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Na colônia, naquela madrugada, pouco antes da alvorada, Jamie McFay deu um beijo final em Nemi, depois seguindo juntos pelo corredor até a suíte de Malcolm Struan. Ele bateu de leve na porta, que foi aberta no mesmo instante. A jovem, Shizuka, saiu, fechou a porta, exibiu um sorriso curioso e começou a sussurrar para Nemi que, em seguida, pegou McFay pelo braço e levou-o até o patamar.
— O que foi? Má notícia? — indagou ele, nervoso.
Vislumbrara Struan na cama enorme, mergulhado num sono profundo, antes de a porta ser fechada, e tivera a impressão de que estava tudo bem. Nemi não lhe deu qualquer atenção e continuou a interrogar a outra moça. Exasperado, McFay insistiu:
— O que foi, Nemi? Qual a má notícia?
Ela hesitou, e depois, com um fluxo inicial de desculpas em japonês, fitou-o radiante.
— Não má, Jami-san, você ir Yoshiwara amanhã, sim, não?
Ela pôs o manto, começou a descer a escada, mas McFay a deteve.
— Qual é a má notícia, Nemi? — indagou ele, desconfiado.
A moça fitou-o em silêncio por um momento, depois mais japonês que ele não entendeu. Ao final, deu de ombros e arrematou:
— S’gr’d, wakarimasu ka?
— S’gr’dl O que isso significa?
— S’grid, Jami-san, hai?
— Ah, segredo, pelo amor de Deus! Wakarimasu! Qual é o segredo? Ela suspirou de alívio, tornou a sorrir.
— S’gr’d, bom! S’gr’d, Jami-san, Shizuka, Nemi. Hai? Hai?
— Hai. Manter segredo. E agora o que foi?
Mais japonês e pidgin, incompreensíveis enquanto as duas vestiam os mantos para sair. Frustrada porque não conseguia explicar direito, ou pelo simples fato de ter de explicar, Nemi imitou bastante movimento, e sussurrou:
— Shizuka boa, trabalhar bem noite.
— Tai-pan, bem?
Ela revirou os olhos.
— Hai, Jami-san, Shizuka boa!
Todas as perguntas adicionais de McFay só produziram reverências e sorrisos das duas, por isso ele agradeceu a Shizuka, cujos honorários já haviam sido acertados.
— “crédito tai-pan grande muito bom”, dissera-lhe a mama-san. Pela última vez, Nemi fez com que ele jurasse segredo. O criado à espera levou-as de volta à Yoshiwara.
Perturbado, mas sem saber por que, embora certo de que não lhe fora revelada toda a verdade, McFay voltou na ponta dos pés, parou ao lado da cama, mas Struan continuava num sono profundo, a respiração tranquila. Por isso, ele foi para o escritório e começou a trabalhar.
Até pouco depois das dez horas.
— Olá, doutor. Entre. É um prazer vê-lo de novo. Quais são as novidades?
A expressão de Hoag era sombria.
— Ah Tok mandou me chamar, e acabei de ver Malcolm... essa é a novidade. Eu gostaria que você tivesse me perguntado antes de... ora, Jamie, pelo amor de Deus! — Ele viu McFay corar e se apressou em acrescentar: — Sei que foi ele quem pediu a você para arrumar tudo, mas deveria ter pensado em me perguntar primeiro... Eu diria que era óbvio que seria perigoso, um absurdo tentar tão cedo, depois de um ferimento assim, com metade de suas entranhas costurada, quase ao ponto de rompimento...
Hoag fez uma pausa, sentou e murmurou, mais calmo:
— Desculpe, mas eu tinha de descarregar.
— Não tem problema... É grave?
— Não sei. Há um pouco de sangue na urina e ele sente muita dor nos rins. Parece que a mulher foi muito vigorosa, ele se deixou arrebatar e disse que, quando alcançou o orgasmo, teve um espasmo no estômago, ficou com cãibras. Pobre coitado... embora sinta muita dor agora, diz que valeu a pena.
— Ele disse isso?
— E com detalhes... mas não diga que lhe contei, está bem? Dei uma poção para acabar com a dor e ele deve dormir por uma ou duas horas. Voltarei mais tarde. — Hoag suspirou, levantou-se, com um sorriso desolado. — Recebi outra carta da Sra. Struan. E você?
— Também recebi. Igual às anteriores. Vai ordenar que ele volte a Hong Kong agora?
— Não posso ordenar que ele faça qualquer coisa. Malcolm irá quando quiser; não podemos esquecer que esta é a temporada das tempestades. Ele seria sensato em permanecer aqui... a menos que haja alguma coisa premente em Hon Kong.
— Há dezenas de motivos para voltar... é o centro do poder e não há nada para ele fazer aqui.
Hoag deu de ombros.
— Concordo que Hong Kong seria melhor. Eu planejava voltar no navio de correspondência, mas depois da noite passada acho que esperarei com ele por mais alguns dias.
— Por favor, leve-o com você, no navio de correspondência.
— Já sugeri isso, e recebi como resposta um “não” pouco polido. Esqueça, Jamie. Não há nada de errado em Malcolm continuar repousando aqui, e uma viagem marítima difícil seria extremamente prejudicial, poderia até matá-lo. Por falar nisso, ouvi dizer que pode haver outro baile na próxima terça-feira, com Peitos-de-Anjo como a convidada de honra.
— Malcolm não mencionou nada.
— Sob os auspícios do embaixador Seratard, de ancestral duvidoso, pai de todos os franceses. Bom, tenho de ir agora... mantenha-me informado de tudo o que acontecer por aqui, e se Malcolm pedir por outro encontro similar, consulte-me primeiro, em particular.
— Está certo. Obrigado, doutor.
Mais tarde, Vargas bateu na porta.
— Senhor, Ah Tok diz o que tai-pan quer lhe falar.
Subindo a escada, Jamie sentiu uma súbita contração no estômago, imaginando-se no lugar de Malcolm.
— Senhor McFay! — gritou Vargas lá de baixo. — Com licença, mas os samurais de Choshu acabam de chegar, para tratar daquela encomenda de rifles.
— Voltarei num instante. McFay bateu e abriu a porta.
— Olá, tai-pan — disse ele, gentilmente. Struan estava recostado nos travesseiros, com uma expressão estranha, um sorriso apático. — Como se sente hoje?
— Falou com Hoag?
— Falei.
— Neste caso, já sabe que ela foi bastante satisfatória e... Obrigado, Jamie. Ela ajudou muito, mas... — Struan soltou uma risada nervosa. — ...mas o final me deixou um pouco abalado. Um corpo espetacular. Foi tudo bastante satisfatório. Mas creio que não precisarei de uma repetição do desempenho, até me sentir melhor. Mas pelo menos ela me livrou... do tremendo acúmulo.
Ele fez uma pausa, soltou de novo a risada curta e nervosa.
— Não imaginava, Jamie, como uma mulher tão pequena podia ser tão boa ou tão... pode compreender, não é?
— Claro que posso. Tudo transcorreu de acordo com o plano?
Por um instante, Struan hesitou, mas logo disse, com firmeza:
— Melhor até... quero que você dobre o pagamento dela.
— Está certo.
McFay podia perceber a ansiedade latente e seu coração se confrangeu por Malcolm. Independente do que pudesse acontecer, o encontro com Shizuka tinha de ser mantido em segredo. Se é assim que ele quer, tudo bem. Não cabe a mim decidir. O que está feito está feito. Apenas mais um segredo para acrescentar aos demais.
— Fico contente que tudo tenha corrido bem.
— Melhor do que bem. A moça disse alguma coisa?
— Apenas que ela... ahn... trabalhou a noite inteira... para tentar satisfazê-lo.
Uma batida na porta e Angelique entrou, transbordando de saúde, muito elegante num vestido cor de alfazema, novo, sombrinha, chapéu com plumas, luvas e xale.
— Olá, meu amor, olá, Jamie. Como se sente hoje? Oh, Malcolm, fico tão feliz em vê-lo! — Ela se inclinou para beijar Struan, com extrema ternura. — Oh, chéri, como sinto sua falta!
No momento em que a porta se abrira, os corações dos dois homens dispararam. O nervosismo de McFay aumentara e, no mesmo instante, seus olhos examinaram a cama e o resto do quarto, à procura de sinais denunciadores. Mas tudo se encontrava em ordem, impecável, os lençóis e fronhas trocados todos os dias — devido mais à meticulosidade de Struan com a higiene, em um nível absurdo, pensou ele —, assim como a camisa. Era ridículo, uma ou duas vezes por mês seriam mais do que suficientes. Por outro lado, ele sabia que o hábito fora instituído por Dirk Struan, e tudo o que o tai-pan determinava era lei para Tess Struan e, por conseguinte, para sua família. Struan acabara de fazer a barba, usava um camisolão limpo, e as janelas estavam abertas para a brisa marinha, que dissiparia quaisquer vestígios de perfume. McFay passou a respirar com mais facilidade e foi nesse instante que Angelique anunciou:
— Falei com o Dr. Hoag.
Os dois quase tiveram outro espasmo.
— Meu pobre querido — continuou ela, quase sem pausa —, ele me contou que teve uma péssima noite e que não poderá ir à soirée de Sir William hoje. Por isso, achei que devia ficar aqui com você, fazendo-lhe companhia, até a hora do almoço.
Outra vez o sorriso deslumbrante, que seduziu os dois, e Angelique se instalou numa cadeira de encosto alto. Struan sentia-se tonto de amor por ela, ao mesmo tempo em que experimentava uma náusea de culpa. Eu devia estar louco ao querer uma prostituta para substituir o amor da minha vida, pensou ele, deleitando-se com o calor que Angelique irradiava, querendo falar sobre Shizuka e suplicar seu perdão.
A noite começara bastante bem, com Shizuka despindo-se, sorrindo, comprimindo-se contra ele, acariciando, estimulando. Struan também a tocara, acariciando ao mesmo tempo orgulhoso e ansioso. Fora um tanto difícil e doloroso assumir a posição normal, efetuar os movimentos normais, para começar, mas não impossível... até que de repente o rosto e a presença de Angelique dominaram-no por completo, uma pressão involuntária e indesejada. Sua virilidade murchara. E por mais que Shizuka tentasse, e ele também, não voltara mais.
Descansaram um pouco, tentaram de novo, a ânsia horrível agora para ele agravada por uma raiva frenética e impotente, pela necessidade de provar sua capacidade. Mais carícias e tentativas... ela era experiente com as mãos, lábios e corpo, mas nada conseguira que provocasse uma reação de desejo e necessidade muito menos de amor e seu indefinível mistério. Nem qualquer coisa que Shizuka fizesse seria capaz de dissipar o espectro. Ou prevalecer sobre a dor.
Ao final, ela acabara desistindo, o corpo jovem brilhando de suor, ofegante de tanto esforço.
— Gomen nasai, tai-pan — sussurrara Shizuka, várias vezes, desculpando-se.
Ao mesmo tempo, ela ocultara sua fúria, quase em lágrimas pela impotência de Struan, pois nunca falhara antes, e esperara que ele chamasse os criados a qualquer momento, para expulsá-la pelo fracasso, por não conseguir despertá-lo, como uma pessoa civilizada deveria fazer. E mais do que qualquer outra coisa, ela sentira-se assediada pela ansiedade, sem saber como explicaria sua inadequação à mama-san. Que Buda fosse testemunha: o homem é que fracassou, não eu!
— Gomen nasai, gomen nasai — continuara a balbuciar.
— É o acidente — murmurara Struan.
Ele desprezava a si mesmo, achando que a dor era grotesca. Falara sobre a Tokaidô, sobre seus ferimentos, embora soubesse que a mulher não entenderia suas palavras, agoniado de frustração. Passada a tempestade, suas lágrimas secando, Struan fê-la deitar-se ao seu lado, impedira-a de tentar mais uma vez e a fizera compreender que receberia o pagamento em dobro se mantivesse tudo em segredo.
— Segredo, wakarimasu ka? — suplicara ele.
— Hai, tai-pan, wakarimasu — concordara Shizuka, feliz, ao pegar o medicamento que ele pedira, e o embalara até que dormisse.
— Malcolm... — murmurou Angelique.
— O que é? — perguntou Struan no mesmo instante, concentrando-se, o coração batendo forte, lembrando a si mesmo que consumira o resto da poção para dormir de Hoag e que devia pedir a Ah Tok para substituir a mistura... por apenas um dia, ou pouco mais. — Também me sinto satisfeito em vê-la.
— Eu também. Gosta do meu vestido?
— É maravilhoso... e você também.
— Tenho de me retirar agora, tai-pan — interveio McFay, vendo como Struam ficara feliz, satisfeito por ele, embora ainda transpirasse. — Os representantes Choshu estão lá embaixo... posso continuar as negociações com eles?
— Como decidimos. Mais uma vez, Jamie, obrigado. Mantenha-me informado.
— Malcolm — disse Angelique —, já que Jamie está aqui... pediu-me para lembrá-lo, quando estivéssemos todos juntos, sobre a minha... hum... pequena mesada.
— Claro, claro. Jamie... — Seu ânimo era expansivo, enquanto pegava a mão de Angelique, o prazer evidente da jovem relegando a noite ao esquecimento... para sempre, pensou ele, feliz. Foi uma noite que nunca ocorreu! — Ponha os vales da minha noiva na minha conta pessoal.
Ele experimentou uma pontada de felicidade pela palavra e acrescentou:
— Angel, basta assinar os vales, tudo o que quiser. Jamie cuidará do resto.
— Obrigada, chéri, isso é maravilhoso, mas, por favor, posso ter algum dinheiro?
Struan riu, Jamie sorriu.
— Não precisa de dinheiro aqui. Não há necessidade... nenhum de nós anda com dinheiro.
— Mas, Malcolm, eu que...
— Angelique — declarou ele, a voz mais firme —, pagamos tudo em vales, no clube ou em qualquer loja da colônia. É o que todo mundo faz, até mesmo em Hong Kong. Não pode ter esquecido. Impede os comerciantes de trapacearem e você fica com um registro permanente.
— Mas sempre andei com algum dinheiro, chéri, dinheiro meu, para pagar minhas contas pessoais — explicou ela, com uma demonstração externa de absoluta honestidade. — E como meu pai... ora, tenho certeza que compreende.
— Pagar suas próprias contas? Mas que idéia horrível! É uma coisa sem precedentes na boa sociedade. Não precisa se preocupar. — Ele sorriu. — Isso cabe aos homens e os vales são uma solução perfeita.
— Talvez os franceses sejam diferentes. Sempre andamos com dinheiro e...
— Nós também, na Inglaterra e em outros lugares, mas na Ásia todos assinam vales. Qualquer coisa que quiser comprar, basta assinar... ainda melhor, deve ter seu sinete pessoal. Escolheremos o perfeito nome chinês para você.
De um modo geral, era um pedaço retangular de marfim ou osso, tendo esculpidos na base caracteres chineses, que soavam como o nome do proprietário. Quando comprimidos contra uma almofada de tinta, e depois no papel, produziam uma impressão singular, quase impossível de falsificar.
— Jamie providenciará tudo para você.
— Obrigada, Malcolm, mas posso ter minha própria conta, chéri, já que sou muito eficiente para cuidar de dinheiro.
— Tenho certeza que sim, mas não precisa preocupar sua linda cabecinha com essas coisas. Depois que casarmos, providenciarei tudo, mas aqui é desnecessário.
Angelique mal escutava o que dizia, enquanto distraía Struan com os mexericos da legação francesa, o que lera nos jornais, o que sua amiga de Paris escrevera sobre uma magnífica residência — lá chamada hotel — nos Champs Élysées, pertencente a uma condessa, mas que em breve estaria disponível, e era muito barata. Plantava as sementes para o futuro glorioso dos dois, fazendo-o rir, esperando que ele se sentisse sonolento, quando então partiria para o almoço no clube com os oficiais franceses, que lhe fariam companhia mais tarde num passeio a cavalo, junto com oficiais da marinha inglesa, depois uma siesta e os preparativos para o sarau de Sir William... não havia motivo para deixar de comparecer, mas antes voltaria para desejar boa noite a seu futuro marido.
Tudo era maravilhoso e terrível ao mesmo tempo, a maior parte de sua mente se concentrava no novo dilema: como conseguir dinheiro. O que vou fazer? Preciso de dinheiro para pagar o medicamento, aquele porco do André Poncin não o adiantará para mim, sei que não. Que se dane ele, e que se dane meu pai também por roubar meu dinheiro! E que se dane AQUELE da Tokaidô, nas chamas eternas do inferno!
Pare com isso, e trate de pensar. Lembre-se de que está sozinha e é a única que pode resolver seus problemas!
Meu único objeto de valor é o anel de noivado e não posso vendê-lo, de jeito nenhum. Oh, Deus, tudo ia tão bem, fiquei noiva oficialmente, Malcolm está melhorando, André vem me ajudando, mas o medicamento é muito caro e não tenho dinheiro, dinheiro de verdade, oh, Deus, o que vou fazer?
Lágrimas afloraram a seus olhos.
— Por Deus, Angelique, o que foi?
— Apenas... apenas me sinto tão infeliz... — soluçou ela, baixando a cabeça para as cobertas da cama. — ...infeliz porque a Tokaidô aconteceu... por você ter ficado ferido, e eu... eu também... não é justo!
O cúter de dez remos de Sir William deslizava depressa pelas ondas, a caminho da nave capitânia, ancorada ao largo de Iocoama. Ele se encontrava sozinho na cabine, de pé, usando sobrecasaca e cartola. Mar sereno, a luz se desvanecendo a oeste, as nuvens já cinzentas, mas sem qualquer ameaça aparente de tempestade. Quando o cúter encostou no navio, todos os remos subiram para uma posição vertical. Sir William subiu apressado para o convés principal.
— Boa tarde, senhor — disse o tenente Marlowe, batendo continência. — Por aqui, por favor.
Passaram por fileiras de canhões reluzentes no tombadilho superior — o convés principal, com uma atividade intensa por toda parte, canhões sendo imobilizados em suas posições, cabos enrolados, velas inspecionadas, fumaça saindo pela chaminé — subiram por uma passagem, desceram por outra, para o segundo convés de canhões, onde outros marujos também cuidavam dos equipamentos, e chegaram ao camarote do almirante, na popa. O fuzileiro de sentinela assumiu posição de sentido, enquanto Marlowe batia na porta.
— Sir William?
— Abra logo essa porta, Marlowe, pelo amor de Deus!
Marlowe abriu a porta para Sir William e começou a fechá-la.
— Fique aqui, Marlowe! — ordenou o almirante.
O camarote grande estendia-se por toda a popa do navio, com várias vigias, na mesa grande, cadeiras presas ao chão, um pequeno beliche, vaso sanitário, aparador largo, cheio de garrafas de cristal. O almirante e o general meio que ergueram, numa polidez simbólica, e tornaram a sentar. Marlowe permaneceu junto da porta.
— Obrigado por vir tão depressa, Sir William. Conhaque? Xerez?
— Conhaque, almirante Ketterer. Obrigado. Algum problema?
O homem de rosto vermelho lançou um olhar irritado para Marlowe.
— Faça o favor de servir um conhaque para Sir William, Marlowe.— Depois, ele jogou um papel em cima da mesa. — Despacho de Hong Kong.
Depois das saudações floreadas habituais, o despacho dizia:
Deve seguir imediatamente, com a nave capitânia e mais quatro ou cinco navios de guerra, para o porto de Boh Chih Seh, ao norte de Xangai (coordenadas no verso), onde se encontra agora abrigada a frota principal do pirata Wu Sung Choi. Há uma semana, um enxame de juncos desse pirata, hasteando com toda arrogância sua bandeira — do Lótus Branco —, interceptou e afundou o navio de correspondência Bonny Sailor, nas águas ao largo da baía de Mirs, o refúgio pirata ao norte de Hong Kong. A esquadra aqui cuidará da baía de Mirs. Você deve destruir Boh Chih Seh e afundar todas as embarcações que não sejam de pesca, caso o líder, que acreditamos ser Chu Fang Choy, se recusar a arriar sua bandeira e se entregar à justiça de sua majestade.
Cumprida essa missão, envie um navio para cá, com um relatório, e retorne a Iocoama, colocando-se à disposição, como sempre, dos servidores de sua majestade. Mostre este comunicado a Sir William e lhe entregue, por favor, a mensagem anexa. As. Stanshope, K.C.B., governador do Extremo Oriente.
PS: O Bonny Sailor afundou com todas as pessoas a bordo, setenta e seis oficiais e marujos, dez passageiros, inclusive uma inglesa, esposa de um mercador aqui, uma carga de ouro, ópio e arroz no valor de dez mil guinéus. Chu Fang Choy teve a desfaçatez de mandar entregar na casa do governo um saco contendo o diário de bordo e quarenta e três pares de orelhas, com uma carta pedindo desculpas por não ter sido capaz de recuperar as demais. As orelhas da mulher não estavam incluídas e tememos o pior por ela.
— Desgraçados! — murmurou Sir William, experimentando uma náusea adicional ao pensamento de que, já que os piratas eram endêmicos em todas as águas asiáticas, em particular do norte de Cingapura até Pequim, e as frotas do Lótus Branco as mais abundantes e notórias, a mulher poderia muito bem ter sido sua esposa, que deveria chegar a Hong Kong a qualquer semana, procedente da Inglaterra, com três de seus filhos. — Vão partir com a maré cheia?
— Isso mesmo.
O almirante estendeu um envelope por cima da mesa. Sir William rompeu o lacre e leu:
Prezado Willie: O próximo navio de correspondência levará os recursos para as despesas da legação. Aqui entre nós, Willie, sinto muito, mas não posso lhe fornecer mais soldados no momento, nem navios. Talvez seja possível na primavera. Ordenei o retorno de tropas e navios à índia, onde as autoridades temem a repetição do grande motim de cinco anos atrás. Além disso, o Punjab está fermentando de novo, os piratas assediam o golfo Pérsico, os malditos nômades da Mesopotâmia cortaram mais uma vez as linhas telegráficas... e outra força expedicionária já começa a ser mobilizada para destruí-los de uma vez por todas!
Como vai o pobre do Struan? É inevitável que haja indagações no Parlamento sobre o “fracasso em proteger nossos cidadãos”. As notícias do desastre na Tokaidô devem chegar a Londres dentro de duas semanas e a resposta deles deve demorar mais dois meses. Confio que eles aprovem represálias rigorosas e nos enviem dinheiro, tropas e navios para executar suas ordens. Enquanto isso, enfrente a tempestade, se houver alguma, da melhor forma que puder. O ataque teve a maior repercussão em Hong Kong. A mãe de Struan ficou furiosa e toda a ralé de mercadores da China aqui (embora ricos do infame comércio de ópio) se mostra revoltada, sua imprensa insidiosa e caluniosa exigindo sua renúncia. Alguma vez foi diferente? Como diria Disraeli. Concluo às pressas, Deus lhe guarde, as. Stanshope, K.C.B., governador.
Sir William tomou um gole grande, torcendo para que seu rosto não deixasse transparecer a ansiedade que sentia.
— Excelente conhaque, almirante.
— Também acho... do meu melhor estoque pessoal, em sua homenagem. O almirante estava furioso porque Marlowe servira quase meio copo a Sir William e não usara o conhaque de segunda classe que guardava para os visitantes. É tão idiota que nunca chegará a almirante, pensou ele.
— O que me diz da ida a Osaca? — perguntou Sir William.
— Osaca? Ah, sim... lamento, mas terá de protelar até meu retorno.
O sorriso quase não pôde ser disfarçado.
— E quando deve voltar?
A angústia de Sir William era cada vez mais profunda.
— Para chegar a nosso destino, seis ou sete dias, dependendo dos ventos. Dois ou três dias em Boh Chih Seh devem ser suficientes. Terei de reabastecer em Xangai. Eu diria que deveremos chegar de volta a Iocoama, a menos que chegue novas ordens, em... — O almirante emborcou o resto de seu vinho, serviu-se de mais. — Voltaremos em quatro ou cinco semanas.
Sir William terminou de tomar o conhaque, o que o ajudou a atenuar-lhe as náuseas.
— Tenente, pode fazer a gentileza? Obrigado.
Marlowe pegou o copo, com a devida polidez, e tornou a enchê-lo, com o melhor conhaque do almirante, reprimindo sua repulsa por ser um lacaio, cansado de seu posto como ajudante-de-ordens... ansioso em voltar a seu próprio navio, para supervisionar a reparação dos estragos causados pela tempestade. Mas pelo menos participarei finalmente de alguma ação, pensou ele, com satisfação, imaginando o ataque ao refúgio dos piratas, com todos os canhões disparando.
— Se não pudermos cumprir nossa ameaça, almirante — disse Sir William — perderemos o prestígio e a iniciativa e correremos um grave perigo.
— A ameaça foi sua, Sir William, não nossa. Quanto ao prestígio, acho que lhe atribui valor excessivo; quanto ao perigo... presumo que se refere à colônia, mas tenho certeza de que os nativos do Japão não ousariam criar qualquer problema de maiores proporções. Não chegaram a incomodá-lo na legação em Iedo, não farão isso em Iocoama.
— Com a esquadra ausente, ficamos desamparados.
— Não exatamente, Sir William — protestou o general, com uma certa irritação. — O exército está aqui, com alguma força.
— É verdade — concordou o almirante. — Mas Sir William também está absolutamente correto ao dizer que é a marinha real que mantém a paz. Planejo levar quatro navios de guerra, senhor, não cinco, e deixar uma fragata aqui. Deve ser suficiente. A Pearl.
Antes de poder se controlar, Marlowe disse:
— Com licença, senhor, mas a Pearl ainda se encontra sob reparos importantes.
— Folgo em saber que se mantém a par da situação de nossa esquadra, Sr. Marlowe, e com os ouvidos bem abertos — disse o almirante, cáustico. — Obviamente, a Pearl não pode participar desta expedição, e por isso é melhor você ir a bordo, providenciar para que fique em condições de navegação oceânica, pronta para qualquer missão, até o pôr-do-sol de amanhã, ou não terá um navio.
— Sim, senhor.
Marlowe engoliu em seco, bateu continência e se retirou apressado. O almirante soltou um grunhido e comentou para o general:
— Um bom oficial, mas ainda imaturo... de uma excelente família naval, dois irmãos, também oficiais, e o pai é almirante em Plymouth. — Ele olhou para Sir William. — Não se preocupe. A fragata estará pronta amanhã, em perfeitas condições... ele é o melhor dos meus comandantes, mas pelo amor de Deus não lhe diga que eu falei isso. Marlowe vai protegê-lo até meu retorno. Se não há mais nada a discutir, senhores, zarparei imediatamente... e lamento muito não poder acornpanhá-los no jantar.
Sir William e o general terminaram seus drinques e se levantaram.
— Deus o guarde, almirante Ketterer, e que possa voltar são e salvo, com todos os seus tripulantes — disse Sir William, com absoluta sinceridade.
O general ecoou suas palavras. Um momento depois, o rosto de Sir William se endureceu, e ele acrescentou:
— Se não receber qualquer satisfação do Bakufu, partirei para Osaca com foi planejando, com ou sem a Pearl, à frente do exército ou não... mas, por Deus seguirei para Osaca e Quioto de qualquer maneira!
— É melhor esperar até a minha volta, é melhor ser prudente, é melhor não invocar o nome do Senhor para uma ação tão desaconselhável, Sir William — declarou o almirante, em tom brusco. — Deus pode decidir de outra forma.
Naquela noitada, pouco antes de meia-noite, Angelique, Phillip Tyrer e Pallidar deixaram a legação britânica e desceram pela High Street a caminho do prédio Struan.
— Ah, não resta a menor dúvida de que Sir William tem um chef modesto! — comentou Angelique, feliz.
Os três estavam vestidos a rigor, e riram do jantar ter sido tão abundante e inglês, especialmente delicioso — rosbife, bandejas de linguiça de porco, siris frescos trazidos no gelo de Xangai pelo navio de correspondência, como parte do serviço diplomático, e por isso imunes à inspeção alfandegária e a impostos. As carnes haviam sido servidas com legumes cozidos, batatas assadas, também importadas de Xangai, e pastelão de Yorkshire, seguindo-se tortas de maçã e tortas de frutas cristalizadas picadas, com todo o clarete, Pouilly Fume, Porto e champanhe que os vinte convidados podiam beber.
— E quando madame Lunkchurch jogou um siri no marido, pensei que ia morrer! — acrescentou ela, rindo ainda mais.
Tyrer, embaraçado, murmurou:
— Receio que alguns dos supostos mercadores e suas esposas são propensos a se mostrarem turbulentos. Por favor, não julgue todos os ingleses pelo comportamento deles.
— É isso mesmo.
Pallidar sentia-se radiante, satisfeito por também ter sido aceito como parte da escolta de Angelique, consciente de que seu uniforme de gala e quepe emplumado faziam com que a sobrecasaca de Tyrer parecesse insípida, a gravata de seda antiquada, e a cartola ainda mais fúnebre.
— Pessoas lamentáveis. Sem a sua presença, a noite teria sido horrível, com toda certeza.
A High Street e suas transversais ainda se achavam movimentadas, com mercadores, escriturários e outras pessoas voltando para casa ou passeando, os bêbados ocasionais deitados no chão, à luz dos lampiões de óleo que as iluminavam. Alguns grupos de pescadores japoneses, carregando remos e redes, com lanternas de papel para iluminar o caminho, subiam da praia, onde haviam deixado seus barcos, na areia ou desciam da aldeia para a pescaria noturna. Angelique parou na porta do prédio da Struan e estendeu a mão para ser beijada.
— Obrigada e boa noite, meus caros amigos. Por favor, não precisam esperar.
Um dos criados poderá me acompanhar até a legação.
— De jeito nenhum! — exclamou Pallidar no mesmo instante, segurando a mão de Angelique, apertando-a por um momento.
— Eu... teremos o maior prazer em esperar — garantiu Tyrer.
— Mas posso demorar uma hora ou uns poucos minutos, dependendo do estado de meu noivo.
Mas os dois insistiram, ela agradeceu, passou pelo vigia noturno armado, vestindo libré, subiu a escada, o vestido farfalhando, o xale em sua esteira... ainda extasiada com o excitamento da noite e a adoração que a cercara.
— Olá, querido. Só vim lhe desejar boa noite.
Struan usava um elegante chambre vermelho de seda, por cima de camisa e calça folgadas, botas de couro macio, gravata. Levantou-se, a dor abrandada pelo elixir que Ah Tok lhe dera, meia hora antes.
— Sinto-me melhor que em muitos dias, minha querida. Um pouco trêmulo, mas bem... ah, como você está adorável!
A luz do lampião a óleo tornava o rosto encovado de Struan mais bonito do que nunca e Angelique ainda mais desejável. Ele pôs as mãos nos ombros dela para se firmar, sentindo a cabeça e o corpo estranhamente leves. A pele de Angelique era macia, quente ao seu contato. Seus olhos faiscavam e Struan fitou-a, com amor intenso, beijando-a. Gentilmente, a princípio, e depois, quando ela retribuiu, exultando com o sabor e a acolhida de Angelique.
— Eu amo você — murmurou ele, entre beijos.
— Eu também amo você — respondeu ela, acreditando nisso, tonta de prazer, muito feliz por ele parecer melhor, seus lábios fortes, procurando, as mãos fortes, procurando também, mas dentro dos limites... limites que ela, de repente, em delírio, quis ultrapassar. — Je t’aime, chéri..je t’aime...
Por um momento, permaneceram abraçados, e depois, com uma força que não sabia que possuía, Struan levantou-a do chão, foi sentar na cadeira grande, ajeitou-a em seu colo, os lábios unidos, um braço seu enlaçando a cintura pequena, uma das mãos num seio, a seda parecendo realçar o calor por baixo. E o espanto dominou-o. Espanto porque agora, quando todas as partes da mulher estavam cobertas, eram proibidas, enquanto na outra noite tudo ficara à mostra, oferecido, também jovem, ele se sentia mais eufórico e estimulado do que nunca, embora ao mesmo tempo controlado, não mais frenético de desejo.
— Muito estranho...
E Struan pensou: não, não é tão estranho assim, a dor foi encoberta pelo medicamento; o resto não, e o resto é meu amor por ela.
— Chéri?
— É estranho que eu precise tanto de você, mas sou capaz de esperar. Não por muito tempo, mas posso esperar.
— Por favor, não por muito tempo...
Os lábios de Angelique tornaram a procurar os dele, nada em sua mente além daquele homem, o calor bloqueando sua memória, apagando as preocupações, Os problemas desaparecendo. Para os dois. Até o súbito estampido de um tiro, lá fora nas proximidades.
O clima se desvaneceu, ela se empertigou no colo de Struan e no instante seguinte correu para a janela entreaberta. Lá embaixo, avistou Tyrer e Pallidar. Oh, droga, tinha me esquecido dos dois, pensou ela. Eles olhavam para o interior depois se viraram na direção da cidade dos bêbados.
Angelique esticou a cabeça além da janela, mas viu apenas um vago grupo de homens, na outra extremidade da rua, seus gritos estridentes se perdendo no vento.
— Parece que não é nada demais, Malcolm, apenas uma confusão na cidade dos bêbados...
Brigas e tiros, até mesmo duelos, não eram raros naquela parte de Iocoama. Sentindo-se estranha e enregelada, ao mesmo tempo febril, ela voltou até Struan e fitou-o. Com um pequeno suspiro, ajoelhou-se, pegou a mão dele, comprimiu-a contra a sua face, baixou a cabeça para seu colo; mas a gentileza e os dedos de Struan, acariciando seus cabelos e sua nunca, não afastaram os demônios.
— Devo ir para casa, meu amor.
— É verdade.
Os dedos continuaram a acariciá-la.
— Quero ficar.
— Sei disso.
Struan tinha a impressão de que podia ver a si mesmo de fora, o perfeito cavalheiro, calmo, controlado, ajudando-a a levantar, esperando enquanto ela ajeitava o corpete e os cabelos, arrumava o xale. Depois, de mãos dadas, acompanhou-a até o alto da escada, onde se permitiu ser persuadido a ficar, deixando que a criada a escoltasse até lá embaixo. Na porta, Angelique virou-se, acenou numa despedida amorosa, ele respondeu e depois ela se foi.
Malcolm teve a impressão de que não precisou de qualquer esforço para voltar e se despir. Deixou que a criada tirasse suas botas. Deitou-se, sem ajuda, recostou-se em paz, consigo mesmo e com o mundo. A cabeça ótima, o corpo ótimo, relaxado.
— Como está meu filho? — sussurrou Ah Tok, da porta.
— Na terra da papoula.
— Isso é ótimo. Não há dor para meu filho aí. Ela soprou a chama e deixou-o sozinho.
Mais abaixo, na High Street, o soldado francês de sentinela, o uniforme tão desleixado quanto seu comportamento, abriu a porta da legação para ela.
— Bonsoir, mademoiselle.
— Bonsoir, monsieur. Boa noite, Phillip, boa noite, Settry.
Fechada a porta, Angelique recostou-se nela por um momento, a fim de se controlar. O prazer da noite desaparecera. Em seu lugar, os espectros pressionavam por atenção. Absorvida em seus pensamentos, ela seguiu pelo corredor para sua suíte, avistou uma luz por baixo da porta de Seratard. Parou e, num súbito impulso, refletindo que podia ser a ocasião perfeita para pedir um empréstimo, bateu na porta e entrou.
— Oh, André! Desculpe. Eu esperava encontrar monsieur Henri.
— Ele ainda está com Sir William. Eu estava acabando de preparar um despacho para ele.
André sentava à escrivaninha de Seratard, com muitos papéis espalhados por cima. O despacho era sobre a Struan, sua possível transação de armas com Choshu e a possível ajuda que uma possível esposa francesa poderia prestar à incipiente indústria de armamentos da França.
— Divertiu-se bastante? Como está seu noivo?
— Muito melhor, obrigado. O jantar foi magnífico, para quem gosta de comida pesada. Ah, que saudade de Paris...
— Tem razão.
Por Deus, como ela é sedutora, pensou ele, o que o lembrou da infame doença infecciosa que o corroía.
— O que foi? — indagou Angelique, sobressaltada com a repentina palidez de André.
— Nada. — Ele limpou a garganta, fazendo um esforço para controlar o horror. — Apenas os problemas de sempre... nada de grave.
André parecia tão vulnerável, tão desamparado, que abruptamente ela decidiu confiar nele de novo. Fechou a porta, sentou ao seu lado, contou sua história.
— O que vou fazer agora, meu caro André? Não consigo obter nenhum dinheiro... o que posso fazer?
— Enxugue as lágrimas, Angelique, porque a resposta é muito simples. Amanhã ou depois, eu lhe acompanhei para fazer compras — disse ele, a mente lúcida para os problemas mundanos. — Pediu-me para ajudá-la nas compras, procurar um presente de noivado para monsieur Struan, não é mesmo? Abotoaduras de ouro com pérolas e brincos de pérolas para você.
André fez uma pausa, a voz entristeceu quando acrescentou:
— Ah, uma coisa horrível, em algum lugar, no caminho de volta do joalheiro, você perde um par... procuramos por toda parte, mas em vão. Horrível! — Os olhos castanho-claros fixavam-se nos de Angelique. — Enquanto isso, a mama-san recebe seu pagamento secreto. Cuidarei para que o par que você “perdeu” mais do que cubra o medicamento e todos os outros custos.
— Você é maravilhoso! — Angelique abraçou-o. — O que eu faria sem a sua ajuda?
Ela tornou a abraçá-lo, agradeceu mais uma vez e saiu da sala quase dançando. André ficou olhando para a porta fechada por um longo tempo. É isso mesmo, pensou, com uma estranha inquietação, cobrirá o medicamento, meus vinte luíses e todas as outras despesas que eu decidir. Pobre criança, não imagina como é fácil manipulá-la. Está metida num sorvedouro cada vez mais profundo. Não percebe que agora se torna uma ladra e, pior ainda, uma criminosa planejando uma fraude deliberada.
E você, André, é um cúmplice na conspiração.
Ele soltou uma risada, uma risada amarga e irônica. Prove! Ela falará ao tribunal sobre um aborto, com a mama-san como testemunha contra mim? O tribunal acreditará na história da filha e sobrinha de criminosos contra a minha?
Não, mas Deus saberá, e muito em breve estarei diante d'Ele.
E Ele saberá que fiz muito pior. E tenciono fazer ainda mais.
As lágrimas começaram a escorrer por seu rosto.
— Ah, miss — disse Ah Soh, tentando ajudar Angelique a se despir, encontrando dificuldade porque ela não parava por um instante sequer, outra vez alegre e buliçosa, seu problema imediato resolvido. — Miss?
— Está bem, está bem... mas tenho pressa.
Angelique parou ao lado da cama, mas continuou a cantarolar a animada polca, o quarto mais feminino e aconchegante à luz do lampião de óleo do que durante o dia, as janelas de vidro entreabertas, por trás das grades enviesadas.
— Miss, divertiu, hem?
Com extrema habilidade, Ah Soh começou a desprender as tiras da cintura da saia.
— E muito, obrigada — respondeu Angelique, polida.
Não chegava a gostar de Ah Soh, uma mulher de meia-idade, quadris largos, uma criada, em vez de uma autêntica ama.
— Mas ela é muito velha, Malcolm! Não pode arrumar alguém que seja jovem, bonita, e que saiba rir?
— Gordon Chen, nosso compradore, escolheu-a, Angel. Ele garante que é uma pessoa de confiança absoluta; ela pode escovar seus cabelos, ajudá-la no banho, cuidar de suas roupas européias. É um presente meu para você, enquanto estiver no Japão...
As tiras afrouxaram e a crinolina caiu. Ah Soh fez a mesma coisa com a anágua e, por fim, cuidou da armação de ossos e metais que sustentava a crinolina. Um calção comprido, meias de seda, combinação curta, o espartilho e o corpete que reduziam sua cintura de cinqüenta centímetros para quarenta e seis e empurravam os seios para cima, como determinava a moda. Enquanto a criada desfazia o espartilho, Angelique deixou escapar um suspiro de satisfação, saiu do mar de peças de roupa, arriou na cama e permitiu, como uma criança, que Ah Soh a despisse por completo. Obediente, ergueu os braços, para que a camisola estampada fosse enfiada pela cabeça.
— Sente, miss.
— Não esta noite, Ah Soh. Meus cabelos podem esperar.
— Ah, amanhã não bom! Ah Soh brandiu a escova.
— Está bem, está bem...
Angelique tornou a suspirar, saiu da cama, foi sentar à penteadeira, deixou que a criada tirasse os grampos, começasse a escovar seus cabelos. Era uma sensação bastante agradável. Ah, como André é esperto! Torna tudo tão simples... agora posso obter todo o dinheiro de que preciso... como ele é esperto!
De vez em quando, uma brisa amena soprava do mar, fazendo as janelas rangerem. A cem metros dali, no outro lado da rua, as ondas subiam pela praia de seixos, recuavam, tornavam a avançar, com um som agradável, que prometia outra noite suave, acolhida com satisfação por todos na colônia. A esquadra partira ao crepúsculo. As pessoas que não se encontravam embriagadas ou na cama observaram os navios zarpar com graus variados de ansiedade. Todos desejavam boa viagem e rápido retorno. Exceto os japoneses. Ori fora um deles e agora tinha os olhos comprimidos numa fresta de uma das janelas de Angelique, oculto e camuflado pelas camélias altas, que cresciam em abundância ali, plantadas por Seratard, um entusiasta da jardinagem.
Muito antes da meia-noite, Ori postara-se ali, esperando pela mulher. Enquanto o tempo passava, bem devagar, pensara e repensara esquemas diversos, cansado, nervoso, verificando a todo instante se a espada curta estava solta na bainha e a pistola segura na manga do quimono de pescador. Mas quando a vira se aproximando da legação, em companhia dos dois gai-jin, toda a sua exaustão desaparecera.
Por um momento, cogitara sair correndo e matar a todos, mas descartara essa tolice, sabendo que era improvável que pudesse matar os três, mais a sentinela, antes de ser morto. Além do mais, refletira, sombrio, isso liquidaria meu plano de possuí-la mais uma vez, antes de morrer, e depois incendiar a colônia. Sem a minha presença para espicaçá-lo, Hiraga nunca faria isso. Ele é fraco demais agora... contagiado pelos gai-jin. Se Hiraga, o Forte pode sucumbir tão depressa, o que acontecerá com os outros? O imperador está certo ao odiar os gai-jin e querer que sejam expulsos!
Assim, ele contivera sua raiva e se encolhera ainda mais no esconderijo, deixando o tempo passar, planejando para qualquer eventualidade. Não havia a menor possibilidade de passar pelas janelas, a menos que a mulher abrisse as grades. A porta dos fundos não era vigiada, e seria uma possibilidade... além de haver ali diversos apoios para alcançar o andar de cima, se não conseguisse abri-la. Observara Angelique ser despida, em todos os detalhes, a apenas dois passos de distância, no outro lado da parede. Agora, ela se acomodava para dormir, sob os cuidados da criada. A impaciência de Ori tornou-se quase insuportável.
Antes, uma das patrulhas de soldados e marujos, que circulavam pela colônia durante a noite, a fim de manter a ordem, o detivera de repente, num caminho por trás da High Street. Ele parara sem medo, pois não havia toque de recolher, nem Qualquer parte da colônia era proibida aos japoneses, embora eles procurassem se Manter em sua própria área, numa atitude sensata, e optassem por não provocar o temperamento explosivo dos gai-jin. Infelizmente, porém, o sargento empurrara uma lanterna para cima de seu rosto, fazendo-o dar um pulo para trás, sobressaltado. A espada curta escondida caíra ao chão, com o maior barulho e o sargento gritara:
— Ora, seu desgraçado, sabe muito bem que andar com uma faca assim é proibido, kinjiru?
Embora Ori não entendesse as palavras, a regra e a penalidade eram do conhecimento geral. No mesmo instante, ele pegara a espada curta e fugira. O sargento atirara, mas a bala ricocheteara numa parede, inofensiva. Ori pulara um muro baixo e se embrenhara no labirinto de vielas e habitações. A patrulha não se dera ao trabalho de persegui-lo, os homens se limitando a gritar alguns insultos, afinal, andar com uma faca era uma violação sem maior importância, valia apenas uma surra imediata e o confisco da arma.
Ele tornara a esperar, escondido, até poder se juntar a um grupo de pescadores que desciam para a praia. Voltara depois, escalara a cerca da legação e logo encontrara um lugar seguro. Uma vez ali, encolhera-se ao máximo e começara a esperar.
Naquela manhã, fingira que estava pronto para deixar a Yoshiwara, a caminho de Quioto, como Hiraga exigira.
— Assim que fizer contato com Katsumata, eu lhe enviarei uma mensagem — dissera ele, os lábios semicerrados, numa atitude deliberada. — Cuide para que a mulher não escape!
— Ela é a mulher do tai-pan e, por isso, todos os seus passos são vigiados, não haverá a menor dificuldade em descobri-la — respondera Hiraga, com a mesma frieza. — Tome todo cuidado, pois a Tokaidô será perigosa... as patrulhas de vigilantes e guardas nas barreiras estarão em alerta total.
— Melhor honrarmos Sonno-joi, melhor você permitir que eu fique, melhor incendiarmos Iocoama, Akimoto chega hoje, podemos fazê-lo com a maior facilidade.
— É o que faremos, quando você voltar. Se permanecer agora, cometerá um erro. A mulher virou sua cabeça pelo avesso e tornou-o perigoso, para si mesmo, seus amigos e Sonno-joi.
— E o que me diz de você, Hiraga? Os gai-jin lhe transformaram, distorceram seu julgamento.
— Não é assim e digo isso pela última vez.
Sem se preocupar em provocar Hiraga ainda mais, ele explodira:
— Você viu como os gai-jin são a escória, bêbados e repugnantes, brigando como animais, refestelando-se na sujeira da cidade dos bêbados... são esses os homens que você quer conhecer melhor, com os quais deseja parecer?
— Parta logo!
Também furioso, Ori pegara a espada curta e a pistola. Por sugestão de Raiko, juntara-se à procissão diária de criados a caminho do mercado em Kanagawa, onde se podia comprar o melhor Saquê e os melhores alimentos. No meio deles, passara pelas barreiras da Yoshiwara e da colônia, a patrulha de vigilantes ainda espreitando entre os guardas, deixando-os tão nervosos quanto os aldeões. No meio do percurso para Kanagawa, o movimento na estrada intenso, ele se desviara para a praia. Ali, subornara um pescador para levá-lo em seu bote à outra extremidade da colônia, perto da cidade dos bêbados, onde se escondera até o anoitecer. Estou fazendo a coisa certa, pensou ele, com absoluta convicção, a brisa que soprava do mar dispersando os insetos noturnos. A mulher é o alvo perfeito para Sonno-joi. Não importa o que Hiraga diz, talvez eu nunca mais tenha outra oportunidade de remover seu encantamento. Isso mesmo, caí sob seu encantamento Ela deve ser um kami, um espírito, uma mulher-lobo que renasceu como gai-jin; nenhuma outra mulher poderia ser virgem, e drogada, e ainda assim tão receptiva, nenhuma outra poderia fazer um homem explodir como eu explodi ou me manter tão transtornado de desejo.
Esta noite a possuirei pela segunda vez. E depois a matarei. Se eu escapar, karma. Se não escapar, karma. Mas ela morrerá por minha mão.
O suor escorria pelo rosto e costas. Mais uma vez, Ori concentrou-se, observando-a através da fresta, tão perto que, se não fosse pela parede, poderia estender a mão e tocá-la. Ela se ajeitou na cama, com uma camisola reveladora. A criada diminuiu a chama do lampião a óleo, deixando apenas tênue claridade.
— Boa noite, miss.
— Boa noite, Ah Soh.
Feliz por ficar sozinha, Angelique aconchegou-se sob as cobertas, vendo as sombras produzidas pela chama dançarem com a aragem, a cabeça encostada no braço. Antes de Kanagawa, o escuro nunca a perturbara; num instante resvalava para o mundo dos sonhos, acordando revigorada. Desde Kanagawa, no entanto, o padrão mudara. Agora insistia em ter uma luz acesa durante a noite. O sono não vinha com facilidade. A mente logo a conduzia por caminhos de suposições delirantes. As mãos apalpavam os seios. Tornaram-se um pouco mais cheios do que ontem, os mamilos mais sensíveis? Estão, sim... não, é apenas imaginação. E a barriga? Ficou mais redonda? Não, não há qualquer diferença, mas...
Mas havia uma vasta diferença, como a.C. e d.C, e pelo menos uma vez por dia especulo se seria um menino ou uma menina. Ou um demônio, saindo ao pai estuprador. Não, não, nenhuma criança gerada por mim poderia ser um demônio!
Demônio. Isso me lembra que hoje é sexta-feira e daqui a dois dias tenho de ir à igreja, me confessar de novo. As palavras não se tomaram mais fáceis. Como detesto a confissão agora e abomino o padre Leo, um velho gordo, grosseiro, lascivo, fedendo a tabaco. Ele me lembra o confessor de tia Emma em Paris... o velho escocês, recendendo a uísque, cujo francês era tão horrível quanto sua batina. Sorte minha que nem ela nem tio Michel eram fanáticos, apenas simples católicos de domingo. Gostaria de saber como ela está, e também o pobre tio Michel. Amanhã falarei com Malcolm...
O querido Malcolm, tão maravilhoso esta noite, tão forte e sensato... Ah, como eu o desejava! Fico contente em poder conversar com ele. Ainda bem que tia Emma Se recusou a aprender francês, por isso tive de aprender inglês. Como ela conseguiu sobreviver em Paris, durante tantos anos, falando apenas inglês? E o que de tio Michel para casar com ela e suportar tantas dificuldades? Embora eu não posso deixar de reconhecer que ela é uma desmazelada e, ele, um vulgar.
Amor! É isso o que ele sempre diria, e ela também, o que aconteceu quando se conheceram, na Normandia, nas férias de verão, ele um servidor público subalterno, ela uma atriz numa companhia shakespeariana itinerante. Foi amor à primeira vista, os dois sempre diriam, e acrescentariam que ela era linda, ele muito bonito. Fugiram juntos, casaram em uma semana, tão romântico, mas não foram felizes para sempre.
Mas nós seremos, Malcolm e eu. Com toda certeza! Amarei Malcolm como uma esposa moderna deve fazer, teremos muitos filhos, serão criados como católicos, não tem importância para ele, que também não é um fanático: “Não sou mesmo, Angelique. Claro que casaremos de acordo com as tradições protestantes a mãe não admitiria outra coisa. Mas depois podemos ter uma cerimônia católica em particular, se você assim desejar...”
Não importa que seja secreta, será o verdadeiro casamento — ao contrário do outro —, as crianças serão aceitas na Santa Madre Igreja, viveremos em Paris durante a maior parte do tempo, Malcolm me amará e eu o amarei, faremos amor de forma maravilhosa, pensou ela, o coração começando a palpitar de uma maneira cada vez mais agradável, enquanto a mente vagueava. Mais e mais profundamente. E depois, porque a noite fora maravilhosa, e ela se sentia maravilhosa, além de segura, permitiu que as partes agradáveis do sonho daquela noite aflorassem.
Não podia se lembrar de nenhuma com exatidão. A indignação dissolvia imagens dentro de imagens eróticas dentro de imagens eróticas. Um pequeno ardor, que se transformava em calor irradiando por todo o corpo. Sabendo, mas não sabendo. Sentindo, mas não sentindo, braços fortes que a envolviam, dominada por uma sensualidade nunca antes experimentada, uma abertura, de cabeça, corpo, vida, gloriosamente livre para abandonar todos os freios, para se deleitar com tudo, porque era... apenas um sonho.
Mas acordei, ou quase acordei, e fingi que não, perguntou ela a si mesma, mais uma vez, sempre com um calafrio. Não poderia reagir com tanta lascívia se estivesse acordada — tenho certeza —, mas o sonho era muito intenso e fui levada por uma tempestade a querer mais e mais...
Ela ouviu a porta externa da suíte ser aberta e fechada. Um momento depois, viu a maçaneta girar, a porta do quarto ser aberta, André entrar, sem fazer barulho, e tornar a fechá-la. Ele se encostou na porta, com um sorriso zombeteiro. Angelique sentiu súbito medo.
— O que você quer, André?
Ele não respondeu por um longo momento, depois aproximou-se da cama, fitou-a nos olhos e murmurou:
— Ahn... conversar... está bem? Devemos, não é? Conversar, ou... ou o que...
— Não compreendo...
Mas ela compreendia muito bem, podia perceber o brilho desconcertante em seus olhos, onde poucos minutos antes havia apenas compaixão. Esforçou-se para manter a voz sob controle, criticando-se por não ter trancado a porta... não havia necessidade onde só havia criados e funcionários da legação, nenhum dos quais ousaria entrar sem permissão.
— Por favor, André, não...
— Precisamos conversar sobre amanhã... e nos tornarmos amigos.
— Por favor, meu caro André, já é tarde, qualquer coisa pode esperar até amanhã. Sinto muito, mas você não tem o direito de entrar aqui sem bater...
Num pânico momentâneo, Angelique recuou para o outro lado da cama, enquanto ele sentava à beira e estendia as mãos em sua direção.
— Pare ou vou gritar!
A risada de André foi baixa e irónica.
— Se gritar, minha cara Angelique, isso atrairá os criados. Abrirei a porta e direi que você me convidou a vir aqui... queria privacidade para conversar sobre sua necessidade de dinheiro... dinheiro para um aborto. — Outra vez o sorriso sarcástico. — O que acha?
— Oh, André, não seja assim, por favor, vá embora... se alguém o visse aqui...
— Primeiro... primeiro um beijo. Ela corou.
— Saia! Como ousa?
— Cale a boca e escute — sussurrou ele, a voz ríspida, a mão segurando o pulso de Angelique, apertando-a com força. — Posso ousar qualquer coisa, e se quiser mais do que um beijo, você vai me dar, de bom grado ou não. Sem a minha ajuda, será descoberta, sem...
— André... por favor, largue-me.
Por mais que tentasse, ela não conseguia se desvencilhar. Com outro sorriso irônico, ele soltou-a.
— Você me machucou — balbuciou Angelique, quase em lágrimas.
— Não quero machucá-la — murmurou ele, a voz gutural parecendo estranha para si mesmo.
Sabia que era uma loucura estar ali, agindo daquela maneira, mas fora dominado por um horror tão súbito e intenso que prevalecera sobre a razão, os pés trazendo-o até ali como se tivessem vontade própria, a fim de forçá-la a... a fazer o quê? Partilhar a degradação dele. Por que não? Clamou o cérebro de André. A culpa é dela, ostentando os peitos e sua clamorosa sexualidade, lembrando-me! Ela não é melhor que uma vagabunda das ruas, talvez não tenha sido estuprada... e não está a fim de capturar Struan e seus milhões por quaisquer meios possíveis?
— Sou seu amigo, Angelique... e não a estou ajudando? Venha até aqui. Um beijo não é um pagamento tão grande assim...
— Não!
— Por Deus, faça isso de bom grado ou pararei de ajudá-la e daqui a um ou dois dias darei um aviso anônimo a Struan e Babcott. É isso o que você quer?
— André, por favor...
Angelique olhou ao redor, procurando desesperada por algum meio de escapar. Não havia nenhum. André se adiantou pela cama, estendeu a mão para o seio, mas ela empurrou-o, começou a resistir, a lutar, a golpear com as unhas direção de seus olhos. Mas ele a imobilizou, deixou-a impotente, por mais que se debatesse. Angelique tinha medo de gritar, sabia que se encontrava acuada, perdida, teria de se submeter. Abruptamente, soaram batidas violentas na janela.
O estrépito repentino arrancou André de sua loucura e fez com que ela soltasse um grito de susto. Transtornado, ele se levantou de um pulo, correu para a porta, destrancou-a, atravessou a sala da suíte, abriu também a porta que dava para o corredor. Depois virou-se, voltou correndo para as janelas, abrindo-as. Em segundos, soltou as trancas, empurrou-as para fora. Nada. Não havia ninguém ali. Apenas os arbustos, ondulando ao vento, o barulho, sem qualquer pessoa no caminho além da cerca.
O soldado de sentinela veio correndo.
— O que está acontecendo?
— Eu é que deveria lhe perguntar, soldado — disse André, o coração apertado, as palavras se atropelando. — Viu alguém... alguma coisa? Eu passava pela porta de mademoiselle e ouvi... ou pensei ter ouvido... alguém batendo na janela. Depressa, verifique ao redor!
Por trás dele, Piore Vervene, o chargéi'affiaies, uma vela na mão, entrou no quarto, apressado e ansioso, um chambre por cima do camisolão, a touca torta na cabeça. Outros começaram a se agrupar na porta.
— O que está acontecendo... oh, André! Mas... o que houve? Deu um grito, mademoiselle?
— Dei... ele... — balbuciou Angelique.— André... alguém bateu nas janelas e André...
— Eu passava pela porta — explicou André — e entrei correndo... não é verdade, Angelique?
Ela baixou os olhos, aconchegando-se contra as cobertas.
— É, sim... é verdade — murmurou, com medo e odiando-o, mas fazendo um esforço para esconder.
Vervene juntou-se a André na janela, olhou ao redor.
— Talvez tenha sido o vento. Temos súbitas rajadas aqui e as janelas não são muito novas.
Ele sacudiu uma das persianas. Estava mesmo um pouco solta e fez o maior barulho. Vervene gritou para o soldado:
— Dê uma busca meticulosa e volte aqui para comunicar o que descobrir — Ele fechou a janela e trancou-a. — Pronto? Não há mais nada com que se preocupar.
— Sei disso, mas...
Lágrimas de alívio afloraram aos olhos de Angelique.
— Mon Dieu, mademoiselle, não há motivos para se preocupar. Não chore.
Está perfeitamente segura, não precisa se preocupar com coisa alguma.
Vervene tirou a touca da cabeça, coçou a calva, aturdido. Foi então que avistou Ah Soh entre as pessoas na porta e gesticulou agradecido para ela.
— Ah Soh, você vai dormir aqui com a miss, está bem?
— Sim, amo.
Ah Soh afastou-se apressada para pegar algumas roupas de cama, e os outros começaram a se dispersar.
— Esperarei com mademoiselle Angelique até ela voltar. — Vervene bocejou. — Provavelmente os dois se enganaram e foi apenas o vento. Quem haveria de bater na janela? Não há pirralhos de rua na colônia para fazer brincadeiras assim, ou para tentar furtar qualquer coisa, graças a Deus. Só pode ter sido o vento, não é mesmo?
— Tem toda razão — declarou André, seu pavor agora controlado, temendo que alguém estivesse lá fora, observando... vira a fresta na janela, mas nenhum outro sinal. — Não concorda, Angelique?
— Eu... hum... é possível.
Ela sentia-se perturbada, ainda não recuperada do medo, tanto de André quanto do barulho repentino. Por que ocorrera naquele exato momento? Teria sido alguém ou apenas um vento enviado por Deus... uma autêntica dádiva divina? Vento ou não, pessoa ou não, isso não importa, concluiu ela. O importante é que escapei, amanhã voltarei para junto de Malcolm, não ouso continuar aqui, não devo ficar tão perto de André, é perigoso demais.
— Soou como alguém batendo, mas... mas posso estar enganada. Talvez tenha sido uma súbita rajada.
— Tenho certeza que foi — garantiu Vervene, confiante. — Minhas janelas estão sempre batendo assim e me acordam várias vezes.
Ele tossiu, sentou, olhou gentilmente para André, cujo rosto ainda estava branco.
— Não precisa ficar esperando comigo, meu amigo. Não parece estar muito bem... dá a impressão, que Deus o guarde, de ter uma crise do fígado.
— É possível... e não estou mesmo me sentindo bem. — André olhou para Angelique. — Sinto muito.
Ele fitou-a nos olhos, a voz calma e suave. Parecia ser de novo o velho André, toda estranheza, desejo e violência desaparecidos.
— Boa noite, Angelique. Não precisa mais ter medo de coisa alguma... nunca mais. Monsieur Vervene tem toda razão.
— Ahn... concordo. Obrigada, André.
Angelique forçou um sorriso, e ele saiu. Fitara-o bem fundo, querendo encontrar a verdade por trás de seus olhos. A expressão era cordial, nada mais. Mas ela não confiava no que vira. Mesmo assim, sabia que teria de fazer as pazes com André, aceitar seu inevitável pedido de desculpas — fingindo esquecer tudo, concordando que o ataque fora uma loucura momentânea —, e se tornar amigos de novo. Na superfície.
Ela estremeceu. Em seu íntimo, também sabia que tudo o que André exigisse ela teria de ceder. Enquanto ele vivesse.
Ori tremia todo, agachado sob um barco emborcado, na praia de seixos. As ondas se desmanchavam a vinte metros dali.
— Você está completamente baka — balbuciou ele, a fúria dirigida contra ele mesmo.
Antes de compreender o que fazia, batera nas janelas e depois, transtornado com sua estupidez, saíra correndo, pulara a cerca, encontrara o remo usado como camuflagem, ajeitara-o ao ombro e, sem ser detido, atravessara a rua, enquanto vozes gai-jin soavam lá atrás.
Hiraga deve estar certo, pensou ele, nauseado, confuso, o coração doendo no peito, o ombro latejando, e um filete de sangue quente escorrendo da abertura no ferimento causada por sua fuga precipitada. Talvez aquela mulher tenha realmente me deixado louco. Sem qualquer dúvida, foi uma loucura bater na janela... de que isso me serviria? Qual o problema se ela deitasse com outro? Por que isso deveria me enfurecer tanto, fazer o coração explodir em meus ouvidos? Não sou dono dela, nem quero ser, que diferença faz se outro gai-jin a possui, com ou sem violência? Algumas mulheres precisam de uma certa violência para excitá-las, como muitos homens... ah, espere, teria sido melhor se ela lutasse comigo, em vez de me acolher daquele jeito, por mais drogada que estivesse... ou fingisse estar?
Fingisse?
Era a primeira vez que tal pensamento lhe ocorria. Um pouco da raiva se esvaiu, embora o coração continuasse disparado, as têmporas ainda latejassem. Seria possível que ela estivesse fingindo? Claro que sim, pois seus braços me enlaçaram, suas pernas me envolveram, e seu corpo se mexeu como o de nenhuma outra... todas as parceiras de travesseiro se mexem com sensualidade, soltam gemidos e suspiros, às vezes exibem umas poucas lágrimas e murmuram “Ah, como você é forte, como me esgota, nunca tive o privilégio de conhecer um homem assim antes...”, mas todos os clientes sabem que são palavras superficiais, decoradas, parte do treinamento, nada mais do que isso, inexpressivas.
Ela não se comportou assim e cada momento teve um significado para mim. Não importa se ela fingia ou não... provavelmente fingia, pois as mulheres são cheias de astúcia. Não me importo, mas não deveria ter golpeado a janela como um tolo alucinado, revelando minha presença e esconderijo, provavelmente arruinando para sempre toda e qualquer possibilidade de, novamente, ter acesso àquele lugar.
Outra vez a raiva o dominou. Bateu com o punho na madeira do casco.
— Baka! — sussurrou, com vontade de gritar bem alto.
Passos sobre os seixos. Cauteloso, Ori se encolheu ainda mais nas sombras esquivando-se da claridade desastrosa da lua. Ouviu as vozes de pescadores se aproximando, conversando, censurando-se mais uma vez por não se ter mantido mais alerta. Quase que no mesmo instante, um pescador rude, de meia-idade, contornou a popa do barco e parou.
— Cuidado! Quem é você, estranho?— indagou o homem, furioso, segurando o mastro curto que tinha nas mãos como se fosse um porrete. — O que está fazendo aqui?
Ori não se mexeu, apenas fitou-o com uma expressão irada e aos outros que vieram se postar ao lado do primeiro. Um também era de meia-idade, o outro um jovem, não muito mais velho que Ori.
— Não deve perguntar algo assim a seus superiores — disse ele. — Onde estão suas maneiras?
— Quem é você? Não é um samu...
O homem parou de falar, paralisado, enquanto Ori se levantava de um pulo, a mão na espada, a lâmina começando a sair da bainha, ameaçadora.
— De joelhos, ralé, antes que eu arranque seus corações baka... um corte de cabelos diferente não faz com que eu seja menos samurai!
No mesmo instante, os pescadores caíram de joelhos, baixando a cabeça para a areia, balbuciando desculpas, convencidos da autoridade de Ori, pela maneira como a espada curta era empunhada.
— Calem-se! — gritou Ori. — Para onde estão indo?
— Vamos sair para pescar, lorde, por meia légua de mar. Por favor, perdoe-nos, mas no escuro, com seus cabelos...
— Cale-se! Levem o barco para a água! Depressa!
Saindo pelo mar, são e salvo, a raiva ofuscante controlada, o ar marinho purificando-o, Ori olhou para a colônia. As luzes continuavam acesas nas legações francesa e britânica, no prédio Struan e no clube que Hiraga lhe indicara. Lampiões a óleo ao longo da praia, umas poucas janelas iluminadas em outros bangalôs e armazéns, a cidade dos bêbados com a agitação normal, que se prolongaria noite adentro, os lugares que vendiam bebida nunca adormecendo por completo.
Mas toda a sua atenção se concentrou na legação francesa. Por quê? Ele não parava de perguntar a si mesmo. Por que eu haveria de me sentir tão possuído pelo... ciúme? Essa era a verdadeira palavra. Um ciúme insano. Sentir ciúme por causa de travesseiro é baka.
Teria sido por causa do que Hiraga me contou? “Taira diz que o costume deles é como o nosso na classe dirigente, um homem não vai para a cama com a mulher com quem casará antes do casamento...” Isso significa que o tai-pan não a levará para a cama, e como ela está prometida, ninguém mais tem esse direito. Bati nas janelas para impedir que aquele homem a possuísse... ou para protegê-la?
Ou foi apenas porque não queria que nenhum outro homem a tivesse até que eu pudesse fazê-lo de novo... o que seria uma estupidez ainda maior? Reagi assim Porque fui o primeiro? Isso faz com que seja diferente... por ter sido o único que a possuiu? Lembre-se, os chineses sempre acreditaram que a virgindade é o mais poderoso afrodisíaco entre o céu e a terra. Foi por isso que agi assim?
Não. Foi um súbito impulso. Acho que ela é uma mulher-lobo e deve ser morta... de preferência após deitar com ela mais uma vez... para que eu possa escapar a seu encantamento.
Mas como e quando? Deveria ser agora.
Só que é perigoso demais permanecer na colônia ou na Yoshiwara. Hiraga acabará descobrindo que não fui embora. E serei um homem morto se ele me encontrar. Dá para arriscar mais três dias e, depois, se não conseguir alcançá-la, partir apressado para Quioto, sem que Hiraga descubra? É mais seguro ir agora. O que fazer?
— Você, velho, onde mora?
— Segunda rua, quinta casa, lorde — balbuciou o pescador.
Todos sentiam profundo medo, sabendo que aquele devia ser um dos ronin que se esconderam na colônia, a fim de escapar aos vigilantes de Toranaga.
Domingo, 19 de outubro:
Os sinos da igreja chamavam os fiéis na manhã clara e agradável.
— Não há muitos fiéis em Iocoama — comentou Jamie McFay para Struan. Os ombros e as costas de McFay doíam, a igreja e o serviço iminente não eram de seu gosto, muito diferente do austero presbiterianismo escocês de sua infância. Uma pausa, e ele acrescentou, cauteloso, inseguro sobre a reação de Struan, depois da briga violenta que haviam tido no dia anterior:
— Não que eu seja um fiel que sempre vai à igreja... não sou mais. Minha mãe continua tão rigorosa como sempre, freqüenta três serviços aos domingos.
— Igual à minha, só que na igreja anglicana — murmurou Struan, cansado. Ele andava devagar, meio trôpego, encurvado, apoiado nas bengalas, em meio aos homens que convergiam para a igreja, no final da High Street, um pouco recuada, com seu próprio jardim, num terreno seleto, de frente para o mar.
— Mas a igreja aqui é muito bonita e faz com que Iocoama pareça permanente.
A Santíssima Trindade ou Santíssima Mama, como era reservadamente apelidada, era o orgulho da colônia. Fora consagrada, no ano anterior, pelo bispo de Hong Kong. O campanário era alto e o sino repicava suavemente, lembrando a todos de sua terra natal... tão distante. Madeira, tijolos e reboco de Xangai. Jardim bem cuidado, um pequeno cemitério, com apenas sete sepulturas, pois as doenças eram raras em Iocoama... ao contrário de Hong Kong, com suas pragas e a letal febre do Happy Valley, a malária. Todas as sete mortes haviam sido causadas por Ridente, exceto uma, por velhice. Vinte anos trabalhando na Ásia era algo raro, e mais raro ainda o homem que passava da idade da aposentadoria.
O sino tornou a repicar, ainda não insistente, havia tempo suficiente para que ocupassem os seus lugares, no banco da Casa Nobre, na primeira fila. Preciso de toda ajuda que puder obter, pensou Struan, fervoroso, nunca um devoto, mas sempre um crente. Fico contente que a igreja seja nossa mais que dos outros mercadores.
O terreno e o prédio haviam sido doados à igreja anglicana por todos os mercadores. Fora com entusiasmo que votaram a coleta, quatro horas depois o Yokohama Club abrira suas portas para os negócios, no mesmo dia em que fundara a colônia... por insistência de McFay, agindo sob as ordens de Tess Strum, que garantira cinqüenta por cento do custo. Ela assumira também o compromisso de fornecer o sino e mandara fazê-lo na nova fundição da companhia, em Hong Kong. Quando Tyler Brock soubera, tratara de encomendar, para não ser superado por sua filha apartada e odiada, um vitral em Londres, assim como bancos de carvalho inglês.
— Não tem problema ir à igreja no domingo, uma vez por mês, meu pai costumava dizer, mas nunca na frente da mãe. — Struan sorriu, desolado — Quando era mais jovem, no entanto, ele freqüentava a igreja tanto quanto a mãe agora...
Ele parou por um instante, a fim de recuperar o fôlego, e olhou para o mar Estava encapelado, azul-cinza, o céu salpicado de cúmulos. Uma dúzia ou por aí de navios mercantes se encontravam ancorados no estreito, os ingleses predominando, mas também um americano, um russo, o vapor de correspondência que chegara no dia anterior, a nave capitânia francesa, um vapor de roda e a fragata a vapor de vinte e um canhões Pearl, ainda sem o mastro de proa.
— A gente fica com uma sensação de nudez sem a esquadra, não acha?
— Tem razão. Não são muitos os que deixarão de fazer suas preces hoje. McFay girou a cabeça lentamente, a fim de atenuar a dor no pescoço.
— Quanto tempo acha que eles ficarão longe?
— Um mês é minha aposta... Bom dia, Sra. Lunkchurch.
Ambos tiraram o chapéu, polidos, Struan meio desajeitado, enquanto ela passava, de anquinhas e touca, o marido a reboque, suado, o rosto coberto de equimoses.
— O que aconteceu com ele?
— Uma briga — respondeu McFay, cauteloso, ainda tentando avaliar o ânimo de Struan, pois não o vira nem tivera notícias desde o dia anterior, exceto por um recado lacônico, naquela manhã, pedindo que o acompanhasse na ida à igreja. Struan recomeçou a andar e ele também. — Parece que ele, Dmitri e uns poucos outros decidiram visitar a cidade dos bêbados ontem à noite, para uma farra de noite de sábado.
— Ou seja, uma briga a socos?
— Infelizmente, era essa a idéia básica. Dmitri disse que se divertiram um bocado.
Struan notou o súbito brilho nos olhos de McFay.
— Também esteve lá, Jamie? — indagou ele, secamente, para sorrir em seguida.
McFay viu o sorriso e experimentou um profundo alívio.
— Ahn... estive, sim, tai-pan... também fui... mas apenas para evitar que Dmitri se metesse em alguma encrenca.
— E ele se meteu? — perguntou Struan, com uma pontada de inveja.
— Não, mas... ora, tai-pan, foi muito divertido.
— Você é um homem de sorte! Vamos, Jamie, conte-me tudo!
Jamie ouviu e viu a cordialidade e camaradagem francas que receara ter perdido para sempre e ficou radiante, as dores esquecidas, as raivas esquecidas, assim como as preocupações pelo futuro.
— Houve uma espetacular briga de gado no Buli and Cock, a melhor que já tivemos por aqui. Eles têm, agora, uma nova rinha e uma cerveja de Nagasáqui que é melhor do que a nossa Highland Dark! Dois treinadores do exército enfrentaram dois dos nossos rapazes, Chandler Sykes e Old Bloody.
