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A TORRE NEGRA 4 / Stephen King
A TORRE NEGRA 4 / Stephen King

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A TORRE NEGRA

 

Parte IV

AS TERRAS BRANCAS DA EMPÁTICA – DANDELO

 

A COISA DEBAIXO DO CASTELO

De fato encontraram uma cozinha de bom tamanho e uma despensa anexa no andar térreo da Estação Experimental Arco 16, não longe da enfermaria. Encontraram mais alguma coisa também: a sala de sai Richard P. Sayre, o antigo chefe de Operações do Rei Rubro, agora na clareira do fim do caminho — uma cortesia da rápida mão direita de Susannah Dean. Em cima da escrivaninha de Sayre havia um arquivo incrivelmente completo sobre os quatro. Eles o destruíram, usando o triturador de papel. Nas pastas havia fotos de Eddie e Jake que eram simplesmente dolorosas demais para serem olhadas. Valia mais a memória.

Na parede de Sayre havia duas pinturas a óleo com molduras. Uma mostrava um garoto forte e bonito. Estava sem camisa, de pés descalços, cabelo desgrenhado, sorridente, vestindo apenas uma calça jeans e usando um coldre pendurado no ombro. Parecia mais ou menos da idade de Jake. O quadro tinha uma sensualidade não de todo agradável. Susannah achou que o pintor, sai Sayre, ou ambos podiam ter participado da “turma do morro lilás”, como ela às vezes ouvia os homossexuais serem chamados no Village.* O cabelo do garoto era preto. Seus olhos eram azuis. Seus lábios eram vermelhos. Tinha uma lívida cicatriz do lado e uma marca de nascença no calcanhar esquerdo, rubra como os lábios. Um cavalo branco como neve jazia morto diante dele. Havia sangue nos dentes arreganhados. O pé esquerdo do garoto, com a marca de nascença, se apoiava no flanco do cavalo e seus lábios se curvavam num sorriso de triunfo.

— Esse é Llamrei, o cavalo de Arthur Eld — disse Roland. — Sua imagem era levada para a batalha nos pendões de Gilead e era o sigul de todo o Mundo Interior.

— Então, conforme este quadro, o Rei Rubro acaba vencendo? — ela perguntou. — Ou se não ele, Mordred, seu filho.

Roland ergueu as sobrancelhas.

— Graças a John Farson, os homens do Rei Rubro conquistaram, muito tempo atrás, as terras do Mundo Interior — disse ele. Mas logo sorriu. Uma expressão luminosa, tão destoante de sua expressão habitual que fez Susannah se sentir meio tonta. — Mas acho que nós vencemos a única batalha que importa. O que aparece neste quadro não é mais que o desejo fantasioso de alguém. — Então, com uma ferocidade que assustou Susannah, quebrou com o punho o vidro que protegia o quadro e arrancou a tela da moldura, rasgando-a quase inteiramente pelo meio. Antes que pudesse de fato reduzi-la a pedaços, o que certamente pretendia fazer, Susannah o deteve e apontou para baixo. Escrito ali, numa caligrafia pequena, mas assim mesmo extravagante, estava o nome do artista: Patrick Danville.

Outra pintura mostrava a Torre Negra, um cilindro escuro, cheio de fuligem, afinando para o alto. Ficava na extremidade de Can’-Ka No Rey, o campo de rosas. Nos sonhos deles a Torre tinha parecido mais alta que o mais alto arranha-céu de Nova York (para Susannah isto significava o Empire State Building). Na pintura não teria mais que uns 180 metros, o que, no entanto, não tirava nada de sua fantástica majestade. As janelas estreitas subiam numa espiral ascendente em torno dela, exatamente como nos sonhos. No topo havia uma janela projetada com vidraças de muitas cores... cada uma delas, Roland percebeu, correspondente a uma das bolas do Mago. O círculo vizinho ao centro tinha o rosa da bola que fora deixada por algum tempo sob a guarda de uma certa feiticeira chamada Rhea; o centro era do negrume de ébano morto do Treze Preto.

— A sala atrás dessa janela é aonde tenho de ir — disse Roland, batendo no vidro que protegia a tela. — E onde minha busca termina. — O tom era baixo e assustado. — Esta imagem não foi tirada de nenhum sonho, Susannah. Tenho a impressão de poder sentir a textura de cada tijolo. Concorda comigo?

— Sim. — Era tudo que ela podia dizer. Ver aquilo ali, na parede do falecido Richard Sayre, roubava sua respiração. De repente tudo parecia possível. O fim do negócio estava, bem literalmente, à vista.

— A pessoa que pintou isto deve ter estado lá — Roland ponderou. — Deve ter colocado seu cavalete entre as próprias rosas.

— Patrick Danville — disse ela. — É a mesma assinatura da tela de Mordred com o cavalo morto, está vendo?

— Vejo muito bem.

— E vê o caminho pelo meio das rosas que leva à escada na base da Torre?

— Sim. Dezenove degraus, não tenho dúvida. Chassit. E as nuvens lá no alto...

Ela também podia vê-las. Formavam uma espécie de redemoinho antes de deslizarem para longe da Torre, na direção do Lugar da Tartaruga, na outra ponta do Feixe que tinham seguido até ali. E ela viu outra coisa. Ao redor do contorno da Torre, talvez a intervalos de 15 metros, havia sacadas rodeadas por grades de ferro da altura da cintura. Na segunda dessas sacadas havia uma ponta vermelha e três traços brancos: uma face pequena demais para se ver os detalhes e um par de mãos erguidas.

— Será o Rei Rubro? — ela perguntou, apontando. Acabou não se atrevendo a pôr a ponta do dedo na área do vidro que ficava sobre aquela minúscula figura. Como se tivesse medo que ela ganhasse vida e a arrebatasse para dentro do quadro.

— Sim — disse Roland. — Trancado do lado de fora da única coisa que ele sempre quis.

— Então talvez possamos subir a escada direto e deixá-lo para trás. Dando uma banana ao passarmos por ele. E quando isso pareceu confundir Roland, ela fez uma demonstração.

Desta vez o sorriso do pistoleiro foi fraco e distraído.

— Acho que não vai ser tão fácil — disse.

Susannah suspirou.

— No fundo, eu também acho que não.

Já tinham conseguido o que queriam — na realidade até um pouco mais —, mas ainda achavam difícil deixar a sala de Sayre. O quadro os segurava. Susannah perguntou se Roland não queria levá-lo. Certamente não seria difícil tirar a tela da moldura com o abridor de cartas sobre a mesa de Sayre, e enrolá-la. Roland pensou no assunto, mas acabou abanando a cabeça numa negativa. Havia uma espécie de vida maligna naquilo, algo que poderia atrair o tipo errado de atenção, como mariposas atraídas para uma luz forte. E mesmo se não fosse esse o caso, Roland desconfiava que ambos poderiam desperdiçar tempo demais olhando para a tela. A figura poderia distraí-los ou, ainda pior, hipnotizá-los.

Quem sabe se não é apenas outra armadilha mental, ele pensou. Como Insônia.

— Vamos deixar isto aqui — disse ele. — Em breve... em meses, talvez apenas semanas... teremos a possibilidade de olhar para a coisa real.

— Acredita mesmo? — ela perguntou em tom baixo. — Roland, acredita mesmo nisso?

— Acredito.

— Nós três a veremos? Ou será que eu e Oi também vamos ter de morrer para abrir seu caminho para a Torre? Afinal, você começou sozinho, não foi? Talvez tenha de acabar desse jeito. Não seria essa a vontade de um escritor?

— O que não significa que ele possa realizá-la — disse Roland. — Stephen King não é a água, Susannah... É apenas o cano por onde corre a água.

— Compreendo o que está dizendo, mas não sei se acredito mesmo nisso.

Roland também não estava de todo certo se acreditava ou não. Pensou em lembrar a Susannah que Cuthbert e Alain tinham estado com ele nos passos iniciais de sua missão, em Mejis, e quando novamente partiram de Gilead, Jamie DeCurry se juntara a eles, transformando o trio num quarteto. Mas a missão tinha realmente começado após a batalha da Colina de Jericó, e sim, nesse momento estivera sozinho.

— Comecei sozinho, mas não é assim que vou acabar — disse ele. Graças às rodas de uma cadeira-executiva, Susannah transitava com facilidade de um ponto a outro da sala. De repente ele a puxou da cadeira e instalou-a em sua perna direita, onde não sentia mais dor. — Você e Oi vão estar comigo quando eu subir os últimos degraus e entrar por aquela porta, vão estar comigo quando eu for passando de um andar a outro, vão estar comigo quando eu enfrentar aquele maldoso gnomo vermelho e vão estar comigo quando eu entrar na sala que fica lá em cima.

Embora Susannah não o dissesse, tudo isso lhe cheirava a mentira. Na verdade cheirava como mentira para os dois.

 

Levaram comida em lata, uma frigideira, duas panelas, dois pratos e dois conjuntos de talheres para o Fedic Hotel. A isso Roland havia adicionado uma lanterna que conseguia tirar um fraco clarão das pilhas quase esgotadas, uma faca de carne e uma útil machadinha com cabo de borracha. Susannah encontrara duas sacas que serviram para transportar este pequeno estoque de novas provisões. Também encontrou três latas de uma coisa gelatinosa na copa adjacente à cozinha da enfermaria, numa prateleira lá em cima.

— É Sterno — disse Susannah quando o pistoleiro perguntou. — Uma coisa boa. Pode acendê-la. Ela arde devagar e produz uma chama azul, quente o bastante para se cozinhar.

— Achei que faríamos uma fogueirinha atrás do hotel — disse ele. — Certamente não vou precisar desta coisa fedorenta para ter fogo. — O tom de Roland tinha uma ponta de desprezo.

— Não, acho que não vai. Mas ela pode acabar sendo útil.

— Como?

— Não sei, mas... — Ela deu de ombros.

Perto da porta para a rua cruzaram com o que parecia ser um armário de zelador cheio de pilhas de material. Susannah já tivera uma dose de Dogan mais que suficiente para um dia e estava ansiosa em sair dela, mas Roland quis dar uma olhada. Ele ignorou os baldes com panos de chão, vassouras e suprimentos de limpeza e se concentrou na misturada de cordas e correias amontoadas num canto. Susannah deduziu das tábuas embaixo das cordas que aquele material fora um dia usado na construção de andaimes temporários. Ela também tinha idéia da razão pela qual Roland queria aquelas coisas e sentiu um aperto no coração. Era como andar para trás, voltar ao ponto inicial do caminho.

— Achei que eu já tivesse dado por encerrado o transporte nos ombros — disse ela num tom amargo, com mais do que uma mera sugestão de Detta no tom de voz.

— É o único meio, eu acho — disse Roland. — E estou feliz por estar novamente inteiro o bastante para sustentar seu peso.

— E aquela galeria lá embaixo é realmente o único caminho que temos para seguir? Tem certeza?

— Desconfio que possa haver um caminho através do castelo... — ele começou, mas Susannah já estava balançando a cabeça.

— Estive lá em cima com Mia, não esqueça. O barranco para Discórdia no lado oposto tem pelo menos uns 150 metros. Provavelmente bem mais. Talvez muito tempo atrás tenha existido alguma escada, mas não restou nenhum degrau.

— Então ficamos com a passagem — disse ele —, e a passagem fica para a gente. Talvez achemos alguma coisa para transportá-la quando sairmos do outro lado. Em outra cidade ou povoado.

Susannah balançava novamente a cabeça.

— Acho que aqui é onde a civilização termina, Roland. E acho que devemos nos agasalhar o máximo possível, porque vai ficar muito frio.

Contudo, ao contrário dos suprimentos de comida, havia pouco com que se agasalhar. Ninguém pensara em estocar alguns suéteres extras e casacos forrados em latas fechadas a vácuo. Havia cobertores, mas mesmo bem guardados eles haviam se tornado finos e frágeis, quase inúteis.

— Tô cagando — disse ela num tom abatido. — O que eu gostaria era sair logo deste lugar.

— Vamos sair — disse ele.

 

Susannah está no Central Park e está frio o bastante para se ver sua respiração. O céu lá no alto está branco de um lado a outro, um céu nevado. Ela observa o urso polar (que está rolando no chão de sua ilha rochosa, aparentemente gostando bastante do frio) quando a mão de alguém se enrosca em sua cintura. Lábios quentes beijam seu rosto gelado. Ela se vira e lá estão Eddie e Jake. Mostram sorrisos idênticos e quase idênticos chapéus longos de malha vermelha. Eddie tem escrito FELIZ na frente do chapéu e Jake tem escrito NATAL. Ela abre a boca para dizer “ei, rapazes, não podem estar aqui, vocês estão mortos” e então Susannah percebe, com um grande e cantante alívio, que todo aquele negócio tinha sido apenas um sonho. E realmente, como seria duvidar disso? Não existem animais falantes chamados zé-trapalhões, não de verdade, nem criaturas taheen com os corpos de seres humanos e cabeças de animais, nem lugares chamados Fedic ou Castelo Discórdia.

E acima de tudo, não existem pistoleiros. John Kennedy fora o último, seu motorista Andrew tinha razão a esse respeito.

— Trouxe um chocolate quente — diz Eddie, estendendo uma xícara para ela. É a perfeita xícara de chocolate quente, chantilly em cima e pequenos salpicos de noz-moscada no creme; pode sentir o cheiro e, quando pega a xícara, sente os dedos dele dentro das luvas e os primeiros flocos da neve daquele inverno flutuam entre os dois. Pensa como é bom estar viva na simples e velha Nova York, como é incrível que aquela realidade seja realidade, que estejam juntos no Ano de Nosso Senhor de...

Qual Ano de Nosso Senhor?

Ela franze a testa porque aquela é uma pergunta séria, não é? Afinal, Eddie é um homem dos anos 1980 e ela nunca foi além de 1964 (ou foi 1965?). Quanto a Jake, Jake Chambers com a palavra NATAL impressa na frente de seu chapéu feliz não é um garoto dos anos 1970? E se eles três representam três décadas da segunda metade do século XX, qual é seu terreno comum? Em que ano estão?

— DEZENOVE — diz uma voz etérea (talvez seja a voz de Bango Skank, o Grande Personagem Perdido) —, o ano é DEZENOVE, o ano é CHASSIT. Todos os seus amigos morreram.

A cada palavra o mundo se torna mais irreal. Ela pode ver através de Eddie e de Jake. Quando baixa os olhos para o urso polar ela o vê estendido, morto em sua ilha rochosa, patas no ar. O cheiro gostoso do chocolate quente está se dissipando, sendo substituído por um odor de mofo: reboco velho, madeira antiga. O cheiro de um quarto de hotel onde ninguém dorme há anos.

Não, sua mente reclama. Não. Quero o Central Park, quero o sr. FELIZ e o sr. NATAL, quero o cheiro de chocolate quente e a visão dos primeiros e hesitantes flocos da neve de dezembro. Já me cansei de Fedic, Mundo Interior, Mundo Médio e Fim do Mundo. Quero o Meu Mundo. Pouco me importa se jamais verei a Torre Negra.

Os lábios de Eddie e Jake se movem em uníssono, como se estivessem cantando uma música que ela não pudesse ouvir, mas não é uma música; as palavras que lê nos lábios dos dois pouco antes que o sonho se desfaça são

 

— Cuide de Dandelo.

Acordou com essas palavras nos lábios, tremendo na luminosidade que antecede a aurora. E pelo menos a parte do sonho com a nuvem visível da respiração era verdadeira. Ela passou as mãos nas faces e enxugou a umidade que havia lá. O frio não ia congelar as lágrimas na pele, mas quase dava para isso.

Olhou ao redor do quarto lúgubre do Fedic Hotel, lamentando de todo o coração que seu sonho no Central Park não fosse verdade. Antes de mais nada, tivera de dormir no chão — no essencial a cama não passava de uma escultura de ferrugem esperando a hora de se desintegrar —, e suas costas estavam doendo. Em segundo lugar, os cobertores que usara como colchão improvisado e aqueles em que se embrulhara foram se rasgando e virando trapos à medida que ela os puxava e se virava. O ar estava cheio de pó, lhe dando cócegas no nariz e entupindo sua garganta, como se ela tivesse pegado o pior resfriado do mundo. E estava tremendo de frio. Além disso, precisava urinar, o que significava ter de se arrastar pelo hall nos cotos das pernas com as mãos quase sem sensibilidade.

E nada disso era realmente o que havia de errado naquela manhã com Susannah Odetta Holmes Dean, está certo? O problema era que ela havia acabado de passar de um belo sonho a um mundo

(isto é DEZENOVE todos os seus amigos estão mortos)

onde estava agora tão solitária que se sentia meio enlouquecida. O problema era que o lugar onde o céu brilhava não ficava necessariamente a leste. O problema era que estava cansada e triste, com saudades de casa, com dor no coração, pesar e depressão. O problema era que, naquela hora que precedia o amanhecer, naquele quarto de hotel peça-de-museu, da época de desbravamento do velho-oeste, onde o ar estava cheio de fibras mofadas de cobertor, Susannah teve a impressão de que tudo, a não ser os dois últimos gramas de energia agressiva, havia sido espremido de dentro dela. Queria o sonho de volta.

Queria Eddie.

— Vejo que também acordou — disse uma voz, e Susannah se virou, girando tão rapidamente nas mãos que se machucou com uma lasca de madeira.

O pistoleiro estava encostado na porta entre o quarto e o corredor. Tinha passado as correias para o tipo de carregador com o qual ela já estava bastante familiarizada e que pendia de seu ombro esquerdo. No ombro direito havia uma sacola de couro cheia das novas posses dos dois e dos Orizas restantes. Oi estava sentado junto aos pés de Roland, olhando-a solenemente.

— Você me deu um grande susto, sai Deschain — disse ela.

— Esteve chorando.

— Bem, não é de sua conta se estive ou não.

— Vamos nos sentir melhor quando sairmos daqui — disse ele. — Fedic está estragada.

Sabia exatamente o alcance do que ele estava dizendo. O vento havia aumentando violentamente na noite e, quando gemia nos beirais do hotel e do saloon ao lado, soava aos ouvidos de Susannah como gritos de crianças — pequeninos, tão perdidos no tempo e no espaço que jamais encontrariam o caminho de volta para casa.

— Tudo bem, mas Roland... antes de atravessarmos a rua e entrarmos naquele Dogan, quero que me prometa uma coisa.

— Qual promessa você me pede?

— Se achar que algo vai nos pegar... algum monstro dos fundos do inferno ou do espaço todash entre as duas terras... quero que meta uma bala na minha cabeça antes que aconteça. Quanto a você, faça o que quiser, mas com... Que foi? Por que puxou isso? — Era um de seus revólveres.

— Porque agora só consigo mexer com um deles. E porque não vou ser eu quem vai tirar sua vida. Se resolver fazer isso por si mesma...

— Roland, seus escrúpulos fodidos estão sempre me espantando! — disse ela, pegando o revólver com uma das mãos e apontando para os arreios com a outra. — Quanto a essa coisa, se acha que vou viajar nela antes de ser realmente preciso, ficou maluco.

Um sorriso breve tocou nos lábios dele.

— É melhor quando somos dois pirados, não é?

Ela suspirou e abanou a cabeça.

— Sim, um pouquinho, mas longe de perfeito. Vamos lá, amigão, vamos ralar. Minha bunda é um cubo de gelo e o cheiro está me dando uma sinusite danada.

 

Ele a colocou na cadeira-executiva com rodinhas assim que retornaram ao Dogan e empurrou-a até o início do primeiro lance de degraus, Susannah segurando seus pertences e levando a sacola de Orizas no colo. No patamar da escada, Roland atirou a cadeira pelos degraus e pôs Susannah nos quadris, ambos estremecendo com os ecos da cadeira avançando aos trambolhões até lá embaixo.

— É o fim dela — disse Susannah quando os ecos finalmente cessaram. — Será tão inútil quanto se você a tivesse deixado aqui.

— Vamos verificar — disse Roland, começando a descer. — Talvez você se surpreenda.

— Aquela porra naum vai mais funciona e nós dois sabemos que naum — disse Detta. Oi soltou um latido curto, agudo, como a dizer é isso mesmo!

 

A cadeira, no entanto, realmente sobreviveu à queda. E à próxima também. Mas quando Roland se curvou para examinar a pobre coisa depois que ela foi lançada por um terceiro (e extremamente longo) lance de degraus, viu que uma das rodas giratórias sofrerá uma torção definitiva. Isso trouxe um pouco à sua memória a aparência da velha cadeira de rodas de Susannah quando a encontraram depois da batalha com os Lobos na estrada do Leste.

— Está vendo, eu não disse? — disse ela acrescentando num tom agudo: — Acho que tá na hora de tu começa a carrega o barco, Roland!

— Não pode se livrar de Detta? — ele perguntou ao encará-la.

Ela o olhou, surpresa, usando a memória para avaliar sua última frase. Ficou vermelha:

— Sim — disse ela num tom de voz notavelmente baixo. — Desculpe, Roland.

Ele a levantou, instalando-a nos arreios. E eles continuaram. Por mais desagradável que fosse a passagem sob o Dogan (por mais arrepiante que fosse a passagem sob o Dogan), Susannah estava satisfeita por estarem deixando Fedic para trás. Porque isto significava que também estavam deixando todo o resto para trás: Lud, as Callas, Trovoada, Algul Siento e inclusive a cidade de Nova York e o oeste do Maine. O castelo do Rei Vermelho estava à frente, mas ela achava que não tinham de se preocupar muito com isso, porque seu mais famoso ocupante ficara louco e fugira para a Torre Negra.

O desimportante estava ficando para trás. Iam chegando ao fim da longa jornada e já não havia muita coisa dando motivo a preocupação. Isso era bom. E se ela cair naquela caminhada para a obsessão de Roland? Bem, se havia apenas escuridão do outro lado da existência (como ela acreditara durante quase toda a sua vida adulta), então nada estava perdido, desde que não acabassem na escuridão todash, num lugar cheio de monstros rastejantes. E, ei! Talvez houvesse uma vida após a morte, um céu, uma reencarnação, talvez até ressurreição na clareira do final do caminho. Gostava desta última idéia e já vira maravilhas suficientes para acreditar que pudesse acontecer. Talvez Eddie e Jake estivessem lá, à espera dela, bem agasalhados e com os primeiros flocos da neve do inverno caindo e embranquecendo suas sobrancelhas: o sr. FELIZ e o sr. NATAL. Ao vê-la, iam lhe oferecer chocolate quente. Com espuma.

Chocolate quente no Central Park! O que era a Torre Negra comparada a isso?

 

Passaram pela rotunda com as portas levando para todo lado; finalmente chegaram à passagem larga com a placa na parede dizendo: SÓ PASSE LARANJA, PASSE AZUL NÃO ACEITO. Pouco à frente, no clarão de uma das lâmpadas fluorescentes que ainda não haviam queimado (e perto do esquecido mocassim de borracha), viram alguma coisa impressa na parede de azulejos e se desviaram para ler.

 

Roland, Susannah: estamos seguindo nosso caminho! Deseje-nos

boa sorte!

Boa sorte para vocês!

Que Deus os abençoe!

Jamais vamos esquecê-los!

 

Sob a mensagem principal tinham escrito seus nomes: Fred Worthington, Dani Rostov, Ted Brautigan e Dinky Earnshaw. Sob os nomes havia mais duas linhas, escritas com outra caligrafia. Susannah achou que fossem de Ted e ler aquilo deixou-a com vontade de chorar:

 

Vamos procurar um mundo melhor

Espero que também encontrem um.

 

— Deus os ama — disse Susannah num tom de voz rouco. — Que o amor de Deus guarde a todos eles.

— Todos — disse uma voz fraca e um tanto tímida que vinha dos calcanhares de Roland. Olharam para baixo.

— Resolveu falar de novo, doce de coco? — Susannah perguntou, mas Oi não deu resposta. Passaram-se semanas antes que falasse de novo.

 

Duas vezes se perderam. Uma vez foi Oi quem tornou a achar o caminho deles através do labirinto de túneis e passagens — algumas gemendo com distantes correntes de ar, outras repletas de sons que pareciam mais próximos e mais ameaçadores. E uma vez, Susannah redescobriu o caminho, atraída por uma embalagem de barra de chocolate que Dani deixara cair. O Algul estivera bem estocado de doces e a moça havia levado muitos com ela (“Embora nem uma única muda de roupas”, Susannah disse com uma risada e uma sacudida de cabeça). De repente, diante de uma antiga porta de pau-ferro que lembrava a Roland a que encontrara na praia, ouviram um desagradável ruído de mascar. Susannah tentou imaginar o que podia estar fazendo aquele barulho e só conseguiu pensar numa boca gigante e disforme cheia de presas amarelas com manchas de sujeira. Na porta havia um símbolo indecifrável. O simples fato de olhá-lo deixou-a inquieta.

— Sabe o que isto significa? — ela perguntou e Roland, embora falasse mais de meia dúzia de idiomas e tivesse noções de muitos outros, balançou a cabeça numa negativa. Susannah ficou aliviada. Desconfiava que se a pessoa conhecesse o som ligado àquele símbolo, ia querer dizê-lo. Talvez tivesse de dizer. E então a porta se abriria. Bem, você não ia querer correr quando visse a coisa que estava mascando do outro lado? Provavelmente. Mas você ia conseguir correr?

Talvez não.

Logo após ver aquela porta desceram outro lance, agora mais curto, de escada.

— Acho que esqueci desta escada quando conversamos ontem, mas agora já me lembro — disse ela apontando para a poeira nos degraus, que mostrava marcas. — Olhe, são nossas pegadas! Fred carregou-me para baixo e Dinky para cima, quando voltamos. Agora estamos quase lá, Roland, posso lhe garantir!

Mas Susannah ficou de novo perdida no amontoado de galerias divergentes na base dos degraus e foi então que Oi os colocou no caminho certo, trotando por uma escura passagem tipo túnel, onde o pistoleiro tinha de andar curvado com Susannah agarrada ao pescoço dele.

— Não sei... — Susannah começou, e então Oi os levou para uma galeria mais clara (comparativamente mais clara: metade das lâmpadas fluorescentes do teto estavam apagadas e muitos azulejos tinham caído das paredes, revelando a terra escura e cheia de limo que havia por baixo). O trapalhão sentou-se num confuso emaranhado de rastros e olhou-os como se dissesse: É isso que vocês queriam?

— É — disse ela, obviamente aliviada. — Tudo bem. Olhe, Roland, exatamente como eu disse a você. — Apontou para uma porta com a inscrição: FORD’S THEATER, 1865, VEJA O ASSASSINATO DE LINCOLN. Ao lado dela, debaixo de um vidro, havia um cartaz do Nosso Primo Americano, que parecia ter sido impresso na véspera. — O que queremos está aqui perto. Duas viradas à esquerda e depois à direita... eu acho. De qualquer modo, na hora vou saber.

Roland estava sendo paciente com ela. Tinha uma idéia desagradável que não compartilhou com Susannah: que o labirinto de galerias e corredores ali embaixo podia estar à deriva, exatamente como estavam os pontos cardeais no que ele já começava a imaginar como “mundo de cima”. Se assim fosse, estavam numa encrenca.

Fazia calor lá embaixo e logo os dois suavam bastante. Oi arfava áspera e continuamente, como um motorzinho, mas mantinha a passada firme junto ao calcanhar esquerdo do pistoleiro. Não havia pó no chão e as pegadas que tinham visto aqui e ali haviam desaparecido. Os ruídos atrás das portas, no entanto, estavam mais altos e, quando passaram por uma delas, algo do outro lado deu uma pancada na madeira com força suficiente para fazer a porta estremecer na moldura. Oi latiu, estendendo as orelhas contra a cabeça e Susannah deixou escapar um pequeno grito.

— Tranqüila, ô! — disse Roland. — Ele não pode quebrá-la. Nenhum deles consegue.

— Tem certeza?

— Sim — disse o pistoleiro com firmeza. Mas não tinha certeza nenhuma. Uma frase de Eddie lhe ocorreu: Não vale mais nenhuma aposta.

Contornaram poças, tomando cuidado para não encostar de forma nenhuma nas que brilhavam, pois poderia ser radiação ou clarão de alguma feitiçaria. Aproximaram-se de um cano quebrado que exalava uma fraca nuvem de vapor verde e Susannah sugeriu que prendessem a respiração até o ultrapassarem completamente. Roland achou a idéia realmente muito boa.

Trinta ou 40 metros à frente, ela o fez parar.

— Não sei, Roland — disse, e ele viu como Susannah lutava para manter o pânico fora da voz. — Achei que estivéssemos na direção certa quando vi a porta de Lincoln, mas agora isto... isto aqui... — Sua voz fraquejou e Roland sentiu como ela respirava fundo, lutando para se manter sob controle. — Tudo isto parece diferente. E os sons... eles entram mesmo em sua cabeça...

Ele sabia o que Susannah queria dizer. À esquerda havia uma porta sem inscrições que parecia muito mal encaixada nas dobradiças. De uma fenda no alto da porta vinha o toque atonal de sinos todash, um som que era ao mesmo tempo horrível e fascinante. Acompanhava os sinos uma firme corrente de ar fedorento. Roland desconfiou que Susannah estava a ponto de sugerir que dessem meia-volta enquanto ainda podiam, talvez para repensar toda aquela idéia de passar por baixo do castelo, e disse:

— Vamos ver o que há lá em cima. Está um pouco mais iluminado, sem dúvida.

Quando se aproximaram de uma interseção da qual túneis e corredores azulejados se irradiavam em todas as direções, Roland a sentiu se deslocar contra ele, empinando o corpo.

— Ali! — ela gritou. — Aquele monte de entulho! Demos a volta nele! Demos a volta nele, Roland, eu me lembro!

Parte do teto havia caído no meio da interseção, criando uma misturada de azulejos partidos, vidros quebrados, pontas de arame, e simples e pura sujeira. Pelo lado havia rastros.

— Por ali! — ela gritou. — Direto em frente!, Ted disse. Acho que é a rua que chamavam de rua Central e Dinky pensava o mesmo. Dani Rostov falou que muito tempo atrás, mais ou menos na época em que o Rei Rubro fez alguma coisa para escurecer Trovoada, um grande bando de pessoas usou aquele caminho para fugir. Só que deixaram alguns de seus pensamentos para trás. Perguntei a ela como era esta sensação e ela disse que era um pouco como ver espuma suja de sabão nos lados da banheira depois de você esvaziar a água. “Nada simpático”, ela disse. Fred fez a marca a giz e voltamos direto para a enfermaria. Não quero colocar o carro na frente dos bois, mas acho que vamos ficar OK.

E ficaram, pelo menos por algum tempo. A oitenta passos do monte de entulho se depararam com uma abertura em arco. Atrás dela, bolas brancas radiantes, tremulantes, pendiam do teto, seguindo num ângulo inclinado para baixo. Na parede, em quatro traços feitos a giz, que já tinham começado a escorrer por causa da umidade que vertia dos azulejos, havia a última mensagem deixada para eles pelos Sapadores liberados:

 

Descansaram um pouco ali, comendo punhados de passas que tiraram de uma lata fechada a vácuo. Mesmo Oi beliscou algumas, embora ficasse claro, pelo modo como comia, que não estava gostando muito delas. Quando todos ficaram satisfeitos, Roland tornou a guardar a lata no saco de couro que encontrara ao longo do caminho e perguntou a Susannah:

— Está pronta para continuar?

— Sim. Agora mesmo, eu acho, antes de perder minha... meu Deus, Roland, o que foi isso?

De trás deles, provavelmente de uma das passagens saindo da interseção entupida de entulho, viera um baque surdo. Tinha uma qualidade líquida, como se um gigante em botas de borracha cheias d’água tivesse acabado de dar um passo.

— Não sei — disse ele.

Susannah olhava inquieta pelo ombro, mas só conseguia ver sombras. Algumas estavam se movendo, mas isto podia ser mero efeito do cintilar das luzes.

Podia ser.

— Sabe como é — disse ela. — Acho que pode ser uma boa idéia deixarmos esta área o mais depressa possível.

— Acho que tem razão — disse ele, pousado num joelho e nas pontas dos dedos abertos, como um corredor se preparando para o sinal de partida no início da raia. Quando ela se acomodou nos arreios, ele ficou de pé e ultrapassou a seta na parede, iniciando um passo que era quase correr.

 

Há 15 minutos estavam se movendo naquele quase correr quando se depararam com um esqueleto vestindo os restos apodrecidos de um uniforme militar. Havia ainda um pedaço de couro cabeludo em sua cabeça, onde brotava um tufo despenteado de cabelo preto. O maxilar sorria, como se saudasse a chegada deles ao mundo subterrâneo. No chão, ao lado da pélvis nua da coisa, havia um anel que escorregara de um dos dedos mofados da mão direita do morto. Susannah perguntou a Roland se podia olhar mais de perto. Ele pegou o anel e entregou a ela. Ela o examinou pelo tempo suficiente para confirmar o que havia pensado e atirou-o para o lado. Ele fez um pequeno tilintar e depois só se ouviram ruídos de água pingando e os sinos todash, agora mais fracos, mas persistentes.

— O que eu pensei — disse ela.

— E o que foi? — ele perguntou, tornando a se mover.

— O cara era um rosa-cruz. Meu pai tinha o mesmo tipo de anel.

— Um rosa-cruz? O que é isso?

— Um membro de uma fraternidade. Uma espécie de ka-tet, o pessoal se ajuda em tudo. Mas que diabo estaria um rosa-cruz fazendo aqui? Claro, um templário ainda dava para entender... — E ela riu, um tanto espalhafatosamente.

As lâmpadas penduradas estavam cheias de um gás brilhante que pulsava com uma batida rítmica, mas não de todo constante. Susannah sentiu que havia algo ali a ser captado e, após alguns momentos, ela conseguiu. Quando Roland acelerava o passo, o pulsar das luzes era rápido. Quando ele diminuía a marcha (não parando nunca, mas conservando energia), o pulsar dos globos também ficava mais lento. Não achava que as luzes estivessem exatamente respondendo à batida do coração dele ou do coração dela, mas tinha a ver (sem dúvida o termo biorritmo lhe teria sido útil, mas ela não o conhecia). Cerca de 50 metros à frente da posição onde estivessem, não importa qual, a rua Central estava sempre escura. Então, uma a uma, as luzes iam se acendendo à medida que eles se aproximavam. A coisa era hipnotizante. Ela se virou para olhar para trás — só uma vez, pois não queria desequilibrar o passo de Roland — e viu que, sim, as luzes iam se apagando também 50 metros atrás deles. Aquelas luzes eram muito mais brilhantes que os globos bruxuleantes na entrada da rua Central, e ela achava que os globos dependiam de alguma outra fonte de energia, uma fonte que (como quase tudo naquele mundo) estava começando a se esgotar. Então ela reparou que um dos globos de que estavam se aproximando continuava escuro. A medida que se aproximaram e depois passaram sob ele, Susannah viu que não estava completamente apagado; um vago núcleo iluminado ardia debilmente bem no seu interior, contraindo-se com a agitação de seus corpos e cérebros. Isso a lembrava de como a pessoa às vezes vê uma placa de néon com uma ou mais letras apagadas, transformando PASSADO em PASSO ou SABOROSO PRATO em SABOROSO RATO. Mais ou menos 30 metros à frente havia outra lâmpada queimada, depois outra, depois duas em sucessão.

— Temos grandes possibilidades de ficar no escuro daqui a pouco — disse ela sombriamente.

— Eu sei — disse Roland, que estava começando a perder o fôlego.

O ar continuava úmido e uma friagem ia gradualmente substituindo o calor. Havia cartazes nos muros, a maioria apodrecidos bem além do ponto em que pudessem se manter legíveis. No trecho seco de um muro ela viu um que mostrava uma arena onde um homem acabara de perder uma batalha de arena com um tigre. O grande felino estava arrancando um pedaço sangrento dos intestinos da barriga do homem. Ele gritava enquanto a multidão caía numa agitação frenética. Havia uma linha de texto em meia dúzia de idiomas. A versão inglesa era a segunda de cima para baixo. VISITE O CIRCUS MAXIMUS! VOCÊ VAI VIBRAR!, dizia a inscrição.

— Cristo, Roland — disse Susannah. — Cristo Todo-Poderoso, o que eram?

Roland não respondeu, embora soubesse a resposta: eles eram folken que enlouqueceram.

 

De 100 em 100 metros, pequenos lances de degraus — o mais longo tinha apenas dez degraus de cima a baixo — foram, gradualmente, fazendo os dois penetrarem cada vez mais profundamente nas entranhas da terra. Depois de terem avançado um trecho que Susannah estimou em 400 metros, atingiram um portão que fora arrancado, talvez por algum tipo de veículo, e reduzido a estilhaços. Ali havia mais esqueletos, tantos que Roland teve de pisar em alguns para passar. O barulho não foi de ossos quebrando; foi um ruído um tanto pior, abafado e úmido. O cheiro que subia deles era salobro e molhado. A maioria dos azulejos acima daqueles corpos tinham sido arrancados e os que permaneciam nas paredes estavam cravejados de buracos de balas. Um tiroteio, então. Susannah abriu a boca para fazer um comentário, mas antes de conseguir fazê-lo, o baque surdo se fez novamente ouvir. Ela achou que, desta vez, estava um pouco mais alto. Um pouco mais perto. Olhou novamente para trás e nada viu. As luzes continuavam a escurecer em sucessão, sempre a uns 50 metros atrás deles.

— Não gosto de parecer paranóica, Roland, mas acho que estamos sendo seguidos.

— Sei que estamos.

— Quer que eu dê um tiro? Ou jogue um prato? Só o assobio do prato já pode ser bastante assustador.

— Não.

— Por que não?

— Ele pode não saber o que nós somos. Se você atirar... ele saberá.

Susannah demorou um pouco para perceber o que ele estava realmente dizendo: Roland não tinha certeza se balas — ou um Oriza — conseguiriam deter o que quer que estivesse lá atrás. Ou, pior, talvez ele tivesse certeza de que não.

Quando falou de novo, Susannah teve de fazer um grande esforço para parecer calma e achou que estava sendo razoavelmente bem-sucedida:

— Será alguma coisa saída daquela falha na terra, você acha possível?

— Pode ser — disse Roland. — Ou pode ser algo que veio do espaço todash. Agora cale.

O pistoleiro apertou o passo, finalmente atingindo um verdadeiro trote acelerado e logo ultrapassando-o. Ela estava espantada com a agilidade dele, agora que a dor no quadril havia passado. Podia ouvir sua respiração, assim como podia senti-la no subir e descer das costas: rápida, ofegantes sugadas de ar seguidas de ásperas expulsões que soavam quase como gritos de irritação. Susannah daria qualquer coisa para poder correr ao lado dele com suas próprias pernas, as fortes, que Jack Mort lhe roubara.

Os globos sobre eles pulsavam agora mais rápido, uma pulsação mais fácil de ver porque o número de globos ficara menor. No espaço entre um e outro, a sombra combinada dos dois se estendia por uma longa extensão à frente; depois, à medida que se aproximavam do próximo ponto de luz, ia se encurtando pouco a pouco. O ar estava mais frio; a coisa de cerâmica que forrava o piso ficava cada vez menos regular. Em certos pontos as lajotas já estavam partidas e pedaços delas tinham sido atirados para o lado, formando armadilhas para um pé distraído. Oi se esquivava com facilidade dos buracos e, até aquele momento, Roland também fora capaz de evitá-los.

Susannah ia dizer a ele que já há algum tempo não ouvia o perseguidor quando algo lá atrás se manifestou por uma grande respiração ofegante. Ela sentiu o ar em volta mudar de direção; sentiu os pequenos caracóis do cabelo repuxarem furiosos quando o ar foi sugado para trás. Houve um tremendo barulho rouco que a deixou com vontade de gritar. O que estava atrás deles, fosse o que fosse, era grande.

Não.

Enorme.

 

Atiraram-se por outro daqueles curtos lances de escadas. Cinqüenta metros à frente, três novos globos pulsantes ganharam vida com uma luz instável, mas depois houve apenas escuridão. As arruinadas paredes de azulejo da galeria e o piso deteriorado, irregular, se dissolveram num vácuo tão profundo que era como uma substância física: grandes nuvens de feltro preto frouxamente agrupadas. Entrariam correndo nelas, ela pensou, e a princípio o impulso continuaria carregando-os à frente. Então a coisa os lançaria para trás, como uma espécie de mola, e logo o que houvesse lá atrás ia cair em cima. Susannah veria a coisa de relance, algo terrível, tão exótico que sua mente não seria capaz de identificar, o que poderia ser uma bênção. Aí a coisa ia atacar e...

Roland penetrou na escuridão sem diminuir a marcha e é claro que não foram impelidos para trás. A princípio ainda houve um pouco de luz, parte vindo de trás deles e parte dos globos no alto (alguns ainda proporcionavam um último toque de radiância), só o bastante para ver outra escada curta, o patamar ladeado por esqueletos que já começavam a se esfarelar entre alguns miseráveis farrapos de roupas. Roland desceu correndo os degraus — nove naquela escada — sem parar. Oi corria do seu lado, quase dançando, as orelhas encostadas no crânio, o pêlo ondulando macio. De repente estavam em absoluta escuridão.

— Lata, Oi, para não darmos cabeçadas uns nos outros! — Roland berrou. — Comece a latir!

Oi latiu. Uns trinta segundos mais tarde, Roland berrou a mesma ordem e Oi tornou a latir.

— E se tivermos de descer outra escada, Roland?

— Vamos ter — disse ele e, daí a uns noventa segundos, lá estava. Susannah sentiu quando ele se inclinou para a frente, os pés sem firmeza. Sentiu os músculos saltarem nos ombros quando ele estendeu as mãos, mas não caíram. Susannah não pôde deixar de se maravilhar com seus reflexos. E as botas de Roland foram avançando sem hesitar pela escuridão. Doze degraus desta vez? Quatorze? Estavam de volta a outra superfície plana antes que ela pudesse chegar a uma conclusão sobre a contagem. Mas Susannah descobrira que Roland era capaz de lidar com escadas mesmo no escuro, mesmo no meio de uma corrida plena.

E se ele enfiasse o pé em algum buraco? Deus sabia que era possível, porque o piso estava muito deteriorado. E se esbarrasse numa barreira de esqueletos empilhados? Na velocidade em que agora corria pela superfície plana, isto resultaria, na melhor das hipóteses, num tombo desagradável. Ou suponhamos que topassem com um monte de ossos no alto de uma das escadinhas? Susannah tentou afastar a imagem de Roland mergulhando no escuro, como um mergulhador aleijado, e não conseguiu. Quantos ossos os dois quebrariam quando se esborrachassem no fundo? Merda, docinho, escolha um número, diria Eddie. Aquela corrida no vazio era insana!

