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Os jardineiros da legação entraram em sua choupana-dormitório, que ficava no outro lado do templo budista. Nenhum deles enfrentou o olhar de Hiraga. Todos haviam sido advertidos de que suas vidas, assim como as vidas de todas as suas gerações, dependiam da segurança de Hiraga.
— Tomem cuidado ao falar com estranhos — dissera-lhes Hiraga. — Se o Bakufu descobrir que me deram abrigo, terão a mesma recompensa, só que serão crucificados, em vez de terem uma morte lenta.
Apesar de todos os protestos submissos de que ele se encontrava a salvo, de que podia confiar neles, Hiraga sabia que nunca deveria se sentir seguro. Desde a eniboscada contra Anjo, dez dias antes, passara a maior parte do tempo no refúgio em Kanagawa, a estalagem das Flores da Meia-Noite. O fracasso do ataque, com a morte de todos os seus companheiros, à exceção de um, era karma, nada mais.
Recebera no dia anterior uma carta de Katsumata, o líder clandestino dos shishi de Satsuma, que agora se encontrava em Quioto: Urgente: dentro de poucas semanas, o xógum Nobusada criará um precedente, ao vir para cá numa visita oficial ao imperador. Todos os shishi devem se concentrar aqui imediatamente fim de planejar como interceptá-lo e, depois, nos apoderarmos dos portões do palácio. Katsumata assinara com seu codinome: Corvo.
Hiraga discutira o que fazer com Ori e depois decidira retornar a Iedo, decidido a agir sozinho para destruir a legação britânica, furioso porque o Conselho dos Anciãos parecia ter sido enganado e neutralizado pelos gai-jin.
— Quioto pode esperar, Ori. Temos de atacar os gai-jin. Devemos enfurecê-los, até que bombardeiem Iedo. Outros podem cuidar do xógum e de Quioto.
Ele gostaria de levar Ori, mas o companheiro estava impotente, o ferimento pior, sem qualquer ajuda médica.
— Como está seu braço?
— Quando se tornar insuportável, cometerei seppuku — respondera Ori, a voz engrolada do saquê que tomara para amortecer a dor. — Não se preocupe.
Os três, Hiraga, Ori e mama-san, beberam juntos.
— Não há nenhum outro médico, em quem possamos confiar?
— Não, Hiraga-san — dissera a mama-san, Noriko. Era uma mulher pequena, de cinqüenta anos, a voz suave. — Até chamei um acupuntor e um herbanário coreanos, ambos amigos, mas os cataplasmas não têm nenhum valor. Poderíamos chamar o gigante gai-jin...
— Não seja estúpida! — berrara Ori. — Quantas vezes tenho de lhe dizer? O ferimento é de bala, uma das balas dos gai-jin, e eles me viram em Kanagawa!
— Por favor, desculpe — murmurara a mama-san, humilde, encostando a cabeça no tatame. — Por favor, desculpe esta pessoa estúpida.
Ela fizera outra reverência e se retirara, mas no fundo do coração censurava Ori por não ser um verdadeiro shishi, deixando de cometer seppuku enquanto Hiraga se achava presente, o mais perfeito padrinho que um homem podia desejar. Se ele assim fizesse, reduziria o perigo que a ameaçava e à sua casa. A notícia do destino sofrido pela estalagem dos Quarenta e Sete Ronin percorrera cinqüenta ri e além — uma retaliação ultrajante, matar todos os clientes, cortesãs e servidores, e exibir a cabeça da mama-san na ponta de um chuço.
Monstruoso, pensara ela, revoltada. Como uma casa pode proibir a entrada de qualquer samurai, shishi ou não? Nos tempos antigos, os samurais matavam muito mais do que hoje, sem dúvida, mas isso fora séculos antes, e quase sempre quando as vítimas mereciam mesmo morrer, não mulheres ou crianças. Naquele tempo, a lei da terra era justa, o xógum Toranaga era justo, seu filho e neto eram justos, antes que a corrupção e o desregramento se tornassem um modo de vida para os xóguns descendentes, assim como para os daimios e os samurais, que há mais de um século nos impõem seus tributos como pus! Os shishi são a nossa única esperança! Sonno-joi!
— Anjo deve morrer antes de nós — dissera ela, fervorosa, quando Hiraga voltara, são e salvo, dois dias depois do ataque.— Ficamos todos aflitos, pensando que você podia ter sido preso e queimado junto com os outros. Foi tudo feito por ordem de Anjo, Hiraga-san. Na verdade, ele voltava da estalagem quando o atacaram, perto dos portões do castelo. Foi ele quem ordenou tudo e acompanhou essoalmente as execuções, deixando homens ali, em emboscada, para o caso de algum shishi retornar.
— Quem nos traiu, Hiraga? — indagara Ori.
— Os samurais de Mori.
— Mas Akimoto diz que os viu serem cercados e mortos.
— Deve ter sido um deles. Mais alguém escapou?
— Akimoto... ele se escondeu em outra estalagem por um dia e uma noite.
— Onde ele está agora?
— Ocupado — respondera Noriko. — Devo mandar chamá-lo?
— Não. Falarei com ele amanhã.
— Anjo deve pagar com sangue pela estalagem... foi um ato contra todos os costumes!
— Ele pagará, e os roju também. Assim com o xógum Nobusada, e até Yoshi.
Em seus aposentos particulares, no alto da torre do castelo, Yoshi compunha um poema. Usava um quimono de seda azul, sentava-se à mesa baixa, com um lampião a óleo e folhas de arroz, pincéis de espessuras diferentes, água para amolecer o bloco de tinta preta, que tinha agora uma poça pequena e convidativa na depressão no centro.
O crepúsculo transformava-se em noite. Do exterior, vinha o zumbido do milhão de almas de Iedo, sempre presente. Umas poucas casas em chamas, também como sempre. Lá de baixo, dentro do castelo, o barulho abafado e confortador dos soldados, cascos nas pedras do calçamento, uma ocasional risada gutural elevando-se com a fumaça e com os cheiros de comida, passando pelas aberturas ornamentadas para os arqueiros, nas vastas paredes, ainda não fechadas contra o frio da noite.
Aquele era seu santuário pessoal. Espartano. Tatames, um takoyama, a porta de shoji à sua frente, posicionada e iluminada de tal forma que ele podia divisar os contornos de qualquer vulto no outro lado, mas ninguém podia percebê-lo lá dentro.
Além daquele cômodo, havia uma ante-sala maior, de onde saíam corredores para os quartos, vazios naquele momento, exceto pelos servidores, criadas e Koiko, sua favorita especial. A família — esposa, dois filhos e uma filha, a consorte e seu filho — se encontrava em segurança, sob forte guarda, no castelo-fortaleza hereditário, o Dente do Dragão, nas montanhas, cerca de vinte ri para o norte. Além daquela ante-sala, havia guardas, outros cômodos com mais guardas, todos tendo prestado um juramento de serviço pessoal.
Yoshi mergulhou um pincel na poça de tinta. A ponta pairou por um instante sobre o delicado papel de palha de arroz, e depois ele escreveu, com firmeza:
Espada de meus antepassados
Quando em minhas mãos
Se contorce irrequieta
O texto saiu em três linhas verticais de caracteres, curtas, fortes onde assim deveriam ser, e suaves quando a suavidade realçaria a imagem que os caracteres transmitiam — nunca havia uma possibilidade de refinar, mudar ou corrigjr sequer a menor falha, pois a textura do papel de arroz sugava a tinta no mesmo instante, fazendo com que dele se tornasse parte indelével, variando o preto para cinza, dependendo da maneira como o pincel era usado e da quantidade de água.
Com absoluta frieza, Yoshi examinou o que fizera, a disposição do poema, e toda a imagem que as tonalidades de caligrafia preta formavam no espaço branco, a fluidez e clareza de seus caracteres.
Está bom, concluiu ele, sem vaidade. Não posso fazer melhor no momento... este é quase o limite de minha capacidade, se não mesmo o limite. E o significado do poema, como deve ser interpretado? Ah, essa é a questão importante, por isso é que é bom. Mas vai alcançar o que desejo?
Essas indagações levaram-no a avaliar a lamentável situação, em Iedo e em Quioto. Poucos dias antes chegara a notícia de que ocorrera um golpe súbito e sangrento, mas vitorioso, desfechado por tropas de Choshu, expulsando as forças de Satsuma e Tosa, que nos últimos seis meses vinham mantendo o poder, numa trégua instável. Lorde Ogama, de Choshu, agora dominava os portões do palácio.
Numa reunião do conselho, convocada às pressas, os ânimos estavam exaltados, Anjo quase espumando de fúria.
— Choshu, Satsuma e Tosa! Sempre os três! São cães que devem ser esmagados! Sem eles, teríamos tudo sob controle!
— É verdade — concordara Yoshi. — E repito que devemos ordenar que nossas tropas em Quioto entrem em ação, a fim de acabar com a rebelião imediatamente... a qualquer custo!
— Não. Devemos esperar, pois nossas forças ali são insuficientes. Toyama, o velho, coçara o queixo coberto por uma barba grisalha e dissera:
— Concordo com Yoshi-dono. A guerra é o único meio, e temos de declarar que Ogama de Choshu é um fora-da-lei!
— Impossível! — protestara Adachi, lamuriento, por si mesmo e pelo último ancião. — Concordamos com Anjo. Não podemos correr o risco de ofender todos os daimios, encorajando-os a se unirem contra nós.
— Temos de agir sem demora! — insistira Yoshi. — Devemos ordenar que nossas tropas retomem os portões e sufoquem a rebelião!
— Nossas forças são insuficientes — dissera Anjo, obstinado. — Vamos esperar. Este não é o momento.
— Por que não escutam meu conselho?
Àquela altura, Yoshi sentia-se tão furioso que sua raiva quase aflorara. Tratou de se controlar, com o maior esforço, sabendo que se enfurecer e perder a caligrafia seria um erro fatal, pois faria com que todos se virassem contra ele, para sempre. Não era o mais moço, o menos experiente, embora o mais qualificado, com mais influência entre os daimios, o único dos anciãos que podia, se assim desejasse, erguer seu estandarte e lançar todo o país na guerra civil, como ocorrera por séculos, antes do xógum Toranaga? Todos os outros não haviam se mostrado invejosos e desdenhosos quando ele fora designado guardião e ancião, por “solicitação” imperial, sem consultá-los, por quem manipulava o filho do céu?
— Sei que estou certo. Não estava certo em relação aos gai-jin? Pois estou certo neste caso também.
O plano que ele concebera para afastar os gai-jin e sua esquadra de Iedo, a fim de se ganhar tempo para resolver os problemas internos, tivera um êxito absoluto. Fora bastante simples.
— Com grande cerimônia e humildade simulada, demos aos gai-jin uma indenização insignificante, propusemos uma futura reunião com o conselho, que será adiada e adiada ou mesmo cancelada, talvez até encenada com fantoches, se for necessário, para se insinuar no último momento, quando a paciência deles estiver quase esgotada, que será providenciada uma reunião com o xógum, quando ele voltar... o que também pode ser adiado, renegociado, protelado, e nunca vai acontecer ou mesmo que venha a ocorrer, no futuro distante, nada produzirá que não desejarmos. Ganhamos assim uma parte do tempo de que necessitamos, e descobrimos uma maneira permanente de lidar com essa gente: usar a impaciência dos gai-jin contra eles, oferecer “promessas”, muita sopa sem peixe ou no máximo uns poucos pedaços podres, de que não precisamos nem queremos. Eles ficaram satisfeitos, sua esquadra partiu com a tempestade, talvez tenha afundado. Até agora, nenhum dos navios voltou.
O velho Toyama dissera:
— Os deuses nos ajudaram com aquela tempestade, enviando de novo seu vento divino, o vento camicase, como aconteceu contra as hordas invasoras de Kublai Khan, há muitos séculos. Quando os expulsarmos, a mesma coisa ocorrerá outra vez. Os deuses nunca nos abandonarão.
Adachi se empertigara, vaidoso.
— É verdade que executei nosso plano com perfeição. Os gai-jin se mostraram tão dóceis quanto uma cortesã de quinta classe.
— Os gai-jin são uma ferida que nunca vai curar, enquanto formos mais fracos em poderio militar e riqueza — protestara Anjo, irritado, retorcendo as mãos. — São uma ferida que não vai curar... não sem ser cauterizada, e ainda não podemos fazer isso, enquanto não tivermos meios de construir navios e fabricar canhões. Não podemos nos desviar do objetivo, e ordenar que nossas tropas retomem os portões, pelo menos por enquanto. Os Choshus não são nossos inimigos imediatos, mas, sim, os Sonno-joi e os cães shishi.
Yoshi notara o quanto Anjo mudara desde o atentado contra sua vida: mostrava-se agora muito mais irascível, obstinado, sua determinação enfraquecida, embora a influência que exercia sobre os anciãos não houvesse diminuído.
— Não concordo, mas se você acha que nossas forças são insuficientes, posso ordenar mobilização geral, acabar com os lordes exteriores e todos os que se aliarem a eles!
Toyama dissera:
— A guerra é o único caminho, Anjo-sama. Esqueça os shishi, esqueça os gai-jin, pelo menos por enquanto. Os portões... primeiro, devemos retomar nossos direitos hereditários.
Anjo proclamara:
— É o que faremos, no momento oportuno. Agora, a visita do xógum deve ser realizada de acordo com o planejado.
Apesar dos protestos adicionais de Yoshi, Anjo mais uma vez ganhara na votação, três a dois, e em particular acrescentara, insidioso:
— Como eu lhe disse, Yoshi-dono, eles sempre votarão comigo. Os shishi nunca terão êxito contra mim, nem contra você, nem contra ninguém.
— O xógum Nobusada também não terá êxito?
— Ele... ele não é um inimigo, e acata meus conselhos.
— E a princesa Yazu?
— Ela obedecerá... obedecerá a seu marido.
— Ela obedecerá a seu irmão, o imperador, até o dia de sua morte.
Yoshi ficara chocado quando Anjo dissera, com um sorriso insinuante:
— Propõe um acidente, hem?
— Não proponho nada desse tipo.
Yoshi sentira um calafrio, temeroso de que o homem estivesse se tornando perigoso demais para continuar vivo, já poderoso demais para ser neutralizado, arguto demais, contando com o apoio de um enxame de bandos à disposição, sempre prontos a se submeterem à sua vontade...
Uma silhueta se aproximou da porta, quase silenciosa. Sem sequer pensar, Yoshi estendeu a mão direita para a espada comprida, no chão, ao seu lado, embora reconhecesse a silhueta. O vulto se ajoelhou. Uma batida delicada.
— Oque é?
Ela abriu a porta, sorrindo, fez uma reverência, e esperou.
— Entre, por favor, Koiko — murmurou Yoshi, satisfeito com a visita inesperada, todos os seus demônios desaparecendo.
Ela obedeceu, fechou aporta, correu para ele, o quimono estampado comprido farfalhando, tornou a se ajoelhar, comprimiu o rosto contra a mão de Yoshi, ao mesmo tempo em que notava o poema.
— Boa noite, Sire.
Ele riu, abraçou-a com ternura.
— A que devo este prazer?
— Senti saudade. Posso ver seu poema?
— Claro.
Enquanto Koiko estudava o poema, Yoshi a contemplava, um prazer constante para ele, nos trinta e quatro dias em que ela se encontrava no castelo. Roupas extraordinárias. A pele mais pura, como casca de ovo, cabelos pretos reluzentes, que desciam até a cintura quando eram soltos, nariz delicado, os dentes tão brancos quanto os de Yoshi, em vez de escurecidos, como era a moda na corte.
— Uma estupidez! — dissera-lhe o pai, assim que ele tinha idade suficiente para compreender.— Por que deveríamos escurecer nossos dentes só porque é um costume da corte, iniciado há séculos por um imperador que tinha dentes velhos e podres, e por isso determinou que ter dentes pintados era superior a ter dentes como os dos animais? E por que usar tinta em nossos lábios e faces, como alguns ainda fazem, porque outro queria ser mulher, não homem, e assim fingia, sendo imitado pelos cortesãos, que queriam conquistar seus favores?
Koiko tinha vinte e dois anos, Tayu, o mais alto grau possível de gueixa no mundo do salgueiro.
Tendo ouvido comentários a seu respeito, alguns meses antes, Yoshi sentira-se curioso, mandara chamá-la, desfrutara sua companhia e depois, há meses, ordenara que a mama-san de Koiko apresentasse uma proposta para seus serviços permanentes. Como era correto, a proposta fora encaminhada à esposa de Yoshi, que cuidaria do assunto. Ela lhe escrevera do Dente do Dragão, o castelo da família:
Amado marido: Concluí hoje um acordo satisfatório com a mama-san para a Tayu Koiko, da Casa da Glicínia. Senhor, consideramos que é melhor ter sua exclusividade do que uma primeira opção para seus serviços, e também mais seguro, já que se encontra cercado por inimigos. A seu critério, o contrato é renovável todos os meses, o pagamento será mensal, ao término de cada período, para garantir que os serviços serão mantidos no nível mais elevado, como deve esperar.
Sua consorte e eu nos sentimos satisfeitas por ter decidido contratar uma diversão, pois estávamos e continuamos muito preocupadas com sua saúde e segurança. Permita-me cumprimentá-lo por sua escolha, pois corre o rumor de que Koiko é de fato extraordinária
Seus filhos estão bem e felizes, assim como sua filha e eu. Enviamos nossa eterna lealdade e ansiamos por sua presença. Por favor, mantenha-me informada sobre como devo orientar nosso Pagador para reservar recursos...
Corretamente, a esposa não mencionara a quantia, nem isso seria de seu initeresse, pois se tratava de uma função básica dela, administrar e guardar a riqueza da família, pagar todas as contas. Koiko levantou os olhos.
— Seu poema é impecável, Yoshi-chan — murmurou ela, batendo palmas, o chan um diminutivo íntimo.
— Você é impecável — disse Yoshi, disfarçando seu prazer por aquele Julgamento.
Além dos excepcionais atributos físicos, Koiko tinha renome em Iedo por sua caligrafia, a beleza de seus poemas e a astúcia na arte e política.
— Adoro a maneira como você escreve, e o poema é magnífico. Adoro a complexidade de sua mente, em particular porque escolheu “quando”, e não talvez “agora”, e “contorce”, quando um homem inferior poderia usar “mexe”, ou o mais clamoroso “ergue”, o que daria uma conotação sexual. Mas a disposição da palavra final, “irrequieta”... ah, Yoshi-chan, como foi hábil ao usar essa última palavra, que é perfeita! Sua criação é excelente, e pode ser interpretada de uma dúzia de maneiras diferentes.
— E o que você acha que estou dizendo?
Os olhos de Koiko faiscaram.
— Primeiro, diga-me se tenciona guardar o poema... guardar abertamente em segredo, ou destruí-lo.
— Qual é a minha intenção? — indagou ele, adorando a conversa.
— Se guardar o poema abertamente ou simular escondê-lo ou simular que é secreto, planeja que seja lido por outros, que informarão a seus inimigos, de um jeito ou de outro, como deseja.
— E o que eles pensarão?
— Todos, à exceção dos mais sagazes, vão presumir que sua determinação está enfraquecendo, seus medos começam a dominá-lo.
— E os outros?
Os olhos de Koiko não perderam nada da expressão divertida, mas ele percebeu que adquiriam um brilho adicional.
— De seus principais adversários, o xógum Nobusada interpretaria como um sinal de que você, em sua mente interior, concorda com ele, que não é bastante forte para constituir uma ameaça concreta, e passaria a considerar, na maior felicidade, que se tornará mais e mais fácil eliminá-lo quanto mais esperar. Anjo se roeria de inveja por sua proeza como poeta e calígrafo, e desdenharia do “irrequieta”, achando ser uma palavra indigna, mal escolhida, mas o poema o deixaria obcecado, preocupado, ainda mais se for encarado como um documento secreto, até que ele teria quarenta e oito interpretações, todas as quais aumentariam sua implacável oposição.
A franqueza de Koiko impressionou-o.
— E se eu guardar em segredo?
Ela riu.
— Se quisesse guardá-lo em segredo, então teria de queimá-lo agora mesmo, sem nunca mostrá-lo para mim. É triste destruir tanta beleza, muito triste, Yoshi-chan, mas um ato necessário para um homem na sua posição.
— Por quê? É apenas um poema.
— Creio que este é especial. É bom demais. Uma arte assim só pode provir das profundezas interiores. Revela muito. E a revelação é o propósito da poesia.
— Continue.
Os olhos de Koiko pareceram mudar de cor, enquanto ela especulava até que ponto ousaria ir, sempre testando os limites intelectuais... para entreter e excitar quem a contratara, se era o que ele desejava. Yoshi notou a mudança, mas não discerniu o motivo.
— Por exemplo — continuou ela, descontraída —, poderia ser interpretado, pelos olhos errados, como uma manifestação de seu espírito mais profundo: “O poder do meu ancestral homônimo, xógum Toranaga Yoshi, se acha ao meu alcance, suplica para ser usado.”
Observando-a, Yoshi não conseguiu ler seus olhos. Todos os seus sentidos bradavam perigo. Sou tão evidente assim? Talvez esta dama seja perceptiva demais para continuar viva.
— E o que pensaria a princesa Yazu?
— Ela é a mais esperta entre todos, Yoshi-chan. Mas já sabe disso. Ela perceberia o significado no mesmo instante... se é que tem algum significado especial.
Mais uma vez, a expressão dos olhos que Yoshi não pôde entender.
— E se eu lhe desse o poema de presente?
— Esta indigna pessoa transbordaria de alegria por receber tamanho tesouro... mas ficaria numa situação difícil, Yoshi-chan.
— Como assim?
— É muito especial, para dar ou receber.
Yoshi desviou os olhos da mulher e contemplou sua obra, com toda atenção. Era tudo o que ele desejara, nunca poderia duplicá-la. Depois, considerou Koiko, com a mesma determinação. Observou seus dedos pegarem o papel e estenderem para ela, fechando a armadilha.
Reverente, Koiko recebeu o poema com as duas mãos, inclinando a cabeça. Tornou a examiná-lo, com o máximo de atenção, querendo gravar tudo na memória, de uma forma tão indelével quanto a tinta no papel. Um suspiro profundo. Com extremo cuidado, ela aproximou o canto do papel da chama do lampião.
— Com sua permissão, Yoshi-sama, por favor? — murmurou Koiko, formal, fitando-o nos olhos, a mão firme.
— Por quê? — indagou ele, atônito.
— É perigoso demais para você deixar tais pensamentos vivos.
— E se eu recusar?
— Neste caso, peço que me desculpe, mas terei de decidir por você.
— Pois então decida.
No mesmo instante, ela encostou o papel na chama. Pegou fogo. Com habilidade, Koiko foi virando-o, até que só restava um pequeno pedaço ainda adendo, a cinza inteira, equilibrada de modo precário. O fogo se extinguiu. Os Qedos de Koiko eram longos e delicados, as unhas a própria perfeição. No silêncio, dobraram o papel sobre o qual as cinzas foram depositadas, fazendo um ogami, dobrado sobre a mesa. O papel parecia agora com uma carpa.
Quando ela levantou o rosto, tinha os olhos cheios de lágrimas, e Yoshi sentiu uma profunda afeição.
— Peço que me perdoe, por favor — balbuciou ela, a voz trêmula. — Mas era perigoso demais para você... é triste destruir tanta beleza, eu queria muito guardar o poema. É triste, mas também seria perigoso demais...
Enternecido, Yoshi tornou a abraçá-la, sabendo que o ato de Koiko era a única solução para ele e também para ela, impressionado por tamanha percepção sobre sua intenção original: planejara de fato esconder o poema, mas deixar que fosse descoberto, e chegar ao conhecimento de todas as pessoas que ela indicara, em particular da princesa Yazu.
Koiko tem razão, posso perceber agora.Yazu discerniria minha trama e leria meus verdadeiros pensamentos: que sua influência sobre Nobusada deve acabar ou posso me considerar um homem morto. Não há outra maneira de interpretar “O poder de meu ancestral”... Por ela, minha cabeça já estaria espetada na ponta de um chuço!
— Não chore, minha criança — sussurrou ele, convencido agora de que podia confiar em Koiko.
E enquanto se permitia ser acariciada, depois excitada, passando por sua vez a excitá-lo, Koiko pensava com seu terceiro coração, seu coração mais secreto — o primeiro para que todo o mundo visse, o segundo aberto apenas à família mais íntima, o terceiro nunca revelado a ninguém —, e nesse lugar secreto deixou escapar um suspiro silencioso de alívio, por ter passado em outro teste, pois sem dúvida fora um teste.
Seria perigoso demais para ele manter viva tamanha traição, porém ainda mais perigoso para mim tê-la em meu poder. É isso mesmo, meu belo amo, é fácil adorá-lo, rir e me divertir em sua companhia, simular êxtase quando me penetra... e é divino recordar que, ao final de cada dia, ganhei um koku. Pense nisso, Koiko-chan! Um koku por dia, todos os dias, por participar do jogo mais emocionante do mundo, com o nome mais elevado do mundo, um homem belo e espantoso, de grande cultura, cujo talo é o melhor que já experimentei... e, ao mesmo tempo, ganhar com isso uma riqueza maior do que em qualquer outra ocasião anterior.
As mãos, lábios e corpo de Koiko reagiam de um modo adequado, fechando, abrindo, abrindo ainda mais, recebendo-o, orientando-o, ajudando-o, um instrumento de absoluta sintonia que ele podia tocar à vontade, enquanto ela simulava um êxtase total, fingia mergulhar e se abandonar, mas nunca se largando por completo — era muito importante conservar suas energias e controle, pois Yoshi era um homem de muitos apetites —, desfrutando a competição, nunca se apressando, mas sempre avançando, ora cambaleando à beira do abismo, deixando-o despencar, só para puxá-lo de volta, permitindo a arremetida final, numa explosão de alívio.
Quieto agora. Seu peso dormindo não chegava a ser tão desagradável, suportado com estoicismo, com o maior cuidado para não se mexer, a fim de não perturbar sua paz. Satisfeita com sua arte, como sabia que Yoshi ficara com a dele. E o último pensamento de Koiko, o mais secreto, exultante, antes de resvalar para o sono, foi: Eu me pergunto como Katsumata, Hiraga e seus amigos shishi vão interpretar “Espada de meus antepassados...”
QUIOTO, Segunda-feira, 29 de setembro:
Alguns quilômetros ao sul de Quioto, ao crepúsculo, ocorria um violento combate de retaguarda, entre as tropas de Satsuma em fuga e as forças de Choshu, de lorde Ogama, que pouco antes haviam capturado os portões do palácio. O mestre espadachim de Satsuma, Katsumata, um líder secreto dos shishi, apoiado por uma centena de samurais montados, comandava a batalha, para proteger a fuga de lorde Sanjiro e o grosso das forças de Satsuma, que se encontravam a uns poucos quilômetros de distância, para o sul. Lutavam em grande inferioridade numérica. O local era campo aberto, o vento estava impregnado pelo mau cheiro de esterco humano das plantações e havia no céu um acúmulo ameaçador de nuvens escuras.
Mais uma vez, Katsumata liderou uma carga furiosa, que rompeu as fileiras de vanguarda do inimigo, na direção do estandarte do daimio de Choshu, Ogama, também montado. Mas os samurais de Satsuma foram rechaçados, com grandes baixas, e reforços correram para proteger seu líder.
— Todas as tropas devem avançar! — gritou Ogama.
Ele tinha vinte e oito anos, um homem corpulento e irado, usando uma armadura leve de bambu e metal, com capacete de guerra, a espada desembainhada e ensangüentada.
— Contornem esses cães! Sigam em frente! Quero a cabeça de Sanjiro! No mesmo instante, ajudantes partiram em disparada pará transmitir suas ordens a todos os comandantes.
A cinco ou seis quilômetros dali, lorde Sanjiro e os remanescentes de suas forças seguiam apressados para a costa e Osaca, a trinta e tantos quilômetros de distância, a caminho das embarcações que os levariam para seu território, a ilha meridional de Kyushu, e para a segurança de sua capital, Kagoshima, seiscentos quilômetros para oeste.
No total, havia cerca de oitocentos guerreiros, bem equipados, samurais fanáticos, ansiosos em voltar para a luta, ainda amargurados pela derrota, pela expulsão de Quioto, uma semana antes. Ogama desfechara um inesperado ataque noturno, cercando seu acampamento e incendiando os prédios, repudiando os acordos solenes que haviam celebrado.
Com grandes baixas, os Satsumas lutaram para sair da cidade, até a aldeia de Fushimi, onde Sanjiro reagrupara suas forças, frenético, sempre atacados por destacamentos Choshus.
— Estamos acuados!
Um dos seus comandantes dissera:
— Lorde, proponho um contra-ataque imediato, na direção de Quioto. Ao que Katsumata respondera, enfático:
— Seria perigoso demais, pois são muitas as tropas contra nós, e poderão nos esmagar. Sire, alienaria assim todos os daimios, e deixaria a corte ainda mais assustada. Proponho que ofereça uma trégua a Ogama... se ele permitir uma retirada ordenada.
— Sob que alegação?
— Como parte da trégua, aceita que suas forças serão guardiães dos portões... as forças dele, não as de Tosa, e isso vai semear ainda mais divergência entre eles.
— Não posso aceitar isso — protestara Sanjiro, tremendo de raiva por ter sido enganado por Ogama. — E mesmo que eu concordasse, ele rejeitaria a proposta. Por que deveria aceitar? Nós é que estamos em desvantagem. Pode urinar em cima de todos nós. Se eu estivesse em seu lugar, trataria de nos atacar aqui, antes do meio-dia.
— É o que ele fará, lorde... a menos que o impeçamos. Podemos conseguir isso por uma artimanha, já que ele não é um guerreiro tão capaz quanto meu lorde... e suas tropas não têm o mesmo denodo, não são tão bem treinadas. Ele só conseguiu nos derrotar porque atacou à noite, numa sórdida traição. Lembre-se de que a aliança de Ogama com Tosa é precária. Ele precisa consolidar a posse dos portões e suas tropas são insuficientes para enfrentar todos os problemas durante as próximas semanas. Tem de se organizar e providenciar reforços, sem provocar qualquer oposição. E muito em breve o Bakufu deve retornar com todas as suas forças, para retomar os portões, como é seu direito.
Pelo édito de Toranaga, todos os daimios em visita a Quioto só podiam levar quinhentos guardas, todos os quais tinham de se manter sob severas restrições, dentro dos acampamentos de seus feudos, construídos sem defesas. O mesmo édito permitira que as forças do xogunato fossem mais numerosas do que todas as outras juntas. Ao longo de séculos de paz, o Bakufu deixara que tais leis definhassem. Em anos recentes, os daimios de Tosa, Choshu e Satsuma — dependendo da força pessoal — haviam ludibriado a burocracia para aumentar seus efetivos, até serem obrigados a enviar os guerreiros em excesso de volta para suas terras.
— Ogama não é um tolo, nunca me deixará escapar — dissera Sanjiro. — Eu espetaria sua cabeça na ponta de um chuço, se conseguisse acuá-lo.
— Ele não é um tolo, mas pode ser manipulado. — Katsumata baixara a voz para acrescentar: — Além da promessa sobre os portões, também poderia concordar que, se ou quando houver uma convenção de daimios, apoiaria suas reivindicações a ser chefe do Conselho de Anciãos.
— Nunca! — explodira Sanjiro. — Ele não pode deixar de saber que eu jamais concordaria com isso. Por que acreditaria em tamanho absurdo?
— Porque ele é Ogama. Porque fortificou seu estreito de Shimonoseki com dezenas de canhões de sua fábrica de armas não tão secreta, construída pelos holandeses, e por isso acredita, com toda razão, que pode impedir a passagem dos navios dos gai-jin, a seu capricho, e mesmo assim continuar a salvo de um ataque deles. Porque pensa que é o único que pode pôr em prática o desejo do imperador de expulsar os gai-jin, que somente ele pode restaurar o aparato de poder do imperador... por que ele não deveria reivindicar o maior de todos os prêmios, ser o tairo, ditador?
— A Terra terá um banho de sangue antes que isso aconteça.
— O último motivo pelo qual ele poderia aceitar uma trégua, Sire, é o fato de que nunca antes controlou os portões... não passa de um arrivista, um usurpador, e sua linhagem é vulgar — acrescentara Katsumata, com imenso desdém —, não tão antiga e elevada quanto a sua. Uma razão adicional: ele aceitará a trégua porque será oferecida como permanente.
Em meio aos protestos atônitos e furiosos, Sanjiro fitara seu conselheiro com o maior espanto, surpreso pela extensão das concessões que Katsumata propunha. Sem compreender, mas conhecendo Katsumata muito bem, ele tratara de dispensar os outros.
— O que há por trás de tudo isso? — indagara, impaciente, assim que ficaram a sós. — Ogama não pode deixar de saber que qualquer trégua só valerá até eu me encontrar seguro por trás de minhas montanhas, onde mobilizarei todos os homens de Satsuma, e depois marcharei para Quioto, a fim de recuperar meus direitos, vingar os insultos e cortar sua cabeça. Por que tamanho absurdo de sua parte?
— Porque corre um perigo mortal, Sire, como nunca antes. Está acuado. Há espiões entre nós. Preciso de tempo para organizar os barcos em Osaca e formular um plano de batalha.
Sanjiro acabara concordando:
— Muito bem, pode negociar.
As negociações haviam se prolongado por seis dias.
Durante esse tempo, Sanjiro permanecera placidamente em Fushimi, mas despachara espiões para todas as estradas de Quioto. Como medida de confiança mútua, Sanjiro consentira em se deslocar para uma posição menos defensável e Ogama retirara todas as suas forças do caminho de fuga, à exceção de um destacamento simbólico. Depois, ambos ficaram esperando que o outro cometesse um erro.
Com o poder supremo em Quioto, mesmo que precário, Ogama, apoiado por mais de mil samurais, parecia se contentar em reforçar seu domínio sobre os portões, cultivando os outros daimios, e em particular os cortesãos que se mostravam simpáticos à sua causa. Ogama os persuadira a abordar o imperador e pedir que “solicitasse” a imediata renúncia de Anjo e do Conselho de Anciãos, convocasse uma convenção de daimios, que teria o poder de designar um novo Conselho de Anciãos — no qual ele seria o tairo —, que governaria até o xógum Nobusada alcançar a maioridade, substituindo todos os partidários de Toranaga no Bakufu.
Para intensa satisfação de Ogama, os cortesãos lhe informaram que seus disparos de canhão contra os navios dos gai-jin haviam agradado bastante ao imperador. Isso e mais a trégua proposta por Sanjiro, com extraordinárias concessões, reforçavam ainda mais sua influência sobre a corte.
— A trégua é aceita — declarara ele a Katsumata, pomposo, no dia anterior. — Ratificaremos o acordo daqui a sete dias, em meu quartel-general. Depois, vocês podem se retirar para Kagoshima.
Mas, naquela manhã, chegara a notícia surpreendente da proposta da visita do xógum Nobusada. No mesmo instante, Sanjiro mandara chamar Katsumata.
— O que deu em Anjo e Yoshi para concordar? Enlouqueceram? Qualquer coisa que venha a acontecer, eles saem perdendo.
— Concordo, Sire, mas isso lhe deixa em uma posição ainda mais perigosa. Com Ogama controlando os portões, e dessa forma o acesso ao imperador, qualquer inimigo seu é também um inimigo do imperador.
— Óbvio! O que posso fazer? O que você sugere?
— Envie imediatamente uma carta a Ogama, sugerindo uma reunião dentro de três dias, para discutir os desdobramentos da visita... ele deve estar tão espantado quanto todos os outros daimios. Enquanto isso, esta noite, depois do escurecer, executamos o plano de batalha.
— Não podemos escapar sem Ogama saber. Há espiões por toda a parte, e suas tropas podem nos alcançar com facilidade. No momento em que souber que levantamos acampamento, ele nos atacará.
— Tem toda razão, só que deixaremos o acampamento exatamente como está, levando apenas nossas armas. Eu o conheço bem, e tenho certeza de que poderemos enganá-lo.
Furioso, Sanjiro indagara:
— Se é assim, por que não previu seu ataque de surpresa?
Mas eu previ, Katsumata poderia dizer, só que me era mais conveniente que Ogama ficasse com o controle temporário dos portões. Não escapamos de sua armadilha sem maiores dificuldades? Ogama nunca será capaz de lidar com a corte, os daimios hostis, Tosa, a visita do xógum Nobusada, ou a princesa Yazu. Se Nobusada não chegar a Quioto, Ogama será responsabilizado por sua morte.
— Sinto muito, Sire — murmurara ele, simulando humildade. — Estou descobrindo por que seus espiões falharam, e posso garantir que cabeças vão rolar.
— Cuide disso.
Pouco depois do escurecer, Katsumata enviara homens especialmente treinados para dizimar os Choshus que os espionavam, e que morreram sem desconfiar de nada. Depois, seguindo o plano de batalha de Katsumata, que só abria exceção para o próprio e uma centena de guerreiros a cavalo, Sanjiro e o regimento partiram para o sul. A cada três ri, cem homens ficariam esperando por Katsumata, recuando junto com ele. Confiante, Katsumata montara uma emboscada na estrada de Quioto. Tinha certeza de que se pudessem sobreviver até o amanhecer, atraindo os homens de Choshu para uma batalha em movimento, era bem provável que a maioria suspendesse o combate, retornando a Quioto, a fim de reforçar a posição ali, deixando apenas uma força simbólica na perseguição. Havia muitos rumores de que as alianças de Ogama já começavam a desmoronar, a dissidência aumentando com as mentiras espalhadas pelos aliados secretos de Katsumata.
Mas ele se surpreendera ao descobrir Ogama no comando da perseguição, e ainda mais com a rapidez com que foram alcançados. Karma.
— Atacar! — berrou Katsumata.
Ele tornou a virar seu cavalo, interrompendo a fuga simulada. No mesmo instante, sua cavalaria, aparentemente dispersa, reagrupou-se em falanges furiosas, investindo contra os oponentes, que recuaram em desordem, o ar frio e úmido, impregnado pelo cheiro de suor, medo e sangue, ardendo em suas narinas. Homens morriam à esquerda e à direita, de ambos os lados, mas Katsumata foi avançando, pouco a pouco, até que o caminho para Ogama se tornou quase desimpedido. Uma vez mais, no entanto, ele foi rechaçado e tratou de fugir — agora uma fuga para valer —, sendo seguido pelos que continuavam vivos. Dos cem homens com os quais iniciara o combate, restavam apenas vinte.
— Chamem nossas reservas! — gritou Ogama. — Quinhentos koku pela cabeça de Katsumata, mil pela cabeça de lorde Sanjiro.
— Sire!
Um dos seus comandantes mais experientes apontou para cima. Sem que ninguém percebesse, no alvoroço da batalha, as nuvens de tempestade haviam ocupado a maior parte do céu e começavam a cobrir a lua.
— Sinto muito, mas a estrada de volta a Quioto é difícil, e não sabemos se àqueles cães astutos nos armaram outra emboscada.
Ogama pensou por um momento.
— Cancele a ordem de combate para a reserva! Pegue cinqüenta guerreiros a cavalo e os pressione até a morte. Se me trouxer qualquer das duas cabeças, eu o promoverei a general, com dez mil koku. Vamos suspender a batalha.
No mesmo instante, os comandantes se afastaram apressados, gritando ordens. Sombrio, Ogama esquadrinhou a escuridão cada vez mais intensa por onde Katsumata e seus homens haviam desaparecido.
— Por meus ancestrais — murmurou ele —, quando eu me tornar tairo Satsuma será um protetorado de Choshu, os tratados serão cancelados, e nenhum navio gai-jin jamais passará por meu estreito!
Depois, ele virou seu cavalo e partiu, acompanhado por seus guardas pessoais a caminho de Quioto. E ao encontro de seu destino.
Nessa mesma noite, na legação francesa em Iocoama, a festa e o recital promovidos por Seratard, em homenagem a Angelique, foram um grande sucesso. O cozinheiro se superara: pão fresco, travessas com ostras temperadas, lagosta fria camarões pequenos e grandes, peixe cozido, temperado com gengibre e alho, e servido com alho-poró de sua própria terra, além de tarte au pomme, as maçãs secas vindas da França, que só eram usadas em ocasiões especiais. Champanhe, La Doucette, e um Margaux de sua aldeia natal, do qual ele muito se orgulhava. Depois do jantar e charutos, aplausos estrondosos anunciaram a apresentação de André Poncin, um pianista refinado, embora relutante, mais aplausos depois de cada peça, e agora, quase meia-noite, após três bis, houve uma ovação de pé, enquanto definhavam os últimos acordes maravilhosos de uma sonata de Beethoven.
— Magnífico...
— Extraordinário...
— Oh, André! — balbuciou Angelique, em francês, de seu lugar de honra, perto do piano, a mente libertada pela música da angústia em espreita permanente. — Foi lindo! Muito obrigada!
Seu leque adejou de uma forma encantadora, os olhos e o rosto uma perfeição, uma crinolina sobre as anáguas, decote profundo, ombros à mostra, a seda verde delicada caindo em cascatas, formando camadas, acentuando ainda mais a cintura estreita.
— Merci, mademoiselle. — Poncin levantou-se, ergueu seu copo, com uma expressão velada nos olhos. À toi!
— Merci, monsieur.
Em seguida, mais uma vez, ela virou-se para Seratard, cercada por Norbert Greyforth, Jamie McFay, Dmitri e os outros mercadores, todos vestidos a rigor. camisas de seda com rufos, coletes vistosos e gravatas — alguns trajes novos, mas quase todos velhos, amarrotados, passados às pressas, porque Angelique estaria presente. Havia também alguns oficiais franceses, do exército e marinha, uniformes com alamares, a espada de gala aumentando o esplendor a que não estavam acostumados, além de militares britânicos, igualmente adornados como pavões.
Duas das três outras mulheres da colônia se encontravam ali, na sala iluminada por velas e lampiões a óleo, Mabel Swann e Victoria Lunkchurch. Ambas corpulentas, com vinte e poucos anos, sem filhos, esposas de mercadores, ambas transbordando de ciúme, os maridos detidos a seu lado, encharcados de suor.
— Já chega, Sr. Swann — disse Mabel, com uma fungadela desdenhosa. — Vamos para a cama, com uma boa xícara de chá inglês.
— Se está cansada, minha cara, você e Vic...
— Nós dois vamos embora! E agora!
— Você também, Barnaby — disse Victoria Lunkchurch, o sotaque de Yorkshire tão grande quanto os quadris. — E trate de tirar esses pensamentos sujos da cabeça, antes que eu dê um jeito em você!
— Quem, eu? Que pensamentos?
— Esses pensamentos com aquela Sirigaita francesa, que Deus a perdoe! — acrescentou Victoria, com mais veneno ainda. — Vamos embora!
Ninguém sentiu falta deles, nem percebeu que haviam se retirado. Todos se concentravam na convidada de honra, tentando chegar mais perto; ou se já se encontravam no círculo, tentando impedir que outros os afastassem.
— Uma esplêndida noite, Henri — disse Angelique.
— Só por sua causa. Ao nos honrar com sua presença, faz com que tudo pareça melhor.
Seratard murmurava esses chavões galantes enquanto pensava: É uma pena que você ainda não seja casada, portanto madura para uma ligação com um homem refinado. A pobre moça tem de suportar um escocês imaturo e bovino, embora rico. Eu bem que gostaria de ser o seu primeiro amante de verdade... seria uma alegria lhe ensinar as coisas.
— Você sorri, Henri? — murmurou ela, subitamente consciente de que seria melhor tomar cuidado com aquele homem.
— Pensava apenas em como seu futuro será perfeito e isso me deixou feliz.
— Ah, quanta gentileza!
— Acho que...
— Miss Angelique, se me permite a ousadia, vamos ter uma corrida no sábado — interveio Norbert Greyforth, furioso por Seratard monopolizar a moça, irritado pela grosseria do homem em falar francês, uma língua que não entendia, detestando-o e a tudo que era francês, à exceção de Angelique. — Será uma corrida nova... ahn... em sua homenagem. Decidimos chamá-la de Copa Angel, não é mesmo, Jamie?
— É, sim — confirmou Jamie McFay, os dois diretores do Jóquei Clube, ambos sob o encantamento de Angelique.— Resolvemos que será a última corrida do dia, e a Struan vai oferecer o prêmio em dinheiro, de vinte guinéus. Poderia entregar o prêmio, Miss Angelique?
— Claro que sim. Será um prazer, se o Sr. Struan aprovar.
— Ficaremos esperando.
McFay já pedira a permissão de Struan, mas ele e todos os homens ao redor especularam sobre as implicações do comentário, embora todas as apostas contra um noivado estivessem suspensas. Mesmo em particular, Struan não lhe dera a menor indicação, apesar de McFay se sentir na obrigação de relatar os rumores.
— Isso não é da conta de ninguém, Jamie. Absolutamente ninguém.
Ele concordara, mas sua inquietação aumentara. O comandante de um navio mercante que entrara no porto, um velho amigo, lhe entregara uma carta da mãe de Malcolm, pedindo um relatório confidencial: Desejo saber tudo o que tem acontecido desde que essa mulher Richaud chegou a Iocoama, Jamie. Tudo mesmo, rumores, fatos, intrigas, e não preciso ressaltar que isso deve permanecer como um segredo absoluto entre nós.
Mas que droga!, pensou Jamie. Estou comprometido por um juramento sagrado a servir ao tai-pan, quem quer que ele seja, e agora sua mãe me pede mas, por outro lado, uma mãe tem direitos, não é mesmo? Não necessariamente, mas a Sra. Struan tem, porque é a Sra. Struan, e ainda por cima você já se acostumou a fazer o que ela manda. Não vem se submetendo há anos às suas ordens, pedidos e sugestões?
Pelo amor de Deus, Jamie, pare de tentar enganar a si mesmo; no fundo, não é ela quem vem controlando Culum e dirigindo a Struan há anos, e nem você, nem qualquer outro, jamais quiseram encarar o fato abertamente?
— Isso é mais do que certo — murmurou ele.
Sentia-se chocado pelo pensamento, que sempre receara escancarar. Subitamente contrafeito, ele se apressou em cobrir o lapso, mas todos ainda se concentravam em Angelique.
A exceção de Norbert.
— O que é certo, Jamie? — indagou ele, sob o burburinho da conversa, com um sorriso indecifrável.
— Tudo, Norbert. Grande noite, hem?
Para seu grande alívio, Angelique atraiu a atenção de ambos.
— Boa noite, boa noite, Henri, senhores — disse ela, sob protestos gerais. — Sinto muito, mas preciso ver meu paciente, antes de me recolher.
Ela estendeu a mão. Com uma elegância experiente, Seratard beijou-a, Norbert, Jamie e os outros fizeram a mesma coisa, embora desajeitados. Antes que qualquer outro pudesse se oferecer como voluntário, André Poncin disse:
— Talvez eu possa escoltá-la até sua casa?
— Claro. Por que não? Sua música me deixou extasiada.
A noite estava um pouco fria e nublada, mas ainda assim bastante agradável, o xale de lã ornamentando os ombros de Angelique, o babado na bainha da saia-balão se arrastando na poeira da calçada de madeira... tão necessária durante as chuvas de verão, que transformava todos os caminhos em atoleiros. Apenas uma pequena parte da mente de Angelique focalizava o momento.
— André, sua música é maravilhosa, e não pode imaginar como eu gostaria de tocar assim — comentou ela, com sinceridade.
— É apenas uma questão de prática, mais nada.
Seguiram para o prédio Struan, todo iluminado, falando em francês, descontraídos, André consciente dos olhares invejosos dos homens a caminho do clube — efusivo, apinhado e convidativo —, atraído por ela, não com desejo ou paixão. Apenas por sua companhia, por seus comentários tão felizes que mal exigiam uma resposta.
Na noite anterior, no jantar “francês” de Seratard, numa sala particular do hotel Iocoama, ele sentara ao lado de Angelique e achara sua juventude e aparente frivolidade revigorantes, e seu amor e conhecimento de Paris, os restaurantes, teatros, as conversas de seus jovens amigos, os risos e relatos de passeios pelo Bois e toda a emoção do segundo império haviam-no deixado com a maior nostalgia, lembrando os dias da universidade e o quanto também sentia saudade de sua terra.
Anos demais na Ásia, na China e aqui.
É curioso que esta moça seja tão parecida com minha própria filha. Marie tem a mesma idade, as duas fazem aniversário no mesmo mês, julho, os mesmos olhos, a mesma cor...
Ele se corrigiu: Talvez como Marie. Quantos anos já se passaram desde que rompi com Françoise, deixei as duas na pensão da família, perto da Sorbonne, e parti? Dezessete anos. Quanto tempo desde que as vi pela última vez? Dez anos. Merde, eu nunca deveria ter casado, Françoise grávida ou não. O tolo fui eu, não Françoise, pelo menos ela casou de novo, e agora dirige a pensão. E Marie?
O som das ondas desviou sua vista para o mar. Uma gaivota planava lá no alto. Não muito longe da praia, avistou as luzes da nave capitânia francesa ancorada, e isso rompeu seu encantamento, fazendo com que tornasse a se concentrar.
Era irônico, aquela moça agora se tornava um peão no grande jogo, França contra Inglaterra. Podia ser irônico, mas era a vida. Deixo para amanhã, para depois de amanhã, ou jogo logo as cartas como combinamos, Henri e eu?
— Ah, André — dizia Angelique —, eu me sinto muito feliz esta noite. Sua música me deixou enlevada, levou-me de volta à Opera, de tal forma que posso até sentir o perfume de Paris...
Contra a vontade, ele se sentia fascinado. Por ela ou porque me faz pensar no que Marie poderia ter sido? Não sei e também não importa. Esta noite, Angelique, eu a deixarei em seu balão de felicidade. Haverá tempo suficiente amanhã.
Depois, as narinas de André aspiraram uma insinuação do perfume que ela usava, Vie de Camille, fazendo-o recordar o frasco que mandara vir de Paris, com tanta dificuldade, para sua musume, Hana — a Flor —, e uma raiva repentina acabou com o impulso para a gentileza.
Não havia ninguém bastante perto para ouvir, a High Street se encontrava quase vazia. Mesmo assim, ele falou baixo:
— Lamento ter de lhe contar, mas tenho algumas notícias confidenciais que precisa saber. Não há uma maneira fácil de explicar e, por isso, serei brusco: seu pai visitou Macau há algumas semanas, jogou pesado e perdeu.
Poncin percebeu a palidez súbita. Sentiu um aperto no coração, mas continuou assim mesmo, como planejara com Seratard.
— Sinto muito.
— Jogou pesado, André? O que isso significa?
As palavras saíram quase inaudíveis e ele viu-a de olhos arregalados.
— Ele perdeu tudo, seus negócios, os recursos que você tinha deixado com ele.
Angelique soltou uma exclamação atordoada.
— Tudo? Meus recursos também? Mas ele não podia fazer isso!
— Sinto muito, ele podia, e fez. Está dentro da lei, você é sua filha, solteira além de menor, ele é seu pai, com jurisdição sobre você e tudo o que possui. Mas é claro que você já sabe de tudo isso. Sinto muito. Tem mais algum dinheiro?
Antes mesmo de perguntar, Poncin já sabia que ela não tinha mais nada.
— Sente muito?
Angelique estremeceu, fez um esforço para manter a lucidez, sabendo agora que o segundo de seus grandes terrores se tornara uma realidade, o conhecimento comum rompendo o casulo que formara com tanto cuidado.
— Como soube de tudo isso? — balbuciou ela, com alguma dificuldade para respirar. — Aqueles recursos eram só meus... ele prometeu.
— Seu pai mudou de idéia. E Hong Kong é uma aldeia... não há segredos em Hong Kong, Angelique, e aqui também não. Chegou hoje uma mensagem de Hong Kong, enviada por um associado. Ele descreveu os detalhes... visitava Macau na ocasião e testemunhou o desastre.
Poncin manteve a voz cordial e preocupada, assumindo a atitude de um bom amigo, mas revelando apenas a metade da verdade.
— Ele e eu, nós, nós temos algumas promissórias de seu pai, empréstimos do ano passado, que ainda não foram pagos.
Outro medo abalou Angelique.
— Meu pai... não paga suas contas?
— Infelizmente, não.
Angustiada, ela pensou na carta da tia e teve certeza, agora, de que o empréstimo do tio também não fora pago, e que ele fora para a cadeia porque... talvez por minha causa, ela quis gritar, tentando manter o controle, desejando que tudo não passasse de um sonho. Oh, Deus, o que vou fazer?
— Quero que saiba que se precisar de minha ajuda, basta dizer.
Abruptamente, a voz de Angelique se tornou estridente.
— Ajuda? Você destruiu minha paz... se é mesmo verdade o que diz. Ajudar-me? Por que me disse isso logo agora, quando eu me sentia tão feliz?
— É melhor saber logo, e é melhor que seja eu a lhe contar, em vez de um inimigo.
O rosto de Angelique se contraiu.
— Inimigo? Que inimigo? Por que eu haveria de ter inimigos? Nunca fiz nada a ninguém, absolutamente nada...
As lágrimas começaram a se derramar. Apesar de sua determinação, ele abraçou-a por um momento, compadecido, depois pôs as mãos em seus ombros, sacudiu-a de leve.
— Pare com isso! — disse ele, permitindo que a voz se tornasse um pouco brava. — Por Deus, pare com isso! Será que não entende que estou tentando ajudá-la?
Alguns aproximavam-se pelo outro lado da rua, mas Poncin percebeu que tinham os passos trôpegos e se concentravam apenas em si mesmos. Não havia mais ninguém por perto, apenas homens se encaminhando para o clube, mais atrás, e os dois se encontravam protegidos pela sombra do prédio. Ele tornou a sacudi-la e Angelique protestou:
— Está me machucando!
Mas as lágrimas cessaram e ela recuperou o controle. André Poncin pensou, friamente, que aquele mesmo processo já fora repetido uma centena de vezes antes, com graus variados de verdade distorcida e violência, com outros inocentes que ele precisara usar em proveito da França, os homens mais fáceis de manipular do que as mulheres. Aos homens, bastava chutá-los nos colhões, ameaçar cortá-los, enfiar agulhas... E as mulheres? Era bastante desagradável tratar as mulheres dessa maneira.
— Está cercada por inimigos, Angelique. Há muitos que não querem que você case com Struan. A mãe dele lutará por todos os meios que...
— Eu nunca disse que íamos casar... não passa de um rumor, apenas um rumor, mais nada!
— Merde! Claro que é verdade! Ele a pediu em casamento, não é? — Poncin tornou a sacudi-la, os dedos rudes. — Não pediu?
— Está me machucando, André. É verdade, pediu, sim.
Ele entregou-lhe o lenço, deliberadamente mais gentil.
— Enxugue os olhos. Não resta muito tempo.
Submissa, Angelique obedeceu, recomeçou a chorar, mas logo se controlou.
— Por que você se comporta de uma maneira tão horrível?
— Sou o único amigo de verdade que tem aqui... estou realmente do seu lado, pronto para ajudá-la, o único amigo em quem pode confiar... o seu único amigo sincero, juro, o único que pode ajudá-la.
Normalmente, ele teria dito, com todo fervor, juro por Deus, mas calculou que já a dominara, e reservaria isso para mais tarde.
— É melhor você saber da verdade secretamente. Assim, terá tempo para se preparar. A notícia só vai chegar ao conhecimento de todos aqui dentro de uma semana, o que lhe proporciona o tempo necessário para tornar seu noivado solene e oficial.
— Como?
— Struan não é um cavalheiro? — Poncin teve de fazer um esforço para encobrir o desdém. — Um inglês... isto é, um escocês, um cavalheiro britânico. Eles não se orgulham de sua palavra? Hem? Depois que a promessa se tornar pública, ele não poderá retirá-la, quer você seja ou não uma indigente, independente do que seu pai possa ter feito, independente do que a mãe dele diga.
Eu sei, eu sei, Angelique teve vontade de gritar. Mas sou uma mulher, e tenho de esperar, fiquei esperando, e agora é tarde demais. Bendita Maria, ajude-me!
— Eu não... não acredito que Malcolm me culpe pelo que meu pai fez, nem que dê ouvidos à mãe.
— Infelizmente, Angelique, ele terá de fazê-lo. Está esquecendo que Malcolm Struan ainda é menor de idade, embora seja o tai-pan. Só vai completar vinte e um anos em maio do ano que vem. Até lá, a mãe pode lhe impor todos os tipos de restrições legais, até mesmo um noivado de um ano, de acordo com a lei inglesa.
Poncin não tinha certeza absoluta disso, mas parecia razoável, e era verdadeiro pela lei francesa.
— Ela pode impor restrições a você também, talvez mesmo levá-la aos tribunais — acrescentou ele, com tristeza. — A Struan é uma companhia poderosa na Ásia, que é quase o seu domínio. Ela pode arrastá-la a um tribunal, você sabe o que dizem a respeito dos juizes, todos os juizes, não é mesmo? Pode acusá-la de ser uma coquete, uma impostora, de estar querendo apenas o dinheiro de seu filho ou até pior. Pode descrevê-la de uma maneira terrível para o juiz, você no banco dos réus, indefesa, seu pai um jogador, na bancarrota, um homem que nunca desfrutou de qualquer prosperidade, seu tio na prisão dos devedores, e você sem dinheiro, uma aventureira.
Ela empalideceu.
— Como sabe de tio Michel? Quem é você?
— Não há nenhum segredo, Angelique. Quantos cidadãos franceses existem na Ásia? Não são muitos, não há ninguém como você, e as pessoas adoram futricar. Eu sou apenas André Poncin, mercador na China, mercador no Japão. Nada tem a temer de mim. Não quero nada além de sua amizade e confiança. E quero ajudá-la.
— Como? Estou além de qualquer possibilidade de ajuda.
— Não está, não — murmurou ele, observando-a com toda atenção. — Você o ama, não é mesmo? E seria a melhor esposa que um homem poderia ter, se tivesse a oportunidade, não é mesmo?
— Claro que sim...
— Neste caso, trate de pressioná-lo, suplique, persuada, por todos os meios que puder, para fazer com que o noivado se torne público. Talvez eu possa orientá-la.
Agora, finalmente, ele percebeu que Angelique o escutava para valer, que o compreendia; e foi com extrema gentileza que desfechou o golpe de misericórdia:
— Uma mulher inteligente... e você é inteligente, além de bonita... trataria de casar depressa. Bem depressa.
Struan estava lendo, o lampião a óleo na mesa ao lado da cama proporcionando claridade suficiente, a porta para o quarto de Angelique entreaberta. Sua cama era confortável, e ele se absorvera na história, o camisolão de seda realçando a cor de seus olhos, o rosto ainda pálido e encovado, sem nada da força anterior. Na mesa, havia também uma poção para dormir, cachimbo, tabaco e fósforos, um jarro com água temperada com um pouco de uísque.
— É ótimo para você, Malcolm — garantira Babcott. — É o melhor medicamento que poderia ter na hora de dormir, só que a dose deve ser bem fraca. Melhor do que a tintura.
— Sem isso, passo a noite inteira acordado, e me sinto horrível.
— Já se passaram dezessete dias desde o acidente, Malcolm, e é hora de parar.
Nunca é bom depender de um medicamento para dormir. É melhor parar de vez.
— Tentei uma vez antes, e não deu certo. Pararei dentro de um ou dois dias... As cortinas haviam sido fechadas para a noite, o quarto era aconchegante, o tique-taque do ornamentado relógio suíço era tranquilizador. Era quase uma hora da madrugada, e o livro, Os Assassinatos na Rua Morgue, fora-lhe emprestado naquela manhã por Dmitri, que comentara:
— Acho que você vai gostar, Malc. É o que chamam de história de detetive... e Edgar Allan Poe é um dos nossos melhores escritores. É uma pena que ele tenha morrido em quarenta e nove, o ano seguinte à corrida do ouro. Tenho uma coleção de seus contos e poemas, se você gostar deste livro.
— Obrigado, Dmitri. É muita gentileza sua. Não pode imaginar como me sinto grato por me visitar com tanta freqüência. Mas por que parece tão sombrio hoje?
— As notícias que recebi de casa não são nada boas. Minha família... a situação é terrível, Malc, tudo misturado e confuso, primos, irmãos, tios lutando por lados diferentes. Mas você não está interessado nessas coisas. Tenho uma porção de outros livros, uma biblioteca inteira, para ser mais preciso.
— Continue a falar de sua família, por favor — pedira ele, começando a sentir a dor que experimentava durante o dia. — Eu gostaria de ouvir.
— Está bem. Quando meu avô e sua família emigraram da Rússia, da Criméia, para ser exato... já contei que nossa família era de cossacos?... foram se instalar num lugar chamado Far Hills, em Nova Jersey, e ali cultivaram a terra até a guerra de 1.812... meu avô morreu nela. É também um ótimo lugar para se criar cavalos, e a família prosperou. Quase todo mundo permaneceu em Nova Jersey, mas dois filhos de meu avô se mudaram para o sul, foram viver em Richmond, Virgínia. Quando estive no exército, há mais de quinze anos... Naquele tempo, era apenas o exército da União, não havia essa história de Norte e Sul. Entrei na Cavalaria e fiquei por cinco anos, passei a maior parte do tempo no sudoeste, lutando nas guerras índias, se é que se pode chamá-las assim. Passei parte do tempo no Texas, quando ainda era república, ajudando a combater os índios ali, e mais dois anos depois que o Texas ingressou na União, em quarenta e cinco, estacionado nos arredores de Austin. Foi lá que conheci minha esposa, Emilie... ela também era de Richmond, filha de um coronel da intendência. É um lugar lindo, a região em torno de Austin, mas Richmond é ainda mais bonito. Emilie... quer que eu vá lhe buscar alguma coisa?
— Não, obrigado, Dmitri. A dor já vai passar. Continue, por favor... ouvi-lo me ajuda bastante.