— Quem?
— É um dos nossos marujos aposentados, um mestre artilheiro, chamado Charlie Bent, ex-tripulante do Lasting Cloud... o mesmo artilheiro que explodiu o junco de guerra de Wu Fang Choi para seu pai, em 1.843. Agora ele tem o apelido de “Old Bloody”, o velho sangrento, porque parece um matadouro. Apostei nele até o fim, tai-pan, e ganhei vinte e cinco libras. Depois, fomos ao palácio Yokopoko... é a maior taverna da cidade dos bêbados, frequentada principalmente pelo pessoal do exército, a marinha prefere o Friar Tuck, e as duas partes não costumam se encontrar.
Ele riu, antes de continuar:
— Perdi dez libras na roleta e mais cinco nos dados. Não demorou muito para que começasse a maior briga do mundo, os mercadores contra o resto. Acho que ganhamos. E depois voltamos para casa... mas alguns preferiram fazer uma visitinha a Naughty Nellie.
— Você também?
— Hum... eu também, mas apenas para um último drinque, porque a champanhe que ela oferece é a melhor e a mais barata de Iocoama.
— E as mulheres?
McFay soltou outra risada.
— Nada como o Estabelecimento para Moças da Sra. Fortheringill em Hong Kong! Há cerca de uma dúzia de mulheres, a maioria do East End, via Hong Kong, umas poucas de Sydney, na Austrália, filhas de condenadas que cumpriram suas penas e continuaram por lá. Todas são um pouco porcas, não têm nada a ver com meu gosto. — Transbordando de bonomia, ele cumprimentou transeuntes e acrescentou, sem pensar: — Minhas necessidades são mais do que bem atendidas por Nemi.
Ele olhou para Struan, viu seu rosto tenso. Perdeu a jovialidade no mesmo instante e censurou-se por mencionar Nemi.
— Você está bem, tai-panl
— Claro — respondeu Struan, dominado por uma abrupta inveja da força e virilidade do outro homem, não o detestando por isso, mas apenas a si mesmo. — Não suporto mais continuar assim, Jamie. Não pode imaginar como detesto. É muito difícil ser paciente. Mas tenho que ser, sei disso.
Ele forçou um sorriso.
— Nemi? Ah, sim, ela parecia uma moça bastante simpática. E bonita.
Com tremendo esforço, Struan afastou a mente de Shizuka e seu fracasso, a necessidade frenética de ter êxito com Angelique, navegar pelas águas turbulentas à frente e enfrentar a tempestade que a mãe com certeza criaria. Uma coisa de cada vez. Agora, prepare-se para enfrentar a igreja, depois o resto do dia, até seis horas da tarde, quando Ah Tok trará o medicamento:
— Não gostaria de tomar um pouco antes de ir para o templo, meu filho?
— Não, obrigado, mãe. Uma vez por dia é suficiente. O doutor disse que eu deveria ter cuidado.
— O que os demônios estrangeiros sabem?
— Não se esqueça de que também sou um demônio estrangeiro.
— Pode ser, mas é meu filho...
Ah Tok é uma velha megera. Mas posso confiar nela. Não há nada de errado em tomar um pouco uma vez por dia. Posso parar a qualquer momento que quiser. Não preciso durante o dia, embora sempre ajude, é claro. Preciso decidir sobre a carta da mãe, tenho de escrever para ela, despachar pelo navio de correspondência que parte amanhã. É indispensável.
A carta da mãe fora trazida do navio de correspondência por um mensageiro especial, um inevitável parente do compradore, Gordon Chen. Mais uma vez, não tinha o “P.S. Eu amo você”. E também mais uma vez, a mensagem secreta o enfurecera:
Malcolm: você enlouqueceu por completo? Festa de noivado? Depois que eu o alertei? Por que ignorou totalmente minha carta e meu chamado urgente para voltar? Se não fosse pelo relatório médico do dr. Hoag, recebido hoje, com a notícia inacreditável, eu teria presumido que você sofreu ferimentos na cabeça também, além dos terríveis ferimentos de espada. Exigi que o nosso governador tome as mais rigorosas providências contra esses animais bárbaros e leve os culpados à justiça da rainha de imediato! Se ele não o fizer, adverti-o pessoalmente de que toda a força da Casa Nobre será mobilizada contra esta administração!
Mas já chega disso. É VITAL que você volte a Hong Kong o mais depressa possível, a fim de resolver três problemas. Claro que estou disposta a perdoar sua transgressão, pois ainda é bastante jovem, passou por uma experiência terrível e caiu nas garras de uma mulher muito astuta. Agradeço a Deus por você estar recuperando as forças a cada dia que passa. Pelo relatório do dr. Hoag, tenho certeza que estará em condições de viajar quando receber esta carta (instruí o dr. Hoag a voltar com você e o considero pessoalmente responsável por sua segurança). Reservei as passagem pra os dois no navio de correspondência... mas não para ela, uma atitude deliberada.
É essencial que você volte DEPRESSA E SOZINHO. Primeiro, para se tornar formalmente o tai-pan. Seu avô deixou instruções específicas, por escrito, e DEVEM ser cumpridas antes que você possa ser o tai-pan LEGAL da Struan, independente do que seu pai ou eu lhe deixemos em testamento. Antes de morrer, seu pai, como você estava ausente, fez-me jurar o que tinha de ser jurado e prometer que exigiria o seu juramento das mesmas condições. Isso deve ser feito sem demora.
Segundo: porque devemos decidir logo como combater o ataque que Tyler Brock desfechou contra nós — mencionei antes que ele conta com o apoio total do Victoria Bank, e hoje ameaça executar nossas notas promissórias, o que nos causaria a ruína, se for bem-sucedido. Gordon Chen sugeriu uma solução, mas é muito arriscada, não pode ser explicada por escrito, e exige a assinatura e participação do tai-pan. Meu meio-irmão, “Sir” Morgan Brock, acaba de chegar a Hong Kong e tem ostentado seu título, que só adquiriu ao persuadir o sogro sem herdeiros a adotá-lo, para logo depois, de uma forma bem conveniente, morrer.
O pobre coitado recebeu alguma assistência? Deus me perdoe, mas dá para duvidar. Tanto ele quanto Tyler Brock proclamam que até o Natal terão nos humilhado e estarão de posse de nosso camarote de organizador de corridas no hipódromo de Happy Valley. A votação para o novo organizador foi ontem. Pelos desejos de seu avô, como em seu nome, mais uma vez lhe dei a bola preta. Deus me perdoe, mas odeio tanto meu pai que isso quase me deixa louca.
Terceiro: a cilada em que você caiu! Não pude acreditar em meus ouvidos sobre essa “festa de noivado “até que a notícia foi confirmada. Torço para que, a esta altura, com a ajuda de Deus, seu bom senso tenha voltado e possa compreender o que lhe aconteceu. Por sorte, você não pode casar sem a minha aprovação, muito menos com a filha católica de um escroque fugitivo (há mandatos judiciais para prendê-lo por suas dívidas). Por uma questão de justiça, devo dizer que entendo a sua situação. Gordon Chen explicou como seria fácil para um jovem como você ser envolvido; portanto, não se desespere. Temos um plano que o arrancará das garras dessa mulher e provará sem a menor sombra de dúvida que ela não passa — sinto muito, meu filho, mas tenho de ser rude — de uma jezebel.
Quando você casar, sua esposa deve ser inglesa, temente a Deus, nunca uma herege, uma dama de boa família, bem-educada e à vontade na SOCIEDADE, digna de ser sua esposa, com um dote apropriado, e qualidades para ajudá-lo em seu futuro. Quando chegar o momento você poderá escolher entre muitas damas condizentes.
Pela mesma correspondência, escrevi para o Dr. Hoag, e também para McFay, expressando meu choque por ele ter permitido que esse noivado estúpido ocorresse. Aguardo ansiosa o momento de abraçá-lo de novo, dentro de poucos dias. Sua mãe afetuosa.
Quase que no mesmo instante, Jamie entrara correndo no quarto, o rosto branco.
— Ela já sabe!
— Também recebi uma carta. Mas não importa.
— Oh, Deus, Malcolm, você não pode se limitar a dizer que não importa! — balbuciara McFay, quase incoerente. Ele estendera a carta que tremia em sua mão. — Tome aqui. Leia você mesmo.
A carta, sem qualquer forma de cumprimento, tinha apenas a assinatura de Tess Struan:
A menos que tenha uma explicação satisfatória do motivo pelo qual permitiu que meu filho (embora ele seja o tai-pan, você deve saber que ainda é menor) se tornasse noivo, sem primeiro obter minha aprovação... a qual DEVE saber que nunca seria concedida, para uma união tão absurda, deixará de ser o chefe da Struan no Japão ao final do ano. Ponha o Sr. Vargas no comando por enquanto e volte com meu filho no navio de correspondência, para resolver essa questão.
Struan devolvera a carta, furioso.
— Não voltarei para Hong Kong agora... só irei no momento em que eu decidir.
— Por Deus, Malcolm, se ela nos ordena que voltemos, então é melhor obedecermos. Há motivos para...
— Não! — explodira ele. — Será que não entende? NÃO!
— Abra os olhos para a verdade! — gritara McFay também. — Você ainda é menor, ela dirige a companhia, há muitos anos. Estamos sob suas ordens e...
— Não estou sob as ordens dela, nem de ninguém! E agora saia!
— Não vou sair, não! Será que não pode perceber que é sensato o que ela pede, não tem nada de difícil? Podemos voltar para cá em duas ou três semanas. Você terá de obter a aprovação de sua mãe em algum momento e, certamente, melhor tentar agora. Abriria o caminho para você, tornaria o nosso trabalho muito mais fácil...
— Não! E... e estou cancelando as ordens dela. A partir de agora, terá de obedecer às minhas ordens. Sou o tai-pan da Struan!
— Deve saber que não posso ficar contra ela!
Struan quase tropeçou, a caminho da igreja, ao recordar a terrível pontada de dor nos lombos quando, sem pensar, levantara-se de um pulo e gritara para McFay:
— Tenho de lembrá-lo do seu juramento sagrado de servir ao tai-pan, ao TAI-PAN, pelo amor de Deus, quem quer que ele seja, não à porra da sua mãe? JÁ ESQUECEU?
— Mas você não...
— A quem você vai obedecer, Jamie? A mim ou à minha mãe?
Um vasto abismo abrira-se entre os dois, houvera mais raiva, mais palavras, mas ele acabara prevalecendo. Era uma batalha de cartas marcadas. A cláusula constava de todos os contratos de trabalho, as pessoas tinham de assinar e ainda jurar por Deus, de acordo com as instruções do fundador.
— Está bem, eu concordo! — dissera McFay, entre os dentes semicerrados. — Mas exijo... desculpe, solicito o direito de escrever para ela e comunicar minhas novas ordens.
— Faça isso e envie a mensagem pelo navio de correspondência. Aproveite para informar que o tai-pan ordenou que você permaneça aqui, que somente eu posso despedi-lo, e é o que farei, se tiver algum problema... e que se quero ficar noivo, menor ou não, a decisão cabe apenas a mim.
Depois, ele tornara a arriar na cadeira, quase dobrando de dor.
— Por Deus, tai-pan — balbuciara McFay —, ela vai me dispensar, quer você goste ou não. Estou perdido.
— Ela não pode dispensá-lo sem a minha concordância. Está em nossos estatutos.
— É possível. Mas quer você goste ou não, ela pode converter minha vida e a sua num inferno.
— Não, porque você está apenas fazendo o que eu quero. Encontra-se nos limites da lei de Dirk... e é isso o que a governa, acima de todo o resto.
Ele recordara as inúmeras ocasiões em que a mãe invocara o nome de Dirk Struan para seu pai, para ele, ou para seus irmãos e irmãs, numa questão de negócios, de moral ou da própria vida. E o pai e a mãe disseram mil e uma vezes que eu seria o tai-pan depois dele, e todos aceitaram, em particular tio Gordon. As formalidades podem esperar, ela apenas tenta usar um pretexto adicional para me controlar... afinal, fui preparado durante toda a minha vida para o cargo, sei como lidar com ela e sei qual é o problema aqui.
— Sou o tai-pan, e agora... agora, se me dá licença, tennho muito trabalho a fazer.
No instante em que ficara sozinho, ele gritara por Ah Tok.
Foi uma ocasião em que eu realmente precisava do medicamento, funcionava muito bem, salvou-me de toda aquela dor e angústia, proporcionou-me coragem de novo, e mais tarde um momento feliz com Angelique. Ah, meu anjo de volta à suíte ao lado da minha, graças a Deus, tão próxima, tão atraente, tão sedutora mas eu bem que gostaria que a ânsia não surgisse ao pensar nela, e que isso não levasse à dor mais intensa, com a manhã ainda nem atingindo a metade, um sermão interminável pela frente, um almoço para suportar... e mais de oito horas até o próximo...
— Desculpe por ontem — disse McFay. — Sinto muito.
— Não foi nada. Serviu para expor os problemas e acertá-los — respondeu Struan, com uma estranha força. — Agora a companhia tem um líder autêntico Admito que meu pai não era muito eficaz e passou a maior parte dos seus últimos anos embriagado, com a mãe fazendo o melhor que podia, mas que não foi suficiente para nos manter à frente da Brock... vamos ser francos e reconhecerque eles são mais fortes, mais ricos e mais sólidos do que nós e que teremos muita sorte se resistirmos à atual tempestade. Veja o caso do Japão... as operações aqui mal dão para pagar as despesas.
— Tem razão, a curto prazo, mas não podemos esquecer que serão bastante lucrativas a longo prazo.
— Não da maneira como você as tem dirigido até agora. Os japoneses não nos compram quaisquer mercadorias lucrativas. Nós compramos seda e bichos-da-seda, uns poucos objetos laqueados e o que mais? Nada de valor. Eles não têm indústrias e parecem não querer nenhuma.
— É verdade, mas devemos lembrar que a China demorou anos para se abrir. E ali temos o ópio, o chá e a prata.
— Tem razão, mas a China é diferente. Existe ali uma civilização antiga e refinada. Temos amigos na China e, também, como você costuma dizer, um padrão de comércio. Minha opinião é de que devemos acelerar as coisas aqui para sobreviver ou fecharmos.
— Assim que Sir William resolver o problema com o Bakufu...
— Que se dane isso! — exclamou Struan, a voz estridente.— Estou cansado de ficar empacado numa cadeira e ouvir as pessoas dizerem que devemos esperar até que Sir William ordene que a esquadra e o exército cumpram o seu dever. Quero estar presente na próxima reunião com o Bakufu... ou melhor ainda, arrumaremos uma reunião particular para mim primeiro.
— Mas, tai-pan...
— Cuide disso, Jamie. É o que quero. E providencie depressa.
— Não sei como é possível.
— Pergunte ao samurai domado de Phillip Tyrer, Nakama. Melhor ainda, promova um encontro secreto com ele, para que Phillip não fique comprometido.
McFay transmitira-lhe todas as informações fornecidas por “Nakama”.
— É uma boa idéia — declarou ele, com sinceridade, animado com o queixo erguido e fogo que ardia em Struan. Talvez, depois de muito tempo, pensou e haja alguém aqui que possa fazer com que as coisas aconteçam. — Falarei com Phillip logo depois da igreja.
— Quando parte o próximo navio para San Francisco?
— Dentro de uma semana, o mercante confederado Savannah Lady. — McFay baixou a voz, cauteloso, pois um grupo de mercadores passava por eles. — Nossa encomenda de Choshu segue nesse navio.
— Em quem podemos confiar para viajar no navio, numa missão especial? — perguntou Struan, pondo seu plano em execução.
— Vargas.
— Ele não, pois é necessário aqui.
Struan tornou a parar, as pernas doloridas, claudicou até o lado do passeio, onde havia um muro baixo, em parte para descansar, mas também para manter a conversa em particular.
— Quem mais? Tem de ser bom.
— O sobrinho dele, Pedrito... é um rapaz esperto, parece mais português do que Vargas, não tem nada de chinês em seu rosto, fala português, espanhol, inglês e cantonês... e é bom com os números. Seria aceitável, tanto no norte, quanto na confederação. O que tem em mente?
— Reserve passagem para ele nesse navio. Quero que ele siga com a encomenda, que vamos quadruplicar, e também pedir...
— Quatro mil fuzis? — murmurou McFay, espantado.
— Isso mesmo. Mande também uma carta para a fábrica, pelo navio de correspondência de amanhã, avisando que devem esperá-lo. O navio fará conexão com o vapor da Califórnia que zarpa de Hong Kong.
McFay ressaltou, apreensivo:
— Mas só recebemos uma entrada em ouro para cobrir duzentos... teremos de pagar toda a encomenda, pois essa é a política da fábrica. Não acha que seria um risco excessivo?
— Algumas pessoas podem pensar assim, eu não.
— Mesmo com um carregamento de dois mil... o almirante fica histérico com a importação de armas de fogo e ópio... sei que ele não pode fazer nada por lei — acrescentou McFay —, mas, se quiser, ainda pode confiscar uma carga sob a alegação de emergência nacional.
— Ele não descobrirá nada, até ser tarde demais... você será esperto o suficiente para enganá-lo. Prepare uma carta para acompanhar o pedido, enviando uma cópia pelo navio de correspondência... cuide disso pessoalmente, Jamie, em sigilo... solicitando à fábrica um serviço especial para essa encomenda e também que nos nomeie seus agentes exclusivos para a Ásia.
— É uma excelente idéia, tai-pan, mas aconselho com veemência a não aumentar a encomenda.
— Faça um pedido de cinco mil fuzis e enfatize que negociaremos um contrato ainda mais atraente. Não quero que Norbert se antecipe a nós nesse negócio.
Struan recomeçou a andar, a dor pior agora. Sem olhar para McFay, sabia o que o outro estava pensando e disse, irritado:
— Não há necessidade de confirmar com Hong Kong primeiro. Faça o que estou mandando. Assinarei o pedido e a carta.
Depois de uma pausa, McFay acenou com a cabeça.
— Como quiser.
— Ótimo. — Ele percebeu a relutância na voz de McFay e decidiu que aquele era o momento. — Estamos mudando nossa política no Japão. Eles gostam de matar por aqui, não é mesmo? Segundo esse Nakama, muitos de seus reis estão dispostos a se revoltarem contra o Bakufu, que sem dúvida não é nosso amigo Pois vamos ajudá-los a fazer o que querem. Venderemos o que pedirem: armamentos, alguns navios, até mesmo uma fábrica de canhões, talvez duas, tudo em quantidades crescentes... em troca de ouro e prata.
— E se eles voltarem as armas contra nós?
— Uma única vez será suficiente para lhes ensinarmos uma lição, como aconteceu em todas as outras partes do mundo. Venderemos mosquetes, alguns fuzis de carregar pela culatra, mas não metralhadoras, nem os canhões maiores, nem os navios de guerra mais modernos. Daremos ao freguês o que ele quer comprar.
Angelique ajoelhou-se diante da tela do pequeno confessionário, ajeitou-se da melhor forma que as saias volumosas permitiam e iniciou o ritual, as palavras em latim saindo quase unidas, como era normal para os que não liam nem escreviam a língua, mas haviam aprendido as obrigatórias orações e responsas desde a infância, pela constante repetição.
— Perdoe-me, padre, pois eu pequei...
No outro lado da tela, o padre Leo estava mais atento do que o habitual. Em circunstâncias normais, escutava com a metade de um ouvido, certo de que seus penitentes mentiam, os pecados inconfessos, o nível de transgressão elevado — mas não maior que nas outras colônias na Ásia —, e as penitências que ordenava eram cumpridas apenas de uma maneira superficial ou totalmente ignoradas.
— Muito bem, minha criança, você pecou — disse ele, em sua voz mais agradável, com um francês de forte sotaque. Tinha cinqüenta e cinco anos, era corpulento e barbudo, ordenado há vinte e sete anos, em grande parte satisfeito com as migalhas de vida que julgava que Deus lhe permitia. — Que pecados cometeu esta semana?
— Esqueci de pedir perdão à Madona em minhas orações uma noite — respondeu ela, com uma calma absoluta, cumprindo seu pacto. — Também tive muitos pensamentos e sonhos ruins e fiquei com medo, esqueci que me encontrava nas mãos de Deus...
Em Kanagawa, no dia seguinte àquela noite — depois de pensar numa saída para sua catástrofe —, Angelique ajoelhara-se chorando diante do pequeno crucifixo que sempre levava a toda parte.
— Mãe de Deus, não há necessidade de explicar o que aconteceu e de como pequei de forma terrível — soluçara ela, rezando com todo o fervor de que era capaz. — Também não preciso explicar que não tenho ninguém a quem recorrer, ou que preciso desesperadamente de sua ajuda, ou que é óbvio que não posso contar a ninguém, nem mesmo na confissão, não ouso confessar o que ocorreu. Isso destruiria minha única chance... E ela acrescentara:
— Assim, de joelhos, eu lhe suplico, por favor, que façamos um pacto: quando eu disser na confissão esqueci de pedir perdão à Madona em minhas orações uma noite, isso significa na verdade que estou confessando, contando tudo o que lhe falei, e que viu acontecer comigo, junto com as pequenas mentiras que terei de inventar para me proteger. Suplico perdão por pedir isso, mas preciso de sua ajuda, não tenho mais ninguém a quem possa recorrer. Sei que vai me perdoar, e sei também que vai compreender, porque é a Mãe de Deus e uma mulher... vai compreender, e tenho certeza que me absolverá...
Ela podia ver o perfil de padre Leo por trás da tela, sentir o cheiro de vinho e alho em sua respiração. Suspirou, agradeceu à Madona, com toda força de seu coração, por ajudá-la.
— Perdoe-me, padre, pois eu pequei.
— Esses pecados não parecem ser tão terríveis, minha criança.
— Obrigada, padre.
Ela reprimiu um bocejo, preparando-se para aceitar a modesta penitência habitual, depois persignar-se, ser absolvida, agradecer ao padre e se retirar. Almoço no clube com Malcolm e Seratard, sesta em minha linda suíte ao lado dos aposentos de Malcolm, jantar na legação Rus...
— Que tipo de maus pensamentos você teve?
— Ora, apenas impaciência — respondeu Angelique, sem pensar. — E também não me sinto contente por me entregar nas mãos de Deus.
— Impaciência com o quê?
— Ahn... impaciência com minha criada — murmurou ela, confusa, tomada de surpresa. — E também porque meu noivo não se encontra nas melhores condições físicas, como eu gostaria.
— Ah, sim, o tai-pan é um excelente rapaz, mas neto de um grande inimigo da verdadeira igreja. Ele lhe falou sobre seu avô, Dirk Struan?
— Algumas histórias, padre — respondeu Angelique, ainda mais perturbada. Sobre a minha criada, fiquei impa...
— Malcolm Struan é um bom rapaz, não como o avô. Pediu a ele para se tornar católico?
A cor se esvaiu do rosto de Angelique.
— Já conversamos a respeito, mas é uma questão muito delicada, e é claro que não pode ser precipitada.
— Tem razão. — O padre Leo ouvira-a respirar fundo, percebera sua ansiedade. — E concordo que é de extrema importância, para ele e para você.
O padre franziu o rosto, a experiência lhe dizendo que a moça escondia muita coisa... não que isso fosse algo fora do normal, refletiu ele.
Já ia deixar o assunto por aí, mas de repente compreendeu que se tratava de uma oportunidade concedida por Deus para salvar uma alma e ao mesmo tempo realizar um empreendimento valoroso. A vida em Iocoama, ao contrário do que acontecia em seu amado e feliz Portugal, era insípida, com pouco a fazer, exceto pescar, beber, comer e rezar. Sua igreja era pequena e pobre, seu rebanho escasso e ímpio, a colônia uma autêntica prisão.
— Tal conversa pode ser delicada, mas deve ser realizada. A alma imortal do seu noivo corre um risco total. Rezarei por seu sucesso. Seus filhos serão criados na Santa Madre Igreja... ele já concordou com isso, não é?
— Também já conversamos a respeito, padre — respondeu Angelique forçando um tom jovial. — Claro que nossos filhos serão católicos.
— Se não forem, você os lançará à danação eterna e sua alma imortal também correrá perigo. — Ele sentiu-se satisfeito ao ver Angelique estremecer. Ótimo, pensou, um golpe pelo Senhor, contra o anticristo. — Isso deve ser acertado formalmente antes do casamento.
O coração de Angelique disparara, a cabeça doía com a apreensão que tentou impedir que transparecesse na voz, acreditando absolutamente em Deus e no diabo, na vida eterna e na danação eterna.
— Obrigada por seu conselho, padre.
— Falarei com o Sr. Struan.
— Oh, não, padre, por favor, não! — suplicou ela, num súbito pânico. — Isso seria... sugiro que seria insensato.
— Insensato?
O padre contraiu os lábios, coçando distraído os piolhos que habitavam em sua barba, cabelos e batina velha, logo concluindo que o possível golpe da conversão de Struan era um prêmio pelo qual valia esperar, e que precisava de um cuidadoso planejamento.
— Rezarei pela orientação de Deus, e para que Ele a guie também. Mas não se esqueça de que é menor, assim como seu noivo. Suponho que, na ausência de seu pai, monsieur Seratard seria legalmente considerado como o tutor. Antes que qualquer casamento possa ser realizado ou consumado, a permissão deve ser concedida, e essas e outras questões resolvidas, para a proteção de sua alma.
Ele estava radiante, mais do que um pouco satisfeito.
— Agora, como penitência, diga dez ave-marias e leia as epístolas de são João duas vezes, até o próximo domingo... e continue a rezar pela orientação de Deus.
— Obrigada, padre.
Agradecida, Angelique persignou-se, inclinou a cabeça para a bênção.
— In nomine Patri et Spiritu sancti, absolvo tuum. — O padre fez o sinal cruz sobre ela. — Reze por mim, minha criança.
O ritual estava encerrado, e o padre Leo já começava, em sua mente, com Malcolm Struan.
Ao crepúsculo, Phillip Tyrer sentava de pernas cruzadas, diante de Hiraga, numa pequena sala particular de um restaurante também pequeno, meio escondido ao lado da casa do shoya, o ancião da aldeia. Eram os únicos fregueses e aquela era a primeira refeição japonesa autêntica, com um anfitrião japonês, que Tyrer experimentava. Sentia fome, e estava disposto a provar tudo.
— Obrigado por me convidar, Nakama-san.
— O prazer é meu, Taira-san. Posso dizer que seu sotaque japonês está melhorando? Por favor, coma.
Sobre a mesa baixa, entre os dois, a criada pusera muitos pratos pequenos, com diferentes alimentos, alguns quentes, alguns frios, em bandejas decorativas laqueadas. Telas de shoji, tatames, pequenas janelas corrediças se abrindo para a escuridão crescente, lampiões a óleo irradiando uma luz agradável, arranjo de flores no canto. Havia ao lado outra sala particular e depois o resto do restaurante, não muito mais que um corredor, com janelas que davam para uma viela, que levava à rua — um braseiro para cozinhar, barris de saquê e cerveja, uma cozinheira e três criadas.
Hiraga e Tyrer usavam quimonos de dormir, com faixas folgadas. Tyrer desfrutava o conforto inesperado e Hiraga sentia-se aliviado por ter tirado os trajes europeus, que usara durante o dia inteiro. Os dois haviam se banhado e recebido massagens na casa de banhos próxima.
— Por favor, coma.
Desajeitado, Tyrer usou os pauzinhos. Em Pequim, a embaixada aconselhara a não aceitar alimentos chineses:
—... a menos que queira ser envenenado, meu caro. Esses patifes realmente comem cachorro, bebem bílis de cobra, empanturram-se com insetos, qualquer coisa, e possuem uma crença espantosa, mas universal, de que tudo sob o céu pode ser comido. Uma coisa horrível!
Hiraga corrigiu a maneira como ele usava os pauzinhos.
— Assim.
— Obrigado, Nakama-san. Muito difícil. — Tyrer soltou uma risada.— Não engordar vou comendo isto.
— Não vou engordar comendo isto — disse Hiraga, ainda não cansado de corrigir o japonês de Tyrer, pois descobrira que gostava de ensinar.
Tyrer era um discípulo capaz, com uma admirável memória e uma feliz disposição... e ainda mais importante para Hiraga, uma contínua fonte de informações.
— Ah, desculpe, não vou engordar comendo isto. Mas o que é esta comida?
— É o que chamamos de tempura, peixe frito na massa de farinha com ovos.
— Como é feito?
Tyrer escutou a explicação com absoluta atenção, perdendo muitas palavras, mas compreendendo o essencial, assim como sabia que o outro homem também perdia muitas palavras em inglês. Falamos mais inglês do que japonês, pensou ele, contrariado, mas não importa. Nakama é um grande mestre e parece que chegamos ao melhor acordo possível — sem ele, eu não estaria aqui, provavelmente já teria morrido, e com certeza nunca alcançaria o prestígio que adquiri com Marlowe Pallidar e Wee Willie Winkie, muito menos obteria as valiosas informações que me são fornecidas. Tyrer sorriu. Agradava-lhe ser capaz de pensar em Sir William agora pelo apelido, quando apenas poucos dias antes tinha pavor do homem.
— Ah, agora entendo! Também usamos uma massa assim!
— Essa comida a seu gosto, Taira-san? — perguntou Hiraga, passando para o inglês.
— Sim, obrigado. — Sempre que podia, Tyrer respondia em japonês.— Obrigado por tudo, massagem, banho, agora camo, desculpe, agora calmo e feliz.
Alguns dos alimentos ele achava saborosos, como tempura eyakitori, pedaços de galinha grelhados com um molho agridoce. Descobrira que anago era enguia grelhada com um molho doce-azedote, que apreciava bastante. Sushi, fatias cruas de peixe, de diferentes cores e texturas, sobre uma bola de arroz, fora difícil de engolir a princípio, mas tornava-se saboroso quando mergulhado num misterioso molho salgado, chamado soy ou soya. Afinal, pensou ele, o pai me aconselhou a experimentar tudo:
— Meu filho, já que insiste nessa idéia drástica de se tornar intérprete de japonês, então aconselho que mergulhe no modo de vida deles, seus alimentos, e assim por diante... sem esquecer que é um cavalheiro inglês, com suas obrigações, um dever cora a coroa, o império e Deus...
Ele se perguntou o que o pai diria a respeito de Fujiko. Ela é sem dúvida parte do modo de vida deles. Radiante, Tyrer apontou com um pauzinho.
— O que é isto?
— Oh, desculpe, Taira-san, mas é falta de educação apontar com a extremidade fina do rashi. Por favor, use a outra extremidade. Isto é wasabeh.
Antes que Hiraga pudesse detê-lo, Tyrer pegou o nódulo de pasta verde e pôs na boca. No mesmo instante, sua boca pegou fogo, ele ofegou, os olhos lacrimejando, quase cego. A ardência passou depois de algum tempo, mas deixou-o ofegante.
— Por Deus — disse Hiraga, copiando Tyrer, esforçando-se para não rir. — Wasabeh não se comer, apenas pôr um pouco no soy para torná-lo picante.
— Engano meu — balbuciou Tyrer, ainda meio sufocado. — Por Deus, isso é letal, pior do que pimenta! Próxima vez, eu cuidadoso.
— Muito bom para homem que começa, Taira-san. E aprender japonês bem depressa, muito bom.
— Domo, Nakama-san, domo.
O mesmo com você, em relação ao inglês. Satisfeito com o elogio, Tyrer concentrou-se em ser mais hábil. A próxima coisa que experimentou foi tako, tentáculo de polvo. Tinha um gosto de borracha, mesmo com soy e wasabeh.
— Isto é saboroso, gosto muito.
Estou faminto, pensou Tyrer. Gostaria de mais galinha, outra tigela de arroz, mais vinte camarões no tempura. Hiraga come que nem um bebé. Mas não importa. Tenho um samurai como anfitrião, não faz uma semana que ele nos ajudou a sair da legação em Iedo sem um incidente internacional, não se passaram seis semanas desde que conheci André e já sei falar um pouco de japonês, já sei mais sobre os seus costumes que a maioria dos mercadores, que aqui se encontram desde o início. Se puder continuar assim, serei promovido a intérprete oficial em poucos meses e ganharei um salário condizente... quatrocentas libras por ano! Hurra... ou Banzai, como dizem os japoneses. Na atual taxa de câmbio, posso muito bem comprar outro pônei, mas antes disso...
Seu coração se acelerou.
Antes disso, comprarei o contrato de Fujiko. Nakama prometeu ajudar e assim não terei problemas. Ele garantiu. Talvez possamos começar esta noite... graças a Deus, Fujiko voltou da visita à avó. Creio que não deveria, porque hoje é domingo, mas não importa. Karma.
Ele suspirou. Entre André e Nakama descobrira essa palavra e a maneira maravilhosa como se tomara uma panaceia para todos os acontecimentos, bons ou maus, sobre os quais não tinha controle.
— Karma!
— O quê, Taira-san?
— Nada. A comida é boa.
— A comida é boa — arremedou Hiraga. — Obrigado, eu satisfeito.
Ele pediu mais cerveja e saquê. A porta de shoji foi aberta e as bebidas apareceram, numa bandeja trazida por uma criada de rosto jovial, que ofereceu um sorriso radiante a Hiraga e outro tímido a Tyrer. Quase sem pensar, Hiraga acariciou sua bunda.
— Gostaria de experimentar Sobre a Montanha?
— Mas que homem terrível! Sobre a Montanha? Oh, não, não, para mim nem sob, mas posso tocar a flauta, por um oban de ouro!
Ambos riram, pois um oban de ouro era preço afrontoso, a taxa que uma cortesã de primeira classe poderia cobrar por um serviço assim. A criada serviu o saquê, encheu a caneca de Tyrer e se retirou.
— O que ela diz, Nakama-san?
Ele sorriu.
— Sinto muito, difícil explicar, ainda não ter palavras suficientes. Apenas gracejo, gracejo homem-mulher, entende?
— Wakarimasu. Igreja hoje, você gostar?
Com a aprovação de Sir William e o ansioso consentimento do reverendo Michaelmas Tweet, ele levara Hiraga para a galeria do coro. Vestindo as suas novas roupas ocidentais, aprontadas com a habitual e inacreditável rapidez pelo alfaiate japonês, Hiraga passava por eurasiano, mal sendo notado. A não ser por Jamie McFay, que piscara discretamente.
— Igreja boa, sua explicação também — respondeu Hiraga.
Por dentro, no entanto, ele ainda tentava colocar todas as informações de Tyrer na devida perspectiva, assim como a espantosa visão de todos aqueles homens adultos e duas mulheres de aparência repulsiva, cantando em uníssono, levantando, sentando, entoando solenes as orações, inclinando a cabeça, para o Deus muito estranho dos gai-jin, que era na verdade, como Tyrer explicara depois do serviço três pessoas ao mesmo tempo, o Pai, o Filho, que fora crucificado como um criminoso comum, e um kami.
— So ka? — dissera Hiraga, perplexo. — Assim, Taira-san, mulher nome Madona não deus tem filho Deus... mas ela não Deus... e ela deitar com kami que não Deus, mas como hatomoto de Deus com asa, que não marido, e marido que também não Deus, mas pai é, assim pai de seu filho ser avô, neh?
— Não, não houve travesseiro. Deve entender...
Ele tornara a escutar e acabara fingindo que compreendia, a fim de poder interrogar Taira sobre a hostilidade entre as duas igrejas, pois notara que a mulher de Ori não se encontrava presente ali, e perguntara por quê. Duas igrejas, igualmente poderosas, sempre em guerra! E Ori queria que eu renunciasse a essas informações. Baka!
E quando, a cabeça doendo de tanta concentração, ele descobrira a razão para o cisma — e a resultante escalada de ódio, matanças e guerras universais —, tivera certeza de que em algumas áreas os gai-jin eram totalmente loucos: a divisão ocorrera apenas porque um velho bonzo chamado Lutero, trezentos e tantos anos antes, apresentara uma interpretação diferente de alguma pequena questão de dogma, que havia sido inventada por outro bonzo quatorze ou quinze séculos antes dele. Esse homem, obviamente outro doido, determinara, entre outras coisas, que a pobreza devia ser procurada, e que não deitar com mulheres mandaria um homem, depois da morte, para um lugar chamado Paraíso, onde não havia saquê, nem comida, nem mulheres, e ele se transformava numa ave.
Os bárbaros estão além da compreensão. Quem poderia querer ir para um lugar assim? Qualquer um podia perceber que o velho bonzo era como qualquer outro tolo ambicioso e descontente, que apenas queria, depois de uma vida inteira fingindo ser casto, ter uma esposa ou concubina, como qualquer bonzo ou homem comum que tivesse um pouco de sensatez.
— Taira-san — murmurara ele, atordoado —, precisar banho, massagem, saquê, você também, depois comida. Vir comigo, por favor.
A princípio, ele se preocupara com o convite. O ancião da aldeia, o shoya, poderia assim descobrir que ele falava inglês.
— Ah, como é maravilhoso falar gai-jin, eu bem que gostaria, Otami-san! exclamara o shoya, com uma admiração evidente. — Posso lhe dizer mais uma vez que apoio Sonno-joi, e também que designei o mais esperto dos meus filhos para um bonzo gai-jin, com ordens para fingir que se converte às suas crenças ridículas, a fim de poder aprender a língua e os costumes deles.
— Pode cuidar para que os criados sejam seguros?
— Será protegido como se fosse da minha família. Como segurança extra, sugiro que reserve o restaurante inteiro e que mande esse Taira falar apenas japonês na casa de banho. Você diz que aprende depressa?
— E muito.
— Seus segredos estão seguros comigo. Sonno-joi!
Hiraga sorriu, ao recordar o fervor com que o shoya o apoiara, embora não acreditasse nele. Eu gostaria de saber o que ele faria se soubesse de nosso plano de incendiar Iocoama. Iria se cagar todo e, antes mesmo de se limpar, correria para o Bakufu, bateria com a cabeça no chão, em sua pressa de servi-lo, e me trairia.
Baka!
Tyrer continuava a comer, com a maior voracidade. Embora ainda estivesse com fome, Hiraga apenas remexia a comida, de acordo com o costume e treinamento japonês tradicional, de se disciplinar a ficar satisfeito com pouco, já que havia mais tempos de escassez que de abundância, a suportar o frio e a dor com fortaleza, já que havia mais dias ruins do que bons, mais frio do que calor, e por isso era melhor estar preparado. Menos é melhor do que mais. Exceto pelo saquê. E por fornicar. Ele sorriu.
— Saquê! Taira-san, tampai!
Aquele frasco acabou num instante. Ele pressionava Tyrer a beber, fingindo que era um importante costume japonês brindarem um ao outro. Não demorou muito para que Tyrer, na maior felicidade, se pusesse a falar sobre as guerras dos gai-jin, a extensão do império britânico, as mercadorias que fabricavam e em que quantidades. Por causa da sinceridade de Tyrer — a possível sinceridade — e seu “Juro por Deus que é verdade!”, Hiraga decidiu aceitar as informações, mesmo que assustadoras ou absurdas, até ser provado que eram falsas. Uma hora a estudar o atlas escolar e os mapas de Tyrer deixara-o chocado.
— Mas, por favor, como pode país tão pequeno como Inglaterra dominar tantos?
— Há muitas razões. — Tyrer sentia-se relaxado, satisfeito consigo. Esquecendo por um momento de usar palavras e idéias simples, ele explicou, com toda ingenuidade: — Isso mesmo, são muitas as razões. Por causa de nossa educação superior... nosso aprendizado superior, entende?... uma herança superior, uma sábia e benevolente rainha, e nosso forma de governo, singular e especial, com o Parlamento, que nos proporciona leis e liberdades melhores. Ao mesmo tempo, somos abençoados, uma ilha-fortaleza, o mar nos protege, nossas esquadras controlam os caminhos marítimos para o comércio, por isso fomos capazes de desenvolver habilidades superiores na paz, de inventar e experimentar. Como comerciamos mais, temos mais capital, Nakama-san, mais dinheiro do que qualquer outro país... e somos muito hábeis em “dividir para dominar”, uma antiga lei dos romanos...
Ele riu, terminou de tomar o Saquê.
— E o mais importante de tudo, como já falei antes, temos o dobro de canhões, navios e poder de fogo dos dois países seguintes... metade dos navios do mundo é britânica, com tripulantes e artilheiros britânicos.
Há muitas palavras e idéias que não consigo entender, pensou Hiraga, a cabeça girando. Romanos? Quem são eles?
Se metade do que Taira diz é verdade, não, uma centésima parte, então levaremos décadas para alcançá-los. É isso mesmo, refletiu Hiraga, mas com tempo haveremos de alcançá-los. Também vivemos numa ilha. Melhor do que deles, esta é a terra dos deuses, homem por homem somos mais resistentes, mais fortes, melhores guerreiros, temos disciplina e mais coragem; acima de tudo acabaremos vencendo porque não temos medo de morrer!
Mesmo hoje, posso conceber meios de confundi-los que não seria capaz de imaginar há poucos dias.
— Honto — murmurou ele.
— “Honto”, Nakama-san? A verdade? O que é verdadeiro?
— Basta pensar no que você dizer. Tanta verdade. Por favor, dizer antes... Kampai!
— Kampai! É tempo visitarYoshiwara, neh?
Tyrer reprimiu um bocejo de satisfação, cansado de perguntas, mas sentindo-se muito bem.
— Eu não esquecer, Taira-san.— Hiraga ocultou um sorriso. Já combinara que Fujiko não estaria disponível naquela noite. — Terminar saquê, última pergunta, depois ir. Por favor, dizer antes sobre máquinas fazendo máquinas? Como ser possível?
Tyrer lançou-se em outra resposta entusiasmada, explicando que os britânicos eram os líderes no que fora apelidado de Revolução Industrial:
— O motor a vapor, ferrovias, navios de aço e ferro, teares, semeadoras automáticas, produção em massa, colheitadeiras, tudo isso é invenção nossa, canhões de sessenta libras, submersíveis, anestésicos, novos medicamentos, navegação... há quatro anos, estendemos o primeiro fio de telégrafo através do Atlântico, por uma distância de mil léguas ou mais. — Ele decidiu não mencionar que o cabo queimara em menos de um mês e tivera de ser substituído. — Inventamos os geradores elétricos, a iluminação a gás...
Hiraga logo ficou tonto do esforço de concentração e de seu desejo desesperado de compreender tudo, quando não conseguia entender quase nada, mas também porque achava incompreensível que uma autoridade tão importante quanto Taira respondesse a qualquer pergunta que um inimigo fizesse, pois sem dúvida eram inimigos.
Preciso aprender inglês mais depressa, de um jeito ou de outro. E vou aprender. Uma batida gentil na porta, que foi aberta em seguida.
— Por favor, desculpe interromper, Otami-san — disse a criada —, mas o shoya solicita um momento do seu tempo.
Hiraga acenou com a cabeça, disse a Tyrer que voltaria num instante e seguiu a criada para a viela, que estava vazia, e depois até a rua movimentada. Os pouco pedestres que notaram sua presença fizeram reverências polidas, como se dirigia a um mercador, não a um samurai, obedecendo às ordens do shoya. Ótimo.
O shoya esperava numa sala interna, ajoelhado por trás da mesa, o braço apoiado num descanso. Um gato enroscava-se ao seu lado. Ele fez uma reverência.
— Sinto muito incomodá-lo, Otami-san, mas achei que seria melhor falar aqui, caso o gai-jin compreenda nossa língua melhor do que finge.
Hiraga franziu o rosto, acocorou-se, respondeu à reverência, com uma atenção total.
— O que é, Ryoshi-san?
— Há várias coisas que deve saber, Otami-sama.
O homem de rosto forte serviu chá verde nas xícaras pequenas, de um bule de ferro em miniatura. O chá era magnífico, tão excepcional quanto as xícaras de porcelana fina, aromático e delicado. O pressentimento de Hiraga aumentou. O shoya tomou um gole, depois tirou um pergaminho da manga e abriu-o. Era outra cópia do cartaz: O Bakufu oferece uma recompensa de dois koku por este revolucionário assassino de muitos nomes, um dos quais é Hiraga...
Hiraga pegou o cartaz, fingindo que era a primeira vez que o via. Soltou um grunhido, numa atitude neutra, e devolveu o cartaz.
O homem mais velho encostou a ponta na chama da vela. Ambos observaram o papel se enroscar, virar cinza, ambos sabendo que o disfarce de Hiraga, com o novo corte de cabelo, crescendo depressa, era muito bom.
— O Bakufu tornou-se obcecado na perseguição aos nossos bravos shishi.
Hiraga acenou com a cabeça, mas não disse nada, esperando. Distraído, o shoya afagou o gato, que ronronou baixinho.
— Dizem que lorde Yoshi está enviando um emissário para negociar armas com o chefe gai-jin. Com toda certeza, um lorde de sua posição ofereceria preços mais altos do que... do que emissários de Choshu. — Uma pausa, e ele acrescentou: — Os gai-jin venderão a quem pagar mais.
Hiraga já ouvira falar dos samurais de Choshu que visitaram a Casa Nobre por intermédio de Raiko — quase todos na Yoshiwara estavam a par das negociações — e convencera-se de que, se soubesse seus nomes verdadeiros, haveria de conhecê-los pessoalmente, ou pelo menos suas famílias. Apenas um ano antes, um meio-irmão, que também cursara a escola de inglês em Shimonoseki, integrara a equipe enviada para comprar as primeiras cem armas de fogo. É curioso que seja na mesma companhia possuída pelo tai-pan que em breve estará morto, pensou Hiraga, tanto ele quanto sua mulher, e todos naquela cloaca do mal.
— Os gai-jin não têm honra.
— Repulsivo. — Outro gole de chá. — Há muita atividade no castelo em Iedo. Dizem que o xógum e a princesa imperial planejam partir para Quioto dentro de uma ou duas semanas.
— Por que fariam isso? — indagou Hiraga, simulando um desinteresse que não enganava a nenhum dos dois.
O homem mais velho riu.
— Não sei, Otami-san, mas é muito curioso que o xógum deixe seu covil neste momento para viajar por muitos quilômetros perigosos, a fim de visitar o covil de muitos inimigos, quando sempre mandou um lacaio, desde o início.
O gato esticou-se e o shoya coçou sua barriga, enquanto acrescentava pensativo:
— Os roju estão aumentando os tributos em todas as terras de Toranaga, para pagar por quaisquer quantidades de armas e canhões que possam ser compradas, exceto por Satsuma, Tosa e Choshu.
Hiraga sentiu a ira latente do shoya, embora nada transparecesse, nem mesmo seu divertimento: Para que servem os camponeses e mercadores, se não para pagar tributos?
— A menos que o filho do céu possa usar seu poder celestial, o Bakufu vai outra vez mergulhar o Nipão numa eterna guerra civil.
— Concordo.
Hiraga pensou: Até que ponto concorda realmente, velho? Ele pôs essa questão de lado, para ponderar sobre a melhor maneira de desviar o Bakufu e Yoshi Toranaga desse curso. Akimoto deveria partir de imediato para Iedo e a casa da Glicínia, pois há dias que não temos notícias de Koiko e sua mama-san... talvez devêssemos ir jun...
— Por fim, parece que seu amigo shishi, Ori-san, não foi para Quioto, como estava planejado — informou o shoya.
Os olhos de Hiraga tornaram-se frios, quase como os de um réptil. O shoya conteve um tremor. Alerta no mesmo instante, o gato se ergueu num movimento suave e observou, cauteloso. Hiraga rompeu o silêncio:
— Onde ele está?
— Naquela parte da colônia onde os gai-jin de baixa classe vivem, bebem e fornicam.
Perto da meia-noite, André Poncin bateu na porta da Casa das Três Carpas. O porteiro deixou-o entrar no mesmo instante. Raiko recebeu-o muito bem, e logo estavam tomando saquê, conversando sobre as últimas notícias da Yoshiwara e da colônia — ela era uma fonte de informações para André e vice-versa —, na mistura habitual de japonês e inglês.
—... e a patrulha de vigilantes revistou todas as casas, Furansu-san! Como se escondêssemos criminosos! É contra as regras da Yoshiwara. Sabemos como manter cheias nossas tigelas de arroz: promovendo a paz e evitando as encrencas. Os vigilantes continuam no portão principal, olhando furiosos para os transeuntes.
Raiko abanou-se, recordando sua fuga por um triz, e desejou nunca ter convidado os shishi para se refugiarem em sua casa. É tempo de todos irem para longe daqui, pensou ela, vigilantes e shishi, por mais que eu goste de Hiraga.
— Eu gostaria que eles fossem embora.
— Que criminosos procuram? — perguntou André.
— Traidores, em geral os ronin. Mas qualquer um contra eles é um traidor. Os ronin são as presas habituais.
— O Bakufu pode ser derrubado? Uma revolução?
Ela riu baixinho, esvaziou o frasco, pegou outro.
— Bakufu é como piolhos numa prisão... você destrói mil e só faz abrir espaço para mais cem mil. Não, o Bakufu e o xogunato são o Nipão, conosco para sempre.
— Taira-san esta noite aqui?
Raiko sacudiu a cabeça.
— A mulher que ele queria não estava disponível. Ofereci outra, mas ele recusou e foi embora. Curioso, neh? Um jovem curioso, em muitas coisas, embora talvez um bom freguês. Obrigada por apresentá-lo à minha humilde casa.
— Esse japonês, sensei, o mestre, o samurai que Taira descobriu... quem é ele, Raiko?
— Não sei. Ouvi dizer que é um homem de Iedo e mora agora na colônia, na aldeia.
— Taira-san fala com Fujiko sobre ele?
— Ela nunca mencionou, mas também não perguntei. Talvez eu saiba alguma coisa na próxima vez, Furansu-san.
André não acreditava nela, mas também não tinha importância, pensou ele; quando estiver disposta, Raiko me contará tudo o que sabe.
— Arrumou o medicamento?
— Claro. Tudo o que eu puder fazer para ajudar um cliente predileto é meu propósito na vida.
Ele pôs na mesa o par de brincos de pérolas. Os olhos de Raiko faiscaram. Não fez qualquer movimento para pegá-los, mas André teve certeza que ela os avaliara mentalmente no mesmo instante, determinando a qualidade, o custo e o valor de revenda.
— Pediram-me que lhe desse isto como presente — comentou ele, jovial. Raiko sorriu, insinuante, fingiu estar emocionada, embora já soubesse que o pagamento seria em jóias, que não poderiam ser revendidas em Iocoama. Seus dedos tremiam quando estendeu-os para pegar os brincos. Mas André se antecipou, recolheu-os, simulou que os examinava com o máximo de atenção.
Seu plano para Angelique funcionara com perfeição. Criados da Casa Nobre haviam vasculhado as ruas em vão. A ansiedade e as lágrimas de Angelique foram genuínas e ela sussurrara em particular:
— Oh, André, fiz o que era certo? Malcolm ficou transtornado... eu não tinha idéia de que os brincos eram tão caros.
— Mas ele não disse para você assinar tudo o que quisesse? Não é culpa sua não ter perguntado o preço... e ele gostou das abotoaduras, não é?
— Gostou, sim, mas...
— Sobrará o suficiente para alguma necessidade... um crédito contra qualquer eventualidade, Angelique.
André sorriu para si mesmo e voltou a concentrar sua atenção em Raiko.
— Vale muitas vezes o custo do medicamento.
— O preço de compra, sem dúvida. Mas tenho de mandar para a Yoshiwara de Iedo ou de Nagasáqui. Uma venda difícil. Mas, por favor, não se preocupe. Ajudarei a se livrar de uma criança indesejada.
— Não é minha — protestou ele, um tanto brusco.
— Ah, por favor, desculpe. — Raiko acreditou nele e refletiu que era melhor assim, bastante aliviada, pois não queria mais complicações com aquele cliente.
— Não é da minha conta.
— Só estou ajudando a amiga de um amigo. Na cidade dos bêbados.
— Por favor, desculpe-me. Ele sorriu, sem qualquer humor.
— Conhece pérolas. Estas valem cinqüenta vezes o custo do medicamento Raiko manteve o sorriso, a voz suave, mas por dentro estava rangendo os dentes.
— Mandarei avaliar. Claro que valem mais que o custo do medicamento.
— Sei disso.
André estendeu a mão aberta, e ela pegou os brincos. As pérolas eram quase pretas. Pérolas da ilha do Sul. Raiko encostou-as nos dentes, para sentir se eram frias, mordeu-as com extremo cuidado, mas não ficaram marcadas. Convencida agora de que eram genuínas e preciosas, ela murmurou:
— O preço, caro amigo?
— O preço é todo o medicamento, mesmo que falhe na primeira vez. O que for necessário, se a poção não fizer efeito, entendido? O que for preciso... qualquer coisa... para tirar a criança. Certo?
— Certo — concordou Raiko, feliz, sabendo que era um grande negócio. — Uma garantia... da remoção, da eliminação.
— Mais vinte oban de ouro — acrescentou ele, deliciado ao ver o rosto de Raiko se contrair num horror sincero, embora ainda fosse menos de um terço do que conseguiria na venda... o engaste era de pouco valor, mas ele cuidara para que o joalheiro chinês usasse apenas as melhores pérolas. Ela se lamentou, praguejou, barganharam por algum tempo, ambos apreciando a confrontação, ambos sabendo que o verdadeiro custo do medicamento e do conselho médico não representavam muita coisa para uma mama-san de bordel. Logo estavam prestes a fechar o negócio e foi nesse instante que o ânimo de Raiko mudou abruptamente; ela fitou-o de maneira estranha, gostando dele, triste por seu destino, e pensou: Devo interferir com o karma?
— O que é? — indagou André, desconfiado.
— Deixe-me pensar por um momento, Furansu-san.
Depois, numa voz muito diferente, afetuosa e suave, como nos velhos tempos, quando ele fora seu primeiro freguês, e oferecia vinho e jantar a toda a casa, para comemorar a abertura, Raiko disse:
— Desde que nos conhecemos, muita água passou sob muitas pontes, houve tempos de prazer e riso em nosso mundo flutuante e também, como acontece nessa vida, de tristeza e um lago de lágrimas, mas não por opção minha. Lembrei de repente que a última vez em que barganhamos assim foi pelo contrato de Hana.
O rosto de André transformou-se numa máscara.
— Não vamos falar de Hana.
— Ah, sinto muito, mas eu gostaria, por favor, porque posso ter uma solução para ela.
— Não há nenhuma — protestou ele, irritado. — Não há cura, Hana morreu, e nada tem a ver com pérolas!
— Tem razão. Por favor, fique calmo e escute. Talvez eu possa encontrar outra Hana, parecida, mas que já tenha a doença chinesa.
— Não é possível! — exclamou André, chocado. — A doença é horrível.
— Pode ser, perto do fim — insistiu ela, paciente. — Muitas vezes nada aparece por anos. Você não é feio, nada aparece no seu rosto, Furansu-san... talvez se passem anos antes que a doença se manifeste. Depende do seu karma. Devo procurar uma jovem nessas condições?
Ele fez menção de falar, desistiu, sacudiu a cabeça.
— Se eu conseguisse encontrar uma nova Hana, Furansu-san, e se você...
— Não é possível.
—... se você a aprovasse, e ela também o aprovasse, poderiam ficar juntos até... até que você decida... — Raiko deu de ombros. — Nunca importa o futuro, hoje é hoje, e esta é a regra do nosso mundo flutuante. Manteria a moça aqui, eu providenciaria a construção de uma nova casa, pois a outra foi destruída, como não podia deixar de ser. Você a trataria como Hana, em todas as coisas, o mesmo preço de contrato, o mesmo dinheiro mensal para roupas e alojamento, e ela o servirá com exclusividade.
Os olhos de Raiko o fixavam, e André compreendeu que ela podia ver em sua alma, contemplá-lo a se contorcer numa esperança súbita e frenética, ansiando em aceitar o que o livraria do tormento — a notícia do seu karma viajara com a velocidade da luz e, agora, todas as casas vedavam o seu acesso, com extrema polidez, sem dúvida, mas ainda assim o impediam de chegar a qualquer travesseiro, o que só era possível na cidade dos bêbados — mas também seria uma eterna espada de Dâmocles pairando sobre sua cabeça. E, ainda pior, seu ímpeto sexual não diminuíra, ao contrário, aumentara, a obsessão maior do que antes, e que já o levara à insanidade de duas noites atrás, com Angelique, não que deixasse de desejá-la agora, ainda a queria, com mais intensidade do que nunca, e sabia que, sem um meio de descarregar, tentaria de novo, e não falharia na próxima vez. Mãe Abençoada, ajude-me, pensou ele, quase em lágrimas, pois não quero infeccioná-la também.
— Há outra possibilidade — continuou Raiko, com um olhar estranho. — Podemos conversar sobre isso depois. Agora, Hana.
— Não quero falar sobre Hana!
— Tenho de fazê-lo, Furansu-san. Agora. Queria saber como ela morreu, neh?
Ele focalizou os olhos, quase parou de respirar, enquanto ela acrescentava:
— Depois que você foi embora correndo, naquela noite, e ela me contou o motivo, chorando, também fiquei chocada. Mandei que deixasse a casa e insultei-a com veemência, embora fosse como uma filha para mim. Claro que você estava certo e deveria tê-la matado, não apenas agredido, antes de ir embora, e claro que a mama-san dela deveria ter me contato, e ela própria me avisado no mo...
— Fale devagar... mais devagar.
— Por favor, desculpe, mas é muito difícil devagar. Ela deveria ter me comtado no momento em que soube. Fiquei furiosa e deixei que ela tentasse alcançá-lo, o que não conseguiu. E foi então que uma das criadas... Mieko... veio me avisar que Hana tentara o haraquiri...
Raiko suava agora. Não fora a primeira tentativa de suicídio em que estive envolvida. Houvera dezenas em seus quarenta e cinco anos como aprendiz, cortesã e mama-san... afinal, ela nascera no mundo dos salgueiros, sua mãe uma cortesã especialista do segundo grau. Muitas tentativas tiveram êxito, poucas por faca, a maioria por veneno ou afogamento, alguns suicídios duplos, entre amantes, o homem sempre pobre, às vezes até samurai. Mas o de Hana fora o pior.
Quando entrara correndo no quarto, Raiko encontrara a jovem em agonia chorando, desamparada, o pescoço cortado várias vezes, mas sem nenhuma veia ou artéria rompida, e a traquéia apenas arranhada. Um pouco de ar borbulhava do corte, que sangrava bastante, mas não de forma letal. Ela estava arriada nos futons, a faca bem perto, mas a mão não conseguia empunhá-la, e cada vez que ela tentava erguê-la, escapulia de seus dedos, e durante todo o tempo Hana chorava, sufocava e vomitava, suplicando perdão, balbuciando... ajude-me... ajude-me... ajude-me...
— Ela se encontrava além de todo e qualquer desejo de vida, Furansu-san — comentou Raiko, com uma profunda tristeza.— Já vi muitas assim e tenho certeza. Se sobrevivesse, haveria de tentar de novo e de novo, sem desistir. Neste mundo, pelo menos no nosso, chega um momento em que é bom e sábio ir para o além. Acabamos com o sofrimento de animais... é certo proporcionar o mesmo alívio a uma pessoa. Por isso, nós a ajudamos. Tratamos de acalmá-la e limpá-la, ajudamo-la a sentar, ela teve tempo de dizer Namu Amida Butsu, e depois segurei a faca sob sua garganta, e Hana caiu por cima, serena. Foi assim que ela morreu.
— Você... em parte... a matou?
— Era meu dever, como sua mama-san.
Raiko tornou a hesitar, suspirando. Não havia necessidade de mais lágrimas. Há muito que foram derramadas. Não me restou mais nenhuma. Quantas vezes, quando tinha a idade de Hana, odiando minha vida e a maneira como tinha de ganhar meu arroz, não cogitei da mesma fuga, uma ocasião até cortei os pulsos, para ser socorrida e salva por minha mama-san, que me aplicou uma surra impiedosa, assim que fiquei boa. Mas ela estava certa, minha mama-san, assim como eu, porque sabia que minha intenção não era tão determinada quanto a de Hana, e agora não posso sequer recordar o rosto do rapaz que ela me proibira, só me lembro que era um poeta
— Antes de morrer, Hana pediu-me que lhe transmitisse seu pedido desculpas. Que suplicasse perdão por ela.
— Você... você perdoa?
Que estranha pergunta!, pensou Raiko, surpresa.
— Hana era como flor de cerejeira do ano passado, dispersa pelo vento, não há necessidade de perdoar ou deixar de perdoar. Apenas uma pétala do mundo dos salgueiros. Ela existiu, mas não existiu. Pode compreender?
Na maior confusão, André acenou com a cabeça, sem entender todas as palavras, mas compreendendo o que ela fizera e o motivo. Odiava-a e abençoava-a, sentia-se aliviado, triste, suicida, cheio de esperança.
— Três homens, três antes de mim. Quem?
— Não sei, sinto muito, exceto que eram japoneses. Verdade.
Raiko falou com os olhos limpos, os nomes gravados no seu coração mais secreto, esperando para usá-los se fosse necessário, a favor ou contra o Bakufu.
— Sobre isto... — Ela abriu a mão. As pérolas faiscaram à luz do lampião a óleo, sedutoras. — Vamos combinar que eu lhe darei um terço do que obtiver com a venda, mais todos os medicamentos, e o mais que for necessário. Um terço seria...
Ela parou de falar subitamente, quando amiga na cidade dos bêbados adquiriu a definição apropriada.
O medicamento é para a mulher que vai casar com o tai-pan, disse a si mesma, excitada. Afinal, foi ela quem teria perdido alguma jóia ontem e não pensei duas vezes a respeito. Só pode ser ela, as pérolas confirmam... e, se é ela, o aborto ser sem a aprovação ou conhecimento do tai-pan, caso contrário Jami-san seria o intermediário, não Furansu-san.
— Um terço seria justo — declarou Raiko.
Já ia acrescentar, presunçosa, “para a jovem gai-jin que vai casar com o tai-pan”, mas percebeu o olhar sombrio com que Furansu-san contemplava sua xícara e concluiu que não havia necessidade ainda de revelar que deduzira “quem”.
Esta noite foi muito lucrativa, pensou ela, exultante. O conhecimento de um aborto secreto por uma dama tão importante a ser guardado, ou revelado, pode ser extremamente valioso, para a própria dama, antes ou depois do casamento, ou para esse tai-pan, que é tão rico quanto Adachi de Mito, antes ou depois do casamento, ou até mesmo para um dos seus muitos inimigos.
Depois: através de Hiraga, tenho esse Taira preso com firmeza ao portão de jade de Fujiko... o que há nessa mulher para tanto atrair olhos redondos? E, por último, mas nem por isso menos importante, a solução para Furansu-san, meu precioso espião gai-jin, aflorou.
Raiko sentiu vontade de gritar de alegria, mas teve o cuidado de conservar sua expressão mais modesta e sincera.
— Um terço, Furansu-san?
Desolado, ele fitou-a, balançou a cabeça em concordância.
— Avisou à dama que há um risco?
— Que risco? Disse que o medicamento faz efeito na maioria das vezes.
— É verdade, na maioria das vezes. Mas se não der certo, nós... Ora, não vamos nos preocupar com isso agora. Vamos esperar que Buda sorria para ela e que seu karma seja ter uma libertação sem problemas, para depois aproveitar as coisas boas da vida. — Raiko fitou-o nos olhos. — E você também. Neh?
André sustentou seu olhar.
Quinta-feira, 6 de novembro:
Sua queridíssima Colette: As semanas passaram correndo; amanhã é meu dia especial, escreveu Angelique, excitada de expectativa. Sinto-me tão bem que mal posso acreditar. Meu sono é maravilhoso, tenho as faces rosadas, todos me elogiam, e meu corpo está melhor do que nunca... Nenhum sinal, nada, pensou ela. Absolutamente nada. Os seios um pouco sensíveis, mas isso é apenas imaginação... e amanhã tudo estará acabado.
Ela sentava à escrivaninha, em sua suíte, de frente para a baía, a ponta da língua entre os lábios, cautelosa demais para escrever qualquer coisa que pudesse comprometê-la. É um presságio de sorte que seja o dia dele para assinalar meu novo começo.
Amanhã é dia de são Teodoro, o meu novo santo padroeiro. Afinal, Colette, pelo casamento eu me torno britânica (não inglesa, porque Malcolm é escocês, e em parte inglês), e são Teodoro é um dos poucos santos dos britânicos. Ele também se tornou britânico (era grego), há mil e duzentos anos, e foi arcebispo de Canterbury...
A pena com ponta de aço hesitou, já que esse nome trazia fantasmas das brumas, mas ela não os admitiu, e fez com que resvalassem de volta às profundezas.
...isso significa que ele foi como o papa das Ilhas Britânicas. Reformou a Igreja, afastou os malfeitores e acabou com os costumes pagãos, foi santo e generoso, em particular com as mulheres, viveu até a idade espantosa de oitenta e oito anos e se mostrou, em resumo, um maravilhoso homem da verdadeira Igreja. Vou celebrá-lo com um dia especial de jejum e, daqui a três dias, com uma festa! O padre Leo me falou sobre ele. Confesso que não gosto do padre Leo, pois ele é muito malcheiroso (tenho de usar um lenço perfumado no confessionário — ele faria você desfalecer, minha cara Colette). No domingo passado tive depressão, e certamente perderei a missa neste domingo também. Lembra como costumávamos fazer isso, no tempo da escola, embora eu creia que jamais saberei como evitávamos as repreensões.
Lembranças de Colette, a escola e Paris distraíram-na por um momento. Ela olhou pela janela para o oceano, de um cinza escuro, tempestuoso, um vento forte criando vagalhões, que corriam para desabar na praia, a uma centena de metros de distância, no outro lado do passeio — navios mercantes ancorados, pequenas embarcações carregando ou descarregando, o único navio de guerra — a fragata Pearl, esplendorosa com seu novo mastro e nova pintura, aproximando-se para atracar de volta de Iedo.
Mas Angelique não viu realmente nada disso, seus olhos concentrados no futuro róseo que a mente prometia. Ali, em sua suíte, fazia calor, reinava a calma, o vento não soprava, as janelas bem vedadas, um fogo ardendo na lareira, com Malcolm Struan cochilando confortável numa poltrona de veludo vermelho, jornais, cartas e faturas em seu colo e espalhados em torno dos pés. A porta de ligação entre as suítes estava aberta. A porta para o corredor da suíte de Angelique destrancada. Era o novo hábito dos dois. Mais seguro assim, haviam concordado, haveria bastante tempo no futuro para a privacidade.
Havia dias em que ele chegava cedo e conduzia os negócios do boudoir de Angelique, até o meio-dia, quando cochilava por alguns minutos, antes do almoço; em outros dias, ele permanecia em sua suíte; e havia ainda os dias em que descia claudicando para o escritório no térreo. Sempre dizia que ela seria bem-vinda ali, mas Angelique sabia que era apenas por polidez. Lá embaixo era o domínio dos homens. Ela sentia-se muito satisfeita por Malcolm estar trabalhando; McFay lhe dissera que desde que “o tai-pan assumiu o comando, tudo se tornou mais eficiente, temos grandes planos em preparativos, e nossa companhia se agita...”
Era o que também acontecia com ela. Sem medo pelo dia de amanhã. Ao contrário, aguardava ansiosa o encontro com André, à noite, na legação. Juntos, haviam imaginado uma desculpa e ela voltaria para lá amanhã, por três dias, enquanto seus aposentos aqui eram repintados, feitas novas cortinas para as janelas e a cama, com sedas que escolhera no armazém.
— Ora, Angel — protestara Struan —, só ficaremos aqui por mais umas poucas semanas e a despesa...
Uma risada e um beijo fizeram-no mudar de idéia. Ah, já começo a amá-lo, e adoro o jogo de impor minha vontade!
Angelique sorriu, e recomeçou a escrever:
Colette querida, tenho mais energia do que em qualquer outra ocasião anterior. Ando a cavalo todos os dias — nada de excursões, o que torna a colônia restritiva —, mas muitos galopes em torno da pista de corrida, com Phillip Tyrer, Settry (Pallidar), que é o melhor cavaleiro que já conheci, às vezes com oficiais de cavalaria franceses e ingleses, sem esquecer o pobre Marlowe, que vem se revelando um homem excepcional, mas infelizmente não é um cavaleiro. Todos partiram há três dias, numa viagem a Iedo, onde Sir William e os ministros estão tendo A REUNIÃO com o gabinete nativo e o rei deles, chamado XÓGUM.
Malcolm melhora a cada dia, mas muito devagar, ainda anda com dificuldade. Continua maravilhoso — exceto nos dias de correspondência (duas vezes por mês), quando se mostra furioso com tudo e com todos, até comigo. Isso acontece apenas porque sempre recebe cartas da mãe (começo a odiá-la), que reclama amargurada de sua permanência aqui, insiste em seu retorno imediato a Hong Kong. Três dias atrás foi pior do que o habitual. Um dos clíperes da Casa Nobre chegou, desta vez com outra carta e uma convocação verbal, transmitida pelo capitão, que disse: “Eu agradeceria, senhor, se pudesse vir para bordo no momento em que descarregarmos a carga especial. Nossas ordens são para escoltá-lo e ao Dr. Hoag até Hong Kong, o mais depressa possível...”
Nunca tinha ouvido uma linguagem assim, Colette! Pensei que o pobre Malcolm ia sofrer um ataque apoplético. O capitão ficou atordoado e se retirou apressado. Mais uma vez, implorei a Malcolm para fazermos o que ela quer, mas... ele se limitou a resmungar: “Partiremos quando eu decidir, e ponto final! Nunca mais torne a tocar nesse assunto!” Iocoama é muito TEDIOSA e eu gostaria muito de voltar a Hong Kong e à civilização.
Para passar o tempo, venho lendo tudo o que posso encontrar (os jornais, além das notícias sobre a moda e a vida em Paris, são de fato muito interessantes, como fiquei surpresa ao descobrir, o que me levou a compreender que tenho sido uma desmiolada).
Mas devo me preparar para todas as soirées que terei de oferecer por meu marido, recebendo seus convidados importantes... assim como suas esposas. Por isso, tenciono aprender sobre comércio, ópio, chá, algodão, bicho-da-seda... Mas é preciso tomar bastante cuidado. Na primeira vez em que tentei conversar sobre um artigo relatando a lamentável situação da indústria da seda francesa (e é por isso que os bichos-da-seda japoneses são tão valiosos), Malcolm disse: “Não preocupe sua linda cabecinha com essas coisas, Angel...” E NÃO consegui dizer uma única palavra, nem mesmo como um aparte. Para ser franca, ele ficou na maior irritação quando sugeri que a Struan poderia abrir uma fábrica de seda na França...
Ah, minha querida Colette, eu gostaria que você estivesse aqui, e assim poderia lhe contar tudo o que tenho guardado no coração... sinto muita saudade, mas muita mesmo...
A ponta de aço, montada num cabo de osso, começou a borrar o papel. Angelique enxugou-o com extremo cuidado e limpou a ponta, admirada por ser tão fácil, a ponta voltando a ser como nova. Até poucos anos antes, a pena de escrever era a mais comum, e ela teria de usar uma faca especial, cortar uma nova ponta, parti-la para durar mais uma ou duas páginas, enquanto que aquelas penas Mitchell, produzidas em massa em Birmingham, duravam por dias e dias, e eram vendidas em diversos tamanhos, para agradar à fantasia e caligrafia de cada pessoa.
Por trás dela, Struan remexeu-se, mas não acordou. Adormecido, ele tem um rosto impecável, pensou Angelique. Atraente e forte... A porta foi aberta, e Ah Soh entrou.
— Miss, almoço, querer aqui ou lá embaixo, hem?
Struan despertou no mesmo instante.
— Sua patroa vai comer aqui — disse ele, bruscamente, em cantonês. — Eu almoçarei lá embaixo, em nossa sala de jantar principal, e avise ao cozinheiro que é melhor a comida estar excepcional.
— Sim, tai-pan.
Ah Soh retirou-se, quase correndo.
— O que disse a ela, Malcolm?
— Apenas que você almoçaria aqui... vou comer lá embaixo. Convidei Dmitri, Jamie e Norbert. — Ele olhou para ela, delineada contra a luz. — Você está linda.
— Obrigada. Posso almoçar com vocês? Eu gostaria.
— Lamento, mas temos negócios a discutir.