Mas não havia opção. Agora podia ouvir a coisa atrás deles com absoluta clareza, não apenas o bafo da respiração mas um som raspante de lixa, alguma coisa resvalando por uma parede da galeria... ou talvez pelas duas. De vez em quando ela também ouvia um tilintar e um ruído de rachar quando algum azulejo era arrancado. Era impossível não construir uma imagem a partir desse sons e, na imagem que Susannah começou a ver, havia um grande verme negro, o corpo segmentado preenchendo a galeria de um lado a outro. De vez em quando a grande minhoca passava por lajotas soltas e as esmagava com aquele corpo gelatinoso que continuava a se lançar para a frente — faminto, diminuindo o intervalo que o separava dos dois.

Diminuindo-o agora com muito mais rapidez. Susannah achou que sabia por quê. Há pouco tinham corrido por ilhas iluminadas num contínuo jogo de luzes. Fosse o que fosse a coisa que vinha atrás, ela certamente não gostava de luz. Susannah pensou na lanterna que Roland tinha acrescentado à bagagem. Sem pilhas, no entanto, era praticamente inútil. Vinte segundos depois de ligado, o comprido corpo da lanterna ia se apagar.

Exceto... espere um minuto.

O corpo.

O corpo comprido!

Susannah estendeu a mão para a bolsa de couro que balançava do lado de Roland, sentiu as latas de comida, mas a lata que ela queria era outra. Finalmente encontrou, reconhecendo-a pela calha em volta da tampa. Não havia tempo para se perguntar por que a lata pareceu tão imediata e intimamente familiar; Detta tinha seus segredos e algum fato relacionado com o uso do Sterno era provavelmente um deles. Quando ergueu a lata para cheirar e ter certeza, a ponta de seu nariz foi golpeada, pois Roland havia tropeçado em alguma coisa — talvez num pedaço do piso, talvez num outro esqueleto. Ele teve de fazer força para manter o equilíbrio. Também foi bem-sucedido desta vez, mas em algum momento ia falhar e a coisa lá atrás estaria em cima deles antes de Roland se levantar. Susannah sentiu o sangue quente começar a descer pelo rosto e a coisa que os seguia, sentindo talvez o cheiro desse mesmo sangue, deixou escapar um enorme grito rouco. Susannah imaginou um crocodilo gigante num pântano da Flórida levantando a cabeça escamosa e uivando para a lua. E estava tão perto!

Oh, meu bom Deus, me dê tempo, ela pensou. Não quero acabar assim. Levar um tiro é uma coisa, mas ser comida viva no escuro...

Era outra.

— Mais depressa. — ela grasnou a Roland, batendo do lado do corpo dele com as coxas, como um cavaleiro atiçando um cavalo cansado.

De alguma forma, Roland obedeceu. Agora a respiração dele era um ronco de agonia. Nem depois de dançar a commala Roland havia respirado daquela maneira. Se continuasse, o coração explodiria em seu peito. Mas...

— Mais depressa, alazão! Dê tudo que tem, porra! Talvez eu tenha um truque na manga, mas use as reservas até o fim!

E ali, na escuridão sob o Castelo Discórdia, Roland obedeceu.

 

Ela mergulhou mais uma vez a mão livre na sacola e fechou-a no corpo da lanterna. Puxou a lanterna, enfiando-a debaixo do braço (e sabendo que, se a deixasse cair, estariam realmente perdidos). Então empurrou a lingüeta da lata de Sterno e ficou aliviada com o assobio rápido quando o lacre se rompeu. Aliviada, mas não surpresa — se o lacre tivesse sido quebrado, o gel inflamável que havia lá dentro teria há muito se evaporado e a lata teria sido mais leve.

— Roland! — ela gritou. — Roland, preciso de fósforos!

— Camisa... bolso! — ele arfou. — Pegue!

Mas primeiro Susannah deixou cair a lanterna para dentro do espaço onde o meio de suas pernas encontrava o meio das costas, daí agarrou-a um instante antes de ela escorregar. Agora, segurando bem, mergulhou o corpo da lanterna na lata de Sterno. Pegar um fósforo enquanto estivesse segurando a lata e a lanterna coberta de gel teria exigido uma terceira mão, por isso ela jogou fora a lata. Havia mais duas na saca, mas, se aquela não funcionasse, ela não teria oportunidade de tentar pegar outra.

A coisa tornou a berrar, parecendo estar bem atrás. Ela já podia sentir o cheiro, o aroma como um monte de peixe apodrecendo no sol.

Passando a mão pelo ombro de Roland, tirou um fósforo do bolso dele. Talvez desse tempo para acender um; não dois. Roland e Eddie eram capazes de acendê-los com as unhas dos polegares, mas Detta Walker conhecia um truque que valia por dois daquele, já recorrera a ele em mais de uma ocasião para impressionar suas vítimas branquelas nos bordéis de beira de estrada por onde rodara. Fez uma careta no escuro, afastando os lábios dos dentes e pôs a ponta do fósforo entre dois dentes da frente. Eddie, se está aí, me ajude, docinho... me ajude a fazer direito.

Riscou o fósforo. Algo quente queimou o céu de sua boca e ela sentiu gosto de enxofre na língua. A chama do fósforo quase cegou os olhos já adaptados ao escuro, mas ela conseguiu ver o suficiente para encostá-la no tubo coberto de gel da lanterna. O Sterno se inflamou de imediato, transformando a lanterna numa tocha. Era uma tocha fraca, mas era alguma coisa.

— Vire! — ela gritou.

Numa derrapada, Roland parou de imediato (sem perguntas, sem protesto) e girou nos calcanhares. Ela segurava a lanterna chamejante na frente dela e, por um momento, ambos viram a cabeça de uma coisa úmida e coberta de olhos albinos de cor rosada. Embaixo dos olhos havia uma boca do tamanho de um alçapão, cheia de tentáculos se contorcendo. Parecia que o Sterno não ardia com muito brilho mas, naquele negrume infernal, tinha brilho suficiente para fazer a coisa recuar. E antes que a criatura desaparecesse na escuridão, Susannah viu todos aqueles olhos se contraindo e teve um momento para imaginar como deviam ser sensíveis, pois se uma chama fraquinha como essa podia...

O chão da galeria estava forrado por uma misturada de ossos. Na mão de Susannah, a ponta da lanterna com a lâmpada já estava ficando quente. Oi latia freneticamente, olhando para trás no escuro de cabeça baixa e as pernas curtas bem abertas, cada pêlo arrepiado na ponta.

— Abaixe-se, Roland, abaixe-se!

Ele obedeceu e ela lhe entregou a tocha improvisada, que já começava a se apagar. As chamas amarelas que subiam e desciam pelo corpo de aço inox iam ficando azuis. A coisa no escuro soltou outro ronco ensurdecedor e Susannah, então, pôde novamente ver sua forma, que ondulava de um lado para o outro. E a criatura rastejava para mais perto à medida que a luz ia faltando.

Se o chão estiver molhado, estamos muito provavelmente acabados, ela pensou, mas o toque dos dedos apalpando um fêmur sugeriu que estava seco. Talvez fosse uma mensagem falsa enviada por sentidos esperançosos (sem dúvida ouvia água gotejando de algum lugar no teto à frente), mas achava que não.

Pôs a mão na bolsa e encontrou outra lata de Sterno, mas a princípio a lingüeta a desafiou. A coisa estava se aproximando e agora ela podia ver um monte de pernas curtas, disformes sob o caroço erguido de uma cabeça. Não um verme, afinal, mas uma espécie de centopéia gigante. Oi se colocou na frente dela, sempre latindo, mostrando cada um dos dentes. Seria Oi quem a coisa ia pegar primeiro se Susannah não conseguisse...

Então seu dedo deslizou para a parte da lingüeta quase encostada na tampa da lata. Houve um som tipo pop-sssss. Roland sacudia a lanterna de um lado para o outro, tentando atiçar um pouco de vida nas chamas bruxuleantes (o que teria dado certo se ainda houvesse combustível para alimentá-las) e ela viu suas sombras enfraquecidas se agitarem delirantemente de um lado para outro pelas deterioradas paredes de azulejos.

A circunferência do osso era grande demais para a lata. Equilibrando-se numa desajeitada posição de lado, metade dentro e metade fora dos arreios, ela mergulhou a mão na lata, ensopou-a de gel e lambuzou o osso de cima a baixo. Se o osso estivesse molhado, só ganhariam mais alguns segundos de horror. Se no entanto estivesse seco, então talvez... apenas talvez...

A coisa rastejava cada vez mais perto. Entre os tentáculos que brotavam da boca, Susannah via grandes presas se projetando. Mais um momento e a coisa estaria próxima o bastante para se lançar contra Oi, pegando-o com a velocidade de um lagarto abocanhando uma mosca no ar. O cheiro de peixe podre era forte, nauseante. E o que poderia haver por trás dela? Que outras abominações?

Não era hora de pensar nisso.

Quando Susannah encostou o fêmur nas últimas chamas que lambiam o corpo da lanterna, o osso se transformou em tocha. O fogo brotou de forma mais intensa — bem mais intensa — do que ela havia esperado e, desta vez, o grito da coisa foi cheio de dor, não apenas de espanto. Houve um horrível som borrachoso, como lama sendo espremida numa capa de plástico, e a coisa se precipitou para trás.

— Tu me arranja mais osso — disse ela quando Roland se livrou da lanterna. — E vê se consegue mermo um osso seção! — Riu com seu dito espirituoso (já que ninguém mais ia rir); foi o sujo e debochado cacarejar de Detta.

Sempre ansiando por ar, Roland fez o que ela mandou.

 

Retomaram o avanço pela galeria, Susannah viajando agora de costas, uma posição difícil, mas não impossível de manter. Se saíssem vivos de lá, suas costas doeriam como o diabo nos próximos dias. E vou comemorar cada pontada, ela disse a si mesma. Roland ainda tinha a camiseta da Exposição Comemorativa de Bridgton que Irene Tassenbaum lhe comprara. Passou a camiseta a Susannah. Ela a enrolou na ponta quente do osso, que estendeu o mais que pôde, sempre atenta ao equilíbrio que tinha de manter. Roland não podia correr (Susannah certamente ia cair dos arreios se ele o fizesse), mas mantinha um passo bem rápido, mesmo parando de vez em quando para pegar um osso de perna ou braço que pudessem usar. Oi logo captou a idéia e começou a levar os ossos com a boca para o pistoleiro. A coisa continuava a segui-los. De vez em quando Susannah via de relance um pedaço da pele oleosa, brilhante, e mesmo quando algum recuo da criatura a tirava da luz incerta das tochas, continuavam a ouvir aquelas pisadas líquidas, como passos de um gigante em botas cheias de lodo. Susannah começou a pensar que era o som da cauda. Isto a encheu de um horror ilógico e particular, quase suficientemente poderoso para desarticular sua mente.

Tem uma cauda!, insistia sua mente num semidelírio. Uma cauda que soa como se estivesse cheia de água, geléia ou sangue meio coagulado! Cristo! Meu Deus! Meu Cristo!

Não era apenas a luz que impedia a coisa de atacá-los, Susannah imaginava, mas medo do fogo. A coisa devia ter ficado mais para trás enquanto eles ainda seguiam pela parte da galeria onde os globos brilhantes funcionavam, pensando (se pudesse pensar) que era melhor esperar para pegá-los assim que entrassem no escuro. Susannah desconfiava que, se a criatura soubesse que teriam acesso a fogo, poderia ter fechado alguns ou todos de seus muitos olhos e investido contra eles num ponto onde houvesse globos apagados e a luz fosse mais suave. A coisa agora parecia, ao menos temporariamente, sem sorte, porque era espantoso como os ossos davam boas tochas (a idéia de que estivessem sendo ajudados pelo Feixe em recuperação não passou pela cabeça de Susannah). A única dúvida era saber até que ponto o Sterno ia durar. Susannah conseguia conservar o combustível pois os ossos continuavam queimando sozinhos depois que eram acesos (exceto alguns mais úmidos, que ela atirava para o lado após acender a próxima tocha nas pontas que iam se apagando), mas era realmente preciso continuar a acendê-los e ela já estava no fundo da terceira e última lata. Lamentou amargamente ter jogado uma fora quando a coisa chegou muito perto, mas não sabia o que mais poderia ter feito. Também queria que Roland fosse mais depressa, mas agora imaginava que ele não podia exagerar na velocidade, mesmo que ela estivesse virada para o lado certo e agarrada nele. Quem sabe uma curta arrancada, embora certamente não mais que isso... Podia sentir a musculatura de Roland tremendo embaixo da camisa. Ele estava perto de desabar.

Cinco minutos depois, quando pegavam um punhado do calor enlatado para lambuzar a curvatura de um joelho na ponta de uma tíbia, os dedos de Susannah encostaram no fundo da lata de Sterno. Da escuridão atrás deles veio outra daquelas pancadas molhadas. A cauda da nova amiga, insistia a mente de Susannah. A criatura mantinha o passo. Esperava que ficassem sem combustível e que o mundo ficasse novamente escuro. Aí ela ia avançar.

Aí ela ia comer.

 

Iam precisar de um plano B. Susannah teve certeza disso quase no momento exato em que as pontas dos seus dedos encostaram no fundo da lata. Dez minutos e três tochas mais tarde, Susannah preparou-se para mandar o pistoleiro parar quando — e se — chegassem a outro ossário bastante grande. Poderiam fazer uma fogueira com trapos e ossos e, assim que o fogo estivesse realmente ficando quente e brilhante, sairiam correndo como malucos. Quando — e se — ouvissem a coisa cruzando a barreira de fogo, Roland podia aliviar sua carga e ganhar velocidade ao deixá-la para trás. Não via esta idéia como um gesto de auto-sacrifício, mas como pura lógica — não havia por que a monstruosa centopéia pegar os dois se isto pudesse ser evitado. Além do mais, Susannah não tinha planos para se deixar pegar, por mais que isso parecesse inevitável. Certamente não a pegaria viva. Tinha o revólver de Roland e saberia usá-lo. Cinco tiros para sai Centopéia; e, se a criatura continuasse avançando, um sexto tiro para si própria.

Antes, contudo, que Susannah pudesse dizer qualquer uma dessas coisas, Roland soltou quatro palavras que detiveram todas as palavras dela.

— Luz! — gritou ofegante. — Bem à frente!

Susannah virou a cabeça e a princípio não viu nada, provavelmente por causa da tocha que estava segurando. Então conseguiu: um leve clarão branco.

— Mais globos daqueles? — ela perguntou. — Uma fileira deles ainda funcionando?

— Talvez. Mas acho que não.

Cinco minutos depois ela percebeu que podia ver o chão e as paredes na luz de sua última tocha. O chão estava coberto por uma fina camada de poeira e pedras, que só podiam ter vindo de fora. Susannah jogou os braços para cima, uma das mãos ainda enrolada na camiseta, segurando a ponta de um osso em chamas. Soltou um grito de triunfo. A coisa lá atrás respondeu com um ronco de fúria e frustração que deliciou seu coração, mesmo que tenha salpicado sua pele de arrepios.

— Adeus, querida! — ela gritou. — Adeus, sua puta caolha!

A coisa tornou a roncar e se jogou para a frente. Por um momento, Susannah a viu claramente: uma enorme massa arredondada que, apesar da boca caída, não podia ser chamada de face; o corpo segmentado, arranhado e pingando alguma coisa devido ao contato com as paredes ásperas; um quarteto de apêndices atarracados, como se fossem braços, dois de cada lado. Os apêndices acabavam em garras tenazes. Susannah deu um grito agudo e atirou a tocha contra a coisa, que recuou com outro ronco ensurdecedor.

— Sua mãe nunca lhe ensinou que não é certo torturar os animais? — Roland perguntou, e o tom foi tão seco que Susannah não saberia dizer se ele estava brincando ou não.

Cinco minutos depois, tinham saído.

 

NA AVENIDA DAS TERRAS ÁRIDAS

Saíram por um arco na encosta de um morrote erodido, ao lado de um galpão Quonset, similar em formato mas muito menor que a Estação Experimental Arco 16. O telhado da pequena construção estava coberto de ferrugem. Havia pilhas de ossos espalhados na frente, formando um rude anel. As rochas em volta estavam queimadas e lascadas em vários lugares: um pedregulho do tamanho da casa estilo Queen Anne — onde os Sapadores tinham sido mantidos — estava partido em dois, revelando um interior cheio de minérios cintilantes. O ar estava frio e podiam ouvir o gemido incessante do vento, mas as rochas bloqueavam as rajadas mais fortes e os dois, numa gratidão muda, viraram os rostos para o céu fortemente azul.

— Houve alguma batalha aqui, não foi? — ela perguntou.

— Sim, eu digo que sim. Uma das grandes, muito tempo atrás. — Ele parecia extremamente cansado.

Diante da porta semi-aberta do galpão, havia uma placa caída. Susannah insistiu para ser posta no chão. Assim poderia virar a placa e ler. Roland fez o que ela pediu e sentou-se encostado numa rocha, contemplando o Castelo Discórdia, agora atrás deles. Duas torres se projetavam para o azul, uma inteira, a outra despedaçada pouco abaixo de onde Roland achava que devia ter ficado o topo. Ele se concentrava em recuperar o fôlego. O solo estava muito frio e Roland já sabia que a jornada através das Terras Áridas ia ser difícil.

Enquanto isso, Susannah tinha levantado a placa. Suspendeu-a com uma das mãos e limpou uma velha camada de poeira com a outra. As palavras que descobriu estavam em inglês e lhe deram um forte calafrio:

 

ESTE POSTO DE CONTROLE

ESTÁ FECHADO.

PARA SEMPRE

 

Embaixo, em vermelho, parecendo encará-la, estava o Olho do Rei.

 

Não havia nada no cômodo principal do galpão, salvo pedaços de armas destruídas, e mais esqueletos, nenhum inteiro. No cômodo anexo, no entanto, ela encontrou uma deliciosa surpresa: prateleiras e prateleiras de comida em lata — mais do que conseguiriam carregar — e também mais Sterno (achava que Roland já não faria pouco caso do fogo enlatado e estava certa). Enfiou a cabeça numa porta nos fundos do depósito quase como uma lembrança tardia, não esperando encontrar mais nada além de mais alguns esqueletos, e havia um. O prêmio era o veículo onde a nova e desordenada aglomeração de ossos estava repousando: uma carroça de duas rodas que lembrava um pouco onde sentara no alto do castelo, durante a palestra com Mia. Esta, no entanto, era menor e estava em muito melhor estado. Em vez de madeira, as rodas eram de metal revestido de uma fina camada de alguma coisa sintética. Cabos para as mãos saíam dos lados e ela percebeu que não era absolutamente uma carroça, mas uma espécie de riquixá.

Vá se preparando pra puxar sua beleza, Roland, carne ruim!

Um dos pensamentos tipicamente desagradáveis de Detta Walker, mas mesmo assim conseguiu fazer Susannah dar uma risada.

— O que achou tão engraçado? — Roland perguntou.

— Você vai ver — ela respondeu se esforçando para manter Detta pelo menos fora da voz. No que não foi de todo bem-sucedida. — Tu logo vai vê, pode espera!

 

Havia um pequeno motor atrás do riquixá, mas ambos perceberam de imediato que ele já não funcionava há séculos. No depósito, Roland encontrou algumas ferramentas, incluindo uma chave de grifa. Tinha emperrado com a grifa toda aberta, mas uma aplicação de óleo (vindo de uma lata vermelha e preta com os dizeres 3-EM-l, que Susannah achou muito familiar) colocou-a de novo em operação. Roland usou a chave para tirar o motor de seu suporte e jogá-lo de lado. Enquanto ele trabalhava nisso e Susannah fazia o que papai Mose teria chamado de observação séria, Oi continuava sentado a quarenta passos do arco por onde haviam passado, ostensivamente de guarda contra a coisa que os seguira no escuro.

— Não aliviaremos mais que uns sete quilos — disse Roland, limpando as mãos na calça jeans e contemplando o motor jogado —, mas acho que vou ficar satisfeito de termos nos livrado disto até o fim deste negócio.

— Quando partimos? — ela perguntou.

— Assim que tivermos colocado atrás do carro o máximo de comida em lata que eu possa carregar — disse ele dando um forte suspiro. Seu rosto estava pálido, barbado. Havia olheiras embaixo dos olhos e as novas rugas que marcavam as faces desciam para o queixo pelos cantos da boca. Parecia magro como um palito.

— Roland, você não pode! Não tão cedo! Está esgotado!

Roland fez um gesto para Oi, tão pacientemente sentado, e para a goela de escuridão, quarenta passos atrás.

— Quer se ver assim tão perto deste buraco quando a escuridão chegar?

— Podemos fazer uma fogueira...

— Ela pode ter amigos — disse ele — que não se retraiam com o fogo. — Enquanto estávamos lá embaixo no túnel, aquela coisa não deve ter pensado em nos compartilhar com outros porque não achava que tivesse de compartilhar. Agora pode estar pensando de modo diferente, principalmente se estiver com intenções de vingança.

— Uma coisa daquelas não pode pensar. Certamente não. —Agora, que estavam fora, era mais fácil acreditar nisso. Susannah sabia que talvez mudasse de idéia quando as sombras da noite começassem a se alongar e a se unir.

— Acho que não podemos nos dar ao luxo de correr este risco — disse Roland.

Ela concluiu, com muita relutância, que Roland tinha razão.

 

Felizmente para eles, o primeiro trecho do caminho estreito que serpenteava para as Terras Áridas era quase todo plano. Quando chegaram de fato a um trecho de aclive, Roland não se opôs a que Susannah saltasse e, pulando valentemente, seguisse atrás do que ela apelidara Táxi Ho Fat de Luxo, até o alto da subida. Pouco a pouco, o Castelo Discórdia ia ficando para trás. Roland continuou seguindo depois das rochas terem bloqueado a torre danificada de suas vistas, mas quando a outra também sumiu, ele apontou para um pedregulho protegido ao lado da trilha e disse:

— É aqui que acampamos esta noite, a não ser que você tenha objeções.

Susannah não tinha nenhuma. Tinham trazido um número suficiente de ossos e trapos caqui para fazer uma fogueira, mas Susannah sabia que o combustível não ia durar muito tempo. Os pedaços de fazenda arderiam com uma rapidez de jornal e os ossos iam desaparecer antes que os ponteiros do fabuloso relógio novo de Roland (que ele lhe mostrara com uma espécie de reverência) se unissem à meia-noite. E na noite do dia seguinte provavelmente não haveria nenhuma fogueira e teriam de comer comida fria diretamente das latas. Susannah tinha consciência de que as coisas podiam estar muito piores — avaliava a temperatura durante o dia em mais ou menos sete graus, e eles de fato tinham comida —, mas daria tudo por um suéter, para não falar num par de ceroulas.

— Provavelmente encontraremos mais coisas que possamos usar como combustível à medida que avançarmos — disse ela num tom esperançoso depois da fogueira acesa (os ossos que ardiam deixavam escapar um cheiro muito desagradável e os dois tomaram o cuidado de sentar a favor do vento). — Mato... arbustos... mais ossos... talvez até galhos secos.

— Acho que não — disse ele. — Não deste lado do castelo do Rei Rubro. Nem mesmo erva-do-diabo, que cresce em qualquer porra de lugar no Mundo Médio.

— Não pode saber. Não com certeza. — Ela não podia suportar a idéia de dias e dias de frio contínuo, com os dois vestidos para nada mais desafiador que um dia de primavera no Central Park.

— Acho que ele acabou com esta terra quando escureceu Trovoada — Roland ponderou. — Provavelmente nunca foi grande coisa e ela agora está estéril. Mas se considere abençoada. — Roland estendeu a mão e tocou numa espinha que tinha brotado ao lado do lábio inferior de Susannah. — Há cem anos esta espinha já teria escurecido, se espalhado e comido sua pele até os ossos. Teria entrado no cérebro para enlouquecê-la antes de matá-la.

— Câncer? Radiação?

Roland abanou os ombros como dizendo que não importava.

— Em algum lugar além do castelo do Rei Rubro podemos chegar a savanas e até mesmo a florestas, mas provavelmente a relva vai estar enterrada sob a neve quando chegarmos lá, pois entramos na estação errada. Posso sentir isto no ar, perceber pelo modo como o dia está escurecendo tão depressa.

Ela gemeu, esforçando-se para que fosse um ato cômico, mas o que saiu foi realmente um som de medo e fraqueza, algo tão real que chegou a assustá-la. Oi levantou as orelhas e olhou para eles.

— Não quer me animar um pouquinho, Roland?

— Você precisa saber da verdade — disse ele. — Podemos continuar como estamos por um bom tempo, Susannah, mas não vai ser agradável. Temos comida suficiente naquele carrinho para nos manter por um mês ou mais, se economizarmos... e vamos fazer isso. Quando chegarmos a terras vivas, vamos encontrar animais mesmo se houver neve. E é o que eu quero. E não porque já estaremos famintos por carne fresca, e será assim mesmo, mas porque vamos precisar das peles. Espero que não cheguemos ao ponto de precisar desesperadamente das peles, espero que a coisa não fique assim tão má, mas...

— Mas você acha que pode ficar...

— Sim — disse ele. — Acho que pode. Levando em conta um longo período de tempo, poucas coisas nos tiram tanto a vontade de viver quanto o frio constante... Um frio não suficiente para nos matar, talvez, mas que esteja sempre à nossa volta, roubando nossa energia, nossa determinação e a gordura do nosso corpo, grama por grama. Acho que talvez tenhamos de enfrentar um período muito difícil. Você vai ver.

Ela viu.

 

Poucas coisas nos tiram tanto a vontade de viver quanto o frio constante.

Os dias não eram tão maus. Pelo menos estavam em movimento, se exercitando e mantendo o sangue quente. Mesmo de dia, no entanto, ela passou a temer as áreas abertas que às vezes encontravam, áreas onde o vento uivava por quilômetros de rocha nua, escarpada, e por entre alguma meseta ou torre de rocha. Os rochedos subiam para o impassível céu azul como dedos vermelhos de gigantes de pedra ali enterrados. O vento parecia se tornar cada vez mais cortante à medida que avançavam sob o redemoinho muito branco das nuvens ao longo do Caminho do Feixe. Ela levantava as mãos rachadas para proteger o rosto, detestando quando os dedos, em vez de ficarem completamente dormentes, se convertiam em coisas agitadas cheias de sensações de formigamento. Seus olhos se enchiam d’água e as lágrimas jorravam pelas faces. O rastro das lágrimas nunca congelava; o frio não era assim tão forte, mas era intenso o suficiente para transformar a vida dos dois numa miséria em lenta ascensão. Por que ninharia Susannah não teria vendido sua alma imortal durante aqueles maus dias e horríveis noites! Às vezes ela achava que um simples suéter teria sido capaz de comprá-la; em outras ocasiões, no entanto, pensava: Não, querida, sua auto-estima é demasiado grande, mesmo agora. Estaria disposta a passar uma eternidade no inferno — ou talvez na escuridão todash — em troca de um simples suéter? Certamente não!

Bem, talvez não. Mas se o diabo a tentasse mostrando onde encontrar um par de protetores para as orelhas...

E na realidade faltava tão pouco para se sentirem bem. Era no que Susannah não parava de pensar. Tinham comida e tinham água, pois a intervalos de 25 quilômetros havia bombas que ainda funcionavam e que traziam, das funduras das Terras Áridas, grandes jatos de água fria com gosto de minerais.

Terras Áridas. Teve horas, dias e, agora, semanas para meditar sobre essa expressão. O que tornava as terras áridas? Água envenenada? A água que saía daquela terra não era saborosa, em nenhuma hipótese, mas também não era venenosa. Falta de comida? Tinham comida, embora ela achasse que isso podia se tornar um problema mais tarde, se não achassem mais. Nesse meio-tempo, ia ficando incrivelmente farta de carne picada, para não mencionar passas no café-da-manhã e passas quando queria sobremesa. Tudo aquilo, no entanto, era comida. Combustível para o corpo. O que tornava áridas as Terras Áridas quando se tinha água e comida? Ver o céu ficar primeiro dourado e castanho-avermelhado no oeste; vê-lo se tornar roxo e depois ficar salpicado de estrelas no leste. Contemplava o final de cada dia com crescente temor: imaginava mais uma noite interminável, os três se acotovelando enquanto o vento gemia, abrindo caminho através das rochas, e as estrelas cintilavam. Cruzando extensões intermináveis de gélido purgatório, com os pés e os dedos formigando, Susannah pensava: Se ao menos eu tivesse um suéter e uma par de luvas, podia me sentir bem. Não seria preciso mais que isso, só um suéter e um par de luvas. Porque realmente não faz assim tanto frio.

Exatamente quanto frio fazia depois do cair do sol? Nunca menos de zero grau Celsius, ela sabia, porque a água que punha para Oi beber nunca chegava a congelar. Achava que a temperatura caía para algo em torno dos quatro, cinco graus entre a meia-noite e o amanhecer; em certas noites talvez chegasse a um grau positivo, porque via minúsculas beiradas de gelo ao redor da vasilha em que era servida a comida de Oi.

Começou a se interessar pela cobertura de pêlos de Oi. A princípio disse a si mesma que não passava de um exercício especulativo, um meio de matar o tempo... Exatamente com que nível de calor o metabolismo do trapalhão funcionava e exatamente que quentura aquele casaco (aquele grosso, luxuriantemente grosso, espantosamente grosso casaco) lhe proporcionava? Pouco a pouco ela foi reconhecendo suas sensações pelo que de fato eram: inveja, que murmurava na voz de Detta. O tipão num fica mal dispois que o sol se põe, num é? Num, ele não! Tu num reconhece que podia tira dois pares de luvas daquele pêlo?

Susannah repelia de imediato esses pensamentos, angustiada e horrorizada, se perguntando, e não querendo saber, se quando o espírito humano queria ser asqueroso, frio, radicalmente egoísta, não haveria limite de baixeza.

Aquele frio entrava cada vez mais fundo dentro deles, dia após dia, noite após noite. Era como uma lasca de madeira. Os dois dormiam abraçados com Oi entre eles; depois viravam para que os lados que tivessem estado de frente para a noite virassem para dentro. O verdadeiro sono restaurador jamais durava muito tempo, por mais cansados que estivessem. Quando a lua começou a encher, iluminando a escuridão, passaram duas semanas andando à noite e dormindo durante o dia. Isso foi um pouco melhor.

A única vida selvagem que viram foram grandes pássaros negros voando no horizonte de sudeste ou reunidos numa espécie de convenção no topo das mesetas. Quando a direção do vento era favorável, Roland e Susannah podiam ouvir a conversa deles, agitada e estridente.

— Acha que essas coisas seriam boas para comer? — Susannah perguntou um dia ao pistoleiro. A lua quase se fora e tinham novamente passado a viajar de dia para poderem perceber qualquer perigo potencial (freqüentemente encontravam fendas profundas cruzando a trilha e, certa vez, se depararam com um buraco que parecia não ter fundo).

— O que você acha? — Roland perguntou.

— Acho que provavelmente não seriam boas para comer, mas eu não me importaria de pegar uma para descobrir. — Fez uma pausa. — Do que você acha que se alimentam?

Roland se limitou a sacudir a cabeça. Ali a trilha serpenteava através de um fantástico jardim petrificado. Eram formações rochosas abruptas como agulhas. Um pouco à frente, pelo menos uma centena de pássaros negros, semelhantes a corvos, circundavam uma mesa de topo muito plano ou permaneciam imóveis em suas beiradas, olhando na direção de Roland e de Susannah (como uma bancada de jurados de olhos atentos).

— Talvez devêssemos nos desviar um pouco do caminho — disse ela. — Ver o que podemos descobrir.

— Se sairmos da trilha, talvez nunca mais voltemos a encontrá-la — disse Roland.

— Isso é besteira! Oi poderia...

— Susannah, não quero mais ouvir falar neste assunto! — Roland falou num tom de raiva extrema que ela jamais tinha ouvido. Bravo sim; ela já vira muitas vezes Roland bravo. Mas agora havia uma mesquinhez, um mau humor que a preocupava. E que também a assustava um pouco.

Continuaram em silêncio pela meia hora seguinte, Roland puxando o Taxi Ho Fat de Luxo e Susannah sentada nele. Então o caminho estreito (avenida das Terras Áridas, como ela passara a chamá-lo) se inclinou para cima e ela pulou do rinquixá, emparelhando com Roland e passando a seguir a seu lado. Para fazer isso, rasgara pela metade a camiseta da Exposição Comemorativa que fora de Roland e a enrolara em volta das mãos. Isto a protegia de pedras agudas e também aquecia seus dedos, pelo menos um pouco.

Ele a olhou de relance, depois voltou a se concentrar no caminho à frente. Seu lábio inferior estava um pouco projetado, e Susannah achou que certamente Roland não percebia como essa expressão revelava uma absurda contrariedade — como a de um menino de três anos a quem se disse que ele não ia mais à praia. Roland não percebia e não era ela quem ia lhe dizer. Mais tarde, talvez, quando pudessem relembrar aquele pesadelo e rir dele. Quando não pudessem mais recordar o que, exatamente, havia de tão terrível numa noite em que a temperatura era de cinco graus e você estava deitado insone, tremendo no chão gelado, vendo o riscado do fogo frio de algum meteoro atravessar o céu: Só um suéter, você pensava, é tudo de que eu preciso. Só um suéter e eu seguiria feliz como um periquito na hora da comida. E então você se perguntava se havia suficiente pêlo em Oi para fazer um calção quente para os dois, se matá-lo não seria de fato fazer um favor ao pobre animalzinho; ele andava triste desde que Jake fora para a clareira.

— Susannah — disse Roland —, ainda há pouco fui áspero com você e peço desculpas.

— Não é preciso — disse ela.

— Acho que é. Já temos problemas demais e não precisamos criar outros. Não precisamos de ressentimentos entre nós.

Susannah ficou calada. Ergueu a cabeça para Roland, que olhava agora para sudeste, para os pássaros que se moviam em círculo.

— Tantas gralhas — disse ele.

Ela continuou calada, esperando.

— Quando eu era criança — disse Roland —, as chamávamos às vezes de Melros de Gan. Contei a Eddie e a você como eu e meu amigo Cuthbert jogamos miolo de pão para os pássaros depois que o cozinheiro foi enforcado, não contei?

— Contou.

— Os pássaros eram exatamente como esses, que alguns também chamavam Gralhas do Castelo. Do castelo, mas não Gralhas Reais, porque eram aves carniceiras. Você perguntou do que aquelas gralhas se alimentam. Talvez estejam procurando carniça nos pátios e nos corredores do castelo dele, agora que ele partiu.

— Le Casse Roi Russe ou como quer que o chame.

— É. Não sei dizer com certeza, mas...

Roland não terminou, nem precisava. Depois disso ela ficou de olho nos pássaros e sim, eles pareciam estar indo e vindo do sudeste. O avistamento dos pássaros podia indicar que, afinal, eles estavam avançando. Não era grande coisa, mas foi o suficiente para manter à tona o espírito de Susannah pelo resto daquele dia e pelo meio dos tremores de outra daquelas noites tremendamente frias.

 

Na manhã seguinte, enquanto estavam fazendo outro desjejum frio, e novamente acampados sem fogueira (Roland tinha prometido que naquela noite usariam um pouco do Sterno e teriam comida pelo menos morna), Susannah perguntou se podia dar uma olhada no relógio que Roland ganhara da Tet Corporation. Ele não hesitou em lhe passar o relógio. Susannah examinou demoradamente os três siguls gravados na tampa, especialmente a Torre com a espiral ascendente de janelas. Depois abriu o relógio, olhou em seu interior e falou sem levantar a cabeça:

— Conte de novo o que lhe disseram.

— Só me passaram o que ouviram de um de seus colaboradores de “boa mente”. Um sujeito extremamente talentoso, na avaliação deles, embora eu não me lembre do nome. Segundo essa pessoa, o relógio pode parar quando estivermos perto da Torre Negra ou pode começar a andar para trás.

— Difícil imaginar um Patek Philippe andando para trás — disse ela. — Pelo que estou vendo, são 8hl6 da manhã ou da noite em Nova York. Aqui parece ser umas 6h30 da manhã, mas acho que isso não quer dizer grande coisa. Bem, como poderíamos saber se esta coisinha está andando depressa ou devagar demais?

Roland tinha parado de arrumar as sacolas e estava pensando na pergunta dela:

— Vê o ponteiro bem pequeno aí embaixo? Que gira isolado dos outros?

— É o ponteiro dos segundos.

— Me diga quando ele estiver bem na vertical.

Ela acompanhou o ponteiro dos segundos em sua esfera especial até ele atingir a posição do meio-dia:

— Agora! — disse Susannah.

Roland estava de cócoras, uma posição em que já podia se manter com facilidade, pois a dor nos quadris se fora. Ele fechou os olhos e pôs os braços em volta dos joelhos. Cada respiração que soltava formava uma névoa fina. Susannah tentou não olhar para aquilo; era como se o frio odiado tivesse adquirido força suficiente para se materializar, ainda meio fantasmagórico, mas já visível.

— Roland, o que está fazen...

Ele ergueu a mão, palma levantada, e não abriu os olhos. Ela se calou.

O ponteiro dos segundos avançou ao redor de seu círculo, primeiro para baixo, depois subindo de novo até a posição do meio-dia. Quando chegou lá...

Roland abriu os olhos e disse:

— Passou um minuto. Um verdadeiro minuto, como eu vivo sob o Feixe.

Susannah ficou de queixo caído.

— Pelo amor de Deus, como fez isso?

Roland sacudiu a cabeça. Não sabia. Só sabia de Cort dizendo que tinham sempre de ser capazes de conservar o tempo nas cabeças, porque não se podia confiar em relógios. Nenhum relógio de sol funcionava num dia nublado. Ou à meia-noite, é claro. Certo verão, mandara cada um deles para a Floresta Bebê a oeste do castelo, noite após noite incômoda (era assustador na floresta, pelo menos quando o sujeito se via sozinho, mesmo que, como é óbvio, nenhum deles jamais comentasse isto em voz alta, nem mesmo dentro do grupo), até que cada um conseguisse voltar ao pátio que ficava atrás do Grande Salão num determinado minuto especificado por Cort. Era estranho que aquela coisa do relógio-dentro-da-cabeça pudesse dar certo. E a princípio realmente não dava. Nem depois. Nem depois. A raiva fechava a mão cheia de calos de Cort, a mão baixava e batia, e Cort resmungava: Arre, gusano, de volta para o bosque amanhã à noite! Deve estar gostando daquilo lá! Mas quando o relógio mental começava a bater, não falhava nunca mais. Por algum tempo Roland perdera essa aptidão, exatamente como o mundo perdera seus pontos cardeais, mas agora a coisa estava de volta, o que o deixou muitíssimo satisfeito.

— Você conta cada segundo? — ela perguntou. — Mississippi-um, Mississippi-dois, assim?

Ele balançou negativamente a cabeça.

— Eu simplesmente sei. Sei quando acaba um minuto ou uma hora.

— Engane outra! — ela zombou. — Você chutou!

— Acha que foi um chute ter falado exatamente quando o ponteiro completou a volta?

— Acho que tu teve sorte — disse Detta a observá-lo com um ar malicioso, um olho quase fechado de todo, uma expressão que Roland detestava (mas nunca o confessou, ou Detta não ia parar de tentar irritá-lo com aquilo em todas as ocasiões em que se manifestasse).

— Quer tentar de novo? — ele perguntou.

— Não — disse Susannah, suspirando. Basta sua palavra e vejo que seu relógio está marcando perfeitamente o tempo. O que significa que não estamos perto da Torre Negra. Ainda não.

— Talvez não perto o bastante para afetar o relógio, porém mais perto que nunca — disse Roland calmamente. — Em termos gerais, já estamos quase na sombra da Torre. Acredite, Susannah... eu sei.

— Mas...

De cima de suas cabeças veio um grasnido ao mesmo tempo estridente e estranhamente abafado: Cruu, cruu!, em vez de coó, coó! Susannah ergueu os olhos e viu um dos enormes pássaros negros — do tipo que Roland chamara de Gralhas do Castelo — voando suficientemente baixo para que pudessem ouvir o trabalhoso bater das asas. Pendurado no comprido bico em forma de gancho havia um filamento de alguma coisa verde-amarelada. Para Susannah parecia um pedaço morto de alga marinha. Só que não inteiramente morto.

Ela se virou para Roland, olhando-o com olhos agitados.

Ele abanou a cabeça.

— Erva-do-diabo. Provavelmente trazendo para forrar o ninho de sua parceira. Certamente não para dar de comer aos filhotes. Não essa coisa! Mas a erva-do-diabo sempre aparece por último quando se está entrando nas terras de ninguém e a primeira que aparece quando se está saindo delas, como é o nosso caso. Como finalmente é o nosso caso. Agora preste atenção, Susannah. Quero que escute e gostaria que mantivesse aquela cansativa filha-da-puta da Detta o mais afastada possível de nós. E por favor não me faça perder tempo dizendo que ela está longe, porque posso vê-la dançando a commala dentro de seus olhos.

Susannah pareceu surpresa, depois irritada, à beira de protestar. Então se virou para o lado sem dizer nada. Quando voltou a encará-lo, já não sentia a presença daquela que Roland chamara de “cansativa filha-da-puta”. E Roland não deve mais ter detectado sua presença, porque retomou o que estava dizendo:

— Acho que logo vai parecer que estamos saindo das Terras Áridas, mas seria bom você não confiar muito no que vê... Alguns prédios e talvez uma breve pavimentação na estrada não significarão segurança nem civilização. E não vamos demorar muito para chegar ao castelo chamado Le Casse Roi Russe, o castelo dele. É quase certo que o Rei Rubro já não está lá, mas pode ter nos deixado alguma armadilha. Quero que apenas olhe e escute. Se houver alguma conversa a ser mantida, quero que deixe a coisa por minha conta.

— O que você sabe que eu não sei? — ela perguntou. — O que está escondendo?

— Nada! — disse ele (com o que era, para ele, uma rara veemência). — É apenas um pressentimento, Susannah. Agora estamos perto de nossa meta, não importa o que possa dizer o relógio. Estamos perto de conquistar nosso caminho para a Torre Negra. Mas meu professor, Vannay, costumava dizer que existe apenas uma regra sem exceções: Antes da vitória vem a tentação. E quanto maiores os louros a conquistar, maior a tentação a que é preciso resistir.

