Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


HOTEL / Arthur Hailey
HOTEL / Arthur Hailey

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

H O T E L

Primeira Parte  

 

 

Viajante, rogo que aceites esta casa indigna. O banho está pronto e um quarto tranquilo te espera. Entra! Entra!

- Tradução de dizeres na entrada de uma hospedaria em Takamatsu, Japão.

 

                 Noite de Segunda - Feira

SE PUDESSE fazer o que queria, pensava Peter McDermott, já teria despedido o detetive-chefe do hotel desde muito tempo. Mas isso não fora possível e mais uma vez o corpulento ex-policial se achava ausente quando sua presença se tornava mais necessária.

McDermott inclinou o corpo robusto e bateu com impaciência no interruptor do telefone.

- Quinze coisas aparecem de repente e não se consegue encontrar o homem - disse à moça, encostada na janela do escritório amplo e atapetado.

Christine Francis consultou o relógio de pulso. Faltavam poucos minutos para as onze da noite.

- Há um bar na rua Baronne onde pode ser que ele esteja. Peter McDermott concordou com aceno de cabeça.

- A mesa telefónica está verificando todos os lugares onde ele costuma fazer ponto.

Abriu uma gaveta, tirou cigarros e ofereceu-os a Christine.

Christine Francis viera poucos minutos antes de seu escritório, também parte do conjunto administrativo do Hotel St. Gregory. Trabalhara até tarde e Quando já ia para casa vira a luz por baixo da porta do subgerente e resolvera entrar.

- O nosso Sr. Ogilvie é quem determina seus próprios deveres - disse ela. - Sempre foi assim, por ordem de W. T.

McDermott disse alguma coisa ao telefone e voltou a esperar.

- Tem razão - reconheceu. - Já tentei reorganizar nosso quadro de detetives e fui devidamente rechaçado.

- Eu não sabia disso - comentou ela, calmamente. Ele a fitou com expressão irônica.

- Pensei que sabia tudo.

E geralmente sabia, mesmo. Como assistente pessoal de Warren Trent, o imprevisível e irascível dono do maior hotel em Nova Orleans, Christine conhecia todos os segredos internos e questões cotidianas do estabelecimento. Sabia, por exemplo, que, tendo sido promovido a subgerente cêrca de um mês antes, Peter McDermott estava virtualmente dirigindo o grande e movimentado Hotel St. Gregory, embora com salário reduzido e autoridade limitada. Conhecia, igualmente, os motivos para isso, registrados em documentos marcados confidencial e que diziam respeito à vida pessoal de McDermott.

- O que está acontecendo? - perguntou ela. McDermott armou um sorriso cordial que lhe contorceu a expressão fisionômica austera, quase feia.

- Temos uma queixa do décimo- primeiro andar sôbre algum tipo de orgia. No nono andar, a Duquesa de Croydon afirma que o seu Duque foi insultado por um garçom. Também há a informação de que alguém geme horrivelmente no quarto 1439 e o gerente noturno está doente, em casa, enquanto os outros dois responsáveis estão ocupados em outras coisas.

Voltou a falar no telefone e Christine regressou à janela do escritório, instalado na sobreloja do edifício. Erguendo bem a cabeça para livrar os olhos da fumaça do cigarro, olhou displicentemente a cidade. Bem em frente, por uma avenida de edifícios próximos, podia ver o retângulo compacto e cheio de gente que era o Quarteirão Francês. Faltava ainda meia hora para a meia-noite e era cedo para o Quarteirão, onde as luzes da frente dos bares abertos até tarde, dos bistrôs, dos salões de jazz e dos clubes de strip-tease, bem como por trás das cortinas descidas ficariam acesas até à manhã seguinte.

Em algum lugar ao norte, provàvelmente sôbre o lago Pontchartrain, formava-se na escuridão da noite uma tempestade de verão cujo início seria sentido em trovões abafados e alguns relâmpagos. Se tivessem sorte e a tempestade rumasse para o Gôlfo do México, haveria chuva de manhã em Nova Orleans.

Seria bom chover, pensou Christine. Havia três semanas a cidade suava dentro do calor e da umidade, gerando tensão por tôda a parte. Também ao hotel a chuva traria alívio, e naquela tarde o chefe das máquinas se queixara novamente de que, se não pudesse desligar logo parte do equipamento de ar condicionado, não seria responsável pelo que acontecesse.

Peter McDermott desligou o telefone e ela aproveitou para perguntar:

- Tem o nome do hóspede do quarto onde se ouvem gemidos?

- Vou ver. Talvez seja alguém com um pesadelo, mas convém verificar.

Ao sentar-se na poltrona de couro em frente à grande mesa de mogno, Christine sentiu, de repente, que estava muito

cansada. Em condições normais, estaria em seu apartamento

em Gentilly já desde algumas horas, mas o dia fôra excepcionalmente movimentado, com duas convenções chegando ao hotel e a entrada de muitos outros hóspedes, criando problemas - alguns dos quais tinham ido parar nas suas mãos para resolver.

- Está bem, obrigado - disse McDermott ao telefone

desligando em seguida. - O nome é Albert Wells, de Montreal.

- Eu o conheço - respondeu Christine. - um homenzinho agradável, que se hospeda aqui todos os anos. Se quiser, vou ver do que se trata.

Ele hesitou, enquanto olhava a figurinha esguia de Christine. Foi quando o telefone tocou e McDermott atendeu.

- Sinto muito - disse a telefonista. - Não conseguimos encontrar o Sr. Ogilvie.

- Não faz mal. Ligue para o chefe da portaria.

Ainda que não pudesse despedir o detetive-chefe da casa pensava McDermott, fá-lo-ia de manhã passar maus momentos. Enquanto isso, mandaria outra pessoa ver o que acontecia no décimo-primeiro andar e trataria pessoalmente do caso do Duque e da Duquesa.

- Chefe da portaria - responderam no telefone, e êle reconheceu a voz anasalada e monótona de Herbie Chandler que, como Ogilvie, era um dos veteranos do St. Gregory, onde constava que movimentava mais atividades escusas do que qualquer outro empregado.

McDermott apresentou-lhe o problema e pediu que Chandler investigasse a queixa sôbre uma alegada orgia. Como esperava, veio o protesto imediato:

- Isso não é serviço meu, Sr. Mac, e ainda estamos ocupados aqui!

tom era Chandler puro, meio servil e meio insolente.

- Nada de discussão - atalhou McDermott. - Quero que atenda à queixa. E outra coisa: mande um rapaz com chave-mestra para encontrar-se com a Srta. Francis na sobreloja - acrescentou, desligando antes que a discussão pudesse continuar.

- Vamos - disse a Christine, tocando-a levemente nos ombros. - Leve o servente com você e diga a seu amigo para ter pesadelos menos barulhentos.

Herbie Chandler, em cuja cara de fuinha se podia notar certa inquietação, levantou-se pensativamente da mesa na portaria do St. Gregory. Colocado no centro, ao lado de uma das colunas estriadas de concreto que iam até o teto profusamente ornamentado, seu posto dispunha de boa visão dos que entravam e saíam, na portaria do hotel. No momento, o movimento era grande e os convencionais que durante tôd a noite não tinham cessado de entrar e sair mostravam-se cada vez mais alegres, à medida que aumentava o consumo de bebidas.

Enquanto Chandler observava o movimento, como de hábito, um grupo de ruidosos farristas entrou pela porta da rua Carondelet, formado de três homens e duas mulheres empu nhando copos do tipo que, no bar de Pat O'rien no Quarteirão Francês, custavam um dólar cada, e um dos homens cambaleava bastante, sendo amparado pelos demais. Os trés usavam cartões de identificação como convencionais, nos quais se lia GULD CROWN COLA, com o nome de cada um por baixo. Outros hóspedes na portaria abriram caminho, com bomhumor, e o quinteto se dirigiu ao bar do andar térreo.

De vez em quando entravam novos hóspedes, chegados à cidade nos aviões e trens finais do dia, e vários estavam sendo levados aos seus quartos pelo batalhão de boys chefiados por Chandler, embora boys (rapazes) fôsse fôrça de expressão, porquanto nenhum dêles tinha menos de 40 anos e diversos veteranos de cabelos grisalhos já estavam naquele emprêgo havia mais de 25 anos. Herbie Chandler, que tinha autoridade para contratar e despedir seu pessoal, preferia os homens mais idosos. Quem tinha de se esforçar e gemer um pouco com malas pesadas podia conseguir gorjetas maiores do que um joven, capaz de carregar malas como se as mesmas estivessem cheias de palha. Certo veterano, na verdade tão forte e vigoroso quanto uma mula, sabia como largar as malas no chão, levar a mão ao coração e depois tornar a apanhá- las com um ar de resignação. Raramente êsse pequeno número teatral lhe rendia menos de um dólar, pago por hóspedes de consciência aflita para quem o velho estava prestes a estourar as coronárias. O que não sabiam era que 10% das gorjetas iam ter ao bôlso de Herbie Chandler, e mais os dois dólares diários que êle exigia de cada boy, como o preço da sua manutenção no emprêgo:

O sistema particular do chefe da portaria dava origem a muitas queixas em voz baixa, embora um boy ligeiro pudesse ganhar 150 dólares líquidos por semana quando o hotel estava cheio. De vez em quando, como naquela noite, Herbie Chandler permanecia no seu posto até muito depois da hora. Sem confiar em pessoa alguma, gostava de vigiar sua percentagem e possuía um sentido notável que lhe permitia avaliar os hóspedes e calcular exatamente o que renderia cada viagem aos andares superiores. Alguns boys tinham tentado lográ-lo, dizendo que as gorjetas haviam sido menores do que realmente acontecera, mas as represálias vinham logo, impiedosas, e a suspensão por um mês, por qualquer outro motivo inventado geralmente fazia os recalcitrantes desistirem.

Havia outra causa para a presença de Chandler no hotel naquela noite, a qual explicava sua inquietação crescente desde o telefonema de Peter Mcdermott minutos antes. Mcdermott ordenara que investigasse uma reclamação no décimo-primeiro andar, mas Herbie Chandler não precisava investigar coisa alguma, pois sabia mais ou menos o que se passava ali. O motivo era simples - fôra êle próprio quem o arrumara.

Três horas antes, os dois jovens tinham sido explícitos em seu pedido e êle os ouvira com respeito, porquanto os pais de ambos eram ricos habitantes da cidade e hóspedes frequentes do hotel.

- Escute, Herbie - dissera um dêles -, vai haver um baile da turma esta noite. A coisa é sempre a mesma porcaria, e nós queremos um troço diferente.

E êle perguntara, já sabendo qual seria a resposta:

- Diferente, como?

- Alugaremos um apartamento do hotel - disse o rapaz. - Queremos duas pequenas.

Era arriscado demais, pensou Herbie imediatamente. Ambos eram pouco mais que meninos e desconfiava de que tinham bebido. Começou a recusar, quando o outro rapaz atalhou:

- Não me venha com histórias de que não pode, porque sabemos que você dirige o movimento das pequenas aqui.

Herbie mostrou os dentes, no que passava por um sorriso.

- Não sei onde arrumou essa idéia, Sr. Dixon.

O rapaz que falara primeiro insistiu:

- Nós podemos pagar bem, Herbie. Você bem sabe disso.

O chefe da portaria hesitou, a despeito das dúvidas, impelido pela ganância. Naqueles últimos tempos, suas rendas avulsas tinham sido menores do que de costume e talvez o risco não fôsse tão grande.

O rapaz chamado Dixon interveio:

- Vamos parar de conversa. Quanto quer?

Herbie os olhou, lembrou-se de seus pais e multiplicou a taxa comum por dois.

- Cem dólares.

Seguiu-se um instante de silêncio, e depois Dixon respondeu decididamente:

- Fechado.

Voltando-se para o companheiro, acrescentou de modo persuasivo:

- Escute, já pagamos a bebida. Eu lhe empresto o resto de sua parte.

- Bem.

- Adiantado, cavalheiros - Herbie umedeceu os lábios finos com a língua. - Uma coisa: é preciso ter certeza de que não vão fazer barulho. Se fizerem e recebermos reclamações, poderá haver dificuldades para todos.

Eles haviam garantido que não fariam barulho, mas não cumpriram a promessa e os receios iniciais de Herbie sofriam

confirmação incômoda.

Uma hora antes, as pequenas tinham entrado pela porta da frente, como de costume, e apenas alguns dos empregados do hotel sabiam que não eram hóspedes registradas. Se tudo houvesse corrido bem, já deveriam ter saído, tão despercebidas quanto na entrada.

A reclamação partida do décimo-primeiro andar, transmitida por McDermott e referindo-se especificamente a uma orgia, significava que alguma coisa saíra fora dos eixos. Que seria? Herbie lembrava-se, inquieto, da referência feita à bebida por um dos rapazes.

Estava quente e úmido na portaria, a despeito do condicionamento de ar, e Herbie tirou do bolso um lenço de sêda para enxugar o suor da testa. Ao mesmo tempo, arrependia-se da sua imprudência, imaginando se a essa altura dos acontecimentos devia atender à reclamação ou manter- se bem afastado de tudo:

Peter McDermott subiu no elevador ao nono andar, deixando Christine - que iria ao décimo-quarto - em companhia do carregador, e ao sair hesitou um pouco.

- Mande-me chamar, se houver alguma dificuldade.

- Se fôr preciso, chamarei aos gritos - replicou ela. Enquanto as portas do elevador se fechavam, seus olhares cruzaram e, por momentos, êle permaneceu ali, olhando o lugar onde ela estivera. Depois, em passos largos, McDermott se dirigiu pelo corredor atapetado ao Apartamento Presidencial.

O maior e mais luxuoso apartamento do Hotel St. Gregory, conhecido pelos empregados como "a casa de bronze" já alojara uma série de hóspedes ilustres, inclusive presidentes e membros da realeza. A maioria gostava de Nova Orleans, pois, em seguida ao acolhimento inicial, a cidade apresentava certo tipo de respeito pela vida particular de seus visitantes, inclusive quaisquer indiscrições. Menos importantes do que chefes de estado, embora também ilustres a seu modo, eram os atuais inquilinos do apartamento, o Duque e Duquesa de Croydon e mais sua comitiva, composta de secretário, a camareira da Duquesa e cinco cachorros terrier Bedlington.

No lado externo das portas com forro duplo de couro e decoradas com flôres-de-lis douradas, Peter Mcdermott apertou o botão de madrepérola e ouviu a cigarra tocar no interior, acompanhada por um coro mais audível de latidos. Enquanto esperava; relembrou o que sabia sôbre os Croydons.

O Duque de Croydon, herdeiro de antiga família, se adaptara à época com instintivo interêsse pelas coisas comuns. Naqueles últimos dez anos, ajudado por sua Duquesa, que era conhecida figura pública e prima da Rainha, tornara-se embaixador itinerante e eficiente solucionador de problemas para o govêrno britânico. Em tempos mais recentes, entretanto, tinham surgido boatos de que a carreira do Duque atingira um ponto crítico, talvez porque seus modos se haviam tornado um pouco comuns demais em certos setores, notadamente o das bebidas alcoólicas e das mulheres alheias. Havia outras informações, no entanto, que afirmavam que a sombra sôbre êle era reduzida e temporária e que a Duquesa dominava a situação. Em abono dessa segunda opinião, existiam previsões de que o Duque de Croydon poderia brevemente ser nomeado Embaixador Britânico em Washington.

Atrás de Peter uma voz murmurou:

- Desculpe-me, Sr. Mcdermott, mas posso falar-Lhe um instante?

Voltando-se ràpidamente, reconheceu Sol Natehez, um dos mais idosos boys, que viera sem ruído pelo corredor. Era um homem magro e cadavérico numa jaqueta branca bem curta, orlada de vermelho e dourada, as côres do hotel. O cabelo lustroso estava penteado para a frente, num topête à antiga, os olhos estavam vermelhos e lacrimejantes e as veias no dorso das mãos, que esfregava nervosamente, pareciam cordas sobrepostas à carne.

- Que deseja, Sol?

Revelando agitação na voz, o camareiro respondeu:

- Acho que veio investigar a reclamação. a reclamação a meu respeito.

McDermott voltou a examinar as portas. Não tinham ainda sido abertas e, a não ser pelos latidos, não havia qualquer ruído no interior.

- Conte-me o que houve.

O boy engoliu em sêco duas vêzes e, sem responder à pergunta, disse em sussurro suplicante:

- Se eu perder êste emprêgo, Sr. McDermott, será difícil encontrar outro, na minha idade.

Olhou o apartamento Presidencial, revelando na expressão uma mistura de ansiedade e ressentimento.

- Eles não são ruins de se servir. a não ser esta noite. Querem muita coisa, mas nunca me incomodei, embora não dêem gorjetas.

Peter sorriu sem querer. Raramente a nobreza britânica dava gorjetas, talvez supondo que o privilégio de servi-la constituía recompensa suficiente.

- Você ainda não me disse. - retrucou.

- Vou dizer, Sr. McDermott.

Partindo de alguém com idade bastante para ser avô de Peter, a perturbação demonstrada pelo velho mostrava-se quase embaraçosa. Ele prosseguiu:

- Foi há cêrca de meia hora. Pediam o jantar bem tarde. Queriam ostras, champanha, camarões à creole.

- O menu não tem importância. O que aconteceu?

- Foram os camarões, Sr: McDermott. Quando estava servindo. Bem, foi uma coisa que em todos êsses anos aconteceu muito raramente.

- Pelo amor de Deus! - Peter olhava as portas do apartamento, pronto a interromper a conversa no momento em que fôssem abertas.

- Sim, sr. McDermott. Quando estava servindo os camarões, a Duquesa se levantou e, ao voltar, empurrou meu braço. Se eu não achasse impossível, diria que fêz isso de propósito.

- Isso é absurdo!

- Sei disso, Sr. McDermott. Mas o que aconteceu foi que a calça do Duque ficou manchada, e juro que foi uma manchinha bem pequena.

- E só por isso fizeram a reclamação? - perguntou Peter em tom de dúvida.

- Sr. McDermott, eu juro que nada mais houve Mas pelo barulho que a Duquesa fêz, parecia que eu acabara de assassinar uma pessoa. Pedi desculpas, apanhei um guardanapo limpo e água para tirar a mancha, mas não adiantou. Ela insistiu em falar com o Sr. Trent.

- Ele não está no hotel.

Peter resolveu ouvir a outra versão do incidente antes de formar opinião sôbre o caso. Enquanto isso, achou melhor adiar uma solução.

- Se já terminou por esta noite, é melhor ir para casa. Apresente-se amanhã e será informado da decisão.

Enquanto o camareiro se afastava McDermott apertou novamente o botão da cigarra. Mal tinham recomeçado os latidos quando a porta se abriu e surgiu o rosto redondo de um jovem usando pince-nez e que Peter reconheceu como o secretário dos Croydons.

Antes que qualquer dos dois pudesse dizer alguma coisa, no entanto, uma voz feminina se fêz ouvir do interior do apartamento:

- Seja quem fôr, diga que pare de tocar a cigarra. A despeito do tom peremptório, pensou Peter, era uma voz atraente, com rouquidão sugestiva que despertava o interêsse.

- Queira desculpar - disse ao secretário -, mas pensei que talvez não tivessem ouvido. Fui informado de que houve algum embaraço com nosso serviço e vim ver o que posso fa zer - acrescentou, depois de se apresentar.

- Estávamos esperando o Sr. Trent - respondeu o secretário.

- O Sr. Trent não virá ao hotel esta noite.

Enquanto falavam, tinham passado do corredor para o vestíbulo do apartamento, peça retangular decorada com bom gosto, com o chão forrado por tapête macio, duas cadeiras estofadas e mesinha de telefone por baixo de uma gravura de Nova Orleans antiga, da autoria de Morris Henry Hobbs. O vão de porta duplo, dando para o corredor, formava um dos extremos do retângulo e, no outro, a porta para a grande sala estava parcialmente aberta. A direita e esquerda havia dois outros vãos de porta, um dando para a cozinha embutida e outro para um conjunto de escritório com leito, que servia de sala de espera, usado pelo secretário dos Croydons. Os dois banheiros principais e interligados do apartamento podiam ser alcançados tanto pela cozinha quanto pela sala de estar, disposição calculada de modo que um visitante clandestino ao dormitório pudesse ter ingresso e saída pela cozinha, em caso de necessidade.

- E por que não o podem chamar?

A pergunta foi feita sem maiores preliminares enquanto se abria a porta da sala e surgia a Duquesa de Croydon, com três dos seus terriers Bedlington pulando entusiàsticamente atrás dela. Com um estalo rápido dos dedos instantâneamente obedecido, aquietou os cachorros e voltou o olhar para Peter, que lhe reconheceu o rosto simpático, de ossos malares altos e fácil de identificar graças a mais de mil fotografias vistas nas revistas e jornais. Mesmo em trajes comuns, observou, a Duquesa se apresentava magnificamente vestida.

- Com franqueza, eu não sabia que Vossa Graça desejava a presença do Sr. Trent, pessoalmente.

Ela o examinou, com os olhos entre cinzentos e verdes.

- Mesmo na ausência do Sr. Trent, era de esperar que viesse um dos administradores mais graduados.

Peter não conseguiu evitar o rubor: Havia na Duquesa de Croydon úma arrogância curiosa e, apesar de tudo, atraente. Uma cena passou por seu espírito. Vira numa revista ilustrada a fotografia da Duquesa montando um cavalo numa corrida de obstáculos. Sem dar atenção aos perigos, ela estivera segura e soberbamente no comando, e naquele momento Peter sentia a impressão de estar a pé, enquanto ela se apresentava a cavalo.

- Sou o subgerente. Por isso, vim pessoalmente. No olhar firme da Duquesa revelou-se um brilho de interêsse.

- Não é moço demais para o cargo?

- Atualmente muitos jovens estão ocupando cargos na administração dos hotéis - respondeu Peter, observando que o secretário já se retirara discretamente.

- Qual é a sua idade?

- Trinta e dois anos.

A Duquesa sorriu. Quando o resolvia fazer, como naquele momento, seu rosto tornava-se animado e acolhedor. Não era difícil, pensou Peter, perceber o famoso encanto. Ela era cinco ou seis anos mais velha do que êle, pelos seus cálculos, embora mais jovem do que o Duque, já próximo dos cinquenta. E surgiu nova pergunta:

- Vocês fazem um curso, ou coisa parecida?

- Tenho diploma da Universidade de Cornell, da Escola de Administração de Hotéis. Antes de vir para cá, fui subgerente do Waldorf.

Foi preciso fazer esforço para mencionar o Waldorf, e êle sentiu a tentação de acrescentar: "De onde fui despedido e posto na lista negra pelos hotéis de cadeia, de modo que tenho sorte em trabalhar aqui, num hotel independente. " Mas não diria isso, é claro, pois um inferno particular era coisa com que se vive sozinho, mesmo quando as perguntas casuais de outrem mexiam em feridas antigas.

- O Waldorf jamais toleraria um incidente como o desta noite - retrucou a Duquesa.

- Posso garantir que se fôr nossa a culpa o St. Gregory também não o tolerará.

A conversa parecia uma partida de tênis, com a bola indo de um para outro lado da quadra, e cabia-lhe esperar que voltasse para seu lado.

- Claro Que foi! Sabe que o seu empregado derramou um prato em cima de meu marido?

O exagêro era tão grande que Peter tentou imaginar o motivo. O incidente era também incomum, pois até então as relações entre o hotel e os Croydons haviam sido excelentes.

- Fui informado do acidente devido provàvelmente à falta de cuidado e estou aqui para apresentar desculpas em nome do hotel.

- Tôda a nossa noite foi arruinada - insistiu ela. Meu marido e eu tínhamos resolvido passar uma noite tranquila aqui, em nosso apartamento, sòzinhos. Saímos apenas por alguns instantes, para dar uma volta pelo quarteirão, e voltamos para jantar. e acontece isso!

Peter assentiu, demonstrando externamente concordância, mas intrigado com a atitude da Duquesa. Parecia Que ela desejava chamar-lhe a atenção para o incidente, de modo que êle não o pudesse esquecer.

- Talvez, se eu puder apresentar as nossas desculpas ao DuQue - sugeriu êle.

- Isso não será preciso - retorquiu a Duquesa. Peter já se ia retirar, quando a porta que dava para a sala, que até então, estava entreaberta, se abriu de todo, surgindo por ela o Duque de Croydon.

Em contraste com a Duquesa, estava vestido sem qualQuer apuro, com uma camisa branca amarrotada e calças de traje a rigor. Instintivamente, Peter McDermott procurou a mancha com os olhos. Encontrou-a logo, embora fôsse minúscula e coisa que uma camareira poderia ter removido instantâneamente. Por trás do Duque, na espaçosa sala de estar, via-se um aparelho de televisão ligado.

O rosto do Duque parecia corado e com mais rugas do que mostravam algumas de suas fotografias mais reCentes. Trazia um copo na mão e quando falou sua voz se mostrou embaralhada.

- Oh, desculpe.

E depois, falando com a Duquesa:

- Querida, devo ter deixado os cigarros no carro.

Ela respondeu com rispidez:

- Vou providenciar.

Em sua voz havia uma ordem, e com um aceno da cabeça o Duque voltou para a sala. Era uma cena curiosa e incômoda e, por algum motivo, fizera aumentar a raiva da Duqueza, que se voltou para Peter e disse incisivamente:

- Insisto em que seja feito um relatório completo ao Sr. Trent. Poderá informar também que desejo receber desculpas pessoais.

Perplexo ainda, Peter se retirou enquanto a porta do apartamento se fechava atrás dele, com firmeza. Mas não lhe foi dado mais tempo para refletir. No corredor, o carregador que acompanhara Christine ao décimo-quarto andar estava esperando, e lhe disse com expressão de urgência:

- Sr. McDermott, a Srta. Francis deseja vê-lo no 1439 e, por favor, vá depressa!

Cêrca de 15 minutos antes, depois que Peter McDermott deixara o elevador a caminho do Apartamento Presidencial, o boy sorrira para Christine, perguntando:

- Vai trabalhar um pouco como detetive, Srta. Francis?

- Se o detetive da casa estivesse presente - respondeu ela -, isso não seria preciso.

Jimmy Duckworth, o boy, homem calvo e atarracado

cujo filho trabalhava na contabilidade do St. Gregory, murmurou em tom de desprêzo:

- Ah, o Sr. Ogilvie...

Poucos momentos depois, o elevador chegava ao décimoquarto andar.

- no 1439, Jimmy - disse Christine, e ambos se voltaram automàticamente para a direita. Existia uma diferença, percebeu ela, no modo pelo qual os dois conheciam a geografia do hotel; êle, em virtude dos muitos anos em que levara hóspedes da portaria para os quartos, e ela, graças a uma série de quadros mentais que o conhecimento das plantas de cada andar no St. Gregory lhe proporcionara.

Enquanto caminhavam, ela pensava se cinco anos antes quando, se alguém na Universidade de Wisconsin perguntasse o que Christine Francis, então com 20anos e boa aluna; com facilidade para idiomas modernos, estaria fazendo daí a cinco anos, nem a hipótese mais absurda poderia indicar que estaria trabalhando num hotel de Nova Orleans. Naquela época, seu conhecimento da cidade era superficial e seu interêsse por ela menor ainda. Na escola, aprendera que a Luisiana fôra comprada aos franceses e assistira no teatro à peça Uma Rua Chamada Pecado, que se passara na cidade.

De certo modo, pensava agora, fôra essa falta de conhecimento que a levara a Nova Orleans. Depois do acidente sofrido no Wisconsin, atordoada e apenas com resquícios de raciocínio, procurara um lugar onde pudesse ser desconhecida e que fôsse também desconhecido dela. Nas coisas conhecidas o contato, a visão e o som se haviam tornado dolorosos, magoavam-lhe o coração durante o dia e invadiam-lhe o sono.

Estranho como fôsse; e às vêzes sentia-se envergonhada por

isso, não tinha pesadelos, mas apenas a procissão firme dos

acontecimentos como se haviam desenrolado naquele dia pavoroso no aeroporto de Madison. Estivera lá para se despedir da família que partia para a Europa, sua mãe alegre e animada usando a orquidea enviada por uma amiga com votos de boa viagem, o pai tranquilo e ciente de que, durante um mês, as doenças reais e imaginárias de seus clientes iriam dar preocupação a outro médico. Fumava um cachimbo, que esvaziou batendo na sola do sapato quando anunciaram o avião. Babs, a irmã mais velha, abraçara Christine e mesmo Tony, dois anos mais novo e inimigo de gestos afetivos em público, permitira que ela o beijasse.

- Até logo, Presunto! - tinham gritado Babs e Tony já a caminho do aeroplano, e Christine sorrira do apelido bobo e carinhoso pelo qual a chamavam, por estar sempre no meio do sanduíche formado pelos três.

Tinham prometido escrever, embora ela pensasse em ir juntar-se a êles em Paris duas semanas depois, quando terminasse o período escolar. No momento final, a mãe a abraçara com fôrça e lhe recomendara cuidado. Poucos minutos depois o grande avião deslizava e decolava com fragor, majestosamente, embora mal atingisse o fim da pista onde tombou, uma das asas para baixo, tornando-se um objeto que girava às cambalhotas, depois uma nuvem de poeira, em seguida uma fogueira e, finalmente, uma pilha de destroços, máquinas e o que restava de carne humana.

Isso fôra cinco anos antes. Poucas semanas depois, Christine partira de Wisconsin e não regressara mais.

Os seus próprios passos e os do carregador eram abafados no corredor atapetado e um pouco à sua frente Jimmy Duckworth comentou:

- Quarto 1439. o cavalheiro idoso, o Sr. Wells. Nós o tiramos de um quarto de canto há poucos dias.

À frente dêles, na extremidade do corredor, abriu-se uma porta e saiu um homem bem vestido, com seus 40 anos. Fechando a porta atrás de si e quase pondo a chave no bolso, êle hesitou, olhando Christine com franco interêsse. Já ia dizer alguma coisa, mas o boy acenou negativamente com a cabeça, de modo quase imperceptível. Christine, que não perdera um só gesto, achou que talvez devesse sentir-se lisonjeada, tendo sido tomada por uma das pequenas que são chamadas para divertir hóspedes. A julgar pelos boatos, a lista de que Herbie Chandler se valia para êsse fim incluía participantes encantadoras. Depois de passarem pelo homem, ela perguntou:

- Por que mudaram o quarto do Sr. Wells?

- Pelo que ouvi, Srta. Francis, alguém ficou com o 1439 e criou um caso, de modo que a solução encontrada foi fazer a troca dos hóspedes.

Ela se lembrou então do 1439 pois já recebera outras queixas. Ficava ao lado do elevador de serviço e parecia o ponto de encontro de todos os canos da instalação interna do hotel. O resultado era ser barulhento e insuportàvelmente quente. Todos os hotéis tinham um quarto assim, que em geral só era alugado quando todos os outros estivessem tomados.

- Se o Sr. Wells tinha quarto melhor, por quelhe pediram que saísse?

O boy deu de ombros.

- Será melhor perguntar aos empregados da portaria.

- Mas você sabe o motivo - insistiu ela.

- Bem, talvez porque ele nunca reclame. O velho ten vindo a êste hotel anos a fio e nunca deu um estrilho. Há quem pense que se trata de uma brincadeira.

Christin comprimiu raivosamente os lábios, enquanto Jimmy Duckworth prosseguia:

- No refeitório, ouvi dizer que dão ao velho aquela mesa perto da porta da cozinha, que ninguém quer. Dizem que êle não se incomoda.

Com pensamentos sombrios, Christine sabia que alguém ia se incomodar no dia seguinte, ela podia garantir. Sabendo que um hóspede habitual, além disso homem sossegado e gentil, fôra tão maltratado, sentiu-se furiosa. Pois bem, seu gênio não era desconhecido do pessoal do hotel e havia quem dissesse que combinava com seu cabelo ruivo. Embora se contivesse quase sempre, de vez em quando conseguia corrigir certas coisas.

Passaram por um canto do corredor e pararam diante do 1439. O boy bateu à porta e êles esperaram. Não houve qualquer ruído e Jimmy Duckworth bateu de novo, com mais fôrça, e logo veio a resposta, um gemido estranho iniciado num sussurro, aumentando e depois terminando tão repentinamente como começara.

- Use a chave-mestra - disse Christine. - Arbra a porta, depressa!

Recuou enquanto o boy entrava. Mesmo numa crise, os hotéis têm regras de decôro a obedecer. O quarto estava às escuras. Ela viu Duckworth acender a luz e desaparecer atrás

de um canto. Quase em seguida, êle a chamou:

- Srta. Francis, é melhor vir aqui.

O quarto estava muito quente e abafado, embora o aparelho de ar condicionado estivesse ligado no "frio". Mas foi tudo quanto pôde ver, antes de notar a figura no leito, debatendo-se entre sentada e deitada. Era o homenzinho, parecido com um pássaro, que ela conhecia como Álbert Wels. O rosto estava cinzento, os olhos esbugalhados e os lábios trêmulos. Tentava desesperadamente respirar, quase sem conseguir.

Ela se aproximou da cama. Vira uma vez no consultório do pai um doente em agonia, que lutava procurando respirar. O pai tomara sertas medidas, então, que ela não podia tomar naquele momento, mas lembrava-se de uma coisa e ordenou a Duckworth:

- Abra aquela janela. Precisamos de ar. Os olhos do carregador estavam fixos no rosto do homem Que se debatia, e êle respondeu nervosamente:

- A janela está calafetada, por causa do condicionamento de ar.

- Pois force-a, e se fôr preciso quebre o vidro. Já apanhara o telefone ao lado da cama e quando a telefonista respondeu Christine se identificou:

- Aquí é a Srta. Francis. O Dr. Aarons está no hotel?

- Não, mas deixou o telefone. Se é uma emergência, posso chamá-lo.

- É emergência, sim. Diga-lhe que estamos no quarto 1439 e que venha depressa, por favor. Pergunte em quanto tempo poderá estar aqui e me avise.

Desligando o aparelho, voltou-se para a figura que se debatia no leito. O homem idoso e frágil não respirava melhor do que antes e Christine notou que o rosto, cinzento poucos instantes antes, se tornava azulado. As últimas fôrças do velho esgotavam-se naquele esforço físico desesperado de respirar.

- Sr. Wells, acho que poderia respirar mais fàcilmente se ficasse imóvel - disse ela, tentando transmitir uma confiança Que estava longe de sentir.

Observou que o boy estava conseguindo abrir a janela, usando um cabide para partir o fecho e começando a suspender lentamente a parte inferior do vidro.

Como resposta às palavras de Christine, o homenzínho parou de se debater. Trajava uma camisola de flanela antiga e ela arregassou o braço em volta de seus ombros, sentindo-Lhe os ossos contra o tecido bruto. Puxando travesseiros, arrumou-os para trás, de modo que o homem pudesse recostar-se sentado. Os oLhos dêle estavam presos aos seus, e Christine os achou parecidos com os de um cão, percebendo que ten tavam exprimir gratidão. Disse-Lhe, em tom reconfortante:

- Mandei chamar um médico, que chegará a qualquer instante.

Enquanto dizia isso, o boy abriu a janela e logo uma lufada de ar fresco invadiu o quarto. A tempestade marchara mesmo para o sul, pensou Christine com satisfação; à frente do temporal vinha aquela brisa refrescante e lá fora a temperatura devia estar mais baixa do que nos últimos dias. Na cama, Albert Wells arquejava, aspirando ansiosamente o ar renovado, e o telefone tocou. Fazendo sinal ao carregador para que tomasse seu lugar ao lado do doente, ela atendeu.

- O Dr. Aarons está a caminho, Srta. Francis - avisou a telefonista. - Estava no Paradis e pediu para avisar que chegará ao hotel em vinte minutos.

Christine hesitou, pois o Paradis era do outro lado do Mississippi, além de Algiers. Mesmo que o médico viajasse com rapidez, vinte minutos eram um cálculo otimista. Além disso, às vêzes ela duvidava da competência daquele Dr. Aarons, corpulento e bebedor de Sazerac, médico do hotel onde residia gratuitamente em troca dos seus serviços numa ocasião como aquela.

- Não sei se poderemos esperar tanto - disse à telefonista. - Por favor, veja em nossa lista de hóspedes se há algum médico hospedado aqui.

- Já fiz isso - respondeu a telefonista, com certo tom de presunção, como se tivesse lido histórias sôbre a eficiência das telefonistas e resolvesse reproduzi-las. - Há um Dr. Koe Zig no 221 e o Dr. Uxbridge no 1203.

Christine anotou os números num bloco de papel ao lado do telefone.

- Pois bem, ligue para o 221, por favor.

Os médicos que se hospedavam em hotéis esperavam ter tranquilidade e tinham direito a ela, mas de quando em vez a emergência justificava que se quebrasse o protocolo.

A campainha tocou, e em seguida uma voz de sono e sotaque alemão atendeu.

- Pronto. Quem é?

Christine se identificou e passou a explicar:

- Desculpe incomodá-lo, Dr. Koenig, mas um de nossos hóspedes está gravemente doente. O Sr. poderia atendê-lo? acrescentou, olhando para o Sr. Wells e observando que naquele momento o azulado de seu rosto desaparecera, mas que continuava a palidez acinzentada, bem como a respiração difícil.

Seguiu-se um instante de silêncio e depois veio a resposta, em tom suave e amistoso:

- Minha cara senhorita, ficaria felicíssimo de poder ajudá-la. No entanto, é impossível - prosseguiu o Dr. Koenig.

- Sou doutor, mas em Música, e estou aqui, em sua bela cidade, para reger um concêrto da ótima orquestra sinfônica daqui.

A despeito da urgência do assunto, Christine teve vontade de rir. Pediu desculpas; então:

- Desculpe tê-lo incomodado.

- Faça o favor de não se preocupar com isso. Está claro que se meu pobre companheiro de hotel chegar. como direi? a um ponto além daquele em que os outros tipos de doutores podem ajudar, poderei levar meu violino e tocar para êle.

O Dr Koenig deu um profundo suspiro e concluiu, dizendo:

- Que modo mais belo existe de morrer; do que ouvindo um adágio de Vivaldi ou Tartini, magnificamente executado?

- Obrigada. Espero que. isso não seja preciso - disse Christine, já impaciente para fazer o telefonema seguinte.

O Dr. Uxbridge no 1203 atendeu o telefone imediatamente e em seu tom de voz não havia qualquer galhofa. Em resposta à primeira pergunta feita por Christine, respondeu:

- Sim, sou doutor em medicina, médico interno. Ouviu em silêncio enquanto ela descrevia o caso, e depois adiantou sucintamente:

- Estarei aí em poucos minutos.

O boy estava ainda ao lado da cama e Christine falou com êle:

- O Sr. McDermott está no Apartamento Presidencial. Vá até lá e assim que êle estiver livre, diga-lhe que venha depressa.

Novamente ao telefone, pediu ligação para o chefe dos maquinistas do hotel. Felizmente, a presença do mesmo era quase certa, pois Doc Vickery, solteirão residente no St. Gregory, tinha como sua maior paixão o equipamento mecânico do hotel, dos alicerces ao telhado. Havia um quarto de século, desde que abandonara o mar e sua Clydeside natal, supervisionava a instalação da maior parte daquele equipamento.

Era muito amigo de Christine. Em poucos instantes, ouviu-se o seu sotaque escocês:

- Sim?

Com poucas palavras, Christine narrou os fatos sôbre Wells.

- O médico ainda não chegou, mas provàvelmente vai querer mais oxigênio para o doente. Temos um conjunto portátil no hotel, não é?

- Sim, temos tambores de oxigênio, Chris, mas só os usamos para soldar.

- Oxigênio é oxigênio - redarguiu ela, relembrando ago ra algumas coisas ditas por seu pai em ocasião semelhante.

- Não faz mal o tipo de tambor. Pode dizer a alguém de sua turma noturna para mandar o que fôr preciso?

O maQuinista-chefe concordou resmungando:

- Posso, e logo que me vestir irei também, senão algun idiota pode abrir um tanque de acetilen no nariz do homem e acabar com êle.

- Depressa, por favor! - pediu ela, desligando e voltando-se para a cama.

O hóspede tinha os olhos fechados e, tendo parado de debater-se, parecia não respirar mais. Bateram de leve à porta e apareceu um homem alto e magro. O rosto era ossudo e A cabeleira grisalha nas têmporas. O terno azul-escuro conservador que trajava não encobria de todo o pijama bege sôbre o qual fôra vestido.

- Tebrídge - anunciou lacônicamente em voz calma e firme.

- Doutor, neste mesmo instante. - respondeu Christine.

O recém-chegado acenou com a cabeça e extraiu ràpi damente um estetoscópio da maleta que deposittara na cama. Sem perder tempo, auscultou o peito e costas do homem durante alguns instantes. Em seguida, voltou a mexer na maleta e com movimentos eficientes retirou de lá uma seringa, adaptou o êmbolo e quebrou uma pequena ampola. Inclinou-se sôbre a cama e suspendeu a manga da camisola, torcendo-a de modo a formar torniquete improvisado e pedindo a Christine:

- Mantenha isso no lugar e aperte.

Com algodão molhado em álcool limpou o antebraço acima duma veia e espetou a agulha, voltando-se então para o torniquete:

- Pode soltar agora.

Consultando o relógio de pulso, começou a injetar lentamente o líquido. Christine se voltouy encarando-o, e sem desviar o olhar êle informou:

- Aminofilina. Deve estimular o coração.

O médico consultou novamente o relógio, mantendo a dosagem gradual. A seringa estava pela metade e não surgira ainda qualquer reação do doente.

- O que houve com ele? - perguntou Christine em sussurro.

- Bronquite aguda, complicada com asma. Desconfio que êle jà teve ataques assim.

De repente, o peito do doente arfou e, em seguida, êle respirou, mais devagar do que antes, mas em ritmo amplo e com maior desafogo. Os olhos se abriram.

Diminuíra a tensão reinante no quarto. O médico retirou a seringa e começou a desmontá-la.

- Sr. Wells! - disse Christine. - Sr. Wells, está-me ouvindo?

O velho respondeu com uma série de acenos afirmativos da cabeça e com os olhos fitos nela.

- O Sr. estava muito mal quando o encontramos, Sr. Wells. Este é o Dr. Uxbridge, hóspede do hotel e que veio atendê-lo.

O doente volveu os olhos para o médico e depois, com esfôrço, proferiu duas palavras:

- Muito obrigado.

Parecia mais um sussurro, mas eram as suas primeiras palavras e seu rosto começava a retomar alguma côr.

- Se há alguém a quem deve agradecer, é esta môça - respondeu o médico, com sorriso calmo nos lábios apertados.

- Ainda precisa de cuidados médicos - acrescentou, dirigindo-se a Christine. - Aconselho a transferência imediata para um hospital.

- Não! Não! Não quero! - interveio o homem, rápida e ansiosamente.

Chegara o corpo um pouco à frente, desencostando-se dos travesseiros, com expressão alerta e mãos erguidas por baixo das cobertas, onde Christine as pusera. A modificação no seu estado, operada em poucos minutos, era notável. Respirava ainda com dificuldade, e de vez em quando com esfôrço, mas o acesso agudo desaparecera.

Pela primeira vez Christine teve oportunidade de examinar-lhe a aparência. Julgara antes que o Sr. Wells tinha pouco mais de 60 anos, mas agora revia o cálculo e acrescentava mais uns dez. O corpo era frágil e a pequena estatura, conjugada com os traços finos e acentuados, e mais certa inclinação para a frente criavam a semelhança com um pardal, que o distinguia. O cabelo do Sr. Wells, ou melhor, o que de cabelo lhe deixara o tempo, era penteado em feixes esparsos e grisalhos, embora no momento despenteados e empastados de suor. O rosto parecia gentil e inofensivo, mas Christine desconfiava de que houvesse no fundo uma tranquiila determinação.

Vira Albert Wells pela primeira vez dois anos antes, quando êle aparecera timidamente no conjunto administrativo do hotel, preocupado com uma diferença em sua conta e que não conseguira acertar no escritório em frente. A quantia em jôgo, ela se lembrava, era de 75 cents, e embora o caixa propusesse cancelá-la, como acontecia no caso dos hóspedes discordarem em relação a pequenas quantias, Albert Wells queria provar que não fizera a despesa. Depois de esmiuçar com paciência, Christine verificara que o homem tinha razão, e como ela própria sentia impulsos de parcimônia nos gastos - embora alternados com a extravagância feminina - simpatizara com êle e respeitara-lhe a atitude. Deduzira também, com base na conta do Sr. Wells onde estavam registradas despesas modestas e nas roupas òbviamente compradas prontas, que se tratava de homem de recursos modestos, talvez um aposentado, cujas visitas anuais a Nova Orleans constituíssem pontos altos de sua vida.

- Não gosto de hospitais - dizia êle. - Jamais gostei dêles.

- Se ficar aqui - objetou o médico - precisará de cuidados médicos e de uma enfermeira permanente. Na verdade, devia receber oxigênio intermitentemente.

- O hotel conseguirá a enfermeira - insistiu o homenzinho. - Podem fazer isso, não é, Srta.? - perguntou a Christine.

- Creio que sim.

O desagrado de Albert Wells pelos hospitais se tornava claro, pois naquele momento sobrepujava até a sua norma costumeira de não incomodar os outros. Ela imaginava, no entanto, se êle fazia idéia de quanto custava uma enfermeira particular.

Houve uma interrupção, com a chegada de um mecânico de macacão, que empurrava um cilindro de oxigênio num carrinho e acompanhádo pela figura troncuda do chefe das máquinas, que trazia um tubo de borracha, arames e uma bôlsa plástica.

- Não é como no hospital, Chris - disse êle -, mas acho que dará certo.

Vestira-se apressadamente e envergava um velho paletó enxadrezado e calças largas. Trazia a camisa desabotoada. Os pés estavam enfiados em chinelos e sob a cabeça calva estavam os óculos de armação grossa, apoiados como de costume na ponta do nariz. Usando o arame, estava arrumando uma ligação entre o tubo de borracha e a bôlsa plástica, e ao ver o outro mecânico parar, hesitante, deu-lhe as instruções necessárias:

- Ponha o tambor ao lado da cama, rapaz. Se não andar mais ligeiro, é porque você também precisa de oxigênio.

O Dr. Uxbridge parecia surprêso, e Christine explicou-lhe sua idéia inicial de que o oxigênio poderia ser necessário, apresentando-Lhe o maquinista-chefe. Com as mãos ainda ocupadas, êste cumprimentou o apresentado com aceno da cabeça, olhando-o um instante por sôbre os óculos. Momentos depois, com o tubo ligado, anunciou:

- Essas bôlsas de plástico já sufocaram bastante gente e não há motivo pelo qual uma delas deixe de fazer o contrário. Acha que isso resolve, doutor?

Desaparecera no Dr. Uxbridge parte de sua frieza anterior, e êle respondeu:

- Acho que resolverá muito bem. Este hotel parece ter gente altamente competente - acrescentou, dirigindo o olhar a Christine.

Ela riu e respondeu:

- Espere até o dia em que fizermos confusão com o seu pedido de reservas. Nesse dia, o Sr. mudará de impressão. O médico voltou à cama e falou com o doente:

- O oxigênio o fará sentir-se melhor, Sr. Wells. Calculo que já tenha tido antes essa dificuldade bronquial.

Albert Wells confirmou com aceno da cabeça e respondeu guturalmente:

- Arranjei a bronquite quando era mineiro, Depois veio a asma. Sinto muito tudo isso, Srta. – acrescentou olhando para Christine.

- Também eu sinto, mas principalmente porque o seu quarto foi mudado.

O chefe das máquinas ligara o extremo livre do tubo ao cilindro pintado de verde e o Dr. Uxbridge o orientou:

- Vamos começar com cinco minutos de ozigênio e cinco sem êle.

Juntaram esforços para improvisar a máscara e adaptá-la ao rosto do doente e um silvo firme indicou que o oxigênio fôra ligado. O médico consultou o relógio e depois perguntou:

- Mandaram chamar um médico do luar?

Christine explicou as providências tomadas para chamar o Dr. Aarons e o Dr. UFbridge as aprovou.

- Ele se encarregará do caso quando chegar. Sou do Illinois e não tenho licença para clinicar na Luisiana. Sente-se melhor? - perguntou, debruçando-se sobre Albert Wells.

Por trás da máscara, o homem bateu com a cabeça.

Ouviram-se passos firmes no corredor e Peter McDermott chegou.

- Recebi seu recado - disse a Christine. - Ele vai ficar bom?

- Acho que sim, embora acredite que devamos uma satisfação ao Sr. Wells.

Fazendo sinal a Peter para que a acompanhasse, descreveu no corredor a troca de quartos de que Lhe falara o carregador, e ao ver Peter franzir o rosto, acrescentou:

- Se êle vai ficar, devemos dar-lhe outro quarto. Acho que podemos arranjar uma enfermeira sem maiores dificuldades.

Peter concordou e dirigiu-se ao telefone interno, no quarto de empregada em frente, pedindo que o ligassem com a portaria do hotel.

- Estou no décimo-quarto - disse ao encarregado que atendeu. - Há algum quarto vazio neste andar?

A pausa seguinte se prolongou. Oencarregado noturno dos quartos era empregado antigo, designado por Warren Trent múitos anos antes e com um modo autocrático de trabalhar que poucas pessoas se atreviam a discutir. Também fizera sentir a Peter McDermott, em duas oportunidades, que não gostava dos novatos, em especial quando eram mais jovens do que êle seus superiores procedentes do norte do país.

32

- E então? - perguntou Peter. - Há ou não um quarto vago?

- Tenho o 1410 - respondeu o encarregado com seu melhor sotaque sulino -, mas vou dá-lo a um cavalheiro que acaba de chegar. Caso o Sr. não saiba - acrescentou -, estamos quase com a lotação completa.

O 1410 era um quarto de que Peter se lembrava, espaçoso, areado e de frente para a avenida St. Charles.

- Se eu ocupar o 1410, poderá encontrar outra acomodação para o recém-chegado?

- Não, Sr. McDermott. Tenho apenas um pequeno apartamento no quinto andar e o freguês não quer pagar diária maior.

Peter falou novamente e com firmeza:

- Mande o hóspede para o apartamento, com diária de quarto, por esta noite. Ele poderá ser transferido amanhã. Enquanto isso, vou usar o 1410 numa transferência do hóspede do 1439. Faça o favor de mandar trazer a chave agora mesmo.

- Um momento, Sr. McDermott! - Antes, a voz do encarregado fôra indiferente, mas agora era abertamente trucúlenta. - Sempre foi orientação do Sr. Trent.

- No momento, estamos falando da minha orientação - retorquiu Peter. - E outra coisa: antes de ir para casa deixe aviso para os encarregados diurnos, no sentido de que amanhã quero saber por que o Sr. Wells foi transferido do quarto que ocupava para o 1439, e pode adiantar que o motivo precisa ser muito bom.

Ao desligar o telefone, sorriu para Christine.

- Você deve estar louco - protestou a Duquesa de Croydon. - Completa e inteiramente louco.

Ela regressara à sala de estar do Apartamento Presidencial, logo após a saída de Peter McDermott, que fechara cuidadosamente a porta. O Duque se mostrou inquieto, como acontecia sempre que começavam as repreensões da espôsa.

- Desculpe, querida. A televisão estava ligada, não pude ouvir o sujeito. Pensei que êle já tivesse saído. Além disso, devido a tudo mais estou perturbadíssimo - acrescentou, tomando um grande gole do uísque com soda que segurava com mão incerta.

- Desculpas! Perturbação! - Havia uma nota estranha de nervosismo na voz da espôsa. - Você faz a coisa parecer um jôgo, como se o que houve esta noite não pudesse ser a ruína.

- Não pense nisso. Sei que é muito sério. Sério demais.

- Afundado desconsoladamente numa poltrona de couro, parecia um dêsses tipos humanos que os caricaturistas inglêses gostam tanto de desenhar. A Duquesa prosseguiu, em tom acusador:

- Eu estava fazendo o possível, o melhor que se podia fazer; depois de sua loucura incrível, a fim de tornar patente que passamos, ambos, uma noite sossegada no hotel. Inventei até um passeio para justificar uma saída, caso alguém nos tenha visto entrar. E nisso vem você, estùpidamente, idiotamente, anunciar que deixou os cigarros no carro.

- Só uma pessoa ouviu, o tal gerente. Ele não vai reparar.

- Pois reparou! Eu estava observando o rosto dêle. Fêz uma pausa, para manter o contrôle com grande esfôrço, e prosseguiu:

- Você faz idéia da trapalhada horrível em que estamos?

- Já disse que sim - respondeu o Duque, esvaziando o copo. - Estou envergonhadíssimo, também. Se você não me tivesse convencido. Se eu não estivesse tonto.

- Você estava bêbado! Estava bêbado quando encontrei e ainda está!

Ele sacudiu a cabeça, como se quisesse clarear as idéias.

- Estou bem, agora.

Chegara a sua vez de reclamar.

- Você tinha de me seguir, de intrometer-se. Não podia deixar.

- Isso não tem importância. O que interessa é a outra coisa.

- Você me persuadiu. - repetiu êle.

- Nada podíamos fazer, nada! E havia possibilidade melhor, como resolvi.

- Não tenho certeza. Se a polícia conseguir apanhar.

- Teriam de suspeitar de nós, primeiro. Foi por isso que criei aquêle caso com o garçom e não desisti. Não é um alibi, mas é quase isso. Ficou gravado na memória dêles que estivemos aqui hoje. ou teríamos estado, se você não desmanchasse tudo. Tenho vontade de chorar.