Com um grande esforço, Struan levantou-se e ela entregou-lhe as duas bengalas. Antes de pegá-las ele abraçou-a e Angelique permitiu que seu corpo se comprimisse contra o dele, disfarçando a irritação por ter sido preterida mais uma vez... não tinha para onde ir, nada a fazer, exceto escrever, ler alguma coisa e esperar. Era uma vida muito maçante...
Lun Dois cortou a primeira das enormes tortas de maçã em quartos, que passou Para pratos de peltre, despejou o creme espesso por cima, em porções generosas, e serviu os quatro homens.
— Deus Todo-Poderoso, onde conseguiu isso? — indagou Norbert Grey-forth.
Dmitri acrescentou, com igual espanto:
— É inacreditável!
— O creme? — McFay arrotou. — Desculpem. Com os cumprimentos do Tai-pan.
Dmitri levou a colher cheia à boca.
— A última vez que comi creme foi em Hong Kong, há seis meses. Hum... este é maravilhoso. É uma nova exclusividade da Casa Nobre?
Malcolm sorriu.
— Nosso último clíper, que chegou há poucos dias, trouxe três vacas. Foram desembarcadas à noite e, com a ajuda do intendente do exército, ficaram escondidas entre os cavalos... não queremos que sejam sequestradas ou que a alfândega japonesa comece a fazer perguntas. As vacas são vigiadas dia e noite.
Ele não podia conter sua satisfação pelo efeito do creme, depois de uma lauta quantidade de carne, batatas assadas, legumes frescos, um pastelão do faisão local, queijos franceses e ingleses... tudo acompanhado por cerveja, Château Haut-Brion 1.846, um excelente Chablis e porto.
— Vamos iniciar um rebanho aqui, se elas se aclimatarem, e uma fábrica de laticínios... subsidiária da que temos em Hong Kong... foi uma idéia de Jamie, e é claro que a produção estará disponível para todos.
— Aos habituais preços “nobres”? — disse Norbert, sarcástico, numa irritação óbvia por não ter tomado conhecimento antes daquele novo empreendimento da Struan.
— Com lucro... mas razoável — declarou Struan. Ele ordenara que as vacas fossem trazidas de Hong Kong no momento em que chegara a Iocoama. — Mais, Dmitri?
— Obrigado. Uma torta deliciosa, Malc!
— Quais são as notícias de sua terra? — perguntou Jamie, para romper a tensão entre Struan e Norbert Greyforth.
— Horríveis. Não podiam ser piores. Os dois lados continuam a se engalfinhar, com fuzis e artilharia de longo alcance... as mortes são cada vez mais numerosas. É a loucura do Novo Mundo.
— O mundo inteiro enlouqueceu, meu caro amigo — disse Norbert. — Mas a guerra é um bom negócio, sem a menor dúvida, para os afortunados.
Uma pausa e ele acrescentou, só para provocar Struan:
— A Brock tem todo o açúcar havaiano que você precisar, a preços razoáveis.
— Seria uma mudança e tanto se qualquer coisa fosse razoável — comentou Dmitri, jovial.
Ele sabia de tudo sobre os imensos prejuízos que a Struan sofreria por causa do golpe de Tyler e Morgan Brock, mas deu de ombros para si mesmo. Não estou na guerra deles, já tenho a minha com que me preocupar. Deus do céu, como vai terminar?
— A guerra nunca é boa para o povo. O custo será tremendo... já souberam que Lincoln conseguiu fazer com que o Congresso aprovasse seu imposto de renda para pagar a guerra?
Todos os outros ficaram imóveis por um instante.
— Qual é a taxa?
— Três centavos por dólar — respondeu ele, com uma fúria intensa, o que fez com que todos rissem.
— Tem certeza?
— Recebi a informação hoje, por um mensageiro especial que chegou no Calif Belle.
— Três por cento? Vocês têm muita sorte, Dmitri — disse Jamie, seu prato quase vazio. — Eu esperava quinze.
— Ficou louco? Haveria uma revolução.
— Já estão metidos em uma. Seja como for, é a mesma coisa que nós, só que o de vocês será apenas por três anos, isso... ei, espere um pouco — disse Jamie, alteando a voz —, isso é o que Lincoln prometeu, jurou que seria apenas por três anos, segundo o último Frisco Chronicle, se o Congresso aprovasse. Três anos.
— É verdade, mas você conhece os desgraçados dos políticos, Jamie, depois que aprovam um imposto, no Congresso ou no Parlamento, nunca mais o revogam. São uns safados, todos eles. Três por cento é apenas o começo.
— Tem toda razão — interveio Norbert, também irritado, virando-se em seguida para Lun. — Vou querer outra fatia, com bastante creme. Tem toda razão sobre os impostos, Jamie. Bloody Pitt, o patife que inventou o imposto de renda, prometeu a mesma coisa e depois voltou atrás, como vai acontecer com Lincoln. Todos os políticos são mentirosos, mas Robert Peei devia ter sido açoitado.
— Robert Peei, o mesmo sujeito que criou uma força policial, os Peelers? — perguntou Dmitri, pegando outra colher de creme.
— O próprio. Os Peelers até que foram uma boa idéia... embora não fosse uma idéia só dele. Bem que poderíamos aproveitar alguns aqui, não resta a menor dúvida... mas imposto de renda? Uma coisa monstruosa!
Malcolm comentou:
— Peei foi um bom primeiro-ministro. Ele...
Norbert ignorou-o deliberadamente:
— Só tivemos esse maldito imposto por dois curtos períodos, durante as guerras napoleônicas, o que era bastante justo, mas foi rejeitado para sempre em 1.815, logo depois de Waterloo. Mas isso não impediu que Peei o trouxesse de volta em 1.841, a sete pence por libra, três por cento, como Jamie disse. E apenas por três anos. Mas ele não repudiou a promessa, com o apoio de todos os outros patifes? Vai permanecer para sempre, e aposto vinte guinéus contra um quarto de penny furado como Lincoln fará a mesma coisa. Vocês estão perdidos, Dmitri. Nós também, por causa do Peei, um desgraçado.
O tom era incisivo, para irritar Struan, embora ele concordasse, em particular, com a avaliação geral que o outro fizera de Peei. O bom humor de Struan se evaporava depressa.
— Conhaque, Lim, e depois feche a porta!
Lim serviu doses generosas e se retirou em seguida, junto com os outros quatro criados de libré. Norbert arrotou.
— O creme estava ótimo, jovem Malcolm. Agora, pode explicar a que devemos o prazer de tal banquete?
O ânimo à mesa grande mudou. Tomou-se mais sério.
— O que preocupa todos os mercadores. Sir William e a nossa exclusão da reunião com o xógum e o Bakufu.
— Concordo que o patife devia ser decapitado. Nunca ouvi falar de nada assim, em toda a minha vida!
— É verdade — disse Struan. — No mínimo, deveríamos ter um representante no encontro.
— Concordo — disse Dmitri, mais preocupado com os acontecimentos na América. Um irmão já morrera. Os distúrbios pela escassez de alimentos eram iminentes. — Nosso homem até que é um bom sujeito, mas é um ianque. Sugeri que me designasse para seu vice, mas ele recusou. O que tem em mente, Malc?
— Uma delegação conjunta, para garantir que isso nunca mais aconteça, um protesto ao governador e...
— Stanshope é um idiota, — interveio Norbert, com um sorriso insinuante —, mas fará o que sua mãe mandar.
— Ele não é nosso títere, se é isso o que deseja insinuar — declarou Struan, os olhos tão frios quanto a voz.
— Títere ou não, ele poderá dispensar Wee Willie? — indagou Dmitri.
— Não — respondeu Struan.— Essa decisão tem de partir de Londres. Minha idéia é que se William não concordar que devemos participar de quaisquer negociações no futuro, então vamos aconselhar Stanshope a adotar tal medida como política oficial... e ele pode fazer isso. Afinal, somos nós que pagamos os impostos, somos nós que negociamos com os chineses. Por que não acontece a mesma coisa aqui? Unidos, poderemos conseguir. Norbert?
— Aquele patife é capaz de concordar com qualquer coisa para tornar sua vida mais simples, só que não vai adiantar coisa alguma. — Norbert assumiu uma expressão sombria. — William não é todo o nosso problema. Temos o almirante. Precisamos de um novo almirante. É mais importante do que afastar William. É ele que não quer bombardear os miseráveis, como deveria fazer. É ele, não William... qualquer tolo pode perceber isso.
Norbert terminou o conhaque, tornou a encher o copo e acrescentou, fingindo não notar como sua intervenção abalara Struan e irritara McFay:
— Mais uma vez, meus cumprimentos pelo creme, mas o conhaque não está à altura. Posso lhe mandar um barril do nosso Napoleon?
Com algum esforço, Struan manteve o controle.
— Por que não? Talvez seja mesmo melhor. Mas a sua solução para o nosso problema também é melhor?
— Minha solução é bem conhecida — declarou Norbert, o tom ríspido. — Exigir que eles entreguem os assassinos de Canterbury e paguem a indenização. Se não houver qualquer ação, três dias depois arrasamos Iedo. Quantas vezes temos de dizer isso? Mas os idiotas que temos aqui não querem aplicar as represálias normais, a única ação que os nativos compreendem... ou qualquer outro jugo diga-se de passagem. E até que a marinha tome a iniciativa, todos nós corremos perigo.
O silêncio foi se tornando opressivo. McFay evitou que os pensamentos transparecessem em seu rosto, preocupado com a possibilidade de Struan ter uma confrontação com aquele homem muito mais velho e experiente. Também sentia-se contrariado por não ter sido informado do verdadeiro motivo para a reunião, carecendo assim da oportunidade de dar alguns conselhos antes.
— Seja como for, Norbert, concorda que você, Dmitri e o tai-pan, representando a maioria, devem procurar Wee Willie, assim que ele voltar?
— Claro que devemos procurá-lo, mas não vai adiantar nada. — Norbert tomou mais um gole de conhaque, sentindo-se melhor pela discussão. — Sei o que diriam o Sr. Brock, um autêntico tai-pan, e Sir Morgan. Tyler Brock diria, com muitas palavras rudes dos anglo-saxões, que o almirante é que estraga tudo, que William não passa de um miserável arrogante que não vai mudar, e que falará pessoalmente com Stanshope, que também é um tolo, e que pelo primeiro navio de correspondência escreverá para os nossos amigos no Parlamento, para que protestem com veemência.
Enquanto falava, ele acendeu um charuto e depois acrescentou, através da fumaça, a voz escarninha:
— E diria também que, embora nossos amigos sejam mais poderosos do que os seus, e farão mais do que os seus, a solução vinda de lá vai demorar pelo menos cinco ou seis meses, e por isso você deveria tirar o rabo da cadeira, já que é o responsável, e resolver logo o problema, ou virá ao Japão para quebrar algumas cabeças.
Struan sentiu a onda de raiva, assim como o fluxo de medo, coisas que sempre ocorriam à menção do nome de Tyler Brock, ou quando lia a seu respeito nos jornais, ou o via nas ruas de Hong Kong, ou nas corridas de cavalo.
— Então qual é a solução?
— Não tenho nenhuma. Se a tivesse, claro que já a teria posto em prática. — Norbert soltou um arroto. — Como o seu japonês secreto e a concessão de mineração, que nunca vai obter.
Struan e McFay ficaram aturdidos.
Duas semanas antes, Vargas sussurrara excitado que fora procurado por um dos seus fornecedores de seda, agindo como intermediário de um certo lorde Ota, que queria se encontrar com o tai-pan em segredo, “para negociar a concessão exclusiva à Struan da mineração de ouro em seus domínios, que incluíam a maior parte do Kwanto, a área abrangendo quase todas as planícies e montanhas em torno de Iedo, em troca do comércio de armamentos”.
— Sensacional! — exclamara Struan. — Se for de boa fé, pode ser uma grande abertura para nós. Não concorda, Jamie?
— Se for uma proposta genuína, claro que sim.
— Aqui está a credencial deles.
Vargas mostrara a folha de papel-de-arroz da melhor qualidade, com colunas de caracteres em estilo chinês, lacrada com requinte.
— Este lacre é de lorde Ota, e este aqui de um dos roju, lorde Yoshi. Há duas condições: que a reunião seja realizada em Kanagawa, e que tudo seja mantido em segredo do Bakufu.
— Por quê? E por que Kanagawa? Por que não aqui?
— Eles apenas disseram que é o lugar em que deve ser feita a reunião e que chegariam à noite na legação em Kanagawa. O encontro pode ocorrer ali.
— Pode ser uma armadilha, tai-pan — alertara Jamie. — Não se esqueça de que Lun foi assassinado na legação e os assassinos...
O excitamento de Malcolm murchara com a lembrança. Mas tratara de afastar essa possibilidade.
— Há soldados ali para nos protegerem.
— Eles garantiram que seus representantes estariam desarmados, senhor — ressaltara Vargas —, e insistiram na necessidade de sigilo.
— É arriscado demais para você, tai-pan — dissera Jamie. — Irei com Vargas, que pode servir como intérprete.
— Lamento, Sr. McFay, mas eles querem falar pessoalmente com o tai-pan — explicara Vargas. — E parece que não há necessidade de um intérprete... eles levariam alguém que sabe falar inglês.
— É perigoso demais, tai-pan.
— Pode ser, mas também é uma oportunidade boa demais para se perder, Jamie. Nada assim jamais foi oferecido a qualquer um de nós. Se pudéssemos fechar um negócio desses, e melhor ainda em segredo, daríamos um gigantesco passo à frente. Quais são as condições para o acordo, Vargas?
— Eles não disseram, tai-pan.
— Não tem importância. Aceite o convite e nos reuniremos o mais depressa possível. Uma condição: o Sr. McFay irá comigo. Jamie, seguiremos de barco. Providencie um palanquim para eu usar em Kanagawa.
A reunião fora rápida e inesperadamente direta. Dois samurais. Um, que dissera se chamar Watanabe, falava uma mistura de inglês e gíria americana, o sotaque americano:
— Lorde Ota quer dois mineiros. Expertos. Poderão ir a qualquer lugar em suas terras... com guias. Sem armas. Ele garante salvo-conduto, dá bons alojamentos, comida, com todo saquê que puderem beber e mulheres de sobra. Contrato de um ano. Vocês ficam com metade do ouro que eles encontrarem, fornecem de graça todos os equipamentos de mineração e capatazes para supervisionar seus homens, se descobrirem um veio. E cuidam das vendas. Se der certo, ele renova por um segundo ano e um terceiro, mais até... se a Casa Nobre agir direito. Concorda?
— Eles só vão procurar ouro?
— Claro que ouro. Lorde Ota diz que tem uma pequena mina, talvez mais nas proximidades. Vocês cuidam das vendas. Homens devem ser bons, devem ter experiência dos campos da Califórnia e Austrália. Concorda?
— Concordo. Levará algum tempo para encontrar os homens.
— Quanto tempo?
— Duas semanas, se houver algum na colônia... seis meses, se tivermos de trazê-los da Austrália ou América.
— Quanto mais cedo, melhor. Agora: quantos fuzis têm à venda neste momento?
— Cinco.
— Lorde Ota compra e também todos os fuzis de Choshu que combinaram, quando chegarem. Mesmo preço.
— Esses rifles já estão prometidos. Podemos fornecer outros.
— Lorde Ota quer fuzis de Choshu... quer todos. Paga mesmo preço. Todas as armas de Choshu, entende? E todas as outras que puder obter. Só vende a ele no Nipão, só a ele, entendido? Mesmo com canhões e navios... tudo que puder obter. Ele paga em ouro. Quanto mais descobrirem, mais terão.
Nem Malcolm Struan nem McFay conseguiram demover o homem de sua posição. Ao final, Struan concordara e marcaram outra reunião, um mês depois, quando a companhia apresentaria um contrato simples, especificando suas garantias, e também os dossiês dos dois homens. Depois que os samurais se retiraram, deram os parabéns um ao outro.
— Jamie, vá procurá-los na cidade dos bêbados. Pelo amor de Deus, apresse-se e tome todo cuidado, antes que Norbert descubra.
— Pode deixar comigo.
Em poucos dias, McFay descobrira dois homens qualificados, um americano e um cômico que era mineiro de estanho. Ambos haviam trabalhado nos campos de ouro perto de Sutter’s Mill, na Califórnia, e nas descobertas em Anderson’s Creek, na Austrália. No dia seguinte, os mineiros deveriam concluir a lista dos equipamentos que iriam precisar, e acertar os detalhes de seus contratos. Agora, consternados, Struan e McFay ouviram Norbert dizer:
— Já fechei esse negócio, jovem Malcolm. Está feito, pode esquecer. Levei a melhor e já despachei os dois para Iedo, ao encontro do samurai Watanabe. Onde será que aquele miserável aprendeu o inglês americano? Ele lhe contou? Ora, não importa. Meio a meio em qualquer ouro que descobrirmos é um bom negócio. — Sua risada se tornou ainda mais desdenhosa. — Quanto a William, eu o verei assim que ele voltar, não há problema. Dmitri, você me acompanha. Providenciarei tudo.
Ele fez uma pausa, olhando para Struan, os lábios se contraindo.
— Já que você não estará aqui, levarei Jamie comigo.
— Como?
Norbert tornou a arrotar.
— Não circulou a notícia de que sua mãe ordenou que voltasse a Hong Kong pelo próximo navio?
Jamie ficou vermelho.
— Escute aqui, Nor...
— Não se meta nisso, Jamie — gritou Struan. — Norbert, eu o aconselharia a escolher suas palavras com mais cuidado.
— É mesmo, meu jovem? Não ouvi direito que ela o quer de volta, mandou que embarcasse imediatamente, e seu capitão tem ordens para levá-lo de qualquer maneira?
— Isso não é da sua conta! Eu o aconselho...
— Tudo que acontece em Iocoama é da minha conta! — berrou Norbert. — E não aceitamos conselhos de ninguém da Struan, muito menos de um garoto que mal saiu das fraldas!
McFay levantou-se de um pulo, Struan pegou seu copo de conhaque e jogou o conteúdo na cara de Norbert.
— DeusTodo-Poderoso...
— Trate de se retratar, Norbert! — bradou Struan, com Dmitri e McFay estupefatos com a escalada da discussão. — Retire tudo o que disse ou exijo uma satisfação!
— Pistolas ao amanhecer? — escarneceu Norbert, a ação ainda melhor do que esperava. Abruptamente, ele puxou a metade da toalha da mesa, para enxugar o rosto, derrubando os copos. — Perdoem-me pela confusão, mas vocês dois são testemunhas de que eu disse apenas a verdade!
— Peça desculpas... sim ou não?
Norbert pôs as mãos na mesa, olhando furioso para Malcolm Struan, que sustentou seu olhar, com uma raiva intensa.
— Você recebeu a ordem de voltar, tem vinte anos e, assim, ainda é menor perante a lei, e pode-se dizer que mal deixou as fraldas. É a verdade, e aqui vai outra: eu poderia estourar seus miolos, ou cortá-los, com uma das mãos amarrada nas costas. Afinal, você nem sequer consegue ficar em pé direito para lutar, não é mesmo?
A voz era incisiva, impregnada de desprezo.
— Você é um aleijado, jovem Malcolm, e esta é a verdade de Deus! Outra verdade: sua mãe dirige a Struan, vem fazendo isso há anos, e está arrasando a companhia... pergunte a Jamie ou a qualquer outro que seja bastante honesto para lhe responder! Pode se intitular tai-pan, mas não é, não é um Dirk Struan, não é o tai-pan, e nunca será! Já Tyler Brock é o tai-pan e seremos a Casa Nobre antes do Natal. Duelo? Você está louco, mas se é isso o que quer, a qualquer momento!
Ele saiu, batendo a porta.
— Eu gostaria que vocês dois fossem meus padrinhos — murmurou Malcolm, tremendo de raiva.
Dmitri levantou-se, trêmulo.
— Malc, você está louco. Duelar é contra a lei, mas tudo bem. Obrigado pelo almoço.
Ele também saiu. Struan tentou recuperaro fôlego, o coração doendo. Olhou para McFay, que o fitava como se estivesse diante de um estranho.
— Tem razão, Jamie, é uma loucura, mas também Norbert é o melhor da Brock & Sons. Ele levou a melhor sobre você e...
— Lamento a...
— Também lamento. Mas a verdade é que eu não falei a ninguém sobre os mineiros, Vargas nada sabia a respeito, e portanto só pode ter vazado por seu intermédio. Você é o melhor que temos na companhia, mas Norbert vai acabar conosco aqui. Uma bala na cabeça do desgraçado é a melhor maneira de acabar com ele... ou qualquer dos malditos Brocks! Depois de uma pausa, McFay disse:
— Lamento ter falhado, lamento muito, mas... mas não quero ter parte em qualquer duelo, não quero me envolver na sua vendeta. É uma insanidade.
A palidez de Struan aumentou.
— Vamos falar de você. Ou mantém seu juramento sagrado de me apoiar ou está liquidado. Tem três dias para se decidir.
No início daquela manhã, Settry Pallidar e uma tropa de dragões montados seguiu à frente da procissão pela ponte sobre o primeiro fosso do castelo de Iedo.
Passaram entre fileiras de samurais uniformizados, impassíveis, ombro a ombro — milhares de outros haviam margeado todo o percurso —, atravessaram a ponte levadiça e cruzaram os portões de ferro maciço. À frente estavam seus guias, samurais carregando estandartes de três metros de altura, com as insígnias dos roju, três flores de cerejeira entrelaçadas.
Por trás dos dragões, havia meia centena de Highlanders, precedidos pela banda de vinte homens, com seu gigantesco mestre, gaitas de foles a emitir sons agudos, e depois o grupo de ministros, com seus assistentes, todos montados. Os ministros usavam trajes de corte, tricórnios, espadas cerimoniais, casaca ou sobrecasaca contra a brisa constante, à exceção do russo, que vestia um uniforme de cossaco, com capa, e montava o melhor cavalo que existia no Japão, um garanhão castanho, que contava com um bando de vinte cavalariços para cuidá-lo e protegê-lo com suas próprias vidas. Phillip Tyrer e Johann integravam a comitiva de Sir William, André Poncin acompanhava Henri Seratard. Uma companhia de soldados ingleses vinha na retaguarda.
Dois pequenos canhões puxados por cavalos, com suas carroças de carga e guarnições, permaneceram no outro lado da ponte. Isso fora o assunto de dias de discussão, Sir William insistindo que a presença do canhão cerimonial era uma cortesia costumeira à realeza, o Bakufu alegando que quaisquer armas gai-jin eram contra a lei, um insulto a seu reverenciado xógum. O acordo, depois de uma semana de negociações, fora de que o canhão ficaria fora da ponte, as salvas reais não seriam disparadas até que os roju concedessem a permissão formal por unanimidade.
— Nenhuma munição deve ser desembarcada, sinto muito...
Esse problema fora resolvido com a ajuda do almirante francês. Durante uma das intermináveis reuniões, ele aproximara sua nave capitânia de terra e disparara uma bordada de artilharia, sem muita precisão, as balas passando sobre a colônia para caírem, inofensivas, nos arrozais além, mas apavorando todos os japoneses que ouviram os tiros.
— Se não pudermos desembarcar munição — explicara Sir William, insinuante —, então teremos de disparar as salvas do mar desse jeito... pedimos que usasse tiros de pólvora seca, mas imagino que ele entendeu mal a mensagem problemas de linguagem... e sentiremos muito se atingirem sua cidade, mas a culpa será de vocês. Terei de explicar isso em detalhes a seu imperador Komei canhoneio e os rifles, pois constituem uma honra real, um símbolo de respeito para homenagear seu xógum. Explicarei tudo isso quando nos encontrarmos com seu imperador Komei, na visita a Quioto, que já adiei três vezes, a pedido de vocês e que marcarei quando a minha esquadra mais poderosa voltar do ataque a uma boa parte da costa da China, habitada por piratas miseráveis, que tiveram a ousadia de atacar um pequeno navio britânico!
A oposição do Bakufu ruíra por completo. Assim, todos os fuzis estavam carregados, e todos os soldados avisados de que poderia ocorrer uma luta, mas que em nenhuma circunstância, e sob pena da mais rigorosa punição, deveria haver provocações a algum japonês.
— E o que fará a fragata H.M.S. Pearl, Sir William? — indagara o general, na última reunião.
— Pode nos levar a Iedo, e depois voltar para cá, caso nossos anfitriões resolvam desfechar um ataque de surpresa contra a colônia durante nossa ausência... a Pearl daria cobertura a uma evacuação.
— Pelo bom Deus, senhor, se acha que há essa possibilidade, por que assume o risco? — dissera o general, preocupado. — Os outros ministros não seriam uma grande perda, mas haveria um incidente internacional se alguma coisa lhe acontecesse. Afinal, senhor, representa o império. Não deve arriscar sua pessoa.
— É parte do meu trabalho, meu caro general.
Sir William sorriu para si mesmo, ao recordar como mantivera a voz calma, falando como se fosse um gracejo. O general acenara com a cabeça, solene, acreditando que era verdade. O pobre coitado é um pateta, mas isso faz parte de suas funções, sem dúvida, pensou Sir William, jovial, para depois descartar tudo e se concentrar apenas no castelo e na iminente reunião, a culminação de meses de negociações, e que daria legalidade ao tratado e à abertura dos portos do tratado. E foram aqueles poucos disparos franceses que produziram o milagre, pensou ele, sombrio. Maldito Ketterer, mas graças a Deus que suas operações na China correram bem, segundo os últimos despachos, e ele voltará em breve. Se pôde bombardear a costa da China, por que não aqui... ora, ele que se dane!
E que se dane também este castelo.
De longe, não parecia muito imponente; quanto mais se aproximavam, porém, mais se tornava imenso, com oito círculos de estruturas que pareciam alojamentos como defesas externas. Depois, o castelo propriamente dito, elegante, com lindas proporções, pensou Sir William, o fosso com quase duzentos metros de extensão, as muralhas exteriores muito altas, com uns dez metros de espessura, feitas com enormes blocos de granito. Nem mesmo nossos canhões de sessenta libras poderiam destruí-las, concluiu ele, impressionado. E, lá dentro, só Deus sabe quantas fortificações cercam a torre central. E o acesso só é possível através do portão ou por cima das muralhas, num ataque frontal, que eu não gostaria de ordenar. Deixar o castelo à míngua? Só Deus sabe quantos depósitos de alimentos existem aqui... ou quantos soldados pode alojar. Milhares.
Além dos portões, o caminho se estreitava, numa área dominada por arqueiros, abrigados em fendas defensivas, ou em parapeitos dez metros acima do solo. O caminho levava a outro pátio confinado, com outros portões fortificados, outro pátio, mais portões, no que devia ser um labirinto de passagens, terminando na torre central, e sempre deixando uma força hostil à mercê dos defensores por cima.
— Desmontamos aqui, Sir William — anunciou Pallidar, parando o cavalo e batendo continência.
Ele era o comandante da escolta. Estava acompanhado por oficiais samurais, a pé, que apontaram para uma enorme porta, sendo aberta naquele momento.
— Está certo. Sabe o que tem de fazer?
— Claro. Mas não tenho a menor esperança de lhe dar cobertura, ou até sair daqui lutando, mesmo enfrentando arcos e flechas.
— Não planejo lutar contra ninguém, capitão.— Sir William sorriu. Virou-se na sela, fez sinal para todos desmontarem. — Um castelo e tanto, hem?
— Melhor do que qualquer outro sobre o qual já li ou ouvi falar — comentou Pallidar, apreensivo. — Superior a tudo que os cruzados enfrentaram. Faz com que pareça bem pequeno o enorme castelo dos Cavaleiros de são João, em Malta. Ótimo para se defender, mas eu detestaria ter de atacá-lo.
— Foi o que também pensei. Phillip! — chamou Sir William. — Pergunte a alguém onde se pode urinar por aqui.
Tyrer aproximou-se apressado de um dos oficiais samurais, fez uma reverência polida, e lhe sussurrou. O homem soltou um grunhido e acenou para um biombo.
— Há baldes ali, senhor, e creio que ele disse que há baldes também no canto da maioria dos cômodos, caso alguém sinta uma súbita necessidade.
— Ainda bem. É sempre melhor se aliviar antes de uma reunião... de qualquer maneira, uma bexiga forte é uma dádiva importante para um diplomata.
Depois que Sir William e os outros ministros urinaram, ele conduziu-os através da porta: Seratard, conde Zergeyev, von Heimrich, van de Tromp, Adamson e um recém-chegado, pelo último navio de correspondência, o burgomestre Fritz Erlicher, da Confederação Helvética — Suíça —, um gigante barbudo da capital, Berna, que falava francês, inglês, alemão, holandês e muitos dialetos alemães. Phillip Tyrer e Johann seguiam logo atrás, com André Poncin caminhando ao lado de Seratard.
A sala de audiências tinha quarenta metros quadrados, teto alto, vigas grossas, muito limpa, arejada, paredes de pedra com fendas para arqueiros como janelas. Havia samurais impassíveis postados ao longo das paredes. Duas fileiras de meia dúzia de cadeiras, de frente umas para as outras, na outra extremidade. Muitas Portas. Apenas criados presentes para recebê-los. Um funcionário do Bakufu, vestido com requinte, embora subalterno, apontou para as cadeiras, sem fazer reverência, enquanto criados traziam pequenas bandejas, dizendo em holandês:
— Por favor, sentem para o chá.
Sir William percebeu que Johann conversava com seu ministro suíço e disse irritado:
— Phillip, pergunte a esse sujeito onde está o Conselho de Anciãos, os roju .
Disfarçando seu nervosismo, consciente de que todos os olhos fixavam-se nele, e sentindo vontade de urinar outra vez, Phillip Tyrer aproximou-se do representante do Bakufu e ficou esperando que ele fizesse uma reverência. O homem não fez, apenas o fitou com firmeza, e por isso Tyrer disse, em tom ríspido:
— Onde estão suas maneiras? Faça uma reverência! Sou um lorde em meu país e represento estes altos lordes!
O homem ficou vermelho, fez uma reverência profunda, murmurou um pedido de desculpas. Tyrer sentiu a maior satisfação por ter tido a cautela de pedir a Nakama que lhe ensinasse algumas frases fundamentais. Interpelou o homem de uma forma ainda mais autoritária:
— Onde estão seus superiores, os roju?
— Ah, sinto muito, por favor, desculpe, lorde — balbuciou o homem.— Eles pedem que esperem aqui... ahn... descansando da viagem.
Tyrer não entendeu todas as palavras, mas captou a essência.
— E depois?
— Terei a honra de conduzi-los ao local da reunião — respondeu o homem, os olhos cautelosamente abaixados.
Mais uma vez, para seu enorme alívio, Tyrer compreendeu. Enquanto relatava a conversa a Sir William, podia sentir um suor frio nas costas e refletiu que tivera sorte até agora.
Sir William soltou um grunhido e inclinou-se para os outros.
— Acham que devemos esperar, senhores? Eles estão atrasados... tínhamos combinado que entraríamos direto na reunião... não quero esperar nem aceitar o chá como desculpa.— À aprovação geral, ele acrescentou:— Ótimo. Phillip, diga a esse sujeito que viemos aqui para falar com os roju. É o que queremos fazer. Agora.
— Até que ponto... hum... deseja que eu me mostre veemente, senhor?
— Pelo amor de Deus, Phillip, se eu quisesse que você fosse prolixo e diplomático, teria sido eu mesmo prolixo e diplomático. Afunção de um intérprete é traduzir exatamente o que foi dito, não dar a sua interpretação das palavras.
— O grande lorde diz: quer ver roju agora. Agora!
O funcionário do Bakufu ficou chocado pela falta de polidez, uma afronta inédita, e se descobriu num dilema. Suas instruções haviam sido claras: Os gai-jin ficarão esperando por um período apropriado para “perderem a pose”, cerca meia vela, quando enviaremos um aviso, e poderá conduzi-los à nossa presença. Ele se apressou em dizer:
— Claro que os levarei, assim que acabarem de tomar o chá e estiver tudo pronto para a recepção perfeita, mas sinto muito, não é possível agora, porque as augustas pessoas não vestiram ainda os trajes corretos, e assim não é possível atender ao pedido inconveniente de seu amo, intérprete-san.
— Por favor, fale de novo, não tão depressa — pediu Tyrer, angustiado.
Outro fluxo de japonês e ele disse:
— Sir William, acho que está dizendo que temos de esperar.
— É mesmo? Por quê?
— Meu amo diz, por que esperar?
Mais japonês, que Tyrer não entendeu, e por isso o homem passou para o holandês. Erlicher interveio na conversa, irritando ainda mais Sir William e os outros. Ao final, Erlicher disse:
— Parece, Sir William, que os roju não estão... como se diz... ah, sim... ainda não estão prontos, mas assim que estiverem seremos levados à sala de audiência.
— Por favor, diga a esse sujeito, com toda a rispidez necessária, para nos levar até lá imediatamente, que chegamos na hora marcada, e que as reuniões de alto nível sempre começam na hora, porque as duas partes têm outros importantes problemas de Estado a tratar, como já expliquei cinqüenta vezes! E diga a ele para se apressar!
Erlicher transmitiu a mensagem, com a maior satisfação; por mais que o homem se contorcesse, insistisse e até suplicasse, acabou fazendo uma reverência e depois, tão devagar quanto possível, levou-os por uma porta, através de um corredor... depois de enviar um mensageiro para alertar o conselho sobre a espantosa impertinência dos gai-jin.
Outro corredor, e na extremidade samurais abriram imensas portas, o funcionário caiu de joelhos, inclinou a cabeça até o chão. Quatro homens em trajes de seda requintados, espadas à cinta, sentavam em cadeiras no outro lado da vasta sala de audiência, numa plataforma. A cadeira central se achava vazia. Na frente, num nível mais baixo — o que todos os ministros perceberam no mesmo instante —, havia seis cadeiras para os representantes estrangeiros; entre as duas fileiras, ajoelhava-se o intérprete oficial. Cerca de cem oficiais samurais ajoelhavam-se num semicírculo, de frente para a porta; quando Sir William entrou, todos os samurais na sala se inclinaram. Os quatro roju permaneceram imóveis. Sir William e os outros fizeram uma reverência polida e depois foram ocupar seus lugares.
— Em nenhuma circunstância ministros de nações civilizadas ajoelham-se e inclinam a cabeça até o chão — declarara Sir William —, não importa quais sejam os costumes de vocês, se fazem isso ou não, e ponto final!
Phillip Tyrer, agora um conhecedor de reverências, graças a Nakama, notou que cada vez que um ancião inclinava a cabeça, era o gesto de um superior para um inferior. Não importa, pensou ele, intimidado e excitado, estamos agora no santuário interior. Quando o xógum virá ocupar a cadeira vaga? Um menino? Gostaria de saber como ele parece e o que...
Um ancião começou a falar. Com súbito sobressalto, Tyrer reconheceu-o como o jovem emissário que participara da reunião anterior na legação em Iedo Também reconheceu o homem nervoso e moreno sentado a seu lado, que se mantivera calado durante todo o tempo no encontro anterior, mas observara a tudo com a maior atenção, os olhos contraídos.
Por que dois anciãos foram se encontrar conosco sem anunciar suas posições? ele perguntou a si mesmo. Espere um pouco, o representante mais jovem não se apresentara como Tomo Watanabe, isso mesmo, e dissera ser “funcionário subalterno, segunda classe”. Um nome falso, era óbvio. Mas por quê? E por que o disfarce?
Apreensivo, Tyrer deixou o problema para ser resolvido mais tarde e concentrou-se no que o homem dizia, sem compreender quase nada, como fora avisado antes que aconteceria por Nakama, que lhe explicara que as palavras em voga na corte, as que deveriam ser usadas, tinham significados diferentes, até mesmo conflitantes, das palavras e frases do japonês comum.
Sua concentração vacilou. O terceiro ancião era rotundo, rosto balofo, mãos femininas, por fim, de fato, um ancião, cabelos brancos, rosto encovado, com enorme cicatriz na face esquerda. Todos tinham pouco mais de um metro e meio, os mantos pareciam asas, calças largas, chapéus laqueados, amarrados sob o queixo, bastante impressivos, acima de tudo por sua dignidade imóvel. O intérprete japonês falou em holandês:
— O roju, o Conselho de Anciãos do xogunato, dá as boas-vindas aos representantes estrangeiros, e deseja que apresentem seus documentos, como foi combinado.
Sir William suspirou, mesmerizado pela cadeira vazia.
— Muito bem, Johann, vamos começar. Pergunte a eles se não devemos esperar até que o xógum nos honre com a sua presença.
A indagação foi traduzida para o holandês, depois para o japonês, houve muita discussão, antes que o ancião mais jovem, Yoshi, fizesse um pronunciamento, traduzido de forma lenta e meticulosa para o holandês, e depois para o inglês.
— Basicamente, sem o palavrório habitual, Sir William, o porta-voz diz que o xógum não deve ser esperado nesta reunião, que será apenas com os roju. O xógum aparecerá mais tarde.
— Não foi isso o que combinamos e torno a informá-los de que credenciais ministeriais só são apresentadas a chefes de Estado, neste caso o xógum, e assim não podemos continuar a reunião.
Outras traduções e em seguida, para desprazer dos ministros:
— O ancião diz que o xógum teve de viajar para Quioto, com urgência, e lamenta não ter o prazer de encontrá-los, mas podem apresentar suas credenciais aos roju, já que eles têm autoridade para aceitá-las.
Novamente as traduções, a irritação de Sir William transformando-se numa raiva ostensiva, mais argumentos dos dois lados, mais tempo consumido, depoi um pergaminho, cheio de caracteres, com um lacre imponente, manipulado como se fosse o Santo Graal, foi apresentado a Sir William por um funcionário ajoelhado.
— Phillip, pode ler isto?
— Não, senhor. Sinto muito.
— Não precisa se preocupar.— Sr William suspirou, virou-se para os outros. — Isto é bastante impróprio.
— Também acho — declarou von Heimrich, friamente.
— Inaceitável — acrescentou o conde Alexi Zergeyev.
— Um precedente perigoso — comentou Adamson.
— Fora do comum, sem dúvida, pois eles prometeram a presença do xógum — disse Seratard, em francês. — Mas podemos, apenas para esta reunião, concordar com o pedido... o que acham, meus amigos?
Ele teve o cuidado de ocultar sua irritação e manteve a voz suave e gentil, como André Poncin, a seu lado, sugerira num sussurro cauteloso, ao entrarem na sala, acrescentando:
— Tome cuidado, Henri. O porta-voz dos roju é o mesmo funcionário do Bakufu que eu... a que fizemos a oferta depois da outra reunião, de visitar um navio de guerra, lembra? Mon Dieu, achei que ele era importante, mas nunca um dos anciãos! Se pudéssemos atraí-lo para o lado da França, seria um golpe maravilhoso...
O conde Zergeyev declarou:
— Concordar criará um deplorável precedente.
— Será apenas por esta reunião. Certo?
— Não importa, é como vento no rabo de uma vaca — interveio o suíço, Erlicher. — Vamos continuar.
Eles continuaram a discutir. Tyrer escutava, mas mantinha sua atenção nos anciãos, embora não de uma forma ostensiva, fascinado por eles, querendo aproveitar aquela oportunidade excepcional de aprender o máximo sobre o conselho, no mínimo de tempo. O pai lhe incutira desde cedo:
— Em qualquer reunião, sempre observe as mãos e os pés dos oponentes, pois são reveladores, assim como os olhos e os rostos, só que estes em geral podem ser controlados com facilidade. Concentre-se! Observe, mas com cautela, ou as indicações para lhe dizer o que a pessoa realmente pensa serão encobertas. Lembre-se, meu filho, de que todos exageram, todos mentem, em graus diversos.
As mãos e os pés do ancião moreno, de olhos irrequietos, se mexiam a todo instante, pequenos movimentos nervosos, enquanto os do ancião jovem se mantinham imóveis. De vez em quando, como na outra reunião, ele via o homem que apelidara de “Olhos Matreiros” sussurrar para o jovem ancião, o porta-voz... e só para ele. Por quê? — perguntou Tyrer a si mesmo. — E por que Olhos Matreiros nunca participa das conversas entre eles, aparentemente descartado pelos outros, mantendo os olhos fixados sempre nos ministros, nunca nos intérpretes? Abruptamente, Sir William apontou para a cadeira vazia.
— Se o xógum não era esperado nesta reunião, e há cinco anciãos no conselho, por que há uma cadeira vaga?
Outra vez as traduções, para um lado e outro, antes da resposta:
— Ele diz que o presidente do conselho, lorde Anjo, acaba de cair doente e não pôde comparecer, mas que isso não importa, porque eles têm autoridade para decidir. Por favor, continuem.
Von Heimrich disse, num francês impecável, como uma afronta a Seratard:
— Isso não invalida esta reunião, já que eles sempre ressaltaram a natureza “unânime” deste conselho? Cinco homens. Pode ser outra artimanha a ser usada no futuro, a fim de repudiar toda a reunião.
E começou outra discussão. Apenas Sir William permaneceu em silêncio. Conseguia evitar que a fúria e ansiedade transparecessem em seu rosto. É evidente que haviam sido enganados mais uma vez. O que fazer? E foi então que ele se ouviu dizer, em voz firme:
— Muito bem, aceitaremos a autoridade deles como um ato de boa fé de seu xógum, mas apenas para esta reunião. Comunicaremos a nossos governos que o acordo anterior não foi cumprido e seguiremos para Quioto, o mais depressa possível, afim de apresentarmos nossas credenciais ao xógum... e ao imperador Komei... com uma escolta mais do que apropriada.
Enquanto Johann começava a traduzir para o holandês, o conde Zergeyev murmurou:
— Bravo... é a única maneira de lidar com os matyeryebitzl
Von Heimrich e van de Tromp, o holandês, concordaram no mesmo instante, com as objeções de Seratard, Adamson, o americano, e Erlicher.
O intérprete japonês deixou escapar uma exclamação de espanto e disse em voz alta que tinha certeza que não entendera direito. Johann proclamou que não havia qualquer mal-entendido. Durante essa discussão, Sir William fechou os ouvidos a eles, observando com total atenção os rostos dos roju, enquanto ouviam seu intérprete. Em graus diversos, todos se mostraram apreensivos. Ótimo, pensou ele.
— Com o palavrório habitual, Sir William, mas com uma carga grande de desculpas polidas desta vez, ele diz que não será possível ver o xógum em Quioto, o tempo é inclemente nesta época do ano, mas nos asseguram que assim que ele voltar, etc.
Sir William sorriu, sem qualquer humor.
— Diga a eles o seguinte: Com o tempo inclemente ou não, visitaremos o imperador em futuro próximo. Ressalte isso, Johann. Só nesta base continuaremos a reunião.
Os roju receberam o aviso num silêncio impassível.
Depois, Sir William primeiro, os outros em seguida, levantaram-se, fizeram uma reverência, enunciaram seu posto e o país que representavam e apresentaram suas credenciais. Foram aceitas com dignidade. A cada vez, os roju retribuíam a reverência, respeitosos.
— Agora — disse Sir William, empinando o queixo — vamos passar para o segundo ponto da reunião. O governo de sua majestade real firma que na sexta-feira, dia 12 de setembro, no ano de Nosso Senhor de 1862, um cavalheiro inglês foi abominavelmente assassinado por samurais do contingente de Satsuma, sob o comando de seu rei, Sanjiro. Dois outros foram feridos. O governo de sua majestade exige que os assassinos sejam entregues, ou condenados em público, de acordo com a lei japonesa, que uma reparação de cem mil libras esterlinas em ouro seja paga de imediato, um pedido de desculpas publicado e a promulgação de uma garantia oficial de que isso não tornará a acontecer. E mais: o segundo e último pagamento de cinco mil libras esterlinas em ouro como reparação pelos assassinatos do sargento Gunne do cabo Roper, em nossa legação, no ano passado, com semanas de atraso, terá o pagamento efetuado em ouro dentro de três dias ou a quantia dobrará em cada dia subsequente...
Sir William deu tempo para que Johann traduzisse palavra por palavra, mas não permitiu qualquer discussão, até concluir a lista. Adamson também exigiu uma reparação pelo assassinato de um funcionário americano e, por último, o ministro russo se manifestou. As medalhas retinindo no uniforme de alamares dourados, o conde Zergeyev declarou:
— Um oficial e um soldado russos do nosso navio de guerra Gudenev foram retalhados até a morte em Iocoama, no dia 16 de fevereiro do ano passado. — Para consternação dos outros, ele acrescentou: — Como reparação, o czar de todas as Rússias, Alexandre II, exige as ilhas Kurilas.
Durante as traduções, Sir William inclinou-se e sussurrou em russo, num tom jovial:
— Uma boa pilhéria, conde Alexi, pois é claro que o governo de sua majestade nunca poderia concordar com tal intromissão em nossa esfera de influência.
— Talvez sim, talvez não. A guerra na Europa é iminente outra vez. Muito em breve teremos de definir quem são os nossos amigos e quem são os inimigos.
Sir William riu.
— O que é sempre um problema para determinados países. O Reino Unido não tem inimigos permanentes, apenas interesses permanentes.
— É verdade, meu caro amigo, mas esqueceu de acrescentar “não tem amigos permanentes”. Agora, com Vladivostok, também somos uma potência do Pacífico.
— O poder de mar a mar? O sonho dos czares, hem?
— Por que não? Melhor nós do que outros — disse o conde Alexi, incisivo, para depois dar de ombros. — As Kurilas? Se não elas, algumas outras ilhas... para proteger Vladivostok.
— Devemos discutir sua “curiosa” presença no Pacífico em condições mais adequadas. Meu governo está muito interessado.
Seratard, sem entender russo e furioso por sua exclusão dessa conversa, disse friamente, em francês:
— Espero que esteja mantendo em primeiro plano os interesses franceses, Sir.
— Como sempre, monsieur, os interesses dos bravos aliados ocupam um lugar de destaque no pensamento do Ministério do Exterior de sua majestade.
Johann interveio, cansado:
— Sir William, o ancião diz... apenas reitera a posição anterior, que eles não têm jurisdição sobre Satsuma, não sabem quem são os assassinos, e acham que qualquer reparação deve ser exigida de Satsuma, através dos canais competentes é claro.
— Que canais competentes?
As traduções, de novo.
— Por intermédio deles, que reapresentarão o pedido a Satsuma.
— Não é um pedido, por Deus! Vamos tentar pela última vez, ressalte isso Johann, por um caminho diferente. Pergunte se eles punem os assassinos e diga ao intérprete que exijo um sim ou não. Só isso.
As traduções.
— Ele diz, Sir William, que em algumas circuns...
— Assassinato! Sim ou não! Phillip, diga isso em japonês!
Tyrer sentiu o estômago embrulhar. Estivera observando o ancião moreno sussurrar mais uma vez, mas levantou-se de um pulo.
— Honrados lordes, por favor, perdoem meu péssimo japonês, mas meu superior pergunta se quando assassinato, vocês matam assassino, sim ou não, por favor.
Silêncio. Os anciãos olharam para Yoshi, que olhou para Tyrer, as mãos mexendo no leque. O homem ao seu lado sussurrou alguma coisa e ele acenou com a cabeça.
— A pena para assassinato é morte.
— Ele diz que sim, senhor. Para assassinato, a pena é de morte.
Tyrer aprendera essas palavras essenciais com Nakama, que também lhe explicara o código penal japonês e seu rigor.
— Diga-lhe obrigado.
— Meu superior diz obrigado, lorde.
— Agora, pergunte a ele: É correto exigir reparação por um crime assim, sim ou não?
— Lorde, por favor, desculpe, mas é... é.... eu... — Tyrer parou, com um súbito branco. — Desculpe, Sir William, mas não conheço a palavra para “reparações”.
André Poncin interveio:
— A palavra é bakkin, Sir William, pouco conhecida. Posso tentar, por favor?
— Claro.
— Honrados lordes — disse Poncin, com uma reverência profunda, deixando Tyrer agradecido por salvá-lo —, meu superior pergunta se correto, humildemente pede justiça e pagamento para família, por assassinato, uma multa contra Satsuma?
— Contra Satsuma, sim — respondeu Yoshi, com um sorriso fugaz. André deixou escapar um suspiro de alívio.
— Ele diz que sim, Sir William, mas a reparação deve ser exigida de Satsuma. Antes que Sir William pudesse formular outra pergunta, Poncin, em seu mais perfeito e ensaiado japonês, para surpresa de Tyrer, começou a oferecer a fórmula salvadora que imaginara:
— Honrado lorde, em nome de meu superior, humildemente sugiro que o roju talvez condere, ah, desculpe, talvez considere emprestar Satsuma primeiro pagamento, um quinto. Isto oferece agora, dá tempo Satsuma, cobra resto de Satsuma. Por favor?
Desta vez todos perceberam o interesse do jovem ancião. No mesmo instante, ele iniciou uma conversa sussurrada com os outros. André viu que Tyrer o fitava com o rosto franzido e sacudiu a cabeça de leve, num pedido silencioso para que não interferisse. Depois de um momento, Yoshi disse:
— Talvez seja possível oferecer um vigésimo, a ser pago em cem dias, contra a dívida óbvia de Satsuma.
— Honrados lordes...
— O que ele e o ancião estão dizendo, Phillip?
— Só um instante, Sir William — disse André, em tom amável, mas com vontade de esganá-lo. — Honrados lordes, meu superior recomendaria um décimo, em sessenta dias. Sinto muito, por favor, desculpem péssima pronúncia, mas humildemente, muito humilde, peço que sim.
Bastante aliviado, Poncin observou os anciãos iniciarem a discussão e tornou a arriscar:
— Desculpe, Sir William, mas como Phillip pode confirmar, sugeri que eles considerem o pagamento adiantado, em nome de Satsuma, que deve pagar, dizem eles, com toda razão, toda e qualquer reparação.
— É mesmo? E eles vão aceitar? — Sir William fitou-o surpreso, esquecendo o cansaço. — Bom trabalho... se eles aceitarem, então posso fazer concessões, hem? Vocês concordam?
Por uma questão de cortesia, ele virou-se para os outros, à espera de suas opiniões. Por trás dele, Tyrer assoviou baixinho, tendo compreendido a maior parte do que Poncin dissera em japonês e percebido a maneira como ele manipulava o ancião e o ministro, assim como a ligeira, mas importante diferença na tradução para o inglês. André é muito esperto, mas o que está tramando? A idéia é dele ou de Seratard? Outra vez Olhos Matreiros se pôs a sussurrar, em tom confidencial, para o jovem ancião, cuja atenção se concentrava nos ministros. É quase como...
Subitamente, foi como se cataratas tivessem sido removidas de seus olhos e pudesse enxergar com clareza de novo. Ainda mais do que isso, agora via os anciãos com olhos objetivos, não mais com a visão indireta e preconceituosa de um suposto homem civilizado, contemplava-os como pessoas também civilizadas, também simples ou complexas, mas pessoas, e não mais como exóticos, misteriosos ou estranhos “japos”, uma posição que despertava o ressentimento de Nakama, Fujiko e até mesmo André de diversas maneiras, e com toda razão.
Deus Todo-Poderoso, Olhos Matreiros entende o inglês, ele sentiu vontade de gritar, extasiado. Esta é a única explicação, ele é um espião do roju, é tão ancião quanto eu, e por esse motivo os outros não lhe dão a menor atenção em suas discussões. O que mais? Ele deve ser o espião de Watanabe, porque é o único para quem sussurrou até agora... preciso descobrir seus nomes verdadeiros e interrogar Nakama a respeito. Watanabe é o mais poderoso deste bando, o presidente em exercício. O presidente ausente? Preciso descobrir seu verdadeiro nome também O que mais? Onde André...
Ele se concentrou, enquanto Yoshi falava ao intérprete. Sua voz se tornara incisiva. O intérprete ficou ainda mais alerta, seu holandês foi vinte vezes mais sucinto. Johann traduziu, tentando conter seu espanto:
— O roju concorda que neste caso é correto pedir uma reparação, de Satsuma, que cem mil parece uma quantia razoável para um nobre, mas não podem dizer se o lorde Satsuma também vai considerar assim. Como um gesto de amizade para os britânicos e com as outras nações, o roju adiantará uma décima parte, em setenta dias, por conta de Satsuma... enquanto os pedidos formais britânicos são encaminhados a Satsuma. Em relação ao pedido do ministro russo, como acontece com a pátria dele, o território japonês é território japonês, e é... Imagino que a palavra seria inviolável ou inegociável.
Sem ser óbvio, Sir William pôs a mão sobre a do conde Alexi, a fim de impedir sua explosão, enquanto murmurava, em russo:
— Deixe como está, Alexi.
Depois, em voz alta, ele acrescentou para Johann, disposto a negociar um prazo menor e uma quantia menor:
— Excelente, Johann. Por favor, diga a eles... Ele parou de falar quando Tyrer sussurrou:
— Com licença, senhor. Sugiro que aceite de imediato, mas insista que precisa saber os nomes deles.
Foi quase como se Tyrer não tivesse falado, pois Sir William continuou sem pausa e sem mudança da expressão:
— Johann, por favor, diga a eles que a sugestão é aceitável para o governo de sua majestade, no mesmo espírito de amizade. Em relação ao ministro da corte de São Petersburgo, tenho certeza que ele consultará seu governo, que concordará, com toda certeza, que um acordo monetário será satisfatório.
Sem dar tempo ao conde Alexi de protestar, ele tratou de acrescentar:
— Em relação ao nosso outro problema premente, os estreitos de Shimonoseki: todos os governos estrangeiros protestam contra baterias de terra disparando sobre seus navios, ao passarem em paz por aquela área.
Sir William repetiu as datas e os nomes dos navios, coisas que já haviam sido o tema de uma correspondência veemente.
— Eles dizem que transmitirão a queixa, Sir William, com a alegação habitual, de que não têm controle sobre Choshu.
— Diga o seguinte, Johann: No espírito cordial desta reunião, permitam-me sugerir que é difícil, se não mesmo impossível, para os governos estrangeiros negociarem com o Bakufu, que parece não exercer qualquer autoridade sobre seus vários reinos ou Estados. Sendo assim, o que devemos fazer? Negociar diretamentete com o xógum, que assinou nossos tratados... ou com o imperador Komei?
— O governo legal do Nipão é o xogunato, o supremo soberano do xogunato é o xógum, que governa em nome do filho do céu, os roju são os supremos conselheiros do xogunato, e seus representantes constituem o Bakufu. Em todos os casos, os governos estrangeiros devem negociar diretamente com o xogunato.
— Sendo assim, como podemos garantir a travessia segura de todos os navios que passam por Shimonoseki?
Mais discussão exaustiva, e sempre variações da mesma resposta, que não chegava a ser uma resposta, por mais que Sir William tentasse esclarecê-la. As bexigas pareciam estourar outra vez, a impaciência era geral, a fadiga aumentava. Três horas haviam transcorrido desde o início da reunião. Sir William sorriu para si mesmo.
— Muito bem. Diga o seguinte: presumindo que não haverá novos ataques, e que nossos protestos veementes serão encaminhados ao daimio de Choshu imediatamente, aceitamos, no espírito desta nova cordialidade, a posição deles para uma nova reunião, daqui a cem dias.
Uma hora de manobras adicionais.
— O roju concorda com uma segunda reunião, dentro de cento e cinqüenta e seis dias, aqui em Iedo, e deseja declarar esta reunião encerrada.
— Ótimo — disse Sir William, reprimindo um bocejo. — Agora, gostaria por favor que eles nos dessem seus nomes, verbalmente, e depois por escrito, em caracteres, no documento formal que trocaremos daqui a três dias, confirmando os acordos.
Novas traduções, pequenos detalhes alterados, e finalmente:
— Sir William, ele diz que terá os papéis prontos em uma semana, o intérprete fornecerá seus nomes, e a reunião está encerrada.
A medida que cada um era apresentado, o ancião acenava com a cabeça, mantendo o rosto impassível.
— Lorde Adachi de Mito, lorde Zukumura de Gai, lorde Yoshi de Hisamatsu...
Tyrer ficou na maior satisfação ao constatar que Olhos Matreiros, o último na fila, suava bastante, remexendo os pés e as mãos, e que seu movimento de cabeça não tinha a mesma altivez dos outros:
— Lorde Kii de Zukoshi.
— Por favor, transmita a todos nossos agradecimentos. Como foi combinado antes, ordenarei agora as salvas reais.
— Lorde Yoshi diz que, infelizmente, um dos seus membros está ausente. Como ficou acertado antes, é necessária a aprovação unânime do roju para o disparo de qualquer canhão.
Abruptamente, o bom humor de Sir William se desvaneceu. Os outros ministros ficaram chocados.
— E os nossos acordos? — indagou ele, em tom brusco. — Também precisa de uma aprovação por unanimidade?
Mais discussão, em meio a muita tensão, advertências murmuradas entre ministros. Depois, Johann informou, contrafeito:
— Lorde Yoshi diz que esta reunião conta com a autoridade do xógum e do presidente para aceitar credenciais, escutar e recomendar. Vão recomendar os acordos por unanimidade. Como ficou combinado antes, a aprovação para disparar o canhão exige a unanimidade dos anciãos. Por isso, embora lamentando, eles não podem permitir.
O silêncio tornou-se opressivo, enquanto Sir William e os outros compreendiam a armadilha em que haviam caído. Não havia opção desta vez, pensou ele sentindo um frio no estômago.
— Capitão Pallidar!
— Pois não, senhor?
Pallidar adiantou-se, o coração disparado, sabendo também, como todos diante do conselho, que Sir William não tinha alternativa agora, a não ser dar a ordem para disparar as salvas, qualquer que fosse o custo, ou a mesma desculpa seria usada com certeza para repudiar o acordo.
Enquanto ele batia continência, Seratard interveio, com sua voz mais suave e diplomática:
— Sir William, tenho certeza que o acordo é de boa fé, será implementado, e deve ser aceito. Recomendo que faça isso... todos recomendamos, não é mesmo, senhores?
Houve um alívio geral pela sugestão que salvava as aparências, e o ministro francês tratou de acrescentar:
— Também recomendamos que, nas circunstâncias, as salvas podem ser ignoradas. Concorda, Sir William, em nosso nome?
Sir William hesitou, com uma expressão sombria. Para espanto de todos, Seratard declarou, altivo:
— André, diga a eles, em nome da França, que darei minha garantia pelo primeiro pagamento.
Antes que Sir William pudesse falarqualquer coisa, André se inclinou, edisse:
— Meu superior diz, honrados lordes, ele feliz roju dar papel uma semana, concordar emprestar Satsuma primeiro dinheiro, em setenta dias. Diz também que França, como amiga do Nipão, sente-se honrada dar garantia pessoal ao ministro britânico, contra primeiro pagamento. Também honrado receber todos ou todo roju, qualquer dia, pessoalmente, no navio ou outro lugar. Humildemente agradeço, honrados lordes.
Os olhos contraídos, Yoshi disse:
— Agradeça a seu amo. A reunião está encerrada.
Um oficial samurai gritou “Kerei!”— saudação —, e todos os outros fizeram uma reverência, mantendo essa posição enquanto os roju se levantavam e respondiam, com contida polidez. Não restava a Sir William e aos demais outra altenativa senão seguir o exemplo, enquanto Yoshi saía à frente por uma porta invisível atrás da plataforma. No mesmo instante os samurais se empertigaram e retomaram seu olhar firme e desconfiado.
— Muito satisfatório, Sir William — disse Seratard, expansivo, em francês, pegando-o pelo braço, ansioso em distraí-lo outra vez. — Agiu muito bem.
— Seus superiores no Élysée ficarão furiosos com você quando pedirmos as dez mil libras em ouro — comentou Sir William, um pouco contrariado, mas não muito, pois dera um gigantesco passo à frente, à exceção da salva de canhão. — Mas quer fiquem furiosos ou não, Henri, foi um gesto magnífico, embora dispendioso.
Seratard riu.
— Vinte guinéus dizem que eles vão pagar.
— Apostado. Jantará conosco na legação?
Eles começaram a sair, indiferentes aos olhares arrogantes e belicosos.
— Não, obrigado. Já que concluímos nossos negócios aqui, acho melhor voltar para Iocoama agora, em vez de esperar até amanhã. Há tempo suficiente, e o mar está calmo. Por que esperar pela Pearl? Junte-se a nós, em nossa nave capitânia, e poderemos jantar durante a viagem.
— Obrigado, mas prefiro esperar até amanhã. Quero me certificar de que todos os homens voltaram sãos e salvos para nossos transportes.
Por trás deles, despercebido na multidão, Tyrer esperou por André, que se ajoelhara para ajustar a fivela de um sapato. Sem notar que Tyrer o observava, ele iniciou uma conversa sussurrada com o intérprete japonês. O homem hesitou, depois acenou com a cabeça, fez uma reverência.
— Domo.
André virou-se e deparou com Tyrer a observá-lo. Por uma fração de segundo, ele se mostrou perplexo, depois sorriu e adiantou-se.
— E então, Phillip, não acha que tudo correu muito bem? Você se saiu muito bem, e posso dizer que ganhamos o dia.
— Eu não. Foi você quem salvou o dia... e livrou minha cara, pelo que agradeço. — Tyrer franziu o rosto, inquieto, acompanhando a procissão. — Mesmo assim, embora você tenha superado o impasse de maneira brilhante, o que disse em inglês e o que foi dito em japonês foram coisas diferentes, não é mesmo?
— Não tão diferente assim, mon ami, não o suficiente para ter alguma importância.
— Não creio que Sir William concordaria.
— Talvez sim, talvez não. Talvez você tenha se enganado. — André forçou uma risada. — Nunca é sensato provocar a irritação de um ministro, hem? Lembre-se de que em boca fechada não entra mosca.
— Na maioria das vezes, é isso mesmo. O que disse àquele intérprete?
— Agradeci a ele. Mon Dieu, minha bexiga está me matando... e a sua?
— A mesma coisa — concordou Tyrer, certo de que André mentia sobre o intérprete.
Mas também por que não o faria? — refletiu ele, com sua nova percepção. André é inimigo; se não inimigo, pelo menos oposição, e todas as nuanças foram para beneficiar Seratard, a França e André. Muito justo. O que ele poderia pedir em segredo? Transmitir uma mensagem, sem dúvida, mas qual? Que mensagem secreta? O que eu pediria secretamente?
— Pediu uma reunião particular com lorde Yoshi, hem? — sugeriu Tyrer arriscando um palpite. — Para você e monsieur Seratard.
A expressão de André Poncin não se alterou, mas Tyrer notou que ficaram brancas as articulações da mão direita, pousada na espada cerimonial.
— Phillip — murmurou ele —, tenho sido um bom amigo desde a sua chegada, ajudando-o a começar a aprender o japonês, apresentando-o às pessoas não é mesmo? Não interferi com seu samurai particular... Nakama... embora fosse informado de que ele tem outros nomes. Não...
— Que outros nomes?— indagou Tyrer, subitamente nervoso, sem saber por quê. — O que sabe sobre ele?
André continuou, como se Tyrer não tivesse falado:
— Não tentei interrogá-lo, nem a você sobre ele, embora o advertisse contra os japoneses, todos eles. Já é tempo de você me falar a respeito desse Nakama, como um amigo. Lembre-se, Phillip, de que estamos no mesmo lado. Somos servidores, não os chefes, somos amigos e estamos no Japão, onde os gai-jin devem se ajudar uns aos outros... como fiz ao apresentá-lo a Raiko, que o levou a Fujiko, não é? Boa moça, a Fujiko. É melhor ter um pouco do realismo gaulês, Phillip, é melhor manter as informações sigilosas em sigilo, é melhor tomar cuidado com seu Nakama, e não esquecer o que eu disse uma dúzia de vezes: no Japão, só há soluções japonesas.
Quase ao pôr-do-sol, nesse mesmo dia, Yoshi avançou por um corredor de pedra escuro e ventoso, na torre do castelo. Usava agora seu quimono característico, com duas espadas, e um manto de montaria com capuz por cima. A cada vinte passos havia tochas acesas, em suportes de ferro, ao lado de aberturas para arqueiros, que também serviam como janelas. Lá fora, o ar era frio. Havia uma escada circular à frente. Levava a seu estábulo particular, lá embaixo. Ele desceu correndo os degraus.
— Alto! Quem... ah, desculpe, lorde!
O samurai de sentinela fez uma reverência. Yoshi balançou a cabeça e seguiu em frente. Por todo o castelo, soldados, cavalariços e criados se preparavam para dormir, ou para os serviços noturnos, seguindo o costume universal de deitar ao cair da noite. Só os prósperos tinham luz à noite, para ver, ler ou se divertir.
— Alto! Ah, desculpe, Lorde.
A sentinela se inclinou e o mesmo fizeram as duas seguintes. No pátio do estábulo, concentrava-se uma guarda pessoal de vinte homens, junto a seus pôneis. Entre eles se encontrava Misamoto, o pescador, samurai e ancião de faz-de-conta. Agora, vestia-se pobremente, como um infante comum, desarmado e assustado. Havia também ali dois palanquins fechados, bastante leves, projetados para transporte rápido. Cada um se encaixava em duas hastes, com arreios para pôneis de sela nas extremidades. Todos os cascos estavam cobertos e tudo aquilo fazia parte de um plano formulado por Yoshi, junto com Hosaki, alguns dias antes.
A janela de um palanquim foi entreaberta. Ele viu Koiko espiar. Ela sorriu, acenou com a cabeça em cumprimento. A janela foi fechada. A mão de Yoshi apertou o cabo da espada. Ele foi abrir a porta do palanquim, o suficiente para se certificar de que era ela mesma, e que se encontrava sozinha. Quando era muito jovem, o pai lhe incutira com veemência, palavra por palavra, a primeira lei da sobrevivência:
— Se for apanhado desprevenido, traído desprevenido, morto desprevenido, é porque falhou em seu dever comigo e com você mesmo. A culpa será toda sua, porque deixou de verificar pessoalmente e de planejar contra qualquer eventualidade. Não há desculpa para o fracasso, exceto o karma... e os deuses não existem!
Um sorriso rápido para tranquilizá-la. Yoshi fechou a porta e foi verificar se o outro palanquim se achava desocupado, disponível para seu uso, caso precisasse. Satisfeito, deu o sinal para os homens montarem. Isso foi feito num silêncio quase total, o que também o agradou... ordenara que todas as armaduras e arreios fossem abafados. Uma última conferência silenciosa, mas ele não pôde sentir qualquer sinal de perigo. O fuzil novo estava num coldre na sela, a bolsa de munição cheia, as outras quatro armas penduradas nos ombros de seus atiradores de mais confiança. Sem qualquer barulho, ele subiu na sela. Outro sinal. A guarda avançada e o porta-estandarte partiram. Yoshi seguiu atrás, com os dois palanquins e os outros homens em sua esteira.
O progresso foi rápido e quase silencioso. Percorreram a passagem para a fortificação seguinte, longe dos caminhos e dos portões principais. Em cada posto de controle, as sentinelas gesticulavam para que passassem, sem qualquer dificuldade. Em vez de entrar no labirinto do castelo, foram para um prédio grande, no lado norte, junto a uma das maiores fortificações. Havia uma guarda enorme no lado de fora. No momento em que Yoshi foi reconhecido, as portas altas foram abertas, para deixá-lo passar. Lá dentro, havia um picadeiro grande, de terra batida, todo fechado, teto alto, em abóbada, com uma galeria para observadores. Umas poucas tochas, aqui e ali. As portas foram fechadas depois que eles entraram.
Yoshi trotou até a vanguarda da coluna e atravessou a arcada no outro lado, passando por baias e salas de arreios. Todas estavam vazias. Aquela área tinha um calçamento de pedra, o ar impregnado pelo cheiro de esterco, urina e suor. Mais além, recomeçava o chão de terra batida e havia outra arcada, dando para um picadeiro interno, bem menor. Terminava em mais uma arcada, mal iluminada. Yoshi esporeou seu pônei, mas parou subitamente.
A galeria em torno do picadeiro se encontrava repleta de arqueiros em silêncio. Nenhum tinha flechas em seus arcos, mas todos no picadeiro sabiam que morreriam... se fosse dada a ordem.
— Ah, Yoshi-sama. — A voz áspera de Nori Anjo veio da semi-escuridão por cima, e Yoshi teve uma dificuldade momentânea para localizá-lo. Depois o viu sem armadura, sentado no fundo da galeria, ao lado da escada. — Na reunião desta tarde, não nos disse que ia deixar o castelo com homens armados como... como o quê? Como ninja?
Um murmúrio de raiva espalhou-se pelos homens de Yoshi, mas ele riu, o que rompeu a tensão, em baixo e em cima.
— Não ninja, Anjo-sama, embora sem dúvida com o máximo de discrição possível. É uma boa idéia testar as defesas, sem avisar. Sou o guardião do castelo além de guardião do xógum. E você? A que devo este prazer?
— Está apenas testando nossas defesas?
— Matando três pombas com uma única flecha. — O humor desaparecera da voz de Yoshi, e todos sentiram um calafrio, especulando por que três, e o que isso significava. — E você? Por que tantos arqueiros? Para uma emboscada, talvez?
A risada rude ecoou pelo picadeiro, tornando-se ainda mais agressiva. Mãos apertavam armas, embora ninguém fizesse qualquer movimento ostensivo.
— Emboscada? Oh, não, não uma emboscada... uma guarda de honra. No momento em que fui informado que você planejava uma patrulha com os cascos abafados... estes homens estão aqui apenas para homenageá-lo e mostrar que nem todos nós dormimos, que o castelo se encontra em boas mãos e não há necessidade de um guardião.
Anjo gritou uma ordem. No mesmo instante, os arqueiros desceram a escada correndo e formaram duas filas, por toda a extensão do picadeiro, com Yoshi e seus homens no meio. Fizeram uma reverência formal. Yoshi e seus homens retribuíram, também formais. Mas nada mudara, a armadilha continuava pronta para ser acionada.
— Precisa de armas para testar as defesas?
— Nosso conselho aconselhou todos os daimios a se armarem com armas modernas — respondeu Yoshi, a voz calma, mas por dentro furioso por alguém ter revelado seu plano e por não ter previsto uma emboscada. — Estes são os primeiros dos meus novos fuzis. Desejo acostumar meus homens a carregá-los.
— Sensato, muito sensato. Mas vejo que carrega um. Lorde Yoshi também precisa se acostumar a andar com uma arma assim?
Fervendo de ódio pelo escárnio, Yoshi olhou para o fuzil no coldre, odiando todas as armas de fogo e abençoando a sabedoria de seu homônimo ao proibir a fabricação ou importação no dia em que se tornara xógum. E isso, mais do que qualquer outra coisa, garantiu a nossa paz por dois séculos e meio, pensou ele, sombrio. As armas de fogo são infames, covardes, dignas dos repulsivos gai-jin. Armas que podem matar a mil passos de distância, de tal forma que talvez você nunca possa ver quem mata, ou quem o matou, armas que qualquer idiota, maníaco, assaltante, homem ou mulher de baixa extração podem usar contra qualquer um, até mesmo o lorde mais elevado, com impunidade, capazes de liquidarem o mais experiente espadachim. E agora tenho de carregar um fuzil... os gai-jin nos forçaram a isso.
Com o escárnio de Anjo ressoando em seus ouvidos, ele tirou o fuzil do coldre, puxou a trava de segurança, como Misamoto mostrara, apontou, puxou o gatilho, as balas entrando na culatra automaticamente, cinco balas disparadas para as vigas do teto, com estampidos ensurdecedores, o fuzil quase escapulindo de suas mãos, com uma força inesperada. Todos se dispersaram, até mesmo seus homens, uns poucos derrubados pelos pôneis assustados que empinaram. Anjo e seus guardas se jogaram ao chão, antecipando mais disparos, letais desta vez, cada homem na sala apavorado com a rapidez dos tiros.
Em total silêncio, todos esperaram, prendendo a respiração, e depois, porque não houve seqüência, compreenderam que Yoshi apenas fizera uma demonstração do fuzil. Os arqueiros se apressaram em retornar suas posições, embora cautelosos, em torno dos homens de Yoshi, que também retomavam a ordem anterior. Anjo se levantou e gritou:
— Qual o significado disso?
Tão indiferente quanto podia aparentar, com o coração batendo forte, Yoshi continuou a acalmar seu pônei, puxou a trava de segurança e estendeu o fuzil no colo, disfarçando sua satisfação pelo sucesso da ação, tão impressionado quanto os outros pelo poder do fuzil — já disparara antes fuzil de carregar pelo cano e algumas antiquadas pistolas de duelo, contra alvos, mas nunca um fuzil de carregar pela culatra, com cartuchos.
