em busca de cereais e gado. A nossa tarefa era travar esses ataques súbitos, e com isto forçá-los a seguirem para norte. Isso levaria os saxões a atravessarem a fronteira gwentiana, o que poderia incitar Meurig a uma declaração de guerra. A esperança não revelada nessa ideia, embora todos os que nos encontrávamos naquele aposento cheio de fumo a compreendêssemos pelo menos, era que sem os lanceiros bem treinados de Gwent a grande batalha perto de Corinium seria uma questão verdadeiramente desesperada.

 

Por isso combatam-nos duramente disse Artur, dirigindo-se a Culhwuch e a mim. Matai os seus forrageados, assustem-nos, mas não sejam surpreendidos na batalha. Persigam-nos, assustem-nos, mas quando eles estiverem a um dia de caminho de Corinium, deixem-nos em paz. Prossigam apenas para se juntarem a mim.

 

Ele precisaria de todos os lanceiros que conseguisse reunir para travar essa grande batalha às portas de Corinium, e Artur parecia ter a certeza de que nós conseguiríamos vencer, desde que as nossas forças estivessem em terreno elevado.

 

Era, à sua maneira, um bom plano. Os saxões seriam atraídos bem para o interior da Dumnónia e aí seriam forçados a atacar subindo uma qualquer colina íngreme. Mas o plano dependia de o inimigo fazer exactamente o que Artur pretendia, e Cerdic, pensei, não era um homem obsequiador. Contudo, Artur parecia bastante confiante, e pelo menos isso era reconfortante.

 

Regressámos todos a casa. Tornei-me pouco popular por revistar todas as casas da minha região e por confiscar cereais, carne salgada e peixe seco. Deixámos mantimentos suficientes para as pessoas se alimentarem, mas enviámos o resto para Corinium, para o exército de Artur. Aquela era uma questão desagradável, porque os camponeses temiam a fome quase tanto como os lanceiros do inimigo, e nós fomos forçados a procurar esconderijos e a ignorar os gritos das mulheres que nos acusavam de tirania. Eram preferíveis as nossas buscas, disse-lhes eu, do que os saques dos saxões.

 

Também nós nos preparámos para a batalha. Aprestei o meu ornamento de guerra e os meus escravos olearam o justilho de couro, poliram a cota de malha, alisaram o penacho de pêlo de lobo do elmo e voltaram a pintar a estrela branca no meu pesado escudo. Chegou o novo ano, com os primeiros sons dos melros. Tordoveias cantavam nos altos galhos dos larícios, por detrás da colina de Dun Carie, e pagámos às crianças da vila para que corressem com púcaros e paus pelos pomares de maçãs para afugentar os piscos que roubavam as minúsculas bagas de fruta. Os pardais faziam ninhos e o ribeiro cintilava com o regresso dos salmões. O crepúsculo tornava-se ruidoso por causa dos bandos de lavandiscas malhadas. Em poucas semanas havia flores nas aveleiras, violetas-sem-perfume nas matas e estróbilos com laivos dourados nos salgueiros. Lebres-macho bailavam nos campos onde brincavam os cordeiros. Em Março, havia um magote de sapos e eu temi o seu significado, mas Merlim não se encontrava ali para o interpelar, porque tanto ele como Nimue haviam desaparecido e parecia que tínhamos de lutar sem o seu auxílio. As cotovias cantavam e as pegas predadoras procuravam ovos acabados de pôr ao longo das sebes que ainda não tinham qualquer folhagem.

 

Por fim, surgiram as folhas e, com elas, notícias dos primeiros guerreiros que chegavam de Powys pelo sul. Eram escassos em número, porque Cuneglas não quisera esgotar as provisões de alimentos que estavam empilhadas em Corinium, mas a sua chegada foi uma amostra do grande exército que Cuneglas conduziria para sul depois do Beltain. Os nossos vitelos haviam nascido, a manteiga estava batida e Ceinwyn afadigava-se a limpar o palácio depois do longo e fuliginoso Inverno. -

 

Foram dias estranhos e amargos, porque havia a promessa de guerra numa nova Primavera que, subitamente, se revelava gloriosa, com os céus cheios de sol e os prados floridos. Os cristãos pregavam ”os últimos dias”, referindo-se àqueles tempos antes do fim do mundo, e talvez nessa altura as gentes sintam o que nós sentimos nessa doce e bela Primavera. Havia uma qualidade irreal para a vida diária que tornava todas as pequenas tarefas especiais. Talvez esta fosse a última vez que queimávamos a palha de Inverno das nossas camas e talvez a última vez que trazíamos ao mundo um vitelo todo ensanguentado de dentro do ventre da sua mãe. Tudo era especial, porque tudo estava ameaçado.

 

Também percebemos que o Beltain que se aproximava podia ser o último a que assistiríamos como família e, por isso, tentámos fazer com que fosse memorável. O Beltain saúda a vida do novo ano, e na véspera do festim deixámos que todas as fogueiras se extinguissem em Dun Carie. As lareiras das cozinhas, que haviam ardido o Inverno inteiro, estiveram o dia todo sem ser alimentadas e, à noite, nada mais havia do que brasas. Apagámo-las, limpámos os fogões e depois ateámos novos fogos, enquanto na colina a leste da vila amontoámos duas enormes pilhas de lenha, uma das quais colocada em medas próximo da árvore sagrada que Pyrlig, o nosso bardo, escolhera. Era uma jovem aveleira que tínhamos cortado e transportado cerimoniosamente pela vila, atravessando o ribeiro e subindo a colina. A árvore tinha pendurados pedaços de roupa, e todas as casas, bem como o próprio castelo, estavam cobertas com jovens galhos de aveleira.

 

Nessa noite, por toda a Bretanha, as fogueiras foram extintas. Na Véspera do Beltain reinava a escuridão. O festim teve lugar no nosso palácio, mas não havia nenhuma lareira para cozinhar nem nenhuma chama que iluminasse os altos barrotes. Não havia nenhuma luz em parte alguma, excepto nas cidades cristãs onde as gentes espevitavam as suas fogueiras para desafiar os Deuses. Contudo, no campo, tudo mergulhava na escuridão. Ao anoitecer, tínhamos subido a colina, uma massa de aldeãos e de lanceiros levando gado e ovelhas que foram colocados em cercas de vime. Algumas crianças brincavam, mas quando a escuridão se intensificou as crianças mais pequenas adormeceram e os seus corpinhos deitaram-se na relva como os restantes de nós, reunidos junto das fogueiras apagadas, e aí cantámos o Lamento de Annwn.

 

Então, na zona mais escura da noite, fizemos a fogueira do novo ano. Pyrlig ateou a chama friccionando dois paus, enquanto Issa deitava, cuidadosamente, aparas de larícios para o meio das fagulhas que libertavam um pequeno pedaço de fumo. Os dois homens inclinaram-se para a chama minúscula, assopraram-na, inflamaram-na ainda mais e, por fim, uma chama forte surgiu, começando todos nós a entoar o Cântico de Belenos, enquanto Pyrlig levava o novo fogo para as duas pilhas de lenha. As crianças que dormiam acordaram e correram à procura dos pais, enquanto as chamas do Beltain subiam, longas e brilhantes.

 

Foi sacrificado um bode depois de as fogueiras estarem a arder. Ceinwyn, como sempre, virou-se quando a garganta do animal foi cortada e enquanto Pyrlig espalhava o seu sangue pela relva. Atirou o corpo do bode para a fogueira onde ardia a aveleira sagrada, depois os aldeãos reuniram o seu gado e as cabras e conduziram-nos por entre os dois enormes braseiros. Pendurámos colares de palha entrançada em volta dos pescoços das vacas, e depois observámos as jovens a dançar por entre as fogueiras, pretendendo que os Deuses abençoassem os seus ventres. Haviam dançado por entre as fogueiras no Imbolc, mas voltavam a fazê-lo no Beltain. Este era o primeiro ano que Morwenna tinha idade suficiente para o fazer, e eu senti uma ponta de tristeza ao observar a minha filha serpenteando e saltando. Ela parecia tão feliz. Pensava no casamento e sonhava com filhos, contudo, dentro de poucas semanas, pensei, podia estar morta ou ter sido feita escrava. Este pensamento encheu-me de uma imensa ira, fazendo com que me virasse de costas para as nossas fogueiras; mas sobressaltei-me ao ver as chamas brilhantes de outras fogueiras do Beltain ardendo ao longe. Por toda a Dumnónia ardiam fogueiras para saudar a chegada do novo ano.

 

Os meus lanceiros haviam levado para o topo da colina dois enormes caldeirões de ferro e nós enchemos o seu interior com lenha a arder. Depois apressámo-nos a descer a colina com os dois recipientes em chamas. Uma vez na vila, o novo fogo foi distribuído, cada cabana retirando uma chama da fogueira e colocando-a na madeira que se encontrava no fogão. Por último, fomos para o palácio e levámos o novo fogo para o interior das cozinhas. Por essa altura era já quase manhã, e os aldeãos amontoavam-se no interior da paliçada aguardando o nascer do Sol. No preciso instante em que surgiram os primeiros raios de luz brilhante por cima do horizonte a leste, entoámos a canção do nascimento do Lugh; um hino festivo e dançante de regozijo. Virámo-nos para leste enquanto dávamos as boas-vindas ao Sol, e mesmo para lá do horizonte conseguíamos ver o fumo lento e escuro do Beltain, elevando-se no céu cada vez mais pálido.

 

Começámos a preparar a refeição assim que o fogo espevitou nos fogões. Eu planeara um enorme festim para a vila, pensando que este poderia ser o nosso último dia de felicidade por longo tempo. O povo raramente comia carne, mas no Beltain tínhamos cinco veados, dois javalis, três porcos e seis cabras para assar; tínhamos barris de hidromel recém-fermentado e dez cestos de pão, cozido nos fogos da antiga estação. Havia queijo, nozes com mel e bolo de farinha de aveia com a cruz de Beltain levemente queimada na côdea. Dentro de aproximadamente uma semana viriam os saxões, por isso esta era a altura de fazer uma festa que ajudasse as nossas gentes a passar os horrores que se avizinhavam.

 

Os aldeãos faziam jogos enquanto a carne era cozinhada. Havia corridas a pé pela rua, combates de luta e uma competição para ver quem conseguia levantar o maior peso. As raparigas entrançavam flores nos seus cabelos e, muito antes de o festim ter início, vi casais escapulindo-se. Comemos à tarde, e enquanto nos banqueteámos, os poetas recitaram versos e os bardos da vila cantaram para nós, sendo o sucesso das suas composições ajuizado pela quantidade de aplausos que cada um conseguiu obter. Dei ouro a todos os bardos e poetas, até mesmo aos piores, e destes houve muitos. A maior parte dos poetas era jovem que, corando, declamavam versos desengraçados dirigidos às suas amadas; as raparigas pareciam envergonhadas e os aldeãos zombavam, riam e depois pediam que cada uma recompensasse o poeta com um beijo. Todavia, o beijo fosse demasiado fugidio, o casal seria mantido com os rostos juntos e obrigado a beijar como devia ser. A poesia tornava-se visivelmente melhor à medida que bebíamos.

 

Eu bebi demasiado. Na verdade, todos festejámos bem e bebemos ainda melhor. A determinada altura fui desafiado para um jogo de luta pelo camponês mais rico da vila e a multidão exigiu que eu o aceitasse. Desse modo, já meio ébrio, cravei as mãos no corpo do camponês e ele fez-me o mesmo, e consegui sentir o cheiro dos vapores do hidromel no seu hálito, tal como ele o sentia, sem dúvida, no meu. Tentou levantar-me, eu tentei levantá-lo, e nenhum de nós conseguiu mover o outro, por isso ficámos ali, de pé, olhando para a cabeça um do outro como veados em luta, enquanto a multidão motejava do nosso triste desempenho. No fim voltei-o, mas apenas porque ele estava mais ébrio do que eu. Continuei a beber, tentando talvez esquecer o futuro.

 

Ao cair da noite sentia-me enjoado. Fui até à plataforma de luta que havíamos construído no talude leste e aí inclinei-me no cimo do muro e olhei, fixamente, para o horizonte que começava a escurecer. Dois fios de fumo espalhavam-se saindo do topo da colina onde havíamos ateado as nossas novas fogueiras nocturnas, apesar de para a minha mente cheia de hidromel parecer que eram pelo menos uma dúzia de piras de fumo. Ceinwyn subiu para a plataforma e riu do meu rosto sombrio.

 

Estás ébrio disse ela.

 

Estou concordei.

 

Dormirás como um porco afirmou, acusadoramente, e também ressonarás como um porco.

 

É Beltain disse eu desculpando-me, e fiz um gesto com a mão para os distantes fios de fumo.

 

Ela inclinou-se ao meu lado sobre o parapeito. Tinha flores de abrunho entrelaçadas no cabelo dourado e estava mais bonita do que nunca.

 

Temos de falar com Artur sobre Gwydre disse ela.

 

Sobre o casamento com Morwenna? perguntei, depois fiz uma pausa para organizar os meus pensamentos. Ultimamente, Artur parece tão pouco amistoso consegui finalmente dizer e talvez ele tenha em mente casar Gwydre com outra rapariga.

 

Talvez ele tenha isso em mente disse Ceinwyn, calmamente e nesse caso devíamos encontrar alguém para Morwenna.

 

Quem?

 

É exactamente nisso que quero que penses disse Ceinwyn quando estiveres sóbrio. Talvez um dos filhos de Culhwuch? Espreitou para as sombras da noite, no sopé da colina de Dun Carie. Havia aí um emaranhado de arbustos na base da encosta e conseguiu ver um casal activo no meio das folhas. Aquela é Morfudd disse ela.

 

Quem?

 

Morfudd respondeu Ceinwyn a leiteira. Está para chegar outro bebé, suponho. É mesmo altura de ela casar. Suspirou e olhou fixamente para o horizonte. Durante muito tempo permaneceu em silêncio, depois franziu o sobrolho. Não achas que este ano há mais fogueiras do que no ano passado? perguntou ela.

 

Respeitosamente fitei o horizonte, mas muito para ser honesto não conseguia distinguir o rasto de um fumo do outro.

 

É possível disse eu, evasivamente. Ela continuou a franzir o sobrolho.

 

Ou talvez não sejam de todo fogueiras do Beltain.

 

Claro que são! disse eu com toda a certeza de um homem ébrio.

 

Mas sinalizações luminosas continuou ela.

 

Passaram alguns instantes até as suas palavras fazerem sentido para mim. Depois, de repente, deixei de me sentir embriagado. Sentia-me enjoado, mas não ébrio. Olhei fixamente para leste. Um grande número de linhas verticais manchava o céu com o seu fumo, mas duas das linhas eram muito mais espessas do que as outras e ainda mais espessas para serem os restos de fogueiras acesas na noite anterior e deixadas a extinguir-se de madrugada.

 

E, de repente, de forma chocante, percebi que eram sinalizações luminosas de aviso. Os saxões não haviam esperado até passarem as festividades de Eostre, tinham antes vindo no Beltain. Eles sabiam que tínhamos preparado sinalizações de aviso, mas também sabiam que as fogueiras do Beltain estariam acesas no topo das colinas por toda a Dumnónia, e deveriam ter calculado que não notaríamos as sinalizações luminosas de aviso durante o ritual das fogueiras. Eles haviam-nos enganado. Nós tínhamos festejado, havíamo-nos embriagado até ficarmos insensíveis, e durante todo esse tempo os saxões atacavam.

 

E, Dumnónia estava em guerra.

 

Eu era o comandante de setenta guerreiros experientes, mas também comandava outros cento e dez mais jovens que treinara durante o Inverno. Esses cento e oitenta homens representavam aproximadamente um terço de todos os lanceiros da Dumnónia, mas apenas dezasseis estavam preparados para avançar ao amanhecer. Os restantes, ou ainda estavam ébrios ou estavam de tal modo debilitados que ignoraram as minhas pragas e maldições. Issa e eu arrastámos os que estavam em estado mais calamitoso para o ribeiro e atirámo-los para a água gelada, mas pouco resultado teve. Eu apenas podia esperar, hora após hora, que mais homens recuperassem a consciência. Um grande número de saxões sóbrios podia ter arrasado Dun Carie nessa manhã.

