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GULAG / Anne Applebaum
GULAG / Anne Applebaum

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

 

   

Suas localizações eram um segredo, mas o medo que despertavam era bem conhecido por russos, lituanos, poloneses, armênios e outros tantos que viveram sob a influência da antiga União Soviética. Os campos de concentração do Gulag - literalmente acrônimo para Glavnoe Upravlenie Lagerei, ou "Administração Central dos Campos", palavra que por fim passou a descrever todo o sistema soviético de punição e trabalhos forçados voltado a prisioneiros criminais e políticos, crianças e mulheres - espalhavam-se por todo o país, da gélida Sibéria às inóspitas regiões da Ásia Central, passando pelas florestas dos Urais e os subúrbios de Moscou. Eles surgiram antes mesmo de seus infames contrapartes nazistas como Auschwitz, Sobibor e Treblinka, e continuaram a crescer muito tempo depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Mas só agora, após o colapso do comunismo, a história desse sistema de repressão e punição que aterrorizou milhões vem à luz com toda a sua força.

Embora a existência desses campos já fosse conhecida no Ocidente graças a clássicos como Um dia na vida de Ivan Denisovitch e Arquipélago Gulag, do dissidente Alexander Soljenitsin, é com esse premiado trabalho de Anne Applebaum que temos o primeiro retrato completo e acurado de um dos maiores crimes cometidos contra a humanidade. Longe de se limitar à frieza dos documentos oficiais, finalmente acessíveis, Applebaum enriquece a história com entrevistas e relatos de sobreviventes, que se sobressaem não só pela força da prosa, mas também pela capacidade de sondar abaixo da superfície do horror cotidiano.

 

 

 

 

Esta é uma história do Gulag - uma história da vasta rede de campos de trabalhos forçados que outrora se espalhavam por todo o comprimento e toda a largura da URSS, das ilhas do mar Branco às costas do mar Negro, do Círculo Ártico às planícies da Ásia central, de Murmansk a Vorkuta e ao Cazaquistão, do centro de Moscou à periferia de Leningrado. A palavra Gulag é um acrônimo de Glavnoe Upravlenie Lagerei,[1] ou Administração Central dos Campos. Com o tempo, passou também a indicar não só a administração dos campos de concentração, mas também o próprio sistema soviético de trabalho escravo, em todas as suas formas e variedades: campos de trabalhos forçados, campos punitivos, campos criminais e políticos, campos femininos, campos infantis, campos de trânsito. De modo ainda mais amplo, Gulag veio a significar todo o sistema repressivo soviético, o conjunto de procedimentos que os presos outrora denominaram "o moedor de carne": as prisões, os interrogatórios, o traslado em vagões de gado sem aquecimento, o trabalho forçado, a destruição de famílias, os anos de degredo, as mortes prematuras e desnecessárias.

O Gulag tinha precedentes na Rússia czarista, nas turmas de trabalho forçado que operaram na Sibéria desde o século XVII até o início do século XX. Quase imediatamente após a Revolução Russa, ele assumiu sua forma moderna e mais familiar, tornando-se parte integral do sistema soviético. O terror em massa contra oponentes reais ou pretensos foi parte da Revolução desde o começo - no verão de 1918, Lênin, o líder revolucionário, já exigira que "elementos indignos de confiança" fossem encarcerados em campos de concentração fora das cidades principais.[2] Uma enfiada de aristocratas, negociantes e outras pessoas definidas como "inimigos" em potencial foi devidamente aprisionada. Em 1921, já havia 84 campos de concentração em 43 províncias, a maioria destinada a "reabilitar" esses primeiros inimigos do povo.

A partir de 1929, os campos adquiriram nova importância. Naquele ano, Stalin resolveu usar o trabalho forçado tanto para acelerar a industrialização da URSS quanto para explorar os recursos naturais no extremo norte, quase inabitável, do país. Também naquele ano, a polícia secreta soviética começou a assumir o controle do sistema penal soviético, lentamente arrebatando ao Judiciário todos os campos e prisões. Com o impulso das prisões em massa de 1937 e 1938, os campos entraram num período de rápida expansão. No final da década de 1930, podiam ser encontrados em cada um dos doze fusos horários da URSS.

Ao contrário da idéia corrente, o Gulag não parou de crescer quando chegou o final dos anos 1930; ao invés disso, continuou a expandir-se durante toda a Segunda Guerra Mundial e a década de 1940, atingindo seu apogeu no começo dos anos 50. Nessa época, os campos já desempenhavam papel crucial na economia soviética. Produziam um terço do ouro do país, boa parte de seu carvão e madeira e muito de quase tudo o mais. No decorrer da existência da URSS, surgiram pelo menos 476 complexos distintos de campos, consistindo em milhares de campos individuais, cada um dos quais tendo de algumas centenas a muitos milhares de pessoas.[3] Os presos trabalhavam em quase todas as atividades imagináveis - derrubada e corte de árvores, transporte dessa madeira, mineração, construção civil, manufatura, agropecuária, projeto de aviões e peças de artilharia - e, na realidade, viviam num Estado dentro do Estado, quase numa civilização em separado. O Gulag tinha suas próprias leis, seus próprios costumes, sua própria moralidade, até sua própria gíria. Gerou sua própria literatura, seus próprios vilões, seus próprios heróis, e deixou sua marca em todos os que passaram por ele, fosse como presos, fosse como guardas. Anos depois de libertados, os habitantes do Gulag muitas vezes eram capazes de reconhecer ex-condenados na rua, simplesmente pelo "olhar".

Tais encontros se mostravam freqüentes, pois a rotatividade nos campos era grande. Embora as prisões fossem constantes, as solturas também o eram. Presos eram libertados porque cumpriam as sentenças, porque se deixava que fossem para o Exército Vermelho, porque eram inválidos ou mães com filhos pequenos, porque haviam sido promovidos de cativos a guardas. Em conseqüência, o número total de prisioneiros nos campos costumava girar em torno de 2 milhões, mas o número total de cidadãos soviéticos que tiveram alguma vivência dos campos, na condição de presos políticos ou comuns, é muito maior. De 1929, quando o Gulag iniciou sua maior expansão, a 1953, quando Stalin morreu, as melhores estimativas indicam que cerca de 18 milhões de pessoas passaram por esse enorme sistema. Aproximadamente mais 6 milhões sofreram o degredo, desterrados para os desertos cazaques ou as florestas siberianas. Legalmente obrigados a permanecer em suas aldeias de degredo, também eles eram galés, mesmo que não tivessem de viver atrás do arame farpado.[4]

Como sistema de trabalho forçado em massa que envolveu milhões de pessoas, os campos desapareceram com a morte de Stalin. Embora ele houvesse acreditado a vida toda que o Gulag era essencial ao crescimento econômico soviético, seus herdeiros políticos bem sabiam que os campos, na realidade, eram um dos motivos para o atraso nacional e a política de investimento deturpada. Dias após a morte de Stalin, seus sucessores começaram a desmantelá-los. Três grandes rebeliões, mais um sem-número de incidentes menores porém não menos perigosos, ajudaram a acelerar o processo.

No entanto, os campos não desapareceram por completo. Em vez disso, eles evoluíram. Durante toda a década de 1970 e o começo da década de 80, alguns foram reformulados e usados como cárcere para uma nova geração de ativistas democráticos, de nacionalistas anti-soviéticos - e de criminosos. Graças à rede de dissidentes soviéticos e ao movimento internacional de direitos humanos, notícias sobre esses campos pós-stalinistas chegavam regularmente ao Ocidente. Aos poucos, elas começaram a desempenhar um papel na diplomacia da Guerra Fria. Mesmo nos anos 1980, o presidente americano, Ronald Reagan, e seu equivalente soviético, Mikhail Gorbatchev, ainda discutiam os campos da URSS. Gorbatchev - ele próprio neto de prisioneiros do Gulag - só começaria a dissolver os campos políticos em 1987.

Contudo, embora tenham durado tanto quanto a URSS e milhões de pessoas tenham passado por eles, a verdadeira história dos campos de concentração da União Soviética não era de modo algum bem conhecida até recentemente. Mesmo os fatos concisos até aqui relacionados, ainda que já sejam familiares à maioria dos estudiosos ocidentais da história soviética, não penetraram na consciência popular ocidental. "O conhecimento humano", escreveu Pierre Rigoulot, historiador francês do comunismo, "não se acumula como os tijolos de uma parede, que se eleva gradualmente, acompanhando o trabalho do pedreiro. Seu desenvolvimento, mas também sua estagnação ou recuo, depende da estrutura social, cultural e política."[5]

Poder-se-ia dizer que, até agora, não existia a estrutura social, cultural e política para o conhecimento do Gulag.

A primeira vez que percebi esse problema foi vários anos atrás, quando caminhava pela Karluv Most, a ponte Carlos, grande atração turística em Praga, cidade que acabava de redemocratizar-se. Ao longo da ponte, havia músicos de rua e garotas de programa, e mais ou menos a cada cinco metros alguém vendia exatamente o que se esperaria encontrar à venda num cartão-postal tão perfeito. Expunham-se pinturas de ruas adequadamente bonitinhas, junto com pechinchas de bijuteria e com chaveiros com a palavra "Praga". Em meio ao bricabraque, podia-se comprar parafernália militar soviética (quepes, insígnias, fivelas) e pequenos buttons, as imagens de Lênin e Brejnev que os escolares soviéticos outrora prendiam nos uniformes.

A cena me pareceu estranha. A maioria dos que compravam esses objetos era de americanos ou europeus-ocidentais. Todos eles ficariam enojados com a idéia de usar uma suástica. No entanto, ninguém ali fazia objeções a ostentar a foice e o martelo numa camiseta ou num boné. Foi um episódio menor, mas às vezes é justamente por coisas assim que se observa melhor o clima cultural. Pois ali a lição não poderia ter sido mais clara: se o símbolo de uma matança nos enche de horror, o de outra nos faz rir.

Se entre os turistas em Praga havia falta de sensibilidade sobre o stalinismo, isso em parte se explicava pela escassez de imagens sobre o tema na cultura popular ocidental. A Guerra Fria produziu James Bond e thrillers, mais os russos de gibi do tipo que aparecem nos filmes de Rambo; nada, porém, tão ambicioso quanto A lista de Schindler ou A escolha de Sofia. Steven Spielberg, provavelmente o principal diretor de Hollywood (gostem disso ou não), preferiu fazer filmes sobre campos de concentração japoneses (Império do sol) e sobre campos de concentração nazistas, mas não sobre campos de concentração stalinistas. Esses últimos não conquistaram da mesma maneira a imaginação de Hollywood.

A cultura dita elevada não se tem mostrado muito mais aberta ao sistema. A reputação do filósofo alemão Martin Heidegger foi profundamente prejudicada pelo breve apoio explícito ao nazismo, um entusiasmo que se desenvolveu antes de Hitler ter cometido suas maiores atrocidades. Por outro lado, a reputação do filósofo francês Jean-Paul Sartre não sofreu nada com o vigoroso apoio ao stalinismo durante todos os anos do pós-guerra, quando provas abundantes das atrocidades de Stalin estavam disponíveis para qualquer interessado. "Já que não éramos membros do Partido", registrou Sartre, "não era obrigação nossa escrever sobre os campos soviéticos de trabalhos forçados; desde que nenhum fato de importância sociológica tivesse ocorrido, estávamos livres para permanecer distantes das desavenças sobre a natureza do sistema."[6] Em outra ocasião, ele disse a Albert Camus: "Assim como você, acho esses campos execráveis, mas acho igualmente execrável o uso que todos os dias se faz deles na imprensa burguesa".[7]

Algumas coisas mudaram desde o colapso soviético. Em 2002, por exemplo, o romancista britânico Martin Amis sentiu-se afetado o suficiente pela questão de Stalin e do stalinismo para dedicar a ela um livro inteiro. Seu trabalho levou outros autores a indagar por que tão poucos membros da direita política e literária mencionam o tema.[8] De outra parte, algumas coisas não mudaram. Para um acadêmico americano, (ainda) é possível publicar um livro que dê a entender que os expurgos dos anos 1930 foram úteis porque promoveram a mobilidade social e, assim, estabeleceram as bases para a perestroika.[9] Para um editor de página literária britânica, (ainda) é possível rejeitar um artigo porque este é "demasiado anti-soviético".[10] Muito mais comum, entretanto, é a reação de fastio ou indiferença em face do terror stalinista. A resenha (de resto franca) de um livro que escrevi nos anos 1990 sobre as repúblicas ocidentais da antiga URSS continha o seguinte trecho: "Ali ocorreu a fome da década de 1930, na qual Stalin matou mais ucranianos do que Hitler assassinou judeus. No entanto, quanta gente no Ocidente se lembra disso? Afinal, a matança foi tão... tão... maçante, aparentemente nada dramática".[11]

São todas coisas pequenas: a compra de bugigangas, a reputação de um filósofo, a presença ou ausência de filmes de Hollywood. Mas junte-as todas e terá uma história. Intelectualmente, americanos e europeus-ocidentais sabem o que aconteceu na URSS. Em 1962-3, Um dia na vida de Ivan Denisovich, o aclamado romance de Alexander Soljenitsin sobre a vida nos campos, foi publicado no Ocidente em diversas línguas. Em 1973, Arquipélago Gulag, a história oral dos campos que Soljenitsin escreveu, tornou-se motivo de muito comentário quando lançado, de novo em vários idiomas. De fato, Arquipélago Gulag causou uma pequena revolução intelectual em alguns países, sobretudo na França, convertendo a uma posição anti-soviética segmentos inteiros da esquerda daquele país. Durante a década de 1980 - os anos da glasnost -, fizeram-se muito mais revelações sobre o Gulag, e também elas receberam a devida publicidade no exterior.

Para muitas pessoas, porém, os crimes de Stalin não inspiram a mesma reação visceral que os de Hitler. Certa vez, o ex-parlamentar britânico Ken Livingstone, hoje prefeito de Londres, forcejou para explicar-me a diferença. E, os nazistas eram "perversos". Mas a URSS fora "desvirtuada". Essa visão reflete o sentimento de muitas pessoas, mesmo daquelas que não são esquerdistas à moda antiga: de alguma forma, a URSS simplesmente deu errado, mas ela não era fundamentalmente errada da maneira que a Alemanha de Hitler o era.

Até recentemente, era possível explicar essa ausência de sentimento popular a respeito da tragédia do comunismo europeu como o resultado lógico de uma série específica de circunstâncias. O passar do tempo é parte disso: com o decorrer dos anos, os regimes comunistas se tornaram mesmo menos repreensíveis. Ninguém ficava muito apavorado com o general Jaruzelski, ou mesmo com Brejnev, embora ambos fossem responsáveis por um bocado de destruição. A falta de informações sólidas, embasadas em pesquisa arquivai, também era claramente uma daquelas circunstâncias. Durante muito tempo, a escassez de trabalhos acadêmicos sobre o tema se deveu à escassez de fontes. Arquivos estavam fechados aos interessados. O acesso aos locais dos campos era proibido. Nenhuma câmera de cinema ou TV jamais filmou os campos soviéticos nem as vítimas deles, ao contrário do que os cinegrafistas tinham feito na Alemanha no fim da Segunda Guerra Mundial. Não dispor de nenhuma imagem correspondia a ter menos entendimento da questão.

Mas a ideologia também distorceu o modo pelo qual compreendemos a história da URSS e da Europa oriental.[12] A partir dos anos 1930, uma parte pequena da esquerda ocidental deu duro para explicar e às vezes exculpar os campos e o terror que os criou. Em 1936, quando milhões de lavradores soviéticos já trabalhavam nos campos ou viviam em degredo, os socialistas britânicos Sidney e Beatrice Webb publicaram um vasto levantamento sobre a URSS, o qual explicava, entre outras coisas, que "o oprimido camponês soviético vai aos poucos adquirindo a sensação de liberdade política".[13] Na época dos grandes julgamentos de Moscou, enquanto Stalin arbitrariamente condenava aos campos milhares de membros inocentes do Partido, o dramaturgo Bertold Brecht disse ao filósofo Sidney Hook que, "quanto mais inocentes eles são, mais merecem morrer".[14]

Mesmo na década de 1980, ainda havia acadêmicos que continuavam a descrever as vantagens do sistema de saúde alemão-oriental ou das iniciativas de paz polonesas; ainda havia ativistas que se aborreciam com o fuzuê criado por causa dos dissidentes que estavam nos campos de prisioneiros da Europa oriental. Isso talvez se devesse ao fato de que os filósofos fundadores da esquerda ocidental (Marx e Lênin) eram os mesmos da URSS. Parte da linguagem também era compartilhada: as massas, a luta, o proletariado, os exploradores e os explorados, a propriedade dos meios de produção. Condenar a URSS com demasiada veemência seria condenar parte do que alguns na esquerda ocidental também haviam prezado.

Não foi apenas a extrema esquerda, nem apenas os comunistas ocidentais, os que ficaram tentados a arranjar para os crimes de Stalin desculpas que nunca teriam apresentado para os de Hitler. Os ideais comunistas - justiça social, igualdade para todos - são simplesmente muito mais atraentes para a maioria das pessoas no Ocidente do que a defesa nazista do racismo e do triunfo do mais forte. Mesmo que na prática a ideologia comunista significasse algo muito diferente, era mais difícil aos descendentes intelectuais da Guerra de Independência dos Estados Unidos e da Revolução Francesa condenarem um sistema que, pelo menos, parecia semelhante ao deles próprios. Talvez isso ajude a explicar por que, desde o começo, relatos em primeira mão sobre o Gulag eram freqüentemente repudiados ou depreciados pelas mesmíssimas pessoas que jamais teriam colocado em dúvida o testemunho do Holocausto escrito por Primo Levi ou Eli Wiesel. Desde a Revolução Russa, informações oficiais sobre os campos soviéticos também estavam acessíveis de imediato para qualquer interessado - o mais famoso relato soviético sobre um dos primeiros campos, o do Canal do Mar Branco, foi até publicado em inglês. A ignorância, por si só, não basta para explicar por que os intelectuais ocidentais preferiram evitar o assunto.

A direita ocidental, por outro lado, realmente forcejou para condenar os crimes soviéticos, mas às vezes usou métodos que prejudicavam sua causa. O homem que mais danos causou ao anticomunismo foi certamente o senador americano Joe McCarthy. Documentos recentes que mostram que algumas de suas acusações eram verdadeiras não modificam o impacto que teve seu excesso de entusiasmo na perseguição aos comunistas na vida pública americana: os "julgamentos" públicos que ele realizou de simpatizantes do comunismo acabariam por macular com patriotada e intolerância a causa do anticomunismo.[15] No fim das contas, as ações de McCarthy não fizeram mais pela causa da pesquisa histórica neutra do que as dos oponentes daquele senador.

Entretanto, nem todas as nossas atitudes para com o passado soviético se relacionam à ideologia política. Na realidade, muitas delas estão mais para um subproduto desvanecente de nossas lembranças da Segunda Guerra Mundial. No momento, temos a firme convicção de que aquela foi uma guerra absolutamente justa, e poucos desejam abalar tal convicção. Rememoramos o Dia D, a libertação dos campos de concentração nazistas, as crianças que, eufóricas, davam as boas-vindas aos pracinhas americanos nas ruas. Ninguém quer saber que a vitória Aliada teve outro lado, mais sombrio, ou que os campos de Stalin, nosso aliado, se expandiam justamente quando os de Hitler, nosso inimigo, eram libertados. A certeza moral de nossas recordações daqueles tempos ficaria solapada se reconhecêssemos que os Aliados Ocidentais, ao mandarem milhares de russos para a morte certa quando os repatriaram à força após a guerra, ou ao condenarem milhões de pessoas ao domínio soviético em Yalta, podem ter ajudado outros a cometerem crimes contra a humanidade. Ninguém quer concluir que derrotamos um chacinador com a ajuda de outro. Ninguém quer lembrar quanto esse outro chacinador se dava bem com estadistas ocidentais. "Eu gosto realmente de Stalin", disse a um amigo o então ministro do Exterior britânico, Anthony Eden. "Ele nunca faltou com a palavra."[16] Há muitas fotos, muitas mesmo, de Stalin com Churchill e Roosevelt, todos juntos, todos sorridentes.

Por fim, a propaganda soviética não deixou de fazer efeito. Tiveram certo impacto, por exemplo, as tentativas soviéticas de semear a dúvida sobre os escritos de Soljenitsin, pintando-o como demente, anti-semita ou bêbado.[17] A pressão soviética sobre acadêmicos e jornalistas ocidentais também ajudou a enviesar o trabalho deles. Na década de 1980, quando eu estudava história russa nos Estados Unidos, conhecidos me diziam para não continuar com essa matéria no curso de graduação, pois haveria dificuldades demais: naquele tempo, quem escrevia "favoravelmente" sobre a URSS ganhava mais acesso a arquivos, mais acesso a informações oficiais, vistos para permanências mais longas naquele país. Quem não o fazia arriscava-se a ser expulso e encontrar dificuldades profissionais em conseqüência. Desnecessário dizer, é claro, que a ninguém de fora se permitia o acesso a qualquer material sobre os campos de Stalin ou sobre o sistema prisional pós-stalinista. O assunto simplesmente não existia, e os que metiam demais o bedelho perdiam o direito de ficar naquele país.

Outrora, todas essas explicações em conjunto tinham certo sentido. Quando comecei a ponderar seriamente o tema (em 1989, época em que o comunismo entrava em colapso), até vi a lógica por trás delas: parecia natural e óbvio que eu devesse saber muito pouco sobre a União Soviética de Stalin, cuja história secreta a tornava ainda mais fascinante. Mais de uma década depois, meus sentimentos são muito diferentes. Agora, a Segunda Guerra Mundial pertence a uma geração anterior. A Guerra Fria também já acabou, e as alianças e dissensões internacionais que ela produziu mudaram de vez. Hoje, a esquerda e a direita ocidentais competem entre si a respeito de outras questões. Ao mesmo tempo, o surgimento de novas ameaças terroristas à civilização ocidental torna ainda mais necessário o estudo da velha ameaça comunista a essa mesma civilização.

Em outras palavras, a "estrutura social, cultural e política" mudou - e o mesmo vale para nosso acesso a informações sobre os campos. No final da década de 1980, na URSS de Mikhail Gorbatchev, começou a aparecer uma enxurrada de documentos a respeito do Gulag. Pela primeira vez, jornais publicavam histórias da vida nos campos de concentração soviéticos. Novas revelações faziam as revistas esgotarem-se. Ressurgiam velhas discussões estatísticas - quantos mortos, quantos presos. Após o trabalho pioneiro da Sociedade Memorial de Moscou, historiadores e associações historiográficas da Rússia passaram a publicar monografias, histórias de campos e indivíduos específicos, estimativas e listas de nomes de mortos. Esse esforço repercutiu e se ampliou entre historiadores nas ex-repúblicas soviéticas e nos países do antigo Pacto de Varsóvia e, posteriormente, entre historiadores ocidentais.

Apesar de muitos percalços, essa investigação do passado soviético continua. Ê bem verdade que a primeira década do século XXI se mostra muito diferente das décadas finais do século XX e que a busca pela história já não é mais parte destacada do discurso público soviético, nem é mais tão dramática quanto pareceu em certo período. A maior parte do trabalho que vem sendo realizado por estudiosos, russos ou não, é verdadeiramente monótona, implicando esquadrinhar milhares de documentos e passar horas em arquivos gelados e cheios de correntes de ar, ou dias à procura de fatos e números. Mas isso está começando a dar frutos. Devagar, pacientemente, a Memorial não só alinhavou o primeiro guia dos nomes e localizações de todos os campos de que se tem registro, mas também publicou uma série inovadora de livros de história e compilou enorme arquivo de narrativas orais e escritas de sobreviventes. Junto com o Instituto Sakharov e a editora Vozvrashchenie (nome que significa "Regresso"), ela colocou parte dessas memórias em circulação pública. Jornais acadêmicos russos e publicações internacionais também começaram a imprimir monografias baseadas em novos documentos, assim como coletâneas desses próprios documentos. Trabalho semelhante está sendo executado em outros lugares, sobretudo pela Fundacja Karta, na Polônia; por museus históricos na Lituânia, Letônia, Estônia, Romênia e Hungria; e por um punhado de estudiosos americanos e europeu-ocidentais que dispuseram de tempo e energia para trabalhar nos arquivos soviéticos.

Enquanto fazia pesquisas para este livro, tive acesso ao trabalho deles, assim como a dois outros tipos de fonte que não estariam disponíveis dez anos atrás. O primeiro foi a enxurrada de novas memórias que começaram a ser publicadas nos anos 1980 na Rússia, Estados Unidos, Israel, Europa oriental e outros lugares. Ao escrever este livro, fiz amplo uso delas. No passado, alguns estudiosos da URSS relutavam em confiar nesse material sobre o Gulag, argumentando que os memorialistas soviéticos tinham motivos políticos para distorcer suas histórias; que a maioria escrevera muitos anos após a soltura; e que muitos tomavam histórias emprestadas uns dos outros quando a lembrança lhes falhava. Não obstante, após ter lido centenas de reminiscências dos campos e entrevistado umas duas dúzias de sobreviventes, julguei ser possível filtrar o que parecia implausível, plagiado ou politizado. Também concluí que, embora as memórias não fossem confiáveis no referente a nomes, datas e números, elas ainda assim constituíam fonte inestimável de outros tipos de informação, em especial aspectos cruciais da vida nos campos: os relacionamentos entre presos, os conflitos entre grupos, o comportamento de guardas e administradores, o papel da corrupção, até a presença de amor e entusiasmo. De modo consciente, fiz muito uso de apenas um autor (Variam Shalamov) que escreveu versões ficcionalizadas de sua vida nos campos, e isso porque suas histórias se baseiam em acontecimentos reais.

Tanto quanto possível, também respaldei as memórias com ampla utilização de arquivos - outra fonte que, paradoxalmente, nem todo mundo gosta de empregar. Conforme ficará claro no decorrer do livro, o poder da propaganda na URSS era tal que ele freqüentemente modificava as percepções da realidade. Por isso, os historiadores outrora tinham razão em não confiar nos documentos oficiais que o governo soviético trazia a público, pois estes muitas vezes tinham o propósito de obscurecer a verdade. Mas documentos secretos - os documentos hoje conservados em arquivos - têm função diferente. A fim de gerir os campos, a administração do Gulag precisava manter certos tipos de registro. Moscou necessitava saber o que estava acontecendo nas províncias, as províncias tinham de receber instruções da administração central, era preciso preservar estatísticas. Isso não significa que tais arquivos sejam de todo confiáveis - burocratas tinham suas razões para distorcer até os fatos mais comezinhos -, mas, se usados com critério, podem explicar algumas coisas sobre a vida nos campos que as memórias não elucidam. Sobretudo, ajudam a explicar por que se construíram os campos - ou, pelo menos, o que o regime stalinista acreditava que eles viriam a alcançar.

Também é verdade que os arquivos são muito mais variados do que muitos previam; e que eles contam a história dos campos de muitas perspectivas diferentes. Tive acesso, por exemplo, ao arquivo da administração do Gulag, com relatórios de fiscais, registros contábeis, cartas de diretores de campos a seus supervisores em Moscou, relatos de tentativas de fuga e listas de montagens musicais nos teatros dos campos, tudo isso mantido no Arquivo Estatal Soviético em Moscou. Também consultei atas de reuniões do Partido e documentos reunidos numa parte do osobaya papka de Stalin, seu "arquivo especial". Com a ajuda de outros historiadores russos, pude utilizar não só alguns documentos dos arquivos militares soviéticos, mas também os arquivos dos guardas dos comboios, os quais contêm coisas como listas do que os presos podiam ou não levar consigo. Fora de Moscou, tive ainda acesso a alguns arquivos locais (em Petrozavodsk, Arcangel, Syktyvkar e Vorkuta e nas ilhas Solovetsky) onde se registraram acontecimentos cotidianos dos campos, assim como ao arquivo do Dmitlag (o campo que construiu o canal Moscou - Volga), que fica em Moscou. Todos contêm registros do dia-a-dia nos campos, formulários de requisição, históricos de presos. Em certa altura, trouxeram-me parte considerável do arquivo de Kedrovyi Shor (uma pequena subdivisão de Inta, campo de mineração ao norte do Círculo Ártico) e educadamente me perguntaram se eu gostaria de comprá-la.

Juntas, essas fontes possibilitam que se escreva sobre os campos de maneira nova. Neste livro, não mais precisei comparar as "alegações" de um punhado de dissidentes com as "alegações" do governo soviético. Não tive de pesquisar um meio-termo entre os relatos dos refugiados soviéticos e os relatos das autoridades soviéticas. Em vez disso, para descrever o que aconteceu, pude utilizar a linguagem de muitos tipos diferentes de pessoa - guardas, policiais, diferentes tipos de presos cumprindo diferentes tipos de pena em diferentes épocas. Nem as emoções nem a política que por muito tempo cercaram a historiografia dos campos de concentração soviéticos estão no cerne deste livro. Tal espaço é reservado, isto sim, às vivências das vítimas.

Esta é uma história do Gulag. Com isso, quero dizer que é uma história dos campos de concentração soviéticos: suas origens na Revolução Bolchevique, seu desenvolvimento até se tornarem parte importante da economia, seu desmantelamento após a morte de Stalin. Também é um livro sobre a herança do Gulag: sem nenhuma dúvida, os regimes e rituais que podiam ser encontrados nos campos de prisioneiros dos anos 1970 e 80 evoluíram diretamente daqueles criados numa era anterior, e, por esse motivo, achei que cabiam no mesmo livro.

Ao mesmo tempo, este é um livro sobre a vida no Gulag e, por tal razão, conta a história dos campos de duas maneiras. A primeira e a terceira parte do livro são cronológicas. Descrevem de modo narrativo a evolução dos campos e de sua administração. A segunda parte disserta sobre a vida nos campos e o faz tematicamente. Embora a maioria das citações nessa parte central se refira aos anos 1940, a década do apogeu dos campos, eu também remeto - a-historicamente - a períodos anteriores e posteriores. Certos aspectos da vida nos campos se desenvolveram com o passar do tempo, e julguei importante explicar como isso aconteceu.

Tendo dito o que este livro é, eu também gostaria de dizer o que ele não é: não é uma história da URSS, nem dos expurgos, nem da repressão em geral. Não é uma história do reinado de Stalin, nem de seu Politburo, nem de sua polícia secreta, cuja complexa história política procurei, de caso pensado, simplificar o máximo possível. Embora eu realmente utilize os escritos de dissidentes soviéticos, muitas vezes produzidos sob grande tensão e com muita coragem, este livro não contém uma história completa do movimento soviético pelos direitos humanos. Da mesma forma, ele tampouco faz justiça às histórias de nações e grupos de prisioneiros específicos - entre eles, poloneses, baltas, ucranianos, tchetchenos e prisioneiros de guerra alemães e japoneses -, que sofreram com o regime soviético, tanto dentro quanto fora dos campos da URSS. Não explora por completo as matanças de 1937-8, que ocorreram principalmente fora dos campos, nem o massacre de milhares de oficiais poloneses em Katyn e outros lugares. Por ser um livro destinado ao público geral, e não pressupor nenhum conhecimento especializado da história soviética, todos esses acontecimentos e fenômenos serão mencionados. Entretanto, teria sido impossível fazer justiça a todos num único volume.

Talvez o mais importante: este livro não faz justiça à história dos "degredados especiais", os milhões de indivíduos que freqüentemente eram arrebanhados ao mesmo tempo e pelas mesmas razões que os presos do Gulag, mas que então eram enviados não para campos, e sim para longínquas aldeias de degredo, onde muitos milhares morreram de inanição, frio e excesso de trabalho. Uns foram degredados por motivos políticos, como os kulaks (camponeses ricos), nos anos 1930. Outros o foram por causa de sua etnia, como poloneses, baltas, ucranianos, alemães do Volga e tchetchenos, só para citar alguns, nos anos 1940. Tiveram destinos os mais diversos no Cazaquistão, na Ásia central e na Sibéria - diversos demais para que se possa abrangê-los num relato sobre o sistema de campos. Optei por mencioná-los, de modo talvez idiossincrático, quando as vivências deles me pareceram especialmente próximas ou relevantes na comparação com as dos presos do Gulag. Mas, embora a história desses degredados esteja estreitamente ligada à do Gulag, contá-la por inteiro exigiria outro livro com a extensão deste. Espero que alguém o escreva em breve.

Ainda que esta seja uma obra sobre os campos de concentração soviéticos, é impossível tratá-los como fenômeno isolado. O Gulag cresceu e se desenvolveu numa época e num lugar específicos, em conjunto com outros acontecimentos - e especialmente em três contextos. Para sermos exatos, o Gulag pertence à história da URSS; à história tanto russa quanto internacional das prisões e degredos; e ao ambiente intelectual próprio da Europa continental em meados do século XX, que também produziu na Alemanha os campos de concentração nazistas.

Com "pertence à história da URSS", refiro-me a algo muito específico: o Gulag não surgiu prontinho do nada; em vez disso, refletiu os padrões gerais da sociedade ao redor. Se os campos eram imundos, se os guardas eram brutais, se as turmas de trabalho eram desleixadas, isso em parte se devia ao fato de que a imundície, a brutalidade e o desleixo eram bem abundantes em outras esferas da vida soviética. Se a vida nos campos era horrível, insuportável, desumana, se a mortalidade era alta, isso tampouco chegava a ser surpresa: em certos períodos, a vida na URSS também era horrível, insuportável e desumana, e a mortalidade se mostrava tão elevada fora quanto dentro dos campos.

Por certo, tampouco é coincidência que os primeiros campos soviéticos tenham sido estabelecidos imediatamente após a sangrenta, violenta e caótica Revolução Russa. No decorrer da Revolução, do terror imposto depois dela e da subseqüente Guerra Civil, pareceu a muitos na Rússia que a própria civilização fora destruída de modo permanente. "Sentenças de morte eram impostas arbitrariamente", escreveu o historiador Richard Pipes, "pessoas eram fuziladas sem motivo ou soltas de modo igualmente imprevisível."[18] A partir de 1917, todo o conjunto de valores de uma sociedade ficou de pernas para o ar: a riqueza e a experiência acumuladas durante uma vida inteira se tornavam uma desvantagem, o roubo era glamorizado como "nacionalização", o assassínio virava parte aceite da luta em prol da ditadura do proletariado. O aprisionamento inicial de milhares de pessoas por Lênin, simplesmente porque antes tinham riqueza ou títulos aristocráticos, nem chegava a parecer estranho ou despropositado.

Da mesma forma, as altas taxas de mortalidade nos campos de prisioneiros em certos anos eram, em parte, reflexo de acontecimentos que se desenrolavam por todo o país. Dentro dos campos, elas se elevaram no começo da década de 1930, quando a fome assolou a URSS inteira. Tornaram a subir durante a Segunda Guerra Mundial: a invasão alemã provocou não apenas milhões de mortes em combate, mas também epidemias de disenteria e tifo, assim como fome, o que afetou as pessoas tanto fora quanto dentro dos campos. No inverno de 1941-2, quando um quarto da população do Gulag pereceu de inanição, talvez 1 milhão de habitantes de Leningrado tenham também morrido de inanição, isolados pelo bloqueio alemão.[19] Lidiya Ginzburg, uma cronista desse bloqueio, descreveu a fome de então como "um estado permanente [...] ela sempre estava presente e sempre se fazia sentir [...] durante o processo de consumir alimento, o mais desesperador e excruciante era que a comida acabava com terrível rapidez sem produzir nenhuma saciedade".[20] Conforme o leitor verá, as palavras de Lidiya lembram, de modo estranho e inquietante, as utilizadas por ex-condenados.

Claro, é bem verdade que os moradores de Leningrado morriam em casa, ao passo que o Gulag destroçava vidas, destruía famílias, arrancava os filhos dos pais e condenava milhões a viverem em ermos a milhares de quilômetros de seus familiares. Ainda assim, as vivências medonhas dos presos podem com justiça ser comparadas às terríveis lembranças de cidadãos soviéticos "livres" como Elena Kozhina, que foi evacuada de Leningrado em fevereiro de 1942. Durante a jornada, ela viu o irmão, a irmã e a avó morrerem de inanição. Enquanto os alemães se aproximavam, Elena e a mãe atravessaram a estepe a pé, deparando com "cenas de derrocada e caos desenfreados [...]. O mundo se despedaçava. Tudo estava permeado de fumaça e um cheiro horrível de queimado; a estepe era claustrofóbica e sufocante, como se espremida num punho quente e fuliginoso". Embora nunca tenha vivido nos campos de prisioneiros, Elena conheceu o frio, a fome e o pavor atrozes antes mesmo de ter completado dez anos de idade, e as lembranças disso a assombrariam pelo resto da vida. Nada, ela escreveu, "conseguiria apagar minha lembrança de quando levaram o corpo de Vadik, com um cobertor por cima; de quando Tanya sufocou, agonizante; de quando mamãe e eu, as que sobraram, caminhamos com dificuldade pela estepe em chamas, através da fumaça e dos estrondos".[21]

A população do Gulag e a população do resto da URSS compartilhavam muitas outras coisas além do sofrimento. Dentro e fora dos campos, era possível encontrar as mesmas técnicas de trabalho desleixadas, a mesma burocracia criminosamente estúpida, o mesmo descaso sombrio pela vida humana. Quando redigia este livro, descrevi a um amigo polonês o sistema de tufta (a burla com relação às normas de trabalho) que os prisioneiros soviéticos desenvolveram, o qual será descrito mais adiante. Meu amigo caiu na gargalhada: "Você acha que foram prisioneiros que inventaram isso?! O bloco soviético inteiro praticava a tufta". Na URSS de Stalin, a diferença entre a vida nos campos e a vida fora deles era apenas de grau. Talvez por isso, o Gulag foi muitas vezes descrito como a quintessência do sistema soviético. Mesmo na gíria dos presos, o mundo fora do arame farpado era não a "liberdade", e sim a bolshaya zona, a "zona prisional grande", maior e menos letal que a "zona pequena" do Gulag, mas não mais humana - e certamente não mais humanitária.

Todavia, se o Gulag não pode ser de todo apartado da experiência de vida no resto da URSS, tampouco pode a história dos campos ser de todo separada da história longa, multinacional e transcultural das prisões, degredos, encarceramentos e campos de concentração. O degredo em lugares distantes, onde os prisioneiros podem "pagar a dívida para com a sociedade", tornar-se úteis e não contaminar outros com suas idéias ou sua criminalidade, é prática tão antiga quanto a própria civilização. Os governantes da Roma e da Grécia antigas mandavam os dissidentes para colônias longínquas. Sócrates preferiu a morte em Atenas ao tormento do exílio. O poeta Ovídio foi desterrado para um porto infecto no mar Negro. A Grã-Bretanha georgiana despachava seus punguistas e ladrões para a Austrália. A França oitocentista enviava condenados para a Guiana. Portugal mandava seus indesejáveis para Moçambique. [22]

Em 1917, a nova liderança da Rússia não precisou inspirar-se em precedentes de outros países. Desde o século XVII, o país tinha um sistema próprio: na legislação russa, a primeira menção de degredo é de 1649. Na época, ele era considerado uma forma nova e mais humana de punição judiciária - muitíssimo preferível à pena de morte, ou à mutilação e às marcas a fogo -, e era aplicada numa gama enorme de delitos de menor e maior gravidade, desde o consumo de rapé e a prática da adivinhação até o homicídio.23 Grande número de intelectuais e escritores russos, entre eles Pushkin, sofreu alguma forma de degredo, ao passo que a simples possibilidade já atormentava outros: em 1890, no auge da fama literária, Anton Tchekhov surpreendeu todos os seus conhecidos quando foi visitar as colônias penais na ilha de Sacalina, ao largo da costa russa do Pacífico. Antes de ter partido, escreveu a seu perplexo editor, explicando-lhe os motivos:

Permitimos que milhões de pessoas apodreçam nas prisões, sem nenhum propósito, sem nenhuma consideração, barbaramente; conduzimos gente por dezenas de milhares de verstas no frio, acorrentadas; nós as infectamos com a sífilis, as pervertemos, multiplicamos o número de criminosos [...], mas nada disso tem nada que ver conosco; simplesmente não é algo interessante [...].[23]

Em retrospecto, é fácil achar na história do sistema prisional czarista muitos antecedentes de práticas adotadas no Gulag. Assim como esse último, o degredo siberiano, por exemplo, nunca se destinou exclusivamente a criminosos. Uma lei de 1736 declarava que, se uma aldeia decidisse que algum de seus habitantes fosse uma má influência, os líderes locais podiam repartir as posses do infeliz e mandar que se mudasse para outro lugar. Caso ele não conseguisse achar outra morada, o Estado podia degredá-lo.[24] (Aliás, essa lei seria citada por Khrutchev em 1948, como parte de sua - bem-sucedida - argumentação para que se degredassem os membros das fazendas coletivas que fossem considerados insuficientemente entusiásticos e trabalhadores.)[25]

A prática de degredar pessoas que simplesmente não se ajustavam continuou por todo o século XIX. Em seu livro A Sibéria e o sistema de degredo, George Kennan (tio do estadista americano homônimo) descreveu o sistema de "processo administrativo" que ele observou na Rússia em 1891:

A pessoa inconveniente pode não ser culpada de crime nenhum [...], mas, se na opinião das autoridades locais sua presença em determinado lugar é "nociva à ordem pública" ou "incompatível com a tranqüilidade pública", ela pode ser detida sem mandado, mantida de duas semanas a dois anos na prisão, removida à força para qualquer outro lugar dentro dos limites do Império e ali ser colocada sob vigilância policial por um a dez anos.[26]

O degredo administrativo - que não exigia julgamento nem sentença - era punição ideal não apenas para os encrenqueiros propriamente ditos, mas também para os opositores políticos do regime. Nos primórdios, muitos desses opositores eram aristocratas poloneses contrários à ocupação de seu território e suas propriedades pelos russos. Posteriormente, incluíram-se entre os degredados os dissidentes religiosos e os membros de grupos "revolucionários" e sociedades secretas, como os bolcheviques. Embora não fossem degredados administrativos (pois foram julgados e sentenciados), os mais tristemente célebres "colonos forçados" da Sibéria oitocentista também eram prisioneiros políticos: os dezembristas, um grupo de aristocratas de alto escalão que encetaram uma débil rebelião contra o czar Nicolau I em 1825. Numa desforra que chocou toda a Europa da época, o Czar sentenciou cinco dezembristas à morte. Os outros ele privou de seus títulos e mandou, acorrentados, para a Sibéria; as esposas de alguns, excepcionalmente corajosas, também foram para lá, a fim de reunir-se aos maridos. Só uns poucos viveram o suficiente para ser perdoados por Alexandre II (o sucessor de Nicolau), trinta anos depois, e reinstalar-se em São Petersburgo, quando já eram idosos.[27] Fiodor Dostoievski, condenado em 1849 a quatro anos de servidão penal, foi outro prisioneiro político famoso. Após ter retornado do degredo siberiano, escreveu Recordações da casa dos mortos, ainda hoje o relato mais lido sobre a vida no sistema prisional czarista.

Assim como o Gulag, o sistema czarista de degredo não foi criado apenas como forma de punição. Os governantes da Rússia também queriam que os degredados, tanto criminais quanto políticos, resolvessem um problema econômico que incomodara durante muitos séculos: a baixa densidade demográfica do extremo leste e extremo norte da Rússia e a conseqüente incapacidade do Império para explorar seus recursos naturais. Tendo isso em mente, o Estado russo começou, já no século XVIII, a sentenciar alguns presos aos trabalhos forçados - modalidade de punição que se tornou conhecida como katorga, do verbo grego kateirgon (forçar). A katorga tinha velhos antecedentes na Rússia. No começo do século XVIII, Pedro, o Grande, utilizara condenados e servos para construir estradas, fortalezas, fábricas, navios e a própria cidade de São Petersburgo. Em 1722, o mesmo czar promulgou uma diretiva mais específica, mandando criminosos para o degredo, com as mulheres e filhos, perto das minas de prata de Daurya, na Sibéria oriental.[28]

Na época, o uso do trabalho forçado por Pedro foi considerado um grande êxito econômico e político. Aliás, a história das centenas de milhares de servos cujas vidas se consumiram na construção de São Petersburgo teria enorme impacto sobre as gerações seguintes. Muitos morreram durante as obras - e, no entanto, a cidade se tornou símbolo de progresso e europeização. Os métodos eram cruéis - e mesmo assim a nação saía ganhando. O exemplo de Pedro provavelmente ajuda a explicar a pronta adoção da katorga pelos sucessores daquele czar. E não há nenhuma dúvida de que Stalin era grande admirador dos métodos de construção de Pedro.

No século XIX, todavia, a katorga foi uma forma de punição relativamente rara. Em 1906, só uns 6 mil condenados por esse sistema cumpriam pena; em 1916, às vésperas da Revolução, eram apenas 28.600.[29] Importância econômica muitíssimo maior tinha outro tipo de prisioneiro: os colonos forçados, sentenciados ao degredo, mas não à prisão, em regiões subpovoadas do país, escolhidas por causa do potencial econômico. Somente entre 1824 e 1889, cerca de 720 mil colonos forçados foram mandados para a Sibéria. Muitos estavam acompanhados das famílias. Eles, e não os condenados agrilhoados, povoaram aos poucos os ermos da Rússia ricos em minerais.[30]

As sentenças desses colonos não eram necessariamente leves, e alguns deles achavam sua sina pior que a dos prisioneiros em regime de katorga. Designados para áreas remotas, de solos pobres e vizinhos escassos, muitos morreram de inanição durante os longos invernos, ou se mataram de tanto beber por causa do tédio. Havia poucas mulheres (cujo número nunca passou dos 15%), ainda menos livros e nenhum entretenimento.[31]

Em sua viagem pela Sibéria até Sacalina, Tchekhov conheceu e descreveu alguns desses colonos degredados:

A maioria é financeiramente pobre, tem pouca força física e pouco preparo prático e não possui nada senão a capacidade de escrever, que freqüentemente não é de nenhuma utilidade para ninguém. Alguns começam vendendo, peça por peça, suas camisas de linho holandês, seus lençóis, suas echarpes e lenços de bolso, e, depois de dois ou três anos, acabam morrendo numa penúria medonha [...].[32]

Mas nem todos os degredados eram infelizes e degenerados. A Sibéria ficava muito longe da Europa, e no leste as autoridades eram mais lenientes, e a aristocracia, muito menos presente. Dentre os degredados e ex-presos, os mais abonados às vezes construíam grandes propriedades. Os mais instruídos se tornavam médicos e advogados ou administravam escolas.[33] A princesa Maria Volkonskaya, esposa do dezembrista Sergei Volkonsky, patrocinou a construção de um teatro e sala de concertos em Irkutsk; embora ela, assim como o marido, houvesse sido privada do título nobiliárquico, os convites para seus saraus e jantares eram muito cobiçados, sendo comentados até em Moscou e São Petersburgo.[34]

No começo do século XX, o sistema já abandonara parte de seu rigor. A moda da reforma carcerária que se disseminara pela Europa no século anterior finalmente chegara também à Rússia. Os regimes prisionais se tornaram mais brandos, e o policiamento, mais indulgente.[35] De tato, em contraste com o que viria depois, a rota para a Sibéria agora parecia, se não exatamente aprazível, pelo menos não uma punição pesada para o pequeno grupo de homens que lideraria a Revolução

Russa. Na prisão, os bolcheviques, por serem condenados presos políticos e não criminosos, usufruíam tratamento relativamente benévolo e podiam ter livros e material de escrita. Grigory Ordzhonikidze, um dos chefes bolcheviques, mencionaria que leu Adam Smith, David Ricardo, Plekhanov, William James, Frederick W. Taylor, Dostoievski e Ibsen (entre outros autores) quando preso na fortaleza Schlüsselberg, em São Petersburgo.[36] Pelos padrões posteriores, os bolcheviques também estavam bem alimentados, bem trajados e até muito bem penteados. Uma foto de Trotski quando prisioneiro na fortaleza de Pedro e Paulo, em 1906, mostra-o de óculos, terno, gravata e camisa de colarinho admiravelmente alvo. A vigia na porta atrás dele é a única pista do lugar onde se encontrava.[37] Outra foto, tirada no degredo na Sibéria oriental, em 1900, mostra Trotski de capote e gorro de pele, rodeado por outros homens e mulheres, também de botas e peles.[38] Meio século depois, todos esses itens seriam luxos raros no Gulag.

E, quando a vida no degredo czarista se tornava insuportavelmente desagradável, havia sempre a opção de fugir. O próprio Stalin foi preso e degredado quatro vezes. Escapou três vezes, uma da província de Irkutsk e duas da de Vologda - região que depois ficaria salpicada de campos do Gulag.[39] Em conseqüência, adquiriu um desdém ilimitado pela "moleza" do regime czarista. Dimitri Volkogonov, seu biógrafo russo, caracterizou assim a opinião de Stalin: "A gente não precisa trabalhar, pode ler quanto quiser e pode até fugir, bastando ter vontade".[40]

Desse modo, a vivência siberiana proporcionou aos bolcheviques um modelo anterior que eles poderiam aperfeiçoar - e uma lição sobre a necessidade de regimes punitivos excepcionalmente severos.

Se o Gulag é parte integral da história russa e soviética, também é indissociável da história européia: no século XX, a URSS não foi o único país do continente a ter desenvolvido uma ordem social totalitária, nem a ter erigido um sistema de campos de concentração. Embora não seja a intenção deste livro comparar e contrastar os campos soviéticos com os nazistas, o assunto tampouco pode ser comodamente deixado de lado. Os dois sistemas foram construídos mais ou menos na mesma época. Hitler sabia do Gulag, e Stalin sabia do Holocausto. Houve prisioneiros que vivenciaram e descreveram os campos de ambos os sistemas. Num nível muito profundo, os dois eram aparentados.

Antes de tudo, eram aparentados porque tanto o nazismo quanto o comunismo surgiram da experiência brutal da Primeira Guerra Mundial e, logo na seqüência, da Guerra Civil Russa. Na época, os métodos de "guerra industrializada" amplamente utilizados durante tais conflitos geraram enorme reação intelectual e artística. Menos notado - exceto, é claro, pelos milhões de vítimas - foi o uso generalizado de métodos igualmente "industrializados" de encarceramento. A partir de 1914, os dois lados construíram pela Europa afora campos de internamente e campos de prisioneiros de guerra. Em 1918, havia 2,2 milhões de prisioneiros de guerra em território russo. A nova tecnologia - a produção em massa de armas de fogo, tanques e até arame farpado - possibilitou esses e os campos posteriores. De fato, alguns dos primeiros campos soviéticos foram construídos sobre campos de prisioneiros da Primeira Guerra Mundial.[41]

Os campos soviéticos e nazistas também são aparentados porque, juntos, se inserem na história mais ampla dos campos de concentração, a qual começou em fins do século XIX. Com o termo "campos de concentração", refiro-me a campos construídos para encarcerar pessoas não pelo que elas fizeram, mas pelo que elas eram. Diferentemente dos campos de criminosos condenados e dos campos de prisioneiros de guerra, os de concentração foram criados para um tipo específico de prisioneiro civil não-criminoso, membro de um grupo "inimigo" ou, pelo menos, de uma categoria de pessoa que, pela raça ou suposta tendência política, era considerada perigosa ou estranha à sociedade.[42]

Segundo tal definição, os primeiros campos de concentração modernos foram estabelecidos não na Alemanha, nem na Rússia, mas na Cuba colonial, em 1895. Naquele ano, num esforço para pôr fim a uma série de insurreições locais, o poder imperial espanhol começou a preparar uma política destinada a tirar os camponeses cubanos da terra e "reconcentrá-los" em campos, assim privando os insurgentes de alimento, abrigo e apoio. Em 1900, a palavra espanhola reconcentración já fora traduzida para o inglês e estava sendo usada para descrever um projeto britânico parecido, iniciado por motivos semelhantes, durante a Guerra dos Bôeres, na África do Sul: os civis daquele povo eram concentrados" em campos, de modo a negar guarida e amparo aos combatentes bôeres.

A partir de então, a idéia se disseminou ainda mais. Um exemplo: parece que o termo konstlager surgiu em russo como tradução do inglês concentration camp, provavelmente graças à familiaridade de Trotski com a história da Guerra dos Bôeres.[43] Em 1904, colonizadores alemães no Sudoeste Africano também adotaram o modelo britânico - com uma variação. Em vez de simplesmente aprisionarem os habitantes nativos da região (uma tribo chamada herero), eles os fizeram realizar trabalhos forçados para a colônia alemã.

Há vários vínculos estranhos e inquietantes entre esses primeiros campos de trabalhos forçados germano-africanos e os construídos na Alemanha nazista três décadas depois. Por exemplo, foi graças a tais campos de trabalho no sul da África que a palavra Konzentrationslager (campo de concentração) apareceu pela primeira vez na língua alemã, em 1905. O primeiro comissário imperial do Sudoeste Africano Alemão foi um certo dr. Heinrich Göring, pai do Hermann que, em 1933, estabeleceria os primeiros campos nazistas. Também foi naqueles campos africanos que se realizaram as primeiras experiências médicas alemãs com cobaias humanas: Theodor Mollison e Eugen Fischer, dois dos professores de Joseph Mengele, fizeram pesquisas com os hereros; Fischer o fez na tentativa de corroborar suas teorias sobre a superioridade da raça branca. As crenças desses acadêmicos não eram nada incomuns. Em 1912, um best-seller teutônico, o livro O pensamento alemão no mundo, afirmava que nada poderá convencer pessoas racionais de que a preservação de uma tribo de pretos da África meridional é mais importante para o futuro da humanidade do que a expansão das grandes nações européias e da raça branca em geral [...] só quando os povos nativos aprendem a produzir algo de valor a serviço da raça superior [...] é que se pode dizer que eles têm um direito moral de existir.[44]

Embora essa teoria raramente fosse enunciada com tanta clareza, sentimentos parecidos muitas vezes jaziam logo abaixo da superfície da prática colonial. Com certeza, algumas formas de colonialismo tanto reforçavam o mito da superioridade racial branca quanto legitimavam o uso da violência contra outra raça. Por conseguinte, pode-se argumentar que a vivência corruptora de alguns colonizadores ajudou a abrir caminho para o totalitarismo europeu no século XX.[45] E não apenas europeu: a Indonésia é um exemplo de Estado pós-colonial cujos governantes começaram aprisionando seus críticos em campos de concentração, tal qual os colonizadores haviam feito.

O Império Russo, que com muito sucesso conquistara seus próprios povos nativos na marcha para o leste, não era exceção.[46] Durante um dos jantares festivos que acontecem no romance Ana Karenina, de Tolstoi, o marido da protagonista (o qual tinha algumas responsabilidades oficiais sobre "tribos nativas") pontifica acerca da necessidade de que as culturas superiores absorvam as inferiores.[47] Em algum grau, os bolcheviques, assim como todos os russos instruídos, deviam estar cientes de que o Império dizimara os quirguizes, buriatas, tungúsios e outros. O fato de que isso não interessasse particularmente a esses revolucionários - logo eles, de resto tão preocupados com o destino dos oprimidos - já indica algo de seus pressupostos tácitos.

Por outro lado, para desenvolver os campos de concentração europeus, dificilmente se faria necessário ter total ciência da história da África meridional ou da Sibéria oriental: no início do século XX, a idéia de que alguns tipos de pessoa são superiores a outros já era bastante comum na Europa. E isso, enfim, é o que liga no sentido mais profundo os campos soviéticos e nazistas: em parte, ambos os regimes se legitimavam pelo estabelecimento de categorias de "inimigos" e "subumanos" aos quais perseguiam e destruíam em escala maciça.

Na Alemanha nazista, os primeiros alvos foram os aleijados e os retardados. Posteriormente, os nazistas se concentraram nos ciganos, nos homossexuais e, sobretudo, nos judeus. Na URSS, as vítimas foram primeiro a "gente de antes" (supostos partidários do antigo regime) e depois os "inimigos do povo", termo vago que viria a abranger não apenas os pretensos opositores políticos do regime, mas também certos grupos nacionais e étnicos, caso eles parecessem (por motivos igualmente vagos) ameaçar o Estado soviético ou o poder stalinista. Em épocas diferentes, Stalin procedeu a prisões em massa de poloneses, baltas, tchetchenos, tártaros e (às vésperas da morte) judeus.[48]

Embora tais categorias nunca fossem inteiramente arbitrárias, elas também nunca foram inteiramente estáveis. Meio século atrás, Hannah Arendt escreveu que tanto o regime nazista quanto o bolchevique criaram "opositores objetivos" ou "inimigos objetivos", cuja "identidade muda conforme as circunstâncias predominantes - de modo que, tão logo uma categoria é liquidada, se pode declarar guerra a outra". Da mesma forma, ela acrescentava, "a função da polícia totalitária não é descobrir crimes, e sim estar à mão quando o governo resolve prender determinada categoria da população".[49] Mais uma vez, as pessoas eram aprisionadas não pelo que tinham feito, mas pelo que eram.

Em ambas as sociedades, a criação dos campos de concentração foi, na realidade, o estágio final num longo processo de desumanização desses inimigos objetivos - processo que teve início com a retórica.

Na autobiografia Minha luta, Hitler explicou como ele de súbito percebera que os judeus eram responsáveis pelos problemas da Alemanha e que, na vida em sociedade, "todo empreendimento escuso, toda forma de infâmia", estava ligado aos judeus: "ao examinar-se aquele tipo de abscesso com o bisturi, descobria-se de imediato, qual larva num corpo putrescente, um judeuzinho que muitas vezes ficava ofuscado pela brusquidão da luz".[50]

Lênin e Stalin também começaram culpando "inimigos" pelos inumeráveis fracassos econômicos da URSS: tratava-se de "destruidores", "sabotadores", agentes de potências estrangeiras. A partir do final dos anos 1930, à medida que a onda de prisões começava a expandir-se, Stalin levava essa retórica a novos extremos, acusando publicamente seus opositores de serem uma "imundície" que precisava "submeter-se a limpeza contínua" - tal qual a propaganda nazista identificaria os judeus a imagens de bichos nocivos, parasitas, doenças infecciosas.[51]

Uma vez demonizado o inimigo, o isolamento legal dele começava para valer. Antes que tivessem sido arrebanhados e deportados para os campos de concentração nazistas, os judeus foram privados da condição de cidadãos alemães. Viram-se proibidos de trabalhar no funcionalismo público, na advocacia, na magistratura; proibidos de desposar arianos; proibidos de freqüentar escolas arianas; proibidos de ostentar a bandeira alemã; forçados a usar estrelas de Davi amarelo-ouro; e sujeitos a espancamentos e humilhações na rua.[52] Antes que se tivesse chegado a prendê-los na URSS de Stalin, os "inimigos" também eram rotineiramente humilhados em assembléias públicas, demitidos de seus empregos, expulsos do Partido Comunista, abandonados pelos cônjuges indignados e publicamente acusados pelos filhos furiosos.

Dentro dos campos, o processo de desumanização se aprofundava e radicalizava, ajudando tanto a intimidar as vítimas quanto a reforçar a crença dos vitimadores na legitimidade do que estavam fazendo. Em seu livro-entrevista com Franz Stangl (o comandante de Treblinka), a escritora Gitta Sereny lhe perguntou por que os prisioneiros do campo, antes de serem mortos, eram também espancados, humilhados e privados das roupas. Stangl respondeu: "Para condicionar quem tinha de levar as ações a cabo. Para possibilitar que eles fizessem o que faziam".[53] Em A ordem do terror: o campo de concentração, o sociólogo alemão Wolfgang Sofsky também demonstrou de que maneira a desumanização dos prisioneiros nos campos nazistas era metodicamente inserida em todos os aspectos da vida ali, desde os uniformes rotos e idênticos até a expectativa constante da morte, passando pela abolição da privacidade e pelo regulamento severíssimo.

Veremos que, no sistema soviético, o processo de desumanização também começava no momento da prisão, quando os presos eram privados das roupas e da própria identidade, viam-lhes negado o contato com gente de fora e eram torturados, interrogados e submetidos a julgamentos farsescos, isso quando chegavam de fato a ser julgados. Numa peculiaridade tipicamente soviética do processo, os prisioneiros eram, de maneira proposital, "excomungados" da vida social, proibidos de chamarem uns aos outros de "camarada" e, a partir de 1937, proibidos de receber o cobiçado título de "trabalhador de choque", não importando quão bem se comportassem ou quão duro trabalhassem. Segundo muitos relatos de prisioneiros, os retratos de Stalin, que eram expostos nos lares e repartições por toda a URSS, quase nunca apareciam no interior dos campos e prisões.

Nada disso significa que os campos soviéticos e nazistas fossem idênticos. Conforme qualquer leitor com algum conhecimento geral do Holocausto descobrirá no decorrer deste livro, a vida no sistema de campos soviético diferia de muitas maneiras (quer sutis, quer óbvias) da vida no sistema de campos nazista. Havia diferenças na organização do cotidiano e do trabalho, diferentes tipos de guardas e punições, diferentes tipos de propaganda. O Gulag durou muitíssimo mais e passou por ciclos de relativa crueldade e relativa humanidade. A história dos campos nazistas é mais curta e apresenta menos variações: eles simplesmente se tornaram cada vez mais cruéis, até serem destruídos pelos alemães em retirada ou libertados pelos Aliados. O Gulag também continha variedade maior de campos, desde as letais minas auríferas da região de Kolyma até os "luxuosos" institutos secretos nas cercanias de Moscou, onde cientistas aprisionados projetavam armas para o Exército Vermelho. Embora existissem diferentes espécies de campo no sistema nazista, a gama era muitíssimo menor.

Sobretudo, duas diferenças entre os sistemas me parecem fundamentais. Em primeiro lugar, a definição de "inimigo" na URSS sempre foi muito mais vaga que a de "judeu" na Alemanha nazista. Nesta, com número muito pequeno de exceções incomuns, nenhum judeu podia alterar sua condição, nenhum judeu preso num campo podia ter esperança racional de escapar à morte, e todos os judeus estavam cientes disso o tempo todo. Embora milhões de prisioneiros soviéticos temessem pela própria vida - e milhões deles tenham realmente morrido -, não havia nenhuma categoria de prisioneiro cuja morte estivesse absolutamente garantida. Por vezes, certos presos podiam melhorar sua situação em postos de trabalho relativamente confortáveis, como os de engenheiro ou geólogo. Em cada campo, havia uma hierarquia de prisioneiros, na qual alguns eram capazes de subir à custa (ou com a ajuda) de outros. Outras vezes - quando o Gulag se via sobrecarregado de mulheres, crianças e idosos, ou quando se necessitava de soldados para a frente de batalha -, os presos era soltos graças a anistias maciças. Em certos momentos, acontecia que categorias inteiras de "inimigo" se beneficiavam subitamente de uma mudança de condição. Em 1939, por exemplo, no começo da Segunda Guerra Mundial, Stalin prendeu centenas de milhares de poloneses - e depois, em 1941, ele os libertou de chofre, quando a Polônia e a URSS se tornaram temporariamente aliadas. O oposto também se aplicava: na URSS, os próprios opressores podiam virar vítimas. Guardas e administradores do Gulag e até altos funcionários da polícia secreta também podiam ser aprisionados e condenados aos campos. Em outras palavras, nem todas as "víboras" conseguiam manter as presas - e não havia nenhum grupo específico de prisioneiros soviéticos que vivesse na expectativa constante da morte.[54]

Em segundo lugar (conforme, mais uma vez, ficará claro no decorrer do livro), o propósito primordial do Gulag, segundo tanto a linguagem privada quanto a propaganda pública daqueles que o fundaram, era econômico. Isso não significa que o sistema fosse humanitário. Nele, os prisioneiros eram tratados como gado, ou melhor, como pedaços de minério de ferro. Os guardas os faziam ir para lá e para cá a seu bel-prazer, embarcando-os e desembarcando-os de vagões de gado, pesando-os e medindo-os, alimentando-os se parecia que poderiam vir a ser úteis, deixando-os à míngua quando não o eram. Para usarmos a linguagem marxista, os prisioneiros eram explorados, reificados e mercantilizados. A menos que fossem produtivos, suas vidas não valiam nada para seus senhores.

Sua vivência, porém, era muito diferente daquela dos judeus e dos outros prisioneiros que os nazistas enviavam para um grupo especial de campos que se chamavam não Konzentrationslager, mas Vernichtungslager - campos que não era realmente "campos de trabalhos forçados", e sim usinas da morte. Havia quatro deles: Belzec, Chelmno, Sobibor e Treblinka. Já Majdanek e Auschwitz continham tanto campos de trabalhos forçados quanto campos de extermínio. Ao entrarem nesses campos, os prisioneiros passavam por uma "seleção". Um número ínfimo era designado para algumas semanas de trabalhos forçados. O restante era mandado direto para as câmaras de gás, onde os assassinavam e então cremavam de imediato.

Até onde pude comprovar, essa forma específica de homicídio, praticada no auge do Holocausto, não teve equivalente na URSS. É bem verdade que esse último país encontrou outras maneiras de chacinar centenas de milhares de cidadãos. Geralmente, eles eram conduzidos à noite para uma floresta, alinhados, baleados na nuca e enterrados em sepulturas coletivas antes mesmo de chegarem perto de um campo de concentração - modalidade de homicídio não menos "industrializada" e anônima que a usada pelos nazistas. Há mesmo histórias de que a polícia secreta soviética usou gás de escapamento (uma forma primitiva de gás venenoso) para matar prisioneiros, da mesma forma que os nazistas fizeram no começo.[55] No Gulag, os prisioneiros também morriam, em geral graças não à eficiência dos captores, e sim à incompetência e à negligência crassas.[56] Em certos campos soviéticos em determinadas épocas, a morte era praticamente certa no caso dos escolhidos para cortar árvores nas florestas hibernais ou trabalhar nas piores minas auríferas de Kolyma. Prisioneiros também eram trancados em celas punitivas até morrerem de frio ou inanição, largados sem tratamento em hospitais subaquecidos ou simplesmente baleados por "tentativa de fuga" quando dava na telha dos guardas. Entretanto, o sistema soviético de campos como um todo não era propositalmente organizado para produzir cadáveres em escala industrial - mesmo que às vezes o resultado fosse esse.

São distinções sutis, mas importantes. Embora o Gulag e Auschwitz realmente pertençam à mesma tradição intelectual e histórica, eles ainda assim são fenômenos separados e diferentes, tanto um do outro quanto dos sistemas de campos estabelecidos por outros regimes. A idéia de campo de concentração talvez seja genérica o bastante para que a usem em culturas e situações muito diversas, mas até um estudo superficial da história transcultural desse tipo de campo revela que os detalhes específicos - como se organizava a vida, como o estabelecimento se desenvolvia no decorrer do tempo, quão rígido ou desorganizado se tornava, quão cruel ou liberal permanecia - dependiam do país, do regime político e da cultura.[57] Para quem estava encurralado atrás do arame farpado, esses detalhes eram cruciais para a vida, a saúde e a sobrevivência.

Na realidade, lendo os relatos daqueles que sobreviveram a ambos os sistemas de campos, impressionam mais as diferenças entre as vivências das vítimas do que as diferenças entre os dois sistemas de campos. Cada história tem suas características próprias, cada campo apresentava tipos diferenciados de horror para pessoas de caráter diferente. Na Alemanha, podia-se morrer pela crueldade; na Rússia, pela desesperança. Em Auschwitz, podia-se morrer na câmara de gás; em Kolyma, congelar na neve até a morte. Podia-se morrer numa floresta alemã ou num ermo siberiano, num acidente de mineração ou num vagão de gado. Mas, ao fim e ao cabo, cada um tinha sua história de vida.

 

 

               Parte I - AS ORIGENS DO GULAG (1917-39)

 

  1. PRIMÓRDIOS BOLCHEVIQUES

 

Teu espinhaço foi esmagado,

Minha época bela e lastimável,

E, com sorriso inane,

Olhas para trás, cruel e fraca,

Tal qual bicho que já passou do apogeu,

Para as marcas de suas patas.

Osip Mandelstam, "Vek"[58]

 

Um de meus objetivos é destruir o mito de que a fase mais cruel da repressão começou em 1936-7. Penso que, no futuro, as estatísticas mostrarão que a onda de prisões, condenações e degredos já se iniciara no começo de 1918, antes mesmo da declaração oficial, naquele outono, do "Terror Vermelho". A partir daquele momento, a onda simplesmente ficou cada vez maior, até a morte de Stalin.

Dmitrii Likhachev, Vospominaniya[59]

 

No ano de 1917, duas ondas revolucionárias cobriram a Rússia, varrendo a sociedade imperial como se esta fosse um castelo de cartas. Depois que o czar Nicolau abdicou (em fevereiro), tornou-se extremamente difícil que alguém conseguisse deter ou controlar os acontecimentos. Alexander Kerensky, o líder do primeiro governo provisório pós-revolucionário, escreveria que, no vácuo subseqüente ao colapso do antigo regime, "todos os programas políticos e táticos existentes, não importando quão ousados e bem concebidos, pareciam flutuar no espaço, sem rumo e sem utilidade".[60]

Mas, embora o governo provisório fosse fraco, embora o descontentamento popular fosse generalizado, embora a raiva com a carnificina causada pela Primeira Guerra Mundial fosse grande, poucos contavam que o poder caísse nas mãos dos bolcheviques, um dos vários partidos socialistas radicais que agitavam a favor de mudanças ainda mais rápidas. Fora do país, eles eram muito pouco conhecidos. Uma narrativa apócrifa ilustra muito bem a atitude estrangeira: consta que, em 1917, um burocrata entrou às pressas no gabinete do ministro do Exterior austríaco, gritando: "Excelência, houve uma revolução na Rússia!" O ministro riu com desdém: "Quem conseguiria fazer uma revolução lá? Com certeza não esse inofensivo herr Trotski, lá no Café Central?"

Se o caráter dos bolcheviques era um mistério, seu líder, Vladimir Iliich Ulianov (o homem que o mundo viria a conhecer pelo pseudônimo revolucionário "Lênin"), o era ainda mais. Durante seus muitos anos de revolucionário refugiado no exterior, Lênin fora reconhecido por conta de seu brilhantismo, mas também antipatizado por causa de sua imoderação e seu sectarismo. Vivia arrumando briga com outros líderes socialistas e tinha o pendor de transformar em grandes polêmicas as discordâncias menores sobre questões dogmáticas aparentemente irrelevantes.[61]

Nos primeiros meses após a Revolução de Fevereiro, Lênin esteve muito longe de ocupar uma posição de autoridade inconteste, mesmo dentro de seu próprio partido. Ainda em meados de outubro de 1917, um punhado de lideranças bolcheviques se opunha a seu plano de desfechar um golpe de Estado contra o governo provisório; argumentavam que o Partido não estava pronto para tomar o poder e nem sequer tinha apoio popular. Lênin, porém, ganhou a discussão, e, em 25 de outubro, ocorreu o golpe. Sob a influência da agitação promovida por Lênin, uma turba saqueou o Palácio de Inverno. Os bolcheviques prenderam os ministros do governo provisório. Num período de horas, Lênin se tornara o líder do país, que ele rebatizou de Rússia Soviética.

No entanto, embora Lênin houvesse logrado tomar o poder, seus críticos bolcheviques não estavam de todo errados. Os bolcheviques estavam mesmo muitíssimo despreparados. Em conseqüência, a maioria das decisões iniciais deles, aí incluída a criação do Estado unipartidário, foi tomada para atender às necessidades do momento. O apoio popular aos bolcheviques era realmente fraco, e quase de imediato eles começaram a travar uma sangrenta Guerra Civil, apenas para que pudessem permanecer no poder. A partir de 1918, quando o Exército Branco (dos partidários do antigo regime) se reagrupou para combater o recém-criado Exército Vermelho (liderado pelo "herr Trotski" do "Café Central"), ocorreram nas regiões rurais da Rússia alguns dos combates mais brutais e encarniçados já vistos na Europa. E nem toda a violência se limitava aos campos de batalha. Os bolcheviques se desdobravam para suprimir todo tipo de oposição intelectual e política, atacando não apenas os representantes do antigo regime, mas também outros socialistas - mencheviques, anarquistas, social-revolucionários. Só em 1921 o novo Estado soviético conheceria relativa paz.[62]

Nesse contexto de improvisação e violência, nasceram os primeiros campos soviéticos de trabalhos forçados. Assim como muitas outras instituições da URSS, foram criados de modo contingencial, às pressas, como medida de emergência no calor da Guerra Civil. Isso não significa que a idéia já não se mostrara atraente. Três semanas antes da Revolução de Outubro, o próprio Lênin esboçava um plano (vago, é verdade) para organizar um "serviço laborai obrigatório", destinado a capitalistas ricos. Em janeiro de 1918, irado com a intensidade da resistência antibolchevique, ele foi ainda mais veemente, escrevendo que veria com bons olhos "a prisão desses sabotadores bilionários que viajam em vagões de primeira classe. Sugiro sentenciá-los a seis meses de trabalhos forçados nas minas".[63]

A visão de Lênin dos campos de trabalhos forçados como forma especial de punição para certo tipo de "inimigo" burguês se coadunava com outras crenças suas sobre o crime e os criminosos. Por um lado, o primeiro líder soviético era ambivalente no que se referia ao encarceramento e punição dos criminosos tradicionais (ladrões, punguistas, homicidas), os quais considerava aliados em potencial. Na perspectiva de Lênin, a causa básica dos "excessos sociais", ou seja, da criminalidade, era "a exploração das massas". A eliminação dessa causa, acreditava ele, "levará ao esvanecimento dos excessos". Assim, não era necessário impor nenhuma punição especial para deter os criminosos: com o tempo, a própria Revolução os faria desaparecer. Por isso, parte da linguagem no primeiro Código Penal bolchevique teria reconfortado os reformadores penais mais radicais e progressistas do Ocidente. Entre outras coisas, o Código estabelecia que "não existe culpa individual" e que a punição "não deve ser encarada como vingança".[64]

Por outro lado, Lênin - assim como os teóricos jurídicos bolcheviques que o seguiram - também supunha que a criação do Estado soviético daria origem a um novo tipo de inimigo: o "inimigo de classe". Este se opunha à Revolução e trabalhava às claras (ou, mais freqüentemente, às escondidas) para destruí-la. O inimigo de classe era mais difícil de identificar que o inimigo comum, e muito mais difícil de regenerar. Diferentemente do que acontecia com o criminoso comum, nunca se podia confiar no inimigo de classe para cooperar com o regime soviético, e ele exigia punição mais severa que a dada ao homicida ou ladrão comum. Em maio de 1918, por conseguinte, o primeiro "decreto da propina" promulgado pelos bolcheviques determinava:

Se o culpado de receber ou oferecer propina pertencer às classes ricas e usá-la para conservar ou adquirir privilégios relacionados aos direitos de propriedade, ele deverá ser condenado aos trabalhos forçados mais severos e rudes, e todas as suas posses deverão ser confiscadas.[65]

Em outras palavras, desde os primeiros dias do Estado soviético, as pessoas seriam condenadas a cumprir pena não pelo que fizessem, mas pelo que fossem.

Infelizmente, ninguém jamais forneceu uma explicação clara do que exatamente era um "inimigo de classe". Como conseqüência, o número de detenções de todo tipo aumentou em grau enorme após o golpe bolchevique. A partir de novembro de 1917, tribunais revolucionários, compostos de "partidários" da Revolução escolhidos de modo aleatório, começaram a condenar de maneira também aleatória "inimigos" da Revolução. Penas de prisão, de trabalhos forçados e até de morte se aplicavam arbitrariamente a banqueiros, esposas de comerciantes, "especuladores" (com o que se referiam a qualquer pessoa dedicada à atividade econômica independente), ex-carcereiros czaristas e todo o mundo que parecesse suspeito.[66]

A definição do que e de quem não era "inimigo" também variava de um lugar para outro, às vezes coincidindo com a de "prisioneiro de guerra". Ao ocupar uma cidade, o Exército Vermelho, de Trotski, freqüentemente fazia reféns burgueses, que poderiam ser fuzilados caso o Exército Branco voltasse, como muitas vezes acontecia ao longo das linhas cambiantes da frente de batalha. Nesse ínterim, tais reféns podiam ser postos para fazer trabalhos forçados, com freqüência abrindo trincheiras e construindo barricadas.[67] A distinção entre presos políticos e criminosos comuns era igualmente arbitrária. Membros sem instrução das comissões e tribunais revolucionários temporários poderiam, por exemplo, resolver de súbito que um homem que fora apanhado ao viajar de trem sem ter pago passagem cometera delito contra a sociedade e condená-lo por crimes políticos.[68] No fim das contas, muitas de tais decisões eram deixadas aos policiais ou soldados que faziam as prisões. Feliks Dzerzhinsky, fundador da Cheka (a polícia secreta de Lênin, antecessora da KGB), mantinha um caderninho preto no qual anotava os nomes e endereços de "inimigos" com os quais deparava aleatoriamente ao fazer seu trabalho.[69]

Essas distinções continuariam vagas até o próprio colapso da URSS, oitenta anos depois. No entanto, a existência de duas categorias de presos - "político" e "comum" - teve profundo efeito sobre a formação do sistema penal soviético. Durante a primeira década de domínio bolchevique, as penitenciárias soviéticas até se cindiram em dois tipos, um para cada categoria. A divisão surgiu espontaneamente, como resposta ao caos do sistema prisional existente. Logo nos primeiros dias da Revolução, todos os prisioneiros eram encarcerados sob a jurisdição de alguma autoridade "tradicional" (primeiro o Comissariado da Justiça, depois o Comissariado do Interior) e colocados no sistema prisional "comum". Ou seja, eram jogados nos remanescentes do sistema czarista, em geral nas prisões de pedra, sujas e sombrias, que ocupavam localização central em todos os grandes centros. Nos anos revolucionários de 1917 a 1920, essas instituições ficaram em total confusão. Turbas tinham invadido as cadeias, comissários autodesignados haviam demitido os guardas, prisioneiros tinham recebido amplas anistias ou simplesmente ido embora.[70]

Quando os bolcheviques assumiram o controle, as poucas prisões que continuavam funcionando eram superlotadas e inadequadas. Já algumas semanas após a Revolução, o próprio Lênin exigia "medidas extremas para melhoria imediata do abastecimento de alimentos às prisões de Petrogrado".[71] Alguns meses depois, um integrante da Cheka de Moscou visitou a prisão Taganskaya e relatou "um frio e uma sujeira terríveis", assim como tifo e fome. A maioria dos detentos não podia cumprir suas penas de trabalhos forçados porque não tinha roupas. Uma matéria de jornal alegava que a prisão Batyrka, também em Moscou, projetada para abrigar mil presos, já tinha 2.500. Outro jornal se queixava de que os Guardas Vermelhos "prendem assistematicamente centenas de pessoas todos os dias e não sabem o que fazer com elas".[72]

A superlotação suscitava soluções "criativas". Na falta de coisa melhor, as novas autoridades encarceravam presos em porões, sótãos, palácios vazios e velhas igrejas. Um sobrevivente recordaria que foi colocado no porão de uma casa abandonada, num único cômodo com cinqüenta pessoas, nenhuma mobília e pouca comida: quem não recebia alimento das próprias famílias simplesmente morria de inanição.[73] Em dezembro de 1917, uma comissão da Cheka discutiu o destino de 56 presos diversos ("ladrões, bêbados e 'políticos' variados") que estavam sendo mantidos no porão do Instituto Smolny, o quartel-general de Lênin em Petrogrado.[74]

Nem todos sofriam com as condições caóticas. Em 1918, Robert Bruce Lockhart, diplomata britânico acusado de espionagem (com justiça, aliás), foi aprisionado num porão do Kremlin. Ele se ocupava jogando paciência e lendo Tucídides e Carlyle. De tempos em tempos, um ex-serviçal imperial lhe trazia chá quente e jornais.[75]

Mas, mesmo nas cadeias tradicionais remanescentes, o regime prisional era imprevisível, e os carcereiros, inexperientes. Na cidade de Vyborg, no norte da Rússia, um preso descobriu que, no bagunçado mundo pós-revolucionário, seu antigo motorista se tornara guarda de prisão. O homem ficou encantado em ajudar o ex-patrão a ir para uma cela melhor (mais seca) e, por fim, a escapar.[76] Um coronel do Exército Branco também lembraria que, em dezembro de 1917, na prisão de Petrogrado, os detentos entravam e saíam à vontade e os sem-teto dormiam nas celas durante a noite. Recordando aquele tempo, um alto funcionário soviético diria que "só os muito preguiçosos não fugiam".[77]

A confusão obrigou a Cheka a apresentar soluções novas - os bolcheviques não podiam permitir que seus "verdadeiros" inimigos ficassem no sistema prisional comum. Cadeias caóticas e guardas indolentes podiam servir para punguistas e delinqüentes juvenis; mas, para os sabotadores, parasitas, especuladores, oficiais do Exército Branco, padres, capitalistas burgueses e outros que tanto assomavam na imaginação bolchevique, eram necessárias soluções mais criativas.