— Tudo bem. Minha Emilie... Emilie Clemm era o seu nome, prima distante da esposa de Poe, Virgínia Clemm, o que só descobri mais tarde, mas é por isso que tenho uma coleção de suas obras. — Dmitri rira. — Poe era um grande escritor mas um bêbado ainda maior. Parece que todos os escritores são vagabundos bêbados e/ou fornicadores... veja o caso de Melville... talvez seja isso que os torna escritores. Pois eu não consigo escrever uma carta sem suar frio. E você?
— Oh, posso escrever cartas... tenho de fazê-lo, e também mantenho um diário, como a maioria das pessoas. Mas estava me falando sobre o tal de Poe...
— Ia lhe contar que ele casou com Virgínia Clemm quando ela tinha treze anos... era também sua prima, imagine só!... e viveram felizes para sempre, mas não muito, se era verdade o que os jornais noticiavam e os futriqueiros diziam... Poe era um tremendo filho da puta em matéria de mulheres, mas ela parecia não se importar. Minha Emilie não tinha treze anos quando casamos, mas dezoito, e era uma beldade sulista, como jamais houve outra igual. Já éramos casados quando deixei o exército e entrei na Cooper-Tillman, em Richmond... eles queriam se expandir em armamentos e munição, exportando para a Ásia, um lugar sobre o qual eu aprendera muita coisa, além de matar índios e negociar cavalos. O velho Jeff Cooper achava que armas de fogo e outras mercadorias, despachadas de Norfolk, Virgínia, teriam uma boa aceitação, junto com o ópio, na costa da China, os navios voltando a Norfolk com prata e chá... mas conhece Jeff. A Cooper-Tillman e a Struan são velhas amigas, não é mesmo?
— E espero que assim permaneçam. Continue.
— Não aconteceu muito mais coisa... ou aconteceu tudo. Ao longo dos anos, outros da família foram para o sul e se espalharam. Minha mãe era do Alabama, tenho dois irmãos e uma irmã, todos mais moços do que eu. Billy está agora com o Norte, no primeiro regimento de cavalaria de Nova Jersey... e meu irmão caçula, Janny... recebeu o nome de meu avô, Janov Syborodin... Janny também está na cavalaria, só que no terceiro regimento da Virgínia. É tudo uma loucura... aqueles dois não sabem nada sobre guerra e combate e vão acabar se matando.
— Você... pretende voltar?
— Não sei, Malc. Durante o dia inteiro penso que sim, à noite também, mas de manhã é não, pois não quero começar a matar gente da família, o que terei de fazer em qualquer lado por que lutar.
— Por que saiu dos Estados Unidos e veio para esta terra esquecida de Deus?
— Emilie morreu. Teve escarlatina... houve uma epidemia e ela foi uma das desafortunadas. Isso aconteceu há nove anos... no momento em que íamos ter nosso filho.
— Mas que coisa terrível!
— Tem razão. Você e eu já tivemos a nossa quota...
Struan se encontrava tão concentrado no livro de mistério que não ouviu a porta externa da suíte ser aberta e fechada, suavemente. Também não escutou os passos leves de Angelique, nem percebeu que ela o espiou por um instante, para depois desaparecer. Um momento mais tarde, houve um estalido quase imperceptível, quando ela fechou a porta de ligação entre os dois quartos.
Ele levantou os olhos e prestou atenção. Angelique dissera que daria uma olhada para ver como ele estava, mas não o incomodaria se o encontrasse dormindo. Ou se estivesse cansada, iria direto para a cama, silenciosa como um camundongo, e só o veria pela manhã.
— Não se preocupe, querida — dissera ele, feliz. — Trate apenas de se divertir. Tornarei a vê-la no desjejum. Duma bem, e saiba que eu a amo.
— Também amo você, chéri. Duma bem.
O livro ficara em seu colo. Com esforço, Struan sentou na cama, estendeu as pernas pelo lado. Essa parte ainda era suportável. Mas não levantar-se, o que estava além de sua capacidade. O coração disparou, ele sentiu-se nauseado e recostou-se. Tenho de insistir, não importa o que Babcott diz, pensou ele, sombrio, esfregando a barriga. Amanhã tentarei de novo. Três vezes. Talvez seja melhor assim. Eu gostaria de ficar com ela. E é o que eu faria se pudesse, que Deus me livre.
Quando se sentiu melhor, ele retomou a leitura, só que agora a história não o absorveu tanto como antes, a atenção divagou, a mente se pôs a misturar o relato no livro com imagens de Angelique sendo assassinada, cadáveres por toda parte, ele correndo para protegê-la, tendo outros vislumbres, cada vez mais eróticos.
Ao final, ele largou o livro, marcando o lugar com uma folha de papel que Angelique lhe dera, de seu diário. Fico imaginando o que ela escreve ali, sendo tão diligente. Sobre eu e ela? Ela e eu?
Muito cansado agora. Estendeu a mão para baixar o pavio do lampião e se deteve no meio do gesto. O pequeno copo de vinho com o medicamento parecia chamá-lo. Seus dedos tremeram.
Babcott tem razão, não preciso mais.
Decidido, ele apagou o lampião, ajeitou-se, fechou os olhos, rezando por ela e por sua própria família, para que a mãe lhes desse a bênção, e depois por si mesmo. Ó, Deus, ajude-me a melhorar... tenho medo, muito medo.
Mas o sono não veio de imediato. Virar-se ou tentar encontrar uma posição mais confortável sempre doía, fazendo-o lembrar da Tokaidô e de Canterbury. Meio adormecido, meio acordado, a mente fervilhava com a história do livro, os detalhes macabros. Como acabaria? Todos os tipos de imagens aflorando. Algumas terríveis, outras belas, algumas vívidas, cada pequeno movimento em busca de conforto fazendo desabrochar as flores da dor.
O tempo passou, outra hora, talvez minutos, e depois ele tomou o elixir, relaxou, contente, sabendo que em breve estaria flutuando no sono, a mão de Angelique em seu corpo, sua própria mão a explorando, nos seios, por toda parte, ela também o acariciando, na maior felicidade, num contato que não se limitava às mãos.
Sexta-feira, 3 de outubro:
Logo depois do amanhecer, Angelique saiu da cama, sentou à penteadeira, diante das janelas da sacada que dava para a High Street e a enseada. Sentia-se muito cansada. Seu diário estava na gaveta trancada. A capa era de couro vermelho, opaco, e também tinha um cadeado. Ela pegou a pequena chave no esconderijo, abriu o diário, mergulhou a pena na tinta e começou a escrever, mais como se fosse de uma amiga para outra... e o diário parecia agora sua única amizade, a única coisa com que se sentia segura:
“Sexta-feira, dia 3: outra noite péssima, e me sinto horrível. Já se passaram quatro dias desde que André me deu a terrível notícia sobre o pai. A partir de então, tenho sido incapaz de escrever qualquer coisa, de fazer qualquer coisa, venho trancando as portas e ‘ficado de cama’, simulando uma febre, levantando-me apenas uma ou duas vezes por dia para visitar meu Malcolm, atenuar sua ansiedade. Fecho a porta a todo mundo, à exceção de minha criada, a quem odeio, e concordei em receber Jamie uma vez, e também André.
Pobre Malcolm, ficou fora de si de preocupação no primeiro dia em que não apareci, nem abri minha porta, e insistiu em ser carregado numa maca até meu boudoir, para me ver... mesmo que tivessem de arrombar a porta. Consegui evitar que isso acontecesse forçando-me a visitá-lo, dizendo que estava bem, apenas sentia uma dor de cabeça, que não precisava dos cuidados de Babcott, e ele não precisava se preocupar com minhas lágrimas. Em particular, disse-lhe que era apenas ‘aquela época do mês’, e às vezes o fluxo era muito intenso, e meus dias eram irregulares. Ele ficou embaraçado de maneira inacreditável por eu ter mencionado meu período! Inacreditável! Quase como se nada soubesse sobre essa função feminina. Às vezes não consigo entendê-lo nem um pouco, embora ele seja gentil e atencioso, como jamais conheci outro igual. Mais uma preocupação: a verdade é que o pobre coitado não parece muito melhor, e todos os dias sente tanta dor que tenho vontade de chorar.”
Bendita Mãe, dê-me forças!, pensou ela. E há outro problema. Tento não me preocupar, mas estou frenética. O dia se aproxima. Quando chegar, ficarei livre daquele terror, mas não da penúria.
Ela recomeçou a escrever.
“É muito difícil ter alguma privacidade no prédio da Struan, por mais confortável e agradável que seja. Além disso, a colônia é uma coisa pavorosa. Não há nenhuma cabeleireira, nenhuma costureira para mulheres (embora conte com os serviços de um alfaiate chinês que é muito hábil em copiar o que já existe), nenhuma chapeleira — ainda nem experimentei o sapateiro, pois não há nenhum lugar para ir, nada para se fazer —, ah, quanta saudade tenho de Paris. Mas como poderei voltar a viver lá agora? Malcolm aceitaria a mudança para Paris, se casarmos? Nunca. E se não casarmos... como poderei sequer pagar a passagem de volta para casa? Como? Já me fiz essa pergunta mil vezes, e não consegui encontrar uma resposta.”
O olhar de Angelique deixou o papel, desviou-se para a janela e os navios na enseada. Gostaria de estar em um deles, voltando para casa, gostaria de nunca ter vindo para cá. Odeio este lugar... E se... Se Malcolm não casar comigo, terei de casar com algum outro, mas não tenho dote, absolutamente nada. Oh, Deus, não era isso que eu esperava! Se conseguisse voltar para casa, ainda assim continuaria sem dinheiro, os pobres tio e tia arruinados. Colette não tem nenhum para emprestar, não conheço nenhuma pessoa bastante rica ou famosa para casar, ou para subir na sociedade, e me tornar uma concubina, numa posição de segurança. Poderia ir para o teatro, mas é essencial contar com um patrono para subornar gerentes e autores, pagar todas as roupas, jóias, carruagens, uma mansão para os saraus... é claro que se tem de ir para a cama com o patrono, ao capricho dele, não o seu, até se tornar bastante rica e famosa, o que leva tempo, e não disponho das ligações, nem de amigos que as tenham. Oh, Deus, estou tão confusa! Acho que vou chorar de novo...
Ela baixou o rosto para os braços, as lágrimas se derramando, tomando cuidado para não fazer muito barulho, pois a criada poderia ouvir, e começar a gemer, criando uma cena, como acontecera no primeiro dia. Sua camisola era de seda creme, um chambre verde claro cobria os ombros, os cabelos desgrenhados, o quarto masculino, a cama de baldaquino, esta suíte muito maior que a de Malcolm. Num lado, ficava a ante-sala, pela qual se tinha acesso ao quarto dele. Havia também uma sala de jantar, que podia acomodar vinte pessoas, com sua própria cozinha. Mas essas portas estavam trancadas. A penteadeira era a única frivolidade, ela mandara fazer uma cortina de cetim rosa.
Quando as lágrimas cessaram, Angelique enxugou os olhos, estudou em silêncio seu reflexo no espelho de prata. Não havia rugas, apenas insinuação de fieiras, o rosto um pouco mais fino do que antes. Nenhuma mudança exterior. Deixou escapar um suspiro profundo e voltou a escrever:
“Apenas chorar não ajuda em nada. Hoje DEVO conversar com Malcolm. De qualquer maneira. André me avisou que o navio de correspondência já está atrasado um dia, e a notícia da minha catástrofe chegará com ele, é inevitável... por que os ingleses chamam um navio de ela”? Sinto-me apavorada com a possibilidade de a mãe de Malcolm estar a bordo... as notícias sobre o ferimento do filho devem ter chegado a Hong Kong no dia 24, o que lhe daria tempo suficiente para embarcar no navio de correspondência. Jamie duvida que ela possa viajar num prazo tão curto, não com seus outros filhos lá, o marido morto há apenas três semanas, e ainda de luto fechado, pobre mulher.
Quando Jamie esteve aqui, a primeira vez em que realmente conversamos a sós, contou-me histórias sobre os outros Struans — Ema tem dezesseis anos, Rose, treze, e Duncan, dez — quase todas histórias tristes. No ano passado, dois outros irmãos, os gêmeos, Robb e Dunross, com sete anos de idade, morreram afogados num acidente de barco, ao largo de um lugar em Hong Kong chamado Shek-O, onde os Struans possuem terras e uma casa de veraneio. E anos atrás, quando Malcolm tinha sete anos, outra irmã, Mary, então com quatro anos, morreu da febre de Happy Valley. Pobre coitada! Chorei a noite inteira por ela e pelos gêmeos. Tão jovens!
Gosto de Jamie, mas ele é muito insípido, sem nada de civilizado — isto é, Jamie é gaúche, mais nada —, nunca esteve em Paris, só conhece a Escócia, os Struans e Hong Kong. Eu me pergunto se poderia insistir se... Ela riscou isso, e mudou para ‘quando casarmos...’ A pena hesitou. Malcolm e eu passaremos umas poucas semanas em Paris todos os anos... e as crianças serão criadas lá, como católicas, é claro.
André e eu conversamos sobre isso ontem, sobre ser católico — ele é muito gentil, afasta meus pensamentos dos problemas, como sua música também sempre consegue fazer — e como a Sra. Struan era uma protestante calvinista, e o que dizer caso esse assunto seja abordado algum dia. Conversávamos em voz baixa — ah, como sou afortunada por tê-lo como amigo, por ele ter me alertado sobre o pai — e de repente ele levou os dedos aos lábios, foi até a porta e abriu-a abruptamente. Aquela velha megera, Ah Tok, a amah de Malcolm, estava com o ouvido grudado na porta e quase caiu. André fala um pouco de cantonês e mandou que ela fosse embora.
Quando tornei a ver Malcolm, nesse mesmo dia, mais tarde, ele se desmanchou em desculpas. Não tem a menor importância, eu disse, a porta estava destrancada, minha criada se encontrava no quarto, como era correto, mas se Ah Tok quer me espionar, por favor diga a ela para bater e entrar. Confesso que me mostrei distante e fria com Malcolm e ele se empenhou ao máximo para ser agradável, para me acalmar, mas é assim que me sinto, embora deva reconhecer que André me aconselhou a me comportar assim, até que nosso noivado se torne público.
Tive de pedir a André, e o fiz com o maior medo, mas tive de pedir um empréstimo... e me senti horrível. Foi a primeira vez que tive de fazer isso, mas precisava desesperadamente de algum dinheiro. Ele foi gentil e concordou em me trazer vinte luíses amanhã, contra a minha assinatura, o suficiente para as eventualidades por uma ou duas semanas. Malcolm parece nem perceber que preciso de dinheiro e eu não queria pedir a ele...
Tenho agora uma dor de cabeça quase permanente, tentando encontrar um meio de sair do pesadelo. Não há ninguém em quem possa realmente confiar, nem mesmo André, embora até agora ele tenha provado seu valor. Com Malcolm, cada vez que inicio o discurso que ensaiei, sei que as palavras soarão forçadas e horríveis, antes mesmo de começar, e por isso acabo não dizendo nada.
‘O que é, querida?’, ele sempre me pergunta.
‘Nada’, respondo. Depois que o deixo e tranco minha porta, desato a chorar contra o travesseiro. Acho que vou enlouquecer de tanta angústia... como meu pai pôde mentir e trapacear, roubar o meu dinheiro? E por que Malcolm não pode me dar uma bolsa sem eu ter de pedir, ou oferecer alguma coisa que me permita simular uma recusa, para depois aceitar com a maior satisfação? Não é esse o dever de um marido ou noivo? Não é o dever de um pai proteger sua filha amada? E por que Malcolm continua a esperar para tornar público o nosso noivado? Será que ele mudou de idéia? Ó, Deus, não permita que isso aconteça...”
Angelique parou de escrever, as lágrimas recomeçando. Uma caiu no papel. Ela enxugou os olhos, tomou um gole de água e depois continuou:
“Hoje falarei com ele. Tenho de fazê-lo hoje. Uma boa notícia é que a nave capitânia inglesa voltou ao porto, sã e salva, há poucos dias, para regozijo geral (estamos de fato indefesos sem os navios de guerra). O navio estava avariado, perdera um mastro, e foi seguido de perto por todas as outras embarcações, à exceção de uma fragata de vinte canhões chamada Zephyr, com mais de duzentos tripulantes a bordo. Talvez esteja segura, pelo menos é o que espero. O jornal daqui diz que cinqüenta e três outros marujos e dois oficiais morreram na tempestade, o tufão.
Foi terrível, o pior que já vi. Fiquei apavorada de dia e de noite. Pensei que todo o prédio ia desabar, mas é tão sólido quanto Jamie McFay. A maior parte do setor nativodesapareceu e houve muitos incêndios. A fragata Pearl sofreu avarias e também perdeu um mastro. Ontem, recebi uma mensagem do comandante Marlowe: Acabo de saber que está doente, apresento minhas mais profundas e sinceras condolências, etc.
Acho que não gosto dele, é altivo demais, embora seu uniforme o faça parecer atraente e acentue sua virilidade... como aquela calça justa deve fazer, da mesma forma que as mulheres se vestem para exibir os seios, a cintura e os tornozelos. Outra carta chegou na noite passada, de Settry Pallidar, a segunda, mais condolências, etc.
Acho que detesto os dois. Cada vez que penso neles, lembro-me daquele inferno chamado Kanagawa, e que não cumpriram o seu dever de me proteger. Phillip Tyrer ainda está na legação em Iedo, mas Jamie disse que fora informado que Phillip deve voltar amanhã ou depois. O que será ótimo, pois assim que ele chegar, tenho um plano para...”
O troar de um canhão provocou-lhe um sobressalto e atraiu sua atenção para a enseada. Era um sinal. Lá longe, num ponto distante do mar, outro canhão respondeu. Angelique olhou além da esquadra, para o horizonte, e divisou a fumaça indicadora saindo pela chaminé do navio de correspondência.
Jamie McFay, a pasta pesada de correspondência debaixo do braço, conduziu um estranho pela escada do prédio da Struan, o sol passando pelas janelas de vidro altas e elegantes. Ambos estavam de cartola e sobrecasaca de lã, embora o dia fosse quente. O estranho carregava uma pequena bolsa. Era atarracado, barbudo, feio, na casa dos cinqüenta anos, uma cabeça mais baixo do que Jamie, embora com ombros mais largos, os cabelos grisalhos compridos e desgrenhados se projetando debaixo da cartola. Seguiram pelo corredor. McFay bateu de leve na porta.
— Tai-pan?
— Entre, Jamie, a porta está destrancada.
Assim que os dois entraram, Struan olhou aturdido para o homem atarracado e perguntou no mesmo instante:
— Mamãe também veio, Dr. Hoag?
— Não, Malcolm.
O Dr. Ronald Hoag percebeu o alívio imediato e se entristeceu, embora pudesse compreender o motivo. Tess Struan fora veemente em sua condenação à “Sirigaita estrangeira” que, tinha certeza, fisgara seu filho. Escondendo sua preocupação pela perda de peso e palidez de Malcolm, ele pôs a cartola e a bolsa em cima da cômoda.
— Ela me pediu para vir vê-lo — disse ele, a voz profunda e gentil —, descobrir se posso fazer alguma coisa para ajudá-lo e escoltá-lo de volta para casa... se precisar de uma escolta.
Há quase quinze anos que ele era o médico da família Struan em Hong Kong e fizera os partos dos últimos quatro irmãos e irmãs de Malcolm.
— Eu... O Dr. Babcott vem cuidando de mim. Estou bem. Obrigado por ter vindo. É um prazer vê-lo de novo.
— Também me sinto satisfeito por estar aqui. George Babcott é um ótimo médico, não poderia ter outro melhor.
Hoag sorriu, os olhos pequenos de topázio fixados num rosto curtido e enrugado, e continuou, jovial:
— Uma viagem horrível, fomos atingidos pela cauda do tufão e quase naufragamos. Passei a maior parte do tempo cuidando de marujos e dos poucos passageiros. Braços e pernas quebrados, na maioria dos casos. Perdemos dois homens que caíram ao mar, um chinês, passageiro de terceira classe, e um estrangeiro, nunca descobrimos quem ele era. O capitão disse que o homem se limitara a murmurar um nome qualquer ao pagar a passagem, em Hong Kong. Passava quase todo o tempo no camarote e, no dia em que resolveu sair para o tombadilho, foi apanhado por uma onda e ponto final. Malcolm, você parece melhor do que eu esperava, depois de todos os rumores que chegaram a Hong Kong.
— Acho melhor deixar vocês dois a sós — disse Jamie, pondo uma pilha de cartas na mesinha-de-cabeceira. — Aqui está sua correspondência pessoal, Malcolm. Trarei seus livros e jornais mais tarde.
— Obrigado. Alguma coisa importante?
— Duas cartas de cima. Deixei por cima.
O Dr. Hoag enfiou a mão num bolso volumoso e tirou um envelope todo amassado.
— Aqui tem mais uma carta dela, Malcolm, escrita depois das outras. É melhor lê-la primeiro, e depois vou examiná-lo, se me permitir. Jamie, não se esqueça de Babcott.
Jamie já o informara que Babcott se encontrava em Kanagawa e que mandaria o cúter buscá-lo depois que falassem com Malcolm.
— Até mais tarde, tai-pan.
— Espere mais um pouco, Jamie.
Struan abriu o envelope que Hoag lhe entregara e começou a ler a carta.
Quando Jamie subira a bordo do navio de correspondência, encontrara o Dr. Hoag à sua espera. O médico lhe dissera que já separara toda a correspondência da Struan; podiam desembarcar logo. Depois, para alívio de Jamie, respondera à sua pergunta premente:
— Não, Jamie, a Sra. Struan não veio, mas eu trouxe uma carta dela para você. Dizia apenas: Jamie, faça tudo o que o Dr. Hoag pedir, e me envie relatórios confidenciais detalhados por todos os navios de correspondência.
— Sabe o que diz a carta, doutor?
— Sei, sim, e acho que nem haveria necessidade, mas você conhece a dama.
— Como ela está?
Hoag pensara por um momento.
— Como sempre: imperturbável por fora, um vulcão por dentro. Um dia tem de explodir... ninguém pode manter tanta tristeza reprimida, tantas tragédias. Absolutamente ninguém. Nem mesmo ela.
Ele acompanhara Jamie pela rampa de desembarque, os olhos se virando para todos os lados.
— Devo dizer que me sinto satisfeito pela oportunidade de visitar o Japão... Você está muito bem, Jamie. Não resta a menor dúvida de que este posto combina com você. Já se passou quase um ano desde a sua última licença, não é? E agora conte, conte tudo, primeiro sobre o ataque mortal... e depois sobre a Srta. Richaud.
Ao alcançarem a praia, o Dr. Hoag já estava a par de tudo o que Jamie sabia.
— Mas, por favor — acrescentara ele, apreensivo —, não mencione a Malcolm o que lhe contei sobre Angelique. Ela é uma pessoa maravilhosa e também passou por momentos terríveis. Não creio que já tenham deitado juntos, o noivado secreto é apenas um rumor, mas ele está mesmo apaixonado... não que eu o culpe por isso, ou a qualquer outro homem na Ásia, diga-se de passagem. Detesto a idéia de mandar relatórios secretos para a Sra. Struan, por motivos óbvios. De qualquer forma, já tenho um escrito, uma versão atenuada, e será despachado quando o navio voltar. Minha lealdade deve ser para Malcolm em primeiro lugar, acima de tudo, pois ele é o tai-pan.
Agora, observando Malcolm Struan deitado ali, lendo a carta que Hoag lhe entregara, vendo o rosto pálido e o corpo debilitado, ele começou a ter dúvidas.
Struan levantou o rosto, os olhos contraídos.
— O que é, Jamie?
— Queria que eu fizesse alguma coisa.
Depois de uma pausa, Malcolm disse:
— Isso mesmo. Mande um recado para a legação francesa... Angelique está lá, disse que ia esperar por sua correspondência... avise que um velho amigo chegou de Hong Kong e que eu gostaria que ela o conhecesse.
McFay balançou a cabeça e sorriu.
— Está bem. Basta me chamar quando precisar de qualquer coisa.
Ele se retirou. Inquieto, Struan ficou olhando para a porta. O rosto de Jamie fora franco demais. Tentando recuperar o controle, ele voltou a se concentrar na carta:
Malcolm, meu pobre e querido filho. Só uma mensagem curta, escrita às pressas, enquanto Ronald Hoag se prepara para embarcar no navio de correspondência, cuja partida retardei, para que ele pudesse viajar e lhe oferecer os melhores cuidados. Fiquei transtornada ao saber que fora atacado por aqueles porcos. Jamie informa que esse tal de Dr. Babcott teve de fazer uma operação... por favor, escreva para mim, e despache por qualquer meio expresso disponível, e volte para cá o mais depressa possível, afim de ter o melhor tratamento. Envio meu amor e orações, assim como Emma, Rose e Duncan. P.S. Eu amo você.
Ele levantou os olhos.
— E agora?
— Diga-me a verdade, Malcolm. Como você está?
— Eu me sinto horrível e tenho medo de morrer.
Hoag sentou na cadeira de braços e uniu as pontas dos dedos, as mãos erguidas.
— A primeira coisa é compreensível, a segunda não é necessariamente acurada, embora seja muito fácil acreditar nisso... e também muito perigoso. Os chineses podem provocar a própria morte, ao pensarem que vão morrer, mesmo quando estão saudáveis... já vi acontecer.
— Mas eu não quero morrer. Tenho tudo por que viver. E não há palavras para expressar o quanto quero viver. Mas todas as noites, todos os dias, em algum momento, o pensamento me ocorre... me atinge como se fosse um golpe físico.
— Que medicamento está tomando?
— Só uma coisa... acho que é láudano... para me ajudar a dormir. A dor é terrível e não consigo me acomodar.
— Todas as noites?
— Isso mesmo. Ele quer que eu pare de tomar, diz que tenho... que devo parar.
— Já tentou?
— Já.
— E não conseguiu?
— Ainda não. Minha vontade parece ter me abandonado.
— É um dos problemas da vontade... por mais valiosa e bela que seja. — Ele sorriu. — Láudano foi o nome primeiro dado por Paracelso a essa panaceia. Conhece Paracelso?
— Não.
— Nem eu. — Hoag soltou uma risada. — Seja como for, transferimos o nome para essa tintura de ópio. É uma pena que todos os derivados sejam criadores de hábito. Mas você sabe disso.
— Sei, sim.
— Podemos livrá-lo. Não é problema.
— Claro que é um problema, e sei disso também, como ainda sei que não aprova o nosso comércio de ópio.
Hoag sorriu.
— Estou contente que você tenha feito uma declaração, não uma pergunta. Mas sei que você também não aprova, nenhum mercador na China aprova, mas estão todos acuados. Agora, Malcolm, vamos deixar de lado a economia e a política. Podemos conversar sobre a Srta. Richaud?
Struan sentiu o sangue afluir para o rosto.
— Quero que me escute com atenção, de uma vez por todas: não importa o que a mãe diga, já tenho idade suficiente para pensar por mim mesmo e posso fazer o que bem quiser. Entendido?
Hoag tornou a sorrir, afável.
— Sou seu médico, Malcolm, não sua mãe. E também sou seu amigo. Alguma vez lhe falhei ou a qualquer pessoa de sua família?
Com esforço visível, Struan conteve a raiva, mas não pôde fazer a mesma coisa com o coração disparado.
— Desculpe, mas eu... — Ele deu de ombros, desamparado. — Desculpe.
— Não precisa pedir desculpas. Não estou tentando interferir em sua vida particular. Sua saúde depende de muitos fatores, e parece que ela é um dos principais. Daí a minha pergunta, que tem razões médicas... não de família. O que me diz da Srta. Angelique Richaud?
Struan queria parecer calmo e firme, mas não foi capaz de controlar a frustração, e explodiu:
— Quero casar com ela e está me levando à loucura ter de ficar deitado aqui, Como um... deitado aqui na total impotência. Pelo amor de Deus, não posso nem ao menos sair da cama, não posso mijar... não posso fazer absolutamente nada, mal consigo beber ou comer ou fazer qualquer outra coisa, sem sentir uma dor terrível. Estou enlouquecendo, e por mais que tente, parece que nada melhora.
Ele continuou a se lamentar, até se sentir fraco. Hoag limitou-se a escutar. Struan finalmente parou, murmurando outro pedido de desculpas.
— Posso examiná-lo agora?
— Pode... claro.
Com extremo cuidado, Hoag examinou-o, encostou o ouvido no peito para escutar o coração, verificou a boca, a pulsação, espiou o ferimento, cheirou-o. Os dedos sondaram a barriga, procurando pelos órgãos por baixo, avaliando a extensão dos danos.
— Aqui dói... e aqui... fica melhor assim?
Cada pressão provocava um gemido de Malcolm. Hoag encerrou o exame depois de um longo momento. Struan rompeu o silêncio:
— E então?
— Babcott fez um bom trabalho com o que já teria matado, a esta altura, um homem normal. — As palavras de Hoag eram medidas, transbordando de confiança. — Agora, vamos fazer uma experiência.
Gentilmente, ele pegou as pernas de Struan, e ajudou-o a sentar na beira da cama. Depois, passou o braço de Malcolm por seus ombros e sustentando a maior parte do peso, com uma força surpreendente, ajudou-o a levantar.
— Cuidado!
Struan não podia se manter de pé sozinho, mas teve a impressão de que era capaz, e isso o encorajou. Depois de um momento, Hoag tornou a arriá-lo na cama. O coração de Struan batia descompassado da dor, mas ele se sentia bastante satisfeito.
— Obrigado.
O médico recostou-se na cadeira, enquanto recuperava a própria força.
— Vou deixá-lo agora, para arrumar minhas coisas. Gostaria que você descansasse. Voltarei a vê-lo depois de conversar com Babcott. É bem provável que venhamos visitá-lo juntos. Combinado?
— Claro. E... obrigado, Ronald.
À guisa de resposta, Hoag apertou o braço de Struan, antes de pegar seus pertences e se retirar.
Sozinho de novo, Struan deixou que as lágrimas felizes escorressem por seu rosto e as lágrimas o embalaram ao sono. Sentia-se descansado quando acordou, pela primeira vez revigorado, e permaneceu imóvel, regozijando-se pelo fato de ter-se levantado... com ajuda, é verdade, mas ficara de pé, era um começo, e agora contava com um aliado de verdade.
Do lugar em que se encontrava, um pouco virado para a esquerda, podia olhar pela janela, na direção do mar. Amava o mar e também o odiava, nunca se sentiu à vontade nele, temendo-o porque era incontrolável e imprevisível, como no dia ensolarado em que os gêmeos e o contramestre se distanciaram da praia num bote por uma centena de metros, uma onda súbita virara a embarcação, e uma correnteza os arrastara, todos bons nadadores, os gêmeos nadavam como os peixes, mas mesmo assim se afogaram, só o marujo se salvou. O choque deixara-o arrasado e quase matara seu pai. A mãe entrara num de seus comas ambulantes, dizendo a todo instante:
— É a vontade de Deus. Devemos continuar.
Não vou pensar em meus irmãos, nem em Dirk Struan, disse ele a si mesmo, contente por se encontrar em terra, são e salvo. Mas nosso passado está ligado ao mar, de uma forma inexorável, e nosso futuro também. É a nossa força suprema, nos clíperes e vapores... e na China.
O Japão é um pequeno mercado, interessante, mas pequeno, nunca poderá se comparar com a China. Podemos ganhar dinheiro aqui, sem dúvida — com armamentos e navios. A habilidade britânica com certeza proporcionará altos lucros. Direi a Jamie para aceitar a encomenda de Choshu. Vamos deixar que eles se matem, quanto mais depressa melhor. A hesitação de Sir William, esperando pela aprovação de Londres para a guerra, é uma estupidez. Se dependesse de mim, ordenaria a eles que entregassem os assassinos e pagassem a indenização imediatamente, ou amanhã haveria um estado de guerra entre nós, e o primeiro ato seria a destruição de Iedo. Nunca perdoarei os desgraçados!
O horizonte chamava. Muito em breve, terei de voltar a Hong Kong para assumir o comando. Daqui a uma semana ou por aí. Não há pressa. Disponho de tempo suficiente.
Que horas são agora?
Não havia necessidade de se virar para olhar o relógio. O ângulo do sol indicava que era mais ou menos meio-dia, e Malcolm pensou que normalmente pediria um belo e excelente rosbife, pastelão de Yorkshire, com molho de carne e batatas cozidas, uma ou duas tigelas de cubos de galinha assada e arroz misturado com legumes, e outros pratos chineses que Ah Tok prepararia, e ele adoraria... por mais que sua mãe, o irmão e as irmãs os desdenhassem como insossos, sem nada de nutritivos, talvez venenosos, e apropriados apenas para pagãos...
Um som de leve. Angelique se achava encolhida na poltrona, ofuscada por seu tamanho, o rosto molhado de lágrimas, e mais infeliz do que ele jamais a vira.
— Por Deus, o que aconteceu?
— Estou arruinada!
As lágrimas recomeçaram a escorrer.
— Mas do que está falando?
— Recebi isto pela correspondência!
Ela se levantou, entregou-lhe uma carta, tentou falar, não conseguiu. O movimento súbito de Struan para pegar a carta provocou-lhe uma dor intensa, e só com muito esforço é que pôde evitar um grito.
O papel era verde, como o envelope, a carta datada de 23 de setembro, Hong Kong, o cabeçalho da Guy Richaud, Richaud Frères, e escrita em francês, que Struan podia ler muito bem:
Querida Angelique: Às pressas. O negócio sobre o qual lhe escrevi antes não correu muito bem, meus sócios portugueses de Macau me enganaram, e perdi muito. Todo o meu capital atual desapareceu, e você pode ouvir mentiras espalhadas por inimigos, de que me encontro incapaz de obter novos acertos bancários, e por isso a companhia se encontra agora nas mãos dos credores. Não acredite neles, o futuro é promissor, não precisa ter medo, está tudo sob Controle. Esta carta segue pelo navio de correspondência de amanhã. Hoje, tenho uma passagem reservada no vapor americano Liberty, para Bangkok, onde me prometeram um novo financiamento, de fontes francesas. Escreverei de lá, e continuo sempre como seu devotado pai.
P.S. A esta altura, você já deve estar a par da triste mas esperada notícia sobre Culum Struan. Acabamos de ser informados sobre o vil ataque dos japoneses a Malcolm. Espero que ele não tenha ficado gravemente ferido. Por favor, transmita-lhe meus votos de felicidade, e minha esperança de que tenha uma rápida recuperação.
A mente de Struan virou um turbilhão.
— Por que está arruinada?
— Ele perdeu todo o meu dinheiro — choramingou Angelique. — É um ladrão; agora não tenho mais nada no mundo. Ele roubou tudo o que eu tinha... Oh, Malcolm, o que vou fazer?
— Angelique, Angelique, escute! — Ela parecia tão desamparada, tão melodramática, que Struan quase riu. — Pelo amor de Deus, escute! Não tem problema. Posso lhe dar qualquer dinheiro que qui...
— Não posso aceitar seu dinheiro! — balbuciou ela, entre os soluços. — Não é direito!
— Por que não? Casaremos em breve, não é mesmo?
O choro cessou.
— Nós... é mesmo?
— É, sim. Faremos o anúncio hoje.
— Mas meu pai é... — Angelique fungou, chorosa, como uma criança. — André me disse que tinha certeza de que nenhum negócio havia em Macau, ou em qualquer outro lugar, e nunca houve. Parece que o pai era um jogador e deve ter perdido tudo no jogo. Ele tinha prometido a Henri... Henri Seratard... que pararia de jogar e pagaria suas dívidas... Todos sabiam, menos eu. Oh, Malcolm, eu rne sinto tão horrível que poderia até morrer! O pai roubou meu dinheiro, depois de jurar que o guardaria em segurança!
Outro acesso de choro, ela saiu correndo, ajoelhou-se ao lado da cama, comprimindo o rosto contra a colcha. Com extrema ternura, Struan acariciou seus cabelos, sentindo-se forte, no comando da situação. A porta foi aberta nesse instante, e Ah Tok entrou.
— Saia! — berrou Struan. — Dew neh loh moh!
Ela se retirou no mesmo instante. Genuinamente assustada, Angelique se comprimiu ainda mais contra a colcha. Nunca testemunhara antes a ira de Malcolm, que continuou a acariciar seus cabelos.
— Não se preocupe, minha querida. Não se preocupe com seu pai. Verei o que posso fazer para ajudá-lo mais tarde, mas agora não deve se preocupar, pois cuidarei de você.
A voz era cada vez mais terna. Os soluços de Angelique foram se desvanecendo, um vasto peso saindo de seus ombros, agora que lhe contara a verdade, dera a notícia antes que ele a ouvisse de outra pessoa... e ele parecia não se importar!
André é um gênio, pensou ela, exausta de alívio. Jurou que assim seria a reação de Malcolm:
— Basta ser franca, Angelique. Conte a verdade a Malcolm, que não sabia que seu pai era um jogador, que só agora tomou conhecimento, e que ficou chocada, sem palavras, que seu pai roubou todo o seu dinheiro... é importante usar as palavras roubou e ladrão... diga a verdade, mostre a carta, e com a quantidade certa de lágrimas e ternura isso o ligará a você para sempre.
— Mas não posso mostrar a ele a carta do pai, André! — murmurara ela, angustiada. — Não ousaria... o pós-escrito é tão horrível...
— Sem a segunda página, o pós-escrito diz apenas minha esperança de que tenha uma rápida recuperação. Perfeito! A segunda página? Que segunda página? Pronto, está rasgada, nunca existiu.
Os dedos hábeis de André colaram no lugar o último fragmento da segunda página rasgada da carta.
— Tome aqui, Henri — disse ele, empurrando-a por cima da mesa. — Leia você mesmo.
Não levara muito tempo para reconstituir a página dos fragmentos jogados na cesta de papel com aparente indiferença.
Estavam na sala de Seratard, a porta trancada. A página dizia:
...e também continuo a acalentar a esperança de que você, como combinamos, possa providenciar o mais depressa possível o noivado e o casamento, por quaisquer meios necessários... Ele é o grande partido do ano, e vital para o nosso futuro, o seu em particular. A Struan resolverá os problemas da Richaud Frères em caráter permanente. Não importa que ele seja britânico, jovem demais, ou qualquer outra coisa; é agora o tai-pan da Struan, epode assegurar um futuro maravilhoso para nós dois. Seja adulta, Angelique, faça qualquer coisa necessária para pendê-lo a você, porque seu futuro esta por um fio.
— Não é tão terrível assim — comentou Seratard, inquieto — apenas o conselho de um pai em pânico, procurando por uma tábua de salvação. Struam? Sem dúvida um grande e maravilhoso partido para qualquer moça, e quem pode culpar um pai?
— Depende do pai. Esta página, se usada da maneira correta na hora oportuna é outra arma sobre Angelique e, com isso, sobre a Casa Nobre.
— Acha então que a pobre moça terá êxito?
— Devemos trabalhar para que isso aconteça. Agora que temos esta prova para usar, se houver necessidade, devemos ajudá-la por uma questão de honra. — Os lábios de André se contraíram numa linha fina e fria. — E não acho que seja uma pobre moça. Não foi ela quem preparou a armadilha para capturá-lo usando quaisquer meios necessários?
Seratard recostou-se na cadeira de couro vermelho. Sua sala era de mau gosto exceto por uns poucos óleos de pintores; franceses modernos, pouco conhecidos entre os quais Manet, que ele comprava mais barato, de vez em quando, através de um agente em Paris.
— O que ela está fazendo, a não ser reagir ao amor de um rapaz? — Ele empurrou o papel de volta. — Não gosto desses métodos, André. São repulsivos. Você encorajou a moça com um emaranhado de meias verdades, ao lhe dizer para mostrar apenas a metade da carta.
— Maquiavel escreveu: “É necessário para o Estado operar com mentiras e meias verdades, porque as pessoas são constituídas de mentiras e meias verdades. Até os príncipes.” E, com certeza, por pricípio todos os embaixadores e políticos. — André deu de ombros e dobrou a carta com cuidado. — Talvez não precisemos usar isto, mas é bom ter, porque representamos o Estado.
— E como usaríamos?
— O fato de que ela rasgou e...
— Mas não foi ela! — protestou Seratard, chocado.
— Claro que não — disse André, friamente.— Mas seria sua palavra contra a minha. Quem ganharia a disputa? O fato de que ela rasgou a segunda página, e só mostrou a primeira a Struan, seria o suficiente para condená-la aos olhos dele. Isso lhe daria um pretexto perfeito para anular qualquer promessa de casamento, já que foi enganado. A mãe de Struan? Se tivesse conhecimento dela, faria todos os tipos de concessões para se apoderar desta página, caso o filho insista em casar contra o seu conselho.
— Não gosto de chantagem.
André corou.
— Não gosto de muitos métodos que sou obrigado a usar para os nossos, e ressalto os nossos... propósitos. — Ele guardou a carta no bolso. — Mostrado á sociedade ou publicado, com os detalhes, este documento destruiria Angelique. Talvez apenas mostre a verdade: que ela não passa de uma aventureira, em conspiração com o pai, que é a menor das hipóteses um jogador, e em breve estará na bancarrota, como o tio. Ouanto a encorajá-lo, limito-me a dizer o que ela quer saber e ouvir. Para ajudá-la. O problema é dela, não meu... ou nosso.
Seratard suspirou.
— É muito triste que ela esteja em tamanha embrulhada.
— Tem razão, mas isso resulta em nosso proveito, não é mesmo? — Os lábios de André sorriam, mas não os olhos. — E no seu pessoalmente, não é mesmo, monsieur? Usada de maneira judiciosa, esta carta garantiria a presença de Angelique em sua cama, se o seu charme indubitável falhasse, o que duvido.
Seratard não sorriu.
— E você, André? O que pretende fazer com Hana, a Flor? André levantou os olhos abruptamente.
— A Flor morreu.
— Sei disso... e em circunstâncias muito estranhas.
— Não houve nada de estranho — disse André, os olhos frios como os de um réptil. — Ela cometeu suicídio.
— Foi encontrada com a garganta cortada... por sua faca. A mama-san diz que você passou a noite com ela, como sempre.
André tentava entender por que Seratard fazia aquela sondagem agora.
— É verdade, mas isso não é da sua conta.
— Receio que seja. O representante local do Bakufu apresentou um pedido formal de informações ontem.
— Diga a ele para se matar também. Hana, a Flor, era especial, sem dúvida, e era minha. Paguei o mais alto preço por ela, mas ainda assim continuava a fazer parte do mundo dos salgueiros.
— Como você disse, com toda razão, as pessoas são constituídas por mentiras e meias verdades. A queixa enuncia que você teve uma violenta briga com ela. Porque ela tomara um amante.
— Tivemos uma briga, é verdade, e admito que senti vontade de matá-la, mas não por esse motivo — murmurou André, meio engasgado. — A verdade... a verdade é que ela tinha alguns clientes. Três... na outra casa, mas isso foi antes de ela se tornar minha propriedade. Um deles... um deles a deixou com sífilis, que ela passou para mim.
Seratard ficou consternado.
— Mon Dieu, sífilis?
— Isso mesmo.
— Mon Dieu, tem certeza?
— Tenho.
André levantou-se, foi até o aparador, serviu-se de um conhaque, bebeu.
— Babcott confirmou há um mês. Sem qualquer possibilidade de equívoco. Só pode ter sido ela. Quando a interroguei a respeito, ela...
Ele a viu de novo, na casinha dentro dos muros da casa das Três Carpas no pequeno franzido no rosto oval perfeito. Ela tinha apenas dezessete anos e pouco mais de um metro e meio de altura.
— Hai, gomen nasai, Furansu-san, mancha, como a sua, mas ano passado minha sukoshi, pequena, hai, pequena, Furansu-san, sukoshi, não ruim, sumiu — dissera ela, gentilmente, com seu sorriso meigo, na habitual mistura de japonês e fragmentos de inglês. — Hana dizer mama-san. Mama-san dizer ver médico, ele dizer não ruim. Não ruim porque eu só começava, ainda pequena. Doutor diz orar santuário e tomar remédio horrível. Mas tudo sumiu poucas semanas.
Uma pausa, e ela acrescentara, feliz:
— Tudo sumiu um ano atrás.
— Não sumiu coisa nenhuma!
— Por que raiva? Não preocupe. Oro no santuário xintoísta como doutor diz, dou dinheiro sacerdote, como... — Seu rosto se contraíra numa risada. —... como remédio gosto horrível. Poucas semanas tudo sumiu.
— Não sumiu. Nem vai sumir. Não tem cura. Ela o fitara de uma maneira estranha.
— Tudo sumiu, você vê eu, meu corpo, tudo, muitas vezes, neh? Claro tudo sumiu.
— Pelo amor de Deus, não sumiu!
Ela franzira o rosto outra vez, dera de ombros.
— Karma, neh?
André explodira. Ela ficara tão chocada que baixara a cabeça para o tatame e começara a suplicar perdão, desesperada.
— Não ruim, Furansu-san, sumiu, doutor diz, sumiu. Vai mesmo doutor, tudo some logo...
Além das paredes de shoji, André ouvira passos e sussurros.
— Você tem de procurar o médico inglês!
Seu coração trovejava nos ouvidos e ele tentava falar de forma coerente, sabendo que procurar um médico, qualquer médico, era inútil, e que embora às vezes se conseguisse deter os estragos, nem sempre, também era certo, tão inevitável quanto o sol nascer no dia seguinte, que os estragos um dia se manifestariam com uma violência total.
— Será que você não compreende? — gritara ele. — Não há cura!
Ela se limitara a fazer uma reverência, tremendo como um cachorrinho maltratado, e repetira, em tom monótono:
— Não ruim, Furansu-san, tudo sumiu...
Com esforço, André recuperou o controle e fitou Seratard.
— Quando a interroguei a respeito, ela disse que ficara curada, há cerca de um ano. E é claro que acreditava nisso, acreditava que tivera uma cura completa. Dei alguns gritos, perguntei por que não contara a Raiko-san, e ela murmurou alguma coisa a respeito, que não havia o que dizer, o médico garantira que não era nada, e sua mama-san teria contado a Raiko-san, se fosse importante.
— Mas isso é terrível, André! Babcott a examinou?
— Não.
Outro gole de conhaque, que não lhe proporcionou o prazer habitual, e ele acrescentou, num fluxo rápido, ansioso em finalmente contar tudo a alguém:
— Babcott me disse que a sífilis... disse que uma mulher que contraiu sífilis antes pode ficar sem qualquer marca, que nem sempre vai transmiti-la, não todas as vezes que deita com um homem, só Deus sabe por que, mas é inevitável que ela acabe passando a doença, se o homem continuar a deitar com ela, e depois que uma ferida aparecer, ele está perdido, mesmo que depois de um mês ou por aí a ferida ou feridas desapareçam, e ele pense que está seguro, mas não está!
Agora, a veia no meio da testa de André se tornara saltada, escura, pulsando com intensidade.
— Semanas ou meses depois, surge uma erupção, que é o segundo estágio. Pode ser forte ou fraca, dependendo só Deus sabe do quê, e às vezes é acompanhada por hepatite ou meningite, e persiste ou desaparece, só Deus sabe por quê. O último estágio, o estágio do horror, aparece a qualquer momento, de uma hora para outra, até meses depois, talvez trinta anos depois.
Seratard tirou um lenço do bolso, enxugou a testa, rezando para ser poupado, e pensando nas frequentes ocasiões em que visitara a Yoshiwara, sobre sua própria musume, que agora era o único a desfrutar, embora nunca pudesse ter a certeza de que ela não tinha outro amante. Como provar ou refutar, se houver conluio com a mama-san, já que elas só estão interessadas em explorá-lo?
— Você tinha o direito de matá-la — murmurou ele, sombrio. — E matar também a mama-san.
— Raiko não foi responsável. Eu lhe dissera que não queria nenhuma das mulheres em sua casa, nenhuma em qualquer lugar da Yoshiwara. Queria uma jovem, especial, uma virgem ou quase isso. Supliquei que me encontrasse uma flor, expliquei exatamente o que queria, e ela me atendeu. Hana-chan era tudo o que eu desejava, a perfeição. Vinha de uma das melhores casas de Iedo. Não pode imaginar como ela é linda... era...
André recordou como seu coração disparara na primeira vez em que Raiko a mostrara, conversando com outras moças, na sala ao lado.
— Aquela ali, Raiko, a de quimono azul claro.
— Aconselho-o a ficar com Fujiko ou Akiko, ou uma de minhas outras damas — dissera Raiko, que falava um bom inglês, quando queria. — Com tempo, eu lhe encontrarei outra. Veja a pequena Saiko. Dentro de um ou dois anos...
— Aquela, Raiko. É perfeita. Quem é ela?
— Seu nome é Hana, a Flor. Sua mama-san diz que a coisinha bonita nasceu perto de Quioto, foi comprada por sua casa quando tinha três ou quatro anos, a fim de ser treinada para gueixa. — Raiko sorrira. — Por sorte, ela não é gueixa... Se fosse gueixa, não estaria em oferta. Uma pena.
— Porque eu sou gai-jin.
— Porque gueixa é para entreter, não para se levar para a cama. Não sendo japonês, desculpe dizer, Furansu-san teria muita dificuldade para apreciá-la. As mestras de Hana foram pacientes, mas ela não foi capaz de desenvolver a habilidades de gueixa, e por isso foi treinada para a cama.
— Eu a quero, Raiko.
— Há cerca de um ano, ela alcançou a idade mínima para começar. Sua mama-san arrumava os melhores preços, mas só depois que Hana aprovava o cliente, é claro. Três clientes apenas a desfrutaram, sua mama-san garante que ela é uma excelente discípula, e que só ia para a cama com um deles duas vezes por semana. A única marca contra ela é o fato de ter nascido no ano do cavalo do fogo.
— E o que isso significa?
— Sabe que contamos o tempo em ciclos de doze anos, como os chineses cada ano com um nome de animal, dragão, serpente, galo, touro, cavalo e assim por diante. Mas cada ano também tem um dos cinco elementos, fogo, água, terra, ferro, madeira, que variam, ciclo por ciclo. As mulheres nascidas no ano do cavalo, com o signo do fogo, são consideradas... desafortunadas.
— Não acredito em superstições. Por favor, diga o preço.
— Ela é uma Flor na cama de preço inestimável.
— O preço, Raiko.
— Para a outra casa, dez koku, Furansu-san. Para esta casa, dois koku por ano, e o preço de sua casa, dentro dos meus muros, duas criadas, todas as roupas que ela quiser e um presente de despedida de dois koku, quando você não desejar mais seus serviços, quantia a ser depositada com o nosso banqueiro-mercador de arroz em Gyokoyama, a juros que serão seus, até o momento da despedida... tudo por escrito, assinado e registrado com o Bakufu.
A quantia era imensa, pelos padrões japoneses, extravagante, pelos europeus, considerando-se até mesmo a taxa de câmbio, que tanto favorecia os europeus. Por uma semana, ele barganhara, e só conseguira reduzir o preço em uns poucos sous. Mas todas as noites sonhava com Hana e, por isso, acabara concordando. Com o ritual devido, sete meses atrás, ela lhe fora apresentada formalmente. Aceitara-o formalmente. Os dois assinaram o contrato formalmente. Na noite seguinte, foram juntos para a cama e ela se mostrara tudo o que André imaginara. Risonha, feliz, vibrante, terna, amorosa.
— Ela foi um presente de Deus, Henri.
— Ou do demônio. A mama-san também.
— A culpa não foi sua. Um dia antes de eu receber Hana, Raiko me declarou, formalmente... o que também fazia parte do acordo de pagamento... que o passado era o passado, prometeu cuidar de Hana como sua filha e se certificar de que Hana nunca receberia outros homens, seria só minha, daquele dia em diante.
— E depois ela a matou?
André serviu-se de mais conhaque.
— Pedi a Hana para me dar os nomes dos três homens, um deles é o meu assassino, mas ela não podia... ou não queria dizer. Bati em seu rosto, a fim de arrancar os nomes, mas ela apenas gemeu, não chorou. Tive vontade de mata-la admito, mas a amava muito... e fui embora. Sentia-me como um cão raivoso, já eram três ou quatro horas da madrugada a esta altura, e fui andando pelo mar adentro. Talvez quisesse me afogar, não sei, não me lembro exatamente, mas a água fria me fez recuperar o controle. Quando retornei à casa, Raiko e as outras se encontravam em estado de choque, incoerentes. Eu deixara Hana prostrada ao sair e a encontrei numa poça de sangue, com minha faca na garganta.
— Quer dizer que ela cometeu suicídio?
— Foi o que Raiko disse.
— Mas você não acredita?
— Não sei em que acreditar — respondeu André, angustiado. — Sei apenas que tinha voltado para dizer que a amava, a sífilis era karma, não culpa sua, que me arrependia das coisas que dissera e fizera, que tudo voltaria a ser como antes... até o momento em que se tornasse patente, quando então nos mataríamos juntos...
Henri tentava pensar de maneira objetiva, seu cérebro também confuso. Nunca sequer ouvira falar da casa das Três Carpas até que os rumores sobre a morte da moça circulassem pela colônia. André sempre tivera um comportamento reservado, pensou ele, o que era um direito seu, isso não era da minha conta... até que o Bakufu tornara o caso oficial.
— Os três homens... Raiko sabe quem eram?
Atordoado, André balançou a cabeça.
— Não, não sabe, e a outra mama-san não quis lhe dizer.
— Quem é ela? Qual é o seu nome? Onde podemos encontrá-la? Vamos denunciá-la ao Bakufu, que lhe arrancará os nomes.
— Eles não se importariam; por que deveriam? A outra casa... era um ponto de encontro de revolucionários, a estalagem dos Quarenta e Sete Ronin... foi incendiada há cerca de uma semana, a mama-san teve a cabeça cortada e espetada na ponta de um chuço. Santa Mãe de Deus, Henri, o que vou fazer? Hana está morta e eu continuo vivo...
No início daquela tarde, o Dr. Hoag estava no cúter, seguindo para o cais da legação, em Kanagawa. Babcott mandara o aviso de que não podia se ausentar de Kanagawa, já que tinha de trabalhar na clínica ali, mas voltaria o mais depressa possível... lamento, mas não poderá ser antes de tarde da noite, mais provavelmente não antes de amanhã de manhã. Será bem-vindo se quiser vir se encontrar comigo aqui, mas esteja preparado para passar a noite, já que o tempo pode mudar...
Hoag encontrou no cais, à sua espera, um granadeiro e Lim, que usava um casaco branco, calça preta larga, sandálias e um pequeno solidéu. Assim que ele desembarcou, Hoag fez uma indolente e simbólica reverência.
— Ei, amo, Lim, garoto número um.
— Vamos esquecer essa conversa de cule em pidgin, Lim. — disse Hoag, num cantonês passável, fazendo com que os olhos do chinês se contraíssem. — Sou o Doutor em Medicina Sábio Duminado.
Esse era o nome chinês de Hoag — o significado dos dois caracteres mais próximos do som cantonês de “ho” e “ag”, selecionado entre dezenas de possibilidades por Gordon Chen, o compradore da Struan, um de seus pacientes.
Lim fitou-o fixamente, fingindo não entender, a maneira usual e mais rápida de fazer um demônio estrangeiro perder a compostura, um demônio que tivera a impertinência de aprender umas poucas palavras da língua civilizada. Aiê, pensou ele, quem é esse fornicador astuto, esse pútrido demônio vermelho comedor de mãe, com o pescoço de touro, esse macaco de cara de sapo, que tem a desfaçatez de falar a nossa língua com uma superioridade tão repulsiva...
— Aiê — murmurou Hoag —, também tenho muitas e muitas palavras sórdidas para descrever a mãe de um fornicador e suas partes putrefatas, se um homem de uma aldeia de mijo de cachorro, monte de estrume, tenta me esnobar... fingindo que não me entende.
— Doutor em Medicina Sábio Iluminado? Aiê, é um bom nome! — Lim soltou uma risadinha. — Há muitos anos que não ouço um demônio estrangeiro falar tão bem.
— E em breve ouvirá mais, se eu for chamado outra vez de demônio estrangeiro. Foi Chen da Casa Nobre quem escolheu meu nome.
— Chen da Casa Nobre? — Lim ficou espantado. — Ilustre Chen, que tem mais sacos de ouro do que um boi tem pêlos? Aiê, que privilégio!
— Concordo — declarou Hoag, para logo acrescentar uma afirmação que não estava longe da verdade:— E ele também me disse que se eu tivesse problemas com qualquer pessoa do reino médio... quer fosse alta ou baixa... ou que não prestasse de imediato os serviços que um amigo seu deveria esperar, que lhe mencionasse o nome do vil fornicador de mãe ao voltar.
— Oh ko, Doutor em Medicina Sábio Iluminado, é de fato uma honra tê-lo em nossa humilde casa.
O Dr. Hoag sentiu que alcançara a grandeza, abençoando seus mestres, em particular os pacientes agradecidos, que haviam lhe ensinado as palavras realmente importantes, e como lidar com certas pessoas e situações no reino médio. O dia era quente e agradável, a aparência da pequena cidade atraente, com templos que podia divisar acima dos telhados, pescadores em atividade nas águas próximas da terra, camponeses por toda parte nos arrozais, pessoas circulando de um lado para outro e o inevitável movimento intenso na Tokaidô, mais além. Ao chegarem à legação, com o apoio exageradamente atencioso de Lim, Hoag já tinha uma boa noção da situação em Kanagawa, o número de pacientes de Babcott hoje, e o que podia esperar.
George Babcott estava na sala de cirurgia, ajudado na operação por um acólito japonês, um aprendiz designado pelo Bakufu para estudar a medicina ocidental, a ante-sala apinhada de aldeões, homens, mulheres e crianças. A operação era complicada, uma amputação de pé.
— O pobre coitado é um pescador, ficou com a perna presa entre o barco e o cais, o que nunca deveria ter acontecido, acho que tomou saquê demais. Assim que eu acabar aqui, poderemos conversar sobre Malcolm. Já o viu?
— Já, sim. Não tem pressa. É um prazer tornar a vê-lo, George. Posso ajudar em alguma coisa?
— Eu agradeceria. Está tudo bem aqui, mas não poderia peneirar a multidão lá fora? Os que são casos urgentes, os que podem esperar. Trate de qualquer um que quiser. Há outra “sala de cirurgia” ao lado, embora seja pouco mais que uma enfermaria. Mura, passe o serrote.
Ele fez o pedido ao assistente, num inglês lento e incisivo, recebeu o serrote e começou a usá-lo.
— Sempre que tenho uma cirurgia aqui, o movimento parece aumentar. Ali naquele armário vai encontrar os placebos comuns, iodo, etc, os medicamentos usuais, analgésicos, xaropes amargos para as doces velhinhas e xaropes doces para as tosses violentas.
Hoag deixou-o e foi examinar os homens, mulheres e crianças à espera, impressionado com sua disciplina e paciência, as mesuras e a ausência de barulho. Logo constatou que nenhum tinha varíola, lepra, catapora, tifo, cólera ou qualquer das outras doenças infecciosas e contagiosas que eram endêmicas na maior parte da Ásia. Mais do que um pouco aliviado, ele começou a interrogá-los individualmente e deparou com a mais profunda desconfiança. Por sorte, havia ali um ido escritor de cartas e adivinho itinerante que era cantonês, Cheng-sin, e que também falava um pouco de japonês. Com a ajuda dele — e depois de ser apresentado como o Mestre do Gigante Curandeiro, e com a promessa de um medicamento novo e muito bom para aliviar sua tosse seca — o Dr. Hoag começou a receber os pacientes na segunda sala de cirurgia.
Alguns tinham apenas problemas menores. Uns poucos eram casos mais sérios. Febres, disenteria e assim por diante. Ele conseguiu diagnosticar alguma doenças, outras não foi possível. Membros fraturados, ferimentos de espadas e facas, úlceras. Uma jovem em adiantado estado de gravidez sentia dores intensas.
A experiência do Dr. Hoag indicou que o parto, o quarto da mulher, seria difícil, e que a maior parte do problema derivava de ter casado muito cedo, trabalhar nos campos por tempo demais e carregar um excesso de peso. Ele deu à moça um vidro de extrato de ópio.
— Diga a ela que se a dor for muito forte, quando chegar o momento, para tomar uma colher.
— Uma colher? De que tamanho, Honorável Sábio Iluminado?
— Uma colher do tamanho normal, Cheng-sin. A mulher fez uma reverência.
— Domo arigato gozaimashita — murmurou ela, ao se retirar, patética em seus agradecimentos, as duas mãos tentando sustentar o peso da barriga.
Crianças com febre, resfriado e lombrigas, ferimentos diversos, mas nada tão grave quanto ele imaginara. Nenhum caso de malária. Os dentes bons e fortes, de um modo geral, olhos claros, nada de piolhos... todos os pacientes surpreendentemente limpos e saudáveis, em comparação com aldeões similares na China. Nenhum viciado em ópio. Depois de uma hora, Hoag se absorvera por completo no trabalho, bastante satisfeito. Acabara de pôr no lugar um braço quebrado quando a porta foi aberta, e uma moça atraente e bem vestida entrou, hesitante, fez uma reverência. Seu quimono de seda era estampado em azul, a obi verde, o cabelo preso por travessas. Sombrinha azul.
Hoag notou que os olhos de Cheng-sin se estreitavam. Ela respondeu às perguntas do chinês, falando de uma forma ainda mais persuasiva, a voz suave, embora fosse evidente que estava bastante nervosa.
— Doutor em Medicina Sábio Iluminado. — disse Cheng-sin, a fala pontuada pela tosse seca permanente que Hoag já diagnosticara como tuberculose terminal —, esta dama diz que seu irmão precisa de ajuda importante, quase morte. Suplica que a acompanhe... sua casa fica perto.
— Diga a ela para trazê-lo até aqui.
— Infelizmente, tem medo de movê-lo.
— O que há com ele?
Depois de mais perguntas e respostas, que para Hoag pareciam mais uma barganha do que qualquer outra coisa, Cheng-sin disse:
— A casa fica uma ou duas ruas lá fora. Seu irmão está... — Ele tossiu, enquanto procurava pela palavra. — Dorme como morto, mas vivo, com delírio e febre.