 

As fogueiras de sinalização ainda ardiam, dizendo-nos que os saxões se aproximavam, e eu senti uma terrível culpa por ter decepcionado tanto Artur. Mais tarde soube que quase todos os guerreiros de Dumnónia estavam igualmente inconscientes nessa manhã, apesar dos cento e vinte homens de Sagramor terem permanecido sóbrios e terem cumpridoramente batido em retirada diante dos exércitos saxões que avançavam. Os restantes de nós, porém, cambaleávamos, esforçávamo-nos por vomitar, arfávamos e engolíamos água como cães.

 

Pelo meio do dia, a maioria dos meus homens estava de pé e apenas alguns estavam prontos para uma longa caminhada. A minha armadura, o meu escudo e lanças de guerra estavam aprestados num cavalo de carga, enquanto dez mulas levavam os cestos de mantimentos que Ceinwyn tão apressadamente enchera durante toda a manhã. Ela aguardaria em Dun Carie, quer pela vitória, ou mais provavelmente, por um mensageiro que lhe dissesse para fugir.

 

Então, alguns instantes depois do meio-dia, tudo mudou.

 

Um cavaleiro chegou do sul num cavalo todo suado. Era Einion, o filho mais velho de Culhwuch, que tinha levado o seu cavalo quase à exaustão na tentativa frenética de nos alcançar. Por pouco não caiu da sela.

 

Senhor arfou ele, depois tropeçou, equilibrou-se e fez-me uma vénia descuidada. Durante alguns instantes ele esteve demasiado aflito e sem fôlego para falar, mas depois as palavras saíram-lhe precipitadamente numa excitação frenética. Contudo, estava tão ansioso por entregar a sua mensagem e antecipara de tal modo o drama do momento que foi incapaz de fazer qualquer sentido, apesar de eu ter percebido que ele vinha do sul e que os saxões avançavam nessa zona. Levei-o para um banco junto ao palácio e fi-lo sentar-se.

 

Bem-vindo a Dun Carie, Einion Culhwuch disse eu, com grande formalidade e repete tudo o que disseste.

 

Os saxões, Senhor disse ele, atacaram Dunum.

 

Então, Guinevere tivera razão e os saxões haviam entrado pelo sul. Tinham vindo pelas terras de Cerdic, para lá de Venta, e estavam já bem no interior da Dumnónia. Dunum, a nossa fortaleza perto da costa, caíra na véspera ao amanhecer. Culhwuch abandonara o forte, em vez de ver os seus cem homens derrotados, e agora batia em retirada diante do inimigo. Einion, um jovem com a mesma estatura atarracada de seu pai, olhava-me funestamente.

 

Eles são demasiados, Senhor.

 

Os saxões haviam feito de nós tolos. Primeiro, haviam-nos convencido de que não queriam atacar pelo sul, depois haviam atacado na noite das nossas festividades, sabendo que iríamos confundir as distantes fogueiras de aviso com as chamas do Beltain e, agora, estavam à vontade no nosso flanco sul. Calculei que Aelle descia o Tamisa, enquanto as tropas de Cerdic tomavam livremente a sua posição junto à costa. Einion não tinha a certeza se o próprio Cerdic comandava o ataque do sul, porque não vira o estandarte do Rei saxão com a caveira do lobo pendurada e pintada de vermelho e a pele esfolada de um homem que haviam morto, tendo pelo contrário visto a bandeira de Lancelote da águia-marinha com o peixe preso nas suas garras. Culhwuch acreditava que Lancelote dirigia os seus próprios seguidores e mais duzentos ou trezentos saxões.

 

Onde estavam eles quando partiste? perguntei a Einion.

 

Ainda a sul de Sorviodunum, Senhor.

 

E o teu pai?

 

Ele estava na cidade, Senhor, mas não se atrevia a deixar-se cercar. Então Culhwuch preferia entregar a fortaleza de Sorviodunum a ver-se cercado.

 

Ele quer que eu o reforce? perguntei. Einion abanou a cabeça.

 

Ele enviou uma comunicação para Durnovária, Senhor, dizendo ao povo que fosse para norte. Ele acha que devíeis protegê-los e levá-los para Corinium.

 

Quem está em Durnovária? perguntei.

 

A princesa Argante, Senhor.

 

Blasfemei em voz baixa. A nova mulher de Artur não podia ser simplesmente abandonada, e então percebi a sugestão de Culhwuch. Ele sabia que Lancelote não podia ser travado, por isso queria que eu resgatasse tudo o que tinha valor na zona central da Dumnónia e retirasse para norte em direcção a Corinium, enquanto Culhwuch fazia os possíveis por retardar o inimigo. Era uma estratégia desesperada e de emergência e no final, nós teríamos entregue a maior parte da Dumnónia às forças inimigas, embora houvesse ainda a possibilidade de todos conseguirmos chegar ao mesmo tempo a Corinium para travar a batalha de Artur. Mas, para resgatar Argante, eu teria de abandonar os planos de Artur de arrasar os saxões nas colinas a sul do Tamisa. Era uma pena, mas raramente as guerras se desenrolam de acordo com os planos.

 

Artur sabe disso? perguntei a Einion.

 

O meu irmão dirige-se ao seu encontro garantiu-me Einion, o que significava que Artur ainda não sabia das notícias. O irmão de Einion chegaria apenas ao fim da tarde a Corinium, onde Artur passara o Beltain. Entretanto, Culhwuch estava perdido algures no sul da vasta planície, enquanto o exército de Lancelote se encontrava. Onde? Provavelmente, Aelle ainda se dirigia para oeste, e talvez Cerdic estivesse com ele, o que significava que Lancelote podia continuar ao longo da costa e conquistar Durnovária, ou então virar para norte e seguir Culhwuch em direcção a Caer Cadarn e Dun Carie. ”Mas em qualquer dos casos”, pensei, ”esta região estaria repleta de lanceiros saxões em apenas três ou quatro dias.”

 

Dei a Einion um cavalo vigoroso e enviei-o para norte, ao encontro de Artur, com a mensagem de que eu levaria Argante para Corinium, mas sugerindo que ele enviasse cavaleiros para Aquae Sulis ao nosso encontro, para depois a levarem para norte. Enviei, então, Issa e cinquenta dos meus melhores homens para sul, para Durnovária. Ordenei-lhes que caminhassem depressa e fossem leves, transportando apenas as suas armas, e preveni ainda Issa para a probabilidade de encontrar Argante e os outros fugitivos de Durnovária dirigindo-se para norte, pela estrada. Issa devia levá-los a todos para Dun Carie.

 

Com sorte disse-lhe eu estarás de volta amanhã pelo cair da noite.

 

Ceinwyn fez os preparativos para a sua partida. Esta não era a primeira vez que fugia da guerra, e sabia bem que ela e as nossas filhas apenas podiam levar o que conseguissem transportar. Tudo o resto tinha de ser abandonado, por isso dois lanceiros escavaram uma gruta na encosta da colma de Dun Carie e ela escondeu aí o nosso ouro e a nossa prata. Depois disso, os dois homens encheram o buraco e disfarçaram-no com turfa. Os aldeões faziam o mesmo com potes de cozinha, pás, pedras de amolar, fusos, peneiras, de facto, tudo o que fosse demasiado pesado para transportar e demasiado valioso para perder. Por toda a Dumnónia enterravam-se tais valores.

 

Eu pouco podia fazer em Dun Carie a não ser aguardar o regresso de Issa, por isso rumei para sul, para Caer Cadarn e Lindinis. Nós mantínhamos uma pequena guarnição em Caer Cadarn, não por uma qualquer razão militar, mas porque a colina era o nosso local real e, por isso, merecia ser guardado. Essa guarnição era composta por um elevado número de homens idosos, na sua maioria mutilados, e dos vinte apenas cinco ou seis seriam verdadeiramente úteis nos escudos defensivos. Eu, porém, ordenei-lhes que todos se dirigissem para norte, para Dun Carie, depois virei a mula para oeste na direcção de Lindinis.

 

Mordred pressentira as terríveis notícias. Os rumores passavam pelo campo a uma velocidade inimaginável, e embora nenhum mensageiro tivesse ido ao palácio, ele calculou qual fosse a minha missão. Fiz-lhe uma vénia e depois, delicadamente, pedi-lhe que se aprontasse para deixar o palácio dentro de uma hora.

 

Oh, isso é impossível! disse ele com o seu rosto redondo, traindo o seu contentamento pelo caos que ameaçava a Dumnónia. Mordred sempre se deleitara com o infortúnio.

 

Impossível, meu Rei e Senhor? perguntei.

 

Com a mão percorreu o salão do trono cheio de mobília romana, na sua maioria lascada ou já sem os seus embutidos, mas ainda sumptuosa e bela.

 

Tenho coisas para emalar disse ele, pessoas para visitar. Talvez amanhã?

 

Rumareis para norte, para Corinium dentro de uma hora, meu e Senhor afirmei com brusquidão.

 

Era importante retirar Mordred do caminho dos saxões, razão pela qual eu ali fora em vez de me dirigir para sul, ao encontro de Argante. Se Mordred tivesse ficado, seria, sem dúvida, usado por Aelle e por Cerdic, e Mordred sabia-o. Por instantes, pareceu-me que ia argumentar, depois ordenou-me que deixasse os aposentos e gritou por um escravo para que aprestasse a sua armadura. Depois de muito procurar, encontrei Lanval, o velho lanceiro que Artur encarregara da guarda do Rei.

 

Levas todos os cavalos que estão no estábulo disse eu a Lanval e escoltas o imbecil para Corinium. Entrega-o pessoalmente a Artur.

 

Mordred partiu daí a uma hora. O Rei cavalgou na sua armadura e com o seu estandarte a esvoaçar. Quase lhe ordenei que o enrolasse, porque a visão do dragão apenas provocaria mais rumores na região. Contudo, talvez não fosse má ideia espalhar o alarme, porque as gentes precisam de tempo para se preparar e para esconderem os seus valores. Observei os cavalos do Rei atravessando ruidosamente o portão e virando para norte, depois regressei ao palácio onde o camareiro, um lanceiro coxo chamado Dyrrig, gritava aos escravos que reunissem os tesouros do palácio. Tocheiros, potes e caldeirões eram levados para o jardim das traseiras para serem escondidos num poço seco, enquanto colchas, linhos e roupas eram empilhados em carroças para serem escondidos nos bosques mais próximos.

 

A mobília pode ficar disse-me Dyrrig com amargura. Os saxões podem ficar com ela.

 

Vagueei pelos aposentos do palácio e tentei imaginar os saxões, em grande assuada por entre os pilares, esmagando as frágeis cadeiras e destruindo os delicados mosaicos. Quem viria viver aqui, pensei? Cerdic? Lancelote? Se alguém fosse, conclui, seria Lancelote, porque parecia que os saxões não tinham gosto para o luxo romano. Eles haviam deixado apodrecer sítios como Lindinis e haviam construído as suas próprias casas senhoriais de madeira e colmo nas imediações.

 

Detive-me no salão do trono, tentando imaginá-lo forrado com os espelhos de que Lancelote tanto gostava. Ele vivia num mundo de metal polido para que pudesse admirar, constantemente, a sua própria beleza. Ou talvez Cerdic destruísse o palácio para mostrar que o mundo antigo da Bretanha terminara e que o novo e brutal reinado dos Saxões começava. Foi um momento melancólico e auto-indulgente, quebrado com a entrada de rompante de Dyrrig no salão, arrastando a sua perna estropiada.

 

Porei a mobília a salvo se o desejardes disse ele, com má vontade.

 

Não respondi.

 

Dyrrig retirou com um puxão um cobertor de cima de um sofá.

 

O estupor deixou aqui três raparigas, e uma delas grávida. Presumo que terei de lhes dar algumas moedas de ouro. Ele não o fez. Mas o que é isto? Detivera-se atrás da cadeira entalhada que servia de trono a Mordred e eu caminhei para junto dele e vi que havia um buraco no chão. Não estava aqui ontem insistiu Dyrrig.

 

Ajoelhei-me e descobri que toda uma secção do chão de mosaicos fora levantada. A secção situava-se numa extremidade do aposento, onde ramos de videira formavam uma cercadura em volta da figura central de um Deus reclinado, assistido pelas ninfas, e um cacho inteiro de uvas fora cuidadosamente retirado da orla. Vi que as pequenas lajes haviam sido coladas num pedaço de cabedal cortado com a forma das uvas e, por baixo delas, estivera uma fileira de pequenos ladrilhos romanos, que formavam agora um monte por baixo da cadeira. Era um esconderijo evidente, que dava acesso aos tubos da antiga câmara de aquecimento que corriam por baixo do chão.

 

Algo brilhou no fundo da câmara de aquecimento e eu ajoelhei-me e tacteei por entre a poeira e detritos, retirando dois pequenos botões de ouro, um pedaço de couro e o que, com uma careta, concluí serem excrementos de rato. Sacudi as mãos para as limpar, depois entreguei um dos botões a Dyrrig. O outro, que eu examinava, revelava um rosto barbudo, beligerante e com elmo. Era um trabalho grosseiro, mas poderoso pela intensidade do olhar.

 

Feito por saxões afirmei.

 

Este também, Senhor disse Dyrrig, e eu vi que o seu botão era quase idêntico ao meu. Espreitei de novo para o interior da câmara de aquecimento, mas não vi mais botões nem moedas. Obviamente, Mordred escondera aí uma grande quantidade de ouro, mas os ratos haviam roído o saco de cabedal, e, desse modo, ao retirar o tesouro do esconderijo dois dos botões haviam caído.

 

Então, por que razão terá Mordred ouro saxão? perguntei.

 

Dizei-mo vós, Senhor pediu Dyrrig, cuspindo para dentro do buraco. Dispus, cuidadosamente, as lajes romanas nas baixas aduelas de pedra que suportavam o chão, depois voltei a colocar as lajes revestidas de cabedal no lugar. Podia calcular a razão por que Mordred tinha ouro em seu poder, e a resposta não me agradou. Mordred estivera presente quando Artur revelara os planos da sua campanha contra os saxões, e essa, pensei, era a razão pela qual os saxões haviam conseguido apanhar-nos desprevenidos. Eles haviam sabido que nós concentraríamos as nossas forças no Tamisa, por isso durante todo o tempo em que nos levaram a pensar que era esse o local onde o assalto teria lugar, Cerdic organizara lenta e secretamente as suas forças a sul. Mordred havia-nos traído. Eu não podia ter a certeza disso, porque dois meros botões de ouro não constituíam a prova, mas faziam um terrível sentido. Mordred quisera recuperar o seu poder, e apesar de não conseguir reaver todo esse poder através de Cerdic, certamente conseguiria a vingança, que tanto ambicionava, sobre Artur.

 

Como teriam os saxões conseguido falar com Mordred? perguntei a Dyrrig.

 

É simples, Senhor. Por aqui passam sempre visitantes. disse Dyrrig. Mercadores, bardos, malabaristas, raparigas.

 

Devíamos ter-lhe cortado a goela afirmei, amargamente, colocando o botão no bolso.

 

Porque não o fizesteis? perguntou Dyrrig.

 

Porque ele é neto de Uther expliquei e Artur nunca o permitiria. Artur jurara proteger Mordred, e esse juramento limitara os movimentos de Artur para sempre. Além disso, Mordred era o nosso Rei legítimo, e nele corria o sangue de todos os nossos anteriores Reis até ao próprio Beli Mawr. É apesar de Mordred ser um inútil, o seu sangue era sagrado, por isso Artur o mantivera vivo.

 

A tarefa de Mordred disse eu a Dyrrig é gerar um herdeiro na mulher adequada, mas uma vez que ele nos deu um novo Rei será para ele prudente usar uma gola de ferro.

 

Não admira que ele não se case disse Dyrrig. E o que acontece se nunca o fizer? Presumo que não haverá herdeiros?

 

Aí está uma boa questão disse eu, mas derrotemos primeiro os saxões antes de nos preocuparmos com essa resposta.