Uma delas foi encontrada já em 4 de junho de 1918, quando Trotski requereu que um grupo de prisioneiros tchecos refratários fosse pacificado, desarmado e colocado num konstlager - campo de concentração. Doze dias depois, num memorando endereçado ao governo soviético, Trotski tornou a falar em campos de concentração, prisões ao ar livre nas quais

a burguesia das cidades e vilarejos [...] deverá ser mobilizada e organizada em batalhões de retaguarda para fazer serviço braçal - limpar casernas, acampamentos e ruas, cavar trincheiras etc. Quem se recusar deverá ser multado e mantido na cadeia até pagar a multa.[78]

Em agosto, Lênin também se utilizou do termo konstlager. Num telegrama aos comissários de Penza (local de um levante antibolchevique), ele demandou que se empregasse "terror em massa contra os kulaks, padres e Guardas Brancos" e que os "elementos indignos de confiança" fossem "aprisionados num campo de concentração fora da cidade".[79] As instalações já existiam: durante o verão de 1918 – na seqüência do Tratado de Brest-Litovsk, que pôs fim à participação da Rússia na Primeira Guerra Mundial -, o regime libertou 2 milhões de prisioneiros de guerra, e os campos vazios foram de imediato transferidos para a Cheka.[80]

Na época, a Cheka certamente pareceu a entidade ideal para assumir a tarefa de encarcerar "inimigos" em "campos" especiais. Organização totalmente nova, foi concebida para ser "a espada e o escudo" do Partido Comunista, não se subordinando ao governo soviético oficial nem a nenhum departamento deste. Não tinha nenhuma tradição de legalidade, nenhuma obrigação de respeitar o Estado de direito, nenhuma necessidade de consultar a polícia, os tribunais ou o comissário da Justiça. O próprio nome indicava sua condição especial: a Comissão Extraordinária de Combate à Contra-revolução e à Sabotagem, ou (usando as iniciais russas de "Comissão Extraordinária") Ch-K, Cheka. Era "extraordinária" justamente porque existia fora da legalidade "ordinária".

Quase tão logo foi criada, a Cheka recebeu uma dessas tarefas extraordinárias. Em 5 de setembro de 1918, Dzerzhinsky foi instruído a implementar a política do Terror Vermelho, de Lênin. Lançada após um atentado contra a vida desse último, era uma onda de terror (detenções, encarceramentos, assassínios) mais organizada que o terror aleatório dos meses anteriores. Na realidade, tratava-se de um componente importante da Guerra Civil, sendo dirigido contra os suspeitos de atuarem para destruir a Revolução na "frente interna". O Terror Vermelho foi sangrento, impiedoso e cruel - tal qual pretendiam seus perpetradores. A Krasnaya Gazeta, órgão do Exército Vermelho, o descreveu:

Sem piedade, sem moderação, mataremos nossos inimigos às centenas e mais centenas. Ou melhor, aos milhares - deixemos que se afoguem no próprio sangue. Pelo sangue de Lênin [...], deixemos que corram rios de sangue da burguesia - o máximo possível [...].[81]

A política do Terror Vermelho foi crucial na luta de Lênin pelo poder. Os campos de concentração, os chamados "campos especiais", foram cruciais para o Exército Vermelho. Eram mencionados já no primeiro decreto do Terror Vermelho, que determinava não apenas a captura e encarceramento de "representantes importantes da burguesia, proprietários de terras, industriais, comerciantes, padres contra-revolucionários, oficiais anti-soviéticos", mas também o "isolamento deles em campos de concentração".[82] Embora não existam dados confiáveis sobre o número de prisioneiros, havia 21 campos registrados na Rússia no final de 1919. No fim do ano seguinte, eram 107 - cinco vezes mais.[83]

Naquele estágio, contudo, o objetivo dos campos permanecia ambíguo. Os prisioneiros deveriam trabalhar - mas com que propósito? O trabalho se destinava a reabilitá-los? A humilhá-los? Ou a ajudar a construir o Estado soviético? Diferentes líderes e instituições tinham diferentes respostas. Em fevereiro de 1919, o próprio Dzerzhinsky fez um discurso eloqüente para defender o papel dos campos na reabilitação ideológica da burguesia. Os novos campos

utilizarão a mão-de-obra dos detidos; dos senhores que vivem sem ter ocupação; e dos que só trabalham quando forçados. Tal punição deveria ser aplicada àqueles que atuam em instituições soviéticas e demonstram atitudes inconscienciosas no que se refere ao trabalho, à pontualidade etc. [...] Dessa maneira, criaremos escolas de trabalho.[84]

Mas na primavera de 1919, quando se publicaram os primeiros decretos sobre os campos especiais, prioridades ligeiramente diferentes pareceram assumir a precedência.[85] Os decretos (uma lista surpreendentemente longa de normas e recomendações) sugeriam que cada capital regional estabelecesse um campo, para não menos que trezentas pessoas, "no limite da cidade, ou em construções próximas como mosteiros, grandes propriedades, fazendas etc.". Estipulavam uma jornada de trabalho de oito horas; horas extras e atividade noturna só seriam autorizadas quando "seguissem a lei trabalhista". Os presos ficavam proibidos de receber comida de fora. Permitiam-se visitas de familiares imediatos, mas só nos domingos e feriados. Os presos que tentassem fugir uma vez teriam as penas multiplicadas por dez; os que tentassem de novo seriam punidos com a morte - procedimentos extremamente severos se comparados com a leniente legislação czarista, que os bolcheviques conheciam tão bem. O mais importante: os decretos também deixavam claro que o trabalho dos presos se destinava não apenas a reabilitá-los, mas também a pagar pela manutenção dos campos. Presos com alguma incapacidade física deveriam ser mandados para outro lugar. Os campos deveriam ser auto-sustentáveis. De maneira otimista, os fundadores do sistema acreditavam que ele se pagaria.[86]

Graças ao fluxo irregular de fundos estatais, quem administrava os campos logo se interessou pela idéia de autofinancia-se ou, pelo menos, fazer algum uso prático dos prisioneiros. Em setembro de 1919, um relatório secreto apresentado a Dzerzhinsky se queixava de que as condições sanitárias num campo de trânsito estavam "abaixo da crítica", em grande parte porque deixavam tanta gente doente e incapaz para o trabalho: "Na umidade do outono, não serão lugares para reunir pessoas e empregar sua mão-de-obra, mas viveiros de epidemias e outras enfermidades". Entre outras coisas, o autor propunha que os incapacitados de trabalhar deveriam ser enviados para outro local, assim tornando o campo mais eficiente - tática que depois seria muitas vezes utilizada pela liderança do Gulag. Já naquela época, os responsáveis pelos campos se preocupavam com a doença e a fome só na medida em que presos doentes e famintos não eram presos úteis. A dignidade e a humanidade deles, para nem falar de sua sobrevivência, praticamente não interessavam aos encarregados.[87]

Na prática, aliás, nem todos os comandantes se preocupavam com a reabilitação ou o autofinanciamento. Preferiam, isto sim, punir os ex-abonados, humilhando-os, dando-lhes um gostinho do sofrimento dos trabalhadores. Um relatório da cidade ucraniana de Poltava, redigido por uma comissão de inquérito do Exército Branco após a recaptura temporária do lugar, observava que os burgueses aprisionados durante a ocupação bolchevique haviam recebido tarefas que

se destinavam a escarnecer deles, tentando aviltá-los. Um detento, por exemplo [...], foi obrigado a limpar com as mãos uma grossa crosta de terra num chão imundo. Mandaram outro limpar um sanitário e [...] lhe deram uma toalha de mesa para fazer o serviço.[88]

É bem verdade que essas sutis diferenças de intenção provavelmente faziam pouca diferença para as muitas dezenas de milhares de presos, muitos dos quais consideravam humilhação suficiente o simples fato de terem sido aprisionados por nenhum motivo. Elas provavelmente também não afetavam as condições de vida dos detentos, as quais eram horrorosas em toda a parte. Um padre enviado para um campo na Sibéria se recordaria da sopa de tripa, dos alojamentos sem eletricidade e do aquecimento praticamente inexistente no inverno.[89] Aleksandr Izgoev, político de destaque no período czarista, foi mandado para um campo ao norte de Petrogrado. No caminho, seu grupo de prisioneiros parou na cidade de Vologda. Em vez de encontrarem a comida quente e as acomodações aquecidas que lhes haviam sido prometidas, os presos foram conduzidos a pé de um lugar para outro, em busca de abrigo. Não se preparara nenhum campo de trânsito para eles. Por fim, foram alojados no que fora uma escola, "com bancos compridos e paredes nuas". Quem tinha dinheiro acabou comprando a própria comida na cidade.[90]

Todavia, esses tipos de maus-tratos caóticos não eram reservados apenas aos prisioneiros. Em momentos decisivos da Guerra Civil, as necessidades emergenciais do Exército Vermelho e do Estado soviético se sobrepunham a tudo o mais, da reabilitação à vingança, passando pelas considerações referentes ao que fosse justo ou injusto. Em outubro de 1918, o comandante da frente setentrional solicitou à comissão militar de Petrogrado oitocentos trabalhadores, urgentemente necessários para abrir estradas e trincheiras. Gomo conseqüência, "vários cidadãos das antigas classes mercantis foram convidados a comparecer ao quartel-general soviético, supostamente para serem registrados para possíveis funções de trabalho em alguma data futura. Quando esses cidadãos apareceram para fazer tal registro, foram presos e mandados ao quartel Semenovsky, onde esperariam até ser despachados para a frente de batalha". Quando nem isso resultou em número suficiente de trabalhadores, o soviete (conselho governante local) de Petrogrado simplesmente cercou parte da Nevsky Prospekt (a principal rua comercial da cidade), prendeu todos os que não tinham carteirinha do Partido nem atestado de que trabalhavam para uma instituição do governo e os fez marchar para um quartel ali perto. Mais tarde, liberaram-se as mulheres, mas os homens foram despachados para o norte; "nenhum dos que foram mobilizados dessa maneira estranha pôde antes resolver seus assuntos de família, despedir-se dos parentes ou obter trajes e calçados adequados".[91]

Embora certamente horrível para os pedestres assim detidos, esse episódio pareceria menos esquisito aos trabalhadores de Petrogrado - porque, mesmo naquele estágio inicial da história soviética, a distinção entre "trabalhos forçados" e trabalho comum era pouco clara. Trotski falava abertamente em transformar o país inteiro num "exército de trabalhadores" ao estilo do Exército Vermelho. Desde cedo, os trabalhadores foram obrigados a registrar-se em repartições centrais do trabalho, de onde podiam ser enviados para qualquer parte do país. Aprovaram-se decretos especiais que proibiam certos tipos de trabalhador (os mineiros, por exemplo) de largar seus empregos. Nesse período de caos revolucionário, os trabalhadores livres tampouco desfrutavam condições de vida muito melhores que as dos presos. Olhando de fora, nem sempre teria sido fácil dizer qual era o local de trabalho e qual era o campo de concentração.[92]

Mas também isso era um prenúncio: durante a maior parte da década seguinte, as definições de "prisão", "campo" e "trabalhos forçados" estariam permeadas de confusão. O controle das instituições penais continuaria mudando constantemente de mãos. Os departamentos responsáveis seriam rebatizados e reorganizados sem cessar, à medida que diferentes comissários e outros burocratas tentavam assumir o controle do sistema.[93]

No entanto, evidencia-se que, no final da Guerra Civil, já se estabelecera um padrão. A URSS desenvolvera dois sistemas prisionais, com regras, tradições e ideologias distintas. O Comissariado da Justiça (e depois o Comissariado do Interior) administrava o sistema "regular", que lidava principalmente com o que o regime soviético denominava "criminosos". Ainda que esse sistema também fosse caótico na prática, seus presos eram mantidos em prisões tradicionais, e os objetivos declarados de seus administradores, conforme apresentados num memorando interno, seriam perfeitamente compreensíveis em países "burgueses": regenerar os criminosos pelo trabalho correcional - "os presos devem trabalhar para aprender habilidades que possam utilizar a fim de levar vida honesta" - e impedir que cometessem mais crimes.[94]

Ao mesmo tempo, a Cheka (depois rebatizada GPU, OGPU, NKVD, MGB e, por fim, KGB) controlava outro sistema prisional, que de início era conhecido como sistema de "campos especiais", ou "campos extraordinários". Embora a Cheka usasse neles parte da mesma retórica de "reabilitação" e "regeneração", esses campos não se destinavam mesmo a parecer instituições penais comuns. Estavam fora da jurisdição das outras instituições soviéticas e não eram visíveis ao público. Tinham normas especiais, penalidades mais duras para quem tentava fugir, regimes mais severos. Seus presos não haviam necessariamente sido condenados por tribunais comuns - se é que algum tribunal os condenara. Tais campos, estabelecidos como medida emergencial, acabaram por tornar-se maiores e mais poderosos, à medida que se ampliava a definição de "inimigo" e aumentava o poder da Cheka. E, quando os dois sistemas penais, o ordinário e o extraordinário, enfim se juntaram, eles o fizeram sob as regras do segundo. A Cheka devorou seus rivais.

Desde o início, o sistema prisional "especial" se destinava a lidar com prisioneiros especiais: padres, antigos altos funcionários czaristas, especuladores burgueses, inimigos da nova ordem. Mas uma categoria de presos políticos em particular interessava às autoridades mais que as outras. Tratava-se de membros dos partidos socialistas revolucionários não-bolcheviques, sobretudo os anarquistas, a esquerda e a direita social-revolucionárias, os mencheviques e todos os outros que haviam lutado pela Revolução, mas que não tiveram o tino de unir-se à facção bolchevique, de Lênin, e não tomaram parte por completo no golpe de outubro de 1917. Como ex-aliados no combate revolucionário contra o regime czarista, mereciam tratamento especial. O Comitê Central do Partido Comunista debateria repetidas vezes o destino deles, até o final dos anos 1930, quando a maioria dos que continuavam vivos foi presa ou fuzilada.[95]

Em parte, essa categoria específica de prisioneiro incomodava Lênin porque, assim como todos os líderes de seitas exclusivistas, ele reservava aos apóstatas o maior ódio de que era capaz. Durante um colóquio típico, chamou um de seus críticos socialistas de "escroque", "cãozinho cego", "adulador da burguesia" e "lacaio de sanguessugas e canalhas", que só servia para o "esgoto dos renegados".[96] Aliás, muito antes da Revolução, Lênin já sabia o que faria com aqueles correligionários socialistas que se opunham a ele. Um de seus companheiros revolucionários recordou uma conversa sobre o assunto:

Eu lhe disse: "Vladimir Iliich, se você chegar ao poder, vai começar a enforcar os mencheviques no mesmo dia". Ele me deu uma olhadela e respondeu: "Só depois que tivermos enforcado o último social-revolucionário". Aí, franziu as sobrancelhas e deu uma risada.[97]

Contudo, os presos que pertenciam a essa categoria especial também eram bem mais difíceis de controlar. Muitos haviam passado anos em prisões czaristas e sabiam como montar greves de fome, como pressionar seus carcereiros, como estabelecer comunicação entre as celas para trocar informações, como organizar protestos em conjunto. O mais importante: sabiam como contatar o exterior - e quem contatar por lá. A maior parte dos partidos socialistas russos não-bolcheviques ainda tinha diretórios de exilados (geralmente em Berlim ou Paris) cujos membros podiam causar grandes prejuízos à imagem mundial dos bolcheviques. Em 1921, no III Congresso da Internacional Comunista, representantes do diretório externo dos social-revolucionários, o partido ideologicamente mais próximo dos bolcheviques (durante breve período, alguns de seus membros até chegaram a trabalhar em coalizão com esses últimos), leram em voz alta uma carta de seus camaradas encarcerados na Rússia. A carta provocou sensação no congresso, em grande parte porque afirmava que as condições prisionais na Rússia revolucionária eram piores que nos tempos do czar. "Nossos camaradas estão semimortos de fome", proclamava. "Muitos deles se encontram presos há meses, sem visita de parentes, sem correspondência, sem exercício físico."[98]

Os socialistas exilados tinham condições de agitar em favor dos prisioneiros, e o faziam, tal qual antes da Revolução. Imediatamente após o golpe bolchevique, vários revolucionários célebres, aí incluídas Vera Figner (autora de memórias sobre a vida em prisões czaristas) e Ekaterina Peshkova (mulher do escritor Máximo Gorki), ajudaram a restabelecer a Cruz Vermelha Política, uma organização de auxílio a presos que atuara clandestinamente antes da Revolução. Ekaterina conhecia bem Dzerzhinsky e se correspondia com ele de modo regular e cordial. Graças aos contatos e ao prestígio dela, a Cruz Vermelha Política recebeu o direito de visitar locais de encarceramento, falar com presos políticos, enviar-lhes remessas e até requerer a soltura daqueles que estavam enfermos - privilégios que a organização manteve durante boa parte da década de 1920.[99] Posteriormente, essas atividades pareceriam tão inverossímeis ao escritor Lev Razgon, aprisionado em 1937, que ele ouvia as histórias da Cruz Vermelha Política contadas pela esposa (o pai dela fora um dos presos socialistas) como se fossem "contos de fadas".[100]

A má publicidade gerada pelos socialistas ocidentais e pela Cruz Vermelha Política incomodava um bocado os bolcheviques. Muitos tinham vivido anos no exílio e, por conseguinte, eram sensíveis às opiniões de seus antigos camaradas internacionais. Muitos também ainda acreditavam que a Revolução poderia propagar-se para o Ocidente a qualquer momento e não queriam que o progresso do comunismo fosse retardado pelas notícias negativas. Em 1922, as matérias da imprensa ocidental já os preocupavam o bastante para lançarem a primeira do que seriam muitas tentativas de disfarçar o terror comunista atacando o "terror capitalista". Com esse propósito, criaram uma associação "alternativa" de auxílio a prisioneiros: a Sociedade Internacional de Ajuda às Vítimas da Revolução (MOPR, conforme seu acrônimo russo), que supostamente trabalharia para assistir aos "100 mil presos do capitalismo".[101]

Embora a seção berlinense da Cruz Vermelha Política tenha de

imediato atacado a MOPR por tentar "silenciar os gemidos daqueles que estão morrendo nas prisões, campos de concentração e locais de degredo da Rússia", outros engoliram a história. Em 1924, a MOPR afirmava ter 4 milhões de membros e até organizou sua primeira conferência internacional, com representantes do mundo inteiro.[102] A propaganda deixou sua marca. Quando pediram ao escritor francês Romain Rolland que comentasse a publicação de uma coletânea de cartas de socialistas encarcerados na Rússia, ele respondeu afirmando o seguinte:

Há coisas quase idênticas acontecendo nas prisões da Polônia; nós as temos nas prisões da Califórnia, onde estão martirizando os trabalhadores da IWW;[103] nós as temos nos calabouços ingleses das ilhas Andaman [...].[104]

A Cheka também procurou amenizar as notícias negativas, mandando os socialistas encrenqueiros para mais longe de seus contatos. Alguns foram enviados por decreto administrativo para o degredo em regiões longínquas, tal qual o regime czarista fizera. Outros foram mandados para campos remotos perto da cidade boreal de Arcangel e, em especial, para um campo estabelecido no antigo mosteiro de Kholmogory, centenas de quilômetros ao norte de Petrogrado, próximo ao mar Branco. Todavia, mesmo os desterrados para os locais mais distantes acabavam achando meios de comunicar-se. De Narim, longínqua região da Sibéria, um pequeno grupo de presos políticos num minúsculo campo de concentração conseguiu mandar carta para um jornal socialista no exílio, queixando-se de que estavam "tão categoricamente isolados do resto do mundo que apenas cartas referentes à saúde de parentes ou à nossa própria podem ter a esperança de chegar aos destinatários. Nenhum outro tipo de mensagem [...] nos chega". Esses presos assinalavam que, entre eles, encontrava-se Olga Romanova, anarquista de dezoito anos que fora despachada para um lugar particularmente remoto da região, "onde a fizeram passar três meses a pão e água".[105]

Tampouco o degredo distante garantia sossego para os carcereiros. Em quase toda a parte, os presos socialistas, acostumados ao tratamento privilegiado outrora dado aos prisioneiros políticos nas cadeias czaristas, exigiam jornais, livros, caminhadas, o direito ilimitado a correspondência e, sobretudo, o direito de escolherem os próprios porta-vozes ao lidarem com as autoridades. Quando os agentes locais da Cheka não entendiam e se negavam a conceder essas coisas (eles decerto não sabiam a diferença entre anarquista e baderneiro), os socialistas protestavam, às vezes com violência. Segundo uma descrição do campo de Kholmogory, um grupo de prisioneiros descobriu que

era necessário travar uma lula pelas coisas mais elementares, como a concessão aos socialistas e anarquistas dos direitos comuns dos presos políticos. Nessa luta, eram submetidos a todos os castigos conhecidos, como confinamento solitário, espancamento, fome, disparos concertados do destacamento militar contra o edifício etc. Basta dizer que, no final do ano, a maioria dos detentos de Kholmogory podia acrescentar a seu histórico greves de fome que duravam de trinta a 35 dias [...].[106]

Esse mesmo grupo de presos acabou sendo transferido de Kholmogory para outro campo, em Petrominsk, também um mosteiro. De acordo com a petição que enviariam às autoridades, foram recebidos ali com "gritos e ameaças grosseiras", trancafiados seis de uma vez em minúsculas celas de monge e proibidos de praticar exercício ou ter acesso a livros ou material de escrita.[107] O camarada Bachulis, comandante de Petrominsk, tentou quebrar o ânimo dos presos privando-os de luz e calor .- e, de tempos em tempos, atirando contra as janelas deles.[108] Os presos reagiram lançando outra rodada interminável de greves de fome e cartas de protesto. No fim das contas, exigiram ser tirados do próprio campo, o qual afirmavam ser malárico.[109]

Outros chefes de campo também reclamavam de tais prisioneiros. Em carta a Dzerzhinsky, um deles escreveu que em seu campo "os Guardas Brancos que se julgam presos políticos" se organizaram numa "turma enérgica", impossibilitando que os guardas trabalhassem: "eles difamam a administração, caluniam-lhe o nome [...] desprezam o nome bom e honesto do trabalhador soviético".[110] Alguns guardas resolviam as coisas eles mesmos. Em abril de 1921, um grupo de prisioneiros de Petrominsk se recusou a trabalhar e exigiu mais rações de comida. Fartas dessa insubordinação, as autoridades de Arcangel ordenaram que todos os 540 fossem condenados à morte. Foram devidamente fuzilados.[111]

Em outros lugares, as autoridades tentavam manter a paz pelo caminho oposto, atendendo a todas as reivindicações dos socialistas. Berta Babina, membro dos social-revolucionários, recordaria sua chegada à "ala socialista" da prisão de Butyrka (em Moscou) como um reencontro jubiloso com amigos, gente "da clandestinidade em São Petersburgo, dos meus anos de estudante e das muitas cidades e lugares menores onde morei durante minhas erranças". Os presos podiam fazer o que quisessem na prisão. Organizavam sessões matinais de ginástica, fundaram uma orquestra e um coro, criaram um "grêmio" que dispunha de periódicos estrangeiros e boa biblioteca. Conforme a tradição (remontando aos tempos pré-revolucionários), todo preso deixava seus livros quando era solto. Um conselho dos prisioneiros designava celas para todos, algumas das quais eram muitíssimo bem supridas de tapetes no chão e tapeçarias nas paredes. Outro preso lembraria que "flanávamos pelos corredores como se fossem bulevares".[112] Para Berta, a vida na prisão parecia inverossímil: "Será que eles não conseguem nos prender a sério?"[113]

A liderança da Cheka se fazia a mesma pergunta. Num relatório a Dzerzhinsky datado de janeiro de 1921, um irado fiscal das prisões se queixou de que, na Butyrka, "homens e mulheres caminham juntos, e slogans anarquistas e contra-revolucionários ficam expostos nas paredes das celas".[114] Dzerzhinsky recomendou regime mais severo - mas, quando este foi instituído, os presos tornaram a protestar.

O idílio da Butyrka terminou logo depois. Em abril de 1921, segundo carta que um grupo de social-revolucionários escreveu às autoridades, "entre três e quatro horas da manhã, um grupo de homens armados entrou nas celas e começou o ataque [...] mulheres foram arrastadas pelos braços, pernas e cabelos para fora das celas; outras foram espancadas". A Cheka, em seus relatórios posteriores, descreveu esse "incidente" como uma rebelião que ficara fora de controle - e ela resolveu que nunca mais deixaria tantos presos políticos se acumularem em Moscou.[115] Em fevereiro de 1922, a "ala socialista" da prisão de Butyrka já fora dissolvida.

A repressão não funcionara. As concessões não haviam funcionado. Mesmo em seus campos especiais, a Cheka não conseguia controlar os presos especiais. Tampouco conseguia impedir que notícias deles chegassem ao exterior. Era evidente que outra solução se fazia necessária, tanto para eles quanto para todos os outros contra-revolucionários insubordinados que haviam sido reunidos no sistema prisional especial. Na primavera de 1923, já se encontrara a solução: Solovetsky.

 

  1. "O PRIMEIRO CAMPO DO GULAG"

 

Há monges e padres,

Prostitutas e ladrões.

Aqui há príncipes e barões -

Mas suas coroas lhes foram tomadas...

Nesta ilha, os ricos não têm casa,

Nem castelo, nem palácio...

Poema anônimo escrito por um prisioneiro

nas ilhas Solovetsky, 1926[116]

 

Olhando do alto do campanário na ponta do antigo mosteiro de Solovetsky, mesmo hoje se vêem os contornos do campo de concentração. Um espesso muro de pedras ainda circunda o kremlin, o conjunto central de igrejas e construções do mosteiro, que remontam ao século XV e depois abrigaram a administração principal e a prisão central do campo. Imediatamente a oeste, ficam as docas, agora lar de alguns barcos pesqueiros, outrora apinhadas com os presos que chegavam toda semana, e às vezes todo dia, durante a curta temporada de navegação no extremo norte. Para além delas, estende-se a vastidão plana do mar Branco. Dali, o barco leva várias horas para chegar a Kem, o campo de trânsito no continente, de onde os presos embarcavam com destino a Solovetsky. Chegar a Arcangel, capital regional e maior porto do mar Branco, leva a noite toda.

Olhando para o norte, talvez se vislumbre de modo muito vago a Sekirka, a igreja que, no alto de um morro, continha as infames celas punitivas de Solovetsky. A leste, ergue-se a usina de força construída pelos prisioneiros, ainda hoje em plena operação. Logo atrás, o terreno onde costumava ficar o jardim botânico. Ali, nos primeiros tempos do campo, alguns dos prisioneiros cultivavam plantas experimentais, procurando determinar se poderiam semear alguma coisa com proveito no extremo norte.

Por fim, para além do jardim botânico, as outras ilhas do arquipélago de Solovetsky. Espalhadas pelo mar Branco, estão Bolshaya Muksalma, onde os presos criavam raposas-prateadas para tirar-lhes a pele; Anzer, lugar de campos especiais para inválidos, para mulheres com filhos pequenos e para ex-monges; e Zayatsky Ostrov, local do campo punitivo feminino.[117] Não foi por acaso que Soljenitsin escolheu a metáfora do "arquipélago" para descrever o sistema soviético de campos de concentração. Solovetsky, o primeiro a ter sido planejado e construído para durar, desenvolveu um verdadeiro arquipélago, expandindo-se de ilha a ilha, ocupando à medida que crescia as velhas igrejas e construções monásticas da antiga comunidade de monges.

O complexo monástico já servira de prisão. Desde o século XVI, os monges de Solovetsky, fiéis servidores do czar, tinham ajudado a encarcerar os opositores políticos dele (entre os quais padres refratários e um ou outro aristocrata rebelde).[118] O isolamento, os altos muros, os ventos gelados e as gaivotas que antes atraíam certo tipo de monge solitário também empolgavam a imaginação bolchevique. Já em maio de 1920, um artigo na edição de Arcangel do jornal governamental Izvestiya descrevia as ilhas como lugar perfeito para um campo de trabalho: "o ambiente inóspito, o regime laborai, a luta contra as forças da natureza serão boa escola para todos os elementos criminosos". O primeiro punhado de presos começou a chegar naquele verão.[119]

Outros, mais acima na cadeia de comando, também estavam interessados nas ilhas. O próprio Dzerzhinsky parece ter convencido o governo soviético a transferir o mosteiro confiscado, mais aqueles mosteiros de Petrominsk e Kholmogory, para a Cheka (então rebatizada GPU, depois OGPU, ou Administração Política Estatal Unificada) em 13 de outubro de 1923. Juntos, esses locais foram designados "Campos de Importância Especial".[120] Posteriormente, seriam conhecidos como "Campos Setentrionais de Importância Especial", ou Severnye Lagery Osobogo Naznacheniya, a rede Slon. Em russo, slon é "elefante". O nome se tornaria humorístico, irônico e ameaçador.

No folclore dos sobreviventes, Solovetsky seria sempre lembrado como "o primeiro campo do Gulag".[121] Embora estudiosos tenham mais recentemente assinalado que já existia uma ampla gama de campos e prisões, fica evidente que Solovetsky desempenhou papel especial não apenas nas lembranças dos sobreviventes, mas também na memória da polícia secreta soviética.[122] Solovetsky pode não ter sido a única prisão da URSS nos anos 1920, mas era a prisão deles, a prisão da OGPU, onde essa polícia aprendeu a usar trabalho escravo com fins lucrativos. Em 1945, numa palestra sobre a história dos campos, o camarada Nasedkin, então principal administrador do sistema, afirmou não só que este teve origem em Solovetsky na década de 1920, mas também que todo o aparelho soviético de "trabalhos forçados como método de reabilitação" se iniciou ali em 1926.[123]

 

O arquipélago de Solovetsky, no mar Branco

A primeira vista, essa declaração parece estranha, considerando que na URSS os trabalhos forçados já eram reconhecidos como forma de punição desde 1918. No entanto, ela se assemelhará menos estranha se virmos de que maneira o conceito de trabalhos forçados evoluiu na própria Solovetsky. Isso porque, nos primórdios, embora nas ilhas todos trabalhassem, os presos não estavam organizados em nada remotamente similar a um "sistema". Tampouco há provas de que o trabalho deles fosse rentável de algum modo.

Antes de tudo, uma das duas categorias de presos em Solovetsky nem sequer trabalhava no começo. Eram os Cerca de trezentos presos políticos socialistas, que na realidade tinham começado a chegar à ilha principal em junho de 1923. Mandados do campo de Petrominsk, assim como da Butyrka e de outras prisões de Moscou e Petrogrado, foram de imediato levados para o Savvatvevo, um mosteiro menor, vários quilômetros ao norte do principal complexo monástico. Ali, os guardas de Solovetsky tinham como garantir que ficassem isolados dos outros presos e não os contaminassem com aquele seu entusiasmo pelos protestos e greves de fome.

De início, concederam-se aos socialistas os "privilégios" de presos políticos que eles exigiam havia tanto tempo: jornais, livros e, dentro daquele cercado de arame farpado, liberdade de movimento e de trabalho. Cada um dos principais partidos políticos - a esquerda e a direita social-revolucionárias, os anarquistas, os social-democratas e depois os social-sionistas - escolhia seu próprio líder e ocupava recintos em sua própria ala do velho mosteiro.[124]

Para Elinor Olitskaya, jovem social-revolucionária de esquerda presa em 1924, o Sawatyevo no começo "não se parecia em nada com uma prisão" e foi um susto após os meses passados na sombria prisão de Lubyanka, em Moscou. O quarto de Elinor, uma antiga cela de monge no que se tornara a seção feminina da ala dos social-revolucionários, era

claro, limpo e recém-lavado, com duas janelas abertas, grandes e largas. A cela era cheia de luz e ar. Nas janelas, não havia barras, é claro. No meio da cela, tinha-se uma pequena mesa, coberta com uma toalha branca. Junto à parede, quatro camas, com lençóis arrumados com capricho. Ao lado de cada uma, um pequeno criado-mudo. Neste, viam-se livros, cadernos e canetas.

Enquanto Elinor se admirava com o local, com o chá servido em bules e com o açúcar num açucareiro, suas companheiras de cela lhe explicavam que as presas haviam criado aquele ambiente agradável de caso pensado: "queremos viver como seres humanos".[125] Elinor logo descobriu que, embora sofressem de tuberculose e outras doenças e raramente tivessem comida bastante, os presos políticos de Solovetsky se mostravam extraordinariamente bem organizados, estando o "decano" de cada célula partidária responsável pelos serviços de almoxarifado, cozinha e distribuição de alimentos. Dado que ainda tinham status político especial, também podiam receber remessas tanto de parentes quanto da Cruz Vermelha Política. Embora essa última começasse a encontrar dificuldades (em 1922, seus escritórios sofreram batidas, e suas posses foram confiscadas), Ekaterina Peshkova, a bem relacionada líder da organização, ainda tinha autorização pessoal para mandar auxílio a presos políticos. Em 1923, ela despachou um vagão inteiro de víveres para aqueles presos do Sawatyevo. Um carregamento de roupas seguiu para o norte em novembro do mesmo ano.[126]

Era esta, portanto, a solução para o problema de relações públicas criado pelos presos políticos: dar-lhes mais ou menos o que pediam, mas colocá-los tão longe do resto das pessoas quanto fosse possível. Tal solução não duraria: o sistema soviético não toleraria exceções por muito tempo. Entrementes, era fácil desmascarar a ilusão - pois em Solovetsky havia outro grupo de prisioneiros, muitíssimo maior. "Ao desembarcarmos no chão de Solovetsky, todos sentíamos que estávamos entrando numa fase nova e estranha da vida", escreveu um preso político. "Pelas conversas com os criminosos, ficamos sabendo do regime terrível que a direção lhes aplicava."[127]

Com muito menos pompa e circunstância, a prisão principal do kremlin de Solovetsky também ia sendo rapidamente lotada com presos cuja situação não era tão garantida. De umas poucas centenas de detentos em 1923, os números subiram para 6 mil em 1925.[128] Entre eles, havia oficiais e simpatizantes do Exército Branco, "especuladores", ex-aristocratas, marinheiros que haviam lutado no levante de Kronstadt e verdadeiros criminosos comuns. Para esses presos, era muito mais difícil ter chá em bules e açúcar em açucareiros. Ou melhor, difícil para alguns, mais fácil para outros - pois o que caracterizava a vida na prisão criminal do campo especial de Solovetsky naqueles primeiros tempos era sobretudo uma irracionalidade e uma imprevisibilidade que se iniciavam já no momento do desembarque. O memorialista e ex-condenado Boris Shiryaev escreve que, na primeira noite no campo, ele e os outros recém-chegados foram recebidos pelo camarada A. P. Nogtev, o primeiro comandante de Solovetsky. "Eu lhes dou as boas-vindas", disse-lhes Nogtev, com o que Shiryaev descreveu como "ironia". "Como vocês sabem, aqui não há autoridade soviética, apenas a autoridade de Solovetsky. Podem ir esquecendo qualquer direito que tenham tido antes. Aqui, temos leis próprias." A frase "não há autoridade soviética, apenas a autoridade de Solovetsky", seria usada inúmeras outras vezes, conforme atestam muitos memorialistas.[129] Nos dias e semanas seguintes, a maioria dos presos vivenciaria a autoridade de Solovetsky" como combinação de negligência criminosa com crueldade fortuita. As condições de vida nas igrejas e celas

monásticas adaptadas eram precárias, e pouca atenção se deu a melhorá-las. Na primeira noite na prisão de Solovetsky, o escritor OlegVolkov recebeu um lugar nos sploshnye nary, leitos que na realidade era pranchas largas (das quais voltaremos a falar) onde vários homens dormiam enfileirados. No que Volkov se deitou, os percevejos começaram a atacá-lo, "um depois do outro, como formigas; não consegui dormir". Ele saiu e foi de imediato envolvido por "nuvens de mosquitos [...] olhei com inveja para aqueles que dormiam profundamente, cobertos de parasitas".[130]

Fora do complexo principal do kremlin, as coisas não eram melhores. Oficialmente, a Slon compreendia nove campos distintos no arquipélago, cada um deles dividido em batalhões. Mas também se mantinham alguns presos em condições ainda mais primitivas, nas matas, perto dos locais de atividade madeireira.[131] Dmitrii Likhachev, que depois se tornaria um dos mais famosos críticos literários da URSS, considerava-se privilegiado por não ter sido designado para um dos muitos campos anônimos na floresta. Ao visitar um, "fiquei doente com a visão daquele horror: pessoas dormiam em valas que tinham cavado, às vezes com as mãos nuas, durante o dia".[132]

Nas ilhas periféricas, a administração central dos campos exercia ainda menos controle sobre a conduta dos guardas e encarregados. Um preso, certo Kiselev, descreveu em suas memórias certo campo em Anzer, uma das ilhas menores. Comandado por Vanka Potapov (outro integrante da Cheka), o campo consistia de três alojamentos e um quartel de guardas, instalado numa antiga igreja. Os presos trabalhavam no corte de árvores, sem pausa, sem descanso e com pouca alimentação. Desesperados por conseguir alguns dias de folga, decepavam as próprias mãos e pés. Segundo Kiselev, Potanov conservava essas "pérolas" numa grande pilha e as mostrava aos visitantes, para os quais também se vangloriava de ter matado mais de quatrocentas pessoas com as próprias mãos. "Ninguém voltava de lá", escreveu Kiselev a respeito de Anzer. Mesmo que seu relato seja exagerado, ele indica o verdadeiro terror que os campos periféricos representavam para os presos.[133]

Em todas as ilhas, as catastróficas condições de higiene, o excesso de trabalho e a alimentação ruim levavam naturalmente à doença, sobretudo ao tifo. Dos 6 mil prisioneiros a cargo da Slon em 1925, cerca de um quarto morreria no inverno de 1925-6, em conseqüência de uma epidemia particularmente grave. De acordo com algumas estimativas, os números permaneceram altos: a cada ano, de um quarto a metade dos presos pode ter perecido de tifo, inanição e outras epidemias. No inverno de 1929-30, um documento registra 25.552 casos de tifo na Slon (rede que então já era muito maior).[134]

Para alguns presos, porém, Solovetsky representava algo pior que o desconforto e a doença. Nas ilhas, eram submetidos ao tipo de sadismo e tortura despropositada que se encontrava mais raramente no Gulag em anos posteriores, quando, segundo Soljenitsin, "a capatazia de escravos já se tornara um sistema planejado".[135] Embora muitas memórias descrevam esses atos, a relação mais completa se acha no relatório de uma comissão de inquérito que seria enviada de Moscou mais para o final da década de 1920. No decorrer da investigação, essas horrorizadas autoridades moscovitas descobriram que, no inverno, os guardas de Solovetsky regularmente deixavam prisioneiros nus nos velhos campanários da igreja maior, sem nenhum aquecimento, tendo mãos e pés alados às costas com um único pedaço de corda. Também colocavam presos "no assento", significando que os obrigavam a sentar em mastros por até dezoito horas sem se mexer, às vezes com pesos amarrados às pernas e pés, sem tocar o chão, numa posição que com toda a certeza os deixaria aleijados. De quando em quando, faziam os presos irem nus para o banho, até a dois quilômetros de distância, numa temperatura de congelar. Ou lhes davam de propósito carne podre. Ou lhes negavam socorro médico. Outras vezes, os prisioneiros recebiam tarefas despropositadas e inúteis - deslocar enormes quantidades de neve de um lugar para outro, por exemplo, ou pular de pontes tão logo os guardas mandassem.[136]

Outra forma de tortura própria das ilhas, sendo mencionada tanto em arquivos quanto em memórias, era ser mandado "aos pernilongos". A. Klinger, oficial do Exército Branco que depois realizaria uma das poucas fugas bem-sucedidas de Solovetsky, escreveu que uma vez vira essa tortura ser aplicada a um preso que se queixara porque uma remessa de gêneros destinada a ele fora confiscada. Guardas irados reagiram tirando-lhe todas as roupas, inclusive as de baixo, e amarrando-o a um mastro nas matas, as quais, no verão boreal, estavam infestadas de mosquitos. "Passada meia hora, todo o seu corpo infeliz estava coberto de inchaços provocados pelas picadas", escreveu Klinger. O homem acabou desfalecendo com a dor e a perda de sangue.[137]

Execuções em massa pareciam ocorrer de modo quase aleatório, e muitos prisioneiros lembram-se de ter vivido aterrorizados com a perspectiva da morte arbitrária. Likhachev afirma ter escapado por pouco a uma chacina no final de outubro de 1929. Documentos de arquivo realmente indicam que cerca de cinqüenta pessoas (e não trezentas, número registrado por Likhachev) foram executadas na época, tendo sido acusadas de tentar organizar uma rebelião.[138]

Quase tão ruim quanto uma execução direta era a sentença de envio para a Sekirka, a igreja cujos porões haviam se tornado as celas punitivas de Solovetsky. De fato, embora se contassem muitas histórias sobre o que acontecia nos porões da igreja, tão poucos homens voltavam da Sekirka que fica difícil ter certeza de quais eram realmente as condições ali. Mas uma testemunha chegou mesmo a ver as turmas sendo conduzidas ao trabalho: "uma fila de pessoas aterrorizadas, com olhar inumano, algumas trajadas com sacas, todas descalças, rodeadas por uma guarda cerrada".[139]

Segundo rezava a legenda de Solovetsky, a longa escadaria de 365 degraus de madeira que desciam a íngreme colina dessa igreja também desempenhava um papel nas matanças. Em certo momento, quando as autoridades do campo proibiram que se atirasse contra os presos da Sekirka, os guardas começaram a providenciar "acidentes" - jogando os detentos escadaria abaixo.[140] Há poucos anos, descendentes de presos de Solovetsky ergueram uma cruz de madeira no pé da escadaria, para marcar o lugar onde esses antepassados teriam morrido. Hoje, é um lugar sossegado e bem bonito - tanto que, no final da década de 1990, o museu de história local de Solovetsky imprimiu um cartão de Natal que mostrava a Sekirka, a escadaria e a cruz.

Embora o clima reinante de irracionalidade e imprevisibilidade significasse que milhares morreriam na Slon na primeira metade da década de 1920, a mesma irracionalidade e a mesma imprevisibilidade também ajudavam outros não apenas a sobreviver, mas também a cantar e dançar - literalmente. Em 1923, um punhado de presos já começara a organizar o primeiro teatro do campo. De início, os "atores", muitos dos quais passavam dez horas cortando madeira nas florestas antes de ir ensaiar, não tinham texto, de modo que encenavam os clássicos de memória. O teatro melhorou muitíssimo em 1924, quando chegou um grupo inteiro de ex-atores profissionais - todos condenados como membros do mesmo movimento contra-revolucionário. Naquele ano, montaram Tio Vanya, de Tchekhov, e Os filhos do sol, de Gorki.[141]

Posteriormente, encenaram-se óperas e operetas no teatro de Solovetsky, o qual também apresentava filmes e exibições acrobáticas. Certo sarau musical abrangia uma peça orquestral, um quinteto, um coro e árias de uma ópera russa.[142] A programação de março de 1924 incluía uma peça de Leonid Andreev (cujo filho, Danil, também escritor, seria preso do Gulag), uma peça de Gogol e uma noite dedicada à memória de Sarah Bernhardt.[143]

Tampouco era o teatro a única forma de cultura disponível. Solovetsky tinha uma biblioteca (que chegaria a possuir 30 mil livros) e o jardim botânico (onde os presos faziam experiência com plantas do Ártico). Os cativos, muitos deles ex-cientistas de São Petersburgo, também organizaram um museu da flora, fauna, arte e história locais.[144] Alguns dos prisioneiros mais privilegiados faziam uso de um "clube" que, pelo menos nas fotos, parece verdadeiramente burguês. As imagens mostram piano, parquete e retratos de Marx, Lênin e Lunacharsky (o primeiro ministro soviético da Cultura), tudo muito aconchegante.[145]

Usando o velho equipamento litográfico dos monges, os presos de Solovetsky também produziam jornais e mensários que traziam cartuns, poesia extremamente saudosa e ficção surpreendentemente franca. Na edição de dezembro de 1925 da Solovetskie Ostrova (nome que significa "ilhas Solovetsky"), um conto falava de uma ex-atriz que chegara à ilha principal, fora obrigada a trabalhar como lavadeira e não se acostumara à nova vida. A história termina com esta frase: "Solovetsky é amaldiçoada".

Em outro conto, um ex-aristocrata que freqüentara "noitadas íntimas no Palácio de Inverno" consola-se com a nova situação só quando visita outro aristocrata e fala dos velhos tempos.[146] Pelo visto, os clichês do realismo socialista ainda não eram obrigatórios. Nem todas essas narrativas têm o final feliz que depois seria obrigatório, e nem todos os prisioneiros ficcionais se adaptavam alegremente à realidade soviética.

Os periódicos de Solovetsky também continham artigos mais eruditos, indo desde a análise de Likhachev sobre as regras de etiqueta dos criminosos na jogatina até trabalhos sobre a arte e a arquitetura das ruínas de igrejas de Solovetsky. Entre 1926 e 1929, a gráfica da Slon conseguiu lançar 29 edições do trabalho da Associação de Estudos Locais de Solovetsky. Esta conduzia pesquisas sobre a flora e a fauna do arquipélago, concentrando-se em determinadas espécies (os cervos-boreais, as plantas locais) e publicava artigos sobre olaria, correntes eólicas, minerais úteis e criação de animais de pele. Alguns presos ficaram tão interessados neste último tema que, em 1927, quando a atividade econômica do arquipélago estava no auge, um grupo deles importou algumas raposas-prateadas "reprodutoras" para melhorar a qualidade dos rebanhos locais. Entre outras coisas, a associação executou um levantamento geológico, o qual o diretor do museu de história das ilhas ainda usa.[147]

Esses mesmos presos privilegiados também participavam dos novos ritos e comemorações soviéticos, eventos dos quais uma geração posterior de detentos dos campos seria propositalmente excluída. Na edição de setembro de 1925 da Solovetskie Ostrova, um artigo descreve a comemoração do 1º de maio nas ilhas. Infelizmente, o tempo estava ruim:

No 1° de maio, flores se abrem por toda a União Soviética, mas, em Solovetsky, o mar ainda está cheio de gelo, e há muita neve. Apesar disso, estamos nos preparando para comemorar o feriado proletário. Desde manhã cedo, há agitação nos alojamentos. Alguns se lavam. Outros fazem a barba. Um remenda as roupas. Outro engraxa as botas [...].[148]

Ainda mais surpreendente (da perspectiva dos anos posteriores) era a grande persistência das cerimônias religiosas nas ilhas. Alexander V. A. Kazachkov, um ex-condenado, lembrou a "grandiosa" Páscoa de 1926.

Não muito antes do feriado, o novo chefe da divisão exigiu que todos os que quisessem ir à igreja lhe apresentassem uma declaração. De início, quase ninguém o fez - as pessoas tinham medo das conseqüências. Mas, pouco antes da Páscoa, um número enorme apresentou suas declarações [...]. Ao longo da estrada para a igreja Onufrievskaya, a capela do cemitério, seguia uma grande procissão, com as pessoas caminhando em várias fileiras. Claro que nem todos coubemos na capela. Houve gente que ficou em pé no lado de fora, e os que chegaram atrasados nem conseguiam ouvir o ofício.[149]

Até a edição de maio de 1924 do Solovetskoi Lageram (outro periódico prisional) trazia um editorial cauteloso, mas positivo, a respeito da Páscoa, "um antigo feriado que comemora a chegada da primavera", o qual, "sob o estandarte vermelho, ainda se pode celebrar".[150]

Junto com os feriados religiosos, uns poucos dentre os monges que outrora habitavam o lugar também sobreviviam (para espanto de muitos presos) até bem depois de 1925. Serviam na condição de "monges-instrutores", supostamente transmitindo aos presos as habilidades necessárias para tocar os empreendimentos rurais e pesqueiros de lá, antes bem-sucedidos (o arenque de Solovetsky costuma ir à mesa do czar), assim como os segredos do complexo sistema de canais que os religiosos haviam utilizado durante séculos para ligar as igrejas da ilha principal. Com o passar dos anos, juntaram-se aos monges dezenas de outros padres soviéticos e membros da hierarquia eclesiástica, tanto ortodoxa quanto católica, que tinham se oposto ao confisco das propriedades da Igreja ou violado o "decreto sobre a separação entre Igreja e Estado". O clero, de certa maneira como os presos políticos socialistas, estava autorizado a viver à parte, num alojamento específico do kremlin, e também tinha permissão para realizar ofícios religiosos na capelinha do antigo cemitério, e isso até 1930-31. Aos outros presos, tal luxo só era concedido em ocasiões especiais.

Esses privilégios parecem ter causado algum ressentimento, e havia tensões ocasionais entre os clérigos e os presos comuns. Uma detenta, removida para uma colônia materna especial na ilha de Anzer após ter dado à luz, recordou que as freiras dali "mantinham-se afastadas de nós, as descrentes [...], eram bravas, não gostavam das crianças e nos detestavam". Outros clérigos, conforme repetem várias memórias, tinham justamente a atitude oposta, dedicando-se à evangelização e às obras sociais ativas, tanto entre os criminosos como entre os presos políticos.[151]

Para quem o tinha, o dinheiro também podia comprar a dispensa do trabalho nas florestas e servir de seguro contra a tortura e a morte. Solovetsky contava com um restaurante que podia atender (ilegalmente) os presos. Quem tinha condições de pagar o suborno necessário também trazia de fora a própria comida.[152] Em certa altura, a administração do campo até estabeleceu "lojas" nas quais os presos podiam adquirir itens de vestuário a preços duas vezes mais altos que nos estabelecimentos soviéticos normais.[153] Uma pessoa que teria conseguido livrar-se do sofrimento pagando era o "conde Violaro", uma figura de aventureiro cujo nome aparece (com ampla variedade de grafias) em várias memórias. O conde, em geral descrito como o "embaixador mexicano no Egito", cometera o erro de, logo após a Revolução, ter ido visitar a família da mulher na Geórgia soviética. Tanto ele quanto a esposa foram presos e deportados para o extremo norte. Embora de início ficassem encarcerados (com a condessa tendo de trabalhar como lavadeira), a lenda do campo conta que, pela quantia de 5 mil rublos, o conde comprou o direito de morarem numa casa em separado, com cavalo e serviçal.[154] Outros se recordam da presença de um rico comerciante indiano de Bombaim, o qual depois foi embora com a ajuda do consulado britânico em Moscou. Posteriormente, as memórias desse indiano seriam publicadas pela imprensa dos exilados.[155]

Esses e outros exemplos de presos ricos que viviam bem (e se iam embora logo) eram tão notáveis que, em 1926, um grupo de detentos menos privilegiados escreveu carta ao Presidium do Comitê Central do Partido Comunista, denunciando "o caos e a violência que dominam o campo de concentração de Solovetsky". Usando frases que pretendiam influenciar a liderança comunista, queixavam-se de que "quem tem dinheiro consegue arranjar-se, dessa maneira jogando todas as dificuldades nos ombros dos operários e camponeses sem tostão". Alegavam que, enquanto os ricos compravam tarefas mais fáceis, "os pobres trabalham de catorze a dezesseis horas por dia".[156] No fim das contas, não seriam eles os únicos descontentes com as práticas irregulares dos comandantes de campo de Solovetsky.

Se a violência fortuita e o tratamento injusto incomodavam os presos, quem estava em escalões mais altos da hierarquia soviética se inquietava com questões um tanto diferentes. Na metade da década de 1920, já ficara claro que a Slon, assim como o sistema prisional "comum", não conseguira atingir a mais importante das metas estabelecidas para os campos: que eles se tornassem auto-sustentáveis.[157] Na realidade, não apenas os campos de concentração soviéticos - tanto os "especiais" quanto os comuns - não vinham dando lucro, como também seus comandantes ficavam requerendo mais fundos o tempo todo.

Nisso, Solovetsky se assemelhava às outras prisões soviéticas da época. No arquipélago, os extremos de crueldade e conforto eram provavelmente mais flagrantes que em outros lugares, devido à natureza especial dos presos e dos guardas; contudo as mesmas irregularidades caracterizavam outros campos e prisões pela URSS daquele tempo. Em teoria, o sistema prisional comum também consistia em "colônias" de trabalho ligadas a fazendas, oficinas e fábricas, e sua atividade econômica era igualmente mal organizada e não-lucrativa.[158] Em 1928, o relatório de um inspetor sobre um desses campos, na região rural da Carélia (59 presos, sete cavalos, dois porcos e 21 cabeças de gado), se queixava de que apenas metade dos presos tinha cobertor; de que os cavalos estavam em mau estado (um deles tendo sido vendido, sem autorização, a um cigano); de que outros cavalos eram regularmente usados para fazer servicinhos para os guardas; de que, quando libertaram o ferreiro do campo, ele foi embora levando todas as suas ferramentas; de que nenhuma das construções do campo dispunha de aquecimento ou mesmo isolamento térmico, exceção feita à residência do administrador. Pior: esse mesmo administrador-chefe passava três ou quatro dias por semana fora do campo; freqüentemente soltava presos antes de cumpridas as sentenças, sem autorização para tanto; "recusava-se teimosamente" a ensinar agronomia aos presos; e afirmava abertamente sua crença na "inutilidade" do processo de reabilitação. Algumas das mulheres dos presos moravam no campo; outras vinham para visitas demoradas e sumiam no mato com os maridos. Os guardas se permitiam "bebedeiras e rixas mesquinhas".[159] Não admira que, em 1929, autoridades mais altas tenham repreendido o governo da Carélia por "não se dar conta da importância nem dos trabalhos forçados como medida de defesa social, nem do caráter vantajoso deles para o Estado e a sociedade".[160]

Fica claro que tais campos não eram rentáveis, tendo sido assim desde o início, conforme mostram os registros. Já em julho de 1919, os líderes da Cheka em Gomei, na Bielo-Rússia, enviaram carta a Dzerzhinsky requerendo um subsídio urgente de 500 mil rublos: a construção do campo local se interrompera por falta de recursos.[161] Na década subseqüente, os diferentes ministérios e instituições que disputavam o direito de controlar os campos prisionais continuaram a discutir por causa tanto de financiamento quanto de poder. Para aliviar o sistema prisional, decretavam-se anistias periódicas, culminando numa bem grande no outono de 1927, no décimo aniversário da Revolução de Outubro. No sistema prisional comum, soltaram-se mais de 50 mil pessoas, em grande parte pela urgência de aliviar a superlotação e economizar dinheiro.[162]

Em 10 de novembro de 1925, a necessidade de "fazer melhor uso dos presos" já era reconhecida no mais alto escalão. Naquela data, G. L. Pyatakov, bolchevique que tinha uma série de cargos econômicos importantes, escreveu a Dzerzhinsky:

Cheguei à conclusão de que, para criar as condições mais elementares de uma cultura laborai, terão de estabelecer-se colônias de trabalhos forçados em certas regiões. Tais colônias poderiam aliviar a superlotação nos locais de encarceramento. Dever-se-ia ordenar à GPU que estudasse a questão.

Pyatakov então relacionava quatro regiões que precisavam ser desenvolvidas urgentemente, todas as quais - a ilha de Sacalina, no Extremo Oriente; as terras em torno da foz do rio Ienissei, no extremo norte; a estepe cazaque; e as imediações da cidade siberiana de Nerchinsk - depois se tornariam campos de concentração. Dzerzhinsky aprovou o memorando e o enviou a dois outros colegas para que o elaborassem mais.[163]

De início, nada aconteceu, talvez porque o próprio Dzerzhinsky tenha morrido logo em seguida. Apesar disso, o memorando pressagiou mudanças. Até meados da década de 1920, a liderança soviética ainda não deixara claro se suas prisões e campos de concentração se destinavam primordialmente a reabilitar os presos, puni-los ou obter lucros para o regime. Agora, as muitas instituições com interesse no destino dos campos estavam chegando lentamente a um consenso: as prisões tinham de ser auto-sustentáveis. No final da década, o mundo desordenado das prisões pós-revolucionárias estaria transformado, e um novo sistema surgiria do caos. Solovetsky se tornaria não apenas um empreendimento econômico organizado, mas também um campo-modelo, exemplo a ser clonado muitos milhares de vezes ao longo da URSS.

Mesmo que na época ninguém estivesse consciente disso, a importância de Solovetsky ficaria bem clara em retrospecto. Posteriormente, reportando-se a um encontro do Partido em Solovetsky, um comandante local chamado camarada Uspensky declararia que "a experiência de trabalho do campo de Solovetsky convenceu o Partido e o governo de que o sistema prisional da União Soviética precisa ser substituído por um sistema de campos de trabalhos forçados correcionais.”[164]

No mais alto escalão, algumas dessas mudanças eram previstas desde o início, como mostra o memorando a Dzerzhinsky. Entretanto, as técnicas do novo sistema - os novos métodos de administrar os campos, de organizar os presos e seu regime de trabalho - foram criadas no próprio arquipélago. Em meados da década de 1920, o caos pode até ter reinado em Solovetsky, mas desse caos surgiu o futuro sistema do Gulag.

Pelo menos parte da explicação de como e por que a Slon mudara gira em torno da personalidade de Naftaly Aronovich Frenkel, um preso que foi sendo promovido até se tornar um dos mais influentes comandantes de Solovetsky. Por um lado, Soljenitsin afirma em Arquipélago Gulag que o próprio Frenkel concebeu o sistema de alimentar os presos segundo o trabalho produzido. Esse sistema fatal, que em questão de semanas destruía presos mais fracos, depois causaria incontáveis mortes, conforme veremos. Por outro lado, uma ampla gama de historiadores russos e ocidentais contesta a importância de Frenkel e descarta como mera lenda as muitas histórias sobre a onipotência dele.[165]

De fato, Soljenitsin provavelmente atribui peso demasiado a Frenkel: prisioneiros de campos bolcheviques anteriores, pré-Solovetsky, também mencionam ter recebido comida a mais pelo trabalho extra; e, de qualquer modo, a idéia, em certo sentido, é mesmo óbvia e não precisa necessariamente ter sido concebida por um único homem.[166] Não obstante, arquivos recém-abertos, em especial os arquivos regionais da Carélia (a república soviética à qual Solovetsky pertencia então), realmente deixam clara a importância de Frenkel. Mesmo que não tenha inventado cada aspecto do sistema, ele encontrou um jeito de transformar um campo prisional numa entidade econômica aparentemente rentável, e o fez numa época, num lugar e de uma maneira que podem muito bem ter chamado a atenção de Stalin para a idéia.

Mas a confusão tampouco é surpreendente. O nome de Frenkel aparece em muitas das memórias escritas sobre os primeiros tempos do sistema de campos, e por elas fica claro que, mesmo em vida, a identidade daquele homem já estava envolta em mito. Fotos oficiais mostram um indivíduo de aparência calculadamente sinistra, usando boné de couro e bigode muito bem aparado; um memorialista recorda que Frenkel "se trajava como um dândi".[167] Um de seus colegas da OGPU, o qual o admirava muitíssimo, surpreendia-se com sua memória infalível e sua aptidão para fazer contas de cabeça: "Ele nunca punha nada no papel".[168] Depois, a propaganda soviética também se desfaria em eloqüentes elogios à "incrível memória" dele e falaria de seus "excelentes conhecimentos do trabalho madeireiro e florestal em geral", sua perícia em matéria de agricultura e engenharia e sua excelente cultura geral:

Certo dia, por exemplo, ele entabulou conversa com dois trabalhadores do truste que fabrica sabonetes, perfumes e cosméticos. Logo os reduziu ao silêncio, pois exibiu enorme conhecimento sobre perfumaria e até se revelou perito no mercado mundial e nas preferências e aversões olfativas dos habitantes do arquipélago Malaio![169]

Outros o odiavam e temiam. Em 1928, numa série de reuniões especiais da célula do Partido em Solovetsky, os colegas de Frenkel o acusaram de organizar uma rede própria de espiões, "de modo que ele, antes dos outros, sabe tudo sobre todos".[170] Em 1927, histórias a seu respeito chegavam até Paris. Num dos primeiros livros sobre Solovetsky, um anticomunista francês escreveu que, "graças às iniciativas pavorosamente insensíveis [de Frenkel], milhões de infelizes se vêem oprimidos por terríveis trabalhos forçados, por sofrimentos atrozes".[171]

Os contemporâneos de Frenkel não se mostram claros a respeito das origens dele. Soljenitsin o chama de "judeu turco nascido em Constantinopla".[172] Outro o descreveu como "industrial húngaro".[173] Shiryaev alegava que Frenkel era oriundo de Odessa, ao passo que outros diziam que viera da Áustria, ou da Palestina, ou que trabalhara na fábrica da Ford nos Estados Unidos.[174] A história fica um tanto mais clara quando se lê seu registro de preso, que informa que ele nasceu em Haifa em 1883, época em que a Palestina era parte do Império Otomano. De lá, ele provavelmente seguiu (talvez por Odessa, talvez pela Áustria-Hungria) para a URSS, onde se descreveu como "comerciante".[175] Em 1923, as autoridades o prenderam por "ter atravessado fronteiras ilegalmente", o que podia significar que era um comerciante que se permitia fazer algum contrabando, ou que era apenas um comerciante que se tornara demasiado bem-sucedido para o gosto soviético. Foi condenado a dez anos de trabalhos forçados em Solovetsky.[176]

Também permanece um mistério o modo exato pelo qual Frenkel se metamorfoseou de preso em comandante de campo. A lenda diz que, ao chegar lá, ele ficou tão horrorizado com a má organização, com o desperdício puro e simples de dinheiro e mão-de-obra, que sentou e escreveu uma carta muito ao ponto, descrevendo de maneira precisa o que estava errado com cada uma das atividades econômicas locais, entre elas a silvicultura, a agropecuária e a olaria. Pôs a carta na "caixa de reclamações" dos presos, onde ela chamou a atenção de um administrador, que, por sua vez, a enviou como curiosidade para Genrikh Yagoda, o chekista que então subia rapidamente na burocracia da polícia secreta e acabaria por tornar-se o líder dela. Consta que Yagoda teria exigido conhecer de imediato o autor da carta. De acordo com um contemporâneo (e com Soljenitsin, que não explicita nenhuma fonte), o próprio Frenkel afirmou que, em certa altura, foi levado às pressas para Moscou, onde teria discutido suas idéias também com Stalin e um dos sequazes deste, Kaganovich.[177] É aí que a lenda fica mais nebulosa: embora os registros realmente mostrem que Frenkel se encontrou com Stalin nos anos 1930, e embora tenha sido protegido por esse último durante os expurgos no Partido, ainda não se achou nenhuma comprovação de uma visita na década anterior. Isso não quer dizer que ela não tenha acontecido - pode muito ser que os registros não tenham perdurado.[178]

Algumas provas circunstanciais corroboram tais histórias. Naftaly Frenkel foi, por exemplo, promovido de preso a guarda em surpreendentemente pouco tempo, até pelos padrões caóticos da Slon. Em novembro de 1924, quando estava no campo havia menos de um ano, a administração da Slon já solicitara sua soltura antecipada. O requerimento foi aprovado em 1927. Entrementes, a administração do campo apresentara regularmente declarações à OGPU que descreviam Frenkel nos termos mais elogiosos: "no campo, ele se portou como trabalhador tão excepcionalmente talentoso que ganhou a confiança da administração da Slon e é tratado como autoridade [...] é um dos raros trabalhadores responsáveis".[179]

Sabemos ainda que Frenkel organizou e administrou o Departamento Econômico-comercial (Ekonomicheskaya Kommercheskaya Chast) da Slon e, nessa condição, procurou tornar os campos de Solovetsky não apenas auto-sustentáveis, conforme requerido pelos decretos sobre os campos de concentração, mas também realmente lucrativos - a ponto de terem começado a tirar trabalho de outros empreendimentos. Embora estes fossem estatais, e não privados, ainda havia elementos de concorrência econômica na URSS dos anos 1920, e Frenkel se aproveitou disso. Em setembro de 1925, com o Departamento Econômico-comercial sob sua direção, a Slon já conquistara o direito de cortar 130 mil metros cúbicos de madeira na Carélia, tendo oferecido condições comerciais melhores que as de determinada empresa civil. A Slon também se tornara cotista no Banco Comunal da Carélia e disputava o direito de construir uma estrada que iria de Kem à cidade de Ukhta, no extremo norte.[180]

Desde o começo, as autoridades da Carélia ficaram enervadas com toda essa atividade, em especial porque inicialmente haviam se oposto a própria construção do campo.[181] Depois, suas queixas foram aumentando de intensidade. Numa assembléia convocada para discutir a expansão da Slon, autoridades locais reclamaram de que o campo tinha acesso injusto à mão-de-obra barata e, portanto, deixava sem trabalho os madeireiros comuns. Posteriormente, o clima nessas reuniões mudou, e os presentes levantaram objeções mais sérias. Em fevereiro de 1926, numa assembléia do Conselho Careliano de Comissários do Povo (o governo da República Careliana), vários líderes locais atacaram a Slon por exagerar nos preços cobrados a eles e exigir dinheiro demais para construir a estrada de Kem a Ukhta. "Fica claro", resumiu um irado camarada Yuzhnev, que "a Slon é um kommersant, um comerciante com mãos grandes e ávidas, e que seu objetivo básico é o lucro."[182]

A estatal mercantil da Carélia também ficou em pé de guerra contra a decisão da Slon de abrir uma loja própria em Kem. A estatal não tinha recursos para estabelecer negócio semelhante, mas a Slon, que podia exigir dos presos jornadas de trabalho mais longas e pagar-lhes bem menos (na realidade, nada), conseguiu fazê-lo.[183] Pior: as autoridades protestavam que os vínculos especiais da Slon com a OGPU lhes permitiam desconsiderar as leis locais e não contribuir para o orçamento da região.[184]

A discussão sobre a lucratividade, eficiência e justiça da mão-de-obra prisional continuaria pelo quarto de século seguinte (e voltará a ser abordada mais adiante, de modo mais completo). Contudo, em meados da década de 1920, as autoridades locais da Carélia não estavam levando a melhor no debate. Em seus relatórios de 1925 sobre as condições econômicas no campo de Solovetsky, o camarada Fyodor Eichmanns (na época o segundo de Nogtev, embora depois viesse a comandar o campo) se gabava das realizações econômicas da Slon, afirmando que a olaria, antes em "estado deplorável", agora prosperava; que o corte de madeira já superava a meta anual; que a usina elétrica fora concluída; e que a produção de pescado dobrara.[185] Versões desses relatórios seriam publicadas para consumo popular tanto nos periódicos de Solovetsky quanto em órgãos de outras regiões da URSS.[186] Traziam cálculos cuidadosos: um relatório estimava em 29 copeques (centavos de rublo) o custo médio diário das rações e em 34,57 rublos o custo anual da indumentária. Constava que o gasto total com cada preso, aí incluídos o traslado e a assistência médica, era de 211,67 rublos por ano.[187] Embora em 1929 o campo apresentasse um déficit de 1,6 milhão de rublos[188] (bem possivelmente porque a OGPU estava afanando dinheiro do caixa), o suposto êxito econômico de Solovetsky ainda era muito alardeado.

Tal êxito logo se tornou o principal argumento para que se reestruturasse todo o sistema prisional soviético. Se isso se fizesse ao custo de piores rações e condições de vida para os presos, ninguém se importaria muito.[189] Se o preço fosse o azedamento das relações com as autoridades locais, tampouco alguém se incomodaria.

No próprio campo, poucos tinham dúvidas sobre quem seria o responsável por esse pretenso sucesso. Todos identificavam peremptoriamente Frenkel com a mercantilização do campo, e muitos o odiavam de modo igualmente peremptório por isso. Em 1928, numa rancorosa reunião do Partido Comunista de Solovetsky (tão rancorosa que parte das atas foi declarada secreta demais para ser arquivada e, por isso, não está disponível), o camarada Yashenko, um comandante de campo, reclamou de que o Departamento Econômico-comercial da Slon se tornara influente demais: "tudo é competência deles". Também atacou Frenkel, "um ex-condenado que foi solto após três anos de trabalhos porque na época não havia gente suficiente [guardas] para operar o campo". Yashenko (cuja linguagem tem forte odor anti-semita) se queixou de que Frenkel ficara tão importante que, "quando correu o boato de que iria embora, as pessoas disseram que não poderiam trabalhar sem ele".

Yashenko confessou que odiava tanto Frenkel que até pensara em matá-lo. Outros perguntavam por que Frenkel, um ex-condenado, tinha prioridade no atendimento e pagava preços baixos nos estabelecimentos comerciais da Slon - como se fosse o dono. Outros ainda diziam que a Slon se tornara tão comercial que esquecera suas outras funções: interrompera-se todo o trabalho de reabilitação nos campos, e os presos estavam sendo submetidos a exigências de trabalho injustas. Quando eles se mutilavam para fugir às condições laborais, seus casos não eram apurados.[190]

Mas, assim como a Slon ganharia a discussão contra as autoridades da Carélia, assim também Frenkel (talvez graças a seus contatos em Moscou) venceria o debate na Slon acerca do tipo de campo que Solovetsky deveria tornar-se, de como os prisioneiros trabalhariam ali e de como eles seriam tratados.

Como já mencionei, o provável é que Frenkel não tenha inventado o tristemente célebre critério do "coma pelo que trabalha", conforme o qual os presos recebiam rações segundo o trabalho produzido. Frenkel, porém, de fato presidiu ao desenvolvimento e florescimento desse sistema, que evoluiu de um arranjo atamancado, em que às vezes se "pagava" o trabalho com comida, para um método muito preciso e regulado, pelo qual eram distribuídos os alimentos, e organizados os presos.

Na realidade, o sistema de Frenkel era bem simples. Ele dividia os presos da Slon em três grupos, consoante a aptidão física: os considerados capazes de trabalho pesado; os capazes de serviços leves; e os inválidos. Cada grupo recebia uma série diferente de tarefas e metas. Eram então alimentados de acordo - e as diferenças entre as rações se mostravam bem drásticas. Uma tabela, elaborada entre 1928 e 1932, destinava oitocentos gramas de pão e oitenta gramas de carne aos integrantes do primeiro grupo; quinhentos de pão e quarenta de carne aos do segundo; e quatrocentos de pão e quarenta de carne aos do terceiro. Em outras palavras, a categoria de trabalhador mais baixa recebia o equivalente a apenas metade do que comia a mais alta.[191]

Na prática, o sistema dividia bem depressa os presos entre os que iriam e os que não iriam sobreviver. Os fortes, sendo relativamente bem alimentados, ficavam mais fortes. Os mais fracos, estando privados de comida, se enfraqueciam e acabavam adoecendo ou morrendo. O processo se tornava mais rápido e mais radical porque as metas de trabalho eram com freqüência muito elevadas - absurdamente elevadas para alguns presos, em especial a gente da cidade que nunca trabalhara escavando turfa ou cortando árvores. Em 1928, as autoridades centrais puniram um grupo de guardas de campo porque eles, a fim de cumprir a meta, haviam forçado 128 pessoas a trabalhar a noite inteira na floresta em pleno inverno. Um mês depois, 75% desses presos ainda estavam com graves queimaduras de frio.[192]

No regime de Frenkel, mudou também a natureza do trabalho da Slon: ele não estava interessado em bobagens como a criação de animais de pele ou o cultivo de plantas árticas exóticas. Em vez disso, mandava os presos para abrir estradas e cortar árvores, aproveitando-se da mão-de-obra gratuita e não-qualificada que a Slon possuía em abundância.[193] A natureza do trabalho logo mudou o caráter do campo, ou antes dos campos, pois agora a Slon começava a expandir-se para muito além do arquipélago de Solovetsky. Sobretudo, Frenkel já não ligava se os presos eram mantidos num ambiente prisional, em cadeias ou atrás de arame farpado. Ele despachou turmas de seus trabalhadores braçais para toda a República Careliana, para a região de Arcangel na República Russa e para onde mais fossem necessários, a milhares de quilômetros de Solovetsky.[194]

Tal qual um consultor administrativo que assume uma companhia em dificuldades, Frenkel "racionalizou" outros aspectos da vida no campo, descartando aos poucos tudo o que não contribuísse para a produtividade econômica. Bem depressa, renunciou-se a toda pretensão de reabilitar. Como se queixavam os detratores de Frenkel, ele fechara os jornais e outros periódicos do campo e suspendera as reuniões da Associação de Estudos Locais de Solovetsky. O museu e o teatro continuaram a existir, mas só para impressionar os maiorais que chegavam de visita.

Ao mesmo tempo, a violência aleatória se tornava menos comum. Em 1930, a Comissão Shanin (uma delegação especial da OGPU) chegou à ilha para averiguar rumores de maus-tratos aos presos. Seus relatórios confirmaram as alegações de tortura e espancamentos excessivos. Numa sensacional reversão da política anterior, a Shanin condenou e executou dezenove dos responsáveis entre os membros da OGPU.[195] Agora, tais condutas não eram tidas como condizentes com uma instituição que valorizava acima de tudo a idéia de trudosposobnost - "capacidade de trabalho".

Por fim, sob a liderança de Frenkel, o conceito de "preso político" mudou em definitivo. No outono de 1925, abandonaram-se as distinções artificiais que se haviam traçado entre quem fora condenado por atividades criminais e quem fora condenado por atividades anti-revolucionárias, uma vez que ambos os grupos eram mandados juntos ao continente para trabalhar nos enormes projetos de abate de árvores e processamento de madeira na Carélia. A Slon já não reconhecia o status de preso privilegiado; em vez disso, via todos os prisioneiros como trabalhadores braçais em potencial.[196]

Os residentes socialistas do alojamento do Sawatyevo representavam um problema maior. Ficava claro que esses presos políticos não se encaixavam em nenhuma idéia de eficiência econômica, pois se negavam, por princípio, a realizar qualquer tipo de trabalho forçado. Recusavam-se até a cortar a própria lenha. "Estamos em degredo administrativo", reclamou um deles, "e a administração está obrigada a suprir todas as nossas necessidades."[197] Não chega a surpreender que tal atitude começasse a causar ressentimento na administração do campo. O comandante Nogtev, em especial, embora houvesse negociado pessoalmente com os presos políticos de Petrominsk na primavera de 1923, e lhes tivesse prometido um regime mais livre em Solovetsky se concordassem em ir para lá pacificamente, parece ter-se melindrado com as intermináveis exigências deles. Tinha de discutir com eles por causa da liberdade de movimentos, do acesso aos médicos, do direito de corresponderem-se com o mundo lá fora. Finalmente, em 19 de dezembro de 1923, no auge de uma altercação particularmente azeda a respeito do toque de recolher, os soldados que guardavam o alojamento do Sawatyevo abriram fogo contra um grupo de presos políticos, matando seis.

O episódio causou furor no estrangeiro. A Cruz Vermelha Política contrabandeou para fora do país informes sobre a fuzilaria. Surgiram relatos na imprensa ocidental antes mesmo que na Rússia, e houve apressada troca de telegramas entre a ilha e a liderança do Partido Comunista. De início, as autoridades do campo defenderam os disparos, afirmando que os presos haviam desobedecido ao toque de recolher e que os soldados tinham dado três advertências antes de atirar.

Depois, em abril de 1924, embora não chegasse a reconhecer que os soldados não tinham dado nenhuma advertência (e o consenso entre os presos é de que não deram mesmo), a administração do campo forneceu uma análise mais detalhada do que ocorrera. Os presos políticos, explicava o relatório, eram uma "classe diferente" daquela à qual pertenciam os soldados designados para guardá-los. Os presos passavam o tempo lendo livros e jornais; os soldados não tinham livros nem jornais. Os presos consumiam pão branco, manteiga e leite; os soldados não recebiam nada disso. Era uma "situação anormal". Acumulara-se um ressentimento natural, dos trabalhadores para com os não-trabalhadores; e, quando os presos desafiaram o toque de recolher, foi inevitável que houvesse derramamento de sangue.83 Numa reunião do Comitê Central do Partido Comunista, em Moscou, os administradores do campo, para corroborar essas conclusões, leram em voz alta cartas dos presos: "Estou bem disposto e bem alimentado [...] por ora, não precisam mandar roupas nem alimentos". Outras missivas descreviam as lindas vistas.[198] Depois, quando algumas dessas cartas foram publicadas na imprensa soviética, presos insistiram em que haviam escrito tais descrições idílicas da vida na ilha só para tranqüilizar os parentes.[199]

Indignado, o Comitê Central resolveu agir. Uma comissão chefiada por Gleb Boky (o maioral da OGPU que estava encarregado dos campos) fez uma visita aos campos de Solovetsky e ao estabelecimento prisional de trânsito de Kem. Em outubro de 1924, seguiu-se uma série de artigos no Izvestiya. "Quem acredita que Solovetsky seja uma prisão deprimente e sombria, onde as pessoas ficam inativas, perdendo o tempo em celas superlotadas, está muito enganado", escreveu N. Krasikov. "O campo inteiro consiste numa enorme organização econômica de 3 mil trabalhadores braçais, atuando nos mais diversos tipos de produção." Tendo entoado loas à indústria e à agricultura do lugar, Krasikov passava a descrever a vida no alojamento dos socialistas no Sawatyevo:

A vida que levam pode ser caracterizada como anarcointelectual, com todos os aspectos negativos dessa forma de existência. A contínua ociosidade, a insistência nas mesmas dissensões políticas, as brigas de família, as disputas sectárias e, sobretudo, uma atitude agressiva e hostil para com o governo, em geral, e a administração local e os guardas do Exército Vermelho, em particular [...], tudo isso combinado faz que aquelas trezentas pessoas (mais ou menos) se mostrem refratárias a toda medida e toda tentativa das autoridades locais para introduzir regularidade e organização em suas vidas.[200]

Em outro periódico, as autoridades soviéticas afirmavam que os presos socialistas usufruíam rações melhores que as do Exército Vermelho. Ainda mais: tais presos tinham liberdade para encontrar-se com parentes (de que outra maneira poderiam contrabandear informações para fora?) e dispunham de médicos à vontade, muito mais do que o normal nas aldeias de trabalhadores. Desdenhosamente, o artigo também alegava que eles exigiam "medicamentos raros e caros", assim como coroas e pontes de ouro nos dentes.[201]

Era o começo do fim. Após uma série de discussões, durante as quais o Comitê Central ponderou e rejeitou a idéia de mandar esses presos para o exílio no exterior (preocupava-se com o impacto disso sobre os socialistas ocidentais - especialmente, por alguma razão, sobre o Partido Trabalhista britânico), tomou-se uma decisão.[202] Ao amanhecer de 17 de junho de 1925, soldados cercaram o mosteiro de Sawatyevo. Deram duas horas para que os presos fizessem as malas. Em seguida, conduziram-nos marchando para o porto, obrigaram-nos a embarcar e os despacharam para longínquas prisões na Rússia central, de regime realmente fechado - Tobolsk, na Sibéria ocidental, e Verkhneuralsk, nos Urais -, onde os presos encontraram condições muito piores que as do Sawatyevo.[203] Um deles escreveu:

celas trancadas, o ar contaminado pelo velho e fétido balde sanitário, os presos políticos isolados uns dos outros [...] nossas rações são piores que em Solovetsky. A administração se nega a reconhecer nosso starosta [líder de grupo]. Não há nem hospital nem assistência médica. A prisão compreende dois pisos. As celas do térreo são úmidas e escuras. Nelas ficam os camaradas doentes, alguns dos quais tísicos [...].[204]

Embora continuassem lutando por seus direitos, enviando cartas para o exterior, telegrafando mensagens uns para os outros pelas paredes das prisões e organizando greves de fome, a propaganda bolchevique seguia sufocando os protestos dos socialistas. Em Berlim, Paris e Nova York, as antigas associações de auxílio aos presos começaram a encontrar maior dificuldade para coletar fundos.[205] "Quando se deram os acontecimentos de 9 de setembro", escreveu um prisioneiro a um amigo que estava fora da Rússia, referindo-se aos seis presos que haviam morrido baleados em 1923, "achamos subjetivamente que haveria uma convulsão no mundo - nosso mundo socialista. Mas parece que ele não notou os acontecimentos de Solovetsky, e aí um som de risada adentrou na tragédia."[206]

No final dos anos 1920, os presos socialistas já não tinham status diferenciado. Compartilhavam suas celas com bolcheviques, trotskistas e criminosos comuns. Na década seguinte, os presos políticos (ou melhor, "contra-revolucionários") seriam considerados não uns privilegiados, mas elementos inferiores, ficando abaixo dos criminosos na hierarquia dos campos. Não mais sendo cidadãos com direitos do tipo que os antigos presos políticos haviam defendido, eles interessavam a seus carcereiros apenas na medida em que se mostravam aptos para o trabalho. E só quando trabalhavam recebiam comida suficiente para permanecer vivos.