- Seria interessante ver isso - respondeu êle. - Não pensava que fôsse bastante mulher para isso.

Sentou-se aprumado na poltrona. Desaparecera nêle o ar submisso, ou em grande parte. Era uma qualidade de camaleão com que confundia às vêzes os seus conhecidos, fazendo-os duvidar de qual fôsse realmente a sua personalidade.

A Duquesa corou, o que lhe aumentava a beleza de estátua.

- Não será preciso.

- Talvez não.

Erguendo-se, o Duque se dirigiu a uma mesa lateral, onde se serviu de outra forte dose de uísque, acompanhada de curto jato de soda, e de costas para ela comentou:

- Ainda assim, reconheçamos que isso está na raiz de quase tôdas as nossas dificuldades.

- Não reconheço coisa alguma nesse particular. Os seus hábitos talvez estejam, mas não os meus. Ir àquele antro horrível de jogo esta noite foi loucura, e aquela mulher.

- Você já tratou disso - interrompeu êle, em tom cansado. - Exaustivamente. Em nosso caminho de volta. Antes de acontecer.

- Não percebi que as minhas palavras lhe houvessem entrado na cabeça.

- As suas palavras, querida, penetram na neblina mais espêssa. Eu tento torná-las impenetráveis. Até agora, não consegui.

O Duque de Croydon tomou um gole do copo que enchera e perguntou:

- Por que se casou comigo?

- Acho que foi principalmente porque você se apresen tava em nosso círculo como alguém que estava fazendo alguma coisa de valor. O povo dizia que a aristocracia estava acabada e você parecia provar o contrário.

Ele ergueu o copo; examinando-o como se fôsse uma bola de cristal.

- Não estou provando isso agora, hem?

- Se parece estar, é porque eu o ajudo.

- Washington?

- Poderíamos conseguir - respondeu ela - se conseguisse fazê-lo ficar sem beber e em sua cama.

- Ah! - exclamou o marido numa risada sem calor.

- E que cama fria!

- Já disse que isso não é necessário.

- Já tentou descobrir por que eu me casei com você?

- Tenho algumas opiniões.

- Vou dizer qual foi a razão mais importante - retrucou êle, bebendo outro gole, como para criar coragem e acrescentando roucamente: - Queria você naquela cama. Depressa, legalmente. Sabia que era o único modo de o conseguir.

- Para mim, é surprêsa ter-se dado ao trabalho, com tantas outras para escolher, antes e depois.

Ele a fitava com olhos vermelhos.

- Eu não queria outras. Queria você. Ainda Quero.

- Basta! - retrucou ela. - Já está passando dos limites.

Ele sacudiu a cabeça.

- Há uma coisa que deve ouvir. Seu orgulho, minha cara. Magnífico! Selvagem! Sempre me atraiu. Não queria quebrá-lo. Queria partilhá-lo. você deitada, apaixonada, trêmula.

- Pare! Pare com isso! Seu. seu devasso! O rosto da Duquesa perdera toda a cór e sua voz era estridente.

- Não me importa se a polícia o apanhar! Espero que apanhe! Espero que o condenem a dez anos!

Depois da discussão rápida com a portaria, Peter Mcdermott atravessou novamente o corredor do décimo- quarto andar, dirigindo-se ao quarto 1439.

- Se o Dr. aprovar - disse a Uxbridge - transferiremos o doente para outro quarto neste andar.

O médico alto e magro, que atendera ao chamado de emergência feito por Christine, concordou com um aceno e olhou em volta do pequeno quarto com a sua profusão de canos de aquecimento e água.

- Qualquer mudança só poderá ser para melhor. Enquanto o médico regressava ao leito do doente, a fim de dar-lhe de novo oxigênio, Christine relembrou a Peter:

- Precisamos agora de uma enfermeira.

- Deixemos o Dr. Aaroos tratar disso - retorquiu êle, e acrescentando como se estivesse pensando em voz alta: O hotel terá de assumir o compromisso, de modo que seremos responsáveis pelo pagamento. Acha que seu amigo Wells poderá pagar-nos?

Haviam regressado ao corredor, falando em voz baixa.

- Estou preocupada com isso. Não creio que êle tenha muito dinheiro.

Peter observou que quando Christine se concentrava em pensamentos seu nariz se torcia de modo encantador. Sentia tambén a sua proximidade e um perfume suave.

- Ora, bem - disse êle. - A despesa não será superior às nossas fôrças. Vamos deixar que o departamento de crédito examine o caso.

Quando a chave chegou, Christine foi à frente abrir o novo quarto, o 1410, e regressou anunciando Que estava pronto.

- O melhor é trocar as camas - disse Peter aos demais. - Vamos empurrar esta para o 1410 e trazer de lá a outra.

Mas descobriram que a cama não passava pela porta, por questão de centímetros.

Albert Wells, respirando bem melhor e com boa côr, se ofereceu:

- Sempre andei, e posso andar mais um pouco agora. O Dr. Uxbridge, no entanto, sacudiu negativamente a cabeça e o mecânico verificou a diferença de medidas entre a cama e a porta, dizendo ao doente:

- Vou tirar a porta das dobradiças e o Sr. poderá passar, como uma rôlha na garrafa.

- Nada disso - interveio Peter. - Há um processo mais rápido, se o Sr. Wells concordar.

O velho sorriu e concordou. Peter debruçou-se, pôs-lhe um cobertor em volta dos ombros e o apanhou no colo.

- Você tem braços fortes, filho - comentou o doente. Peter sorriu, e como se estivesse carregando uma criança, marchou pelo corredor até o outro quarto.

Quinze minutos depois, tudo funcionava perfeitamente. O equipamento de oxigênio fôra transferido, embora seu uso se mostrasse menos urgente, porque o sistema de condicionamento de ar no quarto maior não precisava competir com canos quentes e o ar era mais suáve. O médico residente, Dr. Aarons, chegara com seu corpanzil e jovialidade, cheirando fortemente a burbom. Aceitou com entusiasmo a oferta do seu colega Uxbridge, de aparecer no dia seguinte para uma conferência e aceitou com presteza a sugestão posterior, de que a cortisona poderia impedir o reaparecimento do acesso. Uma enfermeira particular, a quem o Dr. Aarons telefonou com voz afetuosa ("ótimas notícias, minha cara! Vamos trabalhar juntos novamente! "), já estava a caminho.

Quando o mecânico e o Dr. Uxbridge se retiraram, Albert Wells dormia tranquilamente. Seguindo Christine ao corredor, Peter fechou a porta com cuidado deixando no quarto o Dr. Aarons que, à espera de sua enfermeira, andava de um para outro lado cantando em pianissimo a ária do Toureador da Carmen: O trinco se fechou, cortando a maviosa serenata. Faltava um quarto para a meia- noite.

Dirigindo-se ao elevador, Christine comentou:

- Estou satisfeita de que o tenhamos deixado ficar no hotel.

Peter demonstrou surprêsa.

- E por que não iríamos deixar?

- Alguns hotéis não o permitiriam. Você sabe como é: ninguém quer incomodar-se. Só desejam é que os hóspedes entrem, saiam e paguem as contas.

- São fábricas de salsichas. Um hotel de verdade deve prestar hospitalidade e ajuda, se o hóspede precisar. Os meLhores hotéis começaram assim. Infelizmente, muita gente que trabalha nisso já se esqueceu.

- Você acha que nós também nos esquecemos, aqui?

- perguntou ela, com expressão de curiosidade.

- Esquecemos, sim, pelo menos, na maior parte do tempo. Se eu pudesse agir, teríamos muitas modificações aqui.

Calou-se, embaraçado com o seu entusiasmo, e depois acrescentou em outro tom:

- Não ligue para isso. Quase sempre guardo êsses pensamentos de traição para mim mesmo.

- Pois não devia guardar, e sim sentir vergonha de escondê-los.

Oculto em suas palavras estava o conhecimento de que o Sr. Gregory era mesmo ineficiente em muitas coisas e, em anos recentes, vivera às custas de suas antigas glórias. Também era verdade que estavam atravessando uma crise financeira que poderia forçar mudanças drásticas, quer Warren Trent, seu dono, as aprovasse, quer não.

- Não adianta bater com a cabeça na parede - objetou Peter. - W. T. não gosta de idéias novas.

- Isso não é motivo para desistir.

- Você até parece mulher - retrucou êle, com uma risada.

- E sou!

- Sei disso. Comecei a reparar.

Estava dizendo a verdade, pensou êle. Na maior parte do tempo, desde que chegara ao St. Gregory e ficára conhecendo Christine, êle a aceitara sem maior exame, mas ùltimamente se via cada vez mais ciente do quanto ela era atraente e amável Que iria Christine fazer naquele resto de noite? Peter arriscou a pergunta:

- Até agora não jantei, com tudo quanto aconteceu. Se quiser jantar comigo a esta hora.

- Adoro jantar tarde - respondeu Christine. Já no elevador, êle lhe disse:

- Há mais uma coisa para verificar. Mandei Herbie Chandler investigar o caso no décimo-primeiro andar, mas não confio nêle. Depois disso, estarei pronto. Você pode esperar por mim na sobreloja? - perguntou, tomando-lhe a mão e apertando-a de leve.

Eram mãos surpreendentemente suaves para alguém que poderia ser desajeitado, devido à estatura. Christine olhou de esguelha o perfil enérgico, de queixo proeminente. Era um rosto interessante, onde havia uma decisão que, provocada, poderia se tornar obstinação. Ela percebeu um comêço de interêsse e concordou:

- Está bem, vou esperar.

Marsha Preyscott estava profundamente arrependida de não ter festejado o seu décimo-nono aniversário de outro modo ou, pelo menos, de não ter ficado no baile da sociedade estudantil Alpha Kappa Epsilon, no andar do hotel destinado às convenções. O ruído do baile, amortecido pela distância, entrava pela janela do apartamento, aberta à fôrça pelos rapazes, poucos minutos antes, quando o calor, a fumaça de cigarros e o cheiro de bebidas alcoólicas no quarto apinhado de gente se tinham tornado opressivos, mesmo para aquêles cuja perceção de tais detalhes se embotava ràpidamente.

Fôra um êrro vir ao apartamento, mas como sempre sua rebeldia a levara a procurar alguma coisa diferente, como lhe prometera Lyle Dumaire; aquêle Lyle seu conhecido de muitos anos, com quem já saíra algumas vêzes e cujo pai era presidente de um banco da cidade e. amigo íntimo de seu pai. Lyle Lhe dissera, enquanto dançavam no baile:

- Isto é coisa para crianças, Marsha. Alguns colegas alugaram um apartamento e temos ido lá para cima quase tôda a noite. Está animadíssimo - disse com uma tentativa de risada, que falhou.

Logo depois, perguntou diretamente:

- Por que não vem comigo?

Sem refletir, ela aceitara o convite. Tinham deixado o baile, subindo para o apartamento 1126-7, pequeno e repleto de gente, onde mergulharam no ar viciado e na balbúrdia geral. Havia mais gente do que esperara e o fato de alguns ra pazes estarem bem alcoolizados era coisa com que não contara.

Diversas môças estavam presentes, quase tôdas suas conhecidas mas nenhuma sua amiga íntima. Conversou um pouco com elas, embora fôsse difícil ouvir ou ser ouvida, e uma nada dissera: chamava-se Sue Phillipe e parecia ter desmaiado. O seu par, um rapaz de Baton Rouge, derramou água sôbre a môça, usando para isso um sapato que ia encher de água no banheiro e transformando o vestido de organdi côr-de-rosa de Sue em verdadeiro trapo encharcado.

Os rapazes receberam Marsha efusivamente, embora voltassem quase em seguida ao bar, improvisado sôbre um armário de vidro que tinham virado de lado, e alguém em cuja identidade Marsha não reparara lhe pusera desajeitadamente um copo na mão.

Era evidente que alguma coisa estava acontecendo no quarto contíguo, cuja porta continuava fechada, embora um grupo de rapazes aos quais se juntara Lyle Dumaire, deixando Marsha sòzinha, estivesse ali reunido. Ouviu fragmentos da conversa, inclusive perguntarem "Como foi a coisa?", mas a resposta se

perdeu no meio de risadas gerais.

Quando alguns outros comentários a fizeram compreender o que estava acontecendo, ou pelo menos desconfiar do que podia ser, sentira vontade de se retirar. Até a grande e abandonada mansão no Garden District era preferível, a despeito de Marsha não gostar de ficar ali quase sòzinha, tendo apenas a companhia dos empregados, quando seu pai se ausentava. Ele já estava seis semanas ausente, e continuaria longe de casa pelo menos mais duas.

A lembrança do pai a fêz recordar também que se êle houvesse regressado como prometera, ela não estaria ali, nem teria ido ao baile estudantil. Ao invés disso, fariam uma festa de aniversário, promovida por Mark Preyscott com as suas maneiras joviais e a presença de rapazes e môças, que teriam deixado de ir ao baile da Alpha Kappa Epsilon se recebessem convite para ir à casa de Marsha. Mas o pai não voltara e, ao invés disso, telefonara de Roma, desculpando-se como sempre.

- Marsha, querida, fiz o que pude, mas não consegui. Tenho o que fazer aqui mais duas ou três semanas, mas quando voltar, compensarei tudo isso.

Perguntara se Marsha queria ir fazer uma visita à mãe e ao marido mais recente desta em Los Angeles. A filha rejeitara a oferta sem hesitação e, êle msistira:

- Bem, de qualquer modo, parabéns! Vou mandar uma coisa para você, e acho que vai gostar.

Marsha tivera vontade de chorar, ouvindo-lhe a voz, mas não o fizera porque havia muito aprendera a dominar-se. Não adiantava investigar o motivo pelo qual o dono de uma grande loja de departamentos em Nova Orleans, com um batalhão de empregados graduados e muito bem pagos, deveria estar mais inflexivelmente prêso aos negócios do que um mensageiro. Talvez houvesse outras coisas em Roma sôbre as quais êle nada diria, assim como ela jamais Lhe contaria o que acontecia naquele mesmo instante, no quarto 1126.

Quando resolvera ir-se embora, colocara o copo no peitoril da janela e percebera que lá embaixo estavam tocando Stardust Nessa altura da noite, a orquestra sempre passava para os antigos números sentimentais, principalmente se o regente da banda fôsse Mozie Buchanan, com seus All-Star Southern Gentlemen, conjunto presente em quase tôdas as reuniões sociais distintas do St. Gregory. Ainda que ela já não tivesse estado no baile, reconheceria o arranjo musical, os metais aparecendo com calor e doçura, mas ainda assim dominando, o que era a marca de Buchanan.

Hesitante na janela, Marsha pensou em voltar ao baile, embora soubesse como estaria a coisa a essa altura, os rapazes cada vez com mais calor nos trajes a rigor, alguns ajeitando os colarinhos incômodos, rapazelhos que preferiam estar em mangas de camisa e calça de vaqueiro e as môças indo com frequência ao banheiro, trocando confidências lá dentro, em meio a risadinhas. Tudo conforme ela via, parecia um grupo de crianças vestidas para um espetáculo teatral. A mocidade era monótona, principalmente em vista da presença de gente da mesma idade. Havia momentos - como aquêle - em que ela desejava companhia mais madura.

Não encontraria isso em Lyle Dumaire, a quem podia ver no grupo perto da porta do outro quarto, com o rosto afogueado, a camisa engomada já enrugada e a gravata desfeita. Marsha não sabia por que o levara a sério, como acontecera durante algum tempo.

Já outros estavam começando a deixar o apartamento, no que parecia ser uma retirada geral. Um dos rapazes mais velhos, chamado Stanley Dizon, saiu do outro quarto. Enquanto indicava com a cabeça a porta cuidadosamente fechada por êle, Marsha ouviu algumas palavras:

- As pequenas já vão. dizem que basta. com mêdo.

- Disse que não devíamos fazer tudo isso - retrucou alguém.

- E por que não alguém daqui? - perguntou Lyle Dumaire com voz muito menos controlada do que antes.

- Sim, mas quem?

Os olhares do pequeno grupo percorreram o quarto. Diversos amigos de Sue Phillipe, a môça que desmaiara, tentavam fazê-la ficar de pé e não conseguiam. Um dêles, mais firme, pediu com voz preocupada:

- Marsha! Sue está muito mal. Você pode ajudar-nos? Marsha se deteve, relutante, olhando a môça que abrira os olhos e se inclinava para trás, o rosto infantil sujo de batom, muito pálido e de bôca mole. Resignadamente, Marsha respondeu:

- Ajudem-me a levá-la para o banheiro.

Três rapazes a levantaram e a môça embriagada começou a chorar. No banheiro, um dêles pareceu inclinado a entrar, mas Marsha fechou a porta com firmeza e a trancou por dentro. Voltou-se para Sue Phillipe, que se examinava no espelho com uma expressão de horror. Pelo menos, pensou Marsha com satisfação, o choque fizera Sue voltar a si.

- Não se preocupe tanto assim - observou à companheira. - Dizem que isso precisa acontecer uma vez a todos nós.

- Oh, céus! Minha mãe vai-me matar!

As palavras saíram num gemido e Sue se precipitou para o vaso sanitário, a fim de vomitar. Sentada na beira da banheira, Marsha disse em tom prático:

- Depois disso, você vai sentir-se melhor. Quando terminar, lavarei seu rosto e poderemos tentar nova maquilagem.

Ainda de cabeça baixa sôbre o vaso, a outra môça concordou, desanimada. Passaram-se dez ou quinze minutos até que saíssem do banheiro. O apartamento estava quase vazio, embora Lyle Dumaire e seus colegas ainda confabulassem. Se Lyle pretendesse acompanhá-la, pensou Marsha, seria repelido. Além dêles, só estava presente o rapaz que lhe pedira que ajudasse Sue, que explicou nervosamente:

- Conseguimos que uma amiga leve Sue para casa, onde ela poderá passar a noite. - Segurou a môça pelo braço e Sue o acompanhou obedientemente. Voltando a cabeça para trás, o rapaz acrescentou: - Temos um carro esperando. Muito obrigado, Marsha!

Com alívio, viu-os sair e já estava apanhando o xale, que abandonara para ajudar Sue Phillipe, quando ouviu fechar-se a porta da frente. Stanley Dixon estava de pé à frente, com as mãos para trás e Marsha ouviu a fechadura girar suavemente.

- Eh, Marsha! - disse Lyle Dumaire. - Que pressa é essa?

Marsha conhecia Lyle desde a infância, mas agora percebia uma diferença. Ali estava um ente inteiramente estranho, um fanfarrão bêbado. Respondeu lacônicamente:

- Vou para casa.

- Ora! Seja camarada e tome alguma coisa - disse êle, caminhando em sua direção com passos trôpegos.

- Não, obrigada.

- Você vai ser camarada, não vai? - insistiu êle, como se não tivesse ouvido.

- E em particular - acrescentou Dixon, com sua voz anasalada e expressão lúbrica. - Alguns aqui já se divertiram, e estão querendo mais.

Os outros dois, cujos nomes ela ignorava, estavam rindo. Marsha retorquiu com azedume:

- Não estou interessada no que querem.

Embora sua voz fôsse firme, podia perceber uma nota de mêdo. Dirigiu-se para a porta, mas Dixon sacudiu negativamente a cabeça.

- Por favor - disse ela. - Deixe- me ir.

- Escute, Marsha - vociferou Lyle. - Nós sabemos que você quer.

Soltou uma risada rouca e prosseguiu:

- Tôdas as pequenas querem. Elas nunca dizem "não" com o coração. O que dizem é para chegar e conseguir. Não é, pessoal? - perguntou aos outros.

- A coisa é assim mesmo - respondeu o terceiro. preciso chegar lá e conseguir.

Começaram a aproximar-se de Marsha e ela girou nos calcanhares.

- Estou avisando: se me tocarem, eu gritarei.

- Seria uma pena fazer isso - murmurou Stanley Dixon. - Poderia deixar de se divertir.

Repentinamente, sem parecer se mover, estava atrás dela, tapando-lhe a bôca com a mão grande e suada, e segurando-lhe os braços num arrôcho, com a outra. Sua cabeça estava encostada à dela e o cheiro de álcool sufocava Marsha. Ela lutou e tentou morder a mão que Lhe tapava a bôca, mas não conseguiu.

- Escute, Marsha - disse Lyle, com o rosto contorcido pela expressão idiota. - Você vai ganhar, de modo que é melhor desfrutar a coisa. o que dizem sempre, não é? Se Stan soltar você, promete não fazer barulho?

Ela sacudiu a cabeça em negativa furiosa. Um dos outros lhe segurou o braço e disse:

- Vamos, Marsha! Lyle diz que você é camarada. Por Que não prova isso?

Agora ela se debatia desesperadamente, mas não adiantava, pois não a soltavam. Lyle prendera-lhe o outro braço e estavam empurrando-a para o quarto ao lado.

- Diabo! - bradou Dixon. - Segurem os pés dela!

O outro rapaz avançou e Marsha tentou dar pontapés, mas só conseguiu foi perder os sapatos de salto alto. Sentindo- se num mundo irreal, Marsha viu que estava sendo carregada pela porta do quarto.

- a última vez - avisou Lyle, em quem desaparecera o verniz de bom-humor. - Vai cooperar ou não?

A resposta de Marsha foi debater-se com mais violência ainda.

- Tirem a roupa dela - disse alguém.

Outra voz, talvez a de quem lhe segurava os pés, perguntou com hesitação:

- Será que devemos fazer isso?

- Não se preocupe - respondeu Lyle Dumaire. – Não vai acontecer coisa alguma. O pai dela está com as mulheres em Roma.

Havia duas camas de solteiro no quarto e resistindo como podia Marsha foi levada à mais próxima. Momentos depois estava deitada, e alguém lhe apertava a cabeça contra o colchão, cruelmente, de modo que tudo quanto podia ver era o teto, que já fôra branco mas agora estava cinzento, e ornamentado no centro, onde brilhava o globo da lâmpada, coberto de poeira e com mancha amarelada ao lado.

De repente a luz se apagou, mas restava a claridade de outra lâmpada acesa no quarto. Dixon mudara de posição enquanto a segurava, e estava meio sentado no leito, perto da cabeça de Marsha, mas a firmeza com que lhe segurava o corpo e tapava a bôca continuava inflexível. Marsha sentiu outras mãos, e foi tomada pelo histerismo. Contorcendo-se, tentou dar pontapés, mas prenderam-lhe as pernas. Quis rolar para o lado e ouviu o ruído feito pelo seu vestido Balenciaga ao rasgar -se.

- Eu sou o primeiro - disse Stanley Dixon. – Tomem conta aqui.

Marsha ouvia a respiração ofegante do rapaz. Passos foram dados no tapete em volta à cama, e suas pernas estavam ainda bem prêsas, mas a mão de Dixon em seu rosto se mexia e outra vinha substituí-la. Era uma oportunidade, e quando a outra mão veio, Marsha mordeu com tôda a fôrça, sentindo os dentes entrarem pela carne e chegarem aos ossos. Houve um grito de dor e a mão se retirou. Enchendo os pulmões, ela gritou, três vêzes e terminou com o brado desesperado:

- Socorro! Socorro!

Seus gritos foram cortados pela mão de Stanley Dixon que voltou com violência a lhe tapar a bôca, fazendo-a ficar tonta, enquanto rosnava:

- Idiota! Imbecil!

- Ela me mordeu! - Respondeu o outro, soluçando de dor. - Essa vaca mordeu minha mão!

- Queria que ela beijasse? - perguntou Dixon em tom selvagem. - Agora vamos ter todo o maldito hotel em cima de nós!

- Vamos dar o fora daqui - sugeriu Lyle Dumaire.

- Cale-se! - ordenou Dixon.

Ficaram todos em silêncio, escutando, e depois Dixon acrescentou baixinho:

- Não há qualquer ruído. Acho que ninguém escutou.

Era verdade, pensou Marsha em desespêro. As lágrimas lhe toldaram a visão, e ela parecia não ter mais fôrças para lutar.

Ouviu-se alguém bater na porta externa; três pancadas firmes e decididas.

- Santo Deus! - exclamou o terceiro rapaz. – Alguém escutou. Ah, Cristo! Minha mão! - acrescentou gemendo.

- Que vamos fazer? - perguntou o quarto rapaz, nervosamente.

Bateram outra vez, desta feita com mais fôrça, e depois de uma pausa alguém disse lá fora:

- Abram a porta; por favor. Ouvi alguém pedir socorro.

A voz revelava um sotaque sulino suave. Lyle Dumaire sussurrou:

- É um só. Está sòzinho. Talvez possamos enganá-lo.

- Vale a pena - retorquiu Dixon. - Eu vou atender.

Segurem a pequena e não cometam enganos desta vez – disse aos outros.

A mão na bôca de Marsha foi mudada ràpidamente e outro Lhe segurou o corpo. Uma chave girou na fechadura e a porta se abriu em parte, rangendo um pouco. Como se estivesse surpreendido, Stanley Dixon soltou uma interjeição:

- Oh!

- Desculpe-me, cavalheiro. Sou empregado do hotel - era a voz que tinham ouvido pouco antes. - Estava passando por aqui e ouvi alguém gritar.

- Passando por aqui, é? - retorquiu Dixon com estranha hostilidade na voz. - Pois bem, obrigado, mas foi apenas minha espôsa, que teve um pesadelo. Ela se deitou antes de mim, e está bem, agora - acrescentou, como se tivesse resolvido ser mais diplomático.

- Bem. - o outro parecia hesitar. - Se tem certeza de que não houve nada...

- Absolutamente nada - respondeu Dixon. - É uma dessas coisas que acontecem de vez em quando.

O tom de voz era convincente, e êle parecia dono da situação. Num momento, percebeu Marsha, a porta se fecharia. Como relaxara o corpo e percebera que a pressão em seu rosto diminuíra, preparou-se para o esfôrço final. Contorcendo o corpo para o lado, destapou a bôca por momentos.

- Socorro! Não acredite nêle! Salve-me!

Novamente lhe taparam a bôca, com violência, e lá fora houve uma conversa mais ríspida.

- Por favor, deixe-me entrar - disse o nôvo personagem.

- Este quarto é particular. Já lhe disse que minha espôsa está com pesadelos.

- Desculpe, cavalheiro, mas não acredito no Sr.

- Pois bem - retrucou Dixon. - Entre.

Como se não quisessem ser vistas, as mãos que tolhiam Marsha se afastaram dela, e com isso a môça rolou, pondo-se parcialmente de pé, voltada para a porta, por onde entrava um negro ainda jovem. Devia ter uns vinte anos, tinha rosto inteligente e estava bem trajado, com o cabelo dividido e cuida dosamente escovado. Compreendeu a situação no mesmo instante, e disse azedamente:

- Deixem a môça em paz.

- Vejam, rapazes! - exclamou Dixon. - Vejam quem está dando ordens!

Marsha percebeu vagamente que a porta para o corredor estava ainda entreaberta.

- Pois bem, negrinho - rosnou Dixon. - A culpa é sua!

Ergueu o punho direito com destreza e todo o vigor dos ombros largos, no golpe que teria derrubado o negro se acertasse o alvo. Num só movimento, porém, ágil como um passo de ballet, o outro se esquivou e o braço estendido passou sôbre sua cabeça, enquanto Dixon tropeçava para a frente. No mesmo instante, o punho esquerdo do negro subiu e atingiu o rosto do agressor num golpe duro e surdo.

Em algum ponto do corredor, outra porta se abriu e fechou. De mão no queixo, Dizon exclamou:

- Patife! Em cima dêle! - disse aos outros. Apenas o rapaz a quem Marsha mordera se manteve onde estava. Como num impulso único, os outros três se atiraram sôbre o negro e, diante do assalto combinado, êle caiu. Marsha ouviu o som de golpes e, no lado de fora do apartamento, o murmúrio crescente de vozes no corredor.

Os rapazes ouviram, também e Lyle Dumaire insistiu:

- A casa está vindo abaixo. Eu disse que devíamos sair daqui.

Houve uma corrida para a porta, encabeçada pelo rapaz que não participara na luta, e Marsha ouviu Stanley Dixon parar e dizer a alguém:

- Houve uma briga, e vamos buscar socorro. O jovem negro levantava-se do chão, com o rosto sangrando. Lá fora, outra voz se sobrepôs às outras, com tom de autoridade:

- Onde é o barulho, por favor?

- Houve gritos e luta - disse uma mulher, em tom sobreexcitado. - Foi ali.

- Já fiz queixa há muito tempo - resmungou outra - e ninguém tomou providências.

A porta se escancarou e Marsha entreviu os rostos lá fora, querendo olhar, e um vulto alto e dominante, entrando no quarto. Depois, a porta foi fechada por dentro e ligada a luz do teto.

Peter McDermott percorreu o quarto desarrumado com o olhar, e perguntou:

- O que houve aqui?

Marsha estremecia em soluços. Tentara ficar de pé, e caiu de volta na cabeceira da cama, reunindo à sua frente os farrapos

do vestido. Entre soluços, seus lábios pronunciaram palavras:

- Tentaram. abusar.

A expressão de Mcdermott se modificou, tornou-se dura. Voltou o olhar para o jovem negro que ainda se apoiava na parede e usava um lenço para fazer parar o sangue no rosto.

- Royce! - e os olhos de McDermott fuzilaram.

- Não! Não! - quase incoerente, Marsha interveio. Não foi êle! Ele veio socorrer-me!

Fechou os olhos, doente, pensando que ia assistir a novas violências. O jovem negro se pôs firmemente de pé, e abaixando o lenço zombou:

- Por que não continua, Sr. Mcdermott? Vamos, bata! Sempre poderá dizer, mais tarde, que se enganou.

- Já cometi um êrro, Royce, e peço desculpas - retorquiu Peter, sêcamente.

Não suportava Aloysius Royce, Que combinava em si o papel de boy pessoal do dono do hotel, Warren Trent, e o de estudante de Direito na Universidade Ucla. Anos antes, o pai de Royce, filho de escravos, fora empregado de hotel, companheiro constante e confidente de Warren Trent. Um quarto de século depois, Quando o velho falecera, seu filho Aloysius, nascido e criado no St. Gregory, continuara ali e vivia agora no apartamento particular do hoteleiro mediante acôrdo especial, pelo Qual entrava e saía conforme os seus estudos exigissem. Na opinião de Peter McDermott, entretanto, Royce era desnecessàriamente arrogante e soberbo, parecendo combinar a desconfiança de qualquer amizade que lhe fôsse oferecida a uma permanente hostilidade.

- Conte-me o que sabe - disse Peter.

- Eram quatro. Quatro jovens e educados cavalheiros brancos.

- Reconheceu algum?

- Dois dêles - respondeu Royce.

- É o bastante - disse Peter, dirigindo-se ao telefone próximo da cama.

- Que vai fazer?

- Chamar a polícia. Não podemos fazer outra coisa. O jovem negro exibiu um sorriso incompleto.

- Se quer um conselho, não faça isso.

- Porquê?

- Entre outros motivos - respondeu Aloysius Royce, carregando deliberadamente no sotaque -, eu teria de ser testemunha. E permita informar-Lhe, Sr. McDermott, que tribunal algum neste estado soberano de Luisiana vai aceitar a palavra de um negro, em caso de tentativa de estupro em mulher branca, ainda que ficasse na tentativa, principalmente. quando quatro destacados e jovens cavalheiros brancos afirmarem que o negro está mentindo. A Srta. Preyscott pode confirmar as declarações do prêto, mas duvido que o pai dela permita, levando em conta tudo quanto os jornais, etc poderiam dizer.

Peter largou o telefone.

- Há ocasiões - disse êle - em que parece que você quer tornar as coisas ainda mais difíceis do que são.

Mas sabia que Royce dissera a verdade, e seu olhar se voltou para Marsha.

- Você disse Srta. PreyScott?

- O pai dela é Mark Preyscott, não é assim, Srta? Marsha confirmou, com aparência desolada.

- Srta. Preyscott, conhecia os responsáveis pelo que aconteceu? - perguntou Peter.

A resposta afirmativa foi quase inaudível.

- São todos da Alpha Kappa Epsilon, pelo que seiacrescentou Royce.

- Isso é verdade, Srta. Preyscott? Ligeiro aceno afirmativo de cabeça.

- E a Srta. veio ter aqui, com êles, a êste apartamento? Nôvo sussurro.

- Sim.

Peter olhou-a pensativamente e afinal declarou:

- Cabe-lhe decidir, Srta. Preyscott, se vai apresentar queixa ou não. Seja qual fôr sua decisão, o hotel a apoiará, mas receio que haja muita verdade no que Royce acabou de dizer sôbre a publicidade. Certamente se formaria alguma, e não creio que fôsse agradável.

Depois de uma pausa, acrescentou:

- Certamente é coisa que seu pai deve resolver. Quer que telefone para êle e chame-o aqui?

Marsha ergueu a cabeça, encarando Peter pela primeira vez.

- Meu pai está em Roma. Não lhe conte o que houve, por favor! Nunca!

- Tenho a certeza de que se pode fazer alguma coisa em particular. Não acho que êles devam ficar impunes de todo - disse Peter, dando uma volta em tôrno da cama.

Ficou surprêso ao ver como ela era jovem e bonita.

- Há alguma coisa que deseje agora?

- Não sei. Não sei - respondeu ela, começando a chorar baixinho.

Em movimentos incertos, Peter tirou o lenço branco de linho que Marsha aceitou, enxugando as lágrimas e assoando o nariz.

- Sente-se melhor?

- Sim, obrigada.

Sentia-se agitadíssima, tomada por emoções como a mágoa, vergonha, raiva e desejo de lutar cegamente, quaisquer que fôssem as consequências e também o de ser envôlta por braços amorosos e protetores, coisa que a experiência lhe dizia não ser possível. Acima das emoções, no entanto, havia uma exaustão física esmagadora.

- Acho que deve descansar um pouco - aconselhou Peter McDermott, revirando a coberta do leito que não fôra usado, e Marsha se enfiou ali, sôbre o lençol. O contato do rosto com o travesseiro era refrescante.

- Não quero ficar aqui. Não posso! - disse ela.

- Nesse caso, eu a levarei para casa daqui a pouco - respondeu êle, com sinal de compreensão.

- Não! Isto também não! Por favor, há algum outro lugar. no hotel?

- Não, acho que o hotel está lotado - respondeu Peter. Aloysius Royce fôra ao banheiro lavar o sangue do rosto, e já de volta, em pé no umbral do quarto contíguo, assobiou baixinho ao ver a desarrumação, móveis fora do lugar, cinzeiros cheios, garrafas derramadas e vidros partidos. Quando McDermott foi ter com êle, Royce observou:

- Parece ter sido uma festa e tanto.

- Parece, mesmo - respondeu Peter, fechando a porta de comunicação entre sala e quarto.

Marsha insistia no pedido:

- Deve haver outro lugar no hotel. Eu não conseguiria voltar para casa hoje.

- Há o 555, parece - disse Peter, olhando para Royce.

O quarto 555 era pequeno e era reservado para o subgerente do hotel. Raramente Peter o utilizava, a não ser para trocar de roupa.

- Serve para mim - adiantou Marsha - desde que alguém avise para minha casa. Peçam para falar com Ana, a governante.

- Se quiser, vou buscar a chave - ofereceu Royce. Peter concordou e acrescentou:

- Passe por lá quando estiver voltando. Apanhe um robe. Acho que devíamos chamar uma camareira.

- Se vai deixar que entre uma camareira aqui, neste instante, é melhor anunciar a coisa tôda pelo rádio.

Peter ficou pensando. A essa altura, nada impediria os comentários e mexericos, pois inevitàvelmente, quando êsse tipo de incidente se passava num hotel, a casa tôda funcionava como um telégrafo. Mas não adiantava acrescentar detalhes ao caso, e por isso decidiu:

- Muito bem, vamos nós mesmos levar a Srta. Preyscott no elevador de serviço.

Quando o jovem negro abriu a porta da frente, ouviram-se vozes e perguntas em tom agitado. Durante alguns momentos, Peter esquecera o grupo de hóspedes do lado de fora, mas seguiram-se as respostas de Royce tranquilizando todos, e o murmúrio cessou.

De olhos fechados, Marsha perguntou baixinho:

- Você ainda não disse quem é.

- Desculpe. Devia ter explicado.

Peter declinou o nome e a sua posição no hotel e Marsha ouviu sem responder, ciente do que êle dizia, mas deixando a voz reconfortante envolvê-la. Depois de algum tempo, ainda de olhos fechados, os seus pensamentos vaguearam dentro da sonolência. Mal percebeu que Aloysius Royce regressara, que a tinham ajudado a sair da cama e vestir o chambre e a acompanharam rápida e silenciosamente pelo corredor deserto. Depois do elevador, veio outro corredor, em seguida outra cama, onde se deitou. E então, a voz reconfortante afirmava:

- Ela está quase dormindo.

O ruído de água, uma voz dizendo que o banho estava pronto, e ela conseguiu ir até o banheiro, onde se trancou.

Encontrou ali um pijama, que depois vestiu. Era de homem, grande demais e azul-escuro. As mangas ultrapassavam-lhe as mãos e mesmo com o cano das calças dobrado para cima era difícil andar sem tropeçar.

Saiu do banheiro e ajudaram-na a deitar. Ajeitando-se nas cobertas de linho fresco, ouviu novamente a voz calma e reconfortante de Peter McDermott.

- Royce e eu vamos sair, Srta. Preyscott. A porta dêste quarto se fecha sòzinha e a chave está ao lado da cama. Ninguém a virá incomodar.

- Obrigada - murmurou ela. - De quem é êste pijama?

- Meu. É pena ser tão grande.

Tentou contestar com movimento da cabeça, mas o cansaço era demasiado.

- Não faz mal. bom.

Sentia-se satisfeita por ser dêle o pijama. Afinal, havia mesmo a sensação de ser abraçada.

- Bom. - repetiu baixinho.

Foi seu último pensamento, antes de dormir.

Peter esperou sozinho pelo elevador, no quinto andar. Aloysius Royce já levara o elevador de serviço ao décimoquinto, onde ficava o seu quarto, contíguo ao apartamento de Warren Trent.

Fôra uma noite agitada, pensou Peter, e tivera sua boa dose de coisas desagradáveis, embora não fôssem raras num grande hotel, onde havia tantas coisas assim que os empregados se habituavam.

Quando o elevador chegou, pediu ao ascensorista que o levasse à portaria, lembrando-se de que Christine o estava esperando na sobreloja. No entanto, em pouco tempo resolveria o que tinha de fazer no térreo. Impaciente, notou que embora as portas do elevador se fechassem o veículo não se movia. O cabineiro, um dos empregados noturnos, estava movimentando a chave de um para outro lado.

- Tem certeza de que as portas se fecharam de todo? perguntou Peter.

- Sim, Sr. O defeito não é êsse. Acho que são as ligações, no carro ou na casa de máquinas.

O homem olhou para o alto, onde ficava a maquinaria do elevador e acrescentou:

- Ultimamente êste carro tem dado bastante trabalho. O mecânico estêve examinando, há poucos dias.

Manobrou a chave vigorosamente, e com um salto o mecanismo funcionou e o elevador começou a descer.

- Que elevador é êste?

- O número quatro.

Peter guardou a informação, para consultar o mecânico sôbre o que se passava. Já passava um quarto da meia-noite, no relógio da portaria, quando saiu do elevador. Como acon tecia geralmente a essa hora, o movimento na portaria e vizinhanças se reduzia, mas havia ainda bom número de pessoas em tôrno e os sons de música vindos do Salão Anil revelavam que continuava a dança. Dirigiu-se à portaria, mas dera apenas alguns passos quando percebeu a aproximação de um vulto obeso e bamboleante. Era Ogilvie, o detetive-chefe do hotel, que não conseguira encontrar mais cedo. O rosto queixudo do ex-policial, que durante muitos anos servira à polícia de Nova Orleans sem qualquer brilho, era inexpressivo, embora os olhos miúdos estivessem bem atentos ao que se passava ao redor. Como sempre, vinha acompanhado do cheiro de charuto, artigo que trazia em série no bôlso de cima do paletó, como se fôssem torpedos de reserva.

- Disseram-me que está à minha procura - disse Ogilvie, em tom monótono, despreocupado.

- claro que estava. Onde se meteu?

- Estava trabalhando, Sr. McDermott - respondeu Ogilvie, que para seu corpanzil apresentava uma voz surpreendentemente fina. - Se quiser saber, estive na delegacia de polícia dando parte de um caso ocorrido aqui. Houve um roubo no depósito de bagagem.

- Delegacia de polícia! Em que quarto foi o pôquer? Os olhinhos brilharam de rancor.

- Se pensa assim, por que não investiga as coisas? Por que não fala com o Sr. Trent?

Peter suspirou resignadamente. Seria uma perda de tempo, já sabia. O alibi certamente era bom, e os amigos de Ogilvie na delegacia o apoiariam. Além disso, Warren Trent jamais agiria contra Ogilvie, que estava no St. Gregory havia tanto tempo quanto o próprio dono. Havia quem dissesse que o detetive sabia onde estavam enterrados um ou dois cadáveres e assim mantinha contrôle sôbre Warren Trent. De qualquer maneira, a posição de Ogilvie era inatacável.

- Pois bem, acontece que perdeu dois casos de emergência - retrucou Peter. - Mas já foram resolvidos.

Afinal, pensou êle, era muito bom que Ogilvie não estivesse presente, pois decerto não teria resolvido o caso de Albert Wells com tanta eficiência quanto Christine, nem agiria com tanta habilidade e humanidade no caso de Marsha Preyscott. Resolvendo tirá-lo do pensamento, Peter acenou ligeiramente e continuou a caminho da portaria.

O encarregado noturno a quem telefonara antes estava em sua mesa e Peter resolveu adotar uma atitude conciliatória, dizendo de modo agradável:

- Obrigado pela ajuda no problema do décimo-quarto andar. Instalamos o Sr. Wells confortàvelmente no 1410, o Dr. Aarons está providenciando uma enfermeira, e o mecânico arranjou oxigênio.

O encarregado, que ficara carrancudo à aproximação de Peter, mostrou-se mais descansado, e explicou:

- Não sabia que a coisa era tão grave.

- Acho que, por algum tempo, o homem estêve vai-nãovai e daí minha preocupação em levá-lo para o outro quarto.

O encarregado fêz sinal de aquiescência, e acrescentou:

- Nesse caso, não tenha dúvida de que vou fazer investigações. Pode estar certo disso.

- Também tivemos dificuldades no décimo-primeiro. Pode-me dizer em nome de quem está o 1126-7?

O outro examinou suas fichas, e destacou uma delas.

- Sr. Stanley Dixon.

- Dixon - era um dos nomes dados por Aloysius Royce quando tinham conversado ràpidamente, depois de deixarem Marsha.

- o filho do negociante de automóveis. O Sr. Dixon, pai, vem muitas vêzes ao hotel.

- Obrigado. É melhor registrar a saída dêle e mandar o caixa pôr a conta no correio.

Pensando melhor, decidiu outra coisa:

- Espere. Mande a conta para mim, amanhã, e prepararei uma carta. Haverá o pedido de pagamento dos prejuízos, depois de avaliarmos os estragos.

- Muito bem, Sr. McDermott - respondeu o homem, em quem a transformação de atitude fôra notável. - Vou falar com o caixa. O apartamento, então, já está vago?

- Está.

Não adiantava anunciar a presença de Marsha no 553 - resolveu êle, e talvez ela pudesse sair despercebidamente pela manhã. Lembrou-se de que prometera telefonar à casa dos Preyscotts, e com um "boa noite" amistoso ao encarregado atravessou a portaria em direção a uma mesa vaga, usada durante o dia por um dos subgerentes. Encontrou o enderêço de Mark Preyscott em Gurden District e discou o telefone. A campainha tocou algum tempo, até que uma sonolenta voz feminina atendeu. Depois de se identificar, Peter anunciou:

- Tenho um recado da Srta. Preyscott para Anna.

- É Anna quem fala - respondeu a voz, com forte sotaque sulino. - A Srta. Marsha está bem?

- Está, sim, mas pediu que lhe dissesse que vai passar a noite no hotel.

- Qual é, mesmo, o seu nome? - perguntou a governante.

Peter explicou, pacientemente, e depois acrescentou:

- Olhe, se quer identificar quem está chamando, telefone para cá? É do Hotel St. Gregory, e peça para falar com o subgerente, na portaria.

Evidentemente tranquilizada, a mulher concordou e em menos de um minuto estavam novamente em comunicação.

- Agora, sim - disse ela. - Já sei com certeza quem está falando. Nós nos preocupamos um pouco com a Srta. Marsha, ainda mais com o pai dela ausente.

Desligando o aparelho, Peter se viu novamente pensando em Marsha Preyscott, e resolveu falar com ela de manhã, para saber com certeza o que acontecera antes da tentativa de estupro. A desordem em que encontrara o apartamento, por exemplo, dava margem a algumas perguntas ainda sem explicação.

Percebeu que Herbie Chandler o estivera observando disfarçadamente, de sua mesa de chefe da portaria, e dirigindo-se a êle, Peter não usou de rodeios:

- Pensei que o tinha mandado investigar uma perturbação no décimo-primeiro.

A cara de fuinha de Chandler apresentou uma expressão de inocência.

- Mas eu fui, Sr. Mac! Passei bem em frente, e tudo estava quieto.

E era verdade, pensou Herbie. Afinal, êle fôra nervosamente ao décimo-primeiro andar e, com alívio, qualquer perturbação que ocorrera antes já terminara, quando chegou. Melhor ainda, ao regressar à portaria ficara sabendo que as duas peQuenas de sua lista, contratadas pelos hóspedes, tinham saído do hotel sem serem percebidas.

- Não deve ter olhado ou ouvido com muita atenção. Herbie Chandler sacudiu obstinadamente a cabeça.

- Fiz o que pediu, Sr Mac. Disse-me que subisse e eu subi, embora isso não seja nossa obrigação.

- Muito bem. - Embora o instinto Lhe dissesse que o chefe da portaria sabia mais do Que contava, Peter resolveu não insistir. - Vou fazer algumas verificações e talvez volte a falar-lhe no caso.

Ao atravessar novamente a portaria e entrar no elevador, sentiu que era observado tanto por Herbie Chandler quanto pelo detetive-chefe, Ogilvie. Desta vez, subiu apenas um andar, dirigindo-se à sobreloja.

Christine o aguardava em seu escritório. Tirara os sapatos e aconchegara os pés sob o corpo, na pultrona de couro que ocupara hora e meia antes. Tinha os olhos fechados e os pensamentos muito distantes, no tempo e no espaço.

- Não se case com gente de hotel! - disse êle. - A coisa nunca termina.

- Avisou ainda em tempo - respondeu ela. - Não lhe disse antes, mas estou atraída pelo novo ajudante do cozinheiro. Aquêle parecido com Hudson.

Esticou as pernas, procurando os sapatos.

- Mais dificuldades?

Ele riu, achando imensamente reconfortante a visão e a voz de Christine.

- Na maior parte, coisa dos outros. Contarei enquanto sairmos.

- Para onde?

- Para qualquer lugar fora do hotel. Nós dois já tivemos o bastante por hoje.

Christine examinou a questão.

- Podemos ir ao Quarteirão. Há muitos lugares ainda abertos, e se quiser vir à minha casa, sou um gênio em omeletes.

Peter ajudou-a a levantar-se e a guiou até à porta, onde desligou a luz.

- Uma omelete - disse êle - era justamente o que eu queria, e não sabia disso.

Andaram juntos, evitando as poças de água deixadas pela chuva, até o ponto de estacionamento, a quarteirão e meio de distância. O céu já clareava, depois do interlúdio de temporal, e uma lua crescente começava a irromper pelas nuvens, enquanto ao redor a cidade silenciava. Os únicos ruídos eram os de um táxi que passava de vez em quando, e o eco de seus passos, no desfiladeiro de edifícios às escuras.

Um sonolento vigia do pôsto de estacionamento levou o Volkswagen de Christine, e êles entraram, Peter ajeitando-se com cuidado para caber no assento à direita.

Pôs o braço no encôsto do banco, sem tocar nos ombros de Christine, e enquanto aguardavam o sinal na rua do Canal, um dos novos ônibus com ar condicionado passou deslizando pela alamêda em frente. Foi ela quem lembrou:

- Você ia contar o que aconteceu.

Peter franziu a testa levando os pensamentos de volta ao hotel e depois, em frases curtas, narrou o que sabia sôbre a tentativa de estupro de Marsha Preyscott. Christine ouvia em silêncio, dirigindo para o nordeste da cidade enquanto Peter falava, e concluía reproduzindo a sua conversa com Herbie Chandler e manifestando a sua suspeita de que o chefe da portaria sabia mais do que contava.

- Herbie sempre sabe mais do que diz. Por isso, está no hotel há tanto tempo.

- Ser veterano no hotel não é uma justificação absoluta

- atalhou Peter imediatamente.

O comentário, como ele e Christine sabiam, demonstrava sua impaciência quanto às ineficiências do hotel, e que não tinham autoridade para modificar. Em estabelecimento normalmente dirigido, com linhas claras de autoridade, não haveria tal problema, porém no St. Gregory boa parte da organização dependia de Warren Trent e das suas decisões muitas vêzes arbitrárias e caprichosas.

Em circunstâncias normais, Peter, que se diplomara com louvor na Escola de Administração de Hotéis da Universidade Cornell, teria resolvido procurar trabalho mais satisfatório em outro lugar. Mas as circunstâncias não eram normais. Chegara ao St. Gregory com uma pecha, que deveria permanecer prejudicando sua oportunidade de conseguir outro emprêgo por muito tempo ainda.

às vêzes, Peter pensava sombriamente no desastre que lhe transtornara a carreira, do qual ninguém mais, a não ser êle próprio e com seu franco reconhecimento disso, podia ser considerado culpado.

No Waldorf, onde se empregara depois de diplomar-se na Universidade Cornell, Peter McDermott era um jovem brilhante que parecia ter o futuro nas mãos. Como subgerente assistente, fôra escolhido para a promoção quando a má sorte e mais a indiscrição fizeram sua intervenção. Num momento em que devia estar trabalhando e precisavam dêle em outra parte do hotel, fôra descoberto em flagrante num quarto, deitado com uma hóspede.

Ainda assim, poderia tér escapado ao castigo, pois os rapazes simpáticos que trabalhavam em hotéis costumavam receber convites femininos e em algum ponto de sua carreira a maioria sucumbia à tentação. Cientes disso, os dirigentes de hotéis costumavam punir a transgressão com a advertência severa de que tal coisa não deveria acontecer de nôvo. Dois fatores, no entanto, conspiraram contra Peter. O marido, auxiliado por detetives particulares, estava presente ao flagrante, e disso resultara um emaranhado caso de divórcio, com a publicidade inevitável e detestada por todos os hotéis.

Como se tudo isso não bastasse, houve um castigo pessoal. Três anos antes do desastre no Waldorf, Peter McDermott se casara impulsivamente e pouco depois o casamento terminava em separação. Em certa medida, a solidão e a desilusão tinham sido causa do incidente no hotel, mas a despeito da causa e usando as provas já tornadas públicas, sua ex-espôsa recorrera vitoriosamente à justiça, conseguindo o divórcio.

O resultado final fôra a despedida com justa causa e sua imclusão na lista negra das principais cadeias de hotéis do país. A existência dessa lista era naturalmente negada, mas numa longa série de hotéis, a maioria dos quais filiados a uma cadeia, os pedidos de emprêgo de alguns elementos eram categòricamente rejeitados. Apenas no St. Gregory, hotel independente e sem filiações, conseguira emprêgo, com un salário que Warren Trent ajustara astutamente à situação desesperada de Peter.

Por êsse motivo, quando dissera poucos instantes antes que ser veterano no hotel não era uma justificação absoluta", fingira possuir uma independência que não existia, e desconfiava que Christine também sabia disso.

Peter observou enquanto ela dirigia o carro pela faixa estreita da rua Burgundy, ao lado do Quarteirão Francês e paralelamente ao rio Mississippi durante um quilômetro em direção ao sul. Christine diminuiu a marcha momentâneamente, evitando um grupo que vinha da rua Bourbon, mais povoada e claramente iluminada, a dois quarteirões de distância. Em seguida, declarou:

- Há uma coisa que deve saber. Curtis O'Keefe vai chegar amanhã.

Era o tipo de notícia que êle receava, mas assim mesmo esperava. Curtis O'Keefe era chefe de uma cadeia mundial de hotéis. Comprava novas casas assim como outroS homens escolhiam gravatas e lenços: Era claro, mesmo para os mal informados, que o aparecimento dêle no St. Gregory só podia significar uma coisa: o seu interêsse em comprar o hotel.

- Será para a compra? - perguntou Peter.

- Pode ser - respondeu ela. - W. T. não quer, mas pode ser que não tenha outro remédio.

Teve vontade de acrescentar que o que dissera era confidencial, mas não disse. Peter compreenderia isso, e quanto à presença de Curtis O'Keefe, essa notícia eletrizante logo percorreria o St. Gregory, na manhã seguinte, poucos minutos depois da chegada do grande personagem.

- em, acho que a coisa tinha de acontecer. Ele percebia, como outros membros da administração do hotel, que nos últimos meses o St. Gregory sofrera grandes prejuízos financeiros.

- Ainda assim, acho uma pena - acrescentou.

- A coisa não aconteceu ainda - relembrou Christine.

- Eu disse que W. T. não quer vender.

Peter bateu com a cabeça, sem falar. Estavam saindo do Quarteirão Francês, entrando à esquerda no bulevar e Avenida Esplanade, arborizada e deserta, a não ser pelas luzes do outro carro que rumava ràpidamente para o Hayou St. John.