Cheng-sin fez uma pausa, e sua voz se tornou ainda mais insinuante quando acrescentou:
— Ela tem medo de mexer no irmão, Honorável Doutor em Medicina Sábio Iluminado. Seu irmão samurai, ela diz que pessoas muito importantes muito felizes se ajudasse seu irmão. Acho que ela fala verdade.
Pelos jornais de Hong Kong, Hoag tinha conhecimento dos samurais como a classe dominante absoluta no Japão e sabia que qualquer coisa que conquistasse a confiança deles, e com isso sua cooperação, ajudaria a influência britânica. Ele estudou a moça, que no mesmo instante baixou os olhos. Seu nervosismo aumentou. Parecia ter quinze ou dezesseis anos, e suas feições a tornavam bem diferente dos aldeões, a pele adorável. Se o irmão é samurai, então ela também é, pensou Hoag, intrigado.
— Como ela se chama?
— Uki Ichikawa. Por favor, tenha pressa.
— Seu irmão é um samurai importante?
— É, sim — garantiu Cheng-sin. — Eu vou junto, não tenha medo.
Hoag riu.
— Medo? Eu? De jeito nenhum! Espere aqui.
Ele foi para a outra sala de cirurgia, abriu a porta sem fazer barulho. Babcott se concentrava em extrair um dente com abscesso, o joelho no peito do rapaz, a mãe transtornada retorcendo as mãos, falando sem parar. Hoag decidiu não incomodá-lo.
Nos portões, o sargento da guarda deteve-os, com toda polidez, e perguntou aonde Hoag ia.
— Mandarei dois dos meus homens acompanhá-lo. É melhor ter segurança em excesso do que se arrepender depois.
A moça ainda tentou dissuadi-los de levar os soldados, mas o sargento se mostrou intransigente. Ela acabou concordando e conduziu-os pela rua, cada vez mais nervosa, entraram por uma viela, depois outra, e mais outra. Os aldeões por que passavam no caminho desviavam os olhos e se afastavam apressados. Hoag levava sua maleta de médico. Por cima dos telhados, ainda podia avistar o templo, e sentiu-se seguro, contente pela companhia dos soldados, sabendo que seria uma terneridade sair sem eles. Cheng-sin seguia a seu lado, um cajado alto na mão.
Essa moça não é o que finge ser, pensou Hoag, um tanto excitado pela aventura.
Entraram em outra viela. A moça parou diante de um portão em uma cerca alta e bateu. Uma grade pequena foi aberta, depois o portão. Quando o corpulento criado viu os soldados, fez menção de fechar de novo, mas a moça lhe ordenou autoritária, que desistisse.
O jardim era pequeno, bem cuidado, mas não extravagante. Nos degraus para a varanda de uma pequena casa de shoji, ela tirou os sapatos de madeira e pediu-lhes que fizessem a mesma coisa. Era difícil para Hoag, pois usava botas de cano alto. A moça mandou que o criado o ajudasse e ele obedeceu no mesmo instante.
— É melhor vocês dois ficarem de guarda aqui — disse Hoag aos soldados embaraçado pelos buracos em suas meias.
— Certo, senhor. — Um dos soldados verificou seu fuzil. — Vou dar uma olhada nos fundos. Se houver algum problema, basta gritar.
A moça puxou a porta de shoji da casa. Ori Toyama, o shishi do ataque na Tokaidô, estava deitado sobre futons, o lençol encharcado de suor, abanado por uma criada. Ela arregalou os olhos ao deparar com Hoag, e não o Honorável Curandeiro Gigante da Medicina, como esperava, e recuou quando ele entrou.
Ori se encontrava inconsciente, em coma... suas espadas estavam numa prateleira baixa próxima, um arranjo de flores no takoma. Hoag agachou-se ao seu lado. O rapaz tinha a testa muito quente, o rosto afogueado, com uma febre perigosamente alta. A causa logo ficou evidente, quando Hoag removeu a bandagem que cobria o ombro e a parte superior do braço.
— Oh, Deus! — murmurou ele, ao constatar a extensão da inflamação inchada e purulenta, o cheiro revelador e a carne preta do tecido morto, gangrenado, em torno do ferimento a bala.
— Quando ele levou o tiro?
— Ela não sabe direito. Duas ou três semanas.
Mais uma vez, Hoag examinou o ferimento. Depois, alheio a todos os olhos que o focalizavam, foi sentar-se na varanda, o olhar perdido no espaço.
Tudo o que preciso agora é de meu excelente hospital em Hong Kong, com os melhores equipamentos de cirurgia, e minhas maravilhosas enfermeiras de Nightingale, junto com muita sorte, para salvar esse pobre rapaz. Malditas armas de fogo, malditas guerras, malditos políticos...
Pelo amor de Deus, venho tentando curar ferimentos de bala durante toda a minha vida profissional, e fracassando na maioria das vezes — seis anos com a Companhia das índias Orientais, na sangrenta Bengala, quinze anos em Hong Kong, e anos na guerra do ópio, um ano como voluntário na Criméia, o pior de tudo. Essas miseráveis armas de fogo! Por Deus, quanto desperdício!
Depois de descarregar sua raiva, ele acendeu um pequeno charuto, tragou, apagou o fósforo, jogou-o ao chão. No mesmo instante, o chocado criado se adiantou apressado e recolheu o objeto ofensivo.
— Desculpe — murmurou Hoag, sem ter notado antes a limpeza impecável do caminho e da área ao redor.
Ele aspirou fundo a fumaça e depois removeu tudo de sua mente, exceto o rapaz. Acabou tomando uma decisão. Ia jogar o charuto ao chão, mas entregou-o ao criado, que fez uma mesura e se afastou para enterrá-lo.
— Cheng-sin, diga a ela que sinto muito, mas que eu opere ou não, acho que seu irmão vai morrer. Sinto muito.
— Ela diz: “Se morrer é karma. Se não ajudar, ele morre hoje, amanhã. Por favor, tente. Se ele morrer, karma.” Ela pede ajuda. — Uma pausa, e Cheng-sin acrescentou, suavemente: — Doutor em Medicina Sábio Iluminado, este jovem importante. Importante tentar, hem?
Hoag olhou para a moça. Ela sustentou seu olhar e murmurou:
— Dozo, Hoh Geh-sama. Por favor.
— Está bem, Uki. Cheng-sin, diga a ela outra vez que não posso prometer coisa alguma, mas vou tentar. Precisarei de sabão, muita água quente em tigelas, lençóis limpos, panos limpos rasgados em tiras, muito sossego e alguém com estômago forte para me ajudar.
A moça apontou para si mesma.
— Soji shimasu. Eu ajudarei. Hoag franziu o rosto.
— Avise a ela que será bastante desagradável, muito sangue, muito mau cheiro, uma coisa horrível.
Ele a viu escutar o chinês com uma atenção total e depois declarar, com evidente orgulho:
— Gomen nasai, Hoh Geh-san, wakamarisen. Watashi samurai desu.
— Ela diz: “Por favor, desculpe, eu compreendo. Sou samurai.”
— Não sei o que isso significa para você, minha jovem, e não imaginava que mulheres podiam ser samurais, mas vamos começar.
Hoag não demorou a descobrir que uma das características dos samurais era a coragem. A moça não fraquejou em nenhum momento, durante a operação de limpeza, o corte do tecido infeccionado, a liberação do pus fétido, o sangue pulsando de uma veia parcialmente cortada, até que ele conseguiu estancar a hemorragia, usando várias mechas. As mangas enormes do quimono de criada que ela vestira estavam enroladas e amarradas para não atrapalharem e, assim como o lenço com que cobrira os cabelos, logo ficaram sujas e malcheirosas.
Hoag trabalhou durante uma hora, murmurando de vez em quando, os ouvidos fechados, as narinas fechadas, numa concentração absoluta, repetindo uma operação que já realizara mil vezes. Cortar, costurar, limpar, enfaixar. E depois ele terminou.
Sem pressa, esticou os músculos com cãibras das costas, lavou as mãos e tirou o lençol agora ensangüentado que usara como avental. Ori se encontrava na beira da varanda, numa mesa improvisada, e Hoag de pé no jardim.
— Não dá para trabalhar ajoelhado, Uki — explicara ele.
Tudo o que ele pedira, a moça fizera sem a menor hesitação. Não houvera necessidade de anestesiar o homem que ela dissera se chamar Hiro Ichikawa, pois seu coma era profundo. Uma ou outra vez, Ori gritara, mas não de dor, apenas porque algum demônio o atormentara em seu pesadelo. E se debatera, mas sem força.
Ori deixou escapar um suspiro profundo. Preocupado, Hoag verificou sua pulsação. Era imperceptível, assim como a respiração.
— Não importa — murmurou Hoag. — Pelo menos ele ainda tem uma pulsação.
— Gomen nasai, Hoh Geh-san — disse a voz suave da moça —, anata kangaemasu, hai, iyé?
— Ela diz: “Desculpe, Honorável Sábio Iluminado, acha sim ou não?” Cheng-sin tossiu. Passara todo o tempo longe da varanda, de costas para eles.
Hoag deu de ombros, observando-a, especulando a seu respeito, de onde vinha tanta força, onde ela morava, o que aconteceria agora. Uki estava muito pálida, o rosto abalado, mas ainda dominada por uma vontade de ferro. Os olhos do médico contraíram-se num sorriso.
— Não sei. Depende de Deus. Uki, seu número um. Samurai.
— Domo... domo arigato gozaimashita. Obrigada.
Ela se inclinou para o tatame. Seu verdadeiro nome era Sumomo Anato, a prometida de Hiraga e irmã de Shorin, não de Ori.
— Ela pergunta o que deve fazer agora.
— Por seu irmão, nada no momento. Diga à criada para pôr toalhas frias na testa dele e manter as bandagens encharcadas com água limpa, até a febre baixar. Se a... depois que a febre baixar, e espero que isso aconteça antes do amanhecer, o rapaz viverá. Talvez.
E quais são as chances, essa era a pergunta seguinte habitual. Só que não aconteceu desta vez.
— Tenho de ir agora. Diga a ela para mandar alguém me buscar amanhã de manhã...
Se ele ainda estiver vivo, pensou Hoag, mas preferiu não dizê-lo. Enquanto Cheng-sin traduzia, Hoag começou a lavar seus instrumentos. A moça chamou o criado, murmurou-lhe algumas palavras.
— Hai — disse o homem e se afastou apressado.
— Doutor em Medicina Sábio Iluminado, antes de partir, dama diz que vai querer um banho. Sim?
O Dr. Hoag já ia dizer que não, mas descobriu-se a acenar com a cabeça em aceitação. E sentiu-se contente por isso.
Ao crepúsculo, Babcott sentava-se na varanda da legação, saboreando um uísque. exausto, mas satisfeito com seu trabalho naquele dia. Havia um agradável cheiro de maresia na brisa que soprava pelo jardim. No momento em que seus olhos desviaram-se, involuntariamente, para os arbustos em que o assassino vestido de preto fora surpreendido e morto, três semanas antes, o sino do templo começou a repicar, e o canto distante dos monges ressoou por toda parte:
— Ommm mahnee padmee hummmmm...
Babcott virou a cabeça, de uma forma abrupta, quando Hoag se aproximou.
— Pelo bom Deus!
Hoag vestia um yukata estampado, com faixa na cintura, sapatos-meias nos pés e tamancos japoneses. Tinha os cabelos e a barba lavados e escovados. Carregava debaixo do braço um barril de saquê envolto por palha e exibia um sorriso radiante.
— Boa noite, George!
— Parece muito satisfeito consigo mesmo. Onde esteve?
— A melhor parte foi o banho.
Hoag pôs o barril num aparador e serviu-se de uma dose de uísque puro. — Por Deus, o melhor banho que já tive! Nem posso acreditar o quanto me sinto bem até agora!
— Como era ela? — perguntou Babcott, secamente.
— Não houve sexo, meu caro, apenas fui bastante esfregado, mergulhado em água quase fervendo, apertado e massageado, e depois me deram este traje para vestir. Enquanto isso, todas as minhas roupas foram lavadas e passadas, limparam as botas, trocaram as meias. Maravilhoso! Ela me deu o saquê, e isto...
Hoag tirou da manga, e mostrou a Babcott, duas moedas de formato oval e um pergaminho coberto de caracteres.
— Por Deus, foi muito bem pago! Essas moedas são oban de ouro... e dão para mantê-lo com champanhe pelo menos por uma semana! O sargento me disse que você foi chamado para uma visita domiciliar.
Ambos riram e depois Babcott indagou:
— Era um daimio?
— Acho que não. Era um jovem, um samurai. Não creio que o tenha ajudado muito. Pode ler o pergaminho?
— Não, mas Lim pode. Lim!
— Pois não, amo?
— O que diz o papel?
Lim pegou o pergaminho. Seus olhos se arregalaram, ele releu com cuidado, antes de dizer a Hoag, em cantonês:
— Diz aqui: “Doutor em Medicina Sábio Iluminado prestou um grande serviço. Em nome dos shishi de Satsuma, dêem-lhe toda ajuda que ele precisar.” Lim apontou para a assinatura, com um dedo trêmulo. — Desculpe, lorde, mas nâo consigo ler o nome.
— Por que está tão assustado? — perguntou Hoag, também em cantonês.
Lim respondeu com evidente apreensão:
— Os shishi são rebeldes, bandidos caçados pelo Bakufu. São maus, lorde, apesar de samurais.
Impaciente, Babcott interveio:
O que diz o documento, Ronald?
Hoag relatou o que o chinês lhe dissera.
— Um bandido? O que aconteceu?
Sedento, Hoag serviu-se de mais uísque e começou a descrever em detalhes a mulher, o rapaz e o ferimento, como cortara o tecido morto.
— ...parece que o pobre coitado foi baleado há duas ou três semanas...
— Deus Todo-Poderoso!
Babcott levantou-se de um pulo, ao constatar que tudo se ajustava, surpreendendo Hoag, que derramou o uísque.
— Ficou maluco? — resmungou Hoag.
— Pode encontrar o caminho de volta à casa?
— Ahn... acho que sim, mas...
— Vamos até lá, depressa! Babcott saiu da sala, gritando:
— Sargento da guarda!
Desceram por uma viela, Hoag na frente, ainda de yukata, mas agora calçando as botas, Babcott logo atrás, o sargento e dez soldados em seguida, todos armados. Os poucos pedestres, alguns carregando lanternas, tratavam de sair da frente. Havia uma lua cheia lá em cima.
Ainda mais depressa agora. Uma curva errada. Hoag praguejou, voltou, orientou-se, encontrou a entrada meio oculta da viela correta. E seguiram em frente. Outra viela. Ele parou, apontou. O portão, vinte metros adiante.
No mesmo instante, o sargento e os soldados passaram por ele. Dois ficaram de costas contra o muro, montando guarda, quatro arremeteram de ombro contra o portão, arrancando-o das dobradiças, e passaram pela abertura, Hoag e Babcott em seu encalço... ambos empunhando rifles emprestados com a maior facilidade, peritos em seu uso, uma habilidade comum e uma necessidade para todos os civis europeus na Ásia.
Atravessaram o jardim. Subiram os degraus. O sargento abriu aporta de shoji. O aposento estava vazio. Sem a menor hesitação, o sargento passou para o cômodo seguinte, e o outro. Nenhum sinal de qualquer pessoa nos cinco cômodos interligados, na cozinha ou na privada externa de madeira. Todos saíram para o jardim.
— Espalhem-se! — ordenou o sargento. — Jones e Berk, sigam por aquele lado, vocês dois por ali, vocês dois pelo outro lado, e vocês dois ficam de guarda aqui; e pelo amor de Deus, mantenham os olhos bem abertos!
Os soldados aprofundaram-se pelo jardim, em duplas, um protegendo o outro. a lição do primeiro assassino devidamente aprendida. Procuraram por todos os cantos. Nada. O sargento suava quando voltou.
— Não vimos nada, senhor. Nem mesmo um sussurro, absolutamente nada. Tem certeza de que foi aqui mesmo, senhor?
Hoag indicou uma mancha escura na varanda.
— Foi ali que operei.
Babcott praguejou, olhou ao redor. Aquela casa era cercada por outras, e apenas os telhados apareciam por cima dos muros e nenhuma janela dava para aquele lado. Não havia nenhum lugar para se esconder.
— Eles devem ter partido no momento em que você foi embora.
Hoag removeu o suor da testa, secretamente contente pelo fato de a moça ter escapado. Depois de sair para o banho, não tornara a vê-la, um fato que lamentara. A criada lhe entregara o dinheiro e o pergaminho, ambos embrulhados de maneira meticulosa, além do barril de saquê, e lhe dissera que sua ama enviaria um guia para buscá-lo na manhã seguinte e transmitia seus agradecimentos.
Sobre o irmão, Hoag se sentia agora ambivalente. O rapaz era apenas um paciente, ele era médico, e queria ter êxito em seu trabalho.
— Nunca me ocorreu que o rapaz pudesse ser um dos assassinos. É verdade que não faria qualquer diferença, não para a operação. E pelo menos agora sabemos seu nome.
— Mil oban contra um botão quebrado como era falso. Nem sequer sabemos se o rapaz era mesmo irmão dela. Se ele era um shishi, como diz o pergaminho, só pode ser falso. Além do mais, a impostura é um antigo costume japonês. — Babcott suspirou. — Também não tenho certeza se era o demônio da Tokaidô. Apenas um pressentimento. Quais são as chances dele?
— A saída daqui não ajudou em nada.
Hoag pensou por um momento, um homem atarracado, parecendo um sapo, em contraste com a enorme altura de Babcott, embora nenhum dos dois se desse conta da diferença.
— Tornei a examiná-lo pouco antes de ir embora. A pulsação era fraca, mas firme. Creio que removi a maior parte do tecido gangrenado, mas... — Ele deu de ombros. — Sabe como são essas coisas... “Você entra com seu dinheiro e corre os riscos.” Eu não apostaria muito na sua possibilidade de sobreviver. Mas, por outro lado, quem pode saber, não é mesmo? E agora me conte sobre o ataque. Quero saber todos os detalhes.
Durante a volta, Babcott relatou tudo o que acontecera. E falou sobre Malcolm Struan.
— Ele me preocupa, mas Angelique é a melhor enfermeira que poderia ter.
— Jamie disse a mesma coisa. Concordo que não há nada como uma linda jovem à cabeceira de um doente. Malcolm perdeu muito peso... e ânimo... mas é jovem e sempre foi o mais forte da família, depois da mãe. Deve ficar bom, desde que os pontos resistam. Tenho absoluta confiança em seu trabalho, George, embora seja uma lenta recuperação para o pobre coitado. Ele está mesmo apaixonado pela moça, não é?
— É, sim, e a recíproca é verdadeira. Um sujeito de sorte. Caminharam em silêncio por algum tempo, rompido por Hoag, com evidente hesitação:
— Presumo que você já sabe que a mãe se opõe terminantemente a qualquer forma de ligação com a moça.
— Já tinha ouvido falar. Isso cria um problema.
— Acha então que as intenções de Malcolm são sérias?
— Mais do que sérias. Ela é uma moça extraordinária.
— Você a conhece?
— Angelique? Não muito bem, não como paciente, embora já a tenha observado sob uma terrível pressão. E você?
Hoag sacudiu a cabeça.
— Só a encontrei em festas, nas corridas, socialmente. Desde que ela chegou há três ou quatro meses, foi o centro das atenções nos bailes, com toda razão Nunca como paciente, pois existe agora um médico francês em Hong Kong imagine só! Mas concordo que ela é deslumbrante. Não necessariamente a esposa ideal para Malcolm, se é essa a sua intenção.
— Porque ela não é inglesa? Nem rica?
— As duas coisas, e mais ainda. Sinto muito, mas não consigo confiar nos franceses, uma raça ruim... é da natureza deles. O pai de Angelique é um perfeito exemplo, encantador, galante na superfície, mas um canalha logo abaixo, e até o fundo. Lamento, mas eu não escolheria a filha de um homem assim para casar com meu filho.
Babcott se perguntou se Hoag sabia que ele estava a par do escândalo: enquanto trabalhava na Companhia das índias Orientais, em Bengala, há mais de vinte e cinco anos, o jovem Dr. Hoag casara com uma indiana, contra todas as convenções e os conselhos de seus superiores, e por isso fora dispensado, enviado de volta à Inglaterra em desgraça. Tiveram uma filha e um filho, e depois ela morrera, o frio, a umidade e o nevoeiro de Londres quase uma sentença de morte para alguém de herança indiana.
As pessoas são muito estranhas, refletiu Babcott. Aqui está um bravo e íntegro inglês, um excelente médico, com filhos que são meio indianos — e, por isso, não aceitáveis socialmente na Inglaterra —, queixando-se da herança de Angelique. Quanta estupidez... e é uma estupidez ainda maior se esconder da verdade.
É verdade, mas você também não se esconde da verdade? Tem vinte e oito anos, ainda lhe sobra bastante tempo para casar, mas conseguirá algum dia encontrar uma mulher mais excitante do que Angelique, em qualquer lugar, ainda mais na Ásia, onde passará o resto de sua vida profissional?
Não, não encontrarei, tenho certeza. Sorte de Struan, que provavelmente casará com ela. E eu o apoiarei, sem a menor hesitação.
— Talvez a Sra. Struan esteja apenas sendo protetora, como qualquer mãe — comentou ele, sabendo como era importante a influência de Hoag sobre os Struans —, e apenas se opõe a Malcolm se amarrar muito cedo. O que é compreensível. Afinal, ele é o tai-pan agora e isso vai consumir todas as suas energias. Mas não me entenda errado, Ronald. Acho que Angelique é uma moça extraordinária, corajosa, a melhor companheira que um homem poderia desejar... e para fazer um bom trabalho, Malcolm vai precisar de todo apoio que puder obter.
Hoag percebeu a paixão por trás, registrou a informação e deixou o assunto por aí, sua mente subitamente de volta a Londres, onde a irmã e o marido criavam sua filha e seu filho, como sempre odiando a si mesmo por ter deixado a índia, submetendo-se às convenções e assim matando-a, Arjumand, a adorável.
Eu devia estar louco ao levar minha amada para aqueles invernos insuportáveis, despedido, quebrado, sem emprego, tendo de começar tudo de novo. Oh, Deus, deveria ter ficado, lutado contra a Companhia; minha competência como médico acabaria obrigando-os a me aceitarem de volta, o que nos salvaria...
As duas sentinelas deixadas no prédio bateram continência quando eles entraram. O jantar fora posto para dois.
— Scotch ou champanhe? — perguntou Babcott, para gritar em seguida: —
Lun!
— Champanhe. Quer que eu abra?
— Pode deixar comigo.
Babcott abriu a champanhe, que esperava num balde de gelo de prata georgiano.
— Saúde! LUN!
— E felicidade! Retiniram os copos.
— Perfeita! — exclamou Hoag. — Como é seu chef?
— De razoável para horrível, mas a qualidade de nossos frutos do mar é excelente, camarões, ostras, e dezenas de peixes diferentes. Onde será que Lun se meteu? — Babcott suspirou. — Aquele desgraçado precisa de uma surra. Grite com ele, está bem?
Mas a copa, onde o mordomo costumava ficar, estava vazia. Lun também não se encontrava na cozinha. Acabaram por encontrá-lo no jardim, ao lado de um caminho. Fora decapitado, a cabeça jogada para o lado. Em seu lugar, havia a cabeça de um macaco.
— Não, senhora — murmurou a mama-san, apavorada, — não pode deixar Ori-san aqui amanhã. Tem de partir ao amanhecer. Sumomo declarou:
— Sinto muito, mas Ori-san ficará até...
— Também sinto muito. Desde o ataque ao ministro-chefe Anjo, a caçada aos shishi é intensa, as recompensas por informações vão até o céu, com a pena de morte... para qualquer pessoa numa casa que os abrigue.
— Essa ordem é para Iedo, não prevalece aqui em Kanagawa — insistiu Sumomo.
— Sinto muito, mas alguém falou — disse a mama-san, os lábios contraídos. Seu nome era Noriko e as duas estavam a sós em seus aposentos particulares, na estalagem das Flores da Meia-Noite, ajoelhadas sobre almofadas púrpuras, o cômodo iluminado por velas, uma mesa baixa com chá entre elas. Noriko acabara de voltar de uma furiosa reunião com o mercador de arroz que emprestava dinheiro. Ele aumentara os juros sobre sua hipoteca de trinta para trinta e cinco por cento, alegando a situação perigosa no reino. Cão sem mãe, pensou ela, fervendo de raiva, para depois isolar o caso, e se concentrar no problema mais imediato que tinha pela frente.
— Esta manhã soubemos que os vigilantes...
— Quem?
— Os vigilantes? São patrulhas especiais de interrogatório do Bakufu, homens sem misericórdia. Chegaram durante a noite. Espero receber uma visita Sinto muito, mas ele deve partir ao amanhecer.
— Vai mantê-lo aqui até que ele fique bom.
— Mas não posso! Não depois do que aconteceu na estalagem dos Quarenta e Sete Ronin. Os vigilantes são impiedosos. Não quero esta cabeça espetada na ponta de um chuço.
— Isso foi em Iedo e estamos em Kanagawa. Esta é a estalagem das Flores da Meia-Noite. Lamento, mas Hiraga-san exigiria.
— Ninguém exige nada aqui, senhora — proclamou Noriko, a voz estridente.
— Nem mesmo Hiraga-san. Tenho que pensar em meu próprio filho e na minha casa.
— Faz muito bem. E eu tenho de pensar no amigo de meu irmão e aliado de Hiraga. Também devo lembrar do rosto de meu irmão. Estou autorizada a acertar suas dívidas.
Noriko se mostrou surpresa.
— Todas as dívidas de Shorin?
— Metade agora, a outra metade quando Sonno-joi prevalecer.
— Negócio fechado — disse Noriko, tão atordoada com a sorte inesperada, por um dinheiro que nunca imaginara que viria a receber, que cedeu na barganha.
— Mas nada de médicos gai-jin e apenas por uma semana.
— Combinado.
No mesmo instante, a moça enfiou a mão na manga, a fim de pegar a bolsa, escondida num compartimento secreto. Noriko prendeu a respiração ao ver tantas moedas de ouro.
— Aqui estão dez oban. Vai me dar um recibo, junto com sua conta detalhada, a metade da dívida, como combinamos, no momento em que formos embora. Onde Ori-san pode ficar em segurança?
Noriko se censurou por ter sido tão precipitada, mas já que concordara, agora era uma questão de honra. Enquanto considerava o que fazer, estudou a jovem a sua frente, Sumomo Anato, irmã mais nova de Shorin Anato, o shishi, o selvagem, o menino que ela iniciara no mundo dos homens, há tantos anos. Ah, quanto desejo. Que vigor para alguém tão jovem, pensou ela, com uma saudade agradável, embora imprópria. E que memorável cortesã aquela moça daria. Juntas, poderiam ganhar uma fortuna; em um ou dois anos ela casaria com um daimio e, se ainda for virgem, que preço eu poderia obter! Ela é tão bonita quanto Shorin disse, uma Satsuma clássica... segundo ele, samurai sob todos os aspectos. Linda da cabeça aos pés.
— Quantos anos tem, senhora?
Sumomo surpreendeu-se com a pergunta.
— Dezesseis.
— Sabe como Shorin morreu?
— Sei. Serei vingada.
— Hiraga lhe contou?
— Você faz perguntas demais — protestou Sumomo, a voz ríspida.
Noriko achou engraçado.
— No jogo em que nos empenhamos, você e eu, embora seja uma samurai e eu uma mama-san, somos irmãs.
— Acha mesmo?
— Acho, sim. Por isso, neste jogo tão sério de dar cobertura a nossos homens, protegê-los de sua bravura... ou estupidez, dependendo do lado em que a gente se encontra, arriscando nossas vidas para resguardá-los de seus próprios méritos, devemos ter confiança uma na outra. Confiança de irmãs de sangue. Assim, torno a perguntar: Hiraga lhe falou de Shorin?
Sumomo sabia que sua posição era delicada.
— Falou.
— Hiraga é seu amante?
Os olhos de Sumomo se contraíram.
— Hiraga é... era meu noivo, antes de... antes de partir para servir Sonno-joi.
A mama-san piscou.
— Um samurai de Satsuma permite que sua filha fique noiva de um samurai de Choshu... quer seja shishi ou não, ronin ou não?
— Meu pai não aprovou. Nem minha mãe. Mas Shorin aceitou. E eu não aprovei a escolha que eles fizeram para mim.
— Ah, sinto muito. — Noriko ficou triste, sabendo muito bem o que significava a pressão incessante, o confinamento em sua própria casa ou até pior. — Foi proscrita de sua família?
Sumomo permaneceu imóvel, a voz se manteve calma:
— Há poucos meses, decidi seguir meu irmão e Hiraga-san, a fim de poupar meu pai dessa vergonha. Sou agora uma ronin.
— Enlouqueceu? Mulheres não podem se tornar ronin.
— Noriko — disse Sumomo, resolvendo assumir um risco —, concordo que devemos ser irmãs de sangue.
Um estilete apareceu em sua mão. Noriko piscou outra vez, aturdida, pois não vira de onde saíra o estilete. Observou Sumomo espetar seu dedo e lhe oferecer a lâmina. Sem hesitação, fez a mesma coisa. Encostaram os dedos, misturando o Sangue, e depois fizeram uma reverência solene.
— Sinto-me honrada. Obrigada, Sumomo. — Sorrindo, a mama-san devolveu o estilete. — Agora sou um pouquinho samurai, não é?
O estilete foi guardado de volta na bainha da manga.
— Quando o imperador recuperar todo o seu poder, ELE promoverá a samurais todos aqueles que merecem. Pediremos por você, Hiraga-san, Ori e eu.
Noriko fez outra reverência em agradecimento, adorando a idéia, mas convencida de que se situava além de qualquer possibilidade e de que nunca viveria para ver o inconcebível acontecer: o xogunato Toranaga cessar de existir.
— Em nome de toda a minha linhagem, obrigada. Agora... Saquê!
— Não, obrigada. Lamento muito, mas Sensei Katsumata fez com que as mulheres em sua turma renunciassem ao saquê, dizendo-nos que embotaria para sempre nossa habilidade e prejudicaria nossa mira. Por favor, onde está Hiraga-san?
Noriko observou-a, escondendo seu sorriso.
— Katsumata, o grande senseil Estudou com ele? Shorin nos contou que você sabia usar a espada, a faca e o shuriken. É verdade?
Com surpreendente rapidez, Sumomo enfiou a mão na obi, tirou um shuriken e arremessou o pequeno círculo de aço, com cinco lâminas, muito afiadas, através da sala, cravando-o no centro exato de um poste. Mal se mexera.
— Por favor, onde está Hiraga-san? — indagou ela, gentilmente.
IEDO
Naquela noite, hiraga comandou o ataque silencioso, passando por cima da estacada do palácio de um daimio, no segundo círculo, fora das muralhas do castelo. Correram pelo jardim para a entrada dos fundos da mansão, a noite iluminada por uma lua fria. Todos os seis homens usavam o mesmo quimono curto, preto, o traje de combate noturno, sem armadura, para não prejudicar a velocidade e o silêncio. Todos levavam espadas, facas e garrotes. Todos eram ronin de Choshu, convocados por Hiraga com urgência de Kanagawa, para o ataque daquela noite.
Em torno da mansão, havia alojamentos, estábulos e aposentos para os criados, onde normalmente deveriam estar instalados quinhentos guerreiros, a família e os criados do daimio. Só que agora se encontravam vazios. Apenas duas sentinelas sonolentas se postavam na porta dos fundos. Viram os atacantes tarde demais para darem o alarme e morreram. Akimoto tirou o uniforme de uma sentinela, vestiu-o, arrastou os corpos para as moitas e foi se juntar aos outros na varanda. Esperaram, imóveis, escutando com toda atenção. Não ouviram gritos de alerta, o que os levaria a desistir do ataque no mesmo instante.
— Não tem importância se tivermos de bater em retirada — explicara Hiraga, ao crepúsculo, quando os outros chegaram a Iedo.— Já é suficiente conseguirmos nos infiltrar tão perto do castelo. O objetivo desta noite é o terror, matar e semear o terror, para fazê-los acreditar que ninguém e nenhum lugar se encontram além do nosso alcance e de nossos espiões. O terror, entrar e sair depressa, com o máximo de surpresa e sem baixas. Esta noite é uma oportunidade excepcional. Ele sorrira, antes de acrescentar: — Quando Anjo e os anciãos cancelaram o sankin-kotai, escavaram a sepultura do xogunato.
— Vamos incendiar o palácio, primo? — perguntara Akimoto, feliz.
— Depois de matar.
— E quem é ele?
— É velho, cabelos grisalhos, baixo e magro, Utani, o ancião roju. Todos se mostraram espantados.
— O daimio de Watasa?
— O próprio. Infelizmente, nunca o vi. Alguém sabe como ele é?
— Acho que posso reconhecê-lo — dissera o jovem de dezoito anos, com uma cicatriz horrível estendendo-se pelo lado do rosto. — É esquelético, como uma galinha doente. Vi-o uma ocasião em Quioto. Quer dizer que esta noite vamos despachar um ancião para o outro mundo, nem... um daimio? Mas isso é sensacional!
Ele sorrira, coçara a cicatriz, um legado da malsucedida tentativa Choshu de capturar os portões do palácio, em Quioto, na primavera passada, antes de acrescentar:
— Utani não correrá mais para lugar nenhum depois desta noite. É louco por dormir fora das muralhas e deixar que se saiba disso! E sem guardas? Que estúpido!
Joun, de dezessete anos, sempre o cauteloso, comentara:
— Desculpe, Hiraga-san, mas tem certeza de que não é uma armadilha, preparada com uma falsa informação? Yoshi é conhecido como raposa, Anjo é ainda pior. Há altas recompensas por nossas cabeças, não é? Concordo com meu irmão: como Utani pode ser tão estúpido?
— Porque ele tem um encontro secreto. É um pederasta. Todos o fitaram, aturdidos.
— Por que ele haveria de manter isso em segredo?
— O rapaz é um dos íntimos de Anjo.
— So ka! — Os olhos de Joun faiscaram. — Neste caso, acho que eu também manteria em segredo. Mas porque um rapaz bonito haveria de se entregar a alguém como Utani, quando já conta com um protetor poderoso?
Hiraga dera de ombros.
— Por dinheiro, o que mais? Nori é um avarento, Utani generoso... Os camponeses de Anjo não são os mais tributados em todo o Japão? As dívidas dele não sobem até o céu? Ele não é conhecido por consumir moedas de ouro como se fossem grãos de arroz? Muito em breve, de um jeito ou de outro, Anjo deixará este mundo. Talvez esse rapaz bonito pense que Utani sobreviverá a ele e que o risco vale a pena. Afinal, Utani tem influência na corte, não é? Koku! Por que não? Sua família deve ser miserável, afogada em dívidas... não é o que acontece com quase todos os samurais, abaixo da posição de hirazamurai, que vivem no nível de pobreza?
— Tem razão — concordaram todos.
— Isso é verdade desde o quarto xógum, há quase duzentos anos — comentara o jovem de dezoito anos, amargurado. — Os daimios ficam com todos o tributos, vendem cartas de samurais a mercadores sórdidos, mais e mais a cada ano, e ainda cortam nosso pagamento. Os daimios traíram a nós, seus leais seguidores!
— Você está certo — disse Akimoto, enfurecido.— Meu pai teve de oferecer seus serviços como um trabalhador nos campos, para alimentar meus demais irmãos e irmãs...
— Ao nosso só restaram suas espadas, não tem casa, vive numa cabana — declarara Joun. — Estamos tão endividados desde o tempo do bisavô que nunca teremos condições de pagar os empréstimos. Mas nunca mesmo!
— Sei como dar um jeito nesses vis adoradores do dinheiro, cancelar as dívidas ou matá-los — interviera outro. — Se os daimios às vezes saldam suas dívidas assim, por que não podemos fazer a mesma coisa?
— Uma ótima idéia — concordara Akimoto. — Só que lhe custaria a cabeça. Lorde Ogama o converteria num exemplo, caso seus próprios emprestadores parassem de lhe adiantar dinheiro contra... em que ponto estamos agora?... ah, sim, os tributos que deve receber daqui a quatro anos.
Outro acrescentara:
— O estipêndio de minha família não mudou desde Sekigahara, o custo do arroz subiu cem vezes desde então. Devemos nos tornar mercadores ou fabricantes de saquê. Dois tios e o irmão mais velho renunciaram às suas espadas e fizeram isso.
— É terrível, mas também tenho pensado nessa possibilidade.
— Os daimios traíram a todos nós.
— A maioria, mas nem todos — ressaltara Hiraga.
— É verdade — reconhecera Akimoto. — Mas não importa. Escolheremos nosso daimio após expulsarmos os bárbaros e acabarmos com o xogunato Toranaga. O novo xógum nos dará o suficiente para comer, a nós e nossas famílias, além de armas melhores, até mesmo alguns fuzis dos gai-jin.
— Ele os reservará para seus próprios homens, quem quer que seja.
— Por que faria isso, Hiraga? Haverá o suficiente para todos. Os Toranagas não entesouram de cinco a dez milhões de kokus todos os anos? É mais do que suficiente para armar muito bem a todos nós. Se tivermos de nos separar na escuridão, onde deveremos nos reagrupar?
— Na casa dos Salgueiros Verdes, ao sul da quarta ponte, não aqui. Se isso também for difícil, devemos nos esconder em algum lugar e voltar para Kanagawa...
Agora, na varanda, atentos a qualquer sinal de perigo, desfrutando a sensação, Hiraga sorriu, o coração batendo depressa, sentindo a alegria da vida e da morte emininente, mais próxima a cada dia. Dentro de poucos momentos, tornaremos a atacar. A ação novamente...
Passara vários dias no templo ao lado da legação inglesa, esperando impaciente por uma oportunidade de desfechar um ataque, mas sempre havia guerreiros geniais, estrangeiros e samurais. Todos os dias bancara o jardineiro, espionando, escutando, planejando... seria muito fácil matar o bárbaro alto que se encontrava ali, o mesmo que escapara do atentado na Tokaidô. Era espantoso que apenas um bárbaro tivesse morrido, do alvo fácil de três homens e uma mulher.
Ah, a Tokaidô! A Tokaidô significa Ori, Ori significa Shorin e os dois significam Sumomo, que vai completar dezessete anos no próximo mês, e que não vou considerar a carta de meu pai. Não vou de jeito nenhum! Não aceitarei o perdão de lorde Ogama, se para isso tiver de renunciar a Sonno-joi. Segurei sua orientação para qualquer morte a que me conduza.
Só eu continuo vivo agora. Ori está morto ou morrerá amanhã. Shorin se foi E Sumomo?
Na noite anterior, as lágrimas haviam molhado seu rosto, lágrimas do sonho em que a encontrara, com seu bushido e seu fervor, seu corpo e seu perfume chamando-o, mas perdida para ele por toda a eternidade. Fora impossível dormir e ele permanecera sentado na posição de lótus, a posição de Buda, usando o zen para transportar sua mente à paz.
E depois, naquela manhã, a dádiva dos deuses, a mensagem furtiva e cifrada da mama-san de Koiko sobre Utani, que recebera a informação, também secreta, da criada de Koiko. Hiraga pensara, na maior exultação: O que Yoshi faria se soubesse que nossos tentáculos se estendem até seu leito, até mesmo em torno de seus testículos?
Confiante agora de que ainda não haviam sido descobertos, ele se levantou de um pulo, foi até a porta, usou a faca para soltar a tranca. Entraram num instante. Akimoto manteve-se de guarda, no uniforme da sentinela. Os outros seguiram Hiraga sem fazer qualquer barulho, subiram a escada, a caminho dos aposentos das mulheres, um roteiro que lhe fora fornecido com antecedência. Tudo era suntuoso, as melhores madeiras, os tatames mais refinados, o mais puro papel oleado de shoji, os óleos mais fragrantes para os lampiões. Hiraga virou um canto do corredor. O guarda despreocupado fitou-o, aturdido. Abriu aboca, mas nenhum som saiu. A faca de Hiraga o sufocara.
Ele passou por cima do corpo, foi até o final desse corredor, hesitou por um instante, procurando se orientar. Agora, um beco sem saída. Nos lados havia paredes corrediças de shoji, com aposentos por trás. Na extremidade, apenas uma, maior e mais ornamentada do que todas as outras. Um lampião a óleo ardia lá dentro, o que também acontecia em outros cômodos. Uns poucos roncos, respiração pesada. Em silêncio, Hiraga gesticulou para que Todo e Joun o seguissem e os outros ficassem de guarda, depois se adiantou, como uma fera numa expedição de caça noturna. O som da respiração pesada aumentou.
Ele acenou com a cabeça para Joun. No mesmo instante, o jovem passou por ele, foi se agachar no outro lado da porta de shoji, que abriu a outro sinal. Hiraga entrou no quarto, acompanhado por Todo.
Havia dois homens estendidos de bruços nos futons e colchas de seda, nus e unidos, o rapaz com as pernas abertas, o mais velho por cima, agarrando-o e arremetendo, ofegante, alheio a tudo. Hiraga adiantou-se, ergueu a espada bem alto e, segurando o cabo com as duas mãos, enfiou a ponta pelas costas dos dois corpos, um pouco acima do coração, empalando-os no chão de tatame.
O velho arquejou e morreu no mesmo instante, braços e pernas tremendo além da morte. O rapaz se debateu, na impotência, incapaz de mover o tronco, podendo apenas agitar os braços, pernas e cabeça. Mesmo assim, não conseguiu virar a cabeça o suficiente para ver o que acontecera, e também não pôde compreender o que ocorria, sabia apenas que, de alguma forma, sua vida se esvaía pelo corpo aberto. Um uivo de terror subiu por sua garganta, enquanto Todo saltava para a frente e usava o garrote para abafá-lo... um instante tarde demais. Parte do grito ressoou pelo ar agora fétido.
Ele e Hiraga se viraram para aporta, todos os sentidos em alerta Hiraga ergueu sua faca. Todo, Joun e os outros no corredor levantaram suas espadas, os corações disparados, prontos para atacar, fugir, lutar, correr, morrer com orgulho. Por trás de Hiraga, as mãos delicadas do rapaz rasgaram o próprio pescoço, as unhas compridas, perfeitas e pintadas dilacerando a carne em torno do fio do garrote. Os dedos estremeceram, pararam, tremeram, pararam de novo, tornaram a se agitar. E depois ficaram imóveis.
Silêncio. Em algum lugar, uma pessoa dormindo se remexeu, ruidosamente, tomou a ficar quieta. Ainda não havia nenhum alarme nem gritos de advertência. Pouco a pouco os atacantes saíram de sua imobilidade, atordoados, suados. Hiraga sinalizou a retirada.
Todos obedeceram no mesmo instante, à exceção de Joun, que correu pelo quarto, para recuperar a espada de Hiraga. Postou-se por cima dos corpos, mas nem mesmo usando toda a sua força conseguiu remover a espada. Hiraga acenou para que ele se afastasse, também tentou tirar a espada e fracassou. As armas dos mortos se encontravam numa estante de espadas laqueada. Ele pegou uma. Na porta, olhou para trás.
Na luz firme do lampião a óleo, os dois corpos pareciam uma única e monstruosa libélula, de vários membros, cabeça humana, as colchas amarrotadas como suas asas gloriosas, a espada como um gigantesco alfinete de prata. Podia agora ver o rosto do rapaz... e era mesmo muito bonito.
Yoshi passeava pelas ameias, com Koiko a seu lado, uma cabeça mais baixa. Havia um prenúncio de frio na brisa, que trazia o cheiro do mar na maré baixa. Ele nem percebia. Mais uma vez, seus olhos esquadrinharam a cidade lá embaixo, contemplaram a lua, pensativos. Koiko esperava, paciente. Seu quimono era do melhor xantungue, com outro escarlate por baixo, os cabelos soltos, informalmente, caindo até a cintura. O quimono de Yoshi era comum, de seda, mas comum, as espadas também nada tinham de extraordinárias, embora fossem bastante afiadas.
— Em que está pensando, Sire? — perguntou ela, calculando que era tempo de dissipar a melancolia de Yoshi.
Apesar de estarem a sós, Koiko manteve a voz baixa, sabendo que nenhum luugar dentro das muralhas do castelo era realmente seguro.
— Quioto — respondeu ele, também em voz baixa.
— Vai acompanhar o xógum Nobusada?
Yoshi sacudiu a cabeça, embora já tivesse decidido que iria a Quioto, antes da comitiva formal — o embuste habitual.
De alguma forma, devo conter esse jovem tolo, e me tornar o único canal de comunicação entre o imperador e o xogunato, ele estivera pensando, a mente assediada pelas dificuldades com que se defrontava: a loucura daquela visita oficial, Anjo, cujo controle do conselho impusera a aprovação, Anjo, com seu ódio e conspiração, a armadilha em que me encontro aqui no castelo, a multidão de inimigos por toda parte, entre os quais se destacam Sanjiro de Satsuma, Hiro de Tosa e Ogama de Choshu, que agora domina os portões, que são nosso direito hereditário. E além de tudo isso, esperando para atacar, como lobos salivando, ainda há os gai-jin.
Era preciso dar um jeito neles, em caráter permanente. O garoto Nobusada e a princesa devem ser neutralizados, em caráter permanente.
A solução permanente para os gai-jin é óbvia: por qualquer meio que pudermos conceber, quaisquer que sejam os sacrifícios, devemos nos tornar mais ricos do que eles e mais bem armados. Esta deve ser a política nacional secreta, agora e para sempre. Como conseguir isso? Ainda não sei. Mas, como uma questão de polícia, devemos lisonjeá-los para que se tornem descuidados, mantê-los em desequilíbrio, fazer com que suas tolas atitudes se voltem contra eles próprios... e usar nossas habilidades superiores para isolá-los.
Nobusada? Também é claro o que se deve fazer. Mas ele não é a verdadeira ameaça. É ela. Não preciso me preocupar com ele, mas sim com ela, a princesa Yazu, que é o verdadeiro poder por trás de Nobusada, e também na frente.
A súbita imagem mental de Yazu com um pênis, tendo Nobusada como receptor, fê-lo sorrir. Daria uma maravilhosa shunga, pensou ele, divertido. Shunga era a xilogravura erótica, colorida, tão popular e apreciada entre os mercadores e lojistas de Iedo, que fora proscrita pelo xogunato, há mais de um século, como licenciosa demais para eles, as classes inferiores, e que podia, com a maior facilidade, ser usada como sátira contra seus superiores. Na hierarquia imutável do Japão, instituída pelo tairo, o ditador Nakamura, e depois tornada permanente pelo xógum Toranaga, em primeiro vinham os samurais, em segundo os camponeses, em terceiro os artesãos de todos os tipos, e por último, desprezados pelos outros, os mercadores, “sanguessugas de todos os outros trabalhadores”, como dizia o legado. Desprezados porque todos os outros precisavam de suas habilidades e riqueza... acima de tudo de sua riqueza. Em particular os samurais. Por isso, as regras, certas regras, podiam ser ignoradas. Assim, em Iedo, Osaca e Nagasáqui, onde viviam os mercadores mais ricos, a shunga, embora oficialmente proibida, era esculpida e pintada, produzida com a maior satisfação pelos melhores artistas, reproduzida pelos melhores artesãos. Em cada época, artistas disputavam entre si por fama e fortuna, vendendo gravuras aos milhares.
Exóticas, explícitas, mas sempre com genitálias enormes, fora de todas as proporções, num contraste hilariante, as melhores em detalhes perfeitos, bastante possessivos. Também muito apreciados eram os retratos ukiyo. Cresce o constante alvo de intrigas, escândalos e licenciosidade — a lei não omitia a existência de atrizes, e por isso homens especialmente treinados, nãgatta, representavam os papéis femininos — e ainda, acima de tudo, das mais famosas cortesãs.
— Eu gostaria que alguém a pintasse — comentou Yoshi.— É uma pena que Hiroshige e Hokusai estejam mortos.
Koiko soltou uma risada.
— Como eu deveria posar, Sire?
— Não na cama — respondeu ele, rindo também, o que não era comum, deixando-a satisfeita pela vitória. — Apenas andando pela rua, com uma sombrinha verde e rosa, usando seu quimono verde e rosa com a carpa dourada.
— Em vez de uma rua, Sire, não poderia ser em um jardim, ao crepúsculo, pegando pirilampos?
— Ah, muito melhor!
Yoshi sorriu, recordando os raros dias de sua juventude, nas tardes de verão, em que era liberado dos estudos. Nessas ocasiões, saía com irmãos e irmãs, além de amigos, pelos campos, em busca de pirilampos. Os insetos eram apanhados com redes, postos em pequenas gaiolas, e ficavam observando o milagre das luzes se apagando e acendendo, enquanto compunham poemas, riam e brincavam, jovens, sem maiores responsabilidades.
— Como me sinto com você agora — murmurou ele.
— Sire?
— Você me tira do sério, Koiko. Tudo em você.
Como resposta, ela tocou em seu braço, dizendo nada e tudo ao mesmo tempo, feliz com o elogio, toda a sua mente concentrada em Yoshi, querendo ler seus pensamentos e necessidades, querendo ser perfeita para ele.
Mas esse jogo é cansativo, pensou Koiko, mais uma vez. Este protetor é muito complexo, muito perceptivo, muito imprevisível, muito solene e muito difícil de entreter. Não posso deixar de especular por quanto tempo ele me manterá. Começo a detestar o castelo, odiar o confinamento, os testes incessantes, continuar longe de casa, da conversa e riso alegre das outras, Raio de Luar, Fonte da Primavera, Pétala, e acima de tudo de minha querida mama-san, Meikin.
Por outro lado, porém, eu me ufano de estar no centro do mundo, adoro o koku por dia que venho ganhando, exulto por ser quem eu sou, servidora do mais nobre rei e que no fundo é apenas outro homem e não passa, como todos os homens, de um menino rebelde fingindo ser complicado, e que pode ser controlado por mesurras, como sempre, e que pode, se você for esperta, decidir fazer apenas o que você já decidiu que ele pode fazer... independente do que acredite. A risada de Koiko foi vibrante.
— O que foi?
— Deixa-me alegre, Sire, cheia de vida. Terei de chamá-lo de Lorde Doador de Felicidade!
Ele sentiu uma profunda satisfação.
— É assim também na cama?
— Também na cama.
De braços dados, começaram a deixar o luar.
— Veja ali! — exclamou Yoshi subitamente.
Lá embaixo, uma das mansões palacianas pegara fogo. As chamas se projetaram para cima, cada vez mais, acompanhadas por nuvens de fumaça. Agora a distância, podiam ouvir os sinos de incêndio e avistaram pessoas como formigas se agrupando ao redor, e logo filas de outras formigas se formaram entre os tanques de água e a mansão em chamas. O fogo é nosso maior risco, não a mulher, escrevera o xógum Toranaga em seu legado, com raro humor. Contra o fogo podemos estar preparados, nunca contra a mulher. Todos os homens e mulheres em idade casadoura devem casar. Todas as habitações terão tanques de água de fácil acesso.
— Nunca vão conseguir apagá-lo, não é mesmo, Sire?
— Não — respondeu Yoshi, os lábios comprimidos. — Suponho que algum tolo derrubou um lampião ou uma vela.
— Tem razão, Sire, um tolo desajeitado — disse Koiko no mesmo instante, procurando acalmá-lo, sentindo nele uma ira inesperada... sem entender por quê. — Fico contente por saber que está no comando das precauções contra o fogo no castelo e, assim, podemos dormir em segurança. Quem quer que seja o responsável, deve ser repreendido com severidade. Eu me pergunto de quem é aquele palácio.
— É a residência de Tajima.
— Ah, Sire, continua a me espantar! — exclamou Koiko, com uma comovente admiração. — É uma maravilha que seja capaz de distinguir um palácio de outro, entre centenas, tão depressa, e de tão longe!
Ela fez uma reverência para esconder o rosto, sabendo que era o de Watasa, e que agora o daimio Utani devia estar morto, o ataque fora bem-sucedido.
— É mesmo um homem maravilhoso.
— Não, Koiko-chan, você é que é maravilhosa.
Yoshi sorriu para aquela mulher, tão meiga e tão pequena, e ao mesmo tempo tão observadora e perigosa.
Três dias antes, seu novo espião, Misamoto, sempre ansioso em provar seu valor, comunicara os rumores que circulavam nos alojamentos sobre o encontro amoroso entre Utani e o rapaz bonito. Ele ordenara que Misamoto deixasse que o segredo fosse ouvido pela criada de Koiko, que o transmitiria, com toda certeza, à sua patroa ou à mama-san de ambas, talvez mesmo às duas, se outros rumores eram procedentes: os de que essa mesma mama-san, Meikin, era uma fervorosa partidária de Sonno-joi, e permitia, clandestinamente, que sua casa fosse ponto de encontro e refúgio para os shishi. A notícia chegaria depressa ao conhecimento dos shishi, que reagiriam no mesmo instante a uma oportunidade tão espetacular para um grande golpe. Há quase dois anos que os espiões de Yoshi mantinham Meikin e sua casa sob vigilância, por esse motivo, e por causa da crescente importância de Koiko.
Mas nunca surgira qualquer vestígio de prova para confirmar a teoria e condená-las.
Agora, no entanto, pensou Yoshi, observando as chamas, Utani deve estar morto, se o palácio foi incendiado, e tenho uma prova concreta: um sussurro semeado numa criada gerou seu fruto maligno. Utani era — é — um grande golpe para elas. Como eu também seria, ainda maior. Um pequeno tremor percorreu seu corpo.
— O fogo me assusta — murmurou Koiko, interpretando errado o estremecimento, querendo resguardá-lo.
— Vamos embora, deixando-os com seu karma.
De braços dados, eles se afastaram. Yoshi tinha dificuldade para disfarçar seu excitamento. Eu me pergunto qual é o seu karma, Koiko. A sua criada lhe contou e você mandou que dissesse à mama-san; ambas são parte da corrente?
Talvez sim, talvez não. Não percebi qualquer mudança em você quando eu disse Tajima, em vez de Watasa, e a observava com extrema atenção. Tenho minhas dúvidas. Claro que você é suspeita, sempre foi, caso contrário não a teria escolhido; afinal, isso não acrescenta mais tempero ao meu leito? Sem dúvida que sim, e você é tudo que sua reputação prometia. Estou mais do que satisfeito, é verdade, e por isso esperarei mais um pouco. Mas agora é fácil atraí-la para uma armadilha, ainda mais fácil arrancar a verdade de sua criada, dessa mama-san não muito esperta e de você mesma, minha bela! Fácil demais, quando eu fechar a armadilha.
Será uma decisão difícil, porque agora, graças a Utani, tenho uma linha direta e secreta com os shishi, posso usá-la para desmascará-los, destruí-los, ou então lançá-los contra os meus inimigos, a meu capricho. Por que não?
Tentador!
Nobusada? Nobusada e “seu” princesa! Muito tentador! Yoshi começou a rir.
— Sinto-me contente por vê-lo tão feliz esta noite, Sire.
A princesa Yazu estava em lágrimas. Por quase duas horas usara todos os recursos sobre os quais já lera ou vira em livros eróticos para excitá-lo; embora conseguisse torná-lo forte, ele lhe falhara antes que pudesse alcançar as nuvens e a chuva. Depois, como sempre, Nobusada desatara a chorar, arengando que a culpa era dela, num paroxismo de tosse nervosa. Também, como sempre, a tempestade passara. Depressa, ele suplicou perdão, aninhou-se para beijar seus seios, e acabou adormecendo, sugando um seio, enroscado em seu colo.
— Não é justo — balbuciou ela, exausta, incapaz de dormir.
Preciso ter um filho, ou ele pode se considerar morto, e eu também, ou no Mínimo tão envergonhada que terei de raspar a cabeça e me tornar uma monja budista..., oh ko...
Nem mesmo suas damas puderam ajudá-la.
— São todas experientes, a maioria casada, deve haver algum meio de converter meu lorde num homem — gritara ela, depois de semanas de tentativas deixando-as todas tão consternadas que perderam o controle. — Descubram! É dever de vocês descobrir!
Ao longo dos meses, sua corte consultara herbanários, acupuntores, doutores até mesmo adivinhos, mas tudo em vão. Naquela manhã, ela mandara chamar sua matrona principal.
— Tem de haver um meio! O que aconselha?
— Só tem dezesseis anos, honrada princesa — dissera a matrona, de joelhos — e seu lorde também tem dezesseis...
— Mas todas concebem com essa idade, até antes, ou quase todas. Qual é o problema com ele... ou comigo?
— Nada com a princesa, já lhe dissemos muitas vezes. Os doutores nos asseguram que não há nada de er...
— O que me diz do doutor gai-jin, o gigante de que ouvi falar? Uma das criadas me contou que corre o rumor de que ele faz milagres, cura todos os tipos de doenças. Talvez possa curar meu lorde.
— Oh, alteza, sinto muito — balbuciara a mulher, consternada —, mas é inconcebível que qualquer dos dois consulte um gai-jin. Por favor, tenha paciência. Cheng-sin, o maravilhoso adivinho, nos disse que a paciência vai com certeza...
— Podemos fazer tudo em segredo, sua tola! Paciência? Há meses que venho esperando! Meses de paciência e meu lorde ainda não teve o menor vislumbre de que vai me dar um herdeiro! — Antes de poder se controlar, ela esbofeteara a mulher. — Dez meses de paciência e maus conselhos são demais, sua miserável! Vá embora! VÁ EMBORA PARA SEMPRE!
Durante todo o dia, ela planejara para aquela noite. Pratos especiais que ele apreciava foram preparados, temperados com ginsengue. Saquê especial, com ginsengue e pó de chifre de rinoceronte. Perfumes especiais, afrodisíacos. Preces especiais ao Buda. Súplicas especiais a Ameratsu, a deusa do sol, avó do deus Ninji, que descera do céu para governar o Japão e fora o bisavô do primeiro imperador mortal, Jimmu-Tennu, fundador da dinastia imperial, há vinte e cinco séculos... portanto, sua ancestral direta.
Mas tudo falhara.
Agora era a calada da noite e ela chorava em silêncio, deitada, o marido adormecido ao lado, não muito feliz no sono, sacudido por uma tosse vez em quando, braços e pernas tremendo, mas com um rosto que não era desagradável. Pobre e tolo menino, pensou ela, angustiada, é seu karma morrer sem herdeiro, como tantos de sua linhagem? Oh ko, oh ko, oh ko! Por que me permiti ser persuadida a este desastre, longe dos braços de meu amado príncipe.
Quatro anos atrás, quando tinha doze anos, e com a deliciada aprovação da mãe, a última e a predileta consorte de seu pai, o imperador Ninko, que morreu no ano de seu nascimento, e com a aquiescência também deliciada e necessária do Imperador Komei, seu meio-irmão muito mais velho, que assumira o trono imperial, ela se tornara noiva, na maior felicidade, de um companheiro de infância, o príncipe Sugawara.
Fora o ano em que o Bakufu formalmente assinara os tratados que abriam Iocoama e Nagasáqui, contra os desejos do imperador, da maioria da corte, e os conselhos veementes de quase todos os daimios. Fora o ano em que sonno-joi se tornara um grito de batalha. E o mesmo ano em que o então tairo, Li, propusera ao príncipe conselheiro que a princesa Yazu casasse com o xógum Nobusada.
— Sinto muito — dissera o conselheiro —, mas é impossível.
— Não só é possível como também muito necessário para ligar o xogunato à dinastia imperial e proporcionar mais paz e tranquilidade à terra — insistia Li. — Há muitos precedentes históricos de Toranagas concordando em casar com imperiais.
— Sinto muito. — O conselheiro era frágil, vestido e penteado de forma elaborada, os dentes escurecidos. — Como sabe muito bem, sua alteza imperial já está noiva, para casar em breve, assim que alcançar a puberdade. E como também sabe muito bem, o xógum Nobusada já está comprometido com a filha de um nobre de Quioto.
— Lamento, mas os noivados de pessoas tão ilustres constituem uma questão de política de Estado, sob o controle do xogunato, e sempre tem sido assim. — Li era baixo, corpulento e inflexível.— O noivado do xógum Nobusada, a seu próprio pedido, foi cancelado.
— O que é lamentável, pois ouvi dizer que seria uma boa união.
— O xógum Nobusada e a princesa Yazu têm a mesma idade, doze anos. Por favor, comunique ao imperador que o tairo deseja informá-lo de que o xógum se sentirá honrado em aceitá-la como esposa. Podem casar quando ela tiver quatorze ou quinze anos.
— Consultarei o imperador, mas receio que seu pedido não será possível. Espero que o filho do céu seja orientado pelo céu numa decisão tão importante. Os gai-jin se encontram em nossos portões, o xogunato e a dinastia devem ser fortalecidos.
— A dinastia imperial não precisa ser fortalecida. Quanto ao Bakufu, a obediência aos desejos do imperador com certeza melhoraria a paz.
Li protestara em tom áspero:
— Os tratados tinham de ser assinados. As esquadras e as armas dos bárbaros em nos humilhar, independente do que digamos em público! Estamos indefesos. Fomos obrigados a assinar!
— Isso é problema e culpa do Bakufu e do xogunato... o imperador Komei desaprovou os tratados e não queria que fossem assinados.
— A política externa e qualquer política temporal, como o casamento, são uma atribuição exclusiva do xogunato. O imperador... — escolhera suas palavras com o maior cuidado. — ...é preeminente em todas as outras questões.
— “Outras questões” ? Até poucos séculos atrás, o imperador reinava com era o costume por milênios.
— Sinto muito, mas não vivemos há poucos séculos atrás.
Quando a proposta de Li, considerada por todos que se opunham ao Bakufu como um insulto à dinastia, se tornara conhecida, houve um clamor geral. Poucas semanas depois, ele fora assassinado pelos shishi, por sua arrogância, e o assunto caíra no esquecimento.
Até dois anos mais tarde, quando ela completara quatorze anos.