 

  1. 1929: A GRANDE GUINADA

 

Quando os bolcheviques chegaram ao poder, eram moles e bonzinhos com os inimigos deles [...] começamos cometendo um erro. A indulgência para com tal força foi um crime contra as classes laboriosas. Isso logo ficou evidente [...].

Josef Stalin[207]

 

Em 20 de junho de 1929, o navio Gleb Boky atracou no pequeno porto atrás do kremlin de Solovetsky. Bem acima, presos acompanhavam a cena com grande expectativa. Em vez dos condenados emaciados e calados que costumavam desembarcar do Gleb Boky, um saudável e enérgico grupo de homens, e uma mulher, conversava e gesticulava enquanto caminhava. Nas fotos tiradas naquele dia, a maioria parece estar de uniforme: entre eles, havia vários chekistas de destaque, inclusive o próprio Gleb Boky. Um deles, mais alto que os restantes, dono de um basto bigode, estava trajado com mais simplicidade, usando sobretudo comum e boné de trabalhador. Era o romancista Máximo Gorki.

Dmitrii Likhachev era um dos presos que assistiam da janela, e ele também se recordaria de alguns dos outros passageiros:

Dava para ver o morrote onde Gorki ficou muito tempo, em pé, junto com uma pessoa de aparência esquisita que usava jaqueta de couro, culotes também de couro, botas de cano alto e quepe de couro. Era a nora de Gorki, a mulher de seu filho Maxim. Ficava evidente que, na opinião dela, estava vestida como uma autêntica chekista.

O grupo então subiu a uma carruagem do mosteiro, puxada por “um cavalo que só Deus sabe de onde veio", e partiu numa excursão pela ilha.[208]

Como Likhachev bem sabia, Gorki estava longe de ser um visitante comum. Naquela altura da vida, ele era o mui enaltecido e mui homenageado filho pródigo dos bolcheviques. O escritor, um socialista militante que fora íntimo de Lênin, nem por isso deixara de opor-se ao golpe bolchevique de 1917. Em artigos e discursos posteriores, continuara a denunciar com veemência sincera o golpe e o terror subseqüente, falando das "políticas doidas" de Lênin e da "cloaca" em que Petrogrado se transformara. Em 1921, ele finalmente emigrou, trocando a Rússia por Sorrento, onde, de início, continuou a lançar missivas condenatórias e iradas para seus amigos na pátria.

Com o tempo, seu tom mudou, tanto que, em 1928, ele resolveu voltar, por motivos que não estão de todo claros. Soljenitsin, de maneira um tanto mesquinha, afirma que Gorki retornou porque não se tornara tão famoso quanto esperava no Ocidente e então sentia-se muito infeliz no desterro e não suportava a companhia de outros exilados russos, a maioria dos quais era muito mais fanaticamente anticomunista do que ele.[209] Qualquer que tenha sido a motivação, Gorki, uma vez tomada a decisão de voltar, parecia determinado a ajudar o regime soviético o máximo possível. Quase de imediato, partiu numa série de viagens triunfais pela URSS e, de caso pensado, incluiu Solovetsky no itinerário. Seu duradouro interesse por prisões remontava ao próprio passado de delinqüente juvenil.

Numerosos memorialistas recordam a ocasião da visita de Gorki a Solovetsky, e todos concordam que se fizeram extensos preparativos de antemão. Alguns lembram que as normas do campo foram alteradas para aquela data e que os maridos se viram autorizados a ver as esposas, sendo de supor que isso se destinava a deixar todo o mundo com ar mais alegre.[210] Likhachev escreveu que se transplantaram árvores adultas em torno da colônia de trabalho, para dar-lhe aspecto menos desolador, e que se removeram presos dos alojamentos, a fim de que parecessem menos apinhados. Mas os memorialistas se mostram divididos a respeito do que Gorki realmente fez quando chegou. De acordo com Likhachev, o escritor percebeu todas as tentativas de lográ-lo. Enquanto lhe mostravam a enfermaria do hospital, onde toda a equipe médica usava aventais novos, Gorki soltou um desdenhoso "Não gosto de desfiles" e foi-se embora. Passou meros dez minutos na colônia de trabalho e aí se fechou com um preso de catorze anos, a fim de ouvir a "verdade". Quarenta minutos depois, saiu chorando. Tudo isso segundo Likhachev.[211]

Por outro lado, Oleg Volkov, que também estava em Solovetsky quando da visita de Gorki, afirma que o escritor "só olhou para o que o mandaram olhar".[212] E, embora a história do menino de catorze anos apareça em outros relatos (conforme uma versão, ele foi fuzilado tão logo Gorki partiu), outros alegam que todos os presos que tentaram aproximar-se do escritor acabaram repelidos.[213] Parece certo que cartas de presos a Gorki foram depois interceptadas, e, de acordo com uma fonte, pelo menos um dos missivistas foi subseqüentemente executado.[214] V. E. Kanen, um agente da OGPU que tinha caído em desgraça e sido aprisionado, diz até que Gorki visitou as celas punitivas da Sekirka e ali assinou o livro-diário da prisão. Um dos chefes da OGPU de Moscou que estava com Gorki teria escrito: "tendo visitado a Sekirka, encontrei tudo em ordem, exatamente como seria de esperar". Abaixo disso, segundo Kanen, Gorki acrescentou: "Eu diria que [a prisão] é excelente".[215]

Mas, embora não possamos ter certeza do que de fato ele fez ou viu na ilha, podemos ler o ensaio que escreveu depois, o qual assumiu a forma de impressões de viagem. Ali, Gorki enalteceu a beleza natural das ilhas e descreveu as construções pitorescas e seus igualmente pitorescos habitantes. Na viagem de barco para a ilha, ele até conheceu alguns dos antigos monges de Solovetsky. "E como a administração os trata?", pergunta-lhes. "A administração quer que todos trabalhem", respondem. "E nós trabalhamos."[216]

Gorki também escreve com admiração sobre as condições de trabalho, claramente pretendendo que seus leitores entendam que um campo soviético de galés não era de modo algum a mesma coisa que um campo capitalista (ou czarista) de galés, e sim um tipo completamente novo de instituição. Em alguns dos cômodos, afirma, viu

quatro ou seis leitos, cada um deles adornado com objetos pessoais [...] há flores nos peitoris. Não se tem nenhuma impressão de que a vida seja regulada em excesso. Não, não existe nenhuma semelhança com uma prisão. Em vez disso, é como se esses cômodos fossem habitados por passageiros resgatados de um navio que naufragou.

Indo aos locais de trabalho, ele depara com "rapazes saudáveis" que usam botas resistentes e camisas de linho. Encontra poucos presos políticos e, quando o faz, descreve-os com desdém como "contra-revolucionários, tipos exaltados, monarquistas". Quando lhe contam que foram presos injustamente, ele presume que estejam mentindo. Em certa altura, parece aludir ao legendário encontro com o menino de catorze anos. Escreve que, durante sua visita a um grupo de delinqüentes juvenis, um deles lhe traz uma nota de protesto. Em resposta, ouvem-se "gritos agudos" dos outros menores, que chamam o rapaz de "dedo-duro".

Mas não eram apenas as condições de vida que, na descrição de Gorki, faziam de Solovetsky um novo tipo de campo. Os detentos, esses "passageiros resgatados", não apenas eram felizes e sadios, como também desempenhavam papel vital num experimento grandioso: a transformação de personalidades criminosas e associais em cidadãos soviéticos úteis. Gorki estava reavivando a idéia de Dzerzhinsky de que os campos deveriam ser não meras penitenciárias, mas "escolas do labor", especialmente concebidas para moldar o tipo de trabalhador requerido pelo novo sistema soviético. A seu ver, a meta definitiva do experimento era assegurar a "abolição das prisões" - e ele estava conseguindo. "Se alguma das supostas sociedades cultas da Europa se arrojasse a realizar uma experiência como a dessa colônia", concluía Gorki, "e se semelhante experiência rendesse frutos como os que a nossa rendeu, tal país faria soar todas as trombetas e se vangloriaria de seu feito." Gorki imaginava que só a "modéstia" dos líderes soviéticos os impedira de ter a mesma atitude.

Consta que, posteriormente, Gorki disse que nem uma única frase de seu ensaio sobre Solovetsky ficara "intocada pela pena do censor". Na realidade, não sabemos se ele escreveu o que escreveu por ingenuidade, por um desejo calculado de enganar os leitores ou por imposição dos censores.[217] Quaisquer que tenham sido suas motivações, esse ensaio de 1929 sobre Solovetsky se tornaria uma pedra fundamental para firmar as atitudes tanto públicas quanto oficiais em face do novo e muitíssimo mais extenso sistema de campos que estava sendo gestado naquele mesmo ano. A propaganda bolchevique anterior defendera a violência revolucionária como um mal necessário, ainda que temporário, uma força depuradora transitória. Gorki, ao contrário, fez a violência institucionalizada dos campos de Solovetsky parecer um componente lógico e natural da nova ordem e ajudou a levar o público a resignar-se ao poder crescente e totalitário do Estado.[218]

Ao fim e ao cabo, 1929 seria lembrado por causa de muitas outras coisas além do ensaio de Gorki. Naquele ano, a Revolução já amadurecera. Quase uma década se passara desde o fim da Guerra Civil. Lênin morrera havia muito. Experimentos econômicos de vários tipos - a Nova Política Econômica, o comunismo de guerra - tinham sido testados e abandonados. Da mesma forma que o desconjuntado campo de concentração do arquipélago de Solovetsky se tornara a rede de campos conhecida como Slon, o terror aleatório dos primeiros anos da URSS amainara, sendo substituído por uma perseguição mais sistemática àqueles que o regime considerava seus opositores.

Em 1929, a Revolução também já adquirira um tipo muito diferente de líder. No decorrer dos anos 1920, Josef Stalin suplantara ou eliminara primeiro os inimigos dos bolcheviques e depois os inimigos dele próprio, em parte encarregando-se das decisões do Partido sobre pessoal, em parte fazendo pródigo uso de informações secretas reunidas para seu benefício pela polícia secreta, na qual ele tinha particular interesse. Stalin lançou uma série de expurgos, que de início significavam a expulsão do Partido, e providenciou para que eles fossem anunciados em assembléias de massa exaltadas e recriminatórias. Em 1937 e 1938, esses expurgos se tornariam letais: à expulsão do partido freqüentemente se seguia uma pena de prisão - ou a morte.

Com extraordinária astúcia, Stalin também acabou com Leon Trotski, seu mais importante rival na luta pelo poder. Primeiro, desacreditou Trotski; depois, o desterrou em uma ilha ao largo da Turquia; em seguida, usou-o para estabelecer um precedente. Depois que Yakov Blyumkin, agente da OGPU e ardoroso partidário de Trotski, visitou seu herói no exílio turco (e voltou de lá com uma mensagem de Trotski a seus seguidores), Stalin fez que Blyumin fosse condenado e executado. Dessa maneira, demonstrou que o Estado se dispunha a usar todo o poder de seus órgãos repressivos não apenas contra membros de outros partidos socialistas e o antigo regime, mas também contra dissidentes dentro do próprio Partido Bolchevique.[219]

Em 1929, porém, Stalin ainda não era o ditador que se tornaria no final da década seguinte. É mais exato dizer que, naquele ano, Stalin estabeleceu as políticas que acabariam por consagrar o poder dele e, simultaneamente, transformar a economia e a sociedade soviéticas de tal maneira que elas ficariam irreconhecíveis. Historiadores ocidentais deram a essas políticas o nome "Revolução de Cima Para Baixo" ou "Revolução Stalinista". Stalin as denominou a "Grande Guinada".

No cerne dessa revolução de Stalin estava um novo programa de industrialização extremamente - quase histericamente - rápida. Ao mesmo tempo, a Revolução Soviética ainda não acarretara melhoria material real na vida da maior parte das pessoas. Pelo contrário: os anos da Revolução, da Guerra Civil e da experimentação econômica haviam provocado maior empobrecimento. Então, talvez percebendo o crescente descontentamento popular com a Revolução, Stalin partiu para mudar as condições de vida do povo comum - radicalmente.

Com esse objetivo, o governo soviético aprovou em 1929 um novo "Plano Qüinqüenal", um programa econômico que almejava um aumento anual de 20% na produção da indústria. Reinstaurou-se o racionamento de comestíveis. Durante algum tempo, abandonou-se a semana de cinco dias úteis. Em vez disso, o trabalho se baseou em turnos, para que as fábricas não parassem em momento algum. Em projetos de alta prioridade, não se desconheciam turnos de 36 horas, e alguns operários ficavam no trabalho uma média de trezentas horas por mês.[220] O espírito da época, imposto de cima mas entusiasticamente adotado embaixo, era uma forma de competição permanente, na qual burocratas e diretores de fábrica, operários e escriturários disputavam uns com os outros para cumprir as metas do Plano Qüinqüenal, superá-las ou, pelo menos, propor maneiras mais novas e mais rápidas de superá-las. Simultaneamente, a ninguém se permitia duvidar da sensatez do Plano. Isso valia para os mais altos escalões: líderes do Partido que punham em dúvida o valor da industrialização apressada não ficavam muito tempo no cargo. Valia também para os escalões mais baixos. Um sobrevivente daqueles tempos lembrou que, no jardim-de-infância, marchava pela sala de aula carregando um pequeno estandarte e cantando:

Cinco em quatro,

Cinco em quatro,

Cinco em quatro,

E não em cinco!

Infelizmente, o significado dessa frase - que o Plano Qüinqüenal seria completado em quatro anos - escapava inteiramente ao menino.[221]

Como seria o caso com todas as grandes iniciativas soviéticas, o início da industrialização maciça criou categorias inteiramente novas de criminosos. Em 1926, o Código Penal fora reescrito para incluir, entre outras coisas, uma definição ampliada do artigo 58, que definia crimes "contra-revolucionários". Tendo tido antes apenas um ou dois parágrafos, o artigo 58 agora continha dezoito incisos - e a OGPU se utilizava de todos, sobretudo para prender especialistas técnicos.[222] Como seria de prever, não se conseguia acompanhar o ritmo acelerado da mudança. Tecnologia primitiva, aplicada com demasiada pressa, causava erros. Alguém precisava levar a culpa. Donde as prisões dos "destruidores" e "sabotadores", cujos propósitos malévolos impediam a economia soviética de corresponder ao que a propaganda alardeava. Alguns dos primeiros grandes julgamentos públicos - o de Shakhty, em 1928; o do Partido Industrial, em 1920 - eram na realidade processos contra engenheiros e integrantes da intelligentsia técnica. O mesmo ocorria com o processo Metro-Vickers, de 1933, que atraiu muita atenção externa porque entre os réus estavam tanto russos como britânicos, todos acusados de "espionagem e sabotagem" em favor da Grã-Bretanha.[223]

Mas haveria outras fontes de presos. Isso porque, em 1929, o regi-|me soviético também acelerou o processo de coletivização forçada da agricultura, uma vasta convulsão que, em certos sentidos, foi mais profunda que a própria Revolução Russa. Num período incrivelmente pequeno, os comissários rurais obrigaram milhões de camponeses a abrir mão de suas pequenas propriedades e ingressar em fazendas coletivas, muitas vezes expulsando-os de terras que as famílias desses lavradores cultivavam fazia séculos. A transformação enfraqueceu a agricultura soviética de maneira permanente e criou as condições para as terríveis e devastadoras fomes que ocorreriam na Ucrânia e na Rússia meridional em 1932 e 1934 - e que matariam entre 6 milhões e 7 milhões de pessoas.[224] A coletivização também destruiu - para sempre - a percepção russa de continuidade com o passado.

Milhões resistiram à coletivização, escondendo cereais nos porões ou se negando a cooperar com as autoridades. Esses refratários eram tachados de kulaks (camponeses ricos), um termo que (de modo muito semelhante à definição de "sabotador") era tão vago que quase todo o mundo se encaixava nele. Ter uma vaca ou um quarto extras já bastava para qualificar como kulaks até camponeses que era visivelmente pobres; a acusação de algum vizinho invejoso tinha o mesmo efeito. Para quebrar a resistência dos kulaks, o regime, na prática, ressuscitou a velha tradição czarista do degredo administrativo. De um dia para o outro, caminhões e vagões simplesmente chegavam a uma aldeia e levavam embora famílias inteiras. Alguns kulaks foram fuzilados; outros, presos e condenados aos campos de concentração. Ao fim e ao cabo, porém, o regime degredou a maioria deles. Entre 1930 e 1933, mais de 2 milhões de kulaks foram desterrados para a Sibéria, o Cazaquistão e outras regiões subpovoadas da URSS, onde passaram o resto da vida como "degredados especiais", proibidos de sair das aldeias que lhes couberam. Outros 100 mil foram presos e mandados para o Gulag.[225]

À medida que se instalava a fome (ajudada pela falta de chuva), seguiam-se mais prisões. Todo cereal disponível foi tirado das aldeias e propositalmente negado aos kulaks. Os que eram pegos furtando quantidades ínfimas, mesmo que para alimentar os filhos, também acabavam na prisão. Uma lei de 7 de agosto de 1932 impunha a pena de morte, ou uma longa pena nos campos de concentração, para todos esses "crimes contra a propriedade estatal". Logo depois, apareceram nos campos de concentração as "respigadoras": camponesas que, para sobreviver, pegavam restos de cereal deixados na terra após a colheita. A elas se juntaram outros, como os famintos que recebiam penas de dez anos por terem furtado meio quilo de batata ou algumas maçãs.[226] Tais leis explicam por que os camponeses constituíam a imensa maioria dos presos nos campos de concentração soviéticos durante toda a década de 1930; e por que eles continuariam a ser parte substancial da população carcerária até a morte de Stalin.

Nos campos de concentração, o impacto dessas prisões maciças foi enorme. Quase tão logo as novas leis entraram em vigor, os administradores dos campos começaram a exigir uma reforma rápida e radical de todo o sistema. O sistema prisional "comum", que ainda estava a cargo do Comissariado do Interior - e continuava muito maior que Solovetsky, o qual era administrado pela OGPU -, permanecera superlotado, desorganizado e deficitário durante toda a década anterior. No país inteiro, a situação era tão ruim que, em certa altura, o Comissariado do Interior procurou reduzir o número de detentos condenando mais gente aos "trabalhos forçados sem privação da liberdade", ou seja, designando-lhes tarefas sem encarcerá-los, o que aliviava a pressão sobre os campos.[227]

A medida que aumentavam o ritmo da coletivização e a força da repressão, porém, milhões de kulaks sofriam despejo, e aquelas soluções começaram a parecer politicamente inoportunas. Mais uma vez, as autoridades determinaram que criminosos tão perigosos - inimigos do grande impulso de Stalin à coletivização -, exigiam forma mais segura de encarceramento, e a OGPU se preparou para estabelecer uma.

Em 1928, sabendo que o sistema prisional se deteriorava tão depressa quanto aumentava o número de presos, o Politburo do Partido Comunista criou uma comissão para lidar com o problema. Na aparência, a comissão era neutra e incluía representantes tanto do Comissariado do Interior e do Comissariado da Justiça quanto da OGPU. O camarada

Yanson, comissário da Justiça, seria o presidente da comissão. A tarefa desta era criar "um sistema de campos de concentração, organizados à maneira dos campos da OGPU", e as deliberações se davam dentro de limites bem claros. Não obstante as frases líricas de Máximo Gorki sobre o valor dos trabalhos forçados na regeneração de criminosos, todos os participantes da comissão empregavam a dura linguagem da economia. Todos expressavam as mesmas preocupações com a "rentabilidade" e falavam freqüentemente do "uso racional da mão-de-obra".[228]

É bem verdade que a ata redigida após a reunião de 15 de maio de 1929 registra algumas objeções práticas à criação de um sistema maciço de campos: estes seriam demasiado difíceis de estabelecer, não havia estradas que levassem ao extremo norte, e assim por diante. O Comissariado do Trabalho achava errado submeter quem cometera crimes de menor gravidade ao mesmo castigo destinado a reincidentes. Tolmachev, comissário do Interior, lembrou que o sistema seria visto de maneira negativa no exterior: os "Guardas Brancos exilados" e a imprensa burguesa estrangeira afirmariam que, "em vez de construirmos um sistema penitenciário para regenerar os presos pelo trabalho correcional, estabelecemos fortalezas chekistas".[229]

No entanto, Tolmachev estava argumentando que o sistema pareceria mau, e não que seria ruim. Nenhum dos presentes objetou alegando que campos "ao estilo de Solovetsky" fossem cruéis ou mortíferos. Tampouco alguém mencionou as teorias alternativas de justiça criminal das quais Lênin tanto gostara, aquela idéia de que o crime desapareceria junto com o capitalismo. Por certo ninguém falou em reabilitação dos presos, na "transformação da natureza humana" que Gorki enaltecera em seu ensaio sobre Solovetsky e que seria tão importante quando se apresentasse ao público a primeira série de campos. Em vez disso, Genrikh Yagoda, o representante da OGPU na comissão, expressou com muita clareza os verdadeiros interesses do regime:

Já é tanto possível quanto absolutamente necessário remover de locais de confinamento na Rússia 10 mil presos cuja mão-de-obra poderia ser mais bem organizada e mais bem utilizada. Ademais, fomos informados de que os campos e cadeias da República Ucraniana estão igualmente superlotados. E óbvio que a política soviética não permitirá a construção de novas prisões. Ninguém dará dinheiro para isso. Por outro lado, construir grandes campos - que farão uso racional da mão-de-obra - é coisa diferente. Temos muita dificuldade para atrair trabalhadores para o norte. Se mandarmos milhares de presos para lá, poderemos explorar os recursos setentrionais [...] a experiência de Solovetsky demonstra o que é possível realizar nessa área.

Yagoda então explicou que a recolocação seria permanente. Após a soltura, os presos permaneceriam: "com diversas medidas administrativas e econômicas, poderemos obrigar os presos a ficar no norte assim povoando nossas regiões mais distantes".[230]

A idéia de que presos devessem tornar-se colonos - tão similar ao modelo czarista - não era nada que só houvesse ocorrido depois. Enquanto a Comissão Yanson deliberava, uma comissão governamental distinta também começara a averiguar a crise de mão-de-obra no extremo norte, propondo saídas variadas, como enviar os desempregados, ou imigrantes chineses.[231] Ambas as comissões procuravam soluções para o mesmo problema ao mesmo tempo, e esse interesse não era de admirar. A fim de cumprir o Plano Qüinqüenal de Stalin, a URSS precisaria de imensas quantidades de carvão, gás, petróleo e madeira, tudo isso disponível na Sibéria, no Cazaquistão e no extremo norte. O país também necessitava de ouro para comprar maquinaria nova no exterior, e os geólogos haviam recentemente descoberto esse metal na região de Kolyma, no extremo nordeste. Apesar das temperaturas baixíssimas, das condições de vida precárias e da inacessibilidade, tais recursos tinham de ser explorados com vertiginosa rapidez.

No espírito de competição interministerial (então acirrada), Yanson de início propôs que seu próprio comissariado assumisse o sistema e estabelecesse uma série de campos florestais, com o objetivo de aumentar as exportações soviéticas de madeira, importante fonte de divisas externas. O projeto foi posto de lado, provavelmente porque nem todo o mundo queria que o camarada Yanson e sua burocracia judiciária o controlassem. Em vez disso, quando o projeto foi subitamente ressuscitado, na primavera de 1929, as conclusões da Comissão Yanson foram um tanto diferentes. Em 13 de abril, a comissão propôs instalar um novo sistema de campos, agora unificado, que eliminaria a distinção entre os campos "comuns" e os "especiais". Algo mais importante: a comissão entregou esse sistema diretamente à OGPU.[232]

A OGPU assumiu com assustadora celeridade o controle sobre a população prisional da URSS. Em dezembro de 1927, o Departamento Especial da OGPU tinha a seu cargo 30 mil detentos (cerca de 10% do número de presos do país), a maioria deles nos campos de Solovetsky.

O departamento empregava não mais que mil pessoas, e seu orçamento mal excedia 0,05% dos gastos estatais. Para comparação, o sistema prisional do Comissariado do Interior mantinha 150 mil detentos e consumia 0,25% do orçamento estatal. Contudo, entre 1928 e 1930, a situação se inverteu. À medida que outras instituições estatais iam gradualmente abrindo mão de seus presos, de seus cárceres, de seus campos e dos empreendimentos industriais ligados a eles, o número de presos sob a jurisdição da OGPU inflou de 30 mil para 300 mil.[233] Em 1931, a polícia secreta também assumiu o controle sobre milhões de "degredados especiais" (a maioria kulaks desterrados), que na prática eram galés, pois estavam proibidos de sair das colônias e locais de trabalho que lhes tinham sido designados, sob pena de morte ou detenção.[234] Em meados da década de 1930, a OGPU teria sob seu domínio toda a vasta força de trabalho representada pelos presos da URSS.

A fim de dar conta das novas responsabilidades, a OGPU reorganizou aquele seu Departamento Especial e o rebatizou Administração Central dos Campos de Trabalho Correcional e das Colônias de Trabalho. Esse título canhestro acabaria sendo encurtado para Administração Central dos Campos, ou, em russo, Glavnoe Upravlenie Lagerei. Donde o acrônimo pelo qual o departamento, e por fim o próprio sistema, seria conhecido: Gulag.[235]

Desde que os campos de concentração soviéticos surgiram em larga escala, seus detentos e seus cronistas discutem os motivos por trás da criação desses estabelecimentos. Será que apareceram por acaso, como efeito colateral da coletivização, da industrialização e de outros processos que ocorriam no país? Ou será que Stalin tramou o crescimento do Gulag com cuidado, planejando de antemão prender milhões de pessoas?

No passado, alguns historiadores afirmaram que não havia nenhum grande projeto subjacente à fundação dos campos. Um desses historiadores, James Harris, argumentou que líderes locais, e não burocratas moscovitas, deram o impulso para que se construíssem novos campos na região dos Urais. Estando obrigadas a cumprir as exigências impossíveis do Plano Qüinqüenal, por um lado, e enfrentando grave escassez de mão-de-obra, por outro, as autoridades dali aceleraram o ritmo e a crueldade da coletivização para achar a quadratura do círculo: toda vez que tiravam um kulak das terras dele, criavam mais um trabalhador escravo.[236] Outro historiador, Michael Jakobson, concluiu, seguindo vim pensamento semelhante, que as origens do sistema prisional soviético tinham sido "banais":

Os burocratas perseguiam metas inalcançáveis de auto-sustentabilidade das prisões e de reabilitação dos presos. As autoridades queriam mão-de-obra e fundos, expandiam suas burocracias e tentavam cumprir metas irreais. Os administradores e carcereiros aplicavam regras e regulamentos. Os teóricos racionalizavam e justificavam. Depois tudo acabava revertido, modificado ou abandonado.[237]

De fato, se as origens do Gulag houvessem sido acidentais, isso não teria sido surpreendente. Durante toda a primeira metade da década de 1930, a liderança soviética em geral, e Stalin em particular, mudava constantemente de rumo, implementava políticas e então as revertia, fazendo pronunciamentos públicos para ocultar propositalmente a verdade. Quando se lê a história daquela era, não é fácil detectar um grandioso plano maligno que tenha sido concebido por Stalin ou por quem quer que fosse.[238] Um exemplo: o próprio Stalin lançou a coletivização e então, assim parece, mudou de idéia, em março de 1930, quando atacou autoridades rurais excessivamente zelosas que estavam "embriagadas pelo sucesso". (Qualquer que tenha sido a intenção desse pronunciamento, ele teve pouco efeito prático, e a destruição dos kulaks continuou na mesma marcha durante anos.)

No começo, os burocratas e os secretas da OGPU que planejaram a expansão do Gulag também não parecem ter sido mais claros no que se refere a seus objetivos finais. A própria Comissão Yanson tomou decisões e depois as reverteu. A OGPU também executava políticas que pareciam contraditórias. Durante todos os anos 1930, por exemplo, ela com freqüência decretou anistias, destinadas a acabar com a superlotação nas prisões e campos. Invariavelmente, as anistias eram seguidas de novas ondas de repressão, e novas ondas de construção de campos, como se Stalin e seus sequazes nunca soubessem ao certo se queriam ou não que o sistema crescesse - ou como se diferentes pessoas estivessem dando diferentes ordens em diferentes momentos.

De modo semelhante, o sistema de campos passaria por muitos ciclos: ora mais repressivo, ora menos, ora mais repressivo de novo. Mesmo depois de 1929, quando os campos já haviam sido colocados firmemente no rumo da eficiência econômica, subsistiam algumas anomalias no sistema. Em 1937, por exemplo, muitos presos políticos ainda eram mantidos em celas, explicitamente proibidos de trabalhar - uma prática que pareceria contradizer o impulso geral de eficiência.[239] Diversas mudanças burocráticas tampouco eram lá muito significativas. Embora a divisão formal entre campos da polícia secreta e campos da polícia comum tenha mesmo chegado ao fim na década de 1930 continuou a haver uma divisão residual entre os campos, que supostamente se destinavam aos criminosos e elementos políticos mais perigosos, e as "colônias", que seriam para os contraventores com penas mais curtas. Na prática, porém, a organização do trabalho, da alimentação e do cotidiano era muito parecida tanto nos campos quanto nas colônias.

E no entanto... Hoje, há também um consenso crescente de que o próprio Stalin tinha, se não um plano cuidadosamente preparado, pelo menos uma crença muito grande nas enormes vantagens da mão-de-obra prisional, crença em que ele se manteve até o fim da vida. Por quê?

Alguns, como Ivan Chukhin - historiador do sistema inicial de campos e ex-membro da polícia secreta - especulam que Stalin fomentou as primeiras e superambiciosas obras de construção dos campos para reforçar seu prestígio pessoal. Na época, ele ainda estava apenas surgindo como líder do país, após uma longa e renhida luta pelo poder. Talvez tenha imaginado que novas façanhas na frente industrial, realizadas com uso da mão-de-obra escrava do sistema prisional, o ajudassem a consolidar sua autoridade.[240]

Stalin pode também ter-se inspirado em precedentes históricos mais antigos. Robert Tucker, entre outros, já demonstrou fartamente o interesse obsessivo de Stalin por Pedro, o Grande - mais um governante russo que empregou de maneira maciça a mão-de-obra de servos e condenados para realizar enormes feitos de engenharia e construção. Em 1928, num discurso ao plenário do Comitê Central, feito justamente quando se preparava para lançar seu programa industrial, Stalin observou com admiração:

Quando Pedro, o Grande, fazendo negócios com os países do Ocidente, mais avançados, freneticamente construía fábricas para suprir o Exército e fortalecer as defesas do país, tratava-se de um esforço especial para dar um salto à frente e livrar-se das restrições do atraso.[241]

O grifo é meu, para enfatizar o vínculo entre a "Grande Guinada" de Stalin e as políticas de seu antecessor setecentista. Na tradição histórica russa, Pedro é lembrado como líder tão grande quanto cruel, e não se acha que isso constitua contradição. Afinal, ninguém recorda quantos servos morreram durante a construção de São Petersburgo mas todo o mundo admira a beleza da cidade. Stalin pode muito bem ter levado a peito o exemplo de Pedro.

Entretanto, o interesse de Stalin em campos de concentração nem precisa ter tido uma causa racional: o fato de ser obcecado por gigantescos programas de obras e por turmas de galés mourejadores se relacionava, de algum modo, a seu tipo especial de loucura megalomaníaca. Certa vez, Mussolini disse de Lênin que este era "um artista que trabalhou os homens como outros trabalharam o mármore ou o metal".[242] Talvez a descrição se aplicasse melhor a Stalin, que gostava mesmo de ver grande número de corpos humanos marcharem ou dançarem em perfeita sincronia.[243] Ficava encantado com o balé, com as exibições orquestradas de ginástica e com os desfiles em que apareciam gigantescas pirâmides construídas de figuras humanas anônimas e contorcidas.[244] Ele, assim como Hitler, também era obcecado pelo cinema, em especial pelos musicais de Hollywood, com seus enormes elencos de cantores e dançarinos em uníssono. É possível que ele tenha fruído um prazer diferente, mas correlato, ante o espetáculo das vastas turmas de presos que escavavam canais e construíam ferrovias a uma ordem sua.

Qualquer que tenha sido a inspiração dele, política, histórica ou psicológica, fica claro que, desde os primeiros tempos do Gulag, Stalin demonstrou profundo interesse pessoal pelos campos e exerceu enorme influência no desenvolvimento destes. Um exemplo: a decisão crucial de transferir todos os campos e prisões para a OGPU, tirando-os do âmbito do sistema judiciário comum, quase certamente se deu a mando de Stalin. Em 1929, ele já se interessava muitíssimo pela polícia secreta. Acompanhava as carreiras dos chefes da OGPU e supervisionava a construção de residências confortáveis para eles e suas famílias.[245] Em contraste, a administração prisional do Comissariado do Interior não lhe despertava interesse algum: seus líderes haviam apoiado os oponentes de Stalin nas implacáveis lutas internas do Partido à época.[246]

Todos os que participaram da Comissão Yanson deviam conhecer muito bem esses detalhes, o que já deve ter sido suficiente para convencê-los a colocar as prisões nas mãos da OGPU. Mas Stalin também interveio diretamente nas decisões da comissão. Em certa altura daquelas confusas deliberações, o Politburo chegou a reverter a própria determinação original, declarando o propósito de tirar da polícia secreta o sistema prisional e tornar a entregá-lo ao Comissariado do Interior. Essa perspectiva deixou Stalin indignado. Numa carta de 1930 a Vyacheslav Molotov (um colaborador muito próximo), atacou a idéia qualificando-a de "intriga" orquestrada pelo comissário do Interior, que "é totalmente podre". Stalin mandou o Politburo implementar a resolução original e pôs fim ao Comissariado do Interior.[247] A decisão de Stalin de dar os campos à OGPU determinou o futuro caráter deles. Tirou-os da supervisão judiciária comum e os colocou firmemente nas mãos da burocracia de urna polícia secreta cujas origens remontavam ao mundo obscuro e extralegal da Cheka.

Embora haja menos indícios sólidos para corroborar essa teoria, pode ser que também tenha vindo de Stalin a ênfase constante na necessidade de construir "campos ao estilo de Solovetsky". Como já mencionamos, os campos de Solovetsky nunca foram rentáveis, nem em 1929, nem nunca. No ano administrativo que foi de junho de 1928 a junho de 1929, a Slon ainda recebia do orçamento estatal um subsídio de 1,6 milhão de rublos.[248] Não obstante a Slon talvez ter parecido mais bem-sucedida que outras empresas locais, qualquer um que entendesse de economia sabia que ela estava longe de oferecer concorrência justa. Um exemplo: os campos madeireiros que se utilizavam de presos pareciam sempre mais produtivos que os empreendimentos comuns do setor só porque os camponeses empregados por esses últimos trabalhavam apenas no inverno, quando ficavam impossibilitados de praticar a agricultura.[249]

Apesar disso, achava-se que os campos de Solovetsky fossem rentáveis - ou pelo menos Stalin achava que fossem. Ele também acreditava que fossem rentáveis justamente por causa dos métodos "racionais" de Frenkel - a distribuição de rações conforme o trabalho produzido pelo preso, a eliminação de "supérfluos". A prova de que o sistema de Frenkel ganhara o beneplácito dos mais altos escalões está nos resultados: não apenas esse sistema se viu rapidamente copiado no resto do país, mas o próprio Frenkel foi encarregado de chefiar a construção do Canal do Mar Branco, o primeiro grande projeto do Gulag na era stalinista, um cargo extremamente alto para um ex-condenado.[250] Depois, como veremos, Frenkel foi protegido da prisão e possível execução graças à intervenção do primeiríssimo escalão.

Indícios de que Stalin preferia a mão-de-obra prisional à comum também se acham no contínuo interesse dele pelas minúcias da administração dos campos. Durante toda a vida no poder, ele exigiu informes regulares sobre a "produtividade por detento" nos campos, freqüentemente requerendo estatísticas específicas: quanto carvão e petróleo os campos tinham produzido, quantos prisioneiros empregavam, quantas medalhas seus administradores haviam recebido.[251] Estava particularmente interessado na minas auríferas da Dalstroi, o complexo de campos na região de Kolyma, no extremo nordeste, e exigia informações regulares e precisas sobre a geologia de Kolyma, a tecnologia mineira da Dalstroi e a exata qualidade e quantidade do ouro produzido. Para garantir que suas determinações pessoais fossem cumpridas mesmo nos campos mais longínquos, enviava equipes de inspeção e, muitas vezes, mandava que os administradores viessem a Moscou.[252]

Quando algum projeto lhe interessava em especial, ele às vezes se envolvia ainda mais. Os canais, por exemplo, cativavam sua imaginação, e de quando em quando parecia que queria construí-los a torto e a direito. Certa feita, Yagoda foi obrigado a escrever a Stalin, objetando polidamente ao desejo irrealista de abrir um canal, usando trabalho escravo, no centro de Moscou.[253] A medida que Stalin assumia maior controle sobre os órgãos do poder, ele também forçava os colegas a focalizarem a atenção nos campos. Em 1940, o Politburo discutia este ou aquele projeto do Gulag quase toda semana.[254]

Contudo o interesse de Stalin não era apenas teórico. Também tinha interesse direto pelos seres humanos envolvidos no trabalho dos campos: quem fora detido, onde fora condenado, o que seria feito de tal e tal pessoa. Lia, e comentava, ele mesmo as petições de soltura que lhe eram enviadas pelos presos ou pelas esposas destes, freqüentemente respondendo com uma ou duas palavras ("Mantenha-o trabalhando" ou "Solte-o").[255] Numa fase posterior, exigiria com regularidade informações sobre presos ou grupos de presos que lhe interessavam, como os nacionalistas da Ucrânia ocidental.[256]

Também há indícios de que a curiosidade de Stalin por determinados presos nem sempre era puramente política e de que ela não se voltava apenas para seus inimigos pessoais. Já em 1931, antes de consolidado seu poder, Stalin fez o Politburo aprovar uma resolução que lhe dava enorme influência pessoal sobre a prisão de certas categorias de especialistas técnicos.[257] E o padrão das detenções de engenheiros e especialistas naqueles primeiros tempos faz mesmo pensar em algum nível superior de planejamento. Talvez também não tenha sido apenas coincidência que o primeiríssimo grupo de presos mandados para os novos campos nas jazidas auríferas de Kolyma abrangesse sete conhecidos peritos em mineração, dois peritos em organização do trabalho e um experiente engenheiro hidráulico.[258] E pode não ter sido mero acaso que a OGPU haja prendido um dos principais geólogos da URSS às vésperas de uma expedição para, como veremos, construir um campo perto das reservas petrolíferas da República Komi.[259] Tais coincidências não podem ter sido planejadas por chefes regionais do Partido que apenas reagiam às pressões do momento.

Por fim, uma prova totalmente circunstancial, mas ainda assim interessante, sugere que as detenções em massa no final dos anos 1930 e nos anos 40 talvez também tenham sido ordenadas, em certa medida, para saciar o desejo de Stalin por mão-de-obra escrava, e não - ao contrário do que a maioria sempre supôs - para punir seus pretensos ou potenciais inimigos. Os autores da mais fidedigna história dos campos que até hoje se escreveu em russo assinalam a "relação positiva entre o sucesso da atividade econômica nos campos e o número de presos enviados para lá". Eles argumentam que não deve ter sido por acaso que as penas para crimes de pouca gravidade se tornaram muito mais severas justamente quando os campos se expandiam e, por isso, precisavam com urgência de mais trabalhadores.[260]

Alguns documentos catados em arquivos aqui e ali fazem pensar o mesmo. Em 1934, por exemplo, Yagoda escreveu uma carta a seus subordinados na Ucrânia, requerendo de 15 mil a 20 mil presos, todos "aptos para o trabalho": eram necessários com urgência para concluir as obras do canal Volga-Moscou. A carta estava datada de 17 de março, e nela Yagoda também exigia que os chefes locais da OGPU tomassem "medidas adicionais" para garantir que os detentos chegassem até 1º de abril. Todavia, não ficava claro de onde deveriam aparecer esses 15 mil a 20 mil presos. Teriam sido detidos para atender à requisição de Yagoda?[261] Ou - como acredita o historiador Terry Martin - Yagoda estava simplesmente batalhando a fim de garantir um afluxo cômodo e regular de mão-de-obra para seu sistema de campos, uma meta que, na realidade, ele nunca atingiu?

Se as detenções se destinavam a povoar os campos, então elas o fizeram com uma ineficiência quase ridícula. Martin e outros também assinalaram que toda onda de prisões em massa parece ter pegado totalmente de surpresa os comandantes de campo, dificultando-lhes obter até mesmo um simulacro de eficiência econômica. Os policiais que faziam as prisões tampouco escolhiam suas vítimas de maneira racional: em vez de restringirem-se aos varões jovens e saudáveis que teriam dado os melhores trabalhadores braçais no extremo norte, também aprisionavam grande número de mulheres, crianças e idosos.[262] A flagrante falta de lógica das detenções em massa parece contradizer a idéia de que se planejou cuidadosamente a formação de uma força de trabalho escrava - o que leva muitos a concluir que as capturas se destinavam antes de tudo a eliminar os que eram considerados inimigos de Stalin, e só depois a encher os campos.

Mas, ao fim e ao cabo, essas explicações para a expansão dos campos tampouco chegam a ser de todo mutuamente exclusivas. Stalin pode muito bem ter pretendido que as capturas tanto eliminassem inimigos quanto criassem trabalhadores escravos. Pode ter sido motivado tanto pela própria paranóia quanto pelas necessidades de mão-de-obra dos líderes regionais. Talvez o melhor seja formular tudo isso em termos simples: Stalin propunha o "modelo de Solovetsky" a sua polícia secreta, Stalin selecionava as vítimas - e seus subordinados não deixavam passar a chance de obedecer a ele.

 

  1. O CANAL DO MAR BRANCO

 

Onde antes água e penhascos limosos dormiam,

Ali, graças à força do trabalho,

Fábricas serão construídas,

E cidades crescerão.

Chaminés se erguerão

Sob os céus do norte,

E edifícios brilharão com as luzes

De bibliotecas, teatros e clubes.

 

Medvedkov, preso do Canal do Mar Branco, 1934.[263]

No fim das contas, apenas uma das objeções levantadas durante as reuniões da Comissão Yanson viria a causar preocupação. Embora estivessem certos de que a grande nação soviética superaria a falta de estradas, e embora sentissem poucos remorsos de usar presos como trabalhadores escravos, Stalin e seus sequazes continuaram extremamente sensíveis à linguagem que os estrangeiros utilizavam no exterior para descrever os campos prisionais da URSS.

De fato, os estrangeiros daquele tempo, ao contrário do que reza a crença popular, descreviam com bastante freqüência esses campos de concentração. No Ocidente do final dos anos 1920, sabia-se geralmente um bocado a respeito deles, talvez mais do que no final dos anos 40. Extensos artigos sobre as prisões da URSS haviam sido publicados na imprensa alemã, francesa, britânica e norte-americana, sobretudo nos periódicos de esquerda, que tinham amplos contatos com socialistas russos aprisionados.[264] Em 1927, um escritor francês chamado Raymond Duguet publicou Uma colônia penal na Rússia Vermelha (Un bagne en Russie Rouge), livro surpreendentemente preciso sobre Solovetsky, descrevendo tudo, desde a personalidade de Naftaly Frenkel até os horrores da tortura dos mosquitos. Em 1926, o georgiano S. A. Malsagov, oficial do Exército Branco que conseguira fugir de Solovetsky e cruzar a fronteira, publicou Inferno na ilha, outro relato acerca das ilhas, em Londres. Como resultado de rumores generalizados sobre os abusos da mão-de-obra prisional pelos soviéticos, a seção britânica da Sociedade Anti-escravagista até lançou uma investigação e escreveu um relatório que deplorava os indícios de escorbuto e maus-tratos.[265] Baseando-se no testemunho de refugiados russos, um senador francês escreveu um artigo, muito citado, comparando a situação na URSS às descobertas do inquérito da Sociedade das Nações sobre a escravidão na Libéria.[266]

Entretanto, após a expansão dos campos em 1929 e 1930, o interesse estrangeiro por eles se modificou, afastando-se do destino dos presos socialistas e enfocando então a ameaça econômica que os campos pareciam representar para os interesses econômicos ocidentais. Empresas ameaçadas, e sindicatos idem, começaram a organizar-se Sobretudo na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, aumentou a pres. são a favor de um boicote aos artigos soviéticos supostamente produzidos por galés. Paradoxalmente, o movimento pelo boicote obscureceu toda a questão aos olhos da esquerda ocidental, que ainda apoiava a Revolução Russa, em especial na Europa, mesmo se muitos líderes se sentiam pouco à vontade com o destino de seus irmãos socialistas. O Partido Trabalhista britânico, por exemplo, opôs-se a uma proibição de importar artigos soviéticos porque suspeitava da motivação das companhias que a promoviam.[267]

Nos Estados Unidos, porém, os sindicatos (especialmente a American Federation of Labor, AFL) saíram em apoio a um boicote. Por um curto período, tiveram sucesso. Lá, o Tariff Act, de 1930, determinava que "todos os artigos [...] minerados, produzidos ou manufaturados [...] pelo trabalho de condenados e/ou pelo trabalho forçado [...] não poderão ser admitidos em nenhum dos portos dos Estados Unidos".[268] Com base nisso, o Departamento do Tesouro proibiu a importação de fósforos e madeira para papel soviéticos.

Embora o Departamento de Estado não tenha apoiado a proibição (que durou apenas uma semana), o debate continuou.[269] Em janeiro de 1931, a comissão orçamentária do Congresso dos Estados Unidos se reuniu para considerar projetos de lei "relativos à proibição de artigos produzidos pelo trabalho de condenados na Rússia".[270] Em 18, 19 e 20 de maio de 1931, o Times de Londres publicou uma série de artigos surpreendentemente detalhados a respeito dos trabalhos forçados na URSS, concluindo com um editorial que condenava a recente decisão britânica de dar reconhecimento diplomático à URSS. Emprestar dinheiro à Rússia, escreviam os editorialistas, colocaria "mais poder nas mãos daqueles que estão abertamente trabalhando [...] para destruir o Império Britânico".

 

O canal do mar Branco, Rússia setentrional, 1932-3

O regime soviético levou mesmo muito a sério a ameaça de boicote, e tomaram-se diversas medidas a fim de impedir que algo assim interrompesse o fluxo de moeda forte para o país. Algumas foram cosméticas: por exemplo, a Comissão Yanson finalmente eliminou de todas as suas declarações públicas a palavra kontslager (campo de concentração). A partir de 7 de abril de 1930, todos os documentos oficiais passaram a descrever os campos de concentração soviéticos como ispravitelno-trudovye lagerya (ITL), ou "campos de trabalho correcional". Só esse termo viria a ser usado.[271]

As autoridades dos campos fizeram outras mudanças cosméticas em nível local, sobretudo na indústria madeireira. Em certa altura, a OGPU alterou seu contrato com a Karellis, o conglomerado madeireiro da Carélia, de modo a parecer que não mais se utilizavam presos. Naquela época, 12.090 detentos foram oficialmente "removidos" dos campos da OGPU. Na realidade, continuaram trabalhando, mas sua presença era disfarçada pelos ardis burocráticos.[272] Mais uma vez, a maior preocupação da liderança soviética era com as aparências, não com a realidade.

Em outros lugares, presos que trabalhavam nos campos madeireiros foram efetivamente substituídos por trabalhadores livres - ou, mais freqüentemente, "colonos" degredados, kulaks que não tinham mais voz ativa que os presos.[273] Segundo alguns memorialistas, essa troca às vezes acontecia de um dia para o outro. George Kitchin, negociante finlandês que passou quatro anos em campos da OGPU antes de ter sido libertado com a ajuda de seu governo, escreveria que, imediatamente antes da visita de uma delegação estrangeira,

recebeu-se do escritório central em Moscou um telegrama secreto, em código, instruindo-nos a liquidar nosso campo por completo, em três dias, e fazê-lo de tal maneira que não ficasse nenhum vestígio. [...] Enviaram-se telegramas a todos os postos, os quais deviam cessar as operações em 24 horas, reunir os presos em centros de evacuação e apagar as marcas dos campos penais, tais como cercas de arame farpado, torres de vigia e placas de sinalização; todos os principais encarregados deviam vestir trajes civis, desarmar os guardas e aguardar novas instruções.

Kitchin, junto com vários milhares de outros presos, foi levado a pé pela floresta afora. Ele acreditava que mais de 1.300 detentos tivessem morrido nessa e em outras evacuações-relâmpago.[274]

Em março de 1931, Molotov, então presidente do Conselho dos Comissários do Povo, sentiu-se confiante de que não houvesse mais presos na indústria madeireira soviética (pelo menos não visíveis) e convidou todos os estrangeiros interessados a visitarem e verificarem por si mesmos.[275] Alguns já tinham vindo: em 1929, os arquivos do Partido Comunista na Carélia registram a presença de dois jornalistas americanos, "o camarada Durant e o camarada Wolf", que escreviam para a Tass, a agência de notícias soviética, e para "jornais radicais". Os dois foram recebidos com uma execução da Internacional, o hino operário, e o camarada Wolf prometeu "contar aos trabalhadores da América como os trabalhadores da União Soviética vivem e criam uma vida nova". Não seria a última dessas encenações.[276]

No entanto, embora a pressão por um boicote houvesse soçobrado em 1931, a campanha ocidental contra o trabalho escravo soviético não deixara de ter algum resultado: a URSS era, e continuaria sendo, muito zelosa de sua imagem no exterior, mesmo sob o comando de Stalin. Alguns, dentre eles o historiador Michael Jakonson, agora especulam que a ameaça de um boicote pode até ter sido importante fator por trás de outra mudança de diretrizes, esta maior. O negócio madeireiro, que demandava grande quantidade de trabalho não-especializado, fora a maneira ideal de utilizar os presos. Mas as exportações de madeira, uma das principais fontes de moeda forte da URSS, não podiam correr o risco de novo boicote. Os presos precisavam ser mandados para outro lugar - de preferência, algum onde sua presença pudesse ser comemorada, e não escondida. Possibilidades não faltavam, mas uma em especial seduziu Stalin: construir um grande Canal do Mar Branco ao mar Báltico, atravessando terreno que, em grande parte, era puro granito.

No contexto da época, o Canal do Mar Branco em russo, Belomorkanal, abreviado para Belomor - não era único. No momento em que se iniciou sua construção, a URSS já começara a executar vários projetos que, de forma semelhante, eram grandiosos e faziam uso intensivo de trabalho braçal; entre eles, incluíam-se a maior siderúrgica do mundo, em Magnitogorsk, gigantescas fábricas de tratores e automóveis e imensas "cidades socialistas" plantadas no meio de pântanos. Apesar disso, mesmo dentre as outras crias da mania de gigantismo dos anos 1930, o Canal do Mar Branco se destacava.

Para começo de conversa, o canal representava, como sabiam muitos russos, a realização de um sonho bem antigo. Os primeiros projetos haviam sido elaborados no século XVIII, quando os mercadores czaristas procuravam uma maneira de mandar das águas frias do mar Branco aos portos comerciais do Báltico navios carregados de madeira e minerais, sem fazer a viagem de uns setecentos quilômetros pelo oceano Ártico e, depois, ainda descer a extensa costa da Noruega.[277]

Também era um projeto de ambição extrema, até temerária, e talvez por isso ninguém houvesse tentado realizá-lo antes. O canal requeria 227 quilômetros de escavação, mais cinco diques e dezenove eclusas. Os planejadores soviéticos pretendiam construí-lo utilizando a tecnologia menos sofisticada possível, numa região pré-industrial do extremo norte, que nunca fora adequadamente desbravada e que, nas palavras de Máximo Gorki, era "hidrologicamente terra incógnita".[278] Tudo isso, porém, pode até ter sido parte do atrativo do projeto para Stalin. Ele queria um triunfo tecnológico - um que o antigo regime nunca conseguira -, e o queria o mais depressa possível. Exigiu não apenas que construíssem o canal, mas também que o fizessem em vinte meses. Quando pronto, levaria o nome de Stalin.

Stalin foi o maior fomentador do Canal do Mar Branco - e desejava especificamente que o abrissem com o trabalho de presos. Antes de iniciadas as obras, condenou com a maior violência quem indagava se um projeto tão caro era mesmo necessário, dado o volume relativamente pequeno de tráfego no mar Branco. "Disseram-me", escreveu a Molotov, "que Rykov e Kviring querem pôr fim à idéia do canal do Norte, contrariando as decisões do Politburo. Eles deveriam ser colocados no devido lugar e receber uns cascudos." Durante uma sessão do Politburo em que se discutiu o canal, Stalin também escreveu uma nota irritada, rabiscada às pressas, que falava de sua crença no trabalho de presos:

Quanto ao trecho norte do canal, tenho em mente confiar na GPU [com mão-de-obra prisional]. Ao mesmo tempo, devemos designar alguém para calcular outra vez as despesas da construção desse trecho. [...] O que me apresentam é caro demais.[279]

As preferências de Stalin tampouco eram segredo. Depois que o canal ficou pronto, o principal administrador louvou Stalin tanto pela "bravura" em ter-se disposto a construir aquele "gigante hidrotécnico" quanto pelo "fato maravilhoso de que esse trabalho não foi completado com mão-de-obra comum".[280] Também se pode ver a influência de Stalin na rapidez com que se partiu para as obras. A decisão de iniciá-las foi tomada em fevereiro de 1931, e elas começaram em setembro do mesmo ano, após meros sete meses de projeto e levantamento topográfico.

Administrativa, física e até psicologicamente, os primeiros campos de prisioneiros associados ao Canal do Mar Branco brotaram da Slon. Os campos do canal se organizavam com base no modelo da Slon, usavam equipamento dela e eram operados por quadros também seus. Tão logo as obras se iniciaram, os encarregados transferiram muitos presos dos campos da Slon nas ilhas Solovetsky e no continente para trabalharem no novo projeto. Por algum tempo, a velha burocracia da Slon e a nova burocracia do Canal do Mar Branco podem até ter competido pelo controle do projeto - mas o canal ganhou. Ao fim e ao cabo, a Slon deixaria de ser entidade independente. O kremlin de Solovetsky foi designado prisão de segurança máxima, e o arquipélago se tornou simplesmente mais uma divisão do Campo de Trabalhos Correcionais Belomor - Baltiiskii (mar Branco-Báltico), conhecido como Belbaltlag. Certo número de guardas e de destacados administradores da OGPU também foi transferido da Slon para o canal. Dentre eles, como se observou, estava Naftaly Frenkel, que gerenciou desde novembro de 1931 até o término das obras o dia-a-dia do projeto.[281]

Nas memórias dos sobreviventes, o caos que acompanhou a construção adquire natureza quase mitológica. A necessidade de economizar acarretava que os presos usassem madeira, areia e pedra em vez de metal e cimento. Cortavam-se custos sempre que possível. Após muita discussão o canal foi escavado com profundidade de apenas quatro metros, que mal era suficiente para embarcações da Marinha de Guerra. Já que a tecnologia moderna ou era cara demais, ou não estava disponível, os planejadores empregaram enormes quantidades de mão-de-obra não-qualificada. Os cerca de 170 mil presos e "degredados especiais" que trabalharam no projeto ao longo dos 21 meses de construção usaram pás de madeira, mais serras, picaretas e carrinhos de mão muito rústicos, para escavar o canal e construir seus grandes diques e eclusas.[282]

Nas fotos da época, essas ferramentas decerto parecem muito primitivas, mas só um olhar mais atento revela quanto. Algumas ainda estão expostas em Medvezhegorsk, outrora o portão de entrada do canal e a "capital" do Belbaltlag. Hoje uma aldeia esquecida da Carélia, Medvezhegorsk sobressai apenas pelo enorme hotel, vazio e infestado de baratas, e pelo pequeno museu de história local. As picaretas em exibição ali são, na verdade, pedaços de metal mal afiados que foram amarrados com couro ou barbante a hastes de madeira. As serras consistem em folhas planas de metal grosseiramente dentadas. Em vez de usarem dinamite, os presos quebravam grandes pedras usando "martelos" - pedaços de metal parafusados a cabos de madeira - para inserir nelas barras de ferro.

Tudo, desde os carrinhos de mão até os andaimes, era feito à mão. Um preso recordou que

não havia absolutamente nenhuma tecnologia. Até automóveis comuns eram raridade. Tudo se fazia à mão, por vezes com ajuda de cavalos. Escavávamos a terra com as mãos e a retirávamos em carrinhos de mão; também escavávamos através dos morros com as mãos e levávamos embora as pedras com a força dos braços.[283]

Até a propaganda soviética se gabava de que as pedras eram removidas em "Fords Belomor": "carretas pesadas com quatro rodas de madeira sólida, feitas de tocos de árvores".[284]

As condições de vida não eram menos capengas, apesar dos esforços de Genrikh Yagoda, o chefe da OGPU, que tinha a responsabilidade política pelo projeto. Ele parecia realmente acreditar que deviam dar condições decentes de vida aos presos caso se quisesse terminar o canal a tempo; e com freqüência doutrinava os comandantes dos campos para tratarem melhor os detentos e "tomarem o máximo cuidado a fim de garantir que eles estejam alimentados, vestidos e abrigados de maneira adequada". Em seguida, os comandantes fizeram o mesmo, assim corno o chefe da divisão Solovetsky do projeto do canal em 1933. Dentre outras coisas, esse último dirigente instruiu seus subordinados a eliminar as filas para comida à noite, acabar com o furto nas cozinhas e restringir a contagem noturna dos presos a uma hora. Em geral, as normas oficiais sobre alimentação eram mais responsáveis do que viriam a ser alguns anos depois, com salsicha e chá entre os produtos recomendados. Em teoria, os presos recebiam um novo conjunto de roupas de trabalho a cada ano.[285]

No entanto, a pressa extrema e a falta de planejamento criaram inevitavelmente muito sofrimento. A medida que as obras progrediam, era preciso construir novos acampamentos ao longo do trajeto. Em cada um deles, os presos e degredados chegavam para as obras - e não encontravam nada. Antes de começarem a trabalhar, tinham de construir os próprios barracões de madeira e organizar o suprimento de comida. Entrementes, às vezes acontecia de serem mortos pelo frio congelante do inverno careliano antes de concluírem a tarefa. Conforme alguns cálculos, morreram mais de 25 mil presos, e esse número não inclui os que, soltos devido a doenças ou acidentes, pereceriam logo depois.[286] Escrevendo à esposa, o preso A. F. Losev afirmou que preferiria voltar para os porões da prisão moscovita de Butyrka, pois no canal tinha de dormir em estrados tão apinhados que, "se durante a noite você rolar de um lado para o outro, pelo menos outras quatro ou cinco pessoas vão rolar também". Ainda mais desesperado é o testemunho de um menino, filho de kulaks degredados, que foi deportado junto com toda a família para uma das povoações que acabavam de ser construídas ao longo do canal:

Fomos morar num barracão com duas séries de estrados. Já que havia crianças pequenas, deram um dos estrados inferiores a nossa família. Os barracões eram compridos e frios. Como a lenha era abundante na Carélia, os fogões ficavam acesos 24 horas por dia. [...] Nosso pai, e principal fonte de comida, recebia em nome de todos nós um terço de balde de uma sopa esverdeada, em cuja água escura boiavam dois ou três tomates verdes ou um pepino e alguns pedaços de batata congelada, misturados com cem ou duzentos gramas de cevada ou grão-de-bico.

O menino recordou que o pai, o qual trabalhava construindo casas para os colonos, recebia seiscentos gramas de pão. A irmã, quatrocentos gramas. Isso tinha de bastar para todos os nove membros da família.[287]

Na época, assim como mais tarde, alguns dos problemas se refletiam nos relatórios oficiais. Em agosto de 1932, numa reunião da célula partidária do Belbaltlag, houve reclamações sobre a mal organizada distribuição de comida, as cozinhas sujas e o número cada vez maior de casos de escorbuto. Pessimista, o secretário da célula escreveu: "não tenho dúvida de que o canal não será construído a tempo".[288]

Para a maioria, não havia a opção de duvidar. Mas as cartas e os relatórios escritos pelos administradores do canal no período das obras tinham um tom de pânico total. Stalin decretara que o canal seria construído em vinte meses, e os construtores compreendiam muito bem que seu padrão de vida, e possivelmente até sua própria vida, dependia de completá-lo em vinte meses. Para acelerarem o serviço, os comandantes dos campos começaram a adotar práticas já em uso no mundo do trabalho "livre", como as "competições socialistas" -disputas entre turmas de trabalho para ver quem cumpria metas, movia pedras ou cavava um buraco primeiro -, e as "investidas", que atravessavam a noite inteira e nas quais os prisioneiros faziam "voluntariamente" jornadas de 24 ou 48 horas. Um preso se lembrou de quando instalaram luzes elétricas ao redor do canteiro de obras, para que a atividade pudesse continuar 24 horas por dia.[289] Outro preso ganhou dez quilos de farinha branca e cinco quilos de açúcar como prêmio por bom desempenho. Levou a farinha aos padeiros do campo, e estes fizeram para ele vários pães brancos grandes, que o preso comeu todos de uma vez, sozinho.[290]

Além das competições, as autoridades aderiram ao culto do udarnik (trabalhador-padrão). Depois, os trabalhadores-padrão seriam renomeados "stakhanovistas", em homenagem a Aleksei Stakhanov, um mineiro absurdamente superprodutivo. Os udarniki e stakhanovistas eram presos que haviam superado as metas e, por isso, recebiam comida adicional e privilégios especiais, aí incluído o direito, impensável em anos posteriores, a um novo terno a cada ano e um novo conjunto de roupas de trabalho a cada seis meses.[291] Os trabalhadores de melhor desempenho também ganhavam alimentação consideravelmente melhor. Nos refeitórios, ficavam a mesas separadas, abaixo de cartazes que proclamavam: "Para os melhores trabalhadores, a melhor comida", lá seus inferiores sentavam abaixo de cartazes com estes dizeres: "Aqui, os refratários, malandros e preguiçosos têm comida pior".[292] Os trabalhadores de melhor desempenho também eram soltos mais cedo: para cada três dias de trabalho em que se cumprisse 100% da meta, subtraía-se um dia da pena. Em agosto de 1933, quando enfim o canal foi completado (no prazo), libertaram-se 12.484 presos. Inúmeros outros ganharam medalhas e prêmios.[293] Um comemorou a soltura antecipada numa cerimônia em que houve até as tradicionais boas-vindas russas com pão e sal, enquanto os circunstantes gritavam: "Vivam os construtores do canal!" No calor do momento, o preso começou a beijar uma desconhecida. Os dois acabaram passando a noite às margens dó canal, juntos.[294]

A construção do Canal do Mar Branco foi notável por muitos aspectos: o caos acabrunhante, a pressa extrema e a importância da obra para Stalin. Mas a retórica usada para descrever o projeto era realmente única: o Canal do Mar Branco foi o primeiro, o último e o único projeto do Gulag que se expôs plenamente às luzes da propaganda soviética, tanto no país quanto no exterior. E o homem escolhido para explicar, promover è justificar o canal na URSS e no resto do mundo foi ninguém menos que Máximo Gorki.

Não se tratava de uma escolha surpreendente. Na época, Gorki era total e verdadeiramente parte da hierarquia stalinista. Depois que, em agosto de 1933, Stalin fez uma triunfante viagem de vapor pelo canal pronto, Gorki levou numa expedição semelhante 120 redatores e escritores soviéticos. Estes estavam, ou pelo menos diziam estar, tão empolgados com a viagem que mal conseguiam segurar as cadernetas de anotações: seus dedos "tremiam de assombro".[295] Aqueles que decidiram escrever um livro sobre a construção do canal também receberam farto encorajamento material, como o "esplêndido almoço à americana no Astoria" (grandioso hotel da era czarista em Leningrado) para comemorar a participação deles no projeto.[296]

Até para os baixos padrões do realismo socialista, o livro que emergiu desses esforços, O canal chamado Stalin (Kanal imeni Stalina), constitui extraordinário testemunho da corrupção dos escritores e intelectuais nas sociedades totalitárias. Da mesma forma que o ensaio de Gorki sobre Solovetsky, o livro justifica o injustificável, pretendendo não apenas documentar a transformação de presos em magníficos exemplos do Homo sovieticus, mas também criar um novo tipo de literatura. Embora O canal tenha sido prefaciado e concluído por Gorki, a responsabilidade pela maior parte da obra foi atribuída não a um indivíduo, mas a um coletivo de 36 escritores. Usando linguagem exuberante, hipérbole e suave maquiagem dos fatos, eles se esforçaram para captar o espírito da nova era. Uma das fotos do livro resume o tema: uma mulher, em uniforme de presa, empunha uma broca com grande determinação. Abaixo, a legenda: "Ao mudar a natureza, o homem muda a si mesmo". O contraste com a linguagem desapiedada da Comissão Yanson e com as prioridades econômicas da OGPU não poderia ser mais flagrante.

Para quem não está familiarizado com o gênero, alguns aspectos do realismo socialista de O canal chamado Stalin podem parecer um tanto surpreendentes. Para começo de conversa, o livro não tenta disfarçar de todo a verdade, já que descreve os problemas criados pela falta de tecnologia e de especialistas. Em certa altura, cita-se Matvei Berman, então comandante do Gulag. Berman diz a um subordinado seu da OGPU:

"Vocês receberão mil homens saudáveis. Eles foram condenados pelo governo soviético a vários períodos de prisão. E com essas pessoas que vocês devem cumprir a tarefa."

"Mas, permita-me perguntar, onde estão os guardas?", replica o homem da OGPU.

"Vocês deverão organizar os guardas no próprio local. Vocês mesmos os selecionarão."

"Muito bem, mas eu não entendo nada de petróleo e derivados." "Pegue o preso-engenheiro Dukhanovich para que seja seu assistente." "De que adianta isso? A especialidade dele é a forja a frio."

"Você quer o quê? Será que devemos condenar aos campos de concentração os mestres universitários que você exige? Esse artigo não existe no Código Penal. E não somos a empresa petrolífera."

Com essas palavras, Berman manda o agente da OGPU fazer o trabalho. "Uma coisa doida", observam os autores. Entretanto, em "um ou dois meses", o homem da OGPU e seus colegas já se gabam uns para os outros das façanhas que realizaram com seu grupo mambembe de presos. "Tenho um coronel que é o melhor lenhador de todo o campo", alardeia um deles. "Pois eu tenho um engenheiro militar cavando buracos - antes, havia sido condenado por desfalque", diz outro.[297]

A mensagem é clara: as condições materiais eram difíceis, e o material humano era bruto - mas, embora isto pareça inacreditável, a onisciente e infalível polícia política conseguiu transformá-los em bons cidadãos soviéticos. Desse modo, os fatos - a tecnologia primitiva, a falta de especialistas competentes - foram empregados para dar verossimilhança a um retrato da vida nos campos que, de resto, era fantasioso.

Boa parte do livro é gasta com histórias comoventes e quase religiosas de presos que se regeneraram pelo trabalho no canal. Muitos dos assim renascidos eram criminosos, mas nem todos. Ao contrário do ensaio de Gorki sobre Solovetsky, que negava ou minimizava a presença de presos políticos, Um canal chamado Stalin apresentava alguns astros da conversão política. Ainda apegado ao "preconceito de casta, o engenheiro Maslov, ex-sabotador", tenta "cobrir com ferro os sombrios e profundos processos de deturpação da consciência que se reiniciam continuamente em seu íntimo". O engenheiro Zubrik, outro ex-sabotador, mas oriundo da classe trabalhadora, "ganhou honestamente o direito de retornar ao seio da classe em que nasceu".[298]

O canal não foi de modo algum a única obra literária da época a louvar os poderes reabilitativos dos campos. Uma peça de Nikolai Pogodin, Aristocratas (Aristokraty, comédia sobre o Canal do Mar Branco), é outro exemplo notável, até porque retoma um tema bolchevique anterior: quanto os ladrões podem ser "adoráveis". Encenada pela primeira vez em dezembro de 1934, a peça - que viria a tornar-se um filme chamado Prisioneiros - ignora os kulaks e os presos políticos que constituíam o grosso dos condenados do canal; em vez disso, mostra as alegres travessuras dos bandidos do campo de concentração (os "aristocratas" do título), usando uma forma muito branda de gíria de meliantes. E verdade que há um ou dois momentos sinistros na peça. Num deles, um criminoso "ganha" uma garota num jogo de cartas, significando que o perdedor deve capturá-la e obrigá-la a submeter-se ao outro. Na peça, a garota escapa; na vida real, provavelmente não teria tanta sorte.

No final, porém, todos confessam seus crimes anteriores, regeneram-se e começam a trabalhar com entusiasmo. Entoa-se uma canção:

Eu era um bandido cruel, sim,

Eu furtava as pessoas, detestava trabalhar,

Minha vida era negra como a noite.

Mas aí eles me trouxeram para o canal,

E tudo o que passou parece não ter sido mais que um sonho ruim.

É como se eu tivesse renascido.

Quero trabalhar, e viver, e cantar...[299]

Na época, coisas desse gênero eram saudadas como uma forma nova e radical de teatro. Jerzy Gliksman, socialista polonês que assistiu a uma apresentação de Aristocratas em Moscou em 1935, descreveu a experiência:

Em vez de ficar no lugar de costume, o palco foi construído no centro do edifício, com a platéia sentada em círculo ao redor. O objetivo do diretor foi trazê-la para mais perto da ação, a fim de vencer a distância entre ator e espectador. Não havia cortinas, e os cenários eram extremamente simples, quase como no teatro elisabetano. [...] O tema - a vida num campo de trabalho - já empolgava de per si.[300]

Fora dos campos, esse tipo de literatura tinha dupla função. Por um lado, desempenhava um papel na incessante campanha para justificar a uma opinião pública estrangeira cética o rápido crescimento dos campos prisionais. Por outro, servia provavelmente para acalmar os cidadãos soviéticos, inquietos com a violência da coletivização e da industrialização, ao prometer-lhes um final feliz: até as vítimas da revolução stalinista teriam a chance de refazer a vida nos campos de trabalho.

A propaganda funcionou. Depois de ter visto Aristocratas, Gliksman pediu para visitar um campo de verdade. Um tanto surpreso, foi logo levado ao "campo-vitrine" de Bolshevo, não longe de Moscou. Posteriormente, recordaria "boas camas e lençóis brancos, ótimos banheiros, tudo imaculado". Também se encontrou com um grupo de presos mais jovens que lhe contaram as mesmas histórias edificantes que Pogodin e Gorki. Conheceu um ladrão que no momento estudava para tornar-se engenheiro; e um desordeiro que se deu conta de que agira mal e agora administrava o almoxarifado. "Como o mundo poderia ser belo!", sussurrou ao ouvido de Gliksman um cineasta francês. Infelizmente para Gliksman, cinco anos depois ele se viu no chão de um vagão de gado superlotado, em companhia de presos muito diferentes daqueles da peça de Pogodin, indo para um campo que não tinha nenhuma semelhança com Bolshevo.[301]

Nos campos, uma propaganda semelhante também desempenhava seu papel. Publicações do campo e "jornais murais" - folhas afixadas a quadros de avisos para que os presos as lessem - continham apenas com ligeiras diferenças de ênfase, o mesmo tipo de história e poema que era apresentado a quem vinha de fora do país. Típico disso era o jornal Perekovka ("Regeneração"), escrito e produzido pelos presos do Canal Moscou-Volga, projeto iniciado na esteira do "sucesso" do Canal do Mar Branco. Cheio de elogios aos trabalhadores-padrão e de descrições de seus privilégios ("Eles não precisam ficar em filas, pois garçonetes lhes levam a comida diretamente à mesa!"), o Perekovka gastava menos tempo que os autores de O canal chamado Stalin cantando loas às vantagens da transformação espiritual, e mais expondo os privilégios tangíveis que os presos poderiam ganhar se dessem mais duro.

Também não havia tanta empulhação a respeito da superioridade moral da Justiça soviética. A edição de 18 de janeiro de 1933 reproduziu um discurso feito por Lazar Kogan, um dos chefes do campo:

Não podemos julgar se alguém foi preso justa ou injustamente. Isso é o trabalho do promotor. [...] Vocês têm a obrigação de criar algo de valor para o Estado com seu trabalho, e nós temos a obrigação de fazer de vocês pessoas de valor para o Estado.[302]

No Perekovka, também era notável a seção de "reclamações", aberta e bastante franca. Os presos escreviam para reclamar das "brigas e palavrões" nos alojamentos femininos, por um lado, e da "ladainha de hinos religiosos", por outro; das metas impossíveis; da escassez de calçados ou roupas de baixo limpas; do açoitamento desnecessário dos cavalos; da feira do mercado negro no centro de Dmitrov, a sede do campo; e do mau uso da maquinaria ("não há máquinas ruins, apenas administradores ruins"). Posteriormente, desapareceria esse tipo de franqueza sobre os problemas dos campos, banido para a correspondência privada entre os inspetores dos campos e seus superiores em Moscou. No início da década de 1930, porém, tal glasnost era bastante comum, tanto fora quanto dentro dos campos. Fazia parte natural do esforço urgente e frenético para melhorar as condições de vida, melhorar os padrões de trabalho e - acima de tudo - acompanhar as exigências febris da liderança stalinista.[303]

Caminhando hoje pelas margens do Canal do Mar Branco, é difícil imaginar aquela atmosfera quase histérica. Visitei-o num dia pachorrento de agosto de 1999, na companhia de vários historiadores locais. Em Povenets, paramos rapidamente para olhar o pequeno monumento às vítimas, que traz uma inscrição curta: "Aos inocentes que morreram na construção do Canal do Mar Branco, 1931-1933". Enquanto estávamos ali, um de meus companheiros insistiu em fumar ritualmente um cigarro Belomor. Explicou que a marca, antes das mais populares na URSS, fora durante décadas o único outro monumento aos construtores do canal.

Ali perto, ficava uma velha trudposelok (colônia de degredados), agora praticamente vazia. As casas, grandes e outrora sólidas, feitas de madeira ao estilo da Carélia, tinham as portas e as janelas cobertas por tábuas. Várias dessas residências já começavam a desabar. Um morador, que viera originariamente da Bielo-Rússia (até falava um pouco de polonês), nos contou que tentara comprar uma delas alguns anos antes, mas que o governo local se recusara a vender. "Agora, está caindo aos pedaços", disse ele. Numa pequena horta atrás da casa, plantava abóbora, pepino e amora. Ofereceu-nos licor caseiro. Com a horta e a aposentadoria de 550 rublos (na época, cerca de 22 dólares por mês), disse ter o suficiente para ir vivendo. Naturalmente, não havia trabalho no Canal do Mar Branco.

Não era de espantar: ao longo do canal, meninos nadavam e atiravam pedras. Vacas vadeavam a água escura e rasa, e o mato crescia nas trincas do concreto. Junto a uma das eclusas, numa cabine de cortinas cor-de-rosa (ainda com as colunas stalinistas originais do lado de fora), a mulher solitária que controlava a subida e a descida das águas nos contou que, por dia, talvez passassem sete embarcações, quando muito; freqüentemente, eram apenas três ou quatro. Isso era mais do que Soljenitsin tinha visto em 1966, quando permaneceu um dia inteiro ao lado do canal e contou só duas barcaças, ambas transportando lenha. Então como hoje, a maioria das mercadorias seguia de trem - e, como um trabalhador do canal contou a Soljenitsin, a hidrovia é tão rasa que “nem submarinos conseguem passar com propulsão própria; têm de ser carregados em barcaças".[304]

No fim das contas, a rota de navegação do Báltico ao mar Branco parecia não ter sido tão urgentemente necessária.

 

  1. OS CAMPOS SE EXPANDEM

 

Avançamos, e atrás de nós

Toda a brigada de trabalho caminha alegremente conosco.

A nossa frente, a vitória dos stakhanovistas

Abre um novo caminho...

Pois não conhecemos mais o velho caminho.

De nossas masmorras atendemos ao chamado

Pelo caminho do triunfo stakhanovista.

Ao acreditarmos, caminhamos para uma vida de liberdade...

Do periódico Kuznitsa, impresso no Sazlag, 1936.[305]

 

Politicamente, o Canal do Mar Branco foi o projeto mais importante do Gulag na época. Graças ao envolvimento pessoal de Stalin, não se pouparam em sua construção os recursos existentes. Uma propaganda exuberante também garantiu que o término bem-sucedido da obra fosse amplamente alardeado. No entanto, o canal não era representativo dos novos projetos do Gulag, dos quais não seria nem o primeiro, nem o maior.

De fato, mesmo antes de iniciada a construção do canal, a OGPU já começara em silêncio a implementar o trabalho prisional por todo o país, com muito menos estardalhaço e propaganda. Em meados de 1930, o sistema Gulag já tinha à disposição 300 mil presos, espalhados por cerca de uma dúzia de complexos de campos e algumas instalações menores. Puseram-se 15 mil pessoas para trabalhar no Dallag, um novo campo no Extremo Oriente. Mais de 20 mil estavam construindo e operando indústrias químicas no Vishlag, um campo organizado na sede da divisão Vishersky da Slon, no lado oeste dos montes Urais. No Siblag, no oeste da Sibéria, os detentos construíam as ferrovias para o norte, faziam tijolos e derrubavam árvores. Os 40 mil presos da Slon, por sua vez, trabalhavam abrindo estradas, cortando madeira para exportação e processando 40% do pescado do mar Branco.[306]

Diferentemente do que ocorrera com o Canal do Mar Branco, esses novos campos não eram para propaganda. Embora decerto tivessem maior importância econômica para a URSS, nenhuma equipe de redatores foi despachada para descrevê-los. A existência deles não era (ainda) completamente secreta, mas tampouco se fazia publicidade: as "reais" conquistas do Gulag não eram para consumo externo, nem mesmo para consumo interno.

À medida que os campos se expandiam, a natureza da OGPU também mudava. Assim como antes, a polícia secreta soviética continuava a espionar os inimigos do regime, interrogar suspeitos de dissidências e desmascarar "complôs" e "conspirações". A partir de 1929, ela também assumiu parte da responsabilidade pelo desenvolvimento econômico da URSS. Ao longo da década seguinte, seria até uma espécie de colonizadora, não raro organizando a busca e a exploração dos recursos naturais da URSS. Planejou e equipou expedições geológicas que prospectaram carvão, petróleo, ouro, níquel e outros minerais que jaziam embaixo da tundra congelada nas regiões árticas e subárticas do extremo norte soviético. Decidia quais das enormes florestas seriam as próximas a ser abatidas e transformadas em valiosas exportações de madeira bruta. A fim de transportar esses recursos para as principais cidades e centros industriais da URSS, estabeleceu uma vasta rede de conexões rodoviárias e ferroviárias, criando um sistema rudimentar de transportes através de milhares de quilômetros de áreas selvagens e desabitadas. De quando em quando, seus membros até participavam desses empreendimentos, marchando pela tundra, trajados com pesados casacos de peles e espessas botas, informando suas descobertas por telegrama a Moscou.

Os presos, assim como seus captores, ganharam novos papéis. Durante toda a primeira metade da década de 1930, embora alguns continuassem a penar atrás do arame farpado, minerando carvão ou cavando fossas, os condenados também remavam em canoas por rios ao norte do Círculo Ártico, carregavam o equipamento para as pesquisas geológicas e abriam o chão para novas minas de carvão e poços de petróleo. Em novos campos, erguiam os alojamentos, desenrolavam o arame farpado e levantavam as torres de vigia. Construíam as refinarias necessárias para o processamento dos recursos naturais, assentavam as estacas para as ferrovias e despejavam o cimento para as estradas. Acabavam também se estabelecendo nos territórios recém-explorados, povoando os ermos virgens.

Depois, historiadores soviéticos designariam liricamente esse episódio da história de seu país como "o desbravamento do extremo norte, e é verdade que ele de fato representou uma verdadeira ruptura com o passado. Mesmo nas últimas décadas do governo czarista, quando uma revolução industrial tardia enfim pipocava pela Rússia, ninguém tentara explorar e povoar com aquela intensidade as regiões do extremo norte. O clima era rigoroso demais; o sofrimento humano potencial, grande demais; a tecnologia russa, primitiva demais. O regime soviético ligava muito menos para essas preocupações. Embora sua tecnologia não fosse muito melhor, ele tinha pouca consideração pela vida das pessoas que enviava para fazer o "desbravamento". Se algumas morressem... bem, podiam-se achar outras.