Susannah estremeceu e pôs os braços ao redor de si mesma.

— Tudo que eu quero é ser aquecida — disse. — Se ninguém me oferecer uma boa carga de lenha e uma ceroula de flanela para desistir da Torre, acho que resistirei a qualquer tentação.

Roland se lembrou de uma das máximas mais sérias de Cort (Nunca fale do pior em voz alta!), mas conservou a boca fechada, pelo menos com relação a esse assunto. Depois de guardar cuidadosamente o relógio, ele se levantou, pronto a seguir em frente.

Mas Susannah se demorou um pouco.

— Tenho sonhado com o outro — disse ela. Não era preciso dizer de quem estava falando. — Três noites seguidas, como se ele estivesse em nosso rastro. Acha que realmente está?

— Ah, sim — disse Roland. — E acho que está de barriga vazia.

— Faminto, Mordred está faminto — disse ela, palavras que também tinha ouvido no sonho.

Susannah estremeceu de novo.

 

O caminho que estavam seguindo se alargou e naquela tarde as primeiras crostas de pavimentação começaram a aparecer na sua superfície. A trilha se alargou ainda mais e, pouco antes do anoitecer, chegaram a um lugar onde outra trilha (que sem dúvida há muito tempo atrás fora uma estrada) se juntava à primeira. Naquele ponto havia um poste enferrujado que, provavelmente, tinha servido de suporte para uma placa sinalizadora, embora já não houvesse nada nele. No dia seguinte alcançaram o primeiro prédio daquele lado de Fedic, um monte de ruínas com uma placa caída nos destroços de uma varanda. Nos fundos, havia um celeiro desabado. Com a ajuda de Roland, Susannah virou a placa caída e viu a palavra que havia lá: COCHEIRAS.Embaixo o olho vermelho, que os dois conheciam tão bem.

— Acho que o caminho que estávamos seguindo já foi uma trilha de diligências que circulavam entre o Castelo Discórdia e Le Casse Roi Russe — disse ele. — Isso tem lógica.

Começaram a passar por mais construções e a cruzar com outras estradas. Estavam na periferia de alguma aldeia ou vila — talvez até de uma cidade que um dia tivesse crescido ao redor do castelo do Rei Rubro. Mas ao contrário de Lud, muito pouco restava dela. Raminhos de erva-do-diabo formavam moitas sombrias em volta dos restos de alguns prédios, mas nenhuma outra coisa vivia. E o frio pressionava mais que nunca. Na quarta noite, depois de terem visto as gralhas, tentaram acampar entre os destroços de uma construção que não caíra de todo, mas ouviram vozes sussurrando nas sombras. Roland identificou-as (num tom cuja trivialidade maravilhou Susannah) como vozes de fantasmas que assombravam o que ele chamava de “casario” e sugeriu que voltassem para a rua.

— Não acho que pudessem nos causar algum mal, mas poderiam machucar nosso amiguinho — disse Roland alisando Oi, que tinha trepado em seu colo com uma timidez que contrastava muito com seu jeito habitual.

Susannah estava mais do que inclinada a se retirar. A casa onde haviam tentado acampar provocava uns calafrios que ela considerou piores que o frio real. As coisas que tinham ouvido sussurrando lá dentro podiam ser antigas, mas ela achava que continuavam com fome. E assim os três de novo se amontoaram para se aquecerem, agora em plena avenida das Terras Áridas, ao lado do Táxi Ho Fat de Luxo, na esperança de que o amanhecer trouxesse algum ligeiro aumento de temperatura. Chegaram a tentar fazer uma fogueira com as tábuas de umas das casas em ruínas, mas tudo que conseguiram foi desperdiçar dois punhados de Sterno. A gelatina acendeu brevemente nos pedaços da cadeira quebrada que usaram para tentar acender o fogo e se apagou. A madeira simplesmente se recusava a queimar.

— Por quê? — Susannah perguntou ao ver os últimos rolos de fumaça se dissolverem. — Por quê?

— Está espantada, Susannah de Nova York?

— Não, mas quero saber por quê. A madeira é velha demais? Virou pedra ou coisa parecida?

— Ela não queima porque nos odeia — disse Roland, como se aquilo devesse ser óbvio. — Este lugar é dele, mesmo que ele tenha se mudado daqui. Tudo neste lugar nos odeia. Mas... escute, Susannah... agora que estamos numa verdadeira estrada, com bons trechos de pavimentação, o que me diz de voltarmos a caminhar de noite? Não quer experimentar?

— Claro — disse ela. — Qualquer coisa será melhor que ficar deitada no asfalto, tremendo como um gatinho que acabou de ser mergulhado num barril de água.

Foi o que fizeram... no resto daquela primeira noite, por toda a noite seguinte e pelas duas que vieram depois. Ela não parava de pensar: Vou ficar doente, não posso continuar assim sem cair doente, mas isso não aconteceu. Com nenhum dos dois. Houve só aquela espinha no lado esquerdo do lábio inferior de Susannah. A espinha às vezes se abria e deixava escorrer um filete de sangue. Depois tornava a coagular e ganhar uma crosta e cicatrizava. O único verdadeiro mal era o frio constante, roendo cada vez mais fundo no centro dos dois. A lua começava de novo a engordar e, certa noite, Susannah percebeu que fazia quase um mês que tinham deixado Fedic e iniciado aquela jornada para sudeste.

Aos poucos, um povoado deserto foi substituindo os fantásticos jardins de escarpas, mas Susannah tinha levado a sério o que ouvira de Roland: continuavam nas Terras Áridas e, embora agora pudessem ler uma placa que proclamava estarem no CAMINHO DO REI (com o olho, é claro; sempre havia o olho vermelho), ela acreditava que continuavam na avenida das Terras Áridas.

Era um povoado estranho. Susannah não conseguia imaginar que tipo esquisito de gente poderia um dia ter vivido ali. As ruas laterais eram de paralelepípedo. As casas eram estreitas, de tetos íngremes, as portas apertadas e anormalmente altas — como se construídas para aquelas figuras compridas vistas nas curvas distorcidas dos espelhos nos parques de diversão. Eram casas fronteiriças tipo Lovecraft, casas Clark Ashton Smith, casas William Hope Hodgson,* todas apinhadas embaixo de uma meia-lua estilo Lee Brown Coye.** Todas as casas fora do eixo, nos morrotes que se elevavam gradualmente ao longo do caminho que os dois seguiam. Aqui e ali alguma tinha desmoronado e nas ruínas havia sempre uma atmosfera incomodamente orgânica, como se ali houvesse um monte de carne dilacerada e podre em vez de um amontoado de tábuas e vidros antigos. Repetidamente ela se surpreendeu vendo faces sem vida a espreitá-la do meio de alguma trama de tábuas e sombras, faces que pareciam girar sobre os entulhos e acompanhar sua trajetória e a de Roland com terríveis olhos de zumbis. Faziam-na pensar no zelador de Dutch Hill e isso a fazia tremer.

Na quarta noite dos dois no Caminho do Rei, chegaram a um grande cruzamento onde a rua principal fazia uma curva torta e passava a se voltar mais para o sul que para o leste, saindo assim do Caminho do Feixe. À frente, a menos de uma noite de caminhada (ou viagem, se a pessoa estivesse a bordo do Táxi Ho Fat de Luxo), ficava uma colina alta com um enorme castelo negro encravado nela. Na luz incerta da lua, Susannah achou que tinha uma aparência vagamente oriental. As torres ficavam abauladas no alto, como se quisessem ser minaretes. Fantásticas passarelas passavam entre elas, ziguezagueando sobre o pátio na frente do castelo propriamente dito. Algumas dessas passarelas tinham virado ruínas, mas a maioria ainda parecia firme. Ela também pôde ouvir um ronco baixo, mas poderoso. Não vinha de máquinas. Perguntou a Roland o que era.

— Água — disse ele.

— Que tipo de água, tem idéia?

Ele balançou a cabeça numa negativa.

— Mas eu não beberia o que jorrasse perto desse castelo — disse —, nem que estivesse morrendo de sede.

— Este lugar é mau — ela murmurou, referindo-se não apenas ao castelo, mas ao anônimo povoado de casas tortas

(soslaias)

que tinham brotado ao seu redor. — E, Roland... não está deserto.

— Susannah, se sentires espíritos pedindo para entrar na tua cabeça... batendo ou roendo... manda que se afastem.

— Basta isso?

— Não tenho certeza — ele admitiu —, mas ouvi dizer que essas coisas só podem entrar com permissão e que estão sempre armando truques e estratagemas para conseguir.

Ela havia lido Drácula, assim como ouvira a história de Jerusalem’s Lot de Père Callahan, e compreendeu perfeitamente bem o que Roland queria dizer.

Ele a pegou gentilmente pelos ombros e afastou seu olhar do castelo — que afinal talvez não fosse naturalmente negro, ela concluiu, só escurecido pelo tempo. A luz do dia ia dizer. Por ora, o caminho deles estava iluminado por uma lua minguante manchada por farrapos de nuvens.

Várias outras ruas partiam do lugar onde tinham parado, em geral tortuosas como dedos quebrados. Aquela para a qual Roland quis que Susannah olhasse era, no entanto, reta e ela viu que era a primeira rua completamente reta que via desde que o povoado deserto começara a brotar silenciosamente em volta do caminho. Tinha uma pavimentação regular, não de paralelepípedos, e apontava para o sudeste, no sentido do Caminho do Feixe. Sobre ela, nuvens douradas de luar flutuavam como barcos numa procissão.

— Não notaste uma mancha escura no horizonte, querida? — ele murmurou.

— Sim. Uma mancha escura e uma faixa esbranquiçada na frente dela. O que é? Você sabe?

— Tenho uma idéia, mas não tenho certeza — disse Roland. — Vamos descansar um pouco aqui. O amanhecer não está longe e então nós dois veremos o que é. E além disso, não quero chegar perto daquele castelo à noite.

— Se o Rei Rubro se foi e se o Caminho do Feixe fica para este lado... — ela apontou —, por que teríamos de ir até aquele maldito castelo?

— Antes de mais nada, para ter certeza de que ele realmente se foi — disse Roland. — E talvez possamos fazer quem está atrás de nós cair numa armadilha. Tenho minhas dúvidas... ele é esperto... mas há uma chance. Ele é também jovem e às vezes os jovens são imprudentes.

— Você o mataria?

Sob a luz da lua, o sorriso de Roland foi glacial. Implacável.

— Sem um segundo de hesitação — disse ele.

 

De manhã Susannah acordou de um desconfortável cochilo entre os suprimentos espalhados nos fundos do riquixá e viu Roland parado no cruzamento, olhando para o Caminho do Feixe. Ela desceu, movendo-se com grande cuidado porque estava meio entorpecida e não queria cair. Imaginava seus ossos frios e quebradiços dentro da carne, prontos a se estilhaçarem como vidro.

— O que está vendo? — ele perguntou. — Agora que está claro, o que está vendo naquele caminho?

A faixa esbranquiçada era neve, o que não a surpreendeu, dado o fato de serem aquelas terras verdadeiramente altas. O que a surpreendeu — e agradou seu coração mais do que teria achado possível — foram as árvores além da faixa de neve. Grandes abetos. Coisas vivas.

— Oh, Roland, são muito bonitos! — disse. — Mesmo com os pés na neve, são muito bonitos! Não são?

— Sim — disse Roland. Ele a ergueu e a virou para o caminho por onde tinham vindo. Além do desagradável e amontoado subúrbio de casas mortas, ela pôde ver parte das Terras Áridas que tinham atravessado, todos aqueles espinhaços de rochas interrompidos por algum eventual rochedo isolado ou meseta.

— Pense nisso... — ele continuou —, bem além do horizonte para onde está olhando fica Fedic. Atrás de Fedic, Trovoada. Atrás de Trovoada, as Callas e a floresta que marca a fronteira entre o Mundo Médio e o Fim do Mundo. Lud fica ainda mais longe e River Crossing ainda mais, assim como o mar Ocidental e o grande deserto de Mohaine. Em algum lugar além, perdidas em tantas léguas e perdidas também no tempo, estão as sobras do Mundo Interior. Os Baronatos. Gilead. Lugares onde mesmo agora há gente que se lembra do amor e da luz.

— Sim — disse ela sem compreender.

— Esse foi o caminho onde o Rei Rubro resolveu projetar sua petulância — disse Roland. — Ele pretendeu pegar o outro caminho, você deve saber, para chegar à Torre Negra, e até na sua loucura soube preservar as terras por onde passaria. Ele e o bando de seguidores que levava consigo! — Roland a puxou para si e beijou sua testa com uma ternura que a deixou com vontade de chorar. — Nós três visitaremos o castelo dele e surpreenderemos Mordred, se estivermos num tempo de sorte e Mordred numa hora de azar. Depois vamos seguir em frente e entraremos de novo em terra fértil. Então vamos conseguir lenha para as fogueiras e caça para fornecer comida fresca e peles para cobrir nosso corpo. Podes avançar um pouco mais, querida? És capaz?

— Sim — disse ela. — E obrigado, Roland.

Ela o abraçou e olhou para o castelo vermelho. Na luz crescente, reparou que a pedra da qual era feito, embora escurecida pelos anos, já fora da cor de sangue derramado. Isso evocou uma lembrança de sua palestra com Mia no torreão do Castelo Discórdia, a lembrança de ver uma luz rubra pulsando sem parar na distância. Na realidade, quase do ponto onde estavam agora.

Venha para perto de mim, se você viria, Susannah, Mia lhe dissera. Pois o Rei pode fascinar, mesmo a distância.

Mia estava falando daquele clarão vermelho pulsante, mas...

— Sumiu! — Susannah disse a Roland. — A luz vermelha do castelo... Forja do Rei, como disse Mia! Sumiu! Não a vimos uma só vez durante todo este tempo!

— Tem razão — disse Roland e desta vez seu sorriso foi mais caloroso. — Acredito que tenha sumido quando demos fim ao trabalho dos Sapadores. A Forja do Rei se apagou, Susannah! Para sempre, se os deuses forem bons. Isto nós já fizemos, embora muito nos tenha custado.

Naquela tarde os dois chegaram a Le Casse Roi Russe, que afinal não estava inteiramente deserto.

 

O CASTELO DO REI RUBRO

Quando estavam a um quilômetro e meio do castelo e o ronco do rio que não conseguiam ver se tornara muito alto, estandartes e cartazes começaram a aparecer. Os estandartes consistiam em grinaldas vermelhas, brancas e azuis — do tipo que Susannah associava com paradas de datas comemorativas e ruas centrais de cidades do interior no Quatro de Julho. Nas fachadas das casas estreitas, furtivas, e na frente das lojas há muito fechadas e esvaziadas dos porões aos sótãos, aquela decoração era como ruge nas faces de um cadáver em decomposição.

As caras nos cartazes lhe eram todas muito familiares. Richard Nixon e Henry Cabot Lodge fazendo Vs da vitória com sorrisos de vendedores de carros (NIXON/LODGE, PORQUE O TRABALHO NÃO ACABOU, dizia o cartaz). John Kennedy e Lyndon Johnson, cada um com o braço em volta do outro e uma das mãos erguida. Embaixo de seus pés a proclamação corajosa: ESTAMOS NO LIMIAR DE UMA NOVA FRONTEIRA.

— Alguma idéia de quem venceu? — Roland perguntou sobre o ombro. Naquele momento Susannah viajava no Táxi Ho Fat de Luxo, absorvendo a paisagem (e ansiando por um suéter: mesmo um casaquinho de malha lhe cairia muito bem, por Deus).

— Oh, sim — disse ela. Não havia dúvida em sua mente de que aqueles cartazes tinham sido postos ali por sua causa. — Kennedy venceu.

— E se tornou seu dinh?

— Dinh de todos os Estados Unidos. E Johnson pegou o cargo quando Kennedy levou um tiro.

— Baleado? Foi isso mesmo? — Roland parecia interessado.

— Sim. Baleado por um covarde escondido, chamado Oswald.

— E os seus Estados Unidos eram o país mais poderoso do mundo.

— Bem, a União Soviética estava na concorrência pelo cargo quando você me agarrou pelo colarinho e me levou para o Mundo Médio, mas sim, basicamente o mais poderoso.

— E são as próprias pessoas de seu país que escolhem o dinh. Não é um título passado de pai para filho.

— Exatamente — disse ela, um tanto cautelosa. Achou que talvez Roland fosse praguejar contra o sistema democrático. Ou zombar dele.

Mas ele a surpreendeu.

— Para citar Blaine, o Mono, isto engata muito bem.

— Por favor não faça mais referência a ele, Roland. Nem agora, nem nunca, está bem?

— Como quiser — disse Roland, continuando sem uma pausa, mas num tom muito mais baixo. — Conserve meu revólver à mão, é o que espero de você.

— É o que vou fazer — ela concordou de imediato, no mesmo tom baixo. A coisa saiu é... vô... fazê, porque Susannah não quis sequer mover os lábios. Sentia que estavam agora sendo vigiados de dentro dos prédios que se amontoavam naquela ponta do Caminho do Rei. Pareciam vendas e pousadas de uma aldeia medieval (ou de um cenário de cinema representando uma). Não sabia se seriam humanos, robôs ou apenas câmeras de TV ainda funcionando, mas tinha certeza disso até antes de Roland fazer a confirmação. Agora ela só precisava olhar para a cabeça de Oi fazendo tiquetaque de um lado para o outro (como o pêndulo no velho relógio de algum avô) para saber que ele também sentia a coisa.

— E este Kennedy foi um bom dinh? — Roland perguntou, retomando seu tom de voz normal, um tom que soou bastante bem no silêncio. Susannah então percebeu uma coisa agradável: não estava sentindo frio, embora ali, tão perto do rio que roncava, o ar estivesse não apenas úmido, mas gelado. Talvez estivesse concentrada demais no mundo à sua volta para sentir frio. Ao menos por algum tempo.

— Bem, nem todos pensavam assim acerca de Kennedy, certamente não o maluco que deu o tiro, mas eu gostava dele — disse Susannah. — Durante a campanha, ele dizia às pessoas que pretendia mudar as coisas. Provavelmente menos da metade de seus eleitores acreditava, pois a maioria dos políticos mente pela mesma razão que um macaco se balança pela cauda, isto é, porque podem fazê-lo. O fato é que, uma vez eleito, começou a fazer as coisas que tinha prometido. Houve uma confrontação sobre um lugar chamado Cuba e ele foi corajoso como... bem, acho que basta dizer que você teria gostado de andar na companhia dele. Quando algumas pessoas viram que estava falando sério, os filhos-da-puta contrataram o maluco para lhe dar um tiro.

— Oz-walt.

Ela abanou a cabeça, não se preocupando em corrigir a pronúncia de Roland, achando que no fundo nada havia a corrigir. Oz-walt. Oz. A coisa toda dava mais uma volta, não era?

— E Johnson assumiu o comando quando Kennedy caiu.

— Positivo.

— Como foi ele?

— Quando eu parti ainda era cedo demais para saber, mas Johnson era mais o tipo de sujeito que fazia o jogo. “É dando que se recebe”, nós costumávamos dizer. Percebe como é?

— Sim, percebo — disse ele. — E Susannah, acho que chegamos. — Roland fez o Táxi Ho Fat de Luxo parar. Ficou imóvel com os puxadores nos punhos, olhando para Le Casse Roi Russe.

 

Ali terminava o Caminho do Rei. Desembocava num largo pátio de paralelepípedo. Antigamente, sem dúvida, os homens do Rei Rubro vigiavam aquele lugar tão zelosamente quanto os Beefeaters da rainha Elizabeth vigiam o Palácio de Buckingham. Um olho que, apesar dos anos, só tinha desbotado ligeiramente, estava pintado em escarlate nas pedras do calçamento. Do nível do chão somente era possível adivinhar o que era, mas Susannah imaginava que, dos andares superiores do castelo, o olho dominaria toda a vista a noroeste.

A mesma coisa maldita provavelmente está pintada em cada um dos outros pontos cardeais, ela pensou.

Sobre aquele pátio externo, estendido entre duas desertas torres de vigia, havia um estandarte que parecia ter sido recentemente instalado. Gravado nele (também em vermelho, branco e azul) havia o seguinte:

 

BEM-VINDOS, ROLAND E SUSANNAH!

(Oi, também!)

KEEP ON ROCKIN’ IN THE FREE WORLD!*

 

O castelo além do pátio interno (e do rio cercado de grades que ali servia como fosso) era de fato construído com blocos de pedra vermelha que tinham escurecido até um quase negro com o passar do tempo. Torres e torreões brotavam do castelo propriamente dito, assomando de um modo que feria os olhos e parecia desafiar a gravidade. O castelo no interior desses vistosos acréscimos era sóbrio e sem ornamentos, exceto pelo olho fixo gravado no arco central sobre a entrada principal. Duas das passarelas superiores tinham caído, enchendo o pátio maior de pedaços rombudos de pedra, mas seis outras permaneciam no lugar, se entrecruzando em diferentes níveis. Lembravam a Susannah rampas de entradas e saídas num trevo onde várias grandes estradas se encontram. Como acontecia com as casas, as portas e janelas eram singularmente estreitas. Gralhas gordas e pretas estavam empoleiradas nos parapeitos das janelas e enfileiradas ao longo das passarelas, olhando para eles.

Susannah pulou do riquixá com o revólver de Roland enfiado no cinto, facilmente ao alcance da mão. Foi para o lado de Roland, que observava o portão principal daquele lado do fosso. Estava aberto. Além dele, uma ponte de pedra, um tanto abaulada, cruzava o rio. Sob a ponte, a água escura corria pela garganta de pedra de uns 12 metros de largura. A água tinha um cheiro penetrante, desagradável, e quando passava em volta de um certo número de pedras escuras e denteadas, sua espuma era amarela em vez de branca.

— O que fazemos agora? — ela perguntou.

— Para começar, vamos ouvir aqueles sujeitos — disse ele apontando com a cabeça para as portas centrais na extremidade do pátio de pedras do castelo. Os grandes portões estavam entreabertos e dois homens passavam por eles... homens perfeitamente comuns, de modo algum figuras estreitas de alguma casa maluca, como no fundo Susannah esperava ver. Quando os dois chegaram à metade do pátio, apareceu um terceiro homem, que veio correndo atrás deles. Nenhum dos três parecia estar armado e, quando os que iam na frente se aproximaram da ponte, Susannah não ficou exatamente atônita ao perceber que eram gêmeos idênticos. O que ia atrás também parecia ser gêmeo: caucasiano, razoavelmente alto, cabelo preto comprido. Trigêmeos, então: dois para um encontro e um terceiro para dar sorte. Usavam calças jeans, casacos pesados exatamente iguais — dos quais ela ficou instantaneamente (e dolorosamente) com inveja. Os dois que iam na frente carregavam grandes cestos de vime com alças de couro.

— Ponha óculos e barbas neles e se pareceriam exatamente com Stephen King, como ele era da primeira vez que eu e Eddie o encontramos — disse Roland em voz baixa.

— Sério? Isto é verdade?

— Sim. Está lembrada do que lhe disse?

— Que deixasse a conversa com você.

— E que antes da vitória vinha a tentação. Lembre-se disso também.

— Vou me lembrar. Está com medo deles, Roland?

— Acho que há pouco a temer desses três. Mas esteja preparada para atirar.

— Não parecem estar armados. — Naturalmente havia aqueles cestos de vime; poderiam estar escondendo muita coisa.

— Mesmo assim, fique preparada.

— Pode contar — disse ela.

 

Mesmo com o ronco do rio correndo sob a ponte, puderam ouvir o firme toque-toque dos saltos das botas dos desconhecidos. Os dois que levavam os cestos avançaram até a metade da ponte e pararam em seu ponto mais alto. Ali pousaram seus fardos, um cesto ao lado do outro. O terceiro homem parou na margem do lado do castelo, as mãos vazias sobriamente entrelaçadas na frente do corpo. Agora Susannah podia sentir o cheiro da carne cozida que, sem a menor dúvida, havia num dos cestos. Não porco de colo. Rosbife e frango, provavelmente tudo misturado, pelo cheiro, um aroma celestial. A boca começou a salivar.

— Salve, Roland de Gilead! — disse o homem de cabelo preto à direita deles. — Salve, Susannah de Nova York! Salve, Oi do Mundo Médio! Longos dias e belas noites!

— Um é feio e os outros são piores — comentou seu companheiro.

— Não liguem para ele — disse o sósia de Stephen King do lado direito.

— Não liguem para ele — zombou o outro, contorcendo o rosto numa careta propositalmente feia, mas engraçada.

— Tenham vocês tudo isso em dobro — disse Roland, respondendo ao mais educado dos dois. Arrastando o salto da bota, fez uma mesura ligeira com a perna estendida. Susannah cumprimentou à maneira da Calla, esticando uma saia imaginária. Oi permanecia sentado junto ao pé esquerdo de Roland, contemplando os dois homens idênticos parados na ponte.

— Somos uffis — disse o homem à direita. — Sabe quem são os uffis, Roland?

— Sim — disse ele e então, virando a cabeça para Susannah: — É uma velha palavra... na realidade, ancestral. Ele está dizendo que são trocadores de forma. — A isto Roland acrescentou num tom muito mais baixo que, sem dúvida, não poderia ser ouvido sobre o ronco do rio: — Não faço muita fé.

— Mas é verdade — disse o sujeito à direita, com uma voz bastante simpática.

— Mentirosos vêem os da sua laia por todo lado — observou o da esquerda, fazendo um cínico olho azul dar uma girada nas órbitas. Só um dos olhos. Susannah achava que nunca tinha visto alguém mexer com um olho só.

O que estava atrás não disse nada. Continuou parado, observando, as mãos entrelaçadas na frente do corpo.

— Podemos assumir a forma que quisermos — continuou o que estava à direita —, mas nossas ordens foram para que tomássemos a forma de alguém que reconhecessem e em quem pudessem confiar.

— Confio tanto em sai King quanto poderia confiar em uma cobra — Roland comentou. — King é criador de caso como um bode comedor de calças.

— Fizemos o melhor que pudemos — disse o Stephen King da direita. — Podíamos ter assumido a forma de Eddie Dean, mas achamos que seria doloroso demais para a senhora.

— A “senhora” tem cara de quem foderia muito bem até com uma corda, se conseguisse deixá-la dura no meio das coxas — interveio o Stephen King da esquerda, olhando de soslaio.

— Quem pediu sua opinião? — disse o que estava atrás, o que tinha as mãos entrelaçadas. Foi o tom suave do árbitro de uma disputa, mas Susannah quase esperou que ele sentenciasse o Boca Suja a cinco minutos num banco de reserva. Isso a teria dado alegria, pois ouvir as brincadeiras de King Boca Suja lhe doía o coração; a lembrança de Eddie.

Roland ignorou todo aquele aparte.

— Vocês três poderiam assumir três formas diferentes? — ele perguntou ao King Boca Limpa. Susannah tinha ouvido nitidamente o pistoleiro engolir em seco antes de fazer a pergunta e soube que ele não era o único se esforçando para não babar ante os cheiros do cesto de comida. — Poderia um de vocês virar sai King, outro sai Kennedy e outro sai Nixon, por exemplo?

— Uma boa pergunta — disse o King Boca Limpa à direita.

— Uma pergunta estúpida — disse o King Boca Suja à esquerda. — Nada a ver com o que nos interessa! Vamos lá. Bem, será que algum dia houve algum herói de história de ação que fosse intelectual?

— O príncipe Hamlet da Dinamarca — disse o árbitro King em voz baixa atrás deles. — Mas como é o único que vem de imediato à cabeça, talvez não seja mais que a exceção comprovando a regra.

Boca Limpa e Boca Suja viraram-se para olhá-lo. Quando ficou claro que havia acabado, voltaram a se concentrar em Roland e Susannah.

— Como na realidade somos um único ser — disse o Boca Limpa —, e de aptidões relativamente limitadas, a resposta é não. Podemos todos ser Kennedy ou sermos todos Nixon, mas...

— Geléia ontem, geléia amanhã, mas hoje de jeito nenhum — disse Susannah. Não sabia por que aquilo estalara em sua cabeça (menos ainda por que precisava dizê-lo em voz alta), mas o árbitro King disse: “Exatamente!”, e dispensou-lhe um aceno de vá-para-a-frente-da-turma.

— Vamos logo, pelo amor de Deus! — disse o King Boca Suja à esquerda. — Mal posso olhar para esses traidores do Senhor do Vermelho sem vomitar.

— Muito bem — disse seu parceiro. — Mesmo que chamá-los de traidores pareça um tanto injusto, pelo menos quando acrescentamos ka à equação. Como os nomes que damos a nós mesmos seriam impronunciáveis por vocês...

— Como o rival do Superman, sr. Mxyzptlk — disse o Boca Suja.

— ...podem usar os que o Los’ usava. Ele sendo o mesmo que vocês chamam de Rei Rubro. Eu sou ego, grosso modo, que atende pelo nome de Feemalo. Este rapaz do meu lado é o Fumalo. Ele é nosso id.

— Então o que está ali atrás deve ser o Fimalo — disse Susannah, pronunciando Fai-ma-lo. — Quem é ele, o superego?

— Oh, brilhante! — Fumalo exclamou. — Acho até que pode dizer Freud, para que não faça uma rima rude! — Ele se inclinou para a frente e dispensou a ela seu olhar malicioso de astúcia. — Mas consegue soletrá-lo, sua gralha negra de Nova York, de perninha curta?

— Não lhe dê importância — disse Feemalo. — Ele sempre se sente ameaçado pelas mulheres.

— Vocês são o ego, id e superego de Stephen King? — Susannah perguntou.

— Que boa pergunta! — disse Feemalo num tom aprovador.

— Que pergunta estúpida! — disse Fumalo, desaprovadoramente. — Seus pais não tiveram nenhum filho que vingou, gralha?

— Não vai querer entrar num jogo de ofensas comigo — disse Susannah. — Posso trazer Detta Walker para fazê-lo calar.

O árbitro King disse:

— A única coisa que tenho a ver com sai King é que me apropriei por um tempo breve de algumas de suas características físicas. E entendo que um tempo breve é realmente todo o tempo que vocês têm. Não sinto nenhumaatração particular por sua causa e não pretendo me afastar de meu caminho para ajudá-los... pelo menos não pretendo me afastar demais. Mas compreendo que vocês dois são amplamente responsáveis pela partida do Los’. Como ele me manteve prisioneiro e me tratou como pouco mais que um bobo da corte... ou até seu macaquinho de estimação... não lamento absolutamente vê-lo partir. Eu os ajudaria se pudesse... pelo menos um pouco... mas não, não vou me desviar de meu caminho. “Vamos deixar isto claro”, como Eddie Dean, seu amigo falecido, poderia ter dito.

Susannah tentou não se sentir muito mexida quando ouviu isto, mas a coisa doeu. Doeu.

Como antes, Feemalo e Fumalo tinham se virado para Fimalo quando ele falou. Agora se viravam para Roland e Susannah.

— A honestidade é a melhor política — disse Feemalo, com um olhar devoto. — Cervantes.

— Os mentirosos prosperam — disse Fumalo, com um sorriso cínico. — Anônimo.

— Às vezes — disse Feemalo — Los’ nos dividia em seis, ou mesmo sete, e pela única razão de que isso doía. Contudo, assim como qualquer outra pessoa, não podíamos deixar o castelo, pois ele instalara uma barreira intransponível ao redor dos muros.

— Achamos que mataria a todos nós antes de partir — disse Fumalo e sem nada de seu cinismo anterior (tipo vá-se-foder). Seu rosto estampava a expressão vaga, introspectiva, de alguém que escapou de um desastre por uma questão de centímetros.

Feemalo:

— Ele realmente matou muitos. Decapitou seu ministro de Estado.

Fumalo:

— Que tinha sífilis em estágio avançado e tanta noção do que estava acontecendo com ele quanto um porco na baia de um matadouro, que pena.

Feemalo:

— Colocou em fila o pessoal da cozinha e as mulheres que trabalhavam lá...

Fumalo:

— Todos foram muito leais a ele, de fato muito leais...

Feemalo:

— E as fez tomar veneno na frente dele. Embora pudesse tê-las matado durante o sono, se quisesse...

Fumalo:

— Bastaria ter desejado que isso acontecesse.

Feemalo:

— Mas preferiu fazê-las tomar veneno. Veneno de rato. Elas engoliram grandes bocados marrons do veneno e morreram em convulsões bem na frente dele, que permaneceu sentado em seu trono...

Fumalo:

— Que é feito de crânios, vocês sabem...

Feemalo:

— Ficou lá sentado com o cotovelo no joelho e o punho no queixo como um homem imerso em pensamentos, talvez sobre como tornar o círculo quadrado ou encontrar o Último Número Primo enquanto as via se contorcer, vomitar e entrar em convulsões no piso da Câmara de Audiências.

Fumalo (com um toque de vibração que Susannah considerou ao mesmo tempo lascivo e absolutamente desagradável):

— Algumas morreram implorando por água. Era um veneno que deixava a pessoa sedenta, ié! E achamos que nós seríamos os próximos!

Aqui, Feemalo deixou transparecer, se não raiva, pelo menos um certo ressentimento.

— Você me deixe contar o resto e concluir o assunto para que eles possam ir adiante ou voltar, como bem entenderem?

— Mandão como sempre — disse Fumalo, mergulhando num silêncio irritado. Sobre eles, as Gralhas do Castelo disputavam posições e olhavam para baixo com olhos muito brilhantes. Sem dúvida esperando fazer uma refeição com os que não saiam daqui, Susannah pensou.

— Ele tinha seis das bolas de cristal que sobraram — disse Feemalo. — E quando vocês ainda estavam em Calla Bryn Sturgis, viu uma coisa nelas que acabou por deixá-lo louco. Não temos certeza do que era, pois não chegamos a ver, mas temos a impressão de que foi a vitória de vocês não apenas em Calla, mas a que houve depois, no Algul Siento. Se é isso, foi o fim de sua trama para derrubar a Torre de longe, quebrando os Feixes.

— É claro que foi isso — disse Fimalo em voz baixa e de novo os dois Stephen Kings que estavam na ponte se viraram para olhá-lo. — Não pode ter sido outra coisa. O que o colocou à beira da loucura foi, antes de mais nada, duas compulsões conflitantes na mente dele: derrubar a Torre e chegar lá antes de você, Roland. E subir até o topo para destruí-la... ou para comandá-la. Não tenho certeza se algum dia ele se preocupou realmente em compreendê-lo... Tratava-se apenas de impedir que você, Roland, conseguisse algo que você queria, e daí arrebatar a coisa de você. Com isso ele se preocuparia muito!

— Sem dúvida você gostaria de saber como ele delirou pensando em você e amaldiçoou seu nome, semanas antes de despedaçar os preciosos brinquedos — disse Fumalo. — Como ele chegou a temer você, na medida que ele pode temer!

— Não este — Feemalo rebateu, e com um ar um tanto sombrio, pensou Susannah. — Não vai agradar este aqui, de jeito nenhum. Ele fica tão indiferente quando ganha como quando perde.

— Quando o Rei Vermelho — disse Fimalo — viu que o Algul ia cair, entendeu que os Feixes que ainda funcionavam iam se regenerar. Pior! Viu que os dois Feixes restantes acabariam recriando os outros Feixes, costurando-os quilômetro por quilômetro e roda por roda. Se isso acontecer, então, por fim...

Roland abanava a cabeça. Em seus olhos Susannah viu uma expressão inteiramente nova: surpresa feliz. Talvez no fundo ele de fato saiba vencer, ela pensou.

— Então, por fim, o que seguiu adiante pode retornar de novo — disse o pistoleiro. — Talvez até o Mundo Médio e o Mundo Interior possam voltar. — Fez uma pausa. — Talvez até Gilead. A luz. O Branco.

— Aqui não há talvez — disse Fimalo. — Pois o ka é uma roda e se uma roda não for quebrada ela sempre roda. A não ser que o Rei Rubro consiga se tornar Senhor da Torre ou seu Carrasco Supremo, tudo que foi acabará voltando.

— Loucura — disse Fumalo. — E loucura destrutiva, sem dúvida. Mas claro que o Grande Vermelho sempre foi o lado louco do Gan. — Ele dispensou a Susannah um sorriso feio e disse: — Isso é Frude, dona Gralha!

Feemalo recomeçou:

— Bem, depois de destroçar as bolas de cristal e concluir a matança...

— É isto que queríamos que compreendessem — disse Fumalo. — Se, é claro, suas cabeças não forem duras demais para pegar o sentido da coisa.

— Depois que terminou essas tarefas, ele matou a si próprio — disse Fimalo e de novo os outros dois se viraram para ele. Era como se fossem incapazes de agir de outra maneira.

— É verdade que fez isso com uma colher? — Roland perguntou. — Pois eu e meus amigos crescemos ouvindo essa profecia. Era dita com uns versos malucos.

— Sim, de fato — disse Fimalo. — Achei que cortaria a garganta com ela, pois a beira da concha da colher tinha sido afiada... como certos pratos, você sabe... afinal, o ka é uma roda e sempre volta ao ponto de partida. Mas ele a engoliu. Engoliu, pode imaginar? Grandes jorros de sangue saíram de sua boca. Rios de sangue! Então ele montou no maior dos cavalos cinzentos... o que chama de Nis, nome da terra de sono e de sonhos... e cavalgou para sudeste, para as terras brancas de Empática com uma pequena bagagem à sua frente na sela. — Ele sorriu. — Há grandes estoques de comida aqui, mas ele não precisa disso, como talvez vocês já saibam. Los’ não come mais.

— Espere um minuto, dê um tempo — disse Susannah formando com as mãos uma espécie de T (um gesto que pegara de Eddie, embora sem perceber). — Se ele engoliu uma colher afiada e se cortou além de se sufocar...

— Dona Gralha começa a ver a luz! — Fumalo exultou, atirando as mãos para o céu.

— ...como poderia ter feito alguma coisa?

— Los’ não pode morrer — disse Feemalo, como se explicasse alguma obviedade a uma criancinha de três anos. — E vocês...

— Suas pobres bostas... — interveio seu parceiro com bem-humorada perversidade.

— Não podem matar um homem que já está morto — Fimalo concluiu. — Como estava, Roland, seus revólveres poderiam ter acabado com ele...

Roland abanava a cabeça.

— Passados de pai para filho — disse —, os canos feitos de Excalibur, a grande espada de Arthur Eld. Sim, isso também fazia parte da profecia. Como ele, é claro, devia saber.

— Mas agora ele está a salvo deles. Pôs-se além deles. É um Não-Morto.

— Temos razões para crer que ele foi desviado para uma sacada da Torre — disse Roland. — Não-Morto ou não, ele nunca poderia chegar ao topo sem algum sigul do Eld; certamente se sabia da profecia, também sabia disso.

Fimalo sorria sombriamente.

— É — disse ele —, mas assim como Horácio segurou a ponte numa história contada no mundo de Susannah, Los’, o Rei Rubro, segura agora a Torre. Encontrou o caminho para sua entrada, mas não pode subir até o topo, isto é verdade. Contudo, enquanto a Torre for de fato mantida em seu poder, você também não poderá subir.

— Parece, afinal, que o velho Rei Vermelho não estava inteiramente maluco — disse Feemalo.

— Piradão, como porra! — Fumalo acrescentou. Bateu gravemente na testa... e desatou a rir.

— Mas se você continuar — disse Fimalo —, poderá dar-lhe os siguls do Eld, os siguls de que ele precisa para tomar posse daquilo que agora o mantém preso.

— Primeiro ele teria de tomá-los de mim — disse Roland. — De nós. — Falava sem ênfase, como se estivesse fazendo um simples comentário sobre o tempo.

— É verdade — Fimalo concordou —, mas pense, Roland. Você não pode matá-lo com os siguls, mas é possível que ele consiga pegá-los de você, pois tem a mente maliciosa e com um longo alcance. Se ele conseguir fazer isso... Bem! Imagine um rei morto e louco no alto da Torre Negra com um par de grandes e antigos revólveres na mão! Poderia tudo comandar de lá, mas acho que, devido à insanidade, ia preferir derrubar a Torre. O que talvez fosse capaz de fazer, com Feixes ou sem Feixes.

Fimalo examinou-os gravemente de seu lugar na extremidade da ponte.

— E então — disse ele — seria tudo escuridão.

 

Houve uma pausa durante a qual os que estavam reunidos naquele lugar refletiram sobre a idéia. Então Feemalo falou, quase num tom de desculpas:

— O custo pode não ser tão grande se a pessoa só levar em conta este mundo, que poderíamos chamar de mundo da Torre-chave, já que a Torre Negra existe aqui não como uma rosa, como acontece em muitos outros, nem como um tigre imortal, como acontece em alguns, nem como o protocão Azarão, como acontece em pelo menos um...

— Um cachorro chamado Azarão? — Susannah perguntou, perplexa. — Foi isso mesmo que disse?

— Dona, a senhora tem a imaginação de um pau meio carbonizado — comentou Fumalo num tom de profundo desagrado.

Feemalo não lhe deu atenção.

— Neste mundo, a Torre é ela própria. No mundo onde você, Roland, tem andado ultimamente, a maioria das espécies ainda se reproduz e muitas vidas tem doçura. Ainda existe energia e esperança. Você se arriscaria a destruir tal mundo junto com este aqui e os outros mundos que sai King tocou com sua imaginação e dos quais ele bebeu? Porque não foi ele quem os criou, você sabe. Dar uma olhada no umbigo do Gan não transforma um sujeito em Gan, embora muitas pessoas criativas pareçam achar que sim. Poria tudo isso em risco?

— Só estamos perguntando, não tentando convencê-lo — disse Fimalo. — Mas a verdade é nua e crua: agora isto é apenas sua missão, pistoleiro. É tudo que é. Nada o está mandando para mais longe. Assim que ultrapassar este castelo e entrar nas Terras Brancas, você e seus amigos passam além do próprio ka. E não precisam fazer isto. Tudo que vocês têm passado foi posto em movimento para que pudessem salvar os Feixes e, ao salvá-los, assegurar a eterna existência da Torre, o eixo sobre o qual toda a vida e todos os mundos giram. Isso está feito. Se voltarem agora, o Rei morto ficará encurralado para sempre onde está.

— Isto é o que você diz! — Susannah interveio e com uma rudeza digna de sai Fumalo.

— Esteja você falando a verdade ou não — disse Roland —, vou continuar seguindo adiante. Pois eu prometi.