— Eu queria lhe mostrar o valor de um desses. Em determinadas circunstâncias, são melhores do que espadas, em particular para os daimios. — Ele ficou contente ao constatar que sua voz soava calma. — Por exemplo, quando você foi emboscado, há poucas semanas, poderia ter usado um, neh?
Trêmulo, Anjo tratou de controlar sua ira, convencido agora de que corria grande perigo, sua vida sob ameaça, e também certo de que se ordenasse a prisão de Toranaga, como planejara, as balas crivariam seu corpo... em nome de todos os deuses, onde e como esse cão aprendeu a atirar, e por que não fui informado que ele se tornou um perito?
E ser lembrado do incidente com os shishi era um insulto público adicional, pois todos sabiam que não fora bastante bravo, fugira para a segurança, sem chegar a duelar uma única vez com os atacantes e ainda por cima, depois de os feridos serem capturados, ordenara que fossem executados de uma maneira desonrosa.
— Em algumas circunstâncias, Yoshi-sama, em algumas, mas duvido se sua arma ou quaisquer outras teriam algum valor esta noite. Duvido muito. Posso lhe perguntar seu propósito esta noite? Visitar nossas defesas externas e voltar? Ou uma de suas “pombas” está de partida para outro lugar?
Ambos sabiam que Yoshi não precisava justificar suas entradas ou saídas do castelo.
— Isso depende do que eu encontrar lá fora — disse ele, em tom brusco. — Posso decidir voltar ao meu domínio por um dia ou dois, talvez não... mas é claro que o manterei informado.
— O conselho sentiria falta de sua presença, mesmo que seja por uns poucos dias. Há muito a ser feito e teremos de tomar as decisões de qualquer maneira mesmo com sua ausência.
— Como concluímos esta tarde, não há nada de importante a ser decidido Além disso, felizmente, nada de grande monta pode ser resolvido sem a presença dos cinco anciãos.
— Há o problema do acordo com os gai-jin.
— Isso também ficou decidido esta tarde.
A reunião do conselho, depois da saída dos gai-jin, fora feliz e repleta de risos para variar, pela humilhação do inimigo, que mais uma vez fora logrado. Anjo, Toyama e Adachi haviam lhe dado os parabéns pela maneira hábil com que conduzira a confrontação, e por sua compreensão dos gai-jin, Zukumura pouco falando, limitando-se a alguns murmúrios de débil mental de vez em quando. Anjo comentara, rindo:
— Concordar em adiantar uma ninharia para afastá-los e a seus navios de Iedo, enquanto controlamos Satsuma, foi muito hábil, Yoshi-sama. Muito. Ao mesmo tempo, adiamos por tempo indefinido a ameaça de eles irem a Quioto e os fizemos concordar que a culpa toda é de Satsuma.
Toyama dissera:
— E agora declaramos guerra a Satsuma? Isso é ótimo!
— Não, não a guerra, pois há outros meios de submeter aquele cão. — Anjo sentia-se confiante com seu conhecimento recém-adquirido. — Você estava certo sobre os gai-jin, Yoshi-sama. Foi muito interessante constatar como a hostilidade entre eles se encontra bem perto de suas superfícies repugnantes.
Ele e Toyama haviam acompanhado a reunião por trás da plataforma, a parede ali lhes permitindo ver tudo, sem serem vistos.
— Isso mesmo, repugnantes. Pudemos até sentir o cheiro deles. Nauseante. Ordenei que a sala de audiência fosse lavada e destruídas as cadeiras em que eles sentaram.
— Excelente! — exclamara Adachi. — Fiquei arrepiado durante todo o tempo em que estive lá. Yoshi-sama, posso lhe perguntar sobre aquele macaco Misamoto, ele realmente contou tudo o que os gai-jin disseram? Não consegui ouvir uma só palavra.
— Nem tudo — explicara Yoshi —, mas o suficiente para me dar algumas indicações adiantadas, e apenas quando eles falavam inglês. Misamoto disse que na maior parte do tempo eles falavam outra língua, ele achou que era francês. Isso comprova outro pronto: precisamos de intérpretes de confiança. Proponho abrirmos uma escola de línguas para nossos filhos mais brilhantes imediatamente.
— Escola? — murmurara Zukumura. — Que escola? Ninguém lhe dera atenção.
— Discordo — declarara Toyama, a papada tremendo. — Quanto mais nossos filhos se aproximarem dos gai-jin, mais infectados se tornarão.
— Não — anunciara Anjo —, escolheremos pessoalmente os estudantes... devemos ter homens de confiança que conheçam as línguas dos bárbaros. Vamos votar. O Bakufu receberá a ordem de criar sem demora uma escola de línguas. Todos concordam? Ótimo. Agora, a carta dos gai-jin: vamos continuar na tática de Yoshi-sama, no dia anterior ao marcado para a entrega, diremos que ficará pronta “o mais depressa possível”? Todos concordam?
— Sinto muito, mas não concordo — dissera Yoshi. — Devemos fazer exatamente o oposto. Entregaremos a carta no prazo e também efetuaremos o segundo pagamento da chantagem na data marcada.
Todos se mostraram surpresos e Zukumura murmurara:
— Carta?
Yoshi expusera sua posição, com extrema paciência:
— Devemos manter os gai-jin desconcertados. Eles ficarão esperando uma protelação, o que não acontecerá. Assim, eles acreditarão que o prazo de cento e cinqüenta e seis dias também é certo, mas claro que não será. Vamos adiar e adiar, torcendo para que isso os deixe furiosos.
Todos riram com ele, até mesmo Zukumura, que não compreendia por que riam, mas rira assim mesmo... e ainda mais quando Yoshi relatara quantas vezes quase caíra na gargalhada durante a reunião, vendo como a impaciência dos gai-jin arruinava sua posição de barganha, já ilusória.
— Sem o cão matador, o amo é tão fraco quanto um filhote contra um homem com uma vara.
— Como? Um homem com uma vara? — indagara Zukumura, uma expressão aturdida nos olhos de peixe morto. — Que cão?
Muito do bom humor de Yoshi se desvanecera, ao lembrar que agora teria de suportar aquele débil mental para sempre. Mesmo assim, explicara que sem força para sustentar suas queixas, ou sem a determinação de usá-la, o inimigo era impotente.
— Força? Não compreendo, Yoshi-sama. Que força?
— O poder! — exclamara Anjo, impaciente. — O poder! Seus canhões e suas esquadras, Zukumura! Ora, não importa!
Toyama, o velho, declarara, com veemência:
— Enquanto eles estão sem sua esquadra, deveríamos destruí-los... são arrogantes demais, com uma atitude grosseira, e seu porta-voz... Estou contente por não ter participado da reunião, Yoshi-sama, pois acho que teria explodido. Vamos destruí-los agora.
— Quem? Destruir quem?
— Cale a boca, Zukumura — dissera Anjo, cansado —, e limite-se a votar quando eu mandar. Yoshi-sama, concordo com seu raciocínio. Enviaremos a carta no prazo, e a segunda parte do dinheiro da chantagem conforme o combinado. Todos a favor? Ótimo. Agora que já lidamos com os gai-jin, e o xógum e a princesa se encontram sãos e salvos viajando pela estrada do norte, não há muito o que fazer durante a próxima semana.
— Permitir a partida deles foi uma decisão equivocada que se voltará para nos atormentar — comentara Yoshi.
— Neste caso, você está errado. Por favor, prepare um plano, apresente suas idéias sobre a melhor maneira de subjugar o cão Sanjiro e Satsuma. Voto para nos reunirmos de novo daqui a duas semanas, a menos que surja uma emergência antes...
Mais tarde, retornando a seus aposentos, Yoshi não conseguira imaginar nenhuma emergência em potencial que exigisse sua presença em Iedo... nem mesmo o segundo convite, discreto e sussurrado, para visitar o navio de guerra francês, que ele não aceitara, nem recusara, mas deixara em aberto, pelas semanas subsequentes, já que não se tratava de um assunto urgente. Por isso, resolvera pôr em prática imediatamente o plano que formulara junto com a esposa, Hosaki. Agora, Anjo e seus arqueiros barravam seu caminho.
O que fazer?
— Boa noite, Anjo-sama — disse ele, tomando sua decisão. — Como sempre, eu o manterei informado.
Ocultando sua apreensão e sentindo-se exposto, Yoshi esporeou o pônei, encaminhando-se para a arcada no outro lado. Nenhum dos arqueiros se mexeu, esperando por uma ordem. Seus homens e os dois palanquins seguiram-no, todos se sentindo também indefesos.
Anjo observou-os se afastarem. Enfurecido. Se não fosse pelos fuzis, eu o prenderia, conforme o planejado. Sob que acusação? Traição, conspirar contra o xógum! Mas Yoshi nunca seria levado a julgamento, de jeito nenhum, sinto muito, meus amigos, ele foi morto quando tentava escapar à justiça.
Uma súbita pontada de dor nas entranhas fê-lo tatear à procura de um assento. Médicos baka! Deve haver uma cura, disse a si mesmo, e depois lançou mais imprecações contra Yoshi e seus homens, que haviam desaparecido sob a arcada distante.
Yoshi respirava melhor agora, não mais dominado pelo suor do medo. Continuar a avançar pelas fortificações, passando por corredores mal iluminados, por mais baias e salas de arreios, até alcançar o muro no outro lado, revestido de madeira. Alguns homens desmontaram e acenderam as tochas dos suportes na parede.
Com seu chicote, Yoshi apontou para o puxador em um lado. Seu ajudante desmontou, deu um puxão firme. Toda uma parte do muro se abriu, revelando um túnel, bastante alto e largo para que dois homens pudessem cavalgar juntos por ali, lado a lado. No mesmo instante, ele tornou a esporear o pônei. Depois que os palanquins e o último homem passaram, a porta foi fechada de novo e Yoshi deixou escapar um suspiro de alívio. Foi só então que guardou o fuzil no coldre.
Se não fosse por você, fuzil-san, pensou eie, afetuoso, eu poderia estar morto ou no mínimo seria um prisioneiro. Às vezes posso compreender que um fuzil era de fato, melhor do que uma espada. Merece ter um nome — era um antigo costume xintoísta dar nomes a espadas e outras armas especiais, até mesmo a pedras ou árvores. Vou chamá-lo de “Nori”, que também pode significar “alga marinha”, e é uma referência a Nori Anjo, para lembrar que me salvou dele, e que uma de suas balas pertence a ele, na cabeça ou no coração.
— Puxa, lorde, seus tiros foram um espetáculo maravilhoso para se contemplar — comentou seu capitão, aproximando-se.
— Obrigado, mas você e todos os homens receberam ordem de ficar em silêncio até eu permitir que falassem. Está rebaixado. Passe para a retaguarda.
Desolado, o homem se afastou, e Yoshi chamou o segundo no comando.
— Você é o capitão agora.
Ele virou-se na sela e continuou a seguir em frente, liderando a marcha. O ar no túnel era abafado. Era um dos muitos caminhos de fuga secretos do castelo. Com seus três fossos e imensa torre de menagem, o castelo levara quatro anos para ser construído — quinhentos mil homens, por sugestão do xógum Toranaga, e sem qualquer custo para ele, haviam trabalhado dia e noite, orgulhosos, até sua conclusão.
O chão do túnel descia um pouco, virando para um lado e outro, as paredes escavadas na rocha em alguns trechos, revestidas com tijolos em outros, o teto escorado aqui e ali, mas tudo em boas condições de conservação. Sempre descendo, mas sem perigo. Agora, a água vazava dos lados, o ar se tornou mais fresco, e Yoshi compreendeu que passavam sob o fosso. Aconchegou-se no manto, detestando o túnel, quase tonto de claustrofobia... um legado do tempo em que ele, a esposa e os filhos ficaram confinados por quase meio ano em cômodos que pareciam masmorras, por ordem do tairo Li, não fazia tanto tempo assim. Nunca mais ficarei confinado, jurara ele, nunca mais.
Não demorou muito para que o túnel começasse a subir e logo eles saíram na outra extremidade, numa casa. Era um lugar seguro, que pertencia a um leal vassalo do clã Toranaga, que fora avisado antes e os esperava. Aliviado não ter deparado com mais problemas, Yoshi gesticulou para que a guarda avançada partisse.
A noite era agradável e atravessaram a cidade por caminhos pouco conhecidos, até chegar aos arredores e encontrar a primeira barreira na Tokaidô. Ali, guardas hostis tornaram-se dóceis assim que viram o estandarte de Toranaga. Apressaram-se em abrir a barricada, fizeram suas reverências e tornaram a fechá-la, depois que todos passaram, curiosos, mas nenhum bastante estúpido para fazer perguntas.
A estrada se bifurcava pouco depois da barreira. Um dos caminhos seguia para o norte, pelo interior, na direção das montanhas; numa viagem normal, alcançariam o castelo de Yoshi, o Dente do Dragão, em três ou quatro dias. Satisfeita, a guarda avançada pegou essa estrada, voltando para sua terra... para seus lares, pois a maioria não via a família, noivas ou amigos há quase um ano. Meia légua adiante, ao se aproximarem de uma aldeia, onde havia uma boa aguada e uma fonte quente Yoshi gritou “guardas!”, fazendo sinal para que voltassem.
O novo capitão da escolta foi parar ao seu lado e quase disse “Sire?”, mas controlou-se a tempo e esperou. Yoshi apontou para uma estalagem, como se tomasse uma decisão repentina.
— Paramos ali. — O lugar era chamado de Sete Estações da Felicidade. — Não há necessidade de silêncio agora.
O pátio era limpo, calçado com pedras. No mesmo instante, o proprietário, criadas e criados saírem apressados, com lanternas, fazendo reverências, ansiosos em agradar, honrados com a importância do hóspede esperado. Criadas cercaram o palanquim, para cuidar de Koiko, enquanto o proprietário, um velho magro e calvo, asseado e bem arrumado, claudicando um pouco ao andar, conduzia Yoshi ao melhor e mais isolado bangalô. Era um samurai aposentado, chamado Inejin, que decidira raspar o penacho e se tornar um estalajadeiro. Secretamente, ainda era hatomoto — um samurai privilegiado —, um dos muitos espiões de Yoshi que se espalhavam pelos arredores de Iedo e por todos os acessos ao Dente do Dragão. O novo capitão, consciente de sua responsabilidade, acompanhou-o com quatro samurais, mais Misamoto e seus dois guardas.
O capitão se certificou de que o bangalô era seguro. Depois, Yoshi acomodou-se na varanda, sobre uma almofada, de frente para os degraus, o capitão e os outros samurais ajoelhados de guarda por trás. Ele notou que a criada que servia o chá tinha um rosto viçoso, fora bem escolhida, o chá parecendo mais saboroso por isso. Quando achou que já estava pronto, Yoshi acenou para que as criadas e servos se afastassem e ordenou:
— Por favor, traga-os para cá, Inejin.
Momentos depois, Inejin voltou, acompanhado pelos dois garimpeiros gai-jin. Um alto, o outro largo, ambos encovados, de aparência rude, barbudos, com roupas sujas, gorros ensebados. Yoshi estudou-os, curioso, com profunda aversão, considerando-os mais como criaturas do que como homens. Ambos estavam apreensivos. Pararam perto dos degraus, fitando-o, aturdidos. O capitão gritou:
— Curvem-se!
Como eles continuassem imóveis, apenas fitando-o, sem compreender, ele acrescentou para dois samurais:
— Ensinem-lhes as boas maneiras.
Em segundos, eles estavam de joelhos, a cara na terra, praguejando pela estupidez em aceitar um emprego tão perigoso.
— Mas que merda, Charlie — dissera o garimpeiro da Cornualha, na cidade dos bêbados, poucos dias antes, depois da conversa com Norbert Greyforth — O que temos a perder? Nada! Estamos passando fome, sem dinheiro, sem trabalho, sem crédito... não há um único bar em Yokopoko que nos sirva uma cerveja, ninguém que nos ofereça uma cama, um pedaço de pão, muito menos uma mulher. Nenhum navio nos dá passagem. Estamos empacados aqui e não demora muito para que os peelers da Austrália desembarquem aqui, ou os seus policiais de San Francisco, e nos meterão em correntes, enforcanao-me por esfaquear alguns garimpeiros sífilíticos que não respeitavam o terreno dos outros, e a você por roubar e atirar em alguns banqueiros desgraçados.
— Confia naquele miserável do Greyforth?
— Onde está sua honra, eu sou um velho galo de briga! Acertamos com ele, certo? Ele fez o que prometeu, certo? Deu vinte libras para a gente pagar o que devia e se livrar da cadeia, mais vinte para ficar no banco até a gente voltar, todas as picaretas, pólvoras e mercadorias de que precisamos, e mais um contrato jurado na frente do pregador, de que vamos ficar com duas partes de cada cinco mandadas para Yoko, certo? Tudo o que ele prometeu, certo? É um sujeito duro, mas todos os duros são trapaceiros.
Os dois haviam caído na gargalhada, com o outro dizendo:
— Você tem toda razão.
— Somos os garimpeiros, certo? Nós é que encontramos os veios, certo? Na terra dos japas, onde estamos sozinhos, certo? Podemos esconder uma parte, hem? E levar sem que ninguém saiba, certo? Todo o grude, bebida e mulher por um ano, uma vida e tanto na Yoshiwara, e a oportunidade de explorar uma mina de ouro? Eu entro nessa, mesmo que você não tope...
Agora, a situação era muito diferente.
— Façam com que sentem, sem machucá-los. Misamoto!
Misamoto caiu de joelhos no mesmo instante. Ao verem-no, os dois garimpeiros se mostraram um pouco menos preocupados.
— São esses os homens com quem se encontrou no cais ontem?
— Sim, Sire.
— Eles o conhecem como Watanabe?
— Sim, lorde.
— Ótimo. Eles não sabem nada sobre seu passado?
— Não, lorde. Fiz tudo como mandou, tudo...
— Disse que aprendeu inglês com marujos em Nagasáqui?
— Disse, lorde.
— Ótimo. Agora, diga primeiro que eles serão bem tratados e que não precisam ter medo. Como eles se chamam?
— Escutem, vocês dois, este é o chefe, lorde Ota — disse Misamoto, como fora instruído por Yoshi, seu sotaque americano compreendido sem dificuldade. — Falei que deviam se curvar ou seriam obrigados. Ele diz que serão bem tratados e quer saber seus nomes.
— Sou John Cornishman e ele é Charlie Yank, e até agora ainda não tivemos nada para comer ou beber.
Da melhor forma que podia, Misamoto traduziu os nomes.
— Não diga nada a meu respeito, nem o que você fez desde que o tirei da prisão... lembre-se, tenho ouvidos por toda parte, e saberei.
— Não falharei, lorde.
Misamoto fez uma reverência profunda, escondendo seu ódio, desesperado em agradar, apavorado com seu futuro.
— Muito bem.
Por um momento, Yoshi considerou-o. Em dois meses e pouco, desde que recrutara Misamoto para seu serviço, o homem mudara de uma forma radical, por fora. Agora, tinha o rosto raspado, a cabeça também raspada, com exceção do penacho, ao estilo dos samurais. Uma higiene forçada melhorara bastante sua aparência, e embora fosse deliberadamente mantido com os trajes da mais baixa classe de samurais, parecia um samurai agora, e usava as duas espadas como se lhe pertencessem. É verdade que as espadas eram falsas, apenas os cabos, sem lâminas dentro das bainhas.
Até agora, Yoshi estava satisfeito com seu desempenho, e ficara atônito ao vê-lo com os trajes e o chapéu de um ancião, sem reconhecê-lo. Uma boa lição a lembrar, pensara ele na ocasião: como é fácil parecer o que não se é!
— É melhor você não falhar mesmo — disse ele, olhando em seguida para os dois guardas de Misamoto. — Vocês são responsáveis pela segurança desses dois homens. A senhora Hosaki providenciará mais guardas e guias também, mas vocês são responsáveis pelo sucesso do empreendimento.
— Sim, lorde.
— E quanto a este falso Watanabe — acrescentou Yoshi, a voz suave, mas ninguém se iludiu com isso —, deve ser tratado como samurai, embora do grau mais baixo. Mas se ele desobedecer às ordens, ou tentar escapar, vão amarrar suas mãos e pés e arrastá-lo à minha presença. Vocês são os responsáveis.
— Sim, lorde.
— Não vou fracassar, lorde — murmurou Misamoto, o rosto pálido, uma parte do seu terror contagiando os garimpeiros.
— Diga a esses homens que eles estão seguros. E também que você será seu ajudante e mestre, não há necessidade de ficarem assustados, se obedecerem. Diga a eles que espero rápido sucesso na busca.
— O chefe diz que não precisam ter medo.
— Então por que você está se mijando de medo?
— Vá se foder. Eu... estou no comando e é melhor terem boas maneiras.
— Melhor é você tomar cuidado com a gente ou assim que ficarmos a sós vamos arrancar seus ovos e fritar. Onde estão a porra do grude, a bebida e as mulheres que nos prometeram?
— Terão tudo daqui a pouco, e acho melhor se mostrarem polidos... na presença desses sujeitos — advertiu Misamoto, cauteloso. — Eles podem ser como um gato com uma abelha no rabo. E o chefe diz que é melhor encontrarem o ouro bem depressa.
— Se houver ouro, vamos encontrá-lo, Wotinabey, seu velho sacana. Se não estiver lá, é porque não existe nada, certo, Charlie?
— Eles agradecem por sua bondade, lorde — disse Misamoto, já não tão assustado, pois compreendera que se os homens encontrassem ouro, ele seria o primeiro a saber, já que os acompanharia. — Prometem tentar encontrar tesouros o mais depressa possível. Respeitosamente perguntam se podem ter alguma coisa para comer e beber e quando podem começar a trabalhar.
— Explique a eles que compensa ser paciente, compensa ser polido e diligente. Ensine-lhes as maneiras corretas, como fazer reverências e assim por diante. Você é o responsável.
Enquanto Misamoto traduzia, Yoshi gesticulou para seu ajudante, que trouxe as duas capas curtas que Hosaki mandara fazer, como se fossem coletes, presas por laços. Na frente e atrás, havia caracteres escritos a tinta, que diziam: Este gai-jin é um servidor pessoal e garimpeiro, sob a minha proteção, e tem permissão, desde que acompanhado por guias oficiais, com os documentos corretos, para garimpar em qualquer parte dos meus domínios. Todos têm a obrigação de ajudá-lo nesse trabalho. Ao final, havia seu lacre pessoal.
— Diga a eles que devem usar isto sempre, que lhes dará salvo-conduto... explique o que está escrito.
Misamoto tornou a obedecer, sem pensar, e mostrou aos dois homens como vestir a capa. Agora cautelosos, simularam paciência e humildade que nada tinham a ver com sua natureza e criação.
— Charlie — sussurrou o cômico, ajustando os laços, mal mexendo os lábios para falar, como a maioria dos ex-condenados sabia fazer, pois passara quatro anos de trabalhos forçados no sertão australiano por se apoderar das concessões de garimpo de outros —, perdido por um penny, perdido pela porra de uma libra.
O americano sorriu, subitamente mais à vontade.
— Espero que valha mais do que uma libra, meu velho...
Yoshi observava-os. Depois de se sentir satisfeito, gesticulou para Misamoto.
— Leve-os com você e espere no pátio.
Depois que eles se retiraram, com as reverências apropriadas, desta vez sem qualquer ajuda, Yoshi mandou que todos se afastassem, à exceção de Inejin.
— Sente-se, velho amigo. — Ele indicou os degraus, onde o velho poderia sentar confortavelmente, já que tinha o quadril esquerdo arrebentado de uma queda de cavalo e era-lhe impossível ajoelhar. — Quais são as novidades?
— Tudo e nada, lorde. — Durante três séculos, Inejin e seus antepassados haviam servido àquele ramo dos Toranagas. Como um hatomoto, não tinha medo de dizer a verdade, mas a obrigação de fazê-lo. — A terra tem sido trabalhada com diligência, adubada da maneira correta, mas os camponeses dizem que este ano haverá fome, até mesmo aqui, no Kwanto.
— Até que ponto a fome será severa?
— Precisaremos este ano de arroz de outros lugares para ficarmos seguros e em outros lugares será ainda pior.
Yoshi recordou o que Hosaki já lhe dissera e sentiu-se contente pela previdência e prudência da esposa. Também sentia-se contente por ter um vassalo como Inejin — era muito raro encontrar um homem no qual se pudesse ter confiança total, e ainda mais raro encontrar alguém que falasse a verdade, baseada no conhecimento real, e não por razões de melhoria pessoal.
— O que mais?
— Todos os samurais leais estão fervendo de impaciência pelo impasse entre o Bakufu e os lordes rebeldes de Satsuma, Choshu e Tosa. Os samurais deles também estão descontentes, em grande parte por causa dos problemas habituais, as taxas de pagamento fixadas há um século causam dificuldades cada vez maiores e é cada vez mais difícil pagar os juros das dívidas crescentes e comprar arroz e outros alimentos, a preços cada vez maiores.
Inejin tinha consciência profunda do problema, já que a maior parte de sua família, espalhada por várias regiões, ainda na classe dos samurais, vinha sofrendo bastante. Depois de uma pausa, ele acrescentou:
— Os shishi conquistam adeptos todos os dias, se não abertamente, pelo menos em segredo. Os camponeses continuam dóceis, os mercadores nem tanto, mas todos, exceto a maioria dos mercadores de Iocoama e Nagasáqui, gostariam que os gai-jin fossem expulsos.
— E Sonno-joi?
Outra pausa e o velho respondeu:
— Como muitas coisas neste mundo, lorde, esse grito de batalha é em parte correto, em parte errado. Todos os japoneses detestam os gai-jin... são piores do que os chineses, piores do que os coreanos... todos querem que eles saiam daqui, todos reverenciam o filho do céu, e acham que o seu desejo de expulsá-los é a política certa. De seus vinte homens aqui esta noite, creio que os vinte apoiariam essa parte de Sonno-joi. Como o lorde também concorda, desde que seja o xogunato que exerça o poder temporal de executar os desejos do filho do céu, de acordo com os procedimentos fixados pelo xógum Toranaga.
— Tem toda razão — concordou Yoshi.
No fundo, porém, ele sabia que se tivesse o poder, nunca teria permitido o primeiro tratado, e assim não haveria necessidade de o imperador interferir nos assuntos do xogunato; também nunca permitiria que homens de mentalidade mesquinha cercassem o filho do céu para desorientá-lo.
Mesmo assim, contrário a Sonno-joi, agora convidaria alguns dos gai-jin a entrarem no país, enquanto houvesse tempo. Mas apenas em suas condições. E apenas para o comércio que desejasse. Será apenas com esquadras e canhões como os deles que poderemos lhes negar o acesso à nossa terra, pensou Yoshi, expulsá-los de nossos mares, e finalmente cumprir nosso destino histórico de pôr o imperador no trono do dragão da China. E quando isso acontecer, com todos os milhões de chineses e nosso bushido, todo o mundo dos gai-jin nos obedecerá.
— Continue, Inejin.
— Não há muito mais a dizer que já não saiba, lorde. Muitos receiam que o menino xógum nunca se tornará um homem, muitos se mostram perturbados por um conselho que não é tão sábio quanto deveria, muitos estão chocados porque seu prudente conselho contra a viagem dele a Quioto como um suplicante foi ignorado, muitos lamentam que não controle o roju para impor as mudanças necessárias: o Bakufu passando a ser incorruptível, hábil... e acabando com a podridão.
— O xógum é o xógum — declarou Yoshi, em tom brusco. — Todos devem apoiá-lo, e também a seu conselho. Ele é nosso suserano e por isso merece nosso apoio.
— Concordo inteiramente, Sire, apenas relato as opiniões dos samurais da melhor forma que posso. Poucos querem a queda do Bakufu e do xogunato. Apenas uns poucos tolos acreditam que o imperador pode governar o Nipão sem a ajuda do xogunato. Mesmo entre os shishi, poucos realmente acreditam que o xogunato deve ser extinto.
— E daí?
— A solução é óbvia: de alguma forma, mãos fortes devem assumir o controle, e governar como fez o xógum Toranaga. — Inejin ajeitou a perna de um jeito mais confortável. — Por favor, perdoe-me por falar tanto. Devo dizer que me sinto muito honrado por sua visita.
— Obrigado, Inejin — murmurou Yoshi, pensativo. — Não há notícias de daimios mobilizando forças contra nós?
— Não, lorde, não nesta área, embora eu tenha ouvido dizer que Sanjiro pôs Satsuma em pé de guerra.
— E Choshu?
— Ainda não, mas Ogama tornou a reforçar a guarnição que domina os portões e aumentou o número de baterias de terra em Shimonoseki.
— Hum... Seus armeiros holandeses?
Inejin confirmou com um aceno de cabeça.
— Espiões me dizem que eles treinam seus artilheiros e fabricam quatro canhões por mês, no novo arsenal de Choshu. Esses canhões são logo levados para os redutos. Muito em breve, os estreitos se tornarão inexpugnáveis.
O que é bom e mau ao mesmo tempo, pensou Yoshi — bom ter tal opção, mau que esteja em mãos inimigas.
— Ogama planeja intensificar os ataques aos navios?
— Fui informado que não, pelo menos por enquanto. Mas ele ordenou que suas baterias destruíssem todos os navios gai-jin e fechassem os estreitos em caráter permanente, quando lhes enviasse uma senha em código. — Inejin inclinou-se para a frente e sussurrou: — “Céu escarlate.”
Yoshi ficou aturdido.
— A mesma que o xógum Toranaga usava?
— É o rumor que está circulando.
A mente de Yoshi estava em turbilhão. Isso significa que Ogama, como o meu antepassado, pretende também desfechar um ataque de surpresa... poder supremo sendo o prêmio?
— Pode obter uma prova?
— Com o tempo. Mas essa é a senha atual. Quanto ao verdadeiro plano de Ogama... — Inejin deu de ombros. — Ele controla os portões agora. Se pudesse persuadir Sanjiro a lhe empenhar sua lealdade...
Houve um momento de silêncio, longo e opressivo.
— Fez um bom trabalho.
— Outro fato interessante, Sire. Lorde Anjo tem uma doença do estômago. — Os olhos de Inejin se iluminaram ao registrarem o interesse imediato de Yoshi. — Um amigo de um amigo em quem eu confio me diz que ele consultou em segredo um médico chinês. A doença é a da deterioração e não pode ser curada.
Yoshi soltou um grunhido, em parte de uma pontada gelada de ansiedade pela possibilidade de contrair a mesma doença — quem sabe como ou de onde — ou já tê-la em suas entranhas, esperando o momento de se manifestar.
— Quanto tempo ele viverá?
— Meses, talvez um ano, não mais. Mas deve se manter duplamente em guarda, Sire, porque meu informante diz que, enquanto o corpo se deteriora, sem qualquer sinal externo, a mente continua lúcida, apenas se distorce por caminhos perigosos e implacáveis.
Como a estúpida decisão de permitir que a princesa prevaleça, pensou Yoshi, a cabeça fervilhando com as novas informações.
— E que mais?
— Sobre os shishi que atacaram lorde Utani e seu amante, Sire. Foram liderados pelo mesmo shishi de Choshu que atacou lorde Anjo... Hiraga.
— Aquele cujo cartaz foi enviado a todas as barreiras?
— Isso mesmo, Sire, Rezan Hiraga. Pelo menos foi esse o nome indicado pelo shishi capturado, antes de morrer. Provavelmente é falso. Outro nome com que se apresenta é Otani.
— Conseguiram capturá-lo? — indagou Yoshi, esperançoso.
— Não, Sire, ainda não, e infelizmente perdemos todas as pistas. Assim, ele deve estar em outro lugar. Talvez em Quioto. — Inejin baixou a voz ainda mais.
— Correm rumores de que haverá outro ataque dos shishi em Quioto. Há indícios de que estão se concentrando ali. Em grande quantidade.
— Que tipo de ataque seria? Um assassinato?
— Ninguém sabe, por enquanto. Talvez outro atentado. O líder shishi com o codinome de “Corvo” teria determinado a convocação. Estou tentando descobrir quem ele é.
— Ótimo. De um jeito ou de outro, os shishi devem ser destruídos. — Yoshi pensou por um instante. — O veneno deles poderia ser dirigido contra Ogama ou Sanjiro, os verdadeiros inimigos do imperador?
— Seria muito difícil, Sire.
— Descobriu quem informou aos shishi sobre Utani? Sobre seu encontro amoroso?
Depois de uma pausa, Inejin respondeu:
— Foi a criada da dama, Sire, quem sussurrou para a mama-san, que sussurrou para eles.
Yoshi suspirou.
— E a dama?
— A dama parece ser inocente, Sire.
Yoshi tornou a suspirar, satisfeito por Koiko não estar envolvida, mas lá no fundo ainda não convencido.
— A criada está conosco agora... cuidarei dela. Providencie para que a mama-san nada desconfie. Acertarei as contas com ela quando voltar. Já descobriu quem é o outro espião, o que vem fornecendo informações para os gai-jin?
— Não com certeza, Sire. Fui informado que o traidor se chama Ori... ou esse é um pseudônimo... não sei o nome completo, um shishi de Satsuma, um dos homens de Sanjiro, um dos dois assassinos da Tokaidô.
— Foi inepto ao matar apenas um, quando os quatro constituíam um alvo fácil. Onde está o traidor agora?
— Em algum lugar da colônia de Iocoama, Sire. Ele se tornou um confidente secreto do jovem intérprete inglês e do francês de que me falou.
— Ah, ele também... — Yoshi ficou em silêncio por um momento, pensativo. — Silencie esse Ori imediatamente.
Inejin inclinou a cabeça, aceitando a ordem.
— O que mais?
— Isso encerra meu relatório.
— Obrigado. Trabalhou bem.
Yoshi acabou de tomar o chá, imerso em pensamento. O luar projetava estranhas sombras. O velho rompeu o silêncio:
— Seu banho está pronto, Sire, e imagino que tenha fome. Tudo se encontra à sua espera.
— Obrigado, mas faz uma noite tão boa que partirei agora mesmo. Há muito o que fazer no Dente do Dragão. Capitão!
Todos se reuniram num instante. Koiko e sua criada voltaram a vestir as roupas de viagem e ela entrou no palanquim. Com a devida deferência, Inejin, sua família, criadas e servidores saudaram o hóspede, no momento da partida.
— O que faremos com toda a comida que preparamos? — indagou hesitante a esposa, uma mulher pequena, de rosto redondo, também descendente de samurais.
Ela preparara as iguarias às pressas, mas com extremo cuidado, tudo comprado a um vasto custo, para conquistar o suserano naquela visita inesperada — mais de três meses de lucro investido em uma única refeição.
— Vamos comê-la — murmurou Inejin, observando o cortejo se afastar, através da aldeia adormecida, até desaparecer. — Foi muito bom tornar a vê-lo, uma grande honra.
— Foi, sim — murmurou ela, submissa, seguindo-o para o interior do prédio.
A noite era amena, com luar suficiente para se divisar tudo. Além da aldeia, a estrada de terra, a estrada seguia para o norte, sinuosa, com aldeias a intervalos de poucos quilômetros, todas as terras ao redor exploradas por Yoshi desde a sua infância. Reinava um silêncio profundo. Ninguém viajava àquela hora da noite a não ser os salteadores, os ronin e a elite. Vadearam um córrego, o terreno mais aberto naquele ponto. No outro lado, Yoshi parou e fez um sinal para o capitão.
— Pois não, Sire?
Sob o crescente excitamento de todos, Yoshi virou-se na sela e apontou para leste e para o sul, na direção da costa.
— Estou mudando meu plano — anunciou ele, como se fosse uma decisão repentina, e não uma coisa planejada por vários dias. — Agora vamos seguir por este caminho, até a Tokaidô, mas contornaremos as três primeiras barreiras, e em seguida voltaremos à estrada, pouco depois do amanhecer.
Não havia necessidade de perguntar para onde estavam indo.
— Marcha forçada, Sire?
— Isso mesmo. E agora chega de conversa. Vamos embora!
Cento e vinte léguas, dez ou onze dias, pensou Yoshi. E, depois, Quioto e os portões. Meus portões.
IOCOAMA
No final da tarde desse mesmo dia, Hiraga esgueirou-se para os fundos de um barraco, na beira da cidade dos bêbados, onde um marujo pequeno e imundo o esperava, bastante nervoso.
— Dê-me o dinheiro, companheiro — disse o homem.
— Sim. Revólver, por favor?
— Num dia você está grã-fino, no outro parece um pobre coitado bexiguento. — O homem tinha uma barba grisalha, um olhar desconfiado, com uma faca afiada na cintura, outra numa bainha no antebraço. Quando Hiraga o abordara pela primeira vez, na praia, usava as roupas que Tyrer providenciara. Hoje usava uma túnica encardida de trabalhador, calça puída e botinas surradas. — Qual é o seu jogo?
Hiraga deu de ombros, sem compreender.
— Revólver, por favor.
— Revólver, hem? Já sei que é isso o que quer.
Os olhos astutos esquadrinharam ao redor, pela área coberta de mato e com pilhas de lixo entre a cidade dos bêbados e a aldeia japonesa — um lugar chamado de terra de ninguém pelos moradores locais —, mas não avistou ninguém a espreitá-los.
— Onde está a grana? — indagou ele, irritado. — O dinheiro, pelo amor de Deus, os mexicanos!
Hiraga enfiou a mão no bolso da túnica, achando tudo desconfortável e estranho, as roupas compradas especialmente para o encontro. Três dólares de Prata mexicanos faiscaram em sua mão.
— Revólver, por favor.
Impaciente, o marujo meteu a mão por dentro da camisa e mostrou o Colt.
— Leva a arma quando me entregar o dinheiro.
— Balas, por favor?
O homem tirou do bolso da calça um pano imundo, com uma dúzia ou mais de cartuchos.
— Um negócio é um negócio, e minha palavra é minha palavra.
O marujo estendeu o braço para o dinheiro, mas antes que pudesse apanhá-lo Hiraga fechou a mão.
— Não roubado, sim?
— Claro que não foi roubado!
Hiraga abriu a mão. O homem pegou as moedas, na maior ganância, examinou-as com todo cuidado, para se certificar que não estavam lascadas, nem eram falsificadas, os olhos astutos se desviando para um lado e outro durante todo o tempo. Depois de se convencer que o dinheiro era genuíno, ele entregou o Colt e as balas e se levantou.
— Não seja apanhado com isso, companheiro, ou vai balançar na ponta de uma corda. Claro que é roubado.
O marujo soltou uma risada desdenhosa e se afastou apressado, como o rato com que se parecia.
Hiraga voltou meio agachado para a relativa segurança da aldeia japonesa... segura apenas pelo tempo em que a ralé e os bêbados não decidissem atacá-la. Não havia polícia ou sentinelas para proteger os aldeões. Apenas uma patrulha ocasional da marinha ou do exército passava de vez em quando pela rua principal, e os homens raramente tomavam o partido dos japoneses nos tumultos.
Hiraga levara vários dias para acertar a transação, pois é claro que não podia pedir a ajuda de Tyrer. Ninguém na Yoshiwara possuía uma arma de fogo. Raiko dissera, apreensiva:
— Só os gai-jin têm, Hiraga-san, sinto muito. É perigoso para uma pessoa civilizada ser apanhada com uma arma assim.
Akimoto interviera, ameaçador:
— Se meu primo quer uma arma assim, trate de arrumar logo para ele, Raiko! Você pode fazer qualquer coisa, neh? Como pagamento, eu a levarei para a cama de graça...
Ele se esquivara à almofada que Raiko lhe jogara, os dois rindo. Raiko acrescentara, abanando-se:
— Ah, Hiraga-san, sinto muito, mas suplico que tire esse homem horrível daqui. Duas das minhas garotas já exigiram um dia de folga para se aliviarem da investida do yang dele...
Quando ficaram a sós, Akimoto comentara, muito sério:
— Talvez seja melhor você mudar de idéia, esquecer essa arma. Deixe-me tentar persuadir Ori a se encontrar conosco aqui.
Hiraga sacudira a cabeça, satisfeito pela companhia do primo jovial.
— Ori tem uma pistola e vai usá-la no momento em que nos avistar. Já tentei por todos os meios atraí-lo para fora da cidade dos bêbados e não consegui. Se o emboscar com uma arma de fogo, vai parecer que foi um gai-jin. A qualquer dia ele vai tentar outra vez se encontrar com aquela mulher; estarei perdido aqui no instante em que isso acontecer.
— Talvez ele se canse de esperar. Todos os homens na aldeia foram avisados para vigiá-lo e ninguém vai tirá-lo daqui pelo mar.
— Quem ousaria confiar num aldeão?
Akimoto propusera:
— Neste caso, deixe-me fazer o serviço, quando conseguir a arma.
Ele era muito maior do que Hiraga, que não o reconhecera quando chegara, pois Akimoto também cortara os cabelos da mesma forma.
Ao final, Hiraga abordara o marujo na praia, fingindo ser um mercador chinês visitante de Hong Kong, e acertara o negócio, sua única condição a de que a arma não fosse roubada. Mas é claro que seria roubada...
Akimoto o aguardava na casa da aldeia que haviam alugado por um mês e comentou, rindo:
— Puxa, primo, peço que me desculpe. Não há necessidade de perguntar se conseguiu, mas parece tão engraçado nessas roupas... se os nossos camaradas shishi pudessem vê-lo agora...
Hiraga deu de ombros.
— Desse jeito posso passar pelos cules gai-jin, não importa de onde venham. Todos os tipos de gai-jin e cules se vestem assim na cidade dos bêbados. — Ele se ajeitou de uma forma mais confortável, com o escroto dolorido. — Não consigo entender como eles podem usar roupas tão pesadas, calças que dão cãibras e casacos apertados, durante todo o tempo... e quando faz calor, são horríveis, a gente sua como uma fonte.
Enquanto falava, ele examinava o Colt, avaliava o peso, mirava.
— É pesado.
— Saquê?
— Obrigado. Depois, acho que vou descansar até o pôr-do-sol.
Hiraga carregou o revólver, bebeu algum saquê e deitou, satisfeito consigo mesmo. Fechou os olhos, começou a meditar, Quando em paz, permitiu que a mente vagueasse. Pegou no sono num instante. Acordou ao pôr-do-sol. Akimoto continuava de guarda. Ele olhou pela pequena janela e murmurou:
— Não haverá tempestade nem chuva esta noite.
Pegou um lenço e amarrou-o em torno da cabeça, como vira os gai-jin de baixa classe e os marujos fazerem. Akimoto sentiu-se de repente invadido pelo medo.
— E agora?
— Agora — respondeu Hiraga, escondendo o revólver por baixo do cinto — vou à procura de Ori. Se eu não voltar, mate-o você.
A maioria dos aldeões nas ruas não o reconheceu, os poucos que perceberam fizeram uma reverência nervosa, como se ele fosse um gai-jin, não um samurai, conforme lhes ordenara. Em seus trajes europeus, para a maioria dos gai-jin ele seria apenas outro eurasiano ou um mercador chinês de Hong Kong, Xangai ou Manila, a qualidade das roupas e o porte indicando sua posição riqueza.
— Mas jamais esqueça, Nakama-san — advertira Tyrer, várias vezes — Por por mais rico que pareça, as roupas elegantes não vão protegê-lo de perseguiçõe e insultos da ralé, se for sozinho à cidade dos bêbados ou a qualquer outro lugar.
Na primeira vez em que saíra à procura de Ori, assim que ouvira o shoya revelar que o amigo desobedecera sua ordem, Hiraga entrara na cidade dos bêbados com as roupas fornecidas por Tyrer. Quase que no mesmo instante, fora acuado por um bando turbulento de bêbados, escarnecendo e insultando, logo partindo para a agressão. Só a sua habilidade no caratê, uma arte ainda desconhecida dos gai-jin pudera salvá-lo. Batera em retirada, furioso, deixando em sua esteira duas cabeças quebradas e mais um homem entrevado.
— Descubra imediatamente o lugar exato em que Ori se esconde! — dissera ele ao shoya. — Quero saber o que ele está fazendo e como vive!
Na noite seguinte, o shoya desenhara um mapa tosco.
— A casa é aqui, neste lado, de frente para o mar, perto de um cais. É uma casa para os bêbados dormirem, homens da mais baixa classe. Ori-san aluga um quarto, pagando o dobro, pelo que fui informado. Um lugar horrível, Hiraga-san, sempre cheio dos piores homens. Não pode ir lá sem um plano especial. É tão importante assim que ele seja mandado embora?
— É, sim. Sua aldeia corre risco com a permanência de Ori aqui.
— So ka!
Dois dias depois, o shoya avisara que a casa de Ori pegara fogo durante a noite e os corpos de três homens haviam sido encontrados nas ruínas.
— Pelo que me contaram, Hiraga-san, o “nativo” era um deles — arrematara o shoya, com evidente satisfação.
— Uma pena que toda aquela área não se incendiasse também, matando todos os gai-jin que vivem ali.
— Tem razão.
A vida voltara a ser calma. Hiraga continuara a passar bastante tempo com Tyrer, contente em aprender e ensinar, sem imaginar como seus conhecimentos eram importantes e informativos para Tyrer, Sir William e Jamie McFay. Durante a metade de um dia, estivera a bordo da fragata britânica, em companhia de Tyrer. A experiência o deixara abalado, e mais determinado do que nunca a descobrir como aqueles homens que desprezava eram capazes de inventar e fabricar máquinas e navios de guerra tão incríveis, como pessoas tão indignas, de uma terra mínima, menor que o Nipão — a se acreditar em Tyrer —, podiam ter adquirido a vasta riqueza necessária para possuir tantos navios, exércitos e fábricas, e ao mesmo tempo dominar todas as rotas marítimas e grande parte do mundo.
Naquela noite, ele se embriagara até a insensibilidade, a mente desorientada exultante num instante, no abismo no seguinte, sua crença na invencibilidade absoluta do bushido e da terra dos deuses profundamente abalada.
Passava a maioria das noites com Akimoto na Yoshiwara, ou na casas que ocupavam na aldeia, planejando e partilhando seus conhecimentos dos gai-jin, embora mantivesse em segredo a extensão de sua apreensão. Sempre, porém, reforçava a rede em torno de Tyrer, manipulando-o:
— Ah, sinto muito, Taira-san, contrato Fujiko levar muitas semanas, Raiko difícil de negociar, contrato caro, ela ter muitos clientes, muitos, sinto muito, ela ocupada esta noite, talvez amanhã...
Poucos mais de duas semanas antes, para fúria de Hiraga, o shoya descobrira que Ori não morrera no incêndio:
—... e sinto muito, Hiraga-san, mas fui informado que Ori se tornou rico de repente, gasta dinheiro como um daimio. Agora ele mora em vários aposentos em outra casa de bebida.
— Ori rico? Como é possível?
— Não sei, Sire.
— Mas sabe onde fica sua nova casa?
— Sei, Sire. Aqui está o mapa. Sinto muito se...
— Não importa — dissera Hiraga, na maior irritação. — Esta noite vamos queimá-la também.
— Sinto muito, Hiraga-san, mas isso não será mais tão fácil.
O shoya mostrava-se exteriormente penitente, mas por dentro sentia uma fúria igual porque sua primeira e imediata solução para o problema do ronin louco não alcançara o objetivo pelo qual fora pago.
— Não mais é fácil porque esta casa é isolada, e parece que ele tem muitos guardas... guardas gai-jin! — acrescentara o shoya.
Com toda objetividade, Hiraga avaliara as consequências. Enviara uma carta afável para Ori, por um dos aldeões, que vendia peixe na cidade dos bêbados, dizendo que sentia-se muito satisfeito por saber que ele continuava vivo, não morrera no terrível incêndio, como haviam-no informado, e também que se tornara próspero. Sugeria um encontro naquela noite naYoshiwara, já que Akimoto queria conversar sobre questões dos shishi da maior importância.
Ori respondera por carta, sem demora: “Não na Yoshiwara, nem em qualquer outro lugar, não até que nosso plano de Sonno-joi seja executado e a colônia incendiada. Antes que você, Akimoto ou qualquer outro traidor se aproxime de mim, será fuzilado.”
— Ele sabe que o incêndio não foi um acidente — comentara Akimoto. — Claro que sabe. Mas onde conseguiu o dinheiro?
— Só pode ter sido roubando, neh?
Outras mensagens receberam a mesma resposta. Uma trama insidiosa falhara. Por isso, Hiraga comprara o revólver e formulara novo plano. Agora chegara o fomento, aquela noite era perfeita. Os últimos raios do sol poente guiaram-no através da terra de ninguém e ao longo das ruas fétidas, cheias de buracos perigosos. Os homens que passaram por ele mal o fitaram, exceto para gritar que saísse da frente.
Ori enfiou a mão ao acaso no pequeno saco com moedas na mesa ao lado da cama e tirou uma. Era um mex lascado, agora com a metade do seu valor normal. Embora ainda fosse cinco vezes mais do que o preço combinado, ele entregou a moeda à mulher nua. Os olhos dela se iluminaram, inclinou a cabeça em um cumprimento murmurando agradecimentos abjetos e intermináveis.
— Você é um cavalheiro de verdade, amor.
Ele observou-a, distraído, enquanto ela punha o vestido velho e esfarrapado atônito por se encontrar ali, sentindo repugnância por tudo naquele quarto, a cama, a casa, o lugar, pelo corpo pálido e ossudo da gai-jin, com nádegas flácidas, que fantasiara ser capaz de extinguir o incêndio que o enlouquecia, mas apenas servira para tornar sua necessidade ainda pior, pois aquela mulher não se comparava em coisa alguma com ela.
A mulher não lhe dava qualquer atenção agora. Realizara seu trabalho e só restava murmurar os costumeiros agradecimentos e mentiras sobre o desempenho do homem — neste caso, não eram mentiras, pois o órgão, no que carecia de tamanho, compensava em força e vigor — e depois escapar dali, guardando sua nova riqueza, sem problemas adicionais. O vestido desceu pelos ombros magros e à mostra, até se arrastar pelo tapete puído, que cobria em parte o assoalho de tábuas ásperas. Anágua rasgada, sem o calção por baixo. Cabelos castanhos escorridos, uma grossa camada de ruge. Ela parecia ter quarenta, embora tivesse dezenove, uma menina de rua de Hong Kong, pais desconhecidos, vendida para uma casa de Wanchai oito anos antes, por sua mãe adotiva.
— Quer que eu volte amanhã?
Ori deu de ombros, apontou para a porta, o braço ferido já curado, e tão bom quanto jamais poderia ficar, nunca com a mesma força anterior, nem tão ágil com uma espada, mas bastante bom para enfrentar um espadachim médio, e ainda melhor com uma arma de fogo. Sua pistola estava em cima da mesa, nunca a deixava longe do alcance da mão.
A mulher forçou um sorriso, enquanto recuava, murmurando mais agradecimentos, contente por sair dali sem uma surra, e sem ter de suportar as práticas sórdidas que receara.
— Não se preocupe, Gerty — sua madame lhe dissera —, os chineses são iguais a todos os outros, às vezes um pouco exigentes, mas esse sujeito é tão rico que deve dar o que ele pedir, e bem depressa, para receber um bom pagamento.
Ela não precisara fazer muita coisa extra, limitara-se a suportar seus movimentos frenéticos com estoicismo, soltando os grunhidos necessários de prazer simulado.
— Adeus outra vez, amor.
Ela saiu, o mex escondido no corpete sujo, que mal cobria os seios flácidos com outra moeda, de um vigésimo do seu valor, na mão.
Lá fora, no patamar, estava Timee, um rude marujo eurasiano, de sangue misturado, mas de predominância chinesa. Ele fechou a porta e agarrou-a pelo braço.
— Fique de bico fechado, sua puta bexiguenta — sussurrou ele, forçando-a a abrir a mão para pegar a moeda, e depois xingando-a em chinês e inglês gutural pe]o ganho exíguo. — Por que não agradou o homem, sua puta?
Ele deu-lhe um cascudo e Gerty tropeçou, quase rolou pela escada; mas, assim que recuperou o equilíbrio, a uma distância segura, ela virou-se e gritou com mais veneno ainda:
— Vou contar a Madame Fortheringill sobre você! Ela dará um jeito em você!
Timee cuspiu na direção dela, bateu na porta, tornou a abri-la.
— Musume boa, hem? — indagou ele, insinuante.
Ori sentava agora a uma mesa velha, junto da janela. Usava uma camisa ordinária e calção, com as pernas à mostra, os pés descalços, a espada curta numa bainha no cinto. O saco de dinheiro se encontrava em cima da mesa. Ele percebeu os olhos contraídos se fixarem no saco. Indiferente, pegou outro dólar mexicano e jogou-o para Timee. O marujo de ombros largos pegou-o no ar, levou a mão ao topete, com um sorriso de poucos dentes, quebrados e amarelados.
— Obrigado. Grude, Guv? — Timee passou a mão pela barriga enorme. — Grude, wakarimasu ka?
A comunicação entre os dois era pela linguagem dos sinais e um pouco de pidgin. Timee era o principal guarda-costas de Ori. Outro vigiava lá embaixo, no bar, e havia um terceiro na viela. Ori sacudiu a cabeça.
— Não — disse ele, usando uma das palavras que aprendera, e depois acrescentou, acenando para que Timee se retirasse: — Ceveja.
Sozinho finalmente, ele olhou pela janela. O vidro estava rachado, com sujeira de mosca por toda parte, um canto faltando. A janela dava para a fachada de outro prédio quase em ruínas, um albergue de madeira, a dez metros de distância. O ar recendia a umidade e ele sentia a pele imunda; ficou arrepiado ao pensamento do corpo daquela mulher num contato suado, sem qualquer possibilidade de um civilizado banho japonês depois, embora pudesse tomá-lo sem qualquer problema na aldeia japonesa, a duzentos metros dali, no outro lado da terra de ninguém.
Mas, para isso, correria o risco de encontrar Hiraga e seus espiões à espera, pensou ele, Hiraga, Akimoto e todos os aldeões, que merecem ser crucificados como criminosos comuns, por tentarem impedir meu grandioso projeto. Ralé! Todos eles. Ousando tentar me matar pelo fogo, ousando envenenar o peixe... foi o karma que levou aquele gato a roubá-lo antes que eu pudesse detê-lo, para morrer momentos depois, vomitando, no meu lugar.
Desde então, ele comia com parcimônia, e apenas arroz, que cozinhava pessoalmente, numa panela na grelha, com um pouco de carne ou peixe feita para os outros pensionistas e os clientes do bar, fazendo Timee provar na sua frente, como uma proteção adicional.
A comida é horrível, este lugar é horrível, aquela mulher é horrível e só conseguirei esperar mais uns poucos dias antes de enlouquecer. Os olhos desviaram-se para o saco de dinheiro. Os lábios se repuxaram, deixando os dentes à mostra, num sorriso mórbido.
Na noite do incêndio, na outra choupana, em que dormia num catre, numa alcova mínima, nos fundos do bar, custara-lhe o que restava de seu dinheiro. Muito antes que os outros no albergue despertassem, seu faro para o perigo, aguçado em uma vintena de incêndios desde a infância, alertara-o de repente, arrancando-o do sono, para descobrir as chamas já lambendo a escada de madeira por cima, e a tempo de ver outra cabaça com óleo, um trapo em fogo no gargalo, sendo arremessada para o bar.
Um cão histérico descera a escada em disparada e se juntara a dois gatos que tentavam escapar, frenéticos. Os três animais desataram a correr em torno do bar, derrubando garrafas de bebida, que se espatifavam no chão de pedra, alimentando o incêndio. Soaram gritos no andar por cima, apinhado. Homens seminus desceram a escada, em pânico, as chamas queimando-os, enquanto corriam para a rua. O fogo alcançara a escada. Uma súbita língua de fogo se elevara pelo corrimão, junto da parede seca. O calor no bar era sufocante, gerando um vento que transformava o incêndio num matadouro implacável. Os lados da porta da frente começaram a arder, com a maior intensidade, as chamas quase obstruindo-a. Mais homens desceram correndo a escada, em tumulto, tropeçando uns nos outros, no desespero de atravessar as chamas para sair dali, alguns já com partes das roupas vestidas às pressas pegando fogo. Apenas uns poucos minutos haviam transcorrido desde que começara o incêndio criminoso, mas agora o fogo tinha total domínio, o prédio estava condenado.
Em seu cubículo, Ori não sentira qualquer medo, treinado para situações de incêndio, a salvo da fumaça turbilhonante, estendido no chão, a boca já coberta por um pano encharcado em cerveja, a rota de fuga de emergência automaticamente definida, desde o momento em que ali chegara. Como sempre, a segurança dependia da recusa em se entregar ao pânico e, desta vez, a saída era uma pequena janela fechada, no outro lado do bar, longe da escada em chamas, uma janela que dava para a viela nos fundos.
Ori já ia escapar por ali quando avistara o corpulento proprietário, de camisolão, uma touca com borla, descendo a escada, a lutar com outros homens apavorados, uma caixa de ferro debaixo do braço. Furioso, o proprietário empurrara outro homem à sua frente para as chamas, mas apenas para que as mesmas chamas o convertessem numa tocha humana, gritando; no instante seguinte a escada desabara, arrastando-o e a dois outros para o fogo, vedando qualquer possibilidade de fuga por ali. A caixa escapara dos braços impotentes do proprietário, deslizara pelo chão. Um homem bastante queimado conseguira escapar das chamas, cambaleando para fora. O fogo, voraz, consumira o proprietário e os dois outros homens, e dera a impressão de que se projetava para a caixa, com a mesma voracidade.
Sem qualquer hesitação, Ori correra pelas chamas, pegara a caixa e disparara para a janela, arrebentando sem dificuldade as persianas apodrecidas, escapando são e salvo para a viela dos fundos e o ar fresco. Abaixado, saíra correndo para a cerca oposta, pulara-a e se esgueirara pelo lixo e o mato, ainda agachado, através da terra de ninguém, na direção do poço abandonado.
Ali chegando, ofegante, olhara para trás, cauteloso. As chamas do albergue elevavam-se pelo céu. Homens se agrupavam ao redor, gritando e praguejando. Dois homens saltaram de janelas do segundo andar. Outros, com baldes cheios de água, molhavam as construções ao lado, clamando por ajuda.
Ninguém o notara.
Sob a cobertura do tumulto, ele encontrara uma barra de ferro quebrada, arrombara a caixa, ao mesmo tempo em que afugentava os enxames de insetos noturnos. O tesouro lá dentro fizera-o vibrar. Pusera dois sacos de moedas nos bolsos da calça, outro no bolso da túnica. Com o maior cuidado, enterrara a dúzia de sacos restantes em diferentes lugares, e também a caixa.
Na manhã seguinte, vagueara pela cidade dos bêbados, até encontrar um albergue mais isolado, longe do prédio transformado em cinzas. Dez mex na mão do proprietário, e o peso remanescente do saco, garantiram-lhe serviço imediato e untuoso, um quarto grande, à sua escolha. O proprietário, um homem de olhos azuis fundos e brilhantes — como os dela, pensara Ori, com um súbito e intenso anseio —, apontara para o saco:
— Vão acabar tirando isso de você, meu jovem china.
Ori não entendera as palavras. O significado, no entanto, logo se tornara claro, e produzira Timee. Ori também concluíra que se Timee fosse bem pago, assim como o proprietário, estaria seguro ali ou na rua; quando saísse, seu quarto seria sagrado. Como precaução, sabendo o perigo de depositar toda a sua confiança naqueles homens, Ori também deixara patente, com mais linguagem de sinais e muita paciência, que aqueles sacos constituíam apenas uma parte de sua riqueza, que se encontrava na aldeia, bem guardada, e que se achava disposto a gastá-la com generosidade, por sua proteção, e qualquer outra coisa de que precisasse.
— Você é o Guv, basta dizer o que quer e a gente providencia. Meu nome é Bonzer e sou australiano.
Como quase todas as pessoas na cidade dos bêbados, ele coçava a todo instante as picadas de pulgas e piolhos, os poucos dentes tortos, e fedia demais.
— Guv? Significa Ichiban!, Número Um. Wakarimasu ka?
— Hai, domo.
A porta foi aberta, interrompendo a sequência de pensamentos de Ori. Timee trouxera-lhe uma caneca de cerveja.
— Guv, vou papar alguma coisa agora. — Ele tossiu. — Grude, comida, wakarimasu ka?
— Hai.
Acerveja saciou a sede de Ori, mas não aquietou sua mente. Não se comparava à cerveja da aldeia. Nem à de sua terra, Satsuma ou da Yoshiwara ou da Estalagem das Flores da Meia-Noite, em Kanagawa. Ou de qualquer outro lugar.
Devo estar enlouquecendo, pensou ele, atordoado. Aquela puta gai-jin, com sua pele de barriga de sapo e cheiro de peixe, foi pior do que a pior das velhas megeras que já tive, mas mesmo assim desfrutei as nuvens e a chuva duas vezes e queria mais e mais.
O que há com elas? Deve ser pelos olhos azuis, a pele branca, os cabelos púbicos claros... nisso, aquela puta não era muito diferente dela, embora o fosse em todo o resto. Inconsciente, seus dedos reviraram a cruz que usava no pescoço meio escondida. Os lábios se contraíram num sorriso torto. No túnel, enganara Hiraga. O pedaço de metal que jogara longe fora seu último oban de ouro. Estou contente por ter ficado com a cruz... para me lembrar constantemente. E foi mais do que útil sob outros aspectos, fazendo esses estúpidos gai-jin pensarem que sou cristão. O que há nas suas mulheres que me deixa louco?
É o karma, disse ele a si mesmo, decidido, karma que não haja resposta, nunca haverá, exceto... exceto despachá-la para o outro mundo.
O pensamento do pescoço dela em suas mãos, sua virilidade a penetrá-la, deixou sua pele arrepiada, o anseio renovado, como se a outra não tivesse existido. Mais uma vez, o quarto parecia balançar, ameaçava sufocá-lo. Por isso, Ori se levantou, pôs a pistola no bolso, vestiu um gibão de couro e desceu.
— Guv?
Timee tossiu, levantou-se da frente de um prato cheio de arroz e guisado, para acompanhá-lo, mas Ori fez-lhe sinal e ao outro homem lá em cima que ficassem, e saiu para a rua.
Hiraga avistou-o no mesmo instante. Ele se postava no outro lado da rua suja e movimentada, sentado num banco, na frente de um bar imundo. Tinha na sua frente uma caneca de cerveja intocada, com homens ruidosos ao redor, bebendo, de pé ou arriados nos bancos, já embriagados, alguns seguindo para suas pensões, outros bares ou casas de jogo, que se agrupavam ali, formando um cortiço, igual ou pior que os de Londres. Os homens eram trabalhadores poliglotas, europeus e asiáticos, armados no mínimo com uma faca, e vestidos de maneira parecida com a dele, saindo do trabalho durante o dia inteiro nas fábricas de velas e lojas que abasteciam os navios, alguns mecânicos, uma profissão nova, ou procedentes de qualquer uma das dezenas de atividades relacionadas com os navios. Junto com mendigos e vagabundos havia padeiros, açougueiros, cervejeiros, agiotas e outros, que sustentavam ou sugavam aquela parte de Iocoama, separada da aldeia e da cidade dos nobres, como todos chamavam o setor dos mercadores, por consenso mútuo.
— Deve haver umas cento e cinqüenta almas na cidade dos bêbados e a maioria é formada por vagabundos — explicara-lhe Tyrer. — Eles têm poucas regras. É cada um por si, mas ai daquele que for apanhado roubando, pois a turba vai espancá-lo até a morte. Não existe lei, exceto as patrulhas da marinha e exército à procura de desertores, ou apenas tentando manter a paz entre seus homens, acabando com brigas e outros distúrbios. Há bares em que se vende cerveja e gim. O gim é uma bebida ordinária que pode matar, se não se tomar cuidado... aberto enquanto houver fregueses, o que também acontece com as casas de jogo. Não se aventure em nenhuma, nem nacasa de Madame Fortheringill, pois ela detesta japoneses, por causa do baixo custo da Yoshiwara... abençoada seja! Na outra extremidade, perto do portão sul, junto da Hoag Lane, fica a pior parte da cidade dos bêbados. Nunca estive lá, e é melhor você também se manter à distância. É ali que os mais depravados e perdidos tentam sobreviver. Ópio, mendigos, homens que se prostituem. Matadouro. Cemitério. Doença. E incontáveis ratos...
O pouco que Hiraga entendera o levara a desejar, ainda mais, conhecer o lugar pessoalmente. Aquela noite era a sua primeira oportunidade. Exceto por uns poucos insultos distraídos, que poderiam se aplicar a qualquer um, ninguém o incomodou, enquanto seguia Ori, restando ainda claridade suficiente no crepúsculo.
Sua presa se encaminhou para a praia, aparentemente sem propósito, e sem qualquer dos guardas-costas contra os quais fora alertado. O excitamento de Hiraga foi aumentando. O contato com o revólver no bolso lhe proporcionava uma sensação agradável. Os dedos ansiavam em pegá-lo, mirar, puxar o gatilho, para acabar com a ameaça ao seu futuro aqui, e depois iniciar a retirada controlada para a segurança, através da terra de ninguém, ou ao longo da praia, até a legação.
Aproximavam-se agora da pequena praça principal, ao lado do passeio e da praia, onde bares, casas de pasto e pensões disputavam a freguesia. Era a extremidade da colônia, o trecho mais estreito, espremido entre o mar e a cerca em que se situava o portão sul. Como no portão norte, a cerca era resistente e alta, estendia-se até o mar. A única abertura era o portão sul, fortemente guardado.
A praça estava apinhada, a maior parte constituída por soldados e marujos britânicos, com uns poucos franceses, americanos, russos e eurasianos. Ori esgueirou-se entre eles, foi até a beira do passeio. Contemplou o mar, escuro, com ondas de um metro de altura. Para o norte, a menos de um quilômetro de distância, ele podia avistar as luzes das casas de comércio se acendendo, o que também acontecia na legação francesa. E no andar superior do prédio da Struan, que dominava a área do cais, junto com o prédio da Brock.
Esta noite? Devo tentar esta noite?
Seus pés começaram a levá-lo nessa direção. Um súbito rumor, o barulho como o de um trem expresso, uns poucos metros abaixo da superfície, a terra tremeu, e Ori, como todas as outras pessoas na praça, cambaleou, nauseado, acabou caindo de quatro, enquanto a terra subia e descia, para depois parar. Um momento de silêncio, que parecia um grito estridente lançado para o céu. Depois, soaram alguns lamentos, berros, imprecações, que logo foram interrompidos por outro tremor. A terra tornou a se empinar, não tanto quanto antes, mas ainda assim de uma forma bastante terrível, os tremores se prolongaram pelo que pareceu muito tempo, até pararem de novo. Telhas caíram de um telhado. Pessoas corriam ou rastejavam para a segurança. Silêncio de novo, quase palpável, homens silenciosos, gaivotas silenciosas, todos os animais silenciosos. A terra esperando, tudo operando. Estendidos no chão, rezando, praguejando. E esperando.
— Já acabou, pelo amor de Deus? — gritou alguém.
— Já...
— Não...
— Eu espero...
Outro rumor. Ganidos de medo. O barulho aumentou, a terra se contorceu soltando um berro, voltou a ficar imóvel. Vários barracos desabaram. Brados de socorro. Ninguém se mexeu.
Mais uma vez, todos prenderam a respiração. Expectativa. Gemidos, orações súplicas, lamúrias, imprecações. À espera do próximo tremor. O maior de todos Esperando, mas não veio mais nada.
Por enquanto.
Momentos que se transformaram numa eternidade de espera. Depois, Ori sentiu que já acabara e levantou-se, o primeiro na praça, o coração disparado em alegria por não ter morrido desta vez, por continuar vivo e intacto, por renascer são e salvo, mas instintivamente preparado para o próximo perigo, um ímpeto imediato de fogo, que era uma consequência normal, e o maior de todos os riscos a se enfrentar. Cada terremoto era a nêmesis de alguém, um renascimento para todos os outros, e desde tempos imemoriais era encarado assim pelos que viviam na terra dos deuses, que era também chamada de terra das lágrimas.
Abruptamente, o estômago de Ori teve o seu tremor particular. No outro lado da praça, por cima da massa de pessoas ainda estendidas no chão, muitas vomitando e praguejando, ele avistou Hiraga, também de pé, observando-o. Cinqüenta metros além de Hiraga, a maioria dos guardas samurais também já se levantara... e alguns estudavam os dois com uma curiosidade inequívoca.
Quase no mesmo instante em que Ori sentira que o terremoto terminara e se levantara de um pulo, Hiraga e os samurais haviam feito a mesma coisa, numa reação espontânea, experimentando idêntico alívio e renascimento. Hiraga só compreendeu que estava de pé quando percebeu Ori a fitá-lo. Amarrou a cara. Avançou na direção de Ori, enquanto a praça voltava à vida, os homens se levantando, ruidosos, cambaleando. Atordoado, Ori se virou para fugir, mas homens assustados e irados, alguns rindo histéricos, outros balbuciando agradecimentos a Deus, barraram sua passagem — e a perseguição de Hiraga — com gritos de “Mas o que você...”
— Quem você pensa que é me empurrando desse jeito?
— Ei, é um maldito japa!
Foi então que alguém berrou:
— OLHEM! FOGO!
Assim como todos os outros, Ori olhou para o norte. Havia um prédio em chamas na extremidade do passeio. Ele o reconheceu como o quartel-general de dois andares da Struan. Ou talvez o prédio ao lado. Indiferente a todos, Ori saiu correndo.
Hiraga partiu em seu encalço, mas foi nesse momento que um bar desabou, fazendo as pessoas à sua frente correrem para todos os lados, esbarrando nele e quase derrubando-o. Hiraga fez um tremendo esforço para manter o equilíbrio, em meio ao tumulto. Naquela parte da praça, os homens corriam em círculos, a esmo, bloqueando seu caminho. Por um segundo, ele ainda divisou Ori e depois as ruínas do bar pegaram fogo; a multidão recuou, engolfando-o por completo.
Quando Hiraga recuperou o equilíbrio, Ori já desaparecera; por mais que tentasse forçar a passagem para o lugar em que o vira pela última vez, menos progresso conseguia fazer e mais furiosa a multidão se tornava.
— Ei, por que está me empurrando?
— Mas é outro japa desgraçado!
— Vamos dar uma lição no patife!
Depois que Hiraga apaziguou a todos, recuou e deu a volta, encontrando um caminho para a beira da praça, Ori não corria pelo passeio, na direção do incêndio, como ele esperava, nem se afastava pela praia... mas desaparecera por completo.
No prédio da Struan, Jamie McFay subiu correndo a escada, na semi-escuridão, em meio a gritos de alarme de “fogo!”, um lampião a óleo balançando em sua mão, o único candelabro aceso em toda a área da escadaria ainda a balançar devido aos choques. Ele alcançou o patamar, avançou pelo corredor, até a porta aberta de Struan.
— Tai-pan, você está bem?
O quarto estava escuro, a não ser por um brilho ominoso que dançava pelas cortinas da janela. Struan se encontrava caído ao chão, atordoado, meio vestido para o jantar, sacudindo a cabeça para tentar desanuviá-la, os dois lampiões espatifados, o pavio aberto de um que estava escondido pela cômoda crepitando sobre o tapete encharcado de óleo.
— Acho que sim — balbuciou ele. — Devo ter batido com a cabeça quando caí. Oh, Deus, Angelique!
— Deixe-me ajudá-lo...
— Posso me levantar sozinho, Jamie! Vá ver como ela está!
Jamie tentou a maçaneta da porta de comunicação. Trancada pelo outro lado. Foi nesse instante que o tapete pegou fogo. Struan arrastou-se para longe do fogo, gritando de dor. Antes que as chamas pudessem se espalhar, Jamie tratou de apagá-las com os pés. Em sua pressa para ajudar Struan a escapar, puxou-o de uma forma um tanto rude.
— Por Deus, Jamie, tome cuidado!
— Desculpe. Eu não...
— Não tem importância — murmurou Struan, sentindo uma pontada de dor do lado, onde batera com força ao cair, mais pulsações no estômago, onde antes não havia nenhuma, e as habituais sob o ferimento já cicatrizado, mas ainda dolorido. — Onde é o incêndio?
— Não sei. Estava lá embaixo e...
— Mais tarde... Angelique!