Embora ainda não fosse uma mulher feita, a princesa imperial Yazu já era uma poetisa consumada, sabia ler e escrever o chinês clássico, conhecia todos os rituais da corte necessários ao seu futuro e continuava apaixonada pelo príncipe e vice-versa.
Anjo, precisando reforçar o prestígio do xogunato, cada vez mais sob ameaça, procurara o príncipe conselheiro, que repetira o que já dissera antes. Anjo também repetira o que Li já dissera, mas acrescentara, para espanto de seu oponente:
— Agradeço por sua opinião, mas o chanceler imperial Wakura não concorda com essa posição.
Wakura, na casa dos quarenta anos, tinha muita influência na corte, embora não fosse da nobreza, que, desde o início, assumira a liderança do movimento xenofóbico entre os nobres de classe intermediária que se opunham aos tratados. Como chanceler, era um dos poucos que tinham acesso direto ao imperador. Dias depois, Wakura solicitara uma entrevista com a princesa.
— Fico satisfeito em lhe comunicar que o filho do céu pede que concorde em anular seu noivado com o príncipe Sugawara, e em vez disso case com o xógum Nobusada.
A princesa Yazu quase desmaiara. Dentro da corte, um pedido imperial era uma ordem.
— Deve haver algum equívoco! O filho do céu opôs-se a essa sugestão arrogante, por motivos óbvios, há dois anos. Você também se opôs, e o mesmo aconteceu com todos... Não posso acreditar que a divindade me peça agora uma coisa tão horrível!
— Não é horrível e está sendo pedida.
— Mesmo assim, eu recuso... recuso terminantemente!
— Sinto muito, mas não pode recusar. Permita-me explicar...
— Não, não permito! Recuso, recuso, recuso!
No dia seguinte, outra entrevista solicitada e recusada; depois outra e mais outra. A princesa se mantivera inflexível.
— Não!
— Sinto muito, alteza — dissera-lhe sua matrona principal, desnorteada, mas o chanceler imperial solicita de novo um momento para explicar as razões do pedido.
— Não falarei com ele! Diga-lhe que quero conversar com meu irmão.
— Sinto muito, alteza, mas é meu dever lembrá-la de que o filho do céu deixou de ter amigos e parentes quando ascendeu ao trono.
— Eu... claro, claro. Por favor, desculpe-me. Sei disso. Estou cansadademais, o que me levou a falar assim.
Mesmo dentro da corte, só a esposa do imperador, as consortes, mãe, filhos, irmãos e irmãs, mais dois ou três conselheiros tinham permissão para fitá-lo no rosto sem permissão. Afora esses poucos íntimos, era proibido. ELE era divino.
Como todos os imperadores antes, a partir do momento em que completara os rituais que uniam misticamente seu espírito ao do imperador recém-falecido, seu pai, como este também fizera, e todos os antepassados, numa linhagem ininterrupta até Jimmu-Tennu, Komei deixara de ser mortal e se tornara divindade, o guardião dos símbolos sagrados — o orbe, a espada e o espelho —, o filho do céu.
— Por favor, desculpe — dissera Yazu, humilde, consternada por seu sacrilégio — Lamento muito. Por favor, peça ao lorde chanceler que solicite ao filho do céu que me conceda um momento do seu tempo.
Agora, através das lágrimas, Yazu recordou como, muitos dias depois, prostrara-se de joelhos diante do imperador e da onipresente multidão de cortesãos, todos de cabeça baixa. Mal o reconhecera em seus trajes formais... e fora a primeira vez em que o encontrara há meses. Suplicara e implorara, numa litania chorosa, usando a indispensável linguagem da corte, que mal era entendida pelos forasteiros, até se sentir exausta.
— Alteza imperial, não quero sair de casa. Não quero ir para aquele lugar horrível chamado Iedo, no outro lado do mundo. Peço permissão para dizer que somos do mesmo sangue, não belipotentados arrivistas de Iedo...
Também sentira vontade de gritar: Não descendemos de camponeses, que não sabem falar direito, não se vestem direito, não comem direito, não se comportam direito, não são capazes de ler e escrever direito, e fedem a daikon... mas não ousara. Em vez disso, balbuciara:
— Suplico que me deixe ficar.
— Primeiro, escute por favor, com toda atenção e calma, como convém a uma princesa imperial, o que o lorde chanceler Wakura tem a dizer.
— Obedecerei, alteza imperial.
— Segundo, não permitirei que isso seja feito contra a sua vontade. Terceiro, volte no décimo dia e tornaremos a conversar. Vá agora, Yazu-chan.
Fora a primeira vez em sua vida que o irmão a chamara pelo diminutivo. E, assim, ela escutara Wakura.
— As razões são complicadas, princesa.
— Estou acostumada a complicações, chanceler.
— Muito bem. Em troca do noivado imperial, o Bakufu concordou com a permanente expulsão de todos os gai-jin e em cancelar os tratados.
Mas Nori Anjo disse que isso é impossível!
— É verdade. Neste momento. Mas ele também concordou em iniciar imediatamente a modernização do exército e em criar uma marinha invencível. Dentro de sete ou oito anos, talvez dez, ele promete que seremos bastante fortes para impor nossa vontade.
— Ou em vinte, cinqüenta ou cem anos! Os xóguns Toranagas são mentirosos históricos e não merecem a menor confiança. Há séculos que mantêm o imperador confinado, usurparam sua herança. Não se pode confiar neles.
— Pois agora o imperador está persuadido a confiar. A verdade, princesa, é que não dispomos de poder temporal sobre eles.
— Neste caso, eu seria uma tola se me entregasse como refém.
— Sinto muito, mas eu ia acrescentar que seu casamento levaria a uma solução dos problemas entre o imperador e o xogunato, que é essencial para a tranquilidade do Estado. O xogunato passará a escutar o conselho imperia! E obedecerá aos desejos imperiais.
— Se eles se tornassem filiais. Mas como meu casamento faria com que isso acontecesse?
— Por seu intermédio, a corte poderia interferir e até mesmo controlar esse jovem xógum e seu governo.
O interesse de Yazu fora atiçado.
— Controlar? Por conta do imperador?
— Isso mesmo. Como poderia esse menino... comparado com sua alteza, ele não passa de uma criança... como poderia esse menino guardar qualquer segredo de sua alteza? Seria impossível. A esperança do filho do céu é que sua irmã se torne sua intermediária. Como esposa do xógum, saberia de tudo, e como é uma pessoa extraordinária, muito em breve teria em mãos todas as meadas do poder do Bakufu, através desse xógum. Desde o terceiro xógum Toranaga, não houve mais nenhum forte. Não teria perfeitas condições de exercer o verdadeiro poder?
A princesa pensara a respeito por um longo momento.
— Anjo e o xogunato não são tolos. Já devem ter deduzido isso.
— Eles não a conhecem, alteza. Acreditam que é apenas um junco que pode ser torcido e moldado, ao capricho deles, assim como o menino Nobusada. Por que outro motivo o escolheriam? Querem o casamento, sem dúvida, para reforçar seu prestígio, para aproximar a corte e o xogunato. E acham que uma jovem como sua alteza seria um fantoche dócil para subverter a vontade imperial.
— Sinto muito, mas pede demais a uma mulher. Não quero sair de casa nem renunciar a meu príncipe.
— O imperador pede que faça isso.
— Mais uma vez, o xogunato obriga-o a negociar, quando deveria apenas obedecer — comentara ela, amargurada.
— O imperador pede que o ajude a fazer com que eles obedeçam.
— Perdoe-me, por favor, mas não posso.
— Há dois anos, no ano terrível — continuara Wakura, sem perder a calma. — no ano da fome, o ano em que Li assinou os tratados, alguns estudiosos do Bakufu vasculhavam a história, à procura de precedentes de imperadores depostos.
Yazu ficara aturdida.
— Eles nunca ousariam... não isso!
— O xogunato é o xogunato, todo-poderoso, neste momento. Por que não ia considerar a remoção de um obstáculo... qualquer obstáculo? Afinal, ele não chegou a considerar, seu wa destruído, em abdicar a favor do filho, o príncipe Sachi?
— Rumores! — protestara ela. — Não podem ser verdadeiros!
— Creio que eram, princesa imperial — dissera o chanceler, muito sério. — Mas agora, ELE pede, por favor, ajude-o.
Desesperada, Yazu compreendera que, independente do que dissesse, tudo sempre voltaria ao “pedido”. Não havia escapatória. Ao final, teria de se submeter ou se tornar uma monja. Ainda abrira a boca para a recusa final, só que jamais ocorrera. Alguma coisa parecera aflorar em sua mente, e começara a pensar, pela primeira vez, por um processo diferente, não mais uma criança, agora uma adulta, e fora com esse espírito que dera sua resposta:
— Concordarei, desde que possa continuar a viver em Iedo, no palácio imperial...
Aquela conversa levara a esta noite de silêncio, rompido apenas por seus soluços.
Yazu sentou na cama, limpou as lágrimas. Mentirosos, pensou ela, amargurada, fizeram-me promessas, mas até nisso trapacearam. Um ligeiro som de Nobusada, que se virou, dormindo. À luz do lampião aceso, sem o que ele não podia dormir, parecia mais infantil do que nunca, mais como um irmão caçula do que como um marido... jovem, muito jovem. Gentil, atencioso, sempre a escutando, aceitando seu conselho, sem guardar segredos, tudo o que Wakura previra. Mas insatisfatório.
Meu querido Sugawara, agora impossível... nesta vida.
Um tremor a percorreu. A janela estava aberta. Yazu debruçou-se para fora, mal notando a mansão fumegando lá embaixo, com outros incêndios surgindo aqui e ali, pela cidade, o luar no mar além... cheiro de queimado no vento, o amanhecer clareando o horizonte a leste.
Sua determinação secreta não mudara desde aquele dia da conversa com Wakura: passar esta vida arruinando o xogunato que arruinara sua vida, despojá-lo do poder por quaisquer meios e devolver esse poder ao filho do céu.
Vou destruí-los como eles me destruíram, pensou ela, muito sensata agora para sequer sussurrar esse objetivo para um poço. Supliquei para não vir para cá, supliquei para não casar com este menino. Embora goste dele, detesto este lugar horrível, detesto estas pessoas horríveis.
Quero voltar para casa! E voltarei. Só isso fará com que a vida se torne suportável. Realizaremos a visita, não importa o que Yoshi faça ou diga, não importa o que qualquer outro faça ou diga. Voltaremos para casa... e ficaremos lá!
Segunda-feira, 13 de outubro:
Ao sol brilhante do meio-dia, dez dias depois, Phillip Tyrer sentava a uma escrivaninha na varanda da legação em Iedo, praticando satisfeito a caligrafia japonesa, com pincel, tinta e água, cercado por dezenas de folhas preenchidas e descartadas de papel-de-arroz, espantosamente baratas aqui, em comparação ao seu preço na Inglaterra. Sir William o enviara a Iedo para preparar a primeira reunião com os anciãos.
O pincel parou de repente. O capitão Settry Pallidar e dez dragões, igualmente imaculados, subiam a colina a cavalo. Ao entrarem na praça, os samurais ali, em quantidade muito maior do que antes, se afastaram para dar passagem. Reverências ligeiras e rígidas, respondidas com uma continência rápida, sem dúvida um protocolo recém-instituído. Sentinelas de casaco vermelho, em quantidade muito maior do que antes, abriram os portões de ferro e tornaram a fechá-los assim que os dragões entraram no pátio murado.
— Olá, Settry! — chamou Tyrer, descendo os degraus da varanda para recebê-lo. — Por Deus, é uma visão e tanto para olhos doloridos. De onde você veio?
— De Iocoama, meu caro. De onde mais poderia ser? Viemos de barco.
Quando Pallidar desmontou, um dos jardineiros, de enxada na mão, adiantou-se apressado, meio encurvado, para segurar as rédeas. Ao vê-lo, Pallidar levou a mão ao coldre.
— Afaste-se!
— Não se preocupe, Settry. É Ukiya, um dos nossos jardineiros regulares, sempre muito prestativo. Domo, Ukiya.
— Hai, Taira-sama, domo.
Hiraga exibiu um sorriso vazio, o rosto meio oculto pelo chapéu de cule que usava, inclinou-se e não mais se mexeu.
— Afaste-se! — repetiu Pallidar. — Desculpe, Phillip, mas não gosto de ver nenhum desses patifes perto de mim, ainda mais com uma enxada na mão. Grimes!
No mesmo instante, o dragão chamado se aproximou, empurrou Hiraga rudemente e pegou as rédeas.
— Caia fora, japa! Suma daqui!
Obediente, Hiraga balançou a cabeça, manteve o sorriso vazio e se afastou. Mas permaneceu a distância de escutar, reprimindo o desejo de vingar o insulto com a enxada afiada, o estilete escondido no chapéu, ou com as próprias mãos duras como ferro.
— Mas por que vieram de barco? — indagou Tyrer.
— Para ganhar tempo. As patrulhas informam que há barricadas japonesas por toda a Tokaidô, com o tráfego retido em vários pontos, de Hodogaya a Iedo pior do que em Piccadilly Circus no aniversário da rainha, deixando a todos mais nervosos do que o habitual. Trouxe um despacho de Sir William. Ele ordena que a legação seja fechada e que você e o resto do pessoal voltem... Serei a escolta para salvar as aparências.
Tyrer ficou aturdido.
— Mas o que vai ser da reunião? Venho trabalhando um bocado para aprontar tudo!
— Não sei, meu caro. Aqui está.
Tyrer rompeu o lacre da mensagem oficial.
— Três vivas! Iocoama, aqui vou eu!
— Quando quer partir?
— Imediatamente, diz o grande pai branco, e será imediatamente. Não pode esperar. Que tal depois do almoço? Vamos sentar. Quais são as novidades em Yokopoko?
— Não há muito o que contar.
Enquanto eles se encaminhavam para as cadeiras na varanda, Hiraga se aproximou do prédio e continuou a trabalhar com a enxada. Pallidar acendeu um charuto.
— Sir William, o general e o almirante tiveram outra confrontação com o governador local e o pessoal do Bakufu, jurando que os estripariam se não apresentassem logo os assassinos de Canterbury... e agora também o de Lun, uma coisa horrível, não é mesmo? Mas só conseguiram as bajulações habituais, “sinto muito, estamos vigiando todas as estradas, todos os caminhos, para captura-los, lamentamos pelos atrasos e inconveniências.”
— Quer dizer que já sabem que são?, — perguntou Sir William.
— Oh, não, disseram os japas, mas se investigar-mos todos os documentos e vigiarmos todo mundo, talvez possamos descobri-los; Estamos fazendo tudo o que é possível, por favor, ajudem-nos, tomando mais esses dados com os revolucionários. Tudo conversa fiada! Poderiam pegá-los, se quisessem. Não passam de mentirosos.
— É terrível o que aconteceu com Lun. Macabro! Fiquei chocado. Sir William quase teve um ataque. Ainda não há a menor pista sobre como os assinos entraram em nosso prédio em Kanagawa?
— Nada, assim como também não houve na vez anterior. — Pallidar notara muitas páginas com caracteres, mas não fez qualquer comentário. — O cabo no comando foi rebaixado e ele e os outros dois receberam cinqüenta chibatadas por negligência no cumprimento do dever. Uma estupidez não se manterem em alerta total depois do outro ataque. Mas por que a cabeça de macaco?
Tyrer estremeceu.
— Sir William acha que foi porque Lun escarneceu da delegação deles, chamando-os de “macacos”, e essa foi a forma de se vingarem.
Pallidar assoviou.
— Isso significa que pelo menos um deles, sem que o nosso pessoal saiba, compreende secretamente o inglês... ou pelo menos o pidgin.
— Chegamos à mesma conclusão. — Com grande esforço, Tyrer reprimiu seu medo. — Ora, que se dane isso! Não imagina como estou satisfeito em vê-lo. Mais alguma novidade?
Pallidar observava Hiraga, mas sem muita atenção.
— O general acha que há mais do que a vista pode perceber no aumento das barricadas e movimentação das tropas nativas. Os mercadores dizem que seus contatos japoneses sussurram que todas as estradas que saem de Iedo são vigiadas, e que o verdadeiro motivo é a guerra civil. É terrível não sabermos de nada. Deveríamos estar circulando, como o tratado permite, deveríamos descobrir por nós mesmos... O general e o almirante concordam, para variar, que deveríamos operar aqui como na índia, ou em qualquer outro lugar, enviar patrulhas, talvez um ou dois regimentos, para mostrar a bandeira, procurar alguns dos reis descontentes e lançá-los contra os outros. Tem uma cerveja?
— Claro. Chen!
— Pois não, amo?
Traga uma cerveja.
Tyrer não tinha certeza se a posição militarista do amigo seria o esquema certo, nesse momento, o chefe dos jardineiros aproximou-se, parou no jardim lá embaixo e fez uma reverência profunda. Para surpresa de Pallidar, Tyrer respondeu com uma mesura, embora ligeira.
— Hai, Shikisha? Nan desu ka? Sim, Shikisha? O que você quer?
Com um espanto ainda maior, Pallidar ouviu o homem perguntar alguma coisa, ouviu Tyrer responder com fluência, a conversa prolongando-se por um momento. O primeiro homem fez outra reverência e se afastou.
— Taira-sama, domo.
— Por Deus, Phillip, que história é essa?
— Como? O velho Shikisha? Ele apenas queria saber se pode levar seu pessoal para preparar o terreno nos fundos. Sir William quer legumes frescos, couve-flor, cebola, couve-de-bruxelas, batatas cozidas e... Qual é o problema?
— Quer dizer que você fala mesmo japonês?
Tyrer riu.
— Claro que não, mas passei dez dias retido aqui, sem nada para fazer, e me empenhei em aprender algumas palavras e frases. E, para ser franco, embora Sir William possa me aplicar a lei da insubordinação por ser tão intrometido, estou gostando imensamente. Sinto o maior prazer em ser capaz de me comunicar.
O rosto de Fujiko aflorou em sua mente, todos os contatos com ela, as horas que passara em sua companhia... a última vez há dez dias, quando voltara a Iocoama por um dia e uma noite. Um hurra para Sir William, porque ainda esta noite ou amanhã, tornarei a vê-la, e isso é maravilhoso.
— Maravilhoso! — exclamou ele, sem pensar, radiante. Uma pausa, e se apressou em acrescentar: — Ah... gostaria de tentar aprender a falar, ler e escrever a língua. O velho Shikisha me ensinou várias palavras, a maioria de seu trabalho. Já Ukiya...
Ele apontou para Hiraga, que trabalhava com a maior diligência, sempre por perto, sem saber que “Ukiya” era um pseudônimo e significava apenas “jardineiro”.
— ...ele está me ajudando com a escrita. Até que é bastante inteligente para um japonês.
Durante uma aula de escrita no dia anterior, ele conferira os rumores que ouvira, pedindo-lhe, com os sinais e palavras que Poncin lhe ensinara, que Ukiya escrevesse os caracteres para “guerra”, senso, e “logo”, jiki-ni. Depois, combinara suas toscas tentativas de escrita com “guerra, no Nipão, logo. Por favor?”
Percebera uma súbita mudança e surpresa.
— Gai-jin toh nihon-go ka? Estrangeiros e japoneses?
— Iyé, Ukiya. Nihonjin to nihonjin. Não, Ukiya, japoneses e japoneses.
O homem soltara uma risada repentina. Tyrer constatara como ele era bem-apessoado, diferente dos outros jardineiros, e especulara por que parecia muito mais inteligente do que os companheiros, embora a maioria dos trabalhadores japoneses, ao contrário dos equivalentes britânicos, soubesse ler e escrever.
— Nihonjin tsuneni senso nihonjin! Japoneses estão sempre lutando com japoneses.
Ukiya arrematara a resposta com outra risada, e Tyrer rira também, simpatizando cada vez mais com o homem. Agora, ele sorriu para Pallidar.
— Mas quais são as outras novidades? Nada de negócios, por favor. Como está Angelique?
Pallidar soltou um grunhido.
— Interessado nela, hem? — indagou ele, em tom incisivo, saboreando interiormente a ironia.
— Nem tanto. — respondeu Tyrer, no mesmo tom, também zombeteiro, o que fez os dois rirem.
— Amanhã é a festa de noivado.
— Malcolm é que é um homem de sorte! Graças aDeus fui liberado de minha missão aqui. Detestaria perder essa festa. Como ela está?
— Linda, como sempre. Nós a recebemos como convidada de honra no rancho. Ela chegou como uma deusa, escoltada pelo ministro francês, um idiota pomposo e o tal de André Poncin... não gosto de nenhum dos dois. Foi...
— André até que é simpático... está me ajudando muito com o meu japonês.
— Pode ser, mas não confio nele. Há um longo artigo no Times sobre o iminente conflito europeu: França e provavelmente a Rússia contra a Alemanha. Seremos arrastados à guerra outra vez.
— Eis aí uma guerra que podemos dispensar. Mas o que aconteceu?
Um enorme sorriso.
— Foi uma noite espetacular. Dancei uma vez com ela. Maravilhoso! Uma polca... dancei com o coração na boca. Bem perto dela... mas sem ser desrespeitoso. Posso dizer que seus seios são como leite e mel, e seu perfume...
Por um instante, Pallidar reviveu aquele momento inebriante, o centro das atenções na pista de dança construída as pressas, Angelique a única mulher presente, a iluminação de velas e lampiões a óleo, a banda da guarda tocando com a maior animação, a dança se prolongando, o casal perfeito, todos consumidos pelo ciúme.
— Não me importo de admitir que sinto inveja de Struan.
— Como ele está?
— Ahn... Struan? Um pouco melhor, pelo que dizem. Não o tenho visto ultimamente, mas fui informado que já se levanta. Perguntei a Angelique, mas ela se limitou a dizer que ele está muito melhor.
Uma pausa, com outro sorriso radiante.
— O novo médico, Dr. Hoag, médico da família, assumiu os cuidados. Soube que ele é excelente.
Pallidar terminou sua cerveja. Outra foi estendida pelo sempre atento Chen, Risonho e rotundo, um padrão de Lim, e também um primo distante do compradore da Struan.
— Obrigado. — Pallidar tomou um gole, satisfeito. — Uma excelente cerveja.
— É local. Ukiya diz que os japoneses a produzem há anos, a melhor de Nagasáqui. Imagino que a copiaram de alguma cerveja portuguesa, há muitos anos.
Pallidar olhou para Tyrer, pensativo.
— O que acha da história do assassino de Hoag? Da operação, a moça misteriosa?
— Não sei o que pensar. Pensei ter reconhecido um deles, lembra? O sugeito foi ferido no mesmo lugar. Tudo combina. É uma pena que você e Marlowe não conseguiram pegá-lo. Irônico se um dos nossos o curou, para que ele possa assassinar mais alguns de nós.
Tyrer baixou a voz, pois sempre havia criados por perto, sem falar nos soldados.
— Aqui entre nós, meu caro, Sir William está mandando vir mais soldados nos navios de Hong Kong.
— Também já soube. Haverá guerra em breve ou teremos de interferir se eles começarem a lutar entre si...
Hiraga escutava com a maior atenção, enquanto se agachava e capinava; embora perdesse muitas palavras, captou o essencial; a notícia confirmou suas crescentes preocupações.
Após atearem fogo à mansão de Utani, ele e seus amigos haviam alcançado a segurança da casa próxima sem incidentes. Todo e os outros queriam voltar a Kanagawa assim que as barreiras fossem abertas, ao amanhecer, e logo partiram. Hiraga, Joun e Akimoto decidiram permanecer escondidos, em habitações separadas, aguardando uma oportunidade de atacarem a legação.
Naquela mesma manhã, com rapidez incrível, sem precedentes, o Bakufu dobrara as barreiras na Tokaidô, estendera seu controle a todas as outras quatro estradas principais, a todos os caminhos e até trilhas que saíam de Iedo. Com o aumento da vigilância, eles se encontravam confinados ali, junto com todos os outros shishi e antagonistas na capital.
Quatro dias atrás, a mama-san Noriko enviara uma carta de Kanagawa, dizendo que, por causa do incremento da atividade hostil, aquela era sua primeira oportunidade, falando sobre Ori, Sumomo e o médico gai-jin, arrematando:
Ainda não há sinal de Todo e dos dois outros shishi — desapareceram sem deixar vestígios. Sabemos que passaram pela primeira barreira, entretanto nada mais. Receamos que tenham sido traídos e que vocês também foram denunciados. Fujam enquanto podem. Ori se torna mais e mais forte a cada dia, seu ferimento continua limpo. Mandei-o para a segurança perto de Iocoama, o último lugar em que o Bakufu deve esperar encontrá-lo. Sua dama se recusa a partir sem uma ordem sua... mande-a imediatamente, pois receio que minha casa esteja sendo vigiada. Se formos atacados, procure notícias de Raiko, da Casa das Três Carpas, em Iocoama. A notícia do assassinato de Utani espalhou-se depressa por todo o Nipão, semeando o terror. Sonno-joi!
Ele começara a escrever uma resposta, mas o mensageiro de Noriko ficara com medo.
— Chegar aqui foi terrível, Hiraga-san. Os guardas nas barreiras ordenam que todos tirem as roupas, homens e mulheres, até mesmo crianças, à procura de mensagens escondidas nas tangas. Aconteceu comigo.
— E como escapou?
O mensageiro apontara para seu traseiro.
— Guardei a mensagem num pequeno tubo de metal, Hiraga-san. Não quero correr esse risco de novo, já que alguns guardas conhecem os segredos dos contrabandistas. Por favor, confie em mim com uma mensagem falada.
— Pois então transmita à sua ama meus agradecimentos e esperança de que tudo corra bem e que mande Sumomo-san se apresentar imediatamente a Shinsaku.
Hiraga usara o nome particular de seu pai, que apenas ela conheceria, e assim teria certeza de que a ordem de voltar para casa partira dele. Pagara o homem e concluíra:
— Tome cuidado.
— Karma.
Isso mesmo, karma, pensou Hiraga, voltando a se concentrar nas palavras estrangeiras, contente por Ori estar vivo, apreciando a ironia de que um gai-jin o salvara para que pudesse matar mais gai-jin, como ele próprio mataria aqueles dois. Quando eles se retirarem, durante a confusão da partida, posso fazer isso, se não os dois, pelo menos um deles, quem quer que seja o primeiro alvo. Que todos os deuses, se é que existem, velem e guardem Sumomo. Ainda bem que ela resistiu a seus pais, foi para a casa dos meus pais em Choshu, depois para Kanagawa, e teve a coragem de me acompanhar na batalha... será uma mãe digna para as minhas gerações, se for esse o meu karma. Portanto, é melhor que volte agora para a segurança de casa. Melhor que esteja em Choshu, longe do perigo...
Seus ouvidos captaram a palavra “Shimonoseki”. O oficial gai-jin falava com a maior loquacidade, parecia bastante excitado. Embora perdesse a maioria das palavras, Hiraga deduziu que canhões haviam sido disparados contra alguns navios, nos estreitos, matando uns poucos marujos, e todos os gai-jin estavam furiosos, porque os estreitos eram essenciais para sua navegação.
É isso mesmo, pensou Hiraga, com um sombrio divertimento, é exatamente por isso que nunca terão os nossos estreitos. Com os canhões de que já dispomos agora, podemos fechá-los e mantê-los fechados, contra qualquer esquadra estrangeira... e muito em breve nossa fábrica de armamentos, construída e projetada pelos holandeses, estará moldando canhões de sessenta libras, numa média de três por mês, junto com todos os acessórios!
A maré virou a nosso favor, depois de tanto tempo. Lorde Ogama, de Choshu, o único entre todos os daimios, obedece ao desejo do imperador, de atacar e expulsar os gai-jin; corretamente, ele e suas tropas controlam os portões do Palácio; Katsumata empenha-se em mobilizar todos os shishi para emboscar e destruir o xógum, que resolveu sair de seu covil, por mais incrível que isso possa parecer, e viajar para Quioto; e agora aumentamos a pressão sobre a cidadela dos gai-jin de Iocoama...
Abruptamente, todas as atenções das pessoas no pátio desviaram-se para portões vigiados, onde irromperam gritos. Hiraga sentiu o estômago revirar. Um oficial samurai, à frente de uma patrulha, com os estandartes do Bakufu e a insígnia pessoal de Toranaga Yoshi, exigia aos berros que o deixassem entrar, enquanto soldados de casaco vermelho respondiam, no mesmo tom, que ele deveria ir embora. Logo atrás do oficial, amarrado, todo machucado e encolhido, estava Joun... seu camarada shishi.
Um corneteiro soou o alarme. Todos os soldados dentro dos muros correram para os seus postos de combate, alguns com o uniforme meio desabotoado, sem chapéu, mas todos com rifles, cartucheiras e baionetas. Os jardineiros caíram de joelhos, baixando acabeça para a terra. Hiraga, apanhado de surpresa, permaneceu de pé por mais um momento, depois apressou-se em seguir o exemplo, sentindo-se totalmente desprotegido. Os guerreiros começaram a se concentrar na praça, numa quantidade assustadora. Trêmulo, Tyrer levantou-se.
— O que está acontecendo?
Com uma lentidão deliberada, Pallidar disse:
— Acho que é melhor descobrirmos. — Ele levantou-se sem pressa, avistou o capitão no comando da guarda da legação saindo pela porta, abrindo seu coldre. — Bom dia. Sou o capitão Pallidar.
— Capitão McGregor. Fico contente que esteja aqui. Muito contente.
— Vamos verificar qual é o problema?
— Claro.
— Quantos homens têm aqui?
— Cinqüenta.
— Ótimo. É mais do que suficiente. Phillip, não precisa se preocupar. — Ele parecia calmo por fora, mas a adrenalina já circulava no sangue. — É a maior autoridade aqui. Talvez deva perguntar ao samurai o que ele quer. Vamos escoltá-lo.
— Claro.
Fazendo um esforço para aparentar tranquilidade, Tyrer pôs a cartola na cabeça, ajeitou a sobrecasaca e desceu os degraus. Todos o observavam. Os dragões olhavam apenas para Pallidar, aguardando suas ordens. Tyrer parou a cinco metros do portão, os dois oficiais logo atrás. Por um instante, só foi capaz de pensar numa coisa, que tinha vontade de urinar. Depois, em meio ao silêncio, ele disse, hesitante:
— Ohayo, watashi wa Taira-san. Nan desuka? Bom dia. Sou o Sr. Tyrer. o que deseja, por favor?
O oficial, Uraga, o homem enorme, que parecia um urso, o mesmo que estivera na emboscada dos shishi contra Anjo, nos arredores do castelo, lançou-lhe um olhar furioso, depois fez uma reverência e se manteve inclinado. Tyrer retribuiu com uma reverência, mas não tão baixa — como André Poncin lhe ensinara — e tornou a perguntar:
— Bom dia. O que deseja, por favor?
O oficial notara a reverência menos do que respeitosa e explodiu numa corrente de japonês, o que deixou Tyrer atordoado, sem compreender nada. Hiraga também ficou atordoado, porque o oficial dos samurais pedia permissão imediata para revistar a legação e o terreno em torno do prédio e interrogar todos os japoneses ali, porque era provável que houvesse assassinos e revolucionários shishi entre eles... “como este aqui”, concluiu Uraga, furioso, apontando para Joun.
Tyrer procurou as palavras corretas com o maior cuidado:
— Wakamarisen. Dozo, hanashi wo suru noroku. Não compreendo. Por favor, fale devagar.
— Tyakamarisen ka? Não compreende?
O oficial falou com profunda exasperação e depois alteou a voz, acreditando, como a maioria das pessoas ao falar com um estrangeiro, que isso torna as palavras mais claras e compreensíveis. Repetiu o que dissera, na língua gutural que parecia cada vez mais ameaçadora, e concluiu:
— Não vai levar muito tempo, e quero que compreenda, por favor, que é para a sua própria proteção!
— Sinto muito, mas não compreendo. Fala inglês ou holandês, por favor?
— Não, claro que não. Deve ter sido claro para você. Só quero entrar por pouco tempo. Por favor, abra os portões. É para a sua proteção. Veja, os portões! Vou mostrar!
Ele deu um passo à frente, pegou uma das barras e sacudiu os portões. Todos lá dentro se remexeram, nervosos, muitos puxaram a trava de segurança de seus rifles. Pallidar berrou uma ordem:
— Tornem a empurrar a trava de segurança! Ninguém vai atirar sem uma ordem minha!
— Não entendo o que ele está dizendo — murmurou Tyrer, sentindo um suor frio escorrer pelas costas. — Só que é óbvio que ele quer que os portões sejam abertos.
— O que não vamos fazer, de jeito nenhum, com essa turba armada lá fora! Diga a ele para ir embora, que isto é território britânico.
— Isto... — Tyrer pensou um pouco, depois apontou para o mastro e a bandeira inglesa. — Este lugar inglês... não podem entrar. Por favor, vá embora!
— Ir embora? Só pode estar louco. Acabei de explicar que é para a sua própria proteção. Capturamos este cão e tenho certeza de que há outro aqui, ou escondido nas proximidades. ABRA OS PORTÕES!
— Sinto muito, mas não compreendo...
Desolado, Tyrer olhou ao redor, enquanto mais palavras em japonês o envolviam. Foi então que seus olhos fixaram-se em Hiraga, não muito longe.
— Ukiya, venha até aqui! — chamou ele, em japonês. — Ukiya!
O coração de Hiraga quase parou.
Tyrer tornou a chamá-lo. Com um terror enormedo, rastejando, Hiraga se adiantou, encostou a cabeça na terra, aos pés de Tyrer, o traseiro virado para os portões, o chapéu de cule cobrindo quase todo o rosto.
— O que o homem disse? — perguntou Tyrer.
Com um falso tremor, todos os sentidos alerta, Hiraga respondeu em voz baixa:
— E um homem mau... quer entrar para... roubar suas armas.
— Ah, sim, entrar. Por quê?
— Ele... ele quer dar uma busca...
— Não compreendo. Uma busca como?
— Quer olhar dentro de sua casa, tudo.
— Compreendo entrar. Por quê?
— Já disse, uma busca...
— Ei, você, jardineiro! — gritou o oficial dos samurais.
Hiraga teve um sobressalto, uma onda de raiva percorreu seu corpo. Pela primeira vez na vida, ali, o centro das atenções, de joelhos na frente de um gai-jin sabendo que sob o chapéu usava um turbante tosco, que se fosse tirado revelaria a cabeça raspada e o penacho de samurai, ele sentiu um súbito e doentio medo.
— Ei, você, jardineiro! — gritou Uraga de novo, tornando a sacudir os portões. — Diga a esse tolo que só quero procurar por assassinos... assassinos shishi!
Desesperado, Hiraga murmurou:
— Taira-sama, os samurais querem entrar, olhar para todos. Diga a eles que estão indo embora, e depois poderão entrar.
— Não compreendo. Ukiya, vá até lá! — Tyrer apontou para os portões. — Diga a eles para irem embora!
— Não posso! Não posso! — sussurrou Hiraga, tentando pôr a mente para funcionar, superar a náusea.
— Phillip — interveio Pallidar, o suor manchando as costas do uniforme — o que ele está tentando lhe dizer?
— Não sei.
A tensão aumentou, enquanto o oficial dos samurais sacudia mais uma vez os portões, exigindo que lhe permitissem a entrada. Seus homens se adiantaram e seguraram as barras para ajudá-lo. Estimulado à ação, Pallidar chegou mais perto. Friamente, bateu continência. O homem fez uma reverência com a mesma frieza. Depois, em voz pausada, Pallidar declarou:
— Isto é território britânico. Eu lhes ordeno que se retirem em paz ou aceitem as conseqüências.
O oficial fitou-o em silêncio, aturdido por um instante, depois reiterou, com palavras e atos, que deviam abrir os portões... e depressa.
— Retirem-se daqui! — Sem se virar, Pallidar gritou: — Dragões apenas preparar para uma rajada!
No mesmo instante, os dez dragões se adiantaram, em formação, postaram-se em duas fileiras diante dos portões, a da frente ficou de joelhos, as dez travas de segurança foram puxadas ao mesmo tempo, os cartuchos colocados, os rifles apontados. No repentino silêncio, Pallidar desafivelou seu coldre.
— Retirem-se!
Abruptamente, o oficial dos samurais desatou a rir, e o riso espalhou-se pela multidão.
Havia centenas de samurais, outros milhares nas proximidades, e mais outros milhares ao fácil alcance. Mas nenhum deles jamais testemunhara a carnificina que uns poucos soldados ingleses, resolutos e disciplinados, podiam afligir com seus rifles de carregar pela culatra, rápidos e fáceis de usar.
Tão depressa quanto se espalhou, o riso cessou. Os dois lados esperavam pelo inevitável primeiro movimento. Uma expectativa frenética dominou a todos: Será a morte, shi kiraru beki, Deus Todo-Poderoso, Namu Amida Butsu...
Hiraga lançou um olhar rápido para Tyrer, percebeu seu desamparo atordoado e praguejou interiormente, sabendo que a qualquer momento o oficial deveria ordenar o ataque, para resguardar as aparências, em meio à hostilidade crescente lá fora. Antes que Hiraga pudesse se conter, seu mecanismo de auto-sobrevivência decidiu assumir um risco e ele se ouviu sussurrar, em inglês... embora nem uma única vez antes tivesse dado a Tyrer qualquer indicação de que conhecia a língua:
— Por favor, confie... por favor, diga palavras... Sencho... doz...
Tyrer ficou espantado.
— Como? Você disse “confie”?
Comprometido agora, o coração disparado, torcendo para que os dois oficiais britânicos ali perto estivessem tão concentrados no exterior não o ouviriam, Hiraga sussurrou, hesitante, a pronúncia por pouco incompreensível, o impossível para ele:
— Por favor, quieto. Perigo. Finja palavras suas. Diga Sencho, dozo shizuka ni... diga palavras!
Doente de medo, ele esperou por um instante, sentindo que a tensão dos samurais lá fora estava prestes a explodir, e logo insistiu, em inglês, como uma ordem:
— Diga palavras agora! Agora! Sencho... dozo shizuka ni... Depressa! Quase fora de si, Tyrer obedeceu:
— Sencho, dozo shizuka ni...
Repetiu as palavras com precisão, estas e as subsequentes, sem saber o que dizia, e esforçando-se para pôr em perspectiva o fato de que aquele jardineiro sabia falar inglês, e que isso não era um sonho. Em poucos segundos, ele constatou que as palavras surtiam algum efeito. O oficial dos samurais gritou por silêncio. A tensão diminuía na praça. De vez em quando, o oficial, escutando-o com o máximo de atenção, murmurava “Hai, wakatta”. Sim, eu compreendo. A coragem de Tyrer voltou e ele se concentrou em Hiraga e no oficial japonês. As palavras logo terminaram, com um “Domo”.
No mesmo instante, o oficial dos samurais iniciou uma resposta. Hiraga esperou até que terminasse e sussurrou:
— Balance cabeça. Diga Iyé, domo, faça uma reverência rápida e volte para Casa. Ordene eu ir também.
Mais controlado agora, Tyrer sacudiu a cabeça com firmeza. “Iyé, domo!”
Sentindo-se muito importante, num silêncio respeitoso, o centro do mundo, ele encaminhou-se para a casa, parou em súbita confusão, virou-se e gritou em inglês:
— Ukiya, venha comigo... oh, Deus!
Frenético, Tyrer procurou pela palavra japonesa, encontrou-a e acrescentou:
— Ukiya, isogi!
Ainda quase rastejando, Hiraga seguiu-o. No alto dos degraus, a fim de que só Tyrer pudesse ouvi-lo, abaixado numa posição subserviente, de costas par todos os olhos, ele disse:
— Por favor, ordem outros homens, agora seguro. Dentro casa, depressa, por favor.
Obediente, Tyrer gritou:
— Capitão Pallidar, mande seus homens recuarem. A situação já é segura agora!
Dentro da legação, fora das vistas dos outros, o alívio pálido de Tyrer transformou-se em raiva.
— Quem é você? O que me mandou dizer ao samurai?
— Explicar depois, Taira-san. Samurai queria busca, você, outros homens, queria levar armas.
Hiraga truncava as palavras, ainda não recuperado do próprio medo. Empertigou-se agora, fitou Tyrer nos olhos, não tão alto, mas igualmente suado, sabendo que ainda não escapara da armadilha.
— Capitão muito zangado, quer armas, levar armas, quer procurar... inimigo do Bakufu. Você dizer ele: “Não, capitão, kinjiru, proibido procurar. Hoje eu e homens sair daqui, depois procura. Agora não, kinjiru. Guardamos armas quando ir embora. Kinjiru proibido deter nós. Obrigado. Agora preparar ir para Iocoama.
— Foi isso que eu disse?
— Sim. Por favor, agora lá fora, ordenar jardineiros voltar trabalho, muito zangado. Palavra hataraki-mashoi. Falar depois, em segredo, você e eu, sim?
— Sim, mas não a sós, com um oficial presente.
— Então não falar, sentir muito.
Hiraga tornou a assumir sua posição subserviente e saiu da sala, de costas, o diálogo tendo durado apenas uns poucos segundos. Mais uma vez caiu de joelhos diante de Tyrer, o traseiro virado para o pátio. Apreensivo, Tyrer saiu para a luz-Viu que todos ainda aguardavam.
— Capitão Pallidar... e capitão McGregor, digam a seus homens que podem recuar e, depois, juntem-se a mim para uma conferência. Hataraki-mashoi-Ikimasho! Voltem ao trabalho! Depressa!
As ordens finais foram endereçadas aos jardineiros, que trataram de obedecer.Agradecido, Hiraga fugiu para a segurança do jardim e murmurou para que os jardineiros lhe dessem cobertura. Oficiais e sargentos começaram a berrar ordens e o tumulto recomeçou.
Indiferente a tudo, Tyrer ficou na varanda, observando Hiraga, indeciso.
Consternado por saber que se tratava de um espião, mas ao mesmo tempo abençoando-o por salvar a todos.
— Queria falar conosco? — indagou Pallidar, interrompendo seu devaneio.
— Quero, sim... por favor, acompanhem-me.
Ele levou-os para sua sala, fechou a porta e explicou o que dissera ao chefe dos samurais. Ambos lhe deram os parabéns.
— Foi impressionante, Phillip — comentou Pallidar. — Por um momento pensei que teríamos uma confrontação; só Deus sabe o que poderia acontecer. Havia patifes demais... e acabariam nos dominando. Mais cedo ou mais tarde. Claro que a esquadra nos vingaria, mas estaríamos sob as margaridas, um pensamento nada agradável.
— Mais do que desagradável — murmurou o capitão McGregor, olhando em seguida para Tyrer. — O que quer que façamos agora, senhor?
Tyrer hesitou, espantado por nenhum dos dois ter ouvido o inglês de Hiraga, mas satisfeito com sua nova estatura... pois era a primeira vez que McGregor o tratava por “senhor”.
— É melhor obedecermos a Sir William. Ordenem que todos arrumem suas coisas... mas sem dar a impressão de que é uma retirada ignominiosa. Não podemos deixar que fiquem com nossas armas... que desfaçatez!... ou fazê-los pensar que estamos fugindo. Vamos sair marchando, com toda pompa, a banda tocando.
— Perfeito! Depois de baixarmos a bandeira, com a devida cerimônia.
— Combinado. Agora, é melhor eu... eu verificar se todos os documentos já foram encaixotados.
O capitão McGregor disse:
— Posso sugerir, senhor... Acho que merece uma taça de champanhe... e creio que ainda nos restam algumas garrafas.
— Obrigado — respondeu Tyrer, radiante. — Talvez possamos... ora, vamos servir também uma ração de rum a todos os homens. E também faremos uma refeição leve antes da partida... vamos mostrar a eles que ninguém pode nos obrigar a uma partida precipitada.
— Organizarei tudo imediatamente — disse McGregor. — Foi muito hábil de sua parte chamar aquele jardineiro para ajudá-lo com as palavras. Algumas até pareciam inglesas. Mas por que queriam revistar a legação?
— Para descobrir... para procurar inimigos do Bakufu. Os dois ficaram aturdidos.
Mas não há japas aqui, à exceção dos jardineiros, se é mesmo que eles queriam.
Tyrer sentiu o coração bater mais forte, pois isso incriminava Ukiya, mas Pallidar logo acrescentou:
Não vai permitir que eles revistem a nossa legação, não é? Isso criaria um precedente perigoso. A fleuma desapareceu; Pallidar tinha toda razão.
Precedente perigoso.
— Droga! Não pensei nisso na ocasião! McGregor rompeu o silêncio:
— Antes de partirmos, senhor, talvez pudesse convidar o oficial dos samurais a dar uma volta conosco, inspecionando a legação. Não haveria nada de errado em convidá-lo. Ele pode interrogar os jardineiros nesse momento ou podemos dispensá-los, antes de irmos embora, e trancarmos os portões.
— Uma solução perfeita — concordou Pallidar, satisfeito.
Hiraga tirava as ervas daninhas de um canteiro, perto de uma porta lateral da legação, junto a uma janela aberta, suado e sujo, o sol do fim de tarde ainda quente A bagagem estava sendo empilhada em carroças no pátio, cavalos arreados, alguns soldados já haviam assumido suas posições de marcha. Sentinelas patrulhavam os muros. Lá fora, os samurais se agachavam sob sombrinhas, olhavam ao redor soturnos.
— Agora!
A voz de Tyrer veio da sala. Hiraga certifícou-se de que não era observado, abaixou-se entre as moitas e abriu a porta. Apressado, Tyrer seguiu na frente até uma sala que dava para o pátio e trancou a porta depois que entraram. As cortinas nas janelas fechadas filtravam a luz do sol. Uma escrivaninha e umas poucas cadeiras, rolos de documentos, arquivos, e um revólver na mesa. Tyrer sentou por trás da mesa e indicou uma cadeira.
— Por favor, sente-se. E agora me diga quem é você.
— Primeiro, segredo eu falar inglês, hem?
Hiraga permaneceu de pé, empertigado em toda a sua altura, de certa forma ameaçador.
— Primeiro me diga quem é você, depois decidiremos.
— Não, sentir muito, Taira-san, ser útil você, salvar homens. Muito útil. Verdade, neh ?
— Sim, é verdade. Por que devo manter em segredo?
— Seguro eu... também você.
— Por que eu?
— Talvez não sábio ter... como vocês dizer... ah, sim... segredo outros gai-jin não saber. Eu muito útil. Ajudar aprender língua, aprender sobre Nipão. Eu dizer verdade, você dizer verdade também, você me ajudar, eu ajudar você. Qual idade. por favor?
— Tenho vinte e um anos.
Hiraga disfarçou sua surpresa e sorriu por baixo da aba do chapéu. Era muito difícil calcular a idade dos gai-jin, já que todos pareciam iguais. Quanto à arma que seu inimigo pusera em cima da mesa, era cômica. Poderia matar aquele tolo com as mãos antes que ele pudesse alcançá-la. Seria muito simples, e era bastante tentador, o lugar perfeito, fácil de escapar... mas depois que saísse, não seria tão fácil escapar dos samurais.
— Guardar segredo?
— Quem é você? Seu nome não é Ukiya, não é mesmo?
— Prometer segredo?
Tyrer respirou fundo, avaliou as conseqüências e deparou com o desastre por todos os lados.
— Concordo.
Seu coração disparou quando Hiraga tirou a lâmina da aba do chapéu, e se censurou por ter sido tão descuidado para assumir aquele risco.
— Perdido por um, perdido por mil — murmurou ele.
— Quê?
— Nada.
Ele observou Hiraga espetar o dedo e depois lhe estender a faca.
— Agora você, por favor.
Tyrer hesitou, sabendo o que estava para acontecer, mas, tendo tomado sua decisão, deu de ombros e obedeceu. Solene, Hiraga encostou seu dedo no de Tyrer, misturando o sangue de ambos.
— Jurar por deuses manter segredo sobre você. Dizer mesma coisa pelo deus cristão, por favor, Taira-san.
— Juro por Deus que manterei segredo por tanto tempo quanto eu puder — declarou Tyrer, solene, perguntando-se para onde o julgamento o levaria. — Onde aprendeu inglês? Numa escola missionária?
— Hai, mas eu não cristão.
Não era seguro falar sobre as escolas de Choshu, pensou Hiraga, nem sobre o Sr. Grande Cheiro, o holandês, nosso professor de inglês, que dizia ter sido um padre antes de se tornar pirata. A verdade ou mentira para Taira não tinha a menor importância, já que ele é gai-jin, um líder menor do nosso mais poderoso inimigo externo, e por isso alguém a ser usado, desconfiado, odiado e morto, no momento mais conveniente.
— Ajudar eu escapar?
— Quem é você? De onde veio? Seu nome não é Ukiya. Hiraga sorriu, acomodou-se numa das cadeiras.
— Ukiya significar jardineiro, Taira-san. Nome família Ikeda. — Ele disse a mentira com a maior facilidade. — Nakama Ikeda, eu quem oficial procurar. Eu vinte dois anos.
— Por quê?
— Porque eu e família, de Choshu, lutar contra Bakufu. Bakufu tomar poder do imperador e...
— Está se referindo ao xógum?
Hiraga sacudiu a cabeça.
— Xógum ser Bakufu, chefe do Bakufu. Ele... — Depois de pensar por um momento, Hiraga imitou um títere suspenso de cordões. — Entender?
— Títere?
Sim, títere, tyrer se surpreendeu.
— O xógum é um títere?
Hiraga acenou com a cabeça, mais confiante agora que se comunicava precisando se esforçar para recordar as palavras.
— Xógum Nobusada, menino, dezesseis anos, títere Bakufu. Ele viver Iedo imperador viver Quioto. Agora imperador sem poder. Mais de duzentos anos xógum Toranaga tomar poder. Lutamos tirar poder do xógum e Bakufu, devolver imperador.
A mente de Tyrer, latejando de tanta concentração — era difícil entender a fala do homem —, compreendeu no mesmo instante as profundas implicações.
— Esse menino xógum, que idade ele tem, por favor?
— Xógum Nobusada dezesseis anos. Bakufu dizer o que ele fazer. — Hiraga fez um esforço para conter sua irritação, sabendo que devia ser paciente. — Imperador muito poder mas não...
Ele procurou pela palavra certa, não conseguiu encontrá-la e tratou de explicar de outra maneira:
— Imperador não como daimio. Daimio ter samurai, ter arma, muito. Não poder fazer Bakufu obedecer. Bakufu ter exércitos, imperador não, wakatta?
— Hai, Nakama, wakatta.
Mil perguntas esperavam para ser formuladas. Tyrer sabia que aquele homem podia ser um poço de informações a ser esvaziado, mas devia agir com cautela, não naquele lugar. Percebeu a intensa concentração no rosto do homem e especulou o quanto do que dissesse Nakama poderia compreender. Lembrou a si mesmo para falar devagar, da maneira mais simples possível.
— Quantos de vocês lutam contra o Bakufu!
— Muitos.
Hiraga bateu com a mão num mosquito errante.
— Centenas, milhares? Que tipo de pessoas... pessoas comuns, jardineiros, trabalhadores, mercadores?
Hiraga se espantou com a pergunta.
— Eles nada. Só samurais servir. Só samurais lutar. Só samurais ter armas. Kinjiru outro ter armas.
Tyrer tornou a piscar, aturdido.
— Você é samurai?
Mais espanto de Hiraga.
— Samurai lutar. Eu dizer lutar Bakufu, sim? Nakama samurai!
Hiraga tirou o chapéu, removeu o pano sujo, manchado de suor, que servia como turbante, para revelar a cabeça raspada, com o penacho. Agora que podia ver seu rosto com clareza, pela primeira vez sem o chapéu de cule, e também a primeira vez em que o observava com mais atenção, Tyrer constatou que ele possuía os mesmos olhos frios do guerreiro de duas espadas, e que tinha uma vasta diferença dos aldeões na estrutura óssea.
— Quando Shenso, capitão samurai ver eu assim, eu morrer.
Tyrer balançou a cabeça, em confusão.
— Ajudar eu escapar. Por favor, dar eu roupa soldado.
Tyrer encontrava a maior dificuldade para impedir que seu excitamento e horror transparecessem no rosto. Parte dele queria desesperadamente fugir daquela situação mas a outra estava ansiosa em obter todas as informações que pudesse daquele samurai, um conhecimento que poderia ser — não, que seria — uma chave fundamental para abrir o mundo do Nipão, assim como seu próprio futuro, se manipulasse tudo da maneira correta. No momento em que já ia anunciar sua concordância, lembrou-se da advertência anterior de Sir William; e, agradecido, demorou um pouco para recuperar o controle.
— Fácil eu escapar, sim? — insistiu Hiraga, impaciente.
— Não fácil, mas possível. E arriscado. Primeiro, tenho de me convencer de que vale a pena salvá-lo.
Tyrer percebeu o súbito ímpeto de raiva... talvez fosse raiva junto com medo, não pôde determinar. Por Deus, um samurai! Gostaria que Sir William estivesse aqui, pois estou acima do meu nível.
— Não pense que eu não posso...
— Por favor — murmurou Hiraga, suplicante, sabendo que aquela era a sua única chance real de escapar da armadilha, mas pensando: Depressa, concorde logo, ou vou matá-lo e tentar escapar pulando o muro. — Nakama jurar por deuses ajudar Taira-san.
— Jura solenemente pelos seus deuses que responderá a todas as minhas perguntas com a verdade?
— Hai — respondeu Hiraga no mesmo instante, atônito por Tyrer ser tão ingênuo a ponto de fazer uma pergunta a um inimigo ou acreditar em sua resposta afirmativa. Ele não pode ser tão estúpido assim, não é? Que deus ou deuses? Não existe nenhum. — Por deuses, eu jurar.
— Espere aqui. Tranque a porta e só a abra para mim.
Tyrer pôs o revólver no bolso, saiu à procura de Pallidar e McGregor, levando-os para um canto.
— Preciso de ajuda. Descobri que Ukiya é um dos homens procurados pelos samurais, uma espécie de dissidente. Quero disfarçá-lo como um soldado e tirá-lo daqui quando partirmos.
Os dois oficiais se mostraram surpresos. McGregor foi o primeiro a se manifestar:
— Desculpe, senhor, mas acha que isso é sensato? Afinal, o Bakufu é o governo legal e se formos descobertos...
— Isso não vai acontecer. Apenas vamos vesti-lo de soldado e colocá-lo no meio dos outros. O que acha, Settry?
— Podemos fazer isso, Phillip, mas se ele for reconhecido, e se nos detiverem será como navegar contra a correnteza sem remo.
— Tem alguma sugestão alternativa? — indagou Tyrer, o nervosismo patente na voz, à medida que aumentava o excitamento e o medo. — Quero tirá-lo daqui. Sem a ajuda dele, provavelmente estaríamos todos mortos. Além disso, ele pode se muito útil para nós.
Apreensivos, os dois oficiais trocaram um olhar e tornaram a fitar Tyrer.
— Lamento, mas é perigoso demais — disse Pallidar.
— Não acho! — protestou Tyrer, a voz ríspida, a cabeça latejando. — Quero que seja feito! É uma questão de extrema importância para o governo de sua majestade e ponto final!
McGregor suspirou.
— Certo, senhor. Capitão, o que acha de levá-lo num cavalo?
— Como um dragão? Uma idéia absurda. Um jardineiro não sabe montar. É muito melhor que ele marche, no meio dos sol...
— Cinqüenta libras contra um quarto de penny como o patife não será capaz de manter o passo. Será tão óbvio quanto uma prostituta com a ceroula de um bispo!
Tyrer interveio:
— Podemos metê-lo num uniforme, cobrir seu rosto e mãos com ataduras, carregá-lo numa maca... fingindo que ele está doente.
Os oficiais ficaram radiantes.
— Boa idéia!
— Ainda melhor — acrescentou Pallidar, jovial. — Podemos fingir que ele tem alguma doença horrível... varíola... sarampo... a peste!
Todos riram, em uníssono.
O oficial samurai e os guardas que receberam permissão para entrar na legação, agora vazia, seguiram Tyrer, McGregor e quatro dragões pela casa. A busca foi meticulosa, cada cômodo, cada armário, até mesmo o sótão. Ao final, ele ficou satisfeito. No vestíbulo, havia duas macas, um soldado em cada uma, ambos febris, ambos enfaixados, um parcialmente, outro por completo, Hiraga, cabeça, pés e mãos, nada aparecendo fora do uniforme encharcado de suor.
— Dois muito doentes — disse Tyrer, em japonês, as palavras informadas por Hiraga. — Este soldado tem doença de pústulas.
A simples menção fez com que o samurai empalidecesse e recuasse um passo. As erupções de varíola eram endêmicas na cidade, mas nunca tão terríveis quanto na China, onde centenas de milhares de pessoas morriam.
— Isto... isto deve ser comunicado — murmurou o oficial samurai.
Ele e seus homens cobriram a boca, pois todos acreditavam que a infecção e a disseminação da doença eram causadas por respirar o ar contaminado perto de um sofredor. Tyrer não compreendeu e limitou-se a dar de ombros.
— Homem muito doente. Não chegar perto.
— Claro que não chegarei perto dele. Pensa que sou louco?
O homem saiu para a varanda e disse em voz baixa aos homens que acompanhavam:
— Não digam uma só palavra a respeito para os outros na praça, pois pode haver pânico. Cães estrangeiros repulsivos. Mas fiquem de olhos abertos. O tal de Hiraga se encontra em algum lugar por aqui.
Eles revistaram o terreno e as privadas externas, enquanto os funcionários da legação e os soldados, parados na sombra, aguardavam impacientes o momento de iniciar a marcha até o cais, onde embarcariam nos barcos à espera. Finalmente satisfeito, o oficial samurai fez umareverência e recuou pelos portões. Os samurais ainda se concentravam lá fora, Joun amarrado na frente, os apavorados jardineiros ajoelhados em fila, todos sem chapéu, nus. Quando o oficial se aproximou, eles se inclinaram ainda mais para o chão.
— Levantem-se! — gritou o homem, furioso.
Irritara-se ao constatar, quando ordenou que tirassem as roupas, que nenhum deles tinha a cabeça raspada com o penacho de um samurai, nem cortes de espada, ferimentos ou outros sinais que indicavam a condição de samurai. Por isso, fora forçado a concluir que sua presa ainda se encontrava lá dentro ou escapara. Agora, sua raiva era ainda maior e foi bater com os pés na frente de Joun.
— Para se disfarçar, o ronin Hiraga raspou a cabeça ou deixou que seus cabelos crescessem, como um desses jardineiros ordinários. Identifique-o!
Joun estava de joelhos, espancado, quase à morte. Fora torturado até desmaiar, fizeram-no recuperar os sentidos e o torturaram de novo, por ordem de Anjo.
— Identifique esse Hiraga!
— Ele... ele não está aqui.
O jovem soltou um grito quando o pé do oficial, duro como ferro, atingiu suas partes mais sensíveis, duas vezes. Os jardineiros tremiam, apavorados.
— Ele não... está aqui...
Outra vez o golpe impiedoso. Numa agonia desesperada, impotente, fora de si, Joun apontou para um rapaz, que se prostrou no chão, clamando sua inocência.
— Façam-no calar! — berrou o oficial. — Levem-no à presença do juiz e, de lá, para a prisão! Crucifiquem o canalha! Levem todos, pois são culpados de esconder Hiraga!
Os jardineiros foram arrastados dali, aos gritos, o rapaz berrando que vira Hiraga antes, perto da casa, e que mostraria o lugar, se o deixassem, mas ninguém lhe prestou atenção. Não demorou muito para que todos os gritos fossem reprimidos, brutalmente.
O oficial limpou o suor do rosto, convencido de que cumprira suas ordens. Tomou um gole de água de uma garrafa, bochechou e cuspiu, para limpar a boca, depois bebeu, satisfeito.
Ele estremeceu. A doença das pústulas! Uma doença gai-jin, trazida de fora! Tudo que é pútrido vem de fora, os gai-jin devem ser expulsos e mantidos a distância para sempre. Furioso, ele observou a banda que começava a tocar, os soldados se preparando para a marcha, sua mente ainda concentrada no shishi que procurava.
Não era possível que aquele jardineiro fosse um famoso shishi, o Hiraga. Karma que meus homens e eu chegássemos tarde demais naquele dia, para vê-lo e aos outros que escaparam. Não karma, apenas Deus velava por mim. Se eu os tivesse visto, não poderia fingir aceitar o que Joun indicou. Onde se encontra esse Hiraga? Está escondido em algum lugar. Por favor, Deus, ajude-me.
A vida é curiosa. Odeio os gai-jin, mas acredito em seu deus, Jesus, embora secretamente, como meu pai e o pai dele antes. Isso mesmo, acredito no deus Jesus a única coisa de valor que veio de fora. Os príncipes mestres jesuítas não diziam que a fé nos dá um poder adicional e que quando tivéssemos um problema deveríamos nos preocupar como um cachorro se preocupa com um osso?
Hiraga escondeu-se em algum lugar. Revistei tudo com o maior cuidado Portanto, ele se disfarçou. De que maneira? Como uma árvore? O quê?
Dentro dos muros, os preparativos para a partida continuavam. A bandeira foi arriada. Os cavaleiros montaram. As macas foram levadas para uma carroça. Os portões se abriram, os soldados montados entraram em formação, liderados pelo gai-jin com o nome japonês, passaram por ele, começaram a descer a ladeira...
As bandagens! A revelação aflorou de repente na mente do oficial dos samurais. Não há nenhuma doença! Muito esperto, pensou ele, excitado, mas não esperto o suficiente! E se eu os confrontasse agora, encurralando-os numa das ruas estreitas? Ou se destacasse espiões para segui-lo e o vigiasse para que me leve aos outros?
Vou mandar segui-lo.
Terça-feira, 14 de outubro:
A festa de noivado estava no auge, sob os lampiões a óleo que iluminavam a sala principal apinhada do clube... todo o prédio requisitado por Malcolm Struan e ornamentado para sua comemoração. Todos os membros respeitáveis da colônia haviam sido convidados e se encontravam presentes, assim como todos os oficiais que podiam ser dispensados da esquadra e do exército... e lá fora, na High Street, patrulhas das duas armas se achavam preparadas para controlar os bêbados e indesejáveis.