— A quem deu sua palavra? — Fimalo explodiu. Pela primeira vez desde que pararáa no lado da ponte que ficava junto ao castelo, ele desentrelaçava as mãos e as usava para tirar o cabelo da testa. O gesto foi discreto, mas expressou sua frustração com absoluta eloqüência. — Pois essa promessa não está em nenhuma profecia; tenha certeza disso!

— Não precisa estar. Foi uma promessa que fiz por iniciativa própria e que pretendo manter.

— Este homem está tão louco quanto Los’, o Vermelho — disse Fumalo, não sem respeito.

— Tudo bem — disse Fimalo. Ele suspirou e mais uma vez entrelaçou as mãos diante de si. — Fiz o que eu podia fazer. — Fez sinal para seus outros dois terços, que o olhavam atentamente.

Feemalo e Fumalo caíram com um joelho no chão: Feemalo à sua direita, Fumalo à esquerda. Levantaram as tampas dos cestos de vime que tinham trazido e as inclinaram para a frente (por um instante Susannah se lembrou de como os figurantes dos programas The Price is Right e Concentration* mostravam os prêmios ao auditório).

Dentro de um dos cestos havia comida: frango e porco assados, pedações de carne de boi, fatias rosadas de presunto. Susannah sentiu o estômago se expandir ante aquela visão, como se estivesse se preparando para engolir aquilo tudo. Só com grande esforço ela conseguiu conter o gemido sensual que subia pela garganta. A boca se inundara de saliva e teve de enxugá-la com a mão. Iam perceber o que estava fazendo, não havia como disfarçar, mas ela poderia ao menos roubar-lhes a satisfação de ver a evidência física de sua fome brilhando nos lábios e no queixo. Oi latiu, mas se manteve sentado ao lado do salto da bota esquerda do pistoleiro.

Dentro do outro cesto havia grandes suéteres tricotados à mão, um verde e um vermelho: cores do Natal.

— Há também ceroulas, sobretudos, botinas forradas e luvas — disse Feemalo. — Pois Empática é mortalmente fria nesta época do ano e terão meses de caminhada pela frente.

— Deixamos para vocês na periferia da cidade um trenó leve de alumínio — disse Fimalo. — Você, Roland, pode jogá-lo na traseira daquele reboque e depois usá-lo para conduzir a senhora e sua bagagem quando chegarem às terras nevadas.

— Sem dúvida estão se perguntando por que fazemos tudo isto, já que não concordamos com a jornada de vocês — disse Feemalo. — O fato é que estamos agradecidos por nossa sobrevivência...

— Realmente achamos que nossa hora havia chegado — Fumalo interrompeu. — “O quarterback está frito”, Eddie poderia ter dito.

E também isto a feriu... mas não tanto quanto olhar para aquela comida. Não tanto quanto imaginar como seria enfiar um daqueles bojudos suéteres pela cabeça e deixar a parte de baixo descer até o meio das coxas.

— Tomei a decisão de procurar convencê-los a encerrar sua empreitada — disse Fimalo, o único que falava sempre na primeira pessoa do singular, como Susannah já havia reparado. — Se não conseguisse, lhes daria os suprimentos de que iriam precisar para seguir adiante.

— Não pode matá-lo! — Fumalo gritou. — Será que não vê isso, sua burralda máquina de matar, será que não vê? O máximo que vai conseguir é acabar como um joguete ansioso nas mãos de um morto! Como pode ser tão estú...

— Cale a boca — Fimalo disse suavemente e Fumalo calou de imediato. — Ele já tomou sua decisão.

— O que vocês vão fazer? — Roland perguntou. — Quero dizer, assim que formos embora?

Os três abanaram os ombros em perfeita sincronia, mas foi Fimalo — o suposto superego do uffi — quem respondeu.

— Vamos esperar aqui — disse. — Ver se a matriz da criação vive ou morre. Nesse meio-tempo, tentar fazer Le Casse reviver, tentar restituir-lhe um pouco de sua antiga glória. Aqui já foi um bonito lugar. Pode voltar a ser. Bem, acho que agora nossa palestra está concluída. Peguem estes presentes com nossos agradecimentos e votos de boa sorte.

— Ressentidos votos de boa sorte — disse Fumalo, mas acabou sorrindo. Saindo dele, aquele sorriso era ao mesmo tempo encantador e inesperado.

Susannah quase se projetou para a frente. Por mais faminta que estivesse por comida fresca (por carne fresca), era pelos suéteres e pela roupa de baixo de inverno que mais ansiava. Embora os suprimentos já fossem poucos (e certamente iam faltar antes que acabassem de atravessar o lugar que o uffi chamava de Empática), ainda havia latas de feijão, atum e carne seca picada rolando de um lado para o outro na traseira do Táxi Ho Fat de Luxo. E naquele momento estavam de barriga cheia. Era o frio que a estava matando. Pelo menos era a sensação que tinha; o frio abrindo caminho por dentro em direção a seu coração, um doloroso centímetro de cada vez.

Duas coisas a detiveram. Uma foi a percepção de que não seria preciso mais que um único passo à frente para destruir o pouco que restava de sua força de vontade; ia correr para o centro da ponte, cair de joelhos diante daquele cesto de roupas e começar a remexer dentro dele como uma predatória dona de casa numa liquidação de final de inverno. Dado este primeiro passo, nada mais seria capaz de detê-la. E perder sua força de vontade não seria o pior; ela também perderia o auto-respeito que Odetta Holmes tinha trabalhado durante toda a vida para conseguir, apesar daquele sabotador emboscado em sua mente, de que ela mal suspeitava.

Mesmo estes pensamentos, no entanto, não teriam sido suficientes para segurá-la. O que conseguiu a façanha foi uma lembrança do dia em que avistara o corvo com a coisa verde no bico, o corvo que grasnia cruu, cruu! em vez de cóó! cóó! Só erva-do-diabo, era verdade, mas mesmo assim coisa verde. Coisa viva. Foi no dia em que Roland a mandou segurar a língua, no dia em que lhe disse... como era mesmo? Antes da vitória vem a tentação. Ela nunca poderia imaginar que a maior tentação de sua vida seria um suéter de pescador, tricotado com uma linha tosca, mas...

De repente ela entendeu o que o pistoleiro devia ter percebido de imediato ou pouco depois da aparição dos três Stephen Kings: toda aquela coisa era falsa. Não sabia exatamente o que havia nos cestos de vime, mas duvidava como o diabo que fosse comida e roupas.

Seu íntimo se tranqüilizou.

— Então? — Fimalo perguntou pacientemente. — Vai vir pegar os presentes que lhe ofereço? Tem de vir se quiser pegá-los, pois não posso ultrapassar o meio da ponte. Logo na frente de Feemalo e Fumalo fica a linha-limite do Rei. Você e ela podem passar de um lado para o outro. Nós não podemos.

— Agradecemos, sai, por sua gentileza — disse Roland —, mas vamos ter de recusar. Temos comida e a roupa está esperando por nós um pouco mais adiante, ainda andando sobre quatro patas. Além disso, não está fazendo assim tanto frio.

— Não — Susannah concordou, sorrindo para as três faces idênticas... e identicamente abaladas. — Realmente não está.

— É hora de irmos — disse Roland, fazendo outra mesura com a perna esticada.

— Dizemos obrigada, dizemos fiquem em paz — Susannah interveio, de novo esticando a saia invisível.

Ela e Roland começaram a se afastar. E foi então que Feemalo e Fumalo, ainda de joelhos, puseram as mãos dentro dos cestos abertos.

Susannah não precisou de instruções de Roland, sequer de uma palavra gritada. Puxou o revólver do cinto e atirou no da esquerda — Fumalo — no momento em que ele tirava do cesto um revólver prateado de cano longo. O cano estava envolto numa espécie de lenço de pescoço. Com a mesma cega rapidez de sempre, Roland tirou o revólver do coldre e deu um único tiro. As gralhas esvoaçaram, piando atemorizadas, por um momento deixando negro o céu azul. Feemalo, também segurando um revólver prateado, desabou devagar para a frente sobre o cesto de comida com uma moribunda expressão de surpresa no rosto e um buraco de bala bem no meio da testa.

 

Fimalo permaneceu onde estava, na extremidade da ponte. Suas mãos continuavam entrelaçadas na frente do corpo, mas ele já não se parecia com Stephen King. Revelava agora o rosto comprido e amarelado de um velho morrendo devagar, em agonia. O pouco cabelo que tinha era de um grisalho encardido, muito diferente do anterior, luxuriantemente preto. O crânio era um jardim descascado de eczema. As bochechas, o queixo e a testa estavam repletos de espinhas e feridas abertas, algumas dando pus e outras sangrando.

— Quem, na realidade, é você? — Roland perguntou.

— Um humo, exatamente como você — disse Fimalo num tom resignado. Rando Pensativo era meu nome durante os anos em que fui ministro de Estado do Rei Rubro. Antes disso eu era simplesmente Austin Cornwell, do interior do estado de Nova York. Não no Mundo-chave, lamento dizer, mas em outro. Já administrei o shopping Niágara e antes disso tive uma carreira bem-sucedida em publicidade. Talvez se interessem em saber que trabalhei com as contas da Nozz-A-La e do Takuro Spirit.

Susannah ignorou aquele currículo bizarro e inesperado.

— Então ele não decapitou seu rapaz de confiança — disse ela. — E quanto aos três Stephen Kings?

— Só um feitiço — disse o velho. — Vai me matar? Vá em frente. Só peço que faça o trabalho depressa. Como pode ver, não estou bem.

— Será que algo do que nos disse era verdade? — Susannah perguntou.

Os olhos velhos a encararam com um espanto lacrimoso.

— Tudo era — disse ele avançando para a ponte onde havia dois outros velhos caídos (seus antigos assistentes, ela não tinha dúvida). — Tudo, sem dúvida, menos uma mentira... Aqui. — Virou os cestos para mostrar o que eles continham.

Susannah deu um grito involuntário de horror. Oi ficou de pé num segundo, parando numa atitude protetora diante dela com as pernas curtas abertas e a cabeça baixa.

— Está tudo bem — disse ela, mas a voz ainda tremia. — Só levei... um susto.

O cesto de vime que parecia conter assados de todo tipo, recentemente preparados, estava de fato repleto de membros humanos em decomposição. Tudo, afinal, porco de colo. E em mau estado, mesmo considerando o que era. Quase toda preta e azulada, a carne estava repleta de vermes.

E não havia roupas no outro cesto. O que Fimalo derramara fora um brilhante emaranhado de serpentes moribundas. Os olhos de vidro pareciam já embaçados, as línguas bifurcadas se deslocavam apaticamente para fora e para dentro, várias já tinham parado de se mexer.

— Você as teria refrescado maravilhosamente, se as tivesse apertado contra a pele — disse Fimalo num tom de pesar.

— Realmente não achava que isso fosse acontecer, certo? — Roland perguntou.

— Não — admitiu o velho. Ele se sentou na ponte dando um suspiro cansado. Uma das cobras tentou rastejar para seu colo e ele a empurrou com um gesto simultaneamente distraído e impaciente. — Mas eu tinha recebido ordens, por isso agi assim.

Susannah contemplava os cadáveres dos outros dois com horrorizado fascínio. Feemalo e Fumalo, agora apenas uma dupla de velhos mortos, apodreciam com uma rapidez não natural. As peles finas como pergaminho estavam se desinchando até o osso e destilando vagarosos regatos de pus. Sob o olhar de Susannah, as órbitas do crânio de Feemalo emergiram como periscópios geminados, dando momentaneamente ao cadáver uma expressão de choque. Algumas cobras rastejaram na direção daqueles corpos em decomposição e passaram a se contorcer em volta deles. Outras foram para o cesto de membros cobertos de vermes, procurando as áreas sem dúvida mais quentes no fundo do monte. A decomposição devia trazer seu próprio deleite e ela achava que talvez se visse tentada a regalar-se com a podridão. Se fosse uma cobra, é claro.

— Vai me matar? — Fimalo perguntou.

— Não — disse Roland —, pois suas obrigações ainda não estão cumpridas. Você tem outro vindo atrás de mim.

Fimalo ergueu os olhos, um brilho de interesse nos olhos velhos e remelentos.

— Seu filho?

— Meu e também de seu amo. Pode lhe dar um recado meu durante a palestra que vão ter?

— Se estiver vivo, com certeza.

— Diga-lhe que sou velho e esperto, enquanto ele é apenas jovem. Diga-lhe que, se recuar, poderá viver ainda algum tempo e cultuar seus sonhos de vingança... embora eu não saiba o que lhe fiz para ele querer se vingar de mim. Diga que se ele continuar avançando, vou matá-lo como pretendo matar seu Pai Vermelho.

— Ou você ouviu e não prestou atenção ou prestou atenção e não acreditou — disse Fimalo. Agora que sua artimanha tinha sido desmascarada (nada tão glamoroso quanto um uffi, Susannah pensou; não passasse de um publicitário reciclado do interior do estado de Nova York), ele parecia indizivelmente exausto. — Não pode matar uma criatura que já se matou. Nem pode entrar na Torre Negra, pois só existe uma entrada e a sacada onde Los’ está aprisionado a domina. E ele tem uma boa quantidade de armas. Só os pomos de ouro bastariam para localizá-los e liquidá-los antes que cruzassem a metade do caminho que passa pelo campo de rosas.

— Essa é nossa preocupação — disse Roland, e Susannah achou que poucas vezes ele tivera oportunidade de falar algo tão verdadeiro: ela também estava preocupada com isso. — Quanto a você, vai dar meu recado a Mordred, quando se encontrar com ele?

Fimalo fez um gesto de concordância, mas Roland sacudiu a cabeça.

— Não abane a mão para mim, homem... Quero ouvir de sua boca.

— Vou dar seu recado — disse Fimalo, acrescentando: — Se me encontrar com ele e palestrarmos.

— Vão se encontrar. Bons dias para ti. — Roland começou a se afastar, mas Susannah agarrou seu braço e ele virou.

— Jure que tudo que nos contou era verdade — ela exigiu do feio ancião na ponte de pedras arredondadas, sentado sob o olhar frio das gralhas que estavam voltando para seus lugares anteriores. Na realidade Susannah não tinha a menor idéia do que pretendia ouvir ou comprovar. Saberia identificar as mentiras daquele homem, mesmo agora? Provavelmente não. Mas ainda assim ela pressionava: — Jure em nome de seu pai e também pela face dele!

O velho levantou a mão direita, palma estendida, e Susannah viu que havia feridas abertas.

—Juro em nome de Andrew John Cornwell, de Tioga Springs, Nova York. E também por sua face. O Rei deste castelo realmente enlouqueceu e realmente quebrou as bolas de cristal do mago, que tinham caído em suas mãos. Ele realmente forçou os empregados a tomar veneno e realmente os viu morrer. — Sacudiu a mão que tinha levantado na direção do cesto de membros decepados. — Onde acha que peguei isso, Passarinha Negra? Na seção de membros humanos do Carrefour?

Susannah não entendeu a referência e ficou calada.

— Ele foi realmente para a Torre Negra. É como o cachorro numa velha fábula, querendo ter certeza de que se ele não pode tirar mais nada do feno, mais ninguém teria. Eu nem sequer menti sobre o que havia nestes cestos, não de verdade. Mostrei o conteúdo e deixei que vocês tirassem suas próprias conclusões. — O sorriso cínico de prazer fez Susannah se perguntar se não deveria lembrar-lhe que pelo menos Roland havia descoberto o truque. Ela concluiu que não valia a pena.

— Só lhes disse uma verdadeira mentira — continuou o outrora chamado Austin Cornwell. — Que ele me mandara decapitar.

— Está satisfeita, Susannah? — Roland perguntou.

— Sim — disse ela, embora no fundo não estivesse. — Vamos.

— Sobe no Táxi Ho Fat, então, e não vira as costas para ele quando subires. Ele é traiçoeiro.

— Não me diga! — disse Susannah, agindo como lhe era pedido.

— Longos dias e belas noites — disse o ex-sai Cornwell sentado entre as cobras que se contorciam, moribundas. — Que o Homem Jesus cuide de vocês e de todo o seu famoso clã. Que vocês se mostrem sensatos antes que seja tarde demais para a sensatez e que fiquem longe da Torre Negra!

 

Voltaram até a bifurcação onde tinham se afastado do Caminho do Feixe para ir até o castelo do Rei Rubro e ali Roland parou para descansar alguns minutos. Uma brisa muito leve tinha começado e o estandarte do castelo se agitou. Susannah viu como já parecia velho e desbotado. As imagens de Nixon, Lodge, Kennedy e Johnson haviam sido desfiguradas por um grafite que também parecia antigo. Todo o encantamento — pelo menos o precário encantamento que o Rei Rubro fora capaz de empregar — havia acabado.

Máscaras fora, máscaras fora, ela pensou cansada. Foi uma festa esplêndida, mas agora acabou... E a Morte Rubra estende seu domínio sobre tudo.

Tocou na espinha ao lado da boca e examinou a ponta do dedo. Esperava ver sangue, pus ou as duas coisas. Não havia nada, o que foi um alívio.

— Até que ponto acredita no que ouviu? — Susannah perguntou.

— Acho que acredito em tudo — Roland respondeu.

— Então ele está lá em cima. Na Torre.

— Não dentro. Encurralado do lado de fora. — Ele sorriu. — Há uma grande diferença.

— Há mesmo? E o que você vai fazer com ele?

— Não sei.

— Acha que se ele conseguisse se apossar dos revólveres que você tem, poderia voltar a entrar na Torre e subir até o topo?

— Acho que sim. — A resposta foi imediata.

— Que providência vai tomar a esse respeito?

— Não vou deixá-lo pegar nenhum dos meus revólveres. — Falava como se isto fosse óbvio e Susannah achou que talvez fosse mesmo. Ela estava sempre se esquecendo de como Roland era terrivelmente concreto. Com relação a tudo.

— Você tinha pensado em capturar Mordred lá no castelo.

— Tinha — Roland concordou —, mas em virtude do que encontramos lá... e do que ouvimos... achei melhor seguir adiante. Mais simples. Olhe!

Ele pegou o relógio e abriu a tampa. Os dois observaram o ponteiro dos segundos cumprindo seu curso solitário. Mas na mesma velocidade de antes? Susannah não sabia com certeza, mas achava que não. Olhou para Roland com as sobrancelhas erguidas.

— A maioria do tempo continua certo — disse Roland —, mas já não todo o tempo. Acho que o ponteiro está perdendo pelo menos um segundo a cada seis ou sete revoluções. Talvez isto dê de três a seis minutos por dia.

— Não é muito.

— Não — Roland admitiu, guardando o relógio —, mas é um início. Que Mordred faça como quiser. A Torre Negra fica logo depois das terras brancas e pretendo alcançá-la.

Susannah podia entender a impaciência. Só esperava que ela não o deixasse descuidado. Se isso acontecesse, a juventude de Mordred Deschain talvez não tivesse mais importância. Se Roland cometesse o erro certo no momento errado, ela, ele e Oi talvez nem chegassem realmente a ver a Torre Negra.

Seus pensamentos foram interrompidos por um grande rumor atrás deles. Não inteiramente perdido nele veio um som humano, que começou como um uivo e rapidamente se transformou num grito estridente. Embora a distância abrandasse o grito, o horror e a dor que havia nele eram demasiado claros. Por fim, misericordiosamente, ele se extinguiu.

— O ministro de Estado do Rei Rubro entrou na clareira — Roland disse.

Susannah olhou para trás, na direção do castelo. Pôde ver os parapeitos vermelho-negros, mas só isso. Ficou satisfeita por não conseguir ver mais nada.

Mordred está faminto, ela pensou. Seu coração batia rápido e ela achou que nunca estivera tão assustada em toda a sua vida — nem quando estava deitada ao lado de Mia enquanto ela dava à luz; nem mesmo na escuridão sob o Castelo Discórdia.

Mordred está faminto... mas agora será alimentado.

 

O velho que começara a vida como Austin Cornwell e que a acabara como Rando Pensativo continuava no final da ponte do castelo. As gralhas esperavam, talvez sentindo que a agitação do dia ainda não havia terminado. Pensativo estava suficientemente aquecido graças ao casaco pesado trançado que usava e tinha se servido de um bom gole de conhaque antes de ir ao encontro de Roland e da Passarinha Negra sua amiga. Bem... talvez não tivesse sido exatamente assim. Talvez Latão e Compson (também conhecidos como Feemalo e Fumalo) é que tivessem tomado o bom gole do melhor conhaque do Rei. Talvez o ex-ministro de Estado do Los’ tivesse dado um rápido fim à última terça parte da garrafa.

Fosse qual fosse a causa, o velho adormeceu, e a chegada de Mordred Calcanhar Vermelho não o despertou. Sentava com o queixo no peito e um filete de baba caindo dos lábios franzidos, como um bebê que tivesse dormido em sua cadeirinha. Os pássaros nos parapeitos e passarelas tinham se agrupado mais densamente que nunca. Certamente teriam esvoaçado com a aproximação do jovem Príncipe, mas Mordred olhou para eles e fez um gesto: a mão direita aberta se agitou bruscamente pelo rosto, depois se fechou num punho e fez um movimento para baixo. Esperem, aquilo dizia.

Mordred parou no lado da ponte que dava para a cidade, cheirando cuidadosamente a carne decomposta. O cheiro fora suficientemente sedutor para trazê-lo até ali, mesmo sabendo que Roland e Susannah tinham continuado a seguir o Caminho do Feixe. Que eles e seu trapalhão de estimação retomassem com vontade o caminho, era o pensamento do menino. Não estava na hora de fechar neles. Mais tarde, talvez. Mais tarde seu Papai Branco baixaria a guarda, nem que só por um momento, e então Mordred ia pegá-lo.

Esperava que para o jantar, mas cairia quase tão bem no almoço ou mesmo no café-da-manhã.

Da última vez que vimos este sujeito, ele era apenas

(neném amado neném cabeça neném me traga aqui sua cesta)

um bebê. A criatura parada na frente dos portões do castelo do Rei Rubro tinha se transformado num menino que aparentava uns nove anos. Não era um garoto bonito; não o tipo que alguém (exceto sua mãe lunática) pudesse achar atraente. Isto tinha menos relação com sua complicada herança genética que com a inanição. A face sob os cachos secos de cabelo preto era pálida e magra demais. A carne sob os olhos azuis de artilheiro era de um roxo desbotado, inchado. A pele era um esvoaçar de feridas e manchas. Como a espinha ao lado da boca de Susannah, isto podia ter sido o resultado da jornada de Mordred por terras envenenadas, mas certamente a dieta do garoto tinha algo a ver com a coisa. Mordred podia ter estocado comida em lata antes de deixar o posto de controle além da boca do túnel (Roland e Susannah tinham deixado uma sobra de muitas latas), mas não pensara nisso. Como Roland imaginava, ele ainda estava aprendendo os truques de sobrevivência. A única coisa que Mordred trouxera do galpão do posto de controle fora um casacão forrado de ferroviário, já meio podre, e um par de botas que ainda dava para usar. Encontrar as botas fora sem dúvida muita sorte, embora boa parte delas tivesse se despedaçado durante a viagem.

Se fosse humo — ou mesmo uma criatura mais banal — Mordred teria morrido nas Terras Áridas, casacão ou não, botas ou não. Como era quem era, chamara as gralhas quando estava com fome e as gralhas não tinham opção além de obedecer. Os pássaros eram um prato desagradável e os insetos que mandava sair de baixo das rochas ressecadas (e ainda um tanto radioativas) eram ainda piores, mas conseguira engoli-los. Um dia tocara a mente de uma fuinha e ordenara que ela se aproximasse. Era uma coisa esquálida, miserável, ela mesma quase morta de fome, mas depois dos pássaros e dos insetos saboreou-a como o mais gostoso filé do mundo. Mordred se transformara em seu outro eu e prendera a fuinha naquele abraço de criatura com sete pernas, sugando e devorando até não sobrar mais que um pedaço retorcido de lombo peludo. Teria ficado feliz em comer mais uma dúzia de fuinhas, mas não apareceu mais nenhuma.

E agora havia todo um cesto de comida na sua frente. Uma comida bastante passada, sem dúvida, mas e daí? Até os vermes seriam capazes de alimentá-lo. Um alimento mais que suficiente para conduzi-lo até os bosques nevados a sudeste do castelo, que estariam pululando de caça.

Mas antes de tudo havia o velho.

— Rando — ele chamou. — Rando Pensativo.

O velho estremeceu, resmungou e abriu os olhos. Por um momento contemplou o garoto esquálido parado na sua frente com uma total falta de compreensão. Então os olhos remelentos se encheram de pavor.

— Mordred, filho de Los’ — disse ele, tentando sorrir. — Salve, você que será Rei!

Tentou vergar uma perna para saudá-lo, mas percebeu que estava sentado e aquilo não daria certo. Ao tentar ficar de pé, caiu para trás com um baque que divertiu o garoto (fora difícil achar alguma coisa com que se divertir nas Terras Áridas e Mordred agora aproveitava). Então o velho tentou de novo. Desta vez conseguiu se levantar.

— Só estou vendo os corpos dos dois sujeitos que parecem ter morrido mais velhos ainda que você — Mordred comentou, olhando ao redor com uma ênfase exagerada. — Certamente não estou vendo nenhum pistoleiro morto, nem do tipo perna-comprida nem do tipo perna-curta.

— Você diz a verdade... e eu digo obrigado, é claro que eu digo... mas posso explicar isto, sai, e com bastante facilidade...

— Ah, mas espere! Segure tua explicação, por melhor que ela seja, como eu tenho certeza que é! Deixe-me adivinhar! Aposto que as cobras amarraram o pistoleiro e sua senhora, cobras compridas e grossas, e você os levou para a segurança do castelo!

— Meu Senhor...

— Bem — Mordred continuou —, deve ter havido uma fabulosa quantidade de cobras na cesta, pois ainda estou vendo muitas por aí. Algumas parecem estar comendo o que deveria ser o meu jantar. — Embora os membros decepados e semi-apodrecidos da cesta pudessem ainda lhe servir como jantar... pelo menos como parte de um jantar, Mordred dispensou ao velho um olhar de reprovação. — Então os pistoleiros de fato escaparam?

O olhar de pavor do velho desapareceu, sendo substituído por um ar de resignação. Mordred começou realmente a ficar furioso. O que ele queria ver na cara do velho sai Pensativo não era pavor, e muito menos resignação, mas esperança. Algo que Mordred pudesse ter o prazer de arrebatar. Sua forma oscilou. Por um momento o velho viu a escuridão sem forma emboscada por baixo dele e logo as inúmeras pernas. Então a coisa parou e o rapaz tornou a aparecer. Ao menos por algum tempo.

Que eu não morra gritando, pensou o outrora Austin Cornwell. Deuses, tantos quantos possam existir, concedam-me pelo menos isto! Que eu não morra gritando nos braços dessa monstruosidade.

— Você sabe o que aconteceu aqui, jovem sai. Está na minha mente e, portanto também na sua. Por que não pega o que está naquele cesto... as cobras, também, se gostar delas... e deixa um velho com o resto de vida que possa lhe restar? Ao menos pelo seu pai se não por você mesmo. Eu o servi bem, mesmo no final. Podia ter simplesmente me escondido no castelo deixando-os seguir seu caminho. Mas não fiz isso. Eu tentei.

— Você não tinha opção — Mordred respondeu de sua extremidade da ponte. Não sabia se estava ou não dizendo a verdade. Nem se importava. Carne morta era apenas alimento. Carne fresca e sangue ainda impregnado do último sopro de um homem... ah, isso era outra coisa. Era uma iguaria! — Ele não me deixou nenhum recado?

— Sim, você sabe que deixou.

— Diga.

— Ora, por que simplesmente não o extrai da minha mente?

De novo aquela vaga, momentânea transformação. Por um momento não havia nem um garoto nem uma aranha do tamanho de um garoto parado na extremidade da ponte, mas algo que era as duas coisas ao mesmo tempo. A boca de sai Pensativo ficou seca, embora a baba que havia escapado durante seu cochilo ainda brilhasse no queixo. Então o Mordred em versão garoto tornou a se solidificar dentro do casaco amarrotado e puído.

— Porque me agrada ouvir o recado do buraco ensopado de cuspe de sua boca velha — ele disse a Pensativo.

O velho lambeu os lábios.

— Tudo bem; se isto lhe faz bem. Ele disse que é experiente, enquanto você é jovem demais, sem uma gota sequer de esperteza. Disse que se não ficar para trás onde deve ficar, vai arrancar sua cabeça dos ombros. Disse que até gostaria de mostrá-la a seu Pai Vermelho, lá encurralado na sua sacada.

Foi sem dúvida um pouco mais do que Roland realmente dissera (como nós já sabemos, pois estávamos lá) e mais do que suficiente para Mordred.

Contudo não suficiente para Rando Pensativo. Talvez dez dias antes Mordred ainda tivesse atendido ao objetivo do velho, que era incitar o garoto a matá-lo rapidamente. Mas Mordred amadurecia muito depressa e agora já podia resistir ao impulso de disparar pela ponte até o pátio do castelo, chegando lá sob outra forma, e extrair a cabeça de Rando Pensativo do corpo com o golpe de uma perna peluda.

Em vez disso ele ergueu a cabeça e encarou as gralhas — centenas delas agora —, e elas também o encararam, atentas como alunos numa sala de aula. O rapaz fez um gesto de voar com os braços e apontou para o velho. O ar ficou de imediato cheio de uma crescente agitação de asas. O ministro do Rei se virou para fugir, mas antes que conseguisse dar um único passo, as gralhas desceram sobre ele numa nuvem negra. Ele levantou os braços para proteger o rosto quando elas atacaram sua cabeça e seus ombros, começando a transformá-lo num espantalho. De fato o gesto instintivo foi inútil; muitas pousaram nos braços erguidos e o próprio peso das aves forçou o homem a baixá-los. Bicos mordiam e cutucavam o rosto do homem, tirando sangue através de pequenos pontos, como os de uma tatuagem.

— Não! — Mordred gritou. — Deixem a pele para mim... mas podem ficar com os olhos.

Foi então, quando as gralhas famintas rasgaram os olhos de Rando Pensativo das órbitas, que o ex-ministro de Estado soltou o uivo que Roland e Susannah ouviram ao se aproximarem da borda do Castelo-cidadela. As aves que não conseguiam um lugar para se empoleirar ficavam pairando em volta de Rando numa nuvem viva de trovoada. De repente as gralhas o pegaram pelos calcanhares e o carregaram para o avatar, que tinha agora avançado para o centro da ponte e ali se agachado. As botas e o casacão puído de ferroviário tinham sido provisoriamente largados no lado da ponte que dava para a cidade. O que esperava por sai Pensativo, aquilo que ficou de pé nas patas traseiras e começou a sacudir as dianteiras, aquilo que tinha a marca vermelha ainda bem visível na barriga cabeluda, era o Dan-Tete, o Pequeno Rei Rubro.

O homem flutuou para seu destino, gritando agudamente e com os olhos tirados. Quando estendeu os braços com gestos que tentavam repelir o ataque, as patas da frente da aranha pegaram uma das mãos e a puxaram para o rijo buraco da boca, onde ela foi comida com um barulho de bala sendo mordida e triturada.

Doce!

 

Naquela noite, passada a última das casas estranhamente estreitas, estranhamente desagradáveis do povoado, Roland parou na frente do que provavelmente fora uma pequena fazenda. Ficou observando a ruína do prédio principal e fungando:

— Que foi, Roland? Que foi?

— Não sente o cheiro da madeira deste lugar, Susannah?

Ela cheirou.

— Sinto — respondeu sem ênfase. — E daí?

Roland se virou sorrindo para ela.

— Se podemos sentir o cheiro da madeira, ela pode ser queimada.

Isto se mostrou verdadeiro. Tiveram alguma dificuldade para acender o fogo, mesmo recorrendo a todos os macetes de trilha e meia lata de Sterno, mas no final conseguiram. Susannah sentou-se o mais perto possível da fogueira, virando-se a intervalos regulares para aquecer por igual os dois lados do corpo, feliz com o suor que brotou primeiro do rosto e dos seios, depois das costas. Já esquecera como era sentir-se quente e continuou jogando lenha nas chamas até transformar a fogueira num fogaréu barulhento. Aos olhos dos animais nas planícies ao longo do restaurado Caminho do Feixe, o fogo deve ter parecido um cometa caído na Terra, ainda chamejante. Oi sentou-se ao lado de Susannah, orelhas empinadas, contemplando o fogo como se hipnotizado. Ela continuou esperando que Roland fizesse alguma objeção (que a mandasse parar de alimentar a porra da coisa, que a mandasse deixar o fogo diminuir, pelo amor de Deus!), mas ele não fez. Continuou sentado com os revólveres desmontados na sua frente, lubrificando as peças. Quando o fogo ficou quente, ele recuou um pouco, a sombra dançando uma descarnada e ondulante commala à luz das chamas.

— Consegue suportar mais uma noite ou duas de frio? — ele finalmente perguntou.

Susannah abanou afirmativamente a cabeça.

— Se for preciso.

— Assim que começarmos a subir para a região das neves, ficará realmente frio — disse ele. — E embora eu não possa prometer que só passaremos uma noite sem fogo, não acredito que tenhamos de suportar mais de duas.

— Acha que será mais fácil pegarmos alguma caça se não acendermos uma fogueira, certo?

Roland assentiu e começou a montar os revólveres.

— E acha que no máximo depois de amanhã teremos caça?

— Acho.

— Como pode saber?

Ele balançou a cabeça depois de refletir um pouco.

— Não sei dizer... mas posso.

— Pode sentir o cheiro?

— Não.

— Tocar as mentes dos animais?

— Também não.

— Roland — disse ela mudando um pouco de assunto —, e se Mordred mandar as aves nos atacarem hoje à noite?

Ele sorriu e apontou para a chamas. Embaixo delas, uma camada cada vez mais incandescente de brasas vermelhas crescia e ondulava como respiração de dragão.

— Elas não chegarão perto de tua fogueira.

— E amanhã?

— Amanhã vamos estar mais longe de Le Casse Roi Russe do que Mordred conseguiria convencê-las a ir.

— E como pode saber disso?

Ele balançou a cabeça mais uma vez, embora achasse saber a resposta à pergunta. O que sabia vinha da Torre. Podia sentir a pulsação da Torre brotando em sua cabeça. Como haste verde saindo de uma semente seca. Era, no entanto, cedo demais para comentar isso com Susannah.

— Procure se deitar, Susannah — disse ele. — Procure descansar. Fico de guarda até meia-noite, depois a acordo.

— Então agora fica sempre alguém de guarda — disse ela.

Roland assentiu.

— Ele está nos vigiando?

Roland não tinha certeza, mas achava que sim. Imaginava um garoto muito magro (ainda que agora com uma barriga se projetando na frente do corpo, pois havia comido bem), um garoto nu dentro dos farrapos de um casaco encardido e rasgado. Passando a noite no interior de uma daquelas casas absurdamente espremidas, talvez num terceiro andar, onde a mira devia ser boa. Ele senta numa janela com os joelhos puxados contra o peito em busca de calor, a cicatriz no lado do corpo talvez doendo um pouco, por causa do frio penetrante. Estaria olhando para o clarão da fogueira, com inveja. Também com inveja da companhia que um fazia ao outro. Sua meia-mãe e seu Pai Branco, ambos de costas para ele.

— É provável que esteja — disse Roland.

Ela começou a se deitar, mas parou. Pôs a mão na ferida ao lado da boca.

— Isto não é uma espinha, Roland.

— Não? — Ele se sentou em silêncio, olhando para ela.

— Tive uma amiga na faculdade que pegou uma dessas — disse Susannah. — A coisa sangrava, depois parava, depois quase cicatrizava, depois escurecia e sangrava um pouco mais. Por fim ela foi a um médico... de um tipo especial, chamado dermatologista... e ele disse que era um angioma. Um tumor de sangue. O médico deu a ela uma injeção de novocaína e removeu o tumor com um bisturi. Disse que tinha sido bom ela ter tratado logo da coisa, porque a cada dia que passava as raízes daquilo chegavam mais fundo. Por fim, disse ele, as raízes iam avançar pelo céu da boca e talvez chegassem até o nariz.

Roland ficou em silêncio, à espera. O termo que ela usara retinia em sua cabeça: tumor de sangue. Parecia cunhado para descrever o próprio Rei Rubro. Mordred também.

— Nóis num tem nuvocaína, bebê-botas — disse Detta Walker — e eu sei disso, claro! Mas se a coisa fica braba ah!, vou te manda pega uma faca e corta essa feia bosteira de mim. Tu pode fazê mais rápido que aquele trapalhá pega uma mosca do ar. Tá me entendendo? Entendeu o espírito da coisa?

— Sim. Agora se deite. Descanse um pouco.

Ela se deitou. Cinco minutos depois de aparentemente adormecida, Detta Walker abriu seus olhos e cravou em Roland

(tô te vendo, branquelo)

um olhar feroz. Roland abanou a cabeça e ela tornou a fechar os olhos. Daí a um minuto ou dois, eles se abriram pela segunda vez. Agora era Susannah quem o fitava e, desta vez, os olhos não se abriam mais, depois de fechados.

Ele havia prometido acordá-la à meia-noite; deixou no entanto que dormisse mais duas horas, sabendo que, sob o calor da fogueira, o corpo de Susannah estava realmente repousando, pelo menos por aquela noite. No momento em que seu fino e novo relógio marcou uma hora da madrugada, ele finalmente sentiu o olhar do perseguidor dos dois se afastar. Como já acontecera com inúmeras crianças antes dele, Mordred perdera a luta para se manter acordado durante os períodos mais escuros da noite. Onde quer que seu quarto ficasse, a desprezada e solitária criança dormia agora com seu farrapo de casaco enrolado no corpo e a cabeça apoiada nos braços. E será que a boca, ainda suja do sangue de sai Pensativo, estaria se franzindo e tremendo, como se estivesse sonhando com o mamilo que só conheceu uma vez e com o leite que jamais tomou?

Roland não sabia. Nem estava particularmente interessado em saber. Sentia-se apenas satisfeito por estar acordado na madrugada, de vez em quando remexendo o fogo agora cada vez mais baixo. Logo ia se extinguir, ele pensou. A madeira era mais nova que aquela com a qual as casas da cidade tinham sido construídas, mas nem por isso deixava de ser antiga, endurecida quase a ponto de se transformar em pedra.

No dia seguinte veriam árvores. As primeiras desde Calla Bryn Sturgis, se colocarmos de lado as que cresciam sob o sol artificial de Algul Siento e as que ele vira no mundo de Stephen King. Aquilo seria bom. Naquele momento, porém, a escuridão continuava firme. Além do círculo do fogo que ia morrendo, um vento gemia, tirando o cabelo de Roland da testa e trazendo um cheiro leve e doce de neve. Ele inclinou a cabeça para trás e viu o relógio das estrelas avançando para a escuridão.

 

PELES

Tiveram de ficar três noites sem fogo, em vez de uma ou duas. Na última houve as 12 horas mais longas, mais miseráveis da vida de Susannah. É pior que a noite em que Eddie morreu?, ela se perguntou a certa altura. Está realmente dizendo que isto é pior que ficar deitada sozinha num daqueles dormitórios, sabendo que era assim que você se deitaria daí por diante? Pior que lavar o rosto, as mãos e os pés dele? Lavá-los para serem sepultados?

Sim. Aquilo era pior. Odiava descobrir isso e jamais o admitiria diante de outra pessoa, mas o frio fundo, interminável daquela última noite foi muito pior! Experimentou o pavor ante cada sopro leve de brisa vindo das terras nevadas a leste e ao sul. Foi ao mesmo tempo terrível e estranhamente humilhante perceber com que facilidade o desconforto físico podia assumir o controle, expandir-se como gás venenoso, avançar pelo solo até dominar completamente a área. Dor? Perda? O que eram essas coisas quando você podia sentir frio mesmo andando, um frio que partia dos dedos dos pés e das mãos, que rastejava até a porra de seu nariz e depois continuava avançando. Para onde? Para o cérebro, faça-me o favor! E para o coração. Sob o tacão de um frio desses, dor e perda eram só palavras. Não, nem mesmo isso. Eram apenas sons. Tão sem significado quanto a atitude de continuar ali sentada, tremendo sob as estrelas, esperando uma manhã que nunca ia chegar.

O que piorava as coisas era saber que por todo lado havia fogueiras em potencial, pois tinham atingido a região fértil que Roland chamava “a quase neve”. Uma série de encostas compridas e verdes (embora a maioria da relva estivesse esbranquiçada, morta) e pequenos vales com esparsas fileiras de árvores e riachos já obstruídos pelo gelo. Mais cedo, à luz do dia, Roland apontara vários buracos no gelo, dizendo que tinham sido feitos por cervos. Ele também mostrou vários montes de excrementos de animais. A luz do dia ver aquilo fora interessante, trouxera inclusive esperança. Mas no interminável fosso da noite, ouvindo o bater contínuo e baixo de seus próprios dentes, tudo perdia o significado. Eddie também já nada significava. Nem Jake. A Torre Negra também não significava nada, nem a fogueira que haviam feito nos arredores do Castelo-cidadela. Podia lembrar do aspecto do fogo, mas a sensação de calor aquecendo a pele e fazendo brotar um início de suor estava inteiramente perdida. Como uma pessoa que já morreu por alguns segundos e visitou rapidamente alguma luminosa vida após a morte, ela só podia dizer que tinha sido maravilhoso.

Roland se sentou com os braços à sua volta, às vezes deixando escapar uma tosse áspera, seca. Susannah achou que ele podia estar ficando doente, mas este pensamento também não tinha força alguma. Só o frio tinha.

Certa vez — pouco antes de a alvorada começar finalmente a manchar o céu no leste — viu luzes alaranjadas dançando e rodopiando bem ao longe, além do ponto onde a neve começava. Perguntou se Roland fazia alguma idéia do que era aquilo. Susannah não tinha real interesse na coisa, mas ouvir sua própria voz lhe renovou a certeza de que não estava morta. Pelo menos ainda não.

— Acho que são duendes.

— S-são o q-quê? — Ela agora gaguejava, balbuciava.

— Não sei como explicar — disse Roland. — E realmente não há necessidade. Você vai vê-los quando chegar a hora. Por ora, se prestar atenção, vai ouvir algo mais próximo e mais interessante.