 

Deixei Dyrrig a disfarçar o velho poço seco com arbustos. Eu podia ter regressado de imediato a Dun Carie, porque me apercebera da gravidade da situação; Issa seguia o seu caminho para escoltar Argante até um local seguro, Mordred fora em segurança para o norte, mas eu tinha ainda uma pequena questão para resolver e, por isso, rumei para norte, pelo Caminho Valado, que seguia junto aos vastos pântanos e lagos que bordejavam Ynys Wydryn. As aves canoras estavam barulhentas por entre os juncos enquanto andorinhões em voos picados se afadigavam a encher os bicos de lama para fazerem os seus novos ninhos por baixo dos nossos beirais. Cucos cucavam em cima dos salgueiros e dos vidoeiros que circundavam as extremidades do pântano. O sol surgiu na Dumnónia, os carvalhos tinham novamente as folhas verdes e as campinas para leste resplandeciam com primaveras e margaridas. Não cavalguei depressa, deixando a minha mula andar a farta-passo até que, alguns quilómetros a norte de Lindinis, virei para oeste, para a ponte de terra que conduzia a Ynys Wydryn. Até aí, eu servira os melhores interesses de Artur, garantindo a segurança de Argante e protegendo Mordred, mas agora eu arriscava a sua desaprovação. Ou talvez eu fizesse exactamente o que ele sempre quisera que eu fizesse.

 

Dirigi-me ao santuário do Espinheiro Sagrado, onde encontrei Morgana preparando-se para partir. Ela não ouvira nenhuma notícia fidedigna, apenas os rumores haviam feito o seu trabalho, e soubera que Ynys Wydryn estava meaçada. Contei-lhe o pouco que sabia e depois de ouvir essas escassas notícias espreitou por cima da sua máscara de ouro para me ver.

 

Então, onde está o meu esposo perguntou com uma voz esganiçada.

 

Não sei, Senhora respondi.

 

Tanto quanto eu sabia, Sansum continuava prisioneiro na casa do bispo Emrys, em Durnovária.

 

Não sabes disse-me Morgana, com brusquidão, e não te importas!

 

Na verdade, Senhora, não me importo respondi-lhe. Mas presumo que ele fugirá para norte como toda a gente.

 

Então diz-lhe que fomos para Silúria. Para Isca. Naturalmente, Morgana estava bem preparada para uma emergência.

 

Tinha estado a emalar os tesouros do santuário antevendo a invasão dos saxões, e havia barqueiros prontos para levar esses tesouros e as mulheres cristãs pelos lagos de Ynys Wydryn até à costa, onde outros barcos aguardavam para os levar para norte, atravessando o mar Severn até à Silúria.

 

E diz a Artur que eu rezo por ele acrescentou Morgana, apesar de ele não merecer as minhas orações. Diz-lhe ainda que tenho a sua prostituta em segurança.

 

Não, Senhora afirmei, porque essa fora a razão da minha ida a Ynys Wydryn. Até hoje não tenho exacta certeza da razão pela qual não deixei que Guinevere fosse com Morgana, mas penso que os Deuses me guiaram. Ou então, na agitação do momento quando os saxões fizeram com que os nossos cuidadosos preparativos se precipitassem, eu quisera dar a Guinevere uma última oferenda. Nunca fôramos amigos, mas no meu espírito eu associava-a aos bons velhos tempos, e apesar de ter sido o seu disparate a causar o mal, eu vira quão cediço Artur ficara desde que Guinevere desaparecera. Ou talvez soubesse que naqueles tempos terríveis precisávamos de todas as almas fortes que conseguíssemos reunir, e havia poucas almas tão fortes como a da Princesa Guinevere de Henis-Wyren.

 

Ela vem comigo! insistiu Morgana.

 

Tenho ordens de Artur insisti com Morgana, e isso resolveu a questão, embora na verdade as ordens do seu irmão fossem terríveis e vagas. Se Guinevere estiver em perigo, dissera-me Artur, eu teria de ir buscá-la ou talvez de a matar, mas decidira ir buscá-la, e em vez de a enviar em segurança para além do Severn, levá-la-ia ainda para mais próximo do perigo.

 

É quase como ver uma manada de vacas ameaçada por lobos disse Guinevere quando cheguei ao seu quarto.

 

Ela estava de pé, à janela, de onde via as mulheres de Morgana a correrem numa azáfama por entre os seus edifícios e os barcos que aguardavam para lá da paliçada oeste do santuário.

 

O que se passa, Derfel?

 

Tínheis razão, Senhora. Os saxões estão a atacar pelo sul. Decidi não lhe dizer que era Lancelote quem comandava esse assalto pelo sul.

 

Pensas que eles virão aqui? perguntou ela.

 

Não sei. Sei apenas que não podemos defender lugar algum a não ser onde Artur se encontra, e ele está em Corinium.

 

Por outras palavras disse ela, sorrindo, está tudo num alvoroço? Deu uma gargalhada, pressentindo uma oportunidade nessa confusão. Envergava as suas habituais vestes pesadas, mas o Sol brilhava através da janela aberta, dando ao seu esplêndido cabelo ruivo uma aura dourada. E então, o que quer Artur fazer comigo? perguntou ela.

 

A morte? Não, decidi, ele nunca o quisera verdadeiramente. O que ele pretendia era o que a sua alma orgulhosa não o deixaria alcançar.

 

Apenas recebi ordens para vos vir buscar, Senhora respondi.

 

Para ir para onde, Derfel?

 

Podeis atravessar o Severn com Morgana respondi, ou vir comigo. Levo as pessoas para norte, para Corinium e atrevo-me a dizer que a partir daí podeis viajar para Glevum. Aí estareis em segurança.

 

Ela afastou-se da janela e sentou-se numa cadeira junto à lareira vazia.

 

Pessoas disse ela, retirando a palavra da minha frase. Que pessoas, Derfel?

 

Corei.

 

Argante. Ceinwyn, claro. Guinevere riu-se.

 

Eu gostava de conhecer Argante. Achas que ela gostaria de me conhecer?

 

Tenho dúvidas quanto a isso, Senhora.

 

Também eu. Imagino que ela preferia que eu estivesse morta. Então, posso viajar contigo para Corinium, ou ir para a Silúria com as vacas cristãs? Creio que ouvi suficientes hinos cristãos que me chegaram para toda a vida. Além disso, a maior aventura será em Corinium, não te parece?

 

Receio bem que sim, Senhora.

 

Receias? Oh, não receies, Derfel. Ela deu uma gargalhada de felicidade hilariante. Todos vocês se esquecem de como Artur é bom quando nada dá certo. Será uma maravilha observá-lo. Por isso, quando partimos?

 

Agora respondi, ou assim que estiverdes pronta.

 

Estou pronta disse ela, feliz. Estou pronta para deixar este sítio há um ano.

 

Os vossos servos?

 

Há sempre outros servos disse ela, despreocupadamente. Vamos?

 

Eu tinha apenas um cavalo e por isso, sem cortesias, ofereci-lho e caminhei ao seu lado enquanto deixávamos o santuário. Raramente vi um rosto tão radiante como o de Guinevere nesse dia. Durante meses ela estivera encarcerada no interior dos muros de Ynys Wydryn e, de repente, montava um cavalo ao ar livre, por entre vidoeiros de folhas novas e sob o céu sem os limites da paliçada de Morgana. Subimos para a ponte de terra para lá do Tor e uma vez nesse alto terreno sem erva ela riu e lançou-me um olhar malicioso.

 

O que me impede de partir, Derfel?

 

Absolutamente nada, Senhora.

 

Ela gritou como uma menina e deu um toque de calcanhares nos flancos da mula, depois deu outro para obrigar o animal cansado a galopar. O vento ondulava nos seus caracóis ruivos à medida que ela galopava livremente pela relva. Gritou de alegria, girando o cavalo à minha volta num grande círculo. A sua saia voou para trás, mas ela não se importou, continuando a bater no cavalo e a andar em círculos até o cavalo soprar e ela estar sem fôlego. Só nessa altura pôs freio na mula e deslizou da sela.

 

Estou tão dorida! disse ela, feliz.

 

Montais bem, Senhora disse eu.

 

Sonhava poder voltar a montar um cavalo. A caçar de novo. E a fazer tantas outras coisas. Compôs a saia e depois lançou-me um olhar furtivo e divertido. O que te ordenou Artur, exactamente?

 

Hesitei.

 

Ele não foi específico, Senhora.

 

Que me matasses? perguntou ela.

 

Não, Senhora! respondi-lhe, parecendo chocado. Eu conduzia a mula pelas rédeas e Guinevere caminhava a meu lado.

 

Certamente que não me quer nas mãos de Cerdic disse ela, com mordacidade. Eu seria apenas um embaraço! Calculo que ele se tenha entretido com a ideia de me degolar. Argante deve tê-lo desejado. No seu lugar sem dúvida que eu o desejaria. Pensava nisso agora mesmo enquanto cavalgava à tua volta. Pensava:, creio que Derfel tem ordens para me matar? Devo continuar a cavalgar? Depois pensei que talvez não me matasses, ainda que tivesses essas ordens. Se ele me quisesse morta teria enviado Culhwuch. De repente ela gemeu e arqueou os joelhos para imitar o andar coxo de Culhwuch.

 

Culhwuch ter-me-ia degolado disse ela e não teria pensado duas vezes. Ela riu, não conseguindo dominar o seu desassossego. Então Artur não foi específico?

 

Não, Senhora.

 

Então, na verdade, Derfel, isto é ideia tua? Ela fez um aceno para o vasto campo.

 

Sim, Senhora confessei.

 

Espero que Artur ache que fizeste o mais acertado afirmou ela. De outro modo estarás em apuros.

 

Estou já em bastantes apuros, Senhora confessei. A velha amizade parece ter-se desvanecido.

 

Ela deve ter ouvido a tristeza na minha voz, porque de repente colocou um braço em volta do meu.

 

Pobre Derfel. Creio que ele está envergonhado. Fiquei embaraçado.

 

Sim, Senhora.

 

Portei-me muito mal disse ela, num tom de voz pesaroso. Pobre Artur. Mas sabes o que o fará reviver? A ele e à vossa amizade?

 

Muito me agradaria saber, Senhora. Ela retirou o seu braço do meu.

 

Reduzir os Saxões a nada, Derfel, é isso que nos trará de novo Artur. Vitória! Dá a vitória a Artur e ele devolver-nos-á a sua antiga alma.

 

Os Saxões, Senhora avisei-a, estão já a um passo da vitória. Contei-lhe o que sabia: que os Saxões faziam livremente grande alvoroço

 

para leste e para sul, que as nossas forças estavam dispersas e que a nossa única esperança era reunir o nosso exército antes de os saxões alcançarem Corinium, onde o pequeno grupo de guerra de Artur, constituído por duzentos lanceiros, aguardava sozinho. Eu imaginava que Sagramor estivesse a retirar na direcção de Artur, que Culhwuch vinha do sul, e eu iria para norte assim que Issa regressasse com Argante. Cuneglas avançaria, sem dúvida, do norte e Oengus mac Airem apressar-se-ia de oeste assim que tivesse notícias, mas se os Saxões chegassem primeiro a Corinium, então todas as esperanças se desvaneceriam. Havia no entanto pouca esperança, ainda que ganhássemos a corrida, porque sem os lanceiros de Gwent estaríamos em número tão inferior que apenas um milagre nos poderia salvar.

 

Disparate! disse Guinevere quando acabei de lhe explicar a situação. Artur nem começou ainda a lutar! Nós vamos vencer, Derfel, nós vamos vencer!

 

E com esta declaração peremptória ela riu e, esquecendo a sua preciosa dignidade, dançou na berma do caminho. Tudo parecia lúgubre, mas, de repente, Guinevere estava em liberdade e cheia de luz e eu nunca gostei tanto dela como naquele instante. De repente, pela primeira vez desde que vira o fumo das fogueiras de sinalização turvando o crepúsculo do Beltain, senti uma réstia de esperança.

 

A esperança desvaneceu-se bem depressa, porque em Dun Carie nada mais restava do que o caos e a incerteza. Issa não regressara e a pequena aldeia junto ao castelo estava cheia de refugiados que fugiam dos rumores, apesar de ninguém ter efectivamente visto nenhum saxão. Os refugiados haviam trazido o seu gado, as suas ovelhas, os seus bodes e os seus porcos, e todos tinham convergido para Dun Carie, uma vez que os meus lanceiros ofereciam uma ilusão de segurança. Usei os meus servos e escravos para iniciar novos rumores que diziam que Artur estaria a retirar para oeste, para a região fronteiriça com Kernow, e que eu decidira seleccionar os rebanhos e as manadas dos refugiados para conseguir mais rações para os meus homens. Estes falsos rumores eram suficientes para levar a maioria das famílias a dirigirem-se para a distante fronteira de Kernow. Elas deveriam estar em perfeita segurança nas vastas charnecas e, ao fugirem para oeste, o seu gado e as ovelhas não obstruiriam as estradas de Corinium. Se eu lhes tivesse ordenado simplesmente que se dirigissem para Kernow, teriam desconfiado e retardariam o passo para se certificarem de que eu não as enganava.

 

Ao cair da noite, Issa ainda não se juntara a nós. Por ora, eu não estava excessivamente preocupado, uma vez que a estrada para Durnovária era longa e certamente estaria apinhada de refugiados. Preparámos uma refeição no castelo e Pyrlig cantou para todos nós a canção da grande vitória de Uther sobre os saxões em Caer Idern. Depois de terminada a canção, e de eu ter atirado a Pyrlig uma moeda de ouro, recordei-me que certa vez ouvira Cynyr de Gwent cantar essa canção, e Pyrlig ficara impressionado.

 

Cynyr foi o maior de todos os bardos disse ele, melancólico, embora alguns digam que Amairgin de Gwynedd foi melhor. Muito me agradaria ouvir qualquer um deles.

 

Meu irmão notou Ceinwyn afirma que agora existe um bardo ainda melhor em Powys. E é também ainda muito jovem.

 

Quem? perguntou Pyrlig, pressentindo um rival indesejado.

 

Taliesin é o seu nome disse Ceinwyn.

 

Taliesin! Guinevere repetiu o nome, agradada. Significava ”testa luzidia”.

 

Nunca ouvi falar dele disse Pyrlig, com severidade.

 

Depois de derrotarmos os Saxões afirmei pediremos a esse Taliesin uma canção de vitória. E a ti também, Pyrlig acrescentei apressadamente.

 

Certa vez ouvi Amairgin cantar disse Guinevere.

 

Ouvisteis, Senhora? perguntou Pyrlig, novamente impressionado.

 

Eu era apenas uma criança disse ela, mas recordo-me que ele conseguia produzir um ensurdecedor som cavernoso. Era bastante assustador. Os seus olhos tornavam-se enormes, ele engolia o ar, e depois mugia como um touro.

 

Ah, o estilo antigo disse Pyrlig, reprovadoramente. Hoje em dia, Senhora, buscamos a harmonia das palavras em vez do mero volume do som.

 

Devíeis buscar ambos disse Guinevere, incisivamente. Não duvido que este Taliesin seja um mestre do estilo antigo e igualmente habilidoso no metro, mas como podeis prender a atenção de uma audiência se tudo o que lhe ofereceis é um ritmo inteligente? Tereis de fazer com que o seu sangue gele, tereis de a fazer chorar, tereis de a fazer rir!

 

Qualquer homem consegue fazer barulho, Senhora, Pyrlig defendeu a sua arte, mas é necessário um artista habilidoso para imbuir as palavras de harmonia.

 

E, em breve, as únicas pessoas que conseguirão perceber a complexidade da harmonia contrapôs Guinevere serão outros artistas habilidosos, e, desse modo, vos tornareis ainda mais inteligentes num esforço de impressionar os vossos companheiros poetas. Mas esqueceis-vos que ninguém exterior à arte tem a noção do que estais a fazer. O bardo canta para o bardo, enquanto nós imaginamos o que significa todo esse barulho. A vossa tarefa, Pyrlig, é manter vivas as histórias dos povos e, para o fazer, não podeis ser subtis.

 

Certamente não nos desejais vulgares, Senhora! disse Pyrlig e, como protesto, bateu nas cordas de crina de cavalo da sua harpa.

 

Desejaria que fosseis vulgares com o que é vulgar, e inteligentes com o que é inteligente disse Guinevere. E ambos vos caracterizariam em simultâneo, mas se apenas fordes inteligentes, então negais aos povos as suas histórias, e se apenas conseguis ser vulgares, nenhum senhor ou dama vos atirará moedas de ouro.

 

Excepto os senhores vulgares acrescentou Ceinwyn, dissimuladamente.

 

Guinevere lançou-me um olhar rápido e reparei que ela estava prestes a dirigir-me um insulto; depois reconheceu o impulso e deu grandes gargalhadas.