As tragédias eram muitas, sobretudo no início dessa nova época. Há pouco tempo, a veracidade de um episódio particularmente horripilante, que durante muito tempo fora parte do folclore dos sobreviventes dos campos, viu-se confirmada por um documento encontrado nos arquivos de Novossibirsk. Assinado por um funcionário do Comitê do Partido em Narym, na Sibéria ocidental, e enviado à atenção pessoal de Stalin em maio de 1933, descreve com precisão a chegada à ilha de Nazino, no rio Ob, de um grupo de camponeses desterrados, descritos como "elementos retrógrados". Os camponeses eram degredados, e, como tais, esperava-se que se estabelecessem na terra e, presumivelmente, a lavrassem:

O primeiro comboio trazia 5.070 pessoas, e o segundo, 1.044. Ao todo, 6.114. As condições de transporte eram chocantes: a pouca comida disponível não estava em condições de consumo, e os deportados ficavam apinhados em espaços nos quais o ar quase não circulava. [...] O resultado foi uma mortalidade diária de 35 a quarenta pessoas. Contudo, essas condições de vida eram luxuosas se comparadas ao que aguardava os deportados em Nazino. [....] A ilha é um lugar totalmente desabitado, desprovido de povoações de qualquer tipo. [...] Não havia ferramentas, sementes nem comida. Foi assim que começou a nova vida deles. Em 19 de maio, no dia seguinte à chegada do primeiro comboio, recomeçou a nevar, e o vento ficou mais forte. Famintos, emaciados após meses de alimentação insuficiente, sem abrigo e sem ferramentas [...], estavam presos numa armadilha. Nem sequer conseguiam acender fogueiras para espantar o frio. Começaram a morrer em número cada vez maior. [...]

No primeiro dia, enterraram-se 295 pessoas. Foi somente no quarto ou quinto dia depois da chegada do comboio à ilha que as autoridades enviaram de barco um pouco de farinha, não mais que algumas libras por cabeça. Depois de recebida a mísera ração, as pessoas corriam para a margem e tentavam misturar um pouco da farinha com água, usando seus chapéus, suas calças ou seus casacos. A maioria simplesmente tentou comê-la assim mesmo, e alguns engasgaram até a morte. Essa minúscula quantidade de farinha foi a única comida que os deportados receberam durante toda a estada na ilha. [...]

O funcionário do Partido contava que, três meses depois, em 20 de agosto já haviam perecido quase 4 mil dos 6.114 "colonos" originais. Os sobreviventes só não tiveram o mesmo destino porque comeram a carne dos mortos. Segundo um preso que encontrou alguns desses sobreviventes na prisão de Tomsk, eles pareciam "cadáveres ambulantes", e todos estavam detidos - acusados de canibalismo.[307]

Mesmo quando a mortandade não era tão horripilante, as condições de vida em muitos daqueles projetos iniciais do Gulag mais conhecidos podiam ser quase tão atrozes. O Bamlag, um campo organizado para a construção de uma ferrovia do lago Baikal ao rio Amur, no Extremo Oriente russo (parte do sistema da Transiberiana), era exemplo notável de quanto as coisas podiam dar errado por simples falta de planejamento. Assim como no Canal do Mar Branco, a ferrovia se construiu muito às pressas, sem nenhum preparativo. Os planejadores do campo fizeram o desbravamento, o projeto e a construção ao mesmo tempo; as obras começaram antes de concluído o levantamento topográfico. Os desbravadores foram obrigados a elaborar em menos de quatro meses seu relatório sobre aquela rota de 2 mil quilômetros, sem calçados, sem trajes e sem instrumentos adequados. Os mapas existentes eram precários, e, como resultado, cometeram-se erros dispendiosos. De acordo com um sobrevivente, "dois grupos de trabalhadores [cada um fazendo o levantamento de um trecho diferente da linha] descobriram que não poderiam encontrar-se e terminar o trabalho, porque os dois rios ao longo dos quais estavam caminhando só se encontravam nos mapas: na realidade, ficavam longe um do outro".[308]

Tão logo se iniciou o trabalho, comboios começaram a chegar sem intervalo à sede do campo, na cidade de Svobodny, nome que significa "Liberdade". Entre janeiro de 1933 e janeiro de 1936, o número de presos subiu de uns poucos milhares para mais de 180 mil. Muitos já estavam fracos na chegada, descalços e inadequadamente vestidos, sofrendo de escorbuto, sífilis, disenteria; entre eles, havia sobreviventes das epidemias de fome que tinham varrido a zona rural da URSS no início da década de 1930. O campo estava totalmente despreparado. Os ocupantes de qualquer comboio que chegasse eram postos em alojamentos frios e escuros e recebiam pão coberto de poeira. Os comandantes do Bamlag não conseguiam enfrentar o caos, conforme reconheciam em relatórios que mandavam a Moscou, e estavam particularmente mal equipados para lidar com presos debilitados. Como resultado, os demasiado enfermos para trabalhar eram simplesmente alimentados com rações "disciplinares" e deixados para morrer de inanição. Todos os integrantes de um comboio de 29 pessoas morreram num período de 37 dias após a chegada.[309] Até a conclusão da ferrovia, é bem possível que tenham morrido dezenas de milhares de presos.

Histórias semelhantes se repetiam por todo o país. Em 1929, no canteiro de obras ferroviárias do Gulag no Sevlag (a nordeste de Arcangel), os engenheiros determinaram que o número de presos designados para o projeto precisaria ser multiplicado por seis. Entre abril e outubro daquele ano, comboios de cativos começaram a chegar conforme o combinado - e não encontraram nada. Um preso recordou:

Não existia alojamento nem vila. Havia tendas, ao lado, para os guardas e o equipamento. Não eram muitas pessoas, talvez umas 1.500. Na maioria, camponeses de meia-idade, antigos kulaks. E criminosos. Não havia ninguém que parecesse ser da intelligentsia.[310]

Mas, embora todos os complexos de campos criados no início da década de 1930 fossem, só para começo de conversa, desorganizados - e todos estivessem despreparados para receber os presos debilitados que chegavam das áreas assoladas pela fome -, nem todos decaíram no caos assassino. Para alguns, havendo o conjunto certo de circunstâncias (condições relativamente favoráveis no local, combinadas com apoio forte de Moscou), foi possível crescer. Com rapidez surpreendente, desenvolveram estruturas burocráticas mais estáveis, construíram edificações mais permanentes e até deram origem a uma elite local da NKVD. Uns poucos acabariam ocupando enormes faixas de território, transformando regiões inteiras do país em vastas prisões. Dos campos fundados naquela época, dois - a Expedição Ukhtinskaya e o Truste Dalstroi - alcançariam o tamanho e o status de impérios industriais. Suas origens merecem exame mais detalhado.

A um passageiro desatento, a viagem de automóvel pela estrada de concreto caindo aos pedaços que vai desde Syktyvkar, capital administrativa da República Komi, até Ukhta, um dos principais centros industriais daquela república, pareceria não oferecer muita coisa de interessante. Essa estrada de duzentos quilômetros, cujo estado de conservação piora em alguns trechos, atravessa infindáveis pinheirais e banhados. Embora se cruzem alguns rios, a paisagem não é, em geral, digna de nota: trata-se da taiga, a impressionantemente monótona paisagem subártica pela qual Komi (e de fato todo o norte da Rússia) é mais conhecida.

Ainda que a paisagem não seja espetacular, uma visão mais aproximada revela algumas coisas estranhas. Em certos lugares, caso se saiba para onde olhar, há indentações no terreno logo à beira da estrada. São os únicos vestígios do campo que outrora acompanhava toda a estrada e dos grupos de presos que a construíram. Já que os canteiros de obras eram temporários, os presos ficavam abrigados não em alojamentos, mas em zemlyanki, buracos feitos na terra - donde aquelas marcas no chão.

Em outro trecho da estrada, estão os restos de um tipo mais substancial de campo, antes ligado a uma pequena jazida petrolífera. Mato e ervas daninhas cobrem hoje o local, mas é fácil afastá-los para deixar à mostra tábuas apodrecidas (possivelmente preservadas pelo petróleo que saía das botas dos presos) e pedaços de arame farpado. Aqui não há nenhum monumento, embora exista um mais adiante na estrada, em Bograzdino, campo de trânsito que chegou a acomodar 25 mil pessoas. Dele não ficou nenhum vestígio. Em outro ponto ainda à margem da estrada, atrás de um moderno posto de gasolina da Lukoil, uma empresa russa da atualidade, ergue-se uma velha torre de vigia de madeira, cercada de sucata e pedaços de arame enferrujado.

Prossiga para Ukhta na companhia de alguém que conheça bem a cidade, e assim a história oculta da cidade logo se revelará. Todas as estradas que levam a Ukhta foram construídas por presos, tal qual todos os prédios de escritórios e de apartamentos da região central. No próprio coração da cidade, há um parque planejado e construído por arquitetos aprisionados; um teatro onde atores presos se apresentavam; e sólidas casas de madeira onde viveram os comandantes do campo. Hoje, os executivos da Gazprom (outra nova companhia russa) moram em edifícios modernos na mesma rua arborizada.

Mas Ukhta não é um caso único na República Komi. Embora a principio seja difícil vê-los, indícios do Gulag podem ser achados por toda Komi, essa vasta região de taiga e tundra que fica a nordeste de São Petersburgo e a oeste dos Urais. Presos planejaram e erigiram todas as principais cidades da república - não apenas Ukhta, mas também Syktyvkar, Pechora, Vorkuta e Inta. Presos construíram as fer-rovias e estradas de Komi, bem como sua primeira infra-estrutura industrial. Para os condenados que lá eram enviados nas décadas de 1940 e 50, Komi parecia ser tão-somente um vasto campo de concentração - e era mesmo. Muitas de suas aldeias ainda são chamadas localmente pelos nomes da era stalinista: "Chinatown", por exemplo, onde se manteve um grupo de presos chineses; ou "Berlim", antes habitada por prisioneiros de guerra alemães.

As origens dessa vasta república de prisões remontam a uma das primeiras expedições da OGPU, a Ukhtinskaya, que partiu em 1929 para explorar o que era um ermo. Pelos padrões soviéticos, a Expedição Ukhtinskaya foi relativamente bem preparada. Tinha uma pletora de especialistas, a maioria dos quais já era prisioneira do sistema Solovetsky: só em 1928, 68 peritos em mineração haviam sido enviados a Slon, vítimas das campanhas daquele ano contra os "destruidores" e "sabotadores" que supostamente entravavam o esforço de industrialização da URSS.[311]

Em novembro de 1928, numa coincidência misteriosamente feliz, a OGPU também prendeu o destacado geólogo N. Tikhonovich. Depois que o jogaram na prisão moscovita de Butyrka, não conduziram um interrogatório comum. Em vez disso, o levaram a uma reunião de planejamento. Tikhonovich recordaria que,, sem perder tempo com preâmbulos, um grupo de oito pessoas (ninguém lhe disse quem eram) lhe perguntou à queima-roupa como preparar uma expedição a Komi. Que indumentária ele levaria se fosse lá? Quantas provisões? Que ferramentas? Que transporte? Tikhonovich, que estivera pela primeira vez na região em 1900, propôs duas rotas. Os geólogos poderiam ir por terra, a pé e a cavalo, sobre a lama e as florestas da taiga desabitada, até a aldeia de Syktyvkar, na época a maior da região. Ou poderiam ir de barco, saindo do porto de Arcangel, no mar Branco, navegando ao longo da costa norte até a foz do Pechora e continuando para o interior pelos afluentes desse rio. Tikhonovich recomendou a segunda rota, salientando que os barcos poderiam transportar mais equipamento pesado. Seguindo suas recomendações, a expedição seguiu por mar. Tikhonovich, ainda preso, tornou-se seu geólogo-chefe.

Não se perdeu tempo nem se poupou despesa, pois a liderança soviética considerava a expedição uma prioridade urgente. Em maio, a administração do Gulag em Moscou nomeou dois chefes de alto escalão da polícia secreta para liderarem o grupo: E. P. Skaya, ex-responsável pela segurança no Instituto Smolny - primeiro quartel-general de Lênin durante a Revolução - e depois responsável pela segurança no próprio Kremlin; e S. F. Sidorov, o mais importante planejador econômico da OGPU. Quase ao mesmo tempo, esses líderes selecionaram sua "mão-de-obra": 139 dos detentos mais fortes e saudáveis do campo de trânsito da Slon em Kem, entre eles presos políticos, kulaks e criminosos. Após mais dois meses de preparativos, estavam prontos. Em 5 de julho de 1929, às sete da manhã, os presos começaram a embarcar equipamento no Gleb Boky, o vapor da Slon. Zarparam menos de 24 horas depois.

Não é de surpreender que a expedição náutica tenha encontrado muitos obstáculos. Vários dos guardas parecem ter fraquejado, e um até fugiu durante uma escala em Arcangel. Pequenos grupos de presos também conseguiram escafeder-se em vários pontos ao longo do trajeto. Quando a expedição enfim chegou à foz do Pechora, foi difícil achar guias locais. Mesmo se fossem pagos, os nativos de Komi não queriam ter nada que ver com os presos nem com a polícia secreta e se negaram a ajudar o vapor a navegar rio acima. Apesar disso, passadas sete semanas, o navio alcançou seu destino. Em 21 de agosto, a expedição estabeleceu seu acampamento-base na aldeia de Chibyu - depois rebatizada Ukhta.

Após a extenuante viagem, o estado de espírito geral deve ter sido excepcionalmente sombrio. Eles haviam viajado uma grande distancia - e aonde chegaram? Chibyu oferecia pouco em matéria de conforto. Um dos presos especialistas, um geógrafo chamado Kulevsky, lembrou sua primeira visão do lugar:

O coração se apertava ao ver a paisagem selvagem e vazia; a torre de vigia absurdamente grande, negra, solitária; as duas miseráveis caba-nas; a taiga; a lama.[312]

Kulevsky teria pouca folga para poder refletir mais. No final de agosto, sopros do outono já estavam no ar. Havia pouco tempo disponível. Tão logo chegaram, os presos começaram a labutar doze horas por dia, construindo o acampamento e os locais de trabalho. Os geólogos partiram a fim encontrar os melhores lugares para procurar petróleo. No outono, chegaram mais especialistas. Também chegaram novos comboios de presos, primeiro uma vez por mês e depois uma vez por semana, durante toda a "temporada" de 1930. Ao final do primeiro ano da expedição, o número de presos aumentara para quase mil.

Apesar do planejamento prévio, as condições naqueles primeiros tempos, tanto para os presos quanto para os degredados, eram horrendas, como o eram em toda a parte. A maioria tinha de viver em tendas pois não havia barracões. Tampouco havia roupas e botas de inverno suficientes, e a comida estava longe de ser bastante. Chegavam farinha e carne em quantidades menores do que haviam sido pedidas, e o mesmo acontecia com os remédios. O número de presos doentes e enfraquecidos aumentou, como reconheceram os líderes da expedição num relatório que enviaram depois. O isolamento não era menos difícil de suportar. Esses novos campos ficavam tão longe da civilização - tão longe de estradas, para nem falarmos de ferrovias -, que não se usou arame farpado em Komi até 1937. Fugir era considerado inútil.

No entanto, continuavam chegando presos, e expedições suplementares continuavam partindo do acampamento-base em Ukhta. Se tivesse sucesso, cada uma delas fundava, por sua vez, outro acampamento-base (lagpunkt), às vezes em lugares que eram bastante remotos, a vários dias ou semanas de caminhada de Ukhta. A partir dali, estabeleciam-se novos subcampos, para construir estradas ou fazendas coletivas que atendessem às necessidades dos presos. Dessa forma, os campos se espalharam com rapidez, como erva daninha, pelas florestas vazias de Komi.

Algumas das expedições se mostraram apenas temporárias. Foi esse o destino de uma das primeiras, que, no verão de 1930, partiu de Ukhta para a ilha de Vaigach, no oceano Ártico. Expedições geológicas anteriores já haviam encontrado depósitos de chumbo e zinco na ilha, embora a Expedição Vaigach, como viria a ser conhecida, também estivesse bem suprida de presos-geólogos. Alguns destes tiveram desempenho tão exemplar que a OGPU os recompensou: receberam permissão para trazer as esposas e filhos para ficar com eles em Vaigach. O lugar era tão remoto que os comandantes do campo pareciam não se preocupar com fugas e permitiam que os presos andassem por onde quisessem, na companhia de outros condenados ou de trabalhadores livres, sem necessidade de permissões ou passes especiais. A fim de encorajar o "trabalho-padrão no Ártico", Matvei Berman, então o chefe do Gulag, concedeu aos presos de Vaigach dois dias comutados das penas para cada dia de trabalho.[313] Em 1934, porém, a mina se encheu de água, e no ano seguinte a OGPU retirou da ilha os presos e o equipamento.[314]

Outras expedições se revelariam mais permanentes. Em 1931, um grupo de 23 partiu de Ukhta para o norte, pelos rios do interior, a fim de iniciar as escavações numa enorme jazida de carvão - a bacia carbonífera de Vorkuta -, que, no ano anterior, fora descoberta na tundra ártica do norte de Komi. Como em todas essas expedições, os geólogos mostraram o caminho, os presos tripularam os barcos, e um pequeno contingente da OGPU comandou a operação, remando e marchando através dos enxames de insetos que habitam a tundra nos meses de verão Passaram as primeiras noites em campo aberto; depois, de algum modo montaram acampamento, sobreviveram ao inverno e construíram, na primavera seguinte, uma minara Rudnik 1.

 

Ukhtpechlag, República Komi, 1937

A rota da Expedição Ukhtinskaya, República Komi, 1929

Usando picaretas, pás e carroças de madeira, sem nenhum equipamento mecanizado, os presos começaram a extrair carvão. Em apenas seis anos, a Rudnik 1 cresceria até se tornar a cidade de Vorkuta e a sede do Vorkutlag, um dos maiores e mais duros campos de todo o sistema Gulag. Em 1938, o Vorkutlag já contava 15 mil presos e produzira 188.206 toneladas de carvão.[315]

Em termos estritos, nem todos os novos habitantes de Komi eram presos. A partir de 1929, as autoridades também começaram a enviar "degredados especiais" para a região. De início, eram quase todos kulaks, que chegavam com as mulheres e filhos, e esperava-se que começassem a viver da terra. O próprio Yagoda declarara que se deveria conceder aos degredados "tempo livre" para que cultivassem hortas, criassem porcos, pescassem e construíssem suas casas: "De início, viverão das rações de nosso campo; depois, à própria custa".[316] Na realidade, embora tudo isso pareça bem róseo, quase 5 mil dessas famílias de degredados (mais de 16 mil pessoas) chegaram em 1930 e, como de hábito, não encontraram quase nada. Até novembro daquele ano, construíram-se 268 barracões, quando pelo menos setecentos teriam sido necessários. Três ou quatro famílias dividiam cada cômodo. Não havia quantidade suficiente nem de comida, nem de roupas, nem de botas de inverno. As aldeias dos degredados não tinham banhos, estradas, serviços postais nem cabos telefônicos.[317]

Embora alguns tenham morrido e muitos outros tenham tentado fugir (344 já no final de julho), os degredados de Komi se tornaram extensão permanente do sistema de campos da região. Posteriormente, ondas repressivas levaram mais deles para lá, em especial poloneses e alemães. Donde as referências locais a algumas das aldeias de Komi como "Berlim". Os degredados não viviam cercados pelo arame farpado, mas tinham as mesmas tarefas que os presos, às vezes nos mesmos lugares. Em 1940, um campo madeireiro foi transformado em aldeia de degredo - prova de que, de certa maneira, os dois grupos eram intercambiáveis. Muitos degredados também acabariam trabalhando como guardas ou administradores dos campos.[318]

Com o tempo, esse crescimento geográfico se refletiria na nomenclatura dos campos. Em 1931, a Expedição Ukhtinskaya foi rebatizada Campo de Trabalho Correcional Ukhto-Pechorsky, ou Ukhtpechlag. Ao longo das duas décadas subseqüentes, o próprio Ukhtpechlag seria rebatizado (e reorganizado e dividido) muitas vezes mais, para refletir sua geografia mutável e seu império e burocracia crescentes. Aliás, no final da década, o Ukhtpechlag não seria mais um mero campo prisional. Ele dera origem a toda uma rede de campos, duas dúzias ao todo, incluindo o Ukhtpechlag e o Ukhtizhemlag (petróleo e carvão), o Ustvymlag (madeira), Vorkuta e Inta (mineração de carvão) e o Sevzheldorlag (ferrovia).[319]

No decorrer dos anos seguintes, o Ukhtpechlag e seus descendentes também se tornaram mais densos, adquirindo novas instituições e novos edifícios de acordo com suas necessidades sempre maiores. Precisando de hospitais, os administradores dos campos os construíam e ainda implantavam sistemas para treinar presos como farmacêuticos e enfermeiros. Precisando de comida, estabeleciam suas fazendas coletivas, seus armazéns e seus sistemas de distribuição. Precisando de eletricidade, instalavam usinas de força. Precisando de material de construção, criavam olarias.

Precisando de trabalhadores qualificados, treinaram os que tinham. Boa parte da mão-de-obra que fora kulak era analfabeta ou semi-alfabetizada, o que acarretava enormes problemas quando se lidava com projetos de relativa complexidade técnica. Assim, a administração montou escolas técnicas, que por sua vez exigiam novos edifícios e novos quadros: professores de matemática e física, bem como "instrutores políticos" para supervisionar o trabalho desses docentes.[320] Na década de 1940, Vorkuta - uma cidade construída sobre o permafrost, onde todo ano as estradas tinham que ser repavimentadas e as tubulações, consertadas - já ganhara um instituto geológico, uma universidade, teatros e cinemas, teatros de marionetes, piscinas e creches.

No entanto, se a expansão do Ukhtpechlag não era muito divulgada, tampouco se fazia a esmo. Sem dúvida, os comandantes do campo desejavam que o projeto crescesse, e seu prestígio pessoal junto com ele. A necessidade premente, e não o planejamento central levava à criação de muitos novos departamentos no campo. Mas havia clara simbiose entre as necessidades do governo soviético (um lugar onde despejar seus inimigos) e as necessidades da região (mais gente para cortar árvores). Em 1930, por exemplo, quando Moscou escreveu oferecendo-se para enviar colonos degredados, os líderes locais adoraram.[321] O destino do campo também foi discutido nos escalões mais altos. Vale a pena observar que, em novembro de 1932, o Politburo (com Stalin presente) dedicou a maior parte de uma sessão a discutir o estado corrente e os planos futuros para o Ukhtpechlag, debatendo com surpreendente minúcia as perspectivas e o abastecimento do campo. A julgar pela ata da sessão, parece que o Politburo tomava todas as decisões, ou pelo menos aprovava tudo o que fosse de alguma importância: quais minas o campo devia explorar, quais ferrovias devia construir, de quantos tratores, carros e barcos precisava, quantas famílias de degredados conseguia absorver. O Politburo também alocou recursos para construir o campo: mais de 26 milhões de rublos.[322]

Não pode ter sido por acaso que, nos três anos após essa decisão, o número de presos tenha quase quadruplicado, dos 4.797 de meados de 1930 para os 17.852 de meados de 1933.[323] No primeiríssimo escalão da hierarquia soviética, alguém queria muito que o Ukhtpechlag crescesse. Considerando o poder e o prestígio desse alguém, só podia tratar-se do próprio Stalin.

Da mesma maneira que, na memória popular, Auschwitz se tornou o campo que simboliza todos os outros campos nazistas, a palavra "Kolyma" veio a significar as mais severas agruras do Gulag. Um historiador escreveu: "Kolyma é um rio, uma cadeia de montanhas, uma região e uma metáfora".[324] Rica em minerais (e sobretudo rica em ouro), a vasta região de Kolyma, no extremo nordeste da Sibéria, junto ao Pacífico, é provavelmente a mais inóspita da Rússia. Kolyma é mais fria que Komi (no inverno, as temperaturas regularmente caem abaixo de 49 graus Celsius negativos, o que a torna ainda mais remota).[325] Para chegarem aos campos de Kolyma, os presos percorriam de trem toda a extensão da URSS (às vezes, a viagem durava três meses), até Vladivostok. O resto do trajeto se fazia de barco, seguindo para o norte ao largo do Japão, atravessando o mar de Okhotsk e aportando em Magadan, porta de entrada para o vale do rio Kolyma.

O primeiro comandante de Kolyma foi uma das figuras mais exuberantes da história do Gulag. Eduard Berzin, um velho bolchevique, comandara a Primeira Divisão de Fuzileiros Letões, que guardava o Kremlin em 1918. Depois, ajudara a esmagar os social-revolucionários (opositores socialistas de Lênin) e a desmascarar o "complô britânico" de Bruce Lockhart.[326] Em 1926, Stalin incumbiu Berzin de organizar o Vishlag, um dos primeiros campos em larga escala. Ele desempenhou sua tarefa com enorme entusiasmo, inspirando um historiador do Vishlag a falar de seu reinado ali como o auge do "período romântico" do Gulag.[327]

A OGPU construiu o Vishlag ao mesmo tempo que o Canal do Mar Branco, e Berzin parece ter aprovado totalmente as idéias de Gorki sobre a reabilitação de presos (ou pelo menos ter-lhes dado entusiástico apoio da boca para fora). Resplandecente de boa vontade paternalista, Berzin oferecia a seus presos cinemas, clubes de debates, bibliotecas e refeitórios "ao estilo restaurante". Plantou jardins, inclusive com chafarizes e um pequeno zoológico. Também pagava salários regulares aos presos e implementava a mesma política de "soltura antecipada por bom trabalho" que fora adotada pelos comandantes do Canal do Mar Branco. Nem todos aproveitavam esses benefícios: os presos que fossem considerados trabalhadores medíocres, ou que simplesmente não tivessem sorte, podiam ser enviados para um dos muitos lagpunkts madeireiros do Vishlag na taiga, onde as condições eram ruins, as taxas de mortalidade se mostravam mais altas e presos acabavam torturados e até assassinados sem alarde.[328]

Ainda assim, pelo menos a intenção de Berzin era que seu campo parecesse uma instituição honrada. À primeira vista, tudo isso o tornava uma escolha estranha para tornar-se o primeiro chefe da Administração de Construção do Extremo Norte (Dalstroi), o "traste", ou pseudo-sociedade anônima, que desenvolveria a região de Kolyma, pois não havia nada de especialmente romântico nem idealista na fundação da Dalstroi. O interesse de Stalin na região datava de 1926, quando mandou um engenheiro aos Estados Unidos para estudar técnicas de mineração.[329] Depois, entre 20 de agosto de 1931 e 16 de março de 1932, o Politburo discutiu a geologia e a geografia de Kolyma nada menos que onze vezes - com a freqüente participação de Stalin nas discussões. Assim como as deliberações da Comissão Yanson quando se organizara o Gulag, o Politburo conduziu esses debates, nas palavras do historiador David Nordlander, "não com a retórica idealista da construção do socialismo, e sim com a linguagem prática da prioridade e do retorno financeiros". Stalin dedicou sua correspondência posterior com Berzin a discutir a produtividade prisional, as cotas e a produção, nunca mencionando os ideais de reabilitação dos detentos.[330]

 

Kolyma, 1937

Por outro lado, o talento de Berzin para criar uma imagem pública auspiciosa pode ter sido exatamente o que a liderança soviética queria pois, embora a Dalstroi viesse a ser diretamente absorvida pela administração do Gulag, no início o truste sempre era mencionado, em público, como entidade distinta, uma espécie de conglomerado comercial, que nada tinha que ver com o Gulag. Sem alarde, as autoridades fundaram o Sewostlag, um campo do Gulag que "alugava" condenados para o Truste Dalstroi. Na prática, as duas instituições nunca concorreram entre si. O chefe da Dalstroi era também o chefe do Sewostlag, e ninguém tinha dúvidas quanto a isso. No papel, porém, mantinham-se separados; e, em público, pareciam ser entidades diferentes.[331]

Havia certa lógica nesse arranjo. Para começo de conversa, a Dalstroi precisava atrair voluntários, em especial engenheiros e mulheres casadouras - sempre havia escassez de uma e outra coisa em Kolyma -, e Berzin promoveu muitas campanhas de recrutamento, tentando convencer "trabalhadores livres" a emigrarem para a região e até montando escritórios em Moscou, Leningrado, Odessa, Rostov e Novossibirsk.[332] Essa talvez já fosse razão suficiente para Stalin e Berzin terem desejado evitar uma identificação muito próxima de Kolyma com o Gulag, temendo que a ligação pudesse afugentar potenciais recrutas. Embora disto não haja nenhuma prova direta, tais maquinações podem também se ter destinado a consumo externo. Assim como a madeira soviética, o ouro de Kolyma seria vendido direto ao Ocidente, em troca de tecnologia e máquinas de que se necessitava desesperadamente. Trata-se de uma circunstância que pode ajudar a explicar por que a liderança soviética queria fazer que as minas de ouro de Kolyma parecessem, tanto quanto possível, um empreendimento econômico "normal". Um boicote ao ouro teria sido muito mais danoso do que um boicote à madeira.

Em todo o caso, o envolvimento pessoal de Stalin com Kolyma foi bastante intenso desde o início. Em 1932, ele chegou a exigir relatórios diários sobre a produção de ouro; e, como já observamos, interessava-se pessoalmente pelos detalhes dos projetos de exploração (e do cumprimento de cotas) da Dalstroi. Mandava inspetores para fiscalizar os campos e exigia que os líderes da Dalstroi viajassem com fre-qúencia para Moscou. Quando o Politburo alocava fundos ao truste, Stalin também dava instruções precisas de como gastá-los, tal como fazia com o Ukhtpechlag.[333]

No entanto, a "independência" da Dalstroi não era de todo fictícia. Embora se reportasse a Stalin, Berzin também conseguiu deixar sua marca em Kolyma, tanto que a "era Berzin" seria depois lembrada com alguma nostalgia. Ele parece ter compreendido sua missão de maneira muito simples: tinha por tarefa fazer os presos extraírem tanto ouro quanto possível. Não estava interessádo em matá-los de inanição assassiná-los nem puni-los - só os números da produção importavam Portanto, sob a administração do primeiro chefe da Dalstroi, as condições não eram nem de longe tão duras quanto viriam a tornar-se, e os presos não passavam tanta fome. Em parte como resultado disso, a produção aurífera de Kolyma aumentou oito vezes nos primeiros dois anos de operação da Dalstroi.[334]

E verdade que os primeiros anos foram repletos do mesmo caos e da mesma desorganização que predominavam em outros lugares. Em 1932, estavam trabalhando na região quase 10 mil presos - dentre eles, o grupo de engenheiros e especialistas cujas qualificações combinavam tão maravilhosamente com a tarefa -, junto com mais de 3 mil voluntários, ou "trabalhadores livres" (trabalhadores do campo que não eram presos).[335] Esses números elevados se faziam acompanhar de elevada taxa de mortalidade. Dos 16 mil presos que viajaram para Kolyma no primeiro ano de Berzin, apenas 9.928 chegaram vivos a Magadan.[336] O resto foi atirado, com roupas e proteção insuficientes, às tempestades de inverno: os sobreviventes do primeiro ano afirmariam que só metade do contingente original não perecera.[337]

Entretanto, assim que passou o caos inicial, a situação de fato melhorou aos poucos. Berzin trabalhou duro para amenizar as condições, ao que parece acreditando, não sem razão, que os presos precisavam estar aquecidos e bem alimentados para extrair grandes quantidades de ouro. Como resultado, Thomas Sgovio, um sobrevivente americano de Kolyma, escreveu que os "veteranos" do campo falavam com entusiasmo do reinado de Berzin:

quando a temperatura caía abaixo de quinze graus negativos, não eram mandados ao trabalho. Tinham três dias de descanso por mês. A comida era adequada e nutritiva. Os zeks [presos] recebiam roupas quentes: gorros de pele e botas de feltro.[338]

Variam Shalamov, outro sobrevivente - cujos Contos de Kolyma são dos mais amargos de toda a literatura dos campos -, também escreveu sobre o período Berzin como época

de excelente comida; uma jornada de trabalho de quatro a seis horas no inverno e dez no verão; e salários colossais para os condenados, o que lhes possibilitava retornar para casa como homens de posses quando as penas terminavam. [...] Os cemitérios que datam daquela época são tão poucos que os primeiros moradores de Kolyma pareciam imortais àqueles que vieram posteriormente.[339]

Se as condições de vida eram melhores do que seriam depois, o comando do campo também tratava com mais humanidade os presos. Na época, não era nítida a linha que separava dos prisioneiros os trabalhadores livres voluntários. Os dois grupos se associavam normalmente; às vezes se permitia que os presos mudassem dos barracões para morar nas vilas dos trabalhadores livres; e os detentos podiam ser promovidos a guardas armados, assim como a geólogos e engenheiros.[340] Mariya Ioffe, degredada em Kolyma em meados da década de 1930, obteve permissão para ter livros e papel; e lembrou que as famílias de degredados, na maioria, estavam autorizadas a ficar juntas.[341]

Os presos também podiam participar, até certo ponto, dos acontecimentos políticos de seu tempo. Assim como no Canal do Mar Branco, Kolyma promovia seus próprios trabalhadores-padrão e stakhanovistas. Um preso chegou a tornar-se o "instrutor de métodos stakhanovistas de trabalho" da Dalstroi, e os condenados que tivessem bom desempenho recebiam um pequeno distintivo, de "trabalhadores-padrão de Kolyma".[342]

Da mesma maneira que no Ukhtpechlag, a infra-estrutura de Kolyma logo ficou mais sofisticada. Nos anos 1930, os presos construíram não apenas as minas, mas também as docas e os quebra-mares do porto de Magadan, bem como a única estrada importante da região, a rodovia de Kolyma, que vai de Magadan para o norte. A maioria dos lagpunkts do Sewostlag se localizava ao longo dessa estrada e, aliás, era comumente batizada de acordo com a distância de Magadan ("Campo do Quilômetro 47", por exemplo). Os presos também construíram a própria Magadan, que tinha 15 mil habitantes em 1936 e continuaria a crescer. Ao voltar à cidade em 1947, depois de sete anos servidos nos campos mais remotos, Evgeniya Ginzburg conta ter "quase desmaiado de surpresa e admiração" com a rapidez do crescimento de Magadan. "Só algumas semanas depois percebi que se contavam nos dedos os edifícios grandes. Naquele primeiro momento, foi mesmo uma grande metrópole para mim."[343]

Aliás, Evgeniya foi uma das poucas prisioneiras que perceberam um paradoxo curioso. Era estranho, mas verdadeiro: em Kolyma, assim como em Komi, o Gulag estava lentamente trazendo para os ermos remotos a "civilização" (se assim podemos chamá-la). Abriam-se estradas onde houvera apenas florestas; construíam-se casas nos pântanos As populações nativas iam sendo afastadas a fim de abrir caminho para cidades, fábricas e ferrovias. Anos depois, uma mulher cujo pai fora o cozinheiro de um distante posto do Lokchimlag, um dos campos madeireiros de Komi, recordou para mim como era a vida ali quando o campo ainda funcionava: "Ah, tínhamos um depósito inteiro cheio de hortaliças, mais campos repletos de abóboras - não era tudo estéril como hoje". Ela agitava o braço, desgostosa, na direção do minúsculo vilarejo que agora ocupava o lugar e das antigas celas punitivas, ainda habitadas. "Também havia luz elétrica de verdade, e os chefes entravam e saíam em seus carrões quase todos os dias."

Evgeniya Ginzburg fez, de modo mais eloqüente, a mesma observação:

Como é estranho o coração dos homens! Minha alma inteira amaldiçoava aqueles que haviam pensado na idéia de construir uma cidade nesse permafrost, descongelando o chão com o sangue e as lágrimas de inocentes. Mas, ao mesmo tempo, eu tinha consciência de uma espécie de orgulho ridículo... Como a nossa Magadan crescera e ficara bonita durante minha ausência de sete anos! Estava irreconhecível. Eu admirava cada poste de luz, cada trecho de asfalto, até o cartaz que anunciava que a Casa da Cultura estava apresentando a opereta A princesa dos dólares. Damos valor a todos os fragmentos de nossa vida, até aos mais amargos.[344]

Em 1934, a expansão do Gulag em Kolyma, em Komi, na Sibéria, no Cazaquistão e em todas as outras partes da URSS seguira o mesmo padrão que em Solovetsky. Nos primeiros dias, a negligência, o caos e a desordem causavam muitas mortes desnecessárias. Mesmo sem sadismo ostensivo, a crueldade irrefletida dos guardas, que tratavam seus presos como animais domésticos, causou muito sofrimento.

Apesar disso, com o passar do tempo, o sistema parecia entrar precariamente nos eixos. As taxas de mortalidade, tendo atingido o ápice em 1933, caíam à medida que a fome recuava pelo país e o Gulag se tornava mais organizado. Em 1934, segundo as estatísticas oficiais, elas giravam em torno de 4%.[345] O Ukhtpechlag estava produzindo petróleo; Kolyma, ouro; os campos da região de Arcangel, madeira. Abriam-se estradas através da Sibéria. Erros e acidentes não faltavam, mas isso valia para qualquer lugar da URSS. A rapidez da industrialização, a falta de planejamento e a escassez de especialistas bem treinados tornavam inevitáveis os acidentes e os gastos excessivos, como bem deviam saber os encarregados dos grandes projetos.

Apesar dos reveses, a OGPU depressa se tornava um dos agentes econômicos mais importantes do país. Em 1934, o Dmitlag, o campo que construiu o canal Moscou-Volga, utilizava quase 200 mil presos, mais do que se empregara no Canal do Mar Branco.[346] O Siblag também crescera, contando com 63 mil presos em 1934; e o Dallag mais do que triplicara seus efetivos nos quatro anos desde a fundação, tendo 50 mil presos em 1934. Outros campos haviam sido fundados por toda a URSS: no Sazlag, no Uzbequistão, onde os presos trabalhavam em fazendas coletivas; no Svirlag, perto de Leningrado, onde eles derrubavam árvores e preparavam produtos de madeira para a cidade; e no Karlag, no Cazaquistão, que empregava presos como agricultores, operários e até pescadores.[347]

Foi também em 1934 que se reorganizou e se rebatizou a OGPU, em parte para refletir o novo status e as responsabilidades ampliadas da organização. Naquele ano, a polícia secreta se tornou oficialmente o Comissariado do Povo Para Assuntos Internos, passando a ser conhecida por outra sigla: NKVD. Sob a nova denominação, controlava agora o destino de mais de 1 milhão de presos.[348] Mas a calma relativa não duraria. O sistema estava prestes a virar a si mesmo pelo avesso, abruptamente, numa revolução que destruiria tanto senhores quanto escravos.

 

  1. O GRANDE TERROR E O PERÍODO SUBSEQÜENTE

 

Foi um tempo em que só os mortos

Conseguiam sorrir, livres de suas agruras,

E o lamento, a alma de Leningrado,

Pendia do lado de fora de sua prisão;

E os regimentos dos condenados,

Tocados como gado nos pátios das estações,

Encolhiam-se com o apito da locomotiva,

Que cantava: "Fora, párias!"

A estrela da morte pairava sobre nós.

E a Rússia, inocente, adorada, retorcida

Sob botas manchadas de sangue,

Sob as rodas de camburões.

Anna Akhmatova, Réquiem 1935-1940.[349]

 

Em termos objetivos, os anos de 1937 e 1938 - que seriam lembrados como o Grande Terror - não foram os de maior mortalidade na história dos campos de concentração, nem marcaram a maior expansão deles: os números de presos seriam muito maiores na década seguinte e atingiriam o máximo em 1952, muito depois do período que geralmente se recorda. Embora as estatísticas disponíveis sejam incompletas, ainda fica claro que as taxas de mortalidade nos campos foram maiores tanto no auge da fome na zona rural (1932 e 1933) como no pior momento da Segunda Guerra Mundial (1942 e 1943), quando o número total de pessoas mandadas para campos de trabalhos forçados, prisões e campos de prisioneiros de guerra girou em torno de 4 milhões.[350]

Gomo foco de interesse histórico, pode-se também argumentar que a importância de 1937 e 1938 foi exagerada. Até Soljenitsin reclamou que aqueles que condenaram os abusos do stalinismo "insistem em apegar-se a 37 e 38, aqueles anos que estão entalados em nossas gargantas"; e, de certa forma, o escritor tem razão.[351] Afinal, o Grande Terror seguiu-se a duas décadas de repressão. Desde 1918, ocorriam regularmente prisões e deportações em massa, primeiro de políticos oposicionistas, no início dos anos 20, e depois de kulaks, no início dos anos 30 Todos esses episódios de prisões em massa se fizeram acompanhar da captura regular dos responsáveis pela "desordem social".

Ao Grande Terror também se seguiram ainda mais prisões e deportações: de poloneses, ucranianos e baltas dos territórios invadidos em 1939; de "traidores" do Exército Vermelho capturados pelo inimigo; de pessoas comuns que ficaram do lado errado da frente de combate após a invasão nazista, em 1941. Depois, em 1948, haveria novas prisões de antigos presos; e ainda depois, imediatamente antes da morte de Stalin, prisões em massa de judeus. Por isso, embora as vítimas de 1937 e 1938 talvez fossem mais conhecidas, e embora jamais se repetisse nada tão espetacular quanto os julgamentos públicos daqueles anos, as prisões do Grande Terror seriam mais bem descritas não como o auge da repressão, e sim como uma das ondas de repressão mais incomuns que varreram p país durante o reinado de Stalin: ela afetou mais a elite - velhos bolcheviques, membros destacados do Exército e do Partido -; e, no geral, abrangeu maior variedade de pessoas e resultou em um número de execuções mais alto que o costumeiro.

Mas, na história do Gulag, 1937 foi mesmo um divisor de águas. Naquele ano, os campos soviéticos se transformaram temporariamente de prisões administradas com negligência, onde as pessoas morriam por acidente, em autênticos campos de extermínio - onde, de caso pensado, presos eram obrigados a trabalhar até a morte ou acabavam de fato assassinados, em números muito maiores que antes. Embora essa mudança estivesse longe de ser sistemática, e embora em 1939 a natureza propositalmente mortífera dos campos tenha amainado de novo - até a morte de Stalin, em 1953, as taxas de mortalidade cairiam e subiriam conforme o vaivém bélico e ideológico -, o Grande Terror deixou sua marca na mentalidade tanto dos guardas quanto dos presos.[352]

Assim como o resto do país, os habitantes do Gulag devem ter visto os primeiros sinais que os alertavam do terror vindouro. Após o ainda misterioso assassínio de Sergei Kirov, o popular líder do Partido em Leningrado, em dezembro de 1934, Stalin forçou uma série de decretos que davam à NKVD poderes ainda maiores para prender, julgar e executar "inimigos do povo". Em poucas semanas, dois importantes bolcheviques, Kamenev e Zinoviev, ambos antigos opositores de Stalin, já haviam se tornado vítimas dos decretos: foram presos, junto com milhares de seus seguidores e supostos seguidores, muitos deles de Leningrado. Seguiram-se expulsões em massa do Partido Comunista, embora de início elas não tenham sido muito mais amplas que as já ocorridas naquela década.

Aos poucos, o expurgo ficou mais sangrento. Durante toda a primavera e o verão de 1936, os interrogadores de Stalin trabalharam em Kamenev, em Zinoviev e num grupo de ex-admiradores de Leon Trotski, preparando-os para "confessar" seus crimes num grande julgamento público, que ocorreu logo na seqüência, em agosto. Todos foram depois executados, junto com muitos parentes. Em seguida, ocorreram outros julgamentos de bolcheviques proeminentes, dentre eles o carismático Nikolai Bukharin. Suas famílias também sofreram.

A mania de prisões e execuções se espalhou pela hierarquia do Partido abaixo e por toda a sociedade. Era promovida de cima, por Stalin, que a utilizava para eliminar seus inimigos, criar uma nova classe de líderes leais, aterrorizar a população soviética - e encher os campos de concentração. A partir de 1937, assinou ordens que foram enviadas aos chefes regionais da NKVD, listando cotas de indivíduos que deveriam ser presos em determinadas áreas - não se deu nenhum motivo para as detenções. Alguns deveriam ser condenados à "primeira categoria" punitiva (a morte) e outros à "segunda categoria" - o confinamento em campos de concentração por períodos que variavam de oito a dez anos. Nessa última, os elementos mais "nocivos" deveriam ser colocados em prisões políticas especiais, sendo de supor que para impedi-los de contaminar outros presos nos campos. Alguns estudiosos especulam que a NKVD, ao determinar cotas para diferentes partes do país, o fazia de acordo com sua percepção de quais regiões tinham maior concentração de "inimigos". Mas, por outro lado, pode não ter havido nenhuma relação entre uma coisa e outra.[353]

Ler essas ordens se assemelha muito a ler as ordens de um burocrata que elaborasse a última versão do Plano Qüinqüenal. Aqui está, por exemplo, uma datada de 30 de julho de 1937:

 

REPÚBLICA

PRIMEIRA CATEGORIA

SEGUNDA CATEGORIA

TOTAL

Armênia

500

1.000

1.500

Azerbaijão

1.500

3.750

5.250

Basquíria

500

1.500

2.000

Bielo-Rússia

2.000

10.000

12.000

Buriato-Mongólia

350

1.500

1.850

Calmúquia

100

300

400

Carélia

300

700

1.000

Criméia

300

1.200

1.500

Daguestão

500

2.500

3.000

Geórgia

2.000

3.000

5.000

Kabardino-Balkar

300

   700

1.000

Komi

100

300

400

Mari

300

1.500

1.800

Quirguízia

250

500

750

Tadjiquistão

500

1.300

1.800

Turcomenistão

500

1.500

2.000

Uzbequistão

750

4.000

4.750

Etc.[354]

 

 

 

 

Fica claro que o expurgo não foi de forma alguma espontâneo: já se haviam até preparado novos campos para mais presos. O expurgo tampouco enfrentou muita resistência: a administração da NKVD em Moscou esperava que seus subordinados nas províncias demonstrassem entusiasmo, e eles o fizeram. Em setembro de 1937, por exemplo, a NKVD da Armênia pediu a Moscou: "Solicitamos permissão para fuzilar mais setecentos membros dos bandos do Dashnak[355] e outros elementos anti-soviéticos". Stalin deferiu pessoalmente um pedido semelhante: "Elevo para 6.600 o número de presos da primeira categoria na região de Krasnoyarsk". Muitas outras solicitações do mesmo tipo foram assinadas por Stalin ou por Molotov. Em fevereiro de 1938, numa sessão do Politburo, concedeu-se permissão à NKVD da Ucrânia para prender mais 30 mil "kulaks e outros elementos anti-soviéticos".[356]

Parte da opinião pública soviética aprovou as novas detenções: a súbita revelação da existência de uma quantidade enorme de "inimigos , muitos deles nos escalões mais altos do Partido, certamente explicava por que a URSS - apesar da Grande Guinada, apesar da coletivização, apesar do Plano Qüinqüenal - ainda era tão pobre e atrasada. A maioria das pessoas, porém, ficou demasiado aterrorizada e confusa com o espetáculo de revolucionários famosos que confessavam, e de vizinhos que desapareciam de noite, para expressar alguma opinião sobre o que acontecia.

No Gulag, o expurgo deixou suas marcas primeiro nos comandantes dos campos - ao eliminar muitos deles. Se em todo o resto do país o ano de 1937 seria lembrado como aquele em que a Revolução devorou seus filhos, nos campos de concentração ele seria lembrado como aquele em que o Gulag consumiu seus fundadores, começando bem pelo alto: Genrikh Yagoda, o chefe da polícia secreta que tinha a maior responsabilidade pela expansão do sistema, foi julgado e fuzilado em 1938, após ter implorado pela vida numa carta ao Soviete Supremo. "É difícil morrer", escreveu o homem que mandara tantos outros para a morte. "Ajoelho-me perante o Povo e o Partido e peço-lhes que me perdoem, que salvem minha vida."[357]

Seu substituto, o diminuto Nikolai Yezhov (tinha só 1,52 metro), começou de imediato a livrar-se dos amigos e subordinados de Yagoda na NKVD. Também golpeou a família de Yagoda - assim como golpearia as de outros -, prendendo-lhe a mulher e os pais, mais irmãs, sobrinhos e sobrinhas. Uma dessas últimas lembrou a reação da avó, mãe de Yagoda, no dia em que ela e toda a família foram mandadas para o exílio:

"Se pelo menos Gena [Yagoda] pudesse ver o que estão fazendo                                 conosco", alguém disse baixinho.

De repente, vovó, que nunca levantava a voz, virou-se para o apartamento vazio e gritou bem alto: "Malditos sejam!" Atravessou a porta de entrada e a bateu com força. O som reverberou na escadaria, como o eco daquela maldição de mãe.[358]

Muitos dos chefes e administradores, preparados e promovidos por Yagoda, tiveram o mesmo destino. Junto com centenas de milhares de outros cidadãos soviéticos, foram acusados de grandes conspirações, aprisionados e interrogados em processos complexos, que podiam envolver centenas de pessoas. Um dos mais importantes foi o de Matvei Berman, chefe do Gulag de 1932 a 1937. Seus anos de serviço ao Partido (ele se filiara em 1917) não lhe adiantaram de nada. Em dezembro de 1938, a NKVD acusou Berman de ter liderado uma "organização direitista e trotskista de terrorismo e sabotagem", a qual criara "condições privilegiadas" para presos nos campos, enfraquecera de propósito a "prontidão militar e política" dos guardas (donde o grande número de fugas) e sabotara os projetos de construção do Gulag (donde o lento progresso deste).

Berman não caiu sozinho. Por toda a URSS, descobriu-se que comandantes e altos administradores dos campos do Gulag pertenciam à mesma "organização direitista e trotskista", e eles foram condenados de um só golpe. Os autos de seus processos são um tanto surreais: era como se todas as frustrações dos anos anteriores - as metas não-alcançadas, as estradas mal construídas, as fábricas que, tendo sido erguidas por presos, praticamente não conseguiam funcionar - houvessem atingido algum tipo de clímax insano.

Aleksandr Izrailev, por exemplo, vice-chefe do Ukhtpechlag, recebeu condenação por "ter obstruído o crescimento da mineração de carvão". Aleksandr Polisonov, coronel que trabalhara na divisão de guardas armados do Gulag, viu-se acusado de ter criado "condições absurdas" para esses seus homens. Mikhail Goskin, chefe do departamento de construção ferroviária do Gulag, teria "elaborado planos irrealistas" para a linha Volochaevka-Komsomolets. Isaak Ginzburg, chefe da divisão médica do Gulag, foi considerado responsável pelas altas taxas de mortalidade prisional e acusado de ter fomentado condições especiais para outros presos contra-revolucionários, permitindo que, por motivo de doença, fossem libertados antes do tempo. A maioria desses homens da NKVD acabou condenada à morte -embora as sentenças de vários tenham sido comutadas para o confinamento nas prisões ou nos campos, e uns poucos até tenham sobrevivido, vindo a ser reabilitados em 1955.[359]

Um número impressionante dos primeiros administradores do Gulag teve o mesmo destino. Fyodor Eichmanns, ex-chefe da Slon e depois do Departamento Especial da OGPU, foi fuzilado em 1939. Izrail Pliner, o sucessor de Berman na chefia do Gulag, durou só um ano no cargo e foi fuzilado em 1939.[360] Era como se o sistema precisasse de uma explicação do porquê de vir funcionando tão mal - como se precisasse de pessoas para culpar. Ou talvez "sistema" seja uma expressão enganosa: talvez fosse o próprio Stalin quem precisava explicar por que seus projetos de trabalho escravo, tão maravilhosamente planejados, avançavam tão devagar e apresentavam resultados tão ambíguos.

Houve algumas curiosas exceções à destruição generalizada, pois Stalin não apenas tinha controle sobre quem era preso como às vezes também decidia quem não devia sê-lo. E curioso que Naftaly Frenkel, apesar das mortes de quase todos os seus antigos colegas, tenha conseguido escapar à bala do carrasco. Em 1937, era o chefe do Bamlag, na ferrovia Baikal-Amur, um dos mais caóticos e mortíferos campos do Extremo Oriente. No entanto, quando 48 "trotskistas" foram presos no Bamlag, em 1938, Frenkel, de algum modo, não estava entre eles.

Sua ausência na lista de presos se mostra ainda mais estranha quando se sabe que o jornal do campo o atacara, acusando-o abertamente de sabotagem. Apesar disso, o processo de Frenkel ficou misteriosamente retido em Moscou. O promotor local do Bamlag, que vinha conduzindo as investigações a respeito de Frenkel, achou a demora incompreensível. "Não entendo por que essa investigação foi colocada sob 'decreto especial', nem quem expediu esse 'decreto especial'", escreveu a Andrei Vyshinsky, o promotor-chefe da URSS. "Se não vamos prender espiões trotskistas diversionários, então quem devemos prender?" Stalin, ao que parece, ainda era perfeitamente capaz de proteger seus amigos.[361]

Talvez a saga mais dramática de um chefe de campo em 1937 tenha sido uma que ocorreu mais para o fim daquele ano, em Magadan, e que começou com a prisão de Eduard Berzin, o chefe da Dalstroi. Na condição de subordinado direto de Yagoda, Berzin devia ter pressentido que sua carreira seria logo encurtada. Também devia ter ficado desconfiado quando, em dezembro, recebeu todo um novo grupo de "lugares-tenentes" da NKVD, dentre eles o major Pavlov, oficial de posto mais alto que o próprio Berzin. Ainda que Stalin com freqüência apresentasse dessa maneira os funcionários que logo cairiam em desgraça aos sucessores deles, Berzin não deu mostras de suspeitar de nada. Quando entrou na baía de Nagaevo o navio com o agourento nome Nikolai Yezhov, trazendo a nova equipe de Berzin, este providenciou uma banda de música para dar as boas-vindas. Em seguida, passou vários dias mostrando as operações e ensinando os macetes a sua nova "equipe" - embora ela praticamente não lhe desse atenção -, antes de ter ele próprio embarcado no Nikolai Yezhov.

Em Vladivostok, tomou bem calmamente o Expresso Transiberiano para Moscou. Mas, embora Berzin tenha saído de Vladivostok como passageiro da primeira classe, chegaria a seu destino como detento. No meio da noite de 19 de dezembro de 1937, o trem parou na cidade de Aleksandrov. Berzin foi preso na plataforma (ainda a setenta quilômetros de Moscou, para não causar nenhum fuzuê no centro da capital) e levado para interrogatório na Lubyanka, a prisão central de Moscou. Rapidamente o indiciaram por "atividades contra-revolucionárias de sabotagem e destruição". A NKVD o acusou de montar uma "organização de espionagem e diversionismo trotskista em Kolyma", a qual supostamente enviava ouro para o governo do Japão e tramava a ocupação do Extremo Oriente soviético por aquele país. Também o acusaram de espionar para a Inglaterra e a Alemanha. Obviamente, o chefe da Dalstroi andara mesmo muito ocupado. Acabaria fuzilado em agosto de 1938, no porão da Lubyanka.

O absurdo das acusações não afetou os prazos do processo. No final de dezembro, Pavlov, agindo com celeridade, já prendera a maioria dos subordinados de Berzin. Sob tortura, I. G. Filippov, chefe do Sewostlag, fez uma confissão detalhada que implicava praticamente todos eles. Declarando ter "recrutado" Berzin em 1934, ele reconheceu que sua "organização anti-soviética" planejara depor o governo do país mediante a "preparação de um levante armado contra o poder soviético em Kolyma, [...] a preparação e execução de atos terroristas contra os líderes do Partido Comunista e do governo soviético, [...] o incitamento da população nativa [...] e o encorajamento a atos generalizados de destruição", dentre outras coisas. Lev Epshtein, principal lugar-tenente de Berzin, depois confessou ter "reunido informações secretas para a França e o Japão enquanto realizava sabotagem, diversionismo e atos de destruição". O médico-chefe da policlínica de Magadan foi acusado de "ligações com traidores e elementos estrangeiros". Quando tudo terminou, centenas de pessoas ligadas a Berzin, desde geólogos até burocratas e engenheiros, estavam ou mortas, ou presas.[362]

Se olharmos em perspectiva, veremos que a elite de Kolyma não foi a única rede poderosa a ter sido eliminada em 1937-8. No final daquele período, Stalin já expurgara do Exército Vermelho grande número de notáveis, aí incluídos o marechal Tukhachevsky, vice-comissário da Defesa, Ion Yakir, comandante de exército, seu colega Uborevich e outros, junto com as mulheres e filhos; a maioria foi fuzilada, mas alguns terminaram em campos.[363] O Partido Comunista conheceu destino semelhante. O expurgo atingiu não apenas os inimigos potenciais de Stalin na liderança, mas também a elite partidária nas províncias, os primeiros-secretários, os chefes dos conselhos locais e regionais e os diretores de importantes fábricas e instituições.

Em certos lugares e em certa classe social, conforme escreveria Yelena Sidorkina, ela mesma presa em novembro de 1937, a onda de prisões foi tão completa que

ninguém sabia o que aconteceria no dia seguinte. As pessoas tinham medo de conversar ou se encontrar umas com as outras, em especial com famílias nas quais o pai ou a mãe já tivesse sido "isolado". Os raros indivíduos tolos o suficiente para manter-se leais àqueles presos acabavam automaticamente indicados para o "isolamento".[364]

Mas nem todo mundo morreu, e nem todo campo foi aniquilado. Em geral, os chefes de campo mais obscuros até se saíram ligeiramente melhor que a média dos oficiais da NKVD, como ilustra o caso de V. A. Barabanov, um protegido de Yagoda. Em 1935, quando era vice-comandante do Dmitlag, Barabanov foi preso, junto com um colega, por ter chegado ao campo "em estado de embriaguez". Como resultado, perdeu o emprego, recebeu uma pena leve de prisão e, em 1938, estava trabalhando num longínquo campo do extremo norte quando ocorreram as prisões em massa dos sequazes de Yagoda. Por volta de 1954, seu amor ao álcool já tendo sido perdoado, ele tornara a subir na hierarquia e era o vice-comandante de todo o sistema Gulag.[365]

Mas, na memória popular dos campos, 1937 não seria lembrado apenas como o ano do Grande Terror; também foi o ano em que finalmente se deixou de cantar loas à reabilitação de criminosos, junto com qualquer apoio hipócrita àquele ideal. Em parte, isso talvez tenha se devido à morte e ao encarceramento das figuras mais intimamente relacionadas com a campanha. Yagoda, ainda ligado na mente do público ao Canal do Mar Branco, já se fora. Máximo Gorki morrera repentinamente em junho de 1936. I. L. Averbakh, colaborador de Gorki em O canal chamado Stalin e autor de do crime ao trabalho (volume subseqüente dedicado ao canal Moscou-Volga), foi denunciado como trotskista e preso em abril de 1937. O mesmo ocorreu com muitos outros integrantes do coletivo que, sob a coordenação de Gorki, redigira O canal chamado Stalin.[366] Mas a mudança também tinha origens mais profundas. À medida que a retórica política ficava mais radical e a caçada aos criminosos políticos se intensificava, o status dos campos onde esses perigosos criminosos políticos estavam também se modificava. Num país tomado pela paranóia e pela mania de procurar e delatar espiões, a própria existência de campos para "inimigos" e "sabotadores" se tornou, se não exatamente segredo - na década de 1940, presos trabalhando na construção de estradas e prédios de apartamentos eram espetáculo comum em muitas grandes cidades -, pelo menos assunto que nunca se discutia em público. Aristocratas, a peça de Nikolai Pogodin, foi banida em 1937 (sendo revivida, ainda que só por breve período, em 1956, bem depois da morte de Stalin).[367] O canal chamado Stalin, organizado por Gorki, também acabou na lista de livros proibidos, por motivos ainda incertos. Talvez os novos chefes da NKVD não tivessem mais estômago para agüentar os fátuos elogios a Yagoda, caído em desgraça. Ou talvez aquele radiante retrato da exitosa reabilitação de "inimigos" não tivesse mais sentido numa época em que novos inimigos apareciam o tempo todo, e em que centenas de milhares deles não eram recuperados mas executados. Por certo, as histórias sobre chekistas afáveis e oniscientes se tornavam difíceis de conciliar com os expurgos maciços na NKVD.

Não desejando parecer frouxos na tarefa de isolar os inimigos do regime, os comandantes do Gulag em Moscou também impuseram novas normas internas de sigilo, que acarretaram imensos custos adicionais. Agora, toda correspondência devia ser enviada por mensageiro especial. Só em 1940, os mensageiros da NKVD tiveram de entregar 25 milhões de itens de correspondência secreta. Doravante, quem escrevia cartas para os campos o fazia exclusivamente para caixas postais, já que os endereços se tornaram secretos. Os campos também desapareceram dos mapas. Até a correspondência interna da NKVD se referia a eles eufemisticamente como "objetos especiais" (spetsobekty) ou "subseções" (podrazdeleniya), de modo a ocultar as reais atividades de tais lugares.[368]

Para referências mais específicas tanto aos campos quanto às atividades de seus habitantes, a NKVD criou um código complicado que podia ser usado em telegramas abertos. Um documento de 1940 listava esses codinomes, alguns dos quais eram de uma criatividade grotesca. As grávidas deveriam ser chamadas "livros", e as mulheres com filhos, "recibos". Já os homens eram "contas" (no sentido contábil). Degredados eram "lixo", e detidos para investigação, "envelopes". Campos de concentração eram "trustes", e divisões de campo, "fábrica". Um campo recebeu o codinome "Livre".[369]

A linguagem usada nos campos também mudou. Até o outono de 1937, documentos e cartas oficiais freqüentemente se referiam aos presos pela profissão - por exemplo, simplesmente "lenhadores". Mas, em 1940, um preso já não era lenhador; era apenas preso, um zaklyuchennyi, ou, na maioria dos documentos, z/k (pronuncia-se "zek").[370] Um grupo de presos se tornava kontingent ("contingente" ou "cota"), termo burocrático e despersonalizado. Os presos tampouco podiam ganhar o cobiçado título de stakhanovista: o administrador de um campo mandou carta indignada a seus subordinados, ordenando que se referissem a detentos que trabalhavam duro por circunlóquios como "presos que atuam à maneira dos trabalhadores de choque" ou "presos que trabalham segundo os métodos stakhanovistas".

Naturalmente, todo uso positivo do termo "preso político" já desaparecera havia muito. Os privilégios concedidos aos presos políticos socialistas tinham terminado em 1925, quando esses detentos foram transferidos de Solovetsky para prisões na Rússia central. Agora, o termo "preso político" sofria completa transformação, abrangendo qualquer um condenado segundo o infame artigo 58 do Código Penal - que englobava todos os crimes "contra-revolucionários" - e tendo conotações totalmente negativas. Cada vez mais, referiam-se aos criminosos políticos (às vezes chamados KRs, de "contra-revolucionários"; kontras; ou kontriks) como vragi naroda (inimigos do povo).[371]

Esse termo, um epíteto jacobino que Lênin utilizara pela primeira vez em 1917, foi revivido por Stalin em 1927 para descrever Trotski e seus seguidores. Começou a ter sentido mais amplo em 1936, depois que uma carta secreta - "da autoria de Stalin", na opinião de Dmitri Volkogonov, seu biógrafo russo - foi enviada do Comitê Central às organizações do Partido nas regiões e repúblicas. Conforme a carta explicava, um inimigo do povo, ainda que pudesse "parecer manso e inofensivo", faria todo o possível para "esgueirar-se sorrateiramente para dentro do socialismo", embora "secretamente não o aceitasse". Em outras palavras, os inimigos não podiam mais ser identificados por opiniões expressas abertamente. Lavrenty Beria, chefe posterior da NKVD, também citaria Stalin com freqüência, observando que "um inimigo do povo é não apenas quem comete sabotagem, mas também quem duvida da justeza das determinações do Partido". Portanto "inimigo" podia significar qualquer um que se opusesse ao poder de Stalin, por qualquer motivo, ainda que aparentasse não fazê-lo.[372]

Agora, nos campos de concentração, "inimigo do povo" se tornara termo oficial, usado em documentos. Aprisionavam-se mulheres como "esposas de inimigos do povo", depois que um decreto da NKVD de 1937 autorizou tais capturas; e o mesmo se aplicava aos filhos. Uns e outros recebiam sentenças como ChSVR, "familiares de um inimigo da Revolução".[373] Muitas das esposas foram encarceradas juntas no campo de Temnikovsky, também conhecido como Temlag, na Mordóvia (uma república da Rússia central). Anna Larina, mulher de Bukharin, o líder soviético caído em desgraça, lembraria que lá "nos tornamos iguais em nosso infortúnio - os Tukachevsky e os Yakir, os Bukharin e os Radek, os Uborevich e os Gamarnik. Como diz o ditado, a desgraça compartilhada já é só meia desgraça".[374]

Galina Levinson, outra sobrevivente do Temlag, recordou que o regime do campo era relativamente liberal, talvez porque "não tínhamos sentenças, éramos apenas esposas". A maioria delas, observou Galina, eram pessoas que até então haviam sido "totalmente soviéticas" e ainda estavam convencidas de que seu encarceramento se devia às maquinações de alguma organização fascista secreta dentro do Partido. Várias ocupavam o tempo escrevendo cartas diárias a Stalin e ao Comitê Central, nas quais reclamavam, iradas, do complô que se armava contra elas.[375]

Em 1937, "inimigo do povo", além dos usos oficiais, já virara ofensa. Desde o tempo de Solovetsky, os fundadores e planejadores dos campos haviam organizado o sistema em torno da idéia de que os presos não eram humanos, mas "unidades de trabalho": mesmo na época da construção do Canal do Mar Branco, Máximo Gorki descrevera os kulaks como "meio animais".[376] Agora, porém, a propaganda descrevia os "inimigos" como algo inferior até a essa espécie de gado bípede. A partir do final dos anos 1930, Stalin começou a referir-se publicamente aos "inimigos do povo" como "praga", "poluição", "imundície" ou, às vezes, simplesmente "erva daninha", que precisava ser arrancada.[377]

A mensagem era clara: os zeks não eram mais considerados cidadãos plenos da URSS, se é que de alguma maneira podiam ser considerados pessoas. Um preso observou que estavam sujeitos a "uma espécie de excomunhão da vida política e não tinham permissão para participar das liturgias e rituais sagrados de tal vida".[378] Depois de 1937, nenhum guarda usava a palavra tovarishch (camarada) para dirigir-se aos presos, e estes podiam ser espancados por utilizá-la quando se dirigiam aos guardas, os quais tinham de tratar por grazhdanin (cidadão). Fotos de Stalin e outros líderes nunca apareciam nas paredes dos campos e prisões. Uma visão relativamente comum em meados da década de 1930 - um trem carregando presos, tendo os vagões cobertos com retratos de Stalin e com faixas que declaravam serem seus ocupantes stakhanovistas - já se tornara impensável depois de 1937. O mesmo ocorreu com as celebrações do 1º de maio, como aquelas outrora realizadas no kremlin de Solovetsky.[379]

Muitos estrangeiros ficavam surpresos com o forte efeito que essa "excomunhão" da sociedade soviética tinha sobre os presos. Um prisioneiro francês, Jacques Rossi - autor do Manual do Gulag, um guia enciclopédico da vida nos campos -, escreveu que a palavra "camarada" conseguia eletrizar presos que havia muito tempo não a ouviam:

Uma turma que acabara de completar um turno de onze horas e meia concordou em ficar e trabalhar o turno seguinte apenas porque o engenheiro-chefe [...] disse aos presos: "Peço-lhes que façam isso, camaradas" [380]

À desumanização dos "criminosos políticos" seguiu-se uma mudança bem nítida (e em alguns lugares drástica) nas condições de vida deles. O Gulag dos anos 1930 fora geralmente desorganizado, freqüentemente cruel e ocasionalmente mortal. Mas, em alguns lugares e em alguns momentos durante aquela década, oferecera-se até aos presos políticos a oportunidade da redenção. Os trabalhadores do canal Moscou-Volga podiam ler o jornal Perekovka, cujo nome já significava "Regeneração". O final da peça Aristocratas, de Pogodin, mostrava a "conversão" de um ex-sabotador. Em 1934, Flora Leipman (filha de uma escocesa que casara com um russo, mudara para São Petersburgo e logo fora presa como espiã) visitou a mãe num campo madeireiro do norte e descobriu que "ainda havia um elemento de humanidade entre os guardas e os presos, pois a [NKVD] ainda não era tão sofisticada e tão psicologicamente orientada como viria a ser alguns anos depois".[381] Flora sabia do que estava falando, já que ela mesma se tornou prisioneira "alguns anos depois". Depois de 1937, as atitudes realmente mudaram, sobretudo em relação àqueles presos condenados pelo artigo 58.

Nos campos, os presos políticos eram retirados dos postos de trabalho que haviam ocupado em planejamento ou engenharia e forçados a retornar ao "trabalho geral", ou seja, ao trabalho braçal não-especializado em minas ou florestas: não se podia mais permitir que os "inimigos" tivessem qualquer posição de importância, por medo de que se dedicassem à sabotagem. Pavlov, o novo chefe da Dalstroi, assinou pessoalmente a ordem que obrigava um preso-geólogo, I. S. Davidenko, a "ser utilizado como trabalhador comum e em hipótese nenhuma ter autorização para conduzir trabalhos independentes. As tarefas de Davidenko devem ser controladas com cuidado e sujeitas a observação diária".[382] Num relatório arquivado em fevereiro de 1939, o comandante do Belbaltlag também alegava ter "escorraçado todos os trabalhadores indignos de confiança política" e, sobretudo, "todos os ex-presos condenados por crimes contra-revolucionários". Ele asseverava que, dali em diante, as funções administrativas e técnicas deveriam ser reservadas para "comunistas, membros do Komsomol [a Juventude Comunista] e especialistas de confiança".[383] Fica claro que a produtividade econômica já não era a maior prioridade dos campos.

Em todo o sistema Gulag, os regimes prisionais ficaram mais duros, tanto para os criminosos comuns como para os presos políticos. No começo dos anos 1930, as rações de pão para o "trabalho geral" podiam chegar a um quilo por dia - mesmo para aqueles que não cumprissem 100% da meta -, e atingir até dois quilos para os stakhanovistas. Nos principais lagpunkts do Canal do Mar Branco, servia-se carne doze dias por mês.[384] No final da década, a ração garantida caíra a menos da metade, para entre quatrocentos e 450 gramas de pão, e os que conseguiam cumprir 100% da meta de trabalho ganhavam duzentos gramas mais. A ração punitiva se reduziu para trezentos gramas.[385] Falando daqueles tempos em Kolyma, Variam Shalamov escreveu que:

Para tornar-se "baixa", um homem jovem e saudável, começando a carreira na mina de ouro no ar límpido e frio, só precisava de um período de vinte a trinta dias de dezesseis horas de trabalho, sem folgas, combinados com a inanição sistemática, as roupas em farrapos, as noites a quinze graus negativos numa tenda de lona cheia de furos [...] nas brigadas de trabalho que iniciavam a temporada de mineração, só sobreviviam o próprio encarregado, seu assistente e uns poucos dos amigos pessoais do encarregado.[386]

As condições também pioraram porque o número de presos aumentou, em alguns lugares com rapidez espantosa. E verdade que o Politburo tentara preparar-se com antecedência para o influxo, instruindo o Gulag em 1937 a iniciar a construção de cinco novos campos madeireiros na região de Komi, bem como mais alguns "em áreas remotas do Cazaquistão". A fim de apressar as obras, o Gulag até recebera um "adiantamento de 10 milhões de rublos" para organizar esses novos campos. Ademais, o Comissariado da Defesa, o da Saúde e o dos Recursos Florestais receberam ordem de achar - imediatamente -240 comandantes e trabalhadores políticos, 150 médicos, quatrocentos auxiliares médicos, dez eminentes especialistas em silvicultura e "cinqüenta formados pela Academia de Tecnologia Florestal de Leningrado", todos para trabalhar no Gulag.[387]

Entretanto, os campos já existentes estavam outra vez transbordando de novos presos, e repetia-se a superlotação do início da década de 1930. Num lagpunkt construído para 250 a trezentas pessoas no Siblag (o campo madeireiro da Sibéria), um sobrevivente deduziu que o número de presos em 1937 passava de 17 mil. Ainda que o número real tenha sido apenas um quarto disso, a estimativa exagerada indica quão amontoadas as pessoas deviam sentir-se ali. Na falta de alojamento, os presos construíam zemlyanki, buracos na terra; mesmo estes eram tão apinhados que ficava "impossível mover-se sem pisar na mão de alguém". Os presos se recusavam a sair, por medo de perder o lugar no chão. Não se dispunha de pratos nem de colheres, e havia longas filas para a comida. Teve início uma epidemia de disenteria, e os presos morreram rapidamente.

Numa reunião posterior do Partido, até a administração do Siblag lembrou solenemente as "terríveis lições de 1938"; quanto mais não fosse, pelo "número de dias de trabalho perdidos" durante a crise.[388] No sistema de campos como um todo, o número oficial de mortes dobrou do ano de 1937 para o de 1938. Não se dispõe de estatísticas para todos os locais, mas presume-se que as taxas de mortalidade tenham sido muito mais altas nos campos do extremo norte - Kolyma,Vorkuta, Norilsk -, para onde os presos políticos eram enviados em grande número.[389]

Mas os presos não morriam apenas de inanição e excesso de trabalho. No novo ambiente soviético, o encarceramento de inimigos logo começou a parecer insuficiente: era melhor que deixassem de existir por completo. Em 30 de julho de 1937, a NKVD emitiu ordem para que se reprimissem "ex-kulaks, ladrões e outros elementos anti-soviéticos" - ordem que continha cotas de execução também para presos do Gulag.[390] Em 25 de agosto, Yezhov assinou mais uma ordem para a execução de detentos nas prisões políticas de segurança máxima. A NKVD, disse ele, deve "concluir em dois meses a operação para reprimir os elementos contra-revolucionários mais ativos [...] aqueles condenados por espionagem, diversionismo, terrorismo, atividades revolucionárias e banditismo, bem como os condenados por pertencerem a partidos anti-soviéticos".[391]

Aos presos políticos ele acrescentou os "bandidos e elementos criminosos" atuantes em Solovetsky, que naquela altura também fora convertido em prisão política de segurança máxima. Determinou-se a cota para Solovetsky: deveriam ser fuzilados 1.200 presos. Uma testemunha recordou o dia em que alguns foram levados:

Inesperadamente, forçaram todos a sair das celas abertas do kremlin para uma chamada geral. Nela, leram uma lista enorme de nomes -várias centenas - que seriam levados para transporte. Foram-lhes dadas duas horas para preparar-se, e eles deveriam então reunir-se na mesma praça central. Seguiu-se uma confusão terrível. Algumas pessoas correram para pegar suas coisas; outras, para dizer adeus aos amigos. Em duas horas, a maior parte daqueles que deveriam ser transportados estava em seus lugares [...] colunas de presos marcharam para fora com malas e mochilas. [...][392]

Ao que parece, alguns também carregavam facas, que depois usaram para atacar aqueles que os fuzilariam, perto da aldeia de Sandormokh (norte da Carélia), ferindo-os gravemente. (Após esse episódio, a NKVD passou a deixar todos os presos em roupas de baixo antes de atirar neles.) Posteriormente, o homem da NKVD a cargo da operação foi recompensado com o que os arquivos descrevem apenas como um "valioso presente" pela bravura demonstrada no cumprimento da tarefa. Dali a alguns meses, ele também foi fuzilado.[393]

Em Solovetsky, a seleção de presos a assassinar parece ter sido feita ao acaso. Em alguns campos, porém, a administração aproveitava a oportunidade para livrar-se de detentos especialmente difíceis. Esse pode ter sido o caso em Vorkuta, onde muitos dentre os selecionados eram antigos trotskistas - ou seja, autênticos seguidores de Trotski, alguns dos quais envolvidos em greves nos campos e outras rebeliões. Uma testemunha ocular lembrou que, no início do inverno de 1937-8, a administração de Vorkuta colocara cerca de 1.200 prisioneiros - sobretudo trotskistas, mais outros presos políticos e um punhado de criminosos - numa olaria abandonada e numa série de tendas grandes e apinhadas, "transbordantes". Não se dava nenhuma comida quente aos presos: "a ração diária consistia apenas de quatrocentos gramas de pão meio ressequido".[394] Ficaram ali até o final de março, quando chegou de Moscou um novo grupo de oficiais da NKVD. Os oficiais formaram uma "comissão especial" e chamaram os presos em lotes de quarenta. Disseram-lhes que partiriam num transporte. Cada um recebeu um pedaço de pão. Os presos na tenda os ouviram ir embora marchando - "e, depois, escutaram o som de tiros".

O ambiente nas tendas ficou tétrico. Um camponês, preso pelo crime de "especulação" (vendera o próprio leitão numa feira), ficou deitado em seu estrado, de olhos abertos, sem reagir a nada. "O que eu tenho que ver com vocês, presos políticos?", resmungava periodicamente. "Vocês lutavam por poder, por posição, e eu só quero saber de tocar a vida." Segundo a testemunha, outro homem se suicidou. Dois enlouqueceram. Por fim, quando só haviam sobrado umas cem pessoas, os fuzilamentos pararam, tão abrupta e inexplicavelmente como haviam começado. Os oficiais da NKVD tinham retornado para Moscou. Os presos restantes voltaram às minas. Em todo o campo, haviam sido mortos cerca de 2 mil detentos.

Stalin e Yezhov nem sempre mandavam forasteiros de Moscou para executar essas tarefas. A fim de acelerar o processo em todo o país, a NKVD também organizava tróicas, operando tanto dentro quanto fora dos campos. Uma tróica era exatamente o que o nome sugere: três homens, no mais das vezes o chefe regional da NKVD, o secretário-chefe do Partido na província e um representante da promotoria ou do governo local. Juntos, tinham o direito de passar sentenças in absentia, sem direito a juiz, júri, advogado ou mesmo julgamento.[395]

Uma vez constituídas, as tróicas agiram rápido. Em 20 de setembro de 1937, um dia razoavelmente típico, a tróica da República Careliana condenou 231 presos do Belbaltlag. Presumindo-se um dia de trabalho de dez horas, sem intervalos, teriam gasto menos de três minutos para considerar o destino de cada preso. A maioria dos condenados recebera suas sentenças originais muito antes, no início da década. Agora, eram acusados de novos crimes, em geral, ligados ao mau comportamento ou à atitude insatisfatória ante a vida nos campos. Dentre eles, havia antigos presos políticos (mencheviques, anarquistas, social-democratas); uma ex-freira que "se recusava a trabalhar para as autoridades soviéticas"; e um kulak que fora cozinheiro no campo. Esse último se viu acusado de estimular a insatisfação entre os trabalhadores stakhanovistas. Segundo alegaram as autoridades, o cozinheiro propositalmente provocara "longas filas para aqueles trabalhadores, tendo antes dado comida aos presos comuns".[396]

A histeria não durou. Em novembro de 1938, os fuzilamentos em massa terminaram de modo repentino, tanto nos campos como no resto do país. Talvez o expurgo tivesse ido longe demais, até para o gosto de Stalin. Talvez o expurgo já tivesse simplesmente cumprido a finalidade que deveria cumprir. Ou talvez estivesse causando danos demais a uma economia ainda frágil. Fosse qual fosse a razão, Stalin disse ao Congresso do Partido Comunista em março de 1939 que o expurgo se fizera acompanhar de "mais erros do que se podia ter esperado".[397]

Ninguém pediu desculpas ou se penitenciou, e quase ninguém jamais foi punido. Apenas alguns meses depois, Stalin enviou circular a todos os chefes da NKVD, cumprimentando-os por "terem infligido uma derrota esmagadora aos agentes subversivos e espiões de serviços estrangeiros de informações" e "terem expurgado o país de quadros voltados para a subversão, a insurreição e a espionagem". Só então apontou algumas das "deficiências" da operação, corno os "procedimentos simplificados de investigação", a falta de testemunhas e de provas que corroborassem as acusações.[398]

Tampouco se interrompeu por completo o expurgo da própria NKVD. Em novembro de 1938, Stalin removeu de seu posto o suposto autor de todos esses "erros", Nikolai Yezhov - e o sentenciou à morte. A execução ocorreu em 1940, depois de Yezhov ter implorado pela vida, da mesma forma que Yagoda antes dele. "Digam a Stalin que morrerei com o nome dele nos lábios."[399]

Os protegidos de Yezhov caíram junto, tal qual os asseclas de Yagoda alguns anos antes. Em sua cela na prisão, Evgeniya Ginzburg notou um dia que os regulamentos colados na parede haviam sido removidos. Quando os recolocaram, o espaço no canto superior esquerdo, onde antes estava escrito "aprovado, Yezhov, comissário-geral de Segurança do Estado", fora coberto com papel branco. Mas as mudanças não pararam aí:

Primeiro o nome de Weinstock [o comandante da prisão] foi coberto com tinta e substituído pelo de Antonov. Depois Antonov saiu, e em seu lugar se lia: "Administração Central da Prisão". Rimos: "Isso lhes poupará o trabalho de trocar de novo".[400]

A produtividade do sistema Gulag continuava a despencar. No Ukhtpechlag, entre 1936 e 1937, os fuzilamentos em massa, o número aumentado de presos enfermos e debilitados e a perda de especialistas aprisionados haviam causado uma queda vertiginosa da produção. Em julho de 1938, convocou-se uma comissão especial do Gulag para discutir o vasto déficit do Ukhtpechlag.[401] A produtividade das minas auríferas de Kolyma também caiu. Nem o enorme influxo de novos presos conseguiu elevar a níveis comparáveis aos do passado o total de ouro extraído. O próprio Yezhov, antes de ter sido deposto, pedira mais dinheiro para atualizar a antiquada tecnologia mineira da Dalstroi - como se fosse esse o verdadeiro problema.[402]

Enquanto isso, o comandante do Belbaltlag - aquele que tanto se gabara de seu sucesso em livrar de presos políticos o pessoal administrativo do campo - reclamava da "urgente necessidade de pessoal administrativo e técnico". O expurgo decerto tornara o pessoal técnico politicamente "mais sadio" (escrevia de maneira cautelosa), mas também aumentara "as deficiências dele". Na 14ª divisão do campo, por exemplo, havia 12.500 prisioneiros, dos quais só 657 não eram presos políticos. Desses 657, a maioria recebera sentenças criminais muito severas, o que também os desqualificava como especialistas e administradores, e 184 eram analfabetos - sobrando apenas setenta que poderiam ser aproveitados como escriturários ou engenheiros.[403]

Segundo as estatísticas oficiais, a receita da NKVD como um todo caiu de 3,5 bilhões de rublos em 1936 para 2 bilhões em 1937. O valor da produção industrial bruta dos campos também caiu, de 1,1 bilhão de rublos para 945 milhões.[404]

A ausência de lucratividade e a enorme desorganização da maioria dos campos, mais o crescente número de presos doentes e moribundos, não passaram despercebidas em Moscou, onde, durante reuniões da célula central do Partido Comunista na administração do Gulag, ocorreram discussões extremamente francas sobre a economia do campos. Numa reunião em abril de 1938, um burocrata reclamou do "caos e desordem" nos campos de Komi. Ele também acusou os comandantes do campo de Norilsk de terem criado uma usina de níquel "mal projetada" e desperdiçado assim uma quantia enorme. Outro administrador se queixou de que, considerando-se o dinheiro gasto para estabelecer novos campos madeireiros, "poderíamos esperar mais. Nossos campos estão organizados de forma nada sistemática. Grandes edifícios foram construídos na lama, e agora é preciso sair deles e arranjar outros".