- Há problemas de financiamento - disse Christine. W. T. tem procurado mais capital e ainda espera conseguir:

- E se não conseguir?

- Nesse caso, acredito que iremos ver o Sr. Curtis O'Keefe com muito mais freqência.

E iriam ver o Sr. Peter McDermott muito menos, pensou êle, imaginando se não atingira o ponto em que uma cadeia de hotéis, como a de O'Keefe, poderia considerá-lo reabilitado e merecedor de confiança. Duvidava disso. Com o tempo, poderia acontecer, se os seus assentamentos continuassem bons, mas no momento, não. Parecia provável que logo teria de procurar outro emprêgo, mas resolveu preocupar-se quando chegasse a ocasião.

- O O'Keefe-St. Gregory disse finalmente. Quando vamos saber com certeza?

- Qualquer que seja a solução, até o fim da semana.

- Tão depressa!

Christine sabia que havia motivos fortes pelos quais a solução estava próxima, mas guardou-os para si própria no momento, e Peter afirmou:

- O velho não vai conseguir financiamento.

- Por que tem tanta certeza?

- Porque as pessoas que dispõem do dinheiro querem investimento seguro. Isso representa boa direção, e o St. Gregory não a tem. Poderia ter, mas não tem.

Rumavam para o norte, nos Campos Elíseos, com suas largas alamêdas duplas e sem tráfego, quando de repente uma luz branca e ofuscante, oscilando de um lado para o outro, se apresentou bem à frente. Christine freiou o carro e enquanto paravam um guarda de tráfego se aproximou. Iluminando o Volkswagen com a lanterna elétrica, deu a volta ao veículo, examinando-o. Enquanto o fazia, êles viam que o caminho logo à frente fôra fechado por uma Corda, atrás da qual homens em uniforme, e outros à paisana, examinavam o leito da estrada com auxílio de luzes fortes.

Christine abaixou o vidro da janela quando o guarda se dirigiu a ela, e aparentemente satisfeito com o exame do carro, avisou:

- Terá de dar uma volta. Siga devagar pela outra alamêda e o guarda no outro extremo Lhes fará sinal para voltar a esta.

- O que há? - perguntou Peter.

- Atropelamento e fuga do responsável. Aconteceu no comêço da noite.

- Morreu alguém? - perguntou Christine. O policial moveu afirmativamente a cabeça.

- Uma menina de sete anos.

Diante da expressão de consternação dos dois, acrescentou:

- Estava passeando com a mãe, que está no hospital. A criança morreu na mesma hora: Quem estava no carro deve ter visto isso, pois não parou.

- Vão descobrir quem foi?

- Havemos de descobrir, sim - disse o policial, com expressão sombria e indicando a atividade atrás da barreira.

- O pessoal geralmente descobre, e êste caso é revoltante. Há vidro partido na estrada e o carro deve estar marcado.

Vinham outros veículos atrás do Volkswagen, e o guarda fêz sinal a Christine para prosseguir. Ela e Peter ficaram em silêncio, enquanto rumavam devagar pelo desvio e, ao final do mesmo, foram mandados de volta à pista. No espírito de Peter estava uma impressão incômoda, um pensamento incompleto e errante que não sabia definir. Supôs que o próprio acidente o estivesse perturbando, como sempre acontecia numa tragédia repentina, mas uma inquietação vaga o perseguiu até que, com surprêsa, ouviu Christine dizer!

- Estamos quase chegando.

Tinham saído dos Campos Elíseos, chegando à avenida Prentiss. Poucos momentos depois, o carro virava à direita, depois à esquerda e parava no pátio de estacionamento de um moderno edifício de apartamentos de dois andares.

- Se não conseguir outra coisa - comentou Peter em tom animado -, posso voltar a trabalhar num bar.

Estava preparando a bebida na sala de Christine, com seus tons suaves de verde musgo e azul, ao acompanhamento de ovos partidos na cozinha contígua.

- Já trabalhou nisso?

- Algum tempo.

Mediu três doses de uísque, dividiu pela metade, depois procurou os bitters Angustura e Peychaud.

- Ainda lhe contarei isso - acrescentou, e pensando melhor aumentou a porção de uísque, usando um lenço para enxugar as gôtas caídas no tapête.

Levantando-se, olhou ao redor pela sala, com sua combinação confortável de móveis e côres, um sofá provinciano francês de tapeçaria em fôlhas brancas, azúis e verdes, um par de cadeiras Hepplewhite perto da cômoda com chapa de mármore, e o aparador de mogno entalhado sôbre o qual misturava a bebida. As paredes mostravam algumas gravuras da Luisiana francesa e uma tela impressionista moderna. O efeito geral era de acolhimento e alegria, coisa muito própria de Christine, pensou êle. Apenas um relógio pesadão, no aparador ao ládo, constituía nota dissonante. Com seu tique-taque suave, o relógio era inequivocamente vitoriano, com arabescos de bronze e mostrador batido pelo tempo e manchado pela umidade. Peter o examinou com cuidado, e quando foi levar as bebidas à cozinha, Christine estava derramando os ovos batidos numa frigideira onde a gordura chiava.

- Mais três minutos - disse ela - e estará pronto.

Peter lhe estendeu a bebida e êles fizeram os copos tilintar, batendo-os de leve.

- Preste atenção à omelete - pediu ela. - Já está pronta.

A sua promessa fôra integràlmente cumprida, pois a omelete saiu leve, fôfa e temperada com ervas.

- Assim é que deviam ser tôdas as omeletes - comentou êle, tornando-a ciente de sua aprovação -, mas raramente isso acontece.

- Também sei fazer ovos pochés.

- Fica para outra vez - retrucou Peter, com um gesto alegre.

Voltaram depois para a sala e Peter preparou nova bebida. Já eram quase duas da madrugada. Sentou-se ao lado dela no sofá, e apontou o relógio de aspecto estranho, comentando:

- Tenho a sensação de que aquilo me está vigiando, anunciando a hora em tom de censura.

- Talvez esteja - respondeu Christine. - Era de meu pai. Costumava estar no consultório dêle, onde pudesse ser visto pelos clientes. Foi só isso o que guardei dêle.

Houve um silêncio. Em certa ocasião Christine lhe contara, em tom desprovido de emoções, o que acontecera no aeroporto do Wisconsin. Dessa vez, êle disse com gentileza:

- Depois do acidente, você deve ter-se sentido muito sozinha.

- Tive vontade de morrer - respondeu ela, simplesmente. - Mas é claro que se supera isso, depois de algum tempo.

- Quanto tempo?

- O espírito humano se conserta com rapidez. Essa parte, a de querer morrer, só levou uma ou duas semanas - respondeu ela, num sorriso rápido.

- E depois?

- Quando vim para Nova Orleans - continuu Christine - tentei concentrar-me em não pensar- A coisa se tornou mais difícil e piorava dia a dia. Eu sabia que precisava fazer alguma coisa, mas não tinha certeza do quê, ou onde.

Ela fêz uma pausa, e Peter a animou:

- Continue.

- Por algum tempo pensei em voltar à universidade, e depois resolvi não fazer isso. Conseguir úm diploma não me parecia importante e, além disso, tinha a impressão de haver ultrapassado tudo aquilo.

- Compreendo.

Christine tomou um gole pequeno, com expressão pensativa. Observando-Lhe a linha firme de traços; Peter percebia uma qualidade de serenidade e contrôle.

- De qualquer modo - prosseguiu a môça - certo dia estava passeando pela Carondelet e vi um letreiro, anunciando Escola de Secretárias". Pensei que era o que precisava. Ia aprender o necessário e depois conseguir emprêgo onde as horas de trabalho não terminassem. No final das contas, foi exatamente o que sucedeu.

- E como apareceu o St Gregory?

- Eu estava hospedada lá, desde que viera de Wisconsin.

Certa manhã, o Times foi mandado com o café da manhã e nos anúncios classificados vi que o diretor-geral do hotel procurava uma secretária particular. Era bem cedo, de modo que eu deveria ser a primeira candidata. Naquele tempo W. T. chegava ao trabalho antes de todos os outros, e quando me apresentei êle já esperava, no conjunto administrativo.

- Contratou-a no mesmo instante?

- Não foi bem assim. Acho, até, que nunca me contratou. Quando soube o motivo de minha presença, mandou –me entrar e começou a ditar cartas, e depois uma série de instruções a transmitir para outras pessoas no hotel. Quando outras candidatas se apresentaram, eu já estava trabalhando havia algumas horas, e tomei a iniciativa de dizer que o lugar estava ocupado.

- O velho é assim mesmo - disse Peter, com uma risada.

- Ainda assim, êle poderia ficar sem saber quem eu era mas depois de três dias deixei um bilhete na mesa dêle, onde lhe dizia o meu nome e sugeria o salário. Recebi o bilhete de volta, sem comentário, só com as iniciais dêle, e foi tudo.

- Uma boa história para contar antes de dormir.

Peter se levantou do sofá, espreguiçou-se e acrescentou:

- Aquêle seu relógio está-me olhando de novo. É melhor eu ir embora.

- Isto não é justo - objetou ela. - Só falamos a meu respeito.

Percebia a masculinidade dêle e, no entanto, havia também certa gentileza em seus modos. Vira um pouco disso aquela noite, quando êle apanhara Albert Wells no colo e o levara até outro quarto, e imaginava agora como seria a sensação de ser carregada, também.

- Gostei muito do jantar; foi um antídoto formidável para um dia horrível. De qualquer modo, haverá outras ocasiões... Não é? - acrescentou, olhando-a diretamente.

Depois dela confirmar, com aceno da cabeça, êle se inclinou e a beijou de leve.

No táxi que chamara do apartamento de Christine, Peter Mcdermott relaxou o corpo, passando em revista os acontecimentos do dia findo, que agora se projetavam para o que já começava. As horas do dia haviam produzido sua taxa comum de problemas, culminando à noite com mais alguns - a refrega com o Duque e Duquesa de Croydon, o quase falecimento de Albert Wells e a tentativa de estupro de Marsha Preyscott. Havia também perguntas sem respostas, a respeito de Ogilvie Herbie Chandler e agora Curtis O'Keefe, cuja chegada poderia determinar a sua saída do hotel. Finalmente, havia Christine que estivera presente todo o tempo, mas em quem não reparara ainda tanto como naquela noite.

No entanto, fazia-se uma advertência: as mulheres tinham sido sua ruína já duas vêzes. Tudo quanto pudesse acontecer

entre Christine e êle deveria ter marcha lenta, com cautela de

sua parte.

Nos Campos Elíseos, de volta à cidade, o táxi rodou ràpidamente. Passando pelo ponto onde êle e Christine haviam parado na ida, observou que a barreira fôra retirada e os policiais não estavam mais ali, mas a lembrança fêz aparecer nova mente a inquietação vaga que sentira antes, e continuou a perturbá-lo por todo o caminho restante, até chegar ao seu apartamento, a um ou dois quarteirões do St. Gregory.

têrça-feira

COMO NOS demais hotéis, o movimento começou cedo no St. Gregory, que despertou como um veterano combatente desperta, após um sono curto e leve. Bem antes que o hóspede mais madrugador saísse da cama para o banheiro, o maquinismo de novo dia hoteleiro entrara silenciosamente em funcionamento.

Por volta das 5 da manhã as turmas noturnas de faxina, que nas últimas oito horas haviam trabalhado nas peças de uso comum, nas escadarias inferiores e faixas da cozinha e portaria principal, começavam a desmontar seu equipamento de limpeza, preparando-se para guardá-lo até à jornada seguinte. Atrás delas ficavam assoalhos espelhantes, madeiras e metais reluzentes e o agradável cheiro de cera fresca.

Um dos empregados da faxina, a velha Meg Yetmein, que havia quase trinta anos trabalhava no hotel, dirigiu-se em passos trôpegos para a saída, o que qualquer observador poderia atribuir ao cansaço. O motivo real, no entanto, era um pedaço de carne de mais de um quilo, firmemente atado à parte interna da coxa. Meia hora antes, aproveitando alguns minutos sem vigilância, Meg apanhara o bife no refrigerador da cozinha. Graças à sua longa experiência, sabia exatamente onde procurar, e depois de esconder o troféu em velho trapo de polir metais, dirigira-se ao reservado das mulheres. Garantida pela porta fechada, usara uma faixa de esparadrapo e colocara o bife em posição. O incômodo que duraria mais ou menos uma hora, causado por aquêle volume frio encostado à pele, erra mais do que compensado pela certeza de que passaria comodamente pelo detetive do hotel, na entrada de serviço, o qual examinava detidamente qualquer embrulho ou bôlso recheado no pessoal de saída. O sistema, imaginado e pôsto em prática por ela própria, não falhava, e muitas vêzes provara isso.

Dois andares acima de Meg e atrás de porta sem marcas e bem fechada, na sobreloja destinada às convenções celebradas no hotel, uma telefonista largava o tricô e fazia a sua primeira ligação matutina, despertando um hóspede. Era a Sra. Eunice Ball, viúva, avó e a mais graduada das três telefonistas que compunham a turma da noite. Esporàdicamente, entre aquela hora e as 7 da manhã, o trio na mesa telefônica acordava outros hóspedes, cujas instruções da noite anterior estavam marcadas no fichário à frente, dividido em quartos de hora. Depois das 7 horas, o ritmo das chamadas aumentaria bastante.

Os dedos experientes da Sra. Ball percorreram o fichário e, como de costume, notou que a hora pior seria 7h45, com perto de 180 chamadas a fazer. Mesmo trabalhando a tôda velocidade, as três teriam dificuldade em completar tudo aquilo em menos de 20 minutos, o que significava terem de começar cedo, às 7h35, desde que as chamadas marcadas para as 7h30 estivessem prontas, e continuar até às 7h55, quando haveria o pessoal das 8 para chamar.

A Sra. Ball suspirou. Surgiram inevitàvelmente queixas de hóspedes à gerência, alegando que alguma telefonista estúpida e dorminhoca os chamara, cedo ou tarde demais.

Uma coisa era boa, no entanto: poucos hóspedes, a essa hora da manhã, estariam inclinados a puxar conversa ou fazer declarações românticas, como acontecia à noite, de vez em quando - motivo êsse que explicava a porta sem marca e bem fechada, na saleta da mesa telefônica. Às 8 horas, além disso, chegariam as telefonistas diurnas, num total de quinze - à altura do maior movimento telefônico do dia, e às 9 da manhã a turma noturna, inclusive a Sra. Ball, estaria em casa e dormindo.

Era o momento de acordar mais um e, largando novamente o seu tricô, a Sra. Ball apertou uma chave, fazendo tinir com estridência uma campainha num andar bem acima.

Dois andares abaixo do nível da rua, na sala de comando dos maquinismos e instalações, Wallace Santopadre, mecânico de terceira classe, parou de ler a brochura Civilização Grega, escrita por Arnold Toynbee, e terminou o sanduíche. As coisas tinham estado tranquilas naquela última meia hora e êle pudera ler intermitentemente, mas chegava o momento de efetuar sua ronda final no reino dos maquinistas e o zumbido das máquinas o recebeu quando abriu a porta da sala de contrôle.

Verificou o sistema de água quente, observando uma temperatura aumentada que indicava, por sua vez, estar funcionando o termostato de contrôle cronométrico. Haveria bastante água quente no período de maior procura e já bem próximo, quando mais de 800 hóspedes poderiam resolver tomar seu banho matutino ao mesmo tempo.

Os enormes condicionadores de ar, pesando o total de 25 toneladas de maquinaria especializada, funcionavam agora com menos sobrecarga, talvez em consequência da queda de temperatura no ar externo, durante a noite. A relativa frescura do ar tornara possível desligar um compressor, e com isso os demais podiam ser alternadamente aliviados, permitindo que o trabalho de manutenção fôsse executado, depois do atraso sofrido por causa da onda de calor nas semanas anteriores. Wallace Santopadre sabia que o chefe das máquinas ficaria satisfeito com isso.

A satisfação não seria tão grande, entretanto, quando soubesse da falha na rêde de energia da cidade ocorrida durante a noite, por volta das 2 da madrugada, e que durara onze minutos, sendo de presumir que fôra causada pelos temporais no norte.

A interrupção na rêde não causara maiores problemas no St. Gregory, e apenas uma falta de luz bem curta, que a maioria dos hóspedes, já dormindo, não percebera. Santopadre recorrera à energia de emergência, fornecida pelos próprios geradores do hotel com tôda a eficiência. No entanto, tinham sido necessários três minutos para acionar os geradores e leválos à potência máxima, daí resultando que todos os relógios elétricos espalhados pelo St. Gregory, cêrca de duzentos, estavam atrasados três minutos. O trabalho monótono de acertar cada um dêles, manualmente, ocuparia um homem da manutenção quase todo o dia.

Não muito longe do centro de máquinas, num cubículo infernalmente quente e mal-cheiroso, Broker T. Graham examinava o resultado do trabalho de tôda a noite, feito no lixo do hotel. Em volta dêle, as paredes enfumaçadas refletiam as chamas do incinerador.

Poucas pessoas no hotel, inclusive os empregados, tinham visto o local de trabalho de Booker T. Graham, e essas afirmavam que aquilo era bem parecido com a idéia que um evange lista faz do inferno, mas Booker, que não deixava de parecer um demônio amável, com seus olhos luminosos e dentes brancos no rosto inundado de suor, gostava do trabalho e também do calor de seu incinerador.

Um dos poucos membros do quadro de empregados no hotel que Booker T. Graham já vira fôra Peter McDermott. Logo depois de chegar ao St. Gregory, Peter saíra em passeio pela casa, a fim de ficar conhecendo sua geografia e funcionamento, mesmo em suas partes mais distantes, e no curso de uma dessas expedições descobrira o incinerador.

Desde aquela primeira visita, e como fazia questão de agir com relação a todos os departamentos do hotel, Peter aparecera de vez em quando, a fim de se informar em primeira mão como iam as coisas. Devido a isso, e talvez graças a uma simpatia mútúa instintiva, aos olhos de Booker T. Graham o jovem Sr. McDermott era personagem bem próximo de Deus.

Peter sempre examinava o caderno sujo e gorduroso em que Booker mantinha orgulhosamente o registro de seu trabalho. Os resultados ali marcados vinham dos objetos por êle retirados do lixo, e que outras pessoas haviam jogado fora. O artigo mais importante era os talheres do hotel.

Booker T. Graham, homem simples, jamais indagava como os talheres iam ter ao lixo. Foi Peter McDermott que Lhe explicou tratar-se de problema perpétuo com que a direção se preocupava, em todos os grandes hotéis. Na maior parte dos casos isso se devia aos garçons afobados, ajudantes de cozinha e outros que não sabiam estar jogando nas latas de lixo, ou com isso não se incomodavam, uma série constante de talheres, juntamente com os restos de comida.

Até alguns anos antes o St. Gregory prensava e congelava o lixo, remetendo-o depois para os depósitos da cidade, mas com o tempo os prejuízos em talheres se haviam tornado tão grandes que fôra construído um incinerador interno e Booker T. Graham fôra contratado para atirar o lixo manualmente em sua fornalha.

O trabalho era simples. O lixo vindo de tôdas as fontes era depositado em grandes recipientes sôbre carrinhos, e êle levava cada um ao lugar, espalhando seu conteúdo pouco a pouco num tabuleiro raso e grande e ajeitando o lixo com um ancinho, como um jardineiro prepara o chão dos canteiros. Sempre que um troféu se apresentava, como uma garrafa intacta, objetos de vidro, cutelaria e, às vêzes, artigos valiosos pertencentes a hóspedes, Booker recolhia o objeto e atirava o restante ao fogo, espalhando mais lixo no tabuleiro.

O trabalho daquele dia mostrava que o mês em curso, quase terminado, daria resultados médios em sua recuperação de valôres. Até então, os talheres de prata atingiam total próximo a 2 000, cada qual valendo um dólar para o hotel. Havia cêrca de 400 garrafas, no valor de dois cents cada, 800 copos de vidro intactos, valendo 25 cents cada um e grande variedade de outros objetos, inclusive - e por incrível que fôsse - uma terrina de prata. Poupança líquida anual para o hotel: cêrca de 40. 000 dólares.

Booker T. Graham, cujo salário líquido era de 38 dólares semanais, vestiu o paletó ensebado e foi para casa.

A essa altura, o tráfego na porta de serviço, de tijolos descoloridos e situada num beco que dava para a rua Common, era bastante intenso. Um a um, ou aos pares, os empregados noturnos iam saindo enquanto os primeiros da turma diurna, vindos de tôda parte da cidade, começavam a chegar numa torrente firme.

Na região da cozinha, as luzes se acendiam enquanto os ajudantes se preparavam para receber os cozinheiros, já mudando suas roupas de sair por aventais brancos e limpos nos vestiários ao lado. Em poucos minutos, os cozinheiros começariam a preparar os 600 cafés do hotel e mais tarde, muito antes do último prato de bacon com ovos ser servido às 9 horas, dariam início aos 2 000 almoços programados pela tabela de serviço do dia.

Em meio aos caldeirões fumegantes, fornos enormes e demais engenhos para a produção de refeições em grande escala, via-se um pacote de Aveia Quaker a proporcionar toque doméstico. Destinava-se aos conservadores ferrenhos que, como se sabia em todos os hotéis, exigiam mingau quente pela manhã, quer a temperatura exterior fôsse frígida, quer tórrida.

Na parte de frituras da cozinha, Jeremy Boehm, ajudante com 16 anos de idade, verificou a enorme frigideira; de múltiplos compartimentos, que ligara dez minutos antes. Regulara sua temperatura para os 200 graus Fahrenheit, conforme determinavam as instruções recebidas, e mais tarde seria possível elevá-la ràpidamente aos 3ó0 graus necessários para cozinhar. Aquêle dia seria bem sobrecarregado na frigideira, porquanto o prato especial de almôço, anunciado no cardápio, era galinha frita à sulina.

A gordura na frigideira se aQuecera bem, observou Jeremy, embora parecesse um pouco mais fumacenta do que o comum, a despeito da coberta do fogão e do ventilador estarem ligados. Imaginou se devia dar parte dessa fumaça a alguém, e lembrouse depois que; ainda na véspera, um ajudante de cozinheiro o repreendera severamente por demonstrar interêsse pelo preparo do môlho, coisa que lhe dissera não ser de sua alçada. Jeremy deu de ombros. Aquela fumaça também não era de sua conta, e outro que se preocupasse com o fato.

Já alguém se preocupava, mas não pela fumaça da gordura, na lavanderia do hotel, a meio quarteirão de distância. A lavanderia, departamento ativo e cheio de vapor Que ocupava antigo edifício próprio, de dois andares, ligava-se à estrutura principal do St. Gregory por largo túnel sób o solo. A Sra. Isies Schulder, sua gerente, mordaz e desbocada, atravessara o mesmo poucos minutos antes, chegando à frente da maioria dos subordinados, como de costume. No momento o motivo de sua preocupação era uma pilha de toalhas de mesa.

No correr do dia de trabalho, a lavanderia aprontaria cêrca de 25 000 peças de linho, de toalhas e roupa de cama, jaquetas de garçons e cozinheiros, a macacões com graxa e óleo, vindos dos maquinistas. A maior parte dessas peças precisava de trato rotineiro, mas ùltimamente surgira um problema aflitivo que se tornara pior, fazendo-se enfurecedor. sua origem eram os homens de negócio, que faziam seus cálculos na toalha de mesa, usando canetas esferográficas.

- Esses imbecis fazem isso em casa? - perguntou ao empregado noturno que separara as toalhas rabiscadas, tirando-as da pilha maior. - Claro que não! Se o fizessem, seriam tocados a pontapé pelas mulheres, até à privada. Já cansei de dizer a êsses garçons idiotas, que prestem atenção e manden parar com isso, mas êles não se incomodam!

Mudou de voz, passando a uma imitação cheia de desprêzo:

- Sim, senhor! Vou beijá-lo, meu caro senhor! Está claro que pode escrever na toalha, patrão, e tome outra esferográfica, por favor. Enquanto eu receber minha boa gorjeta, Que se dane a lavanderia!

Parou na imitação, e para o empregado noturno Que olháva, bestificado, acrescentou irritadamente:

- Vá para casa! Tudo que me arranjou foi uma dor de cabeça, logo no comêço do dia!

em, pensou ela depois do homem ter saído, pelo menos tinham apanhado aquela pilha antes de enfiar as toalhas na água. Depois que a tinta das esferográficas se molhava, só se podía dar baixa na toalha, porQue nada mais a poderia remover. Do modo como a coisa se apresentava, Nellie, a melhor empregada da lavanderia, teria que trabalhar bastante com o tetracloreto de carbono, e se tivessem sorte poderiam salvar a maior parte das toalhas, embora ela bem gostasse de trocar algumas palavras com os imbecis que as riscavam.

Assim marchavam as coisas no conjunto, do hotel. No palco e nos bastidores, nos departamentos de serviço, escritórios, oficina de carpinteiro, padaria, oficina gráfica, arrumação, cano, compras, decoração, almoxarifado, garagem, consêrto de televisão e demais, começava o nôvo dia.

Em seu apartamento particular de seis peças, no décimoquinto andar do hotel, Warren Trent desceu da cadeira de barbeiro onde Aloysius Royce, o barbeara. Uma ferroada da ciática na coxa esquerda, ferindo como um bisturi quente, avisava Que seria mais um dia em que seu gênio caprichoso talvez precisasse de contrôle. A barbearia particular ficava num anexo contíguo a um grande banheiro completo, com banho a vapor, banheira ao nível do chão, estilo japonês, e aquário embutido onde peixes tropicais observavam, com olhos meditativos, pelo vidro laminado. Warren Trent andou de corpo duro até o banheiro, parando diante de enorme espelho para examinar a barba, onde não conseguiu encontrar qualquer falha.

A visão refletida no espelho era de um rosto áspero e enrugado, uma bôca mole que poderia demonstrar bom-humor conforme a ocasião, nariz aquilino e olhos profundos com tom de segrêdo. O cabelo, inteiramente prêto na juventude, estava branco, espêsso e ondulado ainda. O colarinho duro e a gravata com laço bem-feito completavam a aparência de eminente cavaLheiro sulino.

Em outras ocasiões, a aparência cuidadosamente cultivada lhe teria dado prazer, mas isso não acontecia naquele dia, porque o sentimento de depressão que tomara conta dêle nas semanas anteriores sobrepujava tudo. Estava, portanto, na têrçafeira da última semana, relembrou. Passou a fazer cálculos, como em tantas outras manhãs. Incluindo aqêle dia, havia apenas mais quatro dias; quatro dias nos quais tinha de impedir que o trabalho de tôda sua vida se desfizesse em nada.

Franzindo a testa por causa de seus pensamentos, o dono do hotel coxeou até a sala de jantar, onde Aloysius Royce preparara a mesa de refeição. A antiga mesa, com sua toalha engo mada e os talheres brilhando, tinha ao lado um carrinho aquecido, vindo da cozinha poucos momentos antes, em velocidade máxima. Warren Trent sentou-se desajeitadamente na cadeira que Royce segurava, depois fêz sinal para o lado oposto da mesa. Imediatamente o jovem negro preparou outro lugar, sentando-se na cadeira vazia. Havia um segundo café no carrinho, para ser usado nas ocasiões em que o capricho do velho o levava a romper seu hábito de fazer, sòzinho, a primeira refeição do dia.

Servindo as duas porções de ovos estrelados com presunto canadense e canjica, Royce permaneceu em silêncio, sabendo que o patrão falaria quando estivesse disposto. Até então não surgira qualquer comentário sôbre o rosto machucado de Royce, ou sôbre os dois curativos de esparadrapo que pusera, cobrindo os ferimentos piores e resultantes da luta da noite anterior. Fi nalmente, empurrando seu prato para a frente, Warren Trent observou:

- É melhor aproveitar isto ao máximo. Talvez nenhum de nós dois possa desfrutar essas coisas por muito tempo.

- Os homens do consórcio não mudaram de idéia sôbre a renovação? - perguntou Royce.

- Não mudaram, e não querem mudar, nesta ocasião. " Sem qualquer aviso, o velho deu um murro na mesa.

- Com os diabos! Houve época em que eu dava o tom da música, e não dançava a dêles. Houve tempo em que êles faziam fila, os banncos, consórcios, todos êles, tentando emprestar dinheiro, insistindo em que se aceitasse!

- Os tempos mudam para todos nós - disse Aloysius Royce, servindo-se de café. - Algumas coisas melhoram, outras pioram.

- Para você, é fácil - disse Warren Trent, em tom azêdo. - Você é jovem, não viveu ainda para ver tudo quanto se fêz cair aos pedaços.

E a coisa chegara a êsse ponto, pensou desanimadamente. Em quatro dias a contar daquele, na sexta-feira, antes de se encerrar o dia comercial, uma hipoteca de vinte anos deveria ser resgatada, e o grupo de investimentos que a retinha não quisera renová-la. De início, ao saber dessa decisão, a sua reação fôra de surprêsa, mas não de preocupação. Muitos outros viriam prazerosamente tomar a hipoteca, pensara êle, certamente com juros maiores, mas fôssem quais fôssem as condições, emprestariam os dois milhões de dólares de que precisava. Sòmente quando se vira decididamente rejeitado por todos os que procurara - bancos, consórcios, companhias de seguro e prestamistas particulares - é que sua confiança inicial se abalara. Um banqueiro a quem conhecia bastante Lhe dera um conselho franco:

- Os hotéis como o seu estão sem preferência, Warren. Muita gente acha que estão acabados os dias do grande hotel independente, e os hotéis de cadeia são os únicos que podem dar um lucro razoável. Além disso, veja o seu balancete. Você tem perdido dinheiro sem parar. Como vai esperar que os bancos concordem com êsse tipo de situação?

Os seus protestos de que os prejuízos eram temporários e logo se tornariam lucro, quando os negócios melhorassem, nada resolveram. Não acreditaram nêle.

Quando se achava nesse impasse, Curtis O'Keefe lhe telefonara, sugerindo o encontro em Nova Orleans, naquela semana.

- Tudo o que tenho na idéia é uma conversa amistosa, Warren - declarara o magnata dos hotéis, em seu sotaque texano, pelo telefone interurbano. - Afinal, somos dois velhos hoteleiros, e devíamos nos ver de vez em quando.

Aquela maciez, entretanto, não enganara Warren Trent; tinha havido sondagens da parte da cadeia O'Keefe. Os abutres já esvoaçavam, pensou êle. Curtis O'Keefe chegaria naquele dia e não restava a menor dúvida de que vinha inteiramente informado dos problemas financeiros do St. Gregory.

Com um suspiro, Warren Trent encaminhou os pensamentos para questões mais imediatas, e se dirigiu a Aloysius Royce.

- Você aparece no relatório da noite.

- Eu sei - respondeu Royce. - Já li.

Examinara o relatório quando o mesmo chegara, cedo como de costume, e observara a anotação, "Queixa de barulho excessivo no quarto 1126" e depois, na caligrafia de Peter McDermoot, "Atendida por A. Royce e P. McD. Memorando seguirá mais tarde".

- Depois disso - resmungou Warren Trent -, você vai querer ler minha correspondência particular, também.

- Ainda não o fiz - retrucou Royce, sorrindo. - Quer que o faça?

O diálogo era parte de uma brincadeira em que se empenhavam, mas sem o admitir. Royce sabia muito bem que, se não lesse o relatório, o velho o acusaria de não manifestar interêsse pelo hotel. Warren Trent prosseguiu em tom sarcástico:

- Já que todos sabem o que sucedeu, seria possível eu conhecer alguns detalhes?

- Acho que sim - respondeu Royce, servindo mais café ao patrão. - A Srta. Marsha Preyscott, filha do Sr. Preyscott, o próprio, quase foi estuprada. Quer que fale no assunto?

Por um instante, ao se endurecer a expressão de Trent, o rapaz pensou ter ultrapassado as medidas: A sua relação indefinida e casual se baseava, em grande parte, nos precedentes estabelecidos por seu pai, muitos anos antes. O velho Royce, que servira Warren Trent de início como criado pessoal e depois como companheiro e amigo privilegiado, sempre se expressara com jovial desprêzo pelas consequências, e em seus primeiros anos de convívio isso levara Trent a ficar branco de raiva; mais tarde, trocaram insultos e tornaram-se inseparáveis. Aloysius era pouco mais que um menino quando seu pai morrera, mais de dez anos antes, mas nunca se esquecera do rosto de Warren Trent, amargurado e cheio de lágrimas, no entêrro do velho negro. Tinham saído juntos do cemitério Mount Olivet, atrás da banda negra de juzz que tocava festivamente, Aloysius conduzido pela mão de Warren Trent, que Lhe dissera com rudeza: "Você vai ficar comigo no hotel. Mais tarde, arrumaremos as coisas. " O menino concordara, cheio de confiança; a morte do pai deixara-o iiinteiramente só, pois sua mãe morrera no seu nascimento, e "as coisas" arrumadas por Warren Trent tinham- se encaminhado para os estudos, continuados depois na Faculdàde de Direito onde se formaria dentro de poucas semanas. Nesse interregno, enquanto o menino se tornava homem, encarregara-se de tomar conta do apartamento de Trent e embora a maior parte do trabalho braçal fôsse executada por outros empregados do hotel, Aloysius prestava serviços pessoais que Warren Trent aceitava sem comentários, ou em tom belicoso, conforme a ocasião: De outras vêzes discutiam acaloradamente, em especial quando Aloysius fisgava, como sabia que devia fisgar, os anzóis iscados pelo velho.

A despeito de sua intimidade e o conhecimento de que poderia tomár liberdades que Warren Trent jamais toleraria nos demais, Aloysius Royce tinha consciência de um limite tênue, que nunca deveria ultrapassar, e acrescentou:

- A môça gritou pedindo socorro e eu estava passando por perto.

Descreveu o que fizera, sem teatralizar, e falou da intervenção de Peter Mcdermott, que não louvou nem criticou. Warren Trent ouviu em silêncio, e finalmente se manifestou:

- Mcdermott agiu corretamente no caso. Por que você não gosta dêle?

Não era a primeira vez que Royce se surpreendia com a percepção do velho, e respondeu:

- Talvez seja algum elemento quimico entre nós que não combina, ou talvez eu não goste de grandes atletas brancos que tentam mostrar como são bonzinhos para os meninos de côr.

Warren Trent o olhou com expressão enigmática.

- Você é complicado. Pensou Que podia estar cometendo uma injustiça para com McDermott?

- Como acabei de dizer, talvez seja incompatibilidade química.

- Seu pai conhecia instintivamente as pessoas, mas era muito mais tolerante do que você.

- Um cachorro gosta de quem lhe afaga a cabeça, porque seu pensamento não é complicado pela instrução e educação.

- Ainda que fôsse assim, duvido que êle se expressasse em palavras como as suas.

O olhar penetrante de Trent encontrou o do rapaz, e Royce ficou em silêncio. A lembrança do pai sempre o perturbava.

Nascido enquanto os pais ainda estavam em escravidão, êle fôra aquilo que os próprios negros atuais chamavam desdenhosamente de "Tio Tom negro". Sempre aceitara alegremente o que lhe trouxesse a vida, sem perguntas ou reclamações. O conhecimento de questões além de seu próprio horizonte limitado raramente o perturbava e, no entanto, possuíra independência de espírito, como o provavam as suas relações com Warren Trent, e uma intuição sôbre os seus semelhantes, que não podiam ser classificadas como sabedoria de segunda mão. Aloysius amara o pai com sentimento profundo que, em momentos assim, se transformava em saudade, e respondeu então:

- Talvez eu tenha usado as palavras erradas, mas o sentido não se modifica.

Warren Trent anuiu, sem comentários, e consultou o antiquado relógio de algibeira.

- É melhor dizer ao jovem McDermott que venha aqui falar comigo. Estou um pouco cansado hoje.

- Mark Preyscott está em Roma, hem? - perguntou o proprietário do hotel. - Acho que devo telefonar para lá.

- A filha pediu que não fizéssemos isso - redarguiu Peter.

Os dois estavam na sala luxuosamente mobiliada do apartamento de Warren Trent, que se refestelara numa poltrona macia, tendo os pés num escabêlo e Peter McDermott à sua frente.

- Eu decidirei sôbre isso - disse Warren Trent rispidamente. - Ela foi estuprada em meu hotel e tem de aceitar as consequências.

- Na verdade, nós impedimos o estupro, mas eu pretendo descobrir o que houve antes disso.

- Já viu a môça esta manhã?

- A Srta. Preyscott dormia quando a fui ver. Deixei recado, pedindo que fale comigo antes de sair.

Warren Trent suspirou e decidiu com aceno de mão:

- Tome conta do caso.

Seu tom de voz tornara claro que êle estava cansado do assunto, e Peter sentiu o alívio de saber que não telefonaria para Roma.

- Outra coisa de que gostaria de tratar são os encarregados dos quartos - prosseguiu Peter, descrevendo o incidente com Albert Wells e vendo o rosto do hoteleiro tomar uma expressão dura ao saber da mudança arbitrária de quartos.

- Devíamos ter fechado aquêle quarto há muitos anos - resmungou o velho. - Talvez seja melhor fazer isso de uma vez.

- Não creio que precisa ser fechado, desde que se saiba que só em último recurso o utilizaremos, e informemos ao hóspede do que se trata, antes de mandá-lo pra lá.

- Trate disso - concordou Warren Trent.

Peter hesitou, e depois prosseguiu:

- Eu gostaria de dar algumas instruções específicas sôbre as transferências de quartos, de modo geral. Têm havido outros incidentes e acho que precisamos fazer ver que nossos hóspedes não devem ser transferidos de um para outro lado, como pedras num jôgo de damas.

- Trate de cada caso. Se eu quiser instruções gerais, prepararei por minha conta.

A negativa ríspida, pensou Peter resignadamente, era típica de muita coisa errada na direção do hotel. Os erros eram examinados um por um, depois de cometidos, sem maior esforço por corrigir-lhes a causa básica. Acrescentou então:

- Acho que deve saber a respeito do Duque e Duquesa de Croydon. A Duquesa disse que queria vê-lo pessoalmente.

Descreveu o incidente do prato derramado, e a versão diferente, apresentada pelo camareiro Sol Natehez. Warren Trent resmungou:

- Conheço aquela mulher. É terrível, não ficará satisfeita enquanto o garçom não fôr despedido.

- Acho que não devemos fazer isso.

- Diga-lhe, então, que vá pescar durante alguns dias. Receberá o ordenado, mas terá de se afastar do hotel. De minha parte, pode dizer- lhe que se tiver de entornar alguma coisa outra vez, que esteja fervendo e seja bém em cima da cabeça da Duquesa. Ela ainda está com aquêles malditos cachorros?

- Sim - respondeu Peter, sorrindo.

A presença de animais nos quartos de hotel era rigorosamente proibida por lei estadual, mas, no caso dos Croydons, Warren Trent achara que os terriers não seriam oficialmente notados, desde que entrassem e saíssem pela porta dos fundos. A Duquesa, no entanto, desfilava com os seus cachorros todos os dias, pela porta principal, em atitude de desafio, e dois outros hóspedes, também donos de cachorro, já perguntavam, furiosos, por que fora recusada entrada aos seus animais.

- Tive problemas com Ogílvie ontem à noite - prosseguiu Peter, informando sôbre a ausência do detetive-chefe e o diálogo que haviam travado em seguida.

A reação foi rápida:

- Já lhe disse que o deixe em paz. Ogilvie está diretamente subordinado a mim.

- Isso dificulta as coisas, quando há o que fazer.

- Você ouviu o que eu disse! Esqueça-se de Ogilvie!

O rosto de Warren Trent ficara vermelho, menos de raiva do que de embaraço, na opinião de Peter. Aquela ordem de deixar Ogilvie em paz não tinha pé nem cabeça e o dono do St. Gregory sabia disso. Qual seria, mesmo, o motivo que dava tal poder ao ex-policial? Numa mudança abrupta de assunto, Warren Trent anunciou:

- Curtis O'Keefe chegará hoje. Quer dois apartamentos conjugados e já mandei instruções à portaria. Verifique se tudo está em ordem, e mande-me informar assim que êle chegar.

- O Sr. O'Keefe vai ficar muito tempo aqui?

- Não sei. Isso depende de muitas coisas.

Por instantes, Peter teve pena do velho. Quaisquer que fôssem as críticas atuais ao modo pelo qual o otel era dirigido, para Warren Trent aquilo era mais do que um simples hotel - era o trabalho de tôda a sua vida. Vira-o crescer, saindo da insignificância e chegando à proeminência, e dum início modesto a um edifício enorme, ocupando quase todo um quarteirão. A reputação do hotel crescera através dos anos, chegando a ter nome equiparado, em âmbito nacional, a instituições como o twiltrnore, ou o almer House de Chicago, ou ainda o St. Francis de San Francisco. Devia ser duro aceitar cue o St. Gregory, a despeito de todo o prestígio, se tornara desatualizado - Não que êsse deslize fósse irremediável ou desastroso, pensou Peter, pois um novo financiamento e uma direção firme poderiam efetuar milagres e, até mesmo, trazer o hotel de volta à sua antiga posição de competição no ramo. De modo como iam as coisas, no entanto, tanto o capital quanto contrôle teriam de vir de fora, talvez por intermédio de Curtis O'Kefe. Mais uma vez lhe ocorria o pensamento de que os seus dias no St. Gregory estavam talvez contados.

- Qual é a situação das convenções? - perguntou o hoteleiro.

- Cêrca de metade dos químicos já saiu, e o resto deverá fazê-lo hoje. De chegada está a Gold Crown Cola, bem organizada. Alugaram trezentos e vinte quartos, mais do que esperávamos, e aumentamos os cálculos de almôço e banquete na medida certa.

Enquanto o velho assentia, com aprovação, Peter contínuou:

- O Congresso Americano de Odontologia começa amanhã, embora alguns membros tenham aparecido ontem, e deverá haver mais hoje. Devem tomar cêrca de duzentos e oitenta quartos.

Warren Trent emitiu um resmungo de satisfação. Pelo menos, as notícias não eram tôdas más. As convenções constituíam o fluido vital do comércio hoteleiro, e duas delas, ao mesmo tempo, eram boa ajuda, ainda que não bastassem para compensar os prejuízos recentes. De qualquer forma, a convenção dos dentistas fôra uma vitória. O jovem Mcdermott agira com rapidez, em seguida a uma informação de que os preparativos iniciais da convenção de dentistas haviam fracassado, e tomara o avião para Nova York, conseguindo induzilos a efetuar seu encontro em Nova Orleans, e no Hotel St. Gregory.

- Tivemos a casa cheia ontem à noite - disse Warren Trent. - Neste ramo, é oito ou oitenta. Podemos receber todos os que chegarão hoje?

- Verifiquei os totais logo de manhã. Deve haver número suficiente de saídas, mas será bem perto do que precisamos. Nossas reservas excedentes estão um pouco grandes.

Como todos os hotéis, o St Gregory aceitava habitualmente mais reservas do que a sua capacidade máxima permitia, mas também como os demais jogava com o pressentimento de que algumas delas eram feitas por gente que deixava de aparecer, de modo que o problema se resolvia pela adivinhação da percentagem real dos que deixavam de vir. Na maior parte das vêzes a experiência e sorte permitiam-Lhes sair-se bem, com todos os quartos ocupados, o que constituía situação ideal. De vez em quando, porém, falhava um cálculo e o hotel se via em apuros.

O pior momento na vida de qualquer gerente era quando explicava a pessoas indignadas e que tinham confirmado as reservas feitas que não dispunha de acomodações. Sentia-se muito mal, tanto como ser humano quanto porque percebia, desanimado, que tais pessoas jamais voltariam ao hotel, a menos que não encontrassem outra coisa.

Na experiência de Peter, a pior ocasião dessas fôra quando uma convenção de padeiros, efetuada em Nova York, resolvera permanecer mais um dia, de modo que alguns de seus membros pudessem fazer um passeio marítimo ao luar em volta de Manhattan. Duzentos e cinquenta padeiros, com suas espôsas, permaneceram na cidade, sem informarem ao hotel onde se contava que partissem, de modo a poder receber uma convenção de engenheiros. A recordação do conflito seguinte, com centenas de engenheiros furiosos e também acompanhados por suas mulheres, acampados na portaria, alguns dêles sacudindo no ar as reservas feitas, ainda o fazia tremer. Com os demais hotéis da cidade também lotados, os recém-chegados tinham sido finalmente distribuídos pelos motéis dos arredores de Nova York, até o dia seguinte, quando os padeiros se retiraram com o ar mais inocente do mundo. As enormes contas de táxi dos engenheiros, e mais o substancial reembôlso em dinheiro para que não processassem o hotel, no entanto, haviam ultrapassado de muito o lucro obtido com ambas as convenções.

Warren Trent -acendeú um charuto, fazendo sinal a McDermott para que apanhasse um cigarro na caixa ao lado. Depois de o fazer, Peter disse:

- Falei com o Roosevelt. Se nos virmos apertados, hoje à noite, êles nos poderão ajudar, com uns trinta quartos.

Essa promessa era reconfortante e constituía um trunfo escondido, mas que não devia ser usado, a não ser em último caso. Mesmo os hotéis que mais competição travavam entre si ajudavam-se mùtuamente en tal tipo de crise, pois não se sabia quando os papéis poderiam inverter-se.

- Pois bem - disse Warren Trent, com uma nuvem de fumaça de charuto acima da cabeça. - Qual é a perspectiva para o outono?

- Desapontadora. Mandei-lhe um memorando sôbre as duas grandes convenções sindicais que não conseguimos.

- E por que não as conseguimos?

- Pelo mesmo motivo que já lhe disse. Nós continuamos a fazer discriminação. Não estamos cumprindo a Lei de Direitos Civis e os sindicatos não gostam disso.

Involuntàriamente, Peter olhara para Aloysius Royce, que entrara na sala e estava arrumando uma pilha de revistas. Sem desviar o olhar do que estava fazendo, o jovem negro disse:

- Não se preocupe em ser delicado comigo, Sr. Mcdermott, porque nós, os homens de côr, estamos habituados a isso.

Falara com o mesmo sotaque exagerado que utilizara na noite da véspera, e Warren Trent, com o rosto refletindo meditação, interveio àcidamente:

- Pare com essa bobagem.

- Sim, Sr.

Royce abandonou a arrumação das revistas e de pé, diante dos outros dois, acrescentou com voz normal:

- Mas devo dizer uma coisa: os sindicatos agiram assim porque são dotados de consciência social. E não são os únicos. Outras convenções, e gente comum, vão se manter longe dêste hotel e de outros, onde se faz o mesmo, até reconhecerem que os tempos mudaram.

- Responda a êle - disse Warren Trent, fazendo um gesto na direção de Royce, mas falando com Peter Mcdermott.

- Aqui, não medimos as palavras.

- Acontece - respondeu Peter, calmamente - que concordo com êle.

- E por que, Sr. Mcdermott? - desafiou Royce. Acha que seria melhor para os negócios? Tornaria seu trabalho mais fácil?

- São dois bons motivos - retrucou Peter. - Se quiser pensar que são os únicos, não se detenha.

Warren Trent deu um murro no braço da poltrona.

- Leve o diabo os motivos! O que importa é que vocês dois estão sendo idiotas!

A questão reaparecia. Na Luisiana, onde os hotéis filiados às cadeias hoteleiras haviam nominalmente aceitado a integração racial meses antes, diversas casas independentes - encabeçadas por Warren Trent e o St. Gregory - resistiam à transformação. Durante um período breve, a maioria cumpria a Lei de Direitos Civis e depois, passada a onda inicial, voltara sem alarde às suas antigas práticas segregacionistas. Ainda com diversos casos pendentes na justiça, tôdas as indicações eram de que os resistentes, contando com forte apoio local, poderiam sustentar sua posição anos a fio.

- Não! - exclamou Warren Trent, apagando o charuto com raiva. - A despeito do que aconteça noutros lugares afirmo não estarmos prontos para isso. Perdemos as convenções sindicais? Muito bem! hora de trabalhar e tentar outra coisa.

Da sala, Warren Trent ouvira a porta se fechar atrás de Peter Mcdermott e os passos de Aloysius Royce regressando à saleta repleta de livros, que era a acomodação do jovem negro. Em poucos minutos, Royce sairia, como fazia àquela hora do dia, para as suas aulas na faculdade. Reinava silêncio na grande sala de estar, ouvindo-se apenas o sussurro do condicionador de ar e, de vez em quando, sons vindos da cidade lá embaixo, que penetravam pelas paredes grossas e janelas calafetadas. Pequenos raios de sol matinal abriam caminho, surgindo no chão atapetado, e ao observá-los Warren Trent podia sentir o coração bater forte, em consequência da ira que pouco antes o empolgara. Talvez fôsse um aviso de que devia controlar- se, mas parecia que naqueles dias eram tantas as coisas a frustrá- lo que se tornava difícil controlar as emoções, e continuar em silêncio era mais difícil ainda. Talvez tais explosões fôssem mera ranzinzice, efeito da idade, mas a probabilidade maior estava em que sentia tanta coisa lhe escapar, desaparecer para sempre de seu contrôle. Além disso, a ira sempre lhe viera com facilidade, a não ser naqueles poucos anos em que Hester lhe ensinara a ter paciência e bom -humor. Sentado ali em silêncio, sentiu-se invadido pela saudade. Parecia ter sido havia tanto tempo! Muito mais do que trinta anos, quando a carregara, noiva jovem, pelo umbral daquela própria sala. E como fôra curto o tempo dêles juntos, aquêles poucos anos de alegria indescritível, até que a políomielite a atacara de repente! Hester morrera em vinte e quatro horas, deixando Warren Trent em pranto e sòzinho, com o resto da vida para viver - e o St. Gregory.

No hotel, poucos se lembravam ainda de Hester e para êsses

poucos ela não passava de uma recordação vaga. Mas para Warren Trent, ela continuava a ser uma doce flor da primavera, lhe tornara os dias agradáveis e a vida mais rica como ninguém mais o conseguira fazer, nem antes, nem depois.

No silêncio, um movimento rápido e ruído semelhante ao da sêda

pareceram vir da porta atrás. Voltou a cabeça, mas era apenas um capricho da memória. A sala estava vazia e os seus olhos marejados de lágrimas.

Com dificuldade, ergueu-se da poltrona, sentindo a dor ciática, e foi à janela, olhando por sôbre os telhados em empena do Quarteirão Francês, O'ieux Carré como o chamavam hoje voltando a seu antigo nome, em direção à Praça Jackson e às tôrres da catedral, que refulgiam ao sol. Além, estava o Mississippi barrento e cheio de redemoinhos, tendo no meio da torrente uma fila de navios que esperavam a sua vez de atracar. Era sinal dos tempos, pensou êle. Desde o século XVIII, Nova Orleans oscilara como um pêndulo entre a riqueza e pobreza. Navios a vapor, estradas de ferro, algodão, escravos, emancipação, canais, guerras, turistas. tudo com as suas quotas intermitentes de riqueza e desastre. Agora, o pêndulo trouxera prosperidade - embora não para o Hotel St. Gregory, ao que parecia.

Mas aquilo tudo realmente importava, ao menos para êle? O hotel valia a luta? Por que não desistir, vender, como podia fazer naquela semana, e deixar o tempo engoli-los, ambos? Curtis O'Keefe proporia bom negócio. A sua cadeia hoteleira tinha excelente reputação, e o próprio Trent poderia sair-se bem. Depois de pagar a hipoteca e liquidar com os acionistas menores, haveria bastante dinheiro, ainda, com o qual poderia viver como quisesse pelo resto da vida.

Entregar-se. Talvez fôsse a solução. Entregar-se aos tempos mudados. Afinal, que era um hotel, senão os tijolos e argamassa? Ele tentara torná-lo mais do que isso, mas fracassara no fim. Que se fôsse!

No entanto. Caso o entregasse, que restaria? Nada. Para êle próprio, não restaria coisa alguma, nem sequer os fantasmas que percorriam aquêle andar. Esperou, imaginando, percorrendo com os olhos a cidade estendida à sua frente. Também ela mudara - fôra francesa, espanhola e americana, mas de algum modo conseguira sobreviver sendo ela própria, singularmente individual numa era de conformismo.

Não! Não ia vender. Ainda não. Enquanto houvesse esperança, continuaria a luta. Havia ainda quatro dias para conseguir o dinheiro da hipoteca, de algum modo, e, ademais, os prejuízos atuais eram coisa temporária. Logo a maré mudaria, deixando o St. Gregory solvente e independente.

Juntando movimento à decisão, atravessou a sala dirigindo-se para a janela no lado oposto. Seus olhos conseguiram ver ainda o brilho do aeroplano, voando bem alto no norte. Era um avião a jato, que baixava e se preparava para pousar no aeroporto de Moisant. Talvez Curtis O'Keefe viesse nêle.

Quando Christine Francis o encontrou, pouco depois das 9h30 da manhã, Sam Jakubiec, o calvo chefe do departamento de crédito, estava de pé nos fundos da portaria, fazendo a verificação diária na conta de cada hóspede. Como de costume, Jakubiec trabalhava naquela pressa nervosa que, às vêzes, enganava as pessoas, fazendo-as pensar que não executava direito seu trabalho. Na verdade, quase nada escapava ao chefe do crédito, fato que já recuperara para o hotel milhares de dólares devidos por maus pagadores.

Examinava no momento os cartões de contabilidade mecânica, um para cada hóspede e quarto, enquanto examinava os nomes, consultava as contas detalhadas e, de vez em quando, fazia anotações num bloco de papel ao lado. Sem se deter, olhou ràpidamente para ela e voltou ao trabalho.

- Acabarei em poucos minutos, Srta. Francis.