 

Se eu tivesse moedas de ouro, Pyrlig disse ela, remunerar-te-ia, porque cantas maravilhosamente; todavia, infelizmente, não tenho nenhuma moeda.

 

O vosso apreço é recompensa suficiente, Senhora disse Pyrlig.

 

A presença de Guinevere surpreendera os meus lanceiros e durante toda a tarde vi pequenos grupos de homens fitá-la maravilhados. Ela ignorou a sua contemplação. Ceinwyn tinha-a acolhido sem qualquer vislumbre de admiração, e Guinevere fora suficientemente esperta para ser amável para com as minhas filhas, Morwenna e Seren, que agora dormiam no chão junto dela. Elas, tal como os meus lanceiros, haviam ficado fascinadas pela mulher alta e ruiva, cuja reputação era tão inquietante como o seu olhar. E Guinevere estava apenas feliz por ali estar. Não tínhamos mesas nem cadeiras no nosso palácio, apenas o chão forrado a junco e tapetes de lã, mas ela sentou-se ao lado da lareira e, sem esforço, dominou o salão. Havia uma ferocidade nos seus olhos que a tornava intimidativa, o seu cabelo ruivo caindo em cascata e desalinho tornava-a atraente e a sua alegria por estar livre era contagiante.

 

Quanto tempo ficará ela em liberdade? perguntou-me Ceinwyn, mais tarde, nessa noite. Havíamos cedido os nossos aposentos privados a Guinevere, e ficámos no salão com as restantes pessoas.

 

Não sei.

 

Então, o que sabes tu? perguntou Ceinwyn.

 

Esperamos por Issa, depois vamos para norte. Para Corinium?

 

Eu irei para Corinium, mas enviar-te-ei, a ti e às famílias, para Glevum. Aí estareis suficientemente próximo da batalha e se acontecer o pior, podeis dirigir-vos para norte, para Gwent.

 

No dia seguinte comecei a afligir-me, uma vez que Issa ainda não aparecera. No meu espírito, íamos disputar uma corrida com os saxões em direcção a Corinium, e quanto mais eu me atrasasse, mais probabilidades essa corrida teria de estar perdida. Se os saxões conseguissem derrotar-nos grupo por grupo, então Dumnónia cairia como uma árvore podre, e o meu grupo de guerra, que era um dos mais fortes do país, estava detido em Dun Carie, porque Issa e Argante não haviam aparecido.

 

Ao meio-dia, a premência era ainda maior, porque foi então que voltámos a ver os primeiros vestígios de fumo distante no céu a leste e a sul. Ninguém comentou os longos e esguios galardões, mas todos percebemos que víamos colmo a arder. Os saxões destruíam à medida que avançavam, e agora estavam suficientemente próximo de nós para que conseguíssemos ver o fumo por eles provocado.

 

Enviei um cavaleiro para sul, em busca de Issa, enquanto nós percorríamos os três quilómetros atravessando os campos até ao Caminho Valado, a longa estrada romana que Issa devia ter usado. Planeei esperar por ele, depois continuar a subir o Caminho Valado até Aquae Sulis, que se situa a cerca de quarenta quilómetros para norte, e depois para Corinium, mais quarenta e oito quilómetros de caminho. Ao todo, oitenta e oito quilómetros de estrada. Três dias de longo e intenso esforço.

 

Aguardámos num campo cheio de montículos de terra, junto à estrada, levantados pelas toupeiras. Comigo estavam para cima de cem lanceiros e pelo menos esse número de mulheres, crianças, escravos e servos. Tínhamos cavalos, mulas e cães, e todos aguardavam. Seren, Morwenna e as outras crianças apanhavam campainhas no bosque próximo, enquanto eu subia e descia a pedra quebrada da estrada. Refugiados passavam constantemente, mas nenhum deles, até mesmo aqueles que haviam vindo de Durnovária, tinham quaisquer notícias da princesa Argante. Um sacerdote pensou ter visto Issa e os seus homens chegando a essa cidade, porque vira a estrela de cinco pontas nos escudos de alguns lanceiros, contudo não sabia se ainda lá se encontravam ou se haviam partido. A única coisa que todos os refugiados tinham a certeza era que os saxões estavam próximo de Durnovária, apesar de ninguém ter efectivamente visto um único lanceiro saxão. Apenas tinham ouvido os rumores que se haviam avolumado à medida que as horas passavam. Dizia-se que Artur estava morto, ou então que fugira para Rheged, enquanto se acreditava que Cerdic tinha cavalos possuídos que expiravam fogo e cinzas mágicas que conseguiam fender o ferro como se fosse tecido.

 

Guinevere pedira emprestados um arco e uma flecha a um dos meus batedores e disparava flechas para um ulmeiro já seco que crescera junto à estrada. Tinha boa pontaria, cravando seta após seta na madeira apodrecida, mas quando a felicitei pela destreza, fez uma careta.

 

Estou sem prática disse ela. Costumava conseguir matar um veado em corrida a uma distância de cem passos, agora duvido que acertasse num parado a cinquenta. Retirou as setas da árvore com um puxão. Mas creio que conseguiria atingir um saxão, se me fosse dada essa oportunidade. Devolveu o arco ao meu batedor, que lhe fez uma vénia e se afastou. Se os saxões estão próximo de Durnovária perguntou-me Guinevere, o que farão eles em seguida?

 

Eles vêm justamente a subir esta estrada informei-a.

 

Não vão mais para oeste?

 

Eles conhecem os nossos planos afirmei, soturnamente, e falei-lhe nos botões de ouro com os rostos barbudos que eu havia encontrado nos aposentos de Mordred. Aelle dirige-se para Corinium enquanto os outros correm desenfreados para sul. E nós estamos aqui presos por causa de Argante.

 

Deixa-a apodrecer disse Guinevere, furiosamente, depois encolheu os ombros. Eu sei que não podes. Será que ele a ama?

 

Não sei dizer-vos, Senhora respondi.

 

Sem dúvida que sabes disse Guinevere, rispidamente. Artur adora fingir que é regido pela razão, mas ele anseia ser comandado pela paixão. Ele viraria o mundo do avesso por amor.

 

Ultimamente não o virou do avesso afirmei.

 

Embora o tivesse feito por mim disse ela, calmamente, e sem qualquer ponta de orgulho. Então, onde vamos nós?

 

Eu caminhara até ao meu cavalo, que comia a parte de cima da erva por entre os montículos deixados pelas toupeiras.

 

Eu vou para sul respondi.

 

Fá-lo disse Guinevere e nós correremos o risco de te perder também.

 

Ela tinha razão, e eu sabia-o, mas a frustração começava a ferver dentro de mim. Por que razão não enviara Issa uma mensagem? Ele tinha cinquenta dos meus melhores guerreiros e todos haviam desaparecido. Amaldiçoei o dia desperdiçado, esbofeteei um rapaz inocente que se pavoneava para cima e para baixo fingindo ser um lanceiro e pontapeei os cardos.

 

Podíamos começar a dirigir-nos para norte sugeriu Ceinwyn, calmamente, indicando as mulheres e as crianças.

 

Não disse eu. Temos de ficar juntos. Olhei, atentamente, para sul, mas ninguém mais se via na estrada excepto outros refugiados tristes arrastando-se para norte. A maioria eram famílias com uma valiosa vaca e talvez um vitelo, apesar de muitos destes vitelos da nova estação serem ainda demasiado pequenos para andar. Alguns vitelos, abandonados junto à estrada, chamavam lastimosamente pelas mães. Outros refugiados eram mercadores que tentavam salvar os seus bens. Um homem tinha uma carroça de bois cheia de cestos de terra de pisoeiro, outros tinham peles e outros, ainda, cerâmicas. Ao passarem por nós lançavam-nos olhares cheios de indignação, culpando-nos por não termos travado os saxões há mais tempo.

 

Seren e Morwenna, aborrecidas com a tentativa de descarnarem o caule de campainhas, tinham encontrado uma toca de lebres por baixo de alguns fetos e madressilvas na base das árvores. Excitadas, chamaram Guinevere para ir ao seu encontro e ver o que ali estava, depois cuidadosamente tocaram nos pequenos corpos de pêlo que estremeceram com o toque. Ceinwyn observava-as.

 

Ela conquistou as meninas disse-me ela.

 

Também conquistou os meus lanceiros afirmei, e era verdade. Apenas alguns meses antes os meus lanceiros haviam amaldiçoado Guinevere, chamando-a prostituta, e agora fitavam-na com adoração. Ela conseguira enfeitiçá-los, e quando Guinevere decidia ser simpática, ela conseguia deslumbrar. Depois disto, Artur irá ter grande dificuldade em encarcerá-la de novo afirmei.

 

Provavelmente por isso é que quis libertá-la observou Ceinwyn. Sem dúvida que não a queria morta.

 

Argante quer.

 

Não duvido que ela o pretenda concordou Ceinwyn.

 

Depois olhámos fixamente para sul, mas não havia ainda nenhum sinal de qualquer um dos meus lanceiros na longa estrada recta.

 

Finalmente, Issa chegou ao anoitecer. Trazia os seus cinquenta lanceiros, com os trinta homens que haviam estado de guarda ao palácio em Durnovária, uma dúzia de Escudos Negros, os soldados pessoais de Argante e pelo menos, duzentos outros refugiados. Pior ainda, trazia seis carroças puxadas por bois, tendo sido esses pesados veículos que os haviam atrasado. A velocidade máxima de uma carroça bem carregada e puxada por bois é mais lenta do que o caminhar de um velho, e Issa fizera todo o percurso no seu passo de caracol.

 

O que te deu? gritei-lhe. Não há tempo para arrastar carroças.

 

Eu sei, Senhor respondeu ele, infeliz.

 

Estás louco? Eu estava furioso. Montara para ir ao seu encontro e agora revoluteava a minha mula na berma. Desperdiçaste horas! gritei.

 

Não tive outra hipótese! protestou ele.

 

Tinhas uma lança! disse eu, com rispidez. Que te dá o direito de escolheres aquilo que queres.

 

Ele encolheu simplesmente os ombros e fez um gesto na direcção da princesa Argante, que seguia em cima da carroça da frente. Os quatro bois dessa carroça, com as ancas a sangrar dos acicatanços que os haviam impulsionado durante todo o dia, pararam na estrada com as cabeças baixas.

 

As carroças não prosseguem! gritei para ela. A partir daqui, ou caminhais ou ides a cavalo!

 

Não! insistiu Argante.

 

Deslizei de cima da mula e desci ao longo da fila de carroças. Uma tinha apenas as estátuas romanas que adornavam o pátio do palácio de Durnovária, outra estava cheia de mantos e vestidos, enquanto a terceira estava carregada de potes de cozinha, aselhas e tocheiros em bronze.

 

Retirem-nas da estrada gritei, furioso.

 

Não! Argante havia descido do alto poleiro e corria agora na minha direcção. Artur ordenou-me que as trouxesse.

 

Artur, Senhora virei-me para ela, controlando a minha fúria, não precisa de estátuas!

 

Elas vão connosco gritou Argante. De outro modo, ficarei aqui!

 

Nesse caso ficai, Senhora respondi, furiosamente. Saiam da estrada! gritei aos seis condutores das carroças. Mexam-se! Saiam da estrada, já! Eu havia desembainhado a Hywelbane e dei uma estocada no boi mais próximo, para que levasse os animais para a berma.

 

Não vão! gritou Argante para os condutores das carroças. Puxou um dos cornos do boi, fazendo com que o confuso animal voltasse para a estrada. Não deixo isto para o inimigo gritou-me ela.

 

Guinevere observava na berma da estrada. Havia um olhar de frio divertimento no seu rosto, e não admirava, porque Argante se comportava como uma criança mimada. Fergal, o druida de Argante, acorrera em auxílio da sua Princesa, protestando que todos aqueles caldeirões mágicos e ingredientes estavam juntos numa das carroças.

 

E o tesouro acrescentou ele em jeito de reflexão.

 

Que tesouro? perguntei.

 

O tesouro de Artur disse Argante, sarcasticamente, como se ao revelar a existência do ouro fizesse valer o seu argumento. Ele quere-o em Corinium. Ela dirigiu-se à segunda carroça, levantou alguns dos pesados mantos e deu uma pancada seca numa caixa de madeira escondida por baixo deles. O ouro de Dumnónia! Dá-lo-ías aos Saxões?

 

Preferia fazê-lo, a entregar-vos a vós ou a mim, Senhora disse eu e depois desferi um golpe com a Hywelbane, soltando os arrestos dos bois.

 

Argante gritou-me, jurando que me puniria e que eu lhe roubava os tesouros, mas eu caminhei simplesmente até ao arresto seguinte enquanto gritava aos seis condutores dos bois para que soltassem os seus animais.

 

Escutai, Senhora disse eu, nós temos de ir mais depressa do que os bois conseguem caminhar. Apontei para o fumo distante. Aquilo são os saxões! Dentro de algumas horas estarão aqui.

 

Não podemos deixar as carroças gritou ela.

 

Os seus olhos estavam marejados de lágrimas. Ela podia ser a filha de um Rei, mas crescera com pouca riqueza e agora, casada com o governante da Dumnónia, era rica e não podia perder essas novas riquezas.

 

Não solteis esses arrestos! gritou ela para os condutores, e eles, confusos, hesitaram.

 

Dirigi-me para outra tira de couro e Argante começou a bater-me com os punhos, jurando que eu era ladrão e seu inimigo.

 

Empurrei-a com cautela, mas ela não se afastava e não me atrevi a forçar demasiado. Agora ela estava com um acesso de raiva, blasfemando e batendo-me com as suas pequenas mãos. Tentei afastá-la de novo, mas ela continuava a gritar e a bater-me e, depois gritou para os seus rapazes da guarda dos Escudos Negros para que fossem em seu auxílio.

 

Os doze homens hesitaram, mas eram guerreiros de seu pai e haviam jurado servir Argante, por isso dirigiram-se a mim com as lanças em punho. Os meus homens acorreram de imediato para me defender. Os Escudos Negros estavam em tremenda inferioridade numérica, mas não recuaram e o seu druida mantinha-se na expectativa, em frente deles, com a sua barba com pêlo de raposa sacudida pelos pequenos ossos pendurados nas suas pontas a tilintarem enquanto dizia aos Escudos Negros que eram abençoados e que as suas almas iriam ao encontro de uma recompensa dourada.

 

Matai-o! gritou Argante aos seus guarda-costas e apontou para mim. Matai-o, já!

 

Basta! disse Guinevere, incisiva.

 

Caminhou para o meio da estrada e olhou, fixa e imperiosamente, para os Escudos Negros.

 

Não sejam loucos, baixem as vossas lanças. Se quereis morrer, levai convosco alguns saxões, não dumnonianos. Virou-se para Argante. Vinde, minha filha disse ela, e puxou a rapariga para si, usando uma ponta da sua pesada capa para limpar as lágrimas de Argante. Haveis procedido bem ao tentar salvar o tesouro disse ela a Argante, mas Derfel também tem razão. Se não nos apressarmos seremos apanhados pelos saxões. Virou-se para mim. Não existe nenhuma forma perguntou-me ela de levarmos o ouro?

 

Nenhuma respondi com brevidade, e não havia. Ainda que eu pusesse arreios em lanceiros para puxar as carroças, eles atardar-nos-iam.

 

O ouro é meu! gritou Argante.

 

Agora pertence aos saxões respondi, e gritei a Issa para que retirasse as carroças da estrada e desprendesse os bois.

 

Argante gritou um último protesto, mas Guinevere segurou-a e abraçou-a.

 

Não é de princesas murmurou-lhe Guinevere, com suavidade mostrar ira em público. Sê misteriosa, minha querida, e nunca deixes que os homens saibam o que pensas. O teu poder está na penumbra, mas à luz do Sol os homens subjugar-te-ão sempre.

 

Argante não fazia ideia de quem era a mulher alta e bela, mas permitiu que Guinevere a confortasse enquanto Issa e os seus homens arrastávamos carroças para a erva da berma. Deixei que as mulheres levassem as capas e os vestidos que quisessem, mas abandonámos os caldeirões e os tocheiros, apesar de Issa ter descoberto um dos estandartes de guerra de Artur, um enorme pano de linho branco decorado com um grande urso preto adornado com lã, e que guardámos para impedir que caísse nas mãos dos saxões, mas não pudemos levar o ouro. Em vez disso, levámos as caixas do tesouro para um dique de escoamento de águas num terreno próximo e despejámos as moedas na água fedorenta, na esperança de que os saxões nunca as descobrissem.