Angelique nunca parecera mais deslumbrante — crinolina, chapéu com plumas de ave-do-paraíso e um ofuscante anel de noivado. A dança era uma valsa vibrante, de Johann Strauss, o Jovem. Acabara de chegar de Viena, pela mala diplomática, e André Poncin a tocava ao piano com a maior animação, acompanhado por alguns músicos da banda da marinha, em uniforme de gala para a ocasião. O parceiro de Angelique era Settry Pallidar; seu anúncio de que representaria o exército fora recebido com gritos de aprovação e tremenda inveja.
Victoria Lunkchurch e Mabel Swann também dançavam, desta vez com Sir William e Norbert Greyforth, seus cartões de dança lotados desde o momento em que a festa fora anunciada. Apesar de todo o volume, as duas eram excelentes dançarinas. Também usavam vestidos de crinolina, só que não podiam se comparar com o de Angelique, nem na riqueza, nem no decote.
— Você é um miserável sovina, Barnaby — sibilou Victoria ao marido. — tambén queremos roupas novas, nem que isso custe todo o seu dinheiro! E também queremos penantes como o dela!
— Querem o quê?
— Você sabe muito bem o quê! Penantes... chapéus!
O chapéu emplumado de Angelique fora o golpe de misericórdia para as duas.
É a guerra, ela contra nós!
Apesar de tudo, a popularidade das duas no baile superou a inveja e dançavam com a maior alegria.
— Miserável sortudo! — murmurou Marlowe, olhando para seu rival.
A túnica azul do uniforme naval reluzia com os alamares dourados adicionais de um ajudante-de-ordens, calça branca de seda e sapatos pretos com fivelas prateadas.
— Quem? — indagou Tyrer, passando com outro copo de champanhe afogueado e excitado com a noite, e também com seu êxito ao tirar Nakama, o samurai, de Iedo, instalando-o em sua casa, com a aprovação de Sir William, como professor de japonês. — Quem é o miserável, Marlowe?
— Vá se... como se não soubesse! — Marlowe sorriu. — Escute, sou o representante da marinha, tenho direito à próxima dança, e darei uma lição no miserável ou morrerei na tentativa!
— Que demônio afortunado! O que estão tocando?
— Uma polca.
— Essa não! Foi você quem pediu?
— Claro que não.
A polca, baseada numa dança folclórica da Boêmia, era outro acréscimo recente aos salões de baile da Europa, causando o maior furor, embora ainda fosse considerada um tanto indecente.
— Está no programa — acrescentou Marlowe. — Não tinha notado?
— Não. Tenho muitas outras coisas em que pensar.
O tom de Tyrer era de felicidade. Ansiava em contar a alguém como fora esperto. Sua satisfação era ainda maior naquela noite, pois assim que pudesse atravessaria a ponte do paraíso e iria para os braços de sua amada... lamentando apenas ter jurado segredo.
— Ela dança como um sonho, não acha?
— Ei, jovem Tyrer... — Era Dmitri Syborodin, os cabelos oleosos, suando, com uma caneca de rum na mão. — Pedi ao mestre da banda para tocar um cancã. Ele disse que fui o quinto a pedir.
— E ele vai mesmo tocar? — perguntou Tyrer, consternado. — Assisti uma vez em Paris... não vai acreditar, mas as mulheres não usam nenhuma calça por baixo.
— Mas claro que acredito! — Dmitri soltou uma risada. — Só que Peito-de-Anjo tem uma calça por baixo esta noite e não sente o menor medo de mostrá-la!
— Ei, escute aqui... — protestou Marlowe, veemente.
— Ora, John, ele só está brincando. Dmitri, você é insuportável! O mestre da banda não ousaria, não é?
— Não, a menos que Malc concorde.
Os três olharam através da sala. Malcolm Struan estava sentado com o Dr. Hoag, Babcott, Seratard e outros ministros, observando a pista de dança, os olhos fixados apenas em Angelique, enquanto ela se inclinava e girava, ao compasso da música moderna, encantadora e ousada, deixando a todos inebriados. A mão de Struan apoiava-se numa bengala grossa, o anel de sinete de ouro faiscando, enquanto os dedos se moviam ao ritmo, vestindo um traje a rigor de seda, colarinho levantado, gravata creme, alfinete de diamante, botas de couro vindas de Paris.
— É uma pena que ele ainda esteja tão estropiado — murmurou Tyrer, com uma compaixão sincera, mas abençoando sua própria sorte.
Struan e Angelique haviam chegado tarde. Ele andava com extrema dificuldade, encurvado, apesar de todo o esforço para se manter empertigado, o peso apoiado em duas bengalas, com Angelique, radiante, em seu braço. O Dr. Hoag os acompanhava, atencioso, sempre vigilante. Houvera aplausos para Struan, mais ainda para Angelique. Depois, agradecido, ele sentara, recebera os cumprimentos de todos, convidara-os a partilharem o banquete disposto nas mesas.
— Mas primeiro, meus amigos — dissera Struan —, levantem seus copos, por favor, num brinde à moça mais linda do mundo, mademoiselle Angelique Richaud, minha noiva.
Mais aplausos, aclamações. Criados chineses de libré trouxeram champanhe no gelo, Jamie McFay acrescentara algumas palavras de alegria, e a festa começara. Vinhos de Bordéus e Borgonha, um chablis especial, muito apreciado na Ásia, conhaques, uísques. — importações exclusivas da Struan —, gim, cerveja de Hong Kong. Peças de carne de vaca australiana, uns poucos cordeiros inteiros, tortas de galinha, carne de porco defumada, presunto, batatas de Xangai cozidas e recheadas com fatias de carne de porco e manteiga, além de pudins e chocolates, uma recente importação da Suíça. Depois que o jantar foi tirado e sete bêbados removidos, André Poncin sentara ao piano e a banda começara a tocar.
Com grande formalidade diante de Malcolm, Sir William solicitara a primeira dança. Em seguida fora a vez de Seratard, os outros ministros — à exceção de von Heimrich, que estava de cama, com disenteria —, o almirante e o general, todos eles e mais outros dançando também com as outras duas mulheres presentes. Depois de cada dança, Angelique era cercada por rostos afogueados e radiantes, conversava por um instante, se abanando, e seguia para o lado de Malcolm, fascinante para todos, mas concentrando sua atenção nele, a cada vez recusando a dança, mas no final deixando que ele a persuadisse:
— Adoro ver você dançar, Angelique. Dança da forma mais graciosa possível, minha querida.
Agora, ele a observava dilacerado entre a felicidade e a frustração, frenético por não poder dançar também.
— Não se atormente, Malcolm — dissera Hoag, no início da noite, querendo acalmá-lo, o simples ato de se vestir sendo um pesadelo de dor e dificuldade. — É a primeira vez que se levanta. Transcorreu apenas um mês desde o acidente. Não Sempre...
— Fale isso mais uma vez e vou cuspir sangue.
— Não é só a dor que o deixa assim. É também o medicamento, ou sua falta e a correspondência de hoje. Recebeu uma carta de sua mãe, não é?
— Recebi — respondera Malcolm, em total angústia, enquanto sentava na beira da cama, meio vestido. — Ela... ora, ela está furiosa. Nunca a vi tão irritada Opõe-se totalmente ao meu noivado, ao casamento... se eu lhe desse ouvidos acreditaria que Angelique é o demônio encarnado. Ela...
As palavras saíram aos borbotões.
— Ela ignorou minha carta, e disse... Escute só isso: Você perdeu o juízo? Seu pai não tem seis semanas de morto, você ainda não completou vinte e um anos, essa mulher está atrás do seu dinheiro e de nossa companhia, é a filha de um fugitivo que foi à bancarrota, sobrinha de outro criminoso e ainda por cima, que Deus nos ajude, católica e francesa! Você enlouqueceu? Diz que a ama? Bobagem! Está enfeitiçado! Vai parar com esse absurdo. Vai-parar-com-esse-ab-surdo! Ela o enfeitiçou. É evidente que você não tem condições mentais de dirigir a Struan! Deve voltar sem essa pessoa assim que o Dr. Hoag permitir.
— Quando eu permitir, Malcolm, você fará o que ela quer?
— Em relação a Angelique, não. Nada do que ela diz tem importância, absolutamente nada. É óbvio que não leu a minha carta, não me dá a menor atenção. O que posso fazer?
Hoag dera de ombros.
— O que já decidiu: vai ficar noivo e depois casará, quando chegar o momento oportuno. E vai melhorar a cada dia. Precisará de bastante repouso, sopas suculentas, muito mingau, e deve se abster dos medicamentos para dormir e contra a dor. Pelas próximas duas semanas, continuará aqui, depois voltará e enfrentará... — Hoag fizera uma pausa, oferecendo um sorriso gentil. — ...o futuro com toda confiança.
— Tenho muita sorte em tê-lo como meu médico.
— E eu tenho muita sorte em tê-lo como meu amigo.
— Recebeu uma carta dela também?
— Recebi. — Uma risada seca. — Agora estou me lembrando.
— E o que dizia? Hoag revirara os olhos.
— Já não é suficiente?
— É, sim. Obrigado.
Agora, observando Angelique dançar, o centro de uma admiração universa, e também de desejo, os seios em grande parte revelados, como era a moda, os tornozelos esguios atraindo os olhos, à procura de mais alguma coisa sob as saias de seda, Malcolm Struan sentiu uma ereção. Graças a Deus por isso, pensou e muito de sua raiva se dissipando, pelo menos essa parte ainda funciona... mas só que não conseguirei esperar até o Natal. Não há a menor possibilidade.
Era quase meia-noite agora e ela tomou um gole de champanhe, escondeu o rosto por trás do leque, sacudindo-o com a habilidade da experiência. Depois, entregou o copo a alguém, como se desse um presente, pediu licença e voltou para sua cadeira, ao lado de Struan. Ali perto, havia um grupo animado, formado por Seratard, Sir William, Hoag, outros ministros, Poncin.
— Ah, monsieur André, toca muito bem. Não concorda, Malcolm querido?
— Claro que sim.
Ele não se sentia bem, mas tentava disfarçar. Hoag observou-o. Em francês, Angelique acrescentou:
— André, onde você se escondeu durante os últimos dias? — Ela fitou-o por cima do leque. — Se estivéssemos em Paris, eu seria capaz de jurar que entregou seu coração a uma nova namorada.
Poncin respondeu em tom jovial:
— Apenas trabalho, mademoiselle. Depois, em inglês, ela comentou:
— Ah, é muito triste! Paris no outono é maravilhosa, quase tão deslumbrante quanto na primavera. Vou lhe mostrar toda a cidade, Malcolm. Vamos passar uma temporada lá, não é?
Angelique estava de pé, a seu lado, e sentiu Malcolm passar o braço por sua cintura. Pousou o braço de leve em seu ombro, enfiou os dedos por seus cabelos compridos. O contato a agradava, assim como o rosto bonito de Malcolm, suas roupas, e o anel que ele lhe dera naquela manhã, um diamante enorme, cercado por outros. Olhou para o anel, virando-o para um lado e outro, admirando-o, especulando quanto valia.
— Ah, Malcolm, tenho certeza de que você vai adorar Paris. É realmente maravilhosa na temporada. Podemos ir?
— Por que não, se você quiser?
Ela suspirou, os dedos discretamente acariciando o pescoço de Malcolm, e disse de repente, como se um pensamento súbito lhe ocorresse:
— Talvez, chéri, pudéssemos passar a lua-de-mel em Paris... dançaríamos pela noite afora.
— Dança muito bem, mademoiselle, em qualquer cidade — comentou Hoag, suado, desconfortável nas roupas apertadas. — Eu gostaria de poder dizer a mesma coisa a meu respeito. Posso suge...
— Não dança nunca, doutor?
— Anos atrás, quando estive na índia, até que dançava, mas parei quando minha esposa morreu. Ela gostava tanto de dançar que agora não sinto o menor prazer. Uma festa maravilhosa, Malcolm. Posso sugerir que encerremos a noite?
Angelique fitou-o, seu sorriso se desvanecendo, notou a cautela no rosto de Hoag. Olhou para Malcolm e percebeu a exaustão. É horrível que ele esteja tão doente, pensou ela.
— Mas que droga! Ainda é cedo — protestou Malcolm, embora ansiasse em deitar. — Não concorda comigo, Angelique?
— Devo confessar que me também me sinto bastante cansada — disse ela, no mesmo instante.
Angelique fechou o leque, baixou-o, sorriu para ele, Poncin e os outros preparando-se para ir embora.
— Talvez possamos escapulir e deixar a festa continuar... Apresentaram suas desculpas às pessoas ao redor. Todos os outros fingiram não notar que eles haviam se retirado, mas ficou um vazio na esteira de Angelique. Na porta, ela parou.
— Ah, esqueci o leque. Vou buscá-lo num instante, querido. Ela voltou apressada. Poncin interceptou-a.
— Mademoiselle, creio que isto lhe pertence — disse ele, em francês.
— É muito gentil...
Angelique pegou o leque, satisfeita porque seu estratagema dera certo, e por André ser tão observador quanto esperara. Quando ele se inclinou para beijar sua mão, ela sussurrou, em francês:
— Preciso vê-lo amanhã.
— Na legação, ao meio-dia. Peça para falar com Seratard, que não estará presente.
Ela escovava os cabelos diante do espelho, ainda cantarolando a última valsa que dançara. Qual foi melhor? — perguntou a si mesma. A melhor dança? É fácil, Marlowe e a polca, melhor do que Pallidar e as valsas... só se deve valsar com o amor de sua vida, permitindo que a música penetre em sua cabeça, com adoração e anseio, levando-a às nuvens, cintilando, como me sinto esta noite, o melhor dia de minha vida, noiva de um homem extraordinário e amada por ele até a loucura.
Deveria ser o melhor dia, mas não é.
Estranho que eu tenha apreciado a noite, e tendo sido capaz de agir e pensar com calma, quando já passou o dia, estou atrasada, e assim tudo indica que tenho uma criança de um estuprador, que deve ser retirada.
Ela observava seu reflexo como se fosse outra pessoa, as escovadelas firmes, massageando o couro cabeludo, atônita por ainda estar viva e exteriormente a mesma, depois de tanta agonia.
Curioso. Cada dia, depois do primeiro, parece mais fácil.
Por que será?
Não sei. E não importa. Amanhã estará resolvido o problema do atraso, talvez a esta hora, pois começarei de noite, e não haverá mais necessidade de tanto medo e choro, mais medo, mais choro. Dezenas de milhares de mulheres já fofam acuadas na situação em que me encontro agora e escaparam, sem muito sofrimento. Apenas uma pequena poção, e tudo voltará a ser como antes, sem que ninguem saiba. Exceto você e Deus! Exceto você e o médico, ou você e a parteira, ou feiticeira.
Já chega por esta noite, Angelique. Confie em Deus e na Santa Mãe que ela ajudará, pois é inocente. Ficou noiva de um homem maravilhoso, vai casar, viver feliz para sempre. Amanhã... amanhã começarão o onde e o como.
Por trás dela, Ah Soh arrumava a cama de baldaquino, pegando suas meias e roupas de baixo. A saia de crinolina já fora pendurada num cabideiro, junto com as outras, e meia dúzia de vestidos novos para o dia ainda se encontravam envoltos em papel-de-arroz. Pela janela aberta, vinha o som dos risos e cantorias, bêbados e da música no clube, que não dava o menor sinal de que acabaria logo.
Angelique suspirou, com vontade de estar no baile. Os movimentos com a escova se tornaram mais vigorosos.
— Deseja mais alguma coisa?
— Não. Pode ir se deitar.
— Boa noite.
Angelique trancou a porta depois da saída de Ah Soh. A porta de ligação com a suíte de Struan se encontrava fechada, mas não trancada. Pelo costume, ela deveria ir até lá, assim que terminasse de se arrumar, bater, entrar para lhe dar um beijo de boa noite, talvez conversar um pouco, depois retornar a seu quarto, deixando a porta entreaberta, para o caso de Malcolm ter um ataque durante a noite. Eram cada vez mais raros agora, embora ele se mostrasse irrequieto, desde que parara de tomar o medicamento da noite, há uma semana, mal conseguisse dormir, apesar de jamais exigir qualquer coisa.
Ela voltou a sentar diante do espelho, satisfeita com o que via. Seu penhoar era de seda e renda parisiense, uma cópia local de outro que trouxera... e não vai acreditar na qualidade do trabalho, Colette, ou na rapidez do alfaiate chinês, escrevera ela naquela tarde, uma carta que partiria no navio de correspondência, no dia seguinte.
Agora, posso mandar copiar qualquer coisa. Por favor, envie-me alguns moldes ou recortes de La Parisienne ou L’Haute Couture, mostrando os últimos figurinos, ou qualquer outra coisa maravilhosa... meu Malcolm é muito generoso e muito rico! Ele diz que posso pedir o que eu quiser!
E meu anel! Um diamante enorme, com quatorze menores ao redor. Perguntei como o adquirira, em que lugar de locoama, e ele se limitou a sorrir. Preciso ser mais cuidadosa, e não fazer perguntas tolas. Colette, tudo é maravilhoso, só que estou preocupada com a saúde de Malcolm. A melhoria é muito lenta e ele anda com a maior dificuldade. Mas seu ardor aumenta, o pobre coitado, e tenho de me precaver... Devo me vestir para a festa agora, mas voltarei a escrever mais antes de despachar. Meu amor eterno por enquanto.
Colette é afortunada, pois sua gravidez é uma dádiva de Deus. Pare com isso! Não fique assim ou as lágrimas e o terror voltarão. Ponha o dilema de lado. Decidiu o que fazer, se estivesse, ou se não estivesse. Como executar o outro plano... o que mais pode fazer?
Um pouco de perfume por trás das orelhas, nos seios, um ligeiro ajuste das rodas. Uma batida gentil na porta.
— Malcolm?
— Entre... estou sozinho.
Inesperadamente, ele não se encontrava na cama, mas sentado na poltrona. Um chambre vermelho de seda, uma estranha expressão nos olhos. No mesmo instante, algum instinto a fez erguer a guarda. Trancou a porta, como sempre e adiantou-se.
— Não se sente cansado, meu amor?
— Não e sim. Você me deixa tonto.
Ele estendeu as mãos e Angelique se aproximou ainda mais, o coração acelerando. As mãos de Malcolm tremiam. Ele a atraiu para mais perto, beijou suas mãos, braços, seios. Por um momento, ela não resistiu, apreciando aquela adoração, desejando-o. Inclinou-se, beijou-o, deixou que a acariciasse. Depois, o calor aumentando depressa, arriou de joelhos ao lado da poltrona, o coração batendo forte, rompeu em parte o abraço.
— Não devemos — sussurrou Angelique, ofegante.
— Sei disso... mas quero tanto...
Os lábios de Malcolm eram quentes, insistentes, e os de Angelique reagiram. Agora, a mão dele acariciava sua coxa, ateando mais fogo na virilha, e foi subindo e subindo, algoz irresistível, e ela queria mais, só que se conteve a beira do abismo, e tornou a se desvencilhar, sussurrando:
— Não, chéri.
Mas desta vez ele se mostrou surpreendentemente mais forte, o outro braço a deteve, num torno amoroso, a voz e os lábios cada vez mais persuasivos, mais prementes, até que, sem pensar, ele se virou de forma brusca e a dor invadiu seu corpo.
— Oh, Deus!
— O que foi? — balbuciou Angelique, assustada. — Você está bem?
— Acho que sim... Oh, Deus Todo-Poderoso!
Malcolm levou um momento para se recuperar, a dor intensa esvaziando o ardor, mas a ânsia persistindo, o sofrimento tornando-a ainda maior. Suas mãos ainda a seguravam, ainda tremiam, mas sem força.
— Desculpe...
— Não precisa se desculpar, meu querido.
Depois de recuperar o próprio fôlego, agradecida, Angelique levantou-se, serviu um pouco do chá frio que ele mantinha na mesinha-de-cabeceira. Sentia um calor na virilha, estava nervosa, o coração agitado, não querendo parar, mas sabendo que devia, uns poucos minutos a mais e não teria conseguido, preciso encontrar um meio de alcançar a segurança, para ele, para mim, para nós... e uma voz apregoava a litania em sua mente, “um homem jamais casa com sua amante, nada antes do casamento, tudo é permitido depois”, insistindo, até que pudesse compreender.
— Tome aqui — murmurou ela, estendendo a xícara.
Angelique ajoelhou-se, observou-o fechar os olhos, o suor aflorando no rosto, manchando o chambre. Mais um instante, e a maior parte da angústia dela se dissolveu. Pôs a mão no joelho de Malcolm, que a cobriu com a sua.
— Ficar tão perto é ruim para nós, Malcolm — murmurou ela, gostando muito dele, amando-o, mas não muito certa sobre o amor. — É difícil para nós dois chéri, pois também o desejo, também o amo.
Ele só falou depois de um longo momento, com alguma dificuldade, a voz baixa, angustiada:
— Sei disso, mas... mas você pode ajudar.
— Não podemos, querido, não antes de casarmos... não agora.
Abruptamente, a dor e a frustração de Malcolm alcançaram o auge, ao ter passado a noite inteira vendo-a dançar com outros homens, desejando-a, quando mal podia andar, ao mesmo tempo em que sabia que um mês atrás era melhor dançarino do que qualquer outro.
Por que não agora?, ele teve vontade de gritar. Que diferença um ou dois meses podem fazer? Pelo amor de Deus... mas tudo bem, aceitarei isso, que no casamento uma moça decente deve ser virgem, ou é uma mulher fácil, aceitarei que um cavalheiro não lhe faz mal antes do casamento. Aceito tudo! Mas há outros meios.
— Sei... sei que não podemos agora — balbuciou ele, a voz rouca. — Mas. -por favor, Angelique, ajude-me.
— Como?
Mais uma vez, ele foi sufocado pelas palavras. Pelo amor de Deus, faça como as mulheres das casas, que beijam, acariciam, fazem um homem se aliviar... Pensa que o ato de amor é apenas abrir as pernas e ficar imóvel como uma posta de carne? Essas mulheres fazem coisas bem simples, sem qualquer alarde, e sentem-se felizes pelo homem depois, perguntam se foi bom.
Mas Malcolm sabia que nunca poderia dizer isso a Angelique. Era contra toda a sua criação. Como explicar à moça que você ama, quando ela é tão jovem e ingênua, ou tão egoísta, ou apenas ignorante? Subitamente, a verdade tornou-se amarga. Alguma coisa nele mudou e foi com uma voz diferente que disse:
— Tem toda razão, Angelique, é difícil para nós dois. Desculpe. Talvez seja melhor você voltar para a legação francesa, até partirmos para Hong Kong. Agora Que estou melhorando, devemos zelar por sua reputação.
Ela ficou aturdida, desconcertada com a mudança.
— Mas estou bem aqui, Malcolm, e bem perto, caso precise de mim.
— Ora, claro que preciso de você. — Ele contraiu os lábios, na insinuação de um sorriso irônico. — Pedirei a Jamie para providenciar tudo.
Angelique hesitou, surpresa, sem saber como continuar.
— Se é assim que você quer, chéri...
— É melhor. Como você disse, essa proximidade é difícil para nós dois. Boa noite, meu amor. Fico contente que tenha gostado de sua festa.
Ela sentiu um calafrio percorrer seu corpo, mas não sabia se vinha de fora ou de dentro. Beijou-o, esperando por uma paixão retribuída, mas não encontrou nenhuma. O que o mudara?
— Duma bem, Malcolm. Eu amo você.
Ainda nada. Não importa, pensou Angelique, os homens são melancólicos e difíceis. Sorrindo como se nada houvesse de errado, ela foi tirar a tranca da porta e soprou-lhe um beijo terno e passou para seu quarto.
Malcolm olhou para a porta de comunicação. Estava entreaberta. Como sempre. Mas tudo no mundo dos dois não era mais como sempre. A porta e a proximidade de Angelique não mais o tentavam. Sentia-se diferente, de alguma forma remodelado. Não sabia por que, mas estava muito triste, muito velho, algum instinto lhe dizia que, por mais que a amasse, por mais que tentasse fisicamente Angelique nunca poderia, em toda a vida comum, satisfazê-lo por completo.
Usando a bengala, Malcolm levantou-se, claudicou tão silenciosamente quanto podia até a cômoda. Pegou na gaveta de cima o vidro do medicamento, que escondera para as noites em que a mera idéia de dormir se tornasse insuportável. Tomou tudo. Arrastou-se para a cama. Rangendo os dentes, deitou-se, deixou escapar um suspiro, enquanto a maior parte da dor desaparecia. O fato de ter consumido até a última gota a poção que lhe proporcionava um pouco de paz não o incomodava. Chen, Ah Tok ou qualquer dos outros criados poderia providenciar mais, no momento em que assim desejasse. Afinal, a Struan não era a grande fornecedora da China?
No outro lado da porta, Angelique ainda se encostava na parede, na maior agitação, sem saber se devia voltar ou deixá-lo sozinho. Ouvira-o ir até a cômoda, abrir a gaveta, mas não sabia o motivo, ouvira as molas da cama rangerem e o profundo suspiro de alívio de Malcolm.
Era apenas a dor e porque não podemos, não agora, pensou ela, tranqüilizando-se outra vez, reprimindo um bocejo nervoso. E também porque ele teve de permanecer sentado durante todo o baile, quando é um excelente dançarino, o melhor que já conheci... não foi isso o que primeiro me atraiu, em Hong Kong, entre todos os outros?
Não há nada de errado que ele queira fazer amor... e não foi por culpa minha que ficou ferido. Pobre Malcolm, ele está apenas esgotado. Amanhã terá esquecido e tudo estará bem... e é melhor eu agir agora, tenho de cuidar do outro problema. Mas tudo vai dar certo.
Ela meteu-se na cama e mergulhou num sono fácil, mas os sonhos logo foram povoados por monstros estranhos, com rostos retorcidos de bebê, soltando risadas estridentes, puxando-a, “mamãe... mamãe”, escrevendo nos lençóis com seu próprio sangue, a vazar do dedo, usado como caneta, traçando e retraçando aqueles caracteres... os que encontrara na colcha, gravados para sempre em sua mente. Ainda não tivera coragem de perguntar a André ou Tyrer o que significavam.
Alguma coisa a arrancou do sono. As paisagens noturnas se desvaneceram Apreensiva, olhou para a porta, meio esperando vê-lo ali. Mas não o encontrou, ouviu sua respiração, pesada, regular. Recostou-se nos travesseiros e pensou: foi o vento, uma janela batendo.
Mon Dieu, estou cansada, mas como me diverti no baile! E que anel lindo ele me deu!
Cantarolando a polca, com alguma inveja do sucesso de John Marlowe, e convencido de que também poderia se sair tão bem, Phillip Tyrer seguiu quase que dançando até a porta da casa das Três Carpas, na viela pequena e deserta, e bateu com um floreio. Ali, a Yoshiwara parecia adormecida, mas não muito longe, na Main Street, as casas e bares fervilhavam, a noite era jovem, com o barulho de homens rindo, cantos roucos, os acordes ocasionais de uma samisen, misturados com risadas e palavras de pidgin.
A grade da porta foi aberta.
— O que é?
— Por favor, fale japonês. Sou Taira-san, e tenho um encontro marcado.
— Ah, é isso? — murmurou a corpulenta criada. — Taira-san, hem? Falarei com a mama-san.
A grade foi fechada. Enquanto esperava, Tyrer tamborilou com os dedos na madeira antiga. Passara todo o tempo no dia de ontem e na noite anterior com Sir William, explicando sobre Nakama e a legação, providenciando um modus vivendi para seu novo professor... e sentindo-se culpado por não ter revelado a verdade vital de que o homem sabia falar alguma coisa de inglês. Mas fizera um juramento, e a palavra de um inglês é o seu grilhão.
Sir William acabara concordando que “Nakama” podia ser um samurai — filhos de famílias samurais haviam sido instalados nas legações britânica e francesa, por curtos períodos, no passado, assim como Babcott tinha ajudantes japoneses. Mas Sir William determinara que ele não deveria usar ou guardar espadas dentro da cerca da colônia. Essa regra aplicava-se a todos os samurais, à exceção dos guardas da colônia, sob o comando de um oficial, em suas raras patrulhas, aprovadas com antecedência. Além disso, Nakama não poderia se vestir de forma ostentosa, nem se aproximar da casa da guarda ou da alfândega, e teria de se manter fora de vista tanto quanto possível, pois se fosse descoberto e reclamado pelo Bakufu, a culpa seria sua e não relutariam em entregá-lo.
Tyrer chamara Nakama e explicou-lhe o que Sir William determinara. Àquela altura, sentia-se cansado demais para Fujiko.
Agora, Nakama, preciso mandar uma mensagem, e quero que você a entregue. Por favor, escreva os caracteres para: “Por favor, arrume...”
— Arrume, por favor?
— Significa marcar. “Por favor, marque um encontro para mim, amanhã à noite, com...” Deixe o espaço em branco para o nome.
Hiraga não demorara muito a entender o que Tyrer queria dele e por quê. Em desespero, Tyrer acabara dando o nome de Fujiko e da Casa das Três Carpas.
— Ah. Três Carpas? — dissera Hiraga. — So ka! Entregar mensagem mama-san, sem errar, marcar você ver musume amanhã, sim?
— Isso mesmo, por favor.
Nakama lhe mostrara como escrever os caracteres e Tyrer os copiara; muito satisfeito consigo, assinara a mensagem e agora se encontrava à porta.
— Vamos logo, depressa — murmurou ele, sentindo-se ansioso, muito capaz.
A grade na porta foi logo aberta de novo por Raiko.
— Ah, boa noite, Taira-san, quer que a gente fale japonês, certo — disse ela com um sorriso e uma pequena reverência.
Seguiu-se um fluxo de japonês que ele não entendeu, à exceção do nome Fujiko, repetido várias vezes, e o final:
— Sinto muito.
— Como? Ahn... Sente muito? Por que, Raiko-san? Boa noite. Tenho um encontro Fujiko... com Fujiko.
— Sinto muito — repetiu ela —, mas Fujiko não está disponível esta noite, e não ficará livre por algum tempo. Sinto muito, mas não há nada que eu possa fazer. Ela pede desculpas e sente muito. Todas as minhas outras damas também estão ocupadas. Sinto muito.
Mais uma vez, Tyrer não entendeu tudo. Absorveu a essência. Desolado, compreendeu que Fujiko não se encontrava, mas não o motivo de sua ausência.
— Mas carta ontem... minha mensagem, Nakama lhe trazer, hem?
— Oh, sim! Nakama-san trouxe a mensagem e eu disse a ele que estava tudo certo, mas sinto muito, agora não é possível atendê-lo. Sinto muito, Taira-san. Obrigado por se lembrar de nós. Boa noite.
— Espere! — gritou Tyrer, em inglês,quando a grade era fechada, para depois acrescentar, suplicante: — Disse que ela não está aqui, não é? Esperar, por favor, Raiko-san. Amanhã... amanhã, Fujiko, sim?
Raiko sacudiu a cabeça, com uma cara de tristeza.
— Ah, sinto muito, amanhã também não será possível e muito me aflige ter de dizer isso. Espero que compreenda. Sinto muito.
Tyrer estava consternado.
— Não amanhã? Dia seguinte, sim?
Ela hesitou, sorriu, fez outra reverência.
— Talvez, Taira-san, talvez, mas sinto muito, não posso prometer nada. Por favor, peça a Nakama para vir aqui durante o dia e direi a ele. Compreendeu? Mande Nakama-san. Boa noite.
Aturdido, Tyrer ficou olhando para a porta, praguejou amargurado, cerrou os punhos, querendo bater em alguma coisa. Levou um momento para se recuperar do intenso desapontamento e depois, abatido, afastou-se.
Hiraga estivera observando através de um pequeno buraco na cerca. Quando Tyrer desapareceu, além da esquina, ele voltou pelo cadinho de pedra sinuoso, através do jardim, imerso em seus pensamentos. O jardim era enganadoramente espaçoso, com pequenos bangalôs, sempre com varandas, cercados por arbustos.
Mas Hiraga evitou a todos, embrenhou-se pelos arbustos, foi bater num painel da cerca, que foi aberto, sem qualquer ruído. O criado fez uma reverência, ele acenou com a cabeça e seguiu por um caminho na direção de uma habitação similar. A maioria das estalagens ou casas possuíam saídas secretas e esconderijos ou ligações com a propriedade vizinha. As que ousavam abrigar os shishi dispensavam atenção especial à segurança... para seu próprio bem. Aquela parte da Casa das Três Carpas era para visitantes muito especiais, com suas próprias instalações para cozinhar e criadas diferentes, mas com as mesmas cortesãs. Na varanda, Hiraga tirou seus geta — sapatos — e puxou a porta de shoji.
— O que ele fez? — perguntou Ori.
— Afastou-se, mansamente. Estranho.
Hiraga balançou a cabeça, espantado, foi sentar à frente de Ori e retribuiu com um cumprimento rápido a reverência profunda de Fujiko. No dia anterior, depois de entregar a carta de Tyrer, ele reservara Fujiko para esta noite, com a divertida aquiescência de Raiko.
— Posso saber por que, Hiraga-san? — perguntara Raiko.
— Só para irritar Taira.
— Acho que ele deixou sua virgindade aqui, com Ako. Depois experimentou Meiko e Fujiko em seguida. Fujiko deixou-o de olhos vesgos.
Ele rira junto com Raiko, simpatizando com ela. Ao ver Fujiko, ficara surpreso, sem entender como seu inimigo podia achar aquela moça atraente. Era vulgar, com cabelos vulgares, tudo nela era vulgar, à exceção dos olhos, grandes demais. Mesmo assim, ele escondera sua opinião, e cumprimentara Raiko por ter adquirido uma flor tão extraordinária, que parecia ter dezesseis anos, embora estivesse com trinta e um, e há quinze fosse cortesã.
— Obrigada, Hiraga-san.— Raiko sorrira.— Tem razão, ela é um patrimônio e tanto. Por alguma razão, o gai-jin gosta de Fujiko. Mas, por favor, não esqueça que o Taira é nosso cliente e que os gai-jin não são como nós. Tendem a se ligarem a uma dama apenas. Por favor, encoraje-o, pois os gai-jin são ricos. Soube que ele é importante e pode ficar aqui por alguns anos.
— Sonno-joi.
— Isso cabe a você. Pode cortar suas cabeças, desde que prometa que não o fará aqui, enquanto eu lhes arranco o dinheiro.
— Vai permitir que Ori continue aqui?
— Ori-san é um jovem curioso — comentara Raiko, hesitante. — Muito forte, muito irado, muito irrequieto... prestes a explodir. Tenho medo dele. Posso escondê-lo por mais um ou dois dias, mas... por favor, pode controlá-lo enquanto ele for meu hóspede? Já há problemas suficientes no mundo dos salgueiros, e não precisamos procurar por mais.
— Combinado. Tem alguma notícia de meu primo, Akimoto?
— Ele está são e salvo em Hodogaya, na Casa de Chá da Primeira Lua.
— Mande chamá-lo. — Hiraga tirara um oban de ouro de seu bolso secreto. Notara o brilho nos olhos de Raiko. — Isto pagará por qualquer mensageiro e pelas despesas de Ori e Akimoto aqui... e também pelos serviços de Fujiko amanhã.
— Certo. — A moeda, um pagamento bastante generoso, desaparecera na manga de Raiko. — Ori-san pode ficar até eu achar que é tempo de partir. Quando chegar esse momento, sinto muito, mas ele terá de ir embora. Concorda?
— Claro.
— E agora, shishi, sinto muito, mas devo dizer que sua presença aqui é muito perigosa. Isto está sendo enviado para todas as barreiras.
Raiko desdobrara uma xilogravura, um retrato. Dele. A legenda dizia: O Bakufu oferece uma recompensa de dois koku pela cabeça deste ronin de Choshu assassino, que usa muitos nomes, um dos quais é Hiraga.
— Baka! — exclamara Hiraga, através dos dentes semicerrados. — Parece comigo? Como é possível? Nunca deixei pintarem um retrato meu.
— Sim e não. Os artistas têm memória longa, Hiraga-san. Quem sabe um dos samurais na luta? A menos que alguém mais próximo de você seja um traidor. Também é ruim que pessoas importantes estejam à sua procura. Anjo, é claro, mas agora Toranaga Yoshi também.
Hiraga sentira um calafrio, especulando se a cortesã Koiko fora traída ou era a traidora.
— Por que ele?
Raiko dera de ombros.
— Ele é o chefe da serpente, quer goste ou não. Sonno-joi, Hiraga-san, mas não atraia o inimigo Bakufu para cá. Quero esta cabeça nos meus ombros.
Durante toda a noite, Hiraga preocupara-se com o cartaz e o que fazer a respeito. Agora, deixou que Fujiko lhe servisse mais saquê e comentou:
— Esse Taira me espanta, Ori.
— Por que perder tempo com ele? Mate-o.
— Mais tarde, não agora. Observar a ele e aos outros, testá-los, tentar adivinhar suas reações, é como um jogo de xadrez em que as regras mudam constantemente. É fascinante... depois que a gente se acostuma ao fedor.
— Devemos fazer esta noite o que eu queria fazer antes: matá-lo, jogar o corpo perto da casa da guarda e deixar que eles levem a culpa.
Irritado, Ori passou a mão direita pelos fios curtos que já cobriam sua cabeça raspada e o rosto, o ombro esquerdo enfaixado, o braço ainda numa tipóia.
— Amanhã estarei raspado de novo, e voltarei a me sentir como um samurai... Raiko tem um barbeiro em quem pode confiar. Mas raspado ou não, Hiraga, esta indolência forçada está me enlouquecendo.
— E seu ombro?
— O ferimento está limpo. Coça, mas é uma boa coceira. — Ori levantou o braço até a metade. — Não consigo ir além, mas forço um pouco mais a cada dia. Seria difícil usar numa luta. Karma. Mas se matássemos o gai-jin Taira não haveria risco nenhum para nós nem para a casa. Você disse que ele é tão retraído que não contou a ninguém que vinha até aqui.
— É verdade, mas ele pode ter comentado com alguém e é isso o que não compreendo. Os gai-jin são imprevisíveis. Vivem mudando de idéia, dizem uma coisa e, depois, fazem o oposto exato, mas não por cálculo, não como fazemos, não como nós.
— Sonno-joi! Matá-lo deixaria os gai-jin furiosos. Devemos fazer isso na próxima vez em que ele vier aqui.
— Faremos, só que mais tarde... ele é muito valioso por enquanto. Vai revelar os segredos deles, como humilhá-los, como matá-los às centenas e milhares... depois que os tivermos usado para humilhar e destruir o Bakufu.
Hiraga tornou a levantar o copo. No mesmo instante, Fujiko encheu-o, sorrindo para ele.
— Estive até no escritório do líder de todos os ingleses, a cinco passos dele. Estou no centro da autoridade dos gai-jin. Se ao menos eu compreendesse melhor a língua deles...
Hiraga era cauteloso demais para revelar a Ori a verdadeira extensão de seu conhecimento ou como persuadira Tyrer a tirá-lo do prédio da legação... ainda mais na presença daquela mulher.
Enquanto reabastecia os copos, ao longo da noite, sorrindo, sempre atenciosa, jamais interrompendo, Fujiko escutava avidamente, embora desse a impressão de que não prestava a menor atenção, querendo fazer uma centena de perguntas, mas muito bem treinada para interferir.
— Limitem-se a escutar, sorriam e finjam que são estúpidas, apenas um brinquedo — diziam todas as mama-sans para suas pupilas. — Muito em breve eles lhe contarão tudo o que quiserem saber, sem precisar de qualquer estímulo. Escutem e sorriam, observem e lisonjeiem, façam com que se sintam felizes, pois só assim eles se tornam generosos. Jamais esqueçam que um homem feliz é igual a ouro, e o ouro é o único propósito de vocês, a única segurança.
— Em Iedo — acrescentou Hiraga — esse Taira foi muito corajoso, esta noite um covarde. Fujiko, como ele é na cama?
Sorrindo, ela ocultou sua surpresa por alguém poder ser tão indelicado.
— Como qualquer jovem, Hiraga-san.
— Certo, mas como ele é? Está na proporção... homem alto, espada comprida?
— Sinto muito. — Fujiko baixou os olhos, assumiu uma voz humilde. — As damas do mundo dos salgueiros são orientadas para nunca falarem de um cliente com outro, não importa quem seja.
— E nossas regras aplicam-se aos gai-jin? — indagou Hiraga.
Ori riu.
— Não vai conseguir arrancar nada dela, ou de qualquer das outras. Já tentei, Raiko-san veio me censurar por interrogá-las. “Gai-jin ou não, a regra antiga da Yoshiwara sempre prevalece”, disse ela. “Podemos conversar sobre generalizações, mas não sobre qualquer cliente em particular... Baka-neh?” Ela ficou realmente zangada.
Os dois homens riram, mas Fujiko percebeu que não havia nenhum sorriso nos olhos de Hiraga. Fingindo não notar, ansiosa em apaziguá-lo, ao mesmo tempo em que especulava como teria de servi-lo naquela noite, ela disse:
— Sinto muito, Hiraga-san, mas minha experiência é pouca, com jovens velhos ou intermediários. Mas a maioria, damas experientes, diz que o tamanho não garante satisfação, nem para ele, nem para ela, mas que os jovens são sempre os clientes melhores e mais satisfatórios.
Fujiko riu para si mesma, pela mentira tão usada. Gostaria de lhe dizer a verdade, por uma vez: que vocês, jovens, são os piores clientes, os mais exigentes os menos satisfatórios. São todos irremediavelmente impacientes, com uma abundância de vigor, clamam por muitas entradas, esguicham poças de essência mas há pouco contentamento depois... e quase nunca se mostram generosos. O pior de tudo é que uma de nós, por mais que tente evitar, pode se apaixonar por um jovem em particular e isso acarreta ainda mais sofrimento, desastre e até o suicídio, na maioria das vezes. O velho é vinte vezes melhor.
— Alguns jovens são muito tímidos, embora bem-dotados — disse ela, respondendo sem responder.
— Interessante. Ori, ainda não posso acreditar que esse Taira tenha ido embora mansamente, sem protestar.
Ori deu de ombros.
— Manso ou não, ele deveria estar morto esta noite e eu dormiria melhor. O que mais ele podia fazer?
— Tudo. Deveria ter derrubado a porta a pontapés... um encontro marcado é um encontro marcado, e o fato de Raiko não ter uma substituta à espera foi um insulto adicional.
— A porta e a cerca são muito resistentes, até mesmo para nós.
— Neste caso, ele deveria ter ido até a rua principal, recrutado cinco, dez ou vinte dos seus companheiros, e voltado para derrubar a cerca. Afinal, é um homem importante, e todos os oficiais e soldados obedeciam às suas ordens na legação. Tal atitude, com toda certeza, faria com que Raiko se ajoelhasse diante dele por um ano ou mais, e lhe garantiria os serviços que quisesse no momento em que desejasse... e nós talvez tivéssemos de fugir. Isso é o que eu faria, se fosse uma autoridade tão importante quanto ele.
Hiraga sorriu e Fujiko reprimiu um calafrio de medo.
— É uma questão de honra. Contudo, eles compreendem essas coisas muito bem. Teriam defendido sua estúpida legação até o último homem, e depois a esquadra arrasaria Iedo.
— Não é isso o que queremos?
— É, sim. — Hiraga soltou uma risada.— Mas não quando se está sem armas, rastejando como um jardineiro... eu me sinto completamente nu!
Outra dose de saquê. Hiraga olhou para Fujiko. Em circunstâncias normais, muito embora a mulher daquela noite não fosse muito atraente, sua virilidade habitual e o saquê o excitariam. Mas esta noite era diferente. Afinal, encontrava-se na Yoshiwara dos gai-jin, a mulher já fora para a cama com eles, por isso está contaminada. Talvez Ori a quisesse, pensou ele, sorrindo para Fujiko, a fim de salvar as aparências.
— Peça alguma comida, está bem, Fujiko? A melhor que a casa possa oferecer.
— Agora mesmo, Hiraga-san.
Ela se retirou, apressada.
— Escute, Ori — sussurrou Hiraga, tão baixo que mais ninguém poderia ouvir —, há grande perigo por aqui.
Ele tirou do bolso o cartaz dobrado. Ori ficou chocado.
— Dois koku! É uma tentação para qualquer um. Não está muito parecido com você, mas um guarda de barreira poderia detê-lo.
— Raiko disse a mesma coisa.
Ori fitou-o.
— Joun era um artista e dos bons.
— Pensei nisso e tenho me perguntado como o prenderam, até que ponto o obrigaram a falar. Ele conhece muitos segredos dos shishi, está a par do planejamento de Katsumata para interceptar o xógum.
— É lamentável permitir que seja capturado vivo. É óbvio que o inimigo se infiltrou em nossa organização. — Ori devolveu o cartaz. — Dois koku tentariam qualquer pessoa, até mesmo a mama-san mais leal.
— Pensei nisso também.
— Deixe crescer a barba, Hiraga, ou o bigode. Isso ajudaria.
— Tem razão, ajudaria bastante. — Hiraga sentiu-se contente por Ori ter se recuperado, pois seus conselhos eram sempre valiosos. — É uma estranha sensação, saber que este cartaz circula por aí.
Um longo momento de silêncio, rompido por Ori:
— Dentro de um ou dois dias, assim que eu puder, e me sinto mais forte a cada dia, partirei para Quioto, a fim de avisar Katsumata sobre Joun. Ele deve ser alertado.
— É uma ótima idéia.
— E você, o que vai fazer?
— Estou seguro entre os gai-jin, mais seguro do que em qualquer outro lugar... enquanto ninguém me trair. Akimoto está em Hodogaya. Mandei chamá-lo e depois poderemos decidir.
— Fez bem. Seria mais seguro se tentasse ir para Quioto agora, antes que esses retratos sejam enviados por toda a Tokaidô.
— Não. Taira é uma oportunidade boa demais para se perder. Esconderei as espadas lá, para qualquer emergência.
— Arrume um revólver. É menos óbvio.
Ori estendeu a mão direita por dentro do yukata, afastou-a do ombro, para coçar as bandagens. Hiraga ficou chocado ao ver a pequena cruz de ouro, pendurada em uma corrente de ouro fina em seu pescoço.
— Por que usa isso?
Ori deu de ombros.
— Acho divertido.
— Livre-se disso, Ori... liga-o ao ataque na Tokaidô, a Shorin e à mulher. Essa cruz é um perigo desnecessário.
— Muitos samurais são cristãos.
— É verdade, mas ela pode identificar essa cruz. É uma insanidade correr tamanho risco. Se quer usar uma, arrume outra.
Depois de uma pausa, Ori declarou:
— É esta que eu acho divertido.
Hiraga percebeu a inflexibilidade, amaldiçoou-o em silêncio, mas decidiu que era seu dever proteger o movimento shishi, proteger Sonno-joi, e aquele era um momento que exigia uma decisão.
— Tire-a!
O sangue afluiu ao rosto de Ori. O meio sorriso não mudou, mas ele sabia o que havia em jogo. Suas opções eram simples: recusar e morrer ou obedecer.
Um mosquito zumbiu em torno de seu rosto. Ele ignorou-o, não querendo fazer um movimento súbito. Lentamente, a mão direita puxou a corrente do pescoço, partindo-a. A cruz e a corrente desapareceram no bolso na manga. Depois, ele pôs as mãos no tatame, e fez uma reverência profunda.
— Tem toda razão, Hiraga-san, era um risco desnecessário. Por favor, aceite minhas desculpas.
Em silêncio, Hiraga se inclinou. Só então relaxou e Ori se empertigou. Os dois sabiam que seu relacionamento mudara. Para sempre. Não haviam se tornado inimigos, apenas não eram mais amigos; aliados sempre, mas nunca amigos de novo. Nunca mais. Ao pegar seu copo e levantá-lo, num brinde, Ori sentiu-se satisfeito por constatar que sua raiva interior estava tão controlada que os dedos não tremiam.
— Obrigado.
Hiraga bebeu com ele, inclinou-se, tornou a servir saquê para os dois.
— Agora, Sumomo. Por favor, fale-me sobre ela.
— Não lembro quase nada. — Ori abriu o leque, afugentou o mosquito. — A mama-san Noriko me contou que aqui chegou como um espírito, trazendo-me numa maca, não lhe disse quase nada, exceto que um doutor gai-jin abrira meu ferimento e tornara a costurá-lo. Pagou a metade das dívidas de Shorin e persuadiu-a a me esconder. Durante a espera, Sumomo pouco falou, depois de perguntar o que acontecera com Shorin. Quando o mensageiro voltou de Iedo, com a sua mensagem, ela partiu no mesmo instante para Shimonoseki. A única notícia que deu foi de que Satsuma está se mobilizando para a guerra, e que as baterias de Choshu tornaram a disparar contra navios gai-jin, estreitos, obrigando-os a voltarem.
— Ótimo. Você contou a ela tudo sobre Shorin?
— Contei. Ela me interrogou a sério e declarou, após o relato, que seria vingada.
— Ela deixou algum recado ou carta com a mama-san?
Ori deu de ombros.
— Não deixou nada comigo.
Talvez Noriko tenha alguma coisa, pensou Hiraga. Mas não importa, isso pode esperar.
— Ela parecia bem?
— Parecia. Devo minha vida a Sumomo.
— É verdade. Um dia ela vai querer cobrar essa dívida.
— Pago a ela, pago a você, e honro Sonno-joi.
Os dois ficaram calados, cada um especulando sobre o que o outro pensava, pensava realmente. Hiraga exibiu um súbito sorriso.
— Esta noite, na colônia, houve uma celebração, com música infame, muita bebida, como é o costume deles quando um homem concorda em casar. — Ele emborcou o copo. — Este saquê é excelente. Um dos mercadores... o gai-jin que você cortou na Tokaidô... vai casar com aquela mulher.
Ori sentiu-se atordoado.
— A mulher da cruz? Ela está aqui?
— Eu a vi esta noite.
— Mas que coisa! — murmurou Ori, como se falasse para si mesmo, depois terminou seu saquê, despejou mais, para os dois. Algumas gotas caíram na bandeja, despercebidas. — Ela vai casar? Quando?
Hiraga deu de ombros.
— Não sei. Vi os dois juntos esta noite. Ele anda com duas bengalas, como um entrevado... seu golpe o feriu gravemente, Ori.
— Ótimo. E como está a mulher?
Hiraga soltou uma risada.
— Cômica, Ori, uma verdadeira palhaçada.
Ele descreveu os trajes de Angelique. E o penteado. Levantou-se, imitou seu andar. Não demorou muito para que os dois quase estivessem rolando pelos tatames de tanto rir.
—... os seios à mostra, a depravada! Pouco antes de vir para cá, dei uma espiada por uma janela. Homens agarravam-na abertamente. Ela e um homem se abraçaram e saíram girando numa espécie de dança, na frente de todos, ao som horrível daqueles instrumentos, uma coisa que não se pode chamar de música. As saias levantavam de tal forma que se podia ver até a metade das pernas, cobertas por uma calça rendada, que descia aos tornozelos. Eu nunca seria capaz de acreditar numa coisa assim se não tivesse visto pessoalmente, mas ela passou de um homem para outro como uma prostituta de um yen, e todos a aplaudiram. O tolo que vai casar com ela passou o tempo todo sentado numa cadeira... e radiante, imagine só!
Ele estendeu a mão para servir aos dois mais uma vez, só que encontrou a garrafa vazia.
— Saquê!
A porta foi aberta no mesmo instante, uma criada entrou, de joelhos, trouxe novas garrafas, serviu-os e se retirou. Hiraga arrotou, o saquê o afetando.
— Eles agiam como animais. Sem seus canhões e navios, estão abaixo do desprezo.
Ori olhou pela janela, na direção do mar.
— O que é? — indagou Hiraga, subitamente em guarda. — Perigo?
— Não, não foi nada.
Hiraga franziu o rosto, apreensivo, recordando como Ori era sensível a emanações externas.
— Tem as espadas aqui?
— Tenho. Raiko as guarda para mim.
— Detesto não ter espadas no cinto.
— Eu também.
Por uma vez, eles beberam em silêncio, e depois a comida chegou, pequenos pratos com peixe grelhado, arroz, sushi e sashimi, assim como uma iguaria portuguesa chamada tempura — peixe e legumes passados na farinha de arroz e fritos. Antes de os portugueses chegarem, por volta de 1.550, os primeiros europeus a aparecerem em suas praias, os japoneses não conheciam a técnica de fritura.
Depois de se sentirem satisfeitos, eles mandaram chamar Raiko, apresentaram seus cumprimentos pela refeição e recusaram os serviços de entretenimento de uma gueixa. Por isso, ela fez uma reverência e se retirou.
— Pode ir também, Fujiko — disse Hiraga. — Voltarei amanhã, depois do pôr-do-sol.
— Pois não, Hiraga-san.
Fujiko fez uma reverência baixa, contente por ser dispensada sem trabalho adicional, pois Raiko já lhe dissera que seu pagamento era generoso.
— Obrigada por me honrar.
— Claro que nada do que ouviu ou viu esta noite jamais será mencionado para o Taira, outro gai-jin, ou qualquer pessoa.
Ela levantou a cabeça de repente.
— Claro que não, Hiraga-sama. — Sentiu um frio no coração ao ver os olhos dele e repetiu, a voz quase inaudível: — Claro que não.
Fujiko encostou a testa no tatame e depois, apavorada, saiu apressada.
— Ori, assumimos um risco com essa mulher escutando.
— Com qualquer delas. Mas ela não ousaria falar, nem as outras. — Ori tornou a usar o leque, contra os insetos noturnos. — Antes de partirmos, acertaremos um preço com Raiko para que Fujiko seja despachada para uma casa de baixa qualidade, onde estará ocupada demais para cometer algum erro, bem longe do gai-jin e do Bakufu.
— É um bom conselho. Pode ser caro, pois Raiko disse que Fujiko é bastante popular com os gai-jin, por algum motivo.
— Fujiko?
— Isso mesmo. Estranho, neh? Raiko disse que os costumes deles são diferentes dos nossos. — Hiraga percebeu o sorriso de Ori. — O que é?
— Nada. Podemos conversar mais amanhã.
Hiraga acenou com a cabeça, bebeu o resto do saquê no copo, levantou-se, tirou o yukata engomado que todas as casas e estalagens costumavam fornecer a seus cientes e tornou a vestir o quimono grosseiro de aldeão, o turbante ordinário e o chapéu de palha de cule. Pôs nos ombros o cesto de compras vazio.
— Está seguro assim?
— Estou, desde que não tenha de descobrir a cabeça e possa apresentar isto. — Hiraga mostrou os dois passes que Tyrer lhe dera, um para os japoneses, um para os ingleses. — Os guardas no portão e na ponte estão sempre alerta e soldados patrulham a colônia à noite. Não há toque de recolher, mas Taira me advertiu para ser cuidadoso.
Pensativo, Ori devolveu os passes. Hiraga guardou-os na manga.
— Boa noite, Ori.
— Boa noite, Hiraga-san. — Ori fitou-o com uma expressão estranha. — Eu gostaria de saber onde a mulher vive. Os olhos de Hiraga se contraíram.
— É mesmo?
— É, sim. Gostaria de saber onde. Exatamente.
— Talvez eu possa descobrir. E depois?
O silêncio tornou-se opressivo. Ori pensou: Não tenho certeza esta noite, bem que gostaria de ter, mas cada vez que deixo a mente vaguear lembro daquela noite e do ardor interminável que tive com a mulher. Se eu a matasse na ocasião, isso teria acabado, mas sabendo que ela continua viva, sinto-me obcecado. É uma estupidez, mas estou enfeitiçado. Ela é maligna, repulsiva, sei disso, mas ainda assim me sinto enfeitiçado e tenho certeza de que a mulher sempre haverá de me atormentar, enquanto estiver viva.
— E depois? — repetiu Hiraga.
Ori evitara que seus pensamentos transparecessem no rosto. Fitou Hiraga calmamente, e deu de ombros.
Quarta-feira, 15 de outubro:
André Poncin piscou os olhos, aturdido.
— Você está grávida?
— Isso mesmo — murmurou Angelique. — Deve compreender...
— Mas isso é maravilhoso, torna tudo perfeito! — exclamou ele, o choque se transformando numa intensa satisfação, porque Struan, o cavalheiro britânico, fizera mal a uma moça inocente, e agora não podia evitar um casamento prematuro, se quisesse permanecer um cavalheiro. — Madame, posso lhe dar os parabéns...
— Cale-se, André. Não, não pode, e não deve falar tão alto, porque as paredes têm ouvidos, ainda mais nas legações, não é mesmo? — Ela falou num sussurro, espantada por sua voz soar tão calma, e por se sentir tão calma que podia lhe contar com a maior facilidade. — Deve compreender que, infelizmente, o pai não é monsieur Struan.
O sorriso de Poncin desapareceu, mas logo retornou.
— Está gracejando, é claro, mas por que...
— Apenas escute, por favor. — Angelique deslocou sua cadeira para mais perto. — Fui estuprada em Kanagawa...
Ele a fitou, fixamente, atordoado, enquanto Angelique relatava o que pensava ter lhe acontecido, o que decidira fazer, como ocultara o horror desde então.
— Por Deus, minha pobre Angelique, deve ter sido terrível para você! — foi tudo o que André conseguiu murmurar, num choque profundo.
Ao mesmo tempo, outra peça do quebra-cabeça ajustou-se no lugar. Sir William, Seratard e Struan haviam decidido limitar a notícia sobre a operação do Dr. Hoag em Kanagawa ao mínimo de pessoas possível, ocultando-a em particular de Angelique, os dois médicos aconselhando que era o mais sensato.
— Por que agitá-la desnecessariamente? Ela já se sente bastante transtornada com o atentado na Tokaidô.
Não havia ainda razão para contar a ela, pensou André, inquieto, abalado pela ironia.
Ele pegou a mão de Angelique, acariciou-a, forçando-se a reprimir suas próprias preocupações e concentrando-se nela. Vendo-a ali, sentada à sua frente, na sala que ocupava na legação, tão serena e recatada, a imagem da inocência, apenas umas poucas horas depois de ter sido a belle no melhor baile que Iocoama já testemunhara, proporcionava à sua história um ar total de irrealidade.
— Isso realmente aconteceu, Angelique?
Ela ergueu a mão, como se estivesse fazendo um juramento.
— Juro por Deus.
Angelique cruzou as mãos sobre o colo. Usava um vestido amarelo claro, uma pequena touca laranja e um guarda-chuva. Desconcertado, ele sacudiu a cabeça.
— Parece impossível.
Ao longo de seus anos como adulto, André Poncin tivera alguma participação em muitas dessas tragédias de homem-mulher: fora incluído em algumas por seus superiores, deparara por acaso com umas poucas, precipitara muitas e usara a maioria, se não todas, para a melhoria de sua causa... pela França, a revolução, liberdade, fraternidade, igualdade ou pelo imperador Luís Napoleão ou por qualquer pessoa ou coisa que estivesse em voga no momento... e também em proveito pessoal, acima de tudo.
Por que não? — pensava ele. O que a França tem feito por mim, o que algum dia fará por mim? Nada. Mas esta Angelique, com toda certeza, ou vai desmoronar a qualquer momento — sua serenidade é irreal — ou é como algumas mulheres que já conheci, que nasceram más e distorcem a verdade de maneira brilhante, para seus próprios propósitos, ou como alguém que foi levada à beira do abismo pelo terror, e se tornou uma mulher calculista, de sangue-frio, além dos seus anos.
— Como?
— Preciso remover o problema, André.
— Fazer um aborto? Mas você é católica!
— E você também. É uma questão entre Deus e eu.
— O que me diz da confissão? Tem de se confessar. Neste domingo, quando for à missa...
— É uma questão minha com o padre e depois com Deus. Mas o problema deve ser removido primeiro.
— É contra a lei de Deus e a lei do homem.
— E tem sido feito ao longo dos séculos, desde antes do dilúvio. — Um pouco nervosismo se insinuou na voz de Angelique. — Você confessa tudo? Adultério ambém é contra a “lei de Deus”, não é mesmo? E matar é contra todas as leis, não é?
— Quem disse quejá matei alguém?
— Ninguém, todavia é mais do que provável que já o tenha feito ou, pelo menos, causou mortes. Estes são tempos violentos. Preciso de sua ajuda, André.
— Está se arriscando à danação eterna.
— É verdade, angustiei-me por isso, com lagos de lágrimas.
Pensou Angelique, sombria, mas mantendo os olhos inocentes, odiando-o, detestando ter de confia nele.
Acordara cedo naquela manhã, continuara deitada, pensando, avaliando seu plano, de repente chegando à conclusão de que deveria odiar todos os homens Os homens causam todos os nossos problemas, pais, maridos, irmãos, filhos e padres... os padres são os piores de todos os homens, muitos são notórios fornicadores, insidiosos, mentirosos, que usam a Igreja para seus sórdidos propósitos pessoais, embora seja verdade que uns poucos são santos. Os padres e os outros homens que controlam nosso mundo e o arruinam para as mulheres. Odeio a todos... à exceção de Malcolm. Não o odeio, ainda não. Não sei se o amo de verdade. Não sei o que é o amor, mas gosto dele mais do que de qualquer outro homem que já conheci, e o compreendo.
Quanto ao resto, graças a Deus que meus olhos estão finalmente abertos! Ela fitava André com uma expressão confiante e suplicante. É uma desgraça que eu tenha de pôr minha vida em suas mãos, mas graças a Deus posso agora vê-lo como de fato é. Malcolm e Jamie têm razão, tudo o que você quer é dominar a Struan ou causar sua queda. É uma desgraça que eu tenha de confiar em qualquer homem. Se ao menos estivesse em Paris ou mesmo em Hong Kong, contaria com dezenas de mulheres a quem poderia discretamente pedir a ajuda necessária, mas aqui não há nenhuma. Aquelas duas megeras? Impossível! É evidente que me odeiam, são inimigas.