De início ela ouviu apenas os suspiros do vento. Então o vento diminuiu um pouco e seus ouvidos captaram o silvo seco da grama, enquanto algo a atravessava. A isto se seguiu um som baixo de quebrar. Susannah soube exatamente o que era: um casco batendo no gelo fino, abrindo um furo para a água corrente a partir do mundo frio lá em cima. Também soube que, no período de três ou quatro dias, podia estar usando um casaco feito de algum animal que, naquele momento, estivesse bebendo nas proximidades, mas isto também não tinha significado. O tempo era um conceito inútil quando a pessoa estava sentada no escuro, acordada, e sob um constante mal-estar.

Ela acreditara que já tinha sentido frio antes? Era muito engraçado, não era?

— O que me diz de Mordred? — perguntou. — Acha que ele está por aí?

— Acho.

— E será que sente frio como nós?

— Não sei.

— Não vou suportar isto por muito mais tempo, Roland... realmente não vou.

— Não será preciso. Logo vai clarear e espero que possamos ter uma fogueira amanhã à noite. — Tossiu para dentro da mão e tornou a pôr o braço em volta dela. — Vai se sentir melhor quando estivermos de pé e com coisas a fazer. Enquanto isso, pelo menos estamos juntos.

 

Mordred estava sentindo o mesmo frio que eles, exatamente o mesmo, e estava sozinho.

Estava perto o bastante para ouvi-los: não as palavras, mas as vozes. Tremia incontrolavelmente e forrou a boca de mato seco quando ficou com medo de que os afiados ouvidos de Roland pudessem captar o som de seus dentes estalando. O casacão de ferroviário não ajudava; há muito o jogara fora, pois ficara reduzido a tantos pedaços que não era mais possível mantê-lo em volta do corpo. Ainda usava as mangas do casaco ao sair do Castelo-cidadela, mas logo, começando pelos cotovelos, também elas foram ficando em frangalhos. Ele as atirara no mato baixo, ao lado da velha estrada, com uma praga arrogante. Só era capaz de manter as botas nos pés porque conseguira transformar hastes compridas de mato em grosseiros cordões. Com eles conseguira deixar o que restava das botas amarrado nos pés.

Pensou em retomar sua forma de aranha, sabendo que assim o corpo sentiria menos o frio, mas toda a sua curta vida fora afligida pelo espectro da fome e Mordred achava que essa parte dele era a que mais vivia atormentada, por mais comida que tivesse. E os deuses sabiam que a comida não era muita: três braços cortados, quatro pernas (duas parcialmente comidas) e um pedaço de tórax, do cesto de vime e só. Se trocasse de forma, a aranha devoraria a porção antes do amanhecer. E embora houvesse caça porali (ouvira o cervo se deslocando tão claramente quanto o Papai Branco), Mordred ainda não estava de todo confiante em sua capacidade de pegá-la numa emboscada ou num ataque direto.

Então continuou sentado, tremendo e atento ao som das vozes dos dois até as vozes cessarem. Talvez tivessem dormido. Ele próprio devia ter cochilado um pouco. E a única coisa que o impedia de desistir e voltar era o ódio que tinha deles. De terem um ao outro enquanto ele não tinha ninguém. Absolutamente ninguém.

Mordred está morrendo de fome, pensou angustiado. Mordred está morrendo de frio. E Mordred não tem ninguém. Mordred está sozinho.

Pôs o pulso na boca, mordeu profundamente e sugou o calor que fluiu. Saboreou no próprio sangue o resto da vida de Rando Pensativo... mas foi tão pouco! Tão depressa acabou! E logo nada mais havia além do gostoinútil, retemperado de si próprio.

No escuro, Mordred começou a chorar.

 

Quatrohoras após oamanhecer, sob um céu esbranquiçado que prometia chuvaou neve (talvez as duas ao mesmo tempo), Susannah Dean se deitou tremendoatrás de um tronco caído, contemplando um dos pequenos vales. Vai ouvir Oi, o pistoleiro dissera. E vai me ouvir também. Vou fazer o que puder, mas vou estar fazendo-os correr na minha frente e você estará numa ótimaposição para atirar. Faça cada tiro valer a pena.

O que tornava as coisas piores era sua intuição, cada vez mais insinuante, de que Mordred estava muito perto e poderia tentar emboscá-la enquanto ela estivesse de costas. Susannah não parava de olhar para os lados, mas tinham escolhido um ponto relativamente limpo. Sempre que se virava, não havia nada na relva, com exceção de uma vez, quando viu um grande coelho marrom correndo desajeitadamente, as orelhas se arrastando no chão.

Por fim ouviu o latido alto de Oi vindo da copa das árvores à sua esquerda. Daí a pouco, Roland começou a gritar.

— Uau! Uau! Vamos lá! Vamos lá, estou dizendo! Venha já! Não fique aí pa... — Então o barulho de Roland tossindo. Não gostava daquela tosse. Não, absolutamente não.

Agora podia ver movimento nas árvores e, por uma das poucas vezes desde que Roland forçou-a a admitir que havia outra pessoa escondida dentro dela, Susannah chamou Detta Walker.

Preciso de você. Se você quer sentir calor novamente, ponha firmeza nas minhas mãos para que eu possa atirar bem.

E o incessante tremor de seu corpo parou. Quando o rebanho de cervos disparou das árvores — não um pequeno rebanho; deveria haver pelo menos 18 animais, conduzidos por um macho com magníficos chifres —, suas mãos também pararam de tremer. Com a direita, ela segurava o revólver de Roland com o cabo de sândalo.

Ali estava Oi, disparando da mata atrás do último participante do rebanho. Era uma corça mutante, correndo (e com estranha graça) com quatro patas de variados tamanhos e uma quinta pata balançando sem osso no meio da barriga, como uma teta. Em último lugar veio Roland, não realmente correndo, não; antes cambaleando para a frente num triste trote. Ela o ignorou, apontando para o cervo que corria pela sua área de tiro.

— Por aqui — ela sussurrou. — Quebre à direita, fofinho, vamos ver se consegue. Commala-venha-venha.

E embora não tivesse razão para agir assim, o cervo que liderava o pequeno rebanho em fuga acabou de fato guinando ligeiramente na direção de Susannah. Ela estava sendo tomada por uma frieza bem-vinda. Sua visão pareceu se aguçar até deixá-la ver os músculos ondulando sob o lombo do cervo, a meia-lua branca quando os olhos viravam e o velho ferimento na ponta da pata da corça, onde o pêlo jamais voltara a crescer. Durante um momento, ela lamentou não ter Eddie e Jake junto de si, um de cada lado, sentindo o que ela estava sentindo, vendo o que estava vendo, e então isso também passou.

Eu não mato com minha arma; quem mata com sua arma esqueceu a face de seu pai.

— Eu mato com o coração — ela murmurou, começando a atirar. A primeira bala acertou o cervo-líder na cabeça e ele caiu sobre seu lado esquerdo. Os outros passaram correndo por ele. Uma corça pulou sobre o corpo e a segunda bala de Susannah atingiu-a no meio do salto. A corça desabou sem vida do outro lado, uma perna esparramada, quebrada, toda a graça perdida.

Ouviu Roland atirar três vezes, mas não olhou para ver como ele se saíra; tinha suas coisas para cuidar e cuidou bem delas. Cada uma das últimas quatro balas no cilindro derrubou um cervo e só um deles ainda se movia quando ele caiu. Não lhe ocorreu que aquilo era um impressionante feito de tiro, principalmente com uma pistola; afinal, Susannah era um pistoleiro e atirar era com ela mesmo.

Além disso, não estava ventando naquela manhã.

Agora metade do rebanho jazia morto no vale verde lá embaixo. Todos os outros cervos, com exceção de um, dobraram à esquerda e se lançaram encosta abaixo em direção ao riacho. Pouco depois estavam perdidos num agrupamento de salgueiros. O último animal, um cervo macho muito novo, correra direto para ela. Susannah nem se preocupou em usar a pequena pilha de balas a seu lado, arrumada sobre uma pele de cervo, para recarregar a arma. Simplesmente pegou um dos pratos ’Riza, a mão encontrando automaticamente o lugar embotado onde agarrar.

— Riza! — ela gritou e jogou o prato. Ele voou pela relva seca, elevando-se um pouco durante o trajeto e deixando escapar aquele estranho som de gemido. Atingiu o cervo que corria no meio do pescoço. Borrifos de sangue formaram uma grinalda em volta da cabeça do animal, pretos contra o céu branco. O cutelo de um açougueiro não teria feito trabalho melhor. Por um momento o cervo ainda corria, sem atenção e sem cabeça, o sangue jorrando do coto no pescoço até que o coração, acelerado, completasse sua última meia dúzia de batidas. Então o cervo desabou, as patas contorcidas, a menos de 10 metros da munição de Susannah e manchou o gramado seco, amarelado, de um vermelho forte.

A longa miséria da noite anterior estava esquecida. A dormência abandonara as mãos e os pés de Susannah. Nela agora não havia dor, nem senso de perda, nem medo. Por ora, Susannah era exatamente a mulher que o ka tinha feito dela. Os cheiros misturados de sangue e pólvora que vinham do cervo abatido eram amargos; mas eram também os perfumes mais doces do mundo.

Ficando de pé nos cotos de suas pernas, Susannah estendeu os braços, a pistola de Roland segura na mão direita e fez um Y contra o céu. Depois gritou. Não havia palavras naquilo, nem podia haver. Nossos maiores momentos de triunfo são sempre inarticulados.

 

Roland insistira para que fizessem um enorme desjejum e os protestos de Susannah de que carne seca picada fria tinha o sabor de mingau encaroçado não deram resultado. Pelas duas daquela tarde, conforme o tal relógio de incrível charme de Roland (mais ou menos na hora em que a persistente chuva fria se transformava num chuvisco realmente gelado), Susannah estava feliz. Nunca tivera um dia tão duro de trabalho físico e o dia ainda não acabara. Roland estava todo o tempo perto dela, fazendo-lhe companhia apesar daquela tosse cada vez pior. Ela teve tempo (durante a breve, mas tremendamente gostosa refeição do meio-dia, com bifes de cervo na grelha) de ponderar como Roland era de fato estranho, como era extraordinário. Após todo aquele tempo que passaram juntos e tantas aventuras, Susannah ainda não conseguira enxergar o íntimo dele. Nem mesmo de longe. Já o vira rindo e chorando, matando e dançando, dormindo e agachado atrás de um monte de arbustos com a calça abaixada e a bunda suspensa sobre o que ele chamava de o Tronco de Confronto. Nunca dormira com ele como uma mulher faz com um homem, mas achou que já o vira em todas as situações possíveis e... não. Não penetrara em seu íntimo.

— Acho que essa tosse está ficando cada vez mais parecida com pneumonia — Susannah comentou, não muito depois de a chuva ter começado. Estavam então na parte das atividades do dia que Roland chamava de aven-car: carregando a caça e se preparando para transformá-la em alguma outra coisa.

— Não deixe que isso a preocupe — disse Roland. — Tenho o que preciso para curá-la.

— É mesmo? — ela perguntou num tom de descrença.

— É. Estão aqui, eu nunca perdi. — Ele pôs a mão no bolso e puxou um punhado de aspirinas. Susannah achou que a expressão em seu rosto era de autêntica reverência, e por que não? Talvez Roland devesse sua vida ao que ele chamava de asmina. Asmina e “rodela”.

Carregaram a caça para a traseira do Táxi Ho Fat de Luxo e arrastaram-no para o riacho. Foi preciso fazer um total de três viagens. Depois de empilharem as carcaças, Roland pôs cuidadosamente a cabeça do cervo novo em cima da pilha, onde ele ficou a encará-los com olhos arregalados.

— Pra que você quer isso? — Susannah perguntou com um traço de Detta na voz.

— Vamos precisar de todos os miolos que pudermos pegar — disse Roland, de novo tossindo seco contra um punho curvado. — É um modo sujo de fazer o trabalho, mas é rápido e funciona.

 

Depois de empilharem a caça ao lado do riacho congelado (“pelo menos não vamos ter de nos preocupar com as moscas”, disse Roland), o pistoleiro começou a juntar galhos secos. Susannah estava na expectativa da fogueira, mas sem a terrível necessidade da noite anterior. Tinha trabalhado duro e, ao menos por ora, sentia um calor suficiente. Tentou recordar a profundidade de seu desespero, como o frio tinha se infiltrado em seus ossos, transformando-os em vidro, e não conseguiu. Pois o corpo tinha seu modo de esquecer as coisas piores, ela supunha, e sem a cooperação do corpo, tudo que restava ao cérebro eram lembranças tipo foto desbotada.

Antes de começar seu trabalho de juntar madeira, Roland inspecionou a margem do riacho gelado e tirou de lá um pedaço de rocha. Quando entregou a pedra a Susannah, ela passou o polegar na superfície leitosa, alisada pela água.

— Quartzo? — Susannah perguntou, mas não achava que fosse. Não exatamente.

— Não conheço essa palavra, Susannah. Chamamos a pedra de sílex. Serve para fazermos ferramentas primitivas, mas bastante úteis: lâminas de machado, facas, espetos, raspadeiras. É de uma raspadeira que precisamos. E pelo menos de um martelo.

— Sei o que vamos raspar, mas o que temos para martelar?

— Vou lhe mostrar, mas primeiro não quer ficar assim um instante comigo? — Roland se ajoelhou e pôs a mão fria de Susannah dentro da sua. Olharam juntos para a cabeça do cervo.

— Agradecemos pelo que estamos prestes a receber — disse Roland diante da cabeça, e Susannah estremeceu. Era exatamente como seu pai começava a rezar quando dava graças antes de uma grande refeição em que toda a família estivesse reunida.

Nossa família está quebrada, ela pensou, mas não disse; o que estava feito estava feito. A resposta que deu foi a que tinha aprendido quando menina:

— Pai, nós te agradecemos.

— Guia nossas mãos e guia nossos corações enquanto tirarmos vida da morte — disse Roland. Depois olhou para ela, sobrancelhas erguidas, perguntando (sem falar uma palavra) se tinha mais alguma coisa a dizer.

Susannah achou que tinha.

— Pai-Nosso, que estais no céu, santificado seja o Vosso nome. Venha a nós o Vosso reino e seja feita a Vossa vontade assim na Terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje e perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aos que nos têm ofendido. E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal, porque Vosso é o reino, o poder e a glória, para todo o sempre.

— É uma bela prece — disse Roland.

— Sim — ela concordou. — Há muito tempo não a rezava, mas ainda é a melhor. Agora vamos cuidar de nossos assuntos enquanto ainda posso sentir minhas mãos.

Roland lhe deu amém.

 

Roland pegou a cabeça decepada do cervo novo (os chifres tornavam fácil levantá-la), colocou-a na frente dele, depois jogou contra o crânio o pedaço de rocha do tamanho de um punho. Houve um abafado som de quebra que fez o estômago de Susannah se encolher. Roland agarrou os chifres e puxou. Primeiro o da esquerda, depois o da direita. Quando Susannah viu o modo como o crânio quebrado ondulava sob a pele, o estômago fez mais do que se encolher; deu lentamente um nó.

Roland bateu mais duas vezes, manejando o pedaço de sílex com precisão quase cirúrgica. Então usou a faca para cortar um círculo no couro cabeludo, que ele puxou como se puxa um chapéu. Isto revelou o crânio rachado. Ele enfiou a lâmina da faca na fenda mais larga e usou-a como alavanca. Quando o cérebro do cervo ficou exposto, ele o puxou, colocou-o cuidadosamente de lado e olhou para Susannah.

— Vamos precisar do cérebro de cada cervo que matarmos e é por isso que precisamos de um martelo.

— Oh — ela disse numa voz engasgada. — Cérebros.

— Para fazer uma pasta de curtume. Mas um sílex tem mais utilidade que isso. Olhe. — Ele mostrou como bater dois pedaços de rocha até um ou ambos se estilhaçarem, deixando pedaços grandes, quase idênticos, em vez de caroços pontudos. Ela sabia que rochas metamórficas se quebravam daquele jeito, mas geralmente as rochas de xisto eram fracas demais para dar boas ferramentas. Aquela coisa era forte.

— Quando encontrar pedaços que quebrem, mas que são grossos e resistentes de um lado e extremamente finos do outro — disse Roland —, separe-os. Serão nossas raspadeiras. Se tivéssemos tempo, poderíamos fazer punhos para elas, mas não temos. Nossas mãos vão estar bastante machucadas na hora de dormir.

— Quanto tempo acha que vamos demorar para conseguir um número suficiente de raspadeiras?

— Não muito — disse Roland. — O sílex se parte com facilidade ou, pelo menos, era o que eu costumava ouvir.

Enquanto Roland arrastava galhos secos para uma fogueira, para dentro de um pequeno bosque de amieiro e salgueiro, à beira do riacho congelado, Susannah ia examinando o solo ao longo das ribanceiras, procurando sílex. Quando conseguiu encontrar uma dúzia de bons pedaços, avistou uma pedra de granito brotando do solo num contorno suave, polido pelo tempo. Achou que aquilo daria uma ótima bigorna.

O sílex de fato se quebrou da maneira certa e ela já possuía trinta raspadeiras quando Roland chegou com sua terceira carga de lenha. Ele fez uma pequena pilha de gravetos que Susannah protegeu com as mãos. Já então caía uma neve molhada e, embora estivessem trabalhando sob um agrupamento de árvores razoavelmente denso, ela achou que os dois não demorariam a ficar ensopados.

Depois de acender o fogo, Roland se afastou alguns passos, de novo caiu de joelhos e entrelaçou as mãos.

— Rezando de novo? — ela perguntou, divertida.

— O que aprendemos em nossa infância acaba ficando — ele disse. Depois de manter os olhos fechados por alguns segundos, levou as mãos postas à boca e as beijou. A única palavra que ela o ouviu dizer foi Gan. Então ele abriu os olhos e levantou as mãos, afastando-as do corpo e fazendo um bonito gesto que lembrou a Susannah pássaros voando. Quando ele tornou a falar, o tom foi seco, prosaico: tipo cuidando-dos-meus-negócios. — Está muito bem — disse. — Vamos trabalhar.

 

Fizeram um cordão com a relva, exatamente como Mordred havia feito, e penduraram o primeiro cervo (o que já não tinha cabeça) pelas patas traseiras no galho baixo de um salgueiro. Roland usou a faca para cortar a barriga do animal, pôs a mão nas vísceras, remexeu nelas e removeu lá de dentro dois órgãos vermelhos, pingando sangue. Susannah achou que eram os rins.

— Bons para febre e tosse — disse ele, mordendo o primeiro rim como se fosse uma maçã. Susannah fez um ruído de engasgo e se virou algum tempo para olhar o rio. De repente tornou a olhar para Roland e o viu dar talhos circulares em volta das pernas penduradas, perto de onde elas se articulavam ao corpo.

— Está se sentindo melhor? — ela perguntou meio constrangida.

— Vou estar — disse ele. — Agora me ajude a tirar a pele desta criatura. Vamos querer o primeiro cervo ainda com o pêlo... Precisamos de uma tigela para nossa pasta. Agora veja!

Ele pôs os dedos no lugar onde a pele do cervo continuava grudada ao corpo pela fina camada de gordura e músculo, e puxou. A pele partiu facilmente até a metade da barriga do cervo.

— Agora do seu lado, Susannah.

Pôr os dedos sob a pele foi a única parte difícil. Desta vez os dois puxaram juntos e, quando conseguiram tirar a pele até o início das patas penduradas, ela ficou vagamente parecida com uma camisa. Roland usou a faca para cortá-la, depois começou a cavar no chão, a pouca distância do fogo que roncava, mas ainda sob a proteção das árvores. Susannah o ajudou, gostando de sentir o suor rolando pela face e pelo corpo. Quando fizeram uma pequena depressão em forma de tigela, 70 centímetros de um lado a outro e meio metro de profundidade, Roland forrou-a com a pele.

Durante toda a tarde eles se revezaram esfolando os oito outros cervos que haviam matado. Era importante fazer aquilo o mais depressa possível, pois quando a camada subjacente de gordura e músculo secasse, o trabalho se tornaria mais difícil e mais vagaroso. O pistoleiro manteve o fogo queimando alto e quente, de vez em quando deixando-a para espalhar no solo. Quando estas cinzas esfriaram o bastante para não abrir buracos em sua forma de tigela, foram jogadas na depressão forrada com a pele. As costas e os braços de Susannah estavam doendo muito por volta das cinco horas, mas ela continuou com a coisa. O rosto, o pescoço e as mãos de Roland estavam comicamente manchados de cinzas.

— Você parece um ator pintado de negro num teatro de revista — disse ela a certa altura. — Como o Rastus Coon.

— Quem é ele?

— O bobo dos brancos — respondeu Susannah. — Acha que Mordred está lá fora, nos vendo trabalhar? — Durante todo o dia Susannah havia mantido um olho atento.

— Não — disse Roland, fazendo uma pausa para descansar. Tirou o cabelo da testa, deixando à mostra uma nova mancha de sujeira e agora fazendo Susannah pensar em penitentes de Quarta-Feira de Cinzas. — Acho que ele saiu para pegar sua própria caça.

— Mordred está faminto — disse ela. E depois: — Pode tocá-lo um pouco, não pode? Pelo menos para saber se ele está aqui ou se já foi.

Roland pensou e se limitou a responder:

— Sou pai dele.

 

Ao escurecer, tinham um monte de peles de cervos e uma pilha de carcaças sem pele e sem cabeça que, sem dúvida, já estariam cobertas de moscas se o tempo estivesse mais quente. Fizeram outra enorme refeição com pedaços assados de carne de cervo, extremamente gostosos, e Susannah não deixou de pensar outra vez em Mordred, em algum lugar no escuro, provavelmente fazendo uma refeição de carne crua. Mordred podia ter fósforos, mas não era estúpido; se eles vissem outra fogueira em toda aquela escuridão, correriam na direção dela. E dele. Então, bangue-bangue-bangue! Tchau, Garoto-Aranha. Susannah experimentou um surpreendente sentimento de pena por Mordred e disse a si mesma para ter cuidado com aquilo. Certamente com Mordred não havia contrapartida. Ele não estaria sentindo nada disso nem por ela nem por Roland.

Quando acabaram de comer, Roland limpou os dedos engordurados na camisa.

— Tinha um gosto ótimo — disse.

— Falou e disse.

— Agora vamos pegar os miolos. Depois dormimos.

— Um de cada vez? — Susannah perguntou.

— Sim... pelo que sei é um cérebro para cada freguês.

Por um momento ela ficou espantada demais por estar ouvindo uma expressão de Eddie

(um para cada freguês)

vindo da boca de Roland e custou a perceber que ele também havia brincado com as palavras. Não muito bem, é claro, mas fora uma tentativa legítima. E ela conseguiu esboçar uma risada.

— Muito engraçado, Roland. Mas você sabe ao que eu estava me referindo.

Roland assentiu.

— Vamos dormir um de cada vez — disse —, enquanto o outro fica de guarda, claro. Acho que é melhor.

O tempo e a repetição deram resultado; ela já vira um número excessivo de tripas sendo revolvidas para se sentir enjoada por causa de alguns cérebros. Assim fizeram estalar cabeças, usando a faca de Roland (o gume agora rombudo) para abrir os crânios e remover os miolos dos animais caçados. Foram reservando cuidadosamente os miolos, como um punhado de grandes ovos cinzentos. Quando o último cervo teve o cérebro retirado, os dedos de Susannah estavam tão feridos e inchados que ela mal conseguia dobrá-los.

— Deite — disse Roland. — Durma. Faço a primeira vigília.

Ela não discutiu. Dada sua barriga cheia e o calor do fogo, sabia que o sono viria depressa. Também sabia que, quando acordasse no dia seguinte, ia estar tão dura nas costas que até sentar seria difícil e doloroso. Agora, no entanto, ela não se importava. Uma sensação de grande contentamento a dominava. Parte dessa alegria era por ter ingerido comida quente, mas de modo algum a totalidade. A maior parte de seu bem-estar vinha de um dia de trabalho duro, nem mais nem menos. A sensação de que estavam não apenas indo adiante, mas fazendo tudo com suas próprias forças.

Deus, ela pensou, acho que depois de velha estou virando membro do partido republicano!

Outra coisa lhe ocorreu: estava muito silencioso. Nenhum som além do sussurro do vento, o borrifar da neve molhada (começando agora a diminuir) e o crepitar da abençoada fogueira.

— Roland?

Ele a olhou de seu lugar junto ao fogo, sobrancelhas erguidas.

— Você parou de tossir.

Ele sorriu e abanou positivamente a cabeça. Ela caiu no sono vendo o sorriso dele, mas foi com Eddie que sonhou.

 

Ficaram três dias no acampamento junto ao riacho e, durante esse tempo, Susannah aprendeu mais sobre como fazer roupas de pele do que lhe parecia possível (e muito mais do que realmente queria saber).

Ao procurar rio abaixo e acima, a cerca de um quilômetro e meio do ponto onde estavam, encontraram duas toras bem lisas, uma para cada um. Enquanto procuravam, deixaram as peles de molho na tigela improvisada, num caldo negro de cinzas e água. Depois encostaram as toras nos troncos de dois salgueiros (salgueiros vizinhos, para que pudessem trabalhar lado a lado) e usaram raspadeiras de sílex para tirar os pêlos das peles. Levaram um dia fazendo isto. Quando o trabalho estava concluído, esvaziaram a “tigela”, viraram a pele que forrava a depressão no solo pelo avesso e encheram de novo o recipiente, desta vez com uma mistura de água e miolos moídos. Este “curtume de tempo frio” era uma novidade para Susannah. Deixaram as peles mergulhadas a noite inteira naquela pasta e, enquanto Susannah começou a extrair de tendões e cartilagens linhas para costura, Roland afiou a faca e usou-a para criar meia dúzia de agulhas entalhando alguns ossos. Quando Roland acabou de fazer isso, todos os seus dedos estavam sangrando por dezenas de pequenos cortes. Ele passou o caldo de cinzas neles e dormiu assim, as mãos parecendo cobertas por grandes e toscas luvas cinza-escuro. No dia seguinte, quando Roland lavou as mãos num riacho, Susannah ficou surpresa ao ver que os talhos já estavam cicatrizando. Tentou aplicar um pouco daquela cinza na espinha sempre inflamada que tinha ao lado da boca, mas a coisa ardeu terrivelmente e ela teve de ir correndo lavar a boca.

— Quero que me corte esta maldita coisa! — disse.

Roland balançou negativamente a cabeça.

— Vou dar um pouco mais de tempo para ela cicatrizar sozinha.

— Por quê?

— Porque cortar uma ferida não é uma boa idéia, a não ser que seja mesmo preciso fazer isso. Especialmente aqui, no que Jake chamaria “terra de cãochorro”.

Susannah concordou (sem se preocupar em corrigir a pronúncia dele), mas imagens desagradáveis se infiltraram em sua cabeça quando ela deitou: visões da espinha começando a se espalhar, destruindo centímetro por centímetro do seu rosto, transformando toda a sua cabeça num tumor negro, cheio de crostas, sangrento. No escuro, as visões pareciam extremamente convincentes, mas felizmente Susannah estava cansada demais para que aquilo a mantivesse acordada por muito tempo.

No segundo dia do que Susannah estava começando a imaginar como Acampamento das Peles, Roland construiu uma grande grelha sobre uma nova fogueira, que tinha um fogo baixo e lento. Defumaram as peles duas a duas e depois as estenderam. O cheiro do produto acabado era surpreendentemente agradável. Tem cheiro de couro, ela pensou, levando uma pele ao rosto, mas logo começou a rir. As peles, afinal, não eram outra coisa senão couro.

Passaram o terceiro dia dando “acabamento” e aqui Susannah finalmente superou o pistoleiro. Roland costurava com pontos grandes demais e pouco confiáveis. Ela achou que os coletes e perneiras que ele fez agüentariam um mês, no máximo dois; depois começariam a abrir. Susannah se mostrou muito mais competente. Aprendera a costurar com a mãe e com as duas avós. A princípio achou as agulhas de osso de Roland terrivelmente desajeitadas e interrompeu o trabalho para amarrar no polegar e no indicador da mão direita pequenas capas de pele de cervo. Depois disso a coisa foi mais rápida e, por volta do meio da tarde, ela já estava tirando peças da pilha de Roland e reforçando a costura dele com a sua, mais fina e segura. Achou que Roland poderia fazer objeções a isto — os homens eram orgulhos —, mas ele não fez, o que provavelmente foi bastante sensato. Muito provavelmente teria sido Detta quem enfrentaria seus ganidos e chiados.

Quando a terceira noite no Acampamento das Peles chegou, cada um tinha um colete, um par de perneiras e um casaco. Cada um tinha também um par de luvas. Eram luvas muito grandes e ridículas, mas manteriam as mãos aquecidas. E por falar de mãos, Susannah ficara de novo quase incapaz de curvar as suas. Olhando com ar de dúvida para as peles restantes, perguntou a Roland se teriam de passar outro dia trabalhando no acabamento das roupas.

Ele pensou e sacudiu a cabeça numa negativa.

— Vamos levar as que ainda não estiverem prontas para o Táxi Ho Fat, juntamente com um pouco de carne e pedras de gelo do riacho para manter a carne fria e em bom estado.

— O Táxi não servirá de nada quando atingirmos a neve, não é?

— Não — ele admitiu —, mas já então o resto das peles estarão prontas e a carne será comida.

— Você simplesmente não pode ficar mais tempo aqui, essa é a base da coisa, não é? Você a ouve chamando. A Torre.

Roland olhou para o fogo estalando e não disse nada. Nem teve de dizer.

— Como vamos carregar nossos trastes depois que chegarmos às terras brancas?

— Improvisando uma padiola. E lá teremos bastante caça.

Ela abanou a cabeça e começou a se deitar. Roland pegou seus ombros e virou-a para o fogo. O rosto dele se aproximou e, por um momento, Susannah achou que Roland pretendia lhe dar um beijo de boa-noite. Em vez disso, ele se limitou a observar, demorada e atentamente, a espinha com crosta de ferida ao lado da boca.

— E então? — ela finalmente perguntou. Podia ter dito mais alguma coisa, mas Roland teria percebido o tremor na voz.

— Acho que está um tanto menor. Assim que deixarmos as Terras Áridas, talvez ela sare sozinha.

— Acha realmente possível?

O pistoleiro balançou de imediato a cabeça.

— Eu disse talvez. Agora se deite Susannah. Procure descansar.

— Está bem, mas desta vez não me deixe acordar tarde. Quero cumprir minha parte da vigília.

— Sim. Agora se recoste.

Ela fez o que ele mandava e estava dormindo antes mesmo que os olhos se fechassem.

 

Ela está no Central Park e está frio o bastante para que se possa ver sua respiração. O céu acima está branco de um lado a outro, um céu de nevasca, mas ela não sente frio. Não, não com seu novo casaco de pele de cervo, perneiras, colete e engraçadas luvas também de pele de cervo. Também há alguma coisa em sua cabeça, puxada sobre as orelhas, mantendo-as aquecidas como o resto do corpo. Ela tira o chapéu, curiosa, e vê que não é de pele de cervo como o resto de seus novos trajes, mas um gorro, vermelho e verde. Escrito na frente está FELIZ NATAL.

Ela observa a inscrição, assustada. Será possível um déjà vu num sonho. Ao que parece, sim. Olha em volta e lá estão Eddie e Jake, sorrindo. As cabeça estão nuas e ela percebe que tem nas mãos uma junção dos chapéus que eles usavam em algum outro sonho. Sente uma grande, uma incrível explosão alegria, como se tivesse acabado de resolver algum problema supostamente insolúvel: transformar o círculo num quadrado, digamos, ou encontrar o Último Número Primo (pegue esse, Blaine!, que ele exploda teu cérebro, seu maluco trem chuu-chuu).

Eddie está usando um moletom com os dizeres: EU BEBO NOZZ-A-LA!

Jake está usando um que diz: EU GUIO O TAKURO SPIRIT!

Ambos têm xícaras de chocolate quente, o sabor perfeito do chantilly por cima e pequenos borrifos de noz-moscada salpicando o creme.

— Que mundo é este? — ela pergunta a eles e percebe que, em algum lugar por perto, um coral está cantando “Que Criança É Esta”.

— Deve deixar que ele siga seu caminho sozinho — diz Eddie.

— É, e precisa tomar cuidado com Dandelo — diz Jake.

— Não entendo — diz Susannah estendendo para eles o gorro. — Isto não era de vocês? Não era este boné que vocês compartilhavam?

— O chapéu pode ser seu, se quiser — diz Eddie e estende a xícara. — Olhe, eu lhe trouxe chocolate quente!

— Nada mais de gêmeos — diz Jake. — Há um único chapéu, você não entende?

Antes que ela possa responder, uma voz sai do nada e o sonho começa a se desfazer.

— DEZENOVE — diz a voz. — Aqui é DEZENOVE, aqui é CHASSIT.

A cada palavra o mundo se torna mais irreal. Ela pode ver através de Eddie e Jake. O cheiro gostoso do chocolate quente vai ficando mais faço, sendo substituído pelo cheiro de cinzas

(quarta-feira)

e couro. Ela vê os lábios de Eddie se mexendo e pensa que ele está dizendo um nome e então

 

— Hora de se levantar, Susannah — disse Roland. — A vigília agora é sua.

Ela se sentou olhando para os lados. A fogueira já estava muito baixa.

— Eu o escutei andando lá fora — disse Roland —, mas já foi há algum tempo. Susannah, você está bem? Estava sonhando?

— Estava — disse ela. — Havia um único chapéu no sonho e era eu quem o estava usando.

— Não estou entendendo.

Nem ela estava. O sonho já ia se embaçando, como fazem os sonhos. Tudo que ela sabia com certeza era que o nome nos lábios de Eddie, pouco antes de ele se dissolver para sempre, fora o de Patrick Danville.

 

JOE COLLINS DA ODD’S LANE

Três semanas após o sonho de um único chapéu, três figuras (duas grandes, uma pequena) emergiram de um trecho elevado de mata e começaram a andar lentamente por um vasto campo aberto em direção a uma nova extensão de floresta um pouco abaixo. Uma das figuras grandes estava puxando a outra numa engenhoca que era mais trenó que padiola.

Oi corria de um lado para o outro entre Roland e Susannah, como se quisesse sugerir uma constante vigilância. Seu pêlo estava espesso e macio por causa do frio e de uma constante dieta de carne de cervo. A terra que os três atravessavam talvez fosse um pasto nas estações mais quentes; agora, no entanto, o solo estava enterrado sob um metro e meio de neve. Puxar o trenó era mais fácil, porque o caminho estava finalmente levando para baixo. Na verdade Roland tinha esperanças de que o pior já tivesse passado. E afinal, cruzar as Terras Brancas não era assim tão mau — pelo menos até aquele momento. Havia bastante caça, havia bastante madeira para as fogueiras noturnas e, nas quatro ocasiões em que o tempo ficou ruim e caíram tempestades de neve, os dois se limitaram a esperar sentados que o temporal diminuísse nas florestas, nas vertentes dos morros que marchavam para sudeste. E o temporal acabava mesmo enfraquecendo, embora o mais furioso deles tenha durado dois dias inteiros. O fato é que, quando tornaram a pegar o Caminho do Feixe, encontraram um novo metro de neve no solo. Nos descampados onde o uivante vento nordeste pudera soprar com fúria plena, formavam-se montes de neve que lembravam ondas do mar. Algumas inclusive conseguiram sepultar, quase até o topo, pinheiros bem altos.

Após o primeiro dia nas Terras Brancas, com Roland lutando para puxá-la (e quando a neve ainda estava com uns 30 centímetros de profundidade), Susannah achou que eram capazes de passar meses atravessando aquelas encostas altas, forradas de florestas, a não ser que Roland tivesse um par de sapatos para neve. Por isso ela passou aquela primeira noite trabalhando para lhe improvisar os sapatos. Foi um processo de tentativa-e-erro (“adivinhando e rezando”, como Susannah gostava de pôr a coisa), mas o pistoleiro aprovou como um sucesso seu terceiro esforço. As plataformas foram feitas de ramos macios de bétula, os centros de correias entrelaçadas de pele de cervo. Para Roland, a coisa ficou parecida com lágrimas.

— Onde aprendeu a fazer isto? — ele perguntou depois de ter passado um dia usando os sapatos de neve. O aumento na distância percorrida não deixou de ser espantoso, principalmente depois que ele aprendeu a avançar com uma espécie de passada oscilante de marinheiro, que não deixava a neve se acumular nas superfícies entrelaçadas.

— Na televisão — disse Susannah. — Costumavam fazer sapatos de neve num programa que eu via quando era criança, Sargento Preston do Yukon. O sargento Preston não tinha um zé-trapalhão para lhe fazer companhia, mas tinha um cachorro fiel, King. Seja como for, fechei os olhos e procurei me lembrar de como eram os sapatos do cara. — Apontou para os que Roland estava usando. — Foi o melhor que pude fazer.

— E fez muito bem — disse ele e a sinceridade que Susannah ouviu naquele elogio tão simples lhe deixou arrepiada. Não era necessariamente assim que ela queria que Roland (ou, aliás, qualquer outro homem) a fizesse se sentir, mas não tinha saída. E se perguntou se isso era genético ou da criação, mas não tinha certeza se queria mesmo saber.

— Vão servir muito bem, pelo menos enquanto não se desmancharem — ela admitiu. A primeira tentativa não vingara.

— Não sinto as correias se afrouxarem — disse Roland. — Alargam-se um pouco, talvez, mas só isso.

Agora, enquanto cruzavam o grande descampado, esse terceiro par de esquis ia se mantendo firme, e Susannah, sentindo que dera uma boa contribuição à jornada, já era capaz de deixar Roland puxá-la sem demasiado sentimento de culpa. De vez em quando ficava realmente preocupada com Mordred e uma noite, cerca de dez dias após terem cruzado a fronteira da neve, pediu que Roland contasse o que de fato sabia. O que a incentivou foi aquela declaração de que não precisavam ficar sempre de vigia, pelo menos durante algum tempo; podiam tirar umas boas dez horas de sono, se era isso que os corpos estivessem exigindo. Oi os acordaria se precisassem acordar.

Roland tinha suspirado e contemplado o fogo por quase um minuto inteiro, os braços ao redor dos joelhos e as mãos se apertando frouxamente entre eles. Susannah tinha quase acabado de concluir que Roland não ia absolutamente responder quando ele disse:

— Ainda nos segue, mas fica cada vez mais para trás. Luta para comer, luta para emparelhar conosco, luta mais que tudo para se manter aquecido.

— Para se manter aquecido? — Susannah achou difícil acreditar naquilo. Afinal, havia árvores por toda a volta.

— Mas ele não tem fósforos, nem essa coisa do Sterno. Acho que numa dessas noites... acho até que pode ter acontecido logo no início... ele alcançou uma de nossas fogueiras ainda com brasas sob as cinzas e conseguiu levar algumas brasas com ele, garantindo assim o fogo durante a noite. Os antigos habitantes das cavernas também costumavam transportar o fogo em suas jornadas, pelo menos foi o que se dizia.

Susannah abanou a cabeça. Também tinha aprendido mais ou menos a mesma coisa em aulas de ciência na escola secundária, embora o professor tivesse admitido que, muito do que se dizia sobre a vida das pessoas na Idade da Pedra não era absolutamente conhecimento verdadeiro, mas só conjectura. Ela se perguntou quanto do que Roland tinha acabado de lhe dizer também não era pura conjectura e foi o que perguntou a ele.

— Não são suposições, mas não sei explicar por quê. Se for o toque, Susannah, não é exatamente como o de Jake. Não vejo, nem ouço, nem sequer sonho com a coisa. Se bem que... você sabe que às vezes temos sonhos de que não conseguimos nos lembrar depois que acordamos?

— Sei. — Ela pensou em falar sobre as pesquisas sobre o movimento rápido dos olhos e as experiências do sono, das quais tinha lido na revista Look. Depois achou que a coisa seria complexa demais. Contentou-se em dizer que tinha certeza que, toda noite, as pessoas tinham sonhos de que não conseguiam se lembrar.

— Então talvez eu o tenha visto e ouvido num desses — disse Roland. — Tudo que sei é que ele está lutando para acompanhar o ritmo. Conhece tão pouco do mundo que é realmente assombroso que ainda esteja vivo.

— Sente pena dele?

— Não. Não posso me dar ao luxo de sentimentos de piedade, nem eu nem você.

Mas os olhos de Roland tinham deixado os seus quando ele disse isso, e Susannah achou que ele estava mentindo. Talvez não quisesse sentir pena de Mordred, mas Susannah tinha certeza que ele sentia, pelo menos um pouco. Talvez quisesse esperar que Mordred morresse no rastro deles (certamente havia um bom número de possibilidades de que isso acontecesse, ficando a hipotermia como causa mais provável), mas Susannah não achava que Roland fosse capaz de fazê-lo. Podiam ter deixado para trás o ka, mas ela reconhecia o laço de sangue.

E havia mais alguma coisa. Mais poderosa que o sangue do parentesco. Ela sabia que sim, porque podia senti-la vibrando em sua cabeça quando dormia e quando estava acordada. Era a Torre Negra. Acreditava que agora estivessem bem próximos dela. Não tinha idéia do que iam fazer com seu guardião louco quando e se chegassem lá, mas não se importava mais com isso. Por ora, tudo que queria era vê-la. A idéia de entrar ainda excedia aquilo com que sua imaginação conseguia trabalhar, mas ver? Sim, podia imaginar isso. E achava que vê-la seria suficiente.

 

Foram abrindo vagarosamente caminho pela encosta vasta e branca com Oi correndo primeiro no calcanhar de Roland, depois recuando para acompanhar Susannah, depois voltando para perto de Roland. Luminosos buracos azuis se abriam às vezes sobre eles. Roland sabia que era o Feixe em ação, puxando constantemente a capa de nuvens para sudeste. Fora disso, o céu estava branco de um horizonte a outro, e tinha um aspecto pesado que agora sabiam reconhecer. Haveria mais neve a caminho e o pistoleiro desconfiou que, talvez, tivessem de enfrentar uma tempestade pior que todas as outras. O vento estava aumentando e a umidade que havia nele bastava para entorpecer todas as partes expostas da pele dele (após três semanas de diligente trabalho de costura, aquilo equivalia no máximo à testa e à ponta do nariz). As rajadas erguiam compridas e diáfanas tiras de branco que passavam em disparada por eles e seguiam encosta abaixo como incríveis dançarinos de bale mudando sempre de forma.

— São bonitas, não são? — Susannah perguntou atrás dele, quase num tom de melancolia.