Jamie saiu para o corredor e a fumaça que vinha da outra extremidade fê-lo tossir. Bateu na porta de Angelique, tentou a maçaneta... trancada por dentro também. Ele jogou o ombro contra a madeira perto do batente e conseguiu arrombar a porta. O boudoir se achava vazio, um lampião caído de lado, ainda aceso, o óleo pingando sobre a cômoda, outro espatifado no chão, mais óleo por toda parte. Jamie apagou o pavio, correu para o quarto. Encontrou-a na cama, tão pálida quanto seu penhoar, os olhos fixados no lustre que ainda balançava incongruentemente aceso.
— Você está bem, Angelique?
— Oh, Jamie... — murmurou ela, hesitante, a voz parecendo muito distante — Estou, sim... deitei um pouco antes de me vestir para o jantar e, de repente o quarto começou a balançar. Pensei que era um sonho, mas depois os lampiões caíram e quebraram... Mon Dieu, foi o barulho do prédio sacudindo que mais me assustou... Oh, Malcolm...
— Ele está bem, e é melhor você se vestir depressa, enquanto pode. Não de...
O sino de alarme de incêndio, no escritório próximo do mestre do porto, começou a repicar, provocando um sobressalto nos dois. Com súbita apreensão, Angelique sentiu o cheiro de fumaça, ouviu os gritos abafados lá fora e divisou o clarão através das cortinas da janela.
— Estamos pegando rogo?
— Não há com que se preocupar por enquanto, mas é melhor se vestir tão depressa quanto puder, e passar para o quarto ao lado. Deixarei a porta de ligação destrancada.
McFay saiu apressado. Ela se levantou. Sob o penhoar, usava calça comprida e espartilho. Tratou de vestir a saia, que havia deixado sobre a cama, e pegou um xale.
— Não aconteceu nada com ela, tai-pan — ouviu Jamie dizer, enquanto destrancava a porta de ligação. — Está se vestindo. Deixe-me ajudá-lo a descer...
— Só quando ela descer também.
Jamie fez menção de falar, mudou de idéia, os dois ainda se lembrando do conflito na hora do almoço, sem a menor disposição de fazer qualquer concessão. Foi abrir a janela. No jardim da frente e na rua lá embaixo, havia escriturários e criados, inclusive Vargas, assim como curiosos e homens das várias legações, mas ele não avistou as chamas.
— Vargas! — gritou McFay. — Onde é o nosso incêndio?
— Não temos certeza, senhor, mas achamos que é apenas parte do telhado. Alguns homens já estão lá, junto com o comandante dos bombeiros, mas todo o segundo andar da Brock pegou fogo.
Jamie não podia ver o prédio ao lado, por isso voltou apressado ao boudoir de Angelique e abriu as cortinas. O fogo dominava boa parte da frente do prédio da Brock — uma estrutura de dois andares, parecida com a Struan — onde deveriam ser os quartos principais. A fumaça saía pelas janelas abertas. Dava par ver as fileiras de homens, os baldes com água passando de mão em mão no esforço para se apagar o incêndio, sob a supervisão de Norbert Greyforth — as equipes de fogo da Brock eram treinadas com a mesma freqüência e rigor com que ele próprio cuidava do pessoal da Struan. Empurradas pela brisa, as chamas se projetavam, junto com a fumaça, para cobrir o espaço.
É muito azar ser atingido pelo fogo deles, pensou Jamie, amargurado, para depois inclinar-se pela janela e gritar:
— Vargas, traga homens e água aqui para cima... molhem todo este lado! Depois que estivermos seguros, ajude Norbert!
Espero que o patife queime, e toda a Brock junto com ele, pois isso resolveria para sempre o problema daquele estúpido duelo.
Não havia outros incêndios que pudesse ver dali, além do que ardia junto ao passeio, na cidade dos bêbados, e dois na Yoshiwara. O cheiro de madeira queimada, de óleo e pano em chamas e do piche que usavam nos telhados prevalecia sobre tudo, embora a brisa trouxesse a maresia. Inexoravelmente, sua atenção retornou às chamas na Brock, que tanto os ameaçava. O vento as empurrava cada vez para mais perto. Desejou que se apagassem, com medo do fogo — a chácara em que nascera pegara fogo numa horrível noite de inverno, quando era menino, o pai, embriagado como sempre, e o irmão caçula morreram; ele, a mãe e a irmã escapando por um triz, salvando suas vidas e pouco mais, indo para uma casa de indigentes, em que trabalharam demais por anos a fio, até serem salvos por Campbell Struan, parente de Dirk Struan, em cujas terras seu pai labutara.
— Vargas! Depressa, pelo amor de Deus!
— Já estamos indo, senhor!
Agora o passeio se tornara atulhado, todo mundo nas ruas, dispostos a ajudar e a dar conselhos, outros aos gritos formando uma linha de baldes com água, desde o imenso reservatório de incêndio, cheio de água do mar, de fácil alcance, unidades do exército alojadas em barracas juntaram-se à multidão. Samurais acorriam, vindos do portão norte, para ajudar, pois qualquer fogo também os ameaçava. Para o sul, no outro lado do canal, uma das casas da Yoshiwara estava em chamas, com mais gritos trazidos pelo vento, mas esse incêndio parecia contido, não constituía um perigo maior, e graças a Deus não era perto do lugar em que Nemi deveria estar.
O suor escorria por suas costas. Sentia intenso alívio por nada ter acontecido a Malcolm. Desde o almoço que ficara remoendo em seu escritório, furioso porque sua busca por garimpeiros vazara, na mais profunda ansiedade pelo duelo e seu próprio futuro. Nunca antes imaginara que poderia se envolver numa briga assim, ou que seria forçado a deixar a Casa Nobre e o Japão, exceto por doença ou acidente, antes de se aposentar, daqui a cinco anos, com a idade madura de quarenta e quatro, após vinte e cinco anos de bons serviços, subindo degrau por degrau. Agora, com Malcolm alienado, e Tess Struan furiosa com ele, sua promoção, aposentadoria... todo o seu futuro corria perigo.
O que fazer, era isso que o preocupava, até que os tremores viraram o mundo de cabeça para baixo, sua precária mortalidade outra vez se tornara manifesta; e depois, quando o terremoto cessara e pudera se levantar, cambaleando, suas glândulas e a lembrança das dívidas que ele e sua família tinham com os Struans o fizeram subir correndo, apavorado pela segurança de Malcolm... afinal, era ele quem estava no comando, e aquele rapaz era pouco mais que um inválido. Tai-panl Sinto muito, Malcolm, Norbert tem razão, sua mãe é que tem o comando. Se você não estivesse ferido, teria corrido de volta a Hong Kong quando ela ordenou, nada disso aconteceria, você assumiria as rédeas e daqui a um ano, ou por aí, estaria...
— Jamie... pode me ajudar?
Aturdido, ele virou-se. Angelique estava parada à porta, de costas, a frente do vestido suspensa, a parte de trás aberta. Por um segundo, ele sentiu-se tentado a gritar: Essa droga de vestido é uma loucura, estamos quase em chamas! Mas não o fez, apenas se apressou em abotoar o vestido, ajeitou um xale sobre seus ombros, e levou-a para o quarto ao lado, onde ela se projetou no mesmo instante para os braços abertos de Struan. Alguns homens passaram correndo pela porta aberta, carregando baldes cheios.
— É melhor saírem, senhor! — gritou alguém.
— Tempo de partir, tai-pan. Está bem?
— Estou, sim.
Malcolm encaminhou-se para a porta, tão depressa quanto podia. Com as duas bengalas ele era lento... desastrosamente lento, se houvesse uma emergência, como todos os três sabiam, Struan ainda mais. Agora havia o barulho de pés no sótão, homens tentando apagar as chamas, o cheiro de fumaça cada vez pior, aumentando a ansiedade.
— Jamie, leve Angelique para fora. Irei atrás.
— Apóie-se em mim, e...
— Pelo amor de Deus, faça o que estou mandando e depois volte, se for necessário!
Jamie corou. Pegou Angelique pelo braço, e os dois se apressaram em deixar o prédio, homens ultrapassando-os com baldes vazios, outros entrando com baldes cheios.
No momento em que ficou sozinho, Struan voltou até a arca de gavetas, vasculhou sob algumas roupas e encontrou o pequeno vidro que Ah Tok reabastecera naquela tarde. Tomou a metade do líquido marrom, tapou o vidro, guardou-o no bolso da sobrecasaca, deixando escapar um suspiro de alívio.
Angelique foi levada pela escada e saiu pela porta da frente. Respirou fundo o ar puro.
— Vargas! — gritou Jamie. — Cuide de miss Angelique por um momento.
— Pois não, senhor.
— Por favor, permita que eu ajude, monsieur — interveio pomposo Pierre Vervene, o diplomata francês. — Escoltarei mademoiselle Angelique até nossa legação... ela poderá esperar ali em segurança.
— Obrigado.
Jamie voltou correndo para o prédio. Angelique pôde perceber agora que o telhado estava ardendo, não muito, no momento, mas perto das suítes, as chamas da sede da Brock ainda se projetando até o lado. Samurais bem treinados, com quimonos amarrados para não atrapalharem, mascarados contra a aspiração de fumaça, encostaram escadas numa das paredes. Alguns subiram, enquanto outros, com gestos e gritos, mandaram que os homens trouxessem baldes com água, passados aos que se encontravam no topo das escadas e lançados onde era mais importante. Uma língua de fogo impetuosa avançou para um dos homens, mas ele se esquivou, cobriu o rosto, manteve a posição, e logo voltou a combater o incêndio. Ela prendeu a respiração, pensando como aquele homem era forte e corajoso, e como Struan se mostrara impotente, quão pouco pudera fazer para protegê-la numa emergência, como era mais e mais um peso inútil, mais e mais um inválido, a cada dia mais rabugento, menos e menos divertido. O que será do meu futuro? Um tremor percorreu seu corpo.
— Não há nada com que se preocupar, mademoiselle — disse Vervene, em francês, uma touca de borla cobrindo a calva. — Venha comigo. Está sã e salva agora. Os terremotos são bastante comuns por aqui.
Ele pegou-a pelo braço, a fim de levá-la até a legação francesa, através dos homens que enxameavam no passeio, assistindo ao espetáculo ou ajudando a combater o incêndio.
Ori avistara-a no momento em que saíra para a rua.
Encontrava-se à margem da multidão, na entrada da viela ao lado da legação francesa, perto do portão norte. Suas roupas e gorro de trabalhador não eram muito diferentes dos trajes usados por muitos homens ao seu redor, camuflando-o bem. Daquela posição, podia observar a maior parte do passeio, a frente do prédio da Struan e a rua ao lado, um prolongamento da rua principal da aldeia.
Ele parou de observá-la e esquadrinhou tudo ao redor, à procura de Hiraga ou Akimoto, certo de que espreitavam de algum lugar nas proximidades, ou em breve o fariam, seu coração ainda disparado da frenética corrida desde a cidade dos bêbados. No instante em que percebera o fogo no prédio da Struan e o trecho aberto do passeio, compreendera que estava fadado a ser apanhado, se tentasse escapar por aquele caminho, ou pela praia... e não havia tempo de buscar Timee para lhe dar cobertura.
Não que eu possa confiar naqueles cães, pensou ele, o coração palpitando ainda mais por Angelique estar tão perto.
Agora, a apenas vinte metros de distância.
Aqueles por quem ela passava no passeio tiravam o chapéu, murmuravam cumprimentos, a que Angelique respondia distraída. Ori poderia naquele momento procurar segurança ainda maior, mas não o fez, apenas tirou seu gorro, como os outros, e fitou-a. Barba curta, rosto forte, olhos curiosos, os cabelos rentes, mas penteados. Os olhos de Angelique passaram por ele, mas ela não o viu de fato, nem Vervene, que falava em francês, muito amável.
Passaram a poucos metros de distância. Ori esperou até que entrassem na legação francesa — não havia sentinelas ali agora, todos haviam ido participar do combate ao incêndio — e depois se afastou pela viela. Assim que se certificou de que ninguém o observava, pulou a cerca da legação, como fizera antes, e se encaminhou para o seu ponto de emboscada anterior, sob a janela de Angelique Naquela noite as janelas estavam destrancadas, sem barras, assim como a porta interna. Ele podia avistar o corredor, através do quarto, e viu-os quando entraram num cômodo no outro lado, que ficou com a porta entreaberta.
Agora que se encontrava seguro, sem ninguém a observá-lo, Ori verificou sua pistola, ajeitou a faca, para que ficasse solta na bainha. Depois se acocorou respirou fundo, pôs-se a pensar. A partir do momento em que vira Hiraga, e quase que no mesmo instante o incêndio no prédio da Struan, saíra correndo às cegas, deixando que o instinto o guiasse. Isso não serve mais, disse a si mesmo agora.
Tenho de planejar. E depressa.
As janelas abertas eram como um imã. Ele esgueirou-se sobre o peitoril da janela e entrou no quarto.
— Por que não dormem aqui esta noite, mademoiselle, monsieur Struan? — sugeriu Vervene. — Temos bastante espaço.
Era quase a hora do jantar, e se haviam reunido na principal sala de recepção da legação francesa, tomando champanhe. Jamie acabara de chegar para informar que o incêndio fora apagado, sem danos maiores, apenas os prejuízos causados pela água na suíte de Angelique, um pouco na de Struan.
— Se quiser, pode ocupar meus aposentos, tai-pan — propôs Jamie. — Dormirei em outro lugar, e miss Angelique pode ficar no quarto de Vargas.
— Não há necessidade, Jamie — disse Angelique. — Podemos ficar aqui, sem incomodar ninguém. Afinal, eu ia mesmo me mudar para cá amanhã. Concorda, chéri?
— Acho que eu me sentiria mais à vontade em minha própria suíte. Será que posso, Jamie?
— Claro que sim. Mal foi afetada. Miss Angelique, gostaria de ficar nos meus aposentos?
— Não, Jamie. Passarei a noite aqui.
— Então está tudo acertado — declarou Struan, com uma estranha expressão nos olhos, sentindo-se muito cansado, a maior parte da dor ainda amortecida pelo ópio, mas não a raiva profunda contra Norbert Greyforth.
— Monsieur Struan, quero que tenha certeza de que também é bem-vindo aqui — disse Vervene. — Temos aposentos suficientes, já que o ministro e sua equipe se encontram em Iedo, por mais alguns dias.
— Oh! — Angelique se mostrou visivelmente chocada. André teria de buscar o medicamento no dia seguinte. Todas a fitaram, surpresos, e ela se apressou em acrescentar:— Mas André me disse que todos voltariam o mais tardar até amanhã de manhã, depois da reunião hoje com o xógum.
— Depende da pontualidade do xógum, e de como a reunião vai transcorrer... nossos anfitriões não são modelos internacionais de pontualidade, não é mesmo? — Vervene riu da própria piada. — Nunca se sabe o que pode acontecer nessas reuniões oficiais. Pode levar apenas um dia ou até uma semana. Outro conhaque, monsieur Struan?
— Quero, sim, obrigado.
— Mas André disse que a reunião seria esta manhã e que no máximo estariam de volta amanhã!
Angelique fez um esforço para conter as lágrimas, que ameaçavam escorrer por suas faces.
— Qual é o problema, Angel? — indagou Struan, irritado. — Faz alguma diferença quando eles vão voltar?
— Não, mas... mas eu apenas detesto quando alguém diz uma coisa que não é verdade.
— Provavelmente se enganou, e é um absurdo se sentir transtornada com uma coisa tão insignificante. — Struan tomou um gole grande de conhaque.— Pelo amor de Deus, Angel, pare com isso!
— Talvez eles voltem amanhã, mademoiselle — interveio Vervene, sempre o diplomata.
Uma vaca estúpida, pensou ele, por mais apetitosos que sejam seus seios e beijáveis seus lábios, como se isso tivesse alguma importância. Depois de uma pausa, ele acrescentou, com seu sorriso mais insinuante:
— Ora, não importa. O jantar será servido dentro de uma hora. Monsieur McFay, vai nos acompanhar?
— Obrigado, mas não posso. É melhor eu me retirar agora. — Na porta, McFay hesitou. — Tai-pan... ahn... devo voltar para buscá-lo?
— Sou capaz de andar duzentos metros sozinho — protestou Struan, em tom brusco. — Perfeitamente capaz!
E de puxar um gatilho esta noite, ou em qualquer outra noite, ele teve vontade de acrescentar.
Pouco antes de virem para cá, Norbert Greyforth fizera uma pausa no trabalho, o incêndio na Brock quase controlado, e se aproximara pela rua, sem que ele percebesse. Jamie, ao seu lado, orientava Vargas e os outros no combate às chamas, com o Dr. Hoag e o Dr. Babcott nas proximidades, cuidando de queimaduras e de uns poucos ossos fraturados.
O elixir de Ah Tok promovera sua magia habitual e Struan sentia-se bem e confiante, apesar de estranho e querendo dormir, como sempre... fantasiava que dormir o levaria a sonhar, e o sonho seria sobre amar, um contato com a moça japonesa ou com Angelique, com uma paixão cada vez mais intensa, a necessidade delas tão grande quanto a sua, em total erotismo. E, de repente, abruptamente, ele fora arrastado ao presente implacável.
— Boa noite, Jamie. Uma coisa terrível, hem?
— Ah, Norbert — dissera Struan, a polidez ajudada pela euforia. — Lamento o seu azar. Acho que...
Norbert o ignorara, numa atitude deliberada.
— Por sorte, Jamie, não houve danos em nossos escritórios, depósitos ou casas-fortes, tenho certeza de que ficará satisfeito em saber... apenas nos outros aposentos.
Depois, ele simulara ver Struan pela primeira vez, e sua voz se tornara mais alta, mais zombeteira, para que todos ouvissem:
— Ora, ora, se não é o jovem tai-pan da Casa Tão Nobre! Uma péssima noite para você, meu rapaz, não me parece muito bem... perdeu seu leitinho, hem?
A euforia de Struan se dissipara. Através do nevoeiro do opiato, compreendera que se confrontava com o mal, o inimigo à sua frente.
— Não, mas você perdeu as boas maneiras.
— Boas maneiras não são o seu forte, rapaz. — Norbert soltara uma risada. — Isso mesmo, não sofremos prejuízos maiores. Na verdade, nosso novo empreendimento em mineração faz com que sejamos a Casa Nobre no Japão, e muito em breve seremos também em Hong Kong, até o Natal. É melhor voltar correndo para casa, Malcolm.
— O nome é Struan — respondera ele, vendo-se alto, forte e onipotente, sem tomar conhecimento dos outros ao redor, ou que Jamie e Babcott estivessem tentando intervir. — Struan!
— Gosto de jovem Malcolm, jovem Malcolm.
— Na próxima vez em que me chamar assim, eu o chamarei de bastardo sem mãe e estourarei seus miolos, sem esperar que apresente seus padrinhos!
Houve um silêncio profundo nesse instante, realçado ainda mais pelo crepitar das chamas e o zunido do vento. A notícia do desafio na hora do almoço espalhara-se em poucos minutos, e todos aguardavam o próximo movimento no jogo, que vinha fermentando desde que o avô de Malcolm, Dirk Struan, morrera antes de poder matar Tyler Brock, como jurara fazer.
A mente de Norbert Greyforth trabalhara depressa. Mais uma vez, ele avaliara seu futuro e sua posição na Brock, considerando com cuidado o que deveria fazer — as apostas eram imensas. Era bem recompensado... enquanto obedecesse às ordens. A última carta de Tyler Brock abrira uma porta para o paraíso, dizendo-lhe expressamente para “provocar Malcolm Struan até o limite, enquanto ele está doente, ferido e sem a proteção da minha filha insuportável, que Deus a condene ao inferno! Haverá cinco mil guinéus por ano, durante dez anos, se esse rapaz for destruído enquanto estiver no Japão... e você pode adotar qualquer providência que for necessária”.
Norbert completaria trinta e um anos dentro de seis dias. Aos quarenta, a idade normal da aposentadoria, o mercador médio na China já era um velho. Cinco mil por dez anos era sem dúvida uma quantia nababesca, o suficiente para ele e seus descendentes, o suficiente para comprar uma vaga no Parlamento, para se tornar um esquire com um solar, casar com uma jovem que lhe traria um bom dote de boa terra do Surrey.
Era fácil decidir. Ele aproximara o rosto de Struan, e ficara satisfeito ao perceber a dor sob a pele esticada... de uma altura superior, agora que Struan se encolhera sobre as bengalas.
— Escute aqui, jovem Malcolm, você jogou conhaque em minha cara no almoço e pode beijar meu rabo no jantar.
— E você é um bastardo sem mãe!
O homem mais velho soltara uma risada escarninha, cruel.
— E você é um bastardo sem mãe ainda maior, mais do que isso, é...
Babcott se interpusera entre os dois, sua enorme altura e corpulência ofuscando-os.
— Parem com isso, vocês dois! — gritara ele, furioso. — Este é um lugar público e tais divergências devem ser acertadas em particular, como fazem os cavalheiros!
— Ele não é um cava...
— Em particular, Malcolm, como cavalheiros — gritara Babcott, ainda mais alto. — Norbert, qual é o seu desejo?
— Um duelo não é minha opção, mas é isso que esse bastardo quer e assim será! Esta noite, amanhã, quanto mais depressa, melhor!
— Nem esta noite, nem amanhã, nem em qualquer outro dia, pois duelar é contra a lei, mas estarei em seu escritório amanhã, às onze horas.
Babcott olhara para Struan, sabendo que ninguém ali poderia evitar um duelo, se era esse o desejo de ambos. Percebera as pupilas dilatadas e sentira-se triste por Struan, mas ao mesmo tempo furioso. Há algum tempo que ele e Hoag tinham diagnosticado o vício, mas nada do que fizeram ou disseram causara qualquer impressão e também não eram capazes de impedir o acesso ao vício.
— Eu o verei ao meio-dia, Malcolm. Enquanto isso, como a maior autoridade britânica em Iocoama no momento, ordeno que vocês dois não dirijam a palavra um ao outro, nem se agridam, em particular ou em público...
Ora, não importa o desgraçado do Babcott, pensou Struan agora, ainda mais confiante, o conhaque se somando muito bem ao opiato. Amanhã ou depois mandarei Jamie, não, mandarei Dmitri falar com Norbert... não Jamie, pois ele não merece mais minha confiança. Marcaremos o duelo no hipódromo e a Casa Nobre dará a Norbert um funeral nobre... e também ao miserável do Brock, se algum dia ele aparecer por aqui! Ambos esqueceram que você foi o melhor atirador com revólver em Eton, e duelou com aquele canalha do Percy Quill por chamá-lo de china. Matou-o também, e foi expulso da escola por isso, embora o caso tenha sido abafado por papai, por alguns milhares de guinéus. Norbert vai receber o castigo que merece...
Uma comoção na sala atraiu sua atenção. Seratard acabara de entrar, sendo cercado e cumprimentado pelos outros, com André Poncin logo atrás. Através do nevoeiro em sua mente, ouviu Seratard dizer que a reunião em Iedo fora rapidamente concluída, depois que “rompemos o impasse e a proposta francesa foi aceita, por isso não havia necessidade de ficar...”
Seus ouvidos pararam de escutar quando os olhos focalizaram André. O belo e elegante francês, de feições aquilinas e porte ereto, sorria para Angelique, que também sorria em retribuição, com uma felicidade que há dias não demonstrava. O ciúme começou a dominá-lo, mas Struan tratou de reprimi-lo. Não é culpa dela, pensou ele, cansado, nem de André; Angelique vale um sorriso, e não tenho sido boa companhia, estou diferente, cansado de tanta dor, desamparado ainda por cima. Mas eu amo essa mulher e preciso dela desesperadamente.
Ele fez um esforço para se levantar, pediu desculpas por ter de se retirar, agradeceu a hospitalidade. Seratard se mostrou muito simpático, como sempre:
— Mas não quer ficar? Lamento muito o incêndio... não sentimos nada no mar, nem mesmo houve uma onda maior. Não se preocupe com sua noiva, teremos o maior prazer em lhe fazer companhia, monsieur, enquanto for necessário e reparam seus aposentos. É claro que será bem-vindo aqui no momento em que desejar, monsieur.
Ele acompanhou-os até a porta, Angelique insistindo em pegar o braço de Struan e ir junto até sua residência.
— Estou bem, Angel — murmurou Struan, amando-a mais do que nunca.
— Sei disso, meu amor, mas é meu prazer — disse ela, cheia de boa vontade, agora que André voltara.
Só mais algumas horas e depois estarei livre, pensava Angelique.
O jantar foi um grande sucesso, com Angelique radiante, Seratard exuberante por seu sucesso em Iedo, regalando-os com suas façanhas na Argélia, onde fora a autoridade encarregada de subjugar os nativos, antes de ser enviado para o posto atual, Vervene disputando sua atenção durante o tempo inteiro, relatando versões heróicas de seus feitos anteriores, todos inebriados por sua companhia e pelo vinho abundante, uma garrafa de borgonha por pessoa, com champanhe antes para atiçar as papilas gustativas, e depois para aquietar o estômago. André Poncin começou a relatar histórias picantes de Hong Kong, Xangai e Kowloon, onde os aldeões acreditavam de vez em quando na praga do pênis, que faria com que esse apêndice desaparecesse em seus corpos, por isso todos os homens amarravam um cordão ao redor, prendendo-o no pescoço, a fim de evitar a catástrofe.
— Oh, André, isso é impossível, e uma impertinência de sua parte! — exclamou Angelique.
Ela abanou o leque, em meio aos risos e protestos de André de que era a verdade absoluta, sabendo que chegara o momento de se retirar. Terminou de tomar o segundo copo alto de champanhe, que acompanhou muito bem as três taças anteriores de Château d’Arcins, deixando-a ainda mais jovial... e se somando ao alívio por André ter voltado quando prometera e ao prazer por falar francês durante toda a noite, prevalecendo sobre sua cautela habitual.
— Agora vou deixá-los com seus charutos e conhaque... e com suas histórias maliciosas!
— Fique mais um pouco — pediu Seratard. — André vai tocar para nós.
— Esta noite, não — apressou-se em dizer André. — Se não se importam, há alguns papéis que preciso preparar para amanhã. Sinto muito.
— Tudo pode esperar, o prazer antes dos negócios — insistiu Seratard, como uma ordem jovial. — Esta noite devemos ter música para arrematar o dia, alguma coisa romântica para Angelique.
— Deixe-o descansar um pouco, Henri — interveio ela, o vinho tornando suas faces rosadas, satisfeita porque André se mostrava obviamente ansioso em buscar o medicamento prometido. — Afastou-o dos seus negócios por tempo demais. Afinal, ele não é um dos seus funcionários.
— André adorará tocar para nós.
— Ah, André deve sempre obedecer, hem? Pois eu devo lhe ordenar, monsieur le ministre, que o dispense por esta vez... e a mim também, pois é hora de ir me deitar.
Angelique levantou-se, os joelhos um pouco bambos. Todos a cercaram protestando com veemência.
— Mas estarei aqui amanhã, e pelo menos por mais três dias. — Ela estendeu a mão para André, com um sorriso especial. — Pode se retirar agora. Eu lhe ordeno que cuide dos nossos interesses.
— Pode contar com isso, Angelique.
— Um último drinque...
Ela se permitiu ser persuadida a levar o copo, e depois todos a escoltaram até seus aposentos, para se certificarem de que as trancas nas janelas do boudoir e do quarto estavam bem seguras.
— Resolvemos trocar todas as venezianas desde a última vez em que esteve aqui — explicou Vervene, que já lhe dissera isso antes, os cabelos escassos desgrenhados, radiante e meio tonto. — Não bateram nem mesmo na tempestade da semana passada.
Todos os olhos notaram a camisola e o penhoar verdes, quase transparentes, estendidos na cama, arrumada de forma convidativa pela corpulenta criada, que observava a cena e esperava com expressão desaprovadora. Os lampiões a óleo projetando claridade tênue e criando bruma tornavam o quarto ainda mais sedutor, mais provocante.
Houve mais murmúrios de boa noite e sonhos felizes, com evidente relutância, e depois ela ficou a sós com Ah Soh, a porta para o corredor trancada. A criada despiu-a, escovou seus cabelos, guardou o vestido no armário, junto com suas outras roupas, a lingerie na arca de gavetas, enquanto Angelique cantarolava feliz, contente por se encontrar ali, a salvo para amanhã, exultante por estar sozinha, e porque o incêndio e o terremoto não haviam machucado ninguém nem interferido com seus planos; ao contrário, tornara-os ainda mais simples.
Promoverei a paz entre Malcolm e Jamie, é prejudicial o afastamento dos dois, pensou ela, exuberante, ainda com sede, mas dominada pela satisfação que o vinho proporcionava. Graças a Deus por André. Eu me pergunto como é a Yoshiwara e sua mulher. Vou encorajá-lo a me falar sobre ela, a fim de podermos rir juntos.
— Boa noite, miss.
Ah Soh se encaminhava a passos pesados para o divã no boudoir. A última vez em que dormira ali, mesmo com aporta do quarto fechada, seus roncos haviam sido ensurdecedores, deixando Angelique ainda mais transtornada.
— Não, Ah Soh, não precisa dormir aqui. Pode ir agora, e volte com o café da manhã, está bem?
A mulher deu de ombros.
— Boa noite, miss.
Angelique trancou a porta depois que a criada saiu e na luz aconchegante, sozinha, e finalmente em paz, girou indolente ao ritmo de uma valsa cantarolada. Um momento depois, seus ouvidos captaram os acordes abafados do piano. Ah, é Henri, concluiu ela, reconhecendo seu jeito de tocar. Ele é um bom pianista, melhor do que Vervene, mas não se compara a André. Chopin. Uma música suave, delicada, romântica.
Ela se balançou ao ritmo da adorável melodia, e depois viu seu reflexo no espelho alto. Contemplou-se por um instante, de um lado e de outro, depois levantou os seios, como costumava fazer quando ficava a sós com Colette, ajeitando-os de várias maneiras, para verificar se assim se tornavam mais ou menos desejáveis.
Um gole de champanhe, as borbulhas fazendo cócegas, a música e o álcool a acalentando. Um impulso súbito e excitado levou-a a deixar o penhoar cair, e depois levantou a camisola, mais e mais alto, admirando a imagem no espelho, as pernas e a virilha, os quadris e os seios, e depois a nudez total, posando de várias maneiras, usando a camisola arrepanhada para encobrir ou revelar.
Outro gole de champanhe. Depois, ela mergulhou um dedo no copo e levou o líquido aos mamilos endurecidos, como lera que as grandes cortesãs parisienses faziam, às vezes usando o Château d’Yquem doce ali, e também em outros lugares. É curioso que duas das mais famosas cortesãs no centro do mundo sejam inglesas.
Angelique riu para si mesma, arrebatada pela noite, a música e o vinho. Depois que eu tiver um ou dois filhos e completar vinte e um anos”; quando Malcolm tiver uma amante e eu me encontrar preparada para um amante especial, é o que farei... para o prazer dele e o meu, e antes disso para o de Malcolm.
Outro gole, mais outro, e ela acabou o champanhe, lambendo a última gota, lânguida, observando pelo espelho, a língua escorregando em torno do copo, brincando com o copo. Com outra risada, largou o copo na penteadeira, não notou quando caiu para o tapete, os ouvidos sintonizados apenas em Chopin, a atenção em suas paixões latentes — os olhos fixados no espelho, agora a imagem refletida mais próxima, numa intimidade despudorada.
Lentamente, Angelique inclinou-se para a frente, abaixou o pavio no lampião, as sombras se tornando mais suaves agora, e depois recuou um pouco, a pessoa no espelho ainda ali, fascinante, sensual. Os dedos entraram em movimento, como que dotados de vida própria, vagueando, acariciando, o coração disparado, palpitando com o prazer crescente. Os olhos fechados agora, imaginando Malcolm alto, forte e com um cheiro irresistível, levando-a para o quarto, estendendo-a sobre as cobertas, deitando com ela, também nu, seus dedos vagueando, acariciando.
Ori empurrara a porta do armário no outro cômodo, saíra sem fazer barulho, e agora se encontrava nas sombras profundas perto da porta entreaberta, observando-a, o coração ressoando em seus ouvidos. Fora fácil para ele esconder-se entre as caixas, vestidos e anáguas pendurados, mais fácil ainda recuar para fundo, a fim de se tornar invisível, quando a criada abrira o armário. Fora fácil também ouvir os últimos estalidos das trancas, e perceber quando Angelique ficara a sós.
Na semi-escuridão do quarto, ela estava deitada na cama, os olhos fechados um pequeno tremor percorrendo seu corpo de vez em quando, o rosto nas sombras’ o corpo em parte nas sombras, sombras que dançavam nos movimentos da pequena chama, agitada pelas correntes de ar. Sem fazer barulho, Ori saiu da escuridão para o limiar. Fechou a porta, com um estalido. A música distante abafou o ruído. Angelique abriu os olhos, focalizou, e avistou-o.
Algum sentido lhe disse que era ele — o assassino da Tokaidô, o pai da criança que nunca deveria nascer, que a violara, mas não deixara lembrança de dor ou estupro, apenas sonhos parcialmente eróticos, metade de sono, metade de vigília... e que ela se encontrava indefesa, e naquela noite seria assassinada.
Os dois mal respiravam. Imóveis. Esperando que o outro tomasse a iniciativa. Ainda em choque, Angelique contemplou sua juventude, não devia ser muito mais velho do que ela, um pouco mais alto, uma espada-faca embainhada na cintura, a mão direita no cabo, barba e cabelos curtos e bem aparados, ombros largos, quadris estreitos, camisa ordinária, calções largos, pernas musculosas, sandálias de camponês. O rosto na sombra.
É apenas outro sonho, com toda certeza, não precisa ter medo...
Aturdida, ela soergueu a cabeça, apoiou-a na mão, gesticulou para que ele se deslocasse para a luz.
Por um momento envolvido no mesmo estado de irrealidade e sonho, Ori obedeceu; quando ela viu as feições marcantes, tão diferentes, os olhos escuros cheios de anseio, abriu a boca para indagar quem é você, qual é o seu nome, mas ele pensou que seria um grito, e por isso saltou para a frente, em pânico, a lâmina se aproximando com violência da garganta de Angelique.
— Não, por favor — balbuciou ela, a cabeça descaindo para o travesseiro. Ao constatar que ele não a compreendia, sacudiu a cabeça, apavorada, cada parte de seu ser bradando em desespero. Você vai morrer, não há escapatória desta vez!
— Não... por favor...
O pavor deixou o rosto de Ori, que ficou imóvel, o coração trovejando tanto quanto o dela, depois levou um dedo aos lábios, advertindo-a a se manter em silêncio, a não se mexer.
— Iyé — sussurrou ele, a voz rouca, e acrescentou: — Não.
Uma gota de suor escorreu por seu rosto.
— Eu... não... não farei qualquer barulho — murmurou ela, o terror a confundindo.
Angelique puxou o lençol sobre a virilha. Ele arrancou-o no mesmo instante. O coração dela parou. Mas nesse segundo ela soube; um instinto primitivo na mente a impelira para um plano diferente e sentiu-se invadida por um conhecimento latente, recém-descoberto. Seu horror começou a se desvanecer. Vozes interiores pareciam sussurrar: Tome cuidado, podemos guiá-la. Observe seus olhos, não faça qualquer movimento brusco, primeiro a faca...
O coração batendo forte, Angelique observou os olhos do homem, levou um dedo aos lábios, como ele fizera, apontou para a lâmina, gesticulou para que a afastasse.
Ori era como uma mola presa, esperando que ela corresse para a porta a qualquer instante e gritasse; sabia que podia silenciá-la com a maior facilidade, mas isso não se enquadrava em seu plano. A mulher só deveria tentar fugir no momento em que ele assim quisesse, gritar para atrair o inimigo; quando isso acontecesse, ele a mataria e depois esperaria pela chegada dos homens, soltaria o brado de “Sonno-joi”, viraria a faca contra si mesmo e morreria, cuspindo em seus rostos. Era esse seu plano — um entre os muitos que cogitara: possuí-la como um desvairado e depois matá-la e a si mesmo, ou apenas matá-la de imediato, sem qualquer barulho, como já deveria ter feito antes, por mais que a desejasse agora, deixando os caracteres de Tokaidô nos lençóis, como antes, para em seguida escapar pela janela. Só que a mulher não estava reagindo como ele previra. Os olhos firmes, a mão gesticulando para que ele afastasse a faca, os olhos azuis da cor do céu indagando, não suplicando, a tensão evidente, mas sem qualquer terror agora. Um meio sorriso estranho. Por quê?
A lâmina não se movia.
Seja paciente, as vozes sussurraram para Angelique...
Ela tornou a gesticular para que o homem retirasse a ponta da lâmina, sem pressa, querendo dominá-lo. Os olhos de Ori se contraíram ainda mais. Com esforço, ele desviou os olhos, só para ser inexoravelmente atraído de volta. O que ela está planejando? Cauteloso, ele baixou a faca, esperou, pronto para atacar.
Estava de pé ao lado da cama. Lentamente, as mãos da mulher começaram a desabotoar sua camisa e pararam de repente. A cruz no pescoço de Ori faiscou à luz do lampião — sua cruz. A maneira súbita com que reencontrava milagrosamente uma coisa que julgara perdida para sempre deixou-a exultante; como se estivesse num sonho, observou seus dedos tocarem a cruz, tremendo um pouco, com uma insólita satisfação por constatar que ele passara a usá-la, uma parte dela a fazer parte do homem para sempre, assim como uma parte dele se enraizara nela. Mas nem mesmo a cruz, sua cruz, a desviou.
Com extremo cuidado, ela tirou-lhe a camisa, descendo pelo braço direito, por cima da faca, empunhada com firmeza, uma constante ameaça. O olhar intenso de Angelique correu por seu corpo, o ferimento no ombro, recém-cicatrizado, o corpo musculoso. E voltou ao ferimento.
— Tokaidô — murmurou ela, não uma pergunta, embora Ori a tomasse como tal.
— Hai — sussurrou ele, contemplando-a, esperando, sufocado de desejo. — Hai.
A cruz tomou a faiscar.
— Kanagawa?
Ele acenou com a cabeça, mal respirando, enfeitiçado, e Angelique sentiu-se contente por ter acertado logo de saída. Agora que o homem se encontrava quase nu, ela sentiu-se ainda mais segura do plano que aflorara em sua mente. Estendeu a mão, tocou no cinto, sempre fitando-o nos olhos, com um ligeiro tremor. Sentiu uma corrente percorrer seu corpo por essa vitória.
Não tenha medo, disseram as vozes. Continue...
Os dedos de Angelique encontraram a fivela. Abriram-na. O cinto caiu, a bainha da faca junto. O calção escorregou pelas pernas. Por baixo, ele usava uma tanga. Com tremendo esforço, Ori permaneceu imóvel, o corpo bem equilibrado sobre as duas pernas, um pouco entreabertas, todo o corpo vibrando com as batidas do coração, os olhos fixados nos da mulher.
Continue, sussurraram as vozes, não tenha medo...
Abruptamente, a imagem dele na teia, que incontáveis gerações de mulheres — indefesas na mesma armadilha masculina — ajudaram-na a tecer e fez com que sua determinação se elevasse de maneira inesperada, aguçando sua percepção, tornando-a integrada à noite, mas ao mesmo tempo apartada, capaz de observar a si mesma e a ele, os dedos soltando o cordão, para vê-lo sem qualquer adorno.
Angelique nunca vira um homem assim antes. A não ser pelo ferimento, ele não tinha qualquer imperfeição. Assim como ela.
Por mais um momento, Ori continuou a controlar seu desejo, mas depois a vontade desapareceu, ele jogou a faca na cama e cobriu-a. Mas ela se fechou como uma ostra, desviou-se, e Ori fez o mesmo, pegando a faca, antes que a mulher a alcançasse. Só que ela não tentou isso, apenas ficou estendida ali, observando-o se ajoelhar na cama, a lâmina erguida, outro falo apontando em sua direção.
No sonho acordado, Angelique balançou a cabeça, dizendo-lhe para largar a faca, esquecê-la, deitar ao seu lado.
— Não há pressa — murmurou ela, sabendo que ele não compreenderia as palavras, apenas os gestos. — Deite aqui.
E mostrou-lhe onde.
— Não, seja gentil. — Ela mostrou como. — Beije-me... não, não assim, com tanta brutalidade... mais delicado...
Angelique mostrou tudo o que queria, e também o que ele queria, avançando, recuando, os dois se tornando muito excitados e, depois, quando finalmente se uniram, ela implodiu para levá-lo sobre a crista e aos dois para o abismo.
Quando os ofegos diminuíram e seus ouvidos puderam escutar, a música ainda soava, mas distante. Nenhum som de perigo, apenas os ofegos do homem acompanhando os seus, o corpo leve se adaptando com perfeição. E pertencendo. Era o que ela não podia entender — como ou por que o homem parecia pertencer. Ou como e por que ela se sentira tão emocionada ou consumida por tamanho êxtase. Ele começou a se afastar.
Não, as vozes apressaram-se em dizer, não o deixe sair, tome cuidado, o perigo ainda não terminou, persista no plano...
E por isso ela apertou-o em seus braços.
Dormiram por cerca de uma hora. Quando Angelique despertou, ele dormia ao seu lado, a respiração suave, o rosto jovem imperturbável, a mão direita segurando o cabo da faca, a esquerda tocando a cruz que usava com a maior descontração.
Foi meu primeiro presente, disse mamãe, logo no meu primeiro dia de vida, tendo usado desde então, apenas a corrente mudando. É dele agora ou meu... ou nosso?
O homem abriu os olhos e ela estremeceu.
Por um momento, Ori não soube direito onde se encontrava, ou se era um sonho, mas depois a viu, ainda linda, ainda desejável, ainda ao seu lado, com aquele estranho meio sorriso, envolvendo-o por completo. Encantado, estendeu a mão para ela, que reagiu, e se uniram outra vez, mas agora sem raiva ou pressa. Apenas querendo prolongar.
Depois, mal desperto, Ori teve vontade de lhe dizer como fora intenso o momento das nuvens e chuva, o quanto a admirava e era grato... atormentado por uma profunda tristeza por ter que encerrar sua vida, esta vida. Mas não triste por sua própria morte ser iminente. Agora, por causa da mulher, morreria realizado, a morte dela consagrando a causa justa de Sonno-joi.
Ah, pensou ele, com súbita satisfação, em troca de tal dádiva, talvez uma dádiva igual, um presente de samurai, uma morte de samurai: sem gritos nem terror, um momento viva, no outro morta. Por que não?
Em paz total, a mão na faca desembainhada, ele se permitiu mergulhar num sono sem sonhos.
Os dedos de Angelique o tocaram. No mesmo instante ele despertou, em guarda, a mão no cabo da faca. Viu-a gesticular para a janela com cortina e levar um dedo aos lábios. Um assovio lá fora se aproximava. O som passou pela janela e se afastou.
Ela suspirou, aconchegou-se contra Ori, beijou-o no peito e depois, parecendo muito feliz, apontou para o relógio na cômoda, que marcava 4:16 h, outra vez para a janela. Saiu da cama e fê-lo compreender, através de sinais, que deveria se vestir, partir agora, para voltar com a noite, pois a janela estaria destrancada. Ori balançou a cabeça, fingindo provocá-la, e ela voltou apressada, as sombras e a visão de seu corpo proporcionando a ele intensa satisfação. Angelique ajoelhou-se ao lado da cama e sussurrou, suplicante:
— Por favor... por favor...
Ori sentiu profunda exultação. Nunca antes, em toda a sua vida, vira tal expressão no rosto de uma mulher, uma paixão tão grande, além de sua compreensão — não havia palavra para amor em japonês. Dominou-o por completo, mas não o desviou de sua decisão.
Seria fácil fingir concordar, indicar que partiria agora e voltaria ao anoitecer.
Enquanto ele se vestia, Angelique permaneceu bem perto, ajudando-o, relutante em deixá-lo se retirar, querendo que ficasse, protetora. Com um dedo nos lábios quase infantil, ela entreabriu a cortina, abriu a janela, sem fazer barulho, esquadrinhou lá fora.
O ar era fresco. Uma insinuação do amanhecer. O céu salpicado de nuvens O mar calmo, sem qualquer som ou sinal de perigo, apenas o suspiro das ondas na praia de areia. Ao longo da High Street, apenas filetes de fumaça restavam dos incêndios. Ninguém por perto, a colônia se encontrava em paz, adormecida.
Ori parou logo atrás da mulher e compreendeu que aquele era o momento perfeito. Sua mão apertou o cabo da faca, as articulações esbranquiçadas. Mas não desfechou o golpe, pois ela se virou com tanta ternura e preocupação que sua determinação se desvaneceu, além do fato de ainda se sentir obcecado pelo desejo. Ela beijou-o, tornou a se inclinar na janela, olhou para um lado e outro, a fim de se certificar de que não havia ninguém por perto.
— Ainda não — murmurou ela, ansiosa, fazendo-o esperar, seu braço enlaçando-o pela cintura.
E quando teve certeza, Angelique tornou a se virar, beijou-o mais uma vez, e depois fez-lhe um sinal para que se apressasse. Ele passou sobre o peitoril, em silêncio; no momento em que se afastava pelo jardim, ela fechou e trancou a janela e seus gritos ressoaram pela noite!
— Socorro! Socorro!
Ori ficou paralisado. Mas apenas por um instante. Tremendo de raiva, bateu nas janelas, os gritos incessantes da mulher e a certeza de que fora enganado o deixando transtornado. Dedos agora transformados em garras arrancaram uma veneziana, estavam prestes a abrir a janela. Foi nesse segundo que um dos soldados franceses de sentinela surgiu da esquina no canto do prédio, o rifle erguido, pronto para disparar. Ori viu-o e foi mais rápido, sacou a pistola, puxou o gatilho, mas errou os dois tiros, pois nunca antes disparara uma arma de fogo, as balas ricocheteando na parede e se perdendo na noite.
O soldado não errou na primeira vez, nem na segunda, nem na terceira. Dentro do quarto, Angelique se encolheu toda, com as mãos nos ouvidos, exultante, angustiada, sem saber o que pensar, o que fazer, se ria ou chorava, certa apenas de que vencera, e que agora estava segura e vingada, com as vozes interiores se regozijando durante todo o tempo: Você triunfou, agiu muito bem, foi maravilhosa, executou o plano com perfeição, agora se tornou a salvo daquele homem para sempre!
— Será mesmo? — balbuciou ela.
Claro que sim, está sã e salva, ele morreu, é verdade que há sempre um preço, mas não se preocupe, não tenha medo...
Que preço? O que... Oh, Deus, esqueci a cruz! Ele ainda está com a minha cruz!
Em meio ao crescente tumulto lá fora, com batidas cada vez mais fortes em sua porta, ela começou a tremer. Incontrolável.
Sexta-feira, 7 de novembro:
À tarde, a fragata H.M.S. Pearl voltou de Iedo, com todas as velas içadas, e seguiu para o seu ancoradouro habitual, na movimentada enseada de Iocoama. A bandeira de Sir William se encontrava hasteada no mastro principal. Outras bandeiras pediam a vinda imediata de seu cúter respectivo, mas eram desnecessárias, porque o barco já o esperava no mar, com o cúter a vapor da Struan ao lado... e Jamie impaciente na proa. Todos na praia que avistaram a Pearl ficaram observando, a fim de conferir se seu comandante se encontrava à altura do ímpeto arrogante da embarcação, o vento irregular e a velocidade sob as velas tornando a manobra arriscada. A proa levantava uma onda alta, no mar ondulado. No último segundo, a Pearl virou contra o vento e parou, tremendo toda, o gurupés por cima da bóia a sotavento. No mesmo instante, marujos em uniformes impecáveis lançaram os cabos de amarra sobre os postes de amarração, segurando a fragata, enquanto outros se empenhavam em ferrar as velas. Nada mau, pensou Jamie, orgulhoso, para depois gritar:
— Para a frente, a toda velocidade! Vamos encostar! — Ele queria ser o primeiro a interceptar Sir William, como Malcolm ordenara. — Depressa, Tinker, pelo amor de Deus!
— Sim, senhor!
Tinker, o timoneiro da Struan, ofereceu um sorriso radiante e desdentado, já prevendo a ordem, e aumentou a velocidade. Era um veterano, tatuado, de rabicho grisalho, antigo contramestre de um dos clíperes da companhia. Ao passar pelo cúter de oito remos de Sir William, para desolação de seus tripulantes, Tinker cuspiu a seiva de tabaco no mar e lhes mostrou um dedo, num gesto jovial, antes de ocupar a vaga no costado da fragata. Jamie subiu pela escada. No convés principal, levantou a cartola para o oficial de serviço ali, um guarda-marinha imberbe.
— Permissão para subir a bordo. Mensagem para Sir William. O guarda-marinha bateu continência.
— Pois não, senhor.
— O que foi, Jamie? Qual o problema agora? — gritou Sir William da ponta de comando, com Phillip Tyrer e o capitão Marlowe ao seu lado.
— Desculpe, senhor, mas a colônia se encontra no maior tumulto, e o Sr. Struan achou que eu devia lhe fazer um relato dos acontecimentos.
— Pode usar meu camarote, Sir William — sugeriu Marlowe.
— Obrigado. É melhor você vir também, já que é “o almirante no comando de nossa defesa naval”, mesmo que em caráter temporário.
Marlowe riu.
— Eu bem que poderia aproveitar o salário, senhor, se não também o posto mesmo que em caráter temporário.
— É o que todos nós gostaríamos. Venha também, Phillip.
Eles seguiram-no, Marlowe por último. Antes de deixar a ponte de comando, Marlowe chamou seu imediato e ordenou:
— Quero a casa de máquinas pronta para uma partida súbita, todos os canhões limpos, oleados e preparados, a tripulação pronta para assumir os postos de combate.
Foram sentar no camarote pequeno e austero, com um beliche, banheiro particular e uma mesa de cartas.
— O que houve, Jamie?
— Primeiro, Sir William, o tai-pan e todos os outros mercadores querem lhe dar os parabéns por uma reunião bem-sucedida.
— Obrigado. Qual é o problema?
— No início desta manhã, um japa tentou entrar no quarto de Angelique, na legação francesa, e foi morto pelas sentinelas. O Dr. Hoag e o Dr. Babcott...
— Deus Todo-Poderoso, ela ficou ferida?
Para alívio de todos, Jamie sacudiu a cabeça.
— Não, senhor. Ela diz que ouviu-o mexendo na janela e desatou a gritar...
— E havia alguém ali, como na última vez! — exclamou Tyrer. — Não era apenas o vento sacudindo a janela!
— É o que nos sentimos propensos a pensar — disse Jamie. — Babcott e Hoag foram chamados... ela se encontrava em estado de choque, não ferida, como já ressaltei, mas não parava de tremer. Os dois deram uma olhada no morto, e Hoag confirmou sem hesitação que era o mesmo homem que operara em Kanagawa...
Phillip Tyrer soltou um murmúrio de espanto, e Marlowe fitou-o, enquanto Jamie continuava:
—... e desconfiamos ter sido um dos assassinos de Canterbury, o mesmo que pode ter aparecido em nossa legação em Kanagawa, e que o capitão Marlowe e Pallidar tentaram capturar.
— Essa não! — Sir William olhou para Tyrer, que empalidecera. — Será que pode identificá-lo, Phillip?
— Não sei... acho que não. Talvez Malcolm possa, mas não tenho certeza.
A mente de Sir William já se projetara além do fato: Se é o mesmo nome então é provável que os dois assassinos estejam mortos; e como isso afeta nossa exigência de indenização?
— Na legação francesa, hem? É espantoso que tenham morto o patife, a segurança deles é abominável, e a mira dos soldados, ainda pior. Mas por que o homem foi até lá? Estava atrás de Angelique ou de quê?
— Não temos a menor idéia, senhor. Também descobrimos que era católico... ou pelo menos usava uma cruz. O que...
— Isso é muito estranho. Mas... espere um pouco. Angelique estava lá? Pensei que ela havia retornado ao prédio da Struan.
— E tinha, mas seus aposentos foram atingidos pelo fogo. Esqueci de mencionar, senhor, que depois do terremoto tivemos um pequeno incêndio, o que também aconteceu com Norbert. A...
— Alguém saiu ferido?
— Não, senhor, graças a Deus, nem em qualquer outra parte da colônia, pelo que sabemos. Os franceses ofereceram-lhe acomodações, mas...
— Malcolm Struan também se hospedou lá?
Jamie suspirou pelas contínuas interrupções.
— Não, senhor. Ele ficou em nosso prédio.
— Neste caso, vocês não devem ter sofrido grandes danos.
— Não, senhor, felizmente. Também não houve grandes danos no resto da colônia, embora Norbert tenha perdido quase todo o seu andar superior.
— O que deve tê-lo deixado satisfeito. Muito bem, a moça nada sofreu e o atacante morreu; qual o motivo da confusão?
— É o que estou tentando explicar, senhor.— Jamie passou a falar depressa, recusando-se a permitir desta vez que Sir William o interrompesse com qualquer pergunta. — Alguns idiotas na cidade dos bêbados, ajudados, lamento dizê-lo, por alguns dos nossos mais estúpidos mercadores, concluíram que todos os japoneses na aldeia eram responsáveis, e há cerca de duas horas formou-se uma turba que começou a surrar todos os que conseguiam encontrar, o que atraiu os samurais, furiosos. Os soldados e pessoal da marinha os confrontaram, e agora nos encontramos num impasse, os dois lados armados, reforçados, tornando-se mais ameaçadores a cada minuto, com a presença de uma parte de nossa cavalaria, o general no comando, ansioso em dar a ordem para uma carga, como a da brigada ligeira em Balaclava.
Mas que idiota! — pensou Sir William.
— Vou desembarcar imediatamente.
— Mandarei um destacamento de fuzileiros acompanhá-lo, senhor — anunciou Marlowe. — Ordenança!
A porta do camarote foi aberta no mesmo instante.
— Pois não, senhor?
— Quero o capitão dos fuzileiros e um destacamento de dez homens, com um sinaleiro, no convés principal o mais depressa possível! — Para Jamie, Marlowe acrescentou: — Qual é o local exato da confusão?
— Na extremidade sul da aldeia, perto da terra de ninguém.
— Sir William, ficarei de prontidão, perto do local. Qualquer problema, use meu sinaleiro, e poderá dispor de uma barragem de artilharia.
— Obrigado, mas duvido que venha a precisar de apoio naval.
Jamie interveio:
— Outro problema é...
— Conte-me quando estivermos no cúter. — Sir William já se encaminhava para o convés principal. — Seguiremos no seu, que é mais rápido. Vamos para o atracadouro na cidade dos bêbados.
Momentos depois, o cúter da Struan deslizava pela enseada a toda velocidade os fuzileiros agrupados na popa, Sir William, Jamie e Tyrer em relativo conforto na cabine no meio da embarcação.
— E agora, Jamie, pode me dizer qual é o outro problema?
— É o não tão domado samurai do Sr. Tyrer, Nakama. — Jamie lançou um olhar rápido para Phillip. — Parte da turba o atacou, mas ele conseguiu se desvencilhar, pegou espadas e revidou, cortando um dos bêbados, um australiano, embora sem maior gravidade, e teria matado os outros, se não fugissem. Alguns pegaram armas de fogo, voltaram correndo e quase o liquidaram. Ele se refugiou num armazém na aldeia, creio que em companhia de outros samurais... e há uma dúzia ou mais de maníacos cercando o lugar, dispostos a linchá-lo.
Sir William se mostrou aturdido.
— Um linchamento? Na minha jurisdição?
— Isso mesmo, senhor. Tentei persuadi-los a deixarem Nakama em paz, mas eles me mandaram embora. A culpa inicial não foi de Nakama, Sir William, posso garantir. Eu o vi na High Street sem ameaçar ninguém.
— Ainda bem — murmurou Sir William, a voz tensa. — Por sorte, temos uma lei para os ricos que também vale para os pobres e para todas as pessoas sob a nossa proteção. Se ele for linchado, lincharemos os linchadores. Estou cansado da cidade dos bêbados e dos absurdos da ralé que vive ali. Até recebermos um destacamento de peelers de Londres, vamos formar nossa própria força policial. Serei o chefe. Jamie, você é o subchefe de polícia temporário, com Norbert como o outro subchefe... também temporário.
— De jeito nenhum, Sir Wi...
— Então será Norbert sozinho — disse Sir William, suavemente.
— Está bem, está bem — murmurou Jamie, insatisfeito, sabendo que a tarefa seria das mais ingratas. — Norbert, hem? Já ouviu falar do problema entre Norbert e o tai-panl
— O que houve com eles?
Jamie relatou a briga e o desafio.
— Estão apostando cinco contra um como em qualquer madrugada os dois vão se esgueirar para um lugar isolado e um deles acabará morto.
Sir William ergueu o olhar e comentou, cansado:
— Passo três dias fora, e os problemas logo se acumulam. — Ele pensou por um momento. — Phillip, ordene aos dois que compareçam ao meu escritório amanhã de manhã, na primeira hora.
A voz mudou, e os outros dois homens estremeceram ao veneno que exalava quando ele acrescentou:
— Aconselhe aos dois, de antemão, que é melhor se mostrarem sensatos e dóceis e aceitarem minha gentil homilia. Timoneiro! Vamos mais depressa, pelo amor de Deus!
— Sim senhor...
— Trouxe minha mala, Phillip?
— Trouxe, senhor.
Tyrer agradeceu a Deus por ter se lembrado.
Hiraga espiava por uma fresta da porta-barricada do armazém do shoya, observando os homens furiosos, aos gritos, armados com pistolas e mosquetes. O suor escorria pelo seu rosto. Sentia-se sufocado de raiva, e também com algum medo, embora o ocultasse dos outros. O sangue de um ferimento ligeiro nas costas manchava a camisa... tirara a sobrecasaca ao correr para o prédio, em busca de suas espadas. O shoya se encontrava ao seu lado, bastante nervoso, desarmado, exceto por um arpão de pesca... só os samurais podiam carregar armas, sob pena de morte.
Ali estava também um ashigaru de cabeça branca, um infante, que olhava para Hiraga com respeito e confusão: respeito por sua capacidade de lutar e porque se tratava, sem dúvida, de um shishi; confusão porque ele usava roupas de gai-jin, tinha os cabelos compridos como os deles, parecia viver na colônia, e mesmo assim estivesse sujeito àqueles ataques injustificados.
Os nojentos gai-jin, pensou ele, como se uma tentativa de assalto fracassada, por parte de um ronin maluco, tivesse alguma importância... era evidente que o homem não passava de um ronin ladrão, não estava atrás da moça, pois nenhum homem civilizado poderia querer uma mulher assim. O tolo fora morto com toda razão, por sua impertinência, e ninguém mais saíra ferido; assim sendo, por que tanta violência? Os gai-jin são doidos!
— Há alguma saída pelos fundos? — indagou ele.
O shoya sacudiu a cabeça, muito pálido. Era a primeira vez que ocorria ali um grande distúrbio, com tantos gai-jin ameaçando violência. E ele se encontrava diretamente envolvido; afinal, não dera abrigo àquele shishi? Até mesmo o ronin doido estivera em sua casa, e ele não os denunciara, como tinha a obrigação de fazer... e não apenas ele, mas também todo e qualquer estranho?
— É inevitável uma investigação do Bakufu — lamentara sua esposa, uma hora antes. — Seremos chamados para depor. Os vigilantes continuam na casa da guarda. Perderemos tudo, inclusive nossas cabeças, Namu Amida Butsu.
Ela e a filha mais velha faziam compras no mercado de legumes quando os primeiros homens da turba apareceram na aldeia, gritando ameaças, derrubando cestos, empurrando e agredindo todos os japoneses, que correram para suas casas em pânico.
— Lamento muito, Sire — conseguiu balbuciar o shoya. — Estamos cercados... há mais gai-jin nos fundos.
Além da dúzia ou mais de homens lá fora, confrontando-os, quase todos os habitantes da colônia se agrupavam nos dois lados da terra de ninguém. A maioria começara como espectadora de uma possível briga, mas agora muitos haviam sido pressionados a participar da violência por um núcleo de agitadores querendo vingança. Por trás daqueles que estavam na rua da aldeia havia vinte samurais da guarnição do portão norte. Na frente, postavam-se os guardas do portão sul. Nenhum dos samurais desembainhara suas espadas até agora, mas todos mantinham as mãos nos cabos, liderados pelos oficiais. O mesmo acontecia com os soldados que os confrontavam, os rifles de prontidão, a dúzia de cavalarianos e seus cavalos, esperando pelas ordens, o general ali perto... todos confiantes e ansiosos por um combate.
Mais uma vez, o oficial japonês mais graduado gritou, por cima do clamor, para os gai-jin se dispersarem, e mais uma vez o general gritou arrogante — com um subsequente clamor de aprovação — para que os samurais se dispersassem, nenhum dos lados compreendendo o outro, nem querendo compreender.
Hiraga mal podia ouvir o general entre os gritos de um lado e outro. Tolo, pensou ele, fervendo de raiva, mas não tão tolo quanto o louco do Ori. Ainda bem que ele morreu! Uma estupidez fazer o que ele fez, sem conseguir nada, apenas criar uma encrenca, uma estupidez total! Eu deveria tê-lo matado no momento em que o surpreendi usando a cruz daquela mulher... ou no túnel.
No momento em que os gritos de alerta da mulher romperam o silêncio da noite, seguidos pelos disparos de rifle, ele e Akimoto se encontravam agachados na aldeia, perto do prédio da Struan, à espera de Ori, na expectativa de interceptá-lo... não haviam visto Angelique ir para a legação, por isso presumiam que ele se encontrava em algum lugar por ali, talvez mesmo dentro do quartel-general da companhia.
Na confusão subsequente, juntaram-se à crescente massa de homens semidespidos que convergiam para a legação, camuflados pelas roupas e gorros de trabalhador.
Em choque, Hiraga e Akimoto viram a chegada dos dois médicos e, pouco depois, o corpo de Ori ser arrastado para fora. No mesmo instante, Hiraga gesticulara para Akimoto e os dois se esgueiraram pela noite, bastante nervosos. Ao chegarem ao esconderijo na aldeia, Hiraga dissera:
— Que Ori renasça como um sórdido gai-jin e não como samurai! Foi como atiçar um ninho de vespas. Volte para a Yoshiwara o mais depressa possível, trate de se esconder no túnel e espere ali, até eu mandar um recado ou for procurá-lo.
— E você?
— Sou um deles — murmurara Hiraga, com um sorriso irônico. — Tyrer é meu protetor, assim como o líder dos gai-jin, e por isso todos sabem que sou seguro.
Mas eu estava enganado, pensou ele agora, amargurado, o ânimo dos homens lá fora se tornando cada vez mais agressivo.
Duas horas antes, no momento em que a fragata Pearl fora avistada no horizonte, ele deixara a aldeia, subira pela High Street, a caminho da legação britânica, com toda uma lista de traduções de frases que Tyrer lhe pedira para fazer, durante sua ausência. Estava absorto em seus pensamentos, mais do que um pouco ansioso em ouvir as notícias sobre a reunião em Iedo, quando rostos furiosos de gai-jin o arrancaram de seus devaneios.
— É o japa de Tyrer...
— Ele não é samurai...
— Ei, macaco, você é um samurai...
— Ele parece com aquele outro patife...
— É verdade... os cabelos do mesmo jeito...
— Vamos dar uma lição em todos vocês para não se meterem com nossas mulheres...
Sem aviso, alguém o empurrara pelas costas, derrubando-o, a cartola rolara pela rua, fora pisoteada na lama, sob gargalhadas estrondosas, e outros homens se puseram a chutá-la, esbarrando uns nos outros na precipitação. Isso lhe proporcionara uma folga, permitindo que usasse seu físico superior e juventude para se levantar, romper a barreira de atacantes e escapar, perseguido pelos gai-jin.
Descera pela viela ao lado do prédio da Struan, alcançara a área da aldeia, enquanto os guardas samurais vinham correndo dos dois portões, para verificar o que estava acontecendo. Mais homens bloqueavam o acesso ao esconderijo em que escondera a pistola, por isso Hiraga correra para o armazém do shoya, pegara espadas inadequadas e se virara para resistir ao ataque. Sua carga furiosa surpreendera os agressores, dispersando-os, três caíram, um deles ferido, e os outros trataram de escapar. Em algum ponto da rua, um homem disparara um mosquete, a bala passando inofensiva, e mais homens com armas de fogo se agruparam. Em meio à confusão de samurais e gai-jin, ele e o ashigaru haviam conseguido se refugiar no armazém.
Agora, os três se abaixaram de repente, quando uma bala foi espatifar um vaso ornamentado. Nos fundos da casa, uma criança choramingou, apenas para ser silenciada imediatamente.
Lá fora, os gritos aumentaram. Lunkchurch, violento, sob os efeitos do conhaque que sempre tomava à tarde, berrou:
— Vamos tacar fogo... queimar os desgraçados...
— Você perdeu o juízo? Toda Yokopoko pode pegar fo...
— Vamos queimá-los, por Deus! Quem tem um fósforo?
Assim que o cúter da Struan encostou no cais da cidade dos bêbados, todos desembarcaram apressados e correram para a praça, com os fuzileiros à frente.
Avistaram as costas dos samurais que confrontavam aquela parte da turba. No mesmo instante, o capitão pôs seu plano em execução. A uma ordem sua, os homens formaram uma cunha, os rifles de prontidão, e avançaram pelo espaço entre os dois lados. Viraram-se para encarar os habitantes da cidade dos bêbados que recuaram e se dividiram em dois grupos, ainda aos gritos, mas agora um pouco alarmados. Tyrer correu para a frente dos samurais, que também se mostravam alarmados com o súbito aparecimento dos soldados disciplinados, fez uma reverência e gritou, em japonês:
— Por favor, senhor oficial, todos os homens ficar aqui, seguros. Por favor saúdem meu superior, lorde dos gai-jin.
Numa reação automática, o perplexo samurai retribuiu a reverência de Tyrer. No momento em que se empertigava, Sir William, afogueado da corrida a que não estava acostumado, parou por um instante e fitou o samurai. Tyrer tornou-se a se inclinar para o homem e gritou:
— Saúdem!
O oficial e todos os seus homens fizeram uma reverência. Sir William retribuiu. Os samurais voltaram a se controlar.
Sir William virou-se, aproximou-se dos fuzileiros, que ganhavam terreno empurrando para trás, com seus fuzis, os homens mais adiantados.
— Saiam daqui! Recuem... recuem! — berrava o jovem capitão, a adrenalina sendo injetada na circulação.
Ele se encontrava logo atrás de seus homens, e ao constatar que a ordem não era cumprida com a presteza que desejava, gritou:
— CALAR BAIONETAS!
Os fuzileiros recuaram dois passos, fixaram as baionetas, apontaram-nas para a multidão, cada fuzileiro escolhendo um alvo, cada um se tornando uma engrenagem de uma máquina de matar, que era famosa e temida no mundo inteiro.
— PREPARAR A CARGA!
Sir William, Tyrer e McFay pararam de respirar. Assim como todos os outros. Silêncio imediato. No instante seguinte, o espírito maligno que existe em todas as turbas se dissipou e os homens ali se transformaram numa ralé assustada, que tratou de se dispersar e fugir em todas as direções. O capitão não esperou nem um segundo.
— Portar fuzis e me sigam!
Ele conduziu seus homens em marcha acelerada para a aldeia, onde a maioria dos mercadores, soldados, uma dúzia de cavalarianos e samurais se concentrava, todos ainda alheios à presença de Sir William e seus fuzileiros. Mais uma vez, a cunha se formou, mas quando se aproximaram por trás da massa aos berros ouviram o general gritar:
— Pela última vez, ordeno que se dispersem ou vou expulsá-los...
O resto das palavras foi abafado por um rugido da multidão, prestes a explodir. O capitão decidiu que não havia tempo a perder.
— Alto! Uma rajada por cima das cabeças! FOGO!
A rajada prevaleceu sobre o barulho e a fúria e atraiu atenção imediata, até mesmo dos despreparados cavalarianos. Todos se abaixaram ou se viraram. Sir William, em silêncio, vermelho de raiva, avançou pelo espaço entre os dois lados. Mais adiante, Lunkchurch e seus companheiros ficaram paralisados. Ele tinha na mão um segundo trapo em chamas, pronto para arremessá-lo, o primeiro já tendo caído na varanda, junto à parede de madeira, o fogo se espalhando. Ao avistarem Sir William e os fuzileiros, desapareceram pelas ruas transversais, correndo desordenados para suas casas. Todos os outros olhos fixaram-se em Sir William. Ele ajeitou a cartola na cabeça, tirou um papel do bolso e disse, em voz áspera:
— Vou ler para vocês a Lei do Motim de sua majestade: se esta assembléia não se dispersar imediatamente, todos os homens, mulheres e crianças estão sujeitos à prisão e...
As palavras seguintes se perderam sob os resmungos e imprecações gerais, mas a turba começou a se dispersar.
A Lei do Motim de 1715 fora promulgada pelo Parlamento depois da rebelião jacobita, que só fora contida e sufocada por uma ação implacável. A nova lei visava a deter qualquer dissidência não autorizada na fonte. Concedia a todos os magistrados e juizes de paz o direito e o dever de ler os termos da lei para qualquer grupo de mais de doze pessoas consideradas uma ameaça à paz no reino, cabendo aos amotinados apenas ouvir e obedecer. Quem não se dispersasse num prazo de quarenta e cinco minutos ficava sujeito à detenção imediata, encarceramento e, se provada a culpa, pena de morte ou o banimento pelo resto da vida, a critério de sua majestade.
Não houve necessidade de Sir William concluir a leitura. A rua da aldeia se esvaziou, exceto pelos soldados, o general e os samurais.
— Phillip, vá falar com eles, diga-lhes para voltarem para suas casas, por favor.
Ele observou por um momento, enquanto Tyrer se adiantava, fazia uma reverência para o oficial dos samurais, que retribuiu. É um bom rapaz, pensou Sir William, antes de se virar com os olhos frios para o general, afogueado e suando.
— Bom dia, Thomas.
— Bom dia, senhor.
O general bateu continência. Com firmeza... mas apenas por causa dos soldados ao seu redor. Sir William não levantou a cartola em resposta. Palhaço estúpido, pensou ele.
— Um dia agradável, não? — disse ele, jovial. — Sugiro que dispense seus homens.
O general gesticulou para o oficial de cavalaria que, em segredo, se sentia mais do que um pouco satisfeito pela chegada de Sir William naquele momento, sabendo muito bem que a culpa não era dos japoneses e que já deveria ter partido com a sua tropa atrás da turba. Um bando de patifes indisciplinados e turbulentos, pensou o oficial.
— Sargento! — gritou ele.— Leve todos os homens de volta ao acampamento e dispense-os! Agora!
Os soldados começaram a se afastar. Tyrer fez uma última mesura para o oficial dos samurais, bastante satisfeito consigo mesmo, e depois observou-os subirem pela rua, na direção do portão norte.
— Um bom trabalho, Phillip — comentou Jamie McFay.
— Acha mesmo? — murmurou Tyrer, simulando modéstia. — Não foi grande coisa.
Jamie McFay soltou um grunhido. Estava suando, o coração batia forte convencido até um instante atrás que era inevitável que alguém disparasse um tiro ou desembainhasse uma espada.
— Foi por pouco. — Ele olhou para Sir William, absorvido numa conversa particular com o general, agora ainda mais velho, e acrescentou, em voz baixa, com um sorriso: — Wee Willie está passando uma descompostura nele. O idiota bem que merece a lição.
— Ele é... — Tyrer parou de falar, sua atração atraída para um ponto acima da rua. Samurais corriam para um armazém em chamas no lado leste. — Por Deus, é a casa do shoya!
Tyrer saiu em disparada, com McFay em seus calcanhares. Vários samurais haviam subido para a varanda, batendo com os pés nas chamas, enquanto outros corriam para os enormes barris com água, cercados por baldes, mantidos a intervalos por toda parte, para aquelas emergências. Quando Tyrer e McFay alcançaram o local, o incêndio já se encontrava sob controle. Mais meia dúzia de baldes, e as últimas chamas chiaram e morreram. A parede externa do armazém fora destruída. Lá dentro, viram o shoya, tendo a seu lado um ashigaru, um infante. Os dois saíram para a varanda. O shoya ajoelhou-se e fez uma reverência, o ashigaru apenas inclinou a cabeça. Ambos murmuraram agradecimentos. Para espanto de McFay, não havia sinal de Hiraga, o homem que ele e Tyrer conheciam apenas como Nakama. Mas antes que qualquer dos dois pudesse falar, o oficial samurai já começara a interrogar o shoya e o infante.
— Como o fogo começou?