Angelique permitiu que umas poucas lágrimas aparecessem.
— Por favor, ajude-me. Ele suspirou.
— Falarei com Babcott esta ma...
— Enlouqueceu? Não podemos envolvê-lo de jeito nenhum. Nem Hoag. Não é possível, André. Pensei em tudo com o maior cuidado. Nenhum dos dois serve. Temos de encontrar outra pessoa. Uma madame.
André ficou espantado com sua voz calma e lógica implacável e balbuciou:
— Está se referindo a uma mama-san?
— O que é isso?
— Ahn... é a mulher, a mulher japonesa, que dirige os bordéis locais, contrata os serviços das moças, acerta preços, cuida da distribuição pelos clientes. E assim por diante.
Angelique franziu a testa.
— Eu não tinha pensado numa delas. Ouvi dizer que há uma casa no final da estrada.
— Essa não! Fala da casa de Naughty Nellie... na cidade dos bêbados? Tu não iria lá nem por mil luíses.
— Mas a casa não é dirigida pela irmã da Sra. Fortheringill? A famosa Sra. Fortheringill de Hong Kong?
— Como sabe dela?
— Por Deus, André, pensa que sou uma inglesa tola e intolerante? — disse inrritada. — Todas as europeias em Hong Kong sabem da Instituição para moças da Sra. Fortheringill, embora finjam que a ignoram e nunca falem abertamente a respeito; todas também sabem, à exceção talvez das mais estúpidas, que os homens visitam as casas chinesas ou têm amantes orientais. É hipocrisia, nada mais. Até mesmo você ficaria espantado se soubesse sobre o que as mulheres conversam na privacidade de seus boudoirs ou quando não há homens presentes.
Fui informada em Hong Kong que a irmã dela abriu uma casa aqui.
— Não é a mesma coisa, Angelique. Atende a marujos, bêbados, imigrantes que vivem do dinheiro que recebem de casa... a escória. E Naughty Nellie não é irmã, apenas alega ser, talvez até pague alguma coisa pelo uso do nome.
— É mesmo? Então para onde você vai, quando quer se “divertir”?
— Para a Yoshiwara.
André explicou o que era, desconcertado com a conversa e por se mostrar tão franco.
— Costuma frequentar algum lugar especial... uma casa especial? Mantém boas relações com alguma mama-san?
— Claro.
— Ótimo. Procure sua mama-san esta noite e obtenha a poção que elas usam, qualquer que seja.
— O quê?
— Por Deus, André, seja sensato... e sério. É um problema sério e, se não pudermos resolvê-lo, nunca serei a châtelaine da Casa Nobre; com isso você nunca poderá ajudar... a certos interesses.
Angelique percebeu que esse comentário atingira o alvo e sentiu-se ainda mais satisfeita consigo.
— Vá até lá esta noite e peça a poção a ela. Não pergunte à sua garota, ou a qualquer outra, porque elas não devem saber. Pergunte à patronne, à mama-san. Pode dizer que “a garota” está atrasada.
— Não sei se elas têm um medicamento assim. Ela sorriu, afável.
— Não seja tolo, André. Claro que têm. Não podem deixar de ter. — Com a mão direita, Angelique começou a esticar os dedos da luva na mão esquerda. — depois que esse problema estiver solucionado, tudo será maravilhoso e casaremos no Natal. Por falar nisso, decidi que será melhor deixar a casa de Struan até casarrnos... agora que monsieur Struan recupera mais e mais as forças, a cada dia. Voltarei para a nossa legação esta tarde.
— Acha que é uma providência sensata? Melhor ficar perto dele.
— Em circunstâncias normais, seria mesmo. Mas devemos pensar no decoro também, ainda mais importante, tenho certeza de que o medicamento fará com que me sinta mais segura. Descansarei por um ou dois dias. Assim que isso estiver resolvido, decidirei que vou voltar. Sei que posso contar com você, meu amigo. — Angelique levantou-se. — Amanhã, à mesma hora?
Se eu nada conseguir, darei um jeito de avisá-la.
— Não. É melhor nos encontrarmos aqui ao meio-dia. Sei que posso com contar com você.
Ela ofereceu o seu sorriso mais insinuante. André experimentou algum excitamento, não apenas por causa do sorriso, mas também porque agora, independente do que viesse a acontecer, ela ficaria acorrentada a ele para sempre.
— Aqueles caracteres, Angelique, os que estavam escritos no lençol... lembra-se como eram?
— Claro — respondeu ela, surpresa com a mudança de assunto. — Por quê?
— Pode desenhá-los para mim? Talvez eu os reconheça e descubra um significado.
— Foram desenhados na colcha, não no lençol. Com o sangue dele. — Angelique respirou fundo, estendeu a mão, pegou a caneta, mergulhou no tinteiro — Esqueci de lhe contar uma coisa. Quando acordei, constatei que desaparecera a pequena cruz que usava desde criança. Procurei por toda parte, mas não a encontrei.
— Ele roubou?
— Presumo que sim. Mas nada mais. Havia algumas jóias, que não foram tocadas. Não eram muito valiosas, porém valiam mais do que a cruz.
O pensamento de Angelique estendida naquela cama, inerte, a camisola cortada do pescoço à bainha, a mão do estuprador arrancando a corrente, o luar faiscando na cruz, antes ou depois, rapidamente se tornou real e erótico, vibrando em André. Seus olhos percorreram o corpo de Angelique, debruçada sobre a mesa, alheia a seu desejo.
— Aqui está — disse ela, estendendo o papel.
André olhou, os raios do sol se refletindo no anel de sinete de ouro que sempre usava. Os caracteres não se relacionavam com qualquer coisa que ele conhecia.
— Desculpe, mas nada significam para mim, nem mesmo parecem chineses... chineses ou japoneses, a escrita é a mesma.
Ele teve uma idéia súbita, virou o papel e ficou boquiaberto.
— Tokaidô... é esse o significado! — A cor se esvaiu do rosto de Angelique enquanto André acrescentava: — Copiou ao contrário. Tokaidô junta tudo. Ele queria que você soubesse, que toda a colônia soubesse, o que teria acontecido se contasse a alguém o que ocorreu. Mas por quê?
Tremendo toda, ela levou os dedos às têmporas.
— Não sei. Talvez... não sei. Ele deve estar morto a esta altura. Monsieur Struan acertou-lhe um tiro. Ele já deve ter morrido.
André hesitou, apreensivo, avaliando as razões contra e a favor.
— Já que partilhamos tantos segredos, e é evidente que você sabe como guardá-los, creio que outro se torna necessário agora.
Ele falou sobre Hoag e a operação, arrematando:
— Não foi culpa de Hoag, que não tinha como saber. É irônico, os nossos médicos aconselharem a não se contar nada a você, para poupá-la de mais angústias.
— É por causa de Babcott e seu opiato que me encontro nesta situação — murmurou Angelique, a voz assustando-o. — Quer dizer que o homem está vivo?
— Não sabemos. Hoag disse que ele não tinha muita chance. Mas por que aquele demônio queria que seu crime fosse conhecido, Angelique?
— Há outros segredos sobre esse horror que você conheça e eu ainda ignore?
— Não. Por que ele queria que todos soubessem? Bravata?
Angelique contemplou por um longo momento os caracteres que desenhara. Imóvel, a não ser pelos seios, que subiam e desciam com a regularidade da respiração. Depois, sem dizer mais nada, ela saiu. Fechou a porta sem fazer barulho.
André balançou a cabeça, espantado, olhando para o papel.
Tyrer estava no pequeno bangalô ao lado da legação britânica, que partilhava com Babcott, praticando caligrafia com Nakama, o nome pelo qual conhecia Hiraga.
— Por favor, dê-me o japonês para: hoje, amanhã, o dia seguinte, a próxima semana, o próximo ano, os dias da semana e os meses do ano.
— Sim, Taira-san.
Com todo cuidado, Hiraga disse uma palavra japonesa, observou Tyrer escrevê-la, foneticamente, em letras romanas. Depois, Hiraga escreveu os caracteres no espaço ao lado, e tornou a observar, enquanto Tyrer os copiava.
— Você bom aluno. Sempre usa mesma ordem para traços, fácil, assim não esquecer.
— Estou começando a compreender. Obrigado. Você tem sido de grande ajuda.
Tyrer sentia-se satisfeito, gostava de escrever, ler e aprender... e ensinava em troca, notando que Nakama era muito inteligente, absorvia tudo bem depressa. Trabalhou toda a lista com ele e disse, ao final:
— Ótimo. Obrigado. Agora, por favor, procure Raiko-san e confirme meu encontro para amanhã.
— Confirme, por favor?
— Pergunte se meu encontro é certo.
— Ah, entender. — Hiraga coçou o queixo, já escuro da barba da noite para o dia. — Eu ir agora, confirmar.
— Voltarei depois do almoço. Por favor, esteja aqui, para podermos praticar mais conversação. Quero que me fale mais coisas sobre o Japão. Como se diz isso em japonês?
Hiraga pronunciou as palavras. Tyrer anotou-as foneticamente num caderno, agora repleto de palavras e frases, repetiu-as várias vezes, até se sentir satisfeito. Já ia dispensar Nakama quando se lembrou de uma coisa:
— O que é um roninl
Hiraga pensou por um momento, depois explicou da maneira mais simples que podia. Mas não disse nada sobre os shishi
— Quer dizer que você é um ronin, um proscrito?
— Hai.
Pensativo, Tyrer agradeceu e deixou-o ir embora. Reprimiu um bocejo. Dormira mal à noite passada, seu mundo ao avesso com a inesperada rejeita de Raiko.
Que se dane Raiko, que se dane Fujiko, pensou ele, pondo a cartola, a fim de descer a High Street para um almoço leve no clube. Que se dane o aprendizado de japonês, que se dane tudo, minha cabeça dói, e nunca, mas nunca mesmo aprenderei essa língua horrivelmente complicada.
— Não seja ridículo! — disse ele, em voz alta.
Claro que vai aprender, conta com Nakama e André, dois bons mestres, e esta noite terá um excelente jantar, uma garrafa de champanhe, com alguém alegre e depois para a cama. E não censure Fujiko, pois em breve dormirei com ela de novo Oh, Deus, espero que sim!
O dia era agradável e a baía se encontrava apinhada de navios. Os mercadores convergiam para o clube.
— Olá, André. É um prazer vê-lo. Quer almoçar comigo?
— Não, obrigado.
Poncin nem parou.
— Qual é o problema? Você está bem?
— Não há problema nenhum. Vamos deixar para outra ocasião?
— Que tal amanhã?
André não costumava ser tão brusco.
— E eu queria lhe perguntar o que devo...
— Almoçarei com você, Phillip, se me permitir — disse McFay.
— Claro, Jamie. Parece de ressaca, meu caro.
— E estou mesmo. Você também parece. Foi uma festa e tanto.
— É verdade. Como está Malcolm?
— Não muito bem. É uma das coisas que eu queria conversar com você. Encontraram uma mesa vaga, na sala enfumaçada, abafada e apinhada, todos de sobrecasaca, como sempre.
A mesa era de canto. Criados chineses carregavam bandejas com rosbife, empadão de galinha, empadão de peixe, sopas diversas, pastéis da Cornualha, chouriço de Yorkshire, porco salmourado, pratos com caril e tigelas de arroz a moda chinesa, assim como uísque, rum, gim, champanhe, vinhos branco e tintos e canecas de cerveja. Havia mata-moscas ao lado de cada prato. McFay usou um assim que sentou.
— Eu queria lhe pedir que conversasse com Malcolm, não como se fosse uma sugestão minha, dizendo-lhe que seria uma boa idéia voltar a Hong Kong assim que for possível.
— Ora, Jamie, tenho certeza de que ele vai querer voltar logo, sem que diga qualquer coisa. Além do mais, ele não me escutaria; e por que deveria? Qual é o problema?
— A mãe dele. Receio que já não seja mais segredo, mesmo assim, não passe adiante. Ela manda uma carta por todos os navios de correspondência ordenando que eu o despache de volta... e não há nada que eu possa fazer, já que Malcolm não me dá a menor atenção. Quando a notícia da festa e de seu noivado f nnal chegar a Hong Kong... — McFay revirou os olhos. — A merda vai se espalhar daqui a Iedo.
Apesar da seriedade de McFay, Tyrer não pôde deixar de rir.
— Já se espalhou e está fedendo como nunca antes. O jardim da legação se encontra coberto por uma camada de esterco.
— É mesmo? — O escocês franziu o rosto, farejou o ar. — Não havia notado. Como está o caril? — perguntou a alguém ao lado.
— Ótimo, Jamie. — O homem, Lunkchurch, cuspiu um pedaço de osso de galinha no chão coberto por serragem. — Já estou no segundo.
Tyrer fez sinal para um dos garçons que passava, mas o jovem dentuço evitou deliberadamente olhar para ele.
— Ei, Dew neh loh moh, garçom! — berrou McFay, irritado. — Bastante caril, depressa!
Houve risos, gritos e vaias pelas imprecações em chinês, por parte dos mercadores, e olhares contrariados do padre do batalhão Highland, que almoçava com seu equivalente anglicano dos dragões. Um prato de rosbife malpassado foi posto na frente de McFay.
— Pronto, muito, e bem depressa, hem? — disse o jovem criado, radiante. Exasperado, McFay empurrou o prato de volta.
— Isto é rosbife, pelo amor de Deus! Eu quero caril! Vá buscar CARIL!
— Quero empadão de galinha — disse Tyrer.
Resmungando, o criado voltou à cozinha. Assim que passou pela porta, caiu na gargalhada, em meio ao pandemônio que reinava ali.
— Fay da Casa Nobre explodiu como um barril de fogos de artifício quando empurrei o rosbife por baixo do nariz bulboso, fingindo que pensava que era caril. — Ele segurava a barriga no riso. — Ah, quase me caguei todo! Provocar os demônios estrangeiros é mais divertido do que fornicar!
Outros riram com ele, até que o chefe da cozinha esbofeteou-o.
— Escute aqui, seu pequeno fornicador fedorento... e todos vocês também... não provoquem os demônios estrangeiros da Casa Nobre até que Chen da Casa Nobre diga que podem. E agora leve depressa o caril de Fay da Casa Nobre, e não cuspa no prato ou vou servir a ele os seus testículos grelhados.
— Cuspir na comida dos demônios estrangeiros não tem nada demais, honorável chefe da cozinha — murmurou o jovem, a cabeça quase arrancada dos ombros. Ele pegou, também, um prato de pastelão de galinha e saiu correndo, obediente, o prato de caril e uma tigela de arroz foram jogados na frente de McFay. — Caril, amo, como pediu.
O jovem afastou-se apressado, a cabeça dolorida, mas ainda assim contente; não ousara desobedecer ao chefe da cozinha, mas mantivera o polegar imundo no caril durante todo o percurso.
— Um desgraçado grosseiro — disse Jamie. — Dez dólares contra um centavo como o patife cuspiu na comida ao trazê-la.
— Se tem tanta certeza, por que gritou com ele? — indagou Tyrer, enquanto começava a cortar o pastelão do tipo Melton-Mowbray, com sua crosta grossa
— Ele precisa disso, todos precisam, e um bom chute no rabo de vez em quando. — Com prazer, McFay pôs-se a revolver o caril com carneiro e batata amarelada e espesso como sopa de aveia, glóbulos de gordura boiando na superfície. — Outra coisa. Ouvi dizer que contrabandeou um samurai de Iedo que fala um pouco de inglês.
Tyrer quase engasgou com um pedaço de galinha.
— Mas que absurdo!
— Então por que ficou quase roxo? Lembre-se de que está falando comigo McFay, da Casa Nobre. Como espera manter esse segredo por aqui, Phillip? Vocês foram ouvidos. — O suor pontilhava sua testa, do calor do caril, a mão se erguia de vez em quando para afugentar as moscas. — Isto está quente o suficiente para fritar os colhões... e muito gostoso. Quer experimentar um pouco?
— Não, obrigado.
Feliz, McFay continuou a comer. Depois, entre bocados, a voz se tornou dura, embora o tom ainda fosse confidencial:
— A menos que me fale francamente sobre ele, meu caro, e será uma conversa sigilosa... tem a minha palavra... partilhe tudo, transmita todas as informações, darei a notícia aqui e agora... para ele.
A colher apontava para Nettlesmith, o editor do Yokohama Guardian, que já os observava, interessado. Um respingo de caril caiu na toalha.
— Se Wee Willie ler sobre o seu segredo no jornal, vai ter uma explosão como você nunca viu.
Toda a fome de Tyrer desaparecera. Nauseado, ele murmurou:
— Hum... é verdade, ajudamos um dissidente a escapar de Iedo. Isso é tudo o que posso dizer. No momento, ele se encontra sob a proteção de sua majestade britânica. Lamento, mas não posso dizer mais nada, pela lei dos segredos oficiais.
McFay fitou-o com uma expressão astuta.
— Proteção de sua majestade britânica, hem?
— Isso mesmo. Em boca fechada não entra mosca. Não posso falar mais nada. Segredos de Estado.
— Interessante... — McFay terminou o prato e pediu uma segunda porção — Mas, em troca, não direi a ninguém.
— Desculpe, mas jurei que guardaria segredo. — Tyrer também suava, uma constante na Ásia, exceto durante os meses de inverno e primavera, e também porque seu segredo era conhecido. Mesmo assim, sentia-se satisfeito com a maneira como lidava com Jamie, sem dúvida o mais importante dos mercadores de Iocoama. — Tenho certeza que compreende.
McFay balançou a cabeça, cortês, concentrado no caril.
— Compreendo muito bem, meu caro. Assim que eu acabar aqui, Nettlesmith terá a notícia exclusiva.
— Não se atreveria! — Tyrer estava chocado. — Os segredos de...
— Estou pouco ligando para os segredos de Estado. Primeiro, não acredito em você, segundo, mesmo que assim fosse, temos o direito de saber, porque nós somos o Estado, e não um bando de diplomatas imprestáveis, que nem sabem perceber a direção de um peido!
— Ei, escute aqui...
— Estou escutando. Partilhe tudo, Phillip, ou leia a notícia na edição da tarde.
O sorriso radiante de McFay era seráfico, enquanto absorvia o resto do molho com um pão e o consumia. Ele arrotou, empurrou a cadeira para trás e fez menção de se levantar.
— Se é assim que você quer...
— Espere!
— Tudo? Concorda em me contar tudo?
Atordoado, Tyrer acenou com a cabeça.
— Se jurar que vai manter em segredo.
— Ótimo. Mas não aqui. Meu escritório é mais seguro. Vamos embora. Ao passar por Nettlesmith, ele perguntou:
— Quais são as novidades, Gabriel?
— Leia a edição da tarde, Jamie. Guerra em breve na Europa, terrível na América, guerra fermentando aqui.
— As mesmas coisas de sempre. Bom, até...
— Boa tarde, Sr. Tyrer.— Os olhos astutos de Nettlesmith desviaram-se para ele, enquanto coçava a cabeça, pensativo, para depois voltar sua atenção para McFay. — Recebi uma cópia adiantada do último capítulo de Grandes Esperanças.
Jamie parou no mesmo instante. Phillip também.
— Oh, Deus, não acredito!
— Dez dólares e a promessa de uma exclusiva.
— Que exclusiva?
— Quando tiver alguma. Confiarei em você.
Outra vez os olhos astutos se deslocaram para Tyrer, que tentou permanecer impassível.
— Esta tarde, Gabriel? Sem falta?
— Combinado. Por uma hora, para que não possa copiar... é exclusividade minha. Custou-me quase todos os favores que tenho a receber na Fleet Street para para roubar.
— Dois dólares?
— Oito, mas sua hora depois de Norbert.
— Minha última oferta, oito... e leio primeiro?
— Mais a exclusiva? Negócio fechado. É um cavalheiro e um sábio, Jamie. Estará em seu escritório às três horas.
Através de sua janela aberta, Tyrer ouviu o sino de navio no escritório do mestre do porto badalar oito vezes. Tinha os pés em cima da mesa e tirava um cochilo, os exercícios de caligrafia da tarde esquecidos. Não havia necessidade de olhar para o relógio na cornija da lareira. O cérebro lhe disse que eram quatro horas da tarde. Agora, a bordo dos navios, começaria o quarto de vigia, um período de duas horas com o primeiro de quatro às seis horas da tarde, o segundo de seis às oito da noite, depois viriam os turnos normais de quatro horas, até as quatro da tarde segundo Marlowe explicara que os quartos de vigia haviam sido instituídos para permitir uma rotação dos tripulantes.
Tyrer bocejou e abriu os olhos, pensando. Não muito mais que meio ano atrás eu nunca ouvira falar de quartos de vigia, jamais estivera num navio de guerra e agora posso saber as horas pelos sinos de navio com a mesma facilidade que teria se olhasse para um relógio.
O relógio na cornija da lareira bateu quatro horas. Absolutamente pontual Dentro de meia hora, vou me encontrar com Sir William. Os suíços, sem dúvida podem fazer cronômetros melhores do que os nossos. Onde Nakama se meteu? Será que ele fugiu? Já deveria ter voltado há horas. O que Sir William quer? Espero que não tenha ouvido falar de meu segredo. Torço para que deseje apenas que mais despachos sejam copiados. É terrível que minha caligrafia seja a melhor da legação; afinal, sou um tradutor, não um mero amanuense! Droga, droga, droga!
Ele se levantou, cansado, arrumou suas coisas, começou a lavar as mãos na bacia, tirando a tinta dos dedos. Uma batida na porta.
— Entre.
Por trás de Hiraga, havia um sargento e um soldado britânicos, ambos com baionetas coladas, ambos furiosos. Hiraga estava todo machucado, desgrenhado, pálido de raiva, quase nu, sem chapéu, sem turbante, o quimono de aldeão em farrapos. O sargento empurrou-o para a frente, com a baioneta apontada.
— Nós o pegamos pulando a cerca, senhor. Tivemos a maior dificuldade para dominá-lo. Ele tem um passe, assinado pelo senhor. É autêntico?
— É, sim. — Consternado, Tyrer adiantou-se. — Ele é um hóspede aqui, sargento, um hóspede de Sir William e meu. É professor de japonês.
— Professor, hem? — murmurou o sargento, sombrio. — Pois diga ao patife que professores não pulam cercas, não tentam fugir, não usam os cabelos cortados como samurais, não assustam as pessoas, nem lutam como um saco cheio de gaws selvagens... tenho um homem com o braço quebrado e outro com o nariz arrebentado. Na próxima vez em que o surpreendermos, não seremos tão cuidadosos.
Os dois soldados se retiraram. Tyrer fechou a porta, foi até o aparador, pegou um copo com água.
— Tome aqui.
Hiraga recusou-o, sufocado de raiva.
— Por favor. Prefere saquê ou cerveja?
— Iyé.
— Por favor... mas sente e me conte o que aconteceu.
Hiraga começou a dar uma explicação em japonês.
— Gomen nasai, Ingerish dozo. Desculpe, inglês, por favor.
Com algum esforço, Hiraga passou a falar em inglês e disse, com longas e iradas pausas entre as palavras:
— Muitos guardas, portão e ponte. Passar pântano, pela água, pular cerca. Idados me ver. Eu parar, inclinar, estender mão pegar passe, eles me jogar no chão. Lutar, mas ser muitos.
Ele seguiu com outro fluxo de palavras venenosas, em japonês, promessas de vingança. Esgotado o paroxismo, Tyrer disse:
— Desculpe, mas a culpa é sua...
Tyrer recuou, numa reação involuntária, quando Hiraga virou-se para ele.
— Pare com isso! — exclamou Tyrer, irritado. — O soldado tinha razão. Os samurais assustam as pessoas. Sir William lhe disse para tomar cuidado e eu também.
— Eu estava sendo polido, apenas fazendo o que era correto! — exclamou Hiraga, em japonês, furioso. — Aqueles macacos grosseiros me atacaram quando eu ia mostrar o passe, tinha dificuldade para encontrar. Macacos, vou matar todos eles!
O coração de Tyrer batia forte, podia sentir o gosto enjoativo do medo em sua boca.
— Escute, precisamos resolver esse problema o mais depressa possível. Quando Sir William souber do incidente, pode expulsá-lo da colônia. Nós dois temos que solucionar isso, entende?
— Iyé! O que ser solucionar, por favor?
Tyrer ficou agradecido por ouvir o “por favor” e conteve seu pavor. Era evidente que aquele sujeito era tão violento, perigoso e impetuoso quanto qualquer outro samurai do Japão. Graças a Deus que ele não está armado.
— “Solucionar” significa resolver, chegar a um acordo. Temos de solucionar este problema, você e eu, como você pode viver aqui em segurança. Entendeu?
— Hai. So desu ka! Wakarimasu. Taira-san e eu solucionar problema. — Hiraga controlou sua fúria. — Por favor, o que sugerir? Passe não bom para soldados. Homens que me ver, me odiar. Como solucionar problema?
— Primeiro... primeiro há um excelente e antigo costume inglês. Sempre que temos de solucionar um problema sério, tomamos chá.
Hiraga manteve-se impassível. Tyrer tocou uma sineta e pediu chá a Chen, o garoto número um, que fitou Hiraga desconfiado, com um enorme cutelo escondido nas costas.
Enquanto esperavam, Tyrer recostou-se na cadeira, ficou olhando pela janela, com uma expressão solene, desesperadamente querendo que o outro homem lhe falasse sobre Fujiko, mas também bem-educado demais para um interrogatório sobre assunto tão importante- Mas que desgraçado, pensou ele, devia me dar a informação sem que eu peça, sabendo que me sinto ansioso, em vez de me deixar esperando. Preciso lhe ensinar os costumes ingleses, a não perder o controle e os soldados tinham toda razão. Preciso convertê-lo num cavalheiro inglês. Mas como? E devo me preocupar também com o miserável do Jamie que é esperto demais.
Depois do almoço, haviam ido ao escritório de McFay, que o exortara a tomar um conhaque. Em poucos minutos, Tyrer descobrira que já lhe contara tudo.
— Puxa, Phillip, você é brilhante! — dissera-lhe McFay, com um entusiasmo sincero. — Esse homem será uma verdadeira mina de ouro, se lhe fizerem perguntas certas. Ele disse de onde era?
— De Choshu. Acho que foi isso que ele disse.
— Eu gostaria de conversar com ele... em particular.
— Se ele falar com você, outros acabarão descobrindo, e a notícia... a notícia vai se espalhar por toda parte.
— Se eu sei, Norbert sabe, e aposto que o Bakufu também sabe... não são tolos. Lamento, mas não há segredos aqui. Quantas vezes devo lembrá-lo?
— Está bem, falarei com Nakama. Mas só se eu estiver presente quando conversarem.
— Ora, Phillip, isso não é necessário e você tem muito o que fazer. Não me agradaria desperdiçar seu tempo.
— Sim ou não?
McFay suspirara.
— Você é um homem difícil, Phillip. Está bem.
— E também se eu puder ler o último capítulo, de graça... amanhã, por exemplo. Acerte tudo com Nettlesmith.
McFay protestara:
— Se eu tenho de pagar a quantia espantosa de oito dólares, você também tem de contribuir!
— Neste caso, nada de entrevista e comunicarei tudo a Sir William.
Ele sorriu para si mesmo, recordando a expressão azeda de McFay, quando seus pensamentos foram interrompidos por Chen:
— Chá, amo, muito, depressa, depressa.
Tyrer voltou a se concentrar em Nakama. Chen pôs a bandeja na mesa, não mais carregando o cutelo, embora o deixasse ao seu alcance fácil, no outro lado da porta. Tyrer serviu o chá para os dois, acrescentou leite e açúcar e tomou um gole da mistura escura e escaldante, com intensa satisfação.
— Assim é melhor. — Hiraga imitou-o. Teve de recorrer a toda a sua força de vontade para não cuspir a beberagem quente, e engolir o líquido de gosto mais horrível que já experimentara na vida.
— Bom, não é? — disse Tyrer, com um sorriso radiante, enquanto terminava sua xícara. — Quer mais?
— Não, obrigado. Costume inglês, sim?
— Inglês e americano, sim, não francês. Os franceses... — Tyrer deu de ombros- — Eles não têm o menor gosto.
— Ah, so ka? — Hiraga percebera o ligeiro desdém. — Francês não igual a inglês?
Ele fez a pergunta com fingida inocência, sua fúria contida para mais tarde.
— Claro que não, nem um pouco. Eles vivem no continente, nós temos uma Iha-nação, como vocês. Costumes diferentes, comidas diferentes, governo diferente, tudo diferente, e ainda por cima a França é uma pequena potência, em comparação à Inglaterra.
Tyrer pôs mais açúcar, mexeu, satisfeito consigo mesmo porque a raiva de Nakama parecia ter se dissipado.
— Somos muito diferentes.
— Ser mesmo? Inglês e francês fazer guerra?
Tyrer riu.
— Dezenas de vezes, ao longo dos séculos, mas também aliados em outras guerras... fomos aliados no último conflito.
Ele falou brevemente sobre a Criméia, depois sobre Napoleão Bonaparte, a Revolução Francesa e o atual imperador, Luís Napoleão.
— Ele é sobrinho de Bonaparte, um absoluto bufão. Bonaparte não era um bufão, mas sim um dos homens mais diabólicos que já nasceram, responsável por centenas de milhares de mortes. Se não fosse por Wellington, Nelson e nossos soldados, ele teria dominado o mundo. Está compreendendo tudo isso?
Hiraga acenou com a cabeça.
— Não todas palavras, mas compreender. — Ele absorvera a essência e sentia-se espantado, não podia entender por que um grande general deveria ser considerado diabólico. — Por favor, continuar, Taira-san.
Tyrer continuou a falar por algum tempo, mas logo encerrou a aula de história e declarou:
— Agora, vamos ao seu problema. Quando deixou a Yoshiwara, os guardas de lá não criaram problemas?
— Não. Fingir levar legumes.
— Boa idéia. Ah, por falar nisso, falou com Raiko-san?
— Sim. Fujiko não possível amanhã.
— Ahn... Não importa.
Tyrer deu de ombros, morrendo por dentro. Mas Hiraga notou o profundo depontamento e saboreou-o. Sonno-joi, pensou ele, sombrio. Tivera de comprar pessoalmente os serviços de Fujiko, mas não se importava. Raiko dissera: “Já que você paga bem, embora não os preços dos gai-jin, eu concordo e ele deve deitar com ela no dia seguinte. Não quero que encontre outra...”
Tyrer estava dizendo:
— Nakama-san, a única maneira de você poder ficar seguro aqui é não sair. Não vou mais enviá-lo à Yoshiwara. Deve permanecer aqui, dentro da legação.
— Melhor, Taira-san, eu ficar aldeia, encontrar casa segura. Dentro cerca mais seguro. Cada dia vir amanhecer ou quando quiser, ensinar e aprender Taira-san ser muito bom sensei. Isso solucionar problema, sim?
Tyrer hesitou, não querendo afrouxar o controle, mas também não desejando mais tê-lo tão perto.
— Está bem, mas se primeiro você me mostrar o local exato e não se mudar sem me avisar.
Uma pausa, Hiraga acenou com a cabeça em concordância e disse:
— Eu concordar. Por favor, dizer soldados bom eu ficar aqui e aldeia?
— Claro, farei isso. Tenho certeza que Sir William vai concordar.
— Obrigado, Taira-san. Dizer soldados também se atacar de novo eu virar katana.
— Não fará nada disso! Eu proíbo, Sir William já proibiu! Nada de armas nada de espadas!
— Por favor, dizer soldado não atacar, por favor.
— Está bem, farei isso, mas se usar espadas aqui será morto, eles atirarão em você!
Hiraga deu de ombros.
— Por favor, não atacar. Wakatta?
Tyrer não respondeu. Wakatta era a forma mais imperiosa de wakarimasu ka: Você compreende?
— Domo.
Com uma violência contida, que Tyrer quase pôde farejar, Nakama tornou a agradecer e disse que voltaria ao amanhecer para levá-lo à casa segura, depois estaria pronto para responder a quaisquer perguntas que ele quisesse fazer. Fez uma reverência rígida, que Tyrer retribuiu da mesma forma. E virou as costas para sair. Foi só então que Tyrer percebeu a extensão das equimoses por todas as suas costas e pernas.
O vento tornou-se instável naquela noite, o mar ficou encapelado.
A esquadra se encontrava ancorada na baía, pronta para dormir, o primeiro turno da noite, que começava às oito horas, já se encontrava a postos. Mais de cinqüenta homens ocupavam várias celas, por diversas violações, e seis, com graus variados de medo, preparavam diligentes as chibatas de nove tiras para as cinqüenta chibatadas que deveriam receber ao amanhecer, por conduta prejudicial à boa ordem e disciplina militar: um por ameaçar torcer o pescoço de um contramestre sodomita, três por briga, um por roubar uma ração de rum, outro por insultar um oficial.
Nove sepultamentos no mar haviam sido marcados para o amanhecer.
As enfermarias de todos os navios se achavam superlotadas com Biaru-’ sofrendo de disenteria, diarreia, crupe, coqueluche, escarlatina, sarampo, doenças venéreas, fraturas diversas, hérnias, e assim por diante, tudo rotina, à exceção de quatorze perigosos, com varíola, a bordo da nave capitânia. Sangrias e Punções violentas eram as curas recomendadas para a maioria das doenças — Médicos sendo também barbeiros —, exceto pelos poucos pacientes afortunados que recebiam a tintura do Dr. Collis, que ele inventara durante a guerra da Criméia, que reduzia as mortes por disenteria em três quartos: seis gotas do líquido escuro, misturado em ópio, e os intestinos começavam a se acalmar.
Por toda a colônia, as pessoas se preparavam para o jantar e a parte do dia guardada com mais ansiedade: a conversa depois, sobre os rumores ou notícias do dia — graças a Deus que o navio de correspondência deve chegar amanhã — desfrutando a camaradagem, rindo dos escândalos mais suculentos, falando do baile, a tensão dos negócios, se haveria mesmo guerra ou o último livro que alguém lera, uma nova história engraçada ou um poema que alguém criara, aventuras em tempestades, nas terras geladas ou em desertos, viagens por estranhos lugares do império — Nova Zelândia, África e Austrália eram quase inexploradas, a não ser pelas áreas costeiras — ou o oeste selvagem da América e Canadá, histórias da corrida do ouro na Califórnia em 1.848, de visitas à América espanhola, francesa ou russa —, Dmitri numa ocasião navegara pela costa oeste americana, em grande parte desconhecida, de San Francisco para o norte, até o Alasca, que pertencia aos russos — cada homem relatando as coisas estranhas que vira, as mulheres que possuíra, ou as guerras que testemunhara. Bons vinhos, outras bebidas, cachimbos e tabaco da Virgínia, os últimos drinques no clube, depois as orações e a cama.
Uma noite normal no império.
Alguns anfitriões especializavam-se em corais ou na leitura de poemas e trechos de algum romance cobiçado. Nesta noite, na festa muito exclusiva de Norbert Greyforth, com todos os convidados jurando segredo, houve uma leitura especial do último capítulo de Grandes Esperanças, pela cópia proibida que ele conseguira fazer em sua hora permitida, usando todos os cinqüenta amanuenses da firma.
— Se isso vazar, todos vocês serão demitidos — ameaçara ele.
No clube, ainda se falava sobre o baile da noite anterior, e se aventava a possibilidade de promover outro.
— Por que não uma festa semanal? Peitos-de-Anjo pode girar a saia e me mostrar o calção por baixo todos os dias da semana, junto com Naughty Nellie Portheringill...
— Pare de chamá-la de Peitos-de-Anjo, pelo amor de Deus!
— Ora, ela tem peitos de anjo e por isso é Peitos-de-Anjo!
Aos gritos e apupos, a briga começou, fizeram-se apostas, e os dois oponentes, Lunkchurch e Grimm, outro mercador, se atracaram e tentaram deixar um ao outro desacordado.
Quase em frente, no lado do mar, ficava o prédio de alvenaria da legação Britânica, com um mastro no pátio, jardins, todo cercado, como a maioria das construções importantes, por uma cerca defensável. Sir William já se encontrava vestido para o jantar, assim como seu convidado principal, o almirante, e ambos estavam furiosos.
— Os desgraçados! — bradou o almirante, o rosto vermelho ainda vermelho do que o habitual, indo até o aparador para se servir de outra grande dose de uísque. — Estão além da compreensão!
— Totalmente.
Sir William largou o pergaminho e lançou um olhar furioso para Johan Tyrer, parados à sua frente. O pergaminho fora trazido uma hora antes por nosso mensageiro, enviado pelo governador japonês, em nome do Bakufu.
— Muito urgente, sinto muito.
Em vez de escrito em holandês, como era habitual, estava em caracteres com a concordância de Seratard, Johann convocara um dos missionários jesuíta franceses visitantes e produzira uma tradução aproximada, que Tyrer converteria para o inglês. A mensagem era do Conselho de Anciãos, assinada por Anjo:
Comunico por despacho. Por ordem do xógum, recebida de Quioto, a data provisória da reunião, dentro de dezenove dias, com os roju, e a reunião no mesmo dia com o xógum, serão adiadas por três meses, já que sua majestade não voltará até então. Assim, envio este aviso primeiro, antes de realizar uma conferência para acertar os detalhes. A segunda parcela do presente fica adiada por trinta dias. Respeitosa e humilde comunicação.
— Johann — disse Sir William, a voz gelada—, não acha que é um tratamento grosseiro, infame e absolutamente vil?
Cauteloso, o suíço respondeu:
— Nem tanto assim, senhor.
— Pelo amor de Deus, passei dias negociando, ameaçando, perdendo o sono, renegociando, até eles jurarem pela cabeça do xógum que se reuniriam em Iedo, no dia 5 de novembro, o encontro com o xógum no dia seguinte, e agora isto!
Sir William tomou um gole do seu drinque, engasgou e praguejou por quase cinco minutos, em inglês, francês e russo, os outros fitando-o com admiração, pelas vulgaridades esplendidamente descritivas.
— Tem toda razão — declarou o almirante. — Tyrer, Sirva outro gim para Sir William.
Tyrer obedeceu no mesmo instante. Sir William pegou seu lenço, assoou o nariz, aspirou um pouco de rapé, espirrou, tornou a assoar o nariz.
— A sífilis para todos eles!
— O que propõe, Sir William? — indagou o almirante, evitando que transparecesse em seu rosto a satisfação por mais essa humilhação de seu adversário.
— É claro que responderei imediatamente. Por favor, mande a esquadra para Iedo amanhã, a fim de bombardear as instalações portuárias que eu indicar.
Os olhos azuis do almirante se contraíram.
— Creio que devemos discutir esse assunto em particular. Cavalheiros. Tyrer e Johann encaminharam-se para a porta.
— Não! — protestou Sir William, muito tenso. — Johann, você pode sair. Espere lá fora, por favor. Tyrer é meu assistente pessoal e vai ficar. O pescoço do almirante ficou vermelho, mas ele não disse nada, até Johann fechar a porta.
— Conhece muito bem a minha posição sobre o bombardeio. Até chegar uma ordem expressa da Inglaterra, não determinarei nenhum bombardeio, a menos que seja atacado.
— Sua posição torna impossíveis as negociações. O poder vem do cano de nossos canhões e de mais nada!
— Concordo. Só discordamos sobre o momento oportuno.
— A decisão sobre o melhor momento cabe a mim. Portanto, faça a gentileza de ordenar apenas um pequeno canhoneio, vinte balas, nos alvos que eu indicar.
— Já disse que não! Será que não fui bastante claro? Quando a ordem chegar, incendiarei todo o Japão, se necessário, mas não antes.
Foi a vez de Sir William ficar vermelho.
— Sua relutância em apoiar a política de sua majestade da melhor maneira possível é inacreditável.
— Parece-me que o verdadeiro problema é o engrandecimento pessoal. Que importância podem ter uns poucos meses? Nenhuma... exceto pela prudência.
— A prudência que se dane! — berrou Sir William, furioso. — Claro que receberemos instruções para agir como eu, repito, como eu determinar! É imprudente protelar. Pela correspondência de amanhã, enviarei um pedido para que seja substituído por um oficial mais afinado com os interesses de sua majestade... e treinado em batalha!
O almirante ficou roxo. Só umas poucas pessoas sabiam que nunca participara, em toda a sua carreira, de qualquer combate, em terra ou no mar. Assim que recuperou o controle, ele disse:
— É um privilégio que lhe cabe, senhor. Enquanto isso, até meu substituto chegar, ou o seu, eu comando as forças de sua majestade no Japão. Boa noite, senhor.
Ele saiu, batendo a porta.
— Um patife grosseiro — murmurou Sir William, depois constatando, surpreso, a presença de Tyrer, paralisado pelas circunstâncias. — É melhor ficar de boca fechada, Tyrer. Eles lhe ensinaram isso?
— Sim, senhor.
— Ainda bem. — Sir William tratou de desviar sua mente do nó górdio do Bakufu, roju e a intransigência do almirante, relegando tais problemas para mais tarde. — Sirva-se de um xerez, Tyrer, pois parece que está precisando. Jante conosco, já que o almirante recusou o convite. Joga gamão?
— Sim, senhor.
— Antes que eu me esqueça, que história é essa de uma escaramuça entre um samurai de estimação e o exército britânico?
Tyrer relatou os detalhes e sua solução, mas não falou sobre a ameaça do sensei de pegar suas espadas, sentindo-se mais culpado do que nunca por esconder fatos do ministro.
— Eu gostaria de mantê-lo aqui, senhor... com sua aprovação, é claro. É um mestre excelente e creio que nos será muito útil.
— Duvido muito e é ainda mais importante que não haja novos problemas aqui. Não há como prever o que esse homem fará. Pode se tornar uma víbora no nosso ninho. Terá de ir embora amanhã.
— Mas ele já me forneceu algumas informações muito valiosas, senhor! —protestou Tyrer, reprimindo sua súbita aflição. — Por exemplo, contou-me que o xógum é apenas um menino, mal completou dezesseis anos, e não passa de um títere do Bakufu, o verdadeiro poder pertence ao imperador... ele usou o títere do micado várias vezes... que vive em Quioto.
— Deus Todo-Poderoso! — explodiu Sir William. — Isso é mesmo verdade? Tyrer já ia revelar que Hiraga falava inglês, mas conteve-se a tempo.
— Ainda não tenho certeza, senhor. Não tive tempo de interrogá-lo direito pois é um homem difícil, mas creio que é verdade.
Sir William sentia-se ansioso com as implicações da informação.
— O que mais ele disse?
— Apenas comecei, e essas coisas demoram, senhor, como deve compreender. — O excitamento de Tyrer era cada vez maior. — Mas já me falou sobre os ronin. A palavra significa “onda”, senhor. São chamados de ronin porque são livres como as ondas. São todos samurais, mas proscritos por diversas razões. A maioria é adversária do Bakufu, como Nakama. Acham que usurparam o poder do midaco... oh, desculpe, micado, como falei.
— Espere um pouco, Tyrer. Fale mais devagar. Temos bastante tempo. O que é exatamente um ronin?
Tyrer contou.
— Por Deus! — Sir William pensou por um momento. — Portanto, os ronin são samurais que foram proscritos porque seu rei caiu em desgraça, ou proscritos por seus reis, porque cometeram crimes reais ou imaginários, ou proscritos voluntários, que estão se agrupando para derrubar o governo central do xógum títere?
— Sim, senhor. Ele diz que o governo é ilegal.
Sir William tomou o último gole de seu gim, acenando com a cabeça para si mesmo, atônito e exultante, enquanto repassava tudo em sua mente.
— Então Nakama é um ronin, o que você chama de um dissidente e chamaria de um revolucionário?
— Sim, senhor. Com licença, senhor, mas posso sentar? — perguntou Tyrer com a voz trêmula, ansioso em contar a verdade sobre o homem, mas com medo fazê-lo.
— Claro, claro, Tyrer, desculpe. Mas, primeiro, sirva-se de outro xerez e traga uma dose de gim.
Sir William observou-o, satisfeito com ele, mas também um pouco com pena. Com anos de lida com diplomatas, espiões, meias verdades, mentiras e clamorosas desinformações faziam soar os sinais de alarme de que alguma coisa lhe era ocultada. Ele aceitou o drinque.
— Obrigado. Sente naquela cadeira, é a mais confortável. A nós. Você deve estar falando um excelente japonês para obter tudo isso em tão pouco tempo.
— Não, senhor, ainda não, mas passo bastante tempo estudando. Com Nakama, uso a paciência, gestos, umas poucas palavras de inglês, palavras e frases japonesas que André Poncin me ensinou. Ele tem me ajudado muito, senhor.
— André sabe o que esse homem lhe contou?
— Não, senhor.
— Não lhe diga nada. Absolutamente nada. Mais alguém sabe?
— Não, senhor, exceto Jamie McFay. — Tyrer tomou um gole do xerez. — Ele já sabia alguma coisa, e... hum... foi muito persuasivo, arrancou-me a informação sobre o xógum.
Sir William suspirou.
— É verdade, Jamie pode ser muito persuasivo, para dizer o mínimo, e sempre sabe muito mais do que diz.
Ele recostou-se na confortável cadeira giratória de couro antigo, tomou outro gole do drinque, a mente avaliando todos aqueles novos conhecimentos, de valor inestimável, já reformulando sua resposta para a rude missiva daquela noite, especulando até que ponto ousaria jogar, o quanto podia confiar na informação de Tyrer. Como sempre, nessas circunstâncias, ele recordou, contrafeito, os comentários de despedida do subsecretário permanente sobre o fracasso.
— A respeito de Nakama, concordarei com seu plano, Phillip... posso chamá-lo de Phillip?
Tyrer corou de satisfação pelo súbito e inesperado cumprimento.
— Claro, senhor. Obrigado.
— Eu é que agradeço. No momento, concordarei com seu plano, mas, pelo amor de Deus, tome cuidado com ele, não esqueça que os ronin têm cometido todos os tipos de assassinatos, à exceção do pobre Canterbury.
— Tomarei cuidado, Sir William. Não se preocupe.
— Arranque tudo o que puder dele, mas não conte a mais ninguém, e me transmita imediatamente. Pelo amor de Deus, tome cuidado, sempre tenha um revólver na mão, e se ele apresentar a menor indicação de violência, trate de atirar ou ponha-o a ferros.
Ao lado da legação britânica ficava a americana, depois a holandesa, russa, alemã e por último, a francesa. Ali, naquela noite, em sua suíte, Angelique vestia-se para Jantar, ajudada por Ah Sok. Dentro de uma hora deveria começar o jantar dedicado a ela e a Malcolm por Seratard, para comemorar o noivado. Mais tarde teria música.
— Mas não toque por tempo demais, André — pedira ela, pouco antes. — Alegue que está cansado. Deixe bastante tempo para sua missão. Os homens são mesmo afortunados.
Ela sentia-se contente e triste por ter se mudado. É mais sensato, ela refletiu agora. Poderei voltar em três dias. Uma nova vida, uma nova...
— O que errado, senhora?
— Nada, Ah Sok.
Angelique fez um esforço para afastar a mente do que teria de suportar breve, sepultou o medo ainda mais fundo.
Um pouco além, na melhor localização à beira do cais, o prédio Struan aind se encontrava todo iluminado, assim como a Brock & Sons, ao lado, com muitos escriturários e cambistas continuando a trabalhar nas duas companhias. Malcolm Struan transferira-se naquele dia para a suíte do tai-pan, muito maior e mais confortável do que a suíte que ocupava antes, e agora se empenhava em vestir o traje para o jantar.
— Qual é o seu conselho, Jamie? Não sei o que fazer com a mãe e suas cartas mas isso é um problema meu, não seu... ela também o está pressionando, não é?
Jamie McFay deu de ombros.
— É muito difícil para ela. Do seu ponto de vista, até que tem razão, ela quer apenas o melhor para você. Creio que se preocupa demais com a sua saúde, por você estar tão longe e ela não poder vir para cá. E nada dos Struans pode ser resolvido de Iocoama, é tudo em Hong Kong. O China Cloud chegará dentro de poucos dias, procedente de Xangai, e seguirá direto para Hong Kong. Vai voltar com ela?
— Não, e por favor não torne a levantar o assunto — respondeu Struan, o tom um tanto ríspido. — Avisarei quando nós, Angelique e eu, decidirmos partir. Só espero que a mãe não esteja no China Cloud... seria a última gota.
Struan inclinou-se para calçar as botas, não conseguiu, a dor foi intensa demais.
— Desculpe, mas pode me ajudar? Obrigado.
Depois, ele explodiu:
— Ser como um aleijado fodido está me levando à loucura!
— Posso imaginar.
McFay disfarçou sua surpresa. Era a primeira vez que ouvia Malcolm Struan dizer um palavrão. Tratou de acrescentar, gentilmente, gostando dele, admirando sua coragem:
— Eu também ficaria assim... não, não igual, muito pior.
— Ficarei bem depois que casarmos, toda a espera encerrada, tudo em ordem.
Com alguma dificuldade, Struan usou o urinol, o que era sempre doloroso, viu algumas partículas de sangue no fluxo. Falara a respeito com Hoag no dia anterior, quando recomeçara, e o médico lhe dissera para não se preocupar.
— Então por que você está preocupado?
— Não estou preocupado, Malcolm, mas apenas interessado. Com os ferimentos internos que você sofreu, qualquer indicação durante o processo de cura deve ser registrada...
Struan terminou, claudicou até a cadeira ao lado da janela, arriou nela, agradecido.
— Preciso de um favor, Jamie.
— Claro. Qualquer coisa. O que posso fazer?
— Pode... ahn... preciso ter uma mulher. Pode trazer alguém da Yoshiwara?
Jamie ficou surpreso.
— Ahn... acho que sim. — Uma pausa. — Seria sensato?
Uma rajada de vento sacudiu as janelas, os galhos das árvores e os arbustos no jardim, derrubou algumas telhas soltas ao chão, fez com que os ratos saíssem correndo das pilhas de lixo jogadas na High Street e do canal cheio e fétido ao redor, que também servia como esgoto.
— Não — respondeu Malcolm.
A menos de um quilômetro do prédio Struan, perto da cidade dos bêbados, numa habitação indistinta da aldeia japonesa, Hiraga estava deitado de barriga para baixo, sendo massageado. A casa era ordinária, a fachada dando para a rua decrépita igual às outras nos dois lados do estreito caminho de terra, cada uma servindo também como depósito e loja durante o dia. Lá dentro, como muitas outras que pertenciam aos mercadores mais prósperos, tudo exibia uma limpeza impecável, era polido, apreciado e confortável. Era a casa do shoya, o ancião da aldeia.
A massagista era cega. Tinha vinte e poucos anos, o corpo firme, o rosto gentil, um sorriso meigo. Pelos costumes antigos, na maior parte da Ásia, os cegos tinham o monopólio da arte da massagem, embora fosse praticada também por algumas pessoas de visão normal. Também pelo costume antigo, os cegos sempre tinham toda segurança, nunca eram atacados.
— É muito forte, samurai-sama — disse a jovem, rompendo o silêncio. — Os homens com quem lutou devem estar mortos ou sofrendo.
Por um momento, Hiraga não respondeu, apreciando os dedos hábeis e firmes, que procuravam seus músculos contraídos e os relaxavam.
— Talvez.
— Por favor, posso fazer uma sugestão? Tenho um óleo especial da China que ajudará a curar seus cortes e equimoses num instante.
Ele sorriu. Era um estratagema usado com freqüência, para ganhar um dinheiro extra.
— Está bem. Pode usar.
— Ah, mas você sorri, honrado samurai! Não é um truque para ganhar mais dinheiro — disse ela no mesmo instante, os dedos nas costas de Hiraga. — Minha avó, que também era cega, transmitiu-me o segredo.
— Como soube que eu sorri?
A jovem riu, o que lembrou a Hiraga o som de uma cotovia flutuando nas correntes de ar do amanhecer.
— Um sorriso começa em muitas partes do corpo. Meus dedos o escutam em seus músculos, e às vezes até os pensamentos.
— E em que estou pensando agora?
— Em Sonno-joi. Ah, eu acertei! — Outra vez a risada que o desconcertava — Mas não tenha qualquer receio, não disse nada, os fregueses aqui nunca dizem nada, e eu nada direi. Mas meus dedos me dizem que é um espadachim especial. O melhor a que já servi. É evidente que não é do Bakufu. Portanto, deve ser ronin e ronin por opção, já que é hóspede nesta casa. Ou seja, deve ser um shishi o primeiro que já tivemos aqui.
Ela fez uma reverência, antes de acrescentar:
— Todos nos sentimos honrados. Se eu fosse homem, apoiaria Sonno-joi.
Deliberadamente, a ponta de seu dedo, dura como aço, pressionou um centro nervoso e ela sentiu o tremor de dor percorrer o corpo de Hiraga. Ficou satisfeita por ser capaz de ajudá-lo muito mais do que ele imaginava.
— Sinto muito, mas este é um ponto muito importante para rejuvenescê-lo e manter o fluxo de seus humores.
Hiraga soltou um grunhido, a dor comprimindo-o contra os futons, mas ao mesmo tempo experimentando uma estranha satisfação.
— Sua avó também era massagista?
— Era, sim. Em minha família, pelo menos uma menina em cada segunda geração nasce cega. Foi a minha vez nesta vida.
— Karma.
— É verdaae. Dizem que na China de hoje os pais ou mães cegam uma de suas filhas, a fim de que ela possa obter, quando crescer, um emprego para a vida toda.
Hiraga nunca ouvira falar a respeito, mas acreditou, e sentiu-se furioso.
— Aqui não é a China, e nunca será. Um dia ainda vamos conquistar a China e civilizá-la.
— Oh, lamento perturbar sua harmonia, lorde. Por favor, perdoe-me. Ah, assim é melhor. Mais uma vez, peço que me desculpe, por favor. Estava dizendo, lorde... civilizar a China? Como o ditador Nakamura queria fazer? É possível?
— É, sim, um dia. É o nosso destino assumir o trono do dragão, como é o seu destino massagear e não falar.
Outra vez a risada gentil.
— Sim, lorde.
Hiraga suspirou, enquanto o dedo da jovem soltava o ponto de pressão, a dor dando lugar a uma satisfação agradável. Portanto, todos sabem que sou shishi, pensou ele. Quanto tempo se passará antes de ser traído por alguém? Por que não? Dois koku é uma fortuna.
Não fora fácil encontrar este refúgio. Ao entrar na aldeia, deparara com um silêncio consternado, pois todos viram que se tratava de um samurai, um samurai sem espadas, parecendo descontrolado. A rua esvaziara-se, exceto pelos mais próximos, que se ajoelharam e aguardaram seu destino.
— Você, velho, onde fica a ryokan mais próxima... a estalagem?
— Não temos nenhuma, lorde, não há necessidade, honrado lorde. — balbucira o idoso consciente, o medo fazendo-o falar apressadamente. — Não precisamos, já que nossa Yoshiwara fica aqui perto, maior que na maioria das cidades, com dezenas de lugares em que um homem pode se alojar, com mais de uma centena de mulheres, sem contar as criadas, três gueixas de verdade e sete aprendizes, e é por isso...
— Já chega! Onde é a casa do shoya?
— Aquela ali, senhor.
— Onde, seu tolo? Levante-se e me leve até lá! Ainda enfurecido. Hiraga seguira o velho pela rua,querendo esmurrar os olhos que o observavam de todas as aberturas, sufocar os sussurros em sua esteira.
— É esta, lorde.
Hiraga acenara para que o velho fosse embora. A placa na frente da loja aberta, repleta de mercadorias de todos os tipos, mas vazia de pessoas, anunciava que ali era a residência e local de negócios de Ichi Ryoshi, shoya, mercador de arroz e banqueiro, o agente em Iocoama da Gyokoyama. A Gyokoyama era uma zaibatsu — significando um complexo de negócios de família — muito poderosa em Iedo e Osaca, mercadores de arroz e saquê, assim como destiladores de cerveja e também, o mais importante, banqueiros.
Hiraga fizera um esforço para se controlar. Com extremo cuidado e polidez, batera na porta, ficara de cócoras e começara a esperar, tentando dominar a dor pela surra que levara da patrulha de dez homens. Depois de um longo momento, um homem de meia-idade, rosto forte, aparecera na loja aberta, ajoelhara, fizera uma reverência. Hiraga também fizera uma reverência, apresentara-se como Nakama Otami e mencionara que seu avô também era shoya, sem indicar onde, mas fornecendo informações suficientes para que o homem soubesse que era verdade. Indagara se, talvez, já que não havia nenhuma ryokan ali, o shoya não teria um quarto vago para hóspedes pagantes.
— Meu avô também tem a honra de fazer negócios com a zaibatsu Gyokoyama... por intermédio da qual suas aldeias vendem todas as suas colheitas — acrescentara ele, sempre polido.— Eu agradeceria se fizesse o favor de lhes enviar uma nota de crédito minha para Osaca e me adiantasse algum dinheiro por conta.
— Iedo fica mais perto do que Osaca, Otami-san.
— É verdade, mas Osaca é melhor para mim do que Iedo.
Hiraga não queria arriscar qualquer contato com Iedo, onde poderia haver vazamentos para o Bakufu. Notara a avaliação fria e sem medo do shoya e ocultara seu ódio, mas até mesmo os daimios tinham de ser cautelosos quando tratavam com a Gyokoyama ou seus agentes, inclusive lorde Ogama, de Choshu. Era do conhecimento geral que Ogama lhes devia muito dinheiro, com anos de receita futura já empenhados como garantia.
— Minha companhia sente-se honrada em servir velhos clientes. Por favor quanto tempo desejaria permanecer em minha casa?
— Uns poucos dias, se não lhe causasse muita inconveniência.
Hiraga falara sobre Tyrer e o problema dos soldados, apenas porque tinha a certeza que a notícia o precedera.
— Pode ficar pelo menos três dias, Otami-san. Sinto muito, mas deve estar preparado para ir embora depressa, no caso de um súbito ataque, de dia ou de noite.
— Eu compreendo. Obrigado.
— Por favor, peço que me desculpe, mas eu gostaria de ter uma ordem assinada por esse Taira ou, melhor ainda, pelo chefe dos gai-jin, determinando que eu lhe abra minha casa, para o caso de o Bakufu aparecer aqui.
— Providenciarei essa ordem. — Hiraga se inclinara em agradecimento encobrindo sua irritação pelas restrições. — Obrigado.
O shoya ordenara que uma criada trouxesse chá e os materiais de escrita e observara Hiraga redigir a nota de crédito, a ser deduzida da conta de Shinsaku Otami, o codinome secreto de seu pai. Ele assinara e lacrara com seu sinete o recibo para Ryoshi, que concordara em adiantar a metade da quantia, aos juros habituais de dois por cento ao mês, pelos três meses que seriam necessários para enviar o documento a Osaca e completar a transação.
— Quer a quantia em dinheiro?
— Não, obrigado, pois ainda me restam alguns oban — respondera Hiraga, exagerando, reduzido aos últimos dois. — Por favor, abra uma conta para mim, deduza os custos do meu quarto e comida. Também preciso de algumas roupas e espadas, e agradeceria se me providenciasse uma massagista.
— Claro, Otami-san. Quanto às roupas, o criado lhe mostrará nosso estoque. Escolha o que quiser. Quanto às espadas... — Ryoshi dera de ombros. —... as únicas que tenho aqui são imitações para os gai-jin e não valem grande coisa, mas pode ver tudo de que disponho. Talvez eu possa lhe arrumar espadas apropriadas. Agora, vou mostrar seu quarto, com uma entrada e saída particular... há um guarda aqui, de dia e de noite.
Hiraga o seguira. Ryoshi não fizera qualquer comentário sobre sua nudez e os machucados, nem lhe fizera perguntas.
— É bem-vindo aqui, uma honra para minha humilde casa — dissera ele, antes de deixá-lo.
Recordando agora a maneira como isso fora dito, Hiraga sentiu sua pele arrepiar... polida e solene, mas ameaçadora e mortífera por trás. É repulsa — pensou ele, lamentável que os samurais sejam mantidos na pobreza por daimios e xóguns corruptos, sem falar no Bakufu, sendo obrigados a tomar emprestado dessas zaibatsu de baixa classe, formadas por mercadores sórdidos e avarentos que agem como se o dinheiro lhes proporcionasse poder sobre nós. Por todos os deuses, quando o imperador recuperar o poder, haverá um ajuste de contas e todos os mercadores e as zaibatsu começarão apagar... Subitamente, ele sentiu que os toques da jovem paravam.
— O que é, lorde? — perguntou a massagista, assustada.
— Nada, nada. Por favor, continue.
Seus dedos obedeceram, mas o contato era diferente agora, havia tensão no ar. O recinto era espaçoso, com oito esteiras, os futons estofados com o tatame da melhor qualidade, os shojis recém-reformados, com um novo papel oleado. No nicho da Gyokoyama havia um lampião a óleo, um arranjo de flores e a pintura em pergaminho de uma vasta paisagem, tendo como única habitação uma pequena cabana num bambuzal, com uma mulher ainda menor na porta, parecendo desamparada, olhando para a distância... com um poema de amor ao lado.
Esperando, Escutando a chuva
Batendo na chuva
Solitária, mas transbordando de esperança pelo retorno de seu homem. Hiraga resvalava para o sono quando a porta corrediça foi aberta.
— Com licença, lorde. — O criado ajoelhou-se e acrescentou, apreensivo: — Sinto muito, mas há uma pessoa de baixa classe lá fora que alega conhecê-lo, pede para vê-lo, sinto muito incomodá-lo, mas ele é muito insistente e...
— Quem é ele? Qual é seu nome?
— Ele... não quis dar seu nome e também não falou em seu nome, lorde, mas disse: “Avise ao samurai que Todo é o irmão de Joun.”
Hiraga levantou-se no mesmo instante. Enquanto vestia a yukatta, pediu à massagista que voltasse no dia seguinte, na mesma hora, e dispensou-a em seguida. Aproximou-se das duas espadas que tomara emprestadas até que o shoya pudesse lhe providenciar melhores e ajoelhou-se numa posição de ataque e defesa, de frente para a porta.
— Mande-o entrar e mantenha todas as outras pessoas à distância.