Em abril de 1939, as reclamações já haviam aumentado. Nos campos do norte, ocorria uma "situação particularmente difícil com relação ao suprimento de comida", o que provocava "enorme porcentagem de trabalhadores enfraquecidos, enorme porcentagem de presos inaptos para trabalhar e alta taxa de mortalidade e doença".[405] Naquele mesmo ano, o Conselho dos Comissários do Povo reconheceu que até 60% dos presos dos campos sofriam de pelagra ou outras doenças relacionadas à desnutrição.[406]

E claro que o Grande Terror não foi responsável por todos esses problemas. Como se observou, nem mesmo os campos madeireiros de Frenkel, tão admirados por Stalin, jamais deram lucro.[407] O trabalho de presos sempre fora (e sempre seria) muito menos produtivo do que o trabalho de indivíduos livres. Mas essa lição ainda não fora aprendida. Em novembro de 1938, quando Yezhov foi removido do poder, seu substituto como chefe da NKVD, Lavrenty Beria, quase de imediato começou a alterar os regimes dos campos, mudando as regras, racionalizando os procedimentos, tudo para recolocar o Gulag onde Stalin o queria: no coração da economia soviética.

Beria não concluíra - ainda - que o próprio sistema de campos era por natureza improdutivo e propenso ao desperdício. Em vez disso, ele parecia acreditar que os encarregados do sistema de campos haviam sido incompetentes. Beria estava determinado a transformar os campos numa parte verdadeiramente rentável da economia soviética, dessa vez para valer.

Nem então nem depois Beria libertou dos campos um número grande de presos injustamente acusados - embora a NKVD tenha soltado alguns das prisões. Os campos também não se tornaram, e não se tornariam, nem um pouco mais humanos. A desumanização dos "inimigos" continuou a permear a linguagem dos guardas e administradores até a morte de Stalin. Prosseguiram os maus-tratos aos presos políticos (aliás, a todos os presos): em 1939, sob o olhar vigilante de Beria, os primeiros detentos começaram a trabalhar nas minas de urânio de Kolyma, praticamente sem nenhuma proteção contra a radiação.[408] Beria mudou apenas um aspecto do sistema: ordenou aos comandantes dos campos que mantivessem vivos mais presos e os utilizassem melhor.

Na prática, embora tal política nunca tenha sido clara, ele também suspendeu a proibição de "contratar" presos políticos com qualificações em engenharia, ciências ou tecnologia para trabalharem em funções técnicas nos campos. Em nível local, os comandantes dos campos ainda estavam receosos de usar presos políticos como "especialistas", e isso continuaria até o desmantelamento do Gulag, em meados da década de 1950. Mesmo em 1948, diferentes setores dos serviços de segurança ainda discutiam se presos políticos deveriam ser proibidos de trabalhar como especialistas, com alguns argumentando que seria politicamente muito perigoso e outros alegando que seria muito difícil fazer os campos funcionar sem eles.[409] Apesar de Beria nunca ter resolvido esse dilema, ele estava por demais determinado a tornar a NKVD uma parte produtiva da economia soviética para permitir que todos os cientistas e engenheiros mais importantes do Gulag perdessem os membros do corpo por congelamento no extremo norte. Em setembro de 1938, começou a organizar oficinas e laboratórios especiais, conhecidos pelos presos como sharashki, para cientistas aprisionados. Soljenitsin, que trabalhara numa sharashka, descreveu uma delas - "um estabelecimento de pesquisas secretíssimo, oficialmente designado apenas por um número de código" - no romance O primeiro círculo:

Uma dúzia de presos foi trazida dos campos para essa velha mansão campestre nos arredores de Moscou, que fora devidamente cercada de arame farpado [...] naquela ocasião, os presos não sabiam exatamente que tipo de pesquisa haviam sido trazidos a Mavrino para fazer. Estavam ocupados abrindo pilhas de caixotes que dois trens de carga especiais haviam entregado, garantindo cadeiras e mesas confortáveis para si e separando equipamento.[410]

De início, as sharashki foram batizadas "Departamentos Especiais de Construção". Depois, ficaram conhecidas coletivamente como "Quarto Departamento Especial" da NKVD, e cerca de mil cientistas acabariam trabalhando nelas. Em alguns casos, o próprio Beria localizava cientistas talentosos e ordenava que fossem trazidos de volta a Moscou. Os agentes da NKVD lhes proporcionavam um banho, um corte de cabelo, um barbear e um longo descanso - e os mandavam para trabalhar em laboratórios-prisões. Entre os "achados" mais importantes de Beria, estava o projetista aeronáutico Tupolev, que chegou a sua sharashka carregando um saco com um pedaço de pão e alguns torrões de açúcar (o projetista se recusou a abrir mão deles, mesmo depois de informado de que a comida melhoraria).

Tupolev, por sua vez, deu a Beria uma lista de outros que deveriam ser chamados de volta, entre os quais Valentin Glushko, o mais importante projetista de motores de foguetes da URSS; e Sergei Korolev, que depois seria o pai do Sputnik, o primeiro satélite artificial - aliás, o pai de todo o programa espacial soviético. Korolev retornou para a prisão de Lubyanka após ter passado dezessete meses em Kolyma e perdido muitos dentes por causas do escorbuto, parecendo "faminto e exausto", nas palavras de seus companheiros de prisão.[411] Contudo, num relatório preparado em agosto de 1944, Beria listaria vinte importantes itens de tecnologia militar inventados em seus sharashki e discorreria sobre as muitas maneiras pelas quais esses estabelecimentos haviam sido úteis à indústria bélica durante a Segunda Guerra Mundial.[412]

Em certos aspectos, o reinado de Beria pareceria melhor também para os zeks comuns. No geral, a alimentação de fato melhorou temporariamente. Conforme Beria assinalou em abril de 1938, a norma de 2 mil calorias diárias para a dieta nos campos fora estabelecida para pessoas sedentárias em cadeias, e não para quem fazia trabalho braçal. Dado que o furto, a fraude e as punições por mau desempenho no trabalho reduziam em até 70% aquela quantidade já escassa de comida, grande número de presos estava morrendo de inanição. Beria lamentava isso, não porque se apiedasse, mas porque as taxas mais altas de mortalidade e doença impediam que a NKVD cumprisse suas metas de produção para 1939. Ele requisitou a elaboração de novas normas nutricionais, a fim de que "a capacidade física da mão-de-obra dos campos possa ser utilizada ao máximo em qualquer atividade".[413]

Embora essas normas tenham sido melhoradas, o regime de Beria dificilmente indicava que se redescobriria a humanidade dos presos. Ao contrário, avançara várias etapas a transformação deles de seres humanos em unidades de trabalho. Os presos ainda podiam ser condenados à morte nos campos - mas não por meras tendências contra-revolucionárias. Agora, aqueles que se recusassem a trabalhar ou fomentassem a desorganização no trabalho deveriam ser submetidos a "um regime de campo mais severo, celas punitivas, rações e condições de vida pioradas e outras medidas disciplinares". Os "preguiçosos" também receberiam novas sentenças, inclusive a de morte.[414]

De imediato, os promotores locais iniciaram investigações sobre essa "malandragem". Em agosto de 1939, por exemplo, um preso foi fuzilado não apenas por ter-se recusado a trabalhar, mas também por ter encorajado outros a não trabalharem. Em outubro, três presas, aparentemente freiras ortodoxas, foram acusadas tanto de se recusar a trabalhar quanto de cantar hinos contra-revolucionários no campo de concentração; duas foram fuziladas, e a terceira recebeu uma pena adicional.[415]

Os anos do Grande Terror também deixaram sua marca de outra forma. Nunca mais o Gulag trataria presos como seres plenamente dignos de redenção. Dissolveu-se o sistema de "solturas antecipadas" por bom comportamento. O próprio Stalin, em sua única intervenção pública conhecida no operação cotidiana do Gulag, acabara com essas solturas, argumentando que elas afetavam as atividades econômicas dos campos. Em 1938, falando numa sessão do Presidium do Soviete Supremo, ele perguntou:

Não poderíamos pensar em alguma outra forma de recompensar o trabalho deles - com medalhas ou algo assim? Estamos agindo incorretamente, perturbando o trabalho do campo. Soltar essas pessoas pode ser necessário, mas, do ponto de vista da economia nacional, é um erro [...] soltaremos os melhores e deixaremos os piores.[416]

Em junho de 1939, publicou um decreto que acabava com aquele procedimento. Alguns meses depois, outro decreto eliminou a liberdade condicional também para os inválidos. O número de presos doentes aumentou na mesma proporção. Então, para os presos que davam duro, o maior incentivo seria a melhoria "das provisões e da comida" - e as medalhas que Stalin pensava serem tão atraentes. Em 1940, mesmo a Dalstroi já começara a distribuí-las.[417]

Várias dessas iniciativas contrariavam as leis da época e até encontraram resistência. Tanto o promotor-chefe, Vyshinsky, quanto o comissário da Justiça, Richkov, opuseram-se ao fim da soltura antecipada, assim como à pena de morte para os acusados de "desorganizar a vida nos campos". Mas Beria, como Yagoda antes dele, tinha claramente o apoio de Stalin e venceu todas as batalhas. A partir de 1º de janeiro de 1940, a NKVD ganhou até o direito de reaver uns 130 mil presos que tinham sido "emprestados" a outros ministérios. Beria estava decidido a fazer que o Gulag se tornasse verdadeiramente rentável.[418]

Com surpreendente rapidez, as mudanças de Beria tiveram mesmo impacto. Nos últimos meses antes da Segunda Guerra Mundial, a atividade econômica da NKVD voltou a crescer. Em 1939, sua receita foi de 4,2 bilhões de rublos. Em 1940, de 4,5 bilhões. Durante os anos de guerra, à medida que mais presos começassem a fluir para os campos, essas cifras aumentariam ainda mais depressa.[419] Segundo as estatísticas oficiais, o número de mortes nos campos também caiu à metade entre 1938 e 1939, indo de 5% para 3% do total de presos, muito embora o número destes continuasse a aumentar.[420]

Agora, também havia muito mais campos, e eles eram muito maiores do que no início da década de 1930. A população de presos quase duplicara entre 1º de janeiro de 1935 e 1º de janeiro de 1938, tendo passado de 950 mil para 1,8 milhão, com aproximadamente mais 1 milhão de degredados.[421] Os campos de concentração, que antes continham nada mais que algumas tendas e um pouco de arame farpado, haviam se tornado verdadeiros gigantes industriais. O Sewostlag, o principal campo da Dalstroi, contava quase 200 mil presos em 1940.[422] O Vorkutlag, o campo de mineração que se desenvolvera do Rudnik 1, no Ukhtpechlag, tinha 15 mil presos em 1938; em 1951, já seriam mais de 70 mil.

Dentre os campos da nova geração, talvez o mais sombrio fosse o Norillag, em geral conhecido como Norilsk. Localizado ao norte do Círculo Ártico (como Vorkuta e Kolyma), ficava bem em cima de uma enorme jazida de níquel, provavelmente a maior do mundo. Os presos de Norilsk não apenas escavavam o níquel, mas também construíram as próprias minas, a usina de processamento do metal e as usinas de força. Em seguida, ergueram uma cidade (Norilsk) para abrigar os homens da NKVD que administravam as minas e as fábricas. Da mesma maneira que seus predecessores, o campo de Norilsk cresceu rapidamente. Em 1935, tinha 1.200 presos; em 1940, já eram 19.500. No auge, em 1952, havia 68.849 pessoas aprisionadas ali.[423]

Em 1937, a NKVD também fundou o Kargopollag, na região de Arcangel, seguido em 1938 do Vyatlag, na Rússia central, e do Kraslag, na Sibéria setentrional (na região administrativa de Krasnoyarsk). Todos eram essencialmente campos madeireiros que assumiram atividades adicionais - olaria, processamento de madeira, movelaria. Todos duplicariam ou triplicariam de tamanho na década de 1940, quando já continham uns 30 mil presos cada um.[424]

Outros campos abriam, fechavam ou se reorganizavam com tanta freqüência que se torna difícil obter números precisos para qualquer ano em especial. Alguns eram bem pequenos, construídos para atender às necessidades de determinada fábrica ou projeto de construção. Outros eram temporários, estabelecidos para servir as obras de uma rodovia ou ferrovia e depois abandonados. A direção do Gulag, a fim de gerenciar os enormes números e os complexos problemas do sistema, acabou criando subdivisões: uma Administração Central dos Campos Industriais, uma Administração Central da Construção de Estradas, uma Administração Central dos Trabalhos Florestais e assim por diante.

Mas não fora apenas o tamanho dos campos o que mudara. A partir do final da década de 1930, todos os novos campos tinham caráter puramente industrial, sem os chafarizes e "jardins" do Vishlag, sem a propaganda idealista que acompanhara a construção de Kolyma, sem os presos-especialistas presentes em todos os níveis da vida do campo. OlgaVasileevna, administradora que trabalhou como engenheira e inspetora no Gulag e em outros canteiros de obras no final dos anos 1930 e nos 40, recordou que de início "havia menos guardas, menos administradores, menos funcionários. [...] Na década de 1930, os presos eram designados para todo tipo de trabalho, como escriturários, barbeiros, guardas". Na década de 40, porém, isso já acabara: "Tudo começou a adquirir caráter mais massificado [...] as coisas ficaram mais duras [...] à medida que os campos se expandiam, o regime se tornava mais cruel".[425]

 

O Gulag no apogeu, 1939-53

Na realidade, poder-se-ia dizer que, no final dos anos 1940, os campos de concentração soviéticos haviam adquirido sua forma definitiva. Nessa época, já tinham penetrado em quase todas as regiões da URSS, em todos os seus doze fusos horários e na maioria das repúblicas. De Aktyubinsk a Yakutsk, não havia um único centro populacional importante que agora não tivesse seu próprio campo ou colônia penal. Utilizava-se o trabalho de presos para construir de tudo, desde brinquedos infantis até aviões militares. Em muitos lugares da URSS, já era difícil encontrar quem se dedicasse a seus afazeres cotidianos sem esbarrar em presos.

E o mais importante: os campos tinham evoluído. Eram não mais um grupo de locais de trabalho administrados de forma idiossincrática, e sim um verdadeiro "complexo prisional-industrial", com práticas habituais, regras internas, sistemas especiais de distribuição, hierarquias.[426] Uma vasta burocracia, também com sua cultura específica, gerenciava de Moscou o imenso império do Gulag. Esse centro despachava regularmente ordens para os campos locais, fixando tudo, desde a política geral até detalhes secundários. Embora os campos locais nem sempre seguissem (ou conseguissem seguir) a letra da lei, nunca mais se restabeleceu a natureza ad hoc dos primeiros tempos do Gulag.

O destino dos presos ainda flutuava, conforme a política soviética, a economia e, acima de tudo, o rumo da Segunda Guerra Mundial. Mas a era da experimentação acabara. O sistema estava estabelecido. No início dos anos 1940, já se consagrara o conjunto de procedimentos que os presos denominavam "moedor de carne" - os métodos de captura, interrogatório, traslado, alimentação e trabalho. Na essência, ele mudaria muito pouco até a morte de Stalin.

 

 

           PARTE II - A VIDA E O TRABALHO NOS CAMPOS

 

  1. A DETENÇÃO

 

Quando ouvíamos falar da mais recente prisão, nunca perguntávamos: "Por que ele foi preso?" Mas éramos exceção. A maioria das pessoas, alucinada de medo, fazia aquela pergunta apenas para dar a si mesmas um pouco de esperança; se outros foram presos por este ou aquele motivo, elas não o seriam, porque não tinham feito nada de errado. Competiam umas com as outras afim de conceber razões inventivas para justificar cada detenção: "Bem, você sabe, ela é mesmo contrabandista", "De fato, ele foi longe demais", "Já era de esperar, é um sujeito terrível", "Sempre achei que alguma coisa ali não cheirava bem", "Ele não é mesmo como a gente"...

Foi por isso que banimos a pergunta "Por que ele foi preso?".

"Por quê?!", Akhmatova gritava, indignada, sempre que alguma pessoa de nosso círculo, tomada pelo clima predominante, fazia a pergunta.

"O que é que você quer dizer com 'Por quê?'? Você já deveria ter entendido que prendem as pessoas por nada!"

Nadezhda Mandelstam, Contra toda esperança.[427]

 

A poeta Anna Akhmatova (citada acima pela viúva de outro poeta) estava certa e errada ao mesmo tempo. Por um lado, desde meados da década de 1920 - época em que a máquina de repressão soviética já se estabelecera -, o governo não mais pegava gente na rua e a punha na cadeia sem motivo e sem explicação: havia detenções, inquéritos, julgamentos e sentenças. Por outro lado, os "crimes" pelos quais se detinham, julgavam e sentenciavam as pessoas eram absurdos, e os procedimentos de inquérito e condenação se mostravam disparatados e até surreais.

Em retrospecto, eis um dos aspectos excepcionais do sistema soviético de campos de concentração: no mais das vezes, os detentos chegavam por obra de um sistema legal, ainda que nem sempre se tratasse do sistema judicial comum. Ninguém julgava e sentenciava os judeus na Europa ocupada pelos nazistas, mas a imensa maioria dos presos nos campos soviéticos fora interrogada (mesmo que às pressas), julgada (mesmo que de maneira farsesca) e considerada culpada (mesmo que em menos de um minuto). Não há dúvida de que a convicção de estar agindo conforme a lei era parte do que motivava quem trabalhava nos serviços de segurança, assim como os guardas e administradores que depois controlavam a vida dos presos nos campos.

Mas repito: o fato de que o sistema repressivo era legalizado não significa que fosse também lógico. Pelo contrário: em 1947, não era mais fácil que em 1917 prever com alguma certeza quem seria preso. É bem verdade que se tornara possível adivinhar quem provavelmente o seria. Em especial durante ondas de terror, o regime parece ter escolhido esta ou aquela vítima porque elas, de alguma maneira, haviam chamado a atenção da polícia secreta - um vizinho as escutara contar uma piada infeliz, um chefe as vira adotar comportamento dúbio -; e, o mais importante, porque pertenciam a categorias populacionais que no momento estavam sob suspeita.

Algumas dessas categorias eram relativamente específicas - engenheiros e especialistas no final da década de 1920, kulaks em 1931, poloneses ou baltas nos territórios ocupados durante a Primeira Guerra Mundial -, e algumas eram mesmo muito vagas. Durante todos os anos 1930 e 40, por exemplo, os "estrangeiros" se mostravam sempre suspeitos. Por "estrangeiros", refiro-me a pessoas que de fato eram cidadãs de outros países; pessoas que podiam ter contatos no exterior; ou pessoas que podiam ter algum vínculo, real ou imaginário, com outro país. Não importando o que houvessem feito, eram sempre candidatas à prisão - e estrangeiros que sobressaíssem de qualquer maneira, por qualquer razão, encaravam probabilidade particularmente alta de ser encarcerados. Robert Robinson, um dos vários negros que se mudaram dos Estados Unidos para Moscou nos anos 1930, depois escreveria: "Todo negro americano que conheci no começo da década de 30 e que se tornou cidadão soviético sumiu de Moscou num período de sete anos".[428]

Diplomatas não estavam isentos. Por exemplo, Alexander Dolgun, cidadão americano e funcionário de baixo escalão da embaixada dos Estados Unidos em Moscou, descreve em suas memórias o modo pelo qual o apanharam na rua em 1948 e o acusaram, injustamente, de espionagem; em parte, a suspeita recaiu sobre ele porque Dolgun tinha uma satisfação juvenil em evadir-se à vigilância da polícia secreta e porque era perito em convencer os motoristas da embaixada a emprestar-lhe carros, levando a polícia secreta soviética a desconfiar de que ele fosse mais importante do que o cargo indicava.

Dolgun passaria oito anos nos campos; depois, só voltaria para os Estados Unidos em 1971.

Comunistas estrangeiros eram alvos freqüentes. Em fevereiro de 1937, Stalin, de modo alarmante, disse a Giorgi Dmitrov, secretário-geral da Internacional Comunista (o Comintern, a organização dedicada a fomentar a revolução mundial), que "todos vocês do Comintern fazem o jogo do inimigo". Dos 394 membros da Comissão Executiva do Comintern em janeiro de 1936, apenas 171 permaneciam em abril de 1938. Os restantes haviam sido fuzilados ou mandados para o Gulag, dentre eles pessoas de muitas nacionalidades - alemães, austríacos, iugoslavos, italianos, búlgaros, finlandeses, até ingleses e franceses. Os judeus parecem ter sofrido de modo desproporcional. Ao fim e ao cabo, Stalin matou mais integrantes do Politburo do PC alemão pré-1933 do que Hitler: dos 68 líderes que fugiram para a URSS após a tomada do poder pelos nazistas, 41 morreram, por execução ou nos campos. O PC polonês talvez tenha sido ainda mais dizimado. Segundo uma estimativa, executaram-se 5 mil comunistas poloneses na primavera e no verão de 1937.[429]

Mas não era necessário pertencer a um partido comunista de outras terras: Stalin também visava meros simpatizantes estrangeiros, dos quais os 25 mil "fino-americanos" eram provavelmente os mais numerosos. Tratava-se de pessoas de língua finlandesa (algumas imigrantes nos Estados Unidos, as outras já nascidas naquele país) que foram para a URSS na década de 1930, os anos da Grande Depressão. Na maioria, eram operários fabris, a maior parte desempregada na América. Estimulados pela propaganda soviética - recrutadores percorriam as colônias finlandesas nos Estados Unidos falando das maravilhosas condições de vida e oportunidades de trabalho na URSS -, eles acorreram para a República Careliana, onde se falava o finlandês. Quase de imediato, criaram problemas para as autoridades soviéticas. A Carélia não se revelou muito parecida com os Estados Unidos. Muitos assinalaram ruidosamente isso a quem quisesse ouvir e então tentaram voltar. Em vez disso, acabaram no Gulag no final dos anos 1930.[430]

Cidadãos soviéticos com vínculos externos não eram menos suspeitos. Os mais visados pertenciam às "diásporas": os poloneses, alemães e fino-carelianos que tinham parentes e contatos além-fronteiras, assim como os baltas, gregos, iranianos, coreanos, afegãos, chineses e romenos espalhados pela URSS. Entre julho de 1937 e novembro de 1938, conforme os próprios arquivos da NKVD, ela condenou 335.513 pessoas nessas operações "nacionais" (ou seja, referentes a nacionalidades).[431] Veremos que ações semelhantes se repetiriam durante e após a guerra.

Entretanto, para levantar suspeitas, nem era preciso falar uma língua estrangeira. Qualquer um com ligações além-fronteiras era suspeito de espionagem: filatelistas, entusiastas do esperanto, toda pessoa que escrevesse para o exterior ou tivesse parentela fora da URSS. A NKVD também prendeu todas as pessoas que haviam trabalhado na Ferrovia Oriental Chinesa - que atravessava a Manchúria e cujas origens remontavam aos tempos czaristas - e as acusou de espionagem para o Japão. Nos campos, eram conhecidas como Kharbintsy, por causa da cidade manchu de Harbin (para os russos, Kharbin), onde muitas tinham morado.[432] Robert Conquest descreve a detenção de uma cantora de ópera que dançara com o embaixador japonês num baile oficial e a de um veterinário que cuidava de cães pertencentes a estrangeiros.[433]

No final da década de 1930, a maioria dos soviéticos comuns já percebera o padrão e não queria absolutamente nenhum contato com estrangeiros. Karlo Stajner, comunista croata casado com russa, lembrou que "só raramente os russos se atreviam a ter qualquer relacionamento com estrangeiros [...]. Os parentes de minha mulher continuaram a ser praticamente estranhos para mim. Nenhum deles ousava visitar-nos. Quando souberam de nossa idéia de casar, todos eles advertiram Sonia disso".[434] Mesmo em meados dos anos 1980, quando visitei a URSS pela primeira vez, muitos russos se mantinham distantes dos estrangeiros, não lhes dando atenção ou se negando a encará-los nas ruas.

E ainda assim... Nem todo estrangeiro era detido pela polícia, e nem todo acusado de ter vínculos externos os tinha. Também acontecia de pessoas serem presas por motivos muito mais idiossincráticos.[435] Em conseqüência, indagar "Por quê?" - a pergunta que Anna Akhmatova tanto detestava - produz uma gama verdadeiramente espantosa de explicações alegadas.

Por exemplo, Osip Mandelstam (o marido de Nadezhda), foi preso em razão deste ataque poético a Stalin:

Vivemos sem sentir a terra debaixo dos pés.

Falamos, e ninguém nos ouve a dez passos.

Mas, onde houver uma conversa, mesmo que sussurrada,

O embusteiro, assassino e mata-campônios do Kremlin será mencionado.

Seus dedos, gordos como larvas, são untuosos.

Suas palavras, como pesos de chumbo, são finais.

Seu bigode de barata desdenha. As bordas de suas botas brilham.

E, em volta dele, uma panelinha de líderes frouxos,

Apenas meio humanos, serve-lhe de brinquedo.

Um choraminga, outro arrulha, outro geme.

Só ele berra e aponta,

Lançando decretos como se fossem ferraduras,

Acertando uma virilha, uma cabeça, um olho...

Toda sentença de morte é doce

Para o osseto de peito largo.[436]

Embora se apresentassem diferentes razões oficiais, Tatyana Okunevskaya, uma das mais populares atrizes soviéticas do cinema, acreditava ter sido presa porque se recusara a dormir com Viktor Abakumov, o chefe da contra-espionagem da URSS durante a Segunda Guerra Mundial. Segundo Tatyana, para assegurarem-na de que esse era o verdadeiro motivo, foi-lhe mostrado um mandado de prisão com a assinatura de Abakumov.[437] Os quatro irmãos Starostin, todos excepcionais jogadores de futebol, viram-se presos em 1942. Sempre acreditaram que isso se devia ao fato de seu time, o Spartak, ter tido o azar de derrotar o Dynamo - pelo qual Lavrenty Beria torcia - por um placar demasiado elástico.[438]

Tampouco se fazia necessário nada fora do comum. Lyudmila Khachatryan foi presa por ter-se casado com um estrangeiro, soldado iugoslavo. Lev Razgon narrou a história de um camponês, Seryogin, que, ao saber que alguém matara Kirov, retrucou: "Como se eu desse a mínima!" Seryogin nunca ouvira falar de Kirov e presumiu que se tratasse de alguém que morrera na aldeia vizinha. Pelo equívoco, recebeu pena de dez anos.[439] Em 1939, contar (ou ouvir) uma piada sobre Stalin; atrasar-se para o trabalho; ter a infelicidade de que um amigo aterrorizado ou um vizinho invejoso o denunciasse como "conjurado" num complô inexistente; possuir quatro vacas numa aldeia onde a maioria tmha uma só; furtar um par de sapatos; ser primo da mulher de Stalin; afanar caneta e papel do escritório para dá-los a um escolar carente -tudo isso, nas circunstâncias certas, acarretava pena de prisão num campo soviético. Por uma lei de 1940, parentes de quem houvesse tentado atravessar ilegalmente a fronteira soviética estavam sujeitos a prisão, não importando se sabiam ou não da tentativa de fuga.[440] Veremos que as leis dos tempos de guerra - sobre o atraso no trabalho e a proibição de mudar de emprego - adicionariam ainda mais "criminosos" aos campos.

Se os motivos para detenção se revelavam muitos e variados, os métodos também o eram. Alguns presos tinham sido mais do que avisados. Durante semanas antes de sua captura, em meados da década de 1930, AlexanderWeissberg fora seguidamente chamado para interrogatório por um agente da polícia secreta, perguntando-lhe repetidas vezes como ele virara "espião": quem o recrutara? Quem ele recrutara? Para que organização estrangeira trabalhava? "Fez as mesmíssimas perguntas de novo e de novo, e sempre lhe dei as mesmas respostas."[441]

Mais ou menos na mesma época, Galina Serebryakova, autora de A juventude de Marx e mulher de um alto funcionário público, também foi "convidada" à Lubyanka todas as noites, obrigada a esperar até as duas ou três da manhã, interrogada e liberada às cinco, quando voltava para seu apartamento. Agentes cercavam o prédio, e um carro preto seguia Galina quando ela saía de casa. Ficou tão certa de que seria presa que tentou matar-se. No entanto, suportou vários meses dessa perseguição até ser de fato presa.[442]

Durante grandes ondas de prisões - de kulaks em 1929 e 1930, de ativistas do partido em 1937 e 1938, de ex-presos em 1948 -, muitos sabiam que sua vez se aproximava porque simplesmente todos em volta estavam sendo capturados. Em 1937, Elinor Lipper (comunista holandesa que viera para Moscou naquela década) estava morando no Lux, um hotel especial para revolucionários estrangeiros: "toda noite, mais algumas pessoas sumiam do hotel [...] de manhã, apareciam grandes lacres vermelhos nas portas de mais alguns quartos".[443]

Em épocas de verdadeiro terror, alguns até encaravam a detenção com uma espécie de alívio. Nikolai Starostin, um daqueles azarados astros do futebol, foi seguido por agentes durante várias semanas; ficou tão incomodado com isso que finalmente foi até um deles e exigiu uma explicação: "Se vocês querem alguma coisa de mim, chamem-me à sua repartição". Em conseqüência, no momento da prisão, ele sentiu não "espanto e medo", mas "curiosidade".[444]

Outros, porém, eram pegos totalmente de surpresa. O escritor polonês Aleksander Wat, que então morava em Lvov (ocupada pelos soviéticos), foi convidado a uma festa num restaurante, com um grupo de literatos. Perguntou ao anfitrião o que se comemorava. "Você verá", foi a resposta. Encenou-se uma briga, e ele foi preso ali mesmo.[445] Alexander Dolgun, o já citado funcionário da embaixada norte-americana, foi saudado na rua por um homem que acabou revelando-se um secreta. Dolgun recordaria que, quando o homem o chamou pelo nome, "fiquei completamente aturdido; imaginei se não seria algum doido".[446] Tatyana Okunevskaya, a atriz, estava de cama, muito resfriada, quando vieram prendê-la; requereu que a polícia voltasse outro dia; mostraram-lhe o mandado de prisão (aquele com a assinatura de Abakumov) e a arrastaram escada abaixo.[447] Soljenitsin repete a história (provavelmente apócrifa) da mulher que foi ao Bolshoi com o namorado, interrogador profissional, que, por sua vez, a levou direto do teatro para a Lubyanka.[448] A sobrevivente e memorialista Nina Gagen-Torn conta o episódio de uma mulher que fora detida quando apanhava roupa no varal num pátio de Leningrado; estava de roupão de banho e deixara o bebê sozinho no apartamento, achando que voltaria em poucos minutos; implorou para que a deixassem ir pegá-lo, mas não permitiram.[449]

Na realidade, tem-se a impressão de que as autoridades variavam propositalmente de tática, capturando algumas pessoas em casa, outras no trabalho; algumas na rua, outras no trem. Um memorando de Stalin a Viktor Abakumov, datado de 17 de julho de 1947, confirma essa suspeita, observando que os visados eram rotineiramente "surpreendidos pela polícia" para evitai que escapassem, resistissem ou alertassem outros em suas "conspirações" contra-revolucionárias. Em certos casos, continuava o documento, "realiza-se uma detenção às escondidas na rua".[450]

Entretanto, a captura mais comum era a que ocorria na casa da pessoa, no meio da noite. Em períodos de prisões em massa, difundiu-se muito o medo da "batida na porta" à meia-noite. Há uma velhíssima piada soviética sobre o susto terrível que marido e mulher tiveram quando ouviram a batida na porta - e sobre o alívio que sentiram quando souberam que era apenas o vizinho, avisando que o prédio estava pegando fogo. Um provérbio soviético também diz que "os ladrões, as prostitutas e a NKVD trabalham mais à noite".[451] Em geral, essas detenções noturnas se faziam acompanhar de uma busca, ainda que as táticas para essa última variassem com o passar do tempo. Osip Mandelstam foi preso duas vezes, em 1934 e em 1938, e sua mulher descreveria as diferenças entre os dois procedimentos:

Em 1938, não perderam tempo procurando nem examinando papéis - de fato, os agentes da polícia não pareciam nem saber a ocupação do homem que tinham vindo prender [...] simplesmente viraram todos os colchões, enfiaram os papéis dele num saco, fuçaram um pouquinho e sumiram, levando M. [Mandelstam] consigo. A operação toda não durou mais que vinte minutos. Mas, em 1934, eles haviam ficado a noite toda, até a madrugada.

Durante a batida anterior, a polícia secreta, que obviamente sabia o que estava fazendo, passara um pente-fino na papelada de Mandelstam, deixando de lado manuscritos antigos e procurando versos novos. Também se assegurara de que testemunhas "civis" estivessem presentes, assim como um "amigo" dos Mandelstam que estava a soldo da polícia; tratava-se de um crítico literário, que recebera ordens de aparecer lá antes da chegada dos agentes, para garantir que a família não começasse a queimar papéis tão logo ouvisse a batida na porta.[452] Na batida de 1938, a polícia não se preocupou com tais detalhes.

Prisões em massa de grupos nacionais específicos, como as que ocorreram no que fora a Polônia oriental e os Estados bálticos - territórios tomados pelo Exército Vermelho entre 1939 e 1941 -, costumavam ter caráter ainda mais aleatório. Janusz Bardach, adolescente judeu na localidade polonesa de Wlodzimierz-Wolynski, viu-se obrigado a servir de "testemunha" civil durante uma dessas capturas. Na noite de 5 de dezembro de 1939, acompanhou um grupo de facínoras bêbados da NKVD que foram de casa em casa, arrebanhando pessoas que seriam presas ou deportadas. Às vezes, atacavam os cidadãos mais ricos e mais bem relacionados, cujos nomes eram registrados numa lista; outras vezes, simplesmente carreavam "refugiados" - em geral judeus que tinham fugido da Polônia ocidental, ocupada pelos nazistas, para a oriental, ocupada pelos soviéticos -, sem se preocupar em anotar seus nomes. Numa casa, alguns refugiados tentaram resguardar-se lembrando a NKVD de que haviam sido membros do Bund, o movimento socialista judaico. Apesar disso, ao saber que essas pessoas vinham de Lublin (cidade que, na época, ficava do outro lado da fronteira), Gennady, o líder da patrulha da NKVD, começou a gritar:

"Seus refugiados sujos! Espiões nazistas!" As crianças caíram no choro, o que irritou Gennady ainda mais. "Façam-nas calar a boca! Ou vocês querem que eu mesmo cuide disso?"

A mãe as puxou para junto de si, mas elas não conseguiam parar de chorar. Gennady agarrou as mãos [de um] menininho, arrancou-o dos braços da mãe e o jogou no chão. "Cale a boca, eu já disse!" A mãe berrou. O pai tentou dizer alguma coisa, mas só conseguiu arfar. Gennady pegou o menino e o segurou por um instante, encarando-o de perto; depois, atirou-o com força contra a parede.

Mais tarde, os homens destruíram a casa de amigos de infância de Bardach:

Ao lado, ficava o escritório do dr. Schechter. Sua escrivaninha escura de mogno estava no meio, e Gennady foi direto para ela. Passou a mão pela madeira lisa e então, num momento de raiva inesperada, a golpeou com um pé-de-cabra. "Porcos capitalistas! Parasitas filhos da puta! Precisamos achar esses exploradores capitalistas!" Cada vez com mais força, seguiu golpeando a mesa, sem parar, fazendo vários buracos na madeira.

Não tendo conseguido localizar os Schechter, os homens estupraram e mataram a mulher do jardineiro.

Nesses territórios recém-ocupados, quem executava tais operações, freqüentemente guardas de comboio (soldados que controlavam os trens de deportados) e não a NKVD, recebera muito menos treinamento que os secretas que realizavam as detenções "normais" de criminosos também "normais". E provável que a violência não fosse cometida a mando do Estado, mas, já que se tratava de soldados soviéticos prendendo "capitalistas" no Ocidente rico, a bebedeira, a baderna e até o estupro parecem ter sido tolerados, como o seriam depois, na fase final da Segunda Guerra, durante o avanço do Exército Vermelho através da Polônia e da Alemanha.[453]

No entanto, certos aspectos da conduta desses homens eram severamente impostos de cima. Em novembro de 1940, em Moscou, a Administração dos Guardas de Comboio determinou que os seus homens, ao realizar as prisões, deveriam mandar os detidos trazerem roupas quentes e objetos pessoais em quantidade suficiente para três anos, pois naquele momento a URSS sofria escassez desses produtos. Esperava-se que os detentos vendessem seus pertences.[454] Antes, os soldados costumavam receber ordem de não dizer nada aos presos sobre o lugar para onde iam, ou quanto tempo ficariam lá. A fórmula aceite era: "Por que se preocuparem? Por que carregarem o que quer que seja? Só vamos levar vocês para uma conversinha". Às vezes, diziam aos deportados que estes estavam apenas sendo transferidos para outra área, mais longe das fronteiras, "para a própria proteção de vocês".[455] A idéia era impedir que os detidos se apavorassem, reagissem ou fugissem. O resultado era que se privavam as pessoas dos instrumentos básicos de que precisariam para sobreviver num clima rude, com o qual não estavam familiarizadas.

Embora se possa relevar a ingenuidade de camponeses poloneses que deparavam com o regime soviético pela primeira vez e acreditavam nessas mentiras, a mesmíssima fórmula também funcionava bem no caso dos intelectuais de Moscou e Leningrado e dos apparatchiki do Partido, freqüentemente tomados pela convicção da própria inocência. Quando prenderam Evgeniya Ginzburg (na época funcionária do Partido em Kazan), disseram-lhe que ficaria fora "quarenta minutos, talvez uma hora". Em conseqüência, ela não teve chance de despedir-se dos filhos.[456] Yelena Sidorkina, filiada ao Partido, desceu a rua para a prisão "conversando tranqüilamente" com o policial, certa de que logo estaria em casa.[457]

Sofia Aleksandrovna, ex-mulher do chekista Gleb Boky, viu-se desestimulada a levar consigo um casaco leve quando a NKVD veio buscá-la ("a noite está quente, e voltaremos no máximo em uma hora"). Isso fez seu genro, o escritor Lev Razgon, ponderar a estranha crueldade do sistema: "Para que mandar para a prisão uma mulher de meia-idade, com saúde não muito boa, sem nem mesmo o saquinho de roupas de baixo e itens de higiene que, desde os tempos dos faraós, os detidos sempre foram autorizados a trazer consigo?"[458]

A mulher do ator Georgii Zhenov pelo menos teve o bom senso de começar a acondicionar as roupas do marido. Quando lhe disseram que Zhenov retornaria rapidamente, ela rebateu: "Quem cai nas mãos de vocês não volta logo".[459] Era verdade: na maioria das vezes, quando um detido adentrava os pesados portões de ferro de uma prisão soviética, passavam-se muitos anos antes que tornasse à casa.

Se às vezes o método soviético de captura parece ter sido quase aleatório, os rituais que se seguiam já eram praticamente imutáveis nos anos 1940. Não importando por que se detivera uma pessoa, os acontecimentos seguiam curso muito previsível tão logo ela chegava à prisão local. Como regra geral, os detidos eram registrados e fotografados e tinham suas impressões digitais recolhidas bem antes de serem informados de por que haviam sido presos e de qual seria seu destino. Durante as primeiras horas, e às vezes durante os primeiros dias, não topavam com ninguém de mais autoridade que os carcereiros, os quais não ligavam a mínima para o que seria feito deles, não tinham a menor idéia dos crimes que podiam ter cometido e respondiam a todas as perguntas com um dar de ombros indiferente.

Muitos ex-condenados acreditam que as primeiras horas de cativeiro se destinavam a atordoá-los de propósito, para que ficassem incapazes de racionar com coerência. Inna Shikheeva-Gaister, presa por ser filha de um inimigo do povo, sentiu isso acontecer com ela depois de poucas horas na Lubyanka, a cadeia central de Moscou:

Aqui na Lubyanka, você já não é uma pessoa. E não há gente a seu redor. Conduzem você por um corredor, fotografam-na, despem-na, revistam-na mecanicamente. Tudo se faz de maneira totalmente impessoal. Você procura um olhar humano - não falo nem de uma voz humana, só mesmo de um olhar -, mas não o acha. Você fica em pé, desgrenhada, diante do fotógrafo. Tenta de algum modo ajeitar-se nas roupas, e lhe mostram com o dedo onde sentar. Uma voz vazia diz "De frente'' e "De perfil". Não a vêem como ser humano! Você se tornou um objeto.[460]

Caso fossem levados para interrogatório numa das prisões centrais urbanas - e não colocados imediatamente em trens, como o eram os degredados -, os detidos se submetiam a uma revista minuciosa, em várias etapas. Um documento de 1937 instruía os carcereiros especificamente a não esquecer que "o inimigo não interrompe a luta depois da detenção" e que ele podia suicidar-se para ocultar suas atividades criminosas. Em conseqüência, os detentos eram privados de botões, cintos, suspensórios, cadarços, ligas, elásticos de roupas de baixo e tudo o mais que pudessem pensar em usar para matar-se.[461] Muitos se sentiam humilhados com esse procedimento. Nadezhda Joffe, filha de um destacado bolchevique, viu-se despojada do cinto, da liga, dos cadarços e dos grampos de cabelo:

Lembro-me de como fiquei impressionada com a degradação e o absurdo que tudo aquilo representava. O que uma pessoa poderia lazer com grampos de cabelo? Mesmo se alguém tivesse a idéia despropositada de enforcar-se com os cadarços, como é que se faria isso? Eles simplesmente tinham de colocar a pessoa numa posição asquerosa e humilhante, em que as saias caíam, as meias arriavam e os pés se arrastavam.[462]

A revista corporal que vinha a seguir era pior. No romance O primeiro círculo, Alexander Soljenitsin descreve a detenção de Innokenty, um diplomata soviético. Poucas horas depois da chegada à Lubyanka, um carcereiro examina cada orifício do corpo de Innokenty:

Da mesma maneira que um negociante de cavalos, com seus dedos sujos cutucando dentro da boca de Innokenty, esticando uma bochecha e depois a outra, puxando para baixo as pálpebras inferiores, o carcereiro se convenceu de que não havia nada escondido nos olhos nem na boca; empurrou a cabeça para trás, de modo que as narinas ficaram iluminadas; em seguida, examinou ambas as orelhas, puxando-as para trás, e mandou Innokenty esticar as mãos, para mostrar que não havia nada entre os dedos, e balançar os braços, para mostrar que não havia nada sob as axilas. No mesmo tom monótono e peremptório, ordenou:

"Pegue o pênis na mão. Puxe o prepúcio. Mais. Certo, já basta. Mova o pênis do alto para a direita, do alto para a esquerda. Certo, pode largar. Fique de costas para mim. Abra bem as pernas. Mais. Incline-se e toque o chão. Com as pernas mais abertas. Abra as nádegas com as mãos. Certo. Agora, de cócoras. Depressa! De novo!"

Tendo cogitado sobre a detenção antes de ocorrida, Innokenty se imaginara num duelo de obstinação até a morte. Para tanto estava preparado, pronto para uma defesa íntegra de sua vida e de suas convicções. Nunca presumira algo tão simples, tão deprimente e tão imperioso como aquela realidade. As pessoas que o haviam recepcionado eram mesquinhas - pequenas autoridades, tão desinteressadas em sua personalidade quanto no que ele fizera.[463]

Para as mulheres, o choque de tais revistas podia ser pior. Uma se recordaria de que o carcereiro que fazia a revista

tirou nossos sutiãs, nossas cintas-ligas e algumas outras partes de nossa lingerie que eram essenciais a uma mulher. Seguiu-se um exame ginecológico rápido e repulsivo. Fiquei quieta, mas senti que me privavam de toda a dignidade humana.[464]

Em 1941, durante uma estada de doze meses na prisão Aleksandrovsky Tsentral, a memorialista T. P. Milyutina foi revistada repetidas vezes. As mulheres das celas eram levadas, cinco de cada vez, a uma escada sem aquecimento. Ali, recebiam ordem de despir-se por inteiro, colocar as roupas no chão e levantar os braços. Mãos se metiam "em nossos cabelos, nossas orelhas, debaixo de nossas línguas, também entre nossas pernas", com as prisioneiras tanto em pé quanto sentadas. A memorialista escreve que, após a primeira dessas revistas, "muitas caíram em lágrimas, e muitas ficaram histéricas".[465]

Em seguida à revista, alguns presos iam para a solitária. "As primeiras horas de prisão", continua Soljenitsin, "destinam-se a subjugar o preso isolando-o do contato com outros detentos, para que ninguém possa animá-lo, para que sinta que toda a força daquele aparato vasto e ramificado se exerce sobre ele, e apenas sobre ele."[466] A cela do diplomata soviético Evgenii Gnedin, filho de revolucionários, continha apenas uma pequena mesa, afixada ao piso, e duas banquetas, também afixadas ao piso. A cama dobradiça na qual os presos dormiam à noite era presa à parede. Tudo, inclusive as paredes, banquetas, cama e teto, era pintado de azul-claro. "Tinha-se a impressão de estar dentro de um camarote esquisito de navio", escreveria Gnedin em suas memórias.[467]

Durante as primeiras horas de detenção, ou mesmo por alguns dias, também era bastante comum ser posto (a exemplo do que aconteceu a Alexander Dolgun) num bok, uma cela "de mais ou menos 1,20 por 0,90 metro; uma caixa vazia com um banco comprido".[468] O cirurgião polonês Isaac Vogelfanger viu-se numa cela com janelas abertas no meio do inverno.[469] Outros, corno Lyubov Bershadskaya - uma sobrevivente que depois ajudaria a liderar uma greve de presos em Vorkuta -, ficavam isolados durante todo o período de interrogatório. Lyubov passou nove meses na solitária e escreveu que até ansiava por ser interrogada, só para ter alguém com quem falar.[470]

Contudo, para o recém-chegado, uma cela superlotada podia ser ainda mais horripilante. Na descrição de Olga Adamova-Sliozberg, sua primeira cela parece um quadro de Hieronymus Bosch:

A cela era enorme. As paredes abobadadas pingavam. De ambos os lados, deixando apenas uma passagem estreita, havia pranchas baixas que serviam de camas e estavam apinhadas de corpos. Por cima, em varais, secavam andrajos diversos. O ar se espessava com a fumaça nojenta de fumo forte e barato e se enchia com o alarido de bate-bocas, gritos e soluços.[471]

Outro memorialista também procurou exprimir a sensação de susto:

Era uma visão tão terrível, homens de cabelo comprido, barbados, o cheiro de suor, nenhum lugar para sentar ou descansar. É preciso usar a imaginação para tentar compreender o tipo de lugar em que eu estava.[472]

A finlandesa Aino Kuusinen, mulher de Oleg Kuusinen (o líder do Comintern), acreditava que, na primeira noite, fora proposital-mente colocada onde pudesse ouvir os presos que iam sendo interrogados:

Mesmo hoje, passados trinta anos, mal consigo descrever o horror daquela primeira noite na Lefortovo [prisão moscovita que leva o nome do bairro onde fica]. De minha cela, dava para ouvir todo e qualquer ruído que se fazia do lado de fora. Depois descobri que, perto dela, ficava o "departamento de interrogatórios", uma estrutura separada que, na realidade, era uma sala de torturas. Durante toda a noite, escutei urros atrozes e o repetido som de chibata. Um animal desesperado e torturado dificilmente produziria berros tão medonhos quanto os das vítimas que, durante horas, eram atingidas por ameaças, golpes e xingamentos.[473]

Mas, não importando onde se encontrassem na primeira noite de detenção - fosse numa antiga cadeia czarista, fosse num xadrez de estação ferroviária, fosse numa igreja ou num mosteiro adaptados -, todos os presos encaravam uma tarefa urgente e imediata: recuperar-se do susto, ajustar-se às regras específicas da vida prisional - e lidar com o interrogatório. A velocidade com que conseguissem fazer essas coisas ajudaria a determinar quão bem, ou quão mal, eles se sairiam ali na detenção e, por fim, nos campos.        

De todas as etapas pelas quais os presos passavam no caminho para o gulag, o interrogatório talvez seja aquela com a qual os ocidentais estão mais familiarizados. Descreveram-se interrogatórios não apenas nos livros de história, mas também na literatura do Ocidente (por exemplo. no clássico Do zero ao infinito, de Arthur Koestler), em filmes de guerra e em outras formas de cultura popular ou elevada. A Gestapo, assim como a Inquisição espanhola, contava com interrogadores tristemente célebres. Suas táticas entraram para o imaginário popular. "Temos meios de fazê-lo falar" é uma frase que as crianças ainda usam quando brincam de guerra.

É claro que interrogatórios de presos também ocorrem em sociedades democráticas e respeitadoras do Estado de direito, às vezes seguindo a lei, às vezes não. A pressão psicológica e até a tortura estão longe de ser exclusivas da URSS. A dobradinha "polícia bonzinho e polícia malvado" (na qual o primeiro, simpático e cortês, faz perguntas e se alterna com o segundo, irado) se incorporou não apenas a vários idiomas, mas também a manuais de polícia americanos (hoje ultrapassados). Durante interrogatório, em uma ou outra época, presos se viram pressionados em muitos países, quando não na maioria deles; aliás, tal pressão levou a Suprema Corte dos Estados Unidos, no caso Miranda versus Arizona (1966), a determinar que os suspeitos de atos criminosos devem ser informados, entre outras coisas, de seu direito a permanecer calados e contatar advogado.[474]

Ainda assim, as "investigações" realizadas pela polícia secreta soviética eram únicas, se não nos métodos, pelo menos no caráter "maciço". Em alguns períodos, os "casos" envolviam rotineiramente centenas de pessoas, que eram capturadas em toda a URSS. Típico de sua época era um relatório elaborado pelo departamento regional da NKVD em Orenburg sobre "Providências operacionais para a liquidação de grupos clandestinos de trotskistas e bukharinistas, assim como de outros grupos contra-revolucionários, tomadas de 1º de abril a 18 de setembro de 1937". Segundo o relatório, a NKVD local prendera 420 membros de uma conspiração "trotskista"; 120 "direitistas"; mais de 2 mil integrantes de uma "organização militar nipo-cossaca de direita"; mais de 1.500 oficiais e funcionários públicos czaristas degredados de São Petersburgo em 1935; uns 250 poloneses indiciados como parte de um processo contra "espiões polacos"; 95 pessoas que haviam trabalhado na Ferrovia Oriental Chinesa e eram consideradas espiões japoneses; 3.290 ex-kulaks; e 1.300 "elementos criminosos".

No todo, a NKVD de Orenburg detivera mais de 7.500 pessoas num período de cinco meses, o que não deixava muito tempo para um exame cuidadoso das provas. Isso nem importava, pois, na realidade, os inquéritos sobre cada uma dessas conspirações haviam sido iniciados em Moscou. A NKVD estava apenas cumprindo obrigação, preenchendo as cotas de presos que lhe tinham sido impostas de cima.[475]

Por causa do grande volume de detenções, foi preciso estabelecer procedimentos especiais. Estes nem sempre acarretavam mais crueldade. Pelo contrário: às vezes, o grande número de presos levava a NKVD a reduzir ao mínimo o trabalho de real investigação. O acusado era interrogado às pressas e condenado igualmente às pressas, por vezes com uma audiência judicial extremamente rápida. O general Aleksander Gorbatov recordaria que sua audiência demorou "quatro ou cinco minutos" e consistiu na confirmação de detalhes pessoais e numa única pergunta: "Por que você não confessou seus crimes durante o inquérito?" Em seguida, recebeu sentença de quinze anos de prisão.[476]

Outros nem sequer tinham julgamento: eram condenados in absentia, procedimento realizado ou por uma osoboe soveshchanie (comissão especial), ou por uma tróica de altos funcionários. Foi o caso de Thomas Sgovio, cujo inquérito se mostrou inteiramente superficial. Nascido em Buffalo (estado de Nova York), Sgovio chegara à URSS em 1935 como refugiado político, sendo filho de um comunista ítalo-americano que, por causa de suas atividades políticas, fora deportado dos Estados Unidos para lá. Durante os três anos em que morou em Moscou, Sgovio foi aos poucos se desiludindo, até procurar reaver seu passaporte norte-americano (abrira mão dele quando entrara na URSS), a fim de poder voltar para casa. Em 12 de março de 1938, foi preso ao sair a pé da embaixada americana.

O registro do inquérito subseqüente - que Sgovio, décadas depois, fotocopiou num arquivo de Moscou e doou à Hoover Institution - é sumário, no que, aliás, corresponde à lembrança que o próprio acusado tem dos acontecimentos. Entre as provas contra ele, inclui-se uma lista do que se achou durante a revista corporal; entre outras coisas, sua caderneta sindical, sua agenda de endereços e telefones, seu cartão de biblioteca, uma folha de papel ("com texto escrito em língua estrangeira"), sete fotos, um canivete e um envelope com selos estrangeiros. Há uma declaração do camarada Sorokin, capitão da Segurança do Estado, atestando que o acusado entrara a pé na embaixada dos Estados Unidos em 12 de março de 1938. Há também uma declaração de testemunha, atestando que ele deixara a embaixada às 13h15. O prontuário ainda compreende as minutas do inquérito inicial e os dois breves interrogatórios, tendo sido cada página assinada por Sgovio e pelo interrogador. A declaração inicial de Sgovio está transcrita assim: "Eu queria recuperar minha cidadania americana. Três meses atrás, fui à embaixada americana pela primeira vez e solicitei minha cidadania de volta. Hoje voltei lá [...] a recepção me disse que o funcionário americano encarregado de meu caso tinha ido almoçar, e mandaram que eu retornasse em uma ou duas horas".[477]

Durante a maior parte do interrogatório subseqüente, pediram repetidamente a Sgovio os detalhes da visita à embaixada. Só uma vez lhe disseram: "Fale-nos de suas atividades de espionagem". Depois que replicou que "Vocês sabem que não sou espião", eles parecem não tê-lo pressionado mais, embora o interrogador brincasse com uma mangueira de borracha (do tipo em geral usado para espancar presos) de modo vagamente ameaçador.[478]

A NKVD, ainda que não estivesse muito interessada no caso, não parece jamais ter duvidado do desfecho. Alguns anos depois, Sgovio requereu revisão do processo; a promotoria cumpriu as formalidades e resumiu os fatos da seguinte maneira: "Sgovio não nega que fez uma solicitação na embaixada americana. Portanto creio não haver motivo para revermos o processo". Fatalmente complicado pelo fato de que confessara ter entrado na embaixada americana (e ter desejado sair da URSS), Sgovio recebeu de uma das "comissões especiais" a pena de cinco anos de trabalhos forçados, condenado como "elemento socialmente perigoso". Seu processo fora considerado de rotina. Na onda de prisões da época, os investigadores só haviam feito o mínimo exigido.[479]

Outros eram condenados com ainda menos provas, após inquéritos ainda mais superficiais. Dado que despertar suspeita já era considerado sinal de culpa, os presos raramente eram soltos sem haver cumprido pelo menos uma pena parcial. Lev Finkelstein, judeu russo aprisionado no final da década de 1940, teve a impressão de que, embora ninguém houvesse conseguido imputar-lhe culpa plausível, ele recebera uma pena curta de prisão nos campos simplesmente para mostrar que os órgãos de captura nunca erravam.[480] S. G. Durasova, outro ex-preso, até afirma que um de seus interrogadores lhe dissera especificamente que "nunca prendemos ninguém que não seja culpado. E, mesmo se você não for culpado, não poderemos soltá-lo, porque aí as pessoas diriam que estamos pegando inocentes".[481]

Por outro lado, quando a NKVD tinha algum interesse mais - e, ao que parece, quando o próprio Stalin demonstrava esse interesse -, a atitude dos investigadores para com aqueles apanhados durante períodos de prisões em massa podia rapidamente passar de apática a sinistra. Em certas circunstâncias, a NKVD chegava a exigir que os investigadores forjassem provas em larga escala - como aconteceu durante o inquérito de 1937 sobre o que Nikolai Yezhov denominou "a mais poderosa e provavelmente mais importante rede diversionária da espionagem polaca na URSS".[482] Se o interrogatório de Sgovio representa um extremo (o do desinteresse), a operação maciça contra essa suposta rede de espiões representa o outro: os suspeitos eram interrogados com a determinação de fazê-los confessar.

A operação se iniciou com a ordem 00485 da NKVD, que estabeleceu o padrão para prisões em massa posteriores. Ela listava claramente o tipo de pessoa que se deveria capturar: todos os prisioneiros de guerra poloneses remanescentes da Guerra Polaco-bolchevique de 1920; todos os refugiados e imigrantes poloneses na URSS; todo mundo que houvesse sido membro de algum partido político polonês; e todos os "ativistas anti-soviéticos" das regiões de língua polonesa na URSS.[483] Na prática, qualquer indivíduo de origem polonesa que morasse em território soviético - e havia muitos, em especial nas regiões de fronteira da Ucrânia e da Bielo-Rússia - tornava-se suspeito. A operação foi tão completa e minuciosa que o cônsul da Polônia em Kiev produziu um relatório secreto do que estava acontecendo, observando que, em algumas aldeias, "todos cuja origem fosse polonesa, e até todos cujo nome parecesse polonês", tinham sido presos, não importando se eram diretores de fábrica ou simples camponeses.[484]

Mas as capturas eram só o começo. Já que não havia nada para incriminar alguém culpado de ter sobrenome polaco, a ordem 00485 instava os chefes regionais da NKVD a "iniciar investigações simultaneamente às detenções. O objetivo básico da investigação deve ser o total desmascaramento dos organizadores e líderes do grupo diversionário, a fim de revelar essa rede".[485]

Na prática, isso significava (como em tantos outros casos) que os próprios detidos seriam obrigados a fornecer as provas com as quais se constituiria o processo contra eles. O sistema era simples. Os poloneses detidos eram primeiro interrogados sobre sua participação na rede de espionagem. Aí, quando alegavam não saber nada a respeito disso, eram espancados ou torturados de outras maneiras até "se lembrarem". Visto que o próprio Yezhov estava interessado no sucesso dessa iniciativa, ele até comparecia a algumas das sessões de tortura. Quando os presos prestavam oficialmente queixa do tratamento, Yezhov ordenava a seus subordinados que não dessem atenção àquilo e "continuassem na mesma linha". Após os presos terem confessado, exigia-se deles que denunciassem seus "conjurados". O ciclo então se reiniciava, com o que a "rede de espionagem" crescia cada vez mais.

Dois anos após ter sido lançada, a chamada "linha polonesa de investigação" já resultara na captura de mais de 140 mil pessoas, o que, segundo algumas estimativas, corresponderia a quase 10% de todos os presos durante o Grande Terror. Mas a operação também ficou tão tristemente célebre pelo uso indiscriminado de tortura e confissões falsas que, em 1939, durante a curta reação violenta contra as prisões em massa, a própria NKVD iniciou um inquérito sobre os "equívocos" cometidos. Um policial envolvido lembraria que "não era preciso ser delicado - não se necessitava de autorização especial para bater na cara das pessoas, para espancá-las sem restrições". Aos que demonstravam certos pruridos (e parece ter havido alguns elementos assim), dizia-se explicitamente que era decisão de Stalin e do Politburo "bater nos polacos até não mais poder".[486]

De fato, embora Stalin depois denunciasse os "procedimentos simplificados de investigação" da NKVD, há indícios de que ele aprovava tais métodos. Naquele memorando que Abakumov lhe enviou em 1947, por exemplo, observa-se especificamente que a função primordial do interrogador é tentar obter do detido uma "confissão verdadeira e franca, para não apenas estabelecer a culpa dele, mas também desmascarar aqueles aos quais esteja ligado e aqueles que dirigem a atividade criminosa do detido e os planos do inimigo".61 Abakumov evita a questão dos espancamentos e da tortura física, mas escreve que os investigadores recebem ordem de "estudar o caráter do detido" e, com base nisso, determinar o regime prisional que lhe será imposto (se severo ou brando) e a melhor maneira de aproveitar-se de suas

convicções religiosas, vínculos familiares e pessoais, amor-próprio, vaidade etc. [...] Por vezes, a fim de sobrepujar em astúcia o detido e criar a impressão de que os órgãos da MGB [sucessora da NKVD] sabem tudo a respeito dele, o investigador pode lembrá-lo de detalhes íntimos e variados de sua vida pessoal, segredos que ele esconde daqueles a sua volta etc.

Os motivos pelos quais a polícia secreta soviética se mostrava tão obcecada por confissões continuam a dar pano para manga. Já se apresentou ampla gama de explicações. Alguns acreditam que tal política emanava do alto. Roman Brackman, autor de uma biografia heterodoxa, O dossiê secreto de Joseph Stalin (The secret file of Joseph Stalin), acredita que o líder soviético tinha a obsessão neurótica de fazer outros confessarem tipos de crime que ele próprio cometera: segundo o autor, Stalin fora agente da polícia secreta czarista antes da Revolução e, por isso, sentia uma necessidade particular de ver pessoas confessarem ter sido traidoras. Robert Conquest também acredita que Stalin estava interessado em obrigar pelo menos aqueles que conhecera pessoalmente a confessar: "ele queria não apenas matar seus antigos oponentes, mas também destruí-los moral e politicamente", embora isso, é claro, se aplicasse apenas a alguns indivíduos dentre os milhões de detidos.

Mas as confissões também eram importantes para os agentes da NKVD que realizavam os interrogatórios. Talvez extraí-las os ajudasse a sentir confiança na legitimidade de seus atos: isso fazia a loucura das prisões arbitrárias em massa parecer mais humana, ou pelo menos submetida à lei. Como no caso dos "espiões polacos", a confissão ainda fornecia as provas necessárias para que se prendessem outros. O sistema político e econômico soviético também estava obcecado por resultados (cumprir planos e metas), e as confissões eram a "prova" concreta de um interrogatório bem-sucedido. Nas palavras de Conquest, "estabelecera-se o princípio de que uma confissão seria o melhor resultado alcançável. Quem conseguia obtê-la era considerado um agente de sucesso, e na NKVD os agentes de mau desempenho tinham expectativa de vida reduzida".[487]

Quaisquer que tenham sido os motivos da fixação da NKVD nas confissões, os interrogadores da polícia não costumavam buscá-las nem com a obstinação demonstrada no caso dos "espiões polacos", nem tampouco com o desinteresse exibido com relação a Thomas Sgovio. Em geral, os presos vivenciavam uma mistura das duas atitudes extremas. De um lado, a NKVD exigia que confessassem e incriminassem a si e a outros. De outro lado, ela parecia ter uma desleixada falta de interesse pelo desfecho do processo.

Esse sistema um tanto surreal já estava estabelecido na década de 1920, nos anos anteriores ao Grande Terror, e continuou presente muito tempo depois que esse último amainara. Já em 1931, o policial que investigou Vladimir Tchernavin (cientista acusado de "destruição" e sabotagem) o ameaçou de morte caso não confessasse. Em outro momento, disse-lhe que pegaria uma pena mais "leve" nos campos se confessasse. No fim das contas, até implorou a Tchernavin que apresentasse uma confissão falsa. Rogando-lhe, disse: "Muitas vezes, nós, os investigadores, também somos obrigados a mentir; também dizemos coisas que não podem ser registradas e que nunca autenticaríamos".[488] Quando o desfecho tinha mais importância para a NKVD, recorria-se à tortura. No período anterior a 1937, os espancamentos parecem ter sido proibidos. Um ex-funcionário do Gulag confirma que eles com certeza eram ilegais na primeira metade da década de 1930.[489] Mas, conforme aumentou a pressão para fazer membros destacados do Partido confessarem, passou-se a utilizar a tortura física, provavelmente em 1937 (embora ela tenha voltado a ser banida em 1939). O líder soviético Nikita Khrutchev reconheceria publicamente isso em 1956:

Como é possível que uma pessoa confesse crimes que não cometeu? Só há um jeito: aplicando métodos físicos de pressão - torturas -levando a pessoa a um estado de inconsciência, privando-a de raciocínio, tirando-lhe a dignidade humana. Era dessa maneira que se obtinham "confissões".[490]

No período do Grande Terror, o uso da tortura se tornou tão disseminado (e despertou dúvidas tão freqüentes) que, no começo de 1939, o próprio Stalin mandou memorando aos chefes regionais da NKVD, confirmando que, "a partir de 1937, o uso da pressão física [sobre os presos] foi autorizado pelo Comitê Central no âmbito da NKVD". Stalin explicava que tal uso era permitido

apenas com referência a inimigos manifestos do povo que se aproveitam dos métodos humanos de interrogatório para negar-se desavergonhadamente a denunciar conspiradores; que não depõem durante meses e tentam impedir o desmascaramento dos conspiradores ainda à solta.

Prosseguia dizendo que considerava a pressão física "um método absolutamente correto e humano", embora reconhecesse que de quando em quando a tivessem aplicado para "encarcerar acidentalmente pessoas honestas". O que esse memorando tristemente célebre deixa claro é que Stalin sabia quais métodos haviam sido usados durante os interrogatórios e os autorizara pessoalmente.[491]

Por certo é verdade que, nesse período, inúmeros presos relatam ter sido chutados e espancados, ficando com o rosto arrebentado e órgãos rompidos. Evgenii Gnedin descreve como foi golpeado na cabeça por dois homens ao mesmo tempo, um à esquerda e o outro à direita, e depois espancado com um cassetete de borracha. Isso ocorreu no gabinete particular de Beria, em sua presença, na prisão Sukhanovka.[492] A NKVD também empregava métodos de tortura conhecidos de outras polícias secretas em outras eras, como acertar o estômago com sacos de areia, quebrar mãos ou pés ou amarrar os braços e as pernas às costas e suspender a vítima no ar.[493] Um dos relatos de tortura mais nauseantes foi escrito pelo diretor teatral Vsevelod Meyerhold, cuja queixa formal, uma carta, ainda consta de seu prontuário.

Os investigadores começaram a usar da força comigo, um enfermo de 65 anos. Fizeram-me deitar de rosto e golpearam-me nas solas dos pés e na espinha com uma correia de borracha. Sentaram-me numa cadeira e me bateram mais nos pés, com força considerável [...]. Nos dias seguintes, quando aquelas partes de minhas pernas estavam cobertas por grandes hematomas, eles tornaram a bater com a correia de borracha nas feridas, que estavam rubras, azuladas e amareladas; a dor era tão intensa que senti como se água fervente estivesse sendo derramada nessas áreas sensíveis. Urrei e chorei de dor. Bateram em minhas costas com a mesma correia de borracha e me esmurraram na cara, deixando que seus punhos se abatessem de bem alto [...].

Em certa altura, eu tremia de modo tão incontrolável que o guarda que me escoltava à saída do interrogatório perguntou: "Você sofre de maleita?" Quando me deitei e adormeci no catre, após dezoito horas de interrogatório, só para voltar a ele dali a uma hora, fui acordado por meus próprios gemidos e espasmos, como um paciente em estágio terminal de febre tifóide.[494]

Embora esse tipo de espancamento viesse a ser oficialmente proibido em 1939, a mudança de política não fez necessariamente que o processo de investigação se tornasse mais humano. Durante todos os anos 1920, 30 e 40, muitas centenas de milhares de presos foram torturadas não com espancamentos, nem com agressões, mas com o tipo de suplício psicológico a que Abakumov alude no memorando de 1947 a Stalin. Quem teimava em não confessar podia, por exemplo, ser aos poucos privado de confortos - primeiro as caminhadas, em seguida as remessas ou os livros, depois a comida. Podia ser colocado numa cela punitiva particularmente escabrosa, muito quente ou muito gelada. Foi o caso do memorialista Hava Volovich, o qual seu interrogador também privava de sono:

Nunca esquecerei aquele primeiro gosto do frio na prisão. Não sou capaz de descrevê-lo; não consigo fazê-lo. O sono me empurrava numa direção; o frio, em outra. Eu me levantava de um pulo e corria pela cela, adormecendo em pé e caindo de novo na cama, onde o frio logo me obrigava a levantar de novo.[495]

Outros eram acareados com "testemunhas", como aconteceu a Evgeniya Ginzburg, que assistiu enquanto sua amiga de infância Nalya "dizia falas decoradas, feito um papagaio", acusando-a de pertencer ao movimento secreto trotskista.[496] Outros ainda viam as famílias serem ameaçadas; ou, após longos períodos de solitária, eram colocados em celas com informantes, aos quais ficavam mais do que satisfeitos em desabafar. Mulheres eram violadas ou ameaçadas de estupro. Uma memorialista polonesa contaria a seguinte história:

De súbito, sem motivo aparente, meu interrogador ficou muitíssimo insinuante. Levantou-se da escrivaninha e veio sentar-se a meu lado no sofá. Fiquei em pé e fui tomar água. Ele me seguiu e se pôs atrás de mim. Habilmente, escapei e voltei para o sofá. Ele veio sentar-se comigo outra vez. E outra vez me levantei e fui beber água. Esse tipo de manobra se prolongou por algumas horas. Senti-me humilhada e indefesa.[497]

Também havia formas de tortura física menos diretas que os espancamentos; a partir dos anos 1920, foram usadas regularmente. Desde logo, Tchernavin foi submetido, ainda que por pouco tempo, ao “teste vertical" (mandava-se que o preso permanecesse de pé, voltado para a parede, sem se mexer). Alguns de seus companheiros de cela sofreram mais:

Um, o gravurista E, corpulento, com mais de cinqüenta anos de idade, ficara em pé por seis dias e meio. Não lhe deram nada para comer nem beber, e não permitiram que dormisse; fora levado ao sanitário só uma vez por dia. Mas ele não "confessou". Depois dessa provação, não conseguiu caminhar para a cela, e o guarda teve de arrastá-lo escada acima [...]. Outro, o artesão B., de uns 35 anos, que tivera a perna amputada acima do joelho e substituída por um membro artificial, ficou em pé quatro dias e não "confessou".[498]

Entretanto, o mais comum era simplesmente privar a pessoa de sono. Essa modalidade de tortura enganadoramente simples cujo emprego parece não ter necessitado de nenhum tipo de autorização prévia era conhecida dos presos como "a esteira rolante" e podia estender-se por muitos dias ou até semanas. O método era prosaico: interrogavam o preso a noite inteira e depois o proibiam de dormir durante o dia. Era acordado pelos guardas o tempo todo e ameaçado com a cela punitiva ou coisa pior se não conseguisse ficar desperto. Uma das melhores descrições da esteira rolante, e de seus efeitos físicos, foi fornecida por Alexander Dolgun, o preso americano do Gulag. Durante seu primeiro mês na Lefortovo, viu-se praticamente privado de sono, podendo dormir só uma hora, ou menos, por dia. "Em retrospecto, parece que uma hora era muito; talvez tenham sido não mais que alguns minutos por noite." O resultado foi que sua cabeça começou a pregar-lhe peças:

Havia períodos em que, de repente, eu me dava conta de que não lembrava nada do que ocorrera nos minutos anteriores [...]. Brancos totais [...].

Depois, é claro, comecei a tentar dormir em pé, para ver se meu corpo conseguia aprender a manter-se ereto. Achei que, se isso desse certo, eu talvez pudesse escapar à vigilância nas celas alguns minutos de cada vez, porque, pela viseira da porta, o guarda não acharia que eu estava dormindo se eu permanecesse em pé.

E assim eu ia levando, afanando dez minutos aqui, meia hora ali, às vezes um pouco mais se Sidorov desse a coisa por encerrada antes das seis da manhã e os guardas me deixassem em paz até o toque de alvorada. Mas era muito pouco e tarde demais. Sentia que estava decaindo, ficando menos alerta e menos disciplinado a cada dia. Tinha quase mais medo de ficar doido - não, tinha mesmo mais medo disso - do que de morrer.

Por muitos meses, Dolgun não confessou, um fato que lhe deu algo de que orgulhar-se pelo resto de seu encarceramento. Mas, muitos meses depois, quando o trouxeram de volta a Moscou de um campo na cidade cazaque de Dzhezkazgan e tornaram a espancá-lo, ele assinou uma confissão, pensando: "Que diabo! Eles já me pegaram mesmo. Por que foi que não fiz isso muito tempo atrás e evitei todo aquele sofrimento?"[499]

E, por quê? Era uma pergunta que muitos se faziam, com respostas variadas. Alguns - ao que parece, uma porcentagem particularmente alta dos memorialistas - não confessavam ou por princípio, ou pela crença equivocada de que, assim, evitariam a condenação. "Prefiro morrer a difamar meu nome", dizia o general Gorbatov a seu interrogador, mesmo quando estava sendo torturado (o general não específica que tipo de tortura).

E, corno assinalam Soljenitsin, Gorbatov e outros, muitos acreditavam que uma confissão ridiculamente longa criaria um clima de absurdo tal que nem mesmo a NKVD poderia deixar de notar. Gorbatov escreveu de seus companheiros de prisão:

Eles me davam a impressão de ser pessoas cultas e sérias. Por isso, fiquei ainda mais horrorizado ao saber que, durante seus respectivos interrogatórios, cada um deles escrevera puro lixo, confessando crimes imaginários e incriminando outras pessoas [...]. Alguns tinham até a estranha teoria de que, quanto mais pessoas fossem presas, mais cedo se perceberia que tudo aquilo era absurdo e prejudicial ao Partido.[500]

Mas nem todo mundo achava que se deveria censurar tais pessoas. Lev Razgon, em suas memórias, responde a Gorbatov, a quem chama de "arrogante e imoral":

É errado transferir a culpa dos torturadores para as vítimas. Gorbatov teve sorte, e só. O interrogador dele ou era preguiçoso, ou não recebera ordens explícitas para "pressionar" o interrogado. Os médicos, psicólogos e psiquiatras ainda não pesquisaram o suficiente para poder afirmar se a tortura consegue fazer um indivíduo prestar falso testemunho contra si mesmo. No entanto, o século XX forneceu enorme quantidade de demonstrações disso. É claro que ela consegue.[501]

Em retrospecto, também há opiniões muito variadas sobre se se negar a confessar realmente tinha importância. Susanna Pechora, interrogada durante mais de um ano no começo dos anos 1950 - era membro de um minúsculo grupo de jovens que, quixotescamente, fora fundado para resistir a Stalin -, diria depois que "agüentar" não valeu a pena. Para ela, recusar-se a confessar simplesmente prolongava o interrogatório. Ao fim e ao cabo, a maioria era condenada do mesmo jeito.[502]

Todavia, o conteúdo do prontuário de Thomas Sgovio mostra claramente que decisões posteriores (sobre soltura antecipada, anistia etc.) eram de fato tomadas com base no que constava do dossiê do preso, aí incluída a confissão. Em outras palavras, se a pessoa conseguira resistir, tinha uma chance muito pequena, ínfima mesmo, de conseguir uma revisão positiva da sentença. Até os anos 1950, todos esses procedimentos judiciais, não importando quão surreais, eram levados bem a sério.

No final das contas, a maior importância do interrogatório estava na marca psicológica que ele deixava nos presos. Mesmo antes de se submeterem às longas viagens para o leste, mesmo antes de chegarem a seus primeiros campos, eles já haviam, em alguma medida, sido "preparados" para a nova vida de trabalhador escravo. Já sabiam que não tinham nenhum direito humano, nenhuma prerrogativa de receber um julgamento ou mesmo uma audiência justos. Já sabiam que o poder da NKVD era absoluto e que o Estado podia fazer com eles o que bem entendesse. Se haviam confessado um crime que não cometeram, já se tinham em mais baixa conta. Mas, mesmo que não houvessem confessado, já lhes fora roubado todo resquício de esperança, de convicção de que a injustiça de seu encarceramento seria logo desfeita.

 

  1. A CADEIA

 

Uma cigana leu nas cartas... Uma estrada distante,

Uma estrada distante... E uma cadeia.

Talvez a velha cadeia central

Aguarde-me, moço outra vez...

Tradicional canção de cadeia na Rússia

 

A detenção e o interrogatório desgastavam os presos; os aturdiam para que se submetessem; os confundiam e desorientavam. Mas o próprio sistema das cadeias soviéticas, onde se mantinham os presos antes, durante e com freqüência muito tempo após o interrogatório, também exercia enorme influência sobre o estado de espírito deles.

Num contexto internacional, não havia nada de excepcionalmente cruel nas prisões ou no regime prisional da URSS. Os cárceres soviéticos eram com certeza mais duros que a maioria das prisões ocidentais e mais duros que as prisões czaristas. Por outro lado, na China ou em outras partes do Terceiro Mundo em meados do século XX, as cadeias também eram extremamente desagradáveis. Todavia, componentes da vida prisional soviética continuaram sendo específicos da URSS. Alguns aspectos do cotidiano dos cárceres, como o próprio processo de interrogatório, até parecem ter sido concebidos já pensando em preparar os presos para sua nova vida no Gulag.

Por certo, as atitudes oficiais para com as prisões refletiam mudanças nas prioridades de quem dirigia os campos de concentração. Em agosto de 1935, por exemplo, justamente quando começavam a multiplicar-se as detenções de presos políticos, Genrikh Yagoda emitiu uma ordem que deixava claro que o "sentido" mais importante de uma captura - se é que se pode dizer que aquelas detenções tinham algum "sentido" na acepção normal da palavra - era o de alimentar a demanda cada vez mais frenética de confissões. A ordem de Yagoda colocava diretamente nas mãos dos homens da NKVD que investigavam os casos não apenas os "privilégios" dos presos, mas também as mais elementares condições de vida desses últimos. Desde que o preso colaborasse (o que em geral significava confessar), ele ficaria autorizado a receber cartas, remessas de comida, jornais, livros e visitas mensais de familiares e ter uma hora de exercícios por dia. Se não colaborasse, podia ser privado de todas essas coisas e ainda perder a ração de comida.[503]

Em contraste, em 1942 - três anos depois que Lavrenty Beria assumiu, prometendo transformar o Gulag numa máquina econômica eficiente -, as prioridades de Moscou já haviam mudado. Os campos se tornavam importante fator na produção bélica, e os comandantes haviam começado a reclamar do grande número de presos que chegavam sem nenhuma condição de trabalhar. Famintos, imundos e privados de exercício, eles simplesmente não conseguiam extrair carvão nem cortar árvores no ritmo necessário. Por conseguinte, Beria estabeleceu novos procedimentos de interrogatório em maio daquele ano, exigindo que os diretores das carceragens respeitassem "as mínimas condições de saúde" e restringissem o controle dos interrogadores sobre o dia-a-dia dos presos.