— Um estrangeiro jogou um pano em chamas na parede, senhor.
— Merda de cão, todos eles! Quero que faça um relatório, explicando a causa deste distúrbio. Até amanhã, shoya.
— Pois não, senhor.
O oficial, de rosto bexiguento, trinta e tantos anos, esquadrinhou o armazém.
— Onde está o outro homem?
— Como, senhor?
— O outro homem, o japonês que foi perseguido até aqui pelos gai-jin? —explicou ele, irritado. — Responda logo!
O ashigaru fez uma vênia polida.
— Desculpe, senhor, mas não havia mais ninguém aqui.
— Eu vi quando ele correu para cá... empunhando espadas! — Ele virou-se para os seus homens. — Quem o viu?
Todos o fitaram, apreensivos, sacudiram a cabeça. O rosto do oficial se avermelhou.
— Revistem o armazém!
A busca foi meticulosa, mas produziu apenas a família e os criados do shoya, que se ajoelharam para fazer uma reverência e permaneceram de joelhos. Todos negaram ter visto mais alguém. Um momento de silêncio; depois, Tyrer e McFay ficaram aturdidos ao ver o oficial perder a calma e desatar a vociferar.
Estóicos, o ashigaru e todos os soldados permaneceram em posição de sentido, rígidos, os aldeões de joelhos, a cabeça encostada no chão, tremendo sob as invectivas. Sem aviso, o oficial se adiantou e acertou um tapa com o dorso da mão no ashigaru. O homem permaneceu tão impassível quanto podia sob a chuva de golpes e insultos. A uma ordem estridente do oficial, o shoya levantou-se e permaneceu imóvel, enquanto o homem, frenético, o agredia no rosto, várias vezes, com extrema crueldade, as mulheres e crianças tentando não estremecer a cada golpe.
Tão subitamente quanto haviam começado, os golpes cessaram. Os dois homens fizeram reverências profundas, os rostos agora com as marcas dos tapas. O shoya tornou a se ajoelhar. Formalmente o oficial retribuiu, todos os vestígios de sua ira desaparecidos. Seus homens entraram em formação, e ele os conduziu para o portão norte, como se nada tivesse acontecido. Tyrer e McFay observaram os samurais se afastando, confusos. Um momento mais tarde, quando era correto fazê-lo, o shoya tornou a se levantar, acompanhado pelas mulheres e crianças. Entraram na casa e ele logo começou a supervisionar os reparos na parede. A atividade na aldeia foi reiniciada.
— Mas o que foi isso? — indagou McFay.
— Não sei — respondeu Tyrer, ambos chocados pela brutalidade e sua aceitação impassível. — Só entendi uma ou outra palavra... acho que tinha alguma coisa a ver com Nakama, todos disseram que ele nunca esteve aqui.
— É impossível... tenho certeza de que ele se encontra aí dentro. Eu mesmo vi quando entrou. — McFay enxugou o suor da testa. — Mas por que suportar a agressão daquele desgraçado? O homem é um lunático. Repare neles agora, agindo como se nada tivesse acontecido. Por quê?
— Não sei... talvez Nakama possa explicar. — Tyrer estremeceu.— Mas uma coisa posso garantir: eu não gostaria de ficar sob o poder dessa gente. Nunca.
— Olá, Angel. Como você está?
— Olá, querido. Eu me sinto melhor agora, obrigada.
Angelique exibiu um sorriso desolado, enquanto Struan entrava e fechava a Porta. Ela se encontrava apoiada em travesseiros, em sua cama, na legação francesa, o sol do fim de tarde passando pela janela e projetando a sombra de um guarda, agora postado ali em caráter permanente.
Nas primeiras horas daquela manhã, quando Struan viera correndo — claudicando — para o seu lado, Angelique resistira às suas súplicas para se mudar ainda com bastante autocontrole para se lembrar de que deveria permanecer ali, porque naquela noite André Poncin entregaria o medicamento que a livraria da presença maligna em seu corpo. É isso mesmo, ela sentira vontade de gritar, André vai ajudar-me a me livrar do mal que carrego dentro de mim, e de todo o mal que já cometi.
— Oh, Mon Dieu, Malcolm, estou bem, e não quero sair daqui!
— Por favor, minha querida, não chore.
— Então me deixe ficar. Estou bem, Malcolm, bastante segura, como sempre, e o Dr. Babcott me deu uma coisa para acabar com este tremor... não é mesmo, doutor?
— É, sim, Malcolm — dissera Babcott —, não se preocupe, por favor. Angelique nada sofreu e estará perfeitamente recuperada quando acordar. Seria melhor não tirá-la daqui. Não há motivo para preocupações.
— Mas eu me preocupo!
— Esta noite talvez ela possa vol...
— Não! — balbuciara ela, as lágrimas escorrendo. — Não esta noite. Talvez amanhã.
Graças a Deus pelas lágrimas, pensou ela de novo, enquanto observava Malcolm se aproximar da cama, sabendo que essa arma contra os homens, uma dádiva divina, podia ser considerada uma fraqueza, mas era na verdade um poderoso escudo. O sorriso de Malcolm era afável, mas ela notou suas olheiras, a expressão estranha e um ar de cansaço.
— Passei por aqui antes, mas você estava cochilando e não quis incomodá-la.
— Você nunca me incomoda. — A preocupação e o amor de Malcolm eram tão ostensivos que ela teve de fazer um esforço para não revelar a verdade. — Não se preocupe, meu querido, prometo que tudo voltará a ser maravilhoso muito em breve.
Ele sentou-se numa cadeira, ao lado da cama, relatou o tumulto e como Sir William o controlara num instante.
— Ele é um bom homem, sob muitos aspectos — comentou Struan, enquanto pensava que o mesmo não se podia dizer de outros.
Ele e Norbert já haviam recebido a convocação para comparecer ao escritório de Sir William na manhã seguinte e, logo em seguida, tiveram uma reunião particular.
— Não é da conta de Wee Willie — concordara Norbert, irritado.— Ele deve se concentrar nos japoneses e em chamar a esquadra de volta. Ouvi dizer que o intruso foi identificado por você como um dos assassinos de Canterbury, o outro desgraçado da Tokaidô. É verdade?
— Não o identifiquei. Acho que era outro homem, embora ele tivesse sido baleado. Hoag garantiu que era o mesmo que ele operara em Kanagawa.
— Por que ele estava na janela de Angelique?
— Não sei... é muito estranho. Suponho que era apenas um ladrão.
— É mesmo esquisito. E católico ainda por cima. Não dá para entender...
Struan percebeu que Angelique esperava que ele continuasse e indagou-se sedeveria abordar o assunto, os motivos daquele homem, perguntar o que ela pensava, dar suas opiniões, mas viu-a tão pequena e indefesa que decidiu esperar por outra ocasião, outro dia. Afinal, o canalha morrera, quem quer que fosse, o que resolvia tudo.
— Quando eu voltar, depois do jantar, trarei o último número de Illustrated London News, onde há uma excelente reportagem sobre a última moda em Londres...
Angelique escutava apenas com meia atenção, evitando olhar para o relógio na cornija da lareira, que tiquetaqueava os minutos com extrema lentidão. André informara que retornaria da Yoshiwara por volta das nove horas daquela noite, que ela deveria esperá-lo com um bule quente de chá verde e alguma coisa para comer, já que a poção poderia ter gosto horrível. Também deveria providenciar algumas toalhas e a não tomar mais do medicamento para dormir de Babcott.
Ela tornou a olhar para o relógio: 6:46 h. É uma longa espera, pensou Angelique, sua ansiedade aumentando. E foi então que as vozes interiores ressurgiram. Não se preocupe, sussurraram, as horas passarão depressa, depois você ficará livre, não se esqueça de que venceu, Angelique, foi corajosa e esperta, fez tudo com perfeição — não se preocupe com coisa alguma, você viveu e ele morreu, era a única maneira para você sobreviver, você ou qualquer outra mulher — muito em breve estará livre dele, da coisa, e tudo o que aconteceu antes não passará de um pesadelo...
Estarei livre, graças a Deus, graças a Deus.
O alívio a dominou e ela sorriu para Struan.
— Sua aparência é maravilhosa, Malcolm. Essas roupas estão perfeitas em você.
A jovialidade de Angelique arrancou-o da depressão; tudo ao seu redor era lúgubre... exceto ela. Ele também sorriu, radiante.
— Oh, Angel, se não fosse por você, acho que eu explodiria.
Naquela noite ele se dera ao trabalho de escolher com o maior cuidado as roupas de seda certas, as melhores botas de cano curto, de pelica de corça, uma camisa de seda branca com pregas, gravata branca com um alfinete de rubi que o pai lhe dera em seu último aniversário, de vinte anos, a 21 de maio. Só mais seis meses e serei livre, pensou ele, livre para fazer o que bem quiser.
— Você é a única coisa que me mantém são, Angel — acrescentou ele.
Seu sorriso expulsou os últimos demônios que ainda atormentavam Angelique e ela disse:
— Obrigada, meu querido. Explodir? Por quê?
— Os problemas nos negócios — respondeu Struan, evitando as verdadeiras questões. — Os miseráveis dos políticos vivem prejudicando nossos mercados, em sua busca habitual e obsessiva de poder pessoal, dinheiro e promoção. Nunca muda, não importa qual seja o país, credo ou cor. De modo geral, a situação da Casa Nobre é excelente, graças a Deus.
Ele se absteve de comentar a crise que enfrentavam com o açúcar havaiano e a crescente pressão da Brock sobre os mercados e fontes de crédito da Struan.
Ontem mesmo chegara uma carta ostensivamente hostil do Victoria Bank, o banco central de Hong Kong, dominado pela Brock, cópia da que fora enviada a Tess Struan, como diretora-executiva da Casa Nobre. Sua cópia estava endereçada a M. Struan, esquire, Iocoama, apenas para sua informação:
Madame: Esta é apenas para lembrar que a Struan tem dívidas duvidosas e promissórias demais apoiadas em patrimônio incerto, com lucros indefinidos. A maior parte dos compromissos vence a 31 de janeiro, e quero informar-lhe, madame, mais uma vez, que o pagamento de todos os compromissos com este banco terá de ser efetuado nos prazos acertados. Tenho a honra de ser seu obediente servidor.
Não importa o que digam esses desgraçados, pensou ele agora, com absoluta convicção, encontrarei um meio de superá-los e prevalecer sobre todos os Brocks. Matar Norbert será um bom começo. Nossos gerentes e empregados são excelentes, nossa frota ainda é a melhor e nossos capitães são leais.
— Os Brocks e os rumores não têm a menor importância, Angel, podemos lidar com eles, como sempre fizemos. A guerra civil americana aumentou muito os nossos lucros. Estamos ajudando o Sul a contrabandear o algodão através do bloqueio nortista, até nossas tecelagens em Lancashire, levando de volta toda a pólvora, balas, rifles e canhões que Birmingham pode produzir, metade para o Sul, metade para o Norte... com tudo o mais que nossas fábricas podem inventar e fornecer, máquinas, prensas, sapatos, navios, até cera de lacre. A produção britânica é gigantesca, Angelique, mais de cinqüenta por cento dos bens industriais do mundo. Temos também o nosso comércio de chá e de ópio de Bengala para a China, uma colheita excepcional este ano... tenho uma idéia para comprar o algodão indiano, a fim de compensar a escassez do americano... além de todas as nossas cargas normais. A Inglaterra é o país mais rico e mais próspero do mundo, e você é linda!
— Obrigada, gentil senhor! Je faime... amo de verdade, Malcolm. Sei que sou uma pessoa muito difícil, mas amo você, prometo que serei uma esposa maravilhosa, e...
Ele se levantara da cadeira e interrompeu-a com um beijo... o cheiro forte de charuto e brilhantina viril e agradável. Os braços que a enlaçaram eram musculosos, uma das mãos se desviando para os seios, e ela sentiu a rudeza agressiva, os lábios duros com ligeiro gosto de conhaque. O oposto dele.
Esqueça-o, sussurraram as vozes.
Não posso, ainda não.
Inclinar-se para ela foi uma tensão excessiva para os músculos da barriga e as costas doloridas de Malcolm; por isso, ele se empertigou, com algum esforço, mesmo sabendo que sentiria o maior prazer em possuí-la agora — se tivesse sua aquiescência —, qualquer que fosse a dor.
— Quanto mais cedo nos casarmos, melhor — murmurou ele, certo de que sentira uma reação nos lábios, seios e corpo de Angelique.
— Também acho...
— No Natal. No mês que vem.
— Acha mesmo... sente, meu querido, descanse um pouco. Precisamos conversar... quando voltaremos a Hong Kong?
— Ahn... ainda não decidi.
Muito da jovialidade de Malcolm se dissipou diante da perspectiva de ter de enfrentar a mãe.
— Talvez devêssemos voltar na próxima semana e...
— Só depois que eu estiver em condições.
E quando não estiver mais tomando a poção para a dor, pensou ele, as entranhas ardendo; só assim poderei enfrentar a mãe, os Brocks, e aquele banco miserável. Pouco antes de sair para a legação, ele tomara a segunda dose do dia, mais cedo do que o habitual.
Tomarei uma última antes de dormir e, a partir de amanhã, será tudo diferente. Apenas uma dose por dia, daqui por diante. Não poderia começar a fazer isso hoje... com a noite de ontem, o problema de Norbert e... ora, ontem foi um dia terrível demais.
— Não perturbe sua linda cabecinha com essas coisas.
— Mas eu me preocupo com você, e muito, Malcolm. Jamais haveria de querer interferir em qualquer coisa, mas não posso deixar de me preocupar com você. E há algo que acho que devo mencionar. O problema entre você e Jamie. Não há alguma coisa que eu possa...
O súbito sorriso de Malcolm a fez parar de falar.
— Está tudo bem com Jamie agora, minha querida. É a boa notícia de hoje. Mandei chamá-lo ao final da tarde, e ele se desculpou por ser tão difícil. Até renovou seu juramento de me apoiar em tudo... mas tudo mesmo.
— Mas isso é maravilhoso! Não imagina como me sinto satisfeita. Pouco antes de sua vinda, Jamie McFay pedira para lhe falar.
— Lamento interrompê-lo, mas queria desanuviar o ar carregado e tentar fazer as pazes... e tentar também, pela última vez, dissuadi-lo do duelo. Norbert fará tudo o que puder para matá-lo.
— Desculpe, mas isso não é da sua conta, e pode ter certeza de que eu também tentarei matá-lo. Mas concordo que é uma boa idéia desanuviar o ambiente, de uma vez por todas. Jamie, vai obedecer a mim como o tai-pan ou pretende renunciar a seu juramento?
— Claro que obedecerei ao tai-pan, como jurei.
— Ótimo. Depois do encontro com Sir William amanhã, pergunte em particular a Norbert se a próxima quarta-feira lhe convém...isso mesmo, Jamie, sei que é o aniversário dele. No hipódromo, por trás da arquibancada, ao amanhecer. Jure segredo, por sua cabeça. Não conte nem mesmo a Dmitri.
— Se você o matar, terá de deixar o Japão imediatamente.
— Já pensei nisso. Nosso clíper Storming Cloud estará na enseada. Embarcaremos nele e partiremos para Hong Kong. Poderei... ora... dar um jeito na situação, aconteça o que acontecer.
— Detesto toda essa idéia.
— Posso entender, mas isso não faz a menor diferença. Lembre-se de seu juramento; pretende mantê-lo?
— Claro.
— Obrigado, Jamie. Vamos ser amigos de novo...
Em meio a seu excitamento, ele ouviu Angelique dizer:
— Ah, isso me deixa muito feliz!
Malcolm teve de se esforçar para não dizer que marcara a data para o duelo, quando finalmente começaria sua vingançacontra a casa dos Brocks. Angel saberá muito em breve, e se sentirá orgulhosa de mim, pensou ele, confiante.
— Não precisa se preocupar com Jamie, minha querida, nem com Hong Kong. Ou qualquer outra coisa.
— Malcolm, meu caro, posso escrever para sua mãe? — perguntou ela.
Angelique sabia que devia começar a atrair a inimiga para a batalha. André avisara que o poder de Tess Struan dentro da companhia era imenso e que ela exercia uma vasta influência sobre Malcolm, seus irmãos e irmãs. Lembrara também que ele ainda não alcançara a maioridade e, assim, o casamento não poderia se realizar por vários meses ainda sem o consentimento da mãe; sem a sua boa vontade, talvez jamais viesse a se consumar. Como se eu precisasse de algum lembrete, pensou Angelique.
— Quero assegurar a ela minha eterna afeição e minha promessa de ser a melhor nora no mundo inteiro.
Ele se mostrou radiante com a idéia.
— Excelente idéia! Escreverei uma carta, também, e mandaremos as duas juntas. — Malcolm pegou a mão de Angelique. — Não existe nenhuma mulher tão maravilhosa quanto você, tão ponderada e gentil; tenho certeza de que a mãe vai amá-la tanto quanto eu.
Hiraga disse, mais uma vez:
— Quando os gai-jin fugiram, shoya disse para eu ir depressa... ele muito medo samurais, muito medo.
— Posso imaginar.
Tyrer mudou de posição na cadeira. Hiraga, sentado à sua frente, também se sentia desconfortável. A sala do pequeno bangalô no terreno da legação, que Tyrer partilhava com o Dr. Babcott, era escassamente mobiliada, com poucas cadeiras, duas escrivaninhas, e o cheiro de unguentos e poções nas prateleiras ao longo de uma parede. As janelas se achavam abertas para a noite; embora não estivesse frio, Hiraga estremecia de vez em quando, ainda perturbado por sua quase captura. No momento em que os atacantes fugiram, criando as condições para que escapasse pelos fundos, ele dissera ao shoya e ao ashigaru:
— Sabem o que acontecerá se eu for apanhado aqui. É melhor o silêncio, o silêncio e uma surra rápida, que logo será esquecida, do que uma viagem até a prisão, da qual nenhum de nós... nem sua esposa e filhos... sobreviverá. Sonno-joi!
Tyrer acrescentou:
— Mas não entendo por que o oficial num momento parecia normal, e no instante seguinte se tornou um bruto, para logo voltar a ser normal, com todos fingindo que nada acontecera.
Hiraga suspirou.
— Tudo muito simples, Taira-san. O capitão certo que ashigaru mentiu... certo ele não dizer a verdade, certo shoya não dizer a verdade, e homens não dizer a verdade, por isso bater neles para salvar aparências... não dizer verdade a samurai é muito ruim, contra lei, por isso muito ruim. Punição correta, todos felizes, não mais problemas.
— Talvez para eles, mas nós ainda temos muitos problemas — murmurou Tyrer, sombrio. — Sir William não está nada feliz, nem com o miserável que foi morto... nem com você.
— Eu não problema, eu não atacar, homens me atacar.
— Desculpe, Nakama, mas não é essa a questão. Ele diz que você é uma complicação incômoda e desnecessária. Sinto muito, mas ele tem razão. As autoridades saberão em breve de sua presença aqui, se é que já não sabem. Vão exigir que o entreguemos... não poderemos evitar; mais cedo ou mais teremos de atender ao pedido.
— Por favor? Não entender.
Tyrer precisou de várias tentativas, com palavras mais simples, para deixar o significado bem claro, e depois acrescentou:
— Sir William mandou lhe dizer que é melhor você ir embora, desaparecer enquanto pode.
O coração de Hiraga quase parou. Desde que escapara da armadilha na aldeia que vinha procurando, frenético, uma maneira de anular as conseqüências inevitáveis do tumulto e de ter sido visto... o oficial dos samurais deduziria, com toda certeza, que havia um shishi à solta na colônia. Nenhuma solução lhe ocorrera, exceto a de que deveria continuar escondido ali. Tentar fugir agora seria ainda mais perigoso. A vigilância dos samurais devia ter aumentado ainda mais... e se soubessem que Hiraga era o mesmo homem do cartaz...
Ele sentiu vontade de gritar bem alto, a mente abalada pela sucessão rápida e incontrolável dos acontecimentos, as profundezas do pânico e medo que suportara desde a traição de Ori. Depois, seus ouvidos sintonizaram, e ouviu uma palavra-chave na arenga de Tyrer sobre como lamentava “a perda de um aliado tão valioso na busca por conhecimento do Japão, mas parece que não há nenhuma maneira de evitar...” Sua cabeça voltou a ficar lúcida.
— Tenho idéia, Taira-san. Ruim para mim ir agora, certo morrer. Quero ajudar amigos ingleses, ser valioso aliado, muito valioso amigo. Conhecer sobre daimio Satsuma, conhecer segredos Satsuma. Shoya dar muita mande... desculpe dar muita informação. Posso explicar como fazer Satsuma obedecer, talvez mesmo Bakufu obedecer. Quero ajudar. Perguntar Sir William: eu dar informação para manter gai-jin seguro, você manter eu seguro, e dar informações eu, troca justa amigos, neh?
Excitado, Tyrer avaliou a oferta: Sir William com certeza vai concordar, mas apenas se as informações forem de fato valiosas, e apenas se vierem do interrogatório direto do próprio Nakama. Isso significa... oh, Deus, não posso! “Eu teria de revelar a Willie o segredo de que você fala inglês. Não há como evitá-lo e não posso dizer que tenho ocultado uma informação tão vital, pois seria demitido, sem a menor dúvida. Não posso assumir esse risco, não quando Willie se encontra num ânimo tão terrível!” Melhor seria que Nakama partisse antes de sua cabeça rolar e haver um incidente internacional.
— Desculpe — murmurou Tyrer, desesperado —, mas não é possível.
— Ah, sinto muito, talvez ter tempo. — Hiraga fez uma manobra final para ganhar tempo. — Ter mensagem de Fujiko... iii, Taira-san, fazer grande marca nela, agora Fujiko pensar você ser muito melhor amigo. Mama-san dizer sinto muito, mas Fujiko começar ontem doença de mulher, doença mensal, assim não poder receber você por um dia, dois dias.
Ele percebeu o desapontamento imediato de Tyrer, seguido pela resignação e a expectativa, em rápida sucessão.
Tonto de alívio, relaxou um pouco, ao mesmo tempo espantado mais uma vez, por constatar que um homem, ainda mais uma autoridade tão importante quanto Taira, se permitisse demonstrar seus sentimentos interiores de maneira tão ostensiva, em particular na presença de um inimigo. Aqueles bárbaros ficavam além da imaginação.
— Tome aqui — acrescentou ele, estendendo o leque com os caracteres que preparara. — Poema, Fujiko escrever: “Contando horas, muito triste. Horas passar depressa quando seu sol brilhar em mim, depois não triste, tempo parar.”
Ele observou Tyrer pegar o leque, reverente, satisfeito com sua escolha das palavras, embora tivesse se irritado com a incompetência de Fujiko na escrita. Mesmo assim, refletiu Hiraga, o efeito parece ser perfeito.
— Sobre chefe gai-jin, ter um plano, mas primeiro reunião com xógum, Taira-san, foi boa, sim?
Akimoto foi dominado por um acesso de risada, tão contagiante que Hiraga não pôde deixar de acompanhá-lo.
— Puxa, Hiraga-san, foi brilhante manipular o gai-jin desse jeito! Brilhante! Saquê, traga mais saquê!
Estavam refestelados no aposentado isolado no terreno da Casa das Três Carpas, as janelas de shoji fechadas contra os insetos noturnos. Ramos de bordo de outono num vaso verde decoravam o lugar. Lampiões a óleo. As espadas em prateleiras ao lado. Depois que a criada se retirou, eles tornaram a encher os copos, beberam, e Akimoto indagou:
— O que aconteceu em seguida?
— Depois que o peixinho Taira engoliu a isca, fomos nos curvar diante do grande mero, que engoliu nós dois. Eu disse a ele que, sem que Taira soubesse, falava um pouco de inglês, aprendido com os holandeses em Deshima...
— O que não é mentira — comentou Akimoto, tornando a encher os copos. Ele cursara a mesma escola para os talentosos samurais de Choshu, em Shimonoseki, mas não fora selecionado para o curso de línguas; em vez disso, recebera a ordem de se especializar em assuntos navais ocidentais, com aulas de um capitão holandês aposentado.
— Baka que eu nunca tenha aprendido holandês ou inglês. O que disse o líder dos gai-jin?
— Não muita coisa. Taira fingiu se mostrar também espantado, como havíamos combinado. Foi fácil desviar o homem com informações sem importância sobre Satsuma, Sanjiro e sua fortaleza em Kagoshima, um pouco de sua história, e assim por diante.
Hiraga falava descontraído sobre o encontro, que não transcorrera com tanta facilidade. As perguntas haviam sido objetivas e tivera alguma dificuldade para convencer o líder de que sua simulada sinceridade era genuína. Ansioso em obter permissão de ficar, ele dissera mais do que desejava, não apenas sobre a situação política dos lordes exteriores de Satsuma e Tosa, mas também sobre seu próprio feudo, Choshu, e até mesmo sobre os shishi.
Sentiu o estômago embrulhar mais uma vez ao recordar os olhos azuis e frios, parecidos com os de um peixe, que o fitavam fixamente, e conseguiram de alguma forma arrancar mais informações do que queria oferecer. Ao final, o comentário brusco:
— Vou considerar a permissão para que você continue aqui por mais alguns dias. Tornaremos a conversar amanhã. Enquanto isso, deve voltar à legação, como medida de segurança.
— Melhor eu ficar com shoya, Sir William.
— Vai se mudar para a legação esta noite e permanecer com o Sr. Tyrer. Só poderá sair com permissão dele ou minha. Quanto estiver na rua, tomará todo cuidado para evitar uma provocação a qualquer de nossos homens. Tem de obedecer sem hesitação ou será conduzido ao portão norte... imediatamente!
Mais uma vez, ele simulara submissão, desmanchara-se em agradecimentos abjetos, mas fervendo de raiva por dentro, pela ausência de boas maneiras do homem. Ainda sentia-se furioso, e mais determinado do que nunca a executar o plano de Ori, de incendiar a colônia... no momento em que julgasse mais oportuno. Todos os deuses, se é que existiam, amaldiçoavam todos os gai-jin.
— Saquê? — indagou Akimoto, um filete escorrendo pelo queixo.
— Quero, sim, obrigado. — O rosto de Hiraga se contraiu em ira.— Ori. Baka que ele tenha morrido antes que eu pudesse matá-lo!
— Tem razão. Mas agora ele morreu, assim como Shorin. Os dois só serviam para criar problemas, como todos os Satsumas. Os homens — ele se apressou em acrescentar, lembrando a irmã de Shorin, Sumomo —, não as mulheres.
— Os Satsumas são difíceis, concordo — murmurou Hiraga, com expressão sombria. — Quanto a Sumomo, não sei onde devo procurar notícias suas, onde ela se encontra, se chegou em casa sã e salva... talvez ela tenha levado semanas para voltar e mais semanas se passariam antes que o pai enviasse notícias para cá. Teríamos de esperar por uns dois meses, talvez três.
— Pediu a Katsumata para velar por ela. Ele deve ter espiões daqui até Quioto. E Sumomo sabe cuidar de si mesma. Terá notícias em breve. — Akimoto coçou a virilha, irritado. Era desconcertante ver Hiraga tão perturbado. — Já deve saber que estamos quase acuados aqui. As patrulhas de vigilantes do Bakufu foram reforçadas e vagueiam por toda parte, ao acaso. Todas as mama-sans andam nervosas; depois do tumulto de hoje é possível que Raiko... não nos deixe ficar por muito mais tempo.
— Ficaremos enquanto pudermos pagar. E, enquanto o túnel permanecer seguro, poderemos escapar pelo mar, se for necessário. Maldito Ori!
— Esqueça-o — disse Akimoto, impaciente. — O que devemos fazer?
— Esperar. Os gai-jin nos proporcionarão cobertura... Taira dará um jeito.
— Por causa de Fujiko? O homem é louco. O que ele vê naquela porca? Não consigo entender. Ela não passa de uma porca. — Akimoto soltou uma risada, passou os dedos pelos cabelos que começavam a crescer. — Acho que vou experimentá-la um dia desses, só para ver se ela tem algo especial... embora esteja contaminada.
— Experimente-a esta noite, se quiser. Taira não vai usá-la.
— Raiko já deve tê-la entregue a outros clientes... é gananciosa demais.
— Só que Fujiko já está paga.
— Como assim?
— Meu novo acordo é que Raiko não oferecerá Fujiko a outros sem que ela e eu concordemos primeiro... a fim de que eu possa mantê-la disponível para Taira a qualquer momento, em caso de necessidade. Experimente-a, se quiser. Ela é muito barata.
— Ainda bem. Preciso de todo o dinheiro que me resta. Raiko me arrancou um adiantamento, resmungando sobre a extensão do meu crédito. — Akimoto sorriu, esvaziou o saquê do frasco em seu copo. — Quero subornar um dos pescadores para me levar até a fragata... talvez eu consiga subir a bordo de um navio de guerra, fingindo vender peixe. Preciso conhecer o interior de uma casa de máquinas, de um jeito ou de outro.
O estômago tornou a se contrair quando ele pensou em sua própria visita.
— Talvez eu possa convencer Taira a me levar de novo, junto com você desta vez. Posso fingir que você é filho de um importante mercador de Choshu, construtor de navios, ansioso em fazer negócios com eles... mas todos os negócios devem ser mantidos em segredo do Bakufu.
Segredo? Por quanto tempo mais permaneceremos em segredo aqui? Um tremor percorreu o corpo de Hiraga.
— Faz frio esta noite — murmurou ele, para disfarçar o medo.
E Akimoto, mais uma vez, fingiu não perceber.
A poucos metros dali, Raiko, em seus aposentos, terminava de se maquilar e de se vestir para a noite. Decidiu pôr o novo quimono rosa. Uma garça enorme ornamentava as costas, bordada com filamentos de ouro. Cobiçara-o por muitos meses. Agora era seu, pago com parte do lucro imenso obtido na venda dos brincos de pérolas. Descobrira, ao final, que eram mais valiosos do que estimara.
O kami e os deuses que velam pelas mama-sans olhavam por mim naquele dia, pensou ela, feliz. Um grande negócio, todo o lucro lhe cabendo, menos a parte de Furansu-san. O dinheiro para o medicamento mal podia ser levado em consideração, embora ela tivesse registrado um débito substancial em seus livros. Raiko sorriu para si mesma. O custo nada representava, mas o conhecimento da planta, quem podia colhê-la, em que momento correto, como preparar a infusão, ah, tudo isso valia qualquer coisa que o mercado pudesse pagar.
— A princesa gai-jin será um valioso trunfo, a longo prazo — murmurou ela, contente, satisfeita com o que via no espelho de corpo inteiro.
Era o único moderno em toda a Yoshiwara, presente de um cliente, importado da Inglaterra especialmente para ela. Sua testa se franziu um pouco ao pensar nele: Kanterberri, o gai-jin que fora morto na Tokaidô por aqueles tolos, Ori e Shorin. Baka! Era um bom cliente, o que mais apreciava meus serviços para lhe oferecer a amante perfeita, Akiko, cujo nome é agora Fujiko... é muito conveniente para nós que nossos gai-jin ingleses raramente partilhem suas mulheres, preferindo fornicar em segredo, com uma única mulher, mantendo-a sem que ninguém mais saiba em nosso mundo flutuante, que se baseia na discrição e sigilo.
Taira não sabe de nada, Fujiko tem uma nova vida, um novo amante. É melhor para todos.
— O gai-jin Furansu-san acaba de chegar.
— Obrigada.
Raiko certificou-se de que a poção estava correta e colocou-a na mesa ao seu lado. Depois de manter André à espera pelo tempo apropriado, nem de menos, nem de mais, ela mandou chamá-lo.
— Ah, Furansu-san, seja bem-vindo à minha humilde casa. — Ela serviu seu melhor saquê em copinhos que pareciam dedais e fez um brinde. — Está com uma ótima aparência.
— Saúde! Dez mil verões — disse André, polido.
Raiko discorreu sobre o tempo e os negócios, só depois entrando no assunto principal.
— Sua escolna dos brincos foi mais perfeita do que eu imaginava e sua parte é pouco mais que o dobro do que pediu.
Os olhos de André se arregalaram.
— Tanto assim?
— É, sim.
Ela serviu mais saquê, exultante com sua perspicácia por conta de ambos depois que um acordo de negócios era acertado, tornava-se uma questão de honra fazer com que fosse cumprido de uma forma rigorosa.
— Meu banco, o Gyokoyama, encontrou o cliente certo, um mercador chinês de seda e ópio de Xangai, em visita a Kanagawa. — Outro sorriso e ela acrescentou suavemente: — Ele avisou que teria mercado para todas as jóias que eu possa fornecer.
O sorriso de André foi igual ao dela, ele tomou o saquê, estendeu o copo para uma nova dose, e fez um brinde:
— Às futuras jóias!
— A próxima coisa...
— Antes da próxima, Raiko. Por que ele pagou tanto?
— Em tempos difíceis, um homem sábio põe parte de sua riqueza em coisas pequenas, que possa carregar na manga. Ele não é tolo... cheguei até a pensar em ficar com os brincos, pelo mesmo motivo.
O interesse de André fora aguçado.
— Os tempos são difíceis na China?
— Ele disse que toda a China se encontra em revolta, a fome prevalece, os negócios dos gai-jin em Xangai são menores do que os habituais, mas agora que a esquadra inglesa devastou a costa de Mirs, afundando muitas embarcações dos piratas do Lótus Branco, as rotas marítimas se tornarão mais seguras, pelo menos por algum tempo, e o comércio ao longo do Yang-Tsé deva aumentar na primavera. Pelo que ouvi dizer, Furansu-san, eles afundaram centenas de juncos e massacraram milhares de pessoas, muitas aldeias viraram cinzas. — O medo de Raiko era evidente. — O poder de matança dos ingleses é terrível.
Ela estremeceu, sabendo que os japoneses podiam desprezar os chineses como fracos, mas partilhavam a mesma fobia: o temor aos gai-jin e a obsessão em mantê-los longe de suas terras para sempre.
— As esquadras gai-jin vão nos atacar quando voltarem?
— Vão, sim, Raiko, se o Bakufu não pagar o dinheiro das reparações. Haverá guerra. Não aqui, em Iocoama, mas em Iedo.
Raiko estudou seu copo por um momento, especulando como poderia se proteger ainda mais, e converter aquela informação em lucro, mais do que nunca convencida de que deveria, de alguma forma, livrar-se de Hiraga e Akimoto, antes que descobrissem que estava implicada no desastre de Ori, já que o abrigara, e aos outros dois, por mais justa que fosse a causa de Sonno-joi. Uma onda de apreensão a invadiu e ela se abanou, queixando-se de que o saquê era muito forte.
— Karma — murmurou ela, trocando o “pode ser” pelo “é”. — Agora, as boas notícias. Há uma moça que eu gostaria que você conhecesse.
O coração de André deu a impressão de que parava por um instante; quando recomeçou, estava mais fraco do que antes.
— Quando?
— Deseja vê-la antes de discutirmos as questões de negócios ou depois?
— Antes, depois, não faz diferença. Pagarei o que pedir, se ela me agradar.
Outra vez um dar de ombros gaulês, e o desespero patente e ostensivo. O que não deixou Raiko nem um pouco comovida. A fome de yang por yin é a essência do nosso mundo e, sem isso, o mundo flutuante não mais flutuaria.
É estranho que a obsessão de yang em se juntar a yin — entrando e saindo, arremetendo no portão, mais dor do que prazer, desespero ao final, desespero para continuar, se terminar nunca é suficiente, se não terminar é gemer pela noite afora — seja tão transitória, yin nunca absorvendo tudo. Nesse ponto, as mulheres são abençoadas, embora os deuses, se é que existem deuses, tenham conferido aos mortais um destino cruel.
Por três vezes tentei seguir adiante, sempre porque minha yin ansiava pelo possuidor de um yang em particular — quando um yang é sempre mais ou menos a mesma coisa —, sempre escolhas inúteis, que nada proporcionaram, além de sofrimento, sem qualquer futuro, e por duas vezes minha paixão não foi correspondida. Que absurdo! Por quê? Ninguém sabe.
E não importa. Agora, o anseio da yin pode ser saciado com a maior facilidade e para uma mama-san é até uma diversão. Sempre é fácil contratar um yang, ou harigata, ou convidar uma das damas para a sua cama. Fujiko, por exemplo, que parece apreciar a diversão, e cujos beijos podem ser celestiais.
— Raiko me conhece bem, não é mesmo? — indagou André.
Ela pensou: Claro que conheço.
— E eu conheço Raiko. Na verdade, não conhece.
— Somos velhos amigos, e amigos sempre se ajudam.
É verdade, tem toda razão, só que nós dois não somos velhos amigos — não no antigo sentido asiático — e nunca seremos. Afinal, você é um gai-jin.
— Furansu-san, velho amigo. Arrumarei um encontro, você e essa dama. André sentiu-se ansioso e tentou esconder.
— Está certo. Obrigado.
— Será em breve. Por último, o medicamento.
Raiko inclinou-se para o lado da mesa. O pequeno pacote fora amarrado com perfeição, num quadrado de seda castanho-avermelhada, uma apresentação sedutora, como se fosse um presente dispendioso.
— Escute com todo cuidado.
Mais uma vez, suas instruções foram explícitas. Ela fez André repetir, até ter certeza de que ele entendera tudo.
— Raiko-san, por favor, diga a verdade: o medicamento é perigoso, sim ou não?
— A verdade? Não sou uma pessoa séria? Sou Raiko das Três Carpas. Já não lhe disse tudo? É claro que pode ser perigoso e é claro que não é perigoso! Trata-se de um problema comum, que acontece durante todo o tempo, com todas as mulheres, e a cura raramente constitui um problema. Sua princesa é jovem e forte, e por isso deve ser fácil, sem problemas.
— Princesa? — André assumiu uma expressão brutal. — Sabe para quem é?
— Foi fácil adivinhar. Quantas mulheres existem na colônia, bastante especiais para que você as ajude? Não se preocupe, velho amigo. Segredo é segredo comigo.
Depois de uma pausa, ele perguntou:
— Qual é o problema possível?
— Dor de estômago e nenhum efeito, apenas muito enjoo. Neste caso, devemos tentar uma segunda vez, com um medicamento mais forte. Se isso não der certo, então há outro meio.
— Qual?
— Haverá tempo suficiente para falar disso mais tarde. — Confiante, Raiko afagou a seda. — Isto deve ser tudo o que é necessário.
— Você compreendeu tudo, Angelique?
— Claro, André — respondeu ela, os olhos fixados no embrulho de seda. Sua salvação estava ali, em cima da mesa de André Poncin. Falavam em voz baixa, apesar de manter a porta da sala fechada, como precaução contra ouvidos indesejáveis.
O relógio bateu dez horas da noite. Ele tornou a fitá-la, inquieto.
— A mama-san disse que seria melhor se você estivesse em companhia de sua criada.
— Isso não é possível, André. Não posso confiar em Ah Soh, nem em qualquer outra pessoa... não disse isso a ela?
— Disse, mas foi o que ela falou.
Da outra extremidade do corredor vinham os sons abafados de homens rindo, à mesa de jantar, da qual ela acabara de se retirar — Seratard, Vervene, Dmitri e uns poucos oficiais franceses — alegando cansaço e que queria se deitar cedo. Indo para sua suíte por acaso avistara André em sua sala, conforme a combinação anterior.
— Acho que nós... é melhor verificarmos se está tudo aí.
Ele não fez o menor movimento para abrir o embrulho. Em vez disso, limitou-se a ajeitar um canto, com evidente nervosismo.
— Se Ah Soh não estiver presente para ajudar, quem... quem vai dar um jeito... jogar fora os vidros e ervas... você não pode deixar tudo no quarto, e ainda precisará de alguém para fazer a limpeza.
Por um momento, o cérebro de Angelique ficou confuso, pois não considerara esse problema.
— Hum... não precisarei de ajuda, não haverá... nada além dos vidros e ervas... e toalhas. Não posso confiar em Ah Soh, é óbvio que não posso confiar nela, nem em qualquer outra pessoa, exceto você. Não precisarei de ajuda.
Sua ansiedade em iniciar o tratamento e acabar com aquilo para sempre prevalecia sobre todas as preocupações que a angustiavam.
— Não se preocupe. Trancarei a porta e... direi a ela que vou dormir até tarde e não quero que ninguém me incomode. Afinal, tudo deve terminar em poucas horas, até o amanhecer, não é mesmo?
— Se Deus quiser, é isso mesmo. Foi o que a mama-san me disse. Ainda acho que deve correr o risco com Ah Soh.
— É evidente que você não está pensando direito. Absolutamente não. Você é o único em quem posso confiar. Bata em minha porta bem cedo, deste jeito.
Angelique bateu na mesa três vezes, uma pausa, outra batida.
— Só abrirei a porta para você.
Impaciente, ela abriu o embrulho. Lá dentro havia dois vidros pequenos, tapados com rolha, e um maço de ervas.
— Tomo um vidro agora, e depois...
— Mon Dieu, não! — interrompeu-a André, cansado, os nervos tão tensos quanto os dela. — Deve fazer tudo na ordem correta, Angelique. Primeiro, faça uma infusão com as ervas na chaleira com água quente. Depois que estiver pronta, beba o conteúdo de um vidro, de uma só vez, e não se preocupe se o gosto for horrível. Use um chá verde com mel ou um doce para dissipar o gosto.
— Tenho alguns chocolates suíços que monsieur Erlicher me deu. Acha que servirão?
— Claro. — André pegou um lenço para enxugar o suor das mãos, sua imaginação projetando as cenas mais tétricas. — Depois que a infusão estiver morna, talvez em meia hora, beba a metade... o gosto também não será agradável. Relaxe em seguida, espere, tente dormir.
— Haverá alguma reação? Sentirei qualquer coisa de imediato?
— Não. Eu já disse que não! A mama-san me garantiu que normalmente nada acontece até algumas horas depois... deve ser como uma forte dor de barriga.
Quanto mais ele falava a respeito, menos lhe agradava seu envolvimento. E se alguma coisa saísse errada? Mon Dieu, espero que não haja uma segunda vez, pensou, contrafeito, e tratou de reprimir os maus pressentimentos — e o embaraço — procurando ser objetivo.
— Deve ser apenas como uma dor de barriga — repetiu ele, suando cada vez mais. — É o início, Angelique, uma cólica. Vou voltar ao início. Tome o primeiro vidro, depois beba a metade da infusão, a metade, lembre-se de que deve fazer tudo na sequência correta... relaxe, tente dormir um pouco, quanto mais relaxada estiver, mais fácil será. Assim que as cólicas começarem, tome o outro vidro, acompanhado por um pouco de mel ou um doce, e depois deve começar... a mama-san disse que seria como uma menstruação mensal mais forte... por isso deve estar preparada... com uma toalha.
André fez uma pausa, tornou a usar o lenço.
— É uma noite abafada, não acha?
— Está frio e não precisa ficar nervoso. — Angelique abriu um dos vidros, cheirou o conteúdo. Torceu o nariz.— É pior do que um banheiro de rua parisiense em agosto.
— Tem certeza que não vai esquecer a seqüência?
— Absoluta. Não se preocupe, eu...
Uma batida naporta provocou-lhes sobressalto. Angelique recolheu apressada os dois vidros e o maço de ervas, guardou tudo na bolsa.
— Entre — disse André.
O Dr. Babcott ocupava todo o vão da porta.
— Ah, Angelique, a criada me avisou que você estava aqui. Vim na esperança de conversar com você por um momento. Boa noite, André.
— Boa noite, monsieur.
— Estou muito bem, doutor — disse ela, com súbita pontada de inquietação, sob o olhar penetrante do médico. — Não precisa se preo...
— Só queria tirar sua temperatura, contar a pulsação e verificar se precisa de um sedativo. É sempre melhor prevenir.
Como ela começasse a protestar, Babcott acrescentou, em tom firme, mas gentil:
— É melhor prevenir, Angelique, é sempre mais seguro, e não vai demorar mais do que um minuto.
— Está bem.
Ela desejou boa noite a André e seguiu em frente, pelo corredor, a caminho de sua suíte. Ah Soh esperava no boudoir.
— Ah Soh — disse Babcott, polidamente, em cantonês —, só volte quando eu chamá-la, por favor.
— Pois não, honorável doutor. Obediente, ela se retirou.
— Eu não sabia que você falava chinês, George — comentou Angelique, enquanto ele sentava ao seu lado e começava a contar a pulsação.
— Falei cantonês. Os chineses não possuem uma única língua, Angelique, mas centenas de línguas diferentes, embora tenham apenas uma forma de escrever, que todos podem compreender. Curioso, não acha?
É muita estupidez me explicar o que já sei, pensou ela, impaciente, sentindo vontade de gritar com ele. Vamos, apresse-se! Como se eu não tivesse visitado Hong Kong, como se Malcolm e todos os outros não tivessem me contato isso uma centena de vezes... como se eu tivesse esquecido que você é a causa de todo o meu infortúnio.
— Aprendi quando trabalhava em Hong Kong — continuou Babcott, distraído. Ele encostou a mão na testa de Angelique, tornou a verificar o pulso, notou que o coração estava acelerado, havia um brilho de suor no rosto... nada com que se preocupar, levando em consideração a provação por que ela passara.
— Umas poucas palavras, aqui e ali. Passei dois anos no hospital geral... seria ótimo se tivéssemos uma instalação igual aqui.— Ele manteve as pontas dos dedos pousadas de leve no pulso de Angelique. — Os médicos chineses acreditam que há sete níveis de batimentos cardíacos ou pulsações. Alegam que podem senti-los, sondando mais e mais fundo. É seu principal método de diagnóstico.
— E o que está ouvindo em meus sete corações?
Angelique fez a pergunta num súbito impulso, apreciando o calor daquelas mãos curativas e desejando muito, apesar de seu ódio, poder confiar nele. Nunca sentira mãos assim, nem a sensação agradável que pareciam irradiar acalmando-a.
— Não ouço nada além de boa saúde — respondeu Babcott.
Ele especulou se haveria algum fundo de verdade na teoria das sete pulsações Em seus anos na Ásia, testemunhara percepções e curas extraordinárias por parte de médicos chineses... assim como uma abundância de bobagens supersticiosas. O mundo é estranho, mas as pessoas são ainda mais estranhas. Ele tornou a estudar Angelique. Seus olhos eram cinzas, penetrantes e gentis. Mas havia sombras no fundo, e ela percebeu-as.
— O que o perturba? — perguntou ela, com repentino medo de que Babcott tivesse diagnosticado sua verdadeira condição.
Ele hesitou, depois enfiou a mão no bolso e tirou um pedaço de papel de seda, que embrulhava sua cruz de ouro.
— Creio que isto é seu.
Numa violenta agitação, Angelique ficou olhando fixamente para a cruz, os lábios ressequidos, sem se mexer, embora a cabeça conjurasse uma negativa imediata, um dar de ombros indiferente, que foram substituídos no mesmo instante nauseante por:
— Eu... perdi uma assim... tem certeza que é minha? Onde a encontrou?
— Pendurada no pescoço do intruso.
— No pescoço dele? Mas... que coisa estranha!
Angelique ouviu sua voz, observou a si mesma, como se fosse outra pessoa, forçando-se a manter o controle, embora sentisse vontade de gritar bem alto, pois sabia que se encontrava de novo numa situação crítica... enquanto seu cérebro, frenético, procurava por uma explicação plausível.
— Pendurada no pescoço daquele homem?
— Isso mesmo. Eu a tirei do cadáver. Na ocasião, não pensei duas vezes a respeito, só me ocorreu que ele era um convertido católico. Depois, quase que por acaso, vi a inscrição... mal dá para notar. — Uma risada curta e nervosa. — Minha visão é melhor do que a de Hoag. “Para Angelique, de Mama, 1844.”
A boca de Angelique murmurou:
— Pobre mamãe... ela morreu ao dar à luz meu irmão, apenas quatro anos depois.
Ela viu seus dedos pegarem a cruz, os olhos examinarem-na, meio contraídos à luz do lampião a óleo, incapazes de ler com clareza a inscrição mínima... e amaldiçoando a escrita. O instinto logo a dominou, e ela disse:
— Eu a perdi, ou pensei ter perdido, na Tokaidô, talvez em Kanagawa, na noite em que fui visitar Malcolm, lembra?
— Claro que lembro. Uma noite terrível, depois de um dia terrível. — Babcott levantou-se, hesitante. — Eu... hum... achei que devia devolvê-la.
— Obrigada. Fico contente por tê-la de volta. Muito contente mesmo. Mas, por favor, sente-se de novo, fique mais um pouco — convidou Angelique, por mais que quisesse que ele fosse logo embora. — Quem era ele... aquele homem, como encontrou a cruz? E onde?
— Nunca saberemos, não agora. — Babcott observou-a por um momento. -— Malcolm lhe contou que achamos que era um dos demônios assassinos da Tokaidô, embora nem ele nem Phillip tivessem certeza?
Apesar do seu medo, debatendo-se naquela nova armadilha, Angelique experimentou um impulso quase irresistível de cair numa gargalhada histérica e dizer: Ele não era um demônio, não para mim, não na primeira vez, deixou-me viver naquela ocasião, e também não foi um demônio depois que lhe tirei a roupa. Não me matou, embora eu soubesse que era essa a sua intenção, tenho certeza de que faria isso, um momento antes de eu persuadi-lo a partir... Não, não era um demônio, mas mesmo assim merecia morrer, tinha de morrer...
Mon Dieu, ainda nem sei o seu nome, fiquei tão confusa que me esqueci de perguntar... devo estar enlouquecendo por pensar nessas coisas.
— Quem era ele?
— Ninguém sabe. Ainda. O rei de Satsuma pode dizer o seu nome, agora que ele morreu, mas é bem provável que dê um nome falso. São todos mentirosos... não é bem assim, acontece apenas que aquilo a que chamamos de mentira parece ser um modo de vida para eles. O homem deve ter encontrado a cruz em Kanagawa. Não lembra exatamente quando descobriu que a perdera?
— Não, não lembro. Só percebi quando voltei para cá. — Ela tornou a constatar que os olhos de Babcott a sondavam bem fundo, e sua mente bradou: Minha pulsação ou pulsações lhe revelaram a minha verdadeira condição? — Mas foi encontrada, graças a Deus. Não tenho palavras para agradecer. Mas por que ele a usava é uma coisa que não consigo entender.
— Concordo que é muito estranho. O silêncio foi se tornando opressivo.
— O que o Dr. Hoag acha?
Babcott fitou-a nos olhos, mas ela não foi capaz de ler o que ele de fato pensava.
— Não perguntei. Preferi não conversar a respeito com ele, nem com Malcolm. — Seus olhos tornaram a se fixar nos de Angelique, deram a impressão de que assumiam uma cor mais profunda. — Hoag é um homem da Struan... e sua tigela de arroz vem de Tess Struan. Não sei por que, mas achei que deveria conversar com você primeiro.
Outra vez um silêncio prolongado. Angelique desviou os olhos, sem confiar em si mesma, desejando poder confiar no médico, querendo confiar em mais alguém além de André — o fato de ele saber já era bastante terrível —, mas convencida de que isso era impossível. Tinha de se ater ao plano: estava sozinha, devia se salvar por si mesma.
— Talvez... não, com certeza, ele deve ter encontrado minha cruz em Kanagawa, deve ter me visto ali, e talvez... — Ela fez uma pausa, e logo acrescentou, apressada, persuadindo-o, inventando enquanto falava: — Talvez ele a tenha guardado para se lembrar de mim... não sei realmente... para quê?
Babcott comentou, contrafeito:
— Obviamente, minha cara, com a intenção de atacá-la, de possuí-la, de uma forma qualquer, para matá-la. Desculpe, mas deve ser essa a verdade. Pensei a princípio, como todos os outros, que ele era apenas um desses proscritos chamados ronin, mas sua cruz mudou essa perspectiva. No momento em que descobri que pertencia a você... como disse, ele deve tê-la visto na Tokaidô, seguiu Malcolm e Phillip Tyrer até Kanagawa, junto com o outro, pretendendo liquidá-los, talvez para evitar a identificação. Foi então que tornou a vê-la, encontrou a cruz e decidiu guardá-la, só porque era sua. Perseguiu-a até aqui, tentou entrar em seu quarto, querendo... desculpe ter de dizer de novo... querendo possuí-la a qualquer custo. Não se esqueça de que seria fácil para um homem assim sentir-se atraído por uma mulher como você, ficar completamente obcecado.
Pelo modo como ele falou, deixou claro que também se encontrava sob o encantamento de Angelique. Ainda bem que ele compreendeu a verdade, pensou ela, aliviada por outro risco ter sido eliminado. Sua mente desviou-se para os vidros e para o dia seguinte, quando estaria purificada, pronta para iniciar uma vida nova, com um futuro maravilhoso.
— Os japoneses são curiosos — continuou Babcott. — Diferentes. Acima de tudo, diferentes num ponto importante, o de não terem medo de morrer. Quase que dão a impressão de que procuram a morte. Você teve muita sorte em escapar. Bom, acho melhor eu ir agora.
— Muito obrigada por tudo. — Ela pegou a mão de Babcott, comprimiu-a contra seu rosto. — Vai contar a Malcolm e ao Dr. Hoag? Assim acabaremos logo com isso.
— Deixarei Malcolm aos seus cuidados. — Por um instante, ele pensou em pedir a ajuda de Angelique para o problema do vício em ópio de Malcolm, mas concluiu que ainda não era uma coisa urgente; além do mais era responsabilidade sua, não dela. Pobre Angelique, já sofreu demais. — Quanto a Hoag, por que isso seria da sua conta ou dos intrometidos e intrigantes de Iocoama? Não é da conta deles, nem da minha, não é mesmo?
Ele contemplou os olhos claros de Angelique, no rosto risonho e radiante, a pele translúcida, toda ela irradiando juventude e saúde, com a sensualidade magnética e inconsciente que sempre a envolvia, e que parecia ter aumentado de poder, contra todas as expectativas médicas. Espantoso, pensou Babcott, sentindo a maior admiração por tamanha flexibilidade. Eu gostaria apenas de conhecer seu segredo, descobrir por que algumas pessoas vicejam em adversidades que destruiriam a maioria das outras.
Abruptamente, a sua parte de médico desapareceu. Não posso culpar aquele ronin, nem Malcolm, nem qualquer outro homem, por ser louco por ela, pois também a desejo.
— É curioso o que aconteceu com sua cruz — murmurou ele, a voz meio rouca, nem um pouco envergonhado por isso. — Mas também a vida é uma sucessão de curiosidades, não é mesmo? Boa noite, minha cara. Duma bem.
A primeira cólica arrancou-a de um sono irrequieto, povoado por demônios aprisionados, grosseiros, estupradores com olhos negros como carvão, as mulheres grávidas, os homens com chifres, afastando-a de Tess Struan, que montava guarda sobre Malcolm como um espírito maligno. Uma segunda cólica veio logo em seguida, e despertando-a para a realidade, para o que estava acontecendo.
O alívio por ter começado ofuscou as horas anteriores de apreensão, que lhe pareceram uma eternidade antes de conseguir adormecer. Passava um pouco das quatro horas da madrugada agora. Eram quase duas e meia na última vez em que consultara o relógio. Outra cólica, mais forte do que a anterior, sacudiu todo o seu corpo, levando-a a se concentrar na seqüência.
Os dedos trêmulos tiraram a rolha do segundo vidro. Outra vez ela engasgou com o gosto pútrido e quase vomitou o líquido, mas conseguiu mantê-lo no estômago, que se contraía em repulsa, com a ajuda de uma colher de mel.
Recostou-se nos travesseiros, ofegando. Um fogo parecia se espalhar, a partir do estômago. Em poucos momentos, o suor porejou por todo o corpo. Mas logo passou, deixando-a inerte, encharcada, mal respirando.
Esperando. Como antes, nada. Apenas uma inquietação nauseante, a mesma que experimentara antes, após horas de ansiedade, ao mergulhar no sono perturbado. Sua consternação aumentou.
— Santa Mãe, faça com que funcione — balbuciou ela, em meio às lágrimas. Mais espera. Ainda nada. Os minutos foram passando.
E então, ao contrário de antes, uma cólica surpreendentemente diferente quase a dobrou. Outra. Apenas suportável. Mais, ainda suportável. Ela se lembrou da segunda metade da infusão, sentou na cama, começou a tomá-la, aos goles. O gosto era ruim, mas não tanto quanto o líquido nos vidros.
— Graças a Deus não tenho mais que beber aquilo — murmurou ela. Tomou outro gole. E mais outro. Depois de cada gole, uma mordida no chocolate...
Outras cólicas, mais fortes agora. Num ritmo crescente. Não se preocupe, tudo está acontecendo conforme André explicou, pensou ela. Os músculos da barriga começavam a parecer distendidos e doloridos. Mais goles, mais cólicas, e depois o último gole desceu por sua garganta. O pote de mel quase vazio... o resto do chocolate, mas agora nem mesmo sua doçura podia se sobrepor ao gosto bilioso. Uma aragem passou por baixo da porta do boudoir, balançando a chama do lampião na mesa ao lado da cama, fazendo com que as sombras na parede mudassem e dançassem. Com o maior estoicismo, Angelique recostou-se, contemplou-as, as mãos comprimindo a barriga contra as pontadas de dor, os músculos contraindo-se e relaxando, cada vez mais tensos, saltando sob seus dedos.
— Observe as sombras, pense em coisas boas — sussurrou ela. — O que você vê?
Navios e velas, os telhados de Paris, arbustos, ali está a guilhotina, não, não a guilhotina, mas um caramanchão, coberto por roseiras por que é o nosso chalé no campo, perto de Versailhes, para onde iríamos na primavera e o verão, enquanto crescíamos, meu irmão e eu, a querida mamãe, há tanto morta, e o pai, que só Deus sabe onde se encontra, a tia e o tio nos amando, mas não sendo capazes de substituir a queri...
— Oh, Mon Dieu! — balbuciou ela, quando o primeiro dos violentos espasmos a dominou.
Soltou um grito no seguinte, enfiou parte do lençol na boca, frenética, a fim de sufocar os berros, que saíam contra a sua vontade, e teriam atraído todo mundo na legação, para bater na porta trancada.
E foi então que começaram os calafrios. Pingentes de gelo em suas entranhas. E mais violência, vinte vezes pior do que em suas piores cólicas mensais. O corpo estremecia sob a pressão, pernas e braços se agitavam no ritmo das ondas de tormento que subiam da virilha para a cabeça.
— Vou morrer... vou morrer... — gemeu Angelique, os dentes rangendo no lençol, abafando os gritos.
Mais e mais espasmos, mais e mais calafrios, até que tudo cessou. Abruptamente.
A princípio, ela pensou que morrera de fato, mas logo os sentidos recuperaram o foco e percebeu que o quarto parara de girar, a chama do lampião se tornara baixa, mas ainda ardia, pôde ouvir o tiquetaque do relógio. Os ponteiros indicavam 5:42 h.
Angelique fez um esforço para sentar na cama, sentindo-se horrível. Uma olhada no espelho de mão assustou-a. O rosto pálido, cabelos grudados na cabeça pelo suor, lábios descoloridos pelo medicamento. Enxaguou a boca com um pouco do chá verde, cuspiu no urinol, que tornou a empurrar para baixo da cama. Encontrou a maior dificuldade para tirar a camisola suja, usou uma toalha úmida para limpar o rosto e o pescoço da melhor forma que podia, escovou os cabelos e tornou a se estender na cama, exausta, mas sentindo-se melhor pelos cuidados que se dispensara. Foi só nesse momento que notou a mancha vermelha na camisola, jogada ao acaso no tapete puído.
Um rápido exame confirmou que o sangue continuava a escorrer. Ela ajeitou uma toalha limpa entre as pernas e recostou-se mais uma vez, perto do amanhecer, quase afundando no colchão de fadiga. Um calor espalhou-se pelo corpo cansado. O fluxo aumentou.
Domingo, 9 de novembro:
— Ilustre Chen disse para lhe contar tudo o que possa afetar o tai-pan, irmã mais velha — Ah Soh sentiu-se apreensiva. — Uma noite antes de Púbis Dourado iniciar sua purgação do mês, ela...
— Ah, então foi por isso que ela ficou na cama e não viu meu filho — comentou Ah Tok. Estavam em seu quarto, no final do corredor, a salvo de ouvidos bisbilhoteiros. — Ele ficou como uma criança na dentição durante o dia inteiro, pior esta manhã. É tempo de voltarmos para casa.
— Tem razão. Mas escute o resto: ela diz que é a purgação do mês, mas conheço suas datas tão bem quanto as minhas. Não parece possível. Normalmente, ela é como qualquer jovem virgem civilizada, regular, mas...— Ah Soh puxou sua bata, nervosa. —... mas agora me lembro, a última foi bastante escassa, quase como se a tivesse perdido.
A mulher mais velha arrotou, levou um palito aos dentes.
— Perder, ou ter pouco, ou ser irregular, com toda a ansiedade pelos ferimentos de meu filho, e pelos bárbaros infames e assassinos que nos cercam aqui, é uma coisa comum, não há nada de excepcional.
Na mesa entre as duas havia várias tigelas, com os restos do almoço de Ah Tok: sopa agridoce, ensopado de legumes fritos, peixe com gengibre e soja, iscas de carne de porco em molho de feijão preto, camarões ao alho e arroz.
— É normal, irmã mais nova — acrescentou Ah Tok.
— O que não é normal é que na manhã de ontem, quando levei seu chá e água quente para o banho, tive de bater várias vezes para despertá-la e ela não me deixou entrar, apenas gritou rudemente “Vá embora!”, através da porta, naquela sua voz vulgar, e depois... — Ah Soh pediu-lhe que baixasse a voz, numa atitude dramática. —... apenas poucos minutos mais tarde, Grande Nariz Pontudo, aquele outro tipo de demônio estrangeiro que os nossos demônios estrangeiros chamam de comedores-de-rãs, bateu de leve na porta, assim... — Ela bateu na mesa três vezes e, depois, uma quarta. — E ela o deixou entrar no mesmo instante!
Ah Tok piscou os olhos, surpresa.
— No mesmo instante? Ele? O francês? Ela deixou aquele homem entrar, mas não a você? E você viu isso?
— Vi, sim, mas ele não me viu.
— Foi muita esperta, irmã mais nova. Continue.
— Ele ficou lá dentro por alguns minutos e saiu carregando coisas embrulhadas num pedaço de seda marrom. Como um ladrão na noite mais escura. Mas não me viu a espioná-lo. — Ah Soh fez uma pausa, adorando, como todos os chineses, ser a mensageira de intrigas e segredos. — Também não me viu quando o segui.
— Por todos os deuses, grandes e pequenos, é mesmo? — Ah Tok serviu dois copos do madeira, que ambas saborearam. — Vida longa, irmã mais nova, que o seu portão de jade nunca a incomode. Continue.
— Ele desceu até a praia, entrou num bote e remou para o mar. Depois de algum tempo, eu o vi largar o que tirara do quarto na água.
— Não!
— É verdade. Ele voltou em seguida, mas não me viu. Em momento nenhum.
— O que podia ter sido?
Ah Soh inclinou-se mais um pouco.
— Quando miss me deixou entrar, olhei ao redor com a maior atenção. Sua cama e camisola estavam encharcadas de suor, e ela parecia ter sofrido um acesso da febre do Happy Valley. Suas toalhas íntimas se encontravam encharcadas também, mais pesadas do que habitualmente. Ela me mandou limpar tudo, trazer toalhas quentes, e não deixar ninguém entrar... nem mesmo o tai-pan. Assim que acabei o que era necessário, ela arriou na cama e voltou a dormir.
— Isso não é estranho, mas a presença de Nariz Pontudo é! — Ah Tok balançou a cabeça, ponderada. — É como bosta de burro, brilhante por fora, mas nem por isso deixa de ser bosta. É evidente que ele jogou fora alguma coisa por ela.
Ah Soh hesitou.
— Seu honrado filho... há alguma possibilidade de que ele tenha deitado com a miss?
Ah Tok soltou uma risadinha.
— Tenho certeza que tentou, mas Púbis Dourado não permitiu que seu talo celestial desfrutasse o rompimento de seu portão, embora ela o pavoneie sempre que pode. Ouvi-o balbuciando o nome dela no sono, pobre coitado. Uma coisa horrível. Se ela fosse uma pessoa civilizada, eu poderia acertar o preço e estaria tudo resolvido.
Ah Soh observou Ah Tok pegar um pedaço da cabeça do peixe com os pauzinhos, pensativa, limpar a espinha e cuspi-la na tigela. A mulher mais jovem teria com o maior prazer partilhado aquelas sobras, já que seu cozinheiro não era tão bom quanto o de Ah Tok.
— Como anda o seu cozinheiro agora? — perguntou ela, com um ar inocente.
— Melhorando. O cão vem da minha aldeia e por isso parecia prometer. Continuo a treiná-lo, é claro. — Ah Tok fez uma careta. — Desconcertante, irmã mais nova. Como está a imperatriz hoje?
— Irritada, como sempre. O fluxo continua, mais forte do que o normal.O gigante da medicina foi vê-la esta manhã, mas ela não o recebeu, pediu que eu o mandasse embora. Há alguma coi...
— Ela já viu meu filho?
— Vai se encontrar com ele esta tarde.
— Ótimo. Hoje a língua dele parece uma áspide, por causa da mãe. Nariz Pontudo e Púbis Dourado numa conspiração secreta? Isso cheira mau, muito mau. Mantenha os olhos e ouvidos bem abertos, irmã mais nova.
— Há mais uma coisa.
Ah Soh revirou os olhos em excitamento. Enviou a mão no bolso, pôs uma rolha em cima da mesa. A parte inferior tinha uma mancha púrpura, quase preta.
— Encontrei isto debaixo da cama, quando me abaixei para pegar o urinol. O rosto encarquilhado de Ah Tok contraiu-se ainda mais, em perplexidade.
— E daí?
— Cheire, irmã mais velha.
Ah Tok obedeceu. O odor era pungente, um pouco familiar.
— Oque é?
— Não tenho certeza... mas para mim o cheiro é de Escuro da Lua. Acho que o vidro que essa rolha tapava continha Escuro da Lua... junto com outras ervas.
A mulher mais velha soltou uma exclamação de espanto.
— O expulsor? Para causar um aborto? Impossível! Por que ela haveria de fazer isso?
— Seria terrível para seu filho ser chamado de pai antes do casamento, não é mesmo? Sabe como os demônios estrangeiros são com o casamento, escândalos e virgindade, nada de fornicação antes do casamento... o homem é sempre o culpado, uma tolice. Seria ruim para seu filho. Teria que dar explicações a tai-tai Tess e também ao mesquinho e vingativo deus dos demônios estrangeiros.
As duas mulheres estremeceram. Ah Tok tornou a farejar a rolha.
— Acha que Nariz Pontudo jogou o vidro no mar?
— Também está faltando um bule de chá, que pode ter servido para as outras ervas. Ela havia pedido também água quente e mel.
— Para tirar o gosto! É isso mesmo! — Solene, Ah Tok acrescentou:— Meu filho é... é bastante desequilibrado por essa mulher.
— O que devemos fazer?
— Agiu bem ao me contar. Escreveremos para ilustre Chen e mandaremos a rolha para ele, pela primeira correspondência. Ele saberá se você está certa e nos dirá o que fazer.
Trêmula, Ah Tok serviu mais vinho para ambas.
— Mantenha os olhos bem abertos, fique de boca fechada como uma ostra, e farei a mesma coisa... nem uma única palavra para ela, meu filho, ou qualquer outra pessoa, até que o ilustre Chen nos diga o que fazer.
Malcolm Struan claudicava pela High Street, a caminho do prédio Struan, apoiado em suas bengalas. O céu estava nublado, um vento fraco soprava do mar, a tarde era fria, e sua preocupação mais angustiante desaparecera. Vira Angelique, convencendo-se de que ela estava bem, mais adorável do que nunca, embora pálida e sonolenta, fizera isso. Permanecera em seu quarto por alguns minutos apenas, não querendo cansá-la.
Alguns mercadores montados pararam seus cavalos, polidamente, para deixá-lo passar, erguendo os chicotes em saudação.
— Bom dia, tai-pan — disse Lunkchurch, tão risonho quanto os outros. — Estará no clube ao pôr-do-sol?
— O que vai acontecer? — perguntou Struan.
Lunkchurch sacudiu o polegar para o vapor de casco preto, com dois mastros, ancorado na enseada, perto da fragata de Marlowe. Exibia a bandeira da Brock & Sons.
— Aquele navio e suas notícias. Norbert convocou uma reunião; apenas os mercadores, sem a presença de Sir William.
— Eu ia fazer a mesma coisa. Ao pôr-do-sol, ótimo, estarei lá — disse Malcolm, muito tenso.
O Ocean Witch — todos os principais navios da Brock tinham Witch como segundo nome, enquanto a Struan usava Cloud — chegara inesperadamente na noite anterior, com notícias, correspondência e as últimas edições dos jornais de Hong Kong.
Os editoriais de todos os jornais falavam do almirante Ketterer e de seu ataque bem-sucedido aos ninhos dos piratas chineses, na área da baía de Mirs, informando que ele se encontrava a caminho de Xangai, para reabastecimento. O Guardian, em letras grandes, resumira a situação:
Num despacho para o governador, o almirante Ketterer escreveu que haviam sofrido algumas baixas, porque as baterias costeiras chinesas estavam equipadas com canhões modernos... canhões fabricados em Birmingham, saídos de Hong Kong, adquiridos por meios legais ou ilegais por Wu Sung Choi, o líder das frotas do Lótus Branco, que infelizmente não foi capturado, nem morto.
Por mais espantoso que possa parecer, o almirante recomendou, por causa desse pequeno incidente (os canhões foram destruídos por um destacamento de fuzileiros que desembarcou na praia), que todas as vendas de armas — e de ópio — fossem declaradas ilegais, proibidas em toda a Ásia, de imediato, em particular na China e no Japão, com as penalidades mais rigorosas para qualquer violação.
Essa injustificada interferência no comércio legítimo, essa inadmissível imputação de culpa a todos os mercadores na China — renomados por seu senso de justiça, por sua intrépida capacidade de desenvolver o império. Pela lealdade a sua majestade, que Deus a abençoe, e por colocarem a pátria acima do lucro — merecem os protestos mais vigorosos.
Os editores gostariam de perguntar ao almirante: quem fornece os impostos para pagar pela maior marinha que o mundo já conheceu (da qual ele é, sem dúvida, um membro extraordinário, embora desinformado sobre questões vitais do interesse da coroa), sem a qual nosso império deixa de existir: apenas e sempre os incansáveis mercadores e seu ofício...
— Ketterer é um idiota — disse Struan. — Norbert tem razão nesse ponto. Talvez agora Sir William veja a luz e peça um substituto imediato. Temos de lidar com os japas aqui e Ketterer não vai fazer nada sem ordens expressas.
— Não resta a menor dúvida de que precisamos de um homem com muita coragem — concordou Lunkchurch. — Ketterer é muito fraco.
Um dos outros homens interveio:
— Ei, Charlie, ele destruiu os piratas quando recebeu a ordem e fará a mesma coisa aqui. Que diferença pode haver em alguns meses a mais? — Uma pausa e ele indagou, ansioso: — Ei, tai-pan, podemos saber como está miss Angel?
— Está bem agora.
— Graças a Deus!
A notícia de que ela se encontrava acamada circulara depressa pela colônia, no dia anterior, e a preocupação aumentara ao se saber que se recusara a receber Babcott, Hoag, e até mesmo o tai-pan.
— Por Deus, é a comida francesa, ela está envenenada... Não, pegou a praga deles... Os franceses não têm pragas, apenas piolhos... Todos temos piolhos... Ouvi dizer que foi cólera...
Um alívio universal se espalhara por Iocoama ao meio-dia de hoje, quando o ministro Seratard divulgara um boletim oficial, informando que ela gozava de perfeita saúde, apenas sofria uma indisposição temporária... e logo as pessoas sussurraram que se tratava do incômodo mensal.
— Minha noiva está bem — reiterou Malcolm, orgulhoso.
— O que é um alívio — comentou Lunkchurch. — Já soube que o Witch vai zarpar com a maré alta esta noite?
Malcolm olhou para o mar, muito de sua inquietação voltando. Ontem à noite, ao ser informado da chegada do navio, fora dominado por um pânico súbito e nauseante, pensando que Tyler Brock ou Morgan Brock podiam estar a bordo. Só conseguira pensar com clareza quando Jamie lhe assegurara que não.