- Eu posso esperar. Alguma coisa interessante esta manhã?

- Algumas - respondeu êle, com aceno da cabeça e sem se deter.

- Por exemplo?

Ele anotou alguma coisa no bloco.

- Quarto 512, H. Baker. Entrou às 8h10 da noite. Às 8h20 pediu uma garrafa de bebida, debitada.

- Talvez goste de escovar os dentes com álcool.

- Talvez - respondeu Jakubiec, de cabeça baixa.

O mais provàvel, no entanto, era que H. Baker no 512 fôsse alcoólatra e mau pagador. O hóspede que pedisse bebida poucos minutos depois de chegar ao hotel despertava automàti camente as suspeitas do chefe do crédito. A maioria dos recém-chegados que desejavam logo beber alguma coisa, depois de uma viagem ou de um dia estafante, tomava um copo de alguma coisa no bar. Quem pedia imediatamente uma garrafa muitas vêzes estava dando início a uma bebedeira e poderia não pretender pagar, ou não estar em condições de fazê-lo.

Christine sabia o que ia acontecer. Jakubiec pediria a uma das camareiras do andar para entrar no 512, mediante um pretexto qualquer, e verificar o hóspede e sua bagagem. As camareiras sabiam o que deviam procurar - bagagem razoável e boas roupas, caso em que o chefe de crédito provavelmente não tomaria providências, a não ser vigiar a conta do hóspede. Havia ocasiões em que cidadãos em boa situação, respeitáveis, alugavam um quarto de hotel apenas para se embebedarem, e desde que pagassem e não incomodassem os demais, ninguém tinha nada com isso. Mas se não houvesse bagagem ou outros sinais de boa situação, Jakubiec apareceria pessoalmente para conversar. A sua atitude seria discreta e amistosa e se o hóspede demonstrasse capacidade de pagar, ou concordasse em fazer algum depósito adiantado, despedir-se-iam cordialmente. Se as suas desconfianças iniciais se confirmassem, o chefe de crédito poderia mostrar-se duro e impiedoso, expulsando o hóspede antes que as despesas fôssem maiores.

- Eis outro - disse Sam Jakubiec a Christine. - Sanderson, quarto 1207. Gorjetas exageradas.

Examinou o cartão exibido, onde se viam duas taxas de serviço no quarto, um de dólar e meio e outro de dois. Em ambos os casos, fôra acrescentada a gorjeta de dois dólares, que o hóspede assinava para cobrança posterior.

- Muitas vêzes quem não pretende pagar é quem dá as maiores gorjetas - disse Jakubiec. - De qualquer modo, é um caso a verificar.

Como no outro caso, Christine sabia que o chefe de crédito sondaria o terreno cautelosamente. Parte de seu trabaLho, tão importante quanto impedir a fraude, era não ofender os hóspedes honestos. Após anos de experiência, um homem dedicado a êsse serviço conseguia geralm ente separar o joio do trigo por simples instinto, mas de vez em quando podia enganar-se, com prejuízo para o hotel. Christine sabia que era êsse o motivo pelo qual os chefes de crédito se arriscavam às vêzes, estendendo o crédito ou aprovando cheques em casos ligeiramente duvidosos, andando numa corda-bamba mental enquanto o faziam. A maioria dos hotéis, mesmo os mais famosos, não se importava absolutamente com a moralidade dos que se achavam entre suas paredes, sabendo que se interviesse perderia grande parte dos hóspedes. A preocupação dominante, refletida no chefe de crédito, cingia-se a uma única pergunta: o hóspede podia pagar?

Com movimento rápido, Sam Jakubiec pôs os cartões de volta e fechou a gaveta onde ficavam.

- Muito bem! - disse a Christine. - Em que posso servi-la?

- Contratamos uma enfermeira particular para o 1410 - disse ela, contando-lhe em traços gerais a crise sofrida por Albert Wells na noite anterior. - Estou um pouco preocupada, sem saber se o Sr. Wells poderá pagar, e acredito que êle não imagine quanto isso vai custar.

Poderia acrescentar que se preocupava mais pelo homem do que pelo hotel, mas não o disse. Jakubiec murmurou:

- De fato, uma enfermeira particular pode custar bem caro.

Afastaram-se juntos da portaria, atravessaram o vestíbulo já repleto e dirigiram-se ao escritório do chefe de crédito, que era uma pequena sala quadrada. Lá dentro, uma secretária morena trabalhava em frente à parede onde só se viam carreiras de fichários.

- Madge - disse Jakubiec -, veja o que temos sôbre Wells, Albert.

Sem responder, ela fechou uma gaveta, abriu outra e procurou nas fichas. Parando, disse de um fôlego só:

- Albuquerque, Coon Rapids, Montreal. Qual dêles?

- Montreal - respondeu Christine, e Jakubiec apanhou a ficha que a secretária estendia.

Observando as anotações, murmurou:

- Parece bom. Hospedou-se aqui seis vêzes, pagou em dinheiro. Uma pequena dúvida, que parece ter sido resolvida.

- Conheço o caso - disse Christine. - A culpa foi nossa.

O chefe de crédito acrescentou:

- Acho que não há motivo para preocupações. Os honestos deixam sua marca, assim como os desonestos.

Entregou a ficha de volta à secretária, que a repôs no fichário, onde estavam as demais com o registro de todos os hóspedes recebidos pelo hotel naqueles últimos anos. Sam Jakubiec disse então a Christine:

- Em todo caso, vou examinar, descobrir qual vai ser o custo da enfermeira e depois conversar com o Sr. Wells. Se êle tiver algum problema financeiro, talvez possamos ajudar, dando-lhe algum tempo para cfetuar o pagamento.

- Obrigada, Sam - disse Christine, sentindo-se aliviada ao saber que Jakubiec podia mostrar-se tão prestativo num caso justo quanto duro nos casos de maus pagadores.

Quando já chegava à porta, o chefe de créditoperguntou:

- Srta. Francis, como vão as coisas lá em cima?

- Estão rifando o hotel, Sam - respondeu ela sorrindo. - Não queria dizer, mas você me obrigou.

- Se sortearem o meu bilhete - replicou Jakubiec - mande fazer novo sorteio. Já tenho problemas bastantes.

Por baixo dessa despreocupação, desconfiava Christine, o chefe de crédito estava tão intranquilo quanto muitos outros, pensando no emprêgo. As questões financeiras do hotel deviam ser confidenciais, mas raramente éram e era impossível impedir que as notícias sôbre as dificuldades mais recentes se espalhassem.

Atravessou novamente a portaria principal, recebendo os "bons dias" dos carregadores, do florista e de um dos ajudantes da gerência, sentado com todo garbo em sua mesa de localização central. Passando ao largo dos elevadores, subiu ligeiramente à escadaria curva que dava para a sobreloja. Vendo o ajudante da gerência, se lembrara de seu superior imediato, Peter Mcdermott. Desde a noite anterior Christine se surpreendera pensando bastante em Peter e imaginava se os momentos que haviam passado juntos teriam produzido o mesmo efeito nêle. Em diversas ocasiões, desejara que assim fôsse, mas logo recuara da perspectiva de um interêsse sentimental talvez prematuro. No decorrer dos anos em que aprendera a viver sòzinha, tinha havido homens na vida de Christine, mas nenhum fôra levado a sério. Às vêzes, parecia que o instinto a protegia contra a renovação do tipo de relação íntima tão bàrbaramente mutilada cinco anos antes. Ainda assim, imaginava naquele momento onde estaria Peter e o que fazia. Com espírito prático, decidiu depois que seus caminhos se cruzariam de nôvo, ao correr do dia.

De volta ao seu escritório no conjunto administrativo, espiou o de Warren Trent, mas o dono do hotel ainda não descera de seu apartamento no décimo-quinto andar. A correspondência matutina estava em sua mesa, e diversas mensagens telefônicas requeriam providências. Resolveu completar logo a questão que a levara ao térreo, e tomando o telefone pediu ligação para o quarto 1410.

Foi atendida por voz feminina, presumivelmente a enfermeira particular. Depois de dizer quem era, Christine perguntou pelo estado do doente.

- O Sr. Wells passou uma noite tranquila - foi a resposta - e está melhor.

- Nesse caso, talvez eu possa fazer-lhe uma visita.

- Acho que não, durante algum tempo mais. O Dr. Aarons examinará o doente esta manhã e quero estar preparada para recebê-lo.

Até parecia uma visita oficial, pensou Christine. A idéia de que o pomposo Dr. Aarons seria recebido por uma enfermeira igualmente pomposa era divertida. Em voz alta, disse então:

- Nesse caso, faça o favor de dizer ao Sr. Wells que telefonei e que irei vê-lo à tarde.

A conversa no apartamento de Warren Trent deixara em Peter Mcdermott sentimento de frustração. Andando pelo corredor do décimo-quinto andar, enquanto Aloysius Royce fechava a porta, refletiu que os seus encontros com o dono do hotel tomavam invariàvelmente o mesmo rumo. Como em outras ocasiões, sentia o desejo fervoroso de que lhe dessem seis meses e carta-branca para dirigir pessoalmente o hotel.

Perto dos elevadores, parou a fim de usar um telefone interno, perguntando à portaria que acomodações haviam sido reservadas para o Sr. Curtis O'Keefe e os seus acompanhantes. Foi informado de que havia dois apartamentos contíguos no décimo-segundo andar, e Peter seguiu a pé pela escada de serviço, descendo os dois andares. Como em todos os hotéis maiores, o St. Gregory simulava não ter um décimo-terceiro andar, chamando-o décimo-quarto.

As quatro portas que davam para os apartamentos reservados estavam abertas e, por elas, vinha o ruído do aspirador em funcionamento. Entrando, viu duas arrumadeiras trabalhando com afinco, sob o olhar da Sra. Blanche Du Quesnay

- a governante de língua afiada, mas competentíssima, do Hotel St. Gregory. Esta se voltou à sua entrada, com os olhos claros fuzilando.

- Devia saber que um de vocês, homens, viria examinar se sou capaz de fazer meu trabalho, mesmo que não soubesse a importância de ter tudo em ordem, visto quem vai chegar.

Peter sorriu.

- Descanse, Sra. Quesnay. Trent me pediu que desse uma vista de olhos.

Gostava daquela senhora ruiva, de meia-idade; uma das melhores chefes de departamento no hotel. As duas arrumadeiras riam, e êle piscou para elas, acrescentando à chefe:

- Se o Sr. Trentsoubesse que a Sra. estava tratando pessoalmente disso, não pensaria mais no caso.

- Se acabar o sabão em pó na lavanderia, mandaremos chamá-lo - disse ela, com um vestígio de sorriso, enquanto ajeitava as almofadas em dois sofás compridos.

Peter riu de nôvo e perguntou:

- Mandaram vir flôres e a cesta de frutas?

Achava que o magnata dos hotéis provàvelmente estava cansado de receber a inevitável cesta de frutas, saudação padronizada dos hotéis aos figurões visitantes, mas sua ausência poderia ser notada.

- Já estão a caminho - respondeu a governante, tirando os olhos da arrumação das almofadas e acrescentando: Mas pelo que sei, o Sr. O'Keefe vai trazer suas próprias flores e não será em jarras.

Era uma referência, compreendida por Peter, ao fato de que Curtis O'Keefe raramente deixava de ter companhia feminina em suas viagens, uma companhia que mudava com frequência. Discretamente, fêz-se de desentendido, e a Sra. Du Quesnay lhe atirou um de seus olhares rápidos e petulantes dizendo:

- Dê uma espiada. Não lhe custará nada.

Enquanto percorria os dois apartamentos, Peter observou que tudo havia sido cuidadosamente preparado. Os móveis em vermelho e dourado, com tema francês, estavam sem poeira e arrumados. Nos dormitórios e banheiros, a roupa de cama e demais peças de linho mostravam-se impecáveis e corretamente dobradas, as pias e banheiras sêcas e brilhando, os vasos sanitários impecàvelmente desinfetados e tampados. Espelhos e janelas reluziam, tôdas as lâmpadas elétricas funcionavam, bem como os aparelhos de televisão e rádio: o condicionamento de ar correspondia às alterações nos termostatos, embora a temperatura fôsse agradável. Nada havia a fazer, pensou êle.

Foi quando lhe ocorreu uma idéia. Lembrava-se de que Curtis O'Keefe era homem muito religioso, dizendo-se mesmo que chegava à ostentação. Rezava com frequência, às vêzes em público. Diziam que, quando se interessava por mais um

hotel, orava pedindo sua posse, assim como uma criança rezava ao pedir um brinquedo de Natal, e diziam também que antes de efetuar os seus negócios, observava um ritual religioso particular, assistido zelosamente pelos seus auxiliares superiores. O chefe de uma cadeia hoteleira rival, segundo Peter se lembrava, dissera certa feita:

- Curtis não perde oportunidade de rezar. Chega a urinar de joelhos.

O pensamento levou Peter a examinar as Bíblias Gideon, das quais havia uma em cada quarto, e logo ficou satisfeito por ter feito isso. Como acontece geralmente, depois de terem estado algum tempo em uso, as páginas iniciais das Bíblias ficavam cheias de números de telefones de pequenas, porquanto uma Bíblia Gideon, como sabiam os viajantes traquejados, era o lugar onde se devia procurar êsse tipo de informação. Peter mostrou os livros em silêncio à Sra. Du Quesnay.

- O Sr. O'Keefe não vai precisar disso, vai? Mandarei subir outras, novas.

Pondo as Bíblias sob o braço, encarou Peter com expressão indagadora.

- Suponho que os gostos e preferências do Sr. O Keefe vão ter importância para a manutenção do emprêgo de algu mas pessoas aqui.

- Sinceramente, não sei, Sra. Q. - respondeu êle. A Sra. sabe tanto quanto eu.

Percebia o olhar interrogativo da governante, enquanto se retirava do apartamento. Sabia que a Sra. Du Quesnay sustentava um marido inválido, e qualquer ameaça a seu emprêgo causaria ansiedade. Sentiu sinceramente pena dela, enquanto dirigia o elevador para a sobreloja.

No caso de modificação na direção do hotel, supunha Peter, a maior parte dos empregados mais jovens e inteligentes teria possibilidade de continuar. Calculava que a maioria conseguiria isso, pois a cadeia hoteleira de O'Keefe possuía a reputação de tratar bem os empregados. Já os mais velhos, alguns dos quais tinham relaxado o seu trabalho; podiam preocupar-se mais.

Enquanto Peter Mcdermott se aproximava do conjunto administrativo, o mecânico-chefe, Doc Vickery, estava saindo de lá. Peter lhe disse:

- O elevador número quatro deu algum trabalho ontem à noite, chefe. Já sabia disso?

O outro balançou afirmativamente a cabeça calva.

- O negócio é ruim, quando as máquinas que precisam de dinheiro não o conseguem.

- A coisa é tão grave assim? - indagou Peter, sabendo que a verba para máquinas fôra recentemente reduzida, mas ouvindo falar, pela primeira vez, que havia sérias dificuldades nos elevadores.

O mecânnico respondeu:

- Não vamos ter um grave acidente, se é o que quer saber. Vigio os dispositivos de segurança como se vigia uma criança, mas tivemos pequenas paralisações e às vêzes ocorre uma maior. Bastam dois carros parados, algumas horas, e todo o edifício fica descontrolado.

Peter pensou que se aquilo era o pior que poderia acontecer não precisava preocupar-se em demasia.

- De que está precisando? - perguntou.

O mecânico-chefe olhou-o por cima dos óculos de armação grossa.

- Cem mil dólares; para começar. Com êsse dinheiro, posso substituir a maior parte do mecanismo dos elevadores, e depois mais algumas coisas.

Peter assobiou ante a cifra avultada.

- Vou-lhe dizer uma coisa - prosseguiu o outro. A máquina boa é uma coisa encantadora, às vézes totalmente humana. Na maior parte dos casos, trabalha mais do que se julga possível, e depois disso pode-se consertar daqui, ajudar dali, e ela trabalhará mais um bocado. Em certo ponto, porém, chega-se ao limite mortal que não se pode ultrapassar, por mais que o zelador ou a máquina o queiram fazer.

Peter pensava ainda nessas palavras, ao entrar em seu escritório. Qual seria o limite mortal de todo um hotel? Decerto não chegara para o St. Gregory, ainda, embora desconfiasse que, em face do regime administrativo em vigor, já fôra até ultrapassado.

Havia uma pilha de cartas, memorandos e recados telefônicos em sua mesa, e apanhando o primeiro dêles encontrou as seguintes palavras: "A Srta. Marsha Preyscott atendeu ao telefonema e esperará no quarto 555 até que lhe telefone de nôvo. " Era um lembrete da sua intenção de descobrir mais coisas sôbre os acontecimentos da véspera no 1126-7.

E outra: precisava ir ver Christine, sem demora. Encontrou diversas questões menores, a serem resolvidas por Warren Trent, mas não tão importantes que merecessem exame no encontro daquela manhã. Em seguida, sorriu e repreendeu-se intimamente: "Pare de racionalizar! Você quer vê-la, e por que não?"

Enquanto resolvia o que fazer primeiro, o telefone chamou. Era da portaria e um dos encarregados avisava:

- Achei que gostaria de saber que o Sr. Curtis O'Keefe acaba de chegar.

Curtis O'Keefe entrou rapidamente pelo vestíbulo movimentado, como uma seta perfura a maçã. Olhando em volta, o seu tino de hoteleiro notara sinais, pequenos mas importantes - um jornal deixado numa cadeira e não recolhido, meia dúzia de pontas de cigarros na caixa de areia em frente aos elevadores, o botão que faltava no uniforme de um boy, duas lâmpadas queimadas no lustre. Na entrada da avenida St. Charles, o porteiro uniformizado conversava com o jornaleiro, cercado por hóspedes e outras pessoas. Perto estava um idoso ajudante da gerência, sentado em sua mesa, olhando para o chão.

Em qualquer hotel da cadeia O'Keefe, no caso improvável de tais ineficiências ocorrerem todas ao mesmo tempo, seriam tomadas providências enérgicas, como repreensões duras e talvez demissões. Mas o St. Gregory não é meu hotel, relembrou a si próprio. Ainda não.

Encaminhou-se para a portaria com passos de dançarino, quase requebrando o corpo esguio e guapo, com mais de 1m80 de altura e trajando terno impecavelmente passado e cinzento. Os passos eram característica sua, quer se achasse numa quadra de handball, o que frequentemente acontecia, ou num salão de baile, ou ainda no convés oscilante de seu iate Innkeeper IV. O corpo flexível de atleta fora seu orgulho na maior parte dos 56 anos, em que conseguira subir do anonimato da classe média, tornando-se um dos homens mais ricos - e incansáveis - do país.

No balcão de mármore, mal olhando quem chegava, um encarregado estendendo o talão de registro de hóspedes, que o hoteleiro não aceitou, anunciando tranquilamente:

- Meu nome é O'Keefe e reservei dois apartamentos, um para mim e outro em nome da Srta. Dorothy Lash.

Sem olhar diretamente, já via Dodo entrando pela portaria, com seu conjunto de pernas e seios, irradiando sexo como faíscas. Muitos se voltavam para ela, com a respiração suspensa, como sempre acontecia. Éle a deixara no automóvel a fim de supervisionar a bagagem. Dodo gostava de fazer coisas assim, de vez em quando, pois outras atividades que exigiam maior esfôrço cerebral não eram com ela.

As suas palavras causaram o efeito que causaria uma granada. O encarregado empertigou o corpo, levantou os ombros e ao encarar os olhos cinzentos e frios que pareciam perfurá-lo, sem qualquer esfôrço, sua atitude mudou, passando da indiferença ao respeito solícito. Com instinto nervoso, levou a mão à gravata.

- Desculpe-me, Sr. Curtis O'Keefe.

O hoteleiro acenou, exibindo um sorriso incompleto e superior, na expressão calma e benévola impressa em meio milhão de exemplares do livro intitulado Sou Vosso Anfitrião, do qual um exemplar era colocado destacadamente em cada quarto de hotel na cadeia hoteleira O'Keefe. ("Este livro é para dar-Lhe prazer. Se o quiser levar, avise ao encarregado e 1 dólar e 25 cents serão acrescentados à sua conta. ")

- Sim, Sr. Tenho a certeza de que seus apartamentos estão prontos, Sr. Se puder esperar um momento, por favor.

Enquanto o encarregado examinava as papeletas de reservas e quartos, O'Keefe se afastou do balcão com um passo atrás, deixando outros recém-chegados se aproximarem. A mesa de recepção, bastante tranquila momentos antes, enfrentava agora uma daquelas ondas periódicas de movimento, parte da vida em todos os hotéis. Lá fora, sob o sol claro e quente, limusinas vindas do aeroporto, e táxis, traziam viajantes vindos para o sul do país, como êle próprio, no vôo matutino a jato, partido de Nova York. Observou que se reunia uma convenção, e suspensa no teto uma faixa proclamava:

BEM-VINDOS OS DELEGADOS

AO CONGRESSO AMERICANO DE ODONTOLOGIA

Dodo veio ter com êle, acompanhada por dois empregados carregados de malas e que a seguiam como acólitos seguem uma deusa. Sob o chapelão que não conseguia ocultar-lhe a farta cabeleira prateada, os olhos azuis e infantis estavam tão arregalados quanto sempre, no rosto impecável e juvenil.

- Curtie, dizem que há muitos dentistas hospedados aqui.

- Foi ótimo me dizer - respondeu êle, sêcamente. Se não me avisasse, eu nunca repararia.

- Puxa! Talvez eu possa fazer aquela obturação. Há muito tempo Que preciso fazer, mas sempre aparece uma coisa.

- Os dentistas estão aqui para abrir as bôcas próprias, não as alheias.

Dodo teve expressão de perplexidade, como se os acontecimentos ao redor fôssem coisa que devia entender, mas não conseguia. Um gerente de hotel na cadeia de O'Keefe, sem saber que seu superior estava ouvindo, dissera recentemente sôbre Dodo:

- Os miolos dela estão nas têtas, mas não têm ligação entre si.

O' Keefe sabia que alguns conhecidos ficavam dando tratos â bola sôbre sua escolha de levar Dodo como companheira de viagem quando, com sua riqueza e influência, poderia dentro de limites razoáveis - escolher quem bem entendesse.

As asneiras dela, bem como as suas frequentes gafes, que pareciam amolar os outros, eram tomadas por êle como diversão, talvez porque farto de estar cercado por espíritos inteligentes e vigilantes, que lutavam sempre para se equiparar à sua própria astúcia.

No entanto, supunha que em breve dispensaria Dodo. Havia quase um ano que o acompanhava, mais tempo do que a maioria das outras. Sempre havia grande número de starlets a colhêr na galáxia hollywoodiana. Está claro que a encaminharia bem, usando sua enorme influência para lhe obter um ou dois papéis de coadjuvante cinematográfica, sendo possível até que ela se saísse bem. Para isso, não lhe faltavam corpo e rosto. Dispondo apenas dêsses artigos, outras se haviam colocado magnificamente.

O encarregado voltou ao balcão fronteiro e avisou:

- Tudo está pronto, Sr. Curtis O'Keefe agradeceu com aceno da cabeça e depois, conduzido pelo chefe da portaria, Herbie Chandler, que ràpidamente surgira de algum lugar, o seu pequeno cortejo se dirigiu ao elevador, já de portas abertas e à sua espera.

Pouco depois de Curtis O'Keefe e Dodo serem levados a seus apartamentos contíguos, Julius "Keycase" Milne obtinha um quarto de solteiro no St. Gregory.

Keycase chamara às 10h45 da manhã, usando o telefone externo do hotel, instalado no aeroporto de Moisant ("Fale de raça com o melhor hotel de Nova Orleans"), a fim de confirmar reserva feita dias antes, quando telefonara de fora da cidade. Em resposta, foi-lhe assegurado que a reserva estava em ordem; se tivesse a bondade de se dirigir à cidade, seria acomodado sem qualquer demora.

Como sua decisão de ir para o St. Gregory fôra tomada poucos minutos antes, Keycase ficou satisfeito com a notícia, embora não se surpreendesse, pois seu planejamento antecipado tomara a forma de fazer reservas em todos os grandes hotéis de Nova Orleans, usando um nome diferente para cada um. No St. Gregory, fizera a reserva como "Byron Meader", nome tirado de jornal porque seu dono ganhara o prêmio maior no sweepstake. Isso parecia bom presságio, e os presságios impressionavam Keycase profundamente.

Na verdade, tais augúrios se haviam confirmado em diversas ocasiões. Na última vez que fôra a julgamento, por exemplo, logo depois de se ter declarado culpado, um raio de sol atingia obliquamente a mesa do juiz e a sentença seguinte - proferida com a luz do sol na mesma posição - fôra de apenas três anos, quando Keycase esperava cinco. Mesmo a série de "trabalhos" anteriores ao julgamento e condenação parecia ter corrido bem, pelo mesmo tipo de razão. Sua entrada noturna em diversos quartos de hotel, em Detroit, fôra fácil e lucrativa, em grande parte - imaginara depois - porque todos os números de quarto, a não ser o último, continham o algarismo "2", seu número de sorte. Fôra êsse último quarto, onde faltava o algarismo animador, em que a ocupante despertara e gritara bem alto, exatamente quando êle recolhia o casaco de pele, tendo-se já apoderado do dinheiro e das jóias guardados em bolso especialmente grande de seu paletó.

Fôra pura má sorte, talvez conjugada à situação numerológica, que o detetive do hotel estivesse por perto e atendesse logo aos gritos da mulher. Keycase, homem de temperamento filosófico, aceitara graciosamente o inevitável, sem se dar sequer ao trabalho de apresentar explicações bem urdidas, que de outras vêzes tinham produzido tão bons resultádos, dos motivos pelos quais estava em quarto que não era seu. No entanto, era um risco que se tinha de aceitar na profissão, até mesmo para um especialista competente como Keycase. Tendo cumprido a sentença (reduzida ao mínimo por sua boa con duta) e depois de uma temporada das melhores em Kansas City, êle antevia com ansiedade uma quinzena, mais ou menos, de atividades lucrativas em Nova Orleans.

O comêço fôra bem. Chegara ao aeroporto de Moisant pouco antes das 7h30 da manhã, vindo, em seu próprio automóvel, do motel barato da estrada Chef Menteur onde ficara na noite anterior. Achou magnífica a instalação do aeroporto e estação de passageiros, com muitas vidraças e cromados, bem como muitas latas de lixo, coisa importante para o que pretendia fazer.

Em placa afixada à parede; lera que o aeroporto recebera o nome de John Moisant, filho de Nova Orleans e pioneiro mundial da aviação, observando que as iniciais eram iguais às suas, o que poderia ser outro augúrio favorável. Era o tipo de aeroporto onde teria orgulho de chegar, a bordo de um grande avião a jato, e talvez isso não tardasse a ocorrer, se as coisas marchassem como haviam marchado antes de sua última temporaeda na prisão o colocar por algum tempo fora de atividade. No entanto, estava voltando depressa, ainda que às vêzes se visse hesitante quando, antes, teria agido calmamente, quase com indiferença.

Mas isso era natural e advinha de saber que, se fôsse apanhado e prêso outra vez, pegaria de dez a quinze anos. Sentença assim seria difícil de cumprir, pois aos 52 anos de idade restavam poucos períodos de tal duração.

Andando pela estação de passageiros, com sua figura elegante e bem trajada, trazendo sob o braço um jornal dobrado Keycase se mantinha cuidadosamente alerta. A sua aparência era de abastado homem de negócios, calmo e confiante. Apenas os olhos não paravam, acompanhando os movimentos dos primeiros viajantes do dia, chegados à estação em limusinas e táxis vindos de hotéis no centro da cidade. Era o primeiro êxodo do dia rumo ao norte do país, e bem numeroso, porquanto United, National, Eastern e Delta programavam partidas matutinas de aviões a jato, com destino a Nova York, Washington, Chicago, Miami e Los Angeles.

Em duas ocasiões, viu iniciar-se aquilo que esperava, mas a coisa ficou apenas no comêço. Dois homens; mexendo nos bolsos à busca das passagens ou trôco, haviam encontrado uma chave de quarto de hotel, que tinham esquecido de entregar à saída. Oprimeiro se deu ao trabalho de procurar uma caixa coletora de correspondência e atirar ali sua chave, como era sugerido na plaquinha de matéria plástica prêsa à mesma. O outro entregou a sua a um balconista, que a guardou na gaveta de dinheiro, presumivelmente para devolvê-la ao hotel.

Os dois incidentes eram desapontadores, mas dotado de grande experiência Keycase continuou a observar. Era homem paciente, e logo viria o que esperava.

Dez minutos depois, sua vigilância foi recompensada.

Um homem calvo e de rosto rosado, trazendo sobretudo bôlsa cheia e máquina fotográfica, parou para comprar uma revista quando a caminho da rampa de partida. No ato de pagar, descobriu uma chave de hotel no bôlso e teve uma exclamação de aborrecimento. A espôsa, mulher magra e meiga apresentou-lhe uma sugestão calma, e êle retrucou com rispidez:

- Não há mais tempo.

Ouvindo-os, Keycase passou a acompanhá-los. Muito bem!

Ao passarem por um coletor de lixo, o homem jogou fora a chave.

Para Keycase, o resto era mera rotina. Passando pelo coletor, jogou o seu jornal dobrado e depois, como se mudasse repentinamente de idéia, voltou-se e o apanhou de volta. Ao mesmo tempo, examinava o coletor, encontrava a chave abandonada e a apanhava disfarçadamente. Poucos minutos depois, no banheiro dos homens, podia ler que a mesma era do quarto 641 no Hotel St. Gregory.

Dali a meia hora, como acontecia muitas vêzes ao começarem a surgir oportunidades, um incídente semelhante terminava com o mesmo tipo de resultado. A segunda chave também era do St. Gregory, coincidência que levou Keycase a telefonar em seguida, confirmando sua reserva naquele hotel. Resolveu não forçar a sorte, ficando mais tempo no aeroporto, pois já podia começar a agir e naquela noite procuraria outras chaves na estação ferroviária, voltando ao aeroporto em dois dias, talvez. Havia outros modos de obter chaves de hotel, um dos quais já pusera em movimento na noite da véspera.

Não fôra sem motivo que um promotor de Nova Yorque observara no tribunal, muitos anos antes:

Nesse homem tudo se relaciona com uma chave. Francamente, passei a pensar nêle como Kycasse-chave, Milne.

A observação chegara aos arquivos policiais e o apelido "pegara", de tal modo que o próprio Keycase o exibia agora com certo orgulho, temperado pelo conhecimento técnico de que com tempo, paciência e sorte as possibilidades de conseguir uma chave para qualquer fechadura eram extremamente boas.

A sua especialidade se baseava na indiferença das pessoas pelas chaves de hotel, indiferença essa - notara Keycase muito antes - que constituía motivo constante de desespêro dos hoteleiros em todo o país. Em teoria, quando o hóspede pagasse sua conta ao se retirar, devia deixar também sua chave, mas inúmeras pessoas saíam dos hotéis levando as chaves, esquecidas no bolso ou bôlsa. Os que tinham consciência acabavam pondo as mesmas numa caixa de correio, e um hotel grande como o St. Gregory pagava habitualmente 50 dólares ou mais por semana, de taxa postal devida por chaves assim devolvidas. Mas havia os que ficavam com as chaves, ou então se desfaziam delas de qualquer maneira.

Era êsse último grupo que mantinha os ladrões profissionais de hotéis, como Keycase, ativos em sua profissão".

Da estação de passageiros no aeroporto Keycase regressou ao ponto de estacionamento e ao Ford sedan, com cinco anos de fabricação, que comprara em Detroit e no qual rumara primeiramente para Kansas City, e depois para Nova Orleans. Era um carro idealmente adequado para Keycase, pintado em cinzento opaco, veículo que não era nôvo, nem velho demais para ser observado ou lembrado. O único sinal que o incomodava um pouco eram as placas de Michigan, pintadas de verde vivo sôbre o branco. As placas de outros estados não eram incomuns em Nova Orleans, mas aquêle pequeno traço diferente era coisa que êle preferia não ter. Pensara usar chapas falsas da Luisiana, mas isso podia ser perigo ainda maior e Keycase era bastante astuto para não sair demais de sua própria especialidade.

O motor pegou ao primeiro toque no botão de arranque, funcionando sem ruído; era o resultado da revisão feita por êle próprio, que aprendera a fazer isso às custas do govêrno, numa das vêzes em que estivera prêso.

Percorreu os vinte quilômetros do aeroporto à cidde, obedecendo cuidadosamente os limites de velocidade e dirigindo-se ao St. Gregory, que localizara no dia anterior, ocasião em que fizera um reconhecimento prévio do lugar. Estacionou perto da rua Canal, a poucosquarteirões do hotel, e retirou as suas malas. O resto de sua bagagem ficara no quarto do motel, onde pagara diversos dias adiantadamente. Era caro manter outro quarto, mas era prudente. O motel serviria para guardar tudo aquilo que recolhesse e, se tivesse algum contratempo, poderia ser abandonado. Tivera todo o cuidado em não deixar ali coisa alguma qe o identificasse, e escondera a chave do quarto do motel no filtro de ar, no carburador do Ford.

Entrou no St. Gregory com ar confiante, entregando as malas ao porteiro e registrando-se como W. Meader, de Ann Arbor, Michigan. O encarregado dos quartos, percebendo-lhe as roupas bem-feitas e as feições finas, tratou o recém-chegado com respeito e lhe deu o quarto 830. Agora, pensava Keycase, estava com três chaves do St. Gregory, uma de que o hotel sabia e duas outras, por êle ignoradas.

O quarto 830, a qe o boy o conduziu poucos momentos depois, mostrou-se ideal. Era espaçoso, confortável e a escada de serviço, como observou ao entrar, ficava a poucos metros de distância.

Quando se viu sòzinho, abriu as malas e arrumou cuidadosamente suas coisas. Mais tarde dormiria, preparando-se para o trabalho sério daquela noite.

No momento em que Peter Mcdermott chegou à portaria, Curtis O'Keefe já estava sendo eficientemente atendido, e Peter resolveu não acompanhá-lo, pois havia ocasiões em que o excesso de atenção podia se mostrar tão incômodo para o hóspede quanto a falta dela. Além disso, o acolhimento oficial proporcionado pelo St. Gregory seria prestado por Warren Trent, e depois de verificar se o dono do hotel fôra informado da chegada de seu confrade, Peter tratou de ir ver Marsha Preyscott no 555.

- Que bom ter vindo! - disse ela, abrindo a porta. Começava a pensar que não viria mais.

Estava com um vestido damasco sem mangas, notou Peter, que òbviamente fôra mandado de manhã, a seu pedido, e lhe tocava de leve o corpo. Os longos cabelos negros estavam soltos pelos ombros, em contraste com seu penteado mais bemfeito - embora desordenado - da noite anterior. Havia algo singularmente provocante, quase arrebatador, naquela aparência de menina-môça.

- Desculpe ter demorado tanto - disse êle, olhando-a com expressão de aprovação. - Mas vejo que soube usar o tempo.

- Achei que iria precisar do pijama - retrucou ela, sorrindo.

- O pijama só serve para emergências, bem como êste quarto. Raramente o uso.

- Foi o que disse a camareira. Por isso, se não se incomodar, gostaria de ficar até hoje à noite, pelo menos.

- Oh! E por quê?

- Não tenho certeza - respondeu ela com hesitação, enquanto os dois se defrontavam. - Talvez seja porque quero me recobrar do que aconteceu ontem, e o melhor lugar para isso é aqui.

O mutivo verdadeiro, reconhecia ela intimamente, era o desejo de adiar seu regresso à grande e solitária mansão no Garden District. Ele concordou, demonstrando dúvida, e acrescentando:

- Como se sente?

- Melhor.

- Fico satisfeito com isso.

- Não é o tipo de acontecimento do qual a pessoa pode recobrar-se em poucas horas - reconheceu Marsha -, mas receio ter sido muito estúpida em vir aqui, como você me fêz ver.

- Eu não disse isso!

- Não, mas pensou.

- Se pensei, devia me lembrar de que todos nós nos vemos em situações difíceis, às vêzes - respondeu êle.

Houve uma pausa, e então acrescentou:

- Vamo-nos sentar.

Depois de sentados, êle começou a tratar do motivo que o levara:

- Eu queria que me contasse como foi que tudo começou.

- Sabia que ia pedir isso - retrucou ela, acrescentando

- com a franqueza à qual êle se estava acostumando: - Estive

pensando se devia ou não contar.

Na véspera, raciocinava Marsha, os seus sentimentos principais tinham sido choque, orgulho ferido e esgotamento físico, mas agora o choque desaparecera e seu orgulho, ao que desconfiava, sofreria menos com o silêncio. Também era provável que à luz restauradora do dia Lyle Dumaire e seus companheiros não estivessem inclinados a jactar-se de sua tentativa.

- Não devo insistir, se resolveu calar-se - disse Peter -, mas gostaria de fazer-lhe ver que quem escapa impune tentará outra vez, talvez não com você, mas com outra pessoa.

Percebeu a perturbação no olhar de Marsha, e aduziu:

- Não sei se os homens presentes naquele quarto ontem à noite eram seus amigos ou não, mas ainda que fôssem, não vejo motivo para protegê-los.

- Um dêles era amigo, ou pelo menos assim eu o considerava.

- Amigo ou não - insistiu Peter -, o importante é o que tentaram fazer e teriam feito, se Royce não aparecesse. Acresce que, quando se viram apanhados, os quatro fugiram, deixando-a sòzinha.

- Ontem à noite - disse ela numa tentativa - ouvi você dizer que sabia o nome de dois dêles.

- O quarto foi registrado em nome de Stanley Dixon. O outro nome que tenho é Dumaire. Eram dois dêles?

Ela confirmou com movimento da cabeeça.

- Quem era o chefe?

- Dixon... eu acho...

- Conte-me agora o que aconteceu antes.

Marsha compreendeu que, de certo modo, não podia mais decidir por si. A sensação era a de estar dominada, experiência nova para ela e, para sua surprêsa, percebeu que estava gostando. Descreveu obedientemente a sequência de fatos iniciados desde que deixara o salão de baile e terminados com a chegada de Aloysius Royce. Foi interrompida apenas duas vêzes na narrativa, quando Peter Mcdermott lhe perguntou se vira alguma coisa das mulheres no quarto contíguo aos Quais Dixon e os demais se haviam referido, e se observara a presença de algum empregado do hotel. Respondeu negativamente a ambas as perguntas, e ao final sentiu o desejo de lhe contar mais. A coisa tôda, disse a Peter, provàvelmente não teria acontecido, se não fôsse o aniversário dela. Ele pareceu surpreendido:

- Foi ontem, o seu aniversário?

- Completei dezenove anos.

- E estava sòzinha?

Agora que revelara tanta coisa, não adiantava recuar mais. Marsha descreveu o telefonema de Roma, e seu desapontamento por não ter seu pai regressado.

- Sinto muito - disse êle, quando Marsha terminou.

- Isso torna mais fácil entender parte do que aconteceu.

- Jamais acontecerá outra vez - retrucou ela. - Jamais!

- Estou certo disso - concordou Peter, acrescentando em tom mais comercial: - O que desejo agora é usar o que me contou.

- De que modo? - perguntou Marsha, demonstrando dúvida.

- Vou chamar os quatro, Dixon, Dumaire e os dois outros, para conversar comigo no hotel.

- Talvez não venham.

- Virão, sim - confirmou êle, tendo decidido que sabia como devia agir.

- Dêsse modo, a coisa não seria sabida por muitas pessoas? - perguntou Marsha, ainda incerta.

- Proneto que, quando encerrarmos o caso, aqui, haverá probabilidade ainda menor de que alguém toque no assunto.

- Pois bem! E muito obrigada por tudo o que fez.

Sentia um alívio que Lhe subia à cabeça, de modo fixo. Peter achava que a coisa fôra mais fácil do que esperara, e agora que dispunha da informação, estava ansioso por usá-la. No entanto, talvez devesse ficar mais alguns minutos, quando mais não fôsse para deixar a môça à vontade.

- Há uma coisa que devo explicar, Srta. Preyscott.

- Marsha. - corrigiu ela.

- Muito bem, meu nome é Peter - aceitou êle, achando que a intimidade não faria mal, embora os administradores de hotéis fôssem aconselhados a evitar isso, exceto com hóspedes que conhecessem muito bem. - Muitas coisas acontecem em hotéis, Marsha, às quais fechamos os olhos. Mas quando sucede um caso como o seu, podemos ser extremamente duros, e isso se refere a qualquer integrante do nosso pessoal, se descobrirmos que está implicado.

Aquela questão, envolvendo a reputação do hotel, era assunto no qual o próprio Warren Trent se mostraria tão intransigente quanto êle, Peter, e qualquer providência sua, desde que apoiada em provas, seria inteiramente apoiada pelo proprietário.

Peter achou que a conversa se estendera até onde preciso, e levantou-se da cadeira, dirigindo-se para a janela. Daquele lado do hotel podia ver a atividade matinal intensa na rua do Canal. As seis pistas de tráfego estavam cheias de veículos, e as calçadas apinhadas de gente fazendo compras. Grupos de ambulantes esperavam no bulevar central arborizado com palmeiras, onde os ônibus com ar condicionado passavam, com os cartazes de alumínio brilhando ao sol. A Associação Nacional Para o Progresso das Pessoas de Côr (N. A. A. C. P.) estava novamente agindo contra algumas casas comerciais. Um dos cartazes dizia: "ESTA LOJA DISCRIMINA. NÃO COMPREM NELA. " Outros portadores de cartazes semelhantes andavam por ali fleumàticamente, enquanto ao redor os pedestres passavam.

- Você não conhece Nova Orleans, conhece? - perguntou Marsha, que fôra ter com êle à janela.

Peter sentiu uma fragrância doce e gentil.

- Conheço pouco. Espero vir a conhecer melhor.

Com repentino entusiasmo, ela se ofereceu:

- Pois eu sei muita coisa da história local. Quer que lhe conte?

- Bem, já comprei alguns livros. Só não tive, ainda, tempo de ler.

- Poderá ler todos êles depois. É muito melhor ver as coisas, primeiro, ou ter quem fale delas. Além disso, eu gostaria de fazer alguma coisa para lhe demonstrar meu reconhecimento.

- Não há necessidade disso.

- Pois, então, só fica meu desejo de fazê-lo. Por favor!

- implorou Marsha, pondo a mão no braço dêle.

- A oferta é interessante - respondeu Peter, sem saber se estava sendo ajuizado.

- Muito bem! Está resolvido. Amanhã à noite, vai haver um jantar lá em casa. Será uma noitada à antiga, estilo Nova Orleans. Depois do jantar, poderemos falar sôbre a história.

- Espere lá! - protestou Peter.

- Então, já tem outro compromisso?

- Não é bem isso.

- Nesse caso, também isso está decidido - arrematou ela, em tom resoluto.

O passado, a importância de evitar qualquer situação com uma môça que era também hóspede do hotel, fizeram Peter hesitar, mas depois achou que seria grosseria recusar, e não havia indiscrição em aceitar um convite para jantar. Haveria outras pessoas presentes, afinal de contas.

- Se eu fôr - disse êle -, quero que faça uma coisa para mim, agora.

- O quê?

- Vá para casa, Marsha. Saia do hotel e vá para sua casa.

Encararam-se com firmeza, e mais uma vez êle sentiu a juventude e fragrância da môça.

- Muito bem - disse ela, finalmente. - Se quer assim; eu vou.

Peter McDermott estava imerso em seus próprios pensamentos quando regressou a seu escritório na sobreloja, poucos minutos depois. Perturbava-o o fato de que alguém tão jovem como Marsha Preyscott, presumivelmente nascida em berço de ouro, se mostrasse tão desamparada, ao que parecia. Mesmo estando seu pai fora do país e sua mãe em companhia de outro marido - já ouvira falar nos múltiplos casamentos da ex-Sra. Preyscott - achava incrível que não se tomassem medidas de proteção para ela. Se eu fôsse o pai dela, pensou Peter. ou o irmão.

Foi interrompido por Flora Yates, sua secretária feia e sardenta, cujos dedos grossos, com que podia trabalhar em máquina de escrever com mais rapidez do que qualquer outra datilógrafa que Peter conhecesse, seguravam um maço de recados telefônicos. Indicando-os, êle perguntou:

- Alguma coisa urgente?

- Algumas, mas podem esperar até à tarde.

- Que esperem, então. Pedi ao caixa que me mandasse a conta do quarto 1126-7. Está em nome de Stanley Dixon.

- Ei-la - respondeu Flora, destacando uma pasta dentre outras na mesa. - Mandaram também o orçamento da carpintaria, avaliando os estragos no apartamento. Vou juntar os dois.

Peter os examinou ràpidamente. A conta, incluindo diversas taxas de serviço prestado aos quartos, era de 75 dólares e a avaliação da carpintaria orçava em 110. Indicando a conta, Peter disse:

- Veja o telefone dêsse enderêço. Deverá estar em nome do pai.

Em sua mesa estava um jornal dobrado, que não vira até então. Era o Times-Picayune matutino, que abriu enquanto Flora saía, e os cabeçalhos lhe saltaram aos olhos. O acidente de atropelamento e fuga da noite anterior se tornara uma tragédia dupla, pois a mãe da criança morrera no hospital. Peter leu ràpidamente a notícia, que ampliava a narrativa sucinta feita pelo policial quando êle e Christine tinham parado na barreira: "Até agora, não há pistas firmes quanto ao veículo assassino ou seu motorista. No entanto, a polícia dá crédito às informações de uma testemunha, de identidade não revelada, no sentido de que um carro baixo e negro, em alta velocidáde, foi observado a se afastar do local segundos após o acidente. " A polícia urbana e a estadual, acrescentava o jornal, colaboravam na busca por todo o estado, procurando um automóvel presumivelmnte danificado e correspondente a essa descrição.

Peter imaginou se Christine já lera o jornal, cujo impacto parecia maior por causa do curto contato que os dois tinham tido com o local do acidente.

O regresso de Flora, trazendo-lhe o número de telefone pedido, fê-lo voltar a coisas mais imediatas. Pôs o jornal de lado e usou uma linha direta para discar êle mesmo o número. Uma voz masculina e grossa respondeu:

- Residência Dixon.

- Gostaria de falar com o Sr. Stanley Dixon. Ele está?

- Posso saber quem está chamando, Sr.

- É do Hotel St. Gregory - disse Peter, depois de dar seu nome.

Houve uma pausa, e o ruído de passos calmos que se afastavam, e depois voltavam no mesmo ritmo.

- Sinto muito, Sr. O Sr. Dixon, filho, não pode atender. Peter mudou um pouco o tom de voz.

- Diga-lhe o seguinte: que se não atender o telefone, pretendo falar diretamente com o pai dêle.

- Talvez, se o Sr. fizesse isso.

- Vamos! Diga-lhe o que mandei.

Houve uma hesitação quase audível, e depois a anuência:

- Muito bem, Sr.

Os passos se afastaram novamente. Houve um estalo na linha e ouviu-se uma voz rouca dizer:

- Stan Dixon é quem fala. Qual é o problema?

- O problema diz respeito ao sucedido ontem à noite - respondeu Peter, àsperamente. - Isso constitui surprêsa?

- Quem é você?

Peter disse quem era e acrescentou:

- Já falei com a Srta. Preyscott e agora quero falár com você.

- Pode falar. Conseguiu o que queria.

- Mas não pelo telefone. Tem de ser no meu escritório, no hotel.

Seguiu-se outra exclamação, que Peter deixou passar, acrescentando:

- Às quatro da tarde, amanhã, com os outros três: Você os trará em sua companhia.

A resposta foi rápida e vigorosa:

- Pode esperar sentado! Seja lá quem fôr, você não passa de um empregado de hotel, e não aceito ordens suas.

Além disso, é melhor ter cuidado, porque meu pai conhece Warren Trent.

- Para seu govêrno, já examinei o assunto com o Sr. Trent e fui encarregado por êle de resolver o caso, inclusive sôbre se vamos ou não processá-los. Mas vou dizer que você prefere envolver seu pai na questão. Está muito bem.

- Espere!

Ouviu-se uma respiração profunda, e depois veio a resposta, com belicosidade já bem menor:

- Tenho aula amanhã, às quatro horas.

- Cancele-a - retrucou Peter -, e diga aos outros que façam o mesmo. O meu escritório é na sobreloja. Lembre-se! quatro em ponto.

Desligando o telefone, sentiu que ansiava pelo encontro no dia seguinte.

O jornal estava aberto na cama da Duquesa de Croydon. Pouco havia no noticiário que não tivesse lido cuidadosamente e agora estava recostada nos travesseiros, pensando com agitação. Nunca existira um momento, compreendia agora, em que a sua inteligência e habilidade fôssem mais necessárias.

Na mesinha de cabeceira estava a bandeja de refeição, já usada e deixada de lado. Mesmo nas ocasiões de crise, a Duquesa estava habituada a fazer boa refeição matinal, hábito trazido de sua infância na casa de campo de sua família, em Fallingbrook Abbey, onde a primeira refeição sempre fôra lauta, constando de diversos pratos, muitas vêzes depois de rápido galope pelo campo.

O Duque, que comera sòzinho na sala, voltara poucos momentos antes ao quarto. Também êle lera àvidamente o jornal, e agora, trajando um chambre escarlate e de cinto por sôbre o pijama, andava de um para outro lado sem cessar. De vez em quando, passava a mão pelo cabelo ainda despenteado.

- Pelo amor de Deus, fique quieto! - disse ela, refletindo na voz a tensão reinante. - Não é possível pensar quando você fica inquieto como um garanhão no Ascot.

Ele se voltou, com o rosto enrugado e desalentado à luz clara da manhã.

- E que adianta pensar? Nada vai mudar.

- Pensar sempre ajuda, quando se pensa bastante, e bem. É por isso que álgumas pessoas conseguem êxito onde outras falham.

Ele passou novamente a mão pelo cabelo.

- Nada melhorou de ontem para hoje.

- Pelo menos, não piorou - retrucou ela, em tom prático - e isso já é algo que devemos agradecer. Ainda estamos aqui, incólumes.

O Duque sacudiu negativamente a cabeça, revelando cansaço. Dormira pouco durante a noite.

- Como é que pensar ajuda?

- Para mim, trata-se de uma questão de tempo. O tempo está a nosso favor e quanto mais esperarmos e nada acontecer. - ela se deteve, e depois continuou, como se estivesse pensando em voz alta: - Precisamos é de alguma atenção focalizada em você, o tipo de atenção que faria o outro problema parecer fantástico demais, coisa que não se pudesse nem admitir.

O Duque voltou a andar de um para o outro lado, e sugeriu:

- Isso só poderia ser com o anúncio confirmando minha nomeação para Washington.

- Exatamente.

- Não se pode apressar isso. Se Hal achar que estamos fazendo pressão, fará a casa cair em Downing Street. De qualquer modo, a coisa é delicada demais.

- Ficará ainda mais delicada, se.

- E você não acha que eu sei disso? Acha que não pensei que era melhor desistirmos?

Havia um traço de histerismo na voz do Duque de Croydon, que acendeu um cigarro com mãos trêmulas.

- Não vamos desistir! - retrucou ela, que em contraste com o marido falava em tom áspero e comercial. - Até os primeiros-ministros cedem à pressão, se vier do lugar certo. Hal não é exceção. Vou telefonar para Londres.

- Para quê?

- Vou falar com Geoffrey e pedir que faça o possível para apressar sua designação.

O Duque balançou a cabeça em sinal de dúvida, embora sem rejeitar de todo a idéia. No passado, tivera muitas provas da notável influência exercida pelos parentes da mulher. Ainda assim, teve uma palavra de advertência:

- Se fizermos isso, poderemos botar tudo a perder.

- Talvez não. Geoffrey sabe fazer pressão quando quer. Além do mais se ficarmos sentados sem agir, esperando, a coisa poderá tornar-se pior ainda.

Entrando em ação, a Duquesa apanhou o telefone ao lado da cama e pediu à telefonista:

- Desejo falar com Londres, com Lorde Selwyn - e disse o número.

A ligação ficou pronta em vinte minutos e depois que a Duquesa de Croydon explicou o motivo do telefonema, seu irmão, Lorde Selwyn, se mostrou notàvelmente desprovido de entusiasmo. Do outro lado do quarto, o Duque podia ouvir a voz de protesto do cunhado, fazendo vibrar a diafragma do aparelho:

- Ora essa, irmã! Poderíamos estar mexendo num ninho de víboras, e para quê? Não me incomodo de lhe dizer que a nomeação de Simon para Washington, no momento, é coisa pouco provável. Alguns elementos do Gabinete acham que êle não é o homem para a ocasião. Não estou dizendo que concorde com essa opinião, mas não adianta estar tapando o sol com a peneira, não é?

- Se as coisas forem deixadas como estão, de quanto tempo precisamos para chegar a uma decisão?

- É difícil dizer. Mas acho que poderia levar semanas.

- Mas não podemos esperar semanas - insistiu a Duquesa. - Você precisa acreditar em mim, Geoffrey, quando digo que seria um êrro terrível não fazer um esfôrço, agora mesmo.

- Pode ser, porque eu próprio não consigo ver o motivo.

- O que peço é pelo bem da família, e pelo nosso próprio bem - aduziu ela, em tom mais áspero. - Você certamente pode aceitar minha afirmação sem discutir. Seguiu-se uma pausa, e depois veio a pergunta cautelosa:

- Simon está aí com você?

- Está.

- Que aconteceu? O que fêz êle?

- Ainda que houvesse uma resposta - disse ela -, dificilmente eu seria tão tôla que a desse por um telefone público.