Roland de Gilead, que nunca chegara exatamente a ser um conhecedor de beleza (com exceção de uma vez, na longínqua Mejis), apenas resmungou. Sabia o que seria bonito para ele: um lugar seguro para quando a tempestade os alcançasse, algo melhor do que um pequeno bosque denso. Por isso ele quase duvidou do que viu quando a última rajada de vento soprou e a neve assentou. Deixou cair o repuxador do trenó, desceu dele, se aproximou de Susannah (a bagagem dos dois, agora aumentando de novo, estava amarrada atrás) e caiu com um joelho no chão do lado dela. Vestindo peles de cima a baixo, lembrava mais um bigfoot sarnento que um homem.

— O que acha disso? — perguntou.

O vento tornou a escoicear, mais forte que nunca, a princípio obscurecendo o que tinha visto. Quando o vento diminuiu, abriu-se um buraco sobre os dois e o sol brilhou brevemente através dele, iluminando o campo de neve com bilhões de centelhas parecidas com diamantes. Susannah protegeu os olhos com uma das mãos e contemplou toda a descida da encosta. O que ela viu foi um T invertido gravado na neve. A trave da cruz, mais próxima deles (mas ainda a pelo menos uns 3 quilômetros de distância), era relativamente curta, talvez com uns 50 ou 60 metros de cada lado. O corpo da cruz, no entanto, era muito comprido, avançando sempre para o horizonte, desaparecendo nele.

— São estradas! — ela disse. — Alguém limpou a neve de duas estradas lá embaixo, Roland!

Ele abanou a cabeça.

— Também achei que eram, mas quis ouvir sua opinião. Também reparei em outra coisa.

— O quê? Seus olhos são mais aguçados que os meus e a diferença é grande.

— Quando chegarmos um pouco mais perto, você verá por si mesma.

Roland tentou se levantar e ela puxou impaciente seu braço.

— Não faça esse jogo comigo. O que é?

— Telhados — disse Roland cedendo à vontade dela. — Acho que são casinhas lá embaixo. Talvez uma cidade.

— Gente? Você está dizendo gente?

— Bem, parece que há fumaça saindo de uma das casas. Mas é difícil dizer com certeza com o céu tão nublado.

Ela não sabia se queria ver gente ou não. Certamente isso ia complicar as coisas.

— Roland, precisamos ter cuidado.

— Sim — disse ele, voltando para o repuxador. Antes de pegá-lo, fez uma pausa para ajustar o cinturão, baixando um pouco o coldre para ele ficar mais confortavelmente perto de sua mão esquerda.

Uma hora depois chegaram ao cruzamento da pista com a estrada. No centro havia um monte de neve que passava facilmente dos 3 metros de altura e que devia ter sido feito por alguma espécie de veículo. Susannah podia ver as marcas de pneu, que pareciam de buldôzer, impressas na neve compacta. Saindo da neve, havia um poste. A placa que havia no alto não era diferente das que vira nas mais diferentes cidades; por exemplo, nos cruzamentos de Nova York. A que apontava para a pista dizia:

 

ODD’S LANE

Foi a outra, no entanto, que fez o coração de Susannah vibrar.

ESTRADA DA TORRE,

dizia ela.

 

Com exceção de uma, todas as casinhas agrupadas em volta do cruzamento pareciam abandonadas e muitas estavam meio enterradas no solo, destroçadas sob o peso da neve acumulada. O que era exceção, no entanto (e que ficava próximo ao final do braço esquerdo de Odd’s Lane), era claramente diferente dos outros. O telhado fora quase todo limpo do peso potencialmente esmagador da neve e fora aberto um caminho até a porta da frente. Era da chaminé desta casinha curiosa, cercada por árvores, que saía uma fumaça em plumas brancas. Uma janela estava iluminada por um amarelo meio leitoso, mas foi a fumaça que captou a atenção de Susannah. Pelo que lhe dizia respeito, era o toque final. A única dúvida em sua mente era saber quem atenderia à porta. João ou sua irmã Maria? (Será que eram gêmeos? Será que alguém já pesquisara o assunto?) Talvez fossem recebidos pela Chapeuzinho Vermelho ou Cachinhos de Ouro, mostrando um suspeito cavanhaque feito de mingau.

— Talvez não devêssemos mexer com esta casa — disse ela consciente de que sua voz se transformara quase num sussurro, embora ainda estivessem no alto do monte de neve criado pela limpeza das estradas. — Esquecíamos dela e íamos em frente. — Apontou para a placa dizendo ESTRADA DA TORRE. — Temos caminho livre, Roland. Talvez devêssemos aproveitar.

— E se fizermos isto, acha que Mordred também o fará? — Roland perguntou. — Acha que ele simplesmente passará por aqui deixando em paz quem morar nesta casa?

Era uma pergunta que não tinha sequer ocorrido a Susannah e, naturalmente, a resposta seria não. Se Mordred achasse que poderia matar quem estivesse no chalé, ele o faria. Por comida se os moradores fossem digeríveis, mas comida seria apenas uma consideração secundária. Os bosques lá atrás estavam repletos de caça e, mesmo que Mordred não fosse capaz de pegar seu próprio jantar (e Susannah tinha certeza que em sua forma de aranha seria perfeitamente capaz de fazê-lo), eles tinham deixado os restos de suas refeições num bom número de locais de acampamento. Não. Mordred sairia das terras altas e nevadas alimentado... mas não feliz. Realmente nada feliz. E se irritaria com qualquer um que por acaso cruzasse seu caminho.

Por outro lado, ela pensou... simplesmente não havia outro lado e de repente ficara tarde demais: a porta da frente do chalé se abriu e um homem velho pôs o pé no alpendre. Usava botas, calça jeans e um casacão forrado de pele. Susannah achou que, pelo menos o capuz, poderia ter sido comprado na loja de acessórios militares em Greenwich Village.

O velho tinha as faces rosadas, uma estampa de boa saúde, mas mancava bastante, apoiado na sólida bengala que trazia na mão esquerda. De trás do curioso chalezinho, com suas plumas de fumaça de conto de fadas, vinha o relinchar agudo de um cavalo.

— Claro, Lippy, eu os vejo! — o velho gritou virando-se naquela direção. — Tenho pelo menos um bom olho esquerdo, não é? — disse ele voltando a olhar para Roland parado com Susannah e Oi no alto do monte de neve e levantando a bengala num cumprimento que pareceu ao mesmo tempo jovial e destemido. Roland ergueu a mão em resposta.

— Parece que vamos ter de palestrar, gostemos disso ou não — disse Roland.

— Eu sei — disse Susannah. E depois, para o trapalhão: — Oi, veja lá como se comporta, está ouvindo?

Oi olhou para ela e depois para o homem sem fazer ruído. Quanto à questão de se comportar, parecia que ia ficar na dele.

A perna ruim do velho estava sem a menor dúvida muito ruim (“vizinha do fim”, teria dito o papai Mose Carver), mas ele conseguia avançar bastante bem com a bengala, movendo-se num passo que saltitava para os lados, algo que Susannah achou ao mesmo tempo divertido e admirável. “Ágil como um grilo” era outro dos muitos ditos de papai Mose e talvez este se adaptasse melhor ao homem. Certamente ela não via ameaça ou perigo num sujeito de cabelos brancos (o cabelo, comprido e fino como cabelo de bebê, caía nos ombros do casacão) que pulava de um lado para o outro agarrado a uma bengala. E, quando ele chegou mais perto, Susannah reparou, num de seus olhos, a película branca de uma catarata. A pupila, pouco visível, parecia sempre virada para a esquerda, sem vida. A outra, porém, observava os recém-chegados com nítido interesse enquanto o habitante da casinha pulava por Odd’s Lane em direção a eles.

A égua tornou a relinchar e o velho brandiu freneticamente a bengala contra o céu baixo e branco.

— Cala a boca caixa de feno, fábrica de bosta, velhinha pirada porra louca! Será que tu nunca viu visita? Num nasceu num estábulo, anh? Pruquê se não nasceu, sou um babuíno de olho azul, que é uma coisa que não existe!

Roland riu com vontade e o resto da atenta apreensão de Susannah se dissipou. A égua relinchou de novo do anexo atrás da casinha — nem de perto algo de tamanho suficiente para ser chamado de celeiro —, e o velho tornou a sacudir a bengala em sua direção, quase caindo no chão de neve. Seu desajeitado, mas rápido modo de andar, já o fizera cumprir metade do trajeto até o ponto onde eles estavam. Depois de escapar do que podia ter sido um tombo sério, o homem deu um grande salto para o lado usando a bengala como apoio e começou a agitá-la animadamente na direção do grupo.

— Salve, pistoleiros! — gritou. Pelo menos tinha pulmões admiráveis. — Pistoleiros em peregrinação para a Torre Negra, é o que são, é o que têm de ser, pois será que não vejo os grandes trabucos de cabo amarelo? E o Feixe voltou, belo e forte, pois eu o senti e Lippy também! Aliás ela tem estado lépida como uma potra desde o Natal, ou desde o que eu chamo Natal, pois não tenho calendário nem vi Papai Noel, o que não é de admirar, porque não tenho sido bonzinho. Nunca! Nunca! Bonzinhos vão para o céu e todos os meus amigos estão naquele outro lugar, assando marshmallows e tomando Nozzy com uísque na toca do diabo! Ahrrr, só mesmo eu, alguma coisa pega minha língua pela goela e a faz correr pelos dois cantos da boca! Salve um, salve o outro e salve os duendezinhos peludos no meio! Se não é um zé-trapalhão enquanto eu viver e respirar! Uau, como é que não é bom ver vocês?! Joe Collins é meu nome, Joe Collins de Odd’s Lane, eu mesmo bastante estranho, zarolho e coxo, mas, fora isso, às suas ordens!

Ele havia agora atingido o monte de neve que marcava o ponto onde acabava a estrada da Torre... ou onde ela começava, dependendo do ponto de vista e da direção em que a pessoa estivesse viajando, Susannah supunha. Ergueu a cabeça para eles, um olho brilhante como o de um pássaro, o outro se perdendo, quase fascinado, na vastidão branca.

— Longos dias e belas noites, sim, digo eu, e quem pudesse dizer o contrário sem dúvida não está aqui. E quem vai dar alguma importância à porra do que eles dizem? — Tirou do bolso o que podia ser uma bala de goma e jogou a bala para cima. Oi pegou-a facilmente no ar: Nhoque!, e a bala sumiu.

Com isto, Roland e Susannah deram uma risada. Parecia estranho rir, mas foi uma boa sensação, como encontrar uma coisa de valor muito tempo depois de você ter achado que a perdera para sempre. Até Oi parecia estar rindo e, se a égua o preocupava (ela tornou a relinchar enquanto contemplavam sai Collins da pilha de neve), isso não transpareceu.

— Tenho um milhão de perguntas para vocês — disse Collins —, mas vou começar com apenas uma: diabo, como vão conseguir descer desse monte de neve?

 

O fato é que Susannah simplesmente escorregou, usando a padiola realmente como um trenó. Ela escolheu o lado onde a ponta noroeste de Odd’s Lane desaparecia sob a neve, porque o monte de neve era um pouco mais raso ali. Foi uma viagem curta, mas não suave. Bateu num grande e denteado pedregulho de neve a três quartos do caminho para baixo, caiu da padiola e completou o resto da descida com dois brilhantes saltos mortais, morrendo de rir enquanto caía. A padiola virou (virou como uma tartaruga, pelo visto), derramando a tralha deles por todo lado e com bastante violência.

Roland e Oi vieram aos saltos atrás de Susannah. Roland se curvou de imediato sobre ela, nitidamente preocupado, e Oi fungou ansioso em seu rosto, mas Susannah não parava de rir. Nem ela nem o velho. Papai Mose diria que o riso dele era “alegre como uma fita de chapéu”.

— Estou bem, Roland... Levei tombos piores no meu Trenó Flexible Flyer quando era criança, pode crer.

— Tudo está bem quando acaba bem — Joe Collins concordou. Olhou-a de relance com o olho bom para se certificar de que ela de fato estava bem, depois começou a pegar algumas das coisas espalhadas, inclinando-se laboriosamente sobre a bengala, o fino cabelo branco esvoaçando em volta da cara rosada.

— Naum, naum — disse Roland estendendo a mão para pegar o braço dele. — Eu faço isso. Queres arriar de vez essa traquitana?

Nisto o velho estourou de rir e Roland juntou-se de bom grado a ele. De trás da casinha, a égua deu outro relincho alto, como se protestasse contra todo aquele bom humor.

— Arriar de vez essa traquitana! Rapaz, essa foi ótima! Não tenho a mais ínfima pista do que pode ser minha traquitana, mas foi ótima! Realmente em cima! — Ele sacudiu a neve do casaco de peles de Susannah enquanto Roland acabava rapidamente de pegar as coisas caídas no chão, tornando a empilhá-las no trenó improvisado. Oi ajudou, levando vários pacotes de carne na boca e colocando-os no canto da padiola.

— Um animalzinho bastante esperto! — disse Joe Collins num tom de admiração.

— Tem sido um bom companheiro de viagem — Susannah concordou. Estava muito feliz por terem parado; por nada, de mundo algum, queria ter sido privada do conhecimento daquele senhor tão cordial. Estendeu-lhe a mão direita, toscamente enluvada.

— Sou Susannah Dean... Susannah de Nova York. Filha de Dan.

O homem pegou a mão dela e sacudiu. A mão dele estava sem luvas e, embora a artrite tivesse entortado os dedos, o aperto era forte.

— Nova York, claro! Eu mesmo já morei lá. E também em Akron, Omaha e San Francisco. Filho de Henry e Flora, se isso importa a vocês.

— Veio do lado-América? — Susannah perguntou.

— Ó, Deus, sim, mas há muito e muito tempo — disse ele. — Do que vocês chamariam passado longínquo. — O olho bom cintilava; o ruim continuava contemplando as extensões de neve com aquela mortal falta de interesse. Ele se virou para Roland. — E quem poderia ser você, meu amigo? Pois eu o chamo de amigo assim como faria com qualquer outro, a menos que você me prove que não é, hipótese em que eu recorreria à minha Bessie, que é como eu chamo minha bengala.

Roland estava sorrindo. Era impossível não estar, Susannah pensou.

— Roland Deschain — disse ele —, de Gilead. Filho de Steven.

— Gilead! Gilead! — O olho bom de Collins girou com espanto. — É um nome tirado do passado, não é? Um nome para os livros! Meu Santo Rapaz, você deve ser mais velho que Deus!

— Alguns acham que sou — Roland concordou, agora apenas sorrindo... mas calorosamente.

— E o carinha? — ele perguntou se curvando para a frente. Collins tirou do bolso mais duas balas de goma, uma vermelha, uma verde. Cores do Natal e Susannah sentiu um leve toque de déjà vu. A coisa roçou em sua mente como asa e passou. — Qual é seu nome, carinha? Como eles gritam quando querem que você venha pra casa?

— Ele não...

...fala mais, embora já tenha falado, era como Susannah pretendia terminar, mas antes que tivesse tempo, o trapalhão respondeu:

— Oi!

E falou do modo brilhante e firme como falava quando Jake andava com ele.

— Bom rapaz! — disse Collins, pondo as balas na boca de Oi. Depois estendeu o braço com a mesma mão torta e Oi ergueu a pata para encontrá-la. Eles se cumprimentaram felizes perto do cruzamento de Odd’s Lane com a estrada da Torre.

— Macacos me mordam — disse Roland suavemente.

— Somos todos macacos no final, tenho de admitir, com ou sem o Feixe — Joe Collins observou, soltando a pata de Oi. — Mas não hoje. Agora acho que devemos entrar onde está quente para podermos palestrar tomando uma xícara de café. Tenho um pouco de café, podem crer... ou uma caneca de cerveja. Tenho até uma birita que chamo de gemada, se vocês quiserem. Ela me faz muito bem, especialmente com uma mijadinha de rum, mas quem sabe? Realmente não ando sentindo o gosto de nada nos últimos cinco anos ou mais. O ar que vem da Discórdia acabou com meu paladar e também com meu nariz. Seja como for, o que me dizem? — Ele os fitou com um ar vibrante.

— Eu diria que parece incrivelmente ótimo — disse Susannah. Poucas vezes tinha sido tão sincera em sua vida.

Ele deu tapinhas afetuosos em seu ombro.

— Uma boa mulher é uma pérola que não tem preço! Não sei se li isso em Shakespeare, na bíblia ou numa combinação dos d... Arre, Lippy! Malditos sejam aquilo que eram seus olhos, aonde você acha que está indo? Queria conhecer as pessoas de perto, é isso?

Sua voz tinha se transformado naquele sussurro ultrajado que parece marca registrada das pessoas que só têm por companhia um ou dois animais de estimação. A égua havia conseguido chegar perto deles e Collins agarrou-a pelo pescoço, dando-lhe tapinhas com rude afeição, mas Susannah achou que era o mais feio animal quadrúpede que já vira em toda a sua vida. Parte de seu bom humor chegou a se dissipar diante da coisa. Lippy era cega — não de um olho, mas dos dois — e magra como um espantalho. Quando andava, a armação dos ossos se deslocava tão claramente de um lado para o outro sob a fina camada de pele que Susannah tinha quase a sensação de que algumas hastes iam perfurá-la. Por um momento ela se lembrou do corredor negro sob o Castelo Discórdia com uma espécie de sinistra visão compacta: o chiado deslizante da coisa que os seguira, e os ossos. Todos aqueles ossos.

Collins podia ter visto um pouco do que Susannah estava sentindo na cara dela, pois quando tornou a falar parecia quase na defensiva.

— É uma coisinha velha e feia, eu sei, mas quando você ficar tão velha quanto ela está, acho que também não estará em condições de vencer muitos concursos de beleza! — Deu batidinhas no pescoço esfolado e meio ferida da égua, depois puxou a crina rala como se quisesse arrancar os pêlos das raízes (embora Lippy não desse sinais de dor) e virou-a na estrada, de modo que ela ficou de novo de frente para a casinha. Enquanto ele fazia isto, os primeiros flocos da tempestade que se aproximava começaram a rodopiar.

— Vamos, Lippy, Seu velho Ki’-box e gammer-gurt, seu cavalo de costas tortas e lepra de quatro patas! Não consegue sentir o cheiro de neve no ar? Pruquê eu já senti e olha que o meu nariz se aposentou há anos!

Tornou a se virar para Roland e Susannah.

— Espero — disse — que curtam a minha cozinha, pois é, pruquê acho que vamos ter uns três dias de sopro! É, pelo menos três antes da Lua do Demônio mostrar de novo o focinho! Mas foi legal a gente ter se achado, foi sim, e eu garanto o que digo e o que vou fazer! E não julguem meu cavalheirismo pelo meu cavalo! Hee!

Claro que não, pensou Susannah, estremecendo um pouco. O velho tinha se virado e Roland olhou para ela com uma expressão estranha. Ela sorriu e balançou a cabeça como dizendo: não é nada... o que, é claro, era. Não ia dizer ao pistoleiro que uma egüinha decrépita com cataratas nos olhos e costelas aparecendo tinha lhe provocado um acesso de treme-treme. Roland nunca a chamara de histérica e, por Deus, ela não pretendia lhe dar motivo para mudar de idéia nem...

Como se ouvisse seus pensamentos, a velha égua olhou para trás e mostrou a Susannah os poucos dentes que lhe sobravam. No ossudo triângulo que era a cabeça da Lippy, os olhos eram rolhas de cegueira envoltas em pus, sobre um sorriso meio horrendo. Ela relinchou para Susannah como a dizer: Pensa o que quiser, pássaro preto; eu estarei aqui muito depois de teres seguido teu curso e sofrido tua morte. Nesse momento aumentaram as rajadas de vento, jogando neve em seus rostos, gemendo entre os abetos carregados de neve, assobiando sob os beirais da casinha de Collins. Depois de começar a ceder, o vento tornou a se fortalecer por um momento, produzindo um grito breve de angústia que pareceu quase humano.

 

O anexo consistia em um cercado de galinhas num dos lados, a baia da Lippy do outro e em um pequeno celeiro entupido de forragem.

— Consigo subir ali e puxar o feno pra baixo — disse Collins —, mas arrisco a vida toda vez. É prucausa deste meu quadril que tenho em pedaços. Não quero obrigá-lo a ajudar um velho, sai Deschain, mas será que não podia...?

Roland subiu na escada encostada na beira do piso do celeiro e começou a jogar o feno para baixo até Collins lhe dizer que estava bom, que com um pouco de sorte já havia forragem suficiente para alimentar a Lippy por uns quatro dias de sopro (“pois sua vontade de comer é leve como foda de beija-flor, como se pode ver olhando pra ela”, disse Collins). Então o pistoleiro desceu e Collins os levou por um curto caminho até a casa. A neve empilhada de um lado e do outro era da altura da cabeça de Roland.

— Mi casa es su casa, et cetera, você sabe — disse Joe, introduzindo-os na cozinha. Era forrada com o que parecia ser um pinho cheio de nódulos, embora não passasse de um plástico, como Susannah percebeu ao chegar mais perto. Era deliciosamente quente. O fogão elétrico se chamava Rossco, marca de que ela nunca tinha ouvido falar. O refrigerador era Amana e tinha uma portinhola especial colocada na frente, sobre a maçaneta. Susannah se aproximou e viu as palavras GELO MÁGICO.

— Esta coisa faz cubos de gelo? — ela perguntou deliciada.

— Bem, não, não exatamente — disse Joe. — É o congelador que faz, beleza; essa coisa na frente só joga os cubos na sua birita.

Isto pareceu engraçado, ela riu. Olhou para baixo, viu Oi erguendo a cabeça para ela com seu velho sorriso amigo, o que fez com que risse ainda mais. Conveniências modernas à parte, o cheiro da cozinha era maravilhosamente nostálgico: açúcar, temperos e muita coisa gostosa.

Roland estava observando as lâmpadas fluorescentes e Collins abanou a cabeça.

— Ié, ié, tenho toda a “létrica” — disse ele. — Também uma fornalha de ar quente, né bom? E nunca ninguém me manda uma conta! A possante está numa casinha lá pelo outro lado. É uma Honda, silenciosa como manhã de domingo! Mesmo quando tu chega pertinho da casinha dela, a única coisa que tu ouve é mmmmmm. O Gago Bill troca os cilindros de propano e faz a manutenção quando ela precisa de manutenção. Isto só aconteceu duas vezes durante todo o tempo em que estou aqui. Tudo bem, mentira no negócio, nariz de pinóquio... Foram três vezes. Um total de três.

— Quem é o Gago Bill? — Susannah perguntou no momento exato em que Roland fazia outra pergunta.

— Quanto tempo está aqui?

Joe Collins deu uma risada.

— Um de cada vez, meus caros e novos amigos, um de cada vez! — Tinha posto a bengala de lado para tirar o casaco, pôs seu peso sobre a perna ruim fez um chiado baixo e quase caiu. Teria caído se Roland não o tivesse segurado.

— Obrigado, obrigado, obrigado — disse Joe. — Não gosto de contar, mas não seria a primeira vez que ia dar de nariz neste chão de meleca! Bem, como tu me livrou de um tombo, vou responder primeiro à tua pergunta. Tô aqui, o estranho Joe da Odd’s Lane, há uns 17 anos. E se num tô respondendo cum precisão bissoluta é porque teve uma época que o tempo ficou bastante engraçado por aqui, se entende o que tô dizendo.

— Entendemos — disse Susannah. — Pode crer que nós entendemos.

Collins estava agora tirando um suéter e embaixo dele havia outro. A primeira impressão de Susannah foi de um sujeito forte, que por pouco escapava da gordura. Depois ela viu que muito do que encarara como gordura era só enchimento. Claro que ele não era desesperadamente magro como a velha égua, mas estava a muitas léguas de gorducho.

— Quanto ao Gago Bill — o velho continuou, removendo o segundo suéter —, ele é um robô. Limpa a casa tão bem quanto conserva meu gerador funcionando... e, é claro, é ele quem faz o trabalho com o arado. Da primeira vez que cheguei aqui, ele só gaguejava de vez em quando; agora é a cada segunda ou terceira palavra. Não sei o que vou fazer quando ele pifar de vez. — Aos ouvidos de Susannah, Collins parecia singularmente despreocupado quanto a isso.

— Talvez ele melhore, agora que o Feixe está de novo funcionando bem — disse ela.

— Pode durar um pouco, mas duvido como diabo que tenha alguma melhora — disse Joe. — Máquinas não se curam do mesmo modo como as coisas vivas. — Finalmente ele alcançou o último agasalho e aí o strip-tease parou. Susannah achou ótimo. Olhar para as vigas das costelas da égua, um tanto fantasmagóricas, tão próximas sob o curto pêlo cinza, já fora suficiente. Não tinha a menor vontade de ver também as do dono.

— Tirem os casacos e as perneiras — disse Joe. — Vou fazer suas gemadas ou o que mais quiserem num minuto ou dois, mas primeiro quero mostrar minha sala, que é meu orgulho, pois é.

 

Havia um tapete artesanal, de tiras, no chão da sala bem no estilo da casa da avó Holmes e uma poltrona reclinável com uma mesinha do lado. Na mesa, um monte de revistas, livros, óculos e uma garrafa marrom contendo só Deus sabia que tipo de medicamento. Havia uma televisão, embora Susannah não pudesse imaginar o que o velho Joe poderia ver nela (Eddie e Jake teriam reconhecido o videocassete na prateleira de baixo). Mas o que captou toda a atenção de Susannah — e também a de Roland — foi a foto numa das paredes. Fora afixada ali por um percevejo, ligeiramente de lado, uma maneira descuidada que parecia (pelo menos aos olhos de Susannah) quase sacrílega.

Era uma foto da Torre Negra.

O fôlego a desertou. Ela se fez chegar perto, mal sentindo os nós e fios do tapete sob as palmas das mãos. Ergueu os braços.

— Roland, me levanta!

Ele obedeceu e Susannah reparou que o rosto dele ficara tremendamente pálido, exceto por dois severos círculos de cor queimando nas finas bochechas. Seus olhos estavam em brasa. A Torre se destacava contra o céu que escurecia, o pôr-do-sol pintando de alaranjado as colinas ao fundo, as janelas muito estreitas subindo em sua eterna espiral. De algumas daquelas janelas derramava-se um clarão mortiço e feérico. Ela podia ver as sacadas se projetando das pedras negras dos muros a cada dois ou três andares e também as portas atarracadas que se abriam para elas, todas fechadas. Trancadas, ela não tinha dúvidas. Diante da Torre havia o campo de rosas, Can’-Ka No Rey, já pouco iluminado mas ainda lindo nas sombras. A maioria das rosas estavam fechadas contra a chegada da noite, mas algumas ainda espreitavam como olhos sonolentos.

— Joe! — disse ela. A voz foi pouco mais que um sussurro. Ela experimentou uma sensação de fraqueza e teve a impressão de poder ouvir vozes que cantavam, longe e baixo. — Oh, Joe! Esta imagem...!

— Ié, dona — disse ele, claramente satisfeito com a reação de Susannah. — É uma boa foto, não é? Foi por isso que a pendurei aí. Tenho outras, mas esta é a melhor. Bem no pôr-do-sol, por isso a sombra parece se estender ao longo do Caminho do Feixe Luminoso. O que de certo modo acontece, como tenho certeza que vocês dois devem saber.

A respiração de Roland junto ao ouvido direito de Susannah era rápida e irregular, como se ele tivesse acabado de disputar uma corrida, mas Susannah mal reparava. Porque não era apenas o tema da fotografia que a enchera de assombro.

— Foi batida com uma Polaroid.

— Bem... ié — disse ele, parecendo tão confuso quanto ela empolgada. — Acho que o Gago Bill podia ter me trazido uma Kodak se eu pedisse uma, mas como eu ia revelar o filme? E quando pensei numa câmera de vídeo... pois a traquitana embaixo da TV toca o que essas câmeras filmam... eu já estava velho demais para voltar e aquela égua também já está velha demais para me carregar. Mas eu ia mais uma vez se pudesse, pruquê lá é fascinante, um lugar de fantasmas generosos. Ouvi cantar as vozes de amigos há muito desaparecidos; inclusive as de minha mãe e meu pai. Eu sem...

Uma paralisia tinha tomado conta de Roland. Susannah percebera isso pela imobilidade de seus músculos. Então a coisa se rompeu e ele se desviou tão depressa da foto que atordoou Susannah.

— Esteve lá? — ele perguntou. — Esteve na Torre Negra?

— De fato estive — disse o velho. — Pois quem você acha que tirou esta fotografia? O porra de Angel Adams?*

— Quando tirou a foto?

— Esta foi na minha última viagem — disse ele. — Há dois anos, no verão... É terra baixa, como você deve saber. Nunca tive notícia de que a neve tivesse chegado lá.

— Qual a distância daqui?

Joe fechou o olho ruim e calculou. Não demorou muito tempo, mas para Roland e Susannah pareceu demorar, demorar demais. Lá fora o vento soprava com força. A velha égua relinchou como se reclamasse do som. Atrás da janela de beiradas com gelo, a neve que caía começou a rodopiar, a dançar.

— Bem — disse ele —, vocês já estão na decida agora e o Gago Bill conserva limpa a estrada da Torre até onde vocês precisam ir; com o que mais, afinal, o velho motor daquela geringonça ia passar o tempo? Claro que vão querer esperar por aqui até que este bafo soprando do nordeste se cansar de vez...

— Quanto tempo depois que nos pusermos a caminho? — Roland perguntou.

— Nervoso pra ir, num é? Ié, quente e nervoso, e por que não, pois se vieram do Mundo Interior devem ter levado muitos e muitos anos para chegar aqui. Nem quero pensar quantos, eu não. Vamos dizer que podem levar seis dias para sair das Terras Brancas, talvez sete...

— Chama essas terras de Empática? — Susannah perguntou.

Ele piscou, depois dispensou-lhe uma olhadela confusa.

— Ora não, madame... Nunca ouvi chamarem esta parte da criação de outra coisa a não ser de Terras Brancas.

O olhar de confusão era falso. Susannah tinha quase certeza. O velho Joe Collins, simpático como um Papai Noel num playground, simplesmente estava mentindo. Não sabia muito bem por que e, antes que pudesse pensar melhor, Roland pediu asperamente:

— Não pode adiar provisoriamente este assunto? Não pode, pelo amor de seu pai?

— Sim, Roland — ela respondeu docilmente. —É claro.

Roland tornou a se virar para Joe, ainda segurando Susannah em seu quadril.

— Podem levar até uns nove dias, eu acho — disse Joe, coçando o queixo —, pois às vezes essa estrada é bastante escorregadia, especialmente depois das passadas de Bill pela neve, mas você não consegue fazê-lo parar. Ele tem ordens a cumprir. Seu programa, como diz. — O velho viu Roland se preparando para falar e levantou a mão. — Naum, naum, não estou puxando isto para desanimá-lo, senhor, sai ou como preferir ser chamado... Entenda que não estou muito acostumado a ter a companhia de outras pessoas.

E ele continuou:

— Assim que ultrapassar o limite da neve deverá ter ainda de dez a 12 dias de caminhada, mas de jeito nenhum vai ser preciso andar, a não ser que vocês queiram. Existe outro daqueles galpões da Positronics ali embaixo e dentro dele há alguns veículos com rodas. Parecidos com carrinhos de golfe, é. As baterias estão todas descarregadas, naturalmente... claro como neve... mas no galpão existe também um gerador, Honda como o meu, e estava funcionando da última vez que estive lá, pois Bill se esforça ao máximo para manter as coisas em ordem. Se conseguirem carregar um carrinho, ele poderia encurtar até em quatro dias a jornada. Aqui está o que eu acho: se tivessem de andar a pé todo o caminho, acabariam levando 19 dias. Se puderem fazer o último trecho numa daquelas rons-rons... é como eu as chamo, rons-rons, pois é o barulho que fazem quando estão andando... vão levar uns dez dias. Talvez 11.

A sala ficou em silêncio. O vento soprava com força, atirando neve contra a parede do chalé, e Susannah mais uma vez reparou que a rajadas estavam quase soando como um grito humano. Um truque dos ângulos dos beirais, sem dúvida.

— Menos de três semanas, mesmo se tivéssemos de caminhar — disse Roland. Ele estendeu a mão para a foto Polaroid da sombria torre de pedra contra o céu do crepúsculo, mas não chegou a tocá-la. Susannah achou que era como se tivesse medo de encostar a mão. — Após todos aqueles anos e todos aqueles quilômetros.

Para não mencionar os galões de sangue derramado, Susannah pensou, mas não teria dito isso mesmo se os dois estivessem sozinhos. Não era preciso; Roland sabia como ela quanto sangue fora derramado. Ali, no entanto, havia algo fora de tom. Fora de tom ou frontalmente errado. E o pistoleiro não parecia dar-se conta disto!

Simpatia era respeitar as sensações do outro. Empatia era de fato compartilhar essas sensações. Por que as pessoas chamariam uma terra de Empática?

E por que aquele agradável senhor mentiria a respeito de Empática?

— Me diga uma coisa, Joe Collins... — Roland começou.

— Ié, pistoleiro, se eu puder.

— Esteve mesmo lá, pertinho? Já pousou a mão na pedra dela?

O velho se virou para ver se Roland estava caçoando dele. Quando teve certeza de que não era esse o caso, pareceu chocado.

— Não — disse, e pela primeira vez pareceu tão americano quanto a própria Susannah. — Não tive coragem de ultrapassar o ponto onde bati esta foto. O começo do campo de rosas. Acho que estive a 200 ou 250 metros de distância. O que o robô chamaria quinhentos arcos de roda.

Roland abanou a cabeça.

— E por que não? — perguntou.

— Porque achei que poderia morrer se chegasse mais perto, mas não conseguiria parar. As vozes iam me obrigar a seguir. Foi o que pensei naquele momento e é o que continuo pensando hoje.

 

Após o jantar — certamente a mais fina refeição que Susannah já tivera desde que fora seqüestrada e levada para aquele outro mundo; talvez a melhor que já tivera em toda a sua vida — a ferida em seu rosto estourou. Em certo sentido, fora culpa de Joe Collins, mas inclusive mais tarde, quando já tinham muitas acusações contra o único habitante de Odd's Lane, ela não o censurou por isso. Era a última coisa que ele ia querer, sem dúvida.

Ele serviu galinha assada até o ponto certo, especialmente saborosa após tanta carne de cervo. Juntamente com ela, Joe levou para a mesa purê de batatas com molho, geléia de ovicoco cortada em grossos discos vermelhos, ervilhas (“só em lata, e eu digo perdão”, ele disse) e uma travessa de pequenas cebolas cozidas num molho de creme de leite. Havia também gemada. Roland e Susannah beberam com avidez infantil, embora recusassem a “mijadinha de rum”. Oi teve seu próprio jantar; Joe arranjara para ele um prato de galinha e batatas, que pousou no chão, ao lado do fogão. Oi deu conta rapidamente da comida e se esticou na passagem entre a cozinha e o combinado living/sala de jantar, lambendo os beiços. Queria aproveitar o gosto de cada migalha de frango retida no molho que ensopava seus bigodes enquanto, de orelhas em pé, observava os humos.

— Eu não conseguiria comer a sobremesa, portanto não me ofereça — disse Susannah quando acabou de limpar o prato pela segunda vez, absorvendo os restos do molho com um pedaço de pão. — Nem sei se vou conseguir sair desta cadeira.

— Tudo bem com a sobremesa — disse Joe, parecendo desapontado —, quem sabe mais tarde... Tenho um pudim de chocolate e um de caramelo.

Roland levantou o guardanapo para abafar um arroto.

— Consigo comer uma gotinha de cada, eu acho.

— Bem, vamos lá, talvez eu também consiga — Susannah concedeu. Quantas eras tinham transcorrido desde a última vez que sentira o gosto de caramelo?

Quando acabaram com o pudim, Susannah se ofereceu para ajudar a lavar a louça, mas Joe dispensou-a com um aceno de mão, dizendo que iria colocar as panelas e os pratos num lava-louças para tirar o gosto e, mais tarde, ele ia lavar “a turma toda”. Susannah achou-o mais ágil de movimentos ao vê-lo entrar e sair da cozinha com Roland, menos dependente da bengala. Achou que a mijadinha de rum (ou talvez várias delas, coroadas por uma grande mijada no final da refeição) pudesse ter tido algo a ver com isso.

O homem serviu café e os três (quatro, contando Oi) se sentaram na sala. Ficava cada vez mais escuro e o vento gritava mais alto que nunca. Mordred está em algum lugar lá fora, acampado numa fenda entre montes de neve ou no meio de um pequeno bosque, ela pensou e, mais uma vez, teve de sufocar um sentimento de pena. Seria mais fácil se não soubesse que, assassino ou não, ele ainda devia ser uma criança.

— Conte-nos como chegou aqui, Joe — Roland pediu.

Joe riu.

— É uma história de arrepiar os cabelos — disse ele —, mas se quiser mesmo ouvir, acho que não me importo em contar. — O riso se abrandou num sorriso pensativo. — É bom ter pessoas com quem conversar um pouco. Lippy é boa ouvinte, mas nunca diz absolutamente nada.

Começara tentando ser professor, disse Joe, mas logo descobriu que aquela vida não era para ele. Gostava das crianças — na realidade as adorava —, mas detestava toda a porcaria burocrática e o modo como o sistema era posto em movimento para garantir que nada quadrado escapasse do implacável processo de arredondamento. Bastaram três anos para que parasse de lecionar e entrasse no show business.

— Você cantava ou dançava? — Roland quis saber.

— Nem uma coisa nem outra — Joe respondeu. — Mas levei para eles o velho bufão.

— Bufão?

— Está querendo dizer que era comediante — disse Susannah. — Contava piadas.

— Exato! — disse Joe animadamente. — Algumas pessoas achavam mesmo que eram engraçadas. Claro que eram a minoria.

Conseguira um agente cuja empresa anterior, uma loja de desconto de roupas masculinas, tinha ido à falência. Uma coisa levou a outra, ele disse, e uma apresentação também levou a outra. Finalmente ele se viu trabalhando em boates de segunda e terceira classes de costa a costa, dirigindo uma velha, mas confiável picape Ford e indo para onde Shantz, seu agente, o mandava. Quase nunca trabalhava nos finais de semana; nos fins de semana, mesmo as boates de terceira classe preferiam contratar bandas de rock-and-roll.

Isto foi no final dos anos 60 e início dos 70 e não havia falta do que Joe chamou “material de noticiário”: hippies, contestadores, queimadoras de sutiãs e Panteras Negras, astros de cinema e, como sempre, a política — mas ele disse que fora mais um humorista tradicional voltado para as piadas. Que Mort Sahl e George Carlin cuidassem, se quisessem, do noticiário; Collins se manteria fiel a falando de minha sogra e dizem que nossos amigos poloneses são tolos mas deixe que eu lhe conte sobre a moça irlandesa que conheci.

Durante sua narrativa, uma coisa estranha (e — ao menos para Susannah — um tanto comovente) aconteceu. O sotaque do Mundo Médio de Joe Collins, com seus iés e iás, começou a se fundir num sotaque que ela só podia identificar como do Americano Esperto. Ficou esperando ouvir a pronúncia nova-iorquina, tipo boid em vez de bird, hoid em vez de heard, mas achou que isso acontecia porque havia passado muito tempo com Eddie. Imaginava Joe Collins como um daqueles papagaios naturais cujas vozes são a versão auditiva de Silly Putty, captando impressões e deixando que elas se dissipassem com a mesma rapidez com que subiam à superfície. Bird numa boate do Brooklyn provavelmente ia soar como boid e heard como hoid; em Pittsburgh seria burrd e hurrd; o supermercado Giant Eagle, Águia Gigante, se tornaria djont iguil.

Roland interrompeu-o pouco depois para perguntar se um comediante era como um bobo da corte e o velho riu com vontade.

— Acertou. Basta imaginar um punhado de gente sentada num salão enfumaçado com bebidas na mão em vez do rei e seus cortesãos.

Roland abanou a cabeça, sorrindo.

— Mas há vantagens em ser um sujeito engraçado fazendo shows em boates do Meio-Oeste — disse ele. — Se você fracassar em Dubuque, o mínimo que pode acontecer é se apresentar por vinte minutos em vez de 45 e depois sair para a próxima cidade. Há provavelmente lugares no Mundo Médio onde cortariam a porra da sua cabeça se você contaminasse demais a espelunca!

Nisto o pistoleiro explodiu numa risada, um som que ainda tinha o poder de sobressaltar Susannah (embora ela também estivesse rindo).

— Você diz a verdade, Joe.

No verão de 1972, Joe estivera se apresentando numa boate chamada Jango’s, em Cleveland, não longe do gueto. Roland tornou a interrompê-lo, desta vez querendo saber o que era o gueto.

— No caso de Hauck — disse Susannah —, se refere a uma parte da cidade onde a maior parte das pessoas são negras e pobres e os policiais têm o hábito de sacudir primeiro os cacetetes e perguntar depois.

— Bingo! — Joe exclamou, batendo com os nós dos dedos no alto da cabeça. — Nem eu poderia ter dito melhor!

De novo aquele estranho som de choro de bebê na frente da casa, mas agora o vento estava em relativa calma. Susannah olhou de relance para Roland, mas se o pistoleiro ouviu não deixou transparecer.

Foi o vento, Susannah disse a si mesma. O que mais poderia ser?

Mordred, a cabeça dela sussurrou a resposta. Mordred lá fora, congelando. Mordred morrendo lá fora enquanto estamos sentados aqui, tomando café quente.

Mas ela não disse nada.

Há duas semanas estava havendo problemas em Hauck, disse Joe, mas ele andara bebendo demais (“enchendo a cara” foi como colocou a coisa) e quase nem percebeu que o público, em sua segunda apresentação, tinha cerca de um quinto do tamanho da platéia no primeiro show.

— Diabo, estava mandando muito bem — disse ele. — Não posso dizer sobre os outros, mas estava me achando o máximo, rolando de rir.

Porque haviam atirado um coquetel Molotov pela janela da frente da boate (coquetel Molotov era um termo que Roland entendia) e, antes que alguém tivesse tempo de dizer peguem minha sogra... por favor, o lugar estava tomado pelas chamas. Joe se mandara pelos fundos. Tinha quase conseguido chegar à rua quando três homens (“todos muito negros, todos mais ou menos do tamanho dos atacantes da NBA”) o agarraram. Dois seguraram; o terceiro deu os socos. Então alguém empunhou uma garrafa. E pam-pam, ele apagou! Ele havia acordado numa encosta verde, perto de uma cidade abandonada chamada Stone’s Warp, segundo as placas nos prédios vazios ao longo da rua Central. Para Joe Collins, lembrava o cenário de um faroeste depois de todos os atores terem ido para casa.