Por que Tyler Brock me deixa apavorado, mesmo agora? — ele perguntou a si mesmo, mais uma vez. Posso compreender tal reação quando eu era pequeno, mas agora sou quase da sua altura, embora Tyler continue tão feio quanto sempre, o rosto rude, a boca suja, com a barriga imensa, o único olho sempre injetado. Qual é o problema? Há muitos homens como ele em Hong Kong, até mais feios. E vários são inimigos. Mas não me assustam. Tyler sempre foi nosso inimigo e conseguimos detê-lo em todas as ocasiões... Dirk fez isso, meu pai também, até a mãe, e eu devo, mas... Por Deus Todo-Poderoso, detesto aquele canalha, pelo sofrimento que causou à mãe e à nossa família! Ele respirou fundo, voltou a se concentrar no Ocean Witch.
— Mas ele só deveria partir daqui a dois dias.
— É esse o rumor.
— Mas por que uma mudança de plano tão repentina?
— Não sei, mas é essa a notícia que começou a circular.
— Saberemos de tudo em breve. Bom dia.
Malcolm tratou de reprimir seu presságio e se afastou. Mais adiante ficava o prédio da Struan, para onde seguia, e depois a torre da Santíssima Trindade. Fora ao serviço cedo naquela manhã, orara por Angelique e para ter mais força, sentindo-se melhor em seguida. Mas que Deus amaldiçoe todos os Brocks para sempre, que me permita matar Norbert e...
— Tai-pan!
Arrancado de seu devaneio, ele se virou. Phillip Tyrer se aproximava apressado, vindo da legação britânica.
— Desculpe, mas todos queremos saber como está miss Angelique.
— Está bem.
Por trás de Tyrer, Malcolm avistou Sir William, observando-o de uma das janelas do térreo. Acenou com uma bengala, fez o gesto de polegar para cima, meio sem jeito, e Sir William acenou em resposta. Pouco antes de o ministro britânico recuar, Malcolm vislumbrou um outro homem ao seu lado.
— Aquele é seu samurai domado, Nakama?
— Quem? Ah, sim, o próprio. Ela está mesmo bem?
— Claro que sim.
— Graças a Deus! Ficamos todos na maior preocupação! — Phillip Tyrer exibia uma expressão radiante, uma imagem de saúde, corado, forte, mais alto, apenas porque Struan agora andava encurvado. — Você também parece muito melhor.
— Eu bem que gostaria que isso fosse verdade. — Abruptamente, a inveja de Malcolm levou-o a dizer, em tom um tanto brusco: — Soube que Nakama vem lhe fornecendo todos os tipos de informações, a você e a Sir William.
O sorriso de Tyrer se desvaneceu.
— É verdade.
— O acordo foi que você passaria as informações para Jamie e eu. Sobre tudo. Não é verdade?
— É, sim, mas Sir William... ele vem tentando descobrir qual é a situação política no Japão e...
— A política e os negócios de um país são como um par de luvas, Phillip. Não poderia nos visitar amanhã, antes do almoço? Eu me sentiria grato por saber das novidades. — Malcolm forçou um sorriso. — Por favor, transmita meus cumprimentos a Sir William. Até amanhã.
Ele seguiu claudicando pela rua, furioso consigo mesmo por ter sido tão cáustico, desesperado por andar daquele jeito, subiu a escada do prédio da Struan, a caminho de seus aposentos. As costas e a barriga doíam, de forma alarmante. Não mais do que o habitual, pensou ele, irritado, e isso não era motivo para ser ríspido com Phillip. Ele apenas tentava ser simpático. Mas não importa, um pouco do elixir de Ah Tok e voltarei a me sentir bem. Convidarei Phillip para jantar, e...
— Tai-pan!
— Olá, Jamie. — Malcolm parou no meio da escada. — Já soube que o Ocean Witch vai zarpar antes do prazo previsto? Talvez com a maré cheia desta noite?
— Era o que eu ia lhe contar. Ouvi o rumor, tentei obter uma confirmação de Norbert, mas ele se encontra ocupado no momento... Como está Angelique?
— Muito bem — respondeu Malcolm, distraído. — É melhor aprontar logo nossa correspondência, se o Witch partir mesmo mais cedo.
— Pode deixar que cuidarei de tudo. Irei buscar suas cartas assim que receber uma confirmação.
Jamie franziu o rosto, ao perceber como Malcolm parecia distante.
— Mande alguém procurar Angelique, pois ela também tem correspondência para enviar.
A carta para a mãe dele, escrita e reescrita, até ambos ficarem satisfeitos. É uma boa carta, pensou Malcolm.
— Achou-a realmente bem, tai-pan?
— Maravilhosa!
Malcolm sorriu, as dores momentaneamente esquecidas, o Witch esquecido. Angelique parecia espetacular na cama, viçosa, embora pálida, feliz e atenciosa, bastante satisfeita por vê-lo.
— Ela disse que amanhã à noite já terá se recuperado por completo, Jamie. Por que não realizamos um grande jantar aqui? Nós, Dmitri, Babcott, Marlowe, se estiver de folga, e Pallidar, pois os dois são ótimas companhias, apesar de adularem Angelique como cachorrinhos.
— E o que me diz de Phillip e Sir William?
— Phillip, sim, mas não Sir William... não, é melhor deixá-los de fora. O que acha do conde Zergeyev? Ele sempre nos proporciona boas risadas.
— Se o convidar, terá de incluir todos os ministros... não poderia deixar Sir William de fora.
— Tem razão. Providencie um jantar simples, e deixaremos para convidá-los outra noite.
— Cuidarei de tudo.
Jamie sentia-se contente por ter restabelecido o relacionamento amigável com Malcolm. Entraram juntos na suíte. Todos os danos causados pelo incêndio já haviam sido reparados, embora ainda restasse um leve cheiro de fumaça.
— O que acha de Ketterer?
— Ele tem de defender nossos interesses ou cai fora. — Malcolm sentou à sua escrivaninha, começou a empilhar a correspondência que queria enviar. — A mãe já teve ter conversado a respeito com o governador.
— É verdade.
Malcolm levantou os olhos subitamente, percebendo certa estranheza na voz de Jamie. Depois de um momento, ele comentou:
— É curioso como nos sentimos confiantes de que ela fará isso e não temos a menor confiança de que serei capaz de persuadi-la a aprovar meu casamento.
— Não sei como responder a isso, tai-pan— murmurou Jamie, com alguma tristeza —, se é uma pergunta.
Malcolm balançou a cabeça, devagar, observando o rosto firme e curtido pelo tempo, o corpo forte e resistente, e especulou se também seria assim ao completar trinta e nove anos... daqui a dezenove anos.
— Recebeu outra carta dela?
— Recebi, trazida pelo Ocean Witch, e não contém boas notícias, lamento dizer.
— É mesmo? Sente-se, Jamie. O que ela diz?
— Desculpe, mas... Ela reiterou a ordem para que eu ajude o Dr. Hoag a despachá-lo de volta para Hong Kong imediatamente, confirmando que seria despedido ao final do mês, se isso não acontecer.
— Pode esquecer. Escreveu para ela, como eu mandei, dizendo que deve obedecer às ordens do tai-pan, às minhas ordens, e não às dela?
— Escrevi.
— Eu também. Ponto final neste assunto. Sua carta e a minha devem ter cruzado com a dela. — Malcolm acendeu um charuto, percebeu que seus dedos tremiam. — Você nunca fumou?
— Nunca. Experimentei uma vez e não gostei.
— Esqueça essa bobagem de dispensa. Quais são as outras más notícias?
— Tenho toda a correspondência e recortes à sua espera, quando quiser. Os negócios andam ruins por toda parte. Perdemos o Racing Cloud... já deveria ter chegado a San Francisco há muito tempo.
— Mas que droga!
O Racing Cloud integrava a frota de clíperes, vinte e dois navios. Os clíperes, com três mastros, dominavam os mares, eram muito mais velozes nas rotas marítimas de longo curso do que os pesados vapores, que tinham de carregar o carvão. Sua carga era de chá, seda e especiarias, mercadorias sempre muito procuradas e agora, por causa da guerra americana, astronomicamente valiosas... ainda mais se desviadas para o Sul.
— O seguro nos dá cobertura, não é?
— Receio que não. Isso nunca ocorre, nem mesmo por parte do Lloyd's. Podem alegar que foi um ato de guerra. Afinal, é uma zona de guerra.
— Tem razão. Vai nos custar um bom dinheiro. E é lamentável a perda da tripulação. O capitão não era Caradoc?
— Isso mesmo. Eles devem ter enfrentado um furacão... há informações sobre vários, ao largo do Havaí, embora estejam atrasados este ano. O imediato era meu primo, Duncan McGregor.
— Sinto muito.
Ainda mais deprimido, Struan olhou para a cômoda, onde o elixir o esperava. Fico imaginando se as mesmas tempestades não afundaram também o Savannah Lady, junto com o jovem Pedrito Vargas e nosso pedido para cinco mil fuzis, pensou ele, distraído. O que o lembrou de uma coisa.
— Aqueles canhões na baía de Mirs... não foram vendidos por nosso intermédio, não é?
— Não, ao que eu saiba.
Era a resposta normal a tal pergunta. Ambos tinham conhecimento das grandes vendas de armas para os mercadores chineses, que sempre representavam o governo manchu. O que acontecia depois da entrega em Cantão ou Xangai era outro problema.
Malcolm pensou: Sou capaz de apostar cinqüenta mex contra um dólar que eram nossos, de um jeito ou de outro. Ele estava a par de um dos maiores segredos da Struan: o tênue relacionamento de amigo-inimigo entre a Casa Nobre e os mercadores marítimos Wu Chois do Lótus Branco, iniciado pelo avô e mantido por seu pai. E o que eu farei em relação a eles? — perguntou-se Malcolm, subitamente cansado de Iocoama, e ansioso em assumir o manto e os segredos do avô... e confrontar a mãe.
— Daqui a uma semana ou por aí — murmurou ele.
— Como, tai-pan?
— Nada. O que mais, Jamie?
McFay passou a falar sobre a queda dos preços das mercadorias que vendiam e a escalada dos preços das mercadorias que tinham de comprar, as demandas de crescentes salários de risco para os marujos, muitos dos quais eram de descendência anglo-americana, e não gostavam de ser atacados por navios de guerra do Norte e do Sul.
— Eu poderia continuar para sempre. A Rússia e a França parecem ansiosas por uma guerra e, por isso, a Europa se transformou num barril de pólvora. Por toda a índia, muçulmanos e hindus estão se matando, incendiando as colheitas. O mundo inteiro enlouqueceu. — Ele hesitou. — Mais urgente, o Victoria Bank escreveu de novo sobre o empréstimo. As promissórias vencem...
— Já sei de tudo a respeito; eles que se danem. O banco é controlado pelos Brocks e nos deixou na mão, ao financiar o açúcar havaiano para eles. Estão querendo nos levar à bancarrota. Que se danem. — A voz de Malcolm engrossara. Pontadas de dor se irradiavam da barriga. — Acho que vou terminar minha correspondência, caso o Witch parta à noite. Por que ele vai voltar tão depressa?
Depois de um momento, Jamie deu de ombros.
— Não sei, mas concordo num ponto: qualquer notícia relacionada com a Brock é má notícia.
A reunião no clube logo degringolara para os gritos e imprecações habituais, os homens furiosos, muita bebida, todo mundo falando ao mesmo tempo e ninguém escutando, com um único tema unindo a todos:
— Que Deus amaldiçoe todos os governos, todos os coletores de impostos e todos os almirantes e generais, gordos peidorrentos que não conhecem seu lugar, não fazem o que deveriam fazer, que é ouvir a comunidade dos negócios e cumprir o que a gente mandar!
— É isso mesmo, Lunkchurch. Eu proponho...
O que quer que o homem pretendia propor se perdeu no tumulto, enquanto vários gritavam:
— Vamos tirar Wee Willie do cargo!
Exasperado, Norbert abriu caminho pela multidão, saindo do canto do bar, onde iniciara a reunião, e se encaminhou para Malcolm Struan, sentado ao lado da porta, junto com Jamie. Dmitri gritou:
— Nenhuma conclusão, Norbert?
— O que você esperava? Cabe aos tai-pans, como sempre. Jamie, você e... Norbert já ia espicaçar Malcolm, chamando-o de jovem Struan, mas recordou a ameaça brusca e incisiva de Sir William para não provocá-lo, em público ou em particular. Além disso, podia sentir a carta de Tyler Brock ardendo em seu bolso. Olhou para Malcolm e acrescentou, polido:
— Vocês dois poderiam fazer o favor de me acompanhar... para uma conversa particular? E você também, Dmitri?
Malcolm imaginara que Norbert passaria por ele apenas com um breve aceno de cabeça.
— Claro. Onde? Lá fora?
— No meu escritório, se não se incomodam. Os três seguiram-nos. Todos de guarda.
— O Ocean Witch vai zarpar com a maré cheia? — perguntou Malcolm.
— Vai, sim. Dmitri indagou:
— Por que a repentina mudança de planos, Norbert?
— Ordens de Tyler.
Norbert notou a súbita sombra que passou pelo rosto de Malcolm e sorriu para si mesmo.
Seu escritório temporário era no térreo, enquanto se efetuavam os reparos nos estragos causados pelo incêndio lá em cima. A escada central ficara enegrecida, havia buracos no telhado, cobertos por pedaços de lona.
— Uma coisa terrível, o fogo, mas acontece com todo mundo de vez em quando. Por sorte, como eu disse, o cofre não foi atingido, nem os livros e o armazém. — Ele apontou para poltronas de couro. — Sentem-se, por favor.
Havia copos e bebidas no aparador, uísque, conhaque, gim, vinhos, champanhe já no gelo. Seu criado número um chinês esperava para servir. A cautela de todos aumentou.
— Qual é seu prazer?
— Champanhe — respondeu Malcolm, acompanhado pelos outros.
Ele sentia-se bem agora, o elixir o estimulando, como sempre, a se sentir íntegro, além de atenuar a dor. Depois que todos os copos estavam cheios, Norbert sacudiu o polegar para o criado, que fez uma reverência e se retirou.
— Saúde!
Todos responderam ao brinde. Ele sentou-se à beira da mesa, alto, esguio e confiante.
— Estamos a salvo de ouvidos bisbilhoteiros aqui. Primeiro, nós, representando as três maiores companhias, devemos escrever em conjunto uma queixa a Wee Willie, não que vá adiantar grande coisa, e ao almirante... todos concordamos que ele é um estorvo. Não há motivo para que você deixe de participar nisso, Dmitri, pois a Cooper-Tillman também tem muito a perder aqui, tanto quanto nós. Ao mesmo tempo, devemos promover uma campanha no Parlamento, a Struan e nós, para resolver o problema do Japão de uma vez por todas... ou esmagamos os japas e os colocamos em seu lugar, ou vamos embora.
— Não vamos deixar o Japão — declarou Malcolm, fazendo McFay relaxar um pouco.
— Nem nós — disse Norbert. — É apenas uma manobra para persuadir aqueles desgraçados no Parlamento.
Ele pegou uma pasta na mesa arrumada, tirou uma folha de papel.
— Tenho aqui um despacho secreto de Londres, de um dos nossos observadores, trazido pelo Ocean Witch, datado de 16 de setembro.
— Chegou bem depressa — comentou Jamie, por todos.
— Nós sempre nos mantemos em dia, Jamie. Tyler mandou partilhar a informação com vocês três. Vou ler: O primeiro-ministro e o ministro das finanças concordaram ontem, numa reunião particular, aumentar o imposto sobre o chá para quatro pence por libra, um penny no quartilho de cerveja, um xelim em todo o conhaque e vinhos importados, dobrar a taxa do tabaco... — Todos estavam aturdidos. —... dobrar a taxa de importação do algodão...
— Essa não! — explodiu Dmitri. — É uma loucura! O algodão e o tabaco são as únicas colheitas que temos no Sul para nos render algum dinheiro! Se fizerem isso, o que vai acontecer com a nossa guerra, e com as tecelagens de vocês em Lancashire?
— Nós não temos tecelagens de algodão, mas a Struan tem. Há mais: Para conter certas facções poderosas nos dois lados do Parlamento, eles vão ordenar, ainda, que todas as plantações de ópio em Bengala sejam queimadas e as plantações de chá...
— Oh, Deus! -— Struan estava transtornado, Jamie roxo e Dmitri em choque. — Como vamos negociar com a China? Ópio por prata, e...
— O Parlamento não se importa com o nosso triângulo celestial — comentou Norbert, sombrio. — Não se interessa pela Ásia, a China ou o comércio, só se preocupa em permanecer no cargo. Querem replantar toda a área com chá.
Ele tornou a guardar o papel na pasta, sentou de novo à mesa, sabendo que os outros adorariam conhecer a veracidade do documento e o que mais continha.
— O velho mandou dizer a vocês que temos um informante próximo do gabinete do primeiro-ministro, que suas revelações sempre se mostraram autênticas no passado, e essa é a verdade de Deus. Declarou também que temos de afastar essa dupla, e depressa. Dmitri, você deve pressionar pelo seu lado. Tyler garante que faremos tudo o que for necessário, e pede a vocês para agirem da mesma forma. Concordam?
— Claro que concordo — respondeu Dmitri. — Não dá para acreditar.
— Eu também concordo. — Struan ergueu seu copo, especulando onde estaria a armadilha de Tyler Brock. — Que eles venham a arder no inferno.
Solenes, os outros beberam junto com ele. Norbert tornou a encher os copos. Seu rosto se contraiu ao focalizar Struan.
— O próximo assunto: todos estão a par do nosso duelo. Não preciso de padrinhos e marcamos para o amanhecer de quarta-feira. Sinto muito, mas parto no Ocean Witch esta noite, por ordem de Tyler. Portanto, a quarta-feira está cancelada. Sugiro...
— Por que adiar, se ainda resta bastante claridade agora?
As palavras saíram antes que Malcolm pudesse contê-las e ele sentiu-se satisfeito por ter reagido com tanta rapidez e firmeza, embora tivesse a súbita impressão de que o cérebro se dilatara. Jamie empalideceu, o silêncio prolongou-se.
— Não agora. — Os olhos faiscando, escondendo seu divertimento, Norbert virou-se para Jamie e Dmitri, os padrinhos formais de Malcolm. — Sugiro que adiemos, num acordo de cavalheiros, até meu retorno, daqui a umas três semanas, está bem? Poderá então ser no dia seguinte, ou em qualquer outra data que escolherem.
— Acho melhor assim — disse Jamie. — Concorda, tai-pan? Depois de um momento, a pressão na cabeça de Struan se dissipou.
— Concordo.
Ele não se sentia satisfeito, nem desapontado, apenas contente por haver reiterado o desafio. Não notou que Jamie e Dmitri disfarçavam seu alívio. Terminaram seus drinques e se retiraram.
Assim que ficou a sós, Norbert pegou a carta de Tyler Brock e releu-a, as palmas suadas. A primeira parte versava sobre as informações do espião e finalizava assim: “Leve o seu rabo para o Ocean Witch e parta com a primeira maré cheia, só você, sem outros passageiros. Traga seus livros, o contrato de exploração de ouro com os japas e todos os lingotes em seu poder. Vamos nos encontrar em Xangai, em segredo. — é o primeiro porto de escala do Witch, embora o manifesto diga que seguirá direto para Hong Kong —, Morgan, eu e você, o mais depressa possível, sem que ninguém saiba. Quando voltar a Iocoama, talvez passe a dormir no quarto de Malcolm Struan, é isso mesmo, com a língua de sua prostituta babando em você, se isso for do seu agrado... pois muito em breve ela também estará à venda. Acabamos de saber que o pai dela fugiu de Bangkok, como já havia fugido de Hong Kong, após cometer mais fraudes e trapaças. Desta vez são as autoridades franceses que estão à sua procura. E vão capturá-lo, julgá-lo e depois a guilhotina... os franceses não são como os nossos peelers, sempre delicados. Missus manda lembranças.”
QUIOTO, Domingo, 16 de novembro:
Muito depois do escurecer, Yoshi e sua guarda, em silêncio e disfarçada com roupas de soldados comuns, seguiam cansados pelas ruas desertas da cidade adormecida, a antiga capital, onde os imperadores e a corte imperial haviam vivido por séculos.
A cidade fora construída ao estilo chinês, com ruas retas, as ruas transversais formando ângulos retos, com o vasto palácio proibido e seus jardins na área central. Apenas os telhados podiam ser avistados por trás dos muros altos... com seis portões. Yoshi evitou-os com o maior cuidado, querendo se esquivar às patrulhas de Ogama e aos samurais que guardavam os portões. Ao chegar ao complexo do xogunato, sem ser anunciado, ele foi direto para seus aposentos, e logo afundou agradecido num banheira fumegante, em que oito pessoas caberiam com a maior facilidade.
— Quantos guerreiros tenho em Quioto, Akeda? — perguntou ele, as dores dos dias de marcha forçada começando a desaparecer.
Com expressão sombria, o velho general arriou na água, com apenas um metro de profundidade, ao seu lado. A casa de banho situava-se no reduto interior, todas as criadas haviam sido dispensadas, e sentinelas postadas nos acessos.
— Oitocentos e dois, dos quais oitenta estão doentes ou se recuperando de ferimentos, todos jurados a você, todos de confiança, todos montados. Mais os dezoito que você trouxe.
No momento em que Yoshi chegara, Akeda dobrara a guarda. Era um hatomoto vigoroso, de uma família que servia há gerações ao clã Toranaga, e agora comandava sua guarnição em Quioto.
— Não é o suficiente para protegê-lo — acrescentou ele, em sua voz rouca.
— Estou seguro aqui.
Pela lei do legado, aquele era o único complexo defensável em Quioto, capaz de alojar cinco mil homens, se fosse necessário, todos os outros daimios restritos a um máximo de quinhentos homens — com não mais que dez daimios juntos em Quioto em qualquer momento, suas idas e vindas controladas com rigor. O tempo e o fraco Conselho de Anciãos reduziram o efetivo do xogunato a menos de mil.
— Duvida disso, Akeda?
— Dentro dos nossos muros, não. Referia-me ao exterior.
— Aliados? Com quantos daimios posso contar?
Akeda deu de ombros, irritado.
— Foi um grande erro se sujeitar a tamanho risco, viajando com poucos guardas, e ainda mais perigoso vir para Quioto. Se eu tivesse sido avisado antes, poderia sair para encontrá-lo com um destacamento e escoltá-lo até aqui. Se seu pai estivesse vivo, teria proibido essa...
— Mas meu pai não está vivo. — Os lábios de Yoshi se contraíram numa linha dura. — Aliados?
— Se erguesse seu estandarte em Quioto, Sire, seu estandarte pessoal, a maioria dos daimios e a maioria dos samurais correriam para o seu lado, aqui e por toda a terra, mais do que o suficiente para impor qualquer coisa que quisesse.
— Isso pode ser interpretado como traição.
— Sinto muito, mas a verdade é, em geral, traiçoeira no seu nível, lorde... e muito difícil de se encontrar. — O rosto velho e enrugado se desmanchou num sorriso. — A verdade: se erguer a bandeira do xogunato, não terá o apoio de quase nenhum dos daimios daqui contra Ogama de Choshu, não enquanto ele controlar os portões.
— Quantos samurais Ogama mantém aqui?
— Dizem que mais de dois mil, homens escolhidos a dedo, todos em casas de guarda fortificadas ao redor do palácio, perto dos guardas nominais em nossos portões. — Akeda tornou a sorrir, sem humor, ao ver os olhos de Yoshi se contraírem. — Todo mundo sabe que é contra a lei, mas ninguém lembrou a ele, ninguém resistiu. Ogama vem trazendo seus homens em grupos de dez e vinte desde que expulsou a raposa velha do Sanjiro, com Katsumata e seus Satsumas. Já sabe que eles escaparam de barco para Kagoshima?
Akeda arriou ainda mais na água, antes de acrescentar:
— Correm rumores que Ogama tem mais dois a três mil samurais de Choshu numa distância de dez ri.
— É mesmo?
— Seu controle sobre Quioto aumenta mais um pouco a cada dia, suas patrulhas dominam as ruas, exceto pelos bandos ocasionais de shishi, que lutam com qualquer um que eles imaginem que não respeita Sonno-joi, nós em particular, e todos os aliados do xogunato. São tolos, porque também nos opomos aos gai-jin e seus nefandos tratados, queremos que sejam expulsos.
— Os shishi estão muito fortes aqui?
— Estão, sim. Circulam rumores de que se preparam para algum golpe grande. Há cerca de uma semana alguns deles atacaram uma patrulha de Ogama, chamando-o abertamente de traidor. Ogama ficou furioso e, desde então, vem caçando-os. Há...
Uma batida na porta interrompeu-o. O capitão da guarda abriu a porta.
— Com licença, lorde Yoshi. Um emissário de lorde Ogama está no portão, solicitando uma audiência.
Os dois homens ficaram surpresos. Yoshi disse, irritado:
— Como ele descobriu que cheguei? Percorremos disfarçados as últimas cinqüenta ri. Esperei nos arredores de Quioto até escurecer, contornamos as barreiras, e não deparamos com nenhuma patrulha. Deve haver um espião aqui.
— Não há espiões aqui dentro — garantiu Akeda. — Juro por minha cabeça, Sire. Lá fora, há legiões, por toda parte, espiões de Ogama, os shishi, e outros... e não é um homem que consegue se disfarçar com facilidade, Sire.
Yoshi tomou uma decisão.
— Capitão, diga a ele que estou dormindo e não posso ser incomodado. Peça-lhe para voltar pela manhã, quando será recebido com todas as honras.
O capitão fez uma reverência, já começava a se retirar quando Akeda acrescentou:
— Ordene um alerta total para a guarnição inteira!
Assim que voltaram a ficar a sós, Yoshi disse:
— Acha que Ogama ousaria me atacar aqui? Seria uma declaração de guerra.
— Não estou interessado no que ele pode ousar, Sire, mas apenas na sua segurança. É minha responsabilidade agora.
O calor da água se infiltrava agora pelas articulações de Yoshi e ele se recostou, deixando que a sensação agradável o envolvesse, contente por Akeda estar no comando, tranquilizado por sua presença, embora não se influenciasse por suas opiniões. Não previra ser descoberto tão depressa. Ora, não importa, pensou ele, meu plano ainda é bom.
— Quem é o adepto subserviente de Ogama, seu intermediário na corte?
— O príncipe Fujitaka, primo em primeiro grau do imperador... o irmão de sua esposa é o camareiro imperial.
Yoshi soltou um assovio, e o general acenou com a cabeça, sombrio.
— Muito difícil romper um vínculo assim, a não ser com uma espada.
— Impensável! — sentenciou Yoshi, que pensou: a menos que seja possível. De qualquer forma, era uma estupidez dizer algo assim em voz alta, mesmo em particular. — Quais são as notícias sobre o xógum Nobusada e a princesa Yazu?
— São esperados dentro de uma semana e... Yoshi levantou os olhos abruptamente.
— Eles não deveriam chegar por mais duas ou três semanas.
A voz do velho soou ainda mais rouca:
— A princesa Yazu ordenou que a comitiva voltasse à Tokaidô e continuasse pelo caminho mais curto, sem dúvida ansiosa em ver o irmão, levar o marido para demonstrar sua submissão, contra toda a tradição... e acabar com o xogunato o mais depressa possível, entregar o comando a Ogama.
— Mesmo aqui, velho amigo, deve tomar cuidado com o que diz.
— Estou muito velho para me preocupar com isso agora... agora que seu pescoço se encontra entre as garras de Ogama.
Yoshi chamou as criadas para que trouxessem toalhas e enxugassem os dois, ajudando-os a vestir yukatas limpos. Pegou suas espadas e disse, por fim:
— Desperte-me ao amanhecer, Akeda. Tenho muito o que fazer.
Pouco antes do amanhecer, nos subúrbios ao sul, onde o rio fazia uma curva para o sul, na direção de Osaca e do mar, a vinte e tantas ri de distância, onde os caminhos, ruas e vielas eram irregulares e tortuosos, tão diferentes da rigidez das linhas retas da parte central da cidade, onde era intenso o cheiro de fezes, lama e vegetação em decomposição, Katsumata, o líder dos shishi de Satsuma e confidente de lorde Sanjiro, acordou de repente, saiu de baixo das cobertas e ficou de pé no aposento escuro, escutando com o máximo de atenção, a espada de prontidão.
Nenhum som de perigo. Lá de baixo vinham os sons abafados das criadas e servos, acendendo os primeiros fogos do dia, cortando legumes, preparando os alimentos. Seu quarto era no segundo andar, sob as vigas, na Estalagem dos Pinheiros Sussurrantes. Um cachorro latiu à distância.
Há alguma coisa errada, pensou ele.
E foi abrir a porta, sem fazer barulho. Havia mais quartos ao longo do corredor, três ocupados por outros shishi, dois em cada um. O último era para as mulheres da estalagem.
Num lado, havia uma pequena janela, dando para o pátio. Nada se mexia lá embaixo. Mais uma vez, seus olhos esquadrinharam a área, o portão, a rua além. Nada. De novo. Nada. E, de repente, um brilho, mais sentido do que visto. No mesmo instante, Katsumata abriu as portas e sussurrou a palavra código. Os seis homens levantaram-se de um pulo, o sono se dissipando por completo, e correram atrás dele, empunhando suas espadas. Desceram pela escada precária, atravessaram a área da cozinha, saíram pela porta dos fundos. Pularam a cerca para o jardim ao lado, numa retirada ensaiada com extremo cuidado, passaram para o jardim seguinte, e mais outro, até alcançarem a viela. Seguiram por ali, mas logo se desviaram por uma passagem entre duas choupanas. Na extremidade daquele beco sem saída, ele virou à esquerda e abriu uma porta. A lança do guarda alerta ameaçou sua garganta.
— Katsumata-san! O que aconteceu?
— Alguém nos traiu — sussurrou Katsumata, ofegante, e gesticulou para um jovem de Choshu, também esguio, duro como aço, mas com metade de sua idade, dezenove anos. — Dê a volta, veja tudo e volte. Não se deixe observar, nem ser apanhado!
O jovem desapareceu. Os outros seguiram Katsumata para o interior da choupana. Havia vários cômodos lá dentro, a construção ligada às outras nos lados, abrigando mais shishi. Vinte, no total, todos armados, capitães de células de shishi na maior parte, agora alertas, prontos para o combate ou a retirada... inclusive Sumomo, a irmã de Shorin, noiva de Hiraga. Todos se agruparam em silêncio, aguardando as ordens.
Quando eles escapavam da estalagem, nenhum dos servidores ou criadas deu atenção à partida abrupta, continuando a trabalhar como se nada tivesse acontecido. Todos ficaram paralisados alguns segundos mais tarde, quando uma patrulha de Ogama entrou pela porta da frente e começou a revistar os quartos, acordando hóspedes, as mulheres e a mama-san, enquanto outros subiam a escada para vasculhar os aposentos do segundo andar. Gritos de surpresa, medo e protesto, lamentos das mulheres que agora ocupavam os quatro quartos que antes alojavam os shishi... tudo parte do meticuloso planejamento de Katsumata.
No tumulto subsequente, aos berros e indignação da mama-san, o enfurecido oficial de Ogama perguntou para onde tinham ido os proscritos ronin, chegou a esbofetear alguns criados, foi tudo em vão. Todos tremiam, alegando inocência:
— Ronin? — bradou a mama-san. — Em minha respeitável casa, que nunca deixou de cumprir a lei? Jamais!
Assim que a patrulha se retirou e todos se encontravam seguros, a mama-san praguejou, os criados praguejaram, todos amaldiçoaram o espião que os traíra.
— Katsumata-san, quem foi?— indagou Takeda, um jovem de Choshu, vinte anos, corpulento, quase sem pescoço, parente de Hiraga, o coração ainda disparado da fuga por um triz.
Katsumata deu de ombros.
— Karma se o descobrirmos, karma se não descobrirmos. Prova apenas o que incuto em vocês: estejam preparados para a traição, a fuga a qualquer instante, a luta a qualquer instante, não confiem em homem ou mulher, exceto num shishi e em Sonno-joi.
Todos no pequeno aposento apinhado acenaram com a cabeça.
— E o que nos diz de lorde Yoshi? Quando vamos atacá-lo?
— Quando ele estiver fora dos muros.
A notícia da súbita chegada de Yoshi viera durante a noite, tarde demais para interceptá-lo.
— Mas temos partidários lá dentro, sensei — insistiu Takeda. — Seria o lugar certo para surpreendê-lo, aproveitar que ele se sente seguro, deixa a guarda relaxar.
— A guarda de Yoshi nunca relaxa. Jamais se esqueçam disso. Quanto ao nosso pessoal com ele, dentro dos muros, suas ordens são para permanecerem quietos e ocultos, já que sua presença e informações são valiosas demais para se arriscar. No evento improvável do xógum Nobusada escapar à nossa emboscada, eles se tornarão ainda mais necessários.
Muitos sorrisos sinistros, mãos apertando o punho da espada. A emboscada fora planejada para o anoitecer, dali a cinco dias, em Otsu, a última estação de posta antes de Quioto. Havia apenas umas poucas estalagens na estrada do norte e na Tokaidô consideradas lugares de descanso apropriados para pessoas tão augustas, com seus inúmeros guardas, criadas e servidores. Assim, era fácil conhecer as paradas noturnas e postar espiões nelas.
Dez shishi haviam sido designados para a missão suicida e já se encontravam em Otsu, preparando-se para o ataque. Cada um dos cento e sete shishi reunidos em várias casas seguras de Quioto suplicara sua inclusão na emboscada. Por sugestão de Katsumata, haviam tirado a sorte. Três Choshus, três Satsumas e quatro Tosas conquistaram a honra, já instalados perto do alvo, na Estalagem das Muitas Flores.
— Mais cinco dias apenas e, depois, Sonno-joi será uma realidade! — sussurrou Sumomo, excitada. — O Bakufu nunca vai se recuperar desse golpe.
— Nunca mesmo!
Katsumata sorriu para ela, apreciando-a, a melhor de todas as suas discípulas — como Hiraga era o melhor entre os homens, atrás apenas de Ori —, admirando sua bravura, determinação e habilidades. Ela também se oferecera para a emboscada, mas Katsumata proibira, considerando-a uma arma valiosa demais para desperdiçar numa iniciativa de alto risco. Ele sentia-se contente por ter ordenado que Sumomo esperasse aqui, prevalecendo sobre a ordem de Hiraga, que a mandara voltar para a casa do pai dele. Sumomo trouxera as últimas informações de Iedo: a confirmação dos rumores sobre uma trégua negociada entre o Bakufu e os gai-jin, o fracasso do ataque ao ministro-chefe Anjo, mas o êxito no assassinato de Utani, com o incêndio de sua mansão. E, mais importante ainda, a confirmação da divergência entre Anjo e Yoshi Toranaga.
— Não sei de onde veio essa informação — sussurrara ela para Katsumata —, mas a mama-san disse que era da fonte que você conhece.
Sumomo também relatara os fatos da morte de Shorin. Mas não sabia mais nada sobre Ori ou Hiraga, a não ser que o ferimento de Ori estava sarando, ambos se escondiam na colônia em Iocoama, junto com Akimoto, e Hiraga se tornara, por algum milagre, confidente de um dos líderes dos gai-jin.
— Tem toda razão, Sumomo, o Bakufu nunca vai se recuperar — concordou Katsumata. — Nosso próximo golpe encerrará o xogunato de Toranaga para sempre.
Logo depois da bem-sucedida eliminação do xógum Nobusada — deixando a princesa Yazu ilesa, a qualquer custo —, os shishi desfechariam um ataque em massa contra o quartel-general de Ogama, para assassiná-lo; ao mesmo tempo, Katsumata e outros capturariam os portões, hasteando o estandarte de Sonno-joi, declarando que o poder voltava ao imperador, a quem todos os verdadeiros daimios e samurais se apresentariam para prestar obediência.
— Sonno-joi — murmurou ela, exultante, como todos os outros. Exceto Takeda, um dos shishi de Choshu. Ele mudou de posição, inquieto.
— Não tenho certeza sobre o assassinato de Ogama. Ele é um bom daimio, um bom líder... impediu que Sanjiro tomasse o poder, impediu que Tosa tomasse o poder, é o único daimio a cumprir a ordem do imperador de expulsar os gai-jin. Afinal, não foi Ogama quem determinou o fechamento dos estreitos de Shimonoseki? Só nossos canhões se opõem aos navios gai-jin... apenas as forças de Choshu se mantêm na linha de frente, não é mesmo?
— É verdade, Takeda — disse um renomado shishi de Satsuma. — Mas o que sensei Katsumata sempre nos lembrou? Que Ogama mudou, agora que roubou o controle. Se ele respeitasse o imperador, seria muito simples, agora que controla os portões, declarar Sonno-joi e devolver todo o poder ao imperador. E isso o que faremos quanto tivermos os portões.
— Eu sei, mas...
— Muito simples para ele, Takeda. Mas o que Ogama fez? Apenas usou o poder para manipular a corte em seus caprichos. Quer ser o xógum. Nada menos.
Soaram murmúrios de concordância e depois Sumomo declarou:
— Por favor, Takeda, desculpe-me, mas Ogama é uma grande ameaça. Todos sabem que sou uma Satsuma, assim como o sensei Katsumata, concordamos que Sanjiro tem feito algumas coisas boas, mas nada por Sonno-joi. Por isso, ele deve renunciar ao poder, de bom grado ou pela força, e é o que vai acontecer. O mesmo se aplica a Ogama. Reconheço que ele fez algumas coisas boas, mas agora está errado. A verdade é que nenhum daimio com o controle dos portões, tão perto de se tornar o xógum, renunciará ao poder de bom grado.
— E se pedíssemos a Ogama? — sugeriu Takeda.
— Desculpe-me, por favor, mas tal petição não teria o menor valor. Quando tomarmos posse dos portões, a fim de evitar a guerra civil e a possibilidade de algum daimio se sentir tentado outra vez, devemos ir além e solicitar ao imperador a abolição do xogunato, do Bakufu e de todos os daimios.
Em meio a comentários surpresos diante de proposta tão radical, Takeda explodiu:
— Mas isso é uma loucura! Sem o xogunato e sem os daimios, quem vai governar? Haverá o caos! Quem paga nossos estipêndios? Os daimios! Os daimios possuem todos os koku de arroz...
Katsumata interveio:
— Deixe-a concluir, Takeda, e depois poderá dizer o que quiser.
— Sinto muito, Takeda, mas essa é uma idéia de Hiraga-san, não minha. Hiraga disse que, no futuro, os daimios serão apenas chefes nominais, e só os bons, que o poder será exercido por conselhos de samurais, de todos os níveis, baseados na igualdade, e esses conselhos decidirão tudo, dos estipêndios a que daimio é digno, e quem o sucederá.
— Nunca dará certo — insistiu Takeda. — É uma péssima idéia.
Muitos discordaram, a maioria apoiou Sumomo, mas Takeda ainda não se convencera. Ao final, ela perguntou:
— Sensei, é uma péssima idéia?
— É uma boa idéia, se todos os daimios concordarem — respondeu Katsumata.
Ele sentia-se satisfeito por constatar que seus ensinamentos davam frutos, que os shishi queriam chegar ao futuro pelo consenso. Como os outros, Katsumata estava acocorado, falando pouco, sua mente concentrada na traição, fervendo de raiva por aquele novo atentado contra a sua vida, e a fuga por um triz.
Por bem pouco desta vez, pensou ele, o gosto de bílis outra vez na boca. O cerco se aperta. Quem é o traidor? Só pode estar aqui. Nenhuma das outras unidades de shishi sabia que eu passaria a noite na estalagem dos Pinheiros Sussurrantes. O traidor se encontra aqui. Quem é ele... ou ela? Quem?
— Continue, Sumomo.
— Eu só queria acrescentar... Takeda-san, você é Choshu, assim como Hiraga-san, há outros de Tosa, o sensei, eu e muitos mais de Satsuma, inúmeros dos outros feudos, mas acima de tudo somos shishi, com deveres que prevalecem sobre a família, sobre o clã. Na Nova Ordem, esta será a lei... a primeira lei para todo o Nipão.
— Se essa vai ser a lei... — murmurou um dos homens, coçando a cabeça. — Sensei, quando o filho do céu recuperar o poder, o que iremos fazer, todos nós?
Katsumata olhou para Takeda.
— O que você acha?
— Não estarei vivo e, assim, isso não tem a menor importância. Sonno-joi é suficiente, a única coisa que me interessa.
— Alguns de nós devem sobreviver para participar da nova liderança — disse Katsumata. — Mais importante por enquanto: Yoshi Toranaga. Como eliminá-lo?
— Quando ele sair de seu refugio, devemos estar preparados — propôs alguém.
— Isso é claro — disse Takeda, irritado. — Mas ele estará cercado por guardas; duvido muito que consigamos sequer nos aproximar de sua pessoa. O sensei disse que não podemos acionar nossos homens lá dentro. Portanto, terá de ser no lado de fora, mas será muito difícil.
— Meia dúzia de nós, com flechas, nos telhados?
— Uma pena não termos um canhão — comentou outro. Continuaram ali, à claridade crescente, cada um imerso em seus pensamentos, visando Yoshi como o troféu maior. Mas os cinco dias de expectativa eram mais importantes, depois o ataque a Ogama... a única maneira de conquistar os portões.
— Talvez seja mais fácil para uma mulher se infiltrar no bastião de Toranaga, neh? — sugeriu Sumono. — E uma vez lá dentro...
Ela sorriu, sem concluir a frase.
Nuvens cobriam o céu agora. A tarde era sombria. Mesmo assim, as ruas largas nos arredores do quartel do xogunato estavam apinhadas de moradores da cidade, comprando e vendendo no mercado em frente à entrada principal, junto com sacerdotes budistas vestidos de laranja, as inevitáveis tigelas de esmolas estendidas, samurais desfilando de um lado para outro, sozinhos ou em grupos. As patrulhas de Ogama eram proeminentes, cada homem com a insígnia do feudo bordada na roupa. Katsumata, Sumomo e meia dúzia de shishi circulavam entre a multidão, disfarçados, usando enormes chapéus cônicos. Donas de casa, criadas, servos, varredores de rua, coletores de adubo noturno, carregadores e vendedores ambulantes, emprestadores de dinheiro, escritores de cartas, adivinhos, palanquins e pôneis para samurais e bem-nascidos, mas nunca, em parte alguma, um veículo com rodas.
Todas as pessoas que passavam pelos portões do xogunato, abertos agora, mas com uma forte guarda, faziam uma reverência polida, de acordo com as respectivas posições, e seguiam adiante, apressadas. A notícia de que o guardião do herdeiro chegara, sem qualquer pompa, o que era inacreditável, correra num instante por toda a cidade... e isso, somando-se aos rumores sobre a iminente visita, sem precedentes na memória histórica, do próprio xógum, árbitro da Terra, personagem aterrador, envolto por mistério, quase tanto quanto o filho do céu, e até casado, segundo se dizia, com uma das irmãs da divindade, era quase demais para se suportar.
Os samurais, preocupados, começaram a verificar a prontidão de suas armas e armaduras, os daimios e seus conselheiros de confiança tremeram com a notícia, avaliando suas posições, o que fazer, e como evitar qualquer ação decisiva, quando ocorresse o inevitável, a confrontação entre lorde Yoshi e lorde Ogama.
A atividade na rua diante dos portões do quartel do xogunato cessou no momento em que um cortejo armado saiu, com os estandartes de Yoshi à frente, soldados cercando um palanquim fechado, mais soldados na retaguarda. No mesmo instante, todos nas proximidades se ajoelharam, encostaram a cabeça no chão, os samurais permaneceram imóveis, fazendo uma reverência profunda, até o cortejo passar. Só depois que Yoshi e seus homens desapareceram é que ressurgiu um arremedo de normalidade. A não ser pelo fato de Katsumata e seus companheiros seguirem o cortejo, com extrema cautela.
A menos de um quilômetro dali, similar cortejo armado também deixou o quartel principal de Choshu, com os estandartes de Ogama à frente, e sob demonstrações de submissão ainda maiores. Há dias que ele fora alertado sobre a chegada de seu inimigo, assim como vinha monitorando o progresso do xógum Nobusada. Seus conselheiros haviam recomendado que emboscasse e destruísse Yoshi nos arredores de Quioto, mas Ogama não acatara a sugestão.
— É melhor que ele se torne meu peão. Depois que estiver aqui, onde poderá se esconder, para onde poderá fugir?
Os detalhes para a reunião urgente solicitada por Ogama haviam sido acertados pelos conselheiros de ambos. Deveria ocorrer no pátio vazio de um quartel neutro, eqüidistante dos dois quartéis-generais. Cada um levaria cem guardas. Apenas vinte estariam montados. Ogama e Yoshi iriam em palanquins blindados e protegidos. Um conselheiro para cada um. Chegariam ao mesmo tempo.
Em poucos momentos, espiões levaram a notícia para o palácio, para grupos de shishi e para os daimios, informando que os dois homens mais perigosos do Nipão haviam saído para as ruas em colunas armadas, no mesmo instante, por mais espantoso que isso pudesse parecer. Um espião logo encontrou Katsumata e sussurrou o local do encontro; quando os samurais de Ogama e Yoshi passaram pelos portões neutros, Katsumata e trinta homens se encontravam postados nas proximidades... para o caso de surgir a oportunidade de um ataque suicida.
O pátio tinha cem metros quadrados, com paredes de madeira leves, fáceis de romper, o alojamento de um só andar e o estábulo também eram de madeira, escurecida pelo tempo. Guardas dos dois lados ocuparam posições opostas e outros levaram quatro cadeiras dobráveis para o centro do pátio.
Os dois homens saíram juntos dos palanquins, encaminharam-se para as cadeiras e sentaram-se. Depois, o general Akeda e Basushiro, o principal conselheiro de Ogama, sentaram-se ao lado deles. Basushiro estava na casa dos quarenta anos, um samurai de olhos estreitos, estudioso, de uma família de chefes hereditários da burocracia de Choshu há gerações. Houve reverências formais, e em seguida os olhos dos dois líderes se encontraram.
Yoshi era dois anos mais moço que Ogama — vinte e seis anos — e alto, enquanto o outro era baixo e corpulento. Yoshi tinha o rosto raspado, em contraste com a barba cerrada negro-azulada de Ogama. A linhagem de Yoshi era mais nobre, embora a de Ogama fosse igualmente antiga, também renomada, os dois se equilibrando em determinação implacável, ambição e dissimulação.
Sem pressa, dispensaram o tempo necessário aos cumprimentos obrigatórios e perguntas polidas, com esquivas e evasivas, esperando pelo início... as mãos nos punhos das respectivas espadas.
— Sua vinda é uma agradável surpresa, lorde Yoshi.
— Tinha de vir para verificar pessoalmente que os rumores delirantes que ouvi não eram verdadeiros.
— Que rumores''
— Entre vários, o de que as forças de Choshu impedem os representantes do xogunato, os representantes legais, de assumirem suas posições em torno dos portões.
— Uma medida necessária para proteger a divindade.
— Desnecessária e contra a lei.
Ogama riu.
— A divindade prefere minha proteção ao traiçoeiro Conselho de Anciãos, que assinou os tratados com os gai-jin contra seu desejo e continua a negociar com eles contra sua vontade, em vez de expulsá-lo, como ele pediu. — Ele fez um sinal para Basushiro. — Por favor, mostre a lorde Yoshi.
O pergaminho, assinado pelo imperador, solicitava “ao lorde de Choshu para assumiro comando dos portões, até que seja resolvida a lamentável questão dos gai-jin”.
— Não é da competência da divindade decidir sobre problemas temporais. Esta é a lei... e devo lhe pedir que se retire.
— Lei? Está se referindo à lei de Toranaga, a lei do xogunato imposta à força pelo primeiro de sua linhagem, e que repudiou o direito antigo de o imperador governar, concedido pelo céu.
Os lábios de Yoshi contraíram-se numa linha fina e dura.
— O céu concedeu ao imperador o direito de interceder entre nós, mortais, e os deuses, em todas as questões espirituais. As questões temporais sempre estiveram na esfera de competência de mortais, de xóguns. O imperador concedeu ao xógum Toranaga e seus descendentes o direito perpétuo de cuidar de todas as questões temporais.
— Repito que o imperador foi forçado a concordar...
— E eu repito que esta é a lei da terra, que nos manteve em paz por dois séculos e meio.
— Não é mais válida. — Ogama acenou com o papel. — O que um imperador anterior foi obrigado a conceder, este imperador cancelou, por sua livre e espontânea vontade.
A voz de Yoshi tornou-se mais suave, mais perigosa:
— Um equívoco temporário. É evidente que o filho do céu recebeu conselhos indevidos de descontentes interesseiros, como em breve vai compreender.
— Está me acusando?
Os quatro homens apertaram o punho de suas espadas.
— Apenas ressalto, lorde Ogama, que seu pedaço de papel foi obtido por falsas informações e não está de acordo com a lei. A presença é e sempre foi cercada por homens ambiciosos... e mulheres também. Foi por isso que ele concedeu direitos perpétuos ao xógum Toranaga e ao xogunato para orientá-lo em todas as questões...
Uma gargalhada interrompeu-o e deixou todos os samurais ao longo dos muros ainda mais nervosos.
— Orientar? Orientar, você disse? A divindade ser orientada por Anjo Nori, Toyama, Adachi, e agora aquele retardado do Zukumura? Por tolos incompetentes, que prevalecem sobre você quando querem, fazem acordos estúpidos com os infames gai-jin, contra os conselhos de todos os daimios, acordos que expõem a terra dos deuses e todos nós à destruição? — O rosto de Ogama contraiu-se em raiva. — Ou ele deve esperar a orientação do menino Nobusada sobre a melhor maneira de tirar castanhas do fogo?
— Você e eu, Ogama-dono, não precisamos esperar — disse Yoshi, suavemente, sabendo que sua maior força era se manter calmo. — Vamos discutir isso em particular... só nós dois.
— Quando?
— Agora.
Desconcertado por um instante, Ogama hesitou. Olhou para Basushiro. O homenzinho sorriu apenas com o rosto.
— Eu diria que assuntos importantes devem ser discutidos em aberto, Sire, não que meus pobres conselhos sejam de algum valor. Os acordos particulares podem às vezes ser mal interpretados, por qualquer dos lados... esta era a regra de seu honrado pai.
Os olhos de Ogama tornaram a se fixar em Yoshi.
— A visita do xógum ao imperador, para demonstrar sua submissão, “pedir conselho”, pela primeira vez em todo o período Toranaga, isso nega a própria essência de sua estrutura Toranaga, não é mesmo? Pior ainda, prejudica qualquer futuro acordo entre o filho do céu e... futuros líderes, pois é claro que mortais governarão, não é mesmo?
— Em particular, Ogama-dono.
Ogama hesitou de novo, os olhos escuros se contraindo no rosto curtido. Contra a sua vontade, apesar de saber que aquele homem era o único que tinha o potencial de mobilizar oposição suficiente para impedi-lo de alcançar o prêmio que procurava, ele gostava da confrontação, do encontro cara a cara. Acenou com a mão, dispensando Basushiro, que obedeceu no mesmo instante, embora com uma desaprovação ostensiva. Akeda fez uma reverência e também se afastou, ainda mais vigilante pela esperada traição, sobre a qual fora alertado.
— So ha?
Yoshi inclinou-se um pouco para a frente, manteve a voz baixa, os lábios mal se mexendo, para o caso de Basushiro, que se postara além da possibilidade de ouvir, conhecer leitura labial:
— A votação do conselho foi de quatro a um a favor da visita do xógum. Fui o único contra. Claro que a visita é um grande erro, mas Anjo não pode e não quer compreender isso. O atual conselho votará como ele quiser, sobre qualquer assunto. Nobusada é um títere, até completar dezoito anos, daqui a dois, quando poderá formalmente promover muitas mudanças e criar diversos problemas, se assim desejar. Isso responde a todas as suas perguntas?
Ogama franziu o rosto, atônito com a franqueza do oponente.
— Disse “em particular”, Yoshi-dono, e o que me disser em particular relatarei mais tarde para meus conselheiros, e você fará a mesma coisa.
— Alguns segredos ficam mais bem guardados entre líderes do que... — Yoshi fez uma pausa, antes de acrescentar, incisivo: —... do que entre certos servidores.
— E o que isso significa?
— Você tem espiões... servidores... dentro dos meus portões, neh? De que outra forma poderia saber tão depressa da minha chegada? Não pensa que não tenho homens aqui e espiões dentro dos seus muros, não é mesmo?
A expressão de Ogama se tornou mais sombria.
— Que segredos?
— Segredos que devemos guardar. Por exemplo, Anjo está muito doente, e morrerá em um ano... ou no mínimo terá de renunciar.— Yoshi percebeu o lampejo imediato de interesse, que Ogama não foi capaz de ocultar. — Se quer uma prova, posso lhe dizer como seus espiões devem fazer para confirmar.
— Seria ótimo, obrigado — disse Ogama, registrando a informação para ação imediata, sem esperar por orientação. — Claro que eu gostaria de ter meios de confirmar uma notícia tão agradável. E daí?
Yoshi baixou a voz ainda mais:
— Durante esse ano... se fôssemos aliados... seria fácil garantir a sua designação para ancião. E depois, juntos, aprovaríamos os outros três.
— Duvido muito que pudéssemos concordar, Yoshi-dono — disse Ogama, com um sorriso irônico — nem sobre um conselho, nem sobre qual dos dois seria o tairo, o líder.
— Mas eu votaria em você.
— Por que seria tão estúpido? — indagou Ogama, impassível. — Deve saber que eu trataria de destruir seu xogunato, o mais depressa possível.
— Na forma como ele existe agora, concordo que devemos mesmo destruí-lo. Eu bem que gostaria de fazê-lo agora. Se tivesse o poder, já o teria feito, promovido reformas, aproveitando as sugestões de um conselho de todos os daimios, inclusive os lordes exteriores.
Ele percebeu o espanto de Ogama aumentar e compreendeu que estava prevalecendo.
— Mas não posso fazer nada agora, devo esperar que Anjo renuncie ou morra.
— Por que não mais cedo em vez de mais tarde, hem? Se ele é a pústula que o incomoda, fure-a! Não estão juntos no castelo em Iedo?
— Isso precipitaria a guerra civil que não quero, que não interessa a nenhum daimio. Concordo que o xogunato e o Bakufu devem ser reorganizados de uma maneira radical... suas opiniões e as minhas são bastante similares. Sem o seu apoio, eu não poderia efetuar as reformas. — Yoshi deu de ombros. — Pode ser difícil acreditar, mas isto é uma oferta.
— Com Anjo fora do caminho, você poderia fazer qualquer coisa que quisesse. Poderia atrair Sanjiro e o tolo de Tosa, talvez os dois juntos, não é mesmo? Se vocês três se aliassem contra mim, eu poderia me considerar um homem morto e meu feudo acabar. Depois, você os divide, e assume o poder total. — Os lábios de Ogama se contraíram num sorriso que não era um sorriso. — Ou, o que é mais provável, eles permanecem unidos contra você.
— Muito mais provável. Assim sendo, por que não ficar com o poder para nós, em vez de deixar para eles? Primeiro, juntos, esmagamos Tosa.
Outra vez a risada curta e ríspida.
— Não seria fácil, não com Sanjiro e suas legiões de Satsuma prontos para partirem em socorro de Tosa... ele nunca permitiria que esmagássemos Tosa, pois ficaria isolado e seria nosso alvo seguinte. Nem sequer permitiria que eu sozinho destruísse Tosa, o que poderia fazer, no momento oportuno, muito menos aceitaria uma aliança entre nós. Não é possível separá-los, embora se odeiem mutuamente. Ao final, conseguiríamos derrotá-los, mas não temos condições de manter uma guerra prolongada... ainda mais com os gai-jin em nossas praias, ansiosos em nos explorar.
— Vamos deixar os gai-jin de lado por enquanto, exceto para dizer que me oponho aos tratados, quero que todos os gai-jin sejam expulsos, quero... com todo o meu empenho... cumprir o desejo do imperador, quero que os anciãos sejam substituídos e a maioria do Bakufu dispensada.
Ogama deixou que seu espanto prevalecesse, mais uma vez, incapaz de acreditar nos próprios ouvidos.
— Tais pensamentos particulares, pensamentos letais, expressos com tanta franqueza, não permanecerão em segredo por muito tempo. Se forem verdadeiros.
— São verdadeiros, mas apresentados em particular, entre nós. Eu me arrisco com você, sem dúvida. Mas há um propósito: o Nipão. Proponho uma aliança secreta: juntos, podemos controlar todo o poder. Você é um bom líder, domina os estreitos de Shimonoseki. Mas seus canhões não podem deter os navios gai-jin até conseguirmos comprar ou construir uma esquadra igual, além de modernizar nossos exércitos... navios, canhões, fuzis dos gai-jin, tudo o que precisarmos. E você é bastante forte e bastante inteligente para perceber os problemas com que nos defrontamos.
— Quais são esses problemas?
— Os cinco principais: um xogunato fraco, estúpido e ultrapassado, apoiado por um Bakufu ainda mais estúpido; segundo, a nação está dividida; terceiro, os gai-jin e nossa necessidade de modernizar, antes que seus navios, canhões e rifles nos escravizem, como fizeram com a China; quarto, como eliminar todos os shishi, cuja influência cresce, apesar de ainda serem poucos; e quinto, a princesa Yazu.
— Concordo com os quatro primeiros. Mas por que ela é um problema?
— Nobusada é um menino, impertinente e simplório, e creio que continuará assim. Por outro lado, ela é forte, instruída e astuciosa... uma astúcia além dos seus anos.
— Mas é uma mulher — interrompeu-o Ogama, irritado. — Não tem exército, não tem recursos e depois que se tornar mãe todas as suas energias serão consumidas com os filhos. Está vendo fogo numa tigela com água.
— Mas digamos que o marido dela seja impotente.
— Como?
— É isso o que os médicos dele me contam. E digamos que ele esteja totalmente sob o encantamento da mulher... acredite em mim, a princesa possui toda a astúcia e insídia de uma mulher-lobo! Esta visita é idéia dela, o início de seu plano, de submeter o marido e, por seu intermédio, todo o xogunato às garras dos sicofantas da corte, que não têm qualquer experiência temporal, dariam conselhos errados à divindade e arruinariam a todos nós.
— Ela jamais conseguiria isso, por mais esperta que seja — declarou Ogama. — Nenhum daimio aceitaria tamanha loucura.
— Primeiro passo: a visita. Segundo passo: o xógum fixa residência permanente no palácio. Daí por diante, com o apoio dos pedidos do imperador, irmão dela, as decisões são tomadas por todos os amigos da princesa, um dos quais é seu príncipe Fujitaka.
— Não acredito nisso!
— Claro que ele nunca vai admitir. Posso lhe apresentar provas, dentro de algum tempo, de que ele na verdade não trabalha por você, mas sim contra você. — Yoshi continuava a falar em voz baixa, impregnada de sinceridade. — Depois que Nobusada ficar para sempre dentro dos muros, ela é quem vai governar. É por isso que constitui um problema.
Ogama suspirou, recostou-se, avaliando mais uma vez as palavras de seu adversário, muitas das quais eram verdadeiras, especulando até que ponto podia confiar nele. Sem a menor dúvida, uma aliança secreta oferecia boas possibilidades, se o preço obtido fosse bastante alto.
— A solução para ela é romper o casamento — murmurou ele. — Foi pedida a aprovação do imperador para o casamento, não é? Talvez o imperador tenha o maior prazer em solicitar a anulação. Assim, você a neutraliza e recupera o apoio dos muitos que detestam a ligação com Toranaga como uma grosseira impertinência... o que não é minha opinião.
Ele acrescentou a última frase ao perceber um súbito rubor em Yoshi. Não queria um choque ostensivo por enquanto, ainda restava muito para ouvir e decidir. Depois de um momento, Yoshi acenou com a cabeça.
— Uma boa idéia, Ogama-dono. Não havia me ocorrido. — E não ocorrera mesmo. Quanto mais pensava a respeito, mais atraentes pareciam as possibilidades. — Isso deve ter prioridade. Excelente.
No outro lado da praça, um cavalo relinchou, irrequieto, empinou. Os dois observaram, enquanto o soldado acalmava o animal. Ogama especulou, em seu coração mais secreto, se depois que eliminasse Yoshi, em seguida Nobusada, o resto dos Toranagas e seus aliados, tornando-se o xógum, deveria herdar também a princesa imperial. Nenhuma mulher jamais seria um problema para mim, ela geraria filhos tão depressa que até os deuses sorririam.
— Qual é sua proposta? — perguntou ele, a cabeça fervilhando com os caminhos espetaculares que uma aliança temporária lhe abririam.
— Fazemos um acordo secreto a partir de hoje, para juntar forças, exercer influência e formular planos: primeiro, para esmagar os shishi; segundo, para neutralizar Anjo e Sanjiro de Satsuma; terceiro, para um ataque de surpresa a Tosa, como prioridade. No momento em que Anjo morrer ou renunciar, proporei seu nome para substituí-lo como ancião e garanto sua escolha. Ao mesmo tempo, Zukumura renuncia e poremos em seu lugar alguém que escolheremos de antemão. Três a dois. Conservo Toyama e Adachi é substituído por seu indicado. Eu voto para que você seja o líder do conselho.
— Com o cargo de tairo.
— Para ser ministro-chefe do conselho, já é suficiente.
— Talvez não. Em troca de quê?
— A partir de hoje, os feudos de Tosa e Satsuma são considerados inimigos. Você empenhará todas as forças necessárias para um ataque conjunto a Tosa, assim que for viável. Dividimos o feudo.
— Como ele é um lorde exterior, suas terras devem ir para para um lorde exterior.
— Talvez sim, talvez não — disse Yoshi, tranquilo. — Você concorda que nunca vai se aliar com Tosa e Satsuma contra mim, nem contra o xogunato. Se por acaso Tosa ou Satsuma o atacarem, juntos ou separados, eu me comprometo a apoiá-lo de imediato, com uma força maciça.
— O que mais? — indagou Ogama, impassível.
— Você concorda que não vai tomar partido contra mim, assim como eu concordo que não tomarei partido contra você.
— O que mais?
— De hoje em diante, discretamente, cada um à sua maneira, trabalhamos para anular o casamento.
— O que mais?
— Por último: os portões. Você concorda que forças legais e legítimas do xogunato recuperem o controle, a partir do alvorecer de amanhã.
Ogama amarrou a cara.
— Já lhe mostrei que sou o representante legal e legítimo da divindade.
— Já ressaltei que, embora o documento tenha sido assinado de forma correta, a assinatura foi lamentavelmente obtida por meios indevidos.
— Sinto muito, mas a resposta é não.
— Os portões devem retornar ao controle do xogunato.
— Neste caso, não temos mais nada a conversar.
Yoshi suspirou, os olhos contraídos.
— Neste caso, lamento dizer, haverá novo pedido do imperador... para você deixar os portões e abandonar Quioto, com todos os seus homens.
Com a mesma frieza, Ogama sustentou o olhar de Yoshi.
— Duvido.
— Eu, Yoshi Toranaga, garanto isso. Daqui a seis ou sete dias, o xógum Nobusada e sua esposa estarão dentro do palácio. Como guardião, tenho acesso imediato a ele... e a ela. Ambos aceitarão a correção dos meus argumentos... sobre os portões e muitas outras coisas.
— Que outras coisas?
— Os portões não deveriam ser um problema para você, Ogama-dono. Eu daria garantias de que não alardearia isso em seu detrimento, aceitando “agradecido o seu generoso convite para assumir o controle” e não os fortificaria contra você. O que é tão difícil assim? Os portões, de modo geral, não passam de um símbolo. Advirto-o formalmente: para manter a paz e garantir a ordem na terra, até a morte ou renúncia de Anjo, o xogunato deve ter o controle dos portões.
Ogama hesitou, num dilema. Yoshi podia facilmente providenciar outra “solicitação” do imperador, que ele teria de aceitar.
— Eu lhe darei uma resposta dentro de um mês.
— Sinto muito, mas o limite é daqui a seis dias, ao meio-dia.
— Por quê?
— Nobusada chega a Otsu daqui a cinco dias. Ao anoitecer do sexto dia, Nobusada passará pelos portões. Exijo a posse, mesmo que seja temporária, antes disso.
Yoshi falou com a maior gentileza, uma polidez extrema. Seus olhos tornaram a se encontrar. Em voz neutra, mas também polida, Ogama disse:
— Pensarei a respeito de tudo isso, Yoshi-dono.
Depois, ele fez uma reverência, Yoshi retribuiu, os dois foram para seus palanquins, e todos na praça suspiraram de alívio, porque a provação terminara e o esperado banho de sangue não se consumara.
Sexta-feira, 21 de novembro:
A estação de posta de Otsu estivera movimentada durante o dia inteiro, num crescendo de excitamento, a expectativa acompanhada pelo medo, nos preparativos finais para a escala naquela noite dos augustos visitantes, o xógum Nobusada e a princesa Yazu. Há semanas que os cidadãos varriam as ruas, limpavam todas as habitações e privadas externas... telhados, paredes, poços, jardins, novos ladrilhos, shojis, tatames. A estalagem das Muitas Flores, a melhor e a maior de Otsu, ainda se encontrava num estado de quase pânico.
Começara no momento em que se soubera que os abençoados visitantes haviam declinado a hospedagem no castelo próximo de Sakamoto, pertencente ao xogunato, que ornamentava a região antes mesmo de Sekigahara, preferindo a estalagem.
— Tudo deve ser perfeito! — gemia o proprietário, extasiado, mas ao mesmo tempo apavorado. — Qualquer coisa que não estiver perfeita valerá a degola ou no mínimo uma surra de chicote, quer seja homem, mulher ou criança! A história da honra que nos foi concedida nesta única noite será lembrada pelos tempos afora... o nosso sucesso ou fracasso! O lorde xógum em pessoa? Com toda a sua glória? E a esposa, uma irmã da divindade? Oh ko...
Ao final da tarde, velado, cercado por guardas e conselheiros, a salvo de qualquer observador, o xógum Nobusada deixou apressado seu palanquim e atravessou os portões para a área isolada da estalagem que lhe fora reservada, acompanhado pela princesa imperial e sua comitiva de guardas pessoais, servidores, damas de companhia e criadas. Havia quarenta bangalôs tradicionais, cada um com quatro cômodos, em torno do santuário interior dos aposentos e casa de banho do xógum. Muitos tinham varandas interligadas, num labirinto de agradáveis caminhos, pontes sobre laguinhos e regatos, que desciam das colinas, tudo cercado por uma sebe espessa e aparada.
O quarto era aconchegante e impecável, com novos tatames e braseiro polidos. Nobusada tirou o chapéu velado e as roupas externas, cansado e irritado. Como sempre, o palanquim fora desconfortável e houvera solavancos.
— Já detesto este lugar — disse ele a seu camareiro, cuja cabeça encostava no chão, ao lado de uma fileira de criadas. — É muito pequeno e fedorento. Sinto todo o corpo dolorido. Já aprontaram o banho?
— Já, sim, Sire, tudo como determinou.
— Otsu finalmente, Sire — disse a princesa Yazu, o tom jovial, entrando junto com algumas damas de companhia. — Amanhã chegaremos a casa e tudo será maravilhoso.
Ela tirou também o enorme chapéu velado e as roupas externas, jogando tudo ao chão. As criadas se apressaram em recolhê-las.
— Amanhã estaremos em casa! Em casa, Sire! Valeu a pena seguir pelo caminho mais rápido, neh?
— Claro que sim, Yazu-chan — murmurou Nobusada, sorrindo, contagiado pela exuberância da esposa.
— Vai conhecer todos os meus amigos, primos, tias, tios, irmã mais velha e irmã mais nova, meu querido meio-irmão Sachi, ele tem nove anos... — Ela rodopiou, na maior felicidade. —... e centenas de outros parentes. Dentro de poucos dias conhecerá o imperador, que o receberá como se fosse um irmão também, e resolverá todos os nossos problemas. Depois, poderemos viver em tranquilidade para sempre. Faz frio aqui. Por que não está tudo pronto? E o banho?
O camareiro, corpulento e grisalho, de cinqüenta anos, com poucos dentes e enorme papada, chegara um dia antes, com um grupo de criadas e cozinheiros, a fim de aprontar os aposentos e preparar os alimentos e frutas, com uma abundância de arroz polido, para o delicado estômago do xógum, e que a princesa exigia. Havia magníficos arranjos de flores, feitos por um mestre de ikebana. Mais uma vez, o camareiro fez uma reverência, enquanto a amaldiçoava no íntimo.
— Os braseiros extras já estão prontos, alteza imperial. O banho também, assim como a refeição leve que pediu, junto com o xógum Nobusada. O jantar já foi preparado, será suntuoso...
— Emiko! Nosso banho!
No mesmo instante, a principal dama de companhia se adiantou e levou-a pelo corredor, cercada pelas outras e por várias criadas, como a rainha que era. Nobusada lançou furioso olhar para o camareiro e bateu com o pé, bem pequeno.
— Por que me deixam esperando? Mostre-me o banho e mande chamar a massagista. Quero uma massagem nas costas agora. E providencie para que não haja qualquer barulho... proíbo o barulho!
— Pois não, Sire. O capitão dá essa ordem todos os dias. Mandarei a massagista para a casa de banho. Sako estará...
— Sako? Ela não é tão boa quanto Meiko... Onde está Meiko?
— Sinto muito, Sire, mas ela ficou doente.
— Diga a ela para melhorar até o pôr-do-sol! Não é de admirar que ela esteja doente, pois eu também me sinto mal! Que viagem horrível! Baka! Quantos dias na estrada? Deve ter sido no mínimo cinqüenta e três, e menos do que... por que toda a pressa...
O capitão da escolta esperava pelo camareiro no jardim. Era barbudo, experiente, na casa dos trinta anos, um mestre renomado com a espada. Seu aiudante de ordens se aproximou.
— Está tudo em ordem, senhor.
— Ótimo. Já deve ser rotina, a esta altura. — A voz soou cansada e nervosa. Ambos usavam armaduras leves de viagem, chapéu e duas espadas, por cima da túnica do xogunato. — Só mais um dia... e depois nossos problemas vão piorar. Ainda não posso acreditar que o conselho e o guardião tenham permitido uma viagem tão perigosa.
O ajudante-de-ordens ouvira o mesmo protesto todos os dias.
— Tem razão, capitão. Mas pelo menos estaremos em nosso quartel, com mais centenas de homens.
— Não é suficiente, nunca é suficiente. Não deveríamos ter partido. Mas aconteceu e karma é karma. Inspecione o resto dos homens e verifique se é correta a escala dos guardas. E mande o mestre dos cavalos dar uma olhada em minha égua, acho que o casco esquerdo partiu... — Ferrar cavalos era algo desconhecido no Japão na ocasião. — Ela quase refugou ao passar pela barreira, mas depois se recuperou. Volte para me apresentar um relatório.
O homem se afastou, apressado. O capitão sentia-se mais satisfeito do que o habitual. A inspeção da estalagem e do terreno, dentro das altas cercas de bambu do perímetro externo, e daquele setor em particular, cercado por sebes, com um único portão, deixara-o convencido de que o conjunto de bangalôs do xógum seria fácil de defender. A estalagem fora vedada a quaisquer outros viajantes naquela noite, as sentinelas conheciam a senha e todos se mantinham em alerta máximo. Ninguém podia se aproximar a menos de cinco metros do xógum e sua esposa sem permissão e ninguém, jamais, com qualquer arma... exceto o guardião, os anciãos do conselho e ele próprio, com os guardas que o acompanhassem. A lei era bastante conhecida, a punição para uma aproximação armada era a morte, tanto para o homem armado quanto para os guardas desatentos... a menos que fossem perdoados pelo xógum pessoalmente.
— Ah, camareiro! Houve alguma mudança de planos?
— Não, capitão. — O velho suspirou, coçou a testa, a papada tremendo. — Os augustos estão se lavando, como sempre; depois descansarão, como sempre; depois irão para o banho real e receberão uma massagem ao pôr-do-sol, como sempre; depois jantarão, como sempre; jogarão Go, como sempre, e irão se deitar. Tudo em ordem?
— Por aqui, sim.