 

Argante soluçava enquanto nos observava a despejar o ouro na água preta.

 

O ouro é meu! protestou ela, uma última vez.

 

E outrora foi meu, filha disse Guinevere, muito calmamente. E eu sobrevivi à sua perda, tal como tu agora farás.

 

Argante afastou-se, abruptamente, para levantar os olhos para a mulher mais alta.

 

Vosso? perguntou ela.

 

Não me apresentei, filha? perguntou Guinevere, com um menosprezo delicado. Sou a princesa Guinevere.

 

Argante gritou, simplesmente, depois fugiu para a estrada na direcção do local para onde os seus Escudos Negros se haviam retirado. Soltei um murmúrio, embainhei a Hywelbane, depois esperei até que o último ouro estivesse escondido. Guinevere havia encontrado uma das suas velhas capas, um vestido de lã dourado acondicionado em pêlo de urso, e pusera de parte o velho vestido monótono que usara na prisão.

 

Sem dúvida o seu ouro disse-me ela, zangada.

 

Parece que tenho outra inimiga disse eu, olhando para Argante que estava mergulhada em grandes conversas com o seu druida, sem dúvida instigando-o a rogar-me uma praga.

 

Se partilhamos um inimigo, Derfel disse Guinevere com um sorriso, então isso faz de nós aliados, finalmente. Isso agrada-me.

 

Obrigado, Senhora disse eu, e pensei que não eram apenas as minhas filhas e os lanceiros que tinham ficado enfeitiçados.

 

O último ouro foi afundado no dique e os meus homens regressaram à estrada para apanharem as suas lanças e escudos. O Sol brilhava por cima do mar Severn, enchendo o poente com um brilho carmesim enquanto eu, finalmente, começava a dirigir-me para norte, para a guerra.

 

Percorremos apenas alguns quilómetros antes de a noite cair e nos atirar para fora da estrada em busca de abrigo; mas pelo menos havíamos alcançado as colinas a norte de Ynys Wydryn. Passámos essa noite num castelo abandonado, onde preparámos uma humilde refeição de pão duro e peixe seco. Argante sentou-se afastada de todos nós, protegida pelo seu druida e os seus guardas, e apesar de Ceinwyn tentar puxá-la para a nossa conversa ela recusou-se a ser tentada e, por isso, deixámo-la entregue ao seu amuo.

 

Depois de termos comido caminhei com Ceinwyn e Guinevere para o cume da pequena colina por trás do castelo, onde se erguiam duas antigas sepulturas. Pedi perdão aos mortos e subi para cima de uma delas, acompanhado por Ceinwyn e Guinevere. Olhámos os três para sul. O vale, por baixo de nós, era agradavelmente branco com as macieiras em flor sob o brilho acetinado da Lua; mas nada vimos no horizonte, excepto a luminosidade ténue de fogueiras.

 

Os saxões caminham depressa afirmei, amargamente. Guinevere puxou a capa, aconchegando os ombros.

 

Onde está Merlim? perguntou ela.

 

Desapareceu respondi.

 

Houvera relatos de que Merlim estava na Irlanda, ou então numa região inóspita a norte, ou talvez nos terrenos despojados de Gwynedd, enquanto ainda outro afirmava que estava morto e que Nimue abatera toda uma encosta de árvores para fazer a sua pira funerária. ”Eram apenas rumores”, pensei, ”apenas rumores.”

 

Ninguém sabe onde está Merlim disse Ceinwyn, suavemente, mas sem dúvida que ele sabe onde nós estamos.

 

Rezo para que ele saiba disse Guinevere, fervorosamente, e eu questionei-me a que Deus ou Deusa orava ela agora. Ainda a ísis? Ou convertera-se ela aos Deuses britânicos? E talvez, estremeci com a ideia, esses Deuses nos tivessem, finalmente, abandonado. A sua fogueira de alarme teriam sido as chamas no Mai Dun e a sua vingança eram os grupos de guerra que agora devastavam Dumnónia.

 

Voltámos a caminhar ao amanhecer. O céu enchera-se de nuvens durante a noite e uma chuva miudinha começou a cair com os primeiros raios de luz. O Caminho Valado estava povoado de refugiados e, por isso, coloquei um grande número de guerreiros armados à nossa frente com ordens para afastar todas as carroças de bois e rebanhos da estrada, uma vez que avançávamos ainda lamentavelmente devagar. Muitas das crianças não conseguiam continuar a caminhar e tinham de ser colocadas nos animais de carga que transportavam as nossas lanças, armaduras e mantimentos, ou então içadas para os ombros dos lanceiros mais jovens. Argante montou a minha mula enquanto Guinevere e Ceinwyn caminhavam e se revezavam a contar histórias às crianças. A chuva começou a cair com maior intensidade, precipitando-se sobre o cume das colinas em vastas zonas e gorgolando nos baixos taludes de ambos os lados da estrada romana.

 

Eu esperara chegar a Aquae Sulis a meio do dia, mas a tarde já ia adiantada quando o nosso grupo enlameado e cansado entrou no vale onde se encontra a cidade. O rio transbordara e uma massa sufocante de detritos flutuantes havia ficado presa aos pilares de pedra da ponte romana, formando um açude que inundara os terrenos elevados de ambas as margens. Uma das tarefas do magistrado da cidade era manter os desaguadouros da ponte livres de tais detritos, mas a tarefa fora ignorada, tal como fora ignorada a conservação da muralha da cidade. Essa muralha ficava apenas a cem passos a norte da ponte e, porque Aquae Sulis não era uma praça forte, nunca fora uma muralha imponente. Agora, todavia, quase não era sequer um obstáculo. Zonas inteiras da paliçada de madeira e taludes em pedra haviam sido destruídas para arranjar lenha ou para construções, enquanto os próprios taludes estavam tão corroídos que os saxões podiam atravessar a muralha da cidade sem a danificarem ainda mais. De quando em vez, eu via homens frenéticos tentando reparar partes da paliçada, mas teriam sido necessários quinhentos homens durante um mês inteiro para reconstruir essas protecções.

 

Entrámos em fila pelo belo portão sul da cidade e eu vi que, embora a cidade não tivesse nem a energia para preservar os taludes nem a mão-de-obra para impedir que a ponte ficasse obstruída com os detritos, alguém arranjara tempo para retirar a bela máscara da Deusa romana Minerva, que noutros tempos embelezara a arcada do portão. Onde outrora estivera o seu rosto estava agora apenas uma massa insensível de pedra trabalhada na qual fora cortada uma rude cruz cristã.

 

É uma cidade cristã? perguntou-me Ceinwyn.

 

Quase todas as cidades são cristãs respondeu Guinevere por mim.

 

Também era uma bonita cidade. Ou em tempos fora bonita, apesar de com o tempo os telhados de telhas terem caído e sido substituídos por espesso colmo e algumas das casas se terem desmoronado e agora nada mais fossem do que montes de tijolos ou pedras. Todavia as ruas continuavam pavimentadas e os altos pilares e o frontão sumptuosamente entalhado do magnífico templo de Minerva ainda se elevassem acima dos insignificantes telhados. A minha guarda avançada forçou uma passagem brutal pelas ruas apinhadas para chegarmos ao templo, que se erguia com um florão com desníveis no centro sagrado da cidade. Os romanos haviam construído uma muralha interior em torno desse santuário central, uma muralha que envolvia o templo de Minerva e os banhos públicos que haviam trazido à cidade a sua fama e prosperidade. Os romanos haviam coberto os banhos públicos, que eram alimentados por uma nascente mágica de água quente, mas algumas das telhas haviam caído e rolos de vapor saíam dos buracos como fumo. O próprio templo, despojado das suas caleiras de chumbo, estava manchado com a água das chuvas e líquenes, enquanto o gesso pintado no interior do alto pórtico caía em lascas e enegrecia; todavia, e apesar da ruína, era ainda possível permanecer no vasto recinto pavimentado do santuário interior da cidade e imaginar um mundo onde os homens conseguiam construir lugares semelhantes e viver sem medo de lanças que viessem do bárbaro leste.

 

O magistrado da cidade, um homem de meia-idade agitado e nervoso chamado Cildydd que usava uma toga romana para impor a sua autoridade, saiu a correr do templo para me receber. Eu conhecia-o da época da rebelião em que, apesar de ele próprio ser cristão, fugira dos loucos fanáticos que se tinham apoderado dos santuários de Aquae Sulis. Fora restituído à magistratura após a rebelião, mas eu calculava que a sua autoridade fosse escassa. Trazia um pedaço de ardósia no qual fizera uns cálculos, naturalmente os números respeitantes às tropas recrutadas nos domínios do santuário.

 

Estão a ser feitas reparações! saudou-me Cildydd sem outra cortesia. Tenho homens a cortarem madeira para as paredes. Ou tive. As inundações são um problema, sem dúvida que são, mas se a chuva parar? Deixou a frase suspensa.

 

As inundações? perguntei.

 

Quando o rio sobe, Senhor explicou-me, a água recua através dos esgotos romanos. Está já na zona mais baixa da cidade. E receio que não seja apenas água. O cheiro, entendeis? Inspirou com suavidade.

 

O problema afirmei é que os arcos da ponte estão obstruídos com detritos. Era tarefa vossa mantê-los limpos. Era também tarefa vossa preservar os muros.

 

A sua boca abriu-se e fechou-se sem proferir uma única palavra. Tomou o peso da ardósia como que para demonstrar a sua eficiência, depois pestanejou simplesmente, sem saber o que fazer.

 

Não que agora tenha importância prossegui, a cidade não pode ser defendida.

 

Não pode ser defendida! protestou Cildydd. Não pode ser defendida! Tem de ser defendida! Não podemos simplesmente abandonar a cidade!

 

Se os saxões vierem afirmei com brusquidão, vocês não terão alternativa.

 

Mas nós temos de a defender, Senhor insistiu Cildydd.

 

Com quê? perguntei.

 

Os vossos homens, Senhor disse ele, gesticulando para os meus lanceiros que se haviam refugiado da chuva sob o alto pórtico do templo.

 

Na melhor das hipóteses disse eu conseguimos guarnecer quatrocentos metros da muralha, ou o que dela resta. E quem é que defende o resto?

 

As tropas recrutadas, claro. Cildydd acenou a sua ardósia na direcção da sostra colecção de homens que aguardava junto aos banhos públicos. Eram poucos os que tinham armas e ainda menos os que possuíam armaduras.

 

Tendes alguma vez visto os saxões a atacar? perguntei a Cildydd. Primeiro, eles enviam grandes cães de guerra e depois vêm atrás com machados de um metro de comprimento e lanças com hastes de dois metros e meio. Estarão ébrios e enfurecidos e do interior da vossa cidade não pretenderão nada mais do que as mulheres e o ouro. Quanto tempo achais que as vossas tropas recrutadas conseguirão aguentar?

 

Cildydd pestanejou ao olhar para mim.

 

Não podemos simplesmente desistir disse ele, em voz baixa.

 

As vossas tropas têm armas como deve ser? perguntei-lhe, indicando os homens de olhar carrancudo que aguardavam à chuva.

 

Dois ou três dos sessenta homens tinham lanças, eu conseguia ver uma velha espada romana, e a maior parte dos outros tinha machados ou picaretas, mas alguns deles nem tão-pouco possuíam aquelas armas rudes, tendo apenas fueiros temíveis que haviam sido aguçados em pontas pretas.

 

Estamos a revistar a cidade, Senhor disse Cildydd. Tem de haver lanças.

 

Com ou sem lanças afirmei, bruscamente se lutardes aqui, sereis todos mortos.

 

Cildydd ficou embasbacado a olhar para mim.

 

Então o que fazemos? perguntou ele, finalmente.

 

Ide para Glevum respondi.

 

Mas a cidade! Ele empalideceu. Há mercadores, ferreiros, igrejas, tesouros. A sua voz esmorecia à medida que imaginava a enormidade da queda da cidade, mas essa queda, se os saxões viessem, era inevitável.

 

Aquae Sulis não era uma praça-forte, apenas um belo lugar que se erguia entre duas colinas. Cildydd pestanejou à chuva.

 

Glevum disse ele, tristonho. E vós escoltais-nos até lá, Senhor? Abanei a cabeça.

 

Eu vou para Corinium afirmei, mas vós ides para Glevum. Estive quase tentado a enviar Argante, Guinevere, Ceinwyn e as famílias com ele, mas não acreditava que Cildydd conseguisse protegê-las. Era melhor, decidi, eu mesmo levar as mulheres e as famílias para norte, depois mandá-las com uma pequena escolta de Corinium para Glevum.

 

Todavia, pelo menos Argante foi afastada de mim, já que como eu destruíra de forma brutal as poucas esperanças de Cildydd de defender Aquae Sulis, um grupo de cavaleiros armados entrou ruidosamente no recinto do templo. Eram homens de Artur, que desfraldaram ao vento o seu estandarte do urso, e quem os comandava era Balin que amaldiçoava rudemente a multidão dos refugiados. Pareceu aliviado por me ver, depois incrédulo quando reconheceu Guinevere.

 

Haveis trazido a princesa errada, Derfel? perguntou ele, enquanto deslizava de cima do seu cavalo cansado.

 

Argante está dentro do templo respondi, fazendo um movimento seco e brusco com a cabeça na direcção do grande edifício onde Argante se refugiara da chuva. Ela não me falara durante todo o dia.

 

Estou aqui para a levar a Artur disse Balin.

 

Era um homem brusco e barbudo com a tatuagem de um urso na testa e uma cicatriz denteada e branca na bochecha esquerda. Perguntei-lhe por notícias e ele contou-me o pouco que sabia e nada do que ouvi era bom.

 

Os estupores estão a descer o Tamisa nesta direcção disse ele. Calculamos que estão apenas a três dias de marcha de Corinium, e ainda não há sinais de Cuneglas nem de Oengus. É o caos, Derfel, é o que é, o caos. De repente ficou horrorizado. Que fedor é este aqui?

 

Os esgotos estão a subir respondi.

 

Por toda a Dumnónia disse ele, de modo sinistro. Tenho de me apressar continuou. Artur queria a sua noiva em Corinium anteontem.

 

Tens ordens para mim? gritei nas suas costas enquanto se dirigia para os degraus do templo a passos largos.

 

Vai para Corinium! E depressa! E deves levar tantos mantimentos quantos conseguires!

 

Ele gritou a última ordem enquanto desaparecia pelas enormes portas de bronze do templo. Trouxera seis cavalos a mais, sendo suficientes para instalar Argante, as suas servas e Fergal, o druida, o que significava que os doze homens Escudos Negros da escolta de Argante seriam deixados comigo. Tive a sensação que eles tinham ficado tão satisfeitos quanto eu por ser verem livres da sua Princesa.

 

Balin rumou para norte, ao fim da tarde. Eu próprio quisera fazer-me à estrada, mas as crianças estavam cansadas, a chuva caía incessantemente, e Ceinwyn convenceu-me que avançaríamos mais depressa se todos descansássemos nessa noite sob os telhados de Aquae Sulis e caminhássemos frescos pela manhã. Coloquei guardas nos banhos públicos e deixei que as mulheres e as crianças fossem para o grande tanque de vapor de água quente; depois enviei Issa e um grupo de homens pela cidade em busca de armas para equipar as tropas recrutadas. Mais tarde, mandei chamar Cildydd e perguntei-lhe qual a quantidade de mantimentos que havia na cidade.

 

Praticamente nada, Senhor! hesitou ele, clamando que enviara já dezasseis carroças de cereais, carne seca e peixe salgado para norte.

 

Revistaste as casas das pessoas? perguntei. As igrejas?

 

Apenas os celeiros da cidade, Senhor.

 

Então, vamos fazer uma busca como deve ser sugeri e, ao anoitecer, havíamos recolhido mais sete carroças de preciosos mantimentos. Enviei-as para norte nessa mesma noite, apesar do adiantado da hora. As carroças de bois são lentas e era melhor que começassem a viagem ao anoitecer do que esperar pela manhã.

 

Issa aguardou-me no recinto do templo. A sua busca pela cidade valera sete velhas espadas e uma dúzia de lanças de varrão, enquanto os homens de Cildydd haviam descoberto mais quinze lanças, oito das quais partidas. Issa, no entanto, também tinha novas.

 

Dizem que há armas escondidas no templo, Senhor disse-me ele.