Foi mais ou menos nessa altura que Susannah concluiu que não estava acreditando muito na história de sai Collins. Era, sem a menor dúvida, divertida e, considerando que Jake fizera sua primeira entrada no Mundo Médio após ter sido atropelado e morto quando estava a caminho da escola, não era de todo implausível. Mesmo assim ela não estava acreditando muito. Bem, mas será que isso tinha importância?

— Eu não podia chamar aquilo de céu porque não havia nuvens nem coro de anjos — disse Joe —, mas continuei achando que fosse algum tipo de vida após a morte.

Então havia perambulado sem destino. Encontrara comida, encontrara um cavalo (Lippy) e seguira adiante. Encontrara vários bandos errantes de pessoas, alguns amigáveis, outros não, alguns de boa estirpe, outros compostos de mutantes. Sem a menor dúvida ele havia absorvido alguns jargões e um pouco da história do Mundo Médio; certamente sabia sobre os Feixes e a Torre. A certa altura, tentara atravessar as Terras Áridas, mas ficara assustado e dera meia-volta quando sua pele começou a mostrar todo tipo de ferida e mancha estranha.

— Peguei um furúnculo na bunda e essa foi a gota d’água — disse ele. — Acho que aconteceu há uns seis ou oito anos. Eu e Lippy mandamos para o inferno a idéia de ir mais longe. Foi quando encontrei este lugar, que é chamado Volta do Oeste, e foi quando o Gago Bill me encontrou. Ele sabe alguma coisa de medicina e garfou o furúnculo que eu tinha na bunda.

Roland quis saber se Joe havia visto o Rei Rubro passar por ali na última peregrinação do maluco à Torre Negra. Joe disse que não, mas que seis meses atrás tinha havido uma terrível tempestade (“um tremendo pé d’água”) e ele achou melhor ir para o porão. Enquanto estava lá, acabara a luz, independentemente da geradora, e Joe, encolhido no escuro, tivera a sensação de que havia alguma terrível criatura por perto e que, a qualquer momento, ela poderia tocar sua mente e seguir cada um de seus pensamentos para descobrir seu esconderijo.

— Sabem como me senti? — perguntou.

Roland e Susannah balançaram negativamente as cabeças. Oi fez a mesma coisa, numa imitação perfeita.

— Salgadinho — disse Joe. — Me senti como um salgadinho em potencial.

Esta parte da história é verdadeira, Susannah pensou. Ele pode ter alterado alguns detalhes, mas no geral é verdadeira. E se Susannah teve razão para pensar assim foi meramente porque a idéia do Rei Rubro viajando com sua própria tempestade portátil parecia terrivelmente plausível.

— O que você fez? — Roland perguntou.

— Fui dormir — disse Joe. — É um talento que sempre tive, como o de fazer imitações... embora eu não imite vozes famosas nos meus shows, porque isso não dá certo com os caipiras. A não ser que você seja Rich Little,* pelo menos. Estranho, mas é verdade. Sei muito bem me obrigar a dormir e foi o que eu fiz lá embaixo no porão. Quando acordei de novo, a luz havia voltado e o... o seja-lá-o-que-fosse tinha ido embora. Já ouvi falar do Rei Rubro, é claro. De vez em quando ainda encontro gente... geralmente nômades como vocês três... e as pessoas falam dele. Geralmente quando fazem isso juntam o indicador e o polegar fazendo o sinal contra o mau-olhado, e cospem entre os dedos. Acham que foi ele, hum? Acham que o Rei Rubro realmente passou por Odd’s Lane a caminho da Torre. — E então, antes que um dos dois tivesse a chance de responder: — Bem, por que não? A estrada da Torre é, afinal, a estrada principal. E vai direto para lá.

Você sabe que era ele, Susannah pensou. Qual é o jogo, Joe?

O choro baixo, que sem a menor dúvida não era o barulho do vento, foi ouvido de novo. Mas ela também já não achou que fosse Mordred. Achou que podia estar vindo do porão onde Joe se escondera do Rei Rubro... ou pelo menos fora o que ele contara. Quem estava lá embaixo agora? E esse alguém estava se escondendo, como Joe se escondera, ou seria um prisioneiro?

— Não tem sido uma vida ruim — Joe estava dizendo. — Não foi, de nenhum modo ou tamanho, a vida que eu esperava, mas tenho uma teoria... As pessoas que de fato conseguem viver as vidas que esperavam ter em geral são as mesmas que vão acabar tomando soníferos ou enfiando o cano de um revólver na boca e puxando o gatilho.

Roland parecia estar ainda algumas voltas atrás.

— Você era o bobo e os fregueses dessas estalagens eram a corte — disse ele.

Joe sorriu, mostrando um monte de dentes brancos. Susannah franziu a testa. Era a primeira vez que estava vendo os dentes dele? Deram muita risada, e já os devia ter visto, mas não conseguia se lembrar se vira ou não. Certamente Joe não tinha a fala de mingau de quem já tivesse perdido a maioria dos dentes (pessoas assim tinham freqüentemente se consultado com o pai dela, a maioria querendo colocar dentes postiços). Se lhe pedissem para adivinhar ela teria dito que Joe tinha dentes, mas reduzidos a pequenos espetos, tocos e...

E qual é o problema com você, garota? Ele pode estar mentindo sobre algumas coisas, mas certamente não ganhou uma arcada de dentes novos desde que você se sentou para jantar! Está deixando se levar pela imaginação.

Estava? Bem, era possível. E aquele choro baixo, afinal, talvez não passasse do barulho do vento nos beirais da frente da casa.

— Eu ouviria algumas de suas piadas e histórias — disse Roland. — Como você contava na estrada, se não se importa.

Susannah olhou atentamente para o pistoleiro, se perguntando se não haveria alguma motivação oculta naquele pedido, mas ele parecia genuinamente interessado. Mesmo antes de ver a foto da Torre Negra afixada na parede do living (seus olhos voltavam constantemente a ela enquanto Joe contava sua história), Roland fora tomado por uma espécie de vibrante jovialidade que, sem a menor dúvida, não era muito típica dele. Era quase como se tivesse ficado doente, entrando e saindo de um estado de delírio.

Joe Collins pareceu surpreso com o pedido do pistoleiro, mas de modo algum contrariado.

— Bom Deus — disse ele. — Tenho impressão de ter feito minha última apresentação há mil anos... e considerando o modo como o tempo se esticou por aqui, lá atrás, talvez tenha sido mesmo há mil anos. Não tenho certeza se saberia como começar.

Susannah se surpreendeu dizendo:

— Tente.

 

Joe pensou um pouco e se levantou sacudindo algumas migalhas que tinham sobrado em sua camisa. Cambaleou para o centro da sala, deixando a bengala encostada na cadeira. Oi ergueu os olhos para ele com as orelhas empinadas e o velho sorriso largo no focinho, como se na expectativa da diversão que viria. Por um momento Joe pareceu em dúvida. Então respirou fundo, deixou sair o ar e mostrou a eles um sorriso.

— Prometam que não vão me atirar tomates se eu contaminar a espelunca — disse ele. — Lembrem-se de que já foi há muito tempo.

— Não vamos lhe atirar nada depois que nos deu abrigo e alimento — disse Susannah. — Jamais faríamos isso.

Roland, sempre literal, completou:

— Além disso não temos tomates.

— Certo, certo. Mesmo que haja alguns tomates enlatados na despensa... Esqueçam o que eu disse!

Susannah sorriu. Roland também.

Encorajado, Joe começou:

— Tudo bem, vamos voltar àquele lugar mágico chamado de Jango’s, àquela cidade mágica que alguns habitantes locais chamavam de “burrada à beira do lago”. Cleveland, Ohio, em outras palavras. Segundo show. Aquele que não consegui acabar e eu estava mandando muito bem, acreditem. Me dêem só um segundo...

Fechou os olhos. Parecendo se concentrar. Quando tornou a abri-los, pareceu de alguma forma dez anos mais novo. Foi assombroso. E quando começou a falar não apenas soava como americano; também parecia americano. Susannah não poderia ter colocado isso em palavras, mas sabia que era verdade: ali estava um Joe Collins made in EUA.

— Olá, senhoras e senhores, bem-vindos a Jango’s! Eu sou Joe Collins e vocês não são!

Roland deu uma risadinha e Susannah sorriu, principalmente para se mostrar agradável — era uma entrada das mais batidas.

— O gerente daqui me pediu para lembrar a vocês que hoje é uma noite de duas cervejas por um dólar. Sacaram? Bom. Pra ele o lucro é o motor da coisa e comigo é interesse próprio. Porque quanto mais vocês beberem, mais graça vou ter.

Susannah deu um largo sorriso. Havia um ritmo para o humor, até ela sabia disso, mesmo sendo que ela jamais teria conseguido ficar sequer cinco minutos na frente da barulhenta multidão de uma casa noturna, nem que sua vida dependesse disso. Havia um ritmo e, após um começo meio incerto, Joe encontrava o dele. Seus olhos estavam semicerrados; Susannah achava que ele via as cores misturadas das luzes no palco (assim como as cores do Arco-íris do Mago, pensando bem) e sentia o cheiro da fumaça de cinqüenta cigarros. Uma das mãos segurando o cabo cromado do microfone; a outra livre para fazer uma infinidade de gestos. Joe Collins se apresentando no Jango’s numa noite de sexta-feira...

Não, não uma sexta-feira. Ele disse que todos os clubes contratavam bandas de rock-and-roll nos finais de semana.

— E apesar de toda aquela coisa da burrada-à-beira-do-lago, Cleveland é uma bela cidade — disse Joe. Agora ele estava acelerando. Começando a embalar, Eddie poderia ter dito. — Meus pais são de Cleveland, mas quando fizeram 70 se mudaram para a Flórida. Não queriam, mas porra, é a lei. Bingo! — Joe bateu de leve com os nós dos dedos na cabeça e fez olhar de vesgo. Roland tornou a rir, embora não pudesse ter a menor idéia de onde ficava (ou sequer do que era) a Flórida. O sorriso de Susannah estava maior do que nunca.

— A Flórida é um lugar do outro mundo — disse Joe. — Do outro mundo. Lar dos recém-casados e dos quase mortos. Meu avô se aposentou na Flórida, que Deus fique com sua alma! Quando eu morrer, quero ir pacificamente, durante o sono, como Fred, meu avô. Não gritando, como as pessoas que ele levava no carro.

Com essa Roland deu uma gargalhada e Susannah também. O sorriso de Oi foi maior do que nunca.

— Minha avó, ela também era incrível. Dizia que tinha aprendido a nadar quando alguém a levou para o rio Cuyahoga e atirou-a para fora do barco. Eu disse: “Ei, vovó, eles não estavam tentando ensinar você a nadar.”

Roland deu uma risada, limpou o nariz, depois deu outra risada. A cor tinha brotado em suas faces. O riso acelerava todo o metabolismo da pessoa, quase a colocando do mesmo jeito que uma situação onde a pessoa tem que decidir se vai lutar ou fugir; era o que Susannah tinha lido em algum lugar. O que significava que o dela também devia estar se acelerando, porque também estava rindo. Era como se todo o horror e a mágoa estivessem jorrando de uma ferida aberta, jorrando como...

Bem, como sangue.

Ouviu um fraco sino de alarme começando a tocar, bem atrás de sua mente, e o ignorou. O que havia ali para causar alarme? Estavam rindo, pelo amor de Deus! Estavam se divertindo!

— Posso falar sério por um minuto? Não? Bem, vá tomar no olho do seu cu com o pangaré em que você montou... Amanhã quando eu acordar vou estar sóbrio, mas você vai continuar feio. E careca.

(Roland deu uma gargalhada.)

— Vou falar sério, OK? Se não gostar, enfie-o onde você mantém seu porta-moeda. Minha vovó era uma grande dama. Em geral as mulheres são incríveis, não é? Mas elas têm suas imperfeições, exatamente como os homens. Se uma mulher tem de escolher entre pegar uma bola de beisebol e salvar a vida de um bebê, por exemplo, ela vai salvar o bebê, pouco se importando em saber quantos pontos o time vai deixar de marcar. Bingo! — Bateu na cabeça com os nós dos dedos e arregalou os olhos de um modo que fez os dois rirem. Roland tentou pousar a xícara, mas acabou derramando o café. Estava segurando a barriga. Ouvi-lo rir daquele jeito (render-se tão completamente ao riso) era em si mesmo engraçado, e Susannah também teve outra explosão de riso.

— Homens são uma coisa, mulheres outra. Coloque-os juntos e vocês terão um sabor inteiramente novo. Como biscoitos Negresco. Como manteiga de amendoim. Como bolo com passas com caldo de meleca. Dêem-me um homem e uma mulher e mostrarei a vocês aquela instituição perversa... não a escravidão, o casamento. Mas eu me repito. Bingo! — Bateu na cabeça. Arregalou os olhos. Desta vez eles pareceram que iam mesmo saltar das órbitas

(mas como ele faz isso)

e Susannah teve de agarrar o estômago, que estava começando a doer com a força do riso. E as têmporas estavam começando a martelar. Doía, mas era uma dor gostosa.

— Casamento é ter uma esposa ou um marido. Pois é! Verifique no Webster’s! Bigamia é ter uma esposa ou marido a mais. E bem, monogamia é a mesma coisa. Bingo!

Se Roland risse com mais força, Susannah pensou, ia escorregar da cadeira e cair na mancha do café derramado.

— Então há o divórcio, um termo latino que significa “arrancar as bolas de um homem pela carteira de dinheiro.”

“Mas eu estava falando sobre Cleveland, estão lembrados? Vocês sabem como Cleveland começou? Com um monte de gente em Nova York dizendo: ‘Puxa, estou começando a gostar do crime e da pobreza, mas gostaria de um pouco mais de frio. Vamos para o oeste.’”

O riso, Susannah refletiria mais tarde, é como um furacão: assim que atinge um certo ponto, torna-se auto-suficiente, auto-alimentado. Você ri não porque as piadas sejam engraçadas mas porque sua própria condição é engraçada. Joe Collins levou-os até aquele ponto com a próxima tirada.

— Ei, se lembram da escola primária? Disseram que, em caso de fogo, vocês deviam entrar calmamente em fila. Os mais baixos na frente e os mais altos no final da fila. Qual é a lógica disso? Será que as pessoas mais altas queimam mais devagar?

Susannah soltou uma risada estridente e deu um tapa na própria face. Isto produziu um súbito e inesperado surto de dor que escoou de imediato todo o riso de dentro dela. A ferida ao lado da boca estava crescendo de novo, mas há dois ou três dias não sangrava. Quando, inadvertidamente, Susannah a atingiu com o movimento da mão, a ferida perdeu a crosta vermelho-escura que a cobria. A coisa, então, não apenas sangrou; ela esguichou.

Por um momento Susannah não teve consciência do que acabara de acontecer. Só sabia que o tapa do lado do rosto doera muito mais do que devia ter doído. Joe também parecia inconsciente (seus olhos estavam de novo quase inteiramente fechados), tinha de estar inconsciente, pois falava mais depressa que nunca.

— Ei, e sobre aquele restaurante de frutos do mar que abriram no Sea World? Quando eu já tinha acabado metade do meu hambúrguer de peixe me perguntei se não estava comendo um mau aluno! Bingo! E por falar de peixe...

Oi latiu alarmado. Susannah sentiu um calor súbito e úmido descendo pelo lado do pescoço e entrando no ombro.

— Pare, Joe — disse Roland parecendo sem fôlego. Sem forças. De tanto rir, Susannah apostava. Ah, mas o lado de seu rosto doía e...

Joe abriu os olhos, parecendo irritado.

— Por quê? Jesus Cristo, você pediu e estou dando o que você pediu!

— Susannah se feriu. — O pistoleiro estava de pé olhando para ela, o riso cedendo à preocupação.

— Não estou ferida, Roland, só me esbofeteei no lado do rosto com um pouco mais de força do que... — Então Susannah olhou para a mão e ficou consternada ao ver que ela estava usando uma luva vermelha.

 

Oi tornou a latir. Roland pegou o guardanapo que estava ao lado da xícara virada. Uma ponta estava marrom, ensopada com café, mas a outra estava seca. Ele a apertou contra a ferida jorrando sangue e Susannah se esquivou do toque, os olhos se enchendo de lágrimas.

— Não! Deixe que pelo menos eu faça parar de sangrar — Roland murmurou agarrando a cabeça dela, introduzindo suavemente os dedos na apertada camada de seus caracóis de cabelo. — Fique quieta. — Para não contrariá-lo, ela conseguiu ficar parada.

Através dos olhos lacrimejantes Susannah achou que Joe ainda parecia irritado por ela ter interrompido seu número de comediante de forma tão drástica (para não dizer grosseira) e, em certo sentido, Susannah entendia sua reação. Joe estava realmente fazendo um bom trabalho; ela estragara tudo. Fora a dor, que agora estava diminuindo um pouco, sentia-se terrivelmente sem graça. Lembrou-se do tempo em que tivera a primeira menstruação durante uma aula de educação física e um filete de sangue escorrera pela sua coxa diante de todo mundo — pelo menos diante da turma com quem compartilhava a aula do terceiro período. Algumas garotas tinham começando a entoar: TAMPE-SE!, como se fosse a coisa mais engraçada do mundo.

Misturado a essa memória, havia medo com relação à ferida. E se fosse câncer? Até então Susannah conseguira sempre repelir a idéia antes que ela chegasse a se articular em sua mente. Desta vez não conseguira. E se tivesse se dado um câncer de presente durante aquela jornada pelas Terras Áridas?

Seu estômago deu um nó, depois teve ânsias. O ótimo jantar continuava lá dentro, mas talvez não por muito tempo.

De repente ela quis ficar sozinha, precisou ficar sozinha. Se ia vomitar, não queria fazê-lo na frente de Roland e daquele estranho. Mesmo se não fosse vomitar, queria algum tempo para voltar a se sentir sob controle. Uma rajada de vento forte o bastante para sacudir todo o chalé passou roncando como avião em pleno vôo; as luzes oscilaram e o estômago de Susannah deu novamente um nó ante o enjoativo movimento das sombras na parede.

— Tenho de ir... ao banheiro... — ela conseguiu dizer. Por um momento o mundo oscilou, mas logo tornou a se firmar. Na lareira uma tora de madeira explodiu, atirando uma rajada de centelhas rubras na chaminé.

— Tem certeza? — Joe perguntou. Não estava mais zangado (se é que de fato estivera), mas a contemplava com um ar de dúvida.

— Deixe que vá — disse Roland. — Ela precisa se recompor um pouco, eu acho.

Susannah começou a lhe dispensar um sorriso de gratidão, mas isso mexeu com a ferida, que começou novamente a sangrar. Ela não sabia o que poderia mudar no seu futuro imediato graças àquela estúpida ferida que não cicatrizava, mas sabia que, durante algum tempo, não deveria mais ouvir piadas. Iria precisar de uma transfusão se continuasse a rir.

— Volto logo — disse. — E vocês, rapazes, deixem um pouco daquela calda de baunilha para mim. — A própria idéia de comida a deixava nauseada, mas tinha de dizer alguma coisa.

— Com relação à calda não prometo nada — disse Roland. Então, quando ela começou a se virar: — Se sentir alguma tonteira pode me chamar.

— Chamo — disse ela. — Obrigada, Roland.

 

Embora Joe Collins morasse sozinho, seu banheiro tinha um toque agradavelmente feminino. Já na primeira vez que o usara Susannah havia reparado nisso. O papel de parede era rosa com folhas verdes e (o que mais?) rosas silvestres. O vaso parecia perfeitamente moderno exceto pelo assento, que era de madeira e não de plástico. Será que ele mesmo o entalhara? Não achava que isso estivesse fora de cogitação, embora fosse mais provável que o robô tivesse trazido o assento de algum depósito esquecido. O Gago Carl? Fora assim que Joe chamara o robô? Não, Bill. O Gago Bill.

De um lado do vaso havia um banco, do outro uma banheira com os pés em forma de garra e um chuveiro que a fez pensar em Psicose de Hitchcock (na realidade todo chuveiro a fazia pensar naquele maldito filme desde que o vira em Times Square). Havia também uma pia de louça instalada num gabinete de madeira da altura da cintura — ela achou que o gabinete era de bom e velho carvalho, não de pau-ferro. Havia um espelho sobre a pia, presumivelmente a porta de um armário onde haveria comprimidos e outros remédios guardados. Todos os confortos do lar.

Tirou o guardanapo com um tremorzinho e um pequeno grito sussurrado. Grudava no sangue e puxá-lo doía. Ficou impressionada com a quantidade de sangue na bochecha, nos lábios e no queixo — para não mencionar o pescoço e o ombro da blusa. Disse a si mesma que não ia se desesperar por causa daquilo; se você arrancava a casca de alguma coisa, ela ia sangrar, só isso. Só impressionava por estar na porra da sua cara.

Ouviu Joe dizer alguma coisa na sala, mas não conseguia saber o quê. Ouviu também a resposta de Roland com uma risadinha no final. Tão estranho ouvi-lo falar assim, ela pensou. Era quase como se estivesse embriagado. Mas algum dia vira Roland embriagado? Percebeu que nunca. Nunca bêbado até cair, nunca peladão, nunca às gargalhadas... até aquele momento.

Cuide de suas coisas, mulher!, Detta lhe disse.

— Está bem — ela murmurou. — Está bem, está bem.

Pensando em pelado. Pensando em embriaguez. Pensando nas gargalhadas. Pensando que tudo isso era quase a mesma coisa.

Talvez fossem mesmo.

Então Susannah subiu no banco e abriu a água. Ela veio num bom jato, abafando a conversa que vinha da sala.

Deixou a água fria correr, jogando-a com cuidado no rosto e depois usando uma toalhinha de rosto — com cuidado ainda maior — para limpar a pele ao redor da ferida. Finalmente apalpou a própria ferida, o que doeu bem menos do que ela temia. Susannah ficou um pouco mais animada. Enxaguou a toalhinha de rosto de Joe antes que as manchas de sangue pudessem marcá-la e se inclinou para o espelho. O que viu a fez soltar um suspiro de alívio. Bater imprevidentemente com a mão no rosto tinha tirado toda a casca da ferida, mas talvez fosse melhor assim. De uma coisa não havia dúvida: se Joe tivesse um vidro de mertiolato ou alguma espécie de pomada com antibiótico no armário do banheiro, ela aproveitaria o fato de a ferida estar descoberta e faria uma tremenda limpeza. E não se importava se ardesse. Tal limpeza era mais do que merecida e oportuna. Assim que acabasse, faria um curativo e depois era só torcer para o melhor.

Estendeu a toalhinha do lado da pia para secar e puxou uma toalha (no mesmo tom de rosa que o papel de parede) da pilha que havia numa prateleira vizinha. Aproximou-a do rosto e, de repente, ficou paralisada. Havia um pedaço de papel em cima da outra toalha da pilha. No alto o desenho de um banco cheio de flores sendo arriada por uma dupla de felizes caricaturas de anjos. Sob isso uma linha impressa em negrito:

 

RELAXE! DEUS EX MACHINA VEM AI!

E, numa desbotada escrita a caneta-tinteiro:

 

ODDS LANE

ODD LANE

Vire este papel do outro lado depois de dar uma pensada

 

Franzindo a testa, Susannah puxou a folha de bloco da pilha de toalhas. Quem a deixara ali? Joe? Tinha sérias dúvidas. Virou o papel. Do outro lado a mesma

caligrafia tinha escrito:

 

Não deu uma pensada!

Que menina ruim!

Deixei uma coisa pra você no armário do banheiro

Mas primeiro

** De uma pensada **

(Dica Comedia + Tragedia = FAZ DE CONTA

 

No outro cômodo, Joe continuava a falar e desta vez Roland explodiu numa gargalhada em vez de apenas em risadinhas. Susannah teve a impressão de que Joe retomara seu monólogo. De certo modo podia compreender isso — ele estava fazendo algo de que gostava, algo que há um bom número de anos não tinha a oportunidade de fazer —, mas parte dela não gostava absolutamente da idéia. Que Joe tivesse retomado a coisa enquanto ela estava no banheiro se arrumando, que Roland o deixasse recomeçar. Que o estivesse ouvindo e rindo enquanto ela estava sangrando. Parecia uma atitude grosseira e meio safada de garotos. Tinha se acostumado a ser mais bem tratada por Eddie.

Por que você não esquece por enquanto os rapazes e se concentra no que tem na sua frente? O que isto significa?

Uma coisa parecia óbvia: alguém tinha esperado que ela fosse até lá e encontrasse aquele bilhete. Não Roland, nem Joe. Ela. Que menina ruim, estava escrito. Menina.

Mas quem podia ter sabido? Quem podia ter tido tanta certeza? Nunca tivera o hábito de esbofetear o próprio rosto (nem o peito, nem o joelho) quando ria; não podia se lembrar de nenhuma outra situação em que...

Mas podia. Uma vez. Num filme com Dean Martin e Jerry Lewis. Palermas no Mar ou algo parecido. Ela reagira da mesma maneira. Estava rindo simplesmente porque o riso tinha alcançado um certo ponto de massa crítica e se tornara auto-sustentado. Toda a platéia (se não estava enganada, no Clark, em Times Square) estava fazendo o mesmo, balançando de um lado para o outro, sacudindo-se para a frente, borrifando pipocas de bocas que não eram mais deles. Bocas que tinham passado a pertencer, pelo menos por alguns minutos, a Martin e a Lewis, àqueles palermas no mar. Mas só acontecera daquela vez.

Comédia mais tragédia igual a conto-de-fada. Mas ali não havia tragédia, havia?

Não esperava uma resposta a isto, mas conseguiu uma. Que veio na fria voz da intuição.

Ainda não, por enquanto não há.

Por alguma razão, fosse lá qual fosse, ela se viu pensando na Lippy. Na sorridente, horripilante Lippy. Será que as pessoas riam no inferno? Susannah estava de alguma forma certa que sim. Mostravam os dentes como Lippy, o Esqueleto-Maravilha, quando Satã dava início à sua

(peguem meu cavalo... por favor)

rotina, e começavam a rir. Sem esperança. Sem controle. Por toda a eternidade, mesmo que isso não parecesse de todo agradável.

Que diabo está havendo com você, mulher?

No outro cômodo, Roland tornava a rir. Oi latiu e isso também ficou parecido com uma risada.

Odd’s Lane, Odd Lane... Dê uma pensada.

O que havia para pensar? Uma era o nome da rua, a outra era a mesma coisa, só que sem...

— Volte, espere um minuto — disse ela em voz baixa. Na realidade, fora pouco mais que um sussurro... Mas quem ela achou que poderia escutar? Joe estava falando (sem parar, parecia), e Roland ria. Então quem ela achava que poderia estar ouvindo? O habitante do porão, se realmente houvesse alguém por lá?

— Vamos lá, só um minuto, dê um tempo.

Fechou os olhos e, mais uma vez, viu as duas placas de sinalização no poste, placas que sempre ficariam um pouco abaixo dos peregrinos, pois os recém-chegados estavam num banco de neve com três metros de altura. ESTRADA DA TORRE, dizia uma das placas — a que apontava para a estrada limpa que desaparecia no horizonte. A outra, indicando a pista com as casinhas, dizia ODD’S LANE, só que...

— Só que não era isso — ela murmurou, cerrando num punho a mão que não estava segurando o bilhete. — Não era.

Podia vê-lo claramente no olho de sua mente: ODD’S LANE, com o apóstrofe e o S a mais. E por que alguém faria isso? Seria o modificador da placa algum compulsivo que não suportava...

O quê? O que ele não suportava?

Do outro lado da porta fechada do banheiro, Roland riu mais alto que nunca. Alguma coisa caiu e quebrou. Ele não está acostumado a rir assim, Susannah pensou. É melhor ter cuidado, Roland, ou vai acabar tendo problemas. Criando uma hérnia ou algo do gênero.

Pense nisso, advertira seu desconhecido correspondente, e ela estava tentando. Havia alguma coisa nas palavras odd e lane* que alguém não queria que percebessem? Se assim fosse, a pessoa não precisava se preocupar, pois certamente Susannah não estava percebendo. Gostaria que Eddie estivesse ali. Era Eddie quem era bom naquele jogo: piadas, adivinhações e... e...

Sua respiração parou. Uma compreensão de arregalar os olhos começou a cobrir seu rosto e o rosto de sua gêmea no espelho. Não tinha lápis e era terrível por causa do tipo de arranjo mental que teria agora de fazer...

Equilibrada no banco, Susannah se inclinou sobre o suporte da pia da altura da cintura e soprou no espelho, embaçando-o. Depois usou o dedo para escrever ODD LANE. Olhou a expressão com uma compreensão e uma aflição crescentes. Na sala, Roland ria mais do que nunca e agora ela reconhecia o que já devia ter percebido trinta valiosos segundos atrás: aquele riso não era alegre. Era irregular, sem controle, o riso de um homem lutando para respirar. Roland estava rindo do modo como o folken ria quando a comédia virava tragédia. Do modo como o folken ria no inferno.

Embaixo de ODD LANE, usou a ponta do dedo para escrever DANDELO, o anagrama de ODD LANE que talvez Eddie tivesse percebido de imediato, assim como teria percebido que o apóstrofe e o S acrescentados na placa eram alterações feitas para confundi-los.

No outro cômodo o riso baixou e se modificou, transformando-se num ruído que era alarmante, não divertido. Oi estava latindo frenetica-mente e Roland...

Roland estava sufocando.

 

PATRICK DANVILLE

Ela não estava com o revólver. Joe tinha insistido para que sentasse na poltrona reclinável quando voltaram à sala depois do jantar e ela pusera o revólver na mesinha coberta de revistas ao lado, após puxar o tambor e tirar as balas. As balas estavam em seu bolso.

Susannah abriu com força a porta do banheiro e rastejou para a sala. Roland estava caído no chão entre o sofá e a televisão, um terrível arroxeado lhe cobrindo o rosto. Arranhava a garganta inchada e não parava de rir. Seu anfitrião estava em pé por cima dele e a primeira coisa que Susannah viu foi que o cabelo de Joe — o cabelo branco fino como cabelo de bebê e que lhe caía até os ombros — estava agora quase inteiramente preto. As rugas ao redor dos olhos e da boca tinham sumido. Em vez de dez anos mais novo, Joe Collins parecia ter menos uns vinte ou mesmo trinta anos.

O filho-da-puta.

O vampiro filho-da-puta.

Oi saltou sobre Joe e lhe agarrou a perna esquerda logo acima do joelho.

— Vinte e cinco, 64, 19, hike!* — Joe gritou num tom jovial e deu um chute, ágil agora como Fred Astaire. Oi voou pela sala e bateu na parede com força suficiente para derrubar uma placa que dizia:

 

DEUS ABENCOE NOSSO LAR

 

Joe se virou para Roland.

— O que eu acho — continuou — é que as mulheres precisam de uma razão para fazer sexo. — Joe pôs um pé no peito de Roland (como um caçador de animais de porte com seu troféu, Susannah pensou). — Os homens, por outro lado, só precisam de um lugar! Bingo! — Projetou os olhos. — O negócio do sexo é que Deus deu aos homens duas cabeças, a do cérebro e a do pau, mas uma quantidade de sangue que só dá para operar uma de cada v...

Ele não ouviu Susannah se aproximar nem subir na poltrona reclinável para ganhar a altura necessária; estava completamente concentrado no que fazia. Susannah entrelaçou as mãos num punho único, levou-as à altura do ombro direito e depois impeliu para baixo e para o lado com toda a sua força. O punho atingiu o lado da cabeça de Joe com força suficiente para derrubá-lo. Susannah havia batido em osso sólido e a dor nas mãos foi excruciante.

Joe cambaleou, agitando os braços em busca de equilíbrio e se virando para ela. O lábio superior subiu, expondo os dentes — dentes perfeitamente comuns, e por que não? Não era o tipo de vampiro que sobrevivia de sangue. Ali, afinal, era Empática. E a cara ao redor daqueles dentes estava se alterando: ficando mais escura, se contraindo, virando algo que não era mais humano. Era a face de um palhaço psicótico.

— Você — disse, mas antes que pudesse dizer mais alguma coisa, Oi tornara a se arremessar contra ele. Desta vez não houve necessidade do trapalhão usar os dentes porque seu anfitrião ainda não recuperara o equilíbrio. Oi se agachou atrás do tornozelo da coisa, e Dandelo simplesmente caiu por cima dele, as pragas cessando abruptamente quando a cabeça bateu no chão. Talvez o golpe o tivesse feito perder os sentidos, se não fosse o familiar tapetinho aconchegante cobrindo as tábuas do assoalho. E ele conseguiu se sentar quase de imediato. Tonto, olhou para os lados.

Susannah se ajoelhou ao lado de Roland, que também tentava se sentar, mas não estava sendo bem-sucedido. Ela apanhou o revólver no coldre que ele usava, mas Roland fechou a mão ao redor de seu pulso antes que ela pudesse puxar. Instintivamente, é claro, o que era de se esperar, mas Susannah sentiu-se à beira do pânico quando a sombra de Dandelo caiu sobre eles.

— Sua puta, vou ensiná-la a interromper um homem quando ele está mandando m...

— Roland, solte! — ela gritou e ele obedeceu.

Dandelo abaixou, pretendendo cair sobre ela e prender o revólver entre os dois, mas Susannah foi um instante mais rápida. Rolou para o lado e Dandelo caiu sobre Roland. Ela ouviu o torturado uff! quando o pistoleiro perdeu o pouco de fôlego que conseguira recuperar. Susannah se ergueu apoiando-se num braço, arfando, apontando o revólver para a criatura em cima de Roland, a criatura que agora experimentava uma agitada e horrenda transformação dentro das roupas. Dandelo ergueu as mãos, que estavam vazias. É claro que estavam, não era com as mãos que matava. Nesse momento, seus traços começaram a se juntar, se tornando coisas de superfície — não era mais um rosto com feições, mas marcas em uma espécie de pele de animal ou uma carapaça de inseto.

— Parem! — ele gritou numa voz que baixava em timbre e se transformava em algo como um zumbido de cigarra. — Quero contar aquela sobre o arcebispo e a garota do coro!

— Já conheço — disse ela atirando duas vezes, uma bala atrás da outra entrando no cérebro, logo acima do que tinha sido o olho direito de Dandelo.

 

Roland conseguiu se levantar. Tinha o cabelo grudado nos lados da cara inchada. Quando Susannah tentou pegar sua mão, ele a repeliu e cambaleou para a porta da frente da casinha, que agora parecia encardida e sinistramente iluminada. Ela viu que havia manchas de comida no tapete e uma grande mancha de água numa das paredes. Teriam aquelas coisas estado ali antes? E pelo bom Deus que estava no céu, o que exatamente tinham comido no jantar? Susannah concluiu que preferia não saber, desde que não a fizesse passar mal. Desde que não fosse venenoso.

Roland de Gilead puxou a porta. O vento tirou-a de sua mão, jogando-a com estrondo contra a parede. Ele cambaleou dois passos para o temporal uivante, curvou-se com as mãos coladas na parte de baixo das coxas e vomitou. Susannah viu o jato de material ejetado e viu o vento chicoteá-lo para a escuridão. Quando Roland voltou a entrar, tinha a camisa e um lado da cara delineados de neve. Estava febrilmente quente no chalé; era outra coisa que o feitiço de Dandelo escondera deles até aquele momento. Susannah viu que o termômetro — um velho e vulgar Honeywell, não muito diferente do que havia em seu apartamento de Nova York — ainda estava na parede. Ela se aproximou para consultá-lo. Estava virado até o máximo, além da marca dos 30 graus. Depois de levá-lo de volta aos 20 graus com a ponta de um dedo, Susannah se virou para examinar a sala. Na realidade a lareira tinha duas vezes o tamanho que tinham lhe atribuído e a lenha que havia nela era suficiente para fazê-la roncar como forno de siderurgia. Não havia nada que ela pudesse fazer contra aquilo, mas de qualquer modo o fogo ia acabar se extinguindo.

A coisa morta no tapete tinha explodido quase inteiramente dentro das roupas. Lembrava agora a Susannah algum tipo de inseto com apêndices deformados (quase braços, quase pernas) brotando das mangas da camisa e das pernas da calça jeans. As costas da camisa tinham se rasgado pelo meio e o que ela viu na fenda foi uma espécie de casco marcado por feições humanas rudimentares. Até então não acreditava que pudesse haver algo pior que Mordred em sua forma de aranha, mas aquela coisa era pior. Graças a Deus estava morta.

O chalé asseado, bem-iluminado (como uma coisa saída de algum conto de fadas — não percebera isto desde o início?), era agora um sombrio e enfumaçado casebre de camponês. Ainda havia luzes elétricas, mas pareciam velhas, esgotadas, como o tipo de luminária que se pode encontrar num motel barato. O pequeno tapete estava escuro de sujeira, cheio de manchas de comida derramada e desfiando em certos pontos.

— Roland, tudo bem com você?

Roland olhou para Susannah e então, devagar, ficou de joelhos na sua frente. Por um momento ela achou que Roland estava desmaiado e ficou alarmada. Quando percebeu, apenas um segundo mais tarde, o que estava de fato acontecendo, ficou mais alarmada ainda.

— Pistoleira, eu estava pasmado — disse Roland com voz rouca, trêmula. — Me deixei levar como uma criança e peço que me desculpe.

— Roland, não! Levante! — Era Detta, que parecia sempre vir à tona quando Susannah estava sob grande tensão. Ela pensou: É maravilhoso que eu não tenha dito “Levante-se, branquelo” e teve de sufocar um início histérico de riso. Ele não teria compreendido.

— Primeiro diga que me perdoa — falou Roland sem olhar para ela.

Ela tateou pelas palavras certas e encontrou-as, o que foi um alívio.

Não suportava ver Roland de joelhos.

— Levante, pistoleiro, eu lhe perdôo de bom coração. — Fez uma pausa e acrescentou: — Se eu salvar sua vida outras nove vezes, ficaremos mais ou menos quites.

— A gentileza do seu coração me deixa com vergonha do meu — disse ele ficando de pé. O terrível arroxeado ia deixando seu rosto. Ele olhou para a coisa no tapete. Sob a luz do fogo da lareira, a criatura atirava sua sombra grotescamente disforme na parede. Roland olhou a pequena cabana com suas luminárias antigas e bruxuleantes lâmpadas elétricas.

— Nenhum problema com o alimento que ele nos deu — disse Roland. Era como se tivesse lido a mente de Susannah e visto o pior medo que havia lá. — Jamais envenenaria o que tinha a intenção de... comer.

Susannah estava segurando o revólver dele pela coronha. Ele pegou a arma e recarregou as duas câmaras vazias do tambor antes de deixá-lo cair no coldre. A porta do casebre continuava aberta e a neve entrava com o vento. Já se criara um delta branco no pequeno vestíbulo, onde os improvisados casacos de pele estavam pendurados. A sala estava mais fresca agora, menos parecida com uma sauna.

— Como você soube? — ele perguntou.

Ela pensou no hotel onde Mia havia deixado o Treze Preto. Mais tarde, depois de as duas terem partido, Jake e Callahan haviam conseguido entrar no quarto 1919 porque alguém lhes deixara um bilhete e

(dad-a-chee)

uma chave. O nome de Jake e Isto é a verdade tinham sido escritos no envelope numa mistura de letra manuscrita com letra de imprensa. Susannah teve certeza que, se tivesse o envelope com esta breve mensagem e a comparasse com a mensagem que vira no banheiro, encontraria a mesma caligrafia em ambas.

Segundo Jake, o funcionário da recepção do New York Plaza-Park Hotel tinha lhes dito que a mensagem fora deixada por um homem chamado Stephen King.

— Venha comigo — disse ela. — Até o banheiro.

 

Como o resto do casebre, o banheiro era menor agora, não muito maior que um armário. A banheira era velha e enferrujada, com uma fina camada de sujeira no fundo. Era como se já não fosse usada...

Bem, a verdade é que parecia a Susannah nunca ter sido usada. A ducha estava entupida de ferrugem. O papel de parede rosado estava encardido, fosco, descascando em vários pontos. Não havia rosas. O espelho continuava lá, mas tinha uma rachadura de cima a baixo e ela achou um milagre que não tivesse cortado a ponta do dedo ao escrever sobre ele. O vapor de sua respiração tinha se dissipado, mas as palavras ainda estavam lá, visíveis na fuligem: ODD LANE e, embaixo, DANDELO

— É um anagrama — disse ela. — Está vendo?

Ele examinou a inscrição e balançou a cabeça, parecendo um pouco envergonhado.

— Não é sua culpa, Roland. São nossas letras, não aquelas que você conhece. Acredite, é um anagrama. Eddie o teria visto de imediato, aposto. Achei que Dandelo pudesse ser uma espécie de piada ou alguma coisa enfeitiçada que tivéssemos de seguir, mas felizmente, com uma pequena ajuda de Stephen King, descobrimos o truque ainda a tempo.

— Você descobriu — disse ele. — Eu estava longe, morrendo de rir.

— Poderia ter acontecido com nós dois — disse ela. — Você só ficou um pouco mais vulnerável porque seu senso de humor... me desculpe, Roland, mas como regra é bastante bobo.

— Sei disso — ele respondeu friamente. De repente se virou e saiu do quarto.

Uma idéia horripilante ocorreu a Susannah e o pistoleiro só pareceu voltar depois de passado muito tempo.

— Roland, ele está mesmo...?

Ele abanou a cabeça, sorrindo um pouco.

— Morto como há pouco estava morto. Você soube atirar, Susannah, mas de repente precisei ter certeza.

— Estou feliz — ela se limitou a dizer.

— Oi continua de guarda. Se algo pudesse acontecer, tenho certeza que ele nos avisaria. — Roland apanhou o bilhete no chão e decifrou cuidadosamente o que estava escrito atrás do papel. O único termo em que ela teve de ajudar foi armário do banheiro. — “Deixei uma coisa para você.” Sabe o que é?

Ela balançou negativamente a cabeça.

— Não tive tempo de olhar.

— Onde fica o armário do banheiro?