O capitão tinha um destacamento de cento e cinqüenta samurais dentro do conjunto, que media cerca de duzentos metros quadrados. Uma unidade de dez homens guardava a única entrada, uma ponte sobre um regato, que levava aos portões ornamentados. Ao longo de toda a sebe do perímetro, havia samurais postados a intervalos de dez passos. Seriam substituídos por unidades dos seiscentos samurais nos alojamentos junto ao portão principal ou instalados em estalagens próximas. Patrulhas vasculhavam o jardim e a cerca, com extrema discrição, já que qualquer barulho e a presença óbvia de samurais irritavam a princesa e, em conseqüência, seu marido.
Acima deles, as nuvens pareciam engrossar, o sol enevoado ainda não alcançara o horizonte. Um vento alto tangia as nuvens. Fazia frio e tudo indicava que esfriaria ainda mais. Os servos acendiam lanternas entre os arbustos, a luz já refletida nos laguinhos, brilhando nas pedras umedecidas um momento antes para se obter esse efeito.
— É lindo — murmurou o capitão. — De longe a melhor, embora a maioria das outras estalagens também fosse boa.
Era a primeira vez que ele realizava uma viagem assim. Durante toda a sua vida estivera dentro ou nos arredores do castelo de Iedo, com Nobusada ou nas proximidades, ou junto do xógum anterior.
— Não resta a menor dúvida de que é lindo, mas eu preferia ter o lorde xógum e sua esposa no castelo Sakamoto. Você deveria ter insistido.
— Bem que tentei, capitão, mas... mas ela decidiu.
— Ficarei mais contente quando estivermos em nosso quartel e eles dentro dos muros do palácio... e ainda mais contente quando voltarmos, sãos e salvos, ao castelo em Iedo.
— Eu também — disse o camareiro, em particular cansado do xógum e da princesa, sempre encontrando defeitos, impertinentes e petulantes. Ainda assim, pensou ele, as costas doendo, querendo também um banho e uma massagem, e as atenções de seu jovem amigo, acho que eu seria igual, se fosse tão exaltado quanto eles, tão mimado, e tivesse apenas dezesseis anos. — Posso perguntar qual é a senha, capitão?
— Até a metade da noite será “arco-íris azul”.
A duzentos metros dali, na margem leste da aldeia, havia uma velha casa de camponeses, meio em ruínas, ao final de uma viela, não muito longe da Tokaidô e da barreira de Otsu. Lá dentro, o líder do grupo de ataque dos shishi, um jovem de Choshu chamado Saigo, olhava ameaçador para o camponês, sua esposa, quatro filhos, pai e mãe, irmão e uma criada, ajoelhados num canto, apavorados. Aquele era o único cômodo, e servia tanto como área de comer quanto para dormir. Umas poucas galinhas esqueléticas, numa gaiola de ripas, cacarejavam nervosas.
— Lembrem-se do que eu disse. Vocês não sabem de nada, não viram nada.
— Sim, lorde, claro, lorde — balbuciou o velho.
— Cale-se! Fiquem de costas, virados para a parede, e fechem os olhos, todos vocês! Cubram os olhos com suas faixas!
Todos obedeceram no mesmo instante.
Saigo tinha dezoito anos, era alto e forte, com um rosto bonito e rude, usava uma túnica escura curta e calça iguais às dos samurais na estalagem, duas espadas, sandálias de vime, sem armadura. Após se certificar de que os camponeses se encontravam bem vendados, além de dóceis, foi sentar-se ao lado da porta, espiou pelos rasgões no papel da parede, e pôs-se a esperar.
Podia avistar a barreira e as casas da guarda com toda a nitidez. Ainda não era o pôr-do-sol, por isso a barreira continuava aberta para os retardatários. Ele e seus homens haviam levado vários dias para encontrar aquele lugar, ideal para seus propósitos. A porta dos fundos dava para um labirinto de vielas e passagens, perfeito para uma retirada súbita. Naquela tarde, no momento em que a comitiva do xógum passara pela barreira, ele tomara posse da casa.
Passos. Sua mão ajeitou a espada, depois relaxou. Outro jovem entrou, em silêncio, seguido por mais um, de uma direção diferente. Logo havia mais sete lá dentro. Um permanecia de guarda lá fora, outro na esquina da viela com a Tokaidô, com um outro escondido na aldeia, para atuar como mensageiro e partir a galope, a fim de transmitir a boa notícia do êxito do atentado a Katsumata, em Quioto, o que seria o sinal para atacar Ogama e os portões. Eram jovens determinados, vestidos como ele, sem armadura ou identificação, antigos goshi — o grau mais baixo de samurai — e agora ronin, todos mais ou menos da mesma idade, de dezenove a vinte e dois anos. Apenas Saigo, com dezoito anos, e Tora, com dezessete, o segundo no comando, eram mais novos. A aragem que entrava pelas frestas da janela fazia-os estremecer... isso e mais a tensão.
Através de sinais, ele indicou que todos deveriam verificar suas espadas, shuriken e outras armas letais... não havia necessidade de palavras durante toda a operação. Todo o planejamento fora definido ao longo de vários dias. Haviam concordado que o ataque deveria ser desfechado em silêncio. Um olhar pela janela. O sol encostava no horizonte, o céu ainda era claro. Chegara o momento.
Solene, Saigo fez uma reverência para seus companheiros, que retribuíram. Ele tornou a se virar para os camponeses.
— Três homens estarão lá fora — avisou, em tom ríspido. — Qualquer sussurro de vocês, até eu voltar, e eles incendiarão tudo.
Outra vez o velho balbuciou um assentimento.
Saigo gesticulou para os outros. Todos o seguiram, inclusive o guarda lá fora, e o que se postava na esquina. Não era mais possível voltar atrás. Os que eram budistas murmuraram uma prece final diante de um santuário, enquanto os xintoístas acendiam um último bastão de incenso, juntando seus espíritos ao filete de fumaça, que representava a fragilidade da vida. Todos haviam escrito seus poemas de morte, que estavam nos bolsos das túnicas. Orgulhosos, indicaram seus feudos corretos, apenas os nomes eram falsos.
Na viela, dividiram-se em duplas, seguindo por caminhos separados. Logo assumiram suas posições, agachados entre o mato alto junto acerca do perímetro, nos fundos da estalagem, à vista uns dos outros, Saigo no canto sudeste. A cerca tinha três metros de altura, resistente, de bambus gigantes, com espigões no topo. Àquela altura, as sombras começavam a perder as formas face ao crepúsculo que se adensava.
Esperando. Coração batendo forte dentro do peito, palmas suadas, atentos ao menor ruído de uma patrulha inimiga. Um gosto estranho e forte em cada boca.
Pontadas de dor nas virilhas. Em algum lugar nas proximidades, um grilo iniciou seu chamado urgente de acasalamento, lembrando Saigo de seu poema de morte:
Um grilo com seu canto alegre,
Mesmo assim morre num instante,
Melhor partir alegre do que triste.
Ele sentiu os olhos se enevoarem, da mesma forma que acontecia com o céu. Era lindo experimentar tamanha felicidade e, ao mesmo tempo, uma tristeza tão profunda.
Podiam ouvir vozes no outro lado da cerca, servos, criadas, samurais ocasionais, o retinir de pratos de metal, pois a cozinha não era muito distante. Esperando. O suor escorria pelo rosto de Saigo. De repente ele ouviu o farfalhar quase imperceptível de um quimono e uma moça sussurrar:
— Arco-íris azul... Arco-íris azul.
Silêncio. E outros sons da estalagem. Saigo gesticulou para Tora, ao seu lado. O jovem se encaminhou apressado para as outras unidades, sem fazer qualquer barulho, transmitiu a senha e voltou. A um sinal de Saigo, cada dupla pegou a escada feita com antecedência, camuflada e escondida na vegetação, e a encostou na cerca. Saigo tornou a observar o céu. No momento em que a última réstia do sol desapareceu, outro sinal, e todos subiram, passaram por cima da cerca ao mesmo tempo, pularam para o chão no outro lado e ficaram agachados, imóveis, entre os arbustos bem cuidados, mas prontos para um ataque frontal imediato.
Por milagre, nenhum alarme ainda. Levantaram os olhos, cautelosos. À frente, a sessenta metros de distância, ficava a seção reservada ao xógum, os telhados de colmo aparecendo por cima das sebes altas e cerradas, os telhados dos aposentos e casas de banho centrais um pouco mais elevados. A entrada principal situava-se um pouco longe, as portas ainda abertas. Tudo exatamente como esperavam. Exceto pelos guardas, muito mais numerosos do que fora previsto. A bílis subiu a cada boca.
À direita ficava a cozinha principal, com enormes caldeirões fumegantes e uma concentração de servidores... com mais guardas ali. À esquerda e ao redor do conjunto havia diversos bangalôs de hóspedes, em outros jardins, com regatos e pontes, cada um com seu caminho de entrada bem cuidado, serpeando entre os arbustos. Silêncio ali, sem luzes no interior, apenas uma lanterna acesa na varanda da frente. Mais angústia, pois esperavam que aqueles bangalôs estivessem ocupados, para servir como cobertura e diversão necessária.
Karma, pensou Saigo. Mesmo assim, nossas posições foram bem previstas, assim como as do inimigo, o plano é bom, e conhecemos a senha. Durante as duas semanas anteriores, disfarçado como samurai comum a viajar, ele encontrara a cortesã apropriada e se insinuara em suas emoções, fazendo com que o conduzisse por uma excursão secreta pelo terreno... até mesmo aos lugares em que os augustos viajantes deveriam repousar.
— Por que não? — sussurrara ele. — Quem vai saber? Eles só chegarão daqui a alguns dias... ah, você é tão bela! Vamos nos unir onde um xógum e uma irmã do filho do céu vão deitar... será uma coisa que contaremos para nossos netos. Acho que nunca a deixarei...
Fora também fácil descobrir uma criada da casa de banho, que era adepta secreta dos shishi, e persuadi-la que não haveria risco em escutar e sussurrar umas poucas palavras para a noite.
Ele sentiu Tora tocar em seu braço. Ansioso, o jovem apontou. Uma patrulha passara pelos portões. Começava a circular pelos jardins. Pequenas poças de luz brilhavam sob as lanternas. Era inevitável que a patrulha viesse para aquele lado, passasse muito perto. O sinal de Saigo, o pio de uma ave noturna, deu a ordem.
No mesmo instante, todos abaixaram-se ainda mais entre as folhagens, cabeças curvadas, mal respirando. A patrulha aproximou-se e logo passou, sem avistá-los... como Katsumata previra, ao sugerir o plano de ataque:
— Inicialmente, será fácil passarem despercebidos no escuro. Nunca esqueçam que a surpresa está do lado de vocês. Sua infiltração será inesperada. Quem ousaria atacar o xógum, quando ele se encontra cercado por tantos homens? E numa estação de posta? Impossível! Lembrem-se de que num ataque furtivo, de surpresa e veloz, dois ou três de vocês alcançarão a parte central... e um só é suficiente.
Saigo observou o inimigo se afastar. Uma exultação maravilhosa dominou-o, toda a sua confiança voltou. Outra curta espera, até a patrulha inimiga sumir de vista, e ele gesticulou a fim de que os grupos de ataque se deslocassem para as posições predeterminadas. Protegidos pelos arbustos, quatro homens se esgueiraram para a sua direita, dois para a esquerda. Assim que todos se postaram nos lugares certos, ele respirou fundo, para ajudar a diminuir as batidas do coração. O sinal, outra vez o pio de uma ave noturna, deu a ordem para começar.
No mesmo instante, a dupla na extrema direita saiu dos arbustos para o caminho, ajustando os cordões das calças, e começou a se afastar, de braços dados, como amantes. Momentos depois, foram notados pelos guardas no ponto mais próximo da sebe.
— Alto, vocês dois!
Os dois jovens obedeceram e um deles gritou:
— Arco-íris azul, Arco-íris azul, lorde sargento.
Ambos riram, simulando constrangimento por serem vistos, e continuaram a andar, de mãos dadas.
— Alto! Quem são vocês?
— Ah, sinto muito, apenas amigos, num passeio noturno — disse o jovem, em sua voz mais suave e gentil. — Arco-íris azul. Esqueceu a senha?
Um dos samurais soltou uma risada e comentou:
— Se o capitão os apanhar “passeando” pelas moitas por aqui, terão mais que um arco-íris azul e receberão outro tipo de carícias!
Mais uma vez, os dois jovens fingiram rir. Sem pressa, continuaram a andar, ignorando gritos mais estridentes para que parassem. O sargento acabou berrando:
— Vocês dois, venham até aqui imediatamente!
Eles fitaram-no por um momento, murmurando queixosos que não havia mal nenhum no que faziam. Saigo e os outros, aproveitando a manobra diversionária, deslocaram-se para as posições finais. Tensos no excitamento de não terem sido notados, descansaram por um segundo, sabendo que aquela diversão estava quase encerrada. O pio de ave noturna que Saigo emitiu desta vez foi bastante alto para alcançar os dois jovens.
Sem hesitação, eles fingiram rir e saíram correndo, joviais, para longe dos guardas, de mãos dadas, como se estivessem empenhados numa brincadeira. Passaram por um ponto de luz, o que permitiu que fossem vistos com clareza, pela primeira vez. Com um grito de raiva, o sargento e quatro homens partiram em seu encalço. Sentinelas no portão principal esquadrinharam a escuridão, para descobrir o que estava acontecendo, e os guardas ao longo da sebe, que podiam ver a cena, gritaram para outros, todos entrando em alerta.
Os dois shishi foram logo cercados. Costas contra costas, as espadas em posição, permaneceram em silêncio, sob uma barragem de perguntas; não havia nada de efeminado agora em suas posturas, ou na maneira como os lábios eram repuxados, deixando os dentes à mostra.
Enfurecido, o sargento deu um passo à frente. O jovem diante dele se preparou. A mão direita entrou pela manga, saiu com um shuriken e, antes que o sargento pudesse se esquivar, o círculo de aço de cinco pontas cravou-se em sua garganta. Ele caiu, sufocado no próprio sangue a borbulhar. Os dois shishi partiram para o ataque, mas não podiam romper o cerco, e embora lutassem bravamente, ferindo três samurais, não tinham como resistir aos outros, que queriam desarmá-los, capturá-los vivos, mas não conseguiram.
Um dos jovens recebeu um golpe de espada na parte inferior das costas e soltou um grito, ferido gravemente, mas não o suficiente para uma morte imediata. O outro virou-se para ajudá-lo e, nesse instante, sofreu um golpe fatal, caindo no chão, agonizante.
— Sonno-joi — balbuciou ele.
Transtornado, o outro ouviu-o, fez uma última e impotente tentativa de se atracar com um atacante e depois, abruptamente, virou a ponta de sua espada para si mesmo e tombou por cima.
— Chamem o capitão! — ofegou um samurai, o sangue escorrendo de um corte de espada no braço.
Outro samurai saiu correndo, enquanto os demais se agrupavam em torno dos corpos, o sargento ainda a gotejar sangue, embora morresse depressa.
— Nada podemos fazer por ele. Nunca vi um shuriken ser lançado tão depressa.
Alguém virou os dois corpos de barriga para cima.
— Olhem só, poemas de morte! São shishi... e ambos Satsumas! Devem ter enlouquecido...
— Sonno-joi! — murmurou outro. — Isso não é loucura.
— É loucura dizer em voz alta — advertiu-o um ashigaru de rosto calejado. — Se um oficial o ouvisse...
— Esses cães sem mãe sabiam a senha! Há um traidor aqui!
Todos se entreolharam, ainda mais nervosos. À direita, o pessoal da cozinha estava paralisado, sem saber o que acontecia. Muitos samurais haviam deixado seus postos na sebe e olhavam aturdidos para os corpos, proporcionando a oportunidade que Katsumata e Saigo haviam planejado.
Saigo fez outro sinal. Seus dois guerreiros mais fortes deixaram as moitas na extrema direita e correram para o canto sudeste. Foram avistados quase que no mesmo instante. Praguejando, os dois samurais mais próximos correram para interceptá-los, enquanto outros partiam em sua ajuda. E começou um violento combate corpo a corpo, a escuridão auxiliando os atacantes. Um defensor soltou um grito e caiu, com o braço quase todo cortado. Mais samurais foram atraídos da sebe, bem na frente de Saigo. Pouco antes que os samurais subjugassem os dois guerreiros, eles interromperam o combate, numa manobra coordenada, e fingiram correr em desordem para a cerca, perto da cozinha, afastando-se do local em que se encontravam Saigo e as outras três duplas. Enquanto corriam, desenrolaram cordas que levavam na cintura, com ganchos na extremidade. Ao se aproximarem da cerca, arremessaram as cordas para o alto, com extrema habilidade, prendendo os ganchos no topo. Começaram a subir, com os perseguidores redobrando seus esforços.
A esta altura, toda a atenção se concentrava naqueles dois. Os guardas perto da entrada e no outro lado do complexo do xógum, ainda sem saber exatamente o que acontecia, exceto que havia dois ronin à solta na área, e agora tentando escapar por cima da cerca, correram para interceptá-los. Outros também dispararam pelo lado de fora da cerca, a fim de esperá-los ali.
Um dos shishi alcançou o alto da cerca, mas antes que pudesse transpô-la, uma faca empalou-o, e ele caiu para trás, entre as moitas. O outro homem abandonou sua corda, saltou para o lado do amigo e apenas teve tempo de vê-lo enfiar a própria faca na garganta, para evitar a captura vivo, antes de tombar sob uma chuva de golpes. Virou-se e lutou com extraordinária força, mas foi logo desarmado e imobilizado no chão por quatro samurais.
— Quem são vocês? — indagou um samurai, esbaforido. — Quem são vocês e o que pretendiam fazer?
— Sonno-joi... obedeçam a seu imperador — balbuciou o homem, e tentou de novo se desvencilhar das mãos que o seguravam, mas não conseguiu.
Outros se agrupavam ao seu redor e ele sentiu-se confiante de ter cumprido seu papel no ataque, satisfeito por ser capaz de continuar a manobra diversionária por mais algum tempo, sem medo da captura, pois tinha um frasco com veneno na gola do quimono, ao alcance dos dentes.
— Sou Hiroshi Ishii, de Tosa, e exijo falar com o xógum!
Do lugar em que se escondiam, Saigo e seus outros cinco homens podiam ouvir o companheiro, mas a atenção deles se concentrava na sebe em frente e na entrada no outro lado. Os poucos guardas remanescentes haviam se afastado para o cerco ao homem condenado, e agora, finalmente, o alvo se encontrava aberto.
— Atacar!
Os seis homens se levantaram de um pulo e avançaram, Saigo e Tora na vanguarda. Haviam percorrido talvez a metade da distância quando soou um grito de advertência e os samurais cercando os corpos da primeira dupla correram de volta para interceptá-los. No mesmo instante, Ishii redobrou os esforços para escapar, gritando e se debatendo, para distrair aqueles que o seguravam, mas um punho cerrado acertou-o, lançando-o na inconsciência.
— Vocês dois fiquem aqui! — balbuciou o samurai, lambendo os dedos esfolados. — Não matem o filho de um cão. Vamos precisar dele vivo.
Ele se levantou, com alguma dificuldade, claudicou atrás dos outros, com um profundo corte de espada na coxa.
Alguns defensores estavam quase alcançando os seis shishi, que ainda corriam direto para a sebe.
— Agora! — ordenou Saigo.
No mesmo instante, a dupla à sua direita se virou, assumindo posições defensivas, com shurikens nas mãos. Cautelosos, os samurais reduziram o ritmo da corrida, desviando-se para a esquerda e direita, efetuaram fintas e depois atacaram, os shurikens encontrando alvos, mas sem ferir com maior gravidade, e logo outro combate começou, seis samurais contra os dois.
Reforços corriam do portão principal, outros do primeiro ponto de diversão, e todos, defensores e atacantes, convergindo para a estrela-guia — o portão para o refúgio do xógum. Quando os homens do portão principal da estalagem perceberam, horrorizados, que as sebes e a entrada haviam ficado completamente desguarnecidas — embora as portas estivessem fechadas —, com Saigo e os outros três correndo depressa, não muito longe da sebe, desviaram o curso, para se posicionarem entre os shishi e a entrada, deixando aos outros o encargo de atacá-los. Frenéticos, correram para proteger o portão. Por trás de Saigo e Tora, os dois guerreiros atacavam, recuavam, ainda cobrindo sua retaguarda. Ambos haviam sofrido ferimentos, mas dois samurais se contorciam de dor no chão. Quatro contra dois, com outros não muito longe.
— Agora! — ordenou Saigo.
A dupla à sua esquerda desviou-se para a entrada. Era certo que a alcançariam antes dos defensores, e isso fez com que outros avançando para Saigo também mudassem de direção, seguindo para a entrada. No mesmo instante, Saigo e Tora se viraram e foram se juntar ao combate logo atrás. A carga impetuosa derrubou dois dos quatro samurais restantes e ajudou a eliminar o resto do contingente inimigo... apenas Saigo e Tora, embora ofegantes, continuavam ilesos. No mesmo instante, Saigo ordenou:
— Agora!
Os dois homens entoaram “Sonno-joi!” e correram para apoiar o ataque à entrada, atraindo mais samurais, e deixando Saigo e Tora para retomar a carga na direção da sebe.
A primeira dupla de shishi atacando o portão alcançou a trilha estreita, correu para as portas. Um deles começou a abri-las. Nesse instante uma flecha se cravou na madeira e, logo em seguida, os dois atacantes foram atingidos, crivados de flechas disparadas por arqueiros entre os reforços. Gritaram, tentaram continuar, impotentes, e morreram de pé. A segunda dupla chegou ao caminho. Um correu para o samurai mais próximo entre os que se aproximavam, o outro para o portão, tropeçou nos cadáveres dos companheiros e morreu com quatro flechadas. Apenas uns poucos minutos haviam transcorrido desde o início.
O acesso ao caminho se encontrava aberto agora. Dentro em pouco, o mais veloz dos defensores alcançaria a entrada e, então, não haveria a menor possibilidade de que Saigo e Tora, quase ao final de sua corrida para a sebe, e devendo se desviar para o portão a qualquer instante, atingissem o seu objetivo. Por isso, os defensores diminuíram o ritmo, os arqueiros miraram sem pressa, confiantes na vitória. Para espanto de todos, no entanto, Saigo e Tora, em vez de correr ao longo da sebe, continuaram em linha reta e se lançaram contra a sebe, lado a lado.
O impulso fez com que passassem por ela, assim como a precisão do salto. Nos dias anteriores, Saigo descobrira que os galhos se entrelaçavam, mas os troncos eram separados por cerca de meio metro, e concluíra que um bom impulso, se efetuado no ponto correto, permitiria a passagem para o outro lado.
E foi o que conseguiram, embora os galhos os deixassem com o rosto e braços ensangüentados. Os dois se encontravam no ponto exato que Saigo planejara — o caminho sinuoso ao lado da varanda, que levava à casa de banho. Por um momento, não havia ninguém à vista, e depois vários servos e criadas apavoradas os contemplaram de uma porta, para desaparecer em seguida. Saigo seguiu à frente na corrida silenciosa pelo caminho, subiram os degraus, contornaram o canto da varanda. Dois homens ansiosos surgiram do nada, desarmados e despreparados, um deles o camareiro. Saigo golpeou os dois, o camareiro sofreu morte instantânea, o outro ficou ferido, e ele continuou a avançar. Tora acabou de liquidar o segundo homem, pulou sobre os corpos e foi em seu encalço.
Avançaram pela varanda, contornaram o canto, arremeteram pela tela leve de shoji para entrar na casa de banho. Criadas seminuas olharam para eles, em pânico: espadas ensangüentadas, os rostos cortados e pingando sangue, quimonos rasgados. O ar era quente, úmido, com uma suave fragrância.
Saigo soltou um berro de raiva. A banheira rasa e fumegante, alimentada por uma fonte de água quente, estava vazia, assim como as quatro caixas de vapor feitas de madeira e as mesas de massagem, exceto uma. Ele absorveu no mesmo instante cada detalhe da moça pequena e nua estendida ali, os olhos chocados, a boca entreaberta, dentes enegrecidos, os cabelos pretos torcidos numa toalha branca, mais toalhas por baixo do corpo, seios diminutos, mamilos de um marrom escuro, as curvas sedutoras, a pele dourada agora rósea do calor do banho, oleosa e fragrante... e a massagista cega, seminua, de pé ao seu lado, imóvel, a cabeça inclinada, escutando com total concentração.
Seria muito fácil matar a moça e todas as outras, mas suas ordens eram para não atacar a princesa, a qualquer custo. Mesmo assim, sua fúria por ter sido enganado — o momento que escolhera fora perfeito, as informações eram perfeitas, e o padrão do xógum nunca variava — fez com que sua cabeça parecesse que iria explodir. A fúria se transformou em desejo, e ele estremeceu, querendo aquela mulher, agora, depressa, brutalmente, de qualquer maneira, a esposa antes do marido, a morte para ambos, mas só depois de possuí-la.
Os lábios se afastaram dos dentes, e ele arremeteu pela distância que os separava. As criadas se dispersaram, uma desmaiou, a princesa ofegou, permaneceu imóvel, apavorada. Mas a obsessão pelo xógum prevaleceu, e Saigo passou por ela, continuou até a porta de shoji, contra a qual se lançou, e continuou a correr, determinado, com Tora logo atrás, por outras varandas, a caminho dos aposentos de sua presa, os jardins à direita, cômodos à esquerda — não era mais um homem racional, mas sim um animal enfurecido, empenhado em matar. Portas de shoji foram abertas, rostos apareceram. Criadas, damas de companhia e servos, atraídos pela comoção, vestidos ou semidespidos para a noite, a cama ou o banho, olharam aturdidos para eles.
Não havia guardas naqueles cômodos. Ainda.
Nem qualquer oposição. Ainda.
Mais alguns cômodos para ultrapassar, portas, rostos, e depois ele viraria o último canto, a última varanda. A expectativa de Saigo aumentou ainda mais, pois o caminho era coberto e magnífico, jardins à direita e esquerda, sem ter mais de se preocupar com outros cômodos e guardas à espera, e ao final os aposentos do xógum, onde ele próprio deitara em segredo, com sua cortesã.
Todos os sentidos alertas para o perigo esperado, Tora poucos passos atrás, correndo na mesma velocidade, os sons de inimigos se aproximando. Passaram por outro cômodo. Só mais uma porta, o derradeiro perigo. Rostos na porta, um médico e um jovem tossindo, fitando-os chocados, depois ele virou a curva e iniciou a carga final, junto com Tora.
Os dois homens estacaram abruptamente. Seus corações pararam. Diante deles, um oficial e três samurais saíram pela porta do santuário, empunhando suas espadas, à espera. Uma hesitação mínima e depois Saigo correu para a morte, a sua ou a deles, Tora com o mesmo empenho, pois apenas aqueles quatro homens se interpunham entre eles e o xógum que protegiam.
— Sonno-joi!
O capitão sustentou a primeira carga, aparou o golpe, as espadas se juntaram, e depois ele virou a sua, atacou Saigo, enquanto dois outros samurais avançavam para Tora, o último permanecendo de reserva, como fora ordenado. Outra sucessão de violentos golpes e contragolpes, Saigo com uma confiança absoluta, tão perto do sucesso, pressionando no ataque, sentindo-se um super-homem, e sua lâmina parecendo imbuída de vontade própria, procurando a carne inimiga, como destruiria, dentro de mais alguns segundos, o menino xógum...
Houve um clarão ofuscante por trás de seus olhos, o latejar na cabeça aumentou, e ele viu de repente o médico e o menino, lembrou que alguém lhe dissera que havia um rumor de que o xógum sofria de uma tosse seca constante... não havia retratos dele, é claro, e nenhum dos shishi jamais o vira.
— Se não o encontrarem na casa de banho — dissera Katsumata, — poderão reconhecê-lo pelos dentes enegrecidos, a tosse, a proximidade da princesa, a qualidade de suas roupas... e lembrem-se de que tanto ele quanto a princesa detestam guardas por perto.
Com uma força tremenda, aumentada ao máximo, uivando como uma besta selvagem, Saigo atacou o capitão, que escorregou no chão envernizado e por um instante ficou desamparado. Mas Saigo não desfechou o golpe fatal; em vez disso, virou-se para o menino... e o último samurai encontrou a oportunidade por que esperava, segundo as ordens. Sua espada penetrou fundo no flanco de Saigo, que nada sentiu, e golpeou impotente o fantasma do xógum à sua frente, várias vezes, resvalou para o chão ainda atacando, já morto, mas sem o saber.
O capitão levantara-se de um pulo e correu para atacar Tora, acertou-o em cheio e depois, guerreiro experiente, retirou a espada e decapitou-o de um só golpe.
— Façam a mesma coisa com ele — balbuciou o capitão, apontando para Saigo.
Seu peito arfava, enquanto tentava recuperar o fôlego. Correu de volta pela varanda. Encontrou ali homens que vinham da entrada, liderados por seu segundo no comando. O capitão xingou-o, empurrou-o para o lado, seguiu em frente, dizendo:
— Cada homem neste turno deve se apresentar na praça diante da estalagem, desarmado e de joelhos! Você também!
O coração batendo forte, ele sentia uma fúria intensa, ainda não controlara seu pânico. Pouco antes do pôr-do-sol, Nobusada mandara chamá-lo e dissera, impertinente:
— Tire todos os guardas do lado interno da sebe. É um absurdo tê-los aqui. Os aposentos são pequenos e horríveis. Será que você é tão impotente e inepto que nem é capaz de garantir a segurança nesta estalagem pequena e sórdida? Temos de nos banhar com guardas, dormir com guardas, comer com eles nos olhando? Quero que se retirem. Esta noite proíbo todos os guardas aqui!
— Mas devo insistir, Sire...
— Não vai insistir em nada. Não haverá guardas no lado de dentro da sebe esta noite. A reunião está encerrada!
Não havia nada que o capitão pudesse fazer, mas também não havia necessidade de se preocupar. Claro que tudo estava seguro.
Ao ouvrir os primeiros ruídos distantes e abafados do ataque, ele efetuava um circuito final e satisfatório pelo lado interno da sebe, acompanhado por quatro homens — a sebe também funcionava como uma barreira para o som. Ao chegar à entrada, ele ficara consternado ao ver quatro homens correndo para a sebe, e dois para o portão. Seu primeiro pensamento fora o xógum, e partira para a casa de banho, encontrando no caminho o camareiro, que lhe perguntara:
— O que está acontecendo?
— Alguns homens nos atacam! Tire o xógum do banho!
— Ele foi falar com o doutor...
Outra corrida em pânico, passando pela casa de banho, até os aposentos, para descobri-los vazios, uma criada assustada informando que o lorde xógum se encontrava num dos aposentos ao lado da varanda, e depois a saída para o corredor, deparando com dois homens atacando, sem meios de proteger o xógum, mas concluindo que se os atacantes corriam para cá é porque talvez tivessem perdido seu suserano...
O capitão sabia agora que não sobreviveria se não encontrasse o xógum vivo. O que não demorou a acontecer. Nobusada tossia e tremia, ainda assustado, cercado por várias pessoas, que aumentavam o tumulto. O capitão logo verificou que a princesa estava ilesa, embora também histérica. Seu pânico se dissipou. Ignorou o acesso de raiva de Nobusada e disse, numa voz gelada, que intimidou todos os soldados nas proximidades:
— Mandem um mensageiro e quatro homens a toda velocidade para levarem um relatório antecipado. Exceto pelos homens deste turno, todos os guardas entram de serviço agora, dentro do conjunto, cinqüenta homens em torno dos aposentos, dois homens no canto de cada varanda. E dez homens sempre à vista do lorde xógum, até que ele esteja são e salvo dentro dos muros do palácio.
No meio da manhã seguinte, dentro dos muros do palácio, Yoshi atravessava apressado o círculo exterior de jardins, sob uma chuva leve. O general Akeda caminhava ao seu lado.
— É perigoso demais, Sire — disse ele, com medo que cada moita, por mais bem cuidada que fosse, pudesse esconder um inimigo.
Os dois usavam armaduras leves e espadas, um fato raro ali, onde todos os samurais e todas as armas eram proibidos, exceto pelo xógum no poder e uma guarda imediata de quatro homens, o líder dos anciãos e o guardião do herdeiro.
Era quase meio-dia. Os dois estavam atrasados e nem notaram a beleza ao redor, lagos e pontes, arbustos floridos, árvores podadas e cuidadas ao longo dos séculos. Sempre que um jardineiro os via, fazia uma reverência e se mantinha na posição até que sumissem de vista. Usavam mantos de palha por cima das armaduras, para se protegerem da chuva. Uma chuva intermitente caíra durante toda a manhã. Yoshi acelerou os passos.
Não era a primeira vez que ele se encaminhava apressado para uma reunião clandestina na área do palácio... seguro, mas nunca totalmente seguro. Era muito difícil ter uma reunião com segurança absoluta em qualquer parte — sempre havia o receio de uma emboscada, veneno, arqueiros escondidos ou inimigos armados com mosquetes. O mesmo se aplicava a todos os outros daimios. Ele sabia que seu fator de segurança era bastante baixo. Tio baixo, na verdade, que seu pai e avô haviam-lhe ensinado a aceitar o fato de que a morte de velhice não tinha lugar no karma da família.
— Estamos tão seguros quanto em qualquer outro lugar do mundo — comentou ele. — Seria inconcebível romper uma trégua aqui.
— A não ser por Ogama. É um mentiroso e impostor, deveria servir de alimento para os abutres, a cabeça espetada num chuço.
Yoshi sorriu e sentiu-se melhor. Desde que chegara a notícia assustadora do ataque shishi, no meio da noite, ele estivera mais nervoso do que nunca... mais do que na ocasião da morte do tio, quando fora preterido na escolha do novo xógum, com a indicação de Nobusada, mais do que na época em que o tairo Li o prendera, ao pai e toda a família, mantendo-os cativos em sórdidos aposentos. Providenciara o envio de duzentos homens para receber a comitiva na barreira de Quioto, e ao amanhecer despachara Akeda em segredo para relatar a Ogama o que acontecera, e por que tantos homens equipados para a guerra deixavam sua estacada.
— Transmita a Ogama todas as informações que recebemos e responda às suas perguntas. Não quero erros, Akeda.
— Não haverá nenhum da minha parte, Sire.
— Ótimo. Depois, entregue a carta e solicite uma resposta imediata. Yoshi não revelara a Akeda o que a carta continha, nem seu general perguntara.
Assim que Akeda voltara, Yoshi pedira:
— Conte-me exatamente o que ele fez.
— Ogama leu a carta duas vezes, cuspiu, praguejou, passou-a a seu conselheiro, Basushiro, que leu também, mantendo impassível aquela sua cara bexiguenta e repulsiva, sem nada deixar transparecer, e depois disse: “Talvez devêssemos conversar sobre isto em particular, Sire.” Eu lhes disse que esperaria. Depois de algum tempo, Basushiro voltou e declarou: “Meu lorde concorda, mas irá armado, e eu também.” O que está acontecendo, Sire?
Yoshi contou e o velho se mostrou espantado.
— Pediu para se encontrar com ele a sós? E eu serei o único guarda? É uma loucura! Só porque ele disse que irá apenas com Basu...
— Chega!
Yoshi sabia que os riscos eram enormes, mas tinha de jogar mais uma vez, precisava de uma resposta para a sua proposta sobre os portões; quando se preparava para sair, um dos muitos espiões do xogunato relatara certas conversas entre o shishi Katsumata e os outros na Estalagem dos Pinheiros Sussurrantes, deixando-o exultante por ter pedido o encontro.
— Lá está ele!
Ogama se encontrava parado sob uma árvore de galhos enormes, onde fora marcado o encontro, com Basushiro ao seu lado. Ambos estavam visivelmente desconfiados, esperando uma traição, mas não pareciam tão nervosos quanto Akeda. Yoshi propusera que Ogama entrasse pelo portão sul, ele usaria o portão leste, deixando seu palanquim e os guardas do lado de fora, com o salvo-conduto garantido. Depois da reunião, todos os quatro sairiam juntos pelo portão leste.
Como antes, os dois adversários se adiantaram, para conversarem a sós. Akeda e Basushiro ficaram observando, muito tensos.
— Mas que coisa! — exclamou Ogama, depois dos cumprimentos formais. — Uns poucos shishi atacam através de centenas de guardas, como uma faca passando pela bosta, e quase alcançam o banheiro de Nobusada, a esposa nua e o leito, antes de serem apanhados. Dez homens, você diz?
— Três eram ronin de Choshu, os dois que passaram pela sebe eram Choshus, um deles o líder.
Yoshi ainda não superara seu susto pelo ataque e especulou se ousaria desembainhar a espada naquela excepcional oportunidade de desafiar Ogama sozinho, já que Basushiro não representava nenhuma ameaça física, com ou sem Akeda.
Preciso de Ogama morto, de um jeito ou de outro, pensou ele, mas não agora, não quando dois mil Choshus ocupam os portões e me mantêm imobilizado.
— Todos morreram sem causar maiores danos, exceto a alguns guardas, os sobreviventes não continuarão neste mundo por muito mais tempo. É verdade o que dizem, que você ofereceu anistia a todos os ronin de Choshu? — Havia algum nervosismo em sua voz, e Yoshi especulou de novo se Ogama tivera alguma participação secreta no planejamento, que fora impecável, e que deveria ter tido êxito, a se dizer a verdade. — Quer fossem shishi ou não?
— É verdade — respondeu Ogama, apenas a boca sorrindo. — Todos os daimios deveriam fazer a mesma coisa, uma maneira simples e rápida de controlar os ronin, quer sejam ou não shishi. Eles constituem uma pestilência que deve ser contida.
— Concordo. Só que a anistia não vai detê-los. Posso perguntar quantos dos seus ronin aceitaram a oferta?
Ogama soltou uma risada.
— Com toda certeza, não os que participaram do ataque! Um ou outro até agora, Yoshi-dono. Quantos são, no total? Uma centena? Não devem chegar a duzentos, dos quais vinte ou trinta podem ser de Choshu. Mas não importa se são Choshus ou não. — O rosto endureceu. — Não planejei o ataque, se é isso o que está pensando, nem sabia a respeito.
O sorriso sombrio ressurgiu.
— É inadmissível acalentar um pensamento tão traiçoeiro, não é mesmo? Seria fácil acabar com os shishi, se você e eu quiséssemos... mas o lema deles não é tão fácil de se suprimir, se é que deve ser suprimido. O poder deve voltar ao imperador, os gai-jin devem ser expulsos. Sonno-joi é um bom lema, não concorda?
— Eu poderia dizer muitas coisas, Ogama-dono, mas aliados não devem se provocar. Somos aliados? Você concorda?
Ogama acenou com a cabeça.
— Em princípio, sim.
— Ótimo. — Yoshi disfarçou o espanto por Ogama ter concordado com suas condições. — No prazo de um ano, você será o chefe dos anciãos. A partir de meio-dia, minha guarnição assume os portões.
Ele virou-se para ir embora.
— Tudo como disse. Exceto os portões.
A veia na testa de Yoshi saltou.
— Mas expliquei que preciso dos portões.
— Sinto muito. — A mão de Ogama não segurara o punho da espada, embora os pés assumissem uma posição melhor para o combate. — Aliados secretos, sim, guerra com Tosa, sim, com Satsuma, sim, os portões, não. Sinto muito.
Por um momento, Yoshi Toranaga não disse nada. Fitou Ogama, que sustentou seu olhar, sem medo, esperando, pronto para lutar, se fosse necessário. Depois, Yoshi suspirou, removeu as gotas de chuva da beira do chapéu de aba larga.
— Quero que sejamos aliados. E aliados devem se ajudar mutuamente. Talvez eu chegue a um acordo, mas primeiro lhe darei algumas informações especiais: Katsumata está aqui, em Quioto.
O sangue afluiu ao rosto de Ogama.
— Não é possível. Meus espiões teriam me avisado.
— Ele está aqui e há algumas semanas.
— Não há homens de Sanjiro em Quioto, muito menos esse. Meus espiões teriam...
— Sinto muito — insistiu Yoshi, a voz insinuante —, mas ele se encontra aqui em segredo, não como batedor e espião de Sanjiro, pelo menos não abertamente, Katsumata é shishi, um sensei de shishi, e o líder dos shishi aqui, com o codinome de Corvo.
Ogama estava aturdido.
— Katsumata é o líder shishi?
— Isso mesmo. E um pouco mais. Pense por um momento: ele não é o conselheiro e tático mais antigo e de maior confiança de Sanjiro? Não o enganou, por conta de Sanjiro, com seu falso pacto e a manobra para frustrá-lo em Fushimi, permitindo que Sanjiro escapasse? Isso não significa que Sanjiro de Satsuma é secretamente o verdadeiro líder dos shishi, e que todos os assassinatos fazem parte de seu plano geral de derrubar a todos nós, a você em particular, para se tornar o xógum?
— Esse sempre foi o objetivo de Sanjiro, não resta a menor dúvida — murmurou Ogama, confuso, percebendo que muitas ocorrências até então inexplicadas agora se ajustavam nos lugares devidos. — Se ele controla também todos os shishi...
Ogama fez uma pausa, subitamente furioso por Takeda nunca lhe ter contado. Afinal, Takeda não é meu espião, um verdadeiro vassalo secreto?
— Onde está Katsumata neste momento?
— Uma de suas patrulhas quase o emboscou na Estalagem dos Pinheiros Sussurrantes, há poucos dias.
A cor voltou ao rosto de Ogama.
— Ele se encontrava ali? Fomos informados que alguns shishi dormiam ali, mas eu nunca soube...
Mais uma vez, ele quase sufocou de raiva por Takeda não ter avisado que seu odiado inimigo estava ao seu alcance. Por quê? Ora, não importa, seria fácil cuidar de Takeda. Primeiro, porém, Katsumata. Não esqueci que Katsumata frustrou meu ataque de surpresa a Sanjiro. Se não fosse por Katsumata, Sanjiro teria morrido, eu me tornaria o lorde de Satsuma e não haveria a menor necessidade de conversar com Yoshi Toranaga... ele se poria de joelhos diante de mim.
— Onde ele está neste momento? Sabe o local?
— Sei onde é a casa segura em que ele esteve ontem à noite, onde talvez apareça também esta noite. — Uma pausa, e Yoshi acrescentou, a voz bem suave:— Há mais de cem shishi em Quioto. Eles já planejam um ataque em massa contra você.
Ogama sentiu um calafrio, sabendo que não existia nenhuma defesa eficaz contra um fanático assassino que não tinha medo de morrer.
— Quando?
— Deveria ser amanhã, ao crepúsculo... se o ataque contra o xógum fosse bem-sucedido. Depois que você morresse, com a ajuda de partidários entre suas tropas, eles tomariam os portões.
Ogama precisou recorrer a todo seu controle para não revelar a Yoshi que deveria ter uma reunião secreta com Takeda, no dia seguinte, ao crepúsculo, momento perfeito para um ataque de surpresa.
— E agora que foi um fracasso?
— A informação que recebi foi de que os líderes se reunirão esta noite para decidir. Agora, formalmente, você se encontra no topo da lista, logo depois do meu nome e de Nobusada.
— Por quê? — indagou Ogama, veemente. — Eu apoio o imperador, apoio a luta contra os gai-jin.
Yoshi absteve-se de sorrir, sabendo o que era melhor.
— Vamos juntar nossas forças esta noite. Sei onde fica o ponto de reunião, onde Katsumata e a maioria dos líderes devem se encontrar esta noite... há um toque de recolher do amanhecer ao anoitecer naquela parte da cidade.
Ogama exalou.
— E o preço?
— Primeiro, tenho mais uma informação que afeta bastante a nós dois.
Aumentando a apreensão de Ogama, Yoshi relatou os detalhes da reunião dos anciãos com Sir William e os outros ministros, falou de seu espião Misamoto, da ameaça de Sir William de efetuar em breve uma incursão armada a Quioto, assim que sua esquadra voltasse, e como a ameaça e o pagamento haviam sido protelados por um estratagema.
— A esquadra deles não passará por Shimonoseki... se eu assim ordenar.
— Podem fazer o percurso mais longo, contornando a ilha do Sul.
— Percurso mais longo, percurso mais curto, não faz diferença. Se desembarcarem em Osaca, ou nas proximidades, eu... ou nós vamos destruí-los.
— Na primeira vez. Com grandes perdas, mas conseguiremos, os gai-jin serão rechaçados. Há dois dias, no entanto, recebi um relatório secreto do departamento do Bakufu que lida com as informações da China. — Yoshi estendeu o pergaminho. — Leia você mesmo.
— O que diz? — perguntou Ogama, bruscamente.
— Que a esquadra de Iocoama, enviada para punir o afundamento de um único navio britânico, devastou vinte léguas da costa da China, ao norte de Xangai, incendiando todas as aldeias, afundando todas as embarcações.
Ogama cuspiu.
— Piratas. Ninhos de piratas.
Ele sabia bastante sobre a região. No passado, fora uma política histórica embora secreta de Choshu — e também de Satsuma — enviar atacantes à costa da China para saquear implacavelmente, de Xangai, para o sul, além de Hong Kong, até o estreito de Taiwan. Os chineses chamavam-nos de wako, piratas, odiando-os e temendo-os tanto que por séculos os imperadores da China haviam proibido que qualquer japonês desembarcasse em suas praias; todo o comércio entre as duas terras era conduzido apenas por não-japoneses.
— Piratas, sim, mas aquela escória nada tem de covarde. Não faz muito tempo, um exército desses mesmos gai-jin humilhou toda a China, pela segunda vez, incendiou o palácio de verão do imperador e Pequim a seu capricho. Suas esquadras e exércitos possuem tremendo poder.
— Estamos no Nipão, não na China. — Ogama deu de ombros. Não se sentia disposto a revelar seus planos para a defesa de Choshu. E pensou: minhas costas são escarpadas, infestadas de rochedos, difíceis de invadir, bastante defensáveis, muito em breve se tornarão inexpugnáveis, assim que todas as fortificações ficassem prontas e seus guerreiros ocupassem seus postos. — E nós não somos chineses.
— Minha opinião é de que precisamos de paz entre todos os daimios para ganhar tempo, manipular os gai-jin, descobrir tudo sobre seus canhões secretos, armas secretas, navios secretos, saber como o povo de uma ilha tão pequena e repulsiva, menor que a nossa terra, tornou-se o mais rico do mundo e domina a maior parte.
— Mentiras, mentiras espalhadas para assustar os covardes aqui.
Yoshi sacudiu a cabeça.
— Não acredito nisso. Primeiro, devemos aprender, depois poderemos destruí-los, o que é impossível agora.
— Não é, não. Esta é a terra dos deuses. Tenho uma fábrica de canhões em Choshu, em breve haverá outras. Satsuma tem três pequenos navios a vapor, o início de um estaleiro; logo terá outros. — O rosto de Ogama se contraiu. — Podemos destruir Iocoama e essa esquadra, e estaremos preparados quando os outros voltarem.
Yoshi ocultou sua surpresa pela veemência e intensidade do ódio, secretamente exultante por ter descoberto outra arma que podia usar.
— Concordo. É esse o meu objetivo. Como pode ver, Ogama-dono — disse ele, como se estivesse bastante aliviado —, pensamos da mesma maneira, embora talvez de pontos de vista diferentes. Vamos destruí-los, mas no momento certo, o momento que escolhermos, após extrairmos os seus conhecimentos, depois que nos derem os meios para frustrarmos seus planos e partirmos suas cabeças.
Uma pausa, e Yoshi acrescentou, a voz firme:
— Dentro de um ano, você e eu controlaremos o conselho e o Bakufit. Em três ou quatro anos, podemos comprar muitos fuzis, canhões e navios.
— Pagos como? Os gai-jin são gananciosos.
— Um meio é carvão para seus navios. Outro é ouro. Yoshi explicou seu esquema de exploração.
— Muito esperto — murmurou Ogama, os lábios se contraindo num estranho sorriso. — Temos em Choshu carvão, ferro e árvores para navios.
— E já uma fábrica de armamentos.
Ogama riu, uma boa risada, e Yoshi riu também, sabendo que conseguira uma abertura.
— É verdade, e minhas baterias aumentam a cada mês. — Ogama ajeitou o manto, sob a chuva crescente, e acrescentou, incisivo: — Assim como minha determinação em disparar contra os navios inimigos, no momento em que desejar. São essas todas as suas informações, Yoshi-dono?
— Por enquanto. Posso aconselhá-lo a relaxar um pouco a pressão no estreito... de qualquer forma, é seu para fazer o que bem quiser. Isso é tudo, por enquanto, mas como aliado você receberá todos os tipos de informações sigilosas.
— Como aliado, eu esperaria as informações sigilosas.
Ogama balançou a cabeça, meio para si mesmo. Olhou para Basushiro, depois mudou de idéia sobre consultá-lo. Yoshi tem razão, pensou ele, os líderes devem ter segredos.
— Já falamos o suficiente. Katsumata: perguntei o preço. Um ataque conjunto esta noite.
— O que um aliado muito importante ofereceria?
Ogama esticou-se para aliviar a tensão no pescoço e ombros, esperando por essa indagação... pois apesar de toda a sua bravata, nada tinha de tolo. Haveria tempo suficiente para mudar uma oferta, pensou ele, embora nenhum de nós dois jamais perderia a honra barganhando como os desprezados mercadores de arroz de Osaca.
— Você pode guarnecer os portões por um mês, apenas vinte homens em cada um dos seis portões, com duzentos de meus homens estacionados nas proximidades... — Ogama sorriu —... mas não bastante perto para embaraçá-lo. Qualquer pessoa entrando ou saindo receberá permissão de seu oficial nos portões, como é correto... depois de uma prévia e discreta consulta ao meu... ao meu oficial de ligação.
— Consulta?
— Consulta, como é de praxe entre aliados sigilosos, para que se possa chegar a um consenso sem maiores dificuldades. — O sorriso desapareceu. — Se mais de vinte de seus homens aparecerem, os meus homens recuperam a posse e todos os acordos são cancelados. Concorda?
Os olhos de Yoshi se tornaram impassíveis. Não havia necessidade de ameaças, pois era óbvio que qualquer manobra escusa de um dos lados cancelaria todos os acordos.
— Prefiro quarenta homens em cada portão... podemos aceitar sem problemas os detalhes da mudança da guarda... e eu guarneço os portões enquanto o xógum Nobusada e a princesa Yazu permanecerem lá dentro.
Ogama percebera a mudança.
— O xógum Nobusada, sim, mas não a princesa, que... que pode continuar lá dentro para sempre, não é mesmo? Quarenta? Está certo, quarenta em cada portão. E é claro que o irmão dela, o filho do céu, não revogará seu memorial, sua solicitação para que eu vigie os portões contra seus inimigos.
— O filho do céu é o filho do céu, mas duvido que haja cancelamento enquanto as forças do xogunato estiverem exercendo seus direitos históricos.
— Vamos esquecer essa conversa polida e falar às claras: aceitarei um artifício para salvar as aparências nos portões, em troca de Katsumata e todo o resto... seus homens se tornam a guarda de honra, seus estandartes podem ficar lá. Concordo com muito do que você disse, isso mesmo, com muita coisa, mas não renuncio à minha oposição aos “direitos históricos”, ao xogunato e ao Bakufu...
Ogama fez uma pausa; e porque queria de fato o que lhe era oferecido, fez outra concessão:
—... ao atual xogunato e Bakufu, Yoshi-dono. Por favor, desculpe minha franqueza. Seria ótimo se pudéssemos ser aliados. Eu não imaginava que seria possível, nem que pudesse concordar com qualquer coisa.
Yoshi acenou com a cabeça, ocultando seu júbilo.
— Sinto-me feliz por podermos concordar, e digo com franqueza que se podemos concordar em grandes mudanças, também chegaremos a um acordo nas pequenas. Por exemplo, se tal memorial viesse do imperador, seria uma falsificação.
O sorriso de Ogama agora foi genuíno, e ele achou que chegara a um acordo perfeito.
— Ótimo. Agora, vamos cuidar de Katsumata.
O ataque ao esconderijo dos shishi começou poucas horas antes do amanhecer. A surpresa foi perfeita. Katsumata, todos os sublíderes e muitos outros se encontravam no local. Inclusive Sumomo.
O primeiro momento em que os dois vigias perceberam o perigo foi quando uma das choupanas, quase no final da viela, lamacenta da chuva, irrompeu em chamas, aos gritos abafados de alarme dos ocupantes e vizinhos próximos. No mesmo instante, esses homens e mulheres — todos infiltrados em segredo pelo Bakufu —, saíram para a viela, num pânico simulado, a manobra diversionária ajudando a encobrir a aproximação furtiva da força atacante. Quando as sentinelas foram investigar, flechas zumbiram pela noite e as liquidaram. Um dos homens ainda gritou em advertência antes de morrer.
A força principal surgiu da noite para cercar toda aquela área de habitações miseráveis. A maioria dos homens era de Ogama, a seu pedido. Yoshi concordara, dizendo que enviaria uma tropa simbólica, de homens escolhidos a dedo, sob o comando de Akeda.
Num instante, muitos dos atacantes acenderam tochas, que iluminaram parcialmente a cabana que era o alvo principal, por trás e pela frente. Uma saraivada de flechas penetrou por todas as aberturas e pontos fracos. Depois, num movimento inesperado, os quatro homens de Yoshi armados com fuzis ocuparam suas posições, dois atrás do conjunto de cabanas, dois na frente, e dispararam várias rajadas, através das paredes de papel.
Por um momento, houve um silêncio atordoado — samurais, shishi e todos os moradores igualmente chocados —, pois o som de tiros em rápida sucessão era algo sem precedentes. O silêncio logo foi rompido, enquanto todos, menos os atacantes, dispersavam-se em busca de cobertura, e os feridos lá dentro soltavam gritos de dor. Uma cabana ao lado da primeira que se incendiara também pegou fogo, as chamas se espalharam depressa para a casa ao lado, para outra e mais outra, até que os dois lados da extremidade da viela se transformaram num inferno, com muitas famílias acuadas.
O capitão de Ogama que liderava o ataque não deu a menor atenção a esse perigo, que ameaçava apenas os habitantes. Ordenou a primeira onda de ataque, ignorando o conselho de Yoshi para atear fogo às cabanas, e deixar que seus homens com rifles liquidassem os shishi, à medida que saíssem em busca de cobertura. Quatro atacantes de Ogama tombaram sob uma impetuosa incursão de shishi, pela porta da frente e janelas laterais. Começou uma luta generalizada, tanto ali como nos fundos, enquanto outra incursão furiosa era contida, homens se debatendo, estorvados pelo espaço restrito, a lama e a semi-escuridão. Dois homens ultrapassaram o cerco, só para serem retalhados por outros, esperando em emboscada. Outra rajada contra a cabana foi seguida por mais uma tentativa de fuga, por parte de um grupo frenético de shishi, numa missão impossível, já que outro círculo de samurais os aguardava mais além, e depois um terceiro. A fumaça dos incêndios começou a atrapalhar os atacantes e atacados.
Uma ordem de Akeda. Seus homens com tochas aproximaram-se correndo das cabanas e as arremessaram nos telhados e através das paredes de shoji, recuando apressados, em seguida, para oferecer uma área desimpedida aos seus companheiros com fuzis. Mais disparos, mais mortes, enquanto outro bando de shishi saía correndo para se juntar ao confuso combate. O cheiro de fumaça, lixo, sangue, fogo, carne queimada e morte impregnava a noite úmida. A chuva virou uma garoa.
Protegidos por guardas pessoais, Ogama e Yoshi observavam de um posto de comando, longe do fogo e do combate. Ambos usavam armaduras e espadas; Yoshi tinha seu fuzil pendurado no ombro. Havia alguns representantes do Bakufu ao lado deles. Na confusão furiosa, ficaram surpresos ao avistar um shishi romper o círculo de atacantes, correr pela viela e se esgueirar por um caminho transversal, evitando os samurais de Choshu.
— Aquele é Katsumata? — gritou Ogama.
Suas palavras foram abafadas no momento em que Yoshi, sem a menor hesitação, mirou o fuzil, atirou, tornou a carregar, disparou de novo. O homem caiu, gritando. Ogama e todos ao redor recuaram, pois não esperavam que Yoshi se envolvesse pessoalmente. Sem pressa, Yoshi apontou mais uma vez para o homem, que se contorcia na lama, impotente. Abala arremessou o corpo para trás. Um uivo final e torturado e o homem ficou inerte.
— Não é Katsumata — murmurou Yoshi, desapontado.
Ogama soltou uma imprecação, pois sua visão noturna não era muito boa. Desviou os olhos do corpo para fixá-los no fuzil, folgado nas mãos de Yoshi, reprimindo um tremor.
— Usa isso muito bem.
— É fácil aprender, Ogama-dono, bastante fácil. — Com uma despreocupação cuidadosa, Yoshi pôs outra bala na culatra, convencido de que aquele era o primeiro fuzil que Ogama via. Trouxera os homens com os fuzis deliberadamente, para impressioná-lo, mantê-lo hesitante, fazer com que se tomasse mais cauteloso em qualquer tentativa de assassinato. — Matar assim é repulsivo, covarde, desonroso.
— É mesmo. Posso examinar a arma, por favor?
— Claro. — Yoshi puxou a trava de segurança. — É um fuzil americano... o último modelo de carregar pela culatra. Receberei cinco mil em breve.
Ele exibiu um sorriso fugaz, recordando que se apropriara da encomenda de Ogama, antes de acrescentar:
— Meu ancestral foi sábio ao proibir todas as armas de fogo... qualquer pessoa pode usar uma dessas para matar, de perto ou a distância, daimio, mercador, assaltante, ronin, camponês, mulher, criança. Meu ancestral foi muito sábio. É uma pena que não possamos fazer a mesma coisa, mas os gai-jin tornaram isso impossível.
O fuzil pareceu estranho para Ogama, mais pesado do que uma espada, oleado e mortífero, e isso aumentou o excitamento do ataque, as mortes, os gritos, a batalha, saber que Katsumata se encontrava de fato lá dentro, como seus espiões haviam informado, e que muito em breve a cabeça de seu odiado inimigo estaria em exposição. Tudo se somava para deixá-lo com uma incômoda náusea.
Era bom matar assim, sem correr qualquer perigo pessoal, pensou ele, os dedos acariciando o cano, mas Yoshi tem razão, mais uma vez. Nas mãos erradas... todas as outras mãos seriam erradas. Cinco mil? Isso tornaria muito difícil um combate. Encomendei apenas duzentos e cinqüenta... de onde ele tira o dinheiro, já que suas terras se acham tão endividadas quanto as minhas... ah, sim, esqueci, negociando concessões de mineração. Muito esperto. Farei a mesma coisa. Esta noite ele trouxe quarenta homens. Por que quarenta? Para me lembrar que concordei com uma guarnição de quarenta em cada portão? Quarenta homens com fuzis poderiam dizimar meus duzentos, a menos que estivessem igualmente armados.
— Tem mais fuzis aqui? — indagou ele.
Yoshi decidiu ser franco.
— Não, por enquanto.
Pensativo, Ogama devolveu o fuzil e concentrou sua atenção nas cabanas. Os sons da batalha diminuíam, o ruído dos incêndios aumentava, mais e mais habitantes tentavam apagá-los, em fileiras, passando baldes com água. Os telhados e as paredes das cabanas principais ardiam agora. Houve outro combate desesperado, corpo a corpo, enquanto mais shishi deixavam as cabanas em chamas, muitos já feridos.
— Katsumata não está entre eles — disse Yoshi.
— Talvez ele tenha tentado escapar pelos fundos.
Ali, fora das vistas dos dois, já havia cinco shishi mortos no chão de terra, junto com oito samurais de Ogama, e seis feridos. Outra batalha entre três shishi e dez samurais de Ogama se aproximava de sua conclusão inevitável. Um brado final de “Sonno-joi!” e os três homens correram para a morte. Trinta samurais de Choshu aguardavam a próxima tentativa de fuga. Saía fumaça pelas aberturas nas paredes de shoji. Um cheiro de carne queimada impregnava o ar. Nenhum movimento no interior. Um oficial gesticulou para um samurai.
— Relate ao capitão o que aconteceu aqui e pergunte se devemos esperar ou entrar.
O homem saiu correndo.
A escaramuça terminou, como todas as outras. Os três shishi morreram bravamente. Havia mais doze mortos, dezessete samurais de Choshu e um dos homens de Yoshi. Quatorze feridos, três shishi impotentes, desarmados, ainda vivos. O capitão ouviu o relatório.
— Diga ao oficial para esperar e matar quem tentar sair. — Ele chamou um grupo mantido em reserva. — Esvaziem as cabanas enquanto ainda há tempo. Matem qualquer um que não se render, menos os feridos.
No mesmo instante, os homens encaminharam-se para a porta. Lá dentro, soaram gritos e depois houve silêncio. Um dos homens saiu, o sangue escorrendo de um talho profundo na coxa.
— Meia dúzia de feridos, muitos cadáveres.
— Traga-os para fora antes que o telhado desabe.
Os cadáveres e os feridos foram alinhados diante de Yoshi e Ogama, com os representantes do Bakufu logo atrás. As tochas projetavam estranhas sombras. Vinte e nove mortos. Onze feridos impotentes. Katsumata não se encontrava entre eles.
— Onde ele está? — berrou Ogama para seu capitão, furioso.
Yoshi também se sentia irritado, sem saber exatamente quantos inimigos havia lá dentro ao começar a batalha.
— Sire, juro que ele estava lá dentro antes de começar e não saiu — respondeu o capitão, caindo de joelhos.
Ogama aproximou-se do mais próximo shishi ferido.
— Onde ele está?
O homem lançou-lhe um olhar furioso, através da dor.
— Quem?
— Katsumata! Katsumata!
— Quem? Não conheço... nenhum Katsumata. Sonno-joi, traidor! Mate-me, acabe logo com isso!
— Daqui a pouco — disse Ogama, através dos dentes semicerrados. Todos os feridos foram interrogados. Ogama examinou cada rosto — Katsumata não estava ali. Nem Takeda.
— Matem todos.
— Deixe-os morrer honrosamente, como samurais — sugeriu Yoshi.
— Está bem.
Ambos se viraram para ver o desabamento do telhado e das paredes da cabana, numa chuva de fagulhas, arrastando as cabanas adjacentes. A chuva fina recomeçara.
— Capitão! Apague o incêndio. Deve haver um porão, um esconderijo, se esse monte de bosta não é um tolo incompetente.
Ogama se afastou, dominado pela raiva, pensando que fora enganado, de alguma forma. Um oficial aproximou-se de Yoshi, bastante nervoso.
— Com licença, Sire — murmurou ele. — A mulher também não está aqui. Devia haver...
— Que mulher?
— Ela era jovem. Uma Satsuma. Estava com eles há algumas semanas. Achamos que era a companheira de Katsumata. Lamento dizer que também não encontramos Takeda.
— Quem?
— Um shishi de Choshu que temos vigiado. Talvez ele fosse espião de Ogama... foi visto se esgueirando furtivo para o quartel-general de Ogama no dia anterior ao fracasso de nosso outro ataque a Katsumata.
— Mas Katsumata e esses outros dois não estavam lá dentro?
— Com toda certeza, Sire. Todos os três.
— Então há um porão ou um caminho secreto de fuga.
Descobriram ao amanhecer. Um alçapão sobre um túnel estreito, com espaço apenas suficiente para se rastejar até a outra extremidade, a uma boa distância, num jardim coberto pelo mato de uma casa vazia. Furioso, Ogama chutou a entrada camuflada.
— Baka!
— Vamos oferecer uma recompensa pela cabeça de Katsumata — propôs Yoshi. — Uma recompensa muito especial.
Ele também sentia-se furioso. Era óbvio que o fracasso afetava o relacionamento manipulado e iniciado com tanta dificuldade. Mas Yoshi era astuto demais para mencionar Takeda ou a mulher... ela não tinha a menor importância.
— Katsumata deve ter permanecido em Quioto. O Bakufu vai ordenar que ele seja procurado, capturado e que nos tragam sua cabeça.
— Meus partidários farão a mesma coisa.
Ogama ficou um pouco apaziguado. Também estivera pensando em Takeda, especulara se sua fuga era um bom ou mau presságio. Ele olhou para o capitão que se aproximara.
— Oque é?
— Deseja ver as cabeças agora, Sire?
— Claro. Yoshi-dono?
— Eu também quero ver.
Os shishi feridos haviam recebido permissão para morrer honrosamente, sem mais dor. Foram decapitados de acordo com o ritual, as cabeças lavadas e agora alinhadas. Quarenta. Outra vez esse número, pensou Ogama, apreensivo. Será um presságio? Mas ele escondeu sua inquietação e não reconheceu nenhum dos homens.
— Já os vi — declarou ele, formalmente, no amanhecer chuvoso.
— Já os vi — acrescentou Yoshi, com a mesma solenidade.
— Ponham as cabeças em chuços, vinte diante dos meus portões, vinte diante do quartel-general de lorde Yoshi.
— E o cartaz, Sire? — indagou o capitão.
— O que sugere, Yoshi-dono?
Depois de uma pausa, sabendo que era outra vez submetido a um teste, Yoshi disse:
— Os dois cartazes podem avisar o seguinte: Estes proscritos, ronin, foram punidos por crimes contra o imperador. Que todos tenham cuidado com seus atos iníquos. Acha satisfatório?
— Acho. E a assinatura?
Ambos sabiam que isso era muito importante, uma questão de difícil solução. Se Ogama assinasse sozinho, seria uma indicação de que tinha a posse legal dos portões; se fosse Yoshi, indicaria que Ogama se encontrava subordinado a ele, o que era verdade, em termos legais, mas inadmissível. O sinal do Bakufu insinuaria a mesma coisa. Um sinal da corte representaria uma intromissão indevida em assuntos temporais.
— Talvez estejamos dando importância demais a esses tolos — comentou Yoshi, simulando desprezo.
Seus olhos se contraíram quando, por cima do ombro de Ogama, avistou Basushiro e alguns guardas dobrarem a esquina da viela enlameada e se aproximarem correndo. Ele tornou a fitar Ogama.
— Por que não deixar suas cabeças em chuços aqui? Por que lhes conceder a honra de um cartaz? Aqueles que quiserem saber o que aconteceu aqui logo tomarão conhecimento de tudo... e ficarão intimidados. Neh?
Ogama sentiu-se satisfeito com a solução diplomática.
— Excelente! Concordo. Vamos nos encontrar de novo ao pôr-do-sol, e... Ele parou de falar, ao perceber a aproximação apressada de Basushiro, suado e ofegante. Foi ao seu encontro.
— Mensageiro de Shimonoseki, Sire — balbuciou Basushiro.
O rosto de Ogama tornou-se uma máscara. Ele pegou o pergaminho, foi até uma tocha. Todos o observavam enquanto abria a mensagem... e Basushiro segurava um guarda-chuva sobre sua cabeça.
A mensagem era do capitão que comandava a guarnição no estreito, datada de oito dias antes, despachada com o máximo de presteza, os homens galopando dia e noite, com a mais alta prioridade:
Sire, ontem a esquadra inimiga retornou, consistindo em nave capitânia e mais sete navios de guerra, todos a vapor, alguns rebocando barcaças com carvão, entraram no estreito. Seguindo suas instruções, de que não deveríamos atacar navios de guerra inimigos sem suas ordens por escrito, deixamos passar.
Depois da passagem da armada, uma fragata a vapor, com a bandeira francesa, voltou, numa demonstração de arrogância, e disparou sucessivas cargas de artilharia contra nossas quatro baterias na extremidade leste do estreito, destruindo-as, antes de tornar a se afastar. Mais uma vez, abstive-me de retaliar, cumprindo suas ordens. Se atacado no futuro, solicito permissão para afundar o atacante.
Morte a todos os gai-jin, Ogama sentiu vontade de gritar, cego de raiva por toda uma esquadra inimiga ter passado ao seu alcance, como Katsumata, mas acabasse escapando à vingança... como Katsumata. Salpicos de saliva espumante surgiram nos cantos de seus lábios.
— Prepare novas instruções: ataque e destrua todos os navios de guerra inimigos.
Basushiro, ainda tentando recuperar o fôlego, murmurou:
— Permite-me sugerir, Sire, que considere “se mais de quatro ao mesmo tempo”? Sempre quis manter a surpresa.
Ogama limpou a boca, acenou com a cabeça, o coração batendo forte ao pensamento de tantos navios que poderia ter destruído. A chuva aumentara e tamborilava no guarda-chuva. Além de Basushiro, ele avistou Yoshi e diversos oficiais, esperando, observando-o, e avaliou se deveria tratar Yoshi como inimigo ou aliado, as implicações da esquadra, sua arrogância, e a própria impotência sufocando-o.
— Yoshi-dono!
Ele fez um sinal para Yoshi, e os dois, juntamente com Basushiro, afastaram-se para um ponte mais isolado.
— Leia; por favor.
Yoshi leu rapidamente. Apesar de todo o seu controle, a cor se esvaiu do rosto.
— A esquadra seguia para o mar interior, na dkeção de Osaca? Ou ia para o sul, na direção de Iocoama?
— Para o sul ou não, os próximos navios de guerra que passarem por minhas águas serão afundados! Basushiro, mande homens imediatamente para Osaca...
— Espere um instante, Ogama-dono — murmurou Yoshi, querendo tempo para pensar. — Basushiro, qual é a sua sugestão?
O homenzinho respondeu sem hesitar:
— Sire, no momento presumo que o destino é Osaca e que devemos nos preparar, juntos, para defendê-la. Já enviei espiões urgentes para descobrir o curso da esquadra.
— Ótimo. — Com a mão trêmula, Ogama limpou a chuva do rosto. — Toda a esquadra gai-jin em meu estreito... eu deveria estar lá!
Basushiro declarou:
— É mais importante que proteja o imperador contra seus inimigos, Sire, e seu comandante agiu certo ao não disparar contra um único navio. Com toda certeza, era um estratagema para verificar sua força. Ele tinha razão ao não revelar suas defesas. Agora que a armadilha está preparada, deseja acioná-la. Como apenas um navio de guerra inimigo voltou para bombardear algumas posições mais fracas e depois partiu às pressas, presumo que o comandante da esquadra estava com medo, não se encontrava preparado para um ataque total ou para desembarcar tropas, iniciando uma guerra que nós terminaremos.
— É verdade. Um estratagema? Concordo. Yoshi-dono — disse Ogama, decidido —, devemos iniciar logo a guerra. Um ataque de surpresa a Iocoama, quer eles desembarquem ou não em Osaca.
Yoshi não pôde responder de imediato, quase tonto com uma súbita apreensão, que tentava ocultar. Oito navios de guerra? Quatro a mais do que haviam partido para a China, o que significava que os gai-jin haviam reforçado sua esquadra. Por quê? Para retaliar pelos ataques de Satsuma e ainda pelos ataques de Ogama a seus navios. E agirão como fizeram na China. O navio gai-jin foi afundado no estreito de Taiwan, mas eles devastaram a costa chinesa, a centenas de léguas de distância.
Qual é o alvo mais fácil para eles no Nipão? Iedo.
Ogama compreendeu isso e seu plano secreto é justamente provocar os gai-jin. Se eu fosse o líder gai-jin, destruiria Iedo. Eles não sabem, mas Iedo é indivisível do nosso xogunato. Se Iedo acabar, o xogunato Toranaga também acaba, e a seguir a terra dos deuses ficará exposta a toda e qualquer violação.
Portanto, isso deve ser evitado, a qualquer custo.
Pense! Como conter os gai-jin, e também Ogama, cuja solução é oferecer nossas cabeças ao carrasco... mas não a dele?
— Concordo com seu sábio conselheiro, devemos nos preparar para defender Osaca — disse Yoshi, o estômago revirado. Depois, sua ansiedade pela segurança de Iedo prevaleceu. — Quer o destino seja Osaca, agora ou mais tarde, o fato é que uma esquadra de guerra voltou. A menos que tenhamos muito cuidado, a guerra será inevitável.
— Já chega de sermos cautelosos. — Ogama inclinou-se para Yoshi. — Eu digo que não importa se eles vão ou não desembarcar suas tropas em Osaca, devemos extirpar a pústula que tanto nos incomoda e exterminar Iocoama. Agora! Se você não quiser fazer isso, sinto muito, eu farei.
James Clavell
O capitão Sheeling desembarca do Dancing Cloud em Iocoama, com a correspondência lacrada da Casa Nobre, sem sequer imaginar que o conteúdo das cartas pudesse causar tanto ódio ao tai-pan Malcolm Struan e, ao mesmo tempo, alterar o destino dos personagens e o rumo da históra, que James Clavell dá prosseguimento com maestria no segundo volume deste monumental romance...
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