Veio outro silêncio, e depois o consentimento relutante:

- Bem, você geralmente sabe o que faz, tenho de reconhecer.

A Duquesa olhou para o marido e fêz um aceno quase imperceptível com a cabeça, antes de perguntar ao irmão:

- Vai, então, fazer o que pedi?

- Não gosto disso, mana. Continuo não gostando. Muito bem, mas vou fazer o possível.

Depois de mais algumas palavras, despediram-se. O telefone do quarto mal fôra recolocado no gancho, quando tocou novamente. Os Croydons se assustaram e o Duque umedeceu os lábios, ouvindo enquanto a espôsa atendia.

- Sim?

- Duquesa de Croydon? - perguntaram com voz anasalada e monótona.

- Ela mesma.

- Aqui fala. Ogilvie, detetive- chefe do hotel. Ela ouviu sua respiração profunda, e depois uma pausa, como se êle estivesse dando tempo para assimilar o que dissera. A Duquesa esperou, e como não ouvisse outras palavras, perguntou incisivamente:

- Que deseja?

- Conversar particularmente com seu marido e a Sra. - foi a resposta, em afirmação direta, feita no mesmo tom monótono.

- Se é questão de hotel, sugiro que se enganou. Estamos habituados a lidar com o Sr. Trent.

- Faça isso, desta vez, e depois desejará não o ter feito - retrucou a voz fria e insolente, demonstrando inabalável confiança.

A Duquesa hesitou, notando que suas mãos tremiam, mas conseguiu dizer:

- Não é conveniente vê-lo agora.

- Quando, então? - veio a pergunta incisiva, seguida de nova pausa e respiração profunda.

Qualquer que fôsse o desejo dêsse homem, percebeu ela, via-se que gostava de manter uma vantagem psicológica.

- Talvez mais tarde.

- Estarei aí em uma hora - disse êle em tom de afirmação, não de pergunta.

- Não pode.

Cortando-Lhe o protesto, veio o ruído do telefone desligado.

- Quem era? Que queria? - perguntou o Duque, com expressão tensa no rosto magro, mais pálido do que antes.

Por um momento, a duquesa cerrou os olhos. Sentia o desejo desesperado de que lhe tirassem a responsabilidade pela vida de ambos, de que surgisse outra pessoa para ficar com o encargo das decisões. Sabia que era vã a esperança, como sempre fôra, desde quando se lembrava de si própria. Quando se nasce com personalidade mais forte do que os demais, não havia saída. Em sua própria família, embora a fôrça e caráter fôssem norma, os parentes a procuravam instintivamente, seguindo-lhe a díreção e ouvindo-lhe os conselhos. Até Geoffrey, com sua real capacidade e modos obstinados, sempre a ouvia no fim, como acabara de fazer. Ao regressar à realidade, o momento passara e seus olhos se abriram.

- Era um detetive do hotel. Diz que virá aqui em uma hora.

- Então, êle sabe! Meu Deus, êle sabe!

- É óbvio que percebeu alguma coisa. Não disse o quê.

Inesperadamente o Duque de roydon se empertigou, levantando a cabeça e endireitando os ombros. As mãos estavam menos trêmulas e a bôca um pouco mais firme. Era a mesma mudança que exiMira na noite anterior. Disse, calmamente:

- Poderia ser melhor, mesmo agora, se eu fôsse. reconhecesse...

- Não! Absoluta e positivamente não! - exclamou ela, com olhos flamejantes. - Compreenda uma coisa: nada que você possa fazer melhoraria a situação em coisa alguma.

Seguiu-se um silêncio, e depois ela afirmou categòricamente:

- NãoFfaremos coisa alguma. Vamos esperar que êsse homem venha, e descobrir o que sabe e pretende fazer.

Por um instante, pareceu que o Duque ia discutir, mas mudando de idéia êle concordou. Apertando o chambre na cintura, dirigiu-se ao quarto contíguo e poucos minutos depois regressava, trazendo dois copos de uísque puro, e ao oferecer um dêles à mulher ela protestou:

- Você sabe que é cedo demais.

- Esqueça isso. Você precisa.

Com solicitude à qual ela não estava acostumada, pôs-lhe o copo na mão. Surprêsa, mas cedendo, ela o segurou e esvaziou de um gole. A bebida pura queimou-a por dentro, tirando-Lhe o fôlego, mas pouco depois a encheu de reconfortante calor.

- Seja lá o que fôr, não pode ser tão ruim assim.

Em sua mesa no escritório externo, Christine Francis franzira o rosto enquanto lia uma carta. Depois olhou, vendo o rosto rude e alegre de Peter Mcdermott, espiando pela porta.

Desfazendo a expressão preocupada, ela respondeu ao que êle dissera de lá: - mais uma pedrada, mas com tantas que se leva não faz mal mais uma.

- Assim é que se pensa - retrucou Peter, adiantando-se pela porta.

Christine olhava com expressão de quem avalia alguma coisa.

- Você está muito bem desperto, levando em conta que deve ter dormido pouco.

- Tive um encontro matutino com o seu patrão - respondeu êle, rindo. - Foi o mesmo que um banho frio. Ele já desceu?

Ela acenou negativamente, e depois olhou a carta que examinava quando Peter chegara.

- Quando êle vier, não vai gostar disto.

- Segrêdo?

- Não... Você estêve envolvido no caso, acredito.

Peter sentou-se na poltrona de couro diante da mesa.

- Lembra-se de que, um mês atrás - prosseguiu Christine -, um homem passava pela rua Carondelet e foi atingido por uma garrafa jogada lá de cima? A cabeça dêle ficou bem quebrada.

- Lembro-me muito bem! - respondeu Peter. - A garrafa foi jogada pela janela de um quarto nosso, sem dúvida alguma, mas não conseguimos descobrir que hóspede fêz isso.

- Que tipo de homem era êsse, o da garrafada?

- Um homem muito delicado, bem me lembro. Falei com êle depois do acidente e pagamos a conta do hospital. Nossos advogados prepararam uma carta tornando claro que o fazíamos por boa-vontade, sem, no entanto, admitir culpabilidade.

- A boa-vontade não adiantou. Ele está processando o hotel é pedindo dez mil dólares pelo choque, danos físicos, perda de rendimentos e negligência.

- Não vai receber - respondeu Peter, em tom enfático.

- Acho que, de certo modo, é uma injustiça, mas êle não tem qualquer possibilidade.

- Como pode estar tão certo disso?

- Porque há um monte de casos onde aconteceu a mesma coisa, dando aos advogados todos os tipos de precedentes a citar no tribunal.

- E isso basta para afetar a decisão do juiz?

- Em geral - garantiu êle. - Com o correr dos anos, a lei tem-se mostrado firme. Houve um caso clássico, em Pittsburgh, no Hotel William Penn. Um homem atingido por uma garrafa atirada de um quarto do hotel, varando o teto de seu carro, processou a casa.

- E não ganhou a questão?

- Perdeu, em instância inferior, apelou para o Supremo da Pennsylvânia, e perdeu novamente.

- Por quê?

- O juiz disse que um hotel, qualquer hotel, não é responsável pelos atos dos seus hóspedes. A exceção única seria se alguém da administração, digamos, o gerente, soubesse com antecipação o que ia acontecer e não fizesse qualquer tentativa de impedi-lo - prosseguiu Peter, franzindo a expressão no esforço por se lembrar. - Houve outro caso, em Kansas City, se não me engano. Alguns convencionais jogaram sacos de plástico, cheios de água, pela janela dos quartos. Quando os sacos estouravam no chão, quem passava na calçada corria assustado e um foi cair sob as rodas de um automóvel. Ficou muito ferido e depois processou o hotel, mas também não pôde receber. Há muitos julgamentos em casos assim, todos com o mesmo resultado.

- Como sabe de tudo isso? - perguntou ela, levada pela curiosidade.

- Entre outras coisas, estudei as leis sôbre hotéis na universidade.

- Pois bem, acho tudo horrivelmente injusto.

- É duro para quem sai ferido, mas justo para o hotel. Naturalmente, quem faz essas coisas devia ser responsabilizado. O pior é que, com tantos quartos de janelas dando para a rua, é quase impossível descobrir quem é, de modo que a maioria consegue escapar.

Christine ouvira com atenção, o cotovêlo apoiado na mesa e queixo na palma da mão. A luz do sol, atravessando as venezianas entreabertas, iluminava-lhe o cabelo ruivo, acentuando-Lhe a côr. Naquele momento, uma ruga de perplexidade se formava em sua testa e Peter sentiu vontade de estender a mão e desmanchá-la carinhosamente:

- Deixe ver se entendi - disse ela. - Você diz que um hotel não é responsável, diante da lei, por qualquer coisa feita por seus hóspedes, mesmo a outros hóspedes?

- Naquilo de que estivemos falando, certamente não. A lei se mostra clara nesse ponto e tem sido clara por bastante tempo. Na verdade, boa parte de nossas leis vem das hospedarias inglêsas e começaram no século XIV.

- Conte-me!

- Vou-lhe dar a versão resumida. As hospedarias inglêsas tinham um grande salão, aquecido e iluminado por uma fogueira, e todos dormiam ali. Enquanto dormiam, a obrigação do hospedeiro era proteger seus hóspedes contra ladrões e assassinos.

- Isso parece razoável.

- E era. O mesmo se esperava do hospedeiro, quando pequenos aposentos começaram a ser usados, pois também os mesmos poderiam ser, ou eram, partilhados por estranhos entre si.

- Quando se pensa nisso - divagou ela - é que se vê. Não era época muito adequada à tranquilidade de quem está sòzinho.

- Isso veio depois, quando surgiram quartos individuais e os hóspedes recebiam chaves dos mesmos. Aí, a lei passou a encarar o assunto de outro modo: O hospedeiro era obrigado a proteger os hóspedes contra a invasão de seus quartos, mas além disso não lhe cabia responsabilidade alguma, fôsse pelo que ocorresse aos hóspedes dentro dos quartos, ou pelo que êles fizessem lá dentro.

- Então, era a chave o que fazia a diferença.

- E ainda faz - respondeu êle. - Nesse ponto, a lei não mudou. Quando damos ao hóspede a chave, ela é um símbolo legal, assim como na hospedaria inglêsa. Ela quer dizer que o hotel não pode mais usar o quarto, ou alojar outra pessoa ali. Por outro lado, o hotel não é responsável pelo hóspede depois de ter êle fechado a porta.

Indicando a carta que ela pusera na mesa, êle acrescentou:

- Por isso, nosso amigo que passava lá fora terá de descobrir quem jogou a garrafa. De outro modo, não conseguirá o que quer.

- Não sabia que você era tão enciclopédico.

- Não quis parecer isso - retorquiu Peter. - Imagino que W. T. conheça bastante a lei, mas se quiser uma lista de casos eu a tenho em alguma parte.

- Ele ficaria provàvelmente reconhecido, se a recebesse. Vou juntar um recado à carta - disse ela, acrescentando enquanto o fitava nos olhos: - Você gosta de tudo isto, não é? De dirigir um hotel, e tudo quanto acarreta.

Peter respondeu com franqueza:

- Gosto, sim, embora gostasse mais se pudéssemos consertar algumas coisas. Se o tivéssemos feito antes, talvez não estivéssemos precisando do Sr. Keefe agora. Por falar nisso já sabe que êle chegou?

- Você é o décimo-sétimo que me diz. Acho que o telefone começou a transmitir a notícia no momento em que êle chegou à calçada do hotel.

- Não é para surpreender, A esta altura, deve haver bom número pensando no motivo pelo qual êle veio, ou melhor, querendo saber quando êsse motivo nos será oficialmente participado.

- Acabei de mandar preparar um jantar íntimo para ele no apartamento de W. T. tendo o Sr. O'Keefe e acompanhante por convivas. Já a viu? Dizem que é coisa especial.

- Estou mais interessado em meu próprio jantar -disse êle. - Meus planos lhe dizem respeito, e por isso estou aqui.

- Se isso é convite para esta noite, estou livre e com fome.

- Ótimo! - exclamou êle, levantando-se. - Irei buscá-la às sete horas em seu apartamento.

Já estava saindo, quando observou na mesa perto da porta um ezemplar dobrado do Times-Picayune. Viu que era a mesma edição que lera antes, com as manchetes falando do atropelamento e fuga dos responsáveis.

- Já viu isso? - perguntou, em tom sombrio.

- Vi, sim. Que coisa horrível, não é? Quando li, tive uma sensação pavorosa de ter visto tudo acontecer, porque passamos por lá ontem à noite.

Peter a olhou com expressão de estranheza.

- curioso você dizer isso. Também tive uma sensação, que me preocupou ontem à noite e esta manhã.

- Que tipo de sensação?

- Não tenho certeza. Oque sei dizer é que pareço saber de algo, mas não o quê - respondeu êle, dando de ombros e afastando aquela idéia. - Talvez seja por isso por que passamos por lá.

Deizou o jornal no lugar e, enquanto saía, voltou-se e deu adeus, sorrindo para ela.

Como fazia muitas vêzes na hora de almoço, Christine mandou que lhe levassem um sanduíche e café ao escritório. Enquanto comia, Warren Trent apareceu, mas ficou apenas para ler a correspondência, saindo depois num passeio pelo hotel, coisa que podia durar horas seguidas. Observando a tensão em sua expressão, Christine notou que estava preocupada por êle e também que Warren Trent andava com passos duros, sinal certo de que sentia a dor ciática.

Às duas e meia da tarde, deixando aviso com uma das secretárias no escritório externo, Christine saiu para visitar Albert Wells. Tomou um elevador até o décimo-quarto andar e ao dobrar o longo corredor viu um homem atarracado que se aproximava. Era Sam Jakubiec, chefe do crédito, e ao diminuir a distância ela notou que êle segurava um pedaço de papel e tinha a expressão severa. Vendo Christine, êle se deteve.

- Fui ver seu amigo inválido, o Sr. Wells.

- Pela sua expressão, não deve tê-lo animado muito.

- A bem da verdade - disse Jakubiec -, êle também não me animou. Deu-me isto, mas só Deus sabe se vale alguma coisa.

Christine examinou o objeto. Era uma fôlha suja de papel timbrado do hotel, com mancha de gordura a um canto. Em letra espalhada e tôsca, Albert Wells escrevera e assinara uma ordem de pagamento de duzentos dólares, sôbre um banco de Montreal.

- A seu modo tranquilo - disse Jakubiec - êle é um velho obstinado. Não ia me dar coisa alguma, de início. Disse que pagaria a conta quando fôsse apresentada e não pareceu interessar-se quando ofereci mais algum tempo, se precisasse.

- As pessoas são sensíveis a respeito de dinheiro, principalmente quando não o têm - disse Christine.

O chefe de crédito estalou a língua, demonstrando impaciência.

- Diabo! Quase todos nós temos pouco dinheiro. Eu sempre tenho pouco! Mas as pessoas pensam que devem se envergonhar disso, quando se o reconhecessem seria mais fácil ajudá-las, em boa parte do tempo.

- Este papel tem valor legal? - perguntou Christine, olhando com dúvida o cheque improvisado.

- Tem, se houver dinheiro no banco para pagá-lo. Podemos fazer um cheque em partitura musical ou na casca de uma banana, se quisermos. Mas a maioria dos que têm dinheiro depositado costuma carregar cheques impressos. Seu amigo Wells me disse que não conseguia encontrar um só.

- Sabe o que penso? - perguntou Sam Jakubiec, enquanto Christine Lhe devolvia o papel. - Acho que é honesto e tem dinheiro, mas na medida justa, e vai-se encalacrar usando o que tem. O diabo é que já deve mais da metade dêstes duzentos, e a conta de enfermagem vai devorar o resto.

- O que vai fazer?

O chefe de crédito passou a mão pela calva.

- Em primeiro lugar, voú arriscar um telefonema para Montreal e saber se o cheque é bom ou se não tem valor.

- E se não tiver, Sam?

- Ele terá de deixar o hotel, pelo menos no que me diz respeito. É claro que se você quiser falar com o Sr. Trent e êle resolver outra coisa - acrescentou Jakubiec, dando de ombros - o caso é diferente.

Christine sacudiu negativamente a cabeça.

- Não quero incomodar W. T. mas gostaria de saber antes que você tomasse qualquer providência.

- Terei prazer nisso, Srta. Francis.

O chefe de crédito, depois da promessa, afastou-se com passos vigorosos pelo corredor. Poucos momentos depois, Christine batia à porta do quarto 1410.

Foi atendida por uma enfermeira uniformizada, de meia-idade, com expressão séria e usando óculos com armação de tartaruga. Christine disse quem era e a enfermeira respondeu:

- Espere aqui, por favor. Vou verificar se o Sr. Wells a pode atender.

Houve o ruído passos lá dentro e Christine sorriu, ao ouvir uma voz dizer, com insistência:

- claro que a quero ver! Não a faça esperar! Quando a enfermeira voltou à porta, Christine sugeriu:

- Se quiser sair por alguns minutos, posso ficar até sua volta.

- Bem. - hesitou a enfermeira, mudando um pouco de atitude.

Lá dentro, a voz se féz ouvir:

- Faça isso mesmo! A Srta. Francis sabe o que faz. Se não soubesse, eu teria morrido ontem à noite.

- Pois bem - disse a enfermeira. - Vou sair durante dez minutos, e se precisar de mim telefone para o restaurante, por favor.

Albert Wells exibia seu melhor sorriso quando Christine entrou. Estava encostado, com sua figurinha miúda, numa pilha de travesseiros. Sua aparência, a de uma figurinha ossuda envôlta numa camisola limpa, à antiga, dava ainda a impressão de um pardal, mas já agora um pardal animado, em contraste com sua fragilidade desesperada da noite anterior. Ainda estava pálido, mas desaparecera o ar cadavérico de antes, e sua respiração, embora forçada de vez em quando, era regular e aparentemente fácil. Foi êle quem falou primeiro:

- bondade sua vir-me visitar.

- Não se trata de bondade - asseverou Christine. Eu. queria saber como está passando.

- Graças à Srta. vou muito melhor - respondeu êle, fazendo um gesto em direção à porta que se fechava à saída da enfermeira - Mas aquela mulher é um dragão!

- Provàvelmente ela é boa com o Sr. - disse Christine, examinando o quarto com expressão de aprovação.

Tudo ali, inclusive os pertences pessoais do velho, fôra cuidadosamente arrumado. Uma bandeja de remédios estava eficientemente colocada ao lado da mesinha de cabeceira, o tambor de oxigênio usado na noite anterior ainda estava no lugar, mas a máscara improvisada fôra substituída por outra, mais profissional.

- Ah, ela sabe o que está fazendo, não há dúvida - reconheceu Albert Wells. - Mas de outra vez vou querer uma enfermeira mais bonita!

- Já vi que está melhorando, mesmo - disse Christine, sorrindo e sem saber se devia falar sôbre a conversa com Sam Jakubiec.

Logo achou que não o faria, e ao invés disso perguntou:

- O Sr. disse, ontem à noite, que começou a ter êsses ataques quando estava fazendo mineração, não foi?

- A bronquite, foi. É verdade.

- O Sr. foi mineiro por muito tempo, Sr. Wells? - Mais do que gosto de pensar, Srta. Mas sempre há coisas que nos fazem recordar isso, a bronquite, por exemplo, ou então isto - respondeu, abrindo as mãos com as palmas para cima, sôbre a colcha.

Christine viu que eram mãos nodosas e endurecidas pelo trabalho manual de muitos anos. Impulsivamente, estendeu-se para tocar nelas, dizendo:

- É coisa de que deve se orgulhar, em minha opinião. Gostaria de saber o que conseguiu fazer.

Albert Wells balançou negativamente a cabeça.

- Talvez em outra ocasião, quando tiver bastante tempo e paciência para ouvir. O que tenho a contar, no entanto, é coisa de homem velho, e os velhos são amolantes quando alguém lhes dá oportunidade.

- Pois eu tenho paciência e não acredito que seja coisa amolante - respondeu ela, sentando-se numa cadeira ao lado da cama.

O velho riu.

- Há alguns em Montreal que discutiriam isso.

- Já pensei muitas vezes em Montreal. Nunca estive lá.

- um lugar confuso, muito parecido com Nova Orleans em diversos aspectos.

- É por isso que o Sr. vem todos os anos para cá? perguntou ela, tocada pela curiosidade. - Por que parece o mesmo lugar?

O velhinho silenciou, a pensar, com ombros ossudos bem enterrados na pilha de travesseiros.

- Nunca pensei nisso, Srta. de um ou de outro modo. Acho que venho aqui porque gosto das coisas à antiga e não restam muitos lugares onde encontrá-las. O mesmo ocorre com êste hotel. Está um pouco gasto aqui e ali, a Srta. sabe disso, mas, antes de qualquer outra coisa, é doméstico. Eu detesto os hotéis de cadeia. São todos a mesma coisa, elegantes e reluzentes, mas estar num dêles é como viver numa fábrica.

Christine hesitou e depois, compreendendo que os acontecimentos do dia já tinham desfeito o segrêdo anterior, informou:

- Tenho notícias de que não vai gostar. Receio que o St. Gregory vá passar a uma cadeia hoteleira no futuro próximo.

- Se isso acontecer, sentirei muito - disse Albert Wells.

- Mas acho que vocês estão em apuros financeiros.

- Como soube disso?

O velho pensou, antes de responder.

- Na última vez que me hospedei aqui, ou nas duas últimas vêzes, pude ver que as coisas estavam piorando. Qual é o embaraço agora? O banco está apertando, a hipoteca vencendo, alguma coisa assim?

Havia coisas surpreendentes naquele mineiro aposentado, pensou Christine, inclusive uma percepção instintiva da verdade. Sorrindo, respondeu:

- Provàvelmente já falei demais, mas certamente o Sr. vai ouvir dizer que o Sr. Curtis O'Keefe chegou esta manhã.

- Oh! Esse, não! - exclamou Albert Wells com legítima preocupação. - Se êle puser as mãos neste hotel, vai torná-lo uma cópia de todos os outros que tem. Será uma fábrica, como lhe disse. Este hotel precisa de algumas modificações, mas não as de que êle gosta.

- Que tipo de modificações, então, Sr. Wells? - perguntou Christine, sentindo curiosidade.

- Um bom hoteleiro poderá dizer-Lhe melhor do que eu, mas tenho algumas idéias. Uma coisa é certa, Srta. Como sempre, o público está passando por uma dessas manias passageiras. No momento, quer a elegância, o cromado e a imitação, mas com o tempo se cansará e desejará voltar às coisas mais velhas, como a verdadeira hospitalidade e um pouco de personalidade e atmosfera, coisa um pouco diferente do que encontra em cinqenta cidades e poderá achar em outras cinquenta. O pior é que, quando o público descobre isso, a maioria dos bons hotéis, inclusive êste, terá desaparecido.

Deteve-se um pouco, e perguntou em seguida:

- Quando é que vão decidir?

- Na verdade, não sei - respondeu Christine, surpreendida pela profundidade de sentimentos revelada pelo velho. Mas não creio que o Sr. O'Keefe vá permanecer aqui muito tempo.

Albert Wells concordou, com aceno da cabeça.

- Ele não pára muito tempo em lugar algum, pelo que sei. Trabalha depressa quando resolve adquirir alguma coisa. Pois bem, ainda digo que será uma pena, e se acontecer serei um dos que não voltarão mais.

- Sentiríamos sua falta, Sr. Wells. Pelo menos, eu sentiria, na suposição de que continuasse aqui, depois das modificações.

- A Srta. vai continuar, sim, e estará onde quiser ficar, se bem que um rapaz de juízo não a deixaria trabalhando em qualquer hotel.

Ela riu, sem responder, e continuaram falando de outras coisas até que, com uma batida sêca na porta, a enfermeira regressou, dirigindo-se a Christine em tom empertigado:

- Muito obrigada, Srta. Francis. hora de meu doente tomar remédio e descansar - acrescentou, consultando o relógio.

- Eu tenho de ir, mesmo - respondeu Christine. Virei visitá-lo amanhã, Sr. Wells, se puder.

- Gostaria que pudesse.

Quando Christine se retirava, êle lhe lançou um piscar de olhos.

Em sua mesa, Christine encontrou recado, pedindo que chamasse Sam Jakubiec, o que fêz em seguida, sendo atendida pelo próprio.

- Achei que gostaria de saber - disse êle - que telefonei para aquêle banco em Montreal. Parece que seu amigo tem crédito.

- Boas-novas, Sam! O que disseram?

- Bem, de certo modo foi até engraçado. Não quiseram me dar qualquer idéia do crédito dêle, como geralmente fazem os bancos. Disseram apenas que apresentasse o cheque para pagamento. Eu lhes disse qual o montante, e êles não pareceram preocupados, de modo que deve ter dinheiro.

- Fico satisfeita em saber disso.

- Eu também, mas vou vigiar a conta do quarto para que não cresça demais.

- Você é um grande vigia, Saln! - disse ela, dando uma risada. - E obrigada por chamar.

Curtis O'Kefe e Dodo já se haviam instalado confortàvelmente em seus apartamentos comunicantes, e ela desfizera as malas de ambos, como sempre gostava de fazer. Na sala de estar maior, o hoteleiro examinava um relatório financeiro tirado em meio de outros, contidos numa pasta azul com o título Confidencial - St. Gregory, levantamento preliminar.

Depois de examinar cuidadosamente a magnífica cesta de frutas que Peter Mcdermott mandara entregar no apartamento, Dodo escolhera uma maçã e a estava cortando quando o telefone ao lado de O'Keefe tocou, pela segunda vez em poucos minutos.

O primeiro telefonema fôra Warren Trent. apresentando educadamente boas-vindas e indagando se tudo fôra encontrado em ordem. Depois de assegurar cordialmente que sim ("Não podia ser melhor, meu caro Warren, mesmo num hotel meu"), Curtis O'Keefe aceitara o convite para que êle e Dodo jantassem com o proprietário do St. Gregory naquela noite.

- Será um grande prazer - afirmou o hoteleiro -, e, por falar nisso, eu admiro sua casa.

- É justamente isso que eu receava - dissera Warren Trent sêcamente, pelo telfone.

O'Keefe soltou uma gargalhada.

- Falaremos logo mais, Warren. Falaremos sôbre negócios, se fôr preciso, mas acima de tudo apreciarei muito a conversa com um grande hoteleiro.

Quando êle desligou o telefone, Dodo perguntou, com as sobrancelhas arqueadas:

- Se êle é tão grande hoteleiro assim, Curtie, por que vai lhe vender o hotel?

O'Keefe respondeu com seriedade, como fazia sempre sabendo antecipadamente que a resposta a iludiria:

- porque chegamos a outra época e êle não sabe disso. Hoje não basta ser um bom hospedeiro. É preciso ser bom comerciante, também.

- Puxa! - disse ela. - Estas maçãs são bem grandes! A segunda chamada telefônica, vinha de aparelho externo na portaria do hotel.

- Alô, Ogden - disse Curtis O'Keefe quando o outro se identificou. - Estou lendo seu relatório agora.

Na portaria, onze andares abaixo, um homem pálido e calvo, com aparência de contador, coisa que, entre outras, também era, fêz um gesto de confirmação para um companheiro

mais jovem, ao lado de fora da cabine telefônica. Ogden Bailey, vindo de Long Island, hospedara-se no hotel duas semanas antes, declarando ser Richard Fountain, vindo de Miami. Com cautela característica, evitara o uso do telefone interno e não faria aquêle telefonema de seu quarto. Com frases precisas e lacônicas, dizia:

- Há alguns pontos que eu gostaria de ampliar, Sr. O'Keefe, e informações mais recentes de que o Sr. gostará.

- Muito bem. Espere quinze minutos e depois venha-me ver.

Desligando, Curtis O'Keefe se dirigiu a Dodo, em tom divertido:

- Estou satisfeito porque você gosta das frutas. Se não fôsse por sua causa, eu daria fim a ésses festivais de colheita.

- Bem, não é que eu goste tanto assim - respondeu ela, com seus olhos azuis e infantis bem abertos para o companheiro. - Mas você não come fruta alguma, e me parece um desperdício horrível deixar tudo isso sem uso.

- Num hotel pouca coisa se desperdiça - garantiu êle.

- O que você deixar, outra pessoa levará, quase sempre pela porta dos fundos.

- Minha mãe adora frutas - disse Dodo, pegando um cacho de uvas. - Ela ficaria doida, se recebesse uma cesta assim?

O'Keefe, que voltara a examinar o relatório financeiro interrompeu o que fazia.

- E por que não lhe mandamos uma?

- Agora mesmo, você quer dizer?

- claro.

Apanhou novamente o telefone e pediu ligação para a florista do hotel, a quem perguntou:

- Aqui é o Sr. O'Keefe. Foi daí que mandaram frutas ao meu apartamento?

- Foi, sim, Sr. - respondeu uma voz feminina, demonstrando ansiedade. - Há alguma coisa que lhe desagrade?

- Absolutamente, mas quero enviar uma cesta idêntica para Akron, no Ohio, em minha conta. Um momento - disse êle, passando o aparelho a Dodo. - Dê-lhes o enderêço e mande algum recado seu para sua mãe.

Depois de fazer o que êle dissera, Dodo o abraçou impulsivamente.

- Curtie, você é o maior!

O'Keefe sorriu, percebendo-lhe o prazer genuíno. Era curioso, pensava, que embora Dodo fôsse tão receptiva a presentes caros quanto qualquer de suas antecessoras, as coisas pequenas - como a daquele momento - eram o que parecia causar-lhe maior agrado.

Terminou a leitura dos documentos na pasta e, precisamente dentro dos quinze minutos marcados, bateram à porta e Dodo foi atender. Fêz entrar dois homens, ambos com pastas. Um dêles era Ogden Bailey, que telefonara antes, e o outro, Sean Hall, seu companheiro na portaria. Hall era uma cópia mais jovem de seu superior e dentro de uns dez anos, pensou O'Keefe, viria a adquirir aquela mesma aparência pálida e expressão de concentração certamente causadas pelo exame de intermináveis balancetes e preparação de estimativas financeiras.

O hoteleiro recebeu cordialmente os dois homens. Ogden Bailey, disfarçado como Richard Fountain, era figura- chave e membro experimentado da organização O'Keefe. Além das habilitações comuns de contador, possuía extraordinária capacidade de entrar em qualquer hotel e, depois de uma ou duas semanas de discreta observação, geralmente despercebida pela direção da casa, apresentar um relatório financeiro que se mostrava incrivelmente próximo da contabilidade do próprio hotel. Hall, que o próprio Bailey descobrira e preparava, dava todos os sinais de possuir o mesmo tipo de talento.

Recusaram polidamente a oferta de bebida, como O'Keefe sabia que fariam, e sentaram-se num sofá, de frente para êle, abstendo-se de abrirem suas pastas, como que sabendo que havia formalidades preliminares. Do outro lado da sala, Dodo voltara à cesta e descascava agora uma banana.

- Foi muito bom terem vindo, cavalheiros - disse Curtis O'Keefe, como se o encontro não tivesse sido planejado com

semanas de antecipação. - No entanto, antes de tratar de nosso assunto, talvez fôsse bom pedir o auxílio do Deus Todo-Poderoso.

Enquanto falava, e com facilidade conferida por longa prática, o hoteleiro deslizara àgilmente, pondo-se de joelhos e com as mãos postas em atitude de devoção. Na atitude bem próxima à resign ação, como se aquilo já tivesse ocorrido muitas vêzes antes, Ogden Bailey o imitou e após hesitação momentânea Hall, o mais jovem, tomou a mesma posição. O'Keefe lançou o olhar para Dodo, que comia a banana.

- Meu bem - disse êle calmamente -, estamos prontos a pedir a bênção para nossa intenção.

Ela abandonou a fruta, desceu da poltrona e se ajoelhou. Meses antes, as frequentes sessões de oração de seu benfeitor, muitas vêzes nos momentos mais improváveis, haviam-na perturbado por motivos que nunca compreendera bem. Mas ao correr do tempo, como era de seu costume, ela se ajustara a tal ponto que não mais se importava. Confiara a uma amiga que Curtis era muito bonzinho, e já que se deitava para êle, podia também ficar de joelhos.

- Deus Todo-Poderoso - entoou Curtis O'Keefe, de olhos fechados no rosto leonino e corado -, dai-nos, se fôr vossa vontade, êxito no que estamos para fazer. Pedimos vossa bênção e vossa ajuda na compra dêste hotel, que tem o nome de vosso São Gregório. Suplicamos devotadamente que o possamos acrescentar aos já recrutados, por nossa própria organização, para vossa causa, e que mantemos para vós, graças à confiança que depositais no servidor devotado que vos fala.

Mesmo ao falar com Deus, Curtis O'Keefe queria ir diretamente ao assunto, e continuou, com o rosto erguido e as palavras fluindo como num majestoso rio:

- Além disso, se fôr essa a vossa vontade, e rogamos que seja, pedimos que isso se faça ràpidamente e com economia, sem que o tesouro que vossos servidores possuem seja indevidamente diminuído, mas empregado para vosso uso futuro.

Também invocamos vossa bênção, ó Deus, para qem negociar contra nós, em nome dêste hotel, pedindo-vos que êles sejam guiados apenas por vosso espírito e Que vós os leveis a serem razoáveis e discretos em tudo o que fizerem: Finalmente Senhor, estai sempre conosco, fazendo prosperar nossa causa e adiantando nossas obras, de modo Que também possamos dedicá-las à vossa maior glória, Amém. Agora, cavalheiros, quanto vou ter de pagar por êste hotel?

O'Keefe já voltara à sua poltrona, mas passaram-se talvez dois segundos até que os outros compreendessem que sua última frase não fazia parte da oração, e constituía o início de seu encontro comercial. Bailey foi o primeiro a se recobrar, e voltando logo para o sofá, tirou os papéis da pasta. Hall, com expressão de perplexidade, afobou-se para lhe fazer companhia. Foi Ogden Bailey quem começou, respeitosamente:

- Não falarei de preço, Sr. O'Keefe. Como sempre, essa decisão será sua, mas não resta dúvida que a hipoteca de dois milhões de dólares a resgatar na sexta-feira deve tornar bem mais fácil a negociação, pelo menos de nosso lado.

- Então, não houve alteração nesse aspecto? Não houve notícia de uma renovação, ou de outra pessoa assumir a responsabilidade?

Bailey balançou a cabeça, em negativa.

- Verifiquei algumas fontes boas aqui, e garantiram que não. Ninguém, na comunidade financeira, quer tocar na questão, principalmente por causa dos prejuízos no funcionamento do hotel, dos quais já lhe apresentei um cálculo, conjugados à situação de administração, que é má, e isso é bem sabido.

O'Keefe acenou pensativamente, e depois abriu a pasta que estivera examinando antes. Escolheu uma fôlha datilugrafada, comentando:

- Você se mostra mais otimista do Que o comum, em seus cálculos sôbre ganhos latentes a explorar.

Dissera isso com os olhos astutos fitando diretamente os de Bailey, que esboçou um sorriso leve.

- Não sou dado a extravagâncias, como o Sr. sabe. Não resta a menor dúvida de Que se poderia criar uma boa posição lucrativa, tanto com novas fontes da receita quanto com a reforma das já existentes. O fator-chave é a situação administrativa daqui, que se mostra incrivelmente ruim.

Fêz sinal com a cabeça, na direção de Hall, o mais jovem, acrescentando:

- Sean fêz um levantamento nesse sentido.

Um tanto encabulado, e consultando anotações, Hall começou:

- Não há uma cadeia eficiente de comando, resultando daí que os chefes de departamento adquiriram podêres extraordinários, em alguns casos. Uma das coisas a demonstrar isso é a compra de gêneros, onde.

- Um momento.

À interrupção de seu patrão, Hall se deteve abruptamente, e Curtis O'Keefe disse com firmeza:

- Não é preciso me dar todos os detalhes. Confio nos senhores para que tratem disso depois. O que desejo ter nestes encontros é o quadro geral.

A despeito da gentileza relativa dessa observação Hall corou, e do outro lado da sala Dodo Lhe lançou um olhar de solidariedade.

- Ao que sou informado - prosseguiu O'Keefe - existe, juntamente com a debilidade de direção, muita desonestidade dos empregados, o que está exaurindo a renda.

O contador mais jovem anuiu enfàticamente, dizendo:

- Muita, Sr. especialmente nos gêneros comestíveis e bebidas.

Ia descrever as descobertas que fizera, disfarçadamente, nos diversos bares e salas do hotel, mas se deteve a tempo. Isso poderia ser visto depois de efetuada a compra e quando chegasse a "turma de demolição".

Em sua própria experiência, ainda que curta, Sean Hall sabia que o processo de compra de um nôvo elo na cadeia hoteleira O'Keefe seguiria inevitàvelmente o padrão geral. Primeiramente, semanas antes de qualquer negociação, uma "equipe de espiões", em geral encabeçada por Ogden Bailey, chegaria ao hotel e seus membros se registravam como hóspedes comuns. Por observação astuta e sistemática, suplementada às vêzes pelo subôrno, essa equipe prepararia um estudo financeiro e operacional, sondando debilidades e calculando potencialidades inexploradas. Onde fôsse apropriado, como no caso presente, seriam feitas indagações discretas fora do hotel, junto à comunidade comercial da cidade. A mágica do nome de O'Keefe, mais a possibilidade de futuros negócios com a maior cadeia hoteleira do país, em geral bastavam para obter qualquer informação desejada. Nos círculos financeiros, como Sean Hall aprendera muito antes, a lealdade não chegava aos pés do interêsse próprio de cada um.

Em seguida, dispondo dêsse conhecimento, Curtis O'Keefe dirigiria as negociações, que eram vitoriosas com mais frequência do que o contrário. Era então que surgia a "turma de demolição".

Encabeçada por um vice-presidente dos Hotéis O'Keefe, era formada por grupo decidido e rápido de técnicos em administração, sabendo converter qualquer hotel ao padrão O'Keefe, dentro de período notàvelmente curto. As primeiras modificações efetuadas pela turma afetavam geralmente o pessoal e administração, pois as medidas mais gerais, lidando com a reconstrução e instalação material, vinham mais tarde. Acima de tudo, a turma de demolição trabalhava sorrindo, afirmando a todos os interessados que não haveria inovações drásticas, mesmo enquanto as promovia. Conforme um de seus membros dissera, "ao chegarmos, o que fazemos primeiro é anunciar que não serão feitas mudanças no pessoal, e então passamos a despedir uns e outros".

Sean Hall supunha que o mesmo aconteceria em breve no Hotel St. Gregory. Havia ocasiões em que êle, jovem pensativo e de formação quacre, tinha dúvidas sôbre sua participação em tais negócios. A despeito de ser nôvo no cargo, já vira diversos hotéis, de tipo agradàvelmente peculiar, serem tragados pela uniformidade da direção de cadeia. De certo modo distante, isso o entristecia, e sentira momentos de inquietação, também, por causa dos meios pelos quais se atingiam certos fins.

Sempre contrabalançando tais sentimentos, no entanto, estavam a ambição pessoal e o fato de que Curtis O'Keefe pagava generosamente os serviços prestados, e o cheque mensal de salário recebido por Sean Hall, conjugado a um depósito bancário crescente, mostravam-se motivos de satisfação, mesmo nos momentos de inquietude.

Havia também outras possibilidades que, mesmo em devaneio extravagante, êle se deixava examinar, só de modo vago. Desde que entrara naquele apartamento se vira insistentemente pensando em Dodo, embora naquele momento evitasse olhá-la de modo direto. A sua sensualidade loura e gritante, que parecia irradiar-se pela sala como uma aura, fazia Sean Hall sentir coisas que sua bela espôsa morena - formidável nas quadras de tênis e taquígrafa da Associação de Pais e Professores - jamais conseguira. Ao pensar na presumida boa sorte de Curtis O'Keefe surgia também o pensamento especulativo e fantasista de que, em seus dias de juventude, o grande homem fôra igualmente um contador jovem e ambicioso.

Tais devaneios se viram interrompidos pela pergunta de O'Keefe:

- Sua impressão de má administração se aplica em tôda a linha?

- Não de todo, Sr. - respondeu Sean Hall, consultando anotações e se concentrando no assunto que se tornara terreno conhecido, naquelas duas semanas. - Há um homem que parece extremamente competente; é o Sr. McDermott, subgerente. Tem trinta e dois anos, é formado pela Cornell- Statler. Infelizmente, há uma mancha em seus assentamentos. O escritório central examinou a questão, e eis o relatório dêles:

O'Keefe consultou a fôlha de papel entregue pelo contador, onde estavam registrados os fatos básicos sôbre a saída de Peter McDermott no Waldorf, e suas tentativas seguintes de achar novo emprêgo, inúteis até consegui-lo no St. Gregory. Depois, devolveu a fôlha, sem comentar. A decisão sôbre McDermott caberia à turma de demolição, embora a mesma conhecesse sua insistência em que todos os empregados fôssem de caráter impoluto. Por mais competente que McDermott pudesse ser, não deveria continuar sob o novo regime.

- Há outros bons empregados - continuou Sean Hall - ocupando cargos menores.

Durante quinze minutos a conversa prosseguiu e, ao final, Curtis O'Keefe a encerrou, dizendo:

- Obrigado, senhores. Se houver alguma coisa nova e importante, podem telefonar. Em caso contrário, eu os procurarei se precisar.

Dodo os conduziu à porta, e ao voltar Curtis O'Keefe estava deitado no sofá antes ocupado pelos contadores, com os olhos fechados. Desde seus primeiros tempos naquele gênero de negócios, cultivara a capacidade de dormir um pouco, nos momentos livres, renovando as energias que, às vêzes, seus subordinados achavam inexauríveis.

Dodo o beijou levemente nos lábios e êle sentiu sua umidade, o calor do corpo quase encostado. Com os dedos compridos, ela procurou sua base do crânio, massageando com suavidade. Um feixe de cabelo sedoso e macio tombou ao lado de seu rosto e êle a olhou; sorrindo.

- Estou carregando minhas baterias - disse, e depois, em tom contente: - Você me está ajudando.

Ela prosseguiu com os dedos, e ao final de dez minutos O'Keefe sentia-se descansado e retemperado. Espreguiçou-se, abriu novamente os olhos e se levantou. Em seguida, de pé, estendeu os braços para Dodo.

Ela veio com abandono, apertando-se a êle com ansiedade. O'Keefe já sentia que a sensualidade sempre crepitante de Dodo se tornara uma chama forte e exigente. Sentindo crescer a febre, êle a levou pela mão ao quarto contíguo.

Ogilvie, o detetive-chefe do hotel que telefonara aos Croydons avisando sua visita daí a uma hora, na verdade levou duas vêzes êsse tempo para aparecer, e como resultado da demora tanto o Duque quanto a Duquesa estavam com os nervos à flor da pele, quando finalmente soou a cigarra, anunciando alguém à porta.

A própria Duquesa foi atender, tendo despachado sua camareira antes, inventando qualquer coisa para isso e dizendo cruelmente ao secretário de rosto redondo - que tinha pavor a cachorros - para levar os terriers a passeio. Sua própria tensão não era diminuída pelo conhecimento de que ambos poderiam regressar a qualquer momento.

Ogilvie, ao entrar, foi acompanhado por uma onda de fumaça de charuto. Depois de chegados à sala de estar, a Duquesa olhara significativamente para o charuto meio aceso em sua bôca, observando:

- Meu marido e eu achamos a fumaça forte muito incômoda. Quer fazer o favor de apagar isso?

Os olhinhos miúdos do detetive- chefe a examinaram sardônicamente, e seu olhar passou depois para a sala espaçosa e bem mobiliada, examinando também o Duque, que os olhava com incerteza, de costas para uma janela.

- Lugarzinho bom que arrumaram aqui.

Sem pressa alguma, Ogilvie tirou o charuto, sacudiu a cinza e jogou a ponta para uma lareira ornamental à direita.

Errou na pontaria, e a guimba caiu no tapête, mas isso não o perturbou. A Duquesa apertou os lábios, e disse àsperamente:

- Supondo que não tenha vindo falar sôbre a decoração. O corpo obeso se sacudiu numa risada.

- Não. madame, não vim mesmo. Mas gosto de coisas boas - acrescentou, abaixando o tom de sua voz incongruentemente fina. - Como aquêle carro que têm. Aquêle que guardam no hotel. um Jaguar, não é?

- Ah! - fêz o Duque de Croydon, não pronunciando uma palavra, mas numa libertação de fôlego.

A espôsa lhe lançou um olhar rápido de advertência.

- De que modo nosso carro lhe interessa?

Como se a pergunta feita pela Duquesa fôsse um sinal, o detetive- chefe mudou de atitude e interrogou abruptamente:

- Há mais alguém neste lugar?

- Não. Mandamos os dois sair - respondeu o Duque.

- Há coisas que é bom verificar.

Movendo-se com rapidez surpreendente, o gordo detetive atravessou o apartamento, abrindo portas e olhando atrás delas. Era claro que conhecia bem a disposição das peças, e depois de reabrir e fechar a porta da frente, voltou à sala aparentemente satisfeito. A Duquesa se sentara em cadeira de encôsto vertical, e Ogilvie permaneceu de pé.

- Pois bem - disse êle. - Quero falar daquele atropelamento e da fuga.

- De que está falando? - perguntou a Duquesa, encarando-o diretamente.

- Não adianta isso, Madame. Estou falando sério. Ogilvie tirou do bolso um charuto nôvo, mordeu-lhe a ponta e disse:

- Devem ter lido os jornais. O rádio também está falando muito no assunto.

No rosto pálido da Duquesa surgiam dois pontos de côr.

- O que sugere é a coisa mais ridícula, mais.

- Já lhe disse que parasse com isso! - interrompeu Ogilvie, falando com raiva e já sem qualquer esfôrço por ser delicado.

Ignorando o Duque, sacudiu o charuto apagado sob o nariz da adversária, enquanto dizia:

- Ouça o que lhe digo. A cidade está furiosa, policiais, prefeito, todo o mundo. Querem saber quem fêz aquilo ontem à noite, quem matou a menina, a mãe dela, e depois fugiu.

Quando encontrarem, vão fazer valer a lei, e não interessa quem fôr, se tem títulos ou não. Eu sei da verdade e se fizesse o que devia fazer a polícia estaria aqui mais depressa do que um raio. Mas eu vim primeiro, com boa-vontade, para que me contem a versão que têm do fato.

Os olhinhos brilharam e depois endureceram.

- Se não quiserem assim, basta dizer.

A Duquesa de Croydon, com três e meio séculos de arrogância congênita, não cedeu fàcilmente. Pondo-se de pé num salto, o rosto cheio de cólera, olhos flamejando, enfrentou diretamente o corpanzil do detetive-chefe e seu tom de voz teria feito murchar qualquer pessoa que a conhecesse bem.

- Chantagista inominável! Como se atreve? A própria confiança de Ogilvie fraquejou um instante, mas foi o Duque de Croydon quem interveio:

- Não adianta, minha cara. Fêz o que pôde. Olhando Ogilvie, acrescentou:

- Sua acusação é verdadeira. Sou eu o culpado. Estava dirigindo o carro e matei a menina.

- Assim é melhor - respondeu Ogilvie, acendendo o charuto. - Agora, estamos conseguindo alguma coisa.

Desconsolada, com um gesto de rendição, a Duquesa de Croydon afundou-se na poltrona, e prendendo as mãos uma na outra para esconder o tremor, perguntou:

- Que é que sabe?

- Muito bem, vou falar.

O detetive não teve pressa, puxando lentamente uma tragada de fumaça azul do charuto, os olhos fitos sardônicamente na Duquesa, como a desafiar-lhe o protesto. Além de torcer o nariz, entretanto, ela não disse coisa alguma. Ogilvie apontou para o Duque.

- Ontem à noite, bem cedo, foi ao Lindy's Place, no Irish Bayou, em seu bonito Jaguar e levando uma amiguinha, se é que êsse nome não a incomoda.

Enquanto Ogilvie olhava a Duquesa, sorrindo, o Duque se manifestou:

- Continue!

- Pois bem - o rosto gordo e confiante se voltou para êle -, do modo como ouvi contar, ganhou cem dólares no jôgo e depois os perdeu no bar. Já estava em outros cem, em companhia animada, quando sua espôsa chegou de táxi.

- Como sabe de tudo isso?

- Vou-lhe contar, Duque... Estou nesta cidade e hotel há tanto tempo que tenho amigos em tôda a parte. Eu Lhes faço favores, e êles a mim, como contarem o que acontece, e onde.

Não há muito que os hóspedes dêste hotel façam e que eu não saiba. A maioria ignora que eu sei, e nem me conhece. Acham que têm seus segredinhos bem guardados, e têm mesmo, a não ser num caso assim.

- Compreendo - disse o Duque, friamente.

- Há uma coisa que me intriga - prosseguiu Ogilvie.

- Sou curioso por natureza, madame. Como soube onde seu marido estava?

- Já sabe de tanta coisa... - respondeu a Duquesa. Suponho que não faz mal dizer. Meu marido está habituado a fazer anotações enquanto telefona, e depois se esquece de destruí-las.

O detetive estalou a língua, em sinal de desaprovação.

- Um pequeno hábito descuidado assim, Duque, e veja em que embrulhada se meteu. Pois bem, eis o que imagino sôbre o resto. O senhor e sua espôsa partiram para casa, você dirigindo, embora fôsse melhor que ela dirigisse.

- Minha espôsa não sabe dirigir.

Ogilvie balançou a cabeça em sinal de compreensão.

- Está explicado. De qualquer modo, devia estar bem embriagado...

A Duquesa o interrompeu:

- Então, não sabe! Não sabe coisa alguma com certeza!

Não poderá provar...

- Madame, posso provar tudo quanto é preciso.

- É melhor deixá-lo terminar, minha cara – aconselhou o Duque.

- Isso mesmo! - retorquiu Ogilvie. - Fiquem sentados e escutem: ontem à noite vi quando entravam pelo porão, de modo a não passarem pela portaria. Pareciam bem abalados, os dois. Eu também acabara de chegar e fiquei pensando no que podia ser. Como já disse, sou curioso...

- Prossiga - disse a Duquesa, com um suspiro.

- Mais tarde; vieram as notícias do atropelamento e fuga.

Por palpite, fui à garagem e examinei o seu automóvel. Talvez não saibam... Ele está num canto, atrás de uma pilastra onde os garagistas não o vêem quando entram.

O Duque umedeceu os lábios.

- Suponho que isso não tem importância agora.

- Pode ter alguma razão - concordou Ogilvie. - De qualquer modo, o que achei me fêz ir à delegacia de polícia, onde também me conhecem.

Fêz uma pausa, puxando outra tragada do charuto enquanto os seus ouvintes aguardavam em silêncio. Quando a ponta do charuto ficou em brasa, Ogilvie a examinou e prosseguiu:

- Na delegacia, têm três pistas. Um aro de farol que deve ter caído do carro quando a menina e a mulher foram apanhadas, algum vidro partido do farol, e examinando a roupa da menina êles acham que haverá um sinal de esfregamento.

- Um. o quê?

- Quando se esfrega um pao contra uma coisa dura, Duquesa, especialmente quando é coisa polida como o pára- choque de um automóvel, fica a marca do mesmo modo que se fôssem impressões digitais. O laboratório da polícia pode ver essa marca do mesmo jeito como se fôssem impressões. É só espanar, e ela aparece.

- Isso é interessante - disse o Duque, como se falasse de algo sem ligação alguma com êle próprio. - Eu não sabia disso.

- Poucos sabem. Neste caso, porém, acho que não fará grande diferença. No seu carro há um farol partido, e o aro se foi. Não há dúvida que os sinais recolhidos se ajustam mesmo sem o sinal de esfregamento e o sangue. Ah, sim, devia ter dito. Há muito sangue no carro, embora não apareça claramente na tinta preta.

- Oh, meu Deus!

Cobrindo o rosto com a mão, a Duquesa se voltou para o lado e o marido perguntou:

- Que pretende fazer?

O gordo esfregou as mãos, olhando os dedos grossos e carnudos.

- Como lhes disse, vim ouvir o que têm a dizer.

- Que podemos dizer? - retrucou o Duque, com expressão de desespêro. - Já sabe o que houve.

Depois de tentar erguer os ombros, e fracassar no esforço acrescentou:

- É melhor chamar a polícia e terminar com isso.

- Ora, não há necessidade de se afobar! - redarguiu Ogilvie, com a sua voz fina. - O que aconteceu, aconteceu. Correr para qualquer lugar não vai ressuscitar a menina ou a mãe dela. Além disso, Duque, não haveria de gostar do que Lhe acontecesse na delegacia, posso garantir.

Os seus dois interlocutores ergueram lentamente os olhos.

- Eu esperava - prosseguiu Ogilvie - que tivessem alguma idéia.

- Não estou compreendendo - disse o Duque, em tom incerto.

- Eu compreendi - atalhou a Duquesa de Croydon. Você quer dinheiro, não é? Veio fazer chantagem.

Se contava que suas palavras causassem choque, não o conseguiu. O detetive do hotel deu de ombros.

- Não me interessa o nome que dê às coisas, madame.

- Só vim ajudá-los a saírem da embrulhada. Mas também preciso viver.

- Aceitaria dinheiro para manter-se calado sôbre o que sabe?

É possível.

- Mas, pelo que diz - indicou a Duquesa, tendo recobrado sua pose para aquêle momento -, isso não adiantaria. De qualquer modo, o automóvel seria descoberto.

- Acho que teriam de correr o risco. Mas há motivos pelos quais não seria preciso. Ainda não lhe disse tudo.

- Diga então, por favor!

- Ainda não planejei tudo, mas quando bateram naquela menina estavam-se afastando da cidade e não voltando.