Conforme a nova ordem de Beria, os detentos fariam uma caminhada diária de "não menos que uma hora" - com a notável exceção daqueles que aguardavam o cumprimento da pena de morte, cuja qualidade de vida não importava muito para as cifras de produção da NKVD. Os administradores prisionais também deviam assegurar-se de que seus estabelecimentos possuíssem um pátio concebido especialmente para aquele propósito: "Nem um único preso permanecerá nas celas durante tais caminhadas [...] os presos fracos e idosos devem ser auxiliados por seus companheiros de cela". Aos carcereiros se ordenava que garantissem que os detentos (menos aqueles diretamente em interrogatório) tivessem oito horas de sono; que aqueles com diarréia recebem vitaminas extras e comida melhor; e que os parashi (os baldes que serviam de sanitário nas celas) fossem consertados caso vazassem. Esse último tópico era considerado tão crucial que até se especificava o tamanho de um parasha: nas celas masculinas, deviam ter de 55 a sessenta centímetros de altura; nas femininas, de trinta a 35 - e, para cada pessoa na cela, o balde deveria oferecer um volume de 750 mililitros.[504]

Apesar desses regulamentos absurdamente específicos, os cárceres continuaram a diferir muitíssimo uns dos outros. Em parte, isso se devia às localizações. Gomo regra geral, as prisões de província eram mais sujas e mais lenientes; as de Moscou, mais limpas e mais mortíferas. Entretanto, mesmo as três principais carceragens moscovitas tinham caráter ligeiramente distinto. A infame Lubyanka, que ainda domina uma praça no centro da capital - e ainda serve de sede da FSB, a sucessora da NKVD, da MGB e da KGB -, era usada para receber e interrogar os presos políticos cujos crimes eram considerados mais sérios. Havia relativamente poucas celas - um documento de 1936 fala em 118 -, e 94 delas eram muito pequenas, podendo abrigar de um a quatro detentos.[505] Na Lubyanka, antes o prédio de escritórios de uma seguradora, algumas das celas tinham parquete, que os presos eram obrigados a lavar todos os dias. Anna Mikhailovna Garaseva, anarquista que depois seria secretária de Soljenitsin, ficou presa na Lubyanka em 1926; ela recordaria que a comida ainda era servida por garçonetes uniformizadas.[506]

Em contraste, a Lefortovo, também usada para interrogatório, fora uma prisão militar no século XIX. Suas celas, que nunca se destinaram a receber grande número de presos, eram mais escuras, mais sujas e mais apinhadas. A Lefortovo tem o formato de um K, e no centro do conjunto, segundo o memorialista Dmitri Panin, "um auxiliar se mantém em pé, de bandeira de sinalização na mão, orientando o fluxo de presos que entram e saem de interrogatório".[507] No final dos anos 1930, a Lefortovo ficou tão superlotada que a NKVD abriu um "anexo" no mosteiro Sukhanovsky, fora de Moscou. Oficialmente denominado "Objeto 110", e conhecido dos presos como "Sukhanovka", o anexo ganhou fama apavorante por causa da tortura: "Não havia regulamento interno, nem tampouco normas de conduta para os investigadores".[508] O próprio Beria tinha um gabinete ali e supervisionava pessoalmente sessões de tortura.[509]

A Butyrka, a mais antiga das três prisões, fora construída no século XVIII para ser um palácio, embora logo a tivessem transformado em cárcere. Entre seus detentos oitocentistas célebres, estava Feliks Dzerzhinsky, junto com outros revolucionários poloneses e russos.[510] Em geral utilizada para acomodar presos cujo interrogatório terminava e que aguardavam traslado para os campos, a Butyrka também era apinhada e suja, mas mais leniente. Anna Garaseva lembra que, se na Lubyanka os guardas obrigavam os presos a "exercitar-se" caminhando num círculo fechado, "na Butyrka a gente podia fazer o que quisesse". Anna, assim como outros, também menciona a excelente biblioteca, cujo acervo se constituíra graças a gerações de presos, os quais deixavam os livros quando eram transferidos.[511]

As prisões também diferiam de um período a outro. No começo da década de 1930, grande número de presos era condenado a meses ou até anos de isolamento celular. Para manter a sanidade durante dezesseis meses de solitária, o russo Boris Chetverikov lavava as roupas, o piso e as paredes - e entoava todas as canções e árias de ópera que conhecia.[512] O americano Alexander Dolgun também foi mantido em solitária durante seu interrogatório; a fim de não enlouquecer, ele andava: contou os passos na cela, calculou quantos dariam um quilômetro e começou a "caminhar", atravessando primeiro Moscou, até a embaixada dos Estados Unidos - "eu respirava aquele ar límpido, frio e imaginário e me encolhia no casaco" -, depois a Europa e por fim o Atlântico, de volta para casa.[513]

Evgeniya Ginzburg passou quase dois anos na prisão de isolamento celular de Yaroslavl, na Rússia central, a maior parte do tempo totalmente sozinha: "Até hoje, se fecho os olhos, consigo ver cada calombo e risco naquelas paredes, pintadas até meia altura na cor favorita da prisão, um castanho-avermelhado, e dali para cima num branco encardido". Entretanto, mesmo essa prisão "especial" começou a lotar, e Evgeniya ganhou uma companheira de cela. No final, a maioria dos tyurzeks (prisioneiros de cela) foi transferida para os campos. Escreve Evgeniya: "Simplesmente não era factível manter tais multidões em celas por dez ou vinte anos; isso não se coadunava com o ritmo e a economia da época".[514]

Nos anos 1940, à medida que aumentava o número e a freqüência das capturas, tornava-se muito mais difícil isolar alguém, até presos novos, mesmo que por algumas horas. Em 1947, Lev Finkelstein foi primeiro jogado numa vokzal (literalmente, "estação ferroviária"), uma "enorme cela comum onde os detentos ficam de início, sem nenhuma comodidade. Eles aos poucos eram separados por grupos e mandados aos banhos e, depois, às celas".[515] Na realidade, a superlotação atroz era experiência muito mais comum que a solitária. Dois exemplos escolhidos ao acaso: a cadeia central de Arcangel, com capacidade para 740 presos, tinha entre 1.661 e 2.380 em 1941; a de Kotlas, na Rússia setentrional, com capacidade para trezentos, abrigava até 460.[516]

Em províncias mais distantes, os cárceres podiam ser piores. Em 1940, o de Stanislawwow, na recém-ocupada Polônia oriental, continha 1.700 pessoas, bem acima de sua capacidade (472), e dispunha de apenas 150 jogos de roupa de cama.[517] Em fevereiro de 1941, as cadeias da República Tártara (Tartarstão), com capacidade para 2.710 presos, continham 6.353. Em maio de 1942, as da República de Tashkent, na Ásia Central, com capacidade para 960, abrigavam 2.754."[518] Esse apinhamento tinha efeito particularmente severo sobre quem estava em interrogatório, cujas vidas inteiras eram submetidas a uma inquirição intensa e hostil todas as noites, e cujos dias precisavam ainda se passar na companhia de outras pessoas. Um preso descreveu as conseqüências:

O processo inteiro de desintegração da personalidade ocorria à vista de todos na cela. Ali, um homem não conseguia esconder-se nem por um instante; até para evacuar, tinha de usar o balde aberto, bem dentro do recinto. Quem queria chorar o fazia na frente de todo inundo, e a sensação de vergonha aumentava o tormento. Quem queria matar-se - à noite, debaixo da coberta, tentando rasgar as veias do braço com os dentes - logo era descoberto por um dos insones da cela e impedido de terminar o serviço.[519]

Margarete Buber-Neumann também escreveu que a superlotação fazia as detentas voltarem-se umas contra as outras. Quando eram acordadas, às quatro e meia da manhã,

o efeito sobre nós era como se houvessem derrubado um formigueiro. Todo o mundo pegava suas coisas de higiene para, se possível, ser o primeiro, porque, é claro, o sanitário nem de longe era suficiente para todas. No recinto onde nos lavávamos, havia cinco vasos e dez torneiras. Digo "vasos", mas, na realidade, eram cinco buracos no chão, nada mais que isso. De imediato, formavam-se filas diante dos cinco buracos e das dez torneiras. Imagine ir ao sanitário de manhã com pelo menos uma dúzia de pessoas observando e com outras esperando impacientes na fila, gritando e apressando você...[520]

Talvez porque estivessem cientes do apinhamento, as autoridades prisionais se empenhavam muito em acabar com qualquer simulacro de solidariedade entre os presos. Aquela ordem de Yagoda de 1935 já os proibia de conversar, gritar, cantar, escrever nas paredes, deixar marcas ou sinais em qualquer lugar da prisão, ficar em pé às janelas ou tentar comunicar-se de toda e qualquer maneira com os ocupantes de outras celas. Quem violasse as regras podia ser castigado com a privação de exercício ou correspondência ou com a ida para uma cela punitiva especialmente construída.[521] O silêncio obrigatório é mencionado pelos encarcerados dos anos 1930 com freqüência: "Ninguém falava alto, e algumas se faziam entender por meio de sinais", escreveu Margarete Buber-Neumann sobre a Butyrka, onde "os corpos semi-despidos da maioria das mulheres tinham um tom peculiar, cinza-azulado, devido ao longo confinamento sem luz e sem ar".[522]

Em alguns cárceres, a lei do silêncio permaneceria absoluta até quando a década seguinte já estava bem adiantada; em outros, menos Um ex-preso escreve do "completo silêncio" na Lubyanka em 1949; em comparação com isso, "a cela 106 da Butyrka parecia uma feira, depois que se tivesse ido a uma lojinha".[523] Outro, numa prisão da República Tártara, lembra que, quando os presos começavam a cochichar, "a portinhola pela qual se passava a comida era aberta com estrondo e alguém sibilava um Psiu!".[524]

Muitos memorialistas também descreveriam como os guardas, ao transferir os presos de cela ou levá-los para interrogatório, agitavam as chaves, estalavam os dedos ou faziam algum outro ruído, para alertar aqueles mais adiante no corredor. Caso se desse um encontro de presos ali, um era rapidamente levado por outro corredor, ou colocado num cubículo especial. Certa vez, V. K. Yasnyi, antes tradutor de literatura espanhola, ficou duas horas num cubículo assim, de meio metro quadrado, na Lubyanka.[525] Tais espaços parecem ter sido muito utilizados: o porão da antiga sede da NKVD em Budapeste (hoje um museu) tem um desses cubículos. O objetivo era evitar que os presos encontrassem outros que pudessem estar implicados no mesmo "caso", assim como mantê-los longe de irmãos ou outros familiares que estivessem detidos.

O silêncio obrigatório tornava aflitiva até a caminhada para as salas de interrogatório. Alexander Dolgun se recorda de ter andado pelos corredores atapetados da Lubyanka:

Enquanto nos movíamos, o único som era o estalar da língua do guarda [...] todas aquelas portas de metal eram cinza-naval, e se revelava opressivo e desanimador o efeito da penumbra, do silêncio e das portas cinzentas, que se repetiam pelo corredor até se fundirem às sombras.[526]

A fim de impedir que presos de uma cela soubessem os sobrenomes daqueles em outras, eles eram chamados, para interrogatório ou transferência, não pelo nome, mas por uma letra. O guarda gritava "G!", por exemplo, e todos os presos cujo sobrenome começava por essa letra se punham de pé e diziam o primeiro nome e o patronímico.[527]

Mantinha-se a ordem - tal qual se faz na maioria das prisões -pela rígida regulação do cotidiano. Zayara Vesyolaya, filha de um famoso escritor russo que se tornara "inimigo do povo", descreveu em suas memórias um dia típico na Lubyanka. Ele começava com a opravka, a ida ao sanitário. "Preparem-se para o sanitário!", berravam os guardas, e as mulheres se alinhavam em silêncio, aos pares. Quando chegavam ao sanitário, tinham cerca de dez minutos - não apenas para fazer suas necessidades, mas também para lavarem a si mesmas e às roupas que pudessem. À opravka seguia-se o desjejum: água quente, talvez com algo semelhante a chá ou café, mais a ração diária de pão e dois ou três torrões de açúcar. Após o desjejum, vinha um guarda, que recebia as solicitações das que queriam ver o médico; depois, a "atividade central do dia", uma caminhada de vinte minutos num "pequeno pátio fechado andando em círculos e em fila única junto ao muro". Só uma vez se perturbou essa ordem. Certa noite, embora nunca lhe tenham contado por quê, Zayara foi levada ao telhado da Lubyanka depois que as detentas já haviam sido mandadas dormir. Dado que a Lubyanka fica no centro de Moscou, Zayara conseguia ver, se não a cidade, pelo menos as luzes da cidade - as quais, nas circunstâncias, bem podiam ser de outro país.[528]

Normalmente, o resto do dia era uma repetição: no almoço, sopa de cadeia, feita de vísceras, cereal ou repolho podre; no jantar, o mesmo. A noite, havia outra ida ao sanitário. Nesse meio-tempo, as detentas sussurravam umas para as outras, ficavam sentadas nos catres e às vezes liam livros. Zayara recorda que lhe permitiam um livro por semana, mas as regras variavam de prisão para prisão, assim como a qualidade das bibliotecas, que, como já se disse, às vezes eram excelentes. Em alguns cárceres, os presos estavam autorizados a adquirir comestíveis do "comissário" quando os parentes lhes mandavam dinheiro.

Mas havia outras torturas além do tédio e da comida ruim. Todos os presos, e não apenas aqueles em processo de interrogatório, ficavam proibidos de dormir durante o dia. Os carcereiros mantinham vigilância constante, espiando pelo "buraco de Judas" (a viseira na porta da cela) para garantir que se cumprisse a norma. Lyubov Bershadskaya lembra que, "embora nos acordassem às seis, não nos permitiam sequer sentar na cama até as onze da noite. Tínhamos ou de ficar em pé, ou de sentar na baqueta, sem poder encostar na parede".[529]

A noite não era melhor. O sono era dificultado, quando não impossibilitado, pelas lâmpadas fortes das celas, que nunca se apagavam, e pela regra que proibia os presos de dormir com as mãos debaixo da coberta. Zayara Vesyolaya começava tentando obedecer: "Era uma coisa canhestra e desconfortável, e ficava difícil pegar no sono [...] mas, tão logo cochilava, eu instintivamente puxava o cobertor para o queixo. A chave rangia na fechadura, e o guarda vinha sacudir minha cama: 'As mãos!'" Margarete Buber-Neumann escreveu que, "até a pessoa se acostumar, a noite era pior que o dia. Tente dormir à noite debaixo de lâmpadas fortes - as detentas estavam proibidas de cobrir o rosto -, em pranchas nuas sem nem mesmo um travesseiro ou um saco de palha, talvez “até sem cobertor, espremida de ambos os lados contra as outras detentas".

Talvez a ferramenta mais eficaz para impedir que os presos ficassem muito à vontade fosse a presença de informantes - que podiam ser igualmente encontrados em todas as esferas da vida soviética. Eles também desempenhavam papel importante nos campos de concentração, mas ali era menos difícil evitá-los. Na cadeia, não se conseguia fugir tão facilmente deles, o que obrigava as pessoas a medirem bem as palavras. Margarete Buber-Neumann recordaria que, com um única exceção, "nunca ouvi nenhuma crítica ao regime soviético durante todo o tempo que fiquei na Butyrka".[530]

Entre os presos, o consenso era de que havia no mínimo um informante por cela. Quando duas pessoas dividiam cela, uma desconfiava da outra. Em celas maiores, o informante era freqüentemente identificado e evitado pelos outros detentos. Quando Olga Adamova-Sliozberg chegou à Butyrka, notou que, junto à janela, tinham deixado livre um espaço de dormir. Disseram-lhe que poderia ficar com ele, mas que "a vizinhança não era das melhores". Revelou-se que a mulher que dormia sem ninguém perto dela era uma informante, a qual ficava o tempo inteiro "escrevendo declarações que denunciavam todos na cela", e por isso ninguém falava com ela.

Nem todos os informantes eram tão fáceis de identificar, e a paranóia era tão grande que qualquer comportamento diferente já despertava hostilidade. A própria Olga Adamova-Sliozberg achava que uma de suas companheiras de cela era com certeza espiã, tendo visto "a esponja com cara de artigo importado com que se lavava e a lingerie rendada que usava". Depois, passou a considerar a mulher uma amiga.[531] O escritor Variam Shalamov também escreveu que ser transferido de cela "não é experiência muito agradável. Os novos companheiros de cela sempre ficam com um pé atrás e desconfiam que o preso transferido seja informante"[532]

Não há dúvida de que o sistema era rígido, inflexível e desumano. Mas ainda assim... Quando podiam, os presos reagiam, contra o tédio, contra as pequenas humilhações constantes, contra as tentativas de dividi-los e isolá-los. Mais de um ex-preso escreveu que a solidariedade entre eles era maior nas cadeias do que seria depois, nos campos de concentração. Tão logo os presos chegavam aos campos, as autoridades podiam com muito mais facilidade dividir para reinar. A fim de fazer que os presos se estranhassem, elas os tentavam prometendo posição mais cômoda na hierarquia do campo, comida melhor ou trabalho menos pesado.

Nas carceragens, em contraste, todos eram mais ou menos iguais. Embora houvesse incentivos para que colaborassem, estes eram menos numerosos. Para muitos presos, os dias ou meses passados numa cela, antes do traslado, até constituíam uma espécie de curso de introdução a técnicas elementares de sobrevivência - e, apesar de todo o empenho dos administradores, a primeira experiência deles de união contra a autoridade.

Alguns detentos simplesmente aprendiam com outros as maneiras básicas de conservar a higiene e a dignidade. Na cadeia, Inna Shikheeva-Gaister aprendeu a usar pão mastigado para fazer botões que lhe segurassem as roupas, a confeccionar agulhas de costura com espinhas de peixe, a usar fios soltos para remendar os rasgos feitos em suas vestes durante a revista; adquiriu ainda muitas outras habilidades que se mostrariam igualmente úteis nos campos.[533] Dmitrii Bystrolev (ex-espião soviético no Ocidente) descobriu como fazer "linha" com meias velhas: desmanchavam-se estas, e aguçavam-se as pontas dos fios com sabão. No campo, tal linha - assim como as agulhas que Bystrolev aprendeu a fazer com fósforos - podia depois ser negociada por comida.[534] Ensinaram Susanna Pechora, a jovem anti-stalinista, "a dormir sem que percebessem, a costurar com palitos de fósforo e a andar sem cinto".[535]

Os presos também preservavam algum controle sobre suas vidas graças à instituição do starosta, o líder de cela. Por um lado, nas cadeias, nos vagões e nos alojamentos dos campos, o starosta era figura oficialmente reconhecida, com atribuições descritas em documentos oficiais. Por outro lado, suas muitas obrigações - que iam de manter a cela limpa a garantir a ordem nas filas para o sanitário - acarretavam que a autoridade dele fosse aceita por todos.[536] Por isso, os informantes e outros favorecidos pelos carcereiros não eram necessariamente os melhores candidatos a starosta. Alexander Weissberg escreveria que, nas celas maiores, onde podia haver duzentos ou mais presos, "a vida normal não era possível sem um responsável que organizasse a distribuição de comida, as disposições para os exercícios etc". Contudo, já que a polícia secreta se negava a reconhecer toda e qualquer organização de presos - "a lógica era simples: uma organização de contra-revolucionários era uma organização de contra-revolucionários" -, encontrou-se uma clássica solução soviética, segundo Weissberg: o starosta era eleito "ilegalmente" pelos presos; o diretor da prisão ficava sabendo disso pelos informantes e então nomeava oficialmente o escolhido dos detentos.[537]

Nas celas mais apinhadas, a principal função do starosta era receber os novos presos e assegurar que todos tivessem onde dormir. De maneira quase universal, mandava-se que os detentos recém-chegados fossem dormir ao lado do parasha, o balde sanitário; depois, à medida que ganhavam tempo de cela, eles iam avançando dali para as janelas. "Não se abre nenhuma exceção para os enfermos nem para os idosos", observou Elinor Lipper.[538] O starosta também resolvia brigas e, em geral, mantinha a ordem na cela, tarefa que estava longe de ser fácil. O detento polonês Kazimierz Zarod lembraria que, quando serviu como starosta, "os guardas me ameaçavam o tempo todo com punições se eu não exercesse algum tipo de controle sobre os indisciplinados, em especial após as nove da noite; havia urna lei do silêncio depois do 'toque de recolher'". Zarod acabou indo para uma cela punitiva por não ter conseguido manter a ordem.[539] Mas, por outros relatos, tem-se a impressão de que as decisões do starosta costumavam ser respeitadas.

Sem dúvida, os presos aplicavam a máxima engenhosidade para superar a regra mais severa: a estrita proibição de comunicarem-se, tanto entre as celas quanto com o mundo lá fora. A despeito da séria ameaça de punição, eles deixavam recados para outros presos no sanitário ou arremessavam mensagens por cima dos muros. Lev Finkelstein tentou jogar um pedaço de carne, um tomate e um pedaço de pão para outra cela: "quando nos levavam ao sanitário, eu procurei abrir a janela e passar a comida por ali". Foi pego e posto numa cela punitiva.[540] Presos subornavam guardas para que estes levassem mensagens, embora às vezes o fizessem por iniciativa própria. De vez em quando, um carcereiro da prisão de Stravropol transmitia recados verbais à mulher de Lev Razgon.[541]

Num testemunho apresentado ao governo polonês no exílio, um ex-detento, encarcerado catorze meses em Vilna depois que os soviéticos ocuparam essa cidade (antes sob domínio da Polônia), descreveu como os componentes do sistema prisional anterior haviam aos poucos se dissolvido. Os presos foram perdendo seus "privilégios" um a um: o direito de receber e mandar cartas, o uso da biblioteca da prisão, a posse de papel e lápis, o recebimento de remessas. Introduziram-se novos regulamentos, do tipo comum à maioria das prisões soviéticas: as luzes tinham de ficar acesas nas celas a noite toda, e as janelas, tapadas por fora com folha-de-flandres. De modo imprevisto, essa última medida criou uma oportunidade para comunicação entre as celas:

Eu abria a janela e, pondo a cabeça contra as grades, falava com meus vizinhos. Mesmo que a sentinela no pátio ouvisse a conversa, não conseguiria saber de onde vinha a voz, pois, graças à folha-de-flandres, era impossível flagrar uma janela aberta.[542]

Mas talvez a forma mais complexa de comunicação proibida fosse o "código Morse" dos presos, que se utilizavam das paredes ou dos encanamentos para "telegrafar". O código fora concebido nos tempos czaristas - Variam Shalamov atribui sua autoria a um dos dezembristas.[543] Elinor Olitskaya o aprendera com colegas social-revolucionários, muito antes de 1924, quando foi aprisionada.[544] A revolucionária russa Vera Figner já descrevera o código em suas memórias, que foi onde Evgeniya Ginzburg leu sobre ele. Enquanto estava em fase de interrogatório, Evgeniya se recordou o suficiente para usá-lo na comunicação com uma cela vizinha.[545] O código era relativamente simples; o alfabeto cirílico se dispunha em cinco fileiras horizontais de seis letras.

Cada letra era então designada por um par de batidas, a primeira indicando a fileira, e a segunda, a posição na fileira:

 

1,1

1,2

1,3

1,4

1,5

1,6

2,1

2,2

2,3

2,4

2,5

2,6

3,1

3,2

3,3

3,4

3,5

3,6

4,1

4,2

4,3

4,4

4,5

4,6

5,1

5,2

5,3

5,4

5,5

5,6

 

Às vezes, mesmo quem não lera sobre o código nem o aprendera com outras pessoas acabava entendendo-o, pois havia métodos padronizados de ensiná-lo. Quem o conhecia às vezes telegrafava o alfabeto, repetidamente, junto com uma ou duas perguntas simples, na esperança de que a pessoa que estava invisível do outro lado pegasse o sentido. Foi assim que Alexander Dolgun aprendeu o código na Lefortovo, decorando-o com a ajuda de fósforos. Quando enfim conseguiu "falar" com um preso na cela seguinte e entendeu que ele indagava "Quem é você?", sentiu "uma súbita torrente de puro amor por um homem que, havia três meses, perguntava quem eu era".[546]

O código não esteve difundido em todos os períodos. Em 1949, Zayara Vesyolaya não conseguiu "achar ninguém que conhecesse o 'alfabeto da cadeia'" na Butyrka e inferiu que a tradição só podia ter-se extinguido. Posteriormente, concluiu estar equivocada, tanto porque outros lhe contaram tê-lo usado na época quanto porque, certa vez, um guarda irrompeu na cela quando ouviu som de batidas, querendo saber de onde vinha o ruído.[547] Existiam variações. O escritor e poeta russo Anatolii Zhigulin afirma ter inventado um código, também alfabético, que ele e um grupo de amigos (haviam sido todos detidos de uma vez só) utilizaram para comunicar-se durante o inquérito.[548]

Em determinados lugares e épocas, os métodos de auto-organização dos presos assumiam formas mais complexas. Uma delas é descrita no conto "Comitês dos Pobres", de Variam Shalamov, e mencionada por outros.[549] Suas origens se devem a uma norma injusta: em certa altura, no final dos anos 1930, as autoridades de repente resolveram que presos submetidos a interrogatório não poderiam receber nenhuma remessa de seus familiares, com base na idéia de que até "dois pãezinhos franceses, cinco maçãs e umas calças velhas já bastavam para levar qualquer comunicação à cadeia". Só se poderia mandar dinheiro, e apenas em quantias redondas, a fim de que as somas não pudessem ser usadas para passar "mensagens". Entretanto, nem todas as famílias de presos enviariam dinheiro. Algumas eram demasiado pobres; outras, demasiado distantes; e outras ainda podem até ter participado da delação dos parentes detidos. Isso tudo significava que, embora alguns presos tivessem acesso semanal ao comissário da prisão - para adquirir manteiga, queijo, salsicha, fumo, pão branco, cigarros -, outros tinham de sobreviver apenas com a fraca dieta da cadeia e, o mais importante, sentiam-se "deslocados no feriado geral" que era o "dia do comissário".

Para resolverem esse problema, os presos da Butyrka ressuscitaram um termo dos primeiros tempos da Revolução e organizaram "Comitês dos Pobres". Cada detento doava 10% de seu dinheiro ao comitê. Este, por sua vez, adquiria comestíveis para os presos que não tinham dinheiro nenhum. O sistema se manteve durante alguns anos, até que as autoridades decidiram eliminar os comitês, prometendo a alguns presos "recompensas" de vários tipos se eles se negassem a participar. As celas, porém, reagiram, condenando os refratários ao ostracismo dentro das próprias celas. E quem, pergunta Shalamov, "se arriscaria a colocar-se em oposição ao grupo inteiro, a pessoas com as quais se está 24 horas por dia, onde apenas o sono pode salvar-nos da mirada hostil de nossos companheiros de cárcere?".

Curiosamente, esse conto é um dos poucos na extensa obra de Shalamov que termina em tom positivo: "À diferença do mundo 'livre' lá fora, ou dos campos de concentração, a sociedade das celas está sempre unida. Nos comitês, ela encontrou uma maneira de afirmar o direito de todo homem a viver a própria vida".[550]

Shalamov, um escritor tão pessimista, encontrara um fio de esperança nessa única forma organizada de solidariedade entre os presos. O trauma do traslado para os campos, e o terror dos primeiros dias de perplexidade ali, logo destruía essa esperança.

 

  1. TRANSLADO, CHEGADA, SELEÇÃO

Lembro-me do porto de Vanino

E do clamor do navio sombrio

Enquanto seguíamos pela prancha

Para o porão frio e escuro.

Os zeks sofriam com o balanço das águas,

O mar profundo uivava à volta deles...

E à frente se estendia Magadan,

A capital da terra de Kolyma.

Não brados, mas gemidos lastimáveis,

Saíram de cada peito

Quando disseram adeus à terra firme.

O navio jogava, forcejava, rangia...

Canção de presos soviéticos

 

Em 1827, a princesa Maria Volkonskaya, esposa do rebelde dezembrista Sergei Volkonsky, deixou a família, o filho e a vida segura em São Petersburgo para juntar-se ao marido no degredo siberiano. O biógrafo da princesa descreveu a viagem, que, na época, foi considerada um sofrimento quase insuportável:

Dia após dia, o trenó avançava, célere, rumo ao horizonte infinito. Como se presa numa cápsula do tempo, Maria estava numa euforia febril. Havia um quê de irreal na viagem, com a escassez de sono e de alimento. Parava apenas aqui e ali, para a troca de cavalos, e aí tomava um copo de chá quente com limão, feito no onipresente samovar de bronze. A arrebatadora velocidade do trenó, puxado por três cavalos resfolegantes, ia devorando a galope aquelas distâncias ermas. "Em sempre! Em frente!", gritavam os condutores, chispando enquanto grandes tufos de neves eram levantados pelos cascos dos cavalos e os sinos dos arreios tilintavam sem cessar, alertando outros para a aproximação do veículo.[551]

Mais de um século depois, a companheira de cela de Evgeniya Ginzburg leu uma descrição semelhante da viagem de uma aristocrata pelos Urais, e suspirou de inveja: "E eu que sempre pensei que as mulheres dos dezembristas haviam encarado os sofrimentos mais atrozes..."[552]

No século XX, nem cavalos nem trenós levavam presos com "arrebatadora velocidade" pela neve siberiana, e não havia chá quente com limão, feito em samovares de bronze, para tomar nas escalas. A princesa Volkonskaya pode ter chorado durante sua jornada, mas os prisioneiros que vieram depois dela não podiam nem ouvir a palavra étap - o jargão prisional para "traslado de presos" - sem sentir medo, até pavor. Toda viagem era um salto desolador no desconhecido, uma mudança para longe dos companheiros e dos arranjos que tinham nas celas, com os quais, não importando quão ruins, já estavam acostumados. Pior: o processo de transferir presos dos cárceres para os campos de trânsito e dali para os campos de concentração, ou de transferi-los de um campo para outro no sistema Gulag, era fisicamente acachapante e descaradamente cruel. Em certo sentido, era o aspecto mais inexplicável da vida no Gulag.

Para aqueles que sofriam essa provação pela primeira vez, o fato era prenhe de simbolismo. A detenção e o interrogatório haviam sido uma iniciação no sistema, mas a viagem de trem pela Rússia representava tanto uma ruptura geográfica com a vida pregressa quanto o começo de uma nova existência. As emoções sempre estavam à flor da pele nas composições que saíam de Moscou e Leningrado, no rumo norte e leste. Thomas Sgovio, o americano que não conseguiu recuperar seu passaporte, recordaria o que aconteceu quando partiu para Kolyma:

Nosso trem deixou Moscou na noite de 24 de junho. Era o começo de uma jornada para o leste que duraria um mês. Nunca conseguirei esquecer aquele momento. Setenta homens [...] começaram a chorar.[553]

Na maioria das vezes, viagens longas desse tipo se realizavam em etapas. Se os zeks estavam sendo mantidos em grandes prisões urbanas, eles eram primeiro levados aos trens em caminhões cujo próprio desenho já apontava a obsessão de sigilo da NKVD. Do lado de fora, os "corvos pretos", como eram apelidados, pareciam ser caminhões comuns para carga pesada, fechados. Nos anos 1930, tinham com freqüência a palavra PÃO pintada dos lados; depois, porém, usaram-se logros mais sofisticados. Um preso, detido em 1948, lembraria ter viajado num caminhão com os dizeres COSTELETAS DE MOSCOU e em outro com a indicação HORTALIÇAS E FRUTAS.[554]

Do lado de dentro, os caminhões às vezes se dividiam em "duas fileiras de minúsculas jaulas, asfixiantes e escuras como breu", na descrição de um preso.[555] Outros desses veículos, seguindo um desenho de 1951, simplesmente tinham dois longos bancos, nos quais os presos se espremiam.[556] Os camponeses, e os desterrados no início das deportações em massa dos Estados bálticos e da Polônia oriental, encaravam condições ainda mais rudes. Com freqüência, seguiam apinhados em caminhões comuns, "como sardinhas", conforme me disse certa vez um lituano idoso: o primeiro preso sentava e abria as pernas, o segundo sentava entre elas e abria as suas próprias, e assim por diante, até o caminhão lotar.[557] Tais arranjos eram especialmente desconfortáveis quando era preciso ir pegando muita gente, e nesses casos a ida à estação podia levar o dia inteiro. Em fevereiro de 1940, durante as deportações que ocorreram nos antigos territórios poloneses em pleno inverno, crianças morriam congeladas antes mesmo de chegar aos trens, e adultos sofriam graves queimaduras provocadas pelo frio, das quais seus braços e pernas nunca se recuperavam.[558]

Nas cidades de província, as normas de sigilo eram menos rigorosas, e os presos às vezes marchavam pelas localidades até a estação ferroviária, uma experiência que freqüentemente lhes proporcionava o derradeiro vislumbre da vida civil - e que proporcionava aos civis um dos poucos vislumbres dos presos. Janusz Bardach rememoraria a surpresa que sentiu ante a reação dos moradores de Petropavlovsk quando viram presos caminharem pelas ruas:

Ao redor, a maioria eram mulheres envoltas em xales e longos e pesados casacos de feltro. Para meu espanto, começaram a gritar com os guardas: "Fascistas... Assassinos... Por que não vão lutar na frente de batalha?..." Aí, passaram a atirar bolas de neve neles. Dispararam-se vários tiros para o ar, e as mulheres recuaram uns bons passos, mas continuaram a xingar e a nos seguir. Lançavam à coluna pacotes de comida, pães grandes, batatas e pedaços de toucinho. Uma mulher tirou o xale e o casaco pesado e os deu a um homem que não tinha nenhum agasalho. Peguei um par de mitenes de lã.[559]

Tais reações tinham muita tradição na Rússia: Dostoievski escreveu sobre as donas-de-casa que, nas festas natalinas, enviavam "pães finos da melhor farinha" para os detentos das prisões czaristas.[560] Nos anos 1940, porém, essas atitudes eram relativamente raras. Em muitos lugares - entre os quais Magadan era notória -, o espetáculo de presos nas ruas era tão corriqueiro que não despertava reação alguma.

Fosse a pé, fosse de caminhão, os presos acabavam chegando à estação ferroviária. Às vezes, eram estações comuns; às vezes, eram especiais - "um pedaço de terra cercado com arame farpado", na lembrança de Lev Finkelstein. Ele também recordaria que os presos se submetiam a uma série de rituais especiais antes de poderem embarcar:

Há uma longa coluna de prisioneiros. Você é contado, recontado e contado outra vez. O trem está lá [...] e então chega a ordem: "De joelhos!" O embarque é um momento delicado: alguém pode começar a correr. Por isso, asseguram-se de que todos fiquem de joelhos. E é melhor você não se levantar, porque nessa hora eles são rápidos no gatilho. Depois, fazem a contagem, põem as pessoas no vagão e as trancam. O trem nem se mexe - fica-se ali, em pé, horas a fio. Aí, de repente, "Estamos partindo!", e começamos a nos mover.[561]

Do lado de fora, os vagões pareciam absolutamente comuns - a não ser pelo fato de que eram mais bem protegidos que a maioria. Edward Buca, que fora aprisionado na Polônia, observou seu vagão com o olhar cuidadoso de um homem que tinha esperança de escapar. Lembraria que "cada vagão estava envolto em muito arame farpado; do lado de fora, havia plataformas de madeira para os guardas; tinham-se instalado lâmpadas elétricas no topo e na barriga de cada vagão; e as janelinhas exibiam grossas barras de ferro". Mais tarde, Buca foi olhar embaixo do vagão para ver se havia espigões de ferro. Sim, havia.[562] Finkelstein também se recorda de que, "toda manhã, ouvia-se aquele martelar - os guardas tinham martelos de madeira e sempre ficavam batendo nos vagões, para garantir que ninguém tentasse fugir abrindo um buraco".[563]

. Muito raramente, faziam-se arranjos fora do habitual para presos especiais. Anna Larina, mulher do líder soviético Nikolai Bukharin, não viajou com outros presos; foi colocada no compartimento dos guardas do trem.[564] Contudo a imensa maioria dos presos e degredados viajava junta, num de dois tipos de trem. O primeiro eram os Stolypinki, "vagões Stolypin" - batizados, ironicamente, com o nome . de um dos mais vigorosos e reformistas primeiros-ministros do czar, no inicio do século XX, o qual teria introduzido esses carros. Eram vagões comuns que haviam sido adaptados para o traslado de presos. Podiam ser enfileirados numa enorme composição própria; ou ser engatados, um ou dois de cada vez, a trens comuns. Um ex-passageiro os descreveu assim:

Um Slolypinka se assemelha a um vagão russo de terceira classe, excetuado o fato de que tem um monte de grades de ferro. As janelas, é claro, têm barras. Os compartimentos individuais são separados por alambrados em vez de paredes, como gaiolas, e uma cerca comprida de ferro os aparta do corredor. Esse arranjo permite que os guardas fiquem sempre de olho em todos os presos.[565]

Os vagões Stolypin também eram apinhadíssimos:

Em cada um dos dois beliches de cima, deitavam-se dois homens, com os pés virados um para a cabeça do outro. Nos dois beliches do meio, havia sete, com as cabeças voltadas para a porta e um atravessado aos pés dos outros. Sob cada um dos beliches inferiores, tinha-se um homem, com mais catorze empoleirados nos beliches e nas trouxas de pertences amontoados no chão entre os beliches e a porta. A noite, todos aqueles ao rés-do-chão davam algum jeito de deitar-se um ao lado do outro:[566]

Havia outra desvantagem, esta mais importante: dentro dos vagões Stolypin, os guardas tinham condições de vigiar os presos o tempo todo e, portanto, controlar o que comiam, ouvir o que conversavam - e decidir quando e como podiam fazer suas necessidades. Praticamente todo memorialista que descreve os trens menciona os horrores relacionados a elas. Uma, às vezes duas e às vezes nenhuma vez por dia, os guardas levavam presos ao sanitário, ou então paravam o trem para que os passageiros pudessem descer:

O pior acontece quando, após um longo regateio com os guardas, deixam que saíamos dos vagões e todo o mundo procura um lugarzinho onde possa aliviar-se debaixo do trem, sem se preocupar com a platéia que assiste de todos os lados.[567]

Por mais constrangedoras que fossem essas paradas, os presos com distúrbios estomacais ou outros problemas de saúde estavam em muito pior situação, como recordariam:

Os que não conseguiam segurar-se sujavam, lamurientos, as próprias calças e freqüentemente os presos próximos a eles. Mesmo quando se compartilhavam os sofrimentos, era difícil para alguns não odiarem os infelizes que faziam aquilo.[568]

Por tal motivo, alguns presos realmente preferiam a outra forma de traslado prisional - os vagões de gado. Estes eram o que sugerem: vagões vazios, não necessariamente equipados para seres humanos, às vezes dotados de beliches e às vezes aquecidos com um fogareiro no meio. Embora mais rudimentares que os vagões Stolypin, os de gado não se dividiam em compartimentos, e havia mais espaço para movimentação. Também tinham "sanitários" (buracos no piso), mitigando a necessidade de precisar implorar aos guardas.[569]

Todavia, os vagões abertos também tinham seus tormentos específicos. Às vezes, por exemplo, os buracos no piso ficavam bloqueados. No trem de Buca, o buraco acabou tapado pelo gelo. "Então o que fazíamos? Mijávamos por um fenda entre o piso e a parede e cagávamos num pedaço de pano, fazendo depois uma trouxinha e esperando que o trem parasse em algum lugar e abrisse as portas, para que pudéssemos jogar aquilo fora."[570] Nos trens cheios de deportados, em que adultos e crianças de ambos os sexos eram jogados juntos, os buracos no piso criavam outros problemas. Uma degredada, desterrada como filha de kulak nos anos 1930, lembraria que as pessoas ficavam "terrivelmente envergonhadas" por terem de urinar na frente umas das outras e era grata por poder fazê-lo escondida pelas saias da mãe.[571]

Contudo o verdadeiro suplício não era a lotação, o sanitário nem o constrangimento. Era a falta de alimento - e, especialmente, de água. Às vezes, dependendo da rota e do tipo de trem, servia-se comida quente aos presos. As vezes, não. Em geral, as "rações secas" para o traslado se constituíam unicamente de pão - o qual era distribuído ou em pedaços pequenos, de trezentos gramas por dia, ou em quantidades maiores, de dois quilos mais ou menos, que deviam durar uma viagem de 34 dias.

Junto com o pão, os presos costumavam receber peixe seco - cujo resultado era deixá-los sedentos ao extremo.[572] No entanto, era raro ganharem mais que uma caneca de água por dia, mesmo no verão. Essa pratica predominava tanto que sempre emergem histórias da sede pavorosa experimentada pelos presos. "Uma vez, ficamos três dias sem receber água, e, na véspera do ano-novo de 1939, em algum lugar perto do lago Baikal, tivemos de lamber o gelo preto que pendia dos vagões", escreveu um ex-zek.[573] Numa viagem de 28 dias, outra pessoa se lembra de terem-lhe dado água três vezes; de quando em quando, o trem parava "para retirarem os cadáveres".[574]

Mesmo quem recebia aquela caneca diária sofria tormentos. Evgeniya Ginzburg recordaria a decisão excruciante a que tinham de chegar: tomar a caneca inteira de manhã ou procurar poupar água.

"Quem bebericava de vez em quando e fazia a água durar o dia inteiro nunca tinha um instante de sossego. Pessoas ficavam de olho em nossas canecas o dia inteiro, como gaviões."[575] Isso, é claro, se os presos tinham canecas: até o fim da vida, uma prisioneira lembraria o momento trágico em que lhe roubaram o bule de chá que ela conseguira levar consigo. O bule não deixava derramar a água, possibilitando que bebericasse pelo dia todo. Sem ele, não tinha onde guardar a água e foi supliciada pela sede.[576]

Piores eram as lembranças de Nina Gagen-Torn, que esteve num trem de traslado que, no meio do verão, permaneceu três dias parado nas imediações de Novossibirsk. A cadeia onde os presos ficavam em trânsito na cidade estava lotada: "Era julho. Uma canícula. Os tetos dos vagões Stolypin começaram a brilhar, e nos púnhamos nos beliches tal qual bolinhos no forno". O vagão de Nina decidiu fazer greve de fome, embora os guardas os ameaçassem com novas sentenças, mais longas. "Não queremos pegar disenteria", as presas gritavam para eles. "Faz quatro dias que estamos sentadas na nossa própria merda." Com relutância, os guardas enfim as deixaram beber um pouco de água e lavar-se.[577]

Uma presa polonesa também se viu num trem que precisou ficar parado - mas na chuva. Como era natural, as prisioneiras tentavam coletar a água que vinha do teto. Mas, "quando estendíamos nossas canecas entre as barras das janelas, o guarda que estava no teto gritou que atiraria, porque aquilo era proibido".[578]

As viagens de inverno não eram necessariamente melhores. Outra polonesa desterrada lembraria que, na viagem de trem para o leste, só consumiram "gelo e pão congelado".[579] No verão ou no inverno, outros deportados viviam tormentos específicos. Quando um trem de degredados parou numa estação comum (coisa excepcional), os presos saíram correndo para comprar alimentos da gente do lugar. "Nossos judeus chisparam atrás dos ovos", recordaria um passageiro polonês. "Preferiam morrer de fome a comer algo que não fosse kosher."[580]

Os muito idosos e muito novos eram os que mais sofriam. Barbara Armonas, lituana casada com americano, foi deportada junto com um grande grupo de conterrâneos, adultos e crianças de ambos os sexos. Entre eles, estava uma mulher que dera à luz quatro horas antes, assim como uma paralítica de 83 anos que não conseguia limpar-se -"logo, tudo a seu redor fedia, e ela estava coberta de feridas abertas". Havia também três bebês:

Os pais deles tinham grande problema com as fraldas, pois era impossível lavá-las regularmente. Às vezes, quando o trem parava depois da chuva, as mães saltavam para lavá-las nas valas. Irrompiam brigas por causa dessas valas, já que alguns queriam lavar louça, outros o rosto e outros as fraldas sujas, tudo ao mesmo tempo [...] os pais envidavam todos os esforços para manter os filhos limpos. As fraldas sujas eram deixadas para secar e então sacudidas. Rasgavam-se lençóis e camisas para improvisar fraldas, e às vezes os homens amarravam as fraldas no pulso, tentando fazê-las secar mais depressa.

As crianças pequenas não passavam melhor:

Alguns dias eram escaldantes, o fedor nos vagões se tornava insuportável, e várias pessoas adoeciam. No nosso, um menino de dois anos estava com febre alta e chorava o tempo todo por causa da dor. O único socorro que os pais conseguiram foi um pouco de aspirina que alguém lhes deu. O menino ficou cada vez pior e acabou morrendo. Na parada seguinte, numa floresta desconhecida, os soldados tiraram seu cadáver do trem e, imagino, o enterraram. O pesar e a raiva impotente dos pais eram de partir o coração. Em circunstâncias normais, com cuidados médicos, ele não teria morrido. Agora, nem se sabia ao certo onde fora enterrado.[581]

Para os inimigos do povo - diferenciando-se dos deportados -, tomavam-se às vezes providências especiais, que não melhoravam necessariamente as coisas. Mariya Sandratskaya, detida dois meses após ter dado à luz, foi colocada num trem lotado de mães que amamentavam. Durante dezoito dias, 65 mulheres e 65 bebês viajaram em dois vagões de gado, cujo único aquecimento vinha de dois fogões muito pequenos e muito fumacentos. Não havia rações especiais, nem água quente para banhar as crianças ou lavar as fraldas, que então ficavam "verdes de sujeira". Duas das mulheres se suicidaram, cortando a garganta com vidro. Outra enlouqueceu. As demais se encarregaram dos três bebês. Mariya "adotou" um deles. Até o fim da vida, teve a convicção de que só o leite materno salvara seu bebê, que contraiu pneumonia. Desnecessário dizer que não se dispunha de nenhum medicamento.

Ao chegarem à cadeia de Tomsk, onde ficariam até voltar a seguir viagem, a situação praticamente não mudou. A maioria das crianças ficou doente. Duas morreram. Mais duas mães tentaram suicidar-se, mas foram impedidas. Outras realizaram uma greve de fome. No quinto dia da greve, foram visitadas por uma comissão da NKVD; uma das mulheres atirou o filho contra eles. Só quando chegaram ao Temlag - o campo feminino, destinado sobretudo às "esposas" presas - Mariya Sandratskaya conseguiu organizar um jardim-de-infância; depois, convenceu parentes a virem e levarem o bebê.[582]

Por mais grotesca e desumana que a história de Mariya possa parecer, não era única. Uma ex-médica de campo também descreveu como fora colocada num "traslado de crianças", junto com quinze mães que amamentavam, mais 25 outras crianças e duas "babás". Todas haviam marchado em comboio para a estação; sido postas não num trem comum, mas num vagão Stolypin com grades nas janelas; e sido privadas de alimentação adequada.[583]

De tempos em tempos, todos os trens de traslado faziam paradas, mas estas não ofereciam necessariamente algum alívio. Os presos eram desembarcados, colocados em caminhões e levados para cadeias, onde ficariam em caráter provisório. O regime em tais lugares era semelhante ao das detenções onde se realizavam interrogatórios; só que os carcereiros tinham ainda menos interesse pelo bem-estar dos presos, os quais provavelmente não tornariam a ver. Em conseqüência, o regime prisional era absolutamente imprevisível.

Karol Harenczyk, polonês trasladado da Ucrânia ocidental para Kolyma no início da Segunda Guerra, lembraria os méritos relativos das muitas prisões transitórias em que ficou. Num questionário que preencheu por solicitação do Exército polonês, observou que a cadeia de Lvov não tinha umidade, contava com "bons chuveiros" e era "bastante limpa". Em contraste, a de Kiev era "superlotada, indescritivelmente suja" e infestada de piolhos. Em Kharkov, a cela de 96 metros quadrados onde o puseram estava apinhada com 387 pessoas e milhares de piolhos. Em Aremovsk, a prisão ficava "quase completamente às escuras", e não se permitiam caminhadas; "não se limpava o chão, de cimento, e os restos de peixe eram deixados ali. A sujeira, o cheiro e a falta de ar provocavam dor de cabeça e tontura", tanto que os presos andavam de quatro. Em Voroshilovgrad, a cadeia também era "bastante limpa", e os presos podiam fazer as necessidades fora da cela, duas vezes por dia. No campo de trânsito de Starobelsk, tinham permissão para caminhar só uma vez por semana, durante meia hora.[584]

Talvez as mais primitivas dessas prisões transitórias fossem as do litoral do Pacífico, onde os presos permaneciam antes do embarque em navios para Kolyma. De início, nos anos 1930, só existia uma: Vtoraya Rechka, perto de Vladivostok. No entanto, era tão superlotada que, em 1938, se construíram mais dois campos de trânsito: Bukhta Nakhodka e Vanino. Mesmo então, não havia alojamento suficiente para os milhares de detentos que aguardavam os navios.[585] Um preso esteve em Bukhta Nakhodka no final de julho de 1947: "Mantinham 20 mil pessoas a céu aberto. Não se dizia nem uma palavra sequer sobre construir alguma coisa - eles sentavam, deitavam e viviam no chão".[586]

Quanto à água, a situação tampouco melhorava muito se comparada ao que vigorava nos trens, apesar do fato de que os presos ainda sobreviviam à base principalmente de peixe seco, no auge do verão:

Por todo o campo, lia-se este aviso: "Não beba água sem ferver". E entre nós grassavam duas epidemias - tifo e disenteria. Mas os presos não davam atenção aos avisos e bebiam a água que pingava aqui e ali [...] qualquer pessoa consegue entender quanto estávamos desesperados por um gole de água para matar a sede.[587]

Para presos que viajavam fazia muitas semanas - e memorialistas relatam jornadas ferroviárias de até 47 dias para Bukhta Nakhodka -,[588] as condições nos campos de trânsito do Pacífico eram quase insuportáveis. Um deles registra que, quando o trem chegou a Bukhta Nakhodka, 70% de seus companheiros tinham cegueira noturna (efeito colateral do escorbuto) e diarréia.[589] Não havia muita assistência médica disponível. Em outubro de 1938, sem medicamentos e sem cuidados adequados, o poeta russo Osip Mandelstam morreu em Vtoraya Rechka, paranóico e delirante.[590]

Para quem não estava demasiado incapacitado, era possível ganhar um pouquinho de pão extra nos campos de trânsito do Pacífico. Os presos podiam carregar baldes de cimento, descarregar mercadorias de vagões e cavar latrinas.[591] Aliás, alguns se lembram de Bukhta Nakhodka como "o único campo onde os prisioneiros imploravam para trabalhar". Uma polonesa recordaria que "eles só alimentavam quem podia trabalhar, mas, como havia mais presos do que trabalho, alguns morriam de fome [...]. A prostituição florescia, como as íris nas campinas siberianas".[592]

Thomas Sgovio lembraria que outros sobreviviam de trocas:

Existia um espaço grande e aberto que denominavam a feira. Ali, os presos se reuniam e praticavam o escambo [...]. O dinheiro de nada valia. A maior procura era por pão, fumo e pedaços de jornal, usados para fazer cigarro. Havia presos não-políticos que cumpriam pena como pessoal de manutenção e serviço. Trocavam pão e fumo pelas roupas dos recém-chegados; depois as revendiam para cidadãos do lado de fora, recebendo em rublos e acumulando assim uma soma para o dia em que, soltos, voltariam ao mundo soviético. Durante o dia, a feira era o lugar mais concorrido do campo. Naquele buraco comunista, presenciei o que, na realidade, era a forma mais crua de sistema de livre iniciativa.[593]

No entanto, para esses presos, os horrores da viagem não acabavam nos trens nem nos campos de trânsito. A viagem para Kolyma tinha de completar-se de barco - tal como no caso dos prisioneiros que subiam o rio Ienissei, de Krasnoyarsk a Norilsk, ou que, nos primeiros tempos, atravessavam o mar Branco em barcaças, de Arcangel a Ukhta. Era raro o preso que, em especial quando embarcando nos navios para Kolyma, não sentia que fazia uma jornada rumo ao abismo, navegando pelo Estige para longe do mundo conhecido. Muitos nunca haviam entrado num barco antes."[594]

As embarcações em si não tinham nada de extraordinário. Velhos cargueiros a vapor holandeses, suecos, ingleses e americanos - que de modo algum haviam sido projetados para o transporte de passageiros - faziam regularmente a rota para Kolyma. Tinham recebido nova designação, para adequar-se à nova tarefa, mas as mudanças eram sobretudo cosméticas. As letras DS (de "Dalstroi") foram pintadas nas chaminés; instalaram-se ninhos de metralhadores nas cobertas; e construíram-se rústicos beliches de madeira nos porões de carga, compartimentados por grades de ferro. O maior navio da Dalstroi, originaria-mente destinado a carregar enormes quantidades de cabo, foi de início batizado Nikolai Yezhov. Depois que Yezhov caiu em desgraça, o barco foi rebatizado Feliks Dzerzhinsky - o que exigiu dispendiosa alteração no registro internacional.[595]

Faziam-se poucas concessões à carga humana, que era obrigada a ficar fora das cobertas na primeira parte da viagem, quando os navios passavam perto do litoral japonês. Durante esses poucos dias, a escotilha que levava da coberta ao porão ficava muito bem trancada, para a eventualidade de que aparecesse algum pesqueiro japonês.[596] De fato, essas viagens eram consideradas tão secretas que, em 1939, quando o Indigirka - um navio da Dalstroi com 1.500 passageiros, na maioria presos que retornavam para o sul - se chocou contra um recife ao largo da ilha japonesa de Hokkaido, a tripulação preferiu deixar a maior parte dos passageiros morrer a pedir socorro. Não havia aparato salva-vidas, e os tripulantes, não querendo revelar o verdadeiro conteúdo de seu "cargueiro", não solicitaram o auxílio de outras embarcações, embora muitas estivessem disponíveis na área. Uns poucos pescadores japoneses vieram ajudar, por conta própria, mas não puderam fazer nada: mais de mil pessoas morreram no desastre.[597]

Mesmo quando não acontecia nenhuma catástrofe, os presos sofriam com o sigilo, que requeria o confinamento forçado. Os guardas jogavam a comida no porão e deixavam que os cativos a disputassem. Os presos recebiam água em baldes, baixados lá de cima. Tanto a comida quanto a água eram escassas - e o mesmo valia para o ar. A anarquista Elinor Olitskaya recordaria que as pessoas começavam a vomitar tão logo embarcavam.[598] Descendo ao porão, Evgeniya Ginzburg também passou mal na mesma hora: "Se continuei de pé, foi só porque não havia espaço para cair". Uma vez dentro do porão,

era impossível mexer-se; nossas pernas adormeciam, a fome e o ar marinho nos deixavam tontas, e todas estávamos mareadas [...] apinhadas às centenas, mal conseguíamos respirar; sentávamos ou deitávamos no piso sujo ou uma sobre a outra, abrindo as pernas para acomodar quem estava na frente.[599]

Depois que se passava a costa japonesa, os presos eram às vezes autorizados a subir à coberta para usar os poucos sanitários do navio, que de jeito nenhum bastavam para milhares de passageiros. Memorialistas rememoram esperas de duração variada para usá-los: "duas horas", "sete ou oito horas", "o dia inteiro".[600] Sgovio assim descreveu esses sanitários:

Uma armação semelhante a uma caixa, improvisada com tábuas, era fixada ao costado do navio [...] da coberta do navio, que jogava, era bem complicado subir à amurada e dali passar à tal caixa. Os presos que eram mais idosos e os que nunca haviam estado no mar tinham medo de entrar lá. Um cutucão do guarda, mais a necessidade de aliviar-se, acabava por fazê-los superar a relutância. Dia e noite, durante toda a viagem, havia uma longa fila na escada. Na caixa, só deixavam entrar dois homens de cada vez.[601]

Entretanto, os suplícios físicos da vida a bordo eram superados pelas torturas inventadas pelos próprios presos - ou melhor, pelos criminosos entre eles. Isso era especialmente verdadeiro no final dos anos 1930 e começo dos 40, quando a influência da bandidagem no sistema de campos estava no auge e os presos políticos e comuns ficavam misturados de maneira indiscriminada. Alguns presos políticos já haviam topado com criminosos nos trens. A finlandesa Aino Kuusinen relembraria que "o pior da viagem eram os menores delinqüentes, que ficavam com os leitos de cima e cometiam todo tipo de indecência - cuspir, lançar xingamentos obscenos e até urinar nos presos adultos".[602] Nos navios, a situação era pior. Elinor Lipper, que fez a viagem para Kolyma no final dos anos 1930, descreveu como as presas políticas

deitavam-se espremidas no piso alcatroado do porão, pois as criminosas tinham se apossado da plataforma de pranchas. Se alguma de nós se atrevesse a erguer a cabeça, seria saudada com uma chuva de vísceras e cabeças de peixe. Quando alguma das criminosas mareadas vomitava, aquilo caía direto sobre nós.[603]

Os presos polacos e baltas, que tinham melhor vestuário e pertences mais valiosos do que os de seus equivalentes soviéticos, eram ainda mais visados. Em certa ocasião, um grupo de criminosos apagou as luzes do navio e atacou presos poloneses, matando alguns e assaltando o resto. "Os polacos que sobreviveram", escreveu um deles, "souberam pelo resto da vida o que era estar no inferno."[604]

Os resultados da mistura de homens com mulheres podiam ser muito piores até que os da mistura de presos políticos com criminosos. Estritamente falando, isso era proibido: os dois sexos viajavam separados nos navios. Mas, na prática, podiam-se subornar os guardas para deixar homens entrarem no porão das mulheres, com conseqüências terríveis. O "bonde de Kolyma" - os bandos de estupradores a bordo - era tema de conversa em todo o sistema de campos. Elena Glink, uma sobrevivente, descreveu esses homens:

Eles estupravam conforme mandava o "condutor" do bonde [...] depois, à ordem Konchai bazar ["Acabou a festa"], eles se desembaraçavam, relutantemente, e davam vez aos seguintes, que haviam ficado esperando em pé, prontinhos [...] as mortas eram arrastadas pelas pernas até a porta e empilhadas na soleira. As que permaneciam eram trazidas de volta à consciência (jogava-se água nelas), e a fila recomeçava. Em maio de 1951, a bordo do Minsk [famoso em toda a região Kolyma por seu "bonde grande"], os cadáveres das mulheres eram atirados ao mar. Os guardas nem sequer anotavam o nome das mortas.[605]

Pelo que Elena sabia, ninguém jamais era punido pelo crime de estupro nesses navios. O adolescente polonês Janusz Bardach, que se viu num navio para Kolyma em 1942, tinha a mesma opinião. Bardach esteve presente quando um grupo de criminosos planejou uma investida ao porão das mulheres; ele observou enquanto esses homens abriam um buraco na grade de ferro que separava os dois sexos:

Tão logo passaram pelo buraco e viram as mulheres, os homens rasgaram as roupas delas. Vários atacavam uma mulher de cada vez. Eu podia ver os corpos alvos das vítimas se retorcerem, as pernas chutarem energicamente, as mãos arranharem o rosto dos homens. As mulheres mordiam, choravam e gemiam. Os estupradores reagiam, esbofeteando-as [...] quando acabaram as mulheres, alguns dos mais corpulentos se voltaram para os leitos, à cata de rapazes. Esses adolescentes foram acrescidos ao massacre; jaziam ali, imóveis, de barriga, sangrando e chorando no chão.

Nenhum dos outros presos tentou deter os estupradores: "centenas de homens ficaram assistindo à cena de seus leitos, mas nenhum procurou intervir". Segundo Bardach, o ataque só terminou quando os guardas na coberta superior varreram o porão com água. Em seguida, um punhado de mortas e feridas foi arrastado para fora. Ninguém recebeu punição.[606]

Conforme escreveu uma sobrevivente, "qualquer um que tenha visto o inferno de Dante diria que ele era fichinha se comparado ao que acontecia naquele navio".[607]

Há muito mais histórias sobre os traslados, algumas delas tão trágicas que mal se consegue repeti-las. De fato, essas viagens eram tão horríveis que, na memória coletiva dos sobreviventes, elas se tornaram um enigma tão difícil de compreender quanto os próprios campos. Aplicando psicologia humana mais ou menos normal, é possível explicar a crueldade dos comandantes de campo, eles próprios sob pressão para cumprir normas e metas, como veremos. É até possível explicar as ações dos interrogadores, cujas vidas dependiam do sucesso em obter confissões e que às vezes eram selecionados por serem sádicos. No entanto, é muito mais difícil explicar por que um guarda comum de comboio se recusava a dar água a presos que estavam a ponto de morrer de sede; a arranjar aspirina para uma criança febril; ou a proteger Mulheres de serem curradas até a morte.

Decerto não há prova de que os guardas de comboio fossem explicitamente instruídos a torturar os presos em traslado. Pelo contrário: existiam normas minuciosas de proteção a esses traslados, e a ira oficial se desencadeava quando não eram cumpridas, o que acontecia com freqüência. Um decreto de dezembro de 1941, "sobre o aprimoramento da organização do traslado de presos", descrevia com indignação a "irresponsabilidade" e o comportamento às vezes "criminoso" de alguns dos guardas e funcionários de comboio do Gulag: "Como resultado, presos têm chegado famélicos aos lugares a eles designados e, por conseguinte, ficam certo tempo sem poder ser postos para trabalhar".[608] Em 25 de fevereiro de 1940, uma agastada ordem oficial reclamava não só de que se colocara em trens para os campos setentrionais um determinado número de presos enfermos e incapacitados, coisa que, em si, já era proibida, mas também de que muitos mais não tinham recebido alimento nem água, não tinham sido providos no caminho de trajes adequados para o inverno e não vinham acompanhados de suas fichas pessoais, que portanto deviam ter desaparecido. Em outras palavras, presos entravam em campos onde ninguém sabia dos crimes nem das sentenças deles. Em 1939, de 1.900 prisioneiros num traslado para o extremo norte, 590 apresentavam "limitada capacidade de trabalho" ao chegar, estando ou muito debilitados, ou muito doentes. A alguns faltavam poucos meses para cumprir suas penas; outros já as haviam cumprido por completo. A maioria estava "mal calçada" e não tinha agasalho. Em novembro de 1939, outros 272 presos, nenhum dos quais tinha capotes para o inverno, foram levados em caminhões abertos por uma distância de quinhentos quilômetros; como resultado, muitos adoeceram, e alguns vieram a morrer. Relataram-se todos esses fatos, com a devida indignação e ira, e puniram-se guardas negligentes.[609]

Numerosas instruções também regulavam as prisões onde os presos ficavam em caráter transitório. Em 26 de junho de 1940, por exemplo, uma ordem descreveu a organização desses estabelecimentos, exigindo peremptoriamente que seus diretores construíssem cozinhas, banhos e sistemas de desinfestação.[610] Não menos importante era a segurança das embarcações prisionais da Dalstroi. Em dezembro de 1947, quando explodiu dinamite em dois navios ancorados em Magadan, redundando em 97 mortes e 224 hospitalizações, Moscou acusou o porto de "negligência criminosa". Os responsabilizados foram a julgamento e receberam sentenças criminais.[611]

Em Moscou, os chefões do Gulag estavam bem cientes dos horrores dos navios prisionais. Em 1943, um relatório da promotoria de Norilsk queixava-se de que os presos que aportavam ali (eles subiam o Ienissei em barcaças) estavam

com freqüência, em más condições físicas [...] dos 14.125 presos que vieram para Norilsk em 1943, cerca de quinhentos foram hospitalizados em Dudinka [o porto de Norilsk] no primeiro ou segundo dia após a chegada; até mil ficaram temporariamente inaptos para o trabalho, pois haviam sido privados de alimento.[612]

Apesar de todo o escarcéu, o sistema de traslado mudou muito pouco no decorrer do tempo. Davam-se ordens, apresentavam-se queixas. No entanto, em 24 dezembro de 1944, um comboio adentrou a estação de Komsomolsk (no Extremo Oriente) no que até o promotor-assistente do sistema Gulag considerou condições abomináveis. Seu relatório oficial do destino da SK 950 - essa composição de 51 vagões - só pode indicar uma espécie de nadir, mesmo na história horripilante dos traslados do Gulag:

Chegaram em vagões sem aquecimento que não tinham sido preparados para o transporte de presos. Em cada carro, havia entre dez e doze beliches, nos quais não podiam caber mais que dezoito pessoas; apesar disso, contavam-se até 48 pessoas por carro. Os vagões não estavam providos de latões de água em número suficiente, de modo que ocorriam interrupções no suprimento, às vezes por dias e noites inteiros. Deu-se pão congelado aos presos, e durante dez dias eles não receberam nem isso. Os presos chegaram trajados com uniforme de verão, sujos, cobertos de piolhos, com sinais evidentes de ulceração pelo frio [...] os presos enfermos tinham sido largados no piso dos vagões, sem socorro médico, e morreram ali mesmo. Mantiveram-se os cadáveres nos vagões por longos períodos [...].

Das 1.402 pessoas enviadas na composição SK 950, chegaram 1.291; 53 haviam morrido na viagem, e 66 haviam sido deixadas em hospitais pelo caminho. Na chegada, mais 335 foram hospitalizadas com queimaduras de frio de terceiro ou quarto grau, pneumonia e outras doenças. Ao que parecia, o comboio viajara sessenta dias, em 24 dos quais ficara parado em vias laterais, "por causa da má organização". Contudo, mesmo nesse caso extremo de negligência, o responsável pela composição, um certo camarada Khabarov, não recebeu mais que uma "repreensão com advertência".[613]

Muitos sobreviventes de traslados semelhantes procurariam explicar esses grotescos maus-tratos sofridos pelos prisioneiros nas mãos de guardas de comboio jovens e inexperientes, os quais estavam longe de ser os matadores treinados destacados para o sistema prisional. Nina Gagen-Torn especularia que "aquilo era prova não de maldade, mas simplesmente de total indiferença. Não nos viam como pessoas. Éramos apenas carga viva".[614] Antoni Ekart, polonês preso após a invasão soviética de 1939, também achava que

a privação de água não era proposital, para torturar-nos; antes, devia-se ao fato de que a escolta tinha de despender esforço extra para trazer água e só o faria caso recebesse ordens. O comandante da escolta não estava nem um pouco interessado, e os guardas não se dispunham a escoltar os presos várias vezes por dia até os poços ou torneiras das estações, correndo o risco de que houvesse fugas.[615]

Contudo alguns presos relatam mais que indiferença:

De manhã, o chefe do comboio apareceu no corredor [...] em pé, de rosto para a janela e de costas para nós, gritou insultos e xingamentos: "Vocês me cansam!" [616]

O tédio - ou melhor, o tédio misturado com a raiva de ter de executar trabalho tão degradante - também era a explicação de Soljenitsin para esse comportamento tão difícil de explicar. Soljenitsin até procurou imaginar-se no lugar dos guardas de comboio. Lá estavam eles, já tão ocupados e assoberbados e mesmo assim tendo de "carregar água em baldes - era preciso buscá-la longe, ainda por cima, e aquilo era uma ofensa: por que um soldado soviético deveria carregar água feito um burro para os inimigos do povo?". Pior:

Tomava muito tempo distribuir aquela água. Os zeks não tinham canecas. Os que tinham acabavam sendo privados dela - de modo que, no fim das contas, era preciso dar-lhes uma das duas canecas regulamentares e, enquanto bebiam, ficar lá de pé, esperando e esperando, pondo água e mais água, distribuindo e distribuindo...

Mas os guardas poderiam ter agüentado tudo isso, pegar a água e distribuí-la, se aqueles cachorros, depois de terem sorvido ruidosamente a água, não pedissem para ir ao banheiro. Então, as coisas funcionam assim: se a gente não lhes dá água, eles não pedem para ir ao banheiro. É dar água uma vez, e eles vão ao banheiro uma vez; duas vezes, e eles, vão duas vezes. Por isso, o bom senso, pura e simplesmente, é não dar nada para beberem.[617]

Qualquer que fosse a motivação dos guardas - indiferença, tédio, raiva, orgulho ferido -, o efeito nos presos era devastador. Em geral, eles chegavam aos campos não apenas desorientados e aviltados pela experiência do cárcere e do interrogatório, mas também fisicamente exauridos - prestes a encarar o estágio seguinte de sua jornada para o Gulag: a entrada no campo.

Se não estava escuro, se não se encontravam doentes e se demonstravam interesse em olhar, a primeira coisa que os presos viam na chegada era o portão do campo. No mais das vezes, o portão exibia um slogan. Da entrada de um dos lagpunkts, "pendia um arco-íris de compensado com uma faixa por cima, na qual se lia que 'Na URSS, o trabalho é questão de honestidade, honra, bravura e heroísmo!'".[618] Numa colônia de trabalho nos subúrbios de Irkutsk, Barbara Armonas foi acolhida com esta faixa: "Com trabalho honesto, saldarei meu débito para com a pátria".[619] Chegando em 1933 a Solovetsky (que se tornara prisão de segurança máxima), outro preso viu um aviso que dizia: "Com mão de ferro, conduziremos a humanidade à felicidade!"[620] Yurii Chirkov, detido aos catorze anos, também deparou com um aviso em Solovetsky: "Por meio do trabalho, a liberdade!", slogan que é tão constrangedoramente parecido quanto possível com o Arbeit macht frei ("O trabalho liberta") que se via sobre os portões de Auschwitz.[621]

Assim como a chegada à cadeia, a chegada de um étap ao campo se fazia acompanhar de rituais: os detentos, exaustos pelo traslado, agora tinham de ser transformados em zeks funcionais. O preso polonês Karol Colonna-Czosnowski lembraria:

Na chegada ao campo, ficamos um tempão sendo contados [...]. Naquela noite específica, parecia que isso não acabaria nunca. Inúmeras vezes, tivemos de nos alinhar em fileiras de cinco, e a cada uma delas se ordenava que desse três passos à frente, e vários funcionários da NKVD, com ar preocupado, contavam em voz alta - Odin, dva, tri - e registravam minuciosamente cada total em suas grandes pranchetas. Era de presumir que o número de vivos, acrescido ao número daqueles que tinham sido fuzilados no caminho, não correspondia ao esperado.[622]

Em seguida à contagem, tanto homens quanto mulheres eram levados aos banhos e tinham o corpo rapado - por inteiro. Esse procedimento, realizado segundo ordem oficial, por motivos de higiene[623] - presumia-se, em geral com razão, que os presos que chegavam das cadeias soviéticas estariam cobertos de piolhos -, também tinha grande importância ritual. As mulheres o descrevem com especial horror e aversão, o que não é de admirar. Em muitas ocasiões, precisavam despir-se e, nuas diante dos soldados, esperar a vez de serem rapadas. "Pela primeira vez", recordaria Elinor Olitskaya, que participou dessa cerimônia ao chegar a Kolyma, "ouvi prantos de protesto - mulher é mulher..."[624] Olga Adamova-Sliozberg sofrera a mesma coisa numa das prisões transitórias em que se ficava no trajeto para os campos:

Nós nos despimos e entregamos nossas roupas para serem tratadas. Já estávamos subindo para o lavatório quando percebemos que a escada eslava tomada por guardas de alto a baixo. Envergonhadas, baixamos a cabeça e nos juntamos. Então ergui o olhar e acabei encarando o oficial encarregado. Ele me olhou carrancudo e berrou: "Vamos, vamos! Mexa-se!"

De repente, fiquei aliviada, e a situação até me pareceu bem cômica.

"Para o diabo com eles", pensei. "Não são mais homens do que o Vaska, o touro que me assustava quando eu era menina."[625]

Tão logo os presos estavam lavados e rapados, a segunda etapa do processo de transformar homens e mulheres em zeks anônimos era a distribuição de trajes. As normas mudavam conforme a época e o campo; os presos podiam ou não usar as próprias roupas. Na prática, a decisão parece ter ficado a cargo dos responsáveis locais. "Em alguns lagpunkts, a gente usava a roupa que tinha trazido; em outros, não", lembraria Galina Smirnova, prisioneira no Ozerlag no começo da década de 1950.[626] Isso nem sempre importava: quando se chegava aos campos, os trajes de muitos presos estavam em farrapos, se já não houvessem sido furtados.

Quem não tinha roupa usava os uniformes dos campos, que eram invariavelmente velhos, rotos, malfeitos e canhestros. Para algumas pessoas, em especial mulheres, às vezes parecia que os trajes que lhes davam eram parte de uma tentativa de humilhá-las. Anna Andreevna, mulher do escritor espírita Danil Andreev, foi de início mandada para um campo onde se podia usar as próprias roupas. Depois, em 1948, transferiram-na para um campo onde isso não era permitido. Ela achou a mudança bastante insultante: "Eles haviam nos privado de tudo, de nossos nomes, de todas as coisas que são parte da personalidade, e nos feito usar - eu nem consigo descrever aquilo - um vestido amorfo".[627]

Não se fazia nenhum esforço para garantir que a numeração das roupas batesse com a dos presos. Janusz Bardach escreveu:

Cada um de nós recebeu ceroulas, túnica preta, calças e casaco acolchoados, boné de feltro com orelheiras, botas com solado de borracha e mitenes infestadas de piolhos. Esses itens eram distribuídos sem nenhum critério, e cabia a nós achar a numeração certa. Tudo era grande demais, e passei horas trocando trajes com as pessoas para conseguir o que me servisse melhor.[628]

Igualmente contundente no que se referia à moda nos campos, uma presa escreveu que lhes foram dados

casacos curtos acolchoados, meias acolchoadas que iam até os joelhos e calçados de cortiça de bétula. Parecíamos bichos do outro mundo. Quase nada que era nosso nos fora deixado. Tudo fora vendido às condenadas, ou melhor, trocado por pão com elas. Echarpes e meias de seda despertavam tal admiração que nos víamos obrigadas a vendê-las. Teria sido muito perigoso recusar.[629]

Visto que as roupas rotas pareciam destinar-se a privá-los de dignidade, muitos presos depois se empenhavam para melhorá-las. Uma prisioneira recordaria que, de início, não se importava com os trajes "muito velhos e estragados" que lhe tinham dado. Mas, posteriormente, começou a efetuar remendos, colocar bolsos e aprimorar as roupas, "como outras mulheres faziam"; desse modo, sentia-se menos aviltada.[630] Em geral, as prisioneiras que sabiam costurar também conseguiam rações extras de pão, pois até as mínimas melhorias no uniforme-padrão eram concorridíssimas: a capacidade de destacar-se, de ter aparência ligeiramente melhor que as outras pessoas, estava, como veremos, relacionada a posições hierárquicas melhores, saúde melhor, privilégios maiores. Variam Shalamov entendia bem a importância dessas pequenas mudanças:

Nos campos, há roupa de baixo "individual" e "comum"; é um exemplo das pérolas encontradas no discurso oficial. A "individual" é mais nova e um pouquinho melhor, sendo reservada tanto para os presos de confiança que atuam como capatazes quanto para outros privilegiados [...] a "comum" é para todo mundo. É entregue no lavatório logo após o banho, sendo trocada pela roupa de baixo suja, que antes é juntada e contada. Não há chance de escolher nada conforme o tamanho. Roupa de baixo limpa é pura loteria, e senti um dó estranho e terrível ao ver homens crescidos chorarem por causa da injustiça de terem recebido roupa limpa e gasta em troca de roupa suja e boa. Nada consegue fazer o ser humano deixar de pensar nas coisas desagradáveis que compõem a existência.[631]

Ainda assim, o choque de ser banhado, rapado e trajado como zek era apenas a primeira etapa de uma longa iniciação. Imediatamente depois, os presos se submetiam a um dos procedimentos mais cruciais de sua vida: a seleção - e a diferenciação em categorias de trabalho. Esse processo afetaria tudo, desde o status do preso no campo até o tipo de alojamento onde ficaria, passando pela espécie de serviço que faria. Tudo isso, por sua vez, determinaria se ele conseguiria sobreviver. E preciso registrar que não encontrei nenhum registro que descrevesse "seleções" do tipo que ocorria nos campos de extermínio alemães. Ou seja, não deparei com seleções regulares em que os presos debilitados fossem postos à parte e fuzilados. Atrocidades desse tipo certamente aconteciam - um memorialista de Solovetsky afirma ter sobrevivido a uma -,[632] mas a prática costumeira, pelo menos no final dos anos 1930 e começo dos 40, era diferente. Os presos enfraquecidos não eram assassinados ao chegarem a alguns dos campos mais distantes; em vez disso, ficavam de "quarentena", tanto para garantir que nenhuma doença que porventura tivessem se espalhasse, quanto para permitir que "cevassem", a fim de recuperar a saúde após longos meses de cadeia e de viagens terríveis. Ex-presos confirmam que os chefes dos campos parecem ter levado essa prática a sério.[633]

Alexander Weissberg, por exemplo, recebeu boa alimentação e pôde descansar antes de o mandarem para as minas.[634] Após um demorado traslado para o Ukhtizhemlag, proporcionaram três dias de descanso a Jerzy Gliksman - o socialista polonês que tanto apreciara a apresentação da peça Aristocratas, de Pogodin, em Moscou -, período durante o qual ele e os outros recém-chegados foram tratados como "hóspedes".[635] Pyotr Yakir, filho do general soviético Ion Yakir, ficou catorze dias em quarentena no Sevurallag.[636] Evgeniya Ginzburg lembraria seus primeiros dias em Magadan, principal cidade de Kolyma, como um "redemoinho de dor, surtos de esquecimento e um abismo negro de inconsciência. Ela, assim como outras, fora trazida direto do navio Dzhurma e colocada num hospital, onde se recuperou plenamente após dois meses. Algumas se mostravam céticas. "Uma ovelha para o matadouro", disse Liza Sheveleva, outra presa. "Posso perguntar para quem você está se recuperando? Tão logo saia daqui, irá direto para os trabalhos forçados e, em uma semana, voltará a ser o mesmo cadáver que era a bordo do Dzhurma."[637]

Uma vez recuperados, caso lhes permitissem isso, e trajados, caso lhes tivessem dado novas roupas, a seleção e diferenciação dos presos começavam para valer. Em princípio, era um processo extremamente regulamentado. Já em 1930, o Gulag emitiu ordens muito severas e complicadas sobre a classificação de presos. Teoricamente, as tarefas designadas para eles deviam refletir dois conjuntos de critérios: a "origem social" e condenação; e a saúde. Naqueles primeiros tempos, os presos se distribuíam em três categorias: "trabalhadores" que não haviam sido condenados por crimes anti-revolucionários, com penas não superiores a cinco anos; "trabalhadores" que também não haviam sido condenados por crimes anti-revolucionários, com penas superiores a cinco anos; e condenados por crimes anti-revolucionários.

A cada uma dessas categorias se atribuía então um regime prisional: privilegiado; brando; e pesado, ou "de primeira ordem". Em seguida, os presos deviam ser examinados por uma junta médica, que determinava se podiam realizar trabalho pesado ou apenas brando. Após ter levado em conta todos esses critérios, a administração do campo determinava um serviço para cada preso. Conforme cumprissem as normas e metas de suas atribuições, os presos se enquadravam num dos quatro tipos de ração: básica; de trabalho; "reforçada"; ou "disciplinar".[638] Todas essas categorias mudaram muitas vezes. As ordens que Beria deu em 1939, por exemplo, dividiam os presos entre "capazes de trabalho pesado", "capazes de trabalho leve" e "inválidos" - categorias às vezes denominadas respectivamente grupo A, grupo B e grupo C -, e seus efetivos eram monitorados regularmente pela administração central do sistema, em Moscou, que desaprovava de modo severo os campos com "inválidos" em demasia.[639]

O processo estava longe de ser ordeiro. Tinha tanto aspectos formais, impostos pelos comandantes de campo, quanto informais, na medida em que os presos se ajustassem e fizessem acertos entre si. "ara a maioria, o primeiro gosto da classificação nos campos era relativamente grosseiro. George Bien, jovem húngaro preso em Budapeste no fim da Segunda Guerra Mundial, comparou a uma feira de escravos o processo seletivo a que o submeteram em 1946:

Mandavam todo mundo para um pátio, onde nos diziam para despir-nos. Quando chamavam nosso nome, nós nos apresentávamos a uma junta de saúde, para exame médico. Este consistia em puxar a pele das nádegas para determinar a quantidade de músculos. Avaliavam a força pela massa muscular, e, se passávamos, éramos aceitos e tínhamos nossa documentação colocada numa pilha à parte. Isso era feito por mulheres de jaleco branco, e elas tinham pouco o que escolher naquele grupo de mortos-vivos. Selecionavam os presos mais jovens independentemente da massa muscular.[640]

Jerzy Gliksman também usou a expressão "feira de escravos" para descrever o processo de diferenciação que ocorria em Kotlas, o campo de trânsito que supria de presos os campos setentrionais de Arcangel. Ali, os guardas acordaram os presos durante a noite e os mandaram reunir-se e apresentar-se pela manhã, com todos os seus pertences. Cada um dos presos, até os gravemente enfermos, viu-se obrigado a comparecer. Depois, todos foram levados a pé para a floresta, fora do campo. Uma hora mais tarde, chegaram a uma grande clareira, onde se alinharam em fileiras de dezesseis.