 

Quem o diz?

 

Issa gesticulou na direcção de um homem jovem de barbas vestido com um ensanguentado avental de carniceiro.

 

Ele acredita que um grande número de lanças foi escondido no templo depois da rebelião, mas o sacerdote nega-o.

 

Onde está o sacerdote?

 

Lá dentro, Senhor. Ele mandou-me sair quando lhe perguntei isso. Subi os degraus do templo a correr e empurrei as grandes portas. Outrora este fora um santuário a Minerva e Sulis, a primeira uma deusa romana e a segunda britânica, mas as divindades pagãs tinham sido rejeitadas e o Deus cristão instalara-se. Da última vez em que eu estivera no templo, havia uma enorme estátua de bronze de Minerva ladeada por tremeluzentes lamparinas a óleo; todavia, a estátua havia sido destruída durante a rebelião cristã e agora apenas restava o buraco da cabeça da Deusa, tendo essa sido empalada num mastro, permanecendo como um troféu por detrás do altar cristão. O sacerdote desafiou-me.

 

Esta é a casa de Deus! resmungou ele.

 

Estava a celebrar um mistério no altar, rodeado por mulheres lamuriosas, mas interrompeu as suas cerimónias para me fitar. Era um homem jovem, cheio de entusiasmo, um daqueles sacerdotes que fomentara o tumulto na Dumnónia e a quem Artur permitira que vivesse daquele modo, para que esse amargor pela rebelião fracassada não supurasse. Todavia, este sacerdote, não havia sem dúvida perdido nenhum do seu fervor insurrecto.

 

A casa de Deus! voltou ele a gritar. E vós desafiai-la com espadas e lanças! Não íeis levar as vossas armas para o castelo do vosso senhor? Então, porquê trazê-las para a casa do meu Senhor?

 

Dentro de uma semana disse eu haverá um templo de Thunor e eles sacrificarão as vossas crianças nesse mesmo lugar onde estais. Há lanças por aqui?

 

Nenhuma! afirmou ele, desafiadoramente. As mulheres gritaram e fugiram encolhidas quando eu subi os degraus do altar. O sacerdote empunhou uma cruz na minha direcção.

 

Em nome de Deus disse ele, e em nome do Seu Filho Santíssimo, e em nome do Espírito Santo. Não!

 

Este último grito fora, porque eu desembainhara a Hywelbane e com ela retirara a cruz da sua mão. O pedaço de madeira fez um ruído arrastado pelo chão de mármore do templo ao mesmo tempo que eu enterrava a lâmina no interior da sua barba emaranhada.

 

Deitarei abaixo este lugar, pedra por pedra até encontrar as lanças afirmei. E enterrarei a tua miserável carcaça debaixo dos seus escombros. Vamos, onde estão elas?

 

A sua provocação esmoreceu. As lanças que ele juntara na esperança de outra campanha destinada a colocar um cristão no trono de Dumnónia, estavam escondidas numa cripta por baixo do altar. A entrada para a cripta estava disfarçada, porque era o local onde os tesouros doados pelo povo que outrora buscava o poder curativo de Sulis fora escondido. Todavia, o sacerdote assustado mostrou-nos como se levava a laje de mármore, revelando um fosso cheio de ouro e armas. Deixámos o ouro, mas levámos as armas para as tropas recrutadas de Cildydd. Tive dúvidas que os sessenta homens fossem de uma verdadeira utilidade no campo de batalha, mas pelo menos um homem armado com uma lança parecia um guerreiro e, à distância, talvez retardassem os saxões. Disse às tropas recrutadas para estarem prontas pela manhã e para carregarem tantos mantimentos quantos conseguissem encontrar.

 

Nessa noite dormimos no templo. Esvaziei o altar dos ornamentos cristãos e coloquei a cabeça de Minerva no meio das duas lamparinas a óleo, para que ela nos guardasse durante a noite. Pingaram gotas de chuva do telhado que formaram poças no mármore, mas às vezes, pela madrugada, a chuva parava e a aurora trazia um céu limpo e um vento fresco e húmido de leste.

 

Deixámos a cidade antes do raiar do Sol. Apenas quarenta dos homens da tropa recrutada da cidade caminhavam connosco, porque os restantes haviam desaparecido durante a noite. Contudo, era melhor ter quarenta homens voluntários do que sessenta aliados incertos. Agora, o nosso caminho estava livre de refugiados, porque eu espalhara o boato de que o local seguro não era Corinium mas Glevum e, deste modo, era a estrada de oeste que estava cheia de gado e pessoas. A nossa levou-nos para leste, em direcção ao nascente pelo Caminho Valado, que naquele troço segue recto como uma lança por entre sepulturas romanas. Guinevere traduziu as inscrições, ficando maravilhada por os homens que ali estavam enterrados terem nascido na verdadeira Grécia, Egipto ou Roma. Tinham sido veteranos das Legiões e haviam desposado mulheres britânicas, instalando-se próximo das fontes curativas de Aquae Sulis, e as suas sepulturas cobertas de líquenes agradeciam por vezes a Minerva ou a Sulis a dádiva daqueles anos. Uma hora depois, deixámos os túmulos para trás e o vale diminuía à medida que as íngremes colinas a norte da estrada se aproximavam das campinas junto ao rio; em breve percebi que a estrada viraria, abruptamente, para norte para subir as colinas que ficavam entre Aquae Sulis e Corinium.

 

Foi quando chegámos à parte estreita do vale que vimos os condutores dos bois que regressavam a correr. Tinham deixado Aquae Sulis no dia anterior, mas as suas lentas carroças não tinham conseguido ir para além da curva norte da estrada, e agora, ao amanhecer, haviam abandonado os seus sete carregamentos de preciosos mantimentos.

 

Sais! gritou um homem, enquanto corria na nossa direcção. Há Sais!

 

Tolo, murmurei, depois gritei a Issa para que detivesse os homens em fuga. Eu permitira que Guinevere montasse o meu cavalo, mas agora ela desmontara-o e, desajeitadamente, fui arrastado ao tentar subir para o dorso do animal; mas esporeei-o para seguir para diante.

 

A estrada virava para norte a oitocentos metros mais adiante. Os bois e as suas carroças haviam sido abandonados justamente na curva e eu passei por eles para espreitar do cimo da encosta. Por instantes nada consegui ver, depois um grupo de cavaleiros surgiu junto a algumas árvores no cume. Estavam a oitocentos metros de distância, delineados pelo céu brilhante, e eu não consegui distinguir nenhum pormenor dos seus escudos, mas calculei que fossem bretões e não saxões, uma vez que o nosso inimigo não dispunha de muitos cavaleiros.

 

Apressei a mula a subir a encosta. Nenhum dos cavaleiros se mexeu. Ficaram apenas a olhar para mim, mas então, mais longe à minha direita, surgiram mais homens no cume da colina. Eram lanceiros e, por cima deles, pendia um estandarte que me disse o pior.

 

O estandarte era um crânio pendurado com aquilo que parecia serem farrapos, e eu lembrei-me da habitual caveira de lobo de Cerdic com a sua cauda esfarrapada feita de pele humana esfolada. Os homens eram saxões e barravam-nos o caminho. Não havia muitos lanceiros à vista, talvez uma dúzia de cavaleiros e cinquenta ou sessenta homens a pé, mas estavam no terreno mais elevado e eu não sabia dizer quantos mais podiam estar escondidos para lá do cume. Parei a égua e olhei fixamente para os lanceiros, desta vez vendo o brilho da luz do sol nas toscas lâminas dos machados que alguns homens transportavam. Tinham de ser saxões. Mas de onde haviam eles surgido? Balin dissera-me que tanto Cerdic como Aelle avançavam ao longo do Tamisa, por isso parecia provável que esses homens tivessem vindo do sul do amplo vale do rio, mas talvez fossem alguns dos lanceiros de Cerdic que serviam Lancelote. Não que fosse, de facto, importante saber quem eles eram; tudo o que interessava era que o nosso caminho estava bloqueado. Surgiram ainda mais inimigos com as suas lanças penetrando a linha do horizonte a todo o comprimento da zona de junção das duas superfícies.

 

Virei a égua vendo Issa, que trazia os meus lanceiros mais experientes, passar o bloqueio na curva da estrada.

 

Saxões! gritei-lhe. Formem aqui um escudo defensivo! Issa levantou os olhos para os lanceiros distantes.

 

Combatemo-los aqui, Senhor? perguntou ele.

 

Não. Não me atrevia a lutar em tão mau sítio. Seríamos forçados a lutar subindo a colina e ficaríamos sempre preocupados por as nossas famílias estarem atrás de nós.

 

Em vez disso, tomaremos a estrada para Glevum? sugeriu Issa. Abanei a cabeça. A estrada de Glevum estava juncada de refugiados e se eu fosse comandante saxão outra coisa não quereria senão perseguir um inimigo em desvantagem numérica por essa estrada. Não conseguiríamos ultrapassá-lo, porque seríamos barrados pelos refugiados, e ele acharia uma forma simples de abrir caminho por entre aquelas gentes em pânico para nos matar. Era possível, até mesmo provável, que os saxões não empreendessem qualquer perseguição e, em vez disso, fossem tentados a saquear a cidade, mas era um risco que eu não me atrevia a correr. Olhei para cima, para a alta colina, e vi ainda mais inimigos a chegarem ao cume que brilhava ao sol. Era impossível contá-los, mas não era um grupo de guerra pequeno. Os meus homens formavam um escudo defensivo, mas eu sabia que não podia lutar ali. Os saxões tinham mais homens e estavam em terreno elevado. Lutar ali era morrer. Virei-me na sela. A oitocentos metros de distância, mesmo a norte do Caminho Valado, estava uma das fortalezas dos povos antigos, e o seu antigo muro de terra nessa altura muito corroído pelo tempo erguia-se no cume de uma íngreme colina. Apontei para os taludes de relva.

 

Vamos para ali disse eu.

 

Ali, Senhor? Issa estava confuso.

 

Se tentarmos escapar-lhes expliquei, eles seguir-nos-ão. As nossas crianças não conseguem andar depressa e, eventualmente, os estupores apanhar-nos-ão. Seremos forçados a fazer um escudo defensivo, a colocar as nossas famílias no centro, e o último de nós a morrer ouvirá o primeiro grito das nossas mulheres. Melhor será irmos para um sítio onde eles hesitarão em atacar. Eventualmente, terão de fazer uma opção. Ou nos deixam em paz e vão para norte, caso em que os seguiremos, ou então combatem, e se nós estivermos no topo de uma colina teremos ainda uma hipótese de vencer. Uma hipótese melhor acrescentei, porque Culhwuch virá nesta direcção. Dentro de um dia ou dois poderemos suplantá-los em número.

 

Então abandonamos Artur? perguntou Issa, chocado com essa ideia.

 

Mantemos um grupo de guerra afastado de Corinium afirmei. Mas eu não estava satisfeito com a minha opção, porque Issa tinha razão.

 

Eu abandonava Artur, mas não me atrevia a arriscar as vidas de Ceinwyn nem das minhas filhas. Toda a cuidadosa campanha que Artur planeara era, assim, destruída. Culhwuch estava excluído, algures no sul, eu estava encurralado em Aquae Sulis, enquanto Cuneglas e Oengus mac Airem estavam ainda a muitos quilómetros de distância.

 

Voltei para trás, para ir buscar a minha armadura e as armas. Não tinha tempo para vestir a armadura, mas coloquei o elmo com o pêlo de lobo, agarrei na minha lança mais pesada e no meu escudo. Devolvi a mula a Guinevere e disse-lhe que levasse as famílias para o cimo da colina, depois ordenei aos homens das tropas recrutadas e aos meus lanceiros mais novos que virassem as sete carroças dos mantimentos e as levassem para a fortaleza.

 

Não me interessa como vão fazê-lo disse-lhes eu. Quero apenas esses mantimentos fora do alcance do inimigo. Icem vós mesmos as carroças, se tiverem de o fazer!

 

Eu podia ter abandonado as armas de Argante, mas em guerra uma carroça carregada de mantimentos é ainda mais preciosa do que ouro e eu estava determinado a manter esses mantimentos longe do inimigo. Se fosse necessário, queimaria as carroças e o seu conteúdo, mas naquele instante tentaria salvar a comida.

 

Voltei para junto de Issa e tomei o meu lugar no centro do escudo defensivo. As fileiras do inimigo adensavam-se e eu pensei que eles fossem carregar, loucamente, pela colina abaixo a todo o momento. Suplantavam-nos em número, mas ainda assim não avançaram e cada hesitação sua era um momento extra em que as nossas famílias e as preciosas carroças carregadas de mantimentos podiam alcançar o cume da colina. Eu olhava para trás de relance, constantemente, observando a progressão das carroças, e quando já iam a mais de metade do íngreme caminho ordenei aos meus lanceiros que recuassem.

 

Essa retirada estimulou o avanço dos saxões. Gritaram um desafio e desceram rapidamente a colina, mas haviam retardado demasiado o seu ataque. Os meus homens recuaram ao longo da estrada, passaram um vau pouco profundo onde um ribeiro gorgolejava da colina em direcção ao rio, e alcançámos assim terreno mais elevado, uma vez que havíamos recuado, subindo a colina, pela encosta íngreme, em direcção à fortaleza. Os meus homens mantiveram-se em linha recta com os escudos sobrepostos e seguraram as suas longas lanças com firmeza, e essa evidência do seu treino deteve a perseguição dos saxões apenas a quarenta e cinco metros de nós. Contentaram-se em gritar desafios e insultos, enquanto um dos seus feiticeiros nus, com o cabelo guarnecido com excremento de vaca, dançava para diante para nos amaldiçoar. Chamava-nos porcos, cobardes e bodes. Ele amaldiçoava-nos e eu contava-os. Havia cento e setenta homens no seu paredão, e ainda mais que não tinham descido a colina. Contei-os, e os comandantes de guerra dos saxões, levantados nos seus cavalos atrás do seu muro de escudos, contavam-nos. Agora, eu conseguia distinguir claramente a sua bandeira e era o estandarte da caveira do lobo de Cerdic que estava pendurado com a pele esfolada de um homem morto. O próprio Cerdic, porém, não se encontrava ali. Este tinha de ser um dos seus grupos de guerra que vinha de sul, do Tamisa. O grupo de guerra suplantava-nos em número, mas os seus comandantes eram demasiado prudentes para atacar. Sabiam que podiam derrotar-nos, mas também conheciam o terrível dobre que setenta guerreiros experimentados provocariam nas suas fileiras. Para eles bastava que nos tivessem retirado da estrada.

 

Nós recuámos lentamente para o cimo da colina. Os saxões observavam-nos, mas apenas o seu feiticeiro nos seguia e após algum tempo também ele perdeu o interesse. Cuspiu na nossa direcção e foi-se embora. Nós zombámos bastante da timidez do inimigo, mas na verdade eu sentia um enorme alívio por eles não terem atacado.

 

Demorámos uma hora a fazer as sete carroças de preciosos mantimentos subirem para o antigo talude de turfa e depois para o topo da colina, suavemente abobadado. Caminhei por esse terreno abobadado e descobri que era uma excelente posição defensiva. O cume era em forma de triângulo, e em cada um dos seus três lados, o terreno era demasiado íngreme, de tal modo que qualquer atacante seria forçado a empreender um grande esforço em direcção às nossas lanças. Tive esperança de que esta característica daquela encosta impedisse o grupo de guerra saxão de fazer qualquer ataque, e que num dia ou dois o inimigo partisse e nós pudéssemos retomar o nosso caminho para norte, para Corinium. Chegaríamos tarde, e sem dúvida que Artur estaria furioso comigo, mas por enquanto eu mantivera aquela parte de Dumnónia em segurança. Éramos mais de duzentos lanceiros e protegemos uma imensidão de mulheres e crianças, sete carroças e duas princesas, e o nosso refúgio era o topo de uma colina com relva, bem acima de um profundo vale do rio. Encontrei um dos homens da tropa recrutada e perguntei-lhe o nome da colina.

 

Tem o mesmo nome da cidade, Senhor disse ele, aparentemente abismado por eu sequer querer saber o nome.

 

Aquae Sulis? perguntei-lhe.

 

Não, Senhor! O nome antigo! O nome que tinha antes de os Romanos chegarem.

 

Baddon afirmei.

 

E isto é Mynydd Baddon, Senhor confirmou ele.