- Erramos a estrada - explicou a Duquesa. - De algum modo, tínhamos tomado a direção errada. Isso acontece muito em Nova Orleans, com as ruas tortuosas como são. Depois disso, pelas ruas laterais, voltamos para cá.

- Pensei que podia ser isso - comentou Ogilvie, compreendendo. - Mas a polícia não calculou assim. Está procurando alguém que saiu da cidade. por isso mesmo, neste momento, está trabalhando nos subúrbios e cidades vizinhas. Pode ser que passe a procurar no centro da cidade, mas não será agora.

- Quanto tempo levarão para isso?

- Uns três ou quatro dias. Há muitos lugares onde têm de procurar antes daqui.

- Como pode êsse atraso ajudar-nos?

- Pode - respondeu Ogilvie -, desde que ninguém encontre o carro, e foi sorte colocarem-no ali. E desde que se possa tirar o carro daqui.

- Para fora do estado?

- Fora do sul do país?

- Seria fácil?

- Não, madame. Todos os estados ao redor, Texas, Arkansas, Mississippi, Alabama, tudo estará procurando um carro danificado como êsse:

A Duquesa pensou, e depois fêz a pergunta:

- Há possibilidade de fazer o consêrto, primeiro? Se o trabalho fôsse feito discretamente, poderíamos pagar bem.

O detetive-chefe balançou a cabeça em negativa enfática. Se tentar isso, é melhor ir logo à delegacia e se entregar. Tôdas as oficinas mecânicas da Luisiana receberam ordem de chamar a polícia assim que aparecer um automóvel danificado como o de vocês. E chamariam, sim, porque vocês estão sendo bastante procurados.

A Duquesa de Croydon se manteve firme, comandando cone rédea segura os pensamentos descontrolados. Sabia ser essencial que seu raciocínio continuasse calmo e razoável. Naqueles últimos minutos, a conversa se tornara tão casual como se estivessem falando de uma simples questão doméstica, e não da própria sobrevivência. Ela pretendia que continuasse assim, e mais uma vez lhe coubera a liderança, tornando-se o marido um espectador tenso, mas passivo, do diálogo entre o homem gordo e mau, e ela própria. Pois bem, o inevitável tinha de ser aceito. O importante era examinar tôdas as possibilidades, e um pensamento lhe ocorreu.

- A peça de nosso automóvel, que diz estar com a polícia. Como se chama?

- Um aro de farol.

- Pode ser identificado?

Ogilvie confirmou com um aceno.

- Eles podem descobrir o tipo de carro a que pertence, fabricante, modêlo e talvez ano de fabricação, ou perto disso. O mesmo acontece com o vidro. Mas como seu carro é estrangeiro, deverá levar alguns dias.

- Depois disso - insistiu ela -, a polícia saberá que está procurando um Jaguar?

- Acho que sim.

Era têrça-feira. De tudo quanto dissera aquêle homem, só lhes restava o tempo até sexta-feira ou sábado, quando muito. Com frieza calculada, a Duquesa raciocinava: a situação chegara a um ponto essencial. Supondo que o empregado do hotel fôsse comprado por êles, sua única possibilidade - e pequena - estava em tirar ràpidamente o automóvel dali. Se pudesse ser levado ao norte, para uma das grandes cidades onde a tragédia de Nova Orleans e busca subsequente fôssem ignoradas, o consêrto poderia ser feito tranquilamente, retirando- se os sinais incriminadores. Depois disso, mesmo que viesse a suspeita a recair mais tarde sôbre os Croydons, nada poderia ser provado. Mas, como tirar o automóvel dali?

Não restava dúvida de que êsse detetive imbecil dissera a verdade - tanto quanto na Luisiana, os demais estados pelos quais o veículo teria de passar estariam vigilantes. Tôdas as patrulhas rodoviárias estariam à espreita, procurando ver um

farol danificado onde faltava o aro. Provàvelmente haveria barreiras de exame nas estradas, e seria difícil escapar a algum policial atento.

- Mas era possível fazer isso. Se o carro pudesse ser dirigido à noite e escondido durante o dia, havia muitos lugares onde sair da estrada e passar despercebido. Isso seria arriscado, porém não era mais perigoso do que ficar ali, esperando a descoberta inevitável. Tomando estradas rurais, poderiam seguir um roteiro improvável, para não chamarem a atenção.

Outras complicações se apresentariam, no entanto. e chegara o momento de examiná-las. Viajar por estradas secun dárias era difícil, a menos que conhecessem a região, coisa que os Croydons não conheciam, como também não sabiam utilizar bem os mapas rodoviários. Quando parassem para reabastecer o carro, como teriam de fazer, a fala e as maneiras britânicas os trairiam, chamando a atenção. Ainda assim, eram riscos que tinham de aceitar.

Ou eram, mesmo?

A Duquesa encarou Ogilvie.

- Quanto quer?

Sua pergunta fôra tão abrupta, que o apanhou de surprêsa.

- Bem. Eu calculo que estão muito bem de vida.

- Perguntei quanto quer - insistiu ela, friamente. Os olhinhos piscaram.

- Dez mil dólares.

Embora a soma fôsse duas vêzes maior do que ela esperara, sua expressão não se alterou.

- Supondo que lhe pagássemos essa quantia exorbitante, que receberíamos em troca?

O gordo pareceu perplexo.

- Como disse, guardarei silêncio sôbre o que sei.

- E se não pagarmos?

- Vou à portaria e pego um telefone - respondeu êle, dando de ombros.

- Não - disse ela. - Nós não vamos pagar-lhe êsse dinheiro.

Enquanto o Duque de Croydon se remexia, inquieto, o rosto do detetive ficava vermelho.

- Olhe aqui, madame.

Ela o interrompeu de modo peremptório.

- Não vou ouvir. Ao invés disso, você ouvirá o que tenho a dizer.

Tinha os olhos fixos nêle, e suas feições apresentavam a expressão mais autoritária, enquanto acrescentava:

- Nada conseguiríamos pagando-lhe, a não ser o descanso de alguns dias. Você tornou isso bem claro.

- Essa é a possibilidade de que precisam.

- Silêncio! - bradou ela numa voz que era uma chicotada.

Os olhos dela o perfuravam e, engolindo em sêco, êle obedeceu. O que se seguiria, ela sabia, podia ser a coisa mais importante que já fizera. Não devia haver enganos, vacilações ou demoras. Quando se joga pelos prêmios maiores, fazem-se as maiores apostas. Pretendia jogar com a ganância do gordo, e fazê-lo de tal modo a ter absoluta certeza de desfecho. Declarou então, em forma decisiva:

- Não lhe pagaremos dez mil, mas sim vinte e cinco mil dólares.

O detetive do hotel arregalou os olhos.

- Em troca - prosseguiu ela -, você levará nosso carro para o norte do país.

Ogilvie continuava a fitá-la, espantado.

- Vinte e cinco mil dólares - repetiu a Duquesa. Dez mil agora e quinze mil quando nos encontrarmos em Chicago.

Ainda sem fala, o gordo umedeceu os lábios. Os olhos esbugalhados, como se não acreditasse no que ouvia, estavam fixos nos dela e o silêncio era pesado.

Depois, enquanto a Duquesa o observava atentamente, Ogilvie fêz um aceno quase imperceptível. O silêncio continuou, e êle finalmente perguntou:

- O charuto a incomoda, Duquesa?

Ao sinal afirmativo, êle o apagou.

- Que coisa engraçada! - disse Christine, repondo na mesa o cardápio enorme e multicor. - Esta semana tive o pressentimento de que uma coisa importante vai acontecer. Peter McDermott sorriu à sua frente, no outro lado da mesa iluminada por velas e onde brilhavam os talheres e a toalha branca engomada.

- Talvez já tenha acontecido.

- Não - retrucou Christine. - Pelo menos, não como você está pensando. É pressentimento ruim. Gostaria de me livrar dêle.

- A comida e bebida fazem maravilhas. Ela riu, correspondendo à sua atitude e fechando o cardápio.

- Peça você para nós dois.

Estavam no Brennan's Restaurant, no Quarteirão Francês. Uma hora antes, dirigindo um automóvel alugado no balcão Hertz, na portaria do Hotel St. Gregory, Peter a apanhara em seu apartamento. Estacionaram o veículo em Iberville, na orla do Quarteirão, e percorreram a pé tôda a rua Royal, olhando as vitrinas das lojas de antiguidades, com uma estranha mistura de objets d'art, curiosidades importadas e armas do Exército Confederado ("Qualquer espada nesta caixa, dez dólares").

Era uma noite quente e abafada, com os ruídos de Nova Orleans a cercá-los, o ronco profundo dos ônibus nas ruas estreitas, o tilintar de bater de cascos nos fiacres puxados a cavalo, ouvindo- se para os lados do Mississippi o apito melancólico de um cargueiro em partida.

O restaurante Brennan's, como era natural por ser o melhor da cidade, estava repleto de fregueses e, enquanto esperavam vagar uma mesa, Peter e Christine tomaram um Old Fashioned, no pátio tranquilo e suavemente iluminado.

Peter sentia grande bem-estar e prazer com a companhia de Christine e essa sensação continuou, quando foram levados a uma mesa no salão fresco e amplo do restaurante. Aceitando a sugestão dela, fêz sinal ao garçom.

- Que coisa boa não ter de decidir as coisas! - comentou Christine.

Resolvera ser firme e livrar-se do pressentimento de que falara antes. Afinal, nada mais era que uma intuição, talvez devido ao fato de ter dormido menos do que o comum na noite anterior.

- Numa cozinha bem dirigida, como a daqui - disse Peter - as decisões sôbre comida não fazem grande diferença. Trata-se de escolher entre qualidades iguais.

- O seu conhecimento de hoteleiro está aparecendo - repreendeu ela.

- Desculpe. Acho que aparece mesmo, muitas vêzes.

- Não tanto, e se quer saber, gosto quando isso acontece. Mas já pensei muito, tentando descobrir os motivos que o levaram à profissão.

- De hoteleiro? Eu era um mensageiro que se tornou ambicioso.

- A coisa foi tão simples assim?

- Talvez não. Tive sorte, e outras coisas ajudaram. Morava em Brooklyn e nos verões, nas férias da escola, empregava-me como mensageiro de um hotel em Manhattan. Certa noite, no segundo verão em que me empreguei assim, levei um bêbado para o quarto dêle, ajudei-o a subir as escadas, vesti-lhe o pijama e o acomodei na cama.

- Os hóspedes recebiam tanto serviço assim?

- Não. Era uma noite tranquila e, além disso, eu tinha muita prática. Já fizera o mesmo em casa, com o meu pai, durante anos seguidos.

Por instantes, houve tristeza em seu olhar. Depois, prosseguiu:

- De qualquer modo, fui saber que o hóspede que levara ao quarto dêle escrevia para o The New Yorker. Uma ou duas semanas depois, êle escrevia sôbre o que acontecera, e acho que nos chamou "o hotel mais gentil do que o leito materno". " Muita gente brincou conosco, mas o hotel ficou bem-visto.

- E você foi promovido?

- De certo modo. O principal é que passaram a me observar.

- Aí vêm as ostras - anunciou Christine. Duas travessas aromáticas e aquecidas, com os moluscos cozidos e abertos ao meio, sôbre uma camada de sal-gema, foram postas à frente dêles. Enquanto Peter provava o vinho Montrachet e demonstrava satisfação, Christine perguntou:

- Por que se podem comer ostras o ano todo, nos meses com "r" e não nos meses sem êle?

A resposta foi enfática:

- Podemos comer ostras em qualquer mês e a qualquer época do ano. A idéia dos meses com "r" é crendice antiga, de uns quatrocentos anos, e iniciada por um vigário inglês chamado Butler, se não me engano Os cientistas já desmentiram a coisa as autoridades sanitárias dizem que tal regra é tolice, mas as pessoas continuam acreditando.

Christine provou uma ostra Bienville e comentou:

- Sempre pensei que era porque elas geram no verão.

- E geram, mesmo, em certos pontos da Nova Inglaterra e em Nova York, mas não na baía de Chesapeake, o maior centro produtor do mundo. Lá e no sul, a procriação pode se fazer em qualquer época do ano, de modo que não há motivo pelo qual os habitantes do norte não possam comer ostras o ano todo, bem como na Luisiana.

Seguiu-se um silêncio, que Christine rompeu:

- Quando você aprende uma coisa lembra-se sempre dela?

- Na maior parte dos casos. Tenho um tipo curioso de memória, a que as coisas se prendem, assim como a um papel pega-môscas. De certo modo, tem sido uma sorte para mim. - acrescentou, perfurando uma ostra Rockefeller e saboreando seu leve gôsto de absinto.

- Sorte?

- Bem, naquele mesmo verão, o de que lhe falei, deixaram-me experimentar outros tipos de trabalho no hotel, inclusive o de servente do bar. Eu já estava me interessando, e apanhara alguns livros emprestados. Um dêles tratava da preparação de bebidas...

Peter se deteve, relembrando coisas meio esquecidas, e continuou depois:

- Aconteceu eu estar sòzinho no bar quando chegou um freguês. Eu não o conhecia, mas êle disse: "Ouvi falar que é o menino inteligente sôbre quem o The New Yorker escreveu. Sabe preparar um Prego Enferrujado (Rusty Nail)?"

- Ele estava brincando?

- Não, mas eu teria achado que sim, se não tivesse lido no livro sôbre os ingredientes, Drambuie e Scoteh, poucas horas antes. É por isso que falei em sorte. Seja lá como fôr, preparei a bebida e depois êle disse: "Está bom, mas não é assim que vai aprender a ser hoteleiro. As coisas mudaram, desde a publicação de Obru de Arte (Work of Art)". Eu lhe disse que não pretendia ser Myron Wcagle, mas não me incomodaria em ser Evelyn Oreham, e êle riu. Acho que tambem lera Arnold Bennett. Deu-me, então, um cartão e me disse que fôsse procurá-lo no dia seguinte.

- Era dono de uns cinquenta hotéis, talvez?

- Na verdade, não possuía nenhum. Chamava-se Herb Fiseher e era vendedor de conservas. Também era intrometido e gabola, mas tinha um modo notável de convencer os outros, mas conhecia o serviço de hotéis e quase todos os que nêles trabalhavam, porque era onde vendia as suas conservas.

As travessas de ostras foram retiradas e o garçom, ajudado por outro de casaco vermelho, colocou a sôlha fumegante à frente dêles.

- Tenho mêdo de comer - disse Christine. - Nada pode ter um gôsto tão divino quanto isso!

Provou o peixe suculento, magnificamente temperado, e comentou:

- Incrível como pareça, está melhor ainda do que pensei! Passaram-se diversos minutos, até que pedisse:

- Fale-me sôbre o Sr. Fiseher.

- Bem, de comêço pensei que êle era apenas um homem que falava demais, como há aos milhões nos bares. O que me fêz mudar de opinião foi uma carta que recebi da Cornell, dizendo para me apresentar no Statler Hall, a Escola de administração de Hotéis. O que aconteceu foi que me ofereceram uma bôlsa de estudos e passei para lá, deixando o ginásio. Mais tarde descobri que isso fôra feito porque Herb forçara alguns hoteleiros a me recomendar. Acho que êle era bom vendedor...

- Acha, só?

- Nunca pude ter certeza - respondeu Peter, pensativamente. - Devo muita coisa a Herb Fischer, mas às vêzes imagino se as pessoas não estavam querendo livrar-se dêle, e por isso faziam o que pedia, ou mesmo lhe proporcionavam bons negócios. Depois de terminar o curso em Cornell, só o vi uma vez. Tentei agradecer, do mesmo modo que procurava gostar dêle, mas não me deu oportunidade, continuando a falar exclusivamente dos grandes negócios que ia fazer ou já fizera. Depois, disse que eu precisava de roupas para a faculdade, o que era verdade, e insistiu em me emprestar duzentos dólares. Deve ter sido bem difícil para êle, porque mais tarde fui saber que não ganhava grande coisa. Paguei-lhe tudo, mandando cheques de pequenas importâncias, e a maioria dêsses cheques não foi descontada.

- Acho que é uma história maravilhosa - disse Christine, que estivera ouvindo com tôda a atenção. - Por que não o viu mais?

- Morreu - disse Peter. - Tentei encontrar-me com êle diversas vêzes, mas parecia impossível consegui-lo. Há cêrca de um ano, recebi um telefonema de um advogado. Ao que parece, Herb não tinha qualquer parente. Fui ao entêrro, e lá encontrei oito pessoas, como eu. Ele ajudara a nós todos do mesmo modo. O curioso é que, com tôda a sua jactância, nunca falara a qualquer de nós sôbre os demais.

- Dá vontade de chorar - comentou Christine.

- Eu sei - concordou êle. - Tive essa vontade também, naquele momento. Acho que isso me ensinou alguma coisa, embora não tenha certeza absoluta do que seja. Talvez fôsse que há pessoas que criam uma grande barreira e estão todo o tempo desejando que a gente a desfaça, e se a gente não fizer isso, jamais chegará a conhecê-las.

Christine guardou silêncio durante o café, pois de mútuo acôrdo tinham dispensado sobremesa, e finalmente perguntou:

- Será que algum de nós sabe realmente o que quer? Peter pensou, antes de responder.

- Talvez não de todo. Mas eu sei de uma coisa que quero.

Fêz sinal ao garçom, pedindo a conta.

- O que é?

- Vou fazer melhor do que dizer: vou-Lhe mostrar. Saindo do Brennan's, pararam um pouco, a fim de se acostumarem ao ar quente da noite depois da temperatura mais baixa no restaurante. A cidade parecia mais silenciosa do que uma hora antes. Algumas luzes se apagavam e a vida noturna do Quarteirão passava a outros lugares. Tomando Christine pelo braço, Peter a levou diagonalmente, cruzando a rua Royal e parando na esquina sudoeste de St. Louis, olhando diretamente para a frente.

- isso o que gostaria de criar - disse êle. - Uma coisa pelo menos tão boa assim, ou talvez melhor ainda.

Debaixo das sacadas graciosas, com grades e colunas de ferro estriado, lanternas trêmulas de gás faziam luz e sombra na fachada clássica e acinzentada do Royal Orleans Hotel. Das janelas arqueadas e guarnecidas irrompia uma luz amarela, e na calçada coberta andava um porteiro, trajando belo uniforme e quepe de pala. Bem acima, numa brisa repentina, bandeiras se debatiam nos mastros. Um táxi chegou, e o porteiro logo se adiantou para abrir a porta. Os saltos de sapatos femininos, juntamente com a risada de homens, ecoaram no ar enquanto entravam. Bateram uma porta e um táxi se afastou.

- Há quem acredite que o Royal Orleans seja o melhor hotel da América - disse Peter. - Concorde-se ou não, não faz diferença. A questão é a seguinte: êle mostra como pode ser um bom hotel.

Atravessaram a St. Louis na direção do que fôra, no passado, um hotel tradicional, centro da sociedade local, depois mercado de escravos, hospital na Guerra Civil, assembléia do estado, e finalmente hotel de nôvo. A voz de Peter demonstrava entusiasmo.

- Têm tudo a seu favor, história, estilo, instalação moderna e imaginação. Na construção do edifício, trabalharam duas firmas de arquitetos da cidade, uma fiel às tradições e a outra, moderna. O resultado mostra que se pode reconstruir, mas conservando o caráter antigo.

O porteiro, que deixara de andar de um para o outro lado, segurou a porta principal, conservando-a aberta enquanto êles entraram. Bem à frente, duas estátuas gigantescas, representando escravos negros, guardavam os degraus de mármore que davam para o pátio da portaria.

- Interessante - disse Peter - é que com tudo quanto tem de individual, o Royal Orleans pertence a uma cadeia hoteleira. Mas não do tipo da de O'Keefe - aduziu lacônicamente.

- É mais do tipo de Peter McDermott?

- Ainda falta muito para isso. E eu dei um passo atrás. Suponho que saiba.

- Sim - respondeu ela. - Eu sei. Mas você ainda o conseguirá. Aposto mil dólares como conseguirá, um dia.

Ele apertou o braço de Christine.

- Se tem tanto dinheiro, é melhor comprar ações dos Hotéis O'Keefe.

Percorreram tôda a portaria do hotel, feita em mármore branco com tapeçarias antigas brancas e côr de cidra e cáqui, saindo pelas portas da rua Royal. Por hora e meia, vaguearam pelo Quarteirão, parando no Preservation Hall, excessivamente quente e com os bancos repletos, pelo prazer de ouvir o jazz sulista mais puro, depois desfrutando a relativa frescura da praça Jackson, tomando café no mercado francês à beira do rio, examinando criticamente os objetos artísticos de má qualidade que abundavam em Nova Orleans, e mais tarde, no Pátio das Duas Irmãs, bebericando uísque com gêlo e hortelã, sob as estrêlas e árvores cheias de lianas.

- Foi maravilhoso - disse Christine. - Agora estou pronta a ir para casa.

Andavam para Iberville em direção ao carro, quando um menino negro, com caixa de papelão e escôvas se aproximou.

- Quer engraxar, moço?

- Está muito tarde, meu filho - respondeu Peter. O menino, de olhar vivo, se plantou bem à frente dêles, examinando os pés de Peter, e depois disse:

- Aposto vinte e cinco cent, como posso dizer-lhe de onde vieram êsses sapatos. Posso dizer a cidade, e o estado. Se fizer isso, o Sr. me dará vinte e cinco cents. Mas se errar, eu lhe pagarei o mesmo dinheiro.

Peter comprara os sapatos um ano antes em Tenafly, Nova Jersey. Hesitou, achando que se aceitasse o desafio teria grande vantagem a seu favor, mas concordou:

- Está bem.

Os olhos vivos do menino se voltaram para êle.

- Moço, os sapatos vieram desta calçada de concreto, em Nova Orleans, no estado de Luisiana. Agora lembre-se! Eu disse que adivinhava de onde vieram seus sapatos, não disse que ia adivinhar onde os comprou!

Eles riram, e Christine passou o braço pelo de Peter enquanto êle pagava os 25 cents. Estavam rindo, ainda, enquanto se dirigiam de carro para o norte, rumando para o apartamento de Christine.

Na sala de jantar do apartamento particular de Warren Trent, Curtis O'Keefe saboreava o charuto escolhido na caixa feita de cerejeira, oferecida por Aloysius Royce, sentindo a agradável combinação do mesmo conto conhaque Luís XIII que acompanhara o café. A sua esquerda, na cabeceira da mesa de carvalho onde Royce hàbilmente servira o soberbo jantar de cinco pratos, Warren Trent presidia com benevolência patriarcal. Ao lado oposto e em vestido prêto e justo, Dodo aspirava com prazer o cigarro turco que Royce trouxera e acendera.

- Puxa! - comentou ela. - Até parece que comi um porco inteiro.

O'Keefe sorriu com indulgência.

- Foi uma refeição ótima, Warren. Peço cumprimentar seu cozinheiro.

O proprietário do St. Gregory inclinou graciosamente a cabeça.

- Ele ficará satisfeito em saber quem o cumprimentou. Por falar nisso, talvez goste de saber que exatamente o mesmo foi oferecido esta noite, em nosso refeitório principal.

O'Keefe sorriu, sem se impressionar. Na sua opinião, um cardápio grande e trabalhoso ficava tão deslocado num hotel quanto o paté de foie gras numa marmita de trabalhador. Ainda mais a propósito, em ocasião anterior daquela noite, no restaurante principal do St. Gregory, vira que em sua hora mais concorrida aquela peça enorme apresentava apenas um têrço da lotação completa.

No império dos hotéis em sua cadeia, as refeições eram padronizadas e simplificadas, reduzindo-se a escolha a poucos pratos populares e vulgares. A base dessa atitude era a convicção de O'Keefe - fortalecida pela experiência - de que o gosto e preferências do público com relação à comida eram iguais, e desprovidos de imaginação em sua maior parte. Em qualquer estabelecimento O'Keefe, embora a comida fôsse preparada com precisão e servida com tôda a higiene; raramente se cuidava de gastrônomos, encarados como uma minoria que não proporcionava lucros.

- Não há muitos hotéis hoje que ofereçam essa cozinha - observou. - A maioria dos que a tinham teve de mudar.

- A maioria, mas não todos. Por que devem todos ser tão dóceis assim?

- Porque todo o nosso ramo de negócios mudou, Warren, desde o tempo em que você e eu éramos jovens nêle, quer gostemos dessa verdade, quer não. Os dias de serviço pessoal estão acabados. Talvez as pessoas já se tenham interessado por isso, antes, mas não se interessam mais.

Havia na voz de ambos um tom incisivo, demonstrando que ao final da refeição terminara também a simples polidez. Enquanto falavam, os olhos azuis e infantis de Dodo passavam de um para o outro, cheios de curiosidade, como se acompanhassem alguma coisa, áinda que muito mal compreendida. Aloysius Royce, de costas para êles, estava ocupado num aparador.

- Há quem discorde disso - retorquiu Warren Trent, àsperamente.

O'Keefe olhava para a brasa do charuto.

- Para quem discordar, a resposta está em seus balancetes, comparados a outros. Aos seus, por exemplo.

Warren Trent corou, cerrando os lábios.

- O que está acontecendo aqui é temporário, apenas uma fase. Já as tivemos antes. Esta também passará, como as outras.

- Não, e se pensa assim, está preparando o próprio laço onde se enforcará. E você merece coisa melhor, Warren, depois de todos êsses anos.

Fêz-se uma pausa obstinada, antes do outro responder com resmungos:

- Não passei a vida criando uma instituição para depois vê-la transformar-se numa casa barata.

- Se está referindo-se às minhas casas, nenhuma delas é isso - retorquiu O'Keefe raivosamente e ficando vermelho.

- Também não acho que êste hotel seja uma instituição. No silêncio frio que se seguiu, Dodo interveio, perguntando:

- Vai ser uma briga de verdade ou só de palavras? Os dois homens riram, embora Warren Trent o fizesse com menos gosto. Foi Curtis O'Keefe quem ergueu a mão, em sinal conciliador.

- Ela tem razão, Warren. inútil brigarmos. Se vamos continuar, cada qual pelo seu caminho, pelo menos podemos continuar amigos.

Já mais tratável, Warren Trent assentiu. Em parte, seu azedume de momento anterior fôra acicatado por uma pontada de dor ciática. que já passara. Mesmo dando o devido desconto a isso, pensou amargamente, era difícil não sentir rancor daquele homem vitorioso, cujas conquistas financeiras contrastavam tanto com as suas.

- Pode-se resumir em três palavras - declarou Curtis O'Keefe - que o público espera hoje de um hotel: um "conjunto eficiente e econômico". Mas só o podemos proporcionar se dispusermos de contabilidade eficiente do custo para todos os momentos, tanto para nós quanto para os hóspedes, de uma instalação eficiente e, acima de tudo, de uma conta de salário mínimo, o que representa a automatização, eliminando-se empregados e a hospitalidade à antiga sempre que fôr possível.

- E é tudo? Deixa de lado tudo o mais que costumava formar um bom hotel? Nega que um bom hospedeiro pode imprimir seu sêlo pessoal a qualquer casa? - indagou o dono do St. Gregory, em tom de mofa. - Quem visita o seu tipo de hotel não tem a sensação de ter alguma importância, de ser alguém a quem se dá mais um pouco, em sentimentos e hospitalidade, do que é cobrado na conta.

- Trata-se de ilusão da qual não se precisa - retrucou incisivamente o interlocutor. - Se um hotel é hospitaleiro, deve-se isso ao fato de que se paga para que o seja, de modo que ao final isso não entra em conta. As pessoas enxergam através da falsidade de modo muito mais claro. Mas respeitam a justiça, um lucro justo para o hotel, um preço justo para o hóspede, e isso minhas casas proporcionam. Ah, sim, eu reconheço que sempre haverá alguns Tuscanys para os que desejam tratamento especial e estão prontos a pagar. Mas são lugares pequenos, e destinam-se a poucos hóspedes. As casas grandes, como a sua, se quiserem sobreviver ao meu tipo de competição, têm de pensar como eu.

- Você não se oporá se eu continuar a pensar a meu modo, por algum tempo. - retorquiu Warren Trent.

O'Keefe sacudiu a cabeça em sinal de impaciência.

- Nada havia de pessoal no que disse. Eu falava de tendências, e não de detalhes.

- Para o diabo com as tendências! Meu instinto me diz que muitas pessoas ainda gostam de viajar em primeira classe. São as que esperam coisa melhor do que caixas com camas.

- Você está torcendo o que eu disse, e não me queixo - redarguiu Curtis O'Keefe, sorrindo calmamente. - Mas vou desafiar sua comparação. A não ser para pouquíssimos, a primeira classe acabou.

- Por quê?

- Porque os aviões a jato eliminaram a viagem de primeira classe, e juntamente com ela todo um estado de espírito. Antes disso, a primeira classe conferia um ar de distinção, mas a viagem a jato mostrou a todos como os sistemas antigos eram tolos e perdulários. As viagens aéreas se tornaram rápidas e curtas, a tal ponto que a primeira classe passou simplesmente a não valer a pena. Assim, as pessoas se apertaram em suas cadeiras de turistas e pararam de se preocupar com sua posição social, porque o preço era alto demais. Logo depois houve uma reviravolta na questão de posição social, na questão de viagens pela classe de turistas. As melhores pessoas a usavam, comentando, enquanto ingeriam seus almoços padronizados, que a primeira classe era para idiotas ou perdulários. E o que as pessoas percebem que têm nos aviões a jato, o conjunto eficiente e econômico, também querem encontrar nos hotéis.

Dodo não conseguira esconder um bocejo com a mão, e apagou o cigarro turco. No mesmo instante, Alôysius Royce estava a seu lado, oferecendo outro e acendendo-o. Ela sorriu, reconhecida, e o jovem negro retribuiu o sorriso, conseguindo transmitir uma solidariedade discreta. Sem chamar a atenção, substituiu os cinzeiros usados na mesa, pondo outros limpos, enchendo novamente a xícara de café de Dodo e as demais. Enquanto se retirava silenciosamente, O'Keefe observou:

- Tem um bom empregado aí, Warren.

- Está comigo há bastante tempo - respondeu Warren Trent, com ar distraído.

Observando Royce, imaginava como o pai dêle teria reagido à notícia de que o hotel poderia passar a outras mãos. Talvez desse de ombros, pois os bens e o dinheiro pouco representavam para o velho. Warren Trent quase podia ouvir-lhe a voz, dizendo: "Você mandou tanto tempo que talvez um pouco de dificuldade fôsse para seu próprio bem. Deus nos quebra as costas e humilha, para mostrar que nada somos senão Seus filhos transviados, por mais que tenhamos idéias em contrário. " Mas em seguida, numa oposição calculada, o velho poderia acrescentar: "Ainda assim, se acredita em alguma coisa trate de lutar por ela. Depois de morto, não se pode atirar em ninguém, porque não se consegue fazer pontaria."

Fazendo pontaria, desconfiado, hesitante, Warren Trent insistiu:

- A seu modo, você faz tudo num hotel parecer tão antisséptico! O seu tipo de hotel não tem calor de humanidade, é para autômatos com mentes eletrônicas e lubrificantes, ao invés de sangue, nas veias. - o tipo que distribui dividendos - retorquiu O'Keefe dando de ombros.

- Talvez financeiros, mas não humanos.

Ignorando a parte final da réplica, O'Keefe prosseguiu:

- Falei sôbre nosso ramo de negócios como existe hoje. Vamos levar a conversa um pouco além. Em minha organização, mandei preparar um plano para o futuro. Talvez alguns o chamassem visionário, embora seja mais uma projeção fundamentada do que os hotéis, certamente de minha cadeia, vão ser daqui a alguns anos.

Após ligeira pausa, deu início à descrição:

- A primeira coisa que simplificamos foi a portaria, onde a chegada dos hóspedes só tomará alguns segundos, quando muito. A maioria virá diretamente de aeroportos por helicóptero, de modo que um ponto principal da portaria será um heliporto particular no telhado. Em segundo plano, haverá pontos de recepção em andares inferiores, onde os automóveis e limusines podem entrar diretamente, eliminando a transferência para uma portaria, como se faz hoje. Em todos êsses lugares haverá um tipo de escritório de triagem instantânea, guiado por cérebro eletrônico que, por falar nisso, já está pronto.

Enquanto Warren Trent se mantinha em silêncio, êle prosseguiu:

- Os hóspedes com reservas receberão um cartão perfurado, que enfiarão num quadro e estarão imediatamente a caminho, por uma escada rolante individual, sendo levados ao quarto, que poderá ter sido preparado poucos segundos antes. Se o quarto não estiver pronto, e isso há de suceder - admitiu Curtis O'Keefe - como sucede hoje, teremos pequenas estações portáteis, cubículos com duas cadeiras, bacia e lugar para a bagagem, só o bastante para se limpar depois de viagem e dispor logo de alguma tranqilidade, sem a presença de outros. Os hóspedes podem ir e vir, como usam um quarto comum, e meus engenheiros estão preparando um projeto para tornar móveis as estações, de modo que as mesmas possam se adaptar diretamente ao espaço indicado. Dêsse modo, o hóspede simplesmente abrirá a porta indicada pelo cérebro eletrônico e passará por ela.

Fêz uma pausa, e continuou na explicação:

- Para quem chegue em seu próprio automóvel, haverá dispositivos semelhantes, com lâmpadas móveis e de código, que os levarão a seus espaços de estacionamento pessoal, de onde escadas rolantes individuais os conduzirão diretamente aos quartos. Em todos os casos, eliminaremos o transporte de bagagem, usando selecionadores e esteiras rolantes de alta velocidade. A bagagem será dirigida aos quartos e chegará antes dos próprios hóspedes. De modo parecido, todos os demais serviços terão sistemas automatizados de entrega nos quartos, camareiro, bebidas, comida, florista, lojas, bancas de jornal e até a conta final poderá ser recebida e paga por transportador mecânico. Por falar nisso, além de outros benefícios, terei acabado com o sistema de gorjetas, uma praga que temos suportado, tanto quanto os hóspedes, por tempo demasiado.

Houve silêncio na sala de jantar, enquanto o magnata de hotéis, ainda em comando da cena, bebericava algum café antes de prosseguir.

- A disposição e automatização, em meu edifício, reduzirá ao mínimo a necessidade dos empregados do hotel entrarem no quarto dos hóspedes. As camas, embutidas na parede, serão cuidadas por máquinas de fora. A filtragem de ar já foi aperfeiçoada a tal ponto que poeira e detritos deixaram de constituir problema. Os tapêtes, por exemplo, podem ser postos em soalho de tela fina de aço, tendo espaço por baixo, e submetidos uma vez por dia à ação de aspirador, quando um relé sincronizado se ligar.

Finalmente, O'Keefe asseverou:

- Tudo isso, e muito mais, pode ser realizado já em nossos dias. Os problemas restantes, que serão resolvidos - observou, fazendo com a mão seu gesto característico de desdém -, estão principalmente na coordenação, construção e investimento.

- Espero não estar vivo para ver isso acontecer em minha casa - comentou Warren Trent, com voz firme.

- E não estará - informou O'Keefe. - Antes de acontecer aqui, teríamos de demolir sua casa e reconstruí-la.

- E você faria isso, tenho certeza! - retrucou Trent, chocado.

O'Keefe deu de ombros.

- Está claro que não posso revelar planos de longo alcance, mas diria que seria essa nossa orientação, antes de muito tempo. Se está preocupado pela sobrevivência de seu nome, posso prometer que uma placa comemorando o hotel antigo e possivelmente sua ligação com o mesmo seria afixada no edifício novo.

- Uma placa! - exclamou, indignado, o proprietário do St. Gregory. - Onde a colocaria? No banheiro dos homens?

Abruptamente, Dodo soltou uma risada e quando os dois se voltaram para ela, fêz sua observação:

- Talvez não houvesse banheiro. Quer dizer, com tôdas essas coisas mecânicas, transportando tudo, quem iria precisar dêle?

Curtis O'Keefe lhe lançou um olhar severo. De vez em quando imaginava se Dodo não era um pouco mais inteligente do que geralmente ela própria demonstrava. A reação dela, Warren Trent corara de embaraço, e agora afirmava em seu tom mais cortês:

- Minha cara senhora, peço desculpas pela escolha infeliz das palavras.

- Ora, não se preocupe comigo! - respondeu Dodo, aparentando surprêsa. - Pois eu acho êste hotel muito bom. Por que terá de demoli-lo, Curtie? - perguntou, voltando os olhos grandes e inocentes para O'Keefe.

- Eu só estava examinando uma possibilidade - retrucou êle, irritado. - De qualquer modo, Warren, já é hora de você abandonar a hotelaria.

Em contraste com a aspereza de poucos minutos antes, a resposta se mostrou branda:

- Mesmo que o desejasse fazer, há outros em quem pensar, além de mim mesmo. Bom número de meus antigos empregados confia em mim, do mesmo modo como tenho confiado nêles. Você diz que seus planos são de substituir empregados pela automatização. Eu não poderia abandonar a hotelaria, pensando nisso. Devo ao meu pessoal ao menos isso, em troca da lealdade que me têm dado.

- Deve, mesmo? E ezistem empregados leais nos hotéis? Eles todos, ou quase todos, não o abandonariam neste mesmo instante se, com isso, tivessem vantagem para si próprios?

- Asseguro-lhe que não. Dirijo esta casa há mais de trinta anos, e nesse tempo a lealdade se forma. Talvez você tenha tido menos experiência nesse sentido.

- Já formei opiniões a respeito de lealdade - respondeu O'Keefe, falando de modo distraído.

Mentalmente, estava relembrando o relatório feito por Ogden Bailey e seu assistente mais jovem, Sean Hall, e que examinara antes. Fizera ver a Hall que devia ter cuidado contra a apresentação de detalhes demais, porém um dêles que poderia ser útil no momento fôra incluído no resumo escrito. O hoteleiro fêz um esfôrço de memória, e finalmente perguntou:

- Você tem um empregado antigo que dirige o seu Bar Pontalba, não é?

- Sim, é Tom Earlshore. Trabalha comigo quase desde que eu mesmo comecei.

De certo modo, pensava Warren Trent, Tom Earlshore representava os empregados mais antigos do St. Gregory, aos quais não podia abandonar. Ele próprio contratara Earlshore quando ambos eram jovens e, embora o empregado estivesse velho e diminuindo o seu ritmo de trabalho, era um daqueles, no hotel, que Warren Trent considerava como amigos pessoais. E como se faz aos amigos, já ajudara Tom Earlshore. Surgira a ocasião em que a filhinha dos Earlshores nascida com um lábio deformado, fôra mandada à Clínica Mayo para cirurgia corretiva, que dera bons resultados, por intermédio de providências tomadas por Warren Trent. Depois disso, êle pagara discretamente as contas, motivo pelo qual Tom Earlshore declarara gratidão e dedicação imorredouras. A filha dos Earlshores já era mulher casada, com filhos, mas continuava a ligação entre seu pai e o dono do hotel.

- Se há alguém em quem eu confie - disse a Curtis O'Keefe - é em Tom.

- Seria doido se confiasse nêle - retrucou àsperamente o outro. - Minha informação é de que êle está roubando, e muito.

No silêncio chocado que se seguiu, O'Keefe enumerou os fatos. Havia muitos modos pelos quais um bartender desonesto podia roubar o patrão - pondo menos bebida nos copos; a fim de obter uma ou duas doses a mais em cada garrafa usada, deixando de registrar tôdas as vendas na caixa, trazendo bebida que êle próprio comprara, de modo que a verificação do estoque não mostraria faltas, mas o rendimento, com lucro substancial, ia para o bolso do empregado. Tom Earlshore parecia usar os três métodos, e de acôrdo com as observações feitas por Sean Hall ao correr de diversas semanas, seus dois ajudantes estavam combinados com êle.

- Uma porcentagem elevada dos lucros no bar está sendo desviada - disse O'Keefe -, e pelo aspecto geral da coisa eu diria que tem sido assim há múito tempo.

Durante tôda a sua narrativa Warren Trent permanecera imóvel e sentado, o rosto inexpressivo embora seus pensamentos fôssem agitados e amargos. A despeito de sua longa confiança em Tom Earlshore, e da amizade que acreditara existir, não tinha dúvidas de que a informação recebida era verdadeira. Conhecia os métodos de espionagem das cadeias hoteleiras o bastante para duvidar do que ouvia, e sabia que Curtis O'Kefe não faria a acusação sem estar certo do que dizia. Desde muito, Warren Trent calculava que os homens de O'Keefe se haviam infiltrado no St. Gregory, antes de chegar seu chefe, mas não esperara essa húmilhação dolorosa e pessoal. Perguntou, então:

- Você fala do "aspecto geral de outras coisas". O que quer dizer?

- O seu pessoal, que você pensa ser leal, está varrido pela corrupção. Quase não existe departamento onde não o estejam roubando e defraudando. Está claro que não tenho todos os detalhes, mas aquêles de que disponho estão à sua disposição. Se quiser, mandarei preparar relatório.

- Obrigado - disse Warren Trent, num sussurro.

- Você tem muita gente gorda trabalhando aqui. Foi a primeira coisa que notei ao chegar. Sempre vi isso como um mau sinal. Eles têm a barriga cheia de comida do hotel e o têm furtado de todos os modos possíveis.

Seguiu-se o silêncio na sala de jantar pequena e íntima, rompido apenas pelo ruído suave de um relógio holandês, prêso à parede. Afinal, lentamente e dando sinal de cansaço, Warren Trent anunciou:

- O que me diz pode causar diferença em minha própria atitude.

- Achei que sim - retrucou Curtis O'Keefe, que quase esfregou as mãos, mas se controlou. - De qualquer modo, tendo chegado a êsse ponto, gostaria que ezaminasse uma proposta.

- Eu calculava que você chegaria a isso - disse Warren Trent, sêcamente.

- É uma proposta justa, ainda mais diante das circunstâncias. Por falar nisso, devo dizer que conheço sua situação financeira.

- Seria surprêsa se não a conhecesse.

- Deixe-me resumir: suas posses neste hotel alcançam cinquenta e um por cento de tôdas as ações, dando-lhe o

contrôle.

- Ezato.

- Você refinanciou o hotel em 1939, com hipoteca de quatro milhões de dólares. Dois milhões ainda estão por pagar, e vencerão na próxima sezta-feira. Se não efetuar o resgate, os credores tomarão conta:

- Exato, de nôvo.

- Há quatro meses você tentou reformar a hipoteca e foi rejeitado. Ofereceu condições melhores aos credores e também foram rejeitadas. Desde então, tem procurado outro financiamento, mas não o conseguiu. No pouco tempo restante, não há qualquer possibilidade.

- Isso, eu não aceito - resmungou Warren Trent. Muitos refinanciamentos se conseguem em prazos curtos.

- Não dêste tipo, ou com prejuízos tão grandes quanto os seus.

A não ser por apertar os lábios, Warren Trent não contestou.

- Minha proposta - prosseguiu Curtis O'Keefe - é o preço de venda de quatro milhões por êste hotel. Do total, dois milhões serão obtidos pela reforma da hipoteca atual, coisa que não terei dificuldades em conseguir.

Warren Trent anuiu, amargamente ciente da complacência do outro.

- O saldo será um milhão em dinheiro, o que permitirá pagar aos acionistas menores, e um milhão em ações dos Hotéis O'Keefe, a serem emitidas. Além disso, como deferência pessoal, você terá o privilégio de conservar êste apartamento enquanto fôr vivo, tendo a minha garantia de que, no caso de demolição e reconstrução, faremos outro acôrdo mùtuamente satisfatório.

Warren Trent permanecia imóvel, sem revelar na expressão os pensamentos e a surprêsa que sentia. As condições eram melhores do que esperara. Se aceitasse, elas o deixariam com um milhão de dólares, mais ou menos, soma nada insignificante para levar ao abandonar a obra de sua vida. Ainda assim, era um abandono, mesmo, deixando tudo quanto construíra e de que cuidara ou, pelo menos - refletiu sombriamente -, pensava merecer seu cuidado, até momentos antes.

- Quero imaginar - disse O'Keefe, tentando ser joviál - que viver aqui, sem preocupações e tendo o seu em pregado para cuidar de você, seria moderadamente suportável.

Não adiantava explicar que Aloysius Royce logo se formaria em Direito e, presumivelmente, tinha outras idéias sôbre seu próprio futuro. Mas o fazia lembrar que a vida naquele recanto, no alto do hotel que não mais dirigia, seria solitária. Perguntou, então, abruptamente:

- E se eu não vender, quais são seus planos?

- Procurarei um bom terreno e construirei meu hotel. Mas acho que o seu já terá desaparecido muito antes. Se não tiver, nossa competição o fará fechar as portas.

O tom de voz era estudadamente indeferente, mas por trás dela estava o cérebro astuto e calculista. A verdade estava em que a O'Keefe Hotel Corporation precisava muito do St. Gregory, e com urgência. A falta de uma filial O'Keefe em Nova Orleans era como a falha de um dente na dentadura, a não ser por isso bem firme, com que ela mordia bons bocados dos viajantes. Já lhe acarretara uma grande perda nas indicações comerciais junto a outras cidades, o que era o oxigênio de uma cadeia hoteleira vitoriosa. Era também inquietante o fato de que as cadeias competidoras exploravam essa falha. O Sheraton- Charles estava estabelecido desde há muito tempo, o Hilton construía seu hotel no Vieux Carré, além de ter a sua hospedaria no aeroporto, e a Hotel Corporation of America era dona do Royal Orleans.

As condições oferecidas a Warren Trent por Curtis O'Keefe não deixavam também de ser realistas. Os credores do St. Gregory já tinham sido sondados por emissário dêle e se mostravam pouco dispostos a colaborar. Logo se tornara evidente que tinham o projeto de obter o contrôle do hotel, em primeiro lugar, e depois prepararem tudo para uma grande venda. Para comprar o St. Gregory por preço razoável, era aquêle o momento crucial.

- Quanto tempo está disposto a me dar para decidir?

- perguntou Trent.

- Prefiro que responda agora mesmo.

- Não estou preparado para isso.

- Muito bem - disse O'Keefe, pensando um pouco. Tenho um encontro em Nápoles no próximo sábado. Gostaria de sair daqui o mais tardar na noite de quinta-feira. Suponhamos que se possa resolver a questão ao meio-dia de quinta-feira.

- Isso é menos de quarenta e oito horas!

- Não vejo motivos para esperar mais.

A obstinação levava Warren Trent a pedir mais tempo, mas o raciocínio interveio - só conseguiria estender por um dia o prazo de sexta-feira que já enfrentava. Em vista disso, cedeu.

- Já que insiste.

- Esplêndido! - disse rindo expansivamente O'Keefe, que empurrou a cadeira e se levantou, acenando para Dodo

que estivera observando Warren Trent com expressão próxima à de solidariedade. - Já é hora de irmos, minha cara. Warren, gostamos muito da sua hospitalidade.

Esperar mais um dia e meio, pensava, seria apenas um aborrecimento menor. Afinal, não podia haver dúvidas quanto ao resultado.

Na porta da frente, Dodo voltou os grandes olhos azuis para Warren.

- Muito obrigada, Sr. Trent.

O hoteleiro tomou-lhe a mão, inclinando-se sôbre a mesma.

- Não me recordo de ter visto tanto encanto quanto hoje, nestas velhas salas.

O'Keefe lançou rápido olhar de esguelha, desconfiando da sinceridade do cumprimento e percebendo logo que o mesmo fôra autêntico. Era outra coisa curiosa em Dodo, aquela ligação que conseguia às vêzes, como se instintivamente, com as pessoas menos prováveis. No corredór, sentindo-lhe os dedos leves no braço, êle percebeu que os seus sentidos se aceleravam.

Antes de outra coisa, no entanto, lembrou-se de que devia orar, apresentando agradecimentos apropriados pelo modo como transcorrera a noitada.

- Há uma coisa qualquer muito curiosa - observou Peter McDermott - numa môça que procura na bôlsa a chave do apartamento.

- É um símbolo duplo - respondeu Christine, continuando a procurar. - O apartamento demonstra a indepen dência feminina, mas perder a chave prova que ela ainda é mulher. Ah! Encontrei-a!

- Fique firme! - disse Peter, segurando-a pelos ombros e depois beijando-a.

Foi um beijo longo, no curso do qual os seus braços apertaram-na bem. Finalmente, com pouco fôlego, ela protestou:

- Já paguei o aluguel dêste mês. Se temos de fazer isso, poderia ser em particular.

Tomando-Lhe a chave, Peter abriu a porta. Christine pôs a bôlsa sôbre uma mesa e se jogou num sofá macio, tirando então os sapatos de couro e demonstrando alívio.

- Cigarro? - perguntou êle, sentado a seu lado.

- Sim, por favor.

Peter acendeu um fósforo para ambos, sentindo-se alegre e leve, percebendo que seria ali, e naquele momento, e convicto de que o lógico entre êles poderia acontecer, se êle quisesse.

- Está bom assim - disse Christine. - Estarmos aqui sentados, conversando.

- Não estamos conversando - retrucou êle, segurando-lhe a mão.

- Então, vamos conversar.

- Conversar não era exatamente.

- Eu sei. Mas resta saber para onde vamos, se vamos e por quê.

- Não era melhor fazermos a roleta girar.

- A fazer isso, não haveria jogo, só uma certeza - ela se deteve, pensando. - O que aconteceu agora foi pela segunda vez, e havia certa química funcionando.

- Pensei que, quimicamente, íamos muito bem.

- Então, no curso das coisas, haveria um progresso natural?

- Já não estou com você, mas muito mais à frente.

- Na cama, imagino.

- Eu tomei o lado esquerdo - disse êle, em tom sonhador - e você ficou de frente para a cabeceira.

- Há uma coisa que o desapontará.

- Espere, não diga! Vou adivinhar. Você se esqueceu de escovar os dentes. Não faz mal, posso esperar.

- difícil conversar com você! - disse ela, rindo.

- Conversar não era exatamente.

- Foi aí que começamos.

Peter se recostou no sofá e soprou um anel de fumaça, depois outro, mais outro.

- Sempre quis fazer isso - disse Christine. - Mas não pude.

- Qual foi a decepção?

- Foi uma idEia, de que se o que pode acontecer. vier a acontecer, devia significar alguma coisa para nós dois.

- Significaria, para você.

- Acho que sim, mas não tenho certeza - respondeu ela, ainda menos segura de qual poderia ser sua reação ao que talvez viesse em seguida.

Ele apagou o cigarro, depois tirou o dela e fêz o mesmo. Quando lhe segurou as mãos, ela sentiu que sua certeza tombava por terra.

- Precisamos conhecer um ao outro - disse êle, examinando-lhe o rosto. - Nem sempre as palavras são o melhor meio para isso.

Estendeu os braços e ela veio se aproximando, de início dòcilmente, depois com excitação crescente e ardente. De seus lábios, surgiram sons ansiosos, incoerentes, e a discrição a abandonou, dissolveram- se as reservas de poucos instantes antes. Tremendo e com o coração disparado, dizia a si própria: o que acontecesse devia ter curso livre, e a dúvida ou raciocínio não o desviariam agora. Já sentia a respiração acelerada de Peter, e fechou os olhos.

Houve uma pausa, e depois, inesperadamente, já não estavam tão juntos.

- Há ocasiões - disse Peter - em que aparecem coisas de que nos lembramos. E aparecem nos momentos mais impróprios.

Envolveu-a nos braços, mas com mais ternura dessa vez, e sussurrou:

- Você tinha razão. Vamos deixar passar algum tempo. Ela sentiu ser beijada suavemente, e depois ouviu passos que se afastavam. Veio depois o ruído da fechadura da porta de entrada que se abria, e momentos depois se fechava. Christine abriu os olhos.

- Peter, querido - murmurou. - Não precisa ir. Por favor, não se vá!

Mas só ouviu, no silêncio reinante, o zumbido distante do elevador que descia.

Poucos minutos restavam da têrça- feira. Num cabaré da rua Bourbon, onde se apresentavam números de strip- tease, a loura de quadris avantajados se aproximou mais do homem que a acompanhava, tendo uma das mãos em sua coxa e os dedos da outra acariciando-lhe a base do pescoço.

- É claro! - disse ela. - É claro que quero ir para a cama com você, meu bem!

Stan Nâó-Sei-O-Que, dissera êle que se chamava, e vem de uma cidade atrasada Qualquer, cujo nome nunca ouvi pronunciar. E se bafelar em mim outra vez, eu vomito! Isso não é mau hálito! É uma ligação direta com a rêde de esgotos!

- Então, o que estamos esperando? - perguntou êle, em voz pastosa.

Segurando a mão dela, trouxe-a mais acima na parte interna da coxa:

- Aqui tem um negócio especial para você, benzinho. Cheia de desdém, a loura pensava que eram todos a mesma coisa, aquêles roceiros desbocados que apareciam, convencidos de que tinham alguma coisa excepcional pela qual as mulheres se esbofavam. Santo Deus! Que fedentina, aQuêle hálito!

A pouca distância de sua mesa, um desafinado conjunto de jazz, ruim demais para conseguir tocar em outro lugar melhor da rua Bourbon, como o Porta Famosa ou o Estrebaria, se arremessava ao final de um número musical, que fôra dançado - se é que o arrastar de um para outro lado podia se chamar dança - por uma Jane Mansfield. Era um dos truques usados pelos estabelecimentos congêneres daquela rua: tomar o nome de artista famosa, alterar-lhe uma letra apenas e pespegá-lo numa desconhecida qualquer, na esperança de que os fregueses passando à frente da baiúca se enganassem, julgando ser a verdadeira.