O dia todo, reparei que superiores desconhecidos, tanto de uniforme quanto à paisana, zanzavam entre os presos, ordenando a alguns que tirassem os casacos, apalpando-lhes os braços e as pernas, olhando-lhes a palma das mãos, dizendo para outros se inclinarem. De quando em quando, mandavam um preso abrir a boca e lhe espiavam os dentes, como negociantes de cavalos numa feira da roça [...] alguns procuravam engenheiros, torneiros ou chaveiros com prática; outros talvez necessitassem de carpinteiros; e todos sempre precisavam de homens fisicamente fortes para trabalhar na derrubada de árvores, na agricultura, nas minas de carvão e nos poços de petróleo.

Gliksman percebeu que, para quem fazia essa inspeção, o mais importante era "não comprar gato por lebre, não levando aleijados, inválidos ou doentes - em suma, pessoas que só serviam para comer. Era por essa razão que, de tempos em tempos, se enviavam representantes especiais para selecionar entre os presos os tipos adequados".[641]

Desde o início, também ficou claro que as regras estavam lá para ser desobedecidas. Em 1947, Nina Gagen-Torn passou por uma seleção particularmente humilhante no campo de Temnikovsky, a qual, porém, teve um resultado positivo. Quando chegou ao campo, o comboio de Nina foi de imediato mandado para os chuveiros, e as roupas, colocadas numa câmara de desinfecção. Em seguida, foram conduzidas a um recinto, ainda molhadas e nuas; disseram-lhes que haveria "uma inspeção de saúde". "Médicos" iriam examiná-las, e eles de fato fizeram isso - junto com o gerente de produção e os guardas do campo.

O major caminhou ao longo da fila, examinando rapidamente os corpos. Estava escolhendo mercadoria - para a produção! Para a oficina de costura! Para a fazenda coletiva! Para a zona prisional! Para o hospital! O gerente de produção escreveu os sobrenomes.

Quando ouviu seu sobrenome, o major olhou para ela e perguntou:

"Qual o seu parentesco com o professor Gagen-Torn?"

"Sou filha dele."

"Ponham-na no hospital. Ela tem sarna, está com marcas vermelhas na barriga."

Como não tinha nenhuma marca vermelha na barriga, Nina presumiu - corretamente, como viria a descobrir - que o homem conhecera e admirara seu pai e a estava poupando, ao menos por enquanto, do trabalho pesado.[642]

Nos primeiros dias de vida nos campos, a conduta dos presos, durante e após o processo seletivo, podia ter profundas conseqüências para o destino deles. Em seus três dias de repouso depois que chegou ao Kargopollag, por exemplo, o romancista polonês Gustav Herling avaliou a situação e, por novecentos gramas de pão, vendeu suas botas de oficial, de cano alto, a um urka (preso comum) da turma de carregadores da ferrovia. Em retribuição, o criminoso usou seus contatos na administração do campo para ajudar a garantir para Herling um serviço de carregador no centro de distribuição de alimentos. Era trabalho duro, disseram a Herling, mas pelo menos ele poderia furtar rações extras - como acabou mesmo acontecendo. E, logo de cara, concederam-lhe um "privilégio". O comandante do campo o mandou

apresentar-se no armazém do campo para pegar bushlat [jaqueta acolchoada], boné com orelheira, calças acolchoadas, luvas impermeáveis de tecido de vela e valenki [botas de feltro] da melhor qualidade, ou seja, novas ou pouco usadas - uma indumentária que, em geral, só davam às melhores turmas de presos "stakhanovistas".[643]

A esperteza também assumia outras formas. Chegando ao Ukhtizhemlag, Gliksman imediatamente percebeu que o título de "especialista" que lhe haviam conferido no campo de trânsito de Kotlas - foi classificado como economista formado - não tinha nenhum significado no campo de concentração. Entrementes, notou que, durante os primeiros dias ali, seus conhecidos russos, mais descolados, não se preocupavam com as formalidades oficiais:

A maioria dos "especialistas" usava os três dias de folga para visitar os escritórios do campo, procurando antigos conhecidos aonde quer que fossam e realizando negociações suspeitas com alguns dos superiores do campo. Estavam todos agitados e preocupados. Cada um tinha seus próprios segredos e temia que alguém viesse a estragar suas chances e pegar o serviço mais confortável no qual estava de olho. Bem depressa, a maior parte dessas pessoas já sabia aonde ir, em qual porta bater e o que dizer.

Em conseqüência, mandaram um médico polonês de elevada qualificação cortar árvores na floresta, enquanto um cafetão ganhava o cargo de contador num escritório, "embora não tivesse absolutamente nenhuma noção de contabilidade e, no mais, fosse semi-analfabeto".[644]

Os presos que assim conseguiam evitar o trabalho braçal haviam de fato estabelecido os fundamentos de uma estratégia de sobrevivência - mas só os fundamentos. Agora, tinham de aprender as estranhas normas que regiam o cotidiano dos campos.

 

  1. A VIDA NOS CAMPOS

 

O som de um sino distante

Entra na cela com a alvorada.

Ouço o sino me chamar:

"Onde estás? Onde estás?"

"Eis-me aqui!... "Então, saúdo com lágrimas,

Lágrimas amargas do cativeiro...

Não por Deus,

Mas por ti, Rússia.

SimeonVilensky, 1948.[645]

 

Entre 1929 e 1953, segundo a mais precisa das estimativas disponíveis, houve 476 complexos de campos no universo do Gulag.[646] Mas esse número engana. Na prática, cada um daqueles complexos continha dezenas, ou mesmo centenas, de unidades menores. Essas unidades (lagpunkts) ainda não foram contabilizadas, e provavelmente nem podem sê-lo, pois eram algumas temporárias, algumas permanentes e algumas oficialmente parte de campos diferentes em épocas distintas. Tampouco se pode afirmar muito sobre os costumes e práticas dos lagpunkts que se aplique inquestionavelmente a todos eles. Mesmo durante o reinado de Beria - período que se estendeu de 1939 à morte de Stalin, em 1953 -, as condições de vida e de trabalho no Gulag continuaram a variar enormemente, tanto de ano para ano quanto de lugar para lugar, até num mesmo complexo.

"Cada campo é um mundo à parte, uma cidade distinta, outro país", escreveu a atriz soviética Tatyana Okunevskaya - e cada campo tinha caráter próprio.[647] A vida num dos grandes campos industriais do extremo norte era bem diferente daquela num campo agrícola da Rússia meridional. Durante a fase mais intensa da Segunda Guerra Mundial, quando um em cada quatro zeks morria por ano, a vida em qualquer campo era bem diferente daquela no início dos anos 1950, quando as taxas de mortalidade eram mais ou menos as que prevaleciam no resto do país. Campos dirigidos por comandantes relativamente liberais não eram a mesma coisa que campos dirigidos por sádicos. Os lagpunkts também variavam amplamente em tamanho - com populações que iam de algumas dúzias a vários milhares de presos - e longevidade. Alguns perduraram dos anos 1920 aos 80, quando ainda funcionavam como penitenciárias. Outros, como aqueles estabelecidos para construir rodovias e ferrovias na Sibéria, não duraram mais que um verão.

Contudo, às vésperas da guerra, certos elementos da vida e do trabalho eram comuns à grande maioria dos campos. O ambiente ainda variava de lagpunkt a lagpunkt, mas interromperam-se as enormes oscilações de prática nacional que haviam caracterizado a década de 1930. Assim, a mesma burocracia inerte que acabaria por deitar suas mãos mortas sobre praticamente todos os aspectos da vida soviética foi aos poucos se apossando também do Gulag.

Nesse sentido, são notáveis as diferenças entre as normas e regulamentos um tanto vagos instituídos para os campos em 1930 e as regras mais detalhadas impostas em 1939, depois que Beria assumiu. Tais diferenças parecem refletir uma mudança na relação entre os órgãos de controle central (a direção do Gulag em Moscou) e os comandantes dos campos. Durante a primeira década do Gulag, um período experimental, as ordens documentadas não procuravam ditar a aparência dos campos e quase nem tratavam do comportamento dos presos. Elas esboçavam um esquema geral e deixavam que os comandantes locais preenchessem as lacunas.

Em contraste, as ordens posteriores eram mesmo muito específicas e muito detalhadas, fixando praticamente quase todos os aspectos da vida nos campos, desde o método de construção dos alojamentos até o cotidiano dos presos, seguindo as novas metas do Gulag.[648] Parece que, a partir de 1939, Beria - presumivelmente com o apoio de Stalin - já não queria que os campos do Gulag fossem campos de extermínio (coisa que alguns, na prática, tinham sido em 1937 e 1938). Isso não queria dizer que agora os administradores dos campos estivessem mais preocupados em preservar vidas, para nem falarmos em respeitar a dignidade humana. De 1939 em diante, as principais preocupações de Moscou eram econômicas: os presos deviam encaixar-se nos planos de produção dos campos qual engrenagens numa máquina.

Com esse fim, as ordens que emanavam de Moscou determinavam controle rigoroso sobre os prisioneiros, a ser obtido mediante a manipulação das condições de vida deles. Em princípio, como vimos, o campo classificava todo zek de acordo com a pena, a profissão e a trudosposobnost (capacidade de trabalho). Em princípio, o campo designava para todo zek uma função e um conjunto de normas e metas. Em princípio, o campo provia todo zek com os requisitos básicos da existência - alimentação, indumentária, habitação, espaço - segundo ele cumprisse aquelas normas e metas. Em princípio, todos os aspectos da vida nos campos eram concebidos para aumentar as cifras de produção - até os departamentos "culturais e educacionais" existiam sobretudo porque os maiorais do Gulag acreditavam que isso poderia convencer os presos a darem mais duro. Em princípio, as equipes de inspeção estavam lá para garantir que todos esses aspectos da vida nos campos funcionassem em harmonia. Em princípio, todo zek tinha até direito de reclamar (ao comandante do campo, a Moscou, a Stalin) se os campos não operassem conforme as regras.

E no entanto... Na prática, as coisas eram muito diferentes. Pessoas não são máquinas, os campos não eram fábricas limpas nem funcionais, e o sistema nunca funcionou como se pretendia. Guardas eram corruptos, administradores furtavam, e presos desenvolviam maneiras de combater ou subverter as normas dos campos. Nestes, os presos também conseguiam estabelecer suas próprias hierarquias extra-oficiais, que às vezes se harmonizavam, e às vezes colidiam, com as hierarquias criadas pela administração. Apesar das visitas regulares de inspetores de Moscou, freqüentemente seguidas de reprimendas e cartas iradas da capital, poucos campos correspondiam ao modelo teórico. Apesar da aparente seriedade com que se tratavam as queixas dos presos - comissões inteiras existiam para analisá-las -, elas raramente resultavam em mudanças reais.[649]

Esse choque entre o que a direção do Gulag em Moscou achava que os campos deviam ser e o que eles eram de fato - o choque entre as regras escritas e os procedimentos efetivamente adotados - era o que dava à vida no Gulag seu sabor único e surreal. Em teoria, a direção moscovita determinava os aspectos mais ínfimos da vida dos presos. Na prática, todos esses aspectos eram também influenciados pelas relações dos presos com aqueles que os controlavam - e uns com os outros.

 

A ZONA PRISIONAL: ATRÁS DO ARAME FARPADO

Por definição, a ferramenta mais importante à disposição dos administradores dos campos era o controle do espaço em que os presos viviam - a "zona", do termo "zona prisional". Por lei, a zona se inscrevia num quadrado ou retângulo. "A fim de assegurar melhor vigilância", não se permitiam formatos de terreno orgânicos nem irregulares.[650] Nesse quadrado ou retângulo, não havia muito o que atraísse o olhar. A maioria das construções num lagpunkt típico era extraordinariamente parecida. Fotos tiradas por administradores de Vorkuta, e conservadas em arquivo em Moscou, mostram um conjunto de construções rudimentares de madeira, diferenciadas apenas pelas legendas, que descreviam uma como "cela punitiva" e outra como "refeitório".[651] Em geral, perto do portão, havia um grande espaço aberto no centro do campo; ali, os presos se perfilavam duas vezes por dia para ser contados. Do lado de fora, costumava haver alguns alojamentos de guardas e casas de administradores, também de madeira, bem junto ao portão principal.

O que distinguia a zona prisional de qualquer outro local de trabalho era, claro, a cerca que a rodeava. No Manual do Gulag, Jacques Rossi escreve que a cerca

era geralmente feita de estacas de madeira, enterradas até um terço do comprimento. Dependendo das condições locais, variavam de 2,5 a seis metros de altura. Entre os postos, colocados a intervalos de cerca de seis metros, estendiam-se horizontalmente sete a quinze fieiras de arame farpado. Diagonalmente, entre cada par de estacas, estendiam-se mais duas fieiras.[652]

Caso o campo ou colônia se localizasse no perímetro ou nas proximidades de um centro urbano, a cerca de arame farpado costumava ser substituída por um muro de tijolos ou uma cerca de madeira, para que ninguém que se aproximasse conseguisse ver o lado de dentro. Esses cercados eram bem construídos: em Medvezhegorsk, por exemplo, sede do Canal do Mar Branco, uma cerca alta de madeira, erguida no começo dos anos 1930 para guardar os presos, ainda estava de pé quando visitei o lugar em 1998.

Para atravessar a cerca, tanto presos quanto guardas tinham de passar pela vakhta (guarita). Durante o dia, os guardas da vakhta controlavam todos os que entravam e saíam, verificando os passes dos trabalhadores livres que adentravam o campo e dos guardas de comboio que escoltavam presos para fora. No campo Perm 36 - que foi restaurado para ficar com a aparência original -, a vakhta contém uma passagem bloqueada por dois portões. Os presos caminhavam pelo primeiro; paravam no pequeno espaço que ali havia, para ser vistoriados; e só então eram autorizados a atravessar o segundo portão. Basicamente, era o mesmo sistema que se encontra na entrada dos bancos sicilianos.

Mas o arame farpado e os muros não eram os únicos a definir os limites da zona prisional. Na maioria dos campos, guardas armados vigiavam os presos de altas torres de madeira. Às vezes, cães também davam a volta aos campos, presos por correntes a um arame que se estendia por todo o perímetro da zona prisional. Esses cães, a cargo de tratadores especiais entre os guardas, eram adestrados para latir para presos que se aproximassem e farejar e perseguir qualquer um que tentasse escapar. Assim, os presos eram coibidos não apenas por arame farpado e tijolos, mas também por controles visuais, auditivos e olfativos. Também eram tolhidos pelo medo, que às vezes bastava para mantê-los em campos que não tinham nenhuma cerca. Margarete Buber-Neumann ficou num campo de segurança mínima que permitia que se movessem "à vontade até oitocentos metros além do perímetro; ultrapassada aquela marca, os guardas atiravam sem cerimônia".[653] Mas esse arranjo era incomum: na maioria dos campos, os guardas atiravam "sem cerimônia" muito antes de se chegar tão longe. Nos regulamentos que impôs em 1939, Beria ordenava a todos os comandantes de campo que deixassem junto às cercas uma "terra de ninguém", uma faixa não inferior a cinco metros de largura.[654] No verão, regularmente, os guardas passavam o ancinho nessa terra; e, no inverno, a deixavam coberta de neve; tudo para que sempre ficassem visíveis as pegadas de presos em fuga. O começo da terra de ninguém também era marcado, às vezes por arame farpado, às vezes por avisos em que se lia Zapretnaya zona ("Zona proibida"). A terra de ninguém também era ocasionalmente chamada "zona da morte", pois os guardas tinham permissão de atirar para matar em qualquer um que entrasse nela."[655]

E mesmo assim... As cercas, muros, cães e barreiras que rodeavam os lagpunkts não eram de todo impenetráveis. Se os campos de concentração alemães eram selados por completo - "hermeticamente fechados", na descrição de um perito -,[656] o sistema soviético se mostrava diferente nesse sentido.

Para começo de conversa, ele classificava os presos em konvoinyi (sob guarda) e beskonvoinyi (sem guarda), e a pequena minoria dos segundos estava autorizada a atravessar sem vigia os limites da zona prisional, fazer pequenos serviços externos para os guardas, trabalhar durante o dia num trecho de ferrovia não-guardado e até morar em alojamentos privados fora da zona prisional. Esse último privilégio fora estabelecido já no início da história dos campos, durante os tempos (mais caóticos) da primeira metade da década de 1930.[657] Embora depois viesse a ser categoricamente proibido várias vezes, ele persistiu. Um conjunto de regras escritas em 1939 lembrava os comandantes de campo de que "todos os presos, sem exceção, estão proibidos de morar fora da zona prisional, em aldeias, aposentos particulares ou casas pertencentes ao campo". Em teoria, os campos precisavam obter autorização especial até para deixar os presos morarem em acomodações guardadas, caso estas ficassem fora da zona prisional.[658] Na prática, tais normas eram com freqüência desrespeitadas. Apesar da imposição de 1939, relatórios de inspetores escritos muito após aquela data listam ampla variedade de violações. Um inspetor se queixou de que, na cidade de Ordzhonikidze, os presos andavam pelas ruas, iam às feiras, entravam em residências particulares, bebiam e roubavam. Numa colônia penal de Leningrado, permitira-se que um preso usasse um cavalo, com o qual fugiu. Na colônia de trabalho 14, em Voronezh, um guarda armado deixou 38 presos esperando na rua enquanto ele entrava num estabelecimento comercial.[659]

A promotoria de Moscou mandou carta a outro campo, perto da cidade siberiana de Komsomolsk, acusando comandantes de terem permitido que não menos que 1.763 presos obtivessem o status de "sem guarda". Em conseqüência, escreviam irados os promotores, "é sempre possível deparar com presos em qualquer parte da cidade, em qualquer instituição e em moradias particulares".[660] Também acusavam outro campo de deixar 150 presos morarem em acomodações privadas, uma violação do regime prisional, o que provocara "incidentes de bebedeira, vandalismo e até assalto contra a população local".[661]

Nos campos, os presos tampouco eram privados de toda a liberdade de movimento. Pelo contrário, tratava-se de uma das idiossincrasias dos campos de concentração, uma das maneiras pelas quais eles se diferenciam do regime celular: quando não estavam trabalhando nem dormindo, os presos, em sua maioria, podiam entrar e sair dos alojamentos à vontade. Quando não estavam trabalhando, também podiam, dentro de certos limites, determinar como usariam seu tempo. Só os presos em regime de katorga (instituído em 1943) ou em "campos de regime especial" (criados em 1948) ficavam trancados nos alojamentos à noite, circunstância da qual se ressentiam amargamente e contra a qual viriam a rebelar-se.[662]

Chegando das claustrofóbicas cadeias soviéticas aos campos, os condenados muitas vezes se surpreendiam e se mostravam aliviados com a mudança. Um zek descreveu assim seu ingresso no Ukhtpechlag:

"Tão logo saíamos para o ar livre, nosso estado de ânimo ficou maravilhoso".[663]   Olga Adamova-Sliozberg   recordaria   que,   ao   chegar   a Magadan, falou "de manhãzinha à noite sobre as vantagens do campo de concentração se comparado à cadeia":

A população do campo (cerca de mil mulheres) nos pareceu enorme: tanta gente, tantas possibilidades de conversa, tantas amizades em potencial! E havia a natureza. Dentro do complexo, que era cercado com arame farpado, podíamos andar à vontade, admirar o céu e os montes distantes, ir às árvores mirradas e tocá-las com as mãos. Respirávamos o ar marinho úmido, sentíamos a garoa de agosto no rosto, sentávamos na grama molhada e deixávamos a terra escorrer entre os dedos. Durante quatro anos, vivêramos sem fazer nada disso, que agora descobríamos ser essencial à nossa existência: sem aquilo, deixávamos de sentir-nos pessoas normais.[664]

Lev Finkelstein concorda:

Era-se trazido, saía-se do camburão e ficava-se surpreendido com várias coisas. Em primeiro lugar, os presos andavam sem guarda - estavam indo a algum lugar para cumprir suas obrigações, ou coisa assim. Em segundo lugar, pareciam completamente diferentes de nós. O contraste se assemelharia ainda maior quando eu já estava no campo e traziam novos presos. Estes tinham todos a cara esverdeada - por causa da falta de ar puro, por causa da comida lastimável, por causa de tudo aquilo. Nos campos, os presos tinham tez mais ou menos normal. Ali, nós nos víamos entre gente relativamente livre, relativamente bem-apessoada.[665]

Com o passar do tempo, a aparente "liberdade" da vida nos campos costumava esvanecer-se. O preso polonês Kazimierz Zarod escreveu que, nas celas das prisões, ainda era possível acreditar que ocorrera um erro, que a soltura não demoraria. Afinal, "ainda estávamos rodeados pela aparência de civilização - fora dos muros da prisão, havia uma grande cidade". No campo de concentração, porém, Zarod se viu circulando livremente em meio a

uma estranha diversidade de homens [.,.] suspendia-se toda sensação de normalidade. A medida que passaram os dias, fui tomado por uma espécie de pânico que, devagar, se tornou desesperança. Tentei reprimir esse sentimento, empurrá-lo para as profundezas do consciente, mas aos poucos comecei a dar-me conta de que eu fora apanhado num ato cínico de injustiça do qual parecia não haver escapatória.[666]

Pior: essa liberdade de movimento podia fácil e rapidamente transformar-se em anarquia. De dia, os guardas e as autoridades dos campos eram bastante numerosos dentro do lagpunkt; à noite, entretanto, desapareciam por completo. Um ou dois permaneciam na vakhta, mas o resto se retirava para o outro lado da cerca. Só se achavam que suas vidas corriam perigo, os presos iam pedir ajuda aos guardas na vakhta, e nem isso era certeza. Um memorialista recorda que, após um arranca-rabo entre presos políticos e presos comuns - fenômeno corriqueiro no pós-guerra, como veremos -, os bandidos, que levaram a pior, "correram para a vakhta", pedindo socorro. No dia seguinte, foram levados para outro lagpunkt, pois a administração do campo preferiu evitar uma carnificina.[667] Também uma mulher, sentindo-se ameaçada de estupro e talvez morte nas mãos de um preso comum, "entregou-se" na vakhta e pediu para ser colocada na cela punitiva do campo, durante a noite, a fim de ficar protegida.[668]

Contudo a vakhta não era confiável como zona de segurança. Os guardas que ali ficavam não atendiam necessariamente aos rogos dos prisioneiros. Informados de alguma ofensa cometida por um grupo de presos contra outro, eles podiam muito bem rir e não ligar a mínima. Tanto em memórias quanto em documentos oficiais, há relatos de guardas armados que não deram importância a casos de homicídio, tortura e estupro entre presos. Descrevendo uma curra que ocorreu à noite num dos lagpunkts do Kargopollag, Gustav Herling conta que a vítima

soltou um grito curto, do fundo da garganta, lacrimoso e abafado pela saia. Da torre de vigia, uma voz sonolenta gritou: "Vamos lá, rapazes, o que estão fazendo? Vocês não têm vergonha?" Os oito homens puxaram a garota para trás das latrinas e continuaram.[669]

Em teoria, as normas eram severas: os presos tinham de ficar na zona prisional. Na prática, desrespeitavam-se as regras. E a conduta que não parecesse excessiva aos guardas, não importando quão violenta ou nociva, não era punida.

Rezhim: normas de Vida

A zona prisional controlava a movimentação dos presos no espaço.[670] Mas era o rezhim - o "regime", como se costuma traduzir o termo -, o que controlava o tempo deles. Em termos simples, o regime era o conjunto de normas e procedimentos conforme os quais o campo funcionava. Se arame farpado limitava à "zona" a liberdade de movimento dos zeks, una série de ordens e sirenes regulava as horas que eles passavam ali.

O regime variava em severidade de lagpunkt a lagpunkt, segundo tanto prioridades cambiantes quanto o tipo de preso. Em épocas diversas, houve campos de regime brando, para inválidos; de regime comum ("ordinário"); de regime especial; e de regime disciplinar. Mas o sistema básico se manteve o mesmo. O regime prisional determinava como e quando o preso devia acordar; como devia ser conduzido ao trabalho; como e quando devia ser alimentado; como e por quanto tempo devia dormir.

Na maioria dos campos, o dia dos presos começava oficialmente com o razvod, o procedimento que organizava os presos em turmas e os fazia marchar para o trabalho. Um toque de sirene, ou outro sinal, os despertava. Outro toque de sirene avisava que o desjejum acabara e que o trabalho estava para começar. Os presos então se alinhavam em frente aos portões do campo para a contagem matinal. Valerii Frid, roteirista de filmes soviéticos e autor de uma memória de vivacidade pouco comum, descreveu a cena:

As turmas de trabalho se organizavam em frente ao portão. O encarregado segurava uma tabuleta estreita e bem ordenada; nela, estavam escritos o número das turmas e o número de trabalhadores (havia escassez de papel, e os números eram apagados da tabuleta [...] e reescritos no dia seguinte). O guarda e o distribuidor de tarefas verificavam se todos estavam no lugar; em caso afirmativo, eram levados para o trabalho lá fora. Se estivesse faltando alguém, todos tinham de esperar enquanto procuravam o folgado.[671]

De acordo com instruções de Moscou, isso não podia tomar mais que quinze minutos.[672] É claro que, conforme escreve Kazimierz Zarod, freqüentemente demorava muito mais, mesmo com mau tempo:

Às 3h30, devíamos estar no meio do pátio, em pé em fileiras de cinco, esperando para ser contados. Muitas vezes, os guardas erravam na contagem, e aí era preciso fazer outra. Nas manhãs em que nevava, isso era um processo demorado, gelado e aflitivo. Caso os guardas estivessem bem despertos e concentrados, a contagem levava em geral trinta minutos; mas, se errassem, ficávamos até uma hora em pé ali.[673]

Alguns campos adotavam contramedidas para "animar os presos" durante esse processo. Eis o que diz Frid: "Nosso razvod acontecia ao som de sanfona. Um preso, livre de todas as outras obrigações de trabalho, tocava melodias alegres".[674] Zarod também recorda a esquisitice que era ter uma bandinha matinal, constituída de músicos presos tanto profissionais quanto amadores:

Toda manhã, a "banda" se punha próximo ao portão, tocando música marcial, e éramos exortados a marchar "com vigor e alegria" para nosso dia de trabalho. Tendo tocado até que o fim da coluna houvesse passado pelo portão, os músicos deixavam os instrumentos e, unindo-se ao final da coluna, juntavam-se aos trabalhadores que caminhavam para a floresta.[675]

Dali, os presos eram conduzidos, marchando, ao trabalho. Os guardas gritavam as ordens diárias ("Um passo para a esquerda, ou a esquerda, será considerado tentativa de fuga... A guarda disparará sem aviso... Marchem!"), e os presos marchavam, ainda em fileira de cinco. Se a distância era grande, iam acompanhados de guardas e cães. Para o retorno ao campo à noitinha, o procedimento era bem parecido. Após uma hora para o jantar, os presos de novo formavam fileiras. E, de novo, os guardas os contavam só uma vez (se os presos tivessem sorte) ou mais de uma (se não tivessem). As instruções de Moscou reservavam mais tempo para a contagem noturna (de trinta a quarenta minutos), sendo de presumir que agissem assim porque o mais provável seriam as tentativas de fuga fora do campo, no local de trabalho.[676] Depois, a sirene soava outra vez, e era hora de dormir.

Essas normas e escalas de horário não eram imutáveis. Pelo contrário: o regime prisional mudou com o tempo, em geral ficando mais severo. Jacques Rossi escreve que "o principal traço do sistema penitenciário soviético é sua sistemática intensificação, com a gradual elevação do puro e arbitrário sadismo à condição de lei", e há alguma verdade nisso.[677] Por toda a década de 1940, o regime prisional foi ficando mais rigoroso; as jornadas de trabalho, mais longas; os dias de descanso, menos freqüentes. Em 1931, os presos da Expedição Vaigach (parte da Expedição Ukhtinskaya) faziam jornadas de seis horas, em três turnos. No começo dos anos 1930, na região de Kolyma, os trabalhadores também seguiam jornadas normais, mais curtas no inverno e mais longas no verão.[678] Naquela mesma década, porém, a jornada dobraria em extensão. No final dos anos 1930, as mulheres na oficina de costura de Elinor Olitskaya trabalhavam "doze horas num salão sem ventilação", e a jornada de Kolyma também se estendera a doze horas.[679] Depois, Elinor trabalharia numa turma de construção: jornadas de catorze a dezesseis horas, com intervalos de cinco minutos às dez da manhã e quatro da tarde e com uma hora de almoço ao meio-dia.[680]

O caso de Elinor tampouco era único. Em 1940, a jornada no Gulag foi aumentada oficialmente para onze horas, ainda que até esse limite fosse desrespeitado e excedido com freqüência.[681] Em março de 1942, a direção do Gulag, em Moscou, despachou carta furiosa a todos os comandantes de campo, lembrando-os da regra de que "se devem conceder aos presos não menos que oito horas de sono". A carta explicava que muitos comandantes não acatavam tal norma e só permitiam que os prisioneiros dormissem quatro ou cinco horas por noite. O Gulag se queixava de que, em conseqüência, "os presos estão perdendo a capacidade de trabalho; tornam-se "trabalhadores fracos e inválidos".[682]

O desrespeito à norma continuou, em especial durante os anos de guerra, quando se acelerou a demanda produtiva. Em setembro de 1942, a direção do Gulag estendeu oficialmente para doze horas a jornada dos presos que construíam instalações aeroportuárias, com uma hora de almoço. O padrão era o mesmo por toda a URSS. No Vyatlag, durante a guerra, registraram-se jornadas de dezesseis horas.[683] Em Vorkuta, no verão de 1943, houve jornadas de doze horas, embora elas fossem de novo reduzidas para dez horas em março de 1944 - provavelmente por causa das elevadas taxas de mortalidade e doença.[684] Sergei Bondarevskii, prisioneiro durante a guerra numa sharashka (um daqueles laboratórios especiais para cientistas presos), também recordaria jornadas de onze horas, com intervalos. Num dia típico, Bondarevskii trabalhava das oito às catorze; das dezesseis às dezenove; e das vinte às 22.[685]

Em todos os casos, as normas eram violadas com freqüência. Os zeks designados para as turmas de trabalho que garimpavam ouro em Kolyma tinham de peneirar 150 carrinhos de terra por dia. Quem não terminara essa quantidade ao fim da jornada simplesmente continuava trabalhando até cumprir a cota - por vezes já à meia-noite. Depois, ia para o alojamento, tomava sua sopa e acordava às cinco para recomeçar o trabalho.[686] A administração do campo de Norilsk aplicava principio semelhante no final da década de 40; um homem que nessa época estava preso lá, escavando alicerces para novas construções no perma-frost, relataria: "Após doze horas de trabalho, eles nos içavam do buraco, mas só se tivéssemos concluído o serviço. Do contrário, éramos simplesmente deixados ali".[687]

Tampouco se concediam muitos intervalos durante o dia, como depois explicaria um preso dos tempos da guerra, designado para uma unidade têxtil:

Às seis da manhã, tínhamos de estar na fabrica. Às dez, havia intervalo de cinco minutos para um cigarrinho, com o que precisávamos correr para um porão a uns duzentos metros de distância, o único lugar nas instalações da fábrica onde se permitia fumar. Infringir a norma acarretava mais dois anos de pena. À uma da tarde, tinha-se meia hora de almoço. De cuia de cerâmica na mão, era necessário disparar freneticamente para a cantina, entrar numa fila comprida, receber uns grãos de soja nojentos que faziam mal à maioria das pessoas - e estar impreterivelmente na fábrica quando os motores começavam a funcionar. Então, sem sairmos de nossos lugares, ficávamos ali até as sete da noite".[688]

O número de dias de folga também era determinado por lei. Os presos em regime comum tinham uma por semana; e aqueles em regimes mais severos, duas por mês. Mas, na prática, essa norma também variava. Já em 1933, a direção do Gulag em Moscou emitiu ordem que lembrava os comandantes de campo da importância que tinham os dias de descanso, muitos dos quais vinham sendo cancelados na corrida louca para cumprir as metas do Plano Qüinqüenal.[689] Uma década depois, quase nada mudara. Durante a guerra, Kazimierz Zarod tinha um dia de folga a cada dez.[690] Outro preso se recordaria de ter um por mês.[691] Gustav Herling lembraria que os dias livres eram ainda mais infreqüentes:

Pelos regulamentos, os presos tinham direito a um dia inteiro de descanso a cada dez de trabalho. Na prática, entretanto, mesmo um dia de folga por mês ameaçava diminuir a produção do campo, e, por isso, tornou-se costume anunciar cerimoniosamente a concessão de um dia livre sempre que o campo superasse suas metas de produção para determinado trimestre... Naturalmente, não tínhamos nenhuma oportunidade de verificar as cifras nem o planejamento produtivo, de modo que esse acerto era uma ficção que acabava nos deixando totalmente à mercê das autoridades do campo.[692]

Mesmo nos raros dias de folga, acontecia às vezes que os presos fossem obrigados a fazer trabalho de manutenção dentro do campo, limpando os alojamentos, os sanitários, a neve no inverno.[693] Tudo isso torna especialmente patética uma ordem emitida por Lazar Kogan, o comandante do Dmitlag. Incomodado pelos muitos casos de cavalos que desabavam de exaustão na lida do campo, Kogan começava observando que "o crescente número de cavalos doentes ou exauridos tem várias causas, inclusive o excesso de carga, as condições difíceis das estradas e a ausência de descanso pleno e completo para que eles recuperem as forças".

Kogan então continuava, dando novas instruções:

  1. A jornada de trabalho dos cavalos do campo não deve ser superior a dez horas, sem contar o intervalo obrigatório de duas horas para descanso e alimentação.
  2. Na média, os cavalos não devem percorrer mais que 32 quilômetros por dia.
  3. Aos cavalos se deve conceder um dia regular de descanso a cada oito, e esse descanso deve ser completo.[694]

Sobre a necessidade de que os presos tivessem um dia de folga a cada oito, não se fazia, infelizmente, nenhuma menção.

Babaki: a morada

Na maioria dos campos, a maior parte dos presos ficava em barracões. Contudo, raros eram os campos cujos alojamentos já estivessem prontos quando os primeiros presos chegavam. Aqueles presos que tinham o azar de ser enviados para construir um campo moravam em tendas, ou nem isso. Uma canção de prisioneiros dizia:

Seguíamos rápido pela tundra Quando, de súbito, o trem parou. Em volta, só floresta e lama... E ali construiríamos o canal.[695]

Ivan Sulimov, prisioneiro em Vorkuta nos anos 1930, foi deixado, junto com um grupo de detentos, num "lote quadrado na tundra polar"; receberam ordem de armar tendas, fazer uma fogueira e começar a erguer barracões e "uma cerca de lajes e arame farpado".[696] O polonês Janusz Sieminski, prisioneiro em Kolyma após a guerra, também participou de uma equipe que, em pleno inverno, construiu um lagpunkt "a partir do zero". A noite, os presos dormiam ao relento. Muitos morreram, sobretudo os que perderam a batalha para ver quem dormiria perto do fogo.[697] Em dezembro de 1940, presos que chegavam ao campo de Prikaspiiskii, no Azerbaijão, também dormiam, nas palavras de um irritado inspetor da NKVD, "sob as estrelas, no chão úmido".[698] E essas situações tampouco eram necessariamente temporárias. Mesmo em 1955, presos ainda moravam em tendas em alguns campos.[699]

Se e quando os presos erguiam barracões, estes sempre eram construções de madeira extremamente simples. Moscou determinava o projeto deles, e, por conseguinte, as descrições são um tanto repetitivas: todo preso menciona os barracões compridos e retangulares de madeira, as paredes sem reboco, as lendas tapadas com barro, o espaço interno tomado por fileiras e mais fileiras de beliches de madeira igualmente precários. Às vezes, havia uma mesa rústica; às vezes, não. Às vezes, havia bancos compridos; às vezes, não.[700] Em Kolyma e outras regiões onde a madeira era escassa, os prisioneiros construíam alojamentos de pedra, também baratos e apressados. Quando não se dispunha de isolamento térmico, usavam-se outros métodos. Fotos dos alojamentos de Vorkuta tiradas no inverno de 1945 os fazem parecer quase invisíveis: os telhados haviam sido construídos em ângulo agudo, mas muito perto do chão, de maneira que a neve que se acumulasse ao redor ajudasse a isolá-los do frio.[701]

Com freqüência, os alojamentos nem sequer chegavam a ser construções, e sim zemlyanki (abrigos de trincheira). No começo dos anos 1940, A. P. Evstonichev ficou num na Carélia:

 

No alojamento. Detentos ouvem músico prisioneiro. Desenho de Benjamin Mkrtchyan. Ivdel, 1953

Um zemlyanka era um espaço do qual se retiravam a neve e a camada superior de terra. As paredes e o teto eram feitos com toras redondas e não-desbastadas. A estrutura toda era coberta com outra camada de terra e neve. A entrada do abrigo recebia uma porta de lona [...] num canto, havia um barril de água. No meio do abrigo, um fogão de metal, com chaminé metálica saindo pelo teto, e um barril de querosene.[702]

Nos lagpunkts construídos nos canteiros de obras de rodovias e ferrovias, sempre havia zemlyanki. Conforme exposto no capítulo 4, seus vestígios ainda marcam os caminhos construídos por presos no extremo norte, assim como as margens do rio perto das áreas mais antigas da cidade de Vorkuta. Às vezes, os presos também ficavam em tendas. Uma memória dos primeiros tempos do Vorkutlag descreve a armação, num período de três dias, de "quinze tendas com beliches triplos" para cem presos cada uma, assim como de uma zona prisional com cerca de arame farpado e quatro torres de vigia.[703]

Mesmo os verdadeiros barracões raramente correspondiam aos já baixos padrões que Moscou estabelecera. Quase sempre, eram terrivelmente superlotados, até depois que já amainara o caos do fim dos anos 1930. Um relatório de inspeção de 23 campos, escrito em 1948, observava com raiva que, na maioria deles, "os presos não tinham mais que um a 1,5 metro quadrado por pessoa", e mesmo esse espaço estava em condições insalubres: "os prisioneiros não têm lugar determinado para dormir, nem lençóis e cobertores individuais".[704] Por vezes, havia ainda menos espaço. Margarete Buber-Neumann registra que, na chegada ao campo, não se dispunha de nenhum espaço para dormir nos barracões, e ela foi obrigada a passar as primeiras noites no chão do lavatório.[705]

Os presos em regime "ordinário" deviam ter leitos, chamados vagonki, nome oriundo dos beliches encontrados nos vagões de passageiros. Eram beliches duplos, com espaço para dois detentos em cada leito. Em muitos campos, os presos dormiam nos sploshnye nary, ainda menos sofisticados. Estes eram compridas prateleiras de madeira que serviam de leito, não estando nem sequer divididas em beliches separados. Os presos simplesmente deitavam um ao lado do outro, numa longa fileira. Dado que esses leitos comunais eram considerados anti-higiênicos, os inspetores dos campos também viviam denunciando-os. Em 1948, a direção do Gulag emitiu diretiva que exigia que todos os sploshnye nary fossem substituídos por vagonki.[706] Todavia, Anna Andreevna, prisioneira na Mordóvia no final dos anos 1940 e começo dos 50, dormia em sploshnye nary; ela também lembra que muitas presas ainda dormiam no chão, debaixo dessas prateleiras.[707]

As dotações de roupa de cama e banho também eram arbitrárias e variavam muito de campo para campo, apesar de mais regras severas (e um tanto modestas) instituídas por Moscou. Os regulamentos determinavam que todos os presos recebessem uma toalha nova a cada ano; uma fronha a cada quatro anos; lençóis a cada dois; e um cobertor a cada cinco.[708] Na prática, "para cada leito, vinha um pretenso colchão de palha", escreveria Elinor Lipper:

Nele não havia nenhuma palha, e raramente tinha feno, pois não se dispunha de forragem suficiente para o gado; em vez dessas coisas, o colchão continha raspagem de madeira ou roupas extras, se a prisioneira ainda possuísse roupas extras. Havia ainda um cobertor de lã e uma fronha que a gente podia encher com o que tivesse, pois não existiam travesseiros.[709]

Outros não dispunham de absolutamente nada. Mesmo em 1950, Isaak Filshtinskii, especialista em árabe aprisionado em 1948, ainda dormia coberto apenas pelo casaco, usando trapos como travesseiro, no Kargopollag.[710]

Aquela diretiva de 1948 também instruía que se cobrisse com piso de madeira o chão nu dos alojamentos. Mas, quando já se estava nos anos 1950, Irena Arginskaya morava num barracão cujo piso não se podia limpar direito, pois era de argila.[711] Mesmo quando os pisos eram de madeira, freqüentemente não se conseguia limpá-los por falta de vassouras. Descrevendo sua vivência do Gulag a uma comissão no pós-guerra, uma polonesa explicou que, no campo onde estivera, um grupo de prisioneiras sempre permanecia "de serviço" à noite, limpando os barracões e sanitários enquanto outras dormiam: "A lama no piso do barracão tinha de ser tirada a faca. As russas ficavam alucinadas porque não conseguíamos fazê-lo e nos perguntavam como vivíamos em nossas casas. Nem sequer lhes ocorria que mesmo o chão mais sujo pode ser varrido e escovado".[712]

Com freqüência, o aquecimento e a iluminação eram igualmente primitivos, mas, também nisso, as circunstâncias variavam muito de campo para campo. Um preso lembraria que os barracões ficavam praticamente às escuras: "as lâmpadas elétricas tinham brilho branco-amarelado, quase imperceptível, e os lampiões de querosene soltavam fumaça e um cheiro repugnante".[713] Outros se queixavam do problema oposto: as luzes costumavam ficar acesas a noite toda.[714] Nos campos da região de Vorkuta, alguns presos não tinham nenhum problema de aquecimento, visto que podiam trazer pedras de carvão das minas; mas Susanna Pechora, num lagpunkt perto das minas carboníferas de Inta, recordaria que, dentro dos barracões, "fazia tanto frio no inverno que nossos cabelos congelavam e se grudavam à cama e a água de beber congelava nas canecas".[715] No alojamento de Susanna, tampouco havia água corrente, só a trazida em baldes pela dezhurnaya - mulher mais velha, já incapacitada para o trabalho mais pesado -, que, durante o dia, limpava o barracão e cuidava dele.[716]

Pior: "um mau cheiro terrível" permeava o alojamento, por causa das enormes quantidades de roupas sujas e mofadas que eram postas para secar na beira dos beliches e das mesas ou em qualquer lugar onde fosse possível pendurar algo. Nos alojamentos dos campos especiais, onde as portas eram trancadas à noite e as janelas tinham grades, o fedor tornava "quase impossível respirar".[717]

A qualidade do ar não melhorava com a ausência de sanitários. Nos campos onde os presos ficavam trancados nos alojamentos à noite, os zeks tinham de usar o parasha (balde sanitário), tal como nas cadeias. Um preso escreveu que, de manhã, era impossível carregar o parasha, "de modo que o arrastavam por aquele piso escorregadio; o conteúdo invariavelmente entornava".[718] Galina Smirnova, detida no começo dos anos 1950, lembraria que, "se a coisa era séria, a gente esperava até de manhã; do contrário, o fedor era horrível".[719]

Os sanitários eram casinhas, e estas ficavam a alguma distância dos alojamentos, o que era uma provação no frio do inverno. "As latrinas eram de madeira, ao ar livre", disse Galina a respeito de outro campo, "e tinha-se de usá-las mesmo quando fazia trinta ou quarenta graus abaixo de zero."[720] Thomas Sgovio escreveu sobre as conseqüências:

Do lado de fora, em frente a cada alojamento, puseram um mastro, que, congelando, se fixou no solo. Mais uma ordem! Estávamos proibidos de urinar em qualquer outro lugar do campo que não fossem as casinhas ou aquele mastro, com o trapo branco amarrado no alto. Quem quer que fosse apanhado desrespeitando a ordem passaria dez noites na cela punitiva [...]. A ordem foi dada porque, à noite, havia presos que, não querendo andar a longa distância até as casinhas, urinavam em cima das trilhas de neve, já bem batidas. O chão estava coberto de pontos amarelos. No final da primavera, quando a neve derretesse, o fedor seria terrível [...] duas vezes por mês, cortávamos essas pirâmides de urina congelada e, de carrinho, levávamos os pedaços para fora da zona.[721]

Contudo, a sujeira e o apinhamento não eram apenas problemas estéticos, nem questão de desconforto relativamente menor. Os beliches superlotados e a falta de espaço também podiam ser mortíferos, em especial nos campos que trabalhavam em esquema de 24 horas por dia. Sobre um desses campos, onde os presos trabalhavam em três turnos, dia e noite, um memorialista escreveu que

havia gente dormindo no alojamento a qualquer hora do dia. Brigar para conseguir dormir era brigar pela vida. Discutindo por conta do sono, as pessoas se xingavam, lutavam entre si, até se matavam umas às outras. No alojamento, o rádio estava no volume máximo o tempo todo e, por isso, era detestado.[722]

Justamente porque a questão de onde dormir era tão crucial, o sono sempre constituía importantíssima ferramenta de controle sobre os presos, e a administração dos campos o usava assim, de caso pensado. No arquivo central em Moscou, o Gulag conservava cuidadosamente fotos de diferentes tipos de alojamentos, para diferentes tipos de presos. Os barracões dos otlichniki - os "ótimos", ou "trabalhadores de choque" - tinham camas individuais com colchões e cobertores, assoalho de madeira e quadros nas paredes. Os presos, se não chegavam a sorrir para os fotógrafos, pelo menos liam jornais e pareciam bem nutridos. Já os barracões de rezhim - os alojamentos punitivos para trabalhadores ineficazes ou refratários - não tinham camas, mas pranchas sobre suportes rústicos de madeira. Mesmo nessas fotos propagandísticas, os presos na categoria rezhim não possuem colchões e dividem cobertores.[723]

Em alguns campos, a etiqueta referente ao sono se tornava bastante complexa. O espaço era tão escasso que ele, e a privacidade, era considerado grande privilégio, concedido apenas aos que estavam incluídos na aristocracia dos campos. Com freqüência, permitia-se que presos de posição mais elevada - chefes de turmas de trabalho e outros - dormissem em barracões menores, com menos pessoas. Solienitsin, tendo de início sido designado "gestor de trabalhos" ao chegar a um campo em Moscou, ganhou lugar num alojamento onde,

em vez de beliches múltiplos, havia catres comuns e um criado-mudo para cada duas pessoas, e não para toda uma turma de trabalho. Durante o dia, a porta ficava trancada, e podíamos deixar nossas coisas lá. Por fim, havia uma chapa elétrica, semi-legal, e não era necessário apinhar-se em volta do grande fogão comunal no pátio.[724]

Tudo isso era considerado um grande luxo. Era verdade que trabalhos mais desejáveis (marcenaria, ou reparo de ferramentas) também vinham com o cobiçadíssimo direito a dormir na oficina. Anna Rozina pernoitava no trabalho quando foi sapateira no campo de Temnikovsky e tinha também o "direito" de ir mais vezes aos banhos, coisas que constituíam grandes privilégios.[725]

Em quase todo campo, os médicos, mesmo os aprisionados, também podiam dormir à parte, prerrogativa que refletia o status especial desses profissionais. O cirurgião Isaac Vogelfanger sentia-se privilegiado porque o deixavam dormir num catre numa "salinha anexa à recepção" da enfermaria do campo. "A lua parecia sorrir para mim quando eu ia dormir." Junto dele, dormia o feldsher (assistente médico) do campo, o qual tinha o mesmo privilégio.[726]

Às vezes, providenciavam-se condições especiais para inválidos. A atriz Tatyana Okunevskaya conseguiu ser mandada para um campo de inválidos na Lituânia, onde "os alojamentos eram compridos, com muitas janelas, iluminados, limpos, sem beliches sobre nossas cabeças".[727] Os presos enviados para o trabalho nos sharashki de Beria - os "departamentos especiais" para engenheiros e técnicos de talento -ganhavam as melhores entre todas as acomodações. Em Bolshevo (sharashka nas imediações de Moscou), os alojamentos eram "grandes, iluminados, limpos e aquecidos com panelões de ferro", e não com fogões de metal. Os leitos tinham travesseiro e roupa de cama, as luzes se apagavam à noite, e havia chuveiro individual.[728] Os prisioneiros que moravam nessas acomodações especiais sabiam, é claro, que elas poderiam ser-lhes tiradas facilmente, o que aumentava o interesse deles em dar duro.

Extra-oficialmente, também havia outra hierarquia nos alojamentos. Na maioria destes, as decisões cruciais sobre quem dormiria e onde dormiria eram tomadas pelos grupos que eram mais fortes e mais unidos nos campos. Até o final da década de 1940 - quando ficariam mais poderosos os grandes grupos nacionais de presos, como ucranianos, baltas, tchetchenos e poloneses -, os mais organizados, como veremos, costumavam ser os criminosos condenados. Por conseguinte eles em geral dormiam nos beliches superiores, mais arejados e espaçosos, golpeando e chutando os que se opunham a isso. Quem dormia nos beliches inferiores tinha menos ascendência. E quem dormia no chão - os presos de status mais baixo no campo - sofria mais que todos, conforme lembraria um preso:

Esse nível era denominado "setor colcoz"[729], e era para lá que os bandidos baniam os kolkhozniki - ou seja, diversos padres e intelectuais idosos e até alguns deles mesmos, que haviam desrespeitado o código de honra da bandidagem. Sobre esses não caíam apenas coisas dos beliches superiores e inferiores: os bandidos também despejavam restos, água, a sopa do dia anterior. E o setor colcoz tinha de agüentar tudo isso, porque, se reclamasse, seria alvo de ainda mais sujeira [...] pessoas adoeciam, sufocavam, perdiam a consciência, enlouqueciam, morriam de tifo ou disenteria, suicidavam-se.[730]

Não obstante, os presos, mesmo os políticos, podiam melhorar suas condições de vida. Trabalhando como feldsher, o preso político polonês Karol Colonna-Czosnowski, colocado num alojamento extremamente apinhado, caiu nas boas graças de Grisha, o "chefão" criminoso do campo:

Ele deu um majestoso pontapé num de seus cortesãos, que interpretou aquilo como ordem para arrumar espaço para mim e deixou seu lugar na mesma hora. Fiquei constrangido e aleguei que preferia não sentar tão perto do fogo, mas isso não estava em conformidade com os desejos de meu anfitrião, como descobri quando um dos asseclas de Grisha me deu um tremendo empurrão.

Quando Colonna-Czosnowski recuperou o equilíbrio, viu-se sentado aos pés de Grisha. "Aparentemente, era ali que ele queria que eu permanecesse."[731] Colonna-Czosnowski não discutiu. Ainda que por poicas horas, o lugar onde alguém sentava, ou pousava a cabeça, era coisa importantíssima.

Bahya: os banhos

A sujeira, a superlotação e a falta de higiene causavam uma praga de percevejos e piolhos. Nos anos 1930, um desenho "humorístico" do Perekovka (o jornal do canal Moscou-Volga) mostrava um zek ao qual entregavam trajes novos. A legenda: "Eles lhe dão roupas 'limpas', mas estão empiolhadas". Outro cartum dizia: "Enquanto a gente dorme no alojamento, os percevejos picam feito paguros".[732] O problema não diminuiu com o passar dos anos. Um preso polonês recorda que, durante a guerra, seu companheiro de campo ficou obcecado por esses bichos: "Como biólogo, interessava-se em saber quantos piolhos podiam subsistir em determinado espaço. Contando-os na camisa, achou sessenta e, uma hora depois, outros sessenta".[733]

Na década de 1940, os chefes do Gulag já tinham reconhecido havia muito tempo o perigo mortal do tifo transmitido por piolhos e, oficialmente, travavam uma batalha constante contra os parasitas. Os banhos eram supostamente obrigatórios de dez em dez dias. Toda a roupa devia ser fervida em unidades de desinfecção, primeiro quando se ingressava no campo e depois a intervalos regulares, para destruir todos os organismos nocivos.[734] Como já vimos, os barbeiros dos campos rapavam o corpo inteiro de homens e mulheres já na chegada; depois, também lhes rapavam regularmente as cabeças. O sabão, mesmo que em quantidades ínfimas, era com freqüência incluído na lista de produtos a distribuir aos presos; em 1944, por exemplo, seriam duzentos gramas mensais de sabão para cada prisioneiro. Mulheres, presos hospitalizados e filhos de presos recebiam mais cinqüenta gramas; adolescentes, mais cem; e presos que realizavam "serviços especialmente sujos", mais duzentos. Essas minúsculas lascas de sabão se destinavam tanto à higiene pessoal quanto à lavagem da indumentária e da roupa de cama e banho.[735] (Dentro ou fora dos campos, o sabão não ficou menos escasso. Mesmo em 1991, mineiros de carvão entraram em greve porque, entre outras coisas, não tinham sabão.)

Entretanto, nem todo mundo estava convencido da eficácia dos processos de espiolhação adotados nos campos. Na prática, escreveria um preso, "os banhos pareciam aumentar o vigor sexual dos piolhos".[736]

Varlam Shalamov iria além: "Não apenas a espiolhação era absolutamente inútil como também nenhum piolho morria na câmara de desinfecção. Era apenas uma formalidade, e o procedimento todo fora criado para atormentar ainda mais o condenado".[737]

Estritamente falando, Shalamov estava errado. Não se criara o procedimento para atormentar os condenados - como eu disse, a direção do Gulag, em Moscou, de fato estabelecera diretivas muito severas, instruindo os comandantes de campo a guerrearem contra os parasitas, e incontáveis relatórios de inspeção denunciam a negligência em fazê-lo. Uma descrição de 1933 sobre as condições no Dmitlag se queixa iradamente dos alojamentos femininos, que eram "sujos, sem lençóis e cobertores; as mulheres reclamam da enorme quantidade de percevejos, os quais a Divisão Sanitária não está combatendo".[738] Um inquérito de 1940 sobre as condições num grupo de campos setentrionais falava com raiva dos "piolhos e percevejos, que têm impacto negativo sobre as possibilidades de descanso dos presos" num lagpunkt; já o campo de trabalho correcional de Novossibirsk tinha "100% de incidência de piolhos entre os presos [...] em conseqüência das más condições sanitárias, é alto o índice de doenças dermatológicas e distúrbios estomacais [...] fica então claro que as condições   anti-higiênicas   no   campo   nos   causam   enormes   prejuízos". Entrementes, houvera dois surtos de tifo em outro lagpunkt; e, em outros mais, os presos estavam "pretos de sujeira", continuava o relatório, com muita inquietação.[739]

Queixas referentes a piolhos, e ordens iradas para eliminá-los, figuram ano após ano nos relatórios de inspeção apresentados pela promotoria do Gulag.[740] Depois de outra epidemia de tifo no Temlag, em 1937, o diretor do lagpunkt e o vice-diretor do departamento médico do campo foram demitidos, indiciados por "negligência e inércia criminosas" e levados a julgamento.[741] Usavam-se não só punições, como também recompensas: em 1933, os ocupantes de um alojamento do Dmitlag ganharam dias de folga do trabalho como prêmio por terem eliminado os percevejos em todos os leitos.[742]

A recusa de banhar-se era igualmente levada muito a sério. Irena Arginskaya, que no começo dos anos 1950 estava num campo especial para presos políticos em Kengir, se recordaria de uma seita religiosa feminina que, por motivos conhecidos apenas das praticantes, se negava a tomar banho:

Um dia, eu ficara no alojamento porque estava doente e, assim, fora liberada do trabalho. Contudo um guarda entrou e nos disse que todas as presas adoentadas teriam de ajudar a lavar as "freiras". A cena foi esta: uma carroça foi puxada até a parte dos alojamentos onde elas ficavam, e precisamos carregá-las para fora e colocá-las na carroça. Elas chiaram, nos chutaram, nos golpearam etc. Mas, quando enfim as pusemos no carroção, ficaram quietas e não tentaram fugir. Aí, puxamos a carroça até os banhos, onde as levamos para dentro, as despimos - e então entendemos por que a administração do campo não podia permitir que elas deixassem de tomar banho: quando lhes tiramos as roupas, caíram mancheias de piolhos. Colocamos as mulheres debaixo da água e as lavamos. Enquanto isso, as roupas delas eram fervidas para matar os piolhos.[743]

Irena também lembra que, "em princípio, era possível ir ao banho quantas vezes se quisesse" lá em Kengir, onde não havia restrições ao uso da água. De modo semelhante, Leonid Sitko, ex-prisioneiro de guerra na Alemanha, avaliaria que os campos soviéticos tinham menos piolhos que os campos alemães. Sitko esteve preso tanto no Steplag quanto no Minlag, onde "podíamos tomar quantos banhos desejássemos [...] podíamos até lavar nossas roupas".[744] Certas fábricas e locais de trabalho tinham chuveiros próprios, como Isaak Filshtinskii descobriu no Kargopollag, onde os presos podiam usá-los durante o dia, muito embora outros detentos sofressem com a falta de água.[745]

Entretanto, Variam Shalamov não estava de todo errado em sua descrição cética do sistema de higiene. Pois, mesmo os administradores locais dos campos sendo instruídos a levar essas medidas sanitárias a sério, muitas vezes acontecia que eles simplesmente, cumpriam os rituais de espiolhação e banho, sem parecer dar grande importância aos resultados. Ou não se dispunha de carvão suficiente para manter quente o bastante o dispositivo de desinfecção; ou os encarregados não se preocupavam em executar direito o procedimento; ou não se distribuíam rações de sabão durante meses; ou essas rações eram surrupiadas. Nos dias de banho no lagpunkt de Dizelny, em Kolyma, "davam a cada preso uma lasquinha de sabão e um canecão de água morna, despejavam cinco ou seis desses canecos numa cuba, e isso bastava para todo mundo, para banhar e enxaguar cinco ou seis pessoas". No lagpunkt de Sopka,

a água, assim como outras cargas, era trazida pela ferrovia de bitola estreita e pela estradinha. No inverno, obtinham-na da neve, embora ali não se acumulasse muita, já que o vento a dispersava [...]. Os trabalhadores voltavam da mina cobertos de poeira, e não havia pias onde se lavarem.[746]

Com freqüência, os guardas se cansavam do processo de banhar os presos e concediam-lhes só uns poucos minutos no banho, por pura formalidade.[747] Em 1941, no lagpunkt do Siblag, um inspetor indignado descobriu que "os presos não tomam banho há dois meses", por conta pura e simplesmente do desinteresse dos guardas.[748] E, nos piores campos, a flagrante negligência para com a condição humana dos presos transformava os banhos em verdadeira tortura. Muitos descrevem o caráter hediondo do processo, mas ninguém tão bem quanto, de novo, Variam Shalamov, o qual dedicou um conto inteiro aos horrores do banho em Kolyma. Os presos, embora exaustos, tinham de esperar horas pela vez de lavarem-se:

As sessões na sala de banhos ocorriam antes ou depois do trabalho. Após muitas horas de serviço no frio (e no verão não era mais fácil), quando todos os pensamentos e expectativas se concentravam no desejo de chegar ao beliche e à comida para poder cair no sono o quanto antes, a demora na sala de banhos era quase insuportável.

Primeiro, os zeks ficavam em filas, do lado de fora, no frio; depois, eram arrebanhados para vestiários superlotados, construídos para acomodar quinze pessoas mas abrigando até cem. Durante todo esse meio-tempo, eles sabiam que os alojamentos estavam sendo limpos e revistados. Seus parcos pertences - aí incluídos os utensílios de louça e os panos com que envolviam os pés - estavam sendo jogados na neve:

É característico do homem, seja mendigo, seja ganhador do Nobel, logo adquirir coisinhas de uso pessoal. O mesmo vale para o condenado. Afinal, é um homem em atividade e precisa de agulha e material para remendos, talvez de uma cuia extra. Tudo isso é jogado fora e deve ser novamente acumulado depois de cada dia nos banhos, a menos que tenha sido escondido bem fundo em algum lugar na neve.

Uma vez dentro da casa de banhos, havia freqüentemente tão pouca água que era impossível ficar limpo. Dava-se aos presos "uma bacia de madeira com água não muito quente [...] não havia água além daquela, e ninguém conseguia comprar nenhuma mais". Tampouco as salas de banho eram aquecidas: "A sensação de frio aumentava com as mil correntes de ar que entravam por baixo das portas, pelas frestas. As salas não eram de todo aquecidas; havia frestas nas paredes". Dentro, tinha-se também "uma zoeira constante, acompanhada de fumaça, apinhamento e gritaria. Existia até uma expressão comum: 'berrar como nos banhos' ".[749]

Thomas Sgovio também descreve essa cena dantesca, escrevendo que às vezes era preciso espancar os presos de Kolyma para fazê-los ir aos banhos:

Era preciso esperar do lado de fora, no gelo, até que saíssem os que estavam lá dentro... Depois era entrar no vestiário, onde fazia frio... Seguiam-se as desinfecções e fumigações compulsórias, em que nossos andrajos eram jogados numa pilha... Nunca se conseguia recuperar aquelas roupas que tinham sido nossas... Vinham os arranca-rabos e xingamentos - "Seu filho da puta, esse é meu casaco"... Então, a escolha da roupa de baixo, úmida, coletiva, repleta de ovos de piolho nas costuras... A remoção de todos os pêlos do corpo pelo barbeiro do campo... Aí, quando por fim era nossa vez de entrar, pegávamos uma cuba, recebíamos uma caneca de água quente, uma caneca de água fria e um pedacinho de sabão preto e fedorento...[750]

E, depois que tudo acabava, recomeçava o mesmo processo humilhante de distribuição das roupas, escreve Shalamov, sempre obcecado pela roupa de baixo:

Tendo-se lavado, os homens se juntam no guichê muito antes de realmente começar-se a distribuir a roupa de baixo. Repetidas vezes, discutem em detalhe a que lhes foi dada na última vez, a roupa de baixo recebida cinco anos antes no Bamlag.[751]

Como era inevitável, o direito a banhar-se com relativo conforto também estava intimamente relacionado ao sistema de privilégios. No Temlag, por exemplo, os que realizavam determinados serviços tinham a prerrogativa de tomar banho com mais freqüência.[752] A própria função de atendente nas salas de banho, que acarretava tanto o acesso a água limpa quanto o direito de permitir ou negar a outros tal acesso, costumava ser um dos trabalhos mais cobiçados do campo. No final das contas, apesar das mais estritas, severas e drásticas ordens de Moscou, o conforto, a higiene e a saúde dos presos dependiam totalmente de caprichos e circunstâncias locais.

Assim, outro aspecto da vida normal era virado do avesso, deixando de ser um singelo prazer e transformando-se no que Shalamov denomina "um acontecimento negativo, uma canga na vida do condenado [...] um testemunho daquela inversão de valores que é o principal atributo que o campo de concentração instila nos detentos".[753]

Stolovaya: o refeitório

A vasta literatura sobre o Gulag contém muitas e variadas descrições dos campos e reflete a vivência de ampla gama de personalidades. Mas um aspecto da vida ali permanece constante de campo a campo, ano após ano, memória após memória: a descrição da balanda, a sopa que serviam aos presos uma ou duas vezes ao dia.

Todos os ex-prisioneiros concordam em que o sabor daquele meio litro de sopa de cadeia, não importando se servido uma ou duas vezes por dia, era repugnante; a consistência era aguada, e os ingredientes, suspeitos. Galina Levinson escreveu que era feita "com repolho e batata estragados e, de vez em quando, um pouco de banha de porco ou cabeças de arenque".[754] Barbara Armonas se recordaria de sopa de "peixe ou pulmão de boi com um pouco de batata".[755] Leonid Sitko descreveria a sopa dizendo que "nunca tinha absolutamente nenhuma carne".[756]

Outro preso se lembraria de sopa de carne de cachorro, a qual um de seus colegas de trabalho, um francês, não conseguia tomar; "o homem dos países ocidentais nem sempre se mostra capaz de superar uma barreira psicológica, mesmo quando está para morrer de fome", concluiria o memorialista.[757] Até Lazar Kogan, o comandante do Dmitlag, se queixou certa vez de que "alguns cozinheiros agem como se estivessem preparando não refeições soviéticas, mas lavagem; por causa dessa atitude, a comida que fazem é imprópria, freqüentemente sem paladar e sem graça".[758]

Contudo, a fome era poderoso motivador: a sopa podia ser intragável em circunstâncias normais, mas nos campos, onde a maioria das pessoas estava sempre faminta, os presos a tomavam com gosto. Essa fome tampouco era casual: mantinham-se os presos naquele estado porque regular a comida era, depois da regulação do tempo e do espaço, a mais importante ferramenta de controle de que a administração dos campos dispunha.

Por esse motivo, a distribuição de alimento aos presos foi tornando-se uma ciência bem complexa. As normas exatas para categorias específicas de presos e trabalhadores livres eram estabelecidas em Moscou e modificadas com freqüência. A direção do Gulag vivia calibrando os números, calculando e recalculando a quantidade mínima de comida necessária para que os prisioneiros continuassem trabalhando. Amiúde, enviavam-se aos comandantes de campo novas ordens que discriminavam o tamanho das rações. Tais ordens acabaram transformando-se em documentos longos e complexos, escritos em monótona linguagem burocrática.

Era típica, por exemplo, a ordem emitida em 30 de outubro de 1944. Ela estipulava para a maioria dos presos uma ração diária básica, ou "garantida"; seriam 550 gramas de pão, oito gramas de açúcar e uma série de produtos, teoricamente destinados à feitura da balanda (a sopa do meio-dia) e da kasha (o mingau do desjejum); incluía-se também o jantar: 75 gramas de trigo-sarraceno ou sopa de macarrão, quinze gramas de carne ou derivados, 55 gramas de peixe ou derivados, dez gramas de banha ou óleo, quinhentos gramas de batata ou hortaliças, quinze gramas de sal e dois gramas de "chá ersatz".

A essa lista, anexavam-se algumas observações. Os comandantes de campo ficavam instruídos a reduzir em cinqüenta gramas a ração de pão dos presos que cumprissem apenas 75% das metas de trabalho; e em cem gramas a daqueles que cumprissem só 50%. Por outro lado, quem superasse as metas receberia mais cinqüenta gramas de trigo-sarraceno, 25 gramas de carne e 25 gramas de peixe, entre outras coisas.[759] Em comparação, estipulara-se em 1942 - ano bem mais famélico em toda a URSS - que os guardas de campo deveriam receber setecentos gramas de pão, quase um quilo de hortaliças frescas e 75 gramas de carne, com suplementos especiais para aqueles que se encontravam muito acima do nível do mar.[760] Os presos que trabalhavam nos sharashki durante a guerra eram ainda mais bem alimentados, em teoria recebendo oitocentos gramas de pão e cinqüenta gramas de carne - quando os outros presos do sistema eram aquinhoados com quinze gramas desse último item. Ademais, recebiam fósforos e quinze cigarros por dia.[761] Grávidas, adolescentes, prisioneiros de guerra, trabalhadores livres e crianças residentes nas creches dos campos ganhavam rações ligeiramente melhores.[762]

Alguns campos fizeram experiências que introduziram distinções ainda mais sutis. Em julho de 1933, o Dmitlag emitiu ordem em que se relacionavam diferentes rações para presos que cumpriam até 79% da meta de trabalho; de 80% a 89% da meta; de 90% a 99%; de 100% a 109%; de 110% a 124%; e a partir de 125%.[763]

Como se pode imaginar, a necessidade de distribuir essas quantidades exatas de comida às pessoas certas - quantidades que às vezes variavam diariamente - exigia vasta burocracia, e muitos campos achavam difícil seguir as determinações. Tinham de manter à mão arquivos inteiros cheios de instruções, enumerando quais presos em qual situação deviam receber o quê. Mesmo os menores lagpunkts mantinham copiosos registros, listando o desempenho diário de cada preso e a conseqüente quantidade de alimento devida a ele. Em 1943, por exemplo, no pequeno lagpunkt de Kedrovyi Shor (fazenda coletiva que era divisão do Intlag), havia pelo menos treze categorias diferentes de ração. O contador do campo, provavelmente um preso, precisava determinar qual delas se aplicava a cada um dos mil detentos. Em longas folhas de papel, ele primeiro traçava as linhas a lápis e depois escrevia os nomes e números a caneta, cobrindo páginas e páginas com cálculos.[764]

Em campos maiores, a burocracia era ainda pior. A. S. Narinskii, ex-contador-chefe do Gulag, contou como os administradores de um campo, dedicando-se a construir uma das linhas férreas do extremo norte, tiveram a idéia de distribuir cupons de comida aos presos, para garantir que recebessem a ração correta todos os dias. Mas, num sistema assolado por severa escassez de papel, até a feitura dos cupons impunha dificuldades. Incapazes de arranjar solução melhor, aqueles administradores resolveram usar passes de ônibus, que demoraram três dias para chegar. Esse problema "vivia ameaçando desorganizar todo o esquema alimentar".[765]

No inverno, transportar alimentos a lagpunkts longínquos também era problema, em especial para os campos que não tinham padaria própria. "Até pão que ainda estava quente", escreve Narinskii, "quando transportado em vagão de carga por quatrocentos quilômetros a mais de 50 graus abaixo de zero, fica tão congelado que não presta nem como alimento, nem como combustível."[766] Apesar das complexas instruções para armazenagem das raras hortaliças e batatas disponíveis no norte durante o inverno, grandes quantidades congelavam e ficavam incomíveis. No verão, ao contrário, a carne, o peixe e outros alimentos estragavam. Depósitos mal administrados eram destruídos pelo fogo ou ficavam infestados de ratos.[767]

Muitos campos estabeleciam seus próprios colcozes (fazendas coletivas) ou lagpunkts dedicados à produção de laticínios, mas tais lugares freqüentemente funcionavam mal. Um relatório sobre um desses colcozes listava, entre outros problemas, a falta de pessoal técnico; de peças de reposição para o trator; de estábulo para o gado leiteiro; de providências para a colheita.[768]

Em conseqüência, os presos quase sempre sofriam de carência vitamínica, mesmo quando não chegavam a definhar de fome. Era um problema que, em maior ou menor grau, as autoridades dos campos levavam a sério. Na ausência de comprimidos de vitaminas, muitos obrigavam os presos a tomar khvoya, uma beberagem horrorosa, feita com agulhas de pinheiro, cujo eficácia era duvidosa.[769] Em comparação, as normas para "oficiais das Forças Armadas" estimulavam expressamente o consumo de vitamina C e frutas secas para compensar a falta de vitaminas nas rações regulares. Além disso, os generais e almirantes tinham direito a queijo, caviar, peixe enlatado e ovos.[770]

Mesmo o próprio processo de distribuir sopa, com ou sem vitaminas, podia mostrar-se difícil no frio do extremo norte, sobretudo quando a serviam ao meio-dia, no local de trabalho. Em 1939, um médico de Kolyma chegou a apresentar queixa formal ao chefe do campo, observando que os presos estavam sendo obrigados a comer ao ar livre e que a refeição congelava enquanto era consumida.[771] A superlotação era outro problema: um preso recordaria que, no lagpunkt adjacente à mina de Maldyak (em Magadan), um único guichê de comida servia mais de setecentas pessoas.[772]

A distribuição de alimento também podia ser perturbada por acontecimentos alheios aos campos; durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, ela com freqüência era interrompida de todo. Os piores anos foram 1942 e 1943, quando grande parte da região ocidental da URSS estava ocupada pelas tropas alemãs e grande parte do resto do país estava ocupada combatendo-as. A fome grassava por toda a parte - e o Gulag não era prioridade. Vladimir Petrov, prisioneiro em Kolyma, lembra-se de um período de cinco dias em que não se recebeu nenhum alimento em seu campo: "Na mina, irrompeu a fome de verdade. Cinco mil homens hão tinham nem sequer um pedaço de pão".

Havia também constante escassez de talheres e vasilhas. Petrov escreve que "sopa ainda quente quando recebida ficava coberta de gelo durante o tempo que um homem tinha de esperar até que outro terminasse de tomá-la e lhe passasse a colher. Isso provavelmente explica por que a maioria deles preferia não usar colher".[773] Uma prisioneira acreditava que só permanecera viva porque "trocara pão por um cuia esmaltada de meio litro [...]. Se tínhamos nossa própria cuia, pegávamos as primeiras porções - lembrando que a gordura fica toda por cima. As outras precisavam esperar até liberarmos nossa cuia. Tomávamos a sopa e a passávamos para outra, que a passava para outra".[774]

 

Na cozinha do campo. Presos fazem fila para a sopa. Desenho de Ivan Sykahnov. Temirtau, 1935-7

Outros presos entalhavam em madeira os próprios talheres e vasilhas. O pequeno museu instalado na sede da Sociedade Memorial, em Moscou, exibe vários desses itens estranhamente tocantes.[775] Como sempre, a direção do Gulag tinha total ciência daquela escassez e, de quando em quando, procurava fazer alguma coisa a respeito: em certa ocasião, as autoridades parabenizaram um campo por ter feito uso inteligente, justamente com esse propósito, de latas que sobravam.[776] Entretanto, mesmo quando se dispunha de talheres e vasilhas, freqüentemente não havia maneira de lavá-los - e uma ordem do Dmitlag proibia "categoricamente" os cozinheiros de servir comida em recipientes sujos.[777]

Por todos esses motivos, os regulamentos de Moscou sobre as rações alimentares - já calculadas tendo em vista só o mínimo necessário à sobrevivência - não constituem indicação confiável do que os presos comiam. E não precisamos nos guiar só pelas memórias dos presos para saber que os detentos dos campos de concentração soviéticos passavam muita fome. A própria direção do Gulag realizava inspeções periódicas dos campos e mantinha registros do que os presos comiam de fato, em contraste com o que deveriam comer. Mais uma vez, é assustadora a discrepância surreal entre as bem ordenadas listas de ração elaboradas em Moscou e os relatórios dos inspetores.

Em 1942, por exemplo, um inquérito sobre o campo em Volgostroi observava que, num lagpunkt, havia oitenta casos de pelagra, doença causada pela desnutrição. "Pessoas estão perecendo de fome", dizia sem rodeios o relatório. No Siblag (um grande campo na Sibéria Ocidental), um promotor-assistente descobriu que, no primeiro trimestre de 1941, as normas alimentares haviam sido "sistematicamente desrespeitadas: carne, peixe, banha e óleo são distribuídos com extrema infreqüência [...] açúcar nunca é distribuído". Em 1942, na região de Sverdlovsk, a comida nos campos do Gulag não continha "nem banha, nem óleo, nem peixe, nem carne; e, muitas vezes, nenhuma hortaliça". Também em 1942, no Vyatlag, "a comida em julho era ruim, quase incomível mesmo, e pobre em vitaminas. Isso por causa da falta de lipídios, carne, peixe, batata [...] toda a alimentação se baseia em farinha e derivados de cereais".[778]

Parece que alguns presos eram privados de comida porque os campos não recebiam as entregas certas. Era um problema permanente: em Kedrovyi Shor, os contadores do lagpunkt mantinham uma lista de todos os comestíveis que podiam substituir aqueles que os presos não recebiam, embora devessem. Entre os sucedâneos, estavam o queijo, os biscoitos secos, os cogumelos silvestres e as amoras silvestres, que substituíam, respectivamente, o leite, o pão, a carne e o açúcar.[779] Não chega a surpreender que, em conseqüência, a dieta dos presos parecesse bem diferente do que constava da papelada em Moscou. Em 1940, uma inspeção no Birlag verificou que "o almoço dos zeks que trabalham consiste em água com 130 gramas de cereal e em cerca de cem gramas de pão preto. No desjejum e no jantar, eles requentam o mesmo tipo de sopa". Numa conversa com o cozinheiro do campo, o inspetor também foi informado de que as "normas oficiais nunca são cumpridas" e de que não ocorriam entregas de peixe, carne, hortaliças, banha nem óleo. O relatório concluía que o campo "não tem dinheiro para comprar comestíveis nem vestuário [...] e, sem dinheiro, nenhum órgão de abastecimento quer cooperar". Em conseqüência, registravam-se mais de quinhentos casos de escorbuto.[780]

Com a mesma freqüência, porém, a comida que chegava aos campos era surrupiada de imediato. Os furtos se davam em quase todos os níveis. Em geral, os gêneros alimentícios eram afanados quando estavam sendo preparados, e os ladrões eram as pessoas que trabalhavam na cozinha ou nas despensas. Por esse motivo, os presos procuravam funções que lhes propiciassem o acesso à comida - preparo de alimentos, lavagem de louça, trabalho de armazenagem -, de modo a poder furtá-la. Certa vez, Evgeniya Ginzburg "salvou-se" graças ao trabalho de lavar louça no refeitório masculino. Ali, não só podia "tomar um autêntico consome de carne e comer excelentes bolinhos de massa fritos em óleo de girassol", mas também descobria que outros presos lhe demonstravam grande respeito e admiração. Falando com Evgeniya, a voz de um homem tremeu "de extrema inveja e humilde veneração, ante alguém que ocupava posição tão excelsa - 'Lá onde fica a comida!'".[781]

Até tarefas como descascar batatas, ou participar da colheita nas fazendas dos campos de concentração, eram muito cobiçadas, e os presos pagavam suborno a fim de obtê-las, simplesmente para poder furtar alimento. Numa fase posterior de sua carreira no Gulag, Evgeniya Ginzburg também trabalhou cuidando das galinhas que seriam comidas pelos chefes do campo. Ela e sua colega de serviço tiravam o máximo proveito da situação:

banhávamos a semolina do campo de concentração com o óleo de fígado de bacalhau que "pegávamos emprestado" das galinhas. Fazíamos kissel com farinha de aveia. Também dividíamos três ovos por dia - púnhamos um na sopa, e ficávamos com um cada uma, para comê-lo cru, como iguaria. (Não pegávamos mais ovos porque não ousávamos diminuir o índice de produtividade das galinhas, pelo qual se avaliava nosso trabalho.)[782]

A gatunice também ocorria em escala muito maior, sobretudo nas cidades do extremo sul que tinham campos do Gulag, nas quais a escassez de gêneros alimentícios entre presos, trabalhadores livres e guardas fazia o furto valer a pena para todo mundo. Ano após ano, cada campo elaborava relatórios dos itens perdidos. Os relatórios do lagpunkt de Kedrovyi Shor mostram que, só no último trimestre de 1944, ocorreram perdas de mais de 200 mil rublos em artigos e dinheiro.[783]

Em nível nacional, as cifras eram bem maiores. Um relatório de promotoria referente a 1947, por isso, listava muitos casos de furto, entre eles um no Vyatlag, onde doze pessoas (aí incluído o chefe do depósito) tinham surrupiado 170 mil rublos em hortaliças e mais gêneros alimentícios. Outro relatório daquele mesmo ano calculava que, só no segundo trimestre de 1946, em 34 campos investigados, haviam-se furtado 70 mil quilos de pão, 132 mil quilos de batata e 17 mil quilos de carne. O inspetor que escrevia o relatório concluía que "o complicado sistema de alimentação dos presos propicia a facilidade para que se furtem pão e outros produtos". O inspetor também culpava o "sistema de vales-refeição para os trabalhadores livres", tanto quanto as equipes internas de fiscalização dos campos, cujos integrantes eram totalmente corruptos.[784]

Em alguns casos, o sistema de inspeção tinha de fato algum efeito: certos campos, com medo de encrencar-se, esforçavam-se para cumprir a letra, se não o espírito, da lei. Exemplo: um preso, no final do mês, recebia meio copo de açúcar, que ele engolia puro; era assim que a chefia do campo se assegurava de que o prisioneiro recebesse a quantidade estipulada pela burocracia de Moscou. Ele e seus companheiros comemoravam a ocasião como "dia do açúcar".[785]

No fim das contas, nem todo mundo passava fome. Isso porque, se a maior parte dos comestíveis sumia antes de chegar à sopa, havia um alimento básico que costumava estar disponível: o pão. Assim como a sopa, já se descreveu muitas vezes o pão do Gulag. De quando em quando, alguém recorda que não era assado direito; um preso diz que era tão duro que "parecia tijolo", e tão pequeno que se podia comê-lo "em dois bocados";[786] outro preso escreve que era "literalmente pão 'preto', pois o farelo [de cereal] o empretecia e lhe dava textura bem ordinária"; o mesmo prisioneiro dizia que assavam esse pão com muita água, de modo que ele "era úmido e pesado, e assim, na prática, acabávamos recebendo menos do que os setecentos gramas de rigor".[787]

Outros se recordam de que presos brigavam para ficar com as pontas dos pães inteiros, que eram mais secas, ou menos aguadas.[788] Em "Licor de cereja", conto de Variam Shalamov que é uma descrição fictícia do fim de Osip Mandelstam, a morte iminente do poeta vai assinalada pela perda de interesse por tais coisas: "Ele já não ficava de olho na ponta do pão, nem chorava quando não a conseguia. Já não enfiava o pão na boca com dedos trêmulos".[789]

Nos campos onde se passava mais fome, nos anos de maior míngua, o pão adquiria status quase sagrado, e surgiu uma etiqueta especial para seu consumo. Embora os ladrões dos campos afanassem com impunidade quase tudo o mais, o furto de pão era considerado especialmente hediondo e imperdoável. Na longa viagem de trem para Kolyma, Vladimir Petrov descobriu que "furtar era permitido e se aplicava a tudo o que estivesse dentro da capacidade e da sorte do ladrão, mas havia uma exceção - o pão. Este era sacrossanto e inviolável, acima de quaisquer diferenças entre os ocupantes do vagão". Aliás, Petrov fora escolhido starosta do vagão e, nessa qualidade, viu-se encarregado de surrar um ladrãozinho que surrupiara pão.[790] Thomas Sgovio também escreveria que a lei implícita dos criminosos nos campos de Kolyma era: "Afane tudo - menos o sagrado quinhão de pão". Sgovio viu "mais de um preso ser espancado até a morte por ter desrespeitado aquela tradição sacrossanta".[791] De modo semelhante, Kazimierz Zarod lembraria que

Se um preso furtava roupas, fumo ou quase tudo o mais e era descoberto, podia esperar uma coça dos outros prisioneiros; mas a lei implícita do campo - e homens de outros campos me disseram que ela era a mesma em toda a parte - rezava que o preso que fosse apanhado furtando o pão de outro merecia a pena de morte.[792]

Nas memórias de Dmitri Panin (amigo íntimo de Soljenitsin), descreve-se com exatidão como se executava tal sentença:

O transgressor apanhado no ato de furtar pão era jogado para cima pelos outros presos, que o deixavam arrebentar-se no chão; isso se repetia várias vezes, lesando-lhe os rins. Aí, atiravam-no para fora do alojamento, como lixo.