O jovem camponês franzino e sujo, com um quimono esfarrapado, rastejou pelo corredor e ficou de joelhos fora da porta.
— Obrigado, lorde, muito obrigado por me receber. — O jovem levantou o rosto, com um sorriso vazio, os dentes da frente faltando. — Obrigado, lorde.
Hiraga lançou-lhe um olhar irritado e depois ofegou, em incredulidade.
— Ori? Mas... é impossível!
Ele observou com mais atenção e constatou que os dentes apenas haviam sido escurecidos, como parte do disfarce, criando uma ilusão perfeita. Mas não podia haver qualquer dúvida de que Ori não era mais um samurai ostensivo: o penacho fora cortado e todos os cabelos atrás e nos lados da cabeça aparados na mesma altura dos fios de duas semanas que cobriam o resto.
— Por quê? — indagou Hiraga, desolado.
Ori sorriu, foi sentar perto dele.
— O Bakufu procura por ronin, não é mesmo? — sussurrou ele, mantendo a voz baixa contra os ouvidos que ambos sabiam que podiam estar escutando.
— Não deixei de ser um samurai, mas agora posso passar por qualquer camponês.
O ar deixou a boca de Hiraga num silvo de admiração.
— Tem toda razão. É brilhante. Sonno-joi não depende de um corte de cabelo. Tão simples... mas eu nunca pensaria nisso.
— Ocorreu-me ontem à noite. Pensava em seu problema, Hiraga.
— Cuidado. Meu nome aqui é Nakama Otami.
— Ah, então é esse! Ótimo! — Ori sorriu. — Eu não sabia como chama-lo, por isso usei o código.
— Já encontraram Todo e os outros?
— Ainda não. Continuam desaparecidos. Devem estar mortos. Soube que Joun foi executado como criminoso comum, mas ainda ignoramos com Todo foi capturado.
— Por que veio aqui, Ori? É muito perigoso.
— Não deste jeito, nem à noite, e eu precisava testar o novo Ori, conversar com você. — Contrafeito, ele passou a mão pela cabeça, com os cabelos começando a crescer, coçou-a. Tinha o rosto raspado. — A sensação é horrível, parece suja, de certa forma obscena, mas não importa. Agora estou seguro, posso ir para Quioto. Partirei daqui a dois dias.
Hiraga olhava para sua cabeça, fascinado, ainda aturdido com a espantosa mudança.
— Se alguma coisa o torna mais seguro, não se deve hesitar, só que agora todos os samurais o tomarão por um homem comum. Como pode usar espadas?
— Quando precisar de espadas, usarei um chapéu. E quanto estiver disfarçado, tenho isto.
Ori enfiou a mão boa na manga e tirou uma pistola de dois tiros. O rosto de Hiraga tomou a se iluminar.
— Ei, brilhante! Onde conseguiu?
— Fujiko. Ela me vendeu, com uma caixa de balas. Um cliente deu a ela quando deixou Iocoama. Imagine só! Uma prostituta de baixa classe com um tesouro assim.
Hiraga pegou a pistola com o maior cuidado, sopesou-a, apontou-a, levantou para ver os dois cartuchos no bronze nos canos.
— Pode matar dois homens com isto, antes de ser morto, se estiver bastante perto.
— Um é suficiente para dar tempo de correr e pegar as espadas. — observou Hiraga.
— Ouvimos falar dos soldados. Eu queria verificar se estava bem. Baka! Iremos para Quioto juntos e deixaremos este lugar para os cretinos até podermos voltarmos com plena força.
Hiraga sacudiu a cabeça, relatou o que acontecera de fato, depois falou de Tyrer e a descoberta da hostilidade entre franceses e ingleses, para acrescentar excitado:
— É uma das cunhas que podemos cravar entre eles. Faremos com que lutem e vamos deixar que se matem uns aos outros por nós, hem? Devo ficar aqui, entende? É apenas o começo. Precisamos aprender tudo o que eles sabem, ser capazes de agir como eles, assim poderemos destruí-los.
Ori franziu o rosto, considerando as razões a favor e contra; embora não tendo perdoado Hiraga por obrigá-lo a se humilhar, removendo a cruz da mulher, mas tinha de proteger Sonno-joi.
— Neste caso, se vai ser nosso espião, terá de se tornar como eles sob todos os aspectos , grudar em sua sociedade como um percevejo, virar um amigo e até mesmo usar roupas de gai-jin. — Ao olhar impassível de Hiraga, ele completou: — Por que não? Isso o protegerá ainda mais e tornará mais fácil que eles o respeitem, neh?
— Mas por que eles deveriam me aceitar?
— Não deveriam, mas são tolos. Taira será sua ponta de lança. Pode dar um jeito, ordenar. Pode insistir.
— Por que ele faria isso?
— Use Fujiko.
— Como assim?
— Raiko nos deu a pista: os gai-jin são diferentes. Preferem ir para a cama com a mesma mulher. Ajude Raiko a envolvê-lo com uma rede e ele vai virar seu cão fiel, porque será o intermediário indispensável. Diga a Taira, mesmo que esteja furioso com os soldados, que a culpa não foi dele. Voltou à Yoshiwara apesar de todas as dificuldades e arrumou Fujiko para ele na noite de amanhã, “mas seria muito mais simples para mim, Taira-sama, arrumar esses encontros se tivesse roupas europeias para usar, a fim de passar pelas barreiras”, e assim por diante. Faça com que ora que ela se torne disponível, ora não, ponha-o na coleira, e aperte à vontade, entende?
Hiraga começou a rir, baixinho.
— Seria melhor você permanecer aqui, em vez de ir para Quioto. Seus conselhos são muito valiosos.
— Katsumata deve ser alertado. E a mulher gai-jin?
— Descobrirei onde exatamente ela se encontra.
— Ótimo. — O vento aumentava e uma rajada passou pela casa, fazendo o papel oleado estalar nas armações, pondo para dançar a chama do lampião. — Você a viu?
— Ainda não. Os criados de Taira, um bando de chineses asquerosos, não falam qualquer língua que eu possacompreender, por isso não consegui descobrir nada por intermédio deles. Mas o prédio maior na colônia pertence ao homem com quem ela vai casar.
— Ela vive lá?
— Não tenho certeza, mas... — Hiraga fez uma pausa, uma idéia aflorando em sua mente. — Se eu pudesse me tornar aceito, teria condições de ir a qualquer parte, descobriria tudo sobre suas defesas, seria capaz até de subir a bordo de seus navios...
— E numa certa noite — disse Ori no mesmo instante, antecipando-se, talvez pudéssemos capturar um dos navios ou afundá-lo.
— Isso mesmo.
Os dois se mostraram exultantes com a perspectiva, enquanto a vela se agita projetando sombras estranhas.
— Com o vento certo — murmurou Ori —, um vento sul, como esta noite com cinco ou seis shishi, uns poucos barris de óleo já colocados nos armazéns certos... mesmo que não seja necessário, podemos iniciar incêndios na Yoshiwara. O vento espalharia as chamas para a aldeia e, depois, para a colônia! Neh?
— E o navio?
— Na confusão, podemos remar até o maior. Seria fácil, neh?
— Fácil, não, mas que golpe!
— Sonno-joi!
Quinta-feira, 16 de outubro:
— Entre! Ah, bom dia, André. — O tom de Angelique era efusivo, e não combinava com sua ansiedade. — É muito pontual. Está tudo bem com você?
Ele acenou com a cabeça, fechou a porta da pequena sala no térreo, anexa ao quarto, que servia como o boudoir de Angelique, na legação francesa. Sentiu-se mais uma vez espantado por ela aparentar tanta calma e ser capaz de manter uma conversa descontraída. Polidamente, inclinou-se para beijar a mão de Angelique, depois sentou à sua frente. A sala era insípida, com cadeiras velhas, uma chaise longue, escrivaninha, paredes de reboco, com uns poucos óleos baratos de novos pintores franceses, Delacroix e Corot.
— O exército me ensinou. A pontualidade é quase a santidade.
Ela sorriu, amável.
— Não sabia que esteve no exército.
— Tive uma comissão na Argélia durante um ano, quando tinha vinte e dois anos, depois da universidade... nada de espetacular, apenas ajudar a esmagar uma das habituais rebeliões dos nativos. Quanto mais cedo exterminarmos todos os rebeldes, anexando por completo o norte da África, tornando-o território francês, melhor. — Ele afugentou as moscas, distraído, enquanto a estudava. — Você parece mais linda do que nunca. Seu estado lhe faz bem.
Os olhos de Angelique perderam a cor, tornaram-se duros. A noite anterior fora péssima, sua cama bastante desconfortável, no quarto desarrumado e andrajoso. No escuro, a ansiedade prevalecera sobre a confiança e se tornara cada vez mais nervosa por ter deixado de maneira tão precipitada a suíte confortável ao lado dos aposentos de Struan. A alvorada não melhorara seu humor; outra vez fora torturada pela idéia persistente: os homens causavam todos os seus problemas. A vingança será doce.
— Está se referindo ao meu iminente estado conjugal, não é?
— Claro — respondeu André, depois de uma breve pausa.
Angelique se perguntou, irritada, qual era o problema com ele, por que se mostrava tão grosseiro e distante, como ocorrera na noite anterior, quando tocou piano por um longo tempo, mas sem que a música tivesse o entusiasmo habitual.
André exibia olheiras e o rosto parecia mais encovado do que o habitual.
— Tem algum problema, meu caro amigo?
— Não, minha cara Angelique, absolutamente nenhum.
Mentiroso, pensou ela. Por que os homens mentem tanto, para as outras pessoas e para si mesmos?
— Teve êxito em sua missão?
— Sim e não.
Ele sabia que Angelique girava num espeto e, de repente, teve vontade de fazer com que ela se contorcesse, abanar as chamas para fazê-la gritar, pagar por Hana.
Você é louco, disse a si mesmo. A culpa não é de Angelique. Isso é verdade, mas foi por sua causa que ontem à noite visitei a casa das Três Carpas, falei com Raiko; enquanto conversávamos, em nossa mistura de japonês, inglês e pidgin senti de repente que aquela outra noite não passara de um pesadelo terrível e que a qualquer momento Hana apareceria, com um riso nos olhos, meu coração palpitaria, como sempre, deixaríamos Raiko, tomaríamos um banho juntos, comeríamos em particular e faríamos amor sem pressa. Quando compreendi a verdade, que Hana se fora para sempre, tive a sensação de que vermes fervilhavam em minhas entranhas e cérebro e quase vomitei.
— Raiko, preciso saber quem eram os três clientes.
— Sinto muito, Furansu-san. Já disse antes: a mama-san dela morreu, pessoas da casa se dispersaram, a Estalagem dos Quarenta e Sete Ronin foi destruída.
— Deve haver algum meio de descobrir...
— Não há nenhum. Sinto muito.
— Então me conte a verdade... a verdade de como ela morreu.
— Com sua faca na garganta. Sinto muito.
— Ela se matou? Haraquiri?
Raiko respondera com a mesma voz paciente, a mesma voz que usara para contar a mesma história, dar as mesmas respostas às mesmas perguntas, uma dezena de vezes antes:
— O haraquiri é o meio antigo, o meio honrado, o único meio de expiar um erro cometido. Hana traiu a você e a nós, a todos os clientes, a si mesma... era esse o seu karma nesta vida. Não há mais nada a dizer. Sinto muito. Deixe-a descansar. O quadragésimo dia depois de sua morte, seu dia de kami, quando uma pessoa renasce ou se torna um kami, já passou. Deixe seu kami, seu espírito descansar. Agora, que outra coisa posso fazer por você?
Angelique sentava empertigada, como fora ensinada desde a infância, angustiada, observando-o, uma das mãos no colo, a outra se abanando contra as moscas. Indagara duas vezes “o que significa sim e não?”, mas André não a ouviu, aparentemente em transe. Pouco antes de deixar Paris, seu tio ficara no mesmo estado e a tia comentara:
— Deixe-o em paz. Quem sabe que demônios habitam a mente de um homem quando perturbado?
— Qual é o problema que ele tem?
— Ah, chérie, toda a vida é um problema quando o que se ganha não dá para tudo o que se precisa. Os impostos nos sufocam, Paris é uma cloaca de arrogância e ausência de moral, a França desmorona outra vez, o franco compra cada vez menos, o preço do pão dobrou em um ano e meio. Deixe-o em paz. O pobre coitado faz o melhor que pode.
Angelique suspirou. É isso mesmo, um pobre coitado. Amanhã farei o melhor que puder. Falarei com Malcolm, que acertará o pagamento das dívidas. Um homem tão bom não pode continuar na prisão dos devedores. De quanto serão suas dívidas? Uns poucos luíses...
Ela viu André voltar a si e fitá-la.
— Sim e não, André? O que isso significa?
— Sim, elas têm um medicamento, mas não, você ainda não pode tomá-lo porque...
— Mas por que você...
— Mon Dieu, seja paciente, e espere até eu terminar de contar o que a mama-san me disse. Não pode ter o medicamento agora porque não deve ser tomado antes do trigésimo dia, e de novo no trigésimo quinto, e também porque a beberagem... uma infusão de ervas... deve ser preparada na hora, a cada vez.
As palavras liquidaram a simplicidade do plano de Angelique; André já deveria ter lhe dado aquela altura a poção ou o pó que obtivera na noite anterior, ela tomaria de imediato e iria para a cama, alegando que se sentia com depressão. Voilá! Uma pequena dor de barriga e, em poucas horas, um dia no máximo, tudo ficaria perfeito.
Por um momento, Angelique sentiu que todo o seu mundo se distorcia, mas conseguiu aplicar um freio: Pare com isso! Está sozinha. É a heroína, apanhada pelas forças do mal. Deve ser forte, tem de lutar sozinha... mas pode vencê-las!
— Trinta dias?
A voz saiu sufocada.
— Isso mesmo, e repete no trigésimo quinto. Você precisa ser pontual e...
— O que acontece depois, André? Age rápido?
— Pelo amor de Deus, deixe-me acabar. Ela disse que costuma funcionar de lmediato. A segunda dose nem sempre é necessária.
— Não há nada que eu possa tomar imediatamente?
— Não. Absolutamente nada.
— Mas ela disse que a tal beberagem dá certo em todas as ocasiões?
— Disse, sim.
A resposta de Raiko a tal pergunta fora outra:
— Nove vezes em dez. Se o medicamento não funcionar, há outros meios.
— Refere-se a um médico?
— Isso mesmo. A poção geralmente funciona, mas é cara. Devo pagar ao fabricante antes que ele me dê. Precisa comprar as ervas...
André tornou a se concentrar agora em Angelique.
— A mama-san disse que era eficaz... mas cara.
— Eficaz? Todas as vezes? E não é perigosa?
— Todas as vezes, e não é perigosa. Mas é cara. Ela tem de pagar adiantado ao farmacêutico, para que ele compre as ervas.
— Por favor, pague para mim, e dentro de poucos dias o reembolsarei três vezes mais.
Os lábios de André contraíram-se numa linha fina.
— Já adiantei vinte luíses. Não sou rico.
— Mas quanto pode custar um pequeno medicamento, André, um medicamento tão corriqueiro? Não pode ser muito caro, não é?
— Ela disse que para uma moça precisando de tal ajuda, uma ajuda secreta. Que importância tem o custo?
— Concordo, meu caro André. — Angelique empurrou esse problema para o lado, com a maior cordialidade, ao mesmo tempo em que endurecia seu coração por ele ser tão mercenário. — Dentro de trinta dias poderei pagar qualquer coisa, da mesada que Malcolm me prometeu. De qualquer forma, tenho certeza de que você poderá providenciar tudo, já que é um homem tão sensato. Obrigada, meu caro amigo. Por favor, diga a ela que minha regra deveria começar daqui a oito dias, exatamente. Quando receberá o medicamento?
— Já lhe disse, um dia antes do trigésimo. Posso ir buscar pessoalmente ou mandar alguém.
— E... o desconforto? Por quanto tempo deve durar?
André sentia-se muito cansado, constrangido, e agora furioso por ter se deixado envolver, por maiores que fossem as vantagens potenciais e permanentes.
— Ela me disse que depende da mulher, da idade, se já fez isso antes. Se nunca fez, deve ser fácil.
— Mas quantos dias de mal-estar?
— Mon Dieu, ela não disse e também não perguntei. Se tem perguntas específicas, escreva-as, e tentarei obter as respostas. E, agora, se me dá licença...
André levantou-se. No mesmo instante, ela permitiu que seus olhos se enchessem de lágrimas.
— Oh, André, obrigada! Tem sido tão gentil em me ajudar, e lamento muito tê-lo incomodado!
Ela desatou a chorar, satisfeita por vê-lo se derreter de novo.
— Não chore, Angelique. Não é culpa sua, mas sim... peço desculpas. De ser terrível para você, mas não se preocupe, por favor. Irei buscar o medicamento no momento certo e farei tudo o que puder para ajudar. Basta escrever as perguntas e trarei as respostas em poucos dias. Sinto muito... é que não tenho me sentido bem ultimamente...
Angelique fingiu confortá-lo. Depois que ele se retirou, avaliou as suas opções, olhando pelas cortinas sujas para a High Street, sem ver nada.
Trinta dias? Não importa. Posso viver com a demora, nada vai atrapalhar, pensou ela, várias vezes, querendo convencer a si mesma. Mais vinte dias não fará a menor diferença.
Para se certificar, ela pegou seu diário, abriu-o, começou a contar. Depois contou e chegou ao mesmo dia, 7 de novembro, sexta-feira. Dia de são Teodoro.
Mesmo assim acenderei uma vela para ele todos os domingos. Não há necessidade de marcar o dia, pensou ela, um tremor lhe percorrendo o corpo. Mesmo assim, fez a pequena cruz no canto. E a confissão?
Deus compreende. Ele compreende tudo.
Posso esperar... mas o que fazer se...
Se não der certo ou se André ficar doente ou se desaparecer ou se morrer ou se a mama-san não cumprir o prometido ou qualquer outra coisa dentre mil e um contratempos?
Isso a inquietou. Abalou sua determinação. Lágrimas de verdade molharam as faces. E, de repente, Angelique recordou o que o pai dissera uma ocasião, há muitos anos, pouco antes de abandoná-la e ao irmão menor, em Paris...
— Isso mesmo, ele nos abandonou — disse ela, em voz alta, a primeira vez em que articulava essa verdade. — Não se pode chamar de outra coisa. E por tudo o que sei agora, Mon Dieu, provavelmente foi melhor assim. Ele teria nos vendido, pelo menos me vendido.
O pai citara seu ídolo, Napoleão Bonaparte:
— Um general sábio sempre tem uma linha de retirada planejada, da qual desfechará o golpe da vitória.
Qual é a minha linha de retirada?
Foi nesse instante que uma coisa que André Poncin lhe dissera, semanas antes, aflorou em sua mente. Ela sorriu e toda a angústia se desvaneceu.
Phillip Tyrer dava os retoques finais no esboço da resposta de Sir William ao roju. Ao contrário das comunicações anteriores, Sir William enviaria o original em inglês e uma cópia em holandês, a ser preparada por Johann.
— Aqui está, Johann, já acabei.
Ele arrematou com um floreado no “B” final de Sir William Aylesbury, K.C.B.
— Scheiss in mein Hut! — exclamou Johann, impressionado. — É a melhor caligrafia que já vi. Não é de admirar que Wee Willie queira que você copie todos Os despachos de Londres.
— Shigata ga nai! — disse Tyrer, sem pensar. Não importa.
— Está mesmo se empenhando em seu japonês?
— É verdade, e gostando muito, mas não diga nada a Willie. O que acha da manobra dele?
Johann suspirou.
Com os japas, eu não acho nada. Mas tenho a impressão de que ele ficou é de miolo mole com os rodeios dos japas.
A mensagem dizia:
À Sua Excelência, Nori Anjo, chefe roju. Recebi seu despacho de ontem e comunico que está totalmente rejeitado. Se não pagarem a parcela combinada da indenização pelo assassinato de dois soldados britânicos no prazo marcado, a quantia devida será quadruplicada a cada dia de atraso.
Lamento saber que não controlam seu calendário. Corrigirei essa situação de imediato. Partirei para Quioto em minha nave capitânia, com uma esquadra de escolta, daqui a doze dias, a contar de hoje. Atracarei em Osaca. Com uma escolta montada e o obrigatório canhão de sessenta libras, de nossa real artilharia, para as salvas reais, seguirei para Quioto, em busca de uma reparação para vocês de sua jovem majestade, o xógum Nobusada ou mesmo, se ele não estiver disponível, de sua alteza imperial, o imperador Komei, prometendo honras reais, com uma salva de vinte e um tiros de canhão. Por favor, comunique-lhes nossa chegada iminente, (assinado) Ministro e embaixador de sua majestade britânica, Sir William Aylesbury, K.C.B....
— Imperador? Que imperador?— indagou Johann, irritado.— Só há um midaco ou micado ou qualquer outra coisa parecida, que é uma espécie de papa menor, sem muito poder, ao contrário de Pio IX, que se intromete, conspira e faz política, sempre desejando, como todos os Gottverdampt católicos, nos jogar na fogueira!
— Ora, Johann, eles não são tão ruins assim. Agora, os católicos ingleses já podem votar, e até mesmo concorrer ao Parlamento, como todos os outros.
— Quero mais que todos os católicos peguem uma boa sífilis. Sou suíço, e não esquecemos.
— Então por que todos os guardas pessoais do papa são suíços?
— São mercenários católicos. — Johann deu de ombros. — Dê-me logo uma cópia do despacho e começarei a trabalhar.
— Sir Willie diz que não vai renovar o contrato.
— É tempo de seguir adiante, deixar o campo aberto para os mais jovens e mais espertos. — Johann exibiu um sorriso radiante. — Ou seja, você.
— Isso não é nada engraçado. Por favor, mande Nakama entrar. Creio que ele está no jardim. . ,
— Não confie nesse miserável, Phillip. É melhor vigiá-lo com a máxima atenção.
Tyrer se perguntou o que Johann diria se soubesse da verdade sobre Nakama. Um momento depois, Hiraga abriu a porta.
— Hai, Taira-san?
— Ikimasho, Nakama-sensei, meu velho, hai? Vamos embora, está bem?
Tyrer ainda se sentia admirado com a mudança.
Quando Hiraga chegou naquela manhã, ao raiar o dia, não usava os trajes sujos e puídos e não exibia o corte de cabelo dos samurais: os cabelos curtos eram agora quase iguais a qualquer plebeu. Em seu quimono impecável, engomado, mas comum, com um volumoso chapéu pendendo nas costas, preso pelo cordão, e sandálias com tiras de ouro, ele parecia o filho de um próspero mercador.
— Por Deus, Nakama, você está ótimo assim! — exclamara ele. — O cabelo desse jeito lhe assenta muito melhor!
— Ah, Taira-san — dissera Hiraga, hesitante, com uma humildade simulada, seguindo a trama que formulara junto com Ori —, achar que o que me falar, me ajudar a não querer ser samurai, parar de ser samurai. Breve voltar Choshu, virar camponês, como avô ou trabalhar fábrica cerveja ou saquê.
— Renunciar a ser samurai? Isso é possível?
— Hai. Possível. Por favor, não querer dizer mais, sim?
— Está certo. Só quero acrescentar que é uma sábia decisão. Meus parabéns. Involuntariamente, Hiraga passara a mão sobre a cabeça, sentira a estranheza dos cabelos espetando.
— Breve crescer cabelo, Taira-san, como seu.
— Por que não?
Tyrer usava seus cabelos, naturalmente ondulados, até a altura dos ombros. Ao contrário da maioria, era meticuloso com sua higiene pessoal: havia sempre um petti point pendurado por cima de sua cama, bordado pela mãe, dizendo que “A higiene vem logo depois da pureza”.
— Como estão seus machucados?
— Eu esquecer.
— Eu esqueci.
— Ah, obrigado, eu esqueci. Algumas boas notícias, Taira-san. — Com muitos floreios, Hiraga comunicou que estivera na Yoshiwara e arrumara Fujiko para aquela noite. — Ela sua. Bom, neh?
Por um momento, Tyrer ficara atônito, incapaz de falar. Depois, num súbito impulso, apertara a mão de Hiraga.
— Obrigado, meu caro amigo, muito obrigado!
Ele se recostara, pegara o cachimbo, oferecera um pouco de fumo a Hiraga, que recusara, fazendo esforço para não rir.
— Isso é maravilhoso! — A mente de Tyrer já se projetara para o encontro amoroso, o coração palpitando, a virilidade consciente. — Por Deus, que coisa sensacional!
Tyrer encontrara alguma dificuldade para pôr de lado os pensamentos eróticos e se concentrar na agenda do dia.
— Já arrumou algum lugar para ficar na aldeia?
— Sim. Por favor, vamos agora, sim?
Durante a caminhada até a aldeia japonesa, os dois sempre tomando cuidado para consevar a voz baixa e não falar em inglês quando alguém pudesse ouvir, Tyrer voltara a interrogar Hiraga, minerando diamantes, como os nomes do xógum e do imperador.
Hiragat o levou para a casa do shoya ele inspecionara a loja e o quarto pequeno em que Hiraga deveria ficar. Voltara para a legação satisfeito e tranquilizado.
— Notou como quase ninguém lhe prestou atenção na rua, nem mesmo os soldados, agora que não parece mais um samurai?
— Sim, Taira-san. Pode me ajudar, por favor?
— Qualquer coisa ao meu alcance. O que deseja?
— Usar roupas suas, ficar mais parecido com gai-jin, sim?
— Grande idéia!
Chegando à legação, Tyrer seguira direto para falar com Sir William mais excitado, dando-lhe os nomes do xógum e do imperador.
— Achei que ia querer saber logo, senhor. E tenho outra informação, e creio que compreendi corretamente: ele diz que todos os japoneses, até mesmo os daimios, precisam de permissão para visitar Quioto, onde vive o imperador.
— O que são os daimios?
— É como eles chamam seus reis, senhor. Mas todos, até mesmo eles, devem obter permissão para visitar Quioto... ele diz que o Bakufu, que é outro nome para xogunato, como seu serviço público civil, tem medo de permitir o livre acesso a qualquer um. — Tyrer bem que tentara manter a calma, mas as palavras saíram aos borbotões. — Se isso é verdade, e se o xógum se encontra em Quioto no momento, e o imperador reside ali em caráter permanente, se todo o poder se concentra agora na cidade... se o senhor fosse até lá, isso não significa que passaria por cima do Bakufu?
— Uma lógica inspirada — respondeu Sir William, gentilmente, com um suspiro de satisfação, pois já chegara a essa conclusão muito antes da sugestão de Tyrer. — Phillip, creio que vou reformular meu despacho. Volte daqui a uma hora... Fez um bom trabalho.
— Obrigado, senhor. — Tyrer falara então sobre o “novo” Nakama, com um novo corte de cabelo. — Creio que se pudéssemos persuadi-lo a usar roupas européias, ele se tornaria ainda mais maleável... e enquanto ele me ensina japonês, é claro que eu também lhe ensino inglês.
— Uma idéia excelente, Phillip.
— Obrigado, senhor. Providenciarei tudo imediatamente. Posso mandar a conta para nosso cambista pagar?
Um pouco do bom humor de Sir William desaparecera.
— Não temos um excesso de fundos, Phillip, e o Ministério das Finanças... Está bem. Mas apenas um traje, e você é responsável para que a conta seja modesta.
Tyrer se retirara, e agora que concluíra seu trabalho no despacho, levara Hiraga ao alfaiate chinês.
A High Street não se encontrava muito apinhada àquela hora do dia, o da tarde, a maioria dos homens nos escritórios, ainda fazendo a sesta ou no clube. Uns poucos bêbados se agrupavam em lugares abrigados no cais, pois o vento ainda soprava forte. Mais tarde, haveria uma partida de futebol, marinha contra o exército, no campo de desfile, e Tyrer aguardava o jogo com ansiedade. Sentia-se assim pelo encontro que teria com Jamie McFay e que não pudera recusar após visitar o alfaiate.
— Ele é o chefe da Struan aqui, Nakama-san, descobriu de alguma forma a sua presença, e que sabe falar inglês. Mas merece confiança.
— So ka? Struan? O homem que vai casar?
— Quer dizer que os criados já lhe falaram sobre a festa de noivado, hem? McFay é apenas o chefe do escritório aqui. O sr. Struan, o tai-pan, é quem vai casar. Aquele é o seu prédio, armazém, escritório e residência.
— So ka? — Hiraga estudou o prédio. Concluiu que um ataque seria difícil, e a simples entrada seria um problema. As janelas mais baixas eram gradeadas. — Esse Struan, também sua mulher, ficam aqui?
A mente de Tyrer se desviara para Fujiko e ele respondeu, distraído:
— Struan fica, não tenho certeza sobre ela. Em Londres, este prédio não seria grande coisa, em comparação com as casas comuns, milhares e milhares. Londres é a cidade mais rica do mundo.
— Mais rica que Iedo?
Tyrer riu.
— Mais rica do que vinte ou cinqüenta Iedos. Como digo isso em japonês? Hiraga explicou, os olhos perspicazes registrando tudo... não acreditando naquela história sobre Londres, nem na maior parte do que Tyrer lhe dizia, convencido de que eram apenas mentiras para confundi-lo. Passavam agora pelos diversos bangalôs que serviam como legações, esgueirando-se entre o lixo, amontoado por toda parte.
— Por que bandeiras diferentes, por favor?
Tyrer queria praticar o japonês, mas a cada vez que começava, Hiraga respondia em inglês, e no mesmo instante fazia outra pergunta. Mesmo assim, ele explicou, apontando:
— São as legações; aquela é a russa, a americana, a francesa... e ali a prussiana. A Prússia é uma importante nação do continente. Se eu quisesse dizer...
— Ah, sinto muito, ter um mapa do seu mundo, por favor?
— Tenho, sim, e lhe mostrarei com o maior prazer.
Um destacamento de soldados se aproximou e passou, sem lhes dispensar a menor atenção.
— Esses homens da Prússia — disse Hiraga, pronunciando o nome com o maior cuidado — também fazem guerra contra franceses?
— Às vezes. Sem dúvida são belicosos, sempre guerreando contra alguém. Têm um novo rei e seu maior defensor é um príncipe poderoso chamado Bismarck, que está tentando juntar todos os que falam alemão numa grande nação, e...
— Por favor, sinto muito, Taira-san, não tão depressa, sim?
— Ah gomen nasai.
Tyrer repetiu o que dissera, mais devagar, respondeu a mais perguntas, nunca deixando de se espantar com sua quantidade e extensão, admirado com a mente inquisitiva de seu protegido. Ele riu de novo.
— Devemos chegar a um acordo: uma hora sobre o meu mundo, em inglês, a hora sobre o seu, em inglês, e depois uma hora de conversa em japonês. Hai?
— Hai. Domo.
Quatro cavaleiros a caminho da pista de corridas alcançaram-nos, eles cumprimentaram Tyrer, olharam para Hiraga com a maior curiosidade. Na extremide da High Street, junto à barreira, filas de cules, com o carregamento da tarde. Mercadorias e alimentos, começavam a passar pela alfândega, sob os olhos vigilantes dos guardas samurais.
— É melhor nos apressarmos, para não nos misturarmos com esse bando disse Tyrer.
Ele atravessou a rua, esgueirando-se entre o estrume de cavalo, parou abruptamente e acenou, ao passarem pela legação francesa. Angelique estava à sua janela, no térreo, as cortinas abertas. Ela sorriu, acenou em resposta. Hiraga fingiu não ter notado o escrutínio a que ela o submeteu.
— Essa é a dama com quem o Sr. Struan vai casar — comentou Tyrer recomeçando a andar. — Muito bonita, não é?
— Hai. Aquela sua casa, sim?
— Sim.
— Boa noite, Sr. McFay. Está tudo trancado.
— Boa noite, Vargas.
McFay reprimiu um bocejo e continuou a escrever em seu diário, a última tarefa do dia. Sua escrivaninha se encontrava limpa, a não ser pelos jornais de duas semanas ainda por ler. A bandeja de entrada estava vazia e a de saída continha as respostas para a maior parte da correspondência de hoje, assim como os pedidos, notas de transporte já assinadas, prontas para serem executadas ao amanhecer, quando os negócios começavam.
Vargas coçou distraído uma picada de pulga, uma constante na Ásia, e guardou a chave da casa-forte na escrivaninha.
— Quer que eu traga mais luz?
— Não, obrigado. Já estou quase acabando. Vejo-o amanhã.
— Os Choshus devem chegar amanhã, para tratar das armas.
— Eu não havia esquecido. Boa noite.
Agora que se encontrava sozinho naquela parte do andar térreo, McFay sentiu-se mais feliz, sempre satisfeito por não ter qualquer companhia, sempre seguro dentro de si mesmo. Exceto por Vargas, todos os escriturários, cambistas e demais empregados usavam outra escada, e tinham suas salas nos fundos do prédio. A porta de comunicação entre as duas partes era trancada à noite. Só An Tok e os criados pessoais permaneciam na parte dianteira, que continha os escritórios, a casa-forte, onde ficavam todas as armas, livros de contabilidade e cofres com dólares de prata mexicanos, taéis de ouro e moedas japonesas, e os aposentos, no andar por cima.
A correspondência diária era sempre intensa e ocupava McFay até tarde da noite, aquela em particular mais do que as outras, porque recebera de Nettlesmith o último capítulo de Grandes Esperanças, subira correndo e partilhara sua hora miúda com Malcolm Struan, desfrutando cada página, antes de descer para trabalhar, na maior satisfação, porque tudo acabara bem para Pip e a moça, e agora uma nova epopéia de Dickens seria anunciada na edição do mês seguinte. Pois o relógio de pé tiquetaqueava suavemente. McFay escreveu depressa, com sua letra precisa:
MS ficou furioso com a carta da mãe na correspondência de hoje (Vapor Swift Wind, um dia atrasado, um homem perdido ao cair no mar, ao largo de Xangai, também passou por dificuldades nos estreitos de Shimonoseki, as baterias da praia disparando talvez vinte tiros, que não atingiram o alvo, graças a Deus!). Minha resposta ao canhoneio da Sra. foi conciliatória (ela ainda não teve conhecimento da festa, o que vai causar uma explosão de Hong Kong a Java), mas duvido que possa tranqüilizar as águas agitadas. Informei-a que A se mudara, voltando à legação francesa, mas não creio que isso tenha qualquer importância para a Sra. S, embora MS tenha se mostrado impaciente durante o dia inteiro por A não tê-lo visitado, e gritasse de novo com Ah Tok, deixando-a num ânimo sombrio... que transmitiu a todos os outros criados, infelizmente!
Devo registrar que MS, apesar de toda a sua dor, é muito mais sensato do que eu imaginava, com uma excelente visão dos negócios em geral, inclusive do comércio internacional, e agora aceita minha opinião de que há um grande potencial aqui. Discutimos o problema da Brock e concordamos que não havia nada que pudesse ser feito daqui; mas, assim que ele voltar a HK, tornará a enfrentá-los. Outra vez ele se recusou a considerar o retorno pelo navio de correspondência — Hoag senta em cima da cerca, não é meu aliado, diz que quanto mais Malcolm descansar aqui, melhor será, uma viagem ruim poderia ser traumática.
Tive um primeiro encontro com o tal japonês Nakama (que só pode ser um pseudônimo) e tenho certeza que ele é mais do que finge. Um samurai, um proscrito ronin, que sabe falar um pouco de inglês, corta os cabelos porque decidiu renunciar à sua posição de samurai, que procura usar nossas roupas não pode deixar de ser extraordinário, e precisa ser vigiado com o maior cuidado. Se metade do que ele diz é verdade, então conseguimos — através de Tyrer, abençoado seja — dar um grande passo à frente em matéria de informações. É uma pena que Nakama nada saiba sobre negócios, sua única informação útil sob esse aspecto foi a de que Osaca é o principal centro comercial do Japão, não Iedo, o que constitui uma razão a mais para pressionar pela abertura daquela cidade, o mais depressa possível, Nakama deve ser cultivado, sem qualquer dúvida, e...
Houve uma batida numa das janelas. McFay olhou para o relógio. São dez horas. Uma hora de atraso. Ora, não importa, o tempo asiático é quase como o nosso.
Sem pressa, ele se levantou, pôs o pequeno revólver no bolso da sobrecasaca, foi até sua porta particular e destrancou-a. Havia duas mulheres da fora, usando mantos com capuz, acompanhadas por um criado. Os três fizeram uma reverência. Ele sinalizou para as duas mulheres entrarem, deu trinta moedas ao homem, que agradeceu, fez outra reverência e se afastou pela rua em direção à Yoshiwara. McFay tornou a trancar a porta.
— Ei, Nemi, você sempre bonita, neh?
McFay sorriu, abraçou uma das mulheres, que o fitou por baixo do capuz com um sorriso radiante, um brilho nos olhos; era sua musume há um ano, mantida por ele durante a metade desse período.
— Ei, Jami-san, você bom, hem? Esta musume minha irmã, Shizuka. Bonita neh?
Nervosa, a outra moça empurrou o capuz para trás, forçou um sorriso. Ele recomeçou a respirar — Shizuka era tão jovem quanto Nemi, tão atraente e fragrante.
— Hai!— exclamou ele.
As duas moças sentiram-se aliviadas por Shizuka ter passado pela inspeção inicial. Era a primeira vez que McFay arrumava uma mulher para outro. Contrafeito, pedira a Nemi para explicar à mama-san que a moça seria para o tai-pan, por isso tinha de ser especial. As duas tinham vinte e poucos anos, mal batiam em seu ombro, pareciam um pouco mais à vontade agora, embora conscientes de que o verdadeiro obstáculo ainda teria de ser superado.
— Shizuka, deve compreender, por favor. Tai-pan homem importante. — Virando-se para Nemi e passando a mão pelo lado de seu corpo, na altura do ferimento de Struan, ele acrescentou: — Ela sabe do ferimento, neh?
Nemi acenou com a cabeça, os dentes brancos faiscando.
— Hai, eu explicar, Jami-san. Dozo, deixar casaco aqui, ou lá em cima.
— Lá em cima.
Ele subiu na frente pela escada principal, iluminada por lampiões a óleo, Nemi falando com a nova moça, que prestava atenção a tudo. Era seu costume, de vez em quando, chamar Nemi para passar a noite aqui, o criado voltando pouco antes do amanhecer para escoltá-la até sua pequena habitação, no terreno da estalagem da Alegria Suculenta. O arrendamento da casa por cinco anos, depois de dias negociação, custara-lhe dez soberanos de ouro. Outros dez pelo contrato de Nemi durante o mesmo período, mais um extra para um novo quimono a cada mês, penteados, uma criada pessoal e toda a alimentação, além do saquê.
— Mas o que acontece se o fogo destruir a casa, mama-san? — indagara consternado por concordar com um preço tão alto.
É verdade que a taxa de câmbio excepcionalmente vantajosa lhes proporcionavam lucro de quatrocentos por cento na maioria dos meses... o que significava que quase todos os estrangeiros podiam ter um pônei ou dois, consumir champanhe à vontade e ainda mais importante, no seu caso, contar com a certeza de que os gastos de manutenção de Nemi não representariam mais do que umas poucas despesas.
A mama-san se mostrara chocada.
— Comprar como nova. Você pagar metade preço, justo, neh?
Nemi, presente nas negociações finais, soltara uma risada.
— Bastante: fogo na casa, Jami-san, muito jigjig, hem?
Ao chegar ao topo da escada, McFay tornou a abraçá-la, feliz, sem qualquer motivo, além do fato de que ela provara valer cada moeda que pagara, proporcionando-lhe muito prazer e paz. Havia uma enorme cadeira de encosto alto no patamar. Nemi tirou seu manto com capuz, dizendo à outra moça que fizesse a mesma coisa e que os deixariam ali. Usavam por baixo quimonos impecáveis, os cabelos arrumados — crisálidas transformando-se em borboletas. Satisfeito, McFay bateu na porta.
— Entre.
Malcolm Struan estava sentado em sua cadeira, um charuto aceso entre os dedos, elegante em seu chambre, mas contrafeito.
— Olá, Jamie.
— Boa noite, tai-pan.
As moças se inclinaram, com extrema deferência. McFay não imaginava que quase tudo sobre Malcolm Struan — e também sobre ele próprio, assim como sobre a maioria dos gai-jin — era do conhecimento comum, e o tema de ávidas e constantes conversas na Yoshiwara, sua enorme riqueza, o fato de que recentemente se tornara tai-pan, as circunstâncias de seu ferimento e o iminente casamento.
— Esta é Shizuka, que ficará com você. O criado virá buscá-la pouco antes do amanhecer, tudo como eu falei. Baterei em sua porta quando ele chegar. Shizuka pode ser um pouco tímida, mas não haverá maiores problemas. Esta é a minha musume, Nemi. Eu... ahn... achei melhor que ela viesse também, na primeira vez, para tornar tudo mais fácil.
As duas fizeram outra reverência.
— Ei, tai-pan — disse Nemi, no controle absoluto, satisfeita por conhecê-lo, e confiante em sua escolha —, Shizuka irmã minha, boa musume, ei!
Ela acenou com a cabeça, vigorosamente, deu um pequeno empurrão em Shizuka. A moça adiantou-se, hesitante, ajoelhou-se, fez mais uma reverência.
— Estarei em meu quarto, se precisar de mim.
— Obrigado, Jamie.
McFay fechou a porta e seguiu pelo corredor. Sua suíte era arrumada, masculina e confortável. Três cômodos, sala, quarto, quarto extra, todos com lareiras, e um banheiro. Havia carnes frias no aparador, além de pão fresco e um dos pratos prediletos de Nemi, torta de maçã, as maçãs importadas de Xangai. Havia também saquê numa garrafa de água quente, e uísque Loch Vey, da destilaria da Struan, que ela adorava. No momento em que a porta foi trancada, ela ergueu-se na ponta dos pés e beijou-o, voraz.
— Não ver seis dias, primeiro cama, depois resto! Era a inversão da ordem habitual. O coração de McFay acelerou, embora não estivesse com pressa.
Ela pegou-o pela mão, levou-o para o quarto e quase que o empurrou na cama. Ajoelhou-se para tirar as botas de McFay, começou a despi-lo, enquanto falava sem parar, no seu pidgin apenas meio compreensível, falando que a Yoshiwara fervilhava de atividade, sobre o mundo flutuante, que não precisava se preocupar com Shizuka, ela era cara, mas a melhor, que história era essa de guerra por favor, não queremos a guerra, apenas negócios, tenho um quimono novo, com a carpa da sorte, muito bonito, embora um pouco caro.
— Mas ichiban, Jami-san, vai gostar muito. Agora cama! Obediente, ele se meteu na cama de baldaquino. A noite era perfeita, nem quente, nem fria. Nemi soltou a obi, deixou o quimono cair, depois a roupa de baixo. Completamente nua, sem qualquer sentimento de culpa ou vergonha por sua nudez, como qualquer musume — uma das muitas características que a distinguiam, e que McFay e todos os gai-jin achavam espantosa e invejável —, ela tirou os alfinetes dos cabelos, sacudiu-os, fazendo com que caíssem até a cintura, e marchou triunfante para o banheiro, a primeira delícia da noite.
Nemi sentou no vaso sanitário, estendeu a mão, pegou a corrente e puxou a descarga. A água desceu pelo vaso de porcelana, ruidosa, e ela bateu palmas de alegria, como sempre. Não acreditara na primeira vez em que vira isso. — Para onde água ir? — indagara ela, desconfiada. McFay explicara, fizera desenhos, mas ainda assim ela não acreditara, até que ele lhe mostrou os canos, e a levou ao ponto do jardim onde ficava a tampa do bueiro da fossa — todos os canos, caixas-d’água, caldeiras, vasos sanitários, pias, torneiras e três banheiros importados da Inglaterra, Hong Kong e Xangai, onde muitas peças já começavam a ser fabricadas, para os vastos mercados indiano e asiático.
Nemi suplicara permissão para mostrar às amigas. Ele concordara, orgulhoso, porque aquela era a primeira instalação do gênero em todo o Japão, para tristeza de Sir William e fúria de Norbert Greyforth, e agora o padrão para cerca de uma dúzia de cópias, funcionando direito ou não, embora nem todas com água quente e fria: só o melhor e o mais moderno — e, portanto, britânico — para a Struan.
Assim, as excursões turísticas guiadas de umas poucas privilegiadas, para conhecer a limpeza de Jami-san, tornaram-se um dos maiores atrativos na Iocoama dos gai-jin, as musume falando sem parar, como aves exóticas, fazendo muitas reverências, prendendo a respiração, puxando a descarga, soltando murmúrios de espanto, aplaudindo.
Nemi lavou as mãos. Com um suspiro de satisfação, foi se deitar nos lençóis, ao lado de McFay.
Phillip Tyrer estava exausto, quase dormindo. Fujiko suportava seu peso sem maiores dificuldades, mas começou a empurrá-lo para o lado, gentilmente.
— Iyé, matsu — murmurou ele. — Não, não se mexa... espere.
— Só quero pegar uma toalha, Taira-san. Toalha, entende?
— Ah, sim. Entendo toalha. Você fica, eu pego...
— Oh, não, seria uma vergonha para mim. É meu dever. Deixe-me ir, por favor... não me impeça.
Ela nua, enquanto Tyrer a imobilizava contra seu peito, mas era hábil, conhecia seu ofício muito bem e esperou. Havia sossego no pequeno quarto agora. A noite lá fora era agradável. O vento sussurrava pelas árvores e arbustos. Umas poucas lufadas contornavam as janelas corrediças, ainda não eram frias, nem sequer desagradáveis. O lampião a óleo bruxuleava.
Um momento depois, Fujiko desvencilhou-se, sem interromper a tranqüilidade de Tyrer, e foi para o pequeno banheiro, com sua tina de madeira alta, cheia até a borda de água quente, sobre uma grade de madeira, para permitir que a água escorresse, ao se retirar o batoque. Sabão perfumado, urinol e toalhas limpas. Ela usou uma toalha molhada, enxugou-se em seguida.
Ao retornar ao quarto, levava uma toalha quente, com que limpou Tyrer, para depois enxugá-lo. Ele manteve os olhos fechados durante todo o tempo, quase gemendo de prazer, ao mesmo tempo se sentindo embaraçado porque Fujiko o servia assim, e não o contrário.
— Ah, Fujiko-chan, você é maravilhosa.
— Não, é meu prazer.
Há muito que ela já superara seu espanto e constrangimento pelos estranhos hábitos dos estrangeiros: o fato de raramente se banharem, se sentirem consumidos de vergonha e culpa pelos prazeres do travesseiro, serem possessivos e ficarem furiosos quando ela tinha outros clientes — uma estupidez, pois eles também não eram clientes? — ou se virarem, corando, quando ela se despia para lhes proporcionar prazer ou se cobrirem quando apenas semidespidos, preferindo fornicar no escuro, quando todos sabiam que muito da emoção derivava de ver, examinar e observar ou se tornarem roxos de embaraço quando ela tentava variações normais, Para evitar o tédio e para prolongar e aumentar os momentos com os deuses... o tempo das nuvens e da chuva.
Não, os gai-jin não são como nós. Quase sempre preferem a Primeira Posição com Urgência, de vez em quando a Atraindo a Galinha ou a Tempo da Flor de Brejeira, sem me dar qualquer oportunidade de demonstrar minhas habilidades; e se deixassem a luz acesa, eu poderia me posicionar para muitos jogos de levantar, como Perto e Longe, Por Cima do Dragão, Plantio da Primavera, Furtando o Mel, que até o rapaz mais inexperiente exigiria e apreciaria, mas um gai-jin se desvencilha, com firmeza, embora gentil, puxa-me para o seu lado, beija meu pescoço, me aperta com força e murmura palavras incompreensíveis.
— Agora vou massageá-lo até o sono. — murmurou Fujiko.
— Não compreendo. Massagear?
— Massagear, Taira-san. Assim.
— Ah, agora entendi. Massagem. Obrigado.
Os dedos de Fujiko eram gentis e maravilhosos e Tyrer resvalou para o sono mal acreditando em sua sorte, orgulhoso de seu desempenho, e porque ela gozara extasiada pelo menos três vezes, contra uma sua... e não importava mais que Raiko tivesse lhe dito naquela manhã que Fujiko precisava visitar sua aldeia, perto de Iedo, para ver o pai doente.
— Mas apenas por poucos dias, Taira-san.
— Oh, sinto muito, Raiko-san. Por favor, quantos dias fora?
— Quantos dias ela ficará fora. Apenas três.
— Ah, obrigado. Quantos dias ela ficará fora?
Tyrer repetira a pergunta também para Fujiko, e seu japonês fora corrigido em todas as ocasiões.
Três dias. Com isso, terei tempo para me recuperar. Por Deus, esta noite foi a melhor de todas! Gostaria de saber o que vai acontecer quando os roju receberem nosso despacho. Tenho certeza de que meu conselho é correto e que Nakama diz a verdade... tenho muito a lhe agradecer, Sir William ficou positivamente radiante, e Fujiko...
Embalada pela massagem, a mente de Tyrer mergulhou numa miscelânea de Nakama e Fujiko, sua presença no Japão, tudo tão diferente, o aprendizado de japonês, palavras e frases incessantes aflorando aos borbotões. Os futons eram duros, difíceis de se acostumar, mas ele sentia-se confortável, estendido de barriga para baixo, desfrutando a proximidade de Fujiko. Ah, como estou cansado... Não posso suportar a idéia de “outros clientes”, pensou ele. Tenho de fazer com que ela seja só minha. Amanhã pedirei a André para me ajudar.
Sem se virar, ele estendeu a mão para trás, pousou-a na coxa de Fujiko. Pele sedosa, adorável.
Onde eu estava? Ah, sim, os roju. Daremos uma lição nos patifes. É lamentável que o navio de correspondência tenha sido o alvo de um bombardeio... temos de fazer com que Shimonoseki se torne seguro e, se o maldito Bakufu não tomar as providências necessárias, isso significa que nós mesmos teremos de destruir aquelas baterias. Devo me lembrar de ter cuidado em relação a isso com Nakama, já que ele é também de Choshu. Será que poderia usá-lo como um intermediário. E se os roju não derem um jeito naqueles demônios de Satsuma, nós mesmos é que teremos de esmagá-los. A desfaçatez do daimio, dizendo que não consegue encontrar os assassinos de Canterbury, apesar de os miseráveis terem saído de suas fileiras; vi quando cortaram o braço de Canterbury, o sangue esguichando.
Os dedos de Fujiko ficaram imóveis.
— Qual é o problema, Taira-san?
Antes que pudesse pensar, ele a abraçava, querendo apagar a lembrança da Tokaidô, e depois que o tremor cessou, Tyrer tornou a se deitar, abraçando-a e sentindo o corpo quente e dócil comprimido contra o seu, amando-a, grato por sua companhia, esperando que os pensamentos terríveis voltassem a seu recesso.
Ela ficou quieta, também esperando, sem pensar em Tyrer, exceto para registrar que, mais uma vez, o gai-jin demonstrara ser mesmo estranho, além da compreensão. Era confortável se aconchegar contra ele, e Fujiko sentia-se contente porque a primeira explosão fora alcançada de um modo apropriado, deixando o cliente satisfeito, e assim podia acreditar que merecia a taxa extra.
Quando distribuíra os serviços de todas, naquela manhã, Raiko lhe dissera que ia aumentar seu preço, e explicara:
— Mas só com Taira, porque você terá trabalho extra. Lembre-se de que ele pode ser um peixe graúdo para você, Fujiko, um cliente a longo prazo, muito melhor que Kant-er-bury-san, se tomarmos cuidado, e se você o agradar. Frenchy diz que ele é um homem importante, por isso deve se empenhar em agradá-lo. Fale apenas japonês, nada de pidgin, torne-se uma mestra, encoraje-o, lembre-se de que ele é ridiculamente tímido e não sabe de nada. Nunca deve mencionar Kant-er-bury. Vamos fingir que você terá de se ausentar por alguns dias... mas não se preocupe. Já tenho dois clientes para você amanhã, um gai-jin à tarde, uma pessoa civilizada à noite...
Com um cliente generoso por um ou dois anos, eu poderia pagar minhas dívidas num instante e a vida seria muito melhor do que ter de aceitar qualquer cliente disponível, pensou Fujiko. Depois, contente, abandonou o presente, como sempre fazia quando se encontrava com um cliente, e projetou-se para o futuro, onde vivia feliz com seu rico marido fazendeiro e quatro ou cinco filhos. Podia contemplar a casa, em meio a vários arrozais, com os brotos verdes do plantio de inverno ou primavera prometendo mais uma colheita abundante, a sogra gentil, satisfeita com ela, um ou dois bois atrelados a um arado, flores no pequeno jardim, e...
— Ah, Fujiko, obrigado! Você é maravilhosa!
Ela se aninhou ainda mais, murmurou que ele era forte e viril.
— O quê? — balbuciou Tyrer, sonolento. Ela respondeu com um movimento íntimo da mão, e ele se contorceu. — Não, Fujiko, por favor, primeiro dormir. Não... por favor, mais tarde...
— Ah, mas um homem forte como você... — insistiu ela, reprimindo seu tédio e continuando, submissa.
Ori bocejou e tirou o olho do buraco.
— Já vi o suficiente — sussurrou ele. — Chocante.
— Concordo. — Hiraga também manteve a voz baixa. — Terrível. O desem-penho de Fujiko foi o pior que já testemunhei. Baka!
— Se eu fosse Taira, exigiria meu dinheiro de volta.
— Concordo. Baka! Fujiko não conseguirá deixá-lo pronto de novo por horas, e quanto a ele... apenas a Primeira Posição uma vez e ainda falam de dez arremetidas, e tudo acaba, Sobre a Lua, como um pato. Ori teve de levar a mão à boca para reprimir o riso. Depois, com extremo zelo, ajeitou pequenos pedaços de papel para tapar os buracos que haviam feito no canto distante da tela de shoji. Juntos, esgueiraram-se entre os arbustos, passaram pelo portão secreto na cerca e voltaram à residência de Ori.
— Saquê!
Meio adormecida, a criada pôs a bandeja na frente dos dois, serviu e se afastou ainda tendo dificuldade para não olhar para suas cabeças. Eles brindaram um com o outro, tornaram a encher os copos, o cômodo pequeno e agradável iluminado por velas, com os futons já arrumados no aposento contíguo. As espadas estavam e prateleiras baixas, laqueadas. Raiko violara a regra da Yoshiwara que proibia armas na área porque eles eram shishi, por causa do retrato de Hiraga e implorou a ambos, que haviam jurado por Sonno-joi, que não usariam as armas contra alguém na casa ou qualquer hóspede, e apenas em defesa.
— Não posso acreditar que Taira se deixasse enganar pelo simulado momento com os deuses, Hiraga, um depois do outro, daquele jeito! A encenação dela foi péssima. Será que ele é mesmo tão estúpido assim?
— Obviamente. — Hiraga riu, esfregou a cabeça, atrás e nos lados, com extremo vigor. — Com uma arma daquele tamanho, ele deveria ter feito com que Fujiko gritasse de verdade... todos os gai-jin são assim?
— Quem se importa... no caso dele, é um desperdício.
— Sem a menor sutileza, Ori! Talvez eu devesse arrumar para ele um livro de travesseiro, como uma noiva virgem, hem?
— Melhor matá-lo e incendiar a colônia.
— Seja paciente. Ainda faremos isso. Há bastante tempo.
— Ele é um alvo perfeito e é mais uma oportunidade perfeita — insistiu Ori, uma certa rispidez se insinuando em sua voz.
Hiraga observou-o, toda a sua satisfação desaparecendo no mesmo instante.
— Tem toda razão, mas não agora. Ele é importante demais.
— Você mesmo disse que se os enfurecêssemos bastante, eles bombardeariam Iedo, o que seria maravilhoso para a nossa causa.
— É verdade, mas tempos tempo. — Hiraga não deixava transparecer sua preocupação, pois queria apaziguá-lo, vê-lo sob controle. — Taira vem respondendo a todas as minhas perguntas. Por exemplo, ninguém nos contou que os gai-jin lutam entre si como cães selvagens, ainda pior que os daimios antes de Toranaga... os holandeses esconderam isso de nós, não é?
— São todos mentirosos e bárbaros.
— Sei disso, mas deve haver centenas de informações assim, que vão nos indicar a maneira como teremos de enfrentá-los... e dominá-los. Precisamos aprender tudo, Ori, e depois, quando integrarmos o novo Bakufu, lançaremos os alemães contra os russos, contra os franceses, contra os ingleses, contra os americanos...
Hiraga estremeceu, ao recordar o pouco que Tyrer lhe dissera sobre a tal guerra civil, as batalhas e baixas, todas as armas modernas, com centenas de milhares de homens armados em combate, e a inacreditável vastidão das terras dos gai-jin.
— Esta noite ele disse que a marinha inglesa domina os oceanos do mundo e pela lei deles é duas vezes maior que as duas marinhas seguintes juntas, com centenas de navios de guerra, milhares de canhões.
— Mentiras. Exageros para assustá-lo. Ele e todos os outros querem nos intimidar... e ele também quer os nossos segredos!
— Só dou a ele o que acho que deve saber — protestou Hiraga, irritado. — Ori temos de aprender tudo o que pudermos sobre eles! Esses cães conquistaram a maior parte do mundo... humilharam a China, incendiaram Pequim, e este ano os franceses se tornaram senhores da Cochinchina e vão colonizar o Camboja.
— É verdade, mas os franceses jogaram príncipes nativos contra o príncipes nativos, como os britânicos na índia. Mas aqui é o Japão. Somos diferentes... esta é a terra dos deuses. Jamais, nem mesmo com todos os canhões do mundo, eles serão capazes de nos conquistar!
O rosto de Ori contorceu-se de um jeito estranho, e ele acrescentou:
— Podem até seduzir alguns daimios para o seu lado, mas o resto do povo japonês haverá de massacrá-los.
— Não sem canhões e conhecimentos.
— Sem canhões, sim, Hiraga-san!
Hiraga deu de ombros e serviu saquê para ambos. Havia muitos shishi que partilhavam o fervor de Ori... e esqueciam Sun-tzu: Conheça seu inimigo como conhece a si mesmo, e ganhará cem batalhas.
— Torço para que você esteja certo. Enquanto isso, porém, descobrirei o máximo que puder. Ele me prometeu que amanhã vai mostrar um mapa do mundo... chamou-o de “atlas”.
— Como sabe que não será falso, inventado?
— Não é provável, eles não iriam falsificar um só para me mostrar. Talvez eu consiga até arrumar uma cópia, podíamos mandar traduzir... e também alguns de seus livros escolares. — O excitamento de Hiraga era cada vez maior. — Taira disse ainda que eles têm novas habilidades na arte das contas, ensinadas nas escolas, e medidores de astronomia chamados lon-gi-tude e la-ti-tude... — Ele pronunciou as palavras em inglês com dificuldade. —... que de alguma forma os guiam com fantástica precisão nos oceanos, a mil ri da terra. Baka que eu saiba tão pouco! Baka que eu não possa ler inglês!
— Mas vai aprender — declarou Ori. — Eu nunca saberei. Você será parte do nosso novo governo... eu nunca serei.
— Por que diz isso?
— Idolatro Sonno-joi. Já pensei no meu poema da morte e o falei... para Shorin, na noite do ataque. Baka que ele tenha morrido tão cedo.
Ori esvaziou seu copo, despejou as últimas gotas e pediu outra garrafa. Tornou a fitar Hiraga, os olhos contraídos.
— Ouvi dizer que lorde Ogama prometeu perdoar qualquer shishi de Choshu que renunciar publicamente a Sonno-joi.
Hiraga confirmou com um aceno de cabeça.
— Meu pai me escreveu para dizer isso. Nada significa para nós... para shishi de Choshu.
— Há um rumor de que Ogama controla os portões, excluindo todos os outros... e até que há novos combates entre suas tropas e os Satsumas.
— Muitos daimios se extraviam de vez em quando — comentou Hiraga calmamente.
Não lhe agradava o rumo da conversa; já havia notado que Ori se tornava cada vez mais belicoso. Raiko tornara a adverti-lo naquela noite de que Ori era um vulcão fumegante.
— Todos concordamos, Ori, não temos muito tempo, que não ficaríamos sujeitos aos feitos e malfeitos de nossos líderes hereditários.
— Se Ogama controla os portões, pode devolver o poder ao imperador e converter Sonno-joi em realidade.
— Talvez ele o faça, talvez até já o tenha feito.
Ori esvaziou o copo.
— Terei o maior prazer em deixar Iocoama. Há veneno no ar. Acho melhor você ir para Quioto comigo. Este ninho de mentirosos pode infeccioná-lo.
— Você estará mais seguro em Quioto sem a minha companhia. Mesmo mudando os cabelos, ainda posso ser reconhecido.
Uma súbita rajada de vento assoviou pelo telhado de colmo e sacudiu uma janela. Eles olharam por um instante e logo voltaram a beber. O saquê os relaxara, mas não dissipara as emoções, os pensamentos de morte, com o cerco cada vez mais apertado, a emboscada planejada contra o xógum Nobusada, Shorin e Sumomo e, acima de tudo, o que fazer com a moça gai-jin? Hiraga ainda não a mencionara, nem Ori fizera qualquer pergunta a respeito, mas ambos esperavam, contornando a questão central, impacientes, indecisos. Foi Ori quem rompeu o silêncio:
— Quando Akimoto chegar, amanhã, o quanto você vai lhe contar?
— Tudo o que sabemos. Ele viajará com você para Quioto.
— Não. É melhor que ele fique, pois você precisará de um guerreiro aqui.
— Por quê?
Ori deu de ombros.
— Dois podem fazer mais do que um. E agora me diga onde ela está. Hiraga descreveu o lugar. Com precisão.
— Não há barras nas janelas, nem na porta lateral, pelo que pude ver. Durante o dia inteiro ele especulara o que fazer com Ori. Se Ori entrasse na casa e matasse a mulher, poderia viver ou morrer, mas de qualquer forma toda colônia ficaria em tumulto e descarregaria seu ódio nos japoneses mais próximos.