- Escute! - disse, com impaciência, o homem vindo do lowa. - Por que não damos o fora daqui?

- Já Lhe disse, coração. Eu trabalho aqui. Não posso sair agora. Tenho o meu número a apresentar!

- Que me importa o seu número!

- Ora, coração, você não está sendo gentil. Como tendo súbita inspiração, a loura das ancas largas perguntou:

- Em que hotel está hospedado?

- St. Gregory.

- Não fica longe daqui.

- Podemos estar lá em cinco minutos.

- Não vou tomar alguma coisa, antes? - perguntou ela, em tom de reprensão.

- Está claro que sim! Vamos!

- Espere, Stanley, querido! Tive uma idéia. A coisa estava dando certo, certíssimo, pensava ela. Parecia até uma pequena peça, bem ensaiada. E por que não? Era a milésima vez que a representava, ou talvez cem vêzes mais do que isso, ou cem menos Naquela última hora e meia Stan Seja-La-Quem-Fôr, vindo da terra dos trouxas, caíra dòcilmente na mesma rotina - primeiro, as bebidas, que lhe custavam quatro vêzes mais do que teria pago em qualquer bar decente. Depois, o garçom a levara para fazer-lhe companhia. Em seguida, viera uma nova série de bebidas, embora ela, como as outras pequenas que tinham comissão do bar, recebesse chá frio ao invés do uísque barato servido aos fregueses. E mais tarde ela fizera sinal ao garçom para descarregar o tratamento completo - uma garrafa rachada de champanha nacional para a qual a conta, embora Stanley Bôbo ainda não soubesse disso, seria de quarenta dólares. E que tentasse sair sem pagar!

Tudo quanto restava, portanto, era se desfazer dêle, embora ao tratar disso - se continuasse tudo a dar certo - ela pudesse ganhar mais uma comissão pequena. Afinal de contas, tinha direito a algum tipo de prêmio, por aturar aquêle hálito fedorento.

- Qual é a idéia, benzinho? - perguntava êle.

- Deixe comigo sua chave do hotel. Você pode arranjar outra na portaria, porque êles sempre têm duplicatas. Assim que eu terminar aqui, irei ficar com você, no hotel.

Apertou com mais fôrça o lugar onde êle pusera a mão, e acrescentou:

- Vá-se preparando para me receber, ouviu?

- Não tem perigo.

Muito bem. Dê-me a chave.

Ele já a tinha na mão, mas bem segura, e disse em tom de dúvida:

- Espere lá! Tem certeza de que vai.

- Querido, prometo que irei voando!

Ele depositou a chave em sua mão, apertando-a. Antes que pudesse mudar de idéia, ela abandonou a mesa. O garçom se encarregaria do resto, ajudado por um camarada bem forte, caso Mau-Hálito criasse embaráços na hora de pagar a conta. Provàvelmente não o faria, e também não voltaria ali, pois os trouxas nunca voltavam.

A loura imaginava, agora, quanto tempo o paspalhão ficaria acordado, em seu quarto de hotel, e quando iria finalmente compreender que ela não apareceria, e nunca iria lá, ainda que êle permanecesse lá dentro, à sua espera, por todo o resto de sua vida inútil.

Cêrca de duas horas depois, ao fim de um dia tão cansativo quanto a maior parte dêles, embora um pouco mais lucrativo, pensava ela, vendeu a chave por dez dólares.

O comprador foi Keycase Milne.

Quarta-feira

Quando os primeiros raios pardacentos de uma nova manhã surgiam, tênues, sôbre Nova Orleans, Keycase - sentado na cama de seu quarto no St. Gregory - já estava descansado, alerta e pronto para agir.

Dormira profundamente tôda a tarde e primeira parte da noite anteriores, e fizera uma excursão pelo hotel, regressando às duas da madrugada. Durante hora e meia, dormira outra vez, acordando no momento preciso que desejava. Levantando-se, fizera a barba e tomara banho, ao final do qual virara o registro para água fria. O jato gelado fêz o corpo estremecer, mas depois se esquentara bem, esfregando vigorosamente a toalha.

Um de seus ritos, antes de partir em expedição profissional, era vestir roupa de baixo nova, e uma camisa limpa e engomada. Sentia agora o contato agradável do tecido, afiando o gume de tensão a que se elevara. Se, por instantes, surgira a dúvida inquietante, a sombra do mêdo de ser mandado a quinze anos de prisão caso fôsse apanhado mais uma vez, êle a suprimiu sumàriamente.

Muito mais satisfatória fôra a facilidade com que fizera seus preparativos. Desde a chegada, na véspera, já aumentara sua coleção de chaves do hotel. de três para cinco. Uma das duas outras chaves fôra conseguida na noite da véspera, pelo modo mais simples possível - pedindo-a, na portaria do hotel. O seu quarto era número 830, e êle pedira a chave do 803.

Antes de o fazer, tomara precauções elementares. Verificara, com certeza, se havia uma chave do 803 no quadro, e se o escaninho por baixo dela não tinha cartas ou recados. Se tivesse, êle teria esperado. Ao entregarem cartas ou recados, os atendentes costumavam perguntar o nome de quem pedia a chave. Sendo assim, êle esperara até ver o balcão cheio de gente, incorporando-se então à fila de diversos outros hóspedes. Deram-lhe a chave sem fazer perguntas. Se surgisse algum embaraço, apresentaria a explicação convincente de que confundira o número com o seu próprio.

A facilidade com que tudo transcorrera, dizia a si próprio, era de bom agouro. Mais tarde, durante o dia, verificando primeiro se eram outros os atendentes do balcão, êle conseguiria as chaves do 380 e 930 pelo mesmo processo.

Mediante outro sistema, conseguira igualmente bons resultados. Duas noites antes, por intermédio de pessoa de confiança, fizera certo acôrdo com uma das pequenas da rua Bourbon, e ela lhe proporcionara a quinta chave, com a promessa de outras para depois.

Sòmente a estação ferroviária - depois de uma vigília tediosa de diversas partidas de trens - deixara de dar resultados. O mesmo acontecera em outras ocasiões, em outros lugares, e Keycase resolvera tirar proveito da experiência. Os viajantes de trem se mostravam claramente mais conservadores do que os de avião, e talvez por êsse motivo fôssem mais cuidadosos com as chaves de hotel. Por isso, Keycase pensava eliminar as estações ferroviárias de seus planos futuros.

Consultou o relógio. Não havia mais motivo para esperar, embora sentisse estranha relutância em levantar-se da cama onde estava sentado. Dominando-a, no entanto, fêz seus últimos dois preparativos.

No banheiro, já enchera um têrço de copo com uísque, e depois de entrar êle gargarejou com a bebida, mas sem beber coisa alguma, e finalmente a cuspiu na pia.

Em seguida, apanhou um jornal dobrado, edição matu tina do Times-Picayune daquele dia, comprado na noite da véspera, e o colocou sob o braço.

Finalmente, verificando os bolsos, onde a coleção de chaves estava sistemàticamente arrumada, saiu do quarto.

Os sapatos com sola de crepe não faziam ruído na escada de serviço, e êle desceu dois andares até o sexto, andando sem pressa. Chegando ao sexto andar, deu uma espiada completa em ambas as direções, embora não o parecesse fazer para quem pudesse estar observando.

O corredor estava deserto e em silêncio.

Keycase já estudara a disposição do hotel e o sistema de numeração dos quartos. Tirando a chave do 641 de um bolso interno, tomou-a com naturalidade na mão e se dirigiu sem pressa para onde sabia ser o quarto.

A chave era a primeira que conseguira no aeroporto Moisant. Acima de tudo, Keycase tinha um espírito ordeiro.

A sua frente estava a porta do 641, e êle se deteve. Não havia luz por baixo, não vinha qualquer som lá de dentro.

Tirou luvas do bôlso e as calçou. Percebeu que os sentidos se aguçavam, e sem fazer ruído inseriu a chave na fechadura, deu a volta. A porta se abriu silenciosamente. Retirando a chave êle entrou, fechando-a suavemente atrás de si.

As sombras pardacentas da madrugada aliviavam a escuridão reinante. Keycase ficou imóvel, orientando-se enquanto os olhos se habituavam à iluminação parcial. Aquela penumbra era um dos motivos pelos quais os bons ladrões de hotel escolhiam essa hora para agir. A luz bastava para ver e evitar os obstáculos e também, tendo-se sorte, não era suficiente para ser percebido. Havia outros motivos, além dêsse. Era uma hora de pouco movimento na vida de qualquer hotel, e os empregados noturnos ainda em serviço se mostravam menos vigilantes à medida que chegava ao fim seu turno de trabalho.

Os empregados diurnos não tinham chegado ainda, e os hóspedes, mesmo os que tinham ido a festas e os que costumavam ficar fora do hotel até tarde, já estavam de volta a seus quartos, quase certamente dormindo. Acrescia, ainda, que a alvorada dava às pessoas uma sensação de segurança, como se os perigos da noite já tivessem passado.

Keycase já podia ver a forma de um toucador bem à frente, e à direita a de uma cama. A julgar pelo ressonar regular que ouvia, seu ocupante dormia profundamente.

O toucador era o primeiro lugar a examinar, à busca de dinheiro. Ele se adiantou com cuidado; os pés explorando uma passada à frente para descobrir qualquer coisa na qual pudesse tropeçar. Estendeu o braço, tocando o toucador ao se aproximar dêle, e com as pontas dos dedos examinou a parte superior.

Seus dedos enluvados encontraram uma pequena pilha de moedas. Deixe isso! Embolsar dinheiro miúdo faria barulho.

Mas onde havia moedas, devia estar uma carteira de notas.

Ah! Encontrara! Mostrava-se promissoramente recheada.

Acendeu-se uma luz forte no quarto.

Foi tão de repente, sem qualquer ruído de aviso, que Kiqase falhou por completo no raciocínio rápido, do qual se orgulhava.

A reação foi instintiva - deixou cair a carteira e se voltou, com expressão culposa, ficando de frente para a luz.

O homem que acendera a lâmpada de cabeceira estava em pijama, sentado na cama. Era jovem, musculoso e estava com raiva. Disse, numa explosão:

- Que diabo está fazendo?

Keycase se manteve parado, boquiaberto como um pateta, incapaz de falar.

Provàvelmente raciocinaria mais tarde, o hóspede que acabara de acordar precisara de um ou dois segundos para recobrar a lucidez, motivo pelo qual deixara de notar a reação culposa inicial de seu visitante: Mas no momento, consciente de ter perdido uma vantagem preciosa, Keycase entrou ràpidamente em ação. Oscilando como se estivesse bêbado, declamou:

- Por que quer saber o que estou fazendo? Que está fazendo na minha cama?

Despercebidamente, descalçava as luvas.

- Ora, seu! A cama é minha, e o quarto também!

Chegando mais perto, Keycase soltou uma baforada de hálito, carregado de uísque, por causa do gargarejo que fizera, e viu o outro recuar. Keycase pensava agora com rapidez, friamente, como sempre fazia. Já conseguira sair de situações perigosas como aquela, em outras ocasiões.

Naquele momento, era importante tomar a defensiva e não continuar em tom agressivo, pois o legítimo dono do quarto poderia se assustar e chamar auxílio. No entanto, aquêle homem parecia bem capaz de resolver sòzinho qualquer emergência.

- Seu quarto? Tem certeza? - perguntou, com ar estúpido.

O homem na cama ficou ainda mais irado do que antes.

- Seu bêbado do diabo! É claro que tenho certeza!

- Aqui é o 614?

- Pedaço de animal! É o 641!

- Upa, velhinho! Desculpe. Acho que me enganei. Keycase tirou o jornal que trazia sob o braço e destinado a dar a impressão de que vinha da rua.

- Olhe, tome o jornal da manhã. Entrega especial.

- Eu não quero essa porcaria! Vá dando o fora! Dera certo. Mais uma vez a saída bem urdida dera resultado. Já estava a caminho da porta, dizendo:

- Já pedi desculpas, meu velho. Não precisa se alterar. Já vou.

Estava quase saindo, enquanto o homem continuava a observá-lo com expressão furiosa. Usou uma luva dobrada para virar a maçanêta, e. pronto! Conseguira! Keycase fechou a porta atrás de si.

Prestando atenção, ouviu o homem lá dentro sair da cama, encaminhar-se à porta, girar a maçanêta e pôr a corrente de proteção. Keycase continuou esperando.

Durante cinco minutos, manteve-se de pé no corredor, sem se mexer, aguardando para ouvir se o homem no quarto ia telefonar para a portaria do hotel. Era essencial saber disso. Se êle o fizesse, Keycase voltaria logo para seu próprio quarto, antes de qualquer alarma. Mas não houve qualquer som ou chamada telefônica. Estava removido o perigo imediato. Mais tarde, pensou, poderia ser diferente. Quando o Sr. 641 acordasse outra vez, em plena luz da manhã, ia se lembrar do ocorrido e pensando no assunto poderia indagar algumas coisas Por exemplo: o motivo pelo qual uma pessoa, mesmo entrando em quarto errado, tinha chave que servia para sua porta e conseguira entrar. E depois de estar lá dentro, por que ficara na escuridão, ao invés de acender a luz? Havia também a reação culposa inicial de Keycase. Um homem inteligente, já bem acordado, poderia reconstituir aquela parte da cena e talvez interpretá-la de outro modo. De qualquer forma, haveria motivo bastante para um telefonema indignado à direção do hotel.

A direção, provàvelmente representada por um detetive do hotel, reconheceria instantâneamente os sinais. Seguir-se-ia uma verificação rotineira, e quem estivesse no quarto 614 seria visitado e, se possível, os ocupantes de ambos os quartos se veriam frente a frente. Cada qual afirmaria não ter visto o outro antes e o detetive da casa não ficaria surpreendido com isso, mas confirmaria sua desconfiança de que um ladrão profissional se achava sôlto no edifício. Logo a notícia circularia e desde o início e sua campanha, Keycase iria encontrar todos os empregados do hotel alerta e vigilantes.

Também era provável que o hotel notificasse a polícia local que, por sua vez, pediria informações ao FBI sôbre quaisquer ladrões de hotel, conhecidos, que pudessem estar por aquela parte do país. Quando a lista chegasse, era certo conter o nome de Julius Keycase Milne. Haveria também fotografias, daquelas tiradas pela polícia, que seriam mostradas aos atendentes de portaria e demais empregados do hotel.

O que devia fazer era arrumar as malas e fugir. Se andasse depressa, poderia estar fora da cidade em menos de uma hora.

Mas a coisa não era tão simples assim. Ele investira dinheiro no automóvel, no motel, no quarto de hotel, na pequena da rua Bourbon, e Lhe restava bem pouco. Precisava de conseguir lucro, e bom lucro, em Nova Orleans. Pense de novo, disse a si próprio. Pense bem!

Até então, só pensara no pior que podia acontecer. Pois agora, era ver a coisa do outro lado. Mesmo que a sequência de acontecimentos em que pensara se desenrolasse, levaria vários dias. A polícia de Nova Orleans estava ocupada, e o jurnal matutino dizia que todos os detetives disponíveis estavam trabalhando além do expediente, tentando resolver um caso de atropelamento e fuga, com morte de duas pessoas e que emocionava a cidade. Não era provável que a polícia se desviasse disso quando, no hotel, nenhum crime fôra realmente cometido. Ela chegaria ao caso, mais tarde, no entanto. Sempre chegava...

Portanto, de quanto tempo êle dispunha? Em cálculo conservador, contava com mais um dia livre, talvez dois. Examinou cuidadosamente a idéia e resolveu que bastaria êsse tempo. Até sexta-feira de manhã, poderia fazer a limpeza e estar fora da cidade, encobrindo as pistas que deixasse.

Já resolvera essa parte, mas - o que fazer, naquele exato momento? Voltar a seu quarto no oitavo andar, deixando para amanhã qualquer outro trabalho, ou prosseguir? A tentação de não continuar era forte. Oincidente de pouco antes o abalara muito mais - se quisesse reconhecer com sinceridade - do que o mesmo tipo de fato costumara abalar antes.

O seu quarto lhe parecia abrigo seguro e confortável.

Com decisão sombria, no entanto, resolveu continuar. Certa feita, lera que quando o pilôto de avião militar sofria um desastre sem ser por sua culpa, recebia imediatamente ordem de voar de nôvo, antes que perdesse a coragem. Precisava seguir o mesmo exemplo.

A primeira chave que obtivera havia falhado. Talvez fôsse presságio, indicando que devia inverter a ordem e experimentar a última. A pequena da rua Bourbon Lhe dera a chave do 1062. Outro presságio! Là estava o "2" da sorte. Contando os andares enquanto subia, Keycase tomou a escada de serviço.

O homem chamado Stanley e vindo do Iowa, que caíra na mais antiga tapeação de trouxas da rua Bourbon, finalmente adormecera. Esperara a loura de quadris largos, inicialmente com esperança e depois, com o passar das horas, com confiança cada vez menor, e mais uma sensação incômoda de que fôra embrulhado, e muito bem embrulhado. Afinal, quando os olhos não podiam mais continuar abertos, rolara para o lado em sono profundo causado pela bebida.

Não ouviu Keycase entrar, nem se mover cuidadosa e metòdicamente pelo quarto. Continuou dormindo pesadamente enquanto Keycase Lhe tirava o dinheiro da carteira, depois embolsava seu relógio, anel com sinête, cigarreira de ouro e isqueiro que combinava com ela, e abotoaduras de diamante. Nem se moveu, enquanto Keycase, com a mesma leveza, se retirava.

Já passava das 9horas quando Stanley do Iowa acordou e precisou de mais uma hora para perceber, em meio à nuvem de uma ressaca terrível, que fôra roubado. Quando, finalmente, compreendeu a medida do nôvo desastre, juntando-se a seu triste estado do momento e mais a experiência cara e improdutiva da noite anterior, sentou-se numa cadeira e chorou como uma criança.

Já muito antes disso, Keycase escondera a sua colheita.

Ao sair do 1062, Keycase resolvera que já estava ficando claro demais para arriscar-se a outro golpe, e voltara a seu quarto, o 830. Contando o dinheiro, viu que chegava à quantia satisfatória de 94dólares, em sua maior parte em notas de dez e cinco bem usadas, que não poderiam ser identificadas.

Com expressão feliz, colocou-as em sua própria carteira.

O relógio e demais objetos eram coisa mais complexa. Hesitara de início sôbre a conveniência de apanhá- los, mas cedera à cobiça e oportunidade. Estava claro que isso faria acionar um alarme durante o dia. As pessoas podiam perder dinheiro e não ter certeza sôbre como, ou onde, o haviam perdido, mas a ausência de jóias indicava claramente o roubo. A possibilidade de rápida atenção policial se mostrava muito maior agora, e o tempo que contara ter poderia diminuir, embora talvez isso não acontecesse. Viu crescer sua confiança, juntamente com o desejo de se arriscar, se fôsse preciso.

Entre os seus objetos havia uma pequena valise do tipo com que se pode entrar e sair dum hotel sem chamar atenção. Keycase arrumou os objetos roubados na mesma, notando que certamente Lhe renderiam uns cem dólares, junto a um bom receptador, embora o seu valor real fôsse muito maior.

Ficou à espera, dando tempo a que o hotel acordasse e a portaria ficasse razoàvelmente movimentada. Em seguida, desceu de elevador e saiu com a valise para ponto de estacionamento na rua do Canal, onde deixara seu carro na noite anterior. Dali partiu, dirigindo cuidadosamente, para seu quarto alugado no motel, na estrada Chef Menteur. Fêz uma parada a caminho, suspendendo o capô do Ford e fingindo estar com dificuldades no motor, enquanto retirava a chave do motel, oculta no filtro de ar do carburador. No motel, só ficou o tempo necessário para transferir os objetos para outra mala de chave e de volta à cidade repetiu a pantomima com o carro, recolocando a chave no lugar. Quando deixou o carro, desta vez noutro ponto de estacionamento, nada existia em sua pessoa, ou no quarto, que o pudesse ligar aos objetos roubados.

Sentia-se tão bem, agora, que parou para tomar café, no St. Gregory. Foi depois disso, ao sair, que viu a Duquesa de Croydon.

Ela saíra pouco antes do elevador, dirigindo-se à portaria do hotel. Os terriers Bedlington, três a um lado e dois do outro, saltavam à frente como batedores ardorosos. A Duquesa empunhava as correias com firmeza e autoridade, embora seus pensamentos estivessem claramente noutra parte, e seu olhar dirigido à frente como que perfurasse as paredes do hotel, vendo coisas muito além. A pose soberba, que constituía seu traço marcante, era tão evidente quanto sempre, e só os bons observadores poderiam notar as linhas de tensão e cansaço em seu rosto, que os cosméticos e esfôrço da vontade não tinham apagado de todo.

Keycase estacou, espantado e incrédulo de início, mas seus olhos confirmaram que era mesmo a Duquesa de Croydon. Leitor ávido de revistas e jornais, êle já vira fotografias dela em número suficiente para não duvidar. E a Duquesa parecia estar hospedáda naquele hotel!

Seus pensamentos se agitaram. A coleção de jóias da Duquesa de Croydon era uma das mais fabulosas do mundo. Fôsse qual fôsse a ocasião, ela se apresentava sempre resplandecendo com jóias. Naquele próprio momento, Keycase notou enquanto cerrava um pouco os olhos, que ela exibia anéis e um grampo de safiras, usado cone naturalidade, que devia valer uma fortuna. Tal hábito da Duquesa significava que, a despeito de precauções, sempre haveria uma parte da coleção ao alcance de sua mão.

Um esbôço de idéia - audaciosa, imprudente, impossível. ou seria, mesmo? - se formava no espírito de Keycase. Ele continuou observando, enquanto os cachorros prosseguiam seu caminho, à frente da Duquesa, e esta passava pela portaria do St. Gregory, saindo para a rua inundada de sol.

Herbie Chandler chegou cedo ao hotel, mas para sua própria vantagem, e não do St. Gregory. Entre as negociatas que explorava às escondidas havia uma, chamada "coleta de restos de bebida" nos muitos hotéis onde se praticava. Os hóspedes que recebiam visitas em seus quartos, ou bebiam sòzinhos, muitas vêzes deixavam um resto de bebida nas garrafas. Quando se preparava para deixar o hotel, a maioria não punha essas garrafas na mala, fôsse por mêdo do vazamento ou para evitar excesso de bagagem nas companhias de aviação. No entanto, a psicologia humana fazia tais hóspedes se absterem de derramar o resto da bebida, e em geral ela ficava ali mesmo, intacta, nos móveis dos quartos desocupados.

Quando um boy observava a existência de tal resto, ao ser chamado para levar a bagagem do hóspede em partida, em geral regressava ao quarto poucos minutos depois, a fim de recolher a garrafa. No caso de hóspedes que carregavam sua própria bagagem, como muitos preferiam fazer, a camareira do andar avisava um dos boys, que lhe daria parte do lucro assim obtido.

Os restos de bebida iam ter a um canto de depósito no porão, reinado particular de Herbie Chandler mediante acôrdo com um almoxarife que, por sua vez, recebia auxílio dêle nas ladroeiras que levava a cabo. As garrafas, levadas para lá quase sempre em meio a trouxas de roupa suja que podiam transitar pelo hotel sem despertar curiosidade, atingiam boa quantidade no correr de um ou dois dias.

De dois em dois dias, com frequência maior no caso do hotel estar ocupado com convenções, o guarda da portaria reunia as coletas, como fazia agora. Juntava as garrafas de gim num só grupo, e escolhendo duas das marcas mais caras esvaziava as de outras marcas nas mesmas, usando um pequeno funil já bem gasto. Quando terminou, a primeira estava cheia e a segunda em três- quartos. Tampou-as, pondo a segunda de lado para ser completada na coleta seguinte, e repetiu o processo com o bourbon, Scotch e rye. Ao todo, havia sete garrafas cheias e diversas por completar. Depois de hesitar um pouco, esvaziou alguns restos de vodca na garrafa coletora de gim.

Em outra hora do dia, as sete garrafas cheias seriam entregues num bar a poucos quarteirões de distância, onde o dono, homem de poucos escrúpulos quanto à qualidade, serviria a bebida aos fregueses, pagando a Herbie cêrca da metade dos artigos normalmente engarrafados. De vez em quando, para quem o ajudava nessa tarefa dentro do hotel, Herbie apresentava dividendos, tão pequenos quanto tivesse a coragem de afirmar.

Naqueles últimos tempos a coleta de restos de bebida dera bons resultados, e o montante do dia teria deixado Herbie satisfeito, não fôssem outros pensamentos. Em hora tardia da noite anterior, recebera um telefonema de Stanley Dixon, que lhe contara sua própria versão da conversa com Peter McDermott. Informara também sôbre o encontro, seu e dos companheiros, marcado no escritório de McDermott para as quatro da tarde. Dixon telefonara para saber a que ponto McDermott estava a par da situação.

Herbie Chandler não soubera responder, limitando-se a aconselhar Dixon a que fôsse discreto e não confessasse participação alguma no ocorrido, mas desde então ficara imaginando o que realmente sucedera nos quartos 1126-7 na antevéspera, e até onde - no referente à sua própria participação - o subgerente estava informado.

Faltavam ainda nove horas para as quatro da tarde, e Herbie Chandler achava que as mesmas transcorreriam com lentidão.

Como fazia quase tôdas as manhãs, Curtis O'Keefe tomou um banho de chuveiro antes de orar. O processo era de eficiência típica, pois assim se apresentava limpo a Deus, ao mesmo tempo em que se secava de todo, envolto no roupão felpudo durante os vinte minutos, mais ou menos, em que ficava de joelhos.

A luz clara do sol, chegando ao confortável apartamento com ar condicionado, proporçionava-Lhe uma sensação de bemestar, que se transmitiu às orações loquazes com aspecto de conversa íntima de homem para homem. Curtis O'Keefe não se esqueceu, porém, de relembrar a Deus seu constante interêsse pelo Hotel St. Gregory.

Tomou café no apartamento de Dodo, que escolhera os pratos para ambos depois de examinar longamente o cardápio, seguindo-se uma conversa comprida com o encarregado, no correr da qual modificou seu pedido inicial diversas vêzes. Naquele dia, era o suco de frutas o que a fazia hesitar e ela vacilara - na conversa telefônica com o encarregado, que se estendera por vários minutos - entre os méritos relativos do abacaxi, da toranja e da laranja. Curtis O'Keefe pensava, divertidamente, na perturbação que aquela chamada prolongada estava causando na mesa encarregada dos pedidos, onze andares abaixo.

Enquanto esperava o café, percorreu os jornais da manhã, o Times- Picayune de Nova Orleans e o Times de Nova York, recebido por via aérea. Observou que na cidade não tinham surgido fatos novos sôbre o atropelamento e fuga, caso que eclipsara a maior parte das notícias locais da cidade. No jornal de Nova York, viu na seção financeira que as ações dos Hotéis O'Keefe tinham caído três quartos de ponto. O declínio não era importante, mas uma simples variação normal que certamente seria contrabalançada ao surgirem notícias da nova aquisição de sua grande cadeia em Nova Orleans, coisa que não tardaria a transparecer.

Isso o fêz pensar no incômodo período de dois dias que teria de esperar a fim de confirmar o negócio. Lamentava não ter insistido numa decisão na véspera, mas tendo dado sua palavra nada havia a fazer senão aguardar com paciência. Não tinha dúvida alguma quanto à decisão favorável de Warren Trent, pois na verdade não havia alternativa possível.

Quando chegavam ao fim do café, o telefone chamou, e Dodo o atendeu primeiro. Era Hank Lemnitzer, representante pessoal de Curtis O'Keefe na Costa Ocidental. Já calculando o motivo do telefonema, O'Keefe o atendeu em seu próprio apartamento, fechando a porta.

O assunto que esperara apareceu, depois de relatório rotineiro sôbre diversos empreendimentos financeiros - fora da hotelaria - que Lemnitzer dirigia com grande habilidade.

- Há uma coisa, Sr: O'Keefe -disse a voz de sotaque californiano anasalado - sôbre Jenny LaMarsh, a jovem pela qual o Sr. bondosamente demonstrou interêsse naquela ocasião, no Hotel Beverly Hills. O Sr. se lembra dela?

O'Keefe se lembrava muito bem da morena admirável e esguia, dona de corpo soberbo, sorriso calmamente divertido e espírito rápido e traquinas. Ela o impressionara, tanto por seu potencial óbvio como mulher, quanto pelo alcance de sua conversa. Lembrava-se de alguém dizer que ela era diplomada pelo Tiassar, e tinha certo tipo de contrato com um pequeno estúdio cinematográfico.

- Lembro-me, sim.

- Falei com ela, Sr. O'Keefe, muitas vêzes. Pois bem, ela teria prazer em fazer uma ou duas viagens com o senhor.

Não precisava indagar se a Srta. LaMarsh entendia o tipo de relação que a viagem representava. Hank Lemnitzer deveria tratar disso. As possibilidades eram interessantes, reconheceu intimamente O'Keefe. A conversa com Jenny LaMarsh, bem como outras coisas, seria altamente estimulante e decerto ela não teria problemas sôbre a maneira de proceder quando estivessem juntos. Não seria também atormentada por indecisões em coisas simples como a escolha do suco de frutas.

Para sua própria surprêsa, no entanto, viu que hesitava.

- Há uma coisa de que desejo ter certeza. É o futuro da Srta. Lash.

Cruzando o continente, a voz de Hank Lemnitzer veio cheia de confiança.

- Não se preocupe. Eu tomarei conta de Dodo, como fiz com as outras.

- A questão não é essa - retorquiu O'Keefe, com aspereza.

A despeito de sua utilidade, havia ocasiões em que certas sutilezas escapavam a Hank Lemnitzer.

- Do que se trata, então, Sr. O Keefe?

- Gostaria que arranjasse uma coisa específica para a Srta. Lash. Deve ser uma coisa boa, e quero saber antes dela partir.

- Pode ser que eu consiga - disse o outro, demonstrando dúvida. - Está claro que Dodo não é a mais esperta.

- Não quero qualquer coisa, entendeu? E leve o tempo que fòr preciso - insistiu O'Keefe.

- E que vou fazer com Jenny LaMarsh?

- Ela não tem outra coisa.

- Acho que não - foi a resposta, onde se percebia a concessão relutante a um capricho, seguida por afirmação no mesmo diapasão: - Está bem, Sr. O'Keefe, seja como quer. Eu o chamarei outra vez.

Quando O'Keefe voltou à sala de estar do outro apartamento, Dodo empilhava os pratos usados no carrinho de serviço e êle observou com irritação:

- Não faça isso! Há empregados do hotel, pagos para êsse trabalho.

- Mas eu gosto de fazer, Curtie - respondeu ela, voltando os olhos expressivos para êle, que percebeu um instante a mágoa e confusão.

Ainda assim, Dodo parou de arrumar os pratos, e incerto quanto aos motivos de seu próprio mau-humor, êle anunciou:

- Vou dar uma volta pelo hotel.

Mais tarde, resolveu, ajeitaria a situação com Dodo, levando-a a passeio pela cidade. Lembrava-se que havia um passeio pelo porto, a bordo de embarcação pesadona e antiga, acionada por uma roda na pôpa e chamada S. S. President Em geral, estava apinhada de passageiros em recreio, e seria o tipo de coisa de que Dodo gostaria.

Já na porta da frente, seguindo um impulso, êle lhe falou a êsse respeito e Dodo reagiu, enlaçando-o pelo pescoço.

- Curtie, será ótimo! Vou pentear o cabelo para não voar no vento, assim!

Com uma das mãos, puxou o cabelo do rosto, torcendo-o de modo a destacar seu perfil. O efeito, conjugado ao rosto voltado para cima e cheio de alegria, foi de beleza tão simples e arrebatadora que êle sentiu vontade de mudar seus planos imediatos e ficar no apartamento, mas resmungando qualquer coisa sôbre voltar logo, saiu e fechou a porta.

Desceu de elevador até a sobreloja e de lá tomou a escadaria para a portaria, onde conseguiu afastar Dodo do pensamento. Andando despreocupadamente, percebia os olhares discretos dos empregados que passavam e que, ao vê-lo, pareciam animados de súbita energia. Ignorando-os, continuou a observar o estado material do hotel, comparando suas próprias impressões às do relatório confidencial de Ogden Bailey. A sua opinião da véspera, de que o St. Gregory precisava de mão firme na direção, confirmava-se pelo que via, e também partiLhava a opinião de Bailey sôbre possíveis fontes novas de receita.

A experiência lhe dizia, por exemplo, que as pilastras maciças na portaria provàvelmente não estavam sustentando coisa alguma, e se fôsse assim seria simples esvaziar uma parte delas e alugar o espaço resultante para vitrinas de comerciantes locais.

Na arcada sob a portaria, notou uma área valiosa ocupada pela loja do florista. O aluguel recebido pelo hotel devia andar por volta de trezentos dólares mensais, mas o mesmo espaço, arrumado hàbilmente como moderno salão de coquetéis (no feitio de um barco fluvial, por exemplo), poderia com tôda facilidade render quinze mil dólares no mesmo período. O florista seria colocado noutro lugar acessível.

Voltando à portaria, notava outros espaços aproveitáveis. Eliminando parte da área pública existente, poderiam ser lucrativamente instalados mais uns seis balcões de vendas, para linhas aéreas, aluguel de carros, passeios, joalheria, talvez uma loja de artigos gerais. Era claro que isto acarretaria uma alteração na aparência, e a atmosfera atual de confôrto tranquilo teria de acabar, juntamente com as plantas e tapêtes, mas na atualidade as portarias fartamente iluminadas, com anúncios por todos os lados, eram o que ajudava os balancetes de hotel a se mostrarem mais animadores.

Outra coisa: a maioria das poltronas seria retirada. Quem quisesse sentar-se poderia fazê-lo de modo mais lucrativo para o hotel, sendo obrigado a ocupar uma cadeira num bar ou no restaurante da casa.

Muitos anos antes, aprendera uma lição sôbre as cadeiras gratuitas. Foi em seu primeiro hotel, construção apressada com fachada falsa e sem saída em caso de incêndio, em pequena cidade do sudoeste. Ohotel tinha uma atração, doze toaletes com pagamento de taxa para uso, e usados em diversas ocasiões - ao que parecia - por todo fazendeiro e empregado rural da região. Para surprêsa do jovem Curtis O'Keefe, a renda advinda dessa fonte era substancial, mas algo impedia que fôsse maior ainda - uma lei estadual, determinando que um dos doze toaletes fôsse gratuito, e o hábito adquirido pelos trabalhadores rurais, homens de espírito econômico, de fazer fila para usá-lo.

Resolvera o problema, contratando o bêbádo da cidade, que por vinte cents por hora e mais uma garrafa de vinho barato se mantivera estòicamente sentado no toalete gratuito em todos os dias de grande movimento. A renda proporcionada pelos demais toaletes logo subira bastante.

Ao se lembrar dessa passagem antiga, Curtis O'Keefe sorriu.

Notava, agora, que a portaria começava a se tornar mais movimentada. Acabara de chegar um grupo de hóspedes, que se registravam à frente de outros ainda ocupados no desembarque de bagagem trazida do aeroporto em limusine. Formara-se uma pequena fila no balcão de recepção, e O'Keefe se manteve ali, observando.

Foi quando notou o que, até então, ninguém mais parecia ter percebido. Um negro de meia-idade, bem trajado, trazendo à mão sua valise, entrara no hotel. Dirigiu-se à portaria, andando despreocupadamente como em passeio, e chegando ao balcão pôs a valise no chão e se manteve de pé, sendo o terceiro na fila.

Quando o diálogo se travou, era perfeitamente audível.

- Bom dia! - disse o negro, em voz amistosa e clara com sotaque do Meio-Oeste. - Sou o Dr. Nicholas. Tenho uma reserva.

Enquanto esperava, tirou o chapéu prêto de fêltro, mostrando o cabelo cinzento-escuro cuidadosamente escovado.

- Sim, Sr. tenha a bondade de se registrar, por favor. As palavras foram ditas antes que o encarregado olhasse quem lhe falara, e ao fazer isso suas feições se endureceram. Estendeu a mão, retirando o talão de registro que estendera momentos antes.

- Sinto muito - disse com firmeza. - O hotel está cheio.

Sem se perturbar, o negro respondeu, sorrindo:

- Eu tenho reserva. O hotel me escreveu, confirmando-a. Enfiou a mão num bolso interno, tirando uma carteira de onde se destacavam diversos papéis, dos quais separou um.

- Deve ter havido engano. Sinto muito - insistiu o recepcionista, mal olhando a carta à sua frente. - Temos uma convenção a se realizar no hotel.

- Eu sei - anuiu o outro; com sorriso um pouco mais frio. - uma convenção de dentistas. E eu sou dentista.

O recepcionista balançou negativamente a cabeça.

- Não posso fazer coisa alguma para servi-lo.

- Nesse caso, desejo falar com quem possa resolver a questão - disse o negro, guardando os papéis.

Enquanto falavam, outros recém- chegados tinham aumentado a fila diante do balcão e um homem trajando capa de chuva perguntou, com impaciência:

- Por que essa demora, aí na frente?

O'Keefe permaneceu imóvel, percebendo que na portaria já bem cheia havia uma bomba-relógio prestes a explodir.

- Pode falar com o assistente da gerência - disse o recepcionista, inclinando-se sôbre o balcão e chamando com voz áspera: - Sr. Bailey!

Atrás da mesa instalada em reentrância da parede, no outro lado da portaria, um homem idoso ergueu o olhar para quem o chamava.

- Sr. Bailey, quer ter a bondade de vir aqui? O assistente da gerência confirmou com aceno da cabeça, e dando idéia de cansaço, levantou-se da cadeira. Ao atravessar a portaria, seu rosto enrugado e adiposo formava o sorriso profissional do recepcionista.

Empregado antigo, pensou Curtis O'Keefe. Depois de muitos anos de recepção, tinham-lhe dado cadeira e mesa na portaria com autoridade para resolver problemas menores apresentados pelos hóspedes. O título de assistente da gerência, como na maioria dos hotéis, era mais uma tapeação destinada a satisfazer a vaidade do público, fazendo pensar que estava lidando com personagem mais importante do que na realidade o era. A verdadeira autoridade no hotel se achava nos escritórios administrativos, longe das vistas.

- Sr. Bailey - explicou o recepcionista -, já disse a êste cavalheiro que o hotel está cheio.

- E eu já disse que tenho reserva confirmada - retorquiu o negro.

O assistente da gerência sorriu com benevolência, demonstrando boa vontade manifesta para tôda a fila de hóspedes que esperavam.

- Muito bem - disse êle -, vamos ver o que se pode fazer.

Pôs a mão rechonchuda e manchada de nicotina na manga do terno caro e sob medida do Dr. Nicholas.

- Quer ter a bondade de vir sentar-se aqui? E enquanto o outro se deixava levar para a mesa na reentrância da parede, o assistente da gerência acrescentava:

- De vez em quando essas coisas acontecem, infelizmente. Quando é assim, tentamos corrigir a situação.

Mentalmente, Curtis O'Keefe reconheceu que o homem sabia trabalhar. Suavemente, sem embaraços, uma situação talvez difícil fôra transferida do centro do palco para os bastidores. Enquanto isso, os demais recém- chegados estavam sendo ràpidamente recebidos, com ajuda de outro recepcionista que fôra juntar-se ao primeiro. Apenas um homem ainda jovem e espadaúdo, com uma expressão de coruja por trás dos óculos grossos, deixara a fila e observava os acontecimentos. Bem, pensou O'Keefe, talvez não houvesse explosão alguma, mas resolveu esperar para ver.

O assistente da gerência fêz um gesto ao acompanhante para que se sentasse ao lado de sua mesa, e tomou sua cadeira. Ouviu com atenção e expressão neutra, enquanto o dentista repetia as informações prestadas ao recepcionista. Finalmente, anuiu e disse em tom lacônicamente comercial:

- Bem, doutor, peço desculpas pelo mal-entendido, mas estou certo de que encontraremos outra acomodação para o Sr. na cidade.

Com uma das mãos puxou para si o telefone e ergueu o receptor, e com a outra puxou uma lista da mesa, contendo uma série de números telefônicos.

- Um momento! - interrompeu o dentista, em cuja voz macia se notava, agora, uma nota severa. - O Sr. me diz que o hotel está cheio, mas os recepcionistas estão recebendo hóspedes. Esses hóspedes têm algum tipo especial de reserva?

- Acho que é isso mesmo - respondeu o assistente da gerência, em cuja fisionomia desaparecera o sorriso profissional.

- Jim Nicholas!

O chamado, feito em grito álacre, ecoou na portaria, vinda de um homem de pequena estatura e idoso, com rosto jovialmente vermelho, encimado por cabelos brancos e desalinhados, e que se dirigia a passos rápidos para aquela mesa. O negro se levantou.

- Dr. Ingram! Que bom encontrá-lo!

Estendeu a mão, que o homem mais idoso apanhou com firmeza.

- Como vai você, Jim, meu filho? Não! Não responda! Posso ver que está muito bem. E próspero, também, pelo aspecto que tem. Sua clínica vai indo bem, pelo que vejo.

- Vai, sim, obrigado - respondeu o Dr. Nicholas, sorrindo. - Está claro que meu trabalho na universidade ainda consome bastante tempo.

- E eu não sei? Então não sei? Passei a vida ensinando a moços como você, e depois vocês saem e conseguem as grandes clínicas bem pagas! - Enquanto o outro ria gostosamente, êle prosseguiu: - De qualquer modo, você parece ter conseguido o melhor de ambos, e mais uma reputação excelente. Aquêle trabalho seu sôbre tumores malignos na bôca causou muita discussão e todos queremos ver um relatório de primeira mão. Por falar nisso, vou ter o prazer de apresentá-lo à convenção. Sabe que me elegeram presidente êste ano?

- Sim, sei. Não podiam ter escolhido pessoa melhor. Enquanto os dois conversavam, o assistente da gerência se erguia lentamente da cadeira, olhando com incerteza para um e outro. O homem pequenino, de cabelos brancos, chamado Dr. Ingram, estava rindo, e bateu cordialmente no ombro do colega.

- Dê-me o número de seu quarto, Jim. Vamos fazer uma reunião mais tarde para tomar alguma coisa e quero que se junte a nós.

- Infelizmente - respondeu o Dr. Nicholas - acabaram de me informar que não vou conseguir um quarto aqui. Parece que é por causa de minha côr.

No silêncio de estupefação que se seguiu, o presidente da convenção de dentistas ficou vermelho-rubro. Depois, retesando os músculos do rosto, afirmou:

- Jim, deixe-me tratar do caso. Prometo que você receberá desculpas e um quarto. Se não fôr assim, garanto que todos os outros dentistas abandonarão êste hotel.

Poucos momentos antes o assistente da gerência fizera sinal a um mensageiro, e agora lhe dizia com urgência:

- Chame aqui o Sr. McDermott, depressa!

Para Peter McDermott, o dia começara com um pequeno problema de organização. Na correspondência matutina achara memorando da Reserva, informando que o Sr. e Sra. Justin Kubek, de Tuscaloosa, deveriam chegar ao St. Gregory no dia seguinte. O que tornava especial essa notícia era o aviso, enviado pela Sra. Kubek, de que seu marido media 2, 16m de altura.

Sentado à sua mesa, Peter desejou que todos os problemas de hotel fôssem tão simples como aquêle.

- Informe à carpintaria - disse à secretária, Flora Yates.

- Provàvelmente ainda têm aquela cama e colchão que usamos para o General De Gaulle. Se não tiverem, terão de arrumar outra coisa. Amanhã, mande reservar um quarto bem cedo e preparar a cama antes dos Kubeks chegarem. Informe também à governante, porque vão precisar de lençóis e cobertores especiais.

Sentada sossegadamente do outro lado da mesa, Flora fazia suas anotações, como de costume, sem criar problemas ou fazer perguntas. As instruções seriam transmitidas corretamente, Peter sabia, no dia seguinte, sem ser preciso lembrar-lhe, Flora verificaria para ter certeza de que tinham sido levadas a cabo.

Recebera Flora como que em "herança", quando chegara ao St. Gregory, e havia muito achara que ela era tudo quanto devia ser uma secretária: competente, merecedora de confiança, com perto de 40 anos, feliz no casamento e desgraciosa como uma parede de blocos de cimento. Uma das coisas úteis em Flora, pensou êle, era que podia gostar imensamente dela, como gostava, sem que isso o distraísse do trabalho. Já se Christine estivesse trabalhando para êle, ao invés de fazê-lo para Warren Trent, o efeito seria muito diferente.

Desde sua retirada impetuosa do apartamento de Christine, na véspera, ela estivera poucos momentos fora de seus pensamentos. Mesmo dormindo, sonhara com ela, num sonho que fôra uma odisséia, onde os dois flutuavam serenamente num curso de água com margens verdes de vegetação (mas sem saber em que tipo de barco), com acompanhamento de música inebriante onde as harpas tinham grande destaque, ao que se lembrava. De manhã bem cedo, telefonara a Christine contando isso e ela perguntara se estavam indo rio abaixo ou rio acima no sonho, pois o detalhe podia ser significativo, mas Peter não conseguira lembrar-se. Só sabia que gostara tremendamente da coisa tôda e esperava (disse a Christine) prosseguir mais tarde a viagem, onde se interrompera na véspera.

Antes disso, entretanto, em algum momento daquela noite, deviam encontrar-se outra vez. A hora e o lugar seriam combinados depois, ao que concordavam.

- Isso me dará o pretexto para chamá-la - disse Peter.

- E quem precisa de pretexto? - respondera ela. Além disso, esta manhã pretendo encontrar um pedaço de papel terrivelmente sem importância que, de repente, tenha de levar a você eu mesma.

Ela parecia feliz, quase sem fôlego, como se a excitação encontrada, um no outro, se houvesse estendido ao novo dia. Esperando que ela viesse logo, êle voltou a tratar de Flora e da correspondência matinal.

Era uma pilha normal de papéis, inclusive diversas consultas sôbre convenções, com as quais se ocupou primeiro. Como de hábito, Peter tomava sua posição favorita para ditar as cartas, com os pés bem altos numa cesta de papéis feita de couro e sua cadeira giratória acolchoada inclinada para trás, de modo que seu corpo ficava quase em horizontal. Descobrira que conseguia pensar de modo incisivo, quando nessa posição, que aperfeiçoara mediante experiências, de modo que a cadeira se situava nos limites extremos do equilibrio, faltando quase nada para o desastre. Como acontecia muitas vêzes, Flora observava, na expectativa, durante as pausas do ditado, mas sem fazer comentário algum.

Havia outra carta, à qual êle respondeu em seguida, vinda de um residente de Nova Orleans cuja espôsa estivera presente a uma recepção particular de casamento no hotel, umas cinco semanas antes. No curso da recepção, ela pusera seu casaco de peles sôbre um piano, juntamente com os capotes e pertences de outros convivas, e mais tarde descobrira uma queimadura de cigarro no casaco, que para ser consertada custara cem dólares. O marido tentava receber essa importância do hotel, e sua carta mais recente trazia uma ameaça enérgica de processá-los.

A resposta de Peter foi educada, mas firme. Indicava, como fizera antes, que o hotel só era responsável pela guarda de objetos que lhe eram confiados. Se fôsse êsse o caso, o hotel teria ezaminado a possibilidade de indenização, mas como não era, o St. Gregory não podia responsabilizar-se.

A carta do marido, desconfiava Peter, era provàvelmente uma tentativa apenas, embora pudesse transformar-se em processo na justiça, pois no passado inúmeras queixas igualmente tôlas haviam sido apresentadas. Em geral, os juízes arquivavam tais casos, cobrando apenas as custas do processo ao hotel, mas êles se mostravam irritantes devido ao tempo e esforço tomados. Às vêzes, parecia, pensou Peter, que o público via nos hotéis uma vaca leiteira à sua disposição, e dotada de úbere inesgotável.

Já apanhara outra carta a responder, quando ouviu baterem de leve à porta do escritório externo. Olhou para lá, esperando ver Christine.

- Sou eu, - apenas - anunciou Marsha Preyscott. Não havia outra pessoa lá fora, de modo que.

Interrompeu-se, vendo a posição que Peter tomara na cadeira.

- Santo Deus! - exclamou. - Você não vai cair de costas?

- Ainda não caí, até hoje - respondeu êle, desabando logo em seguida.

O estrondo foi acompanhado pelo silêncio de espanto. Do chão atrás de sua mesa, olhando para cima, êle avaliou os danos. Seu tornozelo esquerdo doía bastante onde batera na perna da cadeira, ao tombar. A parte posterior da cabeça também doía quando a apalpou, embora o tapête houvesse absorvido a maior parte do impacto. E havia também a vaidade, desintegrada inteiramente, como atestavam a risada descontrolada de Marsha e o sorriso mais discreto de Flora.

As duas deram volta à mesa para ajudá-lo a levantar-se e a despeito de seu desapontamento êle pôde mais uma vez perceber a beleza viçosa e arrebatadora de Marsha. Estava vestida com um traje simples de linho azul que realçava de algum modo aquela qualidade de meia-mulher e meia-criança que êle percebera na véspera. O cabelo prêto e comprido, como naquela ocasião, caía pelos ombros.

- Devia usar uma rêde de segurança - disse Marsha -, como fazem no circo.

- Talvez pudesse arranjar um traje de palhaço, também - respondeu êle, rindo.

Flora recolocou a cadeira giratória em posição, e enquanto êle se erguia, com Marsha e Flora a segurar-lhe um braço cada uma, Christine entrou no escritório. Deteve-se na porta, com um maço de papéis na mão e de sobrancelhas levantadas perguntou:

- Estou sendo intrometida?

- Não - respondeu Peter. - Eu. bem, eu caí da cadeira.

Os olhos de Christine examinaram a cadeira, já sòlidamente de pé.

- Ela caiu de costas - acrescentou êle.

- Sempre fazem isso, não é? Todos os dias. Christine lançou o olhar para Marsha. Flora já se retirara, sem ruído. Peter apresentou uma à outra.

- Como vai, Srta. Preyscott? - cumprimentou Christine.

- Já ouvi falar a seu respeito.

Marsha olhara Peter e Christine com uma expressão de estranheza e respondeu friamente:

- É de esperar que trabalhando em hotel ouça todos os tipos de mexericos, Srta. Francis. A Srta. trabalha aqui, não é?

- Não sei de mexericos - reconheceu Christine. Mas tem razão, trabalho aqui. Por isso posso voltar em outra ocasião, quando as coisas não estiverem tão movimentadas.

Peter percebeu o antagonismo instantâneo entre Christine e Marsha, sem saber a que atribuí-lo. Como a interpretar seus pensamentos, Marsha sorriu com doçura:

- Por favor, não se vá por minha causa, Srta. Francis. Só vim por um instante, para relembrar Peter sôbre o jantar desta noite - disse, voltando-se para êle. - Não esqueceu, não é verdade?

Peter sentiu um vazio no estômago, e mentiu:

- Não, não me esqueci.

Foi Christine quem rompeu o silêncio, perguntando por sua vez:

- Esta noite?

- Oh, céus! - exclamou Marsha. - Não me diga que êle vai ter de trabalhar até mais tarde, ou coisa assim!

Christine sacudiu a cabeça, em negativa decidida.

- Não vai ter coisa alguma para fazer. Eu mesma tratarei disso.

- Quanta bondade sua! - disse Marsha, exibindo de nôvo o sorriso. - Bem, é melhor eu ir. Ah, sim! Sete horas! A casa fica na rua Prytania, e tem quatro colunas grandes.

Até logo, Srta. Francis!

Com aceno de mão, ela se retirou e fechou a porta. Com uma expressão de completa inocência, Christine indagou:

- Quer que eu tome nota disso? Casa com quatro colunas grandes. É para você não esquecer.

Peter ergueu a mão em sinal de desalento.

- Eu sei. Você e eu temos um encontro. Quando o marquei, esqueci o outro compromisso porque, ontem à noite. com você. tudo o mais foi esquecido. Quando conversamos hoje de manhã, acho que estava confuso.

- Bem, eu compreendo isso - respondeu Christine, com expressão alegre. - Quem não ficaria confuso, com tantas mulheres à sua disposição?

Ela estava decidida, ainda que com esfôrço, a ser alegre e compreensiva, se fôsse preciso, lembrando a si própria que a despeito da noite passada não tinha direitos ao tempo de Peter, e provàvelmente era verdade o que êle dissera sôbre confusão.

- Espero que tenha uma boa noite - acrescentou em seguida.

- Marsha é apenas uma criança - observou Peter, mexendo-se desajeitadamente.

Havia limites, pensou Christine, mesmo para a compreensão paciente. Os seus olhos examinaram o rosto dêle.

- Suponho que você acredite realmente nisso. Mas falando como mulher, deixe-me dizer que a pequenina Srta.

Preyscott tem tanta semelhança com uma criança quanto um gatinho se parece com um tigre. Mas deve ser divertido, para um homem, ser engolido.

Ele balançou a cabeça, em negativa impaciente.

- Você está redondamente enganada. Ela passou momentos difíceis duas noites atrás, e.

- E precisava duma pessoa amiga.

- Isso mesmo.

- E lá estava você, presente!

- Começamos a conversar, e eu disse que iria ao jantar em casa dela, hoje à noite. Haverá outras pessoas presentes.

- Tem certeza?

Antes de poder responder, o telefone chamou. Com gesto de irritação, êle atendeu.

- Sr. McDermott - disse alguém, em tom de urgência -, há problemas na portaria e o assistente da gerência pede que o Sr. venha, depressa.

Quando repôs o telefone no gancho, viu que Christine já saíra.