 

Monte Baddon. Com o passar do tempo, os poetas fariam com que esse nome corresse toda a Bretanha. Seria entoado num milhar de palácios e inflamaria o sangue de crianças que ainda não haviam nascido, mas nessa altura nada significava para mim. Era apenas uma colina conveniente, um forte com muros de erva, e o lugar onde, contra a vontade de todos, eu enterrei os meus dois estandartes na turfa. Um mostrava a estrela de Ceinwyn, enquanto o outro, que havíamos encontrado e retirado das carroças de Argante, ostentava a bandeira do urso de Artur.

 

Assim, aos primeiros raios de luz da manhã, flutuando ao sabor do vento seco, o urso e a estrela desafiavam os saxões.

 

Em Mynydd Baddon.

 

Os saxões eram cautelosos. Ao ver-nos pela primeira vez não nos haviam atacado, e agora que estávamos a salvo no cume de Mynydd Baddon contentavam-se em permanecer sentados na base da colina, observando-nos simplesmente. À tarde, um grande contingente dos seus lanceiros caminhou para Aquae Sulis, onde devem ter encontrado uma cidade quase deserta. Eu esperara ver as chamas e o fumo do colmo queimado, mas não houve fogos e, ao cair da tarde, os lanceiros regressaram da cidade carregados com o resultado da pilhagem. As sombras da penumbra escureciam o vale do rio e, enquanto nós no cume de Mynydd Baddon tínhamos ainda os últimos raios da luz do dia, as fogueiras do acampamento dos nossos inimigos juncavam a escuridão por baixo de nós.

 

Ainda mais fogueiras surgiram nos terrenos montanhosos para o nosso lado norte. No meio dessas colinas Mynydd Baddon parecia uma ilha no alto mar, e estava separada delas por uma elevada depressão oblonga arrelvada. Eu quase pensara que podíamos atravessar aquele amplo vale à noite, subir a serrania para lá dele e prosseguir o nosso caminho, por entre as colinas em direcção a Corinium; assim, antes de anoitecer, mandei Issa e um grupo de homens fazerem um reconhecimento da estrada, mas eles voltaram dizendo que havia inúmeras sentinelas saxãs por toda a serrania para lá da depressão oblonga. Eu continuava tentado a tentar fugir pelo norte, mas percebi que os cavaleiros saxões nos veriam e que ao raiar o dia teríamos todos os seus grupos de guerra no nosso encalço. Essa opção preocupou-me durante grande parte da noite, mas depois decidi-me pelo menor dos dois males: permaneceríamos em Mynydd Baddon.

 

Para os saxões, nós devemos ter parecido um exército formidável. Agora, eu comandava duzentos e sessenta e oito homens sem que o inimigo soubesse que menos de cem deles eram lanceiros de primeira. Quarenta dos que haviam ficado pertenciam à tropa recrutada da cidade, trinta e seis eram guerreiros calejados no campo de batalha, que haviam guardado Caer Cadarn ou o palácio de Durnovária, embora a maior parte destas três dúzias de homens estivessem agora velhos e fossem lentos, enquanto cento e dez eram jovens que não eram de raça. Os meus setenta experientes lanceiros e os doze Escudos Negros de Argante contavam-se entre os melhores guerreiros da Bretanha, e apesar de eu não ter dúvidas de que os trinta e seis veteranos seriam úteis e de que os mais jovens podiam muito bem revelar-se excelentes, continuava a ser uma força lamentavelmente pequena com a qual protegíamos as nossas cento e catorze mulheres e setenta e nove crianças. Todavia, pelo menos tínhamos muitos mantimentos e água, porque tínhamos as sete preciosas carroças e havia três nascentes nos flancos de Mynydd Baddon.

 

Ao cair da noite, nesse primeiro dia, nós havíamos contado o inimigo. Havia cerca de trezentos e sessenta saxões no vale e, pelo menos, outros oitenta nos terrenos para norte. Era um número suficiente de lanceiros para nos manter encurralados em Mynydd Baddon, mas provavelmente não os suficientes para nos assaltarem. Cada um dos três lados planos e sem árvores do cume tinha trezentos passos de comprimento, perfazendo um total que era demasiado para o meu pequeno número de lanceiros defender; mas se o inimigo atacasse vê-lo-íamos vir a uma longa distância e eu teria tempo para movimentar lanceiros que fizessem frente ao seu assalto. Calculei que, ainda que eles fizessem dois ou três assaltos simultâneos eu conseguiria aguentar, porque os saxões teriam de subir uma terrível e íngreme encosta, e os meus homens estariam frescos. Mas se o número de inimigos aumentasse, então eu sabia que seria suplantado em número. Rezava para que esses saxões fossem apenas um grande grupo de saqueadores, e que depois de despojarem Aquae Sulis e o vale do seu rio de todos os mantimentos que conseguissem encontrar seguissem para norte, para se juntarem a Aelle e a Cerdic.

 

O despontar do dia seguinte mostrou-nos que os saxões ainda permaneciam no vale, onde o fumo das fogueiras do seu acampamento se misturava com a neblina do rio. À medida que esta se dissipava vimos que eles derrubavam árvores para construírem cabanas; triste prova de que tencionavam ali ficar. Os meus homens estavam, eles próprios, ocupados nas encostas do monte, cortando com machados os pequenos espinheiros-alvar e os vidoeiros mais jovens que pudessem defendê-los de um ataque inimigo. Arrastaram os arbustos e as pequenas árvores para o cume e empilharam-nos como defesas rudimentares no que restava do palácio dos povos antigos. Eu tinha outros cinquenta homens no cume da colina, a norte da depressão oblonga, onde cortavam a lenha que levaríamos para o monte numa das carroças de bois de onde havíamos retirado os mantimentos. Os homens trouxeram madeira suficiente para construirmos uma grande cabana de madeira, apesar da nossa, ao contrário dos abrigos saxãos, cobertos de colmo ou turfa, ser apenas uma decrépita estrutura de troncos não aparados, estendidos entre quatro das carroças e rudemente cobertos com ramos. Todavia, era suficientemente grande para abrigar as mulheres e as crianças.

 

Durante a primeira noite enviei dois dos meus lanceiros para norte. Ambos eram habilidosos meliantes, escolhidos entre os mais jovens sem linhagem. Ordenei a cada um que tentasse chegar a Corinium e falasse a Artur da nossa situação. Tive dúvidas de que ele nos pudesse ajudar, mas pelo menos ficaria a saber o que se estava a passar. Durante todo o dia seguinte receei voltar a ver aqueles dois jovens, temendo vê-los a serem arrastados como prisioneiros por um cavaleiro saxão. Eles, contudo, desapareceram. Conforme soube mais tarde, ambos conseguiram chegar a Corinium sãos e salvos.

 

Os saxões construíram os seus abrigos e nós empilhámos mais espinheiros e arbustos no nosso néscio palácio. Nenhum inimigo se aproximou de nós, e nós não descemos a colina para os desafiar. Dividi o cume em secções e deixei cada uma entregue a um grupo de lanceiros. Os meus setenta experientes guerreiros, os melhores do meu pequeno exército, vigiavam a intercepção dos taludes virados a sul para o nosso inimigo. Dividi os mais jovens em dois grupos, cada um flanqueado por homens experientes, depois conferi a defesa do lado norte da colina aos doze Escudos Negros, apoiados pela tropa recrutada e pelos guardas de Caer Cadarn e Durnovária. O chefe dos Escudos Negros era um bruto com cicatrizes chamado Niall, um veterano de uma centena de ataques súbitos devastadores, cujos dedos estavam cheios de anéis de guerreiro. Niall ergueu, assim, o seu estandarte temporário no talude norte. Era apenas um ramo estreito e comprido de um vidoeiro jovem enterrado na turfa com um pedaço de tecido preto a esvoaçar na extremidade, mas havia algo de bárbaro e satisfatoriamente desafiador naquela bandeira irlandesa em farrapos.

 

Eu ainda tinha esperança de fugir. Os saxões podiam estar a construir abrigos no vale do rio, mas o terreno elevado a norte continuava a tentar-me, e naquela segunda tarde atravessei a cavalo a depressão oblonga por baixo da bandeira de Niall subindo, desse modo, para o pico oposto. Uma enorme extensão de charnecas estendia-se sob as nuvens, que corriam velozes. Eachern, um guerreiro experiente que eu colocara no comando de um dos grupos dos mais jovens a cortar lenha no pico, deteve-se junto à minha égua. Viu que eu fitava a charneca vazia e calculou o que me ia no espírito. Cuspiu.

 

Os imbecis estão ali algures, disso não há dúvida disse ele.

 

Tens a certeza?

 

Eles vão e vêm, Senhor. Sempre cavaleiros. Tinha um machado na mão direita e apontava-o para oeste, onde um vale se estendia de norte para oeste junto à charneca. Algumas árvores cresciam no pequeno vale, embora tudo o que delas conseguíssemos ver fossem as suas copas cheias de folhas.

 

Existe uma estrada no meio daquelas árvores disse Eachern, e é aí que eles estão escondidos.

 

A estrada deverá seguir directamente para Glevum disse eu.

 

Primeiro vai dar directamente aos saxões, Senhor disse Eachern. Os imbecis estão ali, disso não há dúvida. Ouvi os seus machados.

 

O que significava, calculei, que o caminho no vale estava bloqueado com árvores derrubadas. Eu ainda estava tentado. Se destruíssemos os mantimentos e deixássemos para trás tudo o que retardasse a nossa marcha, então conseguiríamos ainda fugir daquele círculo saxão e alcançar o exército de Artur. Durante todo o dia, a minha consciência espicaçara-me como uma espora, porque o meu dever era, evidentemente, estar com Artur e quanto mais tempo eu estivesse retido em Mynydd Baddon, mais difícil seria a sua tarefa. Questionei-me se poderíamos atravessar a charneca durante a noite. Estaria quarto crescente e haveria luz suficiente para iluminar o caminho, e se caminhássemos depressa certamente deixaríamos para trás o principal grupo de guerra saxão. Podíamos ser perseguidos por uma mão-cheia de cavaleiros saxãos, mas os meus lanceiros conseguiriam fazer-lhes frente. Todavia, o que estaria para lá da charneca? Certamente terreno montanhoso e, sem dúvida, entrecortado por rios engrossados pelas recentes chuvas. Eu precisava de uma estrada, de vaus e de pontes, precisava de velocidade ou então as crianças ficariam para trás, os lanceiros abrandariam o passo para as proteger e, de repente, os saxões saltariam sobre nós como lobos ultrapassando um rebanho de cordeiros. Eu podia imaginar-nos a fugir de Mynydd Baddon, mas não conseguia ver como iríamos fazer para percorrer os quilómetros de terra entre nós e Corinium sem sermos vítimas das lanças do inimigo.

 

A decisão foi-me arrancada ao amanhecer. Contemplava ainda um norte envolto na penumbra, esperando que ao deixarmos as nossas fogueiras acesas conseguíssemos enganar o inimigo e levá-lo a pensar que ainda permanecíamos no cume de Mynydd Baddon. Contudo, ao anoitecer daquele segundo dia chegaram ainda mais saxões. Vinham de noroeste, da direcção de Corinium, e uma centena deles dirigia-se para a charneca, e eu desejei que a atravessassem. Depois vieram para sul, para afastar os meus lenhadores das árvores, atravessaram a depressão oblonga e, deste modo, voltaram para Mynydd Baddon. Agora estávamos, sem dúvida, cercados.

 

Nessa noite, sentei-me com Ceinwyn junto à fogueira.

 

Faz-me recordar disse eu, aquela noite em Ynys Mon.

 

Estava a pensar nisso disse ela.

 

Fora na noite em que descobríramos o Caldeirão de Clyddno Eiddyn, e nos amontoáramos num aglomerado de rochedos com as forças de Diwrnach a cercar-nos. Nenhum de nós esperara sobreviver, mas então Merlim acordara dos mortos e troçara de mim.

 

Estamos cercados? perguntara ele. Estamos em menor número? Eu concordara com as duas perguntas e Merlim sorrira. E apelidas-te tu um chefe de guerreiros!

 

Colocaste-nos numa situação difícil disse Ceinwyn, citando Merlim, e eu sorri ao recordar-me, depois suspirei. Se não estivéssemos contigo continuou ela, indicando as mulheres e as crianças em volta das fogueiras, o que fariam vocês?

 

íamos para norte. Travávamos ali uma batalha fiz um aceno com a cabeça na direcção das fogueiras dos saxões, que continuavam a crepitar no terreno alto para lá da depressão oblonga, depois continuávamos a caminhar para norte.

 

Eu não tinha inteira certeza de que o faria, porque semelhante fuga significava abandonar todos os homens feridos em combate pela serrania, mas os restantes, sem terem de se ocupar das mulheres e crianças, poderiam sem dúvida avançar mais depressa do que a perseguição saxã.

 

Supõe disse Ceinwyn, suavemente, que pedes aos saxões para deixarem passar em segurança as mulheres e as crianças?

 

Eles assentirão respondi, e assim que vocês estiverem fora do alcance das nossas lanças, capturam-vos, violam-vos, matam-vos e fazem das crianças escravos.

 

Então, não é exactamente uma boa ideia? perguntou ela, com delicadeza.

 

Não exactamente.

 

Ela inclinou a cabeça sobre o meu ombro, tentando não incomodar Seren, que dormia com a cabeça deitada no colo da mãe.

 

Então, quanto tempo conseguimos aguentar? perguntou Ceinwyn.

 

Eu podia morrer de velhice em Mynydd Baddon respondi, desde que eles não mandem mais de quatrocentos homens para nos atacar.

 

E fá-lo-ão?

 

Provavelmente não menti, e Ceinwyn percebeu que eu mentia. Claro que eles enviariam mais de quatrocentos homens. Eu aprendera que na guerra o inimigo faz normalmente aquilo que mais receamos, e este inimigo certamente enviaria todos os lanceiros que tinha.

 

Ceinwyn permaneceu em silêncio por algum tempo. Cães ladravam nos distantes acampamentos saxões, e o som chegava-nos distintamente através da noite silenciosa. Os nossos cães começaram a responder e a pequena Seren estremeceu, mergulhada no seu sono. Ceinwyn alisou o cabelo da filha.

 

Se Artur está em Corinium perguntou ela, em voz baixa, então porque vêm os saxões para aqui?

 

Não sei.

 

Achas que, provavelmente, se dirigem para norte para se juntarem ao seu exército principal?

 

Eu pensara nisso, mas a chegada de mais saxões suscitara-me dúvidas. Agora, eu suspeitava que estivéssemos diante de um grande grupo de guerra inimigo, que tentara caminhar para sul em torno de Corinium, descendo bem fundo pelas colinas para voltar a surgir em Glevum e, deste modo, ameaçar a retaguarda de Artur. Não conseguia encontrar outra razão para a presença de tantos saxões no vale de Aquae Sulis, mas isso não explicava o motivo para eles não prosseguirem a sua marcha. Em vez disso, construíam abrigos, o que sugeria que pretendiam sitiar-nos. ”Em qualquer dos casos”, pensei, ”talvez estivéssemos a prestar um serviço a Artur ao permanecermos ali.” Mantínhamos um grande número dos seus inimigos afastados de Corinium, ainda que se os nossos cálculos estavam certos em relação às forças inimigas, os saxões tivessem homens mais do que suficientes para nos destruir tanto a nós como a Artur.

 

Ceinwyn e eu permanecemos em silêncio. Os doze Escudos Negros tinham começado a cantar e, no fim da canção, os meus homens responderam com o cântico de guerra de Illtydd. Pyrlig, o meu bardo, acompanhou o canto com a sua harpa. Ele encontrara uma carapaça de couro e aprestara-se com um escudo e uma lança, mas o equipamento de guerra parecia estranho na sua figura magra. Fiz votos para que ele nunca tivesse de abandonar a sua harpa e usar a lança, porque nessa altura toda a esperança se teria desvanecido. Imaginei os saxões invadindo em grande número o cume da colina, e em grande assuada ao encontrarem tantas mulheres e crianças, mas depois afastei aquele horrível pensamento. Tínhamos de permanecer vivos, tínhamos de defender os nossos muros, tínhamos de vencer.