— Concordo que ela é um alvo correto para Sonno-joi, Ori, mas ainda não, pelo menos enquanto eu continuar a ser aceito por eles e estiver descobrindo seu segredos.
— Um alvo tão perfeito deve ser atacado de imediato. Katsumata disse que hesitar é perder. Podemos arrancar esses segredos dos livros.
— Já disse que não concordo.
— Na mesma ocasião em que eu a matar, incendiamos a Yoshiwara e a colônia também ficará em chamas. Nós três aproveitaremos a confusão para escapar. Faremos isso daqui a três dias.
— Não.
— Eu disse sim! Dois ou três dias, não mais do que isso!
Hiraga pensou a respeito, avaliou a posição de Ori. Com o maior cuidado. E frieza. Para tomar de novo a mesma decisão:
— Está proibido.
A determinação categórica deixou Ori humilhado. Pela segunda vez em poucos dias. E, mais uma vez, por causa da mulher.
Não havia qualquer som na sala agora. Ambos mantinham-se impassíveis. Podiam ouvir o vento lá fora. De vez em quando, o papel oleado do shoji estalava. Ori tomou um gole de saquê, fervendo de raiva, numa determinação inexorável, mas nada deixando transparecer, sabendo que se tivesse os braços tão fortes quanto antes, com a mesma agilidade, estaria se aprontando para saltar em busca de sua espada, a fim de se defender do ataque, que seria inevitável, a menos que se submetesse.
Ora, não importa. Num confronto direto, mesmo que eu me encontrasse em perfeitas condições, Hiraga sempre conseguiria me acertar primeiro. Assim, ele deve ser afastado de meu caminho por outra forma.
Com uma vontade firme, a de sobrepujar o novo inimigo que estava determinado a frustrá-lo, Ori jurou que não seria o primeiro a romper o silêncio, e assim se humilhar. A pressão entre os dois foi aumentando. Em segundos, tornou-se insuportável, aproximando-se do auge...
Passos correndo. A porta de shoji foi aberta. Raiko apareceu, muito pálida.
— Há patrulhas de vigilantes do Bakufu na ponte e no portão. Vocês devem partir. Depressa!
Os dois ficaram consternados, esquecendo todo o resto. Foram pegar suas espadas.
— Eles virão à Yoshiwara? — perguntou Ori.
— Virão, em grupos de dois e três. Já fizeram isso antes. Evitam os gai-jin, mas não a nós.
A voz de Raiko tremia tanto quanto as mãos.
— Há uma saída segura através do arrozal?
— Não, Ori — respondeu Hiraga por ela, pois no dia anterior examinara o como uma possível rota de fuga. — A terra é plana, sem qualquer cobertura. Por uma ri. Se estão bloqueando a ponte e o portão, devem vigiar esse lado também.
— E o que me diz da área gai-jin, Raiko?
— A colônia? Eles nunca estiveram lá. Vocês de...
Ela virou-se, ainda mais assustada. Os dois homens desembainharam suas espadas pela metade, enquanto uma criada se aproximava, muito pálida.
— Estão vindo para cá, fazendo uma revista de casa em casa — balbuciou.
— Avise às outras.
A criada saiu correndo. Hiraga tentou pôr o cérebro para funcionar.
— Raiko, onde fica seu lugar seguro, seu porão secreto?
— Não temos nenhum — respondeu ela, retorcendo as mãos.
— Mas deve haver um, em algum lugar! Abruptamente, Ori adiantou-se e Raiko recuou, apavorada.
— Onde fica o caminho secreto para a colônia? Depressa!
Raiko quase desmaiou quando ele mudou a posição da mão no cabo da espada Embora Ori não a ameaçasse, ela sabia que se encontrava à beira da morte.
— Eu... para a colônia? Não tenho certeza, mas há muitos anos fui informada... eu tinha até esquecido. Não tenho muita certeza, mas, por favor, sigam-me sem fazer barulho.
Ficaram bem perto dela, embrenhando-se pelas moitas, indiferentes aos galhos que se empenhavam em lhes bloquear a passagem, a lua ainda clara, no alto do céu, entre as nuvens tangidas pelo vento. Quando chegou a uma parte oculta da cerca, entre sua estalagem e a seguinte, Raiko pressionou um nó na madeira. Um trecho da cerca se abriu, rangendo, as dobradiças de madeira meio emperradas da falta de uso.
Sem perturbar as pessoas que ali estavam, Raiko atravessou aquele jardim até o outro lado. Passou por um portão para outro jardim, deu a volta até os fundos, pulou uma estrutura baixa, de tijolos, à prova de fogo, que servia para guardar mercadorias valiosas, e se encaminhou para os tanques d’água, que eram enchidos em parte pela chuva, em parte por linhas de cules carregando baldes todos os dias. Ofegante, Raiko apontou a tampa de madeira de um dos poços.
— Acho... acho que é ali.
Hiraga empurrou a tampa para o lado. Havia toscas barras de ferro, enferrujadas, fincadas na parede de alvenaria, para servir de apoio aos pés e mãos, e nenhum sinal de água lá embaixo. Ainda apavorada, ela sussurrou:
— Disseram-me que leva a um túnel... não tenho certeza, mas pelo que me lembro, passa por baixo do canal. Não sei onde vai dar... esqueci por completo. E agora preciso voltar.
— Espere!
Ori postou-se na frente dela, depois pegou uma pedra, largou-a no poço. Ouviram o barulho distante de água.
— Quem fez isto?
— O Bakufu, pelo que me contaram, quando construíram a colônia.
— Quem a informou a respeito?
— Um dos criados... esqueci seu nome, mas ele os viu...
Todos olharam na direção da rua principal. Vozes iradas soavam ali.
— Tenho de voltar...
Raiko desapareceu pelo caminho por que viera. Apreensivos, os dois olharam para o fundo do poço.
— Se o Bakufu o construiu, Ori, pode ser uma armadilha, para pessoas como nós.
De uma das casas próximas, veio o som de vozes, gritando em inglês:
— Mas o que vocês querem aqui?
— Caiam fora!
Ori enfiou a espada comprida no cinto. Meio sem jeito, por causa do ombro, ele passou por cima da tampa e começou a descer. Hiraga seguiu-o, repondo a tampa no lugar. A escuridão era intensa, e depois de algum tempo os pés de Ori tornaram a pousar em chão firme.
— Tome cuidado. Acho que é uma saliência.
Sua voz soou abafada, com um estranho eco. Hiraga desceu tateando, foi se postar ao seu lado. Tirou alguns fósforos do bolso na manga, riscou um deles.
— Puxa, onde foi que você conseguiu isso? — indagou Ori, excitado.
— São encontrados por toda parte na legação... aqueles cães são tão ricos que os deixam espalhados. Taira disse que eu podia me servir à vontade. Olhe ali!
À última claridade do fósforo, eles divisaram a entrada do túnel. Estava seca, tinha a altura de um homem. A água enchia o poço, três metros abaixo. Havia uma vela antiga num nicho. Hiraga precisou gastar três fósforos para acendê-la.
— Vamos embora.
O túnel descia. Depois de cinqüenta passos, tornou-se úmido, com poças em alguns pontos, inundado em outros trechos. Uma água fétida vazava pelo teto e lados escorados de maneira tosca, a madeira apodrecida, insegura. À medida que foram avançando, o ar tornou-se mais desagradável, a respiração mais difícil.
— Podemos esperar aqui, Ori.
— Não. Vamos continuar.
Estavam suando, em parte por medo, em parte por causa do ar abafado. A chama tremeu, apagou. Praguejando, Hiraga tornou a acender, protegendo com a mão; não restava muito do pavio, nem da vela. Ele seguiu em frente, o nível da água subindo. O túnel continuava a descer, a água agora alcançava seus quadris. Ori escorregou, mas conseguiu recuperar o equilíbrio. Mais vinte ou trinta passos. A água continuava a subir. Chegou à cintura, o teto não muito acima de suas cabeças. E seguiram em frente. A vela diminuindo. Hiraga observava-a, praguejando.
— É melhor voltar e esperar na parte seca.
— Não. Vamos continuar até a vela apagar.
À frente, o túnel se projetava pela escuridão, o teto e a água quase se encontrando. Nauseado, Hiraga foi em frente, tomando cuidado com o fundo escorregadio. Mais passos. O teto quase se comprimia contra sua cabeça. Mais Passos e agora o teto subiu um pouco.
— O nível da água está baixando — murmurou ele, trêmulo de alívio. Passou a andar mais depressa, revolvendo a lama malcheirosa. Uma curva no túnel, o teto mais alto agora. E foram em frente. Pouco antes de a vela se extinguir por completo, avistaram terra seca e o final do túnel, um poço que subia e descia. Hiraga tateou pelo caminho, incapaz de ver qualquer coisa.
— Estou na beira agora, Ori. Preste atenção, pois vou jogar uma pedra.
A pedra demorou segundos e mais segundos, antes de ricochetear e bater no fundo.
— Deve ser uma queda de trinta metros ou mais — murmurou ele, sentindo um frio no estômago.
— Acenda outro fósforo.
— Só me restam três.
Hiraga acendeu um. Viram degraus de ferro, precários, enferrujados, subindo nada mais.
— Como teve certeza de que Raiko sabia disto?
— Foi uma idéia súbita. Tinha de haver um túnel... eu o teria construído, se estivesse no lugar deles. — A voz de Ori era rouca, a respiração pesada. — Podem estar esperando lá em cima, em emboscada. Vão nos empurrar de volta ou teremos de pular.
— É possível.
— Vamos subir logo. Detesto continuar aqui.
Também contrafeito, Hiraga ajeitou a espada comprida no cinto. Ori recuou, nervoso, a mão no cabo da espada. Abruptamente, os dois se fitaram, talvez perto da segurança, mas nada resolvido entre eles.
A chama do fósforo tremeu e apagou.
Na escuridão, não mais viam um ao outro. Sem pensar, ambos recuaram para as paredes do túnel, longe da beira. Hiraga, mais astuto no combate, abaixou-se, apoiado num joelho, a mão no cabo da espada, pronto para desferir um golpe nas pernas de Ori, se ele atacasse, os ouvidos aguçados, à espera do som de uma lâmina deixando a bainha.
— Hiraga! — A voz de Ori ressoou na escuridão, áspera, fora de alcance, distanciando-se pelo túnel. — Quero a mulher morta e irei em seu encalço... por Sonno-joi e por mim. Você quer ficar. Resolva o problema.
Hiraga levantou-se, em silêncio.
— Resolva você — disse ele, mudando de posição, sem fazer qualquer barulho.
— Não posso. Já tentei, mas não consigo encontrar uma solução.
Hiraga hesitou, esperando um truque.
— Primeiro, ponha suas espadas no chão.
— E depois?
— Como ela o obceca acima de Sonno-joi, não ficará armado perto de mim em Iocoama. Partirá para Quioto amanhã e contará tudo a Katsumata, que é o seu líder Satsuma. Quando você voltar, faremos tudo o que disse.
— E se eu não voltar?
— Então eu farei sozinho... no momento que julgar mais oportuno.
A voz de Ori tornou-se ainda mais áspera:
— Mas ela pode escapar, neh? E se ela for embora antes do meu retorno?
— Ficarei atento a qualquer notícia de uma viagem e lhe mandarei um aviso. Se você não puder chegar aqui a tempo, eu decidirei. Ela... e seu marido, se até lá estiverem casados... só irão até Hong Kong. Você... ou nós... podemos segui-los até lá.
Ele ouvia a respiração pesada de Ori e esperou, em guarda contra um súbito ataque, sabendo que não podia confiar no outro enquanto a mulher estivesse viva e próxima, mas aquele parecia ser o melhor plano no momento. Matá-lo seria um desperdício, refletiu Hiraga. Preciso de sua sabedoria.
— Você concorda?
Ele esperou. E esperou. Depois:
— Concordo. O que mais?
— Por último: a cruz, você vai jogá-la no poço.
Hiraga ouviu Ori aspirar fundo, em raiva. O silêncio foi se tornando mais e mais opressivo.
— Concordo, Hiraga-san. Por favor, aceite minhas desculpas.
No instante seguinte, os ouvidos aguçados de Hiraga captaram o leve ruído de pano sendo mexido, alguma coisa passou por ele, o retinir de metal batendo na parede do poço, a cruz despencando para o abismo. O som de espadas largadas no chão.
Hiraga acendeu um fósforo. Ori se encontrava de pé, indefeso agora. No mesmo instante, Hiraga se adiantou correndo. Ori recuou, em pânico, mas Hiraga apenas recolheu as espadas. Antes que o fósforo apagasse, ele teve tempo de jogar também as espadas no poço.
— Por favor, Ori, obedeça-me. Assim, nada terá a temer. Subirei primeiro. Espere até eu chamá-lo.
Os degraus estavam cobertos de ferrugem, alguns meio soltos. Era uma subida precária. Depois, lá em cima, Hiraga divisou, agradecido, a boca do poço, aberta para o céu, as estrelas cintilando entre as nuvens. Sons noturnos, o vento e o mar. Ele continuou a subir, com mais cautela ainda. Precisou de toda a sua força para se erguer acima da balaustrada de pedra e espiar ao redor.
O poço abandonado ficava perto da cerca do canal, numa terra de ninguém, ocupada por mato e juncos. A praia não era longe. Casas em ruínas, enormes buracos nos caminhos de terra. O rosnado de um cachorro à procura de comida nas proximidades. Vozes roucas cantando ao vento. Agora Hiraga sabia onde haviam saído. Na cidade dos bêbados.
Sexta-feira, 17 de outubro:
Na claridade da manhã, no castelo de Iedo, Misamoto — O pescador, falso samurai e espião de Yoshi — postava-se de joelhos, tremendo todo, na frente do alarmado Conselho de Anciãos, a versão inglesa da resposta de Sir William balançando em sua mão. Ao seu lado, apavorado, um funcionário do Bakufu.
— Fale, pescador! — repetiu Anjo, o ancião-chefe, a sala de audiência opressiva, tensa e gelada. — Não importa se não compreende todas as palavras em inglês. Queremos saber se o funcionário do Bakufu traduziu a mensagem com toda precisão. É isso exatamente o que a diz a mensagem dos gai-jinl
— É, sim... isto é, mais ou menos, Sire — balbuciou Misamoto, tão assustado que mal conseguia falar. — É como disse o honrado representante do Bakufu... mais ou menos, Sire... mais... ou...
— Tem alga marinha no lugar da língua e vísceras de peixe em vez de cérebro? Depressa! Lorde Toranaga diz que pode ler inglês... pois leia!
Uma hora antes, Anjo fora acordado pelo nervoso funcionário do Bakufu que trouxera a mensagem de Sir William, em inglês e holandês. Anjo convocara às pressas uma reunião do conselho, na qual o funcionário acabara de repetir sua tradução do holandês.
— O que diz o papel em inglês?
— Bom, Sire, é... num...
Outra vez a voz de Misamoto sumiu, sufocada pelo pânico. Exasperado, Anjo olhou para Yoshi.
— Esse cabeça de peixe é seu espião — disse ele, com a frieza na medida certa. — Foi idéia sua chamá-lo. Por favor, faça com que ele fale.
— Diga-nos o que está na mensagem, Misamoto — pediu Yoshi, a voz gelada, embora por dentro estivesse quase cego de frustração e raiva. — Ninguém vai lhe fazer mal. Diga com suas próprias palavras. A verdade.
— Bem, Sire, é mais ou menos... mais ou menos o que o nobre funcionário disse Sire... mas esta carta... não conheço todas as palavras, Sire... mas... mas...
Seu rosto se contraiu em medo. Yoshi esperou por um momento.
— Continue, Misamoto. Não tenha medo. Fale a verdade, qualquer que seja.
Ninguém vai tocar em você. Precisamos conhecer a verdade.
— Bem, Sire, o líder gai-jin... diz que vai para Osaca dentro de onze dias, como explicou o nobre funcionário, mas não para fazer uma “visita cerimonial”...
O pescador estremeceu sob o impacto de todos os olhares, tão apavorado que agora seu nariz corria, a saliva pingava do queixo, e depois acrescentou, falando muito depressa:
— Ele não está nada feliz, na verdade está bastante furioso e vai... vai a Osaca com sua esquadra, entrando em Quioto com toda a sua força, canhões de sessenta libras, cavalaria, soldados, para falar com o filho do céu e o lorde xógum... até deu seus nomes, Sire, imperador Komei e o menino Xógum, Nobusada.
Todos ficaram boquiabertos, até mesmo os guardas... normalmente impassíveis e que não deveriam escutar. Misamoto baixou a cabeça para o tatame e manteve-a assim. Yoshi apontou para o funcionário do Bakufu, que empalideceu por toda a atenção focalizada nele.
— Isso é correto?
— Visita cerimonial, Sire? Para seus augustos ouvidos, essa deve ser a tradução correta... o palavreado bárbaro é grosseiro e agressivo e deve ser interpretado, acredito com toda sinceridade, como uma visita cerimonial, uma...
— A mensagem fala em “canhões e cavalaria”, essas coisas?
— Em princípio, Sire, a men...
Para espanto de todos, Yoshi quase gritou:
— Sim ou não?
O funcionário engoliu em seco, consternado com a ordem para responder de forma tão direta, o que acontecia pela primeira vez em sua vida, desolado por estar sendo contestado devido à ignorância das regras e costumes elementares da diplomacia.
— Lamento informar que, em princípio, menciona essas coisas, mas tal impertinência é, sem dúvida, um equívoco e...
— Por que não traduziu com precisão?
— Para seus augustos ouvidos, Sire, é necessário interpretar...
— Essas pessoas augustas são nomeadas? Sim ou não?
— Seus nomes constam da mensagem, mas deve...
— Tais pessoas são indicadas por seus nomes corretos?
— Ao que me parece, Sire, os nomes devem ser inter...
— Escreva imediatamente uma tradução exata da mensagem!— As palavras firmes foram pronunciadas com suavidade, mas a veemência ricocheteou pelas paredes de pedra sem adornos. — Exata! E quero que todas as comunicações vindas deles ou para eles também sejam exatas. EXATAS! Um erro e sua cabeça vai rolar para o lixo! E agora saia! Misamoto, fez um bom trabalho. Espere lá fora, por favor.
Os dois homens se retiraram apressados, Misamoto praguejando contra seu infortúnio e o dia em que concordara em acompanhar Perry ao Japão, pensando que o Bakufu o receberia com todas as honras por seus conhecimentos excepcionais e lhe daria muito dinheiro... e o funcionário do Bakufu jurando vingança contra Yoshi e aquele pescador mentiroso, antes que o conselho tomasse a decisão por ele, um servidor sábio e correto, não poderia evitar.
Yoshi rompeu o silêncio, a mente trabalhando freneticamente para definir o movimento seguinte no incessante conflito.
— Não podemos permitir uma visita armada a Quioto! Isso prova o que venho dizendo há muito tempo: devemos contar com o apoio de homens que falem inglês e tradutores nos quais possamos confiar... e que nos informarão com precisão o que dizem suas torpes mensagens!
— Isso não é necessário — disse Toyama, a papada tremendo de fúria. — Essa impertinência gai-jin é insultuosa além da imaginação, equivale a uma declaração de guerra. Tamanha impertinência deve ser respondida com sangue.
Os guardas se agitaram, enquanto ele acrescentava:
— É uma declaração de guerra. Muito bem. Dentro de três ou quatro dias, comandarei o ataque de surpresa contra a colônia e acabarei com esse absurdo de uma vez por todas.
— Isso seria baka. Não podemos. Baka! — Anjo repetiu mais para os guardas do que para os outros, pois era muito fácil que um deles fosse um admirador secreto dos shishi, um partidário de sonno-joi. — Quantas vezes devo dizer que não podemos atacar ainda, nem mesmo um ataque de surpresa?
Toyama ficou ainda mais furioso.
— Yoshi-san — disse ele —, podemos esmagá-los e incendiar Iocoama, neh? Podemos, neh? Não posso suportar a vergonha! É demais!
— Tem razão, claro que podemos destruir Iocoama, com facilidade, mas Anjo-dono também está correto... não podemos atingir a esquadra. Sugiro que continuemos como antes... — Yoshi falava com uma serenidade que não sentia. — ... fornecendo-lhes sopa aguada, e sem peixe: ofereceremos uma reunião com o Conselho de Anciãos dentro de trinta dias, permitiremos que esse prazo seja reduzido nas negociações para oito dias e o protelamos pelo máximo possível.
— Só me encontrarei com aqueles cães no campo de batalha.
Yoshi conteve sua irritação.
— Tenho certeza que fará o que for decidido pelo roju, mas proponho que seja representado nessa reunião por um impostor... Misamoto.
— Hem?
Todos o fitaram, surpresos.
— Ele será um perfeito substituto.
Anjo interveio:
— Esse estúpido pescador nunca será...
— Vestido com roupas cerimoniais, que aprenderá a usar, em oito dias, tempo mais do que suficiente. Ele parece com um samurai agora, embora não aja como tal. Por sorte, não é estúpido, e se sente tão assustado que fará tudo o que ordenarmos. Mais importante ainda, ele nos dirá depois a verdade, que anda escassa por aqui.
Yoshi viu Anjo ficar vermelho. Os outros fingiram não perceber.
— E que mais, Yoshi-san?
— Realizaremos a reunião aqui no castelo.
— Inadmissível! — gritou Anjo.
— Claro que primeiro vamos propor Kanagawa — explicou-lhe Yoshi, exasperado — e depois nos permitiremos concordar em recebê-los aqui.
— Inadmissível! — insistiu Anjo, com a concordância dos outros.
— Com o castelo como isca, podemos protelar de novo, talvez até por mais um mês... a curiosidade deles vai prevalecer... e ao final só permitimos o acesso a uma área externa. Por que não o castelo? Todos os líderes gai-jin, por sua livre e espontânea vontade, ao nosso alcance? Podemos tomá-los como reféns, sua presença aqui nos dá uma dúzia de possibilidades de envolvê-los ainda mais.
Todos o fitaram, aturdidos.
— Tomá-los como reféns?
— Uma possibilidade, entre muitas — explicou Yoshi, paciente, sabendo que precisava de aliados na luta iminente.— Devemos usar astúcia e cordões de seda, a própria fraqueza dos gai-jin contra eles, não a guerra... até que possamos igualar com suas frotas.
— E até lá? — indagou Adachi. O homenzinho rotundo era o mais rico de todos e sua linhagem Toranaga comparável à de Yoshi. — Acredita realmente que devemos negociar com esses cães até termos esquadras equivalentes às deles?
— Ou canhões bastante grandes para mantê-los à distância de nossas praias. Só precisamos de um ou dois sacos de ouro para que eles se atropelem no empenho de nos vender os meios com que os expulsaremos de nossas águas. — Yoshi fez uma pausa, a expressão se tornando sombria. — Ouvi o rumor de que alguns emissários de Choshu já estão tentando comprar fuzis dos gai-jin.
— Aqueles cães! — exclamou Toyama, furioso. — Sempre Choshu. Quanto mais cedo os esmagarmos, melhor.
— E Satsuma também — murmurou Anjo, com a concordância geral. Ele olhou para Yoshi, antes de acrescentar: — E os outros!
Yoshi fingiu não compreender a insinuação de seu adversário. Não importa, pensou ele, o dia está chegando.
— Podemos lidar com todos os inimigos, um de cada vez... não juntos. Toyama declarou, em tom ríspido:
— Voto para ordenarmos a todos os daimios amigos que aumentem os impostos e tratem de se armar. Eu começarei amanhã.
— “Aconselhar” é uma palavra melhor — interveio Adachi, cauteloso, e esvaziou sua xícara de chá. Flores delicadas ornamentavam as bandejas laqueadas postas diante de todos. Ele reprimiu um bocejo, entediado, ansioso em voltar para a cama. — Por favor, Yoshi-dono, continue a apresentar seu plano. Se não conhecermos todos os detalhes, como poderemos votá-lo?
— Na manhã da reunião, Anjo-sama cairá doente, infelizmente, sentimos muito. Como nem todos os roju estarão presentes, não poderemos tomar decisões definitivas, mas escutaremos tudo, e tentaremos chegar a um acordo. Se não for possível, então concordaremos, com a deferência apropriada, em “apresentar seu desejos ao conselho pleno, assim que possível”... e continuaremos a protelar, até deixá-los tão furiosos que eles é que cometerão um erro, e não nós.
— Por que eles haveriam de concordar com outro adiamento? — perguntou Anjo, contente porque não teria um confronto pessoal com os gai-jin, mas desconfiando de Yoshi, e especulando qual seria a manobra escusa.
— Os cães já provaram que preferem conversar a lutar, são covardes — disse Yoshi. — Embora pudessem nos dominar com facilidade, é evidente que não têm coragem suficiente para isso.
— E se eles não concordarem, e esse insolente macaco inglês cumprir sua ameaça, e partir para Quioto? O que faremos então? Não podemos permitir isso, em quaisquer circunstâncias!
— Concordo — disse Yoshi, decidido, e todos ficaram tensos. — Isso significa guerra... uma guerra que acabaremos perdendo.
Toyama protestou no mesmo instante:
— É melhor guerrearmos como homens do que nos tornarmos escravos, como os chineses, indianos e todas as outras tribos de bárbaros! — O velho examinou Yoshi. — Se eles desembarcarem, você votará pela guerra?
— Mas claro que sim! Qualquer tentativa de desembarcar à força... em qualquer lugar... será enfrentada.
— Ainda bem — disse Toyama, satisfeito.— Neste caso, torço para que eles tentem desembarcar.
— A guerra seria ruim. Creio que eles vão preferir conversar e podemos manobrá-los para que desistam dessa loucura. — A voz de Yoshi tornou-se mais áspera. — E será possível, se formos bastante espertos. Enquanto isso, devemos nos concentrar em questões mais importantes... como Quioto, e recuperar o controle dos portões, como os daimios hostis, como obter ouro suficiente para comprar armas, modernizar e equipar nossas forças... e as forças de nosso aliados de confiança... e não permitir que Choshu, Tosa e Satsuma se armem sob o pretexto de nos apoiarem, mas com a intenção secreta de nos atacarem.
— O traidor Ogama deve ser proscrito — declarou Toyama. — Por que não o condenamos publicamente e retomamos os portões?
— Atacá-lo agora seria baka! — respondeu Anjo, irritado. — Serviria apenas para empurrar Satsuma e Tosa para seus braços, assim como outros que se mantém em cima da cerca.
Ele mudou de posição, desconfortável, o estômago doendo, a cabeça doendo, sem encontrar alívio com o novo médico chinês que consultara em segredo.
— Vamos combinar o seguinte: Yoshi-dono, por favor, prepare uma resposta aos gai-jin, a ser aprovada na reunião de amanhã.
— Certo. Mas o que eu quero saber agora é quem está lhes revelando nossos segredos. Quem é o espião dos gai-jin? É a primeira vez que eles mencionam o “jovem” xógum e dão o seu nome, assim como o do imperador. Alguém está nos traindo.
— Vamos empenhar todos os nossos espiões para descobrir isso! Otimo! Voltaremos a nos reunir amanhã de manhã como sempre, analisaremos o esboço da resposta e decidiremos quanto ao seu plano.— Os olhos de Anjo se estreitaram. — E cuidaremos dos preparativos finais da partida do xógum Nobusada para Quioto.
O sangue se esvaiu do rosto de Yoshi.
— Já discutimos isso uma dúzia de vezes. Em nossa última re...
— A visita será realizada! Ele viajará pela estrada do norte, em vez da Tokaidô. Será mais seguro.
— Como guardião, eu me oponho à visita, pelas razões já enunciadas várias vezes... por qualquer estrada!
Toyama interveio:
— É melhor para meu filho ficar em Quioto. Estaremos em guerra muito em breve. Nossos guerreiros não poderão ser contidos por muito mais tempo.
— Não haverá guerra nem visita! — insistiu Yoshi, furioso. — Qualquer das duas coisas nos destruirá. No momento em que um xógum demonstrar submissão, como Nobusada pretende fazer, nossa posição estará arruinada para sempre. O legado declara...
Anjo interrompeu-o:
— O legado não pode prevalecer neste caso.
— O legado Toranaga é nossa única âncora e não podemos...
— Não concordo!
Quase sufocando de raiva, Yoshi fez menção de se levantar, mas foi detido pelas palavras seguintes de Anjo:
— Há uma última questão a decidir hoje: a designação imediata do novo ancião, o substituto de Utani.
Surgiu uma tensão intensa no conselho. Desde o assassinato de Utani, assim como pela maneira de sua morte — o quarto em que ele e o rapaz haviam sido ernpalados não fora completamente destruído pelas chamas — e o fracasso das legiões de espiões e soldados em capturar os assassinos, todos os anciãos dormiam com profunda apreensão. Anjo, em particular, ainda se afligia por seu quase assassinato. Exceto por Yoshi, que de vez em quando recebia o apoio de Utani, Nenhum dos outros lamentava sua morte ou como ocorrera, Anjo ainda menos, porque ficara chocado ao descobrir a identidade do amante e passara a abominar Utani ainda mais, pelo roubo em segredo de seu prazer ocasional.
— Vamos votar agora.
— Uma questão de tamanha importância deve esperar até amanhã.
— Sinto muito, Yoshi-sama, mas este é o momento perfeito.
Adachi acenou com a cabeça.
— A menos que o conselho esteja completo, não podemos tomar decisões importantes. Quem você propõe?
— Faço a indicação formal de Zukumura de Gai.
Apesar de seu controle, Yoshi não pôde reprimir uma exclamação de espanto, já que o daimio era um simplório, parente e aliado ostensivo de Anjo.
— Já manifestei minha desaprovação a ele... uma dúzia melhores — declarou Yoshi. — E concordamos com Gen Taira.
— Eu não concordei. — Anjo sorriu apenas com um movimento da boca — Só disse que o consideraria com o devido cuidado. Foi o que fiz e concluí que Zukumura é uma escolha melhor. Agora, vamos votar.
— Não creio que uma votação neste momento seja sensata ou acon...
— Vamos votar! Como conselheiro-chefe, é meu direito submeter qualquer questão à votação! E digo que temos de votar agora!
— Eu voto não! — disse Yoshi, lançando um olhar furioso para os outros dois.
Adachi desviou os olhos, e murmurou:
— Gai tem sido aliado de Muto desde Sekigahara. Sim. Toyama deu de ombros.
— O que vocês quiserem.
Yoshi golpeou violentamente seus dois oponentes com a espada de madeira, o suor escorrendo pelo rosto, recuou, girou, atacou de novo. Os dois homens, hábeis espadachins, desviaram-se para o lado e desfecharam seu próprio ataque, sob a ordem de saírem vitoriosos, o fracasso lhes custando um mês de confinamento nos alojamentos e três meses de pagamento.
Com a maior astúcia, um dos homens fez uma finta, a fim de proporcionar uma abertura ao outro, mas Yoshi se encontrava preparado, esquivou-se sob o golpe e acertou o homem no peito, a espada quebrando com a força do golpe — se a lâmina fosse de verdade, teria quase cortado o homem em dois — e assim eliminando-o da disputa.
No mesmo instante, o outro se adiantou, confiante, para o golpe final, mas Yoshi já não se postava mais no lugar onde deveria estar, abaixando-se quase até o chão e desferindo um golpe de karatê com o pé. O atacante gemeu em agonia quando o lado do pé de Yoshi, duro como ferro, atingiu-o no escroto, fazendo-cair ao chão a se contorcer de dor. Ainda dominado pela raiva, a adrenalina fluindo —Yoshi saltou para o homem caído, erguendo a espada partida, que seria cravada no pescoço do oponente, para o golpe mortal. Mas ele deteve o golpe a uma fração do pescoço, o coração batendo forte, extasiado com sua habilidade e controle, por não ter falhado desta vez, a vitória nada significando. Sua fúria acumulada se dissipou.
Contente agora, ele jogou para o lado a espada de madeira quebrada e começou a relaxar, a sala de exercício despojada, como o resto do castelo. Todos se recuperavam do esforço intenso, o homem no chão ainda se contorcia em dor. Foi nesse instante que Yoshi se surpreendeu ao ouvir palmas suaves. Virou-se, furioso — por seu costume, ninguém jamais era convidado a testemunhar aqueles exercícios, nos quais se podia avaliar a extensão de suas proezas, determinar suas fraquezas e medir sua brutalidade —, mas a raiva também se desvaneceu.
— Hosaki! Quando você chegou? — disse ele, tentando recuperar o fôlego. — Por que não enviou um mensageiro para me avisar de sua vinda?
Yoshi fez uma pausa, o sorriso sumindo.
— Problemas?
— Não, Sire — respondeu a esposa, feliz, ajoelhando-se ao lado da porta. — Nenhum problema, apenas uma abundância de prazer por vê-lo de novo.
Ela fez uma reverência profunda, a saia e o blusão de montaria de seda verde, trajes modestos e marcados por muitas viagens, assim como o sobremanto acolchoado, também verde, o chapéu largo, amarrado sob o queixo, e a espada curta na obi.
— Por favor, desculpe-me por aparecer assim, sem ser convidada e sem trocar de roupa antes, mas não podia esperar para vê-lo... e agora me sinto ainda mais satisfeita, por saber que é um espadachim melhor do que nunca.
Ele fingiu não estar deliciado, adiantou-se, fitou-a nos olhos, inquisitivo.
— Realmente nenhum problema?
— Nenhum, Sire.
Ela estava radiante, com uma adoração ostensiva. Dentes brancos, olhos escuros, num rosto clássico, que não era atraente nem comum, mas não seria esquecido, toda a sua presença irradiando extrema dignidade. Nove anos antes, quando Yoshi tinha dezessete anos, o pai lhe dissera:
— Yoshi, escolhi uma esposa para você. Sua linhagem é Toranaga, como a nossa, embora do ramo menor de Mitowara. Ela se chama Hosaki, significando uma “espiga de trigo”, na língua antiga, um presságio de abundânciae fertilidade, e também “ponta de lança”. Não creio que ela venha a lhe falhar em qualquer das duas capacidades...
E não falhara mesmo, pensou Yoshi, orgulhoso. Já tinham dois lindos filhos e uma filha, e ela ainda é forte, sempre sábia, uma competente administradora de nossas finanças, e, o que é raro numa esposa, bastante agradável na cama, embora sem o fogo da minha consorte ou parceiras de prazer, Koiko em particular.
Ele aceitou uma toalha seca do oponente que saíra ileso e acenou com a mão para dispensá-los. O homem fez uma reverência, em silêncio, ajudou o outro a se levantar, e os dois saíram.
Yoshi ajoelhou-se perto da esposa, enxugando o suor.
— E então?
— Não é seguro aqui, neh? — sussurrou ela.
— Nenhum lugar é seguro.
— Primeiro — acrescentou Hosaki, em voz normal —, primeiro, Yoshi-chan, vamos cuidar de seu corpo: um banho, uma massagem e, depois, conversaremos.
— Boa idéia. Há muito que conversar.
— Há, sim. — Sorrindo, ela se levantou e, em resposta a seu olhar inquisitivo tomou a tranquilizá-lo: — Está tudo bem no Dente do Dragão, seus filhos com plena saúde, sua consorte e o filho dela felizes, seus capitães e servidores atentos e bem armados... tudo como você haveria de querer. Apenas decidi fazer uma visita, num súbito capricho... só para vê-lo e conversar sobre a administração do castelo.
E também por querer ir para a cama com você, meu belo, pensou Hosaki e seu coração secreto, contemplando-o, as narinas absorvendo seu cheiro masculino consciente de sua proximidade, e ansiando, como sempre, por sua força.
Enquanto se encontra longe, Yoshi-chan, posso me manter calma, na maior parte do tempo, mas perto de você... Torna-se então muito difícil, embora eu finja — e como finjo! —, não consigo esconder o ciúme das outras e me comportar como uma esposa perfeita. Mas isso não significa que eu, como todas as esposas não sinta um ciúme violento, às vezes no nível da loucura, desejando matar ou ainda melhor, mutilar as outras, querendo ser desejada e levada para a cama com uma paixão igual.
— Passou muito tempo ausente, marido — murmurou ela, gentilmente, querendo que Yoshi a possuísse agora, no chão, impetuoso, como imaginava que os jovens camponeses faziam.
Era quase meio-dia e um vento suave varria o céu. Estavam no santuário mais íntimo de Yoshi, um conjunto de três aposentos, com tatames, e um banheiro, junto de uma ameia no canto. Hosaki servia-lhe chá, com a elegância de sempre. Desde criança que estudara a cerimônia do chá, assim como Yoshi, mas agora ela se tomara uma sensei, uma mestra do chá. Ambos haviam se banhado e sido massageados. As portas se achavam trancadas, os guardas de vigia, as criadas dispensadas. Yoshi usava um quimono engomado, ela um quimono largo, de dormir, os cabelos soltos.
— Depois de nossa conversa, acho que vou descansar. Assim, estarei com a cabeça desanuviada para esta noite.
— Montou durante todo o percurso?
— Isso mesmo, Sire.
A viagem fora bastante árdua, com pouco sono, troca de cavalos a cada três ri, cerca de quinze quilômetros.
— Quanto tempo levou?
— Dois dias e meio. Trouxe apenas vinte servidores, sob o comando do capitão Ishimoto.— Hosaki riu. — Eu precisava mesmo da massagem e do banho. Mas, primeiro...
— Quase dez ri por dia? Por que a marcha forçada?
— Em grande parte para o meu prazer — respondeu ela, jovial, sabendo que havia tempo suficiente para as más notícias. — Mas, primeiro, Yoshi-chan, para o seu prazer.
— Obrigado.
Yoshi tomou o chá verde fino da xícara ming, largou-a ao terminar, observando e esperando, impressionado com o controle e tranquilidade da esposa. Após ervir de novo, tomar um gole de seu chá, ela também largou a xícara e disse suavemente:
— Decidi vir até aqui sem demora porque ouvi rumores inquietantes e precisava tranquilizar a mim mesma e a seus capitães de que você estava bem... rumores de que você corria perigo, que Anjo mobilizava o conselho contra você, que o atentado dos shishi contra ele e o assassinato de Utani eram parte de uma grande escalada de Sonno-joi, que a guerra é iminente, partindo de dentro e de fora, e que Anjo continua a trair, a você e a todo o xogunato. Ele deve estar insano para permitir que o xógum e sua esposa imperial viajem para Quioto, numa demonstração de submissão.
— Tudo isso é verdade ou verdade parcial — respondeu Yoshi, com igual serenidade, deixando a esposa angustiada. — As más notícias viajam com as asas do falcão, Hosaki, neh? Tudo é pior por causa dos gai-jin.
Ele relatou seu encontro com os estrangeiros, falou sobre Misamoto, o espião, e contou com mais detalhes as intrigas no castelo... mas não sobre a suspeita da ligação de Koiko com os shishi. Hosaki jamais compreenderia como ela é excitante e essa informação a torna ainda mais excitante, pensou Yoshi. Minha esposa aconselharia o imediato afastamento de Koiko, a investigação e punição, não me dando sossego enquanto isso não fosse feito. Ele concluiu com a presença da esquadra estrangeira às suas portas, a mensagem e a ameaça de Sir William e a reunião daquele dia.
— Zukumura? Um ancião? Aquele cabeça de peixe senil? Um dos seus filhos não casou com uma sobrinha de Anjo? O velho Toyama não votou por ele, não é mesmo?
— Toyama limitou-se a dar de ombros e disse: “Ele ou outro, nada significa, entraremos em guerra em breve. Tenham quem quiserem.”
— Ou seja, na melhor das hipóteses, serão três contra dois, você perdendo.
— Isso mesmo. Agora, não há como conter Anjo. Ele pode fazer o que quiser, votar para aumentar seus poderes, promover-se a tairo, qualquer estupidez que imaginar... como a absurda viagem de Nobusada a Quioto.
Yoshi sentiu outra vez uma pressão no peito, mas tratou de ignorá-la, satisfeito pela oportunidade de falar com franqueza... ao máximo de que era capaz, confiando nela mais do que em qualquer outra pessoa.
— Os bárbaros eram como os imaginava, Sire?
Tudo neles a fascinava. “Conheça seu inimigo como a si mesmo...” Sun-tzu
Era o principal livro de aprendizado de Hosaki e suas quatro irmãs e três irmãos, tanto como as artes marciais, caligrafia e a cerimônia do chá. Ela e as irmãs também haviam estudado, com a mãe e as tias, tudo sobre a terra e administração financeira, assim como métodos práticos de lidar com homens de todas as classes, e o futuro e a suprema importância. Ela nunca se destacara nas artes marciais, embora soubesse usar uma faca bastante bem.
Yoshi contou a ela tudo o que podia se lembrar, inclusive o que Misamoto dissera sobre a parte das Américas conhecida como Califórnia... e às vezes chamada de terra da montanha de ouro. Os olhos de Hosaki se contraíram, mas ele não percebeu.
Quando Yoshi acabou, ela ainda tinha mil perguntas, mas controlou-se deixando-as para mais tarde, não querendo cansá-lo.
— Ajuda-me a ver tudo com clareza, Yoshi-chan, é um observador extraordinário. O que decidiu?
— Nada, por enquanto... Eu gostaria que meu pai estivesse vivo, sinto falta de seus conselhos... e também dos conselhos da mãe.
— Posso compreender.
Hosaki sentia-se contente por ambos estarem mortos, o pai dois anos antes os problemas da velhice agravados pelo confinamento a que fora submetido por Li — ele tinha cinqüenta e cinco anos —, e a mãe na epidemia de varíola do ano passado. Ambos haviam tornado angustiante a vida de Hosaki, ao mesmo tempo em que mantinham Yoshi sob seu encantamento. Na opinião dela, o pai não cumpria seu dever com a família, tomando decisões erradas com mais frequência do que as certas, enquanto a mãe sempre fora a sogra mais destemperada e difícil de agradar que já conhecera, pior com ela do que com as esposas dos três irmãos de Yoshi.
A única coisa inteligente que eles fizeram em toda a sua vida, refletiu Hosaki, foi concordarem com a proposta de casamento com Yoshi Toranaga apresentada por meu pai. Por isso, tenho de lhes agradecer. Agora, reino sobre o Dente do Dragão e nossas terras, que passarão para meus filhos, fortes, inviolados e dignos do lorde xógum Toranaga.
— É uma pena que eles tenham partido — murmurou Hosaki. — Vou ao santuário deles todos os dias e suplico para ser digna da confiança que me dispensavam.
Yoshi suspirou. Desde a morte da mãe que sentia um vazio, mais ainda do que depois da morte do pai, a quem admirava, mas temia. Sempre que tinha um problema, ou estava com medo, sabia que podia procurá-la, e seria tranquilizado, orientado, receberia uma nova força. Ele murmurou, muito triste:
— Karma que a mãe tenha morrido tão jovem.
— Tem razão, Sire.
Hosaki compreendia a tristeza do marido, pois a mesma coisa ocorria com todos os filhos, cujo primeiro dever é obedecer e respeitar a mãe acima de todas as pessoas... e pela vida inteira. Nunca poderei preencher esse vazio, assim como as esposas dos meus filhos jamais preencherão o que vou deixar.
— Qual é o seu conselho, Hosaki?
— Tenho pensamentos demais para tantos problemas — respondeu preocupada, a mente absorvendo o mosaico de perigos que vinham de todos os lados.— Sinto-me inútil neste momento. Deixe-me pensar com cuidado, esta noite e amanhã... talvez eu possa sugerir alguma coisa que lhe dará uma indicação do que deve fazer e depois, com sua permissão, voltarei para casa no dia seguinte, já que pelo menos uma coisa é certa: precisamos reforçar nossas defesas. Deve me dizer o que fazer. Enquanto isso, permita-me algumas observações imediatas, para sua consideração: aumentar a vigilância de seus guardas e mobilizar discretamente todas as suas forças.
— Eu já havia tomado essa decisão.
— Esse gai-jin que o abordou depois da reunião, um francês, pelo que disse... sugiro que aceite seu oferecimento, para ver com seus próprios olhos o interior de um navio de guerra. É muito importante que você mesmo veja... talvez até possa fingir que se torna amigo deles, para depois jogá-los contra os ingleses, neh?
— Também já havia decidido isso.
Ela sorriu para si mesma, baixou a voz ainda mais:
— Por mais difícil que seja, Anjo deve ser removido, em caráter permanente... e quanto mais cedo, melhor. Como é provável agora, você não pode evitar que o xógum e a princesa partam para Quioto... Concordo que ela é, corretamente, do seu ponto de vista, a espiã da corte, uma títere e inimiga. Assim, você deve partir em segredo, logo depois deles, e correr para Quioto, pela Tokaidô, que é mais curta, e chegar lá antes... Sorri, Sire?
— Só porque você me agrada. E quando chegar a Quioto?
— Deve se tornar o confidente do imperador... temos amigos na corte que o ajudarão. Depois, uma possibilidade entre dezenas: fazer um acordo secreto com Ogama de Choshu, deixá-lo com o controle dos portões... — Hosaki hesitou, enquanto o marido ficava vermelho. — ...mas apenas enquanto ele for seu aliado declarado contra Satsuma e Tosa.
— Ogama jamais acreditaria que eu cumpriria esse acordo... e pode ter certeza que eu não o faria, pois precisamos recuperar os portões a qualquer custo.
— Concordo. Mas a parte final do pacto pode ser outra, se ele concordar numa aliança para um ataque de surpresa a lorde Sanjiro, de Satsuma, no momento em que você escolher. Depois que Sanjiro for derrotado, Ogama lhe devolve os portões, e fica em troca com Satsuma.
Yoshi franziu o rosto ainda mais.
— É muito difícil derrotar Sanjiro por terra, quando ele se entrincheira por trás de suas montanhas... nem mesmo o xógum Toranaga atacou Satsuma depois de Sekigahara, apenas aceitou a submissão pública, os juramentos de fidelidade e controlou-os com gentilezas. E não podemos desfechar um ataque por mar.
Ele pensou por um momento.
— É um sonho, não uma possibilidade concreta. Muito difícil, mas... quem sabe? A próxima sugestão.
— Remover Nobusada em seu caminho para Quioto... é uma chance única.
— Nunca! — Yoshi sentia-se chocado por Hosaki ter pensado da mesma forma que ele ou, então, o que seria ainda pior, ter percebido seu desejo mais secreto. — Seria trair o legado, minha herança, tudo pelo que o lorde xógum Toranaga se empenhou. Aceitei-o como meu suserano, como não podia deixar de fazer.
— Tem toda razão — disse ela no mesmo instante, apaziguando-o, já fazendo uma reverência, preparada e esperando tal reação, mas precisando articulá-la para ele. — Foi baka de minha parte. Concordo completamente. Sinto mui...
— Ainda bem. Nunca mais pense ou diga isso.
— Claro. Por favor, perdoe-me.
Hosaki manteve a cabeça inclinada pelo tempo apropriado, murmurando desculpas, depois inclinou-se para a frente, tornou a encher a xícara de Yoshi recostou-se, olhos abaixados, esperando que ele lhe pedisse para continuar.
Nobusada deveria ter sido eliminado por seu pai, Yoshi, pensou ela, calmamente... e me espanta que você nunca tenha compreendido isso. Seu pai e mãe — que deveriam lhe dar os conselhos corretos — falharam em seu dever quando aquele menino estúpido foi proposto para xógum, em seu detrimento, pelo traidor Li. Foi Li quem nos impôs a prisão domiciliar, destruiu nossa paz por anos, quase causou a morte de nosso filho mais velho, por causa dos meses em que ficamos tão confinados que todos passamos fome. Sabíamos que ele faria isso muito antes que acontecesse. Afastar Nobusada sempre foi o caminho óbvio, por mais herética e desagradável que seja tal ação, o único meio de proteger nosso futuro. Se você não quer considerar isso, Yoshi, eu mesma encontrarei uma maneira...
— Foi um mau pensamento, Hosaki. Terrível!
— Concordo, Sire. Por favor, aceite minhas humildes desculpas. — Ela tornou a encostar a cabeça no tatame. — Foi uma estupidez. Não sei de onde vem tanta estupidez. Tem toda razão, é claro. Talvez seja porque me sinta angustiada com os perigos que lhe cercam. Por favor, Sire, permite que eu me retire?
— Daqui apouco. Agora...
Um pouco abrandado, Yoshi gesticulou para que ela servisse mais chá, ainda atordoado pela esposa ter ousado expressar tamanho sacrilégio, até mesmo para ele.
— Posso mencionar um outro pensamento, Sire, antes de ir embora?
— Pode, desde que não seja tão estúpido quanto o último.
Ela quase riu da farpa petulante de menino, que não chegava a penetrar nem mesmo em suas defesas externas.
— Disse, Sire, que o problema mais importante e imediato a resolver com os gai-jin é como afundar suas esquadras ou manter seus canhões longe de nossas praias, neh?
— Isso mesmo.
— Pode-se montar canhões em barcaças?
— Como? — Ele franziu o rosto, desviando o pensamento de Nobusada devido a esse novo rumo na conversa. — Acho que sim. Por quê?
— Podemos descobrir com os holandeses. Eles nos ajudariam. Talvez pudéssemos construir uma frota defensiva, mesmo difícil de manobrar, ancorando barcaças no mar, em acessos estratégicos às nossas áreas mais importantes, como nos estreitos de Shimonoseki, e fortificando as entradas de todas as nossas enseadas — Por sorte, são bem poucas, neh?
— Talvez seja possível — admitiu Yoshi, a idéia nunca tendo lhe ocorrido. — Mas não disponho de dinheiro ou ouro em quantidade suficiente para comprar todos os canhões necessários às baterias em terra, muito menos para construir uma frota assim. Nem tempo suficiente, conhecimento ou riqueza para abrir nossas próprias fábricas... nem os homens para operá-las.
— É verdade, Sire. Está sendo sábio. — Uma pausa, e Hosaki, com uma cara triste, respirou fundo. — Todos os daimios estão empobrecidos, cheios de dívidas... e nós tanto quanto os outros.
— Hem? — gritou ele. — A colheita?
— Sinto muito trazer más notícias. Menor que a do ano passado.
— Quanto menor?
— Um terço.
— É uma péssima notícia, logo no momento em que eu precisava de uma receita extra! — Yoshi cerrou o punho. — Os camponeses são todos baka!
— Sinto muito, mas a culpa não é deles, Yoshi-chan. As chuvas vieram muito tarde ou muito cedo, o sol também. Os deuses não sorriram para nós este ano.
— Não há deuses, Hosaki-chan, mas há karma. É karma termos uma péssima colheita... mas mesmo assim você terá de pagar os tributos.
Os olhos de Hosaki brilhavam com lágrimas.
— Haverá fome no Kwanto antes da próxima colheita... e se isso acontece conosco, que temos a terra mais fértil para o plantio de arroz em todo o Nipão, o que será dos outros?
A lembrança da grande fome, quatro anos antes, ressurgiu na mente de ambos. Milhares de pessoas morreram de fome, dezenas de milhares nas epidemias inevitáveis que se seguiram. E na outra grande fome, ainda maior, vinte anos antes, centenas de milhares haviam morrido.
— Esta é de fato a terra das lágrimas.
Yoshi balançou a cabeça, distraído. Quando falou, a voz saiu áspera:
— Você vai aumentar os tributos por uma décima parte, todos os samurais receberão uma décima parte a menos. Falaremos com os emprestadores de dinheiro. Eles podem aumentar nossos empréstimos. O dinheiro será gasto em armamentos.
— Está certo. — Uma pausa e Hosaki acrescentou, com extremo cuidado: — Estamos numa situação melhor do que a maioria, só comprometemos a colheita do próximo ano. Mas será difícil conseguir taxas de juros normais.
— O que sei ou me importo com taxas de juros? — disse ele irritado, a cara garrada. — Faça o melhor acordo que puder. Talvez tenha chegado o momento de propor ao conselho um ajuste das “taxas de juros”, como meu bisavô.
Há sessenta e tantos anos, o xógum, sufocado sob o peso das dívidas do pai, oito anos de futuras colheitas empenhados, como todos os daimios, e espicaçado pela crescente arrogância e desdém da classe dos mercadores, decretara abruptamente que todas as dívidas estavam canceladas e todas as colheitas futuras livres de dívidas.
Em dois séculos e meio, desde Sekigahara, esse decreto extremo fora promulgado quatro vezes. Causava o caos em todo o país. O sofrimento em todas as classes era imenso, em particular entre os samurais. Os mercadores de arroz, que eram os principais emprestadores de dinheiro, pouco podiam fazer. Muitos foram à bancarrota. Uns poucos cometeram seppuku. Os demais se retraíram da melhor forma que podiam e sofreram também com o desespero geral.
Até a próxima colheita. Os plantadores precisavam, então, dos mercadores e todas as pessoas precisavam de arroz; assim, com o maior cuidado, as vendas eram efetuadas e o dinheiro escasso — e, por isso mesmo, bastante caro — era emprestado para sementes e ferramentas, contra a próxima colheita. Aos poucos de forma modesta, o dinheiro e o crédito alcançavam os samurais, contra seus rendimentos esperados, para subsistência e diversão, sedas e espadas. Não demorava muito para que o excesso de gastos dos samurais se tornasse endêmico. Com uma cautela ainda maior, os emprestadores de dinheiro retomavam suas atividades. Logo era preciso lhes oferecer atrativos, mesmo com relutância, como certidões de samurai, adquiridas para alguns filhos, e tudo em breve voltava a ser como antes, com os feudos penhorados.
— Talvez deva mesmo fazer isso, Sire.— Hosaki sentia a mesma repugnância que o marido pelos emprestadores de dinheiro. — Tenho estoques secretos de arroz contra a fome. Seus homens poderiam ficar famintos, mas não morreriam de inanição.
— Ótimo. Negocie esses estoques por armas de fogo.
— Sinto muito, mas a quantidade não seria significativa — disse ela, gentilmente, consternada com a ingenuidade de Yoshi, e se apressou em acrescentar, para desviá-lo desse assunto: — Por outro lado, os tributos não proporcionarão o dinheiro que os gai-jin vão exigir.
— Neste caso, teremos de recorrer aos emprestadores de dinheiro. Faça qualquer coisa que for necessária. Preciso das armas.
— Está bem. — Hosaki deixou o silêncio se prolongar e, depois, bem devagar, começou a expor um plano por muito tempo ponderado: — Algo que me disse antes de sair de casa me deu uma idéia, Sire. A pequena mina de ouro em nossas montanhas ao norte. Proponho aumentarmos a força de trabalho.
— Mas disse-me muitas vezes que a mina já foi quase exaurida e produz menos receita a cada ano.
— É verdade, mas você me fez compreender que nossos mineiros não são especialistas e me ocorreu que, onde há um veio, pode haver outros também se tivéssemos especialistas para procurá-los. Talvez nossos métodos sejam antiquados. Pode haver técnicos no assunto entre os gai-jin.
Ele fitou-a nos olhos.
— Como assim?
— Conversei com Velho Fedorento... — Era o apelido de um holandês, que anos antes fora mercador em Deshima, contratado para ser um dos tutores de Yoshi e induzido a ficar, com o presente de criadas, uma jovem consorte e muito saquê, até se tornar tarde demais para partir.— Ele me contou sobre uma enorme corrida do ouro na terra da montanha de ouro que você mencionou, há apenas treze anos, quando gai-jin de todas as nações foram roubar uma fortuna da Terra. Houve outra corrida do ouro parecida, há poucos anos, num lugar ao sul daqui... ele chamou-o de terra de van Diemen. Deve haver homens em Iocoama que participaram de uma ou de outra. Especialistas!
— E se eles existirem? — indagou Yoshi, pensando em Misamoto.
— Sugiro que lhes ofereça passagem segura e metade do ouro que descobrirem no prazo de um ano. Há muitos americanos e aventureiros na colônia, pelo que fui informada.
— Gostaria de ver os gai-jin vagueando por nossas terras, espionando tudo?
Hosaki balançou a cabeça, depois inclinou-se para a frente, sabendo que tinha a atenção total do marido.
— Mais uma vez, foi você quem proporcionou a solução, Yoshi-chan. Poderia procurar esse importante mercador de Iocoama, em segredo, o mesmo que me contou que achava que ia fornecer fuzis a Choshu... concordo que devemos obter fuzis e canhões modernos a qualquer custo, ao mesmo tempo em que impedimos os inimigos de adquiri-los. Poderia lhe oferecer a concessão para a exploração do ouro, com exclusividade. Em troca, ele providencia tudo o que for necessário para a pesquisa e mineração. Só aceitaria um ou dois peritos desarmados e é claro que eles seriam vigiados de perto. Como compensação, receberia adiantado muitos canhões e fuzis, contra a metade do ouro encontrado, e esse mercador concorda em vender armas apenas a você. Nunca a Choshu, Tosa ou Satsuma. Sorri, Sire?
— E nosso intermediário seria Misamoto?
— Sem a sua sagacidade em descobri-lo e treiná-lo, isto não seria possível.
Ela falou com total deferência e recostou-se, secretamente satisfeita, escutando os comentários de Yoshi e suas respostas, sabendo que ele iniciaria a execução do plano o mais depressa possível, que acabariam conseguindo as armas de alguma forma, sem abrir mão de suas preciosas reservas de arroz. Pouco depois, Hosaki já pôde fingir que se sentia exausta e pedir permissão para descansar.
— Deveria também repousar, Sire, depois de um exercício tão maravilhoso, embora extenuante...
Claro que ele deveria, um homem tão excepcional, pensou Hosaki. E, uma vez no quarto, com muitos elogios, pedindo permissão para massagear os músculos cansados dos ombros, pouco a pouco, com a devida cautela, se tornando mais insinuante, deixando escapar um ou outro suspiro, faria com que ele se tornasse tão íntimo quanto podia desejar. A mesma intimidade que ele tinha com Koiko.
Antes, Koiko pedira permissão para visitá-la, fizera uma reverência, agradecera, dissera que esperava que seus serviços agradassem ao grande lorde, que sentia-se honrada por poder ingressar naquela família, mesmo que por um breve período. Conversaram por algum tempo e, depois, ela se retirou.
Uma beleza e tanto, pensou Hosaki, sem ciúme, nem inveja. Yoshi tem direito a uma diversão, por mais dispendiosa que seja, de vez em quando. A beleza dessas mulheres é muito frágil, transitória, uma vida tão triste, autênticas flores de cerejeira, da árvore da vida. O mundo de um homem é muito mais excitante fisicamente, do que o nosso. Ah, ser capaz de ir de flor em flor, sem angústia ou preocupação...
Se a punição até por uma pequena aventura de nossa parte não fosse tão imediata e severa, as mulheres considerariam a possibilidade com mais frequência Não é verdade? E por que não? Se fosse seguro.
Às vezes, quando Yoshi está ausente, o pensamento de perigo tão intenso e morte imediata é um afrodisíaco quase irresistível. Uma tolice, por um prazer tão fugaz. Ou será que não?
Ela esperou, observando-o, experimentando profunda satisfação, adorando o jogo da vida, enquanto sua mente fervilhava com variações do plano, e como usar a criação de Yoshi, Misamoto.
Começarei logo, pensava ele. Hosaki possui uma boa mente e é hábil em articular minhas idéias. Mas ter aquele pensamento sobre o menino foi baka demais, por mais correta que tal ação pudesse ser, como um ato de interesse do Estado. As mulheres não têm qualquer sutileza.
Na colônia, naquela madrugada, pouco antes da alvorada, Jamie McFay deu um beijo final em Nemi, depois seguindo juntos pelo corredor até a suíte de Malcolm Struan. Ele bateu de leve na porta, que foi aberta no mesmo instante. A jovem, Shizuka, saiu, fechou a porta, exibiu um sorriso curioso e começou a sussurrar para Nemi que, em seguida, pegou McFay pelo braço e levou-o até o patamar.
— O que foi? Má notícia? — indagou ele, nervoso.
Vislumbrara Struan na cama enorme, mergulhado num sono profundo, antes de a porta ser fechada, e tivera a impressão de que estava tudo bem. Nemi não lhe deu qualquer atenção e continuou a interrogar a outra moça. Exasperado, McFay insistiu:
— O que foi, Nemi? Qual a má notícia?
Ela hesitou, e depois, com um fluxo inicial de desculpas em japonês, fitou-o radiante.
— Não má, Jami-san, você ir Yoshiwara amanhã, sim, não?
Ela pôs o manto, começou a descer a escada, mas McFay a deteve.
— Qual é a má notícia, Nemi? — indagou ele, desconfiado.
A moça fitou-o em silêncio por um momento, depois mais japonês que ele não entendeu. Ao final, deu de ombros e arrematou:
— S’gr’d, wakarimasu ka?
— S’gr’dl O que isso significa?
— S’grid, Jami-san, hai?
— Ah, segredo, pelo amor de Deus! Wakarimasu! Qual é o segredo? Ela suspirou de alívio, tornou a sorrir.
— S’gr’d, bom! S’gr’d, Jami-san, Shizuka, Nemi. Hai? Hai?
— Hai. Manter segredo. E agora o que foi?
Mais japonês e pidgin, incompreensíveis enquanto as duas vestiam os mantos para sair. Frustrada porque não conseguia explicar direito, ou pelo simples fato de ter de explicar, Nemi imitou bastante movimento, e sussurrou:
— Shizuka boa, trabalhar bem noite.
— Tai-pan, bem?
Ela revirou os olhos.
— Hai, Jami-san, Shizuka boa!
Todas as perguntas adicionais de McFay só produziram reverências e sorrisos das duas, por isso ele agradeceu a Shizuka, cujos honorários já haviam sido acertados.
— “crédito tai-pan grande muito bom”, dissera-lhe a mama-san. Pela última vez, Nemi fez com que ele jurasse segredo. O criado à espera levou-as de volta à Yoshiwara.
Perturbado, mas sem saber por que, embora certo de que não lhe fora revelada toda a verdade, McFay voltou na ponta dos pés, parou ao lado da cama, mas Struan continuava num sono profundo, a respiração tranquila. Por isso, ele foi para o escritório e começou a trabalhar.
Até pouco depois das dez horas...
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