Panin, assim como muitos outros sobreviventes dos campos que passaram pelos anos de fome da Segunda Guerra Mundial, também escreveu eloqüentemente sobre os rituais individualizados com que alguns presos comiam o pão. Quando os prisioneiros recebiam pão só pela manhã, eles tinham de tomar uma decisão aflitiva: comer tudo de uma vez ou deixar um pouco para a tarde. Guardando, corria-se o risco de perder ou ver furtado aquele precioso quarto de pão. Por outro lado, um pedaço de pão era algo para antegozar-se durante o dia. A advertência de Panin contra esse segundo procedimento deve constituir um testemunho incomparável da ciência de evitar a fome:

Quando se recebe a ração, tem-se uma vontade irresistível de esticar o prazer de comê-la, dividindo o pão por igual em pedacinhos ínfimos, fazendo bolinhas com as migalhas. Com gravetos e barbante, improvisa-se uma balança e pesa-se cada pedaço. Dessa maneira, tenta-se prolongar por três horas ou mais o ato de comer. Só que isso equivale ao suicídio!

Jamais, em nenhuma circunstância, demore mais que meia hora para consumir sua ração. Cada bocado de pão deve ser mastigado por completo, para que o estômago o digira tão facilmente quanto possível e assim ele proporcione ao organismo o máximo de energia [...] você estará acabado se sempre dividir a ração e deixar uma parte de lado para a tardinha. Coma tudo de uma só sentada. Por outro lado, se engolir tudo rápido demais, conforme as pessoas famintas muitas vezes fazem em circunstâncias normais, você também acabará abreviando sua vida.[793]

Os zeks não eram os únicos habitantes da URSS que ficavam obcecados pelo pão e pelas muitas maneiras de consumi-lo. Mesmo hoje, um russo meu conhecido abomina pão de centeio, porque só tinha isso para comer quando menino, no Cazaquistão, durante a guerra. E Susanna Pechora, prisioneira no Minlag nos anos 1950, uma vez ouviu esta conversa entre duas presas - camponesas russas que sabiam o que era a vida sem, o pão de cadeia:

Uma delas segurava e afagava um pedaço de pão. "Ah, minha khlebushka" ["pãozinho", apelido que se podia dar a uma criança], comentou, agradecida, "eles nos dão você todos os dias." A outra arrematou: "Podíamos deixar o pão secar e mandá-lo para as crianças - afinal, estão passando fome. Mas acho que eles não vão deixar..."[794]

Susanna me contou que, depois disso, pensava duas vezes antes de reclamar da falta de comida nos campos de concentração.

 

  1. O TRABALHO NOS CAMPOS

 

Quem está doente, imprestável,

Fraco demais para as minas,

E demovido, mandado

Ao campo mais abaixo

Para abater as árvores de Kolyma.

Parece muito simples

No papel. Mas não consigo esquecer

A fieira de trenós na neve

E as pessoas, arreadas.

Forcejando, os peitos cavados, elas puxam os trenós.

Ou param para descansar,

Ou vacilam nas encostas íngremes...

Aquele enorme peso rola abaixo

E, a qualquer momento,

As fará tropeçar.

Quem já não viu cavalo que tropica?

Mas nós... Nós vimos gente com arreios...

Elena Vladimirova, "Kolyma".[795]

 

Rabochaya zoha: a zona de trabalho

O trabalho era a função primordial da maioria dos campos soviéticos. Era a principal ocupação dos presos e a principal preocupação dos administradores. O cotidiano girava em torno do trabalho, e o bem-estar dos presos dependia de quão bem trabalhassem. No entanto, é difícil fazer generalizações sobre o que era o trabalho nos campos: a imagem do preso na tempestade de neve, minerando ouro ou carvão com uma picareta, é apenas estereótipo. Havia muitos de tais prisioneiros - milhões, como os números dos campos de Kolyma e Vorkuta deixam claro -, mas agora sabemos que também existiam campos no centro de Moscou onde presos projetavam aviões; campos na Rússia central onde presos construíam e operavam reatores nucleares; campos pesqueiros no litoral do Pacífico; campos no sul do Uzbequistão que eram fazendas coletivas. Os arquivos do Gulag em Moscou estão entupidos de fotos de presos com seus camelos.[796]

 

Sem nenhuma dúvida, a gama de atividades econômicas do Gulag era tão ampla quanto a de atividades econômicas da URSS. Um rápido olhar pelo Guia do sistema de campos de trabalhos correcionais da URSS - a mais abrangente lista dos campos elaborada até hoje - revela a existência de campos organizados em razão de minas de ouro, carvão, níquel; da abertura de rodovias e ferrovias; de fabricas de armamento, produtos químicos e produtos metalúrgicos; de usinas elétricas; da construção de aeroportos, prédios residenciais e sistemas de saneamento; da extração de turfa e madeira; do enlatamento de pescado.[797] Os próprios administradores do Gulag conservavam um álbum fotográfico dedicado tão-somente aos bens que os detentos produziam. Entre outras coisas, havia fotos de mísseis, minas explosivas e outros aparatos militares; autopeças, fechaduras e botões; toras boiando rios abaixo; artigos de madeira, inclusive cadeiras, armários, barris e cabines telefônicas; calçados, cestas e têxteis (com amostras anexas); tapetes, couros, gorros de pele e casacos de carneiro; copos, lâmpadas e frascos de vidro; sabão e velas; até brinquedos (tanques de guerra de madeira, minúsculos moinhos de vento, coelhos mecânicos que tocavam tambor).[798]

O trabalho variava dentro dos campos e entre eles. E verdade que, nos campos madeireiros, muitos presos não faziam nada senão derrubar árvores. Presos que cumpriam pena de três anos ou menos trabalhavam em "colônias de trabalho correcional", campos de regime brando que em geral operavam em função de uma única fábrica ou atividade. Em contrapartida, campos maiores podiam englobar vários ramos: minas, olaria e usina elétrica, assim como canteiros de obras de residências e estradas. Em tais campos, presos descarregavam os trens que diariamente traziam mercadorias; dirigiam caminhões; colhiam hortaliças; trabalhavam em cozinhas, hospitais e creches. Extra-oficialmente, presos também serviam de domésticos, babás e alfaiates para os guardas e comandantes dos campos e suas esposas.

Presos que cumpriam penas longas freqüentemente ocupavam ampla variedade de funções, mudando de trabalho ao sabor da sorte Em quase duas décadas de carreira nos campos, Evgeniya Ginzburg cortou árvores, cavou valas, limpou a casa de hóspedes do campo, lavou louça, cuidou de galinhas, foi lavadeira para esposas de comandantes de campo e olhou filhos de presas. Por fim, tornou-se enfermeira.[799] Outro preso político, Leonid Sitko, durante os onze anos que passou nos campos, foi soldador, trabalhador de pedreira, operário de uma turma de construção civil, carregador num depósito ferroviário, mineiro de carvão e marceneiro numa fábrica de móveis, produzindo mesas e estantes.[800]

Mas, embora os empregos pudessem ser tão variados no sistema de campos quanto o eram no mundo extramuros, os prisioneiros que trabalhavam costumavam dividir-se em duas categorias: os presos designados para obshchya raboty (serviços gerais) e os presos de confiança, chamados pridurki (monitores). Veremos que esses últimos tinham status de casta à parte. Os serviços gerais, sina da imensa maioria dos prisioneiros, eram trabalho braçal, sem qualificação, extenuante. "O primeiro inverno ali, em 1949-50, foi especialmente difícil para mim", escreveu Isaak Filshtinskii. "Eu não tinha um ofício que pudesse ser de utilidade nos campos, e fui forçado a ir de um lugar para outro, fazendo diversos tipos de serviço geral, serrando, carregando, puxando, empurrando etc. - em outras palavras, indo aonde desse na veneta do distribuidor de tarefas me mandar."[801]

A exceção daqueles que haviam tido sorte logo na primeira distribuição de trabalhos - em geral os que eram engenheiros civis ou outros membros de profissões úteis nos campos ou que, então, já tinham se estabelecido como informantes -, os zeks eram designados para os serviços gerais tão logo findava a semana (ou coisa parecida) de quarentena. Também eram designados para uma turma de trabalho, grupo que variava de quatro a quatrocentos zeks, os quais trabalhavam e comiam juntos e, em geral, dormiam nos mesmos alojamentos. Cada turma, ou "brigada", era comandada por um "brigadeiro", um preso de confiança que tinha status elevado e era encarregado de distribuir tarefas, supervisionar o trabalho e, sobretudo, garantir que a turma cumprisse as metas de produção. A importância do brigadeiro, cujo status se situava entre o de preso e o de administrador, não escapava às autoridades dos campos, Em 1933, o chefe do Dmitlag enviou ordem a todos os seus subordinados, lembrando-os da necessidade de "identificar entre nossos trabalhadores de choque aquelas pessoas capazes que são tão necessárias a nosso trabalho", pois "o brigadeiro é o elemento mais importante e relevante nos canteiros de obras".[802] Do ponto de vista dos outros presos, a relação corri o brigadeiro era mais que apenas importante: podia determinar qual seria a qualidade de vida deles e até se viveriam ou morreriam. Um preso escreveu:

A vida da pessoa depende muito da brigada e do brigadeiro, dado que se passa todos os dias e noites na companhia deles. No trabalho, no refeitório e nos beliches - sempre os mesmos rostos. Os integrantes da brigada podem trabalhar ou todos juntos, ou em grupos, ou individualmente. Podem nos ajudar a sobreviver - ou ajudar a nos destruir. Trata-se ou de compaixão e auxílio, ou de hostilidade e indiferença. O papel do brigadeiro não é menos importante. Também importa quem ele é e o que pensa de suas próprias tarefas e obrigações: servir a chefia à nossa custa e em benefício dele mesmo, tratando os integrantes da brigada como subalternos, serviçais e lacaios -ou ser nosso companheiro nas agruras e fazer todo o possível para tornar a vida mais fácil para a brigada.[803]

Alguns brigadeiros realmente ameaçavam e intimidavam sua força de trabalho. No primeiro dia nas minas de Karaganda, Alexander Weissberg fraquejou de fome e cansaço.

Com bramidos de touro alucinado, o brigadeiro então se voltou contra mim, golpeando-me com cada grama de sua compleição vigorosa, chutando, esmurrando e, por fim, dando-me tamanha pancada na cabeça que me estatelei, meio grogue, coberto de machucaduras, com sangue escorrendo pela cara.[804]

Em outros casos, o brigadeiro deixava que a própria turma de trabalho funcionasse como grupo paritário organizado, pressionando os Presos a dar mais duro mesmo quando não era essa vontade deles. Em certa   altura   do   romance   Um dia na vida de Ivan Denisovich, de Soljenitsin, o protagonista reflete que uma brigada dos campos

não é como uma turma de trabalho lá fora, onde fulano e sicrano ganham cada um seu salário. Nos campos, as coisas se dispõem de tal modo que o zek é mantido na linha não pelas chefias, mas pelos outros membros da turma. Ou todos ganham um prêmio extra, ou todos morrem juntos.[805]

Verno Kress, outro preso de Kolyma, era alvo de gritos e pancadas de seus camaradas de brigada por não conseguir acompanhar o ritmo deles; acabaria sendo mandado para uma brigada "fraca", cujos membros nunca recebiam a ração integral.[806] Yuri Zorin também passou pela experiência de ser parte de uma brigada realmente esforçada, na maioria composta de lituanos que não admitiam mandriões em suas fileiras: "Não dá nem para imaginar a vontade e o desvelo com que eles trabalhavam [...] se achavam que você não trabalhava direito, eles o chutavam para fora da brigada lituana".[807]

Caso se tivesse o azar de terminar numa brigada "ruim" e não se conseguisse subornar alguém ou se livrar daquilo, podia-se morrer de inanição. Uma vez, M. B. Mindlin (depois um dos fundadores da Sociedade Memorial) foi designado para uma brigada de Kolyma que se constituía sobretudo de georgianos e era liderada por um brigadeiro dessa nacionalidade. Mindlin logo percebeu que o grupo tinha tanto medo do brigadeiro quanto dos guardas do campo; e que ele, Mindlin, "o único judeu numa brigada de georgianos", não poderia contar com nenhum favor especial. Certo dia, ele trabalhou com especial afinco, na tentativa de ganhar a ração de nível mais alto (1.200 gramas de pão). O brigadeiro se negou a reconhecer aquele esforço e determinou que Mindlin recebesse só setecentos gramas. Apelando para o suborno, Mindlin trocou de brigada e encontrou ambiente completamente diverso: o novo brigadeiro se preocupava de fato com os subalternos e até lhes concedia alguns dias de trabalho mais leve no início, para que recuperassem as forças. "Todos os que entraram na brigada dele se consideravam afortunados e salvaram-se da morte." Posteriormente, o próprio Mindlin virou brigadeiro e tomou a iniciativa de distribuir suborno, para garantir que todos os integrantes de sua turma de trabalho conseguissem o melhor acerto possível com os cozinheiros, cortadores de pão e outras pessoas importantes no campo.[808]

A atitude dos brigadeiros importava porque, na maior parte das vezes, os serviços gerais não se destinavam a ser uma impostura ou não ter propósito. Se nos campos alemães o trabalho era "principalmente meio de tortura e maus-tratos" - nas palavras de um destacado estudioso -, os presos soviéticos, ao contrário, deviam cumprir este ou aquele aspecto do esquema de produção do campo.[809] E verdade que havia exceções à regra. Por vezes, guardas néscios ou sádicos impunham de fato tarefas despropositadas. Susanna Pechora se recordaria de ter sido designada para carregar baldes de argila de um lado para outro, "um serviço absolutamente sem sentido". Um dos capatazes encarregados de seu local de trabalho lhe disse especificamente: "Não preciso do seu trabalho, preciso é do seu sofrimento", frase que teria sido familiar aos presos de Solovetsky em 1926.[810] Na década de 1940, como veremos, também surgiria um sistema de campos disciplinares, cujo objetivo prioritário não era econômico, mas punitivo. Mesmo neles, porém, esperava-se que os presos produzissem alguma coisa.

Durante a maior parte do tempo, não se pretendia que os presos sofressem - ou talvez fosse mais exato dizer que ninguém se importava se eles sofriam ou não. Era muitíssimo mais importante que se encaixassem no esquema produtivo do campo e cumprissem uma meta de trabalho. Esta podia ser qualquer coisa: certo número de metros cúbicos de madeira por cortar, de valas por cavar, de carvão por carregar. E tais normas eram levadas muitíssimo a sério. Os campos estavam cobertos de cartazes que exortavam os presos a cumpri-las. Todo o aparato "cultural e educacional" do Gulag se votava à mesma mensagem. Os refeitórios ou pátios centrais de alguns campos ostentavam enormes quadros-negros relacionando todas as turmas de trabalho e os mais recentes resultados de produção de cada uma delas.[811]

As metas eram calculadas com muito cuidado e arrazoado cientifico pelo normirovshik, funcionário cujo trabalho acreditavam exigir grande perícia. Jacques Rossi menciona, por exemplo, que quem varria neve recebia diferentes metas, dependendo do tipo de neve: fresca; leve; ligeiramente compactada; compactada (exigindo pressão do pé na pá); muito compactada; ou congelada (exigindo uso de picareta), depois disso tudo, "uma série de coeficientes levava em conta o peso da neve, a distância a que a atiravam etc.".[812]

Mas, apesar de teoricamente científico, o processo de estabelecer metas de trabalho, e determinar quem as cumpriria, estava permeado de corrupção, irregularidade e incoerência. Para começo de conversa, os presos geralmente recebiam metas que correspondiam àquelas dos trabalhadores livres - deviam produzir o mesmo que lenhadores ou mineiros profissionais. Contudo, no mais das vezes, eles não eram lenhadores nem mineiros de ofício; com freqüência, tinham muito pouca noção do que deviam fazer; e, após longas estadas na cadeia e viagens aflitivas em vagões de gado sem aquecimento, tampouco estavam nas condições físicas da média dos trabalhadores livres.

Quanto mais inexperiente e exausto, mais o preso sofria. Evgeniya Ginzburg deixou uma descrição clássica sobre duas mulheres - ambas intelectuais não-afeitas ao trabalho braçal, ambas enfraquecidas por anos no cárcere - que tentavam cortar árvores:

Durante três dias, Galya e eu tentamos o impossível. Coitadas das árvores, como devem ter sofrido ao ser mutiladas por nossas mãos inábeis! Nós mesmas já estávamos meio mortas e, completamente sem qualificação, não tínhamos como dar conta delas. O machado escorregava e nos atirava uma chuva de lascas na cara. Serrávamos freneticamente, aos trancos, no íntimo acusando a outra de inépcia - mas sabendo que não podíamos nos dar ao luxo de brigar. Repetidas vezes, a serra emperrava. Todavia, o momento mais apavorante foi aquele em que a árvore enfim ficou a ponto de cair - só que não sabíamos para qual lado. Em certa altura, Galya foi atingida na cabeça, mas o enfermeiro se recusou até a passar iodo no corte, dizendo: "Ah-ah, esse truque é velho! Você está tentando ser dispensada do trabalho já no primeiro dia?!

Ao fim do dia, o brigadeiro declarou que Evgeniya e Galya haviam cumprido 18% da meta e lhes "pagou" pelo mau desempenho: "No dia seguinte, tendo recebido o pedacinho de pão que correspondia a nosso rendimento, fomos reconduzidas a nosso local de trabalho, literalmente cambaleantes". Entrementes, o brigadeiro ficava repetindo que "não pretendia desperdiçar comida valiosa com traidoras que não conseguiam cumprir a norma".[813]

Nos campos do extremo norte - em especial os de Kolyma, assim como os de Vbrkuta e Norilsk, localizados acima do Círculo Polar -, clima e o terreno agravavam as dificuldades. Com freqüência, ao contrário do que reza a crença popular, o verão dessas regiões árticas não era mais suportável que o inverno. Mesmo lá, as temperaturas podem subir acima de trinta graus Celsius. Quando vem o degelo, a tundra vira um lamaçal, dificultando a caminhada, e os mosquitos parecem deslocar-se em nuvens cinzentas, fazendo tanto ruído que é impossível ouvir outra coisa. Um preso se recordaria deles:

Enfiavam-se pelas mangas e pelas calças. A cara estourava de tantas picadas. O almoço nos era trazido ao local de trabalho, e, enquanto tomávamos a sopa, os mosquitos enchiam a cuia [...]. Eles nos cobriam os olhos e nos tapavam o nariz e a garganta, e tinham gosto adocicado, como o de sangue. Quanto mais nos mexíamos e os espantávamos, mais nos atacavam. O melhor era não ligar para eles, pôr roupa mais leve e, em vez de chapéu com mosquiteiro, usar um festão de grama ou de cortiça de bétula.[814]

Os invernos, é claro, eram muitíssimo gelados. As temperaturas podiam cair a 35, quarenta, 45 graus abaixo de zero. Memorialistas, poetas e romancistas tiveram grande dificuldade para descrever como era trabalhar nesse gelo. Um relatou que fazia tanto frio que "mesmo o mais simples e abrupto movimento de mão no ar causava um silvo extraordinário".[815] Outro contou que, numa manhã de véspera de Natal, ele acordou e descobriu que não conseguia mexer a cabeça.

Ao despertar, o que primeiro me ocorreu foi que ela, de algum modo, se prendera às tabuas do beliche durante a noite. Mas, quando tentei me erguer para sentar, vi que fora puxado o material que eu enrolara em volta da cabeça e das orelhas antes de ter ido dormir. Apoiado num cotovelo, fazendo força para levantar, dei um puxão no material e percebi que ele congelara e se grudara à madeira. Minha respiração e a respiração de todos os homens na cabana estavam suspensas no ar, como se fossem fumaça.[816]

Outro ainda escreveu que

era perigoso parar de mexer-se. Durante a contagem dos presos, nós pulávamos, corríamos sem sair do lugar e dávamos tapas no corpo para nos mantermos aquecidos. Eu não parava de massagear os dedos dos pés, e os das mãos estavam sempre crispados [...] se tocássemos ferramentas de metal com a mão nua, a pele podia ser arrancada, e as idas ao banheiro eram perigosíssimas. Uma crise de diarréia podia deixar a pessoa para sempre na neve.

Em conseqüência, alguns presos simplesmente sujavam as calças: "Trabalhar junto deles era desagradável, e de volta à tenda, quando começávamos a nos aquecer, o fedor se tornava insuportável. Quem fazia nas calças era muitas vezes espancado e posto para fora".[817]

No que se referia ao clima, certos serviços gerais eram piores que outros. Nas minas carboníferas do Ártico, conforme um preso, o ar subterrâneo era mais quente, mas a água gelada vivia pingando nos trabalhadores: "O mineiro se transforma numa espécie de gigantesco pingente de gelo, e seu organismo começa a congelar-se num período longo e estável. Depois de três ou quatro meses dessa labuta infernal, os presos passam a ter doenças generalizadas".[818]

Isaak Filshtinskii também acabou designado para um dos mais desagradáveis serviços de inverno no Kargopollag, separando toras que seriam processadas. Tinha-se de ficar em pé na água o dia inteiro, e, embora a água fosse morna (vinha bombeada da usina de força), o ar não o era:

Naquele inverno, dado que na região de Arcangel o frio se mantinha estável em quarenta, 45 graus abaixo de zero, uma névoa espessa pairava o tempo todo sobre a água. Era simultaneamente muito gelado e muito molhado [...] o trabalho não era muito difícil, mas, após trinta ou quarenta minutos, o corpo inteiro ficava permeado e envolto pela umidade; o queixo, os lábios e as pestanas, cobertos de gelo; e o frio penetrava até os ossos, atravessando a lastimável indumentária do campo.[819]

No inverno, os piores serviços eram nas florestas. Isso porque, nessa estação, a taiga é não apenas gelada mas também periodicamente varrida por tempestades de inverno, chamadas burany oupurgai, que são violentas e imprevisíveis. Dmitrii Brystoletov, preso no Siblag, foi apanhado por uma delas:

Naquele instante, o vento começou a uivar de modo furioso e apavorante, e tivemos de nos prostrar. A neve redemoinhava no ar; tudo sumiu - as luzes do campo, as estrelas, a aurora boreal -, e ficamos sozinhos numa névoa branca. Abrindo bem os braços, escorregando e tropeçando desajeitadamente, caindo e nos apoiando uns aos outros, tentamos achar o caminho de volta quanto antes. De repente, um trovão ribombou acima de nós. Eu mal conseguira segurar-me a um companheiro quando uma violenta enxurrada de gelo, neve e pedra começou a nos atingir no rosto. A neve rodopiante não nos permitia respirar nem enxergar.[820]

Janusz Bardach, quando trabalhava numa pedreira em Kolyma, também se viu numa dessas tempestades. Ele e os outros presos, junto com os guardas, voltaram para o campo seguindo os cães de guarda, ligados uns aos outros por uma corda:

Eu não enxergava nada para além das costas de Yuri e me aferrava à corda como se ela fosse um bote salva-vidas [...] Depois que os referenciais de sempre sumiram, eu já não fazia idéia de quanto ainda precisávamos percorrer, e tinha certeza de que nunca conseguiríamos voltar. Pisei em alguma coisa mole - um preso que soltara a corda. "Parem!", berrei. Mas ninguém parou. Ninguém conseguia ouvir minha voz. Eu me inclinei e puxei o braço dele para a corda. "Aqui!" Tentei fazer que sua mão se agarrasse à corda. "Segure-se!" Não adiantou nada. O braço do homem despencou quando o soltei. A ordem severa de Yuri, que mandava seguir em frente, me fez continuar.

Quando a turma de trabalho de Bardach retornou ao campo, faltavam três presos. Em geral, "os corpos dos prisioneiros que se perdiam só eram encontrados na primavera, muitas vezes a menos de cem metros da zona prisional".[821]

A indumentária regulamentar destinada aos presos lhes proporcionava pouca proteção contra as intempéries. Em 1943, por exemplo, a direção central do Gulag ordenou que eles recebessem, entre outras coisas, camisa de verão, para durar duas estações; calças de verão, também para duas estações; casaco de inverno, acolchoado, de algodão, para dois anos; calças de inverno, acolchoadas, para dezoito meses; botas de feltro, para dois anos; e roupa de baixo, para nove meses.[822] Na prática, nunca havia quantidade suficiente desses itens, já em si parcos. Em 1948, uma inspeção de 23 campos relatou que o abastecimento de "indumentária, roupa de baixo e calçado é insatisfatório". Esse "insatisfatório" parece ter sido eufemismo. Num campo em Krasnoyarsk, menos de metade dos prisioneiros estava calçado. Em Norilsk, no extremo norte, só 75% tinham botas quentes, e só 86% estavam agasalhados. Em Vorkuta, também no extremo norte, apenas 25% a 30% dos presos possuíam roupa de baixo, e somente 48% contavam com botas quentes.[823]

Na falta de calçado, os presos improvisavam. Faziam botas de cortiça de bétula, trapos, pneus velhos. No melhor dos casos, essas soluções eram desajeitadas e duras, em especial na neve profunda. No pior, não eram herméticas, praticamente garantindo que o usuário sofreria queimaduras de frio.[824] Elinor Lipper descreveria suas botas caseiras, que no campo onde ela estava tinham o apelido Che-Te-Ze, abreviação russa de "Fábrica de Pneus de Chelyabinsk":

Eram de aniagem levemente acolchoada, com cano alto e largo, que chegava ao joelho; o calçado em si era reforçado com encerado ou couro sintético no dedão e no calcanhar. A sola era feita de três seções transversais de borracha, tiradas de pneus carecas. A coisa toda era amarrada ao pé com barbante; também se usava barbante para amarrá-las abaixo do joelho, a fim de que a neve não entrasse [...] depois de um dia de uso, ficavam totalmente retorcidas, e as solas, fraquinhas, entortavam-se de todos os jeitos. Essas botas absorviam umidade com inacreditável rapidez, sobretudo quando os sacos de aniagem de que eram feitas tinham sido empregados para acondicionar sal.[825]

Outro preso descreve uma improvisação parecida: "Os lados eram abertos, de modo que os dedos ficavam expostos ali. Não se conseguia amarrar bem o pano que envolvia os pés, e assim os dedos também ficavam suscetíveis ao congelamento". Como resultado do uso desse calçado, o preso ganhou mesmo queimaduras de frio - o que, entretanto, ele acreditava ter-lhe salvado a vida, pois ficou dispensado de trabalhar.[826]

Diferentes prisioneiros tinham diferentes teorias de como lidar com o frio. Para recuperarem-se do congelamento ao fim do dia, por exemplo, alguns corriam aos alojamentos e se apinhavam em volta do fogareiro, chegando tão perto que às vezes as roupas pegavam fogo: "O cheiro repugnante de trapos queimando nos chegava às narinas".[827] Outros consideravam esse procedimento uma insensatez. Prisioneiros mais experientes disseram a Isaak Filshtinskii que se juntar em volta do fogareiro ou da fogueira do campo era perigoso porque a súbita mudança de temperatura causava pneumonia: "O organismo humano é constituído de maneira tal que, não importando quão baixa a temperatura, o corpo se ajusta e se acostuma. Sempre segui essa sábia norma no campo, e nunca sequer me resignei".[828]

As autoridades dos campos estavam obrigadas a fazer algumas concessões por causa do frio. Pelas regras, os presos de certos campos setentrionais recebiam rações adicionais. Mas estas, segundo documentos de 1944, podiam corresponder a não mais que cinqüenta gramas de pão extra por dia, o que nem de longe bastava para contrabalançar o frio extremo.[829] Em teoria, quando fazia frio demais, ou quando uma tempestade se aproximava, os presos nem deveriam trabalhar. Vladimir Petrov afirmaria que, durante a administração de Eduard Berzin em Kolyma, os prisioneiros largavam o serviço quando as temperaturas desciam a quinze graus negativos. No inverno de 1938-9, após a destituição de Berzin, elas tinham de cair a cinqüenta graus negativos antes que se interrompesse o trabalho. Petrov escreve que nem mesmo tal determinação era sempre seguida, pois a única pessoa que tinha termômetro naquela jazida de ouro era o comandante do campo. Em conseqüência, "só três dias daquele inverno foram de folga ocasionada pelas baixas temperaturas; no inverno de 1937-8, haviam sido quinze".[830]

Kazimierz Zarod, outro memorialista, registraria que a temperatura de interrupção do trabalho em seu campo, durante a Segunda Guerra Mundial, era de 49 graus negativos; ele recordaria uma ocasião em que sua turma de lenhadores recebeu ordens de voltar ao campo durante o dia porque o termômetro indicava 53 graus negativos. "Com que rapidez juntamos o equipamento, formamos coluna e iniciamos o regresso ao campo!"[831] Bardach lembra que em Kolyma, durante os anos de guerra, a norma eram cinqüenta graus negativos, "embora nunca levassem em conta a sensibilidade térmica".[832]

Mas o clima não era o único obstáculo ao cumprimento das metas. Em muitos campos, elas eram absurdamente elevadas. Em parte, isso era conseqüência indireta da lógica do planejamento central soviético, a qual impunha que as empresas aumentassem a produção todo ano. Elinor Olitskaya recordaria que suas companheiras forcejavam para cumprir as metas numa oficina de costura, querendo manter-se naquele trabalho aquecido, em recinto fechado. Mas, como elas as cumpriam, a administração do campo vivia elevando as metas, até que se tornaram inatingíveis.[833]

As metas também ficavam mais exigentes porque tanto presos quanto normirovshiki mentiam, exagerando o trabalho que fora ou seria realizado. Com o tempo, o resultado era que, às vezes, elas se tornavam estratosféricas. Alexander Weissberg recordaria que, mesmo em funções supostamente mais fáceis, as metas desafiavam a credulidade: "Todos pareciam às voltas com urna tarefa praticamente impossível. Os dois encarregados da lavanderia tinham de lavar as roupas de oitocentos homens em dez dias".[834]

Não que superar as metas acarretasse necessariamente as vantagens esperadas. Antoni Ekart se lembraria de quando se rompeu o gelo do rio próximo de seu campo e houve ameaça de enchente: 'Várias brigadas, constituídas dos presos mais fortes, aí incluídos todos os 'trabalhadores de choque', labutaram como loucos durante dois dias, praticamente sem intervalo. Pelo que realizaram, receberam um arenque para cada dois homens e um pacote de makhorka [fumo cru] para cada quatro".[835]

Em tais condições - com jornadas longas, poucos dias de folga e pouco descanso durante o dia -, os acidentes eram freqüentes. No inicio dos anos 1950, mandaram um grupo de prisioneiras inexperientes apagar um incêndio no mato perto do Ozerlag. Só naquela ocasião, lembraria uma das condenadas, "várias pessoas queimaram até a morte".[836] Também com freqüência, a exaustão e o clima se revelavam uma combinação mortífera, conforme atesta Alexander Dolgun:

Dedos enregelados e adormecidos não conseguiam segurar alças, alavancas, vigas e caixotes, e ocorriam muitos acidentes, amiúde fatais Um homem foi esmagado quando rolávamos toras de um vagão-plataforma, usando duas como rampa. Ficou soterrado quando vinte toras ou mais se soltaram de uma vez e ele não se afastou rápido o bastante. Os guardas empurraram o corpo de lado, na plataforma, e aquela massa coberta de sangue coagulado nos aguardava para ser levada para casa quando a noite caísse. [837]

Moscou compilava estatísticas de acidentes, e de vez em quando elas provocavam altercações entre inspetores e comandantes de campo. Uma dessas compilações, referente ao ano de 1945, discriminava 7.124 acidentes nas minas carboníferas de Vorkuta, dos quais 482 haviam resultado em lesões sérias e 137 em óbitos. Os inspetores punham a culpa na escassez de lanternas de mineiro, em falhas elétricas e na inexperiência e freqüente rotação dos operários. Furiosos, esses inspetores calcularam o número de homens/dia perdidos em decorrência de acidentes: 61.492.[838]

Organização absurdamente ruim e gestão desleixada também dificultavam o trabalho. Embora seja importante observar que mesmo os locais de trabalho comuns eram mal administrados na URSS, a situação era pior no Gulag, onde a vida e a saúde dos trabalhadores não eram consideradas importantes e a chegada regular de peças de reposição para o equipamento encontrava problemas por causa do clima e das enormes distâncias. O caos reinava no Gulag desde os tempos do Canal do Mar Branco, e essa situação continuou pela década de 1950, mesmo depois que se mecanizaram muito mais locais de trabalho no país. Para quem fazia trabalho madeireiro, "não havia motosserras, nem tratores para levantar toras, nem carregadores mecânicos".[839] Quem trabalhava em indústrias têxteis recebia "ferramentas que eram ou muito poucas, ou muito inadequadas". Segundo um testemunho, isso significava que "todas as costuras precisavam ser passadas com um ferro enorme, que pesava dois quilos. Tinha-se de passar 426 calças durante o turno; as mãos adormeciam com o peso, e as pernas inchavam e doíam".[840]

A maquinaria também vivia quebrando, fator que não era necessariamente levado em conta quando se calculavam as metas. Na mesma unidade têxtil, "chamavam-se os mecânicos de manutenção o tempo todo Eram na maioria mulheres condenadas. Os consertos demoravam horas, pois elas não tinham qualificação. Ficava impossível realizar a quantidade obrigatória de trabalho, e, como resultado, não recebíamos nenhum pão".[841]

O tema da maquinaria quebrada e dos técnicos de manutenção inábeis surge repetidas vezes nos anais da administração do Gulag. Em 1934, administradores regionais de campos que compareceram à Conferência Partidária do Extremo Oriente, em Khabarovsk, queixaram-se de que as constantes interrupções na provisão de equipamento e a pouca qualificação dos técnicos implicavam que não conseguissem cumprir as metas de produção de ouro.[842] Uma carta de 1938 ao vice-ministro do Interior encarregado do Gulag afirma que "de 40% a 50% dos tratores estão quebrados". Mas até métodos de trabalho mais primitivos também falhavam com freqüência. Uma carta do ano anterior observava que dos 36.491 cavalos disponíveis no Gulag, 25% não estavam em condições de uso.[843]

As empresas do Gulag se ressentiam igualmente da falta de engenheiros e gestores. Poucos técnicos qualificados se apresentavam de livre e espontânea vontade para trabalhar em projetos do Gulag, e os que de fato se ofereciam não tinham necessariamente as habilidades requeridas. No decorrer dos anos, envidaram-se muitos esforços para atrair trabalhadores livres para os campos, e davam-se enormes incentivos. Já em meados da década de 1930, recrutadores da Dalstroi faziam campanha pelo país, oferecendo privilégios especiais a qualquer um que assinasse contrato de trabalho de dois anos. Entre os atrativos, incluíam-se salário 20% superior à média soviética por aqueles dois primeiros anos e 10% superior pelos anos seguintes, assim como férias remuneradas, acesso a comestíveis e suprimentos especiais e uma aposentadoria generosa.[844]

Os campos do extremo norte também eram descritos com muito alarde e entusiasmo na imprensa soviética. Um exemplo clássico desse tipo de propaganda apareceu em inglês, na Sonetland, revista escrita para estrangeiros. Num artigo de abril de 1939 dedicado a Magadan, entoavam-se loas ao mágico atrativo da cidade:

O mar de luzes que é Magadan à noite constitui espetáculo dos mais arrebatadores e cativantes. Trata-se de uma cidade que está viva e buliçosa em todos os minutos do dia e da noite. Ela fervilha de pessoas cujas vidas são reguladas por rigoroso cronograma de trabalho. Exatidão e prontidão implicam celeridade, e celeridade implica trabalho fácil e prazeroso.[845]

Não se faz nenhuma menção ao fato de que as pessoas cujas vidas estavam "reguladas por rigoroso cronograma de trabalho" eram prisioneiras.

Não que isso importasse: tais esforços não conseguiram mesmo atrair o número necessário de especialistas, restando ao Gulag depender de presos. Um deles relataria que, junto com uma brigada de construção, foi enviado seiscentos quilômetros ao norte de Magadan para erguer uma ponte. Quando chegaram, perceberam que ninguém na brigada construíra pontes antes. Um dos presos, um engenheiro, viu-se encarregado do projeto, ainda que pontes não fossem sua especialidade. A ponte foi construída. Também foi levada de roldão na primeira enchente.[846]

Esse, porém, foi um desastre menor se comparado a alguns outros. Houve projetos inteiros do Gulag, empregando milhares de pessoas e enormes recursos, que se revelaram espetacularmente anti-econômicos e mal concebidos. Talvez o mais famoso tenha sido a tentativa de construir urna ferrovia da região de Vorkuta à foz do Ob, no oceano Ártico. A decisão de iniciar as obras foi tomada pelo governo soviético em abril de 1947. Um mês depois, o desbravamento, o levantamento topográfico e a construção tiveram início simultâneo. Prisioneiros também começaram a construir um novo porto de mar no cabo Kamenny, onde o Ob se alarga rumo ao mar.

Como de hábito, houve complicações: não se dispunha de tratores em número suficiente, de modo que os presos usaram velhos tanques de guerra. Os planejadores compensaram a falta de máquinas sobrecarregando os prisioneiros. Jornadas de onze horas eram normais, e às vezes, durante os longos dias de verão, até trabalhadores livres ficavam nas obras das nove da manhã à meia-noite. No final do ano, as complicações se tornaram mais sérias. A equipe topográfica determinara que o cabo Kamenny era má localização para o porto: não havia calado-d'água suficiente para navios de porte, e o solo era instável demais para indústrias pesadas. Em janeiro de 1949, Stalin convocou uma reunião, altas horas da noite, em que a liderança soviética resolveu mudar não só o local da obra, mas também a ferrovia: agora, a linha ligaria o Ob não com a região de Vorkuta (a oeste), mas com o rio Ienissei (a leste). Construíram-se mais dois campos: o canteiro de obras 501 e o canteiro de obras 503. Ambos começaram a assentar os trilhos ao mesmo tempo. A idéia era encontrarem-se no meio do traje-to. A distância entre eles era de 1.300 quilômetros.

As obras continuavam. No auge do projeto, segundo uma fonte, eram 80 mil pessoas trabalhando; segundo outra, eram 120 mil. O projeto ficou conhecido como "Estrada da Morte". A construção se revelou quase impossível na tundra ártica. Quando o permafrost de inverno se transformava rapidamente em lama de verão, tinha-se de lutar o tempo todo para impedir que os trilhos se retorcessem ou afundassem. Mesmo com esse esforço, os vagões freqüentemente descarrilavam. Por problemas de abastecimento, os presos começaram a usar madeira em lugar de aço na construção ferroviária - uma decisão que veio selar o fracasso do projeto. Em 1953, à época da morte de Stalin, haviam-se construído quinhentos quilômetros de um dos extremos, duzentos do outro. O porto existia apenas no papel. Semanas após o funeral de Stalin, o projeto inteiro, que custara 40 bilhões de rublos e dezenas de milhares de vidas, foi abandonado de vez.[847]

Em escala menor, tais histórias se repetiam todos os dias, por todo o Gulag. No entanto, apesar do clima, da inexperiência e da má gestão, a pressão sobre os administradores dos campos, e sobre os presos, nunca amainava. As chefias eram submetidas a infindáveis inspeções e programas de fiscalização e viviam sendo exortadas a melhorar o desempenho. Os resultados, por mais que fossem fictícios, tinham importância. Por mais ridículo que possa ter parecido aos prisioneiros - os quais sabiam perfeitamente quanto o trabalho era acochambrado -, a brincadeira era terrivelmente séria. Muitos dos presos não sobreviveriam a ela.

KVCh: o Departamento de Cultura e Educação

Caso não estivesse claramente indicado que elas pertenciam ao arquivo da NKVD, o observador casual poderia ser desculpado se achasse que as fotos do Bogoslovlag - que aparecem num álbum cuidadosamente conservado, datado de 1945 - não eram de um campo de concentração. As imagens mostram jardins bem plantados, flores, arbustos, um chafariz e um quiosque em que os presos podiam sentar e conversar. A entrada do campo é marcada por uma estrela vermelha e um slogan: "Votamos todas as nossas forças para o poderio futuro da pátria!"

As fotos de presos que adornam outro álbum, arquivado ali perto, são igualmente difíceis de conciliar com a imagem popular que se tem dos detentos do Gulag. Há um homem que, contente, segura uma abóbora; vacas puxam arado; um sorridente comandante de campo colhe uma maçã. Ao lado das imagens, vêem-se gráficos. Um mostra a produção planejada do campo; o outro, o cumprimento da meta.[848]

Todos esses álbuns - montados, colados e etiquetados com o mesmo zelo que as crianças demonstram quando elaboram um trabalho para apresentação em classe - foram produzidos por uma só instituição: o Departamento de Cultura e Educação do Gulag (Kolturno-vospitatelnaya Chast, ou KVCh, como era mais conhecido dos presos). Ele, ou algum equivalente, existia desde o início do Gulag. Em 1924, a primeira edição do Slon, o periódico da prisão de Solovetsky, continha um artigo sobre o futuro dos estabelecimentos prisionais no país: "A política de trabalho correcional da Rússia precisa reabilitar os presos acostumando-os a participar do trabalho produtivo organizado".[849]

Na maioria das vezes, porém, o verdadeiro objetivo da propaganda dos campos era aumentar as cifras de produção. Foi esse o caso até durante a construção do Canal do Mar Branco, quando, como já vimos, a propaganda de "reabilitação" teve sua fase mais ostensiva e, talvez, mais sincera. Naquela época, o culto nacional do trabalhador de choque estava no auge. No campos, artistas pintavam retratos dos melhores operários do canal, e atores e músicos montavam espetáculos e concertos especiais para eles. Os trabalhadores de choque eram até convidados a enormes assembléias, nas quais se cantava e discursava. Uma delas, realizada em 21 de abril de 1933, foi seguida de uma "investida de trabalho": durante 48 horas, nenhum dos 30 mil trabalhadores de choque deixou o local de serviço.[850]

Esse tipo de atividade foi abandonado sem nenhuma cerimônia no final dos anos 1930, quando os presos se tornaram "inimigos do povo" e já não podiam simultaneamente ser "trabalhadores de choque". Mesmo assim, depois que Beria assumiu os campos (1939), a propaganda foi aos poucos retornando. Embora nunca mais tivesse havido outro Canal do Mar Branco - um projeto do Gulag cujo "êxito" fora alardeado para o mundo -, a linguagem da reabilitação voltou aos campos. Em teoria, na década de 1940, todo campo tinha um instrutor do KVCh, assim como uma pequena livraria e um "clube" do KVCh, onde se organizavam concertos e exibições teatrais e ocorriam palestras e debates políticos. Thornas Sgovio se recordaria de um desses clubes:

O recinto principal, acomodando cerca de trinta pessoas, tinha paredes de madeira pintadas em cores vistosas. Havia algumas mesas, em princípio para leitura. Contudo não existiam livros, jornais nem outros periódicos. E como poderia ler sido diferente? Os jornais valiam seu peso em ouro - nós os usávamos para fazer cigarros.[851]

A partir dos anos 30, os presos com ficha criminal eram supostamente os principais "clientes" do KVCh. Assim como não estava claro se presos políticos seriam autorizados a ocupar cargos de especialistas, tampouco estava claro se valeria a pena tentar reabilitá-los. Em 1940, uma diretiva da NKVD sobre o trabalho cultural e educacional nos campos afirmou categoricamente que quem cometera crimes anti-revolucionários não era material adequado para reabilitação. Nas montagens teatrais dos campos, esses elementos podiam tocar instrumentos, mas não falar nem cantar.[852]

Como em tantas outras situações, tais ordens eram mais desconsideradas do que obedecidas. E, também como em tantas outras situações, a verdadeira função do KVCh na vida dos campos diferia daquilo que os poderosos do Gulag haviam tido em mente para o departamento. Se Moscou pretendia que o KVCh obrigasse os presos a darem mais duro, os presos então usavam o KVCh a seu próprio modo: para obter apoio moral - e para sobreviver.

Em vista disso, parece que os instrutores culturais e educacionais nos campos procuravam difundir entre os presos o valor do trabalho, de maneira bem semelhante àquela com que representantes do Partido Comunista procuravam fazê-lo fora do mundo prisional. Nos campos maiores, o KVCh produzia jornais locais. Às vezes eram jornais de verdade, com reportagens e longos artigos sobre os êxitos do campo, assim como com "autocríticas" - comentários sobre o que estava errado no estabelecimento -, as quais eram de rigor na imprensa soviética. Afora um breve período no começo da década de 1930, esses jornais se destinavam sobretudo aos administradores e aos trabalhadores livres.[853]

Para os presos, também havia jornais murais (afinal, ocorria escassez de papel). Um prisioneiro descreveu os jornais murais como "um atributo do modo de vida soviético - ninguém os lia, mas eles apareciam regularmente". Com freqüência, tinham "seções humorísticas":

Obviamente, presumiam que trabalhadores que estavam morrendo de inanição leriam aquilo, dariam uma gostosa gargalhada e, por fim, chamariam à razão os folgados que não queriam saldar através do trabalho honesto a dívida com a pátria.[854]

Por mais risíveis que os jornais murais pudessem parecer a muitos, a direção do Gulag, em Moscou, os levava muito a sério. Esses jornais, ordenava uma diretiva, devem "ilustrar os melhores exemplos de trabalho, popularizar os trabalhadores de choque, condenar os refratários e mandriões". Não se permitiam imagens de Stalin - afinal, aqueles eram criminosos, não "camaradas", e continuavam "excomungados" da vida soviética, proibidos até de contemplar o rosto do líder Ademais, a freqüentemente absurda atmosfera de sigilo que se abatera sobre os campos em 1937 perdurou por toda a década de 40: jornais que eram impressos nos campos não podiam sair dali.[855]

Além de pôr jornais em paredes, o KVCh exibia filmes. Gustav Herling assistiu a um musical americano, "cheio de mulheres de corpete e homens de plastrom e paletó acinturado", e a um filme de propaganda que concluía com "o triunfo da virtude": "Os desajeitados universitários ficavam em primeiro lugar na competição laborai socialista e, com olhos chamejantes, faziam um discurso que enaltecia o Estado no qual o trabalho manual fora elevado à mais excelsa posição".[856]

Entrementes, alguns presos comuns se aproveitavam das salas escuras onde se projetavam os filmes para matar outros, por vingança ou não. "Ao fim de uma dessas exibições, lembro-me de ter visto o corpo de um morto passar numa maca", disse-me uma pessoa que estivera aprisionada no Gulag.[857]

O KVCh também promovia partidas de futebol ou xadrez, concertos e apresentações que eram solenemente denominadas "atividades criativas autodidáticas". Um documento de arquivo relaciona o seguinte repertório, de um conjunto de canto e dança da NKVD que fazia turnê pelos campos:

 

  1. "A balada de Stalin"
  2. "A meditação cossaca sobre Stalin"
  3. "A canção de Beria"
  4. "A canção da pátria"
  5. "A luta pela pátria"
  6. "Tudo pela pátria"
  7. "A canção dos guerreiros da NKVD"
  8. "A canção dos chekistas"
  9. "A canção do longínquo posto de fronteira"
  10. "A marcha dos Guardas de Fronteiras"[858]

 

Ainda havia números mais ligeiros, como "Vamos fumar" e "Canção do Dnieper", que pelo menos celebrava um rio, e não uma instituição da polícia secreta. No repertório teatral, também se incluíam algumas peças de Tchekhov. Mas, pelo menos em teoria, o grosso dos esforços artísticos se destinava à educação, e não ao entretenimento, dos presos. Em 1940, uma ordem de Moscou declarava: "Toda apresentação deve educar os presos, ensinando-os a valorizar mais o trabalho".[859] Como veremos, os presos também aprendiam a usar essas apresentações para ajudá-los a sobreviver.

Mas as "atividades criativas autodidáticas" não eram a única preocupação do Departamento de Cultura e Educação - nem eram o único caminho para uma carga de trabalho mais branda. O KVCh era igualmente responsável por reunir sugestões de como melhorar ou "racionalizar" o trabalho dos presos, tarefa que o departamento levava muito a sério. No relatório semestral a Moscou, um campo em Nizhne-Amursk afirmava, sem ironia, ter obtido 302 racionalizações, das quais 157 haviam sido postas em prática, tendo-se economizado assim 812.332 rublos.[860]

Isaak Filshtinskii também observa, com muita ironia, que alguns presos se tornavam peritos em distorcer essa política em proveito próprio. Um deles, ex-motorista, garantia saber como construir um mecanismo que possibilitaria aos carros usarem oxigênio como combustível. Os chefes do campo, empolgados com a perspectiva de descobrir uma "racionalização" realmente importante, deram-lhe um laboratório onde pudesse desenvolver a idéia.

Não sei dizer se acreditavam nele ou não. Estavam simplesmente cumprindo determinações do Gulag. Em todo campo, pessoas deviam trabalhar como racionalizadores e inventores [...] e - quem sabe? - talvez Vdovin acabasse descobrindo alguma coisa, e aí todos ganhariam o Prêmio Stalin!

Vdovin foi enfim desmascarado no dia em que voltou do laboratório com um gigantesco objeto feito de sucata, cujo propósito ele se mostrou incapaz de explicar.[861]

Assim como no mundo extramuros, os campos de concentração continuavam a realizar "competições socialistas", nas quais os presos deviam concorrer uns contra os outros para elevar a produção. Os campos também homenageavam seus trabalhadores de choque pela suposta capacidade de triplicar ou quadruplicar as metas de produção. No capítulo 4, já descrevi a primeiras dessas campanhas, que começou nos anos 1930, mas elas continuaram pelos 40 - com entusiasmo sensível-mente menor e exagero sensivelmente mais absurdo. Os presos que participavam podiam ganhar muitos tipos diferentes de prêmio. Alguns recebiam maiores rações ou melhores condições de vida. Outros, gratificações mais intangíveis. Em 1942, por exemplo, o prêmio pelo bom desempenho podia abranger uma knizhka otlichnika, a caderneta concedida àqueles que alcançavam o status de trabalhadores "ótimos". Ela compreendia um pequeno calendário, com espaço para registrar em porcentagem o cumprimento das metas diárias; um espaço em branco para sugerir "racionalizações"; uma lista dos direitos do detentor da caderneta - a prerrogativa de ficar com o melhor lugar no alojamento, ter os melhores uniformes, receber remessas externas sem restrições etc.; e uma citação de Stalin: "A pessoa esforçada sente-se um cidadão livre de seu país, uma espécie de ativista social. E, se ela der duro, e der o que puder à sociedade, será um herói do trabalho".[862]

Nem todos levavam esse prêmio muito a sério. O preso polonês Antoni Ekart também descreveria uma de tais campanhas:

Pendurava-se um Quadro de Honra (feito de compensado), no qual se indicavam os resultados das Competições dos Trabalhadores Socialistas à medida que eram anunciados. Às vezes, exibia-se um retrato tosco do "trabalhador de choque" que estava na frente, dando detalhes dos recordes quebrados. Expunham-se números quase inacreditáveis, mostrando uma produção 500% ou até 1.000% acima do normal. Isso se referia a cavar buracos com pás. Até os presos menos atilados sabiam ser impossível conseguir cavar cinco ou dez mais do que o padrão.[863]

Mas, no fim das contas, os instrutores do KVCh também tinham a responsabilidade de convencer os "folgados" de que era do interesse deles trabalhar, e não ficar em celas punitivas, nem tentar sobreviver com rações pequenas. Fica claro que não muitos instrutores levavam tais palestras a sério - havia tantas outras maneiras de persuadir os presos a trabalhar! Todavia, uns poucos as levavam, para júbilo dos maiorais do Gulag, em Moscou. Estes, aliás, consideravam importantíssima aquela função do KVCh e até promoviam conferências periódicas de instrutores, para debater temas como "Quais as motivações básicas daqueles que se recusam a trabalhar?" e "Quais os resultados práticos da eliminação do dia livre dos presos?".

Numa dessas reuniões, durante a Segunda Guerra Mundial, os organizadores trocaram impressões. Um deles reconheceu que alguns "folgados" não conseguiam trabalhar porque estavam fracos demais para conseguir manter-se com a quantidade de alimento que recebiam. Ainda assim, alegou que mesmo os famintos podiam ser motivados: ele dissera a um refratário que o comportamento deste era "como uma faca cravada nas costas de teu irmão, que está na frente de batalha". Tinha sido o suficiente para fazer o homem esquecer a fome e dar mais duro. Outro dos instrutores presentes afirmou ter mostrado a alguns refratários fotos de "Leningrado em batalha", depois do que todos eles foram de imediato para o trabalho. Outro ainda disse que, em seu campo, as melhores brigadas podiam decorar os respectivos alojamentos; e que os melhores trabalhadores eram estimulados a plantar flores em vasos individuais, deles próprios. Nas atas da reunião (conservadas em arquivo), alguém fez uma anotação ao lado desse último comentário: Korosho! ("Excelente!").[864]

Compartilhar experiências dessa maneira era considerado tão importante que, no auge da guerra, o Departamento de Cultura e Educação do Gulag em Moscou se deu ao trabalho de imprimir um folheto sobre o assunto. O título - com conotações claramente religiosas - era Retorno à vida. O autor, certo camarada Loginov, descreve uma série de relacionamentos que teve com presos "mandriões". Utilizando astutas táticas psicológicas, converteu cada um deles para a crença no valor do trabalho duro.

As histórias que Loginov conta são bem previsíveis. Numa delas, por exemplo, explica a Ekaterina Sh. (esposa instruída de um condenado à morte por espionagem em 1937) que a vida dela, embora arruinada, podia voltar a ter sentido no contexto do Partido Comunista. Loginov também expõe ao preso Samuel Goldshtein as "teorias raciais" de Hitler e esclarece o que a "Nova Ordem" nazista na Europa acarretaria para ele, Goldshtein. O prisioneiro, de tão inspirado com esse surpreendente (na URSS) apelo a sua judaicidade, quer partir na mesma hora para a frente de batalha. Loginov lhe diz que, "hoje, tua arma é teu trabalho"; e o convence a dar mais duro no campo de concentração. "Tua pátria precisa de teu trabalho - e de ti", diz a outro preso ainda, que, com lágrimas nos olhos, volta ao serviço ao ouvir tais palavras.[865]

Fica evidente que o camarada Loginov se orgulha de sua função e se dedica a ela com muita energia. O entusiasmo dele era real. As recompensas que recebeu por seu trabalho, também: V. G. Nasedkin então chefe de todo o sistema Gulag, mostrou-se tão satisfeito com o empenho de Loginov que premiou o autor com uma gratificação de mil rublos e ordenou que o panfleto fosse enviado a todos os campos do sistema.

Está menos claro se Loginov e seus mandriões acreditavam de fato no que ele dizia. Não sabemos, por exemplo, se Loginov entendia em alguma medida que muitas das pessoas que ele estava tentando "trazer de volta à vida" eram inocentes de todo e qualquer crime. Tampouco sabemos se pessoas como Ekaterina Sh., caso tenha existido, realmente se reconverteram aos valores soviéticos; ou se de repente perceberam que, aparentando ter-se convertido, talvez recebessem melhor comida, melhor tratamento, trabalho mais fácil. As duas possibilidades nem chegam a ser mutuamente excludentes. Para pessoas aturdidas e desorientadas com a rápida transição de cidadãos úteis a prisioneiros desprezados, "ver a luz" e regressar à sociedade soviética pode não só tê-las ajudado a restabelecer-se psicologicamente, mas também ter-lhes proporcionado a melhoria de condições que lhes salvou a vida.

Aliás, a pergunta "Será que eles acreditavam no que estavam fazendo?" é parte pequena de uma questão muito maior, a qual vai ao fundo do caráter da URSS: será que algum dos líderes daquele país chegou a acreditar no que eles próprios estavam fazendo? A relação entre a propaganda e a realidade soviéticas sempre foi estranha: as fábricas mal conseguem funcionar, não há nada para comprar no comércio, velhinhas não têm condições de aquecer seus apartamentos - e, nas ruas lá fora, faixas proclamam o "triunfo do socialismo" e as "heróicas realizações da pátria soviética".

Nos campos do Gulag, tais paradoxos não eram diferentes. Stephen Kotkin, em sua obra sobre a história de Magnitogorsk, assina-la que, no jornal da colônia de trabalho correcional dessa cidade fabril stalinista, os perfis dos condenados regenerados eram escritos numa "linguagem que lembrava muito o que se podia ouvir a respeito de operários-padrão fora da colônia: eles davam duro, estudavam, sacrificavam-se e procuravam aprimorar-se".[866]

Não obstante, havia nos campos um nível extra de singularidade. Se no mundo extramuros a enorme disparidade entre esse tipo de propaganda e a realidade soviética já parecia risível a muitos, no Gulag o absurdo dava a impressão de alcançar novas culminâncias. Nos campos, onde os presos viviam sendo chamados de "inimigos", estando categoricamente proibidos de tratarem-se por "camarada" e contemplarem o retrato de Stalin, eles mesmo assim deviam trabalhar pela glória da pátria socialista, tal qual os homens e mulheres livres - e ainda participar de "atividades criativas autodidáticas" como se o fizessem por puro e simples amor à arte. O despropósito ficava bastante claro para todos. Em certa altura de sua carreira no Gulag, Anna Andreevna se tornou "artista" do campo, significando que era empregada para pintar aqueles slogans. Esse serviço, leve pelos padrões dos campos, lhe salvou certamente a saúde e possivelmente a vida. Mas, entrevistada anos depois, Anna afirmou nem sequer se lembrar dos dizeres. Disse achar que "a chefia os concebia. Algo como 'Dedicamos todas as nossas forças ao trabalho' ou coisa assim [...]. Eu os pintava muito depressa e, estritamente falando, muito bem, mas esqueci por completo o que escrevia. Isso aconteceu por alguma espécie de mecanismo de autodefesa".[867]

Também chamou a atenção de Leonid Trus (prisioneiro no começo dos anos 1950) o despropósito dos slogans que estavam fixados por todas as construções do campo e que eram repetidos pelos alto-falantes:

Havia um sistema de rádio do campo, que regularmente transmitia informações sobre nossos êxitos no trabalho e ralhava com quem não trabalhava direito. Essas transmissões eram muito canhestras, mas me faziam lembrar as que eu ouvira em liberdade. Acabei convencendo-me de que a única diferença era que, em liberdade, as pessoas eram mais talentosas e sabiam descrever tudo aquilo de modo mais bonitinho [...] em geral, o campo era igual à liberdade - os mesmos cartazes, os mesmos slogans -, só que [no Gulag] as frases soavam mais absurdas. "Pegaram o serviço e o concluíram", por exemplo. Ou "Na URSS, o trabalho é questão de honestidade, honra, bravura e heroísmo" - palavras de Stalin. Ou todos os outros slogans, como "Somos pela paz" ou "Desejamos a paz para o mundo inteiro".[868]

Os estrangeiros que não estavam acostumados a slogans e faixas achavam o trabalho dos "reeducadores" ainda mais esquisito. O polonês Antoni Ekart descreveria uma típica sessão de doutrinação política:

O método utilizado era o seguinte: um homem do KVCh, um agitador profissional com a mentalidade de uma criança de seis anos, falava aos presos sobre a nobreza de envidarem todos os seus esforços no trabalho. Dizia-lhes que pessoas nobres eram patriotas; que todos os patriotas amavam a Rússia Soviética, o melhor país do mundo para os trabalhadores; que os cidadãos soviéticos se orgulhavam de pertencer a um país assim etc. etc., durante duas horas inteiras - e isso tudo para um público cuja própria aparência era testemunho do absurdo e da hipocrisia de tais afirmações. Mas o orador não se incomodava com a fria acolhida e continuava falando. Por fim, prometia a todos os "trabalhadores de choque" mais gratificação, maiores rações e melhores condições. Pode-se imaginar o efeito disso em quem estava submetido à disciplina da fome.[869]

Um polonês desterrado teve a mesma reação a uma palestra propagandística a que assistiu num campo de concentração siberiano.

Durante horas e horas, o palestrante não parou de falar, tentando provar que Deus não existia, que Ele era apenas uma invenção burguesa. Devíamos nos considerar afortunados por estarmos na URSS, o país mais perfeito do mundo. Ali no campo, aprenderíamos a trabalhar e enfim ser pessoas dignas. De quando em quando, ele procurava nos instruir: assim, contava-nos que "a Terra é redonda" e que ele estava absolutamente convencido de que não sabíamos nada disso; de que também ignorávamos, por exemplo, que Creta era "peninsular", ou que Roosevelt era ministro de algum país estrangeiro. Comunicava verdades desse tipo com uma confiança inabalável em nossa total falta de conhecimento, pois como podíamos nós, criados num Estado burguês, esperar ter o benefício da educação mais elementar que fosse? [...] com muita satisfação, enfatizava que não poderíamos sequer sonhar em recuperar a liberdade, pois a Polônia jamais se reergueria.

Infelizmente para o coitado do palestrante, todo o seu trabalho não adiantou de nada, segundo o polonês: "Quanto mais ele arengava, mais nos rebelávamos intimamente, mantendo a esperança apesar de tudo. Os rostos se endureceram de obstinação".[870]

Gustav Herling, outro polonês, descreveria as atividades culturais de seu campo de concentração como

vestígios dos regulamentos elaborados em Moscou nos tempos em que os campos realmente se destinavam a ser instituições correcionais e educacionais. Gogol teria detectado aquela obediência cega a uma ficção oficial, mesmo que contraditória com a prática geral no campo - era como educar "almas mortas".[871]

Tais opiniões não são casos isolados: encontram-se na imensa maioria dos registros, que ou nem mencionam o KVCh, ou o ridicularizam. Por esse motivo, é difícil, quando se escreve sobre a função da propaganda no Gulag, avaliar a importância dela para a direção do sistema. Por um lado, pode-se muito bem argumentar - e muitos o fazem - que a propaganda nos campos, assim como toda a propaganda soviética, era pura farsa; que ninguém lhe dava crédito; que era produzida pela administração dos campos só para iludir os prisioneiros de maneira bastante pueril e óbvia.

Por outro lado, se a propaganda, os cartazes e as sessões de doutrinação política eram completamente ridículos - e se ninguém acreditava neles de jeito nenhum -, então por que se desperdiçava tanto tempo e tanto dinheiro com aquilo? Tomando como amostra só os registros da administração do Gulag, há centenas e mais centenas de documentos que atestam o trabalho intensivo do Departamento de Cultura e Educação. Por exemplo, no primeiro trimestre de 1943, quando a guerra estava no auge, os campos e Moscou trocavam telegramas frenéticos, pois comandantes tentavam desesperadamente obter instrumentos musicais para os presos. Ao mesmo tempo, os campos promoviam um concurso cujo tema era "A grande guerra patriótica do povo soviético contra os ocupantes fascistas alemães" e do qual participavam cinqüenta pintores e oito escultores. Num tempo de escassez nacional de mão-de-obra, os órgãos centrais também recomendavam que todo campo empregasse um bibliotecário; um projetista para exibir filmes de propaganda; e um kulturorganizator, prisioneiro que servia de assistente ao instrutor cultural e ajudava a travar a "batalha" pela limpeza, a organizar as atividades artísticas, a elevar o nível cultural dos presos - e a ensiná-los a "entender corretamente as questões da política contemporânea".[872]

Os instrutores culturais dos campos ainda apresentavam relatórios semestrais ou trimestrais sobre seu trabalho, muitas vezes arrolando com grande minúcia suas realizações. Também em 1943, o instrutor cultural no Vosturallag (na época um campo para 13 mil presos) enviou um desses relatórios. Com 21 páginas, começava reconhecendo que, no primeiro semestre daquele ano, as metas industriais do campo "não foram cumpridas". No segundo semestre, porém, tomaram-se providências. O Departamento de Cultura e Educação ajudara a "mobilizar os presos para cumprirem e superarem as metas de produção estabelecidas pelo camarada Stalin", a "restabelecer a saúde dos presos e fazer os preparativos para o inverno" e a "eliminar deficiências no trabalho cultural e educacional".[873] Em seguida, o chefe do KVCh no campo listava os métodos que empregava. Assinalava grandiosamente que, naquele segundo semestre, fizeram-se 762 discursos políticos, aos quais assistiram mais de 70 mil presos (é de supor que muitos tenham ido mais de uma vez). Ao mesmo tempo, o KVCh promovera 444 palestras de informação política, com presença de 82.400 presos; imprimira 5.046 jornais murais, lidos por 350 mil pessoas; apresentara 232 concertos e peças; exibira 69 filmes; e organizara 38 grupos de teatro. Um desses últimos até compusera uma canção, citada com orgulho no relatório:

A brigada é simpática,

O dever nos chama,

O canteiro de obra nos aguarda,

A frente de batalha precisa de nosso trabalho.[874]

Pode-se tentar aventar explicações para esse enorme esforço. Na burocracia do Gulag, talvez o Departamento de Cultura e Educação fosse o derradeiro bode expiatório: se as metas não estavam sendo cumpridas, a culpa não era da má organização, nem da desnutrição, nem das práticas de trabalho estupidamente cruéis, nem da falta de botas de feltro - era, isto sim, da propaganda insuficiente.

Talvez o motivo fosse a rígida burocracia do sistema: tão logo a cúpula decidia que precisava haver propaganda, todos tentavam obedecer à ordem sem questionar se era ou não absurda.

Talvez a liderança moscovita estivesse tão isolada dos campos que realmente acreditasse que 444 palestras e 762 discursos políticos fariam homens e mulheres famélicos trabalharem com mais afinco (ainda que isso pareça improvável, dadas as informações também disponíveis para essa mesma liderança nos relatórios dos inspetores dos campos).

Ou talvez não haja nenhuma boa explicação. Vladimir Bukovsky, o dissidente soviético que depois também foi prisioneiro, dava de ombros quando lhe perguntavam sobre isso. Segundo Bukovsky, aquele paradoxo era o que tornava o Gulag excepcional:

Em nossos campos, esperava-se não apenas que fossemos trabalhadores escravos, mas que também cantássemos e sorríssemos enquanto trabalhávamos. Não queriam só nos oprimir - queriam que lhes agradecêssemos por isso.[875]

 

  1. PUNIÇÃO E RECOMPENSA

 

Quem ainda não esteve lá, estará.

Quem já esteve, nunca esquecerá.

Provérbio soviético acerca das prisões.[876]

 

Shizo: as celas punitivas

Muito poucos campos de concentração soviéticos chegaram ao presente intactos, ou mesmo em ruínas. Por isso, é curioso que bom número de shtrafnye izolyhateri (celas de isolamento, ou, no inevitável acrônimo, Shizo) continue de pé. Do lagpunkt 7 do Ukhtpechlag, só resta o pavilhão de celas punitivas, agora a oficina de um mecânico de autos armênio. Ele deixou as grades nas janelas tal qual estavam, na esperança, segundo ele, de que "Soljenitsin compre meu imóvel". Do lagpunkt agrícola de Aizherom, no Lokchimlag, não resta nada - exceto, mais uma vez, as celas punitivas, hoje transformadas na residência de várias famílias. Uma das idosas que moram ali elogia a solidez de uma das portas. Esta ainda tem no meio um grande "buraco de Judas", pelo qual os guardas outrora espiavam os presos e lhes atiravam rações de pão.

A longevidade desses pavilhões é testemunho da robustez de sua construção. Sendo freqüentemente as únicas obras de alvenaria num campo de madeira, eram a zona prisional dentro da zona prisional. Entre suas paredes, tinha-se o rezhim dentro do rezhim. "Uma edificação sombria de pedra" foi como um preso descreveu o pavilhão punitivo em seu campo. "Portões externos, portões internos, sentinelas armadas a toda volta."[877]

Na década de 1940, Moscou já emitira instruções minuciosas, descrevendo tanto a construção das celas punitivas quanto as normas para os condenados a viver ali. Cada lagpunkt (ou grupo de lagpunkts, no caso dos menores) tinha um pavilhão punitivo, em geral logo do lado de fora da zona prisional, ou, se ficasse do lado de dentro, "cercado por uma cerca intransponível", a alguma distância das outras edificações do campo. De acordo com um preso, essa restrição talvez não fosse necessária, já que muitos prisioneiros procuravam evitar a cela punitiva "circundando-a à distância, nem sequer olhando na direção daquelas paredes de pedra cinzenta, interrompidas por abertura que pareciam exalar um vazio escuro e gelado".[878]

Todo complexo de campos devia também ter um pavilhão central de celas punitivas perto da sede (Magadan, Vorkuta, Norilsk). Na realidade, esse pavilhão central era muitas vezes uma cadeia enorme, que conforme as normas, "deve estar em local o mais distante possível das regiões habitadas e das vias de transporte, ser bem guardado e assegurar completo isolamento. A guarda deve compor-se apenas dos atiradores mais confiáveis, disciplinados e experientes, selecionados dentre os trabalhadores livres". Tais cadeias centrais continham tanto celas comuns quanto solitárias. Essas últimas tinham de ficar numa construção especial, à parte, e eram reservadas a "elementos particularmente nocivos". Os presos mantidos em isolamento não eram levados para trabalhar. Ademais, ficava-lhes vedado todo tipo de exercício, além de fumo, papel e fósforo. Isso vinha acrescer-se às restrições "ordinárias" que se aplicavam a quem estava nas celas comuns: nada de cartas, nada de remessas de fora, nada de visitas de familiares.[879]

A primeira vista, a existência das celas punitivas parece contradizer os princípios econômicos gerais em que se baseava o Gulag. Manter edificações especiais e guardas adicionais era caro. Manter detentos longe do trabalho era desperdício. Todavia, do ponto de vista da administração dos campos, as celas eram não uma forma extra de tortura, e sim parte integral do vasto esforço para fazer os presos darem mais duro. Junto com as rações reduzidas, o regime punitivo se destinava a (1) intimidar os otkazchiki, os que se recusavam a trabalhar; e (2) castigar os perpetradores de algum crime no campo, como homicídio ou tentativa de fuga.

Dado que esses dois tipos de delito tendiam a ser cometidos por diferentes tipos de preso, as celas punitivas, em alguns campos, tinham ambiente esquisito. De um lado, estavam repletas de bandidos profissionais, mais propensos a matar e escapar. De outro lado, porém, outra categoria começou a lotá-las: os presos religiosos, tanto homens quanto mulheres, as monashki, "freiras" que, por princípio, também se negavam a trabalhar para o Satã soviético. A finlandesa Aino Kuusinen, por exemplo, estava num lagpunkt de Potma cujo comandante construiu um barracão punitivo só para mulheres profundamente religiosas que "se recusavam a trabalhar na lavoura e passavam o tempo rezando em voz alta e entoando hinos". Elas não comiam com as outras prisioneiras; em vez disso, recebiam rações disciplinares naquele barracão. Duas vezes ao dia, guardas armados as acompanhavam à latrina. "De tempos em tempos, o comandante as visitava de rebenque na mão, e gritos agudos de dor ressoavam no barracão; elas costumavam ser despidas antes de açoitadas, mas nenhuma crueldade conseguia fazê-las desistir das preces e dos jejuns." Acabaram sendo levadas embora. Aino acreditava que houvessem sido fuziladas.[880]

Outros tipos de "refratários" inveterados também iam parar em celas punitivas. Aliás, a própria existência dessas celas impunha uma escolha aos presos: podiam ou trabalhar, ou ficar alguns dias ali, virando-se com rações menores, sofrendo frio e desconforto, mas não se estafando nas florestas e outros locais de trabalho. Lev Razgon narra a história do conde Tyszkiewicz, aristocrata polonês que, vendo-se num campo madeireiro siberiano, calculou que não sobreviveria com as rações fornecidas e simplesmente se negou a trabalhar. Estimou que assim pouparia as forças, mesmo recebendo apenas a ração disciplinar.

Toda manhã, antes que as colunas de zeks se alinhassem no pátio e os presos fossem conduzidos marchando para fora do campo, dois carcereiros tiravam Tyszkiewicz da cela punitiva. Pêlos curtos e grisalhos lhe cobriam o rosto e a cabeça rapada, e ele trajava os restos de um antigo capote, mais polainas. O oficial encarregado da segurança do campo dava início à reprimenda didática de todos os dias: "Pois bem, seu conde de m..., seu m... estúpido, vai ou não vai trabalhar?"

"Não, senhor, não posso trabalhar", respondia o conde com voz muito firme.

"Ah, não pode, não é, seu m...?"

O oficial então explicava publicamente ao conde o que pensava deste e de seus parentes próximos e distantes e o que faria com ele logo, logo. Esse espetáculo diário era fonte de satisfação geral para os outros detentos.[881]

Mas, embora Razgon conte a história com humor, tal estratégia era muito arriscada, pois o regime punitivo não era concebido para ser aprazível. Oficialmente, as rações disciplinares diárias para presos que não cumpriam as metas eram de 300 gramas de "pão preto de centeio", 5 gramas de farinha, 25 gramas de trigo-sarraceno ou macarrão, 27 gramas de carne e 170 gramas de batata. Se bem que essa já fosse uma quantidade ínfima de comida, os presos que ficavam nas celas punitivas recebiam ainda menos: 300 gramas daquele pão preto ao dia, mais

água quente e "alimento líquido quente" (ou seja, sopa) só uma vez a cada três dias.[882]

Contudo, para a maioria dos presos, o aspecto mais desagradável do regime punitivo estava não no sofrimento físico - a edificação isolada, a comida ruim -, mas nos outros suplícios que dessem na veneta do comando local. Os beliches compartilhados, por exemplo, podiam ser substituídos por um simples banco. Ou o pão podia ser feito com cereal não-processado. Ou então o "alimento líquido quente" podia ser mesmo bem aguado. Janusz Bardach foi posto numa cela punitiva cujo piso ficava coberto de água e cujas paredes eram encharcadas e cobertas de limo:

Minha roupa de baixo já estava molhada, e eu tremia. Sentia rigidez e cãibras no pescoço e nos ombros. A madeira do banco, bruta e ensopada, estava apodrecendo, principalmente nas beiradas [...] o banco era tão estreito que eu não conseguia deitar de costas, e, quando ficava de lado, as pernas pendiam da beirada; tinha de mantê-las dobradas o tempo todo. Difícil mesmo era resolver de que lado deitar: de um lado, a cara ficava espremida contra a parede; de outro, as costas ficavam molhadas.[883]

A umidade era comum, assim como o frio. Embora as normas determinassem que a temperatura nas celas punitivas não podia ser inferior a dezesseis graus, o aquecimento era com freqüência negligenciado. Gustav Herling lembraria que, em seu pavilhão punitivo, "as janelas das pequenas celas não tinham nem vidraças nem tábuas, de modo que a temperatura nunca era mais alta que lá fora". Herling descreveria outras maneiras pelas quais as celas eram concebidas para criar desconforto:

Minha cela era tão baixa que eu conseguia tocar o teto com a mão [...] era impossível sentar no beliche de cima sem dobrar as costas contra o teto; só se podia entrar no de baixo com um movimento de mergulho, e para sair era preciso alçar-se da madeira, como um nadador num banco de areia. A distância entre a beirada do beliche e o balde sanitário na porta era de menos que uma passada normal.[884]

Os comandantes de campo também estavam autorizados a decidir se os presos usariam roupa na cela (muitos eram mantidos só de roupa de baixo) e se os mandariam para o trabalho. Quando os presos não trabalhavam, permaneciam no frio das celas o dia todo, sem exercício. Quando trabalhavam, passavam muita fome. Nadezhda Ulyanovskaya ficou um mês à base de rações disciplinares, mas ainda assim a fizeram trabalhar. "Vivia com vontade de comer", escreveria. "Comecei a falar só de comida."[885] Por causa das mudanças freqüentemente inesperadas no regime punitivo, os presos morriam de medo de ser mandados para as celas. "Ali, presos choravam feito crianças, prometendo ser bonzinhos só para sair", escreveria Herling.[886]

Nos complexos maiores, havia tipos diversos de tormento: não apenas celas punitivas, mas também barracões e até lagpunkts punitivos. Em 1933, o Dmitlag, campo que construiu o Canal Moscou-Volga, estabeleceu um "lagpunkt de regime estrito" para "refratários ao trabalho, fujões, larápios e outros". A fim de garantir a segurança, a chefia do campo prescreveu que o novo lagpunkt tivesse cerca dupla de arame farpado; que guardas adicionais conduzissem os presos ao trabalho; e que os presos fizessem trabalho braçal pesado em locais de onde fosse difícil escapar.[887]

Mais ou menos na mesma época, a Dalstroi criou um lagpunkt disciplinar, que, no final dos anos 1930, se tornaria um dos mais infames do Gulag: Serpantinnaya (ou Serpantinka), na encosta setentrional dos montes logo acima de Magadan. Cuidadosamente situado para receber muito pouco sol, mais frio e mais escuro que os outros campos do complexo (localizados no vales e já bem frios e escuros durante grande parte do ano), o campo punitivo da Dalstroi era mais fortificado que outros lagpunkts e também serviu de local de execução em 1937 e 1938. Seu nome era usado para amedrontar os presos, que igualavam a ida para Serpantinka à sentença de morte.[888] Um dos pouquíssimos sobreviventes descreveria o alojamento como "tão superlotado que os prisioneiros se revezavam para sentar no chão, enquanto todos os restantes permaneciam de pé. Pela manhã, a porta se abria, e chamavam de dez a doze presos pelo nome. Ninguém respondia. Aí, os primeiros que estavam à mão eram arrastados para fora e fuzilados".[889]

Na realidade, sabe-se muito pouco sobre Serpantinka, em boa parte porque sobrou tão pouca gente para dizer como era o campo. Sabe-se ainda menos sobre lagpunkts punitivos estabelecidos em outros lugares; por exemplo, o de Iskitim (do complexo do Siblag), construído numa pedreira de calcário. Ali, os presos trabalhavam sem maquinaria e sem equipamento, escavando com as mãos. Cedo ou tarde, a poeira matava muitos, em decorrência de doenças pulmonares e outros problemas respiratórios.[890] Anna Larina, a jovem esposa de Bukharin, ficou encarcerada lá durante breve período. A maior parte dos outros prisioneiros (e mortos) de Iskitim continua anônima.[891]

Não foram, porém, esquecidos de todo. O sofrimento dos cativos afetou tão profundamente a imaginação do povo de Iskitim que, muitas décadas depois, o surgimento de uma nova fonte de água numa colina ao lado do antigo campo seria saudada como um milagre. Dado que o barranco abaixo da fonte era, segundo a tradição local, lugar de execuções em massa de prisioneiros, os habitantes acreditavam que a água santa era a maneira pela qual Deus decidira manter viva a lembrança daqueles mortos. Num dia silencioso e gelado no final do inverno siberiano, quando o solo ainda estava coberto por um metro de neve, pude ver grupos de fiéis subirem o morro até a fonte, encherem garrafas e canecas de plástico com a água límpida e a bebericarem reverentemente - às vezes olhando, de modo solene, para o barranco lá embaixo.

POCHTOVYI YASHCHIK: A CAIXA DO CORREIO

A Shizo era a máxima punição do sistema penal. Entretanto, o Gulag também fazia agrados aos detentos - contrabalançando castigos com recompensas. Junto com a comida, o sono e o trabalho, o campo controlava o contato dos presos com o mundo extramuros. Ano após ano, os administradores do Gulag em Moscou enviavam instruções, fixando quantas cartas e remessas de gêneros ou dinheiro os detentos podiam receber e quando e como os familiares podiam visitá-los.

Assim como as instruções referentes às celas punitivas, as normas que regiam esses contatos variaram com o tempo. Ou talvez seja mais exato