 

Na manhã seguinte, sob um céu de cinzentas nuvens, com as quais um vento fresco trouxe pingos de chuva de oeste, vesti o meu equipamento de guerra. Era pesado e, deliberadamente, não o vestira até essa altura. Todavia, a chegada dos reforços saxões convencera-me de que teríamos de combater e, desse modo, para encorajar os meus homens decidi usar a minha melhor armadura. Primeiro, por cima da camisa de linho e das calças de lã, vesti uma túnica de cabedal que me caía até aos joelhos. O cabedal era suficientemente grosso para deter uma cutilada de espada, mas não um golpe de lança. Por cima da túnica vesti a preciosa capa de pesada malha romana, que os meus escravos haviam polido até as pequenas argolas brilharem. A cota de malha era ornamentada com laçadas de ouro na bainha, nas mangas e na gola. Era uma cota cara, uma das mais ricas da Bretanha, e suficientemente bem forjada para deter os mais selváticos golpes de lança. As minhas botas altas até aos joelhos tinham tiras de bronze bordadas para me defender das lâminas que me atacassem por baixo do escudo defensivo, e calçara luvas até ao cotovelo com chapas de ferro que me protegiam os antebraços. O meu elmo estava decorado com dragões de prata, que trepavam para o seu pico dourado onde estava presa a cauda de lobo. O elmo caía-me sobre as orelhas, tinha uma aba de malha que me protegia a nuca, e protecções de rosto prateadas que podiam ser baixadas sobre o meu rosto para que o inimigo não visse um homem, mas um assassino vestido de metal com duas sombras negras em vez de olhos. Era a rica armadura de um importante senhor da guerra e fora desenhada para provocar medo no inimigo. Apertei o cinto da Hywelbane em torno da malha, ajustei uma capa em volta do pescoço e tomei o peso à minha maior lança de guerra. Depois, assim vestido para o combate, e com o escudo a baloiçar-me nas costas, caminhei em torno da muralha de Mynydd Baddon para que todos os meus homens e todos os inimigos que nos observavam me vissem e percebessem que um chefe de guerreiros aguardava o combate. Terminei o meu circuito no cume sul da nossa zona defensiva e aí, de pé, bem acima do inimigo, levantei as camisas de malha e couro para urinar pela colina abaixo em direcção aos saxões.

 

Não reparara que Guinevere estava próximo, e só me apercebi quando ela riu, e aquele riso comprometeu o meu gesto porque fiquei embaraçado. Ela recusou as minhas desculpas com um aceno.

 

Ficas com uma bela figura, Derfel disse ela. Levantei as protecções do rosto.

 

Tinha esperança, Senhora afirmei, que não mais voltaria a usar este equipamento de guerra.

 

Pareces Artur a falar disse ela, asperamente, depois caminhou atrás de mim, admirando as faixas de prata trabalhada que formavam a estrela de Ceinwyn do meu escudo. Eu nunca entendi disse ela, voltando para junto de mim, por que razão a maior parte do tempo vocês se vestem como guardadores de porcos, mas se arranjam tão bem para a guerra.

 

Não pareço nenhum guardador de porcos protestei.

 

Não como os meus, disse ela, porque não suporto ter gente suja à minha volta, ainda que sejam guardadores de porcos, por isso faço sempre os possíveis para que tenham roupas decentes.

 

Tomei banho no ano passado insisti.

 

Tão recentemente assim! disse ela, fingindo-se impressionada. Segurava o arco e as setas de caça e tinha uma aljava de setas às costas Se eles vierem disse ela, tenciono enviar algumas das suas almas para o Outro Mundo.

 

Se eles vierem respondi, sabendo que assim aconteceria, tudo o que vereis serão elmos e escudos e desperdiçareis as vossas setas. Aguardai até que eles levantem as cabeças para lutar contra o nosso escudo defensivo, nessa altura apontai para os olhos.

 

Eu não desperdiçarei setas, Derfel prometeu-me, ameaçadoramente. A primeira ameaça veio do norte, onde os recém-chegados saxões haviam formado um escudo defensivo por entre as árvores, acima da depressão oblonga que separava Mynydd Baddon do terreno elevado. A nossa nascente mais abundante ficava nessa depressão e talvez a intenção dos saxões fosse negar-nos o seu uso, porque pouco passava do meio-dia quando o seu escudo defensivo desceu para o pequeno vale. Niall observava-os dos nossos taludes. Oitenta homens disse-me ele.

 

Levei Issa e cinquenta homens para os taludes a norte, um número mais do que suficiente de lanceiros para defrontar oitenta saxões que actuavam no cimo da colina. Mas cedo se tornou evidente que a intenção dos saxões não era atacar, mas sim levar-nos a descer para a depressão onde podiam lutar connosco em igualdade de circunstâncias. E não havia dúvidas que depois de descermos mais saxões irromperiam do meio das árvores altas para nos armarem uma cilada.

 

Ficai aqui disse eu aos meus homens. Não desçam! Ficai aqui! Os saxões zombaram de nós. Alguns sabiam algumas palavras de inglês, o suficiente para nos chamarem cobardes, meninas ou vermes. Por vezes, um pequeno grupo subia até meio da nossa encosta para nos tentar a quebrar fileiras e fazer-nos descer a colina apressadamente, mas Niall, Issa e eu mantivemos os nossos homens calmos. Um feiticeiro saxão subiu, escorregando de quando em vez, pela encosta húmida na nossa direcção em pequenos ímpetos nervosos, proferindo feitiços de forma atabalhoada. Vestia apenas uma capa curta de pêlo de lobo sem mangas e o seu cabelo estava estrumado num único espigão alto. Guinchou as suas pragas, lamuriou as palavras mágicas e depois atirou uma mão-cheia de pequenos ossos aos nossos escudos, mas ainda assim nenhum de nós se mexeu. O feiticeiro cuspiu três vezes, depois desceu a correr escorregando para a depressão, onde um chefe de tribo saxão tentava agora desafiar um de nós para uma luta individual. Era um homem corpulento com uma crina emaranhada e gordurosa, um cabelo dourado imundo que pendia sobre um sumptuoso colar dourado. A sua barba estava entrançada com fitas negras, a carapaça era de ferro, as caneleiras de bronze romano decorado e o escudo tinha pintada a máscara de um lobo mostrando os dentes. O seu elmo tinha dois cornos de boi em cada um dos lados e encimava-o uma caveira de lobo à qual ele havia apertado uma massa de fitas pretas. Tinha faixas de pêlo preto presas em volta dos braços e coxas, trazia um enorme machado de guerra de lâmina dupla, enquanto do seu cinto pendia uma longa espada e uma das facas pequenas e de lâmina larga chamada seax, a arma que conferiu aos saxões o seu nome. Durante algum tempo, ele exigiu que o próprio Artur descesse e lutasse com ele, e depois de se cansar de o fazer desafiou-me, chamando-me cobarde, escravo com coração de galinha e filho de uma prostituta leprosa. Falou na sua língua, o que significou que nenhum dos meus homens percebeu o que ele disse e eu deixei, simplesmente, que as suas palavras passassem por mim levadas pelo vento.

 

Então, a meio da tarde, depois de a chuva ter parado e os saxões estarem cansados de tentar convencer-nos a descer para lutar, trouxeram três crianças capturadas para a depressão oblonga. As crianças eram muito pequenas, não tendo mais de cinco ou seis anos, e eles seguravam-nas com seax encostados às suas gargantas.

 

Desçam gritou o enorme chefe de tribo saxão ou elas morrem! Issa olhou para mim.

 

Deixai-me ir, Senhor pediu ele.

 

Este talude é meu insistiu Niall, o chefe dos Escudos Negros. Eu basto para o cretino.

 

O topo da colina é meu disse eu.

 

Era mais do que apenas o meu topo de colina, também era meu dever travar o primeiro combate individual numa batalha. Um rei podia deixar que o seu paladino lutasse, mas um senhor da guerra não devia enviar homens para onde ele próprio não fosse, por isso baixei as protecções de rosto do meu elmo, toquei com a mão enluvada nos ossos de porco do copo da Hywelbane e depois pressionei a minha cota de malha para sentir a pequena protuberância formada pelo broche de Ceinwyn. Deste modo, tranquilizado, empurrei a nossa paliçada de madeira colada e comecei a descer a encosta íngreme.

 

Tu e eu! gritei para o alto saxão na sua própria língua pelas suas vidas e apontei a minha lança para as três crianças.

 

Os saxões murmuraram aprovação por finalmente, terem conseguido que um bretão descesse da colina. Eles recuaram, levando as crianças consigo, deixando a depressão oblonga livre para mim e para o paladino deles. O corpulento saxão tomou o peso do grande machado na sua mão esquerda, depois escarrou ranúnculo amarelo.

 

Falas bem a nossa língua, porco felicitou-me ele.

 

É uma língua de porcos respondi.

 

Ele atirou o machado ao ar, fazendo-o rodar com a lâmina a luzir à luz fraca do sol, que tentava romper por entre as nuvens. O machado era longo e a sua cunha de lâmina dupla era pesada, mas ele apanhou-o facilmente pelo cabo. A maior parte dos homens acharia difícil manejar uma arma tão maciça mesmo por pouco tempo, mais ainda atirá-la ao ar e apanhá-la, mas este saxão fê-lo parecer fácil.

 

Artur não se atreveu a vir lutar comigo disse ele, por isso terei de te matar no seu lugar.

 

A sua referência a Artur confundiu-me, mas não me cabia desiludir o inimigo se ele pensava que Artur estava em Mynydd Baddon.

 

Artur tem melhores coisas para fazer do que matar um verme afirmei, por isso me pediu para te matar, e depois enterrar o teu gordo cadáver com os pés virados para sul para que para todo o sempre vagueies solitário, sem nunca conseguires encontrar o teu Outro Mundo.

 

Ele cuspiu.

 

Tu guinchas como um porco esparvoado.

 

Os insultos eram um ritual, tal como o combate individual. Artur desaprovava ambos, acreditando que os insultos eram um desperdício de fôlego e o combate individual um desperdício de energia, mas eu não tinha quaisquer objecções em lutar contra um paladino inimigo. Esse combate servia um propósito, porque se eu matasse aquele homem as minhas tropas ficariam imensamente animadas e os saxões veriam na sua morte um terrível presságio. O risco era perder o combate, mas naquele tempo eu era um homem confiante. O saxão era um bom bocado mais alto do que eu, e de ombros muito mais largos, mas eu tive dúvidas que fosse rápido. Parecia um homem que confiava na força para vencer, enquanto eu tinha orgulho em ser tão esperto quanto forte. Ele levantou os olhos para o nosso talude, que agora estava povoado de homens e mulheres. Não consegui ver Ceinwyn, mas Guinevere sobressaía por entre os homens armados pela altura e a figura admirável.

 

É aquela a tua pega? perguntou-me o saxão, empunhando o machado na sua direcção. Esta noite será minha, meu verme.

 

Aproximou-se mais dois passos de mim, ficando apenas a uma dúzia de passos de distância, depois atirou de novo o grande machado ao ar. Os seus homens aplaudiam-no da encosta norte, enquanto os meus homens gritavam roucos encorajamentos dos taludes.

 

Se estás com medo disse-lhe eu, dou-te tempo para esvaziares a tripa.

 

Esvaziá-la-ei em cima do teu cadáver gritou-me ele. Indaguei-me se deveria matá-lo com a lança ou com a Hywelbane e decidi que a lança seria mais rápida, desde que ele não detivesse o golpe. Era evidente que ele atacaria em breve, porque começara a balançar o machado em curvas rápidas e complexas que entonteciam ao fitá-lo, e eu suspeitei que a sua intenção fosse carregar sobre mim com aquela lâmina desfocada, afastar a minha lança para o lado com o seu escudo, depois enterrar o machado no meu pescoço.

 

Chamo-me Wulfger disse ele, formalmente, Chefe da tribo Sarnaed do povo de Cerdic, e esta região será minha.

 

Deslizei o braço esquerdo para fora das presilhas do meu escudo, passei-o para o braço direito e segurei na lança com a mão esquerda. Não apertei o escudo ao braço direito, segurando apenas com força a pega de madeira. Wulfger de Sarnaed era canhoto e isso significava que o seu machado me atacaria do meu lado sem guarda, se eu mantivesse o escudo no braço onde o trazia. Eu não era tão bom com a lança na mão esquerda, mas tive a noção de que podia acabar com este combate bem depressa.

 

O meu nome respondi-lhe, formalmente é Derfel, filho de Aelle, Rei dos Aenglish. E sou o homem que fez a cicatriz no rosto de Liofa.

 

O meu alarde fora intencional para o desconcertar, e talvez tenha conseguido, mas ele pouco o demonstrou. Em vez disso, com um bramido repentino, atacou e os seus homens aplaudiram ruidosamente. O machado de Wulfger sibilava no ar, o seu escudo estava pronto a afastar a minha lança para o lado, e ele carregava como um touro, mas nessa altura arremessei violentamente o meu escudo ao seu rosto. Voltei a afastá-lo para o lado, para que girasse na sua direcção como um pesado disco de madeira com cercadura de metal.

 

A visão repentina do escudo pesado a voar com força na direcção do seu rosto forçou-o a levantar o seu e a parar o violento serpentear do seu machado desfocado. Ouvi o meu escudo a bater ruidosamente no dele, mas eu arqueara já um joelho, mantendo a minha lança baixa e pronto a lancetar para cima. Wulfger de Sarnaed detivera o meu escudo com bastante rapidez, mas não conseguiu deter a sua forte investida para diante, nem conseguiu largar o escudo a tempo e, deste modo, correu direito à longa, pesada e cruel lâmina. Eu apontara à sua barriga, mesmo abaixo da sua carapaça de ferro, onde a única protecção que tinha era um justilho de cabedal grosso, e a minha lança trespassou esse cabedal como uma agulha deslizando no linho. Ergui-me assim que a lâmina se afundou no cabedal, na pele, nos músculos e na carne alojando-se no baixo ventre de Wulfger. Endireitei-me e torci o punho, bradando agora o meu desafio quando vi a lâmina do machado esmorecer. Estoquei, novamente, com a lança sempre afundada na sua barriga e torci a lâmina em forma de folha uma segunda vez, e Wulfger de Sarnaed abriu a boca enquanto me fitava e vi o terror surgir nos seus olhos. Tentou erguer o machado, mas sentiu apenas uma terrível dor na barriga e uma fraqueza liquefeita nas pernas e, então, tropeçou, arfou e caiu de joelhos. Larguei a lança e recuei enquanto retirava a Hywelbane.

 

Esta região é nossa, Wulfger de Sarnaed disse eu, suficientemente alto para que os seus homens me ouvissem, e continuará a ser a nossa região. Serpenteei a lâmina uma vez, mas com força para que, através da massa baça de cabelo abatido lhe cortasse o cachaço e chegasse à coluna.

 

Ele caiu morto, num abrir e fechar de olhos.

 

Agarrei na haste da minha lança, coloquei um pé na barriga de Wulfger e soltei a relutante lâmina com um puxão. Depois inclinei-me e arranquei a caveira de lobo do seu elmo. Empunhei o osso amarelecido na direcção dos nossos inimigos, depois atirei-o ao chão e pisei-o fazendo-o em mil pedaços debaixo do meu pé. Desapertei o colar de ouro do homem morto, peguei no seu escudo, no seu machado e na sua faca e acenei esses troféus na direcção dos seus homens, que permaneciam em silêncio observando-me. Os meus homens dançavam e gritavam o seu contentamento. Por último, inclinei-me e desapertei as suas pesadas caneleiras de bronze, decoradas com imagens do meu Deus, Mitras.

 

Ergui-me com o meu saque.

 

Mandai as crianças! gritei aos saxões.

 

Vinde buscá-las! replicou um homem e, depois, com um golpe rápido cortou a garganta a uma das crianças. As outras duas gritaram, depois também elas foram mortas e os saxões cuspiram nos seus pequenos corpinhos. Por instantes, pensei que os meus homens perdessem o controlo e carregassem sobre a depressão oblonga, mas Issa e Niall detiveram-nos no talude. Cuspi no corpo de Wulfger, fiz um sorriso escarninho ao pérfido inimigo e levei os meus troféus para o cume da colina.

 

Dei o escudo de Wulfger a um dos homens da tropa recrutada, a faca a Niall e o machado a Issa.

 

Não os utilizem no campo de batalha afirmei, mas podem cortar lenha com isso.

 

Levei o colar de ouro a Ceinwyn, mas ela abanou a cabeça.

 

Não gosto do ouro de homens mortos afirmou.