Há momentos de decisão, pensou Peter McDermott sombriamente, que todos esperam não ter de enfrentar. Quando tais momentos se apresentam, é como um pesadelo tornado realidade. Pior ainda, despedaçam-se a consciência, convicções, honestidade e lealdades.

Não precisara de mais de minuto para compreender a sittuação na portaria, embora continuassem as explicações. O cavalheiro negro, de pose digna e meia-idade, sentado tranquilamente ao lado da mesa, o Dr. Ingram indignado, presidente respeitado da convenção de dentistas, a indiferença do assistente da gerência, agora que a responsabilidade fôra tirada de seus ombros, tudo isso dizia a Peter o que precisava saber.

Era claro que uma crise irrompera de repente e, se fôsse enfrentada sem habilidade, poderia transformar-se numa explosão.

Percebia a presença de dois espectadores - Curtis O'Keefe, com seu rosto conhecido e fartamente fotografado, observando com atenção a uma distância discreta, e outro, homem jovem e espadaúdo, com óculos grossos, trajando calças de flanela cinzenta e uma jaqueta enxadrezada. Mantinha-se de pé, tendo ao lado uma mala já bem viajada, fazendo de conta que observava a portaria, mas sem perder coisa alguma da cena dramática ao lado da mesa.

O presidente da convenção se pôs de pé, o rosto redondo e vermelho-rubro onde os lábios estavam apertados, sob o cabelo branco desgrenhado.

- McDermott, se você e seu hotel persistirem nesse insulto incrível, estou avisando que arranjarão muito barulhodisse, com os olhos brilhando de raiva e alteando a voz. - O Dr. Nicholas é membro muito distinto de nossa profissão, e se vocês se recusarem a acomodá-lo, é bom saber em Que isso constitui afronta pessoal a mim e a todos os membros de nossa convenção.

Peter pensava que, se não estivesse em cena e ligado ao caso, aplaudiria aquela atitude, mas a realidade lhe dizia que estava envolvido naquilo e seu trabalho era tirar aquela cena da portaria, de algum modo.

- Se o Sr. e o Dr. Nicholas - sugeriu, dirigindo cortêsmente o olhar ao negro - vierem meu escritório, poderemos conversar mais sossegadamente.

- Não, Sr. Vamos discutir aQui mesmo! Ninguém vai esconder isto num canto!. - O pequenino e veemente doutor firmara bem os pés. - Pois, então? Vai registrar meu amigo e colega, Dr. Nicholas, ou não vai?

As pessoas presentes já começavam a se voltar para êles, e diversas se detinham na passagem pela portaria. O homem de casaco de xadrez, fingindo ainda desinterêsse, se aproximara dêles.

Que capricho do destino, pensou Peter McDermott desconsoladamente, viera colocá-lo em oposição a um homem como o Dr. Ingram, a quem admirava? Também era irônico que, ainda ontem, -Peter tivesse argumentado contra a orientação de Warren Trent, que criara aquêle próprio incidente. O doutor, esperando com impaciência, exigira: Vai registrar meu amigo? Por um momento, Peter sentiu a tentação de dizer que sim, e aguentar depois as consequências. Mas sabia que era inútil.

Havia certas ordens que podia dar aos encarregados de quartos, mas receber um negro não era uma delas. Nessa questão existiam instruções firmes que só poderiam ser revogadas pelo dono do hotel. Discutir isso com os encarregados do hotel só serviria para prolongar a cena e, finalmente, não dar resultado.

- Lamento tanto quanto o Sr-, Dr. Ingram - disse Peter -, por ter de fazer isto. Infelizmente, existe uma regra na casa, que me impede de oferecer acomodação ao Dr. Nicholas. Quisera poder mudá-la, mas não tenho autoridade para isso.

- Nesse caso, uma reserva confirmada não quer dizer coisa alguma?

- Quer dizer muito, mas há certas coisas que deveríamos ter esclarecido quando sua convenção foi contratada. Por nossa culpa, não as esclarecemos.

- Se o tivessem feito - retorquiu o outro -, não teriam conseguido a convenção. E o que é mais: talvez ainda a percam.

- Eu propus conseguir outra acomodação, Sr. McDermott - interveio o assistente da gerência.

- Não estamos interessados! - respondeu o Dr. Ingram, e depois, voltando-se para Peter: - McDermott, você é jovem e parece inteligente. Como se sente sôbre o que está fazendo neste momento?

Para que fugir à pergunta? pensou Peter. Éle a respondeu:

- Francamente, Doutor, poucas vêzes me senti tão envergonhado - No íntimo, acrescentou para si próprio que se tivesse a coragem da convicção, sairia daquele hotel e abandonaria o emprêgo. Mas a razão argumentava: se o fizesse, conseguiria alguma coisa? Não arranjaria quarto para o Dr. Nicholas, e ficaria sem o direito de protestar junto a Warren Trent, direito que exercera na véspera e pretendia exercer outra vez. Não bastava aquêle motivo para continuar, de modo a fazer o possível, ao correr do tempo? No entanto, desejava sentir mais certeza sôbre isso.

- Com os diabos, Jim! - disse o Dr. Ingram, demonstrando angústia na voz. - Não vou aceitar isso!

O negro acenou a cabeça com negativa.

- Não vou fingir que não dói, e suponho que meus amigos militantes me diriam para lutar com mais energia - respondeu, dando de ombros. - Fazendo o balanço, eu prefiro o trabalho de pesquisa. Há um avião para o norte esta tarde. Vou ver se consigo lugar nêle.

O Dr. Ingram se voltou para Peter.

- Você não compreende? Este homem é professor e pesquisador respeitado! Deve apresentar um dos trabalhos mais importantes de nossa convenção!

Com sensação de miserabilidade, Peter procurava outro recurso.

- Quem sabe - propôs - aceitarão uma sugestão: se o Dr. Nicholas aceitar acomodação em outro hotel, providenciarei para que frequente as reuniões aqui.

Sabia que se estava arriscando, pois isso seria difícil de garantir e acarretaria uma decisão final com Warren Trent. No entanto, poderia fazer ao menos isso, ou então demitir-se.

- E as ocasiões sociais, banquetes e jantares? - perguntou o negro, com olhos cravados nos seus.

Balançando devagar a cabeça, Peter negou. Era inútil prometer o que não podia cumprir. O Dr. Nicholas deu de ombros, endureceu o rosto.

- Não adianta. Dr. Ingram, mandarei meu trabalho pelo correio, de modo que possa ser distribuído. Acho que encontrarão coisas que lhes interessarão.

- Jim. - o homenzinho de cabelos brancos estava profundamente perturbado. - Jim. Não sei o que dizer, a não ser que isto não vai ficar assim.

O Dr. Nicholas olhou em volta, procurando sua valise, e Peter disse:

- Vou chamar um boy.

- Não! - interveio o Dr. Ingram, empurrando-o para o lado. - Carregar essa valise é privilégio que reservo para mim mesmo!

- Desculpem, cavalheiros.

Era a voz do homem de casaco de xadrez e óculos. Quando se voltaram, ouviram o estalo da máquina fotográfica.

- Muito bem - disse êle. - Vamos tentar outra vez. Semicerrou os olhos no visor da Rolleiflex, e o obturador funcionou de nôvo. Abaixando a máquina, êle comentou:

- Estes filmes rápidos são ótimos. Há pouco tempo, eu teria precisado de um flash.

- Quem é você? - perguntou Peter McDermott com aspereza.

- Quer saber quem sou, ou o que sou?

- Seja lá como fôr, estamos em propriedade particular. O hotel.

- Ora, vamos! Não acha essa rotina meio gasta? O fotógrafo estava ajustando os contrôles da máquina, e olhou à frente quando Peter deu um passo em sua direção.

- Eu não tentaria fazer coisa alguma, rapaz. Seu hotel vai ficar bem mal quando eu terminar meu trabalho, e se pretende agravar a coisa com agressão ao fotógrafo, é só continuar. - avisou, sorrindo, enquanto Peter hesitava. - Você pensa depressa sabe?

- O Sr. é jornalista? - perguntou o Dr. Ingram.

- Boa pergunta, Doutor - respondeu o homem de óculos, sorrindo mais ainda. - Há ocasiões em que meu diretor diz que não, mas acho que hoje êle vai mudar de idéia, quando lhe mandar esta pequena jóia, colhida em minhas férias.

- Qual é o jornal? - perguntou Peter, na esperança de que fôsse algum periódico obscuro.

- O Herald Tribune, de Nova York.

- Ótimo! - exclamou o presidente dos dentistas. Eles explorarão isso ao máximo. Espero que tenha assistido ao que aconteceu aqui.

- Podemos dizer que já tenho as fotos - respondeu o jornalista. - Vou precisar de alguns detalhes, como os nomes certos. Mas, antes, gostaria de tirar outra chapa lá fora, o Sr. e o outro doutor, juntos.

Ingram tomou o colega negro pelo braço.

- o modo de lutar, Jim. Vamos arrastar o nome dêste hotel a todos os jornais do país.

- Está certo nesse ponto - concordou o jornalista. As agências telegráficas gostam disso, e vão gostar de minhas chapas, também, com certeza.

O Dr. Nicholas assentiu, lentamente:

Nada havia a fazer, pensou Peter com tristeza. Absolutamente nada. Notou que Curtis O'Keefe desaparecera, e enquanto os outros se afastavam, ouviu o Dr. Ingram dizer:

- Seria bom terminar logo. Assim que tiver as fotografias, pretendo começar a tirar a convenção daqui. O único modo de ferir essa gente é no ponto que êles mais sentem, no bolso.

A sua voz decidida sumiu na portaria.

- Houve alguma modificação - inquiria a Duquesa de Croydon - no que a polícia sabe?

Faltava pouco para as 11 horas da manhã e mais uma vez na intimidade do Apartamento Presidencial, a Duquesa e marido olhavam ansiosamente o detetive-chefe do hotel. O enorme corpo obeso de Ogilvie ultrapassava as medidas da cadeira de junco, onde resolvera sentar-se, e que gemia em protesto a cada movimento dêle.

Estavam na sala, espaçosa e cheia de sol, com portas fechadas. Como na ocasião anterior, a Duquesa despachara secretário e camareira em tarefas inventadas.

Antes de responder, Ogilvie pensou.

- Na polícia, estiveram em muitos lugares e sabem que nêles não está o carro procurado. Até onde pude verificar, têm trabalhado fora da cidade e nos subúrbios, usando todos os homens. Ainda há lugares a examinar, mas acho que amanhã

começarão a procurar mais perto.

Uma alteração sutil se efetuara, desde a véspera, na relação entre os Croydons e Ogilvie. Naquela ocasião, tinham-se encontrado como antagonistas, mas agora eram conspiradores ainda que incertos, e como que procurando o modo de chegar a uma aliança ainda não claramente definida. - e resta tão pouco tempo - disse a Duquesa -, por que o estamos desperdiçando? Os olhos do detetive-chefe refletiram dureza.

- Acha que devia tirar o carro agora mesmo? Bem à luz do dia? Estacioná-lo na rua do Canal?

Inesperadamente, o Duque de Croydon se pronunciou pela primeira vez:

- Minha espôsa tem estado sob tensão muito forte. Não é preciso ser rude com ela.

A expressão de Ogilvie, de ceticismo pensativo, continuou inalterada. Tirou um charuto do bôlso, olhou-o, e depois recolocou abruptamente no lugar.

- Acho que estamos todos um pouco nervosos. E vai ser assim, até acabar tudo.

- Isso não importa - disse a Duquesa, impaciente. Estou mais interessada no que acontece. A polícia tem alguma noção de que está procurando um Jaguar?

Aquela cabeça enorme, de queixo em várias camadas, se balançou negativamente de um para outro lado.

- Quando tiver, saberemos. Como disse, o fato de seu carro ser estrangeiro poderá requerer alguns dias até ser identificado com certeza.

- Não há qualquer sinal de. bem, dêles não estarem tão firmes na busca? Às vêzes, quando se dá muita atenção a uma coisa e se passa um dia ou dois sem novidades, as pessoas perdem o interêsse.

- Está doida? - exclamou o gordo; com espanto espeLhado no rosto. - Já viu os jornais da manhã?

- Sim, já vi - respondeu a Duquesa. - Acho que minha pergunta foi só uma esperança sem base.

- Nada mudou - afirmou Ogilvie. - A não ser, talvez, o fato de que a polícia está mais empenhada ainda. Há muitas reputações em jôgo nesse caso e os policiais sabem que, se não descobrirem quem foi, vai haver uma reforma dos quadros, a começar por cima. O prefeito acaba de dizer isso mesmo, de modo que agora há política na questão, também.

- Nesse caso, tirar o carro da cidade será mais difícil do que antes?

- Digamos o seguinte, Duquesa: todo policial na vigilância sabe que se descobrir o carro que estão procurando, o seu carro, pregará divisas de sargento no uniforme dentro de uma hora. Estão com os olhos bem abertos. Por isso, é difícil.

Seguiu-se o silêncio, no qual a respiração arfante de Ogilvie constituía o ruído único. A pergunta seguinte parecia óbvia, mas relutavam em fazê-la, como se a resposta pudesse significar o aumento ou a diminuição das esperanças.

Finalmente, a Duquesa de Croydon perguntou:

- Quando pensa partir? Quando levará o carro para o norte?

- Esta noite - respondeu Ogilvie. - Por isso vim vê-los.

Ouviu-se a respiração profunda do Duque.

- Como vai sair sem ser visto? - perguntou a Duquesa.

- Não é garantido que possa, mas fiz alguns cálculos.

- Prossiga!

- Acho que a melhor hora de sair é por volta de uma hora.

- Uma da madrugada?

Ogilvie assentiu, acrescentando:

- A essa hora não há grande movimento, o tráfego é sossegado, mas não muito.

- Ainda assim, poderá ser visto?

- Posso ser visto a qualquer momento. Temos de contar com a sorte.

- Se conseguir se afastar, para bem longe de Nova Orleans, até onde irá?

- Será dia às seis horas. Deverei estar no Mississippi quase com certeza perto de Macon.

- Isso não é longe! - protestou a Duquesa - Fica só na metade do Mississippi e não é a quarta parte do caminho até Chicago.

O gordo se mexeu na cadeira, que gemeu protestando.

- Acha que devia ir à tôda? Estabelecer alguns recordes?

Arranjar um patrulheiro a me acompanhar e multar?

- Não, não. Só estou pensando em ver o carro tão longe de Nova Orleans quanto possível. Que vai fazer durante o dia?

- Sair da estrada e me esconder. Há muitos lugares no Mississippi.

- E depois?

- Quando escurecer, prossigo pelo Alabama, Tennessee Kentucky, Indiana.

- Onde estará a salvo? Realmente a salvo?

- Indiana, suponho.

- E vai parar em Indiana na sexta-feira?

- Acho que sim.

- De modo a poder chegar sábado a Chicago?

- Sábado de manhã.

- Pois bem - disse a Duquesa. - Meu marido e eu tomaremos o avião para Chicago na noite de sexta-feira. Iremos para o Hotel Drake e lá esperaremos notícias suas.

O Duque olhava para suas próprias mãos, evitando o olhar de Ogilvie.

- Terão notícias - disse o detetive, em tom firme.

- Precisa de alguma coisa?

- É melhor ter um bilhete para a garagem, no caso de ser preciso. Dizendo que posso levar seu carro.

- Vou preparar agora.

A Duquesa atravessou a sala, dirigindo-se à secretária onde escreveu ràpidamente, voltando momentos depois com uma fôlha de papel do hotel, dobrada.

- Isto deve bastar.

Sem examinar o papel, Ogilvie colocou-o num bôlsu interno. Os seus olhos continuavam fixus no rosto da Duquesa. Seguiu-se um silêncio de embaraço, e ela perguntou, com incerteza:

- Não é o que queria?

O Duque de Croydon se levantou e afastoi-se com passos duros. Voltando as costas, disse irritadamente:

- É o dinheiro. Ele quer dinheiro.

As feições carnudas de Ogilvie ezibiram um sorriso fingido:

- É isso mesmo, Duquesa. Dez mil agora, como combinamos. Quinze mil depois, em Chicago, no sábado.

A Duquesa levou os dedos com anéis à testa, em gesto de perturbação.

- Não sei como. Tinha esquecido. Houve tantas coisas a pensar.

- Não faz mal. Eu teria lembrado - respondeu Ogilvie.

- Terá de ser esta tarde. Nosso banco precisa conseguir.

- Em dinheiro - atalhou o gordo. - Nada maior do que notas de vinte, e não quero notas novas.

- Por quê? - perguntou ela, àsperamente.

- Não podem ser marcadas para se achar depois.

- Não confia em nós?

- Numa coisa assim, não se confia em pessoa alguma - respondeu êle.

Nesse caso, por que devemos confiar em você?

- PorQue tenho outros quinze mil a caminho - respondeu Ogilvie, a voz fina demonstrando impaciêncía. - bom lembrar: deve ser dinheiro, também, e os bancos não abrem aos sábados.

- Suponhamos - disse a Duquesa - que em Chicago não lhe paguemos.

No rosto do detetive não havia mais, sequer, a sombra ou imitação de sorriso, quando replicou:

- Foi muito bom ter falado nisso, para nos entendernos bem.

- Acho que entendo, mas fale!

- O que acontecerá em Chicago, Duquesa, é o seguinte: guardo o carro em algum lugar, sem vocês saberem onde. Quando fôr ao hotel, é para receber os quinze mil. Depois disso, é que darei as chaves e direi onde se acha o automóvel.

- Ainda não respondeu à minha pergunta.

- Vou chegar lá - prosseguiu Ogilvie. - Se alguma coisa não der certo, como vocês me dizerem que não há dinheiro porque esqueceram que os bancus estavam fechados, eu chamo a polícia, lá mesmo em Chicago.

- Teria muita coisa a explicar, por sua vez. Por que levou o carro para o norte, por exemplo?

- Não há problema. Diria que me deram duzentos dólares, que vão estar no meu bôlso, para levar o carro, porque a distância era muito grande para a viagem na estrada e vocês queriam ir de avião. Só em Chicago é que fui observar melhor o seu automóvel, depois liguei os fatos, e. pronto!

Sacudiu os ombros enormes.

- Não temos qualquer intenção - asseverou a Duquesa de Croydon - de faltar em nossa parte do trato. Mas, como você, queria ter certeza do entendimento.

Ogilvie concordou, acrescentando:

- Acho que isso está feito.

- Volte às cinco - disse a Duquesa. - O dinheiro estará pronto.

Depois de Ogilvie sair, o Duque de Croydon voltou do isolamento voluntário a que se retirara, no outro lado da sala. Havia uma bandeja com copos e garrafas no aparador, já reabastecida depois da noite anterior. Preparando uma dose forte de Scotch êle acrescentou soda e bebeu-a duma só vez. A Duquesa observou, àcidamente:

- Está começando cedo hoje.

- para me limpar - respondeu o Duque, preparando nova dose, embora a ingerisse mais devagar dessa vez. - Estar na mesma sala com êsse homem me faz sentir sujo.

- Está claro que êle é menos sensível - retorquiu a espôsa. - De outra forma, poderia não gostar da companhia de um bêbado assassino de crianças.

O Duque empalideceu, e suas mãos tremiam ao abaixar o copo.

- Essa, passou dos limites, minha cara.

- E que fugiu, também.

- Por Deus! Você não pode dizer isso! - foi o grito irado, e com mãos fechadas pareceu, por instante, que êle ia bater na mulher - Foi você! Foi você quem suplicou para eu continuar, e depois para não voltar! Não fôsse você, eu o teria feito! Não ia adiantar, você disse. O que estava feito, estava feito. Ontem, mesmo, eu teria ido à polícia, mas você se opôs! Por isso, temos agora êsse. homem, êsse. leproso que nos tirará qualquer resto de. e a voz lhe faltou.

- Já posso crer que terminou sua explosão histérica? Não houve resposta, e ela continuou:

- Posso lembrar-lhe que precisou de pouquíssima persuasão para agir exatamente como agiu? Se você quisesse ou pretendesse fazer outra coisa, não haveria opinião minha que o pudesse demover. Quanto à lepra, duvido que a contraia, pois se manteve cuidadosamente fora disto, deixando para mim tudo quanto precisava ser feito com êsse homem!

O marido suspirou.

- Eu devia saber que não adianta discutir. Sinto muito.

- Se a discussão é necessária para endireitar seu raciocínio - disse ela, com indiferença -, não tenho objeções.

O Duque retomara seu copo e o girava na mão.

- Coisa engraçada! - comentou. - Por algum tempo, pensei que tudo isto, ruim como está, nos havia aproximado.

As palavras eram tão claramente um apêlo, que a Duquesa hesitou. Também para ela o encontro com Ogilvie fôra humilhante e exaustivo. No fundo do ser, desejava poder desfrutar a tranquilidade de um momento apenas, que fôsse.

No entanto, indomàvelmente, o esfôrço de conciliação estava fora do seu alcance, e ela respondeu:

- Se aproximou, não pude perceber.

E depois, com mais aspereza:

- De qualquer modo, não temos tempo para sentimentalismos.

- Certo!

Como se as palavras da espôsa fôssem um sinal esperado, o Duque esvaziou o copo e encheu-o novamente. Ela observou, então, com tôda a dureza:

- Seria um favor que você retivesse ao menos alguma consciência. Suponho que terei de lidar com o banco, e pode haver documentos para você assinar.

Warren Trent se impusera duas tarefas, nenhuma delas agradável. A primeira, consistia em apresentar a Tom Earlshore a acusação feita por Curtis O'Keefe na noite da véspera.

- Ele está roubando, e muito - dissera O' Keefe sôbre o antigo empregado. - Pelo aspecto geral da coisa, acho que tem sido assim há muito tempo.

Cumprindo sua promessa, O'Keefe documentara as afirmações, e pouco depois das 10da manhã o relatório - com

detalhes precisos de observações, data e hora - foi entregue a Warren Trent por um jovem que dissera ser Sean Hall, da O'Keefe Hotels Corporation. Vindo diretamente ao apartamento de Warren Trent no décimo-quinto andar, o rapaz parecera embaraçado, e o dono do hotel lhe agradecera, passando depois a ler as sete páginas do relatório.

Começoú a fazê-lo com ar sombrio, que se agravou à medida que prosseguia. Nas descobertas feitas pelos investigadores surgia não só o nome de Tom Earlshore, mas também de outros empregados de confiança. Tornava-se aflitivamente claro, para Warren Trent, que era roubado pelos próprios homens e mulheres em quem mais confiara, inclusive alguns que, como Tom Earlshore, êle considerara amigos pessoais. Também era óbvio que, por todo o hotel, a desonestidade devia ser ainda maior do que estava documentada no relatório.

Dobrando com cuidado as páginas datilografadas, êle as colocou em bôlso interno do paletó. Sabia que se não se controlasse, poderia explodir em raiva e acusar e castigar, um por um, todos quantos haviam traído sua confiança. Poderia, até mesmo, encontrar certa satisfação melancólica em fazer isso, mas a ira excessiva era emoção que; a essa altura da vida, o deixava esgotado.

Resolveu tratar pessoalmente apenas do caso de Tom Earlshore.

O relatório, no entanto, refletia Warren Trent, apresentara um efeito útil, libertando-o duma obrigação. Até à noite da véspera, boa parte de seus pensamentos sôbre o St. Gregory

fôra condicionada pela lealdade que supunha dever aos empregados. Agora, pela deslealdade dêles assim revelada, sentia-se livre de tal obrigação.

O efeito era abrir a possibilidade que antes rejeitara, pela qual poderia manter seu contrôle sôbre o hotel. Naquele próprio instante, o pensamento era desagradável, e por isso resolveu dar o menor dos dois passos e procurar Tom Earlshore em primeiro lugar.

O Salão Pontalba ficava no andar térreo do hotel, podendo-se chegar lá pela portaria, passando-se por portas duplas de vaivém, ornamentadas em couro e bronze. Lá dentro, três degraus atapetados conduziam a uma área em forma de "L", onde estavam mesas e cabines com assentos confortáveis e estofados.

Ao contrário da maioria dos salões de coquetel, o Pontalba era bem iluminado e isso queria dizer que os fregueses podiam observar-se mùtuamente, bem como o próprio bar, que se estendia além da junção do "L". Diante do bar havia meia dúzia de bancos acolchoados para fregueses desacompanhados que, se quisessem, poderiam fazê-los girar para examinar todo o local.

Faltavam vinte e cinco minutos para o meio-dia quando Warren Trent entrou no bar, vindo da portaria. O salão estava calmo, tendo apenas um casal jovem numa das cabines e dois homens com distintivos da convenção na lapela, conversando em voz baixa em mesa próxima. O movimento comum de fregueses na hora do almoço começaria daí a 15 minutos, Quando terminaria a possibilidade de falar tranquilamente com pessoa alguma. No entanto, pensou o dono do hotél, dez minutos bas tariam para o que tinha a fazer.

Notando sua chegada, um garçom se aproximou logo, mas foi dispensado com um gesto da mão. Tom Earlshóre, observou Warren Trent, estava atrás do bar, de costas para o salão e lia com atenção um jornal tablóide que abrira sôbre a caixa registradora. Warren Trent prosseguiu, em passos duros, e tomou um dos bancos do balcão. Podia ver agora que o empregado se ocupava em examinar um programa de corridas.

- É assim que tem usado o meu dinheiro? - perguntou. Earlshore se voltou depressa, com expressão de espanto que se transformou em surprêsa amável e, finalmente, em prazer aparente, ao perceber a identidade da visita.

- Sr. Trent, pegou-me um susto!

Tom Earlshore dobrou hàbilmente o programa de corridas, enfiando-o no bolso traseiro das calças. Sob a calva, orlada de cabelos brancos, o seu rosto enrugado esboçou um sorriso. Warren Trent imaginou o motivo pelo qual jamais desconfiara daquele sorriso falso, destinado apenas a agradar.

- Faz bastante tempo que não aparece aqui, Sr. Trent. Tempo demais.

- Não está se queixando, está?

- Bem. Não. - respondeu Earlshore com hesitação.

- Eu devia calcular que ficar aqui sòzinho lhe deu muitas oportunidades.

Uma leve sombra de dúvida passou pela expressão do chefe do bar, e êle riu, como para se firmar.

- O Sr. sempre gostou de brincar, Sr. Trent. Ah! Enquanto está aqui, tenho uma coisa a lhe mostrar. Tenho pensado em ir a seu escritório, mas nunca achei tempo.

Earlshore abriu uma gaveta no balcão e tirou um envelope, do qual extraiu uma fotografia colorida.

- Esta é de Derek, o meu terceiro neto. Menino forte como quê... Igual à mãe dêle, graças ao que o Sr. fêz há bastante tempo. Ethel, a minha filha, muitas vêzes pergunta pelo Sr. e sempre manda os melhores votos, como todos os outros lá em casa.

Pôs a fotografia no balcão e Warren Trent a apanhou, e deliberadamente, sem a examinar, estendeu-a de volta. Inquieto

Tom Earlshore perguntou:

- Há alguma coisa errada, Sr. Trent?

Não houve resposta.

Quer que Lhe prepare uma bebida?

Quando já ia recusar, Warren Trent mudou de idéia.

- Um Ramos gin fizz.

- Sim, Sr. É para já!

Tom Earlshore entroú em ação, reunindo ràpidamente os ingredientes. Sempre fôra um prazer vê-lo trabalhar. Em outras ocasiões passadas, quando Warren Trent recebia convidados em seu apartamento, mandava Tom Earlshore encarregar-se das bebidas, principalmente porque seu trabalho constituía verdadeiro espetáculo, correspondente à qualidade de suas misturas.

Era dono de economia organizada de movimentos, possuindo

também a destreza de um prestidigitador, e estava pondo sua

habilidade em prática naquele momento, depositando o copo

diante do dono do hotel com gesto final.

Warren Trent provou, e demonstrou sua aprovação com um meneio da cabeça. Tom Earlshore perguntou:

- Está bom?

- Sim - respondeu Warren Trent. - Tão bom quanto os que já preparou até hoje.

Seu olhar encontrou o de Earlshore.

- Fico satisfeito, pois é a última bebida que você preparou em meu hotel.

A inquietação se tornara apreensão, e o outro umedeceu nervosamente os lábios.

- O Sr. não está falando sério, Sr. Trent. Não é possível. Sem ouvir, o dono do hotel empurrou o copo para longe.

- Por que fêz isso, Tom? Em meio a tantos, por que teve de ser você?

- Juro por Deus que não sei...

- Não me embrulhe, Tom. Você o faz há muito tempo.

- Estou Lhe dizendo, Sr. Trent.

- Não minta! - foi a exclamação áspera, que ecoou pelo silêncio.

No salão, o murmúrio pacífico da conversa cessou. Observando o alarma nos olhos inquietos do empregado, Warren Trent calculava que, atrás dêle, as pessoas começavam a prestar atenção e percebeu uma ira crescente que pretendera controlar. Earlshore engoliu em sêco.

- Por favor, Sr. Trent. Trabalho aqui há trinta anos. O Sr. nunca me falou assim - suplicou, com voz quase inaudível.

Do bolso interno onde o pusera antes, Warren Trent tirou o relatório feito pelos investigadores de O'Keefe. Passou duas páginas e dobrou a terceira, cobrindo parte da mesma com a mão e ordenando:

- Leia!

Earlshore procurou desajeitadamente os óculos e os colocou. Suas mãos tremiam. leu algumas linhas, e depois parou, olhando o interlocutor. Não havia mais negativas agora, só o mêdo instintivo do animal acuado.

- Não pode provar coisa alguma.

Warren Trent bateu com a mão aberta no balcão, e sem se preocupar com o tom de voz, deixou sua raiva explodir: - Se quiser provar, posso, sim! Não se engane! Você roubou e defraudou, e como todos os ladrões e safados deixou pistas!

Na agonia da apreensão, Tom Earlshore suava. Era como se o mundo que acreditara seguro houvesse explodido com violência. Durante muito mais anos do que podia se lembrar, êle roubara o patrão, a ponto de se ter julgado invulnerável desde muito tempo. Em seus pensamentos mais sombrios, jamais acreditara que chegasse o seu dia, e agora calculava, apavorado, se o dono do hotel fazia idéia das dimensões do roubo acumulado.

O indicador de Warren Trent mostrou o documento entre êles, sôbre o balcão.

Essa gente percebeu a corrupção porque não cometeu o engano, que eu cometi, de confiar em você, de acreditar que fôsse meu amigo!

Por momentos, a emoção o embargou, mas logo prosseguia:

- Mas se eu investigar; encontrarei provas. Há muito mais do que dizem aí, não é mesmo?

Em atitude abjeta, Tom Earlshore concordou.

- Pois bem, não precisa se preocupar. Não pretendo processá-lo. Se o fizesse, ia sentir que estava destruindo uma parte de mim mesmo.

Um lampejo de alívio atravessou o rosto do empregado antigo, que logo o tratou de esconder, e implorou:

- Se me der outra oportunidade, juro que não farei mais isso.

- Então, agora, que foi apanhado, depois de anos a fio no roubo, na embromação, você vai-me fazer o gentil favor de parar de roubar?

- Será difícil conseguir outro emprêgo, Sr. Trent, com a minha idade. Tenho familia.

- Sim, Tom. Eu me lembro disso - murmurou Warren Trent.

Earlshore teve a gentileza de enrubescer, e emendou com embaraço:

- O dinheiro que ganhava aqui. Este emprêgo sòzinho nunca foi o bastante. Sempre havia contas a pagar, coisas para as crianças.

- E para os bookmakers, Tom. Não vamos esquecê-los. Os bookmakers estavam sempre atrás de você, não é? Queriam Que você lhes pagasse!

Era um tiro no escuro, mas o silêncio de Earlshore mostrou que atingira o alvo. Warren Trent prosseguiu, em tom brusco:

- Já falamos bastante. Agora, saia do hotel e não volte mais aqui.

Já entravam outras pessoas no Salão Pontalba, vindas pela porta que dava para a portaria. O murmúrio da conversa se refizera, e seu volume aumentava. Um jovem ajudante de bar chegara ao balcão e estava servindo bebidas, apanhadas pelos garçons, mas deixando estudadamente de olhar seu patrão e o ex-superior.

Tom Earlshore piscou os olhos e, incrível como fôsse, protestou:

- O movimento do almôço.

- Não é de sua conta. Você não trabalha mais aqui. Lentamente, ao compreender a inevitabilidade da coisa, a expressão do ex-chefe do bar se modificou. Sua máscara anterior, de deferência, caiu, e um sorriso torcido a substituiu, enquanto êle dizia:

- Pois bem, vou-me embora. Mas não vai demorar muito a me acompanhar, Sr. Trent, porque também está sendo expulso, e todos aqui sabem disso.

- O que sabem êles?

Os olhos de Earlshore brilharam.

- Sabem que você é um débil mental inútil, liquidado e velho, que não tem capacidade para dirigir uma carroça, quanto mais um hotel. É por isso que vai perder êste lugar em tôda a certeza, e quando isso acontecer eu serei um dos que vão rir até doer a barriga.

Parou um instante, hesitando e arfando, pesando bem as consequências da cautela e da imprudência. A vontade de se vingar ganhou.

- Há muito tempo você age como se fôsse dono de todos. Pois bem, talvez pagasse alguns cents a mais nos salários do que outros patrões, e dava migalhas de caridade como fêz comigo, fazendo-se de Jesus Cristo e Moisés ao mesmo tempo. Mas não enganou nenhum de nós. Você pagava os salários para manter os sindicatos fora daqui, e a caridade fazia você sentir-se muito bem, de modo que todos sabiam que era mais para si próprio do que para êles. por isso que riam de você e tratavam de si próprios, como eu fiz. Pode crer que há muito mais coisa por aqui, coisa de que nunca vai saber!

Earlshore se deteve, revelando na expressão sua desconfiança de que falara demais. Atrás dêles, o salão se enchia ràpidamente e aos lados os bancos do balcão já estavam ocupados. Tamborilando cada vez mais depressa com os dedos, Warren Trent pensava que, por estranho como parecesse, a raiva de momentos antes o abandonara. Em seu lugar ficara uma decisão férrea, a de não hesitar mais sôbre o segundo passo examinado antes.

Ergueu os olhos para o homem que, por trinta anos, pensara ter conhecido, mas não conhecera.

- Tom, você não vai saber por que e como, mas a última coisa que fêz foi um favor. Agora, vá-se embora, antes que eu mude de idéia e trate de mandá-lo para a cadeia.

Tom Earlshore se voltou, e sem olhar para os lados saiu do bar.

Passando pela portaria, a caminho da porta para a rua Carondelet, Warren Trent evitou friamente os olhares dos empregados qe o observavam. Não estava disposto a receber amabilidades, tendo descoberto aquela manhã que a traição usa um sorriso e a cordialidade podia ser capa para desprêzo. O que Earlshore dissera, que tinham rido dêle por suas tentativas de tratar bem os empregados, ferira fundo, ainda mais porque trazia certa dose de verdade. Pois bem, pensou êle, esperem um dia ou dois e vamos ver quem ri por último. Ao chegar à rua movimentada e ensolarada, um porteiro

uniformizado o viu e se aproximou respeitosamente. Warren Trent Lhe disse que chamasse um táxi. Pretendera andar um ou dois quarteirões, mas uma pontada de dor ciática, ao descer os degraus, o fizera mudar de idéia.

O porteiro soprou um apito e da torrente de tráfego um táxi se desviou, encostando na calçada. Warren Trent embarcou com movimentos duros, enquanto o porteiro mantinha aberta a porta e depois levava a mão ao quepe, em sinal de respeito, ao fechar a porta do veículo. O respeito era outro gesto vazio, supôs Warren Trent. Daquele momento em diante, veria com desconfiança muitas coisas que antes aceitara pela aparência que traziam.

O táxi partiu, e percebendo a interrogação muda do motorista pelo espelho, êle pediu:

- Quero ir alguns quarteirões à frente. Preciso falar num telefone.

- Há muitos no hotel, patrão - respondeu o homem. - Não importa. Leve-me a um telefone público.

Não sentia inclinação para explicar que a chamada era secreta demais para que se arriscasse a usar qualquer aparelho do hotel.

O motorista deu de ombros, e depois de percorrer dois quarteirões entrou para o sul, na rua do Canal, examinando novamente seu passageiro pelo espelhinho:

- O dia está bonito. Há telefones perto du portu.

Warren Trent acenuu afirmativamente, satisfeito pelo descanso de alguns momentus. O tráfego diminuiu enquanto cruzaram a rua Tehoupitoulas, e um minuto depois o táxi parava na área de estacionamento em frente ao edifício da Administração do Porto. A pouca distância via-se uma cabina telefónica.

Warren Trent deu um dólar ao motorista, rejeitando o troco, e depois, quase se dirigindo à cabina, mudou de idéia e atravessou a praça Eeads, ficando de pé à beira do rio. O calor de meio-dia o aquecia, na luz solar vinda de cima, e se infiltrava confortàvelmente pelos sapatos, vindo da calçada de concreto. O sol era amigo antigo dos ossos velhos, pensou, enquanto saboreava aquêle calor.

Do outro lado do rio Mississippi, a um quilômetro de distância, algo bruxuleava ao calor. O rio apresentava algum cheiro, naquele dia, embora isso não fôsse incomum. O odor, a lentidão e a lama eram parte dos modos do Pai das Águas. Como a vida, pensou Warren Trent, a sujeira e resíduos fluem em volta.

Passou um cargueiro, dirigindo-se ao mar e tocando a sirena em aviso a um comboio de barcaças que se aproximava. O comboio mudou de rumo, e o cargueiro prosseguiu sem redu zir a velocidade. Logo, o navio trocaria a solidão do rio pela solidão ainda maior do mar. Warren Trent imaginava se os passageiros a bordo percebiam isso, ou mesmo se incomodavam com isso. Talvez não. Ou talvez, como êle próprio, já tivessem aprendido que não há lugar no mundo onde o homem não esteja sozinho.

Percorreu o caminho de volta para o telefone, e fechou a porta da cabina com cuidado.

- Quero fazer um telefonema a cobrar - disse à telefonista. - É para Washington, D. C.

Foram precisos diversos minutos, que incluíam perguntas sôbre a natureza de seu assunto, antes de o ligarem com quem desejava falar. Finalmente, a voz sem-cerimoniosa e rude do dirigente trabalhista, mais poderoso do país, e um dos mais corruptos, também, dizia-se, surgiu na ligação.

- Vá falando.

- Bom dia - disse Warren Trent. - Tive a esperança de que não estivesse almoçando.

- Você tem três minutos - disse o outro, lacônicamente.

- Já gastou quinze segundos. Warren Trent apressou-se.

- Há algum tempo, quando nos encontramos, você fêz uma proposta. Talvez não se lembre.

- Sempre me lembro. Há quem não goste disso.

- Naquela ocasião, receio ter sido um tanto sêco.

- Tenho um cronômetro aqui. Já passou meio minuto.

- Estou pronto a negociar.

- Eu faço os negócios. Os outros os aceitam.

- Se o tempo é tão importante assim - retorquiu Warren Trent -, não vamos perdê-lo em nuances. Há anos você tenta entrar no ramo hoteleiro e quer também fortalecer a posição de seu sindicato em Nova Orleans. Estou-lhe oferecendo oportunidade para as duas coisas.

- Qual é o preço?

- Dois milhões de dólares, numa primeira hipoteca garantida. Em troca, você ganha um hotel sindicalizado e prepara

seu próprio contrato. Presumo que êle seria razoável, pois o seu próprio dinheiro estará em jogo.

- Ora! - disse a voz. - Ora, ora, ora!

- Agora - exigiu Warren Trent - quer fazer o favor de desligar êsse cronômetro do inferno?

Ouviu uma risada.

- Não há cronômetro. Mas é notável como a idéia faz as pessoas agirem. Quando precisa do dinheiro?

- Do dinheiro, sexta-feira. A decisão, antes do meio-dia de amanhã.

- Veio a mim em último lugar, hem? - perguntou o dirigente sindical. - Depois de ser rejeitado por todos os outros.

Não adiantava mentir e Warren Trent respondeu sucintamente:

- Sim.

- Tem perdido dinheiro?

- Não tanto que seja impossível mudar a maré. O pessoal de O'Keefe acha que poderá conseguir isso. Êles fizeram uma oferta de compra.

- Talvez seja melhor aceitar.

- Se eu aceitar, você não terá uma oportunidade como esta, dada por êles.

Seguiu-se um silêncio que Warren Trent não interrompeu. Percebia que o interlocutor pensava, fazia cálculos e não duvidava de que sua proposta recebia exame sério. Havia dez anos, o Sindicato Internacional de Diaristas tentara se infiltrar na indústria hoteleira, mas até então fracassara redondamente, em contraste com a maior parte das suas campanhas intensas. O motivo fôra a unidade - nesse particular - entre dirigentes hoteleiros, que receavam os Diaristas, e sindicatos mais honestos, que os desprezavam. Para os Diaristas, o contrato sindical com o St. Gregory, hotel até então não sindicalizado, poderia ser a brecha naquela parede maciça de resistência organizada.

Quanto ao dinheiro, um investimento de dois milhões de dólares - se os Diaristas o resolvessem fazer - seria pequena parcela em seu tesouro enorme. Com o correr dos anos êles tinham gasto muito mais do que isso, na campanha infrutífera de sindicalização hoteleira.

Dentro da indústria de hotéis, Warren Trent previa, êle seria injuriado e chamado de traidor, caso se efetivasse o negócio que propunha, e entre seus próprios empregados seria calorosamente condenado, pelo menos por parte dos que estivessem bastante bem informados para saberem que haviam sido traídos.

Eram os empregados que mais perderiam com a transação. Se fôsse assinado um contrato sindical, logo viria um pequeno aumento salarial, supunha êle, como acontecia geralmente em tais circunstâncias, em gesto simbólico. Mas o aumento já era devido, de qualquer maneira - já estava até atrasado - e êle próprio pensara em concedê-lo, se o refinanciamento do hotel fôsse obtido de outro modo. O plano existente de aposentadoria para os empregados seria abandonado em favor do outro, do sindicato, mas a única vantagem caberia ao tesouro dos Diaristas. O que era ainda mais importante, as mensalidades - de 6 a 10 dólares - se tornariam obrigatórias, de modo que qualquer aumento salarial imediato seria não só eliminado, mas também diminuiria o salário livre de descontos.

Pois bem, refletiu Warren Trent, ele teria de aguentar o opróbrio em que o teriam seus colegas na indústria hoteleira. Quanto ao resto, tranquilizou a consciência relembrando-se de Tom Earlshore e os demais do mesmo tipo.

A voz rude, na linha telefônica, veio interromper seus pensamentos.

- Vou mandar dois fiscais de finanças. Irão de avião esta tarde, e ao correr da noite vasculharão seus livros. Eu disse que vão vasculhar, mesmo, de modo que não tente esconder qualquer coisa que devamos saber.

Aquela ameaça clara era para alertar que sòmente os muito corajosos ou doidos tentavam zombar do Sindicato dos Diaristas. Odono do hotel respondeu, melindrado:

- Nada tenho a esconder. Vão ter acesso a tôda informação existente.

- Se amanhã de manhã os meus homens me disserem que está tudo bem, você assinará um contrato sindical de três anos.

Era uma afirmação, e não uma pergunta.

- Naturalmente, ficarei satisfeito em assinar. Claro que teremos de levar em conta os votos dos empregados, mas acho que posso garantir o resultado da votação.

Warren Trent sentiu uma inquietação momentânea, sem saber se realmente podia prometer isso. Haveria oposição a uma aliança com os Diaristas, e disso, pelo menos, tinha certeza. Bom número de empregados, no entanto, seguiria sua recomendação pessoal se êle a fizesse em têrmos bastante enérgicos. A questão estava em saber se os mesmos proporcionariam a maioria necessária. Mas o presidente dos Diaristas atalhou:

- Não haverá votação.

- Mas a lei...

O telefone vibrou iradamente.

- Não me venha ensinar leis trabalhistas! Conheço mais e melhor do que você jamais o conseguirá!

Seguiu-se uma pausa, e depois a explicação em mauhumor:

- Faremos um Acordo de Reconhecimento Voluntário.

A lei não diz que êle tenha de ser submetido a votação. Não haverá votação.

Warren Trent concordou que se podia fazer assim. O processo seria contra a ética, imoral mesmo, mas indiscutivelmente legal. A sua assinatura num contrato sindical valeria para todos os empregados do hotel, em tais circunstâncias, gostassem ou não disso. Pois bem, pensou sombriamente, que seja assim! Tudo se tornaria muito mais simples e resultaria no mesmo. Perguntou, então:

- Como vai tratar da hipoteca?

Era questão delicada, pois no passado as comissões de inquérito do Senado haviam censurado acerbamente os Diaristas por grandes investimentos nas companhias com as quais o sindicato fizera contratos trabalhistas.

- Você assinará uma promissória, pagável ao Fundo de Pensões dos Diaristas, no valor de dois milhões de dólares a oito por cento. A promissória deverá ser garantida por uma primeira hipoteca sôbre o hotel. A hipoteca será retida pela Conferência Sulista de Diaristas, depositária do fundo de pensões.

Tal arranjo, compreendeu Warren Trent, era diabòlicamente hábil, estando contra o espírito de tôdas as leis referentes aos fundos sindicais, porém permanecendo dentro delas, em sentido estritamente legal.

- A promissória vencerá em três anos, ou no caso de deixar de pagar juros duas vêzes seguidas.

- Concordo com tudo, mas quero cinco anos - objetou Warren Trent.

- Tem três.

As condições eram duras, mas três anos lhe dariam, ao menos, tempo para restaurar a posição de competição do hotel. Ele respondeu, com relutância:

- Muito bem.

Ao sair da cabina telefônica, a despeito de novo ataque de dor ciática, Warren Trent estava sorrindo.

Depois da cena agitada na portaria, que culminara na partida do Dr. Nicholas, Peter Mcdermott imaginou desconsoladamente o que apareceria em seguida- Refletindo, achou que nada havia a ganhar intervindo apressadamente junto aos dirigentes do Congresso Americano de Odontologia. Se o presidente do mesmo, o Dr. Ingram, persistisse em sua ameaça de retirar todos os convencionais do hotel, isso não deveria ocorrer antes do dia seguinte. Nesse caso, era tanto seguro quanto prudente esperar uma ou duas horas, até o entardecer, para que se acalmassem os ânimos. Depois disso, êle procuraria o Dr. Ingram e outros membros da convenção, se fôsse preciso.

Quanto à presença do jornalista durante aquela cena lamentável, estava claro que era tarde demais para. modificar qualquer prejuízo causado. Pelo bem do hotel, Peter esperava que quem decidisse quanto à importância das reportagens viesse a ver o incidente como questão de menor monta.

Regressando a seu escritório na sobreloja, ocupou-se com assuntos rotineiros o resto da manhã, resistindo à tentação de procurar Christine enquanto o instinto lhe dizia que também nessa questão um período de abrandamento poderia ajudar. Em alguma ocasião próxima, no entanto, teria de corrigir sua gafe monumental.

Resolveu ir ver Christine pouco antes do meio-dia, mas tal projeto foi eliminado por um telefonema do assistente da gerência, informando a Peter que um quarto de hóspedes, ocupado pelo Sr. Stanley Kilbrick, de Marsalltown, Iowa, fôra roubado. Embora a queixa tivesse sido dada pouco antes, o roubo aparentemente ocorrera durante a noite. O hóspede alegava que sumira uma longa lista de objetos valiosos e dinheiro, e de acôrdo com o assistente da gerência o mesmo se mostrava extremamente perturbado. Um detetive do hotel já estava no local.

Peter chamou o detetive-chefe da casa. Não fazia a menor idéia do paradeiro de Ogilvie, se estava ou não no hotel, pois o que êle fazia quando em serviço era mistério total. No entanto, pouco depois um recado avisava que Ogilvie fôra tratar do caso e viria assim que pudesse. Vinte minutos mais tarde, chegava ao escritório de Mcdermott, onde se sentou lentamente na poltrona estofada à frente da mesa. Tentando evitar seu desagrado instintivo pelo homem, Peter indagou:

- Qual é o aspecto da coisa?

- O sujeito roubado é um paspalhão. Foi embrulhado. Aqui está a lista de objetos desaparecidos - respondeu Ogilvie, pondo uma relação manuscrita na mesa de Peter. - Eu fiquei com uma cópia.

- Obrigado. Vou mandar para a companhia de seguros. Que diz do quarto? Há sinal de terem forçado a porta?

O detetive negou com um aceno da cabeça.

- Foi trabalho feito com chave, posso garantir. Tudo se encaixa. Kilbrick reconhece que bebeu bastante ontem à noite, no Quarteirão. Devia ter levado consigo a mãezinha dêle. Diz que perdeu a chave e não volta atrás no que contou. O mais certo é que tenha sido embrulhado por uma profissional.

- Ele não entende que, se contar a verdade, teremos mais possibilidade de recuperar o que foi roubado?

- Eu lhe disse isso, mas não adiantou. Entre outras coisas, no momento êle se sente tomado de estupidez. E também achou que os seguros do hotel vão pagar o que perdeu, talvez até mais. Diz que tinha quatrocentos dólares na carteira.

- Você acredita?

- Não.

Pois bem, pensou Peter, o hóspede ia receber uma ducha fria. O seguro do hotel cobria a perda de objetos até o valor de cem dólares, mas não do dinheiro, fôsse qual fôsse a im portância.

- O que pensa do resto? Acha que foi roubo isolado?

- Não - respondeu Ogilvie. - Penso que temos aqui um ladrão profissional, e que está trabalhando dentro da casa.

- Por que pensa assim?

- Uma coisa que aconteceu hoje de manhã. Uma queixa do 641. Parece que ainda não lhe foi comunicada.

- Se foi - respondeu Peter -, não me lembro.

- Bem cedo, perto da madrugada pelo que sei, alguém entrou no 641 com uma chave. O hóspede do quarto acordou, e o outro sujeito fêz de conta estar bêbado e disse que se havia enganado, pensando que era o 614. O hóspede voltou a dormir, mas quando acordou começou a pensar como é que a chave do 614 serviu para o 641. Foi quando eu soube da coisa.

- A portaria pode ter dado uma chave errada.

- Pode, mas não deu. Verifiquei isso. O encarregado noturno jura que nenhuma das duas chaves foi retirada e o 614 tem um casal que deitou cedo e não saiu do quarto.

- Conseguiu a descrição do homem que entrou no 641?

- Tão ruim, que não serve. Para ter certeza, juntei os dois homens, do 641 e 614. Não foi o 614 quem entrou no 641: Experimentei as chaves e nenhuma delas serve para o outro quarto.

- Parece que temos um ladrão profissional, como você disse - comentou Peter, em tom pensativo. - Nesse caso, devemos planejar uma campanha.

- Já fiz algumas coisas - disse Ogilvie. - Falei com os recepcionistas para que peçam os nomes, nos próximos dias, quando entregarem as chaves. Se perceberem alguma coisa esquisita, devem entregar a chave, mas olhar bem quem a leva e depois avisar logo a um dos meus homens. O aviso está sendo dado às camareiras e carregadores, para observarem qualquer pessoa rondando os quartos, e tudo o mais que não pareça direito. Os meus homens estão fazendo serão, e patrulhando todos os andares de noite.

- Agiu muito bem - aprovou Peter. - Já pensou em ficar no hotel um dia ou dois? Posso lhe arrumar um quarto, se quiser.

Pareceu-lhe que, por instantes, uma preocupação se refletiu no rosto do gordo, que depois respondeu:

- Não vou precisar.

- Mas vai estar por aí, disponível?

- Claro que sim.

As palavras eram enfáticas, mas faltava-lhes convicção. Como que percebendo isso, Ogilvie acrescentou:

- Mesmo que não esteja aqui todo o tempo, os meus homens sabem como agir.

Duvidando ainda, Peter indagou:

- E que combinação temos com a polícia?

- Teremos dois investigadores presentes, e os informarei do outro caso. Depois, deverão fazer uma verificação para saber quem pode estar na cidade. Se fôr um profissional com fôlha-corrida é possível que o apanhemos.

- Enquanto isso, como é claro, nosso amigo não vái ficar parado.

- Sem dúvida, e se fôr esperto como parece, já estará calculando que estamos à sua procura, de modo que vai tentar agir depressa e dar o fora.

- Mais um motivo - indicou Peter - pelo qual precisamos de sua presença aqui por perto.

- Pensei que tinha previsto tudo - protestou Ogilvie.

- E previu, mesmo. Na verdade, não consigo achar coisa alguma esquecida por você. Minha preocupação é que poderá estar ausente e outro, em seu lugar, não se mostre tão competente ou rápido.

A despeito do que se pudesse afirmar sôbre o detetivechefe do hotel, raciocinava Peter, o homem sabia trabalhar quando queria. Mas era exasperante que a relação entre êles o obrigasse a implorar em ponto tão óbvio como aquêle.

- Não tem com que se preocupar! - garantiu Ogilvie.

mas o instinto de Peter lhe dizia que, por algum motivo, o gordo era o preocupado, enquanto erguia o corpanzil e se retirava.

Depois de alguns momentos Peter saiu também detendo-se apenas para dar instruções no sentido de avisar os seguradores quanto ao roubo e mandar-lhes a lista de objetos que Ogilvie lhe entregara.

Dirigindo-se ao escritório de Christine, Peter ficou desapontado ao ver que ela não estava e decidiu que voltaria logo depois do almoço.

Desceu à portaria e encaminhou-se para o restaurante principal, observando que...

 

                                                                                CONTINUA  

 

                      

O melhor da literatura para todos os gostos e idades

 

 

              Voltar à Página do Autor