Ela apontou para o espelho e ele puxou. O espelho guinchou nas dobradiças. Havia de fato prateleiras atrás do espelho, mas em vez das cuidadosas fileiras de poções e comprimidos Susannah viu apenas outros dois frascos marrons, como aquele que havia na mesinha ao lado da poltrona reclinável; e o que pareceu a Susannah ser a mais velha embalagem do mundo dos dropes contra a tosse da Smith Brothers, sabor cereja silvestre. Contudo, havia também um envelope que Roland entregou a ela. Escrito na frente, naquela mesma caligrafia característica, meio letra manuscrita meio letra de imprensa, havia o seguinte:

 

Childe Roland de Filead

Susannah Dean de Nova York

Voces salvaram a minha vida

Eu salvei a de voces

Estamos quites

SK

 

— Childe? — ela perguntou. — Isto significa alguma coisa para você?

Ele assentiu.

— É um termo que descreve um cavaleiro... ou um pistoleiro... numa missão. Um termo cerimonioso, um termo antigo. Nunca o usamos entre nós, veja bem, pois significa sagrado, escolhido pelo ka. Não gostamos de pensar em nós mesmos dessa maneira e há muitos anos não me vejo assim.

— Mas você é Childe Roland?

— Talvez tenha sido um dia. Agora estamos além dessas coisas. Além do ka.

— Mas ainda no Caminho do Feixe.

— É. — Ele apontou para a última linha no envelope: Estamos quites. — Abra, Susannah, pois eu gostaria de ver o que tem aí dentro.

Ela abriu.

 

Era a fotocópia de um poema de Robert Browning. King havia escrito o nome do poeta sobre o título com sua caligrafia meio letra manuscrita meio letra de imprensa. Susannah tinha lido alguns dos monólogos dramáticos de Browning na faculdade, mas não estava familiarizada com aquele poema. Estava, no entanto, extremamente familiarizada com o tema; o título do poema era “Childe Roland à Torre Negra Chegou”. Tinha uma estrutura narrativa, o esquema de rimas de uma balada (a-b-b-a-a-b) e 34 longas estrofes. Cada estrofe era encabeçada por um número romano. Alguém — provavelmente King — fizera um círculo nas estrofes I, II, XIII, XIV e XVI.

— Leia as marcadas — ele disse num tom rouco — porque só consigo entender uma palavra ou outra e eu gostaria de saber o que dizem os versos, gostaria muito.

— Primeira Estrofe — disse ela e teve de limpar a garganta. Estava seca. Lá fora o vento gemia e a luz no teto oscilou em seu globo sujo de mosca.

 

“Primeiro pensei: ele mentiu a cada sentença

O coxo encanecido, com olhos cheios de malícia

Ávidos por ver nos meus de sua mentira a perícia

E com a boca sem conter a alegria intensa

Que repuxava seus cantos na crença

De que o predador outra vez se sacia.”

 

— Collins — disse Roland. — Quem quer que tenha escrito isto falava de Collins, tão certamente quanto King falava de nosso ka-tet em suas histórias! “Cada palavra dele era mentirosa!” Ié, assim foi!

— Não Collins — disse ela. — Dandelo.

Roland balançou a cabeça.

— Dandelo, tem razão. Continue.

— Tudo bem. Segunda Estrofe:

 

“Qual outro seria o intuito, com seu cajado?

Qual senão emboscar e laçar os andarilhos

Que porventura o encontram pelos trilhos

E vêm pedir direção? Que risada má eu teria escutado,

quem deixaria meu epitáfio marcado

por diversão nos terrosos caminhos.”

 

— Te lembras da bengala e como ele a sacudia? — Roland perguntou.

Claro que ela se lembrava. E o cruzamento estava cheio de neve em vez de poeira, mas fora isso era o mesmo. Fora isso era uma descrição do que acabara de lhes acontecer. A idéia a fez estremecer.

— Este poeta era de sua época? — Roland perguntou. — De seu quando?

— Nem era do meu país — disse ela balançando a cabeça. — Morreu pelo menos sessenta anos antes do meu quando.

— Mas deve ter visto o que acabou de acontecer. Ao menos uma versão.

— Sim. E Stephen King conhecia o poema. — Susannah teve uma repentina intuição, algo que despontou brilhante demais para ser qualquer coisa menor que a verdade. Ela olhou para Roland com olhos agitados, sobressaltados. — Era este poema que fazia King avançar! Era sua inspiração!

— Pensa mesmo assim, Susannah?

— Penso!

— Mas este Browning deve ter nos visto.

Ela não sabia. Era confuso demais. Como tentar descobrir o que vinha primeiro, o ovo ou a galinha. Ou como estar perdido numa galeria de espelhos. Sua cabeça estava oscilando.

— Leia a próxima estrofe marcada, Susannah! Olho em cada linha, cada palavra.

— É a 13ª Estrofe — disse ela.

 

“Quanto à relva, era como o cabelo escasso

Dos leprosos; magras lâminas secas na lama

Que parecia ter por baixo uma sangüínea trama.

Um cavalo cego e rijo, ossos à vista, lasso,

Parava ali, estúpido; havia chegado àquele pedaço:

Rebento que o garanhão do diabo não reclama! ”

 

— Agora vou ler a 14ª:

 

“Vivo? A meu ver poderia muito bem já ter partido,

Com seu pescoço rubro, descarnado e macilento.

E os olhos fechados por sob o pêlo bolorento;

Nunca o grotesco andou à desgraça tão unido;

E jamais senti por criatura ódio tão ardido:

Ele deve ser mau para merecer tal sofrimento.”

 

— Lippy — disse o pistoleiro e sacudiu um polegar pelo ombro apontando para trás. — Lá, aquela pangaré, pescoço marcado e tudo, só que fêmea em vez de macho.

Ela não respondeu... não era preciso. Sem dúvida era a Lippy; cega e ossuda, o pescoço esfolado com pontos rosados de carne viva. É uma coisa velha e feia, eu sei, dissera o homem... dissera a coisa que tinha parecido um homem. Lippy pirada, caixote de bosta, sua lepra de quatro patas! E ali estava o preto no branco, um poema escrito muito antes de sai King ter até mesmo nascido, talvez oitenta ou mesmo cem anos antes: ...escassa como cabelo/Na lepra.

— Serviço cumprido nas costas do garanhão do diabo! — disse Roland, sorrindo severamente. — E embora ela não seja nem nunca tenha sido um garanhão, vamos vê-la de novo ao lado do diabo antes de partirmos.

— Não — disse ela. — Não vamos. — O tom parecia mais sedento que nunca. Susannah queria um pouco d’água, mas tinha medo de pegar qualquer coisa que saísse de uma torneira naquele lugar infame. Daí a pouco poderia pegar um pouco de neve e derretê-la na boca. Então ia beber, não antes.

— Por que está dizendo isso?

— Porque ela se foi. Saiu para a tempestade quando ajustamos as contas com seu dono.

— Como sabe disso?

Susannah balançou a cabeça.

— Simplesmente sei. — Virou a página seguinte do poema, que se estendia por mais de duzentas linhas. — Estrofe 16:

“Não isso! Imaginei...”

Ela parou.

— Susannah? Por que você... — Então os olhos dele se fixaram nas palavras seguintes, que pôde ler mesmo em caracteres ingleses. — Continue — disse. O tom fora baixo, pouco mais que um sussurro.

— Tem certeza que quer?

— Leia, eu gostaria de ouvir.

— Estrofe 16. — Ela limpou a garganta.

 

“Mas não! Imaginei de Cuthbert a face corada

Em meio a seu adorno de cachos dourados,

Querido amigo, eu quase o senti laçar meus braços

Para me colocar a postos na caminhada

Como ele sempre fez. Ai, noite desgraçada!

O fogo no meu coração se apagou, deixando-o gelado.”

 

— Fala de Mejis — disse Roland. Seus punhos estavam cerrados, emboraSusannah duvidasse que ele desse conta disso. — Escreve da briga quesurgiu em torno de Susan Delgado, pois depois disso o laço que havia entrenós nunca mais foi o mesmo. Consertamos nossa amizade o melhor quepudemos, mas, não, ela nunca mais foi como antes.

— Após a mulher se aproximar do homem ou o homem da mulher, achoque é isso que acontece — disse ela passando-lhe as fotocópias. — Pegue. Já li todas as que ele mencionou. Se no resto houver mais alguma coisa sobrea chegada... ou não... à Torre Negra, decifre a coisa sozinho. Você consegue, se tentar com vontade, eu acho. Quanto a mim, não quero mais saber.

Roland, ao que parecia, queria. Foi virando as páginas à procura da última. As páginas não estavam numeradas, mas ele encontrou facilmente o fim graças ao espaço em branco sob a estrofe com a inscrição XXXIV. Antes que pudesse ler, no entanto, aquele choro baixo foi novamente ouvido. Desta vez o vento dera uma completa estiada e por isso não havia dúvida de onde o choro vinha.

— Há alguém lá embaixo, no porão — disse Roland.

— Eu sei. E acho que sei quem é.

Ele abanou a cabeça.

— Tudo se encaixa, não é? — Susannah o olhava com firmeza. — É como um quebra-cabeça e já colocamos todas as peças, faltando somente as últimas.

O choro veio de novo, baixo e perdido. O choro de alguém que estava para morrer. Saíram do banheiro sacando os revólveres. Susannah achava que, desta vez, não iam precisar usá-los.

 

O inseto que se fizera passar por um divertido e velho humorista chamado Joe Collins continuava onde havia caído e Oi tinha recuado um passo ou dois. Susannah entendia. Dandelo estava começando a feder e pequenos filetes de uma coisa branca começavam a escorrer da carapaça em decomposição. Mesmo assim, Roland mandou o trapalhão permanecer onde estava e continuar atento.

O choro veio de novo quando atingiram a cozinha e parecia mais alto; custaram, no entanto, a descobrir o caminho para o porão. Susannah moveu-se devagar pelo linóleo lascado e sujo procurando um alçapão escondido. Estava prestes a dizer que não havia nada quando encontrou:

— Aqui. Atrás da geladeira.

O refrigerador não era mais um Amana top de linha com uma portinhola para os cubos de gelo, mas uma coisa atarracada e encardida com o compressor em cima, num recipiente em forma de cilindro. Sua mãe tivera um daqueles quando Susannah era uma menininha que respondia pelo nome de Odetta, mas sua mãe teria preferido morrer a deixar que sua geladeira acumulasse um décimo que fosse da sujeira daquela. Um centésimo.

Roland empurrou-a com facilidade para o lado, pois Dandelo, monstro astucioso, a pusera numa pequena plataforma com rodinhas. Ela duvidava que ele recebesse muitas visitas, não ali, no Fim do Mundo, mas tinha se preparado para conservar seus segredos se alguém desse uma passada por ali. Como Susannah tinha certeza que os habitantes locais faziam de vez em quando. Mas ela imaginava que poucos, ou talvez nenhum, chegassem além da pequena cabana na Odd’s Lane.

Os degraus que levavam para baixo eram íngremes e estreitos. Roland pôs a mão em volta da porta e encontrou um interruptor. Duas lâmpadas nuas se acenderam, uma na metade da escada, a outra embaixo. Como se em resposta à luz, o choro veio de novo. Estava cheio de dor e medo, mas não havia palavras nele. O som a fez estremecer.

— Venha até a escada, seja você quem for! — Roland gritou.

Nenhuma resposta lá de baixo. Do lado de fora o vento soprava com força, uivava, atirava neve com tanta força que era como se alguém estivesse jogando areia nas paredes da casa.

— Venha para onde possamos vê-lo ou vamos deixá-lo onde está! — Roland gritou.

O habitante do porão não avançou pela luminosidade fraca, mas tornou a chorar, um som impregnado de dor, terror e — Susannah receou — loucura.

Roland olhou para ela. Susannah abanou a cabeça e falou num sussurro:

— Vá na frente. Darei cobertura à sua manobra, se tiver de fazer uma.

— Cuidado com os degraus, não vá cair — disse ele no mesmo tom de voz baixo.

Ela tornou a abanar a cabeça e, com uma das mãos, fez seu próprio gesto de impaciência: vá, vá.

Isto trouxe a sombra de um sorriso à boca do pistoleiro. Ele começou a descer a escada com o cano do revólver pousado na cavidade do ombro direito e, por um momento, ficou tão parecido com Jake Chambers que Susannah quase chorou.

 

O porão era um labirinto de caixas, barricas e coisas cobertas penduradas em ganchos. Susannah não tinha a menor vontade de saber o que eram as coisas penduradas. O choro veio de novo, um som onde se misturavam soluços e gritos. Sobre ele, agora vagos, abafados, vinham os gemidos e arfadas do vento.

Roland se virou para a esquerda e foi abrindo caminho por um corredor em ziguezague entre pilhas de caixotes da altura de sua cabeça. Susannah seguia a uma boa distância de Roland, a toda hora se virando e olhando para trás. Também continuava atenta a qualquer possível alerta de Oi no piso de cima. Viu uma pilha de caixotes com a inscrição TEXAS INSTRUMENTS e outra pilha com TÁXI HO FAT, BISCOITO DA FORTUNA escrito do lado. Não ficou surpresa em ver o nome que haviam dado de brincadeira ao riquixá há muito abandonado; ela já havia ultrapassado esse estágio da surpresa.

Na sua frente, Roland parou.

— Pelas lágrimas de minha mãe — ele disse em voz baixa. Susannah já o ouvira usar uma vez aquela expressão. Tinham se deparado com um cervo caído numa ravina, as duas patas de trás e uma pata da frente quebradas. Morrendo de fome, o animal olhava cegamente para eles, pois as moscas tinham comido até o fundo das órbitas os olhos vivos do infeliz.

Susannah ficou parada até Roland chamá-la com um gesto. Então, impelindo-se à frente com as palmas das mãos, avançou com rapidez para o lado direito dele.

Num canto da parede de pedra nos fundos do porão de Dandelo — a extremidade sudeste, se ela não perdera seu sentido de direção — havia uma improvisada cela de prisão. A porta era feita de grades de aço em xadrez. Ao lado havia o equipamento de solda que Dandelo devia ter usado para construí-la... mas há muito tempo, a julgar pela grossa camada de poeira no tanque de acetileno. Pendendo de um gancho em forma de S martelado na parede de pedra, pouco além do alcance do prisioneiro — deixada perto para zombar dele, Susannah não tinha dúvida — havia uma grande e antiquada

(dad-a-chum dad-a-cheee)

chave de prata. O prisioneiro em questão estava parado diante das grades de seu cubículo, com as mãos sujas abertas estendidas para eles. Estava tão magro que fez Susannah se lembrar de certas fotos terríveis decampos de concentração, imagens dos que tinham sobrevivido a Auschwitz, Bergen-Belsen e Buchenwald, denúncias vivas (por pouco) da humanidade como um todo com seus uniformes listrados pendurados nos seus ossos, e seus horripilantes chapéus redondos de mensageiro de hotel e seus terríveis olhos brilhantes, tão cheios de consciência. Gostaríamos de não saber no que nos transformamos, aqueles olhos diziam, mas infelizmente sabemos.

Havia algo desse gênero nos olhos de Patrick Danville quando ele estendeu as mãos e fez seus inarticulados ruídos de súplica. De perto, soavam mais ou menos aos ouvidos de Susannah como os gritos de zombaria de algum pássaro tropical na trilha sonora de um filme: Ai-iiii, ai-iiii, ai-ióóó, ai-ióóó!

Roland tirou a chave do gancho e se aproximou da porta da cela. Uma das mãos de Danville agarraram sua camisa e o pistoleiro a empurrou. Foi um gesto inteiramente sem raiva, Susannah pensou, mas a coisa esquálida recuou na cela com os olhos saltando das órbitas. Tinha o cabelo comprido — caindo até os ombros —, mas havia apenas uma sombra muito leve de barba no rosto. Um pouco mais cerrada no queixo e no lábio superior. Susannah achou que podia ter uns 17 anos, certamente não muito mais.

— Perdão, Patrick — disse Roland num descontraído tom de conversa. Introduziu a chave na fechadura. — És Patrick? És Patrick Danville?

A coisa esquálida de calça jeans encardida e amassado camisão cinza (chegava quase a seus joelhos) recuou para o canto da cela triangular sem responder. Quando suas costas tocaram na pedra, ele resvalou devagar para uma posição sentada ao lado do que Susannah presumiu que fosse o balde de dejetos. A frente da camisa primeiro se amassou e depois foi desaguando como água no meio das pernas, quando os joelhos se levantaram e quase emolduraram o rosto aterrorizado, macilento. Roland abriu a porta da cela, puxou-a inteiramente para fora (não havia dobradiças) e Patrick Danville começou de novo a fazer o som de pássaro, só que agora mais alto: Ai-iiii! Ai-óóó! Ai-iiiiii! Susannah rangeu os dentes. Quando Roland esboçou um movimento de entrada na cela, o garoto proferiu um guincho ainda mais alto e começou a bater com a parte de trás da cabeça contra as pedras. Roland recuou e saiu da cela. A terrível batida de cabeça cessou, mas Danville continuava olhando para o desconhecido com medo e desconfiança. De repente tornou a estender as mãos sujas, dedos compridos, como se pedisse socorro.

Roland olhou para Susannah.

Ela avançou apoiada nas mãos e logo estava na porta da cela. A macilenta coisa-garoto encolhida no canto tornou a soltar o agudo guincho de pássaro e encolheu as mãos suplicantes, cruzando-as nos pulsos, num gesto de patética autodefesa.

— Naum, querido. — Era uma Detta Walker que Susannah jamais tinha ouvido, nem suspeitava que existisse. — Naum, querido, naum vou te machucá si quises’ fazê isso, botava dois na sua cabeça, igual eu fiz com o filho-da-puta lá em cima.

Susannah viu algo no rosto dele... Talvez um momentâneo arregalar dos olhos que revelou mais um pouco das áreas brancas congestionadas. Ela sorriu e abanou a cabeça.

— Tranqüilo! A porra do Collins tá morto! Ele naum vai mais descê aqui, não via mais fazê... fazê o quê? Que qui ele fez contigo, Patrick?

Lá em cima, abafado pelas paredes de pedra, o vento rugia. As luzes oscilavam; a casa estalava e gemia protestando.

— Que qui ele te fez, rapaz?

Era inútil. Ele não compreendia. Susannah acabara de se convencer disto quando Patrick Danville pôs as mãos na bexiga e apertou. Depois contorceu o rosto de uma determinada forma, como se quisesse sugerir uma risada.

— Ele te fazia rir?

Patrick, agachado em seu canto, abanou afirmativamente a cabeça. O rosto se contorceu ainda mais. Agora as mãos se tornavam punhos que subiam para o rosto. Usou-os para esfregar as bochechas, depois passou-os nos olhos, por fim olhou para ela. Susannah reparou que ele tinha uma pequena cicatriz na ponte do nariz.

— Ele também te fazia chorar.

Patrick assentiu. Repetiu a mímica do riso, segurando o estômago e fazendo o movimento labial do ah-ah-ah; fez a mímica do choro, enxugando as lágrimas das bochechas com penugem de barba; desta vez acrescentou um terceiro detalhe de pantomima, levando a mão em concha até a boca e fazendo sons de nhoque-nhoque com a boca.

Acima e ligeiramente atrás dela, Roland disse:

— Ele o fazia rir, o fazia chorar e o fazia comer.

Patrick balançou negativamente a cabeça com tanta força que bateu na parede de pedra nos limites do canto onde se achava.

— Ele comia — disse Detta —, é isso que tu quer dizê, né? Dandelo comia.

Patrick assentiu avidamente.

— Ele te fazia rir, te fazia chorar e dispois comia o que saía de ti. Poquê é isso q’ele faz!

Patrick sacudiu de novo a cabeça, caindo em pranto. Fez inarticulados sons de gemido. Susannah avançou devagar para dentro da cela, impelindo-se pelas palmas das mãos, pronta para recuar se ele começasse de novo a bater com a cabeça na parede. Isto não aconteceu. Quando Susannah chegou ao canto onde estava o rapaz, ele pôs o rosto no seio dela e chorou. Susannah se virou, encarou Roland e lhe disse com os olhos que ele já podia entrar.

Quando Patrick a encarou, o olhar era a adoração palerma de um cachorro de estimação.

— Não se preocupe — disse Susannah. Detta fora de novo embora, provavelmente cansada de todo aquele papel de boazinha. — Ele não vai pegá-lo, Patrick, está mortinho da Silva, morto como uma pedra no rio. Agora quero que faça uma coisa para mim. Quero que abra sua boca.

Patrick sacudiu de imediato a cabeça numa negativa. De novo havia medo em seus olhos, mas havia também outra coisa que ela detestou ainda mais. Havia vergonha.

— Sim, Patrick, sim. Abra a boca.

Ele sacudiu violentamente a cabeça, o cabelo comprido, oleoso, chicoteando de um lado para o outro como a ponta de um pano de limpeza.

— O que... — Roland começou.

— Quieto — disse Susannah. — Abra a boca, Patrick, e mostre! Depois vamos tirá-lo daqui. Nunca mais terá de descer aqui. Nunca mais teráde ser o jantar de Dandelo.

Patrick a encarava com ar de súplica, mas Susannah só lhe devolvia o olhar. Por fim ele fechou os olhos e foi aos poucos abrindo a boca. Seus dentes estavam lá, mas a língua não. Em algum momento, Dandelo devia ter se cansado da voz do prisioneiro — ou pelo menos das palavras que ele pronunciava — e a tinha arrancado.

 

Vinte minutos mais tarde, estavam os dois parados na porta da cozinha, vendo Patrick Danville tomar uma tigela de sopa. Pelo menos metade da sopa estava descendo pela camisa cinzenta do garoto, mas Susannah achou que não fazia mal; havia muita sopa e havia mais camisas no único quarto do casebre. Para não mencionar o pesado casacão de Joe Collins pendurado no gancho da entrada, que ela esperava que Patrick pudesse usar daí em diante. Quanto aos restos de Dandelo — ou Joe Collins —, tinham-nos enrolado em três cobertores e atirado os cobertores sem qualquer cerimônia na neve.

— Dandelo era um vampiro que se alimentava de emoções em vez de sangue — disse ela. — E Patrick... Patrick era sua vaca. Temos dois modos de nos nutrirmos de uma vaca: pela carne ou pelo leite. O problema com a carne é que, depois que você come os primeiros cortes e os não tão primeiros cortes, o ensopado acabou-se. Mas se você só tira o leite, a coisa pode continuar eternamente... sempre presumindo que se dê algo de vez em quando para a vaca comer.

— Quanto tempo acha que ele o manteve engaiolado lá embaixo? — Roland perguntou.

— Não sei. — Mas Susannah se lembrou da poeira no tanque de acetileno, se lembrou perfeitamente bem. — Um tempo razoavelmente longo, sem dúvida. E que deve ter parecido uma eternidade para ele.

— E que doeu.

— Bastante. Por mais que deva ter doído quando Dandelo puxou a língua do pobre garoto, aposto que a sucção de sangue emocional doeu mais. Veja como ele está.

Roland estava vendo, sem dúvida. E via também outra coisa.

— Não podemos tirá-lo daqui nesta tempestade. Mesmo se o vestíssemos com três camadas de roupas, tenho certeza de que ele morreria.

Susannah assentiu. Também tinha certeza disso. Disso e de mais alguma coisa: ela não podia permanecer na casa. Isto poderia matá-la.

Roland concordou quando a ouviu explicar.

— Vamos acampar no celeiro lá fora até a tempestade passar — disse ele. — Vai estar frio, mas teremos duas recompensas: Mordred pode vir e Lippy pode voltar.

— Para você matar os dois?

— Sim, se puder. Faz alguma restrição?

Ela pensou e abanou negativamente a cabeça.

— Tudo bem. Temos de juntar o que vamos levar daqui, pois não teremos fogo para pelo menos os próximos dois dias. Talvez uns quatro dias.

 

Na realidade foram três noites e dois dias antes que a tempestade de neve se sufocasse em sua própria fúria e se extinguisse. Quase no crepúsculo do segundo dia, a Lippy saiu mancando da tempestade e Roland pôs uma bala na pá cega que era sua cabeça. Mordred nunca apareceu, embora Susannah tenha tido a sensação de que havia alguém pairando por perto na segunda noite. Talvez Oi tivesse sentido a mesma coisa, pois ficou parado na entrada do celeiro, latindo muito para a neve no vento.

Durante esse tempo, Susannah descobriu bem mais sobre Patrick Danville do que esperava. A mente do rapaz fora bastante lesada pelo período de cativeiro, o que não a espantou. O que a espantou foi sua capacidade de recuperação, por mais incompleta que pudesse ser. Ela se perguntava se teria sido capaz de alguma volta após tamanha provação. Talvez o talento de Danville tivesse algo a ver com isso. Ela já tivera uma prova desse talento no escritório de Sayre.

Dandelo dera a seu prisioneiro aquele mínimo de alimento capaz de mantê-lo vivo e tinha extraído suas emoções de maneira constante: duas vezes por semana, às vezes três, eventualmente até quatro. Sempre que Patrick se convencia de que da próxima vez ia morrer, alguém passava por acaso por lá. Ultimamente Patrick fora poupado do piores movimentos predatórios, porque Dandelo tivera mais “visitas” que nunca. Mais tarde, daquela mesma noite, após terem se instalado no celeiro, Roland disse a Susannah que achava que muitas das vítimas mais recentes de Dandelo deviam ter sido exilados fugindo de Le Casse Roi Russe ou da cidade ao seu redor. Susannah podia certamente simpatizar com o pensamento desses refugiados: O Rei se foi, então vamos sair deste maldito lugar enquanto é possível sair. Afinal, pode dar na cabeça do Grande Rubro a idéia de voltar e ele está pinel, pirou, já se meteu num elevador que não vai mais até o andar de cima.

Em certas ocasiões, Joe assumira sua verdadeira forma de Dandelo na frente do prisioneiro e comera o terror do garoto. Queria, no entanto, muito mais que apenas terror daquela sua vaca prisioneira. Susannah achava que emoções diferentes tinham de produzir diferentes sabores: como ter porco num dia, galinha no outro e peixe no terceiro.

Patrick não podia falar, mas podia gesticular. E pôde fazer mais que isso, assim que Roland mostrou a eles uma coisa estranha que encontrou na despensa. Numa das prateleiras mais altas havia uma pilha de enormes blocos de desenho com os dizeres MICHELANGELOBOM PARA DESENHO ACARVÃO.Não tinham carvão, mas perto dos blocos havia um punhado de lápis marca Eberhard-Faber nº2 presos por um elástico. O que qualificava o achado como especialmente estranho era o fato de que alguém (presumivelmente Dandelo) tinha cuidadosamente cortado a borracha no alto de cada lápis. As borrachas tinham sido colocadas num vidro de conservas ao lado dos lápis, juntamente com alguns clipes de papel e um apontador que lembrava os apitos nos lados inferiores dos poucos pratos Orizas que restavam, de Calla Bryn Sturgis. Quando Patrick viu os blocos, seus olhos até então apáticos se iluminaram e as mãos se estenderam ansiosamente para eles. Patrick fez piados de urgência.

Roland olhou para Susannah, que abanou os ombros.

— Vamos ver o que o garoto é capaz de fazer — disse ela. — Se bem que já consigo fazer uma idéia, você não?

Realmente ele era capaz de fazer muita coisa. A aptidão de Patrick Danville para o desenho tinha algo de assombroso. E suas figuras lhe davam toda a voz de que precisava. Ele as produzia rapidamente e com óbvio prazer; não parecia absolutamente perturbado por sua terrível clareza. Uma mostrava Joe Collins partindo a nuca de um inocente visitante com uma machadinha, os lábios recuados num rosnado de prazer. Ao lado do ponto de impacto, o rapaz havia escrito TCHAN! e SPLUSH! em grandes letras de histórias em quadrinhos. Sobre a cabeça de Joe Collins, Patrick desenhou um balão de pensamento com as palavras Tome essa, sua anta!Outra figura mostrava o próprio Patrick caído no chão, reduzido à impotência pelo riso que era representado com terrível nitidez (sem precisar de nenhum ah! ah! ah! rabiscado sobre a cabeça), enquanto Collins estava parado diante dele com as mãos nos quadris, observando. Patrick então virou a folha de papel com este desenho e fez rapidamente outra figura que mostrava Collins de joelhos, uma das mãos emaranhada no cabelo de Patrick enquanto os lábios tensionados flutuavam na frente da boca agoniada, sorridente do garoto. Rápido, com um movimento experiente (a ponta do lápis nunca deixava o papel), Patrick fez outro balão de pensamento de histórias em quadrinhos sobre a cabeça do velho e pôs oito letras e dois pontos de exclamação lá dentro.

— O que diz aí? — Roland perguntou fascinado.

— HUMMM! Bom! — Susannah respondeu num tom abafado, revoltado.

Independentemente do tema, ela poderia ter ficado horas vendo Patrick desenhar; na realidade foi o que fez. A velocidade do lápis era fantástica e ninguém jamais pensaria em lhe passar uma das borrachas amputadas, pois elas pareciam dispensáveis. Pelo que Susannah podia perceber, o garoto jamais errava ou, se errasse, incorporava os erros aos desenhos de um modo que os transformava (bem, por que duvidar das palavras quando eram as palavras certas?) em pequenos atos de gênio. E as figuras resultantes não eram esboços, não mesmo, mas obras de arte completas. Ela imaginava o que Patrick — aquele ou outro Patrick de outro mundo ao longo do caminho do Feixe — seria capaz de fazer mais tarde com óleo e com tintas; tal idéia a fez sentir ao mesmo tempo frio e calor. O que tinham ali? Um Rembrandt sem língua? Ocorreu-lhe que aquele era o segundo idiota-sábio que encontravam. O terceiro se incluíssem, além de Sheemie, o próprio Oi.

Só uma vez aquela falta de interesse nas borrachas passou pela mente de Susannah, e foi por ela atribuída a uma arrogância de gênio. Em momento algum lhe ocorreu — ou a Roland — que aquela jovem versão de Patrick Danville talvez ainda nem soubesse que coisas como borrachas existiam.

 

Quase no final da terceira noite, Susannah acordou no celeiro, olhou para Patrick adormecido a seu lado e desceu a escada. Roland estava parado na porta, fumando um cigarro e olhando para fora. A neve tinha parado. Uma lua tardia aparecera, transformando a camada de neve na estrada da Torre numa terra cintilante de silenciosa beleza. O ar estava parado e tão frio que ela sentia a umidade estalar no nariz. Ouviu o som de um motor ao longe e logo achou que o som estava se aproximando. Perguntou se Roland fazia alguma idéia do que podia ser aquilo ou do que podia significar para eles.

— Acho que deve ser o robô que Joe chamava de Gago Bill fazendo a limpeza da neve depois da tempestade — disse ele. — E talvez ele tenha uma daquelas coisas-antena na cabeça, como os lobos. Está lembrada?

Ela se lembrava muito bem e foi o que respondeu.

— Pode ser que o Bill mantenha alguma fidelidade especial a Dandelo — disse Roland. — Não acho provável, mas já me deparei com coisas bem mais estranhas. Fique preparada com um de seus pratos se ele quiser criar problemas. Eu vou estar a postos com o meu revólver.

— Mas não acha que ele seja fiel ao Dandelo. — Ela quis deixar este ponto cem por cento esclarecido.

— Não — disse Roland. — Ele pode é nos dar uma carona, talvez até a própria Torre. Pelo menos pode nos levar até a borda das Terras Brancas. O que seria bom, porque o garoto ainda está fraco.

Isto trouxe uma dúvida para a mente de Susannah.

— Nós o chamamos de garoto porque parece um garoto — disse Susannah. — Quantos anos acha que ele tem?

— Certamente não menos de 16 ou 17 — disse Roland balançando a cabeça —, mas não ficaria admirado se já tivesse uns trinta. O tempo estava estranho quando os Feixes estavam sob ataque. Dava viradas e saltos estranhos. Posso atestar isso.

— Será que foi Stephen King quem o colocou em nosso caminho?

— Não posso dizer, mas sem dúvida ele sabia do rapaz. — Roland fez uma pausa. — A Torre está tão perto! Você não sente?

Ela sentia, sem parar. Às vezes era uma pulsação, às vezes um cântico, com muita freqüência eram as duas coisas. E a foto com a Polaroid continuava suspensa no casebre de Dandelo. Isso, pelo menos, não fizera parte do feitiço. Nos seus sonhos, pelo menos uma vez a cada noite, ela via a Torre no final do campo de rosas, pedras cinzentas, encardidas contra um céu agitado, as nuvens fluindo em quatro direções ao longo dos dois Feixes que ainda restavam. Sabia o que as vozes cantavam — commala!, commala!, commala-venha-venha! —, mas não achava que cantassem para ela ou por ela. Não, digamos que não, digamos que jamais; aquela era a canção de Roland e apenas de Roland. Mas Susannah começara a esperar que isto não significasse necessariamente que ela ia morrer entre o ponto onde estavam e o final da missão.

Vinha tendo seus próprios sonhos.

 

Menos de uma hora após o nascer do sol (firmemente no leste e que todos dêem graças), um veículo alaranjado — combinação de caminhão e buldôzer — apareceu no horizonte e avançou vagarosa, mas decididamente, em direção a eles. Empurrava um grande monte de neve fresca para a direita, tornando os bancos de neve ainda mais altos daquele lado. Susannah achou que, quando atingisse o cruzamento da estrada da Torre com a Odd Lane, o Gago Bill (quase certamente o limpa-nevista) iria dar a volta na máquina e limpar o outro lado. A não ser, é claro, que estivesse habituado a parar ali, não para um café, mas para um novo esguicho de óleo ou algo do gênero. Sorriu com a idéia e também de outra coisa. Havia um alto-falante no teto da cabine do motorista e uma música rock-and-roll que ela sem dúvida conhecia saía de lá. Susannah riu, deliciada.

— California Sun! Tocado pelos Rivieras! Oh, isso não parece incrível?

— Se você acha — Roland concordou. — Só segure o prato.

— Pode crer — disse ela.

Patrick se juntara aos dois. Como sempre, desde que Roland encontrara o bloco e o lápis na despensa, Patrick os trazia com ele. Agora escrevia uma única palavra em letras maiúsculas e estendia o bloco para Susannah, sabendo que Roland só conseguia ler muito pouco do que ele escrevia, mesmo que fosse em letras gigantes. A palavra na parte inferior da folha de papel era Bill. Estava embaixo de um surpreendente desenho de Oi, com um balão de quadrinhos sobre a cabeça dizendo lau! lau! Tudo isso fora descuidadamente riscado para que ela não pensasse que era aquilo que Patrick queria que ela olhasse. O X traçado às pressas não deixava de partir seu coração, pois a figura sob aquelas linhas cruzadas era fielmente Oi.

 

O limpa-neve continuava na frente do casebre de Dandelo, e embora a máquina continuasse a funcionar, a música cessara. Do banco do motorista, descia com movimentos pesados um robô alto (pelo menos uns dois metros de altura), de cabeça brilhante, bastante parecido com o Nigel da Estação Experimental Arco 16 e o Andy de Calla Bryn Sturgis. Ele esticou seus braços de metal e pôs as mãos metálicas na cintura de um jeito que provavelmente teria feito Eddie se lembrar do C3PO do George Lucas, se Eddie estivesse ali. O robô falava com uma voz amplificada que rolava pelos campos de neve:

— ALÔ, J-JOE! O QUE VOCÊ SA-SA-SABE? QUAIS SÃO OS TRUQUES DA ÚL-ÚL-ÚLTIMA HORA?

Roland saiu dos aposentos da falecida Lippy.

— Ei, Bill — disse num tom gentil. — Longos dias e belas noites.

O robô se virou. Um brilho muito azul apareceu em seus olhos e Susannah tomou a coisa como surpresa. O robô não deixava transparecer nenhum sobressalto e não parecia estar armado, mas ela já marcara a antena no centro de sua cabeça — girando e girando na brilhante luz da manhã — e teve certeza de que poderia decepá-la com um Oriza se fosse preciso. Mole-mole, Eddie teria dito.

— Ah! — disse o robô. — Um psiii, pistal, um p-p-p... — Levantou um braço que não tinha uma junta no cotovelo, mas duas, e com ele bateu a cabeça. De lá de dentro veio um pequeno som assobiante (uiiiiff!) e então ele concluiu: — Um pistoleiro!

Susannah riu. Não pôde evitar. Tinham andando aquilo tudo para encontrar uma superdimensionada versão eletrônica do Gaguinho. Tch-Tch-tchau. Por hoje é só, pessoal!

— Tinha ouvido rumores da coisa por a-q-q-qui — disse o robô, ignorando o riso de Susannah. — Você é Ro-Ro-Roland de G-Gilead?

— Eu sou — disse Roland. — E você quem é?

— William, D-746541-M. Robô de Manutenção e Funções Variadas. Joe Collins me chama de Gag-Gaago B-Bill. Tenho um cir-circuito q-q-queimado cá dentro. Podia consertá-lo, mas ele me pro-pro-proibiu. E como é o único h-humano por aqui... ou era... — Ele parou. Susannah podia claramente ouvir o clicar e o estalar de reles em algum lugar lá dentro e o robô que ela imaginou não foi o C3PO, que, é claro, jamais vira, mas o Robby, o robô de Planeta Proibido.

Então o Gago Bill conseguiu de fato tocar seu coração ao colocar a mão de metal na testa e se curvar... mas não para ela nem para Roland. Ele disse:

— Salve, Patrick D-Danville, filho de S-S-Sonia! É bom vê-lo livre e no c-c-claro, é sim! — E Susannah pôde ouvir a emoção na voz do Gago Bill. Era uma genuína satisfação e ela se sentiu maravilhosamente bem em poder abaixar seu prato.

 

Palestraram no quintal. Bill facilmente teria entrado no casebre, pois só dispunha de um equipamento olfativo rudimentar. Os humos eram mais bem equipados. Sabiam que o casebre fedia e não oferecia calor, porque a estufa e o fogo se apagaram. De qualquer modo, a palestra não demorou. William, Robô de Manutenção (e Funções Variadas), tinha considerado a criatura que às vezes se autodenominava Joe Collins como seu senhor, pois não havia ninguém mais. Collins/Dandelo obtivera as senhas necessárias.

— N-não pude d-dar a s-senha qu-qu-quando ele p-perguntou — disse o Gago Bill —, mas meu p-programa não me pro-proibia de fornecer ce-ertos m-manuais que tinham a i-informação de que ele precisava.

— A burocracia é realmente incrível — disse Susannah.

Bill disse que ficava longe de “J-J-Joe” na medida do possível (e pelo maior tempo possível), mas tinha de se apresentar quando a estrada da Torre precisava de um limpa-neve (isso também estava em seu programa) e uma vez por mês para trazer as provisões (principalmente artigos enlatados) do depósito que ele chamava de “o Federal”. Também gostava de ver Patrick, que um dia dera a Bill um maravilhoso auto-retrato, que ele contemplava com muita freqüência (e do qual tirara muitas cópias). Contudo, cada vez que se apresentava, Bill confessou, chegava com a certeza de não encontrar mais Patrick... Já teria sido morto e, como velha peça de lixo, atirado em algum ponto da mata, na direção do que Bill chamava as “A-a-áridas”. Bem, o que importava agora é que Patrick estava ali, vivo e livre, e Bill estava deliciado.

— Pois tenho em-m-moções r-r-rudimentares — disse ele, lembrando a Susannah alguém confessando um mau hábito.

— Então precisamos usar uma senha para que aceite nossas ordens? — Roland perguntou.

— Sim, sai — disse o Gago Bill.

— Merda — Susannah murmurou. Tiveram problemas semelhantes com Andy em Calla Bryn Sturgis.

— C-C-Contudo — disse o Gago Bill —, se disf-f-farçarem as ordens como su-u-gestões, tenho certeza que ficaria fe-fe-fe-fe... — Bill ergueu um braço e deu uma palmada na cabeça. O som de uiiff! foi ouvido mais uma vez, não saindo da boca mas da região do peito. — ... feliz em ajudar — ele concluiu.

— Minha primeira sugestão é que conserte a porra dessa gagueira — disse Roland para logo se virar, atônito. Patrick havia desmoronado na neve, segurando a barriga, dando grandes e roucas gargalhadas. Oi dançava em volta dele, latindo, mas Oi era inócuo; desta vez ninguém iria roubar a alegria de Patrick. Realmente era toda dele. E daqueles suficientemente sortudos para a estarem ouvindo.

 

Na mata, além do cruzamento limpo de neve, na direção do que Bill chamava as “Áridas”, um adolescente tremia. Enrolado em peles fedorentas, meio raladas, ele observava o quarteto parado na frente do casebre de Dandelo. Morram, pensou na direção deles. Morram, por que vocês todos não me fazem um favor e simplesmente morrem? Mas eles não morriam e o barulho alegre das risadas o cortava como faca.

Mais tarde, após terem todos se enfiado na cabine do caminhão de Bill e se afastado, Mordred esgueirou-se para o casebre. Ali ficaria por pelo menos dois dias, tirando seu alimento das latas na despensa de Dandelo... e comendo outra coisa também, um gesto que ainda teria oportunidade de lamentar. Passou aqueles dias recuperando suas forças, pois a grande tormenta chegara quase a matá-lo. Achava que fora o ódio que o mantivera vivo, o ódio e nada mais.

Ou talvez tivesse sido a Torre.

Pois ele também a sentia... aquela pulsação, aquele cântico. Mas o que Roland, Susannah e Patrick ouviam em escala maior, Mordred ouvia numa escala menor. E onde os outros ouviam muitas vozes, ele só ouvia uma. Era a voz de seu Pai Vermelho mandando que viesse. Mandando que matasse o garoto mudo, a ave negra e puta e especialmente o pistoleiro de Gilead, o desleixado Papai Branco que o deixara para trás (sem dúvida o Papai Rubro também o deixara para trás, mas isto nem passou pela mente de Mordred).

E quando a matança estivesse concluída, prometeu a voz sussurrante, destruiriam a Torre Negra e comandariam juntos em todash por toda a eternidade.

Então Mordred comeu, pois Mordred estava faminto. E Mordred dormiu, pois Mordred estava exausto. E quando Mordred vestiu as roupas quentes de Dandelo e retomou a estrada da Torre recentemente limpa da neve, puxando um belo saco de tralha (principalmente enlatados) num trenó, havia se tornado um jovem que parecia ter uns vinte anos, alto, aprumado e bonito como um amanhecer de verão, a forma humana maculada apenas pela cicatriz do lado onde a bala de Susannah o atingira e pela marca de nascença no pé. Aquele calcanhar, ele prometera a si mesmo, pisaria na garganta de Roland, e logo.

 

 

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